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Educação e vida urbana:

20 anos de Cidades Educadoras


20 anos
de Cidades
Educadoras
Educação
e vida urbana:
Educação
e vida urbana:
20 anos
de Cidades
Educadoras
Volume editado originalmente em 2008 por ocasião do X Congresso da Associação Internacional das Cidades
Educadoras (AICE)

Comité Executivo da AICE (2008)


Adelaide, Barcelona (Presidência e Secretariado), Budapeste, Génova, Lisboa, Lomé, Lyon, Rennes (Tesouraria),
Rosario (Vice-Presidência), São Paulo, Tampere e Turim

Edição de Eulàlia Bosch


Ajuda técnica de M.ª Ángeles Cabeza

Coordenação da publicação em português: Gabinete Lisboa, Cidade Educadora – Município de Lisboa

Traduções
do castelhano: Janice Lapeyre Espina, Joana Vieira e Sérgio Filipe dos Santos Mariano
do francês e do italiano: Maria de Fátima de Noronha Galvão Telles, Maria Teresa de Noronha de Galvão Telles,
Maria Luiza de Saldanha e Annick Tryer
do inglês: Sónia Catarina Peres Duarte

Revisão
Gabinete Lisboa, Cidade Educadora – Município de Lisboa
A revisão e editing das biografias dos autores e dos artigos «Ao leitor», «A cidade das pessoas», «Cidades educado-
ras, uma aposta de futuro», «Utopias dialécticas» e «À deriva» são da responsabilidade do Gabinete de Estudos e
Planeamento Editorial do Município de Torres Novas.

Paginação
João Reis – Município de Azambuja

© desta edição: AICE


© dos artigos: os autores
© do epílogo e da biografia de Koïchiro Matsuura: UNESCO 2008. Publicado com a autorização da UNESCO.
© das traduções: os tradutores

Agradecimentos aos membros do Comité Executivo; aos autores/autoras; aos presidentes das câmaras municipais
que participam no livro; à Câmara Municipal de Barcelona; à UNESCO; CGLU; aos municípios da Comissão de
Coordenação da Rede Territorial Portuguesa das Cidades Educadoras – que colaboraram nesta edição – Azambuja,
Évora, Lisboa e Torres Novas.

Agradecemos a Richard Sennett pela autorização para traduzir e reproduzir neste livro o capítulo «À deriva», extraí­
do do livro The Corrosion of Character: The personal consequences of work in the New Capitalism.

Esta edição cumpre as regras do Acordo Ortográfico de 1945

Impressão: Gráfica Almondina (Torres Novas, Portugal)


Data: 2013

ISBN: 978-84-9850-419-4
Depósito legal: 353832/13

Proibida, salvo excepção prevista por lei, qualquer forma de reprodução, distribuição,
comunicação pública e alteração desta obra sem autorização dos titulares da proprie-
dade intelectual. A infracção dos direitos mencionados pode constituir delito contra a
propriedade intelectual (artigos 270 e seguintes do Código Penal Espanhol).
Índice

Ao leitor ……………………………………………….……....….............……................ 7
Eulàlia Bosch

Introdução
A cidade das pessoas …….………………………………......................................….…. 13
Pasqual Maragall
Cidades educadoras, uma aposta de futuro …………….….......................................... 17
Pilar Figueras Bellot
O conceito de «cidade educadora», hoje ………………….……..............................… 23
Joan Manuel del Pozo
Barcelona: o compromisso de uma cidade com a educação ………….....……………... 35
Jordi Hereu

1. Os novos desafios da vida urbana


Utopias dialécticas …………………….........………………………………..................... 43
David Harvey
Espaço público ……….............……..……………….....…………................................. 51
Zygmunt Bauman
Lidar com a heterogeneidade: migrações, alterações demográficas e consequências
culturais ...................................................................................................................... 63
Blair A. Ruble
Os media, a cidade e a educação. Entre o hiperactivismo e a indiferença. .................... 77
Josep Ramoneda
Competitividade e cooperação. Justiça e paz. …….....…….………............................ 85
Arcadi Oliveres
Cultura urbana: em busca da autenticidade ……………….…….................................. 95
Sharon Zukin
A cidade e a comunidade sob o olhar feminino …...............................................…... 111
Olivia Guaraldo
Jovens para sempre: a nova realidade das pessoas idosas …...................................…. 123
Antón Costas
Os novos desafios da vida urbana: a redefinição do conceito de
«comunidade» na era da Internet ………………...........................................….........… 133
Genís Roca
A voz dos governos locais na governação mundial .............................……............…... 143
Elisabeth Gateau
2. Educação: o presente é o futuro
Comunicações, conhecimento e cidade: um debate intercultural ............................... 155
Néstor García Canclini
À deriva ……………………………………………...……............................................ 165
Richard Sennett
A biblioteca como cidade-estado ………………..................................................…… 181
Alberto Manguel
A cidade como arquivo: transformações urbanas contemporâneas
e as possibilidades da política …............................................................................…. 193
Vyjayanthi Rao
Escolarizar e/ou educar na cidade em mudança .…..……..…..................................... 205
Maxine Greene
A cidade e os seus caminhos educativos: escola, rua e itinerários juvenis ………........ 213
Jaqueline Moll
Educação e sociedade justa .…………….….................................……….....………… 225
Juan Carlos Tedesco
Governança e educação ...........................………….………………............................ 235
Joan Subirats
A educação permanente: uma opção política ……….……....................................….. 249
Entrevista a Philippe Meirieu por Joan Manuel del Pozo

3. Cidades educadoras: 20 anos


Cidades Educadoras. Congressos Internacionais ………….……………....... 263
Eulàlia Bosh e Secretariado da AICE
Testemunhos
Belo Horizonte: cidade que educa! ………….……………....................................... 295
Um distrito educador em Budapeste …………………….....................................…. 299
Córdoba, Cidade Educadora ……………………...….....................................……... 303
As coisas são assim em Dakar ……………………………....................................….. 305
A dimensão educativa das políticas do governo local em Génova …...................…. 307
Em que medida Lomé, capital da República de Togo, na África
Ocidental, é uma Cidade Educadora? ………………................................................ 311
Montevideu: um espaço de aprendizagens …………….......................................… 313
A educação não formal, um projecto para os habitantes de Rennes …….....……..… 315
São Paulo, Cidade Educadora ……………………….............................................… 319
Vallenar Cidade Educadora, um desafio permanente …................................…..….. 323

Epílogo
Epílogo de Koïchiro Matsuura, director-geral da UNESCO (1999-2009) .................. 329
Ao leitor

Eulàlia Bosh

Eulàlia Bosch (Barcelona, 1949) é professora de filosofia. Um dos


seus principais interesses profissionais tem sido, e continua a ser,
explorar a relação entre as instituições educativas e a vida cultu-
ral das cidades. Na direcção do IREF (Instituto de Pesquisa para o
Ensino de Filosofia) desenvolveu o programa de educação estética
do qual fazem parte as exposições de arte contemporânea Criatu-
ras Misteriosas (1992) e Caixa Mágica (1993). Como directora do
departamento de Educação do Museu de Arte Contemporânea de
Barcelona aprofundou esta linha de trabalho, organizando exposi-
ções como Ver a Luz (1996) ou A cidade das Palavras (1988).

Como membro da Agência Gao lletres (www.gaolletres.net),


trabalha na organização de exposições (Oteiza, San Sebastián,
2000), na edição de livros (Te mando este rojo Cádmio: una
correspondencia sobre el color entre John Berger e John Christie,
Actar 2000), na criação de projectos educativos na internet [(www.
lapedreraeducacio.org), 2005] e como assessora artístico-educativa
em escolas, museus e centros cívicos. Publicou numerosos artigos
e os livros O Prazer de olhar (Actar, 1998) e Quem educa quem?
(Laertes, 2003).
Através da publicação da obra Educação e neas do espaço público (Zygmunt Bauman);
vida urbana: 20 anos de Cidades Educado- os processos migratórios e suas implicações
ras, a Associação Internacional de Cidades culturais (Blair Ruble); o poder dos média
Educadoras celebra os seus 20 anos de vida (Josep Ramoneda); a insustentabilidade da
e comemora, também, o lançamento de no- desigualdade socioeconómica à escala in-
vos projectos cujos programas reflectem as ternacional (Arcadi Oliveres); a busca da
alterações sociais e políticas que marcam «autenticidade» nas diferentes formas do
profundamente a viragem do século. desenvolvimento urbano (Sharon Zukin); a
inclusão da perspectiva do género na cons-
A edição desta antologia cumpre dois objec- trução do sentido de comunidade (Olivia
tivos: promover o debate e criar um ponto Guaraldo); respostas culturais para o enve-
de referência comum para os responsáveis lhecimento da população (Antón Costas);
políticos dos governos locais, instituições e os novos laços sociais criados pela Internet
colectividades com propósitos educativos, (Genís Roca); e a importância do poder lo-
e docentes dos diversos níveis de ensino. A cal na governação mundial (Elisabeth Ga-
finalidade desta publicação é ser o ponto de teau).
encontro entre os que têm a responsabilida-
de de orientar e regular a vida das cidades e A segunda parte tem como eixo a educação
os que trabalham, diariamente, no ensino – – a relação existente entre o conhecimento e
dois mundos que, frequentemente, estão tão as suas formas de transmissão, os processos
alheados um do outro que não se reconhe- de aprendizagem e o desenvolvimento pes-
cem como aliados naturais. Neste espaço soal, o saber acumulado e a singularidade
de desconhecimento entre estas duas esfe- de cada indivíduo, em suma, a relação entre
ras, desvaloriza-se um assunto que é vital, a a privacidade e a sociabilidade que a cida-
base da existência e do desenvolvimento das dania requer; a educação, enquanto capaci-
sociedades democráticas: a formação cívica dade que nos permite recriar, constantemen-
dos cidadãos. te, a nossa maneira de perceber o mundo e
de nele viver.

Este livro divide-se em três grandes partes. Richard Sennett, revendo o conceito clássi-
co de «carácter», reflecte sobre as tendên-
Na primeira observam-se os processos de cias contemporâneas da não existência do
transformação que actualmente afectam os «longo prazo» que caracteriza as vivências
sistemas urbanos e alteram profundamente a da maioria das pessoas. Esta percepção ge-
nossa vida social. neralizada de fragilidade representa um de-
safio dificílimo de enfrentar. No processo de
Conforme diz David Harvey, nas primeiras aprendizagem e de consolidação do saber,
linhas do artigo aqui publicado, «não pode- não há nada pior do que a instabilidade, a
mos separar o tipo de cidade que desejamos inconstância e o imediatismo.
da forma como queremos viver as nossas vi-
das e do tipo de pessoas que pretendemos Neste capítulo, os artigos abordam temáticas
ser.» Esta observação, tão intimamente liga- como o debate intercultural (Nestor García
da ao próprio conceito de «educação», é o Canclini), as funções das bibliotecas como
leitmotiv da secção de abertura «Os novos guardiãs do conhecimento desde a antigui-
desafios da vida urbana», cujos artigos abor- dade (Alberto Manguel), a ideia da cidade
dam temas como: as mutações contemporâ- como arquivo (Vyjayanthi Rao), a relação
10 Ao Leitor

entre ensino e educação nas cidades de hoje volvidas em cerca de 400 cidades, por todo
(Maxine Greene) e a ideia do próprio meio o mundo.
urbano como espaço educativo (Jaquelline
Moll). Reflecte-se também sobre a relação Este capítulo inclui, ainda, os testemunhos
entre educação e justiça (Juan Carlos Tedes- dos presidentes de câmara de algumas destas
co) e a educação e a vida política das ci- cidades que escolheram, deliberadamente, a
dades (Joan Subirats). E, por fim, debate-se educação como ícone da sua acção política.
a inevitabilidade do processo de aprendiza-
gem contínua dos cidadãos (Philippe Mei- Encerra-se esta edição com um texto de
rieu e Joan Manuel del Pozo). Koïchira Matsuura, director-geral da UNES-
CO (entre 1999 e 2009), que destaca a edu-
Finalmente, mas não menos importante, na cação e a formação como os tesouros mais
terceira parte apresenta-se uma breve me- valiosos das cidades no contexto da globali-
mória dos congressos (bienais) da Associa- zação. Pessoalmente, desejo que este livro
ção Internacional das Cidades Educadoras. sirva para propagar esta ideia e para inspirar
A história destes encontros revela a evolu- novas formas de compreender a educação,
ção de uma ideia que há apenas vinte anos estreitamente ligadas ao desejo de realiza-
parecia um tanto extemporânea e que hoje ção pessoal a que todos os seres humanos
está na base de múltiplas iniciativas, desen- aspiram e à qual têm direito.
Introdução
A cidade das pessoas

Pasqual Maragall

Pasqual Maragall i Mira (Barcelona, 1941) é doutorado em


Ciências Económicas pela Universidad Autónoma de Barcelona e
licenciado em Direito, pela Universidade de Barcelona. Foi um
dos fundadores da Convergência Socialista da Catalunha, um dos
grupos que esteve na origem do Partido Socialista da Catalunha
(PSC-PSOE).

Maragall foi presidente do município de Barcelona durante


quinze anos (1982-1997). Em 1986, Barcelona foi eleita sede
dos Jogos Olímpicos de 1992, evento que resultou numa enorme
transformação da cidade e lhe conferiu uma notoriedade sem
precedentes.

Pasqual Maragall foi presidente do governo regional autónomo da


Catalunha (Generalitat de Catalunya), de 2003 a 2006. Durante
o seu mandato foi aprovada, por referendo, a reforma do Estatut
d’Autonomia de Catalunya, em 18 de Junho de 2006.
A cidade das pessoas

«What is the city but the people?» interrompido de forma sangrenta e tentara
William Shakespeare, Coriolanus (1608) a todo o custo eliminar. Era a geração dos
Acto 3, cena 1 anos trinta, a geração da República, aque-
la que em anos convulsivos, num país divi-
Há 25 anos, o tempo de uma geração, Bar- dido, tinha confiado nos valores supremos
celona, a minha cidade, encontrava-se en- da educação e da cultura para resolver os
volvida num processo de reconstrução ur- problemas do atraso secular e de “difícil
bana. A cidade emergia então de um longo convivência” que abalava a Espanha dessa
período caracterizado pela falta de demo- altura. Era a geração da Instituição do Ensino
cracia e auto-governo, pela desregulação Livre, do «Instituto-Escola» que com perso-
urbanística, pela falta de investimentos pú- nalidades como a pedagoga Marta Mata, ve-
blicos (ou privados), de ambição e de auto- readora do pelouro da Educação da cidade
-estima colectiva. Saíamos de uma ditadura de Barcelona (1987-1995), corporizava uma
e tudo ou quase tudo estava por fazer. Mas declaração de princípios.
não partíamos do vazio, do nada. Não era
preciso construir uma cidade: tínhamos ape- Havia que recuperar os valores daquela
nas que reconstrui-la, refazê-la. Estes eram geração e fazer deles o mote para a nossa
os “verbos” utilizados por nós naquela épo- actuação. A nossa missão era criar um am-
ca. Porque sabíamos que dentro da cidade biente urbano de educação que, respeitan-
existiam os elementos, as ferramentas e, so- do o passado, projectasse a cidade no futu-
bretudo, as pessoas que tornariam possível ro, um ambiente que sarasse feridas que o
a renovação. Éramos herdeiros de Mies van planeamento urbanístico não democrático
der Rohe (pavilhão de 1929) e de Gaudi, do da cidade havia infligido no tecido urbano
funcionalismo e do barroco moderno. e social; um ambiente urbano que envol-
vesse as pessoas e as fizesse sentir orgulho-
Tudo havia começado em 1979, com a re- sas, uma vez mais, de pertencerem a esta
conquista da democracia municipal, no cidade; um ambiente de consenso entre di-
mesmo ano em que se aprovara o Estatuto ferentes parceiros sociais e que aproveitas-
de Autonomia da Catalunha, fruto da Cons- se a força criadora do mercado livre para o
tituição Espanhola de 1978. À frente desta bem comum (naquele tempo os trabalhistas
responsabilidade encontrava-se a geração de britânicos diziam: «não veneramos o mer-
Narcís Serra, e a minha, de Xavier Rupert de cado, servimo-nos dele»). Tudo isto foi con-
Ventós, Josep A. Garcia Durán, Josep Maia figurando uma maneira de fazer, um mo-
Vergara, etc., nascida no pós-guerra civil, fi- delo que, de certa forma, culminou com a
lhos da geração marcada pela República e organização dos Jogos Olímpicos, ficando
pela guerra. Porque muitos de nós tínhamos conhecido como «modelo Barcelona» que
vivido em casa dos nossos pais, sentíamos a despertou interesse por todo o mundo. Nos
necessidade de voltar a abraçar a tradição anos anteriores a 1992 fizemos diversas
democrática que a ditadura de Franco havia viagens pela Europa e pelos Estados Uni-
16 Introdução

dos para explicar o que estávamos a fazer e fazer não deve ser feita por outra superior).
quais eram os nossos objectivos. Lutámos para que as escolas fossem geridas
pelos municípios, junto das famílias e do
Recordo-me, particularmente, de uma des- professorado. Mas também sabíamos e, por-
sas viagens. Estávamos em Boston, a cidade ventura, isso será o mais importante, que as
mais “inglesa” dos Estados Unidos. Numa cidades educam. Sabíamos que uma cidade
conversa, no Ateneu de Boston, utilizei uma “educada” – com um traçado arquitectónico
expressão que resumia o que estávamos a inteligente e um planeamento urbano que
fazer: «a cidade é a sua gente». Um homem sirva as necessidades de todos, que garan-
mais velho de entre o público fez-me notar: ta a segurança pessoal e rodoviária e onde
«Isso é Shakespeare!». Com efeito, incons- as pessoas, os bairros e as colectividades
cientemente, eu estava a citar Shakespea- tenham nas suas mãos o poder de decisão
re, mais concretamente, Coriolano, uma – tem mais probabilidades de criar um forte
tragédia sobre o mundo da política e dos sentimento de comunidade do que muitos
políticos, uma reflexão sobre a formas de programas educativos, por mais bem inten-
governação. Quando os tribunos mandam cionados que sejam.
prender Coriolano, utilizando a força da
plebe, Sicínio lembra: «E o que é a cidade A ideia de que a cidade pode e deve ser, si-
senão a gente, o povo?» multaneamente, marco e agente educador,
é o mote que inspira as «cidades educado-
Esta era também a nossa convicção. Defen- ras», conceito que nasceu há quase 20 anos.
díamos um poder mais próximo das pessoas. Um projecto dirigido à cidade e, atrevo-me
(A União Europeia acabaria por adoptar esta a dizer, ao mundo, dirigido às pessoas com
ideia entre os seus princípios fundamentais, o desejo de que seja assumido, partilhado,
que conhecemos sob o nome de «subsida- redefinido por tantas outras cidades e por
riedade», utilizado na doutrina social da muito mais gente. Este livro é dedicado a
igreja católica, o que significa que aquilo esta experiência.
que uma administração mais próxima possa
Cidades educadoras,
uma aposta de futuro

Pilar Figueras Bellot

Pilar Figueras Bellot é licenciada em Música e Psicologia. É pro-


fessora titular na Universidad Autónoma de Barcelona, onde tem
exercido os cargos de directora de departamento, directora da Es-
cuela de Formación del Profesorado (escola superior de educação)
e vice-reitora. Foi professora do ensino pré-escolar, do básico e do
secundário, especialista em música.

Na câmara municipal de Barcelona, Pilar Bellot dirigiu os Serviços


Educativos, o Conservatório Municipal de Música de Barcelona e
foi responsável pela área do Ensino Musical.

Promoveu e dirigiu o I Congresso Internacional das Cidades Edu-


cadoras e foi secretária da Comissão Interdepartamental «Barcelo-
na, cidade educadora». Entre 1994 e o ano 2012 exerceu o cargo
de secretária-geral da Associação Internacional das Cidades Edu-
cadoras (AICE).

Pilar Bellot é autora de numerosas publicações no âmbito da edu-


cação musical e do tema «cidades educadoras».
Cidades educadoras, uma aposta de futuro

O conceito de cidade educadora é proposto teúdos das conferências ditadas no próprio


em 1972 por Edgar Fauré (e outros1) na obra Congresso.
colectiva Apprendre à être.
Creio que, com o passar do tempo e após
Com esta abordagem ousada e inovadora, a muito trabalho, a incorporação, a concre-
Câmara Municipal de Barcelona acolhia e tização e o desenvolvimento desta ideia se
assumia no ano de 1989 o conceito de cida- vai fazendo cada vez mais de acordo com o
de educadora2 e apresentava-o, simultanea- seu objectivo e que a interpretação diversa
mente, como o significante de uma proposta nas diferentes cidades constitui para todas
integradora da educação formal, não-formal elas uma fonte de inspiração e uma riqueza
e informal que se gera no contexto da cida- inegáveis.
de e se destina a todos os que a habitam; e
também reveladora de um compromisso po- O decálogo aprovado pela Assembleia
lítico, público e activo que diz respeito, não Geral em Jerusalém (1999) aquando do
só às famílias e às escolas, mas aos municí- V Congresso Internacional [www.edcities.org]
pios, às associações, às indústrias culturais, fazia constar a necessidade de as propostas
às empresas e a outras instituições e colec- da cidade educadora transcenderem as pri-
tividades. meiras idades e a escola, para incluir toda a
população e todos os campos (urbanismo e
A título de reflexão pessoal e visto em pers- planeamento, cultura, serviços sociais, meio
pectiva, creio que o facto de centrar inicial- ambiente, desporto, economia, saúde, etc.).
mente o conteúdo do I Congresso Interna-
cional de Cidades Educadoras na infância As mudanças nas sociedades e nas cidades
e na juventude – e porque a redacção da levaram-nos a actualizar a Carta5 – tendo em
Carta3 pusera claramente a tónica nestas fai- conta o conteúdo do seu último artigo: «esta
xas etárias – limitou de maneira importante Carta deverá ser ampliada com os aspectos
a compreensão do alcance do conceito e, não tratados nesta ocasião» – e a incorporar
por consequência, a sua tradução na prá- novos aspectos e novas oportunidades, sem
tica, apesar da edição de um livro sobre o ocultar as dificuldades (a formação ao longo
assunto4 (no qual se abordava o conceito a da vida, o diálogo intercultural e intergera-
partir de diferentes perspectivas) e dos con- cional, a acessibilidade à cidade das pessoas
com dependência, o desenvolvimento sus-
1
  Edgar Fauré et al.: Apprendre à être UNESCO, 1972. tentável, a formação nas TIC, etc.).
Aprender a Ser Alianza Editorial-UNESCO, 1973
(p. 239 e seguintes).
2
 Adoptado por ocasião do I Congresso Internacional
de Cidades Educadoras, Barcelona, 1990
5
[www.edcities.org] Génova, 2004. VIII Congresso In-
3
  Carta das Cidades Educadoras: elaborada e adoptada ternacional das Cidades Educadoras.
no dito Congresso.
4
 AA. Vários: La Ciudad Educadora. Ajuntament de
BCN, 1990
20 Introdução

Com o passar do tempo verificamos que a queremos precisar que a cidade é educado-
Carta serve, de uma só vez, a cada uma e ra quando imprime esta intencionalidade à
a todas as cidades, de ferramenta, de cons- forma como se apresenta aos seus cidadãos.
trução e de evolução individual e, também, Confirmamos a importância dos governos
colectiva. locais na construção de cidades educado-
ras: os representantes dos cidadãos escutam,
Hoje a experiência permite-nos ratificar animam, sugerem, coordenam, propõem, li-
algumas afirmações apontadas no ano de deram e executam, conforme os casos.
1990 e adicionar outras novas.
A cidade educadora é, ao mesmo tempo,
A educação é uma tarefa partilhada: família uma proposta e um compromisso necessa-
e escola, mas também muitos outros agen- riamente partilhados, basicamente, pelos
tes não reconhecidos até hoje, formam um governos locais e pela sociedade civil.
novo cenário, um novo «sistema» educativo
que vai acompanhar toda a vida do cidadão Como não podia deixar de ser, para a cidade
e que tem de ser revelado, considerado e de- que se pretende educadora, este factor – a
senvolvido. educação em sentido amplo – constitui o
eixo fundamental e transversal do seu pro-
Reiteramos que esta tarefa partilhada não jecto político.
pode escamotear de modo algum o papel
fundamental da família e das escolas e, acres- O conceito de cidade educadora está direc-
centamos, que ambas devem reposicionar-se tamente relacionado com outros, tais como,
dentro do contexto deste novo cenário. a equidade, a cidadania inclusiva, a coesão,
a sustentabilidade ou a educação para a paz.
Dia-a-dia, comprovamos que é inquestioná-
vel a planificação urbana, a cultura, os cen- É importante recordar que o conceito de ci-
tros educativos, os desportos, as questões do dade educadora assenta em três pilares:
meio ambiente e da saúde, económicas e
orçamentais, as que se referem à mobilida- Boa comunicação das oportunidades que
de e viabilidade, à segurança, aos diferentes a cidade oferece a todos e a cada um dos
serviços, as correspondentes aos meios de cidadãos. No que respeita aos governos lo-
comunicação, etc., contêm e incluem diver- cais, estes devem esclarecer o porquê e o
sos valores, conhecimentos e competências como das suas políticas, isto é, devem fazer
que é necessário considerar como vectores da política uma pedagogia;
de educação para a cidadania. Certificamos
que a cidade educadora é um novo paradig- Participação co-responsável dos cidadãos:
ma cujo núcleo constitui o conhecimento, definindo e acordando previamente o alcan-
a consciência e o desenvolvimento destes ce, os limites e os campos;
vectores educativos presentes nas distintas
políticas e actuações, em todos os sectores Avaliação do impacto educativo das diferen-
e também na avaliação dos seus impactos. tes políticas e também do seu grau de utili-
dade e eficácia.
Como no preâmbulo da Carta das Cidades
Educadoras se afirma que toda a cidade É necessário que os governos locais, princi-
«…dispõe de inúmeras possibilidades edu- pais promotores da adesão à Carta se em-
cadoras mas que também nela podem in- penhem na criação de um discurso político
cidir forças e inércias deseducadoras…», que convença os cidadãos e os representan-
Cidades educadoras, uma aposta de futuro 21

tes municipais do interesse na colaboração municipal algumas actuações prévias e no-


transversal e cruzada do maior número de vas formas de organização interna, a fim de
pessoas e associações da cidade e, também, facilitar a transversalidade e interdisciplina-
da totalidade dos departamentos munici- ridade. Mais, são precisas novas formas de
pais. participação da sociedade civil que a cida-
de deve pôr em prática, de acordo com as
Sem dúvida, a posição de maior influência suas características e especificidades. Com o
sobre este processo – como ocorre em to- tempo e um pouco de conhecimento sobre
das as políticas transversais – é a que possa as numerosas cidades com as quais traba-
e queira ter a pessoa que está à frente do lhamos, vemos que as formas de concreti-
município; a sua convicção é determinante zação e desenvolvimento do conceito de
na atitude dos seus colaboradores políticos cidade educadora são tão variadas como
e técnicos e, portanto, é ela que deve liderar diversas são as cidades. Com ritmos e níveis
não só nominalmente mas sim, realmente, de implicação diferentes, que têm que ver
no processo de adesão, primeiro, e no da com a sua história, a sua situação, a sua es-
aplicação, depois, da Carta das Cidades pecificidade e o seu projecto político.
Educadoras.
A Associação Internacional de Cidades Edu-
Os responsáveis municipais devem procurar cadoras (AICE) afirma e luta por esta con-
e desenvolver a dimensão educativa – que cepção global da educação que impregna o
é o mesmo que dizer cívica – presente nas conjunto da vida na cidade e abarca toda
diversas políticas locais. (A cidade democrá- a cidadania. A razão da sua existência é o
tica, que se desenvolve em plenitude), edu- diálogo, o intercâmbio e o conhecimento
ca, ainda que não o proponha formalmente). mútuo das diversas concretizações da Carta
de Cidades Educadoras em cada uma das ci-
É esta a dimensão que é exigida e justificada dades que a formam.
por um trabalho interdisciplinar e transver-
sal, analítico e objectivo que requer, muitas A vitalidade da AICE e das cidades, que nela
vezes, novos modelos de gestão. É impres- se incorporam, impelem a caminhar para
cindível contextualizar e contrapor qualquer um ponto comum, certo, positivo e espe-
proposta – própria ou alheia – com a reali- rançado. Sem ignorar desafios, adversida-
dade. des, dificuldades; com coragem, convicção
e confiança partilhados entre cerca de 400
Para que este trabalho seja possível, para cidades do mundo. Este é o desafio. Este é
que, na verdade, cada cidade construa o seu o futuro.
projecto educativo são precisas na estrutura
O conceito
de «cidade educadora», hoje

Joan Manuel del Pozo

Joan Manuel del Pozo é doutorado em Filosofia pela Universidade


de Barcelona e é, actualmente, professor da cátedra de Filosofia na
Universidade de Girona (UdG). Entre o ano 2000 e 2002, foi res-
ponsável (vice-reitor) pelo departamento de Investigação e Trans-
ferência do Conhecimento desta universidade.

Entre 1982 e 1996, Joan del Pozo fez parte do parlamento espa-
nhol. Na Câmara Municipal de Girona desde 1995, ocupou o car-
go de vice-presidente e foi responsável pelos pelouros da Partici-
pação, Informação e Relações de Cidadania (1995-1999), da Edu-
cação (1999-2003) e da Presidência e Educação (2003-2006). Joan
del Pozo, entre 2004 e 2005, coordenou o Pacto Nacional para a
Educação, no âmbito da co-responsabilidade dos municípios na
Educação, e foi membro do Consell Escolar de Catalunya. No ano
2006, foi conseller da Educação e das Universidades do governo
regional autónomo da Catalunha (Generalitat de Catalunya). Foi
também deputado do parlamento catalão (de Novembro de 2006
a Janeiro de 2008) e é, desde Janeiro de 2008, membro do conse-
lho consultivo da Corporação Catalã dos Meios Audiovisuais.
O conceito de «cidade educadora», hoje

Em 1990 Marta Mata, a grande mestra e pe- das Cidades Educadoras, a qual inspira as
dagoga catalã da segunda metade do sec. considerações que se seguem.
XX, plenamente activa até a sua morte em
2006, com responsabilidade política na Para além da importante formalidade de acei-
Câmara deslumbrou Barcelona ao propor tar e subscrever os vinte Princípios da Carta,
ao mundo um ideal cívico e educativo que uma cidade educadora foi antes da reforma,
se plasmou no conceito de Cidade Educa- e continua a ser depois de renovada, a que,
dora. Como todos os conceitos que, lon- liderada pelos seus representantes democrá-
ge da perfeição e inamovibilidade do céu ticos, estimula e oferece vias de realização
platónico, se enraízam na complexidade e à capacidade educadora em sentido amplo
fluência da realidade humana, o conceito que têm sempre todos os membros da cida-
de cidade educadora muda com a mudan- de, tanto individual como colectivamente.
ça própria das vidas da cidade e dos seus Um dos sentidos principais da educação é
habitantes; isto não implica uma mudança a capacidade de promover o melhor cresci-
que a «subordine» condescendentemente mento possível ou desenvolver as potencia-
às crescentes pressões e dificuldades de lidades e projectos das pessoas e dos grupos
toda a ordem mas sim uma mudança que humanos; por um lado, é interessante notar
a «coordene» ou adapte às novas caracte- o facto de que a interacção entre as pessoas
rísticas e necessidades das cidades. O seu e as instituições, associações, empresas ou
espírito genuíno inicial não se perde na grupos de qualquer tipo tem precisamente a
mudança porque desde a sua origem ele virtude de gerar estímulo para o crescimento
responde a constantes humanas e sociais e para plenitude de todos os que convivem
de fundo e porque a evolução permanente no espaço urbano, ou seja, tem capacidade
é, ela própria, uma constante individual e educativa. Pode dizer-se que toda a acção
social. Assim, todo o projecto com sentido humana individual ou de grupo tem sempre
da realidade - mesmo albergando algum um valor educativo ou deseducativo porque
ideal - deve saber articular-se e encontrar toda a acção humana não tem um resultado
ancoragem suficiente nos novos perfis ur- neutro ou indiferente para o desenvolvimen-
banos e na sua componente humana indi- to humano e cívico das restantes pessoas. A
vidual e colectiva. cidade educadora adquire e esforça-se por
difundir a consciência de todas as possíveis
Na mira de adaptar o conceito de Cidade repercussões mútuas que as pessoas e gru-
Educadora e suas propostas à evolução in- pos exercem entre si dentro do espaço pú-
tensa que vivem as nossas cidades, a AICE blico da cidade e procura descobrir todas as
elaborou e aprovou no seu Congresso cele- suas potencialidades positivas em ordem ao
brado em Génova (Itália) em 2004, catorze progresso pessoal e social de todos os seus
anos depois, uma nova redacção da Carta componentes.
26 Introdução

As mudanças multiplicação e aceleração de todo o género


na cidade contemporânea de fluxos e movimentos ao serviço do inter-
câmbio e da mercantilização; a proliferação
Toda a cidade contemporânea gera no seu de mensagens e símbolos, singularmente os
interior uma complexidade crescente que a publicitários; a abundância e a precisão das
enriquece e problematiza ao mesmo tempo1. imagens geradas pela publicidade que nos
A complexidade não advém apenas do nú- converte a todos em espectadores; a conse-
mero de pessoas que constantemente afluem quente progressiva espectacularização, des-
a uma ou outra cidade no mundo. Calcula-se necessária mas previsível, da vida na cidade2
que em cada dia duzentas e cinquenta mil e de tudo o que nela se move; a transfor-
pessoas em todo o planeta se incorporam na mação do próprio espectáculo em artigo de
vida urbana vindas de zonas rurais. Trata-se consumo; enfim, a cidade em permanente
de uma mudança quantitativa relevante que releitura de si mesmo como espectáculo
vem acompanhada - e em certa medida as cambiante.
introduz - de mudanças qualitativas da ci-
dade, tal como a vivíamos, reconhecíamos Alguns dos seus efeitos aqui também só
e pensávamos até ao último quarto do sécu- enunciados, são o movimento e a aceleração
lo XX. Estas mudanças qualitativas derivam constante das pessoas, dos veículos e de toda
especialmente do processo de globalização a espécie de produtos e bens materiais ou
fundamentado na intensa transformação da imateriais; a progressiva substituição - ou, no
comunicação, facilitadas por uma acelerada mínimo, relativização - da realidade cívica e
evolução tecnológica. humana por imagens, símbolos e escaparates
que a representam e mostram; a instrumen-
Algumas das principais mudanças qualitati- talização dos indivíduos ao serviço do inte-
vas - principalmente aquelas que geram mais resse mercantil e consumista; a progressiva
desassossego -, aqui simplesmente mencio- perda de consciência e memória histórica
nadas sem entrar em grandes análises, são: a da cidade substituída pela presença intensi-
digitalização de praticamente todos os pro- va de notícias e mensagens de todo o tipo
cessos e a progressiva virtualização da exis- que levam a viver um presente mediatizado,
tência; a intensificação do uso, muitas vezes facilitado pela inconsciência do movimento
até ao abuso, do espaço urbano para o inter- constante e a estimulação publicitária para
câmbio de toda a classe de bens e valores; a o consumo; a multiplicação das relações

1
A parte principal dos conteúdos destas análises das 2
Como exemplo que retorna com regularidade à
mudanças e seus efeitos sobre a cidade contemporânea provocação colectiva, as fotografias publicitárias de
fez-se a partir de diversos estudos do livro de González Oliviero Toscani para firmas internacionais de roupa:
Quirós, José Luis (ed. intr.) e vários autores, Cidades tais fotografias e campanhas constituem um exemplo da
possíveis, elaborado na Escola Contemporânea de espectacularização e mercantilização de verdadeiros
Humanidades, ed. Lengua de Trapo, Madrid, 2003. problemas humanos e sociais - a imigração, o VIH,
a anorexia - ; é interessante reflectir sobre qual será
o elemento predominante: será a «arte» fotográfica
por si mesma a «temática humana» ou finalmente
- melhor finalistamente - comércio puro e cru? Em
todo o caso, as cidades e seus habitantes vêem-se
convertidos respectivamente em cenário e espectadores
de um exibicionismo impúdico mas talvez útil como
tomada colectiva de consciência? Ou prejudicial
como «homologador» de arnomalidades como no
caso da anorexia? ou descaradamente imoral pela
instrumentalização interessada da dor humana?
O conceito de «cidade educadora», hoje 27

pessoais remotas e virtuais que deslocam Com respeito ao fecundo conceito de espa-
as próximas e presenciais; o individualismo ço público, Jordi Borja5 assinala a relação
que interpreta a vida urbana como um risco existente entre a sua configuração física e
onde, subjectivamente, predomina o factor o exercício de cidadania, entendida como
da oportunidade sobre o factor perigo e onde o estatuto que permite exercer um conjunto
se acentua a competitividade para alcançar de direitos e deveres cívicos, políticos e so-
posições de domínio nas alterações constan- ciais: «a qualidade do espaço público pode-
tes que a cidade proporciona; individualismo rá ser avaliada sobretudo pela qualidade das
que reclama uma protecção crescente - fre- relações sociais que facilita pela sua força
quentemente desmedida - contra os perigos capaz de misturar grupos e comportamentos
que o risco - inicialmente assumido como e pela aptidão para estimular a identificação
oportunidade - traz consigo. simbólica, a expressão e a integração cultu-
rais». Recentemente Bauman voltou a insis-
Por outro lado e de forma parecida, outras tir na transcendência do espaço físico da ci-
análises3 insistem nos efeitos da aceleração dade com aquela capacidade «misturante»,
das mudanças como cenário óptimo para condenando a política urbana de homoge-
uma «cultura do instante» um tempo que neizar os bairros e depois reduzir ao mínimo
já não é circular nem linear mas sim estrita- inevitável todo o comércio e comunicação
mente «pontilhista» que cria nos habitantes entre eles (…), fórmula infalível para avivar
das nossas cidades uma concepção presen- e intensificar o desejo de excluir e segregar.
cial da cultura marcada pela precariedade (…) A fusão que requer o entendimento mú-
das identidades individuais e dos vínculos tuo só pode provir da experiência partilha-
entre umas e outras até ao ponto de ele pa- da; e partilhar a experiência é inconcebível
recer representar a substância da liberdade se antes não se partilhar o espaço»6.
individual na nossa cultura. Esta cultura já
claramente líquida - carente de referências De entre os progressos que muitos movi-
seguras ou sólidas não fomenta o afã de mentos de cidadãos implementaram junto
aprender e acumular e mais parece uma cul- dos seus governos, destacam-se a revalo-
tura do distanciamento, da descontinuidade rização do ambiente urbano, a qualidade
e do esquecimento. Nesta situação - quase de vida nos bairros ou a criação de novas
no grau zero de definição e compromisso centralidades urbanas. Assim, melhora-se
- o espaço público democrático e a coesão a cidadania democrática, a concertação e
social e territorial da cidade vêem-se forte- participação em planos e projectos e con-
mente ameaçados4. tribui-se para o reforço dos governos locais

3
Considerações extraídas do opúsculo de Zygmunt 5
Ibid.
Bauman, Els reptes de l`educació en la modernitat lí- 6
Baumann, Z., Confiança e Temor na Cidade, Ed. Arcá-
quida, Ed. Arcádia, Barcelona, 2007. dia, Barcelona, 2006, p. 38.
4
Já em 1998, Jordi Borja em «Cidadania e espaço pú-
blico» salientava o «temor ao espaço público. Não é
um espaço protector nem protegido. Em alguns casos
não foi indicado para dar segurança mas sim para certas
funções como circular ou estacionar ou, muito simples-
mente, para espaço residual entre edifícios e vias. Em
outros, foi ocupado por classes perigosas da sociedade:
imigrantes, pobres ou marginais». Colaboração publi-
cada na AAVV, Ciutat real, ciutat ideal. Significat i fun-
ció a l`espai urbà modern, «Urbanitats», nº 7, Centro de
Cultura Contemporânea, 1998.
28 Introdução

na política urbana; e, a culminar, recria-se o público democrático com o vector educati-


conceito de cidadão como sujeito da políti- vo, como um dos eixos não exclusivo nem
ca urbana em permanente renovação através excludente mas principal e cooperativo.
da sua atitude participativa.
A cidade contemporânea continua - tanto ou
Baumann7, ao finalizar a sua análise sobre mais que antes - um espaço de liberdade e
os desafios educativos na modernidade lí- de comunicação. Ainda que a comunicação
quida, indica algumas vias de avanço que, esteja mediatizada por interesses mercantis
como veremos, abarcam em muitos pontos e procure objectivos consumistas, a
o que foi dito tanto sobre a ideia de espaço pluralidade intrínseca dos seus habitantes,
público democrático como sobre a propos- em combinação inteligente com as novas
ta da nova Carta das Cidades Educadoras. capacidades e técnicas de comunicação,
Entre outros aspectos salienta a necessidade tem na sua mão a capacidade de construir e
de construir e reconstruir os laços e vínculos difundir mensagens livres de mercantilismo
entre as pessoas, de fomentar uma convi- e consumismo. A cidade que aspire a ser
vência hospitaleira e amistosa, de cooperar educadora deve moldar-se às exigências
mutuamente na formação enriquecedora da do novo mundo globalizado e digital para
auto-estima individual e colectiva, de desen- ganhar eficácia na defesa do espaço público
volver as potencialidades latentes e o uso democrático, utilizando as mesmas técnicas
adequado das aptidões de cada um/a; tudo e estilos de comunicação eficazes para outras
isto resumindo-se na ideia, expressada lite- finalidades. Com certeza, será indispensável
ralmente, da «reconstrução do espaço públi- que a cidade, segundo os educadores
co», como diálogo constante entre indivíduo formais e não formais, oriente a formação
e comunidade, entre direitos e deveres de dos seus habitantes - especialmente mas
todos os actores cívicos; uma educação ao não exclusivamente, dos mais jovens para
longo da vida que não só renove aptidões o domínio conceptual e a orientação ética
para a mobilidade laboral e técnica mas, so- dos «novos alfabetos» comunicacionais - as
bretudo, o espírito de cidadania. armas e infinitas argúcias da comunicação e
informação do século XXI. Seguramente este
A cidade educadora, perante esta mudança é o núcleo a partir do qual se pode reorientar,
complexa, estimulante situação analisada, e com muita dificuldade e modestas previsões
consequentes desafios, não pode por si só de êxito, a transformação qualitativa das
ser a chave da resolução de todas as dificul- nossas cidades. Esclarece-se que a formação
dades nem de todos os desafios mas pode «conceitual e ética» significa muito mais do
aspirar a criar um clima de qualidade cívica que a simples capacidade técnica ou domínio
e de convivência urbana que induza as pes- de toda a diversidade de instrumentos:
soas a tomarem consciência das mudanças, significa, sobretudo, a consciência dos
a orientarem-se melhor na sua complexida- objectivos, dos valores e da experiência
de, a atenuar e superar alguns dos seus efei- humana e social que actua diariamente na
tos negativos, potenciando as suas oportu- galáxia comunicativa em que se transformou
nidades e elementos positivos que também o mundo; sistemas inteiros de comunicação,
sempre a acompanham. Pode afirmar-se que com suas estrelas, planetas, satélites e
uma das melhores leituras dos princípios asteróides que circulam enlouquecidamente
da Carta é a de um verdadeiro programa de em torno de indivíduos aturdidos que,
atenção e promoção da qualidade do espaço paradoxal e ingenuamente, crêem que

7
Baumann, Z., Els reptes..., p.38, ss.
O conceito de «cidade educadora», hoje 29

dominam o mundo com um comando à em pleno». Neste fazer as cidades em toda


distância. Para além desta formação, agora a sua plenitude, com a participação dos
já considerada básica, a cidade educadora habitantes, encontra-se a melhor educação
tem de concentrar esforços para sustentar e possível - incluindo a formal: são estas as
reforçar os vínculos comunitários que ainda que se tornam plenamente educadoras; por
sobrevivem em muitas cidades e promover outro lado, é na educação - não só na formal
a sua recuperação naquelas em que se - dos cidadãos para a plena cidadania que
encontrem muito débeis ou em risco de está o gérmen da melhor cidade pensável e
se perderem. A dimensão comunitária da possível.
cidade é essencial na perspectiva educadora:
não podemos nunca entender os cidadãos
como indivíduos separados, apenas numa A Reforma da Carta
fria justaposição, mas sim como pessoas em em Génova 2004
activa cooperação e convivência. A mera
justaposição não produz cidade, constrói No esforço feito pela AICE para adaptar a
apenas um armazém. Só a convivência primeira Carta das Cidades Educadoras às
participativa e interactiva constrói um mudanças nas cidades, desenvolveram-
espaço de cidadania com conteúdo para -se algumas ideias que permitem ampliar e
projectos políticos mais nobres: recordamos aprofundar o seu conceito geral.
que para os gregos, fundadores da ideia
e da consciência de cidade - «polis» -, Um elemento novo, em relação à primeira re-
o verbo «politéuesthai» não significava dacção de 1990, foi a apresentação de um fio
«fazer política» - pobre tradução literal, no condutor que, embora considerado, em certa
sentido que hoje se lhe atribui - mas sim medida, implícito na primeira redacção, me-
«viver como cidadão», «exercer activa e recia ser tratado para sublinhar aspectos que
participativamente direitos de cidadania». O a redefinem e melhoram. Ele fazia-se através
viver como cidadão estava intrinsecamente, dos três títulos que agora se reagrupam, com
intimamente unido à actividade pública da maior ordem ou sentido, em vinte artigos ou
comunidade. Essa forma de vida estava em princípios da Carta; conservou-se, para não
intima relação como demonstrou Jaeger com alterar o seu perfil global, o mesmo número
as expressões «educação para» ou «cultura de artigos, apesar de notavelmente modifica-
de» - «paideia», nos seus dois sentidos dos no seu conteú­do e posição.
principais - a acção ou participação de
cidadão («política» em sentido etimológico); O fio condutor une-se entre as seguintes
«a educação não é propriedade individual; ideias: primeiro, «o direito à cidade educa-
ela pertence, por essência, à comunidade; dora» que abrange seis artigos; segundo, «o
o carácter da comunidade imprime-se nos compromisso da cidade», com outros seis;
seus membros individuais e é no homem, terceiro, «ao serviço integral das pessoas»,
o «zoón politikón», muito superior ao dos com os oito restantes. A sua função não é
animais, fonte de toda a acção e de toda a tanto a de agrupar tematicamente os respec-
conduta»8. Com base neste modelo político- tivos artigos mas sim o de referir cada um
-cultural poder-se-ia afirmar que «fazer uma por si e especialmente pela sua inter-rela-
cidade educadora» deve ser, nem mais nem ção, um espírito global da Carta que dê a
menos e essencialmente, «fazer uma cidade compreender a sua última finalidade.

8
Jaeger, Werner, Paideia: Os ideais da cultura grega,
F.C.E., México, 2ªed., 2ª reimp., 1971, p. 3.
30 Introdução

Vejamos então: com a ideia do «direito à ci- nhecimento do direito dos cidadãos ao que
dade educadora» pretende-se dar um passo chamávamos, há pouco, «valor acrescenta-
em frente com o fim de oferecer aos habitan- do» à educação escolar e ao fomento práti-
tes de todas as cidades aquilo por que elas co e efectivo desse valor. Contudo seria uma
legitimamente aspiram, isto é, a redefinição interpretação redutora e não conforme ao
da sua cidade como educadora, como dota- espírito da Carta, se considerássemos os ad-
dora das oportunidades de qualidade de vida ministradores municipais, como únicos su-
pessoal e democrática, do melhoramento do jeitos desse compromisso; na realidade, não
espaço público para poderem desenvolver se fala de compromisso da «Câmara Muni-
em plenitude a sua cidadania; neste sentido, cipal» mas da cidade; portanto, para além
o ideal da cidade educadora passa a ser o da natural liderança dos representantes de-
de uma proposta voluntariosa e, desde logo, mocráticos, entende-se que o dever do com-
bem-intencionada que, como direito, possa promisso é para toda a cidade. Dessa forma,
ser reclamada por qualquer pessoa na sua o direito à cidade educadora converte-se
cidade. Escusado será dizer que a efectivida- num verdadeiro direito-dever para todos: os
de desse direito dependerá, na vida real, de representantes, sem dúvida, mas também os
outras instâncias, que não são as da própria cidadãos e as cidadãs. Além de tudo, este
Carta, mas esta é o gérmen para o avanço compromisso é «ao serviço integral das pes-
nessa direcção. Por isso, no artigo primeiro soas», como reza o terceiro título que, de
se menciona tal direito à cidade educadora propósito, no seu sentido gramatical está li-
como «extensão» do já efectivamente exis- gado ao segundo. Com efeito, pretende-se
tente - nos Direitos Humanos, nas constitui- que cada pessoa que vive na cidade se sinta
ções democráticas - e que é o direito fun- realmente ponto de atenção do conjunto da
damental de todas as pessoas à educação. cidade e, principalmente, dos seus repre-
Na sua interpretação mais elementar, já se sentantes democráticos; que se sinta sujeito
está a dizer que só no contexto de uma ci- de direitos de cidadania como pessoa com
dade educadora se adquire em plenitude o possibilidade real de desenvolver, a todo o
direito fundamental de uma pessoa a uma momento e em pleno, as suas capacidades
educação formal ou escolar. Dito por outras - objectivo clássico e principal da educação
palavras, a educação puramente escolar é - e de alcançar melhor qualidade de vida,
essencial e necessária mas não suficiente: na objectivo genérico e básico de toda a gover-
cidade educadora há um valor acrescentado nação democrática, única possível numa ci-
ao qual os cidadãos também têm direito. O dade educadora.
segundo e terceiro assuntos podem dar uma
melhor resposta ao primeiro, em conjunto Sem entrar em pormenor na descrição de
do que em separado: reconhecido tal direito, cada um dos vinte artigos, cremos que seja
a cidade deve responder precisamente com útil destacar resumidamente, a fim de com-
um «compromisso da cidade» - segundo tí- pletar o conceito de cidade educadora, os
tulo - posto «ao serviço integral das pessoas» aspectos que na reforma de 2004 voltaram
- terceiro título. É importante sublinhar, em a incorporar-se ou melhoraram claramente
primeiro lugar, a ideia de compromisso que a sua presença ou definição da Carta inicial,
ultrapassa, pela sua conotação de exigência tendo em vista adaptá-la às novas caracte-
ético-política, a simples obrigação de uma rísticas e necessidades das cidades, no prin-
cidade e sua administração democrática cípio de um novo século. Os vectores prin-
gerirem eficaz e honestamente os assuntos cipais da reforma foram, em primeiro lugar,
do dia-a-dia; com a ideia de compromisso a insistência na necessidade e o direito de
reclama-se uma posição pró-activa de reco- todas as pessoas à formação, ao longo da
O conceito de «cidade educadora», hoje 31

vida9, princípio assumido nos mais diversos mática mas também para saberem seleccio-
fóruns internacionais como uma exigência nar, entender e tratar o grande caudal de
essencial num mundo sujeito a alterações informação disponibilizada e evitar, assim,
tão rápidas, não só por causa do perma- uma das novas razões de exclusão social,
nente aperfeiçoamento das capacidades há algum tempo inimaginável. Por outro
laborais mas também familiares, cívicas, de lado, a reforma deu igualmente atenção ao
comunicação e sociais. Outro critério im- novo e cada vez mais necessário concei-
portante foi o de melhorar e universalizar to de «desenvolvimento sustentável» com
o acesso de todos, sobretudo daqueles que menção expressa ao equilíbrio entre cidade
têm incapacidades funcionais ou quaisquer e natureza, ao direito a um meio ambiente
dependências, a todos os serviços, edifícios saudável e à participação nas boas práticas
e equipamentos urbanos10, necessidade de um desenvolvimento sustentável13. Ou-
principal num contexto de qualificar a con- tra sustentabilidade está a chamar a nossa
vivência urbana. Também se insistiu num atenção: a sustentabilidade democrática
aspecto que, por si mesmo e pela evolução que, como se diz no preâmbulo da Carta,
das populações, merece consideração: o não tem uma configuração suficiente no
diálogo e a cooperação inter-geracional11, novo âmbito ou dimensão global de tudo
com o fim de atingir a maior integração so- quanto ocorre; por isso, a nova Carta adi-
cial possível entre as pessoas de todas as ciona, em diversos pontos, referências mais
idades e o aproveitamento recíproco dos fortes e mais explícitas que as contidas na
conhecimentos e experiências vitais. Em redacção inicial, mais dirigidas à promoção
relação próxima com os critérios anteriores dos valores essenciais da vida democrática:
- idade adulta ou avançada e a acessibili- a liberdade, a igualdade, a diversidade cul-
dade - e em ligação com a nova sociedade tural ou a cooperação solidária internacio-
globalizada do conhecimento, insistiu-se nal14; e insiste-se ainda no artigo final, em
na necessidade de que a cidade educadora modo de fecho, no que poderíamos chamar
garanta a todas as pessoas, principalmente os fundamentos da cultura democrática, a
às dos sectores mais distanciados da forma- formação de todas as pessoas nos valores
ção, seja pela idade, seja por outros mo- do respeito, tolerância, participação, res-
tivos, o acesso à formação em tecnologias ponsabilidade e interesse pela coisa públi-
de informação e de comunicação12, não só ca, seus bens e seus serviços15.
para aprenderem a usar aparelhos de infor-

9
Artºs. 1 e 19 da Carta das Cidades Educadoras, refor- 13
Artº. 11
mada em Génova, 2004 14
Artºs. 1 e 2
10
Artºs. 1, 8 e 10 15
Artº. 20
11
Artº. 3
12
Artº. 19
32 Introdução

Os princípios básicos da Carta Como dedução natural desse conhecimen-


to da cidade, estabelece-se o valor da pre-
Sem dúvida que seria injusto e deformador servação da sua identidade, dos costumes,
cingirmo-nos exclusivamente aos critérios origens e línguas com o fito de alcançar a
ou vectores da reforma da Carta; como integração e coesão sociais19. A planifica-
dizía­mos ao princípio, a nova Carta man- ção urbana orientar-se-á com palavras si-
tém um espírito, no seu todo, fiel ao ini- nónimas para a criação de espaço público
cial; e o sentido das reformas é apenas o acessível, identificador, facilitando o desen-
de consolidá-lo perante o reconhecimento volvimento pessoal, social, moral e cultural
e adaptação às novas circunstâncias. As- das ­pessoas20. Um elemento chave do espíri-
sim encerramos a nossa exposição sobre to da cidade educadora, especialmente útil
o conceito actual de «cidade educadora» para esta planificação, é a participação; para
quanto aos seus princípios básicos ou va- além dela, é evidente que a vida democrá-
lores permanentes - por isso, sempre ac- tica urbana está em proporção directa com
tuais - embora renovados e reordenados a participação real dos cidadãos na vida co-
na sua redacção mas tão sólidos como lectiva: assim, conclui-se que a cidade edu-
no início. Não é uma descrição detalhada cadora tende a fomentar a participação do
mas uma síntese conceptual dos aspectos cidadão com uma perspectiva crítica e res-
essenciais. ponsável, a partir da informação suficiente
e da organização associativa das pessoas21.
O primeiro, o direito a desfrutar, em condi-
ções de igualdade, oportunidades de forma- Outros aspectos fundamentais são o de-
ção, entretenimento e crescimento pessoal, senvolvimento através da cultura, ócio ou
que o conjunto da própria cidade oferece16, informação, da iniciativa e autonomia de
constitui um dos pilares de toda a cidade crianças e jovens22 e da orientação para
educadora. É logicamente uma obra notá- uma boa articulação da sua formação com
vel, a do interesse específico pelas políticas as necessidades laborais existentes23. Como
municipais educativas que implementam o condição para uma boa colaboração edu-
desenvolvimento dentro de um marco de cativa de seus filhos/as, as famílias e os
justiça social, civismo democrático, quali- educadores receberão formação e estímulo
dade de vida e promoção dos seus habitan- que os ajudem na sua co-responsabilidade
tes17; e, de certa maneira, porque cria valor educativa24, sendo esta uma variante muito
acrescentado, a da procura de amplitude, significativa da educação ao longo da vida;
transversalidade, inovação e modalidades isto mesmo estende-se aos funcionários pú-
de educação tanto na formal como na in- blicos, incluindo as forças de segurança, o
formal e, ainda, a das diversas vias possí- que acentua o estilo desejável de uma ci-
veis do conhecimento da realidade inteira dade disposta a educar, no sentido amplo,
da cidade18 que tradicionalmente ficavam à como um conjunto coerente e coeso. Nesta
margem da educação formal. linha de pensamento, postula-se a coorde-
nação entre administradores e sociedade

16
Art. 1 19
Art. 9
17
Art. 4 20
Arts. 8 e 10
18
Art. 5 21
Arts. 9, 12 e 18
22
Art. 13
23
Art. 15
24
Art. 14
O conceito de «cidade educadora», hoje 33

civil, principalmente no chamado sector As palavras finais do preâmbulo da Carta são


terciário25. especialmente adequadas ao fecho desta ex-
Um aspecto fundamental que inspira o con- posição: «deve produzir-se uma verdadeira
junto da Carta é o que se pode resumir em fusão, na etapa educativa formal e na vida
conceito de coesão social. Aparece de forma adulta, entre os recursos e a potência educa-
recorrente em diversos artigos, com expres- tiva da cidade e o desenvolvimento normal
sões nem sempre iguais mas coincidentes no do sistema educativo, laboral e social. O di-
fundo: trata-se de trabalhar por uma cidade reito à cidade educadora tem de ser uma ga-
onde todas as pessoas encontrem o seu lu- rantia relevante dos princípios de igualdade
gar na sociedade26; onde se faculte, median- entre todas as pessoas, de justiça social e de
te políticas activas, a inclusão de pessoas equilíbrio territorial. Tudo isto acentua a res-
procedentes da imigração ou refugiadas, ponsabilidade dos governos locais no senti-
com direito a sentir a cidade como própria27; do de desenvolver todas as potencialidades
onde, passe a expressão, seja excluída a pró- educativas que a cidade alberga, mediante
pria exclusão, a menos educadora de todas a incorporação no seu projecto político dos
as atitudes individuais e colectivas. princípios da cidade educadora.

25
Art. 17
26
Art. 15
27
Art. 16
Barcelona:
o compromisso de uma
cidade com a educação

Jordi Hereu

Jordi Hereu (Barcelona, 1965) foi presidente da Câmara Munici-


pal de Barcelona de 2006 a 2011, pelo partido socialista, cargo
ratificado pelos cidadãos barceloneses nas eleições municipais
de 2007. Licenciado e mestre em Administração e Direcção de
Empresas, pela prestigiada ESADE-Business School, da Universi-
dad Ramon Llull, antes de entrar na vida política trabalhou com
diversas empresas do porto de Barcelona, tendo sido director de
marketing da Intermodal de Logistica do porto de Barcleona.

Como presidente da câmara de Barcelona definiu como priorida-


des políticas e como base estratégica da sua agenda a coesão so-
cial, o desenvolvimento económico e a projecção internacional da
cidade, bem como a convivência e a segurança, a sustentabilidade
e a luta contra as alterações climáticas, e a notoriedade de Barce-
lona enquanto cidade-capital.
Barcelona: o compromisso
de uma cidade com a educação

Voltei a ler a Carta das Cidades Educadoras ra possível: pondo a circular a ideia genero-
que se implementou no primeiro congresso sa e elevada de cidade, como educadora da
internacional celebrado na nossa cidade em população de todas as idades, de todas as
1990 e que foi revisto em mais duas oca- condições, de todas as procedências. Sem
siões, 1994 e 2004. As primeiras palavras menosprezar as mais poderosas ferramentas
do preâmbulo: «hoje, mais que nunca, a educadoras: as famílias e a escola.
cidade, grande ou pequena, dispõe de in-
contáveis possibilidades educadoras mas Estamos num momento de redefinição da
também podem incidir nela forças e inércias educação no referente às novas tecnologias
deseducadoras». É um bom começo. Sobre- - com suas toneladas de informação sem
tudo se tivermos em conta que o último dos crítica - que inundam o espaço mental e fí-
artigos da Carta diz: «a cidade educadora sico dos adolescentes e jovens. Estamos até
deverá oferecer a todos os seus habitantes, a redefinir toda a nossa sociedade, de cima
como objectivo crescentemente necessário a baixo: a maneira de viver, de nos relacio-
para a comunidade, formação em valores e narmos, de empobrecermos, tudo hoje está
práticas de cidadania democrática: respeito, em transformação - pois que o fenómeno
tolerância, participação, responsabilidade da globalização sacudiu as antigas parcelas
e interesse pelo público, pelos seus progra- onde habitávamos e que conhecíamos como
mas, bens e serviços». a palma da nossa mão. Não obstante, as
mudanças são boas: abrimo-nos ao mundo,
Este é um objectivo partilhado na actualidade temo-lo inteiro nas nossas casas, dispomos
por centenas de cidades em todo o mundo, de mais instrumentos mais eficazes para en-
cada uma com as suas próprias condições frentarmos os desafios. Mesmo assim, toda a
culturais e sociais, económicas e políticas alteração profunda implica uma crise. É pre-
mas todas vinculadas pela vontade de ele- ciso estarmos conscientes de que vivemos
var a qualidade de vida dos cidadãos, não só uma crise do sistema educativo, compreen-
no plano material - o ambiente, os serviços dendo o termo «crise» num sentido constru-
- como também a construção cívica. É uma tivo. Saíremos em frente porque sabemos o
maneira empolgante de ver a cidade por- que nos está a acontecer.
que nos mostra a ligação entre o indivíduo
e o colectivo. É certo que a implementação Barcelona é uma cidade que desde sempre
deste programa - desta concepção - surgiu se comprometeu com a educação pública
de uma Barcelona entusiasmada com o pro- de qualidade. Há mais de cem anos - desde
cesso de transformação que arrancou com a o princípio da existência da Câmara Muni-
democracia e que era a vocação de construir cipal de Barcelona - que trabalhamos nes-
uma cidade mais justa, mais amável, mais ta linha e podemos afirmar, sem pecar por
equitativa, mais digna. De certo modo, Bar- exagero, que a cidade tem lutado por uma
celona queria partilhar com o mundo este importante renovação pedagógica e, tem
impulso, esta força e fê-lo da melhor manei- principalmente, a forte vontade de avançar
38 Introdução

para um modelo de educação equitativo, tipo de valores colectivos confiamos. Por


democrático, aberto e cívico. Por isso, não fim, os serviços, que a cidade oferece e que
é de estranhar que Barcelona, há vinte anos, não são evidentes à primeira vista, acabam
tivesse proposto com entusiasmo o projecto por constituir a alma da relação entre admi-
de cidade educadora, um conceito que me nistração e cidadãos porque é através dos
é especialmente grato por eu defender a ci- serviços que a Câmara possibilita a igual-
dade como gestora de valores. Acredito na dade de oportunidades, a autonomia das
cidade transmissora dos valores básicos que pessoas, o apoio aos projectos que cada um
governam a boa convivência. sonha levar a cabo. E estas coisas, não são
elas valores?
É certo que parte desta convivência corres-
ponde às administrações, a partir do mo- No entanto para «ler» a cidade em termos
mento em que temos de procurar um marco de valores há que treinar. É esta aprendiza-
de coesão social, mas os enredos huma- gem que escola e família partilham - ou de-
nos gerados na sociedade têm um aspecto veriam partilhar. A simbiose entre estes dois
mais subtil: herança, carácter, ambiente e sistemas insubstituíveis é a que resulta num
esta educação tácita, não regulada, que se novo cidadão preparado, solidário, crítico,
produz cada dia sem que, frequentemente, activo, seguramente participativo. O tercei-
tomemos consciência dela, mas que é fun- ro factor que incide na formação é o meio
damental na formação dos cidadãos, prin- ambiente, o bairro; aqui é que as adminis-
cipalmente dos novos cidadãos - refiro-me trações devem oferecer recursos para que o
ao mesmo tempo aos recém-chegados e aos bairro tenha um papel positivo neste proces-
que estreiam a cidadania, os jovens. Isto sem so de formação. O ideal é conseguir que os
esquecer o papel das gerações mais velhas três factores actuem ao mesmo tempo, com
que nos dão o seu apoio e exemplo. A ci- os mesmos objectivos e que nós, administra-
dade é património do mundo e a aprendi- ções municipais, nos esforcemos para tornar
zagem também. Estou convencido de que a tudo numa realidade. Quero destacar umas
cidade dá exemplo de determinados valores tantas iniciativas - não todas! - que Barce-
através da sua organização, das prioridades lona está planeando ou já executando para
tomadas pela equipa do governo municipal, que a cidade seja, de verdade, educadora
das propostas feitas pelos cidadãos e, final- para além da escola. Uma delas relaciona-
mente, através das campanhas de difusão e -se com o elemento fundamental da herança
participação. urbana que é o património. Este, como sa-
bemos, é a concretização da memória e as
Neste sentido, o urbanismo já é um livro cidades precisam de memória tangível, pre-
aberto sobre os valores de uma cidade e eu sente nas ruas para construir a sua identida-
defendo com orgulho que a prioridade do de que, ao fim e ao cabo, é a identidade dos
espaço público como ponto de reunião de cidadãos. Boa parte da memória da cidade
todos os cidadãos é bem visível nesta trama moderna de Barcelona é industrial e temos,
urbana. É importante que uma cidade se or- nos antigos bairros de operários, fábricas já
ganize ao redor do espaço que partilhamos, desactivadas que vamos recuperando para
aí onde acontecem as interacções espontâ- as converter em equipamentos para outros
neas entre diferentes grupos sociais. O ur- fins, muitas das vezes, culturais. Pois bem,
banismo dá também ao observador atento um dos projectos imediatos é utilizar estes
outros relatos sobre a cidade; a primazia do edifícios como «fábricas de cultura», espa-
transporte público, as ciclovias, os equipa- ços onde os jovens possam criar, experimen-
mentos sociais e culturais dizem-nos em que tar, fazer. Não será esta uma mensagem às
Barcelona: o compromisso de uma cidade com a educação 39

novas gerações muito própria do século XXI menta para a integração e para a igualdade
- um século que valoriza a criatividade e o de oportunidades. Conseguimos uma esco-
talento? la para toda a gente; agora devemos pros-
seguir para uma escola de mais qualidade,
Em segundo lugar, gostaria de pôr a tónica exigente, moderna, totalmente integrada na
sobre Barcelona, a cidade que resolve os sociedade complexa de hoje. Mas isto tudo
seus conflitos através de pactos e entende ainda não é suficiente: a cidade inteira tem
os processos que a eles conduzem como de ser coerente com os valores que a escola
educativos em si mesmo. Não é um cami- oferece, tem de ser exigente consigo mesma
nho fácil, já que frequentemente é preciso e com os cidadãos, processo que nós já vive-
descobrir o ponto de equilíbrio entre grupos mos aqui mas que devemos intensificar até à
e sectores que têm, cada um, uma razão, excelência tanto educativa como cívica.
perante a qual a Câmara deve actuar como
árbitro e não só: deve escolher o lugar do Para terminar, voltamos à nossa história
«bem comum» acima das «razões individu- comum de cidades educadoras. A Câmara
ais». Avançámos pactos sobre a mobilidade, Municipal de Barcelona assumiu desde o
sobre o antagonismo entre ócio nocturno e primeiro dia o compromisso de exercer uma
descanso dos vizinhos, incluindo casos de liderança social: com vocação de fazer da
grupos de jovens imigrantes sul-americanos política, pedagogia. Estamos convencidos de
que, longe de correr o risco de segregação que o potencial educativo da cidade é o seu
ou de condutas anti-sociais, lográmos trans- potencial cívico e vice-versa. A qualidade
formar, por vontade dos implicados em… cívica da cidade converte-se em educadora
entidades culturais! É certo que para esta para os cidadãos novos (e também para os
conversão se avança mais lentamente mas antigos). Assim, a nossa responsabilidade é
consegue-se decisivamente uma legitimação aprofundar na democracia a participação, a
da autoridade que deve existir mas ser exer- coesão social e, decididamente, os valores,
cida democraticamente. conforme plasma, ponderada e minuciosa-
mente, a Carta fundadora deste movimento
Uma cidade que transforma a memória em que se estendeu a todo o mundo como uma
criação e que pactua a saída para os seus embaixadora de boa vontade.
conflitos é uma cidade educadora. São va-
lores postos em prática. E estes valores dos Todos os dias novos municípios se juntam
cidadãos devem aliar-se estreitamente à es- ao compromisso das cidades educadoras.
cola e a todos os níveis de formação dispo- Como presidente da Associação Internacio-
níveis para que se fortaleçam. A qualidade nal das Cidades educadoras sinto-me satis-
do ensino é crucial tanto para a competi- feito. Estamos trabalhando para um mundo
tividade futura da nossa economia como melhor e, dia após dia, vamos conquistan-
para a viabilidade da nossa convivência. A do-o.
escola é desde os primeiros anos uma ferra-
1
Os novos desafios
da vida urbana
Utopias dialécticas

David Harvey

David Harvey (Gillingham-Kent, Reino Unido, 1935) é professor


de Antropologia na Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).
Doutorado em Geografia pela Universidade de Cambridge, Har-
vey tem-se destacado, ao longo dos últimos 30 anos, pela publica-
ção de uma vasta obra em que aborda temas desde o criticismo ao
neoliberalismo, do imperialismo à análise geográfica da cidade a
partir da perspectiva marxista.

Os ensaios que publicou ao longo da sua carreira e obras como


Justiça Social e a Cidade (1973), Os limites do capital (1982), A
condição pós-moderna (1989), entre outras, conferiram-lhe noto-
riedade e tornaram David Harvey num dos geógrafos mais citados
por todo o mundo.
Utopias dialécticas

O sociólogo urbano Robert Park definiu a o nosso desejo, é um dos mais preciosos de
cidade como: todos os direitos humanos.

«a mais consistente e, em geral, mais Mas qual é o significado de tudo isto? O rit-
bem-sucedida tentativa de refazer o mun- mo e a escala extraordinária da urbanização
do em que se vive segundo o desejo do ao longo dos últimos cem anos dificilmente
seu coração. Mas, se a cidade é o mun- se têm reflectido na tese de Park. Nós fomos
do que o homem criou, é o mundo em feitos e refeitos várias vezes por forças que
que ele passa a estar condenado a viver. estão aparentemente fora do nosso controlo.
Assim, indirectamente, e sem qualquer Os construtores da cidade - os empreiteiros,
noção clara da natureza da sua missão, o financiadores e os interesses da construção
homem ao fazer a cidade refez-se».1 muitas vezes auxiliados e incitados pelos go-
vernos centrais e municipais - têm sido im-
A questão do tipo de cidade que queremos pelidos pela sede de lucro, pela necessidade
não pode ser separada, portanto, da questão de acumular e absorver excedentes de ca-
sobre o tipo de pessoas que eu, tu, nós e eles pital cada vez maiores, apoiados pelas leis
nos queremos tornar: que tipo de relações coercitivas da concorrência capitalista. A
sociais são valorizadas, que sistemas de pro- preocupação com o bem-estar humano tem
dução e relações de trabalho são considera- sido ocasional, com os imigrantes a concen-
dos criativos e gratificantes, que relação com trarem-se nas cidades, transformando de for-
a natureza é que nos interessa preservar, que ma radical o cenário urbano, são movidos
sentidos estéticos se desejam cultivar, que mais pelo desespero do que pela reflexão
tecnologias são consideradas adequadas e, consciente sobre a tese de Park. O direito de
mais propriamente, como é que as pessoas mudar a cidade não é um direito abstracto,
querem viver as suas vidas. A existência de mas, pelo contrário, um direito inerente à
um consenso social sobre todas estas ques- prática quotidiana. A dialéctica da urbani-
tões seria preocupante. O importante é co- zação e da transformação social funcionam
locá-las na linha da frente do debate num constantemente em nosso redor e nós tanto
momento em que a população mundial está sofremos como contribuímos para os seus
cada vez mais «condenada a viver» nalguma efeitos - bons, maus e indiferentes - à medi-
forma de configuração urbana e, quando é da que vivemos, construímos, trabalhamos,
certamente claro que as pessoas não se vão fazemos compras, interagimos e circulamos
tornar necessariamente melhores por essa por diferentes ambientes urbanos. Mas como
razão. Devemos, pelo menos, concordar nos podemos tornar mais conscientes da na-
que o direito de fazer e refazer a cidade e, tureza da nossa tarefa? Como podemos ima-
consequentemente, a nós mesmos, segundo ginar os nossos comportamentos e adaptar o

1
Park, R., «Sobre o controlo social e o comportamento
colectivo», (Chicago, Chicago University Press), p.3.
46 Os novos desafios da vida urbana

mundo urbano de forma a moldar a cidade benéficos. É sabido que «não há nada mais
mais de acordo com os nossos desejos? Pode desigual do que tratar de forma igual o que
um regresso à tradição utópica fornecer-nos é diferente». Os mercados livres não podem
alguma pista? As utopias urbanas têm sido, produzir resultados justos quando as condi-
afinal, ao longo da história, expressões re- ções de partida não são iguais, quando se
correntes do desejo do Homem de encontrar exercem poderes de monopólios e quando
um melhor ou mais perfeit modo de vida. os quadros institucionais das transacções
são afectados, e são sempre, por assimetrias
A maioria dos planos que designamos por de poder e de informação. Há muitos países
“utópicos” é fixa e formal. São aquilo a que que, em nome do mercado livre, praticam
chamo «utopias de formato espacial» – cida- tremendas violações dos direitos humanos e
des e comunidades que ao longo dos anos retiram o direito de subsistir àqueles de cujo
nos têm conduzido erradamente a pensar trabalho retiram vantagens competitivas. A
que a harmonia será uma certeza e que to- liberalização não só das relações comerciais
dos os desejos humanos serão plenamente mas também dos mercados financeiros à es-
saciados ou realizados. O problema destas cala global desencadeou uma “tempestade”
utopias é que acabam por se tornar repres- de poderes especulativos, especialmente no
sivas para o espírito humano, frustrando o mercado imobiliário e no sector da constru-
desejo de novidade e de descoberta. Da ção, em que o capital tem saqueado o mun-
forma como foram postas em prática têm do em detrimento de todo o resto (especial-
conduzido a resultados muito mais autori- mente das relações sociais e do ambiente).
tários e repressivos do que emancipadores. Alguns fundos especulativos, exercendo o
Estas utopias pressupõem ainda que a histó- seu direito de fazer lucro e protegidos pela
ria pare, que nada de novo aconteça e que ficção legal que lhes atribui o estatuto de
não haja novos episódios para serem con- pessoa de direito privado, espalham-se pelo
tados. As únicas inovações permitidas são mundo destruindo, através da especulação,
aquelas que permitam manter a harmonia economias inteiras (como na Indonésia, em
previamente existente. Tal como o conceito 1997 e 1998 e na Argentina, em 2001). Pior
estático de Paraíso dos cristãos, estas utopias ainda, para funcionar, o mercado neolibe-
são tão aborrecidas que ninguém quer viver ral exige a escassez. Se a escassez não for
submetido a elas.2 real, tem de ser socialmente inventada. É
isto que a propriedade privada e a corrida
Mas depois há todo um conjunto de uto- ao lucro produzem. O cerco ao que é públi-
pias sobre o processo social. Nos tempos co e a destruição dos direitos sobre os bens
mais recentes, os neoliberais têm procu- públicos através das privatizações e da co-
rado convencer-nos de que o mercado e o mercialização de tudo e mais alguma coisa
comércio livres associados à propriedade é uma condição necessária à acumulação
privada e ao empreendedorismo individu- do capital. A educação, a saúde, a água e o
al trarão riqueza, segurança e felicidade a saneamento têm de ser privatizados e postos
toda a gente, que os mecanismos do mer- ao serviço do regime dominante dos direitos
cado nos oferecerão as cidades dos nossos favoráveis à circulação e acumulação de ca-
sonhos. Mas os efeitos práticos desta utopia pital. Aquilo a que chamo «acumulação por
neoliberal nas nossas vidas e cidades, na espoliação» é o lema dominante.3
nossa segurança e perspectivas não têm sido

2
Harvey, D., Spaces of Hope (Edimburgo, Edinburgh 3
Harvey, D., A Brief History of Neoliberalism (Oxford,
University Press, 2000). Oxford University Press, 2005).
Utopias dialécticas 47

O direito colectivo à cidade desapareceu. todos os lugares, sem excepção. Nos Estados
A cidade transformou-se para dar lugar às Unidos, para vermos um caso paradigmáti-
engrenagens crescentes das financeiras, dos co, também se tem permitido que o máximo
empresários, dos especuladores e dos usurá- de um por cento dos cidadãos aumentasse
rios. O resultado é o desnecessário despoja- os seus rendimentos em mais de 8 por cen-
mento (desemprego, perda do acesso à habi- to em 1970 e próximo dos 20 por cento na
tação, etc.) no meio da abundância. Daí os actualidade. Ainda mais dramaticamente o
sem-abrigo e os pedintes no Metro. A fome máximo de 0,1 por cento das pessoas que
ocorre num mundo em que há excesso de têm rendimentos aumentaram a sua quota
alimentos. As necessidades básicas, como entre 2 e até superior a 6 por cento do ren-
água potável, são negadas àqueles que não dimento nacional entre 1978 e 1998 (hoje,
têm possibilidades de as pagar. Os excluídos certamente será ainda maior). Isto tem acon-
são obrigados a beber água em rios infesta- tecido em todos os lugares onde ocorreu o
dos de cólera. Este é o resultado da acção retorno ao neoliberalismo. O neoliberalismo
dos mercados livres. É isto que a defesa dos foi simplesmente acontecendo com base na
direitos inalienáveis da propriedade privada restauração do poder de classe para uma pe-
e da corrida ao lucro significam, indepen- quena elite de executivos e financeiros. Com
dentemente das afirmações mais piedosas influência desproporcional sobre os meios
emanadas pelos principais centros do poder de comunicação social e sobre o processo
capitalista. Até o Banco Mundial admite que político, essa elite tenta convencer-nos de
a pobreza, absoluta ou relativa, tem aumen- como estamos todos melhor sob um regime
tado, e não diminuído, nos anos dourados neoliberal de poder político-económico. E
do neo-liberalismo no mundo. No entanto, para eles, que vivem confortavelmente nos
continua obstinadamente a afirmar que só seus guetos dourados, o mundo é realmente
através da propagação dos direitos neolibe- um lugar melhor. As cidades contemporâ-
rais, da propriedade privada e da corrida ao neas estão mais segregadas, fragmentadas
e fracturadas pela riqueza e poder do que
lucro através do mercado é que a pobreza
jamais estiveram. Esta não é a cidade social-
pode ser eliminada, quando o resultado, re-
mente justa dos meus sonhos.
conhecido pelas Nações Unidas, é a produ-
ção de um «planeta de bairros de lata».4
«Cada forma de governo emite leis de acor-
do com os seus interesses», diz Trasímaco na
Por razões óbvias que se servem a si pró-
República, de Platão, de tal forma que «o
prias, aqueles com riqueza e poder apoiam
direitos e liberdades que relacionam com a justo é sempre igual em toda a parte; a van-
máquina do sonho neoliberal, procurando tagem é sempre do mais forte». Karl Polanyi
convencer-nos da sua universalidade e da diz o mesmo com outras palavras: quando
sua bondade. Trinta anos de liberdades neo­ a ideia de liberdade «degenera numa mera
liberais trouxeram-nos imensa concentra- defesa da livre iniciativa» ela passa a ser «a
ção de poder nas empresas de energia, dos liberdade plena para aqueles cujo rendi-
meios de comunicação, dos produtos farma- mento, lazer e segurança não necessitam de
cêuticos, dos transportes e até de retalho e crescer e uma mera esmola para a maioria
construção. A liberdade do mercado acaba das pessoas que em vão procuram, fazen-
por ser nada mais do que os meios conve- do uso dos seus direitos democráticos, a
nientes para espalhar o poder do monopólio protecção dos detentores da propriedade.5
das empresas, condomínios e Coca-Cola por
5
Polanyi, K., The Great Transformation: The Political
and Economic Origins of our Time (Boston, Beacon
4
Davis, M., Planet of Slums (Londres, Verso, 1996) Press, 1957), pp. 249-58
48 Os novos desafios da vida urbana

O neo-liberalismo utópico provocou movi- mo dialéctico correspondente. A História está


mentos de oposição. Alguns defendem que pejada de fracções dessa ideia. Para Saint-Si-
outros processos, tais como as lutas de clas- mon não há ordem social que possa mudar
se, anti-racismo ou feministas, nos conduzi- sem que as qualidades da nova ordem este-
rão à perfeição do comunismo, socialismo, jam já presentes de forma latente na ordem
anarquismo, feminismo, ecologismo e por aí previamente estabelecida. As revoluções não
adiante. Infelizmente, estes esquemas utópi- são cortes abruptos, embora possam virar
cos alternativos dos processos sociais falha- tudo do avesso. Direitos antigos podem res-
ram de forma fatal (como se tornou evidente surgir e outros, novos, podem ser definidos:
em todas as raras tentativas de os imple- como o direito à cidade que, como comecei
mentar). São demasiado abstractos para dar por dizer, não é meramente o direito de ace-
resposta aos problemas que surgem quando der ao que os especuladores imobiliários e
os seus programas são postos em prática. A os planeadores do Estado definem, mas um
territorialidade do poder e da organização direito real de modelar as cidades de acordo
política é vista como neutra no que respeita com as nossas aspirações e refazer o conceito
às pessoas (quando a prática nos demonstra que temos de nós próprios.
que as configurações espaciais são parte in-
tegrante das relações sociais). As utopias dos Um utopismo dialéctico não pode ser um
processos sociais ignoram aquilo que acon- assunto puramente individual, porque a ci-
tece quando muros, pontes e portas cons- dade é, ela própria, um produto colectivo. O
tituem o cenário da acção social, quando utopismo dialéctico tem de ser um projecto
comunidades fechadas, fronteiras e barreiras colectivo, um direito de exercício colectivo
nacionais são estabelecidas, tornando-se o que dependa de forma decisiva da criação de
ponto de partida da exclusão e da discrimi- uma política colectiva de transformação dos
nação (veja-se o exemplo dos kibbutz israe­ espaços e lugares da cidade, das condições
litas que começaram por ser socialistas e ambientais e das práticas sociais numa nova
com o tempo se tornaram corporativistas e configuração. A criação de novos espaços
empresariais). comuns urbanos, incluindo os resultantes de
políticas e de competição públicas explíci-
Obviamente, raras ou nenhumas vezes os tas, uma nova esfera pública de participação
direitos e as liberdades são concedidos por democrática activa, exige o recuo da imensa
aqueles que têm o poder. Como dizia Marx vaga de privatizações que tem constituído o
«perante direitos iguais vence a força». Ha- lema do neo-liberalismo demolidor dos últi-
verá, inevitavelmente, uma luta, mas uma mos anos. Libertemos os centros comerciais
luta para quê? Se todas as utopias de mode- das estruturas de vigilância e de poder! Te-
lo espacial são insatisfatórias porque procu- mos de imaginar uma cidade mais inclusiva,
ram suprimir a força da mudança histórica mesmo que permanentemente fraccionada,
e se todas as utopias do processo social são baseada não só numa ordem diferente de
igualmente repressivas porque negam a im- direitos, mas também em práticas político-
portância da organização espacial urbana, -económicas distintas e com um acesso mais
então que conceito de cidade deve ser pro- livre aos espaços urbanos. Os direitos dos
curado? indivíduos ao respeito pela dignidade hu-
mana e à liberdade de expressão são dema-
A resposta está, em parte, na formulação de siado preciosos para serem ignorados, mas
Park. Se, ao construir a cidade nos refazemos há ainda que acrescentar a estes o direito
a nós próprios, então, claramente, esta é uma de dar uma resposta às mudanças da vida
proposição dialéctica que requer um utopis- que beneficie toda a gente, salvaguardando
Utopias dialécticas 49

o mais elementar apoio material, a inclusão, permanentemente a novidade, e se os seres


o acesso e a diferença. A tarefa, como suge- humanos são, como a História evidencia,
re Polanyi, consiste em expandir a esfera de imensamente imaginativos e criativos na
liberdades e de direitos para lá dos limites procura dessa novidade, então a cidade não
estreitos que o neo-liberalismo impõe. se pode permitir transformar-se numa confi-
guração espacial gélida e esclerosada. Man-
O direito à cidade é um direito real de re- ter os espaços urbanos abertos e flexíveis,
configurar a cidade de outra maneira, de a construindo lugares que possam ser publica-
adequar mais às nossas necessidades e de- mente apropriados e disputados, conferindo
sejos colectivos e assim mudar os nossos aos universos da memória e do desejo for-
quotidianos, de redesenharmos as práticas mas materiais e configurações espaciais de
arquitectónicas (por assim dizer), para en- perpétua esperança, são as propostas para a
contrar uma forma alternativa de podermos prática do utopismo dialéctico.
continuar a ser simplesmente seres huma-
nos. Este direito deve estar sempre na or- Se o nosso espaço urbano for imaginado e
dem do dia. Se, como disse um dia Alfred construído, poderá ser permanentemente re-
North Whitehead, a natureza busca e cria -imaginado e reconstruído.
Espaço público

Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman (Poznan, Polónia, 1925), sociólogo, é profesor


emérito de Sociologia da Universidade de Leeds, onde foi director
de departamento de 1972 até à data da sua aposentação (1990),
e na Universidade de Varsóvia, onde leccionou nos anos 60. Lec-
cionou, também como professor convidado, em diversas universi-
dades de todo o mundo, como em Tel Aviv (Israel) e na Austrália,
antes de se fixar em Leeds.

Bauman é conhecido em todo o mundo pelas suas obras, como


Legisladores e intérpretes (1987), Modernidade e Holocausto
(1989), Modernidade e Ambivalência (1991) e A Ética Pós-mo-
derna (1993).

Recebeu o Amalfi European Prize (1990) e o Adorno Prize (1998),


os mais altos galardões para um sociólogo de reputação europeia
e mundial.
Espaço público

«Ágora é o lugar onde oikos (casa, reino do manecer vigilante e cautelosa com o apeti-
«privado») e oikoumene (a política, esfera te para a conquista que pode levar um ou
do «público») se encontram. Eles reúnem-se outro dos parceiros do diálogo a apropriar-
para conversar, e o propósito explícito ou -se do espaço do encontro totalmente para
implícito de troca (em todas as suas formas o si mesmo, tomando-a sob a sua própria e
- de discursos formais recebidos com aplau- exclusiva administração e permanentemente
sos, assobios ou vaias , do argumento frio ou limitar o direito de entrada do outro parcei-
quente, de arenga ou prelecção, negociação ro, reservando-se o direito de monopólio ou
ou discusão, etc) é chegar a uma solução sa- quase monopólio da tradução oficial. Assim
tisfatória ou pelo menos a uma tradução em como o vento só existe através da acção de
duas direcções aceitável: de preocupações soprar, e o rio que flui, a Ágora só existe atra-
e desejos privados em questões públicas, e vés da actividade livre contínua, sem restri-
das necessidades públicas e ambições em ções e sem interrupção de tradução.
direito privado e deveres. É na ágora que o
espaço compacto que integra particulares Idealmente, ambos os limites, portanto, se-
numa totalidade social (seja ela uma tribo, parando a Ágora do domínio do privado de
uma comunidade local, um estado-nação, e, um lado e do domínio do público, por ou-
prospectivamente, a humanidade) é sempre tro, são marcados por dois sentidos de tráfe-
uma nova renegociação, reforma e reconfir- go pesado. Ocasionalmente, no entanto, o
mação. tráfego através de um ou outro limite pode
ser reduzido a um fio que possa tornar a tra-
A Ágora deve ser, portanto, um espaço aco- dução, que é a razão de ser da ágora e sua
lhedor ao mesmo tempo, e igualmente, para modalidade de ser, insuficiente ou ineficaz,
os recém-chegados de domínio público e que pode estar até mesmo totalmente pre-
do privado, mas para ser e permanecer aco- so. Nenhuma das fronteiras não são nada a
lhedor, é preciso defender firmemente a sua não ser seguramente fortificadas; mal guar-
independência de ambos. Não pode ser pro- dadas e eminentemente permeáveis, ambos
priedade ou meramente um posto avançado continuam vulneráveis e estão permanente-
de uma das duas. Se fosse assim, o fluxo de mente expostas à invasão. Como a necessi-
tradução seria constantemente ameaçado dade de deixar a tradução para os perigos
pela ruptura e os resultados poderiam ser da livre iniciativa e livre de oposição pode
distorcidos. No caso extremo, a tradução se- ser sentida por cada um dos lados pesada e
ria ficar paralisada e resultar numa falha de desconfortável, suprimindo essa necessida-
comunicação, como uma das duas línguas de e espero que se livre dele completamente
eliminaria a outra que era para ser encontro pelo menos por um momento, ao invadir e
em condições de igualdade. conquistar a Ágora está em todas as vezes a
tentação dos actores tanto do sector privado
Convidando tanto para o oikos como para como da esfera pública. A Ágora nunca está
a oikoumene, a Ágora, portanto, deve per- segura e raramente se sente auto-confiante.
54 Os novos desafios da vida urbana

Ela não pode contar com a boa vontade dos Alemanha, na sequência do brutal desman-
ocupantes de um dos dois reinos vizinhos e telamento de instituições democráticas e
com a sua submissão voluntária ao código da invasão e conquista da Ágora do Estado.
de comportamento (com a regra de respeito Pode-se dizer, parafraseando Marx, que du-
mútuo, em especial) que deve ser observado rante a maior parte do século passado, um
se o diálogo continuar sem esmorecer. A so- fantasma pairou sobre a Europa: o espectro
brevivência da Ágora depende unicamente do totalitarismo, seja na sua versão fascis-
do seu próprio espírito de independência e ta ou na sua versão comunista. E a marca
do seu próprio ritmo e vigor. mais visível do totalitarismo foi a coloni-
zação intransigente da Ágora pelo estado e
Durante a maior parte do século XX, as a sua submissão à autoridade exclusiva do
mentes mais perceptíveis e perspicazes de estado.
todo e qualquer político / denominações
ideológicas concentraram sua atenção preo­ A tentação de invadir e colonizar a Ágora e
cupada quase exclusivamente na fronteira / as ameaças que os Estados podem sucum-
primeira linha que separa / que liga a Àgora bir a essa tentação parecia ainda mais rea-
e Oikoumene, na sua versão moderna, res- lista para o realismo das ambições estatais
pectivamente, e bürgerliche Gesellshaft1 e para a exclusiva e indivisível soberania ter-
Estado-nação. A maior parte deste século, ritorial. Embora às vezes todas as realidades
foi vivido na sombra de dois poderes totali- do poder estarem paradas longe do ideal
tários baseados na regra a nível mundial, e avançada pela reivindicação de soberania,
da sua memória fresca traumática. que chegou mais perto de modelo comple-
to e descomprometido como da soberania
O impacto dos dois regimes totalitários es- do Estado que em qualquer outro período
palhou-se muito além das fronteiras do seu da história, e certamente muito mais do que
estado. As respostas radicais e totalitárias no nosso tempo de globalização acelerada,
implacáveis à incerteza vexatória associada planeta atravessado por uma informação de
com as configurações sociais centradas em formas e queda no valor de defesa do es-
torno de roda livre tipo polígono, a Ágora paço. No final do processo de construção
(configurações conhecidas sob o nome de da nação associado com a fase «sólida» da
«democracia») foi considerada pelos ha- modernidade, a possibilidade de se integrar
bitantes de muitos regimes democráticos socialmente, culturalmente e economica-
nomeadamente como modelos para copiar; mente grandes territórios e as suas popula-
jornalistas dos órgãos de imprensa mais ções em totalidades políticas foi acompa-
proe­ minente dos países democráticos, os nhado pela capacidade técnica de cercar
próprios símbolos do espírito democrático tais totalidades por fronteiras praticamente
que algumas décadas antes pareciam domi- impermeáveis dentro do qual a plena sobe-
nar o mundo pós-iluminista e ser percebido rania, e no tripé económico, cultural e po-
como o ápice do progresso político / ético, lítico das autarquias em que foi presumido
líricas ao pintar a imagem de ordem, a es- e tiveram deficar, poderia ser eficazmente
tabilidade, a paz social e a disciplina dos prosseguido, estabelecido, e doravante, de-
cidadãos, que desceram sobre a Itália ou a fendido.

1
O seu equivalente Inglês, «sociedade civil» é um
pouco enganador. Na tradução, a união pessoal entre
o proprietário / gerente da oikos e do cidadão da po-
lítica, presumida pela compressão dos seus nomes em
alemão, foi perdida.
Espaço público 55

Enquanto uma ágora vigorosa e cheia de re- dos, o seu carácter ilimitado o torna espe-
cursos composto pela rede de associações cialmente eficaz em relação ao indivíduo,
autónomas e instituições parece o meio o seu carácter silencioso faz com que a
mais confiável e durável para cumprir essa seja mais fácil de o legitimar, e seu carác-
possibilidade, a «inclinação totalitária» ter dinâmico transforma-o num mecanis-
(como Hannah Arendt lhe chamou), a ten- mo de silenciamento que pode ser cada
dência para continuar através de atalhos, ao vez mais confiável.
invés de seguir voltas e reviravoltas de rotas
longas e arriscadas teve que ser levada em Esse método de distorção comunicativa mais
consideração - dada a crescente capacidade sofisticado e refinado (mas pelo mesmo mo-
e desenvoltura dos poderes do Estado. «Ata- tivo mais difícil de se notar e de resistir) irá
lhos», para pedir emprestada a terminologia em toda a probabilidade aumentar em im-
de Jürgen Habermas fermentou para multi- portância à custa de expedientes ortodoxos.
plicar as distorções comunicativas, impedin- Pela primeira vez, é potencialmente mais
do a todos ou a alguns postulados prestes a eficaz, uma vez que é mais radical: ele lan-
entrar na Ágora do outro,»o final provado, ça a repressão política fora do âmbito do
de ser articulado, e em alguns casos a arti- discurso político e a acção é reconhecida
culação já ocorreu, antecipando a possibili- como prática política, batendo no ponto
dade de os expressar. A arregimentação dos em que é barrada a entrada na Ágora aos
media e da censura dos seus conteúdos são os postulados ainda que não tenha atingido
mais conhecidos e uma vez das mais utili- o limite de articulação e assim, da política.
zadas ferramentas de distorção intencional, Além disso, e ainda mais importante, inde-
mas também há uma menos crua, menos sa- pendentemente das vantagens do «silêncio
liente e menos intrusivo (e, portanto, menos silencioso» possa ter, alternativas ortodoxas
propensos a provocar resistência) significa como a arregimentação dos media e a cen-
o mesmo efeito, no valor de (como Thomas sura torna-se cada vez mais difícil a aplica-
Mathiesen2 o coloca), «silêncio silencioso»- ção de qualquer medida de sucesso, tendo
em conta a globalização do fluxo de infor-
um processo «que está tranquilo em vez mação ter evoluído por agora muito além do
de barulhento, oculto ao invés de aberto, alcance dos poderes do controle de gestão
despercebido e não visível, invisível e não do Estado. Essas alternativas estão, porém, a
visto, não - físico mais do que físico.» O tornar-se cada vez mais irrelevantes, e pro-
silêncio silenciador «é estrutural, é uma vavelmente até mesmo contra-producentes:
parte da nossa vida quotidiana, é ilimita- a produção cada vez mais intensa e a cada
do e por isso é gravado em cima de nós, vez mais rápida distribuição de informações
é silencioso e, portanto, passa desper- («distribuição» no sentido de «tornar dispo-
cebido, e ele é dinâmico no sentido em nível», mas não necessariamente no sentido
que se espalha na nossa sociedade e se de «entrega», deixando de lado a «aquisi-
torna sempre mais abrangente. O carácter ção», para não mencionar a «retenção»)
estrutural de representantes «isentos» do transformaram a informação da mais valiosa
silenciamento do Estado, da responsabi- fonte de conhecimento no maior impedi-
lidade, por isso, o torna «inevitável» do mento para a formação do conhecimento.
ponto de vista daqueles que são silencia- Quando uma edição de domingo do New

2
Ver Thomas Mathiesen, Silenciosamente Silenciadas:
Ensaios sobre a Criação da Aquiescência na Sociedade
Moderna, Waterside Press, 2004, p. 9, 14.
56 Os novos desafios da vida urbana

York Times contém mais informações do vavelmente podem) expor os indivíduos que
que um homem mais primorosamente edu- saíram da linha e/ou defender demandas
cado da Renascença encontrou no decurso impopulares com os poderes que são, para
de sua vida inteira, e dado que o volume de a ameaça de uma retaliação imediata ou até
informações criadas nos últimos 30 anos ul- mesmo a incapacidade de preferência, mais
trapassou o volume produzido nos anterio- um golpe na já diminuída auto-confiança
res quinze mil anos de história humana, a e determinação dos potenciais agentes da
informação e o conhecimento têm os seus Ágora.
caminhos separados e a diferença entre eles
parece estar a aumentar sem parar. A mentira política está na cara do oposto do
sigilo (ao contrário de segredos de Estado,
Entre os factores maioritariamente anti-ágora eles são declarados publicamente em voz
(desde que destrutor de comunicação), dois alta em o nome de «consciência pública»
outros fenómenos, talvez, actualmente po- e martelado com vigor incansável para bem
dem manter o estado de medo de invasão dos próprios «sujeitos»), embora a sua im-
da Ágora vivo: segredos de Estado e mentira plantação efectiva no ataque contra a liber-
política - ambos estão em rápido crescimen- dade da Ágora não seria viável se não for no
to tanto em volume como em frequência de pressuposto de que o Estado sabe de coisas
implantação, e (discutivelmente) no seu im- que os seus sujeitos são incapazes de apren-
pacto sobre a eficácia do debate político. der e melhor não saberem a menos que o
saber seja necessário «para o seu próprio
Segredos que já foram mostrados por Georg bem.» Contrariamente ao segredo (isto é, o
Simmel como sendo avidamente procurados estado de retenção de uma parte das infor-
por todos os lados num conflito para que mações que esse tem), no caso de uma men-
um dos lados possa obter mais do que um tira política, o estado fabrica um pedaço de
adversário privado do acesso aos factores informação que apenas finge possuir, apesar
potencialmente significativos da situação de novo, ser para o próprio bem dos sujei-
e, portanto, obrigado a tactear no escuro, tos não se poder divulgar o seu conteúdo e
onde e quando o outro lado se pode mover fontes; todo e qualquer questionamento pe-
com confiança. Além disso, a própria cons- los cépticos é, assim, desclassificado ante-
ciência (ou apenas uma mera suspeita) que cipadamente e obrigado a permanecer sem
o «outro lado» tem algumas partes (desco- resposta. Recorrer a uma mentira política
nhecidas e não - definíveis) da cena escura, envolve poucos riscos, uma vez que todas
gera uma atmosfera de incerteza e pode, em as provas possíveis e os argumentos são fir-
conse­ quência consumir profundamente a memente entrincheirados no reino inacessí-
auto - confiança e a determinação dos seus vel dos segredos de Estado, o bluff do esta-
potenciais detractores. Estes são efeitos ge- do não pode ser chamado, pelo menos não
rais e extra-temporais do segredo. Nos nos- «para além de qualquer dúvida razoável.»
sos tempos, no entanto, graças à crescente Em caso de decepção é desmascarado e ex-
facilidade de técnicas de recolecção, arma- posto pelos acontecimentos posteriores que
zenamento e processamento de informação, o Estado não pode controlar (como no caso
também o reino do segredo pode ter cresci- das armas de destruição maciça que Sa-
do enormemente em tamanho. Pode agora ddam Hussein teria sido capaz de esconder
(e pode com toda a probabilidade) incluir nas ilhas britânicas em menos de uma hora),
o «pessoal», muitas vezes informações ínti- o estado ainda pode contar com o espaço de
mas e, potencialmente, difamatórias e com- memória públicos lamentavelmente breve e
prometedoras, que também podem (e pro- continuamente em diminuição e os notórios
Espaço público 57

hábitos da atenção pública à deriva. A men- ser uma alternativa atraente. Para tornar esta
tira será rapidamente esquecida, ou no mo- nova legitimação da autoridade do Estado
mento da sua divulgação não será mais foco eficaz, os governos são tentados no entanto
de interesse público. Na maioria dos casos, em exagerar o volume e a intensidade das
as questões nunca serão definitivamente res- ameaças à segurança, estão também com
pondidas e os cépticos nunca seriam capa- uma necessidade desesperada de demons-
zes de provar que suas dúvidas eram funda- trar, em público a resolução e a eficácia na
mentadas, pelo menos não antes do fim do luta em resposta contra a ameaça, arrancan-
prazo legal (30 anos na Grã-Bretanha), de- do o mal pela raiz. No esforço de satisfazer
pois do qual os arquivos do Estado devam ser tanto as necessidades através da manuten-
abertos ao escrutínio público. Se os avisos do ção do clima de constante emergência, in-
estado sobre um desastre iminente não são certeza e ansiedade, a mentira política reve-
confirmados (como no caso de fecho tempo- la-se um expediente ideal; um estratagema
rário dos aeroportos e introdução de novas susceptível de ser inventado, não estivesse
«medidas de segurança» rigorosas e severas já firmemente enraizado na prática política.
após o anúncio da descoberta de uma cons-
piração que envolvia as «bombas líquidas»), O segredo de Estado, a mentira política, e a
nunca seria capaz de determinar com certe- promoção da segurança pessoal para a clas-
za se a ameaça não se concretizou graças à sificação de prioridades superiores públicas
vigilância do governo e eficiência das suas têm um impacto debilitante na Ágora. Elas
contra-medidas, ou porque foi baseado ou derivam da articulação e promoção de al-
enganado, informações reunidas de forma ternativas de questões públicas, antecipan-
descuidada e de outra maneira não confiável do assim a possibilidade de apresentação da
- ou até mesmo totalmente inventadas. sua gravidade e urgência para a apreciação
pública e formação de uma opinião públi-
Tudo isso garante que a expectativa de se ca informada e equilibrada. A longo prazo,
recorrer a mentiras políticas, num futuro prejudica as habilidades do público em dois
próximo se pode tornar mais comum nas sentidos, interesses privados versus questões
práticas governamentais. No tempo em que públicas, em tradução: que o sangue da
os estados urgentemente buscam novos fun- vida da ágora, e através dele da democra-
damentos para a sua autoridade e deman- cia viá­vel, a condição indispensável de uma
da de obediência (as fundações existentes, comunicação eficaz entre oikos e oikoume-
a promessa e, em grande medida a prática ne. Dessa forma, eles liberarem o espaço da
do «Estado social» em assegurar os cidadãos Ágora para outra invasão e conquista - ain-
contra os golpes do destino e individual- da que a partir do lado menos esperado: a
mente sofridos, apesar do infortúnio causa- invasão dos interesses individuais privados
do socialmente, tendo sido progressivamen- e as preocupações já não chegam à Ágora
te debilitado e temido de ser desmontado para procurar a sua tradução para o voca-
na totalidade), os cuidados de segurança bulário de tarefas comuns, mas para terem
pessoal (protecção contra alimentos, me- a sua privacidade e a sua individualidade,
dicamentos, gases nocivos ao organismo, quer queira quer não e, por padrão ao invés
contra criminosos sexuais, pedófilos e viola- de design, juntamente com a futilidade de
dores, vagabundos, perseguidores e mendi- qualquer tentativa de buscar soluções colec-
gos intrusivos, comportamento desviante em tivas para problemas individuais, reiterou e
locais públicos, motoristas em excesso de reforçou. Gostaria de sugerir que esta inva-
velocidade, ladrões, assaltantes, assaltantes são inesperada recente, actualmente em ple-
armados, terroristas, fumadores, etc.) parece no andamento, constitui a principal ameaça
58 Os novos desafios da vida urbana

mais terrível e menos resistível para a vivaci- ra aberta ao sector privado é um aspecto do
dade e eficácia da Ágora. Mas quais são as processo, mas o fornecimento de um escudo
fontes dessa nova ameaça? protector contra a eventualidade dos proble-
mas individualmente sofridos definindo a
A diminuição consistente da soberania do lista de tarefas comuns, é outra. Qualquer
Estado - Nação na sequência da cedência de tentativa de traduzir os problemas indivi­
muitos dos seus poderes aos órgãos supra- duais em questões públicas é provável que
-nacionais e outras potências evaporadas no seja reflectida de volta para a esfera da «po-
«espaço global de fluxos» (para usar a ex- lítica da vida» e volte para a lista de tarefas
pressão de Manuel Castells), tem um impac- que os indivíduos precisam de enfrentar e
to de desactivação das suas capacidades de tentar cumprir por conta própria, aceitando
lidar com muitas das funções que anterior- a responsabilidade total em caso eles acaba-
mente eram realizadas ou previstas e tinha rem em fracasso.
prometido realizar. Os poderes remanescen-
tes do estado ficam aquém do volume que Os indivíduos são deixados sozinhos, con-
os órgãos e instituições do Estado exigiriam denados a auto-critério, à auto-referência
abraçar toda a gama de suas funções anterio- e auto-ajuda. Votar ao abandono a comu-
res. De acordo com as circunstâncias, os go- nidade pré-concebida, pré-fabricada e pré-
vernos dos estados-nação vêem-se forçados -estabelecida da espécie a que pertencem,
a «contratar» uma grande e crescente parte antes de começar a agir, eles precisam para
do seu repertório tradicional para as forças tecer as suas próprias redes de protecção
de mercado politicamente descontroladas, social, podando o fio fino e friável dos la-
enquanto «subsidiam» grande parte do resto ços interpessoais (e os fios precisam de ser
do reino da «política da vida, «domínio da amarrados frouxamente, para os tornar mais
iniciativa individual, os recursos individuais fácil de desatar, quando a necessidade che-
e de responsabilidade individual, fechado ga como certamente irá chegar). Uma vez
dentro dos limites da oikos. que participam numa ou noutra iniciativa da
Ágora, as pessoas só se conhecem uns aos
O último processo ostensivamente «autori- outros, com excepção de alguns profissio-
za» o universo da oikos e os seus residen- nais ou compadres amadores, animadores
tes: na verdade, as tendências gémeas de ou conselheiros a conspirarem e a instiga-
«desregulamentação» e «individualização» rem as suas manobras e a pronunciar-se so-
amplamente divulgadas foram amplamen- bre os seus resultados. Não há nada à vista
te retratadas como passos decisivos para a que seja reconhecível como oikoumene.
emancipação dos indivíduos da pessoal- Qualquer que seja a «Totalidade» vista den-
mente dependência debilitante, intrusiva e tro de uma Ágora, só pode ser um produto
desagradável do «Estado-ama», e em suma lateral provisório de sua interacção, tão vo-
como uma expansão sem precedentes dos látil e frágil como as redes que tecem e o
poderes individuais para escolher e agir so- fio que usam para tecê-las. Essa «totalidade»
bre as escolhas feitas. Numerosos observa- é sempre ainda não - completa e até nova
dores, no entanto, repostaram que os indiví- ordem, eminentemente revogável a pedido,
duos, as metas do exercício pretensamente presumida desde o início (e esperada) para
emancipatório, encontraram os resultantes durar apenas o tempo que desejar, e não um
desafios da vida esmagadores e na sua pró- momento longo. Essa «totalidade» não é es-
pria maneira incapacitantes, ultrapassando perada ou desejada para substituir o ausente
as suas competências e recursos e no final da comunidade, a sua função é cobrir o va-
usurpador de poder. O lançamento da Ágo- zio deixado pelo desaparecimento das co-
Espaço público 59

munidades pré-fabricadas de outrora e pron- ção de estadia, a «rede» é feita de actos


tos para uso. Uma tarefa que é impossível, e de ligar tanto como de desligar. Se fazer
por isso precisava ser infinitamente repetida. parte da comunidade ortodoxa é «objecti-
Sugiro que os «totalidades» que diariamente vamente» definido, pré-determinado e não
emergem e desaparecem dentro da Ágora de é uma questão de escolha pessoal, a rede
hoje são melhores chamadas de «comunida- está envolvida em torno do indivíduo, jun-
des bengaleiro» (esta expressão metafórica tos através de uma acção individual e sua
se refere à «unidade de propósito» emergen- composição permanece eternamente mu-
te, para a duração de uma performance, no tável, a saída de uma comunidade benga-
bengaleiro de um teatro - quando vários in- leiro é tão fácil como entrar nela. A razão
divíduos se unem de longe para montar por de ser da comunidade ortodoxa era garantir
um curto período uma sala para pendurar que as ligações inter-humanas durassem e
os seus casacos, só para levá-los novamente os membros permanecem juntos ligados por
para fora dos cabides após o fecho da última lealdade mútua e a obrigação de que eles
cortina, cada um na sua própria direcção). não são livres de renunciar. Nas redes e nas
As comunidades bengaleiro são as comu- comunidades bengaleiro não é esperado ou
nidades à la carte. Eles compartilham com desejado que formar laços com membros
as «comunidades de pertença» a qualidade interminavelmente, deixados sozinhos para
de aproximarem pessoas, impregnando-as sempre, todos são, em princípio, renegociá-
com um propósito comum, inspirando ac- veis e podem ser renunciados no momento
ções sincronizadas, e legitimar (através da anunciado.
dimensão da empresa em que as acções são
realizadas), o padrão de conduta individual *
(embora de forma muito semelhante) segui-
do por todas as pessoas presentes. Elas não A popularidade persistente dos programas
compartilham porém, e tão enfaticamente, a «Big Brother» só pode ser explicada pelo
autoridade das «comunidades de pertença» seu ser a versão contemporânea do «jogo de
para determinar a composição da socieda- moralidade «, que representa de uma forma
de, e acima de tudo para tornar a sociedade condensada e reduzida ao essencial a lógica
(descrita apropriadamente como «perten- interna e, muitas vezes despercebida ainda
ça») uma obrigação tanto como representá- que fielmente seguindo os padrões de vida
-la como um direito. Ao contrário, no caso dos telespectadores diariamente.
das comunidades de pertença, a «pertença»
das «comunidades bengaleiro» (o que quer Os milhões viciados nos sucessivos capítu-
que o termo pode se referir no seu caso) não los do programa não encontram nenhuma
precede as interacções, nem pré-determina dificuldade em se identificar com o sofri-
o seu carácter, mas emerge no seu curso e mento dos personagens da saga interminá-
sofre uma paragem e torna-se história no vel do «Big Brother»: eles reconhecem no
momento do fim das interacções. lote dos residentes da casa do «Big Brother»
as suas próprias experiências e descobrem
Sintomaticamente, o termo «comunidade», o seu sentido até então negligenciado e
está a ser substituído no social-científico, não - descoberto ou apenas semi-intuído.
assim como no vocabulário vernáculo pelo O programa «Big Brother» consistentemente
conceito de «rede». Se a ideia de comu- tenta dar a entender descaradamente, aber-
nidade, tradicionalmente transmitida pela tamente, em plena luz e deixando pouco à
imagem de saídas fechadas, de um pré- imaginação, a verdade oculta de um mundo
-determinada e difícil duração da interrup- salpicado de entradas e saídas de e para as
60 Os novos desafios da vida urbana

comunidades bengaleiro endemicamente E estas são as cerimónias de exclusão nor-


frágeis e de curta duração. mais, repetitivas que fornecem os destaques
do programa. Estes são os dias que os vicia-
Na realidade, em cada ronda sucessiva dos esperam com a respiração suspensa, es-
outro conjunto aleatório de indivíduos re- tes são os eventos em que as apostas são fei-
solve instalar-se por um tempo na casa do tas e os residentes, juntamente com aqueles
Big Brother, sem antecedentes de contactos que vêem as suas provações e atribulações
anteriores e sem laços mútuos para justifi- em ecrãs de TV, trabalham para, e pensam
car a sua união (assumidamente temporária) em...
nova. Eles todos carregam suas próprias bio-
grafias, tão diferentes quanto as biografias Depois da série de exclusões se ter esgotado,
indivi­duais possam ser, e assim também as os residentes desaparecem da vista, afun-
suas próprias experiências idiossincráticas, dando-se de volta em nenhum lugar do qual
variadas, caracteres, temperamentos, expec- surgiram no início do programa. Enquanto
tativas, preferências... O que quer que seja os observadores, perdendo o foco por um
que os vai unir ou dividir nas próximas se- tempo uniram os pedaços espalhados das
manas, obviamente primeiro deve evocar, suas preocupações, também vão cair e dis-
sustentar com seu próprio esforço e negociar persar-se, cada um perseguindo como antes
do zero. Os residentes não têm muito tempo as suas próprias metas e trajectórias. Espera-
para realizar tal tarefa complexa e difícil. A mos, no entanto, que o tempo gasto assistin-
hospitalidade do dono da casa e gerente não do e debatendo o drama do «Big Brother»
é garantida, pelo contrário, os residentes são não seja desperdiçado. Os observadores
informados de forma inequívoca que o que vão acabar enriquecidos. Eles poderão ago-
eles façam a sua estadia na casa estará limi- ra responder melhor a questão de como é a
tada, que não é com eles determinar esse li- vida: a vida é como é vista no reality show
mite, e que o limite para a negociação não é chamado «Big Brother».
por si só negociável. Como eles procedem é
da sua escolha, mas seguir em frente ou sair «Big Brother» é um retrato da vida con-
para fora não é questão de escolha... temporânea. Eu sugiro que ele possa servir
como uma semelhança da Ágora contem-
O lento e inepto entre os residentes será porânea. Como o cenário observado de
prontamente eliminado antes de mais tenta- perto e vigiado do mundo esotérico do «Big
tivas. Se quiserem ficar, eles devem superar Brother», apresentado aos telespectadores,
o resto do grupo antes de serem enganados sob a rubrica de «reality show», equivalen-
por eles. A exclusão do jogo não depende te contemporâneo / substituição / substitu-
do quanto ambiciosos e inteligentes eles to da Ágora é inscrita apenas por interesses
são, mas quem provar ser o mais ambicioso privados, interesses e compromissos - com
e inteligente do que os outros. O dia de ex- «questões públicas» e os seus pretensos
clusão tem de chegar e chegará, inevitavel- porta-vozes mantêm a distância, deixando o
mente, na verdade, a cada semana um mem- exercício privado para «encontrar seu pró-
bro do grupo deve ser banido da sociedade, prio valor» em rivalidades mútuas e da con-
seja qual for o número de indivíduos que corrência, questão de manifestar a sua neu-
se situam abaixo do padrão de inteligência, tralidade e aderindo a uma regra do «não
zelo e astúcia. Não é tanto o «merece» pelas nos telefone, nós lhe telefonamos». Os inte-
suas vítimas, dado que a ordem não-nego­ resses privados e ambições deixam a Ágora
ciável de coisas é que é a causa principal da contemporânea confirmada e reforçada no
exclusão. seu estado quo ante: o de indivíduos auto-

Espaço público 61

-sustentáveis e autopropulsionados que nos tarde considerado insatisfatório, qualquer


esforços para resolver os seus problemas in- solução será, mais cedo ou mais tarde cha-
dividuais, porém articulado, podem derivar mado e ser pressionado a ser renegociado,
pouco da companhia dos outros, excepto o e a busca por uma fórmula (não alcançável)
reforço da sua vontade própria para se con- ideal vai continuar. Na variedade contem-
centrar em interesses individuais e persegui- porânea da Ágora, no entanto a decisão já
-los a qualquer custo para os outros, e que está decidida antes de ser tomada. Invaria-
pode ganhar ainda da lealdade, do compro- velmente, é o compromisso que é apontado
misso com a fidelidade nada a longo prazo como a necessidade de se justificar em ter-
(para não falar por tempo indeterminado), mos de um serviço prestado à escolha, sendo
da cooperação e da solidariedade. também negado o direito de esperar e exigir
o mesmo do seu adversário. No caso de um
Resolver o conflito entre o compromisso e a confronto entre os dois, o resultado a favor
escolha é de facto o tema constante de toda da escolha é predeterminado pelas regras do
(e crescente) família dos programas de Te- jogo da vida. No conflito interminável entre
levisão da realidade para o qual o ritual re- a liberdade de escolha e a segurança de ser,
corrente da guerra de estilo de atrito do «Big a realidade, «como é vista na televisão» tal
Brother» travada por todos contra todos, se como a realidade quotidiana experimentada
destaca como o membro mais popular e pelos telespectadores, toma partido.
publicamente aclamado. O conflito entre o
compromisso e a escolha (uma das muitas E assim são todas as realidades conhecidas
manifestações da oposição principal entre por serem criadas até à data para a convi-
a segurança ea liberdade), é muito real, é vência humana e, através dela. Nenhuma
claro. Maiores compromissos restringem a das realidades conhecidas nunca atingiram
escolha, a escolha mais forte enfraquece o o extremo seriam arduamente e autocon-
compromisso. A liberdade de escolha torna fiantemente defendidas e / ou obrigadas.
inseguro o compromisso, embora o compro- Mas cada uma torceu o equilíbrio entre os
misso torne insegura a viabilidade da esco- valores da concorrência para um ou para
lha. O ideal (para não falar da exploração) outro pólo. Cada uma tornou mais fácil e
de resolução desse conflito é inconcebível, provavelmente a preferência dada a um va-
uma vez que os dois valores conflituosos de lor, e mais difícil e improvável uma prefe-
liberdade e segurança são igualmente in- rência dada ao outro. Mas em nenhum caso
dispensáveis para uma vida decente e agra- a guerra de atrito entre dois valores indisso-
dável, enquanto que a reconciliação é tão ciáveis atingiu o seu objectivo ostensivo. No
plausível como a quadratura de um círculo entanto as restrições impostas graves e no
ou a construção de um movimento perpé- entanto as forças incansáveis, esmagadoras
tuo. Nenhuma resolução, duradoura dado e sem escrúpulos, que tentam impô-las, a li-
que leva pouca ou nenhuma discordância, berdade humana mostrou ser indestrutível,
provavelmente, nunca será encontrada - so- mesmo os comandantes dos campos de con-
mente poderá acordos serão colocado em centração e dos campos de trabalho russos
prática (não é esperado que os «acordos» nunca conseguiram inteiramente destrui-la.
durem, eles são considerados concessões Considerando, no entanto o quanto opressi-
provisórias, e muitas vezes explicitamente vo o compromisso incondicional possa sen-
apresentados como, condicionais, passagei- tir, a sua atracção foi, provavelmente, nunca
ros e, acima de tudo revogáveis). Qualquer desaparecer completamente, mas mostrar-se
equilíbrio mútuo entre o compromisso e a determinado a sobreviver, mesmo que ape-
escolha será votado a ser mais cedo ou mais nas de forma rudimentar, e mesmo se rele-
62 Os novos desafios da vida urbana

gado para as margens, o ressentimento mais um longo tempo, talvez para sempre. Com
virulento. No futuro, as relações tempestuo- todas as pressões actuais (quer seja coerciti-
sas entre o «individual» e a «comunidade», va, persua­siva ou lavagem cerebral, que é a
tanto quanto na sua longa história, os gritos mistura de persuasão com coerção), entregar
«volta comunidade, está tudo perdoado», uma parte ou mesmo a totalidade da liber-
muito provavelmente a ser ouvido intermi- dade de escolha em nome do compromisso
tentemente pelo ou ao longo das trombetas não foi feito impossível. Foi apenas mais di-
dos combatentes da liberdade individual. fícil, mais arriscado e mais caro (a saber, me-
nos popular...). Forçado a combater possibi-
Contrariamente à sugestão dada a entender lidades incríveis contra o qual se encontra
pelas variedades mais populares da Ágora de pé, parece improvável que seja o curso
contemporânea, o que tem sido discutido da acção tomada pela «maioria estatística»
até agora não implica que o triunfo actual de homens e mulheres contemporâneos e de
de escolha sobre o compromisso seja defi- uma «maioria estatística» das suas situações
nitivo ou completo. O tribunal ainda está de vida.
sentado, e vai permanecer sentado durante
Lidar com a
heterogeneidade:
migrações, alterações demográficas
e consequências culturais*

Blair A. Ruble

Nascido em Nova Iorque, Blair A. Ruble é actualmente director do


Instituto Kennan do Wilson Center, em Washington, onde exerce tam-
bém o cargo de director do Programa de Estudos Urbanos Comparati-
vos. Licenciou-se (1971), com distinção máxima, em Ciência Política,
em Chapel Hill – Universidade da Carolina do Norte, e obteve os
graus de mestre e doutor pela Universidade de Toronto (1973, 1977).
B. A. Ruble trabalhou no Conselho Nacional de Investigação em
Estudos Soviéticos e da Europa de Leste (entre 1982 e 1985) e no
Conselho de Ciências Sociais e Investigação em Nova Iorque (en-
tre 1985 e 1989).

Tem vasta obra publicada: destacam-se os estudos monográficos e


uma trilogia sobre o “destino” das cidades das províncias russas,
ao longo do século XX [Leningrado. Shaping a soviet city (1990);
Money sings! The Changing Politics of Urban Space in Post-Soviet
Yaroslavl (1995); Second Metropolis: Pragmatic Pluralism in Gil-
ded Age Chicago, Silver Age Moscow, and Meiji Osaka (2001)].
Em 2005 Ruble editou Creating Diversity Capital, uma monografia
sobre as mudanças ocorridas nas cidades de Montreal, Washing-
ton D.C. e Kiev após a chegada das comunidades emigrantes trans-
nacionais.

*
O autor gostaria de agradecer a Marjorie Mandelstam Balzer, Lisa Hanley, Galina
Levina, Boris Koptin, Renata Kosc- Harmaty, Liz Malinkin e Mejgan Massoumi pela
sua colaboração na elaboração deste capítulo.
Lidar com a heterogeneidade

Uma curiosa história surgiu na imprensa de entrelaçar de culturas e religiões que carac-
Montreal há dois invernos atrás.1 No meio terizam a vida de Montreal, no alvorecer do
de um típico Fevereiro rigoroso do Québec, século XXI. Filipinos, latinos procedentes de
pais filipinos e hispânicos andavam com os vários cantos do globo, sacerdotes da Igreja
filhos doentes pelas ruas cheias de neve de Ortodoxa Grega, e Católicos Romanos pro-
um pequeno complexo de apartamentos no curam agora São Lourenço, em busca dum
bairro de periferia de São Lourenço. As mães símbolo do milagre cristão descoberto por
e os pais desesperados imploravam a uma um muçulmano devoto.
imagem da Virgem Maria para curar os seus
filhos doentes. Abderezak Mehdi, o gerente A metrópole francesa do Canadá não é a
muçulmano de um bloco de apartamentos única. Os Migrantes de todos os tipos - imi-
da baixa, descobriu a imagem da Virgem no grantes, emigrantes, refugiados, deslocados,
lixo. De acordo com Mehdi e o padre Orto- trabalhadores convidados têm-se tornado
doxo Grego Michel Sayde, a Virgem derra- numa presença significativa nas comunida-
mava lágrimas de óleo que poderiam curar des urbanas em todo o mundo. De acordo
os enfermos e atormentados. Michel Parent, com a Divisão da População das Nações
o chanceler da Arquidiocese Católica Ro- Unidas, cerca de 200 milhões de pessoas
mana de Montreal, aconselhou cepticismo, - ou 3 por cento da população - vive fora
observando que «embora fosse verdade que do país onde nasceu.2 Tais projecções po-
nada é impossível para Deus, historicamen- dem não contar com as pessoas que vivem
te, não é assim que Deus age». num novo país sem a documentação com-
pleta, nem englobam os migrantes que se
Essa pequena cena de cura passava-se num deslocam de um lado para o outro das fron-
bairro sombrio construído numa época em teiras de um determinado Estado. A popula-
que Montreal estava profundamente dividi- ção mundial está em constante movimento,
da entre os falantes do Francês e do Inglês afectando todas as sociedades mundiais.
- os chamados francófonos e anglófonos,
em meados do século XX, no Québec. Du-
rante as últimas três décadas, essas barreiras Diversidade em movimento
linguísticas foram absorvidas por um novo
As pessoas não se movem apenas; assentam
1
Esta história foi originalmente relatada em Ann
num determinado lugar. Num mundo, no
Carroll, «Faithful Flock to See Virgin Mary’s Tears of qual pela primeira vez, a maioria dos seres
Oil» Montreal Gazette (28 de Fevereiro, 2004). Este humanos vive em cidades, são cada vez mais
reconto já tinha aparecido anteriormente em Blair os migrantes que se estabelecem em áreas
A. Ruble, Criaçao da Capital da Diversidade. Os
Migrantes Transnacionais em Montreal, Washington e
Kiev (Washington, Baltimore / DC, Maryland: Woodrow
Wilson Centre Johns Hopkins University Presses, 2005), 2
Jason DeParle, «In a World on the Move, a Tiny Land
p. 43-44, e em «Cidades Heterógeneas» Blair A. Ruble, Strains to Cope», New York Times (24 de Junho de
Wilson Quarterly, vol. 30, n º. 3 (2006), pp 56-59. 2007).
66 Os novos desafios da vida urbana

urbanas de vários tipos. Os recém-chegados, des devem criar um senso compartilhado de


sejam eles do estrangeiro, de outra cidade responsabilidade por um futuro comum. As
ou do campo - perturbam os sistemas de do- comunidades urbanas precisam de ampliar
minio económico e político. A sua presença o seu conjunto de respostas para a diversida-
força as comunidades de acolhimento, mais de, a fim de acomodar os recém-chegados,
uma vez a enfrentar questões latentes, que assim como os imigrantes se devem adaptar
supunham terem sido resolvidas num passa- ao novo ambiente. As estratégias locais para
do distante. promover «o capital de diversidade» devem
procurar maximizar os benefícios e minimi-
Os processos pelos quais as comunidades zar as interferências das forças globais que
migrantes se incorporam numa determina- promovem a migração em todas as regiões
da região urbana, variam de cidade para do planeta.3
cidade. A história do lugar, as identidades
da comunidade, e as políticas públicas têm A expansão da reserva de capital da diver-
impacto nesse processo. Além de enfrenta- sidade de uma comunidade baseia-se numa
rem as barreiras da língua, discriminação estratégia holistica que trata de resolver, si-
racial, culturas diferentes, e os mercados de multaneamente múltiplas necessidades hu-
trabalho hostis, que constituem um grande manas. As comunidades devem reconfigurar
desafio à integração, os imigrantes são obri- a vida local, a fim de promover a acomoda-
gados a encontrar um equilíbrio adequado ção da diversidade e reconhecer para todos
entre a manutenção da integridade cultural os seus residentes o «direito à cidade».4 Elas
e étnica, ao mesmo tempo aberto às oportu- necessitam de fornecer lugares de encontro
nidades sociais, políticas e económicas da protegidos aos quais as pessoas diferentes
sua nova cidade. A necessidade de abordar vão e voltem, e interajam uns com os ou-
as questões do processo de integração cres- tros, sem entrar em conflito e confronto. Os
ce em importância à medida que as forças residentes na Comunidade têm de aprender
da globalização ampliam as disparidades de a usar o espaço, num sentido literal e figu-
rendas em áreas urbanas, como as oportu- rativo, e de novas formas. As escolas têm
nidades de emprego, educação e serviços necessidade de educar os alunos a aceitar a
básicos se contraem. Como é que comuni- diversidade como parte e parcela do mun-
dades urbanas e os migrantes se ajustam à do em torno deles. A diversidade deve ser
medida que se acomodam às novas realida- deixada de ser vista como uma ameaça ao
des das migrações transnacionais massivas bem-estar de uma comunidade ao tornar-se
deste século? reconhecida como uma oportunidade para
o sucesso económico.
Para serem bem sucedidas aquando desse
fluxo global rápido de pessoas como no iní- Tais mudanças na forma como a vida é vi-
cio do século XXI, as comunidades urbanas vida não são facilmente asseguradas. As
devem aceitar simultaneamente a diferença cidades em todo o mundo estão cheias de
e identificar os pontos comuns de referên-
cia. As lendas locais, memórias, e o relato
da história deve ir além do entendimento de
3
Para uma discussão mais aprofundada sobre o con-
ceito de «Capital de Diversidade», ver A. Blair Ruble,
exclusão da sociedade para aceitar um plu- Criação da Capital da Diversidade: Migrantes Transna-
ralismo inclusivo. Por outras palavras, a iden- cionais em Montreal, Washington e Kiev.
tidade cívica deve abraçar uma variedade de 4
Para uma discussão mais aprofundada acerca do con-
grupos e indivíduos urbanos. Mesmo que ceito «Direito à Cidade», ver Don Mitchell, O Direito
à Cidade. O Espaço da Justiça Social (New York: The
tenham sido divididas, no passado, as cida- Guilford Press, 2003).
Lidar com a heterogeneidade 67

tentativas frustradas em realizar todas essas havendo comunidades pobres em áreas pe-
metas; falhas que muitas vezes têm sido riurbanas e na periferia da cidade. O dete-
marcadas por explosões de violência na co- riorado centro histórico da cidade remonta à
munidade. Conseguir acomodar a diversida- época colonial e pré-colombiana, enquanto
de criada pelos imigrantes recém-chegados - as zonas residenciais da classe média e dos
sejam nacionais ou transnacionais - mesmo abastados no interior são separadas do res-
de forma parcial ou temporal é o objectivo tante da cidade por uma miríade de barrei-
primordial na hora de pensar como devemos ras físicas, psicológicas e simbólicas.6 Essas
organizar a heterogeneidade. divisões têm uma longa história. Os coloni-
zadores espanhóis transformaram a cidade -
que surgiu como um importante centro no
Remodelação do espaço, norte do Império Inca no final do século XV
aprender com Quito - num importante centro colonial estabeleci-
do em conformidade com as Leis da Índia de
Reconfigurar o espaço público de modo a in- inspiração grega de 1523. Uma explosão de
centivar as várias comunidades que integram industrialização pós-colonial levou a uma
a cidade para compartilhar uma experiência expansão dramática da cidade no virar do
mútua de comunidade representa um desa- século XX, ao qual o desenvolvimento mo-
fio incómodo para os líderes municipais no derno orientado para a indústria automóvel
momento em que os meios buscam separar- adicionou centros comerciais alternativos e
-se eles próprios da sociedade em geral. As bairros residenciais para os abastados no fi-
recompensas políticas e económicas favore- nal do século.7
cem os esforços para a privatização do espa-
ço através da concessão de privilégios a pro- Na década de 90, o centro histórico da cida-
jectos comerciais ou através da construção de de Quito continua a ser o ponto fulcral da
de muros e portões. A paisagem fragmentada vida política e religiosa local, enquanto um
resultante acentua a diferença ao invés de novo centro comercial na zona norte tinha
promover um senso de destino compartilha- emergido como o lar de grandes empresas
do. Isto é especialmente verdade nas cida- internacionais. Os migrantes que fogem da
des que lutam para gerir a migração de um pobreza rural foram atraídos para as praças
interior rural pobre, ao mesmo tempo que da cidade colonial e para os monumentos,
estabelece relações com uma economia ca- os bairros mais antigos de Quito tornaram-
pitalista global.5 Previsivelmente, poucas ten- -se o lar de uma vibrante economia informal
taram revigorar os seus centros das cidades dominada por vendedores ambulantes. Os
para atrair capital internacional, ampliando a líderes municipais começaram a encontrar
presença e a participação dos seus morado- maneiras de atrair turistas internacionais e
res mais pobres. Quito, Equador, marca um da burguesia local para o centro da cidade,
contra-exemplo importante para a persegui- que oferecia os símbolos que tinham sido
ção global explícita da exclusão social. partilhados no passado.

Como toda a América Latina, Quito está
dividida em diferentes zonas territoriais,
6
Para uma discussão mais aprofundada sobre o desen-
volvimento de Quito, consulte Fernando Carrión e Lisa
M. Hanley, Regeneração Urbana e Revitalização nas
Américas: Rumo a um estado estável (Washington, DC:
5
Susan Chrisopherson, «A Cidade Fortaleza: Espaços Kennan Institute of the Woodrow Wilson Center, 2007).
Privatizados», em Ash Amin, editor, Pós- Fordismo: Um 7
Lisa M. Hanley e Ruthenburg Meg, «As consequências
leitor (Oxford: Blackwell Publishing, 1994), pp 409- simbólicas de Revitalização Urbana: O Caso de Quito,
427. Equador», em Ibid., Pp 177-202.
68 Os novos desafios da vida urbana

O desejo de impulsionar o valor simbóli- público e privado para uma estratégia de


co de um distinto bairro histórico não era desenvolvimento compartilhado. Os líde-
particularmente invulgar para um conti- res aproveitaram o transporte, a seguran-
nente em que as elites locais tinham sido ça pública e as políticas ambientais para
por muito tempo tentadas a integrar a pre- promover a criação de emprego estável,
servação do património nos planos de de- bem como dar expressão a interesses co-
senvolvimento económico.8 Normalmente, lectivos.11
tais planos procuraram deslocar os pobres
e moradores indígenas através de várias Os vendedores informais foram envolvidos
formas de controlo social e coesão a fim de em negociações extensivas que se concluí-
aumentar o nível de conforto dos visitantes ram com a sua passagem dos mercados mó-
de classe média.9 As elites de Quito mo- veis para mercados mais formais e lojas.12 Os
veram-se na direcção oposta. Baseiam-se esforços de Quito não foram totalmente bem
discussões sobre o futuro do centro histó- sucedidos. A criminalidade tem diminuído
rico da cidade para criar símbolos cívicos no centro histórico, o turismo tem aumenta-
compartilhados por todos os residentes de do e os vendedores informais foram incorpo-
Quito, e para aumentar a participação dos rados numa economia comercial próspera.
cidadãos, entre comunidades deslocadas O centro de imagens simbólicas e espaços
anteriormente.10 públicos começaram a criar um sentimento
do que significa viver em Quito que é com-
No início do século XXI, os líderes políticos partilhado por dezenas de milhares de mo-
de Quito abraçaram uma visão estratégica radores da cidade que têm pouca coisa em
para a sua cidade, sendo esta baseada em comum. No entanto, as barreiras à entrada
“recuperar” o centro da cidade. O objecti- no sector formal da economia continuam a
vo era ampliar a participação dos cidadãos ser elevadas, muitas vezes obrigando os mo-
nos assuntos municipais através de discus- radores mais pobres da cidade a irem mais
sões de como o centro histórico podia ser para a periferia da cidade física e para a mar-
revitalizado. Uma sociedade diversificada gem da sociedade. A sociedade de Quito
deu voz a noções muito diferentes sobre o permanece fragmentada pela classe social,
que pode significar a preservação histórica. etnia, língua, raça e região; A identidade de
Por exemplo, respostas díspares surgiram Quito continua a ser altamente controver-
sobre o equilíbrio adequado entre a pre- sa e contestada.13 A experiência demonstra
servação de heranças indígenas e coloniais tanto as possibilidades e os limites impostos
da cidade. As autoridades locais tentaram para a promoção do espaço público, inclu-
maximizar a participação e a transparên- sive a ausência de mudanças estruturais na
cia como forma de aproximar os sectores sociedade.

8
Fernando Carrión M., «O Centro Histórico como um
objecto de desejo», Ibid, pp 19-65; Garcés Eduardo
Kingman e Ana Maria Goetschel, «O património como
um dispositivo de disciplina e banalização da memória:
uma leitura histórica dos Andes», Ibid, p.
9
Como foi o caso da maior cidade do Equador, Guaya-
quil, durante os últimos quinze anos. Veja X. Andrade,
«Mais Cidade, Menos Cidadania: Renovação urbana e 11
Ibid.
a aniquilação do espaço público», Ibid, pp 107-141. 12
Lisa M. Hanley e Ruthenburg Meg, «As consequên-
10
Mena Diego Carrión, «Quito: Os Desafios de uma cias simbólicas de Revitalização Urbana: O Caso de
Nova Era». Ibid., p. 151-156. Os Novos Desafios da Quito, Equador», Ibid, p. 214-215.
Vida Urbana. 13
Ibid., Pp 198-199.
Lidar com a heterogeneidade 69

Ensinar a diversidade, oficial de 09 de Outubro de 2002, a popu-


aprender com São Petersburgo lação de São Petersburgo perdeu quase 350
mil moradores para 4,661,219.18 Em 2007, a
A fragmentação urbana social de diferentes população da cidade tinha diminuido para
tipos tem estado a ocorrer na segunda maior 4,596 milhões, que ainda fazia de São Pe-
cidade da Rússia, São Petersburgo, na última tersburgo a quarta maior cidade da Europa,
década e meia. O trauma que acompanhou depois de Londres, Moscovo e Paris.19
o colapso da União Soviética acelerou um
declínio geral na saúde e no tamanho da Escondida por trás desta imagem de declí-
população da cidade. Durante a década de nio está a chegada de milhares de novos
noventa, a esperança média de vida mascu- residentes que se mudaram para a cidade,
lina e de nascimentos caiu na cidade a um muitas vezes de fora das fronteiras da Fede-
ritmo mais rápido do que em qualquer outra ração Russa, em resposta à procura dos em-
das oitenta e nove regiões do país.14 Doen- pregadores de trabalho locais. A economia
ças cardíacas fulminantes, acidentes e can- da cidade entrou num período de cresci-
cro continuaram a ceifar a vida dos homens mento explosivo por volta de 1999 liderada
russos tragicamente curta desde então. De- pelo porto em expansão, juntamente com a
pois de atingir 65 anos de idade em 1987, rápida recuperação da construção naval e
a esperança de vida masculina na União da indústria automobilística.20 Como con-
Soviética e, posteriormente, na Rússia caiu sequência dessas várias tendências, o que
para menos de 59 anos de idade até 2003.15 tinha sido uma cidade quase exclusivamen-
Este padrão de mortalidade masculina alta te de etnia russa no final do período sovié-
foi acentuado dentro da cidade de São Peter- tico tornou-se o lar de mais de um milhão
sburgo.16 Como no resto do país as taxas de
nascimento e as taxas de fertilidade diminuí­
ram simultaneamente.17

O impacto combinado destas tendências na


população da cidade tem sido devastador.
O quinto milionésimo residente da cidade
nasceu em Fevereiro de 1988 até ao censo

14
Walberg Peder, Martin McKee, Shkolnikov Vladimir,
Raphaelle Laurent, Leon A. David, «Mudança Econó- 18
Pavel Viacheslavovich Rusakov nasceu com grande
mica, Crime, Crise e Mortalidade na Rússia: Análise aparato como o habitante número 5,000,000 de Leni-
Regional», British Medical Journal, v. 317 (7154); 1 de negrado a 25 de Fevereiro de 1988. «S dnem rozhde-
Agosto de 1998. niia, Leningradets!», Sovetskaia Rossiia (February 26,
15
Irina Titova, «A esperança de vida russa em queda», 1988). Os números oficiais do Censo de 2002 da Fe-
St. Petersburg Times (17 de Janeiro de 2003). deração Russa podem ser encontrados no Serviço de
16
Vladimir M. Shkolnikov, Alexander D. Deev, Øystein Estatísticas, Números e Distribuição da População do
Kravdal, Tapani Valkonen, «As diferenças educacionais Estado da Confederação Russa: Resultados de todos os
na mortalidade masculina na Rússia e norte da Europa. censos russos de 2002 (Moscow: Russian Federation Fe-
Uma comparação de um estudo epidemiológico gera- deral State Statistics Service, 2004), Vol. 1, p. 93.
cional de Moscovo e São Petersburgo com as popula- 19
Sobre a população recente de São Petersburgo, con-
ções masculinas de Helsínquia e Oslo», Demographic sulte o site oficial do Governo da Cidade de São Peters-
Research, vol. 10, article 1, pp. 1-26 (9 de Janeiro de burgo http.//eng.gov. spb.ru/figures/population.
2004). 20
De acordo com o site oficial do Governo da cidade
17
Julie Da Vanzo e Gwen Farnsworth, A crise demográ- de São Petersburgo, a produção industrial cresceu cer-
fica da Rússia (Santa Monica, CA: RAND Corporation, ca de 131.4 % apenas em 2002 http.//eng.gov.spb.ru/
1996). figures/industry
70 Os novos desafios da vida urbana

de não - Russos.21 Nem todas as pessoas da comunidade. O assassinato particularmen-


cidade estavam satisfeitas com estes desen- te horrível a 09 de Fevereiro de 2004 de
volvimentos. O pensamento racista tem pro- uma menina Tadzhik de nove anos de ida-
fundas raízes intelectuais na Rússia, como de, Khursheda Sultanova, por um grupo de
em outros lugares.22 Um aumento da hostili- adolescentes locais levaram a Governado-
dade étnica e racial na Rússia após o colap- ra da cidade de São Petersburgo, Valentina
so da União Soviética, parece ser agudiza- Matvienko a falar pela primeira vez contra
do por uma tendência similar na Europa.23 o aumento da violência racista na sua cida-
Com demasiada frequência, o pensamento de.26 A comunidade local e os líderes polí-
levou à acção. O aumento da violência ticos começaram a lutar pela melhor forma
“neo-nazi”, desafiou as autoridades de toda de formular uma resposta sistemática para o
a Rússia.24 São Petersburgo, em particular, conflito intercultural.
tem sido assolada por violentos e repugnan-
tes ataques racistas e xenófobos a indivídu- Em Julho de 2006, o Governo de São Peter-
os que parecem não ser «russos». Relatórios sburgo lançou um «programa de tolerân-
dos meios de comunicação russos e inter- cia» que visava «promover a harmonia das
nacionais sobre esses tais incidentes ame- relações interétnicas e interculturais, e evi-
açam os esforços da cidade para atrair os tar tendências ultranacionalistas, e o forta-
próprios migrantes nacionais e transnacio- lecimento da tolerância para todos em São
nais que são essenciais para apoiar o cres- Petersburgo».27 As autoridades da cidade
cimento económico da cidade.25 Os oficiais formularam o programa com base em ampla
da cidade ficaram vivamente preocupados consulta das agências policiais locais, espe-
com o aumento das tensões interculturais e cialistas académicos, líderes da sociedade
tendências ultranacionalistas dentro de sua civil e autoridades educacionais.

Entre as metas do programa estão uma maior


21
Entrevista com Boris Aleksandrovich Koptin, chefe da
administração de contactos com Associações Nacionais coordenação entre as agências da cidade em
de St. Petersburgo do Comitê Governamental para as questões de tolerância, a ampliação das ini-
Relações Externas, São Petersburgo, Rússia, 25 de Abril ciativas para integrar as nacionalidades que
de 2007. Para uma discussão mais aprofundada sobre a vivem na cidade na vida pública e cultural,
evolução da composição étnica da cidade ao longo de
sua história, ver: A. Blair Ruble, Leningrado. Criando um maior esforço para preservar e desenvol-
uma cidade soviética (Berkeley, CA: University of Cali- ver o património cultural de todos os grupos
fornia Press, 1990), pp 54-56; Iukhneva NV, Etnicheskii dentro da cidade, uma mais forte aplicação
sostav i sotsial’naia struktura naseleniia Peterburga: das leis destinadas a prevenir a violência ét-
Vtoraia polovina XIX - XX Nachalo Veka: Statisticheskii
analiz (Leningrado: Nauka - Leningradskoe otdelenie, nica e punir os autores de crimes de ódio,
1984) e, GV Starovoitova, Etnicheskaia sovremennom bem como a melhoria da comunicação
v gruppa Sovetskom gorode. Sotsiologicheskie ocherki entre as várias comunidades e autoridades
(Leningrado: Nauka - otdelenie Leningradskoe, 1987). locais através da criação da linha telefónica
22
Para a discussão sobre as raízes do pensamento racis-
ta na Rússia, consulte Shnirel’man VA, Ocherki sovre-
mennogo racizma (Petrozavodsk: KRO «Molodzehnaia 26
Shnirel’man VA, «moskovskikh Chistil’shchiki ulits:
pravozashchitnaia gruppa», 2007). skinkhedy», SMI i obshchestvennoe mnenie, pp 86-
23
Ibid., Pp 30-37. Ibid.
24
Para a discussão do surgimento da «Skinkul’tura» 27
Pravitel’stvo Sankt-Peterburga Komitet sviaziam
na Rússia, Veja Shnirel’man VA, «ulits moskovskikh vneshnim po, «Programma mezhetnicheskikh garmoni-
Chistil’shchiki: skinkhedy, SMI i obshchestvennoe mne- zatsii i otnoshenii meshkul’turnykh, profilaktiki proiav-
nie» (Moscou: Academiia, 2007). lenii ksenofobii, ukrepleniia nd v tolerantnosti Sankt-Pe-
25
Ver, por exemplo, «Quatro condenados a penas pesa- terburge 2006 - 2010 gody (programa «Tolerantnost»)»
das por morte violenta de africano», Moscow Times (20 (Sankt-Peterburg: Pravitel’stvo Sankt-Peterburga, 2006).
de Junho de 2007).
Lidar com a heterogeneidade 71

«St.Petersburg - A Cidade da Paz».28 A cidade do «divertida». As suas salas de chat, festas


tem disponibilizado fundos para incentivar e espetáculos são cada vez mais populares
associações étnicas locais, especialmente entre os estudantes, jovens gestores e outros
aquelas que representam a cidade de 200 membros de uma classe média crescente lo-
mil Azeris, 150 mil Tártaros, assim como cal que se encontram à procura de diversão
muitos grupos menores, como a comunida- com riqueza suficiente para se ligarem à in-
de judaica histórica de São Petersburgo para ternet, nos pubs locais em caves (traktir), e
organizar festivais culturais.29 em concertos.31

Mais ambiciosamente, os funcionários mu- A socialização relativamente espontânea
nicipais trabalharam com o Ministério da gerada pela «Tolerância Com Estilo» e ou-
Educação da Federação Russa para introdu- tras iniciativas auto-organizadas reuniu pe-
zir um abrangente programa de tolerância quenos grupos de elites em ascensão de
em todo o sistema de ensino da cidade. Esta diferentes comunidades étnicas, religiosas e
iniciativa destina-se a integrar «uma com- sexuais. As autoridades municipais querem
preensão da diversidade étnica e religiosa, o associar uma interacção intercultural mais
interesse para outras culturas, o respeito pe- difundida, com o divertimento. Trabalhando
los seus valores, tradições e especificidades com associações locais de origem étnica,
das suas formas de vida» em todos os aspec- o governo de São Petersburgo tem apoiado
tos do currículo escolar, em todas as disci- uma série dos festivais de promoção da di-
plinas, durante o programa escolar primário versidade cultural ao longo do ano. De lon-
e secundário. Simultaneamente, o currículo ge o maior e de maior sucesso entre esses
escolar deve ser reprojectado para promover esforços tem sido uma encenação local do
a rejeição do chauvinismo e do extremismo. festival de Sabatunyi realizada na altura das
Às crianças em idade escolar e aos jovens famosas «noites brancas» na cidade, em me-
devem ser ensinadas as competências para ados de Junho.
interagir mais pacificamente com os outros
que são diferentes deles próprios.30 Celebrado nas aldeias do Volga central antes
da chegada do Islão, o Sabantuyi fundiu-se
Além de fazer a diversidade e a tolerância com outros festivais locais durante final do
parecerem «melhores», os funcionários século XIX tornou-se um símbolo da nação
em causa e os moradores da cidade ten- Tártara32 Secularizado durante o período so-
tam fazer com que a diversidade e a tole- viético, o Sabantuyi é agora uma celebração
rância pareçam «fixes», organizações não- anual de tradições com música, dança, co-
-governamentais, tais como a Tolerância mida e jogos Tártaros. A maioria dos festivais
Com Estilo patrocinou eventos em redor da Sabantuyi inclui uma forma distinta de luta
cidade incentivando os jovens a abraçar a livre Tártara, corridas de cavalos, concursos
tolerância como estando «na moda» e sen- e muitas competições saudáveis; combina-

31
EE Chebotareva, «Tolerância Com Estilo: Análise
28
Ibid, pp. 8–19. Conceptual da Gestão Empresarial num Ambiente
29
Entrevista a Boris Aleksandrovich Koptin, 25 de Abril Multi-Cultural», trabalho para conferência, Conferência
de 2007. Internacional Académica-Prático sobre Tolerância e In-
30
Pravitel’stvo Sankt-Peterburga Komitet po vneshnim tolerância na Sociedade Moderna, Universidade Estatal
sviaizam, «Programma garmonizatsii mezhethnicheski- de São Petersburgo, São Petersburgo, Rússia, em 25 de
kh I meshkul’turnykh otnoshenii, profilaktiki proiavlenii Abril de 2007.
ksenogobii, ukrepleniia tolerantnosti v Sankt-Peterburge 32
«Saban tuyi», na Enciclopédia Tártara (Kazan‘: Insti-
na 2006 - 2010 gody (programma «Tolerantnost»)», pp. tuto da Enciclopédia Tártara, Academia de Ciências da
12-13. Républica do Tártar istão, 2002).
72 Os novos desafios da vida urbana

dos com muita comida e música que vão O início do programa de tolerância na cida-
desde coros folk à música rock estridente. de pode parecer surpreendente relacionada
Os presidentes Russos Boris Yeltsin e Vladi- com a imagem generalizada do desenvol-
mir Putin, têm abraçado a festa como uma vimento político russo contemporâneo que
maneira aparentemente benigna para de- acentua um afastamento das instituições da
monstrar a diversidade do seu país, embo- sociedade civil, uma tendência em direc-
ra o Sabantuyi mantenha um forte senso de ção à retórica nacionalista e uma crescen-
identidade Tatar autónoma. te separação entre o Estado e sociedade. A
experiência de São Petersburgo sugere que
O Sabantuyi de São Petersburgo é realizado esse entendimento convencional da política
fora da cidade, na vizinha região de Leni- contemporânea russa é limitado. Mais signi-
negrado com o apoio do governo da cida- ficativamente, o programa de tolerância de
de, das administrações regionais, federais e São Petersburgo indica que as autoridades
da Tartária, bem como o apoio de grandes da cidade não têm de ser inibidas nos seus
empresas locais.33 Mais de 60 mil compare- esforços para enfrentar os desafios da hete-
ceram no Sabantuyi de 2006, duplicando o rogeneidade pelas limitações de um maior
número de pessoas a fazerem o caminho de ambiente político nacional.
menos uma hora até ao norte da cidade em
2007 para um campo ao longo da autoestra- O impacto do programa de tolerância de
da Siargi fora da vila de Kuzmolovo. Uma São Petersburgo está longe de ser certo.
vez lá, os residentes de São Petersburgo pas- Ataques de gangues eticamente e racica-
sam o dia a desfrutar de passeios, a explorar mente inspirados continuam com uma fre-
exposições culturais Tártaras, e a ouvir uma quência assustadora nas ruas da cidade,
variedade de música a partir de três grandes no sistema de transportes públicos e nos
palcos. parques e outros espaços públicos. A res-
posta da Polícia a tais incidentes continua
Para as autoridades locais, as celebrações a ser decepcionante, enquanto o sistema
Sabantuyi representam um esforço para tor- judicial se esforça para dar seguimento aos
nar a diversidade «normal» e «confortável». julgamentos. Os orçamentos para financiar
Vêem a popularidade óbvia do festival como estes programas de actividades são inade-
uma oportunidade de espalhar a palavra de quados.
que o convívio com pessoas que são diferen-
tes - pelo menos no ambiente controlado de A mudança profunda teve lugar na sequên-
um encontro empresarial e reuniões patro- cia da resposta de São Petersburgo à intole-
cinadas pelo município - não é ameaçador. rância cultural e racial ao longo dos últimos
Essa forma doméstica de interacção cultural dois a três anos. O governo da cidade e os
é vista como um reforço das qualidades da seus líderes estão firmemente a condenar a
sua cidade. Não menos importante, as au- intolerância e a violência. As agências da ci-
toridades acreditam que o Sabantuyi ajuda dade promovem activamente oportunidades
as pessoas a perceberem que «a diversidade para destacar as contribuições dos diversos
pode ser divertida».34 grupos económicos para o bem-estar geral
da cidade. Os funcionários municipais abra-
çam publicamente a diversidade com mais
33
Por exemplo, o Grupo Interleasing foi um dos prin- entusiasmo do que nunca antes na história
cipais patrocinadores corporativos para o Sabantuy de russa. Finalmente, esforços a longo prazo
São Petersburgo de 2007 (www.ileasing.ru). estão em curso para assegurar que os futuros
34
Entrevista com Boris Aleksandrovich Koptin, 25 de
Abril de 2007. residentes de São Petersburgo considerem a
Lidar com a heterogeneidade 73

diversidade como sendo uma maneira de es- ção de imigrantes do exterior.39 Em segundo
tar comum no século vinte e um.35 lugar, os migrantes para Montreal, como em
todo o Canadá, têm cada vez mais chegado
das Caraíbas, África, Ásia e América Latina.40
Tirando benefício da diversidade, Em terceiro lugar, os imigrantes de ­Montreal
aprendendo com Montreal vieram cada vez mais das sociedades de lín-
gua francesa na África, Caraíbas, e Sudeste
Montreal tem evoluído ao longo do último Asiático.41 Uma consequência dessas ten-
terço do século de uma cidade dividida en- dências surgiu na contagem do Censo de
tre dois fundamentos linguísticos e comu- 2001 no Canadá, que revelou que «minorias
nidades culturais - Francês e Inglês - numa visíveis» tinham-se tornado quase um quinto
complexa metrópole inter-cultural enraizada (18,7%), da população global da cidade.42
no conhecimento geral comum do Francês.36
Na maioria dos recentes anos, a economia Esta transformação é mais evidente nos prin-
da cidade tem-se expandido dado que uma cipais bairros transnacionais de Montreal,
comunidade de líderes de negócios e de di- tais como o Côtes-des-Neiges e o vizinho
rigentes políticos aprenderam a tirar proveito
destas mudanças. Na verdade, a migração
transnacional para Montreal durante os pri-
meiros anos do século XXI tornou-se essencial
para o bem-estar da cidade dadas as precipi-
tadas projecções contrárias, de queda da po-
pulação total e da força da migração laboral.37

A emigração recente para o Canadá mudou 39


Em 2001, 43,7% da população metropolitana de To-
em três dimensões que reformularam a ex- ronto era de origem estrangeira, como era de 37,5%
da população da á rea metropolitana de Vancouver.
periência urbana da Montreal.38 Em primeiro Ambos os valores são sensivelmente mais elevados do
lugar, os fluxos migratórios transnacionais que os 18,4% estimados dos residentes na área metro-
passaram de Montreal para Toronto e para o politana de Montreal. (E apenas 2,9% dos moradores
oeste do Canadá à medida que as incertezas da região do Québec), que nasceram fora do Canadá.
Os números do Censo 2001 estão disponíveis online
económicas geradas pelos debates sobre a no site do Statistics Canada no (http://www.statscan.ca).
soberania do Québec desvalorizaram a re- 40
D.F. Levy e L.S. Bourne, «O contexto social e a diver-
gião de Montreal como uma área de recep- sidade do Canadá Urbano», p.23. Para uma discussão
mais ampla da experiência de imigrantes asiáticos no
Canadá, ver os ensaios contidos em Eleanor Laquian,
35
O objectivo de tornar a diversidade «normal» para as Aprodicio Laquian e Terry McGee, editores, O debate
crianças das escolas da cidade é vista como um objec- Silencioso: Iimigração Asiática e o Racismo no Canadá
tivo essencial para o programa. (Vancouver, BC: Instituto de Investigação da Ásia, da
36
Para uma discussão mais aprofundada dessas tendên- Universidade de British Columbia, 1998).
cias em Montreal, ver Blair A. Ruble, Criating Diversity 41
Denis Helly, L’ immigration pour quoi faire (Montre-
Capital: Transnationa Migrants in Montreal, Washing- al: Institut de Recherche sur Québécois sur la cultura,
ton, and Kyiv, pp 34-44. 1992).
37
Um ponto referido em vários estudos, como relata- 42
L’INRS-Urbanização, Cultura e Sociedade, Retrato
do em Radio-Canada, «L’imigracion: uma apport de das populações imigrantes e não imigrantes e da cidade
l’essentiel Montrealaise économie» (30 de dezembro de Montreal e os seus 27 dsitritos (www2.ville.montre-
de 2003). al.qc.ca / Diversité / portrait.htm). Os Censos Canadia-
38
Peter S. Li, «Desconstruindo o discurso do Canadá nos identificaram canadianos «de descendência negra,
sobre a Integração dos Imigrantes», Journal of Interna- do sul da Ásia, China, Sudeste da Ásia, Árabe e do
tional Migration and / Integração Revue de l’intégration Oriente Médio, América Latina, coreana, japonesa, fili-
et internationale de migração la, vol. 4 º, n º. 3 (2003): pina e do património «como constituindo» as minorias
315-333. visíveis» do país.
74 Os novos desafios da vida urbana

Notre-Dame de Grâce43. Por vezes conheci- Dadas as inimizades históricas entre angló-
do como o «Bronx» de Montreal, o Côtes- fonos e francófonos bem como entre católi-
-des-Neiges em particular, tornou-se casa cos e protestantes «que são», nas palavras da
para os Africanos, os Árabes, os Camboja- jornalista do La Presse Laura Julie Perreault,
nos, os Judeus, os Filipinos, naturais do Laos, «uma espécie de milagre através do qual
Vietnamitas, Chineses, Latino-Americanos, Montreal não se tornou uma segunda Irlan-
Portugueses, Haitianos, e membros de vá- da do Norte».47 Pelo contrário, como reporta
rias outros grupos que vivem em estreita Perreault, o antigo regime multi-confessio-
proximidade uns com os outros.44 Na déca- nal da cidade com 350 anos tornou-se uma
da de 90, os bairros Côtes-des-Neiges e o ferramenta de marketing para a indústria
Notre-Dame de Grâce eram casa para mais burguesa do turismo da cidade. O resultado
de 154 mil moradores que sustentam os flo- nem sempre é feliz, como se pode ver nos
rescentes distritos dominados por pequenas romances populares de Stephen Henighan
empresas locais de investidores étnicos.45 As sobre Montreal do final de nosso século.
empresas locais estavam a produzir receitas Para citar o autor de uma revisão da história
de publicidade durante o início dos anos 90 de Henighan de 2004 «As Ruas do Inverno»,
suficientes para apoiar duas dezenas de jor- os habitantes de Montreal são incapazes, ou
nais das etnias e dos bairros publicados em não querem abrir mão do preconceito indi-
diversas línguas africanas, árabe, camboja- vidual e cultural, nostalgia e da expectativa
no, hebraico, filipino, laociano, vietnamita, que os aliena nas suas buscas pela verdadei-
chinês, latino-americano, crioulo francês, ra Montreal. Uma vez profundamente divi-
francês do Quebéc, e inglês.46 dida pela linguagem, Montreal converteu-se
«numa grelha de muitas solidões».48
Montreal entrou no século XXI com uma
mistura surpreendente de comunidades étni- Esta «grelha de solidões» tem recuperado
cas, religiosas, raciais e linguísticas, muitas algum do seu dinamismo económico histó-
vezes sem limites bem definidos entre elas. rico em parte porque os novos habitantes
de Montreal foram chegando todos os dias.
Migrantes de zonas próximas do Quebec,
43
Côte-des-Neiges tem sido objecto de extensa pesqui- no Canadá, e mais além representam novas
sa em ciências sociais, em parte devido ao seu carácter
diverso e complexo e, em parte, devido à presença no adições críticas a uma força de trabalho
bairro da Universidade de Montreal e do seu corpo do- que, de outra maneira, poderia estar em de-
cente e estudantes. Uma excelente colecção de artigos clínio acentuado. O crescimento futuro da
sobre diversos aspectos da vida do bairro na década economia regional de Montreal depende da
de 1990 pode ser encontrada em: Deidre Meintel, Vic-
tor Piché, Danielle Juteau e Sylvie Fortin, editores, Le actualização do perfil de competências e da
Quartier Côtes-des- Neiges Montreal um. Les interfa- entrada de trabalhadores mais jovens numa
ces de la pluriethnicité, (Montreal / Paris: L’Harmattan, população envelhecida que tem ficado
1997). atrás do Canadá e das regiões metropolita-
44
Myriame El Yamani com o auxílio de Jocelyne Dupuis:
«Bronx» construção La mediatique du de Montreal, em nas dos EUA em resultados de educação.49
idem, pp 29-52. Os migrantes têm reforçado a vitalidade
45
Daniel e Sylvie Juteau Paré, «empreendedorismo
L’Côtes-des-Neiges: le périmètre Victoria / Van Horne»,
em Ibidem, p. 129-160. 47
Laura Julie Perreault, «Embouteillage sur le dieu - pris
46
47 Myriame El Yamani com o auxílio de Jocelyne Montrealais», La Presse (12 junho de 2004).
Dupuis, «A construção mediática do «Bronx» de 48
Solie Karen, «As muitas solidões em Montreal», Glo-
Montreal» p.35. Para uma discussão mais alargada da be and Mail (12 de Junho, 2004).
imprensa «étnica» de Montreal, ver Sylvie St-Jacques, 49
«Análise Territorial da OCDE de Montreal», OECD
«Des Nouvelles de leurs mondes», La Presse (21 de Observer Policy Brief (Paris, OCDE, 2004), p. 2-3
Abril, 2004). (www.oecd.org/ publications /) Pol_brief.
Lidar com a heterogeneidade 75

económica da cidade e da região e devem ves estudos de caso revelam o quão difícil é
continuar a agregar valor à economia local a tarefa de reorganização das comunidades
se a cidade está a prosperar. A experiência urbanas para a heterogeneidade poder ser.
de Montreal demonstra a necessidade de in- O espaço público foi reconfigurado em Qui-
culcar migrantes urbanos em estratégias de to, para ser mais abrangente; os currículos
desenvolvimento económico. A diversidade escolares foram reescritos em São Petersbur-
deve ser reconhecida como uma oportuni- go para promover a tolerância, e o empreen-
dade para o sucesso económico para que a dedorismo; Montreal criou mais empregos
cidade e a região se desenvolvam economi- entre os migrantes transnacionais. Poucos
camente. visitantes e residentes iriam identificar estas
cidades como sendo um ideal urbano.

Multiplicando investimentos na diversidade As políticas são insuficientes, porque


melhorar em qualquer domínio urbano
As experiências de Quito, São Petersburgo produz a procura de melhorias noutras
e Montreal sugerem que a política urbana áreas. Mais espaço público inclusivo deve
e os líderes comunitários em várias cidades ser preenchido através de uma melhor
do mundo estão a esforçar-se para organizar educação dos moradores se houver criação
a heterogeneidade do século XXI de maneira de empregos; urbanidades educadas para o
que aumente o bem-estar de todos. Essas ex- caminho da tolerância devem ter o espaço
periências são apenas pequenos exemplos físico e a oportunidade económica de
de uma tendência em desenvolvimento na envolver outros grupos para a cidade mudar;
gestão urbana em todo o mundo. O ímpe- e novos negócios devem ser acessíveis aos
to está a crescer para expandir o conjunto diversos moradores que têm a educação
de respostas para a diversidade social e cul- para sustentar um maior crescimento. A
tural. As cidades estão a procurar criar um tarefa de organizar a heterogeneidade
melhor ambiente para a adaptação das co- de uma cidade num período de rápida
munidades e dos migrantes - tanto nacionais evolução demográfica exige complexas
como transnacionais - aumentando assim a estratégias multifacetadas a longo prazo,
diversidade de capital. Os políticos bem-su- que só surgem quando a cidade se torna
cedidos em cidades muito diferentes estão um foco compartilhado de preocupação e
a tomar decisões explícitas para se opor a atenção. A cidade deve-se tornar um agente
uma tendência global em direcção à frag- de organização e educação, e não apenas
mentação social e ao isolamento. Estes bre- um objecto em que os outros actuam.
Os media,
a cidade e a educação
Entre o hiperactivismo
e a indiferença.

Josep Ramoneda

Josep Ramoneda Molins é filósofo e jornalista. Foi professor de Fi-


losofia Contemporânea na Universidade Autónoma de Barcelona
(1975-1990) e director do Instituto de Humanidades (1986-1989).
Fundou e dirigiu a colecção «Textos filosòfics», publicada pelas
Edicions 62, tendo sido também o responsável pela criação da
revista de cultura Saber (1980). Foi colaborador do jornal La Van-
guardia, entre 1980 e 1996.

Ramoneda é director do Centro de Cultura Contemporânea de


Barcelona, colaborador do jornal El País e da estação de rádio
Cadena Ser.

Josep Ramoneda tem publicado numerosos trabalhos, dos mais re-


centes destaque-se Después de la pasión política (Taurus, 1999) e
Del tiempo condensado (Random House Mondadori, 2003). Parte
da sua obra encontra-se publicada pelas Edicions 62, títulos como
Apologia del present, Mitològiques e El sentit íntim. O autor tem
participado, também, em diversas obras colectivas, como Frontera
e Perill; Coneixement, memòria i invenció e Textos filosòfics (co-
lecção), em que assume a autoria do volume «Ediciones de Fou-
cault, Locke, Nietzsche y Montesquieu».
Os media, a cidade e a educação.
Entre o hiperactivismo e a indiferença

1. Julien Gracq, um peculiar escritor francês única imagem para definir a forma de Barce-
que sempre foi considerado um inadaptado lona, ser-nos-ia mais útil recorrer ao Ensan-
aos tempos que correm, num livro sobre a che que à Sagrada Família, a Gracia que a
sua cidade natal - Nantes - fala da forma da La Pedrera. No fundo, a forma de Barcelona
sua cidade1. A forma da cidade tem que ver é uma série de povoações agrupadas como
com a sua representação mas também com teias de aranha, ou ensanche (extensão),
a maneira de viver. Quando a cidade perde que as insufla de nova vida. Por isso, fala-
a sua forma - a caligrafia própria e irrepetível -se frequentemente de Barcelona no plural
- deixa de ser cidade para se converter em Barcelonas (Manuel Vasquez Montálban) ou
«urbanalização» (dormitório), utilizando a as Barcelonas de Barcelona. O resultado é
expressão com que Francesc Muñoz identifi- uma forma peculiar em que a racionalidade
ca a multiplicação de espaços habitacionais de fundo só conseguiu penetrar, em parte,
sem vontade cívica, consagração da pior nos espaços mais distorcidos das velhas po-
versão do individualismo burguês, que vão voações que hoje compõem Barcelona. Este
tomando os círculos concêntricos de habi- jogo duplo é a forma da cidade. A mesma
tação que se expandem como as ondas das que acolhe uma avalancha desconhecida de
águas no rio, nos arredores das cidades. imigração estrangeira, tornando realidade
aquela ideia de Dipesh Chakrabarty de que
Da forma da cidade falam pouco os meios sempre vivemos em moradas, lugares onde
de comunicação. Provavelmente é uma outros estiveram antes de nós2. Precisamente
questão demasiado subtil para captá-la. E já por isto, a forma da cidade é como que um
se sabe que as subtilezas não têm demasia- desleixo que, pela sua forma arquitectural e
do espaço na simplificação mediática. A for- urbana, marca e determina o espírito da ci-
ma da cidade é física mas física vivida, por dade. Isto fá-la diferente de todas.
assim dizer, habitada. O Plano Cerdà não é a Os media são transmissores da forma da ci-
forma de Barcelona, é o Ensanche/Extensão dade? Temo muito que não.
do plano Cerdà, convertido em carne, isto
é, trabalhado pelas pessoas. Mas a forma 2. Os media dirigem-se à cidadania. E a ci-
da cidade não é configurada pelos edifícios dadania é a peça angular da cidade. No dia
emblemáticos, museus, lojas, bares, restau- de hoje não se conhece espaço mais aberto
rantes que aparecem nos guias turísticos. a um reconhecimento mais amplo da con-
dição de cidadão que a cidade. Os Estados
Em todo o caso isto pode ser a propaganda. põem todo o tipo de problemas para o re-
A forma da cidade é mais complexa e di- conhecimento da condição de cidadão aos
fícil de monumentalizar, de reduzir a uma que vêm de fora. Os Estados vivem da divi-
imagem. Se tivéssemos que recorrer a uma são entre nacionais e estrangeiros o que para

2
Dipesh Chakrabarty: «Humanism in an Age of Glo-
1
Refiro-me ao livro de Julien Gracq: «La forme d`une balization», minuta da conferência pronunciada em
ville». Ed. Jose Corti. Paris, 1986. Essen, 2006.
80 Os novos desafios da vida urbana

nós é factor de coesão. Ainda em tempo de não ocupe mais de dez segundos. O ideal
restrições aos fenómenos migratórios como televisivo é a confrontação simples conver-
os actuais, as cidades têm a mão mais aberta tida em espectáculo. Neste sentido este será
que os Estados. Em Barcelona basta recen­ um prolongamento da cena democrática: se
sear-se para obter os direitos básicos como a o parlamento é a sublimação dialéctica do
assistência médica. É a maneira de levar os conflito, a cena televisiva será um estádio
ilegais pelo caminho da cidadania. mais nesse exercício.

A relação desigual entre os media e os ci- Ao mesmo tempo a televisão banaliza. A


dadãos determina o que denominamos de crueldade convertida em imagem repetida
opinião pública, decisiva na formação das tira cada vez mais o impacto. A rotina das
verdades sociais a cada momento. Vivemos atrocidades desumaniza-as, converte-as em
num estádio de capitalismo em que, em so- puro espectáculo. E aquela imagem que,
ciedades abertas como a nossa, se pode di- da primeira vez, nos deixou comovidos, ao
zer quase tudo mas em que a imensa maioria cabo de vê-la umas tantas vezes (aquela ou
das coisas apenas fica inventariada. Esta é a equivalentes), já não nos diz nada. Com uma
capacidade que o sistema tem de integrar e consequência gravíssima; para que chame a
dissolver as suas contradições culturais que atenção não há outro remédio: só há que
suscitaram o aparecimento, já no pós-guer- dobrar a dose. Chegamos assim aos snuff
ra, de autores, hoje quase esquecidos, como movies e à provocação de actos de violên-
Daniel Bell ou Herbert Marcuse3. Portanto cia real para os filmar e fazê-los chegar aos
somos muitos a configurar a verdade social écrans. A internet está cheia deles4. Acostu-
e poucos a determiná-la. Em sociedades do- mados a almoçar e jantar todos os dias com
minadas pela televisão, a simplificação e a imagens de atentados levadas à nossa mesa
banalização são lei. em casa, a escalada na busca de emoções
fortes não tem limite. E, ao mesmo tempo,
A televisão é um meio de comunicação frio. o cidadão responde às imagens com uma
Por isso tem uma certa virtude pacificadora, indiferença crescente. Tal é o jogo duplo da
no sentido em que dificilmente consegue fa- televisão. Por um lado, cria a verdade social
zer alguém levantar-se do seu sofá. Tudo se - chegou a dizer-se que só existe o que a te-
converte em ficção, a realidade patina sobre levisão apresenta. Por outro, distancia-nos
o televisor. As revoluções alimentadas pela porque converte a realidade em ficção.
televisão são geralmente mais pacíficas que
as da rádio. Pela mesma razão, tem também Na aparente transparência da imagem te-
uma certa virtude desmobilizadora. A tele- levisiva produz-se um múltiplo sistema de
visão é o média próprio do totalitarismo da ocultação: ocultação por acumulação; ocul-
indiferença que, às vezes, parece ameaçar tação por velocidade (imposta por uma hi-
as acomodadas sociedades europeias. perbolização da informação); ocultação por
obscenidade (o exibicionismo da imagem);
A televisão simplifica e banaliza. Simplifica ocultação por simplificação; ocultação por
porque exige uma linguagem curta, sem es- homologação. A televisão contribui para a
paço para os matizes. Sobretudo que a frase

3
Veja-se Daniel Bell: «As contradições culturais do ca- 4
Sobre este tema é muito interessante o ensaio de
pitalismo», Alianza Editorial, Madrid, 1976 e Herbert Michela Marzano: «La mort espectacle. Enquête sur
Marcuse: «One Dimensional Man», Beacon, Boston, l`horreur-realité». Gallimard, Paris, 2007.
1964 (edição espanhola de Seix Barral, 1968).
Os media, a cidade e a educação. Entre o hiperactivismo e a indiferença 81

degradação da phisis (desgaste físico)5. Aqui xidade cultural grande. Na cidade mistura-se
convido alguns autores a criar realidade o cosmopolitismo com o discurso identitário
através da literatura como forma de resistên- e por entre as mínimas pautas partilhadas
cia ao êxtase (exasperação e decomposição) emergem várias formas de transversalidade
da informação e como resposta ao eufemis- cultural e novos imaginários que, embora
mo na linguagem política6. sejam tecidos aqui, têm a música original
em lugares muito distantes.
O paradigma televisivo é o que domina a
cena política. É certo que fracassaram as pro- A primeira coisa a ter em conta é que os
fecias que anunciavam a morte dos meios de meios de comunicação de massas são uma
comunicação antigos sempre que aparecia janela virada para fora num ambiente priva-
um novo. Nem a rádio acabou com a im- do que presta informação a que a maioria
prensa escrita, nem o cinema com a rádio, dos cidadãos nunca tinha tido acesso. Pode
nem a televisão com a rádio ou o cinema, ser uma informação superficial, banal, tudo
nem (de momento, pelo menos) o telemóvel o que se quiser. Só vendo televisão - e quase
e a internet com a televisão, com a rádio, toda a gente vê - se aprendem coisas e se
o cinema e a imprensa. Mas, hoje em dia, acede a uma variedade de informação vinda
quem manda é o paradigma televisivo. É fá- de todos os lados que antes era privilégio de
cil ver como os outros meios - até toda a im- uma reduzidíssima minoria.
prensa - tentam adaptar-se às suas leis. Basta
ver a evolução das maquetas e o tipo de le- Esta flui evidentemente a jorros, pouco orga-
tras dos jornais nos últimos anos. É através nizada do ponto de vista pedagógico e mais
da televisão que o efeito ressonância, assim virada ao entretenimento e a uma socializa-
chamado pelos estrategas da comunicação, ção plana das pessoas. No entanto, quem
se torna eficaz. O importante é o zum-zum pensar que os tempos passados eram melho-
que uma informação deixa, o ruído que che- res engana-se.
ga àqueles que nunca lêem um jornal.
Precisamente o fluxo informativo, que os
3. Perante este panorama, sucintamente des- meios de comunicação de massas nos en-
crito, qual é a contribuição dos meios de viam, torna natural a diversidade de opi­niões
comunicação de massas - imprensa, rádio e maneiras de ser, o que não é banal por-
e televisão (Internet é outro mundo à parte) que a aceitação do outro, o reconhecimento
- para a educação das pessoas, logo para a de que não existe apenas uma maneira de
construção da cidadania? entender o mundo, custou muito sangue à
humanidade. Os meios de comunicação fa-
Zygmunt Bauman afirma que a «cidade é zem com que a liberdade de expressão se
um lugar onde os estranhos co-existem sem vá incorporando na cidadania como uma
deixarem de ser estranhos»7, quer dizer, é segunda pele e, que quando esta não exista,
um espaço de relação polivalente e a níveis ela seja notada e vivida como uma mutila-
muito diferentes. Isto significa uma comple- ção inaceitável.

Mais informação, consagração da diversida-


5
Estes temas foram tratados no meu livro «Depois da
paixão política», Taurus, Madrid, 1999. de como própria da cidade moderna. Dois
6
Neste sentido o prólogo de James G. Ballard da sua factores que se conjugam na boa direcção
novela «Crash». da educação democrática.
7
Zygmunt Bauman: «Noves fronteres i valors univer-
sals» («New Frontiers and Universal Values», Breus,
CCCB, Barcelona, 2006.
82 Os novos desafios da vida urbana

4. Mas avancemos um pouco mais. Nem formação das pessoas, submetidas ao dever
todos os meios de comunicação actuam de comprar permanentemente a felicidade9.
da mesma maneira. A imprensa escrita Cada vez é mais difícil concentrar o esforço,
está a tornar-se cada vez mais minoritária, fixar a atenção. Já não é o esquecimento de
destinada a um sector da população, os qualquer forma contemplativa ou delibera-
que lêem. Tem, portanto, uma função mais tiva, é a necessidade de estar simultanea-
complementar. Ultimamente alguns jor- mente dependente de meia dúzia de coisas.
nais optaram por se libertar, como forma Diante da televisão não há calma para o
de sobrevivência, da atracção fatal que é o espírito, tudo conduz aos extremos: hiper-
paradigma televisivo para se situarem num -acção ou indiferença. De certo modo, um
terreno de reflexão e debate mais próprio alimenta o outro. Interessar-se por tudo ou
da cultura democrática. A rádio que chega interessar-se por nada é bastante parecido.
mais directamente ao ouvinte estimula mais
que qualquer outro media as reacções de Nos tempos de hoje, em que diferentemente
carácter sentimental. Não é em vão que é do que se passou ao longo da existência da
um media quente. Importante nas batalhas humanidade, a informação não é um bem
políticas é, em muitos aspectos, um meio de escasso, bem ao contrário, é excessiva; o
combate. Para demonstrar o poder da voz, problema é como orientar-se num mar de
vou contar uma experiência pessoal. Pre- inputs. A hierarquização e a ordenação são
parando a exposição «O Ocidente visto do decisivas. E a televisão é o máximo hierar-
Oriente», ponderámos se deveríamos pôr ou quizador. Por isso a sua responsabilidade
não ­vídeos das execuções de cidadãos oci- educativa é extraordinária. E, por isso tam-
dentais sequestrados pelo terrorismo islami- bém, poderíamos dar a volta à questão: a
ta. Perante a crueza das imagens tentámos a única maneira de tornar positivo o impacto
opção de deixar só o som. Era muito mais in- da televisão é proporcionar um bom ensino
suportável. Finalmente, cingir-me-ei à televi- para que as pessoas se tornem intelectual-
são que continua a ser o primeiro alimento mente adultas diante do écran. Mas a televi-
espiritual dos cidadãos. são é o media a que se chega logo quando
se é pequeno.
Era Georg Simmel que dizia que a vida urba-
na gera ansiedade, estímulos nervosos que De uma maneira acrítica foi-se aceitando
determinam a sensibilidade do homem mo- um tópico da sociedade liberal moderna:
derno8. Eu creio que a televisão com a du- que os meios de comunicação privados têm
pla publicidade-zapping se converteu num campo livre para fazer o que agrada ao pa-
mecanismo de activação nervosa que trans- trão na sua luta sem limites pela audiência e
forma os seus utilizadores em potenciais que são os meios públicos, financiados pe-
hiperactivos. Hiperactivos especialmente los impostos dos cidadãos, que devem co-
orientados para uma tarefa precisa: a insa- brir os deficits comunicativos. Se pensarmos
tisfação permanente no consumo. A necessi- que a única coisa que costuma diferenciar
dade cada vez mais acelerada de lutar para os públicos dos privados é o facto dos noti-
conseguir uma compra nova ainda antes de ciários dos primeiros estarem sob a tutela di-
possuir a última acabada de pagar. Esta di- recta do governo, esta distinção é ainda mais
nâmica, nestes tempos acelerados, dá-me absurda. A audiência é a obsessão de toda a
a impressão de ter sérias consequências na televisão, pública ou privada. Esta audiên-

8
Georg Simmel: «A metrópole e a vida moderna». Des- 9
Por exemplo, Pascal Bruckner: «A vida boa» («La vie
te texto há várias versões em espanhol na internet. bonne»). Breus, CCCB, Barcelona, 2006.
Os media, a cidade e a educação. Entre o hiperactivismo e a indiferença 83

cia é o resultado de um sistema enviesado uma opinião tão equivocada sobre a televi-
porque a oferta é orientada e restringida e são. De um país onde sucede um atentado
a procura tem uma capacidade limitada de terrorista só nos chegam imagens de horror,
fazer-se ouvir. O discurso sobre a audiência não sabemos nada da absoluta normalidade
é feito com base num engano: as emissoras do resto. Tudo isto conduz-nos a um ponto, a
dizem que fazem o que a gente quer ver e meu ver, essencial: a televisão tem um papel
a gente diz que só pode ver aquilo que nos fundamental na construção da ideologia do
oferecem; basta observar a semelhança que medo tão viva no ocidente onde, em nome
há entre todas as cadeias. E, apesar de, os da segurança, todos os dias se cortam liber-
programadores de televisão serem pessoas dades perante a indiferença geral. O medo,
com uma importância determinante na for- como se sabe, é desmobilizador – lida com
mação da cidadania, o seu critério não é o a indiferença e a não solidariedade. Qual o
da cidadania mas o da audiência. sentido de uma educação que faz prevalecer
estas duas atitudes?
5. Na televisão não há vontade de educar.
No fundo, a vontade é de negócio e con- 6. Conclusão: A sociedade onde predomi-
trolo político que emana de um equilíbrio na a televisão tem mais quantidade de in-
complexo entre proprietários dos meios de formação que qualquer outra até aos nossos
comunicação (e seus interesses), Estado re- dias. Porém, esta informação não contribui
gulador e profissionais dos meios. A capa- forçosamente para melhorar a capacidade
cidade de incidência da televisão é grande; de emancipação dos cidadãos – isto é, para
daí ser um instrumento poderoso que os po- pensar e decidir por eles mesmos. Exacta-
deres querem ter sob controlo. Há montes mente o contrário, tende a activar neles os
de exemplos da sua utilização político-eco- frames, como definem os sociólogos ame-
nómica. Mas às vezes também lhes sai o tiro ricanos aqueles hábitos mentais instalados
pela culatra como aconteceu em França nas que nos levam a que vivamos determinadas
vésperas das presidenciais de 2002. Durante coisas como próprias, simplesmente porque
meses as televisões privadas estiveram atu- assim as foram inculcando no nosso espíri-
lhadas de informação sobre criminalidade. to desde pequenos. A televisão não é uma
Tratava-se de criar um clima de insegurança escola de atitude crítica. Esta ou se aprende
que fizera perder o então primeiro ministro antes ou uma vez diante do televisor, já é tar-
Jospin. Mas o resultado foi que Le Pen pas- de. O televisor só favorece a acomodação, a
sou à segunda volta no meio do pânico ge- indiferença; tende a isolar, fomentando um
ral. De um só golpe, desde a primeira noite individualismo acrítico que tem pouco do
eleitoral, a criminalidade desapareceu dos individualismo moderno e que, em troca dos
noticiários como se a delinquência tivesse seus vícios traz, por exemplo, o desinteresse
desaparecido por milagre. pelos outros.

Existe um problema estrutural entre infor- A televisão deveria ser «para maiores com
mação e formação. A origem está na pró- reservas». Mas afortunadamente estamos
pria definição de notícia. A singularidade do numa sociedade aberta e ela é o meio de
facto que merece a condição de noticiável. comunicação que está ao alcance de todos.
Diz-se: não é notícia se um cão morde um Tenho a impressão que, se se ensinasse a ver
homem; notícia é, se um homem morde um televisão, o rendimento educativo que se
cão – desviando-se a informação para o lado poderia retirar dela seria maior mas talvez
mais negativo, sem que venha acompanha- então a primeira consequência fosse que a
da de uma visão crítica das coisas. Daí surgir veríamos menos.
Competitividade e cooperação.
Justiça e paz

Arcadi Oliveres

Arcadi Oliveres Boadella, doutorado em Ciências Económicas,


é professor no departamento de Economia Aplicada na Univer-
sidade Autónoma de Barcelona. É presidente da ONG Justicia i
Pau e da Universidade Internacional para a Paz, em Sant Cugat
del Vallès, em Barcelona. Arcadi Oliveres é, também, presidente
do Consell Català de Fomento de la Pau e membro da Sociedade
Catalã de Economia, subsidiária do Instituto de Estudos Catalães.

Arcadi Oliveres tem trabalhado sobre os temas do comércio in-


ternacional, da globalização económica e da dívida externa, bem
como sobre a cooperação no desenvolvimento das sociedades e a
economia de defesa. Participou em diversas obras como El milita-
rismo en España (co-edição com Pere Ortega; Barcelona, Editorial
Icaria, 2007), Un altre món (Barcelona, Angle Editorial, 2006) e
Contra el hambre y la guerra (Barcelona, Angle Editorial, 2005).
Competitividade e cooperação. Justiça e paz

1. Introdução liberdade, a paz e a protecção do ambiente,


que vemos continuamente, manifestam-se
50% da Humanidade vive em zonas urba- com a máxima energia, da mesma maneira
nas. A urbanização é um processo crescente que se manifestam ali todas as propostas de
e claramente palpável nas últimas décadas. mudança que, em boa lógica, vão surgindo
Em meados do século XX, só 33% dos habi- da consciência crítica da sociedade.
tantes do planeta viviam nas cidades e ago-
ra prevê-se que a percentagem chegue aos
63% no ano 2030. A urbanização, na me- 2. A injustiça sempre crescente
dida em que progride, cria atitudes na vida
económica e social que se afastam, para o Apesar dos progressos cientifico-técnicos
bem e para o mal, dos parâmetros tradicio- que certamente o possibilitariam, boa parte
nais. da população mundial padece ainda de uma
falta de cobertura das suas necessidades bá-
Com efeito, por um lado, são inegáveis os sicas. Não obstante, frequentemente, a falta
benefícios que as concentrações de popula- de vontade política, os objectivos lucrativos
ção trazem ao facilitar o acesso a uma boa das empresas e os egoísmos dos particula-
assistência médica, a maiores possibilidades res levam milhares de milhões de pessoas
educativas, a mínimos serviços sociais, a a condições de vida deploráveis. Assim,
uma maior oferta cultural, à criação de um por exemplo, os que morrem de SIDA por
intenso tecido social e à disponibilidade de impossibilidade de acesso a medicamentos
vasto instrumental que permite o cozinhar que os laboratórios farmacêuticos não que-
de novas ideias até à capacidade organizati- rem facilitar, ciosos das suas patentes, as
va de propostas alternativas. condições desumanas que são aproveitadas
pelas subcontratações deslocalizadoras das
Torna-se também evidente que é precisa- grandes empresas, a debilidade de recursos
mente no âmbito urbano onde aparecem para lutar contra a fome quando se investem
com mais força as desigualdades, a ausên- enormes quantidades na guerra, o incons-
cia de solidariedade, o consumismo, os ciente e imoral negócio das armas, o fechar
episódios de violência, as dificuldades de de fronteiras às migrações, o comércio inter-
convivência, os guetos residenciais e a cres- nacional em condições de desigualdade, a
cente proliferação dos «não espaços» como corrupção misturada com os negócios ilíci-
referência, nos grandes centros comerciais, tos e os paraísos fiscais, a fuga de cérebros,
nas estações de serviço, nos aeroportos, nas a especulação financeira, a dívida externa
cadeias de cafetarias, restaurantes, hotéis e abusiva, a exploração sem fim dos recursos
centros qualificados de ócio, onde é indife- naturais, a deterioração ambiental e a urba-
rente em que parte do mundo se está. nização indiscriminada são alguns dos me-
A cidade converteu-se no paradigma da mu- canismos geradores das carências indicadas.
dança social. Todos os riscos para a justiça, a Não é difícil constatar, por outro lado, que
88 Os novos desafios da vida urbana

tais carências têm um impacto mais doloro- prática de levar a termo as iniciativas legisla-
so quando se trata de populações concentra- tivas populares e constata-se finalmente que
das especialmente nas periferias das grandes os municípios, o primeiro escalão da demo-
cidades. cracia, apenas dispõem de 16% dos fundos
públicos frente aos 53% que corresponde ao
Assim, tais mecanismos, não só impedem governo central.
que se mantenha a dignidade de muita gen-
te, como também geram diferenças crescen- Se ascendermos à escala europeia e mun-
tes entre as populações do Norte e do Sul dial temos, sem dúvida de lamentar a prática
e as do interior de cada país. Se nos anos inexistente de democracia. Um Parlamento
cinquenta do século XX há uma relação de Europeu sem plenas faculdades legislativas,
30 para 1 na dimensão do PIB per capita en- umas Nações Unidas com um voto para
tre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres cada estado e, portanto completamente des-
da população mundial, na actualidade esta proporcionado em relação à sua população,
diferença situa-se numa relação de 103 para um Conselho de Segurança com um incom-
1. E o mesmo, ainda que numa proporção preensível direito de veto para cinco países
mais pequena, encontraríamos no âmbito privilegiados, umas instituições como as de
interno dos estados onde, ao mesmo tempo, Bretton Woods (Banco Mundial e Fundo
aumenta a participação do rendimento do Monetário Internacional) onde o voto cor-
capital e diminui o rendimento do trabalho responde à sua cota, demonstra-o de forma
no PIB total. Em ultima instância, as cidades manifesta. E tudo isto sem esquecer que, aci-
repetem o mesmo esquema e provavelmente ma dos organismos formais, são os poderes
de uma forma mais agravada. de facto, desde o G-8 ao Fórum Económico
de Davos, desde a Câmara de Comércio de
Bruxelas ao Clube Bilderberg, que determi-
3. A governabilidade nam impunemente nomeações, políticas,
democrática em questão decisões económicas e acções bélicas.

Em sentido estrito, a politica é o governo da Por outro lado, se a liberdade das pessoas
«polis», isto é, da urbe e seguramente que as é um imperativo da democracia, podemos
primeiras experiencias democráticas apare- observar como tal liberdade diminui a pas-
ceram nas cidades. Não obstante, as actuais sos largos em função do crescimento do
formulações da democracia representativa controlo social. As máquinas fotográficas
deixam muito a desejar a todos os níveis. em lugares públicos e privados, as ilegais
Começando desde um dos instrumentos bá- escutas telefónicas, a dissecação fotográfica
sicos da participação dos cidadãos, que são do território, o controlo do correio electró-
os partidos políticos, constatamos imedia- nico e de entradas na Internet, a informati-
tamente três deficits importantes: a falta de zação de qualquer tipo de dados pessoais,
eleições «primárias» para escolher os seus etc. Funcionam com pleno resultado justifi-
candidatos, a prática da inexistência de lis- cados por falsos medos de terrorismos que,
tas abertas e as disputas que as suas neces- frequentemente, são promovidos pelos go-
sidades de financiamento geram com os po- vernos e, quando o não são, precisam de
deres económicos. A nível estatal, as coisas outras formas de resposta. Novamente, são
não melhoram e vemos como se descrimina os habitantes das cidades os que suportam
entre cidadãos de primeira e de segunda ao a pior parte destes ataques à intimidade e à
não conceder-se o direito de voto aos imi- privacidade.
grantes. Observa-se ainda a impossibilidade
Competitividade e cooperação. Justiça e paz 89

4. A pacificação é possível de potências estrangeiras. Tal é o caso, por


exemplo, da Guiné Equatorial, Nigéria, Zim-
É duvidoso que as guerras tenham tido al- babwe, Myanmar e Uzbequistão.
gum sentido ao longo da história, mas é
evidente que agora têm menos sentido que Por outro lado, encontramos por detrás das
nunca. Em épocas de economias eminente- guerras uma série de desencontros políti-
mente agrárias submetidas às contingências cos, sociais e étnicos que, frequentemente,
dos fenómenos naturais podia, em algumas se manifestam em marginalizações sociais,
épocas, tornar-se impossível a sobrevivên- ocupações territoriais, em maiorias que
cia das pessoas e, ainda que não justificá- oprimem minorias ou, até em minorias que
vel, podia ser, pelo menos, compreensível a oprimem maiorias. Encontramo-lo, só para
vontade de atacar o vizinho para desta for- citar alguns casos, no de Israel versus Pales-
ma aceder aos bens que escasseavam. Ac- tina, da Sérvia e Croácia versus Bósnia e Ko-
tualmente, apesar dos milhões de pessoas sovo, da Federação Russa versus Chechénia,
esfomeadas, existem recursos mais do que do Norte versus Sul do Sudão, de Marrocos
suficientes para satisfazer as necessidades versus Sahara, e, até há bem pouco tempo,
básicas dos habitantes da Terra. E quando do Reino Unido versus Irlanda do Norte.
de forma local e circunstancial se produzem
alguns deficits, estes são perfeitamente supe- À margem das origens dos conflitos que as-
ráveis com os actuais sistemas de comunica- sinalamos, o mais preocupante é a obsessão
ção, os meios de transporte, conhecimentos que tem a totalidade dos estados de man-
científicos e técnicas existentes disponíveis. ter permanentemente em marcha uma má-
A partir daqui, a guerra não é outra coisa se- quina de guerra que primeiramente serve
não o egoísmo em grau superlativo e a com- para incitar o outro a fazer o mesmo; uma
petitividade levada ao seu máximo extremo. máquina de guerra cuja justificação assen-
ta quase sempre na fabricação de falsas e
Ainda assim, as guerras existem e quando se sobredimensionadas ameaças a inimigos
analisam as suas razões podemos ver que, inexistentes. De tudo isto se encarrega com
por um lado, figuram os interesses econó- bastante eficiência uma parte dos meios de
micos basicamente vinculados às matérias- comunicação, por de trás dos quais encon-
-primas e aos recursos energéticos. Guerras, tramos quase sempre grandes corporações
portanto, que pretendem é manter, quando industriais, importantes poderes financeiros,
não aumentar, o estado de bem-estar de responsáveis dos departamentos de defesa
uma quinta parte da população mundial em e fabricantes de armamentos. Constatamos,
detrimento do resto. Os actuais conflitos ar- por exemplo, o caso da imprensa francesa
mados no Iraque, Afeganistão e os já menos em boa parte nas mãos de Serge Dassault
intensos em Angola e Somália correspon- (Le Figaro), primeiro fabricante privado de
dem exactamente a este esquema; esquema aviões de combate, e de Arnaud Lagardère
de interesses que se mantém a nível interno (imprensa regional e império editorial Ha-
dos estados, como podemos verificar, entre chette), accionista principal das indústrias
outros, na Argélia, Colômbia, Congo Kinsha- bélicas privadas do país.
sa e Congo Brazaville. É necessário dizer
também, que, por vezes e sem desenca­dear O ciclo armamentista, expressão mais
guerras, estes interesses dos privilegiados elegante da máquina de guerra, apresenta-
mantêm-se mediante formas ditatoriais ba- -se com diferentes facetas, qual delas a mais
seadas na tortura, repressão e nos assassina- perniciosa. Em primeiro lugar, encontramos
tos extra-judiciais realizados com o apoio o gasto militar. De acordo com as
90 Os novos desafios da vida urbana

estimativas dos organismos internacionais, UNESCO na sua carta de fundação, faz falta
na actualidade, este já atinge a cifra de apagar as guerras da nossa mente. É eviden-
1.200.000 milhões de dólares anuais, isto te, que hoje não se pode falar de guerra justa
é, 22 vezes mais do que a Organização sob nenhum pretexto e se entendemos, tal
Mundial da Agricultura e Alimentação como alguns disseram, como guerra justa a
(FAO) crê que faria falta para a eliminação que os aliados levaram a termo no ano de
anual da fome no mundo. Em segundo 1991 para reconquistar o Kuwait, com bai-
lugar, aparecem as surpreendentes cifras de xas de 300 soldados norte-americanos, com
pessoal adstrito às forças armadas, uns 26 270.000 iraquianos mortos e com o posterior
milhões de pessoas, quando, segundo as embargo que gerou, segundo a Unicef, mais
Nações Unidas, seria mais do que suficiente de um milhão de vítimas entre as crianças
meio milhão de capacetes azuis em todo o menores de cinco anos, será necessário que
mundo para apaziguar os possíveis focos reexaminemos de forma imediata e profun-
e situações de conflito. Em terceiro lugar, da os nossos conceitos morais. De qualquer
a mais que perversa investigação com modo, se o conflito já estalou deveremos
fins militares, apesar da sua inaceitável proceder rapidamente a negociações de paz
dimensão ética, justifica-se com a desculpa incondicionais.
do aproveitamento civil das suas inovações.
Desculpa insustentável já que, está mais O processo de pacificação deverá continuar
que demonstrado que este aproveitamento com o desarmamento nuclear e convencio-
é escassíssimo, e que a via de transferência nal, com a redução dos efectivos das forças
da tecnologia parte do civil para o militar, armadas, com a destruição dos arsenais e
que as novas descobertas em armamento a reconversão da indústria militar para fins
alcançam níveis absolutamente degradantes civis. Como quase sempre se trata de deci-
no que respeita às pessoas humanas. Em sões políticas, deveria ter-se em conta que
quarto lugar, a produção e transferência de estas hão-de ser impulsionadas por pressão
armamentos que pressupõe, frequentemente, dos cidadãos mediante os movimentos so-
um fluxo Norte-Sul que enche de benefícios ciais e os compromissos individuais. Neste
os países ricos ao mesmo tempo que leva momento ninguém negará a razão moral
a guerra aos empobrecidos. Em paralelo, que acompanhava todos os que se manifes-
o tráfico de droga produz-se em direcção taram contra as provas nucleares, a guerra
inversa, e muitas vezes pode falar-se de do Vietname ou a invasão do Iraque, para
armas que se pagam com droga e de falar de casos concretos. Da mesma manei-
drogas que se pagam com armas. Por outro ra que agora todo o mundo já entendeu as
lado, esta actividade de venda de armas, é razões dos objectores de consciência ao ser-
indigna e indignante no caso espanhol que viço militar e que começam a ser entendidas
ocupa um lugar destacado como exportador as objecções fiscais, financeiras, laborais e
mundial e como fornecedor de munições científicas com tudo aquilo que tenha rela-
em guerras africanas, tal como denunciou ção com a preparação da guerra.
Intérmon-Oxfam.
Neste capítulo deixamos para o fim um
Sim, dizíamos que apesar de tudo, a paci- aspecto central como é a educação para a
ficação é possível; em verdade podemos paz. Em primeiro lugar, deve entender-se a
acreditar nisto. Sempre e quando, natu- educação para a paz e, sem dúvida, a paz
ralmente, a vontade pessoal e politica nos em si mesmo, num sentido amplo que pre-
leve à obtenção de determinadas condições. viamente exige a justiça, o desarmamento, o
Como elemento básico, e como bem disse a respeito pelos direitos humanos, a igualdade
Competitividade e cooperação. Justiça e paz 91

social, o desenvolvimento dos povos, o cui- do Norte acolhemos estes fluxos. A resposta
dado pelo ambiente e muitos outros requisi- infelizmente é bastante negativa. Fechamos
tos. Neste sentido, educação para a paz será as nossas portas à sua vinda e possibilitamos
toda aquela que nos leve aos objectivos ci- um tráfico mafioso de pessoas que origina a
tados. Mas evidentemente a educação para sua morte, não lhes damos a documentação
a paz leva-nos também a tomar consciência necessária e colocamo-los em situações de
dos privilégios de que usufruímos nós, os ci- precariedade laboral e social, não lhes da-
dadãos do Norte, à renúncia da competitivi- mos a plenitude de direitos como cidadãos
dade, à exclusão de qualquer tipo de descri- e permitimos o seu mau trato e a sua descri-
minação, de fanatismo e de patriotismo e à minação.
consideração do valor da dignidade humana
acima de qualquer interesse material, indi- É necessário corrigir todos estes mal-enten-
vidual ou colectivo. Em última instância, a didos e estar conscientes de que as migra-
educação para a paz terá de supor também ções são um facto tão antigo como a própria
uma eliminação da violência virtual cada humanidade, que sempre se moveu, fugindo
vez mais presente nos filmes, nas histórias da fome e da guerra. É preciso entender que
de quadradinhos, nas consolas, nos compu- para as sociedades envelhecidas como as
tadores, nos jogos de rol, nos brinquedos bé- europeias a imigração é um maná de juven-
licos e em qualquer instrumento formativo e tude e de força de trabalho, ainda que não
de ócio para crianças, jovens e adultos. seja por isso que devemos recebê-los mas
porque têm todo o direito. Em última instân-
De forma simultânea e complementar a cia, é preciso entender que contrariamente
educação para a paz, a investigação sobre a ao choque cultural, de que tanto se fala, as
paz é básica, sim devemos procurar as origens migrações estão na origem dos nossos há-
dos conflitos e suas possíveis soluções. bitos, costumes, riqueza artística e patrimó-
Paradoxalmente está pouco valorizada em nios literários.
comparação com a investigação para a
guerra. É bom conhecer que nesta direcção e Não obstante, é preciso reconhecer que as
seguindo modelos já consolidados no Norte mútuas inter-relações nem sempre se produ-
da Europa, se iniciou, com a aprovação do ziram da mesma maneira. Algumas vezes,
Parlamento da Catalunha, o Instituto Catalão os processos de enriquecimento e de os-
Internacional para a PAZ (ICIP) que tem mose respectiva funcionaram bastante bem
raízes na Lei do Fomento da Paz e a posterior enquanto noutras circunstâncias se deram
criação do Conselho Catalão de Fomento confrontos, criação de guetos e até situações
para a Paz, órgão consultivo que vincula a de dominação de uns sobre os outros. Na
sociedade civil e as instituições políticas em nossa realidade, trata-se mais de descrimina-
temas relacionados com a paz. ções sociais que étnicas. Assim, por exem-
plo, quando nos inteiramos dos distúrbios
nas «banlieues» francesas, devemos pensar
5. A imigração, chave da vida sobre tudo num protesto pela quebra da
citadina «promoção social» resultante das políticas
laborais e de rendimentos dos governos de
A cidade é o espaço migratório por excelên- direita mais do que lutas entre grupos de po-
cia. As injustiças citadas no 2º capítulo e as pulação procedentes de etnias ou territórios
guerras analisadas no 3º, evidenciam as ra- diferentes.
zões das saídas e dos fluxos de população.
Interessa-nos agora conhecer como a partir Ainda assim, passeando por Barcelona se
92 Os novos desafios da vida urbana

pudermos passar um momento pela Rambla tem origem nos anos cinquenta e cuja efer-
del Raval damo-nos conta de que a convi- vescência começa a partir dos anos setenta
vência é perfeitamente plausível e de que do século XX. Com efeito, uma vez refeitas
ainda estamos a tempo de não cair nas du- as sociedades do golpe da Segunda Guer-
ras realidades vividas em algumas cidades ra Mundial, o mundo ocidental e, de uma
europeias. Agimos bem, sempre que formos maneira particular, as suas empresas dão-se
capazes de travar os traços racistas que so- conta que no consumo se encontra a base
bressaiem em alguns meios de comunica- do lucro e a partir daí começa uma cuida-
ção, de eliminar os espíritos xenófobos de da planificação que, mediante a psicologia
determinados grupos de população autócto- e as técnicas publicitárias investiga as mo-
ne e de praticar políticas públicas, abertas e tivações dos compradores, hipnotiza-os pe-
respeitosas com os imigrantes. rante os produtos, oferece-lhes espaços nos
quais predispõem os cinco sentidos para a
Uma pequena nota à margem, antes de aca- atracção pelas mercadorias, proporciona-
bar este capítulo, sobre o tratamento pouco -lhes acessos, horários e facilidades de pa-
favorável que em Espanha se dá, desde há gamento e coloca os cidadãos perante um
quase trinta anos, aos refugiados e aos exila- falso sentimento de felicidade.
dos políticos. Não deixa de ser um paradoxo
que na medida em que as práticas da liber- É o que convém aos governos democráti-
dade na vida pública tenham melhorado, se cos ou não, que cria cidadãos conformados
tenha perdido em contrapartida a capacida- com modelos de vida, virados para o con-
de de acolher aqueles que fogem da guerra e sumo e ócio, uniformes e pouco dispostos
da repressão e que chegam a nossa casa não a levantar a voz contra o sistema sobretudo
só para melhorar as suas condições de vida se, para além disso, como no caso espanhol,
mas principalmente para salvá-la. Desapa- têm a responsabilidade de pagamentos hi-
receu das nossas cidades a pluralidade e a potecários de longo prazo. O Maio francês
riqueza que representou a chegada de ex- de 68 foi evidentemente, um toque de alerta
pulsos pelas ditaduras latino-americanas dos perante esta situação compreendido só por
anos setenta do século XX e, numa posição determinadas minorias. Para o resto, a porta
absurda contrária à que nós desfrutámos a do pensamento único ficava completamente
seguir ao fim da Guerra Civil, negamo-nos a aberta.
receber refugiados, excepto em quantidades
simbólicas procedentes da Bósnia, do Koso- Os resultados não se fizeram esperar
vo e da Chechénia para não falar dos total- demasiadas décadas e na actualidade
mente inexistentes do Ruanda, do Sudão e podemos constatar duas coisas. Primeiro,
do Iraque, a título de exemplo. que o actual nível de consumo é impossível
fazer chegar à totalidade da população
mundial. Como muito bem se disse na
6. Consumismo: limitação Cimeira Mundial sobre o Desenvolvimento
dos recursos Sustentável, que teve lugar em Joanesburgo
no ano 2002, se a Humanidade inteira
O último elemento que devemos considerar quisesse ter acesso aos mesmos recursos
dentro dos grandes problemas que afectam naturais (água, minerais, fontes de energia,
as sociedades actuais e, muito particular- madeira, etc.) de que dispomos nós, os
mente a vida urbana tem que ver com o habitantes do mundo industrializado, e
crescimento exponencial do consumismo que representa uma quinta parte do total,
e a progressiva limitação dos recursos, que necessitaríamos de três planetas. Em
Competitividade e cooperação. Justiça e paz 93

consequência, se partimos da ideia de justiça ao momento actual, dos chamados Fóruns


que figura no título deste capítulo devemos Sociais Mundiais que sob o seu amplamente
admitir que a única via para aplicá-la, no conhecido lema de «Outro mundo é
âmbito material, é pondo em prática a teoria possível» apresentam muitas propostas para
do decrescimento. Não estamos eticamente transformar o actual sistema de globalização.
autorizados a crescer mais - naturalmente,
sim a desenvolver-nos -, a maior parte da Ainda que se pudesse tomar como uma ex-
população da Terra deverá abster-se de fazê- cessiva simplificação, o conjunto de vanta-
-lo. Vai sendo tempo para que as autoridades gens dos Fóruns iniciadas em Porto Alegre
económicas dos países se expressem neste mas que tiveram continuidade em várias ci-
sentido dando, desta maneira, exemplo a dades - novamente o papel da cidade - de
empresários e cidadãos para que todos se todo o mundo, em encontros de diferente
encaminhem para o mesmo objectivo. nível, representam muito bem a intenção de
construção de uma economia comunitária e
Segundo elemento: que a injustiça que co- substituta da actual, injusta e predadora.
metemos com o consumo afectará ainda
mais as gerações que hão-de vir. Os sinto- Alguns traços que se inferem das temáticas
mas são claros: esgotamento dos recursos, tratadas, apontam claramente nesta direc-
diminuição da biodiversidade, contamina- ção. A melhor partilha no acesso às terras
ções de todo o tipo, aquecimento do pla- para exploração agrária, as transferências
neta. E também se começam a vislumbrar gratuitas de tecnologia, o cancelamento
guerras pelos recursos, novas enfermidades, da dívida externa, o incremento da coope-
secagem de lagos, desaparecimento de al- ração para o desenvolvimento, o travar a
guns espaços emergentes, etc. Não cumpri- economia especulativa e não produtiva, as
mos de nenhuma maneira o provérbio índio práticas de comércio justo, a promoção das
que nos fala em arrendar a Terra e que é pre- finanças éticas, o estabelecimento de for-
ciso conservá-la em bom estado para os que mas empresariais cooperativas, a partilha
virão depois de nós. de trabalho entre todos os que o queiram,
o consumo responsável, os vínculos a po-
tenciar entre os países do sul, a ocupação
7. Nem tudo está perdido e recuperação de fábricas abandonadas, as
iniciativas empresariais levadas a cabo por
O sistema socioeconómico imperante mulheres, a criação de instrumentos de fis-
que, a largos traços, tentámos identificar calização internacional, a redução do gasto
nos parágrafos anteriores, que ainda se militar em benefício de fins sociais, o pôr
apresenta com muita força, teve o seu ponto em prática o rendimento mínimo, as «pa-
culminante durante a década dos anos nelas populares», os intercâmbios não mo-
noventa do século XX uma vez destruída a netários, e muitos outros seriam um bom
mal afamada alternativa do socialismo real exemplo disto.
que, em realidade, não era outra coisa que
um capitalismo de estado com um altíssimo Em todo o caso, esta nova maneira de ver
nível de militarização. A segunda metade a economia exige pelo menos três requisi-
da década já viu, primeiro em Chiapas e tos que correspondem aos três «partenai-
depois em Seattle como desde o Sul e desde res» sociais, isto é, indivíduos, empresas e
o Norte se levantavam vozes de oposição administrações. Por parte dos indivíduos,
que se consagraram a partir de Janeiro de consumidores mas também trabalhadores e
2001 com a celebração, sucessiva e até opositores, é preciso que abandonem a fi-
94 Os novos desafios da vida urbana

losofia do «ter» pela do «ser», a da compe- dam de uma forma definitiva que a sua mis-
tência pela da cooperação e a da ganância são é o serviço público a todos os cidadãos
material pela do bem-estar colectivo. As em- e não aos mais poderosos e privilegiados,
presas, pela sua parte, devem assumir verda- que a fiscalidade deve ser verdadeiramente
deiramente o conceito de Responsabilidade distribuidora e que os direitos económicos,
Social no sentido pleno da palavra e não, sociais e culturais devem ser tão respeitados
como sucede frequentemente, mais como como os direitos civis e políticos.
uma estratégia de marketing. Entendendo-
-se que a Responsabilidade Social é preciso Neste contexto, a cidade não é mais do que
tê-la com os trabalhadores, com os clientes um espaço de constatações pouco afortuna-
e usuários, com os fornecedores, com os das e ao mesmo tempo um laboratório de
concorrentes comerciais, com os sub-adju- provas que poderiam ser, de verdade, fer-
dicados, com as repartições públicas com as ramentas de transformação. Se fosse assim
administrações a todos os níveis. Por parte poderíamos falar, com todo o conhecimento
das administrações, é necessário que enten- de causa, de cidades educadoras.
Cultura urbana: em busca
da «autenticidade»

Sharon Zukin

Sharon Zukin, professora catedrática de Sociologia na Universida-


de de Brooklin e na Universidade da Cidade de Nova Iorque, tem
escrito sobre as cidades, a cultura e a economia. Foi galardoada
com o Lynd Award como reconhecimento da sua carreira e dos
seus trabalhos como investigadora do departamento de Sociologia
Urbana da American Sociological Association. A autora recebeu
também o prémio C. Wright Mills, da Sociedade para o Estudo dos
Problemas Sociais, pela obra Landscapes of Power. From Detroit
to Disney world (1991).

Zukin tem publicado diversos estudos sobre sociologia e geografia


urbana, reflectindo sobre teoria política e a economia das cidades.
Loft Living: Culture and Capital in Urban Change (John Hopkins
University Press, 1982), Landscapes of Power (University of Cali-
fornia Press, 1993), The Cultures of Cities (Blackwell, 1995), After
the World Trade Center: Rethinking New York City (co-ed. ­Michael
Sorkin; Routledge, 2002) e Point Of Purchase: How Shopping
Changed American Culture (Routledge, 2004) são alguns dos seus
trabalhos mais conhecidos. Em The Naked City: The Death and
Life of Authentic Urban Places (2010) a autora aborda a questão
da autenticidade, analisando como é que os bairros usam a «au-
tenticidade» como meio de fomento do crescimento económico.
Cultura urbana: em busca da «autenticidade»

Com a maioria da população mundial a vi- os subúrbios ou até mesmo para outras par-
ver nas cidades, a cultura urbana devia ser tes do mundo, e os artistas e os proprietários
uma poderosa expressão de identidade co- de pequenas empresas - desde os vendedo-
lectiva. Mas poucas cidades têm a certeza res ambulantes até aos aspirantes a chefes
de qual é a sua identidade. Mais vulneráveis de cozinha, passando pelos galeristas - co-
do que nunca às ondas de migração e aos meçaram a tirar partido do centro que tinha
movimentos de capital, são cada vez mais sido abandonado. As suas actividades trou-
diversificadas socialmente mas com a mes- xeram uma nova vitalidade aos bairros anti-
ma aparência. A sua continuidade cultural gos, enquanto surgiam novos centros finan-
é desafiada por grandes mudanças sobre as ceiros, sedes de bancos, empresas e novos
quais não têm nenhum controlo: o fim das grupos de comunicação social, dando assim
indústrias tradicionais como a têxtil, a side- sinais de uma nova era.
rurgia, a construção naval e de automóveis,
o aumento da influência das elites transna- Os professores, escritores, advogados e
cionais em matéria de finanças e meios de profissionais de negócios aventureiros mu-
comunicação, bem como a presença ge- daram-se para as velhas casas e lofts, crian-
neralizada de novos migrantes em todas as do um novo estilo de vida urbana entre os
áreas da vida social. As cadeias globais de boémios e burgueses. Os lugares que eles
meios de comunicação, auxiliadas pela In- ocuparam - locais públicos como cafés, res-
ternet, promovem e popularizam as novas taurantes e boutiques e mesmo os espaços
atracções, tornando possível evitar interac- privados das suas casas - depressa atraíram
ções cara a cara. As novas formas de cultu- a atenção pelos seus elegantes designs in-
ra urbana, desde a arquitectura icónica até dustriais e pela sua clientela famosa. Com o
aos restaurantes de fast food e bandas de hi- crescimento constante dos meios de comu-
phop, impuseram um modernismo universal nicação e das artes, esses espaços adquiri-
no sentido local de espaço e do tempo dos ram uma dinâmica irresistível: eram visíveis
moradores da cidade. Expressando a ansie- sinais de uma nova cultura urbana.
dade que muitos homens e mulheres sentem
sobre essas mudanças, a cultura urbana so-
fre de uma crise de autenticidade. No início dos anos 70, o gradual crescimento
destes espaços públicos, conhecidos como
Esta crise é mais evidente no centro das ci- «bairro dos artistas» ou «lugar dos burgue-
dades. Nos primeiros anos da década de 60, ses» deu novas ideias aos governantes e in-
nas cidades mais ricas do mundo, a grande vestidores privados: usar o «capital cultural»
falta de investimento deixou uma quantida- para levar a cabo uma reabilitação urbana
de de armazéns abandonados, docas a apo- de maior envergadura. Esta estratégia pro-
drecer e torres de escritórios parcialmente metia renovar os centros das cidades, sem
vazias. As fábricas, escritórios e os morado- o trauma de derrubar edifícios históricos e
res mais ricos começaram a mudar-se para sem deslocar um grande número de antigos
98 Os novos desafios da vida urbana

residentes mas foi alterada de acordo com Embora os novos centros comerciais insta-
os gostos culturais de um grupo social com lados nos antigos centros urbanos tenham
um alto grau de educação e conhecimentos. trazido um número recorde de consumido-
Na América do Norte e na Europa Ociden- res ao centro da cidade, estes compradores
tal, a preferência desse grupo de homens e não circulavam pelas ruas da cidade velha.
mulheres pelos bairros antigos com edificios Os investidores imobiliários de novos mer-
históricos e lugares com significado estético cados urbanos criaram espaços fechados
muito rico, deram uma nova definição de em si mesmos, quase «gradeados» onde os
autenticidade. Também os colocou no meio clientes podiam procurar, comprar, comer,
de moradores da cidade mais velhos, mais beber e visitar um museu de arte, cinema ou
pobres e menos adaptáveis, cujo direito à ci- aquário, envoltos num sentimento de segu-
dade dependia da família, dos hábitos, dos rança, abundância e divertimento. Os peri-
locais e dos laços sociais. gos desconhecidos da vida da cidade eram
controlados por guardas de segurança pri-
Ao mesmo tempo, uma maior iniciativa vada contratados por agentes imobiliários
para remodelar o centro da cidade iniciou- que eram os proprietários e gestores do es-
-se nos EUA, onde já nos anos 50 os comer- paço, bem como pela legislação local que
ciantes locais tinham começado a abando- proíbia a presença dos sem-abrigo, mendi-
nar os centros históricos da cidade para se gos e de outros elementos perturbadores.
mudarem para as zonas suburbanas e para Como resultado, os críticos queixavam-se
os novos centros comerciais. As imobiliá- que esses projectos urbanísticos imporiam
rias e as autoridades municipais pensaram no centro urbano uma ordem social sem
transformar a cidade num novo tipo de regras, semelhante à Disneylândia privan-
espaço comercial, que devolveria ao cen- do os moradores e visitantes de encontros
tro, a classe média, atraíria os visitantes espontâneos com estrangeiros que fazem
dos subúrbios e os turistas, transformando com que a cidade perca a sua autêntica
o antigo centro da cidade num «merca- experiência de Distinção. Os mercados em
do festivo». Tal como o enobrecimento de centros históricos “encenavam” a autentici-
certas zonas históricas das cidades, estes dade como uma experiência de consumo,
projectos de desenvolvimento urbano se- muito parecida com a do famoso comple-
guiram também uma estratégia cultural. As xo de entretenimento «salsicha» (cachorro
imobiliárias utilizaram os edifícios antigos quente, ou grande atracção) da Disneylân-
como pano de fundo histórico da identida- dia no centro, segundo a famosa frase de
de local e também como marca de estética. Walt Disney. Mas esse tipo de encenação
Esse «mercado festivo» dependia de uma convenceu os investidores imobiliários e
nova consciência - o valor que esses edifí- clientes para correrem o risco de investir na
cios históricos tinham enquanto património vida da cidade. O sucesso comercial do Fa-
cultural. Mas também reflete a crescente neuil Hall, em Boston, do Porto Interno de
importância dos centros comerciais como Baltimore e de Plaza Horton em San Diego
locais tanto para o consumo de lazer indi- logo incentivaram imitações em muitas ci-
vidual e cultura pública.1 dades dos EUA e geraram ainda mais es-
paços ambiciosos, com aquários, cinemas

1
Lizabeth Cohen, A República dos Consumidores: A
política do consumo de massa na América do pós-guer-
ra (New York: Knopf, 2003), Bernard J. Frieden e Lynne
B. Sagalyn, Inc. Baixa: Como a América reconstrói ci-
dades (MA Cambridge: MIT Press, 1989).
Cultura urbana: em busca da «autenticidade» 99

IMAX, centros de convenções e lojas, entre Mas sendo uma zona de muito movimento e
Barcelona e Singapura.2 diversão, também atraiu o perigoso comér-
cio do sexo e drogas. Dado que os agentes
imobiliários não mostraram nenhum interes-
Times Square se na área, a presidência da Câmara propôs
vários projectos diferentes, mas nenhum de-
A reconstrução de Times Square, a famosa les atraiu muita atenção - até à década de
zona de entretenimento no centro de 80, quando os investidores corporativos fize-
Manhattan, mostra como a autenticidade ram os seus próprios planos para uma nova
encenada de espaços centrais representa um Times Square com torres de escritórios: de-
dilema para aqueles que querem conservar finitivamente não era um mercado festivo e
a cultura popular antiga da cidade mas que não era de todo consistente com a autêntica
reconhecem a necessidade da renovação dureza e o brilho de néon de Times Squa-
económica. Durante a maior parte do século re. Este plano causou tanta oposição que o
XX, Times Square era um vigoroso centro de projecto foi adiado por vários anos, até que
entretenimento, com tudo, desde shows da o potencial financiamento desapareceu no
Broadway e cinemas com néons luminosos, declínio do mercado de acções.3
cartazes publicitários e multidões rotineiras a
todas as horas do dia e da noite. No início Grande parte da oposição veio dos homens
da década de 90, a sua aura cosmopolita e mulheres que apoiaram a preservação his-
permitiu aos Nova-iorquinos chamar-lhe, com tórica e chefiavam muitas das instituições
algum exagero, «a encruzilhada do mundo». culturais da cidade. Encabeçado pela So-
Em termos de aspirações nacionais, Times ciedade Municipal de Arte, os adversários
Square era tanto o centro geográfico como fizeram campanha para proteger a autenti-
metafórico da cultura popular americana. cidade de Times Square, valendo-se de um
Homens e mulheres reuniram-se ali para argumento estético, o de preservar o seu
ler as últimas notícias que eram exibidas no aspecto. Propuseram uma lei exigindo que
enorme ecrã eléctrico da Motogram e foi em cada edifício no bairro usasse um grande
Times Square que Alfred Eisenstadt tirou a sua letreiro luminoso na sua fachada, tornando
famosa fotografia, publicada na revista Life, cada prédio, na verdade, um cartaz electró-
de um marinheiro que levantou uma jovem nico gigante. Os teatros da Broadway, com
do chão e a beijou para comemorar o fim a ameaça de serem vendidos pelos proprie-
da Segunda Guerra Mundial. Times Square tários dos terrenos onde estavam instalados
continuou a atrair visitantes, incluindo e serem engolidos por um novo edifício de
famílias com crianças, até os anos 60. escritórios, inspiraram uma nova lei. Essa lei
permitiu aos proprietários dos teatros vender
«os direitos do ar», importante pela oportu-
nidade que estes oferecem para a constru-
2
Sharon Zukin, Paisagens de poder: De Detroit ao
Disneyworld (Berkeley e Los Angeles: University of ção de um edifício muito mais alto no local,
California Press, 1991); John Hannigan, Cidade Fantasia
(New York: Routledge, 1998), Don Mitchell e Lynn A.
Staeheli, «Limpa e segura? Propriedade Restruturada, 3
William R. Taylor, ed, Inventando Times Square: o
Espaço Público e Sem-Abrigo na baixa de San Diego», Comércio e a cultura na encruzilhada do mundo (Nova
em Smith e Neil Setha Low, ed, A política do espaço York: Russell Sage, 1991); Lynne B. Sagalyn, Times
público. (New York: Routledge, 2006), p. 143-75. Square Roleta (Cambridge, MA: MIT Press, 2001);
“Encenando Autenticidade” de Dean MacCannell, O Sharon Zukin, As Culturas das Cidades (Oxford e
Turismo: Uma Nova Teoria da Classe Ociosa, 3 ª ed. Cambridge, MA: Blackwell, 1995), Marshall Berman,
(Berkeley e Los Angeles: University of California Press, Na cidade: Cem Anos de Espectáculo em Times Square
1999). (Nova York: Random House, 2006).
100 Os novos desafios da vida urbana

para os proprietários de imóveis nas proxi- como para o grupo. Colocar a Disney em Ti-
midades. A venda dos direitos do ar iria pro- mes Square conduziu a uma união saudável
teger a concentração de edifícios de teatros entre a cultura popular de entretenimento
baixos nas ruas laterais, enquanto arranha- orientada para a família da Disney e a reno-
-céus se erguiam nas avenidas largas ao seu vação moral que o governo da cidade dese-
redor, começando na Broadway em si. Ao java. Com as novas leis a proteger o espaço
mesmo tempo, o Departamento de Polícia na área para os teatros legítimos da Broa-
de Nova Iorque iniciou uma limpeza vigo- dway, os promotores privados começaram a
rosa de pornografia das calçadas e das lojas, planear novas instalações de entretenimento
retirando os proxenetas, os traficantes, e os para alugar a outras empresas que queriam
clientes ofegantes e arrebatados que subiam estar junto da ideia inicial da Disney. Na dé-
a rua 42 depois do anoitecer tão ameaça- cada de 90, quando a Disney ainda parecia
dores, especialmente para as mulheres. Por um grupo gigante invencível com recursos
força adicional, o governo da cidade expro- populares universais, a empresa abriu uma
priou locais ocupados por lojas de porno- loja em Times Square e renovou um teatro
grafia, cujos proprietários se recusaram a histórico, o Nova Amesterdão, na porta ao
mudar de ramo ou a fechar, vendendo-as a lado, para a estreia de «A Bela e o Monstro».
agentes imobiliários que iriam substituí-las Eles foram em breve acompanhados pela es-
por empresas menos problemáticas. tação de televisão de música orientada para
os jovens MTV e uma grande quantidade de
A combinação de «legislação estética», poli- restaurantes temáticos, bares e casas de es-
ciamento e a expropriação forçada preparou pectáculos com nomes de marcas bem co-
Times Square para uma mudança de cultu- nhecidas - desde o Museu Madame Tussaud
ra popular, que se baseou, não coinciden- e a Virgin Megastore até à Blues BB King’s
temente, na empresa Disney. O conhecido Club e uma loja da Hello Kitty.
arquitecto de Nova Iorque, Robert A M Stern
relacionou estas estratégias, pois tanto traba- Pelas medidas comuns de requalificação
lhava para a direcção empresarial da Disney urbana, Times Square é um grande sucesso.
como supervisionava um estudo de planea- Todos os anos, 26 milhões de visitantes vêm
mento local para preservar a zona dos tea- para se fascinarem com as luzes brilhantes,
tros da Broadway. Stern não se lembra, ao comer em restaurantes, comprar no Toys
passar por Times Square, um dia no final dos ‘R’ Us, e, talvez, ir ao teatro - pelo menos
anos 80, de quantas pessoas, especialmente ao tea­tro da Disney. O impacto económico
mulheres, chegavam às sessões da tarde nos da região, de acordo com a Times Squa-
teatros da área em autocarros apanhados re Alliance, um grupo empresarial local, é
perto das suas casas nos subúrbios. Teve de- igual ao conjunto das economias da Bolívia
pois - então relembra - a ideia da construção e Panamá. Embora as atracções culturais tra-
de atracções que tornariam Times Square se- gam multidões que enchem a praça desde
gura o suficiente para que os visitantes ali se a rua 42 até à rua 50, dia e noite, a área é
sentissem em casa. Por sorte, no início de rodeada por edifícios de escritórios de em-
1990, o grupo Walt Disney também estava a presas dos principais sectores de trabalho da
pensar em expandir os seus negócios através economia simbólica da cidade - meios de
da produção de espectáculos para o teatro comunicação e finanças. A sede da Condé
comercial que apresentavam personagens Nast, a Hearst Corporation, e o New York Ti-
dos seus filmes e parques temáticos. A en- mes estão nas proximidades, bem como a
trada da Disney na Broadway, era então uma sede do Nasdaq, os escritórios das empresas
perspectiva atraente tanto para os urbanistas financeiras Lehman Brothers e Morgan Stan-
Cultura urbana: em busca da «autenticidade» 101

ley e escritórios de advocacia empresarial. está também enraizada na modernidade.


Os promotores de Times Square alegam que Ser sincero para uma personagem inata ou
a renovação manteve como recurso o ape- histórica só pode ser valorizada numa época
lo populista único da área enquanto houve em que tudo é visto como mudança e toda
uma limpeza para o público e o tornavam a gente é vista como capaz de ser falsa. A
num local ideal para o estatuto de sede de autenticidade é a aparência da veracidade.
reconhecidas corporações transnacionais. Se buscamos a autenticidade nas cidades
Mas será a nova Times Square autêntica? de hoje, nós estamos a revoltar-nos contra a
No início da sua renovação, os críticos falsidade que vemos na familiaridade ence-
queixaram-se amargamente da «Disneyfica- nada dos subúrbios e da história encenada
ção» - uma repetição, branda e entorpecen- dos centros feitos à imagem da Disneylân-
te de marcas corporativas, má alimentação dia. Estamos a tentar escapar da produção
e entretenimento banal. Filiais de empresas de prazer em massa mesmo se isso nos levar
multinacionais, como o Museu Madame ao consumo em massa de casas de arenito,
Tussaud’s negam a localização única, desta- de edifícios de lofts em ferro fundido e rua
cando a história de Nova Iorque e as raízes de paralelos.4
da área da cultura pop em performances ao
vivo. Apesar dos seus reclames de néon pul- Embora a valorizemos como «real», a auten-
santes e as multidões que fazem a caminha- ticidade nunca surge por si própria. É sempre
da com expectativa, Times Square tornou-se produzida por homens e mulheres que a re-
um franchising de entretenimento popular. É conhecem, escrevem sobre ela, que a alimen-
uma expressão moderna e padronizada de tam, e a vendem aos outros. No seu sentido
cultura urbana que, apesar da proeminência mais restrito, a autenticidade é um selo de
dos seus eventos ao vivo, como a queda de aprovação dada por especialistas aos objec-
uma bola brilhante do topo da Torre Times, tos exclusivos - como o retrato de Rembrandt
na véspera de Ano Novo, corre o risco de ser autenticado - mas num sentido estético mais
um cliché. amplo, também pode ser um reconhecimento
crítico da música, de um som de um género
A autêntica cultura urbana deve ter a força autêntico de um cantor ou o elogio de um crí-
do destino. Vemo-lo em prédios antigos, ruas tico a um restaurante com um estilo culinário
estreitas, e na enorme variedade de pessoas, autêntico. Com produtores inteligentes e uma
espaços comerciais, lojas e pontos turísticos boa campanha de marketing, a autenticidade
que encontramos em cada cidade grande. pode ser fabricada.
É um sentimento de tijolo e argamassa nos
nossos ossos que não podemos separar da É um «recurso renovável», como diz o so-
escala histórica da cidade de prédios baixos, ciólogo Richard Peterson, e nesta contradi-
as lojas familiares e as ruas lotadas: é uma ção tanto encontramos a originalidade sem
estética diferente. É também um sentimen- par como a autenticidade e o seu potencial
to social, um sentimento de orgulho cívico de inovação. Há quase sempre um acto de
não forçado entre estranhos e um laço social
forte entre os habitantes locais. Tanto social-
mente e esteticamente, o desejo de auten-
4
Para pensamentos semelhantes, ver Marshall Berman,
Tudo que é sólido se desfaz no ar (New York: Simon
ticidade é um grito contra a modernidade and Schuster, 1982) e Richard Sennett, A consciência
- contra a repetição das novas construções do Olho (New York: Norton, 1990). Em Negro Real:
irrepreensíveis, filiais inescapáveis de cadeia Aventuras na Sinceridade Racial (Chicago: University
de lojas, e uma grade opressiva de torres de of Chicago Press, 2005), John L. Jackson, Jr., usa a sin-
ceridade para indicar o desempenho de um indivíduo
arranha-céus. Mas a ideia de autenticidade com identidade autêntica.
102 Os novos desafios da vida urbana

descoberta envolvido na autenticidade - a Guggenheim Bilbao


escavação do diamante em bruto, o encon-
trar a gravação do vinil raro ou o deparar, Na maioria das cidades, é o ego do planea-
num clube de música barato, com o cantor mento de um centro de revitalização urba-
de blues que já foi famoso. A autenticida- na que guia a construção de novos bairros
de, então, implica o consumidor cultural. culturais em antigos zonas industriais:, nas
Em contraste com a autenticidade encenada docas, fábricas e caves abandonadas. Na
dos novos clubes do estilo blues destinados contrapartida do mercado festivo, estes no-
a turistas, extrair a «novidade» ou «a próxi- vos bairros culturais desenvolvem-se em tor-
ma novidade» requer não apenas um certo no de uma atracção de peso, normalmente
conhecimento especializado, mas também um museu de arte moderna, ou uma casa
uma vontade de mergulhar fundo na lama de ópera (Sydney), teatros (Singapura) ou de
de bares de bairro e em espaços de espectá- uma ilha de instituições culturais (antigas,
culo em armazéns. Na estética dos espaços como em Berlim e Viena, recentes, como em
urbanos, a autenticidade é a imagem visível Abu Dhabi). Ao contrário dos centros his-
dos limites irregulares de desenvolvimento tóricos e culturais em cidades antigas, que
desigual - testemunho de uma cidade nua de ocuparam um lugar sagrado e se tornaram
densas multidões, ruas escuras e persegui- ícones devido aos rituais praticados, os cen-
ções subterrâneas. Este é o terreno de para- tros culturais de hoje são concebidos, desde
nóia, assim como da criatividade, do truque o início como ícones profanos que simboli-
de três cartas e outros jogos ilegais jogados a zam a cidade e mobilizam o investimento
céu aberto, na calçada, bem como do hino numa nova economia. São as cartas com
de Jane Jacobs para a interdependência pró- que a cidade joga no plano da globalização.
pria de vizinhos dos comerciantes locais,
das crianças da escola e das donas de casa a Desde os anos 60, quando a Casa da Ópera
que chamou «ballet de rua». A autenticidade de Sydney e o Centro Pompidou de Arte Mo-
não é o ego enorme dos planos urbanísticos, derna, em Paris, foram planeados, os centros
é a libido de usos criativos que impulsiona a culturais foram convidados a desempenhar
alma da cidade.5 diversas funções: atracção de renovação ur-
bana, símbolo de prestígio da nação, ener-
gizador da criatividade e da inovação. Eles
estão quase sempre localizados em terrenos
que perderam o seu uso industrial e o seu
valor económico, muitas vezes à beira-mar.
Em Paris, o Centro Pompidou foi planeado,
5
Richard A. Peterson, Criando música country: Confec- em parte, para revitalizar a área ao redor da
ção de autenticidade (Chicago: University of Chicago Rue Beaubourg, um terreno vazio de lojas
Press, 1997); David Grazian, Chicago Blues: A busca de de renda baixa, habitações em ruínas, pe-
autenticidade nos Clubes Urbanos de Blues (Chicago:
University of Chicago Press, 2003), Jane Jacobs, Morte quenas oficinas baratas entre o ainda não
e vida das grandes cidades americanas (New York: Ran- enobrecido Marais e os mercados grossis-
dom House, 1961), Sobre a «Deslibidinação de Nova tas de alimentos ainda não demolidos de
Iorque», ver notas de Rocco Landesman, produtor de Les Halles. Os donos destes novos centros
teatro da Broadway em Sewell Chan, «Painel de Discus-
são: Nova York perdeu a sua alma?», [Http://cityroom. culturais - líderes políticos e empresariais -
blogs.nytimes.com/2007/10/04/has-new-yorklost-its- deram prioridade ao design inovador e or-
soul/], 04 de Outubro de 2007, o autor Samuel L. De- ganizaram um concurso entre arquitectos de
lane expressa a mesma ideia num painel de discussão todo o mundo que foi ganho por arquitectos
sobre Times Square na Universidade de Columbia no
início dos anos 90. estrangeiros.
Cultura urbana: em busca da «autenticidade» 103

Hoje, os vencedores dessas competições são não conhecia o nome do Museu de Arte Mo-
«arquitectos estrelas» possuidores de mui- derna pelas siglas. Tal como Times Square e
tos prémios e muitos projectos. No caso do outros centros de entretenimento urbano,
Centro Pompidou, a escolha de um design estes bairros culturais são muito frequenta-
industrial, que deixava a descoberto muitas dos, mas nem todos eles são populares entre
partes da estrutura do edifício e estava pin- os locais. O grande espaço aberto em frente
tado de cores vivas, correspondia à vontade ao Centro Pompidou encheu-se de turistas e
de criar uma série de programas inovadores artistas de rua, jovens e dançarinos de dan-
que forçosamente converteriam Paris (e, por ças urbanas, muitos deles franceses, desde a
extensão a França) numa das paragens fun- abertura do museu. Enquanto isso, o grande
damentais nos meios artísticos e culturais. espaço aberto em frente ao Museu Gugge-
nheim, em Bilbao geralmente está vazio,
Na década de 90, quando os líderes locais com excepção dos turistas que o visitam. Ao
em Bilbao e Hong Kong projectaram umas contrário do Centro Pompidou, que é pro-
instalações culturais de grande envergadura, priedade do governo francês e gerido pelo
pensaram nas diferentes maneiras em que mesmo, o Guggenheim de Bilbao é uma su-
estas poderiam ajudar as suas cidades a al- cursal da cadeia dos museus Guggenheim.
cançar e manter um papel importante nos Concebido como um símbolo que chama a
mercados financeiros globais. A única coisa atenção para o triplo objectivo da cidade -
que perguntaram foi se estas ajudariam os fazer desaparecer as indústrias em declínio,
artistas locais na exposição das suas obras limpar os detritos das indústrias siderúrgicas
ou se atrairiam até eles a atenção dos meios e estaleiros navais da orla marítima, e reali-
de comunicação. zar uma campanha contra-terrorista pacífica
contra os separatistas bascos - o museu tinha
Os novos bairros culturais realmente atraem muitos usos locais. Mas, tal como os dirigen-
a atenção dos meios de comunicação. Um tes da Empresa Disney, que decidiram abrir
número crescente de revistas de arte, guias uma loja na Times Square, o director do Mu-
de viagem e sites da Internet são dedicados seu Guggenheim, com sede em Manhattan,
às cidades e ao lazer promovendo a cultura já estava preparado para a expansão.
e locais para visitar. Embora o público possa
não ter a menor ideia do que é exactamente Desde meados de 80, Thomas Krens tinha
a arte, ela é mostrada em novas instalações, planeado abrir várias filiais em outras ci-
e ouvem o «falar» dela. As tarifas aéreas dades do mundo, bem como patrocinar
mais baixas, mais tempo livre e uma forte um novo Museu de Arte Contemporânea
ênfase na mobilidade individual incentivam de Massachusetts (MassMoCA), em North
o turismo cultural, especialmente entre os Adams, uma cidade industrial em declínio
ricos, homens e mulheres cultos que prova- situada nas montanhas Berkshire da Nova
velmente recolhem novas experiências des- Inglaterra. O Museu Guggenheim tinha mais
ses locais que visitam. Os jovens, até mes- obras de arte do que tinha espaço de expo-
mo estrangeiros, estão muitas vezes mais em sição para as mostrar, e muitas obras recen-
sintonia com o surgimento destes bairros e temente adquiridas eram tão grandes que
instituições culturais, do que os moradores. precisavam de um museu só para elas.
(Penso no jovem casal italiano que eu vi,
não há muito tempo, quando na Quinta Ave- Tal como o projecto de Times Square, a re-
nida ao entrarem para o autocarro pergun- vitalização da zona portuária industrial de
taram ao motorista se aquele passava pelo Bilbao incorporava uma desejada sinergia
«MOMA», o motorista ficou preplexo pois entre as estratégias económicas dos em-
104 Os novos desafios da vida urbana

presários bascos, os urbanistas de Krens e da atriz Marilyn Monroe, como Herbert


um empreendedor cultural. Tal como Times Muschamp, o crítico de arquitectura do New
Square, o Centro Pompidou e outros novos York Times, escreveu quando visitou Bilbao
pólos culturais em todo o mundo, o Gug- aquando da abertura do museu em 1997.
genheim de Bilbao seria acompanhado de O edifício sugere um «estilo americano
desenvolvimento imobiliário - por novas de liberdade», escreveu Muschamp. «Esse
lojas e prédios de luxo. Mas ao contrário estilo é sensual, emocional, intuitivo e
da maioria das outras cidades, Bilbau tinha exibicionista». Nada poderia estar mais
uma estratégia mais ampla e mais ambiciosa longe da cultura tradicional biscaia ou
de modernização da infra-estrutura urbana atitudes em Bilbau, uma cidade que no
e para levar a cabo essa estratégia lançou passado havia rejeitado ambas as esculturas
concursos para a concepção do novo me- do aço minimalista do artista americano
tropolitano, pontes e do novo aeroporto. Richard Serra e os trabalhos do artista basco
A ideia fundamental, porém, era a mesma: moderno Jorge Oteiza.7
juntar o melhor da arquitectura mundial ao
fabrico local para produzir uma nova série Uma vez que os estaleiros e siderurgias
de símbolos urbanos. Isto representava uma ainda não tinham sido demolidos quando
ruptura extraordinária com a interioridade Muschamp escreveu isso, foi mais fácil
das tradições locais em direcção a uma eco- para ele, do que seria para um visitante de
nomia visando o turismo.6 hoje, dizer que Gehry se tinha inspirado na
potência industrial de Bilbao do século XIX.
Mas tanto no interior do museu como nas suas Mas Gehry refez esse património industrial
envolvências urbanas, o Guggenheim Bilbao de uma forma abstracta, e o próprio museu
tem um problema com a autenticidade. Se a substituiu uma fábrica que, segundo alguns
autenticidade significa «original» no sentido relatos, ainda estava em funcionamento.
de se ser fiel à cultura local, o museu falha, Estas transformações materiais da cultura
pois nem o seu design arquitectónico, nem urbana representam a posição dominante
as empresas financiadoras estão filiados do novo museu na cidade, onde ambos têm
em Bilbao. O arquitecto Frank Gehry tinha vista para o centro da cidade e empregam
intenção de que os curvos painéis cor de a maior parte do financiamento cultural do
prata feitos em titânio da fachada do museu governo regional. Também não há lugar para
representassem as ondas do rio Nervión e a arte local dentro do Guggenheim Bilbao.
sugerissem a dureza dos altos fornos que Todas as exposições são de obras de artistas
costumava haver nas proximidades. Mas estrangeiros. Talvez seja positivo para Bilbao,
a forma sinuosa do museu e as reflexões onde o Museu de Belas Artes local tem uma
brilhantes da luz poderiam muito bem excelente colecção de trabalhos históricos
sugerir um glamour cosmopolita - o glamour locais, mas carece de uma colecção de
arte forte e moderna. No entanto, levanta
6
O museu tem suscitado um debate interminável dúvidas sobre a integração da área cultural
sobre o conflito entre o industrial e a revitalização com artistas locais que vivem e trabalham
orientada pela arte e pelas finanças em Bilbao. Ver em hoje na cidade. Nem se pode dizer que o
Lorenzo Vicario e P. Manuel Martinez Monje, «Outro museu serve mais os visitantes locais do
efeito Guggenheim?» Projetos da Cidade Central e o
Enobrecimento em Bilbao, em O Enobreciemnto num
contexto Gobal, ed. Rowland Atkinson e Gary Bridge 7
Muschamp Herbert, «O Milagre em Bilbao», New York
(Londres: Routledge, 2005), p. 151-67; Zulaika Joseba, Times, 7 de Setembro de 1997; Zulaika Joseba, «Beleza
Crónica de uma Sedução: o Museu Guggenheim Bilbao Dura: Bilbao como Ruína, Arquitectura e Alegoria», em
(Madrid: Nerea, 1997). Sobre North Adams, consulte Joan Ramon Resina, ed, Cidades Ibéricas (Nova Iorque
Zukin, Culturas das Cidades. e Londres: Routledge, 2001), pp.1-17.
Cultura urbana: em busca da «autenticidade» 105

que os turistas. Os preços das entradas são o futuro da cultura urbana. A repetição destes
altos para as pessoas de Bilbau, onde a taxa projectos têm levado à imposição de um úni-
de desemprego é de 60 por cento entre os co modelo de criatividade? Um modelo que
jovens, e a maioria dos visitantes vêm de exclui os residentes que não são nem produ-
outras áreas da Espanha e do estrangeiro. tores nem consumidores da nova arte. Isso
Além disso, os hotéis de luxo que foram diminui a singularidade dos museus, que se
construídos para os turistas culturais são tornam, como o Guggenheim, uma operação
caros. Os visitantes tendem a vir uma vez, à escala global? No século XIX, Bilbao indus-
ficar uma ou duas noites e sair sem ver o trial esteve certamente ligada ao poder eco-
resto da cidade. (Quando fiquei num hotel nómico exterior à região - para os banqueiros
ao lado do museu e pedi ao empregado da europeus e fábricas inglesas que investiram
recepção um mapa da cidade, ele desenhou nas indústrias siderúrgicas e estaleiros. Mas
um grande círculo em volta do centro antigo os museus de arte moderna de hoje são, em
da cidade e alertou-me para não ir lá: um muitos aspectos, as incubadoras de uma nova
sinal visível do desigual desenvolvimento globalização. Não são apenas fontes de pra-
recente da cidade.8 zer e aprendizagem, mas são também tecno-
logias de disciplina que forçam as culturas
São muitos os que felicitariam as autoridades urbanas a abrir-se para o exterior, a adaptar-
de Bilbau por terem reconhecido que tinha -se a mercados transnacionais e a se tornarem
terminado a era de uma economia baseada mais cosmopolitas.9
na indústria e aplaudiram a mudança e o de-
senvolvimento cultural para a cidade. Mas
esta mesma maneira de ver, mudou o modo 50 Lu Moganshan
de pensar dos dirigentes políticos e económi-
cos de muitas cidades na era pós-industrial. As áreas culturais sugerem que promover um
Um quarto de século passou e o «efeito Be- novo tipo de economia não consiste apenas
aubourg» passou a «efeito Bilbao» e desta em discos rígidos e chips de silicone: os
vez, as esperanças de um desenvolvimento «polos tecnológicos», como Sillicon Valley,
urbano baseado na cultura originou uma in- onde os engenheiros informáticos inovado-
findável série de centros culturais, festivais e res se encontram com os capitalistas interes-
concursos. Se a selecção anual de uma Capi- sados no investimento nas novas tecnologias
tal Europeia da Cultura é apenas o caso mais não atraem os pensadores criativos que são
promovido das cidades a tentarem refazer-se susceptíveis de desenvolver novos usos para
numa nova imagem cívica, estes projectos produtos de alta tecnologia que dão glamour
emblemáticos colocam sérias dúvidas sobre
9
O uso de novos museus de arte para promover o
desenvolvimento económico,ver Graeme Evans,
8
Decorre um debate sobre o valor social e económico «Publicitar duramente a cidade cultural - de Prado a
destas visitas de turistas, alguns dos quais tomam co- Prada», Jornal Internacional de Pesquisa Urbana e
nhecimento da sua existência nos meios de comunica- Regional 27 (2003): 417-40; Chris Hamnett e Shoval
ção globais. Ver em Beatriz Plaza, «Avaliar a influência Noam, «Museus como exemplos emblemáticos de
de um Artefacto Cultural na Atracção do Turismo», Re- Desenvolvimento Urbano, nas cidades e visitantes»,
vista de Assuntos Urbanos 36 (2000): 264-74 e «O Re- ed. Lily M. Susan Hoffman, S. Fainstein, e Dennis R.
torno do Investimento do Museu Guggenheim Bilbao», Judd (MA Malden e Oxford: Blackwell, 2003), p. 219-
Jornal Internacional de Pesquisa Urbana e Regional 30 36; George Yúdice, A oportunidade de Cultura (NC
(2006): 452-67; Denny Lee, «Bilbao dez anos depois», Durham e Londres: Duke University Press, 2003). Sobre
Secção de Viagens do New York Times, 23 de Setembro o efeito do franchising e da globalização económica
de 2007. O museu Guggenheim de Bilbao detém 80 em Bilbau, ver Donald McNeill, «McGuggenização?
por cento do orçamento do governo regional para os Identidade Nacional e Globalização no País Basco»,
museus: Zuleika, «Beleza Dura», p. 12. Geografia Política 19 (2000): 473-94.
106 Os novos desafios da vida urbana

e divulgam a economia da informação. Me- Quer sejam subsidiados ou espontâneos, os


nos monumental no tamanho do que uma grupos de produtores criativos têm uma im-
área cultural, mas igualmente ambicioso na portante função económica. Eles ajudam a
sua visão do futuro, o «centro criativo» cons- formar redes que relacionam «criativos» em
titui um esforço diferente para recrear os as- sinergias úteis e colaborações, e também os
pectos produtivos da cultura urbana. O foco tornam visíveis e disponíveis para poten-
criativo consiste num grupo de artistas e de- ciais clientes. Aos poucos, alguns produto-
senhadores que se juntam intencionalmente res tornam-se empresários culturais, abrindo
num bairro ou num complexo de edifícios. galerias de arte, cafés e espaços de actuação
Às vezes é subsidiado pelo Estado, como onde a rede existe. Esses espaços também
os centros criativos patrocinado pela Agên- mostram e promovem o trabalho de novos
cia de Desenvolvimento de Londres desde residentes criativos. Com o tempo tornam-
2004, mas muitas vezes emerge como um -se locais de consumo cultural, atraindo
agrupamento espontâneo de jovens artistas, a atenção dos escritores, dos meios de co-
músicos e performers, como os bairros de municação, coleccionadores, galeristas em
artistas do SoHo (Manhattan), Williamsburg voga e curadores de museus, bem como os
(Brooklyn) e Hoxton (Londres), assim como caçadores de talentos da indústria musical e
o pequeno «Silicon Alley» na baixa de Ma- outros potenciais recrutas para a vida artísti-
nhattan. Muitas cidades têm as condições ca. Gradualmente, esses espaços começam
materiais para esses grupos se formarem: a mudar a cultura local. Eles oferecem uma
áreas anteriormente industriais com rendas casa mais confortável para os artistas do que
baixas, ou mesmo de escritórios, edifícios os estabelecimentos comerciais e os bares
que estão perto tanto das empresas financei- existentes na área, criando uma comunida-
ras e dos meios de comunicação que com- de visível que é mais sofisticada na sua for-
pram trabalhos criativos, muitas vezes, numa ma - mais «em voga» - do que os residentes
base freelancer como lojas de preços baixos, de longa data. Muitas vezes, novas atracções
bares e restaurantes, cujas etnias e culturas para os consumidores culturais têm o efeito
da classe trabalhadora fornecem uma diver- de aumentar as rendas na área, o que sig-
sidade de materiais de base e um sentimento nifica que o bairro dos artistas ou o ponto
de autenticidade. Do ponto de vista dos jo- fulcral criativo é um lugar dinâmico em ter-
vens trabalhadores culturais, compartilhan- mos de economia e cultura. Mas a subida
do as ruas com os imigrantes e trabalhadores das rendas pode provocar a deslocação não
ajudam a criar uma Nova Boémia de energia só das comunidades «autênticas» existentes
criativa. Também reproduz o nervosismo dos - como tem vindo a acontecer em Nova Ior-
encontros inesperados com estranhos na ci- que desde os anos 70 - mas também para
dade tradicional - e Estranhamento: produ- tornar a área demasiado cara para os pró-
ção cultural nova que prospera nos limites prios artistas. Em Londres, recentemente, a
recortados do desenvolvimento desigual, em procura das artes gráficas e das empresas de
áreas que ainda não foram higienizadas ou publicidade que alugaram espaços a baixo
transformadas à imagem da Disney.10 custo em centros de criação em antigas fá-
bricas da periferia urbana fizeram aumentar
as rendas e gradualmente reduziram os es-
10
Sharon Zukin, Viver em Lofts: Cultura e Mudança na
Capital Urbana, 2 ª ed. (New Brunswick NJ: Universidade paços baratos que estavam disponíveis para
de Rutgers Press, 1989), Richard Lloyd, Nova Boémia: os artistas individuais.
Arte e Comércio na cidade pós-industrial (New York:
Routledge, 2006); Indergaard Michael, Silicon Alley: A lógica em que assenta o apoio estatal aos
A Ascensão e Queda de um Novo Bairro de Meios de
Comunicação (New York: Routledge, 2004). centros criativos é que esses grupos contri-
Cultura urbana: em busca da «autenticidade» 107

buem para o desenvolvimento de uma nova rem em artistas emergentes, cujo trabalho
economia. Eles são uma maneira eficiente pode ser visto como uma crítica aos lemas
de criar redes de informação, fornecedores do partido e que tinha - pelo menos até há
e clientes que os produtores necessitam. alguns anos - valor de mercado imprevisí-
Estudos mostram que a produção cultural, vel. Em qualquer caso, um determinado nú-
desde os meios de comunicação em voga mero de centros criativos formaram-se em
até à moda alternativa, música e arte, for- Pequim e Xangai, durante a década de 90 e
necem de ano para ano mais empregos e início de 2000 por iniciativa de artistas in-
o valor financeiro da compra e venda des- dividuais.
ses bens e serviços cresce em importância
tal como o fabrico tradicional continua a Em Xangai, o artista Xue Song mudou o seu
diminuir. Os produtores culturais, além estúdio para um complexo fabril vazio, da
disso, pensam em maneiras de aumentar o década de 30 situado no 50 Moganshan Lu,
valor de máquinas de alta tecnologia (com perto do rio Suzhou, propriedade da Shang-
a criação do software para jogos de vídeo) tex, uma grande empresa de têxteis e decla-
e do padrão de itens produzidos em massa rou que se havia mudado para uma nova
(através da criação de campanhas publicitá- zona de desenvolvimento situada do outro
rias inovadoras para automóveis ou cerve- lado do rio, na zona de Pudong, próximo do
ja), bem como popularizar novos produtos aeroporto. Não só artistas, mas também líde-
distintivos para nichos de mercado (fazendo res de negócios e políticos viram o potencial
campanhas secretas e de passa a palavra do local como um centro cultural, especial-
para as bandas indie, ténis personalizados e mente à luz do sucesso da Fábrica 798, um
vodkas aromatizados).11 complexo de estúdios de artistas e galerias
que tinha aberto em Pequim em 2001 e ra-
Os negócios empresariais e os líderes polí- pidamente estimulou o desenvolvimento de
ticos das economias em rápido crescimento uma área de galerias, cafés e boutiques que
da Ásia aprenderam estas lições, especial- estavam na moda. Artistas de Xangai, atraí­
mente em cidades como Xangai, onde as dos pelas rendas baratas e a localização no
velhas indústrias estão a mover-se para fora centro da cidade cosmopolita em franco
e a mudar-se para regiões de baixo custo da crescimento, rapidamente se mudaram para
China e os funcionários municipais e distri- o Shangtex, a eles se juntaram empresários
tais querem incentivar novos tipos de desen- culturais individuais da Europa e dos Estados
volvimento. Embora o governo chinês apoie Unidos, que abriram galerias de arte con-
oficialmente as indústrias criativas como temporânea chinesa, expondo o trabalho
uma pedra angular do desenvolvimento que até recentemente não havia sido mostra-
económico nacional e de prestígio, os fun- do, sendo até mesmo proibido pelos líderes
cionários locais tanto correm um risco polí- do governo e do partido. Estas obras passa-
tico como um risco financeiro ao se apoia- ram então a ser uma atracção positiva para
os turistas e investidores estrangeiros, que
estavam tão ansiosos para «descobrir» novos
11
Allen J. Scott, A Economia Cultural das Cidades (Lon- artistas chineses na área industrial fortaleci-
dres: Sage, 2000), Andy C. Pratt, «As Indústrias Cultu- da em Xangai, para encontrar o trabalho de
rais no Sudoeste de Inglaterra: Rumo a uma Estratégia
Sectorial», Dominic Power e Scott J. Allen, eds, As outros artistas, num ambiente semelhante ao
indústrias culturais e a produção de Cultura (London: do SoHo ou o East End. Shangtex tornou-se
Routledge, 2004), pp 19-36; Elizabeth Currid, A Eco- um mecenas ansioso - ou proprietário - de
nomia Warhol: Como a Moda, Arte e Música guiam a novos artistas, já que a empresa se orgulha
cidade de Nova York (NJ Princeton: Princeton Univer-
sity Press, 2007). da união inovadora da tecnologia e da moda
108 Os novos desafios da vida urbana

para a produção de novas fibras sintéticas de tijolos antigos e betão manchado fazem
para a indústria do vestuário. Além disso, com que as pessoas sintam a veracidade e
50 Moganshan Lu contou com o apoio do a perfeição do ser existente». A cultura ur-
partido local e funcionários do governo. Em bana não pode ser mais ambiciosa do que
2002, a Secretaria Económica Municipal de- isto.13
nominou o complexo de 21 edifícios como
parque industrial oficial, dois anos depois, Moganshan Lu converteu-se num local mui-
este título foi alterado para «parque indus- to frequentado por artistas e turistas estran-
trial de arte».12 geiros e chineses. Visitas são recomendadas
por guias estrangeiros e sites do mundo da
Construir um centro criativo no 50 Mo- arte e do turismo, dedicados a Xangai. Na
ganshan Lu satisfez a ambição de Xangai tarde em que visitei o local, alguns turistas
de se tornar uma cidade global que supera estrangeiros estavam a almoçar num peque-
os seus concorrentes mais próximos - Hong no café e a ver as galerias abertas, ainda que
Kong e Pequim - tanto como centro financei- quando há exposições especiais, várias cen-
ro e como centro cultural, a capital da eco- tenas de visitantes chegam a vir num único
nomia simbólica. Os espaços são ocupados dia. Alguns dos artistas que ali mostram o seu
por uma variedade de temas criativos: gale- trabalho vêm de Hong Kong e Taiwan; por-
rias de arte, artes gráficas, escritórios de ar- que o custo de vida é mais barato no conti-
quitectos e estúdios de design, e instalações nente e, em Xangai, têm acesso ao mercado
para televisão e produção de filmes. Não é internacional. Enquanto que uma parte da
de surpreender que, o centro da auto-reivin- arte que ali se produz é de estilo tradicional,
dicada estratégia de denominação capitaliza a maioria é quase chocantemente moderna
representações estéticas e espaciais que se e irónica, parodiando os artefactos da era
originaram nos Estados Unidos e migraram maoísta, propondo ou sugerindo que alguns
para a Europa e Ásia: O seu slogan é «Su- dos resultados mais evidentes do auge actu-
zhou/Soho/loft». Tal como o site do centro al da sociedade de consumo na China são
criativo divulga, estas relações são o exem- tão grotescos como os capitalistas burgueses
plo de que o M50 [50 Moganshan Lu] é uma caricaturados pelos expressionistas alemães
integração de história, cultura, arte, moda do início do século XX.
[sic], e originalidade. Um ponto de encontro
entre os edifícios de lofts antigos do SoHo O perigo é que o êxito de 50 Moganshan
de Manhattan e a nova maravilha de titâ- Lu não seja bem sucedido o suficiente, quer
nio do Guggenheim Bilbao, Moganshan Lu para contrabalançar ou para combater a de-
destina-se a revitalizar a margem do rio po- molição agressiva de edifícios e bairros anti-
luída, mostra uma boa forma de reutilização gos de Xangai. Ainda que um dos objectivos
de edifícios antigos em vez de os derrubar, e do governo municipal seja a limpeza do Rio
coloca a tecnologia em colaboração com a Suzhou e criar uma zona pedonal verde se-
arte. Para justificar o esforço, a gestão evoca gura, nas suas margens, as obras de demo-
não apenas a aparência, mas a experiência lição continuam dia e noite – derrubando
de autenticidade: «Os edifícios usados das fábricas como a 50 Moganshan Lu destruin-
fábricas contêm um certo valor, porque a do a antiga cidade que cresceu em seu re-
estrutura de aço nu, bem como as paredes
13
www.m50.com.cn. Sobre a ambição cultural e a con-
corrência interurbana: Lily Kong, «Ícones Culturais e
12
Wang Jie, «Shanghai SoHo-50 Moganshan Road», Desenvolvimento Urbano na Ásia: Imperativo Econó-
[http://www.chinadaily.com.cn/citylife], 29 de Agosto mico, a Identidade Nacional e Status da Cidade Glo-
de 2006; [http://www.shangtex.biz/en/]. bal», Geografia Política 26 (2007).
Cultura urbana: em busca da «autenticidade» 109

dor durante o século XX. Nem sempre este Conclusão


tipo de centros criativos como Moganshan
Lu beneficiam todos os artistas. Alguns ar- Autenticidade é, na maioria das vezes, um
tistas tornaram-se famosos; os seus trabalhos gosto recentemente cultivado na cultura
lideram os preços elevados e são vendidos urbana. Quando se fala de autenticidade,
principalmente aos turistas estrangeiros e referimo-nos a experiências específicas com
em leilões no estrangeiro. Mas outros artis- edificios e zonas da cidade sentidos como
tas têm dificuldade em pagar até mesmo as sendo locais históricos e diferentes - e que
rendas baixas na 50 Moganshan Lu. Uma encontra o seu lugar num momento especí-
vez que os preços dos terrenos são muito fico, com limites irregulares entre a degra-
elevados no centro da cidade, a maioria dos dação de uma cidade e a reconstrução. O
artistas não se podem dar ao luxo de viver carácter local, a importância histórica, e a
lá. Alguns nem sequer se podem dar ao luxo diferenciação são acreditadas e confirmadas,
de lá trabalhar e decidiram alugar estúdios se não por um perito oficial, pelo menos por
mais baratos nos arredores da cidade, usan- consumidores de um alto estatuto cultural,
do Moganshan Lu como espaço de galeria que seguem os artistas e outros produtores
onde tentam vender o seu trabalho. Os al- culturais até aos espaços abandonados ou
tos valores de propriedades no centro têm arruinados que ocupam as classes sociais de
o mesmo efeito do que em Nova Iorque e nível inferior e não demoram a substitui-los.
Londres, onde a produção de arte ocupa o Cada dimensão de autenticidade pode ser
segundo lugar do consumo cultural da clas- subvertida por empresários agressivos, pelas
se alta. Não só os preços altos pagos pela elites empresariais ambiciosas e por oficiais
arte contemporânea chinesa, mas também o políticos competitivos. «Local» torna-se
sucesso comercial de Xangai colocam a ci- uma marca para promover investimentos,
dade em risco de perder a sua alma.14 turismo e o crescimento futuro da cidade.
«Histórico» torna-se uma estratégia de de-
senvolvimento de reutilização adaptativa
para a indústria do património. «Original»
ou «individualmente diferente» torna-se no
14
Em Pequim, as rendas altas e o desenvolvimento imo- canto da sereia dos bairros na moda e dos
biliário tiveram um efeito semelhante na Factory 798
(Henri Benaim, Analisando a Modernidade: 798, um distritos dos artistas que atraem visitantes às
distrito de arte vanguardista em Pequim, tese sénior do suas boutiques, cafés e bares.
Departamento de Estudos da Ásia Oriental, Universi-
dade de Yale, 2006). Para saber mais sobre os artistas O resultado, é, então, uma reprodução e pa-
de Xangai no mercado internacional de arte, consulte
Charlotte Higgins, «A Arte Chinesa está a superiorizar- dronização das culturas urbanas autênticas
-se… ou está a humilhar-se para conseguir favores?», à volta do mundo que reflectem tanto uma
The Guardian, 09 de Novembro de 2004. Para além de cultura material antiga abandonada pela in-
50 Moganshan Lu, outros pólos de criação em Xangai dústria na sua expansão global e uma nova
poderão ter mais espaço comercial para escritórios de
arquitectos e artistas gráficos (como Bridge 8) ou mais cultura material de consumo cultural trans-
espaço para os estúdios de artistas (como Tianzifang), nacional criadas na sua continuidade. Te-
enquanto outros ainda (como a Rua da Originalidade mos apenas de olhar para a velha cervejaria
Yifei, em Pudong) pode ser uma zona de entretenimen- Carlsbad no bairro Vesterbro de Copenhaga,
to semelhante à Disney que combina a produção criati-
va e vários tipos de consumo cultural: «pubs temáticos, que se tornou a principal atracção de uma
restaurantes, lojas de arte e casas nocturnas também área recentemente na moda, e compará-la
foram criadas ao longo da rua, que dispõe de ilumina- com a velha refinaria de açúcar Domino à
ção paisagística em árvores e muros, com uma praça beira-mar em Williamsburg, uma incrivel-
central» (Yang Li Fei, «Abertura do aglomerado Criativo
de Chen», Shanghai Daily, 10 de Outubro de 2007). mente semelhante estrutura industrial antiga
110 Os novos desafios da vida urbana

numa área na moda de Brooklyn. Ao redor bora poucos imigrantes continuem a viver
de cada fábrica velha encontramos um bair- no bairro). A autenticidade tornou-se, mais
ro de classe trabalhadora e um crescente do que terrenos, no recurso renovável de
complexo de galerias de arte, restaurantes, uma cidade - e na sua tábua de salvação
lojas e diversidade multicultural na rua (em- para o futuro.
A cidade e
a comunidade sob
o olhar feminino

Olivia Guaraldo

Olivia Guaraldo é doutorada em Ciência Políticas, pela Universi-


dade de Jyväskylä (Finlândia) e professora catedrática de Filosofia
Política na Universidade de Verona (Itália), instituição onde iniciou
a sua carreira docente e de investigadora. Guaraldo tem-se dedica-
do ao estudo do pensamento político moderno e contemporâneo,
especialmente à teoria política feminista e, em particular, ao pen-
samento de Hannah Arendt. Nos seus estudos, Olivia Guaraldo
tenta combinar a exposição política da filosofia com um enfoque
de «género», baseado no «pensamento da diferença sexual», uma
perspectiva teórica que permite a desconstrução da tradição filo-
sófica ocidental do ponto de vista feminino.

A autora tem publicado diversas obras, entre as quais se desta-


cam Storylines. Narrative, history and politics froms na Arendtian
Perspectiva (SoPhi, Jyväskylä, 2001) e Politicare racconto. Trame
arendtiane della modernità (Meltemi, Roma, 2003). Recentemente
foi responsável pela edição em italiano de algumas obras de Ju-
dith Butler [Precarious Life. The power of mourning and violence
(Vite precarie: contro l’uso della violenza come risposta al lutto
collettivo – Roma, 2004) e Undoing Gender (La disfatta del genere
– Roma, 2006)] e do ensaio Lying in Politics, de Hannah Arendt
(La menzogna in politica: riflessioni sui Pentagon Papers – Milão,
2006).
A cidade e a comunidade sob o olhar feminino

1. uma espécie de relíquia arqueológica, mas


Existe no étimo do termo «política» um sim, muito «arendtianamente», e para além
sentido, ainda aberto a posteriores declina- das suas conhecidas implicações patriarcais
ções, que ultrapassa o campo da filologia. e etnocêntricas, como um paradigma rela-
Obviamente politica deriva de polis, nome cional e interactivo da politica.
grego para uma forma particular de comu-
nidade, em que se alinharam seguidamente, Nesta época de transição, recentemente
no acontecimento histórico que passa por marcada por colapsos da velha ordem - que
Roma, os termos urbs, civitas e finalmente, tomam os nomes mais diversos, mas que
num amplo leque de línguas europeias, ci- substancialmente se inserem na quadro da
dade. Ainda que a Europa das cidades, da dita «globalização» - e por acontecimentos
Idade Média aos nossos dias, desenhe cená- catastróficos, poderia sobretudo advir um
rios inesquecíveis de cultura e de história, contributo precioso da recuperação inova-
o maior contributo da Europa para o léxico dora do modelo da polis ou, pelo menos,
político moderno - ou seja a invenção do do repensamento do significado original do
termo «Estado» e a estrutura categorial que termo política. A essa origem pertence por
ele contém - parece ir na direcção oposta. A direito a cidade, que deve ser retirada ao
palavra política, na sua acepção moderna, imaginário estatal e transformada assim no
acaba por desmentir o sentido primitivo da- lugar privilegiado para repensar a política,
quela polis que contudo faz parte integrante e, com ela, em sintonia com a proximidade
da sua aventura etimológica. Citando Han- que na Grécia tinham polis e paideia, a edu-
nah Arendt, o modelo da política baseado cação à política.
no Estado cancela realmente a ideia de espa-
ço compartilhado - interactivo, ­contextual, Não lamentando de modo algum a instân-
­actual e sobretudo, horizontal - que caracte- cia concreta e histórica da polis - que, como
rizava a polis enquanto comunidade.1 é sabido, era profundamente marcada por
uma matriz masculina e patriarcal - o pre-
O presente contributo pretende ser uma sente contributo propõe-se trazer à luz, tor-
nova leitura da cidade a partir da crítica nar visível a centralidade da cidade como
de Hannah Arendt à modernidade política lugar de experiências políticas ainda inédi-
moderna. Uma critica que se baseia numa tas e aparentemente indecifráveis, dando-
nova leitura - poder-se-ia mesmo dizer uma -lhe uma leitura situada no feminino. Sub-
recuperação descomprometida - do fenóme- trair ao modelo estatal a política marcada
no da polis grega. Se quisermos repensar a pela proliferação da violência e do excesso
função educadoras da cidade, actualmen- em relação a qualquer finalidade ordenativa
te a antiga polis não deve ser focada como para voltar a colocá-la no espaço da cidade
não é um acto de boa vontade, mas o que
num certo sentido a marca do presente im-
1
Hanna Arendt, The Human Condition, Chicago, The põe.
University of Chicago Press, 1958
114 Os novos desafios da vida urbana

2. distância, parecia estar ali, presente e in-


A importância decisiva da cidade, noutros quietante, imprevista e aterradora, como
termos, revela-se quando os tempos se tor- uma espécie de monstro extraterrestre que
nam obscuros, e quando as antigas ordens invadia a nossa sala e o nosso banal quoti-
institucionais parecem desmoronar-se. Foi diano. Naquele dia qualquer coisa mudou
assim no fim do Império Romano, na Idade sobretudo em relação à maneira como nos
Média, e ao raiar da modernidade política. relacionamos com a catástrofe, com a tra-
Para chegar a tempos mais próximos de nós, gédia de vastas proporções transmitida pela
em meados do século passado, a fractura televisão. Sendo assim podemos, sem escân-
do continente europeu em dois blocos con- dalo, afirmar que o atentado de 9/11 foi bem
trapostos tem exactamente numa cidade, sucedido em todos os sentidos, sobretudo no
Berlim, o seu lugar-símbolo. Testemunha mediático e portanto simbólico. O impacto
participativa da laceração daquela cidade, no imaginário do ocidente foi enorme, che-
John Fitzgerald Kennedy, em 1961 de visita gando a fazer-nos pensar que algo na natu-
a Berlim, afirmou provocatoriamente: «Ich reza do trauma se transformou para sempre.
Bin ein Berliner» manifestando a sua solida-
riedade para com os cidadãos alemães que Instintivamente na nossa proximidade à
viviam agora numa cidade dividida por um dor e à perda não nos sentíamos cidadãos
muro. americanos (talvez por ter consciência de
que ser cidadãos americanos possa signifi-
Em onze de Setembro de 2001 a frase que car muitas outras coisas, excepto o ser víti-
circulou imediatamente após o ataque ter- ma) mas considerávamo-nos nova-iorquinos
rorista ao World Trade Center foi «somos to- compartilhando o trauma do acontecimento
dos americanos». De Berlim, porém, talvez inesperado que punha em evidência a fra-
em memória da solidariedade de Kennedy gilidade e a vulnerabilidade de um espaço
para com a cidade alemã, ecoou uma frase urbano e dos seus habitantes. Não foi ao
ainda mais significativa: «somos todos nova- Pentágono - principal símbolo da potência
-iorquinos». Aquela frase exprimia de modo do Estado como detentor do monopólio da
eficaz a solidariedade para com as vítimas violência - que ficou associada a memória
e os sobreviventes do atentado terrorista, daquele atentado mas sim à cidade de Nova
porque num certo sentido era verdade que o Iorque, mais precisamente, ao espaço cir-
coração - simbólico e real - do ataque, pelo cunscrito pela ilha de Manhattan.
menos para o imaginário ocidental, não
era - unicamente - a América, mas a cida- A frase «somos todos nova-iorquinos» está
de de Nova Iorque. É de resto notório que portanto imbuída de significados que vão
o impacto dos dois aviões contra as torres muito para além da solidariedade para com
gémeas e as consequentes vítimas superou as vítimas de uma violência inesperada e
grandemente os outros alvos atingidos. aterradora. Ela é sobretudo significativa por-
que move, desloca o centro do trauma da
Para além da diferença quantitativa, foi con- nação para a cidade, localizando no espaço
tudo a qualidade do acontecimento que se urbano uma nova realidade política, inédita
mostrou inovadora. Repetidamente se disse até àquele momento.
que o 11 de Setembro foi um dia que mu-
dou o mundo. Cada uma e cada um de nós, Não se trata de um acto de fundação cons-
assistindo àquele acontecimento diante da ciente, mas precisamente de uma ocorrên-
televisão, sentimo-nos participantes de uma cia, que transforma - ou transformou duran-
realidade que, embora a muitas milhas de te um breve momento - a própria filiação
A cidade e a comunidade sob o olhar feminino 115

política. Dos escombros daquele espaço entendermos a palavra «educar» no sentido


circunscrito e urbano, lido na sua função etimológico de «conduzir para fora», torna-
simbólica e construtora de imaginário - que -se claro como a situação actual necessita
cidade no mundo é mais simbólica e cons- urgentemente de uma educação política re-
trutora de imaginário colectivo do que Nova novada, que consiga guiar-nos para fora das
Iorque? - do Ground Zero de Manhattan pa- categorias agora obsoletas da modernidade
receu emergir algo de novo, uma insuspeita- (Estado, indivíduo, soberania, guerra entre
da reacção feita de silenciosíssima solidarie- estados) e orientar-nos no desconhecido da
dade, de vizinhança e de comunhão, num constelação pós-estadual. «O colapso da
circulo virtuoso de entreajuda e compaixão. constelação do Político moderno feita de
obsessão da identidade, espacialidade defi-
Esta é a minha tese: a cena que apresenta nida, teologia política, conceito amigo-ini-
Manhattan no dia onze de Setembro de 2001 migo, Estado - nacional e derivados» precisa
pode ser retirada do imaginário do ódio, do enfim de ser reenunciado à luz de aconte-
terror, vingança em que a retórica do Estado cimentos que sucedem diante dos nossos
e do presidente Bush a enquadrou, para se olhos, um olhar feminino, ou seja olhos ha-
tornar o símbolo de uma diferente adesão bituados a olhar com algum distanciamen-
à comunidade que tem na cidade o «lugar to, ou com uma certa ironia, a retórica e a
ideal» para repensar a cidadania e elaborar história masculinas. Para citar uma brilhante
novas modalidades de educação à política e pensadora italiana, «terminada esta conste-
à participação. Aquele acontecimento, por lação, começa alguma coisa? É aqui que se
outras palavras, e o seu cenário, a cidade, sente a vertigem do vazio»2
podem tornar-se a ocasião (talvez ainda não
perdida) para um abandono dos modelos Acompanhando algumas leituras femininas
políticos tradicionais, agora postos em crise daquele acontecimento é possível pôr em
pelos processos de globalização emergente. evidência como a perspectiva de sexo, ou
de género, é capaz de colher as novidades
3. do presente, de ter coragem para as men-
O modelo político da modernidade, como cionar, e propor novos quadros categoriais
é sabido, baseia-se na antropologia indivi- que consigam iluminar o percurso - ainda
dualista, aquela para quem o indivíduo é desconhecido e obscuro - da constelação
a medida do humano, considerado como pós-estadual. Por outras palavras, proponho
um ser autónomo e racional que como tal que analisemos como a relação mulheres-
pensa e age. Este tem o seu corresponden- -cidade-educação, se for declinada a partir
te institucional no estado soberano, enti- do acontecimento-trauma do 11 de Setem-
dade autónoma, titular de um direito para bro, se revela muito proveitosa focando a
governar um determinado território e a não crise do presente e a necessidade de ela-
justificar as suas acções perante nenhuma borar novos instrumentos interpretativos. O
autoridade superior a si. Abandonar aquele «olhar feminino» ou, sem usar metáforas, a
modelo significa tomar consciência da sua perspectiva sexual, torna assim visível o va-
agora efémera eficácia, devido aos comple- zio e palpável a vertigem por ele produzida,
xos processos de globalização; abandonar principalmente se comparado com as leitu-
aquele modelo, porém, significa também ras masculinas que, no dia a seguir a 9/11,
recusar a lógica reactiva e vingativa (um ac-
tuar aparentemente «racional», baseado na
lógica instrumental) que opõe guerra a guer-
2
Ida Dominijanni, Nella piega del presente, em Dioti-
ma, Approfittare dell`assenza, Napoli,Liguori 2002,pp.
ra, violência a violência, terror a terror. Se 187-212, pp. 206-207
116 Os novos desafios da vida urbana

pareciam incapazes de lidar com o «novo» ginário cinematográfico Nova Iorque, após o
que estava a acontecer e insistiam portanto trauma, assume a aparência de uma «cidade
em colocá-lo em categorias existentes. ideal» ainda mais do que antes. O trauma
mudou-a exactamente como alterou o nosso
Em vez de prever um horizonte catastrófico modo de a ver e imaginar: agora Nova Ior-
e apocalíptico, os olhos femininos retiram que é um ícone que vive das suas feridas,
do acontecimento traumático uma ocasião que continua a fascinar-nos porque nela se
para repensar a comunidade, a partir da per- misturam a familiaridade do imaginário tele-
da, do trauma, do luto, mas sobretudo da visivo e cinematográfico com a igualmente
vulnerabilidade. familiar sensação da destruição, do medo,
da vulnerabilidade.
4.
Somos todos americanos, somos todos nova- 5.
-iorquinos. Que imagem da cidade nos dei- Familiar e no entanto desconhecida é a di-
xou o 9/11? Tratou-se sobretudo de assistir, mensão dessa vulnerabilidade que os nova-
naquela estranha situação de espectadores -iorquinos experimentaram no 9/11. Nesse
privilegiados e de «vítimas em diferido», à dia perderam, por assim dizer, a sua «invul-
fragmentação e destruição de um imaginá- nerabilidade primeiromundista», vivendo na
rio compacto, familiar e sólido, encarnado própria pele uma violência repentina e ines-
nas duas torres. O colosso arquitectónico do perada. Aquilo que por um lado é familiar e
World Trade Center foi muitas vezes associa- por outro desconhecido é o que Freud de-
do a um símbolo fálico, revelador da potên- finia como «perturbador», unheimlich. No
cia financeira americana, que como um novo perturbador esconde-se a face monstruo­sa
Leviatan, confia na geométrica perfeição das daquilo que é por outro lado familiar. Para
suas linhas para confirmar a indiscutível su- muitos americanos, e sobretudo para o go-
perioridade e incomparável força. As Torres verno dos E.U.A., o 9/11 representa um es-
Gémeas porém não encarnam somente a pectro perturbador, uma espécie de «lado
superpotência financeira dos Estados Uni- obscuro» da violência há muito infligida aos
dos e do ocidente, fazem também parte de outros. Talvez por esta razão a reacção qua-
um outro imaginário, talvez mais inocente, se imediata ao ataque foi em primeiro lugar
o imaginário cinematográfico. É por causa um convite a superar o trauma, a reagir e se-
dessa estranha familiaridade transterritorial guir em frente. A exortação também na esfe-
que nos foi oferecida pelo cinema que olha- ra privada, a continuar a vida de sempre, foi
mos com nostalgia para as imagens cinema- rapidamente seguida pelo desenvolvimento
tográficas de Manhattan que nos mostram da resposta estatal «normal», a do uso da
ainda as torres como pano de fundo. Graças violência e da guerra: a «vida de sempre»
a um estranho furacão que provoca um cur- do estado.
to-circuito no espaço e no tempo, é como se
também esse imaginário cinematográfico ti- Longe da retórica de estado e da justificação
vesse, após o 9/11, perdido a sua inocência: da guerra, o que apesar de tudo aconteceu
sempre que vemos um filme ou um telefilme no imediato do espaço urbano de Manhat-
que nos apresenta Nova Iorque com as tor- tan foi uma reacção comunitária espontânea
res ainda de pé imediatamente nos vem à e curiosa: as pessoas andavam pela cidade
memória a imagem da sua destruição. Uma com as fotografias dos seus entes queridos
imagem que, embora tivesse todas as carac- desaparecidos, em muitas das quais estava
terísticas da ficção espectacular, era cruel- escrito «missing». Quem se tinha perdido ou
mente real. Em consequência daquele ima- estava desaparecido, quem literalmente «fal-
A cidade e a comunidade sob o olhar feminino 117

tava» ao afecto e à presença dos próprios fa- Ida Dominijanni fez-lhe imediatamente
miliares e amigos tinha um nome e um ros- eco, num ensaio de 2002, em que analisava
to, era, para dizer como Hannah Arendt, um com olhos fantasticamente femininos, dois
«alguém», uma pessoa de carne e osso com grandes acontecimentos que no ano 2001
a própria irrepetível qualidade de existen- tiveram como protagonistas duas cidades as-
te único. A insistência dos nova-iorquinos sumidas como símbolo de uma época - Gé-
em chorar e recordar, na sua qualidade de nova e Nova Iorque. A «marca do presente»
«ausentes», os seus entes queridos, ficou im- vivida e lida com olhos femininos, revelava
pressa na nossa memória exactamente por- como a catástrofe nova-iorquina, longe de
que confirmava o lado familiar, quotidiano e atingir o coração do capitalismo global -
íntimo daquela tragédia. Foi extraordinário o como talvez os autores do atentado tencio-
impacto mediático que a procura daquelas nassem e como muitos também no ocidente,
pessoas perdidas, «missing», teve na opinião esperavam - tinha características completa-
pública ocidental. mente novas em relação ao passado. O que
aconteceu, antes do colapso definitivo das
Mas saber ler aquele luto é uma operação duas torres, e o que todos nós continuámos
difícil, sobretudo porque, imediatamente a ver pela televisão, numa espécie de reali-
após o acontecimento a retórica do estado ty show do massacre, foi um inconcebível
e da guerra levaram a melhor, fazendo das «holocausto multiétnico»: «corpos sem rou-
vítimas americanas uma espécie de sacrário pas e sem pele voavam dos andares altos,
inviolável que devia ser vingado com a má- milhares de mulheres e homens de sessenta
xima força. À vulnerabilidade compartilha- e três etnias diferentes morriam prisioneiros
da e lamentada sofrida pelos nova-iorquinos das chamas numa espécie de holocausto
seguiu-se imediatamente uma afirmação multiétnico, que enviava para a morte não a
orgulhosa de uma invulnerabilidade progra- globalização dos capitais gerida do alto do
mada, pronta a declarar uma «guerra infini- poder mas o cosmopolitismo vivido na base
ta» a quem tinha provocado aquelas vítimas. da vida em comum.»4

Não foi por acaso que dessa difícil leitura Os olhos femininos que observam aquele
se encarregaram mulheres pensadoras, a pri- acontecimento e dele retiram a deixa para
meira de todas Adriana Caravero, que, num confirmar a importância e a centralidade da
artigo publicado no Outono de 2001 escre- reflexão feminina sobre a política debruçam-
veu: «As paredes de Nova Iorque recorda- -se exactamente sobre esta perspectiva da
ram-nos antes de mais que os milhares de base da vida em comum. Trata-se, realmen-
mortos do 11 de Setembro morreram um a te, de uma reflexão que já há algum tempo
um, e cada um deles faz falta aos seus fami- critica a falsa neutralidade dos modelos e da
liares e àqueles que, olhando os seus rostos, ontologia política modernas ligadas ao Esta-
compartilham essa falta. Aparentemente tra- do, à nação, ao individualismo de formato
tou-se de uma resposta emotiva, e contudo, liberal. Todavia a emergência do presente, a
de um outro ponto de vista, não se tratou sua viragem inesperada - e o vazio que colo-
apenas de uma resposta política bastante cou diante de nós - parecem confirmar que
mais eficaz do que o apelo à bandeira na- é indispensável, agora mais do que nunca,
cional, mas talvez da mais política de todas pôr em movimento o pensamento feminino,
as respostas dadas até essa altura».3 crítico e imaginativo, como diria Virgínia
Woolf, reafirmando a sua centralidade e a
3
A. Caravero, Il locale assoluto, em Micromega. Alma-
nacco di filosofia», 5/2001, pp.64-73, p.71. 4
Dominijanni, cit., p. 203.
118 Os novos desafios da vida urbana

sua importância na identificação dos erros, mente feminina para o detalhe) da tragédia
das omissões, das violências simbólicas e de 9/11, a perspectiva feminista detém-se
materiais de uma civilização ainda demasia- sobre aquilo que os esquemas grandiosos,
damente masculina e patriarcal. dum e doutro lado, têm dificuldade em ver.
Quem morreu? Quem foi chorado? Se Adria-
6. na Cavarero chama a atenção para o modo
Para além da vertigem do vazio, porém, há como a cidade imediatamente recordou os
algo mais. Existe antes de mais um pensa- próprios mortos «um a um» e Dominijanni
mento, que é o pensamento da diferença se- como o holocausto multiétnico sufocou a
xual, que há anos se movimenta fora da tra- «globalização da base da vida em comum»,
dição (masculina) e re-enuncia a política a a pensadora americana Judith Butler - em
partir de novos termos: «diferença, relação, surpreendente continuidade com as pensa-
singularidade/comunidade», termos que to- doras italianas - propõe retirar da experiên-
mam o lugar de «identidade, amigo/inimigo, cia de vulnerabilidade e de ofensa sofrida
indivíduo/estado». O desafio é o de afirmar pelos nova-iorquinos a ocasião para repen-
a perspectiva sexual na política não só «em sar a condição humana a partir da centrali-
teoria» mas a partir da prática, da «confian- dade do luto e da perda.
ça em que verdadeiramente sobre esta base
nasça algo a que possamos chamar «políti- No texto que escreve no dia seguinte ao
ca», a identificação de uma figura antropo- 9/11, Vidas Precárias, Butler afirma que o
lógica nova capaz de a pôr no mundo e de erro fundamental que se seguiu ao trauma
a fazer caminhar»5, ou capaz de a educar, foi exactamente o de ler todo o aconteci-
de construir um percurso de crescimento mento como uma narrativa na primeira pes-
que escape com decisão de um horizonte soa, com o gigante americano - ferido na sua
que agora já tem dificuldade em conferir presumível invulnerabilidade - como único
sentido à realidade. Não se trata, contudo, protagonista. Invisibilidade e silêncio torna-
de inventar de novo uma fórmula boa para ram-se então as características de tudo o que
decifrar os tempos que correm, mas sim de não encontrava espaço naquela narrativa
conseguir ver «que esta antropologia e esta autocentrada e autocelebrativa de uma dor
política já nasceram: na prática da diferença incomensurável, injustificável, inexplicável,
sexual, da singularidade na relação, de um e que assim se devia manter.7 Butler torna-se
pacto social não mais edipiano e sacrificial.6 uma voz crítica da retórica do Estado que
quer restaurar a própria soberania e a pró-
A novidade consiste na elaboração de novas pria invulnerabilidade, percebendo como
categorias de leitura e interpretação da reali- também no interior da retórica comemora-
dade, porque a realidade está continuamen- tiva das vítimas se tenha privilegiado uma
te exposta ao novo e ao imprevisto, somos perspectiva de identidade, excluindo do
nós que temos dificuldade em reconhecê-lo. discurso público as outras vítimas, ou aque-
las que não tinham lugar na retórica estatal
Não é por acaso que a percepção de tal no- (imigrantes clandestinos, homossexuais, e
vidade, que ainda tem dificuldade em ser logo em seguida, as vítimas dos bombarde-
reconhecida, foi feita por mulheres, volto a amentos no Afeganistão, os rostos ou corpos
afirmá-lo. Ao sublinhar os aspectos concre- dos militares caídos no Iraque, as vítimas pa-
tos, materiais, os detalhes (a atenção tipica- lestinianas da violência israelita).

5
Idem, p. 207. 7
J. Butler, Precarious Life. The Powers of Mourning and
6
Ibidem. Violence, London and New York, Routledge 2003.
A cidade e a comunidade sob o olhar feminino 119

Butler propõe deslocar a narração daqueles capaz de acolher um novo tipo de comuni-
factos da perspectiva em «primeira pessoa» dade, uma comunidade que «acontece» em
retirando o acontecimento do sofrimento e virtude de um acontecimento traumático, e
da ofensa à lógica estatal. Existe, sugere Bu- que atravessa o acontecimento, o trauma da
tler, outra narração possível, que toma nota perda no coração da própria comunidade.
da perda e se dedica a uma elaboração com-
partilhada do luto, fazendo-o tornar-se parte O acontecimento crucial do 9/11 redese-
integrante da própria identidade individual, nha, em Nova Iorque, os limites da cidade
social e política. Não se trata, também aqui, que, se por um lado se contraem e intensi-
de uma reacção emotiva ou comemorativo ficam em torno dos escombros do Ground
do sofrimento: o trauma colectivo pode en- Zero, por outro amplificam-se e ultrapassam
contrar uma resposta diferente daquela da os limites nacionais. É verdade que somos
vingança. Ela consiste em tomar completa todos um pouco nova-iorquinos porque sa-
consciência da condição inevitável da vul- bemos, em linhas gerais, onde fica Central
nerabilidade como sendo inerente ao huma- Park e a 5ª Avenida, reconhecemos imedia-
no, uma condição que foi traumaticamente tamente o Empire State Building ou as Twin
revelada aos americanos exactamente em Towers. Contudo o acontecimento do 9/11
9/11. intensificou esta familiaridade. Somos re-
almente todos nova-iorquinos também no
Aquele caminho foi talvez percorrido pelas sentido em que a experiência do trauma, a
pessoas que atapetaram Nova Iorque com perda, o luto nos tocaram de perto, não só
os seus mortos, chorando-os e celebrando- porque participámos em directo no atenta-
-os «um a um», com nome e apelido, rostos do, mas também porque a partir daí se ini-
singulares que «faltavam» a vidas igualmen- ciou uma escalada de violência que ainda
te singulares. Naquele momento efémero, hoje não deixou de nos tornar espectadores
se comparado com a imediata reacção vio- permanentemente traumatizados por massa-
lenta do Estado, talvez se tenha produzido cres contínuos, horrores agora quotidianos
por breves instantes o que Butler desejava e e no entanto incompreensíveis. É como se o
define como «uma comunidade política da ter sido vítimas secundárias daquele acon-
perda». tecimento nos obrigasse não só a reflectir
politicamente sobre as suas consequências
Nova Iorque, se lida com olhos femininos, mas também sobre as suas possibilidades:
apresenta-se portanto como a «cidade ide- repensar de um modo diferente a cidadania,
al» não no sentido tradicional, arquitec- o espaço compartilhado, a relação entre as
tónico e renascimental do termo, mas no diferenças (étnicas, económicas, culturais,
actualíssimo de um lugar símbolo em que é de género) é o que o trauma quotidiano nos
possível repensar a comunidade não a partir impele a fazer.
do Estado-nação, mas daquilo que Adriana
Caravero chamou «o local absoluto»: «O Mesmo à luz das reflexões de Judith Butler é
horizonte do local absoluto não é o fruto di- possível pensar que o preço a pagar por este
recto do global, mas daquilo cuja abertura novo modo de conceber a cidadania seja
a globalização permite«.8 Um lugar – entre- a vulnerabilidade: apresenta-se como um
visto antes ainda de imaginado - como se novo universal que não permite assimilar os
estivesse separado, liberto da sua pertença a diversos ao modelo (eurocêntrico) do uno.
um estado, que se torna um espaço limitado Somos todos vulneráveis no sentido em que
somos todos humanos. A vulnerabilidade
8
Caravero, A più voci, Feltrinelli, Milano 2003, p.223. como traço característico do humano, mas,
120 Os novos desafios da vida urbana

diferentemente da categoria de «mortalida- como árabes ou homossexuais, mas como


de» celebrada pelos filósofos, não se baseia existentes únicos, com nome e apelido. O
numa fuga do corpóreo mas radica-se no holocausto multiétnico que se consumou
corpóreo, na constante exposição do corpo em 9/11 em Nova Iorque, as reacções que
aos cuidados e à violência alheia. se lhe seguiram são um exemplo embrioná-
rio de uma experiência política que encon-
Existe uma ambiguidade constitutiva do hu- tra na dor e na vulnerabilidade um momento
mano neste horizonte de vulnerabilidade de comunhão. Mas só as palavras femininas
que deve contudo ser preservada. Trata-se souberam nomear de um novo modo este
da ambiguidade existente na duplicidade da evento, conferindo-lhe a sua justa e inova-
resposta que pode ser dada à vulnerabilida- dora qualidade.
de: reagir à vulnerabilidade através da per-
cepção de uma comunidade que pode tor- Não é de resto por acaso que a perspectiva
nar-se politicamente proveitosa, através da situada no feminino seja mais apta a colher
recusa de infligir mais violência em resposta e acolher a vulnerabilidade. As mulheres
à ofensa sofrida. Podemos ao contrário rea- são sempre os sujeitos privilegiados de uma
gir através de uma resposta que tenta teimo- vulnerabilidade que toma muitas formas: da
samente remover a vulnerabilidade poten- violência doméstica à exploração laboral,
ciando os instrumentos de coerção e ofensa. da comercialização do seu corpo, à submis-
Ter consciência desta duplicidade represen- são à lei das suas capacidades procriativas.
ta uma nova maneira de ler os fenómenos As mulheres, porém, estão mais familiariza-
do presente. A universalidade da categoria das com a vulnerabilidade também do lado
de vulnerabilidade permite contudo uma oposto, a prestação de cuidados: elas, no
atenção ao «local», ao singular que é indis- fundo, foram e continuam a ser as principais
pensável para sair dos modelos tradicionais guardiãs do vulnerável por excelência, a
(ainda eurocêntricos) de humanidade e de criança. O olhar feminino, portanto, é capaz
cidadania. Através dela, realmente, é possí- de acolher a vulnerabilidade na sua pers-
vel distinguir os diversos graus de vulnera- pectiva localizada: quer como vítimas vul-
bilidade vivenciada, mantendo porém firme neráveis quer como guardiãs do vulnerável.
a comunidade humana na vulnerabilidade. A centralidade política da vulnerabilidade é
Somos todos nova-iorquinos significa então assim mais visível e de maneira mais lúcida
que, a intervalos regulares e imprevisíveis, através da perspectiva sexuada no feminino.
também nos podemos tornar vítimas. A co- A universalidade do vulnerável não é possí-
munhão na vulnerabilidade porém não im- vel sem a originária diferença sexual que se
plica uma glorificação da pátria e uma de- dá na vulnerabilidade.
sumanização do inimigo - como sucedeu na
América depois do 9/11 - mas um repensar 7.
da condição humana a partir de uma causa Educar para a vulnerabilidade, à luz de uma
que deve ser transformada em recurso po- leitura feminista do 9/11, envolve então um
lítico. A dor como recurso político é o que esforço teórico e imaginativo que coloca na
as fotografias e os rostos dos desaparecidos cidade, em vez de na nação ou no Estado,
no Ground Zero representam, é a tomada de o espaço político e a filiação à comunida-
consciência do que foi atingido nesse dia - e de. Trata-se, por outras palavras, de imaginar
desde esse dia infinitamente, até hoje - é a outra história, alternativa àquela beligerante,
possibilidade de uma interacção de existên- reactiva, apocalíptica - masculina e estatal
cias singulares tomadas na sua radical uni- - da «guerra ao terror». Uma história que
cidade: não como amigos ou inimigos, nem tem como centro da cena narrativa a cidade
A cidade e a comunidade sob o olhar feminino 121

como espaço de uma experiência comum e ma e da perda que se seguiu ao 9/11 se não
compartilhada. A qual, porém, no caso em- um «local absoluto», um espaço circunscri-
blemático do 9/11, não remete para a lumi- to, desligado e separado da retórica estatal
nosidade e harmonia da paideia grega, mas e nacional, onde a ocupar o palco mais que
sim para a vertigem e o vazio provocados as bandeiras eram os rostos e os nomes de
pelo trauma. Só na experiência do trauma pessoas em carne e osso, e onde a chorá-las
lida por um olhar feminino, atento ao singu- havia outras tantas pessoas de carne e osso.
lar, ao existente único e à sua vulnerabilida- Mas por causa da força simbólica da cidade
de é possível transformar a vertigem do vazio de Nova Iorque, agrada-nos imaginar que
e do insensato numa ocasião para voltar a aquele local absoluto não tenha as caracte-
fundar a comunidade a partir da perda. Uma rísticas do bairrismo, do particularismo, mas
a uma, um a um, na sua insubstituível uni- sim vá para além dos limites da própria cida-
cidade - e também na sua diversidade mul- de e possa voltar a criar-se aí onde existen-
tiétnica - os mortos do World Trade Center tes únicos possam recriar as condições de
recordam-nos que não há bandeira, não há comunidade e relação a partir da percepção
identidade nacional que possa e deva cele- de uma vulnerabilidade compartilhada. «O
brá-los transformando-os em símbolos e em local, exactamente pelo contágio que per-
justificação de mais violência. Todavia existe tence essencialmente ao simbólico, tem o
a experiência comum da perda, que vai para poder de se multiplicar. Um, cem, mil locais
além dos conceitos estatais, étnicos e religio- absolutos, poderia ser, um pouco ironica-
sos, que abre a cortina sobre a possibilidade mente, mas não nostalgicamente, o slogan.
de uma partilha local do luto que põe em Liberta também da lógica do território, que
comum a vulnerabilidade e a dependência. a disfarçava sob o conceito do indivíduo, a
Para além da lógica do Estado, do inimigo ontologia da unicidade tem uma extensão
e da guerra, o horizonte da vulnerabilidade global. A política do local pode abrir-se em
traz para a cena o que Caravero chama a todo o lado: imprevisível e intermitente, in-
política do «local absoluto», que «depois de controlável e surpreendente».9 Agrada-nos
finalmente se ter libertado da cartografia das finalmente imaginar, se bem que, até para o
nações, não caiu no erro de colocar diante nosso olhar feminino se torne difícil vislum-
da unicidade irrepetível de cada ser humano brar, que noutros lugares, noutros espaços
as características identitárias. Ela atreve-se dilacerados pela violência, pelo luto e pela
a pôr em jogo a unicidade sem particulari- perda, existentes únicos, procurem a partir
dades e confia-lhe o sentido da relação». O do sofrimento e da dor, voltar a fundar a sua
que veio a ser criado na experiência do trau- vulnerabilíssima cidade ideal.

9
Caravero, Il locale assoluto, cit., p.72.
Jovens para sempre:
a nova realidade
das pessoas idosas

Antón Costas

Antón Costas Comesaña é economista e engenheiro técnico in-


dustrial. Professor catedrático de Política Económica, é director do
Centro de Investigação em Políticas Públicas e Regulamentação
Económica. Dirige também o mestrado em Regulamentação dos
Serviços Públicos, da Universidade de Barcelona.

Costas dedica-se ao estudo das políticas de privatização, da libera-


lização e da regulamentação dos serviços públicos, tendo publica-
do vários livros e numerosos artigos sobre estes temas.

Foi o primeiro provedor do cliente da ENDESA; é o presidente


do conselho consultivo da ENDESA (Catalunha) e vice-presidente
do Círculo de Economia. Desempenha o papel de conselheiro em
várias empresas públicas e privadas.

Antón Costas é colaborador dos jornais El País e El Periódico de


Cataluña e presença habitual noutros órgãos de comunicação
­social.
Jovens para sempre: a nova
realidade das pessoas idosas

1. Uma nova realidade social, vadas, sem qualquer tipo de dependência, e


uma velha linguagem apenas uma percentagem reduzida de pes-
soas entre os 65 e os 80 anos mostram sinto-
Há uns dias, depois de ter tido conhecimen- mas pronunciados de senilidade.
to de que o meu pai tivera um princípio de
enfarte, um amigo perguntou-me a sua ida- Este panorama de autonomia dos idosos,
de. «É jovem», respondi, «tem oitenta anos». já por si muito distante da visão tradicional
Fiquei surpreendido ao aperceber-me de que que associa o envelhecimento à dependên-
utilizara a palavra «jovem» para me referir a cia, sofrerá melhorias consideráveis nos pró-
uma pessoa com 80 anos, pois nunca a tinha ximos anos com a chegada à reforma das
utilizado para me referir aos meus avós. pessoas que se inserem na chamada geração
do «baby boom». Trata-se de uma geração
Há também pouco tempo, um amigo em- numerosa, nascida entre o final das décadas
presário comentou comigo que acabara de de quarenta e cinquenta, com um nível edu-
ouvir na rádio uma jornalista a referir-se ao cativo e cultural elevado e em boas condi-
protagonista de uma notícia como «um ido- ções de saúde.
so de 64 anos». O meu amigo estava irritado
porque tinha mais de 64 anos e não se con- As novas gerações de reformados vão mu-
siderava de modo algum, um idoso. dar o modo radical das percepções sociais
relativas à velhice. Além do mais, o facto
A nova realidade social que os idosos re- de serem muito numerosas trará uma pro-
presentam actualmente não corresponde funda mudança da sua visibilidade social,
ao significado tradicional que atribuímos à do mesmo modo que estas gerações terão
palavra «idoso». Nos últimos dois anos, tive uma crescente influência política, visto re-
a oportunidade de pronunciar um ciclo de presentarem uma parte crescente dos cader-
conferências por toda a Espanha dirigido a nos eleitorais e terem uma maior disposição
idosos reformados. A experiência permitiu- para votar. Alguns já falam do novo «poder
-me descobrir uma realidade social da qual cinzento» para se referirem à crescente in-
não tinha consciência: a maioria das pes­ fluência política dos idosos.
soas com mais de 60 anos de idade desfruta
de uma saúde e qualidade de vida excelen- Para estas novas gerações de idosos, os anos
tes e têm um enorme desejo e necessidade de reforma surgem como uma época de
de se sentirem úteis e ocupados. grandes oportunidades para viajar, aprofun-
dar conhecimentos, preservar as capacida-
A nova realidade social choca com a ma- des adquiridas ao longo da vida e adquirir
neira como encaramos a velhice e com a outras.
linguagem convencionalmente utilizada
em relação à mesma, por nós associada a Seria necessário inventar uma nova lingua-
uma situação de dependência e passivida- gem e uma nova cultura que nos permitisse
de. 95% das pessoas com mais de 65 anos descrever melhor esta nova sociedade sem
vivem autonomamente, em residências pri- idades, que está a chegar. Uma sociedade
126 Os novos desafios da vida urbana

sem idades ou na qual convivem três gera- com menos de 5 anos. No futuro, é impro-
ções diferentes: avós, filhos e netos, ou me- vável que os «menores» sejam mais do que
lhor, jovens, adultos e idosos. os «cabelos grisalhos». As pessoas com mais
de 60 anos que, ao longo da história que co-
A linguagem predominante para a aborda- nhecemos, raramente significavam mais de
gem de pessoas com mais de 60 anos utiliza 2-3% da população na maioria dos países,
termos como «velhos» ou «anciãos», duas constituirão 15% da população dos países
palavras que contêm um sentido pejorativo ricos.
evidente e que não descrevem bem a nova
realidade social, que está a desaparecer: O aumento do número de idosos na popu-
a das pessoas não activas das sociedades lação mundial será a tendência demográfica
agrárias ou manufactureiras do século XIX e que definirá este século. Esse aumento é o
grande parte do século passado, com níveis resultado de três tendências que actuam si-
culturais baixos e que chegavam à reforma - multaneamente.
quando chegavam - em condições de saúde
e de vida, em muitos casos, precárias. A primeira é a subida do número de refor-
mados. Este fenómeno, como já referi ante-
É necessária uma linguagem adequada para riormente, será mais evidente nos próximos
nos referirmos a esta nova realidade social anos. Entre 2008 e 2015, estima-se que as
que começou a emergir no início deste novo grandes empresas vão mandar para a refor-
século. Os japoneses, que terão milhões de ma mais de metade dos seus actuais fun-
centenários nos meados deste século, falam cionários. Estes dados levam-nos a reflectir
de «Silver Century». Os anglo-saxónicos sobre a necessidade de prolongar, ainda que
referem-se a esta realidade como «elderly seja de forma parcial, a vida laboral.
society». Enquanto não tivermos palavras
novas, não podemos descrever esta realida- A segunda tendência provoca um aumento
de de forma adequada. À falta de um termo no número de idosos é a queda generalizada
mais adequado, utilizarei, neste ensaio, o das taxas de natalidade. Na América, o nú-
termo «idosos», para me referir à população mero de nascimentos dificilmente iguala o
com mais de 65 anos, por ser uma palavra número de óbitos. No caso de alguns países
mais neutra e descritiva do que «velhos» ou europeus, o número de nascimentos não é
«anciãos». suficiente para substituir os óbitos.

A terceira e mais importante é o aumento


2. O aumento da esperança da esperança média de vida. Esta tendência
média de vida como motor da nova constitui, possivelmente, o fenómeno demo-
realidade social dos idosos gráfico mais relevante dos últimos séculos e
com maior impacto potencial na organiza-
Em Março de 2004, o conhecido e influen- ção da economia, na sociedade e na polí-
te semanário económico The Economist tica.
publicava uma reportagem especial sobre
o fenómeno do novo envelhecimento, que Há um século, a esperança de vida ao nas-
começava com a seguinte afirmação: «algo cer rondava os 35 anos e a maioria das pes-
sem precedentes e irreversível está a acon- soas trabalhava até ao fim dos seus dias.
tecer na humanidade. Este ano ou no próxi- Hoje, a esperança média ao nascer ultra-
mo, o número de pessoas com 60 anos ou passa os 80 anos, e aos 65 anos de idade
mais superará a percentagem de população apenas 16% dos homens é que ainda está
Jovens para sempre: a nova realidade das pessoas idosas 127

em idade activa na América e só 4% na «instabilidade política, desemprego, greves


Europa continental. As pessoas idosas têm e elevadas taxas de criminalidade com ten-
agora um longo caminho pela frente, após dência para aumentarem».
uma vida de laboralmente activa, que antes
não tinham. Este panorama está correcto? O prestigiado
economista norte-americano Paul Krugman
Se, do conjunto da população, passarmos só descredibilizou este tipo de análise e esta-
a considerar a população das cidades, o fe- belece as diferenças entre o problema da
nómeno intensifica-se. Em geral, a esperança tendência demográfica para o aumento da
média de vida da população urbana é maior esperança média de vida e o problema do
do que o conjunto da população. Assim, no aumento das despesas públicas na saúde.
caso da cidade de Barcelona, o relatório «A Na sua opinião, este último ocorreria mes-
saúde de Barcelona em 2005» assinala que a mo que não houvesse um aumento do nú-
esperança de vida continua em crescimento mero de idosos.
na cidade que era, nessa data, de 77,5 anos
para os homens, e de 84,3 para as mulheres. É certo que, como referi no início, estamos
Nos últimos dez anos, a esperança de vida perante uma mudança demográfica sem
dos homens que vivem na cidade aumentou precedentes e irreversível. O aumento da es-
4 anos e das mulheres, 2,5 anos. Estes ní- perança média de vida, com o horizonte, a
veis situam a cidade de Barcelona entre as médio prazo, nos 100 anos, está a modificar
taxas de sobrevivência mais altas do mundo. a sociedade na qual nascemos.
Contudo, é uma tendência que se observa Mas a questão da saúde não está directa-
na maioria das cidades. Esta nova realidade mente relacionada com o envelhecimento
social constitui um desafio para as cidades da população, mas sim com os grandes e
educadoras. céleres avanços na medicina.

O aumento das despesas de saúde teria


3. Maldição ou bênção de Matusalém? ocorrido mesmo que a esperança de vida
não aumentasse. Deste modo, convém sepa-
A maior parte das análises sobre as conse­ rar bem estas duas questões. Pelo contrário,
quências económicas, sociais e políticas presume-se que o aumento das despesas de
desse aumento do número de idosos é alar- saúde dos idosos modere em consequência
mista. de as condições de saúde das gerações que
estão a chegar à reforma não terem nada a
É frequente encontrarmos estudos que nos ver com as condições e circunstâncias pes-
alertam para a chegada iminente da «mal- soais das gerações que se reformaram ao
dição de Matusalém» segundo a qual a so- longo da segunda metade do século passa-
ciedade cada vez mais povoada de idosos do.
provocará uma situação insustentável para
a economia e uma crise para os orçamen- Pode ainda argumentar-se algo semelhante
tos públicos, como consequência dos custos a respeito da ideia de que o aumento da po-
para responder às necessidades sociais e de pulação idosa introduzirá elementos de for-
saúde dos idosos. Este é, por exemplo, o pa- te conservadorismo político, rigidez social e
norama traçado pelos economistas Laurence resistência à mudança nas nossas socieda-
Kotlikoff e Scout Burns em The Coming Ge- des.
nerational Storm no qual concluem que, até
2030, os Estados Unidos serão assolados por É surpreendente que um feito tão positivo
128 Os novos desafios da vida urbana

como o prolongamento da vida da maior uma ruptura radical, violenta e completa das
parte da população provoque tanto temor. trajectórias laborais e profissionais? Não se-
Provavelmente, uma das razões que contri- ria lógico e racional que a transição da vida
buem para a proliferação destas análises tão profissional activa a tempo inteiro para a re-
alarmistas sobre as consequências económi- forma ocorresse de forma gradual, mediante
cas, sociais e políticas do aumento do núme- fórmulas mistas de trabalho a tempo parcial?
ro de idosos nas nossas sociedades, é o facto Não seria melhor aproveitar, enquanto a
de continuarmos a encarar esta nova reali- geração do «baby boom» ainda está activa,
dade com o olhar, a linguagem e os padrões para preparar entre todos - governos, empre-
culturais dos velhos das sociedades agrárias sas e trabalhadores - um novo cenário?
e industriais dos dois séculos passados.
O que fazem os idosos com o seu tempo?
Construir um novo olhar e uma nova lin- Como o fenómeno da reforma ainda é re-
guagem sobre a nova sociedade sem idades, cente, não é possível encontrar investigações
exige elaborar uma nova cultura sobre a exaustivas que respondam a esta questão,
nova sociedade pós-industrial, uma socieda- como existem no caso do uso do tempo de
de em que as pessoas serão sempre jovens pessoas que estão profissionalmente activas.
ao longo da maior parte da sua vida. Falo Actualmente, imaginamos formas de mudar
de cultura, não no sentido artístico, mas no as coisas para tornar possível a conciliação
sentido antropológico. Uma nova cultura entre o trabalho e a família das pessoas pro-
que fomente e desenvolva um novo tipo de fissionalmente activas. O mesmo deve ser
capacidades pessoais e formas de vida, bem feito relativamente aos idosos.
como uma nova forma de organizar a eco-
nomia, o mundo do trabalho, a política e a A ausência de estudos deste tipo não é mais
sociedade, de tal forma que se consiga tirar do que uma manifestação concreta de falta
proveito de todas as possibilidades positivas de informação - e de dados e, o que é pior,
que o aumento da esperança média de vida de falta de interesse em obtê-los - sobre os
proporciona à população ou, por outras pa- idosos, revelando, de certa forma, discrimi-
lavras, é necessário elaborar um manual de nação quanto à idade.
instruções para a utilização do tempo na
nova sociedade da nova geração de idosos. A imagem que hoje temos dos nossos refor-
mados nos países ricos é a de um grupo de
pessoas de terceira idade que anda de um
4. Manual de instruções lado para o outro, principalmente nas épo-
para a utilização do tempo dos idosos cas baixas do turismo, à procura de um en-
tretém para ocupar o tempo livre. No entan-
O que fazer com esses 20, 25 ou 30 anos to, esta é uma visão simplista. É necessário
que o progresso científico e económico con- adquirir mais conhecimentos sobre os com-
cedem às novas gerações de reformados? portamentos e desejos dos idosos.
Como aproveitar o potencial de criação de
riqueza que os idosos representam? Que Um dos poucos estudos de que tenho notí-
tipo de mudanças são necessárias na organi- cia foi elaborado pela jornalista inglesa Vic-
zação empresarial, social, política e familiar toria Cohen, que colocou as seguintes ques-
para aproveitar esse potencial? É lógico que tões: os reformados ingleses têm o mesmo
a reforma continue a ser aos 60 ou 65 anos, espírito consumista que as outras pessoas? O
agora que a esperança de vida se está a pro- que compram as pessoas com idades entre
longar tanto? Será adequado que se produza os 75 e os 85 anos? Liquidificadores e objec-
Jovens para sempre: a nova realidade das pessoas idosas 129

tos de uso pessoal, como imaginamos? Ou, encontraram canais mais produtivos e satis-
pelo contrário, jogos de computador e os fatórios. Este é o desafio que temos perante
últimos modelos de leitores de DVD, como nós: criar uma nova cultura que permita aos
a população mais jovem? Podemos verificar, idosos deixarem de ser reformados ociosos
a partir do seu estudo, que os reformados para passarem a ser reformados ocupados.
anglo-saxónicos compram de tudo.
Mas o problema é que não sabem como
Mas isto não fica por aqui. Dois dias depois fazê-lo. As actuais gerações de reformados
de comprarem, voltam às lojas para devolver são as primeiras a viver colectivamente, ou
os produtos adquiridos e repetem o mesmo seja, como geração plena, entre os 20 e os
com outro tipo de produtos. Também gostam 30 anos, mais do que viviam as gerações
de fazer compras por catálogo, em casa. Fa- anteriores. Facto que nunca antes ocorre-
zem o pedido e logo depois de terem rece- ra. Trata-se de uma geração que chegou à
bido a mercadoria, voltam a embalar o pro- reforma em massa, mas não dispõe de um
duto e procedem à sua devolução. ­manual de instruções para a utilização desta
nova etapa das suas vidas.
Este comportamento parece, na opinião da
autora da investigação, explicar o facto de É necessário criar uma nova cultura que per-
só se verem octogenários aos balcões de de- mita desenvolver boas práticas relacionando
volução nas grandes superfícies comerciais o uso do tempo com o manual de instruções
britânicas da Mark&Spencer. para novos reformados. Penso que é um dos
desafios mais importantes das nossas socie-
Como interpretar este comportamento dos dades. Entre outros aspectos, é preciso or-
idosos? A autora explica que o acto de com- ganizar a sociedade e o mundo do trabalho
prar e vender é uma forma de entretenimen- para evitar que a saída brusca, repentina do
to e que o mais revelador é o facto de este mundo laboral e profissional signifique uma
procedimento os fazer entrar no circuito co- perda de capacidades cognitivas e compe-
mercial. O que lhes interessa não é a com- tências adquiridas ao longo da vida, com
pra em si, mas a simulação de participação prejuízo para as pessoas que sofrem essa
numa actividade social da qual se sentem perda, para a economia e para a sociedade
excluídos. O ciclo gasto-compra-devolução no seu todo.
não acrescenta nada à renda dos idosos, mas
ocupa-lhes o tempo. E é precisamente este Enquanto vamos elaborando esse manual, o
consumo de tempo que lhes dá a sensação primeiro aspecto que temos de mudar é a
de estarem a participar na vida económica e imagem que temos da velhice. Até agora, o
social, de serem úteis. discurso político e as políticas públicas re-
lacionam a velhice com a dependência, ou
O que nos dizem estas e outras investiga- seja, a imagem que se tem dos idosos é a de
ções é que os reformados desejam intervir que são pessoas com restrições a uma vida
activamente, de alguma maneira, na vida plena e autónoma. Sem que isso signifique
económica, laboral, social e política, ainda deixar de lado os idosos que necessitam de
que seja apenas para desfrutarem de expe- assistência, essas percepções e esse discurso
riências sociais que agora lhes estão inter- oficial não correspondem à nova realidade
ditas. São idosos dinâmicos que se negam dos idosos.
a serem excluídos e que, até agora, não
130 Os novos desafios da vida urbana

5. Necessidade de uma nova reter, ainda que mediante novos moldes de


cultura relativa aos idosos trabalho a tempo parcial ou outros mecanis-
mos de colaboração, uma parte importante
Necessitamos urgentemente de uma nova dessas pessoas.
cultura que evite a exclusão de que sofrem,
hoje em dia, os idosos e que facilite simulta- Deste modo, é preciso uma nova cultura de
neamente a sua integração em todos os as- trabalho em relação aos idosos. Existe uma
pectos da vida social. Devemos questionar- ideia estereotipada e falsa que sustenta que
-nos a cerca do tipo de valores, práticas e os trabalhadores idosos são menos compe-
políticas públicas que são necessários criar tentes, pouco produtivos e mais absentistas
e desenvolver para que os idosos se man- do que os jovens. Contudo, os dados esta-
tenham activos e úteis e, ao mesmo tempo, tísticos mostram o contrário. A média da
que permitam à sociedade aproveitar todo o produtividade e assiduidade no trabalho dos
potencial de conhecimento e as capacida- funcionários com mais de 60 anos é mais ele-
des que possuem. vada do que a dos grupos de trabalhadores
mais jovens. E a perda de certas capacidades
No âmbito empresarial, os padrões culturais relacionadas com a rapidez de reflexos em
dominantes nos nossos dias constituem uma determinadas actividades é compensada por
ruptura radical com relações com o mundo uma maior experiência e capacidade.
laboral e profissional no momento da refor-
ma. É uma ruptura brusca, violenta, frus- Durante muitos anos, os cientistas acre-
trante. De um dia para o outro passam de ditaram que as nossas funções mentais se
médicos para deixar de o ser, de artesões em deterioram irreversivelmente com a idade.
qualquer ofício a desocupados. Isto provo- Não obstante, investigações mais recentes
ca uma descapitalização enorme tanto para da neurociência moderna revelam o con-
as pessoas, como para as empresas e para trário. Neurologistas como Elkhonon Gol-
a economia no seu todo. É necessário abrir dberg (Wisdom Paradox: How your mind
novos caminhos e desenvolver novas práti- can grow stronger as your brain grows older)
cas que permitam às pessoas uma mudança ensinam-nos que as estruturas do cérebro
mais gradual entre a situação de profissio- sofrem mudanças ao longo da vida, crian-
nalmente activo a reformado. do novos neurónios, adquirindo e armaze-
nando dados, bem como reforçando as vias
Segundo a OCDE, entre 2025-2030, 12 mi- neuronais. A condição para que tudo isto
lhões de pessoas por ano deixarão de per- aconteça é a de que não haja uma quebra
tencer à população activa. Os empresários de motivação e do vínculo da pessoa com a
e os funcionários públicos do sector da vida activa.
economia não podem continuar a ignorar
esta realidade demográfica e a consequente Contudo, é surpreendente a pobreza dos
perda e destruição de talento que tal facto programas e iniciativas educativas e cultu-
significa. A baixa natalidade e a interdição rais orientados para os idosos. Esta nova rea-
do fluxo de imigrantes qualificados não per- lidade constituída pela presença dos idosos
mitirão substituir essa perda de talento dos é desconhecida pelas instituições educativas
idosos que vão abandonar a vida laboral nos e culturais. A maior parte das grandes ins-
próximos anos. O impacto negativo na pro- tituições educativas e culturais não encara
dutividade e nas empresas é tão forte que se os idosos como uma parte da população
torna urgente planear uma nova cultura la- susceptível de ser identificado como um co-
boral e empresarial que permita às empresas lectivo ao qual se pode dirigir ofertas cul-
Jovens para sempre: a nova realidade das pessoas idosas 131

turais e educativas e quando existe um tipo Sem menosprezar de modo algum este tipo
de programa dirigido a idosos, os principais de práticas, o risco do voluntariado é, como
pontos em evidência costumam ser de tipo salienta Richard Sennett, reduzir a utilidade a
assistencial ou de entretenimento. um hobby. O serviço voluntário é uma práti-
ca valiosa que convém fomentar. No entanto,
O mesmo acontece com as actuais políticas é necessário conferir estatuto, profissionalis-
públicas: ou pretendem dar assistência ou mo aos idosos que realizam um trabalho útil.
pretendem entreter. Os idosos não são enca- O selo de garantia que distingue a sua utilida-
rados como pessoas capazes de desenvolver de é o seu reconhecimento público.
actividades socialmente úteis.
Os sectores público, estatal, regional e local
A nova cultura em relação aos idosos tem de têm uma grande capacidade de profissiona-
enfrentar dois grandes desafios. O primeiro lismo ou utilidade. É o que se ganha quando
está relacionado com o tempo: como dar se reconhece um salário às pessoas no am-
continuidade à história de vida dos reforma- biente familiar que cuidam de uma pessoa
dos, mantendo-os activos e úteis? O segundo dependente. O mesmo deve acontecer com
desafio está relacionado com a preservação os idosos que estão encarregues de cuidar
do talento: como desenvolver novas práticas dos netos, bem como outro tipo de activida-
que permitam manter e aproveitar as capaci- des úteis que possam desenvolver, mas que,
dades e conhecimentos? actualmente, não têm esse reconhecimento.
Se os governos recompensarem essas tare-
A reforma provoca uma quebra na história fas, os idosos que as desempenham não cai-
de vida dos idosos. Quebra a ligação com rão no esquecimento.
os seus conhecimentos, com a experiência
acumulada ao longo do tempo e, muitas ve-
zes, com as vivências quotidianas durante 6. Os idosos e as cidades
a etapa laboral. Por isso, é necessário criar educadoras
novas instituições e práticas que dêem con-
tinuidade ao fio narrativo da vida dos ido- As cidades desempenham um papel es-
sos e lhes permitam manter a capacidade de sencial nesta nova cultura, em relação aos
interpretar o que acontece ao seu redor, no idosos. A tendência da segunda metade do
mundo e sentirem-se úteis. século passado de fugir da cidade não de-
sapareceu, mas surgiram outras tendências
Sentir-se útil significa dar algo que interessa que fazem com que, a par desse movimento
aos outros. Quando observamos o que fazem centrífugo, exista outro centrípeto que tem
os reformados nas nossas sociedades e o que vindo a crescer nas últimas décadas: há mui-
as políticas culturais actuais lhes oferecem, ta gente que gosta da vida urbana e, em par-
chega-se à conclusão que essas políticas pre- ticular, de viver no centro.
tendem aumentar as relações informais e en-
treter, enquanto o tempo não passa. Entre os que preferem viver na cidade en-
contram-se os idosos, um número crescente,
A maior parte dos programas e iniciativas como já referi, dentro da população total.
que as instituições públicas e privadas ofe- Buscam maior e mais fácil acesso aos trans-
recem actualmente aos idosos procuram a portes públicos, à saúde, à vida cultural e à
vinculação dos idosos a uma determinada relação com a família e os amigos mas, so-
comunidade ou organização, seja eclesiás- bretudo, às oportunidades de se manterem
tica ou laica. activos e úteis.
132 Os novos desafios da vida urbana

As cidades são a personificação da moder- como das privadas, têm de ser conscientes
nidade. A Providência criou a natureza, mas desta nova realidade que representa a exis-
os homens criaram as cidades. As cidades tência de uma população de idosos com um
são construções humanas em constante elevado nível cultural e de potencialidade.
transformação.
É surpreendente que, ainda hoje, a maio-
Até agora, o factor de maior intensidade ria dos programas culturais e educativos
transformadora ao longo da história é as mi- das principais instituições públicas e priva-
grações. Contudo, a partir de agora, os ido- das desconheçam quase por completo esta
sos também serão um factor muito poderoso nova realidade. As instituições educativas
de mudança na vida urbana. concentram-se nas fases de escolarização e
reduzem as suas ofertas de acordo com as
As cidades são um espaço natural para as idades. Desconhecem totalmente essa nova
«classes criativas» e as gerações que estão a realidade que os idosos representam.
chegar à reforma são compostas por pessoas
com um elevado nível profissional e cultural As universidades e outros centros de ensino
e, portanto, de criatividade. superior não são mais activos e inovadores.
Só recentemente começaram a surgir pro-
Alguns analistas e académicos reconheci- gramas nas instituições de ensino superior
dos, como é o caso de Bruce Katz, da Ins- dirigidos a idosos.
tituição Brookings, afirmam que há muito
mais capacidade de inovação e de criação Contudo, este é o terreno mais percorrido. É
de novas culturas para responder a novos necessário um ensino universitário específi-
desafios sociais a nível municipal do que a co para idosos que permita a integração e a
nível estatal. É por essa razão que estamos a participação destas pessoas na sociedade e
observar a forma como as políticas públicas fomente as relações intra e inter gerações,
se vão, progressivamente, centrando nas ci- iniciativas que contribuam para a preserva-
dades. ção das suas competências e capacidades
adquiridas a longo prazo e que, dessa forma,
Esta característica é a responsável por pen- dêem continuidade à história das suas vidas.
sarmos que a nova cultura que requer uma
sociedade sem idades, onde os idosos são e Precisamos, por isso, de uma nova cultura
serão cada vez mais uma parte importante e de novas políticas em relação aos idosos.
da população, têm possivelmente na cida- Novos valores e práticas sociais, laborais,
de o melhor laboratório para experimentar económicas e culturais que possibilitem a
a criação de novos valores, novas práticas e sua autonomia pessoal e que os faça sentir-
novas políticas em relação aos idosos. Uma -se úteis e integrados na sociedade. Uma
nova cultura que abandona a superficialida- nova cultura que nos traga uma nova forma
de e o mero entretenimento que as políticas de entender a nova sociedade dos idosos e o
e programas culturais actuais visam, para chamado envelhecimento.
promover acções capazes de dar sensação
de utilidade à vida dos idosos. Talvez esta nova cultura relativa aos idosos
Os responsáveis pelas decisões políticas - seja uma nova página na história da humani-
educativas, culturais, sociais, de habitação dade. E as cidades educadoras têm um pro-
ou laborais - tanto das instituições públicas tagonismo indubitável na sua redacção.
Os novos desafios da vida
urbana: a redefinição
do conceito de «comunidade»
na era da Internet

Genís Roca

Genís Roca é especialista em gestão de impacto das novas tecno-


logias nas organizações, em especial no movimento da Web 2.0,
no desenvolvimento de redes sociais e na definição de modelos
de presença na rede. Conferencista reconhecido nesta área, tem
desenvolvido trabalho de consultadoria estratégica para empresas
e instituições, nacionais e internacionais, como a Organização
Mundial de Saúde, Telefónica, La Caixa, Generalitat de Catalunya
e a União Europeia.

Roca ocupou diversos cargos de responsabilidade nos Serviços In-


formáticos da Universidade Autónoma de Barcelona e dirigiu as
áreas de internet e rede social na Universidade Aberta da Catalu-
nha. Desde 2006 que é director-geral da Infonomia, um think tank
de inovação com mais de 16 000 membros em todo o mundo. Fez
parte de diversos conselhos de administração e foi professor con-
vidado em várias universidades e escolas de negócios.

Genís Roca é arqueólogo, licenciado em História pela Universida-


de Autónoma de Barcelona e mestre/MBA pela ESADE. Mantém o
seu própio blog em www.genisroca.com
Os novos desafios da vida urbana: a redefinição
do conceito de «comunidade» na era da Internet

O significado de «saber» mudou: enquanto 1 em cada 4 trabalhadores está há


em vez de ser capaz de lembrar e repetir menos de 5 anos. As crianças que actual-
informações, a pessoa deve mente se encontram em idade escolar terão
ser capaz de encontrá-las e usá-las entre 10 a 14 empregos quando chegarem
aos 38 anos. Segundo Richard Riley, Secre-
Herbert Simon (1916 - 2001) tário de Estado da Educação, em 2004 não
Premio Nobel da Economia existiam as empresas que em 2010 criaram
mais postos de trabalho.

O que está a acontecer? As pessoas que agora têm 21 anos já viram


20.000 horas de televisão, já jogaram 10.000
De facto, há alguma coisa a acontecer que horas de jogos de vídeo, já falaram 10.000
está relacionada com a evolução da demo- horas ao telefone e já enviaram e receberam
grafia, a tecnologia, a informação, a inter- 250.000 mensagens de correio electrónico e
net… Deste «maremagnum» está a surgir mensagens instantâneas.
um novo modelo, possivelmente social, ao
qual nos teremos de adaptar. Mais de 50% dos habitantes dos EUA com
Dois investigadores norte-americanos, Karl 21 anos já criou algum tipo de conteúdo na
Fisch e Scott McLeod editaram um vídeo Internet. Mais de 70% com 4 anos de idade
muito curto e divulgativo, Did you know?1, já utilizou um computador.
no qual fornecem dados que ajudam a to-
mar consciência de que algo está realmente A rádio levou 38 anos para conseguir obter
a acontecer e se perguntam se de facto os uma audiência de 50 milhões de pessoas, a
políticos, as escolas, os padres e os cidadãos televisão consegui-o em 13 anos e Internet
em geral se estão a preparar para o mundo em 4. Em 1984 havia mil dispositivos liga-
que se está a configurar: dos à Internet, um milhão em 1992 e seis-
centos milhões em 2006.
No ano de 2006, 1.3 milhões de pessoas ter-
minaram os seus estudos universitários nos A utilização da Internet ficou acessível ao
EUA, 1.3 milhões na Índia e 3.3 milhões na público em 1995. Em 2005, um em cada
China. 100% dos licenciados universitários oito casais que contraíram matrimónio nos
indianos falam inglês. Daqui a 10 anos, o EUA conheceram-se através da Internet.
país com maior número de pessoas a falar
inglês será a China. A eBay foi fundada em 1996 e em 2006 fac-
turou seis milhões de dólares com vendas.
Segundo o Departamento de Trabalho dos O Google foi criado em 1998 e actualmente
EUA, 1 em cada 4 trabalhadores está há as pessoas realizam todos os meses mais de
menos de um ano no seu local de trabalho, 2.700 milhões de buscas. O Youtube só foi
criado em 2005 e, em 2006 já exibia todos
1
Fisch, Karl e McLeod, Scott, «Did you know?» en
os meses 2.5 milhões de vídeos.
http://www.youtube.com/watch?v=pMcfrLYDm2U
136 Os novos desafios da vida urbana

A informação técnica que existe no mundo Década Total


é duplicada todos os anos e prevê-se que em
2010 se duplica a cada 72 horas. 1900 34,76
1910 41,73
Certamente, algo está a acontecer, algo 1920 41,15
cuja responsabilidade não se pode atribuir 1930 49,97
1940 50,10
apenas à tecnologia e ao auge da Internet.
1950 62,10
É algo que tem raízes sociais, culturais, de- 1960 69,85
mográficas, económicas, algo estrutural que 1970 72,36
afecta a maneira inevitável de as pessoas se 1975 73,34
relacionarem, trabalharem, aprenderem e 1980 75,62
participarem. 1985 76,52
1990 76,94
1994 77,93
1996 78,31
Colaborar para sobreviver 1998 78,71

Os arqueólogos que trabalham nas origens Esperança de vida em Espanha,


da humanidade datam os fósseis com uma ao longo do século XX
margem de erros de mil anos. Tendo em
conta esta perspectiva macro das cronolo- Voltando à comparação da arqueologia, em
gias, a actualidade apresenta uma novidade parâmetros de macro-história, uma tecno-
radical: somos a primeira geração na história logia é relevante na medida em que altera
da humanidade em que o pai aprende com o a maneira como as pessoas ganham a vida,
filho. Estão a confluir, no mínimo, duas novi- no sentido literal. A tecnologia lítica permi-
dades determinantes. Por um lado, a acele- tiu melhorar as técnicas de caça e a mani-
ração exponencial da evolução tecnológica, pulação e melhorou as possibilidades de
que produz mudanças radicais em períodos sobrevivência daqueles que a dominam. A
de tempo muito curtos. Por outro lado, uma tecnologia neolítica consistiu na domestica-
maior esperança de vida implica que os pais ção de certas espécies, tanto vegetais como
já não morram aos 30 ou 40 anos de idade animais, e quem aprendeu a gerir um cultivo
(como acontecia no início do século XX)2, ou um rebanho melhorou as suas possibili-
mas sim aos 80 ou 90 anos. dades de se alimentar e sobreviver e assim
sucessivamente com o ferro, o vapor, a elec-
Os nossos avós têm dificuldade em acompa- tricidade, a informática e agora a Internet...
nhar o ritmo da telefonia móvel, os nossos Todas estas tecnologias alteraram o modo
pais têm dificuldade em perceber os jogos como os seres humanos, ou alguns deles,
de vídeo e nós, talvez tenhamos dificulda- encontram uma forma de sobrevivência.
de em compreender a realidade virtual ou o
quer que seja que nos aproxime de um futu- Mas se até agora os nossos pais nos podiam
ro mais próximo. ensinar a criar ovelhas, a plantar aveia, a for-
jar o ferro ou a tecer linho, já não podem
fazer o mesmo quando se trata de desen-
volver, nesta sociedade, a informação, de se
relacionarem telematicamente com diferen-
2
Francisco José Goerich e Rafael Pinilla (2006). Espe- tes países e em diferentes idiomas, e tam-
rança de vida em Espanha ao longo do século XX. Fun-
bém quando é preciso mudar de emprego
dação BBVA. http://www.imsersomayores.csic.es/docu-
mentos/documentos/goerlich-esperanza-01.pdf a cada cinco anos (não de empresa, mas de
Os novos desafios da vida urbana: a redefinição do conceito de «comunidade» na era da Internet 137

profissão), nem quando se trata de gerir a SMS, correio electrónico) e a Internet é a


incerteza como um activo e não como um grande plataforma através da qual se articu-
problema, ou quando se trata de viver liga- lam as relações digitais. Na Internet, toda a
do à Internet 24 horas por dia. Os nossos gente pode dar e receber tudo o que estiver
pais transmitem-nos valores, o que já não é em formato digital e é por isso que é na In-
pouco, mas no que diz respeito a aspectos ternet que se estão a formar as novas comu-
técnicos, tanto os pais como os professores nidades, os novos espaços sociais e educa-
podem ajudar-nos cada vez menos e, neste dores onde as pessoas se podem relacionar,
contexto, a principal ajuda provém dos ami- progredir e aprender.
gos. É o que se chama «peer-to-peer», uma
nova maneira de aprender e de se relacionar
dá origem a um novo modelo social: colabo- Chegam os «nativos digitais»
rar ou morrer.
Os «nativos digitais» têm entre 15 e 25 anos
O mercado de trabalho valoriza cada vez e utilizam com regularidade todo o tipo de
mais um conjunto de capacidades e recursos tecnologias digitais desde que se dão por
que, em muitas ocasiões, os filhos não po- gente. Da mesma maneira que nós éramos
dem alcançar baseando-se apenas nos pais. capazes de utilizar o leitor de vídeo casse-
Os pais podem ensinar-lhes uma profissão te sem ler as instruções, eles acham mui-
ou facultar-lhes contactos, mas dificilmente to fácil fazer um vídeo com o telemóvel e
os ensinam a manipular grandes quantida- publicá-lo no Youtube. Gerem recursos e fi-
des de dados e fontes de informação, ou a cheiros digitais com tanta naturalidade que
utilizar recursos tecnológicos de nova gera- conceitos como propriedade, privacidade
ção. Contudo, o que é pior é o facto de os ou direitos de autor estão a precisar de ser
sistemas sociais que formam os nossos filhos reinterpretados. Como disse o professor do
também não parecerem muito eficazes nes- Instituto de Tecnologia de Massachusetts,
te sentido. Não está claro que estes recur- Alan Kay, «uma tecnologia é tecnologia só
sos (tecnologia de ponta, redes sociais de para os que nasceram antes de esta ter sido
informação, milhões de dados) se resolvam inventada». São os proprietários da Web 2.0,
de forma correcta, a partir da escola ou da a rede social baseada em conceitos colabo-
universidade. radores, onde as pessoas partilham todo o
tipo de recursos e onde a premissa básica é
Este é um dos pilares que suporta o movi- a capacidade de diálogo.
mento social colaborador a que se chama
Web 2.0. São cidadãos que baseiam o seu Os que hoje têm 18 anos e direito de voto
conhecimento e a sua aprendizagem na co- nasceram quase uma década após o apa-
laboração. Quem partilha e distribui infor- recimento do primeiro PC IBM e dispõem
mação é valorizado pela rede, é útil. Aquele de acesso à Internet desde que se dão por
que bloqueia a informação não é útil e a gente. São os «nativos digitais» e aproveitam
rede rejeita-o. Se a rede rejeita, fica-se fora a Internet de maneira natural tanto para ex-
do circuito de informação e conhecimento plorar oportunidades como para construir
e perde-se valor, competitividade, emprega- sinais de identidade. Para eles, a ortografia
bilidade… probabilidade de sobrevivência. transforma-se num código impenetrável. São
capazes de escrever um SMS só com uma
Esta troca indispensável de conhecimentos mão e a uma velocidade mais do que razoá­
entre iguais, é levada a cabo em formato vel e podem chegar a manter 10 conversas
digital (fotos, vídeos, websites, blogs, chats, diferentes ao mesmo tempo, através de men-
138 Os novos desafios da vida urbana

sagem instantânea, enquanto os «imigrantes facilidade que antes se fazia copy/paste de


digitais» precisam de acabar uma conversa um texto para criar um documento.
antes de começar outra. Utilizam, inclu-
sivamente, os blogs de maneira diferente: • Vêm o mundo como presumers5 consu-
enquanto os «imigrantes» os utilizam para midores pró-activos) em clara oposição ao
partilhar conhecimentos, os «nativos» utili- consumidor passivo. Só lhes interessa as
zam-nos para partilhar emoções. A relação empresas com as quais podem ter um diá-
com a informação também é diferente: os logo. Se não houver possibilidade de con-
«imigrantes» ainda querem guardar em se- versação, não há relação. Este facto já foi
gredo a informação («o conhecimento é po- anunciando pelos visionários do Cluetrain
der») enquanto os «nativos» adoram distri- Manifesto6, em 1999.
buir tanto quanto possível a informação que
recebem e fazem-no da maneira mais rápida • O mundo como um terreno de jogo, com
que conseguirem («partilhar o conhecimen- a eliminação que este supõe tanto das bar-
to é poder»). reiras geográficas como de barreiras tempo-
rais. Tudo é global e tudo está sempre co-
John Palfrey3, director executivo do Berk- nectado. Relacionam-se a todas as horas e
man Center of Internet and Society4 da Uni- com normalidade, com pessoas de diferen-
versidade de Harvard, resume algumas das tes países e em diferentes situações.
principais características dos «nativos digi-
tais»: Contudo, foi Marc Prensky7, que utilizou,
pela primeira vez, os conceitos de «nativos
• Para eles a identidade digital na rede é tão digitais» e «imigrantes digitais» num artigo8
importante ou mais do que a identidade que publicado em 2001 e que, em trabalhos pos-
se desenvolve na vida real. O que a rede diz teriores9, foi identificando as áreas que os
dos «nativos» (quando buscam o seu nome «nativos digitais» desenvolvem de maneira
no Google) é tanto ou mais importante do diferentes dos «imigrantes digitais»:
que o que dizem os colegas de trabalho ou
os vizinhos. Quem não tem referências na • Comunicam de maneira diferente. Não
rede, não tem credibilidade. gostam do correio electrónico porque é assín-
crono e preferem as mensagens instantâneas
• Têm a capacidade de trabalhar em parale- e os SMS; reconhecem os interlocutores por
lo, em multitarefa. É surpreendente ver uma «nicknames» e não dão valor ao nome real;
criança de 8 anos a divertir-se tranquilamen- inventam uma linguagem paralela, utilizam
te enquanto atende cinco, sete ou dez ses- «emoticons» para expressar sensações…
sões de chat de uma vez.

5
Presumer, http://pt.wikipedia.org/wiki/Prosumer
• Predominam os meios de produção digi- 6
Cluetrain Manifesto, http://www.cluetrain.com/book/
7
Marc Prensky, http://www.marcprensky.com/writing
tal. É surpreendente o facto de não ficarem 8
Marc Prensky (2001). Digital natives, digital
surpreendidos com as possibilidades que o immigrants, http://www.marcprensky.com/writing/
mundo digital oferece. Fazem copy/paste de Prensky%20-%20Digital%20Natives,%20Digital%20
vídeos para publicar na rede com a mesma Immigrants%20-%20Part1.pdf
9
Marc Prensky (2004). The Emerging Online Life of the
Digital Native: What they do differently because of te-
chnology, and how they do it. http://www.marcprensky.
3
John Palfrey, http://blogs.law.harvard.edu/palfrey com/writing/Prensky-The_Emerging_Online_Life_of_
4
Berkman Center of Internet and Society, http://cyber. the_Digital_Native-03.pdf
law.harvard.edu
Os novos desafios da vida urbana: a redefinição do conceito de «comunidade» na era da Internet 139

• Criam de maneira diferente. Uma das ca- digitais» uma espécie em vias de extinção.
racterísticas que melhor os define: gostam Mas o que é certo é que uns não querem
de criar, querem criar e o suporte digital per- parecer-se com os outros e que existem mui-
mite-lhes fazê-lo de múltiplas formas: criar tos espaços onde ambos os grupos devem
um blog ou um website, fazer animações em encontrar-se e trabalhar juntos. Um deles é
flash, retocar fotografias, editar vídeos, a escola. Já há quem se dedique à identi-
programar mashups10, criar os seus avatares ficação do que possa ser um problema de
e até modelar a sua identidade na rede. relação entre alguns estudantes «nativos di-
gitais» e alguns professores «imigrantes di-
• Reúnem-se e coordenam-se de maneira gitais», como Ian Jukes e Anita Dosaj, que
diferente. Estar com alguém já não implica já realizaram trabalhos sobre este tema em
um encontro presencial. Têm múltiplos re- 2004, na Universidade de Wrigh11 e elabo-
cursos para comunicar apesar de não ser raram esta tabela para mostrar as diferenças
preciso estar no mesmo local. São capazes entre os grupos:
de se coordenar online, envolvendo cente-
nas de pessoas.

• Avaliam de maneira diferente. Num


ambiente no qual se relacionam com pessoas Estudantes Professores
que talvez nunca venham a conhecer «nativos digitais» «imigrantes digitais»
pessoalmente, os «nativos» desenvolvem
Preferem receber infor- Preferem um forneci-
a capacidade de avaliar a reputação, a mação rápida prove- mento lento e controla-
confiança e a credibilidade que o outro niente de múltiplas fon- do da informação, que
interlocutor merece e consideram diversas tes multimédia provenha de um número
limitado de fontes
varáveis ao fazê-lo, algumas verdadeiramente
subtis e difíceis de parametrizar. Preferem processos em Preferem processos em
paralelo e multitarefa paralelo e multitarefa

• Buscam de maneira diferente. Quando Preferem processar ima- Preferem processar tex-
desconhecem o número de telefone de al- gens, sons e vídeo a texto tos a trabalhar com ima-
gens, sons e vídeos
guém, vão procurar ao Google e quando
pesquisam algum tipo de informação, utili- Preferem interagir em Preferem que os estu-
rede e de forma simul- dantes trabalhem indivi-
zam documentos e pessoas fiáveis. tânea com muitas outras dualmente
pessoas
• Socializam de maneira diferente. Também
Preferem aprender just Preferem aprender just in
socializam através da rede, algo que a maio-
in time case (através de exames)
ria dos «imigrantes» não faz.
Preferem satisfação e re- Preferem satisfação e re-
• Crescem de maneira diferente, tendo a compensas imediatas compensas diferidas
rede como referência e não os pais. Preferem aprender o que Preferem seguir o plano
é imediatamente relevan- de estudos e de exames
Assim sendo, existe uma grande quantidade te, aplicável e divertido padrão
de diferenças que provam que uns e outros
não são iguais, não sendo, contudo, melho-
res nem piores. Nem os «nativos digitais»
são um modelo a seguir nem os «imigrantes
11
Ian Jukes e Anita Dosaj (2004), Understanding Digital
10
Mashup, http://pt.wikipedia.org/wiki/Mashup Kids, http://www.wright.edu/%7Emarguerite.veres
140 Os novos desafios da vida urbana

Cidade e Internet, espaços Os presidentes de câmara já sabem que os


sociais e educadores cidadãos desenvolvem, com toda a normali-
dade, sentimentos de pertença com mais do
O sociólogo Manuel Castells chegou à con- que um município ao longo da vida. Cada
clusão12 que, actualmente, a língua, a nação, vez é mais difícil responder à pergunta «De
o território ou a religião têm um lugar muito onde és?» porque podemos sentir que per-
subordinado na consciência de identidade tencemos à cidade na qual nascemos, mas
da população em geral. O sentimento de também à cidade onde crescemos, onde es-
pertença constrói-se de maneira mais sólida tudámos, onde nos apaixonámos, onde vive-
onde tivermos uma rede de relações e inte- mos, onde trabalhamos, onde dormimos…
racções e é por esse motivo que nos senti- e se a máxima expressão de cidadania é
mos mais envolvidos no âmbito da cidade exercer o direito de voto para elegermos os
do que da localidade, da região ou do país. dirigentes da nossa cidade, cada vez é mais
É também por isso que os «nativos digitais» incómodo e incongruente ter direito a voto
desenvolveram fortes sentimentos de comu- numa única região. As cidades são comu-
nidade e de pertença com a Internet, onde nidades com muitos membros que não têm
não há necessariamente um marco físico direito legal à participação na vida eleitoral
concreto de referência. só por causa da limitação do sistema de re-
censeamento baseado na domiciliação físi-
O contexto urbano foi e é um espaço educa- ca. Esta questão não se coloca na Internet,
tivo e socializador. É o espaço da escola, dos onde se pode construir sinais de identidade
amigos, dos vizinhos, do jogo, do ócio, do e sentimentos de pertença não vinculados
trabalho, do associativismo… dos interes- a coordenadas físicas. Agora, há pessoas a
ses particulares, sociais, pessoais, culturais crescerem na Internet, que estudam na In-
e profissionais. E para os nativos digitais, a ternet, que se apaixonam na Internet, que se
Internet é exactamente o mesmo: um espaço divertem na Internet… A condição para per-
de diálogo e de troca de experiências. Neste tencer a um lugar é participar.
novo século que agora começou, os valores
de comunidade e os sentimentos de perten- Aparecem novos cidadãos reais com diver-
ça constroem-se por igual tanto em espaços sas identidades, pertencentes a múltiplas
físicos como em espaços virtuais. comunidades e que conjugam, sem qual-
quer problema o presencial com o virtual.
Se comunidade é um grupo humano que São cidadãos do mundo e da rede e já exis-
visa construir uma identidade, um compro- tem aqueles que se sentem mais cómodos,
misso, uma participação, interesses comuns, mais realizados, mais úteis, mais reconhe-
vontade de influenciar, sentimento de per- cidos e mais desenvolvidos na rede do que
tença, relações e sinais externos de identida- nas ruas da sua cidade. As cidades e a rede
de, podemos afirmar que estes ecossistemas chegam ser um binómio indivisível para o
também estão a desenvolver-se na rede, em desenvolvimento pessoal, social e profissio-
espaços que nada têm de virtuais, já que são nal de muitos cidadãos. Os espaços onde as
tão reais que influenciam a educação e a so- pessoas se educam e se sociabilizam já não
ciabilização dos seus membros, da mesma podem ser só físicos da mesma forma que
maneira que as cidades. nunca poderão ser só digitais. É necessário
termos referências físicas da mesma maneira
que é necessário estarmos conectados sem
fronteiras.
12
Projecte Internet Catalunya (PIC), http://www.uoc.
edu/in3/pic/cat/
Os novos desafios da vida urbana: a redefinição do conceito de «comunidade» na era da Internet 141

O presidente de Santo Domingo, na Repú- os computadores, mas as pessoas. As pes­


blica Dominicana, não pode impedir o facto soas estão a construir as suas próprias redes
de ter centenas de milhares de cidadãos a de confiança, de circulação de informação,
viver em Nova Iorque. Cidadãos que estão de colaboração: as suas comunidades. Cada
fisicamente na Costa Este dos EUA, mas que, pessoa escolhe o que quer ler e sobre que
cultural, social e telepaticamente, estão per- temas, e as fontes de informação que pre-
manentemente conectados e relacionados tende utilizar. Cada um escolhe do que falar,
com a sua cidade, nas Caraíbas. Este é um com quem falar, como e onde o publicará.
aspecto que o presidente da câmara também A informação flui de tal maneira que, em si
não esquece: que tem centenas de milhares mesma, já não supõe nenhum poder. Agora
de cidadãos que pertencem a outras comu- é mais interessante participar numa comuni-
nidades. A Internet está a desempenhar um dade, numa rede, num conjunto de ligações
papel determinante na criação, preservação e, portanto, de pessoas, através dos quais
e desenvolvimento das comunidades sociais circula informação relevante para a constru-
e o fenómeno das comunicações digitais ção de opiniões e tomada de decisões.
está a tornar possível que muitas pessoas
mantenham a sua pertença em várias comu- Paralelamente, as formas de acesso à rede
nidades e, por conseguinte, em vários am- já se diversificaram e simplificaram e con-
bientes (virtuais ou não) de socialização e tinuarão a fazê-lo. Os mais desfavorecidos
educação. utilizam com normalidade a tecnologia IP e
as videoconferências a partir de locutórios e
cibercafés para se comunicarem com aque-
A exclusão digital les familiares que vivem longe. O projecto
OLPC (One Laptop PerChild13), e seus deri-
Boa parte dos acontecimentos actuais está vados, oferecem computadores portáteis por
relacionada com o fenómeno digital. Hoje menos de 100 dólares. Os telemóveis permi-
em dia, tudo é digital: as fotos, os vídeos, tem navegar na Internet. Qualquer executivo
a música, a correspondência, as chamadas vai munido de um dispositivo informático
e as redes de comunicação. Não há muito que lhe permite tratar do correio enquanto
tempo que se falava, e muito, de exclusão espera num terminal de aeroporto. Já exis-
digital. A dificuldade de acesso à tecnologia tem cidades com planos para oferecer Inter-
provocaria uma fractura digital que exclui- net sem fios em todo o seu território e um
ria os mais desfavorecidos e impediria a sua sem número de novidades que combatem as
integração na nova sociedade da informa- barreiras técnicas de acesso à rede.
ção e do conhecimento. Nem toda a gente
tinha a possibilidade de ter um computador A exclusão digital já não está relacionada
ligado à Internet e, ainda menos, de dispor com as classes mais desfavorecidas e com
dos conhecimentos básicos para utilizá-la. as dificuldades para aceder à tecnologia.
Foi contra estes factores que se lançaram Está sim relacionada com os desconectados,
planos e campanhas mais ou menos bem os que não pertencem a nenhuma comuni-
sucedidas. dade em rede, os que não se educam em
rede e os que desprezam os sinais digitais
A evolução da Internet deu origem a uma de identidade digital. É preocupante o nú-
rede mais participativa, mais cooperativa, mero de pessoas que ocupam posições rele-
mais social, desde a Internet das empresas vantes tanto no mundo dos negócios como
à Internet da população e desde a Web 1.0
à Web 2.0. Os vínculos da rede já não são 13
OLPC, http://es.wikipedia.org/wiki/Olpc
142 Os novos desafios da vida urbana

na administração que não está conectado a momento, a partir de qualquer lugar e ao al-
nenhuma das novas redes digitais de conhe- cance de toda a gente. O que é importante
cimento e que, por isso, não são capazes de são as redes, as comunidades, os circuitos
utilizar a rede como um ambiente educador a partir de onde se gera a informação e os
e socializador. A estatística dos políticos que circuitos através dos quais se circula e se
abrem sítios da Internet e blogs em época enriquece. A inteligência colectiva constrói-
de eleições para abandoná-los na manhã -se a partir das contribuições feitas por cada
seguinte às eleições é preocupante. Muitos um. Que esta história sirva como exemplo:
vão à Internet só durante a campanha eleito- a associação de sindicatos do Reino Unido
ral para tirar fotografias e aparentar interesse (TUC) exigiu que os funcionários pudessem
pela cultura digital, mas não valorizam ou aceder em horas de trabalho às redes sociais
não entendem que a rede é um espaço onde da Internet14, caso contrário, haveria o risco
muitos cidadãos se educam e sociabilizam, de perda de competitividade.
um espaço de conversação e participação,
envolvimento e acção. Os espaços digitais Quando, todavia, existem amplos sectores
são o novo espaço público, que precisa de de população que se integram na Socieda-
pessoas e organismos que salvaguardem tan- de da Informação e Conhecimento, surge
to o interesse público como o privado, de um sector incipiente que já fez a sua tran-
serviços e representantes da comunidade sição para Sociedade em Rede. Enquanto
atentos às necessidades dos cidadãos que os primeiros dão valor à informação («a in-
ocupam este novo espaço urbano. A ausên- formação é poder»), os segundos dão valor
cia neste espaço público deveria servir para ao facto de fazerem parte de uma rede («a
desqualificar todos os que se dizem estar ao informação só é útil se a quiseres partilhar»),
serviço dos cidadãos, sejam políticos, fun- o que pressupõe mudanças relevantes no
cionários ou professores. Os desconectados que diz respeito a valores. Por uma questão
não são indicados para pensar em soluções de diferenças de idade, os dois grupos cho-
para o futuro e a nova e verdadeira exclusão caram pela primeira vez nas salas de aula,
digital que marcará a diferença é a dos res- mas cada vez se encontram mais espaços
ponsáveis – políticos, sociais e empresariais de relação e convivência (o trabalho, a po-
- que se deparam com decisões relativas ao lítica, o associativismo, o comércio) e pro-
nosso futuro sem estarem conectados. gressivamente se confirma a transformação
de conceitos como a autoridade, a proprie-
A chegada dos «nativos digitais» provoca a dade intelectual, a pertença, a reputação ou
transição da sociedade da informação e do a identidade; todos eles relevantes em qual-
conhecimento para a sociedade em rede. quer processo educativo. Não estamos a fa-
A informação já não tem valor porque está lar de acesso às novas tecnologias, estamos
muito mais acessível, em diversos formatos, a falar de compreensão em relação às mu-
através de vários dispositivos, em qualquer danças sociais.

14
BBC News (30/08/2007), Let staff use network sites -
TUC, http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk/6969791.stm
A voz dos governos
locais na
governação mundial

Elisabeth Gateau

Elisabeth Gateau é a primeira secretária-geral das Cidades e Go-


vernos Locais Unidos (CGLU). Foi secretária-geral do Conselho
dos Municípios e Regiões Europeias (CMRE/CCRE-Conseil des
Communes et Régions Européenne) – secção europeia de Cida-
des e Governos Locais Unidos – e responsável pelas questões do
governo local no Secretariado da Convenção para o futuro da Eu-
ropa, encarregada de preparar a Constituição da União Europeia.

A contribuição de Elisabeth Gateau junto dos governos locais e re-


gionais foi reconhecida em Julho de 2004, altura em que recebeu
o Prémio Empereur Maximilien. Composto por um júri internacio-
nal, este galardão homenageia o trabalho de reforço da política
regional e local na Europa, enfatizando os princípios e os valores
estabelecidos na Carta Europeia da Autonomia Local.
A voz dos governos locais na governação mundial

A irrupção dos governos locais Este movimento geral não reduz no entanto
no palco internacional as grandes diferenças entre as regiões. En-
quanto que no seio da União europeia o
«Uma revolução democrática, silenciosa, peso dos governos locais nas despesas pú-
propaga-se actualmente no mundo. A de- blicas ultrapassa os 10% do PIB e se aproxi-
mocracia local progride em todas as r­ egiões, ma dos 9% na América do Norte, esse não
desde os povos da savana africana, ao alti- chega a 2,5% em África e é inferior a 4% na
plano Latino-americano, até aos barangayes América Latina.
das Filipinas, passando pelos povos da
Eurásia.»1 Em paralelo, a acção internacional dos gover-
nos locais também se alargou consideravel-
Por estas palavras começa o Primeiro Relató- mente, especialmente nos anos 1980-1990.
rio mundial sobre a Descentralização e a De- Num inquérito realizado em 1994-1995
mocracia local que pormenoriza a evolução numa amostra de cinquenta países, mais de
dos governos locais no mundo actual. Este dezasseis mil cidades desenvolvendo acções
relatório evidencia o facto de que a maioria internacionais foram identificadas.2Segundo
dos países, ao longo destes últimos 20 anos, um estudo mais recente da Organização
estabeleceu governos locais eleitos por su- para a Cooperação e o Desenvolvimento
frágio universal e que responde pelos seus Económico OCDE, 2003) a cooperação dos
actos perante os cidadãos. A emergência de governos locais mobilizava mais de 1,2 mil
novas lideranças políticos a nível local per- milhões de dólares cada ano.3
mitiu a criação de associações de governos
locais em mais de cento e trinta países e a Actualmente, num mundo no qual mais de
nível regional em todos os continentes. metade da humanidade vive num meio ur-
bano, os governos locais participam cada
Se é verdade que a noção de «autonomia vez mais na procura de soluções para maio-
local», de local self-govermnent, de Selbs- ria dos grandes desafios contemporâneos:
-tverwaltung, de livre administração é anti- dos desafios democráticos, porque é ao ní-
ga, a difusão mundial da descentralização é vel local que a noção de cidadania adquire
um fenómeno relativamente recente ligado todo o seu sentido e que se constroem as
às transformações políticas e socioeconó- identidades face ao avanço crescente da
micas das últimas duas décadas do século mundialização; dos desafios ecológicos,
passado. Em linhas gerais, é a transferência porque é ao nível local que são levadas a
do poder de decisão, de competências e de cabo as acções contra as mudanças clima-
recursos do governo central e das suas admi- téricas e para a preservação do nosso pla-
nistrações para os governos intermediários e
locais. 2
G. Jan Schep, F. Angenent, J. Wismans, M. Hlllenius,
Local Challenges to Global Change, A Global perspec-
tive on Municipal International Cooperation, SGBO-
1
United Cities and Local Governments, First Global -VNG-SDU Publishers, La Hague, 1995
Report on Decentralization and Local Democracy, Bar- 3
OCDE, Aide allouée par les collectivités locales, dos-
celona, UCLG, 2007, p. 9. siers du CAD 2005, vol 6, nº 4
146 Os novos desafios da vida urbana

neta; acções que requerem a transformação intervir em uníssono para facilitar o diálogo
dos modelos de produção e de consumo, com a comunidade internacional.
principalmente urbanos; dos desafios eco-
nómicos, porque é nas cidades e nas suas Um processo de colaboração mais directo
periferias que se concentra grande parte das entre as Nações Unidas e os governos locais
riquezas e das oportunidades, mas também arrancou. Desembocou, ao fim de vários
das maiores desigualdades; e, por fim, dos anos em:
desafios sociais e de solidariedade, porque
as políticas de integração social, de respeito a) a unificação das grandes organizações
pela diversidade cultural e da luta contra a mundiais de governos locais com a criação
insegurança encarnam-se em primeiro lugar da organização Cidades e Governos Locais
a nível local. Unidos (CGLU); e

Estas evoluções explicam o interesse cres- b) um maior reconhecimento institucional e


cente que têm as organizações internacio- político do papel dos governos locais.
nais para a dimensão institucional do local.
Ao longo da década de 1990, as Nações
Unidas «descobriram» a questão local para Criação da organização Cidades
abordar o desenvolvimento duradouro e a e Governos Locais Unidos
problemática das grandes metrópoles. En-
tre 1991 e 1995, as Nações Unidas orga- Em 2004, as autoridades locais entraram
nizaram várias conferências internacionais numa nova era da cooperação internacio-
sobre a gestão das grandes cidades que se nal. A fundação da organização Cidades
concluíram pela adopção em Quioto duma e Governos Locais Unidos (CGLU) resulta
declaração conjunta de presidentes de câ- efectivamente de um processo de quase dez
maras e de especialistas em favor de uma anos que permitiu a fusão das três principais
nova governação metropolitana. Em para- organizações internacionais de governos
lelo, em 1992, por ocasião da Cimeira da locais que existiam: a União internacional
Terra que teve lugar no Rio de Janeiro, as das Autoridades Locais (IULA), a Federação
Nações Unidas reconheceram pela primeira Mundial das Cidades Unidas (FMCU) e Me-
vez o papel essencial dos governos locais tropolis.
para a protecção do ambiente, bem como
na realização da Agenda 21 para um de- A fundação da CGLU foi impulsionada pe-
senvolvimento duradouro e respeitador do los presidentes de Câmara e pelos líderes
ambiente. locais do mundo inteiro que desejavam
desenvolver o comércio com a comunida-
Em 1996, em Istambul, durante a 2ª Cimeira de internacional e, particularmente, com as
mundial sobre os estabelecimentos huma- Nações Unidas. Actualmente, a organização
nos - Habitat II -, os Estados afirmaram final- mundial agrupa governos locais de cento
mente que os governos locais eram os seus e trinta e seis países dos cento e noventa e
«associados mais próximos e mais impor- dois Estados membros das Nações Unidas.
tantes para a execução do programa Habitat Os seus aderentes são cidades, governos
e para impulsionar o desenvolvimento du- regionais bem como a quase totalidade das
radouro e respeitador do ambiente». Assim, associações nacionais e internacionais de
comprometeram-se a descentralizar as res- governos locais do mundo inteiro; uma de-
ponsabilidades e os recursos para os níveis las é a Associação Internacional das Cidades
locais e convidaram os governos locais a Educadoras (AICE), cujo enquadramento de
A voz dos governos locais na governação mundial 147

intervenção é a cidade como agente educa- • o apoio à paz e ao diálogo entre as civili-
dor. A CGLU apoia-se em sete secções con- zações, através da diplomacia das cidades e
tinentais - África, América latina, Ásia, Eurá- colaboração com a Aliança das Civilizações
sia, Europa, Médio Oriente, Ásia Ocidental, das Nações Unidas;
América do Norte - bem como numa secção
metropolitana, Metropolis, que junta oitenta • a luta contra as mudanças climáticas e
das maiores cidades do planeta. O seu Se- para o desenvolvimento duradouro e respei-
cretariado mundial situa-se em Barcelona. tador do ambiente;

Os principais objectivos da nova organiza- • a participação dos governos locais na


ção mundial são os seguintes: campanha mundial contra a sida.

a) Desenvolver o papel bem como a influên- A CGLU também progrediu de maneira sig-
cia dos governos locais e das organizações nificativa no objectivo de vir a ser o prin-
que os representa na governação mundial; cipal recurso mundial de informação e de
reflexão sobre os governos locais. Publicou
b) Ser o recurso principal no apoio aos go- nomeadamente o Primeiro Relatório Mun-
vernos locais democráticos, eficazes e ino- dial sobre a Descentralização e a Democra-
vadores, próximos dos cidadãos; e cia Local bem como a primeira compilação
dos indicadores base dos governos locais em
c) Promover uma organização mundial de oitenta e dois países do mundo inteiro.
governos locais democrática e eficaz.
A consolidação da organização mundial
Desde a sua criação, a organização CGLU unificada não é um processo concluído mas
dedicou-se a reforçar a presença das autori- antes um processo em constante evolução.
dades locais nos principais temas da agenda Os esforços devem ser mantidos para re-
mundial que têm uma influência directa so- aproximar as redes regionais ou sectoriais,
bre o local: para desenvolver uma arquitectura demo-
crática complexa permitindo articular de
• a solidariedade activa entre os governos maneira equilibrada a diversidade das face-
locais e entre a sua população face aos tas do mundo local.
eventos mundiais como por exemplo, com
as vítimas das catástrofes naturais após o
tsunami que sucedeu no Sudeste asiático Um progresso para o reconhecimento
(Dezembro de 2004-janeiro de 2005), ou dos governos locais
a favor dos sinistrados da guerra do Líbano no direito internacional
(Julho-Agosto 2006);
Ao longo do processo que levou à consti-
• a acção dos governos locais a favor da tuição da organização Cidades e Governos
agenda mundial do desenvolvimento, em Locais Unidos, e sobretudo desde o ano de
particular os Objectivos do Milénio para o 2004, as autoridades locais reforçaram e
Desenvolvimento promovido pela comuni- consolidaram as ligações que existiam com
dade internacional para lutar contra a pobre- as principais instituições internacionais. Po-
za extrema, para o acesso dos mais neces- demos assinalar:
sitados à educação, à saúde e aos serviços
básicos (Campanha para as Cidades do Mi- • a criação do Comité Consultivo das Au-
lénio de Junho-Setembro 2005); toridades Locais junto das Nações Unidas
148 Os novos desafios da vida urbana

(UNACLA), no ano 2000, a primeira expe- - o Relatório de Kofi Annan, «Numa liber-
riência de institucionalização do diálogo dade maior: para o desenvolvimento, segu-
entre as autoridades locais e as Nações Uni- rança e direitos humanos para todos» (Nova
das. O seu mandato foi circunscrito, por en- York, Março de 2005);
quanto, à realização da agenda do programa
Habitat4; - a Declaração dos chefes de Estado e de go-
verno na Cimeira do Milénio + 5 (Nova York,
• o lançamento da Aliança das Cidades em Setembro de 2005);
1999, pelo Banco mundial e pela ONU Ha-
bitat. A Aliança reúne actualmente mais de • por fim, a assinatura de acordos de colabo-
quinze países doadores e cinco organismos ração entre a CGLU e diversas agências inter-
internacionais. Mobilizou desde a sua cria- nacionais tais como o Programa das Nações
ção mais de 88 milhões de dólares em inves- Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o
timentos para a redução da pobreza urba- Instituto do Banco Mundial e a UNESCO, a
na. As autoridades locais são representadas Organização Internacional do Trabalho (OIT)
no seio do Conselho Consultivo da Aliança e o Programa Comum das Nações Unidas so-
pelo intermediário da CGLU e da sua secção bre o VHS/Sida (ONUSIDA).
metropolitana, Metropolis;
• recentemente, em Janeiro de 2008, a
• a admissão de representantes das autorida- CGLU assinou um acordo quadro com a
des locais como observadores junto do Con- Aliança das Civilizações das Nações Unidas
selho de Administração da Agência Habitat e tornou-se membro do «Grupo de Amigos
da ONU (2003), representação assumida pela da Aliança». Uma organização das Nações
organização CGLU desde 20055. Desde então, Unidas reconhece assim pela primeira vez a
outras agências, como o Instituto das Nações diplomacia das cidades como uma alavanca
Unidas para a Formação Profissional e Pes- para o diálogo entre os povos do mundo e
quisa (UNITAR), cooptaram representantes da para trabalhar para a paz e o respeito da di-
CGLU e/ou autoridades locais nos seus órgãos versidade.
da administração, mas a título temporário;
Estes progressos/avanços inscrevem-se no
• o reconhecimento explícito do papel das âmbito do debate sobre a reforma das Na-
autoridades locais em diversos textos das ções Unidas e a renovação da governação
instituições internacionais: mundial. Iniciado pelo Secretário-Geral pre-
cedente, Kofi Annan, para reforçar a eficácia
- o Plano de Acção da Cimeira Mundial so- do sistema multilateral mundial, democrati-
bre o desenvolvimento duradouro e respei- zar e aumentar a sua legitimidade, o debate
tador do Ambiente (Joanesburgo, 2002); deu lugar a diferentes relatórios seguidos de
propostas, sendo que algumas delas faziam
referência explicita ao papel dos governos
4
UNACLA, criado por recomendação do Secretário locais.
geral das Nações Unidas, Kofi Annan, sobre a respon-
sabilidade do programa ONU-Hábitat para promover Deve-se sublinhar em particular o relatório
socialmente e ambientalmente ​​ cidades sustentáveis
(resolução 17/18, conselho de Administração da ONU sobre a relação entre as Nações Unidas e a
Hábitat) sociedade civil apresentado pelo grupo de
5
Resolução 19/1, sobre a regras de procedimentos do personalidades presidido pelo ex-presidente
Conselho de Aministração da ONU Hábitat, artigos do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, que
64, 65 e 66. [Maio 2003]. A sua aplicação data do ano
2005 propôs a Kofi Annan, em Junho de 2004,
A voz dos governos locais na governação mundial 149

corrigir o défice democrático da governação desenvolvimento na qual reconhece um lu-


mundial através de um maior envolvimento gar importante aos governos locais no seio
dos representantes eleitos - parlamentares e da política de cooperação internacional da
autoridades locais -, reforçando as ligações União europeia9.
entre o local e o mundial. Os autores deste
relatório postulavam o reconhecimento da Neste e no outro caso, o esforço não deve
autonomia local pela Assembleia das Na- afrouxar para que estes progressos inegá-
ções Unidas como um «princípio universal», veis permitam às autoridades locais atingir
e ponderavam considerar a organização Ci- um novo estatuto institucional no seio das
dades e Governos Locais unidos como um organizações internacionais. Actualmente,
órgão consultivo para os negócios de gover- as autoridades locais e seus representantes
nação6. Infelizmente, raras são as propostas eleitos são considerados como membros da
deste relatório até agora concretizadas. sociedade civil, da mesma forma que uma
ONG, um sindicato ou uma organização
A adopção em Abril de 2007 das Linhas di- profissional ou patronal. É-lhes negado a sua
rectrizes sobre a Descentralização e Refor- qualidade de governantes locais e de repre-
ço das autoridades locais constitui, a este sentantes democraticamente eleitos nas suas
respeito, um progresso decisivo do sistema comunidades.
onusiano (ONU). É o primeiro texto de refe-
rência mundial que reconhece o papel dos Este reconhecimento irá depender da capa-
governos locais na realização da governa- cidade das autoridades locais nas propostas
ção democrática e do desenvolvimento. A de soluções para resolver os grandes desa-
adopção destas linhas directrizes concretiza fios da agenda mundial. Essas aspirações são
uma das maiores ambições das autoridades colectadas na recente declaração final do 2º
locais7. Esperamos que este texto será sub- Congresso da organização CGLU que teve
metido, num futuro próximo, à Assembleia- lugar de 28 a 31 de Outubro de 2007 em
-geral das Nações Unidas a fim de consoli- Jeju, na Coreia do Sul, e cujos aspectos mais
dar esse precedente no direito internacional. notáveis são os seguintes:

Em paralelo, foram realizados progressos • o combate contra o aquecimento global e


noutros fóruns internacionais. A União Eu- para a protecção do ambiente como priori-
ropeia reconheceu em 2005 que as autori- dade da agenda local;
dades locais eram «actores plenos» da co-
operação ao desenvolvimento (Acordo de • a promoção dos direitos do Homem e do
Cotonou revisto e Declaração sobre o Con- respeito da diversidade nas cidades e dos
senso Europeu para o desenvolvimento8). O territórios como fundamentos para a paz e o
Parlamento Europeu, quanto a ele, adoptou desenvolvimento;
em Março de 2007 uma resolução sobre o
papel dos governos locais na cooperação ao • a realização dos Objectivos do Milénio
para o Desenvolvimento e da democracia
local, para reforçar através deles o lugar dos
6
A/58/817, Relatório do grupo de personalidades emi- governos locais na governação mundial.
nentes encarregado de examinar as relações entre as
Nações Unidas e a soiedade civil, 11 de Junho de 2004.
7
21* UN-Habitat Gouverning Council, resolução 21/23
de 16 de Abril de 2007, http://www.unchs.org/downlo-
ads/docs/5181_19348_Resolution%2021-3.pdf 9
Resolução do Parlamento europeu de 15 de Março de
8
Jornal Oficial da União Europeia, L 209 de 11 de 2007 sobre as colectvidades locais e a cooperação ao
Agosto de 2005 e C 46 de 24 de Fevereiro de 2006 desenvolvimento (2006/2235[INI]), P6_TA(2007)0083
150 Os novos desafios da vida urbana

No que diz respeito ao primeiro tema, a um significa combater a exclusão, reduzir as


CGLU juntamente com as principais redes desigualdades e trabalhar para a equidade,
de governos locais sobres as mudanças cli- a convivialidade entre os cidadãos. É nas
máticas - ICLEI - Conselho Internacional cidades que se experimentam novas formas
para as Iniciativas Ecológicas Locais, o Con- de democracia directa - orçamentos parti-
selho Mundial de Presidentes de Câmara cipativos, conselhos de bairros, etc. - e que
sobre as Mudanças Climáticas, o Grupo das são desenvolvidas políticas inovadoras de
Grandes Cidades para o clima (C40) bem integração social que promovem o acesso
como os presidentes de câmara americanos universal aos serviços públicos básicos para
signatários do Acordo de protecção do clima avançar para a realização dos Objectivos do
- lançaram em Bali, em Dezembro de 2007, Milénio para o Desenvolvimento.
no âmbito da Conferência das Nações Uni-
das sobre Mudanças Climáticas, um apelo Todavia, é frequente que os governos locais
para reduzir nos seus territórios as emissões recebam novas competências sem que lhes
de gazes com efeito de estufa - entre 60% e sejam transferidos os recursos correspon-
80% para 2050 -, a promover a utilização dentes. Isso, conjuntamente com a pobreza
de tecnologias próprias e de energias reno- dos meios de que dispõem em inúmeros pa-
váveis, a encorajar a planificação e o de- íses em via de desenvolvimento, afecta con-
senvolvimento para facilitar a prevenção e sideravelmente a capacidade dos governos
adaptação das cidades mais vulneráveis às locais a assegurar as suas responsabilidades
mudanças climáticas. Além disso, pediram e a responder à necessidades da sociedade
que os governos locais estejam associados civil. Esta falta de meios fragiliza de maneira
aos seus governos nacionais nas próximas determinante as políticas visando a limitar
negociações da Convenção quadro das Na- ou a prevenir os conflitos. E quando estes se
ções Unidas sobre as Mudanças Climáticas. produzem, são as cidades e suas populações
que são as primeiras vítimas da guerra ou da
Inúmeras cidades elaboraram ou elaboram violência terrorista.
planos locais de luta contra as mudanças
climáticas em ordem a promover uma urba-
nização mais densa bem como sistemas de Em conclusão
transporte e de construção mais adaptados,
a desenvolver a reflorestação e a incentivar Inexoravelmente os governos locais são
uma gestão dos recursos naturais mais res- levados a partilhar cada vez mais as res-
peitadora do ambiente. ponsabilidades com os governos nacionais
para atender os grandes desafios do mundo
Da mesma forma, as cidades são espaços contemporâneo. Os Estados aproveitam-se
nos quais são experimentadas diariamente igualmente deste compromisso crescente
soluções para responder aos grandes desa- dos governos locais. Mas, a ser, é necessá-
fios contemporâneos. Num mundo cada vez rio permitir a estes últimos assumir um pa-
mais complexo e urbanizado, os governos pel mais activo na elaboração bem como
locais são os primeiros a assumir diariamen- na execução dos acordos internacionais nas
te a defesa dos direitos dos cidadãos nas ci- áreas relacionadas com as competências
dades multiculturais, canalizando tensões, dos governos locais.
ultrapassando conflitos e apoiando o diálo-
go entre todas as culturas e religiões. Nesse A história da articulação política das auto-
contexto, a educação é um vector funda- ridades locais e da sua inserção no sistema
mental: apostar na formação integral de cada das Nações Unidas é ainda recente. As Na-
A voz dos governos locais na governação mundial 151

ções Unidas tiveram uma influência directa tringir o reconhecimento dos governos lo-
na constituição das Cidades e dos Governos cais, a interacção cada vez mais estreita en-
Locais Unidos, como novo actor internacio- tre o nível local e o nível mundial permite o
nal. A adopção das Directrizes para a Des- maior optimismo quanto ao reconhecimen-
centralização permitiu um passo importante to futuro do papel dos governos locais nas
na criação de um quadro regulamentar uni- instituições internacionais e na governação
versal a favor de um reconhecimento da au- mundial. Como foi expresso pelo secretário-
tonomia local. Progressos decisivos também -geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon,
foram realizados para que a voz dos gover- nas mensagens endereçadas às autoridades
nos locais perante a comunidade internacio- locais reunidas aquando do congresso da
nal se faça ouvir. CGLU em Jeju, «o futuro da humanidade de-
pende de como as cidades irão agir perante
Apesar dos Estados continuarem a tentar res- os desafios levantados pela mundialização».
2
Educação:
o presente é o futuro
Comunicações,
conhecimento e cidade:
um debate intercultural

Néstor García Canclini

Néstor García Canclini é professor-investigador da Universidad


Autónoma Metropolitana (UAM-Unidade Iztapalapa, México) e
investigador emérito do Sistema Nacional de Investigadores, no
México. Tem leccionado em diversas universidades como profes-
sor convidado, nomeadamente em Austin, Duke, Nova Iorque,
Satnford, Barcelona, Buenos Aires e São Paulo. Canclini recebeu
a bolsa Guggenheim e tem sido agraciado com diversos prémios
internacionais, como o Book Award, da Associação para os Es-
tudos da América Latina, pela sua obra Culturas híbridas (2002),
considerado o melhor livro sobre a América Latina.

Canclini tem vasta obra publicada sobre os temas da globalização,


hibridização cultural e das transformações da pós-modernidade.
Ultimamente tem-se dedicado ao estudo das relações estética-
-antropologia. A sua obra Diferentes, desiguales y desconectados:
mapas de la interculturalidad (editada em 2004) é uma reflexão
teórica sobre estes três conceitos, considerados pelo autor como
conceitos-chave para a compreensão do mundo actual. Os traba-
lhos de García Canclini estão traduzidos em inglês, francês, italia-
no e português. O autor é uma referência para os Estudos Culturais.
Comunicações, conhecimento
e cidade: um debate intercultural

A cidade comunicacional Mas a persistência de movimentos sociais e


ecológicos que protestam sugere um mal-
As cidades, sobretudo as grandes cidades, -estar com esta fragmentação do urbano.
são sistemas espaciais e redes de comunica- Os meios de comunicação captam esse
ção. Uma cidade habita-se e faz-se circular, descontentamento dos habitantes das cida-
e ambos os modos de a ocupar complemen- des que não se resignam a viver entre redes
tam-se: movimentar-se para trabalhar e con- difusas e esquivas. Então a rádio, a televisão
sumir é, supostamente, uma maneira de a e Internet - que são redes parcialmente des-
usar. Portanto, a cidade forma os seus habi- localizadas - constroem relatos de localiza-
tantes pelos procedimentos em que organiza ção. Ao mesmo tempo que a expansão ter-
a ocupação do espaço e pelas oportunida- ritorial das megacidades debilita a conexão
des que oferece de informar-se, conhecer e entre as suas partes, as redes comunicacio-
actuar comunicando-se. nais levam a informação e o entretenimento
a todos os lares. A expansão desordenada
Esta dupla perspectiva de análise levou até às periferias, a qual provoca aos ha-
a redefinir o que entendemos por bitantes a perda de noção dos limites do
cidade e por vida urbana. Também leva «seu» território, compensa-se através dos
a reconsiderar o que nas grandes áreas meios de comunicação com informação do
urbanas desintegra e reintegra. Muito foi que se passa em locais afastados da cida-
escrito sobre a decomposição, a perda de de. Noutros tempos, as crónicas literárias e
ordem e sentido do conjunto experimentado periodistas, cumpriam esta função de con-
pelas cidades expandidas nos processos figurar relatos integradores para superar de
de industrialização e afluência massiva de algum modo a dispersão urbana. Nos estu-
migrantes na segunda metade do século XX dos dobre a relação entre os usos do espa-
(Davis, 1998; Koolhaas, 2002). A desordem ço e processos comunicacionais na cidade
urbana e a crítica aos relatos totalizadores do do México, pensamos que o helicóptero
social levaram a desqualificar a planificação que sobrevoa a cidade e transmite todas as
mega urbana, especialmente sob a influência manhãs através do ecrã da televisão e das
do pensamento pós-moderno. As cidades vozes radiofónicas, oferece o simulacro de
ficaram sem visão nem projectos de conjunto uma megalópole vista em conjunto, a sua
e houve a tendência de pensar nelas como unidade aparentemente recomposta por
uma soma de fragmentos: procurou-se, em quem vigiam. Como analisei noutro lugar,
vez do ordenamento integral, a atenção os desequilíbrios e incertezas engendrados
isolada ao que se julgava potencialmente pela urbanização que desurbaniza, pela sua
mais dinâmico. A teorização da cidade como expansão irracional e especulativa, pare-
fluxo, e como território atravessado por fluxos cem ser compensados pela eficácia tecnoló-
globais da economia, das comunicações e gica das redes comunicacionais. Por isso, a
do turismo contribuiu para pôr de parte um caracterização unicamente sociodemográfi-
sector do pensamento urbano de qualquer ca do espaço urbano, não chega a tomar
aspiração a exercer controlo sobre a conhecimento dos seus novos significados
totalidade urbana (Castells, 1995). se não inclui também a recomposição que
158 Educação: o presente é o futuro

lhes imprime a acção imaginária dos meios. agrupamentos sociáveis para participar nes-
(García Canclini, 1998) sas funções de comunicação em grande es-
cala, e ainda para compreender a dinâmica
A rádio e a televisão, comprometidas na ta- e o valor sociocultural dessas redes comuni-
refa de narrar e dar coerência à cidade, re- cativas; c) as pressões do mercado, deriva-
desenham as suas tácticas comunicacionais das dos altos investimentos requeridos para
para se enraizarem em espaços delimitados. produzir duma forma industrial e difundir
As adaptações do discurso internacional da massivamente a rádio, a televisão, o cinema
CNN, com emissão em Atlanta, com infor- e os serviços digitais.
mação local em muitos países, exemplifi-
cam esta versatilidade. Ainda que se tratem Nem sempre estes três factores se articu-
de empresas transnacionais, sabem que as laram, como agora, em benefício dos em-
suas audiências esperam que lhes falem do presários e no sentido de dar prioridade à
que significa estar juntos num sitio particu- videocultura comercializada. No inicio da
lar. Apresentam-se então neste duplo pa- difusão radiofónica e televisiva, alguns Es-
pel: como informadores macro sociais, que tados nacionais eram proprietários de emis-
divulgam o que sucede em lugares distan- soras e orientaram a sua acção com sentido
tes, e como confidentes micro sociais, que público. A concepção do espaço público
contam os engarrafamentos e perturbações moderno esteve ligada, diz John Keane, ao
emocionais da cidade em que estamos a ver modelo de «radiodifusão de serviço públi-
o noticiário. Os rituais da diplomacia inter- co». Este autor demonstrou a importância
nacional e os espectáculos íntimos dos nos- que este modelo teve na Grã-Bretanha, Ho-
sos vizinhos, têm uma ligação na sucessão landa, República Federal da Alemanha e Ca-
informativa. nadá para minorar as pressões financeiras,
limitar a quantidade e tipo de publicidade,
Vejamos mais de perto como se reconfigura assim como dar acesso aos cidadãos para
o sentido da cidade mediante o papel «urba- que participem nos debates de cada socie-
nizador» da vídeo cultura. Considerarei a vi- dade. Encontrámos uma análise semelhante
deocultura em duas dimensões: Por um lado, às funções sociais e políticas dos meios, em
é constituída pelo conjunto de redes e men- estudos sobre a radiodifusão e a televisão na
sagens electrónicas (rádio, televisão,vídeos, América Latina (Martín Barbero, Ortiz, Wi-
Internet...); por outro, o conjunto de mensa- nocur, entre outros).
gens visuais que moldam a imagem da ci-
dade, ou seja, a sua arquitectura, a ordem Devido à crescente influência da rádio, da
e desordem urbanística, os cartéis publicitá- televisão e da Internet, referimos-nos nor-
rios e políticos, as sinalizações, os grafitis e malmente a estes recursos como as novas
os demais referentes visíveis da cidade. ágoras, os lugares de informação massiva
(Ferry, Wolton). Efectivamente, nos meios
A actual reorganização dos espaços urbanos de comunicação conhecemos a maioria das
e das redes comunicacionais efectua-se com notícias, ouvimos comentários e debates
uma lógica que combina três movimentos: sobre a esfera pública, e às vezes participa-
a) o enorme poder tecnológico e económico mos nesta conversação. Ao mesmo tempo
dos meios para se comunicar com a maioria que os partidos políticos reduziram a sua
da população, conjugar a quotidiano local credibilidade e capacidade de representa-
com redes de informação e entretenimento ção dos interesses públicos, os meios foram
nacionais e globais; b) o declínio dos orga- ocupando os velhos e os novos lugares de
nismos estatais e a baixa capacidade dos intermediação e deliberação social. A vídeo
Comunicações, conhecimento e cidade: um debate intercultural 159

política substitui as reuniões e a militância zam a partir das prisões, servindo-se de tele-
partidária. móveis, sequestros e ataques urbanos, como
aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Ci-
Diários e rádio, e muito mais a televisão, dão dade do México, Tijuana e em dezenas de
a conhecer, melhor que no passado e a mais cidades latino americanas.
cidadãos, actos de corrupção e violações
de direitos humanos, ou difundem explica-
ções sobre crises ecológicas ou políticas. O Sociedade da informação
acesso cada vez mais estendido à Internet, ou do conhecimento?
contribui para que múltiplos sectores se co-
nectem de forma imediata com informações As questões relativas à informação e à gestão
previamente restringidas, e para que fre- urbana foram elaboradas nos últimos anos
quentemente as discutam em blogues. sob o marco da redefinição das sociedades
contemporâneas como sociedades do co-
Tal como nos anos noventa os estudos sobre nhecimento. As cidades ocupam uma po-
sociologia política e da comunicação desco- sição central nesta linha de pensamento e
briram a importância da vídeo política, de- acção. Falamos de cidades do conhecimen-
vemos agora prestar mais atenção a outros to para nos referirmos a cidades desenhadas
modos de nos informarmos, comunicarmos com objectivo de propiciar um desenvolvi-
e participar socialmente, que se encontram mento económico baseado no conhecimen-
nos novos cenários digitais da leitura. Desta to científico, nas tecnologias avançadas de
forma, as políticas culturais já não podem informação e numa interconectividade glo-
ser apenas gutemberguianas, deslocadas em bal fluída ou a partes de cidades reestrutura-
relação aos lugares e meios onde a maioria das para fazer cumprir esses objectivos. Al-
se informa e entretém. Não é possível cen- gumas características destas cidades são usar
trar o debate sobre a democratização social a criação e inovação como recursos chave
apenas na comunicação escrita. Nem tão para adicionar valor à produção e propiciar
pouco na manipulação televisiva. Um olhar um desenvolvimento acelerado com maior
sobre os novos modos de ler e de se comu- competitividade internacional; fomentar a
nicar, revela que não se lê tão pouco nem articulação entre universidades, empresas e
menos que no passado. Vendem-se menos criadores; facilitar o acesso ás novas tecno-
jornais, mas centenas de milhar consultam- logias comunicacionais a todos os cidadãos;
-os diariamente na Internet. Diminuem as orientar a educação formal e informal para
livrarias mas aumentam os cibercafés e os elevar o nível educativo de toda a população
meios portáteis pelos quais circulam mensa- especialmente as aprendizagens de conhe-
gens escritas e audiovisuais. cimentos e inserções nas redes que favore-
çam a aquisição deste tipo de capital social.
Seria ingénuo pensar que a ciber cidadania Boston e Seatle nos Estados Unidos, Cam-
vai canalizar suficientemente as necessida- bridge e Manchester na Grã-Bretanha, são
des de informação, representação e parti- alguns exemplos desta re-articulação entre
cipação nas cidades. A contra informação informação, conhecimento, conectividade,
por telemóveis entre centenas de milhar de infraestrutura urbana, educação e participa-
cidadãos espanhóis, conseguiu desautorizar ção social no desenvolvimento.
a manipulação do governo e do PP, que atri-
buíam os atentados de Atocha à ETA (e pres- O Fórum Universal das Culturas realizado
sionaram a imprensa, a rádio e a televisão, a em 2004 em Barcelona, já auspiciou uma
transmiti-lo). Mas também as máfias organi- articulação entre o crescimento urbano e
160 Educação: o presente é o futuro

a expansão do saber. A segunda edição do lógico de origem ocidental. Mas, é legitimo


Fórum, com lugar em Monterrey a partir de generalizar o conceito de sociedade do co-
Setembro de 2007, explicita ainda mais o nhecimento a todo o mundo?
vínculo entre o desenvolvimento sustentado
e os avanços cientifico-tecnológicos. «Mon- Um olhar antropológico sobre este debate
terrey, cidade do conhecimento» é o tema ajuda a ver as dificuldades em incluir nesta
com o qual se promove este evento interna- fórmula os milhares de etnias e dezenas de
cional na sede mexicana, a segunda cida- nações nas quais os conhecimentos que pre-
de do país em volume populacional, onde valecem não seguem as estratégias cogniti-
a maior companhia siderúrgica da América vas do ocidente ou das ciências modernas.
Latina (entre muitas outras fábricas) lhe deu De acordo com as investigações antropoló-
prestígio como capital industrial. No entan- gicas e a sua conceptualização diversificada
to, quando a industrialização diminuiu o seu dos modos de produzir e transmitir o saber,
poder impulsionador de desenvolvimento todas as sociedades, em todas as épocas, fo-
face ao avanço da informatização tecno- ram sociedades de conhecimento, ou seja,
lógica, os altos-fornos fecharam e os seus que todo o grupo humano foi disposto de
edifícios, transmutados em Parque Fundidor, um conjunto de saberes apropriado ao seu
converteram-se em Pinacoteca e Cinema- contexto e os seus desafios históricos. O
teca. Agora - com o estímulo do Fórum - o questionamento consequente das pretensões
espaço pós-fabril cresce agregando novos de superioridade europeia e ocidental, con-
museus e passeios em torno dum canal de duziu ao relativismo cultural. Assim, quis-se
2,5 quilómetros que liga a ex zona industrial resolver as desigualdades reduzindo-as a di-
ao centro histórico da cidade. ferenças - sempre legítimas - entre culturas.
Enquanto as nações, e muitas etnias, conse-
Duas formas de conhecimento: do saber guiam gerir com autonomia dentro dos seus
que nutria o desenvolvimento industrial, territórios a maior parte dos seus processos
expressado fisicamente em fábricas e fornos económicos, sociais e culturais, a solução
«tão resistentes como o material que pro- de valorizar a independência de cada cultu-
duziam: o aço» (segundo uma nota sobre ra, com os seus saberes próprios, mantinha
o Fórum publicada em 2007), passamos ao uma certa consistência. Ao globalizarem-se
resgate simbólico dos edifícios esvaziados os intercâmbios económicos, as migrações,
que se convertem no «Museu do Aço», no os meios de informação e entretenimento, as
planetário e em centros para exibir arte. Nas condições ecológicas e de desenvolvimento
conferências e mesas do Fórum debate-se socio-cultural, é necessária uma concepção
sobre contribuição dos novos conhecimen- que reconheça as diferenças juntamente
tos à diversidade cultural e um desenvolvi- com as desigualdades. As distâncias entre
mento «sustentado» baseado na informação sociedades desenvolvidas com formas dis-
mais do que na produção material. Recon- tintas de conhecimento, organizam-se não
versão ou eufemização? só como consequência de diversas vias de
elaboração cultural, como também em rela-
Para se responder pode ser útil vincular es- ções assimétricas e díspares.
tas transformações urbanas com as dúvidas
sobre se chamar a sociedade actual da infor- Já não é satisfatória a substituição evolucio-
mação ou do conhecimento. Insiste-se em nista dos saberes tradicionais pelas ciências,
Monterrey e entre outros fóruns em vincular nem o reconhecimento separado da simples
a diversidade cultural com os movimentos legitimidade de todas as formas de conhe-
tidos como de maior avanço no saber tecno- cimento. O problema é identificar como se
Comunicações, conhecimento e cidade: um debate intercultural 161

realiza hoje a construção multicultural dos À luz desta co-existência complexa entre
saberes, e elaborar nessa trama os dilemas saberes, modos de vida e comunicação,
interculturais. O formidável aumento de co- podemos re-examinar se é mais pertinen-
nhecimentos pode efectivamente comunicar te falar de sociedade da informação ou do
(que não é o mesmo que informar) se se usa conhecimento. A Sociedade da informação
para construir novas formas de «coabitação refere-se a um conjunto de processos tecno-
cultural» (Wolton, 2003: 12). lógicos e sociais que organizam o emprego
sistemático da informação e o seu processa-
A situação global do desenvolvimento ur- mento digital para reestruturar os processos
bano apresenta-se, nesta óptica, mais com- produtivos, reduzir os custos de produção e
plexa que a concebida pelas teologias «pro- incrementar exponencialmente a capacida-
gressistas» da história ou pelo relativismo de de acumulação económica. Então, con-
cultural. A crescente modernização dos paí­ seguir um desenvolvimento social e cultural
ses orientais com rápido desenvolvimento, mais equilibrado no mundo dependeria da
como a China, Índia e Japão, aproximou o integração de todos os países na revolução
desenho de algumas cidades ao urbanismo digital e informacional, que todos os sec-
ocidental sem prescindir da sua herança tores de cada sociedade tenham acesso a
histórica. Da mesma forma, nas sociedades «trabalhos inteligentes» através das novas
latino americanas com ampla população in- destrezas e da conexão com as redes onde
dígena, a medicina tradicional, as práticas se obtém informação estratégica. Supõe-se
artesanais e as formas nativas de organiza- que a introdução de tecnologia produtiva, a
ção do conhecimento, coexistem com as expansão dos mercados e a sua integração
ciências. Pese a enorme desigualdade entre transnacional, incrementarão os benefícios
os conhecimentos científicos e tradicionais, económicos. Na medida em que se consiga
e as tendências evolucionistas que tendem a o acesso directo e simultâneo à informação
desqualificar as culturas indígenas, os sabe- avançada, irá democratizar-se a educação e
res autóctones continuam a ser usados por melhorar o bem-estar da maioria. Na verten-
vastos sectores como recursos para a saúde, te política, crescerão as oportunidades de
a educação bilingue e as práticas campo- participação e descentralizar-se-à a tomada
nesas e urbanas (notoriamente na Bolívia, de decisões.
Guatemala e México).
Como explicar com este esquema a degra-
A estas mudanças cabe somar a vasta difu- dação da vida social e política das cidades
são de saberes tradicionais e não ocidentais mesmo naquelas com um alto desenvolvi-
na Europa e Estados Unidos, assim como mento tecnológico? A concepção duma so-
em zonas urbanas e rurais da Ásia e Amé- ciedade do conhecimento habilita, por sua
rica Latina desenvolvidas com orientação vez, perceber e explicar diferenças, desi-
moderna. Já não parece contraditório que gualdades e contradições que fazem paten-
recursos comunicacionais modernos como tes outras dinâmicas sociais. Desta forma, a
a televisão e Internet, contribuam para a ex- sociologia da educação pôde mostrar que
pansão das medicinas tradicionais, ou que não existe uma «simultaneidade sistémica»
grupos indígenas utilizem programas com- entre todas as dimensões do desenvolvimen-
putacionais para registar e dar continuidade to, porque os educandos não são iguais, não
aos seus mitos e cosmovisões. Existe uma in- têm possibilidades semelhantes de aprender
teracção, por vezes conflituosa, entre formas nem se interessam pelos mesmos conteúdos.
antigas e modernas, tradicionais e científicas Uma educação homogénea, numa informa-
de conhecimento. ção universal e estandardizada, não gera
162 Educação: o presente é o futuro

maior equidade nem democratização parti- avançadas de produção. Trata-se, além de


cipativa. Se prestarmos atenção às múltiplas combinar o conhecimento histórico-territo-
formas de pertença e coesão social, escu- rial com as comunicações tecnológicas re-
tamos uma pluralidade de exigências. São centes, e quem sabe, com o que sobra das
necessárias «adaptações programáticas aos etapas anteriores do desenvolvimento urba-
grupos específicos» (por exemplo, o bilin- no e industrial.
guismo em zonas multi-culturais), «procurar
a pertinência curricular em função das rea- Quando falamos de multi-culturalidade já
lidades territoriais em que se desenvolve a não nos referimos apenas à coexistência de
escola, e atribuir fundos especiais nas zonas etnias, línguas e modos de conhecer e ima-
de maior vulnerabilidade social e precarie- ginar, como acontecia e ainda acontece, em
dade económica» (Hopenhayn, 2002:315- diversas regiões geográficas duma nação,
316). mas sim à proximidade e interculturalida-
de numa mesma cidade: a convivência de
Reduzir o conhecimento à informação, leva cristãos, islâmicos, e não crentes em Nova
a reincidir, nesta nova etapa, nos problemas Iorque, Londres, Berlim, Paris e muitas ci-
criticados ao paradigma iluminista, ou seja, dades europeias, norte-americanas, latino-
ver a educação como imposição de um tipo -americanas e asiáticas. As megalópoles, e
de racionalidade que asseguraria à priori a também centenas de cidades médias e pe-
produção e transmissão de conhecimentos quenas, vêem erguer-se templos de diferen-
universais e verdadeiros. A desigualdade tes religiões, fundirem-se músicas de diver-
dentro de cada país e cada cidade, nas vias sas culturas e épocas, arquitecturas e modos
de acesso aos mercados do saber e labo- de usar a cidade originários de concepções
rais, mesmo para quem disponha dos novos urbanísticas diversas. Estamos a afastar-nos
conhecimentos e destrezas, põe em mani- dos modelos homogeneizadores, tal como
festo a intervenção de outras variáveis não das fantasias reproduzidas espacialmen-
contempladas pelos modelos iluministas e te nas cidades norte-americanas, de que a
tecnocráticos. A variedade de compromis- segregação em diferentes bairros garantiria
sos identitários, de simbolismos do sentido uma multi-culturalidade sem conflitos entre
social, mostram que os conhecimentos ne- afro-americanos, latino-americanos e anglo-
cessários para se situar significativamente no -saxónicos e asiáticos.
mundo, devem-se obter tanto nas redes tec-
nológicas globalizadas como na transmissão Além das novas dificuldades que se põem
e re-elaboração dos patrimónios históricos em gerir as formas históricas de diversidade
de cada sociedade. (étnica, nacional) que coexistem numa cida-
de, o desenvolvimento tecnológico e comu-
nicacional dá origem a outras. Os recursos
A cidade intercultural audiovisuais e electrónicos, que noutros
tempos foram vistos como ameaças homoge-
Pode uma cidade contribuir na educação neizadoras, estão a suscitar formas de multi
para um desenvolvimento cultural em vez e interculturalidade, ao fazer interactuar em
de tecnologicamente avançado e socialmen- condições de desigualdade, as culturas le-
te integrador? A pergunta não abarca, como tradas, audiovisuais e digitais. Nas cidades
há anos, somente a capacidade de renovar convivem a poucos passos de distância, li-
os seus equipamentos incorporando as ino- vrarias, teatros, cinemas, discotecas e víde-
vações científico-tecnológicas e atraindo otecas, negócios de jogos de vídeo e, sobre-
capitais que impulsionem as formas mais tudo nos países de menor nível económico,
Comunicações, conhecimento e cidade: um debate intercultural 163

cibercafés nos quais se democratiza o aces- mera parte, México, Grijalbo, Universidad
so às redes digitais. Em sociedades mono- Autónoma Metropolitana, 1998.
lingues, os diferentes modos de se informar
através de livros, ou monitores, de conhecer DAVIS, MIKE, Ecology of fear. Los Angeles
músicas em concertos, vídeos e discos pi- and the Imagination of Disaster, New York,
ratas, downloads gratuitos ou intercâmbios Metropolitan Books, 1998.
electrónicos, vão configurando diferenças e
distâncias entre grupos e gerações. A noção HOPENHAYN, MARTÍN. «Educación y
de espaço público urbano, que continua a cultura en Iberoamérica: situación, cruces
apresentar fractura entre bairros mais ou me- y perspectivas», en Néstor García Canclini
nos qualificados, entre zonas melhor ou pior (comp) Culturas de Iberoamérica. Diagnósti-
equipadas, complexifica-se pelas prolonga- co y propuestas para su desarrollo. Madrid,
ções virtuais de outros modos de comunica- Santillana, 2005.
ção, convivência ou segregação.
KEANE, JOHN. «Structural transformations
Assombrou-me há poucos anos, e apenas of the public sphere» en The Communica-
a iniciar-se este século, ver como um GPS tion Review, 1 (1), San Diego, California,
orientava com segurança o automóvel que 1995.
me levou de San Gemignano até Siena, tan-
to no troço de auto-estrada como pelas ruas KOOLHAAS, REM, «Junk-space», October,
de traçado medieval. As novidades elec- Nº100, primavera 2002 MARTÍN-BARBERO,
trónicas, digitais e informacionais que nos JESÚS. De los medios a las mediaciones,
trazem os avanços da chamada sociedade México, Gustavo Gili, 1987.
do conhecimento, estão a expandir notavel-
mente as vias de acesso ao saber e facilitam ORTIZ, RENATO. A moderna tradição brasi-
releituras e usos da sociedade e da sua his- leira. Cultura brasileira e indústria cultural,
tória. Combinam o tradicional, o moderno e São Paulo, Editora Brasilense, 1988.
o hiper-moderno. Mas são insuficientes para
construir modos adequados de gestão dos WINOCUR, ROSALÍA. Ciudadanos medi-
muitos modos de conhecer e representar o áticos. La construcción de lo público en la
social. Construir cidade, educar na e com a radio, Buenos Aires – Barcelona –México,
cidade, requer hoje uma articulação de es- Gedisa, 2002.
paços e circuitos que não se limita à escola
e instituições tradicionalmente encarregadas WOLTON, DOMINIQUE. L´autre mondiali-
destas tarefas. Apenas começámos a vislum- sation. París, Flammarion, 2003.
brar o que significa fazer uma cidade do co-
nhecimento.

Bibliografia

CASTELLS, MANUEL. La ciudad informacio-


nal, Madrid, Alianza, 1995.

GARCÍA CANCLINI, NÉSTOR (coord.) «Las


cuatro ciudades de México», Cultura y co-
municación en la ciudad de México, pri-
À deriva1

Richard Sennet

Richard Sennett (Chicago, EUA, 1941) é professor de Sociolo-


gia na Escola de Economia de Londres e professor catedrático de
­Ciências Sociais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Em
Londres lecciona no programa «Cidades» e orienta os alunos do
doutoramento em Sociologia da Cultura. É membro da Academia
Americana de Artes e Ciências, da Real Sociedade de Literatura, da
Real Sociedade de Artes e da Academia Europeia. É ex-presidente
do Conselho Americano para o Trabalho e ex-director do Instituto
de Ciências Humanas de Nova Iorque. Os seus livros mais recen-
tes são estudos sobre o capitalismo moderno: The Culture of the
New Capitalism (Yale, 2006), Respect in a World of Inequality,
(Penguin, 2003), The Corrosion of Character, the Personal Conse-
quences of Work in New Capitalism (Norton, 1998) e The Crafts-
man (Allen Lane, 2008). O professor Sennett foi premiado com os
prémios Amalfi e Ebert na área da Sociologia.1

1
Sennett, Richard: «Drift», em The Corrosion of Character, the Personal Conse-
quences of Work in New Capitalism. (Nova Iorque, W. W. Norton, 1998), pp 15-31.
À deriva

Recentemente, encontrei num aeroporto era cumulativa: Enrico e Flávia verificavam


uma pessoa que não via há quinze anos. o aumento das suas poupanças todas as se-
Tinha entrevistado o pai de Rico (como lhe manas, medindo o seu conforto através das
vou chamar) há vinte e cinco anos, quando várias melhorias e aquisições que fizeram
escrevi um livro sobre os operários nos Es- na sua casa. Podemos afirmar que o tempo
tados Unidos, The Hidden Injuries of Class. em que viviam era previsível. As convulsões
Enrico, o pai de Rico, trabalhou como por- da Grande Depressão e da Segunda Guerra
teiro, e tinha grandes projectos para o filho, Mundial tinham acabado, os sindicatos pro-
que estava a entrar na adolescência, um tegiam os empregos; embora tivesse apenas
rapaz brilhante e bom desportista. Quando quarenta anos de idade quando o conheci,
perdi o contacto com o seu pai, uma déca- Enrico sabia exactamente quando se iria
da depois, Rico tinha acabado de terminar aposentar e quanto dinheiro iria receber.
a faculdade. Na sala de espera do aeropor-
to, parecia ter cumprido os sonhos do pai. O tempo é o único recurso gratuitamente
Transportava um computador numa mala de disponível para aqueles que se encontram
couro elegante, estava vestido com um fato no estrato inferior da sociedade. Para acu-
que eu não poderia pagar e ostentava um mular tempo, Enrico necessitava daquilo a
anel de sinete com um brasão. que o sociólogo Max Weber chamou «jau-
la de ferro», uma estrutura burocrática que
Enrico tinha passado os últimos 20 anos a racionalizava o uso do tempo. No caso de
limpar casas de banho e a esfregar o chão Enrico, as regras de remuneração por anti-
de um edifício de escritórios da baixa. Fazia- guidade do seu sindicato e as que determi-
-o sem reclamar, mas também sem qualquer navam a sua pensão do governo conferiram-
entusiasmo. A sua obra teve um propósito -lhe este suporte. Quando acrescentou a
único e duradouro, servir a sua família. Pre- estes recursos a sua própria auto-disciplina,
cisou de quinze anos para juntar o dinheiro o resultado não pôde ser medido apenas em
para uma casa que comprou num subúrbio termos económicos.
perto de Boston, cortando os laços com o
seu antigo bairro italiano, porque uma casa Enrico construiu uma narrativa da sua his-
nos subúrbios era melhor para as crianças. tória de vida fundada na experiência física
Entretanto a sua esposa, Flávia, tinha come- e material acumulada, narrativa por si inter-
çado a trabalhar como engomadeira numa pretada como perfeitamente linear. Se para
empresa de limpeza a seco; quando conheci alguns a vida de Enrico pode ser rotulada
Enrico, em 1970, ambos poupavam para a como enfadonha, para ele foi uma história
educação universitária dos seus dois filhos. dramática, feita de pequenas conquistas, à
medida que ia conseguindo pagar as suas
O que mais me impressionou em Enrico e na contas. Independentemente de se situar num
sua geração foi o facto de nas suas vidas o escalão social baixo, o nosso porteiro sente-
tempo ser linear: ano após ano, com empre- -se o autor da sua própria narrativa de vida,
gos em que as tarefas se repetiam dia após o que lhe confere um sentimento positivo de
dia. E, nessa linha do tempo, a conquista auto-estima.
168 Educação: o presente é o futuro

Embora clara, a história de vida de Enrico xa instrução e condição servil conferiam a


não foi fácil. Surpreendeu-me especialmen- outros o direito de o ignorarem. A sua ca-
te a forma como conseguiu libertar-se das pacidade de utilizar o tempo como recurso
malhas da sua velha comunidade de imi- contrastava com a auto-comiseração da po-
grantes e adaptar-se à neutralidade da nova pulação negra e com os privilégios injustos
vida suburbana. Entre os novos vizinhos, da burguesia.
foi um cidadão pacífico e anónimo; quan-
do, porém, voltou ao velho bairro, era visto Embora Enrico sentisse que tinha atingido
como alguém que tinha sido bem sucedido um certo grau de prestígio social, não queria
lá fora, um “veterano” que voltava todos os que o seu filho Rico tivesse uma vida igual
domingos para ir à missa, almoçar e ir para à sua. O sonho americano de ascensão so-
os cafés inteirar-se das novidades. Conse- cial dos filhos motivou o meu amigo. «Não
guiu, simultaneamente, obter um reconhe- entendo uma palavra do que ele diz», dizia
cimento personalizado por parte daqueles Enrico orgulhosamente quando Rico vinha
que o conheciam há tempo suficiente para da escola e estava a fazer os trabalhos de
compreender o seu percurso de vida e um matemática. Ouvi muitos outros pais de fi-
reconhecimento “anónimo” por parte dos lhos como Rico dizer algo como: «eu não o
seus novos vizinhos, por fazer exactamente entendo», num tom mais severo, como se os
o que toda a gente fazia, mantendo a sua filhos os tivessem abandonado. De alguma
casa e jardim limpos e vivendo sem grandes forma todos nós “violamos” o lugar que nos
sobressaltos. O que conferiu consistência ao foi atribuído na família, mas a mobilidade
projecto de vida de Enrico foi o facto de ter ascendente confere a essa passagem um ca-
conseguido fazer-se respeitar em ambas as riz especial. Rico e os outros jovens enca-
situações: duas identidades que provêm da beçaram a hierarquia social, por vezes com
mesma capacidade de fazer um uso discipli- vergonha dos sotaques e das maneiras rudes
nado do tempo. dos pais, mas sobretudo sentindo-se sufo-
cados pela estratégia infindável de contar
Se o mundo fosse um lugar feliz e justo, aque- tostões e tempo em pequenos passos. Estas
les que são respeitados devolviam, na mesma crianças desfavorecidas desejariam ter em-
medida, o respeito que tinham recebido. As- preendido um percurso menos repressivo.
sim propunha Fichte em Os Fundamentos do
Direito Natural, que falava do «efeito recípro- Agora, muitos anos depois, graças àquele
co» do reconhecimento. Mas a vida real não encontro no aeroporto, pude averiguar se
procede com tanta generosidade. o filho de Enrico tinha sido bem sucedido.
Devo confessar que não gostei muito do que
Enrico não gostava de negros, embora tives- vi. O fato caro de Rico podia até ser só uma
se trabalhado em clima de paz durante mui- farda de trabalho, mas o anel com um bra-
tos anos com outros porteiros de raça negra. são de família de elite soava-me a mentira e
Não gostava de imigrantes não-italianos, era até, de certa forma, uma traição ao pai.
como os irlandeses, apesar de o seu próprio Mas o acaso juntou-nos numa longa viagem
pai falar muito mal inglês. Não admitia ci- de avião. Esta não foi, para nós, uma daque-
sões familiares e não se aliava aos da sua las típicas viagens de avião à americana em
classe, mas, acima de tudo, não gostava de que um desconhecido nos conta a sua vida
pessoas da classe média. Achava que o tra- toda e, assim que o avião aterra, pega na ba-
tavam como se ele não existisse, como se gagem de mão e desaparece para sempre.
“valesse zero”. O ressentimento de Enrico Mesmo sem ser convidado, sentei-me no lu-
provinha do facto de achar que a sua bai- gar vago ao lado de Rico e, durante a primei-
À deriva 169

ra hora de um longo voo entre Nova Iorque No parque de negócios no Missouri, a ins-
e Viena, tentei saber tudo o que lhe tinha tabilidade da nova economia apanhou-os
acontecido desde o nosso último encontro. desprevenidos. Enquanto Jeannette era pro-
Rico cumpriu o desejo de mobilidade as- movida, Rico era despedido. A sua empresa
cendente do pai, mas não o caminho que foi absorvida por uma empresa maior, que ti-
este lhe havia traçado. Não tem particular nha os seus próprios analistas. Assim, o casal
admiração pelos “servidores do tempo” ou fez uma quarta mudança, para o leste, para
outros, igualmente presos na armadura da um subúrbio de Nova Iorque. Actualmente,
burocracia. Em vez disso, acredita na ca- Jeannette administra uma grande equipa de
pacidade de mudar e de correr riscos. E a contabilistas e Rico fundou uma pequena
verdade é que prosperou. Enquanto Enrico empresa de consultoria. Embora prósperos,
recebe uma remuneração situada no último em lugares de topo, por serem capazes de
quartel da cadeia salarial, Rico está entre os se apoiar e adaptar mutuamente, tanto um
5% mais bem pagos. Contudo, esta não é como outro temem frequentemente estar na
exactamente uma história feliz. iminência de perder o controlo sobre as suas
vidas. Este medo faz parte das suas carreiras
Depois de se ter formado numa universida- profissionais.
de local em engenharia electrónica, Rico
ingressou numa escola de gestão em Nova No caso de Rico, o medo da falta de con-
Iorque. Por lá casou com uma colega, uma trolo é simples: provém da dificuldade de
jovem protestante oriunda de uma família administrar o tempo. Quando informou os
mais abastada. A escola tinha-os preparado seus colegas que ia abrir a sua própria em-
para a necessidade de mudar de terra e de presa de consultoria, a maioria incentivou-
emprego com frequência e foi o que eles fi- -o. A consultoria parecia ser o caminho da
zeram. Depois da licenciatura, em catorze independência. Mas ao começar a trabalhar
anos de trabalho, Rico mudou-se quatro ve- viu-se mergulhado num sem número de ta-
zes. Começou como consultor de tecnologia refas menos qualificadas, como ter de tirar
numa empresa de capital de risco na Costa as suas próprias fotocópias, que antes eram
Oeste, nos anos de glória da indústria de feitas por outra pessoa. Estava submerso no
computadores, em Sillicon Valley; mudou- fluxo complexo do trabalho em rede. Cada
-se então para Chicago, onde também teve chamada tinha de ser atendida e o mais pe-
sucesso. A mudança seguinte foi motivada queno conhecimento aproveitado. Para con-
pela carreira da sua mulher. Se Rico fosse seguir trabalho, submeteu-se aos horários de
apenas um ambicioso personagem retirado pessoas que não eram obrigadas a respon-
de um dos livros de Balzac, nunca o teria der-lhe. Tal como outros consultores, deseja-
feito, porque nem sequer foi ganhar um salá- va apenas cumprir a sua parte dos contratos.
rio melhor e trocou o “berço” da tecnologia Mas esses, segundo diz, são em grande parte
por um parque de negócios mais discreto e uma ficção. Um consultor está sempre a ter
modesto, no Missouri. de tomar novas direcções, em resposta às
mudanças de humor e de opinião de quem
Enrico sentiu-se um pouco envergonhado lhe paga. Rico não tem tarefas fixas que lhe
quando Flávia começou a trabalhar. Rico, permitam dizer: «É isto que eu faço, são es-
pelo contrário, vê Jeannette como uma com- tas as minhas responsabilidades».
panheira e uma colega de trabalho, e adap-
tou-se às suas necessidades. Foi nessa altura, No caso de Jeannette a questão não se colo-
quando a carreira de Jeannette melhorou, ca de forma tão evidente. O pequeno grupo
que nasceram os filhos de ambos. de contabilistas que agora dirige encontra-se
170 Educação: o presente é o futuro

dividido em pessoas que trabalham a partir Em cada uma das suas quatro mudanças,
de casa, pessoas que estão normalmente no os novos vizinhos de Rico têm interpreta-
escritório, e um grupo de funcionários inter- do a sua chegada como uma nova fase que
nos de nível inferior que se encontram a mil encerra os capítulos anteriores. Fazem-lhe
quilómetros de distância e que estão ligados perguntas acerca de Sillicon Valley ou do
a ela através de um computador. Na em- parque de escritórios do Missouri, mas, diz
presa onde actualmente trabalha, as regras Rico, «não vêem outros lugares», as suas
rígidas de vigilância de telefones e e-mail imaginações não estão preparadas para isso.
controlam os contabilistas que trabalham a Este é um medo tipicamente americano. O
partir de casa. Para organizar o trabalho dos clássico subúrbio americano era uma cida-
funcionários do escritório, que se encontram de-dormitório; na última geração surgiu um
a mil quilómetros de distância, não pode tipo diferente de subúrbio, economicamente
delegar tarefas, nem tão pouco os conhece independente do núcleo urbano; nem é uma
pessoalmente, orientando-os apenas através cidade ou vila nem uma aldeia; é um local
de indicações formais escritas. Esta forma de que nasce a partir da intervenção de um in-
trabalho flexível não é menos burocrática. vestidor imobiliário, desenvolve-se e decai
De facto, agora as suas decisões têm menos no tempo de uma só geração.
peso do que no tempo em que supervisiona-
va um conjunto de pessoas a trabalhar todas As amizades fugazes e a comunidade local
juntas no mesmo espaço. formam o pano de fundo da maior preocu-
pação de Rico: a sua família. Tal como Enri-
Como já disse, eu não estava, inicialmente, co, Rico encara o trabalho como um serviço
predisposto a sentir pena deste típico casal à família. Mas ao contrário do seu pai, Rico
do “sonho americano”. Mas como o jantar descobre que as exigências do trabalho difi-
foi servido no avião e acabámos por falar cultam o alcance dos objectivos. Inicialmen-
de assuntos mais pessoais, a minha simpatia te, achava que Rico se referia à dificuldade
por Rico foi aumentando. O medo de deixar de gerir o tempo entre o trabalho e a família:
de ter o controlo era muito mais profundo «Chegamos a casa às sete, fazemos o jantar,
do que o de eventualmente perder poder tentamos encontrar uma hora para dedicar
no seu trabalho. Temia que a necessidade aos trabalhos de casa das crianças e depois
de sobrevivência no contexto da economia tratamos dos nossos assuntos». Quando as
moderna o conduzisse a ter atitudes e fazer coisas se tornam complicadas durante me-
opções que o deixassem, emocionalmente, ses a fio na firma é quase «como se não
perdido. conhecesse os meus filhos». Preocupa-se
com a anarquia frequente em que a famí-
Contou-me que tanto ele como Jeannette lia mergulha, e com o facto de negligenciar
faziam amizade sobretudo com as pessoas os filhos, cujas necessidades não podem ser
que conheciam no trabalho, tendo perdido programadas para se adaptarem às exigên-
muitas dessas amizades durante as mudan- cias do seu trabalho.
ças dos últimos 12 anos, embora mantendo
o contacto. Para Rico as comunicações elec- Ouvindo isto, tentei acalmá-lo; a minha mu-
trónicas têm o mesmo significado de comu- lher, o meu enteado e eu tínhamos sofrido e
nidade que as reuniões do sindicato tinham sobrevivido a uma vida igualmente stressan-
para Enrico, mas acha-as demasiado curtas te: «não está a ser justo consigo próprio»,
e apressadas: «É o que nos acontece com os disse eu. «O facto de se incomodar significa
filhos: ou estamos lá quando é preciso ou já que está a fazer o melhor que pode pela sua
é tarde de mais.» família». Apesar de ter ficado sensibilizado
À deriva 171

com o que eu lhe disse, na verdade eu não passo numa ou duas organizações está a de-
tinha compreendido. saparecer. O mesmo se passa com a aquisi-
ção de um único conjunto de competências
Quando era criança, e isso eu já sabia, Rico ao longo de uma vida de trabalho. Hoje, um
tinha contestado a autoridade de Enrico; já jovem americano com pelo menos dois anos
nessa altura me tinha dito que se sentia sufo- de faculdade sabe que poderá ter de mudar
cado com as regras mesquinhas que regiam de emprego cerca de onze vezes durante a
a vida do pai. Agora que ele próprio é pai, o sua carreira e reformular a sua base de com-
medo da falta de disciplina ética persegue-o. petências pelo menos umas três vezes em
Receia, sobretudo, que os seus filhos se tor- quarenta anos de trabalho.
nem «ratos de centros comerciais», andando
sem rumo nos parques de estacionamento, à Um executivo de uma grande empresa ame-
tarde, enquanto os pais permanecem incon- ricana recorda que o lema «o longo prazo já
tactáveis nos seus escritórios. não existe» está a alterar o próprio conceito
de trabalho:
Deseja ser para o seu filho e filhas um mo-
delo de determinação e resolução, mas não «Temos de promover o conceito da força de
pode simplesmente dizer-lhes o que devem trabalho como sendo temporária, embora
ou não fazer. Tem de lhes dar o exemplo. O a maioria dos empregados temporários es-
exemplo objectivo que lhes podia dar, o da teja dentro das paredes da nossa empresa.
sua mobilidade social, é algo que eles consi- Os “empregos” estão a ser substituídos por
deram como um direito adquirido, uma his- “projectos” e “áreas de trabalho”.»2
tória que pertence a um passado que não é
o seu e que já acabou. Mas a maior preocu- As empresas começaram a adjudicar grande
pação de Rico é que a sua vida profissional parte das tarefas que antes se faziam por tra-
não possa servir de exemplo aos seus filhos balhadores do quadro a pequenas empresas
e à forma como eles devem conduzir as suas que trabalham com empregados contratados
vidas. As qualidades necessárias para se ter a prazo. O sector de mais rápido crescimen-
um bom emprego não são necessariamente to da força de trabalho norte-americana, por
as qualidades de um bom carácter. exemplo, é aquele que é constituído pelas
pessoas que trabalham em agências de em-
Tal como viria a compreender mais tarde, a prego temporário.3
intensidade desse medo tem origem no fosso
que separa as gerações de Enrico e de Rico. «As pessoas estão famintas de [mudança]»,
Os lideres empresariais e os jornalistas en- argumenta o guru da gestão de empresas Ja-
fatizam o mercado global e o uso de novas mes Champy, porque «o mercado pode ser
tecnologias como as principais característi- orientado para o consumidor como nunca
cas do capitalismo do nosso tempo. Isso é antes foi»4. O mercado, sob esse ponto de
verdade, mas falta aqui uma outra dimensão
da mudança: a das novas formas de orga- 2
  Citado no New York Times, 13 de Fevereiro de 1996,
nizar o tempo, especialmente o tempo de p. DI, D6
trabalho.
3
  Corporações como a empresa Manpower cresceram
240 por cento entre 1985 e 1995. Neste momento, a
empresa Manpower, com 600 000 pessoas na sua fo-
O sinal mais tangível dessa mudança pode- lha de pagamentos, comparativamente às 400 000 da
ria ser o lema «o longo prazo já não existe». General Motors e às 350 000 da IBM, é agora o maior
No mundo do trabalho, a carreira profissio- empregador do país.
4
 James Champy, Re-engineering management , (Nova
nal tradicional, em que se progredia passo a Iorque, Harper-Business), 1995, p. 119, pp. 39-40
172 Educação: o presente é o futuro

vista, é demasiado dinâmico para permitir hierarquias».5 Isso significa que as promo-
fazer as mesmas coisas da mesma forma, ções e as demissões tendem a não ser basea­
ano após ano, ou para permitir fazer sempre das em regras fixas e claras e as tarefas são
o mesmo. O economista Bennett Harrison pouco rígidas. A rede está constantemente a
acredita que a origem dessa fome de mu- redefinir a sua estrutura.
dança é o «capital impaciente», o desejo de
lucro rápido. Por exemplo, a duração média Um executivo da IBM disse uma vez a Po-
de tempo das transacções que têm sido rea­ well que uma empresa flexível «deve tornar-
lizadas em bolsas britânicas e americanas -se num arquipélago de actividades relacio-
caiu 60 por cento nos últimos quinze anos. nadas umas com as outras».6 Arquipélago é
O mercado “acredita” que o lucro mais rá- uma boa imagem da comunicação em rede,
pido é melhor quando gerado pela rápida uma vez que a comunicação se faz como
mudança institucional. nas viagens entre ilhas, só que à velocidade
da luz, graças às modernas tecnologias. O
Há que referir que o sistema do «longo pra- computador tem sido a chave para a substi-
zo» que o novo regime quer destruir foi, em tuição das comunicações lentas e condicio-
si mesmo, efémero – as décadas de meados nadas que ocorriam nas cadeias tradicionais
do século XX. O capitalismo do século XIX de comando. O sector de mais rápido cres-
caracterizou-se pelos sucessivos desastres cimento no mercado de trabalho é a infor-
nos mercados de acções e por um investi- mática e os serviços de processamento de
mento empresarial irracional; as fortes osci- dados, a área em que trabalham Jeannette
lações do ciclo de negócios deram às pes- e Rico; o computador é hoje utilizado em
soas muito pouca segurança. Na geração de praticamente todos os trabalhos, de muitas
Enrico, após a Segunda Guerra Mundial, foi formas, por pessoas de todas as categorias.
possível, na maioria das economias avan- (ver quadros 1 e 7 do apêndice para um en-
çadas, controlar a instabilidade com a aju- quadramento estatístico).
da dos sindicatos e das garantias do estado
providência e das grandes empresas. Todos Por todas estas razões, a experiência de En-
estes factores contribuíram para gerar uma rico da narrativa de longo prazo e direccio-
era de relativa estabilidade. Este período de nada tornou-se disfuncional. Rico tentou
mais ou menos trinta anos define o passado explicar-me – e talvez também a si próprio
estável que está agora a ser substituído por – que as mudanças materiais incorporadas
um novo regime. no lema «o longo prazo já não existe» se tor-
naram disfuncionais também para ele, mas
Uma mudança na estrutura institucional mais como orientações de carácter pessoal,
moderna tem sido o suporte do trabalho a particularmente no que respeita à sua vida
curto prazo, por contrato ou esporádico. As familiar.
empresas têm procurado diminuir a quanti-
dade de burocracia, para se tornarem orga- Tomemos a questão do compromisso e da
nizações mais horizontais e flexíveis. Em vez lealdade. «O longo prazo já não existe» é
das organizações em pirâmide, a administra- um princípio que corrói a confiança, a leal-
ção prefere agora pensar nas organizações dade e o compromisso mútuos. A confian-
como redes. «Os compromissos em rede são
mais leves nas suas bases» do que as hierar- 5
 Walter Powell e Laurel Smith-Doerr, «Networks and
quias piramidais, afirma o sociólogo Walter Economic Life», in Smelser Neil e Richard Swedberg,
Powell, «são mais facilmente decompostas eds., The Handbook of Economic Sociology (Princeton:
Princeton University Press, 1994), p. 381
ou redefiníveis do que os activos fixos das 6
 Ibidem
À deriva 173

ça pode, claro, ser uma questão puramente pessoal, dependem da vontade de assumir
formal, como num acordo de negócios ou compromissos. Tendo em conta os laços
no respeito pelas regras de um jogo. Mas as curtos, débeis, nas instituições de hoje, John
experiências mais intensas de confiança são Kotter, da Escola de Negócios de Harvard,
em geral mais informais, como aquelas que aconselha os jovens a trabalhar «mais do
provêm de se aprender em quem confiar lado de fora do que do lado de dentro das
quando é necessário fazer uma tarefa difí- organizações». Sugere-lhes que optem pela
cil ou impossível. Esses laços sociais levam consultoria em vez de ficarem “amarrados”
tempo para se desenvolver e vão-se enrai- a um emprego de longa duração; a lealdade
zando nos alicerces das instituições. institucional é uma armadilha numa eco-
nomia em que «os conceitos de negócio, a
A precariedade do trabalho nas instituições concepção dos produtos, o conhecimento
modernas dificulta o desenvolvimento da estratégico, o investimento em tecnologias
confiança informal. O compromisso mútuo de ponta e todos os tipos de conhecimen-
quebra-se de forma mais evidente quando as to têm uma vida curta».8 Um consultor res-
novas empresas são vendidas pela primeira ponsável por uma reestruturação da IBM
vez. Nas empresas em início de actividade, que conduziu à redução do número de pos-
exige-se muito tempo e esforço por parte de tos de trabalho afirma que uma vez que os
todos. Quando as empresas promovem pela funcionários percebam que não podem de-
primeira vez uma venda pública de acções, pender da empresa estão “no mercado”9. O
isto é, quando os fundadores estão dispostos desprendimento e a colaboração superficial
a vender fora para investir dentro, os funcio- são melhores protecções para lidar com a
nários da base da hierarquia são excluídos realidade actual do que o comportamento
do processo. Se uma organização, seja ela baseado em valores de lealdade e serviço.
nova ou antiga, funciona mais como uma es-
trutura de rede flexível e autónoma do que A dimensão do tempo do novo capitalismo
com ordens rígidas emanadas do topo, a rede afecta de forma mais directa a vida emocio-
pode também enfraquecer os laços sociais. nal das pessoas fora do local de trabalho
O sociólogo Mark Granovetter afirma que do que a alta tecnologia de transmissão de
as redes institucionais modernas são marca- dados, os mercados globais de acções ou o
das pela «força dos laços débeis», o que, em livre comércio. Transposto para o domínio
parte, significa que as formas passageiras de da família, «o longo prazo já não existe» sig-
associação são mais úteis para as pessoas do nifica manter-se em movimento permanen-
que as relações de longo prazo, e, em parte, te, sem se comprometer e sem se sacrificar.
que o estabelecimento de laços fortes, como Rico teve uma súbita explosão: «Não pode
a lealdade, tem deixado de ser incentivado.7 imaginar como me sinto estúpido quando
Estes laços débeis são uma característica do falo com os meus filhos sobre a importância
trabalho em equipa, em que se passa de uma dos compromissos. Para eles não passa de
tarefa para outra, e a equipa vai alterando a uma virtude abstracta que não encontram
sua composição em conformidade. em lado nenhum». Durante o jantar não
consegui perceber esta explosão que, na al-
Os laços fortes dependem, pelo contrário, tura, me pareceu tão despropositada. Agora
de relacionamentos longos. E, de forma mais
8
 John Kotter, The New Rules, (Nova Iorque: Dutton,
7
 Mark Granovetter, «The Strenth of the Weak Ties», 1995), pp. 81, 159.
American Journal of Sociology, 78 (1973), pp. 1360- 9
 Anthony Sampson, Company Man, (Nova Iorque:
1380. Random House, 1995), pp. 226-227
174 Educação: o presente é o futuro

percebo que Rico estava apenas a reflectir experiência profissional. Inicialmente evitou
sobre si próprio, que os filhos não vislum- responder directamente à pergunta, dizendo
bram quaisquer compromissos nem na vida apenas que «esses temas não são muito fala-
dos seus pais nem em outros da mesma ge- dos na televisão», mas depois disse: «Bom,
ração. não, na verdade eu não falo assim com os
meus filhos».
Rico não suporta a ênfase naqueles valores
que definem um local de trabalho inovador Uma conduta que conduza ao sucesso, ou
e flexível como o trabalho em equipa e o simplesmente à sobrevivência no mundo
debate, quando transpostos para a esfera do trabalho, não serve de modelo às rela-
íntima. Quando posto em prática dentro ções entre pais e filhos. O problema deste
de uma casa, o trabalho em equipa é des- jovem casal é exactamente o inverso: como
trutivo, sintoma de falta de autoridade e de evitar que as relações familiares sucumbam
orientação na educação dos filhos. Como ao comportamento típico do “curto prazo”,
refere, tanto ele como Jeannette conhecem ao formato das reuniões de trabalho e, aci-
casos de pais que só para não terem de di- ma de tudo, à muito débil lealdade e pouco
zer «não!» são capazes de debater todos os comprometimento que hoje caracterizam os
temas até à exaustão. São pais que ouvem ambientes de trabalho? Em vez dos valores
demasiado bem, que são condescendentes, instáveis da nova economia, a família deve-
em vez de serem autoritários. Só que este ria, na opinião de Rico, realçar a importân-
tipo de educação gera demasiados miúdos cia da obrigação formal, da confiança, do
desorientados. compromisso e dos objectivos. Todas estas
virtudes são próprias do “longo prazo”.
«Tudo tem de bater certo», explicou-me
Rico. Mais uma vez não fui capaz de com- Este conflito entre a família e o trabalho co-
preender de imediato o que me queria di- loca algumas questões sobre a própria ex-
zer e então deu-me o exemplo da televisão. periência da vida adulta. Como é que os
Rico e Jeannette são talvez dos poucos ca- objectivos de vida a longo prazo podem
sais que têm por hábito falar aos seus dois ser atingidos numa sociedade dominada
rapazes da relação entre os filmes ou séries pelo curto prazo? Como é possível manter
de humor que vêem no ecrã e os aconteci- relações sociais duradouras? De que forma
mentos que vêm relatados nos jornais. «De pode um ser humano construir uma narra-
outra maneira, não passaria de uma amál- tiva de identidade e história de vida numa
gama de imagens». A maior parte das com- sociedade feita de episódios e fragmentos?
parações que são feitas recaem sobre cenas As condições da nova economia vivem da
de violência e sexualidade. Enrico recorria experiência com desvios no tempo, de lugar
com frequência a pequenas parábolas para para lugar, de emprego para emprego. Se eu
falar em casa da importância dos princípios. pudesse continuar a acompanhar o percur-
Eram ensinamentos que retirava do seu tra- so de Rico, verificaria que o capitalismo do
balho como porteiro – como por exemplo curto prazo ameaça corromper o seu carác-
«Podemos fingir que não vemos uma nódoa, ter, especialmente aquelas qualidades que
mas ela está lá». Quando eu o conheci, Rico fazem com que os seres humanos se liguem
era apenas um adolescente e demonstrava uns aos outros e que lhes permitem manter
ter alguma vergonha desses excertos de sa- um sentimento de self sustentável.
bedoria doméstica. Por isso, perguntei-lhe se
ele também gostava de utilizar este tipo de POR VOLTA DA HORA DO JANTAR, está-
parábolas ou regras éticas com base na sua vamos ambos mergulhados nos nossos pró-
À deriva 175

prios pensamentos. Eu tinha imaginado, 25 tempo (e, concluí mais tarde, consultando as
anos antes, que o capitalismo tardio tinha minhas notas, Rico tivera algum prazer em
atingido uma espécie de consumação final. provocar-me). Rico sabe perfeitamente que
Mesmo que o mercado fosse mais livre e o o seu conservadorismo cultural é apenas
controlo governamental mais débil, o “sis- isso – uma comunidade simbólica idealiza-
tema” continuava a entrar na experiência da. Na verdade não espera que as crianças
quotidiana das pessoas como sempre tinha sejam mesmo postas em orfanatos. Teve se-
entrado, com sucessos e insucessos, domi- guramente muito pouco contacto com o tipo
nação e submissão, alienação e consumo. de conservadorismo que preserva o passado;
Questões de carácter e cultura enquadra- por exemplo, os seus compatriotas têm-no
vam-se perfeitamente nestas categorias tra- tratado, de cada vez que muda o seu local
dicionais. Mas as experiências dos jovens na de residência, como se a sua vida começas-
actualidade não podem ser explicadas atra- se nessa altura, remetendo o passado ao es-
vés destes conceitos. quecimento. O conservadorismo cultural de
que se diz adepto é um sinal da coerência
A forma como Rico se refere à sua família que falta na sua própria vida.
também o conduziu, evidentemente, a re-
flectir sobre os seus valores éticos. Quando E, no que respeita à família, os seus valores
fomos os dois para a parte de trás da cabine não são apenas uma questão de nostalgia.
para fumar, recordou-me que já havia sido Na verdade Rico detesta a experiência real
um liberal (no sentido americano do termo), da autoridade parental rígida como aque-
preocupando-se com os pobres e tendo um la que ele próprio sofreu com Enrico. Não
comportamento correcto perante as mino- regressaria ao modelo do tempo linear que
rias, como os negros ou os homossexuais. governava a vida de Enrico e Flávia, mesmo
A intolerância de Enrico relativamente aos que pudesse. Olhou para mim com um cer-
negros ou aos estrangeiros envergonhava- to desprezo quando lhe contei que, como
-o. Contudo, depois de começar a sua vida professor universitário, tenho emprego para
profissional, Rico tornou-se um “conserva- o resto da vida. Vê a incerteza e o risco
dor social”. Tal como a maior parte dos seus como desafios profissionais; como consultor
pares, não tolera parasitas sociais, que vê aprendeu a ser um jogador numa equipa es-
encarnados na figura paternalista do estado pecializada.
providência que gasta o erário público em
alcoólicos e drogados. Com o tempo, aca- Mas estas formas de trabalho flexível não ti-
bou por se tornar um crente nos padrões veram qualquer utilidade para Rico no seu
fixos, draconianos, do comportamento em papel de pai ou de membro da comunidade,
comunidade, como opostos aos valores da quando o que pretende é manter relacio-
«educação democrática» que encontra a sua namentos sociais e ser um educador capaz
análoga na reunião de trabalho de tipo hori- de dar orientações duradouras. É contra os
zontal. Como exemplo deste ideal comuni- laços desfeitos no trabalho, a amnésia de-
tário, Rico disse-me que aprova as propostas liberada dos seus vizinhos e o espectro dos
vindas de alguns círculos mais conservado- filhos como “ratos de centros comerciais”,
res que defendem que se devem retirar os que Rico defende a importância dos valores
filhos aos maus pais e institucionalizá-los. estáveis. E foi assim que se viu preso numa
armadilha.
Fiquei bastante irritado e debatemos caloro-
samente sob uma enorme nuvem do fumo Todos os valores que considera importan-
dos cigarros. Falávamos os dois ao mesmo tes exigem regras rígidas: um pai diz «não»,
176 Educação: o presente é o futuro

uma comunidade constrói-se com trabalho, bilidade de todas aquelas mudanças» é para
a dependência é um mal a evitar. As regras Rico uma forma de desafio. Nesta fase da
éticas não têm lugar para caprichos de oca- nossa viagem percebi que a última coisa que
sião e é precisamente destes caprichos que eu poderia dizer perante este dilema era:
Rico pretende defender-se. Mas é difícil pôr «mas como é que se pode achar responsá-
estas regras intemporais em prática. vel?». Teria sido efectivamente uma pergunta
razoável, mas sem dúvida também um insul-
Essa dificuldade está patente na linguagem to. Seria como se dissesse «você não conta
que usa para descrever as suas mudanças nada».
de casa durante os últimos 14 anos, por
todo o país. Embora muitas dessas mudan- Enrico tinha uma visão fatalista e conserva-
ças tivessem ocorrido contra a sua vontade, dora do mundo. Achava que quem nascia
raramente usa a voz passiva para relatar os numa determinada classe, com uma deter-
acontecimentos. Por exemplo, não gosta de minada condição social, fazia o melhor que
dizer: «Fui dispensado». Prefere referir-se podia dentro do que lhe era possível, dentro
ao fim da carreira no parque de negócios das limitações impostas por essa condição.
do Missouri como «Enfrentei uma crise e fui Os despedimentos eram acontecimentos
obrigado a tomar uma decisão». Acerca des- que estavam fora do seu controlo, pelo que
se assunto diz: «Sou responsável pelas mi- teve de aprender a lidar com eles. A ex-
nhas próprias escolhas e pelas consequentes pressão de Rico, que acabei de citar, reve-
mudanças». Parecia o seu pai a falar. «As- la que o seu sentido de responsabilidade é
sumir as responsabilidades» era a frase mais mais profundo. O que Rico quer enfatizar é
importante do léxico de Enrico. Só que Rico a sua vontade férrea de ser considerado ne-
não sabe como agir face a essa responsabili- cessário, mais como uma qualidade do seu
dade. Perguntei-lhe: «Porque é que quando carácter do que como o resultado das suas
foi dispensado no Missouri não contestou, acções. A flexibilidade conduziu-o a consi-
porque é que não lutou?». Respondeu: «Cla- derar a força de vontade como a essência do
ro, senti raiva. Mas de que é que isso me va- seu carácter ético.
lia? Não há nada de errado em uma empresa
decidir redimensionar-se. Acontecesse o que Assumir a responsabilidade por aconteci-
acontecesse eu teria de lidar com as conse- mentos que estão fora do nosso controlo
quências. Ia pedir a Jeannette que mudasse, pode parecer mero sentimento de culpa,
uma vez mais, por mim? Seria mau para ela mas no caso de Rico essa interpretação não
e mau para as crianças. Deveria ter-lhe per- seria justa, uma vez que não está apenas a
guntado? A quem é que eu ia escrever uma tentar desculpar-se e também não desistiu,
carta sobre este assunto?» perante uma sociedade que se apresenta
completamente fragmentada. As regras que
Não havia nada que Rico pudesse fazer. No formula sobre o que deve ser uma pessoa de
entanto, sente-se responsável por este acon- bom carácter podem parecer-nos simplistas
tecimento que está fora do seu controlo. ou infantis, mas estaríamos, mais uma vez,
Literalmente, carrega-o como uma espécie a julgá-lo de forma injusta. Rico é, de cer-
de fardo. Mas o que significa «assumir a ta forma, um realista. Na verdade teria sido
responsabilidade?». Os seus filhos aceitam perfeitamente inútil escrever uma carta aos
a mobilidade como sendo a forma como o seus empregadores a falar do prejuízo que
mundo funciona. A sua mulher está-lhe gra- tinham causado à sua família. Assim, prefe-
ta por ter assentido em mudar-se por causa riu concentrar-se na sua determinação firme
dela. Contudo a frase «assumo a responsa- em resistir: não andará à deriva. Resistirá,
À deriva 177

particularmente, à terrível ameaça de per- que lhes quer ensinar é tão intemporal como
der aqueles valores que são, por natureza, a sua vontade, o que significa que os seus
estáveis, como a lealdade, o compromisso, princípios se aplicam a todas e a quaisquer
a capacidade de trabalhar por objectivos e circunstâncias. As confusões instauradas
de tomar decisões. Valoriza as qualidades pela mudança conduziram-no a este extre-
intemporais que o definem para sempre, mo oposto. Provavelmente, será por isso que
permanentemente e essencialmente. A sua não consegue encontrar na sua própria vida
vontade tornou-se estática. Está preso na ar- histórias exemplares para mostrar aos seus
madilha da assumpção clara dos valores. filhos e que, ao ouvi-lo, temos a sensação
de estar perante um indivíduo cujo carácter
Nesta contradição entre a experiência da e ideais estão em evolução.
mudança e o desejo de estabilidade, falta-
-lhe uma narrativa que possa organizar a Descrevi este encontro, porque nem estas
sua conduta. As narrativas não são simples vivências do tempo, dos lugares e do traba-
descrições de eventos. Dão forma à passa- lho, nem a sua resposta emocional são ex-
gem do tempo, propondo explicações para clusivas de Rico. As condições do tempo no
a razão pela qual as coisas acontecem e capitalismo tardio criaram um conflito entre
mostrando as suas consequências. Enrico a personalidade e a experiência, com a ex-
tinha uma narrativa para a sua vida, linear periência do tempo descontínuo a ameaçar
e cumulativa, uma narrativa que fazia todo a capacidade das pessoas para formarem as
o sentido num mundo altamente burocrati- suas personalidades de forma sustentável.
zado. Rico vive num mundo dominado pela No final do século XV, o poeta Thomas Hoc-
flexibilidade e por vagas de curta duração; cleve afirmava em The Regiment of Princes,
este mundo não lhe permite construir uma «mas afinal onde é que neste mundo há es-
narrativa sólida, nem económica nem so- tabilidade?», lamento este que também po-
cialmente. As empresas desagregam-se ou demos encontrar nos textos de Homero, ou
anexam-se, os empregos aparecem e desa- na Bíblia, no livro de Jeremias10. Ao longo
parecem, constituindo acontecimentos sem da história da humanidade, as pessoas foram
ligação uns com os outros. A «destruição aprendendo a aceitar que as suas vidas te-
criativa», como Schumpeter lhe chama, pre- riam de mudar algumas vezes, na sequência
cisa, na óptica dos investidores, de pessoas de guerras, fomes ou outros desastres, e que
predispostas à imprevisibilidade, a não po- para sobreviver teriam de ser capazes de se
der prever o futuro. A maior parte das pesso- adaptar. Os nossos pais e avós viviam numa
as, contudo, não reage de forma despreocu- ansiedade profunda em 1940, quando, de-
pada e negligente à mudança. pois de sofrerem a ruína durante a Grande
Depressão, encaravam a perspectiva imi-
Rico não está certamente interessado em vi- nente de uma guerra mundial.
ver como um homem Schumpeteriano, em-
bora tenha conseguido travar com sucesso O que é específico da incerteza nos nossos
esta luta brutal pela sobrevivência. “Mudar” dias é o facto de ela existir sem que se pers-
significa simplesmente “andar à deriva”. pective nenhum desastre iminente. Faz par-
Preocupa-se com o facto de os seus filhos te do quotidiano de uma era de capitalismo
andarem ética e emocionalmente “à deri- vigorosa. É suposto que a instabilidade seja
va”, mas não pode simplesmente escrever-
-lhes uma carta que lhes dê orientação para
as suas vidas, tal como não a pôde escrever
10
  Citado em Ray Pahl, After Success: Fin de Siècle Anx-
iety and Identity, (Cambridge, R.U.: Polity Press, 1995),
aos seus patrões quando foi despedido. O pp. 163-164
178 Educação: o presente é o futuro

encarada com normalidade e nessa medida Penso que Rico está consciente do facto de
o homem empreendedor de Schumpeter é o ser um homem bem sucedido, mas também
«faz tudo» ideal. Talvez a corrosão do ca- confuso. O comportamento flexível que o
rácter seja apenas uma consequência inevi- conduziu ao sucesso tem vindo a enfraque-
tável. Saber que «o longo prazo não existe» cer irremediavelmente o seu carácter. Sendo
faz com que a acção não se oriente para o um faz tudo no mundo actual, o dilema que
tempo longo, destrói as relações de confian- trava é, provavelmente, o que o aproxima da
ça e compromisso e impõe o divórcio entre generalidade dos seus contemporâneos.
a vontade e a conduta.

APÊNDICES

TABELAS ESTATÍSTICAS

Tabela 1. Emprego por indústrias seleccionadas, com projecções, 1979 a 2005

TAXA DE CRESCIMENTO
INDÚSTRIA EMPREGO (1000) ANUAL

2005 1992-2005
1979 1992 1979-92
(Pro.)* (Pro.)*

Manufactura 21.040 18.040 17.523 -1.2 -0,2

Finanças, seguros, 4,975 6,571 7,969 2,2 1,5


e ramo imobiliário.

Fornecimento 508 1,649 2,581 9,5 3,5


de serviços pessoais
Serviço de Computação e 271 831 1,626 9,0 5,3
processamento de dados

Governo federal 2,773 2,969 2,815 0,5 -0,4

Governo estatal e local 13,174 15,683 19,206 1,4 1,6

* Com base em pressupostos de crescimento moderado.

Dados extraídos do U.S. Bureau of the Census, Statistic Abstract of the United States: 1995
(Washington, DC, 1995), p 417.
À deriva 179

Tabela 211. Trabalhadores que usam computador no serviço administrativo, 1993

TIPO DE APLICAÇÃO1

Processamento de

folhas de cálculo
Contabilidade /

Bases de dados
Comunicações
computadores

telemarketing
electrónicas
CATEGORIA

inventário

Vendas e
Análise /
Não usa

Edição
texto
Sexo

Masculino 24.414 41,1 45,2 39,4 35,2 25,3 18,1 40,7


Feminino 26.692 31,6 44,8 38,1 33,8 19,6 14,5 47,8

Raça / Etnia

Branca 43.020 37,2 45,8 39,3 35,2 23,0 16,7 45,9


Negra 4.016 27,5 38,3 37,3 31,2 16,8 12,9 35,5
Hispânica 2.492 29,1 45,6 32,1 27,6 18,7 16,0 33,6
Outras 1.578 39,7 39,4 37,2 33,5 22,6 10,2 44,5

Grau de Qualificações

Sem Secundário 1.190 19,1 54,4 20,4 22,2 9,9 20,6 16,0
Concluiu Secundário 13.307 23,7 52,5 29,4 25,8 13,3 17,6 30,8
Freq. Universidade 11.548 33,5 49,5 38,5 33,9 20,6 18,0 40,9

Grau Associado 5.274 37,5 47,0 39,7 34,7 21,7 14,9 41,6

Bacharelato 13.162 46,9 40,0 45,1 41,5 28,8 17,0 54,8

Mestrado 4.628 47,9 29,3 48,5 41,9 35,3 10,4 63,8

Doutoramento 1.999 42,8 27,9 45,9 39,2 28,3 5,2 66,5

11
Uma pessoa pode ser contabilizada em mais do que uma aplicação.

Dados extraídos do U.S. Bureau of the Census, Statistic Abstract of the United States: 1995
(Washington, DC, 1995), p 417
A biblioteca como
cidade-estado

Alberto Manguel

Alberto Manguel (Buenos Aires, Argentina, 1948) é um escritor de


nacionalidade canadiana e argentina que reside actualmente em
França. É conhecido pelos seus ensaios e análises sobre o mundo
literário e cultural e pelas colunas publicadas em vários jornais em
todo o mundo (Le Monde, El País, The Guardian, The New York
Times, Washington Post, etc.) Distinguido com um doutoramento
honoris causa pela Universidade de Liège, em 2007, Manguel foi
agraciado também com vários prémios, como o Prémio Grinzane
Cavour, o Grande Prémio Roger Caillois e o Prémio McKitterick,
no Canadá. Ao longo da sua carreira, escreveu vários livros de en-
saios e ficção, incluindo: Dictonary of Imaginary Places (Blooms-
burry Publishing, 1999), A History of Reading (Penguin, 1997; ed.
portuguesa Presença, 1999), Stevenson Under the Palm Trees (Ca-
nongate Books, 2004), A Reading Diary (Alfred A. Knopf, 2004;
ed. portuguesa Um Diário de Leituras, Asa, 2008) e The Library
at Night (Alfred A. Knopf, 2006; ed. portuguesa Companhia das
Letras, 2010).
A biblioteca como cidade-estado

O meu ponto de partida é uma pergunta. das histórias homéricas antigas. «A lenda
agarrou-se a cada pedra», explicou Lucan,
Fora a Teologia e a Literatura fantástica, al- descrevendo a narrativa repleta de viagens
guns podem duvidar que as principais carac- de César. As Bibliotecas tomam parte desta
terísticas do nosso universo sejam a sua falta qualidade fantasmagórica. Os livros numa
de sentido e a ausência de propósito dis- biblioteca seguram entre as suas capas todas
cernível. E ainda assim, com um optimismo as histórias conhecidas, eles enchem o espa-
desconcertante, continuamos a juntar peda- ço à nossa volta com vozes antigas e novas.
ços de informações que podemos reunir em O César de Lucan caminha com cuidado
pergaminhos e livros e chips de computador, na paisagem de Tróia temendo pisar fan-
em sucessões de prateleiras de biblioteca, tasmas. Na biblioteca, os fantasmas podem
quer seja material, virtual ou não, tem a in- falar. «Uma grande biblioteca, «ponderou
tenção de, pateticamente, atribuir ao mundo Northrop Frye num de seus muitos livros de
uma aparência de sentido e ordem, sabendo anotações», realmente tem o dom das lín-
perfeitamente que, por muito que se queira guas e uma vasta potência de comunicação
acreditar, pelo contrário, as nossas buscas, telepática».
infelizmente, estão destinadas ao fracasso.
Mas o amor às bibliotecas, como a maioria
Porquê, então, fazemos isso? tem, deve-se aprender. Ninguém que pisa
pela primeira vez um espaço feito de pa-
As bibliotecas, privadas ou compartilhadas lavras pode saber instintivamente como se
com um público maior de leitores, sempre comportar, o que é esperado, o que é prome-
me pareceram lugares, apesar da sua apa- tido, o que é permitido. Isto é verdade tanto
rência de ordem, agradavelmente loucos, e em bibliotecas virtuais como em bibliotecas
por tanto tempo quanto me posso lembrar de pedra e argamassa. Pode-se ser derrotado
fui seduzido pela sua lógica labiríntica, o pelo horror - à desordem ou à vastidão, ao
que sugere que a razão (se não a arte) reina silêncio, à lembrança que ridiculariza com
sobre um arranjo cacofónico de livros. Eu sei tudo o que se não sabe, à vigilância - e al-
que as bibliotecas sempre abrigaram outros guns desses sentimentos avassaladores que
objectos também, mas é a presença de pala- se podem instalar, mesmo após os rituais e
vras que me afecta, acima de tudo. Eu sinto convenções terem sido assimilados, a geo-
um prazer aventureiro em perder-me entre grafia mapeada, os indígenas terem-se tor-
as estantes lotadas, supersticiosamente con- nado amigáveis, as leis do acaso entendidas.
fiante de que toda a hierarquia estabelecida
de letras ou números me levará um dia a um A biblioteca não é só um lugar de ordem e
destino prometido. No início do século I A. caos, é também o reino da oportunidade.
D., no seu livro sobre a guerra civil romana Cada biblioteca tem uma certa qualidade
que tinha ocorrido cem anos antes, Lucan dependente do acaso, de mercado de rua.
descreveu Júlio César vagueando pelas ruí- Os livros numa biblioteca estão juntos devi-
nas de Tróia e observou como cada caverna do aos caprichos de um coleccionador, aos
e cada floresta estéril lembrava o seu herói avatares de uma comunidade, à passagem
184 Educação: o presente é o futuro

da guerra e do tempo, por causa da negli- céus inacessíveis, proveio do nosso desejo
gência e cuidados da imponderabilidade de conquistar o espaço, um desejo punido
da sobrevivência, da selecção do mercado pela pluralidade de línguas que ainda hoje
ambulante e pode levar séculos até que a coloca obstáculos diários contra as nossas
sua congregação adquira a forma de identi- tentativas de nos dar a conhecer aos outros.
ficação de uma biblioteca. Porque os livros, A segunda, construída para juntar, de todo o
mesmo depois de lhes ter sido atribuída uma mundo, o que essas línguas tinham tentado
prateleira e um número, mantêm uma mobi- gravar, nascida a partir da nossa esperança
lidade própria. Entregues a si próprios, eles em vencer o tempo e terminada num lendá-
reúnem-se em formações inesperadas, pois rio incêndio que consumiu até o presente.
seguem as regras secretas da similaridade, A Torre de Babel no espaço e a Biblioteca
genealogias não registadas, interesses co- de Alexandria no tempo são os símbolos in-
muns e temas. Armazenados em cantos ao dividuais dessas ambições. Na sua sombra,
acaso ou em pilhas na nossa mesa-de-cabe- a minha pequena biblioteca é um lembrete
ceira, em caixas ou em prateleiras, à espera de ambas as ambições, desejo impossível de
de serem classificados e catalogados um dia conter todas as línguas de Babel, o desejo
no futuro, muitas vezes adiado, espalhados de possuir todos os volumes de Alexandria.
pelo infinito da Internet que nos é próximo, A história de Babel é contada no décimo pri-
os textos preservados nas nossas bibliotecas, meiro capítulo do Génesis. Após o dilúvio,
aglomerados em torno do que Henry James o povo da terra partiu para o Oriente para
chamou de «intenção geral» que muitas ve- a terra de Shi’nar e lá decidiu construir uma
zes escapa aos leitores: «o fio onde as péro- cidade e uma torre que alcançasse os céus.
las foram colocadas, o tesouro enterrado, o «E o Senhor desceu para ver a cidade e a
desenho do tapete» Cada biblioteca, como torre que os filhos dos homens edificavam. E
Dewey descobriu, deve ter uma ordem e o Senhor disse: «Eis que o povo é um e todos
nem toda a ordem é querida ou logicamente têm uma mesma língua, e foi isto que eles
estruturada. Existem bibliotecas que devem começaram a construir: e agora não haverá
a sua criação a demonstrações de gosto, a restrição para o que eles pretenderem fazer.
ofertas casuais e encontros, a sonhos e de- Vamos, irei descer e confundirei depois a
sejos. E, ainda assim, todas as bibliotecas, sua língua, para que não entendam a língua
apesar de dependentes do acaso ou rígidas, do outro».» A lenda diz-nos que Deus inven-
têm em comum a explícita vontade de dar tou a multiplicidade das línguas a fim de nos
concórdia ao nosso conhecimento e ima- impedir de trabalharmos juntos, então nós
ginação, para reunir num só lugar a nossa não deveríamos exceder os nosso poderes.
experiência indirecta do mundo, e excluir De acordo com o Sinédrio, o lugar onde a
muitas experiências dos outros leitores atra- torre no passado foi erguida nunca perdeu a
vés de parcimónia, da ignorância, da inca- sua qualidade peculiar e, ainda hoje, quem
pacidade ou medo. passa esquece tudo o que sabe. Anos atrás,
foi-me mostrado um pequeno monte de en-
E aqui gostaria de fazer uma pausa e consi- tulho fora dos muros da Babilónia e disse
derar estas qualidades aparentemente con- que aquilo era tudo o que restava do que
traditórias de uma biblioteca. Tão constante tinha sido Babel.
e de tão longo alcance são essas tentativas
de inclusão e exclusão que têm os seus em- A Biblioteca de Alexandria foi um centro de
blemas literários distintos, dois monumentos aprendizagem criada pelos Reis Ptolomai-
que, pode-se dizer, representam tudo o que cos, no final do século III A. C. para melhor
somos. O primeiro, erguido para alcançar os seguirem os ensinamentos de Aristóteles. Se-
A biblioteca como cidade-estado 185

gundo o que o geógrafo grego Estrabão es- do crescimento da humanidade de Babel


creveu no século primeiro A. C., a biblioteca habitava um mundo sem fronteiras linguís-
pode ter contido os próprios livros do filó- ticas, acreditando que o céu estava tão in-
sofo, deixados para um de seus discípulos, cluído nos seus direitos como a terra sóli-
Teofrasto, que por sua vez, os legou a ou- da. A Biblioteca de Alexandria (em terreno
tro, Neleus de Scepsis, que eventualmente mais firme, talvez, do que a de Babel) cres-
se envolveu na criação da biblioteca. Até a cer para provar o contrário, que o Universo
fundação da Biblioteca de Alexandria, as bi- era de uma variedade desconcertante e que
bliotecas do mundo antigo eram colecções esta variedade possuía uma ordem secreta.
particulares de leituras de um homem ou ar- A primeira reflecte a nossa intuição de uma
mazéns dos Governos onde os documentos divindade única, contínua e monolingue,
jurídicos e literários eram mantidos para re- cujas palavras foram ditas por todos a partir
ferência oficial. A criação dessas anteriores da Terra até ao céu, a segunda, a crença de
bibliotecas eram impulsionadas mais pela que cada um dos livros feitos dessas palavras
curiosidade do que pela recolha e resultou era o seu próprio cosmos complexo, cada
da necessidade de uma consulta específica um assumindo a sua singularidade para
ao invés do desejo de ser fantasticamente atender a toda a criação. A Torre de Babel
abrangente. A Biblioteca de Alexandria re- ruiu na pré-história da narrativa, a Bibliote-
velou uma nova imaginação que superou ca de Alexandria, ergueu-se quando histó-
todas as bibliotecas existentes em ambição rias tomaram a forma de livros e se esforçou
e em concretização. para encontrar a sintaxe que daria a cada
palavra, cada tábua, cada rolo o seu lugar
Um curioso documento do segundo sécu- esclarecedor e necessário. Indistinta, majes-
lo A.C., a possivelmente apócrifa Carta de tosa, sempre presente, a arquitetura tácita
Aristeu, regista uma história sobre as origens dessa biblioteca infinita continua a assom-
da Biblioteca de Alexandria que é emble- brar os nossos sonhos de uma forma univer-
mática do seu sonho colossal. Para reunir sal. Como ela nunca mais nada semelhante
uma biblioteca universal (segundo a car- foi alcançado, apesar de outras bibliotecas
ta), o rei Ptolomeu I escreveu «a todos os (incluindo a Internet) tentarem copiar a sua
soberanos e governadores de toda a terra» ambição surpreendente. Ela permanece úni-
implorando que lhe enviassem todo o tipo ca na história do mundo como o único lu-
de livro de todo o tipo de autor, «poetas e gar que, tendo sido constituído para registar
escritores em prosa, retóricos e sofistas, mé- tudo, passado e futuro, também poderia ter
dicos e adivinhos, historiadores e todos os previsto e armazenado a crónica de sua pró-
outros também». Os homens eruditos do rei pria destruição e ressurreição. Dividida em
haviam calculado que seriam necessários áreas temáticas por categorias concebidas
quinhentos mil rolos de papel se fossem re- pelos seus bibliotecários, a Biblioteca de
colhidos em Alexandria «todos os livros de Alexandria tornou-se numa infinidade de bi-
todos os povos do mundo» ( o tempo amplia bliotecas, cada uma insistia num aspecto da
as nossas ambições; em 2005, a Biblioteca variedade do mundo. Lá (os Alexandrinos se
do Congresso estava a receber o dobro des- vangloriavam) era um lugar onde a memó-
se número de itens por ano, dos quais eram ria era mantida viva, onde cada pensamento
apenas mantidos cerca de quatrocentos mil). escrito tinha o seu nicho, onde cada leitor
poderia encontrar o seu próprio itinerário
A Torre de Babel suportou (enquanto se man- traçado em sucessões de filas de livros tal-
teve) uma prova da nossa crença na unidade vez ainda fechado, onde o próprio Universo
do universo. Segundo a história, à sombra encontrava o seu reflexo formulado. Como
186 Educação: o presente é o futuro

medida adicional para realizar a sua ambi- Os heróis de Virgílio, de Herman Melville,
ção, o rei Ptolomeu decretou que todos os de Joseph Conrad, da literatura mais épi-
livros que chegassem ao porto de Alexandria ca, abraçam essa crença de Alexandrino.
deveriam ser apreendidos e copiados, com Para eles, o mundo (tal como a Biblioteca)
a promessa solene de que o original seria é composto de histórias infinitas que, atra-
devolvido (como tantas promessas reais so- vés de labirintos emaranhados, levam a um
lenes, esta não foi sempre mantida, e muitas momento revelador criado apenas para eles
vezes era a cópia que era entregue de volta). - mesmo que, naquele derradeiro momento,
Devido a esta medida despótica, os livros a própria revelação seja negada, tal como
reunidos na Biblioteca ficaram conhecidos o peregrino de Kafka se apercebe, ficar fora
como «a colecção dos navios». dos portões da Lei (tão estranhamente seme-
lhante às portas da biblioteca) e descobrir no
É enfurecedor não conseguir dizer qual era momento da morte que «estão a ser fecha-
o aspecto da Biblioteca de Alexandria. Com dos para sempre, porque eles foram feitos
orgulho compreensível, cada um de seus propositadamente apenas para si». Leitores,
cronistas (todos aqueles cujo testemunho como heróis épicos, não têm a garantia de
chegou até nós) parece ter pensado que a uma epifania.
sua descrição era supérflua. O geógrafo gre-
go Estrabão, um contemporâneo de Diodo- No nosso tempo, desprovido de sonhos
ro, descreveu a cidade de Alexandria, em épicos - que substituímos por sonhos de pi-
detalhes, mas, misteriosamente, não men- lhagem - a ilusão de imortalidade é criada
ciona a Biblioteca. «Que necessidade teria pela tecnologia. A Internet e sua promessa
eu de falar sobre ela, já que está impereci- de uma voz e um site para todos, é o nos-
velmente gravada na memória de todos os so equivalente ao incognitum mar, o mar
homens?», escreveu Ateneu de Naucratis, desconhecido que atraiu viajantes antigos
apenas um século e meio depois da sua des- com a tentação da descoberta. Imaterial
truição. A Biblioteca, que ambicionava ser como a água, vasto demais para qualquer
o armazém para a memória do mundo não mortal apreensão, as qualidades excelentes
foi capaz de garantir para nós a lembrança da Internet permitem-nos confundir o in-
de si mesma. Tudo o que sabemos dela, tudo compreensível com o eterno. Como o mar,
o que resta da sua vastidão, dos seus már- a Internet é volátil: 70 por cento das suas
mores e dos seus pergaminhos, são as suas comunicações duram menos de quatro me-
várias razões de existir. Uma razão forte era ses. A sua virtude (a sua virtualidade), im-
a busca da imortalidade egípcia. Se uma plica uma presença constante, que para os
imagem do cosmos pudesse ser organizada estudiosos medievais era uma das definições
e preservada sob um único tecto (como o do inferno. Alexandria e os seus estudiosos,
rei Ptolomeu pode ter pensado), então cada pelo contrário, nunca confundiram a verda-
detalhe da imagem - um grão de areia, uma deira natureza do passado, pois eles sabiam
gota de água, o próprio rei - tem um lugar que seria a fonte de um presente sempre em
lá, gravado nas palavras de um poeta, con- mudança em que novos leitores envolvidos
tista, historiador, para sempre, ou pelo me- com livros antigos que se tornaram novos no
nos enquanto houver leitores que possam processo de leitura. Cada leitor existe para
um dia abrir a página indicada. Há um verso garantir a um determinado livro uma imor-
da poesia, uma frase numa fábula, uma pa- talidade modesta. Ler é, nesse sentido, um
lavra num ensaio, pela qual a minha exis- ritual de renascimento.
tência é justificada; só temos de encontrar
esse verso e a imortalidade está garantida. Mas a Biblioteca de Alexandria foi criada
A biblioteca como cidade-estado 187

para fazer mais do que simplesmente imor- prendem os destinos da Casa de Atreu, e as
talizar. Foi para gravar tudo o que tinha sido peregrinações de Bouvier homenageam as
e poderia ser registado, e esses registos eram viagens de Ibn Khaldun. Mas mais do que
para ser compilados em registos de mais um qualquer outra coisa, a Biblioteca de Ale-
caminho infinito de leituras e conjuntos de xandria foi um lugar da memória, da me-
palavras que iriam gerar por sua vez, con- mória necessariamente imperfeita. «O que a
juntos de palavras novas e novas leituras. Era memória tem em comum com a arte», escre-
para ser uma oficina de leitores, não apenas veu Joseph Brodsky, em 1985, «é a habilida-
um lugar onde os livros eram infinitamen- de para a selecção, o gosto pelo detalhe».
te preservados. Para assegurar a sua utiliza- Esta observação pode ser um elogio para a
ção, os Ptolomeus convidaram os estudio- arte (ou para a prosa, em particular), para a
sos mais célebres de vários países, como memória deve parecer um insulto. O insul-
Euclides e Arquimedes para fixar residência to, no entanto, é bem merecido. A memó-
em Alexandria, pagando-lhes uma renda ria contém precisamente os detalhes e não
considerável e não exigir nada em troca, toda a imagem; destaques, se quiser, não o
excepto que eles fizessem uso dos tesouros programa inteiro. A convicção de que esta-
da Biblioteca. Dessa forma, esses leitores es- mos de alguma forma a lembrar tudo de uma
pecializados poder-se-iam familiarizar com forma incompleta, a convicção que permite
um grande número de textos, ler e resumir que as espécies sigam a sua vida, é infunda-
o que tinham lido, produzindo resumos crí- da. Mais do que tudo, a memória assemelha-
ticos para as gerações futuras, que iriam re- -se a uma biblioteca em desordem alfabética
sumir então leituras para mais resumos críti- e sem obras reunidas por ninguém.
cos. Uma sátira do século III A. C. de Timão
de Phlius descreve esses estudiosos como Honrando a finalidade remota de Alexan-
charakitai «escrevinhadores», e diz que “na dria, todas as bibliotecas posteriores, apesar
terra populosa do Egipto, muitos charakitai de ambiciosas, reconheceram essa função
bem alimentados rabiscam em papiro en- mnemónica parcelar. A existência de qual-
quanto brigam incessantemente na gaiola quer biblioteca que permite aos leitores ter
das Musas. uma noção do que o seu ofício realmente
é, uma arte que luta contra as restrições do
No segundo século, e, como resultado dos tempo, trazendo fragmentos do passado no
resumos e especificações literárias alexan- seu presente. Concede-lhes um vislumbre,
drinas, uma regra epistemológica para a lei- secreto ou distante, nas mentes de outros
tura foi firmemente estabelecida, decretando seres humanos, e permite-lhes um certo co-
que “o texto mais recente substitui todos os nhecimento da sua própria condição atra-
anteriores, uma vez que é suposto contê-los. vés das histórias guardadas aqui para sua
«Seguindo essa interpretação e mais perto leitura. Acima de tudo, diz aos leitores que
do nosso tempo, Stéphane Mallarmé sugeriu a sua arte consiste no poder de lembrar, de
que “o mundo foi feito para ser concluído forma activa, através da sugestão da página,
num bonito livro», ou seja, num único li- a momentos seleccionados da experiência
vro, qualquer livro, a essência ou a soma do humana. Esta foi a grande prática estabele-
mundo, que deve englobar todos os outros cida pela Biblioteca de Alexandria. Assim,
livros. Esse método prossegue pela anteci- séculos mais tarde, quando foi sugerido um
pação de certos livros, como Odyssey prevê monumento para homenagear as vítimas do
as aventuras de Jack Kerouac e a história de Holocausto, na Alemanha, a proposta mais
Dido que antecipa a de Madame Bovary, ou inteligente (infelizmente não foi escolhido)
faz eco dela, como as sagas de Faulkner que era construir uma biblioteca.
188 Educação: o presente é o futuro

E no entanto, como um espaço público a associar os diferentes textos e transformar o


Biblioteca de Alexandria foi um paradoxo, pensamento por associação.
um edifício reservado para uma actividade
essencialmente privada (leitura), que agora Por alojar o maior número possível de livros
é realizada comunitariamente. Sob o telha- sob um único tecto, os bibliotecários de Ale-
do da biblioteca, os estudiosos partilharam xandria também tentaram protegê-los contra
uma ilusão de liberdade, convencidos de o risco de destruição que resultaria se fos-
que o reino da leitura era todo seu bastando sem deixados nas mãos que eram considera-
para isso pedir. Na verdade, a sua escolha das menos cuidadosas (um argumento adop-
foi censurada de várias formas: pela pilha tado, na actualidade, por muitos museus e
(aberta ou fechada) em que o livro esteve, bibliotecas ocidentais, tal como a recente
pela secção da biblioteca na qual tinha sido discussão em torno do famoso Evangelho
catalogado, por noções privilegiadas de sa- de Judas provou não há muito tempo). Por-
las reservadas ou colecções especiais, por tanto, além de ser um símbolo do poder do
gerações de bibliotecários cuja ética e gos- homem para agir através do pensamento, a
tos haviam influenciado a colecção, pelas Biblioteca tornou-se um monumento desti-
directrizes oficiais baseadas no que a so- nado a derrotar a morte, o que, como nos
ciedade ptolomaica considerava «bom» ou dizem os poetas, põe fim à memória.
«valioso», por decisões burocráticas cujas
razões se perderam nos porões do tempo, E no entanto, apesar de toda a preocupação
por considerações de orçamento, de tama- dos seus governantes e bibliotecários, a Bi-
nho e disponibilidade. blioteca de Alexandria desapareceu. Assim
como não sabemos quase nada sobre a for-
Os Ptolomeus e os seus bibliotecários ma como tinha sido construída, não sabe-
estavam certamente conscientes de que a mos nada ao certo sobre o seu desapareci-
memória era poder. Hecateus de Abdera, mento, súbito ou gradual. As várias histórias
no seu livro semi-ficcional de viagens, o sobre o seu fim são bem conhecidas. De
Egyptiaca, alegou que a cultura grega devia acordo com a de Plutarco, durante a perma-
a sua existência ao Egipto, cuja cultura era nência de Júlio César em Alexandria em 47
mais antiga e moralmente bastante superior. A. C. um incêndio propagou-se a partir do
A simples afirmação não era suficiente e os Arsenal e «pôs termo à grande biblioteca»,
bibliotecários de Alexandria compilaram mas a sua culpa não é certa. Outros historia-
devidamente uma vasta colecção de obras dores (Dio Cassius e Orósio, por exemplo)
gregas para confirmar a dívida destes para sugeriram que o fogo de César não destruiu
com a autoridade egípcia. Não apenas dos a biblioteca em si, mas cerca de quarenta
Gregos; através da colecção de livros de vários mil volumes armazenados perto do Arsenal,
passados de civilizações, os bibliotecários onde eles estavam, possivelmente, à espera
esperavam conceder aos seus leitores o de embarcar para Roma. Quase sete séculos
conhecimento das raízes entrelaçadas depois, um outro final possível era apresen-
e ramos da cultura humana, que (como tado. Uma crónica cristã, elaborada a partir
Simone Weil muito mais tarde declarou) da Crónica de Reis Magos por Ibn al-Kifti
pode ser definida como «a formação da e agora sem fundamento, culpou o general
atenção». Para este efeito, praticaram para muçulmano Amr ibn al-As pela destruição,
se tornarem atentos ao mundo além das suas que, ao entrar em Alexandria, em 642 A. C.,
fronteiras, na recolha e interpretação de deve ter ordenado ao califa Omar I para in-
informações, sistematização e catalogação cendiar o conteúdo da Biblioteca. Os livros,
de todos os tipos de livros, procurando sempre de acordo com o narrador cristão,
A biblioteca como cidade-estado 189

foram usados para alimentar os fornos dos trução de sua casa na Califórnia continuas-
banhos públicos, apenas as obras de Aristó- se, os fantasmas dos índios mortos pela arma
teles foram poupadas. do seu marido seriam mantidos à distância.
A casa cresceu e cresceu, como num sonho,
Historicamente, à luz do dia, o fim da Bi- até as suas cento e sessenta salas cobrirem
blioteca continua tão nebuloso quanto o seu seis hectares da terra; este monstro é ainda
verdadeiro aspecto; historicamente, a torre, visível no coração de Silicon Valley. Cada
se algum dia existiu, não era nada mais do biblioteca sofre com esta vontade de crescer
que um empreendimento imobiliário sem de maneira a pacificar os nossos fantasmas
sucesso apesar de ambicioso. Tal como os literários, que se ramificam e aumentam, até
mitos, por outro lado, na imaginação à noi- que, numa data impensável, irá incluir todos
te, a solidez das duas construções está aci- os volumes já escritos sobre cada assunto
ma de qualquer suspeita. Podemos admirar imaginável.
a Torre mítica visivelmente a erguer-se para
provar que o impossível vale a pena ser ten- Este aspecto monstruoso do mito de Alexan-
tado, não importa o quão devastador seja o dria deu origem a muitos contos de mora-
resultado; podemos vê-la subindo o seu ca- lidade. Numa tarde quente, no final do sé-
minho ascendente, fruto de uma sociedade culo XIX, dois empregados de escritório de
unânime, ocupando tudo, como formigas; meia-idade reuniram-se num banco na Rua
podemos testemunhar o seu fim na dispersão Bourdon em Paris e imediatamente se torna-
dos seus indivíduos, cada um no isolamento ram os melhores amigos. Bouvard e Pécu-
do seu próprio círculo linguístico. Podemos chet descobriram através da sua amizade um
percorrer as pilhas a abarrotar da Biblioteca objectivo comum: a busca do conhecimento
de Alexandria, onde toda a imaginação e co- universal. Para alcançar esta meta ambicio-
nhecimento estavam organizados, podemos sa, junto à qual a conquista dos Ptolomeus
reconhecer na sua destruição o aviso de que parece deliciosamente modesta, eles tenta-
tudo o que nós recolhemos será destruído, ram ler tudo o que conseguissem encontrar
mas também que muito pode ser novamen- sobre cada campo da actividade humana,
te recolhido; podemos aprender com a sua e retirar das suas leituras os factos e ideias
esplêndida ambição o que foi a experiência mais marcantes, um projecto difícil que não
de um homem que pode tornar-se, através tinha, claro, fim. Apropriadamente, Bouvard
da alquimia das palavras, a experiência de e Pécuchet foi publicado inacabado um ano
todos, e como essa experiência, reduzida após a morte de Flaubert, em 1880, mas não
uma vez mais a palavras, pode servir cada antes dos dois bravos exploradores terem
leitor individual para algum propósito secre- lido através de muitas bibliotecas eruditas
to e excepcional. em agricultura, em literatura, zootecnia, me-
dicina, arqueologia e política, sempre com
O mito sólido de Alexandria também nos en- resultados decepcionantes. O que os dois
sina que uma biblioteca deve impôr os seus palhaços de Flaubert descobriram é o que
próprios limites ou decretar a sua própria nós sempre soubemos, mas raramente acre-
morte. Uma biblioteca com crescimento in- ditamos: que a acumulação do conhecimen-
finito exige uma casa, sempre em expansão, to não é conhecimento.
que pode assumir dimensões monstruosas.
Diz a lenda que Sarah Winchester, a viúva Graças à Internet, é claro, a ambição de
do famoso criador de armas cuja espingarda Bouvard e Pécuchet agora é quase uma re-
«conquistou o Oeste», consultou um mé- alidade, quando todo o conhecimento do
dium que lhe contou que, enquanto a cons- mundo parece estar ali, piscando por trás do
190 Educação: o presente é o futuro

ecrã que emite sons. Borges, que já imagi- para nos servir melhor. A imaginação huma-
nou a biblioteca infinita de todos os livros na não é monogâmica e nem é necessário
possíveis, também inventou um personagem ser, os novos instrumentos serão colocados
do mesmo tipo de Bouvard e Pécuchetd que imediatamente ao lado dos PowerBooks que
tenta compilar uma enciclopédia universal, agora se colocam ao lado dos nossos livros
tão completa que nada no mundo seria ex- na biblioteca multimédia. Há, no entanto,
cluído. No final, tal como os seus antecesso- uma diferença. Se a Biblioteca de Alexan-
res franceses, ele falha na sua tentativa, mas dria era o símbolo da nossa ambição de om-
não inteiramente. Na noite em que ele de- nisciência, a Internet é o símbolo da nossa
siste do seu grande projecto, ele contrata um ambição de omnipresença, a biblioteca que
cavalo e charrete e faz um passeio pela ci- continha tudo tornou-se a biblioteca que
dade. Ele vê as paredes de tijolo, as p­ essoas nada contém. Alexandria modestamente se
comuns, as casas, um rio, um mercado e viu como o centro de um círculo ligado pelo
sente que de alguma forma todas estas coi- mundo cognoscível; a Internet, tal como a
sas são o seu próprio trabalho. Ele percebe definição de Deus primeiramente imaginada
que o seu projecto não é impossível, mas no século XII, vê-se como um círculo cujo
meramente redundante. A enciclopédia do centro está em toda parte e cuja circunfe-
mundo, a biblioteca universal, existe e é o rência não está em lugar nenhum. A nossa
próprio mundo. sociedade hoje aceita o livro como um dado
adquirido, mas o acto da leitura - outrora
Tal como o mito de Alexandria nos diz, esta considerado útil e importante, bem como
ambição não é nova. Sempre quisemos lem- potencialmente perigoso e subversivo - é
brar mais e vamos continuar, eu acredito, a agora condescendentemente considerado
tecer teias para capturar palavras na espe- como um passatempo, um passatempo lento
rança de que de alguma forma, na grande que carece de eficácia e não contribui para
quantidade de declarações acumuladas, o bem comum. Hoje, a leitura não é senão
num livro ou numa tela, haverá um som, um acto acessório e o grande repositório da
uma frase, um pensamento enunciado que nossa memória e experiência, a biblioteca,
vai carregar o peso de uma resposta. Toda é menos considerada uma entidade viva do
a nova tecnologia tem vantagens sobre a que uma sala de armazenamento inconve-
anterior, mas, necessariamente, carece de niente.
alguns dos atributos da sua antecessora. Fa-
miliaridade, sem dúvida gera o desprezo, E, no entanto, embora o livro não fique no
cria também conforto; o que não é familiar núcleo simbólico da nossa sociedade, a nova
traz desconfiança. A minha avó, nascida no sensação do infinito criado pela Internet não
interior da Rússia no final do século XIX, ti- diminuiu o antigo sentido do infinito inspi-
nha medo de usar a nova invenção chamada rado pelas bibliotecas antigas, apenas lhes
telefone quando foi instalado pela primeira emprestou uma espécie de intangibilidade
vez no seu bairro em Buenos Aires, porque, tangível. Pode aparecer uma nova técnica
segundo ela, não lhe permitia ver o rosto da de recolha de informação ao lado da qual a
pessoa com quem ela estava a falar. «Isso Internet nos vá parecer habitual e familiar na
faz-me pensar em fantasmas», explicou ela. sua vastidão, como os prédios envelhecidos
que alojaram as bibliotecas nacionais em
O texto electrónico que não necessita de Paris e Buenos Aires, Beirute, Salamanca,
papel pode amigavelmente acompanhar Londres e Seul.
o papel que não requer electricidade; eles
não necessitam de se excluir num esforço Contudo, as bibliotecas sólidas de madeira
A biblioteca como cidade-estado 191

e papel, bem como as bibliotecas de écrans -nos para não amarmos o mundo nem as
fantasmagóricos a piscar, permanecem coisas que se encontram nele, porque «tudo
como prova da nossa crença numa ordem o que há no mundo, a concupiscência da
resistente e intemporal de longo alcance que carne, a concupiscência dos olhos e a so-
nós vagamente intuímos ou percebemos. berba da vida, não do Pai, mas do mundo».
Durante a insurreição Checa contra os nazis Essa ordem é na melhor das hipóteses um
em Maio 1945, quando as tropas russas en- paradoxo. A nossa herança humilde e sur-
travam em Praga, a bibliotecária Elena Sikor- preendente é o mundo e só o mundo, cuja
skaja, irmã de Vladimir Nabokov, percebeu existência nós testamos constantemente (e
que os oficiais alemães que agora tentavam provamos), contando histórias sobre ele. A
retirar-se não haviam devolvido vários livros suspeita de que nós e o mundo somos feitos
que tinham requisitado na biblioteca onde à imagem de algo maravilhoso e caotica-
ela trabalhava. Ela e um colega decidiram re- mente coerente muito além do nosso alcan-
clamar os volumes faltosos e partiram numa ce, do qual também fazemos parte; a espe-
missão de resgate pelas ruas abaixo em que rança de que o nosso explodido cosmos e
os camiões russos estavam vitoriosamente nós, o seu pó das estrelas, tem um signifi-
agrupados. «Chegamos a casa de um piloto cado inefável e um método; o prazer em
alemão que devolveu os livros com toda a recontar a velha metáfora do mundo como
calma», escreveu ela ao seu irmão, alguns um livro que lemos e no qual nós também
meses depois. «Mas agora eles não deixam somos lidos, a presunção do que nós po-
ninguém atravessar a estrada principal e em demos saber da realidade é um imaginário
toda parte há alemães com metralhadoras», feito da Língua - tudo isso tem a sua ma-
reclamou ela. No meio da confusão e caos, nifestação material nesse auto-retrato a que
parecia importante para ela que a tentativa chamamos biblioteca. E o nosso amor, por
patética de ter a biblioteca em ordem deve, isso, e o nosso desejo de ver mais, e o nosso
na medida do possível, ser preservada. orgulho nas suas realizações à medida que
passeamos por prateleiras cheias de livros
Mas isto é umas ordens que devemos ver que prometem mais e mais delícias, estão
com precaução, apesar do seu apelo. No en- entre as nossas mais felizes, mais emocio-
tanto por mais atraentes que o sonho de um nantes provas de possuir, apesar de todas as
universo cognoscível de papel e um cosmos misérias e tristezas desta vida, uma forma
com significado feito de palavras possam mais íntima de fé consoladora, talvez reden-
parecer, uma biblioteca, ainda que colossal tora num método por trás da loucura do que
nas suas proporções ou ambiciosa e infinita qualquer divindade ciumenta nos poderia
no seu âmbito, não pode nunca oferecer- desejar a nós.
-nos um mundo «real», no sentido em que o
mundo quotidiano de sofrimento e de felici- Será que tudo isto responde à minha pergun-
dade é real. Oferece-nos em vez disso uma ta, «Porquê que o fazemos então?» Em parte.
imagem negociável desse mundo real que Apenas em parte.
(nas palavras de Jean Roudaut) «gentilmente
nos permite concebê-lo», bem como a pos- A Biblioteca de Alexandria, implícita nas
sibilidade de conhecimento, experiência e memórias de viajantes e crónicas de histo-
memória de algo intuído através de um con- riadores, reinventou a obra de ficção e de fá-
to ou adivinhado por uma reflexão poética bula, veio para ficar no enigma da identida-
ou filosófica. de humana, colocando a pergunta prateleira
após prateleira «Quem sou eu?» No roman-
São João, num momento de confusão, diz- ce de Elias Canetti de 1935 Die Blendung
192 Educação: o presente é o futuro

(Auto da Fé), Peter Kien, o estudioso que nas a história deve terminar com uma busca, a
últimas páginas ateia fogo a si próprio e aos segunda questão tem de ser: buscar o quê?
seus livros, quando sente que o mundo ex-
terior se tornou insuportavelmente intrusivo Northrop Frye, observou certa vez que, se
demais, encarna cada herdeiro da Biblioteca estivesse estado presente no nascimento de
como um leitor que está, ele próprio, envol- Cristo, não achava que ouviria os anjos a
vido nos livros que possui e que, como um cantar.«A razão pela qual eu penso assim é
dos antigos estudiosos de Alexandria, torna- que não os ouço agora e não há razão para
-se pó no meio da noite quando a biblioteca supor que eles pararam». Portanto, na cria-
já não existe. Em parte, construímos biblio- ção de uma biblioteca não estamos em busca
tecas para saber quem somos. de uma revelação de qualquer espécie, uma
vez que nada do que se revelou para nós é
Mas isso certamente não é tudo. Há uma necessariamente limitado por aquilo que so-
segunda questão. No seu romance A Flor mos capazes de ouvir e entender. Não é pelo
Azul, Penelope Fitzgerald diz: «Se uma his- conhecimento a mais do que, de alguma for-
tória começa com uma descoberta, é neces- ma secreta, nós já temos. Não é pela clarifi-
sário terminar com uma busca». A história cação, à qual não podemos razoavelmente
de qualquer biblioteca certamente come- aspirar. Não é pela experiência porque, em
çou com uma descoberta: descobrir livros última análise, só nos podemos dar conta do
de qualquer forma ou formato, rolo, codex que já está em nós. Para quê, então, busca-
ou disco, descobrir o local no qual os alo- mos, nas nossas persistentes bibliotecas?
jar, descobrir uma maneira de trabalhar com
eles dentro do espaço emprestado. Mas se Conforto, talvez. Talvez conforto.
A cidade como arquivo:
transformações urbanas
contemporâneas e
as possibilidades políticas

Vyjayanthi Rao

Vyjayanthi Rao é professora assistente de Antropologia e Relações


Internacionais na New School for Social Research (Nova Iorque).
Rao é doutorada em Antropologia Sociocultural pela Universidade
de Chicago e obteve pós-doutoramento pela Universidade de Yale.

A autora tem-se dedicado ao estudo da globalização e das cida-


des, sobretudo às questões relativas a infra-estruturas, violência,
memória e política cultural da modernidade nas sociedades con-
temporâneas e coloniais do sul da Ásia. Encontra-se actualmente
a estudar a infra-estrutura urbana contemporânea de Bombaim e o
impacto dos processos globais no futuro urbano desta cidade. Esta
pesquisa tem servido de mote para diversos artigos que a autora
tem vindo a publicar na imprensa, como «Cultura Pública e Am-
biente Construído». «Globalização e a Ética Especulativa: Espaço,
Violência e Subjectividade na Bombaim Pós-Industrial» é o mais
recente projecto de Vyjayanthi Rao.
A cidade como arquivo: transformações urbanas
contemporâneas e as possibilidades políticas

«Agora vamos... supor que Roma não é uma mentalmente um conjunto de estranhos que
habitação humana, mas uma entidade psí- ultrapassam os limites de qualquer forma
quica com um igualmente longo e copioso singular de identidade e pertença. Assim, a
passado, entidade essa, na qual nada do que questão a que tipo de arquivo corresponde
uma vez existiu terá já deixado de existir e a cidade como espaço demográfico, está
todas as anteriores fases de desenvolvimento fundamentalmente ligada ao problema da
continuam a coexistir com a mais recente ... pertença dentro da cidade e ao estabeleci-
Se queremos representar a sequência históri- mento de direitos para a cidade. Mas porque
ca em termos espaciais, só podemos fazê-lo a cidade reúne diferentes grupos de p­ essoas,
pela justaposição no espaço: o mesmo espa- é também necessário considerar que a ci-
ço não pode ter dois conteúdos diferentes... dade - como várias formas de meios de co-
Ele mostra-nos o quão longe estamos de do- municação - pode servir como um arquivo,
minar as características da vida mental ao re- produzindo activamente relações entre os
presentá-las em termos pictóricos». Sigmund seus moradores, ao invés de meramente os
Freud, Civilização e os seus Descontentes. reflectir. Neste artigo, vou considerar estes
dois aspectos através dos quais a ideia de ci-
dade - como - arquivo pode ser elaborada.
Cidades e arquivos Estes estão, de facto intimamente ligados e
têm uma influência, como sugiro acima, na
Compreender a relação entre a cidade e o nossa compreensão das cidades contempo-
arquivo levanta muitos paradoxos interes- râneas, bem como na nossa compreensão
santes, já sinalizados por reflexões de Freud dos arquivos.
sobre Roma. A questão levantada mais di-
rectamente é a da justaposição de diferen-
tes temporalidades e as possibilidades do A metrópole como meio de comunicação
que representam essas temporalidades e
as experiências históricas que assinalam É inegável que a experiência urbana con-
em termos espaciais. Ao nível mais funda- temporânea seja profundamente mediada,
mental, os arquivos têm profundas ligações condicionada, em particular, através da di-
históricas com a memória e em particular, vulgação de imagens cinematográficas e ou-
com as formas instituídas da memória. As tros tipos de imagens e estímulos sensoriais.
características formais dos arquivos signifi- O artigo de investigação de Georg Simmel,
cam línguas através das quais a memória é «As Metrópoles e a Vida Mental», escrito no
constituída por diferentes grupos de pessoas. início do século XX, já explora o impacto
Neste contexto, o posicionamento da cida- sensorial da cidade, na perceção que os re-
de como uma forma de arquivar levanta inú- sidentes urbanos têm do espaço, do tempo
meros desafios éticos e filosóficos que têm e do sentido de si próprios. «O fundamen-
uma influência quer sobre como podemos to psicológico, sob a qual a individualidade
compreender a natureza dos arquivos, quer metropolitana é erguida», escreve Simmel,
sobre a forma como entendemos a cidade «é a intensificação da vida emocional, devi-
contemporânea. A cidade moderna é funda- do à mudança rápida e contínua de estímu-
196 Educação: o presente é o futuro

los externos e internos». A metrópole é tanto forma de meio de comunicação, o que satu-
a causa como o efeito das formas que as re- ra a vida dos seus moradores. Este espaço de
lações sociais têm tomado nos tempos mo- saturação é um espaço de rápida mudança e
dernos, mais notoriamente a transformação um espaço de transformação de estímulos e,
das relações sociais em relações de cálculo. portanto, tem influência sobre as formas de
Simmel escreve, «as relações e as preocu- interacção social e na reprodução de formas
pações dos típicos residentes metropolitanos sócio - espaciais dentro da cidade, melhor
são tão variadas e complexas, principalmen- entendida como «lugar».
te como resultado da aglomeração de tan-
tas pessoas com interesses tão diferenciados Para a maioria das compreensões através
que as suas relações e actividades se entre- do senso comum, os arquivos estão direc-
laçam umas com as outras num organismo tamente relacionados com a preservação de
de muitos membros». Para Simmel, essa algumas peças do passado, colectivamente
compreensão da metrópole como meio de consideradas com importância. No caso da
comunicação é fundamental para sua teoria metrópole, fundada sobre o problema da
do desenvolvimento do tipo de personalida- novidade constante e experiências tempo-
de metropolitana. rárias, bem como sobre a temporaneidade
do vínculo entre os residentes urbanos, essa
A própria forma metropolitana correspon- noção do arquivo em si é problemática. No
de à economia monetária e assim se torna entanto, há sempre uma luta contra esse
num tipo muito particular de meio envol- sentimento de provisoriedade e de transição
vente dentro do qual as relações sociais são criados pela «metrópole como meio de co-
transaccionadas. «Uma pessoa», escreve municação».
Simmel, «não termina com os limites do seu
corpo físico ou com a área para a qual a sua Esta luta torna-se mais visível em debates
actividade física está imediatamente confi- sobre o espaço e a produção de lugar ou for-
nada, mas abarca, sim, a totalidade dos efei- ma sócio - espacial significativa, envolven-
tos significativos que emanam dela tempo- do uma noção diferente da cidade-como-
ralmente e espacialmente. Da mesma forma, -arquivo. Aqui, diferentes actores implantam
a cidade só existe na totalidade dos efeitos a criação de um arquivo através de actos de
que transcendem a sua esfera imediata». deliberada preservação e homenagem a fim
Esses efeitos, relacionados com a avançada de garantir o seu lugar no pulsar da cida-
divisão económica do trabalho, podem ser de. Actos de destruição deliberada também
pensados como uma forma de arquivo atra- são cada vez mais utilizados como estraté-
vés dos quais a metrópole moderna e seus gias para a criação de arquivos. De facto, a
moradores são constituídos. Os «estímulos preservação histórica também pode ser vista
internos e externos» que são lançados pela tanto como um acto de destruição como de
metrópole não tem significado predestinado preservação, como explicarei mais adiante.
como tal, mas em vez disso trabalham para Ao compreender a «metrópole como meio
produzir relações entre os residentes, por de comunicação», que origina o intercâm-
mais temporárias e ténues que possam ser. bio social, o arquivo torna-se um conceito
Estes também afectam profundamente a per- emergente, um princípio de ordenação de
sonalidade urbana. Mais fundamentalmente, estímulos sobre a qual operações futuras são
põem em causa o papel da memória no con- imaginadas e se tornam presentes, em vez
texto da identidade urbana. O que Simmel de uma determinada noção do passado, que
compreende acerca do primeiro plano da foi considerada significativa e marcante para
metrópole é a ideia de que a cidade é uma a preservação. Esta noção de cidade-como-
A cidade como arquivo: transformações urbanas contemporâneas e as possibilidades políticas 197

-arquivo está sempre em conflito, por vezes dança natural. A «cidade-imagem» criada
produtivo e por vezes corrosivo, com a no- por esses actos de preservação é, em seguida,
ção da cidade-como-arquivo que emerge distribuída aos cidadãos e turistas por polí-
em actos de preservação e estratégias para ticos, planeadores e construtores como uma
inscrever espaço com agendas sociais e po- fonte de receitas provenientes do turismo em
líticas específicas. Referir-me-ei agora à for- massa, festivais, rendas e assim por diante.
ma construída de um outro local no qual a Em lugares como Bombaim, onde grandes
cidade surge como arquivo. transformações estão em desenvolvimento
na tentativa de a transformar numa cidade à
«classe mundial», o emergente movimento
Preservação e destruição de preservação do património continua a ser
dominado pelos cidadãos da elite. Devido a
Os ambientes urbanos estão sempre em uma legislação muito particular de controlo
transição, através de adições incrementais de rendas promulgada quase há seis déca-
aos tecidos construídos, através de novas das atrás, uma grande parte dos mais antigos
iniciativas de infra-estrutura e, em crescen- bairros da cidade tornaram-se decrépitos. A
do, através da reurbanização. No momen- mesma legislação no entanto, impede o des-
to contemporâneo, tal transição significa pejo de inquilinos a longo prazo que pagam
vitalidade e falta de mudança, por vezes rendas com taxas determinadas nos anos 40
até mesmo mudanças radicais, significam e tem, portanto, efectivamente impedido a
estagnação. Assim, as cidades mais «vitais» requalificação desses bairros.
de hoje como Dubai, Xangai e Pequim pare-
cem estar em movimento perpétuo, cobertas
com locais de construção e, no caso de Pe- Embora os construtores e os políticos te-
quim e Xangai, também com a abundância nham encontrado recentemente maneiras
de locais de demolição. Noutras cidades, de subverter todas essas regulamentações
tal como Beirute, repetidamente destruídas e derrubar uma série de edíficios do século
por guerras, o processo de reconstrução de- XIX e do início do século XX, a condição
sencadeia debates em torno das questões do destes bairros também tem dado origem a
património e da preservação. No entanto, um vigoroso debate sobre a questão da pre-
mesmo se a cidade não está a ser submetida servação. Como primeiros exemplos de ten-
a transformações dramáticas devido à guer- tativas arquitectónicas nativas, populistas e
ra ou a investimentos financeiros, a preser- autênticas, numa cidade colonial, estes bair-
vação do tecido histórico, invariavelmente, ros têm sido o lar de gerações de naturais
altera o ambiente construído da cidade, alte- de Bombaim, com profundas ligações histó-
rando a sua própria atmosfera e significado. ricas e raízes na cidade. No entanto, esses
A preservação é responsabilizada como um cidadãos hoje são apanhados numa situação
meio de criar memória colectiva, marcando paradoxal de ocupar algumas das proprie-
certos lugares como sendo de significado. dades mais caras do mundo, mais próximo
ao distrito empresarial central da cidade, ao
No entanto, a importância da preservação mesmo tempo, encontrando-se rapidamente
histórica no mundo contemporâneo, está marginalizados no processo ambicioso de
aberta ao debate. Como o teórico cultural requalificação do antigo porto e de trans-
Ackbar Abbas tem defendido em vários ar- formação da cidade num centro de serviços
tigos sobre Xangai, a preservação histórica global.
funciona não tanto para forjar a memória co-
lectiva como para acomodar e tornar a mu- Neste contexto, a quantidade de práticas
198 Educação: o presente é o futuro

de conservação a que o arquitecto de Bom- cidades cada vez mais iguais em aparência,
baim, Mustansir Dalvi se referiu sugestiva- a especificidade cultural, marcada pelo am-
mente como «eugenesia arquitectónica», ou biente construído, tem sido posta em causa.
o congelamento da envolvente do edifício
para obedecer a alguma imagem considera- Se os arquivos estão associados à produção
da «objectivamente autêntica». No entanto, e à difusão de formas específicas como sig-
esta forma de eugenesia equivale em grande nificantes de um passado ausente, a falta de
parte à imposição de uma visão particular e especificidade cultural fisionomicamente si-
estética, baseada em alegações de autentici- nalizada dificulta o projecto de imaginar a
dade que são altamente contestáveis e não cidade como arquivo, pelo menos ao nível
levam em conta a história real desses bair- da forma construída. Novos tipos de sinais
ros. Tratando a envolvente do edifício como sobre a declaração de emergência e de re-
um guia, os conservacionistas associam es- sistência à integração cultural global estão
ses bairros a determinadas comunidades, a ser transmitidos por estas paisagens novas.
mesmo quando a evidência empírica mos- Na verdade, seria possível até mesmo afir-
tra a coabitação destas áreas por diversas mar que os projectos de construção monu-
comunidades. Assim, as estratégias de con- mental, como os que estão em andamento
servação, por vezes, tornam-se projectos de em Pequim, em preparação para as Olim-
limpeza étnica e acabam por apagar a con- píadas, assinalam a intenção de colher um
tribuição de certos grupos para a produção novo tipo de hermetismo cultural, usando
da cidade. Desta forma, as narrativas oficiais uma linguagem internacional de design e
são difundidas, com base nos denominados estilo. Como é que a cidade emerge como
conhecimentos históricos de especialistas um arquivo - transmitindo sinais culturais
específicos. Este processo representa uma em particular - em contextos tão diversos
das formas nas quais o passado está consa- como cidades asiáticas de que são exemplo
grado no processo de apagamento através Bombaim, Beirute, Xangai, Pequim e Dubai,
do recurso à narrativa oficial. O ambiente descritas nesta secção? Para responder a essa
construído torna-se um arquivo em que o pergunta, seria necessário fazer uma rápida
silenciamento dos vários passados e diversi- menção a uma elaboração teórica da noção
dade é efectivamente alcançado. do arquivo em si.

As cidades com populações heterogéne-


as, como Bombaim e Beirute estão, talvez, Navegando vazios
numa relação diferente quando se trata da
produção do ambiente construído como um Arquivos não são formas universais nem são
arquivo, relativamente a outras tais como instituições uniformes que recolhem deter-
Dubai, Xangai e Pequim, onde as transforma- minado tipo de informações ao serviço de
ções rápidas e massivas do ambiente cons- projectos universais de história específicos.
truído enviam outros tipos de sinais. Nessas Em vez disso, poderíamos pensar em arqui-
últimas cidades, a arquitectura, muitas ve- vos como linguagens, cujas características
zes torna-se uma ferramenta monumental formais constituem a memória de formas di-
na tentativa de produzir repercussões de um ferentes para diferentes grupos de pessoas.
mundo novo, forjado pelas forças da globa- Esta posição considera que o próprio pas-
lização contemporânea. Que tipos de sinais sado, como uma ausência, é inerentemente
transmitem estas novas paisagens urbanas? instável e está constantemente reconstituído
No contexto da rápida alteração fisionómi- como memória através de formas activas de
ca que está a tornar cidades diferentes em lembrança e através de formas institucio-
A cidade como arquivo: transformações urbanas contemporâneas e as possibilidades políticas 199

nais, tais como arquivos. O problema do qual a cidade se constitui como um espaço
arquivo, como diversos teóricos têm aponta- demográfico.
do, é o pressuposto da importância a priori
das informações recolhidas no âmbito do Em particular, se concebermos os arquivos
arquivamento formal, geralmente considera- não apenas como formas institucionais, mas
do a reflectir algo mais, algo que é menos também como processos, esta relação analó-
tangível, como o génio cultural ou a verdade gica entre as cidades e os arquivos começa a
superior. A autoridade do arquivo de facto adquirir uma forma que corresponde às con-
repousa sobre essa suposição. dições específicas das cidades contempo-
râneas. A ideia das metrópoles como meio
Nas secções anteriores, expliquei a natureza de comunicação ligada aos fluxos perpétuos
fundamentalmente efémera dos fluxos que e efémeros de informações e estímulos, ex-
constituem o espaço urbano, por um lado e plorados acima, é uma poderosa lembrança
os problemas de localização de qualquer ar- de que nós necessitamos de uma compre-
quivo em torno do que parece ser o aspecto ensão processual do arquivo, a fim de com-
menos efémero do espaço urbano, nomea- preender a natureza destes fluxos. Como
damente o ambiente construído, por outro. um princípio de ordem, o arquivo fornece
Neste último caso, também, somos obriga- uma base sobre a qual a história, memória
dos a enfrentar o facto de que os ambientes e recordação ocorrem. Tais memórias estru-
urbanos são constituídos através de um pro- turam relações entre estranhos, produzindo
cesso contínuo e cumulativo de subtracção uma sensação de localidade urbana e lugar.
e destruição, que forma uma camada crucial Daí a relação entre cidades e arquivos e o
da história de quase todas as cidades con- conceito de cidade-como-arquivo ter uma
temporâneas. Mesmo a preservação histó- ressonância significativa, especialmente no
rica, na minha opinião, acaba por ser uma contexto da globalização, da transformação
forma de destruição. profunda e do período socioeconómico que
o mundo enfrenta hoje. Em suma, sugiro que
Ao considerar a relação entre as cidades e a forma urbana contemporânea pode forne-
os arquivos, seria positivo explorar o próprio cer um mecanismo teórico para explorar a
ambiente construído como um arquivo da constituição de arquivos e vice-versa.
cidade. Mas dada a complexidade tanto das
cidades como dos arquivos enquanto formas
históricas, sugiro o conceito alternativo da As cidades para além dos mapas.
cidade-como-arquivo como uma ferramenta
com a qual se exploram as complexidades Mapas e cartografia, historicamente, têm
das cidades contemporâneas, bem como os dado importantes ferramentas funcionais na
processos pelos quais os arquivos são cons- navegação da relação entre a “realidade” e
tituídos. Para levar isso um pouco mais além, as suas abstracções. Especificamente salien-
o conceito de cidade-como-arquivo sugere to os aspectos funcionais dos mapas, porque
uma relação analógica entre as cidades e o conceito de «realidade» é, em si altamente
os arquivos em termos de forma e levanta contestado e os debates filosóficos sobre a
a questão dos limites de cada forma. Na natureza da «realidade» são lendários. Em
formulação da relação entre as cidades e certo sentido, os mapas fornecem uma base
os arquivos, sugiro que sejamos capazes de para a produção de arquivos dado que es-
interrogar tanto os limites dos princípios pe- pelham as transformações da realidade ur-
los quais os arquivos são constituídos, bem bana. Como numerosas análises recentes
como o problema de pertença, através da têm sugerido, a transformação «epocal» da
200 Educação: o presente é o futuro

sociedade numa área urbana está a ocorrer urbanos, que lutam para reconstituir o seu
a uma escala planetária nos dias de hoje. lugar dentro da cidade. Para a pesquisa ur-
No entanto, o papel dos projectos arquitec- bana, torna-se necessário encontrar formas
tónicos na construção do urbanismo con- de mapeamento dessas estruturas invisíveis
temporâneo está a retroceder ao invés de e emergentes de informação urbana, a fim
aumentar. Como o arquitecto Kazys Varnelis de compreender os processos pelos quais
sugere, o funcionamento da economia con- os moradores estão a ser reincorporados ao
temporânea baseada na informação, evita longo de diversos espaços geográficos e es-
«a necessidade do plano arquitectónico» calas em novas redes de intercâmbio e inter-
(Varnelis 2005). Desta forma, sugere que dependência. Esses tipos de transformações
«uma cidade para além dos mapas» já exis- fornecem uma maneira de explorar a ideia
te, aquela que não pode ser mapeada em de cidade-como-arquivo com alguma pro-
termos da sua arquitectura visível e infra- fundidade.
-estrutura. Este ponto de vista, sobre o que
poderíamos chamar «urbanismo invisível» Como exemplo, voltar-me-ei aqui para al-
também é um fenómeno que tem sido estu- gumas das transformações em curso em
dado por antropólogos, que afirmam que é Bombaim como uma forma de examinar a
necessário estudar a cidade, não só nos seus utilidade da cidade-como-arquivo. Como é
aspectos físicos, mas também pelo posicio- sabido, estima-se que cerca de metade da
namento do seu povo e da sua rede de acti- população de Bombaim viva em comuni-
vidades de produção, como a infra-estrutura dades informais, que são mal servidas e em
que permite à cidade funcionar (ver Simone, grande parte desligadas da rede de infra-
2004). -estruturas. Popularmente conhecidas como
favelas pelos residentes, bem como pelos
A transformação física das cidades no con- planificadores, políticos e construtores, estas
texto da globalização é às vezes acompa- comunidades ocupam apenas 8% do espaço
nhada pelo deslocamento massivo de pes- total da cidade dentro dos seus limites mu-
soas, tanto fisicamente como no caso de nicipais. No entanto, estão geograficamente
Bombaim e Beirute, ou intangível, como no espalhadas por toda a cidade e muitas vezes
caso dos subúrbios parisienses, cujos habi- estão muito próximas dos bairros abastados,
tantes se vêem cada vez mais alienados e formando a antítese do distrito isolado do
presos no local, deslocados por se terem tor- apartheid, dos subúrbios parisienses con-
nado imóveis. A «cidade além dos mapas», temporâneos ou do gueto. Esta proximidade
portanto, inclui não só o movimento das dos bairros desenvolvidos tem resultado na
forças económicas globais, mas também das inflação dos valores de propriedade nacio-
camadas de informação transportadas por nal dos terrenos em que as favelas são cons-
pessoas, dado que estão a ser deslocadas truídas, mesmo que muitas destas parcelas
de habitats familiares que podem ser peri- de terra só existam como resultado de uma
gosos ou temporários, uma vez que se estão dolorosa recuperação, ou estejam situadas
a tornar móveis. A cidade em si adquire uma na parte superior de instalações de infra-
nova relação com a densidade, a relação ca- -estrutura e, portanto, ambientalmente pre-
racterística entre as pessoas e o meio, que cárias ou sejam terras cuja propriedade é
define a produção da localidade urbana. objecto de litígio. Como o fluxo de capital
A densidade baseada no local é transfor- imobiliário foi liberalizado e o desenvolvi-
mada num valor fisicamente absurdo, mas mento em si foi privatizado, essas comuni-
é recodificado nas histórias que as pesso- dades informais tornaram-se alvos altamente
as carregam com elas nos vários domínios valorizados, uma vez que constituem obstá-
A cidade como arquivo: transformações urbanas contemporâneas e as possibilidades políticas 201

culos à completa «remodelação» da cidade -estrutura existente. A infra-estrutura é vista


como acontece em Xangai ou Dubai. Neste como fornecedora de união organizacional
contexto, uma nova forma de luta tem surgi- para uma esfera pública automaticamen-
do, diferente da luta para preservar os bair- te constituída e uma indicação precisa das
ros históricos em Bombaim, que discutimos condições existentes, incluindo demográfi-
anteriormente. cas. Mas esta forma de compreender a base
para a política está claramente em perigo,
Como as partes de terreno em que essas à medida que o urbanismo avança, mar-
comunidades informais se instalam são ab- chando ao som de «uma cidade para além
sorvidas pela paisagem formal construída da de mapas», uma arquitectura invisível de
nova cidade, com as suas aspirações de se forças. Aqui, um novo conceito de política
tornar a próxima Xangai, muitos residentes urbana pode ser utilmente articulado por se
foram deslocados para as novas torres de referir à cidade-como-arquivo. Depois da
edifícios, construídas sob parcelas de terre- minha análise anterior, os arquivos podem
no definidas, muitas vezes a uma grande dis- ser tratados como âncoras na reconstituição
tância dos seus lares originais. A favela, em das relações sociais e não como reflexos de
certo sentido, constitui uma expressão ma- um já existente conjunto de condições sub-
terial de densidade no espaço. Mas a den- jacentes. Além disso, nos podermos referir
sidade em si pode ser conceptualizada de à densidade como um reflexo de uma rede
novo, não apenas como a ocupação espa- de informações e relações e não como um
cial de uma localidade por uma determina- indicador demográfico da qualidade e da
da população, mas também como uma rede natureza da experiência do lugar, então su-
de informações e relações, o que também giro que essas formas móveis de densidade
pode ser separado do espaço. Assim, o des- recentemente criadas possam ter-se posicio-
locamento desses moradores também pode nado como uma forma de arquivo.
ser visto como uma separação da densidade
da sua infra-estrutura informal, das relações A nova cidade, estando a acontecer, pode
e redes do local em si. Embora muitas das ser lida como um arquivo e as lutas da polí-
lutas actuais na cidade se articulem em tor- tica urbana podem ser reposicionadas mais
no da ideia de fazer valer um direito à cida- na zona de antecipação do que na zona de
de, estas lutas funcionam em primeiro lugar nostalgia.
para produzir um impasse político e para
manter o status quo. Enquanto isso, o capi-
tal especulativo continua a prosperar e até
mesmo a beneficiar com essas lutas, dado A pedagogia urbana
que se realizam apostas sobre a futura forma
das cidades que são estabelecidas e obtêm- Esta cidade-como-arquivo, que inclui a re-
-se lucros no momento presente, com base constituição da densidade urbana como um
na antecipação. factor chave, pode fornecer um contraponto
importante para a compreensão de como as
Neste contexto, o desafio para o planea- relações emergentes dentro na nova cidade
mento e a política é a identificação de no- estão a ser entendidas. Ao fornecer um meio
vas formas de interesse geral ou comum. As de registar e incluir a fluidez da informalida-
noções normativas de planeamento urbano de urbana como informação vital, a cidade-
têm infra-estruturas como ponto de partida -como-arquivo fornece uma lente para o que
e como final, compreendendo as subjacen- está a emergir, ao mesmo tempo que indi-
tes condições urbanas em relação à infra- ca formas históricas. Sugeri anteriormente
202 Educação: o presente é o futuro

que ao invés de destacar a capacidade do invés de informação que apenas tem de ser
arquivo para representar um passado com reorganizada e seleccionada, ou, por outras
exactidão, usamos a noção de arquivo como palavras, informações pertencentes a um ar-
uma forma de navegar os vazios do presen- quivo que apenas concebem transições his-
te, como uma prática de intervenção e lei- tóricas através do conter informações como
tura dos tecidos urbanos criados por esses prova.
vazios, não para a leitura do tecido urbano
como uma manta de retalhos ou um palimp- Assim, a começar pelo simples facto da
sesto de formas históricas, conservados no centralidade das transformações espaciais,
arquivo. Estes vazios do presente são cria- afastamo-nos de considerar essas transfor-
dos não só pela destruição ambiental, ca- mações espaciais como prova de arquiva-
tástrofes ou actos de terror direccionados a mento, ao compreender o tecido urbano
um alvo, mas também pelas transformações contemporâneo e a política. Em vez disso,
do quotidiano, do espaço urbano por políti- defendemos uma acção metodológica, para
cos, por construtores e planeadores. Numa postular a própria cidade em transformação
época marcada tanto pela destruição e pela como um arquivo durante o processo, uma
estimulação da memória e das identidades, forma que terá uma relevância profunda na
assim como pela proliferação maciça de nossa compreensão do passado como uma
dados, informações, a sua recolha e a sua história do presente.
organização, necessitamos de repensar a
noção de arquivo para abarcar um sentido Tal abordagem tem implicações práticas pe-
dinâmico de ordenação e de interpretação, dagógicas, especialmente para as profissões
desprendido de políticas de preservação e relacionadas com o design, empenhadas em
criação de provas para compreensão histó- capturar a criatividade para a produção de
rica. futuros urbanos. A um nível mais amplo,
permite-nos repensar o tipo de ferramentas
Em contextos como o de Bombaim, mas necessárias para projectos de regeneração
também em muitos outros contextos urbanos urbana, por si só uma característica constan-
contemporâneos, esta abordagem é inesti- te das cidades contemporâneas. Ao fornecer
mável pois aponta para as possibilidades de um mecanismo teórico para o mapeamento
uma política baseada na antecipação, ao in- de relações emergentes, em vez de isolar e
vés de uma política baseada nas conhecidas classificar certas formas como pertencentes
formas do local e enquadramento demográ- ao passado, e outros ao presente, a cidade-
fico. A noção de cidade-como-arquivo per- -como-arquivo também é utilizada como
mite a produção de ferramentas de desenho intervenção metodológica para a recriação
urbano que dêm uma visão muito diferente das relações quotidianas. Nesse sentido, a
da densidade demográfica e da sua relação cidade-como-arquivo é fundamentalmente
com a infra-estrutura urbana. Deste ponto um instrumento pedagógico, que estimula a
de vista, a densidade seria vista como parte criatividade conceptual como a base para a
de uma paisagem de infra-estrutura móvel transformação política.
e em transformação e não como um indi-
cador estático para ser reorganizado através Sem criatividade conceptual, a base analí-
da informação actual de infra-estrutura. Por tica para a acção política permanece fun-
outras palavras, o perfil demográfico da ci- damentalmente conservadora. Se o design
dade, visto através da lente da cidade-como- como actividade profissional está funda-
-arquivo, coloca em primeiro plano informa- mentalmente relacionado com o imaginar e
ção que tem uma relevância para o futuro ao produzir o futuro, então o conceito particu-
A cidade como arquivo: transformações urbanas contemporâneas e as possibilidades políticas 203

lar de arquivo, avançado nesta exposição da como um protótipo para a cidade-como-


cidade-como-arquivo, pode proporcionar a -arquivo, um método para navegar nas pro-
base dessa criatividade. Por outras palavras, fundas transformações sociais do presente,
a cidade-como-arquivo fundamentalmente sem sucumbir a uma visão do passado como
funciona como uma ferramenta, remode- sucessão de formas históricas, preservadas
lando a nossa relação com o próprio futu- dentro de um arquivo, ele próprio desliga-
ro, através do seu potencial para intervir na do do presente. Em vez disso, sugiro que
educação dos designers urbanos. a cidade-como-arquivo seja uma forma de
incorporar o passado no presente como um
fenómeno ausente, mas um fenómeno em
Conclusão progressão temporal, que não trate a cidade
como um palimpsesto de formas históricas
Ambas as cidades e os arquivos desempe- e não veja o arquivo como meramente um
nham um papel central na constituição da repositório dessas formas.
nossa compreensão da vida social. A metró-
pole moderna como meio de comunicação
constantemente medeia, produz e mantém Referências
relações entre estranhos. Da mesma forma,
uma vez que nos libertámos das amarras dos ABBAS, Ackbar. 2000. «Descrições Cosmo-
arquivos como formas oficiais, institucionais politas: Xangai e Hong Kong», Pública, Cul-
particulares, estamos numa melhor posição tura, vol. 12, No. 3, pp 769-786.
para entender o arquivo além do seu pa-
pel de um repositório de evidências acerca SIMMEL, Georg. 1950. «Metrópole e a vida
do passado, sempre voltado para um futu- mental», em Kurt Wolff (trans) A Sociologia
ro putativo. Em vez disso, adoptando uma de Georg Simmel. Nova Iorque, Free Press,
visão mais ecuménica de quais os tipos de pp 409-424 (original apresentado como pa-
informações ou actividades que podem ser lestra em 1903).
incluídas num arquivo, começamos a ver
uma relação analógica entre as cidades e os SIMONE, A. M. 2004. «Pessoas como Infra-
arquivos. No contexto da rápida transforma- -estrutura: Intersectando Fragmentos em Jo-
ção da cidade contemporânea, é necessário anesburgo», Cultura Pública, vol. 16, No. 3,
que nos afastemos de uma compreensão pp 407-429.
de natureza conservadora e preservista dos
arquivos, porque essa visão influencia ine- VARNELIS, Kazys. 2005. «A cidade além
vitavelmente a nossa forma de perceber a dos mapas: de Boaventura até One Wilshi-
política urbana. Por outro lado, podemos re», consulta online em kazys.varnelis. net
beneficiar tendo em conta a forma da metró- (publicado originalmente em Paisagens de
pole moderna como meio de comunicação, Arquitectura e Crítica, Setembro de 2003)
Escolarizar e/ou educar
na cidade em mudança

Maxine Greene

Maxine Greene possui o título de professor emérita de Filosofia


e Educação do Teachers College, da Universidade de Columbia
(EUA). Licenciou-se pelo Barnard College, tendo feito mestrado e
doutoramento na Universidade de Nova Iorque. Ao longo da sua
carreira como docente e investigadora tem recebido diversos graus
honoríficos concedidos pelas seguintes universidades: L­ ehigh Uni-
versity, Hofstra University, Universidade do Colorado (Denver),
Universidade de Indiana, Universidade McGill, Universidade de
Binghamton; Bank Street College, Goddard College, College Mi-
sericordia, Nazareth College e Montclair State College.

Maxine Greene desempenhou diversos cargos directivos: foi presi-


dente da Sociedade de Filosofia da Educação, presidente da Asso-
ciação Americana para os Estudos Educacionais e da Associação
Americana de Estudos Educacionais.

Greene é filósofa residente do Instituto Lincoln das Artes em Edu-


cação. Da sua vasta obra destacam-se, entre outros, os seguintes
títulos: A Libertação da Imaginação; Professor como um estranho;
A Dialética da Liberdade; Variações de uma guitarra azul.
Escolarizar e/ou educar na cidade em mudança

No final do século XIX, as instituições de sional. As competências e literacias visadas


ensino tiveram um papel crucial na maioria faziam parte de uma realidade dada como
das comunidades homogéneas. Escolariza- garantida, definindo a própria cultura. Festas
ção significava, não apenas a transmissão de de aldeia, feiras, cerimónias religiosas adi-
conhecimentos fundamentais, mas a impo- cionadas à coerência comunitária das coi-
sição de um conjunto de valores e crenças. sas.
Estes eram presumivelmente derivados de
leis morais que foram pensadas para serem Quando as chaminés apareceram no ho-
fixas e imutáveis, e, para muitos, elas ser- rizonte e as novas profissões de repente
viam como base da reciprocidade e coerên- abriram as estradas de pedra e recém-pavi-
cia que definia cada comunidade predomi- mentadas, aqueles que acharam que a sua
nantemente rural. A continuidade só poderia própria subsistência estava ameaçada não
ser assegurada se os códigos e padrões de tinham outra escolha a não ser carregar os
comportamento (escritos ou não) fossem fei- seus pertences e os seus filhos em carretas
tos para parecer inquestionáveis, e os jovens e vagões e mudar-se para a confusão da ci-
ficavam impressionados no início das suas dade em mudança. É tão importante tentar
vidas com a necessidade e a segurança da mapear a cidade mentalmente como é ima-
conformidade. Foi dada pouca ou nenhuma ginar as respostas dos recém-chegados das
atenção à diferença individual; e os interes- quintas, campos e pastos que tinham sido
ses das crianças em especial raramente eram abandonados. Havia casas de madeira para
tidos em conta. A norma foi estabelecida serem alugadas, pensões precárias e bair-
em cada escola e na sala de aula. Apesar ros de lata enquanto se procurava trabalho.
da partilha da experiência de acordo com Muitas vezes, as crianças tinham de ir traba-
os ritmos da natureza, havia uma suposição lhar. Karl Marx, entre muitos, relatou o sofri-
de que a maneira de pensar de cada crian- mento dos jovens nos teares ou nas fábricas
ça estava em desacordo com as atitudes de cerâmica à meia-luz. Herman Melville
aceitáveis no mundo em redor. Os assuntos descreve as raparigas frágeis nas fábricas
abordados em conjunto com a importância de papel. Haviam vagabundos sem traba-
dada às morais visavam o equilíbrio. Se um lho ou mulheres solteiras que viviam com
aluno dava a entender a um professor que se pessoas naturais das cidades e que ensina-
«dedicava pouco saudavelmente» ao dese- vam nas escolas que estavam a evoluir len-
nho ou à música, seria dito ao jovem para se tamente. Havia raparigas que trabalhavam
focar na matemática ou na lógica, a fim de em fábricas de têxteis e viviam arregimenta-
equilibrar os seus interesses. Se uma criança das, como as de Lenox, algumas forçadas a
fosse simplesmente diferente, ela poderia ser abandonar as suas famílias de agricultores,
estigmatizada como estúpida, esquisita, que a quem tinham prometido uma vida boa e
não pode ser ensinada. Os conteúdos curri- escolaridade, necessária para trabalhar du-
culares derivavam de incidentes e de tarefas ramente e obedecer.
fundamentais para a economia; plantação,
colheita, produção das ferramentas, tecela- Mas as pessoas de lugares diferentes con-
gem. Não se pensava em formação profis- tinuavam a dirigir-se para as cidades mal
208 Educação: o presente é o futuro

equipadas para os abrigar, tratar e educar. contrando a sua realização na participação,


Eles sentiam-se como estranhos, recém-che- conversa e diálogo.
gados, destinados a viver as suas vidas com
desconhecidos. Alguns sobreviveram devido A Educação na confusão da cidade exige
ao cultivo da indiferença, através de expe- uma acção deliberada e imaginativa sobre
riências de poder enraizado em convicções a parte das pessoas que se será mostrada
de uma nova liberdade, de irem em frente aos outros, afirmando o seu sentido de ins-
para se acomodarem às exigências do capi- trumentalidade, recusando estabilidades e
talismo. De facto, foi o capitalismo com a certezas. A Educação deve ser sempre ina-
sua enfâse nos fins lucrativos e de explora- cabada, a ponto de transformar a possibili-
ção pelos interesses dos ricos que estratifi- dade na prática, movendo-se, pulsando com
cam a vida para ricos e pobres. Mas agora a mudança de cidade. Se houve um momen-
que as velhas restrições e estabilidades «de- to, nos tempos recentes, em que houve a
sapareceram», a energia humana encontrava necessidade de conceber a Educação como
vários modos de expressão. Trocas e comér- um processo permanente para transformar a
cio, invenção, experimentação científica e possibilidade na realidade, foi a tragédia do
social, os esforços para instituir reformas cí- 11 de Setembro e os acontecimentos que se
vicas; todos expandidos em lugares diferen- lhe seguiram.
tes em momentos diferentes. Como os ban-
cos, as corporações e os monopólios foram Primeiro, um som abafado de destruição,
desenvolvidos nas suas diversas formas, as não estranho entre os sons da cidade; mas
comunidades no sentido tradicional, eram depois um silêncio infiltrou-se como uma
cada vez menos prováveis de aparecer. Cer- névoa por debaixo das portas. Aqueles que
tos grupos foram agrupados em guetos, asso- estavam longe demais para ver o World Tra-
ciações de bairro mais ou menos vagamente de Center disseram às crianças para conti-
definidas. Os grupos de teatro e centros de nuarem a tirar os livros da mala e para se
artes começaram a tomar forma. Houve uma prepararem para a leitura, aqueles que se
quantidade mínima de homogeneidade fora encontravam um pouco mais perto das tor-
das igrejas e sinagogas. O dia do valor parti- res disseram calmamente às turmas para se
lhado, fora dos limites da ortodoxia, parecia afastarem das janelas, sem saber exactamen-
ter desaparecido. te porquê. Então, inexplicavelmente, outro
som de destruição, e alguns estavam a correr
A escolarização, pensada como um projecto nas ruas, pedindo às crianças para darem as
comprometido com o processo de molda- mãos, para se colocarem em fila. Outros fo-
gem dos jovens de fora de acordo com as ram para as caves, os pais apressaram-se a ir
normas e práticas emergentes dos acordos para lá, e não havia maneira de saber quem
e valores comuns que definem uma deter- tinha encontrado as suas crianças e quem
minada sociedade, já não parecia viável nas não tinha. Mais perto do Centro, algumas
novas cidades. Dada a extrema variedade de crianças viram o que pensaram ser pedaços
tradições, interesses e orientações, a coerên- de detritos em volta das pessoas que usavam
cia estranha e a simpatia da antiga comuni- gravatas e corriam rapidamente, outros vi-
dade só podiam ser concebidas como uma ram o que imaginaram ser pássaros em cha-
possibilidade futura, dadas as circunstâncias mas. Por entre a poeira negra e multidões,
de uma democracia. A democracia tem sido os professores conduziram as suas turmas
descrita como «uma comunidade em forma- através de uma ponte. Os alunos do ensino
ção», uma condição trazida à luz pelos se- secundário, mais próximos dos prédios que
res humanos também «em construção», en- caiam, entraram em barcos e ferries para
Escolarizar e/ou educar na cidade em mudança 209

atravessar o rio. Uma confusão de mensa- rem um papel na resultante confusão, para
gens, de ordens. Ambulâncias vazias; vidro ajudar as pessoas a lidar com o sofrimento,
partido. Ataques de pânico: a incerteza so- com o abandono. Sugestões de autocon-
bre onde os familiares trabalhavam. fiança vinham de cima, dizendo aos ouvin-
tes para retornarem às suas vidas normais.
Hoje, os professores lembram-se de estar to- Então, abruptamente, uma explicação: Sa-
talmente concentrados a proteger as crian- ddam Hussein, ditador, assassino de milhões
ças, salvando-as, inspirando-lhes confiança. de pessoas, foi responsabilizado. Osama bin
Muitos refugiaram-se numa linguagem de Laden provocou, vangloriou-se do que fez,
rotina, como se levar as crianças para as seria capturado e a Al-Qaeda seria esmaga-
caves ou reunindo-as nos cantos longe das da no chão. Então, por toda a falta de provas
janelas fosse perfeitamente normal. Mas de que o Iraque estava a ameaçar-nos, foi
continuaram as fugas e marchas longas e lançada uma «guerra preventiva».
sem rumo devido à ausência de transportes
públicos. Mais inquietante foi a falta dos Cobertos pelo silêncio, vimos o ataque cha-
suportes e estruturas habituais. A sensação mado de «Choque e Pavor», as chamas e o
de invulnerabilidade foi subitamente corroí­ fumo negro sobre as cúpulas e torres con-
da, em parte porque não havia nenhuma tra o céu. Bagdad foi-nos apresentada como
explicação sobre o que estava a acontecer. uma cidade vazia, uma espécie de cenário
Durante algum tempo, houve a expansão de filme. Não nos foram mostradas fotos de
gradual do termo, «terrorista». Entretanto, pessoas mortas ou feridas, de pais levan-
as fotografias dos homens e mulheres desa- do os seus filhos feridos, desesperados por
parecidos apareceram nas paredes, as pes- ajuda. Quanta foi a nossa própria negação?
soas levavam fotos dos familiares perdidos. Com que facilidades comprámos a ideia
Havia um vazio. Alguns dos maiores medos de que estávamos a lutar contra o «eixo do
das crianças pareciam ser reais. Aumentou mal», que os eventos devem ser lidos em
a fosso entre o que fazia sentido comum e a termos de «sim ou não?» E como - o que - é
suspeita de que nada seria certo a partir de que ensinamos às crianças, aos adolescen-
então. Crianças agarradas à televisão, pensa- tes entre nós? As promessas de «resolução
vam que as torres estavam a cair vezes sem de conflitos» desapareceram quando vimos
conta. Algumas das perguntas das crianças as imagens de cortar o coração da mulher
pareciam não ter respostas. Houve muitos sequestrada e os homens implorando pelas
professores que proibiram todos os alunos suas vidas e ouvimos sobre as decapitações
de falar do 11 de Setembro pois era muito que aconteceram tantas vezes. Compreen-
preocupante para os jovens. demo-lo em termos de diferença cultural
apenas? Eram os homens vestidos de negro
Sim, houve momentos em que estranhos se posando atrás de suas vítimas, em qualquer
abraçaram uns aos outros nas ruas, quando forma representativos do povo iraquiano,
as pessoas de todos os tipos tentavam pensar ou eram uma minoria radical islâmica? Mas
de que forma poderiam ajudar. As crianças havia as imagens chocantes de soldados
trouxeram poemas e comida para os bom- americanos torturando e degradando os pri-
beiros. As bandeiras apareceram, por falta sioneiros iraquianos, fotos de «detidos» em
duma melhor maneira de mostrar união. Guantanamo. Não houve ideia do valor de
Sentimentos de solidariedade foram ex- cada pessoa individual? Sabemos o suficien-
pressos. Desejando acção, alguns tentaram te para encorajar questões críticas? Será que
reunir-se em comunidade para incentivar os uma demonstração de brutalidade justifica
membros a se tornarem curandeiros, para te- outra?
210 Educação: o presente é o futuro

Depois, há a perplexidade envolvida em li- vida, se é necessário “manter o rumo” são de


dar com o que até mesmo as crianças ouvi- alguma forma abafadas. O fosso entre o que
ram como sendo bombástico: a alegação de as pessoas realmente sabem sobre a guerra
«missão cumprida», as comemorações do e que elas estão dispostas a fazer sobre ela
avanço da liberdade, da democracia. Quan- é cada vez mais difícil de entender. O que
do é que nos podemos dar ao luxo de semear está a ocorrer é geralmente considerado ina-
sementes de dúvida em relação aos líderes ceitável, e mesmo assim o manto do silêncio
da nação? No presente momento, os profes- permanece. Basta lembrar os 2000 mortos
sores são travados pelo seu próprio cepticis- que se relataram recentemente, os milhares
mo e as lembranças familiares de que devem gravemente feridos, os caixões a ser carrega-
seguir os seus planos de aula, permanece- dos em camiões no campo de batalha, as ex-
rem dentro dos quadros curriculares, não pressões nos rostos atordoados de soldados
dizendo nada para perturbar a ordem dese- de dezanove anos de idade que nunca foram
jada na sala de aula. Esquecido ou ignorado preparados para o que viriam a encontrar
demasiadas vezes é o que acontece com o pela frente. E há as jovens esposas esperan-
jovem quando conteúdos irrelevantes, «ne- do em casa, muitas com crianças pequenas
cessários» são impostos - os chamados as- que nunca conheceram os seus pais. Não foi
suntos não relacionados com as questões por acaso (e muito raramente evidenciado)
ou interesses dos alunos. Hoje, quando os que dezenas de milhares de iraquianos -
jovens são expostos a tanto, quando as per- homens, mulheres e crianças - morreram, a
guntas sem respostas abundam, uma conver- maioria civis inocentes ou famílias de civis.
sa entre professores e alunos é muitas vezes
evitada pelo facto dos professores temerem Por toda a inquietação que despertou entre
dizer aquilo em que acreditam. Nas sombras os jovens por aquilo que eles encaram na
de «Nenhuma Criança Deixada para Trás», televisão, na imprensa, e naquilo que ou-
com exigências de testes e prestação de con- vem, eles ainda têm de ter a possibilidade
tas pairando pesadamente nas suas mentes, de aprender as literacias fundamentais. Pro-
os professores raramente conseguem prestar vavelmente nunca conhecemos um tempo
atenção às histórias, lembranças e medos em que os jovens fossem imersos no mesmo
dos jovens. Eles são guiados, geralmente oceano de informação (e desinformação)
contra a sua vontade, pela noção de que os como os mais velhos ou quando não havia
jovens estão a ser tratados como recursos uma necessidade tão desesperada de dar
humanos, formados em resposta às necessi- sentido ao que estava a ser absorvido. É cla-
dades tecnológicas, económicas e militares ro que há muitos modos de fazer sentido; o
do país. Tudo isso se complica (para os pro- modo do senso comum, o empírico, o reli-
fessores, bem como para os outros) com as gioso, o imaginativo. Não são apenas os sig-
mudanças trazidas pela globalização, pelas nificados implícitos na cultura envolvente,
profundas divisões na cultura, por incertezas há os significados que se desenvolvem nas
em relação à imigração e ao papel que esco- culturas das crianças e adolescentes. Pode
lhemos desempenhar no mundo. ser possível ajudar os alunos a transformar
a informação em conhecimento se o ensino
Dada a crescente oposição à guerra e às for feito num contexto de perguntas abertas,
maquinações que levou o país à mesma, há encontrando diferentes tipos de expressão,
uma inquietação cada vez mais expressa to- dependendo da idade do interlocutor e da
das as vezes que uma fraude ou má gestão situação de vida. Há ligações que certamen-
vem à luz. No entanto, dúvidas sobre se a te devem ser procuradas entre as terríveis
guerra valeu ou vale o custo e as perdas de revelações dos furacões e os custos da guer-
Escolarizar e/ou educar na cidade em mudança 211

ra. Há conhecimento factual a atingir tendo nhecimento de incompletude. Há sempre


em vista os níveis do mar e o controlo de perguntas sem respostas e, porque pre-
inundações, tal como existe o conhecimento sentemente não têm resposta, há a ne-
factual sobre o voto no Iraque, a constituição cessidade de novas perspectivas, métodos
e os interesses envolvidos. Mas os factos não recém-criados, o excesso da persistência
são suficientes. A imaginação deve entrar em de dúvidas, a improbabilidade de uma
jogo, se os jovens estão a alcançar o domí- prova final. E o questionamento constan-
nio das possibilidades. O que seria de Nova te, a vivacidade do diálogo. Adrienne Rich
Orleães, como seria, se as barragens tives- escreveu que a poesia começa em terror e
sem sido construídas adequadamente, se a termina em possibilidade e que isso pode
cada parte da população fosse dada a opor- ser verdade para muitas formas de arte.
tunidade de viver em terreno elevado? Que Hamlet começa na escuridão e na descon-
diferença isso faria no Iraque, se os jovens fiança, na consciência de algo «podre» e
estivessem familiarizados com as formas de termina com Hamlet moribundo a dizer a
democracia: o pensamento crítico, a partici- Horácio: «Que a felicidade se ausente de
pação na resolução de problemas, a coexis- ti por um tempo e conta a minha história».
tência de pontos de vista divergentes? Como, Contar a história é buscar o seu significado
em qualquer caso, podemos abrir espaços sem nunca ter a certeza do fim. É imaginar
para a ortodoxia e ainda manter em aberto a o que pode estar além do presentemente
possibilidade de uma sociedade livre? incompreensível, para prevenir que a tor-
re caia outra e outra vez, para começar a
É a ideia da possibilidade que continua a construir de novo.
ser importante. Junto com ela vem o reco-
A cidade e os seus caminhos
educativos: escola, rua
e itinerários juvenis

Jaqueline Moll

Jaqueline Moll é pedagoga, especialista em Alfabetização e Edu-


cação Popular, doutorada em Educação pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, tem realizado parte de seus estudos na Uni-
versidade de Barcelona.

Moll é professora da Faculdade de Educação e do Programa de


Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Porto Alegre, Brasil) e professora colaboradora do
Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de
Brasília (Brasil).

Nos anos de 1993 e 2001 coordenou as equipas pedagógicas da


Secretaria de Educação da cidade de Porto Alegre e integrou a
equipa do Ministério da Educação do governo Lula.

Jaqueline Moll é autora e organizadora de vários livros, entre os


quais destaque-se: Alfabetização possível: reinventando o ensinar
e o aprender (Ed. Mediação, 1996); Para além do fracasso escolar
(Ed. Papirus, 1997); Por uma nova esfera pública: a experiência do
orçamento participativo (Ed. Vozes, 2000); Histórias de vida, his-
tórias de escola: elementos para uma pedagogia da cidade (Ed. Vo-
zes, 2000); Educação de Jovens e Adultos (Ed. Mediação, 2005).
Conta ainda numerosos artigos publicados em edições periódicas
e colectivas.
A cidade e os seus caminhos educativos:
escola, rua e itinerários juvenis

Será possível compreender a rua como uma a rua - via-de-regra - representa inseguran-
«grande escola ignorada» ou como possibi- ça, violência e guetização. Entende-se que
lidade de «escola para os sem-escola?» Pode a rua pode ser educativa quando trilha de
a rua fazer parte das trilhas educadores pelas ações coletivas, intencionais e identitárias
quais transitam homens e mulheres, sobre- de grupos que habitam e exploram peda-
tudo as novas gerações, na contemporanei- gógica, política e culturalmente a cidade e
dade? seus múltiplos territórios.

Este texto nasce de reflexões em torno des- Estas reflexões não caminham na direção da
tas questões, desde a compreensão de que desescolarização social ou da minimização
a cidade é potencialmente educadora tanto dos efeitos e possibilidades do trabalho es-
pelo conjunto de relações sociais, políticas e colar. Ao contrário, propõe uma abordagem
culturais que perpassam a vida cotidiana de que (re)situe a instituição escolar nas redes
seus cidadãos e cidadãs, quanto pela densi- educadoras que se configuram no espaço
dade de seus territórios físicos - arquitetôni- da cidade e na própria cidade como espaço
cos, históricos, naturais. educativo, portanto numa abordagem que
situe rua e escola como territórios educa-
Considerando o contexto de um país como tivos complementares. Como pano de fun-
o Brasil que somente no final dos anos 90 do a idéia da reconceitualização da esfera
«universalizou» o acesso à educação funda- público-governamental como instância edu-
mental1, para meninos e meninas de 7 a 14 cadora.
anos, este debate enseja problematizações
de duas ordens: de um lado o próprio debate Propõe-se pensar as trilhas educativas que
acerca da instituição escolar, como locus so- os jovens estabelecem e desejam no contex-
cial irrenunciável para os processos educa- to urbano. Os pressupostos da democracia,
tivos das novas gerações e, de outro, acerca da convivência e da diversidade estarão no
das possibilidades educativas das trilhas da horizonte da análise como elementos, pos-
cidade, nas quais estão suas ruas. sivelmente, estruturadores de aprendizagens
significativas para a vida em sociedade e
Desde a perspectiva da rua, toma-se como que desejaríamos penetrassem as ações edu-
pressuposto a necessidade de «desroman- cativas na escola e na rua.
ticizar» o que se pode supor como espaço
de absoluta liberdade e aprendizagens con-
tínuas: a rua não é espaço educativo para os Cidade, contemporaneidade
«sem-casa», «sem-família», «sem-escola». e reinvenção do espaço escolar
Para estes, grupos ou indivíduos, perdidos e
isolados no fluxo das cidades, ao contrário, O contexto contemporâneo de massificação
urbana crescente e de complexificação dos
problemas da vida cotidiana, pouco a pou-
1
A educação básica no Brasil organiza-se em educa-
ção infantil (0 a 6 anos), educação fundamental (7 a 14
co, torna-se irredutível a linearidade e as po-
anos) e educação média (15 a 17 anos). larizações das categorias de análise, lugares
216 Educação: o presente é o futuro

e crenças produzidos pela modernidade, até funções e conceitos, podem-se mencionar


então, disponíveis. como emblemáticos os contornos e papéis
históricos por ela desempenhados:
A instituição escolar, enquanto espaço privi-
legiado para educação das novas gerações, • na pólis grega - espaço da democracia
vai perdendo seu monopólio. Cada vez mais nascente, da palavra, da praça pública,
damo-nos conta de que os sujeitos se edu-
cam e são educados em diversos e distintos • na cidade medieval com suas muralhas
espaços sociais. A escola compõe, mesmo protetoras em relação aos «bárbaros» e, por
não levando isto em consideração, uma rede conseguinte de todos os «diferentes»,
de espaços sociais (institucionais e não ins-
titucionais) que constrói comportamentos, • na cidade moderna forjada sob a égide
juízos de valor, saberes e formas de ser e es- das demandas do capitalismo nascente, da
tar no mundo. A «rua» enquanto experiência revolução industrial indiferenciadora dos
de não institucionalidade compõe esta rede. indivíduos convertidos todos (homens e mu-
Rede invisível a leituras que insistam em en- lheres, crianças, jovens e velhos) em poten-
quadramentos rígidos. ciais trabalhadores-operários.

Como locus crescente de ocupação societá- Espaço caracterizado estruturalmente pela


ria podemos dizer que a cidade constitui-se diversidade - étnica, lingüística, racial, re-
como cenário no qual estas redes engen- ligiosa, econômica, geracional, sexual - a
dram-se. É interessante mencionar que, ao cidade (sobretudo a cidade moderna) pro-
longo do século XX, cerca de 70% da popu- piciou condições para florescimento das di-
lação mundial passou a habitar as cidades; versidades, entre outros fatores, pelo anoni-
na América Latina 3 de cada 4 habitantes mato propiciado pelas multidões. Porém, ao
vivem atualmente nas cidades; e, no Brasil, mesmo tempo, buscou «civilizar a diversida-
passamos de 30% para 81%, em termos de de» através de ações institucionais forjadas a
populações urbanas, dos anos 30 aos anos partir de ideais de branquitude, cristandade,
90. escolaridade, adultez, masculinidade.

Como parte de um forte movimento de re- É, nesta polarização (diversidade X homoge-


visão paradigmática do modus vivendi neização), que reside o que denomino ten-
moderno, pensar a cidade como lugar de são fundadora da cidade contemporânea2,
educação, ressituando a escola com sua im- que aguçada pela atual crise civilizatória
portância histórica e simbólica, apresenta-se leva os que vivem na cidade a construirem
como uma possibilidade que ganha contor- novas identidades e novas formas de rela-
nos mais precisos na medida em que mun- ção com seus territórios. Os jovens, como
dialmente se discute o papel das cidades, bárbaros nestes territórios urbanos, apare-
como atores sociais e políticos fundamen- cem como os que não falam a língua dos
tais na resolução dos problemas sociais e de que já estão estabelecidos, por isso «outsi-
convivência humana e na construção/con- ders», aparecem como os que estão procu-
solidação de identidades locais, em meio rando construir outras trilhas com códigos,
aos processos de globalização e de crescen- vestimentas, gostos, modos de ser que não
te ampliação dos territórios urbanos.

Pensando a cidade como espaço de convi-


2
MOLL, Jaqueline. Histórias de Vida, Histórias de Esco-
la: elementos para uma pedagogia da cidade. Petrópo-
vência humana, sob suas diferentes formas, lis: Vozes, 2000.
A cidade e seus caminhos educativos: escola, rua e itinerários juvenis 217

alcançamos compreender. São os que não se sador francês Edgar Morin5: nos pequenos
adequam aos padrões societários estabele- espaços reconfiguram-se os grandes espa-
cidos. ços, nas tiranias e intolerâncias cotidianas
como em um jogo de espelhos estão image-
Nesta perspectiva, a discussão da democra- ticamente refletidas, em escala menor, as ti-
cia e de uma nova esfera pública coloca-se ranias e intolerâncias dos fundamentalismos
como possibilidade para a reinvenção da ci- geradores dos genocídios que nos apavoram.
dade como espaço não de mesmidades e de Portanto, a comunidade reflete a cidade.
homogeneidades, mas como palco e cená-
rio para a expressão e o reconhecimento das Pensar a cidade na perspectiva aqui proposta
diversidades humanas. Vários autores vão implica rever esquemas de leitura de mun-
além deste argumento quando apontam a do, lançar mão de utopias presentes na his-
democracia não só como possibilidade mas, tória da pedagogia6 e projetar a cidade como
como condição para que a própria huma- espaço distinto daquele que se apresenta ao
nidade siga existindo. É o caso de Alberto senso comum, distinto da percepção gene-
Melucci3 quando diz que «o fator crucial ralizada de que a cidade é um lugar cada
que muda hoje o significado da democracia vez mais inseguro, de medo, de perigos, um
é que sem o reconhecimento das diferenças lugar no qual a única alternativa é isolar-se
e sem acordo sobre os limites que hão de no âmbito doméstico, como que responden-
impor-se não haverá já espaço nem para as do a tirania imaginária de um modo de ver
diferenças e nem para as decisões, senão só e viver o mundo7. Na cidade cabem muitas
para a catástrofe». (2001, p.56) cidades, com as feições que somos capazes
de lhe atribuir.
As comunidades, no macro cenário das ci-
dades, constituem pequenos centros nos
quais redes de relações pessoais e sociais Jovens e trilhas educadoras
traçam a vida cotidiana com todas as suas na cidade
demandas e tensões. Nas comunidades,
reproduzem-se os movimentos dos grandes Duas pesquisas, recentemente realizadas,
cenários. A comunidade pode ser, portanto, podem trazer elementos para pensar acerca
na perspectiva de um contexto policêntrico das trilhas urbanas de jovens que vivem em
um pequeno palco em que os ensaios para regiões periféricas: uma buscou ouvir jovens
a vida alargada na cidade acontece. É desde da cidade de Porto Alegre sobre sua inserção
a rua, desde o bairro, que nos podemos tor- na cidade8 e outra trouxe elementos acerca
nar cidadãos do mundo, desde que o espaço do papel do poder público municipal junto
local possibilite o acesso ao mundo adulto,
não como imposição, mas como possibilida-
de de ampliação deste diálogo vital que nos 5
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo.
faz humanos, como diria Bernard Charlot4. Lisboa: Instituto Piaget, 1991.
6
Referência a partir de TRILLA BERNET, Jaume. Ciuda-
À maneira do holograma proposto pelo pen- des Educadoras: bases conceptuales Cidades Educado-
ras. Curitiba: Ed. da UFPr, 1997.
7
Vale a pena a leitura da obra de Francesco Tonucci, La
citá dei bambini (Laterza, Roma-Bari, 1996).
3
MELUCCI, Alberto. Vivência e convivência: teoria so- 8
BRUNEL, Carmen. A casa, a escola e a rua: espaços
cial para uma era da transformação. Madrid: Editorial de múltiplas práticas no cotidiano de meninos e meni-
Trotta, 2001. nas que freqüentam três escolas públicas da periferia da
4
CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber. Elemen- cidade de Porto Alegre. Tese de Doutoramento. PPGE-
tos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2001. DU. UFRGS, 2005.
218 Educação: o presente é o futuro

à juventude urbana9. do bairro em que moram, sendo o número


de meninas que gosta do bairro superior ao
Compreendendo-se os grupos juvenis no número de meninos. Apesar de apontarem
território urbano como parte de um universo vários problemas no bairro, apenas 35 di-
«outsider»10 que vem instaurando novas zem não gostar do bairro. Como problemas
formas de ser, expressar-se e viver, formas e necessidades do bairro 54 apontam a falta
que ameaçam e amedrontam o estabelecido, de segurança, 116 reclamam da inexistência
proponho pensá-los como sujeitos, possíveis de um ginásio de esportes, 88 reclamam da
interlocutores cuja originalidade em termos limpeza, 53 pedem um campo de futebol e
de modus vivendi e operandi pode colaborar 11 gostariam que houvesse locais para fes-
para a reinvenção institucional e social do tas.
presente. Proponho que pensemos os jovens
como possíveis articuladores de um «novo» Chama atenção o sentimento de interdição
presente. expresso por quase 200 jovens que afirmam
não circular pela cidade por não ter dinheiro
para pagar a passagem do transporte coleti-
Jovens de periferia urbana vo. Os espaços pelos quais circulam são, em
e suas trilhas geral, casas de amigos e parentes.

Na primeira pesquisa, realizada na periferia Cerca de 50 jovens, menos de 1/5 do total,


da cidade de Porto Alegre11, foram ouvidos, apontam frequentar parques, praças e sho-
através de questionários, 266 jovens - 149 ppings, espaços para além de sua casa e da
meninas e 115 meninos12, 160 do ensino rua da sua casa. Entre as meninas é bem
fundamental e 106 do ensino médio, com maior a declaração de que a casa de amigos
idades que variam de 13 a 24 anos. Cerca de e parentes é o local que mais freqüentam,
25% dos jovens vive em famílias cuja ren- além de sua própria casa. Como locais em
da é de 1 salário mínimo13, enquanto 129, que mais gostam de estar a casa e o próprio
cerca de 50% dos jovens vive em famílias quarto aparecem como espaços prioritários
cuja renda é de 2 a 5 salários mínimos. Do para as meninas, enquanto para os meninos,
conjunto destes jovens, 218 referem gostar o ginásio da escola é o local mais apreciado,
seguido da casa e de shows. Tanto para me-
ninas, quanto para meninos, a escola não se
9
«Juventude, escolarização e poder local», pesquisa encontra entre as preferências. Como espa-
realizada nos anos de 2004 e 2005, coordenada em ços de menor preferência destes jovens está
âmbito nacional, por Marília Spósito (USP) e Sergio Ha-
ddad (PUC-SP) e em âmbito local (Porto Alegre e região a igreja, seguida do campo de futebol para
metropolitana) por Nilton Bueno Fischer e Jaqueline as meninas.
Moll (UFRGS).
10
ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos Na escola, o local de preferência consensual
e os outsiders: sociologia das relações de poder a par-
tir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge entre meninas e meninos é o pátio, seguido
Zahar, 2000. do ginásio para os meninos do ensino fun-
11
Cidade do sul do Brasil com população de cerca de damental. Portanto, espaços de maior ampli-
1.350.000 habitantes, conhecida internacionalmente tude em termos de convivência e de possi-
pelas práticas de participação popular na gestão públi-
ca municipal, governada pelo Partido dos Trabalhado- bilidades desportivas, recreativas e culturais.
res de 1989 a 2004 e sede dos primeiros Fóruns Sociais
Mundiais. As respostas destes jovens remetem-nos a
12
Dos quais dois não informaram seu nível de inserção reflexão acerca de que trilhas educativas são
escolar.
13
O salário mínimo corresponde a 147,28 euros. possibilitadas a jovens cujo poder aquisitivo
A cidade e seus caminhos educativos: escola, rua e itinerários juvenis 219

não permite nem acesso ao transporte co- so à esfera pública, onde ele poderia se
letivo. A cidade para estes jovens se apre- mostrar, ver e ser visto, ouvir e ser ou-
senta como projeção de um espaço ao qual vido, que ele proibia o espaço da pólis,
não pertencem. A vida está restrita a casa, confinava os cidadãos à privacidade da
as suas cercanías e a escola, espaços de vida de seus lares... De acordo com os
circulação cotidianos, razoavelmente segu- gregos, ser banido para a privacidade dos
ros, nos quais constróem identidade e sua lares era equivalente a estar destituído das
relação com o mundo. Nesta perspectiva é potencialidades da vida especificamente
possível afirmar que a presença do poder humanas».15
público, através de políticas que visibilizem
estes jovens e facultem seu trânsito pelas tri- Partindo deste pensamento impõe-se refle-
lhas da cidade é elemento definidor de sua tir sobre o conceito de esfera pública e de
inserção urbana. cidadania e sobre a presença humana nos
espaços que transcendem o mundo privado
Na etapa seguinte desta pesquisa os percur- e que podem converter estes jovens em ci-
sos cotidianos de dez destes jovens foram dadãos. Entendendo-se por cidadão, numa
investigados e explicitou-se a riqueza de das acepções correntes, como habitante
«mundos criados» no contexto comunitá- da cidade16 é preciso perguntar-se: como
rio. Nas «pedagogias praticadas»14 por estes nos convertemos em habitantes da cidade?
jovens, estão expressas trilhas educativas Como os jovens podem tornar-se parte da
construídas através da experiência de parti- cidade, sobretudo estes, representados em
cipação na rádio comunitária, da criação de milhões, que não tem acesso nem a possibi-
uma banda de rock, das histórias, poesias e lidade de circulação?
letras de música escritas, dos grupos de mú-
sica e dança criados e do esforço para aces- No campo de debates proposto por este tex-
so ao mundo do futebol. A escola está entre to os elementos de «realidade» trazidos à
os principais espaços para articulação destas tona apontam para a ausência de uma esfe-
possibilidades. ra pública estruturada que acolha e abrigue
jovens que vivem em regiões periféricas de
O sentimento de interdição explicitado em uma cidade latino-americana. Os desejos
relação à cidade não impossibilita que mes- apontam para a necessidade da quadra de
mo neste espaço restrito de circulação e esportes, do campo de futebol e do espaço
com parcos recursos materiais, estes jovens para realização de festas. Numa perspectiva
criem verdadeiros universos de significado. de cidade policêntrica tais lugares deveriam
estar também nestas regiões periféricas, nas
A vedação ao espaço público será de al- quais a casa, ao abrigo da «rua», parece ser
guma forma compensada pelo esforço em o espaço prioritário de convivência e apren-
configurar uma esfera privada na qual a vida dizagem, sobretudo para as meninas. Ainda
possa fazer sentido. Este quadro remete-me prevalece o medo da «rua» e a insegurança
a Hanna Arendt quando evoca a histórica em relação aos lugares públicos. A esco-
Grécia: la segue sendo para estes jovens, principal
espaço de socialização e aprendizagens, es-
«A principal característica do tirano era
que ele privava o cidadão de ter aces-
15
ARENDT, Hannah. A condição humana.
16
Conforme FERREIRA, Aurelio Buarque Holanda.
14
PAIS, José Machado. Vida cotidiana: enigmas e reve- Novo Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fron-
lações. São Paulo. Cortez, 2003. teira, 1986.
220 Educação: o presente é o futuro

paço da convivência, espaço de construção ações desenvolvidas nos anos 2003/2004.


identitária e espaço da possibilidade da forja No caso da cidade de Porto Alegre foram le-
de novos olhares sobre o mundo. A escola vantados 134 projetos ou ações na área da
é, para eles, o principal espaço comunitário juventude.
que reflete a cidade.
O primeiro contato com grande parte das
Pode-se inferir que para jovens de regiões prefeituras municipais resultou, muitas
periféricas a escola terá que ser a ponte com vezes, em interjeições de espanto em
o universo urbano em suas múltiplas pos- relação à pesquisa: «Políticas de/para
sibilidades. Este lugar-ponte será resultado jovens? Não aqui não tem nada específico»
de todo processo de reinvenção das formas, para logo, após ouvir-se: «Ah, mas tem
tempos e espaços de atuação da escola17. sim na secretaria da saúde - projeto para
A «rua» como possibilidade educadora só jovens sobre DST/AIDS» ou na secretaria
tem plausibilidade na medida da intenção de meio ambiente «...algo relacionado a
de educar e da inclusão dos jovens no hori- preservação...». Tais respostas deram conta
zonte do olhar de quem vive e faz a cidade. do jovem como sujeito ausente da agenda
Entre os que «fazem» a cidade está o poder pública das prefeituras. Os jovens apareciam
público local, cujo olhar e cujas práticas, diluídos em programas para crianças ou em
podem permitir a estes jovens circulação, programas para alunos com claros recortes
inserção e recriação dos próprios territórios de séries escolares ou, ainda, programas
a partir de possíveis trilhas educativas. para toda a comunidade aos quais jovens
acorriam em número expressivo, sobretudo
em diferentes campos artísticos como teatro,
O poder público local música, dança ou artes plásticas. Foi comum
e suas trilhas para os jovens também a insistência na categoria alunos,
pois, na escola estavam as ações para os
A segunda pesquisa referida apresenta resul- jovens.
tados preliminares do estudo «Juventude, es-
colarização e poder local», especificamente Em grande parte das cidades pesquisadas
na região metropolitana de Porto Alegre. percebem-se os jovens como grupo social
Teve como objetivo central o mapeamento ausente das políticas públicas ou que come-
das políticas de educação de jovens e adul- ça e emergir e, neste caso, a qual reserva-
tos e das políticas de juventude no âmbito da -se o lugar de «receptor» de ações do poder
ação do poder público municipal em nove público. Destaca-se a não participação dos
regiões metropolitanas brasileiras18, sendo jovens como propositores, colaboradores ou
realizada através de entrevistas com gestores avaliadores das ações que lhes são destina-
locais e aplicação de questionários sobre as das. Em grande parte destas ações, que tem
no máximo dois anos de duração, não há
17
Como referência a distintas possibilidades neste pro- avaliação dos resultados ou de seu alcance
cesso de reinvenção pode-se consultar a publicação social, o que aponta para a reiterada descon-
«Bairro-Escola passo a passo» editada no Brasil em tinuidade ou para o caráter pontual e emer-
2007 por distintos atores do campo educacional, en- gencial destas práticas.
tre os quais UNICEF, Movimento Todos pela Educação,
UNDIME, Cidade-Escola Aprendiz, Fundação Educar,
Ministério da Educação. Apesar das limitações encontradas, cabe
18
Regiões metropolitanas de João Pessoa (PB), Recife destacar que, além das áreas que podem ser
(PE), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Florianópolis consideradas «clássicas» como saúde e es-
(SC), Vitória (ES), Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP),
Rio de Janeiro (RJ). portes, podem-se perceber movimentos em
A cidade e seus caminhos educativos: escola, rua e itinerários juvenis 221

termos de políticas públicas que apontam Da rua, da cidade


na direção das «muitas expressões» dos jo- e dos processos educativos
vens no contexto contemporâneo das cida-
des. Projetos e ações no campo das artes: As narrativas acerca de cidade e juventude
dança contemporânea, hip-hop, grafitismo, apresentadas nestas reflexões, pensadas des-
que podem relacionar-se com alternativas de o lugar da emergência dos jovens como
de geração de trabalho e renda, numa pers- novos sujeitos do cenário urbano, poderão
pectiva de auto-gestão, esboçam-se como ser melhor compreendidas no quadro de
novidades que resultam de ações de setores intensa instabilidade e de profunda crise
juvenis que forçam a relação com o poder dos cânones sobre os quais construiu-se o
local. Projetos e ações relacionados a temá- modo de vida moderno. Muitos pensadores
ticas ambientais, a sexualidade, a produção chamam o que estamos vivendo de trânsito
gráfica e a constituição de fóruns de debates paradigmático, caracterizando-o em termos
variados, apontam para possibilidades de in- de revoluções cotidianas no mundo do tra-
serção no cenário urbano de grupos juvenis, balho, no universo das relações humanas,
comumente afastados da vida pública. no contexto das relações com a natureza e
da própria natureza, no âmbito da produ-
Nesta perspectiva, a ocupação do território ção científica, nas mudanças de esquemas
urbano em suas praças, parques, centros co- tempo-espaço até então conhecidos (produ-
munitários, conjuntos esportivos, teatros, ex- zidas sobretudo pelas novas tecnologias da
plicitada nos projetos inventariados, aponta informação), que questionam as formas de
para a visibilização de formas de ser e es- organização que produzimos, empurrando-
tar que começam a explicitar os jovens no -nos para a construção de olhares que ou-
complexo cenário das cidades, alargando o sem e reinventem o que «está», levando-nos
palco educativo para além do intra-muros a refletir acerca da historicidade e da transi-
escolar. A expressiva afirmação, no conjunto toriedade de modelos, há muito apresenta-
de entrevistas e questionários, acerca do uso dos como imutáveis.
pacífico dos espaços comunitários pelos jo-
vens nestes projetos, aponta para a necessi- O conjunto de práticas educativas realizadas
dade da releitura do lugar de violência ou de no âmbito da escola vive o impacto destas
ameaça representado, no imaginário social, perplexidades e instabilidades, tanto no re-
pelos grupos juvenis (sobretudo dos jovens lacionamento com as novas gerações, quan-
que vivem em regiões periféricas). to no campo dos novos saberes produzidos.
A responsabilidade com o futuro, impõe-nos
Poucas atividades que transcendam o currí- como tarefa fundamental compreender o
culo clássico são encontradas no espaço es- que está acontecendo para construir novos
colar, quando acontecem estão relacionadas olhares sobre os tensionamentos, desafios e
a temas ambientais ou a práticas desporti- limites de nossas práticas e sobre o desenho
vas. Isto aponta para a não conexão entre a de outras possibilidades para a vida na esco-
escola, a cidade e as possíveis trilhas educa- la, na comunidade e na cidade.
tivas construídas ou desejadas pelos jovens,
podendo-se inferir acerca da distância real Neste sentido, os conceitos de cidade edu-
(e simbólica) entre a instituição escolar (com cadora ou de cidade como pedagogia po-
seus rituais, temporalidades e temas) e estes dem alargar nossa compreensão de educa-
novos territórios produzidos na confluência ção, permitindo-nos reinventar a escola no
entre interesses juvenis e políticas públicas mesmo movimento que busca reinventar a
locais. cidade e, nela, a comunidade como lugares
222 Educação: o presente é o futuro

de convivência, de diálogo, de aprendiza- com sua intensa capacidade criativa? Como


gens permanentes, na perspectiva do apro- oferecer aos jovens o espaço público e o ter-
fundamento da democracia e da afirmação ritório das cidades com suas inúmeras possi-
das liberdades. bilidades educadoras?

Tais processos desafiam a mudanças que, Neste aspecto certamente reside uma difi-
embora também metodológicas, são mu- culdade fundamental: não estamos habitua-
danças paradigmáticas que implicam pro- dos ao diálogo e a aproximação com outros
duzir novos esquemas para ler o mundo e sujeitos da cena social, muito menos com
para criar, o que Paulo Freire chamou de os jovens que, aglutinados por traços iden-
«inéditos viáveis». Portanto, não se colocam titários em inúmeras «tribos urbanas», desa-
como nova panacéia, nem como um novo fiam nossa capacidade de compreendê-los
modelo, mas como mudanças possíveis, a e de aceitá-los. Aproximar sujeitos sociais,
médio e longo prazo, e que, só podem ser entre estes, os grupos juvenis, para realizar
construídas, a partir de novos pactos sociais novos pactos educativos, pensando a cidade
e educativos. Nesta direção, o poder público em seu conjunto, com ações que envolvam
local pode desempenhar importante papel a aproximação de diferentes instituições, o
pedagógico como: uso dos espaços urbanos, a disponibilização
de tempo para as novas gerações e a afir-
mação de novos horizontes e compromissos
• articulador de forças e sujeitos sociais, comuns, são condições para converter a ci-
dade em cenário educativo. Nesta perspecti-
• financiador de ações que nasçam das ne- va, todos que vivem na cidade convertem-se
cessidades e exigências deste novo pacto, em educadores.

• mediador de interesses não só diferencia- Trata-se de instaurar diálogos nos quais o


dos, mas até antagônicos, em relação a ocu- «outro» seja ouvido tanto pelo poder públi-
pação do espaço público. co, quanto por outros sujeitos sociais «es-
tabelecidos». Não teremos mudanças se as
Desde esta perspectiva, sine qua non é a novas gerações seguirem confinadas ao es-
condição do diálogo, com e para além das paço doméstico, a escola clássica ou às cer-
instituições escolares, sobre nossos projetos canias de sua casa.
educativos como sociedade. Nossas socie-
dades enxergam os jovens? Se são vistos, Nossa condição civilizatória passa, segu-
que olhares diferentes sujeitos sociais (as- ramente, por estes jovens atores da cena
sociações de bairros, grupos ecológicos, urbana contemporânea. Contemplá-los,
empresariado, clubes de serviço, sindicatos, escutá-los, incluí-los como sujeitos plenos
partidos políticos, poder público local) diri- de possibilidades, não como portadores de
gem aos jovens? Que grupos juvenis vivem e problemas ou necessidades a serem por nós
circulam pelas nossas cidades e comunida- resolvidos ou sanados, impõe-se como con-
des? Que espaços ocupam? Como modificar dição nas trilhas educadoras que podemos
olhares que nos grupos juvenis só enxergam construir. Portanto, pensar nestas trilhas im-
ameaças e problemas e que terminam por põe-nos pensar na ampliação do olhar sobre
pautar muitas políticas públicas? Como re- as cidades e implica, fundamentalmente,
cuperar ou constituir os jovens como atores colocar as estruturas político-administrativas
do processo social com suas convicções, das cidades ao serviço de um projeto educa-
crenças, saberes, experiências e, sobretudo, tivo que localize escola e rua.
A cidade e seus caminhos educativos: escola, rua e itinerários juvenis 223

Neste sentido é preciso que nos pergunte- • re-conceitualizar a cidade, entendendo-a,


mos: no seu emaranhado de ruas, avenidas, pra-
ças e prédios, como um território de múlti-
• Como ensinamos aos jovens as práticas plas histórias e culturas e, por isso, de incon-
democráticas da convivência e da diversi- táveis possibilidades educativas;
dade se nossas práticas cotidianas de convi-
vência são interditoras da aceitação do ou- • discutirmos quem somos, que necessida-
tro, da disponibilidade a palavra e da escuta des comuns e singulares temos, que presen-
de seu modus vivendi? te e que futuro desejamos;

• Como pensar em trilhas educadoras para • assumirmos - governos, associações de


estes jovens se a cidade lhes é vedada, se es- moradores, empresariado, movimentos so-
tão confinados a suas ruas e casas, sem que ciais, grupos de jovens, igrejas, sindicatos,
estas - sobretudo as ruas se convertam em
universidades, como diferentes atores so-
possibilidades pedagógicas?
ciais do cenário urbano - tarefas educativas
no sentido de mapear demandas e possibi-
• É possível que a cidade e a comunidade
lidades formativas, para oferecer e construir
desenvolvam para além de suas tradicionais
com o conjunto da população inéditos viá-
funções econômicas, sociais, políticas e de
prestação de serviços, uma função educa- veis que permitam fazer da vida algo mais
dora, no sentido do compromisso coletivo e ou algo distinto do que ela é.
permanente da formação, da promoção e do
desenvolvimento de todos os seus habitan- Esta re-conceitualização pressupõe a com-
tes - crianças, jovens e adultos?19 Em outras preensão da cidade como uma grande rede
palavras, é possível pensar a cidade e a co- de trilhas educadoras, nos seus espaços pe-
munidade desde a perspectiva da educação? dagógicos formais (escolas, creches, facul-
dades, universidades, institutos) e informais
• É possível pensar a cidade e a comunida- (teatros, praças, museus, bibliotecas, meios
de como espaços de convivência cultural e de comunicação, repartições públicas, igre-
geracional, como espaços de aprendizagem jas, além do trânsito, do ônibus, da rua),
da diversidade humana e de superação das cujas ruas sejam pontes para a convivência
intolerâncias - condições para a vida demo- e as aprendizagens e onde a intencionalida-
crática? de das ações desenvolvidas, possa converter
a cidade em território educativo e fazer da
• É possível pensar a escola como uma ins- cidade uma pedagogia.
tituição menos fechada e mais articulada às
redes sociais e ao cenário urbano que está Neste sentido, os processos educativos que
ao seu redor? acontecem na praça pública, na rua, no
ônibus, na escola podem ser a chave para
Considerando estas questões, pensar a cidade a convivência e, portanto, para a democra-
com suas trilhas educadoras, e, nela, a rede cia, que pressupõe tanto a compreensão e
de possibilidades que inclui a escola, implica: o respeito pelas diferenças ideológicas, etá-
rias, de raça, de gênero, de classe social, de
modo de compreensão da vida, quanto o
19
Aqui converte-se em indagação um postulado apre-
sentado na introdução da Carta das Cidades Educado- enfrentamento coletivo e concreto dos pro-
ras elaborada em Barcelona no ano de 1990 e aperfei- blemas que nos afligem.
çoada no ano de 1994.
224 Educação: o presente é o futuro

Tais processos implicam que cada cidadã/ ser reanimada, porque mais uma vez nos re-
cidadão, criança, jovem ou adulto, entenda- mete aos sonhos coletivos de uma vida feliz,
-se como parte da cidade, comprometendo- sustentável e solidária neste planeta. Nos
-se com seu destino em um movimento remete à cidade para além do que nela é
pedagógico e cultural que permita a todos, produzido materialmente e, como diz o his-
na qualidade potencial de educadores, a toriador Jacques Le Goff20, reanima a idéia
construção de olhares acerca deste grande da cidade como palco de igualdade e festa
espelho-território com seus temas e problemas da troca, como espaço do bem comum, da
para reaprendendo-o, ousar reinventá-lo. segurança e do urbanismo como invenção
A cidade democrática e educadora, espaço de beleza - elementos engendradores do
de muitas trilhas é, portanto, uma utopia a imaginário das cidades do renascimento.

20
LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades. São Paulo:
Editora da UNESP, 1998.
Educação e sociedade justa

Juan Carlos Tedesco

Juan Carlos Tedesco é licenciado em Ciências da Educação pela


Universidade de Buenos Aires. Foi professor universitário e funcio-
nário da UNESCO, onde dirigiu o Centro Regional de Educação
para a América Latina e Caribe (CRESALC), em Santiago (Chile),
o Centro Internacional de Educação em Genebra (Suíça) e a sede
regional do Instituto Internacional de Planificação da Educação,
em Buenos Aires (Argentina). Tedesco foi ministro da Educação da
República Argentina, entre 2007 e 2009.

Tem publicado numerosos artigos e vários livros sobre as relações


entre educação e sociedade. Da obra publicada destacam-se:
Educación y Sociedad en Argentina, 1800-1945 (Buenos Aires,
1972); El Proyecto Educativo Autoritario: Argentina 1976-82
(Buenos Aires, 1983); El Nuevo Pacto Educativo (Madrid, 1995)
[ed. portuguesa: O novo pacto educativo, ed. Fundação Manuel
Leão, 2007] e Educar en la sociedad del conocimiento (Buenos
Aires, 2000).
Educação e sociedade justa

1. Introdução centralidade. Duma forma mais específica,


poderíamos afirmar que o conceito de cida-
Nos últimos anos, é frequente que as análi- de educativa actualmente é enriquecido ao
ses sobre a sociedade do conhecimento e da fazer referência ao tipo de cidade (ou socie-
informação superem o optimismo que mani- dade) que desejamos ou projectamos cons-
festavam as primeiras abordagens acerca das truir. Neste texto assumimos a ideia de cons-
potencialidades democráticas da centralida- trução duma sociedade justa como o grande
de do conhecimento na sociedade. As ditas desafio que enfrentamos como civilização.
abordagens, com distintas fundamentações, A partir deste princípio geral, apresentam-
associavam a importância do conhecimento -se algumas reflexões e hipóteses dirigidas
com um determinado sentido social, onde principalmente ao papel da educação e dos
a democracia e o crescimento económico educadores no processo de construção da
apareciam directamente vinculados1. Ago- dita sociedade justa.
ra, em contrapartida, é comum enfatizar as
características excludentes, originadoras de
incertezas e risco, que provocam o uso in- 2. O défice de sentido
tensivo dos conhecimentos e da informação
na economia e na sociedade. Com a velo- Em primeiro lugar, é preciso fazer referência
cidade que caracteriza os processos sociais ao défice de sentido que caracteriza o
contemporâneos, em breve se destacou que novo capitalismo, onde a ruptura com
a centralidade do conhecimento provocava o passado e a incerteza sobre o futuro
fortes tendências a privatizar a sua produção conduzem a uma forte concentração no
e distribuição. O capitalismo baseado no presente. Richard Sennett enfatizou neste
uso intensivo de informação e conhecimen- ponto, principalmente a partir da análise
tos poderia ser mais injusto que o capitalis- das mudanças na organização do trabalho.
mo tradicional industrial2. Sennett sustenta, no seu clássico estudo
sobre o «carácter» e no seu recente ensaio
O debate, portanto, deixou de fazer referen- sobre a cultura do novo capitalismo, que este
cia à educação e ao conhecimento em si baseia-se na ideia de «nada a longo prazo», o
mesmos, para se transformar no modelo de que tem consequências muito significativas
sociedade que queremos criar a partir da sua sobre a formação dos indivíduos e sobre os
processos de transmissão cultural, tanto nas
1
A versão mais popular deste optimismo é a de Alvin instituições públicas (a escola, em particular)
Toffler. Ver, por exemplo, A. Toffler. As mudanças do po- como na família3.
der. Record, 1990.
2
D. Cohen. Riqueza del mundo, pobreza de las nacio-
nes. Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 1998.
Em última instância, o «nada a longo pra-
Ultimamente, até o Fundo Monetário Internacional
reconheceu que está em aumento a desigualdade e a
concentração do lucro no mundo, associado ao desen- 3
R. Sennett. La Corrosión del Carácter. Las consecuen-
volvimento tecnológico. Ver Daniel Muchnik, «El FMI cias personales del trabajo en el nuevo capitalismo.
ahora preocupado por lo social», en Clarín, Buenos Ai- Barcelona, Anagrama, 2000. R. Sennett. La cultura del
res, 15 de octubre de 2007. nuevo capitalismo. Barcelona, Anagrama, 2006.
228 Educação: o presente é o futuro

zo» acaba com a possibilidade de construir Estados nacionais. Apesar deste não ser o
laços de confiança, compromisso mútuo e sitio para uma longa referência à história
de coesão. Por exemplo, nas empresas, os da educação, é preciso lembrar que, pelo
empregados sabem que existe a possibili- menos na nossa cultura, os princípios de
dade de haver fusões, deslocalizações ou educação universal e obrigatória estiveram
transformações que os pode deixar fora, sem directamente ligados à criação do Estado e
haver qualquer compromisso por parte dos de vínculos de adesão a uma determinada
empresários. Hoje, é aconselhável trabalhar ordem, acima de interesses particulares ét-
fora das empresas e, como refere Sennet, nicos, religiosos, linguísticos ou de qualquer
o desapego e a cooperação superficial são outra índole. Este processo teve diferentes
muito mais funcionais do que a lealdade e manifestações conforme os contextos, mas
o serviço. Dá-se mais valor à capacidade de a escola e os professores estiveram entre as
mudar do que à experiencia, e a prática do instituições e os actores sociais principais
consumo expande-se a todas as dimensões do processo de construção da modernidade,
da vida social e pessoal, e não apenas às quer no aspecto político quer no cultural.
mercadorias.
A literatura sobre o processo de moderni-
Quando este comportamento abrange ou- zação é muito vasta e conhecida. Bauman,
tras áreas da vida social, como a família ou para citar uma das referências actuais mais
o âmbito de desempenho político-cidadão, reconhecida, caracterizou a visão tipica-
as tensões e contradições são muito signi- mente moderna do mundo como aquela que
ficativas. A família requer compromissos e o considera uma totalidade essencialmente
lealdades de médio e longo prazo que ma- organizada. O controlo é pouco menos que
nifestem a solidariedade intergeracional. O sinónimo da acção ordenadora e a efectivi-
desempenho da cidadania também exige, dade do mesmo depende da adaptação do
cada vez mais, um grande sentido de res- conhecimento à ordem «natural». Esse co-
ponsabilidade e solidariedade colectiva, que nhecimento é, em princípio atingível, e su-
obriga a tomar decisões que requerem uma bir na hierarquia das práticas medidas pelo
visão de futuro. Também, representa graves síndrome do controlo/conhecimento signifi-
problemas para a educação institucionali- ca igualmente avançar para a universalidade
zada, cuja razão de ser tem sido sempre a e distanciar-se das práticas «provincianas»,
transmissão do património cultural da socie- «particularistas» e «localizadas»4.
dade e a preparação para um determinado
projecto de futuro. Visto assim, um dos pro- Quer seja pela necessidade do controlo ou
blemas centrais da educação actual é orien- pelo puro desejo de divulgar conhecimen-
tar a tensão gerada por esta carência de sen- tos, a educação e os educadores foram um
tido, quer nos processos pedagógicos e nos produto da modernidade directamente asso-
vínculos de ensino-aprendizagem, quer nos ciado à necessidade de contar com pessoal
processos políticos e institucionais com que especializado para transmitir e reproduzir a
é manifestada a actividade educativa. nova cultura dominante5.
Neste sentido, os sistemas educativos moder-
nos enfatizaram na transmissão de conheci-
3. O sentido da educação
na sociedade moderna
4
Z. Bauman. Legisladores e intérpretes; Sobre la mo-
Lembremos que os sistemas educativos mo- dernidad, posmodernidad y los intelectuales. Buenos
Aires, Universidad Nacional de Quilmas, 1997.
dernos surgiram associados à criação dos 5
Z. Bauman, op. cit.
Educação e sociedade justa 229

mentos, valores e atitudes relacionados com um conteúdo específico, actores chave e um


as normas sociais que exigia o funciona- desenho institucional e curricular consisten-
mento da sociedade. A aprendizagem destes te. A fertilidade socializadora deste projecto
conteúdos obrigava a incorporar uma forte radicava em que era portador dum sentido,
carga afectiva no processo de transmissão. compreendido nas três dimensões do signi-
O que caracterizava a formação do cidadão ficado deste termo: fundamento, unidade e
no período de construção e consolidação finalidade. O fundamento da proposta era
dos estados nacionais e a democracia, era proporcionado pelo princípio de Nação,
a ênfase nos aspectos simbólicos, nos rituais democracia e mercado como eixos articu-
e na autoridade com a que foram munidos ladores sobre os que se apoiava o projecto
os actores e as instituições responsáveis pela comum; a unidade estava baseada no nível
difusão dos padrões de coesão social, ou significativamente alto de articulação das
seja, de aceitação das normas da disciplina «imagens do mundo», que oferecia esta pro-
social. posta ideológica onde cada um tinha o seu
lugar na estrutura social; a finalidade por
A explicação e justificação teórica mais último, baseava-se na projecção da possibi-
exaustiva deste sistema foi proporcionada lidade de um futuro sempre melhor, duma
por Emile Durkheim nos seus ensaios sobre ampliação progressiva dos espaços de parti-
educação, em particular, sobre a educação cipação, liberdade e justiça7.
moral6. O seu estudo completo baseia-se
na preocupação de oferecer a cada pes- A evolução da acção educativa com base
soa a educação que lhe corresponde pelo neste sentido não esteve isenta de contradi-
seu lugar na escala social e em conseguir a ções e tensões. O conhecimento e as práticas
aceitação duma nova moral, a moral laica pedagógicas tenderam também a autonomi-
e republicana, que devia substituir a moral zar-se. Quer pelas mudanças na estrutura
religiosa tradicional. social quer pela própria cultura pedagógica,
a educação e os educadores desenvolveram
Esta é a razão pela qual as práticas escola- um forte conteúdo crítico da concepção mo-
res da época insistiam tanto nos elementos derna da educação, em particular, dos deus
­rituais e concediam aos responsáveis do pro- aspectos reprodutores, de disciplina e auto-
cesso de ensino - os professores - um estatu- ridade. Desde os pedagogos clássicos como
to de autoridade quase religiosa ou sagrada. Pestalozzi, Dewey, Freinet e o movimento
Durkheim descrevia a labor dos sacerdotes da Escola Activa, até aos mais contempo-
e professores como uma actividade «moral», râneos como Paulo Freire, a cultura profis-
uma acção de mediação entre os valores ge- sional dos educadores (muito mais do que
rais e sujeitos específicos, entre um género as práticas educativas reais nas escolas) foi
de sociedade e os indivíduos que a formam. dominada por princípios que acentuavam
A vocação, o apostolado, as gratificações as potencialidades libertárias da educação.
simbólicas por cima das materiais, têm sido Mas, este pensamento «crítico» (e o senti-
as principais características do desempenho do que dava às acções e à identidade dos
docente no âmbito deste «programa institu- educadores) fazia parte do mundo moderno.
cional» da escola. Contra a imposição de uma ordem única,
contra o autoritarismo pedagógico, os edu-
Em suma, a formação do cidadão baseada cadores críticos construíam a sua identidade
nas categorias de democracia e nação teve
7
Zakï Laïdi. Un monde prive de sens. París, Fayard,
6
Emile Durkheim. L´éducation morale. París, PUF, 1963. 1994.
230 Educação: o presente é o futuro

tanto individual como colectiva. De certo torno das possibilidades de criar um sentido
modo, este pensamento crítico foi criado a partilhado, capaz de superar à coesão fun-
partir da contradição que surgia entre formar damentalista autoritária e o individualismo
para o trabalho e formar para o exercício da anti-social.
cidadania e o pleno desenvolvimento da
personalidade. Este cenário muda radical- A questão da possibilidade de criar um sen-
mente com a expansão do novo capitalismo. tido partilhado é, em suma, a questão da co-
esão social. Qual seria o modelo de coesão
possível e necessário no âmbito deste novo
4. O sentido no novo capitalismo: capitalismo pós-moderno?. Por um lado, sa-
criação duma sociedade justa bemos que é impossível a coesão dos mo-
dernos, baseada na imposição duma ordem
A literatura sobre a pós-modernidade, a so- única, embora seja de natureza racional e se-
ciedade do conhecimento e o novo capi- cular. Também, é impossível a coesão iden-
talismo, é vasta e bem conhecida. Embora, tificativa, étnica ou religiosa, que exclui o
cada uma delas faça referência a fenómenos diferente. Por outra parte, sabemos também
diferentes, a sua análise refere um processo que a coesão social obriga a níveis básicos
de transformação que afecta todos os aspec- de equidade social, baseados no direito ao
tos da sociedade: a organização do trabalho, trabalho e numa remuneração que garanta
a organização política, os paradigmas cultu- o acesso aos bens e serviços próprios duma
rais e os processos de criação de identida- vida digna. Em suma, encontramo-nos pe-
des pessoais. As tendências à fragmentação rante o desafio de criar uma sociedade que
são significativas e bem conhecidas, e estão enfrente a desigualdade e respeite a diversi-
vinculadas a um fenómeno duplo: por um dade. A grande questão é saber se o propósi-
lado, a desigualdade e a exclusão social e to de criar uma sociedade justa poderá ter a
por outro, a explosão de identidades e de potencialidade suficiente como para criar os
demandas de reconhecimento à diversida- níveis de adesão necessários para contrariar
de. Do ponto de vista cultural, a pós-mo- as tendências à injustiça, derivadas do mer-
dernidade está caracterizada pela ruptura da cado e das tentações do domínio e controlo
concepção segundo a qual existe uma única cultural9.
ordem cultural válida e legítima, à qual se
subordinam todas as outras. Agora, os parti- A adesão à criação duma sociedade justa é
cularismos não são sinónimo de atraso e tra- um tema que deve ser analisado de forma
dicionalismo são antes reivindicados como contextualizada. No entanto, com as con-
um direito, e a sua negação atenta contra tribuições de A. Giddens, é possível admitir
a convivência democrática e a justiça. Do que a adesão requerida pela criação duma
ponto de vista sócio-económico, as tendên- sociedade justa é uma adesão reflexiva. O
cias à concentração do lucro e à exclusão novo capitalismo tem níveis muito baixos
social de vastos sectores de população8, são de solidariedade orgânica e exige, por parte
bem conhecidas. Economia e sociedade dos cidadãos, um comportamento baseado
tendem a dissociar-se e geram um cenário muito mais em informação e em adesão vo-
em que a grande questão (e desafio) gira em luntária do que os exigidos pelo capitalismo

9
Poderá encontrar uma análise completa sobre a co-
8
Para uma análise dos fenómenos de fragmentação so- esão social nos países da América Latina y as Caraí-
cial nas cidades, consulte Loïc Wacquant. Los conde- bas em CEPAL. Cohesión social. Inclusión y sentido de
nados de la ciudad. Gueto, perfiferias y Estado. Buenos pertenencia en América Latina y el Caribe. Santiago de
Aires, Siglo Veintiuno Editores Argentina, 2007. Chile, 2007.
Educação e sociedade justa 231

industrial ou pelas sociedades tradicionais. necessidade de «moralizar a espécie huma-


Contudo, reflexão não é sinónimo de racio- na». O desafio que temos pela frente é o de
nalidade nem mesmo de comportamento preservar as condições sobre as quais está
baseado unicamente no predomínio da di- baseado o nosso reconhecimento de que
mensão cognitiva. A adesão à justiça exige actuamos como pessoas autónomas, como
uma reflexão em que há lugar para a emo- autores responsáveis da nossa história e da
ção. São muitos os acontecimentos históri- nossa vida.
cos transcendentais provocados pela luta
pela justiça que são explicados unicamente Os níveis de responsabilidade exigidos por
pela forte adesão emocional que ela pode estas decisões são únicos, e este aumento
suscitar. No entanto, a novidade é a articu- dos níveis de responsabilidade exigidos às
lação característica exigida hoje pela adesão decisões individuais e sociais é produzido ao
emocional e ética à justiça, com o conheci- mesmo tempo que diminui a possibilidade
mento e a informação que ela obriga para o de promover uma moral absoluta, baseada
seu desenvolvimento. em obrigações perante exigências, quer
seja do tipo religioso ou secular. Vivemos,
Neste sentido, pode ser útil expor o exem- como referiu Gilles Lipovetsky, um período
plo da reflexividade que obriga promover o de moral «emocional», uma moral sem
respeito à diversidade. Hoje, cada indivíduo obrigações e sanções, uma moral que não
tem o direito de ser reconhecido na sua pró- causa dor nem é imperativa, adaptada aos
pria identidade. Mas, este apego ao próprio, novos valores da autonomia individual12.
à sua comunidade de origem, não pode es-
tar associado à concepção de acreditar que Perante estes desafios, expõe-se a referên-
essa maneira de pensar é a única favorável e cia à formação duma inteligência responsá-
legítima. Perante esta visão limitada, é pre- vel, que ultrapasse a ideia duma moral sem
ciso promover o «pensamento alargado», base científica e de um desenvolvimento
que permite distanciar-se de si próprio para científico sem controlo moral. A primeira
colocar-se no lugar do outro, não apenas conduziu-nos à impotência enquanto que
para conhecê-lo ou compreendê-lo melhor, a segunda pode levar-nos ao desastre. A
mas também para nos conhecermos a nós questão nesta definição seria saber o pa-
próprios mais profundamente10. pel da educação no processo de formação
desse tipo de inteligência e das condições
A verdade é que aderir à ideia de sociedade sociais que possam beneficiar o seu desen-
justa é hoje muito mais exigente em termos volvimento.
cognitivos e emocionais do que no passa-
do. Neste sentido, é importante retomar a
abordagem de Habermas11, que refere que 5. Sociedade justa e escola justa
actualmente os cidadãos são confrontados
com questões cujo peso moral ultrapassa Neste contexto, a questão principal para a
amplamente as questões políticas tradicio- política educativa é - o que é uma escola
nais. Segundo Habermas, estamos perante a justa? Sobre isto, F. Dubet13 fornece-nos al-
gumas reflexões e hipóteses muito esclare-
10
Sobre esta distinção entre o pensamento limitado e o
pensamento alargado, consulte Luc Ferry. Aprender a 12
Gilles Lipovetsky. Le crépuscule du devoir. L´éthique
viver: Tratado de filosofia para uso das jovens gerações. indolore dês nouveaux temps démocratiques. Paris,
2006. Gallimard, 1992.
11
J. Habermas. L´avenir de la nature humaine. Vers un 13
Françoes Dubet, L´école dês chances. Qu´est-ce
eugénisme liberal?. París, Gallimard. 2002. qu´une école juste? Paris, Seuil, 2004.
232 Educação: o presente é o futuro

cedoras para fomentar o debate e avançar a forma como responde o sistema educati-
em estratégias de acção. Em primeiro lugar, vo à sorte dos mais frágeis. Neste sentido,
Dubet esclarece que as suas reflexões não a educação obrigatória deveria guiar-se por
estão dirigidas a definir uma escola justa princípios de avaliação onde não haveria lu-
mas «à menos injusta possível», o que mos- gar para testes de selecção por mérito, mas
tra a dificuldade e complexidade do pro- sim um princípio de assegurar o acesso a um
blema. Normalmente, a justiça escolar está bem comum. Na educação obrigatória não
associada à igualdade de oportunidades. pode haver ganhadores ou perdedores, mas
Dubet cria polémica com esta visão da justi- sim um espaço comum de aprendizagens
ça, de validade duvidosa, em particular, nos ao que todos possam aceder. Finalmente,
níveis obrigatórios e universais da educação. Dubet defende a necessidade de garantir a
Segundo a sua abordagem, a igualdade de igualdade individual das oportunidades. Isto
oportunidades pode ser uma grande cruel- obriga à reflexão sobre a formação dos indi-
dade com os perdedores duma competição víduos, sobre o próprio modelo educativo e
escolar responsável por diferenciar os indi- o lugar que dá este modelo aos indivíduos,
víduos conforme o seu mérito. Uma esco- aos seus projectos, à sua vida social e sua
la justa não se pode limitar a seleccionar singularidade, além dos seus desempenhos
os que têm mais mérito, deve igualmente cognitivos.
preocupar-se com o destino dos perdedores.
A igualdade de oportunidades em estado Esta última reflexão de Dubet, destaca que
quimicamente puro não preserva necessa- uma escola justa não se esgota nos proces-
riamente os perdedores da humilhação do sos institucionais de selecção, avaliação,
fracasso e do sentimento de mediocridade. financiamento e trajectórias de formação.
A meritocracia pode ser perfeitamente in- Uma escola justa não pode ser neutral com
tolerável quando se associa o orgulho dos os conteúdos culturais que deve transmitir.
ganhadores ao desprezo dos perdedores. A Em suma, uma escola justa deve ser capaz
exclusão e a violência duma grande parte de oferecer a todos uma educação de boa
dos alunos demonstram actualmente que qualidade em que a adesão à justiça seja
este cenário não é ficção. um valor central. Esta abordagem tem con-
sequências directas sobre o desempenho
O modelo de igualdade de oportunidades dos educadores. Neste sentido, é possível
e de meritocracia nunca esteve totalmen- presumir que a adesão à justiça deveria ser
te em vigor. No caso francês, as diferenças um requisito para o exercício da profissão
de resultados escolares entre classes sociais docente. Da mesma forma que os médicos
continuam tão fortes como em períodos em estão forçados em muitos sítios ao juramen-
que o acesso não era universal ou era so- to de Hipócrates de respeito à vida, seria
cialmente desigual. Este fenómeno cria um preciso tal vez introduzir na cultura profis-
estado de desilusão, que pode provocar ten- sional dos docentes um compromisso muito
tações reaccionárias de voltar atrás em es- maior com os resultados de aprendizagem
tratégias democráticas. Dubet propõe, con- dos seus alunos e com os valores de justiça
tra estas tentações, três linhas principais de social, solidariedade e coesão14.
acção. A primeira enumera as políticas de
distribuição mais equitativa da oferta esco- 14
A ideia de expandir o juramento de Hipócrates a ou-
lar, ao dar mais aos mais desfavorecidos, e tros actores sociais, como por exemplo, os empresários,
aumentar a informação sobre a oferta peda- poderá ser vista em Otfried Höffe. Ciudadano econó-
gógica, e flexibilizar a circulação dentro do mico, ciudadano del Estado, ciudadano del mundo. Éti-
ca política en la era de la globalización. Buenos Aires,
sistema educativo. A segunda linha expõe Katz, 2007.
Educação e sociedade justa 233

6. Para concluir educativas especiais. Será que esta é a res-


posta para as exigências de formação do ci-
A criação duma sociedade justa coloca os dadão reflexivo que procura o século XXI?
cidadãos perante decisões duma grande en- Estas questões envolvem igualmente uma in-
vergadura: a inclusão ou não de todos, a ma- cógnita sobre a formação das elites. Enquan-
nipulação ou não do nosso capital genético, to que numa sociedade democrática a dis-
a protecção do meio ambiente e a natureza, tinção entre os membros das elites dirigentes
entre outros. Os níveis de reflexividade exi- e o resto da cidadania é uma distinção di-
gidos por estas decisões são também muito nâmica, a responsabilidade pelas decisões
profundos e obrigam não apenas a um gran- é muito maior naqueles que dirigem áreas
de desenvolvimento cognitivo mas também mais sensíveis do ponto de vista das conse-
ético e moral. Quantos destes níveis de refle- quências das suas decisões: os cientistas, os
xividade podem ser formados mediante ac- líderes políticos, os líderes empresários. Por
ções educativas intencionais e sistemáticas? último, estas decisões já não se podem li-
Quais seriam as formas institucionais mais mitar espacialmente ao âmbito do território
adequadas para esta função? Quem serão os local ou nacional. A responsabilidade assu-
educadores destes processos de formação? A mirá de igual forma uma dimensão interna-
resposta à procura de formação do cidadão cional e ao nível do género humano. Como
para o Estado-Nação, foi a escola universal toda fase crucial da história, abre sempre a
e obrigatória a cargo de professores forma- opção da incerteza ou a esperança.
dos profissionalmente mediante instituições
Governança e educação

Joan Subirats

Joan Subirats é doutorado em Ciências da Economia, professor


catedrático de Ciência Política e director do Instituto de Gover-
no e Políticas Públicas na Universidade Autónoma de Barcelona.
Foi professor convidado nas universidades de Roma-La Sapienza,
Berkeley-California e Georgetown.

É editor da Revista Española de Ciencia Política e faz parte do


conselho editorial de diversas revistas e centros de investigação.

Especialista em temas da governança, administração pública e na


análise de políticas públicas e da exclusão social, tem-se dedica-
do, também, ao estudo dos problemas da inovação democrática e
da sociedade civil.

É colaborador habitual do jornal El País e noutros órgãos de comu-


nicação espanhóis.
Governança e educação

Governance ce1 como uma nova forma de regulação do


Wikipedia conflito, caracterizado pela interacção e a
cooperação de vários agentes estruturados
The term governance deals with the proces- em rede para o desenvolvimento de projec-
ses and systems by which an organization or tos colectivos.
society operates. Frequently a government
is established to administer these processes Não é surpreendente que o tema da gover-
and systems. The Word derives from Latin nança seja tratado num contexto de debate
origins that suggest the notion of «steering». sobre o futuro da educação. Hoje, mais do
This sense of «steering» a society can be que nunca, falar do futuro da educação é
contrasted with the traditional «top-down» falar do futuro das sociedades em que vive-
approach of governments «driving» socie- mos, e de como enfrentar os desafios e con-
ty or the distinction between «power to» in flitos colectivos. Poderíamos até manifestar a
contrast to governments «power over». possibilidade de que quanto maior for o de-
senvolvimento educativo, mais insuficientes
Os anos 70 marcaram o começo duma tran- serão os parâmetros tradicionais de governo
sição, ainda não resolvida, para paradigmas baseados em elementos como hierarquia e
alternativos de regulação do conflito social, especialização, e será necessário procurar
que respondem à crise das formas tradicio- fórmulas de acomodação social que pro-
nais de governo. Neste sentido, a ideologia duzam capacidades colectivas de governo.
neoliberal vai começar a criar um discurso E com certeza, apesar da ambiguidade do
alternativo que, à custa das pressões do ca- termo governança e do seu uso e abuso por
pitalismo financeiro nos anos 70 (crise fiscal, parte de muitos agentes cuja prática é bem
«greve de capitais»,…), faz pressão aos go- mais hierárquica, o importante é precisa-
vernos para que reduzam e redimensionem mente esse vínculo que origina com a ideia
a sua capacidade de regulação e taxação de governo colectivo numa sociedade edu-
sobre os fluxos de capital. Neste contexto cada e coesa.
questiona-se a capacidade real que têm os
governos para liderar e controlar a mudança
social (crise de governabilidade), propondo 1. Governança
assim a volta ao mercado como a única for-
ma plausível, eficaz e efectiva para regular Pode parecer estranho que numa altura em
as necessidades sociais. que a democracia representativa se tem vin-
do a expandir e consolidar como sistema de
A crise de governabilidade a que fazemos regulação política por todo o mundo, exista
referência, abrange uma dimensão dupla,
que afecta tanto os princípios da legitimida- 1
Na língua inglesa, o conceito de Governance (Gover-
de democrática dos Estados, como a sua ca- nança) adquiriu significado por oposição ao Govern-
pacidade para dar respostas produtivas e efi- ment (Governo), entendido neste caso como governo
tradicional. Em diferentes línguas traduziu-se o termo
cazes às novas exigências e desafios sociais. Governance, mas noutros casos utiliza-se como sinóni-
Perante esta realidade, fala-se de Governan- mos «governo em rede» ou «governo relacional».
238 Educação: o presente é o futuro

agora mais percepção e consciência do seus Como é manifestado na imagem 1, o gover-


limites e suas deficiências. É precisamente no democrático tradicional encontra-se hoje
à volta destes sintomas preocupantes de es- com dificuldades crescentes para responder
gotamento, que surgem novas perspectivas de maneira eficaz e eficiente perante um
de governo e de participação social. Nos úl- ambiente cada vez mais complexo, dinâmi-
timos anos, as democracias ocidentais têm co e incerto, e a legitimidade democrática
vindo a experimentar um aumento contínuo das instituições públicas deteriora-se peran-
da abstenção eleitoral e uma diminuição te uma cidadania com mais capacidade crí-
significativa nas taxas de filiação nos parti- tica, e com novos valores, que não se satis-
dos políticos e grupos de interesse. O desin- fazem com a mera prestação tecnocrática de
teresse, o cepticismo e o distanciamento dos serviços públicos.
cidadãos em relação à política tradicional,
baseada na participação através dos parti- Um ponto comum na literatura que existe
dos, as grandes organizações empresariais e sobre governança é destacar a complexida-
as eleições, indicam uma certa estagnação de e o alto grau de ambiguidade do próprio
do modelo democrático que predomina. A conceito. Nas palavras de R.A.W. Rhodes,
deriva delegatória das nossas democracias o conceito da governança define «um novo
começa a questionar-se num novo contexto processo de governo, uma condição dife-
cultural marcado pela influência de novos rente de regulação social; um novo método
valores pós-materialistas, ou pela urgência mediante o qual a sociedade é governada».
duma sociedade mais educada e reflexiva, Não obstante, uma vez acordada esta defi-
na que os indivíduos estão cada vez menos nição básica, a confusão conceitual, a am-
dispostos a desempenhar funções passivas e biguidade e a controvérsia teórica começam
reivindicam um papel mais activo e essen- a reinar na literatura existente. A governan-
cial nos processos políticos. ça adquiriu diferentes significados: como
Nova Gestão Pública, ou novo sistema de
interdependência internacional, ou um sis-
tema sócio-cibernético de governo, ou redes
de política. Também, alguns autores, como
Hirsch, identificam o governo em rede com
a inovação democrática: «todas aquelas no-
vas práticas de coordenação através de re-
des, partnerships e fóruns deliberativos que
nascem das ruínas da representação centra-
lizada, hierárquica e corporativa dos anos
70».

A fim de pôr alguma ordem no âmbito desta


diferença de critério apresentamos três pro-
posições, directamente inter-relacionadas
Imagem 1: Crise do governo democrático
tradicional (elaboração própria) entre si, que entendemos formam o núcleo
conceitual do novo paradigma:

i. A governança envolve o reconhecimen-


to, a aceitação e integração da comple-
xidade como um elemento intrínseco ao
processo político.
Governança e educação 239

Esta complexidade é motivada pela diver- nizativo do sector público que coloca em
sidade implícita na existência de vários inter-relação diversas áreas temáticas, de-
agentes, que juntam ao processo político partamentos e organizações públicas no
uma multiplicidade de valores, objectivos contexto de projectos partilhados.
e preferências. E em segundo lugar, pela in-
certeza que suscita a mudança contínua, a c) a participação social perante a concep-
erosão das certezas cognitivas e a instabili- ção tradicional que colocava à sociedade
dade do conhecimento. Governar, não pode como o objecto da acção de governo e
­continuar a ser a função duns poucos peritos aos poderes públicos como o sujeito, a
que implementam conhecimentos contrasta- Governança destaca o carácter confuso e
dos, mas deve ser concebida como um pro- ambíguo da separação entre a esfera pú-
cesso de aprendizagem social em que vários blica e a privada e, ao mesmo tempo, re-
agentes transmitam os seus conhecimentos, posiciona as responsabilidades colectivas
as suas próprias percepções da realidade e num espaço partilhado entre estas duas
tentem chegar a definições partilhadas dos esferas.
problemas. Isto é verdadeiro tanto numa
perspectiva geral, como em políticas espe- Igualmente neste ponto, a educação forne-
cíficas como a educativa, sujeita a pressões ce um bom cenário para exemplificar o que
muito significativas nos últimos tempos. temos argumentado. Uma política educativa
sujeita a intervenções desde vários sectores
ii. A governança envolve um sistema de de governo, uma política educativa que re-
governo mediante a participação de dife- quer abordagens transversais para enfrentar
rentes agentes no âmbito de redes plurais. os novos desafios. Uma política educativa
cujo desenvolvimento universalista e expan-
Neste cenário, o conhecimento está disper- são para os 0 anos e para além dos 25, le-
so entre a multiplicidade de agentes com as vou-a a combinar protagonismos de diferen-
suas próprias definições dos problemas. A te ordem, com agentes públicos, privados,
autoridade é um conceito difuso que ape- entidades e colectivos.
nas se pode desenvolver num âmbito de
negociação contínua. Os recursos para o iii. A governança implica uma nova posi-
desenvolvimento eficaz das políticas estão ção dos poderes públicos nos processos
distribuídos entre uma multiplicidade de in- de governo, a adopção de novas funções
divíduos. E, finalmente, as intervenções pú- e a utilização de novos instrumentos de
blicas causam uma serie de efeitos difíceis governo.
de prever. Mais especificamente, a diversi-
dade de agentes capazes de participar no O resultado da governança ou do governo
âmbito destas redes respondem a uma tripla em rede, não pode ser atribuído ao «exe-
dinâmica de fragmentação de responsabili- cutivo», sendo que é mais produto espon-
dades e capacidades de governo: tâneo e em certa medida imprevisto duma
interacção complexa entre vários agentes de
a) o governo multi-nível, definido como natureza muito diversa. Enquanto o paradig-
«um sistema em que os diferentes níveis ma tradicional determinava uma separação
institucionais partilham, em lugar de mo- clara entre a esfera pública e a privada, en-
nopolizar, decisões sobre grandes áreas tendia que os sujeitos únicos da acção do
de competência». governo eram os poderes públicos e conce-
bia a esfera privada como o objecto passivo
b) a transversalidade, como sistema orga- da acção de governo, a governança indica
240 Educação: o presente é o futuro

um cenário em que a fronteira entre as duas e quem deverá prestar contas perante os
esferas se desvanece, as responsabilidades cidadãos?
em matéria do colectivo são distribuídas en-
tre diversos agentes e o poder político está c) a presença e o poder que é conferido
absolutamente disperso entre uma grande neste cenário a agentes como organiza-
diversidade de sujeitos. ções lucrativas leva-nos a questionar que
tipo de interesses são defendidos no con-
Se trabalharmos com uma perspectiva edu- texto das redes, sob que critérios são to-
cativa que não se limite ao âmbito escolar, madas as decisões públicas, quem está re-
e entendermos que a educação e a vida presentado e como podemos garantir que
estão relacionadas, é evidente que a nossa o interesse geral é o critério que conduz à
concepção sobre a política educativa vai tomada de decisões públicas?
ampliar-se de forma radical e vai exigir uma
abordagem mais aberta, mais plural e com d) até que ponto as redes são inevitavel-
mais agentes institucionais ou presentes no mente espaços horizontais de intercâm-
seu desenvolvimento. É difícil imaginar a bio e negociação entre agentes iguais ou,
abordagem dos problemas escolares des- pelo contrário, são espaços reprodutores
de uma perspectiva tradicional de governo das desigualdades e das hierarquias que
baseada na hierarquia e na especialização, existem na realidade?
e muito mais se partimos dessa concepção
aberta e transversal da educação durante Todas estas questões têm uma dimensão
toda a vida. teórica básica mas também empírica. Em
suma, a governança ou governo em rede
não é um modelo simples e inequívoco que
2. Questões se reflicta de forma mimética em qualquer
situação. As novas dinâmicas de governo
Apesar de todo o referido e precisamente em rede adoptam formas muito diferentes,
pela ambiguidade do termo governança, segundo o contexto em que se desenvolvem,
poderíamos indicar várias questões rela- os agentes envolvidos, os valores, os interesses
cionadas com a capacidade de produzir e objectivos que guiem a conformação dos
políticas democráticas através deste novo novos padrões organizativos. O que não se
paradigma: pode negar é que o cenário deixa espaços
suficientes para avançar para uma governança
a) o governo em rede envolve uma rela- de proximidade, que abre novos cenários de
tivização da legitimidade das instituições radicalidade e consolidação democrática.
representativas como sujeitos responsá- E isto é especialmente significativo quando
veis da acção de governo. corroboramos que as novas lógicas de
governo relacional e de transversalidade nas
b) se os processos de governo são desen- políticas conduzem quase inevitavelmente
volvidos agora no âmbito de redes com- ao reforço dos governos locais e as dinâmicas
postas por variados e diferentes actores, territoriais como as únicas capazes de
onde estão os princípios da transparência, articular proximidade, integralidade de
a responsabilidade e a accountability de- resposta e envolvimento colectivo baseado
mocrática? Como se têm vindo a tomar em elementos de identidade com a
as decisões, agora quem é o responsável comunidade local.
Governança e educação 241

3. Educação e governança e os padrões de convivência e interacção


social.
Se nos referimos mais especificamente ao
âmbito educativo, é preciso reconhecer que Sabemos que na área de produção, os gran-
estamos em tempos de mudança. E a educa- des impactos da rápida mudança tecnológica
ção normalmente situa-se no próprio centro modificaram por completo as coordenadas
das tensões que implica todo o processo de do industrialismo. Termos como flexibili-
alteração social. São muitos os elementos zação, adaptabilidade ou mobilidade têm
que propiciam essa nova centralidade edu- substituído a especialização, estabilidade ou
cativa na agenda pública. Como sabemos, continuidade. O trabalho deixou de ser algo
estamos a viver alterações muito fortes nos ligado à trajectória de vida de cada qual, e
aspectos fundamentais que estabeleceram a também não funciona como indicador dos
sociedade industrial avançada do século XX. vínculos ou das relações sociais, o que ori-
E esta mudança inverte os diferentes mode- gina múltiplos impactos numa grande varie-
los de sociedade com que temos trabalhado dade de direcções. É claro que se abriram
e à função que a educação desempenhava novas possibilidades, o destino das pessoas
neles. Não é de surpreender que as tensões está menos escrito e definido do que antiga-
e os conflitos surjam com profusão nos nos- mente. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas
sos centros educativos, já que se reflectem com menos possibilidades à partida, com
nestes as inseguranças e os medos perante a piores condições para competir, sofrem mui-
nova realidade. Porém o debate trasladou-se to mais o «andar mais sozinhos pela vida»,
para os espaços públicos, e discute-se sobre e o poder contar com menos «protecções
civismo, convivência. E nesse contexto de essenciais» em que se apoiar. Os perdedores
comunidade, bairro ou cidade, os temas de históricos da interacção livre e competitivi-
educação surgem misturados com os temas dade capitalista, continuam a sê-lo na sua
de cidadania. Não é alheio a isto a presença grande maioria, são agora mais vulneráveis
significativa de grupos de pessoas recém- e reúnem mais riscos. Isto cria processos de
-chegadas, que trazem hábitos, modelos de exclusão, que se manifestam em novas re-
interacção, costumes sobre o uso de espaços alidades relacionadas com a esfera laboral:
públicos, formas e tempos de se divertir ou um novo tipo de desemprego juvenil, estru-
praticar a sua religião, que discordam com tural e adulto de longa duração; trabalhos de
aquilo que duma forma ou doutra é conside- baixa qualidade sem vertente de formação;
rado «o correcto», «o mainstream» assenta- e empregos de salários muito baixos e não
do ano atrás ano nas nossas sociedades. abrangidos pelo acordo colectivo.

Desta forma, volta a ter sentido questionar- O impacto não é menor nas estruturas so-
-se, qual educação para qual concepção de ciais. A antiga sociedade industrial tinha-nos
sociedade? Como podemos relacionar edu- habituado a compreender a divisão de clas-
cação e cidadania? Como «governamos» ses como notavelmente estável e previsível.
as políticas educativas? Tradicionalmente, Agora, temos uma conversão rápida da or-
considerava-se que os três grandes âmbitos dem classista e estratificada, a uma realidade
de socialização eram a família, a escola e social (desorganizada) na qual encontramos
o trabalho. Neste momento, os impactos da uma multiplicidade significativa dos eixos
nova situação são muito visíveis nas esferas de desigualdade. Tínhamos grandes agre-
produtiva, social e familiar, e não nos deve- gados e importantes continuidades, e hoje
ria surpreender que isto afecte em maior ou temos um mosaico cada vez mais fragmen-
menor medida a educação no seu conjunto tado de situações de pobreza, riqueza, fra-
242 Educação: o presente é o futuro

casso e sucesso. O panorama aparece mais do bem-estar: intervencionismo por redistri-


individualizado, com proliferação de riscos buição em troca de liberdade de mercado.
e questões que muitas vezes provoca que os Esse acordo, mais ou menos explícito, tem
que podem, procurem espaços territoriais vindo a acumular elementos de conflito. Por
ou institucionais nos que se encontram se- um lado, há menos consenso sobre as suas
guros com os «seus», fechando as portas aos bases normativas. Por outro lado, as políti-
«outros». cas aplicadas têm vindo a tornar-se pouco
funcionais, apenas capazes de incorporar as
Qual o tipo de sociedade que está a surgir? novas procuras, e as novas sensibilidades.
Em primeiro lugar, poderíamos destacar uma As políticas de bem-estar foram criadas a
transição clara para uma estrutura social partir de lógicas de resposta a procuras que
muito mais complexa e, como referimos, pareciam homogéneas e diferenciadas, e ge-
fragmentada. Com maiores níveis de diver- riram-se de maneira sólida e burocrática. En-
sificação étnica, com uma grande alteração quanto que hoje temos um cenário em que
da pirâmide de idades (com os aumentos as exigências, pelas razões indicadas ante-
subsequentes das taxas de dependência riormente, são cada vez mais heterogéneas,
demográfica), e com uma grande diversi- mas ao mesmo tempo plenas de multiplici-
dade de formas de convivência familiar. A dade em relação à forma de apresentação,
incorporação das mulheres no mercado de e apenas podem ser abordadas a partir de
trabalho aumenta sem parar, apesar das evi- lógicas políticas de nova cidadania e com
dentes discriminações que ainda existem. formas de gestão flexíveis e sem burocracias.
Mas, por muito positivas que resultem essas
mudanças para devolver às mulheres toda a É evidente que a fragmentação da socie-
sua dignidade pessoal, a verdade é que as dade, o impacto sobre a esfera laboral da
funções no lar apenas se têm modificado, economia pós-industrial e o défice de in-
já que as mulheres continuam a ter o maior clusão das políticas clássicas de bem-estar
peso das funções de cuidado e reprodução. não funcionam isoladamente umas das ou-
As tensões aumentam por causa da jornada tras. Estão inter-relacionadas e muitas vezes,
laboral dupla das mulheres, incrementam- reforçam-se mutuamente. De facto, as dinâ-
-se as separações e aumentam igualmente micas de exclusão social desenvolvem-se à
as famílias nas que a mulher é a única que mercê destas inter-relações. Por exemplo,
cuida dos filhos. E portanto, originam-se certos grupos imigrantes não só ocupam os
novas instabilidades sociais, novos veios de lugares mais marginais na divisão étnica do
exclusão, em que o género é uma variável trabalho, como têm obstáculos no acesso
determinante. Enquanto que, por outro lado, aos sistemas de protecção social, acumulam
os trabalhos imprescindíveis em matéria mais insucesso escolar, e estão mais expos-
social continuam sem obter uma valoração tos à discriminação no mercado imobiliário.
adequada, como aqueles relacionados com Os sectores de população dependente, de
o cuidado, o afecto, considerados elementos idade avançada, ficam excluídos muito fa-
próprios do «amor familiar» ou do trabalho cilmente duns serviços sociais com índices
informal, pouco ou mal remunerado. muito baixos de cobertura. As comunidades
que habitam bairros periféricos segregados
O que acontece com as políticas públicas? sofrem com maior intensidade o desempre-
Quais são os efeitos disto tudo nas políticas go de longa duração, a inserção no mercado
educativas? As políticas públicas implanta- de trabalho precário ou, também, mais in-
das em meados do século passado em toda a sucesso escolar. Em suma, é patente o ca-
Europa, concretizaram a filosofia do estado rácter multifactorial e multidimensional da
Governança e educação 243

exclusão e das erosões duma concepção da tências previas). E, por outro lado, a ideia
cidadania que está a ficar obsoleta por for- de que toda carência pessoal ou social que
mal e desfasada. chega a ter uma ligação ou outra com uma
Poderíamos dizer que, do ponto de vista actividade de formação real ou potencial é
social, na ausência dum sentido comum de «culpa» da educação, que acaba por tornar-
projecto partilhado e na insistência desde -se num grande contentor para meter tudo
posições neoconservadoras que o importan- o que não está a funcionar, principalmente
te é aproveitar as oportunidades que exis- quando os agentes de socialização que a
tem, e que a desigualdade não possui bases acompanhavam nessa labor, estão «missing»
sociais, senão que depende do esforço que ou mostram muitas vulnerabilidades.
cada um aplique, isto se transmita às famí-
lias como um «salve-se quem puder». Se falamos de educação e governança, te-
mos de defender um conceito de educação
Neste cenário, a educação surge como uma mais vinculado ao de serviço público. Ou
garantia de melhores oportunidades indivi- seja, tentar vincular uma melhor educação
duais que reforçam o potencial de segmen- (e não apenas escola) com o conjunto de
tação e parcial que a educação costuma a serviços e políticas que procuram a melho-
ter. Portanto, a política educativa aumenta a ria das condições de vida dos cidadãos e o
sua visibilidade e a pressão social a que es- reforço do seu papel activo na renovação
tão sujeitos os diferentes agentes educativos, democrática e participativa das políticas
quando se torna, como já temos referido, um tradicionais de bem-estar. E portanto, com
elemento central da capacidade individual e uma visão do trabalho educativo mais vin-
colectiva para enfrentar as rápidas dinâmi- culada ao trabalho em rede, à colaboração
cas das mudanças nas áreas de produção, entre profissionais de diferentes serviços, ao
social e familiar. Contudo, será que a escola envolvimento dos cidadãos numa educação
e os diferentes grupos profissionais vincula- «do berço à cova», um esforço colectivo
dos directamente com os itinerários de for- perante problemas de carácter integral que
mação poderão assumir a grande avalanche precisam igualmente de respostas integrais.
de procuras que lhes são dirigidas desde a
sociedade? Poderão fazê-lo sozinhos? Há al- Todos educamos, e fazêmo-lo mais com o
gum tempo que estas questões andam no ar nosso «ruído» (com a nossa atitude, com os
e se têm vindo a abordar de forma directa e nossos actos), do que com as nossas pala-
indirecta em muitas das reflexões e inquie- vras. Num volume dedicado à experiência
tações relacionadas com o nosso ambiente das «cidades educadoras», temos de de-
educativo. fender perspectivas que procurem o envol-
vimento de todos os cidadãos na «questão
A influência da educação estendeu-se mui- educativa», indo para além do que é a co-
to para além do normal, mas isso envolve, munidade educativa no sentido estrito, e
por um lado, caminhar em direcção àqui- portanto abordar os debates nucleares que
lo que se tem chamado a «sociedade do vinculam educação e sociedade, educação
conhecimento», na que todos os aspectos e cidadania. Neste contexto, deveríamos
fundamentais e as actividades sociais têm ser capazes de reflectir sobre o conceito de
componentes formativas e acabam por gerar participação dos cidadãos e, em particular,
conhecimento (com as consequências que sobre os elementos que devemos tomar em
tem de produzir a sensação de que qualquer consideração para uma reconstrução prática
aspecto vital pode ser objecto de aprendi- do ideal democrático, baseado no impulso
zagem formal e de superação de incompe- da participação e a educação.
244 Educação: o presente é o futuro

4. Participação, educação, cidade dade de divulgar este desejo de participação


mediante novos mecanismos que permitam
Na opinião de alguns autores (Bauman, Sen- que a democracia tradicional e represen-
nett, Castel…), este conjunto de mudanças tativa determine aquelas distâncias entre
referidas muito rapidamente, origina proces- cidadania e assuntos públicos. Trata-se de
sos de desvinculação e desfiliação que, a recuperar a política como res publica, ao
diferentes níveis, afectam uma grande parte co-responsabilizar o cidadão com as deci-
dos cidadãos e grupos das chamadas socie- sões tomadas no seu ambiente envolvente,
dades avançadas. E entram em crise os pró- sem limitar a sua participação na eleição
prios fundamentos da experiência de viver dos seus representantes políticos. Ao mesmo
em comunidade, entendida como um colec- tempo, começa-se a perceber que a partici-
tivo de pessoas «estreitamente entrelaçado» pação e o envolvimento dos receptores das
(Bauman) com base em biografias partilha- políticas no seu próprio traçado, execução
das e comprometidas durante uma longa e avaliação passa a tornar-se não apenas
história e uma expectativa ainda maior de numa opção, mas sim numa necessidade.
interacção frequente e significativa. Não ad-
mira que neste âmbito a comunidade seja re- A verdade é que nos últimos anos, desde a
presentada até como uma «ameaça», como segunda metade dos anos noventa, os estu-
um fenómeno que representa a perda de dos sobre as virtudes (e limitações) da par-
autenticidade, ou um perigo para a própria ticipação do cidadão proliferaram. Experi-
individualidade. Contudo, outros indivíduos ências, livros, artigos, cursos de formação,
sofrem esse isolamento, e experimentam ân- novas profissões… colocam este âmbito
sias de comunidade, aspirações diferentes e como um dos pontos de maior interesse no
díspares em função da sua trajectória bio- mundo das ciências sociais e a estratégia po-
gráfica e sua posição na estrutura social. lítica.

Se aprofundamos mais nas relações de edu- Em princípio parece haver consenso na con-
cação e participação neste âmbito de indi- textualização da reivindicação actual a favor
vidualização e comunidade, notamos que, da participação dos cidadãos no âmbito da
desde há tempo se considera que as estru- crise de alguns elementos daquela governa-
turas de governo nas democracias repre- bilidade que tem orientado a acção do go-
sentativas, para além dos respectivos actos verno tradicional (democracia representati-
eleitorais, carecem de mecanismos que lhes va), assim como no âmbito da urgência dum
permitam conhecer e ter presentes os inte- novo contexto em que se torna necessário
resses ou preferências dos cidadãos. Os sen- avançar para novas formas de gestão do con-
timentos de insatisfação, impotência ou frus- flito, mais horizontais e complexas. Dentro
tração dos cidadãos perante a passividade das dinâmicas de governança que temos
ou ineficácia dos seus governantes acabam, apresentado, manifesta-se a necessidade de
por um lado, no distanciamento dos cida- contar com o envolvimento dos cidadãos na
dãos com respeito às vias convencionais de hora de tomar decisões, gerir e dar resposta
participação política (eleições, partidos po- aos desafios colectivos propostos. Assim, fa-
líticos, grupos de pressão…) e, por outro, na lar de participação implica fazer referência
procura de novas formas de expressão que a qualquer tipo de actividade destinada a in-
se agrupam normalmente sob a denomina- fluenciar de forma mais ou menos directa a
ção genérica de «movimentos sociais». tomada de decisões políticas.

Perante esta situação é evidente a necessi- Contudo, além deste valor, a participação é
Governança e educação 245

igualmente central quando se fala da estru- instrumento que permite a incorporação do


turação de relações e da criação de identi- conjunto dos membros duma comunidade à
dades. Esta participação cria conexão e sen- condição de cidadãos, transforma-se numa
timento de domínio. Precisamente, um dos peça central.
problemas que mostram a evolução actual
do mercado e as formas contemporâneas Se aceitamos que na fase actual de desen-
de articulação social é que a autonomia volvimento das nossas comunidades locais,
individual pode transformar-se muitas ve- o funcionamento da democracia requer uma
zes em isolamento e individualização não dose mais elevada de participação popular,
solidária. De facto, existem muitas «vozes» deveríamos considerar qual é a função das
não ouvidas, muitas «vozes invisíveis» que experiências de desenvolvimento e educa-
é conveniente fazer emergir e considerar. ção comunitárias (definidas num sentido
Por conseguinte, é preciso ser capazes de amplo). Por outras palavras, se considerar-
criar novas formas de perceber a política e a mos o espaço público como um cenário de
convivência social, que permitam processos restabelecimento de vínculos entre pessoas,
de identidade colectiva através do diálogo, grupos, actividades e ambiente envolvente,
a formação cívica, a procura de equilíbrios através do conhecimento e reconhecimento,
entre interesses individuais, pertenças par- a consciência do significado das interacções
ticulares e reconhecimento de vínculos de e dos valores que permitem a vida em co-
reciprocidade mais amplos, o que requer a mum desde uma perspectiva de progresso
activação de valores da cidadania. A activa- e melhoria para todos, a reformulação par-
ção da participação dos cidadãos, nos seus ticipativa da democracia representativa, es-
diferentes aspectos, pode ser a chave para o pecialmente a nível local, deveria desempe-
progresso nesta linha. nhar uma função primordial. Portanto, neste
contexto, tais experiências de desenvolvi-
Isto tudo, leva-nos a reconsiderar a relação mento comunitário representam um papel
público-privado. É conveniente evitar cair fundamental.
na armadilha de confundir «público» com
o âmbito próprio dos «poderes públicos». Correndo o risco de simplificar, podemos
O desafio passa por estimular o crescimen- agrupar as diferentes concepções da parti-
to dos espaços públicos nas nossas comu- cipação dos cidadãos sob duas grandes epí-
nidades e do seu uso diário em matéria de grafes: «modelo Participação» e «modelo
convivência e reconhecimento, sem que
isto implique aumentar o papel dos gover-
nos. Deste ponto de vista, o objectivo seria Quadro 1. Diferentes concepções
conseguir uma maior co-responsabilização da Participação
colectiva no que respeita aos problemas que
gera a convivência social. «Reinventar» a Modelo Modelo
política envolve, saber criar novas formas Participação Participações
de acção colectiva e de gestão institucional Participação: falar e Participação: fazer e
que possam reunir e fazer valer a riqueza decidir (reunião – mo- transformar (quotidiano
educativa, cultural, humana e relacional mento) - prática)
da vida social, criando responsabilidades e Participação: deliberar e Participação: compro-
compromissos mais sólidos em relação aos consensualizar missos assumidos
problemas colectivos. E neste contexto, a
participação, como mecanismo de respon- Participação: instrumen- Participação: instrumen-
to consultivo to vinculativo
sabilização e envolvimento colectivo, como
246 Educação: o presente é o futuro

Modelo Modelo
a visualização, discussão e harmonização
Participação Participações de um conjunto (muitas vezes em conflito)
de interesses particulares. É por isso que os
Participação: opção Participação: necessi-
dade valores de proximidade e transparência de-
vem ser constituídos com princípios básicos
Participação: curto prazo Participação: médio e de cada processo participado.
(ad-hoc) longo prazo

Participação: momento Participação: processo No contexto europeu, nos últimos tempos,


as novas dinâmicas sociais abriram novas
Participação: pontual e Participação: no contexto
perspectivas em matéria de educação. Em
isolada («neutra») dum projecto ideológico
e político
termos gerais, o objecto de trabalho e refle-
xão passou de «ensino num sentido restri-
Participação: como um Participação: como fina- to» para a «educação em sentido amplo». É
meio lidade nela própria evidente que esta mudança de perspectiva
Participação: sacrifício Participação: oportunida- supõe algo mais do que uma simples modifi-
de social, de relaciona- cação nominal (por exemplo, na designação
mento, etc. de áreas institucionais ou governamentais,
chamadas agora «de educação» e anterior-
mente «de ensino»). Poderia fazer-se aqui
Fonte: Elaboração própria a partir de DIBA-IGOP
(2006): Els Projectes Educatius de Ciutat: Anàlisi de
referência à proliferação da oferta de for-
l`experiència acumulada i Nova proposta metodoló- mação contínua desenvolvida nos últimos
gica. Diputació de Barcelona, Col. Guies Metodològi- anos, ou ao grande aumento do número de
ques 7, p. 18 alunos inscritos em programas de mestrado,
pós-graduação e cursos de especialização.
Participações». O quadro explicativo 1 resu- Poderia falar-se igualmente da adaptação,
me estes contrastes. cada vez mais necessária, dos programas e
cursos que fazem parte da genericamente
Evidentemente o estímulo da participação denominada «educação de pessoas adul-
deve surgir a partir duma vinculação clara tas». Em suma, o processo educativo amplia-
com o território, desde uma abordagem de -se num sentido longitudinal: a formação é
proximidade aberta às necessidades e sen- cada vez mais necessária ao longo da vida.
tidos específicos do território. Ou seja, todo
processo de participação requer o cumpri- Contudo, é conveniente que signifique ao
mento das condições necessárias. Em pri- mesmo tempo a transcendência duma am-
meiro lugar, é preciso que o processo seja pliação diferente, duma nova visão que po-
estabelecido com base em critérios de signi- deríamos entender como produzida igual-
ficatividade: Os agentes envolvidos devem mente em sentido transversal. Todavia, em
compreender e partilhar o sentido da sua termos genéricos, acredita-se que a educa-
participação. Em segundo lugar, o processo ção é algo que vai mais além da escola, algo
não pode esquecer razões de utilidade: os mais do que aquilo que é produzido num
agentes envolvidos devem conhecer e dis- contexto de ensino-aprendizagem formal e
por de garantias daquilo que vai ser útil no regularizado, com objectivos pedagógicos e
seu envolvimento colectivo. Pura e simples- curriculares em sequência para a aquisição
mente, o exercício da transversalidade, da de títulos oficialmente reconhecidos. Em re-
participação, da co-responsabilização não é sumo, o âmbito actual situa-nos perante to-
apenas uma questão sentimental ou ideoló- das aquelas aprendizagens (conteúdos, habi-
gica, é também um instrumento prático para lidades, valores…) que permitem às pessoas
Governança e educação 247

dispor de instrumentos e competências para Quadro 2. Mudanças na concepção


da Educação
que compreendam e saibam desenvolver-se
no mundo em que vivem.
Concepção Tradicional: Nova Concepção:
Educação Educações
Em relação a esta transição - do ensino para a
educação -, a conveniência de incluir como Educação é escola «Educações», já que
objecto de debate educativo o conjunto de (espaço) tudo educa (espaços)
agentes que, duma forma ou outra geram Educação de crianças e Educação ao longo da
educação, surge como lugar comum nas jovens (tempo limitado) vida (tempo ilimitado)
agendas políticas e académicas. Se a edu-
Distância Proximidade
cação não é apenas ensino (definida aqui,
ensino escolar), é possível criar instrumen- Sectorialização Transversalidade
tos que permitam a visão e harmonização
da função que desempenha a totalidade dos Modelo top-down Participação
agentes educativos imagináveis, entre eles o Centralização Territorialização
próprio espaço público. E é neste contexto
em que a experiência das «Cidades Educa-
doras», surgida em 1990 em Barcelona, é Fonte: Elaboração própria a partir de DIBA/IGOP,
tão significativa. Como é expressado na sua (2006): Els Projectes Educatius de Ciutat: Anàlisi de
l`experiència acumulada i Nova proposta metodoló-
Carta: gica. Diputació de Barcelona, Col. Guies Metodològi-
ques 7, p.16.
A cidade será educadora quando reco-
nheça, exercite e desenvolva, além das
suas funções tradicionais - económica, Estas transformações chegam ao ponto de
social, política e de prestação de serviços pôr em questão a própria pertinência da
- também uma função educadora, ou seja categorização tradicional das diferentes for-
que assume uma intencionalidade e uma mas de educação - educação formal, não
responsabilidade com o objectivo da for- formal e informal. Por exemplo, na última
mação, a difusão e o desenvolvimento de actualização da Carta (Novembro de 2004)
todos os seus habitantes, a começar pelas observa-se a dimensão de dita reelaboração
crianças e os jovens. (Carta das Cidades conceitual:
Educadoras, 1990)
O objectivo constante da cidade será o
Com base no trabalho e na análise dos con- de aprender, intercambiar, partilhar e,
ceitos de proximidade e educação vincula- por consequência, enriquecer a vida dos
dos a um terceiro elemento chave, a partici- seus habitantes. A cidade educadora deve
pação (ver ponto anterior), surge duma nova exercer e desenvolver esta função parale-
abordagem que abrange nas suas coorde- lamente às suas funções tradicionais (eco-
nadas de espaço e tempo, o significado do nómica, social, política e de prestação de
educativo. A contribuição do debate sobre a serviços), tendo em vista a formação, pro-
Cidade Educadora é um vivo exemplo deste moção e o desenvolvimento de todos os
novo paradigma. seus habitantes. Deve ocupar-se priorita-
riamente com as crianças e jovens, mas
No Quadro 2 sintetizam-se as mudanças com vontade decidida de incorporar pes-
fundamentais na concepção de educação soas de todas as idades numa formação
que abrange este paradigma. ao longo da vida.
248 Educação: o presente é o futuro

A partir da nova Carta e das diferentes con- A ênfase recai no cidadão e seu processo
tribuições realizadas no âmbito académico de gestão e recepção educativa. Criamos a
e político ao longo dos últimos anos, torna- nossa educação ao exercer como cidadãos,
-se evidente em diversas direcções o en- participar nos compromissos colectivos e
volvimento da educação para o século XXI responsabilizar-nos com o que acontece fora
no contexto da cidade e o espaço público. do nosso âmbito privado. Esta é a mensagem
Poderíamos resumir a profundidade destes final dum texto em que tratamos de articular
abordagens ao gerir os critérios seguintes: e relacionar as reflexões sobre a mudança
espaço, tempo, contexto social e quotidiani- de época que atravessamos, com as novas
dade. Mostramos este exercício no seguinte dimensões da participação e da governança,
quadro explicativo: que tenta ver a função que a educação de-
sempenha em todo isto a partir de uma con-
Em suma, a cidade, o espaço público, não cepção fundamental e transversal dos seus
são apenas agentes e territórios educativos. conteúdos e impactos.

Quadro 3. Os novos âmbitos da Educação

Critério Concreção educativa


(Modelo Educações)

Espaço Cidade (urbs)

Tempo Educação contínua (toda


a vida)

Contexto social Cidade (civitas), relações


sociais, espaço público

Quotidianidade Educação como processo


contínuo e diário

Fonte: Elaboração própria.


A educação permanente:
uma opção política

Entrevista com Philippe Meirieu


por Joan Manuel del Pozo

Philippe Meirieu (Alès, França, 1949), após uma longa carreira


como professor do ensino básico e secundário, é hoje professor
universitário na área das Ciências da Educação. Meirieu foi res-
ponsável pedagógico de um colégio experimental, editor dos Ca-
dernos Pedagógicos, director do Instituto Nacional de Investiga-
ção em Pedagogia (INRP – França) e do Instituto Universitário de
Formação de Professores da Academia de Lyon.

Philippe Meirieu é o responsável pedagógico da cadeia educativa


CAP CANAL, sediada em Lyon. Dirige a colecção «Pedagogias» e
tem numerosa obra publicada (cerca de trinta títulos) no âmbito
das ciências da educação e da pedagogia, como: L’école, mode
d’emploi – des “méthodes actives” à la pédagogie différenciée (Pa-
ris, 1985); Apprendre... oui, mais comment (Paris, 1987); Le choix
d’éduquer – Éthique et pédagogie (1991); Frankenstein pédagogue
(1996); Faire l’École, faire la classe (2004); Lettre à un jeune pro-
fesseur (2005); Pedagogie, le devoir de resister (2007); Une autre
télévision est possible (2007).
A educação permanente: uma opção política

«Ninguém educa ninguém. Os homens continuar a aprender mas que já não o po-
educam-se entre si mediatizados pelo demos educar. Porque para ela, a educação
mundo». (Paulo Freire) consiste a definir o que outra pessoa deve
aprender, que é o caso específico da infân-
cia. A Hannan Arendt vai ainda mais longe,
Observação preliminar pois enfatiza que, se um Estado reivindica
ser Educador, é totalitário ou carrega um ris-
A educação contínua para a cidadania tem co de totalitarismo. Para Hannah Arendt, a
sido e ainda é, uma das questões fundamen- transição para a vida adulta ocorre quando,
tais para a Associação Internacional das Ci- precisamente, o sujeito decide o que apren-
dades Educadoras. Hoje, todos os tipos de der. É por essa razão que, quando ela diz
trabalho parecem exigir uma actualização que há uma incompatibilidade entre a edu-
contínua dos conhecimentos adquiridos. cação dos adultos e a democracia, aponta
Mas também é certo que o acesso, aparente- para um problema político que está longe
mente fácil e generalizado à fontes de infor- de ser insignificante. É a razão pela qual, na
mação, esconde, e por vezes impede o aces- Comissão da UNESCO em que trabalhei,
so ao conhecimento. Na realidade, devemos propus utilizar o conceito de aprendizagem
rever as questões de educação contínua no continuado ou o de aprendizagem ao longo
contexto de hoje e, em especial, para me- da vida. Isto permite-nos enfatizar que em
lhor identificar o papel que poderiam ter as nenhuma circunstância temos a perspectiva
Cidades Educadoras nesta área. de decidir o que os adultos devem aprender.
Somos, em vez disso, impulsionados pela
Para reflectir sobre esta questão, pedimos a crença de que eles como adultos se envol-
colaboração de Philippe Meirieu e de Joan vem na escolha das suas aprendizagens e da
Manuel Del Pozo. sua formação… e este envolvimento é, ao
mesmo tempo, o reconhecimento e promo-
(Pilar Figueras, Secretário-Geral da AICE) ção do seu estatuto de cidadão.

Philippe Meirieu: Joan Manuel Del Pozo:


Antes de mais, parece-me que temos de evi- É certo que, seja qual for o termo associado
denciar a ambiguidade semântica em torno à responsabilidade do poder público sobre o
da expressão «educação contínua». Pode que cada um deveria aprender, está fora de
abranger, na verdade, diferentes realida- questão tomar a direcção de uma educação-
des, quer sejam ou não ligadas à formação -formação contínua do tipo autoritário. No
profissional, e não deve ser de maneira ne- entanto, nas nossas línguas, o castelhano
nhuma reduzida a esta última… Além disso, e o catalão, a palavra educação não é ne-
eu questiono-me sobre a oportunidade de, cessariamente responsável por conotações
no debate ideológico actual, utilizar a pa- autoritárias. A palavra formação é aceitá-
lavra educação no caso de adultos. Filóso- vel porque é compatível com o respeito da
fos como Hannah Arendt, consideram que autonomia do indivíduo. Por outro lado, a
o que caracteriza o adulto é que este pode palavra aprendizagem tem um carácter ex-
252 Educação: o presente é o futuro

tremamente instrumentista e, por isso, está Lefort, é um regime em que o locus do poder
directamente associada a formação profis- está vazio. É um espaço que ninguém está
sional. habilitado a ocupar: o colectivo em debate
exerce o poder e ninguém pode pretender
P.M. encarná-lo Mas não é certo que a democra-
Na análise da Hannah Arendt, que é hoje cia esteja definitivamente instalada. Um dos
retomada pela maioria dos teóricos da problemas do século XXI é que as teocra-
democracia, define-se um regime totalitário cias, no sentido geopolítico do termo, são
como um regime que confunde os papéis. terrivelmente poderosas no planeta. E, nos
A saber um regime que toma as crianças Estados que se consideram democráticos, a
por adultos e adultos por crianças. Para a nostalgia teocrática é ainda muito poderosa.
Hannah Arendt, deve-se respeitar a fronteira É a tentação natural das pessoas que devem
necessária entre o momento em que a decidir o seu futuro mas que acabam por
criança, não sendo capaz de escolher por achar mais confortável que alguém decida
si só, deve ser educada pelos que devem por elas. O locus do poder, que deve per-
decidir pelo «seu bem» e o momento em manece