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OBEAS DE JOÃO EIBEIRO

Propriedades da LIVRARIA FRANCISCO ALVES

Histobia do Bkasil, para Gymnasios e Escolas Nor-


ijiaes, 1 vol. cart 4$000
Historia do Bkasil, para Escolas Primarias, 1 vol ISOOO
Auctobes Contemporâneos. Selecta dos auctores do sé-
culo XIX, adoptada pelo Governo para os exames
das línguas franceza, ingleza e allemã 3$000
Grammatica Portugueza, da infancia, curso primário
(1? anno) 1 vol. cart 1$000
Grammatica Portugueza elementar, curso médio (2?
anno) 1 vol 3$00(>
Grammatica Portugueza, curso superior (3? anno)
^ 3$000
« Nenhuma conheço, em lingua portugueza, de
tam alta valia.»
Cândido de Figueirêdo.
Díccionario Grammatical, 1 vol. 4$000
Historia do Brasil (edição do Centenário) 1 vol 38000

Selecta Classica — Periodo archaico, periodo clássico;


quinhentistaseseiscentistas; comannotaçõesphilolo-
gicas 6 grammaticaes — 1 vol 4$000
«É a melhor Selecta, em lingua portugueza.»
José Verissinw.
Historia Antiga (Oriente e Grécia) 1 vol. cart SSOOO
DICCIONARID<^

GRAMMATICA

COMPILADO POR

JO-A-O PLIBEIR.O

3? edição
Inteiramente refundida e muito augraeiitada

LIVEAEIA FRANCISCO ALVES


134, Rua do Ouvidor, 134—Rio de Janeiro
Rua de S. Bento, 45—S. Paulo
Rua da Bahia — Bello ELorizoute
z í-
19^6^ b
PROLOGO

DA EDIÇÃO

Em desempenho do encargo que me fizeram os editores F.


Alves & Cí, de melhorar e ampliar o Diecionario Qrammatical, sem
prejuízo do plano primitivamente adoptftdo, esforcei-me para que
esta terceira edição fosse em tudo superior ás primeiras, quanto á
fôrma e á substancia, íí disposição e á excellencia das matérias.
Foi primitivamente o Diceionario Qrammatical organizado
para corresponder á necessidade que havia de reduzir em um s<5
corpo, na ordem alphabetica, por mais fácil, as matérias comple-
mentares do estudo da lingua portugueza, segundo as exigencias
dos novos programmas de ensino. Naquelle tempo era ainda recente
entre nós ou pouco generalizado, o methodo do estudo historico e
comparativo; os livros que no genero do Diecionario Qrammatical
existiam e ainda correm, eram deficientes, antiquados e, para falar
verdade, de muito pouco valor, taes, por exemplo: o Diccionario de
Alexandre Passos, o de Felisberto de Carvalho e, sem duvida o
melhor de todos, o EacoliaHe portugmz. Eram todos de lamentava!
atrazo quanto ás questões da grammatica comparativa, que pare-
ciam desconhecer completamente, ainda que resgatassem, em raros
casos, aquella falha por outros méritos e qualidades.
Resolvi não seguir a tradição d'aquelles livros, ao meu parecer,
improprios ; mas, sem desacreditar as doutrinas antigas aproveitá-
veis, ajuntei outras novas ou alumiei-as á luz com que se examinam
hoje os factos da linguagem.
VI PROLOGO
Não reduzi tudo it pJionetica, como fazem agora os que substi-
tuem o estudo literário da lingua por uma fúnebre autópsia dos ele-
mentos quasi inertes da linguagem e nisto cifram toda a sciencia
grammatical. O estudo rigoroso da phonetica e da etymologia, ainda
imperfeito na lingua portugueza, por isso mesmo se deve evitar
em trabalhos de synthese mais modesta e mais pratica. Ao contra-
rio, dei ampla e maior importancia aos grandes factos da evolução
syiitactica e literaria do que á evolução organica e medieval da
lingua.
Desde a edição primitiva que é este trabalho uma compilação
em que, f(5ra raros casos, só o mérito da escolha e a disposição das
matérias pertencem ao auílor, que aliiís nada mais reclama para si.
Reuni o que me pareceu mellior; .systematizei opiniões di-
versas, expuz as que eram divergentes, ou contradictorias, resal-
vando o meu juizo pessoal, que freqüentes vezes não c o mesmo
das auctoridades que invoquei. Opusculos, estudos, publica-
ções avulsas e até inéditas, difficeis de rehaver, aqui acharam
transcripção, condensação ou resumo. Questões especiaes foram
tambémdesenvolvidascomo asque se referem á linguagem doBrasil
(como attestam os vocab. d'este Dice.: Brasileirismo, Neifro, Tu-
pi-guarani, etc.), as ditliculdades grammaticaes ainda e sempre dis-
cutidas (v. Infinito, Pessoal, Negação, Se, Haver, Pronome, Que,
etc.), as incertezas e a reforma cada vez mais necessaria da orthogra-
phia (v. Ortlioyraphia), os peregrinismos, barbarismos e mormente
gallieismos. Nada do que era essencial oit'indispensável, escapou lí
pesquizaeao exame por vezes incompleto, porém, ao que sup-
ponho, satisfatório para os leitores mais modestos e numerosos
d'este livro. Aquém queira fazer justiça e julgar com imparciali-
dade, basta cotejar esta terceira edição com as anteriores, e qual-
querd'ellas com as dos livros congeneres, escriptos na nossa lingua.
Nas etymologias e transformações phoneticas, em geral, prefe-
rimos as f()rmas mediatas e remotas do latim, evitando o la^y ri ntho de
PROLOGO VII
lormas medievaes e barbaras, hespanholas ou romaiiicas, que quasi
todas sãolatinizações do proprio romance, quando não são vocábulos
hypotheticos ; é uma preferencia provisoria até quando se constitua
a giammatica histórica da nossa lingua.
Também era proposito feito não desenvolver além da medida
as questões aqui tratadas. Convinha antes de tudo conservar o
formato, o preço do livro, e não alterar nas linhas geraes o plano
primitivo; reduzindo a composição typographicaa corpo menor e
disposta em duas columnas, conseguiu-se quasi duplicar a matéria
sem prejuízo das condições que tornavam este livro estimado do
publico.
cm 1 5 unesp 10 11 12
DICCIONARIO GRAMATICAL

A nacula, hoje masculina ; era,


porém, feminina; «Por uma
A.—Letra latina. Represonta o A lí O de lealdade n, disse D.
f!om laryngeo mais puro ila liu- Duarte, L. Com. pag. 5. || Usa-se
giia. Tem os valores á (pit, pae, de li por aa, quando'se dá a
sal, miio) em todos os monosyl- contracção da preposição com o
labos (excepto no artigo a, e nas artigo fem i nino—não se devendo,
palavras na, ãa, mas) e syllabas por conseguinte, empregar o ac-
accentuadas ; tem o valor (2 nas cento quando não ha cotitracçãe
syllabas atonas (mola, vela) e (a roda, lí roda do quarto ; vol-
quando precede toou n: mfino, tar a casa ; voltar á casa onde
cama. Tem ainda o valor nasal: morava). José de Alencar queria
campo, lã, irmã. O a tenue ou que sempre se empregasse o
fechado elide-se na leitura em accento ; neste caso o accento
concurrenciacom outras vogaes deixaria de ser prosodico para
atonas, mas não é de regra essa ser aponas orthographioo e in-
•elisão. Em geral a o accen- dicar a natureza da palavra a
tuado não se elidem : a hora, a quando preposição. Parece que
outra (excepto: outr'ora, esfou- foi João de Barros o primeiro
tra). II Corresponde ao latim a .■ que adojitou a contracção ã por
Jaham, fava. Pode derivar de aa (1540).
outras vogaes quando _atonas : A.—Prefixo vernáculo, que se
Tejo (TagusJ, fome (fumes), ou lióde referir a ad latino, usado
em diplithongo. Janeiro {Ja- Iior jirothese no começo de vá-
nuarius). O « com íj* notação de rios verbos e nomes ; de emprego
agudo,quando não denota formas extensissimo nos primeiros pe-
■estranhas (jaearanãá,paraná), de ríodos da língua; alemhrar, alem-
ordinário representa uma con- hrança, avoar, alevantar, amontra.
tracção da letra antiga gemi- A protliese do a também se ex-
nada, como se vê em mí, do maa plica pela apposição do artigo
(mala, adj.), pá, de paa, e á, feminino a (alampada, alagoa,
ile aa. A expressão A J3 C, ver- etc.)
2
A, AN . liLATIVO
A, an.—Prefixo gi'(!go ; expri- Em alguns casos tem valor ad-
me privação, negação : atheii, verbial (absolver) ; em outros,
sem Deus. A forma an usa-se corresponde á uma preposição
antes ile vogai o de A (que repre- com seu complemento (absti-
senta a aspiração rude da proso- nente).
dia grega): an-onymo, sem nome; A, aii; a 111, ão.—São formas
an-archia, sem governo. Nota-se nasaes do a, cuja ortliographia
em a-tylo, a-mnistia, an-ecdota, ainda é incerta. Prefere-se ã a
a-hysmo, a-patlda. Kão se per- an para indicar a variação femi-
cebe, poredeito de transposição, nina (irmã, louça, sã), e an para
em diamante f^ir-damantem^que os femininos que o são de natu-
não se doma).E h^-bridismo todo reza; (manlian,lan, maçan);mas
o composto do prefixo a com vo- não é uso nem regra assentada.
cábulos que não sejam gregos, Afórma rtj)íprefere-se a ão, quan-
como ; achrütão. No emtanto já do não ■ accentuada (amaram,
está consagrado pelo uso o liy- amarão, são, deram). O uso geral
bridisnío anormal, por innormal. em certas palavras dá preferen-
O corrèspondente latino d'esse cia a an (cans, afan, ademan,
prefixo é IX e iis vezes dks. iman) ; em outras, a S ou an
A.—Prefixo teutonico, que de- (manhã e manhan,. sã e san).
signa quietação; no inglez aside, Quanto ás variações ffo e am, é
ahack, etc. Em portuguez passou, certo (lue, sendo agudas, só se
ao menos em dous vocábulos ; escrevem na forma ão: cão e
abordo (em) ahoard; encliorar, nunca jámais cam ; comtudo, em
de anhore. monosyüabos que andam juntos-
Al), abs e a.—Prefixo latino, a outros, podem soar e podem
que varias vezes se confunde com ser escriptos com a fôrma an ou
ad. Marca afastamento, separa- am : Sani João, samjoanneira ;
ção, ponto de partidn : ah-usar, gran cruz, por grão cruz. || Note-
ir além do uso ; ah-horreeer, ter se que gran ou grão não tem ge-
horror excessivo ; ah-jurar, sair nero : gran cidade ou grão cida-
do juramento. Nota-se em abun- de, é tudo um e o mesmo,
dar, abolir, absolvição, etc. A for- Ablativo.—Caso da declina-
ma ABS é mais rara : ahstracto, ção latina que exprime diversas
abscesso, etc. A f()rma a tem relações de origem, de afasta-
exemplos freqüentes: amanuense, mento, separação, etc. A lingua
aversão, avorar, etc. São dignas portugueza não tomou a ílexão
de nota as fôrmas alteradas,como de casos nos nomes, mas conser-
escuso (abs-consum), ausente (abs- va vestígios de certas fôrmas la-
enten). Em um só caso a letra a tinas. Taes são os vestígios, al-
desapparece, e é em v-antagem, guns archaicos : agora, hae-
derivado de ab-ante, avante. O liora: logo, loco; aramá, hora
correspondente no grego é o pre- mala (arch.) ; com-migo, cum-
fixo apo : ajwr/êo, longe da terra. me-cum ; com-tigo, cwn-te-cum;
3
ABLATIVO — ABRANDAMENTO
com-nosco, cum-nos-cum; com- onde seria escusada a liypothese
vosco, cmn-vos-cwn; com-sigo, de partículas occultas.
mm-se-cum; hontem, Jiac-noete
(ad-noctem) ; ora, hora ; como, Abraiirtaineiito.—Lei geral
quo-moão ; toda-via, tota-viee ; da decomposição do latim. Ex-
car, quare (qua re), || Exis- prime o iihenomeno do enfra-
tem igualmente formas eru- quecimenlo dos valores phone-
ditas ou xiopulares, plebeis- ticos das i)alavras; esse enfraque-
mos tirados do ablativo ; cimento opera-se dentro dos li-
cumquihus (dinheiro), qui-pro- mites assignalados pela natureza
quo, hwíillis ( in diebiis illis), e I)hysiologica dos sons, isto é, só
em primo, gecunãó, etc. Corre a existem transformações taes en-
opinião muito vulgar e dissemi- tre sons ou letras homorganicas
nada de que o ablativo é o caso ou resultantes do mesmo orgão
etymologico, isto é, o caso d'on- do apparelho vocal. Assim é que
de se originam os nomes portu- as gutturaes fortes se transfor-
guezes, doutrina assás contestá- mam em gutturaes brandas : c
vel como veremos na palavra An- transforma-se em í/.' cattus, gato;
fMsaííeodopresentelivro. [j Como oraculum, orago. (í mesmo valor
a lingua portugueza 6 puramen- qu em (j: conseguir, de consequire
te analytica, as tlexões dos casos (consequi); aguia, de aqtiüam. A
foram substituídas pela colloca- labial forte transforma-se na
ção ou pelo emprego de i>reposi- branda h: apothecam, bodega, bo-
ções Já indicado no latim culto. tica; cepulam, cebola. Ou ainda
Não obstante, existem usos de o h na mais branda v : amahat,
caso ablativo, cuja sj'ntaxe dis- amava ; debere, dever. A dental
pensa o emprego da preposição. forte t transforma-se na dental
É o que se observa na i)roposi- branda ã, v. gr. : capüulum, ca-
ção dita absoluta: Eleito César, bido ; (fitatem, edade; cioitatem
terminou com elle a republica. cidade ; ás vezes, o abrandamen-
Nas circumstancias de duração e to tão longe vae que chega á si-
de espaço: Disse outro dia que bilação, como Já se nota no
não voltará. Ficou a semana pas- latim barbaro : gratiam, graça
sada em casa. Andou tres léguas (grazia). Como o/e o v também
sem parar. De uso idêntico, são são dentaes, ha permutas fre-
os ablativos expressos pelos qüentes : transmcare, trasfegar.
advérbios em mente: claramente A lei do abrandamento resume-
(com intenção claríi^, boamente se no seguinte aphorismo da
(com boa intenção), etc. Esta phonologia : todo o som forte tende
syntaxe é a do ablativo latino, a mudar-se em som fraco. As ve-
e é costume explical-a dizendo zes succede a queda ou desaji-
que a preposição está occulta; parição, e não poucas, o reforço
interpretaÇíão errônea, pois o va- compensativo e a emphase que
lor synthetico de taes locuções reivindicam a conservação das
deriva directamente do latim, letras edos sons. || O phenomeno

«
4
ABRANDAMENTO — ACADEMIA
do abrandamento do c e </ antes Ab.s,olllto.— Vide AUativo e
doe, 2, jií se notava no latim da Grão. É tiimbem epitheto que se
edade média : cruce e crusse ; no tem dado ao verbo ser e até aos
latim clássico aprosodia era ave- intransitivos (como dormir, mor-
riguadamente eruke; do valor rer, etc.). Quando se consideram
forte do e temos um exemplo em tempos e modos verbaes, absoluto
calandra, n/Undrum (kilindrum). é opposto a relativo ou condi-
Pelo abrandamento etfectuado cional.
no latim barbaro e decadente Absoluto (ablativo). — Lo-
explicam-se as transformações cução tomada da syntaxe latina
do e em ch, x (murcho, de inur- e que foi durante muito tempo
cidus), doe em z (dez. de decem), applicada aos adjunctos adver-
• etc. A i'ocaíi««cãtf (Vide esta pa- blaes constituídos por um par-
lavra) pode ser considerada a ticipio dopreterito, v.gr.: Accla-
foi-mamais intensa do abranda- mado imperador. Augusto começou
mento. A consoante dissolve-se a estabelecer a paz,
em vogai : couce, calcem. || O
abrandamento, como os demais Abstraeto (substantivo).—O
X)henomenos de decomposição que representa ser não existente
lilionetica, refere-se á lei geral materialmente: gloria, desejo.
denominada: lei domenor esforço, (Verbo). Applicado exclusiva-
principio que foi a base de todas mente ao verbo ser: verbo sub-
' !is investigações da pliilologia stantivo, abstraeto, existencial,
moderna. O organismo i)rocurou etc. |j As palavras que se tornam
sempre reduzir todos os proces- substanticadas valem por nomes
sos de actividade humana ao es- abstractos : o mo-rrer, o amanhã.
íorço minimo possível ; é essa Academia.—Nome, em espe-
« 'preguiça ou economia das forças cial, consagrado a sociedades li-
naturaes o agente das múltiplas terárias escientificas que, quando
modificações na linguagem. Por selectas e importantes, dão aucto-
motivo idêntico, c natural que ridade ds suas opiniões. «Em
da mesma forma qne os sons ex- Portugal têm-se tornado mais
perimentaram mudanças quanto dlstinctas por seus traballios
á qualidade, também as solfres- literários — a Academia Ileal
sem quanto lí intensidade ; é,pois, da Historia Portugueza, a Arca-
probabilissimo que primitiva- dia Vlysnponense, a Academia
mente os homens falassem mais Ileal das Sciencias e a iVwra Arca-
alto emais forte do que actual- dia ou Acauemia de Bellas Letras.
mente; a principio, o vocábulo Antes d'estas houve muitas ou-
deveria ser intensivo, como ain- tras — a dos Ge?ierosos,
da o é o grito e o são todas as fundada no reinado de D.
manifestações de voz dos ani- João IV; contava em IGGl, 40
maes inferiores, e dos proprios membros. Esta academia teve
selvagens que não sabem con- por seu fundador D. Antonio
versar em segredo. Alvares da Cunha. Academia do»
5
ACADEMIA - ACCENTO
Singulares, contava 27 socios em leira, fundada em 1890, sob o
1003 ; pai-ece fôra, seu luiidadot modelo dii Academia 1'ranceza.
Pedro Duarte Ferrão; terminou DVlia fazem parte os nossos
em 1005. Academia dm Con- mais notáveis escriiitores.
ferências Discretas e JCriulitas,
que vinha a ser a dos Generosos Accento.— Convém distin-
i-enovada; a InstanUtM/i, a dos guir o accento oi\ accentuaçuo tô-
Solitários, a dos Ocrultos, a dos nica dos accentosgrapIncos,com-
Anonyrms,-^. dos Applicados ; uma mummente denominados e com-
alluvião em summa de írivolas prehendidos sob o titulo geral
academias que inundava o paiis, de notações lexicas(VideA7itof .
resultado da educação pedante (■ O accento consiste na elevação
do estado de atrazo em que es- ou intensidade maior na pro-
tavam as sciencias na Peninsula, nuncia de uma syllaba nas pa-
até á fundação da Academia Real lavras. A syllaba que recebe o
da Historia Portugueza, fundada accento, diz-se accentuada, tô-
pelo conde da Ericeira o decla- nica ou predominante. As syl-
rflda official em 1720. A Arcadia labas ou sons que não recebem
Ulyssiponense foi inaugurada em o accento, dizem-se atonos. Ua
1750 e findou em 1770 pela dis- mesma sorte que na lingua gre-
persão de muitos dos seus socios. ga, o accento pode ter tres po-
Cada um d'elles adoptára um sições diversas. I)'alii a classi-
nome de pastor ; assim ; Antonio ficação das palavras em oxytonas,
Diniz da Cruz e Silva foi Elpino paroxytonas e proparozytonas. As
Nonacriense; Pedro Antonio Cor- l)rimeiras têm o accento na ulti-
reia Garção, Corydon Erimatheo; ma syllaba, v. gr.: camarão, des-
Francisco José Freire, Cândido leal. As segundas têm o accento
Lusitano; Domingos dos Reis na penúltima; firmeza, delgado,
Quita, Alcino Micenio, etc. A livro. As terceiras têm o accento
Academia Real das Sciencias, fun- na ante-penultima : sympathico,
dada em 1780 pelo Conde de La- jHillido, delicia. A denominação
íões, e a que pertenceram muitas de harytonoH é api>licada aos vo-
notabilidades literarias e scien- cábulos das duas primeiras
tificas. A Nova Arcadia, a mesma classes sobreditas. As denomina-
Arcadia Ulyssiponense, procuran- ções antigas eram de agudas
do renascer em 17U0, celebrou as para as oxytonas ; graves para as
suas sessões com </ titulo de paroxytonas ; esdriuulas ou da-
Academia de Bellas Letras, mas ctylicas para as vozes proparoxy-
pouco viveu ;extinguiu-sediante tonas. II Muitas palavras ainda
das aggressões de Bocage.» No hoje são de accento incerto :
]5rasii colonial tivemos varias fdclope, e cictópe; «íbilo e siiilo ;
academias de existênciaprecaria, escapula e escapjíla e outras que
qiiasi todas dedicadas ao culto um uso mais freqüente não che-
das boas letras. Hoje, a de maior gou a fi.xar. || Os gregos sempre
auctoridade é a Academia lirasi- marcavam os accentos das pala-
G
ACCENTO ACCESSORIOS
vras. Os romanos, iiorém, parece tidade não representa o tom pro-
que nunca usaram signaes de s^odico ; apenas consigna o tempo
accentuação, senão em manu- gasto na pronuncia. Por isto, em
scriptos de luxo, que infeliz- relação á quantidade, as syllabas
mente se perderam. Nas vellias dividem-se em longas e breves
inscripçõesiatinas os signaes que C^xú^Quantidade). O accento pôde
por vezes occorrem, i:)arecem ser duplo, quando recae sobre
antes ornamento; no emianto, se duas syllabas de uma só palavra;
conliecemos a accentuação dos é o que se observa nos vocábulos
romanos, é porque conhecemos a compostos : pállidaménte, contra-
accentuação eólia, que seguia as corrênte. O accento também se
mesmas regras, e temos ainda as nota quando uma palavra é pro-
regras que se encontram em nunciada no meio da plirase com
Prisciano e Quintiliano. Na his- emphase e maior intensidade do
tória da língua portugueza ana- que as outras, o que é muito fre-
lysa-se a seguinte lei phonetica : qüente nos discursos e nos tre-
O accento latino foi conservado nas chos lidos ou declamados,princi-
palavras que passaram, para a palmente na poesia e eloquencia.
lingua portugueza. Exemplos : Neste caso o accento diz-se ora-
Arhorem, arvora ; rubius, ruivo ; cional. Por um gallioismo mo-
articulus, artelho ; decimus, di- dernamente usado, a palavra ac-
zimo ; eleemosyna, esmola; auri- cento também exprime a maneira
cula, orelha; potionem, peçonha: peculiar da prosodia provinciana
parabola, palavra; avuneulus,^^» ; ou estrangeira (Vide Sotaque).
acucula, agulha. Esta lei foi ob-
servada na maioria ou quasi to- Acces.sorios. — « As pala-
talidade do vocabulario, e é tão vras que servem de accessorios
importante que é notada com facilmente so resolvem em ora-
igual valor nas linguas romanas ções incidentes. Nos exemplos
que, como se sabe, se filiam ao seguintes se verifica esta regra :
latim. Comtudo, existem casos Lisboa, cidade de mármore e de
de palavras cujo accento foi des- granito, rainha do Oceano, tu és
viado sob o impulso de circum- a mais formosa entre as cidades
stancias e leis secundarias que do mundo. A brisa, que varre os
examinaremos ao tratarmos da teus outeiros, é pura como o céo
deslocação do accento. (Vide azul, que se espelha no teu am-
Desíocação). || No uso vulgar não plo porto, iíevielhante a um grande
é raro fazer-se confusão entre os mar.— A nação, esmagada pelos
dous conceitos de accento e quan- reis, tinha muito tempo gemido de-
tidade. A distincção theorica é bai.w da sua miséria. Nestes
apezar d'isto facil, pois que a exemplos se observa: 1? que os
quantidade não consiste na ele- accessorios vêm ordinariamente
vação do som, mas na demora separados por virgula; 2? que se
maior ou menor com que pro- collocam de modo que facilmen-
nunciamos as syllabas. A quan- te se percebe a que palavra se
7
ACCESSORIOS - - ACCIDENTE
appõem e por que relação; 3?que homem que é rico ;—o rico homem
podem servir de accessorios: — —significa o homem rico sobre
substantivos continuados ; ora- que versa a questão. O jwbre
ções incidentes, explicativas ou homem e o homem pohre apresen-
restrictivas; adjectivos qualifica- tam a mesma dilferença, mas lia
tivos; e participiüS que não con- casos em que pohre, collocado
stituam alfruma circumstancia antes do substantivo, toma uma
oracional; 4? que os accessorios outra significação, porque ha
podem ter complementos e estes adjectivos que mudam de signi-
ainda outros complementos; f)? ficação, conforme o logar que
finalmente que os accessorios do occupam na plirase ou no dis-
pronome tu se cliamnm—«ocíiíí- curso ; por exemplo: homem
vos—e são antecedidos da inter- grande, t. 6—cori^ulento, alto ;
jeiçãoó, clara ou occulta. Quan- grande honum — pelo caracter,
do o pronome est.í occulto, serve pelo gênio, pelas acções; mulher
a interjeição de dar a qualquer pohre — que não é rica; pohre
nome a determinação de 2Í pes- mulher — infeliz, digna de lasti-
soa, e por isso taes accessorios ma ; negocias certos — seguros,
sempre vêm unidos ao verbo na lucrativos : certos negocios — al-
2^^ pessoa, como neste exemplo: guns, uns tantos. Outros, sem
— Céos, ouvi nossos rogos— vale o mudar de accepção, têm uma
mesmo que dizer ;—ó céos, significação mais extensaoumais
ouvinossosrogos. Quando os acces- restricta, conforme precedem ou
sorios não vêm expressos por seguem o substantivo ; assim
orações incidentes, jiodem ser —os desgraçados habitantes d'a-
considerados como incidentes im- quella cidade—quer dizer que os
plícitas,. por isso que se podem taes habitantes são todos desgra-
resolver em orações do relativo çados, ou ao menos que os con-
que; exemplo: as ultimas laç/rimas sideram a todos como taes, em
do orcalho, pérolas congeladas quanto que—os habitantes desgra-
(incidente implicita), ou—que são çados — S() faz allusão áquelles
pérolas congeladas (incidente ex- que o são, sem dar a entender
plicita), tremiam seintillando nas que o sejam todos. Emfim ha
pontinhas das flor es. (Escoii. 17) adjectivos cuja collocação antes
ou depois do substantivo, é uma
Accideiitaes.— «Dizem- pura questão de gosto e de eu-
se as qualidades exjftessas pelos phonia, porque a significação do
adjectivos qualificativos e susce- substantivo não fica por isso
ptíveis de existirem ou não no diversamente modificada. Kão
objecto designado. Quando o qua- devemos esquecer que em poesia
lificativo é accidental, toma um são admittidas inversões que a
sentido geral ou particular,.con- prosa não pode tolerar». (Escoi^.
forme estiver collcicado antes ou ib.)
depois do substantivo; assim— o Accitlente.—Termo equiva-
homem rico — quer dizer todo o lente ao de jlexão, modernamen-
8
ACCIDENTE — ACCUSATIVO
te preferido áquolle pelos gram- da vogai final m do accusa-
maticos. V. Plexão. Os antigos tivo é normal, como a queda
grammalicos classificavam entre do « característico de grande
os aeeidentes das palavras os ca- numero de nominativos ; por
sos e as questões de significação, isso (í que vemos no latim bar-
coneordancia, referencia, espe- baro tllo, por illum; Antonio ou
cie e quantas ... Antoniu, por Antonius; o mesmo
ensurdecimento das letras fi-
Accxisativo.—Um dos cdsos naes se nota nos verbos e em to-
da declinação latina e um dos das as ilexões; fllaro, fllaru,
poucos que conservou a sua força fllamm e fllarunt, etc. D'ahi se
syntactica primitiva, na pas- infere com a maior plausibilida-
sagem do latim para o portuguez. de que a forma medieval servo-
O accusativo da flexíío latina não pode representar tanto o ablati-
foi no portuguez substituído vo originário nervo, como o acc.
pelo uso da preposição (1), como gerrum, em vista da degene-
seria natural pela queda das tie- ração freqüente das letras fi-
xôos e pelo desenvolvimento das naes, muito communsem lingua
locuções analyticas. Assim, em que nunca tinha o accento na
portugupz, o caso-objecto da ultima sjilaba. Só o exame de
mesma fôrma que o caso-sujeito uma circumstancia poderia re-
(nominativo) dispensam ouso de solver a indecisão, e seria pro-
partículas e determinam-se pelo curar demonstrar nos casos de
sentido ou pela collocação, ordi- imparisyllabismo, istoé, nas cir-
nariamente depois do verbo : cumstancias em que existe gran-
Cortaram os bateís a curta via de dilíerença extensiva entre o
Das aguas do Neptuno. acc. e o abi ativo, se o phenome-
Camões, Ims. I, 73. no se produz e de que modo. De
II Existe a opinião, que conta facto, se nos nomes não neutros
muitos adeptos, de que o caso a dilferença entre os dous casos
etj-mologico dos nomes portu- em questão é apenas de uma le-
gueses foi oahlativo. Parece antes tra (arborem e arhore), o mesmo
que íoi o accusativo o caso não se dá com os imparisyllabos
mais provável, segundo os do- neutros (teminix e tempore). Nes-
cumentos que os factos forne- tas ultimas occurrencias, sem-
cem a seu favor. Desde logo pre, a etymología do accusativo
convém estabelecer que a queda se torna irrsubstítuivel: tempo,
do acc. ; corpo, do acc.
(1) Excepcionalmente em uma eorpiií; lado, do iicc. latus;
oceurreiicia se emprega a preposi- peito, do acc. pectua. É evidente
ção: Pedro ama a Liiiza, em no- que peito, lado, tempo, não podem
mes jiroprios ou equivalentes e provir A&peetore, latere, tempore^
ainda em poucos casos em que o
verbo por idiotismo pede preposi- ablativos que no portuguez dei-
ção : começar de, pegar de, travar xariam forçosamente vestígios
tie, etc. do incremento, como" succede
9-
ACCUSATIVO - ADAPTAÇÃO
reg^ularmente quando os nomes tendencia, movimento paraqual-
não silo neutros : su-vore (ar- quer ponto. Ascender (subir
borem ou arhore), lehre (leptirevi para. . . ) ad-Tertir, ad-moentar.
ou lepore). |j Os vesti,iiios de Tem as assimilações seguintes:
formas acousativas do portu- ac — accesso, acolamação ; ad—
guez encontram-se ainda nos addicionar, additar : af—atllgu-
pronomes me, te, se, 110,1, vou, rar-se. afflrmar ; ay —aggravar
nos termos o, a (illum, am), al — allegar ; an — anniquilar;
accusativos de elle, ella (ille, usa-se em geral a orthographia
íWnj, usados com syntaxe latina, do 11 simples ; aniquilar; a^y—
quando tSm funcção de prono- appHcar, apparecer ; ar—arran-
mes : vi-a (viãiülam). Suppõem jar, arreceiar-se ; as— assentar,
alguns que lia vestigio da ftexão assistir ; at—attender, attraliir.
nidoaccusativo na nasalisação de ]l A orthographia contemporâ-
certas syllabas : pente {pecten), nea nem sempre adopta a gemi-
mancha (maculam)Namaio- nação, e esorove-se usualmente:
ria absoluta de taes exemplos afi<jurnr-se, aniquilar, abandonar,
bem se vê que a nasal éuma pro- avenida (fr.). Xote-se o prefixo
lação da letra inicial m ou n: aã sem assimilação em muitos
mni-n-to, mi-in, ma-n-clia, etc. vocábulos; ad-nlar, ad-versario,
Também não escasseiam pliilo- a-valancfie{fr., deai;al, advallem),
logos que façam vir a termina- ad-herir, ad-ornr. Note-se adefor-
çiío (■?;» de alguns determinati- mação do typo ad em endereço (se
\os: alí/uem, quem, iiin(/nem, da veio de addre.ise, fr.). Camillo 0.
fiexüo do accusativo latino ali- Branco empregava adressa em
quem, quemeneqvem. Aplionetica logar de endereço e adereço. Galli-
não se oppõe a •♦'stas derivações, cismo desnecessário.
senão em um «(5 ponto, na desvia- Adafíio.—O mesmo que sen-
ção tio accento ; nUqttem, alguém. tença, rifão, anexim, provérbio.
No emtanto a Ilexão do accusati- Sentença breve e aguda, de ordi-
vo não explica o sentido da ilexão nário moral e ás vezes pouco
em portugueza, que sempre ex-
prime pessoa humana, e que ó austera. Há grande repositorio
evidentemente a forma tirms, por de riquezas vocabulares, con-
Jwmo, tão freqüentemente con- strucções archaicas e classicas
fundidas. D'este modo as origens nos provérbios populares : Ande
mais prováveis sãoí' aHe'unun, eu quente, ria-se a gente. Coma
nec-unum, qu''unuK. (1) do pão e beba do garrafão. Quem
lhe doe o dento vae a casa do
Atl, a.— Prefi.xo latino de lar- barbeiro. Azeite, vinho, amigo,
guissimo uso. Denota direcção, o mais antigo. Mulher sem egre-
ja nunca al eu veja.
(1) Cointudo, quem pode referir-
se a cousas, no snigular ou no plural, Adaptação. — Nome geral'
como se póile vêr nos antigos es- empregado para designar vários
priptores. factos da linguagem, especial-
10
ADAPTAÇÃO - - ADJECTIVO
mente consagrados á assimilação remos dos determinativos. Qita-
(Vide). A adaptação também se i.iKiCATivos são vocábulos que
diz da prosodia e da orthogra- descrevem e mostram como são
pliia de nomes alheios que pas- os seres: rio lar f/o douto ;
saram á linjrua: ohoé de haut-ho- mulher formosissima; pedra ícr-
is; o termo de brasão, bUm, natu- de. Os (lualificativos subdividem-
ralmente tomado do fr. bleu ou se em dois grupos: A. llESTlü-
<lo allemão hlau ; fanfreluche, t. CTlvos. São os que exprimem
francez, do italiano tanfrelucci ; qualidade fortuita ou accidental
todos estes sottreram modifica- dos seres; homem instruido;\\wr:Q
ções para se adaptarem lí Índole volumoso. Essas qualidades ex-
prosodica da linpua. O jilieno- pressas não são inseparáveis das
meno contrario também se obser- cousas. Um homem pode não ser
va, V. gr.: em imbroglio. instruído, etc. B. Explicativos.
Aíldição.—Nome geral dado São os que expriniem qualidade
lis figuras prothese, cpenthese e inseparavel e inherenteaosseres:
epithese ou paraíjoge, pelas quaes homem mortal; Toc\vàdura; atra
os vocábulos recebem accresci- noite, etc. São qualidades essas
mos de sons ou letras. Não só immanentes aos seres a que foram
na phonetica, mas na morpholo- applicadas. O adjectivo pcjde ser
gia existem elementos addicio- expresso do tres maneiras: a)
naes (jue ampliam e desenvolvem Por um vocábulo : termellio, con-
os themas. Ex.: mar-iT-imo, leg- tente. b) Por mais de um vocá-
iT-imo ( lidimo ), grand-i-o«o, bulo ou liOCDÇÃO ADJECTIVA.
vapor-z-inho Da mesma sorte, V. g.: homem de senso (sensato);
existem contracções ou suppres- animal de quatro pés (quadrú-
sões, como amizade (amizidade), pede); numero ãe ouro (áureo),
virtuoso (virtutoso), volumoso (vo- etc. c) Por uma proposição ou
luminoso), etc., em parte man- clausula que se chama ritoro-
tidas pela tradição latina. Algu- siçÃo AD.TECTivA (qualificativa,
mas d'essas contracções são ado- entende-se). A proposição adje-
ptadas por euplionia, por evitar ctiva sempre modifica o substan-
o ecbo e repetição de syllabas, tivo : A casa que o rei habita =
como em idolatria, itoridololatria. habitada pelo rei. As estrellas
que se podem ra-= visíveis. Os
Adjectivo.— Classe de pala- qualificativos são susceptíveis de
vras que não tem definição jier- grão ou de flexãomodificadora do
feita, porque abrange duas cate- sentido. (V^. Oráo, üomparatico
gorias muito disfinctas de idéas: e Superlativo). O estylo das lín-
a dos qualificativos e a Cío^determi- guas fixa de certo modo a ordem
nativos. A definição usual é: ad- dos qualificativos em expressões
jectivo é a palavra que qualifica que não podem sofrrer transpo-
ou determina os seres. Aqui tra- sição, sem offensa do sentido.
taremos apenas dos qualificati- Por ex.: causa primeira e pri-
vos ; no logar conveniente trata- meira causa; amor proprio, pro-
11
ADJECTIVO - - ADJUNCTOS
prio amor ; bom Iiomem e lio- stantivoscom os suflixos al, aneo,
mem bom ; novos liomens e oso, imo : materi-aX, tempoT-s.Víao,
liomens novos, etc. A ordom ou ão, c/iiíc-oso, rírtu-oso,marit-\mo.
•collocaçãotonia-se ahi um factor As etimologias dos qualificativos
semântico de importaiicia no- participam de todos os contin-
tável. Hauma theoria na sciencia gentes que, formaram o léxico
í da linguagem que dá o qualífica- vernáculo. Os qualificativos da
\ tivo e logo o verbo como as duas technica scientifica, em geral,
) classes primitivas de palavras na procedem do grego. || Chamam-se
f acquisiçiío da facuUbule de falar, •cerbaes os adjectivos originados
í A hypotliese esteia-se na obser- de verbo : pedinte, consercador,
vação plausível de que os attri- amante, endinheirado, escriptor,
^ butos c exterioridades dos seres falador, etc. j| De adjectivos for-
são as impressões que deviam maram-se preposições e advér-
! mais cedo despertar a attenção bios que neste caso se usam in-
t<lo homem. Não obstante, não ha variáveis (quando com tal uso);
um só facto positivo que verifique excepto, segundo, conforme,
a conjectura ; antes parece que salvo, suYiposto, etc. ; certo
nãoexistiam no principio classes, (fala certo), largo (cortar largo),
ou categorias de vocábulos, e prompto, etc. || Concordaiícia.
Sayce sustenta com bons argu- Nos adjectivos compostos é o
mentos que o vocábulo primi- segundo que se modifica : escola
tivo, longe de limitado a uma \sii\no-americana; escola-medico-
categoria, tinha o sentido incom- cirunjica.
prehensivel e extenso da phrase.
Um vocábulo encerrava um juizo Adjmictos. — Chamam-se
■e condensava em si mais ou adjiinctos, na analyse lógica, os
menos o valor que encerram vocábulos ou grupo de vocábulos
hoje algumas interjeiçôes. Dos que limitam o substantivo e o
■qualificatitos é que ordinaria- verbo. Dividem-se em attribu-
mente por desviação se derivam tivos e adrerbiaes. 1. Adjuncto at-
substantivos { derivação impró- Jributico é o vocábulo, locução ou
pria): empregado, cégo, eleitor, phrase que limita o substantivo.
votante, pobre, frio, futuro, pas- Ex.: Homem virtuoso. Cr/i dia.
sado, bailado, metralhadora, na- Luiz, rei de França. O homem,
morado, etc. Os qualificativos que pratica o bem. Toda a parte
fornecem ao vocak^ilario sub- griphada reiiresenta adjunctos
stantivos, com os snftixos iça, attributivos. 2. Adjunctos adver-
ida, encia, eta, ão, uãe : /jísí-iça, biaes são os que modificam o
pobr-ev.ií, eorpulen-ciâ, riqti-eza, verbo e o adjectivo. Muito for-
yrat-idão, qiiiet-\xde.De adjecti vos moso. Saiu tarde. Saiu ás 5
passam a pronomes (este, aquelle, horas. Dito isto, retirou-se. J/miío,
meu, etc.) os determinativos de tarde, ás 5 horas, dito isto, expri-
qualquer especie. || Por outra mem circumstancias, e são ad-
parte,derivam-se também de sub- junctos adverbiaes (Vide Ana-
12
ADJUNCTOS — ADVENTICIAS
lyse). II E adjuncto adrerhial ou desfavor nas citações alheias,,
do verbo, iidjectivo ou pbrase quando a palavra ou trechci é in-
attributiva, qualquer palavra, terrompido por um parenthesis.
phrase ou clausnla que os modi- com ponto admirativo. Ex: «Se-
fique. Consequentemente, os Deus não existisse, seria preciso-
adjunctos adverbiaes podem ser invental-o (!), disse-O Voltaire.»
—de tempo, logar, ordem, affir- II Dobram-se esses signaes ecom-
mação, negação, duvida, ex- binam-se com os interrogativos-
clusão, conclusão, designação, que sempre precedem ; 11 — ?!
quantidade, companhia, fim ; e
—um advérbio ou uma clausula Aílveiiticias (letrax).—Cha-
adverbial. um substantivo ou mam-seletrasadventicias os sons,
palavra substantivada precedida de ordinário interpelados, que
de lireposição, o objectocognato, se encontram nas palavras e que
um substantivo acompanhado não se explicam puramente pela
do adjuncto attributivo e em- etymologia ; v. gr., o r da ultima
pregado absolutamente, o parti- syllaba de registro (derivado dos
cipio absoluto com ou sem ad- dous elementos res gestm). A for-
vérbios, uma palavra com pre- ma etymologica deve ser regii,to,
posição occulta. Podem ser ad- que também é usada. Em geral,
junctos ntlrihutinúit — um ad- as letras adventicias explicam-
jectivo ou participio, um nome se pela tradição de erros ortho-
apposto ou clausula em apposi- graphicos e prosodicos, quando
ção, um substantivo (ou palavra não pela euphonia(amor-2-inho).
substantivada) precedido de pre- O 7i, por exemplOj por erro or-
posição, uina clausula adjectiva tliographico, foi usado em ho-
ou relativa. (por o), por analogia fácil com o
latim lioe ou com o grego ho ;
Admiração. — Signal de nos antigos tempos, o A era or-
pontuação usado para exprimiro thographia usual no inicio dos
sentimento de espanto, pasmo, monosyllabos: lio,hum, Ae, etc.
assombro, piedade ou com-, A nasal freqüentemente 6 letra
miseração. Esta notação (1) ó ad ve n ticia; TOiwí, por mi (1 at. nizVií,
moderna na arte de escrever, e vide Aerusatiro). O r como le-
nos primeiros tempos figurou- tra de reforço muitas vezes ap-
se antes e depois do trecho ex- parece fortalecendo syllabas : es-
clamativo e vocativo. Hoje é trella, por eStella, de stella. (e tal-
usada no fim da plirase : «Clie- vez da forma astrelluin, ãim, de
gae parto, Estacio; que eu vos astrum). Outras vezes o r desap-
abrace. Sois um lieróe 1 » .T. de parece, como em rasto e rastro,
Alencar, Minas dePratn,yi, 50. rosto e rastro. Um exemplo se-
Em geral, essa notação acom- guro do r adventicio encontra-
panha as vozes interjec ti vas; Olá! se em mastro; a forma masto
Kciu! oh ! 7iu! hein ! || Jluitas ve- ainda se nota no derivado 7)ias-
zes exprime reprovação, ironia taréo (e não mastraréo). Quanto-
13

ao uso do li, é de notar-se que explicadas como tendo feito


muitas vezes o ervo orthogra- parte do verdadeiro etymo, até
phico procede do latim; v. gr., então desconhecido. E veritica-
posVaimus, em vez de 2wstumu» se ahi que a hypothese dos sons
(superlativo deptfsí^. Sobre este interpelados provinha apenas de
assumpto escreveu ha jjouco o se ter tomado como, real uma
illustrado professor Dr. Fausto etymologia errada.» É certo que
Barreto: «Não me detendo em se vae dando razão de ser ety-
signalar a deplorável confusão moiogica aos sons de que me
que, na linguagem de alguns estou oceupando, mas difíicü,
auotores e, o que ó mais grave, senão impossível, senl explanal-
na própria terminologia dida- os em todos os casos. «Une
ctica de vários compêndios, grammaire parfaite. pondera
reina no tocante ao emprego dos Victor Henry, serait celle qui
termos som e letra, direi com ne contiendrait plus aucune
franqueza o que me suggeriu exception. La linguistique n'en
seu criterioso discorrer sobre a est pa.s encore lil; mais elle se
derivação histórica da palavra raiiproche de plus en plus du
«strella e sobre o valor das cha- but, sans i)ouvoir se flatter de
madas letras aíhenticias. Enten- jamais Tatteindre.» As leis da
de o notável grammatico F. phonologia histórica, como as
Baudry que adventicias são leis naturaes, não têm o valor das
Jis letras que, em certas formas, leis mathematicas; não expri-
não têm origem etymoiogica, mem, segundo observa M. Ben-
nem valor como reforço. São fey, senão tendencias desenvol-
accrescimos o mais das vezes vidas da linguagem, lísquaes não
feitos para facilidade da pronun- raro se oppôem ou substituem
ciação. Entra assim a theoria outras tendencias. Se o r de char-
das letras adventicias no prin- tre, que se costumava derivar de
cipio do menor esforço. E como charta, era considerado som fo-
taes letras apparecem no prin- rasteiro, deixou de o ser em face
cipio, no miúo o no fim do vocá- da verdadeira analyse etymoio-
bulo, occorrem : agghitinação ini- gica; se o r do registro, o r de ci-
cial ou prothese, inserção me- (jarra, o h de Jmmbro, o d de gen-
diana ou eiienthese e agglutina- drc e outros piionemas em con-
ção final ou paragoge. Àos en- dições taes jii têm historia feita
tendidos, eu proporia^ se tivesse nas linguas respectivas ; outros
íiuctoridade, a denominação de sons surgem no vocábulo, sem
phoncmaa aãventicios, em vez de que se lhes tenha até hoje po-
letras adventicias. Penso, com o dido dar razão genetica plausí-
meu illustre collega, que, me- vel. Lembro-lhe a idca de se
diante os progressos da moderna adoptar a divisão dos sons voca-
sciencia da linguagem, as taes bulares em plumemas orgânicos
letras que se afiguravam «ac- ou etymolngicos e jjliane7jias inor-
crescidas ao vocábulo vão sendo yanicos ou adventicias, cabendo a
14
ADVENTICIAS
primeira denominação aos sons no dizer de F. Diez, freqüente c
que forem susceptíveis de ex- em todas as Hnguas romanas a
planação liistorioo-comparativa; permuta entre os sons linguaes
e a segunda, aos (jue não o forem. l, n, r, a qual permuta larga-
Tal divisão, parece-me, convém mente se observa no domínio
á coisa, ao menos sob coiidl- indo-europeu (]>op2í). Sabe-.«e
cionalidade provisória, ou até que no latim popular desappare-
que pelo microscopio da ana- ceram diversas palavras por di-
lyse glottolofrica seja dada a ul- versas causas. O não offerecerem
tima palavra sobre sons que, em certos vocábulos bastante resis-
■alguns casos, se me afigura des- tência na lucta pela vida, o facto
envolverem-se espontaneamente de não serem de fôrma consis-
no corpo do vocábulo. Quanto á tente ante os attritos do tempo e
derivação historicadapalavra es- a rudeza negligente da prosodía
trella, me merece sympathia a pojmlar, determinou tal causa
hypothese de ter-se originado da a substituição de palavras de pe-
forma sterula; mas não me con- queno porte por derivados do
venço ainda do facto, poríjue ute- mesmo valor significativo. Os
rula é a mesma forma utella pela vocabulos.y)tfs, c/eiiu,]>olle.r.,
intermedia sterla, como jmerula civix, unyuü, calx, etc., são for-
=puella=puerla. Não creio fir- mas atiradas ao limbo do esque-
memente que a fôrma contracta cimento, não fizeram parte do
stella seja do latim erudito, e ste- léxico popular, sendo substituí-
rula, forma intacta, remota, seja das respectivamente pelas pala-
do latim vulgar : acredito ijue o vras nperantid, yenuculum, jpol-
vocábulo gtclla, encurtado em licark, talparia, ciHtatanus, un-
seus elementos materiaes, mo- gula, calcaneare, etc. Uma das
delado pelo ouvido mais do que princípaes tendencias do latim
stenila, que me parece antes popular edas línguas novi-lati-
formado pela vista, é um dos nas, é rejeitar palavras primiti-
que se empregavam assim na vas, taes como ovis, apis, cicada,
linguagem culta como no lin- acus, substituíndo-as por deri-
guajar da plebe. Ao meu dis- vados, mediante suífixos dimi-
tincto collega peço permissão nutivos: omciila—otida=o\'fi\\\a.-,
para ponderar se não será pos- apicula — apicla — abelha ; eica-
sível derivar-se estrella, preferen- (lula=^cicadla=eicalla — cigarra:
temente, da forma stellula, que acucula=(jíeucla=^&S\\\\và. Ka 1 i n -
ainda hoje se encontra nos dic- guagem portuguezaactual se diz,
cionarios. Como facilmente se por exemplo : ter uma conversi;
vO, tal derivação se conforma nha ; comeu uma sopínha; com-
com os princípios geraes da jilio- prou um bílhetínho de loteria ;
nología histórica. Demais, é ouviu a rezinlia do costume, a
muito commum a metathese dos leiturazínha, etc., conservando-
phonemas liquídos, como se 10 se em taes palavras de forma-
no escripto Uma etymoloijia ; n, ção secundaria a plenitude de
15
ADVENTICIAS — ADVÉRBIO
significaclo cios nomes primiti- que modificam advérbios: a mo-
vos, d'onde provieram. Eis, dificação S(5 é possível quando a
prezado collega, o que rapida- palavra modificada é susceptível
mente me ocoorri! dizer a re- de vários limites. Assim, póde-se
speito de suas idéas contidas no dizer mais tarde, e nunca mais
bello trabalho que se dignou de hoje ou mais liontem, mais não ovi
olferecer ú" minlia apreciação. muito sim, etc. Taes vocábulos
Continue a prestar serviços lí exprimem positivamente uma
causa do ensino. Vá pondo em circumstancia que não tolera
equação os diflicillimos proble- maior ou menor extensão de
mas da glottologia e especial- significado. Vajiios usos. || Os
mente os que se referem á nossa compostos mais ordLnarios são-
formosa lingua iiortugueza, a os que se formam de mente com
qual, «para que diga tudo, só o adjectivo feminino: ligeira-
um mal tem, e é que pelo pouco mente, sabiamente. Casos notá-
que llie querem seus naturaes, a veis : de má, malmente; mal,
trazem mais remendadaquecapa forma archaica contracta de
depedinte.» mala; de portwjuez, franceZy
etc., portufjueímente, pois que
Advérbio.— Classe de pala- esse adjectivo era dos dous ge-
vras ou locuções próprias para ex- iieros antigamente. Os compa-
primir qualquer circumstancia. rativos e superlativos synthe-
Modificam o verbo, o adjectivo e tlcos podem comjiôr-se: superior-
o proprio advérbio ; cliegou tarde;mente, hellissimamente. Por eu-
muito formoso; imdto bem. O ad- phonia, evita-se a composição de
vérbio pôde ser expresso por pa- alguns advérbios: quentemente,.
lavra, por locução ou proposição. rentemente, mas os polysyllabos
Ex. : Palavra adverbial: cliegou são utilizados: decentemente, evi-
tarde. Locução adverbial: chegou dentemente, etc. (1) Ha ainda
fóra de horas. Proposição: chegou outros limites nessas formações,
no tempo em que já não era espe- que são dictados pela euplionia,
rado. A essencia, jiois, do advér- e pelo uso: diz-se maiormente e
bio é expor synthetica ou analy- não se tem dito menormente;
ticamente uma circumstancia. diz-se plenamente, e ninguém
Propriamente, o adjectivo quali- disse cheiamente; primeira, se-
ficativo iiílo é modificavel senãogundamente, são termos encon-
ds certas maneiras: a, qualidade tradiços, ao passo que terceira-
ou o attributo das cousas pode mente, oitavamente se não en-
ser encarada quanto ao modo e contram, e sem razões plausíveis.
quanto á extensão ou intensidade. Camillo C. Branco chegou a de
Por isso ha muitos advérbios
que não podem modificar ad- (1) A composição com o substan-
jectivos, como: aqni, acolá, sim, tivo «ioiíe já se tisava, ainda que
etc.Por isso mesmo, é igualmente raro, no latim. Ilona mcnle è um
restricto o numero de advérbios exemplo de Quintiliano.
10
ADVÉRBIO
rival-os, uma vez ao menos, de hic; aqui, fr. aní.iqui, do lat.Aíc-
substantivo, dizendo: lacrecia- hic. Antigo aquó, existe em aco-
mente{ma.B noestjiocomicoassim lá, em aca-juso e acasuso, ar-
se permitte: asno, asnissimo, chaicos ; jwum (abaixo), susuin
burrissimo, burrlssimameute, (acima). Da fôrma acá, arch.
etc.) (1). l)iz-so malmente, e niio existe o elemento cã. Al-U, de
se ávímAmente, dizendo-se, com- illine ; arch. allá, illae. Arriba,
tudo, boamente. Diz-se tarãe- de ad-ripam (cp. o fr. aval, de
menie quando fora mais logieo, ad-\-callem). Além, do aliunde ;
tardiamente, que é também de aquém, formação analógica de
uso. Com os monosyliabos ainda lioc ( parte ), com idêntica ter-
se repete a anarcliia: sãmcnte minação. Onde, de unde, e os seus
diz-se jiQuco ou quasi nunca, e compostos a-o)i.rfí, d-onde, ad-onde,
é mais freqüente dizer-se vã- etc. Quasi, lat. quasi. Assás, de
mente; om geral, o monosyllabo ad-satis. Pouco, Oí\^pauco. Muito,
não se adapta a essas formações de mtdto. Cerca, de circa. Kada,
adverbiaes, porque ficaria menor do adjectivo nata (scil. 7'es, Vide
que o suilixo, que é accessorio. jSfeijação-) — arch. ren, francez
Pela mesma razão a elias se rien, do subst. rem. Os com-
adaptam as jjalavras longas e postos em mente já foram es-
os superlal ivos: eloquentissima- tudados. Assim, ad-sic. Mal, de
mentf, arrebatadamente, miseri- mole. Bem, de Iene. Notem-se as
cordiosissimamente (que é por formas adjectivas usadas como
si só um liendecasyliabol) II Os ad- advérbios, porexemplo, do latim,
vérbios toleram gráos : 7naiii cedo, alto, caro, barato, serio, etc. Agora,
mais tarde, inain menos, muito liac-liora; hoje,/íyrfíí (hoc die);
peior, pouco alto, tão pouco. logo, loco; hontem, ant. ooyete,
Formam diminutivos : juntinho, hesp.; anoche, de ad-noctem ou
pertinho, de tatjarinlio, cedinho. kanc-noctem, segundo outros,
Formam gráos indefiniveis, ainda Uodie ante; sempre, de íicwipíí'/
não cbissificados pelos gramma- nunca, de nunquain. Compostos
ticos : assim assim, ainda assim. V(írnaculós ; amanhan, depois d'-
II As vezes o advérbio sempre amanhan, outfora, d'ora em di-
quasi não tem sentido, e é mero ante, antes d'hontem, etc. Sim, de
expietivo; « Sem}>re quero ver o sic ; talvez, de tale vice; não, de
resultado! íSsHy7?'í!éum velhacol» non; nunca, de numquam;
II Etymologia. — Aliuires, alii)r- úajam-mqí/is, quiçá, ital. chi sa?
sum; analogicamente, ahjures, de quem sabe V DeòaMu. forma ara-
algo, aliquid. A-ld, ant. Id, lat. be; anieft,passivo do verbo hebrai-
co amara,ser verdadeiro; assim seja
(1) E é muito justificável, porque (1). Os typos adverbiaes do por-
com o advérbio se formam gráos tuguez são de diversás especies:
de substantivos: é mnílo noite;
■é muito mãe, «Não és tão j>ae (1) O vocábulo, porém, foi-uos
-quauto eu uo perdoar aos üUios.» importado pelo latim.
n
ADVÉRBIO — AFFIXOS
<7/1 Originados do latim, de fôrmas diplithongo ae ou ai resultou do
adverbiaes : sempre, semper. h) effeito de varias leis phonoticas.
Originados do latim, de fôrmas Da queda da consoante média:
sidjectivas : forte (fortU). c) De- amais, ama-t-is; de uma solução
rivado remotamente de termina- do hiato, por transposição muito
ção oomiiarativa em ter; iim commum antes da renovação
único exemplo : azinha, agilüer. erudita, notairo, nigairo, adver-
d) Originados de derivação mo- sairo, etc. Na orthograpliiausual,
derna no seio da lingua, por o grupo ae não se usa senão no
analogia : a iniuão, acinte, arch. fim dos vocábulos; pae, cantae,
(a scicnte), nu encurax, arcli. ás etc.; o grupo ai é usual no meio
mhemlas, jularentú, hoijano (lioo ou inicio dos termos: aipo, nai-
anno), aramã, hora mala, ãs ves- pe. Excepcionalmente, usa-se a
xas, etc. Apenas, fôrma reduzida graphia ai na interjeição ai! e
de a malas jionas, cf. a duras não ae.
penas, no castelhano. Em-tão,
in-tum. Formas contractas : Aífixos.—Elementos ou for-
tanto ; çi/a;»-quanto ; recem-va- mas qiu! se aggregam aos vocábu-
centemente ; iHMi-miiito, Aiic.it. los e lhes modificam a significa-
arredo, a retro ; alio, üluc; ende, ção. Os Ai-Fixos dividem-.so em
iníle; adiir, dure; sam-micas, são prefix'os e suffi.tos. Prefi.cos — são
migalhas ;cluís, plus; eras, eras; os elementos que se juntam no
aaprom, fr. ajüomb; de cote, fjiio- começo das palavras ; v. gr., des,
tidie; des-i, desd'hi; cadanho, in : amor — DEsamor; verdade —
gallego, cata anno; enxano, ex iNverdade. Suffi.vos — são os ele-
anno ; de chan, de pran, de \wom- mentos que occorrem depois do
ptu; prés, pressum; ooyte, ad vocábulo principal ; v. gr., oso,
noctem ; j uso, jusum; suso, susum, eiro : amor — amor-oso ; verdade
sursum; ha e a, onde ; y, ahi ; — verdad-«íVo. Os ajjuos são de
festinho, festine ; en cas, in-casa, origens diversas: gregos, latinos,
cliez; acaron, de a cara, etc.(ety- vernáculos e até germânicos.
mologias approximativas). Cada prefixo será estudado no
logar determinado pela ordem
Artversativas . — Preposi- ali)habetica. Tirados os affi.ios, a
ções e conjuncçoes. Vido esta parte restante do vocábulo repre-
ultima palavra. senta a fôrma principal, e é cha-
Ae, al, diphthonjjo. — No la- mada radical ou thema. Existe
tim tinha a forma ai que deu no um caso particular e rarissimo
portuguez regularmente a pro- do inji.vo, em que o elemento
sodia e, e idêntica orthographia addicionado se colloca no meio
no latim barbaro: a:dificare, edi- do vocábulo. Tal é o caso da
ficar. De igual teor é a. permuta tmese: amar-TE^ei, etc.—Pro-
do grego ai: òiana, dieta. Excepto priamente esse caso nãoc deinjixo,
jzatôíor, pagem, de origem italiana visto como te, me, ae, etc-, não
e após franceza. No portuguez o podem sem violência ser classi-
DICC. GKAMM. o
18
AFFIXOS — ALLITERAÇAO
ficados como affixos. || Podem ser juxta-poaição ha a percepção clara
consideradas infixos as letras ad- dos elementos componentes: so-
venticias, o n orthograpliico em: bremesa, semsaboria. Na agglu-
amam-«,'o, dizem-«.'o; as letras tinação, o composto só se revela
intercalares : homem-z-inho. pela analyse etymologica.
Africanisinos. — Numero Afígllitinaiite. — WAs Lin-
copioso de vocábulos africanos guagem,
penetraram na lingua portu-
gueza, especialmente no domínio Agoífos. — Elemento gregO'
do Brasil, por effeito das rela- compositivo de muitos vocábu-
ções estabelecidas com a raça los. Pedagogo (paidos, menino),
negra. Do portuguez existem conductor, mestre de meninos.
mesmo incultos dialectosafricos, Demagogo (demos, povo ), condu-
de que trataremos na palavra ctor do povo. Toma a forma egia
Dialecto. Dos africaniamos que se em strategia (stratos, exercito),
introduziram na linguagem bra- que guia os soldados, etc. Cyne-
sileira, daremos a analyse devida getico (kinos, c3o).
no termo Braaüeirümo, d'este Afíoreuo (falar).—Elemento
diccionario. Fora d'estas influ- grego de composição. Forma vul-
encias normaes, pouca cousa lia gar: agoria. Fantasmagoria, fala,
que averiguadamente proceda da evocação de fantasmas; catego-
África, salvo raros vocábulos co- ria, o que fala contra ; o que está
nhecidos dacivilisação européa: particularizado e examinado, o
zebra, quadrupede ; haohah, ar- attributo. Fôrma egyr: panegy-
vore africana das maiores que rico (pan, todo), fala diante de
existem ; zuavo, nome de tribu todos, discurso publico em as-
kabyla ; soldado francez do regi- sembléa.
mento africano composto de in- Affinlo. — Accento, syllaba,
dígenas da Algeria. rima. Vide Accento, Notações.
Agente.—Denominação hoje Corresponde a oxytono (que em
pouco usada, que se dá uo lingua grega quer dizer a mesma
sujeito do verbo attributivo ou cousa) é a voz tônica predomi-
adjectivo : Júlio estuda. O agente nante.
designa o factor da acçílo ou au- AlffO.s (dôr).—Elemento de
ctor d'ella. Ayente coutrapõe-se composição grega, que apparece
a paciente. com a 1'órjna algia. Exemplos:
Agfflutinação. — Pheno- gastralgia, de gastêr, ventre; ce-
meno que caracteriza o amal- plialalgia, de kepUalé, cabeça;
gama perfeito de dous elementos nostalgia, de nostos, volta.
que compõem um vocábulo. É o Alinéa.—Vide Paragrapho.
que se vG em condedavel (de co-
mes-stahuli), em capencollo (de Alliteração.— « Figura de
rapa em eollo), pundonõr (pun- rhetorica pela qual de pro-
d'onor, point d'lionneur). Na posito se repetem na mesma

ALLITKRAÇÃO ALPHABETO
phrase as mesmas syllabas, de na redacção do Coãigo Ciml bra-
maneira a produzirep muitas sileiro (1903). O adjectivo com-
vezes o mesmo som. E um ver- mum perdeu a forma feminini
dadeiro aUrito de letras que se commua, de antigo uso, e por
cliocam. Primitivamente desti- analogo motivo. Muitas formas
nada a produzira harmonia imi- verbaes, como dar, tomar, vir e
tativa, a alliteração degenerou vir-se, pór e pór-se, vão sotfrendo
em oacoplionia. Muitos auctores, pouco a pouco a acção pejorativa
mas principalmente os poetas, do máo sentido que lhes empres-
têm feito uso d'esta figura de tam e não tinham. Vido Pejo-
máo gosto. Eis aqui alguns rativo.
exemplos; falem cartas, 'caem
òarbas; pobi-ete, alegrete; treme a Alplial>eto.—«Sabe-se que a
terra, ferva a guerra ; vae hem a idéa de representar os sons da
monarcliia, mas sem anarcliia. A linguagem por signaes e especi-
alliteração pode ser de um feli- almente de representar cada som
císsimo effeito, quando produzir por ura signal particular não é
a harmonia imitativa. Muitas muito antiga. De origem egy-
vezes a empregaram os poetas da pciaca, mas transformado pelos
idade média.» Fora do est3-lo phenicios, o alphabeto foi levado
literário, nas creações da lin- para as margens do Mediterrâ-
guagem, a reduplicação syllabar neo. Os gregos, os etruscos e os
constitue um processo de inven- latinos adoptaram-no, com mo-
ção de palavras mais ou menos dificações particulares. As po-
onomatopaicas; murniur, cicio, pulações celticas não tinham"
pipitar, gago, talihitati, caca- alphabeto proprio; as raras in-
rejar, engasgar, zig-zag, lusco- scripçôes gaulezas que existem,
fusco, lusgue-fusQue, traxie-zape, foram escriptas em caracteres
traz-zás, zãs-traz, tic-tac, tutucar, gregos. Os romanos espalharam
papagaio, papagueiar, cacaracã, a sua lingua no Occidente, e
etc. Mas, onde a alliteraçiw é com ella o alphabeto. A forma
mais freqüente ú na formação de d'este assils modificada ficou;
Jíypocoristicos, f(5rmas familiares perdeu-se o cursivo, e o maius-
dos nomes proprios: Zezé, Mimi, culo tomou aspectos diversos, e
Lili, JaíIh, Bébé, Tatá, etc., e só mais tarde, com a invenção
nas palavras do dialecto infantil da typographia, foi usado com
—papá, mama, titi, ntnén, dõvõ, o mesmo aspecto que occorre nas
dinãinho, etc. inscripções. O estudo de taes
variações atra vez da idade média
Allusão.—E a allusão invo- çonstitue o que se chama paleo-
luntária causa constante de ar- graphia. Na época romana, con-
chaismos. Numerosas palavras tavam-se 21 letras: A, B, O, D,
de legitimo uso vão desappare- E, F, G, H, I, K, L, M, N, O,
cendo, como o adjectivo 2)rivada, P, Q, R, S, T, V, Z. Taes e tantos
que Ruy Barbosa não acceitou eram os caracteres até o século.

t
20
ALPIIABETO AMBOS
XVI. B'ahi por diante, appare- distingue-se do P (r grego) por
ceram reformadores. Foi ado- uma cauda que se encontra aliás
ptada a cedilha do c jiara ex- em inscripções gregas muito an-
primir o valor sibilante brando; tigas. Tácito di;í {Ann. 11, 14):
creou-se o typo U para repre- u Forma est litteriu latinis qxmveter-
sentar o som vofral, exi)resso pelo rimis yraicorum. » || Nem tudo
V, como em DEVS. Também quanto escrevemos e expressado
creoii-se o signa 1 J para repre- pelo alphabeto. Também empre-
sentar o valor consouantal do gamos symbolos nos números ;
antigo I, que se usava, v. fjr., em 8, 35, LXVI, etc.
IVLIVS (.Iirlius). Foram, toda- Alteraiite. — Denominação
via, poucas as reformas que con- dada pelo grammatieo Júlio Ri-
seguiram definitivamente esta- beiro ií consoiinte, mas que não
belecer-se. E,ainda hoje, o alpha- leva melhoria á antiga.
beto o summamente defeituoso, Ain, aii, ainb.—Prefixo la-
não só i)orque possue vários si- tino que se encontra no léxico
gnaes para idêntico som (cdsa,
kasa, Icero, quero), como também d'aquella lingua, mas que não
possue um só signal para sons se tornou fecundo para as lín-
differentes (s,nabi(i; (r=iz, casa) guas um
modernas. Denota direcção
etc. As dillieuldades e defeitos liara e outro lado, ao redor,
do alpliabcto, na escripta, são para ambas as parles. Corre-
de iiequena monta, quando os sponde nos
ao grego A,\ri'iii, e nota-se
termos : amh-ire, ir para um
comparamos com as dillieulda-
des e defeitos de qualquer sys- lado e outro, d'ahi ambiente,
tema ortliographico.» —A palavra ambif/no, amjiutar, ambição^ am-
alphabeto tira sua origem do bulante.
nome das duas letras gregas Aiiibiguitla<le.—V. Amphí-
alpha (a) o hetn (h); também <5- holoyia..
denominado (íicéou nhc. O alpha- Ambos.—Significa os dous,e
beto latino não deriva directa- é uma forma e só ha outros
mente do alphabeto phenicio, vestígios em noster e vester (pri-
mas dos !ilt)habetos em uso na miiivamente=nósdois, vós dois).
Grande Grécia, especialmente Ambos indica os dois num com-
em Cumes. Como o demonstrou posto ou companhia que não
cabalmente Otfr.Müller, a prova excede aquelle numero : ambas
de que foi tirado immediata- as mãos, «as mãos ambas e talyez
mente do grego, se encontra na ambas das mãos ou ambas das
adopção cio ãigamma K jnira duas mãos ou as mãos ambas e
exprimir o som usual do F, duas, o que tudo são expressões
caracter que os etruscos não pos- lógicas e como taes não merece.m
suíam. O alphabeto romano ó o apodo de incorrectas. E não só
quasí idêntico ao chalcidio: JI em portuguez, como o demons-
corresponde ao symbolo do es- trou Manoel de Mello (Notas lexi-
pirito rude, ao koppa, d o li eologicas), Bluteau Dicaionario
21
AMBOS AMPHIBOLQGIA
da Academia portuguezii acredi-' tino é amh, am, v. gr.; ambição,
tam a expressão ambos de douê am-putar, etc. Note-se ampAz em
usada por Bernardim. Ribeiro amphora (vaso que tem duas
(M. e moça: começaram assim azas). A i^alavra ampMguri é
também amhos de doim. ..) e L. franceza, factícia e, ao que pa-
de Camões nos Lusíadas: «D(! rece, da giria de estudantes.
amhos de duus a fronte coroada.))
Moraes diz que é locução viciosa. Anipliiboloj^ia. —Vicio do
Veja-se a minha Selecta Classica. estylo que consiste em coorde-
nar a plirase de modo que se
Americanismo. — Nome preste a mais de uma interpre-
consagrado a expressões oriundiis tação. Exemplos; dei^orando o
da America. O maior numero se tigre, o leão etc., onde o sujeito é
originou dotupi-guarani.queserá indeterminado e pode ser tifji-e
estudado no artigo hrasileirismo. onleão, sem injuriada syntaxe.
Das outras linguas americanas Leia-se o capitulo sobre Ambi-
derivam, ao que parece, os ter- güidade na Gramm. do auctor
mos seguintes: alpaca, animal (3? anno, 12'' edição), onde se
dos Andes, xianno; cacique, de analj-sam vários exemplos. So-
origem caraiba, chefe de tribu ; bro o assumpto escreve A. Netto
ca(/uteli0uc, orthographia fran- no seu Escoliaste portuguez, Lis-
ceza de calmtchuc, nome da boa, 1884; «Neste exemplo; «Hei-
gomma elastica, or. da Guyana ; tor Achilles chama a desafio»,
canibal, de caniba, nome de nenliuma das palavras é ambí-
uma tribu ferocissima' das Anti- gua, nem equivoca, mas é ampld-
Ihas, hoje extincta; chocolate, bologieo o sentido; porque, ainda
palavra mexicana, composta de quando regularmente se pozesse
choco, cacáo, 'e lattl, agua; coca, o sujeito antes do verbo, os iioe-
arbusto peruviano; colihri, pa- tas invertem muitas vezes esta
lavra caraiba, beija-ílôr; (juaiu>, ordem, e d'aquella phrase se
de huano, da 1. quirhua ;/w«í'(7o, pode entender que Heitor pro-
cast. huracan, nome do espirito voca Achilles, ou este áquelle.
maligno entre os caraibps; inca, Concorre muito para as amphi-
titulo dos reis indigenas do bologías o máo emprego ou a
Perii, lingua quichua ; condor, má collocação já dos pronomes
do quichua kunUir; pampas, pessoaes, já dos adjectivos pos-
planícies; tomaliawk, anna oífen- sessivos. Neste outro exemplo—o
siva dos índios da America do guerreiro amou sempre aquelleami-
Norte. go no meio da sua adversidade —
não nos diz o possessivo sua,
Ainplii. — Prefixo grego. Si- se foi na adversidade do guer-
gnifica «de ambos os lados)). reiro, ou na do amigo, que elle
Amphibio, que vive de dous mo- sempre amou. O adjectivo pos-
d.os. Amphiboloyia, que tem dous sessivo emiiregado no exemplo,
sentidos. O correspondente la- l)cde referir-se a um dos dois
32
AMPHIBOLOGIA — ANALOGIA
termos da oração, e é isto que Cção sj'ntactica já começada por
occasiona a ampliibologia nas outra de nexo dilferente. Por ve-
phrases citadas. Comtudo, seria zes a anacoluthia, quando usada
fácil conhecer a quem se refere o discretamente, constitue uma das
possessivo, se este fosse empre- bellezas da lingua, e foi sempre
gado sempre na composição in- utilizada pelos clássicos. Leia-se
dicando o substantivo, como o exemplo de Camões :
cousa pertencente ao sujeito do Ea que cair não pude neste engano
verbo da mesma oração ; v. g.: (Que é grande dos amantes a ce-
estando o imperador Aureliano na gueira)
guerra contra a rainha Zenohia, Encheram-me com grandes abon-
mandou que ninguém entrasse de danças
noite na süa tenda. Ora, o impe- O peito de desejos e esperanças.
Lus. V, est. 54.
rador, a rainha e todos os mi-
litares que sob o commando de Em geral, na anacoluthia, a
Aureliano a guerreavam, tinham mudança mais freqüente é a
suas tendas, mas, assentado que do sujeito que inicia a phrase :
o possessivo se ha de referir ao •xQuem ha de ser pastoral do seu
sujeito da oração, como no povo, cumpre-Me ser limpo e
exemplo dado que determina a afastado de todo o vicio.» João
tenda do sujeito ninguém, clara de Babiíos—Panegyricos, 9. (Vide
fica a prohibição do imperador. João Ribeiro, Qramm. do3?anno,
D'este modo evitar-se-ia um pg. 241-243, e a annotação de
vicio ou defeito que pode ajun- Silva líamos, que inclue grande
tar-se a todos os que se oppõem numero de exemplos dos clás-
á clareza. Assim concluiremos sicos.
que se a amphibologia não pro- Analogia.—Principio pelo
vém da deficiencia das regras qual a linguagem tende a uni-
grammaticaes, provém da inten- formizar-se, generalizando as
ção dobre de quem fala. Esta suas regras e submettendo
especie de sophisma era também quaesquer factos á sorte com-
de um grande reçurso para os mum de outros congeneres. O
oráculos. » principio de analogia c tão exten-
sivo e intenso que os neo-gram-
Alia.—Prefixo. Denota afas- matieos
tamento para traz, renovação, cam todas allemães por elle expli-
etc. E.x:.: anahaiMsta, que se ba- phonetic^s as excepções ás leis
das línguas. A ana-
ptisa duas vezes ; anachronico, logia, trabalho popular e espon-
de tempo atrazado; anatomia, tâneo (1), é muitas vezes falsa e
corte por diversas partes, atra-
véz. O termo aná, como simples
palavra, é usado como abrevia- (1) A analogia na linguagem in-
tura no formulário medico. fantil constitue toda a generaliza-
çfio ou rjraminatlca : eu se esqueço,
Aiiacoluthia. — É a inter- ])or me esqueceu, do typo verbal
rupção 0 mudança de constru s'esqueccr (esquecer-se), etc.
23
ANAL03IA
desarrazoada, por apoiar-so em bios, etc. A analogia explica em
bases illusorias. Taes são os so- todas as linguas as derivações
lecismos entreto, por entretenho, fora das leis normaes da plione-
mantí, por mantice, etc., muito tica. Assim, a forma meridional
communs entre os homens rús- faria suppôr a existencia de me-
ticos 6 ignorantes. Não obstante, ridião, que nunca existiu de fa-
forçoso é confessar que as lín- cto ; mas o adjectivo meridional
guas romanas devem ií analogia foi derivado sobre a analogia de
quasi toda a originalidade dos septentrional, que é um descen-
respectivos systemas grammati- dente de septentrião. A termina-
caes. Examinaremos os elíeitos ção Avo, normal em oitavo, foi
da analogia nos diversos domí- base sufllciente para as creações
nios da linguagem. Accento. — analógicas, anti-etymologicas
A analogia tornou oxytonos to- doz'avos, quim'avos, etc. A de-
dos os verbos no infinito: amar sinencia eu em meu (rneus) gene-
amare ; dever, ãehere; sentir, ralizou-se em teu (tuus), seu
sentire. Submetteu a essa unifor- {mus). A analogia procede dis-
midade os verbos da terceira cricionariamente e por isso cria
conjugação, que no latim eram Hexôes que estão em antago-
proparoxytonos: fazer, faeére, nismo com o valor semântico
por fácere; caber, capére, por do vocábulo. Assim, do tj-pó
mpere, etc. Fi.exão de gbnero. freire, a analogia formou/reira,
—A analogia considerou mascu- por soror; de varão, varoa, por
linos todos os nomes da segun- femea, mulher; padre, padro-
da declinação : servus, incluindo eira, etc. Por ahi se vê que im-
os que eram femininos em latim, portância exerce a analogia na
populua, choupo, laiirus, louro. constituição da lingua. A analo-
Considerou femininos os nomes gia prende-se á faculdade de
da lirimeira declinação, 7wra, imitação, que é a base do caracter
hora, e submetteu ao mesmo e do progresso humano, nas ar-
principio, no sec. XVI, muitos tes, na religião, na linguagem,
dos nomes gregos que ti- nas instituições e em todas as
nham a terminação a: planeta, suas creações. O latim omnea (de
feminino em Camões ; a clima, liomines) foi primitivamente do
(l$arro§). Fmxão de numbuo.— plural; a analogia creou o sin-
Deu o plural s a todos os nomes, gular omnis. Em portuguez, a jia-
mesmo áquelles quep não pos- lavra pomba (palumbam) serviu
suíam, como os neutros, que de modelo á Ilexão masculina
desappareceram ou reverteram pombo, que não existia. Bru-
para outras declinações. Con- gmann, o neo-grammatico, diz
STRUCÇÃO. — Submetteu o dis- ser a analogia ultima ratio plti-
curso á construcção analytica, lologüt^. II O que foi ahi dito a
por necessidade de clareza ; ge- respeito das formações organicas
neralizou o emprego de prepo- e naturaes da lingua, também
sições ; regulou o uso de advér- se applica ás formações eruditas.

ANALOGIA - -■ ANTROPOS
literariiis e scicntificas, pi-omovi- no, ante-cedcnte. Contém esse
(las por siibios e osoriplorcs (|iie )ir(ífix() os termos anterior, antíyo,
devem respoitar u iiuUilc o cnru- do me.smo radical. Não se deve
ctor cias línguas (e iiilclizmeiile confundir com o prefixo grego
não tem sido a legni) na creação anti, que não é das palavras la-
de palavras novas ou na adopção tinas : anticipar, que seria me-
de outras extranhas. Com razão, lhor díicviycr antecipar. (1)
censurou Kuy Barbosa, o gran-
de clássico contemporâneo, na Anti.—1'refi xo grego. Denota
redacção do CodUjo civil a ado- opiiosição: anti-calholico, anti-
pção da francezia iimolvalilidade euphonico. Esse i)relixo não deve
em vez da nossa exjiressão pro- ser combinado senão com elemen-
insolvencia. E que dizer dos tos gregos, para evitar compostos
neologismos scienlificos arbitra- liybridos ; no emtanto, actual-
ria e ineyitamente formados do mente é de constante uso formar
grego e do lalim, sem o conhe- hybridismos, como anti-social,
cimento d'essas línguas e das anti-patriotico, etc. Kestes casos
leis de derivação que nellas se melhor crthographia será ante-
observam'; social, ante-patriütico.
Analy.se.—Vide Proposições. Antitliese. — Permufa eu-
phonica, de existencia contestá-
Aiiexiin. — Vide Adnyio. O vel. Fazel-o, \)qv fazer-o ; tol-o,
anexim d'este se distingue, em nol-o disse, por vos-o, ele. Não é
que é incompleto e é muitas ve- assas plausível nos limites da
zes mera locução ; nir á halha, phonetica a transformação s em
nietter-se em camisa de onze tara». l. Parece, pois, que o l eupho-
Aiioilialia. — Designa qual- nico é a parte que persistiu do
quer irregularidade ou excepção artigo Io, Ia : eil-o estiipor eia-lo;
ás regras da grammatica. Ano- fazcl-o, x>ov fazer-lo. A euphonía,
malia é especialmente a excepção com etfeito, consisliu na queda
única ou em numero de jioucas do r e s, mas não em transfor-
que não parecem ter explicação mação de s em l, hypothese inad-
plausível. Por exemplo : ades- missível, sem exemplos que a
locação do accento em. hâjulus, apoiem.
que produziu háliij ; datha, que Antonynios. — Palavras re-
produziu dadica. É anomalia im- ]n'eseutantes de idéas oppostas
portante o uso do infinito pes- (bonito, feio). (Pacheco Júnior).
soal, quando se compara com a
syntaxe das outras línguas lati- Antroi)o.s (homem). — Ele-
nas, mas é elegancia e belleza mento de composição grega: an-
própria do nosso idioma. tropologia, sciencia do homem;
Ante. — Prefixo latino. De- (1) A i)rinieira grapliia é um erro
nota anterioridade, tempo pas- provavelmente deviJo A analogia
sado : ante-classico, ante-diluvia- de parllcipar.
25.
ANTROPOS APHERJ5SE
misantropa, que odeia o homem, oca iniciaes estáno facto muito
dc misein, odiai' ; pldlantropla, friíquente do esquecimento ety-
amor do homem. mologico e seguinte confusão
d'aquellas letras com os artigos
Aplierese.—Metaphismo ou ainda vigentes. O povo diz não
figura do dicção que consiste na raro: um Jicial ãè justiça, por
subtracção de elementos iniciaos suppôr que o o de official é um
do vocábulo. Exemplos com- elemento separavel, um artigo.
muns são: inda, por ainãa ; pos, Só por analogo critério se acha
por após; traz, por atraz; té, por a solução razoavel das perdas,
até. Vejam-se os seguintes, na amiudadas do o e a iniciaes.
degeneração do latim : a — Exemplos: bodega, hotica, em vez.
npvtJiecam, botioa ; s — sj^asmum, de ahodega, ahotica (latim ajw-
pasmo; e — cpiscopum, bispo (do tlicca) ; hitacula, em vez de ahi-
grego). A aplierese já se notava taaida (habilaculano latim), apos-
no latim com bastante frequen- tema, em \'ez de apostema. Em re-
cia, V. gr. ; latus, por tlatus (de lação ao artigo masculino, regis-
tollo);natus, por(/«íifws, enarrare,tremos ; a forma bispo, talvez obis-
por (jnarrare (c\).i-gnarus, i-ijnu-po, comoaiiida o é no castelhano,
ro), etc. No portuguez, a aplie- do latim episcopus ; a forma an-
rese é susceptível de e.xplicação, tiga e masculina cajom, em vez.
co^nforme uma ve/ escrevemos : de occajom, derivada de occasio-
" As pessoas que estudam a gram- nem, e outras contestáveis, como
matica histórica das línguas ro- relogio (horologíum), etc. A outra,
manas, é familiar o exemplo face doproblema, naturalmente,
curioso da aplierese no vocá- contempla e especula sobre o
bulo francez aiupeKsade, em por- caso dos artigos archaizados :
tiigue-/ atiítpeçada. Esse vocábulo Io, Ia, etc. O vocábulo eiva, em,
veio do italiano landa spetzata meu conceito, soffreu trans-
(lança quebrada). Os francezes formação analoga ás já mencio-
transcreveram-o sem duvida pela nadas. Eiva, ao que me parece,
forma lanspessaãe ; mais tarde, a deriva de lahem (1), e é fôrma di-
ignorancia popular, suppondo vergente em relação a laivo : eiva
alli a existencia de um artigo de corrupção, laivo de cor-
(Tanspessade) produziu a queda rupção. A forma antiga deveria,
do l e creou a forma, hoje única, ser leiva, mas como já existia o
ampessaãe. Oousa , semelhante homonymo leiva, de gleha, eíTe-
aconteceu em nossa língua, po- ctiiou-se a desapparição da letra,
rém com mais inesperada com- inicial quo se confundia com o
plicação. No sentido da evolu- artigo (Teiva). O vocábulo onça,
ção histórica, o portuguez conta com osigníficadodeanimal, tam-
duas sortes de artigos: Io, Ia e
o, a. Os últimos sobrevieram (1) Deve-,se adniittir o especinieu
aos primeiros. Para mim, a me- IdhUim, similar a rabiam, de ra-
lhor explicação da apherese do bicvi.
56
APHERESE — APOSTROPIIO
bem passou pela mesmcatransfor- cias, desapparecerarii os casos ;
maçrio. Veio do italiano Íwííza (íyra- este facto importantissimo ori-
•íemlat.) e, devendo ser transcri- ginou a necessidade da constru-
pto na fórniaíonfíí,perdeu o l ini- cção analytica que caracteriza as
cial (Vonça), por se suppOr erro- linguas provindas do latim. A
neamente que fosse o artigo.» apocope ou queda de terminação,
no latim, e.Kplica-se geralmente
Apo.—Prefixo prego. Signi- pela linguagem barbara dos in-
fica; longe, em distancia. vasores do occidente, mesclados
longe da terra. Aphelio, longe do de populações e dialectos diver-
sol. Denota também intensidade: sos; em segundo logar, no latim,
■apoplexia, que fere profunda, a ultima syllaba era sempre
falminantemente. Nota-se em atona, e por isso sujeita a perdas
^apologia, apocalypse, aphorismo, irreparáveis ; finalmente, a dis-
■ apostolo, apóstata, etc. O latino ciplina, a tradição, a força con-
correspondente é ab,que também servadora da literatura latina
denota afastamento. tinham perdido o melhor de sua
iníluencia sobre as populações
Apocope.— Metaplasmo ou medievaes, e entravam no pe-
figvira de dicção, que consiste na ríodo de dissolução.
■subtracção de letras finaes. SSo
exemplos usuaes as formas con-■ Apostroplio.— Notação ou
tractas,9r«o, cem, mvi, recem, são. signal usado na orthographia
Por ella se elimina o s, anti- para indicar a suppressão de sons
euphonico, em vamos-nos, ,e anti- ou letras. Usa-se em vários
gamente se supprimia o s de l/ies: casos : 1? Na suppressão do e da
■ lhe fez, por lhes fez ; e ainda hoje preposição di: ã'Almeida,d'então,
será impossivel dizer; lhes o disse, etc. Os antigos escreviam Dal-
se se não quer diziír á maneira meida, dcntão, etc., e ainda hoje
antiga Ui o disse (quando lhe é do se escreve ; desde (d'esde), dentro
plural). Também era freqüente (d'entro), e ainda nos cognomes
supiirimir o n final da syllaba v. gr., Doria (d'Oria). A ortho-
atona ; image, calige, etc. Ainda graphia ainda é arbitraria em :
hoje se di7. nume, por numen, e deste, d'este, d'aquelle,d'isso, d'elle,
■ lume, \ioílumen, e também volume. que tambam se esc/evem disso,
Na passagem do latim para o daquelle, etc. 2? E usado em
portuguez realizou-se a apocope menor gnío, na suppressão de
■em numerosos vocábulos : dizer, letras iniciaes m6<\vA%-.esp'rança,
dicer-e / vieram, venerun-í; p'ra, etc.; com a preposição em,
mesa, mensa-m. A apocope c o apostroplio, sendo usado, só é
um phenomeno commum cm admissivel no logar da letra
todas as linguas romanas. Foi suppressa ; 'nisto, 'neste, etc.
sobretudo freqüente nas íiexões Comtudo, usa-se excentrica-
verbaes e nominaes ; pela fljw- mente depois da suppressão :
■ cope, desapparecendo as desinen- n'este, n'esse.
27
APPELLATIVO — ARABE
Appellativo. — Vide Sub- arabes no seu regimen de tole-
stantivo. rância nada impozeram, quanto
Apposição.—Cliama-se ap- ao pensamento, aos vencidos, e
posição á coiistrucçilo de phrase eram admiradores e cultores da
que tem a mesma successílo e sciencia grega e Occidental. A
relação da precedente. Ex.: Cey- maior parte dos nomes de ori-
lilo, ilha pertencente aos inylezes ; gem arabica conhecem-se pela
César, o mais hábil dos generaes... presença do artigo al afüxo: al-
etc. A apposição aílecta uma feniin, almirante, etc. Cumpre no-
construcção syntactica especial tar que, por meio do arabe, nos
nadenominaçãodas cousas e dos vieram muito."! termos de diver-
logares : cidade de Lisboa —ci- sas etymologias, por elles ado-
dade Lisboa; o dia de sabbadn=o ptados. Do grego, v. gr.: quilate,
dia sabbado ; o mev. ãe Maio — keration ; abenus, ébenos ; adar-
o mez Maio, etc. O uso nem me, drachuê ; alambique, ambix;
sempre exige a preposição ; por alcaparra, kápparis ; triaga, the-
isso diz-se iiuomiscuamente : o riaké. persa; azul, lazur ;
anno de 77, e o anno 100, o anno julepo, íjulap (agua de rosas) ;
mil ; o rio Amazonas e o rio das xeque, chah (rei); caravana, kar-
Amazonas, etc. Em João de wan; limão, laimum. Ha exem-
Barros, com os nomes proprios, plos, como veremos depois, de
quasi sempre havia a exclusão palavras latinas que, depois do
da partícula : a cidade Évora acclimadas no arabe, voltaram
(III, 1, C). Vide Complementos. ao dominio romano. Factos yram-
Alguns grammaticos, Delbaiuf e maticaes — Adelo ; a tórma pri-
Roersch entre outros,distinguem mitiva é femin. como no cast.
a apposição do complemento appo- adela. O advérbio avondo, do
sitieo ; esta ultima expressão de- Cancioneiro, se se liga ao cast.
signa o caso em que existe em- adunia, parece vir do arabe (ad-
prego da preposição de. domya, a gente, o mundo). Al-
mocreve, de nlmocâri), e é o part.
Árabe (língua). — Língua da do verbo cara, alugar. Em elixir,
família semitica, que directa- de al-acstr, o elemento el denota
mente injluiu na lingua verna- a inllueucia da Córma romanica
cula por effeito da invasão arabe el, provavelmente ; é exemplo
que occupoH a península ibérica único. 0.mlã i a phrase insch'
do século VIU ao spculo XV. A allãh, se Deus quizer. Ar-ruh,
inlluição do arabe manifestada numerai, significa a quarta parte
nas instituições, nos usos, naci- (do quintal). Tomin, de thomn. a
vilisação, não destruiu a Índole oitava parte. O artigo arabe cd
latina da lingua portugueza, desapparece em algumas fôrmas:
apezar do dominio de sete sécu- ceifa, rez, tenith, etc., e assimila-
los ; limitou-se o seu influxo ao se em varias palavras com as for-
vocabulario, do qual a maior mas ar, as, az, v. gr. : az-zeite,
parte se arcliaizou. Demais, os as-sucar, ar-roba, ar-rais, as-sude,
38
ARABE
oto. Sobre fórmíis divergeiiles, comprehensivol, o mesmo verbo
escrevemos nos Estudos pldlolo- produziu o substantivo garrafa,
gicos (na 1? edição) as seguintes eno italiano carafa. Como a fôr-
notas ; ma portugueza é mais vizinha do
arabe, o mais certo é que de lá
«As vezes encontramos varia- proviesse directamente. Onde,
porém, é indiscutível a forma
ções divergentes apenas em com- italiana é em lazuli (lápis azule-
posição. O narcotico conliecido jo) : a fôrma vernacula é azul, de
por hachi appareoe no composto lazur (persa). A língua france-
assassino = hachachi, bebedor de za também influiu jior intermé-
hachi. Outro aspecto de summa dio das suas transcripções.Assim,,
importancia é a determinação
da proveniencia neo-latina. Nós kafur, que já havia entre nós,
produziu alcanfor, pelo francez,
temos duas formas./aj-ro c jarra; • trouxe-nos
jarron é a única fói-ma hospanho- esse exemploainda camphora. E
não é o único. O-
la de âjarra. Por sua vez o ter- cognome pessoal e nome de-
mo hesjíanliol notou-se no por- planta Í'a6re/7a«(tabr6gue) é uma.
tuguez, adquirindo, como sem-
pre, uma pequena variação de variação divergente com alfava-
sentido. O vocábulo koÚi, que ca, ambos derivados do corre-
prefixado com o artigo al produ- spondente arabe/«aiae. Depois de-
ziu no jjortuguez álcool, também assignalar a infiuencia neo-lati-
apparece como no dialecto ara- na, convém citar um caso raro,
gonez, na íórma alcofór. Xote-se onde se manifesta a influencia
que kolh significa suhtil, o por ingleza. Eeh chah produziu no-
conseguinte, analogicamente, o liortuguez xaque (matte) e esca-
espirito ou essencia.—A jialavra ques; uma terceira variação é pu-
sei/d, senhor, ainda nos dá pelo ramente anglo-saxonia, check ou
castelhano o nome do Cid, o xeque, introduzida pelas relações-
campeador. Ainda, nota-se cla- commerciaes, sobretudo do Ori-
ramente a influencia hespanho- ente. As vezes as variações mul-
la na palavra capacho, derivada tivergentes são apenas certas mo-
do arabe gafas (gaiola). A forma dificações de pouca importancia
verdadeiramente portugueza e ideologica. ^í/araz, o cavalleiro,
cabaço, que a este respeito pare- e alferes, são uma e mesma cou-
ce que seguiu a infiuencia do la- sa, o primeiro sendo a fôrma
tim medieval cahacius. Outra arabe em totía a pureza. Do no-
forma divergente mais contracta me geographico Bagdad formou-
é cahaz. Não só do hespanhol, se adulteradamente o adjectivo
mas até entre nós seute-se a in- JaMííy!«'rec>,para designar um te-
íiuencia italiana. O verbo garaf, cido de soda ; d'ahi, muito pro-
que significa sugar, beber, soprar, vavelmente, vasquim, uasquino,
produziu o themade alearaviz(ío\- vestes analogas aos colletes que-
le). Por uma analogia facilmente outr'ora eram sempre de seda ou.

t
29
AKABE
■velUido (1). O vocábulo muübn quartel d'esse século, com a re-
-(crente no Islam) appavece no novação romantica da literatu-
portugiiez sob as Unas formas ra franceza. As formas propria-
niusulmano e a antijí^a munlemo, mente scientificas também são
maisproxima do l}'po fundamen- numerosas, eapontaremos as que
tal. Itima ou ruma, no sentido de são de maior importancia. Mora-
amontoamento (arrumar, arri- bitin designou uma tribu arabe
mar) tem como variação paralis- no Occidente ; depois o rresmo
ia que indica uma idca vocábulo indicou uma moeda :
■semelhante, e derivam do ara- maravedins e maraxedis. O nome
be rasma. Passemos á analyse da tribu.na historia, é almoravi-
das formas que tC'm um lado de das. Mlxk era o nome de um ani-
introducção erudita ou scientifl- mal : almiscar. A medicina in-
•ca. Em primeiro logar, notemos troduziu as formas moacho e
que o romantismo, niio da pri- moscada (iioz). Xouk produzia
meira phase allemã de Lessing, em lingua vernacula azouyue. A
mas da de Staiíl e Hugo, intro- sciencia creou azoto. Si/?'produ-
duziu grande numero de termos ziu a fôrma mais vizinha cí/rffl e
•do Oriente, que, em parte, vie- posteriormente cifrão. Pelas tra-
ram juntar-se aos já existentes ducções latinas das mathemati-
de longa data em nossa lingua. cas arabes, recebemos zero (ze-
São d'essa procedencia : Mzir — phirus), da mesma origem. Al-
já existia com as formas i>opu- kuaresmi, nome de um mathe-
lares ak/uazil, ahasü. Fakir — matico oriental, deii ah/ariumo, e
existente nas fôrmas populares scientificamente o termo techni-
faquino e alfaqui. Kanújar —• co algorithmia. Zindjafr pro-
que S8 encontra nas producções duziu no dominio popular o ter-
poéticas orientaes, tinha a forma mo azinJtavre. A pliarmacia fran-
alfange. Al-ma (água) — Pelo ceza Introduziu cinábrio. Audj
século XVI, das descobertas creou em portuguez auge. Pela
africanas, havia almadia (canôa). astronomia apuides (apheUa e pe-
Mais antigo almagerje (tanque). rihelia). A.i-sent produziu dous
Albatroz—nome de ave marinha vocábulos scientiticos da astro-
formado analogicamente de qa- nomia, azimuth e zenith. Antes
dus, maohina de transportar de concluir, devemos fazer um
agua ; no antigo portuguez, nl- exame mais propriamente' se-
catruz. Emir— chi^fe ; já se en- mântico dos elementos léxicos
contrava esse thema em almiran- portuguezes formados ainda so-
te e miraholim. Separamos esses bre o typo arabe. O adjectivo
vocábulos por isso que a sua in- fouveiro (côr de cabello) deve ser
troducção ou, pelo menos, maior o arabe liohdra. Mas hobara, por
■generalização, data do primeiro sua vez, segundo Engelmann, é
o latim avis tarda (hesp. abetar-
(1) Vasqnlm é mais provável- da, betarda). A assim ser, teria-
raente orig.do basco. mos um dos rarissimos casos da
30
ARABE — ARCIIAISMOS
etymologia latina atravez <1o ara- preservação nos antigos do-
be em palavra não soientitica. O cumentos literários. Muitas ve-
substantivo raz (cabeça) entra zes, dos arcliaismos restam vestí-
com artigo em arrais (chefe). gios como petrificados em certas
Sem artigo, na fôrma rez, signi- locuções, adagios, etc., e na
fica o gado. Podemos, pois, attri- composição dos vocábulos. Assim
buir lí influencia arabe os modos o verbo jeitar, lançar Cí^. jeterJ
de dizer : tantas cabeças de gal- jií lioje não existe; mas encon-
linlias, etc. O adjectivo mal for- tramol-o no composto rejeitar. As
mado olhizarco ó um pleonasmo causas do archaismo são ínnume-
inútil. Zarcã ]ii é por si só a mu- raveis. Notemos as principaes :
Uier de olhos azues. Notemos, em a) Desapparição de cousas, cos-
conclusão, um c«so em que a in- tumes, factos, civilisações, in-
trusão do elemento liespanhol e stituições : Uso de Montipilher
francez c simultanea. Djuha pro- (vestosdoutoraes), zevron(seiim),
duziu aljuba (roupa), não obstan- unjjros, taldi (jarceras, orpelados,
te conservarmos a fôrma liespa- termos de vestuário e modas:
nliola, quee sem artigo, juba. (1) alí/uasil, jofjraes, etc. bj Exis-
Arehaisiuo.s.—Palavras ou tencia de fôrmas synonymicas,
quaesquer factos grammaticaes eruditas ou não: sei/re desappa-
que existiram e desappareceram receu diante de século; leixar,
da língua. Os arcliaismos natu- ant(í deixar; irameter, ante. entve-
ralmente dosapparecem com a metter; lez, anie lado; frol, «nte
eliminação das rousas. institui- llôr ; esciiecer, ante es(juccer, etc.
ções e factos que jií não e.xistem cj Existência de homonymos ou
ou se transformaram. Jlas o des- palavras de igual soido, e que
uso pôde ser apparente e origi- podiam confundir-se: chantar
nar-se apenas da negligencia e (plantar) e cantar; ca (porque) e
desattenção dos escriptores que ca (aqui) ; sirtentes (cantos) e
não cultivam a lingua antiga. serventes, etc. d) A tendencia
.Tulgam-se (como jil se têm jul- que muitas palavras soífrem de
gado) obsoletas expressões que se tornarem de sentido obsceno
não desappareceram. Os verda- ou pejorativo: enxeco (penden-
deiros arcliaismos nunca resur- cia), drudo (amante), etc. e) A
gem, e a existencia de pre- inevitável necessidade dos neo-
tendidos arcliaismos temporários logismos combinada com a limi-
explica-se pela permanencia tação necessária da memória. O
ignorada do archaismo em qual- homem do povo, segundo Tursli,
quer província ou região geogra- não tem lí sua disposição mais-
pbica da lingua, ou pela sua de dois mil vocábulos, f) O pro-
gresso humano, em geral, é uma.
(1) João Ribeiro — Est. Phil., causa de archaismo syntactico.
47-51'. (l í edição). Foi o livro reini- O homem contemporâneo tem
presso eni edição corrigida eni 19013. as faculdades de analyse assas
.). Santos, etMtor. desenvolvidas. As construcções-
31
ARCIIAISMOS
syntheticas puramente emotivas cançar (raramente de uso); agu-
tendem a desapparecer. Para ça, pressa; alças, impostos; alfa-
estudar-se a lingna archai- raz, cavallo ligeiro; alt/n, alguma
ca, o Toniance portuguez, não cousa (ainda de uso); amistar,
existe mellior que o Cancio- ter amizade; amorriado, doente;
neiro da Vaticana, riquissima antanho, no anno anterior, anno
collecção de 1205 canções dos já passado (talvez de uso);«/)wr,
trovadores da escola proven- accusar; ar, também; astroso,
çal portugueza. Nas ultimas can- feliz; avilar, tornar vil; azes,
ções nota-se um variado vocabu- tiancos, alas (ainda de uso); ha-
lário de termos obscenos, que landrão, sobretudo; heneito, ben-
servem para estudar a tendencia to; hesonha, necessidade; hisalho,
pejorativa que foram ganhando enfeites; caoncar, porque; cada
muitos dos vocábulos originaria- que, Cíida vez que; cajon, msí cc-
mente decentes. Muitos docu- casião; cama«/íO, quam magnus.;
mentosde linguagem, fóradalite- cano, velho, encanecido; cas,
ratura, se encontram nos antigos casa (cf. fr. cJiez); certão, ceito
foraes, actos públicos, juridicos, (fr. certain) ; chiis, mais (plus),
no latim barbaro ou no por- usado na expressão nem chus
tuguez antigo. Os arc7iaiíimoii silo nem hus; eitola, cythara; co-
de diversas naturezas. lia ar- chom, porco; coitar, fazer mal;
chaismos ortho(jraphicos : he, por cor, coração; criança, criação;
huin, por vm; athe, t/ieor, ley, degredo, decreto; de cham, de
por até, teor, lei, etc. Os archais- prompto; de pram, id ; de suso,
moK de (le.xão, como os femininos de cima; de juso,. de baixo;
fíonimua, cidadoa, por commum, de vegadas, por vezes; dona
cidadã; as He.xões de pessoa, ama- d'algo, senhora nobre (ch.
des, por amaes, etc., dizem-se fidalgo) ; duldar, duvidar; ecJiar,
morphologicos. Ha archaismos deixar; eiri, hontem; em\iara-
syntacticos, de construcção, como mento, amparo; ementar, pensar;
— viajar a Deus misericórdia endurar, solfrer (talvez, raro, de
(Barres); começar escrever, por uso); enfiger, fingir: tnganhar,
começar a ou de escrever, etc. Ha enganar; entram£nte, entretanto;
finalmente archaismos semânticos, er, o mesmo que ar; escatima,
que são os mais numerosos, e defeito ; est, lat., v. ser; faceiro,
que consistem apenas no obsole- soberbo, atrevido (de uso no'
tismo de significado,dos nomes; Brasil, mas com o sentido de
arreio, no sentido de enfeite. Eis casquilho) •, falagueiro, fagueiro;
um catalogo summario de ar- fera far, fazer (Canc. Vat.); fey,
chaismos de todo o genero: feito (O. da Vat.) ; folengar, fol-
ahondo, excessivamente; acaecer, gar; fudud'an cul; fudud'an
acontecer; adniffe, pandeiro; a dia ; genela, coitíL ■, greu, grado,
carom, defronte; adur, difTicil- vontade ; guarecer, melhorar (fr.
mente; accorrer, acudir (ainda guérir) ; liu, onde ; i, ahi ; ladi-
de uso); adduzer, trazer; affanar. nJíO, astuto; leixar, deixar ; lidi-
ARCIIAISMOS ARTIGO
ce, alegria ; loaãor, lisongeador ; Artij>'o.— Especie de deter-
lunes, sfgiHiita-fehii; maçar, ape- minativo commum ás línguas
gar {Ííímhem marjucr); malado, romanas ; no port. o, a; no it.
servo ; maltreito, doente; mulou- e cast. Io. Ia ; no fr. Ic, Ia ; com
ria, doença; martes, lerya-1'eira; outras formas, el commum ao
mai/son. cíisn; mençonha, mentira; portuguez e castelhano, ü no
mocelinha, niocinlia; murzelo, côr italiano. Ktyvioloyia. — Do la-
de amora; nembrar, lembrar; tim illum; formas inter-
nulla, nenhuma ; ohridar, olvi- mediárias antigas Io, Ia ; ortho-
dar ; o(jaiio, este anno; oy, hoje; graphia antiga ho, ha. A etymo-
oiyte, lionten-.; padre, pae; logia foi durante muito tempo
porém; pindecoste, pentecostes; controvertida ; sustentaram-se
pobra, póvoa, aldeia; 2>reK, perto; principalmente duas opiniões :
2)rcsttimeir(), ultimo;í)rrt/íífar, sa- uma, (pie deriva o artigo do gre-
tyrisar; prez, prêmio; raiicuiias, go ho, origem inadmissível em
aggravos; recaudo, acautelado; vista da influencia limitada do
ren, cousa ; rWomem, fidalgo ; grego que, salvo o caso de for-
sazãa, occasifio (ainda, ravo, usa- mas eruditas, só operou, em re-
do) ; sojornar, ficar ; sanhudo, gra, por iutermedio do latim. A
feroz ; strolomya, astronomia ; segunda opinião faz derivar o,
talan, talante, vontade ; torto, a, do latim hoc, hae; mas essa
damno (raro, usado); tostt-., logo; origem suggerida i)ela orthogra-
u, onde ; vagando, vadio ; xelido, phia archaica não se coaduna
bello ; verto (verbo), i-ifão ; -.re, com os especimens romanicos
te. galleg.; y. alli. Não ó dcCeito e (inclusive portuguezes) Io, Ia,
antes é qualidade que se deve nem tem o apoioda phonelica.(l)
pro/,ar o esforço ou diligencia Os vocábulos elle, Io, o, con-
com que alguns dos escriptores stituem os vestígios da declina-
modernos buscam resussitar as ção de üle, lat. N. llle, üla, il-
formas archaicas que pela bcl- lud—elle, ella, ello (arch.) e el
leza, conveniência ou necessi- (arch.). I). llli — lhe, ant. li.
dade merecem revividas e de Acc. Illum — o, ant. Io. lUam—
novo lançadas na torrente da a. ant. Ia. O genitivo do plural
linguagem commum. Assim o illonim produziu no francez leur,
fizeram no século XIX Castilho, no italiano loro, no castelhano
■Camillo 6 ainda hoje Kuy Barbo- antigo lure.i, mas não deixou, que
:sa, sempre com excellente êxito. se saibam, vestígios no portu-
guez. O artigo agglutina-se com
Arcliê (supremacia). — Ele- algumas partículas, tomando os
mento de composição grega. Fiír- seguintes aspectos : de -(- o, a —
ma sufHxa ; archia. Arcltanjo, do, da ; em -f- o, a — 710, ná ;
.anjo principal ; arcebispo, bispo
principal ; monarcliia, governo (1) A quéila do c linal tem sem-
•de um ; heptarchia, sete gover- pre compensação 011 natalidade :
.nos, sete chefes. nem, nec ; sim> sic.
33
ARTIGO
per o, a — pelo, pela ; d -)- o, no século XIV usado com o sen-
a — H. Já não se usam as com- tido etymologico no sentido de
binações enlho, enlo, de em-lo ; ellas (lat. illas)
polo, (le por o ; colo, collo, de com- mouro. . . cerca Ias adiei
0 ; dei, de de-el ; ó, de n -(- o. As (Canção do Figueiral).
combinações ó,poi' ao, e polo, por 2. O uso pronominal do arti-
p)or o, pelo, têm numerosos ex- go como complemento objectivo
emplos nos documentos clássi- não é um facto excepcional, mas
cos ; as demais sito próprias do orgânico e de todos os tempos da
ronUinee ou povUiguez antigo. || 1 Íngua.
Leia-se quanto escrevi sobre os se me los ey
usos syntacticos, emprego e (Cano. Vatic. n. 233].
omissão do artigo na Grnmm. 3. A preposição em contracta
port. 12? edição. Aqui apenas com o, deu no, o que se explica
apontaremos coucisamente al- pelafórma intermediáriacujo
guns factos.mais na índole d'es- som flnal se prolongou até a vo-
te livro. O artigo el só se empre- gai seguinte, como se prova com
ga hoje na expressão : el-liei, a forma do século XIXI do can-
que se tornou tradicional. As cioneiro dê D. Diniz, pag. 142 :
formas antigas Io, Zrt, .etc., dei- e vay lavar camisas
xaram vestigios nas expressões : en o alto.
dizel-o, ãizer-lo, nol-o disse, nos- 4. A coiitracção da preposi-
lo disse ; eil-a, eis-la, etc. Duran- ção a com o escrevia-se 6 como
te muitos séculos, atravéz da nas canções antigas; a contra-
cultura clássica, permaneceram cção a Ia produz freqüentemente
quando jiospostas ao adjectivo al (Pero Meogo)
todos : tododos dias, todaslas vezes, hides morrer al mar.
etc., e ainda se usam na lingua- Na mesma época também oc-
gem popular. O artigo Io ainda corre alamar, porque marera fe-
é vigente no provérbio — quem minino o ainda o é em preia-mar
muito Io quer, muito Io perde — (plena mar). || 5. Sobre o arítá'"
talvez por iniluencia do caste- partitivo qual existe no portu-
Ihann. II O accento de ille, illa, guez, fale o joven pbilologo Ma-
já se adiava desviado desde o la- rio Barreto ; «Não se pôde ne-
tim, pois, conforme demonstra- gar que ha na nossa lingua por-
ram Benloew e G. Paris, os co- tugueza alguns êxemplos em que
micos na prosodia swpprimiam a preposição de que acompanha
o i inicial. No portuguez deu-se o complemento directo, tem um
o agglutinaÇão do artigo em va- sentido partitivo : — Nunca di-
rias palavras. Em Uste, por ex- gas: D'esta arjua não heberei,
emplo, e.xiste a composição Ves- d'este pão não comerei (adagio);
te. A palavra primitiva era este. quero d'aquella cerveja; prefiro
O mesmo succedeu em lossueste d'este vinho. Não é só na lingua-
(Dicc. Moraes) por ossueste, etc. gem popular que se usa assim
yiàn Prothese. \\ 1. O artigo era d'este de partitivo. Encontra-
DICC. GKAMM. 3
t
34
ARTIGO
mol-0 também ra jiliviise dos es- «Perdidas e tracilhadas
criptores . Exemplifiquemos ; «As tuas ovelhas vejo :
iiComeriís rfo leite, ouvii-iís do» "jyellas morrem de cançadas,
coutos, e partinls quando qui- «E tu tens morto o desejo
zerdes.» (Franc. Ilodrifrues Lo- «De acudires ás coitadas.»
bo— O j>iistor peregrino, pag20). (Jdeiii).
«Adiando as virgens néscias que Eis ahi d'elles, d'ella», locuções
se llie apagavam as lampadas, Iiartitivas, servindo até de sujei-
chegaram-se iis prudentes a pe- to, sem embargo da preposição,
dir que lhe quizessem dar do como no francez : du hon pain
oleo que'traziam prevenido.» (P. me sujfit, de l'eaii vaut mieux que
Ant. Vieira— Serm. T. 4?, pag. du viu. No francez o u.io do arti-
204, col. lí). "... e lá vílo co- go partitivo é extenso e rigorosa-
mendo todos do bacalhau por es- mente obrigatorio. No Italiano c
sas estradas até Elvas, onde o egualmente amplo o seu empre-
molham, para que nSo 1'alte no go, mas não com tão extremado
pêso.» (Idem — lirte de furtar, rigor : daiemi dei pane ( fr. don-
cap. VII, i)ag. 24). ^ nez-moi du jxiin). As linguas
portugueza e hestianhola (1) re-
«Foi-se fechar no mais alto jeitam a appiicação absoluta do
Da torre de Valderey : artigo partitivo, tanto assim, que
— N<ão quero comer do pão. se recolhem como dignos de no-
Nem do vinho beberei.» ta os casos em que elle apparece.
(Garrett — Ilimianceiro, tV vol. Cumpre, peloconseguinte, usal-o
pag. 152). com muita cautela para não
resvalar no gallicismo.» { Mario
«Trazem das ílôres vermelhas, Barreto.)
Das brancas para a enfeitar ;
Tam lindas íiôres como ella (1) Dizem oa grammaticos que
Não nas poderam achar.» nfio deve um substantivo no plural
(Idem, Ibideni, pag. 1G3). ser a<^om])anliado de dois adjecti-
vos no singular, ])orque é o adjecti-
«Ouvirei cantar os gallos vo o que concorda com o substanti-
«N'aldeia, e ladrar os c2es, vo, e não o substantivo com o ad-
«E jazerei entre os pães ; jectivo. Não se deve dizer : — as
«Verei berrar-entre os valles idades viril e madura, as litteratu-
ras (jrcya e latina, us reinos vegetal
«Os novilhos pelas mães ; c mineral, Jiias — a idade viril e <í
uD'elles berrarão do fato, madura ; a liíteraíura grega e a
«Porque mór pena me dêm, latina, o reino vegetal e o mineral,
«Chorarei meu desbarato, —Eiicoiitram-se, porém, exemplos,
«Eu não sei porque me mato, e de bons escriptores, em contra-
«Mato-me não sei por quem.» rio : «Gloriava-se este de mui ver-
sado nas linguas grega, liebraica,
(Bernardim Ribeiro— Egloga syriaca, clialdaica e outras uuii-
Jll, pags. 298-317 das Obras, ed. tas.» (P.Man. Hernardes — Nova
lisljonen.se de 1852). Horesla, liv. IV, pag. 384.) «... as
35
ARYANA ASIATICISMOS
Aryaiia. — Família ile lín- os idiomas europeus do sul e
guas, a mais conliecida. que occidente. Aqui daremos um ca-
comprelieiule o gi-cíio, o latim, o talogo breve de asiaticismos de
sanskríto, o allemão, oslavo, etc. varias origens: Avatar—do sans-
y\úe Indo-européas (línguas). Do kríto, transformação. Incarna-
mesmo sentido é a palavra indo- ção de Viknu ; literalmente : a
germanicas. creada e usada pe- descida. Hoje é termo literário.
los allemães. O latim, d'oiide se Babel—do syríaco. Confusão. Se-
originou o portuguez, prende-se gundo outros, templo de Bel. Pa-
ao ramn italicuà-A. familiaaryana. puzes—do persa pa-pzíc/t, que co-
bre os pés, pa. Calçado oriental.
Asiaticisnío.s. — Kxpressão Bambu—termo indn. Canna.^a-
consagrada aos vocábulos que se nana— de origem hindu. Boiizo
originam de línguas asialicas. —do japonez. Sacerdote. Lama
Na língua portugueza lia vários —do thibetano, Ihama, o supe-
díalecto.s falados na Asia. em rior. Budlia—sanskríto, o sábio.
Maciío, Gôa, Ce.vlão, etc., e Pagode — do persa : b}it, ídolo,
d'elles o único (jue tem do- khodda, casa. Templo. Oanga—
cumentos de interesse literário supplicio da China. I)'ahi pro-
& o Indo-portuguez (Vide esta pa- virão: canga? cangalha? etc.
lavra). Das linguas Isemilicas, Schali— Cío persa, cliali, rei. D'ahi
hebraico e arabe, (rataremos em cheque, xeque-mate (Vide Arabe).
logares especiaes, em vista da Padichá—dep«(?, protector, cJiah,
ímportancia que possuem e da rei. Turbante—veste. I'Y)rma di-
inlluencía que exerceram sobre vergente : ttilipa ; ambos origina-
dos de dulbend, jiersa, especie de
graças litterarias da época, eni nos- chalé para envolver a cabeça.
sos dias consideradas aleijões con- Outta percha—do malaio getali,
tagiosos das escolas italiana e lies- gomma, e Pertjah, nome malaio
panliola.» (Caniirio—O judeu, vol. da ilha de Sumatra: gomma de
II, ])arte teri^eira, ea]). III, i)ag. Sumatra. Derivado moderno :
28.) «... foi Fernando Luiz procu- gomma-jríííto (hybrído). Junco—
rar sua vida na Allenianha, como (fr. jiingle), no sanskríto
professor das linymís frauceza, deserto. Planícíe onde abundam
hesiianiiola, italiana e i)ortugue-
za.» (id.'—A caveira da martpr, caníços. ,/ulepo—do persa golapa,
prefacio, pag. 2.) «...pagou Nel.sou de gu({roaa,), ab ou ãp (agua).
com a existencia a esplendida ba- Kaolin—do chinez. Argílla. Ca-
talha de Trafalgar, gaidia sobre as ravana— do persaAríí-Mare, bando
esquadras liespanhola e frauceza de viajores. Derivado : Caravan-
nnidas...» (José Feliciano de Cas- çará, de liaruan o, serai ou sarai,
tillio — Livraria classica, Noticia palacio, casa ; estalagem para as
da vida.e obras de Bocíkjc, tomo 2?,
pag. 147.) Não se condenine, ])0Í8, caravanas. Kermes—palavra ara-
a nossa plirase : As liutjaas portu- be derivada do sanskríto karmi,
gueza e lies|)anhola rejeitam... verme. Khan — palavra tartara.
(Nota de Mario Barreto.) Príncipe. Vandi—assucar.Arabe,

t
36
ASIATICISMOS
derivado do sanskrito khaiiãa, sidente, separado, P/iarisaico,
pedaço (erysUl), ]/ khad, rom- etc. Punck — do persa, cinco.
per, quebrar, Khedica — persa ; Mesm. |/ gr. pente, persa panj,
significa senhirr. Titulo que se lat. quinque. Cinco ingredientes
dava ao vice-rei do I3gj'plo. Cos- que formam uma bebida do ori-
saco—da lingua dos l^irghis. Ca- ente. E orthographia ingleza.
valleiro da Ukrania. Limão—A& liajah — t, da índia. Príncipe.
laimvn, persa. Derivados : li- Sandalia—áo persa mndalak, cal-
moeiro, limonada, etc. Laea—de çado, Saraça—úa, índia, cober-
lak, persa, sanskrito la'ksha, re- tor, Satrapa—termo persa, co-
sina. Azul — do persa lazur, nhecido desde a antigüidade
azul. A forma primitiva deveria grega e romana. Governador, Es-
ser lazul; o ? desappareceu talvez carlate—do persa serkelnt, rubro,
por ser supposto artigo : (Vide Escarlatina, Ghale — do arabe
Apherese. Derivado; lapU-lazuUi, schal, inglez shaicl; usado no
do italiano, mineral, lazulite; oriente. Serralho—de sarai, casa,
no lat. barbaro lazurium. Múmia palacio. Persa. Cf. caravan-
■—do persa muni, cêra, substan- ç.ara. HpaM—do iiersa sipahi, ca-
cia balsamica. Derivado : mumi- valleiro. Tambor, do persa. Arabe
■ficar, etc. iVacar—persa nakar, tonhur, atambor nos ant. do-
usado também pelos arabes. Na- cumentos. Scheler opina pela
carado, etc. Naplita—ãa chal- origem romanica de tap, táb,
daico nepltet, betume. JVapkta- bater, ferir. • Sandalo—do sans-
lina. iVarí/Me—persa, cachimbo krito tchandana, arvore. GJiá—
turco. Orang-utang—termo ma- do chinez tehã. O nomeromanico
laio. Orang-utan, homem do thé provém da prov. Te, emporio
matto. Horda—do mongol ordu, da exportação d'esse producto.
tribu errante. Paraíso—do zend Derivado: chaleira. Veda—t. sans-
pairi, ao redor, daeza, baluarte, krito : sciencia. Vedas, livros
cerca. Introduzido por Xeno- sagrados da líidia. Ha muitos
phonte no grego sob a forma Pa- outros nomes locaes da Asia que
radeisos e utilizado pelos tradu- entraram no portuguez desi-
ctores da biblia para designar o gnando vários produotos da in-
Eden dos hebreus. Palanque— dustria : madapolão, madrasto, ca-
do pâli, e sanslvrito paryanka, chemira, nankin, etc., nomes de
leiteira. Paria—Ao tamul pare- cidades e logares. Da linguacon-
yers. Mesm."j/sansk. íjara, grego cani, os portuguezes tomaram o
para, per : exclusão, trans- termo eorj, numerai que signi-
gressão. Classe proscripta de fica vinte, e ainda foi usado com
homens. Percalina — do persa tal sentido pelos primeiros es-
parkala, tecido fino. Patehuli — criptores : uma corja de seda (20
do hindustani elley, follia peças..,), üorja, hoje tomou a
úp. patchey, planta odorifera. Pha- accepção pejorativae designa nu-
riseu—do syriaco pliariseJi, dis- mero indefinido.
ASPIRAÇÃO ATÉ
Aspiração.—Xil lingua por- que terminam em consoante
tiigueza não lia propriamente an- soifrem a assimilação: Ai) — ae,
piraçMo ou letra aspirada. Com- af, al, at — accu.sar, alfadigar,
tudo, como as vogaes iniciaes não allegar, attender. Ob—oc, af, om
podem ser pronunciadas sem — occidente, offerecer, etc. Pjjm
uma ligeira aspiração do ar; as- -■pel—pellucido. In—il, im—iXle-
tro, arjua, talvez por essa razão (jal, immerecido, etc. Além dos
se explique a abundancia e vocábulos compostos, nota-se a
abuso do !t inicial na lingua an- assimilação entre consoantes de
tiga {ho, ha, lie, liu, huni) banido syllabas próximas: chócho, por
na orthographia de hoje. socho. de suctus; o plebeismo
cachacJia, por cachaça, etc. A pro-
Assimilação. — É o pheno- l>osito de cada prefixo, damos
meno ciuacterizado pela trans- neste livro as assimilações re-
formação de sons por atlracção spectivas.
ou synipathia de outros, no
mesmo vocábulo. Assim, o rf de Astcrisco. — Pequeno si-
ad transformou-se em t, na pa- gnal orl hograpliico, a imagem de
lavra attender (ad-tendcre, atten- estrelli), usado na iinprensa para
dere), em s, na palavra (ad chamar a uma annolação ou in-
satis, as-satis), etc. X assimilação dicar lacuna no texto óieste caso
tem diversos gráos de intensi- em|)regam-se vários asteriscos
dade. 1? Accommodação. —Ape- seguidamente). Nos livros de
nas os sons se modificam para philologia romanica, com o aste-
facilitar a pronuncia: no latim risco indica-se o vocábulo hypo-
bis, -pardeis; bellum, \wt:dcellum; tlietico, a forma intermediária
em portuguez, Jbroreymo. por Ilie- latina cuja existencia necessaria
runymo, etc. 2? Attracção. — Xo- não está documentada.
ta-se em varias palavras a ten- Asyiideticas.—Proposições
dencia para uniformar as vogaes: coordenadas
e-nt-e-ado, por anteado (antena- simplesmente, por juxtaposiçSo
isto c, não liga-
tus), m-e-r-e-neorio por melancó- das por conjunccões connectivas.
lico; o iilebeismo salvayem, por (P. J.)
selvagem, etc. O plienomeno con-
trario, a repulsão, que consiste Até. — Preposição. Póde-se
na adopção de vogaes disseme- empregar unida á lireposição a
Ihantes, é igualmente^muito ob- ou isolada: Ate' ao meio dia; até
servado : hoveda, por bovada (abo- meio caminho. Até noite ; até ã
bada); Jilagrana, por filigrana; noite. Quando ha determinação
bêbado, xw bebedo, etc. Assijni- do limite, supprime-se a prepo-
lação propriamente dita. Pode sição (i,e c o que se vê dos exem-
ser de duas especies. Progressiva, plos : até cem homens ; até vinte
quando se ojiéra de detraz para mil réis ; rtííí Lisboa. Sem deter-
diante; regressiva, no caso con- minação: até ao céo, até á flo-
trario. Quasi todos os prefixos resta. Moraes queria que no uso

(
:!8
ATÉ AU, AO
das duas preposições houvesse re- Aos elementos modificadores
dundância. !t Arcli : atá, alua, chamam os grammaticos adjim-
atem. !| A cerca do uso synta- ctos attrihutixos (Vide Adjunctos).
cticü de ate, escreve-me o illus- (P. J.)
trado pliilologo Firmino Costa: Attrilmto. — E a parte do
«Os clássicos antigos cpiasi luiuca predicado separada' do \erbo,
usavam da preposição a depois (juando este é o verbo ser: Pedro
da preposição até. Moraes, em c preguiçoso. Kelativamente ao
seu «Kpitome daCíramm. Porl.» attributo, o facto mais uotaveJéo
publicado com o Diccionario (4? da attracção que existe entre
edição, pag. XIX), considera elle e o verbo, de modo que, con-
erro juntar a a, até. Entretanto é tra as regras da lógica, o verbo
lioje muito arbitrario em alguns deixa de concordar com o su-
escriptorcs o >iso da iireposição a jeito para accommodar-se ás va-
depois da preposição até, como riações do attributo : t^Vio cinco
se vô em Latino Coelho (Vasco horas (por, é cinco horas); tudo
da Gama, l? P'') : até ã viagem são flores (por, tudo é flores). Esse
portentosa do immortal Vasco facto prova (jue o attributo o
da Gama (63): até o (iolfo Ará- inseparavel do verbo, é parte
bico (Oii); até o Cabo Verde ou integrante d'elle, e ambos con-
no Cabo das Palmas (112); até os stituem o predicado ; ama ; ama
extremos confins da Europaocci- =é amante. || A concordância do
dental (133) ; até ao grande reino attributo é matéria de muita
de Melli (110).>. consideração, e parec(í que ella
Atona (syllaba). —É a em sempre se fez com a palavra que
que não recae o accento tonico. está posposta ao verbo. Confron-
Na formação do portuguez tem-se os exemplos : Mil cruza-
deu-se no vocabulario a queda dos^» minlui renda. A minha
da vogai atona latina, que já não xmúa. são mil cruzados. Tudo são
soava na linguagem popular de flores. í^lôres é tudo (e não—são
Roma. tudo). Apezar d'isto a concor-
dância não se faz nos exemplos
Atraz. — Preposição. Pócle em que a singularidade do su-
estar posposta: diasaíraz, annos jeito é a idéa principal : "Elle,
atraz, dei.xar atraz (ultrapassar). por si só era mil soldados» ( e
Acompanha-se de de: atra/, da não—eram). Exemplo idêntico
porta. Xa lórma traz emprega-se se encontra no Kscoliaste: «Na
sem outra preposição. conversação não era (o P«. Vi-
eira) um homem, era muitos ho-
Attracção. — Vide Assimi- mens .»
lação.
Ali, Ao.—Diphthongo latino
Attrilmtiva (relação).— E a e portuguez. O latino de ordiná-
que e.\iste entre o nome e o ad- rio persiste : claustro, claustrum.
jectivo ou um seu equivalente. No emtanto, nos exemplos do
39
AU, AO — BALLÔ
maior aiitiguidade nota-se a per- a differença no emprego entre
mula au—ou, e mesmo ha fun- ser e estar (posto ás vezes seja
dada conjectura de que era esta elle indiíferente), a variação de
a pronuncia latina approxima- sentido do verbo ser, conlorme a
damentp. Mouro, mauriini ; i)ou- preposição que rege o comple-
sar, pausare. A lorma oi confun- mento <)ueo modifica, as varias
de-se francamente com nu : significações do verbo estar, ha-
oiro, ouro, aurmii; thesoiro, tlie- ver, etc., e bem assim o emprego
souro. thesaurum. O diptithongo sjMitactico deoutros verbos, como
portuguez ati iiode provir da caber, sair, começar, dar, crer,
queda da consoante média: mão, etc.» (P. J.)
malum; vão, taduni, etc. O grupo
no emtanto pode ficar desfeito B
em hiato pela accentuação :
saiide, salutem. A graphia ao
nunca é permittida no principio, lí.—Sôa sempre b. Confunde-
nem no meio dos vocábulos. Es- se com V em algumas palavras :
crevem-se oi e ou, mas em Por- vodas, bodas; covarde, cobarde ; al-
tugal a prosodia oi é muito mais boroço, alvoroço ; hadameco, vada-
commum que no Brasil. meco; escarabelho, escaravelho;
bespa, vespa. || Xa ortliographia
Ausineiitativos. — Vide só se dobra em muito |ioucas
Oráo. Alguns poucos augmen- palavras : abbade, abbadia, abbá,
tativos só existem como taes e sabbado; e não succedea n, mas
não têm positivo : chorão, co- a Jíí .• ambiguo, lamber. || Deriva
milão (-ona), estirão. do latim b : bobo, balbum; taboa,
tabulam; cebo ou sebo, cibum.
Autos (si mesmo). — Ele- Pôde, por abrandamento, resul-
mento de composição grega. tar de p : caput, cabo ; capere,
Autographo, escripta do proprio. caber. Acaso resulta de f pela
Autonomia, lei, governo de si analogia/—i!=íi; ábrego,a//*io««.
mesmo. Automato, o que se move
por si. Autópsia, acto do vêr por líaiiio (andar). — Elemento
si mesmo, verificação. grego de composição. Fôrmas
usuaes hata, betes. Exemplos:
Au.xiliares.—«Assim se cha- diabetes, que corre atravez, ex-
mam os verbos formadores dos creção ; moléstia ; acrobata. (]ue
tempos compostos, da voz pas- anda sobre as extremidades
siva, dos verbos frequentativos e (akron); hyperbaton, que vae para
periphrasticos. São verbos rela- cima, inversão.
cionaes. Podemosdividil-os, con-
forme .se combinam com parti- liallõ (lançar, pôr).— Ele-
cipios, infinitos ou com infinito mento grego de composição. Pa-
e participio. Os auxiliares repre- rabola{para, ao lado, balló, eu lan-
sentam notável amostra do pro- ço), comparação. Problema (pro,
cesso analytico. Cumpre estudar para diante, balló, hinço ou po-
40
BALI.Ô BARBARISMO
nho), coiisa que se propõe, pro- baro que no portuguez mais
posição. Symbolo. Hyperhole. Em- predomina, pelo abuso dos jor-
blema. Balista, etc. Palavra (de luilistas o dosmáos escriptores, é
paraholam). indubitavelmente o Irancez. O
elemento francez nos primeiros
líarbarisiiio.— Cliamiim-se tempos, antes da disciplina clas-
barbarismos os vicios.de coii- sica, Ibi de influxo bastante pro-
strucção e os vocábulos inuieis, fundo e extenso em lodo o léxico
tirados de lingiia estrangeira, portuguez. Como pondera Diez,
em geral tudo quanto pckie em- a comitiva do conde de Borgo-
paiiar a pureza da linguagem. nha e a aristocracia franceza que
Propriamente, a intluencia das o acompanhou deu talvez o im-
linguas e.xiranhas é normal ; e pulso original d'aquelle inüuxo,
só o abuso ou capricho dos es- como sempre succede normal-
criptores pode , occasionar bar- mente, pois a linguagem da corte
harismos. Taes são, por exemplo, é sempre imitada no resto do
os france/.isnu)s, como : enor- paiz. liasta o exame superficial
guellir-se, eclosão, fazer (jior e.\- dos cancioneiros, para notar-se
clamar), etc., que têm sido de desde logo como o léxico de em-
uso de alguns escriptores impu- préstimo francez era abundante.
ros. Os barbarismos são di; duas Eis alguns especimens de galli-
ordens: léxicos e syntarMcos. Os cismos no século XIII, colhidos
léxicos referem-se ao uso dos vo- no Cane. da Vaticana : cliançon,
cábulos; os si/ntacticos, -iio uso canção ; diapel, elmo ; fontana,
das phra.ses. E maior crime o fonte; jograron; meison, casa ;
barbarismoquo o solecismo,itotquc mençonha. mentira : mesnada,
este é vicio de construcção, erro hoste {menée) ; ranciiras, aggra-
de ignorancia, negligencia ou vos ; rango, classe ; sojornar^,
descuido; mas aquelle é quasi ficar. E muitíssimos outros. É
sempre propositalmente com- obvio, no emtaTito, que muitos
mettido, e ás vezes sob a côr de d'esses gallicismos possam ser
excellencia ou garridice de es- explicados por etymologias por-
tylo. !No latim, barharismo era a tuguezas ; outros ha, porém,
expressão consagrada aos termos como chançon. (jue não encon-
que provinliam dos barbaros, tram outra naturalidade senão
raças e iiovos subjugados pelos na língua franceza. As duas
romanos; taes eram os termos phases mais notáveis de latinismo
gurdus, battualia, camisia, cere- foram a dò século XV e XVI, e
visia, etc. Direito de cidade, as do século XVIII-XIX. A pri-
entre os romanos, tinham,porém, meira confunde-sé com a época
os hellenismos, productos de ci- do grande movimento clássico,
vilisação adiantada, «eram larga- com o jicriodo áureo da litera-
mente usados no latim clássico, tura portugueza; foi indubita-
pelos melhores escriiJtores, ma- velmente a mais fecunda, por
xime na poesia. |1 O factor bar- isso que renovou, disciplinou e
41
BARIiARISMO
fixou ii língua. A segunda, iiiau- Entra todos com o dedo era.9 notado
guradii pela Escola ArcatUca luis Lindos nio(;os de Arzilla eni galhar-
fins Uo século passado, pouco dia.
produziu relativamente, e o ef- R o de Heniardes :
feito dos latinismos da Arcadia
l)ouco mais do que na lingua- Seitas tlespedeni ; Aovhão voltando
gem poética se fizeram sentir. llapiilas cáeni (jne as recebe em
Odorico Mendes, espirito de sangue...
arcade, ainda que do tempo do
romantismo, nas suas Iraducções No periodo da 1'henix renas-
de Homero e de V^irgilio, usou cida são frequenlissimas as lo-
de latinismos que nunca se popu- cuções congêneres, e os proprios
larizaram. K.xemplos tirados do arcades que restauraram a pu-
canto I, da Eneida: egresso, reza classica não desprezaram de
exul, sevo, hellipiijante, luxar, im- todo esses vicios de conslrucçâo.
mano, prono, grandevo, os Knne- Jluitos lalinismos foram intro-
das, cancello, nutriz, otuisto, diro, duzidos por escriptores de pe-
genito (subst.), alifugo, excluso, quena auctoridade, e por isso
tnrrigera, lueo, hellipoteiite, nado dei.xaram de licar inteiramente
(filho), ostro, fluctiroso, sopito, consagrados : acume, engenho ;
■tlíurificar, porta-juhilo, crinito, confecto, íicabado ; dealbado, bran-
excidico, seteno. Muitas d'essas queado; derelicto, desamparado ;
formas são rejuvenescidas do extar, por subsistir; exterrecer,
uso arcadico,e outras de creação causar terror; fedo, por torpe:
do poeta. As traducções de Ho- incapillato, calvo: iiiiipta, soltei-
mero estão eivadas de latinis- ra: invitar, convidar; inusitado,
mos e liellenismos ; a força syn- desusado (Camões, Lus. íl, 107);
tlietica das linguas classicas não lactar, dar leite ; limacro, banho;
poderia tolerar, de outra ma- ludo, brinco (Gaspar de Bar-
neira, a trailucção homeome- reiros. Odor. Mendes); poto, be-
trica. Os latinismos syntacticos bida; temulento, ebrio; tepor,
foram assas freqüentes, por mornidão ; tribulo, abrolhos ;
Abuso de invenções, no [leriodo vencrabundo, venerando (P. Fer.
clássico; contra o e.xcesso de tal Alma matr.) E ainda muitíssi-
innovação clamava .Toão de Bar- mos outros que vêm catalogados
res na sua Orammatica, porém nas Iteflex. de Cândido Lust. I,
a,o que parece inutilmente ou 58. Do (lue se refere especial-
com pouco proveito. No periodo mente aos modernos gallicismos
do gongorismo, os liyperbatwns ou locuções e vocábulos de ori-
tornaram-se liabituaes, ma.\ime gem fraticeza, trataremos no lo-
na poesia, não raras vez.es illegi- gar competente. As outras lín-
vel, d'aquella época. E conhe- guas pouco iniluiram, e em geral
cido e citado <'m todas as gram- não podem ser taxados de vicios
maticas o trecho de uma oitava e.sses empréstimos naturaes que
de Mousinlio de Quevedo : significam, mais ou menos, o

C
42
BARBARISMO HIB^ORMES
gráo das relações internacionaes liata.—Vide Baino.
de caracter literário, político ou
commercial. Comtudo, só escri- líete.s. — ( el. grego ). Vide
ptores de pulso e de grande Baino.
tento, podem com alguma au-
ctoridiule naturalizar vocábulos liiblíoii (livro).— Elemento
peregrinos quando convenham grego de composição. Ern hihlio-
ou pareçam necessários. (iraphia, descri[)ção de livros ;
hihliotheca, estante de livros. Bi-
Iíai*<»s (peso, gravidade).— blia, o livro por excellencia.
Klemento grego de composição.
líarometro, medida de peso ou Iíir<>riiies.— São assim cha-
densidade. Haryton», tom grave. mados os adjectivos (lue t,6m
duas terminações, usadas con-
líarytoiio. — Denominação forme o genero do substantivo a
dada aos vocábulos não o.\yto- que se referem. Ex. : bom, fem.
nos, isto é, ,aos graves (paroxyto- boa; íormoHO, for moxa ; meu, mi-
tios) e aos esdruxulos {i)roparú- nlia ; nenhum, nenhuma. Os ad-
xi/toiiüs). Todas as palavras, pois, jectivos que só possuem uma
que não têm o accento na ulti- terminação para ambos os gene-
ma syllaba são harutonas, v. gr.: ros, são ditos uniformes, v. gr.:
fp,lülo, peito, cidade, herético, etc. fatal, cruel, etc. Antigamente os
E expressão grega, formada de nomes em ez eram uniformes.
hanm, grave, e tonos, tom. Dizia-se a terra portugaez, uma
mulherfrancei, etc. Facto que se
líasco. —liiscainlio,vasco, tuh- verifica ainda hoje nas forma-
conço; denominação dada aos ções adverbiaes : portuguezmente
povos do norte da Hespanha e e não portufjuezamente. Esse facto
sul da França, pelo littoral e re- era o resultado da acção <lo la-
gião i)yrenaica, os quaes falam a tim, em que as formas em ensis
lingua euskara ou o basco. A in- (portucalensis) também eram uni-
fluencia do euskara na lingua formes. Vice-xersa, adjectivos
hespanhola é muito limitada, ao raros que foram biformes torna-
que parece; mas a lingua ainda ram-se uniformes actualmenie ;
não estií bastante estudada para commum, commua, 6 hoje de uma
que haja verdade absoluta em única terminação (commum) i)ara
tal affirmação. Quando tratar- os dons generos. A razão está na
mos dos putroiiymicos, falaremos idéa pejorativa ou diversa que
da liypothese de Larramendt adquiriu o feminino. O mesmo
sobre a origem basouense d'a- succede.a coalhada, etc.
quellas formações. Em Hespa- No latim, como havia tres gene-
nlia, ondü. as criadas de servir ros. era possível o adjectivo tri-
são bascas em maioria, corre o forme. No portuguez ha vestígios
vocábulo euskara cemata (ama) de triformes nos determinativos.
conhecido de todas as crianças. São triformes alguns nomes de
43.
UIFORMES - - BR.
natureza biforme : motor, moto- duas conchas ; hUjorna, de hicornu,
ra, que ainda tem a forma mo- duas pontas ; viez, hifax, duas
triz. Enredaífor, ôra, eira, etc. faces, por meio do fr. hiais ; hi-
(masc.) ífem.) (neutro) lião ou bilhão, em logar de bimi-
este esta isto Ihão; cexgo, de büoculus, vesojo,
iste ista istiíd cast. A forma latina bix, que vem
elle ella ello (arch.) de ãvis com a forma ui, abran-
itlc illa illií.d dada de ií,^ acha-se em Ki-fieiiti
aquelle aquella aquillo (2 X 10).—pj de notar-se nas lín-
hoc-ille hoc-Ula hoc-illud guas romanas a existencia de
todo toda tudo um prefixo pejoratico, he, bü, be
totam (accus.) toiain totuvi.
ou outra f(')rma similar. Sua ety-
As formas neutras esso, enta, mologia não está averiguada,
aquesto, aquisto, etc. desappare- mas é evidente, sobretudo no
ceram. Outro facto que dá ao francez, o grande numero de ter-
portuguez uma fôrma llexiona- mos pejorativos que começam
vel a mais, é a desinencia «« de por a(iuella syllaba, como pon-
alfruns adjectivos, que só se ap- dera DarmstaHter. (1)
plicam ao ser personalizado ;
outrem otitro outra lí.j.—Es te grupo consonantal,
alguém ahjitm (dyuvuf, algo em geral, persiste sem assimila-
quem qu e ção, ao contrario do italiano fog-
ninguevi '}ienhuni nenhuma. ye.lto): objecção, de nbjectionem;
Quem refere-se também a cou- abjurar, d&ahjurare. No emtanto,
sas. nota-se a perda da primeira con-
soante ou assimilação nos vocá-
liis.—Elemento de , prefixa- bulos já assim vincííjs do latim
ção que significa duas vezes: puro—sugqerir, Hvgyestrio, ou nos
hüemanal, duas vezes por sema- populares: sujeito, por subjeito.
na. O uso não está fixo, porquanto A forma archaica sojnrno, de go-
bisannual, bimensal (também hi- jornar, é devida ao francez, senão
mestral) devendo significar duas ao italiano.
vezes por anno e por mez, ex-
primem no emtanto os i)eriodos Bola, bole (elemento grego).
de dousannos, dousmeze.»;. Essa Vide Bailo.
contradic^ão não c geral. Com- líoilH (boi). — Elemento grego
põe-se com elementos latinos e de composição. Bucólica, pas-
gregos. Exemi)los gregos b£- toral. Hecatombe, cem bois (sa-
ganio, que se casou duas vezes : crifício).
hi-nxydo, hinomio. Exemplos lati-
nos; biennio (áe annus), biceps líi*. — Este grupo, em geral,
(de capvt, cabeça), bipede. bi- conserva-se intacto : libra, de li-
sexto, bimano. Ila algumas for- bram ; cobra, de colubrami. A per-
mas que üffereccm interesse inuta b=v occasiona o gruim vr,
pelo estado de deformação em
que se -Ach-íim: balança, de Inlanx, (J) Les muts nouveati-v.
44
BR. — BRASILEIRISMOS
ai.enas observado lui coiitracção de degenerações ou differen-
Oos valores aloiios; livrar, tle U- ciações paroiaes e geographicas
Vrare; lavrar, de laVrare. O da língua. Que esse dialecto,
Srupo portngiiez br origina-se porém, tenha foros de lingua )
de br latino, como foi vislo literaria eculta é o quedetodose
acima, oiule pr: obrar, ile op'ta- tornainadmissivel, poisqueadia- i
re ; cabra, áeeapram ; cobrir, de lectação brasileira não é suHicien- l
copWire. Rara vez br estando por temente caracterizada e intensa. J
vr, Qv represeiila/Ialino : abrego, Em toda a i)arte, as províncias e
de afric.us. Pôde lambem origi- os domínios de qualquer lingua
nar-se da contracção beri, como caracterizam-se por modos espe-
em brilhar, b'riUare, ãe beryllare. ciaes divergentes que não de-
stroém a unidade da lingua fun-
lírasileiri.sinos. —É a ex- damental. Quando o dialecto se
pressão que damos a toda a casta desvia consideravelmente da lín-
de divergências notadas entre a gua mãe, pode tornar-se literá-
linguagem portugueza vernacula rio e culto. Foi o que succedeu
e a falada geralmente no Brasil. ao gallego, ao catalão moder-
Não se encobre porém aqui o namente, (^ na idade média á
intuito de exculi)ar com a ex- todas as lingiias romanas que se
\n(ifiíião brasileiri/tmo a viciosa in- emanciparam do latim barbaro. \
ferioridade dos (jue escrevem A emancipação do dialecto bra- /
mal ou pregam muito de indus- sileíro, se não é de todo inexeíjuí- r
tria as excellencias d'esse lin- vel (em remoto futuro) é segu- V
guajar fora de todas as normas rdmente, pelo menos, prematura.-/
grammaticaes (1). Divergências A lingua, classica não constitue
lia, e ninguém põe duvida, entre óbice d(í especie alguma para os
os modos de expressão porlu- brasileiros — a não ser a exi-
guezese brasileiros. Ila quem d6 gencia, que se dfl em todas as
ao conjuncto d'essas divergen- línguas literarias, de estudo e do
ciaso valor dedialecto.Oconceilo bom gosto (1). No decurso das
de dialecto não tem, c verdade, linhas seguintes não se tratará
limites bem assignalados e, como especialmente da influencia do,
diz Witney, ha dialectos em tupi, abaneêm, guarani, nem do-
todas as classes sociaes e no
seio da própria família. A no- (IJ A de dialecto brasi-
ção de dialecto, pois, poderia, leiro teve varias i>hases de erítica
sem grande inconveniente, ser (lisdissão e |)(ileinica, com Alencar,
applicada a qualquer systema Castiliio (.losé), lí. Caetano, S.
Paraniuis. C. de Laet, Ararii)eJu- v
níor, Teixeira de Mello, Barreiros, ;
(l)]í taiiil)eni essa a u|iiniüo ilo etc. Até hoje, tem semjire preJonii-
grande veriiaculista e eserii)tor Ruy nado o elemento clássico, com as
liarbo.sa na sua recente Replica ás deviilas concessões aíis (pie tudo i
defezns da redacção dn (J. civil querem, e desejam a licença de j
(tòaí). falar e escrever aseutalaute. '
45
KRASILEIKISMOS
africano, ou du outros quaesqucr mo, italianizado, germanizado,
influxos produzidos na linfrua, e ainda não está definido. Dei-
que serão estudados nos lofrares xando de parte a apreciação
indicados (ntígrtt, Uipi, ciyano, geral, no que respeita á língua,
etc.). Apenas faremos a analyso a dialectação do creolo, sob mo-
da linguagem que foi creação e dificações secundarias, maniem-
producto do mestiçamento civi- se boje em dia, por todo o paiz,
lizado das raças e povos funda- eni estado de quasi equilíbrio.
mentaes. A possibilidade e fata- Os caracteres plionologícos são
lidade da dialectação creola ou os que na maioria distinguem a
mestiça resultou da vida nova linguagem popular da erudita ou
dos europeus coloniaes, ou dos escripta. A divergencia maior é
que adoptaram a vida e os usos a da prosodia; sons breves quasi
dos europeus. Diversos factores os não po.ssuimos; conservamos
collaboraram para isso : o clima, a accentuação da lingua portu-
a presença de tres raças (a port. gueza. mas generalizando-aquasi
e a africana) e a outra ini- para todas as syllabas iniciaes
miga (a tupi), os ciganos, os das palavras. As próprias iiarti-
hespanhóes, o typo mestiço ou culas encliticas [me, te, se, o, a,
creolo resultante do caldea- etc.), soam como se fossem ac-
mento, as novas necessidades, centuadas ; e esse defeito pro-
novas perspectivas, novas cousas sodico é o que nos inhabilita a
e novas industrias. Datam os regular, por euphonia, a collo-
primeiros estabelecimentos de cação dos pronomes e ainda de
ensino dos meiados do século outras partes do discurso. Na
XVI. D'abi em diante a coloni- direcçãn do Norte xtara o fSul, cres-
sação e o fundo crescente da cem em intensidade os sons inarti-
immigração portugueza adianta- culados ou Doyaes, emquanto decres-
ram o mestiçamento da raça, cem em ríbrações os sons articula-
quando desde cedo as nece.ssida- dos ou consoantes. Mas esta
des industriaes impozeram o observação não é regra, e apenas
trafico de africanos. No século parece confirmada na y)rosodia
actual a crise do proletariado sertaneja e não do littoral do
europeu, occasionando diversas sul. Em verdade, no 'norte do
correntes de despovoamento e l)aiz, os sons vogaes são surdos :
emigração do .solo, procurando diz-se—eãsa,tumar, hutar, canúa,
por acclimação mais fácil, a zona (jui, pésar, o a intensidade
sub-tropical e temperada, tende maxima torna-se etVectiva no Sul
a produzir no Brasil dois typos (S. Paulo), dizendo-se : cãsa,
ethnicos differentes; o nortista, hótar, quê, pésar, etc. De outra
fiel ás tradições, mais liomo- parte, algumas consoantes, como
geneo e mais proximo do brasi- o 6 e o r, são fortíssimas, carrega-
leiro do typo colonial; o sulütn, das, nas regiões septentrionaes do
perdendo o caracter nacional lírasil. Esta lei pôde reduzir-se
na incohesão do cosmopolitis- ao'principio mais geral de que o
40
BRASILEIRISMOS
Korte, menos impulsionado por mais notáveis : maleitas trans-
elementos estninhos, conserva formou-se em malditas, sezões, fe-
mais (ielmente a phonologia rei- bres (Cearií), se bem que etymo-
nicola. ao menos no que respeita loglcamente se reporte a mala-
lis vo^aes ; mas nem Isso c regra ptus, malato. Xo terreno proprio
de valor. A demora e o esfor(;o da morphologia, a colheita é
com que os nortistas muito igualmente instructiva e abun-
mesclados com Índios pronun- dante. A flexão nominal soffreu
ciam o r. rr, derivam talvez das algumas dífferenciações bem no-
difíiculdades que o indigena teve tadas no S()lo americano. Em
a superar naturalmente, por relação ao yenero: fardamento
isso que o tupi só possue o r tomou a terminação feminina
forle analogo ao r portuguez fardamenta; o inverso deu-se em
entre vogaes. Phenomeno idên- (jatimonho (Pernambuco), por ga-
tico e de igual explicação é a timanha (2). E, entre o povo,
permuta do Ih em l, onde se en- são tidos e usados como mas-
trev6 a influencia indigena: aleio, culinos os termos: trama, tapa,
niuUr. .. em vez de alheio^ mu- etc. Quando a palavra é susce-
lher, eXK.\ os indígenas não conhe- ptível de duas flexões generlcas,
ciam o som l. Ajnntemos ainda como lenho e lenha, a fôrma femi-
o abrandamento do ã em e, como nina, por mais vulgar, é a prefe-
em Portugal nos preteritos dos rida, em regra geral, na dia-
verbos da primeira forma: jante- lectaçfio brasileira: lenha, lenho;
mos, almocemos. . . por jantámos, madeira, madeiro : horta, horto;
almoçámos, etc. Convém não es- ceva, cevo : saia, saio; gorra,
quecer que muitas das Tórmas, gorro : boda, bodo ; fructa, fru-
\ V. gr., rejume, faiar (fadar), são cto. Os masculinos são quasí
V quinlientistas, vernaculas, e da- desconhecidos do povo. Al-
í tam da colonisação primitiva. gumas vezes o fi>minino é
'■ Os phenomenos de svibtracção, creado conforme o typo mas-
sobretudo de syucope, têm culino, como carneira (ovelha),
exemplos numerosos: maginar, de carneiro. Semelhante in-
(clássico); lazão ; baião (dança), versão ojierou-se na America
bahiano, etc.; sami.xuga, birro, hespanhola, entre os Colombia-
(asslmil. de hilro). São vicios nos, que formaram ovejo de
todos de origem popular, que oveja e potranco (i?) de potranca.
não jioderiam passar ií língua
llteraria. A essas mutilações
phonicas organicas juntam-se as (1) «Vae-te para as oonfiindas...»
modificações produzidas pela (profuiiilas). Sylvio Homero—Con-
analogia de formas idênticas. tos Populares.
Tal é o haréra, por analogia com (2) Sylvio Homero — Contos.
haver, e as confunãas (\), por se- Leiani-!ie os vocabulários de 15.
melhança de profundas. A ana- iloliau e de Macedo Soares.
logia morphlca tem exemplos (3) Ciiervo.—Apuiit. 187.
47
BRASILEIRISMOS
Os chilenos e os peruanos modi- cem-passos.ii Significa roça. Pen-
ficaram o genevo d(> muitíssimas daoosta — üahia e Sergipe;
palavras (1). A llcxão numé- panno da Costa, chalé grosseiro
rica, cm geral, é conservada in- usado pelas mulheres africanas.
tacta. Apenas os pluraes de sut- Vira-virando—expressão de em-
fixo ão, procuram a tendencia jihase indicada pelo gerundio.
sympatliica do plural em Corre correndo, etc. (São Paulo—
cuja classe entra o maior nu- Júlio R.). Guadimá — Norte ;
mero de palavras da mesma or- touro bravio. Etymologia in-
dem ; o mesmo ha em Portuííal, certa (1). Sirrir (verbo)—exem-
mas em relaçãoaopluralãfs. Para plo curioso da aggluti nação de
a ílexão ãos, õts, ães, S(5 existindo pronome e verbo (se-)-rir); de
regras etymologicas, eruditas e modo que conjugam analogica-
sem alcance para o instincto po- mente: eu sirro, tu serres, elle
pular, as mesmas confusões de- serre, eu serrí, não sirra, não sir-
vem apparecer onde quer que ram, etc, (Norte.) Cafuz—mes-
se fale o jiortuguez. Não ob- tiço de Índio e africano ; no Pará
stante, nas mesmas palavras tem a forma mais laia : Carafuso.
pluralizadas do estylo clássico, Marruií, marniaz — Norte ; hoi
o singular é mais constante: ce-
roula. cócega. etc., e quasi todas marruá ; em algumas bandas en-
as outras d'essa natureza. A contra-se a forma monrvy (apud
S. Roméro, Contos). Cangapc —
morphologia ganhou na sua formado de Camba-pé; portu-
acclimação americana; além dos guuz ; popularissimo. CalabcScjue
sufflxos uêra e rama, de origem — formado de cala.bocca ; signi-
abaneÊm (Vide Elem. hipi),
conhecemos especimens de trans- fica ; cacête (casse-tête) ; cf. cala-
formação ou de creação empha- brote. Os phenomenos de jux-
tica; sirva de exemplo o au- ta-pói3Íção léxica entre elementos
gmentativo/«ínanaz (Cearíí), e a discordes de origem (hybridos),
queda ou contracção por apo- tornaram-se extensivos de ma-
cope: temero por temerário. A\- neira bastante sensivel, até nas
guns compostos do elemento tradições poéticas conservadas
mestiço offerecem interesse de pelo povo. O l)r. S}'lvio Roméro
analyse : Cabo-branco—mãos do colligiu uma especie de villan-
quadrúpede ; usado na expressão : cête (C.pop. 1,270) em que os ver-
Cavallo cnboK-branens. (K. G. S.). sos do portuguez creolo termi-
(Vide Coruja e B. Rohan. QlossJ. nam por estribilho africano:
Cem-passo—Ceaní.«Possuo dous

(1) Vide Aiuires líello, Gramm.; {])Ta\ve7. ga-dr-7>iallo, ou (jaão


Z. tloclriguez, Cliileiiímans. Juaii do multo. O povo distingue os ani-
de Arena, Peruduismns,ptc., pags. niaes l)ravi()9 e não (Uiniestieos eoin
iutrod. o ajiposto: do multo. Porco do
malto, (jato do maílo, etc.
48
BRASILEIRISMOS
Você gosta cie mim, vore para tirar o mel do cortiço
Eu g'oslo <le voc6, (Bahia); cigarrar, fumar (Mi-
Se papae C0nse)iti, nas); feitar (clássico ?) fazer (Ba-
Oli ! meu bem, hia) (1); arar, comer vorazmente,
Eu caso com você. adj. arado, esgurido; ciscar, ro-
Alê, Alê, calun(/a ! lar pelo chrio depois de um gol-
Mussunya, imusuncja é! pe; botar-se, sair ; espoletear,
ficar tonto (Júlio U.); entrozar,
A jvixta-posição também effe- gabar-se (Ceará); majjiar, falar
ctuou-se com o tupi-guaraiii (M. Grosso); secundar, respon-
(abaiieõm), sefrundo as quadras der (id.); cascar (um boi), esfolar
coibidas pelo I)r. Couto Maga- (Cearií); i)ipocar (tupi), rebentar;
lhães : campar (obsc.), ensopar-se, to-
Te mandei um passarinho mar intimidade ou liberdade
Patuã miré pupé com... (port.); pererecar, con-
Pintadinlio de amarello torcer-se, áajurereca. rã (Júlio
Iporanga ne iané. llib.); bangular (clássico), andar
errante: encaiporar, ficar infeliz;
Eloutras em que os versos im- cipóar, dar pancadas em geral
pares, semju'e octosjllabos, são com o cipó; desafogar, tirar o
em lingua tupi. Da mescla do mel de assucar do fogo; vaque-
tupi e do portuguez (como lima- jar, perseguir. E o que é de no-
rana, hv<u\c&rana), trataremos tar-se, é a formação reduplica-
no vocab. tupi. O systema pro- tiva por infixos : caracaçar, es-
nominal no Brasil foi alterado parapantar, ãispamparar (caçar,
de diversas fôrmas. O systema espantar, disparar), etc. E outros
verbal sotfreu modificações in- muitos, que de presente não nos
tensas. Algvimas fôrmas arcliai- occorrem. Como se vê, ha nel-
zaram-se. O condicional foi sub- les sempre uma sensação e im-
stituído integralmente pelo im- pressão dominativa, até nos que
perfeito. As formas mnára,fizé- podem empregar-se no sentido
ra, mentira, pozéra e os condicio- abstracto. || Passando ao es-
naes, transformaram-se em ama- tudo das invariaveis, faremos
va, fazia,mentia, punha. Na crea- summariamente algumas obser-
ção original dos verbos creolos, vações. O advérbio, como instru-
nota-se a preponderância atfe- mento da expressão moüal de
ctiva, o caracter .sensacional e acções e de cousas, dissolve-se
impressionável da raça; os seus facilmente em phrases ana-
productos léxicos representam líticas correspondentes. E lam-
cousas concretas, scintillantes e bem um habitualismo do povo
vivas. Examinem-se os verbos,
alguns d'elles bem portuguezes : (1)... Mendenges/fííaiZoò'
Crescer para, aggredir; azular, fu- 1'or mão de yáyá
gir; embeiçar (uma cerca, unil-a Canção colhida por \^. Cabral.
a outra); melar, derrubar uma ar- (Gazrt. JAU., vol.l.)
49
BRASILEIRISMOS
portuguezessatendencia. No ele- comprovação (1). Semelhante cri-
mento mestiço, o processo é na- tica, fundamentadanaignorancia
turalmente fundamental e orgâ- do caracter proprio das línguas
nico, e isso provém da impos- — a instabilidade do Iwmogeneo —
sibilidade de crear-se esponta- não p()de nem poderia produzir
neamente advérbios. Entre as lo- nem merecer etlicacia ou re-
cuções ou expressões adverbiaes speito. Eis algiins fjictos .synta-
analyticas, são dignas de nota: cticos: a preposição em é mais
Quantidade—havia um despotis- extensiva em nosso uso, e fre-
mo de gente ; uma data de somiio qüentes vezes empregamol-a em
(M. Grosso); flôres por cima do vez de a: andar no sol..., andar
tempo...-, quer laranjas? Dê-me ao sol: ficar no sereno..., ficar
umas par d'ellas; uns par d'elles ao sereno; chegar na janella,
(S. Paulo, Júlio R.); par é in- chegar á janella, etc., etc. Este
variável e advérbio. Tempo— uso tem talvez sua razão etymo-
Maria já estava lâ'õelha{\s\,o é, ha- logica. No latim a preposição in
via muito tempo) (1). Atóraestes indicava também o movimento,
especimens, encontram-se exem- e o mesmo se observa, em varias
plos de algumas modificações linguas romanas, sobretudo no
phonicas,brasileiras ou africanas. francez, (juando diz: je vais en
«Este caso é uma cousa de fronte Amerique, etc. (2). Em bom por-
(Matto Grosso) (2). D'onde, por tuguez também se exprime o mo-
onde. Nange,iirir não (nan-geu). vimento com aquelIa preposição:
Segundo afíirma o Sr. Taunay, Deu em ebrio; veio em .soccorro;
existe em Matto Grosso o ad- caiu em graça ou em desgraça;
vérbio afTlrmalivo: Acui, mi! lançou-se em aventuras: res-
(sim). !| As divergências syn- valou em perversidade, etc. «Eu
tactlcas entre o portuguez da que cair não pude neste en-
metropole e o creolo são univer- gano», disse-o Camões. A expres-
salmente reconhecidas. O phra- são do duas acções simultaneas
spar lusitano tem em geral qua- faz-se no portuguez europeu com
lidades mais .syntheticas que o o infinifivo representando a
nosso. A indócil mií vontade acção secundaria, que entre os
com que os portuguezes acoi-
mam de barbaras e viciosas as (1) Ainda (jue tenliam a razão,
producções artísticas da litera- os critieos |)ortHguezes exaggerain
tura americana, bastaria para tal as censuras, e ])or vezes são injus-
tos. Não nos referimos, ja se vê,
aos que nos avaliara sine ira.
(2) O caso de uma preposição ad-
(1) S. líoniero—Coutos populares, quirir o valor e a funeção de outra
I vol. Rio, Alves & C. não é raro nem excepcional. Toda-
via, a reserva é na affirmação ne-
(2)Taunny — Innocencia. S. Ho- cessária. Na i)hra3e wm <pie pése»-
mero, Contos populares, Rio, Al- etc., oemé o aiit. en, endc., e corre-
ves & O. sponde ao actual indmta (tinda(mdc)
DICC. GRAMM. 4
50
BRASILEIRISMOS
brasileiros 6 figurada com o ge- além da referencia j;í citada dos
rundio : Portugal—Saiu a cor- verbos. Algumas vezes per-
rer ; esteve a chorar; veio a rir. sistem palavras vivas no Brasil
—Brasil : Saiu correndo ; es- que já são archaicas no dominio
teve chorando; veio rindo. Os popular, taes são: morganho
portuguezes preferem dizer es- (Pará), idas e venidas (Oeará), re-
tando a dormir, andando a estudar, vellir, visagens, banzeiro, caroavel,
e é mais elegante. No ]$rasil, obrigação (1), cabeção (de camisa)
porém, é mais commum o dizer- e outros que datam dos tempos
se estando dormindo..., o. que coloniaes. O vMhorevellir usa-se
aliás não é erro grammalicál, na forma contracta revir, dizen-
tratando-se ahi do verbo auxi- do-se : Este vaso não réve pelos
liar. A nossa predilecçSo jielos poros. . ., isto é, não transpira o
gerundios é manifesta (acabou liquido conteúdo. Nota-se, em
dizendo...—acabou por dizer). geral, na acclimação de certos
No sul, no interior, usa-se do vocábulos, a ditrerenciação do
verbo emprestar, com a prepo- significado. Faceira—em Por-
siçilo de, no sentido de tÒ7nar tugal é substantivo e indica os
emprestado, correspondente ao musculos da cabeça da rez. No
francez emprunter e ao inglez to Brasil é adjectivo e significa gen-
borrow. Eis o que a esse respeito til, eleijante, etc. Fumo—em Por-
diz o Sr. Taunay: «•—Empres- tugal quer dizer fumaça. Entre
tar de alguém, por tomar empres- nós indica um producto vegetal
tado ou pedir emprestado, é locu- conhecido. Botas—em Portugal
ção muito corrente em todo o eqüivale a í/oííHas. Entre nós, é
sertão de S. Paulo, Minas e o calçado especial para montaria.
Malto Grosso. Venho ter com o Bico—em Portugal, o vocábulo
senhor para emprestar-lhe 20$ tem a accepção brasileira e mais
(isto é, para iiedir-lhe empres- a de ser um termo de carinho e
tados 30$000)... II (1) Esta nova de afTecto : meu rieo senhor. Ar-
accepção do vocábulo não é gal- reiar—em Portugal diz-se «uma
licismo ;—antes é a influencia mulher arreiada». Nós só o ap-
do castelhano da fronteira, onde plicamos ás bestas. Jlaçaroca—
prestar, segundo Cuervo e Aro- em Portugal, espiga de millio e
na, tem significado idêntico. (2) as o\itras accepções. Borracho—.
E talvez o havia no portuguez no Brasil eqüivale a beberrão;
ante-classico. Quanto à lexilogia em Portugal designa o filhote do
do creolo comparada com a do I)0inb0. Janota—o moço elegan-
idioma portuguez, faremos algu- te ou effeminado, em Portugal.
mas observações summarias,
(1) E. Taunay.—Innocenciu, pag. (1) Usado no Ceará como synony-
105—nota. luo de faniilia : Como cstà de saúde
a ohritjação f etc. .Tuv. Galeno.
(2) Cuervo.—Apunt. pag. :i48— Ctinc.
349. (nota).
51
BRASILEIRISMOS —C.
No Brasil (1) designa o corpete e intensas: quasi nenhum ,sys-
(vasquim)do vüstido das mulhe- tema de flexão escapou á dege-
res. Maçapé — no Brasil indica neração inevitável, de sorte que
uma terra própria para a canna os característicos mais salientes
de assucar. Em Portugal, resina. bastariam para uma integração
Ca,seiro—além das accepçôes final e decisiva. No emtanto,
vulgares, em Portugal significa força é confessar, isso não basta
o administrador de uma casa (3). para a constituição e disciplina
Essa lista poderia ser acerescida, de qualquer lingua culta, e a
se se levassem ao caso certas literatura brasileira tão cedo
diflferenças propriamente espe- não deixará de ser um domínio
culativas e exteriores. Os exem- da lingua immortal do Camões._^,
plos são sufficientes para de- —Vide as palavras Negro (elem.),
monstrar que o léxico povtuguez o tupi (elem.), cigano e dialectu.
adquiriu funcções novas, ora
extensivas, ora exclusivas, con- lís.— Este grupo permanece
servando a mesma forma exte- nas palavras eruditas : absurdo,
rior. Essa maneira de diale- ahnurãum. Assimila-se nas f(5r-
etação é a um tempo tão simples mas populares sustancia, escuro,
e tão geral, que se torna effe- (obscurus), escuso (abscoiisusj e
ctiva de província a província, vocaliza-se em u em ausente
de cidade a cidade. Ahi a ijre- (ahsentem) e nos árohaismos aus-
visão é singularmente factível, tinente (ahstinentem), austinado
e, repitamos o dito de Whitney, (ahstinatus).
a dialectação existe até no seio
da família e do lar doméstico. lít. — grupo. Permanece em
Os documentos anteriores e jií suhtil (subtüis), ou assimila-se :
examinados podem fornecer-nos sutil, \)i)r suhtil, G soterrar (suhter-
matéria para algumas conclu- rare).
sões. Vimos que o elemento mes- lív.— grupo. Sempre perma-
tiço accentuou-se por ditferen- nece intacto : obvio, de ohmus.
ciações de tres ordens: phoni-
cas, morphicas e ideologicas,
isto é, separou-se da tradição C
primitiva pelo som, pela fôrma e
pela idéa. Na sobreface e no O. — Tem dous valores c = k,
fundo as alterações foram largas' c = ss, e, combinada com li, os
valores de A; e x. Origina-se do o
(1) Também no Brasil se empre- latino; cuidar, cogitare; custar,
ga lio sentido de elegante. constare, ou de qu : nunca, nun-
(U) No Idioma do hodierno Por- quam. O grupo c/í = a provém
tugal etc., por 1'. da S., encontram- em geral dos grupos pl, el, jl :
se niimeroso.i exeni])los, qne devem cheirar, chuva, chamar (flagra-
ser lidos, e d'onde aprendemos re, pluvia, elamare). |j Na ortho-
muitos factos. graphia é freqüentemente gemi-
52
C. — Cá COPHONIA
nado ; mas deve-se escrever com cem, vivacem, crucem, etc.) foi
um só o : tradição, edição, j^ordi- evitado pela cultura classica/w-
ção. O cJi de origem grega eqüi- gace, atroce, vimce, maxime na
vale a d-; abrandou, porém, em poesia: a palavra precoce, porém,
alguns vocábulos : arcipelago (an- não conseguiu mais tomara for-
tigo) arceãiago, arcehiupo, arei; ma precoz.
j)reMe e chicorea ( == xicoria). É
com mais acerto t>reíerido a Cacos-1'rtpliia. — Modo vi-
em chiliade, cf. küo. O c antes cioso de orthographia. A inclu-
de e e i no latim bárbaro perde o são do h onde não ha.: theor,
valor de k do latim clássico, e athé, cathegoria, systhema, ex^
por isso eiicaminha-se para as huberante, e o mesmo erro lati-
transformações nas sibilantes ».«, no—posthumo/^posÍM/üís, melhor
s e para o valor actual do ce, rí : que podhumun). O emprego vi-
dizimo, decimum ; fazer, facére ; cioso de y onde não cabe: laby-
donzella, dominicellam. A synco- rynto, lyrio, Sylvio. O uso de
pe do c c bastante rara. Existiu letras dobradas inexplicáveis:
a forma arciiaica fais, por fazes mattar, ratto, sollicitar, callar,
(faeis), usada por G. Vicenie, I. innundar, edicção, tradicção. O
139, eSáde Miranda, Egl. 8, se- ph em palavras que o não tem :
gundo Heinhardstffittner. Ila a caphila e alguma outra. São
syncope ainda em deão, antigo estes uns tantos erros da meia
degaiio, decanum. Não houve, ])0- sciencia; os da ign<n-ancia da or-
rém, syncope cm farei (fac?re- thographia, por innumera veis,
habeo), direi, etc., por isso que escapam ou esperam pela caco-
far, dir, representam as formas grapiiia phonetica.
facere, dieere, com o verdadeiro
accento. O exemplo JamVi, jior da Ciieolofjiíi. — Jlodo vicioso
construcção grammatical;
jazeria (C. de Guiné, c. 73) é erro de qualquer esi)ecie na ma-
uma aberração devida á analo- téria (|uando ultrapassa os limi-
gia. O abrandamento moderno tes do descuido ou inadver-
na chiante c/i e a: só é propria- tencia.
mente portuguez, quando jií se
acha jjreparado pelo abranda- Cacoplioiiia.—Vicio de elo-
mento medieval ce, ci: murcho, cução que consiste no soido des-
de murcidu7)i ; iiiche, de pi<vm. agradavel que pode produzir a
Nos mais casos, denuncia a in- concurrencia de vocábulos no
fluencia do elemento francez : discurso. O caeophaton designa
capellum, chapéo ; caput, chefe ; especialmente a formação de vo-
camaram, chambre ; niercantem, cábulo torpe ou desconveniente.
marchante ; camminata, chami- Ex.; «lias no dizer muita graça».
né ; plancam, prancha ; cantor Por extensão, denomiinim caco-
(nomin.), chantre; carrucam, phaton a formação inesperada e
cbarrua. O zetacismo das termi- não intencional de um termo.
nações fugaz, vivaz, cruz (fuga- V. gr.: «Quero amal-a» (amala),
53

etc. É o caleiíibur, nesse caso (1). syncrasia entre a phrase e os


Os casosespeeiaes da cacophonia, ouvidos do mestre. Outra expli-
de que trataremos em separado, cação, não ha. A audição tam-
são a collUão e o echo. Nem sem- bém se resente, como o esto-
pre a conciirrencia de sons mago, de caprichos, lias que
iguaes ou diffi'reiit(>s occasiona tem com elles a euphonia do
o eacojihatmi, que também de- idioma? Segue-se o «se inter-
pende da pausa, do acoento vo- punha eUai>. Novo enleio do meu
cabular e oracional. Defendendo- tympano. Onde se me occultará,
se de falsos cacophatos, que o nesses tres vocábulos, a deshar-
não eram, magistralmente re- monia, que indispõe o censor ?
spondeu aos seus censores Iluy Orelhas finas, também as eu
Barbosa: «Em veJdculo claro (o possuo. Deu-me a natureza de
primeiro do rol) tenho apurado sobra neste sentido o que de
em vão todas as minhas facul- mingua me aquinhoou na vista.
dades auditivas, por atinar com Pois ha semanas que o envido,
a desharmonia ; e não consigo. em busca d'essa incógnita mu-
De quantas pessoas consulto e sical, e cada vez estou pelor.
reconsulto, esperançado em me Naquelle «se interpunha ellai),
auxiliarem, não obtenho melhor onde a aresta odiosa ao meu
resultado. Que mysterio haverá illustre mestre? Debalde separo,
então na cacophonia d'esse en- junto e torno a decompor a sen-
contro, por onde a mim e a tença. Não me diz nada. Será
todas ellasse occulte, só se reve- niis duas syllabas iniciaes, sinter?
lando ao seu inventor ? p]scuto- Parecem-me de todo innocentes.
Ihe o conjuncto; e não acho. Será o terpunJia, ou o unha? Mas
Ponho-me a syllabal-o ; • e não ambas pertencem ao verbo inter-
descubro. Entro a deletreal-o ; e punha, que não é obra minha.
não percebo. Dou-me a escandil- Será o punha ella ? Mas, nesse
o, a recital-o, a declamal-o, a caso, já não poderemos utilizar,
entoal-o; e acho-me na mesma. sem offensa da harmonia, com
Vario-lhe a prosodia, o acoento, aquelle pronome, o imperfeito de
o rhythmo; nada colho. Tenho, 2'>5r e seus compostos ? Punha
portanto, de suppôr uma idio- ella, dispunha ella, compunha ella,
repunha ella, oppunha ella, inter-
punha ella, expunha ella, impunha
(1) Calimbur é a verdadeira or- ella, seriam então plirases con-
tliographia do gallicismo. Garrett dem nadas ? E ainda não fora
escrevia erradamente cuUmlmrgo tudo. A outros verbos, além
(no franeez não tem o y final que d'esse, como empunhar, cunhar,
lhe empre.stam). O melhor, f>orém, alcunhar, testemunhar, estremu-
é evitar essa fraiicezia e adoptar nhar, no presente do indicativo,
com os antigos e com Castilho,
M. de Assis os vocábulos : equívo- igualmente seria defeso o conta-
cos, trocados, trocadilhos, que tra- cto com o ella na construcção in-
duzem excellentemente a idéa. versa. Testemunha ella, alcunha
54
CACOPHONIA—CEDILHA
ella. empunha ella seriam outras phrasp que vocábulo. Levando
tantasdesafiiiações intoleráveisn. mais longe a analyse, ver-se-á
que os elementos primários são
Caracter, caracteres. Ca- o nome e o verbo, que na propo-
racterística. — Synonymo cie sição correspondem a sujeito e
letra, letras ou signos. Oaracte- 2)redicado. Tudo o mais são am-
rütica é a letra ciue tem cnuil- pliações e accessorios. A inter-
qiier funcção no vocábulo ; o s jeição, da mesma maneira que
é a característica cio plural. outros elementos que não são
Cardiiiaes.—Classe dos nu- ção, figurativos como a voz, a intona-
meraes que exprimem ordem : representa a parte symbo-
primeiro, quinto, décimo quarto. íica da linguagem.
Vide Numeraes.
Causai.—Vide Conjuncção,
Casos.—Vide Declinação. Proposição e Analyse.
Castelhano.—Nome exacto Ce.—A geminação do c nem
da lingua actual da Hespanha. sempre se conserva no portugueu
O castelhano, por etfeito da pre- ainda mesmo para os partidarios
ponderância política de Castella, da orthographia etymologica :
supplantou os demais dialectos. froco, Cí6 froccum ; bico, de ôec-
Vide llespanhol. cum. No emtanto, na maioria dos
Cata (sobre, para baixo).— casos a orthograpliia não está
Prefixo grego. Oatarrho, que fixada : saco e sacco ; vaca e «ac-
corre jiara baixo; catastropíie, ca- ca ; pecado e peccado. A gemina-
talogo, catarata, etc. Ai)parece ção produziu o z ; buzina, bue-
em catliedral, cadeira, áecathedra. cinam.
Oatholicismo (halos, inteiro). No
latim ecclesiastico, kata substi- Cedilha. — Notação proso-
tuiu quisque, e se tornou a ori- dica que serve para denotar o
gem do determinativo cada. valor brando do c antes de a,
o, u, : ça, ço, çu. A cedilha repre-
Categoria. — Denominação senta graphicamente a haste in-
tirada da lógica e que exprime ferior da letra z que a precedeu
uma classe do pensamento, um e atropliiou-se. No francez an-
grupo de idcías. As palavras clas- tigo, v. g., ha faczon, depois/a-
sificam-se em nove categorias: çon. A haste do z manuscripto
substantivo, qualificativo, de- tornou-se o signal actual, e o
terminativo, verbo, preposição, nome cedilha, de zediglia, pe-
advérbio, jjronome, conjuncção queno zed, indica claramente a
e interjeição. Algumas d'estas sua origem histórica. Em por-
são reductiveis a outras : o pro- tuguez contemporâneo ciç nunca
nome pode ser considerado deter- principia palavra : sapato e uão
minativo; o advérbio c) locução çapato, como se graphára antiga-
substatitiva ; a interjeição ó mais mente. Esto uso, em verdade, é
CEDILHA CH.
um gallicisino, porque em fran- baccalaureus. Bar—trave (kym-
cez o ç não é nunca inicial. O f rico)—barra, barreira e deri-
em geral representa o abranda- vado embaraço, cast. embarrazo.
mento de ti nos hiatos : diíferen- ]5aiuIj — (pote)—barril, barrica,
ça, ãiffere,ntiam ; feitiço, fatitium, e o gall. barricada. Bass—no
etc. Outras vezes está por ss: lat. barbaro 6cí«,w.<(; radical de
ruço, russum ; moço, mussum, de baixo, abaixar, contra-baixo,
mustum, etc. Nos documentos basso, etc. Beco—^gaelico ; lat.
antigos, a falta de cedilha só barbaro, òecíííi. Bico. beque. Bka-
pode induzir em erro aos inex- CA—do latim barbaro, e tido
perientes. Assim, não se deve como de origem celtica. Braga.
suppôr que houvesse o som gut- Caban—cazinha, kymrico. Ga-
tural em cocobrar(El. de Viterbo), baria, gabinete. Oae —kymrico.
por sossobrar. A razão que fez Gaes. Caimis—gaelico ; no lat.
tomar o z como caracter acces- barb. camisia. Camisa, camisola,
sorio proprio para indicar o etc. Gae—kymrico (perna). Oar-
abrandamento do c, já se acha rote. Jarreta. Lbig—no lat. bar-
indicada no latim barbaro, onde baro, leuca. Légua. Taiícedek"—•
a equivalência c—z é frequen- rad. tarz, erupção. Dartro, por
cia : imenãium. |1 Deve-se dizer metathese. As formas celticas
que muitos distinguem o som ç sempre chegaram latinizadas,
do som s=ss, na prosodia por- como se vê pelas palavras que a
tugueza. literatura registra : leuca, cami-
sia, braça, bassus, etc.
Celtico.—O elemento celtico Cli.—«Este grupo pronuncia-
(3 ainda hoje de analyse obscura, vam-no os nossos maiores tsch,
não só por causa das deteriora- e ainda hoje os da Beira, muito
ções dos nomes locaes onde de- de accòrdo com a pronuncia ge-
veria ser mais intenso, como nuinamente romana. D'onde
pela existencia de sub-ramos em veio a este grupo o som de x ?
que está dividido : o gauiez, o Do abrandamento do c duro la-
gaelico, kymrico, ibérico, etc. tino em » e z na linguagem po-
Eis alguns radicaes celticos: pular ; das palataes tch, dj na
Alp — elevação, montanhas. chiante ch=x. E assim se expli-
Alpes, transalpino, cisalpino, etc. ca a transformação de carruca
O adj. alpestre. Nos textos an- em chama De resto, no
tigos a palavra al2>es é nome com- provençal e limosino, ch soava x
mum para quaesquer monta- (ts tz ss), e o mesmo se dá no ca-
nhas. Amabk (laço) — amarra, talão e basco. Não foi, pois, esse
amarrar, etc, Ans, curva ; lat. abrandamento devido á imita-
barbaro, ama. D'ahi enseada, ção arabe, como querem alguns ;
aza, aãs (azes), etc. Bak ou Bacii mais depressa acceitariamos a
—pequeno, novo, joven. Bacha- opinião de representar o som
rel, vindo do fr., no lat. barba- chiante do cA tradição ibera ou
ro baccalarius, transformado em celtica.» (P. Júnior).
56
CHEIR — CIGANO
Clielr, cheii-os (mão). — Ele- ultramarinas se vão acliar al-
mento gvego de composiçilo. guns nomes, dos quaes o maior é
Cheiropteros, mãos e azas ; nome o de Diogo do Couto. Historia-
scientifico da família cios morce- dores livres e chronistas especí-
gos. Chiromancia (manteia), adi- aes foram João de Bakhos, Nu-
vinhação pelas mãos. Cirurgia nes de LiÃo, Fr. Luiz de Souza
(ergon, obra), litteralmente : ma- e poucos outros.
nobra. ChirograpMa, cMragra, Clirôiio.s (tempo).—Elemen-
epicMrema, etc. to grego de composição. Chrono-
Cliiaiite.—Dá-se este nome metro igual),
(rr.etron, medida), iaochrono
iís consoantes 7 e í, e ao nosso {iaos, anachronico (de ana,
inversão), aynchronico, etc.
som do ch=:x. (P. J.)
Chiiiez. — Língua monosyl- Chylos.—V ide cJiymia.
labica da Asia. Poucos vocábu- Cliyiiiia, chumos, succo. —
los de origem chineza existem Elemento grego de composição.
no portuguez. Vide Asiaticismoa. Vhimica, parenchyma (para, ao
O termo mandarim é portuguez, lado, en, sobre), tecido proprio
derivado de mandar, vernáculo. das glandulas, etc. A formula
São da língua chineza : nankin, chuloa, do mesmo radical cheuõ,
kaolin, setim, hyson, chá. derramar, produziu cJtylo, dia-
Cliiros.—Vide Cheir. chylão, etc.
Cigano.— Sigano e zigano e
Clirôiua, dirómatos (côr). — também se disse egiptano. Povo
Elemento grego de composição. originário da índia, que se disse-
C7í rom a tico, chromol ithoyraph ia minou pela Europa. Os ciganos
(liilws, pedra, graphõ, escrevo). chamam aos estrangeiros gagé
Polychromo (polua, muitos), etc. (no Brazíl, gajão) e a si proprios
rom (i. (í, varão, homem), e em
Clironica». Coronicas. Ca- alguns logares ainté (1). Pelos
ronicas. — Nomes dados iís pri- europeus os ciganos têm vários
meiras historias escríptas da nomes : gÍ2)sy (inglez), tzigano,
nossa literatura. Chamavam-se gitano (hesp.), hoUémien (francez),
Chroniataa os Jiuctores, e era car- jevk (albanez), Pharaó népek (po-
go de confiança o escrever a his- vo de Pharaí) ; magyar) Tri/noç,
toria nacional. O primeiro dos grego^moderno ; Farawni, turco,
nossos chronistas foi Fernão Lo- etc. É ponto liquido que os ci-
pes (1434), um dos maiores. Se- ganos emigraram da índia, sem
guiram-se-lhe muitos outros,
mas de mérito apenas poucos :
Gomes Eanes de Zuraka (I) A expressão )■«»» reporía-se a
(1459), Ruy de PixA (1525), Fr. doma ou domfiit, sanskrito (casta de
Bernardo de Brito (1014). En- músicos , Miklôsicli. Shilr ])arece
ser Sindini, (Iiidu). Cf. Xinculo,
tre os chronistas das possessões ziníjuro.
57
CIGANO CIRCOMSTANCIAL
que 110 emtiinto se possii deter- são conhecidos no interior do
minar a época e local precisos. paiz. Taes, v. gr.: gajão, nome
A lingua é bastante antiga e, de tratamento; querido, ami-
sentlo aryana, parece antes irmã go. Paxaxo, pé largo. Também
do que íillia ou originada do usado no Chile, como se vC do
pâli e dos outros dialectos da IHcc. de chilenismos de Zorobabel
índia. A romani (1. dos ciganos) Rodrigues (voe. Pachaço). Cp. o
tem mesmo fórmas mais primiti- vocábulo notado por Adolpho
vas e archaicas que o sanskrito. Coelho, Pachocha (Congr. de An-
Na Europa existem 13 dialectos thr., sessão de Lisboa). Boliche,
do romani mais ou menos adul- venda, bodega (Rio (Jrande do
terados, conforme as linguas em Sul). O vocábulo é germânico,
cujo meio regional persistem. veio pelo hespanhol da fronteira,
Por effeito de suas emigrações, introduzido provavelmente pelos
os ciganos possuem o léxico ciganos, que o possuem. No sen-
cheio de formas gregas e occi- tido original, significa casa de
dentaes em grande numero, io^Q.Descachelar.—É esseo unloo
vo^es persas e armenicas. Sem exemi)lo em que parece notar-se
poder, por falta de materiaes, o processo de suffixação de ver-
comparar os dialectos europôos bos em lar, proprio do cigano :
com a lingua dos ciganos brasi- descaehelar 6 formado sobre o
leiros, apenas daremos aos que typo ãesqueixur, e é vulgar no
quizerem estudar o assumpto, norte do Brasil : um livro ãesca-
algumas indicações bibliogra- chclado ; um corpo descacJielado ;
phicas segundo a Encyclop. hoccã descacMada ou eaeacJielada,
Brit., vol. X. (1) Os ciganos ex- etc. Devem existir muitos ou-
pulsos de Portugal emigraram tros que não conhecemos.
em grande numero para o IJrasil Circuiiistaiifial, syn. rela-
no século passado. Os termos ção adterhial.—Vide Analyse.
mais vulgares da ciganagem
Si)l)re os ciganos disseminados
(1) Kibliograjiliia. Fr. Muller — na Euroi)a, são obras de consulta
Heitráye zur Kenntniss der liiim. as de Paspati, Ktudes sur les Tchin-
Spr. (1869-72|. Prohe de Limhn si ghiíuiés íCoíist. 1870); oVocalndai-
Liierat. Tigauilor (Dr. Coiistanti- re de VailUuit; Romani Czih, de
nesi;u,l87S).Greliuiaiin. Ilút. Ver- 1'uchiiiayer, Praga, 18121; a de Lie-
such u. d. Zigeuner; Spengler bicb ; Leland, The english gipsies
Dissertalio hisl. jur. do Cíiiganis, (1871!); Smart e Crofton, The dial.of
1839, Bataiüard. Apparit. et Des- t/ie engl. gipsies (1875) sobre os ci-
app. des boltémie.ns, (1844). l'ott gano.s de IIes|>!inlia ; The Zineidi
Die Zigeuner {18iõ)Zigeunerisclies, l)y üorrow (1873, Londres); e sobre
Ascoü, 1805 ; eas duas obras capi- os ciganos portuguezes a memória
taes de Miklosicli, princii)al aucto- de Ad. Coelho, no Congr. de A71-
ridade na matéria; Ueber ilic Jlun- ihropnlogia (Se-^são de Lisboa); so-
darten nnd die Waiulerungen der bre os ciganos do lirasil o livro de
Zigeuner Europa's (1872-78) ISeitr. Mello Moraes Filho, Cancioneiro
zur Kennhiisa der Zig. Mundarlen. dos Ciganos.
58
CL. CLÁSSICOS
Cl. — Grupo latino. Pei-ma- Oriente, Fr. Heitor Pinto, Fr.
nece : classe, ciassem. A permiita Bernardo de Brito, Fr. Luiz de
e reforço cr tGm muitos exem- Sousa, P. João de Lucena, D.
plos archaicos : cravo, por claro ; Francisco Manoel de Mello, os
fror, por flôr; creinencia, por cle- dois Brandões chronistas mores,
mencia ; crelgo, por clérigo : Fr. Manoel da Esperança, I). Ro-
etc. ; ainda hoje lia a fôrma cra- drigo da Cunha, Jacintlio Freire
vo, clavum. O abrandamento c/t, de Andrade, Duarte Ribeiro de
/ (dupla dj) também é archaico : Macedo, P. Antonio Vieira, P.
oliouso, clausum ; chouvir, clau- Bartholomeu do Quental, P. Ma-
dere ; chave, clavem, jamar, por noel Rodrigues Leitão, P. Ma-
chamar, clamare. noel Dernardes, F. Francisco de
Santa Maria, P. Francisco de
Clássicos. — «Assim chama- Sousa, P. Diogo Curado, D. Jo-
dos os escriptores qne, sobresain- sé Barbosa, A. Qarrett, José Go-
do em cabedal de erudição nas mes Monteiro, ^l. Ilerculano, A.
scieucias ou nas letras, por um F. de Castilho, Rebello da Silva
consenso unanime, Rozam de le- e outros sobre que a posteridade
gitima auctoridade. Fixando, po- falaní com merecidos louvores
lindo e aperfeiçoando as formas por certo.» (Kscoliastes). Dos es-
do pátrio idioma, foram nossos criptores do Brasil onde a lin-
mestres os quinhentütaH. Com guagem tantas modificações tem
effeito a literatura classica de soflfrido, poucos de certo logra-
Portugal coincide com o tempo rão a ventura de serem estima-
heroioo ern que os portuguezes dos como clássicos ; já de certo a
sulcavam todos os mares, dila- lograram Gonzaga, Cláudio, B.
tando a fé e o império pelas vas- dn Gama e Souza Caldas. Na
tas regiões da África, Asiae Ame- Sclecta Classica do auctor d'este
rica. Nomearemos alguns dos Diceion. encontrar-se-ão mais am-
clássicos portuguezes mais aba- pliadas e elucidadas em pontos
lizados pelo bem (jue trataram controversos as noticias particula-
os assumptos, ou pela excellen- riís sobre ca<hi um dos clássicos.
cia do seu estylo, quer em prosa, 1? EPOCA.—(Desde 1139 a 1279
quer em verso : João de J5arros, ou desde a fundação da monar-
Damião de Góes, Francisco de cliia até á acclamação de D.
Andrade, Diogo do Couto, Af- Diniz). «Este periodo não olfe-
fonso de Albu(|uerque, Francis- rece mais que ensaios sem im-
co de Sã de Miramla, Luiz de portância e^ algumas canções
Camões, Diogo Bernardes, An- anonymas. Tí apenas um traba-
tonio Ferreira, Francisco Rodri- lho de incubaçãon. kpoo.v.—
gues Lobo, Duarte Nuws de Leão, (De 137!) a l.')00 ou desde a ac-
I). Fr. Amador Arraes, D. Fr. clamação d(' 1). Diniz até á de D.
Marcosde Lisboa, Jorge de Monte João III). D. Diniz faz traduzir
Maior, Gaspar Barreiros, Fernão em portuguez muitas obras es-
Mendes Pinto, Fernão Alvares do trangeiras ; elle mesmo oomi)õe
59
CLAS SICOS
/
algumas poesias. E do seu rei- (...-149:í). Gaiicia de Rezen-
nado que data a literatura por- de. Vida e feitos do rei 1). João
tugiieza : elle funda a Universi- II. Cancioneiro, Miacellanea (tro-
dade de Coimbra ; seu filho, D. vas). Era natural d'Evora (1470-
Pedro, conde de Baroellos, cul- 1554). Duarte Oai.vão. Chro-
tiva igualmente a i)oesia e es- nica de D. Afonso llenriques. Era
creve em prosa o seu Nohiliario. natural d'Evora (1445-. . .) A in-
Neste período, segundo a opi- troducção da imprensa neste
nião geral, é que vivia Vasco de periodo (1470-1474), começando
Lobeira, o auctor do famoso ro- a funccionar primeiramente em
mance de cavallaria—Amadis de Leiria, veio dar um novo impul-
O aula ou Arcadia de Gaula. D. so á nossa literatura. Garcia de
João I dá um grande'impulso ao Rezende publica o seu Cancionei-
idioma portaguez, ordenando ro (151C), collecção das poesias
que todos os actos e documentos dos mais afamados auctores do
públicos sejam redigidos em reino. 3? ErocA.—(De 1500 a
portuguez, jiorque até ahi o eram 1025 ou desde D. João III até
em latim. íío reinado de D. Philippe II). Este periodo pôde-
Duarte proseguiram as letras ser chamado a idade de ouro da
sua marciia ascendente sob a literatura portugueza ; não haja
protecçãoid'estemonarcha, dando duvida em dizer a este respeito ;
elle mesmo bom exemplo com —o século de João III,—como
muitas ijroducções suas, notá- se diz : o século de Pericles, na
veis para aquella época, e fazen- Grécia, o século d'Augusto, em
do escrever em latim a historia Roma. Aos excellentes escripto-
do reino. Ilistoriographia. O pri- res d'este periodo deu-se o nome
meiro historiador portuguez é de quinhentistas, e são considera-
Pernão Lopes, secretario de I). dos como clássicos de primeira
Duarte, que escreveu a chronica ordem, e não só porque poliram
dos Reis, desde o conde D. Hen- o idioma nacional, mas porque
rique até D. Affonso V. Viveu o falaram com toda a pureza.
pelos annos (1380-1459?). Se- Poesia.—(XVI século) Bernar-
guem-se successivamente : Rt7Y DiM Ribeiro . —Mçjlogas—Menina
DE Pina, chronista de D. João e Moça, romance. Era natural do
11, que escreveu as chronioas de Torrão (. . .-1550). Gii, Vicente
muitos reis em estjio sobrio e (o Plauto portuguez)—Poesias
digno. Era natural da Uuarda dramaticaa — Comédias — Tragi-
(1440-1Õ23). Gomes Eannks dk comedias — Autos — Farças. Era
ZuRAKA, grande chronista do natural de BarcellosV (1470-
reino ; escreveu : Feitos de D. I53()). Dr. Franciso de Sá de
João I.— Tomada de Ceuta. An- Miranda (o pae da poesia por-
naes de J>. Affonso V sobre a ex- tugueza) — Sonetos — Epístolas—
pedição d'Afrir,a parte) ; obra Ilymnos — Canções — Elegias —e
que foi concluída por liuy de duas comédias : Os Estrangeiros
Pina. Era natural de Azurara e Os Vélhalpandos. Era natural
GO
CLÁSSICOS
de Coimbra (14üõ-l.")58). Akto- quasi o canto do cysiie da poesia
Nio Fekue []ía—Epístolas— Odes nacional, que parece querer fe-
—Sonetos — Elegias —■ e as comé- necer com elle e já nelle mo-
dias : O Cioso e JIristo, e a tragé- ribunda se mostra. Era natural
dia : *1 Castro, producção admi- do Porto (1540 ...). llistoriogra-
ravel. Era natural de Lisboa phia (1490-1570)—João de Bak-
(1528-100!)). Luiz dk CamOes (o R08, o Tito LÃvio portuguez ; este
priiicipe dos poelas épicos por- escriptor occupa o primeiro logar
tugueses) — Sonetos — Elegias — entre os historiadores. Publicou
Canções— Odcs—Eclogas— Oitavas o Clarimunda, chronica em
—e emíim os Lusíadas, poema tórma de romance. A Asia, o
épico, cujo assumpto é a desco- mais importante dos seus escri-
berta de um novo caminho para ptos, onde estão consignadas as
a índia, cortado por Vasco da façanhas dos portugueses du-
Gama. Era natural de Lisboa rante a de.scoberta e a conquista
(ir)24-ir)80). DiOííO Beiínakdes dos mares e das terras do Ori-
(poeta e guerreiro) — O Lima, ente. Este livro teve a gloria de
contendo—Egloyas—Cartas. Era ser o primeiro que fez conhecer
natural de Ponte da Barca a índia aos europeus. A obra é
(15B. . .-l(i05). Pedro d'Andra- dividida em décadas que foram
de Caminha—7V«2fl«. Era na- continuada.s por Diogo do Couto.
tural do Porto (1520-1.>80). Je- Era natural de Vizeu (1490-
RONYMO Corte Real (poeta e 1570). 1)ami.\o de Góes. —CAro-
guerreiro); dois poemas épicos— nica de D. Manoel—Chronica de
O Segundo Cerco de Diu—Xavfra- 1). João II—Traducção do livro de
yiode Sepulveda—Austriada. Era Cícero—DE Senectute. Era na-
natural d'Evora (1540-1593). tural de Alemquer (1501-1573).
Feunão Ai.vahes do Oriente. Fernão Lopes de Castaniie-
— Lusítania transformada, que da.—Historia do descolrrimento e
alguns suppõem traba'ho de Ca- conquista da índia pelos portu-
mões, o que basta para elogiar a guezes. Era natural de Santarém
obra, mescla de prosa e verso em (...-1559). Affonso de Ai.ru-
que a elegancia corre parelhas Qüekque — Commentaríos de Af-
com a pureza de linguagem. Era fonso d'Albuquerque (seu pae).
natural de Goa (1540?-1595?). Era natural de Alhandra (1500-
Luiz Pereira üuandÍo.—A Ele- 1580). André de Rezende, o
giada, poema épico cujo assum- maior antiquario do século XVI.
pto é a ruina da patria; poeta e Escreveu em latim a obra De
guerreiro, acompanhara D. Se- AntiquitatibusLusitaniai, e deixou
bastião & África, d'onde pôde a Historia das antigüidades da ci-
voltar por meio de resgate, para dade d'Évora. Era natural d'E-
deplorar em canto fúnebre a ba- vora (1498-1573). D. Jeronymo
talha de Alcacerquibir e suas OsoRio. —bispo d,e Silves, o Cí-
conseqüências, mas esse canto cero portuguez. E o auctor da
fúnebre, no juizo de Garrett, & Vida de D. Manoel, obra escripta
01
CLÁSSICOS
em latim. É também o auctor de Fernandes G.\i, vão, arcediago—
Cartas. Era iiatiiral de Lisboa Sermões. Era natural de Lisboa.
(lõOO-lõSO). Fernà Mkndes (1554-1010). Começo do xvii
Pinto.—A Peregrinação. Era na- Secüi.o [Poesia-). — Francisco
tural de Monle-M()r-o-Velho Rodrigues Lono, o Tlieocrito
(1500-108.3). Düartk Nunes dk portuguez — Eglogas — Â prima-
LiÃo, um do.s mais notáveis es- vera, que encerra versos admirá-
criptores—Descripçno do lleiuode veis— O Pastor Peregrino —O l)es-
Portugal—Chronica dos Reis (lí enganado—E em prosa; Corte na
parte)—Origem e Orthographia da Aldeia—iVoííe d'Inverno. O seu
Lingua Portugueza. Era natural estylo é ameno e em algumas de
d'Evora (lõ3. .-1008). Fií. An- suas composições mostra bem
TONIO Rosado—7V'í(teíZy sobre vivo o sentimento da natureza.
a destruição ãe Jerusalem—Lagri- Era natural de Leiria (.. .-1623).
mas de Jeremias. Era natural Vasco Mousinho de Quevedo.
de Jlertola (1 r)T5-lG40). Antonio —Afonso AJricano, poema épico,
DE Castilho.— Commentario do incontestavelmenle o i)rimeiro
cerco de Oca e Vhaxil - Klugio d'el- dos nossos poemas épicos de se-
rei T). João III—Tratado do per- gunda ordem. Era natural de
feito secretario e outras. Era na- Setúbal (15.. .-10...). Gabriel
tural de Thomar (1 :")().■)-1,5!)()). Pereira de C.vstuo.—A TJlysséa,
IIeitok Pinto—Imagem da Vida poema em dez cantos .sobre a
Ghristã. Era natural da Covilhã fundação de Lisboa, attribuida
(.. .-1584) Gauoia de IIokta — a Ulysses. Era luitural de Braga
Colloquios dos simples e drogas. (1571-1032). Francisco de S.v e
Era natural d'Elvas (14Í)...- Menezes.— Malaca conquistada,
15...), Amadok Akiíiiaes, bispo poema épico, cujo heroe é o
de Portalesre—Diálogos, sobre grande Affonso de Albuquer-
todos o—Dialogo sobre o trium- que, conquistador das índias.
pho dos Portuguezes. Era natural Era natural do Porto (.. ..1004).
de Beja (152.. .-1000). Jo.ío de Br.^z Garcia de Mascareniias—
Lucena (padi'e)—Vida de São Viriato Trajano, poema heroico.
Francisco Xavier. Era natural de Era natiiral d'Avô (150()-]050).
Trancoso (1550-1000). Fr. Tiio- Miguel da Sii.veira—ElMacha-
MÉ DE Jesus. — Trabalhos de Je- ben, poema em vinte cantos, em
sus. Era natural do Lisboa (1520- hespanhol, sobre a restauração
1582). Fii. Marcos de Lisiíoa, de Jerusalem. Eia natural de Ce-
Constituições synodaes do bispo do lorico da Beira (1570-1030). F.
Porto. Era natural de Ijisboa Botelho de Moraes e Vascon-
(1511-1591). Dk. Diogo de Paiva CEi.LOS—El Affonso, ó La Fuiula-
d'Andiiade.— Sermões e outras. cion dei lleyno de Portugal,am hes-
Era natural de Coimbra (1528- panliol Nesta quadra
1575). Luik de (íran.U)A, domi- quasi todos os poetas transigi-
nicano—Sermões. Era natural de ram com o dominio estrangeiro,
Granadti (1504-1588). Francisco escrevendo em hespanhol, cujo
-02
CLÁSSICOS
idioma sabiam manejar com fa- enfçenlio do tantos sublimados
cilidade. Iliítoriogrdphia (lõ()!)- talentos que o século xvii nos
1017). Behnardo dbBiuto. Ei-a apresenta. D.ViolantadoCéo —
natural d'Almeij.la (1509-1017)— Santa Kngracia, comedia em ver-
Ohronica de Ciater— Os Elogios dos so, cheia de motaplioras e.xtrava-
lieis— Oeographia antiga da Lusi- fiantes : e algumas outras obras.
tania—Monarchia Lusitana, con- Era natural de Lisboa (KiOl-
tinuada por Aktokio Buandão— U)93). Manoel Seveium de Pa-
continuação da Monarchia Lusi- ria—Discursos politicos—As noti-
tana de B. de Brito. Era natural cias de Portugal—K um bom os-
d'Alcobaça (1Õ84-1037). Diogo criptor; notam-lhe o emprego abu-
DO Couto — O Soldado Pratico e sivo de muitos archiiisinos. Era
11 continuação das Décadas de J. natural de Lisboa (1583-1055).
de Barros. Era natural de Lisboa Diogo Barbosa JIaciiado — Bi-
(1542-1010). Fr. Luiz m: SotisA, bliotheca Lusitana, obra de varia-
dominicano—Chronica de S, Do- da e traballiosa erudição. Era na-
mingos— Vida ãe Fr. liartholomeu tural de liisboa (1082-1773). Fr.
dos Martyres, arcebispo de Hra^a. Manoel da Esperança— Histo-
Era natural de Santarém (l.")55- ria Seraphiea da ordem dos frades
10;í2). Luiz Mendes de Vasoon- menores de S. Francisco, nii provín-
CEI-.I.OS—Sitio de Lisboa—Arte Mi- cia do Portugal. Era natural do
litar. (. ..?...). Fk. Beknahdoda Porto (158...-1070). M. DE Faria
Gnm.—Ohronicad^el-rey D. Sebas- E Sousa — Europa Portugmza,
tião, tom méritos e defeitos...'.'... Gommentarios ás Obras de Ca-
{1530-1.58...'.'). Gaspaii Estaço—• mões e varias outras em prosa e
Varias antigüidades de Portugal. verso. Era natural de Pombeiro
Era natural d'Évora (.. .-l()2()). (1590-1()49). Martim Akfonso de
Jacintiio Freiise d'Andrade — Miranda— Triumphos da so,lutife-
Vida de D. João de Castro, 4? vice- ra Cruz de Christo — Declaração
rei da índia. Era natural de ]5eja do Padre Ko-tso com suas medita-
(1597-1020). Pedro DE Mariz— ções, e a lí e a 2Í parle de uma
Diálogos de varia historia—Histo- obra com o titulo de Tempo de
ria do Milagre de Santarém. Era agora. Era natural de Lisboa
natural da Coimbra(15...-101...). (15...-?). P". Manoel Bbrnardes
E ainda outros que viveram neste —Escriptor mystico, diz o Sr. P.
periodo, que l'oi o do apogeo da Chagas, a doçura do seu estylo
literatura portugueza. 4^? Epoca captiva e encanta ; clássico pri-
—De 1025 o 1750, ou de Philip- moroso, mereceu que Antônio
l)e II a L). José I —Este periodo Vieira não julgasse em perigo o
pode ser qualificado o século do idioma portuguez, em quanto
máo fíosto ; é o - reinado do Oon- vivesse, para lhe zelar a pureza
/jorisino, do escriplor hesi)anhol o padní Manoel Bernardes. lira
Qongora, de Cordova, que intro- natural de Lisboa (1(U4-1710).
duziu este máo estylo na litera- Nas Inovas Florestas, nas Medita-
tura portugueza, inquinando o ções sobre os J^ovissimos do Ho-
03
CLÁSSICOS
mein, na Luz e Calor sabe entre- mos. Era natural de Lisboa
tecer, na teia cio pensamento re- (1008-1097). D. Francisco Ma-
ligioso, delicioso matiz ora his- noei, de Meli.o.—Apologos dia-
torioo, ora anecdotico. ora le- logaes — Epanajihoras—Carta de
gendário, a quedií sempre realce guia ãe casados e outras. Occupa
o seu estylo vivo e pittoresco, este escriptor logar eminente
animado ás vezes com um geito como eximio cultor do seu
chistoso, agradavel sorriso que tempo. Estylo grave. Era natu-
desfranzeesses lábios d'onde ma- ral de Lisboa (1011-1000). A
nava o mel doirado, (jue ia libar estes auctores succederam outros
nas ílôres do myslioismo. Kociia no começo de xviii século, mos-
PiTTA—Historia da America Por- trando um periodo de deplorá-
tugueza, obra que lhe grangeou vel decadencia das letra.s. por-
muitos applausos, e lhe alcançou tuguezas, em que se trocavam as
o diploma de socio da Academia imagens grandiosas, embora em-
Real da Historia e o de fidalgo poladas, pelas ridículas puerili-
da Casa Real ; apczar de se re- dades do trocadilho alambicado
sentir .ds vezes dos defeitos do e grotesco. E no reinado de D.
seu tempo—o gongorismo e a José I que ellas começam a rea-
aflfectação — o livro de Rocha nimar-se. 5Í ÉPOCA.—(Depois de
Pitta é estimado pelo estylo bri- 1749) No reinado de D. José I
lhante, que sempre conserva sem começa a literatura portugueza
cair no exaggero. Era natural da a regenerar-se pela iniciativa da
Bahia (1()ÜÒ-17:í8). 1). Rodrigo sociedíule dos Arcades, que se
DA CuNiiA—Catalogo e Historia fundou em 1730 com o fim de
dos bispos do Porto - - ■ Historia prorogar o gosto da grande
Ecclesiastica ãe liraga e a í'^ par- época e fazer que a lingua pura
te da de Lisboa—'Nobiliario das do século XVI, desembaraçan-
f<tmilias do reino, etc. Era natu- do-se de todos os gallicismos que
ral de Lisboa (1577-104!!). CoK- lhe haviam introduzido, tomasse
DES DA EiUCKIKA (MeNEZES) — aquella graça e doçura e todas as
Historia ãe Tanger, da vida e a- mais qualidades que tanto a
cções d' el-rei D. João 1° — Henri- ornam (1). No reinado de I). Ma-
queida—Historia de Portugal Res- (1) Jl. Saiié falando da lingua
taurado, e ainda outras somenos, portugueza diz ipie ella csl bclle,
1?, (1014-109!)) e 2? (10:i2-10n0). soHore, nombrcnsc, unissant à Ia
Padke Antonio Vieira, consi- doHCeiir et à Ia souplesse de Ia lau-
derado o maior pregador do seu (Jne iltilieinte. Ia gravite et les cou-
tempo, escreveu :—■ Cartas—Vo- leurs dtí Ia latlne.
zes saudosas—Historia do Futu- A Encyclopédie, cujo testemunho
ro — Sermões, obra de todas a énosempre rauito considerado, diz
seu artigo «Portugal»—Ia lunyue
mais notável que deixou este es- de ee p<ii/s, pleine de doaccnr 2^our
criptor eximio e fecundo, e de les díilcatrsses de l\iniour, ne man-
todos os clássicos o mais aucto- que pas d'élévation- dans les sujeis
rizado, apezar dos seus gongoris- héroiques.
C4
CLÁSSICOS
ria 1,0 duque de Lafões funda, 1829). José Anastacio da Cu-
em 1780, a Academia Ileal das nha — Compêndio de mathemati-
Sciencias, que presta incontes- cas. Era natural de Lisboa (1742-
táveis e importantes serviços ás 1787). PiiANCisro Dias Gomes
letras portuguezas, publicando — Varias composições criticas e ou-
um Rrande numero de obras, e tras. Era natural de Lisboa(1745-
fazendo reimprimir outras, fins 179.5). Ui.timos ;\nnos do Sécu-
DO XVIII SBCÜLO. — (poetas) lo xviii E Começo do xix. —
Pedro Antonio Corrhia (Jah- Entre os poetas d'esta época é
çÃo (O Corydon na Sociedade Francisco Manoel do Nasci-
dos Arcades), clássico estimado, mento o mais celebre (Philinto
foi um dos primeiros reforma- Elysio na Sociedade dos Arca-
dores da literatura portnfçueza. des), comi)oz—Oí?«íí — Satyras—
Cognominaram-no o Horacio Epistolas—Traducção das Fahulas
portuguez. Compoz—Odea, Epís- de La Fontaine e dos Martyres
tolas, Sonetos, Satyras e duas de Chateaubriand. Era natural
peças de theatro: o Novo Thea- de Lisboa (17;!4-181!»). Nicolau
tro, e a AssembUa. Era natural Tolentino de Almeida, compoz
de Lisboa (1724-1773). D. An- —Sonetos— Odes— Epistolas — Sa-
tonio DiNIZ da CllUZ E SlI.VA tyras, nas quaes sobresaem a da
(Elpino Nonacriense na Socie- Ouerra e a dos Amantes. Era na-
dade dos Arcades), cognominado tural de Lisboa (1741-1811). An-
o 1'indaro portuguez, compoz — tonio Riiíeiro dos Santos (Elpi-
Odes heróicas ou pindarieas—llys- noDuriense na SociedadedosAr-
sope, poema heroi-comico — So- cades), compoz— Obras poéticas—
netos—Idyllios e uma comedia in- Odes. Era natural de Massarellos
tit\ilada : o Falso líeroisnío. Era (174.5-1818).IIanoél Maria 1?ah-
natural de Lisboa (1731-1799). nosA Du Hocacíe, compoz todos
Domingos dos Rkis Quita com- os generos de poesia — Eleç/ias,
poz—algumas poesias pastoris e Tragédias, Eglogas; mas em que
a 2? tragédia Castro. Era natural mais sobreleva o seu gênio poé-
de Lisboa (1728-1770). P. Dias tico é no Soneto, em (\ue é consi-
Gomes, também um dos refor- derado i]iimitavel. Era natural
madores da lingua portugueza, de Setúbal i'17().")-l 815). José
compoz—Elegias; mas é estima- Agostinho de Macedo, erudi-
do principalmente como critico. to de uma prodigiosa fecundi-
Era natural de Lisboa (17-1.')- dade e critico estimado, com-
179.5). Tiiomaz Antokio Gonza- poz o Oriente, poema épico,
ga—J/arjYía lyras me- cujoassumptoéo mesmo dos Lu-
lodiosas e de inexcedivel mimode síadas—A Meditação—O Newton
fôrma. Era natural do Porto. e muitas outras obras em verso
(1744-1800).(Peosadokes) Felix e |irosa. Quiz ser o Zoilo de Ca-
d'Avei,IjAK Broteuo—Compên- mões, mas com muito máo gos-
dio de Botanica e a Flora Lusita- to. Era natural de lieja (17Gli
na. Era natural do Tojal (1744- 1831). João Haptista n'ALME—
C5
CLÁSSICOS
DA Garret, uma cias illustra- Tratado de Mnemonica, As Es-
ções da literatura portugueza; tréias e muitas outras, além de di-
cabtí-llie a lionra de ter lançado versas traducções de auctores
os fundamenlos do novo theatro latinos, como Ovidio e Virgílio ;
portuguez. Oompoz entre ou- allemães, como Gictlie; inglezes,
tras obras—Camões, poema épico como Sliakespeare; francezes,
—Dona Branca — Adosinda. As como MoliÈre; hesiianhoes, como
tragédias — Merope — Catão — Cervantes. Enriqueceu as pagi-
Philippa de Vilhena—Oil Vicente nas de muitos jornaes com admi-
— Alfageine. — Dramas — Frei ráveis prosas e poesias, entre as
Luiz de Sousa, sua obra i)rima— quaes avultam a Vida de Ana-
Arco de Sant Anna—Sobrinha do creonte, o artigo acerca do Rapto
Marquez — Viagens na minha ter- da Europa, deMoscho, e a poesia
ra, e muitas outras obras em & morte de I). Pedro v. Colligiu
prosa e verso, obras humorísti- muitas poesias admiraveis que
cas, etc. Seu estylo é puro, na- andavam dispersas, num volume
tural, corrente e quasi sempre intitulado O Outomno,a, que o sr.
original. Era natural do Porto Thomaz Ribeiro chamou «uma
(1709-18.54). Alexandre IIer- primavera com fructosn. Era na-
CULAXO.—Ci)mpoz — Historia de tural de Lisboa (1800-1875). L.
Portugal, obra estimadissima, A. Kebeli.o da SiiiVA—illustre
sapientissima e não menos con- escriptor, estadista e orador,
scienciosa—O Monge de Cister, ro- tendo apenas 18 annos iiublicára
mance historico—Eurico, o Pres- o Cosmorama TJterario, Tomada
bytero—A Abobada — O Parodio de Ceuta e desde então uma se-
da Aldeia, diversos opuscuios rie de conscienciosos estudos
muito interessantes e estimados, que lhe deram um nome im-
e as poesias—A Harpa do Crente mortal na historia dapatria. Es-
— Varias. Era natural de Lisboa creveu os romances líáusso p)or
(1810-1878). Visconde de Casti- liomisio, Odio velho não cança,
lho—eminente poeta, uma das Mocidade de 1). João V, sua co-
grandesgiorias de Portugal neste roa de romancista; Ultima cor-
século; contavalC annos quando rida de touros reaes em Salva-
compoz e publicou a sua pri- terra. Casa dos phantasnías, De
meira poesia — Epicedio na sen- noite todos os gatos são pardos.
tida morte de 1). Maria I, a que se Contos e Lendas, diversas Memo-
seguiram duas outras — Afaus- riaít e Compêndios, Pastos da
tissima exaltação de 1). João VI e Egreja, Historia de Portugal nos
o Tejo, e depois a Liberdade, Car- secuUis XVII e XVIIl, Varões
tas de Eclio e Narciso, a Prima- illustres, Elogio Histórica de I).
vera, Xoite do Castello, Ciúmes Pedro r, os dramas Mocidade
do Bardo, Quadros Históricos de de D. João V, tirado do romance
Portugal, A felicidade pela agri- do mesmo nome, o Infante
cultura, Tratado de Metrificação Santo, e muitas outras publica-
portvgueza, T,eitura repentina, ções e artigos com que enriiiue-
DICC. GRAira. 5
66
CLÁSSICOS - -COGNOMES
ceu joniaes por elle mesmo fun- commum esse phenomeno nas
dados. Era além d'isto um exí- linguas primitivas, em que a in-
mio orador parlamentar que tonação é um meio poderoso de
chegava a dominar o auditorio expressividade. No portuguez a
com a sua nobre palavra sempre coalescencia das vogaes tem
colorida e em torrente suavís- exemplos nas contracções: á, por
sima. Era natural de Lisboa aa; ó, antigo, por ao; má, por
(1828-1871)... maa;fé, por/i?«; avô, por amo; ler,
pôr leer etc. Como instrumento
Classificação. — Parte da de expressão, a coalescencia não
grammatíca em que se dispõem tem exemplos nas linguas mo-
as palavras segundo classes ou dernas, anão ser nas interjeições,
grupos. Também denominada como ah! oli! cujo sentido depen-
Taxinomia. V. esta palavra. A de da intonação, e é um jjouoo
classificação no domínio especial ad libitum; conforme o tom, po-
da syntaxe, isto é, da phrase, es- dem indicar varias emoções.
tuda-se na Analyse lógica ( V. Pro-
posições) . Coffuatos. — São termos dos
Claustilas. — São membros quaes um é derivado do outro :
da sentença, quando em con- pedra e pedreiro; choro, chorar,
nexão tão intima, que um de- choramingar; vicio, vicioso, viciar.
pende do outro e até o modifica. Alguns só applicam a denomina-
São tres as clausulas subordina- ção aos derivados de verbos (te-
das— substantiva, adjectiva e ad- nente, doente, replica, demora).
verbial, conforme (em sua relação
com o resto da sentença) eqüiva- Coffuomes. — São os sobre-
lem a um substantivo, adjectivo nomes usados pelas pessoas : Sil-
ou advérbio. A substantiva pôde va, Bastos, Pereira, etc. Etymo-
ser sujeito ou objecto do verbo de logicamente, os cognomes por-
clausula principal, ou ainda ad- tuguezes na maioria represen-
juncto attributívo d'esse sujeito tam nomes de vegetaes e animaes
ou objecto. Começa quasi sem- (Lobo, Carvalho, Oliveira, Pe-
pre pela preposição de ou por pa- reira), ou locaes (Guimarães,
lavra interrogativa, ou ainda pela Dantas, etc.). O cognome forma-
conjuncção que, muitas vezes se do pronome, quando ha deno-
omittidas pelos clássicos, prin- minação de patronymico: Perez
cipalmente com os verbos pare- Ennts, Antunes, Marques, Ilenri-
cer, precisar, etc. (P. Júnior). ques, Rodrigues, Martins, de Pe-
dro, João, Antonio, Marco, Hen-
Gliiiia. — Yide Mesologia. rique, Rodrigo, Martinho, etc.
Os portuguezes e hesjjanhóes
Coalescencia.—Denomina- usam de vários nomes. Os roma-
ção dada á progressão de in- nos livres tinliam apenas tres
tensidade em qualquer valor nomes: o jirenome (proprio), o
phonetico, puro, vogai. É muito nome da familia, gens, e o sobre-
67
COQNOMES -COMMÜNS
nome, que indicava a casa ou noções confundem-se com as
linhagem, v. g.: Marco Tullio cousas que constituem o genero
Ciceio, Publio Virgílio Maro. ou a família. Cavallo é qualquer
Nos primeiros tempos, os roma- animal do genero ; ouro é qual-
nos apenas tinham dons nomes: quer porção d'esse mineral. No
Numa Pompilio, Anco Mareio. emtanto, ha certas noções que
Vide Prenomea. são inseparáveis de um indiví-
duo único : omnípotencía, omní-
Collectivos. — Vide Com- sciencia, noções referentes a
mum (nome). Deus. Entre os nomes communs
ha duas classes dignas de nota :
CoUisão. — Vicio da phrase lí Os collectivos. 2'.' Os abstractos.
que consiste na reproducção e Os abstractos representam noções
frequencia dos mesmos valores de qualidade, acção ou estado.
phoneticos. CoUisão de rr: A E.v.: solidez, lucta, somno, do-
terrúel carreira da guerra. CoUi- ença. Como as artes e as scien-
são de ss (muito mais desagradá- cias representam processos do
vel naprosodia de Portugal); As pensamento ou da actividade,
longas azas azues. CoUisão de II: os seus nomes são abstractos:
Longe, além, a lampada alumia geologia, pintura, gravura, poe-
...etc. São propriamente vicios sia ... Todo o nome abstracto é
de estylo e podem tornar-se, em commum. O abstracto sendo a
certos casos, elementos proprios noção separada (abstracta, tirada
para a pintura das cousas, jjara fóra) do ser, não pckle incluir
a harmonia imitativa e onoma- indivíduo especial, concreto.
topca. O primeiro verso dos Lu- Pc)de-se todavia usar do abstra-
síadas parece a miiitos vicioso, cto pelo concreto : a sciencia al-
por causa da collisão de ss fi- leinã,' pelos sábios allemães; a
naes: As armas e os barões assi- christandade, a juventude, por-
gnalados. Vicios semelhantes são os chrístãos, os moços, etc. (1)
os eehos, cacophatos, equívocos (ca- Os COLLECTIVOS são palavras que
limburs), etc. no singular exprimem uma por-
Collocação (dos pronomes). ção de cousas óu de indivíduos.
— Vide Pronomes. Em geral, O collectivo representa um
também se refere a Ordem, In- ral logico, apenas expresso na
versão (hyperbaton), Construcção, ídéa: multidão (muitos indiví-
Concordância. duos). Os collectivos são indistin-
ctos quando se applicam a qual-
Coinbiiiaçõe.s (de prono- quer grupo de seres. Ex.: multi-
mes).—Vide Pronomes. dão, porção, cliusma, etc. Ha,
collectivos dístinctamente appli-
C01111UU11.S.—Classe de sub- caveis a certos grupos anímaes
stantivos que exprimem idéas e humanos : (Jrupos humanos—
genericas, isto é, que podem
convir a vários indivíduos. Essas (1) Mason—.-1 shortcr Gramm.
08
COMMUNS — COMPLEMENTO
turba, junta (tlieologos) ; con- Comparação. — Vide Me-
gresso (sábios, letrados) ; roda, thodo comparativo.
parlamento, circulo, regimento,
terço, pelotão, divisão, corpo, Comparativos. — Vide
exercito, collegio, familia, ba- Oráo.
talhão, tribu, manga (de arca-
buzeiros), súcia (pejor.), con- Complemento. — A noção
selho, assembléa, mourama de complementos, própria do
(mouros), corja (pejorativo), fra- antigo methodo de analyse, eqüi-
daria, rancho, rapazio, mulhe- vale á actual de ad.jünctos, se-
rio, troço, genteada, gentio, gundo o methodo explicado e
etc. Grupos animaea (e por ironia vulgarizado por Mason. Vide Pro-
ás vezes de seres humanos) : posições. Em alguns casos, o co?n-
aves, bando; insectos, enxame, representa o objecto, com-
myriaãa; bois, boiada, manada ; pletivo, etc. Pôde haver caso
peixes, cardume, cambada; ca- de duplos complementos e de di-
melos, r«cMa, cafila; lobos, aZca- versa regencia com o mesmo
íea ; cabras,; porcos, vara, verbo ? Eis o que acerca d'esta
manada ; ovelhas, rebanho ; cães, questão escreve o illustre phi-
canzoada, matilJia ; burros, hurri- lologo Mario Barreto : «No ca-
cada, traria; cavallos, tropa, pitulo da Regencia formulam as
récua, etc. Grupo de cousas: nossas grammaticas portuguezas
corja (sedas), dinheirama, pala- uma regra que prohibe dar a
vreado, algaravia, gritaria, pape- dois ou mais verbos um comple-
lada, pancadaria, courama, gai- mento commum, se pedem elles
tada. cordoalha e oordame, bra- complementos de natureza dif-
zido, taboada, tourada, vasi- ferente : o filho estima e obede-
lhame, vozeria, velame, massa- ce-lhe : conheço e gosto d'aquella
gada, chusma, chumaço, cachei- mulher , assisti e applaudi o es-
rada, paulada, etc. Cumpre pectaculo. Rodrigues Lobo, Viei-
notar que existe o processo de ra e Oamillo infringiram a regra,
coUectivos por derivação, e são quando escreveram : «Se nisto
innumeraveis os typos d'esse que me ouviste, achas alguma
genero : boiada (de boi), canzoada coisa que te contente, e queres
(de cão), já citados, teclada, voze- ir commigo, pois é já larde, te
ria, gritaria, porcaria, falatorio, iiospedarei na minha cabana, na
laranjal, bananal, olivedo, arvo- qual podes entrar sem temor,
redo. dormir sem perigo e sair sem
saudade.» (Francisco Rodrigues
Coinmum de dois. — Ex- Lobo—O pastor peregrino, pag.
pressão consagrada para desi- 20.) «Muito bom é que vossa ex-
gnar os nomes que indicam, cellencia chame vingança ao
sem variação, os dous sexos e silencio, com que eu recebi, e
generos ; consorte, complice, côn- me conformei como meu castigo.
juge, martyr. (P. Antonio Vieira—Apiid Cal-
69
COMPLKMENTO — COMPOSTOS
das Aiilcte, (hdmm. Nacional, Coiuposto.s. — Os processos
pag. 110.) »ü visconde jiostára de composição no portuguez de-
espias 110 Rocio paraespi-citarem finem-se segundo duas direcções
as pessoas que entraram e saíam preponderantes: Ponri{EB'ixos
do hotel dos Irmãos Unidos. —Formam-se os neologismos de
Esta asneira define satisfacto- palavras precedidas de partículas:
riamente a policia e o visconde. de ver, prever ; de dizer, redizer,
Fossem líí conhecer Constan- contradizer, etc. (Vide Prefixos).
tino entre quatrocentas pessoas, 2? PoK juxT.iPoaiçÃo. — Vocá-
que entram e saem ífaquelle bulos aprincipio independentes,
areoiiago....» (Camillo Castello reunem-se e formam novas pa-
Branco — Vingança, cai). XV, hivras : heija-flór, hem-te-vi, saca-
pag. 152). Todos esses e.xemplos rolhas. As vezes, sobretudo nas
são errados, devem-se corrigir, formações antigas, a ju.xtaposi-
mudando-se a construcção da ção é tão perfeita que só a ana-
phrase, dando-se a cada verbo o lyse revehi as partes componen-
complemento que lhe convém : tes. Tal ó a juxtaposição dos
o filho estima-o e obedece-lhe : tres elementos de punãonor,
coiiheço aquella mulher e gosto pun -f-d'onor, no francez
d'ella ; assisti ao espectaculo e o point d'honneur. Os compostos são
applaudi....; na qual p()des dor- ou originados da própria língua
mir sem perigo e da qual podes (vae-vem) ,ou de linguas estranhas
sair sem saudade...; com que (estibordo, de steuer, leme, e horã),
recebi o meu castigo, e me con- ou jií vieram completamente for-
formei com elle ; as pessoas que mados do latim : solsticio (sol-
entravam no hotel e saíam sticium, de sol e stare). || Elemento
d'elle. O mesmo se observa na latino. No latim éde rigor notar
lingua franceza, onde são incor- que ha duas classes de compos
rectas phrases como a seguinte ; tos, os syntacticos e os asyntacti-
«11 attaqua et a'empara de Ia cos. OsprimeiroscontÊm elemen
ville», porque se diz : «attaquer tos que mantêm entre si a su-
une ville, s'emparer (rune ville.» bordinação grammatical : repu-
Esta regra, idêntica nas duas blica, genitivo reipublien ; jusju-
linguas irmans, não é uma regra randum e jurisjurandi, etc. São
arbitraria, nem artificial. Porque syntacticos pela origem : rosma-
não podemos dizer—eu estimo e quare; ninho, rosmarinus; ardi. car,
oledeço-lhe? com elemento de ac-
cusativo, cireumdar(c\vc\xm, acc.
ãfí circus), etc. Com genitivo:
Ooiiipletivo. — Vide Propo- aciueduclo, aquivductus; arch.
sições. lunes, lunace dies; arch. mer-
coles, mercurii dies, etc. Com
Complexos (proposição, su- o dativo: fideicommisso, fidei-
jeito, etc.) — Vide Proposição commissum; crucifixo, erucifi-
(analyse). xiis. Com o ablativo : hoje, ho-
70
COMPOSTOS
die, Jiuc die. Referir, refert; A) kvestnu., avU-struthio ;
usurpar, usuripare (ripare, ra- pedra-pomes; raba-vento; lobis-
com vestígios de locativo : homem, lobis, lupum; cappa-
•prim.0,primus; pri, loc. de pelle (Elue. Vit.) ; dia-noite,
Com vestígios do instrumental (id.); pimpollio, pampano-o\\\o ;
em a dos elementos circa, intra, sanguesuga ; gallioanto ; mano-
contra, extra, ultra, infra, supra, bra, man, manum ; quartel-mes-
que entram na composição de tre ; beija-ílòr ; madreperola ;
muitos vocábulos : supradito, madresilva ; mordomo, lat. ma-
ultramar, contradicção, etc. O ítomAí (maior da casa) ; ferro-
instrumental por vezes traz a carril ; condestavel, romes stabu-
terminaçilo transformada em fo'; fidalgo, fi ('/iyo, filho) d'algo
contro, intro, retro : retroceder (alguém); artimanha, fartem ma-
introduzir, etc. Convém obser- gicam ?J ; v&vàpáo ■, pernilongo ;
var que a alteraç.ão phoneticade- ponteagudo (ponta): le-perjiiro
stróe as fiexões, e assim a analo- (Eluc. Vit.) ; barbiruiva ; ca-
gía; proconsul, em vez de pro bisbaixo, cabis, caput; manal-
cónsule; o adj. egregius, por e vo, man, ; viandante, vi,
grege ; iimgnis, por Í7i signo ; oh- fementir, fé-/ííteíi ,• logar-
vius, por '>b viain; naufragium, tenente; manietar, atar, ligar;
por nams fragium, etc. São metermentes (Eluc. analogo a
asyntaclicos pela origem latina, animadvertere); terrapleno ; sal-
além de vários outros, os seguin- pimentar ; manter, mana tenere ;
tes: biforme, hiformis; centi- carcomer, car, carne; faz-alvo
mano, centimanus ; equilíbrio, {Eluc.) faz=;face,; olhl-
aguilibrium; m-.v^wMÚmo, magn- negro; vangloria; longa mira,
animus ; mediterrâneo, medi-ter- mirar, v8r ; salvaguarda ; perde-
raneus ; pamipede, pulmi-2yes ; ganha ; belladona ; rico-homem;
funambulo,/M)i«»iiwÍM,'(,-fratrici- malversação; meio-dia; malgra-
da, homicida, etc. (de cedo); edi- do ; gran-vizir ; planalto ; gran-
flcar (mdis, casa) ; os compostos mestre ; gentil-homem ; abetar-
fero (vociferar), gero (tlammi- da, avis tarda ; betafda, id.; pin-,
gero) , vomo (ignivomo ; ignis, ta-rôxo; vinagre, vin'acrem; mor-
(fogo) (l),í'«»«s,raça(primigeno), cego, muremco-.cum, muricêgo;
potens, poderoso (bellipotente, verdegaio, fr. gai, alegre ; turba
bellum, guerra), etc. Vae em se- multa, multua, lat. muito ; sem-
guida uma lista de compostos razão ; semsaboria, catavento ;
assimilados ou não, sem ordem sobremesa, fidalgo ; aguardente;
determinada. Fazemos a analyse rabicurto. B) Nos nomes pro-
sómentedos que não forem im- íjto.* a composição tem muitos
mediatamente comprehensiveis; exemplos, quer tenham fácil
evidencia ou estejam deforma-
(1) Nos verbos ha as partes/ca- dos pela, alteraçao phonetica :
Te, \)ov fiicere ; ri[)are—rapere ; te- Murianna (Maria Aiina), Gil-ia-
rare—ferre, etc. nes (Gil Eannes) ; Santarém
71
COMPOSTOS
(Sanflrene); Tiago (saii-i-IaRo); numero de termos com o verbo
Fonseca (Foii-te seca); Alemte- porter: porte-plume, etc. Essa
jo, Ribatejo, Penafiel, etc. Nos tendencía de limitação também
nom(!S geogiiiphicos cio Brasil se aprecia no portuguez : assim,
não ha outro processo senão o sobre o typo artimanha (artem-
da composição dos elementos magicam) formou-se yatimanha.
tupis : Itaj)uã, pedra redonda ; O elemento hora prestou-se ils
Ara-cajn (abundancia de cajus), formações embora (em boa hora),
etc. C) Das palavras que for- agora (1. hac hora), aramã (ant.
mam a trama frrammatical dei- hora mií). Não é somente sob
xamos de notar os oom))ostos esse aspecto que realça a utili-
como os determinativos e partí- dade d'essa analyse. Por ella
culas : agora (hnc hora), algum ainda recebemos uma comprova-
(algo-um. aliq^wium), ele. A ção de que o accusativo foi o
composição d'esses vocábulos caso latino que generalizou-se e
sení estudada em cada uma serviu de estádio íntermedio íís
das categorias a que pertencem. formas recentes. Com elfeito,
D) Os compostos que se formam assim o testemunha a presenço,"
dé elementos de línguas diffe- do r em morcego (murem coecuma
rentes (como o grego com o e marmota (murem montis). É
latim. V. pliottígrmura) cha- evidente ahi que o r não poderia
mam-see d'eUes tra- provir do caso nominativo mm.
taremos no logar apropriado. E) Ainda opera-se a composição de
«O passo choreographico conhe- vocábulos com inteira inconsci-
cido por Varsoviana (de Varso- encia do significado de certos
via) foi pelo povo assimilado em elementos alíiis existentes na
talua tianna. Foi ainda a analo- lingua ; assim foi queadoptamos
gia quem traduziu claire-voie as formações italianas nwnte-pio,
por claraboia, a palavra hoia não monte-soccorro, esq uecen d o-n os
podendo, pelas leis phonicas da de que monte na lingua italiana
península, ^derivar-se de via designa o estabelecimento ban-
(clara via). K por esse processo cario. Ahí a palavra monte pela
que vemos ser ciiptirima com- transcripção adquiriu em nossa
posta não de capa e rosa, mas língua novo significado. Por um
sim do germânico kupferanche modo inverso é que, sem adian-
(cinza de cobre), segundo Littré. tar significação organicamente
No composto balança romana, decisiva, adoptámos as formas
o segundo eiemento não é o ad- estranhas, comoUnga-lenga (hes-
jectivo que parece, mas sim ro- panhol), •Arc\vA,\ao julavento (giu-
mana, arabe, que significa peso la-vento), belladona, Ji-d-algo, etc.
e contrapeso. Conví^m notar Nesta categoria têm logar os com-
ainda a restricção de vocábulos postos de b, signal orthographi-
aptos para a agglutinação ou co musical, bemol, bequadro, e
juxtaposição. como succedeu ao ainda o castelhano antojos (ojos-
francez, que compoz um sem olhos). Merece especial memória
72
COMPOSTOS
a uístrusíio de especimens léxi- ker (church), mare (égua), ge-
cos france/.es motivados pelo do- refa, etc. O processo originário
mínio da casa de Borgonha nos portuguez manifesta-se perfeita-
primeiros tempos da monarchia mente agglulinante em benzer
lusitana; apontemos guardanapo (bene-dicere), amparar (manu-
(fr. nappe), verdeyaio (ir. gai), parare), mmrdomo (maj o r-d om us),
e mais modernamente charcute- mandobre (a duas mãos), pimpo-
ria (chaircuite). Comqiianto seja Iho (pampano-olho), salitre (sal-
um facto de syntaxe romanica, nitrum), pedrahume (petra alu-
conjecturamos que sobretudo lí men), vinagre (vinum acrem),
influencia franceza devemos os ourives (auri-ficem), ouropel (au-
compostos pronominaes menino ri-pellem), morgado (major-gna-
(meu nino), mossém (arch. meu tus), enteado (ante-iuitus), mal-
senhor), e provavelmente zaado- lograr (mal-lucrar), mascavo (me-
na (mulher livre), segundo as nos-acabado), abetarda (avem
analogias francezas monsitur, ma- tardam), cabisbaixo (caput bas-
danie. Quanto ao dominio das sum), abestruz (avis struthio),
■ línguas neo-latinas, quasi sem- condestavel (comes-stabuli), ros-
pre se p(5de estatuir a i)roceden- nmninho (tos marinus), sassafràz
cia de um ou outro vocábulo (saxi-fraga), lampreia (lampetra
pela simples inspecção. Assim, cf. fr. lamproíe), acompanhar
por exemplo, a preposição stib ant. compengar, cuni-paniare),
se nos assignala pelo hespanhol Jísmto (bis coctus), calamina(\%.
sob a tórma no, como em socapa, gíalla-mina), bismutlio (weiss-
sopapo (debaixo do queixo) (1). muth, branco desmaiado), mala-
Nos compostos italianos,a forma ria (ital. mararia), acebo (aqui-
de svb é soto e encontramol-a em foiium), trevo (trifolium), xo-
sotopor, sotovento, etc. Os produ- frango (ossí fraga) acahrunhar
ctos de formação germanica já (caput-pronare), apear (de a. pé),
têm sido estudados no que re- samhenito (de saco benito), san-
speita ao francez e portanto em íetoio (Sant'Ermo, Erasmo), ma-
geral ás línguas romanas. Apon- riposa (^man y posaV averiguar
temos aquelles em que se deu mai- (verum collare), corucheu (fr.
or agglutinação e deformidade : courechief, toucado), vesgo (biso-
arcabuz, haken butte ; albergue, culus), petipé (fr. petit pied),
heri berga; kermesse, kermiss apaniguar (puiiis-J-aqua),potassa
(liam.); marechal, Mare-Schalk; (pot-ashes), etc. 1| Outra allu-
xerife, Scir gerefa (saxonio). vião de compostos entrou na
Os exemplos bastam para a faoil língua portugueza por intermé-
intelligencia dos que conhecem dio das línguas semíticas, no-
a língua iiigleza, onde ainda se meadamente pelo arabe. Exem-
encontram os mesmos radicaes plos : azar, az lahr, dado de jo-
gar; azarcão, azzirai cür, côr au-
(1) Podem ser fôrmas vernáculas rea; bemjoím, laban Jauin, incen-
dentro dos limites da phonetica. so de Java; masmorra, mats-mora.
73
COMPOSTOS COMPREHENSÃO
cova subterrea; hosaniia, liosah- taire, a orthographia de oi e ai
nâ, salve, Ilcbr.; alleluia, llal- não estava fixada. — Contraãança,
lelu-Iah, louvae a Deus 11. , l)a- mais correcto seria contredança,
tnca, abú-taka, o pao ila janella. A f(5rma primitiva é cnuntry-
E de interesse IGr-se em ^lax dance no inglez, dança do paiz.
Müller a explicação da etymo- — Santafolha, de centifoUum; a
logia de jíjateca. Veio através do forma santa foi devida lí inlluen-
arabe o vocábulo julepo. do persa cia de alguma virtude da planta.
jul-ah (agua de rosas).Os C0mi)0s- —Mono (bugio), der. do femini-
tos mexicanos são numerosissi- no mona, contracção de madona.
mos. Alingua americana deu-nos Designação italiana (Sayce). —
chocolate, úe kalah huntl. [[Agora Anupeçada veio pelo francez ans-
(í tempo de analj-sar uma nova pessade, do italiano landa spez-
concepção dos compostos. As zata. O l caiu naturalmente por
desviações morphicas e phonicas se ter supposto um artigo no
produzidas pela inconsciencia francez. Barba ejambarba.
popular constituem phenomenos A palavra procede de jovübarba.
teratologicos, de que ensaiare- O povo não fez mais do que as-'
mos algumas explicações. Tiago, similal-a a typos ,vernáculos.
nome proprio. A forma conecta Santarém (cidade). K conhecida
seria lafjo, por isso que o t é um a corrupção dos nomes próprios
vestigio do composto Sant'Iago. e as deformações que soffrem.
A ra/.ão da permanencia do t ex- Santarém deriva de Sant'lliren-
plica-se pela existencia do quali- nia, da mesma fórnia que Santi-
ficai ivo abreviado San. (]ueobli- Uiana origina-se de Saneta Ju-
terou a letra final que lhe per- lianna. Malcaisco. Chegamos a um
tencia.— Tamarinão e não tama- caso digno de interesse. No fran-
rinho. Essa sufíixação anormal cez e portuguez operou-se ahi a
explica-se, visto como a palavra inversão dos elementos forma-
é um composto introduzido no tivos; Idbiscus malva, guimau-
occidente. TamaraU-lUndi. —• ve: malva hibiscus, malvaisco.'
Tramontana. A palavra é italica A razão é talvez a de no portu-
e é'o designativo da estrella po- guez o elemento malva por ante-
lar que, para os pilotos genove- rioridado preceder outros com-
zes e venezianos, os primeiros da postos, como malta-maçã, etc. A
edade média, brilhava além da nossa conjectura funda-se em
linha orographica central da Eu- exemplos similares. Pundonor,
ropa. Tramontana extensivamen- composto de pun<Vonor, no fr.
te começou a designar o norte ; point d'lionneur.
d'ahi a expressão ; perder a tra-
montana. A forma portugueza, Coiupreheusão.—Termo de
se existisse, seria traz-montana. lógica. A comprehensão do vo-
— Ohoé é uma maneira ortho- cábulo resulta da extensão, e
griphica de haut bois. Como se está em proporção inversa d'esta.
sabe, no franoez. antes de Vol- Quanto maior fôr a extensão do
74
COMPRKHENSÃO CONCORDÂNCIA
vocábulo, menor é a sua com- curso (1). «Denomina-se concor-
preliensão. Assim, animal ó mais dância a correspondência de
comprehensivo ilo que s«r ,■ flexões, i. é, a maneira de
porque este, mais extenso, appli- relacionar as palavras umas
ca-se a maior numero de cousas. com as outras, segundo as re-
Oanallo 6 mais comprehensivo do gras da syntaxe. Distinguem-se
que animal; Incitatus (nome do diversas concordâncias : a do
cavallo de Caligula) é mais com- verbo com o sujeito, em numero
prehensivo do que eavallo. Astro e V'*^ssoa ; a do adjectivo com o
é um nome obscuro, pouco com- substantivo, a do sujeito com o
prehensivo por ter muita exten- attributo e a do relativo com o
são, isto é. applicar-se a vá- seu antecedente, em genero e
rios seres ; lua é menos extenso numero ; a da resposta com a
6 por consejjuinte de maior com- pergunta e a dos nomes appos-
prehensão. tos ou continuados, em identi-
dade de circumstancias ou rela-
Concaiii.—Linguada índia, ções. Estas relações de concor-
pouco divergente do Maratlia, e dância são indicadas ou pelas
diaiecto do lündi, da famiiia posições, ou pelas terminações
aryana. Hoje está muito mistu- das palavras que as exprimem.
rada de portuguez, do qual Exemplos das diversas concor-
recebeu notoria influencia. Na dâncias : Do VBinio com o sü-
região do concani, a lingua es- JBITO : — o nascimento em todos
criptaé prefeVidamente o portu- é iffual, as obras fazem os homens
guez. ApiilavrapíííreíTO, já notada differentes. Veja Sujeito. Quando
por Thomaz Ribeiro, talvez se o collectivo geral é seguido de
ligue ao pitã (beber), do con- um substantivo no plural que
cani (cf. 1. potare). As palavras determina o sentido, e ao qual
portuguezas adoptadas no con- está ligado pela preposição de,
cani soffreram modificações pro- estando este plural comprehen-
sodicas importantes ; boiílo, dido no singular, como a espe-
boyanva; christão, cristanva; co- cie no genero, o adjectivo e o
lher, colhera ; leilão, leilanva ; verbo concordam com o colle-
tabaco, tabacú. No concani ctivo, e não com o substantivo do
encontram-se vários radicaes plural : exemplo : o exercito dos
do arj-aco occidental : tappy, infiéis foi derrotado ; a junta dos
diminutivo de tappata, bofetada, médicos approvou o relatorio.
tapa cf. Quando o collectivo geral vem
s(), ou seguido de um substan-
Coiiclu-sivas. — Vide Oon-
juncçõen. (1) Sendo olijectd de mais demo-
rada consideração, aconselho ao
Coiicordaucia. — Relação leitor <pie leia o que escrevi na
lógica ou material que existe ultima ed. da Grammalica por-
entre as partes variaveis do dis- tiujwzíi (Curso Superior).
75
CONCORDÂNCIA
tivo no siiifíiilar, o adjectivo e o vós sereis estimado, se fordes in-
verbo podem concordar com o struido. Nós abaixo assignado, di-
collectivo no singular, ou con- rector da alfandega de... etc-
cordar no plural com todos os Quando se emprega vós falando
indivíduos comprehendidos na a uma só pessoa, segue-se a
collecçuo. Exemplos: Jimia con- mesma regra. Exemplos : vós sois-
corrido miíUa yenU que parecia um verdadeiro amigo. Vós ficastes
pobre ou pareciam pobres. Come- abandonada, ilas é raro empre-
çou a quebrantar o povo, com di- gar-se este pronome na conver-
■cersos gramnus, tirando-llie as sação ou no estylo epistolar:
fortunas, para melhor o dominar freqüentemente se usa da ü? pes-
Úmidos e sujeitos. A maior parte soa do singular, se falamos a
d'esta misera gente dorme ou uma só pessoa, e da 3Í do plu-
dormem no chão. Ditosa gente que ral, se a mais de uma, empre-
não e maltratada ou que jião são gando, em vez do sujeito vós, o-
maltratados de ciúmes. E gente sr., a sr?, ossrs., as srí®, v. sí, v.
cega (1), nem a estimo ou os estimo, sí'^, V. ex®, v. ex?"* etc. Sendo o
nem serve ou servem para cousa pronome vós complemento di-
alguma. Quando o collectivo recto, emprega-se usualmente
partitivo do singular c scffuido alguma das variações—o, a, os,
d'um substantivo no plural, ao as,—ou algum dos precedentes
qual está ligado pela preposição tratamentos—o sr., asnr?, etc.;
de, acliando-se o singular com- V. g.; saia para que o não vejam.
prehendido no plural, como a Nós a acompanharemos, minha
parte no todo, o adjectivo e o senhora, ou—nós acompanha-
verbo devem ir ao plural. Exem- remos a lletirem^se antes que
plo ; estavam juntos alli uma infini- os vejam, ou—que as vejam, ou—
dade de homens ; uma multidão de que vejam os snrs., as snr')^, a v.
fogueiras, que de continuo ardiam, a V. ea?"* Sendo comple-
allumiavam a fumaça da polvora. mento terminativo, emprega-se
Concordância do adjectivo alguma das variações—lhe, lhe»
COM o SUBSTANTIVO : — OS passa- — pelos ditos tratamentos, ou
tempos hão de ser raros, honestos e estes, regidos da preposição a ;
tão comedidos que a temperada (2) V. g.: digo-lhe ou digo-lhes com
musica da honestn vida se não des- franqueza... O que lhes digo é
tempere. Mas (luandoospronomes verdade, ou — o que digo aos snrs.,
nós, vós, só representarem uma a V. a V. é verdade. Nos
pessoa, o adjectivo colloca-se no tempos compostos dos verbos,
singular. Exemplos : meu filho, auxiliados pelos irregulares—ter
ou haver, ú o participio invariá-
(1) Povo ignorante, sem couta vel, (juer o verbo esteja na voz
nem respeito. activa, ou seja pronominal ; v.
(2) A regra é appiicavei ao ar- oslivrosque tenho (ou hei) lido;
tigo, e ao ]>articipio quando va- as casas que tu tens (ou has) eoin-
riavel. praão; se ellas houvessem (ou ti-
70
CONCORDÂNCIA
vessem) pensado; se nós nos ti- plo seguinte : os moveis, e nlo as
véssemos (ou nos liüiivcssemos) casas, foram penhorados pelo cre-
lembrado, etc. Jlas, se aos auxi- dor; porque, neste caso, o sub-
liares ter ou haver se seguir o stantivo mais proximo do par-
participio sido, a voz é i)assiva, e ticipio é excluido da affirmação
então o participio perfeito con- pela partícula negativa—não. Se
cordará com o sujeito da oração ; concorrer um substantivo do
V. g.: elle tem sido estimado; ellas plural com outro do singular, o
têm sido muito estimadas. Se con- adjectivo, cm regra, concordará
correrem dois ou mais substan- com o do plural ; exemplo: as
tivos do singular e de genero fazendas e o dinheiro eram muitas.
diirei'ente, o adjectivo concor- Não são nossos 2Mderes e liberdade
dará com elles no plural e na tão limitados. Encontram-se nos
fôrma do genero masculino. clássicos excepções a esta regra ;
E.Kemplos : o marido e a mulher v. g.: era muito o dinheiro e as
ambos são generosos ; um dia e uma fazendas; acaso porciue deva
noite eram ^lassados. Notou o arce- concordar o adjectivo com o sub-
bispo que o manteo e a roupeta que stantivo mais proximo, se na
(o clérigo) trazia, além de rotos, collocação os precede. Nem sem-
estavam no ultimo fio de velhos e pre têm os clássicos observado
gastados. Quando um adjectivo esta regra : é portanto melhor,
se refere a muitos substantivos para satisfazer á euphonia, evi-
do mesmo genero e numero, tar a reunião de substantivos de
concorda em genero, mas vae ao genero e de numero dilTerentes,
plural ; v. g.: pae e filho honra- ou dar !> cada um seu adjectivo
dos ; mãe e filha formosas. Sendo, liarticular ; v. g.: os dinheiros
porém, os substantivos de signi- eram aviUtados e a fazenda muita;
ficação semelhante, o adjectivo ou antes empregar um adjectivo
concorda com o ultimo ; e.xem- uniforme para que este possa
plo : não nas bonanças mas na concordar simultaneamente com
adversidade se conhece o amor e a os dois substantivos : v. g.:
amizade verdadeira, ou a amizade as fazendas e o dinheiro eram im-
e o amor verdadeiro. Se concor- portantes, consideráveis. lÂções,
rerem muitos substantivos do discursos e conferências breves.
plural e de genero dilferente, o Quando os adjectivos ou os par-
adjectivo concordará com o mais ticipios- precedem os substanti-
proximo; exemplo : seus temores vos Majestade, AUeza, Eminência
e esperanças eram vãs, ou eram Excellencia Senhoria, Mercê, etc.,
vãos seus temores e esperanças. concordam com estas palavras em
Paris tem bonitas ruas e passeios; genero e numero, v. g.: sua ou
vimos casas e jtalacios derrubados. vossa Alteza, suas ou vossasAl-
Algumas vezes, comtudo, o ad- tezas ; vossa real Majestade; mas
jectivo ou o participio concorda se os substantivos forem segui-
no plural com o substantivo dos de adjectivos, de pronomes
mais afastado, como no exem- ou de participios, estes concor-
77
CONCORDÂNCIA - - CONDICIONAL
dam em geuero e numero, não adjectivos com o genero e nu-
com estes substantivos, mas mero de seus substantivos, e as
com a pessoa ou as pessoas a terminações dos verbos com o
quem se dá estes titulos; v. g.; numero e pessoa de seus sujei-
vossa AUeza é caritativo, se é a tos.» (Do Escoliaste portuyuez).
um homem que se fala, carita-
tira, se é a uma senhora; tossa Coiicor<liiiite.s. — Dizem-se
Eminência está convencido ; vossa as palavras cuja relação de iden-
Mercê (1) é honrado ou honrada, tidade mostra que as idéas,
segundo o sexo da pessoa a quem expressas por umas, se harmo-
se fala. Com o nome pessoa, o nizam com as que outras signi-
adjectivo e o participio collo- ficam : esta relação c mais ou
cam-se sempre na forma femi- menos evidenciada pelas termi-
nina., qualquer que seja o sexo nações e pelas posições. São con-
a que pertença ; v. g.: este su- cordantes o adjectivo com o sub-
jeito é pessoa minha conhecida; é stantivo ; o verbo e o attributo
pessoa muito estimada essefunccio- com o sujeito; o relativo com o
nario. Concoudakcia do su- seu antecedente ; os àppostos ou
jeito COM O SEU AD,IECTIVO continuados com os nomes a que
ATTiiiiiUTiA-o fora dos casos refe- se appõem, etc.
ridos : — o mão exemplo é conta-
gioso ; toda a affectaç.ão é ridicula; Concordar. — Diz-se em
os bons amigos são raros ; as gran- grammatica todas as vezes que,
des dores são mudas. Co>'COKDAX- compondo ou analysando qual-
CIA 1)0 RELATIVO COM O SEU quer oração, período ou dis-
astecedi:nte —falei com o su- curso, attendemos á disposição
jeito. o qual (sujeito) me disse ser terminativa das palavras varia-
aquellaavoz, que (a qual \'oy.)nós veis, subordinando-as ás regras
aliviamos. Concoudancia da harmônicas da concordância e
BESrOSTA COM A PERGUNTA— da regência. Veja estes artigos.
d'onde vens f de Lisboa; a quem
serves ? a Deus ; com que contas J Concreto, a.—Em opposi-
com a sua clemencia; porque a çãoá palavra abstracto, diz-se con-
estimas f porque é virtuosa. CoN- creta a qualidade considerada
CORDANOIA nos AI"I'()STOS OU num sujeito. A avareza em con-
CONTINUADOS : — a idéa, esse creto, isto é, unida ao sujeito,
verbo creador ; empréstimos, ruina vale tanto como o avarento.
dos Estados ; 8ara, mulher do
Abrahão... ])i/.-se de concor- Condicional.—Modo iiue
dância a synta.\e que ensina a exprime condição dependente
conformar as terminações dos de qualquer clausula. A flexão
do condicional não a possuia o
(H Por abreviatura ou eoirupção latim ; é original das linguas
das (luas palavia.s, dizeiu alguns romanas e produziu-se pela
Vocemccé. agglul inação do verbo haver :
78
CONDICIONAL • -CONJUNCÇÃO
Amar-ia, por amar-hama, amare CON.IUNCTIVA é a conjuncção
liabebat. Os elementos componen- composta de mais de um vocá-
tes aiiidu se desapgregam no caso bulo : ainda que, comtanto que,
da tmese: far-íe-ia.amar-nos-iam. pior conseguinte. A fôrma em
A funcção do condicional pôde mente : conseguintemente, é verda-
ainda ser exercida por dous tem- deira conjuncção. Taxikomia.
pos do indicativo. 1? Pelo mais As conjuncções classificam-se
que perfeito: Eu o applaudira, em dous grupos ou classes :
ainda quando nito merecesse. 2? 1? ciiASSE. Abrange os nexos de
Pelo imperfeito: Eu, em tal coordenação das proposições : e,
caso, escrevia assim. Essa trans- também, ou, nem, o-utrosim, ora,
lação é a mais popular e a que, pois, ou, quer, seja, coma, mas,
portanto, tende a substituir os porém, todavia, já, logo. Subdas-
outros empregos. A translação sificam-se conforme o emprego
do mais que perfeito 6 usual nas e sentido: copulativas : c, t-àxn-
línguas romanas, maxime no bem ; adversativas : mas, porém,
castelhano. O portuguezéaunica todavia ; conclusivas: logo. por
língua quê conserva o emprego conseguinte, ele.; ãisjunctivas:
etymologíco puro do mais que nem,ou, ora. 2? classe. Abrange
l)erfeito. propriamente os nexos de subor-
dinação : condicionaes: se, não,
Coiidicioiiaes.—Vide Con- comtanto que; concessivas: quer,
juncção. embora ; teniporaes: como, (luan-
Conjugração.—Vide Yerho. do, antes que; eausaes : porque,
como, que,etc.; integrantes-, que,
Coiijiiiicção.—Categoria em como, si (Júlio Ribeiro). Cum-
que se classificam as palavras pre notar que as sub-classifica-
que mostram relações existentes ções das conjuncções em conclu-
entre juízos ou proposições; v. g., sivas, eausaes, etc,., são puramen-
entre existir e solTrer pôde haver te enganosas, e escapam á rigoro-
relações varias : Soffro, logo exis- sa delimitação, pois que essas
to ; soffro e existo; solfro, por partículas não possuem rigor de
conseguinte existo ; sotfro, mas sentido, e têm o caracter de ne-
existo ; sotfro, porqxie penso e xos formaes, elementares, sem
existo, etc. Todas as palavras po- conceito fi.xo, sempre dependen-
dem mudar de categoria ; o adje- te do emprego e do arbítrio do
ctivo, V. gr., pobre pode empre- uso, no di seurso.MonriiOL. e ety-
gar-se como substantivo, etc. A MOL.—E, eí/ se, si; mas, ma-
conjuncção e p<)de ter e tem gis; porém, ant. por ende, jyro
etfectivãmente o valor de prepo- iiide; nem, nec; como, de quo-
siçtio nas sentenças irreãuctiteis inodo e cum, ant. port. cume;
(V. Proposições) : dous e dous que, e r/Mí; senão, si, non
são quatro (dous com dous, dous (nísí); ou, ant; i&,jam. São des-
mais dous). Nesse caso é uma viações : quer, de querer ; vel, de
simples preposição. Locüç.\o Tolo; seja, do verbo ««r; ora, do
79
CONJUNCÇÃO — CONSOANTES
substantivo hora ; logo, do lábio inferior. O grupo tam-
subst. loco. São compostas : to- bém representa esse contacto. 3?
davia, tota vice ; embora, in bo- genero.—id (1). 4?genero.—Lin-
na hora; porém, já citada ; e as guaes anteriores sibilantes : z, j,
que se formaram sobre elemen- X e cli brando. 5?' genero.—Lin-
tos modernos : tam-hem, outro- guaes anteriores mudas: l, r, d, t.
sim, por-que, por-quanto, se-não, 6? genero.—lÁnguaes: g, q, k, ch
etc. A conjuncção, fundamen- forte. 7? genero. — Outturaes (2)
talmentç, funcciona como verbo 8? genero. — Consoantes nasaes: m,
e exprime um conceito atrophia- n, duas letras cuja relação éequi-
do. As terminações latinas em valente á de bd, ou segundo a sua
t: et, aut, ait, e as formas ver- formula ; e, segundo a
baes seja, qwr, etc., indicam a expressão do proprio Gerdy, m e
natureza intima d'essa categoria rasão as mesmasôe d produzindo-
de vocábulos. Os archaismos en- se pelo nariz ; tapando-se o nariz,
tre as conjuncções não são mui- a palavra mandar sôa handar. 9?
to abundantes; qua e car, de qua- genero.—Aspiração.II francez.(3)
re ; maçar, maguar, miío grado ; A theoria de Müller é assas difle-
cume, por como ; por onde, peró, rente e baseia-se no duplo facto
per Iwc. A forma agglutinada do ruido (voz baixa) e da intona-
nangeu, nan-geu, nem já eu, é de ção (voz declamada). Na voz alta,
G. Vicente. Reinhardstcettner o caracter das letras modifica-se,
cita a forma téqu-e, por até que ; e o valor e.vplosivo sobreexcede ao
é popular e antiga. fricativo (4). Eis o systema de
Coiijuiietivos. — Vide Be-
terminativos. (1) O 3? genero não tem re])re-
Coiiiiectivo.—Termo pouco sentante no portuguez. Compreheu-
de o f e z liespanhoes.
usual. Palavra de relação entre (2) Gerdy chama linguaes (6?
as proposições. Vide Proposi- genero) as consoantes ordinariaa
ções. conhecidas por gutturaes, e dá o
Consoantes. — As theorias formados nome de (juítiiraes apenas aos sons
sobre a classificação das conso- como oj hespaiiholno fundo da garganta,
e o cit allemão.
antes são em tão grande numero, Nesse .sentido, o ])ortuguez nãopos-
que apenas aqui daremos o re- sue (jnttnrnl alguma.
sumo das mais notáveis. Gerdj', (3) P^sse genero não tem repre-
deixando de parte as consoantes sentante no ))ortuguez.
compostas (grupos, como hl, br, (4) Na voz l)aixa, como diz a
pl, etc.) classifica as articulações onomatojiéa cnxíxítr, os valores pre-
simples nos grupos seguintes : 1? dominantes e mais audiveis são os
genero. — Labiaes. Consoantes X, sons coiitinvns (fricativos) c/i, í,
perfeitas, p e 6. Resultam da oc- quasi ss, V, f. As explosivas Onudas)
não se articulam (p, b, h, <jh).
clusão e separação súbita dos lá- Na voz alta, só o systema das vo-
bios. 2'.' genií ro. — Dento-labiaes : gaes não muda ao ])assar para ade-
®e/. Contacto dos dentes e do ciamação em voz alta.
80
CONSOANTES — CONSTRÜCÇAO
Müller : I. Explosivas (mudas na u com valor de consoante nota-
voz alta)—Momentâneas: b, p, d, se em expressões como uatã —
g, a, k (c, ch, qu). Depois ()'essas guatá fao atá), uêra — guéra
consoantes pronunciadas ó que (Anlianguêra, etc).
se recebe a intonação. II. Friea- Coiisonantisiiio. — Nome
tivas (sempre claras na voz baixa) dado ao conjuncto dos factos re-
—Continuas : s,j, ss, z(ch, x, ch, f, ferentes á phonologia das con-
í)j. As 1 et ras 1 i m i troph es são í/i, 7ih.
Podem-se produzir sem intona- soantes e dos seus grupos. Neste
ção. Os quadros de "Waisse são livro, tratamos analyticamente
mais completos e pouco ditlerem de todas as permutas, abranda-
das duas classificações preceden- mentos, etc., das letras e grupos
tes, e parecem ser uma fusão dos nos logares determinados iiela
planos de Gerdy e de J. Müller. ordem alphabetica. Consonan-
Damol-os em seguida : I. Conso- tismo, ou melhor, consonantisa-
antes instantaneas (mudas, ex- ção, exprime o facto notado,
pi.osivAs) ; ainda que raras vezes, do reforço
máximo de vogai em consoante ;
Denomi-' Fortes Fracas (iloces, taes são os exemplos do u para
nações ou surdas brandas) ®, e do i para j (especialmente
Oraes yasacs
Labiaes p b m do i i^alatal : lliendasem, .Jeru-
Palataes l d 'n salém ; 7/í>;Yírc/iía, jerarchia; e
Gutturaes k gu nh do u=v: coue (caulis) couve:
l(^ar, louar (laudare) louvar, etc.
JV^. B.—Um symbolo pôde cor- É o opposto de pocalisação.
responder a vários signaes alpha-
beticos. Assim, a letra k repre- CoiistrucçSo.— "E a ordem
senta c forte, ch grego e qu (da de collocação das palavras. A
palavra (/!íe»íe). II. Consoantes construcção pôde ser diversa e
prolongadas (continuas) : asyntaxea mesma;e o portuguez
Denomina- Fortes Fracas conservou certa lil)ei'dade no ar-
ções (Total onies) ranjo syntactico das palavras,
Labial — u que é uma das suas muitas ex-
Dento-labiaes í v cellencias. O caracter analytico
Linguo-labial — u da língua manda todavia obe-
Dento-linguaes s z diência il regra seguinte— 1? su-
Antero-linguaes ch j jeito, 2? verbo, '!? attri^buto e
Medio-lingual — y seu complemento, etc. K essa a
Latero-lingual — 1 ordem ou construcção chamada
Tremulo-lingual — r directa, analytica, lógica. A con-
iV. 7?.—O portuguez não pos- strucção, além de áirecía (quan-
sue as conso.antes labial u e do as palavras e proposições se-
a medio-lingual i/ (moyen). guem a ordem da sua subordi-
Comtudo, no dialecto brasileiro, nação), pôde ser imersa (ou in-
em vocábulos vindos do tupi, o directa) e interpolada. A con-
81
3 — CONTRA
strucção inversa dií muitas ve- —O periodo contemporâneo da
líes mais harmonia á phrase, língua mantém a disciplina clas-
gravidade ao eslylo, mais realce sica que fixou as normas gram-
e apuro, energiae clareza ao dis- matícaes do portuguez. No em-
curso.Na interpelada, as palavras tanto a língua não estacionou :
que entre si têm relação intima o periodo contemporâneo tem a
e necessaria, vOm separadas por sua orthographia própria, mais
outras qu^e se lhes mettem do etymologica e arrazoada que a
permeio. Emais usadaem poesia, dos clássicos, por elfeito da
e d'ella muitos exemplos se en- cultura philologica (escrevem-
contram nos Lusíadas, nSo só se hoje e não posthumo ;
de interpolaçoes entre o sujeito rei, lei e não rey, ley; é, um,
e o predicado, mas entre o verbo teor, e não he, hurn, theor, etc.)
e o atlributo, o substantivo e o Na syntaxe, o estylo contempo-
advérbio, etc. Sobre as regras da râneo caracteriza-se pela fre-
collocaçâo dos substantivos e quencía da ordem analytica,
adjeetivos, participios eauxilia- tendo quasi desprezado as ousa-
res, attributos do regimen, dos das e antigas inversões da syn-
pronomes pessoaes, das palavras taxe classica. No vocabulario, o
relativas a cada um dos termos facto capital é a introducção ine-
da proposição (sujeito, verbo, vitável de gallicismos—proposi-
regimen e complemento), vide tal, inabalarel, audacioso, jireten-
Pacheco Ju nior. — Orarara.portxi- cioM, etc., que ja se não podem
(/««ja. Sobre a construcção inver- talvez expurgar da lingua. A ne-
sa, porem, é ditlicil estabelecer cessidade do progresso ímpôz
regras seguras'para os diversos milhares de neologismos; cra-
casos ; mais acertadamente acon- neometria, antropolojjia, sociolo-
selharei a leitui-a dos bons clás- gia, pliotoyraphia, hracliycephalo,
sicos e auctores de melhor nota. aryano. inão-europeu, mythogra-
—Dá-se mais a deslocação do pUia, lelephone. cliromo, oleogra-
accento tonico por influencia Xihia; etc., etudo o mais que re-
erudita, imparisyllabismo la- presenta na expressão e na lin-
tino, composição, enclise, deri- guagem a actívidade mental o
vações dialectaes. A analogia des- artística do século XIX. Taes
locou o accento em crescido nu- são as dilTerenciações que expe-
mero de fôrmas verbaes (V. Ver- rimentou o portuguez neste sé-
bos). — Os suflixos originários culo.
atonos tornam-se tonicos em vo- Contra (preposição). — Pre-
cábulos de nova formação. As fixo latino contra, derivado de
fôrmas homonj'mas distinguem- cum, no superlativo archaico con-
se muitas vezes pelo accento, ter, caso oblíquo contra. Tem as
deixando de ser homophonas fôrmas contra e contro, p. ex.;
(ninciílo, vinculo).n (P. J.) contradizer e controverter. Appa-
Couteiuporaiieo (período). rece em contraste (stare, estar);
DICC. GRAMM. O
82
CONTRA CORRELATIVAS
contradança (de. coviitry), fr. Coordenadas (sentenças).
contrée, derivado do 1. barbaro — São as compostas em relação
contrata, região, por influencia de coordenação. Estão neste caso
do espirito .cefnnanico (gegend, as sentenças que, de igual cate-
de gegen, contra). goria, e por meio de simples
Coiitracção. — Nome geral juxtaposição ou de conjuncções
dado ao encurtamento de sons, connectivas, concorrem para a
formas e proposições. Vide Con- formação do período composto.
tractas (formas e proposições) São sempre principaesas propo-
syncope, apherese, ajwcojie. sições que concorrem para a for-
mação de uma composta coorde-
Coiitracta (proposição).—E nada. As proposições coordena-
o juizo que pela analyse pode re- das são syndeticas ou asynde-
solver-se enf dous ou mais: Jú- ticas, e qiuinto á natureza dos
lio e Antonio estudam—Júlio seus connectivos, dividem-se em
estuda, Antonio estuda. Os ca- copulativas, adversativas, disjun-
racteres das proposições con- ctivas e conclusivas.—Substitua-se
tractas estão designados no ar- por COMPOSIÇÃO. (P. J.)
tigo Proposiçõet.
Coiitractas (fôrmas).—üem, Coordenativas. — Vide
por cento; são, por santo; frei, por Conjuncções.
freire; mui, por«iMíío, etc. || Vide Correlativas. — «Assim de-
Integras (fôrmas). nominadas as conjuncções, que
Conversibilidade. — Vide denotam relação commum e re-
Locução, Kquiealencia. ciproca; taes são-: que ou do que,
depois de - mais, menos (inva-
Coordenação. — Nome que riáveis); maior, meiwr, tal, tanto
designa a ju.xtaposiç.uo do pro- (variaveis) ; como, quão (invariá-
posições de sentido completo no veis) e quanto (variavel), depois
discurso. A coordenação djz-se de — tão (invariavel) e tanto (va-
syndetica, quando é feita por riavel); qual (variavel), depois
meio de conjuncção ou nexo. de — tal (variavel), etc ; e as lo-
Ex : Deus creou o mundo em cuções — não só.. . mas tamhem;
seis dias e descançou no sétimo. como... assim; assim como...
A coordenação chama-se asynde- assim tamhem; tanto mais...
tica quando não tem nexo : c?te- tanto menos ou quanto menos;
gon, partiu. Ama o estudo; de- primeiro que, etc. Também di-
testa a preguiça. De modo mais zemos: quanto mais... tanto
extensivo, o termo coordenação mais; quanto menos... tanto
pôde appUcar-se a proposições menos ; ou quanto mais... tan-
subordinadas ou clausulas. quan- to menos; quanto menos...
do estas exercem a mesma fun- tanto mais ; v. g.: quanto mais
cção : Ordenou que viessem e não eu e.xaminava, tanto mais crescia a
demorassem. minha admiração; quanto mais o
83
CORRELATIVAS — CT.
vejo, tanto ineiws o estimo ; quanto chamam-se também absolutas ou
menos fácil é a tarefa, tanto mais parciaes. O conjuncto das propo-
merüorio i o trabalho. Podemos sições correlativas ou parciaes
supprimir tanto no segundo forma o período. Também ha
membro da phrase ; v. g.: quan- quem lhes dê o nome de corre-
to mais o vejo, menos o estimo ; latas.» Esc. Port.
quanto menos faeil é a tarefa,
mais meritorio é o trabalho. Tan- Cr. — Grupo. Transforma-se
to prfde ser ooDocado no pri- em gr: vinagre, vin'acrem; ale-
meiro membro da plirase e gre, alacrem. No portuguez pôde
quanto no segundo ; v. g.: tanto ter sido o eífeito de metathese:
mais eu examinava, quanto mais crestar, castrare. A aspereza do
crescia a minha admiração Depois grupo cr foi bastantes vezes evi-
de mais, menos, exprimindo com- tada pela metathese ou syncope :
paração, deve seguir-se do que, costro, crustrum, colostro ; que-
quando o 2V membro correiati- brar, crepare; queimar, cremare;
vo é seguido de um pronome ou corbo, por cobro (Eluc. Vit.).
de um verbo ; v. g.; é mais ido-
so do que tu ; aquelle é maior do C.s. — (Irupo prosodico, equi-
que este ; é mais inxtruido (ou me- valente a cc, X, do latim puro.
nos) do que parece. Todavia algu- O X do latim tem esse valor exa-
mas excepções havemos de ad- cto nas fórmns eruditas: nexo,
miltir, quando assim o exija a (nekso) nexum. Abrandou em
liarmonia do discurso ; ■ preferi- eis, is, ech, eich: exemplo, eizem-
mos dizer : não Jia caminho mais plo, exemplum; exame, eizame
seguro para a felicidade que o da examen; da orthographia archaica
virtude, a dizer — ... do que o da constam especimens como eixecu-
■virtude. Também se diz correla- tor, eixeção, etc., que apresentam
tiva a oração composta de duas a prosodia gallega actuàl ; varias
orações, exprimindo a relação lialavras de uso actual assim
de igualdade entre dois objeclos, permanecem ; madeixa, meta-
6 conhece-se pelas diversas pala- xam ; freixo, fraxinum; seixo,
vras correlativas. Exemplo : as- sa.vum ; frouxo, fluxum. A assi-
sim como na puericia as virtudes milação exemplifica-se com an-
parecem mais formosas, assim na ciar (anssiar, anxeare) ; tecer,
ancianidade os vidos parecem mais tesser, texere ; disse, dixe.
feios. Quanto se põe no supérfluo, Ct. — Grupo consonantal.
tanto se tira do necessário. K tão Conservado nas palavras erudi-
grande o peso dos cuidados da pu- tas : facto, factum; directo, di-
blica administração, que pedem o rectum. Dissolvido nas creações
concurso de todos. Em duas ora- populares: feito, direito^, geito,
ções correlativas, ligadas entre jactum, ín\\lo, fructum. As vezes
si pelas conjunccões ou palavras dá-se a assimilação em «ou «úni-
conjunctivas, a 2'.' i integrante co: dito, dictum ; tratar, tractare.
da lí As proposições correlativas Adissoluçãoemiíémaisrara, mas
84
CT. — D
tem exemplos principalmente —Consoante dental branda, ho"
antigos : douto, ãoctum, doutor ; morganica da dental forte t-
pauto, pactum ; auto, actum ; Como de ordinário as permutas
autivo, activum; trauto, tracium. se fazem por abrandamento, o d
A transformação em cli é pró- latino Já sendo brando não se
pria do castelhano, e indica a transformou. Degenerou raras
influencia d'essa língua : trecho, vezes em l ou r : Gil, Aegidium ;
ííacíMTO; aduclio (El. de Vit.) Madril, de Madrid; cigarra, ci-
de adductum. cad'lam. Nos grupos, o l é muito
Cum.—Prefixo latino. Indica freqüente : julgar, Jwrfícare; nal-
concomitância. F<')rma com an- ga, naíicam. A transformação
tes de p, b, m: combater, compa- d=l já tinha exemplo nas trHn-
dre, comadre. Assimilações: col scripções latinas do grego; Ulis-
antes de l: col-lateral, col-laborar; ses, de Oãusseús. Syncope ; ca-
con antes de 11: eon-iiexo, e antes dere, cair, etc.
de todas as consoantes, excepto I> (letra portugueza). Resulta,
p, b, m : con-sanguineo, con-jor- maxime a inicial, do latino d:
mar ; forma cor antes de r : cor- dedo, digitum. De ordinário re-
relativo, cor-responder. Fôrma co presenta, porém, o abrandamen-
antes de vogai; co-adoptar, co-a- to do í que é também dental:
ffir, co-operar. As vezes, a fôrma azedo, acetum; müáo,metum; ma-
CO antecede consoantes : copiarti- deira, materiam (materiem). Ap-
cipar, etc. Contém o prefixo cum parece por g em um exemplo
as palavras correcto, collega, com- archaico : obridar, obligare (Et,.
binar, cunhado (co-gnatum), co- Vit,), e y)or l em deixar, leixar
Ji/íec(;?'e(co-gnoscere), custar (con- ant. {laxare, deixar, talvez de
stare), costume (con-suetudinem), delaxare); escada,.vcatem ou scala-
coTule (comitês, cum -j- ire), con- dam (escada). Representava o
destavel (comes stabuli), contar abrandamento do t nas flexões
(computare), conto (computum), verbaes archaicas : amaães (ama-
coalhar (co-agulare), etc. O pre- tis), recebedcs, etc.; e ess(! (Zainda
fixo grego correspondente é syn ; persiste em palavras curtas ; «w-
e são palavras de idêntica forma de, sede, pondes, ledes. O d como
ção lógica : contemporâneo e syn- elemento euplionico apparecia
chronico ; conspecto e »ynopse; nos grupos nr: hondrar, archaico,
co-ordeniição e syntaxe ; compo- de honorare; pindra, de pignoram.
sição e synthese ; consciência e II Factd notável nas palavras
syllogismo. Nem sempre, estií-se oriundas do arabico, é o da in-
a ver, o vocábulo latino eqüivale tercalação do l no grupo lã exi-
ao grego. gido no portuguez: a-Z-deia, ad-
dhaf a ; arraba-í-de, ar-rabadh ;
I> • a-í-drava, ad-adhabba. (I)
(1) Dozy e Engelmann. — Gloss.
D (letra latina). Soa sempre d. iiitnxl.
85
DACTYLICO - - DEFECTIVOS
Dactylico. — Vide Esdru- telliano antigo, como nota Kein-
xulo. hardstoettner, existiu a fôrma
Dativo. — Caso que exprime miege. de medicus.
attribuição ou refereiiciii, pro- De.—Prefi.xo latino, de for-
prio do latim. No portugueí'. é mações em geral primitivas ;
represeiiladoanalyticamente pela denota direcção para diante,
preposição a ou /para, ant. pera. para baixo, separação : declarar,
Ex: deu um livro a Pedro. dejecfão, delegado, destruir, de-
Cumpre mostrar que nem sem- scer (de-scendere, scandere, su-
pre a preposição tí instrumento bir). Não confundir com o pre-
analytico do dativo, podendo re- fixo di e suas variantes des, dis ;
presentar o accusativo ; matou nem tão pouco confundil-o com
a César ; ao rei obrigaram aban- os dous elementos gregos dis e
donar o throno ; ao criado man- dys.
dou sentar-se (mandou-o sentar-
se) etc. O dativus ethicus da syn- I>eclarativa.—Nome como
taxe latina i^ermanece no uso o de enunciatita dado á propo-
dos pronomes: Que palavras me sição de verbo do modo indica-
ouvistes ? (Al. Ilerc. Eurico, tivo.
XVII). (1) Na forma syntlietica, Declinação. — Conjuncto
ha vestígios de dativo nos i^ro- de casos dos nomes, nas línguas
nomes : me ant. mi (milii), te, ti que possuem essa especie de
(tibi), se, si (sibi); as formas íiexão. No latim existia a de-
me, mi, te, nos, vos, são usadas clinação e d'ella temos no por-
com o valor syntlietico : disse-<e tuguez alguns vestígios bem
(a ti). O vestígio lhe refere-se ao apreciaveis. Vide Vlexão.
lat. illi; no plural Ihea, dat. illia.
Nos nomes, os vestígios do da- üeíectivos. — Vocábulos a
tivo são raros e apenas resum- que por euphonia faltam al-
bram da composição dos termos, gumas formas. A defectividade
formados ou não no latim clás- pôde dar-se em qualquer cate-
sico : devota, deo vota: ii, a a; ó goria; os substantivos abnegação,
ant. ao ; puramente latinos : obsessão são verbaes: mas não
crucificar, cruci-tigere (fleare); existem na lingua os verbos pri-
fideicommisso, fideicommissum. mitivos. O adjectivo abalisado
(Guardia, Gramm.lat.) O dativo, tem uso diverso de abalizar, etc.
genitivo e nominativo foram os Quando a defectividade do verbo
primeiros casos que se perderam resulta do caracter do sujeito, o
dadeclinação latina. verbo diz-se unipessoal (V.
Unip.) .• ^jraz-me caminhar, etc.;
l>c.—Grupo latino, formado e esse estado pôde ser apenas
pela suppressão da vogai atona. tran.sitorio, como em chove e tro-
Pejo, pedica, ped'ca. No cas- veja, porque é certo que se pôde
(1) Vide Iteinlianlst.,f'7). cí'í. 30J, dizer .choves, trotejas, etc. Nos
defectivos propriamente ditos
8C
DEFECTIVOS — DEMONSTRATIVOS
6 a euplionia que regula o uso nia oppõe-se á pluralisação em s,
de varias fôrmas. Taes são : nos nomes que já terminam por
precaver (prfecaTiere). Não é essa letra: simples, caes, alferes,
usado nas liexões o e a : precavo, ainda que haja o exemplo ourive-
precava. Colorir. Não se diz coloro. ses, de ourives.São também defecti-
Soer—(solere). —Plexões de uso : vos, em sentido opposto, os nomes
soe, soes, soia, soem, soiain. Têm que não tem singular : alviça-
sido usadas nos diversos perio- ras, arredores, arrlias, confins,
dos da lingua as fôrmas sóio (D. esp>onsaes, . matinas, trevas, vi-
Diniü), soia, e ejn Camões (Lus. ver es.
III, I) soendo.—Verbos em m.
Muitos d'esses constituem a Deíiiiito.s.—^Classe lógica de
maior classe de defectivos jiura- determinativos que exprimem
mente eiiphonicos; abolir,revelir, exactidão de referencia; v. gr. :
munir, demolir, colorir, polir, dons, todos, oito, o, a, nenhum,
delir, discernir, submergir ( não cento, etc. Os indefinitos expri-
são usadas as formas : abolo ou mem referencia sem exactidão
ahulo, pulo, muno, etc.)- Alguns quantitativa: uns, poucos, alguns,
mudam a vogai do tliema e têm etc. A expressão tem sido, ma
exemplos de uso : compellir, xime nas grammaticasfrancezas,
compillo\; expellir, erpillo; re- consagrada ao artigo e suas com-
pellir, repillo, etc. Os verbos postas variações.
em olir, orir, pir (carpir), L)eka.—Elemento grego de
andir (brandir), de nenhum mo- composição.
do se podem usar na primeira metros. Década,Decametro, dez
dezena. Deca-
pessoa do presente. A defectivi- meron (hémera, dia),
dade de muitas das liexões no- Decagono, dez ângulos. dez dias.
minaes é trabalho da euphonia
ou da tendencia pejorativa
quando a ha : tal ó a perda dos lat.Deilíi.—Prefi.YO francez, do
dimidium. Encontra-se na
femininos : cidadoa, commua, al- palavra demigola, tomada do
lemôa, etc. Na ílexão de gráo, a francez. Existe também no
defectividade resulta da eupho- inglez no vocábulo demigod.
nia, quando os adjectivos têm
terminações que não se adaptam Demo, povo (dêmos — Ele-
ao sufflxo de superlativo iasimo; mento grego de composição. De-
v. gr.: sobrio, sohrissimo, que mocracia, governo pelo povo.
não se usa. Por outra parte, os Demagogo (agõ, eu conduzo), o
superlativos em issimo são quasi que guia o povo, favorece.
etymologicos, tirados directa-
mente do latim ; sacratissimo e Demoii.strativos. — Vocá-
não sagradissimo. Ha mesmo bulos que e.vercem funcção adje-
superlativos que no portuguez ctiva e pronominal. Dividem-se
não possuem positivo: uberrimo. em puros e conjunctivos. runos
Na ílexão de numero, a eupho- ou INDICATIVOS :
87
DEMONSTRATIVOS
Singular Plural bem ^ís vezes se referem a pes-
Este, esta Estes, estas soas, em bom ou máo sentido :
Esfoutro, esteou- EsfotUros, esVou^ isto é uma joio; isso é um hregeiro;
tra . iras aquillo é um talento, conjuncti-
Esse, essa Esses, essas VOS ou DEMONSTKATIVOS RELA-
Ess'outro, €ss'0u- Ess'outros, ess'ou- TIVOS :
tra tras Singular Plural
A'/Helle, aquella Aqiielles,aquellas
AqueWoutro, A- AqueWoutros, A- O qual, a qual Os quaes, as quaes
queWouira quell^o^ítras Cujo, cuja Cujos, cujas
3Iesmo, mesma 31esmos,mesmas{l) Que ! T • •
E os pronomes invariaveis ou Quem^ Invariaveis
terceiras formas — Isto, Isso, Servem estes demonstrativos de
Aquillo e a variação O. A este ligar as orações que por elles co-
grupo de invariaveis poderíamos meçam com a anterior, da qual
ainda juntar certos vocábulos, floam fazendo parte como inci-
quando substantivamente em- dentes, e ao mesmo tempo recor-
pregados ; taes como : outro tan- dam os objectos a que se referem,
to, o mesmo, etc. Exemplo ; Obe- pela sua antecedencia immedia-
deci e elle fez outro tanto ; perdoei ta ; por isto se dizem conjuncti-
e elle fez o mesmo. Estes demons- vos, e d'ahi lhes vem o nome
trativos restringem sempre a ex- mais geral ainda de relativos,
tensão do nom^ commum, limi- pela sua referencia a uma cousa
tando sua significação a uma ou pessoa antecedente. Esta pro-
parte dos indivíduos, aos quaes priedade cabe aos demonstrati-
são applicaveis por si mesmos. vos puros quando recordam cou-
Quando eu digo : —estes homens, sas ja ditas no discurso. QuaIj é
estes catallos — não falo da es- só variavel em numero, deve ser
pecie inteira dos homens ou dos sempre precedido do artigo, e por
cavallos, falo somente de uma qual, isto se distingue do interrogativo
porção determinada d'esta espe- que nunca tem artigo—qual
cx^.Este, esta, indicam o ob- é teu parecer í e do comparativo
jecto proximo de quem fala. qual, que suppõe sempre antes
Esse, essa, isso, proximo da pes- de si o outro adjectivo compara-
soa com quem se fala. Aquelle, tivo tal — Tal será a tentura de
aquella, aquillo, longe de nós ou uma nação, qual o respeito pelas
da pessoa com quem se fala. Es- suas leis. Pode ser substituído
f outro, eas'outro, aquelVoutro, por que invariavel e servindo
etc., servem de designar um de para todos os generose números;
dous objectos que occupam o e é só neste caso que o que é re-
mesmo logar. As formas prono- lativo, aliás c conjuncção. Exem-
minaes—isto, isso, aquillo—tam- plo : O homem que (ou o qual)
fez isto; a mulher a qual (ou que)
(1) Com a significação cie pro- é admirada ; os livros que li; as
prio ; porque na accepção de Ujnal cartas as quaes te recommendam,
é qualificativo. etc. Que pode ser explicativo ou
88
DEMONSTRATIVOS
restrictivo. É explicativo, quando Ex.; Deus cuja hondadeé infinita ;
na idéa do substantivo, a que i. é, a bondade do qual ; o homem,
elle se refere, estií in^plicita a cuja é esta casa, i. é, de quem esta
aflirmação da oração incidente, casa é ; a nação cuja fama encheu
e então pode ser substituido por o mundo, ;. é, a fama da qual na-
—2>vr que ; e se a oração fôr sup- ção, etc. E por isso que o relativo
primida, não fica alterada a ver- cujo não admitte antes de si pre-
dade nem o sentido. Exemplo : posição, excepto se depois d'elle
o homem que é o rei da creação de- vem algum substantivo com que
ve amar o Üreaãor; i. é, o limnem concorde, e que .sirva de comple-
por que (ou i)or isso que) é o rei di} mento !Í preposição. Exemplo :
creação deve amar o Creador. E João, de cuja casa tenho, a cuja in-
reatrictivo, quando a attirmaçSo fluencia devemos este resultado, por
da oração incidente é accessoria cujas diligencias ohtivemos o despa-
e não implícita na oração princi- cho, etc. D'onde se vC que os re-
pal, e então pode o que mudar-se lativos qual e que concordam com
em ne, quando, etc. Mas, se a ora- o substantivo antecedente a que
ção do que fôr eliminada, a ver- se referem, emquantoqueo rela-
dade e o sentido ficam alterados. tivo cujo não concorda com o
E.xemplo : o homem que amar os possuidor, mas com o objecto
■citio* não pode ser estimado. To- possuído, o qual objecto possuí-
dos estes demonstrativos con- do sempre se lhe segue immedia-
junctivós podem servir de sujei- tamente, como se vô dos exem-
tos nas orações parciaes inciden- plos dados. Quem é demonstra-
tes. O que como sujeito d'orações tivo conjunctivo, quando é re-
incidentes é preferível a qual, se gido de preposição, e eqüivale a
não causar ambigüidade pela sua — o qual — Exemplo : aquelle a
qualidade invariável, ou deshar- quem (ao qual) sobra virtude,
monia por muito repetido; assim sempre vence ; mas se o demons-
diremos : Deus que creou tudo. trativo aquelle variar de termi-
Uma exposa cheia de prudência e nação, o pronome relativo terá
de juizo, é a razão que no» fala, por equivalentes as terminações
o coração que nos guia. Mas, em respectivas — aquella. . . d qual;
vez de se dizer: a desobediencia aquelles.. . aos quaes ; aquellas...
dos Israelitas ás ordem de Dev-s, lis quaes. Que, quem eqüivalem a
que é matéria continua das queixas aquelle que, aquella que, a pessoa
de ^^oysés — Certas Jióres de que que, o que, e tem referencia a iies-
ninguém ha que desgoste ; substi- soas ou a cousas personificadas,
tuiremos o que por a qual, no 1? de que anteriormente se falou
e.vemplo, para evitar o equivoco ou se fala immediatamente de-
da concordância; e por das quaes, pois ; exemplo : foi elle que (ou
no 2? exemplo, para evit.-ir a re- quem) o contoii ; ou— quem o con-
petição monotona do que. Cujo tou foi elle. E este um abençoado
vale o mesmo que — de quem, do paiz a que (ou a quem) a natureza
qual, da qual, dos quaes, das quaes. concedeu tão benigno clima. Que
89
DEMONSTRATIVOS DEPOENCIA
precedido do artigo e referindo-se pois de qualquer demonstrati-
a um sentido antecedente, eqüi- vo, pronome, e até de alguns ad-
vale a — e isto. Exemplo ; sacri- vérbios, para lhes augmentar a
Jicou-se (o professor) dia e noite ao força. Exemplo : eu mesmo m; tu
trabalho, o que (e isto) fui causa de mesmo o fizeste ; ahi mesmo teve lo-
chegar águella posição. O pode ser gar. Empregado adverbialmente
variavel ou invariavel. Suas va- em vez de até,também,6 gallicismo
riações — o, a, os, as — seguidas que se pode escusar. Devem col-
de (/««valem as correspondentes locar-so os demonstrativos em re-
—aquelle, aquella, aquelles, aquel- gra antes dos substantivos que
las, e podem servir de sujeito determinam ; v. g. : este homem,
da oração principal. O (inva- esta mulher ; todavia algumas ve-
riável) eqüivale a — isto, isso, zes em phrases exclamativas ou
aquillo, ou ao substantivo causa emphaticas sealtera acollocação,
(essa cousa, essas cotisas) ; pdde dizendo-se, por exemplo: que ho-
ter referencia a uma oração, a mem este ! que mulher esta !...(Es-
Uma phrase, a idéas, a acções, coliaste port.)
a assumptos de que já antes se
tenha falado. Kxemplo : assim o l>eiitaes. — Consoantes pro-
diz Cícero. Todos os historiadores duzidas pelocontacto dos dentes
o affirmam. O que eu jirevia. reali- e da lingua, na sua articulação.
zou-se. Assim o achamos escripto. Ha duas dentaes, a forte ou sur-
Soube-o tarde. Que se ergam para da t e a branda ou sonora d. As
pelejarem batalhas tremendas, por- permutas entre ambas constitu-
que o serão j)or certo as que nos em regra no corpo do vocábulo :
aguardam. Resolvido J). Duarte rotam, roda. Outras consoantes
a entregar Ceuta 2>elo resgate do que pudem ser chamadas dentaes
infante seu irmão, este jamais o con- pela influencia, embora pequena,
sentiu ((jue se entregasse Ceuta). no orgão dos dentes na sua pro-
Por estes exemplos se vê que o o ducção, são : r, íríllado, e n, na-
demonstrativo se accommoda na sal, e l.
oração, umas vezes como su- Uepoeneia.— Caracter das
jeito, outras como complemento, fôrmas verbaes do latim que na
outras como attributo. JIesmo passiva, tinham o significado da
precedido de artigo, exprime voz activa ; v. gr: morior, conse-
identidade physica ou moral de quor, loquor, etc. No portuguez
alguma cousa ou pessoa. Çxem- ha vestígios de depoentes apenas
plo : temos a mesma idade. K pro- nos participios preteritos que in-
nome quando se emprega para dicam actividade: lido (ledõr),
evitar a repetição de uma phrase. corrido (que correu), viajado (que
Exemplo : Tneuj^ae tem trabalhado viajou), calado, experimentado, a-
muito, eu dei-o fazer o mesmo. Aqui trevido, etc. Xas fôrmas passivas
pôde dizer-se—substantivamente são de notar-se as suppressões
empregado. Mesmo sem artigo do verbo«eí', muitocommunsdes-
emprega-se immediatamente de- de os tempos clássicos, conforme
90
DEPOENCIA- - DESI.OCAÇÃO
se acha documentado pelo Sr. se da terminação em ser d'esta
Bellegarde no livro—Lexicologia, um caso technico e particular.
pag. 124: «Tu vês em que con- Desineneia é a terminação variá-
siste já a grandeza —em abater o vel das palavras : am-OM, am-ar,
que merece erguido e em levan- VLí-il, ut-m, etc. Terminação é a
tar toda a baixeza.» (Sec. XVI). parte final de qualquer vocábulo
A. Ferreira—Carta. Liv. Glass. variavel ou não.
t. XII, 181. «Merece lida a noti-
cia que o supracitado Damiíto üeslocação do accento, des-
Reis díí delia.» (Sec. XIX.) A. vio do accento, ou diastole. Pa-
F. Castilho. Camões, II, 233. cto observado em varias circum-
Também é costume empregar a stancias, eque constitueexcepção
fôrma activa pela passiva ; E de ao principio geral das lingUas ro-
notar ; é de ver (= notar-se, ver- manas : a persistência do accento
se, ser notado, ser visto). latino. Na maioria dos casos, a
Derivação.— Vide Neologis- excepção produziu-se pela inter-
mo. ferencia de outras leis phoneticas
que predominaram sobre aquelle
Derma, dermatos, pelle.— principio acima enunciado. As
Elemento grego de composição. interferencias mais notáveis de-
Epiderme, sobre a pelle. Pachy- ram-se nos seguintes casos : I. O
ãerme, pelle espessa. accento deslocou-se por analogia
Desapparição.—Queda de nas Jlexões verbaes : 1. No imper-
letra no vocábulo. Tem, em ca- feito do indicativo, cujo typo
sos especiaes, os nomes de Aphe- amáva serviu de modelo a amáva-
rese, syncope, apocope, aynalepha, mos, por amavámos famabiímus).
eethlipse. No caso geral nota-se a 2.No infinitivo, cujasdesinencias
desapparição de letras em duas are, ére, ire graves, tornaram gra-
occurrencias : 1. Desapparição ve a desineneia ere dactylica ou
de consoante média isolada : le-^í- esdruxula : caber, úe.capére, por
alem, leal,; me-(?-ium, meio; cápere. Maxime pela confusão da
are-?i-am, areia ; ra-rf-ium, raio. 3í e 4'.' conjugações : gemerei ge-
2. Desapparição da vogai atona mire. II. O accento deslocou-se por
(sem accento): del-i-catum, del- euphonia : 1. Nos hiatos que se
gado ; lib-e-rare, livrar ; gen-e- dissolveram : lençol, linteolus;
rum, genro ; cal-i-dum, caldo. feijão, faseolus. 2. Na occurren-
A desapparição pôde dar-se no cia dos grupos fortes tr, dr, hr :
vocábulo inteiro, e é o que se trevas, tenehras ; alegre, alacris.
chama Archaismo. Parece que a letra l attriílie o ac-
cento, como se vô em trevo, tré-
Descriptivo (adjectivo). — bol, trifoUum ; lençol (linteolus),
Eqüivale a qualificatico : bello, rouxinol (lusnniola), balui (bá-
redondo, azul, etc. julus), etc. III. As palavras que
Desineiicia.—Vide tlexão e possuem um thema, de ordinário
Suffixos. A deainemia distingue- conservam o accento thematico.
91
DESLOCAÇAO Dl, DIS
Por isso as formas invoco, explico, poucos, nenhum, etc.) Os rete-
tornaram-se invoco, explico, etc. exprimem apenas demons-
Comtudo, nos escriptores primi- tração, indicação (este, aquelle,
tivos (leparam-se considro, arço etc.) do objecto e comprehendem
(considero, ãrdeo). Fóra d'estas as sub-classes de Artigos (o, a,
classes bastante explicitas, ha um), os numeraes ordinaes (pri-
exemplos de deslocação produzi- meiro, decimo-nono)e os adjecti-
dos por influencia do grego : vos pronominaes (este, aquelle,
polvo, j'olypo; praça, platéa ; Isi- meti, nosso, Quantitativos
dro, Isidoro; e outras deslocações a) Numeraes cardinaes (numero
de causa não observada : dádiva, certo); b) Dütributivos (numero
dativa, etc. (1) IV. Em nomes incerto) ; c) Articulares (indic<a-
que foram derivados' de verbo, ção certa ou incerta. 2. lielacio-
ha a deslocação do accento : ré- naes d) Adjectivos pronominaes ;
plica (tirado da S.i' pessoa do in- e) Numeraes ordinaes (indicação
dicativo replica) vénera, revérhe- certa). Essa classificação é de-
ro. Mas não é regra, e é antes tão grande verdade lógica, que
excepção. Diz-se também rever- parece não encontrar objecção-
béro. Em qualquer caso a accen- séria a vencer. Um único defeito
tuação é a do verbo latino real depende mesmo do rigor logico
ou hypothetico. Tempera e tem- com que foi estabelecida e é se-
pera ; escapula e escapula (mais parar para grupos distinctos os
preferido). V. A homonymia è ordinaes e os cardinaes, que nos
causa de taes deslocações. Tam- grammaticos antigos e mesmo
bém o é a licença poética,e nos modernos sempre se incluíram
clássicos se encontram as leitu- em uma divisão única. Vide De-
ras epithéto, Cleopiítra, Dário, monstrativos.
Prótheo, impío. Di, «le, ílis, (le.s. Prefixo
Determinatlvofs. — De- latino. — Negação e dispersão.
signação geral applicada á classe Desfazer, desleal, dilúvio, divergir,
de adjectivos que não são quali- dilacerar, deshonra. Assimilado
ficativos. Os determinativos com- em : difundir, etc. Já veio do la-
põem-se de dous grupos assas tim em vários termos que uão se
distinctos; o% quantitativos e os podem decompor rio portuguez :
reladonaes. (2) Os quantitativos dirigir, differir,difficil {íacU, etc.)
exprimem numero, exacto ou Não, se confunda com o prefixo-
não,.e entre elles se incluem os de. E preferível e é acertado es-
numeraes cardeaes (um, tres, vin- crever discorrer (e não desj, dela-
te, meio, etc.) e os distributivos e pidar (e não di), defamar (e não
universaes (todo, alguns, cada, dis ou dif.)
(1) V. a Grammatica de João Di, «lis. Prefixo grego. —Ex-
Ribeiro (Curso superior, 12.' ed.) prime dualidade. DissyUaho, du-
(2) Seguiido a cla-ssif. de Mason, as syllabas. Diphthongo, dous.
que adoptamos. tons. Não confundir com dys.
93
Dl, DIS — DIALECTOS
Escrevam-se com dys: dyspepsia, Essa possibilidade deixa do exis-
dyscolo. tir ás vezes, ed'ahi 6 que começa
Dia, prefixo grií^o.—Atravez, a independencia do dialecto pro-
pelo meio, entre. Diametm, me- priamente dito ou da lingua
dida ulravoz. Diaphano, que se estranha. lísse critério basta
vê iitravez, transparente. Dialo- para resolver a enfadonha ques-
go, discurso entre dous. tão d'aquillo-qup se tem cha-
mado o dialecto brasileiro. Em
I>ialecto.s. — Chama-se dia- relação ao portuguez é natural
lecto ao conjuncto de dilferen- qi:e a lingua tenha soffrido dia-
ças que caracteriza a linguagem lectaçôes fora da metropole, na
de uma província ou colonia em Europa, Asía, África e America.
relação lí linguada corte ou me- D'esses factos trataremos em ar-
tropole. Propriamente, as divi- tigos separados sobre o Oallego
sões entre idiomas não corre- e o Tndv-portugiiez, que são os
spondem ás divisões políticas dialectos mais consideráveis do
entre as nacionalidfide.s. A Gal- portuguez. Sobre a díalectação
liza, por exemiJlo, é hespanhola; do portuguez nas colonias afri-
mas o gallego é sem duvida um canas, apenas daremos notícia,
dialecto portuguez. A dialecta- para especimen, do dialecto
ção em qualquer lingua não tem creolo do Cabo-Verde, seguindo
limites determinados, e, como de perto os estudos publicados
diz Wittney, cada indivíduo re- por Ad. Coelho no Boi. da Soe.
cebe a lingua e modifica-a, em- de Geographia de Lisboa (188()):
bora de modo infinitesimal. Creolo do Cabo- Verde. — PhoTie-
Assim é que se explicam as tica. As modificações são varia-
transições e períodos historicos dissimas. Os factos mais notá-
das línguas de maneira analoga veis são: a prothese do a: ahoje,
íis mudanças que se exercem nas amitjer. A modificação do díph-
mesmas línguas no espaço, de thongo ão em ora, an, au: cura-
um logar para outro. Assim, em çan, nau (não). As permutas b
rigor, qualquer orgão social, em g: gorgoleta, borboleta; a per-
qualquer classe, o indivíduo, a da do grupo final nho: vin, lin,
família, uma associação, a pro- vinho, linho; o z miula-se em
víncia, qualquer grupo social, ss: fasaé, fazer. - Morphologia.
os médicos, os alfaiates, os cria- Todos os inanimados são mascu-
dos, todos e cada um possue o linos : tin casa. Não ha fiexão de
seu dialecto, a sua pronuncia, a plural : uns cahello, exceptó nos
sua phraseologia própria. A uni- diminutívos : rapazín, rapazins;
dade da lingua consiste em que cavallin, cavallins. Os adjectivos,
as pequenas dífferenças indivi- quando não são substantivados,
duaes o mesmo provinciaes não só têm a forma masculina: wra
destróem o principal fim da mvger preto. Os verbos têm cin-
linguagem : a possibilidade de co conjugações em a, e, i, o, u :
communicação do pensamento. canta, cumê, durmi, pó, damgú
93
DIALECTOS
(desprezar). A Si' em u, propria- onde el gastit sen juize e na vice
mente creola, tem poucos ver- de gente nôve, sê parte que ti-
bos. O futuro imperfeito é for- nha el cabido./Wa de Boa Vista
mado com a particula — Tã — Un pai tinha dôs fije. Aquel'
ten, eu terei; tã ser, serei, etc. mas nobo pedil' sê parte qu'á
Nas diversas illias muito vari- tocab'el de sê ardança, el despedi
am as formas dialectaes ; por isso d'el e el bâ morâ n'un terra don
damos em seguida um treclio el gasta na'strabagança de rapaz
vertido na linguagem creola de sê parte d'ardança. Ilha de 8.
diversas partes do arcbipelago : Nicola.u. — Um pai tinha dôs
«Um pae tinha dous filhos. Pe- fije, Aoliermás nôbe pedile pa
diu-lhe o mais moço que lhe dâ-le sê parte que podia tocà-le
desse a parte que podia tocar-lhe de sê herdança, e el despedi d'el,
da .sua herança, e, despedindo-se e el bâ morâ n'un terra donde el
d'elle, foi residir numa terra, gastâ na'strabagancia e vice de
onde gastou em largueza.s e vi- rapaziada, sê parte que to-
cios da mocidade o quinhão que câle. (1) |] Lido-portuguez.—Dia-
lhe coubera.)) VERSÕES : Jllia de lecto do portuguez falado na
Santiago — Era un hês — un pai Ilha, de Ceylão, O documento
temba dôs fijo. Ouermiís piqui- e.scripto mais notável é a Biblia
note pidiTpa dâb'el si parte de Ceylão, publicada em Colom-
qui al bên tocárdi si herdança, bo, em 1820. O dialecto está
ê dispidi d'el, ô bá morá n'un misturado de termos hollande-
têra undê gastâ fêpo na estraba- zes e ultimamente de vocábulos
gança di rapíis nôbo, si parte do inglez, que acabará por ab-
que tâ quebêl. Ilha do Fogo — sorvei-o. Vide o meu trabalho
Era un pá qui tinha dôs fijo. Pronomes (dissertação, 1880). Al-
Sê cód6 pidirp'el dafparte qii'el guns documentos foram reuni-
podê tinlia de sô herança, el dis- dos por Ad. Coelho no Boi. da
pidi de sê pá, el bâ mórâ n'un Soe. de Oeogr. de Lisboa, e a es-
terra, na pund6 el gastâ, na ses convém ajuntar a antiga edi-
Strabagancia e bicio de mocin- ção dos Psalmos em indo-portu-
dade tudo sê lierança qu'el ti- guez, mencionada no Thesouro
nha recebêdo, lUía Brata — Un Bíhliogr. de Graesse. || Oallego —
pai temba dôs fijo. QuiíTmás Dialecto do portuguez falado na
nôbo pedi sê pai pa dârsê parte Galliza. O gallego tem muita
de herança que podêba tôcal', el semelhança com o castelhano, a
despedi di sê pai, i el bâ morâ que está politicamente submet-
n'un terra dundê el gastâ tudo tido, por ser essa a lingua offi-
qu'el temba, cu bicio de mocin- cial e preponderante da Hespa-
dade. Ilha de Santo Antão — Un
pâ tinha dôs fi. Sê côdê pedi-le (1) Extr. e resuni. dos trabalhos
pa dâ-le .s6 parte qu'el podia tên de Ad. Coelho no Boi. Soe. Geo(jr.
de s'herança, e depôs quVi tomâ de Li.sl)oa, 6'.' série, 1886.— V. Se-
bençon el bá morâ n'lin terra huchardt— Kreol. Stud.
í)4
DIALECTOS —r DIRECTO
nha. Caractei-isticos phoneticosr Dicção (figuras de).—Hoje
1) X gaUego=:.i (g braiulo portii- denominadas Metaplasmos (Vide
guez):/«««, hoje ; xenio, gênio; esta palavra).
xaneiro, janeiro. 2) As vogaes Oiere.se. —• Signal do hiato
atonas suo variaveis na prosó- nas vogaes concuVrentes : alaúde,
dia: falsedade, falsidade, etc. 3) saúde. Representa-se por um
Os suffi. ouro, oiro (em cast. treiha ('•) alaüde; por um
.«roj., em gallego silo sempre da accento, saúde; ou pela letra h,
fôrma oiro, que é a mais ar- maxime no grupo ia: saltia,
chaica iio portuguez: sumidoiro, calda, bahia. O trema já não é
sumidouro. 4) Metatheses fre- usado. O h era o característico
qüentes : percisar, poryresso, es- usual da dierese no portuguez
quirbano. 5) Formas verbaes, ar- antigo: vehuva, tavoha. Hoje nes-
cliaicas no portuguez : falades, tes casos reina grande incerteza,
faiaredes, etc. 6) Não se tolera a mas ha a tendencia para suppri-
final d, e as fôrmas são osciilan- mir o h ou substituil-o pelo
tes entre bondade e hondá e não accento graphico (saia, caíam,
ioiidad; saú ou saúde. 7) O per- adaíl) ou não empregar ne-
feito do indicativo tem formas nhum signal : ruina, ruido,
<Jialectaes assas próprias: falei, miúdo, arguir, paul, saúde,
batim, pidin; falaclie, bateche, moinho. No antigo portuguez o
pidicbe; falou, bateu, pidiu h .symbolizava o i breve : mlia,
{pedeu).Em geral, nas ílexôes liormíVí; e ainda conserva esta
dos verbos ha variantes que se funcção nos grupos Ih é nli equi-
distanciam do portuguez. 8) valentes a It, e ni (com este i
Conservação do accento latino, brevi.ssimo).
com desviação do accento do
thema : falahámos, falávamos ; Dlgraplio. — Representa-
baterámos. batêramos. 9) Tenden- ção de um único som por meio
cia alliterativa para uniformizar de duas letras : nh. Ih. Os di-
AS vogaes: tecer, ticiria. 10) graphos são raros no portuguez
Usa-se íitf por ítí nos complemen- e freqüentíssimos no francez
tos : matouno (matou-o), sei-no (rtíí=:ô, ai=6) e em outras lín-
{sei-o.) 11) Nas palavras invariá- guas não latinas.
veis notam-se diversos archais- Dliuiiiutlvos.—Vide Grão.
mos do portuguez : anianho ; de- Diplitliongos. — Vide Vo-
cole (quotidie) acó, acá etc. 12) gai.
Pelo dialecto gallego e.xplica-se
talvez a anteposição do artigo Directo (complemento ou
ao interrogativo que : O qnef completivo).—E a parte da phra-
port. que? ital. che? (no diale- se que inteira o predicado,
cto ílorentino, porém, il ehe*). •quando o verbo e activo transi-
tívo (isto c, de predicação in-
Diastole. — Vide Dealoíação completa): Pedro ama a virtude.
do accento e Accento. Construíram uma ponte. Pode ter
95
DIRECTO DISSIMILAÇÃO
preposições a, de (começar de, Di.s.siniilação.— Phenome-
começar a, travar de, pregar de, no opposto ao de assimilação.
dever de). A preposição a com os Consiste na modificação que
nomes proprios ou equivalentes sofirem os vocábulos letras e syl-
de proprios : Amo a Deus; amo labas para evitar a repetição de
ao senhor da terra e do univer- sons similares. Na linguagem
so ; amo aos humildes. O eom- popular é freqüente; corpo de-
pletico só admitte a classificação licto, por corpo de delicto (1);
de direeto ou indirecto quando se juiz direito, por juiz de direi-
applica ao predicado. O comrple- to; nesses e.xemplos «vila-se a
tivo também é complemento do concurrencia : (?e di. Exem-
sujeito ; "A Italia tornou-se um plos de uso geral ; idolatria,
reiiion ; é completivo subjectivo por idololatria; senoga (arch.),
ou do sujeito. por synagoga ; moganga, por mo-
Disciplina grainmatical. giganga('i), etc. Cabe aqui notar
—Termo que occorre nos expo- o que o illustrado philologo
sitores da philologia, e que indica Fausto 15arreto pondera sobre
em qualquer lingua a acção dos idêntico phenomeno, não jíí no
eruditos na organização e fi.xa- dominio do vocábulo, mas da
ção das regras de grammatica, syntaxe. As suas considerações
muito especialmente das fôrmas são originaes e aqui as tran-
léxicas. Para o portuguez a dis- screvemos ; «Além dos casos com-
ciplina grammatical começou muns de alteração phonica, taes
com os clássicos, com o movi- como bondoso, por bondadoso, ido-
mento da renascença literaria. latra, por idololatra, não raro se
Os primeiros grammaticos, Fer- observa, assim no falar quoti-
não de Oliveira e .Toão de Barros, diano do povo, como na lingua-
floresceram no século seguinte. gem artística dos escriptores de
O movimento literário mais bri- nota, uma especie de repulsão
lhante da historia da literatura oracional da preposição, verda-
portugueza, fixou as normas da deiro phenomeno de dissímila-
lingua que só em raros pontos ção phraseologíca.—ÍJa Vida de
se foram modificando até hoje, I). Frei Bertolameu dos Martyres
através do longo periodo de tres por Frei Luiz de Soviza, se 16 a
séculos. O facfo geral caracterís- pags. 3!), tom. 2?, ediç. de
tico da disciplina grammatical e Lisboa, na Typographia Rollan-
classica foi a latinização da lin- diana, 1858; u... e o Arcebispo
gua, a approximação operada sahiu a continuar em seu offlcio
para o latim da época aurea. Os com a mesma vigilancia e cuy-
grandes escriptores que mais dado que sohian. No Cant. III
contribuíram para a perfeição e dos Lusiada/i, est. 4, se encontra
polidez da nossa linguageni fo- (1) Sylvio Romero—Contos póp.
ram ; Barros, Camões, Frei I^,uis (2) Keinliardstoettner — Gramvi.
de Sousa e Vieira. — loco.
90
DISSIMILAÇAO — DIVERGENTES
a seguinte construcçüo : «Mas, dido, que puz em dar os cuida-
pois o mandas, tudo se te deve : dos que dei lí f<)rma, com que
Irei contra o que devo e serei nos veio da camara o projecto».
breve». Posta em ordem gram- (Réplica ás defesas da redacção
matical a primeira plirase, ter- do projecto da Oamara dos Depu-
se-!Í: «... e o Arcebispo sahiu tados, pag. 214). »
a continuar em seu ofiicio com Di.sxylUibo. — Vocábulo de
a mesm-i vigilancia e cuj-dado duas syllabas : dedo, casa, peru.
com que solda sahir«. Restabele- O dissyllabismo é a forma usual
cidos por igual todos os termos dos termos infantis hypocoristi-
do verso camoneano :—Irei con- cos : Zézé, papá, Mimi, Lili,
tra o que devo e serei breve,—• Lulã, etc. Syn : bissyllabo.
se verificará: Eu irei contra o
contra que devo ir=eu irei con- Distribiitivos. — Classe de
tra aquillo contra que devo ir. determinativos que exprimem
Com tal meneio de phra?ear,qui- quantidade sem indicação de
zeram Frei Luiz e Camões, bem numero exacto: todos, cada,
se deixa vêr, evitar repetiçíto alf/uns, poucos, vários, muitos,
monotona e ingrata dos elemen- nenhum, etc. Também são usa-
tos preposicionaes com e contra. dos como (listributivos este, qual
A esse phenomeno muito qua- (repetidos), uns e quem, etc.
draria o nome de repuUUo syn- Divevífeiites (fôrmas). —
tactiea. Também se dá com Ire- Chamam-se formas divergentes
quencia na estructura proposi- as palavras que se originam de
cioiial portugueza facto contra- um mesmo vocábulo primitivo:
rio, que se poderá cltamar at- chão e plano, ambos no latim
tracção synUictica. São da famosa planus. Desde logo se nota que
penna de Alexandre Ilerculano, entre as fôrmas divergentes ha
entre outros, os seguintes exem- uma de ordinário de origem po-
plos: «7ío que se tracla seria- pular, e outra erudita, confor-
mente nas especulações da casa- me se pôde apreciar pelos se-
professa ida infancian. {Ojniscu- guintes exemplos:
los, tom. I, pag. 290.)—«iVó que Populares eruditas origens
varia o memorial dos perse- Areia arena arenam
guidos ó na explicação dessa Direito directo directutn
inesperada piedade.» (llist. In- Sestro sinistro sinistrum
quisição, vol. III, pag. 191.)— Nôjo nausea nauseam
«iVb que as instrucções se dila- Sarar sanar sanare
tavam era na questão do bispo Chave clave clavem
de Vizeuii. (Id., ibid., p. 342), JÍ preciso notar que p()de ha-
etc. Terminaremos com um ver mais de uma forma popular,
exemplo da penna elegante e como são magoa, mancha e ma-
coi-rectissima de Ruy Barbosa: lha, derivados de maculam; velar
«O de que me não penitencio, é e vigiar, do lat. vigilare. As for-
do esmero, bem ou mal succe- mas populares são sempre mais
97
DIVERGENTES
alteradas e desviadas do typo la- quadragesima, quadragesima;
tino ; as eruditas, pelo contra- sello, sigillo, sigillum; sestro, si-
rio, ooaservam mais pura a phy- nistro, sinister. 5. Piienomenos
sionomia etymologica do vocá- DE ATTBACÇÃo : solteiro, solitá-
bulo. Do termo latino legalis, os rio, solitarins; madeira, matéria,
eruditos tiraram a forma legal, materiem; eira, area, aream. 0.
ao passo que na creação espon- Apiiekese : pasmo, espasmo,
tânea do povo aquelle termo foi spasmum; sanha, insania, insa-
transformado em leal pela lei niam; hume, alumen, alumen.
plionetica da quéda da consoan- 7. ArocoPE ; fino, finito, fini-
te média isolada. Em seguida, tus; um, uno, umis; cabido, ca-
damos o catalogo systematico e pitulo, capitulum. 8. Assimilação
summario das fôrmas divergen- DE VOGAES: ladainha, litania,
tes estudadas na liomania pelo litaniam. !). Inpl. do i palatal :
eminente philologo Adolpho Coe- alhear, alienar, alienara; apreçar
lho. 1. Aceento. Pela desviação apreciar, appretiare; nojo, nau-
do accento origina-se um bom sea, nauseam; esbulhar, espoliar,
numero de duplas : cadeira, ca- spoliare. 10. Abra>"damento das
thedra, catheãram; inteiro, inte- momentaneas surdas (fortes);
gro, integrum; codeço, cytiso, cuidar, cogitar, cogitare; fogo,
cytisum; trevo, trifolio, trifoli- iaco, focum; ladino, latino, ki-
um ; xofrango, ossifraga, ousifra- tinm; pecego, pérsico, persicus ;
gam. 2. Vogai tônica. J^requen- redondo, rotundo, rotundum. 11.
tes vezes a sua modificação ori- Syncope de consoante isola-
gina f. divergentes: agosto, au- da: cardeal, cardinal, cardina-
gusto, augustum; coda, cauda, lis ; conego, canonico, canonicus;
caudum; dobro, duplo, duplum; bainha, vagina, uaginam; gráo,
logro, lucro, luerum; monco, grado, gradum; miúdo, minuto,
muco, mucum; papel, papyro, minutus; paço, palacio,í)aZa<iMOT;
papyrum; thema, thema. quedo, quieto, quietus; ruído,
8. Quéda ãa togai atona média. rugido, rugitiim. 12. Modifica-
Esta lei produz divergências, ções diversas de consoantes
como ; coalhar, coagular, coagu- simples: lembrar, memorar, me-
lare ; comprar, comparar, compa- morare ; fozes, fauces, fauces;
rare ; contar, computar, compu- sarar, sanar, sanare ; náo, nave,
tare; espelho, especulo, specu- nave, im. 13. Alterações de
lum; olho, oculo, oculiim ; rolha, grupos consonantaes : rasto,
rotula, rotulam; sobrar, superar, rastro, rastrum ; crestar, castrar,
superare. A contkacção de va- castrare ; adro, atrio, atrium;
rias letras produz as seguintes : ancho, amplo, amplus; chave,
benzer, bemdizer, henedieere ; clave, clavem; catrefa, caterva,
dedal, digital, digitalis; herdeiro, catenam; esburgar, expurgar,
hereditário, liereditarius ; mezi- expurgare; escutar, auscultar,
nha, medicina, medicinam; ne- auscultare; travesso, transverso,
dio, nitido, nitidus; quaresma, transversus ; puxar, pulsar, pul-
DICC. GKAMM. 7
98
DIVERGENTES
nare. 14. DiriiTiiONGAçÃo: deílo, deturpados ao vernáculo. Taes
decano, decanus ; irmão, germa- são : caheceir (chefes do Daho-
no, gerinanum; romã, romana, mey) ; o fr. fétiehe, do port.
romana. 15. NasalizaçÃo : trem- feitiço; e o inglez comniodore, do
pe, tripode, tripus; enxame, port. commendador. (1). Não
exame, examen. l(i. Fóbmas ro- são inúteis as considerações se-
ruLARES. São resultados diver- guintes, que transcrevo da mi-
gentes, independentes da acção nha (r/íore. curso superior:
literaria ou erudita : dialio, dc- 1. Muitas vezes, as fôrmas di-
cho, diaclio, diaiiho—; vergentes são constituídas por
artigo, artellio, arliculum; alvi- uma palavra archaica e outra
tre, alvedrio, arbitrium ; coroa, vigente : segre e século, de sa-
coronlia, coronam ; mallia, man- eulum; segre é hoje archaico.
cha, maculam; tenro, terno, Oeolho e joelho, de genuculum;
tenerum; velar, vigiar, TÍgi- a forma geolho desappareceu.
lare; mascar, mastigar, ma»- 2. As fôrmas divergentes, em
tieare ; chaga, praga, pla- certos casos, são produzidas
gam; dom, dono, dominum, pehi deslocação do accento: polpa
Nesse grupo devem ser incluídas e polypo, de poljipus; Isidro e
as formas contractas : são, santo; Isidoro, de Isidorus; guitarra e
cem, cento ; mui, muito ; r/nto, cythara (antigo cedra, e citola),
grande, etc. 17. Okioem fkan- de cythara. Tiago e Jacoh, de la-
CEZA. Vocábulos tomados do cóbm. Estas apparentes anoma-
francez que se vieram juntar aos lias explicam-se pelas variações
vernáculos da mesma origem la- do accento no grego e no latim.
tina: chefe, cabo—clief, caput ; Em Tiágo houve obediencia ao
jauia, gaiola—géole, caveolam ; accento grego: lãkóbos ; em
chantre, cantor—chantre, cantor; Jacob houve obediencia ao ac-
cré, greda—craie, cretam ; hotel, cento latino: Jacóbus. Em gui-
hospital—hotel, liospitalem ; cha- tarra seguiu-se a accentuação
péo, capello—rhapeau, capellum; grega. !!. As formas divergentes,
franja, flmbria—frange, fimbri- algumas vezes, resultam de deri-
am. 18. Origem CASTELitANA : vações simultaneas do nominati-
frente, fronte—fruente, frontem; vo e accusativo dos impari.sylla-
lhano, chão—llano, planus. 19. bos: serpe, de«e?7jen»,e serpente,
Origem itai.iana : maestro, mes- de serpeiitem; sábio, de sapiens
tre—maestro,—magister ; opera, (sapius) esapiente, de sapientem.
obra—opera, operam ; tenor, teor Este facto é largamente exem-
—tenore, tenor ; doge, duque, plificado em muitos vocábulos.
— doge, ducem, 20. Origem roR- Podemos observal-o de vários mo-
TUGUEZA bariíarizada. Ha cer- dos. Além dos exemplos citados,
tos vocábulos portugueses que convém notar os seguintes,
se introduziram nas linguas es- mais ou menos contestáveis:
trangeiras e depois voltaram honra e honor; sábio e sahente (sa-
!)!»
:s — DIVISÃO
piens); mibo e sahór (sapor); ^ra- put. Convém notar, por fim, que
ro e pavão; sewjo e senhor (Conse- as formas divergentes não se re-
llio sengos—sênior) ; erro e error ferem Síimente ao elemento lati-
(eiTor); Velix e feliz (felix) ; tredo no ; (ímbora as IVn-mas latinas se-
e traidor (Iraditor); travo e tra- jam mais numerosas e tenham
tor ; chantre (cio francez) e cantor servido de modelo aos clássicos.
(canloi-);/««o (pop.) c fedor (fie- Também se observam fcjrmas di-
tor); raçijo, razão e rum (Vit. vergentes no elemento arabe :
Elue., ratio) ; ladrou ladrão (la- rez e arráis, de ar-raz ; zero e ci-
tro); ca.hro e o lalveJ! aiigmenta- fra, de zifr; awje e apsiães, de
tivo cahrão (El. úe A'it.) . Estes audj; aiimuth e zenith, de asse-
exemplos ainda não estão conve- mit. Como se vê, a divergencia
nientemente estudados. Um que resulta ás vezes da presença ou
parece pertencei- a essa classe de omissão do artigo al: raz e ar-
phenomenos é a prosodia incerta raz ; sem e assem. A forma sifr
de bênção e benção ; a forma gra- foi alatinada na forma zephirus,
ve bença talvez seja a contracção que produziu zero. Observam-se
do nominativo benedilio, o que igualmente algumas divergências
não ousamos aflirmar com certe- entre vocábulos de origem ger-
za. Exemplos iniiegaveis sãoijnan, mânica ; leste e este ; espuma e es-
do nominativo adamas, e diaman- cuma; baluarte o boulevard. A for-
te ; ezypa (pop.) e erisypéla e al- ma leste (Teste) formou-se pela
guns nomes do zodiaco; léo e le- anteposição do antigo artigo Io.
ão; tiryo e virgem; scorpio e escor- A forma boulevard é franceza. A
pião. A fôrma léo é popular ; ter expressão formas . divergentes
léo (tempo) para traballiar ; an- foi vulgarizada em jjortuguez
dar ao léo, etc. Note-se ainda que por A. Coelho. A expressão du-
pode um termo germânico latini- 2)las (doublets) é a mais geralmen-
zado dar formas duplas, palc, te usada nas grammaticas fran-
palco e balcão, talvez augmenta- cezas.
tivo, ou de origem diversa. 4.
As formas divergentes são pro- Divisão das palavra,";. — Nos
duzidas, embora em raros casos, impressos e nos manuscriptos,
pela introducção de fôrma es- observam-se certas regras na di-
trangeira de origem idêntica á de visão das palavras, e no emprego
forma vernacula. A fúrma lies- da risca de união ou hyphen. Eis
panhola lhano, a italiana ;Ma7io e aqui alguns d'esses preceitos,
a portugueza chão derivam da que, entretanto, se não devem to-
mesma origem Vmwa planus. A mar muito a rigor. «O hyphen é
forma italiana soprano e a portu- um signal orthographico que, pos-
gueza soberano derivam de idênti- to entre duas palavras, mostra que
ca fonte, sjiperaneus (lat. barba- ellas se devem pronunciar, como
ro). A fúrma franceza ciief c a, se foram uma só; v. g. : métrico-
portugueza cabo derivam de ca- decimal, a(jtia-ardente, Monte-môr-
100
DIVISÃO
o-telho, cumpre-me, díze-lhe, fel-o, se como a palavra primitiva,
etc. Xo íim da linha indica que ainda (juando a cedillui liaja de
a palavra alli começada vae ter- supprimir-se ante e ou i ; v. g.:
minar no principio da seguinte, cor-re-cção, cor-re-ccional (1). 9Í
devendo observar-se as seguintes Quando numa palavra ha tres
regras : l'.' Quandomuitas vogaes invogaes seguidas, se as duas
reunidas não formam diphtlion- uUimas podem começar uma
go, podemos separal-as; v. g.: sa- syllaba, iiertencem essas á vogai
úde,a-inda. 2ÍQuandoduas voga- seguinte, devendo "a iirimeira
tes formam diphtliongo pertencem pertencer á vogai precedente ; v.
íí mesma syüaba e não podem ac-clam,ar (2), com-pridu, es-
ser sei)aradas : v. g.: causa, pou- tragar. Entretanto existe uma
co, coi-tado, ou-ro. Í3Í Toda a invo- excepçSo, como para todas as re-
gal simples formando uma syl- gras : ó que em toda a palavra
iaba com a vogai seguinte não composta, a separação deve ge-
IDÓde separar-se d'ei Ia ; v. g.: ralmente fazer-se no ponto de
«,-mar, se-na-do. 4Í Toda a invo- juncçãó dos termos componen-
gal collocada entre duas vogaes tes, quando a palavra, assim di-
pertence á voga! seguinte; v. g ; vidida, em nada melindre nem
a-ve, casa, a-mor, ae-xo. Todavia, a vista nem a iironuncia, qual-
no começo das palavras, x pre- quer que seja a combinação de
cedido de e forma uma syllaba letras que resulte d'esse ajun-
com esta vogai ; v. g. : ex-ercito, tamento ; v. g.: in-au-di-lo, in-
ex-imir, ex-onerar. Sí Quando hu-ma-no, phil-ar-mo-ni-co, ad-
duas invogaes se seguem em mit-tir, des-com-pór, ah-ro-gar,
uma palavra, pertence a primei- an-he-lar, an-hy-dro, etc. Esta di-
ra á vogai que precede, a segun- visão das palavras compostas
dai Vogai seguinte : v. g.: poa-no, apresenta em certos casos algu-
nor-ie; exceptuam-se os casos mas difllculdades, porque as
adiante indicados, d"' As invo- mesmas reuniões de letras po-
gaes hü, hr, cl, cr, dr,fl, etc., dem exigir divisões differentes,
todas aquellas emfim, que reu- conforme as palavras ([ue hou-
nidas i)odem começar uma syl- verem de formar. Por exemplo,
laba, pertencem uma e outra ií nas palavras que começam por
vogai seguinte ; v. g. ; a-brir, a- ai), o b pertence ora á vogai pre-
dro, qua-tro, a-pla-car. 7? c, p, l, cedente, como em ab-uso, ora á
n, seguidas de Ji, suo insepará-
veis d'esta letra, e reunem-se (1) Neste caso, leiam-se como se
com ella á vogai seguinte para a divisão
formar uma syllaba ; v. g. : a- indicadas e— a.co-rre-kção,
leitura foram assim
co-rre-kci-
lUei-o, pe-nhor, phi-loso-plio, cha- o-nal.
mar, etc. 8? Os dois cc, quando (2) Note que a 2 Í invogalé a úni-
o segundo é cedilhado (cç), per- ca a ler-se : v. g.: póço e não posço,
tencem á vogai seguinte ; v. g.: acclamnr e não akclatnar,i^osto que
M-cção ; e as derivadas dividem- se parta assim : jms-so, ac-clamar.
101
DIVISÃO DR
vogai seguinte, como araa-hoccar. —pseud-onymo ; rec-tangulo—rect-
O mesmo acontece com as pala- angulo; re-dempçMo—red-empç,~w;
vras que começam por huh, ad, stra-tegia — strat-egia; teles-copio
trans, am ou an, com ou eon, em —teleseopio; vi-nagre — tin-agre.
ou en. O conhecimento tia ori- Todavia algumas ha, derivadas
gem e da composição das pala- do grego, que se dividem muito
vras é que pótle Iiabiiitar-nos a bem pelo ponto de juncção dos
dividil-ascorrectamente. Nas pa- termos componentes ; taes como:
lavras que começam por ahs, o s antiscorbutico, anti-ptose, hyper-
pertence á syliaba seguinte, se bolico, pery-stylo,, peri-plo, per-
elle fôr seguido de uma vogai ; oxydo, syn-odo, syn-onymo, syn-
V. g.; absoluto, ah-simlo; e lí opse, etc. Finalmente nunca se
precedente, se fôr seguido de passa para a linha seguinte uma
uma invogal; v. g.: ahs-cesso, vogai só, ainda que forme syl-
abs-tinencia Todavia faremos no- iaba inteira, nem pontuação
tar que nas palavras que come- pertencente á ultima palavra da
çam por uma das s}"llabas jirísa- linha antecedente.!) (Esc. port.)
tivas, — in ou ãea, o n o o ,? per- Leia-se ainda o artigo Epellação.
tencem á vogai procedente ; v. Dobradas (letras). — Vide
g.: in-utü, in-habil, iii-evitavel, Geminação.
in-experto, den-aUir, des-espcração,
des-ordem. des-unido. Nas i)ala- Doclie, dechomai, eu collijo,
vras que começam pelas syllabas tomo. — Elemento grego de
con, in, per, pro, cireum e super, composição." Syn-ec-doithe, com-
seguidas de«, pertence este quasi prehensão (a parte pelo todo).
sempre á syilaba seguinte: core- Pandectas (pan, tudo) collecção
stancia, in-stavel, , per-spicaeia, de toda a legislação.
prosperar, circum-riancia, super- Dotos, dado.—Elemento gre-
stição, etc. Por vezes lia necessi- go de composição. An-ecdota (ek,
dade de infringir estas regras fora ; an, privação), não iiubli-
quasi geralmente adoptadas; v. cado, historia inédita. Antídoto,
g.: em jer-archia, prete-rito, que dado contra.
por nenhuma razão se podem di-
vidir — jer-archia, preter-ito. Da Doupeili, fazer ruido.—Ele-
mesma sorte se não podem divi- mento grego de composição. Ga-
dir, no ponto de junção dos ter- tadupa (cata,'f;m baixo).
mos componentes, certas pala- Doxa, doutrina, opinião. —
vras derivadas do grego ou do Heterodoxo (heteros, outro) de ou-
latim ; taes como : anto-nomasia tra doutrina. Paradoxo, opinião
que se não pckle dividir assim — contra.
ant-onomasia, me-tliodo — metli-
odo; mo-narcha—mon-archa ; pe- Dr — grupo latino, sempre
nuUimo — pen-nltimo ; pe-ninsula conservado: quadro, quadrum;
—pen-insula; Phi-lipe—Phil-ipe; dragão, draconem: O elemento r
pro-sodia—prost-odia; paeu-donymo desapparece, talvez por eupho-
102
DR — E
iiiii, em um caso : cadeira, de enteria, dôres nas entranhas
cathedram(etymologia duvidosa). (enter a). Dyseolos, diffioil.
Drao, obrar—Elemento grego
de composição. Drama, DraatUo. X}
Melodrama.
Dravidiaiias (linguas). — B.—Vogai que sôa com di-
Vide Linguagem. versos valores sonicos : é, nas
Dromos,corrida.—íjiemerito syllabas accentuadas (pé, café.
grego de composição. JIÍ2')podro- cego, cliapéo), na terminação vel
mu, corrida de cavallos. Proãro- (atfavel, crível); e fechado ou
ino, in-ecursor. Dromedário, por . circumfiexo : mercê, cedo, me-
do ; e tenue e mudo, em arvore,
dromadario, corredor (especie de planicie. As vezes a differença
camelo). de forma arrasta a . de valores
Dual.—Flexão de numero das sonicos: êste, esta; parôço,
linguas aryanas, conservada .no pareces; nhorvêço, aborrece; egual
grego. No latim apenas existem variação sotfre a vogai o (formo-
vestígios do dual, os quaes foram so,/yr)7íó«a, formosos) .E (letra la-
legados iís linguas romanas. O tina). Vogai média, representada
dual exprime apenas o plural : por e e por ae em algumas in-
duas unidades. Taes são : ambos, scripções da decadencia. O e per-
dous (ambo, duo). Primitiva- siste quando tonico e longo:
mente, como se verifica pelas remo, rémum. A permuta i (co-
formas da língua grega, eram migo, c\V[a.-mecum) é recente e
duaes : nos (ego et alter), vos (tu existem as formas archaicas
et alter) ; cf. noster, vester. De comeyo, comtego. A díphthonga-
modo ideologico, iiodem ser con- ção ei dá-se com o i palatal:
siderados duaes os nomes que ex- alheio, alienus, ou viani evitar o
primem dualidade de cousas : hiato por um triphthongo : idéa,
(jemeos, ceroidas, orelhas, calças, ideam. O e atono também em re-
CMlções, e só por isso éque se apre- gra conserva-se: peiov, pejorem.
sentam com a fíu-ma do plural. No emtanto o atono ptkle dege-
Duplas, fr. douUets. — Vide nerar em a: ebano, ebenum. || ij
Divergentes, formas. (letra portugueza).— Provém or-
dinariamente de e: ler, legere.
Dyiiainis, força.—Elemento Provém do diphthongo ae: Eneas,
grego de composição. Dynamo- Aeneas; ou do grego ai, dieta,
metro, medida de força. Di/nas- ãiaita. Pode provir do a breve,
tia, os fortes (a raça privile- tonico ou atono: beijo, basium;
giada.) e do i breve, embora accentua-
i>ys, dus, diflicilmente.—Ele- do (tonico): menos, áe mimis.
mento grego de composição. Raras vezes de o: frente, úefron-
Dtjspepsia, diflicil digestão. Dys- tem, por influencia do castelha-
pnea, ditlicíl respiração. Dys- no; rara ainda a permuta origi-
103
E — ECHO
nada de u, sempre atono ; gene- A SAIA NOVA
bra, juiiiperum.
lia.—Hiato portuguez e la- —^Saia nova côr de rosa ?
tino : idéa, dea, etc. O hiato la- Algum cirio aIlosa! terra vem
tino foi evitado nas duas occur- liem '?!
rencias seguintes : a) por meio — Não, senhor. — K teu marido ?
de elüão ou contracção, quando — Ido
houve precedencia o conseqüen- Agora seia mezes ha ;
te abrandamento do t: praça, — Ah !
de plateam; h) por meio de — Anda embarcado lá fóra
intercalação, com a formaçüo dos, — Ora !
grupos líquidos lhe, íí7í ; linha, E tu então ? — Eu, assim...
— Sim...
lineain ; palha, de paleam. O gru- —-Na vida por cá lidando,
po ea tem graphia irregular e é Ando
transcripto commummente ccim — Mas vida que não faz dó.
a forma cia. — üh!
Eclieiii, na forma oca, tico.— — Vida de moiro ; a Maria...
Oca, ucai, de echein, guardar. Do que eu faço,Kia ?
é quem dá fé.
Elemento grego de composição. É?
Ep-oca, de epethein, reter. Èuih- —Pergunte.—Mas autesd' hontem..
uco, do gr. eummchos, de euné, Iloutem.
leito : que guarda o leito. Co Zé Nunes vi-te aqui ?
XiCllo. — Vide (Jacopliaion. O Encoutrei-o, vindo — Ili !
ec/ío propriamente resulta da con- ao rio,
Rio,
sonância perfeita de sons ou rima. Lá com elle alguma vez.
E isto se dá quando se seguem Vês ? !
os «mesmos sons suceessivos ou E um estudante outro dia,
proximos. Exemplos: a carta Ia.
farta; sonhos medonhos; a dama A oliiar-te tão magauão ?...
chama com dobrados brados; gozo Diz-me sempre—«vou Não ;
comsigo ?»
ditoso; vogai nasal, etc. Também Sigo
se dá este nome á composição E olho a ver, se vem também..,
poética, onde ha versos cujas — liem!
ultimas syllabas rimam com as — Mas nada, não me persegue,
finaes de alguma palavra no co- Segue
meço do verso seguinte. Exem- O destino em que jíi vai.
plo : — Ai! !
— Só uma vez por descuido.
Que vale maisdo consternado amigo? Cuido
Que vai o abríjro que se ilá clioraiidoí Que elle um beijo me furtou
Que vai a meiga e filial ternura, Ou...
Se a sepult!í)'tt se lhe está cavando? Ou foram tres... eu sorri-me,
Mellior exemplo nos dá o sr. Ki-me,
João do Lemos na sua engraçada São coisas sem—mil tençâo...
São.
composição :
104
ECHO EMSÃO
E aquelle tal ricalhouço ? tra om vocábulos arabes, jií o
Ouço notamos, deriva do grupo ai:
Da quinta dos Oiivaes azeitona, az-zaytun. O grupo ei,
Vaes ?... em formas populares ou antigas,
A quinta <l'André Caniço ?
Isso vem também do eu grego : fleiina,
E também sem mal ueulium. reinia, de phleugma, rheuma. O
— lium!... grupo ei resulta freqüentemente
(Do Escoliasle. í da vocalização do c, no grupo ct:
Bcthlipse. — Caso especial direito, directum; feito, faetum;
da apoeope, e que consiste na sup- arch. treito, traetum.
pressão da nasal final. Btymolo- Kúlos, imagem. — Elemento
gicomente, a ectlilipse é commu- grego de composição. ídolo, Id-
nissima, pois.representa a perda yllio, diminutivo de eidos, forma,
do m caracteristico do accusa- pequena composição poética.
llvo: arvore, arborem; alma, Eikoii, imagem. — Elemen-
animam. A nasal foi ainda evi- to grego ; nota-se em iconoclasta,
tada ern lacrau, por lacrão. No- que quebra imagens ■, inonologia,
ta-se, demais, a eothlipse na sciencia das imagens ou estam-
suppressão do m da preposição pas.
çom, metaplasmo freqüente na
poesia: Él, artigo=o, usado na ex-
Ondeólicor mistura e a branca areia presão El-llei, que datado tempo
Co'o saljjado Neptuno o doce Tejo de D. Diniz, e foi empregada
(Camões, Lvs.) desde então por todos os escri-
ptores. É palavra castelhana de
lírtra, face, base.—Elemento origem.
grego de composição. Viedro,
duas faces, Decaedro, etc. Kleiiieiitos decomposição.
Ee.—Hiato do portuguez an- —Vide Compostos e Prefixos. Ele-
tigo, que resultou da syncope de mentos de derivação, vide Deri-
vozes latinas : veer, vi-d-ere, vação e Suffixos.
leer, le-(j-ere; creer, cre-d-ere. Na Elementos liistoricos. —
ortliographia e prosodia actua- iiDil-se esta denominação ás va-
es, os dous ee foram reduzidos rias línguas que concorreram
a um s(^ médio ou agudo : pé para a formação do portuguez,
pee (pedem) ; ser, see (sedere) . e para o accrescimo do seu vo-
líi.—Diplithongo latino e por- cabulário.» (P. J.)
tuguez. Resulta de varias origens Elisão. — Suppressão de vo-
do grupo nasal: cheio, de ple- gaes notada na juncção de par-
nus; do hiato ou de syncope : tículas, determínativos e outros
ceia, canam ; da metathese : pri- vocábulos da trama grammatí-
meiro, primarius. Da apoeope cal. E o iilienomeno em geral co-
em grupo guttural; lei, rei, le- nhecido, ainda que impropria-
yem, regem. Quando ei se encon- mente, pelo epitheto de contra-
105
ELISAO ELLIPSE
cção: oEspecie de pressito, de con- se contraem com as preposições
densação de syllabas, pela qual, de, em e por ou per, quando são
em vez de duas que eram, faze- artigos definitos ou pronomes
mos uma só syllaba, como nes- demonstrativos, nunca se con-
tas : as, d, do, da, no, na, 2>eio, traem com ellas quando são pro-
2>ela, por o, por a, etc. ; áquelle, nomes jiessoaes, porque, neste
em vez de—a aquelle; n^este, em caso, não são regimens d'estas
vez de — em este ; d' Almeida, era preposições, embora as sigam ;
vez de — de Almeida ; Vho, m'o, V. gr, : em o vendo alli ; em & pre-
t'o, em vez de—lhe o, me o, fe o, venindo a tempo ; depois de os ver;
etc. No verso também se en- quando-Aü comprimento, etc. Te-
contram estas contracções : — mos ainda as seguintes contra-
c'o, c'os, ou co'o, co'os, em vez de cções com os demonstrativos e al-
—com o, com os ; co'a, c'o as, em guns indefinitos : d'este, d'esta;
vez de—co?re a, com as. Ha duas d'esse, d'essa; d'aqiielle, d'aquella,
especiesdecontracções: a.synerese e seus pluraes; d'isto, d'isso,
e a crase. A i)ressa que lemos em d'aquillo. Em vez de—de este, de
enunciar o pensamento deu lo- esta, de esses, etc. JVeste, n'esta,
gar As contracções e ás ellipses. n'esse, n'essa, n'aquelle, n'aqu6Ua,
Assim pois, e seus pluraes ; n'isto,n isso, n'a-
Emvezdc,—■ Diga-se e escreva-se: quillo. Em vez de—em este, em
a a, a a as, a esta, em- esses, etc. Aquelle, úquel-
a os, a as aos, ás la, áquelles, áquellaa, ãquillo. D'ou-
de o, de a do, da tro, d'outra, e seus pluraes, e
de os, de as dos, das d'outrem; em vez de—de outro.
em o, em a no, na etc. Esfoutro, ess'outro, aquelV
em os, em as nos. nas outro; em vez de—este outro, etc.,
per ou por o, e seus pluraes. D'algum. d'al-
per ou por a, pelo, pela guma, e seus pluraes ; d'aUjuem,
per ou por os, d'aml/os, d'ambas, etc.; em vez de
per ou por as pelos, pelas —de altjuem, de ambos, etc. ;
IWo, IICa, IKos, IICas, em vez de
As f(5rraas —• sohre o, sohre a, so- •—lhe o ou lhes o, lhe a, ou lhes a ;
hre os, sohre as, lambem se en- m'o, t'o, etc. (1).
contram na poesia contrahidas
d'este modo : — ^sobolo, solx/la, Kllipse. —Figura de syntaxe.
soholos, sobolas (esdru.vulas). Com Consiste na suppressão de pala-
o artigo indefinito também se vrasque a analyserigorosa exigi-
contrae; em vez de—de um, de ria na proposição. A ellipse 6 um
uirM, de uns, de umas; em um, em dos auxiliares da elegancia e do
uma, em uns, em umas,—diga-se bom estylo, e explica-se como
e escreva-se (quando a euphonia sendo um resultado da lei de
assim o requeira)—d'wn, d'uma, economia mental ou do menor
d'tms, d'umas; n'um, n'uma,
tiuns, n'umas. O, a, os, as. que (1 JA.JNetto.—Escol.j>orl.\)ag. 145.
10()
ELLIPSK — KPKLLAÇÃO
esforço ■psychologico. Neste senti- vicio resultante da emphase cha-
do, p(kle-se considerar a ellipse ma-se pleonasmo.
causa poderosa da organização Knallaj^e.—Tropo freqüente
e disciplina syntactica da iingua. em todas as linguas o que con-
Nas linguas syntheticas, como a siste na desviação da categoria
latina, a ellipse é imprescindível ; dos vocábulos: v. g.; o advérbio
nas próprias linguas romanas é usado como nome (o sim, o não);
de grande uso ; no portuguoz, o infinitivo usado como substan-
menos analylico que o franceií, tivo. Vide Derivação imprópria e
ix ellipse muitas ve/es constitue Semanlica.
regra, como seja, v. gr. : a sup-
pressão dos pronomes eu, tu, elle, Eiicliticos. — Monosyllabos
nós, etc., nas proposições por si atonos que se pronunciam se-
mesmas claras, sem ambigüida- gundo o accento dos vocábulos a
de, e quando não são cmphati- que se ajuntam : me, te, se, o, de,
cas. A eüijyse na ordem do pen- a, nos, vos, lhe, lhes, em, por, etc.
samento eqüivale á abreviatura. Sobre a collocação dos encliticos
O que na Analyse se chama su- pronominaes, trataremos no lo-
jeito, projwsifão, ohjecto composto, gar opportuno.
são verdadeiros resultados da Epellação (gall.). — Na
ellipse. II Também a ellipse é ele- grammatica latina corresponde
mento de euphonia; por ella se á soletração : enunciado das le-
íaz a suppressão da preposição de tras e syllabas que comi)õem a
(dignou-se receber), do verbo ser palavra. Como algumas das re-
(merece lido), da partícula que gras do latim podem ser apro-
(desejo tenhas recebido, espero veitadas na orthographia do por-
sejas attendido). tuguês, convém expor as mais
Em e eii. — Prefixo verná- importantes, referentes ao as-
culo, correspondente ao in lati- sumpto. 1. A consoante isolada
no. Embarcar, encher (implere), (entre vogaes) sempre pertence á
encarregar, encimar (em cima). syllaha seguinte: a-la, vi-ta. 2.
Nos compostos, os elementos ficam
Eiiiplia.se. — Denominação em separado .-ab-utor, abs-condo,
applicada a vários factos. En- inter-est. ü. Duas consoantes
tre os neoyrammaticos, a emphase quando podem formar grupo no
e.xprime o conjuncto de todas meio da i)alavra, pertencem d syl-
as tendencias do integração, isto laha seguinte : demons-trare, i-
é, de todas as forças que se gnis, lio-spes. 4. Nas palavras
oppôem á degeneração das lin- gregas a consoante miida é insepará-
guas. Em sentido mais restricto, vel da liquida: dra-chma, a-gmen.
a emphase exprime o reforço da Quando os elementos componen-
expressão por meio de repeti- tes fundem-se completamente, a
ções de vozes, do tom, etc. A separação pôde ser feita sem at-
emphase 6 muito vulgar na phra- tender á composição : pe-nul-ti-
se negativa. Vide Kegação. Certo mus, ma-gna-nimus. Esta ultima
107
EPELLAÇÃO ESTYLO
regia é de maior importancia corta-pennas, vae e vem, que exer-
para o portujruez, onde a separa- cem funcções de substantivos.
ção das syDabas, só para um es- Equivalentes d'esta ordem são
pirito rigorista em extremo, po- todas as proposições subsia/iiivas
deria ser fundada sobre a ety- (Vide Proposições). Equivalentes-
mologia, maxime nos vocábulos aãjectivos.'6Tw quaesquer locuções
gregos. Assim, ninguém separa ou proposições que funccionam
ep-íiemero, como seria de razão como adjectivos: de ferro (fer-
títymologica. reo), etc. Equivalentes verbaes.
Epeiitliese. — Metaplasmo São todas as lórmas de conjuga-
de addição. Consiste na inter- ções periphrasticas : tenho ama-
caiação de elementos literaes do, vou escrevendo, etc. As mesmas'
no corpo do vocábulo. (Vido classes de equivalentes se notam
Adcentlcius, letras.) Exemiilos : nas partículas (são as locuções
reyistro e reyi-ito ; mastro e masfo. adverbiaes, i)repositivas, etc.).
Os equivalentes syntacticos (im-
Epi, sobre.—Prefixo grego. propriamente denominados typo»
Kpühexe, superposição. EpkU- syntacticos divergentes) serão es-
mia, sobre o povo. Ep-hemero, tudados á parte. O uso dos equiva-
sobre um dia. lentes é extremamente notável
Epiceiio.—Designação dada na linguagem plebeia: O dégas, &
ao substantivo que sem Ilexão Fajardo (eu), etc.
designa qualquer sexo do ani-
mal: Jacíwe, cobra. A distincção Eqiiivocos, trocadilhos, tro-
do se.\o faz-se por uma amplia- cados, jogo de palavras, ou, á
ção : o macho da cobra, jacaréfe- franctíza, calinibur. Vide llomo-
jHía, etc., ou a. cobra macho, oja- nymos, paronymos.
\-a\\ femea. Ha grammaticos que Er};ô e ergon, trabalho.—Ele-
exigem a concordância dos ad- mento grego de composição. —
jectivos (a cobra macha, o javali Chir-urgia, man'-obra. En-ergia,
Jemeo); tenhoqueé exaggero que feito completo. Leth-argo, so-
se não justifica com bons exem- mno. Metall-urgia, trabalho, pra-
plos. tica de metaes.
Epithese. — Vide Paragor/e. Ero.s, amor.—Elemento gre-
Equivalência.— Expressão go. Erotico, amoroso.
applicaja a quaesquer grupos Eruditas (formas). — Vide
de vocábulos (jue conjuncta- Divergentes (formas).
mente exercem a. fu noção de.uma
categoria grammatical. As lo- Esílruxulas, d a o t y 1 i c a s,
cuções, as i^roposições são ou po- proparoxytonas são as palavras
dem ser equivalentes de sub- que têm a accentuação na ante-
stantivos, adject ivos, etc. Kquiva- penúltima syllaba: lampada, pal-
lentes-substantivçs. São as lo- lido, physica.
cuções ou compostos: beija-flor, Estylo. — Caracter especial
108
ESTYLO ETYMOI.OGIA
da linguagem cie cada intlivUluo guas estranhas. Aulu-Gellio,
ou cie cada período literário. O analysando o vocábulo somnus,
estylo deriva da variedade do descobriu a suaallinidade com o
vocabulario o dos processos syn- grego ( /<j(/)no« = supnus ), e de-
tíictioos, destinados á exi)ressrio terminou o núcleo de radicaes
do pensamento. sopor, sopire,etc. Por falta do ele-
Ktliiio.s, nação. — Elemento mento critico, mesmo entre os
grego. Etimologia, sciencia das romanos, a etymologia não podia
raças. constituir-se em bases seguras.
O proprio Varro, que Egger ( ao
lítlios, costumes. — Elemen- qual seguimos neste resumo )
to grego. Ethica, sciencia dos diz ler sido o mais sábio dos
costumes. Ethopea, pintura dos etymologistas antigos, perde-se
costumes. em hypotheses pueris e falsas.
J3tymologia. — Segundo 11 Diz, v. gr., cjue loqui deriva de
Egger, ó a analyse grammatical locus, porque quem fala ordena,
que decompõe os vocábulos para põe em ordem, no logar verda-
determinar-lhes a origem. Ety- deiro, as suas palavras, etc...;
inolo(/ia deriva do grego etymo- que metuere ( temer ) vem de mo-
logia, de etymou ( verdadeiro ), ( movimento ), etc. Como a
logos ( sciencia ), no latim terilo- etymologia investiga não sómen-
quium. Antes da constituição te a origem dos elementos mate-
scientifica da lingüística, a ety- riaes do vocábulo, mas também
mologia significava a sciencia penetra na analyse do sentido, é
dos elementos primitivos da lin- util comparar os termos latinos
guagem e os seus metiiodos não formados segundo o pensamento
tinham valor positivo por serem grego. Esses factos explicam
fundados sobre factos hypothe- apenas a etymolodia do sentido:
ticos e illusorios. A theoria mais a d vc r b i u m, epííTt 7íio; CO n j u n c t i o,
vulgarizada era a úo. onomatopéa: syndesmos; conjugalio, syxijgia ;
todas as palavras representam veriloquium, etymologia ; de-
ruídos, vozes ímitativas, etc. monstrativus, epidcictieos; trans-
Esse erro derivou-se no emtanto latio, metaplwra. (1 ) — Quanto
de factos verdadeiros notados em á etymologia das lormas mate-
todas as linguas : hryen»thai,ulxi- riaes, na sua maior parle, o vo-
lare, cacarejar, etc. Entre os
gregos, que não conheciam outra (l) fjgger, Gramm. I'''ontes para
língua senão a sua ( Egger ), a taes investigações : ÍI. Estieiiue
etymologia não teve investiga- —Lexicon Cirfroiiíautuii tjrt^co-la-
dores de mérito. Não succedeu tinum ; Ciavel — De JIJ. T. Cire-
o mesmo com os grammaticos roiic gvfeconan liiferprete ;—-.Tiil.
Pollux ( lioucherie ) : Ermrney-
romanos que, florescendo em inalíi.. .ap. t. XXIfl Not. et. Extr.
nação conciui.^tadora, poderam de. Mannscrit.i. Warinouski — .1h-
mais facilmente estabeleceroom- liqnilates c yrmcis • fontibus c.cpli-
parações entre vocábulos do lin- eatíc.
10»
ETYMOLOGIA — EU
Ciibulario das línguas romanas dição das formas syntheticas
está definitivamente estudado. latinas e o an<tlytismo. Osnossos
O methodo adoptado na averigua- advérbios oríginam-se :— de iim
ção etymologica consiste na liis- advérbio latino simples (já); de
toria e comparação dos vocábu- partículas latinas (asKas^&A sa-
los. Vide estas palavras, ( 1)— tis); de adjectivos (alto, cedo);
Os nossos substantivos, posto de um adjectivo feminino com
que de múltiplas origens, deri- o sufflxo mente ( claramente );
vam geralmente do latim ; a te- de duas palavras portuguezas
chiiologia scientitica tem oi'igem ( outr'ora). As nossas prepo-
no grego ; a terminologia artísti- sições simples, em sua maioria,
ca deram-i.ios as línguas vivas são de origem latina directa, e
( maiormente o italiano nó to- conservam as suas fôrmas e rela-
cante á pintura e musica); os ções (de, em, per, por, etc.)
nomes ijroprios derivam-se do Muitas são as preposições forma-
hebraico, grego, latim e germâ- das pela derivação imprópria —
nico ; os patronymicos têm tam- (diante, apezar, referente, perto
bém varias origens: os derivados de . . .) Das conjuncções, umas
do latim formam-se geralmente são latinas (logo, nem.. outras
do ablativo; os do arabe, pela de formação portugueza (outro-
anteposição da palavra beii. Os sim, todavia...)
substantivos formam-se do no-
minativo ou do accusativo, o Etymos, etumos, verdadeiro.
accento tonico indica a origem — Elemento grego de composi-
< ladro=iiom. latro, ladrão—]&- ção. Etymologia, sciencia do ver-
tronem ). As vezes conservam dadeiro principio ou origem
tão somente o caso regímen das palavras.
(imperador, religião, mude....);
outras, mui raras, do genitivo Eu, eo.— Diphthongo latino,
(aqueductn, terremoto...), e mais portuguez e grego, conservado
raro ainda, do dativo ( crucifi- ■na língua: Euro, ®ítoí(. A trans-
jco). Do vocativo temos exemplo formação em eMresultou arbitra-
em Ave Maria. nos referimos riamente de todas as formas do
á etymologia dos adjectivos. O preterito perfeito em viu, deu,
artigo e os pronomes demonstra- correu, morreu, etc. São denotar
tivos, índetinítos, relativos, in- asírregularidadesorthographicas
terrogativos, são todos de ori- ora em eu, ora em ev: evange-
gem latina, excepto quem quer, lho (euplionia) aneurísma (e ne-
que é de creação vernacula. A vrose), etc. O diphthongo eo ou
historia da conjugação portu- eu pode resultar de apocope ;
gueza mostra a lucta entre a tra- céo, codiim; chapéo ( do fr. cha-
peau)capeMííOT. Na orthographia,
(1) Sobre o methodo da etymo- eo é diphthongo final ; nunca
logia, leia-se a admiravel introdii- pode oocorrer no principio ou
ceão do Dict. eiymolmj. de Bracliet. meio de palavras, exceiito nas
110
EU — E
formas litenirias estranlias : ditos. Ainda a euphonia difil-
socenio, eolo, eolio, etc. culta ou impossibilita a exten-
Eu ou ev.—Prefixo grego. Si- são de certas funcções gramma-
gnifica ; bem. EiipJtonia, bom ticaes, tornando defectivoe (vide
som. BJiíangelho, boa nova. Eu- esta palavra) muitos vocábulos
■charistia, boas graças. de fiexão. São casos e exemplos
de euphonia: d'alma (da alma),
Eupliemismo.— Tropo que no dia (em o dia), pela tarde (por
consiste em substituir expres- a tarde), vamo-nos (va.TOOs-nos),
sões grosseiras, pouco decorosas digamol-o (digamos-oj, trazem
ou desfavoráveis ao liomem ou n'o (trazem-o), idolatra (idolo-
pouco limpas, por outras mais latra).
polidas e do uso das pessoas Ev.—Vide Eu.
educadas. E um dos factores
mais notáveis da língua literaria, Ex.—Prefixo latino : fóra, ex-
em cujo léxico não entram senão terioridade, separação. Excêntrico
por abuso as expressões sórdi- (fora do centro),expatriar-se(sa\v
das do poviléo e o linguajar da l)ara Tóra da patria). A assimi-
canalha. O cuplmnismo, na ordem lação desde o latim produziu as
das idéas, representa o equiva- formas e e ef: efficaz, eficiente,
lente da euphonia na ordem ma- enorme (fora do normal), etc. E.v
terial e prosodica da linguagem. toma o aspecto de en: enxame,
Os agentes mais efllcazes do eu- examen; ensaio, exa(/ium.
phemismo são na sociedade as Excepção. — Chama-se ex-
mulheres, que em geral ignoram cepção qualquer facto que não
ou pela polidesí do trato fazem se submette á regra dos factos
obliterar o vocabulario obsceno analogos. Assim, o plural males,
e torpe. Não é só nessa quali- de mal(\aX. maliim), é uma ex-
dade, mas ainda para encobrir cepção, porque os nomes em al,
expressões duras, ou pouco agra- segundo a regra, devem ter o
daveis e tristes; passou á melhor plural em aes : animal, animaes,
(morreu): Deus o favoreça (em etc. A excepção deve ser inter-
vez de negar a esmola); inverda- pretada, não como um desvio
de (por—mentira) já não é joven das leis da linguagem, mas como
(=é ou está velho), etc. o etreito jíredominante de uma
Eiiplioiiia. — Caracter dos lei sobre outra, por isso que
sons que na linguagem são de todas as leis devem ser immuta-
prosodia fácil ou agradavel. O veis; ha intercurrencias e não
opposto é a cacoplionia. A eu- excepções. Assim, pois, uma pa-
phonia é um principio que mui- lavra estrangeira, oomo piano, de
to contribuiu para o desenvol- planus, dá-nos a permuta pl—pi,
vimento das línguas modernas. que é própria do italiano (pian-
A euphonia fez desapparecer a (jere, plangere), etc. A influen-
maioria dos esdruxulos latinos, cia erudita também produz ex-
novamente revocados pelos eru- cepções, como legal em vez de
111
EXCEPÇÃO — F
leal (legalis, lat.) A analogia é Explicativos. Vide Adje-
uma fonte perenne de excepções ctivos.
!Ís leis phoneücas, quando uni-
formiza as ílexões usuaes da consoantes líxplosiva.s. — Chisse de
lingua. cuja articulação se.
produz pelo contacto instanla-
líxô, f(5ra.—Elemento grego. neo e que logo cessa, de duas
Exotico, estranho. partes do tubo vocal (pJiarynr/e).
As explosivas ou momeiitaneas s<3
Expl^ítivas. — Palavras re- podem soar com a vogai; taes
dundantes, de ordinário partí- são: b, c, k, cli, qu, d, (j, yu, m, n,
culas, pronomes e partes mono- p, t. Oppôem-se á fricativas ou
syllabicas empregadas, ora para continuas : ®, /, x, 2, etc.
effeito decorativo de phrase, e
ás vezes para encher viciosa- que,E.xpoente. — Designação
com a do rais, foi tomada
mente a medida dos versos, na da sciencia matliematica. Desi-
poesia. Assim, o uso dos exple-
tivos pôde. ser um defeito de es- gna o som desinencial caracterís-
tico de qualquer ílexão. O a, v.
tylo ou um modo de exprimir gr., é, em portuguez, o expoente
a emphase e energia da phrase.
São palavras de emprego exple- do feminino ; cas-(i, leô-a, rainh-
tivo: sim, não, e, cã, lã, me, te, a. O s é expoente do plural:
se, de, etc. O que é expletivo cas-a-«, leô-a-«, leô-e-s, rainh-a-í,
em muitos logares de Camões. rei-«, etc.
As particulas, sim, cá, lã, são ver- líxteii.são. — Amplitude do
dadeiros bordões, e tornam-se de sentido proprio do vocábulo
deselegante effeito na poesia. Em Opi)õe-se 9, Compreliensão.—O fe-
algum caso é belleza : minino etymologico dos neutros
líepoiisa lã iio eéo eternamente em a (como c disfarçe de plural)
E viva eu cá na terra sempre triste. augmentaa extensão dos nomes:
fructo,/rí/cto, folho,/oMa, lenho,
Camões, Sonetos. lenha.
Em outros, é defeito: Extra, fóra.—Prefixo latino,
Mundo infinito, e tu sem herço.... caso instrumental de exter, com-
oh sim! parativo aryano de ej; (como in-
Tli. Ribeiro—A Judia. ter, de in). E.vtraordinario, fóra
Considerem-se os seguintes do ordinário.
exemplos : o bom do homem ; o
pobre do rapaz; o diabo do ve-
lho ; é muito do meu ; não me
escreva poesias; maior do que um F.—Sôasempre/. Em certonu-
gigante ; cumprir eom a lei; pu- mero de palavras gregas, o som/
xar da espada; vá lã dizer isto; se representa na orlhographia
por pouco me não desgraço ; eu, de hoje vaidosamente por pU ;
cã. mas não é raro vOr-se adoptada a
112
F 1família
letra port\igueza em fantasia, far- de vocábulos, quo têm entre si
macia, catastrofe, triumfo, fanal,, certa analogia ou relação de som,
falange. || (Letra latina). Conso-■ fôrma % sentido. —Familia phi-
ante continuaou fricativa. Como) loloyica. É aquella cujas palavras
inicial,persiste; feito,/af<!m; foz, constituintes apresentam rela-
faucem. A permuta ilií-se com aL ções morphicas, e têm raiz ou
homorganica fricativa v, no meioI radical commum. Ex. :RaizAM :
do vocábulo: ourives, aurijicem. —amor, amoroso, amorabmido;
No hespanhol, a permuta se dái amorifero, amoratel; amar, aman-
para a aspiração 7i : hijo, filhim; te, amasia, amador, amàbilidade,
d'alii provêm, pois, as fôrmasi amigo, amizade, amistoso, amiga-
ahinco (archaica), por afinco; eI vel; namoro, -ar -dor ; amistar,
também hediondo, \iotfmtibundus. amistança; inimizade, inimigo,
A permuta/—6 só se explica, desamor... Raiz duo (conduzir,
atravéz da evolução da formula : levar, reger, governar) :— condu-
f—v=b. Assim são os especi- zir, conductor, conducta, condu-
mens ; dbreijo, povavrego, de afri- cç.ão; seduzir, seducção, seductor ;
cuni ; e aceho, por aceto, de aqui- deduzir, deducção; educar, edu-
foUum; e ainda ahantesmn, por cação, educador; introduzir, in-
avantesma, de phantainnam.V — troducção, introductor; induzir,
(letraportugueza). Provém de f: inducção, inductor, induzimento ;
fazer, facere ; do ph grego, faisão, reduzir, reducção, reductor, re-
ãephasianum. Do p grego : kolpos, duzirei, reductivo, reducticel; tra-
golfo. duzir, traducção, traductor... Kaiz
i.Eo (reunir) : —■ lei ( 1. leyem )
Factitivo. — Diz -se faetitim leal, lealdade, legalidade, legalizar,
o objecto que representa produ- legalização, legalizador; legisla,
cto da acção : fizeram uma ponte; legitimo, lidimo, legitimar, legiti-
escreva-me poenias. Nos outros mação, legitimista, legitimidade ;
casos o objecto c passivo, como legiferar, legislar, legislador, le-
lhe chama Mason. (1) gislação, legislativo, legislatura,
Paiuilia. — No dominio da privilegio... Radical grapho (gr.
sciencia da linguagem, a expres- grapliein, escrever, descrever) :—
são/amYio! designa classe de graphia, graphar, graphico ; epi-
vocábulos que têm a mesma graplie, epigrapltia. -xoo, - ista ;
origem remota, e podem ser graphite ; graphometro, paragra-
considerados como desenvolvi- plio (psírafo)... Composto com
mentos de uma raiz ou radical as palavras prefixas—aer, autos,
commum. As familias naturnes hihlion, lio. caco, callc, chiro, cho-
em linguistica devem ser as que ro, cosmo, ethno, geo, Mero, ichno,
têm afflnidade de sentido e de micro, léxico, oreo, ortho, paleo,
forma simultaneamente, «famí- l)hoto, phoné, sceno, ielé, topo, typo,
lias DE PALAVKAS sao grupos etc., deu-nos grapho um grupo
importante do vocábulos de for-
(1) Masón—E)igl. Granim. mação erudita, e com jus de ac-
113
família - ■ FILIAÇÃO
crescer. O radical indica a idéa Flffurada.—Syntaxe figura-
principal ; as desviaçoes depen- da : expressão usada pelos an-
dem do valor dos prefixos e suf- tigos grammaticos para designar
fixos. (1) Em sentido mais lato, a syntaxe da phrase em que se
a denominação de família pôde notam figuras ou tropos.
ser applicada, ainda que impro- Fiffuras. — Modificações de
priamente, a certosgrupos, como vocábulos por accroscimo, dimi-
i,ynonyriios, hamonymos, parony- nuição ou transposição. TGm a
mos, antonymos. denominação geral de Metaplas-
Feiiiiniiio.—Vide Oenero. mos. As figuras de dicção são as
Ficção.—Stappers denomina seguintes : 1. Por accrescenta-
etymologias de ficção literaria as mento : Prothese, Epenthese, Epi-
palavras admittidas no uso vul- these ou Paragoge. 3. Por sup-
gar e que derivam da invenção pressão : Apherese, Syncoj/e, Apo-
dos escriptores. Eis as mais no- cope. 3. Por mudança : Metathese
táveis : Ampldtryão, nome do e também AntitJiese. Os casos es-
príncipe thebano, adoptado por .peciaesd'estas figuras têm os no-
Plauto, vulgarizado por Molifcre. mes de : synaleplia, dierese^ syne-
Pessoa em cuja casa se vae para rene, crase, tmese, eclãlipse, systole,
banquete ou jantar. Don Quixote, diastole. Também se denominam
da invenção de M. de Cervan- figuras de syntaxe vários tropos
tes. JDulcinéa, idem : namorada. oratorios e alguns factos de coor-
FirjarOy personagem creado por denação ou concordância da
Beaumarchais : alcoviteiro. Lo- phrase: ellipse, zeugma, syllepse,
velace, personagem do romance enallage, anastrophe, parenthese,
Olarisse Ilarlowe, de líichar- hyperbaton, etc. Não trataremos
dson: joven libertino. Mentor, das que pertencem ao dominio
guia ; do Telemaco, áa Pénélon. próprio da rhetorica. Mas oc-
liohert-Macaire, personagem do cupar-nos-emos nos logares com-
Auherge ães Aclrets, melodrama petentes das figuras que estão no
(\8^2).Stentor, da creação de Ho- dominio da grammatica. Muitos
mero: guerreiro ãe voz de bronze, dos philologos modernos rejeitam
e que fazia as vezes de clarim, a expressão — figuras — que re-
nos combates. Tartuffo, hypo- corda a doutrina dos antigos
crita ; deMolifere. Sacripanta,\\e- grammaticos.
róe do Orlando furiosto, de Ari- Figurativa.— Assim se tem
osto: máo homem. E ha mais denominado a letra ultima do
um grande numero de outros, thema verbal (porex.: ot em
como: Tvrcaret, Rossinante, Po- eant-ar) e que não varia nos ver-
lichinello, 1'antagruel, Oargantua, bos regulares.
Oalino, Simplicio, etc., derivados Filiação. — Principio que
da ficção literaria. exprime a referencia de uma
f(5rma a outra mais antiga d'on-
(1) Pacheco—Gramm. j>ori, de se derivou. A. filiação do voca-
DICC. GRAMM. 8
114
FILIAÇÃO FLEXAO
bulo verifica-se pela plionctica, especie de flexão existe nas lin-
comparação e historia. Pela com- guas ar}'anas, no grego, no la-
paração com oiitnis línguas filia- tim, no allemão, etc. No portu-
mos a palavra cltefe ao latim guez não existem casos ; mas ha
capvt, atravéz ,(lo francez chef; vestígios que serão analysados
pela phonetica averiguamos que nos logaros determinados (Accu-
a permuta c em cli attesta a. influ- satino, Nominatico, etc.) No fran-
encia franceza: chefe., caput; cez antigo existia uma declina-
ehez, casam; chose, causam, etc. ção reduzida a dous casos; o caso-
Pela historia filiamos as fôrmas svjeito e o caso-objecto. E prová-
modernas ás archaicas : mesmo a vel que essa reducção também
meesmo, medesmo, medesimo, lat. existisse no portuguez em época
metipsimus. inapreciavel, por falta de docu-
mentosem vernáculo; pelo menos
Final, ponto.—Niáe Pontua- existe o facto incontestável de
ção. formas duplas que se não podiam
Fiiiito.— Epitheto opposto originar sem a hypotliese de
a infinito e na gram-- uma declinação primitiva. Taes
matica ao conjuncto de todos os são: treão, traditor e fraiíior, tra-
modos verbaes, exceptuado o ditorem ; tredice, traditio e írai-
infinito ou infinitiro, a saber: o fãtf.traditionem; eoutrosmuitos.
indicativo, o imperativo, o con- (V. Divergentes, formas). Decli-
dicional e o subjunctivo. nação.'— Casos. Do latim, casus;
Fl, grupo latino.—Conserva- na grammatica grega, ptóseis.BTio
do : flebil, flebilis. Transforma-se as fle.xões que indicam syntheti-
em ch: flagrare, fragrare, cheirar. camente varias relações dos no-
mes. Os nomes declinam-se con-
Flexão. — É a propriedade forme a fiexão. I. Thema em A.
que têm as palavras do exprimir (lí declinação)
uma differença qualquer de sen- Sing. Plur.
tido, por meio de modificação Nominativo—hora horte
de sua estructura. Em principio, Genitivo — honc horarum
nas linguas aryanas, a flexão Dativo — horic horis
manifesta-se na desinencia: am-o, Accusativo— hoiam horas
am-et; cas-aí, cas-aes; bonit-«, Vocativo — hora horte
bonit-a, etc.; -a. flexão nominal ou Ablativo — hora horis.
dos nomes comprehende as mo-
dificações desinenciaes que ex- A fôrma archaica do aU. e dat.
primem o genero, numero, caso e plural em abus tem e.xemplos em
grão. A fle.mo verbal ou dos ver- fiUabus, fí\\a.\ deabus, dea; duahus,
bos exprime o tempo, numero e ambabus, ambie; e espora-
pessoa. Aqui trataremos apenas dicamente em vários nomes ;
da fle.xão causai ou declinação. equabus, de equa; waíaòws,de nata;
O conjuncto dos casos dos no- animabus, dominabus, etc. II.
mes chama-se- declinação. Essa Thema em E. (2'í declinação)
11,-
FLEXAO
Sing. Plur. todavia a conservam : humer-us,
JYom. V. — dies clies numer-us, uter-us. Como o voca-
O. — diei clierum tivo archaico, segundo Servio,
U. — diei diebus era igual ao nominativo, d'alu
Acc. — diem dies originou-se a irregularidade de
A. — die diebus. alguns vocatlvos que permane-
ceram nas formulas de juramen-
O accento indica a quantidade to: Deus, Genius, Bacciius, etc.
longa. Essa declinação é eviden- Os nomes em us, um, possuiam
temente um caso especial da pri- o caso locativo que desappareceu;
meira ; como ella, compõe-se de confundindo-se com o genitivo,
nomes na quasi totalidade femi- domi, em casa, humi, no cliílo;
ninos. Ha nomes que se de- em geral com os nomes de cida-
clinam por ambas, como mate- de : lioma', em Roma.— Nota
ries ou matéria; barbaria e bar- Jinal. A observação e compara-
baries, etc. As flexões são seme- ção mostram que as declinações
lliantes: o genitivo w da primei- dos tliemas em a, e, o, são redu-
ra, arch. ai, semelhante a ti. e ctiveis a uma só, pela progressão
no plural emm e arum; o abla- dos genitivos ae, ei,i e arum,
tivo ahus com o abi. ehus, da erum, orum; pelos accusativos
outra, etc - III.Thema em O (u). em m, e as, os, etc. IV. Tiiema
A fôrma primitiva era em a, de- COMPLEXO, consoante, i e u. O
pois successivamente em o e u. tliema em geral termina por con-
A desinencia us pela queda crea soante ou i; em u só em dous
terminações «r, ir, ur (liber, vir, casos: grus e sus. Thema em con-
satur), mas o caso geral é us, e soante arhor. (4'.' declinação).
M;»para os neutros. Damos por
isso dous paradigmas apenas: N.— arbor PI. arbores
(3? declinação) G. arboris arborum
D. arbori arboribus
N.— servus servi Acc. arborem arbores
G. servi servorum V. arbor arbores
D. servo servis A. arbore arboribus
Acc. servum servos
V. serve servi Os themas em vogai i têm as
A. servo servis llexões em i em vez de e : tur-
As formas truncadasem ir, er, rim, etc.; noplural alguns inter-
calam i: navium, genitivo, etc.
ur têm idênticos o nominativo e Os neutros nesse thema também
o vocativo. no plural têm a fôrma ia : maria,
Neutros de mare. Os neutros quer de i,
N. A. V—regnum PI. regna querde tliema em consoante, dis-
G. regni regnorum tinguem-se pela identidade do
1). A. regno regnis. nom. ai!c. o voe. no singular e no
Notas.— Os nomes em er per- plural, tendo nesse numero a
deram a desinencia us; alguns fie.xão rt, V. gT. .corpora. A forma-
110
FLEXAO • FORMAÇAO
ção do nominativo regnla-se ção MO francez, vide Francez.
pelas leis da phonetica latina: I)a flexão verbal trataremos no
mrtuts deu virtus; leons, leo; a logar mais conveniente, quando
guttural c e ^ combinada com a nos occuparmos com a conjuga-
flexão s, torna-se na dupla x: ção do verbo portuguez.
regs, rex; gregs, grex; pacs, pax; Fórina. — Termo de si-
liics, lux; a dental em combina- gnificação pouco determinada.
rão com a sibilante da Ilexão Applica-se iis fle.vões e variações,
desapparoce: vads, tvw ; pecuds, dizendo-se: f. feminina, etc.
peeus; lauds, lavs; ietats, atas; Em morphologia,/oVma exprime
virtuts, virtus. A ilexão s por qualquer parte do vocábulo que
sua vez cáe diante das líquidas: exerce uma funcção, i. e, que
sais, sal; sois, sol; liens, lien. possue um sentido. Exemplos:
O n pode também cair : leons, re-diz-er, bell-eza,oci-oso, lio-men-s.
leon, leo; homus, homo. E outras Cada um d'esses elementos ou
regras ha que não podemos ana- fôrmas tem a sua funoçuo deter-
ysar nesta breve noticia. V. minada.
TiiKMAS EM u.— A llexão é v-s
ou M. (5'.' declinação) Formação de tempos.—Nos
verbos as formações são analó-
N. V.-—fructus PI. fructus gicas: Doi-resente do infinito
G. fructus fructuum formam-se :1" O presente do indica-
1). íructui fructibustivo, mudando as terminações ar,
Acc. fructum fructus er, ir em o. Exemplo: am-ar, am-o-,
A. fructu fructibusdev-cc,dev-o-, applaxul-n, applau-
Os nomes de ilexão em u são d-o. 2? O imperfeito do indicativo,
neutros; têm iguaes onom., acc. mudando ar em ava, ere ir em ia.
e voe. no singular e no plural, Exemplo : a??í-ar, aní-ava, dev-ev,
tendo neste numero a termina- (/e»-ia, applaxulAv, applaud-ia,. 3?
ção em a.' cornu, cornua.Y^ de- O preterito perfeito, .mudando ar
clinação de muitos nomes irre- em ei, er e ir em i. Exemplo:
gulares, heteroclitos o defecti- am-ar, am-e\\ tííc-er, dev-i\ ap-
vos; havendo nos textos latinos plaudAv, applaud-i. 4°. O futuro do
e.xemplos vários de flexões diver-indicativo, accrescentando ei.
sas das do paradigma. (1) Dos Exemplo : amar, amaw.v, devn,
vestígios que os casos deixa- (ÍCTerei; ai^plarnUv, applaudixQi.
ram no portuguez, trataremos 5? O condicional, accrescentando
nas palavras Ablatioo, Accusa- ia lis tres conjugações. Exem-
tivo. Nominativo, Dativo, Oeni- plo: amar, amaria; dever, deveria,;
tiro. Sobre o caso etymologico, applaudir, applaudtriíi. O? O
vide Accusativo. Sobre a declina- partieipio imperfeito, mudando
o r final em ndo. Exemplo:
ama-r, amando; deve-r, devenâo-,
(1) Vide Giianlia, Gramm. St. applavd-ir,
iyniour, id.; Jlauser—Elcmenta; applaud\náo. 7? O
Mõller. íorm. d. l. Spr. 47-82. piarticipio perfeito, mudando ar
FORMAÇÃO •— FRANCEZ
em ado, er e ir em ido. Exem- Dentaes : forte t, branda d; gut-
plo: am-HT, a?«ado ; dev-cx, devi- turaes : forte c, k, branda g, gh ;
do', applaud-n, applàud\âo. Da labiaes: forte p, branda h, etc.
lí PESSOA DO SINOIII.AH do 1'JIE- Segundo a lei do abrandamento,
SENTE DO INDICATIVO formam-se: as permutas entre homorganicas
1? O presente do conjunctivo, mu- se effectuam da forte para a
dando o o em «na 1'.' conjuga- branda: caput, cabo; lupum,
ção, e em a nas duas.outfas. lobo; cacum, cego.
Exemijlo: am-o, am-e; dev-o, Fr, grupo latino.—Persiste,
dev-a-, applaud-o, applaud-&. 2? em regra geral : frio, friyidus ;
O imperativo, da maneira se- freio, frenum; esfregar, e.t-fri-
guinte: a pessoa do singular e care.
a 2Í do plural formam-se das S''®
pessoas correspondentes do pre- Francez.—E uma das mais
sente do indicativo, supprimindo importantes línguas romanas,
o s final. Exemplo : amas, ama; e sob o ponto de vista do estudo
amaes, aimae; deves, deve; deceia, e da importancia philologica é
devei; ap)plauães, applaude; ap- de certo a mais notável. A Fran-
plaudis, applaudi. As outras tres ça era povoada na maioria por
pessoas do imperativo são seme- celtas, e por iberos da Aquitania
lhantes ás—pessoa do singular, e gregos estabelecidos no Medi-
1? e ;i'? do plural—dopresentedo terrâneo, em Massilia (Marse-
conjunctivo. Da 3'í tessoa do lha). Oom César começou o do-
PLURAL do PKETEIMTO PERFEITO mínio romano e o triumpho ab-
formam-se tres tempos: 1? Ornais soluto da lingua latina e da sua
que perfeito ão indicativo, suppri- civilização. O elemento celtico
■mindoo m íinal. Exemplo; ama- quasi desappareceu (1) ; a in-
ram, amara; deveram, devera; vasão germanica começou no
applaudiram, applaudira. 2? O século V com os burgundos, go-
imperfeito do conjunctivo, mudan- dos, francos, e mais tarde no sé-
do a terminação ram em sse. culo X com a dos normandos,
Exemplo: amaram, amasse; de- ao norte; o elemento arabe foi
■eeram, devesse ; applaud\ra,m, aj)- pouco intenso, e não teve domí-
plaudissQ. 3? O f aturo do conjun- nio considerável. Os nomes an-
ctivo, supprimindo a terminação tigos do francez eram langue
am. Exemplo: ama-ram, deve- d'oil, lingua gallica, l. francica.
ram, a^jpíawííi ram ,ficam: amar, rffi- A lingua franceza é a que jdos-
ver, applaudir.i^ (Escoliasteport.) sue os mais antigos documentos,
como o juramento de Luiz o
Fôrmas divergentes, integras, Germânico, do século IX; a can-
etc.—Vide estes nomes. tilena de Santa Eulalia, do mes-
Forte.--Porte ou surda, por
opposição a branda ou sonora. (1) Ficou insulado na Anuorica,
São as consoantes que exigem e desenvolveu-se com ns niigraçõet
maior esforço de articulação. kymrica.?.
118
FRANCEZ
mo século, etc. Em seguida vem Hainaut. Fora da Europa, a
a Passion de J. CJirist; o Fra- dialectação do francez operou-se
gment de Valenciennes; o poema sobretudo com o elemento creo-
de Akxis; a canção de lioland, lo na África (Mauricia, etc.), na
etc. A disciplina grammatical America (Cayenna) e em gran-
íoi relativamente tardia, e o pri- des regiões da Asia (Cochin-
meiro tratado L'esclarciasiiaent china, etc.). Da influencia ex-
de Ia l. françoyse data do século traoi-dinaria que o francez exer-
XVI (1530), e fo publicado por ceu nos primeiros tempos e mais
um insleü, John Paisgrave. O no século actual sobre o voca-
primeiro diccionario data do sé- bulário portuguez, occupar-nos-
culo XV, e foi o IHct. latin-fran- emos no artigo Oallicümo, d'este
çois, de Genebra, 1487, por Gar- livro. A clareza e quasi perfei-
bin. Já e.xistiam, porém, como ção da lingua franceza, no que
aflirma Diez, vários glossários respeita á principal funcção das
manuscriiitos, (iachet, Escalier, linguas, a expressão do pensa-
etc. Os dialectos principaes do mento, resulta de que teve um
francez são o burgundo (bour- periodo de desenvolvimento
guijjnon), o picardo e o norm&n- maior do que o do latim, do gre-
do. O burgundo é que teve a su- go e das outras linguas romanas.
premacia com o falar da Ilha de O francez fixou-se no século
França, que se tornou o centro XVI, quando já as outras lin-
nacional e político da França. O guas congeneres estavam, no
picardo é um pouco proximo do todo, definidas e fixas. Eis o pri-
burgundo; entre as suas per- meiro documento (sec. IX) em
mutas caracttyisticas notemos a francez—o juramento de Luiz o
permanencia do e forte por ch: (iermanico, conservado pelo his-
canter, por chanter. Por isso, no- toriador Nithard : Pro Deo amur
tam-se no francez algumas fôr- et pro christian poblo et nostro
mas de origem picarda, como cají, commum salvament, d'ist di in
chef (caput, lat.) O dialecto nor- avant, in quant Deus savir et
inando caracterizava-se por di- potir me dunat, si salvarai io
versas transformações entre as cist meon fradre Karlo, et ín
quaes a de ii por o, ev.: ure, adjudha, et in cadhuna cosa, si
heure;7«r, jour; rolur, couleur, cum om, per dreit, sou fradre
etc. Hoje em dia o normando salvar dist, in o qnid il mi al-
está muito modificado ; tendo tresi fazet; et ab Ludher nul
penetrado na Inglaterra, pela plaid numquam prindrai qui,
conquista, ahi lecebeu modifi- meon vol, cist meon fradre Karle
cações extraordinarias e de toda in damno sit. Trad. literal:
a sorte. Esses dialectos estão Pelo amor de Deus e pelo povo
muito divididos; o lorenez e o christão e nossa commum sal-
rcallon muito se avizinham do vação, d'este dia em diante,
burgundo ; o ruclii é um sub- emquanto Deus me der sabér
dialecto do picardo, falado no e poder, eu sustentarei este
110
FRANCEZ — FRONTEIRA
meu irmão Ciu-los, em ajudii minações communs d'esses ver-
e em qualquer cousa. assim co- bos : eiar, iar, escer, etar, ejar.
mo um qualquer, por dever, Alguns só 96 denunciam pela
deve salvar o seu irmão, no que etymologia, como passear,ãc pas-
elle deve fazer-me outro tanto. sar; agitar (de agir, que não exis-
E com Lothario, qualquer com- te, salvo por gallicismo), esque-
promissó nunca tomarei que, cer (de cadere, ex-cadescere) no
por minha vontade, seja de da- antigo portuguez, escaecer.
mno a este meu irmão Carlos. (1) Fricativas.—Classe de con-
Fraucezisnío, france/ia.— soantes que se produzem por es-
Termo equivalente ao de (jalli' treitamento sem occlusão ou
cismo. Trataremos do assumpto contacto das partes do tubo
quando chegarmos áquella pa- vocal. Taes, v. g. : «,/, d, x. São
lavra. também chamadas continuas ou
Preqiientativa.s. — Pala- semi-togaes, porque podem soar,
vras, em geral verbos, que ex- embora confusamente, sem au-
primem reiteração ou frequencia xilio de vogai, o que não suc-
da acção. Os verbos derivam cede com as outras consoantes
quasi sempre de substantivos e denominadas explosivas ou mo-
adjectivos : lagrimejar, doidejar, mentâneas.
toejar, harpejar, solfejar, gesti- Fronteira.—Sendo o Brasil
cular, salteiar, passear, etc. Mais limitado ao sul e oeste por po-
especialmente são chamados in- vos de origem hespanhola, com
clioaUvos os que exprimem acção os quaes as províncias limitro-
cada vez mais intensa: esmore- phes mantêm relações de toda a
cer, empallidecer, florescer, revi- especie, muito natural parece
Descer, rejuvetiescer; e diminutivos que a língua castelhana ou a
os que exprimem acção menos sua dialectação americana larga-
intensa: saltitar, palpitar. Iam- mente se introduzisse no falar
biscar, etc. Os nomes também provinciano das regiões vizinlias.
liodem ser frequentativos, quando Nos dous Dicc. de brasileirismos
exprimem reiteração de cousas : dos Srs. Macedo Soares e Beau-
fuzilada, saraivada, etc. Confun- repaire Rohan deve existir um
dem-se então com os colleeticos. grande numero do vocábulos que
Em geral a derivação de nome de nos vieram das republicas ame-
qualidade empresta ao verbo esse ricanas. (1) Eis alguns vocabu-
caracter: embranquecer, bran-
queiar, branquejar, anoitecer, (1) Vide o Vocab. da prov. do R.
empobrecer, enriquecer, embel- G. do Sul pelo Sr. Coruja. OsVicc.
lecer e muitos outros. São ter- de Bras. acima citados estão em
via de publicação (Outubro de
1888); e hoje ]iublicados (1905),o do
(1) Demos pouca atteiição á cor- dr. JI. Soares nos Animes da Jlibl.
recção do estylo, para representar jVííc., o de li. Kolian com o titulo
íielnieiite o texto original. de Vfícahulario em volume a parte.
120
FRONTEIRA — FUTURO
los que. são communs ils rpim- notado o facto quando diz:
blicas : Einiromar, enganar. De «Também na voz activa suppri-
uma bolada, de um vôo, (1'uma mos algumas faltas que temos
vez. Pilar, fumar. É também em nossa conjugação portugueza
do Chile. V. ,Zor. Ilodr. Dicc. com este verbo hei, has, ha, que
üMlenismos. É talvez termo de é habeo, habere dos latinos, que
quichua. Aço, sutlixo de vários ajuntamos ao iufinitivo,- porque
castelhanismos. Linãaço (muito dizemos amarei, amaria, amare-
lindo). Manotaço (R. G. do Sul), mos» (1). — Translação. Por he-
couce da mão do cavallo. Cha- braismo, maxime no estjio
petão, tolo. Ve relancina, de re- bíblico, o faturo é usado pelo
pente. Fresno—Voce americana imperativo : ^'.Louvarãs ao teu
pejoratiyus .sensus ortus. No Deus. Amarás ao teu próximo»,
Chile «se dice especialmente de etc.— Orthographia. Usualmente
los mozos que en su trato con o diphthongo nasal é transcripto
Ias mujeres no les guardan con por ão no futuro, por ser oxy-
los miramieiitos debidos». (1) tono e para distinguir das desi-
Emprestar com a syiitaxe de em- nencias nasaes dos outros tem-
prunter fr., vide Brasileirismos. pos, nãn oxytonos : amarão (opp.
E ha muitíssimos vocábulos de a amaram, amavam, amariam,
origem hespanhola que nos fa- etc.) — llisUtria. A periphrase
lham !Í memória. Alguns são amarei, amare-habeo, não c de
communs ao ]5rasil e As republi- todo estranha ao latim clássico.
cas, e não se pôde atíirmar d'estes Cicero dizia : luibeo ad te scribere,
que sejam americanismos; taes por ad te scribam (2). — Classifi-
são ; ííaZd, empacar, madrinha cação. As formas de futuro são
(égua que serve de guia á troi)a), múltiplas, porque múltiplas são
'boneca (espiga do milho), xarque, as periphrases que podem dar
etc. idêntico significado de templo :
Futuro.—Tempo dos verbos a) Futuro ou futuro simples. E a
que indica a acção que está fôrma de periphrase agglutina-
para ser realizada : escreverei, fa- da; amarei. A juxta-posição
remos,eic,. Naslinguas romanas, torna-se evidente quando ha
o futuro teve formação original tmese ou intercalação de encliti-
com o verbo liabeo, naturalmen- ca: amar-iQ-ei, dir-®os-ei, etc. b)
te, pondera Reinhardstoíttner, Futurum exactum ou futuro an-
porque as fcírmas latinas (amaho, terior (dos francezes): periphra-
tegam) poderiam confundir-se se do futuro do verbo ter : terei
com outras (amabam, tegem, ainado; terás vindo, etc. e) Fu-
etc.). O futuro simples c \ima turos periphrasticos do presente
periphrase : amar ei (amare-ha- fl) Reinlianlstcettner— Grãmm.,
beo).—Jil Nunes do Lião tinha 214. Nunes cio Lifio. Orig. da I.
2)ort. XIX.
(1) Z. Ilodriguez, Dicc. Cliil. loco. (2)Cléinent—Gramm., 1G2.
121
FUTURO — GALLICISMOS
dos v.erbos ter, haver: tenho de mestres : «Grande tem sido a in-
amar, hei de amar. Cliamam-se fluencia do elemento francez na
ordinariamente || O fu- formação da lingua portugueza
turo pode ser expresso pelo pre- desde o sec. XIII. Muitas d'essas
sente : nou amanhã. palavras do IV periodo já se ar-
chaizaram (aproxes, escote,
aprés...); outras ainda são de
uso corrente (caporal, forriel...)
G.—Tem dous valores sonicos : — Os neologismos de origem
franceza mais se referem ás mo-
Éíguttural(ganhar, cego)e g pala- das nos trajes, a iguarias, á fi-
tal (gelo, agitar). O primeiro é
antes de e e i representado por cção prios
literaria, ou são nomes pro-
indicadores de productos
gu: guerra, guia, sangue; neste ou invenções
caso, o u não soa senão rara- eroquette, wl-au-vent. cache-nez..... tartufo,
mente (sangüíneo, guela, guel-
ras). II (Letra portugueza). Pro- bordeaux, cognac guilhotina,
vém de g inicial ou não: gente, bayoneta...) Si de todo rejeita-
gentem ; gosto, guatum. O—forte mos boudoir, adresse, enveloppe,
bouquet,toilette, fauteuil..., verda-
pode provir de c por abranda- deiros enxovalhos da nossa verna-
mento: logo, loco. Ou dos sons culidade, não assim outros galli-
similares k, qu : agua, aquam. O cismos a que temos por necessá-
som gu ás vezes denuncia a per- rios, como, por ex : — armisticio,
muta do germânico « ou w : tré-
gua, <TO06t,guiza, wiza. O—(letra barricada, patinar, soutaehe
latina). Persiste: governo, gvber- Não consideramos gallicismos, e
num. Desapparece com assas Leão, discordamos
aqui
S. Tullio e
de S. Luiz,
outros—adiar,
freqüência, por syncope : le-g-em, activar, felicitações, regressar, ro-
lei ; digitum, dedo ; regalis, real. tiiia.» (P. Júnior) || Eis o que
A apherese é rarissima. O exem- diz oauctor do .fí'«coZia«íe;«Muitos
plo : irmão, germanuni, talvez se vocábulos são já hoje portugue-
explique melhor pelo castelhano ses, que eram exclusivamente
Jiermajio. Antes do a sempre se francezes,nãohamuito. O que em
ouve o n : guarda, agua, égua,
etc. II OiiTnoGRArm.v. Dobra-se relitção a elles se pode estabele-
cer por doutrina mais sã, e que
o íí em aggravo, exaggero. Não melhor conforma com a pratica
sôa em vários nomes : Ignez, si-
gnal, Ignacio, e antigamente não dos nossos bons escriptores, é
que se não vá buscar dicção fran-
soava e nem se escrevia em di- ceza que diga o mesmo, e ás ve-
gno, indigno, maligno. zes menos que outra, que per-
G.allicismos.—Nome dado a tença legitimamente ao nosso vo-
expressões, constriicçôes e vo- cabulário. Na construcção e
cábulos tomados do francez, ou contextura do periodo evitem-
por necessidade ou sem ella. se ainda com mais cuidado
Falem sobre o assiimpto alguns os gallicismos, tomando-se por
123
GALLICISMOS
modelos os nossos clássicos, de alguma das conjuncções ad-
e respeitando-se as regras da versativas ou locuções equiva-
boa gramraatica. Apontaremos lentes. Ter logar em vez de rea-
alguns gallicismos escusados lizar, effectuar ou effeituar, oc-
ou feios. Detalhe» em vez de — correr, succeder, acontecer, haver,
pormenore», particularidades. Che- celebrar, etc. Garantir, também
fe ã'ohra em vez de -obra jmnia, o julgamos supérfluo, porque
primor d'arte. A sciencia a mais temos em vez d'esse, tomado do
■universal por — a sciencia mais fiancez, muitos com a mesma
universal. Confeccionar leis, re- accepção; v. g. : affiançar, abo-
rjulamentos, etc., em vez de-- re- nar, assegurar, preservar, acaute-
digir leis, fazer reyulamentos, for- lar, etc. Soffrer, como s3-nonymo
mular, escrever, etc. Confeccionar, Aa padecer, falando-se de pessoas,
ou antes confeiçoar, em bom por- é um gallicismo; padecer é sen-
tuguez, é lazer confeições, que tir alguma enfermidade, dôr,
são as preparações medicinaes fome, trabalhos, necessidade, in-
que se manipulam nas boticas. commodo, desgosto, damno, de-
Confeccionar, empregado em dif- sar, em fim qualquer mal phy-
ferentes plirases, taes como: sico ou moral, é suppor-
linomeou-se uma commissão tar todos estes males com pa-
para confeccionar a lei;» «já se ciência, resignação, animo, cara
confeccionou o regulamento ; » «o alegre, sem queixumes ou ge-
architecto está confeccionando o midos. De sorte que ha padecer
plano da obra ; » cos productos sem solfrer, mas não ptkle haver
d'esta fabrica são bem confeccio- soffrimento sem padecimento.
nados ; » e em outras que taes é Quando dizemos, fulano soífre
não só gallicismo, mas disparate do peito, asseveramos uma cousa
de marca maior. Todas estas que talvez ignoramos, ou que
confeições serão muito doces e sa- não seja verdade, porque elle
borosas para certos páladares, pode padecer do peito, mas não
mas repugnam e amargam ao causar soffrimentos essa doença.
gosto portuguez. O nosso modo Por isso devemos dizer para não
de dizer é : Fazer leis, redigir errar—padece do peito. «A ca-
leis, escrever leis ou legislar. Já ridade é paciente e soffrida nas
se formulou o regulamento. O tribu laçôes. 1) Quando o verbo sof-
architecto está traçando o plano. frer se emprega em accepção
Os productos d'esta fabrica são translata ou figurada, então se
bem trabalhados. Emfim , quasi usa muitas vezes sem perigo de
tudo o que os gallicistas desi- gallicismo. Partilhar na accepção
gnam pelo verbo confeccionar, neutra ou intransitiva, tomada
se explica em bom portuguez do verbo francez partager, que
pelos verbos fazer, formular, tem as duas naturezas, como
comxiór, organizar, traçar, riscar, muitos dos nossos. Partilhar
fabricar, produzir, delinear, idear, entre nós c activo unicamente,
e outros muitos. l)e resto em vez porque para a acção intransitiva
123
GALLICISMOS
temos o verbo participar. Nestas Antes, porém, de fazer o catalogo
locuções, que até em diplomas abreviado dos gallicismos, con-
officiaes se lêm : o (joternopartilha vém indicar a existencia de for-
as idéas do illustre deputado ; par- mas vernaculas auctorizadas, que
tilhar o sentimento puhlico ; par- têm injustamente sido conside-
tilho a mesma opinião ; partilhar radas de proveniencia franceza.
as mesmas doutrinas, os seus pe- Taes são : Apartamento, quarto,
tares, as suas alegrias, ha galli- camara: vocábulo de bom cu-
cismos vergonhosos. Em bom nho, auctorizado por Vieira, Sá
portuguez deve dizer-se : parte- de Miranda. Armada, exercito
eipar do sentimento publico. de terra. Campanha, por campos,
Partecipo da mesma opinião, dos campinas, auctorizado por Viei-
seus pezares, das suas alegrias, ra, Jac. Freire, etc. Continência
etc., i. é, tomo parte nellas. (contenance), aspecto, figura;
Ijogo que amanheceu e que foi dado auctorizado por clássicos como
o signal da partida, etc., por— Fr.L. de Souza e Barros. Dmia-
logo que amanheceu e foi dado, turado, desolado, são clássicos.
etc. Isto sendo assim, não admira Em bom ponto (en bon jioint) já
que elle fosse mal succedido, por— se acha no Palmeirim e na Chro-
sendo isto assim não admira, etc. nica do Condestable. Oelozia
Peço-te de guardar segredo, por— (jalousie), usado por Vieira, no
peço-te que guardes segredo. Que sentido de solicitude, cuidado.
saiba todo o mundo que eu estou Successo no sentido de bmnsuccesso
innoeente, por— saibam todos que e bom exilo, usado por Vieira.
estou innoeente. Elle me tem dado Aquistar, nombramento, raconto,
a sua palavra de vir passar em são do uso de Vieira. Inusitado
minha companhia alguns dias, por é de Camões. «Ouvindo o instru-
—Elle me deu a sua palavra que mento irawsitoáo» (Lus. II, 107.>
viria, etc. Epor isso que eu me re- Mancar, faltar, auctorizado por
solvi, em vez de — por isso é Fernão d'Alvares e outros. Re-
que me resolvi. Mais observo, prochar, lançar em rosto, expro-
mais cresce a minha curiosi- brar, usado por Zurara e Duar-
dade, por — quanto mais observo, te Nunes, que considera o
tanto mais cresce, ou tanto termo francez, mas de antiga
maior é a curiosidade, etc., etc.» existencia na lingua. || Recen-
Aqui damos um glossário resu- temente, a proposito de gallicis-
mido dos gallicismos que usual- mos, escreveu Ruy Barbosa:
mente se encontram nos docu- "Porque os francezes Aaprodigue
mentos literários da linguapor- V\x&va.m prodiguer, não é licito in-
tugueza no século XIX. Notamos ferir que seja francezia o nosso
com um asterisco (*) as palavras prodigar. I)'esla fôrma se serviu
o locuçõesgeralmenteadoptadas, depois de Fii.into Et.ysio, Casti-
p contra as quaes até hoje jiare- lho, na traducção dos Fastos:
ceu impossível estabelecer-se «Dá, pródiga ao meu gênio os teus-
qualquer reacção proveitosa. influxos.» (Tom. III, p. 45). De-
124
GALLICISMOS
prodifjus derivavam os latinos dois midades, ou bastardias inadmis-
vei-bos: prndirjere (Forcei.lini, síveis. O caso de Oahuett mere-
V. IV, p. 803) e prodigire (ib., v. ce especialmente considerado.
VI, p. 700), um e outro com a Constitue esse um especimen
accepção de immoderate rem singular, entre os bons escripto-
effandere, aliquid superfliic, con- res, de complacência e, até, al-
sumptorie agere, isto é, de malba- gumas vezes, desmazelo em ma-
ratar, dissipar. Mas, tendo aliás téria de estrangeirismos. Dos que
prodigalitas e prodigaliter, de pro- elle perpetrou, cita o sr. José
digalis não extrahiram forma Veki.ssimo alguns ; desapponta-
verbal. Por que enlíío, indo n<$s mento, esquissa, breve (por em
além d'elles com o prodigalizar, summa, emfim), deboche, preferir
que adoptamos, por derivação antes o tractos (traits, por episo-
indirecta de prodigo, não lhe ad- dios). Muito mais longe iriaj
mittiriamos, sísemelhançados la- porém, o rol. Num só volume, o
tinos, a derivação verbal directa XXIIl, das suas obras, que me
prodigarf Outras vezes pode cae ií mão, sem muito esmeri-
acontecer que seja realmente Ihar, se me deparam : detalhe (p.
franceza a palavra. Assim em 138, 133, H\i), fazer as delicias,
ensina (cousim), minhão(mignon), faire les délices (p. 38:5), estar ao
pucella (piicelle), arranjar (ar- faeto, étreau fait (p. 343), de par-
raiijer), paterna (poterne), freire te e outra, de part et d'autre (p.
(frère), libré (livrée), marau 241), luctar de zelo, lutter de zele
(maraud), remercer (remereier) (p. 245), terlogar, em vez de ot-
e tantos, tantos outros vocábu- correr (p. 313, 343.) (1) Mas
los. Mas a elaboração vernacula, que mostram esses deslises se-
por que passaram, as necessida- não as distracções casuaes do
des, a que vieram servir, as la- grande escriptor, ou os eclipses
cunas, que preenclieram, a ada- momentâneos do seu gosto, do
ptação portugiieza, que reves- seu tino, da sua maestria no fa-
tem, acabaram por os incorporar lar Meio século, ou mais, ha
na substancia viva o genuina da
nossa linguagem, bafejados pelo (1) Não incluo aqui o chicana,
gênio d'ella e naturalizados sob usado ])or Gaekett, v. XXIll, p.
as suas formas. A historia d'essas 24, porque, apezar do prof. Cak-
transformações e nacionaliza- NEtRO, que o reputa gallicismo
ções, porém, não favorece a theo- (Gramviat. Philos., j). 433), tem
ria dissolvente d'aquelles, que, por si a opinião summa de Casti-
exaggerando essa mutuação de lho Antonio, que varias vezes o
serviços entre as linguas vivas, empreí^ou :
não conhecem barreira á intro- «Vá promover já já, sem som-
ducção dos estrangeirismos, e bra de chicana.y (^Tarlnfo, p. 94.
das negligencias de bons escri- Um é um chicaneiro, que princi-
ptores tirara argumento para a piou por fiel dos feitos. » {Culloqui-
Isgitimação de absurdos, enor- os Aldeões, p. 382.)
125
GALLICISMOS
que elle os perpetrou, e nem o palavras e phrases em que a
lustre do seu nome os logrou nossa lingua anda conspurcada
sobre-doirar, nem a fascinaçüo por ignorancia e pedantismo.»
do seu estylo conseguiu natura- Estar ao facto, locução despro-
lizal-os. Eaquissa, alliteração in- vida, em nosso falar, de regen-
feliz do francez eSQuisse, não al- cia e sentido, não desalojou o
cançou jámais entrar em compe- estar sciente, estar em dia, estar
tência com esboço, eacorço, bosque- inteirado, estar a par. Detalhe,
jo, lineamento, debuxo, quanto com as suas derivações detalhar,
mais excluil-os. Ninguém, abso- detalhado, detalhadamente, vinha,
lutamente ninguém escreve, ou com a audacia e o desaceio do
esçrevevi jámais, depois de Gar- mais tosco barbarismn, sobre-
EETT, breve adverbialmente, á pôr-se a um acervo de exi^ressões
franceza, iiov em èunima. Deboche, vernaculas, sãs, correntias, so-
em cujo logar lemos crápula, noras, variadas, expressivas :
ãevaasidão, libiãinagem, desvergo- miudeza, minudencia, particulari-
nha, barganteria, continua a re- dade, porraenor, circumstancia,
putar-se o mais torpe e dissoluto individuação, especificação, indivi-
dos gallicismos. « Não é portu- duar, particularizar, por menor,
guez, é francez», diz Figueire- por miúdo, pelo miúdo, miudamen-
do. A. fater as delicias antepõem, te, minuciosamente, circumstancia-
ainda hoje, os entendidos na ar- damente, particularizadamente e
te de escrever o torneio vernácu- muitas outras, analogas, ou de-
lo, muito mais elegante, da nossa rivadas. Esse lançou as radiculas
lingua na phrase de Vieira : pertinazes do escalracho no mau
«Esatí era as delicias da velhice terreno ; mas no bom, na lingua
de Isac.» (8erm., 1,531. Ap. Mo- dos escriptores onde se aprende
raes.). Preferir antes não reflecte a falar, não encontrou jámais
o menor traço da elegancia pa- senão repulsa. O ter logar, na
terna, e não encontraria, entre accepção franceza, alguma coisa
os menos escrupulosos escreve- vae medrando, graças ao equivo-
dores, quem o imitasse. Tractos, co do seu significado exacto,
por episoãios, lanços, rasgos his- mas só entre escriptores medío-
tóricos, era um cumulo dê fran- cres, ou descuidados. Quanto ao
celliice, que havia de expirar, luctar de zelo, yor: competir, porfiar,
como expirou, do excesso da rivalizar em zelo, % o de part et
própria desenvoltura. D;í a lem- d^autre, por' de uma e outra parte,
brar, pela suá extravagancia, são fraquezas, desaires e aleijões,
tão contraria ás grandes quali- a que só não succumbe o credito
dades d'aquelle escriptor, o chefe de um Garrett, porque ao seu
d'obra, também de Gabrí:tt, que fulgor não ha nadoas, que se
o sr. Vasconcellos, auctoridade não apaguem. Grande mestre,
insuspeita á boa escohi da evo- mas de quem, ainda com mais
lução histórica no estudo da lin- razão na segunda parte da sen-
guagem, enumera entre « as tença, se poderá dizer como Cas-
120
GALLICISMOS
Tiiiiio de Filikto Elysio : «Fez inglez despondency o seu despon-
serviço talvez maior que nen- dencia, em que ninguém mais
hum dos clássicos ; mas é de to- ouviu falar, de novidades lon-
dos o menos para seguir ils ce- drinas semelhantes nos quiz do-
aras.» Atiribuia Duarte Nukes tar o correspondente da condessa
a abundancia das francezias na de Vimioso, cobrindo vocábulos
língua portugueza, acima de saxonios com vocábulos portu-
t\ido, «lis idas ijue os portugue- guezes, como na expressão Phi-
zes faziam á França ». Nos indi- losopMcal Transactions, esdruxu-
víduos é especialmente sensível lamenteaportuguezadaem Trans-
a influencia d'essas relações e acções Phílosojyhicas. (V. II, p.
d'esses contados. A tondencia de 307.) Mas o que neste assumpto
Oajirett para os estrangeirismos constitue a obra prima do Caval-
creio terá tido origem nas causas leiro DE Oliveira é o typo, que
d'essa natureza, que assignalam nos deixou, do francelho jistu-
aquella vida, em que tamanha lante, satisfeito e alvar, na im-
parte coube aos salões, á moda, pagavel creatura de um fâmulo,
ás viagens e á diplomacia. Quem que achatava (achetait), quando
ler as Cartas do Cavalleiro de queria comprar, tratava de trit-
Oliveira, lá descobrirá effeitos pas as tropas, trocava holsas em
semelhantes do influxo do am- bursas (bourses), disfarçava os
biente estrangeiro sobre a fôrma seus pensamentos em penseiros
do pensamento nos melhores es- (pensées), não neglijava (negli-
criptores. Todos os prós têm nes- geait) os seus deveres, e, com as
ta vida os seus contras ; todos surprezasegraças d'esse phrasea-
os benefícios, os seus descontos. do, era, nos dias humidos e te-
Naquelles volumes, ordinaria- diosos de Amsterdam, o sulaja-
mente do mellior vernáculo, mento do amo. Não ficam acima
como nos de Garbett, ha galli- d'estacraveira, por menos que
cismos ás vezes impudentes e valesse o tarelo d'aquelle fâmulo,
destemperados, como «acordar os chefe d'obras, os esquissas, os
favores» (fr. accorãer), jíor con- deboches, os debutes, os gõches,
ceder favores (v.W, p. 210), de- mais bem nascidos, mas não me-
pois (depuis), por desde (v. I, p. lhor formados. Que serviços faz
■Jíi!)), rasonavel (raisonable), em ao seu estylo e á sua lingua um
vez de razoatel (I, 227, II, 407, bom escriptor, cuja phantasia se
III, 211. !!25), maqüinhão (ma- compraz em disparzir como flo-
guignon), em logar de alquüador res essas nodoas, sem necessida-
{II, 278), seriosas (sérieuses), por de, nem critério? Lastima C.
sérias(l,2(>l),seriosamente (sérieu- Figueiredo a afrancezada con-
sement), por seriamente (I, 103, strucção, que o Primo Basüio e o
:í:í7.) E, assim como o auctor do Padre Amaro pozeram em moda
Frei Luiz de Souza foi buscar ao entre a mediocridade, propensa
àisappointment inglez o desapon- a arremedar os vícios, porque
tan.ento (v. XXIII, p. ri22) e ao incapaz de imitar virtudes. Não
127
GALLICISMOS
<3 d'el!es que se gerou, para o es- nados, estrepitantes. Aqui um
criptor brilhante e original d'es- ãe resto «francez puro»; alli um
sas novellas, a reputação justa e Geneva, francezissimo nome de
universal de estylista diserto,, de Genebra; alem um massacre a
prosador claro, elegante e dono- que o mortieinio, carnificina, ma-
so. Não foi do gallicismo no tança, truciãação, carniceria tão
jilirasear que lhe veio o transpa- bem nos forravam : adiante, um
rente e crystallino da linguagem. debutar, desnaturação feia, mal-
«Casas brancas avistavam-se ao soante e pedantesca do nosso es-
longe», «sons de piano ouviam- treiar; mais longe um gõche e
se a distancia, e cauteleiros um gôehemente, incriveis repro-
impertinentes assaltavam-me », ducções das homophonas pala-
«vozes esganiçadas de vendedo- vras francezas, que o nosso idio-
res ambulantes punham no ar a ma traduz vantajosamente por
nota vivan, são outras tantas dis- ãesasaão, contrafeito, desastrado,
torsões e tregeitos de arremedo constrangido, embaraçado, acanha-
estrangeiro, que invertem a cor- do, mal ageitado, desgeitoso ; agora,
rente natural da linguagem, e um costume, em vez do portuguez
toldam a límpida veia do pensa- fato, andaina; logo, um confe-
mento. Certas monotonias da cção, em logar de roupa, vestido,
obsessão imitativa, sempre incli- artefacto; depois, um unido, có-
nada ás formas adventicias, lhe pia ignara do francez uni, com a
voltam e revoltam periodicamen- significação de liso, que em por-
te no discurso, como sestros, bor- tugez lhe não pode caber ; mais
dões, achaques e cacoethes. En- tarde, um no fundo, arremedação
tre outras, as locuções do verbo do francez au fond, em summa,
pôr, especie de tique, amiude e na essencia, em substancia, ou um
como de espasmo reiterado no cahello chato, cheveu plat, desagei-
aliás formoso aspecto d'aquella tada e infiel expressão de cabello
prosa: «prai/ia um brilho», apu- escorrido, ou liso ; ora o partager,
nha um traço de luz» ; « punha mal disfarçado partilhar, com
uma tristeza» ; pondo uma palpi- a significação, que o nosso idio-
tação em cada peito»; «o fio ma lhe recusa, de participar,
d'agua punha o seu choro lento». compartir ; ora um ter a, em vez
(Os Maias, v. II. p. 131, 342, de ter que; um qualidades, na
305, 381, 464.) No estofo da significação de virtudes, boas ou
phrase corada á estrangeira so- grandes qualidades ; um amor por,
bresaem de quando em quando, em vez de amor a, ou amor de, e
comojoias destinadas a alavial-o, até, novidade de primeira mão,
gallicismos de toda a casta: uns um saudade por; umas vezes, o
antigos, relapsos, enxovalhados ; grande ar, versão inepta do ar
outros no trinque, llammantes, livre; os detalhes, esparsos em
desabusados, provocadores'; es- profusão, com desprezo de por-
tes obscuros, medíocres, dessa- menores, que aliás lhe não esque-
boridos; aquelles vistosos, infu- ceu, mas que não ousa empre-
128
GALLICISMOS
gai- senão a vergonha e a medo ; o influencias da sua leitura, as in"
fazer o conhecimento, faire Ia eon- termittencias da sua attenção, os
naissanee, pelo vernáculo travar bocejos da sua indolência, as fa-
conhecimento ou relações; outras, lhas da sua cultura mental e essa
um aãres.te, desfigurando o nos- especle de dandysmo literário,
so endereço; um alcools, homena- emfim, que dos hábitos pessoaes
gem ao franoez, em rebeldia com se reflecte na língua de certos es-
as regras vernaoulas do plural criptores. Nessas extravagancias,
dos nomes, ou o clwlera, mascu- nessas impurezas, nessas degra-
linizado em desprezo das nossas dações da palavra continuará elle
leis grammaticaes. .Tií não falo a exercer a sua justa auctoridade,
no soirée, condemnado pelo dr. o seu oíBcio natural de actuai
Oaknbiko ; no abat-jour, repro- creadoramente sobre o idioma ?
vado por Jülio Ribeiro, e que Não pode ser. Quando taes em-
vernaculamente se diria quehra- préstimos de povo a povo, rece-
luz, guarãa-luz, aomhreira, panta- bendo o baptismopatriodasmãos
Iha, bandeira ; no toilette, desne- de um mestre, açodem ao recla-
cessário travestisaement de trajo, mo de uma idéa nova, de uma
vestuário, vestido, vestiãura, fato, necessidade ainda não attendida,
vestimenta; no bouãoir, cuja equi- e passam intelligentemente pela
valência portugueza, toucador, o moldagem nacional, ninguém os
próprio Eça varias vezes utiliza. poderá tachar de intrusos. Mas
locuções estranhas, inúteis, re-
Com essas trocas do portuguez vessas,
em francez teria lucrado o dis- martellotrazidas a capricho c a
amanhadas, não se im-
curso em colorido, em graça, em põem ao uso
harmonia, em força, em clareza ? reclamava, e,popular, que não as
para as colher, tem
Muito ao contrario. Coteje-se o de lhes sacrificar tradições anti-
boudoir ao toucador, o ahat-jour gas, relações naturaes e formas
ao quebra-luz, o adresse ao ende- superiores, Todos os idiomas vi-
reço, o detalhes a pormenoi'es, o vos permutam uns com os outros.
unido ao liso, o (jãche ao desusado, Seria desatino recusar esses sub-
o massacre ao morticínio, o debutar sídios, tão inestimáveis quão im-
ao estreiar, e logo se verá quanto prescindíveis, que se mutuam as
descae a expressão, em luz, em línguas, emquanto não fossiliza-
sonoridade, em transparência, das. Oondemnar, pois, em abso-
em energia, das castas e bellas luto os estrangeirismos fora não
formas vernaculas para os bas- ter senso commum. Não são os
tardos e aleijados arremedilhos gallicismos em si mesmos o que
francezes. Na aberração d'essas se repelle, mas a superfluidade
preferencias pelo vicioso, pelo evidente, ou a crueza indigesta,
maculado, pelo disforme não se nos gallicismos. Podemos impor-
pode enxergar o critério ou a in- tar dè França o que não tivermos,
tuição da arte ; são os defeitos e necessitarmos, comtanto que o
do temperamento do artista, as façamos, respeitando as leis da
129
GALLICISMOS
morpbologia na historia natural contra os gallicismos inconside-
da geneso e transformação das rados, injustificados, inadequa-
palavras. Muitos vocábulos suo dos. João Kibeiro adverte que
hoje portuguezes, ninguém o i- muitos se nos foram introduzin-
gnora, que eram meramante fran- do «por descuido, pela ignorân-
cezes; e todos os prosadores, to- cia das fontes classicas, pelomáo
dos os poetas contribuem para gosto dos escriptores, ou pelos
esse capital de importação, essen- caprichos da moda». Lameira
cial ao convívio dos povos civili- e Pacheco os exemplificam em
zados. lia de ser difflcil depa- alguns do jaez de bouquet, négli-
rar-se-nos «bom escriptor, que gé, jauteuil, comitê, coquette, peti-
não tenha perpetrado gallicis- metre, plateau, bello espirito, chefe
mo.n Nos melhores, em geral, d'obra, guardar o leito, deboche. J u-
como Garrett e Heboulano Lio Ribeiro aponta-nos de amos-
são principalmente verduras da tra confeccionar, abat-jour, afroso.
mocidade. Outros, como Eça e VASCONOELLOsnos Indlglta como
lÍAMALiio, os vão semeando qua- typos de umil outras^> falsifica-
si toda a sua vida. Mas, para lhes ções, «com que a nossa lingua
dar legitimidade, não basta de anda conspurcada por ignorân-
per si só o nome refulgente dos cia e pedantismon, bloco, affazeres,
Muctores, que os adoptam. Con- recidivar, debutar, chefe d'obra,
sultaram o gênio da linguaV Obe- golpe de vista, guardar o leito, fa-
deceram ás exigencias da língua'i zer literatura. Ante essas lições,
Observaram os moldes da língua? bebidas não no sepvilcrario das
Bemvindas sejam, nesse caso, múmias antigas, mas nas fontes
as innovações. Não o fizeram 'í vivas do saber contemporâneo,
O bom sizo, a sciencia, a arte que queria o Sr. José Veríssimo
nol-os mandam repellir. A ques- que eu fizesse? «Certos jornalis-
tão, portanto, não é embaraçosa tas», escreviam, ha annos, entre
para os críticos de boa fé. «O nos, dois homens de letras, «cer-
que se rejeita», diz Figueiredo, tosjornalistas, baldos de amor iis
«são os gallioismos inúteis, per- excellencias da viril linguagem
jilhaãos pela moda ou pela tolice, portugueza, grandemente preza-
como golpe de, vista, chefe de o- das dos Camões, Beriíakdes, Fi-
bra, detalhe, debutar, etc., etc.» LiNTOs e outros, encaminham o
Nesse caminho, não ha que andar esbelto idioma para o despenha-
muito do ílite, do reclame, do ate- deiro dos barbarismos, solecis-
lier, do -nuances, ao parure, ao mos e quejandas soezes corru-
première, ao corbeille, ao res de ptelas. Mudemos de política, de
chmissée, ao reeditar, ao joven fi- amores, de vestuário, que tudo
lha, ao amusante. Os grammati- isso é moda ; mas conservemos
cos mais novos, mais estremes uma lingua uniforme, que seja
de ranço archaico, mais versados entendida de todos nós, sem
nas theorias evolutivas daglotti- atravancal-a de impurezas que
ca moderna têm-nos prevenido lhes desdoiram o brilho e lhe
DICO. GRAMM. 9
130
GALLICISMOS
corrompem a indole.» Havia eu vernaculidade, os demais, todos
de peguir, na elaboração de um elles, por motivos igualmente
codigocivil o rastodoperiodismo estribados nessa dupla regra, a
vicioso e descuidado Nesse tra- que toda a escriptura limpa de-
balho de incomparavel responsa- ve obedecer.» Replica do Senador
bilidade, nesse trabalho impesso- lluy Barhosa... pgs. 199 — 201.
al e nacional, nesse trabalho des- A, usado como partícula regen-
tinado atranspòr uma existencia te é gallicismo nas locuções; nada
secular, era essa a norma que se ha a fazer (nada ha que fazer);
me impunha? ou a de o vasar nos de maneira a chamar attenção
moldes menos impuros, ditados (de maneira que chamou a atten-
á nossa lingua pelo uso mais es- ção). Pouco teve a temer (que
crupuloso e pelos melhores es- temer): * aiíANDono, ar, gall.
criptores ? Se já não ha estran- usual e talvez necessário ; abbk-
geirismos defesos, tem razão o TüiiAs, usado na diplomacia
Sr. José Veríssimo. Se inda os (propostas preliminares) ; acti-
ha, c'e«í une querelle iVallemanã, vAn, g. necessário ; adbesse,
é uma rusgaíutil esse longo dis- por sohreacriptfl; affakes ou
sertar das necessidades inevitá- affateres; alguns escriptores
veis da evolução no seio das lín- propõem a forma que-fazeres ;
guas vivas. Todas ellas se inspi- AFFIXAR é admittido ; affkoso,
raram em considerações tão sim- horrendo ; alterado, sequioso ;
ples, quanto irrefragaveis, a que AKIMOSIDADE, gall. admittido ;
os mais decididos evolucionistas *AiiiiisTicio; ARRAX.io, arranjar.
em matéria de linguagem não Necessários. Arranjar, t. de ta-
recusam assentimento. Venham noeiro, (í antigo ; ascendente,
as novidades, embora advenas, preponderância ; * assembIíBA;
mais recebendo feição vernacula. attittjdk, de bo^m uso como
Venham os estrangeirismos, as- termo de arte. E-lhe preferível
sim transformados, comtanto, poHtura; *al'dacioso, porousado;
porém, que sejam necessários. avançar, no sentido de atiflrmar;
"Ha um principio generico, de * 3ÍANCAR0TA ; BANAL, trlvial,
que se não,deve desfilara vista: sediço, vulgar ; barricada, ne-
é que não é licito enxertar em o cessário ; * BELLO sexo ; bem, é
nosso idiomapalavraestrangeira, gallicismo nas locuções Jííütoííw,
destinada a representar uma hem menos, em vez de muito mais,
idéa, que pode ser expressa por muito menos. Salvo quando jun-
uma palavra portugueza.» A to a adjectivo: hem mais for-
esses dois cânones me ative. São moso, etc ; *BEM-ESTAH, adopta-
elles os que me inspiram obje- do geralmente ; bizarro, ex-
cções a vocábulos do feltio de travagante ; *BOM, gallicismo
honorabilülade, proposüalmente e em hoas graças, era vez de graças
outros, o primeiro pela sua inu- simplesmente: cair na graça dei
tilidade e obscuridade, o segun- Rei e não 7ias hoas graças do Rei.
do pela sua superfluidade e in- O hom Detts (le bon Dieu). Inver-
131
GALLICISMOS
samente, é frallicismo dizer o lhe communicar a contagião na
gosto, em vez de o bom gosto. vilia. II (Ib., p. (iO.) «Com pe.«ti-
Outru gallicismo: o hom tom, que lencial contagião tem inficionada
aliás já tem bastante uso ; bono- e enferma grande parte da chris-
mia; * BKOCiiADO, brochuTa, etc ; tandade.ii (V.doArceb., I. II,
BRUSCO, violento, precipitado. c. 15.) «Andando já a mesma
Em vernáculo brusco significa contanião mui accesa em Fez. «
escuro, annuviado : tempo Jrws- (llist. de «S. DomiiKj., parte I, I.
co; * CABOTAGEM, navegação cos- VI, c. 31.) «lí como mal de con-
teira; *CALCUi,(), g. no sentido de tagirw eram geraes em todos os
intençSo ; caunagkm, é clássico logares.» (Ib., I, IV., c. II.)
no sentido de provisões de car- Mas séculos antes de Fk. Luiz
ne ; «Fazer carnagem e aguada», DE Sousa e Vieika, el-rei D.
Barros; *cniCANA; coat.ição, Duarte, que começou a reinar
por colligação; comitk, por jun- em 1433, já usava d'esse vocá-
ta, commissão; *C0MMAND0, com- bulo :« Cirande bem he mandar
mandar, etc. (termos militares); alguns curar lora dellas » (cida-
COSIPIÍACKNTF; ; COMI'OnTAU-SK, des e villas), «e assy os enterrar
comportamento, etc., procedi- quando delia» (da peste, pes-
mento; coiirjíOMETTEn, no senti- tellença), « morrerem, fechando
do de arriscar ; * conducta; con- as casas po.r XV ou XX dias, ca
scRiPç.\o, recrutamento ; conta- veemos cortar ou queymar luin
«lÃo. Havido por gallicismo. membro mal desposlo, por nom
Iluy Barbosa contesta-o e com se perder per sa contagioom.»
razão: «Se Viriea usa de con- (Leal Conselh., p. 307.)u còn-
tagião, é que esta palavra não é tar, gallicismo nas locuções :
menos nossa que dos francezes. contar sobre... contar com...;
Para um e outro idioma pro- co<íuette; corte, gallicismo no
manou ella do latim contagio, sentido de tribunal; costume,
contagionis. l5i,UTEAU... Com li- ■trajo, habito ; costumes, gall.
cença do sr. José Vektssimo : no sentido de — os bons costumes
não hei-de citar os vocabulários (les m(purs); cracha, liabito,
• modernos, para demonstrar a insignia; * dados, informações,
antigüidade vernacula dos ter- razões; de, preposição. —Locu-
mos falsamente postos de moder- ções reprovadas; 1. «A primeira
nos c adventicios.. «LtJTEAU já cousa que fiz foi de vir a Ma-
regista esse vocábulo, invocan- drid.» 3. Recommendou de fazer,
do Le.mmos, Oerco de Malaca, etc. 3. O menor abuso que com-
p. 40 ; iiinficionados da conta- mette é de reduzir o povo á es-
gião do ar corrupto. )i Podia ci- cravidão. Convém notar que vá-
tar aiictores mais eminentes, rios usos do de são clássicos.
como Fk. Luiz de Sousa, onde «Quam grato era da mercê»
freqüentemente occorre esta pa- Barros. «Cliamaram-lhe de here-
lavra : «Foi contagirw do ar.» je.» Fr. L. de Souza. «Os pais o
(Annaes, p. 5!l.) «Escapar de se a patria o negavam de lilho.»
133
GALLTCISMOS
Juc. Freire. «Ordenou ãe fiizer a gente de Vianna não podia ís-
fortaleza.)) Fernão Alvares. «De- íííccgr as obrigações» Fr. L. de
sejo lia muito de andar terras es- 8ouza (V^. do Are., VI c. I).
tranhas.» Camões, C. VI, .5-1. *. ESTAR, gallicismo; estar ao
* DEFEIIENCIA ; * DEGRADAJl-SE, fado, estar sciente; *estudado,
descair; DErAiiTAMEKTO ; * de- contrafeito, affectado ; * etique-
pois, jiallicismo na locução : De- ta, adopl.ado usualmente; *exa-
pois de taes exemplos—por : á CTinÃo, por exacção ; execução,
vida de taes exmplos ; * desco- mão de obra, lavor, feitura;
siDO, (décousii); dkssejit, pos- extraviado, extraviar (ado-
tre, pospasto, sobremesa; desin- ptados); *fatigante, afanoso ;
fectau, dosinflcionar; *desta- fazer: 1. Gallicismo no sentido
CAii, destacamento, termos mili- de dizer. 3. «Isto fazia as suas
tares ; DETAi-iiE, detalhar, parti- delicias (nisto consistiam). 3.
cularizar; D0Mf:sTiC0, servidor, Fazemo-nos um dever (julgamos
criado ; EOLOS.IO; eclusa, di- do nosso dever), etc. Usos clás-
que; *EFFEiTOs, na 1. do com- sicos são os seguintes : 1. Fazer a
mercio. Já usado por Vieira: «os causa de alguém (Fr. L. de Sou-
ejfeitos da Fazenda Real.» * ego- za). 3. Fazer erros, emendas, etc.
ísmo ; ELAXÇAU-SE, arrojar-se; 3. Fazer vingança ou tomal-a
EM, preposição.—Gallicismo nas (Ferreira). *favorito : *felici-
locuções: íalar em philosopho TÃix, felicitaçõe», etc.; *fo)ímato,
(como). * O objecto em discussão Vieira usa:/óniia de quarto, de
(que se discute.)—«Parece que oitavo, etc.;* fundo, «o fundo
no'espirito da lei... (segundo), da questão.» Fundamento, o es-
etc. Suo clássicos os empregos sencial ; FUZIL, pori espingarda;
seguintes: 1. Depois que saímos oAi.LiMATíAs; * GARANTIR, ga-
em terra (Heitor Pinto). 3. Pas- rantia, etc., necessários; *ge-
sou em África (Barros). 3. Por- Nio, homem de gênio. Engenho.
que o rei não quiz conceder GOi.PE de tista, golpedeolho (coup
»'isso (H. Pinto). * p;migiiai{, d'(i'il), por vista, volver vista
emigração, etc., necessários ; d'ollios, volta d'olhos, olhar,
* EMOÇÃO, commoção, etc. ; etc., perspectiva ; gosto, gall.
ENCOKA.IAR ' *ENDOSSAll, endOS- por o bom gosto; (íuardar o leito,
sador, etc.; engajar e deriva- estar de cama : * horda; * hu-
dos; ENTAMAK, encetar ; entra- mor, bom natural, bom humor ;
ve, estorvo ; * erigir-se em juiz, im.mediações, arredores ; impe-
etc, arrogar-se ; "'''espirito, espi- RECiVEL, immorredouro; impor,
rituoso; engenho, engenhoso, enganar, seduzir, imbair. Nos
etc.; *ESQUECER, gallicismo na outros sentidos ó auctorizado;
fôrma activa.—Esquecer o cha- * iNAiiALAVEL, O classico é im-
péo—por: esquecer-se do chapéo. «loío;* inconcebível, inintelligi-
Segundo outros e com a aucto- vel, inconceptivel. Contrario ao
ridade dos clássicos, esquecer pó- gênio da lingua, que diz : imper-
'.le ser usado na voz activa: «A ceptivel e não impercebivel; * na-
138
GALLICISMOS
COXTESTAVEI, ; * INDEMNIZAI!, l/l- PULAÇÃO idem ; *rOR, preposi-
demnizaçãu. Usaaes; '* inesgo- ção. Gallicismos: 1. Desgosto
tável, pereniial ; * issinuantk, pelo trabalho (do). 2. Juramento
é necessário e usual ; * instal- de fidelidade ;)«Zí) principe (ao),
liAi! e derivados; *insükiiei- etc. Da prep. para: «Prezareis
çÃo, sublevação; intiuga e tão p iuco a virtude^arasuppor-
derivados; * isolado, só, desa- des austero um semelhante as-
companhado, desamparado, in- sumpto? (prezareis tão pouco a
sulado, etc. ; JUSTEZA, Fr. F. virtude que vos parece austero...)
de S. Luiz; considera o vocábulo ^'■pÒR, pôr ao facto, instruir;
adoptavel e de boa formacSo ; PRET, t. militar; *pre.tuizo, por
LANGüiis, desTallecer; "liiíeu- preconceito, preoccupação; pres-
TiNO, libertinagem; mai^ a pko- s.vNTE. — Notado em Portugal;
POSITO, ioL-a de proposito ; mala- * prevalecer-se de... gallicis-
DIA, malato, malado. Palavra mo. Uso clássico: A virtude pre-
muito antiga no portuguez. Não valece ao vicio; pro.iecto; pro-
(5 gallicismo. * manobra; * mas- i'0siTAi, ou iiropositalmente. Por
sacre, massacrar, etc.; *mbs.mo descuido na Orámm. port. foi
—Mesmo em vernáculo, ainda incluído entre os gallicismos.
quando posposto, concorda com Não (í palavra franceza. que—
o nome: A mãe mssma aconse- Gallicismo nas locuções: 1.
lhou-o (e não mesmo). Outros Como symbolo do optativo: Que
gallicismos : « Pode-se mesmo eu morra! çiíá o mundo saiba!
aflirmaru (por: até se pôde allir- 3. Na repetição escusada: disse
mar), No emtanto lia alguns que eslava doente, que morreria.
exemplos clássicos, ainda que !5. «Não lerels mais que uma pa-
suspeitos, de tal uso. ■^\IETTEll, lavra. n No emtanto é de Rodri-
Metíer em obra, tentar; metter em gues Lobo o e.xemplo: « não se
contribuição, fazer contribuir, ama a cousa que pelo que 6».
etc.; *MoçÃo, do inglcz TOOÍÍO». "Pot senão, usa-seauctorizadamen-
T. de politica; NEGLioÉ, desali- te o depois do adject. outro:
nho; *NüANÇA, matiz; parece II não sendo a virtude outra cousa
necessário para indicar os toques que a medianelra... etc. (Arraez.)
vários da mesma côr; *rAMi>iiLE- * RECLAMAR, no sontido de de-
TO, tomado do inglez; tara, vide mandar, invocar. — lleclamar a
por; *PATRi0riSM0, patriota, justiça, o direito. *REDACTOH ;
usuaes e necessários; temível, reoruta; * REGRESSAR, voltar,
penoso ;*PEQUENO—Usa-se este retroceder. O vernáculo seria re-
vocábulo por gallicismo muitas gredir, como progredir, e \\%o pro-
vezes, quando se pretende expri- gressar; remarcavel. Usado em
mir o diminutivo: n k jieqxiena Portugal; * rendez-vous ; *re-
Adelia—por: & Aãeliazinlia., etc. nii.MBNDA, reprehensão; ressoii-
■*PETiMETRE, petit-mattre, peral- te, ressort ; ressurç.\s, ressour-
ta ; PICAR-SE, presumir-se ; ces ( usados em Portugal ); "'res-
PONTO DE VISTA, USUal ; * PO- to — Vocábulo vernáculo. Por
134
GALLICISMOS — GENITIVO
gallicismo, ha abuso nas locu- volteiar, revoar ; voi>tJPTUosinA-
ções—o resto dos homens (os de- DE, gallicismo que deve ser sub-
mais). De realo, por—no mais, stituído pelo formoso termo pro-
ou quanto ao toííí». Alguns consi- posto por Bluteavi : voluptade.
deram cUissica a locuçaorfere^ío. Gaiuo.s, nupcias.— Elemento
*ketketa; *kidicui-o—Em por- grego de composição. Bigamo,
tuguez é adjectivo. Como sub- casado dua^ vezes. Cryptogamo,
stantivo ú expressão franceza : planta que tem o ovario occulto.
"OS ridículos do tempo». *koi.ar,
gallicismo com a significação Gaster, ventre.— Elemento
activa: " o tia rola as areias», grego do composição. Oastrono-
por li volve as areias ;* kotina, mia. Epiyastro, parte superior
trilha,usança ; bai.tak aos olhos do abdômen; hypogastro, parte
(ser mais claro que a luz, etc.; inferior.
*SABRE, t. militar ; "^sancoio-
NAK, g. adoptado ; * secundak, Gê, terra.—^Elemento grego
auxiliar, ajudar; * senso—Ho- de composição. Apogeo,\ovige da
mern de .•je?iso (de juizo); sexo. terra. Geometria, medida da
—E gallicismo o emprego exclu- terra (superfície). Qeorgicaa (er-
sivo do vocábulo sexo para desi- gon), trabalho sobre as terras,
gnar o sexo feminino; ^ íiOBjiK, agricultura.
preposição. — Gallicismo nas lo- Geiiero.—Caracter que dis-
cuções; 1. Usurpação sobre o tingue os nomes conforme o
povo (ao); 2. Inscrever sobreii]n- sexo dos seres animados e por
l)ide (na); H. Sobre o modelo (se- extensão applicadoaos seres que
gundo o); 4. Concordamos sobre não têm sexo. No latim havia
a solução fna ou qusnto li) ; tres generos: masculino.feminino,
SOKTIDA, invectiva; süjíir, no, neutro. Os dous primeiros per-
sentido do soíírer ; * SUCCESSO sistiram nas linguas romanas;
bom êxito, bom successo ;* sun- do genero neutro ha apenas ves-
PREiiENDER, surpveza. Os clássi- tígios rarissimos. (WA&3Iasculino
cos diziam : « soprezar uma for- e, feminino, neutro.) Primitiva-
taleza. » TAPizAR—Em A^ieira mente, o homem dava animo a
« entapizar » e liapizes. » * tartu- todos os seres no período feti-
FO ; * TOCANTE, temo. Adoptado chista e desde então a distincção
geralmente ; * tomar a palavra, se.xual foi, ainda que errada-
adiantar-se no uso d'ella. «Aqui mente, reconhecida em todas as
tomou a mão o provincial e foi cousas; d'ahi a generalização do
proseguindo no mesmo argumen- genero para as cousas que não
to.», Fr. L. Souza na V. do Are., tOm sexo.
I, 22. trem de vida, modo, gene-
ro de vida; * trenó, trenau; Genitivo. — Caso latino.
\iK,iO'R,voyageur, viandante, via- Exprime posse e algumas vezes
jante, caminiieiro ; "'■"vistas, in- origeiK. Vide Compostos, onde
tenções, presupposto; volte,i ar. damos os raros vestígios conser-
135
GENITIVO — GEOGRAPHICOS
vatlos no porluffuez, apenas em estender as denominações locaes
vocábulos eruditos. aos productos iudustriaes de
Geiiiiaõ, engendrar. — Ele- qualquer zona. D'ahi,os termos
mento grego de composição. Ge- usuaes no Jírasil : petropolis
nesis, origem. Oenealot/ia. lloino- (bengala), jacobina (doce), e
(jmetí. poucos outros. O numero de
semelhantes etymologias é cres-
Gentilico.s.— São os adje- cidissimo. Exemplos : A) No-
ctivos que exprimem as nacio- mes de povos: arabesco, arabe;
nalidades: francez, iiiykz, brasi- vasquim, collete—basco; yallico,
leiro. Muitas vezes um radical malgallico,francez;?aí?ireo,latino;
pôde dar varies gentilicos: bra- judiar, judiaria, judeu; vandalo,
sileiro, brasis (só no plural), bra- barbaro, vandalo; escravo,'por
silico, hrasiliense e brasiliano slavo, escravidão, etc.; turqueza,
(pouco usado). Anglo, inglez ; pedra preciosa; turcu; cafre (in-
franco, etc.; itálico, celtieo, etc. fiel), Cafraria; Índios, indígenas
Pátrios são propriamente os que da America, que se suppunha
se referem a cidades ou villas ; ser o prolongamento occ. da ín-
parisiense, lisboeta, maãrilense, dia; cigano (egypciano), suppu-
etc. Alguns pátrios são tirados nha-se serem.os ciganos do Egy-
de radicaes diversos: portenho pto. Ila outras derivações, de
(Buenos Aires); carioca (Rio menor imporiancia. A maior par-
de Janeiro), fluminense (do la- te e as mais interessantes d'essas
tim Jíwmeíi, rio, etc. Quando os formações se encontram nos no-
Hentilicos entram em composição, mes geographicos de víll^as, ci-
de ordinário o primeiro elemento dades, províncias, etc. E a de
é latinizado:/ra7ico-allemão, ger- que vamos dar a lista seguinte,
mano-lwTCo ; ««.«ÍTO-hungaro ; sem rigor de ordem alphabetíca:
feso-brasileiro; an(/ífl-francez ; ardosia (ardoise)—pedra de Ar-
«Za«y-dinamarquez, etc. Quando dennes; arminho, da Armênia;
se aggi-egam tres elementos, os artesiano (poço),do Artois; balda-
dous primeiros são latinos: an- quim, de Baldaco, Bagdad; beoeio,
i/ío-//'aíictf-brasileiro. Quando ha daBeocia; bugia,(ve\a,), da cidade
Hentilicos duplos,freqüentemente de Bougie; cariatides, de Caria;
lia diversidade de emprego, um carmelita, do monte Carmelo; ci-
designando pessoa (outro a lín- Ucio, da pilicia ; cordovão, de
gua) e outro cousa; o liobreu, Cordova. E d'cssa origem o fr.
o arabe,o persa (também arabico, cordonnier; gravata, de Croacia;
hebraico, pérsico, jiara designar damasco, de Damasco; ilota, da
a lingua), germano e germânico, Elos (em Esparta); faiença. de
grego e hellenico, romano, ro- Faenza;iaMe, de GJagis (Lycia);
man ico (lingua lati na) e romance, guinéo, moeda ingleza, d(í Guiné
chim e chinez, japão e japonez. (África), d'onde veio o ouro para
Geograpliicos (nomes). — a fabricação das moedas; laeonis-
Rm geral ha a tendencia para mo, de Laconia (Lacedemonia);
13G
GEOGRAPHICOS — GKRUNDIO
lyceu, de Lycêo; madrasto, de mão, suppõe-se com muita pro-
Madras (índia); marroquim, de babilidade que é denominação
Marrocos; musHelina, de Mossul; de qualquer tribu celtica appli-
nankim, de Nankim; parmesão, cada erradamente a tribus teu-
de Parma; pergaminho, de Per- tonicas.
gjimos; pecego, da Pérsia, persi- Gerundio.— Fôrma verbal
cus; pharol, de Pharos (Egypto); do modo infinito, caracterizada
pliaiaão, ou faisão, de Phasis; pelo suffixo íicZo. Kepresenta um
romaria, de Roma; porcelana, adjuncto ou uma clausula adver-
Puzzola; sardonico (riso), Sarde- bial. Ex ;
nha; solecümo, de Soles (Grécia);
tabaco, de Tabago (Antilhas) ; « cujo alto imiierio
terra-nova; vaudeville, de taux O sol logo, em nascendo, vê
primeiro. »
(vallées) de Vire (1); cohre, de
Chypre. Deixamos de citar os Sem a preposição em, o gerun"
nomes que devem ser excessi- dio exprime semprecoexistenciai
vamente familiares; üognac, Xe- contemporaneidade das acçôes
rez, Cachemira, Sybarita, Sedlitz, dos verbos, em qualquer tempo;
bysnntino, phrygio, moscovita, partiu, chorando (a chorar);
etc.; também os nomes scientifi- partira, chorando ; parto, cho-
cos, como devoniano (Devon), rando. Ao gífrMTiííííi têm cabido di-
jurassico (Jura) e varies outros. versas denominações : de substan-
tivo verbal (Moraes), de participio
Germânico (elemento). Vi- imperfeito (Soares Barbosa), de
de 1'eutonico. —Os italianos usam substantivo circumstancial (Diez),
a "denominação tedesco, tudesco expressão que evidentemente
(tosco). Na versSo da biblia para corresponde melhor aos factos.
o gothico, o bispo Ulfilas ado- A denominação gerundio é de
ptou o termo ihiudisko para tras- certo a menos conveniente, pois
ladar o frrego illmikós (á maneira as formas gerundiaes latinas em
do povo). Os primeiros escripto- ãi, do, dum (legendi, de ler, le-
les germânicos chamavam á lin- gendo, para ler, etc.) não podem
gua vernacula dÍMÍísc ou, em vo- ser trasladadas pelo gerundio
cábulo latinizado, thiudincus, tlieo-
das línguas romanas. No emtan-
tiscus, lingua popular. (2) Tem a to na lingua actual a denomina-
mesma origem o adjectivo tosco= ção de participio presente seria
barbaro, grosseiro, inculto. O ter-absurda, desde que essa (lexão
mo germânico foi usado primei- tornou-se archaica quanto á sua
ramente pelos latinos e, não son- funcção verbal. Na lingua anti-
do de radical romano ou alle- ga, sim, encontram-se exemplos
do part. presente puro ; tiEstas
(1) Vide Stapper.— Dlct. elyni. cousas ouvinte...» (ouvindo estas
(2) Só no see. X eonieva a ser cousas). II A proposito de gerun-
usada por theoliscus a forma leii- dio latino e portuguez, em artigo
toiiicus. Ene. brit. X,")!;». de critica, polemica ou cousa
137
GERÜNDIO
que valha, escreveu um latinista, osgerundios — Timend um,privan-
o snr. Miissena (?) de Minas Ge- dum e eundum. O gerundio é
raes\ as seguintes interessantes incontesiavelmente uma varia-
considerações, que é curio- ção de infinito, como reconhece
so ler: « Pelas grammaticas e o Sr. Dr. Castro Lopes, e, como
metliodos adoptados nas aulas o infinito, faz as vezes de nome;
Ijublicas não podemos respon- gerem uicem nominis, é sua ety-
der ás nossas questões, mas re- mologia, e não re gerunda, como
sponderemos de conformidade diz Constancio (dicc.). Os lati-
com a verdadeira noção das cou- nos dizem tempus legendi libros
sas, parao quesejam-nos permit- ou ad legendum libros, e tempus
tidas algumas considerações. lectionis Ubrorum, ou ad lecti-
Amare est é presente; amatum est. onem Ubrorum e tempus legere
preterito; e amandum est, futuro, libros; pelo que se vê que o ge-
o que ninguém contestará. Estas rundio pôde ser empregado em
tres phrases são analogas entre logar do nome ou do infinito,
si, pois que em todas tres a idda que c um verdadeiro nome-verbo,
individual da significação do e o infinito em logiir do gerun-
verbo amare é empregada como dio. Sendo elle um nome-verbo
sujeito do verbo substantivo est, e tendo um genitivo, accusativo,
d"onde se segue que estas tres dativo e ablativo, tem também
locuções são comparaveis entre um nominativo para fazer as
si como partes de uma mesma funcções d'este caso. Muitos
conjugação, da mesma maneira exemplos tirados dos melhores
qae amo, amavi, amaturus sum; clássicos latinos poderíamos apre-
o sentido de amatum est é o mes- sentar para prova do gerundio
mo que o àe^amare est e o de em nominativo, mas é bastante
ainandum est. É fóra de duvida citar somente dous: Boi nocte sal-
que amxire est tem o sentido acti- tum, qua traseundum erai Roma-
vo, e, portanto, amatum est e nis, insederunt (Tito Livio, livro
amandum est tem esto mesmo 35.) Aliqua concilia reperiendum
sentido activo. Ora, se o infinito est. (Plauto, Epidic.) É incon-
OOTíüre serve de sujeito do verbo testável que transeundum e repe-
substantivo por ser um nome- riendum são nominativos, sujei-
verbo. como mais tarde veremos, tos dos verbos erat e est. O pri-
e o supino por esta mesma razão, meiro gerundio transeundum 6
como já demonstramos, também activo intransitivo, e a tradu-
serve de sujeito, tendo para esse cção literal é — os boios occu-
fim um nominativo, é evidente param de noite o bosque, na
que o gerundio por esta mesma parte por onde a acção de passar
razão serve de sujeito do mesmo tinha de ser ou de existir para
verbo, tendo igualmente para os romanos; e se a acção de pas-
esse fim um nominativo. Por- sar tinha de existir para os ro-
tanto respondemos que os sujei- manos, idéa esta expressa por
tos das phrases apresentadas são tratiseundum, que c futuro, elles
138
GERUNDIO
tinham ou liaviam de passar; é participio activo, é que o gerun-
como si se dissesse— transitus dio, cuja natureza em fundo é a
ou aetio iransitioiús futurus erat mesma do infinito, é um verda-
romanisoxi simplesmente: trana- deiro nome, e o participio activo,
ire futurum erat romanis. Não bem como qualquer participio,
obstante, pois, a auctoridade do é um verdadeira adjectivo; é
Sr. Dr. Castro Lopes, fica de- par essa razão que o gerundio
monstrado que o sujeito de cada portuguez pode ser empregado
vima das plirases : eternas pienas como complemento da preposi-
timendum, pacempetendum e eun- ção em, o que ■ caracteriza um
dum est, é o gerundio em nomi- verdadeiro nome: em estudando,
nativo, assim como em transeun- aprende-se yrammatica; quando
duin erat e reperiendum concilia. esta preposição não 6 expressa,
Agora, depois de fermos illumi- deve subentender-se. O gerundio,
nado a questão com as luzes da emfim, não seapplicaimmediata-
analyse, vejamos o que diz a au- mente a um sujeito, porque
ctoridade. fS«?'i;iMs,grammatico do como nome não pode ter sujeito;
quarto século, para quem o la- jielo contrario, o participio acti-
tim enX lingua natural, commen- vo é sempre applicado á um su-
tando Virgílio, disse, a respeito jeito, porque é adjectivo, e todo
do verso 280 do livro 11 da Enei- o adjectivo suppõe um sujeito
da, petendum pacem & um modo a que se refere. O gerundio por-
de falar necessário quando se tuguez deve ser empregado no3
emprega o gerundio ; eis aqui mesmos casos e para exprimir
suas expressões: eumper gerundi as mesmas idéas, que exprime
modum aliqiiid dicimus, per accu- o gerundio latino. Quis taliafan-
sativum elocutionem formemus ne- do, ridendo castigai mores; fando
eesse est, ut petendum mihi est e nVZe7Jí?tí exprimem uma circum-
equum; o mesmo Servius cita este stancia de modo. Camões expri-
exemplo de Lucrecio: eternas miu esta mes'iia circumstancia
quoniam pcenas in morte timen- dizendo... cantando espalharei
dum. O jesuita Za iiiíe (0. llu- por toda a parte, isto é, em can-
ceus) commenta o verso de Vir- tando, por meio i\o canto. Virgí-
gílio da mesma maneira que lio,Ecl. 7,v.5,empregouo infinito
Servius, o que prova tudo quan- pelos gerundios em do e em dum:
to deixamos dito ácerca do ge- Et cantare pares et respondere
rundio. Vejamos ainda se com parati, por in cantando, ad re-
etfelto existe ou não o gerundio spondendum; iguaes no canto (no-
na lingua povtugueza. Os cara- me) ou (em) cantando (gerundio
cteres do participio e do gerun- po rtuguez)ou no cantar (infini to),
dio são differentes em todas as e promptosi)araarespoíto (nome)
linguas que o admittem, e tanto ou para responder (infinito por-
um como outro exprime idéas tuguez) (note-se a traducção re-
differentes. O que deve caracte- sponder e não responderem, por-
rizar com effeito o gerundio e o que ó o infinito em logar do ge-
139
GERUNDIO
ruiulio, o que os escriptores erro, não é necessário grande es-
sempre devem ter em vista para forço de raciocínio. Em um es-
evitar os abusos tio infinito pes- eriptor latino encontramos a se-
soal.) Esta phrase : us homens jul- guinte phrase; Cupiüo amandi
gando pela apparencia são sujei- Didoni dedit mortem; o Sr. dou-
tos a enganar-se, exprime pontos tor e os de sua escola traduzem :
lie vista diversos, conforme fôr o desejo de amar, etc.; mas nós
encarada A'píúa.\Yí\. julgando; en- que achamos o gerundio em dt
carada como gerundio, indica o com a mesma forma na voz pas-
caso em que os liomens são su- siva, traduzimos : o desejo de ser
jeitos a enfranar-se, que é em jul- amada, etc.; e qual de nós tem
gando, in juãicando, quando razão ? Todos nós, porque, si
elles julgam pela apparencia. nmandi tanto significa de amnr
Encaradacomo partioipio activo, como de ser amado, a escolha
exprime a causa por que os lio- fica livre ao traductor, ficando
mens são sujeitos a enganar-se, igual liberdade ao auctordotexto
é o resultado dos homens que de impugnar a traducção, qual-
julgam (judicantes) pela appa- quer que ella seja. Mas, dirá a
rencia. Ora, ha grande differença illustrado doutor, o desejo de
entre estes dous pontos de vista, ser amada em latim é cupido
e o eseriptor delicado que quizer amatu, conforme a doutrina ex-
enunciar antes um que o outro, pendida em sua grammatica, n.
não se servirá de uma phrase 44 e 210 b. Nós, porém, repli-
equivoca, empregará a preposi- camos com as doutrinas ácerca
ção em antes do gerundio, ou do supino expendidas no artigo
substituiiá o participio julgando antecedente. O supino em—u
(judicantes) por esta phrase in- — bem como o gerundio em—di
cidente : que julgam, e dirá : os — não tem absolutamente sen-
homens julgando, ou que jul- tido passivo, como ficou de-
gam, etc. O portuguez, lendo monstrado, e ss^\m, facile dictu,
tomado o gerundio do latim, não cupido amandi não significavam
deve emprcgal-o senão nos mes- para os latinos: fácil de ser dito,
mos casos em que esta lingua desejo de ser amado, mas sim,
emprega seu gerundio em (íopara fácil de dizer, desejo de amar;
exprimjr as mesmas idéas, que outros eram os meios emprega-
este. E, portanto, incontestável dos para exprimir a passividade
a existencia do gerundio na nestes casos; faeile dici, cupido
lingua portugue/a. O gerundio amari, etc., etc. (E os parlado-
tem incontestavelmente o senti- res exclamam com toda a elo-
do activo, e como tal deve ser quencia parlamentar; supprima-
collocado na conjugação da voz seo ensino da lingua latina... Nós,
activa. Entretanto o Sr. doutor, porém, do alto da imprensa ex-
adoptando o systema vulgar, clamamos; supprimam-se essas
colloca-o em ambas as vozes. grammaticas e esses estúpidos me-
Para demonstrar, porém, esto thodos de ensino d'esta lingua'.)»
140
GLOSSOLOGIA - ■ GRAMMATICA
Glossoloffia.—Vide Olottolo- Gr, grupo latino, em que fre-
gia. Syn: phonetica, phonologia. qüentes vezes o g SQ dissolve,
Glottolog-ia.— Nome dado vocalizando-se em i: integrum,
por alguns philologos á sciencia inteiro,
ãn p7ioiiet£ca ou phonologia. Ou- Gramiiia, letra.—Elemento
tros generalizam o termo para a grego, tírammatica. Programma.
sciencia geval da grammatica. escripto antecipado. Monogram-
Olossologiai termo preferível. ma. A este pertence o liybridis-
Gii, grupo latino, que entre mo filigrana poí filagramma.
os romanos provavelmente já te- Graiiimatica.— Varia con-
ria o valor prosodico nh. Trans- forme o entender e conforme o
forma-se em ra/i .• tamanho, tam- progresso das épocas o conceito
magtvu» ; lenho, lignum ; senlia, que se tem feito da grammatica.
signa. O grupo conserva-se nas A grammatica pode ser conside-
f(5rmas eruditas: magno, signo, rada sob muitos aspectos, e por
etc. O g dissolve-se em reino, isso são muitas as suas defini-
regnum. ções. Grammatica pratica—é o
Gnôinai,conhecer. — Elemen- complexo de regras destinadas
to grego de composição. l)ia- ao uso correcto de qualquer lín-
gnostico, conhecimentocompleto. gua. É como mais vulgarmente
1'Iiysiognomico, que indica a na- se define : a arte de escrever e fa-
tureza. Prognostico, conhecimen- lar correctamente. (I) Mas como
to antecipado. todas as regras representam fa-
Gongorismo.— Escola litc- dos observados e reduzidos ás
raria também denominada c.ul- generalizações de que são susce-
tismo ou culteranismo, seguida ptíveis, a grammatica pode e
pelos discípulos e imitadores do devo ser considerada a sciencia
poeta liespanhol Gongora. Ca- que tem por objecto os factos da
racteriza-se pelo estylo peri- linguagem. Observal-os, coor-
phrastico, cheio de metaphoras, denal-os, eis o principal traba-
inversões e tropos extravagantes, lho do grammatico. Apezar d'jsto,
de muito máo gosto. Dominou como os factos da linguagem são
em Portugal nos séculos X\'II e modificaveis e susceptíveis de
XVIII. e á influencia e moda do sotfrer a intervenção do espirito
gongorismo obedeceram os espí- na sua constituição, pode o
ritos mais cultos da época, sem grammalicoconstítuir-seauctori-
exceptuar o grande P. Vieira. dade e de alguma fôrma, embora
limitadamente, ordenar e esta-
GOllia, angulo.— Elemento tuir preceitos arrazoados que re-
grego de composição. Tsogono,
de ângulos iguaes. Polygom, (1) Correciam-nie, entende-se,
muitos ângulos. Evitar a con- conforme o uso on praxe deduzida da
fusão com o elem. goms, gera- auctoridatle dos doutos e dos escri-
rão. Cosmogonia. litores clássicos.
141
GRAMiMATlCA
tíuliii-izem e fixem os usos ila foria das linguas modernas sem
lingua. Essa influoncia, porém, comparal-as, pois que exerceram
nem sempre c ellectiva, e só se entre si mutua e notável in-
exercc em limitado domiiiio, no fluencia, a denominação Gram-
que di/. respeito aos casos duvi- matica Jiistorico-comparativa é
dosos. Grammatica yeral é, se- sempre preferível desde que se
gundo a definição ordinaria- trata da historia das linguas
mente seguida, a sciencia dos romanas. A sciencia da gram-
princípios communs a todas as matica nas linguas romanas
linguiis. Esse estudo refere-se derivou dos antigos estudos rhe-
especialmente ás leis do pensa- toricos da escola de Alexandria,
mento e pertence á Loyiea e ií dos trabalhos de Dionysio de
Psycholoyia. Sem essa extensão Tracia, Varro, Quintiliano, etc.
de significado, a grammatica ye- Na idade média a cultura d'esse
ral pôde ser applicada a um ramo das letras exerceu-se com
grupo ou familia de linguas de os commentarios dos textos clás-
origem commuin. Nesse caso sicos latinos e hellenicos, e só
pode determinar com maior ni- mais tarde é que appareceram
tidez os processos que as linguas livros especíaes sobre os diale-
liomogeneas adaptam lí expres- ctos romanicos. Nos tempos
são do pensamento. Oramma- modernos as grammaticas que
tica comparativa é a que estuda maior preponderância exerceram
os factos de uma lingua era re- no domínio neo-latino foram
lação aos de outra, no que ellas as de Port Royal (sec. XV^II), a
têm de commum ou dc vario. de Lhomond (sec. XVIII), que
Também nesse domínio, a com- serviram de molde a muitíssimas
paração só tem evidente utili- outras. Na lingua portugueza
dade quando se trata de linguas são de notar pela influencia que
congeneres, ou iiuando se tem exerceram nos estudos da lingua,
em vista a i)esquiza deafHnidade os livros de D. Nunes do Liã»
entre as linguas. A yrammatica (sec. XVI), João de Barros (id.).
comparativa foi fundada por F. Lobato e nomeadamente a
líopp definitivamente, quf.ndo Grammatica philosophica de Jero-
determinou a grande familia nymo Soares Barbosa (1), que se
aryana ou das línguas indo-euro-
péai. Grammatica hiêtorica (1) (1) A lí edição é de Lisboa, typ.
ca sciencia dos factos da lingua- da Acad. ji. das Sciencia», 1822, í»
gem, estudados na sua evolução 4? Antes (eui 18Ü7) foi impressa do-
mesmo A. a Grammat. comparada
total, a partir das suas origens. dotai, e port. solj o titulo íieral: .fy
Como não se pôde estudar a Ms- duas Lingtias, impr. da Uiiivers.,.
Coimbra, s. <1. A Grum. phil. (1822)
é publicação póstuma, ordenada
(1) Denominação de Brachet, o l)ela Academia. D'aln sua enorme
anctor ita primeira Grammatica auctoridade, não muito justificável,
dita histórica. mesmo para o seu tempo.
143
GRAMMATICA — GKAO
tornou duriinttí muitos íinnos de palavras o a todos os vocábu-
•o oráculo de todos os estudiosos. los que podem ler nuanças de si-
Graiiiinatical (aiialyse). — gnificado. Os synonymosnão são,
Nomeapplicado á analyso indivi- em grande parte, mais do que
<1uada de todas as partesdodisciir- phenomenos de gráo, na ordem
so que occorrem em qualquer tre- mental, por isso que exprimem
cho literário. A analyse gramma- variações de intensidade e de ex-
tieal refere-se apenas ata.xinomia, tensão de certos conceitos: casa e
morpliologia e piionologia, com 2)alacio; estima e amizade, etc.
exclusito da syntaxe. A analyse Por outra parte, além das formas
syntactica ou das proposições, nominaes, o gráo propriamente
complementos, tinlia o nome de de flexão tem exemplos caracte-
analyse lógica. Actualmente no rísticos, que ficaram das língua.*;
Brasil, estií preferidamente ado- antigas. A preposição in faz no
ptado o systema de analyse rela- comparativo inter, no superlativn
cionai de Mason. A analyse grain- intimus ; a preposição íjí-íp tem os
matical consiste na descripção e gráos pneter, j>rwr a primiis; cvm,
classificação léxica; é exercicio contra; super, superior,summus ou
util, e que não deve ser despreza- supremus (superimus) ; ex, extra,
do no estudo elementar dalingua. extremus, de exteriinus, etc. Nos
Exemplo de analyse grammatical pronomes, as fôrmas de gráo com
ou mais propriamente léxica : o comparativo aryano em ter são
KDeuscreouomundo.y Deus, subst. innegaveis; nós, comp. noster;
proprio, masc.sing. Creou, verbo vós, comp. roster ou rester, etc.
•de pred. incompleta (traiisitivo); Os proprios verbos nas suas fle-
está na 3?çessoa do sing. dopret. xões de reiteração exprimem o
perfeito. E verbo da lí conjuga- gráo; agir, agitara miúdo);
ção. O,artigo definito, masc.,sing. saltar, saltitar; morrer, esnu/reeer ;
Mundo — substantivo appel. ou ílorir, florescer; murcliar, enumir-
■comm., masc., sing. etc. A in- cliecer, etc. Taes matizes de signi-
dividuação pikle ir mais longe ficado exprimem condições de
com a indicação da prosodla, gráo, evidentemente. A língua
dos derivados ou dos vocábulos tupi possue diminutivo para as
primitivos, etc. fôrmas verbaes ; por isso, prova-
velmente, se diz no norte do
Graniinatical (sujeito, pre- Brasil (Pará) estouzinlio (por
■dicado, etc.). —Vide Proposições. estov), etc. (1) Convém notar
Gráo. — Flexão nominal que que não só nas línguas primiti-
■exprime a variação de intensida- vas, como faz notar o Padre Mon-
de, qualidade e variação de gran- toya em relação ao guarani, mas
deza das cousas. O gráo é proprio em todas as línguas, o gráo c de
do substantivo e do adjectivo. ordinário uma noção interpreta-
Comprehendido de modo mais da pela mímica e pela intonação
geral, veremos que a noção de
gráo applica-se a toda a categoria (1) Vprissnno. Ett. 1.
143
GRÃO
da voz ; e ás vezes fica expressada considerados como uma especie
no estylo familiai-, pela redupli- de augmentativos, porque expri-
cação da acção : vandou, andou, mem sempre a abundancia ou
andou; falou, falou, falou,n etc. a força, o excesso de talhe ou
Esta modalidade c especialmen- de dimensão — heiçudo, graúdo,
te exemplificada nos contos po- etc.; outros apresentam formas
pulares (1). — Gráos de sub- irregulares, como : gordunchu-
stantivos. Os nomes substanti- do, pedinchão, tristonho, rica-
vos podem ser modificados por ço, etc. Tomam igualmente a
sufHxo, em muitos casos, para designação de augmentativos al-
exprimir augmento ou diminui- guns verbos derivados que se"
ção da idéa ou cousa expressa. formam na lingua portugueza,
Ha dous gráos, portanto, de que tanto por meio de desinencias
silo susceptiveis : o augmentativo alteradas do verbo latino ago, is,
e o diminutivo. «As terminações que traz a idéa de augmento, ex-
que de ordinário dão a conhecer tensão e grandeza, como por meio
os auçmentativos são :—ão, ona, de preposições que lhes dão força
simplesmente, ou precedidas de intensiva. Dos primeiros temos,
outras letras que deixaram alte- entre outros, os verbos : alterar,
rada a terminação do nome a esbofetear, farpear, folgazar, pas-
que se juntam ; e aço, aça, az, sear, vaguear, etc. Dos segun-
ote, em que ha menos exaggero dos; realçar, exalçar, esbravejar,
que nas primeiras. Exemplos : resfriar, consolidar, tressuar, etc.
mullierão, mulherona, toleirão, to- Alguns formam-se juntamente
leirona, homenzarrão, rapagão, por meio das indicadas desinen-
medalhão, etc.; mulhera- cias e de preposições; V. g.: es-
da, heheraz, etc. Alguns augmen- perdiçar, impacientar, etc. Ha
tativos são do genero masculino, certas palavras que são natural-
embora os seus respectivos pri- mente augmentativas e não têm
mitivos sejam do genero femini- positivo; entre outras temos :
no, como : mulherão (m.), deriva- comilão, comilona; chorão, choro-
do de mulher (f.), garrafão, etc. na; estirão(sem feminino); ou de
Também se contam adjectivos f()rmas isoladas, como: cabeçorra,
nos augmeutativos ; taes são: copazio, corpanzil, poetastro, etc.
soberhão, valentão, doidarrão, gran- Note-se que nem todos os sub-
dalhão, espertalhão, etc.; estes e stantivos são susceptiveis d'este
semelhantes têm a forma femini- grão de significação.» (Escoli-
na em ona. Muitas vezes empre- aste), Diminutivos. — São os
gados ironicamente para depre- appellativos derivados que, além
ciar; V. g.; valentão, valentona, da idéa principal contida nos
sabiehão, sahichona. Os adjectivos primitivos, exprimem, com o au-
terminados em udo podem ser xilio das terminações affixas,
idéas accessorias de pequenez
(1) V. Sylvio Homero — Contott abaixo das dimensões communs
Pupidares, I. e II. e normaes, e bem assim as de ca-
144

rinho, ternura, desprezo ou cles- ciaes para diminutivos, como se


dem; v. g.: botãozinho, amor zinho, marca nos seguintes:— casebre,
filMnho, fidalgote, nmlherzinha, banqueta, camarote, aldeola, 7no-
etc. iiAs terminações que de çoila, parcella, partícula, regulo,
ordinário os dão a conhecer são; versiculo, tiella, etc. Também se
inho ou zinlio, inha ou zinha; contam adjectivos nos diminuti-
ito, ita, ico, ica; ejo, ulo, ula. As vos: v. g.: alegrete, bonitote, mo-
terminações ete, oto, ota, acho, renito, queriãinho, etc. Os adje-
acha, diminuem em menos que ctivos diminutivos mais com-
as precedentes; v. g.: papelinho, muns são principalmente os que
'homenziiiho, rapazito, caãellinha, acabam em inho ou zinho, mas
mulher zinha, raparirjuíta, burrico, além da sua significação geral
animalejo, globulo, pelUcula, mu- de ternura ou de caricia e.xpri-
Iherica, rapazete, perãigoto, ilhota, mem alguns ao mesmo tempo in-
riacho, lehracha, etc. Segundo teresse ou compsi.xão; v. g.:
sua diversa terminação, pode o coitadinho do meu Pedro; a
significado dos diminutivos apre- pobrezinha da rapariga. Certos
sentar difrerenças(e ás vezes bem diminutivos em inho têm um
notáveis). Assim, mulherzita ou sentido superlativo, isto é, ele-
mulherzinha significa ordinaria- vam a significação do adjeotivo,
mente uma mullier de pequena como nas seguintes plirases :
estatura, ou uma menina que se falar baixinho; ia sósinho; esteja
approxima da idade nubii, em- caladinho; sentou-se chegadinha;
quanto que mulherinha significa pão quentinho, etc. Alguns ad-
de preferencia mullier bisbilho- vérbios são susceptíveis de tomar
teira. O mesmo ha de até certo a forma diminutiva, v. g.; per-
ponto entender-se acerca dos au- tinho, juntinho, cedinho, detagar-
gmentativos. A%í\m, mulherão, ou zinho, etc. As palavras termina-
mulherona diz-se de uma mulher das em CO, ca, mudam o c em qit
alta e corpulenta; mwWerapa ap- para conservarem o valor do c;
plica-se especialmente para desi- v.g.: bico, biquinho, faca, faqui-
gnar uma mulher bem configu- nha. A terminação im é tam-
rada e musculosa, embora regu- bém algumas vezes signal de
lar na estatura. A designação diminutivo, como contracção de
de diminutivos pode dar-se a al- inho; v. g.: sellim, patim, cama-
guns verbos que se formam em rim, fortim, espadim, botim, etc.
portuguez, já de outros verbos, Note-se que nem todos os no-
e já de nomes que contrahem desi- mes são susceptíveis de dimi-
nencias alteradas das formas nuição. Só o uso iioderá fa-
ülo e ico, de que se compõem os zer conhecer os numerosos dimi-
proprios diminutivos da lingua nutivos que temos, assim como
latina; taes são, entre outros, os o seu emprego, nem sempre fa-
verbos — choniscar, escrevinhar, cultativo. Ha diminutivos que
lagrimejar, depennicar, etc. Ha convém ao estylo sustentado
ainda outras terminações espe- (grave oratorio), e outros que só
145
GRÁO
podem ser empregados no estylo de íTlhote; burriquito, de bur-
familiar.» (Escoliaste) || Diminü- rico ; caixetinha, de caixeta;
Tivos. Sobre algumas iiarticii- caixotinho e caixotim, de cai-
laridades dos diminutivos, es- xote. Pequeno, diminutivo de ■
creve-me o illustrado philologo, pêco, é a palavra que conta mais
snr. Firmino Costa; «Ko respei- diminutivos em nossa língua.
tante a diminutivos talvez nen- São elles — pequeneta, peque-
huma outra língua leve prima- nete, pequenino, pequeninho,
zia sobre a nossa. Para a forma- pequenininho, pequenito, peque-
ção d'aquelle griío possue o por- "note, pequerralho, pequerricho,
tuguez nada menos que os suf- pequerrichinho, pequerrucho,
fixos: acho, ato, eco, eca, ejo, eja, pequerrucchinho. pequetito, pe-
el, elho, ellia, ello, ella, éolo, éola, quetitinho. Todos estes já os en-
ete, etc, eta, eu, iclio, ico, ica, iço, contrámos em obras de bons au-
iça, iculo, icula, ü, illio, ilha, im, ctores. Possue também muitos
inJio, inlia, ino, ina, isco, ito, ita, diminutivos a palavra rapaz —
oca. oila, olo, ola, orio, oria, ote, raiiagote, rapazellio, rapazete,
oto, ota, uclio, ucha, ulo, ula, tisco, rapazico, rapazinho, rapazito,
■listro,—riacho, chibato, livreco, rapazola, rapazotc. Com refe-
somnoca, animalejo, calleja, cor- rencia aos nomes proprios, me-
del, figurelho, azelha, portOllo, recem notados os diminutivos ir-
viella, alvéolo, capréola, mocete, regulares, como Juquinha, Ze-
livreto, sineta, ilhéu, governi- quinha, Toniquinlio, Nequinba,
cho, burricho, pellica, canniço, Chiquinho, etc. O nome de ba-
caliça, monticulo, pellicula, per- ptismo é por vezes diminutivo
nil, vidrillio, mantilha, espa- —Antonino, Bernardino, Marcel-
dim, sobradinho, cazinha, pe- lino, o que também acontece
quenino, cravina, chuvisco, li- aos cognomes, ex. ; Villela, de
vrito, mocita, engenhoca, mo- vjlla; Lobato, de lobo; Porciuti-
çoila, bolinholo, bandeirola, cula, de porção; Alvim, de alvo;
chapelorio, villoria, fidalgote, Pimentel, de pimenta. Entre os\
perdigoto, velhota, papelucho, diminutivos ainda incluem ai-'
casucha, globulo, formula, ve- guns os nomes hypocoristicos,
lliusco, velhustro. Ila um único formados pelo processo da re- ^
diminutivo em ehre — casebre. duplicação, — papae, mamãe,.
Existem não poucos que são vôvò, vovó, nhonhô, nhanhã
irregulares, como — aguilucho, ou nlianhaii, titio, dindinho, ou
de aguia ; diabrete, de diabo ; os propriosZézé, .Tanjão, Jujuca,
franganilo, de frango; veranico, !Seneco, Cliichico, Lulú, etc.
de verão; sequilho, de secco; sa- De quasi todos os substantivos,
quitel, de sacco; pintainho, de até dos augmentativos, se for-
pinto; cavallicoque, de cavallo, mam diminutivos,portíTosín/io, de
etc. Formam-se ás vezes dimi- portão. Ha nomes que mudam
nutivos de diminutivos : por- de genero passando para o dimi-
tinhola, de portinha ; lilhotinho, nutivo : a flauta, o flautim; o
Dicc. guam.m. 10
14C
GRÁO
cravo, a cravina. Varias vezes o mens que a verdade. Os homens se-
diminutivo exprime carinho, riam menos desgraçados, se fo-'i.iem
meiL filhinho, meu amorzinho ; ou- mais virtuosos do que são. Os pre-
tras vezes indica depreciação, guiçosos são menos otimajdos que
umjornaleco, uma lojeca. Para ter- os diligentes. O naufragio e a morte
minar não descabe transcrever são menos f unestos do que os pra-
aqui a seguinte rcRra da gram- zeres que atacam a virtude. O mão
matica, de Epiplianio :« Nos di- exemplo é tão prejudicial á saúde
minutivos dos substantivos aca- da alma, como o ar contagioso
bados em rio, o plural forma-ss á saúde do corpo. O compara-
pondo também no plural os tivo de igualdade também serve
substantivos primitivos; acção- de exprimir que uma qua-
zinlia, acç.ões-inliaê.n || Grão dos lidade se dá em tal gráo,
qualificativos.—Os qualificativos, que resulta d'ahí certa conse-
além do caso normal, são susce- qüência. Exemplo ; Era tão
ptíveis de duas especies de gráo : amante da verdade que nem zom-
o comparativo e o, superlativo. bando mentia. Tamanho (tão
"Comparativo. — E o adjectivo grande) também se emprega co-
«lualiflcativo que auxiliado pelos mo comparativo, attestando sua
advérbios mais, menos, tão, ex- origem latina—íani magnus;—v.
prime o segundo gráo de com- g.: minha mãe, certo que nem sem-
paração, isto ó, uma relação de pre vos vistes vós em tamanho des-
superioridade, de inferioridade amparo como este. O adjectivo
ou de igualdade. O adjeotivo que comparativo vem algumas vezes
exprime a differença de superio- implicito no verbo adjectivo (de
ridade, que resulta da compa- predicado incluído): Os prazeres
ração entre as propriedades ou immoderados abreviam mais a vida
qualidades de dons ou muitos humana, do que a medicina a pôde
indivíduos, faz-se preceder do prolongar; í. é : são mais abrevia-'
advérbio mais; o que exprime dores da vida... A actividade des-
differença de inferioridade, do envolve menos o talento, que a pre-
advérbio menos, seguindo-se a guiça inutiliza; i. é : é menos des-
<iualquer d'ellcs a integrante que envolvente do talento, etc. A lín-
ou ão que, a preceder o segundo gua portugueza tem irregulares
termo da comparação; e o ad- na formação os seguintes com-
jectivo que e.vprime a igualdade parativos, invariaveis no singu-
que resulta da referida compara- lar :
ção, faz-se preceder do advérbio Melhor, do positivo bom
tão, seguindo-se a integrante Peior, 11 » máo
correlativa como, anteposta ao Maior, » >1 grande
segundo termo da comparação.
E.femplos : Esta mulher é mais Menor, » » pequeno
hella que virtuosa. Alexandre foi Superior,« u alto
mais feliz do que Annibal. Não ha Inferior, n » baixo
cousa mais difficil de dizer aos ho- <iA excepçãodos dous últimos.
147
GRÃO
os quatro primeiros comparati- nos, tão, como, melhor, peior; v.
vos, quer formados por este mo- g.: O uso MAIS (JEItALMEXTB ado-
do, quer regularmente, em os ptado nem sempre é o mais digno
fazendo preceder do artigo defi- de ser seguido, n , (Escoliaste).
nito, elevam-se ao superlativo «SurERLATivo.— É o adjectivo
relativo, como se percebe nas que enuncia qualidade levada a
seguintes orações e semelhantes: um grão muito alto ou^muito
^•1 probidade reconhecida é a me- baixo, como justíssimo, muito
lhor e a mais senura àe todas as ga- justo, o maí» justo, ou o menos
rantias. O maior inimigo que um justo de... Pode ser absoluto ou
homem de talento pôde ter é o ha- relativo. O superlativo absoluto
bito da preguiça. A ingratidão é é o que exprime qualidade em
o peior dos defeitos. A menor pre- grfío elevado, mas sem compa-
cipitação pôde preparar um des- ração; e conhece-se, além de ou-
gosto permanente. SurERioii k tros modos, pela palavra muito
IUFEUIOU, precedidos de artigo, anteposta ao positivo, ou pela
antes parecem substantivos; fre- termi nação íWmo,variavel,como;
qüentemente se encontra prefe- varão muito douto ou doutíssimo.
rida a formação regular, como Dama nobilissima. O superla-
nos seguintes exemplos ; A vir- tivo relatioo (ou comparativo) ex-
tude pôde não ser vencida nem prime propriedade ou qualidade
derribada, pois é mais alta. . . de outros indivíduos da mesma
(jue todos os baluartes e fortalezas especie; e conhece-se pelas pala-
da terra. As pyramides do Egy- vras o mais ou o menos, antepos-
pto são os mais altos monumentos- tas ao positivo, seguindo-se de.-
da midade humana, que têm resis- Exemplo : Sócrates foi o mais sá-
tidaá acção dos séculos. O que pa- bio de todos os gregos. Cícero foi
rece mais baixo aos olhos do mun- o mais eloqüente dos romanos. O
do, pôde ser o mais digno aos olhos conselho prudente é o menos arris-
de Deus, Mbmiok, Pbiok, tam- cado loúoi os conselhos).'O
bém se empregam como advér- nome que pede este comple-
bios comparativos nestas plira- mento pode ficar subentendido;
ses semelliantes : Não vae me- V. g.: Sócrates foi o mais sábio grego
lhor; ao contrario, passa peior. (do numero dos gregos). .Cícero foi
Canta melhor. Escreve peior, etc. o mais eloqüente romano (do numero
Maiores, plural de maior, empre- dos romanos ow d'entre os romanos).
ga-se também como substantivo D'aqui se vO : 1? Que o superla-
e com a significação de antepas- tivo absoluto se forma antepondo
sados; V. g.: o nome que herdara mui ou muito'AO positivo, ou ac-
de seus maiores... Também se crescentando á ultima invogal
dizem advérbios comparativos d'este a terminação íssimo ou is-
os que exprimem uma idéa de sima (supprimida a vogai o ou e
comparação, um gnío de ditfe- final). Excepções : Os adjectivos
rença no modo de ser das cousas terminados em vogai ou diph-
ou pessoas ; taes são : mais, me- thongo nasaes mudam ão ou m
148

finaes do singular em n, e tomam saluberrimo; simples, simplis-


depois a terminação íssímo ; co- simo ; uberrimo (não tem posi-
mo : chão, chanissimo; commiim, tivo). 2? Que o superiativo rela-
communissimo. Os acabados em z tivo ou de comparação se fôrma
mudam esta letra em c seguindo- antepondo o artigo deflnito
llieaterminação caracteristica is- aos comparativos formados com
ismo; como: atroz, atrocisuinio; ca- os advérbios mais, menos. Exem-
paz, capacissinw. Quando o posi- plo ; a devoção é a mais nobre de
tivo termina em vel. muda-se todas as paixões, pelo seu objecto,
primeiro vel em Mi :avia-vel, ama- que é Deus; é a mais racional, por
hü-imimo. Os terminados em co, seu fim, que i a eternidade. O in-
uns fazem o superiativo mudan- vejoso é o menos feliz de todos os ho-
do esta s}'llaba em quissimo ; v. mens. Os comparativos — melhor,
g,: rico, riquíssimo ; outros, mu- peior, maior, menor, precedidos
dando-a em cissimo; v. g.: par- de artigo, tornam-se superlativos
eô, parcissimo. Os adjectivos — relativos. E.xemplo : a melhor e a
hom, mão, grarule, pequeno, alto, peior cousa que ha no mundo é o
haixo, que tÊm comparativos ir- conselho ; se é bom, é o maior bem ;
regulares, têm também os se- se é mão, é o peior mal (de quan-
guintes superlativos: optimo, tos lia). Taes superlativos pedem
péssimo, máximo, mínimo, supre- depois a preposição de ou entre,
mo ou summo, ínfimo. (1) Veja claras com seu complemento, ou
Oráos de significação. São irregu- subentendidas, que lhes dá o ca-
lares os superlativos absolutos racter partitivo, pelo qual ex-
dos seguintes adjectivos : acre, traliem do total dos indivíduos
acerrimo ; amigo, amicissimo ; aquelle que exaltamos ou depri-
antigo, antiquissimo ; áspero, mimos. Exemplos; elle é o mais
asperrimo; celebre, celeberri- feliz homem (de quantos eu co-
mo; christão, christianissimo; nheço) ; ê o menos competente de
cruel, crudelissimo ; difflcil, di- todos. Tu és a mais formosa entre
ficillimo ; doce, dulcissimo ; fá- as cidades do mundo. Este é o mai-
cil, facillimo ; fiel, fldelissimo ; or ou menor (de ou entre todos).
frio, frigidissimo ; geral, gene- Muitos advetbios se podem ex-
ralissimo ; humilde, humillimo ; primir no gnio superiativo; v.
inflei, infidelissimo; magnífico, g.: « escriptura santa manda mui
magniflcentissimo ; máo, malis- expressamente honrar nossos paes.n
simo (péssimo) ; misero, miser- (Escoliaste). Importa considerar
rimo ; livre, liberrimo ; nobre, que quanto á historia da lingua,
nobilissimo; pobre, paupérrimo; muitos diminutivos são origens
sagrado, sacratissimo ; salubre, etymologicas de nomes positivos,
sem gráo, no uso actual.Taes são
(1) Alguns podem formar o su- entre os substantivos: acucula,
periativo regularmente: friissimo, agulha (de acus); ovicida, ovelha
pobríssimo, cruclissinio, anliijuissi- (de otis); januella, janella(dei«-
mo. — N. do A. do Dícc. nua); caveola, gaiola (de cavea),
149
GRÁO GREGO
etc. O mesmo se nota com os ad- neologismos derivados do grego.
jectivos: senlior (êcniorem) D'estes derivados e dos seus ele-
mo (met-ipsimus),X)ÜQv (j)riorem,, mentos tratamos no corpo d'esle
comp. de pra;) etc. livro, conforme a ordem alpha-
betica das partes componentes.
Grapliò, eu escrevo. — Ele- Aqui mencionaremos, seguindo
mento grego de composição. ÍJpi- de peno um interessante estudo
yrapJie, esci-ipto sobre. Paragra- de Egger (1), os diversos erros
plio, escripto ao lado. commettidosnaformaçãode neo-
Grave.— Synonymo üa paro- logismos, no vocabulario actual
xytono. Diz-se do vocábulo que das sciencias. Exemplifiquemos;
tem a accentuação na penúltima Numismata, propriamente signi-
syllaba : casa, sobrado, dinheiro, fica moeda. O profissional deve
justiça. ser numismatista. Terminologia é
hybridismo inacceitavel. Deve-
Grego.—A língua grega é da mos preferir o latino nomenclatu-
família aryana e congenere do ra. fípeetroscopio, hybridismo.
latim, do qual está evidentemen- Fôrma preferível, phasmoscopio
te mais afastada do que o celtico. ou phasmatoscopio, de pliasma,
A civilização e cultura grega \&t.spectrum. Pluviometro, hybri-
obrigaram ao latim a adopção dismo. Preferível : hyectometro.
de novos vocábulos, e hoje em São hybridos muitos dos termos
dia o vocabulario teclinico das sci- que se compõem do ultimo ele-
encias é quasi integralmente to- mento : Qalvanometro (ítal. Gal-
mado a elementos léxicos do vani), calorimetro (Egger propõe
grego. Os romanos adoptaram, therometro), etc. Mineralogia, hy-
ora termos gregos cora a forma bridismo, de lat. e grego. Isochi-
pura, pliilosophia, geometria, etc., meno, neologismo proposto poi
ora procuraram traduzir a idéa A. Humboldt, no Cosmos. É pre-
grega por locuções latinas, e es- ferível ; isocMnwro. Knãosníose e
se modo de formação foi fecun- exosmose, neologismos barbaros
dissirao : epirrema, adverbium ; creados pelo physíologista Du-
periodos, ambitus ; syzygia, con- trochet (em 1820). Ós gregos
jugai io ; syntaxis, coordenatio; modernos, a quem repugna
hypertlieticon,s,\i-pn\aX\\u&\prothe- acceitar os neologismos incor-
tis, prepositio, etc., etc. O ele- rectos do occidente, substituí-
mento grego nalingua portugue- ram-os por dieisdysis e diekdy-
za, no dominio popular, foi pou- sis. TheodoUto. Formação abstru-
co intenso, e a sua influencia é sa de etymologia desconhecida.
representada por iguaos ospeci- Conjectura-se ser a forma theo-
mens nos vocabulários das lín- ãolicho, que por erro typogra-
guas romanas; holsa. golfo,trofeo, phico se transformou em tlieoão-
pagem, e poucos outros. Na no-
menclatura scientifica é que se (Ij Na edição (^ISSO) da sue
encontram milhares de termos e Gramm. comp.—em appendiee.
150
GREGO —H
lito (1). Os gregos modernos sub- tor Garnier a publicação de um
stituem aquelle termo por ta- Yocábulario etymologico, ortho-
naoskopeion. Os sábios, em gemi, yrapJdco e promulico, devido ao
formam e consagram neologis- doutomestre, Dr. Ramiz Galvão,
mos contra todas as regras da de cuja competencia se pôde
etymologia. Exemplificiuemos esperar o desejado beneficio.
com as creações de Ch. Lyell e Accrescentem-se os esforços re-
outros geologos: eoceno, pUoceno centes de alguns médicos brasi-
etc. Notemos as palavras novas leiros para a reforma e correcção
que servem de nomenclatura do do glossário medico (190.5); neste
systema métrico. A má idéa de sentido existem já trabalhos
adoptar-se a base (jramma, de avulsos publicados pelos Drs.
(jramma, termo pouco usado, e Ramiz Galvão (quanto ao voca-
que podia confundir-se com bulário geral), F. Figueira, Plá-
outro já adoptado nas linguas cido Barbosa e duas theses de
modernas, grammé, linha, (dia- doutoramento de Vasconcellos
gramma, etc.). No systema mé- de Queiroz (Bahia, 1902) e Pedro
trico as denominações dos sub- AntonioBasilio (Rio, 1905).Como
multiplos da unidade são liybri- indicação bibliographica do es-
das : decimetro, centilitro, milli- tudo da influencia dò grego no
(jramma. As palavras kilo e liecto portuguez, citaremos os estudos
são elementos que nem ao me- do Cardeal Saraiva e as obras de
nos apresentam a lorma lielle- André de Rezende, nos quaes se
nica, nem com tolerável pureza. pretende, ainda que sem intui-
Os gregos modernos, em vez de ção scientifica, dar larga parte
um miUimetro, usam da longa ao hellenismo na constituição da
periphrase: tó kiUostoni toy gal- lingua. Citaremos ainda a opi-
liconmetron (o millesimo do me- nião antigamente em voga de
tro francez). (3) No Brasil, os que os artigos o, a (que eram
erros d'essa especie .também for- graphados lio, ha) provieram do
migam e, o que é lamentavel, grego: ó, ê.
sSo commettidos a toda a hora. Gcittiiraes. — Consoantes
Taes são as f()rmas lexieologia, por explosivas que se produzem ou
lexiloyia (que é muito differente), se formam na garganta; 17 forte e
taxoiiomia(?)e o barbaro adjecti- c forte, e ainda os signaes equi-
vo syntaxico, copiado do máo valentes (ju, qu, q, k, ch. A per-
francez eyntaxiqm, ha tanto tem- muta se faz da guttural surda
po corrigido para Hyntaetique, k para a guttural branda ou so-
etc. Para breve annuncia o edi- nora g : macruni, magro-.
(1) É conjectura d'um lexicoi^ra-
pho grego óontemporaneo, Chau- II
tzerys.— V. Kgger, np. c. Ha quem
snpponha ser a palavra,arabe. H.— Letra sem vjUor tonico, e
(2) Egger. oj). cH. 8. ed. 239. inútil a não ser na composição
151
II HAVER
tios grupos í/i, nli ; no mais, Viilo ignorar-se o que elle é e o que
apenas como signal elymologico: significa. Cuida-se que é um
hora, ha, heroe. Em composição verbo neutro, e significa existir,
modifica o valor do c ch=x. quando em bôa verdade é sem-
II Letra latina, tomada dogrego. pre verbo activo,e significasem-
O li representa o espirito rude pre ter. Quando dizemos: ha
na transcripção latina ou o se- cousas, havia pessoas. Imite repu-
gundo elemento dos grupos th, blica, haverá lances, haja festejos,
ph, ch, derivados de caracteres íalamos classicamente, e não
especiaes do alphabeto helleni- commettemos cousa a que se
co. O portuguez tomou do latim possa dar o injurioso nome de
as mesmas normas, e adoptou idiotismo, por que neste o outros
esse symbolo quasi inútil e sem semelhantes dizeres lia incon-
valor prosodico; hora, dehoram. testavehnente uma ellipse, isto
Na lingua antiga e maxime no é: omittiram-se, por brevidade e
periodo clássico, houve exten- elegancia, palavi'as que, logo
sissimo emprego do Ii, nomea- que se restituam mentalmente á
damente nos monossylabos : he, phrase, a tornam regulavissima.
7ium, lio, etc. O 7t serviu para Vejamos: ha cousas inteira-se
indicar o/«'«lio, como se vO dos assim: a vida/in ou tem cousas;
archaismos: távoha, ve/mra, mehu havia pessoas, o mundo ou a ter-
(taboa, viuva, meu), e ainda ho- ra ou o reino havia ou tinha pes-
je essa funcção se exerce na or- soas; houve republicas, o mundo
thographia : calda, saldam, etc. ou a antigüidade houve ou teve
Vide grupos nli, lli. || Ortliogra- republicas; haverá lances, o mun-
plda. Por erro o incluem em do, o tempo, afortunaou a vida,
certas palavras gregas que não iMverá ow terá lances; haja feste-
o tem: fysiliema, catliegoria, etc., jos, a terra ou o tempo ou a gen-
mas o uso já o supprimiu de te haja ou tenha festejos. O verbo
muitas que o tinham: catastro/«, haver, neste e em todos os casos
/aretasia, ^eugma (ph)etc., e ane- semelhantes, deve estar forçosa-
mia (an-hemia). mente no singular ; pôl-o no
Haiina. haimatos (sangue). plural é erro imperdoável. A
—• Elemento grego de composi- cousa, cuja existencia se quer
ção. F()rma vulgar: liemo, liemat: significar, é completamente ob-
hemorrhoides (rliéo, eu corro). jectivo ou paciente, e não sujei-
An-emia (sem sangue). to, agente ou nominativo, se-
gundo o phraseado grammatical.
Harmonia Imltativa.— O verdadeiro agente, sujeito ou
Vide Aliiteração. Ommatopéa. nominativo é, como dito fica,
Haver. — « Generalissima- um substantivo occulto, e que o
mente se erra hoje o emprego discurso facilmente desencanta.
d'este verbo, que os nossos clás- Agora, para melhor quietar a
sicos não crfaram uma só vez ; e consciência aos que julgarem
a única razão por que .se erra é o isto novidade e trepidarem dian-
152
HAVER
te d'ella, notemos por dernuleiro dizer são portanto eilipticos.
que este falar nilo é exclusivo Em francez é muito semelhante
do portuguez; o mesmo corre no o uso do verbo avoir derivado
castelhano e o mesmo no fran- como o haver da mesma raiz la-
cez. Quando nesta ultima lin- tina e com idêntica significação.
gua se diz il y aurades pernoiinea; Em ily a (?«#/íom?ne«(hahomens),
il y a eu dei auteursj il y aura des o sujeito é il, equivalente a le
amusements; personncs, auteurs o monde; complemento objectivo
amusementssíxo complementos do des homens, ■il Como além da fôr-
verbo activo avoir, que assim ma impessoal, o verbo haver tem
como o nosso haver ií uma levís- a auxiliar e a intransitiva, pas-
sima transformação (já o dis- samos a exemplifical-as com a
semos, porém vale repetir)
do verbo latino liahere, que seguinte: Vauiepade de piira-
não significa senão ter. » (Dos SES QUE SE rODEM CONSTRUIR
Estudinhoa de S. Tullio ). COlf o VERBO hatar na tríplice
accepção que tem de auxiliar,
II «Com relação ao emprego do DE TRAÍÍSITIVO E DE IMPESSOAL.
verbo haver na f()rma impessoal, I. Phrases em que
que é a em que mais freqüente- haver como auxiliarentra o verbo
: Os inimi-
mente o empregam de modo in- gos, como o successo da mina
correcto, reportamo-nos ao que
escreveu .T. F. de Castilhoem nota lhes havia aberto para a victoria
á pag. 105 do Ijíis Clássico (Ed uma tão lar^ja porta, determi-
de 1859). «Logo que se advirta naram, etc. (,T. Freire.) E lhe
em que ha'cer é derivado do la- havia entrado um soccorro de
tim hahere e com a mesma signi- cinco mil infantes com muitos
ficação de ter, fica manifesto que cabos turcos. (1d.) Daqui se
o erroneamente chamado sujeito tornou, enfadado da longa nave-
ou agente, não é senão comple- gação !Ís columnas de Hercules,
mento objectivo ou paciente, e pelas quaes havia sahido ao mar
que o agente ou sujeito real se Atlântico. (Amador ' Arraes.)
deixou occulto, para conformar Havemos de fazer conta que os
ao uso recebido. Assim, ha ho- segredos são pedras lançadas ao
mens—completa-se d'este modo: fundo do mar. (Heit. Pinto.)
o mundo ha (isto é tem) homens ; Como são poucos, sempre na-
havia festas — o mundo ou o quelle muro hão-ãe assistir os
tempo, aquella occasião ou mesmos defensores. (J. Freire.)
aquelle logar havia (ou tinha) Aquellas ruinas que estaes ven-
festas ; houve tempos—o mundo do, tintas no sangue de nossos
ou a duração ou o genero hu- companheiros, hão-de ser hoje
mano ou a historia houve (ou nosso sepulcro ou nosso aloja-
teve) tempos ; haverá casos — o mento. (Id.) Com armas navaes
mundo ou a fortuna ou a serie conquistámos a índia, com ellas
de acontecimentos . haverá (ou «.havemos áe conservar, porque
terá) casos, etc. Kstes modos de temos a vantagem dós vasos e da
153
HAVER
marinha.(1) (In.) II. Phrases em Que se não me ajudais Aet grande
que entra o verbo haver como medo
t ransi li vo : Havendo perto de Que este fraco batei se alague cedo.
vinte dias que passiíra esta vi- (Cam.)
ctoria que liowce dos mouros, m. Phrases emqueentraover-
partiu de Goa, etc. (João de bo haver como impessoal :Nesta
Barros.) Por quão prudente- prisão ha continuamente, por re-
mente e como cavalleiro »e tinha gimentod'el-rei,trezentos mil ho-
havido no modo que teve com mens. (Fernão Mendes.) Pas-
Pulate Can e na defensílo d'a- sará um dia de natal e não ha-
quella fortaleza. (Id.) Os quaes verá memória de vosso nasci-
havendo vista da [rota, desampa- mento. (Vieira.) Não haverá
raram tudo recolhendo-se a ser- missas, nem altares, nem sacer-
ra. (Id.) E porque Aílonso d'Al- dotes que as digam. (Id). Não
buquerque os houve por perdi- ha corpo fraco onde o coração é
dos com este desastre das esca- forte. Sete dias havia já que fa-
das, mandou em-continente duas zíamos nossa viagem pelo meio
cousas. (Id.) E quando tornasse, daenseadado Nanquim (Fernão
se podesse haver á mão alguma Mendes.) Bastará de exemplos.
gelva das que navegam por Como impessoal o verbo haver é
aquelle mar, qu.e a tomasse. tão freqüente que rara será a pa-
(Id.) E o mesmo fim houveram gina de (jualquer livro onde se
muitas cidades, ao parecer dos não encontre uma e muitas vezes.
homens, inexpugnáveis. (IIeit. Ilecapitulando, diremos: O ver-
Pinto.) E ditas estas ultimas pa- bo haver—como aiixiliar e como
lavras, havenão-se os que o leva- transitivo—é, em regra, empre-
vam por zombados de seus in- gado correctamente ; não assim,
tentos, em presença do filho o como impessoal. Então, não raro,
mataram alli feia e indecente- o levam ao í)?íír«í quando con-
mente ás punlialadas. (Franc. viria usal-o no singular. O erro
S. Toscaxo.) o instante se ha syntactico deriva de se attribuir
com o tempo da maneira que se a haver a significação—ser, existir
ha o ponto com a linha (IIeit. —e não—ter, possuir—que real-
Pinto.) Assim como o ferro se ha mente lhe compete. A equivoca-
com a lima,assim o entendimen- ção é, no estado actual da lín-
to com a disputa. (Id.) gua vernacula, injustificável. E
accrescentaremos : Em italiano,
hespanhol, francez e provençal
(1) Os nossos clássicos até ao prin-
cipio do século XVII usavam mais encontram-se construcções analo-
da auxiliar haver do que do auxi- gas; ex. : lia quindice giorni—
liar ter para todos os tempos per- I)iezannnsha—ll y a desfemmes^—
feitos de todos os modos, tanto na Non a tanjin aman cuni nu. E a
conjugação do verbo substantivo, notar que em francez moderno a
como na do ailjectivo. Hoje usa- construcção requer sempre o
mos mais de ter do que de haver. emprego do advérbio de logar y,
154
HAVER - - HÊLIOS
« que em italiano, liespanliol, perativo (amarás ao teu Deus)
pvovençal e íraiioez antigo ora etc. A influencia notada no léxi-
apparcce ella com um advérbio co pode ser attestada pelos se-
de logar, oia não. Em portuKuez guintes exemplos: Adonai, nome
antigo emiirogava-se também o de Deus. Alleluia, clamor de re-
advérbio, ex. ; Ndio ha lii quem gosijo na presença de Deus.
me soceorra (Ciikonica do Con- Amen, termo final das orações
DESTAVEL, LiSBOA, 1520, Cap. religiosas, significa : assim seja.
58)—Que geração tã.0 dura lia hi üheruhim, plural de cherub,
de gente ? (Camões — Lusíadas, nome dos anjos da 1'.' hierarchia.
cant. II, Est. LXXXI). Hoje Eãen, paraiso terreal. Gehenna,
não é mais usado tal advérbio.» geia hinnon, valle de hinnon,
(J u 1 i o Ri bei ro— Orammatica Por- logar de condemnação. D'ahi o
tugueza, pag. 255). Melhor seria fr. tirou o verbo géner. Jehovah,
dizer que é pouco usado. Atheo- Deus. Juhileu, lobel, corno do
ria do impessoal fóra das vozes carneiro, trombeta, solemnidade
do presente ha e do preterito judaica. Israel, israelita, prínci-
hovve, é desmentida pelos clássi- pe de Deus. Kahala ou cabala,
cos, que dizem houvessem,, haviam, sciencia occulta. Cabalistica,
cíG. (Jornada d'África no Cap.I). engabellar, caballar. Leviathão,
animal marinho. Manná, mel ou
Heljraico. — Da familia se- manjar. Messias (mesha, ungir),
mitica, as duas línguas que in- o ungido, o Christo no Velho Tes-
dubitavelmente mais pesaram na tamento. Myrra, gr. murra,gom-
constituição do portuguez (quasi ma odorifera. Nitro, salitre (sal
exclusivamente do vocabulario), nitro), der. do hebr. noter, nitro.
foram com certeza o arabe e lo- Paschoa,áe PesacJi, salto, lat.pas-
go depois o hebraico. A impor- cha. /íaJJtrao, rabi, mestre. Sajjhi-
tância do hebraico torna-se evi- ra, sappir, pedra preciosa. Satan,
dente desde que se considera satanaz (chaldaico, setan, odiar),
que nessa liugua foi escripto o diabo. Sabbado, de scnlbat, dia da
texto da Bíblia, livro que se tor- semana, sabath, sabbatina, etc.
nou o mais popular de todos, SerapJiim, plural de seraph, anjo
depois da victoria do christia- luminoso.«Sidra, sicera, lat., bebi-
ni.smo. Ha nas linguas moder- da. Talmud, livro da lei oral, tra-
nas occidentaes muitos hebraü- dição.
mos derivados do estylo biblico, Uecto. — Vide Ilekaton.
imitado pelos interpretes gre-
gos e latinos das sagradas escri- Hekatoii (cem).—Elemento
pturas. Muitos relacionam-se grego de composição. Hecatombe
com as formas syntacticas e de (cem bois). Forma vulgaV :
construcção da lingua; forma- hecto ; hectumetro.
ção de superlativos por duplica- Hêlios (sol). — Elemento
ção (vanitas vanitatum, rezre- grego de composição. Aphelio
yum) ; o uso do futuro pelo im- Õipo, longe : longe do sol). Pe-
155
HÊLIOS HESPANHOL
i-ihelio (ao redor ilo sol). Indicii panhol tornou-se um mixto de
o ponto mais proximo do sol grande numero de vocabulários
na orbita do planeta. Heliutropo, notando-se a inliuencia germa-
f,'yra-sol. nica intensissima', que começou
Hémera (dia). — Elemento no século V ; a dos Bi'santinos
nos séculos VI e VII no sul do
grego de composiçílo. Ephcmero, paiz, e a dos arabes que domina-
de epi, sobre : que dura um dia. ram em todas as zonas desde o-
Decameron, dez dias. século VIII até o século XV,
Hemi, de hémisus (meio). — época em que foram expulsos do
Elemento grego de composição. territorio hispânico. Outras influ-
Hemi-spherio, metade da esi^he- encias parciaes se notam, como
ra. Ilemi-stichio, metade de um a da lingua dos ciganos, muito
verso. Provavelmente contém pouco apreciavel, e ainda menos
esse elemento o nome de medida a da lingua dos ladrões (1). Os
mlamin, do grego liêmina; no textos authenticos da lingua vul-
lat. liemina, no fr. mine, nomes gar datam do século XI, época
de medida de capacidade./S'nZ fixada por Amador de los Rios
amin—wm meio de sal. para o Poema de los reyes magoa
(2). O Poema de Cid é averigua-
Heiiio. — Vide Ilaima. damente de data posterior. Do
llepta (sete). — Elemento século XIII existem varias col-
grego de composição. Ileptar- lecções de versos de Berceo,
romances, o Vuero Juzgo (codigo
cMa, governo de sete. lleptagono, wisigothico) ; as 8UU partidas
sete ângulos. de Attonso X, etc. (3) A cultura
Hespaiiliol. — É a lingua philologica data do século XV
falada actualmente nallespanha, com o vocabulario do romance
pouco differente da portugueza. de Palencia, publicado em 14!)0.
Os primitivos habitantes eram Seguiram-se a este os trabalhos
os Iberos, que se suppõe perten- de Nebrissa, Lebrija, de Sala- V
cer ao ramo celtico, e que com manca, 1403, enessemesmoanno- J
estes se fundiram mais tarde for-
mando o povo celtibero, que é o (1) Conheeiila por (/crmrmío, toda
tronco autoohtone da antiga pe- conveneional, espeeie de ealão fi-
nínsula. Mas o que está averi- cticio; cliepo=:peclio, etc. Mayans.
guado, (3 que vários povos phe- — Orig. da l. esp. 1, 116, Diez, op.
nicios, carthaginezes, latinos e cil.(2)86. llist. crit. de Ia litt, III, XIX^
gregos desde antigos tempos pe-
netraram na península. A lingua (3) Bello — El Cid; Sanchez —
latina, conforme assevera Stra- dor Coil. de •poesias, Madrid, 1779. Ama-
bão, foi logo adoptada, e quando cçõeade de los llios, op. rit; as colle-
Gayaiigos, Madrid, 1860 ;
foi a província reduzida á domi- sobre a autlieiiticidade de um texto
nação romana o latim tornou-se asturiaiio, de 1155, .Tahrhuch fiir
a lingua dos peninsulares. O hes- roíu. Litt. VII, 2!)0.
15G
HESl^ANHOL — HEXA
publicou-sé a primeira gramma- fundas são as diírerenças entre
ticatlalingua(F. Diez). DoBüiale- as duas línguas, e grande numero
ctos Iiispanicos, o castelhano de vocábulos foram ímmediata-
teve a supremacia por effeito mente adojitados. Etn certo tem-
da preponderância politica de po, na era dos quinhentistas,
Castella. O catalão é um diale- antes da dominação castelhana,
clo bastante característico, e tem o hespanhol era a lingua da po-
os seus documentos literários lidez e a que nos diálogos, au-
(cf, Bofaru — Oramm. do cata- tos, se punha na boca dos fidal-
lão) ; o valenciano pouquíssimo gos; ao passo que a gente do povo,
difíere do cataliío. O asluriano é lacaios, serviçaes ou camponios,
muito proximo do portuguez o, só se exprimiam no jiortuguez.
como essa lingua, não possue o A phonetica demonstra que são
f aspirado. A Galliza, politica- do castelhano as transformações
mente dependente da Hespanha, cJi—et, e d'ahi as fôrmas trecho,
tem um dialecto literário, o gal- achato (arch). Irmão (hermano),
lego, que é propriamente um ra- ])or germano, deve ter a mesma
mo do portuguez (V. Oallego). origem. Averiguadamente é do
No gallego exíslem vários docu- castelhano o adj. hediondo, f=h
mentos literários antigos e mo- (filium, hijo), de fcetibundum. São
dernos, diccíonarios (Pinol) e do hespanhol paragon, aeguidilha,
grammaticas (Saco d'Arce). Ao fandango, bolero, habanera, salsa-
norte da península encontram-se parrüha, etc.
muitos vestígios da língua pro- Heteroclito.—Do grego he-
vençal, e em varias partes é fala- terokUtos — Diz-se de todos os fa-
da a língua basca (Biscaya, Gui- ctos que se não subordinam ás
puscoa, etc.) Na America, a regras grammaticaes, e são consi-
língua castelliana também tem derados como excepções. Mais re-
sofírido a mescla do vocabularío strictamente, deve ser applicado
indígena, no México, na Hava- aos phenomenos morphologicos
na, Peru, etc. (Juan de Arona, de flexão (segundo indica a ety-
Z. Rodrigues, Ign. de Armas, mologia do termo klinó, eu do-
Cuervo, escreveram varies traba- bro.)
lhos sobre os americanismos do Heteroseneos.— Diz-se de
castelhano falado nas republicas factos quaesquer que são de na-
de origem hespanhola). (1) Os tureza ou origem diversa.
castelhanismos da lingua portu-
gueza são de difficil determina- Heteros (outro).—Elemento
ção, porque em geral pouco pro- grego de composição, líeteroclito,
de llexão diversa, lleterodoxia,
(1) Caervo — Apuntcs nobre rl doutrina diversa.
leiig. de Bogotá ; .J. de Arona, Pc- llexajde/ífxjseis. — Elemento
rnaiiUnios ; Zorob. Koiz. Dicc. de grego de composição. Hexametro,
chüenismos ; I. J. de Armas, El seis medidas (pés de verso). Ile-
leiir/. de Cuba, etc. xacordio, seis cordas.
157
HIATO nOMORGANlCAS
Hiato. —■ Concurrencia de Hoiiiograplios.— Vide//y-
vogaesque soam separadamente: monymos.
rio, pia, iãêa, tua, boa, rua, »aitde,
ataúãe, etc. Vide diphtlwngo. Homonyiiios.— São os vo-
Também é extensivo á phrase : cábulos que t6m igual prosodia
dá azo; vá a aula. ou orthographia : celta e sella.
Os homonymos que possuem a
Hieros (sagrado).—Elemento mesma prosodia, chamam-se ho-
grego de composição. Hieratico, mophonos: nella e sella; vés e «fz,
sacerdotal. llieroglyplio, escri- etc. Os homonymos que pos-
ptura sagrada. suem a mesmaorthographia,cha-
Hii>pos(cavallo).—Elemento mam-se homorjraphos : conta (v.
grego de composição, llippopo- contar) e co?i<a(subst.);?7i«Zía(ver-
tamo, cavallo dos rios. llippodro- bo), multa (subst.), etc. As pala-
mo, circo para corridas. vras de tal natureza estão sempre
Historico (methodo).—Epi- sujeitas íí confusão, e por isso os
theto consagrado ao novo e fe- homonymos são causa de archais-
cundo methodo de estudo das mo, ou esquecimento de muitos
linguas, e que consiste em estu- vocábulos. II «Palavras que, com-
dal-as na sua evolução normal, quanto exprimam idéas diífe-
desde as suas origens até ao e.s- rentes, têm a mesma pronuncia
tado mais recente, seguindo ou graphia. Dividem-se em ho-
todas as transformações realiza- mophonos (auriculares) — sumo,
das no tempo. V. úraminatica. summo; ruço, russo ; homographos
A possibilidade do meUiodo histo- (oculares)—sêde, séde; auriocula-
rico resulta da verdade do pro- res:—canto, manga, cravo, len-
gresso ou instabilidade das lin- te... São varias as causas da
guas e da possibilidade demons- liomonymia : Ti — contracção
trada de filial-as umas ás outras dos vocábulos ('«ão=:santo,
e classifical-as em grupos natu- sano, são = sunt); 3Í—formação
raes. O methodo historico é de de substantivos verbaes (calo, do
applicação recente e, quanto á verbo calar, e caío=lat. calum) ;
lingüística, foi fundado no prin- 3^—diversidade das fontes voca-
cipio d'esteséculo,pela obra im- bulares (pena =; lat. patna', o
mortal de Franz Bopp. pena = celtico pen) ; 4'?—cor-
rupção phonetica (sumo, summo;
Holos (inteiro).— Elemento pelo, pello...) 5»—influencia lo-
grego de composição. Cat-holico, cal. Os homonymos ü paronymos
sobre tudo, universal. Holo- pertencem íí familia riiONiCA ;
causto, todo queimado (sacrifí- os synonymos e antonymos, á
cio). IDEOLOGICA» (P. Júnior).
Homeo, de liomoios, seme- Homoplioiios.— Vide Ho-
lhante. — Elemento grego de
composição, Ilomogeneo, da mes- monymos.
ma raça. Ilomeopatliia, etc. Homorganlcas. — Dizem-
158
HOMORGANICAS — HYPEKBATON
se as letras que têm a mesma Hypallaffe. — E figura de
origem ou formação physiolo- .syntaxe que muda a constru-
gica, como asgutturacs entre si, cção,invertendo a correlação das
c, k, e g; as labiaes p e 6, etc. As idéas.
permutasou transformações ope- Hyperbatoii.— Facto syn-
ram-se, em regra, entre valores tactico que se assignala pela
homorganioos do mais forte para construcção invertida e não ana-
o mais brando : lupum—lobo. lytica da phrase. O hyperhaton
Hybridismo. «E palavra é normal em toda a phraseolo-
composta de termos tirados de gia de natureza syntactica, como
linguas diversas:—• bigamo, socio- as proposições em que entram
logia, em que o 1? elemento ó pronomes, as interrogações, ex-
latino e o 3V grego ; monomania, clamações e em todo o domínio
cujo 1^ elemento é grefjo e o 3V da linguagem sentimental e emo-
latino. São produotos barbaros, tiva, quer na prosa, quer na poe-
que devem ser rejeitados. Em sia. Vide Ordem. O hyperha-
certos casos, porém, não ha evi- ton pôde ser considerado vicio,
tal-os, como acontece nos compos- quando ainversão da phrase traz
tos com palavras tupis, que nos ambigüidade, confusão, ou não
dando o termo principal, não representa necessidade real de
possuem o determinante {cijyó- seu emprego. Diz o auctor do
chumbo). Demais, esses termos Escoliaste : «Na linguagem poé-
indígenas já fazem parte do nosso tica é o hyperbato quasi tão
léxico. Nestes casos, quando as commum em nossa língua, co-
palavras estrangeiras já estão mo a ellipse; d'onde resultam
tão popularizadas, por assim di- para o discurso portuguez duas
zer nacionalizadas, que os ter- ' excellentes qualidades: concisão
mos da composição como que e harmonia.
•entre si apresentam devida afíi- «vereia iim novo exemplo
nidade, o h\^bridismo não é para «üe amor tios i>atrios feitos valoro-
censurar. É o que já nos vae sos,
acontecendo com arc/ii e ultra, « Em versos divulgado numerosos.
neo, etc.II (P. Júnior). Quando em nosso espirito se
Hytlra, de Imãór, agua. — afigura que certa idéia não será
Elemento grego de composição. bem ouvida, e passará desperce-
Anhyãrico, sem agua. Úydrocele bida no meio das palavras que a
(kêie, tumor.) Jlydra, polj'po. cercam, costuma-se, para cha-
llyãromel, agua-mel. Existe a mar a attenção do leitor,, collo-
fôrma uão em udometro, para cal-a num logar em que o espi-
substituir a fórina liyhriãa plu- rito a veja bem.
viometro, incorrecto. O hydro- « Quaiuos |)0V0S a terra jiroduziu
rnetro indica o peso do liquido e « D'África toda
o udometro a quantidade da Outras vezes, pela necessidade
chuva. da harmonia, especialmente no
159
HYPERBATON — I
verso, em consequencia das ri- gia, que pode trazer ao discurso
mas e das pausas, o esci-iplor se a transposição que se etfectuou.
vê forçado a alterar a ordem ló- Note-se, porém, que o hyperbato,
gica 011 grammatioal dos vocá- quando, em voz de communicar
bulos; eéa esta alteraçilo (lue mais ornato ao discurso, gera
os grammaticos chamam hyper- antes nelle ambigüidade s con-
bato. Exemplos : iVa» tormeiilas fusão, torna-se vicio de elocução
da, maledicencia o mais tranqinllo ou se converte em synchese, como
e abrigado iiorto é o silencio. Esta pode ser classificada a seguinte
armada tão espantosa nas appa- inversão :
rencias e no jwder tão débil, é freio « i]!ie em terreno
a Itumecão; aos nossos, muro. Glo- « Não cabe o altivo peito tão pe-
ria joi do império romano vencer queno. (1)»
muitas batalhas Quinto Fábio 2ía- Hypocoi-i.sticos. — Deno-
ximo; depois foi salvação excusar minação dada aos vocábulos de
uma. origem familiar,ou aos termos in-
Entre o primeiro verso dos fantis muitas vezes moldados pela
Lusiadas, onde se encontra o reduplicação : papae, mamã. A
complemento do verbo, denominação é mais rigorosa-
as armas e os varões assigiialados—, mente applicada aos nomes pro-
prios familiares: Juca; Ze-Xé,
e o verbo com o sou accessorio Lulú, Vivina, Titina, etc. Vido
e circiimstíUicias annexas Infantil (linguagem).
—cantando esiialharei por toda a
jiarte I
se a tanto me ajudar o engenho e
arte—,
intrometteu o poeta treze ver- sonico, í.—Tem semproomesmo valor
sos 1 sete de uma estancia, a 1% Emprestaaccentuado ou não.
e seis da 2) O hyperbato dilfere pequenez eum certo sentido de
exiguidade ás pala-
da inversão, por ser naqueile vras,e eis porque entra em quasi
menos ordinaria e mais brusca
a deslocação da ordem das pala- todos os diminutivos. || (Letra
latina).—Em geral persiste, má-
vras. Prejudica ás vezes a cla- ximo
reza, por isso se não deve usar Pode,quando tonico : digo, dieo.
porém, tonico é breve,
d'esta figura, principalmente em sendo seguido de consoante iso-
prosa, senão com muita circum- lada, transformar-se em e : cedo,
specção. Quando é felizmente de cito; dedo, de digitum. A
empregada, imprime ás phrases
muita rapidez, graça e energia. (1) Pequeno não qualifica peito,
Obrigam ao uso d'esta figura : mas parece. Porque o altivo peito
1? o som desharmonioso que re- não calie em terreno tão pequeno,
sultaria de certa união de pala- é a comi)osição directa e mais
vras; 2? maior elegancia ou ener- clara.
ICO
I — IDIOTISMO
permuta em e também se dií sempre levam o epitheto de ideo-
com o i em posição (antes de logos, os antigos grammaticos
duas consoantes): selva, de sil- que não curavam da fôrma mate-
vam; letra, de litteram. Por phe- rial, da phonetica e morphologia
nomeno de attracção ou sympa- dos vocábulos, e apenas os estu-
thia o i transforma-se em a, davam com os elementos ou no-
quando a syllaba vizinha arti- ções da consciência.
cula-se com a vogai a : balança,
bilanz / maravilha, mirahüia; sal- Idios, proprio. — Elemento
vagem, silvaticum. I (letra por- grego de composição. Idioma,
tugueza). Muitas vezes repre- lãio-syn-crasia, moléstia coexis-
senta o y originário : inverno, tente com o temperamento do
liyhernum. Nos mais freqüentes indivíduo.
casos representa o i latino : li- Idíotismo. — «Dão os gram-
bra, de libram. Pôde provir do maticos este nome á construcção
e longo : commigo, ant. co- ou locução contraria ás regras
mego (cummecum); do e breve ha communs e geraes, mas próprias
exemplos rarissimos : dizima, de- eparticulares de uma língua, co-
ciman. O i portuguez freqüen- mo ; — o infinito pessoal em por-
temente representa a dissolução tuguez e diversas phrases feitas ;
da consoante c no grupo ct: feito, a singularidade peculiar da mes-
factum ; peito, pectus ; ou a di- ma lingua em dar a vários no-
phthongação do a antes da du- mes no singular uma accepção
pla a-(o que representa ainda a diversa da que tomam no plural;
dissolução do c, poisa—cs; seixo, V. g.; zelo e selos, hem e bens. gra-
de saxum. I(letra arabe) persiste; ça e graças, üiü. — a repetição
adail. Permuta-se, sendo breve, das variações dos pronomes pes-
em o e em e: almofada e almecega soaes, comoparecia-me a mim;
(al-mikkliadda, almastica).' eu vos hei de levar por onde nem os
Ia.— Hiato resultante do lat. alarves nos vejam a nós, nem nós os
ia ou de syncope de elementos vejamos a elles ; —• a propriedade
consonantaes : pedia, peteb-at; que têm muitos participios do
Maria, do hebraico, pelo latim, preterito de tomar significação
Maria. Muitos provêm do hiato activa, propriedade queconstitue
grego ; taes são os compostos de uma das maiores bellezas de nos-
logia, so'phia, nomia, etc. sa lingua ; v. g.; aborrecido (que
aborrece tudo) ; agradecido (que
Iclithus, peixe. — Elemento agradece); applicado (que se.ap-
grego. Iclitliyosaurio, peixe-lagar- piica) ; desjiachado (que despacha
to. ou avia todos os negocios), dili-
Ideologia. — Soiencia das gente, expedito : e assim : deter-
idéas, independentes da expres- minado, disfarçado, entendido, es-
são, consideradas como actos tragado, fingido, moderado, preci-
puros do entendimento. Nos ex- pitado, etc.;—a particularidade
positores da lingüística quasi com que muitos auctores bene-
101
IDIOTISMO — IMPERATIVO
méritos da língua a têm dotado, Dada que foi a hora —po?'—logo
emprefrando com significação que deu a hora. Rogo me digas
transitiva muitos verbos de sua —em vez de—rogo-te que me di-
natureza intransitivos, particu- gas. Quanto não dava eu por
laridade que constitue uma ri- possuir este objecto—por—quan-
queza e dá íí lingua maravilhoso to dava eu ou quanto eu dava
realce ; v. g.: ajoelhar a soberba; por possuir este objecto. Vôem-
torva affeição lhe arde as entra- se ruas e ruas—po^—vêem-se mui-
nhas ; arfar suspiros ; as gerações tas ruas. Está na minha mão —
passaãas bradam estas cousas ; já por— depende de mim. Ha dias
ardente ehamma a anima a trovejar bem aziagos —por— a vida tem
iras de Achilles ; — a proprieda- dias. Por mais que diga, por
de de empregar o infinito pelo im- maix que faça — em vez de— ain-
perativo; v.g.: alegrar, que é che- da que muito diga ou faça.» (Es-
gada a hora de vos irdes, por ale- coliaste).
grai-vos, etc., levantar ã^ahi, pre-
guiçosos, por levantae-vos, etc. Ca- le.—Hiato oriundo do latim e
da lingua tem seus idiotismos e que se encontra em palavras eru-
suas locuções próprias de diflfl- ditas: planicie, superficie (pilani-
cil, se não impossível, traducção ciem, superjiciem).
exacta em outra lingua. Apezar Imparisyllabisiiio.— «É o
de suas construcções viciosas e factodadeslocação do accento to-
contrarias ás mais simples regras nico no accusativó ; a difíerença
da lógica, os idiotismos contri- do numero de syllabas entre esse
buem muitas vezes para a origi- caso e o nominativo (latro, latro-
nalidade e até para a belleza de nem, serpens, serpentem) (P. J.).
uma lingua. Tomam o nome da
nação onde a lingua se falou ou Imperativo. — Modo dos
se íala. Assim, dizem-se hebraia- verbos que exprime exhortação,
mos, se esses modos de dizer são pedido ou ordem de acção : Yae !
peculiares da lingua hebraica ; ide ! estudae ! Crescei e multipli-
latinismos ou grecismos, se Imitam cae-vos. O imperativo só tem duas
o modo de dizer dos latinos ou tlexões: 2'} pessoa sing. ama, lat.
dos gregos; lusitanismos, etc. ama; plur. amae, lat. amate. As
Possue a lingua portugueza mui- outras llexões são tomadas do
tos idiotismos, entre os quaes a- subjiinctivo : ame eu, amemos nós,
pontamos mais os seguintes para etc. No estylo biblico, o impera-
exemplos : Em nascendo o dia tivo é substituído varias vezes
— em vez de — logo que nasceu, pelo futuro : não matarás ; c isso
nasça ou nascesse o dia — ou — um hebraismo commettido no
quando nascer. Em que lhe peze latim pelos primeiros interpretes
—por— ainda que lhe peze. Mal das escripturas. Também pôde
pensava eu—jior—eu estava lon- ser substituído elegantemente
ge de pensar. Não caiu por um pelo infinito : Trabalhar ! traba-
triz—por—esteve prestes a cair. lhar ! (trabalhemos ou trabalha).
DICC. GBAMM. 11
102
IMPESSOAL — INDEFINITO
Impessoal. — Caracter do emhranquecer, envelhecer, etc. O
infinitivo nas línguas romanas. inclioativo denuncia-se geralmen-
Vicie Infinito. Diz-se também do te pela intercalação do infixo esc
verbo que não é usado com as logo depois do tiiema ou radi-
íie.vôes de lí ou pessoa. Vide cal; rejuven—ESC—er. Na maior
Defeetito e TJniiiesíoal. parte d'estas palavras a ortho-
Implícita. — Diz-se da prú- graphia usual supprimiu o s ety-
posição em que deixam de ser moiogico da terminação.
expressos os termos capitaes, su- liicilleute. — Segundo o
jeito e predicado: «Vaes ao tliea- antigo systema de analyse, é a
tro? N'ão.» Não é uma proposi- proposição que amplia ou re-
ção implícita, pois nilo estão stringe a palavra ou a proposição
expressos o svjeito (eu) e o predi- a que se refere. D'iihi, a sua
cado (vou). divisão em explicativa erestricti-
Improferiveis. — Denomi- va. Explicativa é a incidente que
nação dada ás consoantes explo- desenvolve o sentido ou idéa da
sivas oa viomentaneas, as quaes palavra a que se ajunta: O ho-
não soam sem vogai : b, p, t, d, mem, que é mortal, não deve dis-
c, k, g forte. sipar a vida. Pode ser tirada da
phrase, sem offensa do sentido.
In. — Prefixo latino, de dous Itestrictiva 6 a que limita a si-
usos distinctos. 1? Indica nega- gnificação ou idéa da palavra a
ção: in-justo. in-actim. 2? Indica que se liga : O criminoso que se
inclusão e só se ajunta a verbos; arrepende, pôde tornar-se um
irradiar, interrar. As assimila- homem de virtude. Não pôde
ções de ambos são em im, il, in, ser excluída da phrase sem que
ir: immortal, iilegal, innocente, o sentido d'esta se torne absurdo.
irresponsável.
Iiiarticulado. — Diz-se do Iiulefliiito. — Termo e epi-
som puro, laryngeo, como o de theto appiicado a varias classes
todas as vogaes : a, e, i, o, u. Em de factos grammaticaes : a) Ao
rigor, porém, as vogaes se pro- tempo designado como preterito
duzem, com articulação embora perfeito composto, ou melhor ao-
pouco perceptivel. A prosodia risto: tenho amado, tenho vivido.
do u, paru exemplo, reclama o Indica acção repetida ou conti-
concurso de orgãos do pharynge, nuada, freqüentes vezes reali-
dos lábios, e por uso diz-se vo- zada : Tenho comido laranjas. —
gai labial. O i produz-se com o h) A classe de artigos que expri-
concurso do véo do paladar e mem determinação : o, a, os, as,
por isso diz-se vogai palatal. (deriv. do l;it. illum). Vide Ar-
tigo. — c) K classe de adjectivos
Inclioativos. — Classe de determinativos que exprimem
verbos que exprimem augmento quantidade incerta ou não exa-
progressivo da acção; florescer, cta : todo, nenhum, ninguém, al-
do tiorir ; esmorecer, de morrer ; guns, poucos, qual (repet.), tal
I(i3
INDEFINITO INDO-EUROPÉAS
(repet.), uns, outros. No conceito nianicas e aryanas, ou grupo
de alguns grammaticos as clas- sanskritico (Humboldt), divi-
ses 6 e c não formam senão um dem-se em grupos e numerosís-
grupo único. simos dialectos. Seus grupos
Indicativas ou enunciati- principaes são, segundo Ma.x
tas. — Denominações applicadas Müller : I. Indiano. Comprehen-
ás proposições cie verbos do de varias linguas da índia e n
modo indicativo : Pedro chegou. dos ciganos. Oomprehende mais
Voltarei breve. as linguas mortas : Prakrito, pa-
li, sanskrito moderno e sanskrito
Indicativo. — Modo dos redico. 11. Iraniano. — Linguas
verbos, que exprime a attirma- persa, armênia, afghanistanica,
ção por simples enunciação i)0- etc. Linguas mortas : Parsi, Zend,
sitiva. Tem os seguintes tempos : Peldvi, etc. III. Celtico.— Lin-
&) Presente: amo. — b) Preterito guas do ramo k}'mrico e ghadeli-
imperfeito: amava. —c) Preteri- co. Lingua morta : o cornico. IV.
to perfeito: amei.—d) Preterito Itálico.—Linguas dos ramos la-
mais que perfeito: amára.—e) tino: osco e ombriano. Linguas
Futuro: amarei. Qualquer d'estes mortas : latim, lat. mdgaris, lat.
tempos p(5de ser expresso com harharo, os romances, xiYovenc/Al (1.
pequenas differenças de sentido d'oc), francez (1. d'oil), etc. V.
por meio de periphrases : estou Illykio.—DaAlbania. VI. Hel-
amando, tenho amado, tenho ou LENico.—Linguas da Grécia an-
hei de amar, terei amado, etc. As tiga e moderna. Linguas mortas :
denominações divergem entre os grego antigo (dorio-eolio, attico-
grammaticos. O preterito perfeito ionio). VII. WiNDico.—Oompre-
(amei) também é denominado hende o ramo lettico (Lithuania
pret. definito. A forma periphras- e Livonia),o ramo slavo(Bulgaria,
tica tenho amado tem as denomi- Rússia, Illyria, Polonia, Bohe-
nações de íjtcí. ou ao- mia,sloveno, croata, servio). Lin-
risto. Vide Futuro, Presente, Pre- gua morta : o slavo eeclesiastico.
terito. VIIL Teutonico.—Oomprehen-
Indirecta.—Equivalente de de o alto allemão (médio e antigo),
inversa. Vide Ordem. o baixo allemão (gothico, anglo-
saxão, antigohoUandez, ant. frisão,
Indirecto (complemento).— antigo saxão). Oomprehende as
Na antiga analyse representa o linguas vivas : allemão, inglez e
complemento não objectivo. Vi- hollanden. O terceiro ramo teu-
do Proposições, onde tratamos de tonico é o scandinavo. Oompre-
todos os chamados Complementos. hende o norueguez,islandez, sue-
Indo - eiiropéas (linguas). co e dinamarquez. Oonsideran-
— A mais importante e mais co- do-se indistinctamente pelo exa-
nhecida de todas as familias de me dos factos a existencia de
linguas. As indo-européas, unidades primitivas de onde de-
também denominadas inão-ger- correram as variedades idiomati-
1G4
INDO-EUROPÉAS — INFANTIL
cas aotuacs, póde-se organizar, commentario. Por motivo da no-
ainda que imperfeitamente, uma va educação classica, parece ab-
taboa genealogica das linguas. surdo que não tenlia existido
Os estádios de integração que pa- base anterior que originasse o
recem evidentes são : a existên- latim e o grego, e sim tenha ha-
cia de uma base asiatica e outra vido um estádio commum que
européa, que deram productos precedeu o latim (ao itálico) e o
especiaes. Na própria Europa celtico. De facto o latim, pela
deveriam ter existido um idioma lihonetica e estructura gramma-
europeu meridional (que explica tical, é mais proximo do celtico
o grego, latim, etc.) e outro do do que do grego (1). Outrosim.
norte (que explica o germânico, convém ponderar que o diagram-
o litu-slavico, etc.) Como quer ma acima representa o ãesenwl-
que seja, apezar dasdiíiiculdades vimento prehistorico das linguas
do assumpto, eis a taboa genea- aryanas. Recentemente um phi-
logica de Schleicher : logo e lingüista italiano,. Trom-
betti, pretende demonstrar a uni-
Aryano dade de todas as linguas.
I
Indo-germauicas. — De-
nominação dada ás linguas arya-
I
Asiático Europeu nas, hoje preferida pela de inão-
européas. Vide esta palavra.
Inclo-portugiiez. — Este
I • dialecto, que tende a desappare-
Indiano Iraniauo cer ante a supremacia da lín-
gua ingleza, é falado em Ceylão,
e possue uma traducção da Bi-
Europeu-Norte Europeii-Sul blia, publicada em 1820.— Data
do sec. XV, e apresenta grande
I cópia de vocábulos hollandezes,
e, mais modernamente, grande
Litu-Slavico Ital.-Cel. numero de palavras inglezas.
i I
Infantil (linguagem). — É
i I muito diflicil assignalar os cara-
I t I I I cteres e a importancia da lingua
O ts CO C
das crianças quanto á sua fun-
cção na linguagem em geral. É,
todavia, impossível deixar de re-
conhecer a sua inlluencia capi-
O diagramma, comquanto im- (I) Notem-se, conforme diz Sie-
lierfeito por natureza da com- vers (Brit. Encycl. XVIII, 786), o
plicação do assumpto, é bastante futuro em b ou/, a voz passiva em
comprehensivel, e nem carece de r e a tleclinação nas duas linguas.
1Ü5
INFANTIL - INFINITO
tal. Segundo Darmstoetter (1), a l'sieologia delia língua de Ra-
não se podem explicar os phe- vizza, que é um resumo d'aquella,
nomenos de alteração phonetica explicam-se estas primeiras for-
das línguas, as permutas e trans- mações da linguagem no periodo
formações atravez do tempo, da infancia, e que são de grande
sem o concurso da criança, cuja iníluxo em todas as linguas.
pronuncia viciosa conserva até á Iiiíerioritlade. — Caracter
maturidade do individuo certos ideologico dos comparativos em
matizes prosodicos, que se vão que o 3? termo de comparação
propagando e assim explicam a significa vantagem sobre o iiri-
evolução phonetica dos sons. O meiro : A dahlia c menos bella
homem maduro pôde mutilar, que a rosa.
mas não transforma evolutiva-
mente, por abrandamento, sons Infinito e infinitivo. — Vide
ao recebel-os por transmissão de também Pessoal. Modo dos ver-
outro; as degeneraçôes phoneti- bos caracterizado pela termina-
cas resultam de idiosyncrasias ção em r e pela abstracção e in-
infantis que nunca mais de todo determinação do sentido: lowcar,
se apagam do individuo. Quanto paTtÍT. É forma nominal; equir
ao vocabulario infantil, o muito vale ao substantivo e pôde ser
variado. A sua grammatica é empregado como sujeito, obje-
excessivamente analógica. Opro- cto, etc. A letra r da terminação,
cesso de reduplicação, como se por euphonia, desapparece quan- ■ v
verá, é que em quasi todas as do é de uso b artigo archaico Io
linguas produziuo maiornumero on la: amal-o,x>ov amar-lo. So-
de formações ; no francez,v. gr.; bre íxfiexão pessoal que excepcio-
baba {ho\o), dada (cavallo), iow- nalmente e apenas na linguai^
Joü(brinquedo), toutou {cTw),doão portugueza possue o infinito, são
(cama ou berço), etc. (2) Do de citar-se as considerações dosa- V'
francez provém a forma honhon bio philologo Aureliano Pimen-
(gulodice). São portuguezas : tel; «1? Emprega-seo infinito im-
pápá, mama, bum-bum (agua), pessoal quando se i^rescinde do
pino pino, etc. (3). No logarcom- sujeito, ou este é o mesmo do mo-
petente jil tratiímos dos hypoco- do finito, por exemplo : Folgarás
risticoa. Km livros recentes, como de ver bellas paysagens. O melhor
a Sprachpsychologie de Wundt e modo de pedir é agradecer. De-
vemos abster-nos de más leitu-
ras. 2? Emprega-se o pessoal
(1) Darmstcetter — La vie dcs quando tem sujeito difCerente do
mois—pags. Inir. sujeito do modo finito, por exem-
(2) Stappers—Dict. cUjm.— 514. plo; Quanto é bello morarem os
(3) Já citado piir Gregorio de Mat- irmãos em união 1 Quam pul-
tos (ed. deV. Cabral): chrum est fratres habitare in
«Bura-bnni é agua em crianra, \\nwm\ii.E!t:cepções. — Da lí, quan-
E ter-se de pé pino pino.» do o modo infinito fôr comple-
10(1
liNFIXITO
mento oiroumstancial não muito chorai-, e arrepender agora.»
perto do finito, e sempre que se (Vieira, S. 3? tomo, pag. 148).
haja de evitar ambigüidade. Da —«Não ha salvar sem padecera.
quando o infinito fôr in- (Bern. Utt. Tins. I. I. c. 0).
transitivo e estiver immediata- —Hoje só se omitte o reflexo
mente, ou apenas mediando en- —se—com os verbos ser e haver,
cliticos, unidos aos verbos fazer, Com os outros não.—Todosouvi-
ver, deixar e mandar. Exemplos reis queixarem-se—é o piirasear
da 1? excepção('Observemos ooirente. Explicações.—Parabém
a lei para sermos felizes. - Sois se entender a l^^excepção, é neces-
muito poderoso para me soocor- sariocompreliender asignificação
rerdes.n IJern. (Paraiso dos Con- das palavras complemento cir-
templativos).— « Orae para não oumstancial, isto é, o que indica
cairdes em tentação.» (Evang. umacircumstancianãonecessaria
Matli.). ((Temendo receberem ãa- para o sentido de outra palavra,
mno dos mouros por pelejarem Conhocer-se-ií esse complemento
contra elles.i) (Barros).— ((Fazei quando de sua suppressão não
sentar os convidados. Fazei-os resultar deficiencia de sentido,
sentar--facite eos discumbere. Assim, se dissermos: '(Estu-
Deixae ir estes. Deixae-os ir. Dei- damos os clássicos » não fica sus-
xae vir a mim os pequeninos. (As- penso o sentido, formamos uma
sim traduzem os clássicos o Si- phrase intelligivel, Se accrescen-
• nite lias abire, etc. ) — Quando, tarmos : ((para bem ensinarmos o
porém, medeiam mais palavras portuguezn, este complemento
entre o sujeito e o infinito, ou indica o motivo, o fim. Os com-
vice-versa, então este.se põe na plementos necessários, segundo a
f(5rma pessoal, como se vê no se- força do termo, não podem ces-
guinte exemplo de Bernardes : sar de apparecer ou de suben-
((A incerteza que absorve e. faz tender-se, sem ficar incompleta
serem de pouco momento as mais a phrase. O dizer que comple-
incertezas, é se morrerá na graça mento circumstancial é o que
de Deus." (Exercícios Espiri- exprime circumstancia de tem-
tuaes. Ex. III. Med. 4).—Quan- po, modo, fim, logar, não é de-
do o infinitivo é de verbo transi- finil-o. ((Necessito de dous dias
tivo, prevalece a lí regra; ((Vi- para concluir esse trabalho—O
mos as ursas. . . banharem-se.» relogio ó destinado a indicar as
(Camões).—Aqui devemos notar horas. Estou morando em uma
que os verbos reflexos unidos aos quinta». Nestas phrases, o com-
verbos fazer, deixar, ouvir, etc. plemento não é circumstancial,
ás vezes perdem o ««. Ex:—((Ga- é necessário, pois impossível se-
lantes são os poetas I Todos ve- rá entenderem-se telegrammas
reis queixar da malícia dos tem- assim: — Necessito... Estou
pos. (D. Fr. Manoel, Apologos, morando... Esta carta é destí-
pag. 3õ4).—E com os verbos ser nada... E todavia os comple-
e haver: ((Quanto melhor fora mentos que ahi faltam, são do
1C7
INFINITO
tempo, de modo, de loyar. Ora nista, pois com o verbu lembrar-
bem. Quando o complemento se usa-se o preterito perfeito do
circumstancial infinito está mui- infinitivo, tempo composto equi-
to perto do finito e tem o mesmo valente a fuisse latino: Lembro-
sujeito que este, nSo se llie dií me de teres vindo a visitar-me.
Uesinencia pessoal:—-Adoecemos Sinto não me hamres despertado.
por ter estado á torreira do sol. Sinto haveres de deixar-me.
—Jantemos sem cuidar no dia « Haverem-se de aprender essas
de amanhã. || Força intensiva do linguas com estudo e com traba-
infinito. O modo infinito signi- Ihfféempreza muitodifíicultosa.»
fica o mesmo agir das cousas, e (Vieira, t. 8°, S. do Esp. S.)
por isso dií muitíssima vivaci- Eis ahi exemplos de verdadeiros
dade ás narrações, ás hypoty- tempos do infinito. A regra que
poses. E senão, substituam- dá F. Diez para o uso do pes-
se os infinitos por substantivos soal é a seguinte : «Esse infini-
nos exemplos seguintes, de tivo não se emprega senão no
dous modelos de linguagem, caso de ser possível mudal-o
e desapparecerá a belleüa do para o modo finito ; por conse-
quadro ; « Vêdes vós todo aquelle qüência, quando se lhe pôde ti-
bolir, vÊdes todo aquelle andar, rar a relação de dependência
todo aquelle concorrer ás praças que o p^rende ao verbo princi-
e cruzar as ruas, vêdes aquelle pal ». E indilferente que esse
subir e descer as calçadas, vêdes infinitivo tenha sujeito proprio
aquelle entrar e sair sem quie- ou não. Exemplos em que o su-
tação nem socego ? Pois tudo jeito pertence só ao infinitivo :
aquillo é andarem buscando os tempo é de partires (isto é, tem-
homens como hão de comer, po é que tu partas, tempus est
etc. » (Vieira, S. 2. 32C). E hino te abire) ; Deus te desem-
Bernardes, falando da brevidade barace o juizo para te remediares
da vida, do correr dos dias ; « O (para que te remedies). Exem-
seu caminhar é deupenhar-se ; to- plos em que o sujeito é com-
do (í azas o tempo, e de pura li- mum aos dous verbos : não 7tas
geireza no mover-se parece que se vergonJta de ganliares tua vida trio
não move. n A traducção france- toritemente (de que ganhas) ; to-
za diz : Zear cours est celui du dos são alegres por terem paz (por-
lorrent. Le temps fuit avec une que têm), etc. Este infinitivo
vitesse extrCme, Timperceptibi- flectido (1) também se une,
lité de son mouvement ne pro- como o não flectido, ao pronome
vient que de sa rapidité même ã pessoal, emquanto sujeito ou re-
se mouvoir. || Theoria deF.Diez. gimen, etc. Ora, a regra de Diez
Diez no 3" tomo de sua Oram-
mntica, falando da fiexão verbal (1) Necessitamos dos verbos
do infinito portuguez, nega-lhe flcctir, a<jir, pois já temos reílectir
verdadeiros tempos. Nisto não e reagir, flexível, agente. ■—N. do
concordo com o grande roma- A. cit.
168
INFINITO
não serve para os casos. Assim, portuguez se diz: « Para Utes fa-
na phtase : Fazei-os sentar, este zer perder o medo ás culpas, n
se converte em subjunctivo : (Thomé de Jesus, Trab. 8, o Lu-
que se sentem, e comtudo seria cena, V. I. 8. c. 27). — Eu lhe
incorreclo o infinitivo pessoal. fiz ver a importancia da philo-
Mais. íío antiquissimo portu- sophia — o phrase preferível a
guez da oração dominical, onde eu o fiz ver a imjyortancia. Quan-
se v6 claramente vista a passa- do o verbo infinitivo é intran-
gem do latim para o nosso idio- sitivo, então sim, usa-se do
ma, acha-se a phrase : Não nos caso objectivo preferentemente:
deixeis cair em tentação, que «Não os vi cair, não os dei.xo
bem se pode mudar — não dei- cair.» (Aiireliano Pim^ntel) |1 Es-
xeis que caiamos, e todavia não creveram muitos grammaticos
se dirá — nos deixeis cairmos. E sobre a questão qüe ainda não
já que tocamos este ponto, pare- está bem assentada quanto as re-
ce-me adoptavel a distincção que gras que se ha de observar no
faz o sábio glottologo Sr. Dr. emprego da singular flexão. O
Harlez (1), redactor-ciiefe do douto philologo L. L. Fernan-
Muséon, revista internacional, des Pinheiro diz á proposito.
entre complemento objectivo i< Uma das questões mais contro-
immediato e objectivo mediato, vertidas da lingua portugueza é
que se dá nos verbos cansativos, a do infinito pessoal. Jeronymo
cuja falta supprimos com o ver- Soares Barbosa na sua Oramma-
bo fazer. Nem de outro modo tíca Philosophica da Lingua Por-
se pôde explicar este dizer : tugueza sentenciou que elle só
u Fadam te ut scias.^^ Plauto, poderia ser usado quando tives-
Aul. Far-te-ei saber, onde o te se sujeito ditferente do verbo da
é comiilemento objectivo media- oração regente, e quasi todos os
to de fadam, isto é, mediante o grammaticos d'ahi por diante
infinitivo saher. « Fizeste-nie ver começaram a formular regras
a morte do filho» (2). Evidente- no mesmo sentido.' Entretanto,
mente me não é objecto imme- essas regras não se apoiam no
diato, nem tam pouco sujei- uso dos clássicos, nem têm sido
to do infinitivo, pois era nossa respeitadas pelos melhores es-
lingua se exprime pelo caso sub- criptores portuguezes modernos,
jectivo eu: «Dar-me-á licença como passo a demonstrar com os
para eu dizer o que entendo. » seguintes exemplos, por mim
(Carta de U. Barth. dos M. na colhidos nos originaes e em ci-
Philosophia dos Príncipes, t. 2, tações :
pag. 50). Note-se que em bom E folgarás de veres a policia.
Camões (Lusíadas, VII, 72).
(1) Ilarlez, Manu.el de Ia laugue
de l'Avesta, pag. 115. Não te espantes
(2) Virgil. yEii. 2,537. Nati co- de 13aceho nos teu3 Reinos recehercs.
(lDEJI,VI, 15).
raiii me ceniere letum fecisti.
1G9
INFINITO
... Bezerrinhos, que inda não tarmos este proposito lemos...
•eram para ««(irarem com as mães. — Nelles adiarão um thesouro
— BER^íAKDIM Ribeiro. (Meni- de vocábulos e phrases, com
na c Moça, Cap. XVI)...offe- que possam exprimir não só exa-
receram-se ao rei para o servi- ctamente, mas até com desenfas-
rem. — Affonso de Albuquer- tiada e elegante variedade, as
que. (Commentarios, III, 1(5). suas idéas e conceitos, sem in-
... mandou que estivessem pres- dae/arem dos extranhos, etc. —
tes para eommeUerem a fortale- Frei Francisco de S. Luiz
za... (Idem, III, 40). Ditosos os (Glossário, prefaçuo, pags. V e
que vivem bem calados mettidos IX). — O habito em que ellas
em si mesmos; e contentes de estavão de receberem do Tibre as
não serem ouvidos nem julgados. suas leis... —Só nós estamos
Antonio Ferreira. (Poemas privados de termos em vulgar...
Lusitanos). ...temendo receberem — Estamos condemnados ou a
damno dos mouros por pelejarem prescindirmos de um estudo ou a
contra elles... .To.ío de Bariios recorrermos... —A. F. de Cas-
(Décadas, n. 5G). Virtude, sem tilho (Fastos, prologo, pags.
trahalliares e padeccres, não veriís iil, 52 e 53). — ... se entretecem
tu jamais com teus olhos. — Pa- sem se torcerem, se cortam sem
dre ManoeIí Beiínardes (Iaiz se quebrarem, se encontram sem
e calor, pag. 2õG)... outros força- se confundirem... Ideji (Noções
dos da tormenta alijaram ao mar rudimentares para uso das escolas,
o trigo, para salvarem as vidas. pag. 70).—Só alcançaram serem
—Frei Luiz de Souza (Annaes submergidos e afogados pela cor-
de D. João III.)—E mandando rente.— IIerculano (Panorama
aos seus que se não bulissem, de 1S44, pag. 39!i). — Vaidades
sem terem recado seu com certo estranhas, que estão longe de te-
signal... Idem (Vida de D. Frei rem o valor que se lhes attribue.
Bartholomeu dos Martyres). ■— — Idem (Historia de Portugal, I,
Quando o semeador do céo dei- 471). — ... —os inimigos des-
xou o campo, saindo d'este troçados em toda a parte viram-
mundo, as pedras se quebraram se constrangidos a buscarem refu-
para lhe/«serem acclamaçôes, e gio nas montanhas. (Id. I, 74).—
os espinhos se teceram para lhe Sem aquellas frias restricções de
fazerem corôa. — E necessário, amor proprio que impedem os
para se conservarem nesta nova filhos de Apollo de acharem...
representação, e para governarem —G.irrett (Lyrica de João Mi-
■ como devem, que se afastem de nimo, pag, 17).—... resistiram
suas próprias raizes. — Todos a submetterem-se... — Soriano
foram ordenados para conserva- (Historia da guerra civil, I, 140).
rem a, ca.áa. nm no seu, e todos ... bufarinheiros pregoam no
por diíferentes modos vivem no intuito Aa fazerem sua cúmplice
alheio. — Padre Antonio Vi- á nobilissima neta de Platão...
eira (Sermões). — Para execu- — Camillo Castello Branco
170

(Cavar em ruínas, pag. 7).— Só podes pretender o nãoso- vista,


—... que ao pé de Santa Engra- mas não depois de vista o &cr dei-
cia se queixavam os vizinhos de xada.
terem saiv á meia noite... Idem (Elegia 8)
Reiíello da Sii-va (Mociãade de Toma a lyra na mão, que os mora-
D. João F, tomo 1°, 2'.'edição, pag. dores
!i). —.. . ainda esperam o buril do vitreo fundo estou vendo jun-
pai-a dizerem o que foram... Ideh tar-se
(Varões ülustres das tres época» para ouvir nossos rústicos amores.
constitucionaes, pag. VI). — Que Idem (Egloga VI)
novos oolibris, que lindos beija- Mandou... dois talões a espiar o
llôres não correriam prestes a porto, sondar o rio e ver o surgi-
tirarem o doirado carro de Ve- douro.—Feknão Mendes Pinto.
nus!... — PimiEiiio CuAOAS Forçareis as pedras a vos fazer a
(Ensaios críticos, pag. ICO). —... vontade. — .Iorge Feureiiía.
os que já estavam cançados de (XJlyssípo, acto õ, sc. 4)..—O que
se exporem ao acaso dos erros se lhes não pcíde defender com a
longínquos.,.—Theopiiilo Bha- artilharia por trabalhar cobertos.
OA (Historia da Literatura Por- — Os moradores salvaram no
tugueza. Tomo I, introducção, sertão as vidas... faltando-lhes o
pag. 301). —... muitas e muitas valor para se defender ou morrer
vezes recebemos o precioso alvi- em suas casas.—.Iacintiio Frei-
tre de/aser-TOOs o resumo d'essa iiE.—Os santos a persuadir-me
obra... Idem (Manual de Historia humildade e eu que mostre brios
da Literatura Portugueza, pag. e ufanía? Os santos a pregar po-
V). —... sentimos um vivo de- breza e seguil-a em tudo, e eu que
sejo de o applicarmos... Ideji mostre ufanía e brios. — Fhei
(Orammatiea Portugueza, pag. Luiz de Sousa (Vida do Arce-
VII).—... a alguns dos quaes bispo) .
devemos instigação para escrever-
mos... — Adoí.piio Coelho (A II a na perfídia engodo que assás
Língua Portugueza, pag. VII). tente,
— Mas nSo terão as línguas ro- e por d'eUa tjabar-te é que me bus-
cas.
manas o direito de serem estuda-
das?... Idem (Theoriada Conju- Filinto Elysio.
gação, pag. 5). — E de notar-se —Outros gentios são incrédulos
que também muitas vezes empre- até, crer... ViEm.\. (Sermões).
garam os clássicos o infinito im- —A vista do exposto mantenho
pessoal, quando sem duvida algu- ainda hoje o que escrevi em ■
ma deviam uííar o pessoal. E.xem- 1886, na minha These de Con-
plos : curso « O emprego do infinito
Andar-lhe os cães os dentes amos- pessoal é, pois, um ponto que
tra lulo. ainda não estií fixado na língua
C.^mões (Lusíadas, l, 87) portugueza. Entretanto, parece-
me que as regras mais razoáveis
171
INF]
que se podem admiUir a tal re- II Outro illustre mestre,o sr.Por-
speito são !is que ha longos annos firio de Aguiar, escreveu ; « Pa-
formulou Diez : — Este infinito recerá que, no emprego do infi-
só se emprega no caso em que nito pessoal, deixo ao arbitrio
é possível substituil-o por um uma amplidão equivalente ao
modo finito no qual, por conse- abandono dos que pedem á
guinte, elle pode desembaraçar-se grammatiea as syntheses sub-
da relação da dependencia que o stitutivas da observação nem a
liga ao verbo principal. É indiffe- todos facii, do recurso á fontes,
rente que este infinito tenha ou nem a todos accessiveis. Obvia-
não sujeito proprio. — No caso mos a essa consideração dando
contrario, se o infinito deponde, a esses taes, não regras de dero-
l)or exemplo, de auxiliares do gações sempre licitas, mas con-
modo finito, não se conjuga (po- selhos que, fáceis de compre-
destes ouvir, sabes dar, queres crer, hender e conservar, sejam de
«ícJSupprime-sesls vezes a Ilexão, ainda mais fácil applicação. Eil-
quando o sujeito da phrase não os : 1? Sendo o infinito comple-
é prejudicado com essa suppres- mento directü ou objectivo de
são. Os exemplos com que o Sr. um verbo a que é immediato,
Auioliano Pimeiitel na sua The- formando com elle como uma só
«e do mesmo supracitado anno fôrma verbal, que tenha o mes-
procura combater essas regras mo sujeito, prefira-se o empre-
não as destroem. São elles: Fa- go do impessoal. Pretendemos an-
zei-os sentar e Não nos deixeis cair dar. Desejavam partir. Se o verbo
em tentação. Kão lia razão para principal e o infinito tiverem su-
que se não diga : — Fazei-os sen- jeitos diversos, será pessoal o in-
tarem-se, isto é, fazei que elles se finito, menos com os verbos—
sentem, e o pronome nos no se- deixar, mandar, fazer, ver, ouvir;
gundo exemplo exclue a pcssibi- exemplos: Elles suspeitam termos
lidade de dar a forma pessoal ao vindo sós. Affirnw teres feito mal.
infinito cair. Se elle fosse suppri- Prove serem elles os culpados.
mido, bem se poderia dizer: não Mandamos vir os pagens. Viste
deixeis cairmos em tentação, isto é, nascer duas fontes. Fizeram an-
não deixeis que caiamos em tenta- dar as rodas. Interpondo-se o su-
ção. Assim, pois, penso que é ao jeito do infinito entre este e o
eminente philologo auctor da verbo, se é nome, admitte uma e
(frammatica das linguas romanas, outra fôrma ; sendo um dos de-
e não ao auctor da Grammatiea terminativos—te, nos, vos, os, as,
Philosophica da Lingua Portiigue- só admitte a impessoal; exem-
za, que todos devemos seguir, for- plos : Ma,lidamos os pagens virem
mulando e praticando a seguinte ou vir. Fazemos as rodas andar ou
regra, de todo racional: íiempre andarem. Omiu-nos cantar. Man-
que o infinito do verbo poder ser dei-os subir. 2? O infinito que é
suhstituido por um tempo do modo termo ou circumstancia do ver
finito deve tomar a fôrma pessoal. » bo a que o liga uma preposição
172
INFINITO
com o mesmo sujeito admitte quizerdes. Deeemos partir como
uma e outra fôrma; exemplos: para a morte e á patria só voltarmos
Podemos dizer sem mentir ou men- vencedores.Bi forem dous ou mais
tirmos. Folgarias de ser ou de se- os infinitos, podem ter simulta-
res acceito. Com verbo de movi- neamente uma e outra fôrma;
mento e a preposição ocoulta, é exemplos ; Promettiam todos á
impessoal; exemplos : Correram porfia, e jurados vingar aquella
dizer ao general. Com sujeito affronta, beberem-lhe o sangue e
proprio, é pessoal; exemplo : JS/ão esquartejal-o. E não te avãliarás
iremos sem elles virem. O negocio feliz, ó Idomeneu, em ser instru-
depende de o aeceitares. 3? O in- mento de ventura tal e de servires
finito sujeito ou attributo de a tantos de. abrigo e. de amparo?
uma oração, de cujo verbo es- Esses parece que são os possí-
teja feito complemento o seu su- veis casos de infinito ; para os
jeito, admitte bem uma e outra quaes, já dissemos, não damos
forma ; exemplos : Importa te senão meros conselhos, obser-
muito seres ou ser expedito. Ati- vando que mais vezes se erra com
rardes vos ao mar sem hoias é que- o impessoal. Nada montam re-
rer ou quererdes vos afogar. gras cuja precisão e rigor não
Como aos bons na virtude, aos resistem ao toque dos grandes
mãos 110 crime, uma só preocou- mestres—Camões, frei Luiz de
liação domina-os : ser ou serem Souza, Lucena, Vieira, Bernar-
felizes. Aos pobres não fica mal des, Herculano, Castilho e ou-
pedirem ; aos ricos lhes fica muito tros, de auctoridade incontrasta-
■não dar. 4? Sendo complemento vel para amparar e absolver a
de um participio, adjectivo ou quem quer que se insurja contra
substantivo já complemento do as grammaticas. Ser correcta e
sujeito, do attributo ou de com- grammatical uma construcção,
plemento do verbo principal, o não (í o mesmo que ser harmo-
infinito ó impessoal; exemplos: niosa e torneada. Correcção só
Vi-os no mais acceso da refrega não se exige com rigor de rústi-
dispostos a morrer. Incapazes de cos e analphabetos; graças e
sustentar mais a praça, rende- primores de estylo são predica-
ram-se. Ardendo no desejo infiam- cados de artistas. Quem, com as
mado de enriquecer, furtavam. regras dos grammaticos, com to-
5° Qualquer que seja a respeito das as suas variantes, conferir
do verbo principal, a funcção do os empregos do infinito feitos
infinito, interpondo-se entre el- nos clássicos e dos quaes vou
les um ou mais complementos, agora me valer em uma serie de
uma ou mais orações; ainda citações que poderá ser intcrmi-
que tenha o mesmo sujeito; que na, encher volumes, esse verá
se nao possa eximir da depen- com que despotico arbítrio legis-
dencia ; p(5de o infinito ser pes- lam ainda os melhores gramma-
soal; exemplos: Podeis sair mais ticos a respeito do nosso magní-
cedo e voltar ou voUardes quando fico idiotismo. Camões, além do
173

muito conhecido—folgarás de ves Dias vêm se nos metter


teres, diz no mesmo canto 7?, Franco Barreto, o inexcedivel
estrophe 119: Como estaes sem traductor das Eneidas':
IRDES a pregar? Antes, no 4?
canto, estrophe 5(1: Forças cos- Fabricamos nossa armada (tida
tumadas a DERKlJiAREM quaíito Sem sabermos para onde era a par-
acham. No 5? canto, estrophe 35 (Livro 3?, Estr. 2^).
e 38: Quando para cá vi tantos Gordas manadas de bois e cabras
VIR. E por mais segurar-se os divisamos
deuses vãos. De Camões só pode Sem ser de alguém guardadas.
ser suspeita passagem que for (Livro 3?, Estr. 52;.
singular e única, que não se re- Inda esperaste, pérfido tyranno,
petir e outros igualmente mes- Poder dissimular tanta maldade.
tres não tiverem acceito e con- E secreto partires...
sagrado. Essa se poderia attri-
buir a descuido quando não ao (Livro 4?, Estr. 7Í)
constrangimento do verso. Mas .. .Deixa
o que elle, Camões, repete e ou- De me estares a mim e a ti matando
tros consagram, mestres como (Livro 4? Estr. 8'?).
elle 1... nem todos os gramma-
ticos juntos, com toda a sua ... É incrível
philologia t6m auctoridade para Querias taes sem ser do alto aju-
condemnar, nem como antiqua- Queiras passar. [dado.
do, quanto mais como um erro (Livro G? Estr. 81).
de grammatica. Camões, disse Vejamos mais dous ou tres
eu, não está só, nem só de qui- poetas que empreguem bem mal
nhentistas acompanhado, nos os infinitos, para depois chamar
seus criminosos abusos do infini- a contas a turba multa dos pro-
to pessoal. Assim como elle, sadores ; Diogo Bernardes, no
com o seu folgarás de vérea e o
estaes sem irdes, está conde- Lima:
mnado pelas leis grammaticaes— Onde verás de vulto as nove irmans
Gonçalves Dias—nos seguintes cantarão som das aguas do Pegaso
exemplos: l^Eglog. ]Oí,.pag. 58).
Virgens irnians que vão de mãos As mansas ondas esperando
travadas Que por chegar a ti vinham cor-
Sorrirem de innocencia á própria
imagem [rendo.
(Segundos cantos, Tahijra, Dedi- {Eglog. 13?, pag. 72).
cação.)
O ar ha de accender-se... [cura Para me ver perdido me criaste.
Coalhar-se o mar em aspera sec- (Eglog. 15*, pag. 91).
Oonverterem-se as ondas. Imaginei então Nereas bellas.
Tempestade. Djanteo curvo pinho esjjarjfer llòres
Mas entre Camões e Gonçal- {Carta 26, pag. 222).
174
INF]
Lima Leilão. Eneidns: do numa phrase houver dous
Os Lybios Lares ilevastar não vimos verbos, um do modo definito,
Para sairmos com rouhado espolio outro do Indetinito, precedidos
(Cant. 1? V. 57f). ou não de preposição, sendo idên-
Vejo os Numes imigos de Dardaiiia ticos os sujeitos de amhos, usare-
Horrisonos estragos falminar-Uie mos, em geral, do infinitivo im
pessoal.w Db. E. Carnbiko Ri-
(Caiit. 2", V. 720). liEiuf), Serões grammatieaes, pag.
Incito os socios a tomarem armas 278. E a velha regra, formulada,
B a fazer guerra ao bando pes- havia muito, por Jeronymo
[tilento SoAKKS (Oramm., pag. 208):
(Cant. 3?, V. 26:i). «A lingua portugueza usado in-
Vejo os socios morrer. finito pessoal, quando o sujeito
do verbo infinito é diíferente do
(Cant. 4V, v. 50!)). do verbo finito, que determina
Bocage no Jardins do Castel : a linguagem infinita.» «Dizendo
Pura dar aos jardins mais linda em geral, o eminente philologo ba-
Observae... [fôrma hiano deixa ver que haexcepções
ií regra ; mas logo após as enu-
(1? canto). mera. Apezar da identidade dos
Sem de arte caprichosa as leis sujeitos, ensina o douto mestre,
J^'5s... \seguirdes seriípreferível oemprego do infi-
Flores pintae a superficieií terra. nito pessoal : «1? Quando a fôr-
(3? ca 11 to).u ma verbal regente estiver dis-
j| Diü,emfim,Ruy Barbosa nasua tante da forma regida»; ít2?
memorável Replica : «Antes de da forma o verbal
Quando infinitivo vier antes
me submetter lí prova da con- rege»; 3? Quandodefinita, que o
entre o verbo
trovérsia, em que me obriga a do modo definito e o infinitivo
entrar a consideração devida á houver alguma palavra, que
eminencia do mestre... convirií possa também ser sujeito d'este.n
que se veja em que moderados (Op. cit., pag. 378-9). «Ora, em
termos articulara eu a censura nenhum dos casos exceptuados
por elle rebatida, e quaes as au- cabe o texto do art. 073: «Não
ctoridades que a ella me anima- constituím direito autoral, para
ram. Tinha eu dito, na minha gozarem de garantia o^s escriptos
exposição preliminar: «Tomem os prohibidos por lei.» E idêntico o
dignos membros da commissão
o art. 073 : «Não constituem di- sujeito (escriptos) dos dous ver-
reito autoral, para gozarem de bos (constituem e gozarem) e a
forma verbal regente não está
garantia, os escriptos prohibi- longe da regida, o infinito não
dos^» A forma legitima seria; precede o finito, nem ás duas
«Nao constituem, para r/ozar.» orações se interpõe vocábulo,
Nada mais. E em nota, justifi- que possa dar ensejo a equivoco
cando-me, refie.xionara : «Quan- acerca do sujeito. Direito au-
175
INFINITO
toral não pocleda servir de su- o sr..TosÉ Vekissi.mo, acima de
jeito a yozarem.f! Bem se vê que todos 03 nossos grammaticos,
eu estribara a minha censura acredito que nenhum lhe faz
exclusivamen te numa regra firma- vantagem. Tive, em sua vida,
da pelo dr. Caiineiro. Mui de occasião de lhe mostrar o muito,
intento me referira nominalmen- que lhe (jueria, chamando-o es-
te a este grammatico respeitável. pontaneamente, sob a minha
Fôra elle o revisor do projecto. administração das finanças, a
Não se podia magoar, pois, de uma situação otHcial, que mino-
que eu, criticando á luz da sua rava ao homem de letras os em-
grammaticaa linguagem da sua baraços da vida, e desassombrava
revisão, lhe dissesse: Paterelegem, para os trabalhos do espirito o
quam ipse feeisti. O autor das eminente escriptor. Annos, mui-
Ligeiras observações d'este anno, tos annos antes d'isso, já da
porém, já não estava com o au- rainha competencia nestes as-
tor dos Serões Grammaticaes em sumptos algum apreço fazia elle,
1890. Lera, nesse comenos, ou- por sua vez, mais, muito mais
tros legisladores do vernáculo. que o merecido, consignando,
Meditara entrementes JuLto Ri- em 1884, como preciosidade, na
HEiuo, a quem faz a justiça de segunda edição da sua gram-
elogiar, e por elle soubera que matica, as breves palavras, com
Diez não pactua com a opinião que eu, em 1882, a gabara, c
deJEUONYMO SOAUES. Atirara, registando os meus applausos
pois, !Ís ortigas a sua cartilha cora este encarecido reconheci-
portugueza de ha doze annos, e mento : iiAcceitei grato os elo-
militava agora na ala dos adean- gios da imprensa brasileira: com
tados. Era direito seu, não lh'o os louvores dos competentes, de
nego. Mas então revidasse de Ruy Bakbosa, de Tiieopiiilo
outro modo ií minha impugna- Braga, do conselheiro Viale,
ção. Principiasse, confessando a e.\ultei.)i Dava-me, até, a honra
sua mudança de signa, declaran- de considerar a minha opi-
do francamente que variara de nião, tão succintamente enuncia-
parecer. Não averbasse de erro a da, como capaz de ser égide a
minha theoria, advogada e.xpres- um trabalho d'aquella altura e
samente íí sombra do seu nome, solidez: «Apresentoao publico»,
sem consignar primeiro que a dizia, «esta segunda edição de meu
erronia era d'elle, antes de ser livro, escudando-o com os louvo-
minha. E só do que eu me res dn tres liomens venerandos,
queixo: não de ficar sósinho; Ruy Bariíosa, o conselheiro Yia-
porque, afinal, ainda privado LE, André Lkfevre.» Para com
assim detão lustrosa companhia, essa memória, tão grata ás nos-
nãomedeslustraraaque me resta. sas letras, claro está, já se vê,
Ninguém terá em mais que eu a que não posso ter senão affecto
valia literaria de Jui.io Ribei- e respeito. Estava quasi dizendo
liO. Dado que o não alce, como gratidão. Dezoito annos antes
170
INFINITO
dos enxovalhos em que a gram- e quer á fina-força identiflcal-o
matica se compraz hoje de me com o el, Io, Ia hespanhol.n Por-
tisnar, lavrara o insigne gram- que nos não será, licito, logo, a
matlco, naquellas palavras, o nós também, pesar, neste assum-
meu desaggravo. Mas a sciencia pto, as opiniões do sábio Diez ?
moderna habituou-nos a conci- Não é para levar tão a desdem,
liar com o respeito a indepen- como faz Júlio Ribeiro, a cir-
dencia, Não cede lioje em dia a cumstancia de lhe ser avSsso o
convicção li auctoridade, quando consenso geral dos grammati-
a auctoridade lhe parece con- cos portuguezes. Custa a crêr
trariar a razão. No sentir do il- que uma centena de homens,
lustre grammatico, «para que se dados todos a especialidade,
ponha o verbo no infinito pes- não tivessem olhos, para en-
soal, ou no impessoal, 6 indif- xergar as tradições da língua, se
ferente que elle tenha, ou não, estas fossem inconciliáveis com
sujeito proprioi). Esta, observa a doutrina, que elles abraça-
JuLio líiiiEiRO, ué a doutrina vam. Se o de que se trata, é de
de F. Diez, deduzida dos factos, observar com acerto os factos da
positiva, simples, satisfactoria. linguagem, se este é o lemma
As regras cerebrinas, que na das idéas do nosso tempo na ma-
differença dos sujeitos baseiam téria, nenhum investigador, en-
Soares Barbosa, Sotero e cem tre nós, mas familiarizado com
outros, só servem para gorar in- o uso clasico, nenhum' oberva-
certeza no espirito de quem estu- dor mais perspicaz e miúdo,
da. Segundo taes regras, os es- nenhum analysta mais intelli-
criptos de Camões, de Fn. Luiz gente e escrupuloso das coisas
DE Sousa, de Vieira, de Her- do nosso idioma conheço eu que
cuiiANO estão inçados de er- Sotero nos Reis. Cingiu-se
ros ! ! In. Se a questão se hou- elle a repetir Jerontmo Soares?
vesse de estabelecer de auctori- Não. As paginas, que a este as-
dade, ninguém poderia hesitar sumpto dedicou, estão cheias de
entre o velho grammatico por- observações originaes e judicio-
tuguez e o grande philologo al- sas. Na influencia dos exemplos
lemão, cujos estudos renovaram latinos foi elle buscar a causa
a sciencia da linguagem. Mas da «pouca regularidade, que,
não éo propvio JuLio Ribeiro quanto ao emprego da proposi-
quem, discutindo a etymologia ção do infinito pessoal, se nota
dos artigos, argiie de,erro a sus- algumas vezes nos melhores au-
tentada por Diez »É singular», ctores, que de ordinário alten-
escreve elle, «que quasi todos diam mais á harmonia da phrase
os etymologistas tenham desacer- e & imitação do latim que:!Ís re-
taão a respeito da origem do ar- gras grammaticaes e ao funda-
tigo portuguez: Diez entende mento logico do dizer; pois o
que elle tem certa apparencia que pede em rigor a clareza, 6 o-
particular, quasi anti-romanica. emprego exclusivo da proposi-
177
INFINITO
ção do infinito pessoal, quando hoje, os Estudos da Lingua Por-
a proposiçiio infinitiva tem su- tugueza, ia pela mesma esteira :
jeito proprio, ou distincto do «Famoso lusitanismo é este de
sujeito da proposição por elle conjugar qualquer verbo por
modificada.» A liberdade prati- pessoas; o que outras nações não
cada em contrario pelos bons pódem fazer... Se é, pois, uma
auctores os expõe a obscuridades, belleza privativa da nossa lin-
a amphibologias, a dureza, que o gua, ponhamos cuidado em fa-
philologo maranhense de espaço zer bom uso dVlla ; reparemos
estuda o demonstra, evidencian- escrupulosamente nos casos, em
do, com especimens concluden- que a devemos empregar.» «E
tes da antiga escriptuni verna- facillimo», observa elle, «quan-
cula, como, a este respeito, «ern do a penna obedece á mão su-
geral os clássicos punham mais bordinada ao pensamento, não
o fito em arredondar o periodo attender á parto material, ií es-
que em guardar os preceitos da cripta, e trocar-se um por outro
boa lógica grammatical». No em- caso, um por outro infinito. Com
prego dii excepção concernente esta falta de cautela explicamos
ao caso particular em que se le- nós os exemplos defeituosos dos
gitima ai proposição do infinito clássicos. Cremos que, suppondo
pessoal, «naufragaram)), con ti ntía os clássicos sem defeitos, tomam
SOTEUO, «os melhores mestres a nuvem por Juno os que não
da lingua, prosadores e poetas, admittem nelles um erro qual-
todas as vezes que a proposição quer. Escreveram bem ; mas
infinitiva, com sujeito idêntico também erraram. Sabido é que
ao da proposição por ella modi- modernamente se tem prestado
ficada, se acha próxima ao su- valiosos serviços lí grammatica e
jeito e ainda ao verbo d'essa pro- vernaculidade da nossa lingua,
posição ; porque então patenteia- e que esses trabalhos tem ex-
se em toda a sua clareza a desne- purgado d'ella muitos defeitos
cessidade de tal emprego, que commettidos pelos clássicos. Jul-
fica como rebuçada, quando a gar que elles se não p.odiam en-
proposição infinitiva estií um ganar (í desconhecer a significa-
pouco distante d'aquelle sujeito ção do vocábulo, e conceder a
e verbo. D'este defeito não se esses ditosos antigos mais per-
eximiu o proprio Camões, que feição do que a nós outros, que
deve a todos os respeitos ser, depois chegámos. Glassieo é o
entre os mais abalizados, repu- que melhm- e mais primorosa-
tado o primeiro mestre do falar mente escreve numa certa épo-
portuguez ; pois disse com notá- ca ; mas, como aquelle melhor é
vel aspereza para os ouvidos da relativo a peior, forçosamente o
intelligencia: «E folgarás de vé- será também a muito melhor;
m a poli cia», em vez de «E folga- comparando-se a inferior, neces-
rás de ver.n Francisco Barata, sariamente se deve comparar a
num livrinho precioso, já raro superior.» Verdade é que os li-
DICC. GEAMM. 13
178
INFINITO
vros de Soteko, de Barata e dos 1888. Também são de agora
grammatioos por este apontados (1900 e 1901) as Lições Praticas
110 seu util opusculo tCm ap()s si de Cândido de Figueiredo,
já tres e quatro dezenas de an- que, entretanto, alli esposa de-
nos, em tempos nos quaes tudo claradamente o ensino de .Iero-
envelhece rapidamente, com o ny.mo Soares ; qualifica de «to-
progredir continuo das luzes lice» a construcção «Elles não
modernas. Mas são de hontem tinham força para responderem»,
as duas jrrammaticas de La- e firma o preceito de se usar o
MEiRA DE Andrade e Pacheco i-aünHo impessoal, «quando o su-
Júnior, estampadas uma em jeito da oração regente é o mesmo
1887, outra em 18!)4, e nellas que o da oração regida.n Figuei-
ambas se ensina que se conserva redo, .loÃo Kiiseiro, Augusto
impeswal o infinito, quando s^o Freire, Lambira de Andrade
idênticos os sujeitos da oração re;- e Pacheco .Júnior, escrevendo,
gente e da oração integrante. E com erudição notoria e notável,
de liontem (1804) a Qrammatica entre 1887 e 1901, não podiam
Portugueza de Augusto Freire, ignorar os trabalhos de Fried-
onde se assenta a mesma tlieo- RiCK Diez, cuja Grammatik der
ria : «A proposição circumstan Itomanischen tipraclien appare-
ciai infinitivavae para o iniinito ceu, em tres volumes successi-
pessoal, quando tem sujeito di- vos, de 183Cal844, estampando- «
nerso do da proposição por ella se-lhe aversão franceza, põr"'oiT(Te
modificada. Exemplo: «Por se- se conhece entre n()s,também em
rem os ventos contrários, não tres tomos, de 1874 a 1870. Con-
pôde o navio adeantar muito tando, pois, cerca de sessenta
aquelle dia.» Conserva-se, po- annos o livro original e bons
rém, no infinito impessoal, quan- vinte e sete a traduoção, devia
do o sujeito de ambas as proposi- ser familiar aos pliilologos bra-
ções, modificada e modificante, sileiros, que muito mais tarde
é o mesmo. Exemplo: «Sem estu- escreveram, e alguns dos quaes
dar, não aprendes.» A Qramma- cultivam aliteratura allemã. De-
tica Porlucjv.eza, emfim, de Jo.ío pois, .Túlio Riueiro dera o re-
Riiíeiro é de hoje. Quatorze an- bate da theoria germanica desde
nos ha que, na sua segunda edi- 1881, ua primeira edição da sua
ção, se lia esta regra: «Empre- Qrammatica Portugueza. Se a pe-
ga-se o infinito pessoal, quando dra de escandalo, nesta syntaxe,
tem um sujeito differente do do outro consiste em ir de encontro á
nerbo: Admiro-me de grifares exemplos clássicos, d'essa incre-
com tamanha força.» Pois bem ; pação não se livra o regimento
os tres lustros de então a esta grammatical promulgado por
parte decorridos não o demove- I)iEz e JuLio Riiíeiro. Uma de
ram d'este pensar. A décima edi- suas regras prescreve o impessoal.
ção, impressa o anno passado, «quando o verbo do infinito não
reproduz literalmente a lição do pôde eximir-se da dependencia
17í)
INFINITO
em que está para com o verbo tra a regrad'esseauctor, aquelles
principal» ; o que, prosegue o clássicos empregaram, nas ora-
nosso grammatico «acontece es- ções regidas por esses verbos, o
pecialmente com os verbos que infinitivo pessoal. Se todos os
exprimem virtualidades, voli- Jactos da linguagem são indis-
ções de espirito, taes como 730- cutíveis, se todos os usos clás-
ãer, saber, desejar, intentar, pre- sicos são absvjlutos e. soberanos,
tender, querer.Ora, os clássicos como, contra esses e innumeros
não raro usaram, nesses casos, o outros exemplos de alto classí-
infinitivo pessoal. Provas : aOon- cismo, nos formula Diez, para
tentaram-sezomacharem algumas aquelles casos, a regra do infi-
jarras de mantimento.n (Sousa : nito impessoal ? Não c tudo. Ain-
Ajinaes, p. 79.) «Assentaram cor- da a outros respeitos não trepida
rerem ambos a Arzilla.» (Ib., o philologo allemão, na theoria
p. 185.) «Acceitaram conforme- do infinito pessoal e impessoal,
men te comeram».» (Sousa.: Vida em contrariar com as suas for-
do Arceb., I. III, o. 2.) «Os mulas a pratica dos antigos mo-
quaes assentaram de matarem delos portuguezes. O topico,
Abdear Rahmão.» (Góes: D. onde o auctorallemão auctoriza,
Emanuel, p. II, c. 17, f. 100 v.) com o canon depois adoptado
«Que não sómeute ousados se porJui.io Ribeiro, o uso do in-
contentam finito pessoal, tenha elle sujeito
Dc snffrerem da terra firme os proprio, ou não, reza assim, na
daniuos.» trasladação franceza : «11 est
(Camões: XMS. X, 91.) inditrérent que cet infinitif
«Os que; tem algüa Índole, e ait son sujet propre ou non.
Exemples oü le sujet n'appar-
se presam de serem verdadeiros tient qu'ã Tinfinitif: tempo he de
filhos de seus paes.» (Amadoií partires (c. ã d. tempo he que tu
Arrabs: Dialog., o. 15, p. 42.) partas, tempus est hinc te ahire) ;
«O pouco gosto que tinham de se Deus te desembarace
acharem nesta junta.» (Sousa: te remediares (para oquejuizo para
te reme-
Vida do Are., C. II, c. 5.) vJul- dies) ; basta sermos dominantes
gam obra pia fazerem de menti- (que somos d.); não me espanto
ras religião.» (A IIeucui^ano :
Solemnia Verba, carta l'', p. 18.) falardes tão ousadamente (de que
Contentar-se (querer), assentar tes (que viu nascerem
falaes) ;
.
duas fon-
E.xemples oü
(resolver), acceitar (quere^r) ter le sujet est commun aux deiix
í/osto (desejar), julgar (saber, verbes : niio has vergonha de ga-
pretender) são verbos correspon- nhares tua
dentes aos indicados exempli- que ganhas)vida tão torpemente (de
; todos são alegres por
ficativãmente na enumeração de terem paz (porque
JuLio Ribeiro, e e.xprimem, to- podeis achar semtem) ; este não
me matardes
dos elles, «voliçOcs e virtualida- (sem que me mataes).« Quatro
des moraesa. Não obstante, con- linhas, porém, adeante observa
180
INFINITO — INBMXO
Diez: dSi rinfinitit dúpendtVau- sóem fazerem-se, os indicativos
xiliaires de mode, il nu se con- sóem, tentaram, costumavam são
jugue \)ü%: puãeates ouvir, sabes portanto, auxiliares de modo, na
dar, q%ieres crerO preceito <5, a phraseologia COn sagr a da por
meu parecer, verdadeiro ; por- Diez ; e, sem embargo, os infi-
que o bom senso e o ouvido n3o nitos que elles regem, assumi-
tolerariam lioje um pudestes ou- ram, contra o canon do philo-
virei, um sabes dares, um queres logo allemão, a forma pessoal.
creres. Mas a tradição antiga lhe Logo, de duas uma : Ou é ver-
oppoe embargos ; porque não dadeiro o critério, em que Dikz
faltam, entre os velhos mestres, assenta a sua primeira lei, o seu
solemnes exemplos do infinito principio geral sobre a conjuga-
conjugado nesses casos. BARnos ção do infinito portuguez;e,
redigiu : nEm todas aquellas nesse caso, falsa é a segunda re-
partes orlentaes costumavam os gra, concernente a elle, quando
pais e mães venderem os filhos.» regido por auxiliares de modo.
(Dec. 111, VI, 2, p. 17). E nou- Ou, se esta regra se sustenta,
tro logar: ^.Tentaram difamarem bem que contrariada por aquelle
de mim, para indignarem V. critério, isto é, bem que note de
Alteza.» (Ap. dr. Cakneiuo, erro a padrões clássicos da mais
Grammat., p. 280). Bernakdim eminente origem, então vacilla
Ribeiro : «Não soem ellas faze- pelos seus fundamentos o prin-
rem-se de balde.» (Menina e Mo- cipio geral do phiiologo allemão,
ça, p. 35). Azdrara; « Não po- abraçado por .Tüi.io Ribeiro. O
dem serem em um accordo.» (D. direito de que usa UiEZ, rejei-
João I, c. 5). Ainda no século tando, para firmar a ultima re-
XIX, escrevia Filikto Elysio ; gra, exemplos dos melhores mes-
« Vinliamv\\ossentarem-se.1^ (Obr. tres, porque o não teria a critica,
V. I, p. 00). Em nenhum d'esses allumiada pela razão, para con-
exemplos a clausula do infinito testar os outros, a que ella ar-
pôde eximir-se á subordinação rima a segunda? Jií se vO que a
para com o verbo principal me- escola do grande sábio allemão
diante o processo indicado por não está, neste particular, de
Diez, convertendo-se numa clau- accôrdo comsigo mesma ; por-
sula do indicativo, ou do sub- quanto ora dogmatiza o uso an-
junctivo, como se poderia nest' tigo, para admittir o infinito
outros: apensam haverem» (Leal pessoal, ora, para o condemnar,
Coris., p. 89) ; amostram seremn não hesita em ferir o uso an-
(ib., 193) ; upensam seremn (ib., tigo.» Encontrar-se-á ainda al-
210) ; «pensemos sermos» (ib., guma explanação do assuinpto
299); ^determinam não quererem» na palavra Pessoal d'este livro.
(Liv. da HJnsinança, p. 009); «não
soffrem serem» (Ferreira : Oér., liiíixo.— Nome, por analo-
v. II, p. 52.) Em costumavam gia dos de prefixo e sujjixo, dado
venderem,, tentaram difamarem, e a qualquer elemento morphico
181
INB^IXO - - INGLEZ
'ntercaliido no vocábulo; taes, how-Une (dobra, caibro) Corda, t.
por exemplo, os pronomes oblí- de marinha. Box—socco, punha-
quos no futuro: amar-í«-á, dir- da. Break—carruagem; to break
Ihe-ci. Também se tem applicado guiar um cavallo. BuU-dog—(tou-
o (lesignativo infixo para quaes- ro cSo), especie de cão. Cheque ou
quer intercalaçôes euphonicas xeque—de origem arabe, bilhete
entre o ihema da palavra e o suf- monetário. Clipper— especie de
fixo. Ex.: homem-zarr-ão; moc- embarcação. Clown—palhaço de
«í-ona ; ílôr-z-inha. Essas inter- circo. Cluh—reunião, associação.
calaçôes não tÊm dentro da lín- Ooke—variedade de carvão. Gotta-
gua etymologia averiguada e ex- ge—habitação campestre. Contra-
plicam-se como ampliações eu- dança—country-danoe, dança dp
phonicas. (1) paiz (eountry, der. de contrée).
Chalupa — sloop, embarcação.
Inflexão.— E mais usada a Coic-pox— ('coííjVacca), vaccina.
denominação Flexão. Vide esta Croup ou Crup — moléstia, do
palavra. gaélico crupadh, contracção.
Iiiglez.— Lingua moderna Gutter—pequeno navio de guer-
do grupo teutonico, derivada do ra. Dandy—elegante, (petit-maU
anglo-saxonio, inglez antigo, e tre). Doca—de dock, bacia, porto.
cheia de milhares de vocábulos Dollar—moeda norte-americana.
latinos introduzidos,ap(5s a con- Drenagem, der. de drain—canal
quista normanda. A iníluencia subterrâneo. Drolatico, der. de
da grande civilização e do pro- droU ^comico, engraçado. Eseo-
gresso do povo inglez é que se tilha— dfi scuttle. Expresso— de
deve a multidão de termos que express, correio, trem de rapida
circulam nas linguas romanas, carreira. Fasldon e fashionable—
sem contar o innumeravel voca- da moda (deriv. do íí.façon).
bulário marítimo, militar e com- PUnt-glass—especie de crystal.
mercial, só melhor apreciado Qallão, gallon — medida de lí-
Iielos indivíduos que de perto quidos. Oentleman— gentil-ho-
testemunham toda a especie de mem. Oin—genebra. Qrofj—be-
relações internacionaes do glo- bida. Qroom—lacaio, cocheiro.
bo. Do vocabularío inglez temos, Ourupés—de bo^o-sprit: Inclinado
entre muitos outros, os seguin- mastro, t. de marinha. Iligh-life—
tes vocábulos: Bdby=h&hé, cri- alta vida, fldalguía (ijrand mon-
ança. Banknote=^nota, do banco. de) .llurrah !—viva! Income-tax—
Bill—projecto de lei parlamen- imposto sobre a renda. Jarãa—
tar (Hllet, fr.). Boch—porção de yard, medida linear. Joekey—do
cerveja. Chope, fr. Botina, de fr. Jaquet, o que monta o cavallo
de corridas. Jury, jurado—do
(1) Entretanto póde-se admH- ií.jurée. Keepsake guardar;
tir a hypothese de especimens pre- sake, amizade), livro de luxo
existentes : homeinzarro, moceta, de para lembranças. Lady e milady
que em verdade não lia exemplos. —senhora. Lord e milord—se-
182
INGLEZ - INTER
iihor. LuncJi—collação. Meeting Inicial.— Letra que começa
—comício populd.r na i^raça. o vocábulo. Regra; Em portu-
Miss—senhora clonzella, demoi- guez a consoante inicial representa
selle, fr. Mistress, der. de maí- a inicial latina inalterada: pé, pe-
tresse—senhora da casa; Senho- íí«to; mesa, mensam; boca, huc-
ra, entre a burguezia. Paquete— cam; gosto, guatum; lagoa, lacu-
packet-boat (navio correio). Pam- nam. As excepções são raras e
phleto — de pamphlet; (segundo suo quasi exclusivamente das
Pegges deriva do U.palme feuillet) permutas c g (gato. eattum) e b
Penny e filural pence—moeda. r, bodas, porvodas (votum).
Pick-pocket (pick, roubar; pocket,
bolso)—ladrão gatuno. Poney— Iiiteffraiite. — Segundo o
pequeno cavallo irlandez. Pu- antigo s}'stema de analyse, inte-
dim—pudding, bolo. Quaker, der. grante á a proposição não prin-
de to quake, tremer, membro de cipal, que completa o sentido da
certa seita religiosa. Itail—rail- outra: Peço-te que escrevas. A
way, estrada de ferro, trilhos. sua ambição é estudar a medi-
Iteporter—narrador, noticiarista. cina.
lledingote, de riding-eoat—paletot Intensiva.—« A negação in-
para montaria. Revólver, arma tensiva é resultante do principio
de fogo. Rosbife, roast-beel'—tos- conservador a que se chama em-
tada carne, carne assada. Rhum phase. O processo consiste em
ou rum, cachaça de assucar. San- substituir a idéa pela figura; esta
dicicJi—iguaria. Shilling, moeda, por fim se perde, ficando a
chilim. Spleen—^moIestia, gr. splén, expressão não mais figurada,
baço. Sport, sportivo—diverti- mas abstracta. Exemplo temos
mento, desporto. Steam, steamer, em patife, que significava ria-
steam boat—embarcação. Stee- chozinho;-amlesma é o molleirão;
corrida á cavallo com um camelo, o estúpido ; não va-
obstáculos e barreiras, etc. Sto- ler uma castanha é estar de todo
ck—quantidade de mercadorias desvalorizado; e neste processo
que ficam em disposição. 'Pen- — que é latino—empregam-se
der, o primeiro carro proximo !Í muitos substantivos (pingo, fu-
locomotiva, para deposito de car- mo, mica, ponta, gota, boia, pata-
vão. Toast—brinde. rea- «iíta.. Muitas vezes repete-se
lista conservador inglez. Tram- a negativa para seu maior re-
ícay—caminho de ferro urbano. forço:—nem eira, nem beira, nem
'Punnel—passagem subterranea. ramo de figueira, v (Pach. .Tu-
Turf—terreno onde se realizam nior).
corridas. iraícr'-cZoí«í--(agua-ga-
binete). Whig—liberal; opposto Inter, prefixo latino.—Indi-
a tory. Whist — especie de jogo. ca posição entre dous objectos :
Taclit — hiate; do hollandezjrt- intervir. Usam-se as fi5rmas intro
cMen, apressar-se; navio veleiro. (para dentro) introduzir, e a ver-
183
INTER — INTERJEIÇÃO
nacula entre : entreter, entremet- interjeições como oJi !ali! foram-
ter-se. se aggregando outros nomes e
liitercalaçSo.—Uma das so- phrases ellipticas, imperativas ou
luções do hiato latino pela intus- precativas de uso geral na lín-
cepção nas fôrmas portuguezas gua. As interjeições classificam-
de letra euphonica. Quasi sem- se conforme os sentimentos ou
pre resulta da intercalação acon- idéas que exprimem. São inter-
stituição dos dous grupos Ih e jeições : oli! ah! eli! oi! ui '
nh, que mais parecem sons sim- hein ! hum ! alin ! sik ! cJiiton !
ples: meliorem, melhor; valeo, psio ! olá! oU! hip ! viva! liur-
valho ; Jjalneum, banho ; vineani, raíi ! fúra ! caluda ! péo ! tá !
vinha ; venho, venio, etc. paft ! hum ! bravo ! diacho ! Ora
Interfereiicla.—Conjuncto bolas ! sus .'Quanto íl etymologia,
de leis parciaes que interceptam, as principaes e fundamentaessão
latinas: a/t ! oli ! hein ! ui ! Essas
annullam ou modificam a acçíio parecem ser de caracter univer-
das leis geraes na evolução das
linguas. Para alguns phiíologos sal, ao menos entre os povos das
linguas aryanas. As interjeições
que só admittem como lei geral são
— o principio de decomposição o\x mos iniiumeraveis, se attender-
ao grande numero de vozes
estrago, tudo o mais que se op- usadas pelos mercadores e ven-
pOe a essa força tem o nome de
princípios interferentes. Segundo dilhões
empregadas
ambulantes e ás vozes
para com os ani-
as doutrinas expostas na minha maes : ska, sslcá (para os cães),
Gramin. (3? anno), deve-se es- sape! (para os gaios),
tabelecer como interferentes to- (para as cabras), além de bit! bit
gritos e
das as forças que não concorrem articulações e outros ruidos
como fac tores de reconstrucção e de não são representaveis pela que es-
decomposição; taes, por exemplo, cripta. A interjeição .' !iur-
a analogia verdadeira ou falsa, a raU! é ingleza. Algumas foram
intrusão disciplinar dos eruditos, tomadas evidentemente do fran-
todas as formas da euphonia, at- cez : puií ! (pouah), brouhalia
tracção, assimilação, etc. Assim, (ruido das sêdas), ran-tan-plan,!
por exemplo, requer (ao exemplo
de qiíer) em vez de requere, que pif-paft, vlan ! etc. São gallicis-
é a forma d'este verbo, sempre mos pouco acceitaveis. Do ita-
liano são: bravo !presto ! dacapo !
regular em todos os demais tem- etc. A interjeição JJé! parece ser
pos. um brasileirismo e dizem ser
Interjeição.— Categoria de própria das linguas africanas. O
vocábulos que exprimem movi- certo é que existe no francez sob
mentos súbitos da alma. A inter- a ftírma ouais ! um designativo
jeição, na linguagem, representa de surpreza ou admiração. (1)
o grito animal, e antes do que
conceito, exprime a sensação (1) Stappers — Dict. itymolorj.
pura. Noemtanlo, lís verdadeiras 513.
184
INTERJEIÇÃO — ITALIANA
Algumas interjeições represen- Irregular.— Diz-se de qual-
tam apenas ellipses ousadas de quer facto que se não submette
Ijhrasese de trechos de vocábulo : ás regras ordinarias. Todas as
pdo (chapéo ! tire o chapéo I 7iat8 excepções constituem irregula-
off, no inglez), etc. || Recente- ridades. Verbos irregulares são
mente Wundt e Ravlzza nas suas os que se não conjugam contor:
Psyclwlofjias da linguagem consi- me os paradigmas ou modelos :
deram interjectivas todas asphra- amar, defender, punir. Da classe
zes admirativas, os nomes em dos irregulares daremos uma ta-
vocativo, etc. boa, em appendice a este livro.
Iiiterroffativo. — Sobre a Isos, igual.—Elemento grego
syntaxe (ioque nas interrogações, de composição. Isochrono, de
vide o art. Que. Interrogativa tempos iguaes. Isothermico, de
chama-se também a proposição temperatura igual.
equivalente a uma pergunta; Italiana (lingua). — Veja
V. gr.; Que horas são ? quando vi- também Italianismos. B uma das
rás? Interrogalivas denominam- linguas romanas, e é falada hoje
se as palavras que de ordinário na península da Italia. Primiti-
funccionam nas proposições in- vamente existiram vários idiomas
terrogativas; que f quanto ? qual ? na península : o gaulez, o ora-
porque f 'como? quem? quaes ? A briano, o sambelliano, o volsco,
interrogação, no emtanto.é mais o etrusco, que todos foram gra-
um caracter proprio da intenção dualmente desapparecendo di-
do que da simples noção ou vo- ante do latim, pela preponde-
cábulo. rância do povo romano. O la-
Intraiisitivo.— Vide Verho. tim tornou-se a língua geral da
península. O grego desde a mais
Invariavei.s. — São as pa- alta antigüidade influiu no sul
lavras que não possuem flexão ; da Italia e ainda hoje ha nume-
o advérbio, a preposição, a con- rosos vestígios da linguagem
juncção e a interjeição. Em par- grega. (1) Depois do domínio
ticular, diz-se de qualquer vo- romano, nota-se a invasão dos
cábulo que pôde ser invariavel, germanos pelo norte, dos byzan-
quanto ao genero, ao numero, tinos no sul, e a dos arabes do
etc. Assim os adj. commwOT, . século IX em diante. Esporadi-
forme, constante, são invariaveis camente, irromperam migrações
quanto ao genero, por isso que de sarmatas, búlgaros, etc., mas
não possuem flexão especial para inconte.stavelmente, depois do
o feminino. latim, a influencia de maior peso
Inversa, ordem.—Vide Or- cmais a germanica. O italiano é a
próxima ao latim, das lin-
dem.
Iraniano ou pérsico.—Vide (1) Coraparetti—Dei dialctti tjre-
Aiiaticismo. ci delVItalia, 1886.
185
ITALIANA — ITALIANISMOS
guas romanas. A linguagem vul- risticos ; S impuro =is, istella,is-
gar conhecida por vários apijel- peãire, etc.; S etymologico, duos,
lidos, lingua vulgaris (Dante), virtudes, corptis, etc.; T etymolo-
latini volrjare (Boccacio), lingua gico, amant, finit, etc. (1). O ge-
italica (Isidoro), lengatge lomhani novez marca a transição entre os
(cyclo provençalesco), jií appa- dialectos do sul e do norte. Na
rece usada desde o século X. Os alta Italia, os dialectos mais co-
textos authenticos datam do sé- nhecidos são o veneziano, o mi-
culo XII, inscripções, vei'sos ly- lanez e piemontez. Um dos fa-
ricos de Gherardo e Aldrnvaudo. ctos que mais individualizam o
(1) O primeiro grammatico ita- veneziano é a prosodia z por g :
liano foi Pietro Bembo, cuja zente, gente; zorno, giorno. O mi-
obra,Prose,foi publicada em 1525, lanez evita os hiatos huon —
muitos annos depois de escripta. buono. O u tem a pronuncia do
O italiano antigo differe pouco M francez ou il allemão. O dia-
do moderno, porque se tornou lecto piemontez também segue
desde cedo uma lingua litera- as mesmas leis do vocalismo do
ria, disciplinada pela obra gi- dialecto de Milão. O Z transfor-
gantesca de Dante no XIII sé- ma-se em íS, facto característico
culo. Os djalectos na Italia são do dialecto: plaasa—piazza. Aqui
numerosíssimos. O napolitano não podemos dar a estes factos
ao sul distingue-se por varias maior desenvolvimento. (2)
permutas : Italiaiiismos. — A influen-
chi=pi cliiu — piií cia do italiano tem duas épocas
ghi=hi ghiunno — bioudo notáveis. A primeira, dos sécu-
hiato ie ãiente los XIV e XV, notiflcou-se pela
—. uo puorco (2) intrusão dos vocábulos da arte
O dialeclo siciliano evita ordi- nautica, que muito florescera
nariamente o hiato : entre os genovezes : taes são os
mei —miei termos jukirento, caravela, sota-
core —cuore vento, etc. A segunda época é
11— dd camddu—cavallo comprovada iiela imitação clas-
<}uéda do K urpi --volpe,etc. sica dos poetas e escriptores ita-
O calahrez representa formas lianos do periodo da renascença.
intermediárias entre o siciliano e Além d'eslas duas phases capi-
o napolitano. O dialecto saído taes, convém notar que muitos
de Logoduro tem vários caracte- vocábulos foram tirados do italia-
{V)31em.da Ac., de Turim, vol. (1) Diez, op. cit.; Aseoli, id.; G.
XX111, 1886. Spauo, Ortogr. sardá, 1840.
(2) Coiis.—Aseoli—Arch. glott. e (2) Diez, op. cit., 1. 7S; e Arehi-
F. \A''entru)i: BcUracqe zur K. der vio ylott. Sobre o antigo milancz,
neapol.Mtindart; cf.Arch. fürncue- ha um estudo de Jlussafiá (J/cm.
rc Sprachen, XXV; apud Diez, -Ic. Vienna, LIX, 1868 ) — Vide
Gramm. 1,76 (trad. fr.) Jlem. Ac. delia Crasca, var. fase.
18tí
OS — lU, 10
no no século XIX : terra-eot- o termo piano, derivado de
ta, etc. São italianismos os vo- nus, tí italiano e obedeceu ao pro"
cábulos seguintes: alarma (al- cesso phonetico d'essa lingua.
Tarme), alerta {».\Vexta.),arlequim, Outro exemplo é piastra. Na
carnaval, charlatão, balcão, halaus- orthographia dos italianismos não
tre, catafalco, altitude, aquarella se tem seguido systema algum ;
sepia, guaelie, fresco (%. de pintu- ora as palavras tomam o caracter
ra), borrasca, hussola, baijatella, vernáculo : policlánello (pulcinel-
Jiarpejo, aria, soprano, tenor, ada- la), medalha (medaglia), ora con-
gio, cantabile, etc. Entre os ita- servam a ortliographia etymolo-
lianismos ha alguns notáveis, co- gica : villeggiatura, dilettante, etc.
mo alVarme (i?s armas 1), o com- Notemos ainda os italianismos
posto anspeçaãa, de landa spezza- curiosos: calamina, de gialla
ta. lança quebrada. O termo al- mina, mina amarella; capote, ter-
titude, só empregado nas bellas mo de jogo, de origem desconhe-
artes, eqüivale ao vernáculo a- cida ; madonna, composto de ma
ptidão. O tMmobalcão, de origem donna, minha senhora ; esta mes-
germanica, representa o caso ma forma con tractadeu as formas
oblíquo da forma latina medie- mona e mono. AlVerta, ao alto 1
val palconem ; o nominativo palco Solfejo como solfa são derivados
deu palco. A palavra banco, com das duas notas musicaes : sol.fa.
o- significado de deposito de ca- O vocábulo tramontana é um ad-
pitaes pecuniaiios, é italiana. jectivo feminino, e refere-se a
A forma originaria banca appare- stella. Stella tramontana—entr&Wix
ce em bancarota. Os italianismos d'além dos montes, estrella do
cicerone, concerto (musical), con- Norte, para os genovezes. Popeli-
ãottieri, lazzarone, fanfreluclie, na, panno que, segundo Delatre,
fiasco, são relativamente moder- se usava para a vestimenta dos
nos e provavelmente vieram pelo papas (Papalina); outros a deri-
francez. Pela sufflxação em etto, vam de pa,pel.
etta, ficiim caracterizados muitos
italianismos: guartetto, soneto, la- lu ou io, diphthongo e hiato.
zareto, opereta, gazeta, etc. Outro — Como diphthongo é ílexão ca-
sufflxo freqüentemente obser- racterística de verbos da con-
vado nos italianismos é o dimi- jugação na 3'.' pessoa do pret.
nutivo ello : ritornello, policlánello, perfeito : viu, vidit (por analogia
violoneello, etc. Algumas vezes é da fôrmaí)í(?í«í, viu, do pret. em
possível, sem o soccorro da his- ui da2'?ccnj. regular). Como hia-
toria, determinar a origem italia- to, em geral, resulta de syncope
na de alguns vocábulos, atten- de consoante: rio, ri-v-um. A gra-
dendo apenas aos processos pho- phia iu não pode ser usada senão
neticos. Sabe-se, v. gr., que o gru- na desinencia dos vocábulos, e é
po latino pl transforma-se em pi uma singularidade orthographica
regularmente, no italiano : plu- Iiorque eu, ou e au são sempre pre-
Dia, pioggia. I)'ahí se segue que feridos na escripta nas syllabas
187
lU, 10 K
iniciaes e médias a ao, eo, que Nesse caso ha ellipse de formas
só se empregam na terminação, grammaticaes que a analyse des-
e nem sempre. cobre. Juízo é o sentido expresso
pela proposição. O juizo é um
J acto interno, um estado comple-
to de consciência que pode ser
J. — Tem sempre o mesmo expresso ou não. Uma vez exiires-
valor, que é igual ao do g antes so, a palavra ou reunião de pala-
de e e i; não se emprega nunca vras que o traduzem, chama-se
antes de i, na orthographlausual. proposição. O juizo contém sem-
II (Letra latina). O J e o i (iota) pre dous termos elementares : a)
nas línguas occidentaes até o sec. uma cousaacerca da qual se pen-
XIII e XIV nílo se distinguiam, sa (sujeito); b) o que se diz d'essa
e usavam-se promiscuamente co- cousa (predicado). Vide Projwfíi-
mo o M e o ®, com idêntico va- ção.
lor prosodico. Mais tarde é que Jimcção. — Vide Zeugma.
houve necessidade de estabelecer Juxtaposlção. — Caracter
para os sonsconsonantaes os sym- das palavras compostas cujos ele-
bolos j e V, o, para os vogaes i e u. mentos não estão perfeitamente
Para isso modificaram a fôrma fundidos, e são conheciveis ao
rectilinea do V para a curvilinea primeiro exame ; beija-flor (1).
do U e modificaram levemente Em geral, sem que haja regra
o I em / para assignalar os casos absoluta, os juxtapostos orthogra-
da prosódia i e os de O latino pham-se, fazendo-se a separação^
ícuj? conserva o valor originá- dos elementos componentes com
rio : Julho, de Julium; maior ou um traço ou hyphen : porta-car-
major, de majorem. — ,T (portu- tões ; vira-voUa ; gyra-sol ; lamhe-
guez). Deriva de I ou J, lágo, Ja- j)ratos; corta-pennat; lusco-fusco
cob, /acoJwm. Por influencia (tal- sargento-mór ; meilico-cirurgico ;
vez do írancez) de g': jalde, de
í/albinum (fr. jaune). De sz, ce- psyeho-physiologico; deeimo-tercei-
ro ; zig-zag; jmpa-arroz; ]vga-
reja, cerasum. O hiato 7tia, Ide de pinto.
ordinário resolve-se em j, Hya-
cintho e Jacintlio; Hieronymo K
e Jeronymo ; e Hierusalem e Je-
rusalem. K,— Letra que os romanos
Juízo. — Reunião de pala- tomaram dos gregos. Na lingua
vras coordenadas de modo a pro-
duzir um sentido completo. Co- (1) Alguns phiiologos coiisUleraiu
mo ojuizo é um facto puramen- juxtapostos os proprios vocábulos
te psycliico, pouco importa con- cujos elementos se agglutinaram e
apenas se revelam pela etymologia
siderar o numero de vocábulos, e (condestavel — comes stabuH), pun-
o juizo pode ser expresso por um donor, puu d'onor (point (fhou'
simples termo; v. gr., Voltae f 7l€U7').
188
K — L
liortugueza ú apenas usada na coberto; grande arvore da Aus-
transcripçílo de palavras estran- tralia.
geiras : Icangurú,kermesse, knout, Kogché (pron. koncliê, con-
Iciosque, kepi, Jcysto, Jcyrie, khe- cha). — Elemento grego. Con-
dita, etc. O Icappa grego 6 sem- chyologia, sciencia das conchas.
pre transcripto por c, e apenas Concha.
por k em kaleidoocopio, que tam-
bém se orthographa: caleidoseopio. Koptõ, eu córto.— Elemento
O k que se nota no elemento kilo, grego de composição. Syncope,
da nomenclatura do systema córte no meio. Apocope, corte no
métrico, está por ch: kilometro, fim.
por chiliometro. || Quasi não tem Kosmos, mundo. — Ele-
mais uso esta letra, que Júlio Ri- mento grego de composição. Cos-
beiro queria adoptada, de pre- mogonia, geração universal. Gos-
ferencia,na orthographia dos no- mopolita, cidadão do mundo.
mes gregos que trazem na escri- Cosm-orama, vistas do mundo,
pta commum o c7i: monarkhia, etc.
arkhaismo, etc. Kratos, poder. — Elemento
Kaio, kaiõ, eu queimo. — grego de composição. Antócrata,
Elemento grego de composição. rei absoluto. 'Theocracia, governo
Cáustico, holocausto, cauterio, etc. divino. Bureaucraeia, etc.
Kakos, máo. — Elemento Kriiptos, occulto. — Ele-
grego de composição. Oacopho- mento grego. Orypta, gruta, ylpo-
nia, máo soido. Cachexia, máo cryplio, cryptogama, etc.
estado. Cacograpliia, etc. Kiiiios, cão— Elemento gre-
Kallos,bello,bom.—Kal-eido- go. üynegetico, relativo á caça.
scopo. visão de bellas imagens. Cynico.
Calomelanos, calligraplàa, etc. Kuklos, cyclo.— Elemento
Karrtia, coração.—Elemento grego, üycl-ope, que tinha um
grego de composição. Pericardio, olho redondo na testa (mj thol.)
ao redor do coração (membra- Ilemicyelo, encyclia, hicyclia ou
na). CarãiaUjia, dôr no coração. Mcycleta (do fr.).
Keplialé,cabeça.—Elemento L,
grego de composição. Acephalo,
sem cabeça. Ènceplialo, interior Li.—Sempre tem o mesmo va-
da cabeça. Gynocephalo, cabeça lor sonico,(jue varia, comtudo,no
de cão (especie de macaco). grupo Ih. E letra muito eupho-
Klepteili, occultar. — Ele- nica, e por isso ás vezes substi-
mento grego de composição. Apo- tue o r : amal-o, por amar-o. ||
calypse (des-occultação), revela- (Letra latina). Em geral persiste
ção. ülepsidra,occ\i\ta, ou guarda como inicial: lan, logro,
agua (relogio). Eucalyptus, bem lucrum. A quéda da inicial ou
189
L —LATIM
apherese explica-se por se ter bios. São : p, labial forte ; b, la-
talvez supposto a presença do bial branda; m, labial nasal. A
artigo Io : onça, de lonta, lyncem; vogai u também se produz com
azul, de lazuerd (pérsico (1). O l movimento dos lábios e por isso
médio conserva-se ou cueimalum, diz-se vogai labial. Na degenera-
máo; gelare, gelar e gear; aqui- ção do latim nota-se a transfor-
lonem, aquilão e aguiito; aííuZarí, mação por abrandamento da sur-
adular; besta, A&ballistam. Trans- da para a sonora b: capitalem,
forma-se raras vezes na liquida cabedal; capére (por cápere), ca-
r; lirio, lilium; comoro, cumu- ber. Por analogia de homorga-
lum; essa transformação era na nicas, o p pôde dissolver-se na
lingua antiga freqüente nos gru- vogai u : Septam, Ceuta; arch.
pos el, fl, pl (emprir, frór, cre- bautismo, de baptisimim.
meneia), etc. A nasalidade tem Labio-nasal. — Designação
exemplos em nivel, ZiJíKam; mor- dada á consoante m, que é labial
tandade, mortalitatem. Exemplos e nasal ao mesmo tempo. Como
de degeneração sSo rarissimos, nasal pode transformar-se em n:
1—d : laxare, deixar: scalam, es- ant. nembrar, por membrar, lem-
cada (talvez de scaladam, e dei- brar, memorari; nespera, üemea-
xar, de delaxare). A metathese do pylla. Como labial, as suas ho-
l 6 freqüente : popuhim, choupo morganicas são p e b: ant. dapno,
(de ploniim); pairar, de parlare; por damno; combro, por cómoro;
espalda, de spatulam. O vocalis- hombro, de liumeriis.
mo do l representa a dissoluçito
dos grupos U, Ic : outeiro, alta- Ladino.— Corrupção de la-
rium; outro, alterum; couce, cal- tino, latinus. Nos antigos textos
cem.— L (letra portugueza). Pro- medievaes occorrem expressões
vém do Hatino, sobretudo ini- como : linguagem ladino, falar
cial : lua, lunam. De n e m, ori- ladino, lingua ladina. Designa o
gens raras : alma, animan ; lem- romance ou lingua anterior si
brar, memorari. De origem (itam- disciplina classica.
bém ha pouquíssimos exemplos; Liambdacismo.— Pronun-
julgar, jiidicare. cia viciosa do l, cujo nome é
Labein, lambanoin, tomar. lambda no grego. Os selvagens
—El grego. Fôrmas : leps, lábio, tupi-guaranis não possuiam o l
lêmma. Catalepsia, doença. Di- e substituiam-no por r : cabaru,
lemma. Syllaba. Astrolabio. Syl- cavallo. E diz-se ralo, em vez de
lepse. raro; e, pelo mesmo principio,
Labiaes.— Consoantes pro- lirio, por lilio (lilium).
duzidas com o concurso dos la- Latim. — O umbrio-sabel-
liano e o latim por suas afflni-
(1) O píieuomeno contrario tam- dades constituem um grupo itá-
bém tem exemplos : loba, de 1'aubc, lico de origem commum, viüinlio
alba; lêste, Teste, de este. do celtico na opinião de Schlei.
190
LA'
cher, f no conceito de outros é em caracteres vulgares : «Jovei
•eminentes pliilologos mais pro- Sat deivos qoi med mitat, nei ted
ximo do grego. Na historia do endo cosmis vireo sied, asted noisi
latim notam-se claramente tres Toitesiai paeari nois. Dvenos med
periodos: a) O arehaico, tinterioi- feced en manon einom dzenoine
á literatura, b) O literário, c) O med niaao statod.n A interpreta-
decadente : supremacia do ele- ção, ainda que duvidosa em al-
mento popular. 1. O período ar- guns pontos, é a seguinte : «Jovi
ehaico estende-se até a época de Saturno divis qui (=si quis) me
Ennio (1G9 A. C.). Os documen- mittet, ne te endo (—in te) comis
tos d'esse periodo constam de nirgo ,nt, ast nisi Opi Tutesiae pa-
inscripções, fragmentos de toda eari vis. Duenus me fecit in ma-
a especie, os da Carmina Salia- num: enim die noni me mano
ria, conservados pelo gramma- stato. 3. O periodo literário do
tico Varro (1) e provavelmente latim começa com a cultura
corrompidos. As taboas grava- grega por parte dos romanos.
das do Carmen Fratrum Arva- Começa a disciplina artística, e
lium, achadas no século atrazado com ella a degeneração da língua
(1778) perto do Tibre, deixam do Lacio, as modificações do
muitos pontos obscuros em dis- accento e da quantidade por in-
cussão. Os fragmentos do texto fluencia espoutanea ajudada da
•das Doze Taboas são valiosos, métrica grega introduzida no
mas as citações que os represen- drama latino. Operiodo literário
tam, foram ás mais vezes mo- teve diversas phasos, de ordiná-
dernizadas. Schoell, que editou rio denominadas ante-elassica
e commentou aquelle texto, dá (Naevius, Ennius, Lucilus, etc.,)
como caracteres syntacticos a classica (de Cícero a Juvenal e
ellipse do sujeito e objecto, sub- Suetonio), post-classica, que com-
entendidos pelo contexto da prehende os escriptores da de-
phrase : ni it antestanino, iyitur cadência. Do periodo literário
im cajnto: o imperativo é usado ha a phase primitiva, onde se
para indicar permissão : si volet, notam archaismosde todaaespe-
plits dato; os connectivos entre cie. Começa então a introdu-
as proposições são raros. Os ar- cção de termos gregos de artes,
chaismos vocabulares são em pesos e medidas, navegação, sci-
grande numero : calvitur,])acunt, encias : talentum, purpura, ma-
escit, etc. Quanto aos documen- cMna, ancora, nausea, fuwjiis,
tos de inscripções, as incertezas canistrum, hvcina, e derivados
não são pequenas. Dá-se como hybridos, como hallistarius, pla-
das mais antigas a inscripção de (jipatidas, pernonides, scropMpasi,
um vaso achado entre o Quiri- etc., maxlme nos poetas comi-
nal e o Viminal. A inscripção cos. Depois de ter a sua phase
aurea no século de Augusto, é
(1) Varro—Dc lingua lal. VII, 26, evidente a decadencia do latim,
27. pela supremacia das províncias.
191
LATIM LATINISMO
do lat. da Hespanha (com os Janella janiiclla, de jamia
Senecas, Lucano, Marcial, Quin- Esperança sperantia spes
tiliano), da África (Appuleio, Muitos verbos foram creados
etc.).AuloGellio foi o ultimo dos no latim vulgar, segundo o mo-
clássicos. I)'ahi em diante pre- delo dos participios.
domina o latim impuro ou bar- Utor^ lat. barb. usare usar
baro, por causa da crescente in- Audi'0 — ausure ousar
vasão estrangeira e da propa- Vídeo — visare visar (])
ganda do christianismo. O latim Latiiiidade.— Exprime o
clássico representa uma phase modo dialectico ou estjiisticode
muito distanciada das linguas escriptor ou de período da lín-
romanas. O latim clássico, cor- gua latina. A latinidadedo Flau-
rompido pelo tempo, pela falta to, de Tito Livio.
de cultura literaria e pela inva- Liatíiiísmo. — Vocábulo,
são das linguas barbaras, tor- phrase ou facto grammatical
nou-se na idade média uma lín- proprio do latim e introduzido
gua completamente differenciada no portuguez. Sendo o portu-
da do período culto. O vocabu- guez uma língua derivada do la-
lário da literatura foi sobrepu-
jado pelo vocabulario plebeu e (1) Este processo já existia no
bárbaro, por exemplo: lat. culto; taes são os especiniensco-
(I-at. Iiarb.) (lat. culto) gilarc, de cogiltis (cogere); editare,
Dobrar dnpíare dupUcare de c(Zití(íí(e<lere). Vide lirachet,ZJicc.
Avante ithanic ante XXXIII. Para a Bihliograpliia—
Semana sctúnrma hehdornas Lingua latina: Corpus inscriplio-
Caminho cuminiis ví<l intm, \Vord,sworth's Fragmcnts and
líatallia hatualia pnfjna specimcns of early latin. As obras
Bocca hncca os de Corssen; de Schucliardt sobre o la-
Falar fdbulare /oqtii tim vulgar; a de Ilübner, de Drager
lleijo hasium oaculum (sobre syntaxe histórica); as gram-
Tornar íornare verti inatieas melhores são as de Külin-
Ilio riviin jiumen ner (em allemão),Madvig,Kenneily,
Porta porta jamca liohy (em inglez), Guardia, JI.
Uosto roitrum fades 15réal, com collaboradores (em
Os processos usuaes de deri: franeez). Em jjortuguez não ha
vação deram ao latim barbaro grammatica latina de mérito (não
referindo o excellente, iiorém aTi-
extraordinaria cópia de termos, tigo, yoi'o Methodo, do padre Pe-
jií de derivação imprópria (sem reira de Figueredo); no Pi,io de .Ja-
suflixos), como os substantivos neiro começou-se uma traducção
escriptum, peccatuni, de scrihere, da Gniminntica Latina de Guardia,
peccare, já pelo aucrescimo de mas a publicação não passou do
sutfixos, principalmente dimi- ou lí? fasciculo. Ha em Portugal os
nutivos : trabalhos de Epiphanio Silva. O
nosso artigo sobre o latim foi na'
Orelha afíriciUítf de auris l'> parte extraliido summariamente
Cidadão ciritaUnitis civis da noticia de W. Coliiis, na Encijcl.
Donzeiia dominicelUt doitiitia Jíritaiinica, XtV.
192
LATINISMO LETRAS
tim, olatinismo 6 da essencia da Ilhistres generosa cliorosdits, Ursula,
nossa lingiia ; por isso é costu- bellas.
me apenas denominar latinismos Dás, rosa belia, rosas, fortes dás
aos de origem literaria, como os sancta coluninas.
vocábulos : omis, memorandum, j-Eternos vivas aniios,o regia planta.
Devotos cantando liymnos vos in-
uUimatuin, errata, etc., introdu- voca sanctas,
zidos quando jií formado o idio- Tam puras uympbas amo, adoro,
ma. Por exemplo ; a syntaxe canto, celebro.
latina com o infinitivo objecto : Per vos felices annos, o candida
mandou parar o sol (que o sol pa- turba.
rasse); vocábulos como luãos, Per vos inüumerosde Cliriato spero
prelios, gladios,q\\<i o povo ignora favores.»
ou mal conhece. São latinismos, Antes do século XVI, em que
como já foi dito, as construcções foi a lingua latinizada pela lite-
com o infinitivo: mandou ®ír, ratura, essas composições seriam
vejo-as rir, viu-as chorar. Ma- illegiveis. A latinizaçSo, se d'essa
noel Severim de Faria proposi- época em diante diminuiu de
talmente escreveu trechos que intensidade, comtudo na ortho-
eram a um tempo latim e por- graphia mais do que nunca se
tuguez. B nos mesmos moldes foi tornando erudita e approxi-
ha um hymno a Santa Ursula, mada do latim clássico.
mencionado por D. Nunes do Lc, grupo latino.— Persiste :
Lião. Aqui em seguida reprodu- calcar, caleare. Dissolve-se o l
zimos as duas composições ; por vocalismo : fouce, falcem.
« O quam gloriosas memórias pu- Transforma-se em Ig : delgado,
blico, considerando quanto va- ãelicatum.
les nobilissima lingua lusitana ! Lirt.— Grupo latino Id. Algu-
Com tua facundia excessiva- mas vezes representa um reforço
mente nos provocas, excitas, in- da liquida l: humilde, de humi-
tlammas. Quam altas victorias, lis; rebelde, rehellia ; e o arch.
quam celebres triumphossperas, iyualdar, por igualar.
quam e.xcellentes fabricas fun-'
das, quam perversas fúrias cas- LiCfíõ, elementogrego de com-
tigas, ;quam feroces insolentias posição.—Escolher, falar. Dia-
rigorosamente domas, manifes- lecto. Pro-lego-menos, o que é dito
tando de prosa, de metro, tan- antes, introducção.
tas elegantias latinas 1 n Leipeii, deixar.— Elemento
« Cauto tuas palmas, famosos canto grego de composição. Eclipse,
triumplios, falta,desapparição. Ellipse,omis-
Ursula, divinos iiiartyr concede fa- são.
vores, Letras. — Caracteres que
Subjectas, sacra Nympha, feros
animosa tyrannos. compõem o alphaheto; sito as re-
Tu, Phoeuix, vivendo ardes, arden- presentações materiaes dos sons
te triumphas, da linguagem. Dividem-se em
193
LETRAS — LEXICOLOGIA
vogaes: a e i o u y ; & em con- outros auctores. não valem mais
soantes; h e d f y Uj k l in n p q r que aquellas regras theoricas.
atvioxz. Olassificam-se segundo Letras do alphabeto. —
os seus modos de producção Passaram as letras dos phenicios
physiologica. Vide Consoantes, Vo- aos gregos e depois aos romanos.
gaes, Phonetica, etc. Alguns gru- •—A) Os romanos deram sís letras
pos devem serconsiderados como denominações differentes das do
letras simples, por serem ir-, alphabeto grego : a, be, ce, de,
reductiveis ; nJi, lli. O nosso al- etc. O/í denominou-se ha; o x,
phabeto foi tomado do latim,que ix; as denominações gregas ado-
o tomou de outras linguas. || £e- ptadas foram apenas duas—zeta
íras adventicias.' Vide Adventi- e upsilon. B) As cinco letras
cias. t/teta, phi, kappa, psi, oméga, de
Letras dobradas . — É invenção posterior, não foram
uma das difflculdades da ortho- adoptadas pelos romanos; foram
graphia usual, neste ponto quasi representadas por th,' ph, ch, ps,
rigorosa como a etymologica. Ef- ó. C) O uso dos romanos, que
fectivamente, apenas tolera a davam a íe® o papel duplo de
letra simples (em caso de com- vogaes e consoantes, durou até o
posição pelos prefixos) nas ija- século XVII ; d'ahi em diante
lavras que se formaram ni) seio os caracteres j eu marcam as dif-
da lingua (acabar, aceitar), des- ferenças d'aquelles valores pho-
de que não sejam de forma- neticos. D) A letra y no latim
ção erudita. Ainda assim ha foi adoptada na época de Cicero.
quem escreva acceitar... por cau- Mais tarde foi utilizada em pa-
sa do aeeipere. As regras dos or- lavras que não eram gregas : in-
thographos são inúteis ou pouco clytus, por inclutus; Sylla, por
praticas, porque exigem para Sulla.
que se saiba escrever na nossa Léxico ou lexicon. — Con-
lingua que saibamos como se juncto total dos vocábulos ou
escreve no latim ! Vejam-se essas dicções da lingua. Diccionario.
duas regras que abrangem todas Lexlcologia. — Parte da
e são do auctor do Escoliaste por- grammalica em que se estudam
tuguez, livro a todos os aspectos separadamente os vocábulos. A
excellente. lí Escrevem-se com denominação deve ser corrigida
letra dobrada as palavras deriva- para lexüogia, de lexis, vocábulo.
das de linguas extranhas, se nestas A forma lexicologia deve existir,
linguas assim se escrevem. O m e propriamente indica o estudo
e n dos prefixos come im (nas pa- do diccionario ou dos vocábulos
lavras compostas) duplicam-se em conjuncto (lexicon). Lexi-
quando as palavras simples come- logia é o estudo dos vocábulos
çam por m &n. Por ahi se pode feito individualmente ou em suas
avaliar de tudo o mais. Os pre- classes grammaticaes. A lexilogia
ceitos e indicações praticas de abrange a Phonetica, a Morpho-
DICC. GRAMM. 13
194
LEXICOLOGIA — hINGüAGEM
logia e Taxinomia. Como estudo mais ou menos & imitação do
exclusivo (Io vocábulo, a lexilogia objectos, e ha por conseguinte
oppõe-se íí syntaxe, que é o es- nomes naturaea. A proposilo, diz
tudo da phrase. Ilénan: « O nexo entre o sentido
Lili.—Grupo portuguez de di- e a palavra nunca é necessário
versas origens. Do II dobrado la- nem arbitrario, e é todavia mo-
tino : lhe, de illi; tolher, de toUere. tivado.» Herder foi o primeiro
i)o grupo pl latino pelo hes- a mostrar nos tempos actuaes
panhol (Ih^ll) : lhano, planum. que a linguagem faz parte do
Solução de hiato ia, ea, ie pre- conjuncto das forças naturaes
cedido do l: alheio, alienum ; do homem e tem o mesmo des-
filha, filiam. Pode resultar de vá- envolvimento <iue este. Kénan
rios grupos, cl, tl: olho, oeuluin ; pensa que a linguagem é um
rolha, rotulam; ovelha, oviculam. producto espontâneo da acção
das nossas faculdades, e accres-
liiiiffliaes.— Nome geral da- centa que « a lingua pertence á
do ás consoantes que na sua ar- categoria das cousas vivas; a
ticulação reclamam o concurso linguagem é um organismo».
da lingua : d, t, r, l, Ih, nh, n, Essa opinião acha-se morbi-
ff, q. São dentaes, gutturaes e damente exaggerada entre os
palataes; d'ahi as subdivisões discípulos de Schleicher, que
em linguo-gutturaes (g, q), lin- julgam ser a linguistica uma
guo-dentaes (t, d), Unguo-palataes pura sciencia natural (1). Em.
(r, », l, Ih, nh). todo caso, a opinião contempo-
LiinffUíVgrem, origens, des- rânea, que conta maior numero
envolvimento. — Varias são as de adeptos, representa a direcção
theorias sobre a origem da lin- jií indicada por Epicuro. A lin-
guagem. «Os gregos considera- guagem e um producto natural
vam a linguagem oeffeito de uma e espontâneo da acção conjuncta
convenção, ou da natureza, ou do espirito e dos orgãos vocaes.
de convenção fundada sobre a A origem é portanto dupla e re-
natureza, üemocrito opinavaser sultou do gnío de cultura da es-
uma convenção entre os homens pecie. Quando o homem se
(tliései). Segundo Epicuro, o ho- achou em estado de communicar
mem fala como o cão ladra, e a seus pensamentos, recorreu a
linguagem foi dadiva da natu- todos os meios, á mimica, á ex-
reza (plíúsei); ha entre o objecto pressão physionomica, ao grito,
e o som uma dependencia natu- e finalmente á articulação da
ral e necessaria. São estas opi- voz, a principio animal,confusa,
niões ambas que se acham ex- pouco variada, até que a consti-
postas no Oratylo,A& Platão, que tuiu um perfeito instrumento
também desenvolve um sj'stema das suas emoções econceitos. Ca-
subtil, analogo ao de Epicuro,
onde estabelece que a proprie- (1) Sal. Reinach—Manuel de phi-
dade dos vocábulos é devida lologie classiqiic,2« ed., pag. 110.
195
LINGUAGEM LINGÜÍSTICA
be aqui notar que não se come- gua chinezanão se nota tal facto;
çou a falar por meio de inonosyl- as palavras sempre conservam
lahos-raizes. Não lia um só facto os seus antigos elementos. Se-
que atteste a verosimilliança de gunda: aemp/iase. É o princi-
que fosse este o ponto cie par- pio que determina a clareza, ex-
tida, e ha numerosos argumen- plica as tendencias analyticas e
tos que tornam bem patente a a creação de locuções, equiva-
nenhuma probabilidade de tal lencias,tropos, periphrases. Ter-
evolução na historiadas línguas. ceira : a renovação dialectal. É o
Segundo as conjecturas assás principio que, secundado pela
fundamentadas do philologo in- marcha histórica dos paizes,sub-
glez Sayce, as linguas parecem stitua ií lingua literaria em de-
provir de palavras-jihraaex, que cadência os dialectos e linguas
surgiram nos primeiros idiomas. vulgares, como succedeu ao la-
Conforme quer esse philologo, as tim, que foi substituído pelos
raizes são factos significativos dialectos neo-latinos. Quarta :
para os grammaticos, represen- analogia. É um principio de
tam resíduos de que nunca povo origem psychologica, baseado na
algum teve consciência. A raiz, imitação, e influe dando unifor-
portanto, nunca teve existeucia midade aos typos grammaticaes
real em qualquer lingua e figura das linguas; esteprincipioé tido
nas palavras tão confusamente na maior importancia pelos neo-
para a percepção dos que falam, fi'r«m?fta<4C(?«(Brugman, Osthoíf).
como as letras ou elementos plio- No dominio popular a corrupção
neticos. Como quer que seja, se das linguas reduz-sea duas cau-
não houveaprincipio raizesnatu- sas preponderantes : I.—A iini-
ralmente monosyllabicas, houve formidaãe,!ic<;!io que corresponde
de certo algumas palavras, natu- á analogia. II. — O princijno de
ralmente phraies ou com o valor menor acção, que exprime a pre-
de phrases. Dizia-se o minimo e guiça dos orgãos vocaes na alte-
pensava-se e gesticulava-se o ração material dos vocábulos e a
máximo. Transposta essa phase preguiça mental nas tendencias
obscura, toda de mysterios e es- analyticas, emphaticas, peri-
curezas impenetráveis, sem a ou- phrasticas, etc. Sal. Reinach. Op.
sadia de querermol-a explicada, cit., 109. — Platão, Cratylo I,
podemos altentar no desenvol- Herm. e Sócrates. Cf. Stenthal,
vimento da linguagem jsl mais Max. Muller, P.enfey o Hovela-
ou menos completa. Omodopelo cque.
qual a linguagem se desenvol- LiiiiSiiageus de verbo. —
ve\i, resultou de varias causas Expressão appl içada ás vozes,
geraes. Primeira : alteração plio- modos, ou quaesquer llexões dos
neiica. Esta causa influiu estra- verbos.
gando os vocábulos por meio da
decomposição dos sons. Na lin- Liing^iiistlca. — Entre os es-
19G
LINGÜÍSTICA - - LITERATURA
criptores de diversos paizes ha confusão. (1) A vasta extensão do
manifesta discordância sobre o termo philologia foi limitada por
valor das denominações que re- um adjectivo : philologia compa-
cebe o estudo methodico da lin- rada, e com esses ares não differe
guagem. Seria fastidioso repetir essencialmente da lingüística.
aqui os vários argumentos e po- Liiquidas. — Nome dado
lemicas que se desenvolveram a pelos grammaticos gregos e lati-
proposito do alcance dos tres nos iís letras l, m, n, r.
termos Unguintica, glottologia e
pJiilologia. Tudo, porém, pare- Literatura. — No sentido
te attestar que a opinião victo- material da palavra, é o con j uncto
riosa ou pelo menos a que conta dos documentos escriptos de um
maior numero de adeptos, é a povo. Quanto á linguagem, a
que considera a lingüística sci- principal funcção da literatura
encia dos factos da linguagem é estabelecer a disciplina gram-
espontanea, popular, em todos matical, fixar as normas da arte
os idiomas; e a philologia a scien- de falar; em tal caso, a litera-
cia dos factos literários que se tura opéra como força de rea-
referem sís linguas. A philologia cção, estagnando ou impedindo a
abrange a critica, o commenta- corrente de decomposição das
rio dos textos antigos, a historia linguas. No portuguez ha duas
das linguas, principalmente na- grandes phases da língua, deter-
quillo que ellas possuem do ele- minadas pela cultura literaria:
mento literário e culto ; a lin- líphase. O portuguez antigo.—
güística apenas estuda a lingua- lingua cujas normas estavam
gem como expressão do pensa- em estado syncretico ou de con-
mento, como formula exterior fusão. Não havia ,grammatica fi-
articulada da intelligencia hu- xa e disciplinar. É o periodo que
mana em acção. O termo lingüís- vae do sec. XIII ao século XV.
2Í phase. O portuguez moderno.
tica ü usado especialmente pe- É a lingua cujas normas foram
los francezes, e corresponde á de- disciplinadas por nossos melho-
nominação de Seiencia da lingua- res escriptores e grammaticos,
gem, de uso commum entre os desde a renascença literaria dos
inglezes. A palavra glottología fins do sec. XV ou começos do
tem a significação mais restricta, século XVI até hoje. Na pala-
■p estuda a linguagem apenas vra Portuguez trataremos da lin-
quanto aos factos physiologicos, gua antiga. Aqui basta notar
ás alterações dependentes dos or-
^ãos vocaes.Essas definições, po-
rém, não estão sufficientemente (1) Na Allemanha (e raro na
fixadas por nenhum uso de gran- França) o termo p/i/ío/oí/ia designa
quasi toda a cultura de letras, artes,
de generalidadeentre os escripto- costumes, diplomacia, epigraphia,
res, e é bem provável que ainda etc. Vide S. Heinacli. Man. phil.
durante muito tempo continue a clüss.
197
LITERATURA
summariamente as épocas da Góes, Nunes do Lião, Heitor
historia literaria. Pkimkiba éi'0- Pinto, Amador Arraes, Bernar-
CA. Sec. XI[—XV. Período do do de Brito, Diogo do Couto,
romance ou lingua vulgar. O la- Fr. Luiz de Souza, Jacintho
tim barbaro da idade média des- Freire de Andrade, na prosa.
apparece, e na lingua vulgar es- Terceira época. É o periodo do
crevem-se os documentos offl- gongorismo, da intluencia hespa-
ciaes. Floresce em Portugal a nhola, desde Felipe II a D. José
escola dos. troveiros, e dos escri- I, de 1025 a 1750. Pertencem a
ptos em prosa mencionamos o esse periodo : Violante do Céo,
Nohiliario, de D. Pedro, Conde Severim de Faria, Barbosa Ma-
de Barcellos, e o Amaãis de Gau- chado, Faria e Souza, Manoel
la, cujo te.xto original (de Vasco Bernardes, Vieira, Rocha Pitta,
de Lobeira) está perdido. São Conde da Ericeira, Manoel de
dos fins d'esta época (sec. XV) Mello. Quarta época. Periodo
os primeiros chronistas e histo- acadêmico ou das Arcadias; re-
riadores; Fernão Lopes, Ruy de crudescimento das tendencias
Pina, Gomes Eannes de Zurara, classicas. São d'essa época (de
Garcia de Ilezende; que, apezar 1750 até os primeiros lustros do
de serem grandes em pontos de sec. XIX): Garção, Antonio Di-
graramatica, não podem ser in- niz, Gonzaga, Cláudio Manoel,
vocados com muita íreqiiencia; Quita, Ribeiro dos Santos, José
porque são ainda escriptores Agostinho, Tole^ntino, Bocage.
primitivos e os primeiros, e os Quinta época. É a do presente
usos e normas da linguagem não século. Abrange o periodo do
estavam fixados, devidamente. rmnantismo, da sua decadencia e
Segunda época. É a da idade de das escolas que pretendem sub-
ouro ou a dos quinJientistas (do stituil-o. Pertencem a este perio-
século de quinhentos). Vae de do : Garrett, Herculano, Casti-
1500 a 103.^, isto é, de D. João lho e os escriptores contempo-
III a Pelippe II. Florescem os râneos. O romantismo teve varias
grandes vultos da literatura phases em Magalhães, Porto
portugue/a : Gil Vicente, Ber- Alegre, Gonçalves Dias e Alen-
nardim Ribeiro (que ainda an- car (ambos grandes) com as es-
dam incertos), Sá de Miranda, A. colas do Recife (condoreira), de
Ferreira, Camões, Diogo Ber- S.Paulo (byroniana), do Mara-
nardes, Pedro de Andrade Cami- nhão e fluminense. A poesia
nha, Jeronymo Corte Real, P. Aninvil (parnasiana) não tem re-
Alvares do Oriente, L. Pereira presentantes de nota em Portu-
Brandão, Rodrigues Lobo, Mou- gal ; o romance naturalista tem
sinho de Quevedo, G. Pereira de em ambos os paizes auctores de
Castro, Sá e Menezes, na poesia. bastante mérito. || A verdade é
João de Barros, Castanheda, An- que os escriptores brasileiros, far
dré de Rezende, Jeronymo Oso- lando s<5 do maior numero, não
rio, Mendes Pinto, Damião de se distinguem pela correcção de
198
LITERATl IRA — LL
linguagem. As diíTereiiças maio- sobre o latim clássico, começa a
res da língua vulgar em re- generalizar-se no século XVI.
lação !Í disciplina classica esta- As formações anteriores são ana-
belecida desde o século XVI são lyticas, salvo raro exemplo, i) O
constituidas por innumeros fa- r, muito commum nas articula-
dos, dos quaes citamos alguns ções aniigas; frores, freima, gro-
de caracter geral, por que na ge- ria, í/TOza, alatina-se no l: flores
neralidade não caberiam, por fleugma, gloria, glosa. 7V As an-
numerosos, neste logar: a) tigas terminações nominaes em
A approximação latina transfor- om e am, como liçom, pam, foram
mou auto, trauto, etc., em acto, substituídas pelas novas em ão,
tracto. Todavia restam-nos auto lição, pão. Note-se que aqui,
e outros poucos; rosairo, mjairo, como em toda a parte, o exame
etc. b) Os adjectivos participios da 1 Íngua antiga nos ministra
antigos em udo passam a ter- a explicação das formas moder-
minar em ido: conheçudo, esta- nas, e pluraes em ões e ães. k)
leleçudo... conhecido, estabele- A construcção alatinada no sé-
cido. Reslam-nos vestigios da culo XVI torna-se de ordem di-
antiga forma em manteúdo, con- recta e afrancezada nos tempos
teúdo n teúdo, de bom uso ainda que correm. Ao passo que a or-
hoje. c) Os nomes em ança for- tliographia mais sônica d'aquelle
mados sobre o typo medieval, tempo se tornou mais erudita e
soffrem considerável diminui- alatinada.
ção. Assim, jímfoawfa, gança ou
ganhaiiça, molestança, desappa- Liitlios, pedra. — Elemento
recem, ao passo que persistem grego de composição. JAtliogra-
esperança, folynnça, etc. d) Os phia, CJiromoUthographia (chrô-
nomes em mento t6m-se archai- mos, côr). Monolitho (monos, um
zado em grande parte, como, único).
fllhamento, etc.; comtudo ainda JLl. - A gemintição do l vem
se conservam em grande nume- do latim : cabello, capilltim. Mui-
ro. e) As terminações (de grfío) tos dos nomes, porém, se escre-
em engo quasi que não são mais vem na orthographia usual sem
usadas : nerdoengo, realengo, «ola- l dobrado : argila, adela, miolo. O
rengo. f) A terminação ença, íi latino transforma-se iís vezes
formada da segunda conjugação, em l?i: tolher, de tollere; cente-
como ança da primeira, desappa- lha, de scintillam. A syncope é
rece em muitos vocábulos per- mais rara : enguia, de anguillam.
didos, como: querença, conJieeen- No portuguez antigo o II tinha a
ça. Temos ainda naseença e pou- prosodia de ÍA como ainda o tem
cos mais. g) A influencia galie- no castelhano,d'ahi é que se
ga notificada pela dupla jou originam as duas fôrmas diver-
pelo g, desappareceu. Netxeiiça, gentes : cavalleiro e cavalheiro, ás
axente (prata), quige (quiz). li) quaes emprestam hoje sentidos
O superlativo issimo, moldado dilFerentes que nunca tiveram.
199
LOCUÇÃO LUSITANISMO
Liocução. — Combinaçilo de longa (—). No portuguez, a quan-
palavras ou expressão analytica tidade das syllabas é pouco apre-
para representar uma noção úni- ciável e confusa, porque prepon-
ca. Todas as especies de palavras derou o accento. Vide Accento e
têm locuções. Locução substantiva, Quantidade.
são os compostos : beija-flor, Luô, eu resolvo. — Elemento
guarda-loitça, etc. Locução ailje- grego de composição. Analyse,
ctiva : de ferro — ferreo ; de fogo decomposição. Paralysia, priva-
= igneo, etc. As locuções dos ção do movimento.
verbos consistem nas suas fôr-
mas compostas e periphrasticas. Liiisitaiiisino. — Expressão
O termo locução é usualmente que eqüivale quasi a de idiotis-
applicado no domínio das partí- mo, e traduz o modo particular
culas ; Loc. advtrbial: depois d'a- com que se apresentam as piira-
manlian, sem dwoida, ete. Loc. ses portiiguezas no que ellas
prepositiva: por entre, dentro de, têm de mais singular e menos
etc. Loc. conjunctiva: comtanto commum com as das outras lín-
que, por conseguinte, etc. Vide guas. II Diz-se o modo de fa-
Equivalentes. lar dos antigos lusitanos e tam-
LiOfíar (complemento cír- bém a phrase, locução ou idio-
cumstancíal de). — Equivalente tismo que conservamos da in-
de adjuncto adverbial de logar. fancia da língua ; assim, por
Vide Proposições. especial lusitanismo, têm os in-
finitosapropriedade de ser consi-
LíOííica, concordância. — A derados como substantivos desi-
concordância é lógica quando se gnativos de acção, a qual nem
faz pelo sentido e não pelo vocá- sempre se denota pelos substan-
bulo expresso. Eu e tu (nós) es- tivos cognatos dos mesmos ver-
tamos bons. Sua Alteza estava bos. D'aqui vem dizermos o cair
enfermo (e não enferma). A vir- das folhas e não a quéda; porque
tude e o sííheT precisos, etc. Ana- o cíííV das folhas indica a acção
lyse lógica. Vide Proposições. d'ellas se desprenderem e solta-
LiOffOS, discurso. — Elemen- rem das arvores ; e quéda é uma
to grego de composição. Apolo- contracção de cair; e esta con-
gia, disc. de justificação. Cata- tra<!ção, sendo abreviatura da
logo, enumeração. Epilogo, disc. palavra, denota também a abre-
Vío fim. I^ogomachia(macM, lucta), viatura da acção, e, em rigor,
disputa de palavras. significa o instante em que o
corpo despenhado encontra o
LiOiisa» syllaba. — É aquella chão ; propriamente choque, pan-
que tem maior duração de pro- cada. O cair das follias é ainda
nuncia. Ex : a 2Í syllaba do lat. mais proprio do que caída ; por-
horã no ablatívo. A quantidade que designa uma acção indefini-
orthograpiia-se nas palavas lati- ta, e envolve a idéa de reiteração ;
nas com os signaes de breve (^) e e caida significa uma acção xini-
200
LUSITANISMO M
ca, definüa, o, pot certo, menos o dia. Mais vale agua do céo que
própria para representar o acto todo o regado. E tal a propriedade
suocessivo de se desprenderem e que a lingua tem de substanti-
cairem as folhas das arvores, e var todas as palavras que até dos
(por metonymia) o tempo em que tempos dos verbos, de uma par-
as mesmas caem. Considerados a tícula, ou de outra qualquer
esta luz os infinitos dos verbos, parte da oração, podemos for-
vf!-se que é com rigorosa proprie- mar um nome substantivo ; v.
dade de expressão que vulgar- g.: mais vale um toma que dous te
mente costumamos dizer: o rom- darei; os isomes e os bebes; os dares
per d'alva, o fechar da noite, o e os tomares ; o sim e o não; o que
travar da peleja, o andar do tempo, e o2wrquê; os itens e os provarás ;
o murmurar do povo; querer é po- os ])rós e os contras, etc. D'aqui a
der, etc. Não se pode negar que grande facilidade com que for-
a referida propriedade e herança mamos tantos nomes proprios
que a lingua adquiriu da latina, verbaes, tão significativos e en-
na qual se dão e podem citar graçados, como; o Espalha, o
infinitos exemplos; errare hu- Penetra, o Janota, o Estafermo, o
manum est, scire tuum nihilest. Bota-a-baixo, o Fapa-moscas, o
E não só os infinitos dos verbos Mija-mansinho, o Trinca-fortes,
são tomados na lingua portu- etc. »
gueza pelos substantivos cogna- íí^Liv, grupo latino. — Persiste :
tos, senão que ainda muitos ad- silvam, selva. Ha syncope do l
jectivos fazem as vezes de nomes no exemplo : caveira, calvariam.
substantivos ; como quando di-
zemos : o hello de um quadro,
o patlietieo de um drama, o auUi- M
ws de um pensamento, o util e o
agradavel, o Tnelhor e o peior, o M.—Sôa sempremquandoini-
certo e o duvidoso, etc. Estes ad- cial da syllaba, ou é signal de
jectivos, assim tomados, são ele- nasalização como o n no final da
gantes pela concisão, e impri- mesma. Em qualquer caso sem-
mem graça ao discurso. Tam- pre altera ou nasaliza a vogai pró-
bém fazem as Vezes de nomes xima: cama (cãma). ama (ãma),
substantivos muitos participi- embora ligeiramente; sente-se
os do presente e do preterito, menos a nasal depois de e e o:
como : amante, pretendente, ou- rémo, sémear, homem. || Letra la-
vinte; escripto, attestado, impresso, tina. Inicial persiste : muscam,
etc. Em muitos provérbios e ri- mosca; transforma-se em n em
fões vulgares achamos os parti- rarissimos exemplos: mespyllum
cipios substantivados, o que pro- (nespera) ■, memorari (n^ch. nem-
va que este modo de exprimir brar, hoje lembrar). No grupo
está no gosto e no gênio da lin- mn ha exemplos archaicos de
gua ; V. g.: Mais come o hoi de permuta pn: calumnia ou calu-
uma lamhida que a ovelha em todo pnia ; condapnamento por conde-
201
M MAIS QUE PERFEITO
mnamento (El. cie Vilerbo). O in em muitos logares do Brasil pro-
final já entre os latinos era quasi nunciam condenar, dano.
mudo, 8 por isso desappareceu Mal e male.—Elemento pre-
no accusativo; horam, hora. (1). fixo latino ; opposto a bem e bene,
M (letra portugueza). Provém do J/aí-dizente, maMicente, mal-
TO, sobretudo inicial: modo, mo- dizer, maíquisto, etc.
ãum; poema, poema. Provém da .
homorganica labial h: tremen- Malaio. — Vide Asiaticismos.
tina, terebinthina ; canhamo, de Mania.—Elemento grego de
eannabis. Nas nasaes finaes em, composição. Metromania, mania
im, om, um, de ordinário repre- de fazer versos. Monomania, ma-
senta o n originário : somtm, som; nia única, exclusiva. Ha formas
unum, um. As vezes om, ou melhor hybridas, como dançomania, em-
anasalidade da vogai final repre- pregomania, etc.
senta a compensação daperda da
consoante guttural c; nec, nem; Maiiteia, adivinliação.—Ele-
sie, sim. jir(letra arabe). Nos vo- mento grego de compostos, dd-
cábulos arabicos é a traiiscripção roniancia, adivinhação pelo as-
da letra TOíín .■ Almude, al-imdd pecto das mãos. Nigromante (ne-
(Engelmann). O grupo mr, como Icros, morto), que adivinha pela
no latim, também é transcripto evocação dos mortos.
por ir; al-lcomra, alfombra. 3/ Maomai, eu me movo. —Ele-
(letra germanica). O m tinal dos mento grego. Automato, que se
nomes de origem gotliica, no
som am, são representados por move por si.
ão: Bertram ou Bertrão, de Ber- Mais que perfeito.—Tem-
tram; Gualtrão, de Walram. Or- po do indicativo portuguez cara-
thoijraplda.—O m figura como cterizado pela desinencia ra :
signal de nasalidade para sub- amara, dissera, punira. É uma
stituir o ão paroxytono na ílexão das riquezas do vernáculo, pois
dos verbos amaram, amavam. No nenhuma lingua romana o pos-
final das palavras, o m & nasal sue com a accepção que havia no
com i, e, o e u: fim, som, tem, latim : amaveram, dixerat. As
um. O n è preferido na ortho- outras linguas romanas usam o
graphia usual com a vogai a: mais que perfeito na forma peri-
irman, lan. Também se usa o n phrastica ou na mesma forma
com e nos parox}'tonos : joven, re- syntlietica com a accepção do'
gimen. Prosoãia. — O m é mudo condicional; accepção que tam-
na geminação immortal (imor- bém temos : amara (amaria). Se
tal) : soa, porem, no grupo mn: elle não írâera cuidados (tivesse).
condemnar, damno, que todavia No sentido originário do latim é
o exemplo de Camões :
(I) Diz Prisciano : «M <>l)sciirum ■Tá cinco vezes a lua se escondera
in extremitate dictionuiii, ut Um- E outras tantas o rosto .seu «losírara
plum » (templu).
203
MAIS QUE PERFEITO — MATÉRIA
E assim em todos os clássicos depois da invenção da imprensa,
cia linfçua. e varia com os logares e épocas.
Maiusculo.— Caracter ma- Os quinhentistas usavam parca-
terial das letras, determinado mente do maiusculo nos appel-
pela maiorgrandezad'ellas e pro- lidos : Antonio alvarez, Estado
prio para certos usos consagra- de sã, -etc.
dos. 1. O maiusculo emijrega-se Masculiiio. —Generodos no:
com os nomes proprios de pes- mes correspondente ao sexo dos
soas e de logares, de obras de animaes machos e por amplia-
arte, de deuses, de appellidos, de ção applicado a inanimados :
cousas abstractas personificadas: leão, sapateiro, sol, talento. A fle-
Pedro, Lisboa, a Lenda dos 8e- -xão característica do masculino
culos, os Lusiados, a Sabedoria, é o expoente o ; ric-o, poderos-o,
etc. Com os nomes geographicos pov-o, livr-o. Como a letra o
não se usaomaiusculo quandose tornou-se característica dos mas-
tornam appellativos : cambraia, culinos em maioria, certos femi-
eaehemira, cognae. Também se
adopta nos compostos o escre- ninos latinos tornaram-se mas-
ver o segundo ou terceiro termo culinos no portuguez, por ana-
com o minusculo : Mar-morto ou logia da terminação. Taes os no-
mes de arvores, femininos no la-
Mar-Morto; Indo-china ou Indo- tim : lauru», louro; populus,
china; Paraiso perdido ou Pa- choupo; ficus, figo, etc. Nesse
raiso Perdido (poema de Milton).
2. O maiusculo é usado no prin- numero entram os terminados
cipio do periodo ou no principio em osdialecto
do grego, femininos no la-
do verso. Castilho e outros, i)0- tim, (dialectos, i), diâme-
rém, entendiam que o verso po- tro, átomo, diphthongo, etc. Os
deria principiar como no lies- masculinos em or em grande
panhol pela letra minuscula, e numero tornaram-se femininos :
assim o praticaram. 3. Ila re- cor, color (colorem).
gras menos absolutas, e que tSm Matéria. — Substantivos de
sido desrespeitadas no uso cor- «matéria», classe de nomes que
rente, como a de escrever com exprimem porção indefinida da
maiusculo os nomes dos dias, matéria geral: leite, agua, ouro,
mezes, nomes de nações e povos, prata. Essa classificação é com-
ou principiar com maiusculo os mum nas grammaticas inglezas,
membros de phrase que se se- onde esses nomes gozam de pro-
guem aos dous pontos, ils admira- priedades especiaes como, para
ções ou interrogações. Primitiva- exemplo, a de não sofirerem o
mente, segundo attestam as in- artigo. No portuguez é escusada
scripções, só havia o maiusculo. e inútil. Vem mencionada lam-
O minusculo foi areado pela arte bem nas Noções de Qramm. dos
de manuscrever em papel. O uso Srs. Pacheco Júnior e Lameira
do maiusculo foi regularizado de Andrade.
203-
MATHEIN — J ENOR ESFORÇO
Matlieili, aprender.—Ele- também um outro modo de ex-
mento grego de composição. primir que a acção era feita e
Ohrestomathia, util conhecimento sotfrida pela mesma xiessoa, além
ou instrucçüo. Mathematieas. da voz passiva. Empregavam o
Média. — Consoante média verbo na voz activa, mas acom-
ou isolada, diz-se da consoante panhado de um pronome regi-
entre duas vogaes. Uma das leis men (reflexivo da 3Í pessoa): —
da phonetica é a queda da con- Virffo de cesjiite se levat (a virgem
soante média, ou pelo menos sva levanta-se da relva). O portu-
transformação em outra branda, guez, como as outras linguas
p em i, t em d. Exemplos de congeneres, adoptou esta cori-
queda: ver, ni-d-ere; caudal, ca- strucção latina, e assim crearam-
p-ita-lem; paço, pa-l-tiwn; cair, se os no&sos wevhos reflexos prono-
ca-d-ere; pôr, poÊr, po-n-ere; etc. minaes. Si o verbo _é transitivo, o
Exemplos de transformação: ma- pronome é regimen directo (mo-
deira, ma-t-eriem; cabido, ca- ver-se) ; si intransitivo, o pro-
pi-tultim; ralo, ra-r-tim; cego- nome é regimen indirecto (arre-
nha, ci-e-oniam, etc. pender-se). O desenvolvimento
analogico d'esta forma no portu-
MéíUa passiva ou xmssiva guez antigo, deu em resultado
reflexa.—Voz dos verbos assim uma serie de verbos que não são
denominada por analogia com a propriamente reflexivos, mas sim-
da passiva latina, sem que entre plesmente pronominaes, porque
ambas exista aftinidade etymo- o pronome nem faz as funcções
logica, senão bypothelica ou de regimen directo nem de regi-
muito remota. A passiva latina men indirecto (apoderar-se, par-
em r, amo-r (sou amado), parece tir-se, morrer-se, deliherar-se) n.
a alguns lingüistas que é o re- Meffas, grande. — Elemento
sultado da primeira phase agglu- grego de composição. Megatlierio,
tinada amose. O facto não está grande animal. Almagesto (al,
positivamente admitido. No por- art. arabe), taboas de observa-
tuguez, a média 2>assii-a consti- ções astronômicas, de Ptolo-
tue-se com o se: escrevem-se car- meu.
tas (são escriptas cartas), etc. É
galiicismo e contra a vernaculi- Meios, canl»>. — Elemento
dade considerar-se o se como su- grego de composição. Melodra-
jeito;por isso são errôneas as con- ma, drama com musica. Melodia,
strucções: escreve-se çartas ; diz-se Melopéa.
cousas. (Vide 8e). É de parecer Menor esforço (lei do).—
differente Pacheco Júnior, que Principio geral observado na
escreve na sua Orammatica da vida da linguagem. O principio
Língua porlugueza (2'í ed. pag. do menor esforço exprime o facto
4!)0), não com o intuito de legi- de que na alteração das linguas
timar o galiicismo, as seguintes o povo as corrompe sempre por
palavras: «Os latinos tinham meio de diminuição da activi-
204
MENOR ESFORÇO — MESOLOGIA E CLIMA
dade ou energia de qualquer clima, são notados nas variações
ordem que a liiifiuasem exige na prosodic,as,m(irmente no accento
sua expressão. No domínio dos provinciano ou sotaque. E de-
sons, o menor esforço indica que vem ser attribuidos ao clima,
as palavras se alteram pelo en- porque são independentes da
fraquecimento dos sons fortes, lingua e da raça, e já foram no-
pela suppressão e por toda or- tados nas línguas que domina-
dem de phenomenos que tornem ram anteriormente, o guarani
menos esforçado o trabalho de (dialecto do sul), o tupi (dialecto
falar; na syntaxe, o menor esforço do norte). Tudo o mais é pro-
se nota agindo nas ellipses e na blemático e assás contestável ;
suppressão de palavras, onde po- não porque a acção climaterica
dem ser suppridas com econo- seja uulla, mas por não ser cla-
mia da voz e sem injuria da ramente apreciavel, e ser mesmo
idéa. pouco efficaz quando a huma-
nidade attinge um grilo notável
Mesologia e clima. — Na de progresso, isto é, de victoria
linguagem a influencia doclima, contra a natureza, de subtra-
que tem sido exaggorada, não é cção ils forças materiaes do meio.
bastante nitida,de modo que seja Eis o que. a respeito, ha muitos
analysada cabalmente. I)eve-se annos, escrevemos : o Além das
admittii' um influxo devido á raças e línguas, convém não es-
acção de todo o clima, em qual- quecer um factor de importân-
quer parte do globo. Mas que cia limitada, designado sob o
fica apurado, quando se pre- nome de meio ou condições mesolo-
tende notar as differenciações gieas, entre as quaes a principal
produzidas pelas variedades cli- é incontestavelmente o clima. A
matericas? Em que. por exem- mesologia abrange o estudo do-
plo, consiste a influencia do clima, dos accidentes e contor-
clima tropical? Quaes são os nos do solo e das aguas, da ali-
factos, na lingua dos brasileiros, mentação, do modus vivendi ma-
que attestam a influencia d'a- terial dos homens. Entre estas
quelle factor? So o hrasüeirisnío condições avulta o clima, por ser
representasse um estado patho- a causa mais geral, a que pode
logico da lingua devido ao clima explicar a existencia das restan-
tropical, idêntico phenomenode- tes. Alguns observadores, como
via produzir-se nu índia, em pondera Hardj-, tOm procurado
Ceylão, onde a lingua portugueza definira influencia mesologica ou
foi implantada e differenciou-se climaterica induzindo dos factos
sob a acção de clima idêntico ou a verdade que os sons se tornam
bastante proximo. Ora, o Indo- mais agudos á medida que cresce a
portuguez de nenhum modo se latitude ou baixa a temperatura.
íipproxima da linguagem luso- Assim, os phonemas latinos, ita-
americana. Os factos que no lianos e peninsulares em A, tor-
Brasil se devem attribuir ao nam-se mais agudos na zona
205
MESOLOGIA E CLIMA
média, na França, e attingem a claro que a actividade cerebral
maxima acuidade na zona se- e as funcções do apparelho vocal
ptentvional e mais fria. A pro- dependem immediatamente do
gressão pode ser notada nos ex- estado physiologico dos orgãos
emplos seguintes : que vivem sob acontinuadaacção
A (sul) E (francez) I (inglez) odo clima
meio.v E mais o seguinte: <cÉ
um factor incontestável
Cabo )
Capo V Chef Cliief(txif) aficações que se attribuem varias modi-
phoneticas na evolução
Caput ) e expansão geographica das lin-
Lábio 1 guas. As condições topograplii-
Labbro V Lfcvre Lip cas attcstam a variabilidade da
Labrum) prosodia, dos viciose dos provin-
cialismos dos idiomas. Mas quasi
Aguilf [ Eagle(igl') sempre é difflcil discriminar a
influencia especial de um factor
11 Estes exemplos, que nos secundário, quando se trata de
aponta Hardj', justificam a pro- productos^complexos e de analyse
gressão aguda ou diminuição so- obscura. E um facto, hoje vul-
nora dos valores plioneticos,pro- gar para a philologia romana,
duzida pela acção do clima. Os que a acuidade das notas vocaes
factos mesologicoi são os que no- está em proporção dlrecta com
tificam a variedade physiono- a latitude regional das linguas.
mica das linguas, e que a umas Assim é que o a das penínsulas
dão a iireferencia por certos sons meridionaes da Europa, em re-
que em outras escasseiam. O gra pouco exceptuada, atfecta a
tom chiante do se os diphtongos fôrma e no centro do continente,
em ão caracterizam o portuguez; e a fôrma i no extremo limite
os sons gutturaes do eh dão es- boreal. A progressão do phone-
pecial parecer ao allemão, como ma, como se vê, vae do grave
o sibilo-dental ao inglez, a nasa- para o agudo. A palavra lahhio
lidade ao 1'rancez e o excessivo do italiano, e lahio do hespanhol
vocalismo ao italiano. Assim, e portuguez apparece sob a for-
cada lingua tem sua organização ma livre no francez, e na Ingla-
ou Índole phonetica e de tal arte terra tem a fôrma li-p. (1) Dest'-
ordenada, que se pôde, ao ouvir -arte facilmente se verifica a im-
confusamente um trecho decla- mutabilidade da escala vocal A,
mado, dizer em que lingua está E, I, nos radicaes de idêntica
composto, ainda quando se não origem : paz, pace, paix, peaee ;
percebe uma só palavra ou phra- agro, aigre, eager, etc. Esta lei
se. A acção mesologica é sobre- não deixa de ter casos de interfe-
tudo profunda no dominio bio- rências, e assás curiosos, mas
logico. Não se deve dar exagge-
rado peso á intluencia do clima (1) Do inglez só se entendera o.s
sobre o trabalho mental; mas é vocábulos de prigem romaiiiea.
206
MESOLOGIA E CLIMA — METAPLASMA
que aparto (l'aqui para tornar se e avolumam sob a força ela-
mais límpida a conclusão que tora do clima na lingua do nor-
procuro. Entre as dilFerenciações te, ou no tupi. I)'este modo é
que soffrou a lingua portugueza que os vocábulos tu ou tur, ti,
na America, avulta considera- 2>e, do guarani, tomam formas
velmente a prosodia brasileira, mais amplas no falar dos tupis,
caracterizada por a predominân- tura, tib, pema_ e pmnha. Vê-se
cia do accento e da emoção so- d'ahi que o factor da contracção
bre a quantidade das syllabas. prosodica coexistiu com o domí-
A quantidade hreve, tão assigna- nio indígena e ainda continuou
lada na pronuncia reinicola,- com o seu succedaneo, o por-
transformou-se em uma quanti- tuguez. Este factor, coevo dos
dade semilonga, que caracteriza a dous idiomas que successiva-
prosodia brasileira. Ha, porém, mente dominaram, não perten-
um facto de cuja ex^ilicação te- cendo a nenhum d'elles, deve-
nho cogitado, e não deixam de lhes ser um principio estranho,
ser, pelo menos, curiosos os re- e e neccessaríamente o clima.»
sultados da minha especulação.
No sul do Brasil nota-se com 3Ietai>lasma ou metapla»-
insistenciainnegavel a diphthon- mo. — Alteração do vocábulo por
gação e coalescencia de vogaes addição, suppressão ou transpo-
successivas : rio, frio, tio, que sição de sons. Vide Figuras.
se pronunciam riu, friu, íiu, Aproveitamos a opportunidade
etc. O facto de contracções plio- para expender algumas conside-
neticas observa-se no sul e nas rações sobre as o/igens e causas
mais altas latitudes do império. da apherese: «xVs pessoas que
Dá-se justamente o contrario no estudam a grammatica histórica
Norte, onde as palavras saem das línguas romanas, é familiar
vocalizadas com maior descanço o exemplo curioso da apherese
« maior dilatação das syllabas. Es- no vocábulo francez anspessaile,
tes phenomenos são devidos ex- em portuguez anspeçada. Esse
clusivamente á influencia portu- vocábulo veio do italiano landa
gueza 1 Creio que não. E ha um spezzata (lança quebrada). Os
meio de verificar o meu asserto, é francezes transcreveram-o sem
«liminar o factor que julgo nul- duvida pela forma lanspessade;
lo e observar se o phenomeno, mais tarde, a ígnorancia popu-
assim posto, se produz em sua lar, suppondo allí a existencia
plenitude.Ora, antes da conquis- de um artigo (Vanspessade) pro-
ta portugueza, na lingua pura duziu a queda do í o creou a fôr-
dos Índios nota-se já esta difíe- ma, hoje única, anspessade. Cou-
rença de contracção phonetica, a sa semelhante aconteceu em
única que distingue o guarani nossa língua, porém com mais
do tupi. Com eíTeito, as formas inesperada complicação. No sen-
guaranis ou meridíonaes são tido da evolução histórica, o por-
contractas e mínimas e dilatam- tuguez conta duas sortes de
207
MKTAPLASMA - - METATHESE
artigos: Io, Ia, e o, a. Os últi- inicial, que se confundia com o
mos sobreviveram aos primeiros. artigo (Veiva). O vocábulo orafa,
Para mim, a melhor explicação com o significado de animal,
da apherese do o e a inicíaes escií também passou pela mesma in-
no facto muito freqüente do es- juria. Veio do italiano lonza (lyn-
quecimento etymologico e se- ceni, lat.) e devendo ser tran-
guinte confusão d'aquellas letras scripto na fcírma lonça, perdeu o
com os artigos ainda vigentes. O l inicial (1'onç.a) por se suppôr
povo diz não raro: um jicial ãe erroneamente que era o artigo.»
justiça, por suppôr que o o de ojji- Estas modificações accidentaes
cial é um elerílento separavel, um do systema phonetico são em
artigo. Só por analogo critério se numero de seis : Ti, substituição
acha a solução razoavel das per- (transformação, dissimilação, as-
das amiudadas áo o q a iniciaes. similação, transposição); 2Í, ad-
Exemplos: bodega e holiea, em dição (prothese, epenthese, epi-
vez de aljoãega,ahotica(\-A\j\m,apo-these); .!5í subtracção (apherese,
tlieca); hitacula, em vez de abi- syncope, apocope); 4Í, fusão;
tacula (hahitaeula, no latim); e abrandamento ; Oí, reforço. A fu-
postema, em vez de apostema. Em mo é completa quando ha con-
relação ao artigo masculino, re- tracção do vocábulo (dono—ão-
gistremos: a forma bis^ío, talvez minus); incompleta quando pro-
obispo, como ainda o ó no caste- nunciamos duas vozes livres
lhana, do latim episcopua; a fôr- e simples como se formassem
ma antiga e masculina cajom, em grupo vocalico ou diphthongo
vez de oceajom, derivada de oeea- (Deus). Ainda pode ser perfeita
sionem; e outras contestáveis, (por synalepha, synerese, crase),
como reloçjio, de oroloyio. A ou- ou imperfeita. Nos poetas ó muito
tra face do problema, natural- commum, e hoje ainda mais que
mente, contempla e especula em outros tempos, a formação de
sobre o caso dos artigos archai- diphthongos como em luar, real,
zados: Io, Ia, etc. O vocábulo eiva,que ás vezes se contam como vo-
em meu conceito, sbffreu trans- zes monosyllabicas.
formação analoga ás jíl mencio-
nadas. Eiva, ao que me parece, Metatliese.— Figurade di-
deriva de labem (1), e é forma cção ou metaplasmo que consiste
divergente em relação a 'laivo: na transposição de sons do vo-
eiva de corrupção, laivo de cor- cábulo : birlo, por bilro. Nota-se
rupção. A forma antiga deveria em algumas origenslatinas : pai-
ser leiva, mas como já existia rar, de parlare (parolare, para-
o liomonymo leiva, de gleba, effe- bolare); primeiro, de primarium;
ctuou-se a desapparição da letra queijo, de caseum. A metatliese
e,xplica-se quasi sempre por eu-
(1) Deve-se admittir o especimen phonia : choupo (por poucho ),
labiam, similar a rabiam, de ra- de populum (poplum, pl=ch);
biem. copo (por póco), de poculum, que
208
METATHKSE METHODO COMPARATIVO
também produziu a fôrma pii- ser italiana, ainda que a historia
caro. não dissesse que proviera do ita-
liano. A transformaçãoé
Metliorto comparativo.—
Methodo de estudo e investiga- exclusiva do italiano ; piangere,
plangere. A fôrma portugueza é
ção-de varias sciencias, maxime cJião,
das que se referem ao estudo do porque vi^—ch em verná-
homem. A comparação consiste culo : chorar, plorare; cheio, ple-
em notar as variedades que ex- num. A comparação é um me-
istem entre factos similares ou thodo fecundo em descobertas,
de origem commvim. Foi pela e quasi tódas as etymologias ro-
comparação do grego, allemão, manas são verificadas, quando
latim, sanskrito, slavo que se não achadas, pela comparação.
conseguiu determinar a unidade Cf. o port. aragem e o fr. orage;
fundamental d'essas linguas e jour, de diurnus, com o ital.
constituir com ellas a família giorno, etc. No dominio da se-
indo-européa ou aryana, amais mantica (estudo da idéa, do sen-
importante de todas as familias tido dos vocábulos), a compara-
de linguas existentes. A compa- ção dá os mesmos resultados,
ração é um processo de maior como demonstrou Max Jlüller.
vigor e importância do que a his- Foi o espirilo.germanico que na
toria, porque essa falha ás vezes, idade média substituiu por
como se díí com a familia arya- focus, por maior aflinidade com
na, cujas migrações mal são com- o germânico feuer. A palavra
preliendidas á luz da historia. contrée, região,derivou-se de con-
Os factos modernos têm historia trata, palavra barbara que os
conhecida e essa basta. v. gr., germanos crearam.por exemplo,
para determinar aunidade latina das que já tinham, gegend (re-
fundamental nas linguas roma- gião) de gegen(cont.ra., defronte).
nas, sem o auxilio da compara- Pela comparação se vê que ha
ção. No esludo especial das lin- certa communidade de proces-
guas, a comparação com outras sos de espfrito. Das palavras
esclarece as etymologias, indica longe-perto os chínezes formara o
os processos communs ou tradi- substantivo distancia. Ora, os
cionaes que o espirito humano, aryan<is lambem empregam ló-
e mais especialmente um povo, gica idêntica ; a palavra distar
uma raça, emprega na sua lin- compõe-se de stare, fixação, e de,
guagem, na exposição de seus separação, afastamento. A com-
pensamentos. A comparação, em- paração mostra a identidade fun-
fim, determina freqüentemente damental dos dous productos, o
a origem dos vocábulos, mos- religioso eo lingviistíco. O my-
trando que cada lingua tem suas tho primitivo confunde-se com o
leisphonicasespeciaes que a cara- fantasma mental, a, metaphora.
cterizam. A palíivíiijnano, üepla- Cf. Jan.nus, djanus, Diana, e
num, só pode para a lingüística dies, deus, seuz, theos, etc.
209
METRON — MODOS
Metron, medida.—Elemento uma palavra ou phrase a que es-
grego. Metrologia, sciencia das teja ou possa estar subordina-
medidas. Diâmetro, medida atra- do (1). 1. 2'odas as flexões verbaes
véz. Os hybridismos são com- que são regidas por palavra ou
postos com elementos latinos : phrase dada em circumstancias
ãeciinetro, millimetro, etc. Não iguaes ou que só variam quanto
deve confundir-se com o ele- ao numero, pessoa e tempo, per-
mento métêr (mãe), que se nota tencem a um mesmo e idêntico
em metropole, cidade-mãe ( ao modo:
certo, sede de arcebispado). Sei q>ie teus interesses prosperam.
Mra.— Gemlnação produzida Sabia — prosperavam.
pela composição de palavras de Soube — prosjierafam.
Sei — h<ão de prosperar, etc.
m inicial com prefi.xo assimilá-
vel, como in, ob ; immereoido, Essas formas (que apenas dif-
ommittir, commettimento, etc. ferem quanto ao tempo, numero
Vem do latim. e pessoa), pertencem ao mesmo
modo ; Indicativo. Com o verbo
'Modos.— São innumeras as prever : prevejo que tu aairás ;
opiniões dos grammaticos sobre previ que sairías. São ainda fôr-
a noção de modos dos verbos. Do mas do Indicativo. (2) 2. Com
que havemos lido, pareceu-nos certos verbos, porém, o verbo
mais sensata a classificação de regido tem uma flexão especial.
Andres Bello, que,por ser de todo Com o verbo duvidar: duvido
applicavel ao portuguez, vamos qne saiam ; duvido que saíssem.
aqui expor summariamente. O Aqui não se poderá dizer: du-
schema dos modos é o seguinte : vido ou duvidei que sae, que sa-
MODOS iu, que sairia, etc. Essas for-
I II mas, longe de arbitrarias, são de
Indicativo Subjunctivo caracter subordinativo e consti-
a) b) tuem o modo subjunctivo geral ou
commum, ou são ampliações que
•O ^ continuam a afíirmação de du-
® 3 vida, incerteza, receio. (3 ) 3.
Cl 2. (1) Diz-se esteja ou possa estar,
«5O porque em muitos casos lia plirase
ou palavra occulta : Deus te aben-
Por ahi se vê que os modos çoe ! entende-se pejo que Deus, etc.
principaes são dous, e ha, ao (2) Ahi divergem muitíssimo os
todo, entre modos principaes e grammaticos, que cousideram o
secundários, quatro modalidades Condicional como um modo único.
de íiexão e de sentido. Eis, em (3) A affirmação positiva, com
resumo, as idéas do grammatico certeza, pôde ser ampliada pelo
subjunctivo quando lia movimento
castelhano : Modos são as liexões do animo; Sinto que partas. Ahi
do verbo, emquanto provêm el- affirma-se a partida, mas com o
las da influencia ou regimen de animo movido.
DICC. GRAMM. 14
210
MODOS — MORPHOLOGIA
Optativo é O moào cujas ícírraas possuem accentos : o, a, de, em,
se expressam pelo subjunctivo me, te, se, nós, vós, lhe, que, si ou
commnm em proposições indepen- se.
dentes para exprimir um facto Morae.s, substantivos, no-
positivo ou negativo; Praza a mes.— Epitheto empregado por
Deus que sejas feliz. NSo recues alguns grammaticos portugue-
do teu proposito. 4. O optativo zes (segundo A. Netto, no Eseo-
tem um caso especial de tlexão, liaste) para designar qualidades
também especial, sempre positi- accidentaes no ,homem : minis-
va, em que o desejo expresso tro, imperador. E muito excesso
deve ser cumprido pela pessoa grammatical !
de quem se fala: Anda 1 Ileti-
ra-te. Notae bem. Esse caso es- Morpliê, forma.— Elemento
pecial é o Modo imperativo. As grego de composição. Amorpho,
formas im2')erati'Bas são apenas da sem fôrma. Metamorphose, mu-
2" pessoa; as outras silo optativas. dança de fíírma. Antropomor-
Por ser sempre positivo, o impe- pliico, de forma de homem.
rativo ni\o admitte negaçíío. (1) Morpliologia. — Definimos:
D'ahi se deve, em ultima analy. a parte da grammatica cm que
se, concluir que não existem/í«- se analysam os orgãos que con-
xões modaes, isto é, variações pró- stituem o vocábulo. Por orgão
prias para exprimir os modos dos entendemos qualquer parte do
verbos. Os modos devem, pois, ser vocábulo que exerce funcção de
classificados quanto ao sentido sentido : o radical e as partes
exclusivamente, ou ao menos aíílxas. Assim, dividiremos as pa-
considerando-se simultaneamen- lavras conforme os seus orgãos :
te o sentido e a fôrma (llexílo). pre-ver, ltomen-s,}\\s,t-issimo, vae-
Mogilali.smo. — Vicio pro- partes e-vem, etc. Cada uma de taes
sodico, gaguez na pronuncia do portanto, conserva o sentido, e é,
p eb. orgão. Alguns aucto-
res, porém, vagamente definem
Molhadas.— Dá-se este no- a. morplíologia: tratado das fôr-
me ás letras Ih e nft. mas; podendo-se entre estas in-
Monosyllabo. —- Vocábulo cluir as exterioridades phoneti-
de uma única syllaba : vêz, Jiór, cas e até a classificação dos vo-
dór, etc. Em geral, os monosyl- cábulos (phonologia e taxinomia).
labos são oxytonos (agudos); ex- Essa confusão nos parece absur-
ceptuam-se, porém, algumas par- da. Os elementos phoneticos não
tículas e vozes encliticas, que não são propriamente/ómas, porque
não envolvem cousa alguma in-
(1) Amlres Bello—Gramm. casl. teriormente; fôrma quer dizer
lOÍ e<l. (131—139). O subjunctivo vestidura e implicitamente deixa
hypothetico que o aiietor applica ao imaginar-se um facto interno a
castelhano, parece não ser admis- que a fôrma se refere. Assim,
sível no portuguez. as syllabas, letras, desordenada-
211
MORPHOLOGIA — MYTHOLOGIA
mente, não representam/órmaí, Mytliolog^ia.—São em gran-
ao menos no sentido puro do vo- de numero os termos de mytho-
cábulo. logia que se tornaram populares
Mr, grupo latino resultante ou serviram de thema de deri-
da contracção m'r.— No portu- vações na lingua vulgar. Os an-
guez a articulação mr, por difli- tigos nomes dos dias, martes, lu-
cil, acha-se euphonicamente per- nes (mardi, lundi, Martis dies,
mutada em br, humeruri, huni'- lunre dies), existiram na lingua,
rum, hombro; cf. camaraeo pleb. e o portuguez foi o único dos
cambra e eaimhra; memorare, idiomas latinos que acceitou a
mewiVure,lembrar (ant. nembrar). reforma ecclesiastica na denomi-
O grupo br também se filia á ori- nação dos dias: quarta-feira, do-
gem mí, m'í, V. gr.: cumulum, mingo, etc. O francez apenas
cumHum, combro. adoptou a forma christã domingo
(dimanche), em vez do antigo
Mudas. — Consoantes que dies solis; os dias restantes fica-
não soam de modo algum sem o ram quasi todos com as denomi-
concurso da vogai: p, b, t, k, etc. nações mythologicas: lundi, mar-
São também aYí&m&á&s explosivas di, mercredi, jeudi, vendredi (lu-
ou momentaneas. Vide estas pa- nai,Martis, Mereurii, Jovis, Veneris
lavras. dies) (1). Vejamos algumas das
Múltiplos e multiplica- etj^mologias mais notáveis no
tlvos.—Também chamadospro- dominio da mythologia greco-
porcionaes ; SÃO os números que romana: Ammoniaco, substan-
indicam a multiplicação da uni- cia preparada outr'ora na Lybia,
dade : dwplo, triplo, centuplo, ãe- perto do templo de Júpiter Ám-
cuplo. As dezenas e centenas (ex- mon. Aphrodisiaco, do gr. Aphro-
cep. 10 e 100, decuplo, centuplo) ditê, Venus. Areopago, der. do
não têm formas de multiplica- gr. Arês, deus Marte. Atlântico,
tivos. Para 2, ha as formas du- do rei Atlas. Bacchanaes, der. de
plo e dobro. Formam-se também Baccho. Bacchantes, etc. Boreal,
analyticamente com a expressão de Boreas, vento norte. Cypreste,
tezes : vinte vezes, etc. No caste- de liuparissos, pastor, llermetico,
lhano ha algumas formas agglu- hermeticamente ; deriv. do gre-
tinadas com tanto, v. gr., el cua- go Hermes, Mercúrio. Janeiro,
trotanto do valor (o quádruplo). nuario; der. de Janus. Marcial,
São considerados coUeetivos defi-
nidos por alguns grammaticos. (1) Na denominação dos dias da
Murias, ados, dez mil.—Ele- semana, os franeezes conservam os
mento grego. Myriade. Myriapo- vestígios da influencia religiosa
dio, millepedes. greco-romana (mardi, jeudi, etc.),
judaica (samccíí, sabbado), e cliristã
Mutlios, ficção.—Elemento (dimanche, domingo, de dominica,
grego. MytJiologia, tratado dos ou antes, dies magna, que melhor
mythos. Mytlio. corresponde a dimanche).
212
MYTHOLOGIA — NASALIDADK
mavorcio, etc., cie Marte. Jovial, ja). Pela escala nlr, temos as
de Jove üii Júpiter. Pânico, de- permutas em r: cofre, de co-
rivado de Pan. Vulcão, deriv. de phinum ; e nas fôrmas france.-
Vulcano. Deixamos de rebitar as zas : timbre (tympanum), Londres
formações de exame fácil, cuja (Londinum). Transformou se em
etymoíogia se torna evidente pa- m em mastruç.o (nasturtium).
ra todos : saturnal, de Saturno; A syncope do n 6 um facto ca-
moriiliina, de Morpheu; irisar, de pital no portuguez, que, como o
íris; hercúleo, de Hercules; eolea, basco, pondera Diez, tem anti-
harpa, de Eolo; artemisia, de Ar- pathia ao n: cadêa, catenam;
themis (Diana); cereaea, Ue Ge- boa, lona; lua, lunam ; vaidade,
res ;/aíííi«, de Fauno, etc. vanitatem. N, letra portugueza.
Resulta dos casos apontados aci-
]¥ ma ; da.nasalização da guttural
c em lontra, pente (luctra, pe-
cten). Da confusão de liquidas í
N.—Letra nasal. Poucas pa- e m: nível, de libellam; nespera,
lavras terminam em n (joven, de nespillum. Em regra, a inici-
regimen, ademan, alan, pollen, al representa o n latino : noite,
numen, hyplien, canon, iman) e noctem. N.—Em relação ao ele-
fazem o plural com accrescimo mento germânico, não ha facto
de s: jovens. Numen faz numes notável observado. Em relação
ou numens e ademan e canon pe- ao elemento arabe, deve notar-se
dem o augmento es (cânones). a persístencía : anü, de an-nir;
Na terminação an o n vae cain- e o facto da dissolução do hiato
do em desuso e ó substitnido em nh: azenha, as-saniya (En-
pelo til: irmã, lã; mas nSo ha gelmann).
regra nesta matéria. Composta
com li em nh, tem som proprio, Nacioiializaílas, naturali-
excepto quando o h pertence, zadas. •— Dizem-se as palavras
em composiçilo, a outra palavra, tomadas de línguas estrangeirase
anhelar, inldbir (an-elar, inibir); admittídas no uso vulgar, como
neste caso dever-se-ia supprimir clvh,rosbife (roast beef), do ínglez;
o li como se faz em anemia (an- petipé (petit-pied), petimetre (pe-
hemia). Também é letra eupho- tit-maitre), oboé (haut-bois), do
nica nas'phrases : amaram-w'o; francez; aquarella, adagio, tenor,
quem n'o disse—exemplos fre- do italiano, etc., etc. Estas pala-
qüentíssimos, maxime na poe- vras entraram para a língua com-
sia. II Letra latina. O n no an- mum e quasí sempre, como é de
tigo portuguez varias vezes per- regra, adaptam-se lís condições
mutou-se com a liquida l: nem- da prosodia vulgar. São exemplos:
hrar e lembrar ; lomear e nome- paletó, boné, rocló (roquelaure),
ar ; strolomia e astronomia; lor- charcuteria (chair cuite), etc.
mandos e normandos ; (cf. a fôr-
ma port. laranja e a cast. naran- Nasalidade.— Vozes nasala-
213
NASALIDADE — NEGAÇÃO
ãaa. Caracter dos sons que, em Damos os exemplos : nivel, de
parte, expiram pelo nariz. As libellam, e mortandade, de mor-
graphias nasaes em portuguez íaZíto<m. Leia-se o artigo A7, le-
são am, an, ão, ã, em, en, im, in, on, tra. II A orthographia do som na-
ões, um. un, Ue. O til (~), signal sal é muito incerta. Nas termi-
de nasal, só se usa sobre as le- nações em que entra a letra a,
tras a e. o em Oea, ãe. As Wrmas vê-se empregar m, n, ou til: pão,
ão, ãe, õe chamam-se diplithongos irman, irmã, Ghristovam. Entre-
nasaes. O diphthongo nasal ão tanto, com as terminações de vo-
orthograplia-se am nas flexôes gai differente, o til não é mais em-
paroxytonas dos verbos : ama- pregado : marfim, som, tom, atum.
ram, amam (amárSo, amilo). Também é costume indicsir a na-
Nas desinencias nominaes, en sal com accento agudo ou cir-
emprega-se por em nas palavras cumflexo em certas fôrmas ver-
paroxytonas : regimen, joten; baes do plural onde o til caberia
excepto nos vocábulos estra- melhor: têm, tém, teem, em logar de
nhos ; item, iãem. Nas desinencias têein, mais conforme á pronuncia.
em õ nasal, a orthographia an é Naus, nau.— Elemento grego
preferida nos oxytonos : irman, de composição. Nausea, de nau-
lan, etc. A desinencia on só é sia. Aeronauta (aér, ar ; nautês,
usada por om em vocábulos es- navegante). Naumachia, combate
tranhos: Oãeon, Orpheon, etc. : naval.
nos mais casos, com oxytonos,
usa-se om: som, bom, etc. Negação.— 1. Processo da
linguagem que consista em de-
líasalização.— Phenomeno struir a afíirmação expressa pelo
observado na historia da lingua verbo. Muitas vezes a negação
em diversasoecurrencias ; 1. iía- fica implícita no iiroprio vocá-
salização da vogai por influencia bulo, quando este contém um
de prolação de som nasal ante- elemento negativo in, non, sem,
rior. Tal é a influencia do m des,a, grego : in-finito, nem-um,
inicial em : muito (pronuncia[lo sem-razão, an-emia (haima, san-
muinto), mancha (por maeha, gue), des-fazer, i-gnorar. Na mi-
mac'lam), mim (por mi, do nha Oramm. (Curso supei'ior) es-
lat. milii) e minha (mea), etc. crevi bastante sobre este assum-
Em muito, o u sente-se nasal pto e não cabe aqui repetir o
como em plano o a se resente da que lá se acha, mas aconselho
nasal da syllaba seguinte. 2. que se leiam as considerações
Nasalização ãa vogai por com- que ahi fiz sobre as palavras ne-
pensação da queda de guttural, gativas. No caso geral, a negação
C — k. Exemplos : nem, nee; sim, apresenta-se naphrase por qual-
■sie; pente, íJecííTw; lontra, luctra, quer modalidade, e em regra por
3. Na^alizaçãoxioi eífeito de per- meio do averbio não. Este, de to
muta do l, caso que precisa ser dos os advérbios, e o único neces-
averiguado mais amplamente. sário e indispensável. Sabe-se
214
NEGAÇAO
que todos elles, sejam de tempo II 3. A NEGAÇÃO pôde ser ex-
modo ou qualidade, podem ser pressa por palavras ou por
substituídos por locuções ou ou- plirases de sentido positivo e
tras voltas do discurso. O advér- atlirmativo. O determinativo al-
bio não, porém, é indispensável. gum exerce especialmente esta
Elle não ama a preguiça. Póde- funcção quando posposto : Ho-
se-lhe dar a forma positiva appa- mem algum poderia dizel-o. || 4.
rente: Elle ãesama a preguiça. A NEGAÇÃO DUPLA pode Ser fran-
Mas o sentido é forçado e de todo camente usada no portuguez,
diíferente, porque o que se nega sem amphibologia nem erro ;
é o amor, o que a ultima phrase «ATão praticou obra nenJtuma.n
não traduz e põe o principal in- nNão digas nada.» As constru-
teresse onde não estava, no obje- cções preferíveis no estylo ale-
cto—preguiça. Antes da disci- vantado eram, por mais alatina-
plina classica, alguns escripto- das: «iVão praticou obra al-
res formavam ás vezes a negação guma.» «JVada digas.» «iVao di-
com o participio presente por gas cousa alguma.» Este facto é
meio de sem : « Fugiram todos, caracteristico da degeneração do
sem curando de levar cousa al- latim medievo, pois no latim
guma.» P. Lopes—Ohron., 200. clássico a negação dupla eqüi-
Em João de Barros depara-se o valia a afflrmação. || 5. Com os
uso opposto, isto é, emprega não verbos recear, temer, muitas ve-
em logar onde ü costume hoje zes o sentido latente representa
empregar sem: « Tanto que par- a affirmação, quando a phrase
tiu, 03 que alli leixou foram-se denuncia o contrario. Eis o
trás elle nam que os visse». Dec. modo de interpretrar as seguin-
III, I, 8. II 2. O uso de nunca ja- tes phrases, cujo emprego por
mais, que por vezes se tem ta- vezes illude aos proprios escri-
xado de incorrecto, tem a seu fa- ptores: «Receio que elle venha =
vor as melhores auctoridades da Desejo que elle não venha.» «Re-
lingua : vNunea jamais naquel- ceio que não, venhas = Desejo
les claustros se experimentou quevenhas.» E muito para notar
nem sentiu ar contaminado.» Pr. um não que se encontra nos clás-
Luis de Souza—IKst. de8. Dom. sicos, mas que, por não exercer
I, 5!). uO' candissima formosura funcção alguma, mais parece
da Fé ! Vem e entra no meu co- servir apenas para—no dizer do
ração e nelle estabelece teu as- Visconde de Castilho —arredon-
sento immovel, para que nunca dar a phrase (receio que não me
jámais te desampare.» M. Ber- estejas mentindo). Cp. lat.—timeo
nardes—Par. dos Cont., 58. Tam- (ut) ne veniat, ut non veniat, e
bém se (Xvi jamais nunca, como por fim—quod nonveniat. || G.ne-
o disse, entre outros, Camões nas gação EMpnATicA. — Em todas
suas Jlimas: as línguas romanas foram aggre-
Lembre-vos minha tristeza gadas á negativa principal pala-
Que jamais nunca me deixa. vras accessorias, que servem
215
NEGAÇAO
para dar mais vigor e animo ií tigo que se colhem os especimens
nefração. No francez os accesso- completos do rem natám (rien
rios usuaes são pas e point, do née). Aqui tenho um exemplo
intensidades differ»!iites (1), e de Burgny : L'avoit plus aimé
rien, que lem valor afürmativo que rien née. Tinha-a mais ama-
em varias locuções. Em portu- do que a cousa nascida ou crea-
guez, o accessorio de maior im- tura. Por ahi se descobre fa-
portância é indubitavelmente o* cilmente que a negação reforçada
vocábulo nada, sobre cuja ety- não diífere cabalmente do cir-
mologia escrevemos, ha tempos, cumloquio portuguez. O que, de
o seguinte: «A palavra rmãa de- tudo, porém, é mais notável é
riva do adjectivo latino nahis, e que da locução primitiva rem
significa literalmente : couaa nas- natam só o primeiro elemento se
cida, rem natam. Esta etymolo- obliterou no portuguez, ao passo
gia é já hoje um facto adquirido que a obliteração do segundo se
e consignado em nossas melho- effectuou na língua franceza :
res grammaticas (2). O que sim- Rem natam,/r. rien;port. nada.
plesmente aqui pretendo, é dar Infelizmente não so deu o que
o testemunho historico d'essa era possivel, a existencia das
etymologia, apparentemente es- duas fôrmas em qualquer das
tranha e estravagante. Era cos- línguas romanas, açtualmente
tume, 110 antigo romance, en- vivas. II 7. A negativa senão
carecer a negação por meio do pode ser expressa por que, quan-
circumloquio : omen nado (ho- do a phrase anterior já é nega-
meii nascido).Exemplos : nehum tiva. Eis o que diz Silva Tullio ;
omen nado o fez.. . Nem o dixe «Ila quem tenha escrupulo de
omen nado. (C. da Vat.) Os fran- empregar nas phrases negativas
cezes e trovadores provençaes com restricção, o conjunctivo
diziam: homme nez. E até no que em vez de senão, porque al-
castelhano antigo occorre a fôr- guém escreveu que era gallicis-
ma nada, desacompanhada, no mo. Esta asserção, porém, não é
Poema de Alejanãro : «Non es exacta. A substitviição do que
nado que Ia pueda terminar» (3) por senão, nas phrases em que o
— não ha homem .. . Não ob- segundo membro restringe a ne-
stante, é sómente no francez an- gação do primeiro, tomaram
il) A fôrma pas encerra uma acaso os nossos clássicos do ita-
afiinnativa latente, o que não se liano, 6 não do francez, porque
dá com point, Ex.; N'cst-lu pas naquelle idioma é freqüente se-
mon ami ? (eu sei que és meu melhante construcção. Basta um
amigo) é affirmativa.Â'''esí tu point exemplo: uNon aveva Toste che
mon ami ? (serAs tu meu amigo ?) una cameretta, assai piccola.»
é negativa ou dubitativa.
(2) Já se encontra na excellente (l$occacio, Qiornata 7, n? 9).
Gramm. de Julip Ribeiro. Segunda O mesmo os hespanhoes: «No
edição. puede producir otro efecto que
Repert. Amer. 111. risa ou fastidio.» (Quintana,
210
NEGAÇXO — NEGRO
Musa ep. pag. 39). Agora aU- phia e quiçá pela prosodia. Em
cluziremos alguns exemplos de regra dever-se-ia escrever : dis-
auctores clássicos portuguezes: inquietar, disgostar, disfeiar,
«Dizem que não t6m (as pyrami- com o prefixo dis, que exprime
des do í]gypto) nada de grande diffusão, plenitude ; dever-se-ía
que a vaidade de seus invento- escrever com des: desfazer, des-
res.)) (Bluteau, Prosas, t. 1, pag. merecer, etc. Não tem, pois,
54). — iiA lei de Deus, que vós razão Cândido de Figueiredo re-
professaes, e promettestes no pellindo a fôrma desinquieto que
baptismo guardar, não é outra apenas está com a errada ortlio-
cousa que lei de santos, pois é graphia des por dis; muito me-
conservar a graça santificante nos a tem Heraclito Graça,
por meio da observancia inteira que confunde de, des e dis, os
dos seus preceitos.» (Bernardes, quaes têm sentido e etymolo-
Florestas, tomo II. pag. 50). — gias diííerentes nas linguas ro-
«Para mim não quero outro pre- manas.
gador que o snr. Anselmo.)) (Mar- Negativa. — Diz-se a propo-
tim Atfonso de Miranda, Tempo sição que contém a negação ex-
de Agora, t. Il.dial. 3).—«Todo o pressa, não no verbo, mas por
Decalogo bem considerado, não modificativos (advérbios ou ou-
6 outra cousa a lei natural.). tras palavras e locuções). Propo-
(Bluteau,/Vo«a«, t, I). — «As vos- sição positiva: Pedro ignora.
sas cousas não tôm outro mal, Proposição negativa: Pedro não
para os leitores mordaces, que sabe. Estas duas proposições,
serem verdadeiras.)) (Garcia ainda que equivalentes no senti-
d'Orta,Cí)M.,pag. 20). —«Quando do, diflerem naafflrmação quan-
S. Paulo nas suas cartas chama to á fôrma. A segunda é nega-
aos fieis santos, não quer dizer tiva por causa do advérbio não.
outra cousa que bons christãos.»
— (Bernardes, Florestas, t. II, Negativo. — Prefixo que an-
pag. 578). II 8. Apparentemente os nulla o sentido do radical. São
prefixos negativos não exprimem prefixos negativos os latinos des,
negação e parece exprimirem de, in e o grego a, an. Exemplos :
reforço muitas vezes. Assim, desfazer, desesperar, inútil, inci-
desinquieto eqüivale a inquieto; vil, inquietar; a-catholico, a-theu
encontrado eqüivale a desencon- (sem Deus).
trado; desfeiar, a tornar feio ; e Negro, elemento. — Sob a
com igual sentido, desgastar, denominação de Elemento negro
desvairar, desnudar, desbotar — designamos toda a especie de
gastar, variar, por nú e boto. alterações iiroduzidas na lingua-
Descantar = cantar. Explica-se gem brasileira por influencia das
o facto pela presença do pre- linguas africanas faladas pelos
fixo dis, que é diíTerente de de e escravos introduzidos no Brasil.
des, não tendo sido essa difle- Essas alterações não são tão su-
rença respeitada pela orthogra- perficiaes como aíHrmairi alguns
217
NEGRO
estudiosos ; ao contrario, silo lungo, matame, quilo, quihungo,
bastante profundas, não só no mucunzã, mucama, giló, quihêhe,
que diz respeito ao vocabuiarip, mandinga, fula, ahalá, ^aherem,
mas até ao systema grammatical calunga, afurá, acassã, carajé,
do idioma. A bibliograpliia do carurn, vatapá, cacumhú, calundú,
assumpto é pouco abundante, ganzá, batuque, candomblé, cucumhi
se exceptuarmos no Brasil raros molanibo, quingomhó, hirimltau,
trabalhos do eminente philolo- marimba, cahungo, aluá, candango,
go Macedo Soares. (1) Reprodu- ( = l'ortugue/,), bambu, caçula,
zimos o que escrevemos na lí e mabaça, bóhó, fandango (espada
2? edição d'este livro na esperan- velha, não inteira, reduzida a
ça de que esses apontamentos facão), cafanga (feitiço), muneuá,
despertem a curiosidade ou a mocambo (pifio, sem valor), ta-
attenção dos eruditos e dos en- tamba, quengo (conchaparasopa),
tendidos no assumpto. Valôr kéké, quequé, binga (cornimbo-
maior não podem ter e nem se que para tabaco), cangalhé ( ob-
devem ter a conta de estudos jecto velho, ferramenta impres-
qegulares nestas mal estudadas tável), quitandê (feijão macassa
duestões. || Comquanto fossem debulhado), bangüê, c/íeJé'(touci-
riversas as linguas dos negros nho baixo, ruim, orelha e beiço
que vieram para o Brasil, por de porco salgado ou moqueado),
talta de documentos especiaes, bozõ (especie de jogo com uma
frataremos da influencia, aliás bola, usado nos botequins), zum-
cxtensissima, do amlundo, lín- bi, zambi, mocotó, tarimba, gambá.
gua de Angola e Congo,seguindo (1) Alguns d'estes vocábulos são
os esclarecimentos fornecidos locaes e na maioria geraes, co-
por Cannecatim (Vocal).) ,lv6ns, nhecidos em todo o Brasil, no
Padre Dias (Oramm.), Bentley elemento popular. O systema
e poucos outros. Não convém grammatical do grupo bantú,
insistir sobre o que se refere complicado no que respeita lís
especialmenj^e ao léxico africano divergências dialectaes, é toda-
no Brasil. É cousa sabida que via fundamentalmente simples.
são innumeros os termos Comprehende-se porque em uma
d'aquella origem : candangos, ca- dada região relativamente pe-
mondongo, matungo, mataco, ma- quena — as divergências sejam
tão sensíveis ; os povos barbaros,
(1) Na Ecv. Uras., IV. Seria para sem tendencias de unificação,
desejar que um homem illustrado sem relações de sympathia in-
como o Sr. Dr. Neves lieão, que
fala perfeitamente a lingua yoruhba terregional, antes inimigos uns
(nagô), publicasse aiguns estudos dos outros, acceleram cada vez
sobre a influencia das linguas afri- mais a differenciação entre suas
canas no Brasil. Keeentemente, oc-
cupa-se <ie estudos antliropologicos (1) Innumeros, fornecidos por
da raça negra uo Jirasil o erudito Valle Cabral — Folk Lorc (ine-
Dr. Nina Rodrigues. ditoj.
218
NEGRO
línguas. Essa causa é profunda tinantes. No Bourbon, no francez
e se acha em actividade por toda creoulo, diz-se une lacase (uma
a parte. 8irva de exemplo o dia- casa). O artigo ía flcou apposto
lecto bogotano, que pela sua inconscientemente ao nome. A
literatura tem-se avantajado na mesma cousa fazemos quando
integração própria dos povos redundantemente applicamos o
hispano-americanos. A quem artigo vernáculo á maioria dos
quer que se occupe d'esses estu- termos arabes: a aíchimia, o
dos, do africanismo, entre os assucar, etc. Em portuguez, loba
seus factos grammaticaes occorre é o francez Vauhe. O proprio
o da assimilação ou sympatMa francez tem exemplos d'essa ap-
phonica, que vamos desde já posição. (Vide Brachet). Mas é
analysar. O ambunão tem um devido a essa funcção do artigo
systema de partículas ou antes ambundo que as palavras portu-
de elementos pronominaes (1) guezas foram transcriptas sob
que constituem propriamente o diversas formas ; jifunête, alfi-
seu apparelho de relação. Apon- nete; jiguia, agulha; jialagéma,
temos : I, ri,ca, qui, a, gi, etc.Es- algemas ; cuarmazen, arma-
ses elementos são,segundo as cir- zém; jichimbu, chumbo (1).
cumstancias, artigos, particulas, O inverso deu-se no brasileiro.
relativos, demonstrativos, e ía- A palavra dinheiro entre os ne-
zem o liame de quasi todas as gros do Brasil toma indifferente-
agglutinaçoes: especies de or- mente as formas bungo ejibungo.
gãos de múltiplas funcções, que Cumpre notar que esse pro-
denotam o estádio inferior do prio ji—é uma característica
organismo de que fazem parte. de plural (2) —isto é — não per-
As mencionadas particulas têm dendo a sua categoria de demons-
entre outras funcções : a) A trativo. dj As outras funcções
funcção do possessivo, sobre- de que se investem os elementos
tudo com i ou qui: tataiame, em consideração, não deixaram
tata-quiami, meu pae. D'ahi tal- em nossa lingua vestígios perce-
vez, na linguagem dos africanos ptíveis, nem talvez nunca inílui-
no Brasil, a tendencia analytica: ram,attentas as differenças de es-
a roça de eu, etc. h) A funcção tructura das duas linguas. Os di-
de relativo, e) A funcção de ar- minutivos forçíiam-se com o pref.
tigo ^ri=variante dialectal^ij,
prefixado como o al arabe. Ex. : (I) Todos esses voeab. se encon-
Riala f'íaZa=homem). Este uso é tram no Dicc. de Cannecatini
manifesto entre as linguas agglu- (II) Faço esta observação, porque
nas velhas grammaticas, escriptas
(1) O processo é tão natural, que sol) o ponto de vista do latim, ha
existe na familia aryana — onde sempre confusão de expoente fle-
são as particulas que em geral re- xionai, que não existe nas linguas
presentara elementos demonstra- de amalgama, com os elem. analy-
tivos e pronominaes. ticos pronominaes.
21»
NEGRO
co(ca-fcle Vguafila). Assim : fan- mores pequenos de sangue pelo
ãeba, de Oa-JVdeba (cabellinlio). corpo. Talvez, como é termo do
Arvorezinha, caguisassa (ca- Brasil, os negros appozessem a
qu'isassa). (1). D'esse genero de lo7nbo o seu prefixo diminutivo.
agglutinação, temos alguns exem- (1). O processo do augmentativo
plos no dialecto brasileiro, nos é com o prefixo^ : QuituUu,
diminutivos. Cacunda, não de peitos grandes. É interessante a
macunãa, pl. do ri-eunda, mas observação que faz o padre Dias
sem duvida do proprio diminu- sobre a tendencia pejorativa ma
tivo ca-eunda; nessa como nas nifestada pela avigoração do i
demais linguas, o diminutivo em e no elemento qui-que. D'essa
tem o valor pejorativo. E assim nuança, todavia, nenhum exem-
succede com o augmentativo. plo nos resta, que saibamos.
Camondongo. — Rato pequeno. Quiasaitiba, transf. em cassamha,
Evidentemente contém ndheng= não é diminutivo, pelo contrario.
pequeno, e o atlixo também di- A forma samba (rissamba) signi-
minutivo ca. (Ivens; Rato pe- fica caneca ou balde, a que se ap-
queno, . Oandongas.— pôz o prefixo augmentativo. O
No sentido de cousa pequena ; termo caçamba também designa
palavra de agrado ás crianças : uma especie de estribos grandes
minhas candongaa.YiAa a analyse e em íórma de sapatos. De for-
antecedente (ca-ndhenghé, cri- mação analógica. O exemplo pre-
ança pequena). Caxinguêlé o\\ Cíí- cedente, comquanto único, é to-
xingulê. — Exemplo notável. davia característico.Outro facto,.
Elemento central: jingulo{ng\úo- e de valor bem definido, em re-
porcoj, com o prefixo ca diminu- lação it semantica — é especial-
tivo. Éumaespecie de esquilo. A mente o do esquecimento do nu-
desviação do accento ó commu- mero. Nessa determinação en-
nissima. Gassula. — Usado como contro algumas observações do
composto em Angola. Ivens traz
Quanto á composição, sal- (1) Essa intrusão de elementos
vo erro,encontramos os dous ele- de grão não é excepcional; nós jíi
mentos casula (iazula, ou qui- apresentamos nos Èsl. Phil. o suff.
zula, nú).0filho mais^novo, ainda germ. ock (Marocas, Joca, Juca),
pequeno. CaZomio.—E o exemplo e mesmo os patronymicos Martins
de maior importancla, se se ope- (Martin-ez), suffixos gothicos; este
rou, como suppomos, uma hybri- ultimo mencionado por Diez(Gram.
dação de vocábulos. Designa tu- rom. Spr.) Os negros admittiram,
em sua lingua, um grande numero
de vocábulos lusos, e applicaram-
(1) Quisassa, isassa. A raiz deve Ihes os seus processos grammati-
ser necessariamente iza, indicando caes ; assim, elles conjugam os ver-
bos : Cúçotála, cucendela, que não
crescimento, do que encontramos são
comprovação no verbo cuiaala, zes: mais que os verbos portugue-
açoitar,accender. Podiam,pois,
crescer, desenvolver-se. dizer: calombo.
220
NEGRO
illustre brasileiro M. Soares. (1) Brasil. Milonga, plural ambundo
Ma, como jin (txim), são duas ca- de mulonga (palavrada).—Usado
racterísticas do plural ambundo; entre os negros. Foi observado
existem as variantes mu, hin, li e colhido por Macedo Soares. (I)
« algumas vezes Jara. (Cp. hantu, Mataco, plural de ri-tacataca
han-attu, pessoas.) Mas, e essa (pl. ma-taca-taca). Nadegas. Co-
observação é interessante, Oa- lhido por Macedo Soares.—Usa-
pello e Ivens suppôem que ma, se também sem a fôrma redui^li-
mu se applicam de preferencia cativa n-teco ma-taco {lwen%, II,
iSs pessoas. Nos vocábulos de in- in-fine). A forma reduplicativa
troducção africana podemos ve- para exprimir a repetição ou du-
rificar essa influencia (2). Mo- plicidade de cousas, sons, etc.,
f/anga.—Especie de abóbora. De 6 muito freqüente. Temos ainda
mu.-]- canca, ricanca, mueanca, nesse sentido o onomatopaico
campo. Os conguezes dizem : karalcaxá, kérékéxé, analogos aos
tsassa quiú mucanca (arvore dos productos aryanos tiUntar, mur-
campos). Mu é característica do murio, cascata, pipüo, etc. Mu-
plural. Mugangas (tregeitos). — cama.—Deriv. de macamha, plu-
Contém o expoente ma e o subst. ral de camha (ricamba), compa-
nguanga ou uangaa (feitiços). nheiro. Temos também macamha.
Os feiticeiros acompanham suas —Colhido por Macedo Soares.
praticas de gesticulações, attitu- —A palavra também está intro-
des e movimentos physionomi- duzida no Rio da Prata, sob a
cos. No N. existe ainda o deri- fôrma mucamha. Ha outro aspe-
vado monganguento. Matame.—A cto do estudo e quiçá de maior
etymologia é um tanto obscura. valor intrínseco, — por isso que
(3) — Matame exprime enfei- se relaciona ao processo léxico
tes abertos a ilhozes nas saias, de derivação ; a lingua ambuiida
figurando ornatos. Bem pôde tem substantivos verbaes— que
ser muhamma ou muhamha (bor- se formam do verbo puro com
boleta).Essemodo de expressão é o afExo mu e com as variações
usual e ainda chamamos perce- correlativas das terminações.
vejo (insecto), boas-noites (Hôt), Assim, do verbo longa (cu-longa,
a diversas rendas fabricadas no ensinar), formam o substantivo
derivado mu-longvi (ensinador,
(1) Rev. Bras., 1880—IV (2? tri- mestre). Esse processo derivativo
mestre). deixou vestígios no dialecto bra-
;2) Na reacçílo do portuguez sobre sileiro. 1? Matukgo ou mutungo:
o amhundo encontraiii-se vestígios cavallo de poucos andares, vaga-
do mesmo plural : malaranja (la- roso (Ilio de Janeiro). A fôrma
ranjas) .
(íí) Macedo Soares propõe (Rev. matungo é derivada do verbo cu-
]?r. 1880, IV) que talvez seja en- tunco (parar), a que, applicado o
feite, no reino de Matamba, da systema de derivações nominaes,
rainha Giuga. — A conjectura é
fraca. (21 Rev. Bras. iliid., pag. 265.
221

viria o resultado mu-tungue, usado no Sul e Norte. (1) E de


cousa que pára ou que nílo anda, notar-se igualmente a reacção
parador. 2? Mdqueca. — No an- que o portuguez exerceu a seu
golense (ambundo) encontra-se turno sobre a lingua africana.
o verbo caiiea (cu-canca, 1'rigir). Essa reacção aífecta a iiropria
Segundo o systema supramen- grammatica com a adopção de
cionado, teríamos o producto no- certos connectivos epreposições.
mrtial mu-eanca ou mu-quêque A preposição para tornou-se pa-
(1). De outra parte nSo encon- la, e diz-se no ambundo: Za-
tramos explicação que satisfaça gaia pala cu-chóca o ji-ngombe
mais cabalmente a essas ques- (Aguilhada para ferir os bois).
tões. Eis ahi o que sobre vestí- No Brasil a herva Maria Gomes,
gios grammatlcaes do angolense Mãe João Gomes, se diz em
observamos no dialecto brasi- alguns logares, na Bahia; lingua
leiro. OiíseuvaçOes : 1? ca— di- de vacca. Ora, as palavras Oomes,
minutivo. O Nbundo jiossue Jõõto Comes são evidentemente a
também o qi:e chamam rato de traducção falsa de ji-ngombe
palmeiras: fchim n^janghelê. Em (vacca), e a expressão no am-
todo o caso é evidente a afflxação bundo deve ser kikiji-ngombe
do ca diminutivo. 2Í Jin, artigo. (herva de vacca), ou outra ana-
Accrescentemos ainda a palavra loga que explique as formas
jE.MiiÉ (Minas): guisado de ataria Gomes e João Oomes, etc.,
hervas, etc. E o nbundo bembê (2). Exemplos de vocábulos por-
(ji-bembe, beldroegas) conser- tuguezes que entraram no africa-
vado com o artigo.—Essa mesma no: acudir, eucudila; abençoar,
palavra passou com o prefixo cubemela; acontecer, cusucedéla;
qui (no Norte) em quibembe, as- acontecimento, cam; accender,
similado em quibébe, por ana- cucendéla (conj.) ; açoutar, cu-
logia da palavra beber. 3Í J/a, çotala; assucar, suqiiiri; ad-
elemento pluralizador. Malungo. mirar, cupasmala (conj.). Pór-
—Companheiro de escravidão : ma o reílex. sempre com pref.
da mesma laia ou ordem social. A : agosto, begi riá agosto (mez
Poder-se-á suppôr um composto de— ) ; agulha, gúiá—jiguia ; id.
de ma (característico numérico) —pequena, cagúia ou guia ca-
en'gongo (íitimcol) «Não sou seu feli; aia, amasséca (ama secca) ;
malungot) isto é «não nasci conj alegrar, cuduvertila; alfinete,
V., não sou de sua laia», etc. É
(1) Jlacedo Soares assimila ao
(1) Muqucque é o prodücto mais nome gentilico Jíahungo.—É uma
natural. A nasal, como bera ob- conjectura de oceasião, ao que pa-
serva Grimni, figura em todas as rece.
iingiias como eartilagera e ele- (2) A prova irrefutável de que a
mento movei no systema osteolo- expressão Gomes ê uma fôrma de
gico e assim desapparece com faci- ngombc, vê-se no especimeu notado
lidade : fractus, frango; iacius, em Minas e Rio: 31ariangombe,
tango. para desiguar a mencionada herva.
322
NEGRO — NEO-GRAMMATICOS
funéte, jifunéte; algemas, gia- chama concordância aüiteratim.
lagema ; algibeira, jibela; alho, Os negros no Brasil, quando
jaio; almoçar, colummolz ala falam o portuguez, repetem por
(conj.); altercar, cutemala (tei- alliteraçao a, partícula prefixa ini-
mar) ; primeiro, pilimêlo ; antes, cial em todo o corpo da phrase:
mupüimslu ou qui apilumelu Z'ere vJmandou z'dizê, elle man-
(primeiro); armazém, cuarma- dou dizer. Este facto é uma re-
zem. Esses exemplos são apenas miniscencia da grammatica ge-
da letra A e acham-se no Dicc. ral das linguas do hantú : a con-
da língua Bunda, de Fr. Canne- cordância por alliteraçao. Não
eatim. E ha muitíssimos outros sabemos que exista vestígio
exemplos. O padre Ilolman ]5en- d'essa syntaxe na linguagem do
tley (1) aponta varias palavras Brasil, a não ser na meia Ungua
portuguezas adoptadas pelos ne- de africanos que estropiam o
gros do Congo, taes: lolongi (re- portuguez. Na língua do Congo
logio), vedulu (velludo), ekolado ella é normal, como attestaBen-
(coral), mansaya (saias), nsampa- tley; O matadi mama mampenibe
iu (sapato), handela (bandeira), mampwena í mau mama twaimcene
mhaxi (embaixador), etc. Bum- ezono. As pedras estas brancas
mariamente é que indicamos os grandes são as que vimos lion-
factos, para que os estudiosos tem. Por esse exemplo vê-se
averigúem, rectifiquem e desen- que o prefixo ma, que apparece
volvam o assumpto. || Na phono- no substantivo (ma-tadí, pedra)
logia de alguns dialectos afri- vem obrigadamente nos adje-
canos nota-se a confusílo fre- ctivos, verbos e pronomes que
qüente das dentaes ; explica-se ao substantivo se referem (ma-
isto pelo costume em algumas ma, ma-mpemhe, etc.) (1)
tribus, de extrahirem (homens Nekros, morto. — Elemento
e mulheres) os dentes inferiores grego de composição. Xecrología,
e limar os de cima profunda- discurso sobre os mortos. Necro-
mente, o que altera a pronuncia. se, gangrena do osso. I^ígroman-
Facto idêntico dá-se com os sons te, necropole, etc.
labiaes entre os botocudos da
America, que deformavam os lá- Neo-grammaticos. — A
bios (2). O facto capital que é o escola de Bopp e de Curtius foi
característico de todas as lín- nos últimos tempos revoluciona-
guas do grupo bantú, é o que se da porum grupo do philologosal-
lemães conhecidositovJunggram-
matiker. A contenda entre am-
(1) No seu importante livro—Di- bos os campos não estií resolvida,
clionary and Grammar of the mas não ha duvida que a nova
Kongo Languaye, Loiidon, 1887. escola tem ganhado bastantes
(Na parte do glossário inglez-port.
—clock, velvet, etc).
(2) Viile Sayce — Principies of (1) Ilolm. Bentley—Grammar,
comp. 2^hiíology, pag. 200. 527.
223
.• NEO-GRAMMATICO 1 — NEOLOGISMO
adeptos em toda a parte. Os piin- sivo com que igualaram o desen-
cipios proclamados pelos neo- volvimento das línguas ao mo-
grammaticos não são aliás muito vimento orgânico, biologico, e
originaes e jií tinham excitado também a estulta pretenção de
muito a attenção dos antigos resolver problemas complexissi-
philologos. Eis o que aquelles mos e formar generalizações pelo
proclamam : 1? — As leis phone- simples exame das línguas mor-
ticas são immutaveis e inflexí- tas, incapazes de fornecer teste-
veis. 2? — As excepçôes todas munhos que podessem ser veri-
são explicáveis pela analogia, ii? ficados em flagrante. Assim, os
— A theoria da agglutinação pri- estudos fecundos que podem es-
mitiva dos idiomas é absurda. clarecer os problemas da lin-
4? — O sanskrito não pôde ser güística, devem-se exercer sobre
considerado língua typica, em as línguas actuaes, e ahi a ob-
virtude das alterações do seu servação demonstra que o pro-
systema de vogaes. Em resumo, gresso ou decadencia das línguas
o principal ponto em que se di- gyra sobre duas ordens de fa-
videm as escolas, consiste na ctos : A) —■ Variações plioneticas.
consideraç.ão do elemento psy- B) — Variações analógicas. São
chico que a nova escola dá como duas forças coexístentes, coevas,
factor de grande preponderân- uma representando a acção phy-
cia. D'alii a necessidade de com- siologica e a o"ufrír a acção psy-
pletar o antigo estudo da acção chologíca ; a primeira díssolven-
physiologica pelo estudo dos facto- te, e a segunda restauradora da
res espirituaes, que influem de- língua. Póra d'estes dous ter-
cisivamente na linguagem. Como mos não ha theoria satisfactoria
consequencia inevitável do syste- que constitua a synthese ou a
ma, ver-se-á que, em vez de preoc- philosophía da linguagem.
cuparmo-noscom alinguaaryana Neo-latino. — Expressão
primitiva, devemos exercer e ap- hybrida que tem sido preferida
plicaros methodos dascienciaso- por novilatino. Línguas novo-lati-
bre os monu mentos que existem, nas ou melhor novilatinas são as
actuaes, onde é fácil verificar-se línguas romanas medievaes ou
e observar-se a dupla evolução os romances. V. Itornanas. A ex-
material e espiritual das lín- pressão novilatino ó mais confor-
guas. A theoria nova começou me ao processo dos compostos
em suas origens pelos estudos de antigos, como novilunio, plenilú-
Scherer, em 1800, adoptados e nio. A verdade, porém, é que não
vulgarizados por Leskien, de havia em latim novihmium, e por
Leipzig, e logo depois sustenta- outra parte, a palavra neo, já tem
dos porestrenuos campeões,como o valor de prefixo ; neo-slavo, neo-
Paulo Rank, Osthofí e Brugman. russo, neo-catholico, etc.
Um dos maiores abusos da an-
tiga escola, criticam os neo- Neologismo. — Chama-se
grammaticos, foi o ardor exces- neologismo qualquer vocábulo
224
NEOLOGISMO
novo creado, ou tomado de lin- Aqui falaremos da derivação im-
guas estrangeiras. Dos neologis- própria na qual convém designar
mos tratamos em vários pontos as categorias e as suas desvia-
d'este livro nos artigos anglicia- ções. a) Toda palavra de qual-
mos, italianismos, etc., e indivi- quer categoria pode ser usada
dualmente dos termos formados como substantivo; o sim, o não,
do grego, que constituem a no- o porque, o conhece-te a ti mesmo, o
menclatura artística. O ncologis- formoso, o 127, etc. bj Em geral,
mo por derivação é uma faculda- osintinitivos prestam-se ádesvia-
de e dom fecundo de todas as ção para a classe de substanti-
linguas cultas, mas os escripto- vos ; o querer, o morrer, o amar.
res não devem abusar d'esse the- D'essa propriedade resultam as
souro, pois denunciam nimia fôrmas substantivas já adoptadas
pobreza do vooabulario. São con- no uso commum : os dizeres, os
demnaveis, pois, neologismoa co- viveres, affazeres (gall., melhorçM«-
mo este : « heneflcia-se o actor X; fazeres), o ser, os seres, o bem
um liomem bem posicionado; estar, o hem viver, o mal estar, os
veneracionar, compromissar» e ou- Jiaveres, os teres, etc., e os pro-
tros quejandos, que não são ra- prios infinitivossem artigo e usa-
ros na misera literatura dos dos como sujeitos, Dos verbos,
milos rabiscadores de periodicos. as formas do indicativo presente
DBHIVAÇÃO DE NEOLOOISMOS. — na l'íe3'í pessoas são as que forne-
Processo pelo qual se tiram pa- cem derivações impróprias mais
lavras de outras já existentes. abundantes : choro, de chorar;
Ha dous modos essenciaes de castigo, de castigar; chama, de
derivação: 1? Derivação impró- chamar ; rogo, de rogar; liga, de
pria, é a que consiste na simples ligar; adorno, de adornar; duvi-
deslocação de categoriasgramma- da, de duvidar ; equivoco, de e-
ticaes. Um adjectivo, v. gr., quivocar ; pega, de pegar; paga,
passa a ser substantivo : alva, de de pagar; compra, de comprar;
alhus (álbum) ; tarde, derivado venda, de vender (devia ser vende,
de iardus. Taes são : o jiohre, o por analogia, venda); solta (de
jvsto, o tenente, o doente. 2? De- gado), de soltar \córte, decortar;
ricação própria, é a que consiste blasphemia, de blasphemar ; ras-
na formação de vocábulos novos go, de ra.sgar ; o^co(l), de fi-
mediante sufHxos aggregados á car ; achega, de chegar; a procura,
terminação: de Axaxo (avarus), de procurar ; mando, de mandar;
avareza (avaritiam). Ambos os limpa,limpar ; secea, de sec-
processos são proprios do latim, car. E de notar que algumas
d'onde se passaram iís linguas
romanas. Da derivação própria
trataremos individuadamente no que(1) representa
Subst. vulgar uo Brasil e
um dito de D. Pe-
estudo dos suffixos. Escusado se- dro I: «Como é para o bem geral e
ria, pois, repetir o que lií se felicidade da nação, diga ao povo
ha de achar no logar proprio. que fico».
325
NEOLOGISMO NEDTRO
d'essas formas só tem verbos ori- vados não o foraní, up menos na
ginários DO latim : tenda, de ten- língua portugueza. E considera-
dere; capa, de capere; cerne, de ção que se não deve olvidar.
cernere. A fôrma abra, que se po- Quanto á faculdade de formar
deria tirar de abrir, parece indi- palavras novas, é ditíicil dizer
car o celtico (Cf. liame), ou, se- até que limite se deve conceder
gundo Souza, o arabe (ãhrah). ainda mesmo ao escriptor essa
Nestas fôrmas nominaes deriva- regalia. São tantos os excessos
das de verbo, é de notar que fre- abusivos que já se têm commet-
qüentemente, quando poiysylla- tido na matéria que o melhor
bas, são esdruxulas : réplica, equi- será em todo o caso antes recor-
voco, dúvida, tempera; mas não rer ao archaismo ou ao termo ob-
é regra geral, d) Das fôrmas ver- soleto ou ao circumloquiodo que
baes são derivações esporadicas áoreação de termos talvez inúteis
raras as que foram tomadas de ou mal derivados. O Dr. Castro
tempos differentes do presente do Lopes inventou grande numero
indicativo. Ex. : o& provarás (fu- de vocábulos que correm, em
turo de provar). ejUma das fon- certa maneira, no Rio de Janei-
tes mais fecundas de derivação ro : nasoculos (pince-nez), carda-
imprópria são as fôrmas partici- pio (menu), convescote (pie-nic),
piaes de qualquer tempo. O pre- ancenubio etc.; vê-se
sente : tenente, lente (de lêr), doen- que em quasi todos os seus neo-
te (doer), sargento (servientem), logismos havia a intenção de evi-
commiitente, etc. Passado : o pas- tar o gallicismo ou a expres-são
sado, o traslado, ofacto, o feito, o estrangeira; mas foram também
escripto, a eseripta, a queimada, quasi todos mal formados e fun-
a aguada, etc. Futuro: futuro(y/ dados em abstrusas etymologias,
fu), porvir, escoadouro, bebedou- contra todas as regras da deri-
ro. f) Ha exemplos de desviação vação.
de fôrmas verbaes tomadas de Neo-phonema. —- Expres-
outras línguas estranhas :—alle- são que se deve adoptar para de-
luia, louvae a Deus ; amen, as- signar um som novo adquirido
sim seja ; o feri (latim), usado na com o progredir das línguas, co-
linguagem pbilosophica (trans- mo q u francez, o Ih, nh, romani-
formação), o fiat, o rendez-vous, co. E termo tão necessário como
etc. São estes os actos capitaes que neologismo (novo vocábulo).
se referem á derivação por desvio
da classificação dos vocábulos. A Neos, novo,—Elemento gre-
derivação muitíssimas vezes data go de composição. Neologismo,
da época latina; assim, a palavra palavra nova. Neophyto (literal-
justiça não é etymologicamente mente : recem-nascido). Ha mui-
derivada ãe justo, pois que no la- tos hybridismos com esse ele-
tim existiam duas fôrmas :Justus mento : neo-liberai.
ejustUia. Em rigor etymologico, Neutro. — O genero neutro
muitos dos vocábulos ditos deri- existiu nu latim e desappareceu
DICC. GRAMM. 15
320
NEUTRO NOMINATIVO
nas linguils romanas, tomando sujeito e o attribulo (predicado) •
duas dii-ecções principaes : a) Deu.'* K omnipotente. Diz-se que É
Confundiu-se como masculino : representa o nexo ou liame que
regnum, reino ; tempus, tempo. exprime a conveniência do pre-
b) Confundiu-se com o femini- dicado omnipotente no sujeito
no, quando iiassou lís linguas ro- Deus.
manas na f()rma de plural : folia, Nh, grupo vernáculo. — Re-
pl. de folium, folha; mirabilia, sulta do grupo gn latino : linho,
pl. de mirabilü, adj., maravillia.lignum. Também provém da ge;-
São' vestigios do neutro al, de minação nn : penha, pinnam. É
aliud. Ex.: não digas al. Na uma das soluções do hiato de-
idade média liavia-se perdido a pois de »; banho, halneum; li-
intuiçãodos neutros, como obser- nha, limam; araiiiia, araneam.
vam todos os que ' estudam o
baixo-latim. Todavia vocábulos Nm, grupo contracto do latim
Ira que restam como represen- n'm.—Uesolve-seemiour.- alma,
tantes d'essa antiga distincção. an'mam, animam. Almalia, al-
mallia, alimaria, animalia.
Ex. : tudo, ido, aquillo, isso, ello,
(lat.) : totum, istud, hoc, illud, Nii, geminação conservada do
ipsum, illud. Ello c uma forma latim : anno, annum. Resolvida
ainda existente na expressão : iís vezes em ?i/t; grunhir, grvn-
morra por ello. Uma observação nire; caiihamo, eannabis; penha.
faz-se á primeira vista de que to-pinnam (ou talvez de radical
dos esses vocábulos solireram na w\tico pen).
vogai tônica uma alteração : isto Nome.—Expressão que entre
—este, masc. ; aquíllo—aqjielle, os grammaticos representa con-
masc.: tado—todo, masc. É evi- junctamente as duas categorias
dente que houve intenção de dif- de vocábulos : substantivos e ad-
ferenciar os vocábulos por meio jecticos. A palavra nome deriva
de uma alteração i)lionetica, me- do latim nomem, por gnomem, da
diai, por isso que as terminações raiz gnã, conhecer (nobilis, igno-
eram surdas. Havia e ha ainda o bilis, ignarus, noscere, gnoscere,
uso literário de certos neutros cognoscere, eto.). Vide Substanti-
latinos: quid, quod, idem, etc. vos, Coinmuns, etc.
Esses vocábulos permanecem co- Nomenclatura.— Em gram-
mo vozes estranhas á lingua e de matica synonymo de classificação
ordinário, no discurso, vão gry- ou taiimmiia. Parte da gramma-
phados. Convencionalmente se tica, na qual se examina a clas-
consideram neutras as formas o sificação das palavras.
que, eos infinitivos substantiva-
dos : o querer, o ler, etc. Nominativo.—Caso da de-
clinação latina e que representa
Nexo.—Vide Oonneetívo. A pa- o sujeito. O nominativo é cha-
lavra nexo applica-se lambem ao mado caso recto em relação aos
verbo ser, que é a copula entre o demais, que são denominados
NOMINATIVO NR
casos oUiquus. No portiiguez os Notações lexiea.s. —Deno-
vestígios <lo nominativo nTio silo minação consagrada pelo pro-
raros e quasi loi, om regrii, o gramma odicial do Ensino para
caso etymologico dos nomes pro- designar os signaes que modi-
prios: Appolo, Oupitlo, Cícero, ficam os sons das letras. Pro-
Varro, Í)ido, Cartliago, Nero, priamente devem ser cliamados
Júpiter, Venus, etc. (cf. o fran- taes signaes notações prosodicas.
cez que tirou do accusativo ; Ne- pois não se referem aos vocá-
ron, Ciipidon, Diãon, etc.) As bulos, mas apenas aos sons que
vezes no portuguez apparecem não tOm representação exacta
lormas oblíquas, como Oicerão, pelos symbolos do alpliabeto.
Varrão (fôrmas quinhentistas), São notações prosodicas: o accento
Maro e Manto, Nastto, Marte, agudo, que indica o som aberto
Jove (t. poético), etc. Os nomes das vogaes, sã, pé, pó, café.
proprios que apparecem nos tex- O accento circumflexo, que indica
tos barbaros, do nominativo em o som médio : mercê, dôr. Nem
us, freqüentemente perdem o s sempre é usado na escrípta. O
final : Alphonsu, Itamíru, Eli- som íechado, grave e mudo não
diu, Oundúalbu, etc. Ainda, no- tem accento graphíco. Cedilha é o
tam-se vestígios evidentes do no- accentoque indicao valor brando
minativo nas formas duplas do r.: viço. O valor brando do r não
dos imparisyllabos : serpe, ser- se indica por accento graphico.
(serpente); leo, Ico (leão); O apostropho seri'e para indicar
tredo, traditor (traidor). K ou- a suppressão de letra na palavra ;
tros que já assignAlamos no ar- esp'rança, d'este, 'neste. O til serve
tigo l)iter(jentes (formas). Tam- para indicar o som nasal de a, o,
bém devem ser notados os vestí- em alguns casos: manhã, corações,
gios do nominativo na declina- cão. O til é também uma notação
ção dos pronomes pessoaes : eu, de abreviatura nos manuscriptos :
de eyo; tu, de tu; elle, ella, de q = que.
ille, illo; e assim nós, vós, dos re-
spectivos nominativos latinos. Notações syiitacticas. —
J)eus é nominativo. Expressão, ao meu vêr insuttici-
Noluos, lei, modelo. — Ele- ente, para designar os signaes ou
notações orthographieas da pon-
mento grego. Astronomia, leis dos tuação. Esses signaes alguma rela-
astros. que se rege por
ção têm com a syntaxe ; servem
%\. Ecommia,'\a\ domestica (oikos, principalmente
casa). Ao radical nomos se refere ração material dos úescripta, á figu-
nomisma, de nomheiii, reger-se pensamentos,
pela lei; ú'ah] mimismaiica {ac. expressos
leitura.
de modo adequado á
das moedas).
Xo.stos, volta. — Elemento Nr, grupo latino. — Em por-
grego existente em nostalgia (al- tuguez persiste umas vezes, e
gos, dôr), saudade. outras transforma-se. Genro, ten-
228
NR — NÜMERAES
ro e terno, honra e ant. hondra, zavos dous centavos. Os or-
pindra (pignora), etc. dinaes determinam a ordem dos
Ns, grupo latino. — De or- reis, séculos, etc., e podem ser
dinário no portuguez perde a acima da dezena substituídos
nasalidade pela quedado «..■mesa, por cardeaes: século XIII, deci-
mensarn; custar, comtare ; esposo, mo-tercevro ou treze. Luiz XIV,
sponmm; ilha, insulam ; , quatorze. Pi5de ser empregado
min' sterium. o artigo: o século nono; o nono sé-
Niimeraes.— Classe de adje- culo. Affonsoo terceiro ou o ter-
ctivos que ex])rin:iem numero cer- ceiro AíTonso. Na syntaxe dos
to : um, dous, vinte. Dividem-se ordinaes a concordância do sub-
ordinariamente em cardinaes e stantivo <3 obrigatoria quando
ordinaes. Cardinaes são os que antecede os números: os regi-
exprimem o numero em absoluto: mentos 3? e 5?; é arbitraria quan-
doze, treze. Ordinaes são os que ex- do succede aos números: o 8? e
primem o numero relativamente õ? regimento. Cardinaes.—• Todos
lí ordem das cousas : duodecimo, os cardinaes são invariaveis, ex-
vigésimo. Os nomes de numero cepto 1, 2, 200, :íOO, 400, ÕOO,
também contêm um grupo de 000, 700, 800, !)00, que têm f<)r-
verdadeiros substantivos, s3o os mas femininas: nma, duas, du-
)»«íí!píícaííj)í)s (Vi d e esta pai avra): zentas, etc. Ha algumas formas
triplo, deeuplo. Alguns dos nomes que são eíjuivalentes de nume-
de números silo, conforme o em- raes ; ambos (os dous); e conto
prego,adjectivos ou substantivos: (milhão), só para designar um
cento e dez homens; cento de la- milhão de réis. Conto, em outro
ranjas. Cento, milhão silo sub- tempo, a tudo se applicava antes
stantivos. Os antigos escreviam : de introduzido pelo francez o vo-
passam de cento ou j^assam de cem cábulo milhão, os collectivos
indifferentemente. Hoje a forma dúzia (VZ), groza(\'iy^\2), cader-
cerni mais usadaquandosimples, no (4 folhas), etc. Ka enunciação
e cento na composição com outros dos números compostos usa-se
números (excepto mil e milhão : a conjuncção entre todas as or-
cem mil) Como já notámos no dens de unidades : vinte e sete ;
artigo adjectivos, os ordinaes per- cento e trinta; mil e quinhentos.
tencem ácategoriade idéas muifo Os substantivos mü, milhão, cen-
differentes da dos cardinaes. Or- to, rejeitam a conjuncção ; por
dinaes. —• Asfracções exprimem- isso diz-se quatro mil, quatro cen-
se por ordinaes : quatro centési- tos ; oitenta milhões, sem conjun-
mos; 0,2, diz-se dous décimos; cção. Kotas. São muitas lis pala-
em vez, porém, de segundo, diz- vras que pela etymologia desi-
se meio, e em vez de terceiro, diz- gnavam numero e já o não desi-
se terço. Também de 10 em dian- gnam ; arroba (ar-ruh), a quarta
te a fraoçãopódeexprimir-secom parte do quintal •,corja (na índia,
o suftixo «ro, ti rado de oitavo: qvin- vinte); (?í2ímo(adécima parte),<ie-
32!)
NÜMERAES — OBJECTO UE VERBO
zimar; sezões (febre sez3, quarta do, potro, malho, garoto, rolo, co-
etc.); quaresma (quadragesima). xo, balo, cachorro, gosto, sorvo,
Etymologia. ^ Os numeraes vie- macho, loho, lodo. || Ila besita-
ram tios correspondentes lati- çilona escripta dodipbthongo au
nos : mille, mil ; cenium, cento; ou ao, que só é usado no fim :
viginti, vinte ; unus, um ; duo, páo ou pau. O mesmo se obser-
deus, etc. Onze, de undecim ; va a respeito de eu, eo, e^ io, iu
doze, de duodecim, etc. Forma- (meo, meu; vio, viu). E mais
ram-se na lingua analogicamente razoavel a orthographia au, eu,
dez-a-aeÍ8, dez e seis ; dez-a-sete, iu, porque ü a que se emprega
dez e sete, dez'oito, dez-a-nove. exclusivamente nas syllabas ini-
Milhão é um derivado augmenta- ciaes e médias. || Letra latina.—
tivode mil. Com aadopçãodosys- Longa ou breve, persiste -.fórum,
tema métrico generalizaram-se os foro; quõmodo, como. Sendo lon-
radicaes gregos de numero : hilo ga, ha exemplos de ensurdeci-
(1000),myrêi (10.000), liecto (100), mentoparaíí; october, outubro;
deca (10). Outros idênticos já se testimõnia, testemunha. Para a:
deparavam na linguagem scien- lagosta, de locustam.—Letra por-
tiflca : dodeca, iiente, etc. tugueza.— Deriva de o, caso ge-
Xmnero. —Propriedade que ral : voz, de vocem. De u longo :
tSm os nomes de e.xprimir a uni- copa, de cüpam; de ií touico
dade e pluralidade dos seres.Tor- breve : fome, de fames, ha casos
nou-se extensiva a verbos, adje- rarissimos.
ctivos e pronomes. A caracterís- Oa, hiato.— De ordinário re-
tica numérica do plural é s, sulta de syncope : loar, de lau-
easa-s, facei-s. Nas linguas arya- dare; doar, de donare; atoa, de
nas, e.xprime-se as mais vezes tona; boa, de hona.
por meio de flexão. Vide Plural. OT), por causa de.— Prefixo
latino que se assimila freqüen-
O temente : ohiurafão, oc.easião, of-
fender, ommittir, oppór.
o.—Tem vários valores proso- Ob.jectivo, complemento.-^
dicos ; o, ó, ô, o quando' nasal. Corresponde ao objecto directo no
Designam-se ás vezes com accen to systema da Analyse de Mason,
os valores, mas só nas ultimas que c o que adoptamos. Vide
syllabas; avó, avô, flor—mas es- Proposições.
crevem-se doce, ditoso (e miodóce,
ditóso). A mudança de valôr pro- Objecto.—E o complemento
sodico é quasi regra, no plural dos verbos de predicaçSo incom-
e no feminino; formoso, formo- pleta (verbo transitivo). Vide
sos, formósa. Mas ha muitas Proposições.
excepções: tôdo, toda, todos; es- Ol).jec,to <le verbo ou re-
põso, espSsa, esposos; e assim, gimen.—E a palavra, phrase ou
desgosto, moço, gordo, tosco, sol- clausula representante do obje-
230
OBJECTO ÜE VERBO — OBSOLETO
cto tia aoção enunciada pelo ver- Obsoleto.— Diz-se do vocá-
bo na voz aclivii: palavra que se bulo antiquado, inteiramente
aclia em relação objectiva para fóra do uso ; é synonymo de ar-
com o verbo. K directo quando chaico (Vide Arcliaismos). « Fr.
exprime o objecto passivo ou o Joaquim de Santa llosa de Vi-
factüivo, isto é, o objecto que sof- terbo colligiu um grande nume-
fre a acção expressa pelo verbo ro de palavras, que já no seu
ou o resultado da acção. Indi- tempo se ignoravam. Francisco
recío quando exprime o que não José Freire também nos deixou
é objecto 011 resultado immedia- uma lista de palavras antiqua-
to da acção do verbo, mas o que das no seu tempo. Na historia
por esta é indirectamente modi- das metamorphoses da lingua-
Hcado. Por outras palavras,— gem portugueza duas circum-
exprime pessoa ou cousa em vir- stancias curiosas se observam,
tude da qual se laz a acção quando se compara o falar de
(ãae-lhe a carta), e é representa- um século com a linguagem se-
do pelos pronomes oblíquos guida em outro : 1'.' muitas pala-
te, se, etc.). (P. .lun.) Pode o ob- vras antiquadas em um século
jecto directo excepcionalmente revivem noutro ; 2'í muitas pa-
ter a preposição a (quando é no- lavras deixam de ser usadas só
me proprio ou equivalente ) e a num ou mais de seus sentidos
preposição cie expletiva de certos primitivos, ou adquirem signi-
verbos : pegar de, começar de, ficações novas. Assim, alberyur,
travar de, eíc.; puxar (?a espada, algures, aquecer, aturar, atroar,
puxar 'pela espada ; {.'ozar saúde, confortar, desempenhar, falha e
gozar (/e saúde ; usar remedios, outras, dadas como antiquadas
usar de remedios ; esperar al- por Duarte Nunes Leão, estão
guém, esperai- por alguém ; di- ainda hoje em uso. Jtondade si-
gnou-se escrever, dignou-se de gnificou acto de coragem, grande
escrever. O emprego da preposi- feito; hoje só indica suavidade
ção a com os verbos proprios ou de gênio, natural inclinado ao bem,
equivalentes de proprios é indis- humanidade, cortezia, favor. For-
pensável na ordem invertida, te significava mau; hoje só se em-
para maior clareza do discurso: prega no sentido de vigoroso,
i< Aos antigos amaram muitos dos tanto no physico como no mo-
modernos. » ral. Perceber é antiquado no sen-
tido de avisar. E como estes
Obliqiio. —Chamam-se ohli- muitos outros vocábulos. « Mas
quos todos os casos de declina- não he muito de maravilhar
ção, excepto o nominativo, que (diz Fernão de Oliveira) que as
«' chamado caso reeto. No portii- vozes envelheção e as velhas al-
guez, a expressão appiica-se aos ghuma ora pareção mal por-
pronomes pessoaes ou ao reflexo que também enuelhecem os ho-
se. que têm declinação : ^fe. te, mens cujas vozes ellas são...; e
lhes, se, o, etc.,são casos obiiiiuos. muy poucas são as cousas que
231
OBSOLETO ONOMATOPÉA
durão por todas ou muitas ida- porém, são formações muito re-
des em hum estado; quanto strictas; existem, todavia, em
mais as talas que se conformão todas as linguas como processo
com os conçeitos ou entenderes, de derivação ou de creação de
juysos e tratos dos homens: e vocábulos. No latim, Ennio cre-
esses homens entendem : julfião; ou a onomatopéa taratantara
e tratão por diuersas vias emuy- (para designar o som das trom-
tas: as vezes segundo quer a ne- betas); e c muito conhecida a
çessidade : e as vezes segundo pe- onomatopéa grega de Aristo-
dem as inclinações naturaes». phanes para designar o coaxar
0(lê, canto.—Elemento grego. das rans : Urekekekez koaz koaz.
No allemão, as onomatopéas são
Comedia, canto comico. Parodia, freíjuentissimas. No francez ha
contra-canto. Palinodia fpaliii, um grande numero de exemplos.
de novo), retractação. Tnií/edia. Em portuguez muitos vocábu-
llhapsodin. Prosodia, etc. los foram formados onomato-
Odo.s, caminho.— Elemento paicamente ; tim-tim-, tilintar, ei-
grego. E.t-(tdo (exó, lora), saída. ciar, cacarejar, tatihitati, gago,
Methoão. Odometro. Epinodio (in- gaguejar, fru-fni (francez), pi-
tervenção). pilar, tintinabular. Vide Allite-
CE, diphthongo latino.—-Sem- ração. No problema da origem
pre transcripto pela vogai equi- da linguagem, é natural que
valente—e: coenam, ceia. tenha importancia, ainda que
não exaggerada, a onomatopéa
Oe e oi.— Diphthongo. Pro- como basede muitas das creações
vém da dissolução do grupo et: do léxico. Como as noções ge-
oito, noite, de octo, noctem; ou mes, muitas d'ell.is foram ado-
representa a flexão de formas ptadas por varias linguas por
verbaes: soe, doe, solet, doUt. No emprestimo: zig-zag (germâ-
fira das palavras sempre se es- nico), tic-tac, broii-haha, cucii,
creve oe : rnòe, lieróe. cuco, cri-cri, bomba, bombarda, ru-
Oiko.s, casa.—Elemento gre- geruge, frufru. A onomatopéa
go. Economia, leis domesticas. como figura do rhetorica pode
Diocese, Paroekia (perto, casa). existir apenas no agrupamento
ou na escolha de dicções cujas
Oiioiiia, nome.—Elemento articulações sejam próprias para
grego. Puudonym/), falso nome. representar materialmente a
Synonymo. Patronymieo. etc. idéa. Tal é o verso de Virgílio :
Oiioiuatopéa. — Do grego Quadrupedante putrem aonitu
ónoma, nome; poeió, ou faço. Fa- quatit ungula campiim. Max Mül-
cturade nomes; primitivamente ler foi dos jihilologos modernos
havia entre os gregos a suppo- o que mais vivamente combateu
sição de que os nomes fossem a theoria das onomatopéas como
formados por imitação dos ruí- sutllciente para a explicação da
dos da natureza. As onomatopéias. formação das linguas. O pro-
332
ONOMATOPE. . — ORDEM
cesso de imitação c muito re- evitar, brocar, ciciar, chuchar,
stricto e acha-se apenas averi- chimpar, pinchar, chuchurrear,
guado nos nomes que designam chingar, xexéo (ave), jangada,
ruidos 0 vozes animaes; fóra bambo, bambolear, zabumba,
d'esse dominio, tudo é duvidoso beberricar, escorrupíchar, es-
e incerto. A reduplicação é um carrar, ulular, etc. São vozesono-
dos processos geraes da onoma- matopaicas.
topéa no iiortuguez, e esse re-
curso era mais assiduamente Oo, geminação da lingua an-
aproveitado na lingua antiga. tiga, contrahida hoje nas formas
Damos os exemplos: trisquetro- ó, ou ó : doa, dó.
ques, trapezape, traz-zãs, traz- Ops, ópos, vista. Oatoptrica
zás-catapruz, trocas-baldrocau, ru- (contra, vSr). Myope, fechada
ge-ruge, zum zum — ou zão zão, vista. Synopse, autópsia, óptica,
muxoxo, Tuxoxo, trocJie-mocJie, lu- etc.
fa-lufa. Alguns esiiecimens sSo
archaicos, como talvez a ex- Optativo.—Modo dos verbos
pressão: sem chuz nem huz (Eluc. constituídos pelas fôrmas do
1,217) e lia outros vivos: sem subjunctivo presente (1^ e
tugir nem miigir. O processo é pessoas) que substituem o im-
geral e muitas vezes provém de perativo. Vide Modos.
linguas estranhas, como zig-zag Oração.—Synonymo de pro-
(germânico). As vozes imitativas posição.
de gritos naturaes muitas vezes
se apresentam com a redupli- Orama, visão. Elemento gre-
cação: regougar, diz-se da ra- go. Cosmorama, vistas do mun-
posa; cacarejar, da gallinha ; pi- do. Diorama (vista dupla). Pa-
piar, das aves, etc. Muitas vezes norama, etc.
o phenomeno da duplicação (sem Ordem. — Disposição que
onomatopéa ou para evilal-a) conservam as palavras no dis-
resolve-se em uma forma con- curso. A ordem direeta consiste
tracta, como se vê em termos na disposição analytica pura,
antigos e modernos: idolatra, vindo primeiramente o sujeito,
por idololatra; senoga (Eluc.), depois o verbo e suas amplia-
por synagoga ; moganga, por mo- ções. A ordem imersa ou trans-
giganga; monomio, por monono- posta consiste na collocação di-
mio, etc. II Onomatopeas etymo- versa da observada na ordem di-
logicas, de uso commum e me- reeta. Ex. àa. ordem direeta :
nos imitativas, são: murmurio,
ribombo, retumbar, trovão, gar- Porém já cinco soes eram passados.
galhada, gargarejo. roncar, roer, Camões, Lus.
berrar, urrar, silvo, gorgeio, ba-
que, zunir, rasgar, sussurro, as- Ex. da ordem inveffsa :
sovio, brado, trom, trombeta, As armas e os barões assigiialados
truz, traque, espocar, trocar. Que da occkleiital praia lusitana
233
ORDEM — OR
Por mareennnea iVantes navegados de montanhas. Oréades, divin-
Passaram dades das montanhas.
Cantandoespalliarei jiortoda parte. Ortlioepia. — Synonymo de
Camões, Ibid. prosoãia. Parte da grammatica
em que se estudam as regras da
A ordem inversa é a mais na- verdadeira pronuncia.
tural na linguagem do sentimen- Ortliograpllia.—Parte pra-
to, por isso sflo imersas as con- tica da grammatica, na qual se
sti'ucções poéticas, exclamativas, estuda o modo de representar as
etc. A transiiosição na ordem in- palavras e phrases por meio dos
versa tem limites assignalados na signaes da escripta. A orthogra-
syntaxe; os complementos,v. gr., ■phia cliama-se etymologica quan-
sempre succedem lis preposições do representa as palavras de ac-
qus os regem : Casa de Pedro. côrdo com a figuração escripta
Ha palavras que têm ordem das suas origens ; chama-se plio-
fixa, como oadjectivo mero, que netica, sônica ou prosodica, quan-
hoje sempre se antepõe: mero do representa os sons de accôr-
soldado. Ha outras que variam do simplesmente com a pronun-
de sentido com a transposição: cia actual. O methodo jnixto
certo homem e homem certo. procura harmonizar os dous
Muito do que diz respeito a Or- systemas etymologico e phonetieo.
dem no discurso, prende-se ao II Sobre certas modificações de-
estylo do escriptor ou ao gene- sejáveis da orthographia" usual,
ro de composição. A ordem di- propnz ha tempos que se exa-
recta c mais clara, sem embargo minassem os seguintes pontos :
de ser menos expressiva. Os de- 1. A mesma variação s=t, prin-
feitos da ordem inversa são em cipalmente nas terminações, ez,
geral os que tornam o sentido izar, ezar ; illezo, illeso ; rezar,
ambiguo. São exemplos d"essa resar; accezo, acceso; português,
escuveza : «Os Portuguazes co- portuguez, etc., pesar, fineza,
nhecem a índia pelo menos finesa ; visar e vizar ; desoito
tanto como os inglezes». «Fal- e dezoito ; ruborizar, etc. A or-
leceu em viagem o irmão do al- thographia preferível é a do z.
mirante Paulo da Gama». «Em 2. O uso de letras dobradas
França foram prohibidos os Mys- (etymologicas) que é em geral
ierios do Povo por Eugênio Sue.n adoptado, porém, por muitos re-
"Hyperides imitou Demosthenes pellido nas palavras que come-
em tudo que elle tem de bello.» çam por a e se formaram na lín-
Suo exemplos do EseoUaste. Vide gua : aceitar, acoinpanhar, afazer-
Amhiyuiãade, Amphibologia. se, aj)ro.rimar-se, etc. Este ultimo
Ordinaes.—Vide Numeracs. uso é preferível e d'elle pode par-
tir a reforma das letras gemina-
Oro.s, inontanha.—Elemento das de toda a casta. 3. A ortho-
grego. — Orograplda, descripção graphia dever-se-ã, amar-te-ei, pre-
234
ORTHOGRAPilIA
íerivel a dever-se-ha, amar-te-liei, vel, ser banido. .Tá o foi nas pa-
porque ninguém ousaria escre- lavras seguintes : cólera, carta,
ver deverhã, etc. 4. As varia- eólica, épocrt, melancolia, escola,
ções ao 6 au, eu e eo, io e iu: mor- corda, coro, eco, ecoar, caracter,
reu e morreo, ceu e ceo, cha- anacoreta, almanac. É verdade
péu e chapeo, viu e vio, grau e que de vez em quando algum ety-
grão, mao e mau. Como já lia mologista o recorda escrevendo
accôrdo em adoptar o u nas syl- cholera, epoeha, etc. Note-se que
labas iniciaes e médias (cau-ta e ai lida no grego a tialavra cólera não
não caosa ; celeuma e não celeoma, contém o ch, mas i'.No grupoc/<j
etc.) é preferivel generalizal-o poderiamos como os liespanhóes
para todos os casos. .5. O uso do substituil-o por qu e escrever :
li ou do accento graphicopara in- monarjína, í/«ímica,e de facto já
dicar o hiuto: salda ou naia ; ca- o fazemos em vários casos : ma-
hindo ou caindo ; haliia ou haia ; quina (e não machina), Joaçííim,
porque não só ninguém usa o h Malajuías (em vez de JoacAím,
nos grupos oi e ui (aoJna, doida, Malac/tías, nomes hebraicos, mas
fruhia) como mesmo no grupo traduzidos no grego dos Livros
ai o accenlo já está muito ado- sagrados). Ainda neste caso ha-
ptado, é preferivel o accento gra- veria a vantagem de escrevermos
phico. (i. As variações am e ão quilo com mais acerto do ((ue ki-
na terminação breve dos verbos: lo, que em grego não contém ok.
amavam ou amaVíío, amaram ou 10. O ph deveria igualmente ser
amarão-. 7. As letras dobradas banido por inútil em proveito do
tt ou dd são antipathicas á índo- /, o que em vários momentos da
le da lingua, e por isso originam historia da lingua já se tem
variações : camarotte, piparotte tentado. Já podemos consideral-o
(assim escrevia Duarte N. do banido das palavras : estro/e,
Lião) e addiar ou adiar, Eddas, trium/o, catastro/e, /leuma,
ou Edas, Addhail ou Adaü... A /leimão,/anal, /renesi, i''elipe,
letra simples, como sempre, é iífelinto, /aisão, pro/eta, escro-
preferivel. 8. O th grego deveria /ula,/antasia, So/ia. Em algu-
desapparecer de todas as pala- mas palavras ainda hahesitação:
vras ; já felizmente desappare- di^Vitongo (iniluxo da Acad.
ceu de algumas : cantaro (e não franceza) ou ditongo ;/ilarmonica
mais cantliaro), asma (e não mais ou p/íil7íarmonica. \\. O y i ou-
astlmia, e noseu derivado, entliu- tro signal inútil. Já não é usado
íixaamo), tísica (thisica e plitisi- em lagrima, chímica, rima (ry-
ca). Todavia ainda lia quem es- thmo); poderia, pois, desappare-
creva th em systhema e catherjoria, cer. Também deveria ser suppri-
o que no proprio grego não lia, midodas palavras indígenas on-
(' escreva á moda franceza e er- de oy foi empregado para desi-
rada Therem em vez de Teresa. gnar um som especial que não
!). O ch grego (= k) deveria sabemos nem costumamos pro-
igualmente, quanto fosse possí- nunciar:/Íai/iía/íy, etc. 13. Os
235
orthogkafhia
grupos 2)s, pt deveriam perdei- o Avè, interjeição, cedo perdeu o
j) nas palavras grefras e mesmo h que foi abusiva e i)unicamente
latinas onde já nSo sôa : ba^His- restabelecido por Quintiliano.
mo, baptizar; Ptolomeu, psal- Como se vê, quer etymologica-
mo, esculptura, s^epiembro, ca- mente, quer sonicamente, podia-
;^tivo, exem^Jto. É claro que de- mos eliminar o /t inicial. Ape-
ve serconservadoondea pronun- zar de já o termos feito em ora
cia ainda o exige: rapto, septo, (conjuncção),em agora, n<ão acon-
psychologia, etc. Outros pontos sellio esta medida, por serem
mereceriam ainda mais detido ainda intensos os protestos que
exame. |! Sobre assumpto idênti- suscitou )i«Uinaiudadeii do Centro
co manifestou-se o douto escri- Positivista (corporaç.ão aliás di-
ptor JoséVerissimo, e a Academia gna do nosso respeito e acata-
Braúleira pareceu, em certo mo- mento), comquanto tenha bem
mento, mostrar interesse pela re- de memória que os latinos já es-
forma da orthograpliia. [| O pro- creviam sem A, úmêrus, ninídus,
fessor Hemeterio dos Santos, em que teimamos em escrever Jiu-
interessante conferencia realiza- merus, humidus, com h, bem co-
da no Pedagogium em Agosto de mo a palavra hombro, derivada
1!)02, propo/. as seguintes modi- d'aqueUa, homhrear a Jiombreira,
ficações que aqui transcrevemos: em portuguez. O h mediai, po-
"Comecemos pelo ii, a mais inú- rém, deve desapparecer por com-
til das letras, sobre a qual disse pleto, desde que não f()rme le-
Quintiliano : Pareis-iime erant ve- tra na combinaçíto nh e Ih: E
teres usi in vocalibus, cum «ídou cousa (jue não pode repugnar
ireonque dicehant. Desde os mais aos etymologistas; o latim eli-
remotos tempos, encontra-se nos minava-o em tal caso. Assim, do
1'scriptores e nas inscripções a verbo haheo faz o composto dir-
ausência do h inicial: aruspex, iOcd, deheo que usaes no curso de
ercismnda, credes, odia, por ha- escrijituração mercam,il, privheo,
runpff.e, herciseimda, heredes, huK- etc. O adjectivo dehilis está por
tia. O h já havia também desap- de hahilis, e aborrecer, que já es-
parecldo das palavras; Anxer, crevemos sem h, é um composti>
éris, o ganso; no portuguez an- de horreo. No futuro e condicio-
tigo encontra-se—fiUarum una nal com pronome intercalado,
ansar ante sa filia, citado no O ninguém mais escreve h, e sim
Antigo Vp:iínaculo. do l)r. Sil- falar-te-ei, dever-se-ia, sem o h.
vio de Almeida; ira, a cólera ; Usar o accento agudo para evi-
omis, õnéris, o fardo, o encargo, tar a diphthongação— dizendo
o ônus. Sobro a queda do li com- saia, cair, haia, sem li, salvo nos
mum nas inscripções publicas e nomes proprios. Supprimil-o
nos aiictor(>s, Cicero gracejava, nos grupos dli, escrevendo aderir
dizendo : Oneraiiin magia quam (sem 11), composto de Javrire, th,
linnoratus. Omnes, arvina, ave, rh e ph. O th grego, diz o emi-
etc. Omnis é uma dupla de hnmo. nente ph ilologo o Sr. .Toão Kl-
2nG
ORTUOG
beiro, deveria desapparecer de Que furor! Pêlo que tem um l
todas as palavras: já felizmente só, camêlo, estrella, de pilus,
desappareoeu de algumas; can- sterüla, diminutivo de ster,came-
tara (e nSo mais eantharo), asma lus, tomam todos dous II ! Mes-
(e não mais astlima, e no seu de- mo a codificação aristocratica
rivado enthusiasmo), tísica e não de Quintiliano tendia para a
phtliisica. Todavia ainda ha simplificação; de canna com dous
quem escreva th em systliema e nn, fez canalis com um n só;
cathegoria, o que no proprio gre- de mamma—mamilla, offa—ofel-
go nSo ha, e escreva á moda la, etc. O pronome ille, origem
franceza e errada Tliereta em vez do portuguez elle, que, antes
de Tereza. « O í)/i, conthuía ain- de Camões, escrevemos com um
da o notável grammatico, devia l só—era também com um l, an-
igualmente ser banido por inú- tes da decadencia. Assim, Fes-
til em proveito do /, o que em tus, tratando da forma oloes por
vários momentos da historiada illis, disse sentenciosamente;
lingua jii, se tem tentado. Já po- Aniiqui enim litteram non gemi-
demos consideral-o banido das nahant. OUm, advérbio—naquelle
l^alavras: estrofe, triumfo, catás- tempo.. .com um l, apezar de se
trofe, fleuma, fleimão, fanal, fre- escrever com dous o dativo ol-
nesi, Felipe, Felinto, faisão, pro- li... D'ahi... Não devemos ab-
feta, escrofula, fantasia, Sofia. solutamente dobrar letras, a
Em algumas palavras ainda ha não ser o r e o s. Para que dous
hesitação; ãiplithonrjo (inlUixo da bb em abade, ahadessa, abadia,
Academia Franceza) ou ditongo; sabado, sabatina e rabino? Só para
filarmônica, ou pliiTliarmonica.» martyrio das pobres crianças!...
Como o nli e o Ih devem ser con- porque o hebraico não usava do
servados, porque são portugue- nosso alphabeto ! O c, d, f, g, l.
zes, provenientes de í e » entre m, n, p e í(exceptuemos or o o s)
vogaes : aranha de aranea, filha de que se dobram por assimilação,
filiam; devemos eliminar o h nas por assimilação não os devemos
composições vernaculas ou la- dobrar: pois a assimilação se rea-
tinas em que não forme letra. liza por completo, quando os
Assim, de hahil—inahil, hahitavel elementos fusíveis se combinam
inahitavel, harmonico inarmoni- de tal fôrma que só a analyse os
co, anelo (anhelo), anelar (anhe- pôde distinguir. A assimilação
lar),composto latino de halo, com só se dá visivelmente nas combi-
h, que se escreveu sem h no nações de vozes distinetas, como
proprio latim corrente. Gran- a & i formando o som—ai; ou
de mania é a nossa de dobrar na associação das semi-vozes l e
inutilmente as consoantes. Pa- r, constituindo os sons M, cl, br,
rece que ha firme proposito de cr, etc., não só em latim, como
apenas sobrecarregar a memória em portuguez, e especialmeníe
visual, porque o ouvido não sa- nesta ultima lingua, os sons nh
be onde ha signaes dobrados. ülh. Devemos, pois, escrever;
237
ORTUOGRAPHIA
acusar, afligir, agravar, aluvião, do... Mas então não devíamos
anotação, aplicar, atender, ilicito, soldar, como soldamos, as con-
iminente, imóvel,ocupar,opor,etc., soantes linaes dos prefixos ás
sem dobrar ou geminar letras. líquidas ler e ás vogaes dos the-
Os senhores etymologistas en- mas que de ordinário se alteram
contram a razão d'isto no latim para melhor accommodação. O
anterior á grapliia de Quintilia- latim designava o batente su-
no, e no latim moderno nas se- perior e inferior da porta, o
guintes combinações de prefixos limiar, pela palavra limen. Esta
assimilados. Em a-scriho, a-spi- palavra, tomando o prefixo sub,
cio, i-gnaviís, i-gnotus, operio, que, iior natureza, se funde pho-
oitenão, sii-spicio, sxispiro, sus- neticamente, fez o adjectivo —
eipio, sua-pendo, sus-tineo, pala- sublimi», suspenso no ar, eleva-
vras em que se eliminam o d, c, do, grandioso, encantador, actu-
n, b, que se convertem no som almente; sendo, no começo,
inicial do thema. Desde que a o castigo mais severo que re-
graphia latina (apezar de nada cebiam os escravos, susi^ensos
termos com ella, pois o portu- sob o limiar superior da porta.
guez é o latim que se degenerou E no emtanto não lhe indicamos
enriquecendo), desde que a gra- a formação por um traço liga-
phia latina nos apresenta dous tivo. Do adjectivo aííer — outro,
typos — um complicado, com com o prefixo ad formaram-se
signaes mudos, e outro franca- adúltero, verbo, e os nomes adul-
mente sonico — não ha duvida terium, ii, e adulterinus, a, um,
—, devemos adoptar o simples, havendo apophonia ou modi-
jíí que não podemos dizer — o ficação do a em u. Juntan-
mais simples. Dizem alguns ety- do o prefixo in e o adjecti-
mologistas que as letras dobra- vo solus, a, um, ao substantivo
das servem de guia para a inves- ars, artis, formamos o adjectivo
tigação da historia de cada pa- — in-ers, ertis, e o substantivo
lavi-a. De acoôrdo... Mas nem inertia; solers, ertis o solerlia,
todos precisam de saber a série alterando o a para e. Ao sub-
de significados de uma palavra, stantivo arma, onim, juntando o
atra\és dos séculos. A maioria prefixo in, fórma-se inermis, sem
das pessoas cultivam a lingua, armas. O substantivo barba —
como o jardineiro cultiva as imberbe, o substantivo annus,
plantas. .. São os poetas da f()r- forma moderna, e a fôrma anti-
ma escripta e da forma falada. ga amnus, dá; perennis, perenni-
Botânico, indagador, destruidor, tas, solemnis, solemnitas, bien-
bisbilhoteiro e mexeriqueiro de nium, triennium, etc. Se as vozes,
antigos .significados, concretos elementos musculares de fácil
e... ás vezes torpes pela sua jUntura, se alteram para receber
materialidade, ó o philologo... o prefixo, porque se hão p<5de
E Deus nos livre da praga de este alterar, até o encontro de
semelliante gente... De accôr- uma vogai, a matéria plastica do
238
ORTHOGRAPHIA
vocábuloDo grupo mn deve se pronunciativa ou philosophica,
ser eliminada a muda m, como quando as palavras se escrevem
emalumiio (aluno), damno (da- como se pronunciam, e só com
no). oalumnia (calunia), colum- as letras necessarias a exprimi-
na (coluna), etc. Este grupo ó rem os sons, como : filosofia,
resto do jií alterado sutHxo ver- tema, açunto, atração, etc.; e diz-
bal latino mino —, que perdeu o se etymolorjiea, quando para ac-
í, voz muito sonora, e que ago- cusarem sua origem as palavras
ra, com maioria de razão, perde- conservam na escripta as mes-
rá a insonora m. Este suttixo se mas letras empregadas na lin-
conserva em termino, limina, gua de que procedem ; como :
etc. Em geral, os signaes mudos pJdlosojMa, ihema, assumpto, at-
devem ser banidos, como o c em tracção, etc. A orthographia cha-
ato, atriz, adjetixo, carater, con- mada philosopliica ou da pro-
servado o plural — caracteres; nunciação tal qual João de Sar-
construtor, direto, mtima, etc.: o ros (1) e Barreto a . queriam,
</ de sUjnal, pois que sino já o eli • qual a Academia Espanhola a
minou ; em augniento, etc., emtim estabeleceu no reino vizinlio, e
todas as mudas. Temos duas ca- a Sociedade Literaria Portuense
madas de verbos inclioativos : os procurou introduzir entre nos.
latinos de suffixo se, comonascer, não é tão absurda e ridícula
descer,crescer,(í um numero infini- como muitos pretendem. Não é
to dos vernáculos, saídos de sub- exacto que á etymologia base
stantivos, adjec ti vos e verbos, coin certa e segura da escriptura das
sufHxo ee — anoitecer, amanhecer, palavras, queiram substituir a
amarellecer, embranquecer, enrai- arbitraria e variavel pronuncia.
vecer, adormecer. Os vernáculos, Pelo contrario, nesse systema
donos da casa, devem determinar se considera também a etymo-
a graphia, e então escreveremos logia como essencialissima base
crecer, ãecer, nacer, sem o s inso- orthographica, dando-a, porém,
noro. Os verbos fallecer, fenecer e S(5 como norma da pronuncia,
conhecer ixi se escrevem sem o s.» a qual depois regula a escriptu-
II Diz o A. do Escoliaste : « A or- ra. A difterença dos dous sys-
ihographia ensina as regras esta- temas consiste, pois, em que um
belecidas para escrever as pala- (o etymologico) conserva todas
vras correctamente, e o empre- as letras originarias que a pro-
go da pontuação, do modo que nuncia não alterou ; o outro (o
se perceba a distincção e nexo philosopliico) conserva só as
das partes do discurso (1). Diz- que soam, e substitue aos cara-
(1) La ortografia... es Ia que
inejora Ias lenguas, conserva su pu- (1) «A primeira e principal regra
reza, seíiala Ia verdadéra pronun- da nossa orthographia, é escrever
ciacion y significado de Ias vocês, y todalas (lic<;ões com tantas leteras
declara ei legitimo sentido de Io es- com (plantas as pronunciamos, sem
crito ... (Real Academia -Eupanola). poer consoantes oeioaas.»
239
ORTHOGRAPHIA
deres estninlios os que lhes obsta. 5'.' não pôr accentos (agu-
corresp^ondem em nosso alplia- do e.circumllexo que são os úni-
beto. É certo que cresta ma- cos em portuguez), senão onde
neira se supprimem grande nu- apalavrasem elles se confundiria
mero cie características etymo- com outra. Um acreditado lite-
logicas, o cjue torna obscura a rato, Teixeira de Yasconcellos,
filiação das palavras; resta, po- disse, não importa onde, que
rém, decidir se esse inconvenien te, deixava o systema orthographico
que ainda assim não é tão gran- d'um livro seu na dependeiicia
de como o representam, deixa da vontade do editor ; isto prova
de ficar amplamente compen- o estado anarchico a que tem
sado pela simplicidade da escri- cliegado entre nc)s esta parte da
pta; vantagens que d'ella re- grammatica. Garrett jíí no seu
sultam ao ensino das crianças e tempo dizia que em Portugal
dos mudos ; economia de tra- não havia orthographia. Em vão
ballio pela suppressão de mui- se tem cançado o sr. Barbosa
tas letras', e desnecessidade de Leão; é voz do que clama no
folhear diccionarios que até deserto. Os defensores da ortho-
muitos não têm ; e sobre tudo graphia pronunciativa t6m con-
pela philosopliica razão de não tra si o juizo de Ch. Nodier. (1).
empregarmos caracteres ocio- Vamos oppôr ao critico francez
sos, só porque assim o quize- um adversario das fcírmas inú-
ram os passados, por causas, teis. Quando o nosso excellente
talvez, que já não subsistem. lyrico e amigo, o sr. João de
Granimatiei certant, et adhuc gub Deus, redigia em 1801 um jor-
judicelisest. O erudito philologo nal no Alemtejo, escreveu-lhe
,1. S. Barbosa estabeleceu na sua um collaborador, o sr. Padre
grammatica — que a etymologia Macedo, as seguintes linhas:
deveria regular a escriptura das «Que juizo farão do mim á vista
palavras — mas conclue confes- dos erros typoyraphicos com que
sando — que o uso fazia nessa saiu o meu artigo ! Aponto al-
regra as excepções que queria. guns : atenção, i)or attenção; es-
O fecundo poeta Garrett estabe- tilo, pov estylo ; inteligência, por
leceu as seguintes regras ortho- intelligencia ; fala, por falia »
graphicas ; 1'.' conservar fielmen- Ouçam a resposta :i(Por/aKa...di-
te a.etymologia, quando se llie zeis vós ; jior que? Pelo uso tem-
não oppõe a pronuncia. 2? com-
binal-a com a pronuncia, quan- (1) Tout granimairien qni apii s'a-
do esta se oppõe á inteira con- viser de reiulre Tortliograplie con-
servação d'aquella. 3? nas pala- forme il Ia pronoiiciatioii n'a prouvé
vras de raiz incógnita (sc) nes- <{u'une chose, nuds je coriviens
tas, note-se) seguir o uso geral, ijuMl Ta prouvé d'uiie niaiiière irre-
sistible ; c'e.st qiril ne savaic ni ee
4Í nas diversas modificações dos que c'est Tortliograplie, iii ee que
verbos, conservar sempre a figu- sont les voix de Ia parole, ni ee que
rativa, quando a pronuncia não sout le.9 sigiies de l'écriture.
240
rRAPHIA
se sempre escripto Uos dous mo- escreveis falha um principio da
dos. Pela etimologia, d'onde se vossa mística ortografia! Mas
deriva entao? O fallere latino seja a coisa arbitraria, arvore-se
significa iiiganar! Serve-vos a o capricho em lei, juremos con-
etymoiogia "í Oli! padre, também stituição o despotismo: que es-
vós, virtuoso como Sócrates, critura nos dais por tipo ? Quan-
poeta como Fénélon, democrata do quiser nomear quem pri-
como um e outro, dais ouvidos meiro descobriu as praias do
aos advogados do privilegio e do novo mundo, que hei de escrever
mistério? Que dualismo é esse, — Pedro Alvares ou Pedralvres
ou religião de luz e trevas, d'Or- ou Pedralures ou Pedralvares ou
muz e Ahriman, que levantais Pedraluares? . . . 1 ! Aopinião de
sobre a unidade de Deus e da cada um de vós sei eu : é escre-
humanidade condenando as no- ver como cada um de vos escre-
venta e nove centecimas partes ve. Sei que se tem escrito nes-
da sociedade a não poder com a tes últimos tempos sobre o as-
pena molhada em lagrimas atra- sumpto ; mas Deus me livre de
vessar a idéia no sou vôo, e divi- desperdiçar um momento com
dir com os mais as suas lasti- doutrinas em que os seus pro-
mas ! vMas é preciso que a lingua prios mestres se não intendem
senão corrompia. ../» Sois os pri- uns aos outros. Levantei-me do
meiros a corrompel-a, não a berço com opiniões formadas
escrevendo como a escreviam sobre muita coisa e não ha Bhra-
os nossos mestres e deixando-a ma com todas as suas quatro ca-
escrita como se não ha de ler ! beças mitradas e toda a sua qua-
« Mas é preciso que a Ungua drilatera magestade que me tire
se uniformise.n Em quê? Na d'ahi : esta é uma das tais. A ra-
pronuncia ? nem todos podem são é — que elles vôem-me com
ir em peregrinação a Constanti- raciocínios e eu escuto o cora-
nopla perguntar aos ulemas do ção. Filho do povo, inimigo de
Alcorão ortográfico como hão de raça de todo o privilegio, digo :
ler as suas sagradas paginas ! pode aprender a ler toda a gente
Na escrita ? escreve cada um de e escrever bem toda agente ? Por
seu modo, e todos bem differen- que não ha de aprender, e
temente dos nossos clássicos, não ha de escrever bemPor
cada um dos quais já escrevia que não ha de intesoirar em pa-
de sua maneira particular ! uMas pel um sentimento d'alma uma
o elemento historico? mas os tra- pobre mulher senão a troco do
escarneo dos doutores '! Estou a
jos (fa antigüidade ? mas a feição imaginar uma virtuosa mãi a
ãe família? o cunho da raça?» ensinar a ler a sua filha.—Pom-
Sabeis tanto o que isso quer di- ba, venhacá ; são horas de lição.
zer como eu I Qual é a etimo- Que é da cartillia ? Abra : diga :
logia do c/lá da China';. . . pa-
pelões ! Em cada palavra que 2iê-\-agá-\-á-\-ó-\-til .''(Soma) Fão.
241
ORTHOGRAPHIA
Ouviu, miiilia fillia? Diga outra depois, em tudo. com esses ma-
vez; ora vamos : teriaes acarretados pelas gera-
péasjà + (í -|- (í -j- tü f ... f ções desalumiadas pôr por obra
como arquiteto uma fabrica, um
Fão,- minha fillia 1 pois não ou- pensamento. Será excetuada a
ves — Qu6, mamã '! — Olhe, re- escrita? Simplificai e reguiari-
pare a minha joia : sal a lingoa de Camões e vereis
pê -p affá -|- ré -f- y -)- ? • • • ? não só todos sabermos ler, se-
—Til, mamãl — Não, filhinha ! não prélo
dentro em cem annos o nosso
em correspondência com
pois não ouves : os livreiros do mundo. A que
pe (iffá + « H' ó'\~ til ? ... Fão. deve o feissimo francez a sua
Jesus ! não estás atenta ! Não universalidade? álogica; porque
ouves dizer fão ? — Também a. esse ao me^nos é conseqüente no
mamã diz tü ! — Mas tudo, meu íibsurdo. E uma questão d'alta
amor ! tudo faz fão. Vamos a nacionalidade; acham-naos pon-
ver outra vez ; agora diga fão. tiíices pueril. Para nos o que
Repare: é é enfadonha. E concluindo—
o y grego mandei-o para a Gré-
p€ -j~ (ty(i d —{— o —til f cia : letras dobradas só em dias
—Mamã 1 Diga. — Mamã ! ! — de muito frio : e o — p h á ò til
Então não diz? — Mamã I ! ! fão—só quando o Pulido presi-
Não diz e as lagrimas jií llie es- dir á correção das provas de jor-
tão a terver nos olhos em borbo- nal que eu redija, ou me pas-
tões. É o horror innato ao absur- sar por alto.» Appellemos por
do ; é a sinceridade dum anjo tanto liara o uso que é o legisla-
que em quanto a não bestifi- dor supremo em taes casos.
cam, matam-na com palmatoa- Como todas as cousas estão su-
das, arranoam-llieas orelhas, mas jeitas neste mundo sublunar a
não confessa uma impiedade ! continuas mudanças e altera-
Pelo amor de Deus não nos bes- ções, esta lei perpetua irá im-
tifiquem logo á nascença ; não I^rimindo, afeiçoando e polindo
faltará quem nol o faça em todo o cunho ortiiographico que ha
o tempo ! Não apaguem logo nos de ter curso legal ; entretanto
inocentes a luz que Deus lhes observemos os melhores diccio-
deu ! Não se abracem ao passado narios da lingua. Se um dia
como termo da vida ; Deus fez a houver uma Academia que quei-
terra redonda para se não parar ! ra legislar sobre este assumpto,
Tudo se herdou do passado in- e ainda sobre muitos outros de
forme, rude, desmembrado, inar- que não cuida, e dotar o paiz
monico, sem sistema, sem uni- com um bom diccionario, que não
dade, como as pedras que á roda fique a azurrar como o primeiro,
d'um calvario se ajuntam pelo esse nos será guia seguro, fóra
tempo adeante deitada cada qual dos meandros em que nos trazem
por sua mão ; mas veio a rasão enredados poetas e prosadores.»
DIOO. GRAMM. 10
»
242
ORTUOGRAPHIA PAllAGOGE
II Piira concluir, o melhor trata- P
do sobre a orthographia portu-
gueza e as reformas que ella
está reclamando, é a Ortografia P, letra latina.—Persiste, ini-
Nacional de Gonçaí.vks Viana, cial : pacare, pagar. Média, cae
obra escripta com grande saber ou transforma-se na branda b :
pliilologlco e literário. Gonçal- capiit, oíbo \ capitalem, caudal.
ves Viana procura alliar a ety- Vocaliza-se no grupo pt: conce-
mologia a historia e a ptosodia ptionem, conceição. || P, letra
mais geral. portugueza.Resulta do p latino :
pé, pedem. Raras vezes de ni no
Ortliologia. — Arte de falar grupo mil, entre archaismos :
correctamente. Alguns aucto- conãapnamenio, por condemua-
res applicam esta expressão com mento (Vilerbo). || P (arabe).
o sentido de prosodia ou or- Do ha arabe : cliarah, xarope. ||
thoepia; outros suppõem que Nãosôaem x>salmo,haptismo, psal-
ella abrange toda a gramma- modia, prompto, escripta, deseri-
tica, e.vceptuando a orthogra- pção. Sohre o ?)/i, vi de Orthographia.
phia. Paciente. — O mesmo que
Ortlios, certo, direito.—Ele- objecto directo. Vide Proposições,
mento grego. Orthodona, dou- Objectieo.
trina verdadeira. Orthologia. Or- Pai.s, paidos, menino.—Ele-
tkopteros (pteron, aza). mento grego. En-cydo-pedia, en-
Ou, diphthongo.—Resulta da sino em circulo, universal. Ped-
dissolução do grupo ei, It: souto, agogo, educador de meninos.
saltuni; biscouto ou biscoito, Palavra.— Expressão mate-
biacoctuin. Em geral, porém, ou rial de uma noção por meio de
è a fôrma que resultou do diph- flõr, Também signi-
thongo latino au : ouro, anrum. fica a faculdade da linguagem
Nas syllabas médias confunde-se (parolej.
com oi muito mais freqüente- Para, ao lado.— Prefixo gre-
mente em Portugal que no líra- go. Paragrapho, escripto ao lado.
sil ; loiro, oiro, tesoiro. Paraclifíiiia.—Modelo para
Oxytoiios. — São vocábulos fle.xões de palavras regulares,
que levam a accentuação na ul- nomes ou verbos; v. g.,amar 6 o
tima syllaba: ãôr,calor,imDxmtal. paradigma dos verbos em ar.
Todos os monosyllabos são oxy- Paragogre, synonymo de epi-
tonos, exceptos os encliticos : tliese ; metaplasmo que consiste
me, te, m, lhe, etc. e algumas par- na addiçHO de sons no fim das
liculas de, em, e, que obedecem palavras por fugaz ;a<TO-
ao accento das palavras a' que ce,felice, terrihile, horrihile, tirados
estão juntas. OxyUmo é synonymo do latim;geralmente em desuso,
de agudo. a não ser rara vez na poesia.
24:5
PARAGRAPHO — PARTICIPIOS
Paragraplio.—Symbolo da prosodia e quasi são Jwmonymos :
fói-ma §, usado hoje na legisla- Nós, noz; crer, querer; vale,
ção e antigamente nos mesmos vai; Leda, lêda.
trabalhos literários em prosa. O
paragrapJio actualmente nos es- Paroxytonos. — São os vo-
criptos literários é indicado pela cábulos
na
que têm a accentuação
penúltima syllaba : eandieiro,
m udança de linha na escriptura. mesa, penna, affavel.
O presente artigo está escripto
em um paragraplio. Nos antigos Participios. — São palavras
textos o paragraplio vinha indi- que gozam de algumas proprie-
cado ao lado. i5s vezes com o sum- dades communs aos adjectivos
mario do assumjito. D'ahi a ori- e aos verbos. São adjectivos ver-
gem d'essa denominação (do gr. haes e foram denominados parti-
para, ao lado). cipios, porque participam da na-
Parenthese.—Signal () pro- tureza de duas categorias : verbo
prio para separar do discurso es- e adjectivo. Ha duas especies de
cripto uma noção ou phrase participios. O imperfeito ou do
que não é essencial, ou (juando presente, caracterizado pela fle-
seja essencial se requer desunida xão nte : amante, ouvinte, etc. O
do texto. Também podem ser preterito, ou passado, ou perfeito,
chamados parentlwns ou paren- caracterizado com a desinencia
theticas as próprias palavras e do: amado, ouvido, punido, etc.
proposições que é costume re- Muitos d'esses são duplos: affli-
presentar com aquella notação (jido e afflieto, ganhado e ganho,
graphica, que, com palavras bre- e d'essas formas as contractas
ves, pode sersubstituida porduas em grande numero são substan-
virgulas, em caso de citação do tivos : acto, colheita, assumpto.
nome de um auctor: A vida, debito, divisa, etc., de modo que
diz Sócrates,.... (ou:—(diz Só- já se não usam (e alguns nunca
crates).. etc.) o foram) como participios. Em
outros casos ha hesitação : tenho
Parouoinasia e paronijmia. ganho ou (e é melhor) tenlio
— Figura pela qual se approxi- ganhado. Póde-se dizer escrevido
mam palavras de som quasi ou escripto com os verbos ter e
idêntico, mas de sentido diver- com este verbo e com haver, estar,
so ; formas trocadas pehis varias a forma regular é, em regra,
mudanças de: sentido do vocá- a usual : aíHigido, exprimido,
bulo :—fios meninos é proprio o comprimido, fixado. 1. Part.
aprender, dos mancehos o empre- iMPEiiFEiTO. — Uoza das pro-
Itender, dos varões o compreheniler, priedades nominaes degráoe nu-
mas dos velhos o repreliender. E de mero: amante, amantes, aman-
muito uso è ás vezes abuso nos tissimo. Não tem liexão de ge-
seiscentistas. nero, senão em certos casos de
Paroiiyinos. — Palavras ou esquecimento etymologico : pre-
nomes que pouco ditTerem na sidente, presidenta. O part. im-.
244
PARTICIPIOS - - partículas
perfeito foi outr'ora equivalente bos têm dous iiarticipios pas-
a gerundio, no portuguex an- sivos, um regular, outro irre
tigo : eataheleceiite estas regras (es- guiar, como—acceitar (acceitado,
tabelecendo estas regras), etc. Os acceito), sujeitar (sujeitado, su-
participios em anão, endo e in- jeito). O participio regular é o
do, também chamados imper- que serve para fazer tempos
feitos sito antes gerundios. Vide a compostos : o irregular é um ad-
palavra. 2. Pakt. peufeito.— jectivo verbal. Entretanto en-
Goza das propriedades nominaes contram-se exemplos de parti-
de genero, numero e gráo. Ama- cipios irregulares fazendo tempo
do, amada, amados; sagrado, sa- comjiosto. Ex. :— Todo o povo
cratissimo, etc. As propriedades romano se tem farto de herva sar-
verbaes consistem em indicar o donica. (Bernardes). Vezou-nos de
tempo conforme o verbo a que se o haver morto. (Bernardes) Estes
ajunta. Com o verbo ser o parti- peceados tinham já cheio a me-
cipio só indica o tempo que dida. (Vieira). Têm alguns verbos
aquelle exprime : sou estimado em portuguez verdadeiros parti-
(presenie), serei estimado (fu- cipios do futuro, como—immor-
turo). Com outros verbos a no- redouro (que não ha de morrer),
ção de tempo ó iníluenciida pelo execrando{q\\eáe:\e ser execrado),
Ijarticipio: está ferido (passado), duradouro (que ha de durar),/m-
estará curado (passado, em re- turo (que ha de ser). São adje-
lação ao futuro), tenho amado ctivos verbaes, e alguns substan-
(passado), etc., ainda que os ver- tivados, como — vindouro, douto-
bos está, estará, tenho não expri- rando II.
mam o tempo passado. Nos tem-
pos clássicos, é de notar-se que Partículas.— Denominação
com haver, ter, o participio per- applicada a tres categorias de
feito podia ser usado como sim- palavras : advérbios, conjuncções e
ples adjectivo variavel : « Tenho interjeições. O epitheto justifica-
eseriptas algumas cartas » ; « Hei se pela pequenez material dos
repetidas as minhas razões n. prlncipaes vocábulos que con-
Hoje é de uso geral o participio stituem aquellas categorias; ai !
invariavel, nestes casos. O part. de, por, perto, longe, onde, sim,
perfeito inverte a voz do verbo, não, etc.
construindo a passiva com o ver-
bo ser: ser amado. Mas a passi- Partículas de realce. —
vidade em certos participios, que Dão alguns grammaticos este
chamaremos depoentes, torna-se nome a certas partículas, que,
em actividade : homem lido (que sem funcção grammatical al-
leu muito), viajado, atrevido, ou- guma, seguem esporadicamente
sado, descuidado, etc. Diz a re- o objecto directo. Outros deno-
speito do Participio, na sua Syn- minam-as Ex.:—deixa-
taxe da l. port., o philologo Leo- os lá que se arranjem; puxo^í da
poldoda S. Pereira: «Alguns ver- espiada.

o
345
PAUTITIVOS — PATRONYMICOS
Partitivos. — SSo os adje- Camões escreveu :
ctivos quantitativos (jue expri- Assi como a boiiiiia que forírtrfa
mem parte ou porção limitada : Autestdo tempo/oi...
alguns, pouco, muito, tanto, qual, Sendo das inaos lascivas maltratada
tal, etc. OppOem-se aos tiniver-
saes. Os x>'ii'titivos que exprimem e assim, a meu vêr, exprimiu com
porção positiva o exacta, clia- mais graça e belleza e mais pa-
mam-se numerats. Sobre o uso do thelico o martyrio de Ignez de
artigo partitivo de no portuguez, Castro, do que se empregasse as
vide Artigo. Ííírmas da voz activa.
Pas, pantos, todo, tudo. — Patholoffia verbal.— De-
Elemento grego. Diapasão, atra- nominação por alguns dada a
vés de todas as notas, oitava. factos da semantica ou semeiotica,
Panaeéa, remedio (akos) uni- semeiologia, transferencia de sen-
versal. tido do vocábulo pela especiali-
Passado. —Qualificativo do zação do geral ou pela genera-
tem.po de acções que se realiza- lização do particular. Vide Se-
ram. Vide Tempos do verbo. mantica. (P. Júnior).
Passiva. — Voz dos verbos Patlios, doença, paixão. —
que se exprime em t)ortuguez Elemento grego. A-pathia, insen-
por uma periphrase do verbo ser sibilidade. 1'atlietico, que apai-
com o participio: seramado, pas- xona. Sympathia, paixão mutua.
siva de amar; serás louvado, pas-
siva de louvarás, etc. Também Pátrios.— Classe de adjecti-
existe a passiva denominada mé- vos que exprimem a patria ou
dia, construída com o i)ronome procedencia dos seres : lisboeta,
se. Vide Média passiva. O uso madrilense, fluminense, londrino.
princii)aldapam'®a é necessitado Os adjectivos que exprimem na-
quando se ignora o agente da a- cionalidade, são chamados í/eraí4-
cção.oquepodeser frequente:/M'- licos (francez, brasileiro). Vide
tannico foi envenenado. Este poeta Oentilieos.
foi muito applaudido.VíAo trabalho Patronyniicos.— São os
que l6'/. foi pago. Por essa razão, cognomes derivados de nomes
igualmente se empregam as vozes proprios, caracterizados, em re-
impessoaes diz-se, conta-se, mur- gra, pela terminação es, que de-
murava-se, relatou-se, escreteu-se, riva do ablativo latino : Fernan-
quando se ignora ou se finge des, de Fernando; Feres, de Pero ;
ignorar o sujeito de dizer, contar. Bentes, de Bento; Martins, de
Em outras circumstancias iipas- Martinho; Duarte (Eduardes), de
siva exprime melhor a acção con- Eduardo ou Uuardo; Oonçalves,
tinuada, diuturna e perfeita;/oí deGonçalo (Gonsalbus); Sanches,
adestrado, foi educado nesta sci- de Sancho; Ximenes, de Simão'
encia; foi perseguido pelo inimigo. (Ximeno); Paes, de Paio, Pela-
É, pois, grande recurso do estylo. gio; Ennes, de Eanne, João, etc.
PATKONYMICOS PERIPHRASK
Sobre a etynioloíjia tkis itatrony- mum. OalUcismos. barbarisinos,
inicos. ha diversas opiniões. Que- anglicismos, etc.
rem uns que o palroiiymico seja Peri.— Prefixo grego. Ao re-
tirado do genitivo latino; outros, dor. Pm^/íTO«e(locuçílo ao redori;
do genitivo gothico. A doutrina circumloquio.
mais seguida é a que o faz deri-
var do ablativo do plural : Paes, Periódica.—Diz-se da pro-
de PelagiU (da familia dos Pela- posição ou palavra que por si só
glos), etc. O germânico em geral constitue periodo. Segundo o
constitue o patronymico com a auctor do Escoliaste, a oração pe-
juncção dos termos, son, sulin, riódica é a que contém mais de
(filho) : Ilobertson, Mendelsohn. quatro membros e menos de oito.
Pejorativo.— Diz-se do vo- Periodo.—Proposição única
cábulo que adquiriu ou tende a ou muitas d'ellas quando formam
adquirir um sentido torpe, obsce- sentido perfeito, ü periodo é
no ou meramente desagradavel. assignalado orthographicamente
Ex.: reZ/ídco é pejorativo de velho; pelo ponto final; mas este nem
sahichão, de sábio. A essa tenden- sempre indica que o sentido está
cia opp5e-se o euphemismo. Quasi completo, porque um periodo lo-
todos os vocábulos obscenos íor- gico (de sentido) pikle compôr-se
maram-se de palavras decentes de vários periodos figurados na
que adquiriram fimüAopejorati- escripta.
vo e ás vezes sentido diametral- Periplirase. — Expressão
mente opposto ao que possuiam. de um conceito por muitas pa-
Pene. — Prefixo' latino (qua- lavras analyticamente; o antro
si).—Península, quasi ilha. Pe- rei, o centro do systema planetario,
núltimo, quasi ultimo. etc., por : o sol. É synonymo de
circumloquio. P()de ser até indis-
Pente, cinco. —Elemento pensável quando se quer enco-
grego. Pentágono, cinco ângulos. brir idéas obscenas ou desagra-
Penteeoates, quinquagesima. daveis, e é então ornamento e
Per, prefixo latino. — Atra- não vicio. Em matéria propria-
véz. Perdurar, perfeito. Assimi- mente grammatical, chamam-se
la-se em : p)ellucido. periphrasticaa as vozes verbaes
compostas : tenho amado, tenho
Perda, synonymo de guéda sido amado, hei de estudar, etc.;
ou suppreasão.—No principio do e as compostas com verbos não
vocábulo a i)erda de sons deno- auxiliares : foi saindo, saiu. di-
mina-se apherese; no meio, syn- zendo, andava estudando, etc.
cope; no fim, apocope. Vide estes As fôrmas de futuio compostas
nomes. (hei de, louvar, tenho de louvar)
Peregriiiismo. —-O mesmo chamavam os antigos gramma-
(jue barharismo, palavra estran- ticos, linguagens de significação
geira introduzida na lingua com- começada.
"247
PERISSOLOGIA — PESSOAL
Peris.solojíia.— Redundân- com excepção apenas da 2? pess.
cia viciosa e inútil, como manu- do imperativo; dize, ama, louvae,
seiar com as mãos. Escrever um es- recebei, etc. e da 2? pessoa do sin-
cripto, soletrar letras, etc. Vide gular do perfeito: disseste, amaste.
Pleonasmo. Pessoaes. — Classe de pro-
Permuta. — A permuta das nomes. Para alguns gramma-
vogaes pode redu/ir-se aos dous ticos ü a única d'essa categoria.
factos do alongamento e abran- Vide Pronomes. Os pessoaes ex-
damento. As consoantes in- primem as pessoas do discurso:
fluem na transformação dos sons eu, tu, elle, se, o, com as varia-
vocalicos. A permuta das con- ções e fôrmas correlativas. São
soantes só se pôde dar entre lio- os seguintes: lí Pessoa. — Eu,
morganicas. A tendencia é sem- ego; me, me; mim, mihi\ no
pre para o abrandamento (P. plural, nós, nos; comnosco,
•lun.) cum-noscum (nobiscum). P()rmas
archaicas : ieu, geu, mi, me<jo,
Persa. —Língua aryana, que, nosco. 2Í PESSOA.—Tu, tu; te, te;
por intermedio do arabe, algu- ti, tibi; comtigò (cum-teeum);
mas vezes do grego e ainda di- no plural, v()s, vos; comvosco,
rectamente, inUuiu no léxico cum-voscum (vobiscum). Formas
das línguas européas modernas. archaicas; xe, che—t&\ vosco,
O persa antigo é conhecido espe- PESSOA reflexiva.—Se, .ve ; si,
cialmente pelo nome de zeml. sibi; comsigo, cum-secum. pes-
Vide Asiaticismas e Arabe. soa geral.—Elle, ille; ella, illa;
Pessoa. — É qualquer das lhe, illi; o, illum; illam; no
partes que se imaginam nacom- plural, elles, illi; ellas, illas; os,
municação da linguagem. São illos; as, illas; lhes, illis. For-
tres as pessoas : lí pessoa é a mas archaicas: Io, la=o, a, etc.;
que fala : eu ; '2') pessoa 6 aquella eZ = elle; ello, ülud; Íí=lhe ;
com quem se fala : tu ; 3? pes- We=lhes. No que é relativo ií
soa c aquillo de que se fala: syntaxe, vide Pronomes e Collo-
elle. Varias formulas da pes- çação.
soa substituem a na conversa- Pessoal. — Infinito pessoal.
rão : Focí, V. Ex'^ etc. Nos verbos Com grande abundancia se tra-
as pessoas são representadas na de- tou do assumpto a proposito de
sinencia pela flexão: am-a-.*, am- Infinito (v. loco), mas aqui tran-
a-m; am-a-í.s, receb-e-«, receb-e- screveremos ainda de auctores
ís.etc. Essas terminações ou flexõcs de nota: — aDiz-se o modo infi-
indicam as pessoas dos verbos, nito do verbo na sua conjugação
mas não são expoentes fixos. (fala o illustre coordenador do
A única flexão característica Escoliaste portuguez), empregado
é o s, que apparece nas- se- por um idiotismo singular da
gundas pessoas de ambos os nossa língua, representando a
números de todos os tempos; existencla ou acção por um mo-
348
PESSOAL
(Io indeterminado, contendo ao as formas pessoaes, mc5rmente
mesmo tempo a idéa de pessoa quando são exigidas pela cla-
ou de numero. Exemplos : Seu reza, pela emphase ou pela har-
pae deu-lhes licença para estu- monia da oração. Se a phrase co-
darem o que quizerem. Ha quem meçar por um infinito com pre-
supponku existirem' Tiahitanies na posição, devo antes empregar-se
lua. O infinito pessoal emprega- a lorma pessoal. Exemplo ; Por
se em quatro casos; 1? quando terem estudado pouco, ficam agora
tem sujeito proprio e este está reprovados (e não—por ter estu-
claro na oraçilo do infinito, co- dado pouco) : não por causa da
mo: J'ara saírem os alumnos da ambigüidade, mas para fazer co-
aula é indispensável licença do nhecer o sujeito logo no começo
professor. 2? quando o verbo ex- da phrase. íTos tempos pessoaes,
prime uma acção referida a líes- colloca-se o pronome que serve
soa ou pessoas determinadas, de complemento dei)ois do verbo
mas que não queremos designar, e antes do sujeito ; v. g. : Dizeres-
como : llefu(jiei-me em França me tu isso é loucura; maá se o in-
para não me perseguirem. !3? finito é precedido de uma pre-
quando o sujeito do verbo no posição, o sujeito e o comple-
modo infinitoé differente do ver- mento collocam-se antes do ver-
bo no modo finito que o determi- bo; v. g. : Para tu me dizeres
na, ou possa causar equivoco so- isso ; sem elle me vér ; antes de nós
bre qvial é aquelle de quem se lhe escrevermos ; sem tu nol-o teres
fala; nesse caso, i)ara distincç.ão dito; por nós lhes termos acon-
dos dous sujeitos e para evitar selhado. Também se pôde di-
obscuridade na oração, a lingua- zer, deixando o sujeito depois
gem infinita toma differentes ter- do verbo : por lhes termos a-
minações pessoaes, como : Creio conselkado; o mais geral no
não seres tu perfeito; julgo termos infinito pessoal é ficar o sujeito
tencido. Assim, pois, emprega-se depois do verbo; v. g.: Ao mor-
de ordinário a forma pessoal, rer o corpo, recobra a alma a
quando o infinito, complemento liberdade. Cabem ainda aqui as
de um verbo, tem o sujeito dilfe- considerações do snr. Leopoldo
rente do sujeito d'esse verbo. 4? S. Pereira, auctor da Syntaxe da
quando a oração do infinito, ou lingua portugueza: «Os verbos tOm
como sujeito e altributo d'outro em portuguez dous presentes do
verbo, ou como complemento de infinito, um pessoal e outro im-
alguma proposição, se pode to- pessoal. Grande incerteza existe
mar num sentido mais ou me- sobre o uso do infinito pessoal,
nos determinado ou pessoal, nem são concordes neste ponto
como : Para me loumres com ver- os grammaticcs. O erudito phi-
dade, farei aquillo de que me lou- lologo P. Adolpho Coelho per-
vas. Os mãos com se louvarem gunta: «Quaes os casos em que
não deixam de o ser. Ainda ha ou- se deve empregar o infinito pes-
tros casos em que se empregam soal, se nenhuma regra constante

e
249

se vê observada pelos melhores caz motivo para mitigar saudades


clássicos?» (A Ungua portugneza, e enxugar lagrimàs. (Bernardes).
pag. 17G). F()de-se dizer que as b — Quando aos verbos deixar,
mais das vezes a clareza e o fazer, mandar, ver, ouvir se pos-
rhytlimo da plirase são os que pozer uma oração do infinito,
decidem de seu emprego, o qual usa-se nesta do infinito impesso-
se aprende melhor na leitura al, ainda que sejam diversos os
dos clássicos que nas regras dos sujeitos. Ex. : — Até o sol, a lua e
grammaticos. Todavia as seguin- as estrellas não deixamos estar
tes regras prevalecem no maior ociosas d'essa pensão. (Vieira). Os
numero dos casos. — Empre- ricos trajos faziam sobresair as
ga-se o infinito pessoal quando feições enrugadas. (Herculano).
seu sujeito é diverso do da ora- Arautos luaiulu {Aijanirmiion)
ção u que está ligado. Ex.; — Convocar oíí serjrcdoa flor dos socios.
Dous virotes ãe hésta pareceu sibi- (Odorico)
larem por cima de ma cabeça. AlH verão os seitas estridentes
(Herculano). Eu vos arjradeço em lleciprocar-sejaíjoíitíi no arvirando
nome dos vindouros o desmentir- (Camões)
des com o feito a promessa a que a Os zephyros suaves
salvação da minha patria me obri- Não ouves respirar?
gava. (Castilho), a—Em orações (Odorico)
comiilementares, geralmente Entretanto, ainda neste caso,
precedidas das preposições íiara, quando o verbo do infinito dista
por, com, sem, etc., ainda que o do outro do qual depende, exige
sujeito do infinito seja o mesmo, a clareza que se empregue o in-
emjjrega-se o infinito pessoal. finito pessoal, como neste ex.: —
Ex. ; — Quiz Deus que d'esses dias Assim visse no mar as ndos e gale-
maravilhosos, ainda que rudes e ões arrombadas de tiros de fogo,
semi-barbaros, soubessemos algu- umas d' ellas irem ao fundo, outras
ma cousa para nos encendermos arderem em fogo e chammas de
no amor de muitas virtudes. (Cas- alcatrão. (Barros). Comparem-se
tilho). Quando o semeador do céo os dous seguintes exemplos, nos
deivou o campo, saindo d'este quaes em phrases idênticas usa-
mundo, as pedras se quebraram se do infinito pessoal e do im-
para lhe fazerem acclamações, eos pessoal :
espinhos se teceram para lhe faze- Verão morrer covifomc osJilhos caros
rem coroa. (Vieira). Os embaixado- Em tanto amor gerados e nascidos ;
res se tornaram do deserto sem Verão os Oafrcs ásperos e avaros
acharem quem lhes dissesse que Tirar á linda dama seus vestidos.
era o Mesnias. (Vieira). Quando
não ha perigo de obscuridade, E verão mais os olhos que esca-
póde-se deixar de seguir esta re- parem
De tanto mal, de tanta desventura,
gra, como nos seguintes exem- Os dous amantes míseros ficarem
plos : —Aqui têm os paes que sobre- ya fervida e implacavel espessura,
viverem a seus filhos, um vii:o e ejfi- (Camões)
350
PH — PLASSEIN
Pli. — Transcripçilo do grego da linguagem; a decomposição
(pM) nas palavras eruditas: pM- ou estrago, e a recônstrucção ou
losophia, etc. restauração da lingua. Entre
Pliagõ, íJU como. — Elemen- essas duas tendencias interfe-
to grego. Sarcophago, que come a rem outros princípios que per-
turbam a sua dupla acção e tam-
carne humana. bém cilem sob o dominio da
Phaino, brilhar. ■— Elemen- phonetica. Schema das forças
to grego. Diapliano, que brilha cuja acção se observa no exame
atravéz, translúcido. Phenomeno, historico da lingua;
cousa que brilha, o que se vê. 0
Emphase, fanal, fantasia, fantas- Factor etlinico
ma, etc. 'S l Factor viesoíoyicv
2, \ profiuzem :
Pliero, levar. — Elemento
grego. Metapliora, que leva para Sí / Abrandamento de letras
além, transporta. Amphora (am- I Qitéda de letras
p/tiV,duas azas. Phosphoro» (phos, Çí ^ Arehaismos de palavras
luz), flammiíero.
Pliilos, amigo.— Elemento Itelnções iiiternacionaes
grego. PMlosopliia, amor da sa- 1 .Inaloijia
bedoria. Phüantropo. Philoma- C I Influencia erudita
tico (que ama a Instrucção), etc. 1 I Reforço
Hybridismo; neyrophilo, Nevloijísinos e iieo^^honenias
Pliônê, voz.—Elemento gre- ^ Léxico estrangeiro
go. TelepJtone, voz ao longe. Pho-
nologia, estudo dos sons. Sym- PllOS, photos, luz.— Elemen-
phonia, antiphona (contra voz), to grego. Photographia, dese-
euphonia, etc. nhado pelaluz. Photosphera, etc.
Hybridismo; Photogravura.
Plionema. — Expressão que Pliusis, natureza.—Elemento
indica a unidade do som (letra ou
grupo de letras) que entra^na grego. Physionomia, que indica
constituição do vocábulo. É o o gênio. Metaphysica, além da
objecto essencial do estudo da natureza. Physiologia, physiea,
phonologia. etc.
Plionetica ou phonulogia. — PI, grupo latino.— Persiste
Parte da grammalica em que em fôrmas eruditas. Normalmen-
se estudam os sons que entram te permuta-se em eh : phwiam,
na formação dos vocábulos. A chuva. Em pr é permuta anti-
phonologia é histórica quando es- ga; emprir, encher, implere.
tuda a evolução e alteração dos Plassein, formar. — Ele-
sons atravéz dos tempos. A pho- mento grego. Plastica. Caiaplas-
nologia abrange o exame das ma. Kmplastro. fíalvnnoplastia,
duas forças essenciaes á vida etc.
2õl
PLKONASMO — PI-URAI,
Pleoiiasiiio. — Vicio que adjnctivos, terminados em vogai
consiste iia redundancia inútil ou diphtliongo, fcírma-se ajun-
de idéas ou conceitos já expres- tando um s á terminação do sin-
sos. Pôde ser usado por emplia- gular; como: arma, armas; ma-
se; vi com estes olhos, ouvi com çã, maçãs ; mestre, mestres; rubi,
estes ouvidos, etc. Ha pleonas- rubis; rico, ricos; mau, maus; etc.
mos que a analyse descobre na EXCEPçõEs; Os substantivos ter-
liistoria dos vocábulos: commigo minados em ão fazem o plural,
(eum-ra^-cum), comtigo, etc., em uns em ães, como—pão, pães;
que a prep. cum è representada outros em ões, como — acção,
duas vezes; a preposição de c acções; outros conforme a regra
repetida em desde (de-ex-de), geral — irmão, irmãos. Os adj(!-
etc. Camões, nos Lusíadas: ctivos d'esta terminação for-
Vi claramente vista o lume vivo mam geralmente o plural com
Que a marítima gente tem por santo accrescentamento do «, v. g.:
A simples repetição da mes- são, sãos; alguns mudam a termi
ma palavra é belleza e não pleo- nação ão em Oes; como—beirão,
beirões. Plural em ães, só o tÊm
nasmo, como nos Lusiadas, III, alguns
12Í), onde se repete a palavra allemães,adjectivos pátrios, como:
olhos. Frei Luiz do Souza tam- stantivos catalães. Os nomes sub-
bém escreveu na Vida do Arce- nados em :e al, os adjectivos termi-
ol, ul — formam o-
bispo, com o seu formoso estylo : plural mudando o l em es, como
«Ainda ainda imos gastando — quintal, quintaes; lençol, len-
do que trouxemos ».O pleonas- çoes; azul, azues. Cal faz — cales,
mo quando vicioso tem o nome ainda que pouco usado; mal,
de perissologia ; tal o exemplo de males; cônsul, cônsules; e assim
Tenreiro— Itiner. C. 28 : 'i Está os compostos d'este nome ; v. g.:
um», fonte em que dentro n"ella proconsules, vice-consules; el, il
nasce agua. n (breve ou átono) — trocam estas
Plural. - F1 exão e proprie- terminações em eis; v. g.: papel,
dade que indicam a dualidade papeis ; provável, prováveis; pro-
ou multiplicidade de seres: ho- jeetil, projecteis; fácil, fáceis ; il
mens, casas. A tlexão caracterís- (agudo ou longo) — mudam Z em
tica do plural éos. Existe um s, \. g.-. fuzil, fuzis; gentil, gen-
vestígio do plural neutro latino tis; m—mudam esta letra em ns ;
em a no vtklor logíco de certos v. g.: homem, homens; bem, bens;
singulares: nvtitft, os modos (plu- fim, fins; bom, bons; atum, atuns;
ral de modunt); alimaria (ani- r, z — accrescentam es a estas le-
malia^, animaes, pl. de animal), tras ; v. g.: mar, mares; alvar,
etc. E este o plural logico. Com- alvares; capaz, capazes; luz, lu-
quanto a formação do plural zes; s—não alteramaterminação;
seja matéria elementarissiíHa, v. g.: um lápis, dous lápis ; mui-
aqui incluimos regras gentes: tos alferes. Exceptuam-se deuses,
«O plural dos substantivos e dos plural de deus (no sentido my-
PLURAL
thologico), íluples e simples que mortos, p)ostos, ditosos, famosos,
no phu-iil fazem duplices e sim- etc. Caracter muda no plural o
plices ou sim2)les. O plural dos accento da 2í para a syllaba
substantivos compostos forma- — carãeter, caracteres, üanon e
se ou dando terminação plural á ademan fazem cânones, ademanes.
ultima iialavra, como—varapau, Appendix ou appendice faz appen
vara2)aus; inalmequer, malme- dices e index ou Índice, índices.
querea; ou dando-a a ambas as Nos diminutivos dos substan-
palavras componentes; v. g.: tivos acabados em ão, o plural
rjentil-hormm, gentis-Uomeng; cou- forma-se pondo também no plu-
ve-flór, coutes-flores. Nos com- ral os substantivos primitivos:
postos de uma palavra inva- V. g. : acçãosinha, acçõesínhas.
riável seguida de um substantivo Nrio tÊm plural: Os nomes riio-
ou adjectivo, dá-se a f(')rma de niios; V. g.: Pedro, Paulo; toda-
plural só ao substantivo; v. g. : via succede algumas vezes serem
antedata, antedatas; semsaborão, empregados como nomes; v. g. :
■seinsahorões; suh-eliefe, suh-chefes. dous Christos de marfim; morrem
Nos compostos de um verbo, se- Scipiões nos liospüaes; mm Telles
guido de um substantivo, dá-se nem Menezes, ou quando que-
a fôrma do plural só ao substan- remos designar ao mesmo tem-
tivo ; v. g. : iiassatemyo, jiassa- po muitas pessoas do mesmo no-
tempos; porta-bandeira, porta-han- me ; V. g.; os dous Brandões, os
deiras. Os mais com o uso. Alguns Nunes, etc. Os nojibs troi-iuos
substantivos terminados em o, DEiiiVADOS; V. g. : o budhismo, o
cuja vogai accentuada é um o judaísmo, etc. Os de sciexcias e
fechado, mudam no plural esse AKTES ; V. g. : a theologia, a phí-
o fechado para o aberto, v. g. : losophia, a 2Untura, etc. Os que
ôw, ói'os; avó faz ctvós e tem a exprimem idéas abstractas,
singularidade de representar no tomadas individualmente; v. g.:
plural os dous pluraes de avó e a pureza, a 2>rudencia, o pejo, etc.;
de avó, i. é, dos dous sexos. »iDAI,IDADES IIAIUTUAES; a/e, a
Adorno, bolso, estojo, folho, globo, es2)erança; menos quando são
gosto, molho fí outros conservam tomadas pelos actos d'ellas;
no plural o « (fechado); v. g. : como: duas fés e crenças. Deus
adónios, bolsos, etc., mas, se mo- aborrece avarezas; i. é, os actos
lho significar feixe, tanto no sin- viciosos da avareza; metaes e
gular como no plural se ha de SUÜSTANCIAS INOKGANICAS ; V.
dizer, molho, molhos. Os adje- g.: ouro, prata, hydrogeno, azoto,
ctivos cujas duas ultimas syl- carbono, etc., excepto se quizer-
labas tiverem no singular mas- mos significar peças, artefactos,
culino o, como — grosso, morto, porções ou especies accidental-
posto e os terminados cm oso, mente differentes, como: estar a
mudam o penúltimo o que é fe- ferros, muitas pratas, aguas mine-
chado no singular — ó — em ó raes, thermaes, etc.; rnODCCTOs
(aberto) no plural; v. g.: grossos, ANiJfAES ou VEOETAES; v. g.: leite,
25»
PLURAL POPULARES
mel, cera, canella, etc.; ventos— flores de Uz. lia nomes cujo-
norte, sul, etc.; algumas vezes se plural ainda não está bem fi.va-
dáafórtna plural a algunsd'estes do, e por isso cada auctor os es-
nomes, mas figuradamente, etc.; creve a seu modo; taes são entre
e ha outros que nem figurada- outros: Calis, calix ou cálice,
mente a podem tomar, como: calis — cálices ; iudex, indes ou
isto, isso, aqiiülo, tudo, outrem, Índice, indes—Índices ; ancião,
nada, alguém, quem,pez, e alguns anciãos — anciões; aldeão, alde-
mais terminados em ez, que só ãos—aldeôes; ermitão, ermitãos
no singular costumam ser em- •— ermitões ; cortezão, corlezãos
pregados, taes são; tez, rapidez, —cortezões ; ademan, ademães—
sensatez, languidez, etc. Ha no- ademanes ; charlatão, charlatães-
mes que t6m vima só terminação —-charlatões; simples, simples
em ambos os números, como: — simplices ; sacristão, sacris-
pires, ourives, caes, arraes, alferes, tães—sacristãos.
etc. Parecem ter terminação de
plural muitos nomes de terras l*oieiii, fazer. — Elemento
(villas e cidades); v. g. : Ahrati- grego. Epopéa (epos, i)oema).
tes, Elvas, Guimarães, Lagos, Hil- Poesia. Onomatopéa.
tes, etc.Têm geralmente só plural Polis, cidade. — Elemento
os nomes que significam pares, grego. Necrojxile, cidade dosmor-
multidão ou congestão de cousas tos. Metrópole, cidade mãe. Pe-
da mesma especie; v. g. ; bragas, tropolis (ou melhor Petropole),
preces, exequias, tiveres, ceroulas, cidade de Pedro. Policia, política,
algemas, earicias, fehres, yrelhas, cosmopolita, etc.
etc. Tanto os infinitos dos ver-
bos empregados substantivada- Polus, muitos. — Elemento
mente e significando cousas e grego. Polyglottn, que fala mui-
não acções, como as outi'as pa- tas linguas. Polygamo, que se
lavras do discurso, tomadas co- casou varias vezes.
mo substantivos, podem empre- Poly.syllabo.—E o vocábulo
gar-se no plural; v. g. ; os dares que tem muitas sjilabas, de tres
e tomares, os seus teres e haveres ; para mais : consciência, infallihi-
isto tem seus quês; dar os.améns, lidade, amoroso.
os setes, os oitos, os noves; as le- Ponto. — Xome generico da-
tras do alpliabeto tomam tam do a diversas especies de signaes
bem um s no plural os ás, os daescripta: ponto final; p. de
hês, etc. Quando um nome é com- interrogação, p. de admiração,
posto de dous substantivos uni- etc. Vide tiyntacticas (notações).
dos pela preposição de, o pri-
meiro 6 que toma ordinaria- Populares.—São assim cha-
mente o signal de plural ; v. g.: madas as formas oriundas do
pé-ãe-hoi, x>és-de-hoi; primar d'ar- domínio proprio ou da creação
te, primores d'arte; 'inestre-d'o- espontanea da língua, como re-
hra, mestres-d'-obra; Jlór de Uz, zar, lealdade. Oiipõem-se lis eru-
254
POPULARES PORTUGÜKZ
ditas ou formadas pelos' doutos de Caet. Lopes de Moura e a
com o exomplo do latim ciillo : mais recente de Henry Lang; o
recitar, legalidade. Uma lista üancioneirinho de Varnhagem
d'ellas se acha a proposito de também é edição incompleta do
Divergentes (fôrmas). Vide. üane. da Vaticana; o Oanc. Co-
Portilguez. Syn.: o roman- lorei lirancuti que completa os
antecedentes, e é o mais abun-
; linguagem.—Lingua romana dante, teve uma edição feita por
falada em Portugal, e qnasi, pó- Molteni ; todas estas reedições
de-se dizer, na parte occidental modernas são de Ilalle, edit.
da llespanlia, por isso que o Max Niemeyer. A cultura gram-
gallego não é lingua dilferente matical começou no século
do portuguez. Dialectos.—O gal- XVI com as grammaticas de F.
lego e o 'indo-portuguez são os Ijopes e de João de Barros. So-
principaes. Existem no emtanto bre a lingua antiga existe a obra
dialectaçôes sem cultura litera- gigantesca de Viterbo—Elucida-
ria na America e na África. O rio, de • Lisboa, 1708, que é
gallego e o portuguez antigo, não ainda lioje o monumento mais
offereciam differença alguma considerável levantado ao estudo
até o século XII; depois, cada do portuguez antigo. O portu-
lingua teve desenvolvimento dif- guez oriundo do latim, imposto
ferente, pois que a Galliza desde pelos romanos ás populações
muito (í uma província da na- celticas ou celtiberas, recebeu
ção castelhana. Os primeiros ainda a inliuencia secular da
textos conhecidos de lingua por- dominação goda e ainda a dos
tugueza são a Noticia ãe torto.. . arabes, que conquistaram a Hes-
e a Noticia ãe partiçon, do século panha. Da fusão dos tres ele-
XII, e os Voraes de Gastello Ito- mentos latino, germano, árabe,
drigo, do século XIII, em prosa. com a supremacia do ijvimeiro,
Vários monumentos literários é que saiu a lingua de Portugal.
em verso existem dos séculos Póde-se fixar nos começos do
XIII e XIV, que representam a século XIII o pleno desenvolvi-
feição da antiga lingua; taes mento da lingua portugueza an-
são o Gancioneiro de Atfonso X, tiga, a lingua gensor, quando já o
o (Jane. da Vaticana, publ. em povo pouco ou quasi nada enten-
duas edições, de Monaci e de dia do latim barbaro, ainda usado
Th. I?raga; as Trovas e (Jantares nos documentos de origem ofli-
do sec. XIV, publ. por Varnha- ciat e da praxe dos cartorios. Já
gem (lladrid, 1849), que repre- desde muito tempo o latim do.s
sentam o Oanc. da Ajuda, tam- documentos era completamente
bém publicado em excellenteedi- falso e apenas constante do uso
ção por Carol. ilichaêlis (1904); dos tabelliães, e é o que se evi-
o Cancioneiro de Dom Diniz, in- dencia pela introducção na-
cluído no da Vaticana teve duas quelles papeis, de fôrmas vulga-
edições separadas, a defeituosa res do romance, que não po-.
PORTUGUEZ — POSITIVO
(liam ser traduzidas, como c fa- municípios, convém ponderar
ci) verificar nas cartas de doa- que se encontram os meliiores
ções e nas próprias leis mtinici- documentos no direito consue-
paes. Os documentos que deve- tudinario, a partir do reinado de
mos dar como excerplos cara- D. Diniz. Os F(n'aes, rudinien-
cterislicos da lirigua d'esse tem- tos do direito publico, appare-
po, abrangem o período dos sé- cem sempre alliados aos Costu-
culos XIII e XIV e são de duas me» (foros), onde se nota simul-
naturezas bem distinctas. Os taneamente a filiação do direito
documentos era verso, na maio- vulgar nas suas origens (direito
ria, representam a phase da es- civil romano, germânico e ara-
cola provençal-portugueza ; fo- be). Os Costumes ou foros, por
ram escriptos durante o cyclo isso mesmo que representam a
d'essa poesia no occidente da pe- praxe tradicional reduzida a es-
nínsula por vários trovadores, cripto, são repositorios de incon-
e se acham colleccionados nos testável preciosidade para o es-
Caneimuiros dos quaes demos tudo da lingua. Depois da dis-
anteriormente noticia. Os do- ciplina classica nos fins do sé-
cumentos em prosa são ano- culo XV e em todo o século
nymos, e constam principal- XVI, a evolução do portuguez
ments de titulos, ordenações e tornou-se lenta e quasi toda pro-
leis do tempo, e o mais que se movida pela irresistibilidade ao
considera como os textos authen- progresso de outras literaturas,
ticos e mais puros da linguagem nomeadamente da franceza. As-
da época a que se referem. En- sim, pois, continuam intensas
contram-se manuscriplos em vá- as alterações sj ntacticas e as de
rios arcliivos do reino de Portu- accrescimo de le.<cioo ; mas as al-
gal eacliam-se,muitos,publicados terações piioneticas são relati-
na collectanea PorUtgaliíB Monu- vamente i)oucü notáveis. Vide
msnta IlisUrrUa, editada em Lis- Clássicos.
boa pela Academia de tíciencias.
Os actos públicos, geraes, leis Posição. — Vogai em posi-
etc., como monumentos legis- ção é a que está antes de duas
lativos datam de Atfonso 11 (sec. consoantes ou de dupla: acre,
XIII), mas como documentos nexo.
philologicos datam dos fins do Positivo.— Nome que expri-
século XIV, pois representam me o estado normal dos adjecti-
claramente versões de textos ori- vos qualificativos, em relação ao
ginaes, redigidos em latim e que gráo: bom è i)0sitiv0 em relação
já não existem. D'essas versões ao comparativo melhor e ao su-
ha variantes em diversos códi- perlativo péssimo. Pode appli-
ces, que não deixaremos em car-se aos substantivos: sala é
omissão, quando forem de im- positivo em relação aos griíos sa-
jiortancia para a Hnguistica. lda (diminutivo) o salão (au-
Quanto á legislação especial dos gmentativo). Também o eplLhelo
2ÕG
POSITIVO - - PREFIXO
positivo foi iipplicado a um inte- primir; oh, oppôr; aã, appa-
ressante sj'stema de outliogra- recer.
phia phonelica brasileira, publi- Pre, prefixo latino.— Ante-
cado em 1888. (1) cipação. Prever, pre-Mstorico. O
Possessivos. — Determina- comparativo preter significa ex-
tivos que exprimem posse: seu, cesso: preterir.
meu, tua. vosso, etc. Podem ser Predicado, predicarão, pre-
classificados simultaneamente ãicativo.— Vide Proposições.
em duas categorias de pala-
vras, entre os adjectivos e entre Predominante.—O mesmo
os pronomes. São adjectivos quan- que tônica; syllaba em que recáe
do se usam com o substantivo : o accento : misericórdia, belíeza,
m£u chapéo. São pronomes quan- rápido. Vide Accento, onde já se
do o nome está occulto; este tratou do assumpto, e também
chapéo émeM. Os possessivos re- Prosódia.
cebem o plural fictício, como os Preíixo. — São os elementos
pessoaes: « Escrevemos este livro, morphologicos, que se aggregam
onde expozemos doutrinas nos- ao radical das palavras por ante-
sas e alheias». Onde se vê que posição. Exemplo: (em bai-
escrevemos (nós) está por escrevi xo), suh-inetter, sub-entender, ele.
(eu), e também nossas, por mi- Estudamos os prefixos no corpo
nhas. A palavra você representa d'estediccionario nos logares de-
uma composição de vossa mercê. terminados pela ordem alphabe-
O a^lj. ««« pode ter referencia a tica. Os prefixos são gregos, lati-
possuidores vários (son, leur, no nos ou vernáculos. São prefixos
fr.), e por isso em alguns escri- \a,ünos: a, al),ad, ante, M, circum,
ptores encontram-se ampliações cum, contra, di, ãis, des, de, e. ex,
que esclarecemo sentido: «Maria extra, in, inter, intro, juxta, male,
acompanhava Antonio e também hene, oh, pene, per, post, pre, pre-
o acompanhavam os seus filhos ter, pro, re, retro, semi, sed, sine,
d'ellaii. A ampliaçãg d'eUa de- suh, super, supra, susum, trans,
stróe a ambigüidade do sentido. tri, tres, ultra, un, uni, vice. São
Post, prefixo latino.— For- prefixos gregos: a, an, ampM,ana,
ma usual pos, depois. Pospõr. anti, apo, arcli, auto, cata, di, dia.
dys, epi, eu, ev, liemi, hyper, liypo,
Pous, poííoíf, pé.— Elemento micro, mono, meta, pan, neo, para,
grego. Polypo (muitos pés). An- peri, pro, syn. São prefixos ver-
tipoda (contra os pés), etc. náculos : a, com, de e des, contra,
em,entre,por,sem, sohre, sob, mal,
Pp, geminação usada na assi- hem. Muitas vezes o prefixo só se
milação de prefixos: svh, sup- pode revelar por analyse profun-
da da etymologia do vocábulo.
(1) Ortografia positiva... por Em dexer o prefixo de, do latim
Miguel Lemos. Typ. Central, 1888 ãehére, só se revela por meio da
257
PREFIXO — PREPOSIÇÃO
etym ologia ãéhere — de — hahére. Etymologia. A, ad n ah; para,
São dignos de nota os prefixos per a; em, in; sobre, super; sob,
duplos: decom (-por), descom, pre- sub; cora, cum; oimlvà, contra;
dis, recom (-pôr), etc. || A lingua sem, sine; segundo, secundo;
portugueza não parece estimar a após, ad post ; de, de; desde, de ex
composição de verbos com o pre- de; por, ptr e pro; mais, magis.
fixo re; é, pelo menos, muito Algumas têm a etjmologia nos
mais parca que o fraiicez. participios: tirante, não obstante,
Prenome. — Primeiro nome durante, etc. LocuçOes prepo-
do homem ou mulher; ou nome SITIVAS. São as preposições ex-
de baptismo dos christãos ; João, pressas por mais de um vocá-
Maria, Júlio. Segundo alguns bulo : em conformidade com, não
auctores, porém, o prenome ape- obstante, depois de, etc. A con-
nas representa o titulo que ante- juncção e pôde momentanea-
cede o nome da pessoa ou esta- mente servir de nexo entre pala-
do ; Frei, Dom, São ou Santo, vras e funccionar como prepo-
vice, arcli, sub, sota, etc. sição: dous e dous são quatro(do-
us com dous). Nas antigas gram-
Preposição.—Categoriaque maticas ha a divisão entre as
abrange todos os vocábulos que preposições componentes (ab, ad,
exprimem em abstracto as rela- pre, per... que compõem os vo-
ções entre noções puras. A rela- cabulosesão denominadas jwe-
ção de posse, v^ gr., expressa fixos) e as preposições regentes: a,
pela particula de: poesia de Gon- sobre, em, etc. Syntaxe. A prepo-
çalves Dias. Não caberia nos li- sição não pôde deixar de ser re-
mites d'este livro exemplificar petida, com palavras antagôni-
todos os usos da preposição. cas ; na terra e no mar. « Não se
Leia-se a minha e outras gram- deve fazer reger pela mesma pre-
maticas (Júlio Ribeiro, Pacheco posição palavras que pedem pre-
Júnior, Ribeiro de Vasconcel- posições difl'erentes. Assim di-
los) sobre a matéria. CUusifim- remos bem : util e agradavel a to-
ção. As preposições classificam- dos; nasceu efoi educado em Pa-
se segundo a natureza, aliás va- ris. Mas não diremos: affavel e
riavel, das relações expressas. querido de seus amigos, porque
Posse^: de. União, concomitância: affavel e querido exigem prepo-
com. em, a, durante, por. siçõesdifferentes; ha de compôr-
Conveniência: conforme, segundo. se: affavel com seus amigos e queri-
Separação: sem, de. Causa: de, do d'elles. Em geral não se devem
com,por, após. Opposiçãu: contra repetir as preposições, cujos
em frente. Fim: por. Logar: em, complementos são palavras que
etc. Como propriamente o signi- têm, pouco mais ou menos, o
ficado é vago e geral nesses ne- mesmo sentido ; v. g.: viver na
xos de palavras, a sua classifica- molleza e ociosidade; encanta a to-
ção fica dependente do sentido dos com a sua bondade e doçura ;
ou do emprego qUe se lhes dá. deve a vida á clemencia e magnani-
DICC. GUAMM. 17
258
PREPOSIÇÃO — PRONOMES
iniãade do ■cencedor; encontram-se Ksta é a benção que nos deixaram
os mesmos preconceitos na Europa nossos maiores, morrer gloriosa-
Asia, África e até na America; mente pela Zeí, pelo rei « pela
para a harmonia da phrase e dis- patria.yy
curso,eíc. Mas se estes diversos prepositivas. — Dizem-se
complementos tem um sentido partes que antecedem
opposto um ao outro, ou se sBo ^ vocábulo: os artigos, procliticós
de categoria differente, e neces-
sario repetir a preposição ; v. g.:
Na cidade e no campo : cumpri os Pretérito.—Kome generico
tossos deveres para com Deus, para dado a varias llexôes verbaes de
comvossospaesepara com apatria. tempo. Vide Tempos.
Ainda assim devemos notar que pi.i„,itlvas.- São as pala-
não são estas regras tão absolu-
tas, que nao admittam infra- derivadas. Taes são:
cções, quando o exijam a larmo- primitiva úe amoravel,.
nia ou qua quer outra necessi- ^^^„%,ara, primitiva de pe-
dade do estylo. Uma prep içi dreira, pedrequlho, pedreiro, pe-
não deve ser empregada na mes- ^ primitiva de olhar,
ma phrase em mais de uma ac-
cepçãoou sentido; seria incor-
recto dizer : sobre rt tarde iamos Pro, prefixo latino.—Emfavor
a sua casa discorrer sobre a im- de. Proclamar, f ropõr. A fôrma
mortalidade da alma; comecei por vernacula é por: pormenor.
promr-lhe por todos os meios. Dan- pr„cllticos. - Vide Frono-
do qualquer outro giro as phra-
ses, diríamos por exemplo : so-
bre a tarde iamos a sua casa dis- Proiioineíí. — Expressão
correr Acerca, etc., ou—de tarde abreviada própria para evitar a
iamos, etc ; comecei provando- repetição dos nomes. Dividem-so
lhe por todos os meios, ou comecei em varias classes : pessoaes (eu,
empregando todos os meios por lhe tu, elle, etc.); demonstrativos
provar. .Algumas preposições (este, isto, aquelle, ele.)-, relati-
coiitraem-se com os artigos e vos ou conjunctivos (que, qual,
alguns demonstrativos. As terras etc.); indeflnitos (algum, alguém,
são defendidas noa frios, das c/m- etc.); reflexo pessoal (se); interro-
vas, DAS lamas, das «erras«do (queV qual? etc.). Alguns
inverm. ao orgulho e k vaidade grammaticos apenas nomeiam
bem podem muitos attribuir o des- soba categoria de pronomes —
prezo que lhes vota o bom senso, no os pessoaes. Collocação. — Os
eeo, NO ar, NO Jraar. íía terra, por pronomes de caso indirecto ou
toda a parte ostenta Deusa sua ohUqno ms, te, se, lhe, nos, vos.
omnipotencia. naquelle olhar, Na- o, a, conservam-se ligados ao
quelle falar e saquelle andar verbo, em anteposição ou em
bem mostra leviandade de espirito, posposição. Quando antepostos.
359
PRONOMES
dizem-se procliticos; quando pos- posposição. Erro crasso será,pois,
postos, eiicliticoii. A intercala- dizer: tenho visto-a ou sou grato
rão dií-se nos futuros dos verbos: lhe, etc., solecismo varias vezes
;imar-íe-ei, far-sé-á, etc. A inter- commettido e até por escriptores.
calação diz-se também synclise. 4.—NAh FOUltAS DO GERUNDIO
Para oS brasileiros, que, em ge- precedido ])K em, ha ANTEPO;
ral, commettem freqüentes erros siçío: Em se levantando... E
na collocação dos pronomes, essa regra rigorosa e muito seguida
parte da syntaxe tem a maior e observada nos bons escriptores,
importancia. Eis as regras que a) Quando ha verbo composto com
se mandam commummente ob- infinitivo, a este pôde pospõr-se o
servar, ainda que não seja im- pronome: em se querendo levan-
possível encontrarexemplos con- tar; em querendo levantar-se.
trários nos bons escriptores ; en- b) Quando o gerundio não vem
tretanto, exprimem o uso geral precedido de em, ha posposição:
de todos elles; 1.—Na puoposi- Luiz, levantando-«e, disse...
ÇÃO NEGATIVA O riiONOME OliLI- Não é de muito rigor, como a
(iuo K ANTEPOSTO: Não lhe diga antecedente IV, e ha freqüentes
cousa alguma ; o sol não se apa- exemplos em contrario. 5.—Nas
ga; a vida não me desagrada; PROPOSIÇÕES optativas, Consa-
não te julgues sábio. Quando gradas como formulas de jura-
existem dous verbos, estando um no mento ou de imprecação quando
infinito, épermittida a posposição: o sujeito precede ou não existe :
não me podia falar ou não podia Deus me livre ; o céo te abençoe;
falar-me. 2.—Xas clausulas de t'arrenego ; bons ventos o levem;
«UBOIIDINAÇÃO o rlSONOME É me mellem. E regra de muito
anteposto: Mandei que fedes- bom uso e quasi nunca exceptua-
sem o livro; peço que me escre- da, salvo se o sujeito se pospõe:
vam; farei, se o quizerem. En- Livre-me Deus. G.—Em toda
contram-se exemplos contrários proposição (jue contenha a
a esta regra principalmente na conjuncçuo ou adjectivo que e
poesia; mas em iiequeno nume- suas variantes e.ujo, quem, qual,
ro, cotejados com o caso geral. quaex, etc., ha anteposição: o
Quando o verbo é composto, pôde homem cujo nome te declarei; a
o pronome pospór-se ao infinitivo: luz que o alumia. Esta regra é
Peço que me venhas visitar o\i que talvez não mereça tida como
peço que venhas visitar-me. B.— regra. As excepções são muito
Nunca se pospõk o pronome ao numerosas e dos mais excellen-
PARTiciPio passado : Tenho-a tes dos nossos clássicos, princi-
visto; sou-í/íí grato. Póde-se di- palmente nas orações que con-
'^er que não tem excepção. Com- têm a conjuncção que, porque,
tudo, como ha exemplos na lín- posto que, pois que. Com o que, cujo,
gua italiana e esta foi muito fa- quem pronominaes as excepções
miliar aos clássicos, talvez se são muito poucas em relação ao
depare um ou outro exemplo de caso geral. Deve-se, pois, corri-
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PRONOMES
gir o cnuuciailo cVesta regra, vro qite lhe agrada; livro que
dando-a como digna de obser- deve agradat-ÍÁe/ livro que lhe
var-se quando occorrem que e deve agradar, etc. Aqui, propria-
variações adjectivas e pronomi- mente não ha regra ; mas é di-
naes de que. 7.—As rAi.AViiAS gno de nota que os brasileiros e
qVE OIÍUIGAM A ANTEroSIÇÃO os portuguezes do outro tempo
são os adjectivos todo, nenhum, preferiam a anteposição (não lhe
cada, ninçjuem, nada, e os advér- posso dizer, etc.), ao passo que os
bios de negação, quantidade, portuguezes de hoje preferem
tempo: iodos se calaram; nada o dizer e escrever com a posposi-
commoveu; muito se iex; pouco ção ao infinitivo (não posso dizer-
««falou ; mas ha excepçôesíiue de- lhe). Em resumo, vários casos
pendem daeuphoniadaphrase. || que não estão verdadeiramente
Propriamente essas palavras exer- fixados, e que parecem esca-
cem attracção sobro as encliticas, par a qualquer regra absoluta.
de modo que quando ha pospo- Não se pôde negar que a eupho-
sição de umas, ha posposiçíto de nia, algumas vezes, ainda que
outras, posto sem rigor: Fez-se raras, regula a collocação das
muito; muito se fez; calaram-w encliticas; mas a questão da
todos; todos se calaram. 8.—O euphonia (como todas as ques-
PRONOME OBi.KiUO nunca pôde tões prosodicas para nós ou-
principiar uma proposição (no tros brasileiros) mais difliculta
começo do período ou de mem- e embaraça o assumpto. Costu-
bro de phrase, entende-se). Não mamos pronunciar claramente
se diz : o diga; me faça o favor ; essas partículas pronominaes que
porém, sim : diga-o; íaça-?)!«... para os portuguezes são leves e
Çsta regra ú bem fundamentada. brevíssimas, e por essa razão se
E rarissimo exemplo em contra- unem aos verbos (e a outras
rio. Ha o exemplo que se encon- palavras quaesquer no outro
tra em Rodrigues Lobo—Me con- tempo, e ainda hoje ao advérbio
tenta—que era a letra ou divisa não). CoMiUNAÇÕES.—Das pala-
da rainha esposa de D. .Toão I ; vras que se combinam na mes-
mas naquelle tempo o portu- ma expressão, como do, de-o, as
guez era uma algaravia semi-ala- que olferecem difficuldade no
tinada. E qualquer exemplo, em uso, são as encliticas pronomi-
qualquer caso, rarissimo, pôde naes. Eis as regras que se ob-
ser considerado um castelhanis- servam a esse respeito: 1. —
mo. 9.—Em qualquer caso, Dons pronomes enciiticos sempre
quando existe um verbo compos- se combinam, isto é, não podem
to com outro no infinitivo, a pos- ser expressos em separado. Se-
jiosição a esle, sem ser do mini- ria erro dizer : me-disse-o; lhe faça»
mo rigor, é de uso correcto. 1. se. As duas encliticas devem
Não posso dizer; não posso reunir-se : disse-™'*); á^-se-lJce;
dizer-í/i€. 2. Em se preparando; faça-«e-í/í«. Entretanto — faça-se-
em querendo preparar-»*?. !i. Li- I7te—é termo que deve ser evita-
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PRONOMES
do, porque ó mais que esdruxu- sujeito, o que é francezismo de
lo ; tem o accento iia 4'.'' syllaba, construcção. || Muitas são as con-
da uUima para a primeira. 3.— tribuições, estudos, e monogra-
^^e 6 te s() se combinam com o ou phias sobre o assumpto, escri-
se: à\g-ã.-m'o; di<fa-í't>;. . m'odis- ptas por Dutra e Mello, Said Ali,
sessem;... t'o dissessem. Quan- Raggio Nobrega, Mario Barreto
do se combinam com o, este pos- Coiiego Braga e outros mais an-
põe-se, como nos exemplos ci- tigos. Analysadas, todas e cada
tados. Seria erro dizer: O me uma, tôm as suas falhas, de ex-
dissessem, ou ãissesse-o-me, etc. clusivismos e de rigores ou de
Quando, porém, se combinam concessões extremas. Parece que
com se, este antepõe-se; faça- a convivência e leitura dos bons
«e-me ; fez-se-te. E não : faça-me auctores, que elles, sós, nos po-
se, etc. Entretanto convém no- dem ensinar o sentimento do
tar : ie7.-se-te, vezon-se-te uma rh}'thmo e do estylo, é o verda-
missa, loiivou-se-te a acção — são deiro caminho para os que es-
expressões desagradaveis e quasi crupulizam nesta matéria. ||
cacophonicas, e por isso convém Assumpto de importancia é o
evitadas. B. -Me, te, de nenhum referente a variação si emprega-
modo podem combinar-se com da sem preposição, e cabem aqui
■COS, nos, lhe. Também nos e vos as doutas palavras do nosso phi-
rejeitam qualquer combinação lologo. Fausto Barreto: «Si.
que não seja com o ou se. Mas, Além de funccionar como pro-
nesse caso, o o pospõe-se: nol-o, nome acompanhado de prepo-
tol-o; e o grupo inteiro ante- sição e como elemento con-
põe-se invariavelmente ao ver- junccional, se depara no signi-
to. .. nol-o disse;... vol-o diga. ficado de advérbio na lingua-
A posposição do grujjo é inad- gem antiga. «Conto-lhe coisas
missível. Seria erro, isto é, vi- que elle nunca viu, nem fez, de-
cio, cacophonia, dizer: ãise-nol-o, safios que teve, batalhas que
diga-vol-o, etc. 4.—Nos, vos, quan- venceu, mil perigos de que me
do em grupo com se, será este o livrou, e tudo cuida que é si.»
primeiro elemento, mas ambos (Ant. Ferreira—Comedia Bristo,
podem preceder ou seguir-se ao acto 2?, scena V, pag. 334 do
verbo : íeY.-se-nos... se nos fez; que tom. II das Ohras completas).
se nos faça. .. faça-«fi-»i«s. 5.— A Inteiramente banido do falar
enclitica o ou ffl usa-se nas com- moderno está o emprego de si
binações anteriormente estuda- como pronome pessoal, des-
das. Mas não pôde tolerar combi- acompanhado de preposição.
nação com se. E erro e gallicismo Outr'ora se usavam constru-
dizer-se: Fez-s«-o, se o faça. cções taes como: Outros mayo-
Taes expressões devem ser sub- res que si, peyor que si, após
stituídas por outras equiva- elle não ha outro si, etc. E como
lentes, como \ fizeram-o, façam-o; o proprioAntonio Vieira, o maiol-
do contrario se ticará sendo o clássico do século XVIIe um dos
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PRONOMES — PROPOSIÇÕES
maiores de todos ps séculos da das de modo que represen-
lingua, não duvidasse escrever; tem um juizo: A virtude é lou-
i'A mesma estrella Venus se mos- vável. Os elementos principaes
tra maior que si mesma.» (Cana da proposição são: a) O sujei-
80'.', tom. 1), vem de molde, to — é o ser do qual se diz al-
apezar de tal construcção ru- guma cousa : O leão é um ani-
bricada pelo preclaro jesuita mal feroz, b) O predicado — é
não se conformar com a Índole aquillo que se affirma do sujeito;
geral da moderna linguagem por- A ílôr MURCHA.Osol ÉLUMtKOSO.
tugueza, systematizar os casos I. Relações.— Palavras e gru-
em que no periodo clássico es- pos de palavras mantêm entre
poradicamente occorrem restos si relações de tres especies : re-
de um phrasear incongruente, lação predicativa; relação
syncretico ; o que prova que, no tiva; relação adverhial. Relação
dizer de illustre glottologo, mui PREDICATIVA é a que existe entre
difflcil é a uma lingua. perder o sujeito e o predicado ; A luz
Xjor completo o que uma vez — vem do sol ; Sócrates — suici-
ganhou. Eis os casos em que se dou-se; Mozart—eraallemão. Re-
emprega si sem preposição : 1?— lação attuibutiva é a que limi-
Depois da conjuncção que, pre- ta o substantivo, modificando-o.
cedida do comparativo: uO fi- Pode ser constituída por adje-
lho de Deus não tinha outro ctivo, nome, locução ou phrase
m-à\ov que si.n (Thomé de Jesus apposta ao substantivo ; menino
—Trabalhos) . 2?—Depois do ad- — estudioso (adj.) ; o — menino
jectivo outro : « Anda homem (adj.); certos—indivíduos (adj.);
tão differente d'aquelle outro si a phrase—penso, logo existo Qjh ra-
que trouxe de Adão.» (Heitor se); o dia — de juizo (locução
Pinto). Como se disse, taes phra- adj.) ; a mulher—que lhe deu o
ses já desceram ao limbo dos ser (phrase); Júlio—terceiro pa-
archaismos.— A grande maioria pa (subs. apposto). Relação ad-
dos nossos clássicos, diz Casti- VERiíiAL é a que modifica, limi-
lho José, pikle ser para utilis- ta o verbo e o adjectivo por meio
simo estudo; nenhum para con- de advérbio ou locução de valor
stante guia. Todos esses soes têm adverbial ; falou eloquentemerde
suas miioulas. (Fausto Barreto — (advérbio) ; falou com eloquencia
Cidade de Campinas de 12 de Se- (loc. adv.) ; ficou As escuras
tembro de 1902). (loc. adv.) ; feito de pedra (loc.
Pronominal. — Diz-se do adv.). II. Objeoto.—O ohjecto
verbo que se conjuga com dous é a palavra em que se emprega
pronomes ; ferir-se; eu me firo, a acção do verbo, e pode ser di-
tu te feres, etc. recto ou indirecto. a) objecto
DiRECTO exprime a conmpassiva
Proposições. — {Analyse Zt>- (que recebe a acção); Antonio
. Proposição é todo o con- matou itm faisão. E.xprime tam-
juncto de palavras coordena- bém a cousa Jactitiva (producto
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da acção): escreveu uma carta. tado o sol, acampamos. IV.—


b) O OBJECTO INDIRBCTO expri- Sujeito. O sujeito pode ser sim-
me a cousa em vista da qual a ples, composto ou comxilexo. 1. Su-
acção se realiza. Exemplos: At- jeito SIMPLES é representado por
tribuiu o crime a um escravo; um substantivo, pronome, infi-
escreveu-tó«. III. Adjünctos. — nito ou palavra substantivada.
As palavras que modificam os Exemplos : A vida e breve; viver
elementos principaes da plirase, 6 necessário; eu estudo; assas é
chamam-se adjunctos, e são de um advérbio. 2. Sujeito com-
varias especies. 1. —-Adjunctos rosTO é o que consta de dous no-
ATTUiiiUTivos são os elemeiitos mes ou palavras substantivas: O
que modificam o substantivo, a) nascimento e a morte são dous ter-
Úm adjectivo. Ex.; Um soldado mos da vida; .eu e tu estamos
crivado de seUas; livro util. b) bons; ser e não ser são cousas
Uma palavra ou grupo de pala- oppostas. 3. Sujeito complexo
vras em apposição. Ex.: A vida, é representado por uma propo-
este sonho que precede a morte. sição ou citação: «Deus e o meu
Garrett, dramaturgo, c) Um sub- direito» é a suadivisa; que o traba-
stantivo com preposição. Ex.: lho dá saúde é cousa certa; viver
Um cento de lápis ; o lago de sem peccado é a ambição-do justo.
Oonstança ; o dia de juito; a de- V. PiiEDiCADO.—O predicado pô-
dicação pela patria; um chapéo de ser simples ou complexo. 1.
para haile. d) Uma proposição Predicado simples é o que 6
adjectiva ; à infancia (jue passou; expresso por um simples verbo
o homem que vimos (passada, finito : O mineral cresce; o ho-
visto). Adjunctos advekbiaes mem jiensa ; eu leio. 2. Predi-
são os que modificam o verbo e cado COMPLEXO é o que se com-
o adjectivo. Pt)de ser: a) O ad- põe de um verbo de predicação
vérbio. Ex.: Luctou heroicamen- incompleta com o seu comple-
te; partirei amanhã; grandemen- tivo necessário : O Brasil tornou-
te sábio, b) Uma locução ou pro- se independente. Os verbos ser, tor-
posição adverbial. Ex. : Partirei nou-se, parecer, poder, não expri-
no dia seguinte; partirei quando mem predicado completo e por
cheyares; não irei se ficares. c) isso seriam obscuras as propo-
Um substantivo precedido de sições : Pedro tornou-se; elle pa-
preposição clara ou subenten- rece; nos podíamos. A clareza
dida, exprimindo uma circum- exige um completivo: Pedro tor-
stancia. Ex.: Trabalha o jw- nou-se rico ; ella iicou doente ; elle
gresso; caminhou duas léguas; parece francez ; nós podiamos es-
morreu tres dias depois; escreve tudar, etc. Taes verbos de pre-
toda a noite; estava para morrer. dicação incompleta juntos aos
d) O substantivo acompanhado complétivos (rico, doente, estudar,
de attibuto e empregado no sen- etc.) constituem o predicado
tido absoluto. Ex.: Feita a ora- compIjExo. o completivo e suhje-
ção, adormeceu ; tendo-se occul- cíiTO quando se refere ao sujeito,
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o que se dií nas orações passivas': Ide ; voltae o mais depressa possi-
A Áustria foi proclamada nação vél. Bxclamativa — quando en-
livre. Quando o completivo se refe- cerra uma exclamação, senti-
re ao objecto, chama-se objectico: mento de enthusiasmo, de admi-
Eu tornei o livro mais vohimoso. ração ou respeito: Sublime! Go-
Muitos verbos só accidentalmen- mo é sublime! Espbcies de puo-
te se aiiresentanri como de predi- POSIÇÃO. — 1. Proposição simples—
cação incompleta, como ficar, e a que se compõe unicamente
fazer-se, sentir, achar-se, sujjpór- do sujeito e do predicado.
se, considerar-se, ter-se, estar, etc. Exemplos : Deus é omnipotente;
VI. OB.rBCTO.—O objecto ptkle ser o poder de Deus é illimitado;
simples, composto ou complexo, e alguns animaes vivem á custa
as distincçOes siío.as mesmas que de outros; os peixes respiram;
jií estabelecemos paru o caso do ■Talio César venceu os barbaros.
SUJEITO. E.xemplos: Objecto 2. Proposição complexa — é a
simples:—^Digo a verdade; amo que, além de possuir sujeito e
o ; desejo viajar. Ob- predicado, contém outras propo-
jecto composto:—Amo a. justiça sições que lhe são subordinadas.
e a clemencia ; amo os justos e os A proposição comple.va contém<
clementes; quizera ler e escrever. pois, uma proposição principal e
Objecto complexo:—Sei como es- outras dependentes. Exemplos:
tudas ; creio que estás zotnbando ; O homem de que falaste, é um
vi chover pedras. Classificações franoez. Decompõe-se em duas
QUANTO AO SENTIDO.—As propo- proposições, a saber: A prin-
sições simples classificam-se cipal -- O homem é umfrancez;
quanto ao sentido em : Posi- a subordinada — de que falaste.
tivas—aquellas que aílirmam a As suiioiiDiNADAS, que também se
realidade de um facto: Carlos denominam clausulas, dividem-
morreu. Negativas — aquellas so em trtís classes: subordinadas
que aflirmam não ser o facto substantivas, subordinadas«(í/ecíj-
real : Carlos não morreu. O termo vas, subordinadas adverbiaes. 1.
positivo 6 preferível ao affirmatioo, CiiAusui.A süiiSTANTivA ó a que
diz Roersch ; porque este ultimo tem funcção equivalente ii de um
convém & negação lógica. Divi- substantivo. Exemplo : Notou
de-se ainda a proposição sim- que estava pallido (notou a sua
ples, quanto ao sentido, em : pallidez); assegurou que eu viria
Enunciativa — quando apenas (assegurou a minha vinda) ; quan-
indica o facto : Carlos morreu ; do eu vá é cousa incerta (o tem-
Carlos não morrerá. Interuo- po da minha ida é cousa incerta).
gativa — quando interroga : 2. CiiAUSULA AD.JECTIVA é a que
Morrerá Carlos f Optativa — tem a funcção de um adjectivo,
quando exprime desejo da reali- isto é, modifica o substantivo :
zação do facto : Viva Carlos! Iii- Vi o livro que tu escreveste (escri-
ruRATivA — quando exprime pto porti); os dedos, que são cinco,
uma ordem da pessoa que fala : são os orgãos mais delicados do
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PROPOSIÇÕES
tacto ; palavras que elle pronuncia não possuem termos de ligação,
são sempre agradaveis. 3. ClaÜ- chamam-se collateraes ou coorde-
8ULAS ADVERBIAES SãO aS qUO nadas por juxtaposição. Exem-
representam relação equivalen- plo: Chegou, viu, venceu; amo
te a do advérbio. Exemplos : a virtude; detesto o vicio, üsa-
Picou onde o deixaram; sairei se também a denominação de
quando todos saírem. As clausulas asyndeticas para as coordenadas
adverhiaes podem exprimir cir- juxtapostas, e syndeticas para as
cumstiincias diversas, as mesmas coordenadas que possuem con-
que constituem as classes de ad- neclivos. 4. Proposições con-
vérbios. a) de tempo—Nunca TR.\CTAS.— As subordinadas po-
mais recobrou a nixwáe depois que dem ter em commum o mesmo
ieoe a febre amarella; cliorei até objecto, predicado ou sujeito,
que se esgotaram as lagrimas, b) etc. São chamadas nesse caso
de logar — Seguil-o-ei onde quer proposições contractas. Exemplo.
que iiá; conlieci-o na casa em que Venus e Marte são planetas—Ve-
mveij, nos últimos tempos, c) degráo nus c planeta, Marte é planeta;
— É mais instruído do que pare- ^•1 virtude exalta e o vicio degrada
cia sev (instruído); a rosa é mais o animo.— A virtude exalta o
bella do que a violeta (é bella); animo, o vicio degrada o animo.
quanto maisleio mais aprendo, d) O povo que conquistava e civiliza-
de causa — Quero porque posso; va. ..—O povo que conquistava,
adoro-o porque é Deus, e) fim — o povo que civilizav