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rn um vno ra~antc que o fir-

E maria como pensador dedeixa


primeira ordem, Virilio nãn
pedra sobre pedra e mostra cnnlll.
de Esparta ao Vietnã, da Rev0lu·
ção Fra nccsa à era da ciberné I ica.
passando pelos 1eóriwç e pro1agu-
nh1as do conrnw e da iuc>rr;i 51111
Tsu, Maquiavd. Napoleão,
Clausewitz, Hirler, Sta lin, Mao. a
História perde espa1,o, 11 humann
fica subJugadn à vertigem da
aceleração, e a veloodadc ..: o
movimento des1 roem <>Tempo:(,
o que ele chamJ tk "E~1ado 1k
urgência·. onde · parar ,1,\n 1fica
mor rer".
Velocidade e Política
Nesra cativantt· reflexãn sotire a
imµlu~ã11 da H1sto11a, V1ri li() 1110,-
tra como o homcrn a~~ ume
primeiro a rua. para depu1~ pc>rce-
ber ylll' o t'~paço cJue conta é J
estrada, o 111ovinH·n1n. Espa rr a
sucumbiu p.,rque nàu navt'gou. A
Ingla terra se íirnrnu l'•Jrno potC:·n -
cía porque comro lou os lllêlft'S -
a~ au 10-e~1ra das da C-poca - dei-
xando as 011 1ras p1)t c!-n e1a,
e uropéia~ ~e diglad1art·m e,11
guerras pe lo u,ntrole da mas~a
cont11wma l quando li que con1a -
va era ,, movimento. a~ via~ de
C<>rnunita,ào, o aces~1) raprdo :is
Lolt'1n1as. a Vl'iticitbdl' de de,1 01 a-
llll'lllO. A e,se respeito. l'lll 11111 ~0
J e poimu1l1) a Fran.;01, Ewa ld 11,1
Maqaz111e L1t/l'rt1íre de 1wve111 brn
dl' 1995, Virili1J nos l't'VdJ cc1nw
loi s1 11 pret'ndid (• ltdo pl·lo impat-
10 dJ v1· loc1dade conj ugacia L1>lll
es~a l,>rma cun, agrada de IMl' í
polt rica yue C, a gue1ra "U 111 (lia.
t·rn 1940, es1am,), almoçando O
rádio .111uncia yue m alemães
c,t,'io t·111 0 1k;Jns. Pouc1) tempo
depllb, ouvinrn, um baru lho
l'Stranho na rua . Cllmn iodo, os
men ino~. me prec1pno para ver.
m um vôo rasan1e que o fir·
E maria como pemador de
pnmeira ordem. Viril10 não deixa
pcdra sobre pedra e 1110,1ra cnnw.
de E~pana ao Vietnã, da Revolu-
ção France~a à ern da cit'iernéuca.
passando pelos tcúricos e pnilaJ,h' ·
nbia, du confl110 t' da guerrJ Su11
Tsu. Maquiavel, Napoleão.
Clausewí tz. Hi1ler. S1al in. Man. a
Hís1óna perdl· c.;~paç,). n humano
lica ~uh111gado à Vl·rtig<' m da
aceleração. e a ~elocidadc l o
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Velocidade e Política
Ncst,1 c;1tivan1e rdlcxàn sobrC' a
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primeiro a rua. para depnb perçe-
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de l 995. Virilio nus r,~, t·la como
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e~~a l<m11a con~agrada de fazer
polítka que é a guerra · "U m dia.
em 1940. l'~tamos almoçando O
rádio anuncia quc os alc:m5es
estão nn Orléans Puucu 1e111po
depois, ouvim0<; um (,arulhn
estranho na rua, Como todos os
menino\, me prec,pitn pa ra ve r·

l
Paul Virilio

Velocidade e Política
J

Tradução de
Celso Mauro Paciornik

Prefiício de
Laymert Garcia dos Santos

Estação Liberdade
Publicado originalmente em 1977 sob o rí.culo Vitesse et politiquepoc
l CM-00100231-5

:-•--:---,~
Edicions Galilée, 9, rue Linné, 75005, Paris.
© Prefácio: Laymerr Garcia dos Santos, 1996 Índice
Tmduçiio: Cdso Mauro Paciorn1k

G t. - 3.2..o ·1-~ Revisão de Trtldttçilo: Angel Bojadsen PRÉFACIO 9


..V 8 !"1 "'- Revúã11 de Texto. Marise Leal e Heloisa Macario PRIMEIRA PARTE
J2?1/_4f C(lptr. Nuno 81ttencoui:1 / Letra & Imagem
•e- ~ ../.. (lustrt1ção dtl Cap.(I · Ay:10 Okamoco, sem título,
A REVOLUÇÃO DROMOCRÁTICA 17
r, _:_-·· ·· · . ..... 1 técnica mista s/rcla, 80xl 00cm, 1995
~ ... y-1
T A ......... .
f / ... Projeto Grdfico: Luiz Antonio P. Souza
.. ..... -Jomposzção: Magda Azevedo e Ysayama Estúdio
1. Do direito à rua ao direito ao Estado 19

2. Do direito à estrada ao direito ao Estado 37

-· -
CPD _____ _ .
- . .Dados
... .
Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasaeira do Livro, SP, Brasil) SEGUNDA PARTE
Virilio, Paul
Velocidade e política/ Paul Virilio ; tradução O PROGRESSO DROMOLÓGICO 47
Celso Mauro Paciornik. - São Paulo : Estação Liberdade, 1996.
1. Do direito ao espaço ao direito ao Estado 49
Tírulo original : Viresse ec policique.
2. A guerra prática 59
l . Mudança social 2. Revoluções - Hisró ri a
3. Velocidade I. Tímlo.

96-1626 CDD-306.2
TERCEIRA PARTE
Índices para catálogo sistemático
1. Velocidade e pol!cica: Sociologia política 306.2
A SOCIEDADE DROMOCRÁTICA 65
1. Corpos incapazes 67
ISBN 85-85865-12-l
2. Assalto aos veículos merab6licos 79
1996
3. O fim do proletariado 95
FOTOCOPrAR ESTE LIVRO É ILEGAL E VIOLA OS DIREITOS 00 AUTOR 4. Uma segurança consumada 113

Todos os direitos para a Hngua portuguesa reservados à


EDITORA ESTAÇÃO LIBERDADE
Av. Dr. Arnaldo, 1155 QUARTA PARTE
01255-000 São Paulo - SP
Td/Fax (011) 872-9515 O ESTADO DE EMERGÊNCIA 121
"Eu não queria ser
um sobrevivente"
Jean Mermoz
Prefácio

Velocidade e Política é um livro de 1977, o terceiro de Paul Virilio,


depois de Bunker Archéologie e de L'insécurité du territoire, dois textos
dedicados às relações entre a guerra t 0 espaço. Ao escrever seu segundo
texto, o autor desembocara num capítulo intitulado "Veicular", no qual
tentou responder a uma questão que se impunha: "Onde estamos quan-
do viajamos? Qual é esse 'país da velocidade' que nunca se confunde
exatamente com o meio atravessado?" Seguindo suas intuições e associ-
ações, Virilio percebeu que ocorre uma mudança de estado, um trans-
porte, pois passamos a habitar um não-lugar - e se pôs a buscar o
sentido dessa mudança. Deslocarnenco, trajeto, transporte, projeção,
transmissão, veículo - em "Veicular" todas essas noções começaram a
se precipitar para configurar a descoberta desse não-lugar como um
novo país ou continente, o da velocidade; mais ainda: p;ira determinar
como uma "aristocracia da velocidade" nele se consricuía visando dominar
0 espaço. Em "Veicu lar" despontava o sentido da velocidade.

O próprio Virilio, numa longa entrevista a Sylvere Lot ringer, narra


ª gênese de Velocidade e Políticl1.'. "Em 'Veicular' comecei a adivinhar
cenas coisas. Dei-me conca de que a questão da guerra resumia-se na
que5tã0 da velocidade, de sua organização e produção, enfim, em tudo
0 que ª circunda. Assim, depois de l'insécurité du territoire, publiquei

um texto que era menos rico em desenvolvimento, ,mas mais rico do

9
ponto de vista teórico. (... ) .É um livro rápido, mas um livro-chave. velocidade e política. É essa articulação que o autor tenta cons-
cu1ar "A revo 1uçao
-
Não é o número de páginas que conta: eu nunca escrevo coisas longas. ir _ daí a elaboração do livro em quatro partes:
Meu grande ponto de referência não é Clausewitz mas Sun Tsu. Sua dromocrácica", "O progresso dromo1óg1co
cru . " , "A soc1e
. d ad e d romocratica
. ' . "
Arte da Guerra tem apenas 120 páginas. Velocidade e Política é um pequeno "O estado de emergência" .
Livro importante porque foi o primeiro a levantar a questão da velocidade.. e Na primeira, Virilio procura mostrar como a d'mam1ca
' · d ,1s revou-
l
É uma introdução a um mundo totalmente novo que nunca havia sido óes modernas se alimenta da enorme energia desencadeada pela
mostrado ances. Não foram muitos os autores que tocaram na velocida- ;ransformação do proletário-operário em proletário-soldado e do prole-
de. É claro que existe Paul Morand, algum Kerouac, mas isso é literatura. tário-soldado em proletário-operário; isto é, como nas revoluções as massas
Para uma visao mais política da velocidade, há Marinetti e os futuristas são produtoras da velocidade necessária para tomar de assalto o ~oder.
italianos, e depois Marshall McLuhan, que deu um passo nesta direção - No entanto, embora produtoras, as massas não controlam essa velocidade,
e isso é tudo. Velocidade e Política não é tão importante pelo que diz, e são antes massas de manobra nas m:.i.os de uma classe industrial-militar
como pela questão que levanta."' que, esta sim, capitaliza o movimento, e investe~o na ocupação e !10
O depoimento de Virilio diz o essencial sobre a relevância de seu controle dos territórios e de tudo o que neles c1 rcula. As revoluçoes
pequeno livro, e como ele chegou a concebê-lo. Velocidade e Política, modernas instauram a ditadura do movimento, põem em prática a idéia
que tinha como subtítulo na primeira edição francesa Ensaio sobre poücica de nações em marcha.
Dromologia'\ é uma introdução à lógica da corrida, à lógica que coma Na segunda parte, "O progresso dromológico", Virilio irá analisar
como referência absoluta, como equivalente geral, não mais a riqueza e como a velocidade do assalto, que antes se exercia sobre o espaço territorial,
sim a velocidade. A "questão que levanta" é, precisamente, a d a se transforma ao abandonar a terra, e seus obstáculos, e desaparecer no
pertinência dessa mudança de perspectiva, e da releicura da história do horizonte. Em vez de visar-se um ponto no espaço e no tempo, agora
Ocidente que ela implica. pretende-se dominar não através do confronto mas de uma estratégia
Tal releitura, porém, só se justifica se a própria evolução histórica indireta, na qual um constante deslocamento de forças gera uma ameaça
estabelecer o primado da velocidade. Assim como Marx concebera a permanente. É o domínio dos ingleses sobre os mares, criando uma zona
riqueza como equivalente geral a partir do advento do capitalismo, de insegurança global que permite prolongar indefinidamente as hostili-
Virilio Yai considerar a velocidade como valor a partir do advento da dades. A lógica da corrida se transfigura. muda de plano, enquanto a
revolução técnica e de sua conexão com a revolução política. Nesse velocidade começa a se desterricorializar, e a atenção se desloca do pró-
sentido, se a lógica da riqueza se expressa numa economia política, a prio elemento (terra, m ar) para o dinamismo dos corpos aucomocivos.
lógica da corrida se explicitaria numa concepção teónca capaz de arei- Esboça-se, a partir daí, toda uma evolução, na qual a velocidade vai se
afirmando como idéia pura e sem conteúdo. como puro valor, que ame-
1 Paul Virilio/Sylvcrc Lotringcr. l'urt: \Vrlr, New York, Sem1orexr(e), 1983.
aça ultrapassar até mesmo o valor do capital. No m~r, com os ingleses,
Na edição brasileira, Guerra P1ir,t - A militarizaçiio do cotidiano, São Pau lo,
opera-se a transferência da vitalidade natural para a vitalidade tecnológica,
Brasi liense, 1984. Tradução de Elza Miné e Laymerr G. dos Sa ntos. Apresentação no mar a velocidade deixa de ser metabólica. passando a referir-se a si
de Laymerr G . dos Santos. mesma. Como escreve Virilio: "!: precisamente no momento em que o
* N . T. - Tanto esta palavra (drornologia) como ourras que aparecem no decorrer esquema do evolucionismo tecnológico ocidental sai do mar que a subs-
da obra Çdromocrátíco, dromocracia, dromocrata) são neologismos empregados pelo r_ânci~ da riqueza começa a desmoronar (...) Tal como na origem da fleet
auror como variantes da palavra grega "dromos" que exprime a idéia de "corrida", "cur-
m_ bezng, a manutenção do monopólio exige que a todo novo engenho
so", "marcha". A única palavra dicionarizada em português com esrc prefixo é
"dromornania", que significa "mania de vaguear; pendor mórbido para a vida erran re",
seJa logo contraposto um engenho mais rápido. Mas com o limiar das
conforme o Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa (MlRAOOR).
velocidades se eS t re1ran
· d o sem parar, enca cada vez mais IUCL'! conce b er o
· d'ª

10 11
engenho rápido. Ele freqüentemente se torna obsoleto antes mesmo de e milicares, a desordem urbana, a desestabilização do Estado-nação,
ser aproveitado; o produto está licernlmente gasco antes de ser usado, foram criando um clima de insegurança que os analistas políticos hoje
ultrapassando, assim, na "velocidade'', rodo o sistema de lucro da denominam "a nova (des)ordem mundial" e que Virilio já antecipara.
obsolescência industrial!" Com efeito, VeftJcidade e Política aponta até mesmo para a transformação
Tornando-se a medida, a velocidade passa então a dividir a huma- da segurança numa das principais commodities do capitalismo con-
nidade em povos esperançosos (os que a capitalizam o suficiente para temporâneo, e para a correlata promoçao do gangsterismo (que cem na
continuarem projetando-a infinitamente) e povos desesperançosos (imo- chantagem, na venda de proteção, a sua principal atividade) ao estatuto
bilizados pela inferioridade de seus veículos técnicos, vivendo e subsis- de política oficial. Mais ainda: o livro já rematiza como a segurança
tindo num mundo finito). Tornando-se a medida, a velocidade deve passar pela imobilização dos corpos, pela supressão das vontades e
transforma-se na "esperança do Ocidente" - esperança de supremacia, dos gestos.
evidencemence, consubscanc1ada no veículo, isto é, no vetor tecnológico. Depois de anunciar que a revolução dromocrática institui a dita-
Na terceira parce, "A sociedade dromocrática", Virílio se volta para dura do movimento, que o progresso dromológico estabelece a
os efeitos que o investimento na velocidade tecnol6gica provoca nos velocidade desterritorializada como valor supremo, e que a sociedade
corpos. O objetivo é mostrar como a lógica da corrida, desinvestindo dromocrática instaura um regime de dominação exercido através do
da terra e do mundo, e investindo progressivamente no vecor, promove controle do movimento, Virilio conclui seu rápido imight sobre a lógica
um verdadeiro assalto à natureza do homem. De um lado, há as elites da corrida com algumas co nsiderações sobre o estado no qual passamos
dromocráticas, que prezam a mobilidade acima de tudo, porque sabem a viver - estado de emergência. E escreve: "A manobra que consistia
que dominar significa poder-invadir e ocupar uma posição dominante, ontem em ceder terreno para ganhar tempo perde rodo sentido;
o que as leva a buscar próteses cada vez mais sofisticadas. De outro, há atualmente, o ganho de tempo é questão exclusivamente de vetores, e o
os proletários-soldados e os proletários-operários, rnjos corpos serão território perdeu seu significado ante o projétil. De fato, o valor
despotenciados, induzidos a uma morre lenta. E se a progressiva estratégico do não-lugar da velocidade suplantou definitivamente o do
desterritorialização significa para as elires uma intensificação do domí- lugar, e a questão da posse do tempo renovou a da posse territorial." 2
nio, para as massas, significa desenrai-zamenro, destruição do habitat, Assim, a guerra e a política não são mais travadas pelo controle e ocupação
privação de identidade, exclusão, perda da anima, do movimento. Nesse do espaço, mas pelo domínio do e no tempo. A dissuasão e a automação
contexto, enquanto a guerra moderna vai prescindindo cada vez mais expressam, nos campos militar e civil, esse avanço da lógica da corrida
do proletário-soldado, a automação da produção vai tornando obsoleto que troca a estratégia pela logística, desloca o conflito do estágio da
o proletário-operário, prenunciando o fim do proletariado. ação para o da concepção e ancecipa o confronto, gerando um
A esse respeito, é interessante notar como a leitura de Virilio, antes permanente estado de tensão.
mesmo que os anos 80 começassem a tornar evidente a progressiva Ve/,ocidade e Política é, portanto, como que uma espécie de captação,
superfluidade do proletariado, já previa: "(... ) foram-se os cempos em numa vertigem, das implicações político-militares da desvalorização
que a energia cinética do proletariado dominava a vida política ap6s cer do mundo enquanto teatro de operações e campo da liberdade de ação
dominado o campo de baralha ( ... ). Doravante, o corpo animal do humana.3 O livro é o registro de uma descoberta íecunda - a supremacia
proletariado está desvalorizado como acontecera, antes dele, com os do não-lugar sobre o lugar - cujos diversos aspectos e implicações Virilio
corpos das outras espécies domésricas." A análise crua, chocante, revelava
urna tendência que os faros posteriores só vieram confirmar. A progressiva L Grifo do auror.
obsolescência do proletariado, mas também a crescente latino-ameri -
em ~;~~rra! acabou o concat0 com a rerra imunda!" - exclama o futurista Marinecci,
canização dos países industrializados, a fusão dos interesses industriais

12 13
passará a explorar em codos os seus textos subseqüentes. É significacivo uma realidade segunda; como as próprias noções de relevo ou de volume
que, quase vinte anos depois de seu lançamento, em 1995, o aucor não afetam mais apenas a matéria e sua terceira dimensão, mas também
publique Vitesse de libération4, meditação sobre as transformações ope- a própria realidade da quarta dimensão, provocam então uma 'catástrofe
radas em nossa percepção desde que os astronautas da Apollo 11 se temporal' , esse acidente do tempo real que hoje vem sobrepor-se à
emanciparam da força da gravidade terrestre a 28.000 km/hora, e "caí- antiga 'catástrofe material', cuja marca o tempo profundo de nossa
ram para cima". Ali, Virilio escreve: "Na Terra, a velocidade de Liberação 'geologia' ainda conserva."
é de 11.200 km por segundo. Abaixo dessa aceleração, todas as velo-
cidades estão condicionadas pela atração terrestre, inclusive a de nossa Layrnert Garcia dos Santos, abril de 1996.
visão das coisas. Força centrífuga e centrípeta, de um lado, resistência
ao avanço, de outro, todo movimento de deslocamento físico, horizon-
tal ou vertical, depende portanto da força de gravitação na superfície
do globo. Como então não tentar estimar a interação dessa gravidade
com nossa percepção da paisagem mundana?"
Vitesse de Libération é um ensaio sobre o que acontece quando a
atração terrestre é superada. Assim, em virtude de seu próprio tema,
pode-se dizer que esse livro é a continuação ou a retomada de Vewcidade
e Política. Muitas e enormes mudanças sociais, econômicas e tecnológicas
ocorreram no intervalo que separa os dois volumes, e seria até supérfluo
enumerá-las. Mas se há uma que se tornou patente para todos, é a que
se refere ao encolhimento do mundo, a essa estranha contração que foi
aproximando tanto todos os lugares, todas as suas faces , a ponto de
fazer dele uma interface. Virilio pressentiu que a revolução da informação
e o movimento de globalização conduziriam taJ processo. Por isso mes-
mo, é tentador deixar-lhe a última palavra, como urn convite para que
o leitor descubra também o que se anuncia em seu último texto:
"Já fundamentalmente depreciado pela poluição material das subs-
tâncias (atmosfera, hidrosfera, litosfera ...), nosso planeta também o é,
embora mais discretamente, pela poluição imaterial das distâncias (estas,
dromosféricas) que nos leva a nos emanciparmos do "solo de referência''
da experiência sensível da geografia - graças principalmeme à aquisição
de urna velocidade dita de liberação -, mas que também nos obriga a
perder as referências, o contato com as superfícies da matéria, para
inscrever nossa ação interativa no excra-campo de um espaço sem gravi--
dade, para teleagi r instancaneamen te na trajetória cibernética de

4
Paul Virilio, Vitesse de l:bération, Coll. I.:Espace critiqu e, Paris, Gal1lée, 1995.

14 15
Primeira parte

A revolução
dromocrática
Do direito à rua ao direito ao Estado

"Esta mmsn de indrvlduos qur rr menor umdrrde


militar apreu,w1 ª" olhar, umdrr numa viagem comum "
CV.USEWITZ, 1806.

Em todas as revoluções, a circulação é uma presença paradoxal.


Em junho de 1848, observa Engels: "Os primeiros ajuntamentos acon-
tecem nos grandes bulevares, onqe a vida de Paris circula mais intensa-
mente." Menos de um século mais carde, Weber comenta sobre o
desaparecimento de Rosa Luxemburgo e K. Liebknecht, como se estivesse
tratando das conseqüências de uma colisão, de um engavetamento: "Eles
invocaram a rua e a rua os matou!" A massa não é um povo, uma
sociedade; é uma multidão de passantes. O contingente revolucionário
não atinge sua forma ideal nos locais de produção e sim na rua, q uando
deixa de ser, durante algum tempo, subsmuto técnico da máquina e
torna-se, ele próprio, motor (máquina de assalto), isco é, produtor de
velocidade.
Para a multidão de desempregados, de operários desmobilhados e
sem ocupação, Paris é uma malha de trajetórias, uma sucessão de ruas e
avenidas por onde eles erram boa parte do tempo sem objecivo, sem
destino, sob o assédio de uma repressão policial encarregada de conuolar
sua vadiagem. Para os diversos bandos revolucionários, como os apaches1

1
A imprensa parisiense populamou o termo depois da agressão de um veículo
ur?,ano,."ªrua de Bagnolcc, por um bando de malfeitores cujo céleb re "capacete doura-
do serviu-lhe de mspiraç;io.

19
e outros grupos suspeitos dos bairros periféricos, na hora H será mais trânsito destinados a acelerar a trombada, o choque acidental, obJetivo
importante conservar a rua do que ocupar este ou aquele edifício. final da manifestaçao de rua, da desordem urbana. "A propaganda deve
Em 1931, durante as lutas travadas pelos nacional-socialistas contra. ser feita diretamente pela palavra e pela imagem, não pelo escrito",
os partidos marxistas na capital alemã, observa Joseph Goebbels: "Quem afirma ainda Goebbels, de mesmo um arauto do audiovisual na Ale-
conquistar a rua, conquistará também o Estado!" 2 manha. O tempo de leitu ra implica o de reflexão, uma desaceleração
O asfalto seria enráo território político? O Estado burguês, seu que destrói a eficiência dinâmica da massa. Se algum monumento é
poder, será a rua ou estará na rua? Sua força virtual e sua extensão ocasionalmente ocupado pela m alta, ele ser:í rap ida mente transforma-
estarão nos locais de circulação intensa, na via rápida? do em lugar de passagem onde cada um entra e sai, leva e traz; trata-se
Assim, escreve ainda Goebbels, a respeito dos combates de Berlim: de uma tomada com ocupação temporária, o saque pelo saque, como se
"O ideal militante é o combaten te político dentro do Exército Pa rdo, viu em 1975, por ocasião da queda de Saigon.
enquanto Movimento ... e obedecendo a uma lei que às vezes nem mes- Existe, ao longo de toda a história, uma errância revolucion:íria
mo conhece, mas que poderia recitar em sonho... assim, colocamos em não expressa, não revelada, a organizas:~um PB.IMElRQ TRANSPQRU.
marcha seres fanáticos ... " Çor.ETrYO gue, no entanto, é a própria revolução. Assim, a velha convic-
Ele compara então, cientificamente, os estenogramas de seus di- ção de que "toda revolução é feita na cidade", vem da cidade, e a expres-
versos discursos, os que fizera no interior e depois, em Berlim, cons- são "ditadura da Comuna de Paris", utilizada desde os acontecimentos
tatando que o "conglomerado sociológico informe" da capital exigiu a de l 789, nfo deveri am sugerir tanto a clássica oposição cidade/campo
invenção de uma "nova linguagem de massa". quanco a opo~estaçãoLcicc.ula.ç_ão.
"O ritmo da metrópole de quatro milhões de almas palpita como Apesar das investigações comprobatórias sobre os traçados urba-
um sopro ardente em meio às pregações dos propagandistas... Falou-se nos, a cidade não foi prioritariamente percebida como habicat humano
aqui uma língua nova e moderna que nada mais te m a ver com as pe~ado por uma via de comunicação Iápid11, (rio, estrada, litoral, via
formas de expressão arcaicas e, por assim dizer, populares; este é o início férrea ... ). Ao que parece, esqueceu-se que a rua é tão-somente uma
de um estilo artístico inédito, primeira form a de expressão animada e estrada atravessando uma aglomeração urbana, ainda que, a cada dia,
galvanizante." entretanto, a legislação sobre a "limitação de velocidade" dos veículos
A rebelião recompõe a matilha (a original, dos c açadores/das nas cidad es nos evoque essa continuidade do deslocamenco , do
razzias). Conduzir os bandos de "soldados perdidos" do exército operário, movimento, que apenas a lei da velocidade pode modular. A cidade é
seus DROMOMANES\ é para seu líder, o mesmo que sublevá-los, apenas uma paragem~m __ponto sobre a via sinóptisi de uma trajetó-
"conduzi-los ao ataque como uma matilha de cães" - precisava Saint- ria, antigo talude de fortificação militar, plataforma de vigilância, fron-
Just - , cadenciar a trajetória da massa móvel com m é todos de teira ou margem, onde se associam instru mencaln1ente o olhar e a
estimulação grosseiros, sinfonia polêmica, transmitida de longe em lon- velocidade de. locomoção dos veículos. Como já disse em outra oportu-
ge, de um a outro, polifônica e multicolorida\ como sinais e placas de nidade, exí_stLlpenas a circu'4ção_h.a.b.itáueL~, e esta é particul armente
evidente hoje, por exemplo, no Ja pão, naq uelas imensas batalhas revo-
lucionárias que se reduzem à mera colisão, à provocação do chague
2. Kampfum Berlin, pub licado doi s anos ames da ro~ada do poder pelos na c,onal-
com o serviço de manutenção da ordem urbana , onde a massa
socialistas, em 1931, e dedicado por Joseph Goebbels "A vel ha guarda be rlinense do
Partido". supertreinada de militantes está a rmada com aparelhos audiovisuais,
3. Dromomanes. Nome dado aos desertores na época do Ancien Rég1me, (, em psi- câmeras, gravadores, etc. Ela está consciente do caráter cinético de sua
quiatria, à mani3 deambular6ria (dromomania).
4 . Mannerri e comentários de Giovanni Lisca. Poetes d'aujourd'hui, Seghecs. 5. "Circularion habirab le" Abri l de l 966. Architrcture Prmcipe, Nº 3.

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ação, da instantaneidade de sua preseRça, desaparecendo logo em se- progress, movimenco de progressão, de procissão, simultaneamente via-
guida da rua que fi.lma e grava, eles, os próprios passantes, para quem a gem e aperfeiçoamento, marcha equiparada ao progresso rumo a alguma
proibição de estacionar acumula-se à de se congregar. Escam~;eou-se, coisa melhor, peregrinação que inundou a Idade Média.6 A rua é como..
igualmente, 0 slogan cão rev;,lador dos revolco~os de 1848: Massas um novo litoral_ o domicílio, um porco do transporte de onde se pode
desesperadas", escreve Engels, que reclamavam pao, trabalho ou a mor- ~dir a importância do fluxo..social, pr.e.ver seus trausbordamencos._As
te." Na verdade, a palavra de ordem desses "batalhóes operários", como portas da cidade.,_.seus posc0Lfi.s.cais_e...s11as alfândegas são_harreir;ts,
eram chamados, e que deviam ser deporrados à força para o interior, ou filtros à f!yjdez d as.. ma.ss.as..,..__a.o podeLde p_e.uecração da.Lb.ru.da.s
engajados no exército, era: "Nós FICAREMOS!" ... nós estacionaremos!Tanto '!1~~ As antigas praias pantanosas e malsás que rodeavam a cidade
a utopia socialista do século XlX quanto a uto~ia Qm1.-9J;.rática...da..ágor.a_ fortificada, os congopÚtins do escravo americano, as velhas fortificações,
a~ii;a foram literalmente encruadas sob o vasto canteiro de obras~ as periferias pobres e as favelas, mas também o hospício, a caserna, e a
construção urbana, ocultando o ·aspecto antropológico fundamental da prisão, resolvem mais um problema de circulação que de enclau-
r~çãQ,_da proletariza.BQ: o fenômeno migratório. suramento ou de exclusão. São todos lugares imprecisos porque, entre
Em 21 de setembro de 1788, Arthur Young observa em seu célebre duas velocidades de trânsito, agem como freios à penetração, à sua
diário: "Desde minha chegada a Nantes, tenho ido ao teatro que foi aceleração. Sir~ados, desde a origem, nas vias de comunicação terrestre
recentemente construído em bela pedra branca. Era domingo e, conse- ou fluvial, elas são posteriormente comparadas a cloacas, a águas
qüentemente, ele escava cheio. Meu Deus! exclamava intimamente. É estagnadas. A interrupção do fluxo (do progresso), a b r u s c a ~ e
para este espetáculo então que conduziam todas aquelas charnecas, aque- motricidade c.à.a.,_inelucayelm~rn. c.o.w!P-Ç~ase orgânica das
les desertos, a queles lamaçais, aquelas brumas, aqueles terrenos massas. "Esp_a.çoÂ-Ae_u.tr..os, espa.ços_sem gên.ero", escreve Balzac, ''.onde
pantanosos percorridos ao longo de 300 milhas? Passais sem grande rodos os ..ricios,- to-dos_.os infortúnios.. de Paris encontram asilo." É- a
transição da mendicância à abundância, da miséria das cabanas de terra origem do subúrbio, s.imultaneamence jurisdição de proibição e dis-
a esplêndidos espetáculos que custam 500 libras por sessão." tância linear e horária, isto é, depósito e divisão de carga da matéria
A cidade nova com sua riqueza, suas organizações técnicas i nédiras, social como de mercadorias, de víveres, e daquele gado ao qual o prole-
suas universidades e seus museus, suas lojas e suas festas permanentes, tariado "braçal" é equiparado há milênios, animais um canto selvagens
seu conforto, seu saber e sua segurança, parecia um ponto fixo ideal transformados em bestas de carga ou de guerra. As condições de explo-
onde vinha encerrar-se uma penosa viagem, um desembarcadouro final ração das massas proletarizadas ilustram, perfeitamente, aliás, a definição
da migração das massas e de suas esperanças depois de urna travessia de domesticação de Geoffroy Saint-Hilaire:
perigosa, de cal sorte que se confundiu, até recentemente, urbano e "Domesticar um animal é habituá-lo a viver e a se reproduzir nas
urbanidade, que se tomou por um lugar de trocas sociais e culturais o habitações dos homens ou ao seu lado." O "direito de alojamento" não
que não passava de um entroncamento rodoviário ou ferroviário. é, como se pretendeu, "o direito à cidade". Como o bando inorgânico
Confundiu-se urna encruzilhada com a via para o socialismo. de animais selvagens, a multid~i;,roletária u;:_;g em si uma..arneaça,
Se as municÍRalidades....aiugam...a_i;w;..ç~ouro e...sobrecarr:egam de uma carga de mistério e de ferocidade~ P~mice-se que e.la, em sua
ililposros__as j.anelas e fadi,:1.-<:las que dãe p-ara as ruas, os pórticos, é que condição de "doméstica", congreg,1e-se e r ~ ~ r - r o-da- mor.a.da_
rodos esses detalhes arqui._~~mi~!lio burguês comportam,_ dos h.ome.ns, §.Q.Q suas vistas - os problemas do habitat humano propria-
ccadici.onalmente, a possibilidade de comércio e in.§_rmação. As vitri- mente dito são absolutamente diferenciados dos do plantel proletário,
nes das prostitutas holandesas reproduzem, ainda hoje, aquelas an tigas
bow-windows, cujo peitoril saliente permitia uma visão panorâmica de
la c~;tP,lgm;~ progress; La cité à travm l'hmoire, p. 353. coleção Esprir. Lewis Murnford,
tudo que chegava e partia. D espetáculo d a rua é a circulação, o pilgrim's proc ame, Edirions du Seuil, 1964.

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de seu alojamento no galinheiro do castelo. nos subúrbios da praça e ~ r a ç a s à organização arquitetônica de seus espaços mter-
forte. Tal como o esrábuJo ou o cercado, o alojamento provisório das n os 8, pf..r~o.Long.ar_i_1:uieji.nida.m.e.~t8, com seus orifícios,
massas migrantes implica seu relativo afastamento da moradia dos ho- seus ressaltos, suas chicanas, suas alcas muralhas ... o recinto fortificado
mens, isto é, da cidade. A bur_guesia extrairá seu poder inicial e SJJas da Idade Média cria um campo artificial, faz desse campo um palco
características de classe menos d~ comércio e da indústrja (que, como onde a coação pode ser exercida canto no plano físico quanto no
se sabe, não lhe eram específicos - con hecc-se o papel crucial do psicológico_. Depois de Maquiavel, Vauban preconizará energicamente
monasticismo, da cavalaria, etc., no domínio dos bancos, das esta maneira de evitar a carnificina e eliminar o inimigo pela simples
indústrias ... ) dq_~e destE._irnplantação estratégica, ~..m__e,.e,.v.da....o_ construção de um universo topológico constituído "de um conjunto de
"do_micílio fixo" como valor (monetário, social}'- âú.s.p~tili!.ção fundiária mecanismos capaz de receber uma forma definida de energia (nas cir-
enquanto verrda e cFá.fi€o .do imóYel (do imobiliário), desce direito de cunstâncias, a massa móvel dos agressores), tran~formá-la e, finalmente,
residir por trás das muralhas das cidades fortificadas: direitn...à segmança restituí-la sob uma forma mais apropriada ..."
e_à preservação em meio à perigosa migração de.Jmun.undo de petegri- Reorganizada segundo o mesmo princípio, a forralez.a comunal
nos, compralores, soldados, exilados> deslocan.do-se._aos_.milhõ..es. A contínua sendo um "campo de armadilhas" estendido ao adversário,
partir de l..Q.11..(a Comuna de Cambrai), as "liberdades urbanas" vão se mas este último muda uma vez mais de natureza, passando a ser
estender, pouco a pouco, a todas as cidades comerciais - pode-se doravante um inimigo social. Além de sua função milicar, a muralha
identificá- las facilmente em um mapa. Elas estáa ~ logicamente dessa praça force assume uma função de classe; é sua concepção
instaladas às matgens-das~~i ~1 €ipais-was íl-tWiai.s-eu-re+resues, ao passo poliorcética que a capacita a prolongar indefinidamente o enfrentamento
que as regiões de difícil acesso, como a Bretanha ou o M,..:iço Central, social. A burguesia comunal cria um novo fenômeno, uma espécie de
apresentam poucas ou nenhuma cidade. A inscauração do poder bur- guerra prolongada e paciente que teria toda a aparência da inércia da
guês com a revolução comunal já pode ser comparada a uma "guerra de paz, sem as efusões sangrentas da antiga guerra civil, das explosões
libertação nacional", pois opõe diretamente urna população autóctone sazonais e das m ovimentações violentas do campo de batalha camponês.
a um ocupante militar vindo do Leste que pretende organizar sua con- O poder burguês é militar antes de ser econômico, mas ele se relaciona
quista. A garantia das libecdades 11cbaoas é, .em primeiro lugar, ~ - mais precisamente à permanência oculca do estado de sítio, ao
ganização do antigo sítio galo-romano segundo a fórmula do cast~lo surgimento das praças fortes, essas "grandes máquinas imóveis diferen-
fQ.!1.ifu:a.d.o, a construção daquelas fortalezas impenetráveis que nada temente fabricadas" 9 . Da mesma forma, a decadência da burguesia
tinham a temer das máquinas de guerra de então, e tudo a ~ cons- enclausurada e a perda de sua voncade pr6pna, estarão relacionadas ao
tantemente, das surpresas e ardis traz.idos de fora,_ elo ex.cerio.r, de longe, fracasso de sua técnjca militar (no âmbito dos conflitos terrestres), naquele
com a massa nômade. Se a organização da antiga villa, sua transforma- momento em que, como observa Montesquieu: "Com a invenção da pólvo-
ção em castelo pelo colonizador feudal, erguia suas paliçadas e seus ra, não há mais lugar inexpugnável."
taludes de terra contra rodos os perigos e flagelos naturais sem distin- Clausewitz mostrou admiravel mente os mercenários das grandes cida-
ção, a arquitetura do castelo fortificado que o sucedeu perde este caráter des italianas, e depois, das européias, prestando serviços às economias pode-
rural e torna-se genuinamenre..roifüar. Ela visa agora um único inimigo: rosas, as únicas capazes de fornecer ao empresário militar um orçamento cada
o homem de guerra. Além do mais, o gue diferencia a.fortaleza antiga e
a~de..Médía européia.- apesar de sua aparente semelhança, é que
8. Paul Virilio, L'insécurité du terrttoire, p. 77 e segurnces, coleção Monde Ouvere,
Stock. 1976.
7. /dem. A presença fundiiria considerada, em si, como suficiente, antes da presen- 9. Curso de fortificação permanente da École d'applicacion du génie ec de l'artillerie,
1888. Citação de Vauban.
ça especulat iva.

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ve:z mais substancial: bens e valores transferíveis que ele poderá levar consigo ao
final de seu contrato de engajamento (donde ''essa combinação evídence entre
a moeda e o que parece fundá-la, seu significado militar". Marx a Engels, 25 de
:~l21oS.:'
ão é de deter os exércitos, de contê-los, e sim domin_gr e.ati..fa.cilita_r seus
Por volta de 1870, o ~o__ronel ~elair observa: "Toda forta-
Jez,a, deve possuir uma certa cond1çao pamcular, uma certa força de
setembro de 1857), mas não percebeu claramente seu papel como conselheiro resistêr1cia que, entre os homens, chama-se de boa saúde. Em tempos
téaúco, como engenheiro (fabric.mte de engenhos). Ora, são precisamenre os. de paz, nós, oficiais de for.ti6cação, somos e ~ d o $-:-c!e n:ianter ,;s
~eiros milirares que, conforme as círrnnstâncias._sãcu:apazes de proteger fortalezas em born...estado_g~s:.aúde.. .'' E um pouco ma1s adiante: A
ou des.truiLas seguranças privadas no interior da cidadela.J,ucg~a. É esta, ;rte defensiva deve estar em contínua transformação; ela não escapa à
pais, a conjuntura não expressa de onde~_ai.iãc..as _.'._'clas_s~ antropófugas", não • , " 11
lei geral de nosso mun do: estacionar e morrer.
somente a bmguesia,...inas também a classe militar permanente. A definição A fortaleza comunal é uma cidade-máquina, a tal ponto que
marxista do capitalismo ' ~ i d ~ - i d a-l:1-1,1mana-e-fuooa<lei:-do trabalho Cormontaigne, Fourcroy e muitos engen~eiros do século xyn1, _e~
l}lOI!O~' aplica,,se ben,_à burguesia, mas enquanto associada..a_seu..c:on~clhciro seus "diários fictícios de,cercos" ou seus momentos da fomficaçao ,
cécnico militar, inventando simultaneameo.te QSJUems.de prod11zir._e..destruir... _ fazem abstração das tropas encarregadas de sua defesa, como se ela pu-
aquilo que de produz, empresária de guerra que estará .na or1g.e01 do.s exérciros desse funcionar sozinha, e o general Villemoisy constata, no século
de Estado e~ ma.is tarde, do complexo industrial-militar. Assim como o XJX, sua superioridade técnica: "Em trezentos cercos feitos pelos euro-
condottiere soubera rentabilizar seu sistema de ruína influindo na organização peus desde o início do século, apenas em uma dezena de_ casos a
econômica da cidade, a burguesia comunal traz em si a mesma associação fortificação sucumbiu P.rimeiro." Os militares aparecem entao ~orno
ambígua de riqueza e de produção da destruição. dependentes da concepção geral da praça forte. Carnot preconiza, a
A formação do amálgama fatal produziu-se na prática como um encon- esse respeito, a divisão. do trabalho: "Está comprovado que a bravura e
tro fortuito: "A imp01tância estratégica de uma posição não resu.lca de com- a indústria que, tomadas separadamente, não seriam suficientes, po-
binações mais ou menos hipotéticas e sim d.a própria configttração da região: dem, ao ser reunidas, multiplicar-se mutuamente." Depois de Vauban,
será um entroncamento importante de vias de comunicação, o ponto de os defensores da cidade fortificada não serão ocasionais. O decreto de
cmzamento de numerosas estradas ou a confluência de vales." Como vimos 28 de setembro de 1886 determinará ainda a permanência dos gover-
anteriormente, em todo o lugar onde essas condições foram preenchidas, há nadores das cidades fortificadas em seus postos, tanto em tempo de paz
centros populacionais; onde há circulação, há aglomeração urbana. Em suma, como de guerra. Da mesma maneira, a guarnição ficará adstrita a tarefas
as..çpndiçõ~~.que faculta~_nascimenco das grandes cidades são as.mesmas cotidianas, cada um de seus integrantes com uma função definida e
q ~ a m imponantes os pontos estracégicos. 10 A solução impôs-se por si
invariável, repetida dia após dia. . ..
mesma e, até o século XX, quase sempre se decidiu transformar os centros Os ocupantes da Linha Maginot, por sua vez, hav1a_m adqumdo o
mais populosos em grandes fortalezas. A Defesa Nacianal-cOH-fttll¾eu hábito de chamá-la de "a fábrica" . Muito tempo depots do desman-
m~n,_do, d~a!lcira quase-meclieua!,-os-milit~s c ivis,...ç,ajos telamento da velha cidade comunal e até 0$.CUlo..XX. quando subsiS tem
reçursos não deixavam o exéi-cit:o...iudifer.erue ..{ahas.c.ecim ento,-mão-d~-· as grandes fortificações,_os roilirar.es_camí..rtuam-ª-Z a_b~te.ceLjuo!Q....R_
obra, alojamento, armarnen to .~o.Lprúpú<*--fl¾FH'Htfftemos-do ca pi- sel!._a.n.tigo emprega_do.r...bur-g.uê.s, tornando-se lentamente "comprad ores)) ,
êal i~mo. A im..9bilidade de suas ri_g_uezas é çiye P-ermice sustentar e Qs interesses do empresário de guerra continuam mesclados aos do
diretamente ~tado d_!:. sítio!
capitalismo em esquemas estratégicos permanentes: em. 179.1 Barere
Se a praça force é uma máquina imóvel, a tarefa específica do en-
genheiro militar é Jurar contra sua inércia. "A finalidade da fortificação
. . .. . ema da forrnleza urbana.
1J . Idem. Aí também o o bJet1vo m11atar Jlrnta-se ao csqu -. _
Desde a origem, é na cidade que se co1ocam os pro blemas da saúde, da evacuaçao
10. !drm.
dos Mdeje'tos".

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compara a jovem República (a Comuna de Paris) a uma grande c i d ~ , ou das vias férreas, os sistemas de pedágio rodoviário que com tanta
e pede que a . E , : a n ç ~ m a i . s que um vasto camp..cu1:ú.litar. O insistência o governo quer instaurar às portas mesmas de uma capital
tritmfo político da revolução bmguesa consiste em estender, ao conjunto do despovoada pela seleção, os quartéis-generais das forças policiais
território nacional, o estado de sírio da cidade-máquina comunal, imóvel no instalados nas proximidades, todo esse aparato é cão -somente a
interior de seu talude logísaco e de seus alojamentos domésncos. Em 1795, reconstituição das diversas peças do motor da fortaleza, com seus flancos,
ela confiará aos novos exércitos de Carnot o encargo de rechaçar para longe o suas gargantas, suas passagens subterrâneas, suas chicanas, a admissão
assalto das massas populares vindas dos subúrbios, cercar o bairro Saint- e o escapamemo de suas portas, todo esse controle primordial da massa
Antoine, coagir os operários apavorados a entregar :tS armas a seus 20 mil pelos órgãos da defesa urbana.
soldados que "já não se lembravam que eles pertenciam ao povo"(Babeuf). Viu-se também, durante a ocupaçã.o alemã, com que faciJidade os
O poder político da Escada só é, pois, secundariamente, 'Q.padec pseudo-alojamentos sociais de subúrbio (Drancy, por exemplo) podi-
or:g_aniza_d_o__sk_uma dasse_p.a.ra_.a_opressáQ_d.e__a.u.r.ra". Num plano mais am, como o velho hospício, transformar-se em agulhas ferroviárias
material, ele é pólis, polícia, isto é, serviço de manutenção do sistema viário, desviando para outras viagens, outras deportações. É próprio de todos os
na medida em que, desde a aurora da revolução burguesa, o discurso regimes auroritários, seja qual for sua ideologia, trazer para o primeiro
político nada mais é do que a retomada mais ou menos consciente de plano o papel moderado dos exércitos e das polícias (atente-se para sua
uma série de bandeiras da velha poliorcética comunal, confundindo a rivalidade) com respeito à ordem menosprezada da circulação política.
ordem social com o controle da circulação (das pessoas, das mercadorias), Pode-se mesmo dizer que a ascensão do toralitarismG--é-periei.tamente
e a revolução, o levante, com o engarrafamento, o estacionamento ilíci- equiparável ao desenvolvimento do controle estatal sobre a circulação
to, o engavetamento, a colisão. Os resultados das eleições municipais, das massas e, portanto, desde a origem, facilmente identificável na his-
na França, foram exempla1·es a esse respeito, pois reinscreve ram no ter- tória do~~ndes organismos adminisu:atívos do__Est_ado: é Sully, ele
ritório nacional, em 1977, o velho esquema de Barere, dividindo a próprio grande mestre das vias públicas, quem tira "a administração
França em duas: no centro, o núcleo decisório da capital, onde a direita das fortificações" do marasmo, com o edito de 1604, e lhe imprime
triunfa, e ao redor o vasto campo militar do subúrbio e do interior que uma forma moderna que persistirá até o século XX, a despeito de todas
votou na esquerda porque está consciente de estar se transformando em as aparentes revoluções. Como observa Tocqueville, "os intendentes das
um interior onde as atividades produtivas se debilitam. Ao contrário, fortificações acumulam, da maneira mais ambígua, os encargos civis do
essas eleições mostram também o quanto o discurso da oposição está Estado com seus encargos militares". No reinado de Luís XIY, Mesrine
dominado pelo esquema retrógrado da poliorcética burguesa, confun- será encarregado de recrutar companhias permanentes de mineiros,
dindo a aptidão para o movimento de massa com a aptidão para o sapadores, barqueiros, que serão a origem do corps du génie* e substi-
assalto, a ultreia do piLgrim's progress. Mais ainda, es.re-esguema-polícic:o/ tuirão os engenheiros voluntários, os inspetores do trabalho improvisados
policial admitido finalmente..n.oS- último&--anOS--per:-codas as ideologias ou os empreiteiros civis de obras públicas, como o célebre Tarade, que
p~sa tanto no planejamento urbano quanto na orga~iz~ão _planetásia. estava encarregado simultaneamente do sistema viário parisiense. Assim,
A._p.assagem da "grande máquina imóvel" ao Estado-máquina e, hab às vésperas da revolução burguesa de 1789, ao corpo de engenheiros
m@ te., ao planeta-máquina, tealiza:§__e sem dificuldade. l:olitica de pro- militares seria atribuída, providencialmente, uma tarefa nacional:
gresso, de m ud;uiça,_sãa_p.alaYr.aS-vazias-se.. não se enxergar por trás da
n1_egalópole elétrica, da cidage que não pára, a s.ilhueta.es.cu.ra da velha
foccaleza. luta11d0-Q;)J~ua..suamércia e para..qu.em parar significa n10rrer. • Corps du génie: subdivisão récnica das forças armadas terrestres encarregada, desde
Em todas as latitudes, o alojamento social, cidade-dormitório ou o século XVIII, na França, dos trabalhos de fortificação, organização do terreno e das
vias de comunicação. Mais genericamente, génie seria a arte do ataque e da defesa dos
de trânsito, implantado nos limites das cidades, à beira das auto-estradas postos, locais, etc. (N. do T.)

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encarregava-se não só da construção/destruição da muralha urbana, mas sistema viário , a previsão econômica, os problemas geneucos,
também da expansão do talude logístico ao conjunto do território ("o alimentares, etc. Foi também um engenheiro e diretor de fortificações,
vasto campo militar da nação", de Barere). Não é preciso dizer mais Charles de Fourcroy, que muito naturalmente publicou, em 1782, um
nada sobre a reputação excepcional do corpo de engenheiros militares, dos primeiros organogramas conhecidos, e seu "Ensaio para uma tabela
a partir do século XVII, reputação que transformar-se-ia, no século poleométrica ou divertimento de um apreciador de mapas sobre os
XIX, num verdadeiro culto, na filosofia, no romance. O engenheiro é tamanhos de algumas cidades com uma planta ou tabela oferecendo
celebrado como "sacerdote da civil ização" (Sa_int-Simon), imagem per- comparação dessas cidades por meio de urna mesma escalà' foi o pn-
versa da qual voltaremos a falar, mas que surge muiro naturalmente meiro quadro contemporâneo, com dupla entrada, do mapa científico
depois daquela do "cascramerador", ele próprio padre ou homem de da França dos Cassini.
Igreja, encarregado de ensinar "a arre de delimitar os campos e cidades Este pensamento militar que pretende, pela planificação funcio-
fortificadas com traçados geométricos" (Mas como observa o coronel nal, eliminar os acasos que lhe parecem sinônimos de desastre e ruína,
Lazard, já não se tratava de uma arte especificamente militar e sim de confunde-se perfeitamente, no final do Ancien Régime, com o pensa-
uma espécie de reino da geometria descritiva projetada sobre os locais, mento da classe política burguesa, seLJ gosto pela nomenclatura racional,
sobre o conjunto da natureza... ) 12 A classe militar náo nasce dos escadas- sua incansável atividade de escriba totalitário (enciclopedista) , a osmose
maiores inchados do Ancien Régime, gabinetes onde se viam marechais se fazendo à porca das cidades, membrana permeável entre a estrada e a
e oficiais generais alternando-se, às vezes cotidianameme, no comando rua. O chefe da primeira municipalidade parisiense era, como se sabe,
dos exércitos tradicionais. Esses não se aventuravam , em cais condições patrão da Hanse. 13 A prefeitura controlava o porto de areia, e a nave
e mesmo que dispusessem de orçamentos consideráveis, a apresentar permaneceria como o emblema veicular do que não era mais que uma
alguma unidade de pensamento ou uma grande criatividade estratégi- nauta-cidade. As mesm as preocupações apareciam, ainda por volta de
ca. A única atividade militar que reivindica então uma continuidade 1749, nos trabalhos do oficial de marechalaco Guillaute, por exemplo:
no plano das idéias é o projeto logíst1co da fortaleza urbana. É dessa "Fim das revoltas, das ocupações, dos tumultos", escreve Guillauce. ''A
carga logística equívoca que nasce o amálgama do planejamento dos ordem pública reinará se cuidarmos de organizar o tempo e o espaço
combates e da organização dos territ6rios, batizada de "Defesa Nacio- humano entre cidade e campo por meio de urna regulamentação severa
nal" pela revoluçáo burguesa. do trânsito, se nos preocuparmos tanto com os horários quanto com os
Vauban é um precursor, neste caso. Grande leitor de Vicrúvio e nivelamentos e a sinalização, se pela normalização do habitat coda a
obcecado pelo modelo colonial romano, ele considera que as bases da cidade se tornar transparente, isco é, familiar ao olhar policial."
guerra são geopolíticas e universais, que a geografia humana não deve
ficar à mercê da sorte e si m de técnicas de organização capazes de con-
trolar espaços mais ou menos vastos, impérios mais ou menos Atualmente, muita gente descobre, com atraso, que !!!lJa vez pas-
duradouros. Esse novo pensamento militar englobava, além do antigo ~o o "primeiro transporte co!erivo" da cevol11ção, a socialismo esvazia-
se _pruscam ence de-qualq1m: conte.ú.do..-pelCL.llleru)s.....u+Í-litaa:.. (a Defesa
Nacional) e Eolicial (a segurança, a delação, os campos mil irares).
12. ¼luban, ,Coronel Lazard, Librairic Alcan, 1934. Prcfkio de Weygand: "O auto r
ressalta, nos escntos de Vauban, a expressão "país fortificado", que ele aproxima com Já é tempo de se render às evidências: a revolução é o movimento,
felicidade, de "regiões forcihcadas"; .º ho~ern do gtnie não é sempre um prec:irsor? mas 0-mov.im.J:J1tQJl.âQ..Lum.a._i:e_volução. A política nada mais é que
Quando o cor~n~J Lazar~ estuda maJs parucularmente o engenheiro no grande homem
de guerra, ~le insiste em mocen~.i-_lo de qu~quer fo~malisrno. Ek afirma e prova que 0
vadt1dezro strtema de ¼iuban conststtu em aplrcar a fortificação tto tl!TTeno. Não encontramos 13. A Hansc parisiense, a quem se poderia chamar de os "mercadores de água e
nada melhor, ultimamente, quando se tratou de proceger nosso solo." que rraficavam com o uso dos rios". (Ver Ancimne; /ois ftançrmes, r. XVIII).

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uma caixa de câmbio; a revolução, apenas o over-drive: a guerra dissuade a massa móvel, designa que o novo Estado revolucionário não
"continuação da política por outros meios" seria antes uma perseguição está ali, na cidade, na rua, e sim lá longe, distante, na imensidão de
''policial" em maior velocidade, em outros veículos. A ultima ratio, uma campanha universal e intemporal. "Abraçar", exclama Grégoire.
justamente gravada nas peças de artilharia de Luís XIV, exprimia per- "a extensão dos séculos como a dos départements... livrar-se de um
feitamente esse procedimenco de mudança de velocidade: a peça de preconceito muito arraigado que quer circunscrever a República a um
artilharia é um veículo misto que sintetiza dois tempos de deslocamen- rerritório mu ito acanhado!" (27 de novembro de 1792) . Enquanto
to, o da carreta, tracionada mais ou menos rapidamente, e o do projétil, atribui novas propriedades e bens imobiliários para si própria, no local,
fulminante, rumo à explosão, co mo argumento último da razão. Da e ameaça com a pena de morte os questionadores do princípio da
mesma forma, o "socialismo político" devido a sua natureza política propriedade (18 de março de 1793), o que a burguesia oferece como
(pólis), normalmente fracassa quando cessa a aceleração da guerra civil territórios a seus "convocados': são as estradas da Europa. "Onde estão os
rumo à colisão urbana ...
pés, está a pátria" ( ubi pedes, ibi patria) , já dizia o D irei to Romano.
Há quem veja com maus olhos a atual multiplicação dos desfiles em Com a Revolução Francesa, todas tis estradas tornam-Je naciontlis!
cidades, das manifestações deambulatórias e até mesmo dos "ralis de
desempregados" como o de abril de 1977, por exemplo, em Thionville.
Eles não percebem claramente, após a apoteose esportiva de maio de O movimento sans-culotte parisiense precedeu o "levante em mas-
1968, a eficácia profissional ou social de cais performances. Entretamo, sas" de 1793, assim como, bem mais carde, a sin istra avencura das
tais tipos de competição urbana, de corridas com obstácuJos, têm um Seções de Assalto hitlerianas precede a mobilização alemã para a guerra
objetivo preciso que clássicos da cultura revolucionária ocidental corno o total. Como as S.A., os sans-culotteJ são dromomaniacos, "estafetas do
Pravda recordavam, ainda no verão passado: "O desfile nas ruas é a melhor terror" lançados na dianteira da Revolução pelas ruas de Paris. O decreto
p reparação possível dos trabalhadores para a Iuta pela tomada do poder.. ." de 21 de março de 1793 legaliza sua função específica: esseJ militantes
Já durante o Ancien Régime, quando a pessoa física do monarca políticos enfarecidos são apenas os agentes logísticos do terror, membros da
era identificada com o Estado, eJtar /d significava presença do Estado, "polícia': delação dos "suspeitos", vigilância dos bairros e dos imóveis,
ocorrem agitações e cenas de revoltas tão logo fica incerto o local de entrega de certificados de civismo, prisões, mas também abastecimento,
morad ia do rei. O povo de Paris entra ininterruptamente Palais Royal circulação e transporte marítimo dos gêneros alimentícios, controle dos
adentro, contempla o soberano e retira-se mais tranqüilo. Da mesma preços ... E m maio eles serão integrados ao exército do Interior, e lançados
forma, para as massas proletárias vindas dos campos e dos subúrbios, o em colunas infernais nas estradas dos departamentos; um ano mais
simples fato de entrar no centro de Paris, de palmilhar suas avenidas e tarde, seus chefes serão executados, como aconteceu com os chefes
suas ruas opulentas, são formas bem concretas de diminuir uma dis- supremos das S.A., em 30 de junho de 1934, na "noite dos longos
tância social e política real e mensurável entre a massa e o poder cons- punhais".
tituído do Estado burguês. Com efeito, os movimentos de massa do A revolução nada mais_i_q_ue o desvio do velho assalto soci_al. Carnot,
Ancien Régime, errando à procura d a pessoa do monarca/Estado , corno-bom ~nen:;·h-ro do Génie, canaliza sua vaga humana para longe da
prefiguravam esta nova organização dos Auxos de circulação denomina- fortaleza comun al, para as "zonas dos exércitos" . Ele retira seus
da, arbitrariamente, de Revolução Francesa, e que é cão-somente a orga- contigences prioritariamente das forças populares parisienses. O soldado
nização racional de um rapto social. O "levante em massa" de J 793 é 0 do Ano li é arrancado da rua que pretendia conquistar e engajado na
rapto das massas.
viagem irracional, a deportação da "marcha forçada'' longa e mortífera.
O discurso difundido pela propaganda revolucionária é, para a "O novo exército" escreve Carnoc, "é um exército de massa esmagando
cidadela burguesa, como seu antigo discurso religioso; ele afasta e sob seu peso o adversário numa ofensiva permanente, ao canto da

32 33
dissuade a massa móvel, designa que o novo Estado revolucionário não
uma caixa de câmbio; a revolução. apenas o over-dríve: a guerra
está ali, na cidade, na rua, e sim lá longe, discante, na imensidão de
"continuação da política por outros meios" seria an res uma perseguição
uma campanha u111versal e tntemporal. "Abraçar", exclama Grégo1 re,
"policial" em maior velocidade, em outros veículos. A ultima ratio,
"a extensão dos séculos como a dos département'J ... livrar-se de um
justamente gravada nas peças d e artilharia de Luís XIV, exprimia per-
feitamente esse procedimento de mudança de velocidade: a peça de preconceito muito arraigado que quer circunscrever a República a um
artilharia é um veículo misto que sintetiza dois tempos de deslocamen- cerritório muito acanhado!" (27 de novembro de 1792). Enquanto
to, o da carreta, tracLOnada mais ou menos rapidamente, e o do projétil, atribui novas propriedades e bens imobiliários para si própria, no local,
fulminante, rumo à explosão, como argumento último da razão. Da e ameaça com a pena de morte os questionadores do princípio da
mesma forma, o "socialismo político" devido a sua natureza política propriedade (18 de março de 1793), o que a burguesia oferece como
(p6lis), normalmente fracas~a quando cessa a aceleração da guerra civil territórios a seus "convocados'; são as estradas da Europa. "Onde estão os
rumo à colisão urbana... pés, está a pátria" (ubi pedes, ibi patria), já drzia o Direit_o R?mano.
Há quem veja com maus olhos a atual multiplicação dos desfiles em Com a Revolução francesa, todas as estradas tornam-se nacionais!
cidades, das manifestações deambulacónas e até mesmo dos "ralis de
desempregados" como o de abril de 1977, por exemplo, em Thionville.
O movimento sam-culotte parisiense precedeu o ''levante em mas-
Eles não percebem claramente, após a apoteose esportiva de maio de
sas'' de 1793, assim como, bem mais tarde, a sinistra aventura das
1968, a eficácia profissional ou socia I de cais performances. Entretanto,
Seções de Assalto hitlerianas precede a mobilização alemã para a guerra
tais tipos de competição urbana, de corridas com obstáculos, têm um
cocal. Como as S.A., os sans-culottes são dromomaníacos, "estaferns do
objetivo preciso que clássicos da cultura revolucionári:1 ocidental como o
terror" lançados na dianteira da Revolução pelas ruas de Paris. O decreto
Pravda recordavam, ainda no verão passado: "O desfile nas ruas é a melhor
de 21 de março de 1793 legaliza sua função específica: esses militantes
preparação possível dos trabalhadores para a luca pela tomada do poder.. ."
Já durante o Ancien Régzme, quando a pessoa física do monarca
políticos enfurecidos são apenas os agentes Logísticos do terror, membros da
era identificada com o Estado, estar lá significava presença do Estado,
''polícia': delação dos "suspeitos", v1gilânc1a dos bairros e dos im6ve1s,
entrega de certificados de civismo, prisões, mas também abastecimento,
ocorrem agitações e cenas de revoltas tão logo fica incerto o local de
circulação e transporte maríttmo dos gêneros alimentícios, controle dos
moradia do rei. O povo de Paris entra ininterruptamente Palais Royal
preços ... Em maio eles serão integrados ao exército do Interior, e lançados
adentro, contempla o soberano e retira-se mais tranqüilo. Da mesma
em colunas infernais nas estradas dos departamentos; um ano mais
forma, para as massas proletárias vindas dos campos e dos subúrbios, o
simples fato de entrar no centro de Paris, de paJmilhar suas avenidas e carde, seus chefes serão executados, como aconteceu com os chefes
suas ruas opulentas, são formas bem concretas de diminuir uma dis- supremos das S.A., em 30 de junho de 1934. na "noite dos longos
tância social e política real e mensurável entre a massa e o poder co ns- punhais".
tituído do Estado burguês. Com efeito, os movimentos de m assa do A revolução nada mais é s.ue o desvio do velho ass~to social. Carnot,
Ancien Régime, errando à procura da pessoa do monarca/Estado, como bom membro do Génie, canaliza sua vaga humana para longe da
prefiguravam esta nova organização dos fluxos de circulação denomina- fortaleza comunal, para as "zonas dos exércttos" . Ele rerira seus
da, arbitrariamente, de Revolução Francesa, e que é tão-somente ,1 orga- contigen ces prioritariamente das forças populares parisienses. O soldado
nização raciona.! de um rapto social. O "levante em massa'' de 1793 é o do Ano II é arrancado da rua que pretendia conquistar e engajado na
viagem irracional, a deportação da "marcha forçada" longa e mortífera.
rapto das massas.
O discurso difundido pela propaganda revolucionária é, para a "O novo exército" escreve Carnot, "é um exército de massa esmagando
cidadela burguesa, como seu antigo discurso religioso ; ele afasta e rob seu peso o adversário numa ofensiva permanente, ao canto da

33
32
Marselhesa." O hino nacional é cão-somente urna canção de estrada, ·d, · . "A aptidão para a guerra é a aptidão para o movimento", e
essa l eia. , . "
cadenciando a mecânica da marcha. Em suas memórias, Poumies de la recisando que se deve avaliar a força de um exercito como
acrescenta, P · ' ·d d "
Siboucie observa: "Jamais se cantara canto .. . a canção era um poderoso íca multiplicando sua massa por sua veloc1 a e .
ern mecan ,
A
. , . .
meio revolucionário, a Marselhesa' inflamava as popuúições..." H e el, que admirava os revoluc1onarios franceses, escreve, em Jª·
Tanto o matemático Carnot como o doutor Poumies não se enga- · de gl807, a um amigo: "Todo francês aprendeu a encarar a Morre
ne1ro li . . . ~ ,,
nam a esse respeito. O canto re~ á r i . o _ é ~ e r g i a . - ~ que " e singularmente compara as ve ,as 1nst1cu1çoes a esses
d e frente ...
impulsiona a m assa para o campo de batalha, para aquele tipo de Assalto de criança que fi caram ·cão apertados que sufocam a marcha e
caça1 dos "S ·
que Shakespeare já descrevia como "A Morte matando a Morre". E é dos quais os revolucionários souberam se desembaraçar . empre a tn ·
disso que se trata, com efeiro, pois é preciso carregar sobre a artilharia consciente metáfora dinámica, a nova dialética do campo de batal~a
inimiga, e o único recurso do soldado de infantaria é precipitar-se contra cranscrica em cermos filosóficos e políticos. O soldado frances
os canhões, matando, no próprio local, seus operadores. Mas, para isso, bequipado encara efetivamente sua Morte de frente na garganta negra
su . '. "b
ele dispõe de um te mpo extremamente reduzido : aquele gL1e os da boca de fogo para a qual se atira correndo, e senam necessanas ocas
artilheiros precisam para recarregar sua peça. Tão logo o tiro é disparado, de sete léguas" para aquele "exército de anões" de que fala ~oethe,
o infante precisa atirar-se então para a frente na direção dos canhões "aquela cropa de anões, qLtando se esperava assistir à chegada de gigantes
inimigos; sua vida vai depender da velocidade de sua corrida. Se for à Alemanha... ". Isco e ra normal, já que provavelmente seu tamanho
mui co lento, morrerá literalmen ce desintegrado pelo eiro direto das havia sido avaliado por sua velocidade na estr1.uia, que se havia imaginado
bocas de fogo ... N . e . s r a . - n - ~ o r ~ , S c á o do as longas passadas de i ndivíduos enormes, que se havia pensado neste
tempo g a n ~ homem so.b.re-0s- p r o . ~ e - ~ H - a i s su a fator novo: o enorme desenvolvimento da energia cinética das massas revo·
marcha o precipita; a velocidade significa Temp.o_ gan.ho, no sentido lucionárias. Este discurso assimila a .aqM.i.fil.Ç-ªO A;ls_alta_,; v_ç_locidades do
ma~ luco, Jª que ele se ·tornâ Tempo humano diretamente arranca- Assalto, da invasão e até da explosão à "mecânica" de uma revoluçáo
do à Morte - daí essas insígnias funestas da dizimação arvoradas, ao simbolizada, primeiro, pela conquista da rua, e depois, "soltando-se''
longo da história, pelas tropas de Assalto, isto é, as tropas rápidas (ban- na estrada. Significativamente, cada combate tocalicário reproduzirá
deiras e uniformes negros, caveiras dos uhlan*, das SS, ecc.). Além disso, esse procedimento: os nacional-socialistas alemães, inimigos da bur·
porém, o que mais se pode pensar dessa revolução que logo reduzir-se- guesia ou, ao menos, pretendendo sê-lo ainda que para rnobilíza.r os
á a um Assalto permanente ao Tempo? A ofensiva perpétua dos exércitos dromomaníacos das "Seções de Assalto", se assenhoram do Escado alemão
de massa de Carnot é a volta do velho "correr para a frente". A salvação cidade por cidade, ou melhor, rua por rua, antes de se expandir auto·
já não está na fuga; a salvação est á em "correr para sua Morre", "matar estrada por auco-escrada até os terrnórios viz.inhos, como se a "colocação
sua Morte". A salvação está no A ssalto simples mente porque os novos em marcha" das massas alemãs pela pregação dinâmica de seus líderes já
veículos balísticos rornar]'l a fuga inútil; eles vão mais depressa e mais não pudesse ser contida. Após a conquista da rua e o massacre das
longe que o soldado, eles o alcançam e ultrapassam. O homem, no Seções de Assalto, o motor nacional-socialista reencontrou seus
campo de batalha, aparentemente só cem salvação introduzindo-se de condutores ordinários: a pequena e média burguesia adm inistrativa, o
maneira suicida na própria rraJetória da velocidade dos engenhos. Ê a grande capital que, desde os anos 20, lhe fornecera importantes subsí·
isso que o impele, sem piedade, a nova jurisdição militar que líceral- dios, a Reichswehr e os veículos de Rommel e de Guderian, levando a
mente o encerra "entre dois fogos"! A salvação geral só poderá vir. doravante, frente militar para longe, "para onde estão os carros de assalto". Co~ a
da massa toda alcançando a velocidade. Napoleão I exprime claramente guerra-relâmpago nacional-socialista, o antigo e obsoleto muro-fronteira
desaparecia, substituído ostensivamente pela via rápida. A naçáo alemã
• Uhian: lanceiro nos ancigos exércitos alemães, russos e austríacos. (N. do T.)
já não está mais exatamente onde .se postam suas famosas bocas, símbo·

35
34
los de seu exército, mas sob as esteiras de seus carros, na força motriz. de 2
seu 'jront de aço". Como escrevia Ratzel, no final do sécu lo XIX:..:&_
guerra consiste em passear suas fronteir~s ptlo território alheio". O fronc_
é d01111Jawe apenas uma isóbare guerreira ren_ouando_os a n ~
fondafáo- Pa ra o f!romocraca da guerra rotai, port_m,. a cidade anres rãa
Do direito à estrada ao direito ao Estado
cobiçada não está mais na cidade. Varsóvia, declarada arcaicamente
"~idade aberra", em setembro é destruída pelos ataques aéreos.

"O atacar foi diftrenu segundo a êpocrz da


invenção das mdqumas d,, deJtruir... "

ERRARO, d1ro de Bar-lc-Duc

Desde a tomada do poder, o governo nazista oferece ao proletariado


alemão esportes e transportes. Acabam-se as revoltas, não há necessidade
de muita repressão; basta esvaziar a rua prometendo a rodos a estrada: é o
objetivo "político" do volkswagen, verdadeiro plebiscito já que Hitler con-
venceu 170.000 cidadáos a adquiri-lo apesar de não haver um único dis-
ponível. O "NSKK" (Nacional Socialistisches Kraftfahr Korps, o corpo
automotivo nacional-socialista) foi organizado localmente e segundo as
categorias de veículos particulares. Ele logo congrega meio milhão de auto-
mobilistas que se exercitam na condução dos veículos em terrenos difíceis,
na prática do tiro em movimento, etc. Cada membro desses clubes "espor-
avos" retomava assim praticamente as técnicas premonitórias do cnme
motorizado de Bonnot ou de Al Capone, mas é bem verdade que se Brecht,
em 1941, em A Resistível Ascenstio de Arturo Uí, divertiu-se fazendo de um
gângsrer o sósia de Hitler, as sirnilitudes excedem a mera paródia: a corrida
ao poder do migrante da civilização americana é, mi como a tragédia fascista
~u ª aventura anarquista de Bonnot, em 1911, inseparável da revolução
0
~ transportes. Como Mussolini ou Hitler, as grandes figuras do gangs-
ter1Smo am . .
encano começam na rua onde elas erram como mend1gos, como
cstrangeiIOs - o famoso Jim Colosimo foi inicialmente varredor de rua e,
:~o muitos de seus compatriotas, ele cruzou com perfeita naturalidade o
rn ral do bazar político na condição de cabo eleitoral, de lobista.

36 37
Depois, as municipalidades ficarão sob a influência da "tropa par- ·dade, trata-se aí de atos de governo, isco é, o sistema viário político
da" de seus SA porque, novamente aí, a apoteose automonva dos _ar~os Vel OCI ' 1 d. , . "
. do ·uscamente limitar o 'poder de assa co extraor 1-nano que a
20 com seus raptos, fuzilamentos, combates de rua, as perseg~i?o:s v1san J f · t1· ·d d
desenfreadas de seus veículos blindados, não passa de um ep1sod10 mmorl·zaça~o das massas desenvolve. Essa rustração u1 1g1. a ao con utor
técnico do assalto dromocrácico feito à cidade e a suas riquezas por uma b rusca.mente privado tanto da embriaguez das altas velocidades
b
como da
. .
embriaguez alcoólica, esta proibição veicular é tam ém a consmu1çáo,
massa migrante vinda da Europa ou da Ásia, até se transformar no
elo Estado, de um novo porvir.
Assalto ao próprio Estado americano. Al Capone não era susce~ tado, p . . . ..
"Os milhares de Jovens motonsc.as que se 1111c1am na mecamca, no
então, em escala nacional, pelo Partido Republicano, e não devia sua
ádio (no enduro de moto ou no trânsito) estão", como observa V. Bush,
"formação" à sua passagem voluntária pelo exérciro americano? As tropas rem 1940, em Modern · Arms and Free Men, "em verdade1ros · campos de
desconhecidas do gangsterismo aparecerão, aliás, à luz do dia durante a treinamento ... e, no dia da prova, esse treinamento poderá facilmente, e
última guerra, por ocasião da libertação da Itália, e essa gente cransformar-
num tempo mínimo, transformar-se em capacidade de construir o com-
se-á então em "bons cidadãos americanos". plexo aparato da guerra." De uma margem à outra, um discurso simétri-
Num outro plano, compreende-se melhor como o governo dos
co se desenvolve.
Estados Unidos conseguirá superar a crise econômica dos anos 30 e Esse tipo de exploração permanente da aptidão para o movímento
curar as massas americanas da "tencação da rua". Também aí a experiê ncia
da massa ínorgânica enquanto solução social não é exclusiva dos países
dos dromocratas.do gangsterismo não foi inútil. O golpe de gênio ficou
industrializados. O problema dos calçados foi colocado pelo exército de
por conta da substituição da repressão direta ~a r.ebelião e ~o próprio massa à indústria civil antes do problema dos veículos. Em 1792, as
discurso político pelo desvelamenco da essenc1a desse discurso: a A • C
intendenctas conseguem rornecer '
as tropas d. e va-nu-pzeds"* d uzentos
<( •

capacidade de transporte criada pela produção em série de automóveis


pares de sapatos quando eram precisos 80 mil. 1 Entretanto, "sendo a
(desde 1914, na Ford) pode se transformar num assalco social, numa marcha um instrumento estratégico mesmo fora do engajamento", como
revolução suficiente e capaz de modificar, uma vez mais, o modo de já se viu, esse tipo de Assalto é desferido primeiro contra Tempo e pode
vida dos cidadãos, transformando todas as necessídades do consumidor, ser realizado de maneira teórica quando não se dispõe de meios ma reriais.
remodelando integralmente um território que, no comoço do século, Hoje em d.ia, os partidos de oposição organizam lucas em torno do
não custa lembrar, possuía apenas 400 quilômetros de estradas. "tempo de transporte" dos trabalhadores. Trata-se aí, novamente, de "tem-
O doutor Helmut Klocz observa, em 1937, que "'O Corpo Auto- po a ganhar" e remontamos às origens da "metamorfose" social, ao nível
motivo Nacional Socialista' é uma organização que, dentro de limites da "revolução dos crês oicos" cão cara aos homens de 1848 - oito horas de
estritos, pode ser imediatamente úcil à motorização do exército alemão". trabalho, oito horas de sono, oito horas de lazer. Fato ainda mais notável,
Ele considera que a motorização freqüentemen ce é pouco vantajosa em essa reivindicação cem, ao ser apresentada, desde a origem, o mérito sin-
grandes distâncias, mas reconhece que no caso de dist âncias pequenas,
gular de criar a Unidade entre todos os partidos, entre todos os movi-
ela cem o poder de aumentar de maneira extraordinária as Forças de mentos revolucionários, dos moderados aos extremistas. Esta espécie de
Assalto. "guerra do tempo" movida pelos trabalhadores "cem todas as vantagens
Na margem oposta, a perpétua transformação da estética bárbara de uma reivindicação revolucionária sem os seus inconven iences" 2 • A
do veículo americano fabricado em série, o exagero provocador de sua
carroceria, de seus enfeites, manifestam a permanência da revolução .. Va-nu-p1ed: ind1genrc, m,ser;ível. (N. do T.)
social (progress no american .way of !ife). Mas, ª.º. ~e.s~o tempo, ~s~e 1. Quando, na mesma época, as indústrias de arm;1menros já conra111 com grupos
grande corpo automotivo f?1 emasculado, sua dmg1~il1dad~ é. pr:cana de produção de 5 mil operários.
e seu potente motor é conndo. Como no caso das leis de l11111taçao da d' 2. la France et Les hu.it heum. André-Frnnçois Poncer e Emile Mire~ux, Société
études et d'informarions économ1ques, 1922.

38 39
República dos Sovietes também julgou oportuno introduzi-la no outo- é ue a "conquista da liberdade de ir e vir", tão cara a Montaigne,
no de 1917, e a repâblica alemã, em 1918. va q d , . - , b 'f d J
poderia se cransforn!,ªr, num pass~ e 111ag1:a, c:m ")ltça~ 11 .'~zo z. t ªª"·
Quanto à república francesa. ela teme um 1° de maio sangrento O "levante de massa de l 793 é a insrauraçao de uma prune1'.a ditadura
após a guerra. Com efeito , para aguela data de 1919 prepara-se, urna
d,o m ovimento subsmu indo sutilmentc: a lrberdade de movimento. . E d
dos
vez mais, um enorme desfile de rua, e o governo sabe gue a única palavra
de ordem será pelas "oito horas'' .. . mas os chefes social istas não acabavam
primeiros dias da revoluçã~. A realid~de.do ~oder n:ss; p:1meiro ·sr_a o
rnoderno aparece, para alem da cap1tal1zaçao da v10lencia, como c,tp1-
de se investir das responsabi!id;i.<les do poder? Um deles não dirigia o talização do movimento. Em suma, o 14 de julho de 1789, a roma~a
Ministério do Armamento? Conceder as "oito horas" era então "conser- da Bastilha, foi um erro verdadeiramente faucaldiano do povo de Pans:
0 famoso símbolo do encarcer_amento e~~ u~a fortaleza !d 11~zia. ~s
var um selo definitivo. guardar na paz o que fora a união sagrada na
guerra". revolcosos descobrem estupefatos que Jª nao há mais n1nguem pa1a
Nesse l O de maio de 1919, o proletariado está novamente desmo- "libertar" por trás de suas formidáveis muralhas. _
bilizado, tendo acabado de de.ixar as trincheiras, e reencon era a "morte O esquema estratégico da revolução oferece, às duas cL1sses domi-
diante de si'' nas ruas da cidade. Depois das confraternizações dos nantes, seu proletariado específico: a ''nação em marcha" do proletariado
primeiros dias, o que se tomou po1 ''ingratidão do pessoal da retaguar- militar do exército de massas atirado sobre o "terrirório viário" e um
da" para com suas tropas de assalto é tão-somente o retorno à normali- proletariado industrial, um "exército operário''. ~omo é c~a1~1~do, l~ue
dade, ao sentimento de desconfiança e ao desprezo do citadino pelas permanece encerrado no vasto acampamento m~Lrta~ do tem tono nacio-
massas giróvagas que reencontram sua liberdade de movimento e volcarn nal. Pode-se distinguir claramente enrão duas funçoes (ou melhor, fun-
a ficar disponíveis para a baralha política... Em l 936, a própria natureza cionamentos) da base proledria assim mobilizada, porque jamais os
desses "lazeres das oico horas", gue permanecera até então misteriosa, termos da prolecarização foram mais radicalmente colocados do que
se revela: os lazeres são as férias remuneradas e as férias remuneradas, a pela Convenção em seu decreto de fevereiro de 1793: "Os jovens irão à
viagem ... inclusive a "última viagem", como ressalta, de forma bizarra, luta" enquanto "os homens casados, as mulheres e as crianças ficarão
uma célebre canção dessa Frente Popular supostamente eufórica... Re- adstritos à fábrica" (de armas, de vestuário, de barracas, de curativos,
volução do transporte e não da felicidade ... para o terreno de camping, etc.), em suma, ao aprovisionamento logístico. Percebe-se, pois, que a
o albergue/casern a da juventude, sempre os acampamentos, o vasto :iova burguesia industrial tende a enriquecer capitalizando os "gestos" (o
acampamento do termório. Mas não iria declarar-se a guerra na Espanha, ato) produtivos do proletanado industrial (a burguesia girondina e os
e a não intervenção francesa não transformar-se-ia no cúmulo da Freme fornecimentos de guerra, o Banco Suíço com Perrégaux, ecc.) e a classe
Popular que se paralisa ao recusar os desdobramentos dessa ülrima militar capitalizando o ato destrutivo da massa móvel, a produção da
viagem? destruição realizada pelo poder de assalto do proletariado. .
A história mostra que a degenerescência das burgues1as
enclausuradas conduz, focalrnente, à degradação das massas produtivas
A manipulação abusiva do discLJrso dromocrático pelos políticos e à ascensão dos métodos de proletarização militar no Escado. Na v'.da
da burguesia deveria ter nos alertado, há muito tempo, sob1e suas · · como. dita. -
real, os Estados marxistas, por exemplo, aparecem prnne1ro
verdadeiras intenções revolucionárias. duras da motricidade, cocalicarismo programando e explorando minuci-
Os eventos de 89 pretendiam ser uma revolta contra a sujeição, osamente todas as formas do movimento de massa. Depois da queda de
isco é, a coação à imobilidade simbolizada pela amiga servidão feud,1 1 Phnom Penh, o Cambop se transforma, segundo as raras te5temunhas,
que ainda subsistia, aliás, em certas regiões como o Jura, revolta contra num ,, vasto acampamento m1·i·1tar". 1nut1, ·1 v1tupera
· r concra Marx e os
a restrição à moradia e a prisão arbitrária. Mas o gue ninguém imagina- 'é · d la " d
sov1 t1cos mventores .o gu g ... quan o na v
«· erdade se trata apenas de

40 41
um paroxismo do movimento de proletarização militar. Com efeiro, · Esses campos para onde são enviadas pessoas sem ;ufgamento já
bruca.is. . .~ . 'd
segundo sua exata expressão, os Khmers vermelhos consideram o · nos alertar com sua denom1naçao genu1r1amente me 1ca: a
deveriam , . d e
conjunto das populações civis de seu próprio país, seus milhões de "o rem a ver com a programação mecan1ca os corpos elllermos
ree d ucaça . . 'd
homens, de mulheres e de crianças , como "prisioneiros de guerra''. Os ficientes; ela pretende consertá-Los. O delmqüente ou d1ss1 ente
d 1
· po J'nico.
· Ele p·'
novos dirigentes do CarnboJa aplicam, ao que parece ao pé da letra, 'd oló ico não é mais considerado como um adversáno
ou e
uma dissertação entregue, vinte anos antes, na Sorbonne , por Kieu ' ~e g direito ao tratamento ps1quiarnco
· ·, · " gratuito· " conced'do 1
pelos
nao cem . . · 1·
Samphan . Ali se percebe de onde vem o vírus gue assola este malfadado u pelos americanos a seus 1nteleccua1s. A certeza matena 1sta
russos o l. d 'b ·
país. O esquema utópico da revolução cambojana é apenas a antfrese ui à sua forma absoluta pois a simples 11pócese e atr1 ulf
chega aq ' . .
do esquema da revolução burguesa: as grandes cidades foram brutal- · ortància a um pensamento antagônico, a um conceito diferente, é
mente esvaziadas de seus habitantes, que foram massacrados ou devol- totalmente esvaziada. O dissidente é um corpo, sua d"1ss1'd'enc1a,
unp · um
vidos para o campo; alguns bairros foram arrasados, su bstituídos por delito postural - por exemplo, sua indolência, sua lasc'.vidade. Osc~n-
arrozais; não h~ mais qualquer tráfego entre cidade e campo; a circula- sivamente, não há ta1Ho delito de opinião quanco delito gestual; e .ª
ção praticamente desapareceu, permanecendo na cidade despovoada superação da confosão. 3 Os corpos são ~ulpados de .não escarem .mais
apenas alguns batalhões de infantaria, os chefes Khmers e: algumas mis- sincronizados; é preciso recolocá-los na Linha do pamdo, na velocidade
sões diplomáticas. Mais que uma revolução, é o fim trágico do cerco da de um povo inteiro em manobra para o qual cudo é motivo para exercí:
fortaleza comunal tomada enfim por seus assaltantes. cios físicos públicos, do clássico manejo de armas ao relaxamento e a
No Vietnã ''libertado", descobrem-se o utros tipos de mobi lização ginástica na rua, nos campos, nas fábricas, aos e~porces colerívos ~~ à
proletá.ria. Depois da queda de Saigon, a primeira preocupação dos dança, às excursões de vigilância telúricas e ecológicas, etc. Por ocastao
exércitos revolucionários foi colocar no trabalho de reconstrução logística da revolução cultural chinesa, lia-se freqüentemente nos rostos de Mao
(estradas estratégicas, vias férreas, pontes, etc.) gente tão "indigna" e de Chou-En Lai, como que um embaraço diante desses milhões de
quanto as prostitutas e os ociosos traficantes da grande cidade meridional, indivíduos brandindo como robôs o ''livrinho vermelho". A revolução
mas foi também ensinar sua juventude fardad11 com uniformes novos a de civilização desejada pelo poeta iria se reduzir a esse conjunto ginástico,
"encenar" sua alegria de estar livre, fazendo-a conhecer assim a singeleza a outra face de uma vasta campanha de delação em massa que se afixava
de um poder que se limita à coação e ao adestramento dos corpos. A
ditadura do proletariado é cão-somente essa ditadura do movimento
3. A superação da confissão. Na Idade MédiJ, a pergunta é teica sob rorcurn a um
(do aro) que revelam as grandes festas toralitárias, com suas imensas
corpo "conhecedor da verdade" que eleve deixá-la esc,1par à revelia de s ua vo ntade. No
multidões cinéticas, suas espartaquíadas e foscas ginásticas sempre cão século XIX, a tortura é abolida, não por humanid3de, mas porque se percebeu que rodo
enaltecidas nos países do Leste guanco na era do fascismo. Este ato (rodo mov1menro humano) deixa algum rraço externo, alguma impressão material
si n cronismo que integra milhares de indivíduos em formações invo luntária. Desde então, faz-se falar ciennficamenrc. as provas, foz-se com que elas,
geo~étric~s, como o antigo. "quadrado" da manobra m ilirar, que integra de cerro modo, "confessem" em lugar do suspeito. apresentando seus indícios materiais
segundo um discurso/percu rso coerente. Com sua justiça colocada desde logo na forma
o drnam 1smo das multidões numa decoração caleidosc6pica,
reatrai de um diálogo, os anglo-saxões rapid.imenre vcrific~ram que, a pamr de provas
desenhando, conforme o gosto, slogans ou retratos gigantescos dos líderes marena1s idêncica~, de mesmas matérias. era possível cxrrair d iversos discursos coeren-
do Pa rtido, permitindo que o militante revolucionário se come, por tes mutuamente excludentes pela simples modificação da ordem das matérias: A, P.51 -
um curto momento, um pouco do corpo de Sralin ou Mao. <:análise, de certo modo. pegou o bastfo, substituindo :1 materialidade dos m1icio~
O mais interessante, porém, é que esses campos de reeducação exre riores pelas impressões in teriores do deliro. A co nfissão psiquiárnca é obt ida ª
revelia da vontade do SL1Jei1o. Ela franqueia seus lábios à. força. mas s_o b ª forrn~ , de
dos quais os vietnamitas, acompanhando os chineses, tan co se orgu- 1~dícios e mareria is incocrenres que ser;ío rec.xamin:idos pelos mecanismos da cie~-

lham, parecem eliminar do sistema a repressão sangrenta ou os cast igos cia psicanalítica. A questão não está somente em que o fluxo contínuo da confissao

42 43
nos muros de Pequim, como, cem anos antes, na Comuna de Paris · Mao
Acompan 1,and o Len111, ' qualificana o povo
. de "força motriz
(Estado policial, dizia dela Cluseret) , como na revolução cambojana, . ' . " ao impor-se a importância da conquista de fontes de ener-
h
da 1stona , · d'd
com seus "kang-Chhlop". O socialismo iria se reduzir a uma socialização ,e
·a. A metarora po lítica se&ue t>
de perto• o progresso
. .
1og1st1co H
na' me
, · i ai
da informação? Finalmente, é normal que a revolução política resultasse g1 que e 1a asp1r. a "), H 1' ~to' ria A cienc,a militar, cal como a isto na, e
v • •

nessa redistribuição d a função (do poder) policial a rodos os militantes, em a percepção persistente do cinetismo dos corpos desapareci-
como o foi com qualquer agente do transporte militar, atrelado, desde apenas um ' 1 d l '
dos e inversamente, os corpos podem sur!!Ír como os ve,~u os ~. listo-
o Ancien Régíme, ao estabelecimento da tra nsparência social, à observa- . como, seus vetores dinâmicos. Napoleão
na, , . II! . , precend,a
. ,, que para o
ção das posturas e movimentos não adequados ao corpo social mas, ao homem de guerra, a recordação é a propna c1enc1a .
mesmo tempo, ao corpo territorial, como na vigilância telúrica, espécie
de polícia ecológica que renova o controle urbano e parece uma solução
de futuro para o poder.
Castro, trocando seus trajes desalinhados de guerrilheiro por um
uniforme à Pinochet, Brejnev se vestindo de marechal, a presença ma-
ciça de chefes militares cobertos de medalhas e m todas as tribunas
socialistas do mundo, nos informam : os últimos capicalizadores do ato
(prod utivo), os verdadeiros di tadores do movimento são eles. Foi ddes
e não de vagos filósofos ou ideólogos que nasceu, em 1789, a idéia
política de nações em marcha, as massas do novo proletariado m ilit ar
tornando-se projéteis na metade do século XIX, com o triu nfo da a rtilharia
industrial e a generalização da g uerra de m áqu inas: "Os canhões pesados",
escreve Trotsky, em 1914, " rnculcam na classe operária a idéia de que
quando não se pode contorn ar o obstáculo, resta ainda o recurso d e
destru í-lo, as fàses estáticas de sua psicologia cedendo lugar entáo às fases
dinâmicas" .

psiquiárrica não é um rito Je vontade cio sujeito. Esd em que ela seq uer concerne ao
instanre do deliro, ii; circunsr:l.ncias conhccic.Jas apenas pelo sujciro e ~im a um conjun-
to que vai do nasci rnenro cio acusado ao diagnósricu de um iulgamcnro fi na.!. Quando,
por meio de lesre.s, ou ve-se ainda uma confissão, csc:í evidenrc que não se trata m:11s
do relato do crime comerido por seu auror. Este fo1 p:1rticu larmcntc complerado pelo
ressurgimento de zonas de margi nalizaçfo nos sistemas urb:mos e, m:1is ainda, pelo
criminostllt atualmente expenmenrado pela polícia. Po<le-se pen;ar llLIC em ral nível as
lacunas e os azares derivados da ordem dns matérias poderiam desaparecer, pois com :a
informática o discurso da acusação poderia se tornar absolura menre coerente ou, pdo
meno~, próximo da coerência absoluta, representando, simultaneamente, em nome do
sujeico e em nome do objeto Com isso, seria possível dispensar cot:tlmente a con.fissiio
de um acusado, que esrn ria menos informado sob re seu próprio deliro que o compurador_
Esre, não sC' ndo mais detcncor da "verdade", nada teria a confessar. Em grande medida,
o esquema do trabalho social na França já funciona assim.

44
45
Segunda parte

O progresso
dromológico
1

Do direito ao espaço ao direito ao Estado

"O ser destinfldo à ágtta é um ser em vertigem. Ele morre


a cada minuto, sem cessar, algo de sua wbstflncia perece. "
SACHELARD

Urna caricatura inglesa do século XIX mostra Bonapa rte e Pitt


talhando, a golpes de sabre, uma grande torta em forma de globo
terrestre, o francês apossando-se dos continentes, e o inglês reservando
o mar para si. Trata-se de uma outra partilha do universo na qual, em
vez de se enfrentarem sobre um mesmo terreno, nos limites d.e um
campo de baralha, os adversários optam por criar uma lu ra física
fundamental entre duas humanidades, urna que povoaria a terra, e outra,
os oceanos, inventando nações que nfo seriam mais rerresrres, pátrias
nas quais não se poderia colocar os pés, pátrias que não seriam mais
países. O mar é o mar livre, a associação do dêmos ao elemento da
Liberdade (de movimento) . O "direito ao mar" é, ao que parece, uma
criaçã.o especificamente ocidental, corno seria, mais tarde, o "direito ao
espaço aéreo", elemenco em que o marechal-do-ar Goering sonhará
instalar díe fhegende Nation, o dêmos nazista. 1 "Todo alemão deveria
aprender a voar... Dormem asas na carne do homem ." Ante o vôo dos
primeiros foguetes, Hitler, que sente a derrota mili tar se aproximar,
pode dizer a Dornberger: «Se tivesse acreditado em vosso trabalho, não

1. F. Tl11ede e E. Schmahe. Die fliegende Nation, Ed. Union Deursche Yerlagansralr,


Berlim, l933.

49
teria havido necessidade de guena ... " ou, ao menos, não tcrir1 havido Não se ver forçado a um combate desesperado mas provocar no
necessidade de luta! adversário um d esespero prolongado, infligir-lhe contínuo~ so~ru1:1en-
Vencer sem luta um adversário continen tal que se lança e se esgota morais e macenais que o en fraqueçam e destruam; a esrrareg1a 1nduera
incessantemente nos limites espaço-temporais do campo de baralha ter- toS C d'
pode desesperar um povo sem derramamento de sangue. orno. 1z . o
restre é o que conseguiri:i, como se sabe, a lnglarerra. Tal como Napoleão, adágio: ''O medo é o mais cruel dos assassinos; ele _n_ão mata Jar~1a1~,
Hitler seria vencido pelos homens da jleet in being2, que extrai riam a mas vos impede de viver." Afinal, a invenção da fel1 c1?ade, :ssa 1dé1a
vitória continuamente de sua inacessibi lidade para o co mbate, do aban- nova na Europa, segundo Saint-Just, e ra, para os continentais, apenas
dono do princípio nocivo de que é preciso atacar o inimigo tao logo ele é um modo d e resistir àquela coação moral vinda do mar, àquela perda
percebido, encurtar a distância entre ele e nós, A fleet ín being é 11. logística
de sua substância.
reaftzando plenamente a estratégia como arte do movimento dos corpos não Em 1914, o bloqueio ali:ido levou d ois anos pan1 pro?uzir _seus
vistos, é a presença permanente de uma frorn invisível no mar podendo primeiros efeitos nas popu lações civis alemãs, mas esses efeitos a~nda
golpear o adversário em qualquer lugar e a qualquer momento, aniquilando seriam sentidos bem depois do fim dos combates terrestres; eles se11am
sua vontade de poder com a criação de uma zona de insegurança global um fator 111direco do marasmo. Foi este desespero prolnngado que pre-
onde ele nunca estad em condições de ''d ecidir" com segurança, de querer, paro u O terreno para a política passional do nazis~~, para a domesticação
isto é, de vencer. Trata-se, pois, sobretudo, de uma nova idéia da violência fascista do povo alemão. Da mesma forma, o rap1do desmoronamento
que não nasce mais do enfrentamento direto, do derram:unento de sangue, material e moral que se consta ta arnalmente na Europa ocid~ntal nad_a
mas das propriedades desiguais dos corpos, da avaliaç.,1.0 da quantidade mais é senão O resultado lonoínquo da reviravolta geoestratég1ca amen-
de movimentos que lhes são permitidos num e lement0 ;.,sco lb ido, d a ::,

cana criando, a distância, em nosso continente, uma nova cnse econo-


• A

verificação permanente de sua eficácia dinâmica. Se Napoleão julgava a


rnico-psicológica. . , . . . .
força de um exército em termos mecânicos, Maurício da Saxónia foi um Desejada por povos de com e rc1antes, a estrateg1a indireta tepro-
dos primeiros a compreender, no conctnentc, que ti violência pode se redu- duz num outro elemento, os efeitos da velha poliorcécica comunal. Da
zir ao movimento apenas: "Não sou a favor das baralhas'', afirmava ele. me:ma forma que o antigo "estado de sítio", ela permite "pr~long:r
"Escou persuadido de que um general hábil pode fazer a guerra durante indefinidamenre as hostilidades" contra o conjunto das populaçoes nao
toda a sua vida sem se ver obrigado a 1sso." Na E uropa Ocidental, no enr:rnto, mais "civis", mas "co ntinentais" .
um espaço reduzido e acidentado, não se poderia pretender ''destruir o Ela representa a renovação do capitalismo porque é justa mente a
adversário" sem ser forçado, algum dia, ao enfrenr:un en to d i rero en rre massas
s uperação técn ica da velha praça force,_ ultrapassada, desn~antel~d: p~lo
miJirares cada vez, mais numerosas: a sicuação de enclave da Alemanha é o poderio dos novos exérciros estata is, uma resposta as ex1ge nc1,:1s
melhor exemplo dessa coação histórica criadora de um belicismo sangren- econômicas exorbicantes da classe militar continental, à sua pretensao
to e imperativo, o da teoria prussiana. Em compensação, ern. seu imenso
de dominar os fluxos de circulação terrestre.
santuirio marítimo, a home fleet podia evimr quase indefinidamente a Finalmente, o liberalismo econômico ilustra perfeitamente a defi-
batalha. Ela não se via coagida pelo adversário a algum com bare desesperado,
nição de Errard de Bar-le-Duc: o assaltar é diferente conforme a époc~ ~
contanto que, mesmo estru1do presente, ficasse fora de aJcance. · de d,estruir.
· E ssa b rusca res1 ·sten
' eia da
invenção das máquinas . , burguesia
, . a
concepção de guerra terncona , d e ora em d.1ance , o pnnc1p10 de um
• . 1 e,
2. "Desde o final do século XV I1, a fleet m being, fórmul,t imaginada pelo al m iran-
te Herbe rt , ma,c~ra a passagem do estllr ao estando no cxercíc,o da coação sob re 0 capitalismo que, tornan d o -se an f1'b'10, a p 1·1ca a guei..ra tocai
. sobre , ,,o mar
. 1 1 d
e nas colônias, q ue ]!Cera mente sa ta a gra11 e " d m áquina move 1
l , .para,,
adversário. "É o fim do aparelho naval e da guerra de perco; o nú mero e o poder de fogo
dos nav105 alinhados rornam-se secundários." Paul Virilio, Essai mr linséwritt! dt.t terrztoire, » e J d
a "máquina imóvel , razenuo os oceanos um "vasto campo
. og1st1co
d ,
Stock, 1976. arrastando atrás de s,. um pro1etana . d. o acre Iado ao funcionamento o

50 51
veículo marinho, proletariado de remadores ~)arecendo uni \erdade 1ro políucas e econo111ic:.1s e .ué os limite~ d.is kis físita~ dc,·1tfas à gr,wid,1de
motor do engenho, acelerador no momenr0 do cornb:tte. terrestre e à ex1güidade connnental. 1',las o direiro ao mar co 111uu-~e.
com muita presrez,1 .1li:is, o direito ao cnme, a uma vio lênc1:1 igualmenre
ili1111c,1d,1. Fm pouco tempo "o império dos 111are5" rnb~citui o mar
A jleet m bcmgcria uma 110\ a ideia dromocráuca; não 1ie trata ma,~
livre. O cron1srn do século XVIJ percebe suas premissas desde a margem,
da travessia de um contrnente, de um oceano, de uma cidade a oucra,
onde rema ",1 horrível índúst1 ia dos naufragoso5 mass:icra ndo e pdh:rn-
de uma margem a ouw1. A jlcet in bcing inventa ,1 noç:io de um deslo-
do os soh1evivences dos naufr,1gios que pro\'ocam co m ~uas sinalit.1çócs
ca~nen co_ q ue n:io reria destino no e~p,1ço e no tempo. Ela im põe a idé,a
enganadoras... " Olhando do mar, ele vê apen,ts "os excessos rnmagracios
pnrnord1al do desaparecimento na distância e não mais nos riscos da
pelt1 prática do mflr "
con~agração. Ela 1ealiza contmu,1111ence uma cornd.1 par.1 mais longe.
"O mon:struoso despocis1110 que, e1~1 no me dos monopó lios co-
O hm do_engenho co m a-se aqui, necessariamente, e pouco i mporta
merc1a1s, .1~pir.1 :1 domi11({çiio exclusiva do~ oceanos ... espécie de di1 eito
como, o nao-retorno, desCJno normal da m,1qu 1na flutu~n te abandonada
de conquisr:1 exercido pelos holande~es depois de Veneza, da Espanha
à deriva ou simulando o naufrágio, como aqueles submarinos que para
ou de Lisboa." E um pouco mais adi.1nte, ele observa: "O terrível é que
escapar de se~11i_perseguido res antecipam seu desapar<::c1mento largando
todas essas poderosas org,rn1zaçúes 111.1rícim.1s nfo foram obra dos Esta-
destroços fict1c10s e com buscível, como aqueles vel hos nav10s de guerra
dos, m as um produto espon tâneo do génio mercanti l dessas nações,
que eram arrasrados para o alto mar pela <duma vez para serem afund,,-
resrnndo ao Estado o papel posterior de sa ncioná-las e assum i-las." AfinaJ,
dos '.rn ap~t~ose de uma derradeira explosão, encen:i.ção de gran des fu-
não é de se estranhar que ren ha sido precisamente um trafi cante, um
nerais r~armmos em que a embarcação é sugad a pelo vórtice líq uido do
pi rata como Liffitte, a ftn anc1.u a p L1blicação do 111:rnifesco de Marx.
turbilhao, sugado por sua própria corrida pa ra o não-re tomo.
Sua vi são do Estado 1nre111acio 11 al surgrndo da sociedade co mo "seu
Gordon Pym ou Mo bv Dí c k são ver dadei r as n ar raci vas
prod uto e m decenni nado momento de sua evolução", assemelha-se
:i.nrecipacórias do cruzeiro nuclear. O subnurino estr:i.cégico não precisa
muito àquele império espontâneo dos "carroceiros do mar", de onde
'. r ~ ralte algu ma; ele se co ntenta em, permanecen do no 111,lr, fica r
nasce a primeira naçfo industri;1I do mundo moderno, situada em roda
1_nv1S1~el; mas seu fim temporal já est,1 marcad o. Aliás, desde que ;1 fleet
e nenh uma parte, obcecada pelas trocas comerciais, sujeita exclusiva -
in bemg se to rn ou um dado fund amental do Direito ao m ar, os
mente aos inte resses econômicos, enc1 rniçada no abocanhamenco e na
expl~radores, de~cobridores e amantes de expedições de t0dos os ttpos,
destruição de corpos e be ns de seus adversários. Estado d:1 d itad ura
se ai nda procura'.11 novas cerras, vão igua lmente se prender à invenç~o
totalit:í rr a cuja pop ulação ''rompeu ;is ,1111a rras'', abando no u ;1 cerra,
~as passagens, . isco é, da realização da viagem c1rcul.1r abso luc:1,
primeiro povo que corresponde perfeira 111cnce à dcf111 1çfo do proletariado
u~rn terru pta, pois não com porcaria nem partid:1, nem chegada, realiza-
industrial de Marx: "Os oper;írios n:io têm p:ícria .. . é preciso cortar o
çao do anel de não-re torno já prefigurado pelas rocas ma1 íti111:1.s ci rcu-
cordão umbilica l que liga o crabalhado1 à te rra... " Na l nglmerr,1, mé o
l,u es ou_ tnangula:es do mercantil1s111 0 europeu.
século XIX, pratica-1.e a razia de m:iri nheiros símples meme fech,111do-
. ~ ~1~~a_-se assim ~,os oc:;a ~os uma nova caregoria do direi to políti-
se o.s portos por ordem do rei e arregimentando os ho mens do mar à
co. O ~11 e1~~ ao mar,' na . o ri gem, entidade mais afetiva e poénca do
força . Na França do século XV I1. com a tnd uscria lização da guerra
q ue _racional
. , como Jª se disse· É faro gue •as cid·lde~
, , me d 1rerr,1neas, , .1s
marítima exigindo um pessoal cada vez 111:1is numeroso, instaura-se o
naçoes . . 111su lares
,, supe rpovoadas
,, . ' pobres e de peque 111 s f'
· uper 1c1e que ·
levan tamento e o registro de roda a populaçfo licorâ neil, qut: é "declarada
a111 b1c1onam arar , o mar cnando um dêmos rnaríc1'1110 , n,,o ;; parecem
d isponível e alistada num (1nico e grande exércico, servindo por mrnos
q uerer se su bordrnar a qualquer lei terrestre .an r1'ga<. O mur - ·~ f llJl'e
· d everia
na guerra, nos negócios, nos rrab;i lho~ de organização do cerrícó rio": é a
compensar rodas as coações sociais, religiosas> 111ora· • 15 , rocia -
, S .lS O f.J fCSSOeS
isso que ch amamos sis tem;i de classes. Essa primeira ope ração de

52 53
proletar.ização milirar buscada pelo Estado precede, d e pouco , a nos sicuarmos em algum lugar sobre a terra, que nos situemos, ao menos,
Revolução Francesa. Ela é uma espécie de primeiro acesso das massas no Tempo, isto é, na mecânica planetária. Por esta simples razão, os
· ao transporte coletivo. Aliás, fato bastante raro à época, as pessoas ingleses permanecerão por muito tempo como os melhores relojoeiros
preocupam-se com a "nacionalidade" do novo proletariado. Deportado do mundo; o domínio do mar exige o domínio do Tempo, exige "visar
da guerra totaJ, ele precisa justificar suas origens; se é estrangeiro, terá a lua", como se dizia então.
de se naturalizar ao cabo de cinco anos; a deserção é severamente repri- Foi muito naturalmente, portanto, que a fórmula moderna da
mida, e o .Estado pratica o controle social das famílias declarando-se guerra popular nasceu por influência inglesa sobre os insulares (Paoli,
"protetor das mulheres e das crianças'' dos trabalhadores requisitados. na Córsega, sob Luís XV), sobre uma nação de navegadores, a Espanha,
Entretanto, também aí a expansão da guerra foi tal que a proletarização contra o Império francês. De faro, a guerra popular não é mais no ter-
viu-se associada à repressao Judiciária e policial recrutou-se ao acaso, e ritório. Ela preconiza a dispersão dos corpos militares na própria soci-
os proletários viram-se confundidos com a tropa dos deportados e de edade (o soldado novo estará ali "como um peixe n'água" - a alusão a
marujos condenados ao trabalho forçado que os tribunais "fabricavam" um elemento líquido não está aí por acaso). Tal como a guerra marínma,
em grande número sob a pressão do governo. No século XVII, o a guerra popular é uma guerra de encontros marcados de corpos
proletariado marítimo já é Jireralmenre um povo de condenados, de dinâmicos ... Ela se reporta, além disso, "aos excessos consagrados pela
"malditos da cerra". À oposição teórica de Marx e Engels aos proud- prática do mar", à violência absoluta, ao desaparecimento da moral e
hontanos junta-se, finalmente, a reflexão de Colbert deplorando a inépcia das leis anreriores. A guerra popular é roca!.
dos franceses para criar um império marítimo todo-poderoso, bem como Na Hist6ria do Ocidente, não atentamos suficientemente para o
seu atraso no campo da colonização: "Enquanto se divertirem em festas momento em que se operou esta transferência da vitalidade natural do
populares nada de companhias ... Eles abandonam o melhor negócio elemento marinho (aquela facilidade de ali e rguer, deslocar e fazer des-
do mundo para não perder a diversão no campo e, mais ainda, não lizar engenhos pesados) para uma vitalidade tecnológica inevicáveI5,
querem grandes embarcações, querem apenas pequenos barcos para que aquele momento da história em que o corpo de transporte técnico vai
cada um tenha o seu... " 3 A criação do direito ao mar, cal como é pensado sair do mar como o corpo vivo inacabado d.o evolucionismo, deixando,
então, não bate com esta aptidão para a felicidade cerrestre feica de ao se arrastar para fora, seu meio original, e tornando-se anfíbio. A
simplicidade e independênda que se encontra no Sul. Da mesma forma, velocidade, como idéia pura e sem conteúdo, emerg~ do mar, como
a utopia social nascerá menos dos antagonismos de classe que do ódio à Afrodite, e quando Marinecci exclama que o universo enriqueceu-se de
Terra, e poderíamos prosseguir indefinidamente o jogo das compara- uma beleza nova, a beleza da velocidade, e contrapõe o carro de corrida
ções entre o projeto social e os planos de império dos mares em que à Vitória de Samorrácia, ele esquece de que se crata, na realidade, de
Marx se enterrou. 4 uma mesma estética, a do engenho de transporte. Tanto o acoplamento
Parece mais interessante, porém., considerar o aspecto cronomé- da mulher alada com o vaso de guerra antigo como o de Matinetci, o
trico desse império que movimenta sua violência na invisibilidade da fascista, com seu bólido rodoviário cujo volante ("haste ideal que
proteção marítima, nação Autuante que se equipara à História, essa atravessa a cerra") ele ma neja, saem desse evolucionismo tecnológico
outra máquina de remontar no Tempo. Com efeito, a vicóna (a decisão) cuja realizaç~o é mais evidente que a do mundo vivo. O direito ao mar
no mundo sem referências e sem acidentes da fleet in being exige, se não cria o di reiro à estrada dos Estados modernos, comando-se assim Esra-
dos totalitários.
3. Correspondência administrativa sob Luís XJV.
4. "O materialismo é o fiU10 legítimo da Grã-Bretanha." Marx, Contribution à Lhmoire 5. Ver Manifeste du fim.msrne, Nrzvigatwn Tt1ctile e comcndrios de Giovanni LiSCa,
dtt mrzténalisme français. Marinetti, Seghers.

54 55
Quando Norman Angell con~tata, em The Great !llurion, que a de conceber o engenho dpido Ele freqüentemente se rorn,l obsoleto
guerra tornou-se agor:1 cconomICamente fiítrl porque n:io se funda mais ante:. mesmo de:: )tr apwv1..1udo; o produto está literalmente gasto anres
no roubo praticado contra o ''grupo do exterior ", isto é, sobre a riqueui de se r usado, ultrapassando assim , nn "velocidade", rodo o ~istema de
portátzl, e sim no crédito e no contra to comercial. ele se engana ao lucro da obsolescência industrial!
pensar que isso devei ia suprimir r.1dicalmente o "conquistador'', e \eu Quando as nque-t.,ts, as capitalizações, os modos de produção saí-
discurso perde um pouco de rigor. O que efeuvamenre revela a mudan1y.1 ram de seus antigos enclaves, não foi para acender às trocas, ao livre
de natureza da riqueza é somente a mudança de velocidade da econom i:ci comércio, e até a sua socialização, ponanco, mas 11 seu poderio veicular
mundial, a passagem da unidade móvel à uniJade horári .t, a guerra do pr6prio. ao mtxuno de sua eficiência dmâmica. Eis a1 a "f~1ti_l1dade" de
Tempo. um,1 riqueza desap.uectda na essência do progresso dromolog1co.
Com a jleet in bcing, a I nglacerra concemrn seus esforço~ na inova- O homem ociclencal pnreceu supenor e dom1nance apesar de uma
ç:ío técnica no c:unpo dos transportes e, mais precisamente, na fabricn- demografia pouco nume1os.1 porque pareceu mais rrípido. No genocídio
ção de engenhos rápidos. É disso que ela Ctra d1rer.uncnce sua colonial ou no ernocídio, ele é o sobrcvwmtl.' porque <é efetivamente o
superioridade econômic,1 e, sobretudo, a 011entação q u e fez d el.t a sobre-vivo - VII·, a palavra francesa para vivo concentra pelo menos trê)
pr1me1ra grande nação induscnal, modelo de rodas as ou cr,1s, criando significados: prontidão, velocidade (vitcsse, em francês) equiparada à 1110-
"este sentimento p1 imordial de uma superioridade cécrnla confundin- lênwt (que vem de força viva, aresta viva , etc.), à própria vida (estar vivo é
do-se com o sentimento de uma superioridade geral". De faro, não há estar cm vida!)
mais ·'revolução indusrnal " e sim "revolução dromocrática', não há mais Com a realização de um progres:.o de tipo dromocrático, a humani-
democracia e sim dromocrac.ia, não há mais estratégia, e sim dromologi:ci. dade vai deixar de ser plurnl. Para cair na situação de faro, ela tenderá a se
:É precisamente no momento cm que o esquema do evo lucion ismo cindir exclusivamente c::m povos esperançosos (a quem é permitido esperar
tecnológico ocidental sai do mar que a substância da riqueza começa a pelo amanhã, pelo futuro a velocid.1.de que eles c.1p1talizam dando-lhe~
desmoronar, que toma corpo a 1uína das nações e dos povos mais acesso ao possível, isco é, ao proJeto, à decisão, ao 1nfinico - ,, velocidade é
poderosos, e são conhecidas, a esse respeito, as recentes declarações de a esperança do Ocidente).
Carter sobre o fim do ideaJ de vida americano. É a velocidade como E povos desesperançosos, 1mobilizados pela inferioridade de seus veí-
narureza d o progresso dromológ1co que arruma o progresso, é a culos técnicos, vivendo e subsistindo num mundo finico.
permanência da guerra do Tempo q uc cria a paz total, a paz da rnanição .'' Assim, a lógica aprox11nada do saber/poder é el1m111ada, cedendo
O caso do super-sônico S.S.T., seguido do caso do Concorde, ilustram 1ugar ao poder/ movet, i:.to é, ao exame das tendên1..ias, dos fluxos . Isco é
perfe1tamence esse sistema de ruina (de cal forma ruinoso, que os .Esta- cão evidente que há cinco anos não se ensina mais geogr.1fia na Escola
" . ,, 7
dos avançados precisam se associar para perseverar na produção dessas Militar na França, e a polícia expenmenta acu aJ mente o rrm11nostat .
máquinas submetidas à lei exclusiva da velocidade). Tal como na origem lmpérios de territórios imensos co mo a China, apesar de suas ten -
da Jl.eet in being, a manutenção do monopólio exige que a rod,1 nova c.1uv:1~ de "modernização", riveram de se submeter, desde o século XIX,
máquina seja logo contraposta uma máquina mais rápida. Mas com o a essa nova ordem, pura e sem concct'1do, nada enco nuando para con-
limiar das velocidades se esrreicando sem parar, fica cada ve,. mais di fícil crnpor à sua penerr.1ção, e hoJe os exército!> populares chinese~ e
vierna mi tas realizam um,1 d 1Fíci I revisfo, desdobrando-se nu rn exérctto

6. P,u de gucrr,1, paz de ina_nição (Brian<l) " ... ninguém pode m:rn desejar, hojo: cm
r. _ d e - d b das temroriaas d.1 políc1:1
di;i, o renasc1mcnco do regime 10cem:1c1onal d e 1939 porque, com efe1ru, àqud.1 1:po- 7. A super:iç:in d., conus)ao· 10 as as 1111orm.1çncs .1~ nga •
, I'. Nacional de Rosny-som-
c.1, rcqavam .1pcnas as ruín~s de um sistema." Trabalho:, da Sociedade d:i~ N:içõc\ ctinílui11do par.1 o cum pur.1dnr ccnrra1 do com,111 d o c.1a 1o 1c.1,1 •
sobre a pass:1gem da cconomrn de guerra ~ cconom1a de p:iz, cm m.iio J c 1943 l.\oi~: CR l~IINOS rAT (v1su~ln.1ç."tn de m:1nchas c 11acíqJCa1)

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técnico (rápido) e num exérciro do povo, 1ep1esenraclo como "valor 2
animal" {lento) e, neste caso em p.1rtic11l.u, "valor de sobrevivência" em
caso de catacl isma nuclear. Vale lembrar, a esse respeito, que em 1932
as populações chinesas da região de Shangai J,Í haviam desempenhado
seu papel: com efeito, elas estiveram entre as primeiras do mundo a
sofrer, da parte dos pponcses, a experiência de ataques aéreos massivos
visando a destruição coral dos centros urbanos. Os estados-maiores A guerra prática
alemães logo se debruçaram atentamente sobre a re111c1dência social
desses ataques para a elabo1ação de sem propnos "planos de segurança":
simulação d e ,1lertas, exercícios, programas de abrigos em cidades, etc.,
que, no espírito dos dirigentes políticos, deveriam conrribuir fortemente "Hurra' ncnbou o conrnto wm II terrn 1munda.1"
para o preparo psicológico dos c1dadãm alemães. Por um justo retorno
MARINE.TIi, 1905
das coisas, agora são os chineses que se mspiram largamente nessa
mobilização nacional-soc1alisra ..
Na guerra do Tempo. o porvir social das populações rornou-se o ir
além da hora zero como derradeira esperança revoluc1onána 1
Extrair do povo em armas um elemento militar puramente téc111co
Em 1914, os estados-maiores europeus ainda eram chusewitzianos
era uma decisão política capital para os dirigentes chineses porque, em
ou napoleônicos; tratava-se, para eles, de exercer sua vontad·e· numa
nenhum outro lugar os exc::rcicos e as populações permanece ram r:io
guerra terrestre de penetração rápida, de batalhas curtas e dec1s1vas. A
biologicamente associados, inclusive no sistema d e produção. Essa
vantagem desse ripo de conflito era escamotear os problem as. colo~a~os
unidade revolucionana é destruída brutalmente pelo su rgimento de
pela organização militar dos territórios, já que o esforço logísuco ex1g1do
wua outra evidência: a luta de classes é substituída pela disputa enr1e
seria pouco importa nte e, sobretud o, pouco constante; uma guerra de
os corpos técnicos dos exércitos segundo sua eficácia dinâmica, aviação
cerca forma sem terreno ou, ao menos, roçando-o apenas!
contra marinha, exército de cerra conrra polícia/polírica, etc., situ ação
Ainda estamos aqui no espírito do Congresso de Viena. Os pode-
esta esboçada cancaturalmence, <lesde há muito tempo, na América
Latina. res monárquicos europeus, que sentem a aproximação do g~lpe de
m 1sericórdia, têm um derradeiro sobressalto. Como C lausew1tz, em
Vom Kriege, eles tentam desesperadamente correr o ferrolho entre gu~r-
ra absoluta e guerra coral. A guerra tocai é ubiquicária. Ela se realiza
primeiro no mar porq ue a proteção ma rítima não apresenta nenhu~,
obstáculo natural permanente a um movimento veicular de d1men.sao
planetária. Encreta nro, esse tipo de conflito totalitário pode ser real12a-
do em terra com a condição de erguer infra-estruturas duradouras para
a ubiqüidade. Como observa Vauban, a g uerra deve ser capaz de cobrir
imediatamente todos os lugares habitáveis do universo.
"Ubique quo fus et gloria ducunr", a engenharia inglesa acabou redu-
zmdo s1gn ificanvamente
. . sua d.1v1.sa para UBI QUE·... POR TODA A PARTE.
" Isro
. . 1 h ·
sigrufica o universo reordenado pe a engen arta m1 irar, ·1· a cerra comu-

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nicante" como um 1ín1co e mesmo talude protetor c::nquanto infra-es-
trutura de um campo de bar.1lha fururo. 1 É este o mundo que se onde Fcrry 2 observa: "O general-com:rnda11tc n:io é mais um chefe de
rramformou "de pai~agcm-areliê em paisagern-plani fic,1da, cm esp:1ço guerra e sim o ministro dt um tl!rritóno", temtorio este onde o poder
imperial ... ", como const.tta Lukács ,t respeito do socialismo alemão. civil e~perava cri,taltnr a baralha e encenar seu prolern1 iado rn ilitar
Quando Renan recebeu Lt:sseps na Academia, cen~urou-o por ce, "na numa guerra absoluc:i, "sem limicaçfo no uso da violência", mas que
busca da paz, encontrado a guerra" ao fazer do canal de Suez um novo não se estenderia, não pode na ser levada para o tntel ior. F, a guerra de
Bósforo. Transcorrido um século, .1 profecia de Renan se manrinha: a desgaste. Nos esc,1dos-111a1ores, o force desgaste das tropas e dos mate-
perfuraç~o do canal de Suez er.1 um velho sonho politécnico para O qual riais, forma moderna da dizimação, era aind.1, no começo da guerra,
sucumbiram numerosos engenheiros saint-simonianos Sua real11 ação um ponto positivo n:i c:irreira de um general! Era. considerado um sinal
era então cons iderada pelos especialistas militares como um novo de grande atividade do chefe militar, de sua personalidade, e até mesmo
1nd1cad~r d.e confiabil1dade no conjunto da~ comunica1,-ões da ortodoxia de sua arre, no prgfo das escolas de guerra - "impiedade",
1nternac1011a1s, um ponto de aceleração considerável 11 ,1 trama de "uso ilimitado da força'' que permitem, segundo Clausewicz, não recuar
inferências da ~stracégia 1~und1al. Ao "redesenh, 1r o mapa cio mundo", diante de nenhum derramamento de sangue Mas cambim aí o general
abria-se uma via para o transporte da guerr.1", para O Oriente, assim prussiano foi rapidamente superado. Ele pensava, como muitos de seus
como pa::i. os nov~s trustes vercicaliz:idos. Com a grande revolução contemporâneos, que a sicu.1ção soci.11 dos Estados c1viliz,1dos acabaria
geoesrraceg1~a d~ seculo X!X, a organização económica e social começa comando suas guerras bem menos cruéis e desrrucivas que as das outras
a dependei mceuamence da organi7ação cio espaço de aciv.idade como nações: ,1penas alguns meses depois do início das hoscilidades, Ferry
lu~ar de transferência, e o fenômeno da gueri,1, a se auto-alimentar, nos mostra a que ponto isso chegaria, visro que uma das tarefas mais
ena as fomes de seus própnos conílitos, multiplicando-os. continua-se nov:is p:ua as pessoas engajadas na :invidade logística é a avaliação
morrendo por Suez o u P,111amá rncwnal da obsolescêncza dos exércitos, a dificuldade de calcular os danos
. Em 1914, r~dav1,1, a Frar~ça rural e fechada ainda er,1 pouco pro- produzidos p_ela nova guerra industrial com rapidez suficiente para
pfcr~ ao desenvolvimento da ub1qüidade do transporte miliur O rnnílico compensar, ern tempo hábil, o desaparec1menco puro e simples dos
trazido por seus pesados engenhos móveis não tardou em :ifundar com dois pamdos no campo de bacalh.1, o que jamais tinha-se visto
eles. A guerra deixava de sei um curro e agradável pa~seio, uma viaoem ancc.:riormence. A guerra de desgaste volunc:1na era, s1multaneamence,
rnrfmca. Os adversários entrin cheir.1m-se do mundo e empreendem a primeira guerra de desaparecimento e consumo. Desaparecimento,
baralhas sem precedentes que durarão, como em Verdun, um ano _ de no local , dos homens, dos macen,11s, <las cidades, das paisagens; e con-
fevereJro a dezembro de l 91 G. Os exércitos ;á niío podiam ir (' vir. sumo desenfreado de munições, de macenal, de mão-de-obra. Pouco a
O re~e~o ~rancês é encão s1gn1ttcacivo. Quer-se preservar inicial- pouco, os elegantes planos de engajamento ou as 01dens de ataque
mente a d1sta11c1a política e retoma-se novamente O e~quema comunal cedem lugar a novas considerações: consumo de obuses por metro cor-
fiador da ordem interna. O país é co 1 tado em dois por uma linha de rido de trincheira, program.1 de produção, orç,1menro e avaliação de
demarcaça-o:
. uma
. . França "civ1'l" , a reraguard .1, com seu governo demo- estoques. Durante um.1 ofensiva, em 1917, por exemplo, consome-se
·
crático, suas :it1v1dades econômicas. e indusrr 1"~15 , 5 ..-.. t1 11ovo rnacri,uc:1do
de ~~lheres provedoras (que emprestará um caráter duvidoso a~ Jmas 2. Abd Ferrv la guerre l'Ue d'm ba1 ,·t d'l'n h,mr. Canas, noras, d1scu1ms e 1dacóno~.
femm1sras), e uma França "militar" ' a 20na' dos exérc1'tos , ter ra rorc1
e 'f'1cacla Gr,l5ser ~d,rcu r, 1920. O dtpur.1do cio, Vosge,, mono peb Franç,1 em 15 de ~crembro
de: 1918, deixou aos cuid.1dos de su.1 mulhr1 a publicação dcs~a ob ra ··a partir d~
desmobilização torai do exercito frances e sem levar em cormdcração reclamações in-
1. Réplica récnic;i da engenhana militar .10, imJJérios roralir·'t, rios
· J o cngen h <:iro
· rere)SC1ras '', ''dupla lição do campo de b.u.1lha e do Conselho de M1rúH1us, ensinando,
nrnrícimo e do capicafomo liberal.
Je~dc oç p11me1ros mc5cs de guerr.1. a n~ccss1d;ide do conrrole p,ubmenrar". Nu mero-
s.is passagens aqui comcnraJas são exrr.1fJ;is dess.1 obra cap11al.
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6.947.000 obuses de 75 mm do lado francês, ou seja, 28% dos estoques em seu entusiasmo, e depois ser bruscamente ceifada por uma metra-
existences... 1nas fala-se também de "consumo cotidiano de artilharia". lhadora insuspeita e o campo de ba ralha se cobrir de cadáveres em
A teoria de escada-maior desaparecia, encão , nisso que doravance se alguns minutos." .
chama de "a guerra prática", que roma a guerra cômoda, isto é, de um Este bravo capitão tivera então uma idéia genial para remediar o
desgaste mais facil, que a impede de afundar em suas próprias impossi- estacionamento das tropas. Ele concebera "veículos blindados capazes
bilidades. O Ministério da Guerra e o do Armamento são separados de percorrer codos os terrenos" e, a partir de 25 de novembro de 1915,
com o famoso Loucheur à frente prefigurando os Bush e os Speer, os passara a defender a fabricação em grande escala desse novo ripo de
tecnocratas da guerra cocal. A guerra de desgaste represenca um limiar: engenho. Em 31 de janeiro de l 916 , colocava-se em construção
a sociedade burguesa acreditara encerrar a violência absoluta no gueto quatrocentos blindados, e mal eles surgiram no campo de baralha seu
da zona dos exércitos mas, privada de espaço, a guerra se alastrara, efeito psicol6g1co foi enorme. Os generais logo reclamaram milhares
como que espalhada pelo Tempo humano, - a guerra de desgaste era desses "fortins automóveis" ao Ministério do Armamento, esses novos
também a guerra do Tempo. Como as tropas do Ano II, a massa m óvel objetos técnicos que materializavam com ta nca perfeição um pensa-
de 19 l 4 fora jogada "ultrúa" , mas a batalha final rnenre se reduzira a menco estratégico indo de encontro a um a obsessão do Grande
uma série de ações individuais, urna guerra de suboficiais, uma seqüên- Frederico: "Vencer, é avançar!" Logo mais, Ferry poderá escrever, pouco
cia de corridas breves para a morte sucedendo-se dia após dia, mês após antes de ser ceifado no ataque a Vauxaillon: "O moral francês atingiu
mês, no mesmo lugar, ou ainda, de "prolongados lazeres" para homens um grau de exaltação ina udito. No mês passado, os licenciados de Parnay
imóveis, aguardando o fim no mesmo lugar, pregados ao chão pela consideravam sua licença longa demais; eles partiam novamente para o
potência dos bomba rdeios. Os alojamentos prolecários n a "zona dos front como se vai em direção à felicid11de ... e viam-se já na Mosela, no
exércitos" substitui a cloaca da "zona urbana". A cerra de ninguém tor- Reno! Dou rédeas soltas a todos os meus sonhos.. .''
nou-se um subúrbio, um espaço neutralizante onde já não se c umpre a A velocidade é a esperança do O cidente. É ela que sustenta o
promessa do movimento, e a perda do movimento é, a curto prazo, moral dos exércitos. O que "faz da guerra um desgaste cômodo" é o
para a fortaleza nacional, a perda da boa saúde, e depo is, a morte. As transporte, e o veículo blindado capaz de circular em qualquer terreno
revoltas e os motins dos sold ados recusando-se a parcicipar do assalto elim ina os obstáculos. Com ele. a te rra não ex1sre mais. Melhor do que
substituem a desordem da malta urbana, o estacionamento das massas veículo para qualquer terreno, deveríamos chamá-lo sem. terreno: ele sobe
na cidade, antes de se tornar, em meio ao caos, "guerra civil pura e pelos uludes, transpõe os bosques, panna na lama, ~rranca na passa~em
simples", como previra Engels a Lassalle, ou arnda desvio para o interi- arbustos e pedaços de paredes, derruba portas; ele foge do vel ho traJeto
or da "torrente de energia do proletariado" (Trotsky) . Em 1917, na linear da escrada, da via férrea . É e.o da uma nova geometria que ele
Fra11ça,. a ~t~err~ nacional perdia, junto às massas, seu velho prestígio oferece à velocidade, à violência. Ele Já náo é apenas auco-móvel mas
revolucwnano s11nplesmence porque não conseguia mús "avançar", não também projétil e lançador esperando ser emissor-rádio; ele projeta e
alcançava mais a velocidade superior do Assalto, não vencia mais a cor- se projeta. Com ele, novamente, a Morte maca a Morte já que ía:z frente,
rida contra a morre, contra a máquina. vitoriosamente, à tem ível merralhadora alemã. O capitão de Po1x tem a
A viagem da massa realizava-se ainda da rua até a ferrovia, a rua visão profética de um campo de b:nalha literalrnence coberto pel;i n:':,5 5 ª
onde se desfilava cantando e marcando passos em meio à população desses fonins auto-móveis. A pós deixar a rua, o proletariado militar
citadina que aplaudi a a partida da temível multidão armada. Depois, perde contato com a estrada. Agora tudo pode se transformar em
0
o plantel militar se erg~ia às pressas sobre a palha dos vagões de gado, trajetória provável de seu Assalto. O ca mpo de batalha fico~ como
mas tudo acabava multo depressa, como observa o capitão de Poix: talude Q1arítimo: sem obstáculos, inteiramente percorrido pelos
" ... eu vira tantas vezes nossa infantaria partir para o assalto, magnífica engenhos rápidos, os "couraçados da terra".

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A guerra de desgaste, por falta de ei>paço, desdobrara-se no Tempo. Terceira parte
A sobrevivência era a duração. O assalco em qualquer terreno, ou me-
lhor, sem terreno, estende a g uerra por u m te rreno q ue desaparece,
esmagado pela infinidade de rr,1Jetórias possíve,~. Vemo-nos bru~camence
diante de um novo "d1reno à terra". To1,1licá1io, como o d11e1to m<1ríri-
mo, ele implica um:i oucr.1 fenomenologia do desuno para ,1s massas. A
corrida dos carros de Assalco prolonga a corrida desvairada dos r.íx1s
deixando as ruas de Pa1is, em 19 L4, para inYesLir sobre o 1'1arne, "dcna-
deira baralha romântica na qual se concluía a parte a1ca1ca da guerra"
Oean de P1errefou). A velocidade do transporte militar já não é apenas
"met,ifora de um escoamento vertiginoso do tempo existencial " O velo-
címetro do carro de ass.1lco é, l1teralmence, para seus passage11 os,
"quant1ficador existencial", medida do sobre-vivo!
A sociedade
É interessante observar a acirude dos estados-maiores mgleses nesse drornocrática
mo mento capital do p rogresso d rom ológ1co: desde os primeiros ass:tl ros
concinencais, o povo do mar sai uma vez mais ao largo, pouco mceressa-
do em se meter numa b:ualh a conc,nencal rn fra ngível. "Pode rfamos
d izer que ele prefere a guerra de máquinas'' :i guen a corpo-a-corpo,
melhor dizendo, de engenhos. Eles têm 500 mil homens no mar e 3
milhões nas fáb1icas e arsenais. Se: pa rticipam com e\ iden te má vonrade
dos comandos unificados, serão, por outro lado, 'Os primeiros a querer
lançar num cam po de batalha terrestre, ao norce d a Somm e, os "cou ra-
çados de cerra", engenhos de assalto "sem terreno" que conrinuarão
apreciando, como se pôde ver novamente, no <leserco, em J942 .. .

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Corpos rncapazes

"O nsw. mrtr com co11Ji1rto.'"


M .\llH.. HAL Gm.111~c

Hermann Goe1ing rornnrn-se aviador durante a guerr:1 de 1914


porque era reumático e, na infantaria, ,ts longas marchas forçadas er:1m-
lhe penosas.
No curso de diversos conflitos, sobretudo a par t1r do século XVTI,
tomara-se consciénc1.1 do agravamento dos problemas de invalidez. mi-
litar. Uma ind1ísm.1 florescente se desenvolvera: a ortopedia. Descobri-
ra-se que os desgastes causados na mccân rca dos corpos sobreviventes
pelas máquinas de guerra podiam ser compensados por ourras máqui-
nas, as próteses. Se, na Fr:rnça, os defic,ences são reformados, ficando
dispensados do serviço militar, o mesmo não aco ntece n,t Alemanha:
cm 1914, o cxércrco alem:ío praticamente não admite a existência de
irrecuperáveis porque: decidiu Jimc1011aiizar os deficuuu:s jlsicos urilizando
cada um deles just,11nente l.egundo sua deficiência: os surdos- mudos
são empregados n.1 a, eilharia pesada, o~ corcundas, na co nclução de
automóveis, etc. Paradoxalmente, a d1t.1dura do movunenco exercida
sobre a massa pelo poder mil1t,u resultava na promoç:ío dos corpos
incapac,rndos A u ril1 Lação el o veículo técn ico é cão eq uipar:ível à prótese
cir(irgica que levou algum cempo para o estado-maior francê~ confiar carr~s
de assalto a alguém que não emvesse "doente, impaludado, na proporçao
?e um qua1 to do pesso.11, compondo-se o resco de jovens reabilirados que
Jamais haviam enfremado o combare... " (Relatório Renaudel).

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Em 1921, Marinetti mec:iforiza sobre o veículo blind,1do: o super- llores do Marrocos, mas sobretudo com dezenas de milhare~ cios infati-
homem é um homem enxertado, ttpo desumano reduzido a um princípio gáveis colonos da l~dochina Outros indígenas. como os malgaches,
s5o empregados prefere11c1nlmente em comb,He .. . Se a guerr:1 no mat,
condutor e, portanto, decisório, corpo animal sumido no superpodcr do
corpo metálico cap:iz de aniquilar o tempo e o espaço com suas perfor- cornando-se pcrmanenre e coral. esteve na origem das primeiras mob1-
mances dinâmicas, Foi em vão que se tentou classific:u ,t obra de tvbrinerri lizações de massa, a perspectiva da guerra tot~il sobre o contineme exige,
segundo mil critérios artísticos ou políticos; na verdade, o Futurismo com tod a a evidência, desde J 9 14 , um novo projeto social. um tipo
deriva ele uma arte apenas, a da guerra, e de sua essência, a velocicbde. inédito de proletarizaçáo.
O Futurismo fornece a visão m,1is ac,1bada do cvolucioni~rno A g11erra prátzw divide o Assalr.o em duas jàses, a primeira das quais
dromológico de seu tempo: a medida cio sobrev1venre dos anos 20! é a criaç:ío da ossatura original dos futuros campos de baralha. Essa
No plano real, porém, o corpo humano que se envolve n:i '\1lcova de ossawra são as novas vias, as novas estações, o alargamenco das estradas,
aço" não é aquele do dândi guerreiro :itrás de sensações raras da guerra e das vias férreas, o telefone, as trt ncheiras, .is Iinhas de evacuaçfo , os
sim o corpo que se tornou duplameme incapaz do prolet:írio-soldado . abrigos, etc. A paisagem, ;i tet ra é agora destinada. consagrad.1 defin ic1-
Privaclo, desde sempre, de vontade, ele :igora precisa ser fisicamente vamente, à guerra ' d:i mass:i cosmopolita dos trabalhadores, um exército
auxili:i.du por uma prótese veicular para poder realizar sua t:uefa históric,1, de operános falando rodas as línguas, Babel da logística... Tanto o arse nal
o Assalto. A superpotência cinética do dromomaníaco é brnscamente como o pessoal militar assumem agora um ttpo de comportamento
desvalorizada. A guerrn de desgaste já havia revelado o despre20 corn pacífico, ou melhor, político; eles recomam i rede vi:11 ia ... lnstabm-se
que se mantinha uma massa móvel reduzida :i inação, bem como ;1 assim as pren1issas do que vid a ser a dissuasão, a redução do poder a
natureza dos tratamentos gue lhe eram reservados. A g,uerra pdtic;1 favor da escolha da melhor trajetória, a sobrevicla em vez da vida. O
desvelava sua impocênci:1 como ageme dromocnírico dominante, moro, e starns quo é o desgaste da (erra . Em 1924, o monge militar Teilhard de
produtor i:le velocidade sobre o continente. Entretanto, depois de o con- C hardin escreveu em J\lfon univers. "Ainda temos necessichde de canhões
flito total ter consagtado a falência das teorias de estado-maior e o triunfo cada vez mais porentcs. de blindados cada vez maiores, par.1 materializar
da guerra industrial, sentia-se, em compensaçfo, dos dois lados. urn;i nossa ,igrr:ssão do mundo."
A inteligência dromocr:ícica nüo se exerce contra um advc rs:írio
necessidade insaciável de mão-de-obra opedria. Os procedi111emos de
prolecarização militar se revelavam mais do que nunca indissociávets militar mais ou menos derermínado; ela se exerce como um ass;ilco
dos de prolerarização industrial para os ge11erc1is que haviam se permanente ao mundo e arrav~s dele, como um .1ssalco ;l n:irnreza do
transformado, involunrnriamente e a co nrragosco, em "organizadores homem. O desaparecimento da fau na e da flora, a anulação da~
de territórios". economias naturn1s, ~50 apenas ;i lenca prepar.1çiio de descru1çóes mais
Ferry observa: "Todos sttbr:m doravante que existe a estrutura de urn brur;iís. Faze m parte de uma econom i.L rnais vasca, a cio bloqueio, do
campo dr: batalhtt... Toda a organização técnica do terreno é necessária e cerco, isto é, das estratégias de inanição. A guet ra econômic;i que assola
se forem precisos 200 mil homens para realiz:i-la, o governo 11 egociar:í atualmente a Terra é cio-somente a fi,se lenta da guerra declarada, de
com seus aliados... " "Há países como a lt:ília ou Portugal com reservas um assalco rápido e brevt: por vir, porque é ela. que perperna, na não-
admi ráveis de homens ... Os recrutamentos que a guerra exige passariam bacalha, o poderio mtlitat como poder ele classe. A casca dos caçadores/
até desapercebidos", escreveu um co missário, em outubro de 1916. Os raziadores sempre foi improdutiva, apesat de abastecer seu g1upo de
alimentos. Sirnult;rncamente .10 desenvolvimento da ci2ncia das armas,
governos negociam e intercambiam prontamente seu planeei de crnb.l-
lh;idores, gabando "sua resistência às baixas temperaturas, sua sobrie- ela nunca descuidou dos métodos de inanição, do que hoje se chama
dade e resistência no trabalho"; eles se abastecem, em grande medida,
nas possessões coloniais, de crioulos e negros do Senegal, de trabalha- 1. Pierre Nord, Drwhll' aiml' sur lfl Ltgm: Maginot.

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de jàod power. Assim, quando Veneza, essa nação fl utuante, ess,1 p:írria indígenas haviam aprendi~~ a se organizar mihrarmenre no, Oeste'. quanr~
onde nunca se punha "os pés em cerra", deixa de ser a primeira potência ·os saréli res coloniai~. eles colaborav;1m com ,t politica g1cg;1. Foi
aos ou e1 • • , •
econômica e marítima devido ao descobrimento da América e ;\ nova então que Ace,rns renunciou ao seu sistema de .penetração exrens1~0 (rapt-
política atlântica da Europa, logo ela se volc:i, premonitoriamente, para do) ara adorar um sistema de penet1ação intensivo (lento); os engapmen~os
o interior, para o potencial agrário e ,1 propriedade do so lo, porque sabe mili~ares 110 interior foram substirnídos pela revoga.ção das ec? no1111as
que a perda do sea pmuer represe nca a ameaça i111 ecliat:.1 de te r de se . cu ritis do interior {reforma agrária, urbanização. criação de oficinas e de
submeter ao food power: sempre a lei das chws huma1udades. Também 11,l . b . d' '
fábricas, etc.). As corujas" de AtcnflS cspalh,ldas por toda ;1 ac1a. me 1terra-
os Estados Unidos, depois de seu pri mci ro insucesso 110 processo de nea, desabando sobie as econo mias das grandes cidades, criaram uma cal
conquista in tensiva, dos anos 30 (o "declarar a paz ao mundo"), levam inílação nas trocas que Foi furai para o equ ilíbrio de Esparta, em_parricubr,
hoje uma guerra impiedosa contra ,l Europa Verde (c:impan ha co ntra que optara pela solução oposta. a preservação do aparelho do Estado 1~ela
os camponeses, aquisição das indl'.1strtas alirnen cíc1as, guei ra da co lza, anulação do movimento (milirar/monerfoo).' A1istórcles escreveu o epirá-
etc.). É justamente a ''futilidade d,l riqueza" que funda a conquista. A fio do sistema de Licurgo· "O objetivo essencial de todo sistema social deve
política americana dó d6lai não passa de um dos signos do crescimento ser organizar a inscirnição milit.:ir como todf.ls rzs outras." Em Esparta, acon-
intensivo do poderio militar ;uneri cano momentaneame nte despojado teceu o contrário. Na primeir:.i democracia helênica encontram-se já reunidos
de seu crescimento extensivo pelo fracasso no Vietnã e o status q 110 nuclear; a maioria dos grandes temas cio Ocidente, exceto o principal: a mobi lidade.
mas convém também admirar a rapidez com que os E~t:idos Unid os Apesar de ter sacrificado tudo p,1ra fazer do Estado uma máquina de guerra
souberam substituir os bomb;1rdeios geoestr,ttégicos sobre o Vietn:í do exclusiva, a cvencualidade de sua colocação em movimento por um conflito
Norte (destruição sistemática da flora, da f..lll na, do meio rural. .. } por real p:irec,a temível aos lacedemônios, como se os azares e as incercezas da
um impressionante abandono de material tecnológico no momento baralha pudessem quebrar sua extremamente precisa mecân ica mi litar./4
mesmo em que se retiravam apressadamente , transforrnando seus Já se disse cios esparranos que eles foram um povo sem história,
adversários em seu melhor cliente, como deixam tr:rnsp;1rccer :is rece nces que foram , na rea lidade, um povo que, por sua hostilid ade a qualq uer
decbrações de Giap .2 Métodos dromol6gicos imemori::iis: no século forma de metamorfose conscicucio nal, recusou a Históri a como referência
XVII, quando Colberr lança sua política econômica com a inte nção de cinética de sua existência. Primeiro não se voltando para o mar e seus
fomencar uma "riqueza nacional", ·'um produto nacional ''. ele prepara impérios veiculares, isolando-se assim do conjunto d.ts cidades helénicas
o esforço de guerrn de Louvais ''cuidando de ger:ir necess id,1des", de- para se instalar no coração da Grécia e colonizar os messênios. gregos
sencadeando em seus vizinhos, segundo S.ir Wi ll iam Temple, "o consu-
mo prodigioso de seus t5o numero~os produtos".
' Co ruj:1~ Ji: Arcn;i~ - mo<:d,1 d,1 G1t.:ci:1 An t1g:.1, .1s~im chan1.1d:1 porque rr,1z r.1 :1
Louvais inspirava-se diretam ente na prolerariz;1.çJo ronu na par.1 esr:impa de 11ma corup, cm homenagem a P:rh, Arern~. (N. do T.)
seus canteiros de obra da guerra. Co lberr, por sua vez, reprod uzia o 3. Espa1 t.1 cqu rpmHc com vise.,~ i1 rc:i liz;ição d e seu rour dl' fim~~ " Niío l~º?.:da-
sistema eco nômico ateniense que acabara de srruindo o poderio mos nos forr:ir a drsccrn rr nc~ça .1d.1pt.1ç;in algo além d e urna evoluçao :111rom.1nca A
maneira m etó dica <: rcn:1L com q ue r11do foi oricn1.1do p;i ra um o b1 crivo 1í nr co no~
lacedemô nio: como escreveu Lyautey, em 190 l, "a tática de penetraç~o obriga a ver aí a 111tervcnção de um ordenador c.o n~cícnre: 11 r.xistém.í11 de um º'.' ~o:J
econômica equivale perfeitamente a todas aquelas ensinadas na Escob de homens rrabalh:rndo 1111111.1 mcçma di reç:ío e q ue rran1form.1ra111 a~ inscit11rçõe~ pnm,ri-
vas p:ira fúer dei.is o agogê e o Co~mo., , i:, uma 111pore~e
· · ,. ·•·•o··
nece~~arra. ic G r·undl:i••c.:n
·o
Guerra" ... A expansão dromocrárica da Grécia chegara, ra111bém ela, a ser
des spa rtani schen Lebcns " M . 1~ Níb;o11 rm K/io, vol ume XI I. .
bloqueada em rodos os sentidos pelos status quo militares: os bárbaros , c.1m111. 110 o1)Snn;ic
. 1o 11nr on de envercdou n:i encruz1-.
4 . Esparra p:1go11 o preço uo
, 11no b r1t:it1.:r
li1atI a <lc rumo1 do séculu V I ll a .e. ,co n J cn,11HJo-sc ,1 1 1 1. 10 ,·écu lo VI,I np1t-
l
os outro, 1e c nns
scn t:i ndo arm,1s como um ~oldndo no <lc~file no 1110111c11 ro em que · . 'r·~
2 . Agosro J c 1977. o~ parlamentares americanos aprovn r11 ,1 conce,,,ío de c1éd1w, . .· 'iific:invos e1:i 111sro 1..
t()rnrwnm n p11rtir em um d os m11v1menw1 p11m n fi'<'11/c! 111:11, 51 ~ 1 , • •
do Banco M undi:11 p:u:1 o Vietn:í, mas rambém par:i o C:imboj,1 e p;ir:i Angol.1. helênica. Arnold Toynbcc, \¼.r anti Civilnzation. Oxfo rd Un ,vers 1ry [rcss.

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70
como eles. Depois, eludindo durante quase dois séculos, a parci r da e;attL e positivo da hisc6ria terra emergido no s~culo ~V[ ll ; s,ó te~ia
experiência de Licmgo, as conseqüé11á1s de seu poderio militar, ao fornecido 111:itcri:11 p:ira obras i111po1 c:intes a p.lrnr do ,ec_ulo XIX, e eira
esquivar-se das seq üelas de suas vicórias. E sed justamente a vitória 0
exemplo de um grupo de eruditos, jnristm, cm sua rnmona. que propõe,
sobre Atenas que subverted a pcrfciçfo do Escado militar espart:1 110: "A na rnecade do sécu lo XV!, segundo a expres~fo de um deles , La
época em que a Lacedemô111a sofreu os pnmeiro~ sintomas de su,1 doenç;1 Popeliniere, uma "idé i.l da hisró11:1 pe1 feira". Na me~rna épc~ca, o~ novos
social coi ncide com o momento em que ela abateu o [mpério ateniense Escndos europeus rend iam a resubelecer entre eles a noçao de guerra
e se apodero u de seus metais preciosos ... "(Plurnrco, Vidcl de Agis). legítima, leg:dista mesmo (à maneirn romana, Tiro Lívio, J. 32, 5-J 5)
O que as armas não tinham conseguido fozer, a guerra econôrni..:a A idea lidade histórica do Estado se desprende no mo111e11 to em que a
conseguira, e o dilema do status quo, do não-cngajamenco militar, est;1va própria guerra renasce sob fo1 mas ideais e, devido il central i1,açfo,
resolvido de urna vez. por rodas, não somente para o mundo n1editer1;1- distiiiaue-se tecnicamen cc d,t 1,imples exped ição punitiva e afast,1-se
::, • . 1
11eo corno para o mundo ocidental futuro de uma vez por todas. dos compromissos locai~ para se reaproximar de u111 conceito o rigina
Depois do desmoronamento da máquina imóvel de Licu rgo res ta- rigoroso. Com efeito, a história progride na velocidade do sistema de
va, na metade do século 111, apenas uma centena de espartanos propri- arnrnmencos . No final do século XV ela ai nda é, para Commynes\
edrios de parcelas do Estado. O resto d,1 popubção, segundo Plutarco. uma lembrança estável, um modelo a reproduzir; os ana is s5o sazonais,
transformara-se numa multid ão miser,ível e sem qualquer estatuto legal, como a guerra. recomando todos os anos, na primavera; o tempo linear
massa social a quem o Estado militar não ensinara a viver sen:io par.1 é eliminado, como j;í acomecia com a fortaleza antiga, onde "o 1111mi-
uma guerra que não ocorreria mais, e que j,1 não sabia mais o que fazer go-tempo" era vencido peh resiscência esr:í.tin do material de constru-
de sua existência. Quando o próprio Esrnclo passou a viver apenas do~ ção, pela du raç:ío . A criação histórica co111eça .1 func io nar também à
sonhos do passado, da sob revivência de :ilguns costumes s.1dicos, rodo maneira das antigas máquinas de guerra q ue executavam seus movi-
o mundo espartano ::ifunclou na :inomia. mentos destrutivos no próprio local, mesm o depois da invenção das
O Ocidente repete, incessa11cemente, a ltç:io de Plur:irco, "obede- bestas e das catapultas (poi volta de 405. 110 cerco de Motz,l} . Se Hegel
cendo a um.l lei que nem mesmo conhece m,1s que poderia iecita.r dor- "se aborrece com a lcimra de Tico Uv,o, ao vê-lo repetir uma boa centena
mindo": o est'tlcionarnento é a morte aparece- lhe efeti vamente como a lei de vezes os relatos elas baralhas contra os Volcos", contentando-se, às
gerai do Mundo. O dromocraca sufoca incansavelmente o democrata d:. vezes, em dizer "naquele ano houve u111:1 guerra vitoriosa contra os
revoluç:'ío original de L1curgo ... de Mao. Basta ouvir os discursos co ,- Volcos", lamentando ainda o "c:idcer abscraro" dessa reprcsentaç:10. é
rentes dos novos d irigentes chi neses fo lando fi e "be ns de consumo" gue o contet'rdo histórico é litera lmente o de um co mu nicado
para saber que o velho pens,ldor s6 conseguiu retard:ir a instauração cio (comparável ao que representam, no sécu lo XIX, a monócona 111inúc1,1
temível sistema de crescjmento intensivo do Ocidente na China , dos relatórios da po lícia secreta para uma sociolog1:1 que começa a se
veicu lado pouco irnporca se pelo marxismo ortodoxo ou pelo liberalismo! expandir na massa, as primeiras efemérides das sociedades planejad,1:5) ,
Da mesma forma, Hitler só pôde dese ncadear a g uerra-relâm pago Trata-se de obras mais prfocas, ali ás, do que Hegel imaginava, e se Tito
vale ndo-se do sistema econômico do doutor Schachr, e .Roosevelt, a. Lívio retoma inca nsavelme nte :1 lirania d.e seus comentários\ é que a
guerra total, graças ao New Deal.
O estacionamento é a morte, lei geral do mundo· o Estado-forta- ·
• Colllmynes 011 C,)m111111es, P 111·1·1ppc J e I.1 CI yrc, cro111sra
· · 111srnn
' ·co fáncês
· · que
·
v,vcu no, século ~ XV e XVI. :1uror d e M enu11res, · . d o~ 1cin1dm
º · 1·,vm ,111c t1:ir.t · de Luís
leza, seu poder e suas leis estão nos locais de grande circulação . Georges
XI e Ch.1 rb VIII . (N. dn T.)
Huppert, 11un1 livro recente 5, ataca a idéia segundo a qua l o sentido . , . mec'i n,ca do rr:111,c e .1
6 . Anrcs <l a 111scóri:1-pocma cn1 c.1ncu ,rnncu, cx,;rc :i •
. . . _ . · hJ, " N~o somos gucr-
pers1Hcnc1a de , u.1, cu rc,1~ mvocaçocs t[llL cri:1111 a un,1111mJC · "· ,
5. Gt'.orgc, Hupperr, L'idéc de !'hmoire przr.fute. Flamma11011 . 1973. •
rci ro~ mas, de n:pcnte, acrcdir:1 1110, se-los e a gucrr.1 começa'· " {Lci1 is).
·
E este cam-

72
73
repetrçao era então o meio comum de se atingir campos mais vastos, Grécia antiga ou os hordjs • argelino~ O papel feudal é semicolonial
um projeto c:m 1...urso. o mateti,il de con~truç:io do rel:ico so podendo pois disc111gue perferramenre o dornímo drt "rr11 acr:i.vés d.t ocupação
funcionar quando repetido cem vezes, porciue a0 ser repeticlo , eli mina- 111 iJirar de sua propriedade fimdíária por p:uce cio autóctone. ?ara o
va os azares e fazia d:i Razão nas histórias uma máquina de guerra empe- Estado drornocrdtico, o domínio da terra jd é o domínio rle s11ar dimensões.
nhada em nela desdobrar sua~ figuras por duplicação Era natural, O direico caclasrr.11 antigo não perpetuav:i. outra coisa, como escreve
igualmeme, que no momento cm que a amlha ria e a vi;1ção mili t.ir se 0 coronel B:i.rrader, l.'Lll Fossaturn AFwre: "A formação de cenct.'rrias é o
transformavam, norndamc:nre com Su lly, elll parte do sistema do Est:1- fundamenro mesmo da educação d.1s massas, de su:1 civi lização.'' ... "a
do. a linguagem histórica li teral111enre passa do comparati11n :10 positivo, marc:i indelével de uma tomacl,1 de posse que divide pam dominar.. .''
isco é, sem compttmçrto de mtawd11de! O acesso à história rorna-sc aces~o Esta dicocomi:i indelével é a guc existe entre a nnturez:1 do poder/mover
ao movimenco, resu lcado longínquo do :icesso ,10 poder d ,1queles "errantes do invasor e a relativa impotência de se mexer, de se deslocar, do pro-
dos confins, vadios do Apocalipse, vivendo sem preocupações maccnais prietário fundiário ou do cr:1balh:1dor/produror sedendrio preso à sua
à beira de seus ab ismos civilizados" (J. Gracg), daqueles povos que apa- parcela, entre a geogrnfi,1 do habirnnte e a geometria do passnnce. O
recem e desaparecem nas fronteiras do Império rom:ino, "zombando da traçado da via romann, durante a 111a101 p:1rte do tempo, é apenas um
guerra" e aos qunis, .1cresce11ta Tito Lívio, não era possível cl:iramentc se traço co ntínuo , reservado, do e~quema geral ele cenruri,1ç:iu . É rudo
impor. No início de nossa ern, ess:1s elites dromocr ..íticas vindas d :i. muir.o simples, portnnro . O Estado militar está na estrada; o pagamento
Germânia, das margens do Danübio ou alh ures, avanç:im fina lmente do imposto cadastral é avaliado por metro percorríve l e, porcanco,
sobre a Europa Ocidemal. Repentinnmente, não é mais a força que cria defensável, poder-se-ia dizer. pelo exército, pela tropa de cavaleíros,
o direito mas a invasão, o poder/invad ir. À hierarquia do reiclc, nascirla "essa povoação de luxo". A função se111icolon 1al sempre foi uma extor-
sobre o itinerá rio do êxodo desenfreado da multidiio de caçadores/ são p.lra dar p roteção onde :1 segurança da massa produrora é garantida
raziadores, segue-se o prorocolo da parada e da divisão. Quando esse pelo tributo, pela recribuiçiío de uma supervisfo técnica eficaz do
poder dromocdcico se ancora abusiYamente no território europeu, ele terr irório. Do mesmo modo, a administração carolíngea sed uma
não mud a, durante ,1lgu111 tempo, a natureza de seu esquem,1 constiru- "admi nistração que cav;tlga" por conra de um Estado d romocdcico pouco
cional e, sob su,t aparência dispersn, a organização eh sociedade feudal interessado em subverter sua conscicuiçáo interna . fundar direicos
continu ará se ndo a de uma tropa em marcha . "As re lações entre os fundiários heredic:írios, ou mesmo em :1rnpl1ar os domínios rea i~. exceco,
diversos senhores eram precisameme definidas e. apcsnr das negocia- precisamente, ao longo dos gr:indes vetores (a Mosela, por exemplo}.
ções e das disputas, guando um:i. guerra importante ou u111,1 c111zad.1 Ali resicle "naturalmente" su:i morfologia, procurando meter a mão em
reunia essa gente sempre arm:1d;1, cad,1 cavaleiro sabia exatamente onde rodos os meios de comunicação , na ideologia religiosa , moed:i, saber,
se co locar." A disrribuição hierárquica já é unia ordem de percurso , e a comércio exterior, meios de transporte e de informação, etc.
ordenaç:io do território, um teatro de operações. A :i.rguiteru ra das casas Os capitulares carolíngeos ,iconselh:1111 aos "senhores da terra" ins·
de comando desempenhn o mesmo papel que as cidadelas cess;.í licas d:1. talados nas :i.ntígas vzllm rom:111.1s, pouco :i pouco rransfonn::icl:is pelo
uso em casas de comando, gue li mitem o cultivo e tratem de preparar
bém o ubjerivo do preparo psicológico do~ corpos de dire, das reunicíc~ pnlíriça,, da~ a ali ançn dos pequenos e médios propnetários au tóctones, e :ué mesmo
ccrim,1nia~ mili tares ... lnvcrs~mentc, as aurnriclades csparrnn~~ dt•srncor.1j,1m os habiwn- que lhes conced:i.m um cerco direiro de defesa mi lirar local. A dominação
rcs loca,~ de cu ltivar o c1nro, "esra arte que, como observ:1 Toynbcc, rem porém t:rnta~
do conjunto terricorr:i l pelo ocup,rnte do donjon (torreão fortificado,
:1.f.nid.1de., co m ,1 do soldado, a punco de se r considerada co1110 a mel hor piq,ara~.fo para
:1 form.1ç:io 111il1r:1.r 110 mundo ocidcnr,1J moderno" Mas era cgu.1l111encc proibido .ios
do brim tfominus, sen hor) é ai11d:i .1men izacfa pel:1 precariedade dos
c,p,1rranos husca1 recorde, nos grandes jogos .,tléricos p:111-helên 1co, - cm ,um:i, quJlq u,!t
.1lusiío :1 uma p1ogre~~fo c1nérica er,1 eliminada da comrir11 içiío ~ Bord;s • consrruções fomfic:1da~ 11.1 Áfric.1do N,)1te. (N. do T.)

74 75
111eios materiais daquela que 11:io passa de urna minoria mil,rar dispersa - , c0 conn num livro de memóri.1s que: su,1 primeira câmara escura
e escrangeira, adscrita, porrnnto, a um controle limitado cio cspac,.o e fotograr, . . . . . -
era u1n"~ fresca lummosa em sua .1and:1 fechada. Nesse senndo, o torreao
das sociedades, ~ solicitação de uma concnbuiçáo por parcc do corpo forcificado original desempenha o papel da cronofocografra de _M:trey: a
social autóctone. Foi também por razões de segurança que os nobres ronda mílirar oferece ao invasor uma visão conscame do mt:10 soc1;.-il,
francos preferir:1111, :urn: a co111plex1d.1de impenetdvel da c1d.1de ongrnal,
wi,a primeira mformação sobre o meio. .
a cranspJrência de um campo povoado, e logo superpovo:ido, de traba- A prerrogativa social forma-se a pamr d~ ponto ~e- vista a~tes de
lhadores mais ou menos independentes, ocupados in1cial111e11te cm vas- se ligar à da fortuna ou do nascimenro, a parm da pos1?ªº rdanva q~1e
ros trab:tlhos de cultivo e: depois na conservaçJo do meio circund ante. se consegue ocupar e depois organiza, num espaço dor1:111a:1do ~s traJe-
Além disso, porém, a transparhtc11t da drea cultivada e: a 111:tnuten\·:io c6rias do movimento, os pontos estratégicos de com un1caçao: no, mar,
do direito específico do invasor sobre o cerriróno onde pretende ~e estrada, ponce. Daí aquela exrraordin:\ria diversi~ade nos cr icamenr_os
fixar, de seu poder de prncrração. Erguer o ouce1ro, e depois, o rorreão sociais na Idade Média, diversidade que traduz s1111plesmen ,e a vane-
fortificado, corresponde ainda ao domínio das dimensões, esre se dade das visões geogdfrcas sobre um "reino" que, aré o stcuk Xl~. n_fo
tr:rnsformando em perspectiva, geometria do olh:u ,l partir cio ponto aparece nos cextos co mo um conjunto territon:d formal. O direito
fixo ubiqü1tário e não mais, como anterior111e11te, a p:trtir do itinerário heredid.rio, concedido a contragosto em 877 por Carlos-o- Calvo
sinótico dos cavaleiros. É significativo observar aí o culrivo d,1 terr:t
(Capitular de Kiersy), transformar:í a pos:e do l,ugar dorn_inant~ em
circunscrito a uma exploraçfo intensiva d.is parcelas desmatadas e não domínio social pennanence. Um exemplo celebre e o dos G11mald1, em
estendido aos ermos mais próximos através de um novo saira ~ freíite Mônaco: desde a pré-história, o rochedo dom in ando o mar é .un~ pon-
da aventura p1one1ra.7 Explicou-se este fenômeno de conten~iio por uma to privilegiado; ele mudar.í de mãos diversas vezes, na An r1gu1dade,
insuficiê ncia das técnicas :1grícolas, mas, ao q ue parec..e, é p reci~o ve1 anres de os Grimaldi astuciosamente ~ ... apoderarem dele. Do sécul o X
q ue nesse caso, alé m das necessidades ma teriais evidentes - caça, rn lera, em diante, essa família jamais deixad de auferir honras e privilégios
recolhimento de madeiras para construção numa floresta p16xi111a, et<.. dessa apropriação inicial de 11111 ponco de vista dominante. P,1ra se folar
- , pesavam mais as necessidades estratégicas imperiosas criacbs pelas encão de sociedade de classes, é preciso fazê-lo designando :-is classes
insuficiências técnicas do protetor militar que as do :igricu lcor ou do
por seu lugar, como esboçamos a11tc1 iormente. Se há lucas . ele classes,
desmarador, aos quais o senhor devia prestar assistência e socorro em elas se cravam abe1t:1111ence nos campos, visando a conquista di:: um
caso de perigo. Descobercas recentes desvendar,tm as relações exi~tenre!>
ponto dominante. Quando a cidadel_a_ 011 a fortaleza é s_ic_iada, não .se
entre os limites do roçado e os da visão humana a partir de um sítio trata apenas de um acontec1111e11ro md 1t:1r ou mesmo p~lic,co, mas sim
elevado. O pioneiro é chamado mai~ clar:imenrc ele pathfi11rler"' pelos de um acontecimento social. .. coníl,ros graves explodiam, por exem-
anglo-saxões. O roçado, o ab,1stcci111ento de hortaliças pelas parcelas, o
plo, quando a missão de proteção, os limites da apropriação milira1::
recuo da escuridão floresta l são, na verdade, a criação de um antep,iro
eram infringidos pelos vassalos, de 'luem os "sen hores da terra ·
militar como campo ele visão. um daqueles desertos fro nteiriços a que pretendiam tornar-se donos, isto é. reunir exclusivamente em suas mãos
se refere Jú lio César e que, segundo ele, representam a glória do Império
os dois cs'luem:ts de: apropriaçfo espac1,1l elo território, esp, ,liando o~
porque são como que invasão permanente d a cerni pelo olhar do
auróctones e tenta ndo reduzir seus descendenres à função de :,'rvt ca:,att,
dromocraca e, mais ainda, onde :.1 rapidez dessa visão privada 1dealmenre
ao destino de escravos arrendac:irios da parcela, mfo-de-ob, a privada
de obsdcu los faz com que o distmtetamento 11proxune... Um c..on hecido
de seu direi to de defesa militar.

7. George~ Duby, Cuerrh-rs1:tpnysnm, G:illirn:ml.


• f>athjimla. do inglês: b.m:dor, guia, explorado r de rocas. (N. do ·n

76 77
2

A<;salto aos veículos metabólicos

"N,ío pc11>t11.'"

FflHll i:ICO 11. ,1 S~ll ~ ,nld.1clos

A fase exrensiv:i elo Asdro exige morres dp1chs, :1 fa~e prep:1r:1tó-


ri:1 e 111tensiv,1 in fli ge morres lenras. Co mo escreve o rencnre-general
von Í\ [ecsch em Wic 1viirdt rtJ/ m,w· Krieg ausschm? dmante o, :i 11os 30:
"Na gue rr:1 que se cornou rotai. tudo é frrmt! M:is em meio ao novo
ftont tot,d, convén1 compreender n fiwu l'Sp1ntur1! tlri uaçrío... c:m to nas
que~tões pr:ític:is para a prepar:1ç:ío do 1earmamenro q u:i.nco nas ques-
tõe~ mil itares ceórios, :1 questão 111 01;1! esr:'t em pmneiro plano.''
Na~cid:1 do 111a1, ,1 gucira ror:il visa , segu nd o o al1111 r:rnre fnedr iLh
Ruge: "d estruir a hon ra , a idenndade, ,1 próp ri :i. alm:1 do advers:írio".
Atin gind o os povos com morte lenta pela desrruiç,ío de se u h:1bi rar, a,
for111:1s l'ilri111as d:1 guerra ecológic:1 n1oclel!la rero111,1m b1z,irr.u11enre ":1
alma" em su:is definições pn1111rivas , "erno logicas" "mana", subsc:\.nci,1
pote ncial n ão difore 11 c1a d:1 do me io , n :-io ind1v1clu :1 I rn :1s pl ur:il.
nrnlr1formc, "fluidiforrn e" , m:1i5 ou menos coagulada aqui ou ali 11 0~
corpos (soci .1is, ani111 :1i s, rerncori,1is .. ).
O progresso d ro mológico, ,\O impor .1 1déi:1 ele do1 ~ upo~ de co 1pos,
rnbudnos de s u ;1 51tuaç:10 110 espaço , 11npóe c:1m bém a idéia de do is
ripos de .tlma, uma5 f'r,1c 1s, ind ecis:i.s e vulncr:í.veis porci ue rribur:í ri:ts
" »
d e seu h ab1t:it, o utr.ts poderosas po rque: coloc.11.1111 seu 111a:1a , sua
vo 11t:1de, for:1 de :ilc,rnce, graças à ~ ll ,l dcsterriro1 ializ.;1ç:ío, .'1 sofisr1caç_ão
de sua economia e de seu ponto ele visr:1 . C l.wsewirz 11:10 d iz outra cois:i

79
quan do respon de a' pergunta: "O que e., :i guerra.>,, por a guerra e um
H '
cracionando engenhos, presença fan tas111agórica no rebco hist6rico de
ato de violência vis;indo submeter o adversário it nossa vomade''. N:ío uma população flutuante ligada à ~.uisfac,.ão das exigências da lu~íscica.
se pode excluir da guc.:rra o problema das VOll[ades, :1 111da que Cla usewitz Nos diferences domínios descricos no~ polípticos no século IX, na
mutile imediatamente sua definiç:fo e a derurpc apressando-~c em afirmar Europa ocidental, menciona-se a existência desses forwsej ..:uja massa
que não existe v1olên . . 1a mor,11 fora dos conceitos do Esrndo e da lei. jamais foi inferior a 16% da popu lação recenseada. São trabalhadores
Com efeiro, mais que objetivos de guerra políticos e inreligentes, m:1is migrantes indo de um núcleo populacional a outro sem que o cultivo
que riva lidades sociais ou nacionais, a definição de Cl:iusewirz J;Í s ugere das cerras e sua ocupação lhes seja concedida, execro na Germània e,
n crirtçâo da )rescnça no mundo" de corpos sem w11tr11Í1: Mais do que ralvez, na Champanha. Assim, esses excedentes sociais, tão parecidos a
com a arte da guerra, pens:i-se aq ui 11:1 "técnica dos corpos animais", esse "quarto mundo" dos subúrbios periféricos contemporâneos, nascem
dicotomia indelével entre o poder/mover do invaso1 e a 1elaciva diretamente do fenômeno de preservação estratégica de que se tratou
impocência dos reba n hos de rr:1bal hadore~ p:ira I iberrar seus anteriormente, do controle social feudal e depois, comunal.
rnovimc.:mos. lmpõe-se ao longo cb H 1st6ri:1, conforme as épocas e as Com efeito, o funcionamento orgânico da fortaleza só podia ser
lat itudes, a mu ltidão de corpos sem alma, 111ortos-v1vo:,, wmb1:., assegurado pela inspeção de seus l1111ices, das cifras sobre as populações
possuídos, etc. Impõe-se a destruiç:ío lenta do oponeme, do adversário, e das áreas de extens:ío. O cálculo estratégico se identifica com o cálculo
do prisio neiro, do escravo, economia d:1 v10lênci:1 militar equiparnndo escacístico. A forcalen, com suas entradas e saídas, é um primeiro es-
o planrel humano ao :imigo reb:mho ro ubado do c::1ç:idor/raz1ador e, quema do calculador estratégico . A fixação da sociedade armada da
por extensão, nas sociedade5 eu ropéias que se milicarizam, se modem i- Tdade M édi a implicava encão o desapareci men to de um habitat até
zam, a destruição dos corpo5 sem alma d:1s crianças, das mulheres, dos então concebido como comum, o desaparecimento do espaço civil, isto é,
homens de ou tras cores, dos prolednos. Na guerra total, o poder nazista do d ire iro ordinário das pessoas ao espaço, à sua qualificação. J:i não se
niio for:í o urr:1 cois:1 ao cria r um .fone social in terno contra os corpos pode mais falar de "sociedade de classes" sem pesquisar o esque m:1
estrangeiros dos judeus, do5 ciganos, elos eslavos . Os ctmpos de poliorcético da sociedade medieval, esta volta ao velho dihe, a Razão
deportados niio passam de locais de expcri 111en r.ição onde o planre l é seleciva subsciru índo o direito civi l pelo d ireito político, como na reflexão
tratado industrialmente. Exp loração nas minas, nos canteiros de obras aristocélic:i: "Os aristocratas buscam a p luralid ade das posições
logísticas, submissão a experiências médic:is, sociais, recuperação fo1al fortificadas. As acrópoles convêm aos regimes oligárquicos e os lugare~
das gorduras, dos ossos, dos cabelos.. . ou solução fi nal mais Feliz, valor planos, aos democracas." Como a po lítica é uma questão de terra, assisre-
de troca con tr:i outras fontes de energia, combustível, cam inhões e ve- se ent:ío a um verdadeiro corte do tempo e do espaço humanos que põe
ículos militares por meio ele países nemros, roda uma economia clássi- fim à naç;i.o de pax civife: os conflitos sociais nascem com as rivalidades
ca que é a do refém, do r:ipco, do desloc;m1c11 to, formas privilegiadas da entre os que ocupam e conservam urn ecossistema como o lugar que os
violência d romocrát1ca.
especifica como fam ília ou que os agrupa e merece pois todos os sacri-
A preciosa lição cios campos e dos gubgs não foi perce bida não só fíc ios, inclusive a morre st'.1b ita, porque se ''ser é habirnr", cm língua
porque foi abusivamen te :ipresencada
. como um fenôme no 1deol6,7ico
o ) germânica antiga o burm, o não-mo r:u, é não ser mais, e a morte imedi-
111:is também por parecer um fonômeno esdtico, um enclauwramen co. ata é preferível à morte lenta para quem não é mais aceito, o rejeirado,
S11;1 absoluta "desumanidade" er:1 apenas a reintrodução ostensiva do isto é, o homem privado de espaço específico e, porta11to, de identidade.
bestiário social originaJ na História, da mass:1 imensa dos corpos domés- Em su ma, a Idade Média das fortalezas su bstituiu o acolhimen to
ticos, dos corpos descon hecidos e irreconhecíveis. Efetivamenre, o que primitivo, a an t iga hospitalidade sagrada em razão de uma rejeição
é o proletariado, desde a Antiguidade, senão uma catego na de corpos social permanente como primeira necessidade para o funcionamen;o
1n reiramente do m esticados, classe ao mesmo cempo prolífica e de sua máquina de guerra. Para esta sociedade que se fecha, a repressao

80 81
legn l só pode ser c,o.1ç:ío à p;irtid:1, ;10 êxodo . ou scp. à de,rcrrirona-
lizaçfo como perda de identidade _ . tein 1,vc, J e, 'irrisório
- , c:ir 1c"b .lll, do
_
ai11d.1 pe11:1cho t: l'St,t11 dartc n ,1
. rern1in:ível rrociss:io cl:ts 1f/1J('l'/(1\ dr, gut'rrff. .
Üb c:x1.c:dc:11Les d c:;,.1parc..:cm no mo, 1111<.! lllü for.,.1du d.1 vugc: 11,,
,n O problcm:1 do :1 lo;a111enro p1 ovi.só1io d_es~e g11 o- n~l1~ucl1snto guer·
aqueles q ue a ordem poliorcécica reieJta em quanc1d:1de cad,1 vez 111:11or.
reiro se coloc:1v.1 colllo o da residencia p.1~:,:igeir:1 no hm,f~1c10, 110 laz.1rew.
tornam -se forças fís1c.1s em movimento cm lugar nenh um . cm 1011;1,
O nwn.isricismo rnilir.1r 1cspo 11de1.i com 111t11 t.1 prec'. u~ ,l :~~e prob!.:
não vi 3 r,1s, os incersrí.::10, n:íu 111cnsudvei~ do esquema escracég1co, nulll
ral como o 111011;1scic1smo reguLir respondera :.1 f1xaçao da g1ro-
movi merHo ro ler;1clo de peregri n;ições ,li risc;1<Ll~, cruzad;1s de cri,u1ças, ma. O . 1 . . ,
de geme pobre, de "gcnte vag,1bund,1 e sem p1oriss:10, wdos mendigos no111adl·.sn,o rní~tii...u 1.o rn .1 Lri,1ção
. do~ cl,11t:.llo5.. L:,c.1< o 11Herv1r,1
. e111
·d-
segu 1 ,1, , substituindo a cai id:i.de pública e os 1mposros locai:, como o
válido:.", pruibidus de pe111t,1neccr por 111:1is de 24 ho1;is no 111ccnor d.1 • _ . •
"frtmc snlé" pelos sistemas de ren~a, antes que a 1e11_rabd 1z,H,:ao d.1 torç:i
forraleza comu nal. c:xpul~o, ,1 chicote de outr,1, Lid:1cles. Os próprio~
de tr:ibalho dos excedemes soc1.11s se torne a sol uçau m:1 1s evidente, :t
cicad1no~ eram proibidos de .1bng.í-los sob pena de rnulc.1s. Essas gra11dcs
coaçfo ;\O u.1b:1lho fob nl precedendo de, pm~co :1 ~brig:iro1icd,~<!c do
111,grações rermin :iram com a Guerra dos Cem Anos A .1rti lha1i.1 escav:1
serviço militar, r elo mt:110:, 11.1 h.1n..,..1 Cu.iç.10 mu n o c::,pecd p que:
efotiv,1mence revol ucionando os dados do campo de b:1calh,1.
não devi.i .:itent.1r con tra as p1enogariva:, dus produrore:, 111 depe11de11re:,
M,1s .1 r,utir do scCLdo Xll .:i.umencou co11s1deravel111t"ntc a ,ntlu-
O cr:1ba lho fabril nJo pode escapar :1 dir.1dura do movimento; ele reperc-,
encia d0s meios monetárim, an unci;rndo também o fim do sratu, quo
em cadn loc1L o encc rrarncnco num ciclo ci néti_co torçaclo e ;ihsurdo,
medieval, esse cão enaltecido equilíbrio das organ izações polític:1 e
equiv:1lcndo ;1 morte lenta do excluído. Lembro-me de rer morado, h:í
111il1tar. O tr:tdic1011al sisrt:ma metliev.:i.l de serviço militai obrigacóno
cerca de t rinta anos , :Cs margen~ do Loire, perto de um hospital
dos v:issalos v111 ha acompanhado de 1etribuiçócs, e logo mais os c:1va lei ros
psiqui,ítrico provi ncial e, criança, ter me csp:111tado com _,1 visão de
recebe riam soldos. Por muico tempo ainda, o pesso:1! militar sed. esco-
coortes ele ,il ienados empurran do curin hos de 111 fo ;1cé o leno seco do
lh 1do preferencialmcnrc entre os f1d:1lgos, os caçulas d:1s famílias ser-
rio. Eram obrigados por seus guardi.'ies a enche- los de ,1re1a, empurd -
vi ndo, por exemplo, como p!lrticularcs e 1ecebcndo salários basea nte
los até m:tis longe, descarreg.í- los na água r:11:1. de po,~ recomeçar
elevados, :ité que as cx1gênci:.h ele recrutamento to111em excusas :1~ origem
1ncerminavelme11ce esta seqüência de 111 ov1111 encos :1berr;11ncs so b um
dos mercen;irio:.. Estrade, ros e depois m,1t:.Hnouros, Escarbonl.udão e
sol de ch umbo. De tempos em tempos, um desses mi ser:ive is se
Rinoceronce. descendentes dos :111ci-heró1s de Plauto, "inimigos co-
precipit,tva, urrando , no Loi1e ...
mum de toda .1 hu111anid,1de", cliz1a deles hócrates. Oh1cco~ 1tineranres
Do mesmo modo, no século XVI 1, por exemplo, o hospício d.i
de mercados e fei1a~, como o resto dos meeiro5, 511;1 cond1çiio. desde a
Charné de Tours reria, como muitos ourros, que 1cn u.11ciar pa1cialmente
Antiguidade, cm nada difere da do escravo que cm tempo de guerra
a suas ofi cinas de produção de seda ;111te as ~11ncaças dos produtores cl.1
podia ser emancipado e 111co1 por::ido co mo soldado. princ.ip1lment(' no
cidade, e acantonar os indigentes na dob,1gc111 e f1:.1ç:io dos fios de sed.1. ..
co mbate naval , que exigi ., um num ero signifícarivo de 111 anobr:1s
Na mesma époc:i., a corvéia 1111post:.1 ;,os cirnponcses foi 51g11if1ca·
111edn1cas coorde nad.1s, ao passo que o comb.itc: terrestre ainda era co n-
tiv;irnente ex p:1ndicla , pelo Estado. cio tran sporte dos mendigo~ :10 lios-
siderado assumo d e "homc n:, livres''. O prolc:tariado mi l1tar vê-se 1111s-
píc,o ou à derenç:i o. ao rransporrc da ge nte de guerra e do rr:ibalho
tu r:ido ao êxodo pcrm,111encc da mass;i móvel, d.1 qual é nnundo, as~im
forçado , cuja sorte tornava-se clor.tv;111tc p.ueCJda ._ lgualmen~:· essa
como o trabalhador mig1a11tc do si:culn XIX ou o trabal h:1do r cfa11des-
ci110 do 5~c ul o XX O esrrade1ro c1rcul.i , como seu nom e ind ica; e lt'
corvé ia res ultante do p;1cto de se n11 co lo n1n çiío rcu<bl era P um: 1
prolcta rizaç:io, uma mobiliz:1ç;io do rralialh,1dor camponê~ para ·1 ta refa
vive na escr::1da: esta é srn ôpllÇO de classe. Ele v1:1j:1 .1cd~ d.: ucu p:1ções , . 111.1s ra111ut"111
1og1sr1ca, 1. ,
a,,, a ba,xo
· na .1
con d 1ç.10
- ope1a11,., 1. Lu ís XJY dech- .
sazonai 5 , incerrns, cal como se r.í pinu1do po steriorm ence pc>J C,d lot,
ro11, cerco cl ia, a Co lberc: "Se queres s,1ber o que é cconoirna, vai ª
" capitrmo ele brtroni" . fanfarrfo, esfarrapado e mutilado, vagabundo
Flan d res; veras ' o quao rouco custaram .:is 101nnc.1ç
r L' • ·r.- . óes dos locais con-

82 83
quistados." O rei fazia ,1lusfo aos importantes trabalhos de aterro e ceder, a pagar o que devem, para que eles recomem a estrada. Essas
construção empreendidos por Louvois. Seguindo o exemp lo romano, ªrevo1cas de soldados co m obJ'etivos limitados vão . dc::~c::mpenhar entre-
ele confiara a execução das obras diretamente aos soldados, mas medi:1n- . · d
um papel importante na evo lução políti ca no I nre rior os
te pagamento irrisório e mantendo-os sob disciplina militar. Ao lado da ran to . d· - "b ·
._onjunros escacais porque ª. satisfação de Hi~s re~vrn 1caçoes conto ui
trajetória do migrante, há aquela dn migração da prolewrrzação mi.litar, recipitar o desenvolvimento dessa obngaçao marenal das popu-
confundindo-se ambas, freqúencemence, desde a Antiguidade. Garbn para P . " ~ d 1 "
lações laboriosas e produtivas para com essas povoaçoes e uxo que
co mpara essas estradas e esses mercados o nde se concentrava uma mão- antam os antigos senhores provinciais. O imposto, esu vassalagem
de-obra especializada com suas tribos e suas raças, à do cabo Tain,ue, ao sup J d " ·
econômica, é cobrado às vezes diretamente por solda os, um me10
sul do Peloponeso, poi exemplo. Mais carde, será a criação de um circuito
expeditivo, desaprovado por Colbert, que prescreve ao~ c~le~ores (esses
logístico original exigido pelo ,1umento do recrutamento d as forças de animais terríveis, como agora são chamados) usar de v10.lenc1a somente
trabalho an;icionais pelas comissões o u os condottm-i - a famosa estrada como último recurso". Assim, o tesouro público se capacita para melhor
espanhola comparável, segundo Parker, à trilha Ho-Chi-Minh. Ao longo manter exércitos permanentes, par,1 co nter as numerosas deserções co m
dess::is trajetórias, constroem-se abarracamen ros provisórios - os leitos a garantia de pagamentos regulares. Período mitiga~o em que'. co1~10
são fornecidos pelas comunas - , criam-se serviços de saúde perto dos mostra Clausew1cz, o ofício militar dificilmente se realiz.1 com o d1nbe1ro
asilos, necessários em razão das condições precárias de exis tencia desses dos cofres. As tropas de vagabundos são recrutadas em toda parte, em
miser:.iveis que escapav,1111 da detençao ou da prisão para corna,-se casa ou nos vizi nhos, sem se importar co m seu passado ou com sua
soldados. Até o século XIX, a caserna será um espaço hosp icaleiro onde origem. Muitos homens capacitados não tinham e~tão qualq_uer outra
as doenças venéreas e as epidemias corno o tifo farão mais estragos entre saída senão viver como avenru reiros, e até bandidos, dominando o
os so ldados que as batalhas e os feri mentos de guerra. Co111 os conflícos campo, "estafeta indo 3 frente, nada tendo que pagar sob re os ca mpos" ... *
de massa e de movimento, a morte por esgoramenco dos soldados de Mu ito j.1 se falou sobre a mecânica dos corpos do proledrio/solda-
infantaria tomará proporções espan rosas, segundo Cham l>ray. do desde Babeu F ou Engels, sobre a obrigatoriedade de servir na má-
Paralelamente, verifica r-se-á urna evo lu ção forçada dos as ilos que quina de guerra, de un1 número invari avelmente repetido de 111.rn obras
reco nstituirá a unidade do proletariado móvel, como constata o doutor coordenadas (cerca de dez para cada tiro de canhão disp::irado no século
Wasserchur em seu relatório de JO de junho de 1884 sobre o estado do XVIII, por exemplo). Investigaram-se, mais tarde, as co nd ições de
hospital de Sélescat, onde doentes militares e feridos de guerra ficavam existência do proletariado obreiro sem . como Engels, abandonar com
deitados lado a bdo com portadores de tifo, cancerosos e indigentes. isso o desprezo e a repulsa que cerca m, desde um tempo imemorial, a
As reivi ndicações sociais do proletan;1do mil1car permanecerão, massa móvel dos corpos sem vontade: o crabalhadoi colocado em liber-
por muito tempo. aquelas , vitais, de sua mera subsistência. Elas se dade vigiada pela lei Chapelier durante a revolução de 1789; o corpo
estendem aos soldos, à segurança do emprego, à assistência aos inváli- da muU,er, enclausurado, colocado no harém ou na casa "fechada" (de
dos e aci dentados (d e trabalho) . As rebe liões e revo ltas, embora tolerância), tendo seu sexo vendid o ou alugado e até mesmo aferrolhado,
freqüen tes, não são de grande envergad ura e visa m, em geral. os atrasos fonte de lucro para seu proprietário passageiro ... Corpos de "crianç~
de pagamento do soldo ... atrasos que chegavam, às vezes, a dez anos. abandonadas", objeto ideal parn adestramento; o "janízaro" (recruta) e
Os revoltosos se organizam mui tas vezes em grupos de combate au tô- arrancado ainda muito jovem das famíli as de escravos cristãos antes de
nomos, elegem um chefe (Electo espa nhol, Ambosatalemão, etc.) assistido ser pro letarizado militarmente. No século XV, as baralhas de Grandson
por um conselho democrático . E essas tropas proletárias re corn::im
imed iatamente à reivindicação inicia l, tentam se apoderar de uma praça
• Troca d"ll
, 10 erran cê~, cuia
• rima
· , 1: "esta fierre v cn~nc
e• ·mrra d 11z1vc • dev~nc, ne dcwanc
forte e aí se manter até que seus empregadores sejam tinalmen te obrigados rien payer sur l.:s champs". (N. do T.)

84 85
_ m·is também sobre o cinema espetacu lar onde se ,1ssisce ao sacrifí-
e de Morar moscram a 1mporr~nci:1 arribuíd:1, no exército suíço, :1. erc..., '·
cio de uma grande quantidade de animai!>. A esse respeito, é interes-
presença das crianças abandonadas que são lançadas na vanguarda da
sante citar a resposta de um palhaço, o "dublê" Dom1 nique Zardi , que
tropa par:1 enganar o adversário; elas não passam de pequenos
fora interpelado a esse respeito acr:ivés da seção de le1tores do france-
delinqüentes recolhidos nos subúrbt0s, miseráveis esr:1feras desnnados
Sotr sob o título "o calvário das fer,ls", publicada cm 16 de agosto de
a uma morre certa. Vauban, no século XVII, const:1ta ao voltar de uma
1977: "Os pequenos comediantes são colocados sob a mesm,1 111sígn1a
inspeção que o Reino é posto ern perigo ... "por essas praças force~ vigi-
(que os animais); eles também são cratados como 1nnãos in ferio ,es,
adas por guarnições formadas de companhias de cnanç;1s, de pobres
pequenos miseráveis que são arrancados vio lentameme de seu lar ou sacudidos, maltratados, rebaixados ... é verdade que sou 11111 baixin ho
que são escamoteados de cem maneiras diferenres". Como o r:ipto, o duro .. . o que fiz. animal algum ttria fc'ito; mas eJt jarnms fiz mal a um
animal, a urna criança nu a uma mulher, pois como se sabe isso é rnais ou
ládnapping, era um procedi111enco cLíssico do dromocrara, era normal
também que :1 revolução milirar de 89 coloc:1sse legalmente 0 menos a mesma cozsrt." O corpo privado de razão do dublê é equiparado
ao de outros ani mais domésticos, colocado sob a mesma insígnia; suas
proletariado infantil para trabal har.
performances profissionais são também equiparndas d1reta111e11te, neste
Em 1846, a Revue des deux mondes ass111aL1 gue na França, no de-
caso, às do animal por esse dicador do movime nco, o direto r. São co-
curso de um ano, 32 md c..rian<ras foram abandonadas , ou seja, uma em
nhecidos os tratamentos e cerimoniais que cercav,un, nas sociedades
cada trinra foi privada de estado civil, ou seja, de identidade. Georges
antigas, o casamenco da "mulher de carg,1", e que consis tiam na troca
Sanei, .ª quem isso comovia, rememora em François !e Champi 0
de animais entre as partes. Nos exércitos e nas polícias. subsistem pro-
procedimenro do abandono, quando a criança é confiada a um viajanre
que parte com ela em diligência e a aba ndona em pleno campo. Assim. letariados ani mais, cujo exemplo moderno é o uso recente de mam ífe-
ros marinhos, fora :i sobrevivência dos regimencos de cães adestrados
a perda da iden tidade pode ser comparada à exclusão de um gru j)O
geográfico, ou à co locação d a criança "que ainda não atingiu ;1 idade da para o combate de infantaria e dos serviços de higiene assegurados por
razão" em rnovimenro numa trajetória, numa estrada. essas "capitanias de garos" de que fala Malraux referindo-se à baralha de
Azincourc. Corpos-veículos dos cavalos comparados, na Idade Média, a
Persist~ ~qui a diferença entre o "liberal" e o "mecânico", o que é
projéteis, corpos dos elefantes-carros de assalto, bulldozer, tratores e
pura morric1dade, que deriva do maquinal e porranro pode ser
também os co1 pos dos bois, dos camelos, ou ainda, das mulas, espécie
executado, q uer pelos ignora ntes, quer pelos animais (Equicoh 95):
de veículo p.1ra rodos os terrenos. Q uanro aos pombos, esses animais
"Sendo a ~tividade manual cão ignóbil para a sociednde antropocêntrica
predadores, eles sfo meios de comunicação cup propriedade está
do renasc1me~to, quanto yarn a da l dade Média", observa Anchony
reservada a urna elite soc i.i.l, eh pr6pn;l predador,1: for.1m as prontas
Blunt em Arttsttc Thcory m !taly 1450-/600. Co m efeito, o corpo do
informações obcida~ por in re rm éd io desses pombos -co rreios que
~rab:i lh ador não é equipMável a urn modelo humano , e le próprio
permitiram a Jacques Coe u r* en riquecer ,1i nd a nuis no mercado
idea lmente composto, homem vitruviano*, essencialmente r:izoivel e
econômico, em especial no marítimo. Mas é impressionante observar,
harn_10_nioso fois contido nos círculos e n as grades da geometria
em seu hotel de Bomges, as mcdid:is cio imposto sobre o sal, verdadeiras
eu cl id1 a_na, s1m~ol,o_ de SL'.a superioridade social pois que esta é a
geornema da traJecona do invasor, do dominado r. manjedour,1s desti nadas a medir o imposto do plantel dos "trabalhado-
É curioso ver se instaurar atualmen te um debate sobre O trata-
mento gue se dá aos ani mais, seu abandono, sua exrínção, a vivissecção, • J:icques Coeu r (c. 1395- 145(,). R1e0 co merc1:111rc de flourge~ e rc,ourcir0 rea l de
Carlos VII. <lc~envnlvcu o comércio com o Lev:incc, perm ir1 ndo a consolid.1ç:ío cl.i
moeda e a criação d e um exército nac10n,1I. Acusado d e práricas de exrois:ío, fo i preso
' Virruvi:ino - referente a M:irco Poll10 Vímívio, :irqu 1rcro rom:ino do ~éw lo 1
Clll 1451 rn:is conscg111u fugir. foi pn,rcr101mcncc reabil1t:ido por Luís Xl. (N. do T.)
:i.C. (N. do T .)

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86
res/produtores" conforme a quantidade de ~ai que lhes era necessana roximação mai~ ou menos distanciada, noções de repartição.
1trllll ap
' d
como corpos/an imais subsi~tentes, literalmente o preço de seu suor, Mais carde, Archur Young, Chapeai e L;ivois1cr construíram seus qua ros
pois o movimento físico provoca um consumo de sal cinco vezes supe- escadsticos com b,\se 110 modelo indutivo dos c.1uadros de Yauban, mas
rior ao do corpo em repouso . Gandhi realizari;.i. na Índia uma ação de com a diferença que em dois terços das vezes _e_les levaram a erros de
envergadura contra os ingleses a respeito da taxação do sal, como cconomu1 previsão. Mais adiante, Moreau observa que _,is cifras de_Vaub:1;1 r_ori~am-
da vtolência e da morte Lenta mjligidrr ao povo coloniwdo pelo zm1r1sor se fáceis de en render po1 sua transfo~rnaçao _em rru:dulas m~ tncm ... A
ocidental. Mas a co nvicçfo mais difundida ai11d:1 hoje a respeito dos a lma 11 ,ª- 0 sobrevive mais e nãú preexiste mais ao desap:uec1menco de
corpos gir6vagos privados de identidade, desses mortos-v ivos, é gue seu corpo-veículo ou máguina, mas como Raifo porenci~I e, s~brewdo,
eles devem ser ocupados, habicados, possuídos por vonrndes alheias. É Razão científica, pode agi1 sob1e corpos estranhos, d1scanciados no
este o exato sen rido do "Nio pensai! " de Frederico 11. É significativo cempo e 11 0 espaço, corpos animais, cerriconais, vegetais, corpos sem
referir-se, a esse respeito, à desqualificação do querer entre certas vontade, corpos ainda não nascidos tornando-se corpos técnicos ou ob-
categorias sexuais, sociais ou raciais, à condição imposta aos descen- ·ews das técnicas. Eis a verdadeira dominação social, o besti,frio dos
dentes dos escravos negros nos Estados Unidos, seu combate pelos dzreitos Jengenhos. O cavalo de raça não age mais, · e1e e'"agi"do" por seu cwa1e1ro
.
civis, o direito de voto que é tão-somente o dzreito de querer do "homem graças à correia de transmissão da brida, aos aceleradores das esporas.
livre" e que não é concedido a corpos sem alma, nem mesmo na França, ou enrão ele toma o freio nos dentes, volta ao desconuolado, ao selva-
depois da lei de 27 de agosro de 1791 que vinha agravar a111da mais a gem ... ele se exprime!
tendência, exigindo que o eleitor fosse proprietdrio fundiário; semp re a A Razão (como na Bíblia) é par,1 o corpo, nesre caso, uma forma
incapacidade de decidir do corpo gir6vago, assim como o das mulhe- de sua morre. Significativamente, no início da idade Cl:issica, o espetá-
res, que encontrarão cama dificuldade para obter o direito de Yoto, de culo oferecido pelos dementes ou pelos í·ossessos esrava na moda, como
fazer parte do curioso universalismo republicano! ocorre hoje com os drogados. Investiga-se a desordem motora de suas
Aqui se observa a importância política e social da "razão do liberal" atitudes inexplidve1s e de seus discursos; sente-se que o possesso. como
(do mar livre à guerra livre), com respeito não à dcsrazão mas à ausênci a o animal, não sofre mesmo quando grita, fala ou se hment.1. Não c.ibe
pura e simp les de razão dos corpos dos ignorantes, relação fielmente pois apiedar-se de le. Daí o arsenal jud1ci{1rio e depois "médico" dos
reproduzida canto no organograma marxista guanco no capicalisra, a1 nda traramentos lJl fligido~ dia após dia a esses corpos sem alma por seus
que em grau menor... por algum tempo Com o advento do poder donos, seus carrascos, seus juízes ou seus médicos: que im aduras,
dromocrácico, assiste-se a uma espécie de perversão da transmigração picaduras, extração de unhas e remoção de cabelos na preparação para
primitiva: a alma, tornando-se rndividual, erans-formou-se em Razão, o eletrochoque. O corpo é uma casa vazia onde, se n:io romarmoç
ou seja, sede de uma regra de preparação preventiva de nossas ações, de cuidado, sucedem-se locatários perturbadores, uma casa que co nvém
nossos rnovimenros, e ,1té do conjunto de nossos destinos; não sem tornar desconfortável, e a psica náli se ,, inda hoje crabalb:i pracicamenre
resistir, aliás, àque la confusão entre o senso comum e a h1pócese com essas crenças sob a prerensão de um reco1no cio inconsciente à
geométrica dos espíritos superiores, os dos rnilirares Turenne e VaL1ban, expressão de um consciente razo;1vel. Mais do que casas, porém, esses
os de burgueses como Colbett, como observa Moreau de Jonnes em corpos são veículos metabólicos, e os pseudodemônios de que se. te_nra
seu État économique et social de la France de 1589 à 1715- a estatística livrá-los são antes de mais nada inteligências, rambém elas em mms ito,
é an ti pánca a nossos hábiros arraigados; a de Vauban, que tirou suas que ocupam abusivamente "o assento do motorista", uma vez m.iis à
conclusões numa base de 1 para 25.000, não poderia obrei nosso assen- maneira do cavaleiro que, montado no lombo de seu cavalo, e~pern cer
timento absoluto, mas na falta de qualq ue1 levanramento cadastral era assim "o motor à sua disposição" . As "inteligências" escr:inhas rnsuflam
inevitável recorrer a mérodos indnrivos para estabelecer, por meio ele um dtnam1smo invulgar aos corpos vagos, ordenando-lhes ge 5 ros ade-

89
88
prun:hias Mas j;í 11:io 5e11.1 est,1 a ª''.entura do rnonastic1~n~? mil1t,11,
quados A amiga merempsICose imaginav,1 uma pleror.1 de inteligências
cormando o corpo 1111st1co de Cnsro num c..nrpo de cxac1co. num.,
em busca de urn:1 macéna 111d1fcrenci,1da. Ll.1 sencia tf ll C o movimento cran Sr,
de cransm ,gração devia realizar-se de modo natur:11 , p:irtic 11 J,1rrnence ordem de march:i?
Muito anrcs dos piiatas, das tropas de ass,1lco, dos delinq üentes. o
pe,lo nascimenr? e _:i mor~e cm c1ualqucr c..orpo, criando assim, para
n,onge militar se compraz1.1 no ,irsenal da morte e do terror. De fato, ,e
alem das orgamzaçocs soc1a1s, uma espécie de igualdade física. Ourra
a milicanução das sociedades faz agor,1, de cada ci(l.ldão, um,1 máqum11
observ~ç:ío. q,uando o desmatador se tramforma em conq uistadoi, este
potenc'.al poenco da pop ul ação cede lug,1r a seu porcnc1al militar, a
de guerra, o monge soldado é, neste plano. um modelo ~ um 1~rccu_r~o1.
A reforma das grandes orde ns descin.1d.1s a sup11nw a g1rovag1a militar
t~ansm 1gr:ição poéuca das alma~ cede lugar à sua c..onquisrn, isto é, à
é uma revoluç:io considerhcl, pois ,1 '·solidão" do monge é estendida .1
viagem dos corpos e, porr:inro, à sua desterritonaliz,1<;io e desigualda-
de. Com a posse 1a10.1vel, o as.s,1lco ao vekulo metabólico é, literalmente, dos grupos arm.1clos 1mporcantes e ,1n,1c101uis. A instaur.1ç.:io do a~1tis1~10
mon:frquico 1)() seio da natu reza, do tempo, do espaço, d.1s organ1zaçoes
11 rn ª~? de pmit,rna. O douto1 O l1vemtein refere-se ~ psic:inilisc como
sociais e hum.mas que ele renega, a renúnci.1 aos gosros pessoais, à idt:n-
uma IIÍava~ca de penetração no psiquismo, a mais forte, a mais
1111 ~,ortante ... , sempre a referência inconsciente à violencia e ao di reito udade, prefiguram o n1ilismo da 1eliolução d.is técmcas de que fala
Heidegger. O monge, volunranamcnce ,1us<::ntc de si 1m:smo ao JUr:11
do_ poder/111vad1r", a mas técn1c.1.s mecâ111 cas. É multo prov.ível que os
si lêncio . castidade e. sob rerndo, obediência, torna-se vdw lo de seu
psiq~uatras russos que foram :icusados de v1olênc1,1 política por se us
"diretor" de consoênc1a, ess,1 co1reia de trammissão conducora d.1
:~nfrades 1eunido.s em Congresso, este ,1110, sepm afinal o.s nuis fiéis a
"01dem", espécie de " Raz:io'' superior e un1,ersal Como :.e sabe, o
et1ca de seu ofício. Ou nos prancam ,l rc:pressão e o trernamenco à maneira
monascic1s1110 é mais um:1 invenção militar que religiosa, encontrad.1
de Sk1nnc1, as curas de Sakol para drogados: "Eles já não se droga m,
mar- erram como sornbms" , co ns·r;ita a111t · 1a OI'1ve ns tc1n ... morro~-vivos em rodas as lamudes . Quando se desenvolve a noç:io de Estado ,
multiplicam-se s1111ultaneamente, desde a Antiguidade, as seicas mili -
sempre pronco~ a receber insólicos passageiros. A enccnaçfo so<.i.il do
t.1res. É natural que a concepção moderna do Estado, de Hegel, origine-
am.or humano e, ralvez, uma das denadeirns remariv,1s poéticas da alma
se na Prússia, ancigo domínio da Ordem Teutónica, secularizado em
fluida
d e- nca rnada aq ui o u ali , o desvebm enro brutal ' do <ato soc··t l .
1, , ,1
e uca~.10 sexual ou a pomograf1.1 como revelações térnicas, uma outra
1525 São cambé m os carbonári os que, co m s uas organizações em
"células", fornecerão um modelo para outros .,grupamentos revolucio-
n:a~eir:1 de mspec:ionar os corpo!. dos "ignorantes". o desdobramenro
logi,co do g1nás10 de esportes. A célebre cultura física "~ueca" sucede 0 nários, aqueles movi mcnros clandestinos que se corn:irão os eixos de
uma guena te rrorista sistemática na Rússia, poruidores de um niilismo
;im algarna moderno da estrada e do sexo, corpos 111011carlos ao sabor
perpémo muico semelh:inre à gue 1r,1 permanente movida peLl!> grandes
dos enconcros, col1sóe5 sexuais rap idamente esqtiec 1d,·1•, , carro:., motos
que se rouba, viol.1, ab:indona 1 ordens, pnmei10 contra os muçulmanos, depois, na Aménc:1, contra os
eslavos, ou con c1 a N:ipole5o, na Es!)anha , elll fo rm a de guerrilha ...
_ "A_ bo:i c?nduta'~ n~o é m:1 ,s II moml ensinada na escola p1'1blrca;
Dugesclin, mestre secrcro do Te lllplo Militai , t,1 mbé1n se destacara
.1gora sao as leis de tr:i ns1co cujo ensino torna-se obrigatório nas classes
nisso. 2 Do 11H·smo modo, puritanismo e industrialízaç:io progridem
juntos nos países anglo-s,n.óes e, com o internato 111dust1 i.11, o crabalh?
l. ·o homem é O Jl,1';.,gciro d.1 mulher e n~o ,nmcnrc quandn Jc ,cu n.i<ci ,nc,u,
fab1i l dos co rpos sem ;i lm .1 das c1i:111ç:is e das 111t1lheres t: redentor, pois
mas r:unb;.:111
~-
cm su.1s rcl.,çõt; scx uai, ... r~1.,fra~eand
' 1> ..,.,mue
e·, J B111 1
e,, pnc(er-sc-,a d ,z.cr ''
qu e :1 rune:1 é o meio , ()li(.;
. o macho encontrou de ,e reprod · · · ·
li/li. l~lll C, IJ.ll~I /Ili ,10
munJ.o.
. Nc,,c
, ,e nndo, .1 mulher . c o 1>rimeiro mero .Je rransporrc. l 1.1 c,pcc1L, , · seu . I (H M ) Cl:iir,•;111 x. Bibliorc·
2 Ver e,pecnlmenrc. M<!lll\Oç .Je \llrmmom ,rnt~- arne • · · . li
primeiro veiculo O segundo _ sena • a 111onr:1na com• o •·,copiam
• ento l 1e corpo~
. d'1,p:ue~ . d ., (' l i.; Gucwn cm ler1uc c11x
c.,s de ílesançon e de Ca rp<.n11·,1~. lo~ re r,e ,,1 nrrnva por ,-1 ~nc,s ' ·
, • 11:tdos p.1ra a m1gr.1çao. a v1.1gcm com um. Paul Vi,ilio• MCltnlfJJ)lllJt!
.1pard : j
t li /JIIS!t/tft•r
( ,j ,non~ de; M 1n1nr, m:1 10 de 1977 s ' li br:iire-ed ircu1. 1955, etc.

91
90
esses corpos 5:ÍO colocados cm movimento po1 almas razoáveis, almas fi e sua ciência nessa noçfo de a1ugud da ccrr,1. A força armada
de engc:nheiro e11carrcg,td,1~ de definir suas ,ltltudc.~, seus gestos. Arbcn seu es orço . corça de ocupado militar e é uesse pl:tno que o guene1ro
é rnpre um,1 ,, , 1 :l
macht frei; os campos de reeducação nazistas ou chi neses recuperam se . o p·1dre pervertido. Cu11osa111ente, a guerra tot.:t1 e, t cpo1s,
e~sa velha convicção c1 nética. arece com ' 1 . . 1 C
ap, o r1uclcar rendem ,1 aproximá-lo desse pape o11g1na . orn
catuS qu ' ' 1 ' ·
Nesses diferentes exemplos, o conquistador e o guerreiro assu- ºr,\o o pnnc1p10 da dissuas.10 não e apen.1~ uma fórmu .1 est~atcg1ca
mem uma função guc aparece como uma perversão da função do padre. e e1 , bérn o pagamento do aluguel da temi por seus hab1cances,
Para os Judeus-cristãos está tudo dito desde as primeiras páginas d,1 mas ram · · , d d fi do
1· • aJrnente de .lf!ll termo (limite e fim) Ü guc1re1ro ap.1n1 ,\, e I iC:tl~
Bíblia: o guerreiro é um padre pervertido. Com efeito, o primeiro assassinato tter Jo nuclear mundial, c:M:Í em c.ondi<,,ões de ex1g1r de popui.lçoes
gira em torno do modo de ocupação do solo produtivo, de su:t explor:i- o cerca aram' tod.1s mdígen,1s um alugue l exor b tt,rntc, d-ad·,1s as di-
ção e, sobretudo, do aluguel recebido em tioca poi Dem Deus .1eeira que se torn ' ~ · d ,. A f - d
mensóes alcançada~ "pelo metro percorrido, protegi ~ . un1,-,10 o
p1azerosamenre o sacrifício pago pelo pastor Abel e recus.1 o do agricul- 6i prorecor militar e coletor de impostos não é. pois, .1~solucame~.-
11er '
tor Caim. É diretamente em torno do alugll(:f da tnm que surge a ima- te lim1dvel ou, talvez mesmo , 'd i ent1 fiicave
, 1 com o '\omcrc10
- humano
. . •
gem do primeiro nut:idor de homen~. e ali também tudo é dito em A v1olaçao da hosp1t.1l1dade
1 mo o entende CLlllsewit1, por exemplo.
algumas linhas: o sofrrmmto do solo "abrindo sua boca' e pondo-se a ta eº
(divina) d:i terra pelo guerreiro ou pé o monge so ld ad o -o é a sua
I
na .
urrar ao beber sangue humano pela primeira vez, o corpo territorial .. - ca1)'1taliza,·"io de seu solo e de sua~ riquezas em nome de um
agu1s1çao, a • , 'y• d' s ·
capaz de se negar. (Ela não te dad mais seu fruto, diz Deus .. . seds um
Estad o d o q ual ,
ele seri:t O inscrumenro (.1 alavanca, como 11. amr-
. . , · 1 ~ Os
errante percorrendo e invad indo ,1 cerra.) Agricu llOr bruscamente
desremrorializado, o prime110 matador de homens é imediarnmence Juse.l) . É tudo isso como expansão indefinida .
da propr1a v10 aç.10.
AI . d nc,1-
andr1 conquistadores claramente rn11caram-n,1: e~.11_1 re conce
nomeado construtor de cidades (plebeu). ~ com avançar, cuidando ape1us de enco11tra~ mn Imute e, p~~rnnto,
A impordncia do padre (do mago), do patriarca, deve-se .\ sua um fim, para seu podei de penetração; se Fredc1 ico _II declar.1 que ve n_cer
cap,1cidade de escabdecer e re,tlizar e~se comercio de troe,, com o~ deu-
é avançar" , N·lpole-ao
, , 1 •~firma• que ·,nuerfimrlllr e 11ao pom11r A conquista , b
ses/natureza, de atenuar-lhes os cap1 ichos, as violências. É ele quem, é reduzida a busca, a façanha é o movimento. Napoleão m~ircr:i po re,
graças a seu empirismo científico, sabe fazer com que o S,lcrifíc10 e o como um monge-soldado, em seu pequeno un1f~rme 1..1111..:1 que. no
aluguel da terra sejam aceitos {ele co leta, fix:i e recebe o imposto; o campo de baralha, o disc111gui:1 de ~cus escados-111.1,or~~ e de se~is ~ene-
dízimo ou, hoJe em dia, o óbolo, siío remancscênc1as disso) Quando ~e rais engalmados e mcrc<:nários, realçando a~sim o cadter de5prendido que
cria um comércio de bens trocáveis com "o escrangc1ro" no licoral me- .
precend1,1 1mpnmir . ,1. ~ua aice 1111·1 1r.u. p.,1 dres pe1 vernclos, muçulma- . .
diterrâneo, é curioso ob~erv.11 gue a troca 5e d,í. de forma semelhante (e nos, crist.ios ou outros, de~e11vo Ivcn do .•1o 111e5mo temno r
c1ue o mferno ,,
me~mo hoJe, em certos povos nômades) Não h:í concaco físico ou o arsenal da guerra, m1sturanc1o a pobreza coin O ódio do mundo d e
mesmo visual entre as duas partes. A mercadoi ia é depos11,lda na prai,1, com a polínca bandna excrcid:i p1ec1same11te cm corno do 1.ipco e
na beira da estrada, onde o estrangeiro a recolhed .10 passar, deixando pessoas e dos s1srem.1s d e resgate, proteçao - soci·1I ' desemboc,111do d,1c1
no lugar o valor acercado e pamndo em segu ida. Ele passava como uma 'I . da pobreu cm poder 0
perversão da caridade: em :111x1 10 :l<J~ corpos, , .
sombra pelo território alheio, onde mal pousava os pés, como aquela1. dinheiro Isso cudo .1 t.11 ponto que. qu,rnl1o esse ·s grnn• dcs meca111smos
ai mas, aquelas vontades que habitam os recantos 1rw1s1ve1s ou inóspitos . .
de1xarcm de funcion:tr conven1encemence, P· 0 :i.pado romano dos monges
r e
do unive1so. Os entrepostos coloniais, os portos francos, reproduzem , d ·egur:inça m1 1ira
ruirá, arrastando comigo cambern ~eu sistema e s . 1, O mesmo se
ainda, a sua maneira, esse procedimento de troca fo1a das convenções de segurança social, .1 Inquisição e seu poder tempor.1 . u-rndo cive-
militares. Como vimos, o guerrei10, o matador dromocr.1ta e passa com os grantll's co nquista . d oies. .,... d se perderan1
J O os d q ' Assalro,

esn ucurador de cidades-encruzilhadas, concencra ao longo da história ram de renun1..iar à v10 1ação d as naçoes. - A gr:i nde1a to ª es 110

9.1
92
na dimcnsfo empresr.1d.1 pcl.1 d1stfocia. A guerra é o as~.1lto, porque a
gucrr,1 e: ,l viola1rão pc:rmanenrt da ho.sp1r.1lid.1de d.1 terra, .su .1 p1.nctr,1- 3
ção. Aqui , impõe-se 11ovamence o olh,tr sobre o velod111ecn.> do cano de
corrida, do bólido de com barc como medida ex1sr<.'ncial do guc1ri:iro,
escoamento vc1 cigino.so do tempo, imposco da rapidez sobre o metro
percorrido que anuína o habira11ce da terra 111.1s desrrói sirnulraneamente O fim do proletariado
.l subsr:ínc1a de seu conquistador e mede as ho1as que resr.1111 ao sobre-
vivcn rc . Em su m a, co mo no 1ero1 no do a nel topológico, seu
des.1parec1me11co depende d ,1 1esposc,1 que ele sabed dar, 110 esp,1ço t::
no tempo , à questão de Alexand 1e o Grande, ao pioblema de seus
limites:' A performance do irn,1sor se parece com ,1 de seu homólogo
· - pro1ett1rtt1
"P,1deu fi1ur 11m111m1,rr,1r110 , , mm a <011d1çiio dt· t711e ris 011tlílf dêem
espornvo, ,1q uele11 campeões olímpicos cujos reco1de11 prog1edi ram pri- ti 11rdem rle niio 11t1mr: sr vm jogam 011 LÍr1111 dotJ bara//Jíjr1 de r'll!rm dt· ,·,md,au,.,
me110 em hora.s gan h.1.s, depois em m1nuros, segundos, fr.1çóes de se- a revo/11ç11o prt>Íeuiria I' o 1111da 1111111 n11:srn,111m11..
gundo. Quanto mais rapidos e cornperir1vos eles se comam, mais AN11RF M,.1RAUX. Fncrcciem
irri sórios s~o os avanços que co nseguem , decect,1veis ,tpenas pela
eletrônic.1. O campeão algum dia de5,tparecei.í 1105 linmes de seu proprio
recorde. t..O mo j.í prenun cia a manip ulação bio lógica d e que ele é objeto,
Houve coincidência, com roda a cerceu. mas não há convergência
parecida com esses métodos de sobrevivência médica amficial gue se
concede aos monbundos. O engenho é também, para o drornom:rníaco, entre O progresso dromológico e o que se convenciono~1 chama~ de
uma prótese de sobrcv1da. É nor.ívcl que os primeiros veículos piogresso humano e social. O desdob1amenro pode se r ,1ss11n resum ido:
automot1vos, a zorra m il1rar de Joseph Cugnoc, em 177 l. por exern- Jº. Uma sociedade sem veículo tecnológico, na qua l a mul~er
p lu, sej:im movidos a vapor, siruando-se já como o l1m1Ce d:i dese mpenha O papel de espos:i logística , mãe da guerra e do cam1'.1hao.
2º. A submissão mdist1nta dos co rpos sem alma como ve,culos
mercmpsicose do corpo animal, etapa da e,olução h1scónca, da p:i11s.1-
gem do veíc.:ulo 111era ból1co pata o vdcuJo rc:c11 ológ1w, cuspi ndo 11 Lrn metaból 1cos. .
fum,1ça como um último :ilento, uma d errndcir.1 manifestação simbólica 3º. O império da velocid:ide e dos veículos rccnológ1~0~.
da potência moem dos w1pos vivos. 4º. Concorrência e depois derrota do veículo merabol1co para o
veículo recnológ1co terrestre.
Pode-se logicamente concluir com uma t'1lt11na ~ínc.~:
5". Fim da ditadura do proletariado e fim da H1stó na na guerra
do Tempo. . -
Se voltarmos :is definições de Goebbels e de Engels. •1 imenç.ao do
m1·t·1tante (revo 1uc1011.1no-oper,1no
· , ' • ou .1 1gu111 oucro) não · p10 l)ÓC - ape ,nas
uma figu 1a degradada do proletário-soldado A prolera_mação operan,t
é apenas uma fo rm a de milirnrização, uma forma provisón,1.
A partir de 191 4, a força mot111 e, po1ranro. po J'r' ·a do prolera-
1 1c.,
. · -
nado, J~ não dcix:wa ilusoes nos campos e ata "d b 111"' europeus. Em com-
3. Enconr, a-se a4ui. c.uve1.. u mJ d.1~ cau\a~ profu nd.1s d.1 opo~1ç,1<) c~p:i 1 r.111. 1 •
. , I . ~ de obr,ls da guerra
qu.1lq11cr forma de mob,licladc p.1ra a prcscrv~ç:io do ~iHcma de Licurgo
1 pensação, ela ainda era 111d1spensavc nos c:t nte110.
· ·,
Continental. A classe milic..ir, a quem ca b e vigia- :i, ' 1 vai co nceder-lhe

94
95
pois a ilusão de poder dominar, poder subverrer a fortaleza burguesa. comportamento dos chefes milirn1 es portugueses que voltara,~ a seu
Esta Já c:st,í arruinada, pe1furada por todos os lado~ pelo!> meios de país após uma longa e :,angrc:nta <..,unpanha de rcpressfo co.lon1al. De
comunicação ultra-rápidos, o rádio, o telefone. a televisão, condcnad,1 faro, com esses generais marxistas gue C unhal corteJa, ,1 ditadura do
por seus antigos defensores à destruiçfo instantânea graças à estratégia proletariado retoma seu ~en_tido mil itar inicial e eles consrar~m,. c~rno
anticidade da guerra total. Entrccanto, conheceremos mais tarde os técnicos da guerra, que se foram os tempos em que a energia c1net1e:1
lim 1tes dessa pcrmwão mílitctr, em Praga, Varsóvia, Beirute .. e também do proletariado domrnava a vida política após ter dom inado o campo
em Paris, em maio de 68, quando depois da tomada do Odéo11 o poder de batnlha, aqueles tempos em que, segundo Lenin, a classe opedria se
prevê o uso de blindados contra a revolta poplilar a qualquer momento. via repentinamente cercada de atenções e solicitações pelos próprios
No correr dos anos 20, é normal ver a "ameaça bolchevique" se capirnlistas. De ora em diante, o corpo animal do proletariado está
estender de Muniq ue às portas da Índia enquanto o governo francês desvalorizado, como acontece ra, antes dele, com os corpos das outras
imcia uma nova política de assistência social. lsso tudo se tornou neces- espécies domésticas. O fim da ditadura do proletariado é tão-somente
sário pelo remanejamento logístico das nações industnais-milirares na a versão comunista elas constatações feitas pelo exército fr:rncês, por
Europa e no mundo e, no entanco, codos se espantam ao descobnr, na exemplo, suprimindo o conselho de revisão (lei de 9 de julho de 1970)
parte XIII do preâmbulo do Tratado de Paz de Versalhes, que há e da~ que foram feitas em 1975, do lado liberal. pelos membros da
doravante "cond ições de ex istência para a classe operária que são in- Comissão Trilacerai, sobre a crise da democracia: "Chegamos ao reco-
compatíveis com a paz mundial. .. "; para "o equilíbrio das forças milirares nhecimento de gue, se há limites potencialmente desejáveis para o cres-
no mundo" seria uma fórmula mais apropriada! cimento econônuco, h á também limites potencialmente desejáveis para
É o novo amálgama que Jünger revela parcialm ente, um pouco a extensão indefinida da democracia." A crise das democracias liberais
majs tarde, em 1932, em seu ensaio Der Arbâter (figura do trabalha- representa o fim de 11111 tipo de mobi lização dos cidadãos. A
dor englobando o militar e o induscri:11), obra essa gue encon traria pseudo figura hisrórica central do produtor-dominante é descarta~a
uma vasta assistência e tornar-se-ia, rapidamente, um verdadei10 pro- simulcaneamence pelos dois grandes blocos ideológicos. O proletaria-
grama político parn os alemães .. . do/ operário é procl amado i mpresdvel ao mesmo cempo que o
Do mesmo modo, a Un ião da Esquerda será um engodo na med i- consumidor/produtor do mundo cnpi calista. A esse respeito, a experi-
da em que ela aré ac1ui se obstina em que, na expresssão do gener~I ência revolucionária do MFA era exemplar, pois pretendia transferir o
Cluseret, "o exército contlllua sendo uma incógn ita na equação social''. conjunto das forças da esq uerda portuguesa para um outro nível, o de
Ela só se fortaleceu, em suma, por seu silêncio sobre a questão mil 1car, uma "civilização do exé rcito" . Assirn, em 1975, o capitão de fragata
e é 1nevicável que se desagregue em corno do problema da Defesa nacional, Correia Jesuino, alçado a "ministro da Comunicaç:io Soci,11" (lembrn-
em gue se enfrentam os comunistas, adeptos desde sempre do modelo mos aqui a prolerariz.ação marícinu por M. de Valbele, anrigo capitão
marxista de proleta1ização milirnr, e os radicais e socialistas que, desde geral das galeras, sob Luís XIV), pinta os oficiais "de esquerda" como
maio de 1968, investem num socialismo "de face humana" capaz d e "etnólogos que escuda m um povo pnmítivo" porque, segundo ele, o
atrai r um eleitorado novo e um tanto despolitizado. Foi sob os auspícios povo português e.: subdesenvolvido. J.-F. Revel, ao tratar desse assu:1~o
dos generais portugueses do Movimento das Forças Armadas (MFA) no l'Express (14 de abril de 1975) , indicava que, sendo a renda media
que se anunciou "o fim da ditadura do proletariado" no Sul da Europa. do português comparável à do bretão ou do ga lês, :le ná.o vLa .º',1 de
Não é preciso ver nisso, como pretenderia Georges Marchais, uma boa residia aquele subdesenvo lvimento, Tudo isso, com efe1to, é mexplicavel
nova, um abrandamemo da vontade ideológica, com "a palavra ditad ura a partir de referências econôm icas se não se coloca em guest:ío wn ~e~sa-
provocando uma resso nância desagradável aos ouvidos desde a experi- tnento 1111·1·irar d romo10gLco
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' a' part1c1pa-
. . _
ênci:1 fascista". Náo se pode taxar, aliás, de humanismo exacerbado 0 ção de cada um no conjunto esraraJ, de problematizar essa pamcipaçao.

97
Igualmente, se o problema nuclear tende a faLer explodir a União da raiz e essência instituuonal do povo porque nele ,wsaram" , devemos
Esquerda, em J 977, e menos po1 cau:.a de uma guesrfo de megacons compreender que se trata :1Í do retorno a u m.1 situação bem anterior ao
que por uma questão de 11etores polit,cos do rt()tJO p ()ricr nuclear. Sem gue marxismo político , a uma nega ção do Estado-polis pe las forças
nos apercebêssemos, a arma nuclear modificou logicamente 11 constituição revolucionárias prolet:\nas. O jorn al Le Monde anunciava, em agosto de
política dos Estados 1t0 mundo. Co mo constata um JllrtSta: "É prec iso 1977, que o general Pinochet clim111 ar;.1 :1 D[NA, sua polícia política.
admitir que a arma nucle.ir revelou-se uma fo nte de direito consrirnci- em favor de uma po lícia m ilitar. As coisas se simplificam ... É
on:1! modificando nossa constituição efetiva." Aí também não é rnnto a efetivamente o fim do Esr:ido de democracia razoável q ue se articula
explosão ftn.il que conta na dissuasJo, e sim questões como as q ue são num processo aparrid:\rio em que os si ndicuos e os grupos mais
co locadas pelos artigos 5 e 15 da Consriruição france~a de 1958 ao disparatados e menos "socializados" são cha mados a desempenhar o
dirigente so li tário que se tornou chefe do Estado e dos Exércitos, o papel principal. Caminhamos para a explo:.;io dos sistemas de prod ução
presidente da Rep{1blica, respons:ivel pela integridade do território 11;1- nac10nais, assim como para a individuação sindical cal como existe nos
cional. A velocidade da decisão política depe nde da sofisticação dos Estados Unidos, por exemplo, onde o trabalho hum:1110 depe nde menos
vetores: co mo transportar a bomba? Com que velocidade? A bomba é da produtividade q ue do jogo de interesses envolvendo o mercado de
política, nos comprazemos em repetir. Ela é política não por uma máa-de-obra, permitindo, <.:um ,l I uptura da unidade de ação polítiLa,
explosão que não deveria se produzi r, mas por ser a última fo rma da rodas as manobras imagináveis, as mais dispersas, as mais selvagens, até
viação militar. o l11111te da próp1a sobrcv1vênc1,1 do~ vel hos Escados políticos. Assi m, o
Tanto a bu rgues 1;i política como os parttdos "revoluc1o náno.s" , fim da democraci a chilena foi prevista e orquestrada peb CIA e pela
:rnestesiados por um longo período de coexistência, de pleno emprego, ação exercida sobre o sistema vi:frio pelos si ndicatos dos c.unin honeiros,
pela euforia de um crescimento contínuo, estão verific,rndo. na E uro- das telecomunic,ições. etc. Mas o que pensa r da situação de falência das
pa, "que se pode fazer de tudo com uma baionet,1, menos senrar-se velhas for talezas u1 banas, da praça de Nova York, de Montreal? O jogo
sobre ela". A revo lução proletária passa agora, obrigatorum1ente, pelas sindical, subsriruído pelo Jogo das ;.issociações criminosas, tende a su-
revo luções da instituição militar no seio do aparelho constitucional do plant:tr aí cornplerarnente a administração e os serviços do antigo em -
Estado e, com efeito, os principais ,1tores que tomaram a iniciariva nesses pregador burgu ês. A o rd em reina no Bro nx graças à máfia qu e, ela
últimos anos não são mais os gr:mdes pamdos políticos e si m o exc::rciw. própri,1, se inte rn acionaliza, re11undo agora urna colaboração sem in-
os si n dicatos e até mesmo os si ndicatos dentro d os exércitos . É termediários com a classe milirnr, como revelou um recente esdndaJo
interessante observ:u aq ui o ca ráre1 anacional desses aco ntecirne nros colocando em q uestfo as relações existentes en rre generais israelenses e
porq ue se a C.F.D T. se lançou no apoio do si nd icalis mo mi litar. membros do gangsterismo in ternacional. Longe de um jogo po lítico--
propondo os "Estados-Gerais do Soldado", nos Est:idos UniJ os, a fo mos:1 mí litar que se descerrirorializa, desinteressando-se de qualq ue1 forma
central AFL-CTO declarou-se, na mesma ocas1fo, disposta a torn ar sob de fixação sedentária nacional ou outras. canco os pequenos del ingüentes
suas asas os sindicatos de soldados. Ocorre aqui algo de fun damen tal co mo as g ran des assoc iações criminosas ass iste m a um,1 singu lar
q ue ninguém aval ia claramente: est:í se criando um diá logo aparrid:\rio revalorização de seu artesa nato local. A classe militar, separ,lda cada vez
entre as fo rças do trabalho e a classe milirar no mundo e, a cu rto prazo, mais de seu [)areeiro burc,uês,
::, abandona a rua, a estrada. esses vetores
urna "latinização" da Europa muico p.trecida com a do conrinenrc s11 l- demodés, em favor das pequenas e médias empre~as da extorsão em troca
americano. Se o general Va rgas Priero, "considerado como um dos chefes de p roteção . Em Nova Yo rk, o~ s1ndi c:uos muni cipais rendem a
mais capazes e mais progressistas do exército peru::tno (Le Monde, 4 de substirni1 a atividade produtiva de seus membros pela simples gestão
novembro de 1975), declara numa entrevista recente que ''a vangua rd:-1 da c rise, torna nd o-se administradores e ba nqueiros. Na Itália,
autênrica da revolução peruana é constituída por su,1s forças armadas, multiplicam-se os assassi naras, os seq üestros, os crimes e os delitos. O s

98 99
interesses financeiros confundem-~e com os de uma multidão de concinu.1 :i se diverri, enormeme nte co m a foica de inkll maç:io e de
grupelhos dito~ revoluc1onár1os. A Jllstiça esta em crise, fala-se de ,1nal ise dm '·,1ntimilir.1rist.1s", an:il,sc esdric.1 em face ck ,eu porcnci.11
libertação dos povos e subtraem-se bilhões. A opinifo pública indigna- dinâmico .
se com o amálgama, mas essa potência criminosa que emerge da massa A resposra à5 fcsr.1ç ecofogicas do Larz:1c, à cragédia ck l\.blv11le, é
nada mais é senão o retorno de um:i rcivmdwtçrio política de descontiole :\ operrrçífo Demcter, nome cir.1do "da divmdade greg.1 que person1ficav,1
porque a velha etologia nacional os ideais soci:tis- toi nou-se subalterna a Terra" Por que c1 ;i precim que eles a ch.·unas~em D cmeter, que çc
e não mobiliza mais. c1presc11casse111 como ocupantes e domin,ulorcs do planer.1 1erra, gue
Podemos i11terp1era1 ent:io as vimas de surpres.1 de líderes políti - violentassem e d:rnificas~em o~ campo~ se n:io porque ,1 oper.1çfo L:trzac,
cos como March:iis e Chcvenement aos rrabalhadorc~ em seus cscric6rios o ma1ç i ngenuamence possível. pretendia p1 ivá-lo~ de su,1 função prin-
e fabricas, não como uma provocação ;10 p,Hronaw e ao poder, e ll im cipal. u poder/i nv.1cl11? Por que era preciw que, neste momento, os
como tentativas inconfessas de rerom,1d,1 d.1 ba~e pdos reprcscnt,\llces ",1111igos da terra" nve\sem perdido contato com ela e não tivessem
de ideologias revolucionárias de~valo, izadas. Enqu:111 to o Parcido Co- Jl1St,1~ente re~irndo? Sep como for, a cerm1nologi a uciliz:1cb por Jacques
mu~1st:1 ~racassava rotalmenre, em Portugal, n as su:ts cenr:1nvas opor- Tsnard no Le Monde de 9 de seccmbr0 ele 1977 faz sonhar: "Entre o
run1sras Jll11to :10~ c..hcfe5 militares, o PC fr,111cês, hesitante por um c(rm ino das colheic:15 e a abertura da remporada de caça, o exército dt
momento, pareci.1 se reap rox1m:u d as corajosas soluções italianas de tara 01 g.rniwu , nos confim tb Be.rncc e do Perchc, sua pi 1111eira mano-
Berf 111guer cujo famoso ''compromisso h1scónco' cem :tpenas o sentido bra cm rerreno livre, isw é, fora dns r1trndm e dos cmnmhor, numa região
de uma desesperada e derradeira união dos partidos ti adicionais chame de 2 mi l quilômetros quaclr.1dos de terras de culti vo e p1ad:1rias.'' Eles
da ameaça de desaparec1menco puro e simples que pe.sa sobre eles, tan- realizaram, n:i Beauce, uma "manobrn-espcdculo" para 111anre1 as rc/,n-
to do interior como do exte rior. ções de boa vizinhança do exército com ris popularões c111is. Os agricu ltores,
Na França, enquanto se tenra conservar ,ll> massas presas a convic- que se I ecordam da :\Juda trazida pelo exército no ,1110 passado ciuando
ções estrattlgicas e sociais ultrapa$sad.1s, o exército já dispers,1 'icu pessoal d.1 gr:mde seca, .1ceirar.1m, ao ciue p.uecc, sem resnrnng.1r muito, o exercício
pelos pontos chaves das .uividades civi s e subsmui a polícia em )U,1s Demcrcr.. A deusa Demecer está do nosso lado, gara nte o co1oncl de
tarefas de controle viário. O crab.1lho do proletáno/milirar é dorav.mce Rochegonde, que comancb a segunda b1 igada mocoriz.,da. Um outro coronel
o policiamento das escr.1d:is ou aeroponos, a colec;i de lixo 11:1 via pública afir111.1, por sua vez: "Snrnos ape11:1s gcrmtes da Segurança Nacion:il e, nessa
(no que se nd1cula1izaram políncos como o dernocrar.1 Abraham Beame, condição, devemos p1cçt,u contas.'' O exército ap1oveira C~5.,S m.mobras
o "pequeno" prefeito de Nova York), e rambém ,IS telecomu11i caçóes e 0 cm campo aberto para conduz11 , por exemplo, o reconhernnenco ofensivo
socorro de emergência, cerra~ operações de prel>tígio como o combate ~ de uma brigacl.1 ;i 50 quilômetros dt' ~ua b.1sc com opet ações dt' rcl.llçóes
po~u1ção, campanhas pela preserv,1ção de síno1, .1rqucológ1co1, ou pes- p1Íblica, no dep.11tamenco de Eure-er-Lo1r." Não se encerram os d1omocrarns
quisas_ sob1e o câncer. a organiuç:ío de num eros,1s manifesrnçócs nos gulag~ ou nos c.mlJ)OS, 11e111 mcslllo os do Larzac
espornvas e culturais (a Festa na~ Tuileries, o exérc ito no Salão d.1 O lnscicuco de Alto5 Estudos de Deíc~a .! acional (I H EDN ) gas-
Criança), imporcances empreend1menros internacionai1., salvamenco dt tou seis meses para c~t rurn, ar. JUnrame nrc com cspec1al1stas da publi-
crianças em Biafra, hosp1ta1s ambulantes p ara pnme 11 os socorros em cicl:i.de, uma campanh.1 de ri25 ano~ (.10 cuMo de 60 milhões de franc~s)
zonas devastadas por caraclismos nfltura1s ... e mesm o em Enrebbc 0 p,1ra scn~ibil iz.1r o piiblico 5obrc ,\ noçfo de clefesa e de proceçao,
"sa 1vamento"d e um grupo de rerens. {', Num universo social inquietante, ' convoc.mdo t0dos os meio~ de info1 m.:tç:ío pa1a mud:11 a imagem de
formado de .1ssociaçóes profusamente descnras e mostradas como cri- 111.Hca do exército ({ t Monde, 9 de maio de 197 5).
minosas, o exércico aparece como u~1.l força de proteçiío, um refugio Jod le Tlieule, depuwlo da UDR, relator cspcc1al da C~rnissão
ance o sucateamenro dos empreendimentos subversivos. O exército de F111anças, nu · 1rn monvos
· 1egmmo~
' · ·
par,\ çc 1ngu1 · , cm seu rnforme
erar

101
'ºº
a respeito "da programação milicar para 1977/82" , com "a folrn de
politicos existentes, nos revel:i efet1v;11nence o grande movimento de
'.nformaçóes contábeis sobre o emprego das verbas", est(( mgmdrtde que
id:i e vind:i do totalicarismo dromocrático entre metrópoles e colônias
impede urna apreciação d:is inflexões de nossa polít ica de ddesa ... O
que, esboçado durante o esfurço logístico sem precedenres da Primeira
ex~rcito busca _reen: 01~trar sua auconorr'.ia de ação, se redefinir ele pró-
Guerra Mund ial, vai realiz.1r, por volta dos anos 20 , a singular unidade
pno como ser11zço publico capaz de assumir com ordem e segurança o maior
da civil ização ocidental, "esta incorporação da ação colo11 1al na vida
número possível, ou mesmo a totalidade, das tarefas de defesa civis e
nacional como solução p,ua os graves problemas que :i evolução da
militares, imitando aqui, novamente, o empreendimento co mun al e
bum,tnidade imporá. amanhã, ao mu ndo", declarava Albert Sarrallt,
ind~1scr_ial ~om sua~ _iniciativas paralelas. Percebe-se enriio ,1 que ponto
ministro fra ncês das Colônias, em 1921. Para compreender a sociedade
o s111dteal1smo militar enaltecido pela Liga Co111unisra, 0 Partido
dromocrática e seu estabelecimento é cercamente mais ütil reler o código
~oci~l(sta Unificado (PSU) ou a C.F.D .T. em nome dé reivind icações
1msooas, emra finalmente no p rojern social do exército. É revelador,
negro do pacto colonial do que qualquer ourra obra com pretensões
sociológicas. "Não é preciso", escrevia Colbert, "que se constitua nas
aliás, ver se constimir a primeira seção sindical no t 9!! Grupo de
colônias um:i civi lização constante. .", antiga legislação que subsistirá
Engenhan a, mostrando assim que este corpo con ri n u:t a 1nd,1 na
vanguarda do pensamento revolucionário mi lit:u ! em nossas colôn ias até 1848, e declarava o negro móvel - o escravo
negro é an tes de mais nada urn bem susct?tivel de ser deslocado, sua
Balzac, dirigindo-se após 1830 ao campo de barnlha de Wao-ra 111
existência legal é função exclusivamente de sua qual idade móvel, do
com o fim de ampliar sua anáLise social, já se co locava a questã~ do
cransporre de que ele é objeto. O sucesso do jazz negro-a mericano após
verdadeiro território~ historicidade, aquele teatro estratégico gue, graças
ao progresso dos me10s de comunrcaçfo (a utilização do relégrafo, po r 1914, aquela ges cicul açfo desenfreada revelada pelo pri meiro filme
fa lado americ:rno colorindo o rosto de uma estrela de cinema branca e
exemplo), rornara-se repentinamente global. Os acon rccimenros exter-
nos e incernos podiam doravante reagir, quase insta n ta neamente, uns sujeic:indo-a ao rir.mo do escravo móvel, dá o que pens;ir sobre :i culcura
hoje dominante nesse país, na reflexâo profunda de Baldwin: "Ama-
aos outros. A essa coação temporal oriunda do campo de baralha res-
nhã, sereis todos negros!" De fato, desde a origem, não há no siscema
po1:dera ª.cr_iação da nova "polícia secreta", que ele cons idera a revo lução
americano medida com um entre o valor das mensagens enviadas e a
social mais unporta 1~te de seu rempo. aq uele momento em gue, após
operação necessária para a sua transmissão . Mais que o contet'1do da
um pio longado penado de repressão ostensiva e sangre nta exercida
mensagem, os meios de sua mediatização parecem instrumentos de
c?n~ra ~s p~~ulaçóes civis pelo "exército do interior" da Revolução, a
primeira necessidade nos Estados Unidos, primeiro em su,1 relação m:irí-
VJO_lencia mdtrnr deixa de ser forços.1111ente perceptível de longe, pelo
tima com a Europ,1 metropolitana e com ,1 África fornecedora de mao-
un,forrme, para .rep~usar em sisremas concatenados de vigi lância e
de-obr,1, depois, pela constituição de um cerro centralismo de Esrado
d_elaçao. Esses primeiros trabalhos de penem1ção, "de invasão'' clandes-
sobre um imenso território onde, para governar, é preciso primeiro se
~111ª do coi:_po social ti nham, como j,1 observamos, um objetivo preciso:
instalar e depois comun icar. Os meios de comu nicação são os inscru-
,l exploraç~o, por_ suas fo~ças armadas. do potená1l bruto cb nação
(suas capacidades 111dusrna1s mcnros privilegiados da Uni:io, os únicos capazes de COTl[rolar o caos
, ,. . , econômicas
, , de 111000 1auc:1s,
. .t e
cu Jrunus, · c1 · en-
nficas, _polmcas, morais ... ) e, em seo-uida a f)enetraça- soe· 1 , 1· d· · social da pan-humanidade americana, garantias de urna cerra coesão
. o , .. ( 0 t,L e I ga . -t a
cívica e, com isso, da pr6pria segurança civil. 1nversamente, como no
evoluçao ~ul mrnance das té~r~icas de penetração militar em que cada
modelo colonial antigo, a democracia americana não fod esforços efeti-
avanço ve icu_lar anula un~a diferença a mais enrre exérciro e civil ização.
O fascismo, definindo-se a si próprio , 11·1, Ale 111an 11;1, como vos par:i ,1 integração d,1s etn ias, das focçóes, numa civilização con 5 can,re,
Ost!wfonzsation, ou seJa, inst:mração de uma situaça-, 0 colo n1a · J no Leste num modo de vida social verdadeiramente comunitário, porque e ª
do concinente europeu, pretendendo subverter ali os co 11JlllltOS · segregação que justifica a hegemoni a do sistema da mídia sobre O qual
S 6 CIO
· -
repousa a natureza da autoridade do Escado americano. Esra é uma das

102 103
enredados muiru h-eqtic1Hctnc1Hc na culrura ele elice e lubituado~ a
r.1zõe5 do vdho racismo e dt' sLl.l :.obr1,;\'Í\'ê111..i.1 IH)\ boi/\ odnrliío-' da
l} l ivilegiar 111ai~ .1 rnens:igetn que seu veículn. eles_ dir1L:ln:c'.lle ,1l~,11'.ça1:-10,
Am érica li vre, e poderemos pcrcel1e 1 Llmhcm L[LIC .1~ g1a11clc:. Lo11vul- por meio das prop.ig:rnda~ ideológic:15, a pcáeica chucra log1st1c1 du
sões I nrernas e exrern:i~ cki~ F<r,\dm l lniclc,, cq,u-iín lig:1d:1.~ diretamente
''reduc1011i,n10" patriótico americ;rno tvl.11~ l,u-le, depois d.1 guerr:i torai.
aos ;icnnrccimenro, el1omolog.icm :1, ct:cnic1~ mes111;1~ ele p..:nctJ,1<.ão e
isto i'.:, depois d:1 clesr1uiç:Íl> exrc:11,Í\,1 d.1 idcnmhclc d.1, naçóc, européi,1~ (.1
de tr.1nsmiss:ío, cl:i mcmagem de ddio rec,11daela de Pe;ul-l-Lirbou1 ,10 "uer1.1 coc.11 é, ral corno .1 guerra colon ial, um;\ empresa ele :1111qud:11ne11co
casn elos gravadores de \'<larerg:uc ou dú .1,,a,~1n,1to ele Ken nedv: Jas civilizações perm.rnences), ocoire :1 ev,tcu.,-;:f10 dos esroques arnerica111)s
poderíamo s percorrer rod ,t :i nomendacura. Citrzn, l<111u,, o proclu ~u para a Europ:1. Mas novamente não an.tlisamo_,, na oc~;;iã?,, este aíluxo de
rn,1is bem ,1c:1b.1clo d.1 cu leu 1;1 ,-ívic:1 ,unericaru (bariL:id.1, a p0srerror i, insc1umencos e objeros descinb.1rcados pelos lihfrt)"·sh1p!. finhan1os a111da
de pnp-culwre!), é menos \Xlill1am Randolph Hearq, o 111:ig11:1r.1 d,1
necessidade de: c.1nega1 de s1gn 1t'1caçõe~ esrém...t:,, f u11,..ioruis ou oucr.1s, o
imprensa que sei viu de modelo :1 Ornrn \X'elles, do que l loward Hughes,
mundo dm ecuros gig,111te\, ,1 pktor:1 dos objecm domésticos 11.is wzinhas
n Cl<:bd:ío 1nvrsível. Ele. Hc.1rsr. cnvi:1v.1 .1ind.1 urna rncnsagem; HL;ghe,
rur1Lrnccs onde Jusr:imenre 11:io se p1cpar,1 qu.1lque1 reft·iç:io, concenr::mdo-
comentou-se com especular ind r~erencemenre sobre rudoLq ue per;111Le ~e com sanduíches e conservas. rodo esse espcdculo de "obJetivicL1'1e sem
env1ú-L1. J ncorpora perfeit.1me11Le a crítica 111.:us r.lcl 1cal d.is teu1 1.1, pen~:unenro que desvaloriza o ptóprio t.oncc1ro de consc1ênci/, par:1sitagelll
mundialisl,\S dt.: rulkr ou d..: 1\1...Luh.rn. [stc hon1<..rn, 111tci1.1111cntc
clanc:kscina d.:i tocai idade dos vetores ord1n:Ílios d.1 aice de nocu- e ele
asoc1al e isobdo do mundo, que nutre um medo mi~oglllo do co11tato
comu nicar, via códigos técnicos resultantes d1rera mcnte dos sistemas de
h uma no , a gu.em o h.ílíto de seus raros \i~itanres ap::i.vora, ocup ,1-se
e ntretanrn apena~ de míd 1:1, do acroc~p:1ci:1l ao c ine ma, do petróleo aos produção.
l:nconcra111os entfo técnicas do corpo e ela :1lm;1 estra nh;1n1e11ce sofis-
campos ele aviação , d.1~ sala~ ele Jogos :io st!lr-1J1stem, do desenho cio ticad:1s na culcu1,1 pop americana. Co rno j;1 obse1vatll0S, o co rpo sem alm,1
su riá de Jane Russel ;10 de 11111 bomb.ndeiro. Sua· cxistênci,1 adquire um
é um co rpo ajudadri pelas próteses técrucas e, a propús1ro. dos Esra~os
valo1 exernpbr. Hughes só ,e 111 cercss,1 µelo que rr:111sirn. Su.1 vida s.1ltit:1
Unidos, é bo111 n~o se esquecer eh crimolog1a ela pabvr:1 cmifort, do ant1go
de um vetor a outro a~s,m como, hú duzentos anos. o pod::1 io de~sa cermo f1ancês assisrrmce, referência ao vel ho besci,írio social dos corpos
1~açáo arnerrc.111a que ele adora. N.1d:1 111,us desperta sua 5e11sibi lrd.1de aci widos e111 marcha e brgados na e~tr,1th. Desencadeada desde os ;mos
Ele ac.1b:i de niorrer cm pleno céu, dentro de um av1~0. 1b 1 . l
20, a desnemraliz:iç:io dos meios ele comu 111caçáo ,1bre ca min 10 para o
Do mesmo mod o. os rnérodos <..o nierci,1is :i mcricano~ triunfaram que chamamos de "guerra do mercado doméstico", campanha idcológ1c,1
na Eu1opa, em 1914, graças :is dimensões logímc:is 1mp 1evisus roma- m:iss iva diretam ente enclercç;icl.1 ao quebra-cabeça fa mili ar q ue cl:1
das pelo conflito. Os Estados Unido~ gan li.m:im :ilr uma das prrm e1r,1s
pretende puder manter e .m: mestllo reivent,H corno " recepcáculo int~-
g uerr ,1s do petróleo, <.o loL,111du o 111n<..,1do J, am:ês 11.1s nüios da ~candard
níru da~ mercadori.-1.s de t.om,umo'' , e que rransforn1.1r-se-.í, muico rap i-
Oil, encur~al:rndo no5so exército, ciue parcira p,,r:1 o cornb.1re com quacro- d:wience, n:i ve 1dadei ra do111eH1n1çáo :i ni mal du ud:1dáo atllerica1w.
cenros vagoes-tanques enquanco o, :uneric.mos pos~uí.rn1 m.1is de 20 miL
Fato sig nificac1vo . o govern o dos E~rados Unido~ não )ulg:id ne~es:.íri_o
Uma vez mais, n:ío k,r.1 o o bJero do comurno e si rn O seu vetor de enrn::,,,1 11
insc.1111 ar. em seu próprio rcrri tóno. um ve1dade110 reg11ne de ,1ss1sre11c ,
que criara o mercado' ::,
social. F ie est:1v:i realmenLe convenc1do, i1 época, de que ;1 promoção da
Rcconqu 1srada a p:1z, e inrercssance obscrv,1r o recuo dos arneric.wos civil i1.1ç:'io do collforr, p:Hc rnalisra e huma ni dr1.1, deveria subscirnrr
110 mercado • europeu, e . esnecial1
, 11enre 11 ·,1 F1·,111ç·1, , 011cl,,~ ~·u ·i. ,· e·111 p re~,,s )>C:
perfeit.11n ente a .1ssistência wual graça'> :1 11Js1stênci(/ témia1 dos corpM,
revelaram 1ncap:rzes ele 1111µ!:intar se ri ,1mcnre seus produtos, "corneLendo
erros g1os~eiros de ps1cologi.1 em w:1s camp:in has fmblic it..;" 1i,1s'' CI~.. ta1ne11te, . .
a cultur :1 européi,1 1es1sre .1i nda vitoriosarnemc :io cerco cu lrur.tl dos Geados
1 1) C.1i ,·Llli, / ,1 fi11 rlc• /,1 trN', "d1tHJ11~ Ro~~.11d. 1\/32. "Culnuc pio[o-pop <:t

Unidos. Govern os rocalidrios tenc:irfo instai.ir vetore~ co rnpar;iveis, nu, culw n. c1111)pccnne·· .

105

104
indo do robô pua serviço~ domc:sricos ao psiquw1 .1 de emprcs,1, ou ,10
onde r1 int,1 a qu,ucnc.i mil op<:r:írio~ são lançados no LombaLt: Como o
úlcrmo modelo de vdculo, um pouco como vigora hoje, naquele país,
processo revoluc1011,í1 io de proler,1riz;1<,ão do rrabalho na~ce da guerra
um gosto romanesco pelos corpos biônicos rcmmcsceme~ do fucutism o
de massa~ e do movimento, o mico do "opedrio da mcLlfísio" (imagem
fascista , corp~s humanos ~ndc:: <..ertos 61gaos s:10 subsmuídos por cn -
bíblíc.a da pnmeira dor do homem 1naldico por Deus, maldizendo e
x~rcos ce_c.nologicos, permmndo qut: esses novos hc.:ró1s d,1 1...ic::nc,.t <..i rür-
mar:indo, por su,1 vez, par., subsc1rní-lo em sua obr,1 de uiaçfo) toma
g1ca reali1c111 proezas físicas sobre-human:ts. Mas a política do con forco
corpo. ele também, nos gr:indcs campos de batalha da guerr~ 111duscrial.
sucedeu a do strmrling; cada pessoa "ia-se ,cpenrrnam eme como alvo do
Tetlh.ird de Chardi n, por exemplo, acredita, como a maioria de ~eus
controle d~ seus vizinhos, alvo d:t comparação com a imagem p.idrão
contempor:ineos, que a guerr,1 é um dos princ1pa1s fe, mencos do
do consum,~or amenc~o ideal, modelo de civismo, cujos gc~ros, nrnnias
prog1e~so técn ico, mas é "ao vívo" que ele é abalroado pe la idé1.1 do
e, :t~m,dc~ diante da v1cb eram agora di fundidos incans;welmente pelo
"homem i1ucab,1do", quando daquela ''111e<.quecível experiência do
rad,~, .ª, 1'.nprens,1, a televisão e o cinema. submergido~ por anünc,os
from", esL.revc ele cm 1917 I.:.m J 945 . ao Ílm da guerra mundial, ele
publ1c1tanos. No plano político, é ,1 époc.1 do ma<..arrhismo, d a~ listas
observa: "A guerra é um fenômeno orgânico de a11tropogênl'S1' que o c1is-
negras, da ca~a às bruxas anti-ame ricanas. dos processos de:: incelectu,us
tian1smo J:i não consegue suprnnir, assim como a morre." Ele recoma o
e artistas, designados'. ainda no ,clarório d.1 Tril,ueral de 19-5, como
com de Tácito par:1 recear aquela P,1z das naçóe!> que rccobrii.í o mundo
ameaças a dem~~r,lCla po.r sua ca pacidad e de insp riar a formação de
com "a crosra d.,s banaliJ,,des, o véu da monotonia" (A Nostalgia do
grupos desmobilizados e mecupedveis
Frout, 1917) "Algo como uma luz se excingu1r-se-.í sobre a cerra." A
Com efe,co, a segurança (~oc,al) ao modo americano 11npl1ca 0
tltsrrwbil,znçiío se d , para o 111emb10 da "CroJSien' Jmme'' (esta epopéia
subdesenvolv1m e11co cultural d a população É impression.rnre ver os
do a~salco aucomouvo), a tmobilivrçíio na anri-revoluçâo-c\olução En-
Estados_ demo~rát,c?s modernos ,·anglonando-5e de estar assentado, so-
C]U:tnro a lenra prep.m1ç~o da guc::rr:i ex ige meses, <: .ué mesmo anos, o
b, e maJOn:s sdenc,~sas. À sua maneira, o s1lênc10 do povo amencnno
tornou -se cao op1css1vo quanro o do povo russo as~alco dec1s1vo dur.1 apen.1~ uma ho ra, alguns minutos acé. Exisre ,1lgo
no olhar evolucion.íno-rcvolucionáno sobre os corpos engajados no
cinensmo histórico reminiscente cL,qude homos~exualism o fac:1 1 dos
gene1,1is .111 cigo~, dos dé .. porn~ escl,irec.idos, dos sulLJOS, Fazendo aque-
. A h1erarqu1a das alras velocidades de penecraçfo e de assalco foz. e
las "milícias muito agrndávei~ de ver por aqueles que não eHavam des-
desfez O espec~ro do p1olec,írio como numa fusão de imagens de cincm,1, 1
t111 :i dos a receb er se us go lpes" re petire m in c:rnsave l mente s uas
aquela murnçao que começa com a d1vi5áo wcial tfo cl::11 :1 comandada
manobras; todos fic.1111 po~suídos de um de~ejo 111cont1olável pela c,11ne
pela Convenç!o e prossegut: naquele olhar mais rurvo d, ~farx e ele
submiss,1 do proledrio/soldado, e~l.l massa poderosa de "111,1quinas mó-
Engels, que nao ~onseguin1m discernir a figura 111ít1c,1 do 1i·abalh.1dor
ve is.. obedecendo cega mente ,tos im pul50S d e seus co ndu co res"
mesmo naquel:1 pz1Cl:i tão rica d.1 proletartzaçáo i11dust1 ,ai que foi a
Inglaterra do seculo XIX · Enge1s 11,10
- consegu ·iu de5cobnr · seu espctimc. (Babeuf) . A, forças de crabalho milicare~ n:io SJO mais co,1gidas ,1 se
da evolução hiscó ri cal vender mas a se entregar .10 empre~.íno de guerra. São o que a mulher,
seuLí neanderchal
. • ··• e ero, ~omence
. em Jll.ll 1w de
18 18 que a im agem e depois a moncana, er,1111 para o cavaleiro na baralha, aj udand o-o a
finalmente
.. " - se formou • ·• iuas e par1s,
n~s d · num
avanç,u. morrendo debaixo dele ou provocando sua morre Alexand re
palco da guerra civil tao povoado quanto O da, 1) ., ra Ih a d e Le1pz1·g· e
nfo é nad:1 sem :1 disposição de Bucéfalo, Ricardo 111, c1n Bosworrh,
perde ao mesmo tempo o c,w:ilo, a vida .. e seu reino ... O p~olecanado
2. ,kTcna
· cu podido
. - 1magrn.ir,. porém, c1uc es1.1 c:,c1luç'io
· 1uçroric.1
· · · .11 1uram cn rc
"º md1car, de pois opcr.í1io, cinéttco, infin,ro e renascendo prohficamence
necC\\,tna cm cond1çoc~ dererm111.1da~ comriruía· um recuo · l 1t , P1.<w1 c11<1 l fohr,c.1va
0
11omc11 1 ~b.uxo dos selvagem .. " l:.ngels, A Nov,1 Gnzl'ffl Rmmu,
1. C.11t.1 do emb,ii,.1,lor Gh1sh1n de 13ushccq .l l h.ule, Qumr

106 107
de ~i mesmo, c,11rcga no csp:1ço e no tempo o guia 1. , .· prc~t.1dores de serviço~ s:io em preg,.1dos cssencralmenrc 11,1 conscruc,.fo
c:ivalg d . . . · 11s1011co Cjllc.: 0 de obr.1s encomend:1d,1s pelo M111i~téno d,1 Guerra vias estratégicas,
d. ' a, o inge e m~p1r.1 ,eu, m<w1menros. . e qtt'"''" e' ram)l é m um \.. IH.:rc e
e ~guerr:i .. Lenin, Trotsky, St,1l1n tvL10 A [' . 1 . , . via!> férreas, aeroporro~, f.íbrrcas. O proJeto fosc1sca, Ílnalmencc, é tam-
li J ' · ngut,l revo uc1onari do I
bém uma espécie de comprormsso intervindo 11 0 co nflito q ue opõe de
e, aTx1 iauor,
. 1menos dc::senh.1da pdo ~iscema• ind ustr.·1a 1 que pc lo •.. sistema
m1 irar, n1ve a, em ,um.1, uma d1sp:u1dadc. e , . . . . longa data no seio do Estado. a anscocrac1a. o:. milir.1re~ e .1 burguc!>i,1,
guerra dp1da O "A I met1c.1 entre guerr,1 knta e dispur:indo emre si o seu p1oletari.1do .
, • . •. roe o vapor acr.tvés da l.1ma", do nJJlisra Nerch ue,
.1po,rolo da guerra tcrronsrn sisrem,icica, n:io r uma f10'tti I J • , .' , , Na Alcm:mha, a prestação de serviço rornar-se-:1 obngacória cm
sun um:1. pro · - . . e, , oc 1eto11c..a e 1928; os que cent.1111 se esquivar comam-se vítima:. de desprezo, de
v1dade ~bng;t~s;\1odorecn1c.l.1 se~1a. rcmed1.11 a distor\âO oriunda da bre- exclusão social , de delação, como prccedencementc aconreci.l com o
• ass,1 co c1esrruuvo por u 1 _
d.is agres~ões. A cvo!u fo 1i· , . .. . ma ,~ce e,:1.ç.10 do ,rrrno
liter.1lmenr1.. _ror ,1111 mo~or 11 ;:;;~:;~t
agora m,111rtcb em mov1111e11to
deserror ou o "escondido'' do rempo de guerra. Em 1934, o~ campos
de trabalho tocalmence 1101111.llizados comam-se campos de decençáo e
podC'1:ÍO se i transformados cm c,unpos de concenLração e campos da
o ra~c,smo alemão ted as rnesmas )f
isco se torna ''dre corale ~1 b·J
-
1 • ,. f, eocupíic,ocs; em Heidegger
.

1" o 1 m lC 1ung 'csr · · · · · morce em meio à rnd1forcnça geral, sem que se retire de seu froncão a
de: poder e realiz:1. '10 d • . · ' ,tgio ultimo <1.1 vonr.ide div1ç:1 origmal, "Arbeit m.ichr hei" ... O de!>lizamenro é, de faro, perfei-
so ldad J ·., ,ç, a essencra da técnica: o n11l1\mo". O prolet;llio/
. o t pooera pe irserru1r na nã• o -guerr.1,
. . sua tarefa . revoluc1011,Ír1a , o tamen te n:itural. A carne do proledrio-opcr~rio não é d ifere nce da do
ass.1lco e e,
prolcdrio-milirar, como escrc\.e Clausew1tz: "A exploração do so\d,tdo
, r.111srormaoo em ·gressã .
do mundo (Bakun,n) o" . ~o contra.a natureza E a p.rn-destruiç;io
' s granucs canteiros de b I' . é como a da<. outras minas.''
co nsagram a terr.t à guerra: conserv,111do 11..1 o ras, ~eopu rn cos_ que Ü<. países comunisrn5, por sua vez. real12ava111 ostensivamente, no
sua figum visível 011 d~,1 J li c- P• . o operano da merafí~ica momento em que ele o forrnulav.i, o desejo de Teilh.ud de Chardin, dze
• " oo- 1e esta ngu ra por d d
pr,íc1ca, JSLO comes:a por uma es éci • . . ~11e1~ a e ucação. Na tot11lr Mobr.lrnachimg;. rn,11s q ue a su pressão d;i classe b urguesa é o
desempregados J - p e de ,1ss1stenc1a h uma111 dri:1 aos des.1pareci111cnto de seu proletanado-producrvo Na Chin,\, a partir de
uai H 'd ' a emaes ' p·1ssa ' ' depot s par.1 um ~en1co \Oluntárro ao
q ·, e1 e~?er chamara os íntelecr11ais, '\c1vrço do c;..ib:dho d. b 1964, o slogan revoluc1011.11 io era "Tomar o exército como modelo", e o
povo inte i1 0 era compelido a usar um uni fo rme p;1recido, espécie de
e e ,IS arm:is • e rsro resul rniá' no de~.1ob u I amemo exemplar :(' 1o· sa, er
dmosisruacampamentos
rando d-
que b .
. , 'cce . em esses prr me, ros vol u ncá rios, em 1926,
· l ,l 11Horra vesriment,1 ambígua e assexuada do rrabalhador-soldado, :io passo que
, ,1 m,11H:1ra m:us cornovcnre ' . na França, pelo conrrárío, o soldado era eh.mudo a vesrir, com freqüên-
t udances Isso d .· ' opera, ro1>. c:impo ncse\ e es- cia cada vez maior, mesmo quando dos desfi les oEciais, o brim, u niforme
.
em que se fazia po ci ta
. passar por exrre
. 11
iamcnre /'b ' era I num momcnro
' . senc11, em rodo o mundo o-·d 1 J do operário.
anguscianre de mão-d _ b , . ~ enca • uma nccessicL1dc A gr11ndeZ!l toda está 1111 assalto! crad uçfo abusiv,1 de Pia rão Olt pa-
e o J,1, ex1genc1a i11s terável d .
poucos ,1nos depois esqt c·d ' . .. . ' a guerr .1 11tdus cri,d r:ífiase do forcing amencano~ 1 O fa!>cisrno só foi aucorit;frio na med ida
te I a, e que exige \tm t
ção 110 c1abalho da _ , u tane.unente a coloca- cm que se l]UIS 1ncegr.1lmenre dromocrata: "o espaço virai" é :ipen:is um
. • s popu 1açoes e su::i. domesric 1 - 1
estacais paramilitares na Eur , çao por )11roc1:ic1a~ d<.:saparec1111e nco da geografia da Europa, transformada numa área, num
' opa, lo1 outro 11do do A J'
Mar (O Bureau lnternac,onal d T b li • e ,111c 1cn e no Além- de~erco sem qualidades. aberro :i expansividade de um.1 organização
alds, enrre as dua~ guerras o' e o ra adio (BIT), cm Genebra gere ."social" inreiramente fu nc1onaliz.1dn pela hierarquia da velocidade, esta
' ' 011 Junro e probl d -
110 m undo); ao 'jorcinv' amcrica ' . d emas a mao-dc-obra
• 6 no co r rcspon e:, n:is col • . .
a orga111zaçfo do trabalho pen a J... enquanto na Bulgíriao111.1s, o Jl'f/Otl<;, 1~ 'Í. "loda grande cmpres.1 r pcngos;i.", f{,rmul.1 que Heidegger rran~forma ~ véspe-
o rra ba Iho civil torna-se obngarório desde 1920 • • por exemp o, ras da guc.:rr,1 mund i,11 numa 11:idução menos abu~1va do que parece cm "Toda a
sob uma direção gera l ligada ao M imstérro d ót11 1.isa Publicas,
a~nb.os os sexos, gr,rncle-t;i csd no ass.1lro".
e mas 05
109
108
hierarquia que foera o nacio11.d-soc1alismo nas ru,l, de Bcdim antes de :imenre com su;i .unu-veículo cm :1poteose p1rocécnio , porque a <iltima
rerorna1, com a guena mundial, a su;1~ ongen~ cu lrurai~ de tiice. Desde medfor;i do corpo-velocidade é seu de:.ap,11 ec1mento final nas clum;~s
a origem, o coipo soberbo do Hom em de Ass,1lw, do ,1rian0 louro e da explosão. Asszstir ao rcnasdr11e11to do fascísmo, este é o temor mani-
naturista, é deliber.tdamence exibido pela propaganda nazisr:1. Aquilo festado por mu icos apos :i revelação do~ crnnes perpetrados conr.ra 11
que o esddio de Berlim coloca em cen:111;1 celebiaç.ío da lirurg1,1 olímpic;i hurnanidrrde pelo:, 1uL1,ta:,. O que.: quc.:1 que fas·:irnos, como o Í.1~C1~tno
nu nc:t esd morto, ele não precis:i 1en~1sce1, não por pequenas b1sconas
é muito precisamente um,1 hierarq uia dos corpos 11.1 urdem das
veloc1da<lcs ele penet1ação. O corpo esportivo é um corpo prit1n1co•· sado-museográficas e comerciais, e sim porque ele represcnrou u1:1a d:.1s
revoluções cultur,1is, políttcas e sociais mais acabad,1s do Oc1clence
ele próprio projétil e proJet:rnre A excitação do recorde de velocicL1de
ou de distância é a do assalto, o pt incípio mesmo da performance cs- dromocrat:.1 com o 111es1110 direico que os 1rnpé1 ios do mar ou o
portiv~. Essa contagem regressiv,1 no tempo e no espaço é :1.pen.1s •1 empreendimento coloni:11, e ele cértaincncc.: cem menos a temer do
re~~ral1z.aç5o da corrida para wa "grandcz,1 ,1bsolu ra", (bquela carg,1 "futuro" do que: um comunismo guc de marxista só tem o nome, e ,par:1
mil1c:1r <]Ue começa com um:i march.1 lenta e geométrica e prossegue quem O fim da d,rndu 1a do prokcariado foi :i confis5;io de sua folencra
co m uma aceleração cada vez 111 :iis forre do corpo p:-11 ,1 chegar ;w sprmt histórica.
final O fasc ismo esd vivo porque :1 guerr:1 cor.li. e depois :i p:1L rncal,
Com a guerra torai, ,1 tot11Le iV!ohifmachung adquire seu sentido engapram os ewidos-maiores dos gr:inde5 corpo:, nacio11,1i:. (os exér:citos,
:is forç:1s de produção) num novo processo espaço-tempo ral, o un 1verso
pleno. Não h.í mais medida social comum entre o corpo triunfonte do
proled~'.o/soldal~O, :e:-r ~upc rior que, segundo a velha expressão inglesa, biscórico num mundo kantiano . O problem:1 não é m,ll5 o de uma
historicid:ide no tempo (crono lógica) ou no espaço (geográfica), mas
~ossu 1 a m:.1g111 ficenc1a do deslocamento", esse solcbdo alem:í.o que
investe com todo ímpeto n:1s extensões ilimicad,1s da eHepe 011 do em qual espaço-tempo? .
des~rto, e o corpo <lo prolecario/operário encarregado de gar,1nti1 o esforço
Em artigo recente, eu colocava em quest.:io .1 n~ces.srdade d~ rever
log1sr1co. Ma~sa dos reformado5, dos prisioneiros e deportados internos nos:,a concepção físic:i d:i história\ de :1dm1r1-b enl,rn por aquilo em
dos ca mpos, corpos inctpazes, suspeitos ... que ela se transfornu: . .
" .. . isto que, em resu mo, faz cb co11clunbil1dade ela guerr,1 esse
, Para o fascista italiano que passa <liretamente do recorde esporcrvo
a guerra absoluta, a exaltação do corpo-ve locidade é torai, é ,1 "Poesia projeco coerenre que proferimos no rernpo e no esp:iço e que podemos,
do bombardeio" de Mussolrni. P,ua M,mnetci, sec,uindo d'Annunzio ao repeti-lo, 1mpor ao ,1dversário não o inscrumenw, rnas a ongcm de
" :l d o
o e an y-guerreiro'' é o "único sujeiro ca paz, sobrcvivmdo e saboreando,
, ' um:i linguagem cot,1lirária da Histó1ia, o esforço rntíruo do~ Escaclos
no combate, ,1 potência tk1 son ho med li co do corpo humano", 0 europeus e, depois, do mundo, rumo ii esse ncia absolura da guerra (a
acop l;imenco .com um elemento técnico mu ito nuis incômodo que () velocidade), adguirindo assi111 o senn<lo d.1 comad,1 de poder absoluto
por parte da incelrgê-ncia militar ocrdental ~obre a hiscór i:1 u ni vers:11.. A
c,1v:1 lo, o :rnrrgo veículo metabólico d,ts ci ices gueneir:is: vedct:is dpi- 0
das ou "torpe dos" _cava1gados <leb,1ixo do mar po1 ~ ho111c11s-r:1s aristocra- hrstóri:i pura seria então apenas a rraduçi\o do puro :1v:inço escrac~g 1<-
tas em busca da frota inglesa. Os camicase~ japoneses realiz:ir5o esse no terreno , seu poder ~eria o de preceder e ~er deFin1civ,1 e o h1sron:Hlor
son ho sinérgico da elite: milit:1r no esp,1ço, des1nregr:1ndo-se vo lunrnri- seri:i um mero mpttíin da guenn do tm,po. "

* Prirân,co
, •
• deriv:1du do gre~o, Pricancu

(prítane) , fu,,ar
i:,•
d~, 1.,,. , •- 1 •
~,1 1 1,10 <. os pnr.111e~,

11,~ Grec1a Anng~. ~nde to}11~va111 rcfe1ç6c~. à~ cusrns do Esr,1dn, :ilérn ddc,, grande
numero dt: func1011:mos p11hlicos e cerro~ c1d,1dãos a quem ~e co,icet 1·, ,,, ra1 pr1· v1·1 c«1
· n
em recompensa por serviços presrado~ à p;ím,1. (N. dn T.) " 5. l',111 1Vi1i lio, "L~ g11nre pu1c", Crui111u' 01in1bro, 1975.

111
11O
4

Uma segurança consumada

"Níio •l' r/i,,,de II seg1mt11ffl. "

M POKIAl OWSKI, 4 de 111,H'ÇO de 1976

"A revolução avança mais depressa do que o povo". declarava, no


começo dos aconcecimcncos ponugueses, o general-presiclenre Costa
Gomes.
Como isso seria possível? Simple~mence porque, no fin,1 1 das con-
rns, as pretensas revoluções do Ocidente nunca foram feiras pelo povo e
sim, pela in stituição militar O liber:1lismo econômico foi cão-somente
nm plura lismo liberal da ordem dns velocidades de penecraçáo . Contra
o modelo pesado do enclave burg11ês e o esquema singular da pesada
Mobilmachung marxisca (controle planificado ostensivo do movimento
dos bens, das pessoas, das idéias), o Ocidente propôs, desde há muito
tempo, a diversidade de sua hierarquia logística. a utopin de um a riqueza
nacional i nvescida no .1 utomóvel , nas v iagens, no ci nema, nas
performances .. . Um capit:1 lismo transformado no dos jet-set e dos bancos
d e d:1dos inscancfrneos, toda uma ilusão social subord in ada. na verdade,
à escratégia d e guerra fri a. Não nos e nganemos: os drop-out, geraçfo
beat, automóveis, trabalhadores migrantes, ruriscas, campeões olímpi-
cos, agentes ele viagens, etc., as democrncias indusrriais-milirares sou-
beram fazer, indifere ncemente de rodas as categorias sociais, soldados
desconhecidos da ordem das velocidades. das velocidades cuja h ierarguía o
Esudo (Estado-m aior) co ntrola cad a vez mais, do pedestre ao foguete,
do metabólico ao tecnológ ico . Durante os anos 60, quando um

113
:Hnericano nco queria provai seu ~x 1to social, de nâo co111pr:wa "o maior Com o proble111a palestino, ,1 guerra popuhr tomara bruscamente um
carriío americano" e sim um "comp:iuo europeu", mais rápido e ágil. ímpeto mundialísta. Com cfciro, ;i t;1tica que consiste c111 :1barca1 de
Dar certo é alcançu o poder de uma velocichdc maior, ter a impress:io maneira difusa os ternrórios mais excensos para escapar aos poderosos
de escapar da un:1111n11dade do enquadramento cívico. Desde a gue rra núcleos da repressfo milirnr, não podi.1 te1 qu,1lquer sentido para eles,
1111.1 ndial, j.í. 11:ío se pode mais fo i.ir propria111eme de guen as estrangei- já que a causa mesma de sua lura era justamcnt~ .i priva~ão de território
ras, externas, como dizia, co m muita propnecbde, o prcfeico de Filadélfia geogdfico Eles não demorara m então para se 1nsrala1 l1ccralmente nos
durante um verão quente .1meric.1110: "Agor:1, as fronceiras passam por fusos hodrio1i dos aeroportos mundiais. o~ novos sold,ldos desconhe-
denrro das cidades." Quer sep a estrada, quer seja ,1 rua, tudo pamc1pa cidos, vindos de parce alguma e não encontrando mais terreno estratégico,
da derradeira fortificaçiío 110 deserto fronteiriço. O muro de Berlim bmern-se no tempo estratégico. n11 relatividade elo tempo de transporte. Como
beneficiou-se, neste verfo de 1977, dos últimos apertc 1çoamemos em não h.í estrada yue não seja, em última ínsdncia, eHratégica, nfo li~
matéria de min..i1i e sistemas .wdiov1 suais, uma ve rd ade ira reforma! mais desde agora, a bem dner, aviaçfo civi l. e é natural que supers~n 1-
Depoi5 de Belfast, Beirute nos mostro u a velha cidade comunal des- cos como o SST :.imericano ou, mais reccnremente, o Concorde, sepm
moronada sob os golpes dos migrantes palestinos. Viveu-se ali não mais obJeto de inrerdiç1o e de polcmicas ac.1lorad:1s: suas altas performances
o velho esrado de sírio, mas uma espécie de estado de emergência per- são militarmente pouco supordveis e reprodll'lem nos vetores do status
manente e sem objetivo Para sobreviver na cidade, era preciso manter- quo nuclear, o fenômeno do assa lto :rnromobilizado dos anos 20 nas
se informado pelo rádio, dia após dia , sobre a situação estratégica do ruas da cidade burguesa.
próprio bairro de moradia. Cada pessoa tra nsformava seu ,rntomóvel Em 4 de nrnço de 1976, Michel Poniatowski, enrão ministro do
num carro de assalto abarrocaclo de armas para garantir sua liberdade Interio r da França, declar:wa: "Não se divide a segurança!" Para ser mais
de movimento. Não somente :1 violência não se distingLiia mais pelo exaro, ele deveria ter dito: Doravante, não se divide mais :1 segurança.
uniforme, mas os combatentes traziam o rosto coberto, como assaltantes Três meses m:lis rarde, o presidente Giscard d'Esraing declararia num
:\ mão armada; eles não desepvam ser reconhecidos por evencu:iis vizinhos discurso feiro 11.1 Escola Militar: "Temos 11ecessidadc, ,lO lado dos meios
ou parceiros sociais .. espécie de retorno ao guerreiro indígena, 8 "guerra supre mos de nossa seguranç,1, de uma espécie de pre~ença ele segmança,
livre", como que a recuperaçfo de 11111 cerco subdesenvolvimento isco é, de ter urn corpo socitd organizado ern função dessa necessidrule de
tecnológico das massas em matéria de armamentos, uma nova et:1pa na segumnça." Pouco depois, Olivier Stirn, secretário de Estado dos DOM-
desinformação dos cíd,ldãos, paralelo à clesurban1zaç:io. Qu:mdo o Escada TOM (Deparc:1menros e Tc:rritórios franceses do Além-M'.l.r) afirmava
americano recusa-se a aJudar Nova York em crise, obrigando hospitais ao Conselho de Ministros, em 25 de agosto "A evacuação dos habit:in-
e escolas a fechar, reduzindo a assistênc1;1 socia l, e a ciclade 11~0 é mais tcs da ilha de Basse-Terre, ameaçada peb erupção do vulcão de h
varrrda, tr.,u-se Ja d1ssoluçio d.1 cidade em seu próµrin subLírbio, a Soufrierc, demonstrou m possibilidades de rerzç!io 1mfr011isada da soc1eda.de
turura autogescão popul ar do medo civil... a guerra popular concribu- liberal." O que se assisriu em seguida foi que a proteção civil _e social
íra amplamente para fozer dos modos de so brevivência no campo de nesse gênero de assunco nfo é mais contemporânea da cadsrro~e. Ela a
batalh,1 um modo de existência. O Estado mode1no reroma a formu l:i precede e, havendo necessidade, a inventa.
em sua nova revolução logística: quando o rei de M:urocos decide recu- De fato, esta manipulaçiío deliberadamente terrorista da necessi-
perar o $:iara espanhol no outono de 1975. ele nfo envia p.1rc1 Li se111> dade de segurança por parte do poder responde perfeir:1mente ao_ con-
exércitos, mas atira no lugar os "marchadores da paz", massa miser.ível junto das questões i:,édiras co locadas :-is democracias pela evoluçao da
reunida nas cidades e jogada desarmada no deserro, à frente dos estratégia nuclear - o novo isolacionismo do Escado nuclear que, ,n~s
blindados marroquinos ... como se, afinal, se tracasse agora ele uma Estados Unidos, por exemplo, esr:í renovando rotalmenre a e5 rrategia
história ecológica a ser resolvida mais enrre civis do que entre mtlirares. po lmca ' · Recriar
, · na pratica. · a umao ·- por meio· de um a nova unanimidade
·

114

J 115
da necessidade, corno fo i a criação fantasm agórica da necessidade do colo niais portuguesas fund am , em seu próprio país, um "M inistério
carro, da geladeira, peb 111 ídia ... h:werá a criaç:io de um sentimento das Comunicações Sociais". Qua nro .w general Pinochet, que nfto tem
co mum de insegurança desernbocalldo 11:nuralrnente num novo tipo o hábito de medir as palavras, ele mui to s1111 plesmence cria, no Chile,
de co nsumo, o da proteção, gue ocupará progressivamente o primeiro "o Departamento de Assuntos C ivis" !
plano e tornar-se-á o fi m de todo o sistema de mercadorias. É isco aproxi- Os trabalhadores socia is declaravam, há alguns anos, na hança,
m adamente que Raymond Aro u dizia recentemente qu ;rndo acusava a em pleno período de prosperidade econômica: "Nós somos tr:ibalha-
sociedade libera l de ter se mostrado otimista por ta nco tempo! A dores como os outros porque somos membros reparadores do aparelho
promoção indivisível da necessidade de segurança já compõe um novo social-p roduti vo." Após 68, eles se mostravam menos e nfáti cos: "Os
modelo de cidadão, não mais aquele que e nriq uece a nação consumi ndo, tr:ibalhadores sociais sentem . de forma aguda , a ambigüidade da noçfo
mas o que investe pnmeiro na segurança, que gere melhor su.1 proteção de trabalho social e são scn~íve1s aos equívocos que ela pode conter. " De
e, fin almente, que paga parn consumir menos. Tudo isso. na verdade, é fato, na nova economia de sobrevivência, não se trata mais de particip,u
m enos conrradicóno do que parece. A sociedade capicalLSta, desde a de uma sociedade de abundância ( mais ou menos fútil). Berlinguer
origem, associou estreitamente a política à libertação do medo, a declarava em janeiro de 1977: "A austeridade, somos nós que a queremos
segurança social ao consumo e ao conforto. O anverso do movimento para mudar o sistema e construir um novo modelo de desenvolvimento. "
forçado é, como vimos, a assistênc ia. e é a p;irtir da guerra de movimento E, bizarramente, ele se refere Jogo depois ao sistema de transportes. "à
que a invalidez dos corpos incapazes toma uma consistência social :itravés revisão do miro do carro individual com a reorganização das cidades. A
das reivindicações do trabalhador mi litar. Se o Trac.ido de Paz de Versalhes solução oferecida para o problerna dos transportes deveria provocar uma
se preocupa com a assistência é que a fatalidade da Defesa nacional transformação radical dos mecanismos do Estado através da modificação
exige e impõe, doravante, aos Estados, um a ação social planificada como da natureza das empresas". Assim , por todos os lados. o poder veicular
parte da defesa geral. Corno observa Gilberr Mury, as primeiras verda- da massa móvel vê-se reprimido e reduzido. Das limitações de velocidade
deiras assistências sociais não são 11eutras, já que surgem nocadamente ou de combuscível à supressão pura e simples do c.11 ro individual. o
no "Partido Social Francês" do coronel de la Roqu e. Vale lembr:1r também mico do carro é condenado a desaparecer junco com o do trabalhador,
que os promotores da nova "segurança social'' na Grã-B reta nha (Sir agente histórico central do Estado logístico A austeridade alardeada
Beveridge, por exemplo, em 1942) fizeram dela urn obJetivo da guerra por Enri co Berlinguer teve, como se sabe, co nseqüências desastrosas,
cocal e ela iria a liás e ncontrar no continen te europeu movimentos multiplicando, mesmo no seio do PCl, as comparações com o regime
similares de inspiração fasci sta ou peraini sta, como o Sc:cours nacional, espartano. Mas cerca mente teria sido m,1is justo falar apenas no fim do
por exemplo. É inte ressante observar aí a convocação de cercos membros sistema de Licurgo, na decomposiçfo da anomia de uma "sociedade''
das forças de delação fascistas cujo pessoal se ocupou anteriormente d_e cujos membros teriam sido :idestrados, dur,rnte séculos, unicamente
tarefas de vigilância e de repressão das populações c ivis, be m c omo sua para "o Assalto" e não saberiam ma is o que fazer de suas vidas quando
integração no novo pessoal da assistência soci al, um pouco como ocorre essa ocupação lhes tivesse sido bruscamente recusada. Retirai do O c i-
hoje, quando se aproveita da experiência de an tigos detentos de direito dental o carro ou a moro, o que lhe restará para fozc::1 senão concluir a
com um . .É que as attvidades desses técnicos da normalização são realização da profecia de M .l.S . Bloch que. desde 1897, anunciava: "A
inseparáveis dos desígnios hegemô nicos da administração d.e Estado: ;:is guerra, tendo se transformado numa espécie de partida empacada na
tarefas do "trabalhado r social" se rnulr1plicam e se rnctamorfose1a m ao qual nenhum dos ex~rciros tem possibilidade de prevalecer, eles ficarão
sabor das oportunidades. Conhecido aqui e agora corno tutor, anima- frente a frente, ameaçando-se sempre, mas incapazes de atirar um golpe
dor, educador, etc., ele preenche, aliás, outr:is missões: na descolonização , decisivo . Eis o futuro : não o combate mas a fome, não a matança mas a
os "assuntos indígenas" se transformam em "assuntos sociais", e as tropas bancarrota das nações e o desmoronamento de codo o siscema social. "

11 7
1]6
Num conjunto cujo equilíbrio prcdrio é a111eaç.1do por qualquc, relhos relefómcos munidos de um sistema de ,,!arme conectado ~ um
in1c1atíva impensada, ,1 segur.rnça é do1avance comparável ;'1 ause11c1a de cermmal da policia. Por mi~ da operaçfo enconcra1~1-s: .J Un1:íu ~.1c1onal
movimento e a prolcranz.:ição é .1111pl1 ada da supressão cl.is vonrndes :t dos Departamentos de Asmtê ncia Soci.11, o M tnmen o da Sa ucle, ma~
dos gescos, faro esce gu e cem no crescimento do desemprego sua melhor também o M1n1sréno do Interior.
e mais ev1denrc imagem RediscnbuHc a obra social, póc-~e em e::vt- Os cartazes que promovem a grande campanh., pJra ,1 seguranç.1
dência as performance~ dos deficientes HstCos e mentais, os recordes de pet sonalidades idosas , as monr,1gens aucliovisua1~. roda es~a
nos jogos olímp1co~ de enfermos, 1111 póe-se ;1 convicção nov,1 de que .1 in coxic.içfto é l.1rgamente d ifu ndida nas residéncia~, nos clu be\,. nas s:~b:-
im potência do corpo para se mover não é, afina l, u111 problema grave. de espera, verdadeiras ordens de mobilização polic.ial, cudo fornecido
Bizarramente ainda, o exércHo .1cha-se por crá~ dessas inic1ativ.1s
gracutramenre, basta fazei um simples ~edido~
filrmtrópmu. Vale a pen.1 reler ,lS memórtJS do abade Üliol, este cu1.1 Para outr,ls camad.1s sociais, a n1c1111pulaçao d.1 necessidade de ~e-
rural gue criou, a panit do nada, centros para crianças débeis ment;i1~. gurança coma formas diferences: desde a Antiguidade. o metJ I precio-
centros destinados a ,rnand-las dos hospitai~ ps1qui.ímco~: " Um v1si- so, 0 ouro-padr:io é "valor-refúgio". suced:rneo pa~~ a ans1ecl:'.de e, com
t:111re às vezes se espanta .10 ouvir dtlet por aqui que uma de nossas isso i.ímbolo d.1 se<>uranç.a 1ndiv1du,1I. bte valor de seguro . como St:
crianças emí 'no exército'. Isso não quer dizer que nosso in fe liz peq ueno ~ab~, foi Jivremenr/transrendo para um.1 multidão de sistemas de rroc_a.
débil mental fo i alistado no serviço 111 ilitar; designamos ~implesmenre Enm:canto , a tecolocação em q uest:io do o uro- refúgio co mo pad rao
por esse vocábulo o edifício que nos foi oferecido pela C:uxa Econômica básico do sistem.1 monedrio lembr.1 n1t11ro os aconcecimenro~ do banco
Militar que, depois disso, nos proporcionou muitas outta~ .,judas» E é Law, pouco antes da R,!volução Francesa. Ele contribuiu para abalai ,1
o general Ma lbec, d iretot dessa 111esma caix,1 econômica n.1cional mili ta r '\eguridade social" e reencontramos aq ui, em pleno srams quo nucle.u:
que lança a rerrível fórmula desses ce ntros: "Do berço ao rúmulo!". O as razões que levavam o Estado esparr,rn o a recusar o uso elos mct:us
exército jamais fez ou tr,l coisa ..
A redistribuição da assisrêncta soci,11 v1s.1. finalmente. func1onalt1ar
preciosos como uma das 1..omeqüênc1as da não-guerra. (?
Escado, 1~1t~-
rcssado em exercer plenamente a v1gilânc1a da populaçao no do m1n10
.1 deficiência co mo hze r,1, Já em 1914, o vel ho Estado pruss1,rno. A d a defesa , p ri va os indi víduos d os meios de se ga~at~ttr, ,1 nã o se r
aj ud a fin anceira tom a a feição de uma rem une1ação. de um salino . no engajando-se a fundo tu máq uina de guerra lacedemonica.) . .
momenro em que o governo insiste em recompensar os cidadãos que se O própiio código de produção visa sempre o · rece~raculo 1nfi111co
comportem como auxiliares da polícia sendo delatores. A segurança do co nsu mo", mas este LOrna-se c:o n~umo ele se::gurança 111tegr,1l. A ,L~Cl-
ind ivisível d iscerne no velhote azedo e excl uído do sistema econôm ico lizaç:io mópic:1 dos refl eJw 5 de defesa provoca uma modi fic,1ção na esre~1ca
pela insignific.1ncia de sua aposc11t.1doria e de i.ua rend.t, 11111 {dcimo e tl.l natureza da produção. A refoi nu da emprci.,1 ganh.1 um senC1do
proletárto, um.1 espécie de acenra scnrrnela, imóvel em meio à agitação completamente diferente daquele que lhe Í~t confendo pcl~. poder. As-
fre nética do rodo social Já se começa a topar nas ruas com esses ~eres si m, 0 surgimcnro de "prod uros sem nome 1gual menre bons e pass~dos
do o utro mund o, velhos carrega ndo no pu l~o um siste ma de alarme desapercebidos no mercado, parece-me um aco nrec1menro · mcm · orwel·
· ·
eletrônico 111.1ior que um relógio, inrerl igado .1 um cenrro de escura. as mercadon.1s de grande consumo são apresentadas. a pretex~o de eco-
Gtlberc Cotteau está na origem desse ripo de ,1ção social com a Fondauo11 11om1a. em embal.lgens brancas, ,,:111on1mas
• " , sem as 1narcas
, , viscosas das .
Delta 7, cujas realizações são mlí ltr plas mas que, par:1 desl:inchar, re::- firma s. Sua pro moção é assumid a por uma imensa campanha de an~t-
c:o rreu ta mbém à ajuda fin ancei ra do Exércico (a Aeronáutica, em p,tr- ,
publicidade Segundo nos d 1zem, sao
- "pro d mos Iivres" • isco
. é' que. . dnao
ncu br). Seus beneftcián os eram noradamenre crianças vietnamitas que . 1 d li
fa.1:cm mais npelo aos méco d os d uv1c osos o ve 10 11 ,arkenng aJ 1c1a• or.
fic.1ram surdas com os bombardeios e que receberam aparelhos acúsrt- .
Doravante, a repulsa fo1 vender 111<11~ que a arraçao; - é ela
' que organiza
r-. ~
a
cos, e velhos que, em Poiriers e em P,1ris, recebera m gratu 1t.1mente apa-
novrt ex1.srenu:1
, . social
. em corno d os o b.Jt:tos
. . da P1oceçáo. Se :is I tr1nas sao

118 119
convidadas a moderar seus esforços publicir,frios pelos comitês de defesa Quarta parte
do consu m ido r é que ourras forças de produçáo ambJC10nam desenvol-
ver os seus, como os memhros do IHEDN de gue se falava
anteriormente. Depois dri guerra do merrndo dornésttco, 11 guerra do mer-
cado mtfitar. Já não se trata mais de aliança democrática a rravés do
s1ste1na de consumo/produção, mas de plebiscitar direrarnence a classe
militar através do siscema de objetos ou, rn:-us precisamen te, de um
desenvolvimento tecnológico e induscri:d em matéria de armamento,
como declarava Mário Soares após sua derroca n:is eleições portuguesas,
em abril de 1976: "Não renho necessidade de governar com políricos;
posso perfeitamente fazê-lo com militares e especialistas." Os novos O estado
dirigemes chineses exibem a mcsm,, linguagem. O "socialismo militar"
não nasceu no Peru ou no Portugal da déc.1da de 70 mais do que na
de e1nergência
Berlim dos anos 30, ou no século passado, com Bismarck e Napoleão
lll com o "social-imperialismo" . A eliminação do sócio da burguesia
política é apenas a realização de um sonho escrarégico repousando uni-
camente na especuL1ção científica e tecnológica; nações militarizadas
que dispensam, doravante, seus exércitos (a força do mínimo vital, do
general Gallois)
Para Chusewitz, o Estado político jú é: "urn meio não condutor que
impede a descarga compieta" Numa tal fórmula, a natureza da ambição
da classe militar é perteirameme revelada e a situação atômica, projeta-
da .. . "Com Bonaparte (general /chefe de Estado) a guerra em conduzid.1
sem perder um minuto e os comragolpes se sucediam quase sem remissão.
Não será natural e necessário que este fenômeno nos renha remetido ao
conce'ito original drt guerra com todas suas deduções rigoros;.is? "A efici-
ência dirdmica é a qualidade principal da máquina de Estado, e o Esrado
nuclear, 1ílrima erapa do progresso drornológico, garante a coesão do
conceito g raças ao computador escrarégico. Em face dessa úl cima m ~í-
quina de guerra e subjugado por ela mantém -se o último proledrio-
rni lir:.H, o corpo doravante d espwvido de vo ntade do presidente da
República, chefe supre mo de um exército desaparec ido. O corpo do
presidente assemelha-se ao dos antigos jovens al istados imobilizados
enrre dois fogos ; seu derradeiro aro scd. ainda o Assalto.

120
...

':-1 promid,ío é a própn,t wcn.irt drt guerrn "

~UN l~ll

O escrenamenco das distâncias tra nsformo u-se numa re:didade


cstracégica com conseq üências econô micas e polícicas incalculáveis
pois equivale à negação do espaço .
A manobra que consistia on tem em ceder terreno p11ra ganhar
'frrnpo perde qualquer sentido; atu almente, o gan ho d e Tempo é
questão exclusivame nte d e vecores e o territó n o perdeu seu significado
ante o projéti l. De fato, o valor estratégico do não-Lugar da velocidade
suplantou definitivamente o do Lugar. e a questão da posse do Tempo
renovou o d:1 posse territorial. N esse estreicamento geográfico que se
1
assemelha ao movimento telúrico descrico por Alfred \'(legener , o
bi nô mio "fogo- movimento" ganha um novo significado: a discinç:ío
e ntre poder de destrutçíi.o do fogo e poder ele pcnetrrtçâo do movime nto,
do veícul o, tend e a pe rder sua "validade" . Com o veto r supersônico
(avião, Fogue te , m:1ssa d e o nd as), a pe netração e a destruição se confun -
dem, a instantaneidade d a ação :i disdncia correspo nde à d erroca do
:idve rsário su1preen <li<lo m<1s també m , e sobretudo, à derrota d o mun-
do co 1110 campo, como distância, como matéria.

1. ''L1 gcnê:se des c,rnlin< nr~ <:l de~ océa n,. Jhà1r1c rlcs 1r,11Hl11tu1m co111me11111les.
Alfred Wcgencr, l .ihra1rie N ,Ler cr l3.1sr.11d , J 937 (Tr:1d 11ç.:10 francesa ~c:;undu a qliinr:i
edição alemã.)

123
A penecração imediata ou prestes a acontecer identifica-se com uina homogeneização geoesrratégica do globo :nunciad_a , aliás, desde
a destruição instantânea das condições do meio , uma vez que, após a e-.
11111
' 1o XIX , 11 ocada
d o secu , , 1nenre pelo 1n"les
o, . Jvlackinder.
, . em sua
0
distância/espaço, é a distância/tempo que acaba desaparecendo n a teoria do "World-lsland", onde a E~irop:i, a As1a e : _Afnca c~ mpu -
aceleração crescente d as performanc es veiculares (precisão, alc:rnce, nham um único co n tinen te e m de cnmcnto das Amerteas, reo_n:i ~ue
velocidade). parece se realizar acualmence com a .des~ualific~ç:i.~ das l0Lal1z~ç-~es.
O binômio fogo-movimento subsiste apenas , desde então, para Mas é preciso observar que a 1ndiferenciaç:10 das posiç_o:s
designar um duplo movimento de implosão e de explosão, co m o geoestratégicas também não é o efeito único das performances veco'.·i~1s,
poder de implosão renovando o antigo poder de penetração dos veículos orq ue depois da homogeneização buscada e finalmente _adqu1r,1da
subsônico5 (meios de transporte, projéteis... ) e o poder de explosão, o :elo imperialismo marítimo e aéreo,, de agora em ~1ante e a
da destruiç5o dos explosivos moleculares clássi cos. Neste objeto mmiaturizaçáo espacial-cstmtégzca que esta na ordem do dia.
paradoxal, ao mesmo tempo explosivo e impfosivo, a nova máquma de Em 1955, o ge neral Chassin d eclarava: "O faro de que a ter~a é
guerra conjuga um duplo desaparecimento; o dejapareczrnento da redonda não foi suficientemente estud:ido de um ponto, d_e vista
matéria na desmtegraçáo nuclear e o desapllrecimento dos Lugares no militar." De lá para d isco se fez ... m as no pro~resso .bal'.sc1c~ d_:ls
extermínio veicular. .É preciso observar, porém, que ,1 desintegração da armas, a curvarnra d,1 cerra não cessou de perder importanc 1:1: ~a nao
matéria é constantemente retardada no equil íbrio dissuasivo da coexis- são mais os co ntinentes que se agrupam e sim o todo planeca~10 que
tência pacífica, ainda que n ão aconteça o mesmo com o extermínio enco lhe ao ritmo dos progressos da " corrida" armamentista. A
das distâncias. Em menos de meio século, os espaços geográficos rransbção continental que se encontrava, curiosam~nte na mesma
estreitaram-se concinuamente ao sabor dos avanços da celeridade, e época, nos traba lhos do geofísico \Vegener, com a deriva d as plac:is, e
se no começo dos anos 40 ainda era preciso medir em nó; a velocidade de Mackinder, com O amálgama geopolítico das terras, cedeu luga1~ a
da "força de ataqu e" marítima, o maior poder de destruição à época, um fenômeno telúnco e técnico de contração do mundo gue nos faz
no come\'.O dos anos 60, esta rapidez se mede em rnach, ou seja, em ·
hoje penetrar num universo copo I'og1co
· arr1r1c1a.
·e-. · I· ofoceafiàcedetodas

milhares de quilômetros/hora, e é provável que as pesquisas atuais tlS supi:rficies do globo. ~ .


sobre ,Jras energias permitirão, em breve, a aproximação da velocidade O antigo duelo entre c idades, a guerra entre n~1ço_es, o co'.1 f11to
da luz, com a arma a laser. permanente entre os impérios marítimos e as potencias contine1~-
Se, como pretendia Lenin, "a estratégia é a escolha dos pontos cais, rudo isco desaparece subit:imenre cedendo lugar a u_m:.1 opos i-
de aplicação das forças·', somos obrigados a considerar que esses ção inaudita : a colocação e m contato de rodas as loc.al1dac~,es, de
"poncos" hoje não são mais pontos de apoio gcoestratégicos pois a partir rod:1 a matéria. A m:issa planetárta fica sendo apen:is uma massa
de um ponto qualquer já se pode ati ngir um outro onde quer que esteja, crítica", um precipirado resultante da extrema redução_ do t~m_po
em tempo recorde e com a precísão de alguns poucos mecros.. . Temos de relação, temível fricção de lugares e eleme ntos ontem :iind~ di 5tin -
de admitir que a Locf.lÍizaçáo geogrtifira parece ter perdido definitivamente tos e separados pelo t ampão repentinamente ~nacrôn 1c~ das
.reu valor estratégíco e, ao comrário, este mesmo valor é atribuíd o à não distâncias. Numa obr:1 publicada em 1915, Ln genese des continent;
· '' Terra so
Localização do vetor, de um vetor em movimento perrnanence, pouco rt des océans, Alfred Wegener escrevi,1 que , n a ongem, ª '
i mporta seja ele aéreo , espacial , submari no ou subrerrâneo, contam . f. "
pode ter ttdo um a. ace . O . , el
que parece p1.ovav , levando-se
, em conta
. - ' . f . a Terra venha a ter
apenas a velocidade do móvel e a não detectabilidade de seu curso. capacidades de 111terconexao, e que no uru 10 , '
Da guerra de movimento das forças mecanizadas, chegou-se à apena~ Lima interface... . d ·
_ ,d essencia1 os esc1-
cstratégía dos movimentos b~ownianos, espécie de guerra cronológica e S e a velocidade aparece entao Lomo a recai a . ,,
_ 1 " rrida armamen cisca
pendular gue renova a antiga guerra popul ar e geográfica através de los de conflitos e de con f1 agraçoes, a acua co

125
124
efotiv.1ment<. não p:1~.,a "do r11·11u11111•J1to rlfl ronit/11", tt'ndo a fim rio fon,,ts ..onrr,1 .1~ potên1.i.1s 111i:g.uón11.:.1s do nudc:11 do que em 111obil1t:\-
nuoulo como 1/i,tíi11111,, i,to /. , om11 11m1pn ,/e 11çao 1.t~ cm sérÍl:'.S de mo, 11llt::IHO\ pcrpt::rnos, 1n1previ~Í\e1~. ,1Gu 1,111l1.:. p~11 l.111-
1.;,

O termo d15su.1s.ío reflete a .1mbigti1cbde des$,l 5nuaç:io em cp1e ro, v,rr:1tcoic1menri:


~ ::i
c(1c;17c>, 110r 1l••t1m
_,
remp0 :1111d:1. espetemos De
a ar111:1 subwrni ,1 prnri::~;io d.1 co u1 :iça, em que as possihd1d.1dc:, da foro ;1 g11err,1 repous,\ ,1gor;1 11irc11.11nc11re nes,.1 dcsreµ.ul:1ç~o do :empo t·
o/~n:.a e d,t uknsiva g.u,rnrem po1 s1 so, a ddesa, tod.1 a defemi, ,l do~ lug.1res, r.1zfo por que a m.1nobr.1 u·wiat, que consi~re em soh~tíc:,u o
contr:i a d1111cns.ío nplos1v;1 d.is .umas e5t1,1rJgic:1~ m.1s nenhum.1 con- veror ~1elho 1.indo co11sr:111te111cnte \11,1 pertorm.1nce, suplantou ,1gora ro-
tra a d 1mcn sao · i111plos1va" das pc 1fo11 n ances do:, vetores, uma vi.;1 r.ilmcnce a 111 :mobr.1 1iít1ca, como vimm .111tc1 tormenlec: O gec:ncral Ailk1et
que, .10 contr,írio d.1 111.rnutcnç:io da Cl'l.'dib1ltd.1dc de uma "forç.1 de :u.tqlH:' detalha 1sso cm sua / fotoirc• rlc líml/t'111Cllt csc1evendo· A dcflmçáo do
(nutlear), ela exige o ;iperfeiço.1me11co 111ccssante das p1oc1:is dm rngenhos, programas d(' 111mrmu•J1tm tomou-se 11111 rio, r!cJ11mtos c:1r•11rini., ria ,f''t~r11('<1r1
ou :.eJ,l, de \Ll:l cap:icid.1d<. di: redlllir .1 nad.1 ou qu.1sc 11.1cl.1 o esp.1~0 Se 11.1 .rnc 1ga guerra urnvennonal .unda se podia l.1l.1r de cxcrcitos de
geof.r,H1co. Com ei1.:1Co, sem a vioknu:1 d:1 ,doc1dacle .1 cbs arma, n:io rn,1110b 1a~ ~m cnm pan ha. no cst.1g10 .nual. ~i: e~s;i 1n.1110b1 ·1 subsiste, d.1
seri.1 1;\o tem1vel. Dt•Jr1rmr11 Je/'lrt ho)l , c11tíio, ;mmciro dcs11cekm1, des:1rmar n:io precisa mais dé "c1111p:1 nha", ,1 1nv;isã0 cio inst,1ntc suce~c ?t invasão
a cormb para o fim Qunlqrm trrwulo que }J(ÍO limitm .t vdoúrladt· dma do ce 1ncóno, a conr.1gem rcgressi\,l torna-se o c.unpo de enfrcntnmenro.
corrula (a ,·docidade do5 meios de comunic1ç;io da de,rruiç:in) 11ão /11111 a uluma frolll<..Ír,1
tarrí 11'/fllS os 111-rnrtmelllw csLmt~<;tcos um.1 vez que o e~sencíal cl.t e~trate~ia Os bloco:, antagôn icos podem rn111ro fac ilmente p1osc1evcr ,l perspec-
consi~te ,1gora em manter o não-lugar de 11111.1 desloc.1l1z.tção ger.11 ll01> ( civ.1 .1,1:, guerras baccc1 iolog1<.,1, geode~1L,l 011 111ereorol0gic.1. _Na H:~d.1dc,
meios que, .1penas ela. permit<. ainda g.rnhar :1~ fraçóe~ de segundo indis- 0 qut esd cm caus.i :ttualmcnce com os :1cu rdm :,obre :1 l11111taçao da~
pens:íveis par,1 a libe1cbde de ,l<y,í.o. Como escrevia o general fullcr: "Qu.111- arm.1~ escr.nég1cas (SJ\LT l) n:io é 111.11~ o explosivo e ,im o vetor, o vetor
do os com b.1tences se l.mçavam da1dos. a velocidadt" 1111c1.1I dt"ssa ,1rn1.1 dr entrega 11ucler1r ou, mais ex.1tamentl ainda, sua perfo1 m,1ncc. O mouvo
era mi que ~e podi,1 pe1cebe1 :.ua r1.1jecoría e evitai seus efeiro~ com a é simples ali onde .1~ defl agrações do explosivo (molccub 1 01 1 nucle.1r)
ajud:1 do escudo, m.is quando o dardo foi subsrnu1do pd.i h.lla. a ,·eloc1d.1- conu ibuí., 111 p 1r;1 tornar o esp,1ço 1mprópno p:ira a exiscenc.1.1, .1gor.1 s:io
de er.1 cão grande qm .1par.u o golpe rornotHC 1mpossh d" ... 1111poss1vcl as elo 1mplosivo (vdrnlos veco res) que reduzem .1 nada o tempo ele agir e.
peb t!SCJU IVa do corpo m.1s pos~ívcl pelo rec uo para além do alcance da pol1cicamence. o de decidir Se. há m:rn de trima anos , o explosivo nucle.u
arma, possível também gra\as ao abngo de rena .ilém daquele p1oporc1- cncc 1r.rv:i o ciclo d.1s guerrm tio t'J/J11 1 o. nem: f111,1l de :,éculo, o unplo\lVO
onado pelo c~cudo, mo é. po:,sívd pelo espaço e pela maréna ,\cual mcn- (m,11s do que terriró1 ios inv.1d idos poliric:1 e.: cco110111i<..,1mence) 111:iugur,1
te, .1 redução do tempo de .1lc11,1 re:,u lcame d.1:, velocid.1des suptr5ôni1..,ts a g1tL'Jra do tempo. Em plen.1 coexistência p.1cífic.1, s~m decbr.1ç~o de
dos meios de .1ss:1lco dc1xa t.10 pouco rcmpo p.11 .1 a det1.:cção ..1 1de11tif1c:1 hostilid,1do 1.. mais si:guramcnre cio que por qu.1lqucr npo de co11fl1ro. a
ç~o e, portanto, p:u,1 ;1 pront:1 respo:.ra, que cin caso de ar.iquc.: ~u1prcs;1 ccknd:ide nos livr.1 desce.: mu ndo Preci~.unos nm 1cn der :1 evidc'.:ncia:
se11:1 preciso que a ,1uwridadc: suprem.1 .1.ssum1sse o m<.o de .1bandona1 ,t hoje, a velocidade é .1 gue1ra, .1 Íilttm,1 guen;1
prer1ogac1v,1 d.1 decVi:io, aum1 iz.1ndo o escalão m:iis b:iixo do siHema dt: Mas voltemos .1 1962, :10 momenro c.ip1r.1l do c.1m de Cuk1. Naquela
defcs.1 ,1 desencade:u, 1n:,ra1w1nc,1111enrc, o di~paru do:, mí~se is ,111 t1mí~~eis. opo1 tunicble, a demor:i do aviso pi <.:v10 ck gue1ra er.1 :1L nda de / 5 rnúnttos
As du.1s gr.rndcs potênCI.IS polírn.as p1dcriram ~e entender par.1 ICllllll(l,11 p:11.1 as duas supe1 pocênc1,1s. J\ implanraç:ío do, fogueres ru,;sos n,, ilh,1
a isso. renunc1:rndo po1 o r,1 a dcfes.1 ann míssil d e Cas rro amea.,.\v,1 baí>.:\r esce 111ccrvalo p.u,t JO icg1t11rlos, par., os
Nfo c..onrando co m o c~paço, :1 defesa ativa <::x1gc, pelo meno~, o americano~, o qul' era inacett.ivcl p.11a o pre~1dentc Kennedy, qualquer
tempo maten.11 de intervir Or.1, é em: "marcrul de guc:rra'' que des.tp,1- '
que fosse ·
o nçco · · recusa Sal)emos o que ·:iconreceu em
d e rn,1 cat<..gonca ~

rece n., .1cdcraçiio <la\ perfor111,1nces do~ meio~ de comun1c:tçifo d a desu ui- ·d 1 - d f , d · 1 1· • .
segu 1 .1: :1 111srn açao .1 mor/ zreta, 1a o te e 1 ,ne ve1 1 11 elho e ,
· 111terco m:xao
ção <. resta .1penas a ddesa p.miva que con~im: 111eno, cm bl1nchr Sll,l) dm chefes tk Esc:ido1

127
126
Dez anos mai5 rarde, cm 1972, quandll ,1 demora do alert,1 nor- que quando um pilorn est;Í no LOntrole Podemos nos perguntar se
mal não pa~~a de alguns minuros - dez parans mís~eis balísncos, dois chc:oaremos a um concro le aucom,ítico das armas nucleares onde a
o
somente para as :inn ,1~ .~:irel11ada~ - Nixon e Brejnev assinam . cm margem de erro sei i,1 menor que a d,t decisão hununa, mas os
Moscou, um primeiro acordo de limiraç:10 de arn1amento\ csrratégi- progressos possíveis :imeaçam reduzir a pouco , ou nad ,l , o tempo
cos. Os adve1sários/parce1ros pretendem guc esse acordo vise menos :1 deixado à decisão humana para ince1vir no sistema."
lirnirnção numérica chs annns que ,1 conservação de um poder políri- É brilhancc. A contração no cempo, o desaparecimenro do espa-
co propriamente " 11um:1110 " . ;a. ' que o:-. progressos consrances da rapi - ço terncorial depois do fim d a cidade forciftcada e da couraça,. resulta
dez ameaçam crazer. dia desses, .1 demora cio aviso prévio de guerra em que as noções de avante e atrás designam tão-somente o turnro e
nuclear para (l111f111 rio 111i11uto fàtídico, abol111clo .1ss1m todo o podei o pa1.sado numa fu, 111,1 de guerra em que o « presente ren de a 1)

de reflexão e decisfo do chefe de Escado, em favo1 de uma autornaçíio desaparecer na 1nstantane1dade da decis5o.
pura e simpl es dos sistemas de clefesa e deixando a dcci5áo d .is O ultimo poder sena enr:io mais o d,1 ancec1pação que o da ima-
hoscilidades p:ira alguns program.1~ de computadores estr:1cégicos A gmaçáo, até o ponto em que governar seria apenas prever, simular,
máquina de gue11a, após ta.sido o equivalenrc, de uma gMrm total graças memonzar :15 simulações: ponto em que o atu:11 "Instituto de Pesqui-
à surz capacidade dl' deJtJ'llif,ÍU com u 5ub1n,t1i110 nudear Llnç.t-mísseis sa" poderia se colocar como modelo desse úlnmo poder, a uropia. A
capaz de aniq ui br, sozinho, quinhenca s c idades , rransform:i-sc perda do esp,1ço material implica governar apenas o tempo. O Minis-
subitamente na decisão mcsm,1 da guerra em raz5o dos reflexos do tério do Tempo esboçado em cada vetor realizar-se-ia enfim nas dimen-
computador estratégico. O que resc;rn;1 emão da~ razões "polític1s" sões do maior veículo possível , o vetor-Estado. Toda a história geogr,ífica
da dissuasão? Lembremo-nos de que entre os motivos que levaram o da divisão das terras, das regiões, tudo isso acabaria em favor da mera
general de Gaulle a fozer a populaç:io ap1ovar ,1 decisão de eleger o reconstituição do tempo e .o poder seria compadvel apenas a uma espé-
presidente da Repúblic,1 por sufrágio universal, em 1962, hav1:1 a cie de "meteorolog1:-{, ficção predria onde a velocidade tornar-se-ia
credibilidade d.1 dissuasão, e a legi cirnid ade do teferendo era um ele- subitamente um descino, uma for m:i de progresso, ou sep, uma
mento fundamencal dess.1 mesma dissu,1sfo . Que subsisti rá disso cudo "c ivilização", na qu al ca d a velocidade seria parcialmente um
na :1uromação da dissuasão, na auromaçiío da decisão ? "departamento" do tempo.
Do cstttdo de Jítio das guerras do espaço ao csttldo de 11rgrnci11 da Como escrevi;1 Mackinder: as forças de impulsão exercem-se sem-
guerr:1 do tempo, n5o será preciso esperar mais que .1lgumas décadas pre no mesmo sentido. Ora, esse sentido ünico da geopolítica é aq uele
em gue a era política do ho mem de Estado terá des:1pa1ecido dando que conduz à imeclí::ita comutação das coisas e dos lugares. A guerra
lugar :1quela outra, apolític:i, do ,1p:1relho de Est:1clo. Face :io ;1dvento não é "um depósito de fogo" co mo precendia Focb iludindo-se sobre
de um cal regime, convém se pergunc:ir sobre algo gue é bem rn:iis o fut u ro dos exp losivos guímícos; a guerra é, desde sempre, um
que um fenóme no rcmpor:il. Neste fim de sécu lo, mcerm-sl' o tempo depósito de mov im e nto, um.i fo bri ca de veloci dad e. O impulso
do mundo fiuitoe vivemos as prem iss,t~ de uma paradoxal rnimruurização tecnológico, <iltima forma da guerra de movimenco, desagua, co m a
da ação que o mros µreferem b:1riz:1 r de automação. Andrew Scratron dissuasão, na dissolução do que separatJfl mas também distinguia, e
escreve: esta não-distinção corresponde a um;1 cegueira política para nós. Isto
''Acredir:i-se ger:1!111 en re que .1 ::iutnmação supri me a pos~ibil1- é o que se vê no decreto elo ge nel',11 de Gaulle, de 7 de janeiro de
dade do erro hum :rno . Cerco. ela mrn5fere essa possibil 1cbd e do 1959, s uprimindo a distinção entre tempo de pa1. e tempo de guerra.
est,íg10 da açfo ao esc:ígiu da co ncc:pç:io. A ringi11105 agora o pomo Aliás, nesse mesmo período e apesar da exceção viecnamica que confirma
em que as possibilidades de um :1cíde11ce durante o, 1111iHitos críti - :1 regra, a guerra enco lheu de algu ns anos para alguns d1:is, p:i ra algumas
cos da ate rri ssagem ele um nvino guiado ,turo matic1111enre é menor cio horas até. Nos ;mos 60, opera-se uma mutação: a pasSagem do tempo

128 129
de guerra à guerra elo te111po de p.rz., dc~r.1 paz totr1! que ourros :1i11da os c:sr:,distas, em Lwor, p1ov,1Velmence, de uma interconex;io ~l~s
nomeiam de "cocxístênc1a p,1cít'ic.i'. A cegueira da velo-.i<lack do~ meios sistemas de computadores, modernas ndquinas de calcul~r a cstr:1teg1a
de comunicação d:1 des truiç:ío nfo é uma libertação da s ujc 1~:io e, portanto, a política. (Lembremo-nos de que " prim...:1ra tarc~:i dos
geopolítica e sím o exrermínio do espaço como c:i mpo d.1 liherdadc con1pucado 1e~ fo1 r...:sol vc 1 .1:. equ.1~·ões co111~lc.:~ .1~ e s1mu l~ :~1~e,1s'.
de ,1ç:10 polític:1. B:ist.1 cit,umos os controle~ e :is norma:, ob11g:1rórias dcscinadas a fazer com que se encontrem ;is traJc:tonas do proJc:til de
d:is i 11 fr:1-estruturas ferroví :iri.1s, aén~as e d:is au co-esc1adas para co 11st:1tar arnlh,u ia ant1.1érea e .1 do avião)
a fune~ta relaç1o: quanco r11a1~ cresce a rapide1, mais decresce a liber- Eis aí claramente o remível chogue dos elementos na~c1dos d:is
dade. A aucornobilid:1de do ap.1relho gera , llnalmente, :i ;mm-suficiên- ''gerações anfíbias", esra proximidade ex_crema das partes crn que.~ m1c:-
cia da autonnçfo O que se produz 110 exemplo do pi lo co ck corrid.1 , díatind11de drt mjormaçiio cria (1 rnse irn~cl,ruarnmti:, c,t:1 :rngd1d,1~e
que e:! apen:is o vigilante acento das prob.1bil1dade::. cac.1strófic.1s de do poder de raciocinar que é apenas o efeito de uma mmt,\tunza:ªº
seu movimento, rep1od11z-se 110 pL1110 po lí(Jco, pois a~ ct> 11t!ições cl.i ação resulc:.1nte eh min 1arnril:1ção do e~paço como campo de ª.çao .
exigem uma ação cm tem po rea l. 1 Um gesto imperceptível sobre 11111,1 ceei~ de com~rnt~dor ou a11'.da
A círulo de exemplo, comemos uma sm1 ação de c rise: "Desde o de um "piram aéreo" canegando um a caixa de b1sco1to , envolvida
0
come<,.O da guerra dos Seis Dia~, em I 967, o pres1den te Johnson escava em e~paradrapo podem resultar num encadeamento carnsrrofi~o aJlCcs
insc,1Lido nos com:111dos da Cas:i Branc:i, uma m:ío guia ndo ,l Sexra inimaoinável. Omitimos deliberadamente . ao lado do risco _de
Frora , a oucra so bre o telefone verme lho. A necess idade de l1gaç5o prolife~ação ligado ;1s novas possibili dades de aq\,i.siçã~ do ex.plosivo
entre os dois surgi u claramente quando um :itaque isr:i.elense contra o nucle,u por pcs~o;:is irresponsáveis, hJ ague l.1 proliferaç'.10 .cio nsco 1e-
navio de reconhecimento americanolibcrtyprovocou a inrcrvenç:ío dos sultance de vetores gue rornam efetivamente 1rrespo11s,we1s os que os
aparelhos de um porra-aviões da frorn . Moscou examin,:iv:1 cada som- po::.suem ou conseguem .
bra nos r:1dare5 com a me:,nu atençfo que \~'ashingron: os russos iriam
inte rpretar a mudanç;i de rumo dos aviões e wa convcrgénc1.1 co mo
um :iro de agressão?! aí que intervém o telefone vermelho: \X/ash ingcon No 111 1cw do~ ,rnos 40, Paris escava ;i seis dias de marcha das
explicou imedi ata mence as razões d ess a operaçáo e Moscou fronteiras . ,1 crês horas de carro e a uma hora de avi:10 ... Hoje, a capim!
uanquilizou -se (Citação de H;1rvey Wecler). est;Í a a lguns minutos de qualquer lug;,r e em gu~lqucr lugar : algun~
Neste exemplo de ação político-esrrarégica em tempo real, o chefe minutos de seu fim, a ponto de se inverter a tendenc1a que a re_ pouco:,
de Esr:.1do é efecivamenre um "Gr:.1nde Timoneiro'', ma~ o c aráter anos ,uds era d(' avançar ~eus meios de desci u1çfto p:irn a prox1m idade
prest igioso do guia h iscórico dos povos cede Iugar ;10 mai~ prosaico e, do lerncório ;idversário, como no c:1so de C ub:i A acualid:idc es cá no
afinal de contas, b:in,11, do "piloto de reste'' tentando m .rnobr.tr su.1 desengaja menco geogdfico, movimemo de recuo resu ~cance dos prog~es-
m.iq uin:i co m uma nurgem de liberdade rest1 ira. Depois de\~e "est:i- sos dos vetores e eh d u plicação de ~eu alcance (vep -se o subm:inn?
do de crise", transcorreram dez :inos e a corrid:i a r111 a 111 e11t is c:1 fez :imeric:i.no Triderlt, cujos novos mísseis têm um alcance de 8 a 10 mil
;w:i nçar ai n da mais a miniacuri za~ão de1,s,1 margem de ::.egu1:rnç,1 qui lômetros em vez dos 4 a 5 mil dos Poscidon)
política, aproximando-nos do l11111ar crítico em c1ue .1s po~~ibilid.1des Assim, as diferences forças 11ucle:1res estr:irégicas (amerirnnas e sovi-
de uma ação propriamente h umana desaparecer:ío num "Estado de ,.
ec1cas) - mais
n~o cerao . d e pau.u 11rn1. :is pa1abc,e11s elos conc1ne
- nre:,-alvos;
.
emergência" em que rerão cessado as com unicações tele fónicas entre . :1
elas poderâo do 1av.1nce se renr.1r para d ermo tos 1mrre5 1 · · . de suas pr6p1 ias
. . . , . b d
aguas terriron:.11s. Con 11r111a-se assim o a .rn ono e
le uma forma de con-
, .
2. Em L~rmos de co nrrole. o signi/, c;,clo desse.: cem po é fun ç:ío cl n campo rempo ,al fli co geoestraté<>1co. Após a renunc1;1 reciproca a gu erra· geodcs1
, , , • ca, crara-
cm cujo inrer,01. percepç:io, dcc":io e :1c;ão 1111rrvêrn. ::, ,. b , :ida_.; c hegando a este
se agora do abandono poss1vel d:is .,ses a~anç. '

130 131
extraordinário abandono da soberania amencana sobre o canal do Pana- vers,mos e sim pelo aperteiçoamento mesmo dos vetores emprega-
má... sinal dos tempos, dos tempos da guerra do tempo . dos. A dissuasão parece te1 repeminamente passado do estágio do
É preciso observar, porém, que este rnovimcnro estracég1co de fogo, isto é, do explosivo, ao do movimento dos vetores, como se
recuo não tem mais nada em comum com o recuo dos exércitos conven- surgisse um t'llt1mo grau de d issu:1sfo nuclear, arnda mal dominado
cionais que lhes permitia "ganhar tempo perdendo espaço". No recuo pe los atores do jogo estratégico mundial. Com efeito, aí também é
devido ao aumento do alcance dos vetores b,1lísticos, ganha-se efetivamente preciso vo l rar às realidades esmuégicas e táticas do armamento para
tempo perdendo o espaço das bases avançadas (fixas ou móveis) mas esse tentar apreender a atua lid ade logí:scica. Como dizia Su n Tsu : "As
tempo é ganho sobre as próprias jàrças, sobre a performance de seL1S arm:1.s são ferramentas de mau augt1rio", elas são em primeiro lug:u
próprios engenhos e não sobre o inimigo já que, simecricamence , remJdas e temíveis como ameaças, e ísco bem antes de serem usadas.
este último acompanha esse desengajamento geoestratégico. Tudo se Seu caráter "ameaçador" se divide em três componentes:
passa repentinamente como se o próprio arsenal se transformasre no ini-
• a ameaça de suas performances no momento de sua inven-
migo (interno) de cada um dos protagonistas, ao avançar rdpido demais.
Similarmente ao recuo no disparo da arma de fogo, o movimento de ção, de sua produção;
implosão das performances balísticas tende a reabsorver o campo de • a ameaça de sua ucil1zação contra o inimigo;
forças estratégicas. Com efeito , se os adversários/parceiros não recuas-
• o efeito de seu emprego mortal para as pessoas, destrutivo
sem seus meios de comunicação da dest ruição aumen tando seu
para seus bens.
alcance , a velocidade superior desses meios já teria reduzido a nada
a demora na decisão de seu uso. Assim como os parceiros desse jogo Se esses dois t'dcimos componentes da arma são desgraçada-
abandonaram, em 1972, em Moscou, o projeto de uma defesa por mente co11hecidos e experimentados desde há muito tempo, o pri-
míssil antimíssil, eles trocam, cinco anos mais tarde, a vantagem da meiro. em compensação, o mau augúrio (fogistico) da invenção de
prontidão por um alcance superio1 momentâneo de seus mísseis suas performances, geralmente é menos percebido e é neste nível que
intercontinentais. A mbos parecem temer, sem deixar de buscá- lo, a questão d a dissuasão se coloca entretanto: pode-se dissuadir um
aliás, o efeito multiplicador da velocidade, dessa atividade veLocida- adversário de inventar novas armas ou então de aperfeiçoar as
de, tão cara a todos os exércitos desde a revolução. performances? De forma alguma.
Diante da curiosa regressão contemporânea dos acordos sobre a Estamos, pois, diante do seguince dilema :
limitação dos armamentos estratégicos, convém voltar ao princípio • A ameaça d e uso (segundo componente) da arma nuclear
mesmo da dissuasão. O arremesso das armas an tigas ou o disparo impede o terror da utilização etetiva (terceiro componen te), mas
das novas jamais tiveram por objetivo essencial matar ou destruir o para que esta ameaça subsista e permita a es tratégia de dissuasão, é
adversário e seus meios, mas sim dissuadi-lo, isco é. obrigá-Lo a preciso desenvolver o sistema de ameaça que caracteriza o primeiro
interromper o movimento em curso, fosse o movimenro físico, ag u ele componente: o mau flugúrio do surgimento de novm performances para
que permite ao assaltado conter o assa ltante, fosse o da invasão, os meios de comunrcaçáo da destruição. Claramente, as grandes
pouco importa. "A aptidão para a guerra é a aptidão para o movi- manobras logísticas se resumem à sofisticação perpétua dos meios
mento", aquilo que um estrategista chinês exprimia com estas p ala- d e combate e à substituição da investida geoestratégica pela investida
vras: "Um exércíco é sempre suficien temen te forte quando pode ir e tecnológica. Se as armas antigas dissuadiam de interromper 0
vir, se estender ou se encolher, como ele guer e gu::indo e le quer." movimento em curso, é preciso se render à evidência de que ª.s novas
Ora, esta liberdade de movimento está encravada há a lguns armas dissuadem de interromper a corrida arm11mentista. Ma1~: elas
anos, não mais pela capacidade de resistên·cia ou de reação do; ad- exigem, em sua lógica tecnológica (dromo lógica), o desenvolvimen-

132 133
co exponencial náo ma is dv 11ú111erv do~ engenhos désrruidores, J>n1, políuco - militares LOntc:mpod 11 eo.s, como p1eusa H. \\?ecler:
seu poder io cresceu (basra comparar aqui os m ilhões de p rojéteis "Tec nologicamente possível , a ccnrraliz;ição rornou-sc políric.rn1en-
dos dois grn11clc:s conflitos rnu11día1s e os poucos milhares de fogui.:- ce nec.c:ss.ín., ." Csc,1 síntese l~mbr,1 .1 famos ;1 fórrnul:1 de S:lint-Jmt:
ces dos arsenai~ cc.Hrente,), e sim de suas jJl'l:fÔrrnf/11ccs globais. Com o "Quando os povos podem ser oprimidm, ele\ o são." Com a diferC'n-
potencial destrutivo atingi ndo os li mites poss íveis, :1tr:1ves da arma ça, porém, de gue esca opressão cecno logística n:'io concerne mais
cermonude:1r, as "esrr:1cégias logíscic:1s" dos advcrs;írios se orienr:1m, u111:1 somente aos povos, mas também :1os "tomadores de decisões". Se
vez mais, par,l o poder de penetraç.fo e :1 flexibi lidade de uti lizaç:io. ain d a ontem a liberd:1de de ma no bra (esta ap tidão pa 1a o rnov 1me 11 -
O equilíbrio do terror é ,1pc11as um artifício no esc;i_gio da 111dliscn,1 to que ~e 1de11 tific:1 com ,1 apt1dfo p:11.1 a guerra) exigia, às vezes,
da guerra onde rei11,1 um desequilíbrio co11st;111tc , 11111a cx.1cc:rb,11;:ío delt::g,1çó<::~ de podei par,1 o e~c.tlfo subalterno, com a redução de:,sa
extremada Cap:izes de inventar continuamente novos meios de descrur- m:1rgem de m:rnobra resultante do progre~m dos me ios de comun i-
ção, em compens,1ção, 1105 111osrr:rn1os i11c:1pnes não só de dcsrrurr os caç:io da descruiç:io, ass istimos .1 uma concenu-ação extrema da~ re~-
que produzimos (os "dejetos" da indústria mi licar s:io tiio d1fíce1s de reciclar po n sab il id,1d es nesse tomador de decisões so lidrio em q ue se
quanto os da indústri,1 nuclear), m:1s. sobrecudo, de ev1c:1r :1 ameaç,1 de transformo u o chefe de Estado. Esta contração, enrretanco, es tá longe
seu surgimento. ele terminar ; ela prossegu<:: ,\O sabor da cor1 id,.1 aunamen[lsca, na
A guen a deslocou-se assim do esdgio da açfo ao estágio da concep- cadência das 11 ov,1s capacicL1des dos vetores, até algum dia expropia r
ção que caracteriza, como vimos. a automaçlto. Incapaz de con trolar a esse úl ti mo ho me m . Co m efei t o, o mo vime nto q ue restringe o
emergência dos novos meios de destru 1çáo, :i dissuasão equ iv;1Je, fi nal- número de projé reis é o mesmo q ue red uz a n.-1.da, ou quase n:1da, a
mente, à criação de seqüê ncias de auromar1smo~, procedimentos indus- decis;io de um in d ivíduo p ri vado de co nselho . Ê a mes ma mano brn
triai~ e: científicos reacion;1rios dos quais se faz a usente gualyuer escolha que hoje lev:i a aba ndo nar os re rritó rios, depo is as bases :1vançad.1s,
polínca. Tornando-se "escracég1cas", isco é, conj ugando a ofensa e a defe- e que levará a renuncia r, algum d ra, ;1 dec ís:io h11m an:1 so li d.ria, em
sa, s:io as ;i rmas nov,1~ que dissuadem de imerrornpcr o mov1menro da favo r d a 111íni.1t u1 1z,1ç:io absol u c:1 do campo po lítico que é a
corrida armamentista, e a "escrarégia logística" de su:i prod u\·5o torna-se automação
uma fo calidade, a fata líd;1de d,1 produção dos meios ele destruíç:io como Se no te m po do g ran de freder ico, vencer l'rtl avrmçar, pa ra os
fator obrigatório da nfo-guerra, círculo vicioso em que ,1 fatalidade da adepcos da d issuasflo, vencer é recurzr, é de ixar de lado os lugares , os
produção su bstitu i ,l d,1 descrurç:io. A rn:\q uí na de guerra j.i não é so men- povos e o in d ivídu o até o ponco e m que o progres~o dromológíco
te toda a guerra, eh se transforma no inirmgo prmcipaf dor parceiros pareça reco mar :l prop ulsão por re.:iç:io que 1esulra d:i ejeção de u ma
11dversririos, privando-os de sua libe1cl.1de de movi mento'. Arra~rado~, à cerra quantidade de movimento, produto de uma massa por uma
sua reve lia, para a se1vidão sem g1.111deD1 d.1 di5sua~io, o~ proragon iscas velocidade no sentido oposto ao q11!' .ll' quer imJJrirnir.
praticam ago r:i a po líric.1 do pio r o u, mais exatame nte, ";1 ,1po líti ca d o Nes ta guerra de rcccssíín e ncre o Leste e o Oeste , co nre mpo rnn ea
pior" que fatalme mc faz com que a m;iq11i11.1 de guerra ven ha a se co nur, não d a ilu só ria l im itação d os a rma me n to~ e~tratég1cos e sim eh
algum d ia, a própna decisão d .1 gueria, rea lizand o ,1ssi111 a pe rfeição de limitrtçíio rlrr eJtrat,:gi11 mes m;"t, a potencia d,1 explos~o rc rmo nuclear
sua :rnro-~ufic1ência, a auwmnçrío d11 rlissunsíto. serve de hor izo nre arrifici:d :i corri da q ue au me n ta ,l pocê ncu da
A proxim id ade sugestiva dos termo, "dissuasão" e ",1uro maç5o" im plos5o ve ic ula r. A impo~sibil 1dadc el e interro m per o progresso do
perm ite co mp reender mel ho r o t::ixo est1 ururado r cio~ aco n tcci mencos pode r de pcnccraç;ío de ou t ra fo rma que po r um ato tlt'fe no advt:rnfri o,
resul ta e m negar a cstracéaía como coithe'ctrnento prét110. O cará te r
3 O ~ubm;mno nuclc~r l.111ç.1-mí~,LI\ (SNLl1) d1spi\~ so1.1nliu de· um po,lc1 ,o dt b b'
dc~m 11ç:ío cqu1valenrc ao de rndo, m cxplosivm mili1ado~ du1 anrc a ~egund.1 G uer ra
:1 u com;1cico 11 710 ma is u nicamente d,1s ,1rmas, do~ meios, 111:is ram e m
Mundi al. do co nundo , equivale a negar a cap;1e1dade de raciocí n io, rllcht

134 135
misonmercn! A perÍl.!1\:iO eh ordem de Frederico 1T realizou st: com .1 l ~le e o aspeLto tt,eogní/ito.
dis~u.1são que leva a reduLi1 não \Ú .1 l1bt"rd.1de de ,11,.:io e de dec1s,ío • Outrorn rcsponsáve1~ pelas operações, os ,rnrigos chefes de guer-
mas também n de co ncepção A lt',g1ca do, ,;i,tcmas ele 1rm:1 mcntM ra, escraceg1~ra~ e oucros tantos gcner:us são recu:1dos e confinado~ 11.,~
escap.1, cada ve7 mal\. aos quachm milH.rn.:,, cra11,ft:r1d.1 que é p.tra o divers:1s ;inv1dades <iL' m:rnucent,.,H>, cedendo lu~,.i ,10 ... hâ1.. de Esc.1do
cnge nht.:iro n.:spon~avcl pela pesqu1s,1 e o desenvolv1mcnco, 11,1
,1penas ...
expecc:uiva, evidentemente, da auto-!>uficiênci.1 do ,1sccma.
l-1,1 dois ano:., Ale:,..,111dre ~.111gui11etc1 escrevia .. fo1n.1-~e cach
Este é 0 ;ispecco politiro
vez mais inconcebível construir aviões de ,Haque cust.rndo com sua~
M:is e~r;1 rarefoçfo quancitat1v,1 e qu,1l1tat1va não pára: o própno
peça,; ele rep0\1ção muitos hilhões de fr.rnco, antign\ por unidade
par:1 t1ansporrar bombas c.1p.-izes de dcscruir uma estação ferroviári,1 Tempo amc:H;a folr.1r:
do 1nrenor; .1 relaçfo custo bcncfic10 n'io esc.í g;u.1ntid.1. ·· Esc:1 lógic.1 • Con!>t,111 ccmuHL ,rnmcnc.1d:1s, as c:1p.1c.1datk, ja ,rn1pl.imenrc
d.1 guerra prática onde o cmrn d,l perform,1nce do vetor (aé1eo) provoc:1, super~ônica~ do) vt.:rores s:io ulnapassadas pcl:is altas energi:i~ que per-
,nnomacicamenre, a :1mplt.1ção de sua c.1pacid::idc de descruiç.ío pda mitem a .1proximação da vdoc1d.1de da luz..
cxigcnc1.1 de carreg.u um .mnamenco nuc.lcar dt1co, 11:io se limita ao
[!.te é o aspecro esptfriaL-tempornl
avifo de ass:illo; el.1 se transforma também n.1 lógica do ap::irelho do
Depois da época d,1 relanvidade polícic:i cm que o Est.1d~ _é um
l:.st.-ido. Este 1erroccsso é .1 comt'quênua log1Hica da produção dos
meio n:io 1..onduro1, craw-se :igoril da :rnsênc1,1 de tempo da polmca da
meios de com LI nicaç:io da destruiçfo: o perigo do armarncmo nuclear e
relatividade A descarga complet11, remida por Clausew1cz. produ:iu-se
do wtt·ma de 11rrnm que ele pressupõe não l; tamo que ele exploda e srm
com o Estado de emergência . A, iolência da velocidade tornou-se. s1mul-
que existtt e ,mplodrl nas mcntaf,drzdes.
cane,\mcnte, o luga1 e a lct, o dc~cino e .1 destinação do mundo.
Resumamos cqc fenômeno·
• Du,1s bomb.1s interrompem a guerra no Pacífico e .llgum.1s Setembro de 1977.
dezen,l) de submarinos nucleare~ bastam par:1 g,1rant1r a coe>.i5ténci.1
pacífica ...

Este é o :ispecro nurnlriro.


• Com o surgimento das ogivas tlrmonuclc.ues de cabc.,.,H múl-
t1pl.1s e o progres~o do ;i rmam enco nucl e ,lr tático, ass1He-se ;\
miniarnrização d.is carga~ explosivas ..

Esre é o ,1specco volumétrico


• Após desemb.1r.1ç:i1 a supe1 fíc1c ele um cqu1pamcnro defc::rn,ivo
incômodo e recuar as :irma~ cscracég1cas para dd>aixo d.1 terra e d o mar,
abandona-se a extensão do mundo, reduz.indo ainda m:1is os pontos
~emívcis e .1s bases :wançadas ...

137
136
OBRAS OE PAUL VIRILIO

fü :,.;i-rn ,\r-,11rnLn1,1L, ·\li1íon~ du C( ·1 1lJ7'i


(2 • crliç:1<J' éd, tinm l)u111-(c1 d t·, 19')1}
C ,,1 .·t hl L Dl, l'r""' 11, ,n, )1,kk, l ')7(,
V11 l·"I· 1 1'01 •Tl</l 1· , l'd·tion, (~.11,k 1·r-
Den-,,1 1'1wu1 ,,11,~ 1. 1 t.1, nr~ h 0 1nc,H1u 1~. cd. l ,.11 ,k'.c, 1')78
l'r~r.-1< 1 CRITIQLF, úlittC>ll\ Chri,ti.111 l\ourg,m. 198 1

L11or.11.t''- Nll,\l ' I, édition~ G.1lil.:c. 1984


Lot,I' 111111r DE LA P1·.Rt l l' 11()N - Gut·11 1: <:t l :iné111:1 1, 1•d11 i,Jns de l'l·.roik/Cal11c1> du
Cmé111.1. 1984

faTI 11. I IQ\II' Dr I;\ Ü l~l'Al{fl 101', édl!ll)ll~ G,1liléc. 1989


LINU:I IL 1'01 AIRE . cdmon; Chrnna n 13011u,:,li, , 1990
l°f.CR "lll 01WR nJicic,n, Í,,1JiJ.:~ l'J'Jl

1..:1N~I U ,un 1·. f)U I LRRI I OIRF, cd iun n, ( ,ali kc. l ')')j
L:,\RT PIJ l\'ltYr'tllR, cdir,on, l~alilct, 19')3
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A t \ lll I llO MOTOR, r.,taç~o [ ibad,1dc. 1()96
n, alt>m,ic, eqJ\',1111 al!J\ t'\Sand,)
,1 ponll' t' \l' dlíl!(llldo, do1men11
EMPRÉSTIMO DE
p.1ra (' li1ora l. fr<1 n1ai~ nu 111c110~
PUBLICAÇÃO u ,mo ,1 <;11crra du t,olln ,1c, vivo.
ma~ li 111 r1 • 1 í1 ,, mc>torindo. Frn
: Esta publicação deve rá ser pc1rc1 111it11 a e,pl'ni"ncia l1111da111l'n-
lJ I da vclncidmk . ,\ vclot idade e:
l devolvida na última data 1n
. d.1cada / l'Jll pm11l·1ro lugar t·xa1a111u11e 1",i
",11rpn·,a ah,olu1a uma 1nlor-
ma<,j\1 qut nã,11..ui1h .id1.. tnm a
rl'alicladl' porqttt· a realidade vai
mai, 1,1p1efo qlll a mlmm.:i,Jo.·
Com n 11 1r;-i~ 1c\ nh.J~. \lll l rn~ rne11h,
e ,1 que otmrc: hn1c: qul'm umtrnlJ
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1>1,•1.'i i\1<1u11tt,1 u 11>ani, 1,1. lilcí,oln. l'X ·
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