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Núcleo temático: “História, temas e problemas da filosofia em sala de aula: como ler os clássicos”

Prof. Roberto Bolzani Filho

Parte II

A Filosofia, a Ciência e a Arte: possíveis aproximações

A filosofia frequentemente pretendeu-se um saber de cunho científico, um conjunto mais ou

menos articulado e estruturado de conhecimentos, como os que por muito tempo as ciências

aspiraram alcançar, descobrindo as verdades últimas das coisas, verdades que podem então ser

objeto de sistematização completa. Desde o ideal de uma verdade absoluta, que já se encontra nas

filosofias de Platão e Aristóteles e permanece presente ao longo da filosofia moderna, os filósofos

procuraram, com suas filosofias, satisfazer a exigências características de uma ciência.

Semelhante concepção de filosofia parece levar, como que naturalmente, à ideia de que a

história da filosofia, entendida como sucessão no tempo das diversas filosofias, exibe, não somente

acumulação quantitativa, como também progresso qualitativo. Talvez uma primeira versão dessa

posição, ainda embrionária, se apresente em Aristóteles, que se volta para o estudo dos princípios da

natureza, em sua Física, partindo de uma análise dos filósofos anteriores e concluindo que eles,

“embora o estabeleçam sem explicação, entretanto anunciam como contrários os elementos e os por

eles denominados princípios – como que forçados pela verdade” (I, 5). A história das filosofias

anteriores, para esse filósofo, é, portanto, uma história da própria verdade, verdade essa que se

deixa entrever nas afirmações ainda hesitantes e apenas parcialmente corretas de seus antecessores.

E ainda, no primeiro livro de sua Metafísica, percebe-se que a própria história da filosofia auxilia a

estabelecer a verdade de uma doutrina, pois ao enunciar sua célebre teoria das quatro causas,

Aristóteles imediatamente acrescenta: “Embora tenhamos tratado suficientemente das causas na

Física, recordemos, contudo, os que se dedicaram antes de nós ao estudo dos seres e filosofaram

sobre a verdade. Pois é evidente que também eles falam de certos princípios e causas. Esta revisão

será útil para nossa atual investigação, pois ou descobriremos algum outro gênero de causa, ou
teremos mais convicção nas que acabamos de enunciar”. Note-se a importância dessa incursão

histórica do filósofo, pois o mínimo que se pode dizer é que ela lhe proporciona uma confirmação

da verdade que afirma. E Aristóteles, ao menos em princípio, chega a admitir a possibilidade de que

essa história lhe mostre uma verdade que não havia descoberto. Seja como for, a confiança do

filósofo na descoberta de uma verdade e exclusiva o leva a fazer uma espécie de leitura filosófica

do passado, leitura que o auxilia a tornar sua proposta filosófica mais consistente.

Em certo sentido, portanto, já se percebe nessa visão otimista da história, resultante da

confiança inabalável na descoberta da verdade, um embrião da ideia de progresso. Essa ideia,

contudo, provavelmente tem em Hegel seu maior e mais original defensor, visto que, para este

filósofo, a relação entre filosofia e história da filosofia, como ocorre com a própria ideia de história,

só é compreensível no seio de sua metafísica. Sendo a História o próprio desenvolvimento do

Espírito, a “Biografia do Espírito do Mundo” regida pelas leis da Razão imanentes ao Mundo, a

Filosofia, como saber e ciência rigorosos – não, contudo, à maneira das ciências em geral -, deverá

aprender a reconhecer a presença de tais leis na História, isto é, o Espírito Universal em seu

desenvolvimento. Isso significa que a Ideia mesma de Filosofia só se compreende em vista de tal

desenvolvimento sistemático, o que torna a História da Filosofia também um sistema em

desenvolvimento. Nesta concepção, as filosofias passadas não são, a bem dizer, “certas” ou

“erradas”: são formas distintas de apresentar e concretizar o conteúdo em progresso sucessivo da

Ideia, de um processo dialético que as torna, a cada uma, seus momentos necessários. Assim, a

História da Filosofia consiste num sucessivo progredir, necessário, racional e previamente

determinado, que a Filosofia deve compreender para a constituição de sua própria definição: aqui,

pode-se dizer que a história da filosofia é constitutiva do saber filosófico.

Em que semelhantes aproximações entre filosofia e ciência nos ajudam a compreender nosso

tema? Suas características familiares trazem alguma consequência a propósito do tema da relação

entre filosofia e história da filosofia? Do ponto de vista de uma concepção estritamente científica de

filosofia, um filósofo pode ver no passado filosófico os esboços de uma verdade que os outros
filósofos afirmaram encontrar, mas que apenas conseguiram entrever (é o caso de Aristóteles), ou,

então, pode encontrar uma forma de assimilar esse passado e harmonizá-lo com sua doutrina ou

sistema, que se torna então a expressão plena de toda essa história (é o caso de Hegel). Parece,

assim, que uma concepção essencialmente científica da filosofia e do discurso filosófico tende a

veicular uma ideia de progresso na história da filosofia. Há uma presença inegável, em filosofia, de

características tipicamente científicas, como a busca da verdade, a formulação de explicações para o

mundo e a procura por um conjunto de verdades que formem um todo coerente e sistemático. A elas

parece associar-se uma visão de sua história como portadora de uma evolução ou progresso

racionais.

Embora exiba características próprias das ciências, a filosofia, contudo, não deixa de

manter-se original, no que diz respeito à relação com sua história. Assim, a história da ciência pode

ser considerada com certa tranquilidade, pelo menos para parte considerável das epistemologias

existentes, como algo que não mais proporciona subsídios para a reflexão e pesquisa científica

atuais. O cientista, por seu turno, sente-se à vontade para considerar certas teorias passadas como

“superadas” por um conjunto de descobertas das quais ele não pode considerar-se “criador”: a

experiência científica, em boa medida compartilhada, não o permite. Há, portanto, neste contexto,

certa objetividade que caracteriza a prática científica, embora isso não elimine a possibilidade de

que o cientista também procure conceber sua tarefa como uma retomada da tradição, na busca de

solução para seus problemas. Em filosofia, contudo, sua história se distingue como fonte de

problemas, teses e argumentos que ainda podem ser submetidos à reflexão contemporânea. O

vínculo da filosofia com sua história é, certamente, muito mais rico e profundo do que o da ciência

com sua história.

Por sua vez, as relações da filosofia com a arte, assim como ocorre com o caso da ciência,

não são simples. De um lado, não raro, a própria arte se faz filosófica: as várias manifestações

artísticas, de diferentes formas e segundo distintas intenções, envolvem, ou podem envolver, uma

postura reflexiva sobre o mundo ou sobre os homens, portando, por isso, certa dimensão filosófica.
Muitas obras literárias, pictóricas ou musicais podem nos levar a uma atitude de questionamento e

reflexão, ao tomarem como tema, por exemplo, a condição humana. É verdade, no entanto, que a

intenção do autor de um romance, conto, pintura ou outro produto artístico dessa natureza não é

comunicar a seu público uma tese e argumentar em favor dela, o que distingue nitidamente seu

produto dos escritos de filosofia. O escritor, por exemplo, visa também - muitas vezes, talvez

exclusivamente - exercitar uma concepção de arte, uma opção estética, e mesmo quando pretende

também apresentar uma visão sobre as coisas, ele o faz por meio de uma forma de expressão

distinta da maioria dos textos filosóficos tradicionais (embora haja maior aproximação quando

levamos em conta os diálogos filosóficos). Mas isso não elimina o eventual potencial filosófico que

uma obra de arte pode exibir.

Mas há interessantes maneiras de pensar a semelhança entre filosofia e arte. Embora

historicamente essa não seja uma posição majoritária, a filosofia não precisa ser entendida como um

empreendimento cognitivo do real, em sentido rigoroso, à imagem e semelhança da ciência. Pode-se

também compreendê-la como tentativa descritiva de aproximação da realidade, por meio de noções

historicamente estabelecidas numa cultura. Nesse caso, as mudanças conceituais produzidas e

notadas pela filosofia corresponderiam a mudanças na forma de representação da realidade, e não

substituições de um conhecimento “superado” por um conhecimento “atualizado” e “melhor”.

Quando assim entendida, a filosofia assume, em primeiro plano, papel sobretudo crítico, no seio de

um conjunto de saberes a que se reúne e não procura desqualificar ou subordinar. Dessa

perspectiva, dificilmente poderíamos falar num progresso da filosofia, se não a considerássemos

legítima pretendente à descoberta da verdade, assim como não se diria necessariamente que um

movimento artístico é melhor ou constitui um progresso em relação a outro, sem para isso

reivindicar uma rigorosa e polêmica concepção estética da produção artística.

A ideia de progresso certamente não se aplica da mesma maneira quando deixamos de

pensar a filosofia como uma espécie de ciência e passamos a privilegiar as características que

comunga com a arte. Neste caso, pode-se falar de mudança e até mesmo de “evolução” nos padrões
e procedimentos estéticos, assim como se pode falar de “evolução” e mudança nos padrões e

procedimentos que balizam a descrição do mundo, isto é, de “evolução” e mudança nos limites

entre o que tem sentido e o que não tem sentido dizer sobre o mundo. Se comparamos os produtos

da filosofia com os da arte, vendo-os como diferentes formas de descrição do real, que não

competem entre si, mas apenas são distintas, então não mais caberá ver, ao longo de sua história,

aquisição de conhecimentos e estabelecimento de verdades objetivamente reconhecidas e

compartilhadas, mas somente sucessão de diferentes formas de pensar o real, cada uma das quais

pertinente à sua época.

Duas teorias científicas podem rivalizar entre si e exigir de nós a realização de um

experimento para decidirmos por uma delas, do mesmo modo que duas teorias filosóficas, se as

entendermos como teorias científicas, poderão rivalizar e exigir critérios e argumentos para que

possamos aderir a uma e rejeitar a outra. Mas duas formas artísticas, mesmo quando se apresentam

em confronto, não precisam ser vistas por nós como rivais nem como se excluindo mutuamente.

Não é necessário, nesse caso, optar por nenhuma delas, ainda que isso também seja possível. De

maneira análoga, se duas filosofias somente descrevem e articulam conceitos por meio dos quais

pensamos a realidade, mas não se dirigem à realidade como uma teoria científica, então não há por

que pensar que devemos escolher obrigatoriamente uma delas como melhor ou mais verdadeira que

a outra.

A história da filosofia seria então, desse ponto de vista, uma sucessão de formas de pensar o

mundo, mas não o progresso em direção a um conjunto articulado de verdades que descreveriam a

realidade de uma vez por todas. A tarefa do historiador da filosofia, nesse caso, consistiria em

descrever as diferentes formas pelas quais os filósofos pretenderam dizer o mundo, traçando os

limites, de acordo com cada época ou vertente filosófica, entre o que tem sentido e o que não tem

sentido dizer.

O que dizer da relação da arte com sua história? O artista decerto pode refletir de forma livre

a respeito do passado e retomá-lo de modo profícuo, como acontece com a filosofia. Um artista
pode e talvez deva pensar sua arte como um momento, quem sabe final, de certa linha “evolutiva”,

como uma solução para um estado de coisas em sua arte. O mesmo faz o filósofo, muitas vezes,

julgando-se inclusive no direito de reconstruir essa história, de traçar essa linha de modo peculiar.

Mas, não raro, o filósofo parece ir além do artista, por pensar que sua posição é privilegiada ou

verdadeira, sendo por isso mesmo dotada de certa objetividade ou universalidade que nem sempre a

arte pretende.

Também se pode fazer outro tipo de aproximação entre filosofia e arte. Durante muito

tempo, a filosofia, pautada por um ideal de verdade e sistematicidade, de certa forma julgou poder

apresentar-se com unidade e acabamento formais que poderiam aproximá-la, nessa medida, de certa

concepção de arte, aquela que vê nesse ideal de unidade e beleza formal um valor estético

significativo ou mesmo definitivo. Durante muito tempo, a filosofia também viu nesse ideal uma

qualidade a ser perseguida e um mérito a ser conquistado; não, contudo, por alguma convicção

estética, mas porque a descoberta de uma verdade absolutamente incontestável se associa

naturalmente à ideia de que tal verdade se deixa apresentar de maneira sistemática, harmônica e

unificada. Se um sistema filosófico não pode ser considerado uma obra de arte, para certos filósofos

seria possível, no entanto, compreender e comentar seu caráter intrinsecamente orgânico, mediante

um vocabulário caro à reflexão estética, autorizado pela observação de uma real semelhança entre

arte e filosofia. Não é por outra razão que, com frequência, somos capazes de apreciar a beleza de

uma filosofia.

Pode-se então considerar que o discurso filosófico exibe, ao mesmo tempo, algumas

características afins com a ciência e outras que o aproximariam da arte, como as que foram acima

comentadas. Nesse caso, seria razoável concluir que a filosofia, comparada à ciência e à arte, deve

ser considerada como um terceiro tipo de discurso sobre as coisas, que detém autonomia em relação

aos outros dois, embora neles veja um importante ponto de referência para pensar suas próprias

características. E entre essas características, destaca-se a peculiar relação que sustenta com sua

história.
Tendo em vista a peculiaridade da filosofia, que acima se buscou comentar, sobretudo no

que tange às suas originais relações com sua história, algumas considerações podem ser feitas a

respeito da leitura dos textos filosóficos.

A leitura filosófica, aquela que um filósofo faz da obra de outro filósofo, sempre contém

matéria para o olhar do historiador da filosofia, pois este, voltado para a compreensão do

pensamento de um filósofo, deve saber beneficiar-se também do diálogo crítico que os filósofos

sustentam com seu passado. Isso porque uma filosofia pode tornar-se algo que escapa a seu criador,

uma ideia pode ser desviada do contexto de sua invenção e do sentido ou significado iniciais que

havia recebido. As obras dos filósofos suscitam movimentos de pensamento que têm seus

desenvolvimentos próprios, independentes das intenções dos filósofos que as geraram e às vezes

mesmo contrários a essas intenções. Por isso, um filósofo pode apropriar-se de uma ideia de outro

filósofo, repensando-a, e o historiador deve também acompanhar e apreender esses movimentos,

porque eles auxiliam na compreensão do pensamento do filósofo que teve suas ideias repensadas.

Se assim é, então o trabalho do historiador da filosofia, na tentativa de compreender o

pensamento de um filósofo, deve consistir essencialmente em pensar com ele, em repensá-lo,

refazendo seu itinerário de pensamento e pensando o que ele pensaria em resposta àqueles que,

posteriormente, também pensaram com ele ou mesmo pensaram contra ele. Ao estudar a obra de um

filósofo para elucidá-la, o historiador não vai simplesmente repeti-la. Mesmo quando se propõe a

alcançar uma interpretação o mais possível objetiva, ele deve saber beneficiar-se da fortuna crítica

dessa obra como meio de iluminá-la, além de ter que ser capaz de seguir e compreender as sutilezas

de pensamento do autor estudado, as quais frequentemente implicam uma reformulação

argumentativa da letra do texto analisado, uma reapresentação de um pensamento que melhor o

comunique, sem perder o sentido e significado dados pelo filósofo a esse pensamento.

Noutros termos, trata-se agora simplesmente de chamar a atenção para uma trivialidade que

às vezes se esquece: um historiador da filosofia não pode sê-lo com eficácia, se não detiver uma

capacidade filosófica de penetrar no pensamento do filósofo examinado. Isso torna a atividade do


historiador da filosofia genuinamente filosófica e faz do historiador, em certo sentido, filósofo. E,

assim como o filósofo, em virtude de características do trabalho filosófico, se faz, em certa medida,

historiador, o historiador, em virtude de características de trabalho historiográfico, se faz, em certa

medida, filósofo.

Evidentemente, o historiador da filosofia não é filósofo como o filósofo o é, assim como o

filósofo não é historiador da filosofia como o historiador da filosofia o é. O filósofo analisa outra

filosofia, não para explicá-la, mas para pensar filosoficamente a partir dela. O historiador da

filosofia pensa filosoficamente uma filosofia, não para pensar a partir dela, mas para explicá-la.

Ambos, contudo, de distintos pontos de vista e conforme prioridades diversas, aliam compreensão e

reflexão. Essa aliança, talvez seja preciso sempre recordá-la, sobretudo aos historiadores da

filosofia.

Em ambos os casos, a leitura de um filósofo consiste num contínuo diálogo, sem data

definida para terminar, no qual aprendemos a segui-lo até mesmo em seus desvios e hesitações, a

ponto de saber prever objeções mesmo antes que se manifestem, seja no interior da própria obra,

seja na obra de seus críticos, ou bem para melhor compreendê-lo, ou bem para aprender com ele a

pensar. Ler a obra de um filósofo é aceitar participar de uma espécie de duelo, em que ganhamos de

qualquer modo, porque aprendemos a pensar. Pois nisso consiste o ato mesmo de ler, que não seria

possível senão como um exercício de pensamento ao mesmo tempo polêmico e amistoso.

Por isso, filósofos ou historiadores, compreendemos melhor um autor quando o relemos,

porque então será menor o risco de ler nele somente aquilo que ali colocamos. Relê-lo significa

vagarosamente entregar-se ao seu pensamento e somente depois de certo tempo propor-se a discuti-

lo; significa confiar provisoriamente nele, para objetar-lhe apenas após julgar tê-lo bem

compreendido e, então, fazer-lhe todas as perguntas que nos importam e observar como ele as

responde ou poderia ter respondido. Ora, embora possamos encontrar nessa descrição as figuras do

filósofo e do historiador da filosofia, isso não parece ser suficiente para distingui-los, por assim

dizer, essencialmente. Nesse sentido, é perfeitamente possível ser ao mesmo tempo filósofo e
historiador da filosofia, e isso porque existe, desde que saibamos enxergá-la, uma profunda aliança

entre a filosofia e sua história.