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Jacques Lacan

A identificação
Seminário 1961-1962

Centro de Estudos Freudianos do Recife


facebook.com/lacanempdf

Jacques Lacan

A Identificação
Seminário
1961-1962

PUBLICAÇÃO NÃO COMERCIAL


EXCLUSIVA PARA OS MEMBROS
DO CENTRO DE ESTUDOS
FREUDIANOS DO RECIFE

CENTRO
DE ESTl'DOS
i:Rl:UDIANOS

HEClfE, OUTUBRO 2001


TÍTULO OOORICrINAL

L'IDENTIFICATION
Publicação interna da Association freudienne intemationale

TRADUTORES
Ivan Corrêa
Marcos Bagno

REVISORES
Dominique Fingermann
Francisco Settineri
Letícia P. Fonsêca*

• l{l·spons:1vcl (lL'la coordl'naçào tio projeto tlc tra<lução e editoração


Copyright© by Jacques Lacan

Lacan, Jacques
A ldetificação: seminário 1961 - 1962 / Jacques Lacan
Trad. Ivan Corrêa e Marcos Bagno - Recife: Centro de Estudos
Freudianos do Recife, 2003 .
442p.

Título original: L: identification

1. Psicanálise. I. Título. II. Subtítulo.

CDU 159.9

Jo:diloraçáo Gráfica: Carlos Marrocos


lmprcssáo: Edições Bagaço
1111a dus Arcos, 1 GO - Poço da Panela
< ·1,:1': :,� (J(il-180
'IH: (81) :1,J.11 01'.U/3441 0134
E 111all· l,av,al'o(all,agaco.corn.br
IVIVW. 1,.1gal'CJ.('(llll.hr

lo11p11·:,:,11 1111 111,isil '.\OO:\


AVISO AO LEITOR

Esta tradução é efeito de uma transferência de trabalho


interinstitucional, em lugares onde o ensino de Lacan se
inscreve, se processa e se desdobra. Permite-nos inscrever mais
um passo no oqjetivo principal: fornecer subsídios para o estudo,
a partir da leitura textual da obra de Jacques Lacan. Ora, como
a carta roubada, esse legado passa adiante. Dá-se, assim,
continuidade ao ensino e transmissão da psicanálise, tecendo­
se novos la<.;os e abrindo-se novas perspectivas de interlocução.
Reconhecendo a import[rncia de preservar o estilo e a
subjetividade do autor, os tradutores e revisores procuraram
manter-se fiéis à letra, evitando qualquer elucidação que
pudesse induzir o leitor. Assim, os mistérios foram suportados e
os enigmas passados adiante, deixando-se ao leitor o direito de
saboreá-los.
Realizada inicialmente a partir das notas estenografadas dos
seminários de Lacan e, a seguir, cotejada pelo texto estabelecido
pela Association Jreudienne internationale, esta tradução
destina-se ao uso exclusivo dos participantes do Centro de
Estudos Freudianos do Recife, não tendo qualquer finalidade
comercial.
Agradecendo a todos que colaboraram conosco tornando possível
esta edição, fica aqui um convite àqueles que queiram levar
adiante este projeto, através de sugestões ou correções, que serão
sempre bem-vindas, fazendo circular a palavra de Lacan.

L T.
Sumário
Lição 1, 15 de novembro de HHi1 ............................. 11
Lição II, 22 de novembro de 1961 ............................ 2-5
Lição Ili, 29 de novembro de 1961 .......................... 37
Lição IV, 6 de dezembro de 1961 ............................. 51
Lição V, 13 de dezembro de I 961 ............................. 67
Lição VI, 20 de dezembro de 1961 ........................... 79
Lição VII, 10 de janeiro de 1962 ..............................95
Lição V III, 17 de janeiro de 1962 ........................... 115
Lição IX, 24 de janeiro de 1962 ............................. 133
Lição X, 21 de fevereiro de 19G2 ............................ 147
Lição XI, 28 de fevereiro de 1962 .......................... 159
Lição XII, 7 de março de 19G2 ............................... 173
Lição XIII. 14 de março de I 862 ............................ 189
Lição XIV, 21 de março de 1962 ............................. 205
Liçtw XV, 28 de março de Jnfi2 .............................. 219
Lição XVI, 4 de abril de 19G2 ................................. 237
Liç:io XVII, 11 de abril de I Dfi2 .............................. 251
Lição XVIII, 2 de maio de 19G2 .............................. 277
Lição XIX, 9 de maio de 1962 ................................ 305
Lição XX, I 6 de maio de 1962 ................................ 319
Lição XXI, 23 de maio de 1 �lCi2 .............................. 331
Lição XXII, 30 de maio de 1962 ............................. 345
Lição XXIII, 6 de junho de 1962 ............................ :m1
Lição XXIV, I 3 de junho de 1962 ........................... :m5
Lição XXV, 20 de junho de 1962 ............................. 110:,
Lição XXVI, 27 de junho de 1%2 .............. . ... 1ll!l
LIÇAO I
1 5 de novembro de 1961

A Identificação, este é meu título e meu assunto deste ano. É um


bom tÍlulo, mas não é um assunto cômodo. Não penso que vocês tenham
a idéia de que seja uma operação ou um processo muito fácil de conceber.
Se é fácil constatá-lo, seria, entretanto, talvez preferível, para bem constatá­
lo, que fizéssemos um pequeno esforço para concebê-lo. Seguramente
temos encontrado efeitos suficientes disso para nos mantermos no sumário,
quero dizer, em coisas que são sensíveis, inclusive em nossa experiência
interna, para que vocês tenham um certo sentimento do que seja. Esse
esforço para conceber lhes parecerá juslificado, posteriormente - ao
menos este ano, quer dizer, um ano que não é o primeiro de nosso
ensino - sem dúvida alguma pelo lugar, pelos problemas aos quais esse
esforço nos conduzirá.
Vamos dar hoje um primeiríssimo passo nesse sentido. Peço desculpas,
isto vai levar-nos, talvez, a fazer esses esforços que chamamos, para
falar propriamente, de pensamento. Isto não nos ocorrerá freqüentemente,
a nós não mais que aos outros.
A ldenlificação, se a tomamos por título, por tema de nossa exposição,
convém que falemos dela de maneira diferente do que sob a forma,
podemos dizer, mítica, sob a qual a deixei no ano passado. Havia qualquer
coisa dessa ordem, eminentemente da ordem da identificação, que estava
implicada, vocês se lembram, nesse ponto onde deixei minha exposlç,1o
no ano passado, a saber, no nível em que, se posso dizer, o lençol ú111ldo
com a qual vocês representam os efeilos narcísicos que cercam t'HNII
rocha, o que emergia em meu esquema 1, essa rocha auto-erótica 1·11111
A Identificaçâo

emergência o falo simboliza, ilha, em suma batida pela espuma de Afrodite,


falsa ilha, pois, aliás, da mesma forma como aquela onde figura o Proteu
de Claudel, é uma ilha sem amarra, uma ilha que vai à deriva. Vocês
sabem o que é o Proteu de Claudel: é a tentativa de completar o Orestes
através da farsa bufona que na tragédia grega a completa obrigatoriamente,
e da qual só nos restam, cm toda a literatura, dois destroços de Sófocles
e um Hércules de Eurípedes, se minha memória está boa. Não é sem
intenção que evoco esta referência a propósito da forma como no ano
passado meu discurso sobre a transferência terminava com essa imagem
da Identificação. Apesar de meus belos esforços, eu não poderia marcar
muito bem 2 a barreira onde a transferência encontra seu limite e seu
pivô. Sem nenhuma dúvida, não estava ali a beleza da qual lhes ensinei,
que é o limite cio trágico, que é o ponto em que a Coisa inapreensível
nos verte sua eutanásia. Não embelezo nada, apesar do que se imagina
ao escutar, às vezes, alguns rumores sobre o que ensino, cu não facilito
muito o jogo para vocês." Eles sabem disso, aqueles que outrora escutaram
meu scmin;írio sobre a Ética, aquele no qual abordei exatamente a
função dessa barreira da beleza sob a forma da agonia que exige ele nós
a Coisa para que nós a alcancemos. 4
Eis, então, onde terminava A Transferência no ano passado. In diquei
a todos aqueles que assistiram as jornadas provinciais de Outubro, pontuei,
sem poder lhes dizer mais, que havia, ali, uma referência escondida
num cômico, que é o ponto além do qual cu não podia levar mais longe
o que eu visava em uma certa experiência, indicação, se posso dizer, a
ser reencontrada no senti do escondido do que se po deriam chamar os
criptogramas desse seminário, e que, afinal, cu não perco a esperança
de que um dia um comentário o explicite e o coloque cm evidência, já
que ocorreu alé de obter esse testemunho que, neste lugar, é uma boa
esperança. 1� que o se minário do penúltimo ano, aquele sobre a Ética,
foi cfc ' tiva1nentc reto mado - e no dizer daqueles que pudera m ler o
Lral>allw, com pleno sucesso - por alguém que Leve o trabalho ele relê­
lo para resumir seus elementos, principalmente o Sr. Safouan, e cu
1·spno que, talvez, essas coisas possam ser postas bastante rapidamente
ao aka11cc de vocês, para que aí se possa encadear o que vou lrazcr­
llll's 1·s11· ano.

-12-
Liçiio de 15 de 1w11embro de 1961

Saltando um ano sobre o segundo depois desse, isso pode lhes parecer
colocar uma questão, ainda que lamentável como um atraso, náo é,
contu do, inteiramente justificado, e vocês verão que, se retomarem a
seqüência de meus seminários desde o ano de 195 3, o primeiro sobre
Os Escritos Técnicos, o seguinte sobre O Eu, a Técnica e a Teoria freudianas
e psicanalíticas, o terceiro sobre As Estruturas freudianas da Psicose,
o quarto sobre A Relação de Objeto, o quinto sobre As Formações do
Inconsciente, o sexto sobre O desejo e sua interpretação, depois A Ética,
A T ransferência, A Identificação ao qual chegamos, são nove. Vocês
podem facilmente encontrar aí uma alternância, uma pulsação. Vocês
verão que de dois em dois domina, alternadamente, a temática do sujeito
e a do significante, o que, dado que é pelo significante, pela elaboração
da função do simbólico que começamos, faz também recair este ano
sobre o significante, posto que estamos ern número ímpar, já que o
im portante na i dentificação deve ser, propriamente, a relação do sujeito
com o significante.
Essa i dentificaçáo, pois, da qual pro pomos Lentar dar este ano ull!a
noção adequada, sem dúvida a análise a tomou para nós bastante trivial,
de modo que alguém que me é bem próximo e me escuta tão bem me
disse: "Eis este ano o que você escolhe, a identificação", isto, com uma
careta: "Explicação que serve para tu do!". Deixan do transparecer, ao
mesmo tempo, alguma decepção relativa, em suma, ao fato de que se
esperava de mim outra coisa. Que esta pessoa não se engane! De fato,
sua expectativa de me ver escapar ao Lcmà, se posso dizer, será decepcionada,
pois espero tratá-lo bem, e espero que também se dissolva a fadiga que
este tema lhe sugere por antecipação. Falarei exatamente da identificação
mesma. Para precisar logo o que entendo por isso, direi que, quando se
fala de i dentificação, o que se pensa primeiro é no outro a quem nos
identificamos, e que a porta me é facilmente aberta para enfatizar,
para insistir sobre essa diferença entre o outro e o Outro, entre o pequeno
outro e o !,'Tande Outro, que é um Lema sobre o qual posso dizer precisamente
que vocês estão desde já familiarizados. Não é, contudo, por este aspecto
que preten do começar. Vou, antes, enfatizar o que, na identificação, se
coloca imediatamente como idêntico, como fundado sobre a noção do
mesmo, e mesmo, do mesmo ao mesmo, com Ludo o que isto traga de
dificuldades.

-13-
1l lde11t(!1cação

\11 11 '1 ·� 1 1 : 1 1 1 d1·i:xa111 de saber, mesmo sem poder marcar muito rapidamente
1 p 1 : 1 1 �; d r lfr 1 1ldades isso nos oferece desde sempre ao pensamento , A é A;
st· i"· l iw igual assim, por que separá-lo dele mesmo , para t ão depressa
aí n·t·oloc:í -l o ?
Isto n{to é p u r o e simples jogo de espírito. Observem, p o r exemplo,
qu e na linha de um movimento de elabo raç ão conceituai que se chama
ele lôgico-positivismo, no qual algun s podem esforça r-se por al cançar
u ma certa 1 1 1eta que seria, po r exemplo, a d e rdo colocar problema lógico,
a menos que haja um sentido lo caliz ável, como tal, em alguma experiência
cru cial, estariam deci didos a rechaçar seja o que for do p roblema lógico
que não possa, de alguma maneira, oferecer essa garantia última, dizendo
qu e é um problema desprovido de sentido como tal.
Não o bstante, não é menos verdade que , se Russell po de dar em
seus Prin cípios matemá ticos um valo r à e quação , ao estabelecimento
da igual da de de A = A, po r seu lado Wit tgenstein opo r-se-á a ela, em
razáo prop riamente de impasses que lhe parecem resultar daí, em nome
dos princípios de partida, e essa recusa será mesmo fixada algebricamente,
sendo tal igual dade obriga da a um desvio de notação , para encont rar o
que pode se rvir de equ ivalente ao reconhecimento da i dentidade A é A.
Quanto a nós, vamos - deixando claro que não é, em absoluto, a via do
positi vismo 16gico a que nos parece, cm mat éria de lógica, ser de alguma
ma neira , justif"i cad a - nos inlcrroga r, qu ero dizer, no nível d e u m a
expe riência de fala, aquela n a qual confiamos at ravés d e seus e qu ívocos,
até de suas ambigüi dades , sobre o que po demos abordar sob o termo de
·'i dentil1 caç{10".
Vocês não deixam de saber que se observa , no conjunto das l ínguas ,
certas viragens históri cas bastante gerais , até universais , para que se
possa falar de sintaxes modernas opondo -as globalmente às sintaxes
não a rcai cas, mas simplesmente antigas , entendamos , das línguas do
que se chama de Antiguidade. Essas espécies de viragens gerais, eu
disse, s ão de sintaxe. N ão é o mesmo com o l éxi co , onde as coisas são
muito mais movediças ; de alguma maneira, cada língua t raz, com relação
à história geral da linguagem, vacilações p róprias a seu gênio e que as
tornam , uma ou outra, mais p ropí cia a colocar em evi dência a his tó ria
de um sentido.

- 14 -
Lição de 15 de novembro de 1 96 1

É assim que poderemos nos deter naquilo qu e é o ter11 10, 0 1 1 1 1 1 1�·;111


substa ntivada do termo, de i de nti dade - em i dentidade, idc 1 1t ilü:a<;a11,
há o te rmo latim idem -e isso será para mostrar-lhes que al guma cxpcri(:11cia
si gnificativa está suport a d a no te rmo francês vulgar, suporte da 1 1 H·s111a
fu nção sign il'ica nte, a do m esmo. Parece, com efeito, que seja o em,
sufixo de id em idem, o que encontramos ope rando a fu nção, cu direi ,
ele radical , na evoluçfto cio in do-europeu no nível de um certo 1 1 ú 11H·ro
de l ín guas itúlicas ; es te c m é aqui du plic ado , consoante antiga que se
.encontra pois como o resíduo, a relíqui a , o retorno a uma te mátic a
primi tiva , mas não sem te r recolhido de passagem a fase interme diária
da etimologia , positiv amente, do nascime nto desse mesmo, que é um
metipsum familiar latino, e mesmo um metips issimum do baixo latim
expressivo, portanto, leva a reconhecer em qual direção aqui , a experiência
nos sugere p rocurar o sentido de to da identidade, no coração do que se
designa por uma espécie de reduplicação de mim mesmo [moi-même [ ;
esse mim mesmo sendo já, se quise rem, esse metipsissimum, uma espécie
"do dia", de " no dia de hoje " [ d 'au jour d 'aujou rd 'hui ], de que não nos
apercebemos , e que está bem aí no mim mesmo. É, então, em um
metips issimum que se p recipitam, depois do eu [moi ] , o tu [toi ], o ele ,
o el a , o eles, o nós, o vós, e até o se [soi], que acontece ser, em francês,
u m si-mesmo [soi -mêmc]5. Também vemos aqui, em suma, em nossa
l íngua , u 1 1 1 a espécie de inclicaçfto de u 1 1 1 trabal ho, de u111a tendência
signi l1cativa especial , que vocês me permitirão qualificar de mih ilismo
[mi hilisme], na me dida em que essa experiência do eu [moi [ se refe re
a esse ato. Segura mente , a coisa não teria um inte resse senão incide ntal,
se não tivéssemos que encontrar outros t raços nos quais se revela esse
fato , esS'4 diferenç a nítid a e fácil de assinalar, se pensarmos que em
grego , o autos do si é aquele que serve pa ra designar também o mesmo,
assim como em alemão e em inglês , o selbs t ou o self, que virão a
fu ncionar para designar a i dentidade. Portanto, esta espécie de metá fora
permane nte na locução francesa, penso , não é por nada que nús a
destacamos aqui, e nos interrogamos.
Deix aremos entrever que talvez ela não deixe de ter rel ação com o
f ato de um nível bem outro, de que seja em francês , qu ero di zer, <1111
Descartes, que se tenha po dido pensar o ser como incrente ao st\jt·i lo ,
d e u m modo, e m suma, que diremos bastante cativante, pelo q 1 1 c , d< ·sde

- 15 -
A Identificação

Des de então , 11fto me sin to mal honrado qu e me in terroguem sobre


esse tema : "O nde está a v erda deira v erda de de seu discurso ?". E posso
me smo, a fin al, ac har que é jus tamen te enqua n to não me tomam por
um filúsofo, mas por um psicanalis ta, que me colocam es ta ques tão.
Pois u ma elas coisas mais no tá veis na litera tura filosófica é, a que pon to,
e 1 1 1 rc n l c',sofo" s, digo enquan to filosofan do, não se coloc a nunca, no final
da s c ern ias . a mesma qucstáo aos fil óso fos, exceto para a dmi tir com
uma fac il idade desconcertan te, que os maiores en tre eles não pensa ram
urna palavra do que eles nos comunicaram preto no branco, e se permitem
pensar, a p ro pósi to de Descar tes, por exemplo, que não tinha em Deus
senáo a fé mais incer ta, porqu e is to convém a tal ou qual d e s eus
come n tar is tas, a menos que seja o contrário, o que lhe convém. Há
uma coisa , cm todo caso, que nunca pa receu a ninguém abalar o crédito
dos hlúso f'os , é que se tenha podido falar, a pro pósilO de cada um deles,
e dos maiores , de uma dupla ver da de. Qu e, por tan to, para mim que,
en tran do na psicanálise, coloco, cm suma, os pés no prato 7 ao apresentar
es ta ques tão sobre a verdade, s into , de r epente, o tal pra to se aquecer sob
a plan ta de meus pés , a íinal, não é senão uma coisa da qual posso me
alegrar, pois, se vocês rc ílctircm , fui cu , sem dúvida , quem reabriu o gás .
Mas deixemos is lo agora, en tremos nas relações da iden tidade do
sujei to, e entre mos a í pela fó rmula ca rtes iana que vocês váo ver como
penso a bor d á-la hoje.
lt evidente que nfto é cm absoluto qucstáo de pretender superar Descar tes,
mas, sobre tudo, de extrair o máximo de ef eitos da u tilização dos impasses
c ujo fu ndo ele conota para nós. Se me seguem , por ta n to, cm uma c rítica,
de modo algu m come n tário de tcx lo, que fa çam o favor de se lembrar
o qu e eu pre tendo daí tirar p elo bem de meu próprio discurso.
" Penso, logo sou " pa rec e-me, sob essa forma, conc en trar os usos
comuns, a ponto de se tornar essa moeda usa da , s em figura, à qual
Mal la rrné faz alusão cm algum lugar. Se a retemos um instante e procuramos
polir-lhe a função d e s igno , se p rocuramos reanimar a função d e acordo
co m nosso uso, gos taria de assinalar que é essa fó rmula - que cu r ep i to,
q 1 1c sob sua forma conc en trada, só a encon tramos em Desca rtes em
algum po nto do Discurso do Método, não é absolu tamen te assim, sob
1·ssa forma densa, que ela es tá expr essa. Es te " Penso, logo sou" se choca

-- 1 8
Lição de 15 de 11ove111fmJ dl' ! % !

com esta oJ�jeção, e creio que ela nunca foi fei ta, é que c u penso 11;1 1 1 t';
um pen samen to. É claro, Descartes nos propõe estas fórmulas ao f'i1 1al
de um lon go processo de pen samen to, e certamente que o pensam ento
ele que se tra ta é um pensam en to de pen sado r. Direi até mais, essa
caracte rística, é um p en samento de pensador, não é exigível para que
falemos ele pensamento. Um pen samen to, em suma, n ão exige em absoluto
que s e pe nse 110 pc1 1 sa1 1 1c1 1 lo.
Para n cís, pa rticula nnen t e, o pen samen to começa no inconsc ien te.
Só podemos nos surpreender com a timi dez que nos !'az recorrer à fórmula
dos psicólogos quando procuramos dizer alguma coisa sobre o pensamento ,
a fórmula de dizer que é uma ação no estado de esboço, cm e stado
re duzi do, modelinho econ ôm i co ela ação. Vocês me dirão que isso s e
encon tra c m Freud, cm algum lugar, mas, cer tamen te, encontra-se tudo
em Freud ; na vol ta ele al gum pa rágrafo, ele pode ter feito uso dessa
definição psicol ógica do pen samento. Mas, en fim, é to talmente difícil
desca rtar que é em Freu d que encon tramos também que o pensamento
é um modo pe rfe i tamen te eficaz e, de alguma forma, suficiente em s i
mesmo, de sa tisfação masturbatória. Isto para dizer que, no que concerne
ao sen tido do pen samen to, temos, talvez , um palmo um pouco maio r
do que os out ros obrei ro s. En tre tanto, isso não impede que , in terrogan do
a f'ó rnrula c1 1 1 q u cs t üo, " penso, logo sou ", possamos dizer que , pelo uso
que se faz dela, ela s cí pode nos coloca r um prob lema ; poi s convém
interrogar esta fala, eu penso, po r mai s amplo que seja o campo que
tenha mos reservado ao pensamento, para ver sa tisfei tas as características
do pen sam ento, pa ra ver satisfeita s as ca rac te rísticas do que podemos
c ham a r de pensamento. Poderia se r que isso fosse uma fala totalment e
insullcien te para sustenlar o que quer que seja, que pudéssemos finalmc1 1 1 c
localiza r por essa p resença, e u sou .
É justamente o que p re ten d o. Para esclarecer o meu desenvolvimento,
in dicarei que eu penso, toma do simplesmen te sob esta forma abreviada,
não é mai s sustentável logica men te, mais suportável, do que o eu minto,
que já causou p roblema pa ra um certo n úmero de lógicos, este eu m i 11to,
que só se sustenta na vacilação lógica, vazia, sem dúvi da, mas suste11 1 ávcl,
que desdobra essa aparência de sentido, bastan te suficiente, al i:ís, para
encontrar seu lugar em lógica formal. Eu minto, se o digo, é verdade,
portanto, não minto, mas minto mesmo, con tudo, pois, dizendo 111 i 11 / u ,

- 19 -
A Identificação

afirmo o con trár io. É muito fácil desmon tar essa pre ten sa dificuldade
lógica e mostrar que a pre tensa d ificuldade onde repousa esse julgamento
apóia-se n isto : o julgamen to que ele compor ta não pod e apoiar -se cm
seu próprio en unciado, é um colapso. É sobre a ausência ela dist inção el e
dois planos, pelo fato ele que a ên fase incide sobre o próprio minlo, sem
que se o d istinga, que na sce essa pseudo-di fic uldade. Isso para d izer ­
lhes que, na falta desta distinção, não se trata de uma verdad eira proposição.
Esses pequenos paradoxos, dos quais os lógicos fazem, aliá s, muito
ca so, para levá -los imedia tamen te à sua medida j usta , podem passar por
simples diver timen tos. Eles têm, cont udo, seu in teresse; devem ser retidos
para apreen der, cm suma, a verdadeira posição el e toda lógica formal,
até inclusive esse fa moso posi tivismo lógico do qual cu falava h.í pouco.
Enten do por isto, que , c m nossa opin ião n ão se fez, j ustamen te, uso
sufic iente da famosa aporia d e Epimênides, que n ão é senão uma forma
mais desenvolvida do que acabo ele apresen tar -lhes a propósito de cu
minto, que "Todos os Creten ses são mentirosos, assi m fala Epin 1ên ides,
o Cretense", e voc ês vêem logo o pequeno to rn i quete qu e se e 1 1gc11clra.
Não se a usou o bastante para demon strar a vaidade da famosa proposiç;fo
el ita a f ir111a tiva univer sal A. Porque, d e fato, o bservamos a esse respeito,
está exata men te aí, nós veremos, a for ma mais in teressan te de resolver
a di ficulda d e. Poi s , observem bem o que se passa, se colocamos isso
que é possível, que foi coloca do na crítica da famosa afirma tiva universal
A, da qual algun s preten deram , não sem fun damen to, que sua substância
nunca tenha sido outra senão a de uma proposição univer sal negat iva :
"Não há Cre ten se que n ão seja capaz d e men tir ", de sde então, n ão há
ma is nenh um problema. Epimêni des pode d izê-lo, pela razão ele que
expresso assim, ele não diz, em absoluto, que haja alguém, mesmo Cretense,
que possa mentir sem parar, sobretudo quando nos aperc ebemos que
1 1 1 en tir tenaz mente implica uma memória fir me, que ter minaria por
or ien tar o disc ur so no sen tido equivalen te a uma confissão, ele maneira
q 1 1 e, mesmo se "Todos os C retense s são men tirosos" queira dizer que
1 1 iw l 1á um só Cretense que n ão queira mentir se m parar, a vcrc..laclc
l < 'l"lt1i 11ar :í mesmo por escapar -lh e na virada, e na mccli c..la mesma do
ri gor dessa von ta d e. O que é o sen tido mais plausível ela con fissão do
( ' 1r1t·11se Epimênicles, de que todos os Creten ses são mentirosos, o senti do
11ao pode ser scnáo esse: 1 ) ele se van glor ia disso; 2 ) el e quer, com

- 20 -
Lição de i5 de novembro de 1961

isso, desorientá-los , prevenindo -os ver ídicamente de seu método ; mas


isso não tem o'utra intenção, tem o mesmo resultado q ue esse outro
p rocedimento que consiste e m anunciar que não se é po lido, que se é
de uma franq ueza absol uta ; é o ti po que lhes sugere avalizar todos os
seus b lefes.
O que q ue ro dizer é q ue toda afi' rmati va uni versal, no sentido forma l
da cate goria, tem os mesmos fins oblíquos, e é m ui to bonito que esses
fins esto urem nos exem plos c lássicos. Que seja Aristóteles quem toma
o c ui da do de revelar que Sócrates é morta l, deve, contudo, nos ins pira r
algum interesse, o que quer dizer, oferecer apoio ao que podemos chamar
entre nós , de inter pretação, no senti do em que esse termo preten de ir
um pouco mais longe que a f unçfto que se encontra justamente no própr io
título de um dos livros d a Lóg i ca de Aristó Lcles. Pois, se é evidentemente
enquanto anim al humano q ue aquele a quem Athenas nomeia Sóc rales
está assegur ado da mor te, é j ustamente enquanto nomea do Sócrates
que ele esc apa disso, e isso não somente porque seu renome 8 dura ain d a
t a n to tempo quanto viver a fa bulos a operaç.-to d a tr ansl e' rênc ia o perada
por Platão, mas ainda m ais exat amente, porque é somente e nquanto
tendo co nseg uido se co nsli L u ir, a p a rL ir de sua identidade soc ial, csle
ser de a lopia q ue o caracteriza, q ue o chamado S ócra lcs, aq uele q ue se
nomeia assim em Aten as, e é porque e le não po di a se exi lar, p ôde se
sustentar no desejo de s ua pró pria morte até fazer dela o acling oul de
sua vida. Ele acrescentou, além disso, com entusiasmo e alegria " ter-se
liberado do famoso galo de Esc ulá pio, do q ue se ter ia trata do se tivesse
sido p reciso fazer a recomen dação de não lesar o vende dor de castanhas 'º
da esquina.
Há, pois, em Aristóteles, algo que podemos inter pretar como alguma
tentativa, j ustamente , de exorcizar uma transferênc ia que e le considerava
um obstác u lo para o desen vol vimento do saber. Era, por outro lado,
um erro de sua parte, pois o fracasso é patente. Seguramente, era preciso
ir um pouco mais longe q ue P latão na desnaturalização do desejo, para
q ue as coisas se conc l uíssem de outro modo. A ciência moderna nasce u
num hi per platonismo, e não no re torno aristotélico, em suma, sobre a
f unção do saber segundo o estatuto do concei to. Foi necessário, de
fato, algo q ue podemos chamar de segunda morte dos de uses, a saber,
sua saída espec tral na época cio Renascimen to, para que o verbo nos

-21 -
A Identificação

mostrasse s ua verda dei ra v erda de, a q uela q ue dissipa , não as ilusões ,


mas as trevas do sentido d e onde s urge a ciência moderna.
Portanto, dis semos, esta f rase "e u penso", tem o interesse d e nos
mostrar - é o mínimo que podemos ded uzir disso - a dimensão vol untária
do j ulgamento. Não temos n ecessi d a d e de dizer tanto ; as d uas linhas
q ue distin guimos como en unciação e enuncia do nos bastam pa ra q ue
possamos afirmar que é na medida em que essas d uas lin has se enovelam
e se conf undem, q ue nós podemos nos encontrar diante de tal pa radoxo
q ue lev a a esse impass e do eu minto, sobre o q ual os detive um instante.
E a pro va de q u e é d i sso q ue se trata é, a saber, q ue posso, ao mesmo
tc1 1 1 po, 1 1 1c1 1 tir e dizer co1 1 1 a mes 1 1 1 a voz q u e 1 1 1i1 1to ; se di stingo essas
voz es, é i nteiramente a dmissível. Se digo: "Ele diz q ue min to ", i sto
l'unciona, não ca usa objeção , não mais do q ue s e eu dissesse : "Ele mente",
mas posso até dizer: "Eu digo q ue minto". Há a q ui, contudo, a lgo q ue
d eve nos deter, é q ue se e u digo : "Eu s ei q ue minto", isto tem ai n da
algo de intei ramente convi ncente q ue deve nos deter como analistas,
pois como analistas, justamente, sabemos q ue o original , o vivo e o
apai xonante de nossa i nte rvenção é isso, q ue podermos dizer q ue somos
feitos pa ra dizer, para nos des locarmos na di reção exatamente oposta,
mas estri tame nte correlativa, q ue é dizer: "Mas não, você não sabe
q ue diz a ve rda de", o q ue vai ime diatamen te mais longe. Mais q ue
isso : "Tu não a dizes tão bem senão na m edida em q ue acreditas mentir,
e quando não queres mentir, é para melhor te resguardares dessa verdade ".
Essa verda de, pa rece que não se pode apreen dê-la senão por seus reílexos,
a verda d e, você s se lembram d e nossos termos, é 11 1 ha pelo fato de q ue,
por essência, el a não seri a s enão, como to d a filha, uma desgarra da.
Poi s hc1 1 1 , (, o mesmo par a o cn penso. Pa rece exa tamente q ue se h;í o
encadeamento tão l' úci l p ara a q ueles que o soletram ou retra n smitem
sua me nsagem, os pro f'essores , isto não pode ser senão por não se deter
d c1 1 1 asi ad a mc1 1te nisso. Se t emos p ara o 1•11 penso as mesmas exigênc ias
q ue pa ra o eu minto, ou isso q uer dizer: " p enso q ue penso " , o q ue não
é, e ntão, absolutamente falar de na da mais do q u e do penso de opi n i ão
ou de imaginação, o penso como vocês dizem, q uando dizem: " Penso
q u e ela me ama ", o q ue q uer dizer q ue os aborrecimen tos vão começa r.
S eguin do Desca rtes, mesmo no texto das Meditações, s u rp reen demo­
nos com o núme ro de incidências nas q uais esse penso não é nada

-· 22 -
Lição de 15 de novembro de 1961

mais do que.-essa dimensão propriamente imaginária soure a qual 1 1e1 1l n 11 11a


evidência dita ra dical pode sequer ser fun dada , de ter-se ; ou então i sto
quer dize r: " Sou um se r pensante ", o que então , é claro, desestabiliza,
anteci padamente, todo o processo po sto que vi sa ju stamente fazer sair
do cu penso um estatuto sem precon ceito, assim como sem presunção
na minha e xistência. Se começo a dizer: " Sou um ser", isto quer dizer:
" Sou um se r essencial ao se r, sem dúvida". Não há necessi dade de ir
adiante, pode -se guardar seu pensamento para seu uso pessoal.
Isto pontuado, nós reconhecemos encontrar isso, que é impo rtante,
reconhecemos encontrar esse nível, este terceiro termo que temo s evocado
a pro pc',si lo cio 111 i n l. o , a saber, que se possa di ze r : " Eu sei que minto",
no q ue a bsol u L a 1 1 1e n le merece q ue nos detenhamos. Co 111 efeito, é aí
que es uí o suporte de tu do o que u rna cert a f'enomeno logia desenvolveu
em re lação ao sujeito, e aqui trago uma fórmu la que é aquela sobre a
qual se remos lev ados a retomar nas próximas vezes, que é esta : aquilo
com que temos a ve r, e como isso nos é dado, uma vez que somos
psican alistas, é pa ra subverter radi calmen te, é pa ra torna r impossíve l
esse pre conceito mais radical, que, no en tanto, é o verda deiro supo rte
de todo o desenvolvimento da filoso fia, do qual se po de dizer que ele é
o limite além do qual nossa experiência se passou, o limite além do
qual começa a possibili dade do inconsciente. É que jamais houve, na
co rrente filosófica que se desenvolveu a partir das investigações cartesianas
ditas do cogilo, jamais houve senão um único sujeito que fixarei, para
termin ar, sob esta f'orma, o sujeito suposto saber.
É necessário que vo cês abasteçam esta fó rmula da repercussão especial
que, de qualquer maneira, traz consigo sua ironia, sua questão , e observem
que, re f'c rin clo-a :'í fenomenolo gia e parti cu larmente à fenomeno logia
hq.!;c lia 1 1a, a l 'u 11�·:i o desse sujeito s u posto sahcr toma seu valor ao se r
ap reciada enquanto função sincrônica que se desenvolve a esse propósito,
sua presença sem pre ali , desde o começo ela interrogação fenomenológica,
e1 11 u1 1 1 certo ponto, u1 11 certo nc', da es l ru l ur a nos pcr111i lir :í cl csprl'n cl cr­
nos do desenvolvimento dia crônico que se supõe levar-nos ao saber
absoluto. Este saber absolu to, ele mesmo, o ve remos, :) l uz clesLa q ue stão,
toma um valor singu larmente refutável, mas por hoje somente deten hamo­
nos para co locar essa moção de desconfianç a, por at ribuir este suposto
saber a quem quer que seja, nem para su por, subjicere, nenhum sujeito

- 23 -
A Identificação

ao saber. O saber é in te rsubje tivo, o que não quer dizer que seja o
saber de todos, nem que seja o saber do Ou tro, com A mai úsculo. E o
Ou tro, nó s afirmamos, é essencial mantê-lo a ssim, o Outro não é um
sujeito, é um lugar ao qual nos esforçamos, diz Aristóteles, por tran sferir
o sa ber do sujei to. N a turalmen te, por esses esforços, resta o que Hegel
desdobrou como a história do sujeito ; mas i sto não quer absolu tamente
dizer que o sujeito saiba um tico a mai s sobre o a ssunto em questão.
Ele não tem perturbação, se posso dize r, a não ser em funçüo de uma
suposição indevida , a saber, que o Outro saiba, que haja um saber absoluto,
mas o Outro sabe disso ainda menos que ele, pela simples razão . justamente,
de que ele não é um sujei to.
O Oucro é o Jeposic,írio dos rcprcsentarncs rcprescmacirns dessa suposiç,io
de saber, e é isso que chamamo s de inconscien te, na medida em que o
sujei to pe rdeu -se, ele mesmo, nessa suposição de saber. Ele provoca
isto sem sabê-lo. I sso, são os destroços que lhe vol tam do que sofreu sua
realidade nesta coisa, destroços mais ou menos irreconhecíveis. Ele os
vê vol ta r, pode dizer, ou não dizer: " É isso mesmo ", ou até: "não é isto
de jei to nenhum ", con tu do, é realmen te i sso.
A função do sujei to em Descarte s é, daqui que retoma remos nosso
di scurso na próxima vez, com as ressonância s que dele encontramos
na análi se. Tenta remo s, na p róxima vez, a s sinalar as re ferência s à
fenomenologia do neurótico obsessivo numa escansão significante
onde o sujeito se encontra imanente a toda articulação.

- 24 -
LIÇAO II
22 d e novembro de 1 961

Vocês p uderam constatar, não sem satisfação , que p ude in tro d uzi­
los, na última vez, a nosso p ropósito deste ano, po r uma reflex ão q ue ,
aparentemente, po deria passar po r m uito filosofan te, já que se refe ria
a uma reflexão filosófica, a de Descartes, sem acarretar da parte de
vocês, me parece, demasiadas reações negativas. Longe disso, parece
que confiaram em mim pela legitimidade de sua contin uação. Alegro ­
me com esse sen timento de con fiança que gosta ria de po der tra d uzi r
no que pelo menos se percebeu por onde eu queria cond uzi-los. Entretanto ,
para q ue vocês não tomem, no que hoje vo u continuar sob re o mesmo
tema, o sentimento de q ue me atraso, gostaria de colocar que esse é o
nosso f im, nessa maneira de abo rdar, de engajar-nos nesse caminho.
Digamo-lo logo por uma fórmula a qual nosso desenvolvimento esclarec erá
cm seguida, o que quero dizer é q ue, para nós , analistas, o que entendemos
por identificação, po rque é isto que encontramos na identificação, naqu ilo
que há de conc reto em nossa experiência referente à identificação, é
uma i dentificação de signi ficante.
Releiam no Curso de Lingüística uma das numerosas passagens nas
quais De Saussure esforça-se po r precisar, como o f az sem cessar ao
cercá-la, a função do significan te, e vocês verão, digo-o entre parênteses,
que to dos os meus esforços n ão foram, afinal, s em deixar a po rta abe rta
ao que chamarei menos de diferenças de interpretação do que de verdadeiras
divergências na explo ração poss ível do que ele ab ri u com essa d istinção
tão essencial de significante e de significado. Talvez eu pudesse tocar

-25-
A Identificação

1 1 1 e 1 d , · 1 1 1 : i l r11l'11lc para vocês, ·para que ao menos situem aí a existência ,


., d i l ,·1 , ·1 1 �·a que há entre tal ou tal escola, a de Praga, à qual pertence
1 . , J.. 1 1 k;c 111, a q u c r n me rcf'iro tão f rcq ücnt c m cntc, a el e Copenh ague, à
• 1 11: i l l l,itil111 slcv deu su a orientação soh um t ftulo de glossemática, qu e
:11 11i l a 11:i o evoquei diante de vocês. Você s verão, é quase fatal que me
nja r r r levado a voltar a isto, j á que não podemos dar um passo sem
1 ra I a r de aprofun dar esta função do significante, e cm conse qüência,
s u a rel ação com o signo. Vocês devem sabe r desde já - penso que mesmo
aqu eles dentre vocês que puderam acre ditar, e até mesmo me censurar,
qu e cu repetia Ja kob son - que de fato a posição que tomo a qui está
adiante, e m vanguarda com relação à de Ja kob son, no que se refere à
primazia que outorgo à função do significante em toda realização, digamos,
do sujeito.
/\ p ass agem de De Saussure à qual fazia alusão h :'t pouco, só a privilegio
aqui por seu v alor de imagem, é aquela em que ele procura mostrar
qual é a espécie de i dentidade própria do significante, tomando o exemplo
do expresso das 10: 1 5 h s. O ex presso das 1 O :1 5 h s, diz ele, é algo
per l'cit a rncn tc definido c m sua iden tidade, é o expresso das 10:1 5 hs,
a pe s a r de que , 111a1 1i f'cstarncnt c, os clife rentes e xpressos das 1 O: 1 5 hs
qu e se suce de m se mpre idênticos a cada dia , nfw terem absolutamente,
ne m em seu material, e até m esmo na composição de sua cade ia, s enão
elem entos, e mesmo uma estrutura real diferente. É claro, o que há de
verdade em uma t a l af'ir mação su põe, precis a mente, na constitu içã o
de um ser como aquele do expresso das I O: I 5 hs, u m fabuloso encadeamento
de orga n i zação signif'i can te que deve entrar no real por interm édio d e
se re s fala dos. Hesta que i sto te m um valor d e alguma maneira e xe m plar,
para definir o que quero dizer quando profiro, de entrada, o que quero
t en tar articular para vocês, [ que ] são as leis da i d entificação en quanto
iden tifi cação de significantes. Assinalemos ain da, como um lembrete,
que para nos atermos a uma oposição que seja para vocês um suporte
suficiente, o que se opõe a esta, a quilo de que ela se d istingue , que
necessita que elaboremos sua função, é que a i dentifi cação da qual ela
se d istancia é a i den tificação imagin ária , a quela da qual, há muito
tempo, cu ten tava mostrar a vocês o ex tremo no plano de fundo do
está dio 1 1 do espelho, no que eu chamarei de efeito orgânico da imagem
do s cmcll1antc, o cfci l o de assimil ação que apreen demos em tal ou tal
ponto da história na tural, e o exemplo que me agradou mostrar in

-26-
lição de 22 de novembro de 1961

vitro, sob � forma desse pequeno animal que é chamado de grilo pl' ll 'J', l'i r ro,
d e cuja evolução vocês sabem, o crescimento, a aparição do q 1 11· s«·
c hama de conju nto ele fân cros, o que, como podemos vê-lo e m s 1 1 a
l'orma, depende, de alguma maneira , de u m e ncontro q ue se p rn d 1 1 1.
em tal momento d e seu desenvolvimen to, <los es tági os, <l as fase s da
t rans formação l arv ária, ou s egundo lh e tenham ou não apa recido u111
certo número d e traços da imagem de s eu s emelhante, ele evolu irá 0 1 1
não, s egundo o caso, segundo a forma que chama mos d e solitária o u a
forma que cha mamos de gregária. Não sabemos absolutamente, só sabemos
m es mo muito poucas coisas sobre escalões d esse circu i to orgânico que
aca rretam t ais ef eitos. O qu e nós s ab e mos, é qu e é assegu ra do
experimentalmen te. O rden emo-lo n a rubrica geral dos ef eitos d e imagem
da qual encontraremos to d as as espécies de for mas cm níveis muito
diferentes ela física e até no mundo in animado, vocês sabem, se definimos
imagem como todo arranjo físico que tem por resultado constitu ir u ma
concord ância biunívoca entre dois sistemas, cm qualqu er nív el qu e
s eja. É uma fó rmula b e m apropriada, e que se aplicará tanto ao efeito
qu e acabo de d izer, por exemplo, quanto àqu ele d a formação d e u m a
imagem, mesmo virtual, n a natu reza, pelo interméd io d e uma superfície
plan a , sej a a de um espelho, ou a que evoqu ei há alg um tempo, da
superfície do lago que rellctc a montanha.
Isso quer di zer q ue, co1 110 é a tendência, e tc11dê11cia que se espalha
sob a influência de u m a espécie, cu diria, ele emb riagu ez, que alcança
reccn le mcnte o pen samen to científico pelo fato el a irrupção do qu e
não é, 110 fu ndo, senão a d escoberta da dimensã o d a cadeia sign if icante
como tal, mas que, d e to da s as espécies de man eiras, vai ser reduzid a
p o r esse pens amento cm termos mais simples, e mais precisamente é o
que se exp rime n as t eorias d itas da informação ; isso qu er d iz e r, qu e
s ej a justa, se m outra conotação, a nossa resolução cm caracterizar a
ligação entre os dois s istemas, nos quais u m é po r relação ao outro, a
imagem, por essa idéia d e informação, que é muito geral, implicando
certos camin hos percorridos por es sa coisa qu e veicula a conco rd frncla
biunívoca ? É aí qu e se encontra u ma gran d e a mbigüidade, quero d i ze r,
aqu ela qu e só po d e cheg a r a nos faz er esqu ecer os níveis p rópri oi; do
que eleve comportar u ma in formação, se queremos dar-lhe um 1 1 1 1 1 ro
valor além d aquele v ago que só chegaria, afinal de contas, a da r 1111111
espécie de reintcrp retaç,io, d e falsa con sistência, ao que, a i (• a q 1 1 I , I ra via

- 27 -
A Identificação

sido s ubsumido , e isto, desde a Antig üidade a té nossos dias, sob a noção
da forma, algo que pega, envolve, coma nda os elementos, dá -lhes um
cer to tipo de finali dade que é, no conj un to da ascensão, do elemen tar
a té o complexo, do i na nima do a té o a nima do. É algo que tem, sem
d úvi da, se u enigma e se u valor próprio, s ua ordem de reali da de, mas
q ue é diferente - é is to que pre ten do ar ticular aqui com vocês com
toda a s ua força - do que nos traz de novo, na nova perspectiva cie ntífica,
a valorização , a distinção do que é trazido pela experiência da ling uagem
e do que a relação significa n te nos permi te intro d uzir como dimensão
original que se tra ta de dis tinguir ra dicalme n te do real , sob a forma da
dime nsão simbólica. Não é, vocês vêem, por aí que abordo o problema
do que vai nos permi tir dividir essa ambigüi da de.
Mesmo assim,já disse o suficie n te para q ue vocês saibam, que te nham
se n ti do, apree ndido nesses elemen tos de informação significa n te, a
originalidade que carrega o traço, digamos, de serialidade que ele comporta,
traço discreto quero dizer, de corte, is to que Sa ussure não ar tic ulo u
mel hor, nem de o utra maneira, a não ser dizendo que o que os caracteriza
como cada um, é ser o que os o u tros não são. Diacro nia e si ncronia são
os termos aos quais indiq uei que se referissem, mesmo que tudo isso
não es teja plenamente ar ticula do, a distinç ão devendo ser feita desta
diacro nia de fato, [a qual ] é mui freqüenteme nte some nte o que é visa do
na ar ticulação das leis do sig nifica n te ; há a diacro nia de direi to por
o nde reenco ntramos a es tr u tura. Da mesma forma, para a sincronia,
implicar a sim ul ta nei da de vir tual em qualquer s ujeito s upos to ao código
não é dizer tudo sobre ela, pois é tor nar a enco n trar aquilo que na
úl tima vez l hes mos trei, que para nós há aí uma entida de ins us tentável.
Quero d izer, por ta nto, q ue não po demos nos co n tentar de ne nhuma
ma neira em recorrer a isso, porque é apenas uma das formas do que
denunciei no fim de meu discurso da úl tima vez, sob o nome de s uje ito
s upos to saber.
Eis aí porque começo des ta maneira , es te a no , minha intro d uç ão à
q uestão da identi ficação, é que se tra ta de par tir da própria dificulda de,
aquela que nos é proposta pelo próprio fa to de nossa experiência, de
o nde ela par te, disso a par tir do qual nos é necessário ar ticulá-la, teorizá­
la. É que não podemos, de modo al gum, nem seq uer como aproximação,
prom essa de futuro, re ferirmos, como I legel o f'az, a al guma concl usão
possível jus tamente porque não temos nenhum dir ei to de colocá -la como

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Lição de 22 de novembro de 1961

possível - do sujeito em algum saber absolu to. Esse sujeito suposto saber,
temos que aprender a prescindir dele em todos os momentos. Não po demos
recorrer a ele em nenhu m momento, isto está excluído por uma experiência
que já temos após o seminário sobre o desejo e sobre a in lcr pretaçiio -­
primeiro semestre que foi publicado -é pre cisamente o que me pareceu,
em todo caso, não po der es tar suspenso desta publicação, po is aí está o
final de to da uma fase de ensino que f izemos ; é que esse sujeito que é
o nosso, esse sujeito que gos taria hoje de interrogar para vocês a propósito
do per curso car tesiano, é o mesmo que nesse primeiro semestre cu disse
que não po deríamos aproximá-lo além do que fiz com esse sonho exemplar
que o articula inte iro em torno da frase: " Ele não sabia que estava
morto".
Com to do r igor, es tá aí , co n tr ar iame nte à opinião de Poli tzer, o sujeito
da e nunciação, mas [é] em terceira pessoa que po demos designá-lo.
Isto não quer dizer, é claro , que não possamos aproximá -lo em primeira
pessoa, mas será pre cisame nte saber que ao fazê-lo, e na exper iên cia
mais pateticame nte acessível, ele se f urta, porque traduzi-lo nessa primeira
pessoa, é a esta frase que chegamos, a dizer o que podemos dizer justamente,
na medi da prática na qual po demos confro n tar-nos com esta carruagem
do tempo, como diz Joh n Donne, "hurrying near", ele nos esporeia, e
nesse momen to ele suspensão em que podemos prever o momento úl timo,
aquele pre cisame nte no qual tu do nos abandona, nos dizer : " Eu não
sabia que v ivia por ser mortal ". Está bem claro que é na med ida em
que po demos dizer tê-lo esquecido quase a todo instante, que seremos
pos tos nesta incerteza para a qual não há nenhum nome, nem trágico,
nem cômico, que possa nos dizer, no mome nto de aban do nar nossa
vida, que fomos sempre, à nossa própria vida, de alguma maneira, estranhos.
É aí que está o fundo da interrogação filosófica mais moder na, aquilo
pelo que, mesmo para aqueles que, se posso dizer, só o compreendem
muito pouco, inclusive aqueles que dão tes temunho de seus sentimentos
de obscuri dade, mesmo assim algo se passa, d iga-se o que quiser, alguma
co isa passa difere n te da o n da de uma moda, na fórmula que nos lembra
o fu n damento ex iste ncial do ser para a morte.
Isto não é um fe nômeno continge nte, quaisquer que sejam as causas,
quaisquer que sejam as corrclaçôes, inclusive seu alcance, po de -se dizer
que o que podemos chamar de a profanação dos h'Tandes fantasmas fo1:jados
p ara o desejo pelo modo do pensamento religioso, está aí o que nos dcixar;'1

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A Identificação

c l , .. . , ·1 1l ,n 1 1 1s , inermes, suscitando esse oco, esse vazio, ao qual a meditação


l i l l l',, ,Jf ra 1 1 1o clcrna se esfo rça por respond er, e ao qual nossa experiência
1 , ·1 1 1 1 ;111 1 1 ,(i m algo que contribui r, pois que é aí seu lugar, no ins tan te em
• 1 1 11· d(·sig110, suficientemente, o mesmo lugar no qual o sujeito se consti tui
, ·rn110 não podendo saber precisamente o porque se trata aí para ele do
· 1 i 1do. i\í está o valor <lo que nos traz Descartes, e porque foi bom parlir daí.
,:: por isto que volto a isso hoje, pois conv ém percorrer, para dimensionar
1 1 ovalllente o importan te daquilo que vocês puderam ouvir do que c hamei
ck illlpasse, até mesmo o impossível do "cu penso, logo sou ". É exa tamente
c ·sse i mposs ív el qu e cons titui o preço e o valor desse suj ei to que nos
p rn piie Descartes, se não es tá a í se1üo o suj eito cm torno do qual a
<"11gi tação sempre girou an tes, gira desde e 1 1 L;io, é claro que nossas o�jeçiies,
l' I I I nosso último discu rso, ganha m todo o s eu peso, o p róprio peso

i mplic ado na etimologia do verbo francês pensar, que não quer dizer
ou tra coi sa s enão pesar; o que funda r sob re cu penso, se sab emos, n ós
anal is tas, que isso cm que eu penso, que podemos apreen der, remete a
um ele que e de onde, a partir do qual penso que se sub trai necessariamen te.
E é porque a fórmul a de D escart es nos interroga para saber s e não há
ao m enos es te pon to privilegia do do eu penso puro, sobre o qual n ós
possamos nos fundar; e é porque é ao menos importan te qu e eu os
detenha aí um ins tan te.
Essa f"círrnula parece implicar que seria nec essário que o sujeito s e
preocupasse cm p ensar a todo instante, para assegurar-se d e ser, condição
já bem estranha, mas ainda sufic ien te? Bas ta qu e ele pense se r, para
alcançar o ser p ens an te ? Pois é justamen te aí que Descartes, nessa
in crível magia do discu rso d as primeiras duas Meditações, nos deix a
suspenso s. Ele chega a fazer sustentar, <li go , crn seu tex to, não o momen to
cm que o professor de filosofia lenha pescado o signi Hcan tc, mas most rará,
mui to facilmen te, que o artifício, que resulta cm formul ar que assim
pens ando, eu posso me diz e r uma cois a que pens a, é mui to facilmen te
refu tável, mas que não re tira n a d a <la forç a de progresso do tex to, além
cio que dev emos in terrogar es te ser pensan te, pergun tarmo-nos se não
(· o parti cípio de um scrpensar [Nrepcnserl, escrito no in fini tivo e em
t 1 1 1 1 a sú palavra : e u .� crpcnso U 'êtrcpcnsc], como s e d iz j 'outrecuide ,
12

l·omo nossos hábitos ele analistas nos fazem dizer eu compenso Ue compense],

- 30 -
Lição de 22 de novembro de 196 1

in clusive eu descompenso [je décompense] , eu solrre-compc11.w [je rn r


compense'] . É o mes mo termo, e igualmente legítimo em sua composic,:flo.
Des de então, o eu penser u [je pensêtre] que nos propusemos para aí
nos introduzir, pode parecer, nesta perspectiva, um artificio mal tole rável,
pos to que , ao formular as coisas deste modo, o se r já dete rmina o registro
n o qu al se in augura todo o meu percurso; es te eu penser Ue pensêtre ] .
e u lhes disse n a ú ltima vez, não pode , mesmo n o tex to de Descartes,
conotar-se m ais do que com traços de engodo e de aparência. Eu penser
[je pensêlre l n[to c arrega consigo ou tra consistência maior que a do
sonho, na qu al Descartes c l'ctiv amcn le, c m vá rios momen tos de seu
perc u r so, no s deixo u suspen sos. O eu penser [jc pensêlrel pode também
co1 1juga r-se co1 1 10 1 11 1 1 ver bo, 1 1 1as isto 1 1 :f o vai lo11gc, eu pcnser [jc pcnsêt.re J,
lu pcnscrcs J t n /JC11sêtrcsl, co m o s 1 1 0 f'i1 1 al, s e quiserem, o que pode
continu ar ain da, inclusive ele penser [ i l pensêtrc]. Tu do o que podemos
dizer é que se fazemos do tempo do ve rbo uma espécie de in finitivo
pcnscr [pensêtrerl, só podemos evocá-lo pelo que se esc reve nos dicionários,
que todas as outras formas , passada a te rceira pessoa singular do presente ,
não são usadas cm francês. Se quisermos fazer humor, acrescen taremos
q ue elas são completadas comumen te pel as mesmas formas do verbo
complemen tar de pcn(ser)ar Jpensêtrcrl, o verbo s 'empêtrcr. 1 ·1
O q ue isso quer d ize r? Que o ato de serpensar Jêtrepenserl, porque é
disso qu e se tr a ia, não desemboca, para aquele que pensa, senão em
u m pode ser eu? [ peut-êlre je?J, e não sou tampouco o p rimei ro nem o
único a ter observado desde sempre, o traço de con trabando da in trodução
desse cu [je] n a conc lusão: " Eu penso, logo sou ". Fica c laro que esse eu
[je J fica cm est ado p roblemático, e que até o passo seguinte de Descartes,
e ver emo s qua l, 1 1 :io h,í nenhuma raz,io para que ele seja prese rvado do
qu estio1 1a1 1 1e11lo lo lal que Desca rtes í'az de todo o processo , pelo perlilamento
dos fu ndamen tos desse p rocesso, da função do Deus engan ador; vocês
s ab em que e le vai mais além , o Deus en ganador é ain d a um bom Deus ;
por estar ali, por alimentar ilusões, chega até ao gênio maligno, ao
men tiroso ra dical, àquilo que me extravia por ex traviar-me, é o que
chamamos a dúvida hiperbólica. Não se vê de nenhuma maneira como
essa dúvida pode poupar esse eu LJe] e deixá-lo, entretanto, fal an do
p ropriamente, em uma vacilação fun damental.
Há duas maneiras de a rticular essa vacilação. A articulação c l ;íssica
que encontrei com p razer, que já se encontra n a Psicologia ele llni 1 1 1a 1 1 0,

- 31 -
A Identificação

aquela que Brentano refe re com ju stiça a San to To más de Aquino, a


saber, que o ser não po deria ap reen der-se como pensamento senão de
manei ra al ternan te. É em u ma sucessão de tempo s alternantes que ele
pensa, que sua memó ria ap rop ria-se de sua realidade pensante, sem
que em nen hum instante po ssa se juntar este pensamento em sua própria
certeza. A outra maneira, que é a que nos ap roxima mais da reflexão
cartesiana, é a de percebennos ju stamente o cará ter, p ropriamente falando,
evanescente desse eu UeJ . de no s fazer \'er que o ,·e rdadei ro senti do do
p rimeiro passo cartesiano é articular-se como um eu penso e eu não
sou . É claro que po demo s insistir nos enfoques dessa assunção e no s
dar conta de que ga sto, ao pensa r, tu do o que po sso ter de ser. Que
fique claro que, a final de contas, é po r cessar de pensa r que po sso
en trever que eu simple smente seja. Não são mai s que co meço s.
O eu penso e eu não sou introduz para nós toda u ma sucessão de
observações, justa men te da quelas que lhes falava na úl tima vez relativas
à mo rfologia do francê s, primei ramente aquela so bre esse eu tanto mai s
dependente em nossa língua n a forma de p ri mei ra pessoa d o que no
inglê s ou no alemão, po r exemplo, ou no latim, onde à pergunta "quem
fez isto ? ", você s podem responder 1, lch , Ego, mas n ão eu [je] em francês,
e sim sou [fui] eu [c'est moi ] . ou eu não [pas moi].
Mas eu [je] é outra coisa, este eu [je] tão facilmente eli dido no fal ar,
graças às p roprie da de s ditas mu das de sua vocalização , esse eu [je] que
po d e ser um não sei [j 'sais pas ] . quer dizer que o e desa pa rece, ma s não
sei é di fe rente de, vocês o pe rcebem be m, po r terem do francê s u ma
experiência o riginal, eu não sei [je ne sais]. O não [ne] do eu não sei
não cai sobre o sei, mas sobre o eu [je]. É por isso também que, contrariamente
ao que acontece com a s língua s vizinhas, a s quais, pa ra n ão i r mui to
longe, faço a alusão agora, é antes do verbo que cai esta parte deco mpo sta ,
c hamemo -la assim por ago ra , d a negação que é o não [ne] e m francês.
Segu ramente o não [ne] não é p róprio nem único do francê s ; o não [ne ]
do latim apresenta-se pa ra nós co m toda a mesma p ro blemática, que
não faço a qui sen ão intro duzir, e sobre a qual retornaremo s.
Você s sabem, já fiz alusão ao que P ic hon nos trouxe de indicações, a
propó sito da negação em francê s; n ão penso , e ta mbém não é novo,
indi quei-l he s nesse mesmo tempo, que as formulações de Pichon so bre
o for c lusivo e o discordancial po ssam resolv er a questão, ainda que o s

- 12 -
Lição de 22 de novembro de 1961

introduza de maneira admi rável . Mas a vizinhan ça, o trilhamen to na tural


na frase francesa do eu [je l com a prim eira part e da negação, eu não sei
[je ne sais ] , é alguma coisa que en tra no regist ro de toda uma série d e
fatos concordantes, em torno d e que lhes assinalei o interesse da emergência
particularmen te sign ificativa cm um certo uso lin güístico dos prob lemas
que se ref erem ao sujeito como tal cm suas relações com o significante.
Quero chegar ao seguinte : qu e se nos encont ramos mais f aci lmente
do que ou t ros postos em guarda con t ra essa mi ragem do saber absoluto,
aquele do qual já é refu 1 ;'1 - lo s u l"ici ente mente qu an do f or traduzido no
re pouso total de u m a es pécie de séti mo dia colossal nesse dol l lingo da
v ida, no qual o animal h umano poderá, en fim, coloc ar o focinho no
pasto, es tan do, a partir daí, a grande máquina ajus tada no úl ti mo quilate
desse nada ma te rializa do que é a concepção do sab er. É claro que o se r
terá en fim encon trado sua part e e sua rese rva em su a estupidez, a
parti r daí, def ini tivamente a loja da, e supõe-se que, ao mesmo tempo,
será a rrancado, com a exc rescência pensante, seu pe dúnculo, a saber,
a preocu pa ção. Mas is to, vis to o ritmo como vão as coisas que estão
feitas, apesar de seu charme para evocar que há aí algo bastante aparentado
com o que nós exercemos, devo dizer, com muito mais fan tasia e humor,
es tes são os d ive rsos divertiment os do que se c hama comum cnte a
ficção c ien tíf ica, os que mos tram que sob re esse tema são possíveis
todas as es pécies de va riações. A esse res peito, certamente Descartes
não pa rece estar em má postura. Se podemos, talvez, deplorar que ele
nüo ten ha sabido mais sobre essas pers pectivas do saber, é a pen as porque
se ele tivesse sabido mais, sua moral teri a sido menos curta . Mas, colocando
à parte esse traço qu e deixamos aqui provisori amente de lado pelo
valor de sua rc llexüo inicial, bem longe disso, ele resulta em algo bem
diferen te.
Os professores, a propósito da dúv ida cartesiana, es forçam-se muito
para sublinhar que ela é me tódica. E les fazem ques tão d isso. Metód ico,
is to quer d izer dúvida a f rio. Certament e, mesmo em um certo con tex to,
consumiam -s e pra tos frios, mas na ve rdade, não c reio que seja es ta a
mane ira jus ta de conside rar as coisas, não que eu qu eira, d e algu ma
forma incitá -los a cons idera r o caso psicológico de Descartes, por mais
apaixonante que possa pa recer en con trar em sua biografia, nas con dições
de seus paren tescos, e mesmo cm sua descendência, a lguns desses t raços
que, r eunidos, podem con formar uma figura, por meio da qual encontraremos

- 33 -
A Identificação

: 1 • , l ' ara c:t erísticas gerais de uma ps icastenia, e mesmo p recip itar nessa

d 1·11 11111stração a célebre passagem dos cabides h umanos, essas espécies


d1· 1 1 1ario11ctcs em torno das q uais parece possível res tituir uma presença
q 1 w, graças a todo o ro deio de seu pensamento, se vê p recisamente
111·ssc momento a ponto de despregar-se, não vejo n is to m u ito interesse.
< l q u e me interessa é q ue, após te r tentado fazer sentir q ue a tem ática
ca rtesiana é logicamente inj us ti ficá vel, cu pos sa reafirma r q ue ela não
1\ portanto, irracional. Ela não é mais irra cional como o desejo não é
i rrac ional por não po der se r articulável, simplesmente po rq ue ele é um
!'ato articulado, como acred ito ser todo o sentido do que cu lhes demonstro
l 'az um ano, ao mos trar-lhes como ele é. A dúvida de Des cartes, s ublinhei,
e não sou o primeiro a fazê-lo, é, certamente, uma dúvida m uito d iferente
da dúvida cética. Frente à dúvida de Des cartes, a dúvida cética se des dobra
inteiramente no nível da ques tão do real. Contrariamente ao q ue se
acre d i ta, ela es tá longe de colo cá-lo em causa ; ela o lembra, ela aí
reúne seu m undo, e tal cético, cujo d is cu rso inteiro nos re d uz a só
s us tentar como válida a sensação, não a faz , por iss o , desvanecer-se em
absoluto ; ele nos diz q ue a sensação tem mais peso, q ue ela é mais real
do q ue tudo q ue po demos cons truir a seu respeito. Esta dúvida cética
tem se u lugar, vocês sabem, na Fenomenologia do Espíri to de Hegel. É
um tem po dessa p esq uisa, d essa bus ca na q ual se engajou em relação a
s i mesmo o saber, es te saber q ue não é senão um não saber ainda [savoir
pas encare ] , logo, é po r este fato, um j á saber. Não é em absolutamente
nada dis to q ue Des ca rtes se empenha. Des cartes não tem, em nenh uma
parte seu luga r na Fenomenologia elo E.� pírito, ele co lo ca em q ues tão o
próprio s ujeito e, apesa r de n ão s abê-lo, é do s ujeito s upos to saber q ue
se tra ta ; não é se re conhecer naquilo d e q ue o espírito é capaz q ue s e
t rata, para nós ; é d o s ujeito ele mesmo como ato inaug ural, q ue é a
q ues tão. É, creio, isto q ue constitui o prestígio, que d á o valor de fascinação,
q ue pro d uz o efeito de virada, q ue teve efetivamente na his tória este
desenvolvimento insensato de Desca.rtes, é que ela tem todas as características
d o que chamamos, em nosso vocabulário, de uma passagem ao ato.
O primeiro tempo da meditação cartesiana tem o traço de uma passagem
ao ato. Ele se s itua ao nível desse estado necessariamente ins uficiente,
e, ao mesmo tempo, necessariamente primord ial, to da ten tativa ten do
a relação mais radical, mais o riginal com o desejo . E a prova é exatamente
isto a q ue ele é cond uzido no desenvolvimento q ue o co rre logo a seguir;
Lição de 22 de novembro de 1961

o q ue ocorre ime diatamente, o desenvolv ime nto do Deus engan adm, 1 1


que ele é ? Ele é o apelo a algo que, por colocá-lo em contraste com ª "
provas a n teriores, bem e n tendi do, não a nuláveis d a exis tência de Dew1,
me permitirei opor como o verissimum ao entissimum. Pa ra Santo Anselmo,
Deus é o mais ser dos seres. O De us de que se trata aqui, aquele que faz
entra r Des ca rtes nesse ponto de s ua temá tica, é esse De us q ue deve
asseg ura r a verda de de tudo o que se articula como tal. É o ve rda deiro
do verda dei ro, a ga ra ntia de que a verda de exis te e garantia ta nto maior
de que a v erdade. poderia ser o ut ra, nos diz Descartes, essa ver da de
como tal , que po deria ser se este De us quisesse, que ela poderia ser,
falan do propria mente, o erro. O que is to quer dize r? Sen ão q ue nós
nos encon tramos em tudo aq uilo que se po de chama r a ba teria do
significa nte , confronta da a esse traço único, a esse einziger Zug q ue já
conhecemos , na medi da em que, a rigor, ele poderia ser s ubs tituído
por to dos os elemen tos do q ue co nstitui a ca deia significante, s uportá ­
la, essa ca deia por s i só, e simplesmente por ser sempre o mesmo. O
q ue encontramos no limite da experiê ncia cartesiana como tal do s ujeito
evanes cente, é a necessida de dessa ga ra ntia , do traço de es trutura o
mais simples, do traço único , se ouso dizer, absolutamente despersonaliza do,
não somente de to do o conte ú do s ubjetivo , mas também de toda variação
q ue ultrapasse esse ú ni co traço, desse traço q ue é um, por ser o traço
úni co. A fundação do um que cons titui esse traço não es tá toma da em
nenh uma parte a n ão s er cm s ua unicidade. Como tal, não po demos
dizer dele o utra coisa senão que ele é o que tem de comum todo significante,
[de] ser sobretudo constituído como traço, Ide ) ter esse traço por s uporte.
Ser:í que poderemos, cm torno disso, encontrar-nos no concreto d e
nossa ex periênci a ? Que ro dizer o q u e vocês já vêem pontuado, a s abe r,
a substituiç:io, d e uma funçflO que deu ta ntas di 11culdades ao pensame n to
filosófico, a saber, es ta i nclinação quase q ue necessa riamente i dealista
q ue tem to da a rticulação do s ujeito na tra dição cláss ica, s ubs tituir-l he
essa função de idealização, na me di da em q ue sobre ela repous a essa
necessi dade es trutural q ue é a mesma que já a rticulei dia nte de vocllH
sob a forma de ideal do Eu, na me dida em q ue é a partir desse pon t o ,
não místico , ma s perfeitamente concreto de iden tificação inaugural
do s ujeito com o significa nte ra dical, n ão do um plotiniano, ma1, rio
traço único como tal, q ue toda perspectiva do s ujeito como não sahu111lo
pode se desenvolver de um modo rigoroso. É que após havê-loH foli o

- 35 -
A Identificação

passar hoje, sem dúvida, por caminhos com respeito aos quais os tranqüilizo,
dizendo-lhes que é seguramente o ponto mais alto da dificuldade pela
qual devo fazê-los passar, franqueada hoje, é o que penso poder começar
a formular diante de vocês, de uma maneira mais satisfatória, mais
acabada, para nos fazer reencontrar nossos horizontes práticos.

- 36 -
LIÇAO III
29 de novembro de 1961

Levei-os, na última vez, portanto, a esse significante, o q ual, é preci so


q ue seja de alg uma forma o sujeito, para q ue seja ve rdade q ue o sujei to
é significante. Trata-se muito precisamente do um enquanto traço único ;
poderíamos elaborar sobre o fato de que o professor escreve o um assim,
1, com uma barra ascendente que indica, de algum modo, de onde ele
emerge. Aliás, i sto não será um puro requinte porque, afinal, será também
o q ue i re mos faze r, tenta r ve r de onde ele sai.
Mas não estamos aí. Então, com o propósi to de acomodar sua visão
mental forte mente pe rturbada pelos efeitos de um certo tipo de cultura,
mais precisa mente, aquele que deixa aberto o intervalo entre o ensino
primário e o o utro dito secundá rio, saibam que não os estou dirigindo,
nem para o Um de Parmênides, nem para o Um de Plotino, nem para
o Um de nenhuma tota lidade no nosso campo de trabalho, do q ual
fazemos desde há a lg u m te m po tanta q uestão. Tra ta -se mai s do 1 que
chamei há pouco de pro fessor, do 1 do "aluno X, vo cê me fa rá cem
linhas de l ", i sto é, bastões, "al uno Y, você ti rou um 1 em francês ! ". O
professor, e m sua caderneta, traça o einziger Z ug, o traço único do
signo para se mpre suficiente da notação mínima. É disso que se trata,
da relação disso, com aquilo que está emjogo na identi !Jcação. Se estabeleço
uma relação, ela deve talvez começar a apa recer no espírito de vocês
como uma aurora, que não entra imediatamente cm colapso, a identificação,
não é simple smente esse um, em todo caso, não tal como nós o imaginamos;
tal como nós o i maginamos, ele não pode se r -já viram o caminho pelo

- 37 -
A Identificação

, 1 1 1 i l . , ,, , 1 1 1 1d 1 1 1., 1 1 1 1ais d o que o instr umento, a rigor, dessa identificação,


, ' ' " 1 • ,. 1·1 · 1:1 1 1, s1: o ol harm os de per to, q ue i s to nã o é tão simples.
l '1 1 1 ' , ,, , . 1�. 1 1 1 q1 111 pensa, o ser-pensante de nossa última palestra, permanece
1 1 , , . 1 1 1. ,.,1 1 1 1 a do rea l C l l l sua o pa cidade, n:io é óbv io que el e saia el e
i l 1· 1 1 1 1 1 ',1·1 , 1 1 1 1 d e el e náo esteja id ent ifi ca d o ; quero d izer, nã o mesm o de
i 1 , ,_ , 1 1 1 1 , , n do qual s eja, e m suma, lança d o sobre a ex tensão de algu ma
•,1 1 1 11 · 1 l l rn·, que tenha precisado primeiro de um pensamento para expulsar
, . 1 1 1 1 1 1 , , r v:11.io. Nem mesmo chegamos lá a in da. No nível d o real, o q ue
l '' " l 1 · 1 1 1 1 1s 1 · 1 1 lrever é entrevê-l o também no meio de tan to ser - em uma
· . 1 1 l ', i l av ra, l mztoser [ tand'être ] . de um ser-sendo [d'un être-étant] -

1 1 1 1 d 1 · 1 ' l t · l'st :í pen d ura d o por alguma teta, em suma, no máximo capaz
, I , · 1 ·�,l 11 11,:ar essa espécie de palpi tação do ser que ta nto faz r ir o enca n tador
1 1 1 1 l 1 1 1 1d o d a tumba, na q ual o encerrou a ast úcia da dama d o lago.
l .1 · 1 1 1l m ' 1 1 1 -se de q ue, há alg uns anos, o ano do seminário sobre o Presidente
.' ; 1 l i ll ' l ic r, a imagem que evoquei a par tir do último seminário daquele
.1 1 1 1 1 , a q u ela, poética, d o monstro Chapalu, depois de ficar sacia d o com
, , . , , · 1 1 q H 1s das esfinges e smagadas pelo seu salt o suicida, aquela palavra,
i l : 1 q 1 1 al rirá por muito tempo o encanta d or p odre , d o monstro Chapalu :
".\ q 1 1 1 ' 11· q ue come não está mais só". Cer tamente , para que o ser ve nha
.1 l 1 1 1 , h:í a per spectiva d o enca n ta d or ; é bem ela q ue, no fun d o, regula
1 1 1 d 1 1 C laro q ue a verdadeira amb igüidade dessa vinda à l uz da verdade
1· 11 que configura o hor izonte de toda a n ossa prá tica, ma s não nos é
1 11 ,�;sf v1 ·1 partir dessa perspectiva, da qual o mito lhes indica suficientemente
' I ' " ' l ' la es tá para além d o limite mor tal, o enca n ta d or apodrecen d o em
·, 1 1 : 1 1 1 1 1 J 1 ha. Também nã o e s tá aí um ponto de vista que seja jamais
1 1 1 1 1 1p l1 • tamente ab strato para se pensar, em uma época na qual os dedos
1·1 1 1 la rrapos da árvore de Dafne per filam-se sobre o campo queima d o
I ' "'" rn'-\u rnelo gigante d e nossa onipotência, sempre presente n o m omento
. 1 t 1 1al 110 hor izonte de nossa imaginação, estão aí para nos lembrar d o
.i l 1 ' 1 1 1 d e onde se pode delinear o pon to d e vista d a verdade. Mas não é
.1 1 ·1 1 1 1t i 1 1 �ên cia que faz com q ue e u esteja aq u i a falar d ia n te de vocês
, , , , l 1 1 1 • as con d ições do verdadeir o . É um incidente m ui to mai s minúsculo

' I ' 1 1 • 11 w p<k o desafio de tomar con ta d e vocês enquanto p u nhad o de


1 •1 . 1 1 :1 1 1 a l istas, aos q uais lembro que a verdade, v ocês cer ta me n te não a
1 1 · 1 1 1 para mvend e r, mas que, mesmo assi m , é e sse o peixe que v ocês
\"1 " 1 l d 1 · 1 1 1

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Lição de 29 de novembro de 1961

Es tá claro que, para chegar a té vocês, é a trás do ver dadeiro ldu vrni l
que se corre, eu o disse na pen úl tima vez , que é o verdadeiro de ver dade
[du vrai de vrai] que procuramos. É jus tamen te por isso que é legítimo
que, no q ue se refere à iden tificação, cu tenh a p artido de um tex to, do
qual ten tei fazê-los sen tir o car áter bas tan te ún ico na h istória da filosofia,
já que a questão do verdadeiro es tá aí colocada de maneira especialmen te
rad ical, porque põe em causa, n ão apenas isso que encon tramos de
ver dadeiro no real, mas também o estatuto do sujeito enquanto encarregado
de leva,r esse ver dadeiro ao real, encon tran do-me, ao fim de meu último
discurso, aquele da úl tima vez, desembocan do nisso que lhes indiquei
como reconhecíve l na figura já conhecida do traço único, do einziger
Zug, na medida em que é sobre ele que se concentra para nós a função
de indicar o lugar onde está suspensa no significan te, onde está pendurada,
no que concer ne ao sign i fican te, a questão de sua garan tia , de sua
função , disso a que serve este significante, no a dvento da verda de. É
por isso que n ão sei a té on de desenvolverei meu discurso hoje, mas
es tará girando inteiramen te em torno da finalidade de assegurar em
seus espír itos esta função do traço único, a função do um. É claro que
se dev e, ao mesmo tempo, colocar em causa , deve -se ao mesmo tempo
fazer avançar - e penso encon trar, por isso mesmo, em vocês uma
espécie de aprovação, de encorajamen to, de ânimo, nosso conhecimento
do que é esse signif i can te.
Vou começar, porque is to me agrada, por fazê-los divagar um pouco 15.
Fiz alusão, outro dia, a um observação gentil , ainda que ir ônica , relativa
à escolha de meu tema deste ano como não sendo absolutamen te necessár io.
É uma ocasião para evidenciar o que es tá cer tamen te um pouco ligado
à cr ítica que implicava que a iden tificação seria a chave para fazer
tudo, se ela evitasse refer ir -se a uma relação imaginár ia que supor ta a
experiência disso, a saber, a relação com o corpo. Tudo is to es tá coeren te
com a mesma crí tica que pode ser -me en dereçada nas vias que per sigo,
de man tê - los sempre mais no nível da ar ticulação linguageir a, tal co mo
pre cisamen te me esforço por dis tingui -la de qualquer outra. Daí, a t é à
idéia de que desconheço aquilo que se chama de pré-ver bal, de q u e
desconheço o animal, d e que creio que o homem, cm tud o isso 1 1 ·111
n ão sei que pr ivilégio, n ão há mais que um pas so, f'r a 1 1 q 1 11 • ad 1 1 1 :1 1 1
rapidamente , que não s e te m mais o sen tim e n to de tC� · l o l 'l ' i l o. I N l o
deve ser repensado, n o momen to c m que, mai s d o q u e 1 1 1 1111 ' a , 1·"11• 11110

- �9
A Identificação

vo u faze r gira r em to rno da estrutura da ling uagem tudo isto q ue lhes


vo u explica r, q ue me voltei para uma experiê n cia próxima, ime d iata,
curta, sensível e agra d ável, que é a min ha, e que talvez esclareça q ue
também te n ho min ha noção do p ré-verbal q ue se a rticula no inte rio r
da relação do sujei to co m o verbo, de uma manei ra que talvez não
ten ha aparecido para vo cê s.
Pe rto de mim, nas imediações do Mitsein jsc rcom J, onde me sustento
como Dasei n jscrprese ntel, ten ho uma c adel a que chamei de J ustine,
em homenagem a Sade, sem que, acreditem, cu exerça sobre ela qual q uer
maltrato tendencioso. Minha cadela, no meu e ntender e sem ambigüida de ,
fala. Minha cadela te m a palavra, sem nenhuma dúvida. Isso é impo rtante,
po rque não quer dizer q ue ela tenha totalmente a linguagem. A medida
na qual ela te m a palavra sem te r a relação humana co m a linguagem,
é uma que stão de o n de vale a pena investigar o p roblema do pré-verbal.
O q ue faz minha cadela q ua n do fala, no meu entender? D igo que ela
fala, po r q ue ? Ela não fala o tempo to do ; ela fala, co n trariame n te a
muitos humano s, unicamente nos momentos nos quais ela tem necessidade
de falar. Ela te m nece ssidade de fala r no s mo mento s de inte n sidade
emo cio nal e de relaçõe s co m o o u tro, comigo mesmo, e co m alg umas
o u tras pe ssoas. A coisa se ma nifesta po r espécies de pequeno s ge mido s
g uturais. Ma s n ão se limita a isso . A coisa é partic ularmente chamativa
e patética, por ma nifestar-se em um q uase-huma no, que faz co m q ue
eu te n ha hoje a idéia de l he s falar sobre i sso ; é uma cadela bo xer, e
vocês vêe m que nessa face q uase humana, bem neandertaliana afinal
de co nta s, aparece um certo tremor no lábio, espec ialme nte no supe rio r,
sob o focinho, para um huma no, um pouco generoso, ma s enfim, há
tipo s c o mo e sse, tive uma emp regada q ue se pareci a mui to co m el a e
e sse tremo r labial, qua n do aco n tecia, à emp regada de se co muni ca r
comigo e m tais a uge s i n ten cio nai s, não era muito diferente. O efeito
de respiração na s bo chechas do animal não evo ca meno s sen sivelme n te
toda uma gama de meca n ismo s de tipo p ropriamente fonatório que,
po r exe mplo , se p restaria pe rfeitamente às experiências céleb re s que
foram a s do abade Ro usselot, fundado r da fonética. Vo cê s sabe m q ue
elas são f u ndamentais e co n sistem essencialmente em faze r habitar a s
dive rs as cav idades nas quais se pro d uzem a s vib rações fonatórias po r
pequenos tambo res, pêras, instrumentos vibráteis que permitem co ntrolar
1 • 1 1 1 q ue nív eis e em qual tempo vêm se supe rpo r os diverso s elemento s

- 40 -
Lição de 29 de novembro de 1961

que constituem a emissão d e u ma sílaba, e mais p recisamente, tudo o


que nós ch'a mamos d e fonema, pois esses trabalhos fonéticos são os
antecedentes naturais do que em seg ui da é d efini do como fonemá tica.
Minha cadela tem a palav ra, é i ncontestável, i n discutível, não somente
pelas mod ulações que resultam de seus esforços p ropriamente articulados,
d ecomponív eis, i nscritív eis [inscriptibles ] in loco , mas também pelas
correlações d e tempo cm que esse fen ômeno se p rod uz, a saber, a co­
habitação cm um local cm que a ex periência diz ao ani mal que o grupo
humano r eunido em torno da mesa deve pcnna ncc cr muito t e m po,
que alguns restos do que se passa naquele momento, a saber, as rcl"ciçücs,
dev e m voltar para el e ; não se d eve acredi tar que tudo esteja centrado
na necessi dade, há, sem d úvi da, uma c erta relação com esse ele m ento
de consumação, mas o el emento de comu nhão, pelo fato de qu e ela
consome com os outros, ta mbém está aí p resen te.
O que distingue esse uso da palavra, em suma, m uito suficientemente
conseg ui do p elos resultados q ue tratou de ob ter minha cad ela, d e u ma
palav ra humana ? Não estou lhes dando as palav ras que p retendem cob rir
todos os resultados da questão, eu não dou senão as respostas ori entadas
para o que d eve se r para nós o que se trata de localizar, a saber, a
relação com a id enti ficação. O que disti ngue este ani mal fala nte do
que se passa p elo fato d e que o homem fala é que é inteira mente notá v el,
no que concerne à minha ca dela, uma cad ela que pod eria ser a sua,
uma cadela que não te m nada d e extraordiná rio, é que, contraria me nte
ao que acontece com o homem enquanto falan te, ela não me toma
jamais por u m outro. Isto é m uito claro ! Esta cadela boxer d e belo
porte e q ue, faz c rer aos q u e a observa m, que tem por mim senti m en tos
de a mor, d eixa-se levar a excessos de paixão por m im, nos quais ela
toma u m aspecto completamen te temível pa ra as almas mais tími das,
tais como as que existe m, por exemplo, no nível de minha descendência ;
parece que se tem e q ue, nos momentos e m que ela começa a sal tar
sobre mi m , baixando as orelhas, e lati ndo d e uma certa forma, o fato
d e ela tomar meus p u nhos en tre seus d entes, pode passar por u ma
ameaça. Mas não é nada. Rapi damente, e é por isso que d izem q u e ela
m e a ma, algu mas palav ras minhas fazem tudo reencontrar o rd e m,
constatada no final d e alg u mas reiterações, pela para da da b ri nca d ei ra.
É porque ela sab e muito b e m que sou eu que estou ali, que ela não me
toma jamais por um outro, contrariamente ao que toda a experiência

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A Identificação

d1· v ocês pode testemunhar do que acontece n a m edida em q ue, n a


1 · x pcri fa1cia analítica, você s s e colocam em condições d e ter um sujeito
p u ro falante, se posso dizer assim, como se diz, um "patê p uro porco "
J pa tê pur pare].
O sujeito puro falante como tal - está ai o nascimento de nossa experiência
- é leva do, pelo fato de permanecer puro falan te , a tomá-los sempre
por um o u tro. Se há algum elem ento de progresso nas via s pela s quais
ten to levá -los, é fazê-lo s perceber que ao tomá-los por um o u tro, o
suj ei to o s coloca ao nív el do O utro, com A maiúsc ulo. É j ustamente o
que fal ta na minha cad ela, só há para ela o pequeno o u tro. N ão parece
que sua relação com a linguagem lhe dê ac esso ao grand e O ut ro.
Por que, uma v ez que fala, não chegaria como nós a constituir essas
articulações de uma form a tal, que o l ugar, para ela como para nós,
desse O utro, se d esenvolv a ond e se situa a cad eia significan te? Liv remo­
nos do p roblema dizendo que é seu olfa to que a imp ede d isso, e n ão
faremos mais que encon trar aí uma ind icaç ão clássica, a saber, que no
homem a regressão orgânica do olfa to está, para m ui tos, em seu acesso
a essa dimensão O u tra. Lamento m uito dar a idéia, com essa referência,
de restabelecer o corte entre a espécie canina e a espécie h um an a.
Isso é para diz er-lhes que vocês estariam completamente equivocados
em acre di tar que o p rivilégio dado po r mim à l inguagem participa d e
algum orgulho d e esconder essa espécie d e p reconceito q u e faria do
homem, justamente, alguma culminação do ser. R elativizarei esse corte
dizendo-lhes que se falta à minha cadela essa espécie d e possibilidade,
não realçada como autônoma antes da existência da análise, que se
chama de capaci dade d e transferência, isso n ão q uer dizer, em absoluto,
que isso red uza com seu parceiro, quero diz er, comigo mesmo, o campo
patético do que, no sen tido corren te do termo, chamo justamen te d e
relações h umanas. Está manifesto n a con d u ta d e m inh a cadela, no
que concerne p recisam ente ao refluxo sobre seu p róp rio ser dos efeitos
do conforto, d as posições de p restígio, que uma gran d e parte, digamos,
para n ão dizer a to talidade do registro do que p ro d uz o p razer d e minha
p róp ria relaç ão, por exemplo, com uma m ulher do m un do, está aí,
in teiramente completo. Quero dizer que, q uando ela ocupa um l u ga r
p riv ilegiado como este, q u e consiste em estar em cima d o que chamo
de minha cama, dito de o u tra maneira, o leito matrimonial, o tipo d e
olhar d e ond e m e fita nessa ocasião, suspen so entre a glória d e ocupar

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Lição de 29 de novembro de 1961

um lugar do· qual situa perfei tamente a significação privilegia d a e o


temor do ges to iminen te q ue vai fazê-la retirar-se, não é uma dimensão
diferen te disso q ue nasce no olhar do que chamei, por pura demagogia,
de mulher cio mun clo ";; porque se ela não tem, no q ue se refere ao que
chamamos prazer da conversação, um privilégio especial, é bem o mesmo
olhar q ue ela tem, quando, a pós ter se aventurado em um ditirambo
sobre tal filme que lhe parece o supra-s umo do adven to tecnológico,
ela sente s u spensa sobre si, a decla ração, por mi m, ele que aborreci-me
ao máximo, o q ue, cio pon to de vis ta do nihil mirari, q ue é a lei da al ta
sociedade, já faz s u rgi r nela esta s uspei ta de que teria sido melhor ter­
me deixado falar primeiro.
Is to, para modera r, ou mais exatamente, para res tabelecer o sen tido
da q ues tão q ue coloco, no q ue diz respeito às relações da fala [parole]
com a linguagem, des tina -se a in trod uzir o que ten tarei distinguir para
vocês, referen te ao q ue es pecifica uma linguage m como tal, a língua
[Zangue ] , como se diz, na medida em que, se é o privilégio do homem,
isso não está completamen te claro, por que ele aí permanece confinado?
Isto merece ser sole trado, é o caso de dizer. Falei da língua; por exemplo,
não é indiferen te notar, ao menos por aqueles q ue não ouviram falar
de Rousselot aqui pela primeira vez , é mesmo assim necessário q ue
saiba m como são fei tos os reflexos de Rousselot. Permito-me ver,
imediatamen te, a importância do q ue ficou ausente em minha explicação
de agora a pouco sobre minha cadela, é que falo ele algo de faríngeo
[pharyngal] . glótico [glottal], e en tão, de algo q ue se es tremecia para
lá e pa ra cá, e que é, portan to, registrável em termos de pressão, de
tensão. Mas não falei de efei tos de l íngua, não há nada q ue faça um
es talo, por exem plo, e menos ainda u ma ocl usão; há hesi tação,
es tremecimento, sopro, há todo ti po de coisas que disso se aproxi mam,
mas não há oclusão. Não q uero me es tender demais hoje, isso vai re tardar
as coisas relativas ao u m ; paciência, é preciso aprovei tar o tempo para
ex plicar as coisas. Se o s ublinho de passagem, en tendam bem que não
é por prazer, é porque o encon tramos aí, e não poderemos fazê -lo senão
retroativamente, o sentido. Esse não é, talvez, um pilar essencial de
nossa explicação, mas, e m todo caso, tomará seu sentido em um rnorrwrr lo,
nesse tempo da ocl usão; e os traçados de Rousselot, q ue l alvcz voc/"H
tenham cons ultado por s ua con ta no in tervalo, o que me pcrr 1 1 l llró
abreviar minha ex plicação, serão aí talvez pa rtic ularrncnlc sign ificallvoH.

- 43 -
A Identificação

Pa ra que imaginem d es d e já o que é es ta oclus ão, vou dar -lhes u m


exemplo. O foneticista a bo rda, d e uma só v ez, e não s em razão, vocês
ver ão, o fonema pa e o fonema ap, o que lhe permite colocar os princípios
d e oposição da implosão ap à explosão pa, e nos mostrar que a consonância
do p , como no caso d e sua filha, é s er muda 17. O s entido do p está entre
es ta implosão e es ta explos ão. O p se ouv e precisa ment e por n ão s e
ouvir, e ess e tempo mudo no meio, retenham a fórmula, é alguma coisa
que só ao nível fonético da fa la (parole], é como quem faria u ma espécie
de a n úncio de um certo ponto de onde, vocês irão ver, os co nduzirei
após alguns rod eios. S irvo-me, simples mente, do que disse sobre minha
ca d ela, para assinalar-lhes que, de passagem, e para fazê-los observar,
ao mes mo tempo, qu e essa aus ência das oclus ivas na fala de minha ca d ela
é jus ta ment e o que ela tem em co mum com uma ativi dade fala nte que
vocês conh ecem bem e que se chama o canto.
Se acontece tão freqüentemente que vocês não entendam o que tagarela
a ca ntora, é jus tamente porqu e não se pode cantar as oclusivas, e espero
também que es tejam contentes de cair em si e de pensar que tu do se
arra nja, u ma vez que, em s u ma, minha ca dela canta, o que a faz entrar
para o concer to dos animais. Há mu itos outros que ca nta m e a ques tão
não é s empre d emonstrada no s entido d e saber se têm, porta nto , u ma
linguagem. Disso s e fala d es d e sempre, o cha ma, cuja figura tenho
num lindo passarinho cinza fabrica do pelos Kwa kiutl da Colômbia britânica,
traz no s eu dorso uma espécie de imagem hu ma na que comu nica uma
língua [tangue] que o u ne com uma r ã ; a r ã é suposta comunicar-lhe a
linguagem dos a nimais. Não vale a pena fazer ta nta etnogra fia, já que,
como vocês sabem, São Francisco falava aos a nimais ; não é um personagem
mítico, vivia em uma época já muito esclareci da para s eu t empo, por
todas as paixões da história. H á pessoas que fizera m lin das miniaturas
em pintura para mos tr á-lo a nós no alto d e um ro chedo, e vê-s e , a té
per d er de vis ta, bocas d e p eixes que emergem do mar para ouvi -lo, o
que, não obsta nte, confessem-no, é o cúmulo . Pode mos p erguntar, a
es se p ropósito, que língua lhes falava. Is to tem sempre um sentido no
n ivel da lingüística moderna e no nível ela exper iência psicanalítica.
Apre n demos a d efinir per feita mente a função de certos a conteci mentos
da língua, do qu e chamamos o falar babyish, es ta coisa que para alguns ,
p a ra 1 1 1i 111, por exempl o, dá nos nervos, esta co isa d o " bilú-bi hí, que
l i 1 1d i 1 1 lia es ta criancinha ". Isso tem uma função que vai além d essas

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Lição de 29 de novembro de 1961

manifestações implícita s da dimensão boba , a bobagem consistindo, no


caso, no sen timento de superiori dade do adulto.
N ão há, pois, n enhuma distinção essencial e nt re o que cha ma mos
de falar babyish e , por exemplo, uma esp écie de língua como esta que
chamamos de pidgin, quer dizer, esses tipos de línguas constituídas
quan do entram em relação dua s esp écies de a rticulações linguageiras,
os parti dários de uma se con si deram, ao mesmo tempo, na necessi dade
e no direito de u sar certos elementos significantes que são da outra
área, com o p ropósito de servi r-se deles pa ra fazer penetrar na out ra
área um ce rto n úmero de comunicações p rópria s de sua área, com
e sse tipo de preconceito de que se trata, ne ssa operação, de fazê-los
aceita r, de lhes transmitir categoria s de uma ordem supe rior. Essas
e sp écies de integ ração entre área e área linguagei ra são um dos campos
de estudo da lingüística, portanto, merecem, como tais, serem consi derados
com um valor com ple tamente objeti vo, graças ao fato de que exi ste,
ju stamente, com re l aç f1 0 à lingu agem , doi s m u n dos diferentes, na
[linguagem ] da c riança e 1 1a do a dult o. Niio pode mos deixar de levar
em conta, nem podemos negligenciar que é nesta referência que podemos
encon tra r a origem de ce rtos traços [traits] ba stante paradox ai s d a
constituição da s b ate rias signi ficantes, quero dizer, a prevalência muito
particular de certos fonemas na designação de certas relações que chamamos
de parentesco, a não universali dade , mas a e sma gadora maiori a dos
fonema s pa e ma pa ra de signar, para fornecer ao menos um dos modos
de designação do pai e da mãe ; essa i rrupção de alguma coisa que só se
justifica por elementos de gênese na aqui siç ão da linguagem, i sto é,
por fatos de pura fala , só se explica precisamente a partir da perspectiva
de uma relação entre duas esferas de linguagem di stintas. E vocês vêem
esboçar-se aqui algo que ainda é o traça do de uma frontei ra. Não penso
inovar com i sso, já que vocês sabem o que Fe renczi tentou começa r a
apontar sob o título de Confusion of tangues, muito especificamente
nesse nível da relação verbal da criança e do a dulto.
Sei que essa longa volta n ão me permiti rá abordar hoje a função do
um, o que me vai permitir acrescent ar, pois a final de contas só se trata
de limpa r o terreno, a saber, que não c reiam que lá para onde os con duzo
s�ja um campo exterior em relaç ão à sua experiência, é, ao contrário,
o campo mais inlemo d essa experiência, aquela, por exemplo, que evoquei
há pouco, particularmente nessa distinção concreta entre o ou tro e o

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A Identificação

1 1,,1 1 ,,, ,·i, sa , • x periên cia, nós só podemos atravessá -la . A i dentificaçã o,
, · .. r l 11·1 . rslo que pode fazer muito precisamente, e tão intensamente
• 1 1 1 . 1 11 1 1 1 lúr possível imaginar , que coloca sob algum ser de suas relações
1 ·,1 1l i,, t : r r r cia do outro, é algo que se ilustra em um texto etnográfico
•., ·111 l 1 111 i 1 1·s, u ma vez que é a esse respe ito que se estabeleceu , com
l , · 1· v l l r i 'tl i l, t oda uma série de concep ções teóricas que se experimenta
•.1 1 1 1 1 1·: 1 , · 11 11os " menta li dade pré-lógica", mesmo mais tarde, "par ti cipaçã o
1 1 1 1 · , l t l'a" , q ua 11do foi levad o a centrar mais especialmente sobre a funçã o
d , · r d , ·11 1 i l'icaçã o o interesse d o que lhe parecia a via de objetivação d o
, . 1 1 1 " " ' rn r r cebid o como o seu pró prio. Penso aqui que vocês sabem sob
' 1 1 1 : il par011 tesc, sob qua l reserva a pe na s e x pressa podem ser aceitas as
1 1 ·!:1,Jll's intitu ladas com tais rubri cas. É a lgo in l'ini lamente mais comu m ,
' 1 1 1 1 ' r r ;ío tem nada a ver com qualquer coisa que pusesse e m causa a
1 1 11•. il'a, r rem a racionali da de, de on de é preciso par tir para si tuar esses
l:r 1 1 1s, arcaicos ou não, da i dentificação como tal. É um fato sempre
rn r rl r cc ido e ain da constatável para nós, quan d o nos endereçamos a
:;1.1 j, •i I os presos a cer tos contextos que estão por definir, que essas espécies
d , · ra t os, vou chamá-los p or termos que derrubam as barreiras, que
l ' 1 1 lo ca m os pés pelas mãos e de modo a fazer entender claramente que
1 1 :111 pretend o aqui me deter em nenhuma participaçã o destinada a
1 1l iscurecer a primar iedade de cer tos fenômenos, esses fenômenos de
!: r i so reconhecimento, digamos, de um lad o, bi-locação, digamos, de
1 1111 ro, no nível de tal experiência, nas relações a destacar, os testemunhos
:rl 1 1 1 1 1 da m. O ser humano - cabe saber p or que é com ele que essas
1 · 1 1i sas acontecem - contrariamente à minha cadela, o ser humano reconhece
111 1 s mgimento de tal animal , o personagem que acaba de perd er, quer
i;t· 1 ra te de sua família ou de tal personagem eminente de sua tribo, o
1 ' 111!1'1• ou não, presi dente de tal sociedade de jovens, ou qualquer outr o ;
i'· , · l c , esse bisã o , é ele , ou como naquela lenda céltica, d a qual é puro
:Jl 'a so se ela vem, aqui, p or mim, uma vez que seria preciso que eu
L r l :r sse durante a eternidade para lhes dizer tud o o que me pode desper tar
1·111 1 11i11ha memória a respeito dessa experiência central, tom o uma
1 , · r r d a cél tica que não é absolutamen te uma lenda, que é um traço [trait )
d , · fo lcl ore real çad o pelo testemun ho de alguém que foi emprega d o em
1 1111:1 la' zcnda. Com a mor te do amo desse lugar, do senhor, ele [o empregado)
v,· a pa recer uma ratinha, ele a segue. A ratinha vai dar uma v olta pelo
, · : r r r r po, retorna, vai ao celeir o no qual há instrumentos de ara d o, passeia

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Lição de 29 de novembro de 1961

sob re e sses)nstrume ntos, sobre o arado , o enxadão, a pá e outros, depois


de saparece. Depoi s di sso o empregado, que já sabia do que se t ratava
em relação à ratinha, tem a co nfirmação pela aparição do fantasma d e
seu amo que lhe diz : "Eu estava nessa ratinha, dei uma volta pela propriedade
para dizer-lhe adeus, queria ver o s instrumento s de arado porque são
o s objetos e ssenciais ao s quai s se fica mai s t empo ligado que a qualquer
outro, e é somente depoi s de ter dado essa volta que pude me livrar
d eles, etc. ", co m inf'initas considerações co nce rnent es a esse p ropósito,
de um a co ncepção da s relações do defunto e de ce rto s instrume nto s
ligados a certas condições de trabalho , condições propriamente campestres,
ou m ais especialmente, agrárias, agrícolas .
'fhmo est e ex empl o para centr a r o ol har sob re a identi ficação do
se r, no que diz respeito a duas aparições individuais tão manife st a e
fo rtemente distintas da que pode se refe rir ao ser que, com rel ação ao
sujeito narrador, o cupou a posição emine nte do amo com e ste animálculo
conti ngente , i ndo , n ão se sabe ao nde, i ndo a lugar nenhum. Há aí algo
que, em si me smo , merece ser tomado n ão simple smente p ara explicar,
como co nse qüênci a, m as como po ssibilidade que merece, como t al,
ser indicada.
Qu er isto dizer que um a t al re ferência pode e nge ndrar outra coisa
que n ão a m ais completa op acidade ? Isso se ri a re conhecer m al o tipo
de elabo ração, a o rdem de e sfo rço que exijo de vocês em meu ensi no,
pensar que eu possa de alguma maneira co nte nt ar-me, mesmo apagando
o s limites de uma referência folclóri ca, em considerar natural o fenômeno
da identi ficação ; porque, uma vez que re conhe cemo s isso como fu ndo
da expe riê ncia, não sabemo s absolutamente m ai s nada, justame nte na
medida em qu e àquel es ao s quais falo, isso não pode che gar, salvo caso
excepcio nal. Temo s que manter sempre uma re se rva, e stejam seguros
de que i sso pode ainda pe rfeit ame nte o co rrer em uma ou outra zo na
campestre. Que isso n ão po ssa acontecer com vocês, a quem falo, é
i sso que divide a que st ão ; a partir do mome nto em que isso não pode
aco ntece r com vocês, vocês n ão podem e nte nder nada e, não podendo
comp re e nder nada, n ão c rei am que b a st a faze r a co notação do
aco ntecimento po r um i nício de cap ítulo que vocês chamem, com Lévy­
Brühl, de "particip ação mística", ou que vo cês o façam ent rar com ele
no co njunto m aio r da "ment alidade pré-lógica", para que vocês tenham
dito al gum a coisa de interessante. Resta que o que voc�s podem af

-47-
A Identificação

domesticar, tornar mais familiar por meio de fenômeno s mais atenua dos,
não ser á nem por isso mais v áli do, já q ue é desse f undo o pa co q ue
vocês devem partir. Vocês encontram ainda aí uma referência de Apollinaire :
"Come teus pés à Santa M éheho ul d " 1 8 , diz, em alguma par te, o herói
[a heroína ] de Mamelles de Tiré sias a seu mari do. O fato de comer se u s
pés à Mitsein [ à moda Ser-com ] não resolve nada. Tra ta -se, para nós,
de a preender a relação dessa possibilidade q ue se chama i dentificação ,
no senti do em que daí surge o que só existe na lingua gem e graça s à
linguagem, uma ver da de, para a qual lá e stá uma i dentificação que não
se distingue para o servidor da fazenda que acaba de nos contar a experiência
da qual lhes falei há po uco ; e para nós, que fun damo s a ver da de sobre A
é A, é a mesma coi sa , porque o que ser á o ponto de partida do meu
discur so da próxima vez ser á i sto, por que A é A é um absurdo ?
A análise e str i ta da função do significante, na medida em q ue é por
ela que preten do introd uzir a questão da significação, é a par tir di sso ,
é que se o A é A consti tui u, se posso dizer, a condição de toda uma era
[âge] do pensamento, cuja ex ploração cartesiana pela qual comecei é o
termo, que se pode chama r de a era teológica , não é meno s ver da deiro
que a análise lingüí stica é correla tiva ao a dven to de o utra era, mar ca da
por correlações técnica s precisa s, entre as quais é o a dv ento matemático ,
quero dizer na s matemática s, de um uso am plia do do significante. Podemos
no s dar con ta de que é na medi da em que o A é A deve ser colo ca do em
questão, q ue nós po demo s fazer avançar o problema da iden tificação.
Indico -lhes, desde já q ue se o A é A não f unciona farei girar minha
demonstração em torno da função do um, e, para não deixá-los totalmente
em suspenso , e para que, 1 . : i . , :- . ,. ,ida um de vo cês comece a se form ular
algo sobre o caminho do q ue lhes direi ma is a dian te, lhes rogaria q ue
se repor ta ssem ao ca pít ulo do Cours de Linguistique [Curso de Lingüística
Geral] de De Saussure, que termina na página 1 7 5 . E ste capítulo termina
por um par ágrafo que começa à página 1 7 4 e l eio para vocês o par ágrafo
seguinte: "a plicado à unida de , o princípio de diferenciação pode form ular ­
se a ssim : as ca racterísti ca s da unidade conf undem -se com a pr ópria
unidade . Na l111gua, como cm todo sistema semiol6gi co " - islo m ereceria
ser discutido - "o que distingue um signo [signe ] . é tudo o q ue o constitui.
É a diferença q ue faz a cara cterí stica, como ela confere o valor e a
u nid ade ". Dito de o utra maneira, diferentemente do signo, e vo cê s o
vcrf10 confirmar-se por pouco q ue leiam o ca pí tulo, o que distingue o

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Lição de 29 de novembro de 1961

significan te é somen te ser o que os outros não sfw; o que, no signi fic ante,
implica essa função de uni dade é justamente ser somente diferença. É
enquan to pura diferença que a uni dade, em sua função significan te,
se es trutura, se cons titui. Is to não é um traço único, de alguma forma
ele cons ti tui uma abs tração unilateral que diz respeito à relação, por
exemplo, sincrônica do significan te. Vocês verão, na próxima vez, que
nada é propriamente pensável, nada da função significante é propriamente
pensável, sem partir disso que formulo: o Um como tal é o Outro . É a
par tir disso, dessa es tru tura fundamen tal do um como diferença, que
podemos ver aparecer essa origem, da qual se pode ver o significan te
se cons ti tuir, se posso dizer, é no Ou tro que o A, do A é A, o A maiúsculo,
como se diz, a gran de palavra, está di to.
Do processo dessa linguagem, do significante, somen te pode par ti r
uma exploração que seja fun damen tal e radical de como se cons ti tui a
i den tificação. A i dentificação n ão tem nada a ver com a unificação.
Somen te dis tinguindo-a des ta é que se pode dar -lhe, não somente s eu
des taque essencial, como suas funç ões e suas variedades.

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LIÇAO IV
6 de dezembro de 1 961

R etom emos nossa idéia, a sab er, o q u e lh es anunciei na úl tima vez,


que eu p retendia fazer girar em torno da noção do um, nosso p roblema,
o da iden tificação.já tendo anunciado que a identificação não é simplesmente
fazer um. Penso que não será difícil para vocês a dmitir isso.
Partimos, como é normal no que diz respeito à i d en tificação, do modo
de acesso mais com um da experiência s ubjetiva, a q uele que se exprime
p elo que parece a evi dência essencialmen te com unicável na f órm ula
que, em uma prim eira aproximação, não parece s usci ta r objeção, que
A s eja A. E u disse uma p rimeira aproximação porque es tá claro que,
qual q uer que seja o valor de crença que comporta essa fórm ula , n ão
sou o prim eiro a levan ta r obj eções a ela ; basta que vocês abram o m enor
tratado de lógi ca pa ra encon tra rem quais dificul da d es a distinção d essa
fórm ula, aparen tem en te a ma is simples, suscita em si mesma. Vocês
i nclusive poclcrüo ver que a maior pa rte da s di ficul dades a resolv er em
muitos don 1ínios -- mas é particula rmen te surpreenden te que s eja em
lóbiica, 1 1 1ais do que c1 1 1 qualquer out ra parte - resul ta de todas as confusões
possíveis que possam surgir d essa fórmula, que se p res ta eminentemente
à con fusão. Se vocês experimentam, por exemplo, alg umas dificuldades,
a té m esmo alg uma fa diga ao lerem um tex to tão apaixonan te qua n to o
do Parmênides de Pla tão, é na medida em que, sobre esse ponto do A é
A, digamos que lhes fal ta um pouco de reflex ão, e portanto, jus tamen te,
se disse agora mesmo que A é A é uma crença , é p reciso en tendê-lo
como eu diss e, é uma crença que seguramente nem sempre reinou
sobre nossa espécie, de maneira que, seja como for, o A começou cm

- 51 -
A Identificação

algum lugar, eu falo do A, letra A, e não devia ser tão fácil chegar a
esse n ú cleo de certeza aparente que há no A é A , quando o homem n ão
dispunha do A. Direi em seguida po r qual caminho essa reflexão po de
nos con duzir. É conveniente, assim mesmo, dar-se conta do que acontece
de novo com o A. No momento, contentemo-nos com o que nossa linguagem
nos pe rmite articula r aq ui, é que A é A , tem o ar de querer dizer algo,
isto faz s ignificado [cela fait signifié ] . Afirmo - cer to de não encontrar
a esse respeito nenhuma oposição so bre esse tema po r parte de ninguém ,
em posição d e competência, cuja provação foi feita pelos teste munhos
inegáveis do que se po de le r sobre isso - que, ao interpelar este ou
aquele matemático suficientemente familiarizado co m sua ciên cia, para
saber onde nos encontramos atualmente, po r exemplo, e depois outros,
em to dos os domínios, eu não encont raria oposição para avançar sobre
ce rtas condições de explicação, que são justamente aquelas às quais
vou sub mete r-me diante de vocês, que A é A não signi fica nada.
É justamente desse na da que vai se tratar, porque é esse na da que
tem valo r posi tivo para di zer o qu e isso s ig1 1 i lka. Ti.: 1110 s em nossa
experiência, mes mo em nosso folclore analítico, algo, a imagem nunca
suficiente mente ap rofun da da, explorada, que é o jo go do garoto tão
sabiamente in dicado po r Freu d, percebi do de manei ra tão perspicaz
no fort-da. Reto memo-lo por nossa con ta, como no pegar e no ati ra r
u m objeto - t rata-se, nessa criança, de seu netinho - Freud soube percebe r
o gesto inaugural no jogo. Re façamos esse gesto, to memos esse pequeno
objeto, uma bola de pingue -pongue ; eu a pego, a escondo, torno a mostrá­
la ; a bola de pingue-pongue é a bola de pingue -pongue, mas não é u m
significante, é u m objeto, é uma aproximação dizer este pequeno a é
u m pequeno a ; há, en tre esses dois mo men tos, que i denti fi co
incontestavel mente de maneira legitima, o desapare cimento da bola ;
se m isso , não há meio de demonstrar, n ão há na da que se for me no
plano da imagem. Pois a bola está sempre ali e posso entra r em catalepsia
ele tanto olhar para ela.
Que relaç ão existe entre o é que une as duas apa rições da bola e esse
desaparecimento inter mediário ? No plano imaginário, vocês podem per ceber
que pelo menos se coloca a questão da relação desse é com o que parece
c a 1 1sá-lo, a saber, o desaparecimento, e aí vo cês se ap roximam de u m
d o s segredos da identi ficaçã o, que é aquele ao qual tentei remetê -los
1 1 1 1 f11lclore da i dentificação, essa assunção, espontânea para o sujeito,

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Lição de 6 de dezembro de 1961

da identi da de de duas aparições, no entanto bem di fere ntes. Lembrem ­


se da his tória �o fazendeiro mo rto, o qual seu emprega do encontra no
corpo da ratinha. A relação desse "é ele" com o "ainda é ele", es tá aí o
que nos dá a expe riência mais simples de i denti ficação, o modelo e o
regis tro. " Ele , depois ai nda ele" exis te aí a visada do ser no "ainda ele"
é o mesmo ser que aparece. Com relaç ão ao ou tro, em suma, isso pode
funcionar assim, fu nciona para minha cadela, que tomei ou tro d ia como
termo de re ferência, como acabo de dizer-lhes , funciona ; essa referência
ao ser é suficientemente suportada, parece-me, por seu olfato ; no campo
imagi nário, o supo rte do ser é rapi dame n te concebível. Tra ta-se de
saber se é efetivamente essa relaç ão simples que es tá em jogo em nossa
expe riê ncia da i de ntificação. Quando falamos de nossa experiência de
ser, não é por nada que to do o esforço de um pensamento, que é o
nosso, contemporâneo , vai formular alguma coisa da qual nunca desloco
o grande m óvel senão com um certo sorriso, esse Dasein, esse modo
fundamental da nossa ex periência, do qual pa rece que é preciso desi gnar
o m óvel dando acesso a es se termo do ser, a referênci a primária.
É logo aí que alguma c oisa d i l"erente 1 1 0 s obriga a i n lerrngar- nos sob re
o fato de que a escansão na qual se manifes ta essa presença no mu ndo,
não é simplesme n te imaginária, a saber, que já n ão é ao ou tro que a qui
nos re ferimos, mas ao mais íntimo de nós mesmos, do que tentamos
f aze r o ancora dou ro, a raiz, o fu ndame n to do que somos como sujeitos.
Porque , se po demos articular, como fizemos no plano imaginário, que
minha cadela me reconhece e nquanto eu mesmo, não temos, em
contraparti da, nenhuma indicação sobre o modo como ela se identi fica ;
de qualquer maneira que possamos implicá-Ia nela mesma, não sabemos,
não temos nenhuma prova, nenhum testemunho do mo do sob o qual
ela ancora essa i dentificação.
É aqui que apa rece a função, o valor do significante como tal ; e é na
p rópria medi da em que é do sujeito que se tra ta, que temos que nos
inte rrogar sobre a relação dessa i dentificação do sujeito com o que é
uma dimens ão diferente de tu do o que é da ordem do aparecime n to e
do desaparecimento, a sabe r, o es tatu to do signi fica nte. Que nossa
expe riência nos mos tra que os di fere n tes modos, os diferentes fingulos
sob os quais somos levados a nos identi ficar como sujeitos, ao menos
para uma pa rte den tre eles, sup õem o significante para articulá-lo,
inclus ive sob a forma n a 111aioria das vezes am bígua, i mp rópria, mal
A Identificação

1 1 1 a 1 1 ejável e sujeita a todas a s e spécies de reserva e de distinções q ue é


o A 1i A. É pa ra lá que q ue ro leva r sua atenção ; e a ntes de mais na da
quer o dizer, sem per der mais tempo , mostra r-lhes que , se temos a chance
de dar um pa sso a mais ne ste sentido, é tenta ndo articula r o e stat uto
do significante como tal .
Indico-o imediatamente, o significante não é o signo. Vamos nos esforça r
p ara dar a essa distinção sua fórm ula precisa. Quero dizer q ue é para
most rar onde reside essa d iferença, q ue poderemo s ver surgi r esse fato
já da d o por no ssa ex pe riência, que é do efeito d o significante q ue surge
o sujeito como t al. Efeito metoními co cn1 e feit o metafórico ? Nós n ão o
sabemos ainda, e, t a lvez já haja alg o art icul ável a n tes d esses c l"ei tos,
que no s permit a ver a parece r, forma r em um v ínculo, em uma relação,
a depen dência do sujeito como tal, em rel açã o ao significante. É i sso
que nós v amos colo car à p rova.
Pa ra a di anta r o que t rato de fazê -lo s entender, para a d ia ntá-lo em
uma breve imagem, à q ual só impo rta atrib ui r ai n da uma e sp écie de
valor de suporte, de apólogo , meçam a diferença ent re o que , a p rincípio ,
po de pa recer-lhes talvez um jo go de pala v ras, ma s q ue justamente é
um deles, h á o rast ro de um passo [la trace d'un pas] 1 9 [e o nenhum
rastro ] 2° [le pas de trace] . E u já os levei po r e ssa pista fortemente tingi da
de misticismo, correlativ a , justamen te, do tempo em q ue começa a se
arti cula r no pensamento a função do sujeito como tal , Robinso n , diante
do ra stro do pa sso [trace de pas] que lhe mo st ra que ele não está sozinho
na ilha. A di stânci a q ue sep ara esse pa sso [pas ] . e i sso q ue se to rno u
foneticamente niio lle pasj como instrumento da negação, são, justamente,
doi s extremo s da ca deia q ue ro go - lhes reter, antes de most ra r-lhes
e fetiv a mente o que a constit ui, e que é ent re as d ua s ex tremi d ades da
cadeia que o sujei to po de surgi r, e cm ne nhum o utro luga r. Ao e ntendê­
lo, chega remo s a relat iviza r algo , de tal ma nei ra, que você s po ssam
co n sidera r esta fórmula , A é A, em si mesma , como uma e spécie de
estigma [stigmate], quero dizer, em seu ca ráter de crença , como a a firmação
do que chamarei uma época , época , momento, parêntese , termo histórico,
enfim, do qual po demo s , vo cê s verão , e nt rever o campo como limitado.
O q ue chamei o ut ro dia uma i n dica ção , q ue co n tinuará ainda sendo
uma indicação de i denti d a de dessa fal sa co nsi stência do A é A , com o
q u e chamei de uma e ra teológica, me permiti rá , creio , dar um pa sso
1w q ue co nce rne o p rob lema da identifica ção , na medida em q ue a

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Lição de 6 de dezembro de 1961

análise necessita que nós a coloquemos, em relação a um certo acesso ao


idêntico, tránscendendo-a.
Ess a fec un d i d a de, ess a espécie de determin ação suspensa nesse
signific ado do A é A, n ão poderia apoiar-se sobre sua verdade, já q ue
essa afirmaç ão não é verd adei ra. O que se trata de alc ançar naq uilo
q ue me esforço para coloc ar dian te de vocês, é q ue essa fec undi dade
repousa j us tamen te sob re o fa to obje tivo, emprego aqui obje tivo no sentido
q ue tem, por exem plo, no texto de Desc artes, q uando se vai um pouco
mais longe, vê-se surgir a distinçáo concernen te às idéias, de sua re ali dade
atual com sua reali d ade objetiva, e naturalmen te os professores nos
saem com vol umes er udi tos, tais como um índic e escolás tico-c artesiano
para nos dizer o que nos par ec e, já que Deus sabe que somos espertos,
um pouco con fuso, que é uma herança d a escolástica, por meio d a q ual
se c rê ter explic ado tudo. Quero dizer q ue nos libertamos do que se
trata, is to é, porque Desc artes , o anti-escolás tico, foi levado a servir-se
desses vel hos acessórios. N áo parece q ue c hega tão facilmen te à i déia,
mesmo dos mel hores histori adores , que a únic a coisa interessante é o
que o obriga a tornar a servir-se desse velhos acessórios. F ic a claro q ue
n ão é para re fazer o argumen to de Santo Anselmo que ele torna a coloc ar
tudo isso novamente na cena.
O fa to obje tivo de que A n ão pode ser A, é o que eu queria em primeiro
lugar coloc ar para vocês em evidência, jus tamente para fazê-los compreender
q ue se trata de algo q ue tem rel aç ão com o fato obje tivo, e até mesmo
nesse falso efei to ele signific ado, que não é sen ão sombra e conseqüência
do q u e nos deixa lig ados a essa espécie d e im ediatismo que há no A é
A. Que o signi l'ica n te seja fec undo por n flo pod er ser, c m nen h um c aso,
idêntico a si mesmo, entendam bem o que quero dizer -está absolutamente
cl aro q u e n ão estou, ainda q u e v al ha a pena di stingui-lo de pass agem,
ten tan d o fazê-los observar q ue não há tau tologia no fato de d ize r que a
guerra é a guerra. Todo m un d o sabe que, q uando dizemos que a gue rra
é a guerra, estamos dizen do q ualquer coisa, n ão sabe mos exatamen te
o q uê, mas podemos proc urá -lo, e pode mos encon trá -lo e encon tramo­
lo m ui to facilmente ao alcance d a mão. Is to q uer dizer, o que começa
a partir de um certo momento, es tá -se em es tado de guerra. Is to implica
condições um pouco diferen tes d as cois as , tal como Péguy dizia "que
as peque nas c avilhas n ão en travam mais nos peq uenos b uracos ". É
uma d efinição peguys ta, q uer dizer, q ue não é nada menos que c ert a ;

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A Identificação

poderíamos s ustentar o c on trário, a saber, que é j ustamente para recolocar


as cavilhas em seus verda deiros b urac os q ue a g uerra c omeça, ou, a o
c on trário, que é para fazer n ovos peq uen os b urac os para velhas pequenas
cavilhas , e assim p or dian te. Por outro la d o, iss o não tem para n ós,
es tritamente, nen h um in teresse, salvo q ue essa perseg uição, q ualq uer
que seja, se realiza c om uma notável eficácia, p or intermédio da mais
profun da imbecili da de, o q ue n os deve igualmente fazer reíletir s obre
a funçã o do s ujeito c om relação a os efeitos do significante.
Mas tomemos algo simp les e terminemos rapidamen te. Se dig o
meu avô é meu avô, vocês devem assim mesmo c ompreen der q ue não
há aí nen h uma ta utologia, que meu avô, primeiro term o, é um uso de
ín dice [in dex] do segun d o termo meu avô, que nã o é sensivelmente
diferente de seu nome próprio, por exemplo, Émile Lacan, nem tampouc o
do e d o c'est [es te é ] . quan d o eu o designo a o en trar em um cômodo,
es te é me u avô. O q ue nã o quer dizer que seu n ome próprio seja a
mesma c oisa que es te e de "this is my grandfather". Ficamos es tupefatos
q ue um lógic o c omo Russell tenha p odi d o dizer q ue o nome pr óprio é
da mesma ca tegoria, da mesma classe sign ificante que o this, that ou
it, s ob o pretex to de que são s usce tíveis do mes mo uso funcional, em
certos cas os. Isto é um parêntese, mas c omo todos os meus parên tes es,
um parêntese des tina d o a ser retoma do mais tarde, a propósito do estatuto
do n ome próprio, do q ual nã o falaremos hoje. Seja c omo for, o q ue está
em q uestão em me u avô é meu avô, q uer dizer iss o, que esse execr ável
pequeno b urguês q ue era o menciona d o b om homem, esse horrível
pers onagem graças ao qual c heguei, em i dade precoce, a essa f unção
fundamen tal de maldizer Deus, esse personagem é exa tamente o mesmo
que se apóia s obre o es ta d o civil, c omo fica demons tra d o pelos laços d o
casamento, ser pai d e m e u pai, já que é j us tamen te d o nascimento
des te q ue se tra ta no a to em ques tã o.
Vocês vêem a té que ponto me u avô é me u avô não é uma ta utologia.
Iss o se aplica a todas as ta utologias, e não d á uma fórmula unívoca,
p orque aqui se tra ta de uma relaçã o do real c om o simbólic o. Em outros
c as os, h ave rá uma rcla çflo do imaginário c om o s imbólic o e, !"ci tas todas
as séries de perm utações, tra ta -se de ver quais são váli das. Não p osso
c o m prometer-me p or essa via, porque, se lhes falo disso, que é, de
cert a forma, uma man eira de descartar as f alsas ta utologias que são
si 1 1 1 p l csmcn l c o uso c om um, permanente da ling uagem, é para dizer-

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Lição de 6 de dezembro de 1961

lhes que não é isso que que ro dizer. Se a f'irmo que não há tautologia
possível,, não é enquanto A p rimeiro e A segundo querem dize r coisas
diferentes, que di go que não há tautologia, é dentro do es ta tuto mesmo
de A que está inscri to que A não pode ser A, e foi aí que terminei meu
discu rso da última vez, apontando-lhes em Saussure o pon to em que
está dito que A, como significante, não pode, de nenhuma maneira, se
definir senão como não sendo o que são os outros significantes . Do
fato de ele não poder se definir senão justamente por não ser todos os
outros significantes, depende essa dimensão, igualmente verdadeira,
de que ele não poderia ser e le mesmo.
Não basta avança r assim dessa maneira opaca, justamente porque
ela surpreende, porque ela a tordoa essa crença suspensa ao fato de
esta r ali o verda dei ro suporte da identidade, é p reciso fazê-los senti r. O
que é um significante ? Se todo mundo, e não somente os lógi cos, f ala
de A, quando se tra ta de A é A , não é por a caso. É que , para supo rta r
o que se designa, é p reciso uma let ra. Penso que vocês concordam
comigo , mas mesmo assim n ão tomo esse salt o por decisivo, até que
meu discurso o comprove, o demonstre de uma manei ra suficien temente
a bundante pa ra que vocês estejam convencidos ; e esta rão tan to mais
conven cidos, quando eu tra ta r ele mostrar-lhes na letra justamen te,
essa essên cia cio signi ficante, por onde ele se distingue do signo. Fiz
a lguma coisa pa ra vo cês, sábado passado, em minha casa de campo, na
qual pendurei à pa rede o que se chama de uma calig ra fia chinesa. Se
não fosse chinesa, eu não a teria pendurado à pa rede, pela razão de
que só na China a caligra fia ganhou um valor de objeto de a rte ; é a
mesma coisa que ter uma pintura, tem o mesmo preço. Há as mesmas
diferenças, e talvez mais ainda, de uma es crita à outra em nossa cultu ra,
do que na cultura chinesa, mas nós não a tribuímos o mesmo valor. Por
outro lado, terei ocasião de mostra r-lhes o que, pa ra nós , pode masca ra r
o valor d a letra, o que, e m razão d o esta tuto pa rticula r do ca ra ctere
chinês, está pa rticula rmente bem posto em evidência nesse ca ra cte re.
O que vou, portanto, mostra r-lhes, não toma sua p lena e exa ta posição
lsilualion ] senão a través de uma certa reflexão sobre o que é o caractere
chinês ; já fiz, não obsta nte, alguma vez, bastante alusão ao ca rac tere
chinês e a seu estatuto, para que vocês saibam que chamá-lo de ideográfico
não é, de forma alguma, suficiente. Eu o mostra rei a vocês, talvez, em
mais detalhes ; é o que ele tem, aliás, de comum com tudo o que se

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11 !dentU1cação

, 1 , 1 1 1 1 1 1 1 1 i l , · 1 d 1 · 1 11 ', r:i l'ico, nfto há , p ropriamen te falando, nada qu e mereça


, , , , , , 1 , · 1 1 1 1 1 1 111 1 s1:11 1 i clo cm que o imaginamos habitu almente , eu diri a ,
, , , , . , . . , . 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1: i l11w11 1 c, 1 1 0 sentido em que o pe queno esquema d e Saussure ,
, 1 1 1 1 1 . 1 1 1 1 1 1 1 , . a (1 rvore de senhada em baixo, ain d a o susten ta por u ma
, · · I '' '' 1 , · , ! , · 1 111prnclência que é aquilo a que se p rendem os mal-en tendidos
, . , · . , 1 1 1 1 l 1 1s1 H's': 1 . O que quero mostrar-l hes, p reparei em dois exemplares.
1 1 . 1 1 1 . 1 1 1 1 1 11c dad o, ao mesmo tempo, um pequeno ins trumen to novo, o
, , 1 1 . i ! . i lg1 111s p int ores dão grand e imp ortância, que é uma espécie de
l ' l 1 w , · I l ' sp csso em que a tin ta vem do in terior, o que perm ite faze r
1 1. 1 1, 1 1s l i m i / s i com uma espessura , uma consistência inte ressan te. D isso
1 , · :; 1 i l 1 1 1 1 1 , q ue cu copiei mu i to mais facil m en te do qu e te ria fei to
111 11111al111 c 11t c, a fo rm a que tinham os caracte re s cm min ha caligrafia ;
1 1 :1 rnl 1 1 1 1a da esqu erda , a caligrafia des ta f rase que qu er dizer: a sombra
,/,· 1 1 1 1 · 11 chapé u dança e tremula sobre as flores de H ai Tang ; d o ou tro
L 1 c l 1 1, vocês vêem e scrita a m esma f rase cm caracte re s mai s comun s , os
1 11ais l ícitos, os que o estuda nt e hesitante faz quando escreve corre tamente
s 1 · 1 1s caracteres. Essas duas s éries são perfei tame n te iden tificáveis, e ,
a o 1 1 1 csmo tempo, não s e assem el ham cm nada. Percebam , q ue é da
1 1 1a11eira mais clara que não s e pa recem em nada , que são evidentemente,
d1• a l lo a baixo, à direita e à esquerda , os sete m esmos ca racteres, m esmo
para alguém que não tem nen huma idéia, n ão som en te dos caracteres
c h i n eses, mas n en huma idéia a té en tão, de que havia coisas que se
chamavam caracteres chineses. Se alguém descobri r, pe la primeira vez,
islo desenhado em a lguma parte de um dese rto, ve ria que se trata, à
direita e à esquerd a d e ca racteres , e da mesma suce ssão de caracte res
:1 cli reila e à esquerda.
Isto pa ra i n trod uzi -los no que faz a essên cia do sign ifica n te , e q ue
1 1 :fo é p o r nada que o ilu strarei melhor por essa forma m ais simp les,
q 1 ic é o que desi gnamos de sde algum tempo com o o cinziger Zug 22 • O
dnzi_qer Zug, que é o que dá a essa fu nçã o seu valor, seu ato e seu
p rin cípio, é o que, para dissipar o que poderia aqui restar de confusão ,
nece ssi ta qu e eu i n troduza, para traduzi-lo mel hor e mais p róximo do
t er mo, que não é absol u tamente um neol ogism o, que é emp re ga do na
1 1· 01 ' ia dit a dos conju n tos, a palavra unário [unaire] cm lugar d a pal av ra
,í 11ic:o. Ao m enos é ú til que me sirva dele hoje, para fazê -los sentir esse
1wrv o de q u e se trata na• distinção do estatuto do significan te. O traço
1 1 11;irio l trnit una ire 1, portanto, seja ele como a q ui, v ertical - ch amamos

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lição de 6 de dezembro de 1961

a isso "fazer bastões"2:i _ ou seja ele, como o fazem os chineses, horizonlal,


pode parecer que sua função exemplar esteja ligada à redução extrema ,
a seu propósito justamente, d e todas as ocasiões de diferença qualitativa.
Quero dizer que, a partir do momento em que eu deva fazer simplesmente
um traço, parece que não há muitas variedades nem variações possíveis;
é isto que vai constituir seu valor privilegiado para nós .
Não se enganem . Não se tratava, agora há pouco, de despistar o que
há n a fórmula não há tautologia, de perseguir a tautologia no l ugar
onde justamente ela não está, como tampouco se trata aqui de discernir
o que chamei de caráter perfeitamente apreensível do estatuto d o
significante, qualquer q u e ele seja, A ou um outro, pelo fato de q u e
alguma coisa e m sua estrutura eliminaria essas diferenças - e u as chamo
de qualitativas porque é desse termo que os lógicos se servem, quando
se trata de definir a identidade - da eliminação das diferenças qualitativas,
de sua rcduçfo, como se diria, a um esquema simplificado; aí é que
estaria o 111eca11 ismo desse reco11hecime1 1 to cara cteríslico de nossa
apreensão do que é o suporte do significante , a letra. Não é nada disso,
não é disso que estamos tratando. Porque, se faço uma linha de bastões,
é perfeitamente claro que, qualquer que seja meu empenho, não haverá
um só semelhante, e eu diria mais, eles são m uito mais convincentes
como linha de bastões, pois justamente não me terei esforçado por
fazê-los rigorosamente semelhantes.
Desde que tento formular para vocês o que estou formulando agora,
com os recursos à mão, isto é, os que estão dados a todo mundo, tenho­
me interrogado sobre o que, afinal de contas, não está eviden te de
imediato, em qual momento vemos aparecer uma linha de bastões?
Estive em um lugar realmente extraordinário, no qual, talvez, afinal,
com os meus propósitos vou propiciar que se anime o deserto, q uero
dizer que algu ns de vocês entrarão lá, quero dizer, o Museu Saint­
Germain . É fascinante, é apaixonante, e o será muito mais se voc�s
tratarem de encon trar alguém que já tenha estado lá antes de vocês,
porque n ão há nenhum catálogo, nenhum plano, e é completamente
impossível saber onde e qual e o que, e de se orien tar na seqüência das
salas. Há uma sal a qu e se chama sala Piettc, o nome de um juiz q u e foi
u m gênio e guc fez as ma i s }JftHlig;i osafi d�s cobe rla!l d a pré-hl!ltPria,
digo, de alguns objetos miúdos, em geral, de tamanho muito pequeno,
que são o que se pode ver de mais !'a scinanle. Segurar nas mãos uma

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A Identificação

pequena cabeça de mulher que tem certamente trinta mil anos tem, de
qualquer maneira, seu valor, além de essa cabeça estar cheia de questões.
Mas, vocês poderão ver através de uma vitrine, é muito fácil de ver,
pois, graças às disposições testamentárias desse homem notável, foi-se
absolutamente forçado a deixar tudo na maior desordem, com as etiquetas
completamente ultrapassadas que encontramos nos objetos, conseguiu­
se, apesar de tudo, colocar sobre um pouco de plástico algo que permite
distinguir o valor de alguns desses objetos; como dizer-lhes dessa emoção
que me tomou quando, inclinado por sobre uma dessas vitrines vejo,
sobre uma costela fina, evidentemente a costela ele um rnamfl'c ro ·- não
sei bem qual, e não sei se alguém sal.Jcd melhor cio que cu - cio gênero
cabrito montês, uma série de pequenos bastões, dois primeiramente,
logo um pequeno intervalo, depois cinco, e depois recomeçando. Eis
aqui, dizia, dirigindo-me a mim mesmo pelo meu nome secreto ou público,
eis porque, em suma, Jacques Lacan , tua filha não é muda [ta filie
n'est pas muette ]24. Tua filha é tua filha, porque se fôssemos mudos, ela
não seria tua filha. Evidentemente, isso é vantajoso , mesmo vivendo
em um mundo muito comparável àquele de um asilo universal de loucos,
conseqüência não menos certa da existência de significantes, vocês verão.
Esses bastões, que só aparecem muito mais tarde, muitos milhares
de anos mais tarde, depois dos homens terem sabido fazer objetos com
uma exatidão realista, que no período Aurignaciano25 desenharam bisões,
atrás dos quais, do ponto de vista da arte da pintura, ainda que corramos
nunca alcançaremos. Mas, bem mais, na mesma época fazia-se, em
osso, bem pequena, a reprodução de algo pelo qual não pareceria ter
sido necessário fatigar-se, já que é uma reprodução de uma outra coisa
em osso, mas muito maior, um crânio de cavalo. Por que refazer em
osso, bem pequeno, essa reproduçfto inigualável, quando realmente
imaginamos que naquela época eles tinham outra coisa para fazer?
Quero dizer que, no Cuvier26 , que tenho em minha casa de campo,
tenho gravuras muito notáveis de esqueletos de fósseis que são feitas
por artistas renomados, e que não são melhores que esta pequena redução
de um crânio de cavalo esculpida no osso, que é de uma exatidão anatômica
tal , que não é somente convincente, mas rigorosa.
Muito bem ! É somente muito mais tarde que encontramos o rastro
l i rnc1!] de algo que é, sem ambigüidade, significante. E esse significante
{· solit:í rio, porque não sonho em dar, por falta de informação, um sentido

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Lição de 6 de dezembro de 1961

especial ao pequeno aumento no in tervalo que há em algum lugar nessa


linha de bastões. É possível, mas não posso dizer nada sobre isso. O
que quero dizer, ao contrário, é que aqui vemos surgir algo sobre o
qual não digo que é a primeira aparição, mas, em todo caso, uma apariçfw
certa de algo que vocês vêem que se distingue completamente do que
pode se desenhar como a diferença qualitativa . Cada um desses traços
[ traits] não é, em absoluto, idêntico àquele de seu vizinho, mas não ó
porq ue são diferentes, que funcionam como diferen tes, mas em razüo
de que a diferença significante é distinta de Ludo o que se refere ;\
diferença qualitativa, corno lhes tenho mostrado com essas pequenas
coisas que acabo de fazer circular entre vocês. /\ cl i f"crcnça qualit a tiva
pode, inclusive, no caso, sublinhar a mesmidade signilkanle. Essa meslllidad1:
é constituída assim, justamente porque o significante como tal serve
para conotar a diferença em estado puro, e a prova é que, em sua primeira
aparição, o um, manifestamente desib'1la a multiplicidade atual .
Dito de outro modo, sou caçador, já que estamos transportados ao
nível do Magdaleniano IV. Deus sabe que pegar um animal não era
muito mais simples naquela época, do que o que é em nossos dias para
os que se chamam Bushmen 27 , e era uma aventura i Parece que logo
após ter atingido o animal, era preciso bater nele longamente, para vü ·
lo sucumbir ao que era o efeito do veneno. Mato um, é uma aven tura ,
mato outro, é uma segunda aventura que posso distinguir da primeira
por certos traços, mas que se assemelha essencialmente à primeira ,
por estar marcada pela mesma linha geral. Na quarta vez, pode haver
confusão, o que é que a distingue da segunda, por exemplo? Na vigésim a ,
como é q u e m e situarei, ou mesmo, como é q u e saberei q u e acabei
com vinte? O Marquês de Sade, na Rua Paradis, em Marseille, fechado
com seu rapazinho, procedia igualmente com os orgasmos 2B [cou ps J .
ainda que diversamente variados, que ele tinha na companhia do parcd rn ,
ou mesmo com alguns companheiros diversamente variados. Esse ho111c:1 1 1
notável, cujas relações com o desejo deviam, seguramente, ser marcadas
por um ardor pouco comum, não importa o que se pense, marcava n a
cabeceira de seu leito, dizem , com pequenos traços, cada u m de s1:1 1 s
orgasmos [coups] - para chamá-los p o r seu nome - q u e foi levado a
cometer até sua consumação nessa espécie de retiro probatório singula r.
Com certeza, é preciso estar-se bem engajado na aventura do desejo,
pelo menos de acordo com tudo o que o comum das coisas nos c 1 1si11:r

- 61 -
A Identificação

a cl'rca d a experiência m ais ordinária dos mortais, p ara sentir uma tal
1 1 <:ccssidade de se demarcar n a sucessão de s u as realiz ações sex u ais ;
todavia, não é impensável q ue , em algumas épocas favore ci d as d a vida,
algo possa torn ar-se v ago, no pon to ex ato em que se está no campo d a
numeração decim al.
O que é importante no entalhe, no traço entalh ado, é algo q ue não
podemos ignorar q ue aqui s urge algum a coisa nova em relação ao q ue
se pode ch am ar de im anência de alguma ação essen cial , q ualque r q ue
seja. Es te ser, que podemos im aginar ain d a desp rovido desse modo de
orientação, o que ele fa rá no fim de um tempo b astan te curto e limi tado
pela intui ção, p ara não se sentir s implesmen te soli dá rio de um p resente
semp re facilmente renovado, no qual nad a l he permite disce rnir m ais
o que exis te como dife ren ça no re al ? Não b asta dizer, já es tá bem eviden te
que ess a d iferença está n a vivência do s ujeito, do mesmo modo q ue
não b asta dize r, "mas de todo jeito, esse fulano não sou eu! ". Não é
simplesmen te porque Lapl an che tem os cabelos assim , e q ue e u os
tenha assado, e que ele tenh a os olhos de cer ta maneira, e q ue ele não
ten ha ex a tamente o mesmo sorriso que e u, q ue ele é diferente. Vocês
dirão : "Laplanche é Laplan che, e Lacan é Lacan". Mas é justamente aí
que está toda a questão, já que j ustamen te, na análise coloca-se a questão
de se Laplan che não é o pensamento de Lacan , e se Lacan não é o ser
de Lapl anche, ou inve rsamen te. A questão não está s uficientemente
re sol vi d a no re al. É o s i gnificante que decide , é ele q ue in tro d u z a
diferença como tal no real, e j ustamente na medida em que o q ue importa
não são d iferenças q u alitativ as.
Mas então, se esse significante , em s u a fun ção de diferen ça, é
al go que se apresen ta assim sob o modo do p aradoxo de ser justamente
diferente dessa dife rença q ue se fundaria sob re, ou não, a semelh ança,
de se r ou tra coisa distinta e, rep ito, d a qual podemos s upor, porque
nós os temos a nosso al cance , que há seres q ue vivem e se s uportam
m uito bem, ignorando completamente esse tipo de diferença que certamente ,
por exemplo, não está acessível à minha cadela - e não lhes mostro
imediatamente, porque lhes mostrarei mais em detalhes e de uma forma
mais articul ada - que é bem por isso que , aparen temente , a única coisa
que ela não sabe, é que ela mesma é. E que ela mesma seja, devemos
p ro cu rar sob qual modo is to está s uspenso a essa espécie de d is tinção

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Lição de 6 de dezembro de 1961

particularmer:ite manifesta no traço unário, já que o que o distingue 1 1 i1 0


é uma identidade de semelhança, é outra coisa.

alguma coisa � S
(signo)
alguém

Qual é essa outra coisa? É q ue o significante não é um signo. Um


signo - dizem-nos - é representar alguma coisa para alguém, o alguém
está lá como suporte do signo. A primeira definição que podemos dar
de um alguém, é alguém que está acessível a um signo. É a forma, a
mais elementar, se podemos nos exprimir assim , da subjetividade. Não
há objeto algum aqui ainda, há outra coisa, o signo, que representa
esta alguma coisa para alguém. Um significante se distingue de um
signo, primeiramente por aquilo que tentei fazer vocês sentirem, é que
os significantes não manifestam senão a presença, em primeiro lugar,
da dife rença como tal e nada mais. A primeira coisa , portanto, que ele
implica, é que a relação do signo com a coisa está apagada. Aqueles 1
do osso M agdaleniano, bem esperto aq uele que pudesse dizer signo de
quê eles eram . E ncís estamos, graças a Deus, bastan te avançados desde
o Magdaleniano IV, para que vocês se apercebam disso, que para vocês
tem a mesma espécie, sem dúvida, de evidência ingênua, permitam­
me dizer-lhes, que A é A, isto é, que como lhes ensinaram na escola,
não podemos somar trapos com guardanapos, pêras e cenouras, e assim
por diante; é absolutamente um erro, isto só começa a se tornar verdadeiro
a partir de uma definição de adição que suponha, asseguro-lhes, u m a
quantidade de axiomas j á suficiente para cobrir toda esta seção do quadro
negro.
No nível em que as coisas são tomadas em nossos dias, na reflexão
matemática, nomeadamente, para chamá-la por seu nome, na teoria
dos conjuntos, não poderia, em absoluto, nas operações mais fundamentais
tais como, por exemplo, de uma reunião, de uma intersecção, tratar-se
de colocar condições muito exorbitantes para a validade das operações.
Vocês podem muito bem somar o que quiserem no nível de um certo
registro, pela simples razão de que o importan te em um conj unto é,
como o exprimiu m uito bem um dos teóricos especulando sobre um do6
ditos paradoxos, não se trata nem de objeto, nem de coisa, trata-se de 1

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A Identificação

muito exatamente, no que se chama elemento dos conjuntos. Isto não


está bem marcado no texto ao qual faço alusão, por uma célebre razão,
é que justamente essa reflexão sobre o que é um 1 não está bem elaborada,
inclusive por aqueles que, na teoria matemática mais moderna, fazem
disso, no entan to, o uso m1is claro e o mais manifesto.
Este 1 como tal, en, j clal i lO m. c 1 ca da diferença pura, é a ele que
vamos nos referir para colocar à prova, em nossa próxima reunião, as
relações do sujeito com o significante. Teremos, em primeiro lugar,
que distinguir o significante do signo, e mostrar em que sentido o passo
que é franqueado é aquele da coisa apagada; os diversos apaga mentos
[effaçons]29 , se me permitem utilizar essa fórmula, pelos quais o significante
vem à luz, nos darão precisamente os modos capitais da manifestação
do sujeito. Desde já para indicar-lhes, recordar-lhes as fórmulas sob as
quais eu anotei para vocês, por exemplo, a função da metonímia, função
S, f (S) , na medida em que ele está numa cadeia que continua em S',
S", S " ' , etc., f (S, S', S " , S"', ... ) = S (-) s, é isto que deve dar-nos o
efeito que chamei de pouco sentido [peu de sens]. na medida em que o
signo menos designa, conota um certo modo de aparição do significado
tal, que ele resulta da colocação em função de S, o significante, numa
cadeia significante. Nós o colocaremos à prova de uma substituição desses
S e S' por 1 , já que justamente, essa operação é absolutamente lícita, e
vocês o sabem melhor do que ninguém, vocês, para quem a repetição é
a base de sua experiência; o que faz o nervo da repetição, do automatismo
de repetição para a sua experiência, não é que seja sempre a mesma
coisa o que é interessante, mas sim o porquê isso se repete, isso de que
o sujeito, do ponto de vista de seu conforto biológico não tem, vocês o
sabem, estrita e verdadeiramente nenhuma necessidade, para o que diz
respeito às repetições que nos interessam, isto é, repetições as mais pegajosas,
as mais enfadonhas, as mais sinlomalogênicas . É para lá que deve dirigir­
se sua atenção, para revelar ali a incidência como tal da função do significante.
Como pode produzir-se essa relação típica do sujeito constituído pela
existência do significante como tal, único suporte possível do que é para
nós originalmente a experiência de repetição?
Deter-me-ei aqui, ou indicarei a vocês como é preciso modificar a
f6rmula do signo para discernir, para compreender o que é importante
no advento do significante. O significante, ao contrário do signo, não é
o q 111: representa algu m a coisa para alguém, é o que representa,

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Lição de 6 de dezembro de 1961

precisamente, o sujeito para um outro significante . Minha cadela está


em b usca de meus signos e, portanto, ela fala, como vocês sabem ; por
que sua fala· não é uma linguagem? Porque, j ustamente, eu sou para
ela algo que pode lhe dar signos, mas que não lhe pode dar o significante.
A distinção entre a fala [parole ] , como ela existe no nível pré-verbal, e
a linguagem , consiste j ustamente nessa emergência da função do
significante .

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LIÇÃO V
1 3 de dczcm/Jro de 1 96 1

Movaç ECJ'tl Xª'tTJV ExacrtOV . . 'tCtlV OU'tCtlV EV ÀEYE'tat


Aot0µoç ÔE to EX µovaôwv cruyKEtµEvoy 7tÀ.TJ0oç

EUCLIDES - Elementos, 4, VII.

E ssa frase é uma frase q ue tomei emprestada do início do sétimo


l iv ro dos Elementos de Eucli des e que me parece u , no final das contas,
a melhor que encon trei para exprimir, no p lano ma temático, essa função
sobre a qual quis chama r a a tenção de vocês da úl tima vez , do um , em
nosso p roblema. Não quer d izer que tiv e q ue proc ur á-la, que me dei ao
trabalho para encontrar, nos matemáticos, alguma coisa que se relacionasse
com a q uilo; os matemáticos, pelo menos uma parte deles, a quele s q ue
na sua época estiveram na ponta na exploração d e seu campo, ocuparam­
se m uito com o esta tuto d a unidade, mas estão longe d e terem c hegado,
todos, a fórm u las igualmente sa tisfatória s . Parece-me que, para alg un s ,
isso ocorreu e m suas definições : foram cm linha reta n o sen tido oposto
àque le q ue convém.
Seja como for, alegra-me pensar que a lg uém como E uclides, que, de
qua l q ue r maneira, cm ma té ria de matemá tica, só pode ser considerado
como de boa cepa, ofe reça e sta fórm ula , j us tamente ainda mais notável
porque artic ulada por um geôme tra , do que é a unidade, pois e stá af o
sentido da palavra µovaç, é a unidade no sen tido p reciso com que ten tei
designar para vocês na última vez , sob a designação daq uilo que c ham ei
- ain da re tornarei ao porque a c hamei assim - de traço unário. O traço
unário, enq uan to suporte como tal da d iferença, é exatamente o sentido
q ue a q ui tem µovaç. N ão pode haver nen hum outro sentido, ta l corno a
saqüência do texto lhes mostrará.
Portan to, µovaç quer d izer essa unidade no sen tido d o tra ço u n á r i o
tal como a q ui ind ico-lhes q ue e le recorta, q ue ele in dica , em sua f'u1 1 ç/lo,
aquilo a que nós chegamos, no ano passado, no campo de nossa cxpcri(•1 1da,

- 67 -
A Identificação

a observar no próprio texto de Freud como o einziger Zug, aquilo por


meio do qual cada um dos entes é dito ser um um , com toda a ambigüidade
que traz este en neutro de eis q ue quer dizer um em grego, sendo
precisamente o que se pode empregar, tan to em grego como em francês,
para designar a função da unidade enquanto ela é o fator de coerência
pelo qual alguma coisa se distingue daquilo que a cerca, faz um todo,
um I no sentido unitário d a função. Portanto, µovaç é por intermédio
da unidade que cada um desses seres vem a ser dito um. O advento, no
dizer, dessa unidade como característica de cada um dos entes é aqui
designado, ele vem do uso da µovaç, que não é nada mais que o traço
único. Essa coisa merecia ser realçada justamente sob a pluma de um
geômetra, isto é, de alguém que se situa na matemática de uma maneira
tal, aparentemente, que para ele, no mínimo, devemos dizer que a
intuição conservará todo seu valor original. É verdade que não se trata
de um geômetra qualquer, dado que, em suma, podemos distingui-lo
na história da geometria como aquele que, pela primeira vez, introduziu,
como devendo absolutamente dominá-la, a exigência da demonstração
sobre o que se pode chamar de experiência, de familiaridade do espaço.
Termino a tradução da citação : " . . . que o número, ele, nada mais é que
essa espécie de multiplicidade que surge precisamente pela introdução
das unidades" , das mônadas, no sentido como são entendidas no texto
de Euclides.
Se identifico essa função do traço un:írio, se faço dela a figura desvelada,
daquele einziger Zug da identificação, onde fomos levados por nosso
caminho no ano passado, apontemos aqui, antes de avançarmos mais,
e para que vocês saibam que o contato não é nunca perdido com aquilo
que é o campo mais direto de nossa referência técnica e teórica a Freud,
apontemos que trata-se da identificação da segunda espécie, página
1 1 7, volume 1 3 das Gesammelte Werke de Freud.
,:: exatamente na conclusão da definição da segunda espécie d e
idcnlif'i cação, que ele chama de regressiva, tanto q uanto está ligada a
1 1 1 1 1 certo abandono do objeto que ele define como o objeto amado [que
s1• d1·sig1 1 a humoristicamente, no desenho de Toepffer, com um traço
d1· 1 1 1 1i:-1 o l . Esse objeto amado vai da mulher [eleita] aos livros raros
1 " 1"1 1 " , 1·01110 dizia alguém de meu meio, com alguma indignação pela
1 1 1 i 1 1 ! 1 a hihl iol'i l i a l 1:: sempre , em algum grau, ligado ao abandono ou à
1wrda d 1·ss1· ohjl'l o que se produz, nos diz Freud, essa espécie de estado

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Lição de 13 de dezembro de 1961

regressivo de onde surge essa identificação que ele sublinha, com alguma
coisa que é para: nós fonte de admi ração, como cada vez que o descob ridor
designa um traço garan tido de sua experiên cia do qual pareceria, à
p rimeira vista, que nada p reci sa, q ue se trata aí de um caráter contingente .
Da mesma forma não o j usti fica , senão por sua experiência, que ne ssa
e spécie de identifi cação em q ue o c u copia n a si tua çã o, ora o objeto
não amado, ora o objeto amado, mas que nos dois casos essa identificação
é pa rcial, hochst beschriinhte, altamente limitada, mas q ue é acen tuado
no sentido de e streiteza, de encolhimento, q ue é n ur eine n einzigen
Zug, apenas um traço único da pessoa objctalizada, que é como o ersa l z,
tomado emprestado d a p alavra alemã.
Pode, portanto, parecer-lhes que abordar essa idcntiflcação pela segunda
espécie é também me beschrii uhen, limitar-me, res t ringi r o alcan ce de
minha abordagem, pois há a outra, a identi ficação da primei ra e spécie,
aquela sing ularmente ambivalcntc q ue se faz sob re o fundo da imagem
da devo ração assimilante. E q ue relação tem ela com a terceira, a q uela
q ue começa imediatamente depois desse ponto que designo no parágrafo
freudiano, a identificação com o o utro, por in termédio do desejo, a
identificação q ue conhecemo s bem, q ue é h istéri ca, ma s j u stam ente
q ue lhes ensinei q ue não se podia disting ui r bem - a cho que vocês
dev em se dar conta disso s u fi cientemente - q ue a pa rti r do momento
cm que se tem estruturado o desejo (e não vejo ning uém que o Lenha
feito cm o utro l ugar senão aqui e antes q ue i sso se fizesse aqui) como
supondo cm sua subjacência, exatamente, no mínimo, toda a arti culação
que temos dado das relaç õe s do sujeito p recisamente com a cadeia
significante, já q ue essa relação modi fica p rofundamen te a e strutura
de toda relação do sujeito com cada uma de sua s ne ce ssidade s?
E ssa pa rcialidade da abord agem, essa en trada - se posso dizer assim
- envie sada dentro do p rob lema, tenho o sentimento de que, ao designá ­
la a vo cê s, convém q ue e u a legi time hoje, e espero poder fazê-lo bem
dep ressa para me fazer en tender sem m uitos desvios, lemb ran do-lhes
um p rincípio de método para nós: que, vi sto nosso l uga r, nossa função,
o q ue temos de fazer em nossa abordagem ini cial3°, devemos desconfiar,
digamo s - e levem i sso o mai s longe q ue quise rem - do gênero e mesmo
da clas se. Pode lhes pa rece r sing ular que alg uém q ue para vocês acentua
a p regn ân cia de nossa a rticulação dos fenômenos q ue nos concernem ,
da função da ling uagem, se distinga aqui por um modo de relação q ue

- 69 -
A Identificação

,· 1 , · 1 d :1 d l 'i ra 1 1 1 c11te funda mental no campo da lógica. Como i n dicar, falar


d,· 1 1 111:1 lógica gue dev e, num p rimeiro tempo de sua partida, marcar a
, 1 , . . . , · 1 1 1 1 1 '1 a 1 1 c,;a , que entendo colocar como i nteira ment e original, da noção

d , · , · l:1ss 1 · 'i 1� preci sa ment e cm que se o riginaliza, se distingue o c ampo


, p 1 ,· 1 ,·111 a mos a rt icula r aqui. N ão é nenhu m p reconceito de p ri ncípio
, p 1 1 · 1 1 1 c leva ali, é a necessi da d e mesma de nosso objeto que nos empurra
:1, 1 1 J I 1c se desenvolve efetivamente no curso dos anos, segmento por segmento,
1 11 1 1 :1 a rticulação lógica qu e faz mais que sugerir, que vai ca da v ez mais
p1·11 0 · preci samente, nesse a no, espero - de destacar os algoritmos que
1 1 11 · per mit em chamar de lógica esse capítulo que teremos de acrescentar às
l ú 1 1 1J>cs exercidas pela linguagem num certo campo do real, aquele do qual
1 1i'1s ou tros, seres falantes, somos os condutores. Desconfiemos, portanto , ao
1 1 1:í xi mo de toda Kmvcovta ,o.m yEvucou, para empregar um t ermo platônico,
de t 1 1 do o que é a 11gura ele comuni dade cm qualquer gênero e, mais
< ·s1 >l'Cialmente, naquelesque são para nós os mais originais. As três identificações
1 1 :i o formam provavelmente uma classe. Se ela s podem, todavia , levar o
1 1 1cs1r1 0 nome que aí traz u ma sombra de conceito ; cabe-nos também, sem
d1'1 vida, dar conta disso. Se operarmos com exatidão, isso não parecerá uma
l a rcfo acima das nossas forças.
De fato, sabemos desde já que é no nível do particular que semp re
sur ge o que para nós é função u niversal , e não t emo s muito por que nos
surpreendermos com i sso no nível do campo em que nos movemos, posto
q t ll', no que concerne à função da identi fica ção, sabemos desde já - já
1 r:1halhamos ba sta nt e juntos pa ra sabê -lo - o sentido dessa fórmula , que
11 qt1l' se passa, se passa essencialmente no nível da est rutura . E a estrutura,
s,·r:'i preciso lembrá-lo, e c reio que justa men te hoje, a ntes de da r u m
passo mai s a diante, será p reciso que eu o lemb re, que é o que t emos
1 1 1 1 rnd uzi do principalmente como especificação, registro do simbólico ?
S1· o disti nguimos do imagin ário e do real, esse registro simbólico -
: l l ' lto d ev e r indica r também tudo o que poderia haver ali de h esitação
1·1 1 1 tldxa r à margem aquilo cm relação ao qual não vi ninguém se inquietar
. t l 1 1 · 1 t a 1 1 H· 1 1te, razão a mai s para dissipar toda a a mbigüida de sobre i sso
11: 1 1 1 s1· tra ta de uma defi nição ontológica, não est ão aqui os campos
d 1 1 �:• ' I' que cu separo. Se, a pa rtir de u m certo mo mento, e justa ment e
· ' ' 1 1 1 1 ' 1 1 · t i o nasci mento desses seminários, acredit ei dever deixar ent ra r
1 · 1 1 1 1111•.1 1 1 ·ssa tr íade do si mb ólico, do imaginário e do real, é na medida
1 ·1 1 1 ' 1 1 11 · , ·ssc l crc ci ro el emento, qu e até aí n ão era ab solutament e , em

-70-
Lição de 13 de dezembro de 1961

nossa exper iê ncia, suficientemente d iscernido como tal, é exa tamente


aos meus olhos o q ue é consti tuído exata mente pelo fa to da rev elação
de um campo d e experiê ncia. E, para suprimir toda a ambigüidad e
desse ter mo, tr a ta-se da exper iência freudiana, eu dir ia, de u m campo
de experiência. Quero dizer q ue não se tra ta d e Erlebnis , trata-se de um
ca mpo constituído de uma cer ta maneira, até um cer to gra u por algum
ar tifício, aquele que inaug ura a técnica psicanalítica como tal, a face
complemen tar da d escober ta freudiana, complementar como a frente o
é ao avesso, realmente cola do. O que é revelado pr imeiro nesse campo,
você s sabem bem, natural mente, que foi a função do símbolo e ao mesmo
tempo o simbólico. Desd e o início esses termos tiveram o efeito fascinante,
sed u tor, cativ ante que você s sab em, no conjunto do campo da cul tura,
esse efeito de choque ao qual, você s sabem, quase nenh um pensador, e
mesmo den tre os mais hostis, pôde se subtrair.
É preciso d iz er que é também um fato d e experiê ncia que per d e mos,
do tempo da r ev elação e d e sua correlação com a função do símbolo,
nós per d e mos seu frescor, se se pod e d izer, esse frescor correlativo ao
qual chamei d e efeito d e choq ue, d e sur presa, como propriamente o
d efiniu o próprio Freud, como característica d essa emergência das relações
do inconsciente; essas espécies de flash sobre a imagem, característicos
dessa é poca, por meio dos quais, se se pode d izer, a pareciam novos modos
de inclusão dos seres imaginários, por onde subitamente alguma coisa
guiava seus sentidos, falando propriamente, se esclarecia por uma apreensão
que não pod eríamos melhor q ualificar senão d esigna ndo-os pelo termo
Begriff, a preensão pegajosa, ali onde os planos colam, função da fixação,
de não sei qual Haftung , tão característica d e nossa relação [abordagem]
no campo imaginário, ao mesmo tempo evocando uma d imensão da gênese
onde as coisas se d ilatam mais do que evoluem ; certa ambigüidad e que
per mitiria d eixar o esquema evolução como presen te, como implicado,
eu d irei, naturalmente no campo d e nossas d escober tas.
Como em tudo isso pod emos d izer q ue, no final das contas, o que
caracter iza que esse tempo morto - ind icado por todas as espécies de
teóricos e de práticos na evolução da doutrina, sob ind icações e r ubricas
d iversas - se tenha pro d uzido? Como essa espécie d e fracasso surgiu, o
qual nos impõe o que é propr iamente nosso objeto aqui, aq uele onde
tento lhes gu iar, retomar toda nossa d ialética sobre princípios mais seguros'?
É exa tame n te que em alg um l ugar nós devemos de signar a fo n l c d1 ·ssa

- 71 -
A Identificação

espécie de extravio que faz com que, em suma, possamos dizer que, ao
cabo de certo tempo, esses dados só ficavam vivos para nós para nos
remeter ao tempo de seu surgimento, e isso mais ainda sobre o plano
da eficácia em nossa técnica, no efeito de nossas interpretações , em
sua parte eficaz. Por que as imagos descobertas por nós, de alguma
maneira, se banalizaram ? Será apenas por uma espécie de efeito de
familiaridade? Aprendemos a viver com esses fantasmas, nos avizinhamos
ao vampiro, ao polvo, respiramos no espaço do ventre materno ao menos
por metáfora. As revistas em quadrinhos também, com um certo estilo,
o desenho humorístico, fazem-nos viver essas imagens como n unca se
viu numa outra época, veiculando as próprias imagens primordiais da
revelação analítica ao fazer d elas um objeto d e divertimento corrente.
No horizonte, o relógio mole e a função do grande masturbador, guardados
nas imagens de Dali. Será apenas para isso q u e a nossa competência
parece fazer o uso i nstrumental dessas imagens como reveladoras?
Seguramente que não, pois projetadas, se posso dizer, aqui nas criações
de arte, elas guardam ainda sua força, que chamarei não apenas de
percuciente, mas de crítica. Elas guardam alguma coisa de seu caráter
de irrisão ou de alarme . Mas, não é disso que se trata , em nossa relação
com aquele que vem para nós designá-los na atualidade do tratamento?
Aqui, n ão nos resta mais como desígnio de nossa ação senão o dever de
fazer bem, sendo o fazer rir apenas um caminho muito ocasional e
limitado em seu emprego. E ali o que nós vimos acontecer não é nada
mais que um efeito que podemos chamar de recaída ou de degradação,
isto é, que aquelas imagens, nós as vimos simplesmente retornar àquilo
que se designou muito bem sob o tipo de arquétipo, isto é, de velho
truque da loja dos acessórios em uso. É uma tradição que se reconheceu
sob o título de alquimia ou de gnose, mas que estava ligada j ustamente
a uma confusão muito antiga e que era aquela onde tinha ficado atravancado
o campo do pensamento h umano durante séculos.
Pode parecer que me distingo, ou que lhes coloco em guarda contra
um modo de compreensão de nossa referência que seja aquele da Gestalt.
Não é exato. Estou longe de subestimar o que trouxe, num momento
da história do pensamento, a função da Gestalt, mas para me expressar
rapidamente, e porque aí fa,. essa espécie de varredura de nosso horizonte
que é preciso que eu refo i , : i e tempos em tempos para evitar justamente
que renasçam sempre as · .;mas confusões, introduzirei, para me fazer

- 72 -
Lição de 13 de dezembro de 1961

entender, essa distinção : o que constitui o nervo de algumas produçiics


desse modo, de explorar o campo da Gestalt, o que chamarei de Gesl a l l
cristalográfica, aquela q u e acentua esses pontos d e junção, d e parentesco
entre as formações naturais e as organizações estruturais, à medida
que eles surgem e são definíveis apenas a partir da combinatória significante,
é aquela que faz disso a força subjetiva, a eficácia desse ponto ontológico
onde nos foi deixada alguma coisa da qual lemos muita necessidad1\
que é, a saber, se há alguma relação que juslifica essa inlrocl ução ao
modo de relha do efeito <lo signif'icante no real. Mas isso não nos cor1cerrw,
porque esse não é o campo que nos ocupa; nós não estamos aqui para
julgar o grau de natural da física moderna, ainda que ele possa nos
interessar. É o que faço de tempos cm Lcmpos, diante <le vocês, algumas
vezes, ao mostrar que historicamente é justamen te na medida cm q 1 ic
ela negligenciou inteiramente o natural das coisas que a física comcço11
a entrar no real.
A Gestalt contra a qual coloco-lhes em guarda é uma Gestalt que
vocês o observarão ao con trário daquilo a que se sentem ligados os
iniciadores da teoria da Gestalt - dá uma referência puramente confusio11a l
à função da Gestalt, q u e é aquela q u e chamo d e Gestalt antropomórfica,
aquela que, por alguma via que seja, confunde o que traz nossa experiência
com a velha referência analítica do macrocosmo e do microcosmo, do
homem universal, registros bem curtos no final das contas, e que a
análise, na medida em que ela acreditou se encontrar aí, não faz scn:1 0
mostrar u m a vez m ais a relativa infecundidade. Isso não quer dizer
que as imagens que evoquei há pouco, humoristicamente, não ten h a 1 1 1
seu peso, n e m q u e elas n ã o estejam a í para q u e nós nos sirvamos ddas
ainda. Para nós mesmos deve ser indicativa a maneira que há 1 1 1 1 1 i 1 0
tempo preferimos deixar na sombra. Não s e fala mais, absolutame1 1 l 1 · ,
senão a u m a certa distância . Elas estão ali, para empregar uma metáfora
freudiana, como uma dessas sombras que, no campo dos infernos, estrw
prontas a surgir. Nós não podemos, verdadeiramente, reanimá-las; 1 1 ii o
lhes demos sem dúvida bastante sangue a beber. Mas afinal, tanto melhor,
não somos necromantes.
É j ustamente aqui que se insere essa chamada característica do q 1 1 1 ·
lhes ensino, q u e está a í para m udar inteiramente a face das coisas, a
saber, de mostrar que o contundente do que trazia a descoberta freudiana
A Identificação

não consistia nesse retorno dos velhos fantasmas, mas numa relação
outra . Subitamente, hoje de manhã encontrei, do ano de 1 946, u m
desses pequenos Propósitos sobre a causalidade psíquica pelos q uais
eu fazia a minha entrada no círculo psiquiátrico, imediatamente depois
da guerra . E aparece nesse pequeno texto que, vejam, publicado nas
entrevistas de Bonneval, numa espécie de aposto ou de incidência no
início de um mesmo parágrafo conclusivo, cinco linhas antes de terminar
o que eu tinha a dizer sobre a imago : "mais inacessível a nossos olhos
fei tos para os signos do cambista", pouco importa a seqüência, "que os
do caçador do deserto", digo, que só evoco isso porque nós o encontramos
da última vez, se me lembro bem, "sabe ver o traço imperceptível, o
passo d a gazela sobre o rochedo, um dia se revelarão os aspectos da
imago " . No momento, o acento é para ser colocado no início do parágrafo,
"mais inacessível a nossos olhos . . . " O que são esses "signos do cambista"?
Quais signos? E qual mudança? Ou qual cambista? Esses signos são,
precisamente, o que lhes convoquei a articular como os significantes,
isto é , esses signos enquan to eles operam propriamente pela virtude
de sua associatividade na cadeia, de sua comutatividade, da função de
permutação tomada como tal . Eis aí onde está a função do cambista, a
introdução no real de uma mudança que não é absolutamente de movimento,
nem de nascimento, nem de corrupção nem de todas as categorias da
mudança que desenha uma tradição que podemos chamar de aristotélica,
aquela do conhecimento como tal, mas de uma outra dimensão, onde
a mudança de que se trata é definida como tal na combinatória topológica
que ela nos permite definir como emergência desse fato, pelo fato d e
estrutura, como degradação na ocasião, a saber, queda nesse campo d a
estrutura e retorno à captura d a imagem natural.
Em suma, desenha-se como tal o que é apenas, afinal , o q uadro
funcionante do pensamento, dirão vocês. E por que? Não esqueçamos
que essa palavra pensamento está presente, acentuada desde a origem
por Freud como, sem dúvida, não podendo ser outra senão o que ela é,
para designar o que se passa no inconsciente. Porque não era certamente
a necessidade de conservar o privilégio do pensamento como tal, eu
n ão sei q ual primazia do espírito que podia aqui guiar Freu d . Bem
longe disso, se ele pudesse evitar esse termo, ele o teria feito. E o que
é que isso q uer dizer nesse nível? E por que é que esse ano acreditei
dever partir, não do próprio Platão, para não falar absolu tamente dos

- 74 -
Lição de 13 de dezembro de 1961

outros, mas tampouco de Kant, nem de Hegel, mas de Descartes? 1�


justamente para designar que o que está em questão, onde está o problema
do inconsciente, para nós, é a autonomia do sujeito, tanto quanto ela é
não apenas preservada, que ela é sublinhada como nunca foi em nosso
campo; e precisamente por esse paradoxo, pois esses caminhos que ai
descobrimos não são absolutamente concebíveis se, falando propriamente,
não fosse o sujeito que é o guia, e de maneira tanto mais segura quanto
o é sem saber, sem ser cúmplice disso, se posso dizer, conscius, porque
ele não pode progredir em direção a nada, se não for se localizando
nisso só depois, pois nada é por ele engendrado, senão, justamente, à
medida de um desconhecimento inicial. É isso que distingue o campo
do inconsciente, tal como é revelado por Freud. É impossível formalizá­
lo, formulá-lo, se não vemos a todo instante que ele só é concebível ao
ver preservada, e da maneira mais evidente e sensível, essa autonomia
do sujeito, quero dizer, isso pelo que o sujeito em nenhum caso poderia
ser reduzido a um sonho do mundo.
Dessa permanência do sujeito lhes mostro a referência, e não a presença,
pois essa presença não poderá ser cingida senão em função dessa referência.
Eu a demonstrei, designei da última vez, em nosso traço unário, n essa
função do bastão como figura do um enquanto ele não é senão traço
distintivo, traço j ustamente tanto mais distintivo q uanto está apagado
quase tudo o que ele distingue, exceto ser um traço, acentuando esse
fato de que mais ele é semelhante, mais ele fun ciona, eu não digo
absolutamente como signo, mas como suporte da diferença, e isso sendo
apenas uma introdução ao relevo dessa dimensão que tento pontuar
diante de vocês . Pois na verdade não existe "mais" ; mas, não há ideal
da similitude, ideal do apagamento dos traços. Esse apagamento das
distinções qualitativas só está aí para nos permitir apreender o paradoxo
da alteridade radical designada pelo traço e, afinal, é pouco importante
que cada um dos traços se pareça com o outro. É alhures que reside o
que chamei, há pouco, de função de alteridade. E, terminando da
última vez meu discurso, indiquei qual era sua função, aquela que
garante à repetição justamente aquilo que, por essa função, apenas
por ela, essa repetição escapa: à identidade de seu eterno retorno sob
a figura do caçador inscrevendo o número de que? De traços por onde
ele atingiu sua presa, ou do divino Marquês que nos mostra que, mesmo
no auge de seu desejo, ele toma muito cuidado de contar esses ,-:ol pcs,

- 7 5-
A Identificação

e que es tá aí uma dimensão essencial, pos to que ela jamais abando na a


n ecessida de que ela i mp li ca em quase n enhuma de nossas fun ções.
Conta r os golpes, o traço que conta, o q u e é isso ? Será que ai nda
aqui vocês acompanham bem? Apreenda m bem o que p retendo desig nar.
O que p retendo designa r é isso que é facilmente esquecido em s eu
p ri ncípio, é que isso com que lidamos no au to ma tismo de rep etição é
isso, um ciclo, de alguma maneira tão amputa do, tão deformado, tão
corroído, que nós o defi níamos desde então qu e ele é ciclo e qu e ele
comporta retorno a um ponto final, nós pod emos concebê-lo sob re o
modelo da necessidade, da sa tisfação. Esse ciclo s e repete; que i mporta
que s eja realmente o mesmo, ou que ele apresente mínimas diferenças,
esses mínimas diferenças não s erão ma nifes ta men te fei tas s enão pa ra
conservá-lo em sua fu nção de ciclo como s e referin do a alguma coisa
de definível como a um certo tipo p elo qual, jus tamente, todos os ciclos
que o p recederam, na medida em que s e rep ro duzem, pa ra fala r
p ropriamente, se identificam no instante como sendo os mesmos. Tomemos
como exemplo do que estou lhes dizendo, o ciclo da diges tão. Ca da vez
que fazemos uma, repetimos a dig estão. É a isso que nos referimos
qua n do fala mos, na a nálise, de automa tismo de rep etição ? Será que é
em virtu de de um automa tismo de rep etição que faz emos dig estões
que s ão s ensivelmente s empre a mesma dig es tão ? Não lhes deixa rei a
abertu ra, de dizer que a té aí é um sofisma. Po de haver, naturalmente,
i nciden tes nessa diges tão que s ejam devi dos a lembranças de a n tigas
diges tões que fora m pertu rbadas, efeitos de desgosto, de náusea, liga dos
a tal ou qual ligação conting ente de tal alimento com tal circu ns tância .
Isso não nos fará transpor, con tu do, u m passo a mais na distância a
cobrir entre o retorno do ciclo e a função do auto ma tismo de repeti ção .
Pois o que quer dizer o automa tismo de rep etição enquan to temos a
ver com ele, é isso, é qu e s e um ciclo determi na do que foi apenas
aquele ali - é aqui que se p erfila a sombra do "trauma", que eu não
coloco aqui senão entre aspas, porque não é s eu efeito traumá ti co que
o retém, mas ap enas sua u ni ci da de - aqu ele, portanto, que s e designa
por um c erto significante qu e pode sozinho suportar o que aprenderemos
a sq..:uir a defi nir como uma l etra, inst ância da letra no i n conscien te,
1 :ssc A maiúsculo, o A i nicial enquanto é numerável, que aqu el e ciclo
a i, e r do u m cn1 t ro, equ ivale a um certo signi fica nte ; é nesse senti do

- 76 -
Lição de 13 de dezembro de 1961

que o comportamento se repete para fazer ressurgir esse significante


que é, como tal, o número q ue ele funda.
Se para nós a repetição sintomática tem um sentido para o qual lhes
dirijo novamente, reflitam sobre o alcance de seu próprio pensamento.
Quando vocês falarem da incidência repetitiva na formação sintomática,
é na medida em que o que se repete está lá; não apenas para preencher
a função natural do signo, que é de represen tar uma coisa que seria
aqui atualizada, mas para presen tificar como tal o significante que essa
ação se tornou . Digo que é enquanto o que está recalcado é um significante,
que o ciclo de comportamento real se apresenta em seu lugar. É aqui,
posto que eu me impus dar u m limite de hora preciso e cômodo para
um certo número dentre vocês, quanto ao que devo expor diante de
vocês, que eu pararei. O que se impõe a tudo isso de confirmação e de
comentários contem comigo para lhos dar, a seguir, da maneira a mais
convenien temente articulada, por mais espantoso que tenha parecido
a vocês o abrupto do momen to em que expus tudo isso.
LIÇAO VI
20 de dezembro de 1 96 1

D a última vez deixei-lhes nessa observação feita para dar o sentimento


de que meu discurso não perde suas amarras, a saber, a importância
para nós nessa pesquisa, esse ano, liga-se ao fato de que o paradoxo do
au tomatismo de repetição é que vocês vejam surgir um ciclo de
comportamento inscritível , como tal, nos termos de uma resolução de
tensão do par, portanto, necessidade-satisfação, e que, todavia, qualquer
que seja a função implicada nesse ciclo, por mais carnal que vocês a
suponham, não é errado dizer que o que ela quer dizer, enquanto,
automatismo de repetição é que ela está aí para fazer surgir, para lembrar,
para fazer insistir alguma coisa que não é nada mais, em sua essência,
do que um significante, designável por sua função, e especialmente
sob essa face, que ela introduz no ciclo de suas repetições, sempre as
mesmas em sua essência e, portanto, concernente a alguma coisa que
é, sempre, a mesma coisa, a diferença, a distinção, a unicidade. Que é
porque alguma coisa, na origem, se passou, que é todo o sistema do
trauma , a saber, que uma vez que se produziu algo que tomou desde
então a forma A, na repetição, o comportamento, por mais complexo e
por mais engajado que vocês o suponham na individualidade animal,
está aí para fazer ressurgir esse signo A. Digamos que o comportamento,
desde então, é exprimível como o comportamento número tal. É, esse
comportamento número tal, digamos, o acesso histérico, por exemplo.
Uma das formas, em um determinado sujeito, são seus acessos histéricos.
É isso que sai como comportamento número tal . Apenas o n úmero está
perdido para o sujeito. É justamente enquanto o n úmero está perdido
que ele sai, esse comportamento, mascarado nessa função de fazer ressurgir

- 79 -
A Identificação

o número atrás do que se chamará de psicologia de seu acesso, por trás


das motivações aparentes. E vocês sabem que sobre esse ponto não será
difícil para ninguém lhe encon trar o ar de uma razão : é próprio da
psicologia fazer sempre aparecer uma sombra de motivação. É, portanto,
nesse abraço estrutural de alguma coisa inserida radicalmente n esta
individualidade vital com esta função significan te, que nós estamos na
experiência analítica. Vors tellungs-repriisentanz : é isto que é recalcado,
é o n úmero perdido do comportamento tal .
Onde está o sujeito aí dentro? Ele está na individualidade radical,
real? No paciente puro desta captura? No organismo desde então aspirado
pelos efeitos do isso fala , pelo fato de que um ser vivo entre os demais
foi chamado a se tornar o que o Senhor Heidegger chama de "o pastor
do ser", tendo sido preso nos mecanismos do significante. No outro
extremo, é ele identificável ao próprio jogo do significante? E o sujeito
é apenas o sujeito do discurso, arrancado de alguma forma a sua imanência
vital, condenado a sobrevoá-la, a viver nessa espécie de miragem que
decorre dessa reduplicação que faz com que não apenas ele fale de tudo
o que ele vive, mas que o vivente o viva falando-o e que o que ele vive se
inscreva num mos, uma saga tecida ao longo de seu próprio ato? Nosso
esforço, esse ano, se ele tem um sentido, é justa111e11te o de mostrar
como se articula a função do sujeito, em algum lugar que não seja em
um ou o utro desses pólos, jogando entre os dois. É, afinal, imagino, o
que a cogitação de vocês - pelo menos gosto de pensar assim - depois
desses poucos anos de seminários, pode dar-lhes, como ponto de referência
pelo menos implicitamente, a todo instante. Será que basta saber que a
função do sujeito está no entre-dois, entre os efeitos idealizantes da função
significante e essa imanência vital que vocês confundiriam, penso, ainda,
de bom grado, apesar de minhas advertências, com a função da pulsão?
É justamente nisso que estamos engajados e que tentamos levar mais
adiante, e é por isso que acreditei dever começar pelo "cogito" cartesiano,
para tornar sensível o campo que é aquele no qual tentamos dar articulações
mais precisas concernentes à identificação.
Eu lhes falei, há alguns anos, do Pequeno Hans. Há, na história do
Pequeno Hans - acho que vocês guardaram a lembrança de alguma
forma -, a história do sonho ao qual se poderia aplicar o título da girafa
ama rrotada, zerwutzelt Giraffe . Esse verbo, zerwutzeln, que se traduz
por amarrotar, não é um verbo muito corrente do léxico germânico comum .

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Lição de 20 de dezembro de 1961

Pode-se encontrar wurzeln, mas n ão zerwutzeln. Zerwutzeln quer dizer


fazer uma bola. Está indicado, n o texto do sonho da girafa amarrotada,
que é uma girafa que está ali, ao lado da grande girafa viva uma girafa
de papel, e que como tal pode se transformar numa bola. Vocês sabem
todo o simbolismo que se desenrola, ao longo dessa observação, da relação
entre a girafa e a girafinha, girafa amarrotada numa de suas faces,
concebível sob a outra como a girafa reduzida, como a girafa segunda,
como a girafa que pode simbolizar um bocado de coisas. Se a grande
girafa simboliza a mãe, a o utra girafa simboliza a filha, e a relação do
Pequeno Hans com a girafa; no ponto em que está naquele momento
de sua análise, tenderá de bom grado a encarnar-se no jogo vivo das
rivalidades familiares. Lembro-me do espan to - ele não ocorreria mais
hoje - que provoquei então, ao designar naquele momento, ali, na observação
do pequeno Hans, e como tal, a dimensão do simbólico, em ato, nas
produções psíquicas do jovem sujeito a propósito dessa girafa amarrotada.
O que é que poderia haver, ali, de mais indicativo da diferença radical
do simbólico como tal? Senão ver aparecer na produção - certamente
sobre esse ponto não sugerido, pois não há traço nesse momento aí de
uma articulação semelhante concernente à função indireta do símbolo
- na observação, alguma coisa que encarne, verdadeiramente, para nós
e nos dê a imagem da aparição do simbólico como tal na dialética psíquica.
"Na verdade, onde você pôde encontrar isso ? " , dizia-me um de vocês
gentilmente após aquela sessão. A coisa surpreendente não é que eu
tenha visto isso ali, pois isso dificilmente pode ser indicado mais cruamente
no próprio material . É que, sobre isso, pode-se dizer que o próprio Freud
não pára, quero dizer, não põe todo o realce que convém sobre esse
fenômeno, sobre o que o materializa, se se pode dizer, a nossos olhos .
É exatamente o que prova o caráter essencial destas delineações estruturais,
é que, ao não fazê-las, ao não indicá-las, ao não articulá-las com toda
a energia da qual somos capazes, há uma certa face, uma certa dimensão
dos próprios fenômenos que estamos nos condenando de alguma forma
a desconhecer.
Não vou, nesta oportunidade, refazer para vocês a articulação daquilo
de que se trata, do que está em jogo no caso do Pequeno Hans. As
coisas foram bastante publicadas, e o bastante para que vocês possam
se referir a elas. Mas a função como tal, nesse momento crítico, aquele
determinado por sua suspensão radical ao desejo de sua mãe, de uma

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A Identificação

1 1 1 ; 1 1 1 1 · i r a , se podemos dizer, que é sem compensação, sem recurso, sem


:;;1ída , é a fu nção de artifício que lhes mostrei ser aquela da fobia, na
1 1 11 �1 1 ida cm que ela introduz um mecanismo significante chave que permite
ao s11jcito preservar o que está em questão, para ele, a saber, esse mínimo
d1· a 11coragem, de centragem de seu ser, que lhe permite não se sentir
1 1 111 ser completamente à deriva do capricho matern o . É disso que se
1 ra l a , mas o que quero indicar nesse nível é o seguinte: é que, numa
produção eminentemente pouco sujeita à caução, na ocasião - digo
isso l anto mais porque tudo aquilo para o qual se orientou precedentemente
o pequeno I-Ians, pois Deus sabe que o orien tam, como lhes mostrei,
nada disso é de natureza a colocá-lo num campo deste tipo de elaboração
o pequeno !-Ians mostra-nos aqui, sob uma figura fechada certamente,
rnas exemplar, o salto, a passagem, a tensão entre o que defini primeiramente
como os dois extremos do sujeito, o sujeito animal que representa a
mãe, mas também com seu pescoço grande, ninguém d uvida, a mãe
enq uanto ela é esse imenso falo do desejo, terminando ainda no bico
faminto deste animal voraz; e o outro, alguma coisa sobre uma superfície
de papel - retornaremos sobre essa dimensão da superfície - esse algo
que não é desprovido de todo acento subjetivo, porque se vê bem toda a
trama de que se trata, a grande girafa, vendo-o brincar com a pequena
amarrotada, grita bem alto, até que finalmente ela se cansa, esgota seus
1-,rritos, e o Pequeno Hans, sancionando de algu ma maneira a tomada de
posse, a Besitzung de que se trata, a trama misteriosa do caso, senta-se
encima, draufgesetzt.
Essa bela mecânica deve nos fazer sentir o que está em causa, se é de
sua identificação fundamental, da defesa dele mesmo contra essa captura
ori�nal no mundo da mãe, como ninguém naturalmente duvida, no ponto
cm que estamos da elucidação ela fobia. Aqui jú vemos excmpli11cacla essa
!'u nção do significante.
É exatamente aí que quero me deter hoje ainda, no que concerne ao
1 >onto de partida do que temos a dizer sobre a identificação. A função significante,
enquanto ponto de amarração de alguma coisa de onde o sujeito continua,
1·� o que vai fazer com que eu me detenha um instante, hoje, sobre algo que,
parece-me, deve vir naturalmente ao espírito, não apenas por razões de
lúgica geral, mas também por alguma coisa que vocês devem tocar com a
1•xpcriência de vocês, quero dizer: a função do nome.

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L ição de 20 de dezembro de 1961

Não o nomen , o nome definido gramaticalmente, o que chama mos


de substantivo: nas escolas, mas o name, como em inglês, e em alem:í o
também , aliás, as duas funções se distinguem. Eu queria dizer um pouco
mais sobre isso aqui. Mas vocês compreendem bem a diferença de namc:
é o nome próprio. Vocês sabem, como analistas, a importância que tem,
em toda análise, o nome próprio do sujeito. Vocês têm sempre que
prestar atenção em como se chama seu paciente. Nunca é indiferente.
E se vocês pedem os nomes na análise é algo muito mais importante
que a desculpa que vocês podem dar ao paciente, a saber, de que toda
espécie de coisas pode esconder-se atrás dessa espécie de dissimulação
ou de a pagamento que h averia no nome, referindo-se às relações que
ele tem para pôr em jogo com algum outro sujeito. Isso vai muito além .
Vocês devem pressenti-lo, senão sabê-lo.
O que é um nome próprio? Deveríamos ter muito a dizer aqui. O fato
é que, de fato, podemos trazer m uito material ao nome. Esse material,
nós analistas, nas próprias supervisões, mil vezes iremos ilustrar a
importância disso . Não acho que pudéssemos dar, justamente aqui,
todo seu alcance sem nos referirmos - está aí uma ocasião a mais para
compreendermos claramente a necessidade metodológica - àquilo que
a esse respeito o lingüista tem a dizer. Não para nos submeter forçosamente
a isso, m as porque concernente à função, à definição do significante,
que tem sua originalidade, devemos pelo menos encontrar aí um controle,
senão um complemento do que podemos dizer. De fato, é exatamente
o que vai se produzir. Em 1 954 , foi publicado um opúsculo de Sir Allan
H . Gardiner. Há todo tipo de trabalhos dele e, particularmente, uma
gramática egípcia muito boa, quero dizer do Egito antigo. É então um
egiptólogo, mas é também e antes de tudo um lingüista. Gardiner fez -
foi nessa época que o adquiri, durante uma viagem a Londres - u m
livrinho que s e chama A teoria dos nomes próprio.� . Ele o escreveu de
uma maneira um pouco contingente. Ele o chama de um controversial
essay , um ensaio controvertido. Pode-se mesmo dizer, isso é uma litotes,
um ensaio polêmico. Ele o escreveu após a intensa exasperação a que
o levara u m certo número de enunciações de u m filósofo que não lhes
apresento pela primeira vez, Bertrand Russell, do qual vocês sabem o
enorme papel na elaboração do que se poderia chamar, em nossos dias,
de lógica matematizada, ou a matemática logificada. Em tomo dos Principia
mathematica, com Whitehead, ele nos deu um simbolismo geral das

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A Identificação

operações lógicas e matemáticas que não se pode deixar de levar em


conta, quando se entra nesse campo. Portanto, Russell , em uma de
suas obras, dá uma certa definição inteiramente paradoxal - o paradoxo
é, aliás, uma dimensão a qual ele está longe de repugnar para se deslocar,
bem ao contrário: ele, i:,oc sua vez, serve-se dela mais freqüentemente
- M. Russell trouxe, portanto, concernente ao nome próprio, algumas
observações que colocaram literalmente M. Gardiner fora de si. A querela
é, em si mesma, bastante significativa, de maneira que acho dever,
hoje, introduzi-los nela e, nesse sentido, acrescentar observações que
me parecem importantes. Por qual ponta vamos começar? Por Gardiner
ou por Russell? Comecemos por Russell .
Russel s e encontra na posição do lógico. O lógico tem u m a posição
que não data de ontem . Ele faz funcionar um certo aparelho ao qual
ele dá diversos títulos, razões, pensamen tos. Ele descobre um certo
número de leis implícitas. Num primeiro tempo, ele destaca essas leis,
são aquelas sem as quais não haveria nada que fosse da ordem da razão,
que fosse possível . É no curso dessa pesquisa inteiramente original do
pensamento que nos governa, [a reflexão grega] . que apreendemos, por
exemplo, a importância do princípio de contradição. Esse princípio de
contradição descoberto, é em torno do princípio de contradição que
alguma coisa se desprende e se organiza, que mostra seguramente que,
se a contradição e seu princípio fossem apenas alguma coisa de tautológica,
a tautologia seria singularmente fecunda, pois não é simplesmen te em
algumas páginas que se desenvolve a lógica aristotélica.
Com o tempo, contudo, o fato histórico é que, longe do desenvolvimento
da lógica se dirigir para uma ontologia, uma referência radical ao ser
que se suporia ser visado nessas leis mais gerais do modo de apreensão
necessário à verdade, ele se orienta para um formalismo, ou seja, que
àquilo a que se consagra o líder de uma escola de pensamento tão
importante, tão decisiva na orientação que ela dá a todo um modo de
pensamento em nossa época, que é Bertrand Russell, chegue a colocar
tudo o que concerne à crítica das operações em jogo no campo da
lógica e da matemática, numa formalização geral tão estrita, tão econômica
quanto possível. Em suma, a correlação do esforço de Russell, a inserção
do esforço de Russell nessa mesma direção, em matemática�. termina
na formação do que se chama de teoria dos conjuntos, cujo alcance
f!:eral se pode caracterizar pelo que se esforça em reduzir todo o campo

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Lição de 20 de dezembro de 1961

da experiência matemática acumulada por séculos de desenvolvimento,


e acho que não podemos dar melhor definição disso senão reduzindo
o a um jogo de letras. Isso, portanto, devemos levar em conta como 1 1 1 1 1
dado do progresso do pensamento, digamos, em nossa época, essa época
sendo definida como u m certo momento do discurso da ciência . O que
é que Bertrand Russell foi levado a dar como definição de um nome
próprio, nessas condições, no dia em que ele se interessou por isso? 1::
algo que, em si mesmo, vale que aí nos detenhamos, porque é o que vai
nos permitir apreender - poderíamos apreendê-lo alhures, e vocês verfw
que mostrarei que o apreendemos alhures - digamos, essa parte de
desconhecimento implicada numa certa posição, que acontece ser
efetivamente o ângulo onde é empurrado todo o esforço de elaboração
secular da lógica . Esse desconhecimento é, para falar propriamente,
que sem nenhuma dúvida, d ou-lhes de alguma sorte, de saída, no guc
coloqu ei aí forçosamen te por uma necessidade da exposição: esse
desconhecimento é exatamente a relação a mais radical do sujeito pensante
com a letra. Bertrand Husscll vé ludo exceto isso: a funçfto da letra . It
o que espero poder fazer vocês sentirem e lhes mostrar. Tenham confiança
e me sigam. Vocês vão ver agora como vamos avançar. O que é que ele
dá como definição do nome próprio? Um nome próprio é, diz ele, a ·
word for particular, uma palavra para designar as coisas particulares
como tais, fora de toda descrição.
Há duas maneiras de abordar as coisas; descrevê-las por suas qualidades,
suas referências, suas coordenadas no ponto de vista do matemático, se
quero designá-las como tais. Esse ponto, por exemplo, digamos aqui que
eu possa dizer-lhes, ele está à direita no quadro, mais ou m enos a tal
altura, ele é branco, e isso e aquilo. Isto é uma descrição, nos diz M.
Russell. São as maneiras que ele tem de designá-lo, fora de toda descrição,
como particular, é isso que vou chamar de nome próprio. O primeiro
nome próprio para M. Russell - já fiz alusão a isso em meus seminários
precedentes - é o this, esse aqui, this is the question. Vejam o demonstrativo
elevado à categoria de nome próprio. Não é menos paradoxal que M.
Russell encare friamente a possibilidade de chamar este mesmo ponto
de John . É preciso reconhecer que temos aí, contudo, o signo, que talvez
haja alguma coisa que ultrapasse a experiência, pois o fato é que é raro
que se chame John um ponto geométrico. Todavia, Russell nunca recuou
diante das expressões as mais extremas de seu pensamento.

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A Identificação

1 > 1 · q 1 1 alq ucr modo é a q ui que o lin güis ta se alar ma. Alarm a-se t an to
1 1 1:1 i s q uan to entre essas d uas extremida de s da definiçã o russellian a ,
1 / 1 1 1 1d .fiir particular, h á essa conseqüência inteiramente paradoxal q ue ,

1 1 11•. i rn consigo mesmo, Russell nos diz que Sócrates não tem nenhum
d i J 1 · i t o de ser con siderado p o r nós como um n ome p róprio, dado q ue h á
1 1 1 1 1 1 1 0 t empo não é mais um particular. Vou ab re viar o q ue diz Russell.
1\ , · 1 1 ·sccnto até um a nota de h um or, mas é exatamen te o esp írito do
' llll' 1·lc q uer n os dizer, a saber, q ue Sócrates era p ara nós o mest re de
l ' l :1t:i o, o homem que tom ou cicuta, etc. É um a descrição ab reviada.
l '1 1 r L111to, não é m ais assim q ue ele ch am a " um a p alavra para designar
" p:11'1 i cular em sua particularidade". É certo que aqui vemos que perdemos
1 1 1 1 , · ir a rncn te a meada do q ue nos dá a con sciência lingüística, ou seja,
q 1 l l ' S ! ! é p re ciso que eliminem os tudo o q ue dos nomes p róprios se
1 1 1s1 ' 1'(' 1 1 um a comunidade da n oçã o, chegamos a uma espécie de impasse
• P l l ' i'• exa tamente aquilo contra o qual Gardiner tent a contrapor as
1 11 · rsp1 ·ct ivas propriamen te ling üísticas como tais.
< ) q t 1 c é notá vel é que o l ing üista, não sem mérito, não sem p rát ica,
, • r w , sem hábito, por uma experiência tanto m ais p rofunda do significante

p11rq t 1 c não é por nada q ue lhes assinalei que é alguém cujo l abor em
p:1 r t 1 · se desenvolve n um âng ulo especialmente sugestivo e rico d a
, · , 1 11·ri(: 11 cia i q ue é o do h ieróglifo, j á que é egiptólogo - v a i , p or s u a
1·, · 1. , s< ' I' levado a cont ra-formular p ara n ó s o q ue lhe parece característico
d : 1 1'111 1 �:;í o do nome próp rio. Esta característica d a função do nome
1 1 1 ,iprio, ele , p ara elaborá -la, vai fazer referência a John St uart Mill e a
1 1 111 1•,1 : 1 11 1 :í tico grego do século II A. C . , q ue se ch am a de Dionísio Trá cio.
: ; 1 1 1 1•. 1 i larr 1 1 cn te , ele vai encontrar nesses au tores alg uma coisa q ue , sem
d,·, , : q •, 1 1 :ir 1 1 0 mesmo p aradoxo de Bertrand Russell, dá conta das fórm ulas
, p , , · , 1 1 1 1111 primeiro a specto, poderã o aparecer como h om onímicas, se
. ., . p 1 1 d 1 · dizer assim. O nome p róprio, tówv ovoµa, aliá s, é apenas a
t 1 .1d 1 1 1J1 0 do q ue os gregos trou xeram a este est udo, e p rincipalmente
1 1 1 , 11 1 1 ,; i o Td cio: tówv oposto a xotvov. Será q ue tówv aqu i se confunde
, 1 1 1 1 1 1 1 part i c u lar, no sen tido russelliano do term o ? Ob viamente nã o,
1 11 1 1·. , · ,. 1 : 1 l ' la r o q u e não seria aí q ue Gardiner se apoiaria, a menos q ue
, , , 1 1·., · , .,., . 1·1 1trar cm acordo com seu adversário. Infelizmente , ele nã o
, 1 1 1 1 · , , · 1•. 1 1 1 · 1 •spl'cif'icar a diferenç a, aqui, do termo de propriedade com o
1 1 1 , p l 1 , . 1 < 1 1 1 1 1 0 q u e dis tingue o p on to de vista g rego original, com as
, 1 111 • . , · , 1 111 ·1H · i as pa radoxais às q uais chega um certo form alismo. Mas,

- 86 -
Lição de 20 de dezembro de 1961

ao abrigo do progresso que lhe permite a rcf'crllncia aos gregos, completamente


no fundo, e em seguida a Mill, mais próximo dele, ele valoriza o ponto
em questão, isto é, o que funciona n o nome próprio que faz com que o
distingamos imediatamente, que o reconheçamos como um nome próprio.
Com uma pertinência correta na abordagem do problema, Mill sublinha
o seguinte: é que aquilo em que um nome próprio se distingue do nome
comum é algo que está no nível do sentido. O nome comum parece concernir
o objeto enquanto. junto com ele, vem um sentido. Se alguma coisa é um
nome próprio, é porque não é o sentido do objeto que ele traz consigo,
mas algo que é da ordem de uma marca aplicada de alguma maneira ao
objeto, superposto a ele, e que, por causa disso lhe será tanto mais estreitamente
solidária quanto menos for aberta, devido à ausência de sentido, a toda
participação com uma dimensão por onde esse objeto se ultrapassa, se
comunica com os outros objetos. Aliás, Mill, nesse ponto, faz intervir, jogar
uma espécie de pequeno apólogo ligado a um conto: a entrada em jogo de
uma imagem da fantasia. É a história do papel da fada Morgana. que quer
preservar alguns de seus protegidos de não sei que flagelo ao qual eles
estão condenados. pelo fato de alguém ter feito uma marca de giz em suas
portas. Morgana evita que eles caiam vítimas do flagelo exterminador,
fazendo a mesma marca em todas as portas da mesma cidade.
Aqui, Sir Gardiner não mede esforços para demonstrar o desconhecimento
que esse apólogo implica; é que, se Mill tivesse tido uma noção mais
completa daquilo de que se trata na incidência do nome próprio, não
seria apenas do caráter de identificação da marca que ele deveria ter
levado em conta em sua própria construção, é também do caráter distintivo.
E, como tal, o apólogo seria mais conveniente se se dissesse que a fada
Morgana teve de marcar as outras casas também com um sinal de giz,
mas diferente do primeiro, de modo a que aquele que, introduzindo-se
na cidade para cumprir sua missão, procurasse a casa onde ele devia
fazer incidir sua fatalidade, não soubesse mais de que sinal se tratava,
por não ter sabido previamente qual o sinal exato que era necessário
reconhecer, em meio aos demais. Isso leva Gardiner a uma articulação
que é a seguinte: é que, em referência manifesta à distinção en tre
significante e significado, que é fundamental para todo lingüista, mesmo
que ele não a promova como tal em seu discurso, Gardiner, não sem
fundamento, observa que não é tanto a ausência de sentido que importa
no uso do nome próprio, pois tudo diz o contrário. Muito amiúde m1

- 87 -
A Identificação

nomes próprios têm um sentido . Mesmo Durand tem um sentido. Smith


quer dizer ferreiro, e é claro que não é porque o Sr. Ferreiro seria
ferreiro por acaso que seu nome deixaria de ser um nome próprio. O
que causa o uso do nome próprio - diz-nos Gardiner - é que o acento
em seu emprego é posto não sobre o sen tido, mas sobre o som enquanto
distintivo. Há aí manifestamente um enorme progresso das dimensões,
o que na maioria dos casos nos permitirá praticamente perceber que
algo funciona mais especialmente como um nome próprio.
Todavia, é de toda maneira paradoxal ver justamente um lingüista,
cuja primeira definição que ele terá a dar de seu material, os fon emas,
é que são justamen te sons que se distinguem uns dos outros, dar como
um traço particular à função de um nome próprio o fato dele, o nome
próprio, ser composto de sons distintivos, os quais nos permitem caracterizar
um nome próprio como tal.
Pois, evidentemente, sob um certo ângulo, é evidente que todo uso
da linguagem está justamente fundado sobre isso: é que uma língua é
feita com um material que é o de sons distintivos. Evidentemente, essa
objeção não deixa de aparecer ao próprio autor dessa elaboração. É
aqui que ele introduz a noção subjetiva - no sentido psicológico do
termo - da atenção dispensada à dimensão significante como, aqui,
material sonoro. Observem vocês o que estou mostrando aqui: que o
lingüista que deve esforçar-se por afastar - não digo eliminar totalmente
de seu campo - tudo o que é referência propriamente psicológica, é
apesar de tudo levado aqui, como tal, a apoiar-se numa dimensão psicológica
como tal, quero dizer, devido ao fato de que o sujeito, diz ele, investe,
presta atenção especialmente no que é o corpo de seu interesse quando
se trata do nome próprio. É enquanto ele veicula uma certa diferença
sonora que ele é tomado como nome próprio, fazendo observar que
inversamente no discurso comum, o que eu estou comunicando a vocês,
por exemplo, agora, não presto a menor atenção ao material sonoro
disto que lhes conto. Se eu prestasse atenção demais nisso eu seria
logo levado a ver meu discurso amortecer-se e esvaziar-se. Eu tento
primeiramente comunicar-lhes alguma coisa. É porque creio saber falar
francês que o material, efetivamente distintivo em seu fundo, me vem .
Ele está aí como u m veículo a o qual não presto muita atenção. Penso
no objetivo que tenho, que é fazer passar para vocês certas qualidades
d e pensamentos que lhes comunico.

-88 -
Lição de 20 de dezembro de 1961

Será de fato uma verdade q u e cada vez que nós pronunciamos um


nome próprio nós sejamos psicologicamente advertidos deste acento posto
sobre o material sonoro como tal? De forma alguma, não é verdade.
Não penso mais no material sonoro Sir A lan Gardiner quando lhes falo
dele o u q uando fal o de zerwutzeln ou de q ualquer o u tra coisa .
Primeiramente, meus exemplos aqui seriam mal escolhidos porque são
já palavras que, ao escrevê-las no quadro, coloquei em evidência como
palavras. É certo que qualquer que seja o valor da reivindicação aqui do
lingüista, ela fracassa muito especificamen te, ainda que ela creia não
ter outra referência a fazer valer que a psicológica. E ele fracassa em
quê? P recisamente em articular algo que é, talvez, a função do sujeito,
mas do sujeito definido de uma maneira bem outra que pelo que quer
que seja da ordem do psicoló!,> ico concreto, do sujeito tanto quanto 116s
poderíamos, que nós deveríamos, que faremos defini-la, propriamente
falando, em sua referência ao significante. Há um sujeito que não se
confunde com o significante como tal, mas que se desdobra nesta referência
ao significante, com traços, com características perfeitamente articuláveis
e formalizáveis e que devem permitir-nos captar, discernir como tal o
caráter idiótico - se tomo a referência grega é porque estou longe de
confundi-la com o emprego da palavra particular na definição russelliana
- o caráter idiótico como tal do nome próprio.
Tentemos agora indicar em que sentido pretendo fazer com que vocês
o apreendam. Nesse sentido� onde há muito tempo faço intervir n o
nível da definição do inconsciente a função da letra. Essa função da
letra, eu a fiz intervir para vocês de maneira, primeiramente, de alguma
forma poética. O seminário sobre A Carta roubada, em nossos primeiros
anos de elaboração, estava ali para indicar que, de uma forma ou de
outra, alguma coisa, a tomar no sentido literal do termo lettre, já q ue
se tratava de uma missiva, era alguma coisa que nós podíamos considerar
como determinante até na estrutura psíquica do sujeito. Fábula, sem
dúvida, mas que só fazia encontrar a mais profunda verdade em sua
estrutura de ficção. Quando falei da instância da letra no inconsciente,
alguns anos mais tarde, pus, ali, através de metáforas e metonímias,
um acento bem mais preciso.
Chegamos agora, com essa largada que fizemos a partir da função do
traço unário, a algo que vai permitir-nos ir mais longe. Digo que não
pode haver definição do nome próprio senão na medida em que nós

- 89 -
A Identificação

""' · .q w1 < Thc:1 1 1os da relação da emissão nomeadora com algo que, em
·. 1 1.1 1 1 .1 1 1 1 n·za radical, é da ordem da letra. Vocês me dirão: eis aí uma
1·. 1 .1 1 1d , · d i lk 1 i l dade, pois existe uma imensidão de pessoas que niio sabem
l , · 1 , . q 1 1 1 · Sl' servem dos nomes próprios; além do mais, os nomes próprios
" ' 1 · . 1 1 1: 1 1 1 1 c·om a identificação que eles determinam antes do aparecimento
d . 1 , . . ;ni 1 : 1 . 1 :� sob este termo, sob este registro, O H omem antes da escrita,
q 1 I < ' lll í publicado um livro muito bom que nos dá a última notícia do
q 1 1 , · s , · C'on hece atualmente da evolução h umana antes da história. Além
d i :;sl l , como nós definiríamos a etnografia, que alguns julgaram plausível
d l ' lú 1 i r q u e se trata, para falar propriamente, de tudo o que é da ordem
da rn l t ura e da tradição e que se desenvolve fora de toda possibilidade
d,· clocurnentação por meio da escrita? Será assim tão verdadeiro?
1 1(1 u m livro ao q ual posso pedir a todos os que se interessam por i sso
., alguns já se anteciparam à minha indicação - que se remetam , é o
l i v ro de James Février sobre A história da escri ta. Se vocês tiverem
1 1· 1 1 1 po durante as férias, peço-lhes que o leiam. Vocês verão ali se desdobrar
, · , , 1 1 1 evidência algo de que lhes indico o mecanismo geral, porque ele
c l , : certa forma não está destacado e porque está presente em toda parte,
1': q ue pré-historicamente falando, se posso exprimir-me assim, quero
dize r, na medida em que os estágios estratigráficos do que nós encontramos
: 1 t <'stam uma evolução técnica e material dos acessórios humanos, pré­
l 1 is toricamente tudo o que podemos ver do que se passa no advento da
c:sc: rita e, portanto, na relação da escrita com a língua, tudo se passa
e l a segui nte maneira, cujo resultado aqui está precisamente, articulado
c l i a 1 1 t e de vocês, tudo se passa da seguinte maneira: sem dúvida alguma
podemos admitir que o homem, desde que é homem, tem uma missão
rncal como falante. Por outro lado, há algo que é da ordem daqueles
t rac,:os de que lhes contei a emoção admirativa que tive, ao encontrá-los
111arcados num certo alinhamento sobre algumas costelas de antílope. Há
1 1 C 1 1naterial pré-histórico uma infinidade de manifestações de traçados que
11:-10 têm outro caráter senão serem, como esse traço, significantes e nada
1 1 1:iis. H1la-se de ideograma ou de ideografismo, o que quer dizer isso?
e > q u e vemos sempre cada vez que se pode fazer intervir esta etiqueta
d , · id eograma é algo que se apresenta como, de fato, muito próximo de
l l 1 1 1a i r 1 1 a gem, mas que se torna i deograma na medida em que perde,
1 · 1 1 1 q ue se apaga cada vez mais este caráter de imagem . Foi assim o
1 1: 1 :w i 1 1 H· 1 1 to da escrita cuneiforme: é, por exemplo, um braço ou uma

- 90 -
Lição de 20 de dezembro de 1961

cabeça de cabrito montês q ue, a partir de um certo momento toma um


aspecto, por exemplo, como este, para o braço, is to é, nada mais da
origem é reco n hecível. O fato das transições existirem ali não tem o utro
peso se não nos co nfortar cm nossa posição , o u s eja, que o que se cria
é em qualquer nível que vejamos surgir a escrita, a bagagem, uma bateria
de algo q ue não temos o d i reito de chamar de abstrato, no se ntido com
que empregamos hoje esta palav ra, ao falarmos de p intura abstrata.
Pois são, de fato, traços q ue saem de algo q ue, em s ua essência, é
fig urativo, e é por isso q ue se crê q ue é ideograma, mas é um fig urativo
apagado, usemos a palav ra q ue nos vem a q ui forçosamente ao espírito,
recalcada, o u mesmo rejeitada. O que fica é algo da ordem daquele
traço u ná rio enquanto funciona como distintivo, enqua nto pode, no
momen to, desempenhar o papel de marca.

Vocês não ig noram - o u ig noram, pouco importa - que na casa de


campo de Azil, o u t ro l ugar vasculhado por Piette, de quem lhes falava
o utro d ia, enco ntraram-se calhaus, seixos sobre os quais vêem-se coisas,
por exemplo, como isso. Será em vermelho, por exemplo, sobre seixos
de tipo bastante bonitos, esverdea dos. Sobre um outro vocês ve rão,
sem d úv i da, isso q ue é tanto mais bonito porque este sinal é o que
serve na teoria dos conj untos para designar que um eleme nto per tence
a um conjunto. E há um outro que q uando você o olha de lon ge, pa rece
um dado, vê-se cin co pontos. Do o utro você vê dois. Quando voci:s ol ham
do outro lado é ainda dois pontos. Não é um dado co rno os nossos 1 · , 1-1 1 •

- 91 -
A Identificação

você pedir ao encarregado que lhe abra a vitrina, você vê que do outro
lado do cinco há uma barra, um 1 . Portanto, não é, de forma alguma
um dado, mas é impressionante que, à primeira vista, você tenha pensado
tratar-se de um dado. E, afinal de contas, você terá razão, pois é claro
que uma coleção de caracteres móveis - para chamá-los pelo nome -
desta espécie, é algo que, seja como for, tem uma função significante.
Vocês jamais saberão para que aquilo servia, se era para tirar a sorte,
se eram objetos de troca, se eram tésseras propriamente ditas, objetos
de reconhecimento ou se serviam para qualquer coisa que vocês possam
elucubrar sobre temas místicos. Nada muda no fato de que vocês tenham
aí significantes. Que o mencionado Piette tenha levado, após isso, Salomon
Reinach a deliberar sobre o caráter arcaico e primordial da civilização
ocidental, porque pretensamente aquilo seria já um alfabeto, essa já é
outra história; mas isso deve ser apreciado como sintoma, mas também
criticado em seu alcance real. Que nada nos permita obviamente falar
de escrita arquiarcaica no sentido em que aqueles caracteres móveis
teriam servido para criar uma espécie de imprensa das cavernas, não é
disso que se trata. O que está em questão é isso, já que tal ideograma
quer dizer alguma coisa, para tomar o pequeno caráter cuneiforme que
lhes mostrei há pouco, no nível de uma etapa totalmente primitiva da
escrita, ele designa o céu . Daí resulta que é articulado an . O sujeito
que olha este ideograma chama-o an , já que ele representa o céu . Mas
o que vai resultar daí é que a posição se inverte, pois, a partir de u m
dado momento, esse ideograma d o céu vai servir, numa escrita do tipo
silábico, de suporte para a sílaba an, que não terá mais nenhuma relação,
agora, com o céu . Todas as escritas ideográficas, sem exceção, ou ditas
ideográficas, trazem o traço da simultaneidade desse emprego que se
chama de ideográfico com o uso que se chama fonético do mesmo material.
Mas o que não se articula, o que não se põe em evidência, aquilo diante
do que me parece que ninguém se tenha detido até o presente momento,
é isso: é que tudo acontece como se os significantes da escrita, tendo
sido primeiramente produzidos como marcas distintivas, e disso nós temos
t estemunhos históricos, pois alguém que se chama Sir Flanders Petrie
111ostrou que, bem antes do nascimento dos caracteres hieróglifos, na
ccr:1 111ica que nos resta da indústria dita pré- dinástica, encontramos,
co1110 111arca sobre a cerâmica, aproximadamente todas a formas que
for:1 1 1 1 u tilizadas cm seguida, isto é, após uma longa evolução histórica

- 92 -
Lição de 20 de dezembro de 1961

no alfabeto grego, etrusco, latino, fenício, tudo o que nos interessa no


mais alto grau'como características da escrita.
Vocês vêem aonde q uero chegar. Embora em último termo o que os
fenícios, primeiro, e depois os gregos, fizeram de admirável, ou seja,
este algo que permite uma notação em aparência tão estrita quanto
possível das funções do fonema com auxílio da escrita, é numa perspectiva
totalmente contrária que devemos ver o que nos importa. A escrita
como material, como bagagem, esperava - em seguida a um processo
sobre o qual retornarei: o da formação, diremos, da marca, que hoje
encarna esse significante de que lhes falo - a escrita esperava para ser
fonetizada, e é na medida em que ela é vocalizada, fonetizada como
outros objetos, que a escrita aprende, se posso dizer assim , a funcionar
como escrita. Se vocês lerem essa obra sobre a história da escrita, vocês
encontrarão a todo momento a confirmação do que lhes dou aqui como
esquema. Pois, cada vez que há um progresso da escrita, é porque uma
população tentou simbolizar sua própria linguagem, sua própria articulação
fonemática com o auxílio de um material de escrita tomado emprestado
de uma outra população e que só era aparentemente bem adaptado a
uma outra língua - pois ela n ão era melhor adaptada, ela jamais é bem
adaptada, evidentemente, pois que relação há entre esta coisa modulada
e complexa e uma articulação falada? - mas que era adaptada pelo fato
mesmo da interação que há entre um certo material e o uso que se lhe
dá numa outra forma de linguagem, de fonemática, de sintaxe, tudo o
que quiserem, isto é, que era o instrumento em aparência menos apropriado,
no começo, ao que se queria fazer com ele.
Assim se passa a transmissão daquilo que foi primeiramente forjado
pelos s umérios, isto é , antes que isso chegue ao ponto em que estamos,
e quando é recolhido pelos Akkadianos, todas as dificuldades provém
do fato de que esse material se adapta muito mal ao fonematismo onde
ele tem de entrar, mas, em contrapartida, uma vez que ele ali entra,
ele o influencia segundo toda aparência e eu retomarei esse assunto.
Em outras palavras, o que representa o advento da escrita é o seguinte:
que alguma coisa que já é escrita - se considerarmos que a característica
é o isolamento do traço significante - sendo nomeada, vem a poder
servir como suporte deste famoso som sobre o qual Gardiner põe todo o
acen to, no que diz respeito aos nomes próprios.

- 93 -
A Identificação

1 > q 1 u · n:su lta disso? Resulta que devemos encontrar, se minha hipótese
, . 1 1 1·.1 : 1 , a l go que assinale sua validade. Há mais de uma validade, desde
, p 11 · 1 1 1s�;o p1:11semos, elas formigam; mas a mais acessível, a mais aparente,
, · , ·�., ;1 <ilH' cu vou imediatamente lhes dar, a saber, que uma das características
d 1 1 1 1 0 1 1 ic pr(>prio - terei, é claro, de voltar a esse ponto e sob mil formas,
, 111 ·i"·s v1:r;f o mil demonstrações disso - é que a característica do nome
1 1 11 q 1 1 fo é sempre mais ou menos ligada a este traço de sua ligação, não
, 1 1 1 so 1 1 1 , mas à escrita. E uma das provas, a que hoje quero pôr cm
111 i 1 1 1t· i ro plano, é esta: é que, quando temos escritas indccifradas, porque
1 1 :w c o n hecemos a linguagem que elas encarnam , ficamos m ui to
, · 1 1 1ha raçados, pois temos de esperar ter uma inscrição bilíngüe, e não
a v a 1 1 ç a 1 11os se não sabemos nada sobre a natureza de sua linguagem,
isto é , de seu fonetismo. O que esperamos, quando somos criptografistas
1· l i 1 q.!,i.iistas? É discernir nesse texto indecifrado algo que poderia bem
s1 ·r um nome próprio, porque existe essa dimensão, à qual nos surpreendemos
que C:ardiner não recorra, ele que de qualquer maneira tem, como
l'hcf'c ele fila, o líder inaugural de sua ciência, Champollion, e que ele
1 1 :1 0 se lembre de que foi por causa de Cleópatra e Ptolomeu que toda a
d 1·c:i l'r ação do hieróglifo egípcio começou, porque em todas as línguas
( 'll'6patra é Cleópatra, Ptolomeu é Ptolomeu . O que distingue um nome
prt'1 prio, apesar ele pequenas aparências de adaptação - chamamos de
< 'olünia a cidade de Koln - é que de uma língua para outra isso se
l ' o 1 1 serva em sua estrutura, sua estrutura sonora provavelmente; m as
1 ·ssa estrutura sonora se distingue pelo fato, justamente, de que a esta,
, · 1 1 1 meio a todas as outras, nós devemos respeitar, e isso em razão da
a l'i 1 1 i d a d e justamente do nome próprio com a marca, com a design ação
d i rcl a elo significante como objeto. E eis-nos aparentemente recaindo
da 1 1 1 a 1 1 cira mesmo mais brutal sobre o word for particular. Quer dizer
q1w agora eu dou razão a Bertrand Russell? Vocês sabem que certamente
1 1 a 1 1 . l 'ois, no intervalo está toda a questão, justamente, do nascimento
d11 sign i fi cante a partir daquilo de que ele é o signo. O que quer dizer?
,:: a q 1 1 i que se insere como tal uma função que é a do sujeito, não do
•,11j1 • i t o 110 sentido psicoió 6rico, mas do sujeito no sentido estru tural.
< :01110 podemos, sob que algoritmos podem os - já que se trata de
l , 1 1 1 1 1: i l i 1.a1J10 - situar este sujeito? É na ordem do significante que temos
1 1 1 1 1 1 1 11 · i 1 1 de representar o que concerne à gênese, ao n ascimento, à
, ·1 1 1 1 ·q•/•1 11·ia do pr6prio significante? É para lá que se dirige o meu discurso
, . • 1 1 1 1 · n · 1 0 1 1 1a rci no ano que vem .

- 94 -
LIÇAO VII
I O de janeiro de 1 962

Eu nunca tive tão pouca vontade de fazer meu seminário. Não tive
tempo de aprofundar por qual causa, contudo . . . muitas coisas a dizer.
Hã momentos de abatimento, de lassidão. Recordemos o que eu disse
da última vez. Eu lhes falei do nome próprio, jã que nós o encontramos
em nosso caminho da identificação do sujeito, segundo tipo de identificação,
regressiva, ao traço unário do Outro. A propósito desse nome próprio,
vimos a atenção que ele solicitou de alguns lingüistas e matemáticos
na função de filósofo.
O que é o nome próprio?
Parece que a coisa não se entrega à primeira abordagem, mas, tentando
resolver essa questão, tivemos a surpresa de encon trar a função do
significante, sem dúvida no estado puro. Era bem nesse caminho que o
próprio lingüista nos dirigia, q uando nos dizia : um nome próprio é
algo que vale pela função distintiva de seu material sonoro. Com isso,
naturalmente, ele só fazia repetir as próprias primícias da anãlise saussuriana
da linguagem, a saber: que é o traço distintivo, é o fonema como acoplado
a um conjunto, a uma certa bateria, porquan to unicamente ele não é o
que os outros são, que nós o encontrávamos aqui devendo designar
como o que era o traço especial, o uso de uma função do sujeito na
linguagem, aquela de nomear por seu nome próprio. É certo que nós
não podíamos nos contentar com essa definição como tal, mas que
estávamos, contudo, postos no caminho de alguma coisa, e essa alguma
coisa nós pudemos ao menos aproximarmo-nos dela, circundá-la ao
designarmos o que está , se se pode dizer, sob uma forma latente na
própria linguagem: a função d a escrita, a função do signo enquanto ele
mesmo se lê como um objeto. É um fato que as letras têm nomes. Temos
muita tendência a confundi-los, pelos nomes simplificados que elas têm

- 95 -
A Identificação

em nosso alfabeto, que têm o ar de se confundir com a emissão fonemática


à qual a letra foi reduzida. Um a tem o ar de q uerer dizer a emissão a .
U m b não é , falando propriamente, u m bê, ele não é um bê senão na
medida em que, para que a consoante b se faça escutar, é preciso que
ela se apóie numa emissão vocálica.
Olhemos a coisa mais de perto. Veremos que, por exemplo, em grego,
alfa, beta, gama e a seqüência são nada mais, nada menos que nomes
e, coisa mais surpreendente, nomes que não têm sentido algum na
língua grega em que eles se formulam . Para compreendê-los, é preciso
se aperceber que eles reproduzem os nomes correspondentes às letras
do alfabeto fenício, de um alfabeto proto-semítico, alfabeto tal que podemos
reconstituir com um certo número de estágios, de estratos das inscrições.
Nós encontramos as formas significantes disso; esses nomes têm um
sentido na língua, seja fenícia textual, seja tal que nós possamos reconstruí­
la, essa língua proto-semítica de onde seria derivada um certo n úmero
- eu não insisto sobre seu detalhe - das linguagens na evolução das
quais está estreitamente ligada a primeira aparição da escrita. Aqui, é
um fato que é importante ao menos, que vem n o primeiro plano, que o
próprio nome do aleph tenh a uma relação com o boi, que a dita primeira
forma do aleph reproduziria, de uma maneira esquematizada, em diversas
posições, a cabeça. Resta ainda alguma coisa: podemos ver ainda em
nosso A maiúsculo a forma de um crânio de boi invertido, com os chifres
que o prolongam. Igualmente, cada um sabe que bet é o nome da casa.
Naturalmente, a discussão se complica, até se anuvia, quando se ten ta
fazer um recenseamento, um catálogo do que designa o nome da seqüência
das outras letras. Quando chegamos ao gimel somos muito tentados a
encontrar ali o nome árab,! . I , :, L,1,r; �Li • •nas, infelizmente, há um obstáculo
de tempo; é no segundo milênio mais ou menos antes de nossa era que
esses alfabetos proto-semíticos podiam estar em condições de conotar
esse nome da terceira letra do alfabeto. O camelo, infelizmente para
nossa comodidade, ainda , 1 :í o t i n h a feito sua aparição no uso cultural
como meio de transporte nessas regiões do Oriente Médio. Vai-se, pois,
entrar numa série de discussões sobre o que podia afinal representar
esse nome gimel [Aqui, Lacan faz um desenvolvimento sobre a terciariedade
consonântica das línguas semíticas e sobre a permanência dessa forma
na base de toda forma verbal no hebraico] . É um dos traços por onde
podemos ver que o que está em questão, no que diz respeito a uma das

- 96 -
Lição de 1 O de janeiro de 1962

raízes da estrutura onde se constitui a linguagem, é essa alguma coisa


que se chaf!!a, primeiramente, leitura dos signos, uma vez que eles já
aparecem antes de todo uso da escrita - já assinalei isso para vocês, ao
terminar, da última vez - de uma forma surpreendente, de uma forma
que parece antecipar - se a coisa deve ser admitida - em q uase um
milênio o uso dos mesmos sinais nos alfabetos que são os alfabetos
mais correntes, que são os ancestrais diretos do nosso: alfabeto latino,
etrusco, etc., os quais se acham, pela mais extraordinária mimicry 31 da
história, sob uma forma idêntica em marcas feitas cm cerâmicas pré­
dinásticas do antigo Egito. São os mesmos sinais, embora não se deva
cogitar que eles tenham podido, àquela época, de alguma forma ser
empregados em usos alfabéticos, já que a escrita alfabética estava, naquele
momento, longe de nascer. Vocês sabem que, mais acima, fiz alusão
àqueles famosos seixos do Mas d 'Azil, que são muito importantes nos
achados feitos ali, a ponto de, no final do paleolítico, um estágio ser
denominado com o termo aziliano pelo fato dele se relacionar com o
que podemos definir como o ponto de evolução técnica no final do
paleolítico, no período não propriamente falando de transição, mas de
pré-transição do paleolítico ao neolítico. Nesses seixos do Mas d 'Azil
encontramos sinais análogos, cuja estranheza espantosa, por se assemelhar
tão de perto aos sinais do nosso alfabeto, pôde desviar, vocês sabem,
espíritos que não eram especialmente medíocres a toda sorte de especulações
que só podiam levar à confusão, até ao ridículo.
Permanece, todavia, o fato de que a presença daqueles elemen tos
está ali para nos fazer tocar alguma coisa que se propõe como radical
dentro do que podemos chamar de enlaçamento da linguagem com o
real. Obviamente, problema que só se coloca uma vez que pudemos
ver primeiro a necessidade, para compreender a linguagem, de ordená­
la por meio do que podemos chamar de uma referência a si mesma, a
sua própria estrutura como tal, que nos colocou o que podemos quase
chamar de seu sistema, como algo que de alguma maneira não se sustenta
com uma gênese puramente utilitária, instrumental, prática, uma gênese
psicológica, que nos mostra a linguagem como uma ordem, um registro ,
u m a função onde toda a nossa problemática é q u e precisamos vê-la
como capaz de funcionar fora de toda consciência por parte do sujeito,
e cujo campo somos levados a definir como sendo caracterizado por
valores estruturais que lhe sáu próprios. Desde logo, é necessário cs1abclccn

- 97 -
A Identificação

.1 p 1 1 1 1;:lo ele seu funcionamento com aquela coisa que, no real, leva a
,.1 1.1 1 1 1 a rca. É ela centrífuga ou centrípeta? É aí, ao redor deste problema
1 p 11 · 1 1 1is estamos por enquanto, não detidos, mas em suspensão.
I•:, porlanto, enquanto o sujeito, a propósito de algo que é marca,
' l i 1 < • ,·. signo, já lê antes de se tratar dos sinais da escrita, que ele percebe
q 1 l l ' si 1 1 a is podem trazer pedaços diversamente reduzidos, recortados
d , · ,;1 1 a modulação falante e que, invertendo sua função, pode ser admitido
a ,a'I 1:m seguida o suporte fonético, como se diz. Vocês sabem que é de
la 1 , , assim que nasce a escrita fonética, que não há nenhuma escrita
, · 1 1 1 s1·11 conhecimento32 , mais exatamente, que tudo o que é da ordem
da , ·scr i l a , propriamente falando, e não simplesmente de um desenho,
, . a l�o que começa sempre com o uso combinado desses desenhos
,.i 1 1 1 p l i ficados, desses desenhos abreviados, desses desenhos apagados
q 1 1 < · chamamos diversamente, impropriamente de ideogramas em particular.
/\ rn 1nbinação desses desenhos com um uso fonético dos mesmos sinais
q 1 1t• 16111 a aparência de representarem alguma coisa, a combinação de
a 1 nl>os parece, por exemplo, evidente nos hieróglifos egípcios. Aliás,
p111l<Tíamos, bastando olhar uma inscrição hieroglífica, crer que os egípcios
1 1:10 t inham outros objetos de interesse além da bagagem, soma muito
l 1 1 1 1 i t acla, de um certo número de animais, de um número muito grande,
de· 1 1 1 11 número de pássaros a bem dizer surpreendente pela incidência
, · 1 1 1 n a qual podem efetivamente intervir os pássaros nas inscrições que
p n Tisam ser comemoradas, de um número sem dúvida abundante de
l1 1 11 11as instrumentais ap;r;'írias e outras; ele alguns sinais também que,
d , ·sde sempre, foram úteis sob sua forma simplificada: o traço unário
p r i l 1 1 1:iro, a barra, a cruz da multiplicação que, aliás, não designam as
1 1 1 11'l a c;ües que foram posteriormen te relacionadas a esses sinais, mas
, · 1 i l'i t 1 1 110 conjunto, é totalmente evidente, à primeira vista, que a bagagem
d e · dt·senhos de que se trata não tem proporções, não tem congruência
1 · 1 1 1 1 1 a diversidade efetiva dos objetos que poderiam ser validamente
, ·v,wa clos em inscrições duráveis . Assim, o que vocês vêem, o que tento
de·sign ar-lhes e que é importante designar de passagem para dissipar
rn 1 1 lúsües para aqueles que não têm tempo de ir ver as coisas mais de
1 w 1 t o , é que, por exemplo, a figura de um grande bufo, de uma coruja,
pa ra t ornar uma forma de pássaro noturno particularmente bem desenhada,
1· 1 ·.ll"l'I nas inscrições clássicas em pedra, nós a veremos reaparecer
n l 1T mamcnte amiúde, e por quê? Não é certamente porque se trate

- 98 -
Lição de 1 O de janeiro de 1962

sempre deste animal, é que o nome comum desse animal na língua


egípcia antiga ·pode ser a ocasião de um suporte para a emissão labial
m e que cada vez que você vê esta figura animal, trata-se de um

m e de mais nada, cujo m, aliás, longe de estar representado sob seu


valor somente literal, cada vez que você encontra essa figura da dita
grande coruja, é suscetível de algo que se faz mais ou menos assim. O
m significará mais de uma coisa e, em particular, o que nós não podemos,
não mais nessa língua que na língua hebraica, quando não temos a
adjunção dos pontos-vogais, que nós não estamos bem fixados sobre os
suportes vocálicos, não saberemos como exatamente se completa esse
m, mas j á sabemos bastan te, a partir do que podemos construir da
sintaxe, para saber que esse m pode igualmente representar uma certa
função, que é aproximadamente uma função introdutória do tipo: vejam,
uma função de fixação da atenção, se se pode dizer, um eis aqui . Ou
ainda, em ou tros casos, em que provavelmente ele devia se distinguir
por seu apoio vocálico, podia representar uma das formas, não da negação,
mas de algo que é necessário precisar, com mais intensidade, do verbo
negativo, de algo que isola a negação sob uma forma verbal, sob uma
forma conjugável, sob uma forma não simplesmente não, mas de algo
como diz-se que não . Em resumo, que é um tempo particular de um
verbo que nós conhecemos, que é certamente negativo, ou mesmo mais
exatamente uma forma particular em dois verbos negativos: o verbo
imi por um lado, que parece q uerer dizer não ser, e o verbo t m , por
outro lado, que indicaria mais especialmente a não-existência e fetiva .

- 99 -
A Identificação

S ignifica dizer a vocês, a esse respeito, e introduzindo a esse respeito


de uma forma antecipada a função, que não é à-toa que isso diante do
que nós nos achamos ao avançarmos neste caminho é a relação que
aqui se encarna, se manifesta imediatamente da coalescência a mais
primitiva do significante com alguma coisa que imediatamente levan ta
a questão do que é a negação, de quê ela está mais próxima.
S erá que a negação é simplesmente uma conotação que, todavia, se
propõe como da questão do momento em que, em relação à existência,
ao exercício, à constituição de uma cadeia significante, introduz-se ali
uma espécie de índice, de sigla suplementar, de palavra virtual como
nos exprimimos, que deveria, portanto, ser sempre concebida como
uma espécie de invenção segunda, mantida pelas necessidades da utilização
de algo que se situa em diversos níveis? No nível da resposta, o que é
posto em questão pela interrogação significante, isso não está lá, será
que é no nível da resposta que este não é? parece bem manifestar-se na
língua como a possibilidade da emissão pura da negação não? Será
que, por outro lado, é na marca das relações que a negação se impõe,
é sugerida pela necessidade da disjunção, tal coisa não é se tal outra é,
ou não poderia ser com tal outra, em suma, o instrumento da negação?
Nós o sabemos, claro, não menos que outros . Mas se, no que diz respeito
à gênese da linguagem, estamos reduzidos a fazer do significante algo
que deve pouco a pouco se elaborar a partir do signo emocional, o
problema da negação é algo que se coloca como, propriamente falando,
de u m salto, até mesmo de um impasse .
Se, fazendo do significante alguma coisa totalmente outra, algo, cuja
gênese é problemática, nos leva ao nível de uma interrogação sobre
uma certa relação existencial, aquela que, como tal, já se situa numa
referência de negatividade, o modo sob o qual a negação aparece, sob o
q ual o significante de uma negatividade efetiva é vivido, pode surgir, é
alguma coisa que toma um interesse todo outro e que não é, desde já,
por acaso, e sem ser de natureza a esclarecer-nos, quando nós vemos
que, desde as primeiras problemáticas, a estruturação da linguagem se
Identifica, se se pode dizer, na recuperação da primeira conjugação de
uma emissão vocal com um signo como tal, is Lo é, com algo que já se
refere a uma primeira manipulação do objeto. Nós a chamamos de
sim plificadora, quando se tratou de definir a gênese do traço. O que é
q u e hú de mais destruído, de mais apagado de um objeto. Se é do objeto

. - 100 -
Lição de 1 O de janeiro de 1962

que o traço surge, é algo do o bj e to que o traço retém, justam e n te, sua
unicidade. O apagam ento , a destruição absolu ta d e todas essas outras
emergências, de todo s e sses ou tro s prolongamento s, de todos esses outros
apêndices, de tudo o que pode haver de ramifi cado , de palpitante, o ra ,
essa relação d o o bjeto com o na scimento d e algo que s e chama aqui
signo . já que ele nos interessa no nascimento do significan te , é exatamente
em torno disso que estamos de tido s , e em to rno do que n ão é sem
p romessa que tenhamo s feito, se se pode dizer, uma descoberta - pois
acred i to que é uma - esta indicação de que há , digamo s, num tempo ,
um tempo recup erável , histo ricam ente d efinido, um mom en to em que
alguma coisa está ali para ser l ida , lida com a linguagem quando ainda
n ão há escri ta . E é pel a inversão dessa relação, e d essa relação de leitura
do signo , que pode nascer em seguida a escrita, uma vez que ela pode
servir p ara co no tar a fonematização.
Mas se parece, nesse nível, que justam en te o nom e p róprio, enquan to
ele especifica como tal o enraizamento do sujeito , está mais especialmente
ligado que um out ro , não à fonematização como tal , à estru tu ra da
linguagem , mas àquilo que j á na língua está p ro n to, se podemo s d izer
assim, p ara receber essa informação do traço ; se o nom e p róprio ainda
traz a m arca disso até para nós e em nosso u so, sob essa forma que d e
uma língua para outra n ão se traduz, j á qu e ele ap enas se transp õe , se
transfere , e é exa tam ente essa sua característica - eu m e chamo Lacan
em todas as línguas e vocês também, cada um por seu nom e. Isso não
é um fato co n tingente, um fato de l im itação , de importância, um fato
sem sentido, posto que, ao contrário, é aqui que jaz, que reside a propriedade
muito parti cular do nome, do nom e p róprio na significação. Não será
isso feito p ara fazer com que no s interroguemo s sobre o que há nisso,
nesse po n to radical , arcaico, que p recisamo s com toda a necessidade
supor na o rigem do inco nsciente, isto é, d essa alguma coisa p el a qual,
enquan to o suj eito fala, ele só pode ava nçar sempre mais adiante na
cadeia, no desenrolar dos enunciados, mas que, dirigindo-se aos enunciados,
po r esse fa to m esmo , na enu nciação ele elide al go que é , p ropriam ente
fala ndo , o que ele não pode sabe r, isto é, o nome do que ele é enqua n to
suj eito d a enu nciação. No ato da e nu nciação há essa nominação late n te
que é con cebív el como sendo o p rimeiro núcl eo , como significante, do
que em seguida vai se o rganizar como cadeia gira tória, tal como represen tei

- 10 1 -
A Identificação

1 1, 1 1 a vocês desde sempre, desse centro, do coração falante do sujeito


1 1 1 1 1 · chamamos de inconsciente.
Aqui, antes que avancemos mais adiante, creio dever indicar alguma
rnisa que é apenas a convergência, a ponta de uma temática que já
:il,onlamos em várias ocasiões neste seminário, em várias ocasiões tomando­
:1 1 10s diversos níveis aos quais Freud foi levado a abordá-la, a representá­
! a, a represen tar o sistema, primeiro sistema psíquico, tal como lhe foi
necessário representá-lo, de alguma maneira, para fazer sentir o que
l'slá em causa, sistema que se articula como inconsciente, pré-consciente,
consciente. Muitas vezes tive de descrever, nesse quadro, sob formas
diversamente elaboradas, os paradoxos aos quais as formulações de
Freud, no nível do Entwurf, por exemplo, nos confrontam. Hoje me
a terei a uma topologização tão simples quanto a que ele dá no final da
Traumdeutung, ou seja, a das camadas através das quais podem acontecer
as ultrapassagens, os limiares, as irrupções de um nível para o outro,
t al como nos interessa no mais alto grau, a passagem do inconscien te
110 pré-consciente, por exemplo, que é de fato um problema, que é u m
problema - aliás, noto-o com satisfação, d e passagem, esse não é certamente
o menor esforço que eu possa esperar do esforço de rigor em que arrasto
vocês, que imponho a mim mesmo para vocês aqui, é que os que m e
escutam , que me ouvem, levam a s coisas a u m grau susceptível de i r
adiante . Em seu notável texto, publicado em Temps modernes , sobre o
assunto do Inconsciente, Laplanche e Leclaire - não distingo por enquanto
a parte de cada um deles nesse trabalho - se interrogam qual a ambigüidade
qlle permanece na enunciação freudiana, que concerne ao que se passa
q l l ando podemos falar da passagem de alguma coisa que estava no
inconsciente e que vai no pré-consciente. Significa dizer que se trata
a penas de uma mudança de investimento, como eles colocam muito
j 1 1 s 1 amente a questão, ou trata-se de que há uma dupla inscrição? Os
a 1 1 tores não disfarçam sua preferência pela dupla inscrição, eles nos
1 1 1dicam isso em seu texto. Aí está, no entanto, um problema que o texto
d1·ixa aberto e, afinal, isso com q ue nos ocupamos nos permitirá, este
: 1 1 1 1 1 , t razer talvez alguma resposta a isso ou pelo menos alguma precisão.
( ;ostaria, à guisa de introdução, de lhes sugerir o seguinte: é q ue, se
i l , ·1·1 · 1 1 111s considerar que o inconsciente é esse lugar do sujeito onde
1 : . :.11 l'a l a , acabamos por nos aproximarmos desse ponto onde podemos
, 1 1 11 · 1 q 1 11• a lguma coisa, à revelia do sujeito, está profundamente remanejada

- 1 02-
lição de 10 dejcmeiro de 1962

pelos efeitos da retroação do significante, im plicados na fala. É 1 1 a medida


- e pela menor de suas palavras - e m que o sujeito fala, que tu do o q ue
ele pode sempre fazer, u ma vez m ai s, é nomear-se sem o saber, sem
saber por q ual nome ? Se rá que não podemos ver que, para situa r, em
suas relações, o inconscien te e o pré-consciente, o limite para nós não
deve se r situado p rimeiro e m algu m lugar no i n te rior, como se diz, de
um sujeito que mais não seria que o equivalen te do que se chama, no
sentido amplo, de psí quico ? O sujeito de que se trata para nós e, sobretudo,
se ten tamo s articulá-lo como o sujeito do inconscie n te , compo rta u ma
outra constituição da fronteira ; aquilo que é do pr é-consciente , na medida
em que o que nos interessa no pré-consciente é a linguagem, a linguagem
tal como efetivamente nós n ão a penas a ve mo s, a ouvimos f alar, mas
tal como ela cs candc, articula nossos pensame ntos. Todos sabem que
os pensa mentos de q ue se trata, no níve l do incon sciente, mesmo se
digo qu e eles são estr ut u ra dos como uma linguagem - e videntemente ,
é porque e le s e st ão es t rutur a dos c m úl timo t er mo e num último n ível
como u ma linguagem que eles nos interessam - mas a p rimeira coisa a
consta tar, os pensamentos de que falamos, é que não é fácil fazê-los
exprimirem-se na linguagem comum. O que importa é ver que a linguagem
articulada do discu rso comum, cm relaçã o ao suj eito do inconsciente,
enqu an to e le nos interessa, está do lado de fora. Um lado de f ora q ue
re úne e m si o que chamamos de nossos pensamentos íntimos, e essa
linguagem que escoa do lado de fora, não de uma maneira imateria l,
porque sabemos bem , pois toda sor te de coisas ali está para no-lo representar,
nós sabemos o que não sabiam talvez as cultu ras em que tudo se p assa
no sopro da palavra, nós que temos diante de n ós quilos de linguage m,
e q ue sabemos, além do mais, inscrever a f ala mais fugidia e m discos,
sabemos be m que o que é falado, o discurso e fe tivo, o discurso pré­
con scie n te, é intei ramente homogeneizável como al go q ue se mantém
do lado de fora. A linguagem, cm substância, corr e as ruas e, ali, há
efetivamente u ma inscrição sobre uma fita magnética da necessidade.
O p roblema do que se passa quando o in con scien te chega a se faze r
ouvir ali é o p roblema do l imite entre esse inconsci ente e esse pré­
con scie nte.
Com o precisamos ver esse limi te ? É o problema que, po r enquant o,
vo u deixar aberto. M as o que podemo s, no m omento, indi ca r é q u e,

- 103 -
A Identificação

ao passar do inconsciente para o pré-consciente, o que se constituiu no


inconsciente encontra um discurso já existente, se se pode dizer, um
jogo de signos em liberdade, não somente interferindo com as coisas do
real, mas pode-se dizer estreitamente, tal um micélio, tecido em seus intervalos.
Do mesmo modo, não é aí que está a razão verdadeira do que se pode
chamar de fascinação, de estorvo Idealista? Na experiência filosófica, se o
homem se apercebe, ou crê se aperceber que nunca tem mais que idéias
das coisas, isto é, que das coisas ele só conhece enfim as idéias, é justamente
porque, já no mundo das coisas, esse embrulho num universo do discurso
é algo que não é de forma alguma desembaraçável. O pré-consciente, em
suma, está desde já no real, e o estatuto do inconsciente, por sua vez, se
ele levanta um problema, é porque se constituiu num nível totalmente
outro, num nível mais radical da emergência do ato de enunciação. Não
há, a princípio, objeção à passagem de algo do inconsciente para o pré­
consciente, o que tende a se manifestar, cujo caráter contraditório Laplanchc
e Leclaire notam muito bem. O inconsciente tem, como tal, seu estatuto
como algo que, por posição e por estrutura, não poderia penetrar no nível
em que é suscetível de uma verbalização pré-consciente. E, no entanto,
dizem-nos, esse inconsciente, a todo momento, faz esforço, empurra em
direção a fazer-se conhecer. Seguramente, e não sem razão, é que ele
está em sua casa, se podemos dizer, em um universo estruturado pelo
discurso. Aqui, a passagem do inconsciente para o pré-consciente não é,
pode-se dizer, mais que uma espécie de efeito de irradiação normal do
que gira na constituição do inconsciente como tal; daquilo que no inconsciente,
mantém presente o funcionamento primeiro e radical da articulação do
sujeito enquanto sujeito falante. O que é preciso ver é que a ordem que
seria aquela do inconsciente pré-consciente e depois chegaria à consciência,
não pode ser aceita sem ser revista, e pode-se dizer que, de certo modo, já
que devemos admitir o que é pré-consciente como definido, como estando
na circulação do mundo, na circulação real, devemos conceber que o que
se passa no nível do pré-consciente é algo que temos de ler da mesma
maneira, sob a mesma estrutura, que é aquela que cu tentava fazer vocês
sentirem, nesse ponto de raiz onde algo vem trazer à linguagem o que se
poderia chamar de sua última sanção, esta leitura do signo.

- 104 -
Lição de 10 de janeiro de 1962

e
r-
percepção

No nível atual da vida do sujeito constituído, de um sujeito elaborado por


uma longa história de cultura, o que se passa é, para o sujeito, uma leitura
do lado de fora do que é ambiente, pelo fato da presença da linguagem no
real, e no nível da consciência este nível que, para Freud, sempre pareceu
ser um problema; ele nunca deixou de indicar que era certamente o objeto
de uma futura precisão, de uma articulação mais precisa quanto à sua função
econômica. No nível em que ele no-lo descreve no começo, no momento
em que se liberta seu pensamento, lembremo-nos de como ele nos descreve
essa camada protetora que ele designa com o termo j; é antes de tudo algo
que, para ele, deve ser comparado com a película de superficic dos órg.íos
sensoriais, isto é, essencialmente como algo que filtra, que fecha, que só
retém esse índice de qualidade cuja função nós mostramos ser homóloga
com esse índice de realidade que nos permite até apreciar o estado em que
estamos, bastante para ficarmos seguros de que não sonhamos, se se trata
de algo análogo. É, na verdade, algo do visível o que vemos. Da mesma
forma, a consciência, em relação ao que constitui o pré-consciente e nos
faz este mundo estreitamente tecido por nossos pensamentos, a consciência
é a superfície por onde alguma coisa que está no coração do sujeito recebe,
se se pode dizer, de fora seus próprios pensamentos, seu próprio discurso. A
consciência ali está para que o inconsciente, se se pode dizer assim, recuse
o que lhe vem do pré-consciente ou escolha ali da maneira mais estreita
aquilo de que ele tem necessidade para seus ofícios.

lcs Préc. - Cons

lcs comme parole

- 105 -
A Identificação

J ,: o que é isso? É bem aqui q u e encontramos esse paradoxo q ue é o


• J I I( ' chamei de o entrecruzamento das funções sistêmicas , nesse primeiro
1 1 ÍV(' I , tão esse ncial de se r re con hecido, da articulação freudiana, o
1 1 H · o 11scie nte é re pre sen tado por ele como um fluxo, como u m mundo,
, · , 1 1 1 1 0 uma cadeia de pe nsamentos. Sem dúvida a consciência também
,. l°d la da coe rência das pe rcepções. O te ste de re alidade é a articulação
das percepções entre si num m undo... Inversamen te, o q ue e ncontramos
1 1 0 i n consciente é essa repe tição significativa q ue nos leva de algo q ue
:;1 • cha ma pe nsamentos, Gedanken, muito bem formados, diz Freu d, a

1 1 111a concate nação de pe nsame n tos q ue nos escapa a nós mesmos. O ra ,


o que é q ue o próprio Fre u d v ai dize r-nos? O q ue é o q ue o sujeito
l 1 1 1sca no nível de um e de ou tro dos dois siste m as ? Q ue no nível do
pn;-consciente o que b uscamos seja, propriame n te falando, a identidade
1 los pen samentos, é o que foi elaborado por todo esse capítulo da filosofia;
1 1 esforço de nossa organização do mundo, o esforço lógico, é, falando

pro pr iamente, re d uzir o diverso ao idên tico, é i de n tificar pensamen to


a pensamento, proposição a proposição em relações diversamente articuladas
q 1 1 (: f'ormam a própria trama do que se ch ama de ló gica formal, o q u e
l 1 ·va1 1 ta, para aq uele q u e considera de um modo ex tre mame nte ideal o
(·di l'ício da ciência como pode n do ou deven do, mesmo virtual me n te,
:;n já acab ado, o que l evanta o problema de saber se e fe tivame n te toda
, · i 1• 1 1 cia do sab er, toda captação do mundo de u m a forma ordenada e
uli culada não desemboca numa tautologia. Não foi à toa que vocês
1 1 H' ouviram várias vezes evocar o problema da tautologia e não poderíamos
de maneira alguma terminar, ne ste ano, nosso discurso se m trazer para
,·ssa q ue s tão um julgamen to definitivo.
O mundo, portanto, este mun do, cuja função de re ali dade é ligada à
lli nçfto perceptiva, é, apesar de tudo, aquilo e m torno do qual nós só
progredimos e m nosso saber pela via da ide n tidade dos pensame n tos.
1 sso, para nós, não é de forma alguma um paradoxo, mas o paradoxal é
l n, 1 1 0 tex to de Freud, que o q ue o incon sciente b usca, o q ue ele q ue r,
: ; 1 · podemos dizer assim, que o q ue é a raiz de se u funcioname n to, de

: , 1 1 :1 en trada em jogo, é a iden tidade das percepções, isto é, q ue isso


11ao t eri a l ite ralme n te sen tido algum se o q ue estava e m q ue stão não
l1 1ss1· o s eguinte : que a relação do inconsciente com o q ue ele b usca
, ·1 1 1 seu modo próprio de retomo é justamente aquilo que uma vez percebido
, . 1 1 i d e nticamente idêntico, se podemos dizer, é o percebido daquela

- 106 -
Lição de 10 de janeiro de 1962

vez ali, é e sse �ncl que ele p assou ao <ledo dessa vez com a pu11<,::w. E
é justame n te isso o q ue f al tará sempre : é que, em tod a espécie de o utr a
re apar ição do q ue re spon de ao sig nificante original, no ponto onde e st á
a m ar ca q u e o suje ito recebeu d este, seja o q ue for, q ue está na origem
do Urverdriingt, fal tará sempre ao que quer que seja q ue venha representá ­
lo, essa marca que é a marca única do surgimento original de um significante
original q ue se apresento u um a vez no mome n to em que o ponto , o
algo do Urverdriingt em que stão passou à existê ncia inco nscie n te, à
insistência ne ssa or dem interna que é o inconscie n te, entre, por um
l ado, o q ue ele re cebe do m undo ex terior e onde ele tem coisas a ligar ;
e, pelo fato de ligá -la s sob uma forma significan te, ele só as pode receber
em sua dif erença. E é exatame n te por isso q ue ele não pode de m aneira
nenh uma ser satisfeito por essa procura como tal da identidade perceptiva,
se é isso me smo q ue o e spe cifica como inconsciente. Isso nos dá a tríade
consciente-inconsciente-pré-consciente, numaordem ligeiramente modificada
e, de cer ta form a, q ue justifica a fórm ula que já te n te i d ar a vocês do
inconscie n te , ao dizer que ele se achava entre percepção e consciê ncia,
tal como se d i z: entr e o couro e a carne.
É ex atame nte aí q ue e stá algo q ue, um a v ez que o colocamo s, nos
in dica q u e nus repor temos àquele ponto do qual eu par ti ao form ular
as coisas a partir da exp eriên cia filosófica da procura do sujeito, tal
como ela existe em Descar te s, já q ue ele é e stre itamente d ifere n te de
tudo o que se pô de fazer em alg um outro momen to da reflexão filosófica,
porq ue é o próprio sujei to q ue é interrogado, q ue b usca sê-lo como tal ,
o sujeito enquan to aí vai com to da a ver d ade em se u propósito ; q ue o
q ue é ali interrogado é não o re al e a aparência, a relação de q uem
existe e de q uem não existe, do que permanece e do q ue foge , m as
saber se se po de confiar no O u tro, se, como tal, o q ue o sujeito recebe
do ex terior é um signo confiável .

Eu sou f- Eu penso
���������
Eu sou f- ����������
Eu penso
Eu sou f- Eu penso, etc

O penso logo sou, eu já o tr iturei suficienteme n te dia n te de voc(:s


p ar a q ue possam ver agora m ais o u menos como se coloca o prohlc11 1a .
Esse penso, do qual d issemos q ue propriamen te falando era 1 1 1 1 1 1 1 0 1 1

- 1 07 -
A Identificação

sens - e é o que lhe dá o valor - ele, obviamente, não tem mais sentido
que o minto, mas ele, a partir de sua articulação, só pode dar-se conta
de que logo existo não é a conseqüência que ele tira, mas é que ele só
pode pensar a partir do momento em que verdadeiramente ele começa
a pensar.
Quer dizer que é enquanto este eu penso impossível passa a algo
que é da ordem do pré-consciente, que ele implica como significado, e
não como conseqüência, como determinação ontológica, que implica
como significado que este penso remete a um sou que doravante não é
mais senão o x desse sujeito que buscamos, a saber, do que há na partida
para que se possa produzir a identificação desse penso. Observem que
isso continua, e assim por diante; se penso que penso que sou - não
estou mais ironizando, se penso que não posso fazer mais que ser um
pensa-ser ou um serpensante - o penso que está aqui no denominador
vê muito facilmente se reproduzir a mesma d uplicidade, a saber: que
tudo o que posso fazer é dar-me conta de que, pensando que penso,
esse penso que está na extremidade de meu pensamento, sobre meu
pensamento, é ele próprio um penso que reproduz o penso logo sou.
Será isso ad infinitum? Certamente não. É também um dos modos
mais correntes dos exercícios filosóficos, quando se começou a estabelecer
uma tal fórmula, que, ao aplicar que o que se pôde reter de experiência
efetiva é, de alguma maneira, indefinidamente multiplicável como num
jogo de espelhos. Há um pequeno exercício que é aquele ao qual me
dediquei num tempo - meu pequeno sofisma pessoal - o da asserção
de certeza antecipada a propósito do jogo dos discos, onde é da referência
daquilo que fazem os dois outros que um sujeito deve deduzir a marca
par ou ímpar de que ele próprio está afetado em suas costas, isto é,
algo de muito próximo àquilo de que se trata aqui. É fácil ver, na articulação
deste jogo que, longe que a hesitação que é, de fato, completamente
possível de se ver produzir, pois se vejo os outros decidirem demasiado
rapidamente, pela mesma decisão que quero tomar, isto é, que estou,
como eles, marcado por um disco da mesma cor, se os vejo tirar demasiado
rapidamente suas conclusões, tirarei disso justamente a conclusão . . .
Posso, n o momento, ver surgir para mim alguma hesitação, a saber, que
se eles viram tão rapidamente o que eles eram, é q ue eu mesmo sou
bastante distinto deles para__me fazer apanhar, pois com toda lógica eles

- - 1 08 -
Lição de 1 O de janeiro de 1962

devem fazer a mesma reflexão . Nós os veremos também oscilar e dizer­


se: "Olhemos isso duas vezes", isto é, que os três sujeitos terão a mesma
h esitação j un tos, e demonstra-se facilmente que é efetivamente ao cabo
de três oscilações hesitantes que eles poderão verdadeiramente ter e
terão, certamente e de alguma forma plenamente, figuradas pela escansão
de sua hesitação, as limitações de todas as possibilidades contraditórias.
Há algo de análogo aqui. Não é indefinidamente que podemos incluir
todos os penso, logo sou em um penso. Onde está o limite? É o que nós
não podemos imediatamente aqui tão facilmente dizer e saber. Mas a
questão que coloco, ou mais exatamente, a que vou pedir-lhes que
acompanhem, porque, é óbvio, vocês vão se surpreender, talvez, mas é
da seqüência que vocês verão vir juntar-se aqui que pode modificar,
quero dizer tornar operante ulteriormente, o que me pareceu à primeira
vista só como uma espécie de jogo, até como se diz uma recreação
matemática. Se vemos que alguma coisa na apreensão cartesiana, que
termina certamente em sua enunciação em dois níveis diferentes, já
que também há alguma coisa que não pode ir mais longe que isso que
é inscrito aqui, e é preciso que ele faça intervir algo que vem, não da
pura elaboração, sobre o que eu me posso fundar?, o que é confiável? .
Ele vai ser levado como todo o mundo a tentar s e desembaraçar com o
que se vive no exterior, mas na identificação que é a que se faz com o
traço u nário. Será que não há bastante disso para suportar esse ponto
impensável e impossível do penso, ao menos sob sua forma de diferença
radical? Se é por 1 que nós representamos esse penso q ue, repito, na
medida_que ele só nos interessa porque tem relação com o que se dá na
origem da nominação, já que é o que implica o nascimento do sujeito -
o sujeito é o que se nomeia - se n omear é antes de tudo algo que tem
a ver com uma leitura do traço 1 , designando a diferença absoluta,
podemos perguntar-nos como cifrar a espécie de sou que aqui se constitui
em alguma espécie retroativamente, simplesmente pela reprojeção do
que se constitui como significado do penso, a saber, a mesma coisa, o
desconhecido [i) do que está na origem sob a forma do sujeito.
Se o 1 que aqui indico, sob a forma definitiva que vou lhe deixar, é
algo que aqui se supõe numa problemática total, a saber, que é tão
verdadeiro que ele não é, posto que ele só é ao pensar a pensar, é
todavia correlativo, indispensável - e é exatamente o que faz a força do
argumento cartesiano de toda apreensão de um pensamento, desde o

- 109 -
A Identificação

1111111w11to cm que ele se encadeia - esse caminho lhe é aberto em direção


a 11111 wgilalum de algo que se articula: cogilo ergo sum. Vou saltar por
1 111, jc os intermediários disso, porque vocês verão na seqüência donde
1·l1·s vêm e porque, afinal, no ponto em que me encontro, foi necessário
q1w eu passasse por ali. Há algo de que direi que é ao mesmo tempo
paradoxal - por que não dizer divertido? - mas lhes repito: se isso tem
11111 interesse, é pelo que isso pode ter de operante. Uma tal fórmula em
111alemática é o que se chama de série. Passo para vocês aquilo que pode
i111ediatamente, para qualquer pessoa que tenha uma prática da matemática,
s<' colocar como questão: se é uma série, é uma série convergente? Isso
quer dizer o quê? Isso quer dizer que, se no lugar de ter pequeno i vocês
livessem 1 por toda parte, um esforço de formalização lhes permitiria
imediatamente ver que essa série é convergente, isto é, que se minha
lembrança é boa, ela é igual a algo como:

l+'\15
-2-

O importante é que isso quer dizer que se vocês efetuarem as operações


de que se trata, vocês terão, portanto, os valores que, se vocês os reportarem,
tomarão aproximadamente essa forma, até vir a convergir sobre um
valor perfeitamente constante que se chama de limite:

1
1+-=2
1 5
l+--= - l+--- ! , etc
1 1 3 5
1+
i+T 1+---
1
l+
l+l

Encontrar uma formula convergente na fórmula precedente nos


interessaria tanto menos quanto o sujeito é uma função que tende a
11111a perfeita estabilidade. Mas o que é interessante - e é aí que dou
11111 sallo, porque, para fornecer os elementos necessários à compreensão,
11t10 vejo outro jeito senão começar a projetar a tarefa e voltar em seguida
;) la ntcrna -- tomem i confiando em mim com o valor que ele tem exatamente
11a 11�orla dos números, onde é chamado ele imaginário - não é uma
Lição de 1 O de janeiro de 1962

homonímia que, por si só, me parece aqui justificar essa exlrapola1,::10


metódica, esse pequeno momento de salto e de confiança que lhes peço
fazerem -- esse valor imaginário é o seguinte: IT. Vocês sabem, seja
como for, o suficiente de aritmética elementar para saberem que IT.
raiz de menos um não é nenhum número real. Não há nenhum número
negativo, /-1/ por exemplo, que possa de algum modo preencher a função
de ser a raiz de um número qualquer cujo fator seria IT. Por que?
Porque, para ser a raiz quadrada de um número negativo, quer dizer
que elevado ao quadrado, dá um número negativo. Ora, nenhum número
elevado ao quadrado pode dar um número negativo, já que todo número
negativo elevado ao quadrado torna-se positivo. É por isso que IT, é
apenas um algoritmo, mas um algoritmo que serve.
Se vocês definem como número complexo todo número composto de
um número real a ao qual é acrescido um número imaginário, isto é,
um número que não pode de forma alguma se adicionar a ele - já que
ele não é um número real - feito do produto de IT, com b, se você
define isso como número complexo, você poderá fazer com esse número
complexo, e com o mesmo sucesso, todas as operações que você pode
fazer com números reais, e quando vocês se tiverem lançado nesse
caminho, vocês terão tido não somente a satisfação de perceber que
isso funciona, mas que isso permitirá fazer descobertas, isto é, perceber
que os números assim constituídos têm um valor que permite notadamente
operar de maneira puramente numérica com o que se chama de vetores,
isto é, com grandezas que serão não somente providas de um valor
diversamente representável por um comprimento, mas, além disso, que
graças aos números complexos vocês poderão implicar em sua conotação,
não somente a dita grandeza, mas sua direção e, sobretudo, o ângulo
que ela faz com tal outra grandeza, de sorte que IT, que não é um
número real, mostra, do ponto de vista operatório, ter uma potência
singularmente mais prodigiosa, se posso dizer, que tudo aquilo de que
você dispôs até agora limitando-se à série dos números reais. Isso para
introduzi-los ao que é esse pequeno i.
E então, se se supõe que buscamos aqui conotar, de maneira numérica,
alguma coisa sobre a qual podemos operar, dando a ela esse valor
convencional de IT, .sso quer dizer o que? Que, assim como nos d1:dica111<1t.
a elaborar a função da unidade como função da dif'crc11ça radil'al rra

- li 1 --
A Identificação

determinação desse centro ideal do sujeito, que se chama de Ideal do


Eu, assim também na seqüência, e por uma boa razão, é que o identificaremos
àquilo que até agora introduzimos em nossa conotação pessoal comoJ.
isto é, a função imaginária do falo. Vamos nos dedicar a extrair dessa
conotação, IT. , tudo aquilo a que ela pode nos servir de um modo operatório.

\J-1+ 1 , etc
1
v-f+--
Y-1+1

Mas, enquanto aguardamos, a utilidade de sua introdução, nesse nível,


se ilustra nisso: é que se vocês pesquisam o que ela faz, essa função,
em outros termos, é fl que está ali em toda parte onde vocês viram
um pequeno i, vocês vêem aparecer uma função que não é de forma
alguma uma função convergente, que é uma função periódica que é
facilmente calculável; é um valor que se renova, se se pode dizer, a
cada três tempos na série. A séria se define assim:
i + 1 primeiro termo da série,
1
j+---
1+ --: segundo termo da série, e i+ 1 terceiro termo.
í+ 1 i+ 1
Vocês encontrarão periodicamente, isto é, cada três vezes na série,
esse mesmo valor, esses mesmos três valores que vou dar. O primeiro é
i + 1, isto é, o ponto de enigma em que estamos para perguntar-nos
qual valor poderíamos dar a i para conotar o sujeito enquanto sujeito
de antes de toda nominação. Problema que nos interessa. O segundo
valor que vocês encontrarão, a saber
. --
1
1+
i+ 1
í+ 1
é estritamente igual a
2

-112-
Lição de 10 de janeiro de 1962

e isso é bastante interessante, pois a primeira coisa que nós encontramos


é o seguinte: é que a relação essencial desse algo que buscamos como
sendo o sujeito, antes que ele se nomeie, no uso que ele pode fazer de
seu nome simplesmente para ser o significante do que há a significar,
isto é, da questão do significado justamente dessa adição dele mesmo
com seu próprio nome, é imediatamente splitter, dividi-lo em dois, fazer
com que só reste uma metade de literalmente
j+ 1
--, daquilo que havia em presença.
2
Como vocês podem ver, minhas palavras não são preparadas, mas
são ainda assim calculadas e essas coisas são, apesar de tudo, o fruto
de uma elaboração que refiz por mil portas de entrada assegurando­
me de um certo numero de controles, tendo em seguida um certo número
de orientações nos caminhos que vão seguir. O terceiro valor, isto é,
quando vocês interrompem ali o termo da série, será 1 simplesmente,
o que, por muitos lados, pode ter para nós o valor de uma espécie de
confirmação de fecho. Quero dizer que é, a saber, que se é no terceiro
tempo - coisa curiosa, tempo rumo ao qual nenhuma meditação filosófica
não nos levou a nos determos especialmente - isto é, no tempo do
penso enquanto ele é ele mesmo objeto de pensamento e se toma com
objeto, é nesse momento aí que parecemos conseguir alcançar essa
famosa unidade, cujo caráter satisfatório para definir o que quer que
seja não é seguramente duvidoso, mas que podemos nos indagar se é
da mesma unidade que se trata, daquela de que se tratava no momento
da partida, ou seja, na identificação primordial e desencadeadora, de
todo modo , é preciso que eu deixe, por hoje, aberta essa questão.

-113-
LIÇÃO VIII
17 de janeiro de 1962

Eu não creio que, por mais paradoxal que possa parecer, à primeira
vista, a simbolização com a qual terminei meu discurso na última vez,
fazendo o sujeito suportar-se no símbolo matemático -{T, não creio que
tudo para vocês ali seja apenas mera surpresa.
Quero dizer que, se nos lembrarmos do próprio método cartesiano,
não poderemos esquecer a que este método leva seu autor. Ei-lo dando
um bom passo em direção à verdade, mais ainda: essa verdade não é,
de forma alguma, nele como em nós, posta no parêntese de uma dimensão
que a distingue da realidade. Essa verdade sobre a qual Descartes avança,
com seu passo conquistador, é bem daquela da coisa que importa. E
isso nos leva a que? A esvaziar o mundo até não deixar nele mais que
esse vazio que se chama de extensão.
Como isto é possível? Vocês sabem que ele vai escolher, como exemplo,
derreter um bloco de cera. Será, por acaso, que ele escolhe essa matéria
ou será que ele é levado a ela por ser a matéria ideal para receber o
selo, a assinatura divina? No entanto, após essa operação quase alquimica
que ele realiza diante de nós, ele vai fazê-la desvanecer-se, reduzir-se
a não ser mais que a pura extensão; nada mais onde possa se imprimir
aquilo que, justamente, está elidido em sua experiência. Não há mais
relação entre o significante e nenhum traço natural, se posso exprimir­
me assim, e, mais precisamente, o traço natural por excelência que
constitui o imaginário do corpo. Isso não quer dizer, justamente, que
esse imaginário possa ser radicalmente repelido, mas ele está separado
do jogo do significante. Ele é o que é: efeito do corpo, e como tal recusado
como testemunha de qualquer verdade. Nada a fazer com ela senão

-115-
A Identificação

viver dela, dessa imaginária teoria das paixões, mas sobretudo não pensar
com ela. O homem pensa com um discurso reduzido às evidências daquilo
que se chama de luz natural, isto é, um grupo logístico que, desde logo,
teria podido ser outro, se Deus o tivesse querido [Teoria das paixões].
Aquilo de que Descartes não pode ainda se dar conta é que nós podemos
querê-lo em seu lugar; é que uns 150 anos após sua morte nasce a
teoria dos conjuntos - ela o teria entusiasmado - onde mesmo os números
um e zero são apenas o objeto de uma definição literal, de uma definição
axiomática, puramente formal, elemento neutro. Ele teria podido fazer
a economia do Deus verídico, o Deus enganador só podendo ser aquele
que trapacearia na solução das próprias equações. Mas ninguém jamais
viu isso; não existe o milagre da combinatória, a não ser o sentido que
lhe damos. Já é suspeito a cada vez que lhe damos um sentido. É por
isso que o Verbo existe, mas não o Deus de Descartes. Para que o Deus
de Descartes existisse.. seria necessário que tivéssemos um pequeno
começo de prova de sua vontade criadora no domínio da matemática.
Ora, não foi ele quem inventou o transfinito de Cantor, fomos nós. É
bem por isso que a história nos conta que os grandes matemáticos, que
abriam esse além da lógica divina, Euler em primeiro lugar, tiveram
muito medo. Eles sabiam o que faziam; eles encontravam, não o vazio
da extensão do passo cartesiano, que finalmente, apesar de Pascal, não
produz mais medo em ninguém, porque já se tem coragem de ir habitá­
lo cada vez mais longe, mas o vazio do Outro, lugar infinitamente mais
temível, já que é preciso alguém nele. É por isso que, cingindo a questão
do sentido do sujeito, tal como ele se evoca na meditação cartesiana,
não acredito fazer nada - mesmo se piso num domínio tantas vezes
percorrido, que acaba parecendo tornar-se reservado a alguns - não
acredito fazer algo de que eles possam se desinteressar, aqueles mesmos,
já que a questão é atual, mais atual que nenhuma outra, e mais atualizada
ainda - acredito poder mostrá-lo a vocês - na psicanálise.
Aquilo em direção a que, portanto, hoje vou conduzi-los é a uma
consideração, não da origem, mas da posição do sujeito, já que na raiz
do ato da fala há algo, um momento em que ela se insere numa estrutura
de linguagem, e que essa estrutura de linguagem, enquanto é caracterizada
nesse ponto original, tento cercá-la, defini-la em torno de uma temática
que, de maneira imaginada, se encarna, está compreendida na idéia
de uma contemporaneidade original da escrita e da própria linguagem,

- -116-
Lição de 17 de janeiro de 1962

uma vez que a escrita é conotação significante, não é tanto que a fala
a cria mas sim que ela a leia, que a gênese do significante num certo
nível do real, que é um de seus eixos ou raízes, é, para nós, sem dúvida,
o principal para conotar a vinda à luz do dia dos efeitos, ditos efeitos de
sentido. Nessa relação primeira do sujeito, naquilo que ele projeta atrás
de si nachtraglich, apenas pelo fato de se engajar por sua fala, a princípio
balbuciante, depois lúdica, até mesmo confusional, no discurso comum,
o que ele projeta atrás de seu ato, é aí que se produz esse algo em
direção ao qual temos a coragem de ir, para interrogá-lo em nome da
fórmula wo es war, soll ich werden, que tenderíamos a empurrar rumo
a uma fórmula muito ligeiramente diferentemente acentuada, no sentido
de um sendo tendo sido, de um Gewesen que subsiste na medida em
que o sujeito, ao avançar nesse rumo, não pode ignorar que é preciso
um trabalho de profundo reviramento de sua posição para que ele possa
apreender-se ali. Desde já, aí algo nos dirige rumo a algo que, por ser
invertido, nos sugere a observação de que, por si só, em sua existência,
a negação, desde sempre, não deixa de esconder uma questão; o que
ela supõe? Ela supõe a afirmação sobre a qual se apóia? Sem dúvida.
Mas será que tal afirmação será, apenas, a afirmação de alguma coisa
do real que estaria simplesmente suprimida? Não é sem surpresa, não
é sem malícia que podemos encontrar, sob a pena de Bergson, algumas
linhas pelas quais ele se levanta contra toda idéia do nada, posição
bem conforme a um pensamento em seu fundo atado a uma espécie de
realismo ingênuo:_"Existe mais, e não menos, na idéia de um objeto
concebido como não existente do que na idéia desse mesmo objeto
concebido como existente, pois a idéia do objeto não existente é
necessariamente a idéia do objeto existindo com, a mais, a representação
de uma exclusão desse objeto pela realidade atual tomada em bloco".
Será, assim, que podemos contentar-nos em situá-lo? Por um momento,
levemos nossa atenção para a própria negação. É assim que podemos
contentar-nos, numa simples experiência de seu uso, de seu emprego,
em situar-lhes os efeitos.
Conduzamo-nos, então, por todos os caminhos de uma investigação
lingüística, algo a que não podemos furtar-nos. De resto, já avançamos
nesse sentido, e se vocês bem se lembram, já se fez alusão aqui, há
muito tempo, às observações muito sugestivas, senão esclarecedoras,
de Eduard Pichon ou Damourette, em sua colaboração a uma gramática

-117-
A Identificação

muito rica e muito fecunda a considerar, gramática especialmente da


língua francesa na qual suas observações vêm apontar que não existe,
dizem eles, propriamente falando, negação em francês. Querem dizer
que essa forma simplificada, em seu sentido da ablação radical, tal
como ela se exprime na queda de certas frases alemãs, digo na queda
porque é exatamente o termo nicht que, por vir de uma maneira
surpreendente na conclusão de uma frase prosseguida em registro positivo,
permitiu ao ouvinte ficar até o final na mais perfeita indeterminação e
radicalmente numa posição de crença; por meio desse nicht que a rasura,
toda a significação da frase se acha excluída. Excluída de quê? Do
campo da admissibilidade da verdade. Pichon observa, não sem pertinência,
que a divisão, a separação mais ordinária em francês da negação entre
um ne de um lado e uma palavra auxiliar, o pas, o personne, o rien, o
point� o mie, o goutte33 , que ocupam uma posição na frase enunciativa
que resta a precisar em relação ao ne nomeado primeiro, que isto nos
sugere principalmente, ao olhar de perto o uso separado que pode disso
ser feito, atribuir a uma dessas funções uma significação dita discordancial,
à outra uma significação exclusiva. É justamente de exclusão do real
que estaria encarregado o pas, o point, ao passo que o ne exprimiria
essa dissonância por vezes tão sutil que não passa de uma sombra, e
principalmente nesse famoso ne, que vocês sabem que fiz grande caso
para tentar, pela primeira vez, justamente, de nele mostrar algo como
o rastro 3·1 do sujeito do inconsciente, o ne dito expletivo. O ne desse je
crains qu' il ne vienne !receio que ele venha]. vocês sabem perfeitamente
que ele não quer dizer nada mais quej' espérais qu' il vienne [eu esperava
que ele viesse]. Ele exprime a discordância de nossos próprios sentimentos
em relação a essa pessoa, ele veicula de alguma maneira o rastro tanto
mais sugestivo de ser encarnado em seu significante, já que o chamamos
em psicanálise de ambivalência. ]e crains qu' il ne vienne, não é tanto
exprimir a ambigüidade de nossos sentimentos quanto mostrar, por
essa sobrecarga, o quanto, num certo tipo de relações, é capaz de ressurgir,
de emergir, de se reproduzir, essa distinção do sujeito do ato da enunciação
enquanto tal, em relação ao sujeito do enunciado, mesmo se ele não
está presente no nível do enunciado de uma forma que o designe. ]e
crains qu' il ne vienne é um terceiro; seria, se se dissesseje crains que
je ne fasse !receio que eu faça], o que não se diz muito, embora seja
concebível, o que se estaria no nível do enunciado. Todavia, pouco

-118-
Lição de 1 7 de janéiro de 1962

importa que ele seja designável, aliás, vocês podem ver que posso fazê­
lo aparecer, no nível do enunciado, e um sujeito, mascarado ou não no
nível da enunciação, representado ou não, nos leva a fazer-nos a pergunta
da função do sujeito, de sua forma, daquilo que ele suporta, e a não
nos enganarmos, a não crermos que é simplesmente o je [shifter] que,
em sua formulação do enunciado, o designa como o que, no instante
que define o presente, toma a palavra?
O sujeito da enunciação talvez tenha sempre um outro suporte. O
que articulei é que, muito mais, esse pequeno ne, aqui apreensível sob
a forma expletiva, é aí que devemos reconhecer, propriamente falando,
num caso exemplar, o suporte. E claro, também não é dizer tampouco
que, nesse fenômeno de exceção, nós devamos reconhecer seu suporte
exclusivo. O uso da língua vai-me permitir sublinhar diante de vocês,
de uma maneira bem banal, não tanto a distinção de Pichon, na verdade,
eu não a acho sustentável até seu termo descritivo. Fenomenologicamente,
ela repousa sobre a idéia, inadmissível para nós, de que se pode de
alguma forma fragmentar os movimentos do pensamento. Contudo,
vocês têm essa consciência lingüística que lhes permite imediatamente
apreciar a originalidade do caso em que vocês têm somente, em que
vocês podem, no uso atual da língua .. . isso nem sempre foi assim; em
tempos arcaicos a forma que vou agora formular diante de vocês era a
mais comum. Em todas as línguas, uma evolução se marca como um
deslizamento, que os lingüistas tentam caracterizar, das formas da negação.
O sentido como esse deslizamento se exerce, talvez daqui a pouco lhes
diga sua linha geral, ela está expressa sob as penas dos especialistas.
Mas, por enquanto, tomemos o simples exemplo daquilo que se oferece
a nós simplesmente na distinção entre duas fórmulas igualmente admissíveis,
igualmente recebidas, igualmente expressivas, igualmente comuns: a
do je ne sais com a do j' sais pas35 • Vocês vêem, acho, de imediato, qual
é a diferença, diferença de acento. Este je ne sais não deixa de ter seu
maneirismo, é literário, é preferível a jeunes nations, mas é da mesma
ordem. Ambos são Marivaux, senão rivats36 • O que exprime este je ne
sais é essencialmente alguma coisa completamente diferente do outro
código de expressão, o do j'sais pas: exprime a oscilação, a hesitação,
mesmo a dúvida. Se evoquei Marivaux não foi por acaso; é a forma
ordinária na cena onde podem formular-se as confissões veladas. Junto
a esteje ne sais, careceria divertimo-nos ortografando, com a ambigüidade

- 1 19 -
A Identificação

dada por meu jogo de palavras, o j' sais pas pela assimilação que ele
sofre devido à vizinhança com o s inaugural do verbo, o j do je que se
torna um chê aspirado, que é aí sibilante surda. O ne aqui engolido desaparece:
toda a frase vem repousar sobre o pas pesado da oclusiva que o determina.
A expressão só ganhará seu acento um pouco irrisório, até mesmo vulgar,
no momento justamente de seu desacordo com o que haverá de expresso
então. O ch 'sais pas marca, se posso dizer assim, até mesmo o corte de
alguma coisa onde, bem ao contrário, o sujeito sofre um colapso, é esmagado.
"Como é que isso aconteceu? " - pergunta a autoridade, depois de algum
episódio malogrado, ao responsável. "Ch'sais pas". É um buraco, uma hiância37
que se abre, no fundo do qual o que desaparece, submerge, é o próprio
sujeito. Mas aqui ele não aparece mais em seu movimento oscilatório no
suporte que lhe é dado por seu movimento original. Mas, ao contrário,
sob uma forma de constatação de sua ignorância, propriamente dita, expressa,
assumida, até mesmo projetada, constatada, é algo que se apresenta como
um não estar ali, projetado sobre uma superficie, sobre um plano onde ele
é como tal reconhecido.
E o que nós nos aproximamos, por esse caminho, nessas observações
controláveis de mil maneiras, por toda a sorte de outros exemplos, é
algo de que, no mínimo, devemos reter a idéia de uma dupla vertente.
Será que essa dupla vertente é verdadeiramente de oposições, como
Pichon deixa entrever? Quanto ao próprio aparelho, será que um exame
mais avançado pode permitir-nos resolvê-lo? Observemos primeiramente
que o ne desses dois termos tem a aparência de sofrer a atração do que
se pode chamar de grupo de frente da frase, já que ele é agarrado,
suportado pela forma pronominal. Esse pelotão de frente, em francês,
é notável nas fórmulas que o acumulam, tais como je ne le, je le lui,
isso agrupado antes do verbo não deixa de refletir uma profunda necessidade
estrutural. Que o ne venha agregar [-se] aí, eu direi que não é isso o
que nos parece o mais notável. O que nos parece mais notável é o
seguinte: é que, ao vir agregar-se, ele acentua o que eu chamaria de
significantização subjetiva. Notem, de fato, que não é por acaso que
foi no nfvel de um je ne sais, de um je ne puis, de uma certa categoria
que é aquela dos verbos onde se situa, se inscreve a posição subjetiva
propriamente, que eu encontrei meu exemplo de emprego isolado do
ne. Há, de fato, todo um registro de verbos cujo uso é apropriado a

. - 120-
Lição de 1 7 de janeiro de 1962

fazer-nos observar que sua função muda profundamente, se são empregados


na primeira, na segunda ou na terceira pessoas. Se eu digo je crois
qu'il va pleuvoir [creio que vai chover], isso não distingue de minha
enunciação que vai chover, um ato de crença. ]e crois qu'il va pleuvoir
conota simplesmente o caráter contingente de minha previsão. Observem
que as coisas se modificam, se passo às outras pessoas: tu crois qu'il va
pleuvoir [você crê que vai chover] faz muito mais apelo a alguma coisa,
àquele a quem me dirijo, faço apelo a seu testemunho. Il croit qu'il va
pleuvoir [ele crê que vai chover] dá cada vez mais peso à adesão do
sujeito a sua crença. A introdução do ne será sempre fácil quando ele
vier juntar-se a esses três suportes pronominais desse verbo que tem
aqui função variada: a princípio, do matiz enunciativo até o enunciado
de uma posição do sujeito, o peso do ne servirá sempre para reconduzi­
lo em direção ao matiz enunciativo. ]e ne crois pas qu'il va plevoir [não
creio que vai chover) é ainda mais ligado ao caráter de sugestão disposicional,
que é a minha. Isso pode não ter nada a ver com uma não-crença, mas
simplesmente com meu bom-humor. ]e ne crois pas qu'il va plevoir , je
ne crois pas qu'il pleuve [não acredito que chova] , isso quer dizer que
as coisas não me parecem desfavoráveis. Da mesma forma, ao acrescentá­
lo às duas outras formulações, o que aliás vai distinguir duas outras
pessoas, o ne tenderá a "eu-izar" aquilo de que se trata nas outras
fórmulas. Tu ne crois pas qu il va pleuvoir, il ne croit pas qu il doive
pleuvoir, estão igualmente bem. É exatamente enquanto são atraídos
pelo je que eles serão, pelo fato de que é com o acréscimo dessa pequena
partícula negativa, aqui, introduzidos no primeiro membro da frase.
Será que, diante disso, devamos fazer do pas algo que, brutalmente,
conota o puro e simples fato da privação? Tal seria seguramente a tendência
da análise de Pichon, uma vez que ele, de fato, tende a agrupar os
exemplos para dar-lhes todas as aparências. De fato, não acredito nisso,
por razões que se prendem primeiramente à própria origem dos significantes
de que se trata. Seguramente, temos a gênese histórica de sua forma
de introdução na linguagem. Originalmente, je n 'y vais pás pode se
acentuar por uma virgula: je n ' y vais, pas un seul pas não vou lá, nem
um só passo], se posso dizer. ]e n ' y vois point, même pas d' un point, je
n 'y trouve goutte, il n 'en reste mie [não vejo absolutamente nada;
não encontrei nada lá, nem uma gota; não resta nada, nem uma migalha],
trata-se de alguma coisa que, longe de ser, na sua origem, a conotação

- 12 1 -
A Identificação

de um buraco, ela ausência, exprime bem ao contrário a redução, o


desaparecimento talvez, mas não acabado, deixando atrás dele as marcas
do menor traço, o mais evanescente. De fato, essas palavras, fáceis de
restituir a seu valor positivo, ao ponto em que são correntemente ainda
empregadas éom esse valor, recebem sua carga negativa do deslizamento
que se produz em direção a elas da função do ne, e mesmo quando o ne
está elidido, é sempre a carga negativa sobre aquelas palavras que ele
continua a exercer. Alguma coisa, se se pode dizer, da reciprocidade,
digamos, desse pas e desse ne nos será trazida pelo que ocorre, quando
invertemos sua ordem do enunciado da frase. Nós dizemos, exemplo
de lógica: "Pas un homme qui ne mente". Aí temos o pas que abre o
fogo. O que quero aqui designar, fazê-los captar, é que o pas, por abrir
a frase, não desempenha absolutamente a mesma função que lhe seria
atribuída, no dizer de Pichon, se fosse a que se exprime na fórmula
seguinte: eu chego e verifico: "Il n 'y a ici pas un chat" [Aqui não há
um só gato].
Entre nós, deixem-me assinalar-lhes de passagem o valor esclarecedor,
privilegiado, até reduplicante do próprio uso de uma tal palavra: pas
un chat. Se tivéssemos de fazer o catálogo dos meios de expressão da
negação, eu proporia que puséssemos, sob esse rótulo, esse tipo de
palavras que se tornam um suporte da negação. Elas não deixam de
constituir uma categoria especial. O que tem o gato a ver com essa
questão? Mas deixemos isso de lado, por enquanto. Pas un homme qui
ne mente [Não há um só homem que não minta] mostra sua diferença
com esse concerto de carência, algo que está totalmente no outro nível
e que é suficientemente indicado pelo emprego do subjuntivo. O pas
un homme qui ne mente é do mesmo nível que motiva, que define todas
as formas as mais discordanciais, para empregarmos o termo de Pichon,
que possamos atribuir ao ne desde o je crains qu' il ne vienne [receio
que ele venha] até o avant qu il ne vienne [antes que ele venha] , até o
plus petit que je ne le croyais [menor do que eu pensava] ou, ainda, il y
a longtemps que je ne l' ai vu [há muito que não o tenho visto] , que
levantam - digo-lhes de passagem - toda sorte de questões que, por
enquanto, sou obrigado a deixar de lado. Faço com que notem, de passagem,
o que está contido numa fórmula como il y a longtemps que je ne l' at
vu, vocês não podem dizê-lo a propósito de um morto ou de um desaparecido:

- 122 -
lição de 1 7 de janeiro de 1962

il y a longtemps que je nc l ' ai vu supõe que o próximo encontro é


sempre possível.
Vocês vêem com que prudência o exame, a investigação desses termos
deve ser manejada. É por isso, no momento de tentar expor, não a
dicotomia, mas um quadro geral dos diversos níveis da negação, na
qual nossa experiência nos traz entradas de matrizes de outro modo
mais ricas do que tudo o que se tinha feito no nível dos filósofos, desde
Aristóteles até Kant - e vocês sabem como elas se chamam, essas entradas
de matriz: privação, frustração, castração. São elas que vamos tentar
retomar, para confrontá-las com o suporte significante da negação, tal
como podemos tentar identificá-lo. Pas un homme qui ne mente . É o
que nos sugere essa fórmula, "Homo mendax", esse julgamento, essa
proposição que lhes apresento sob a forma típica da afirmativa universal,
à qual talvez vocês saibam que, no meu primeiro seminário deste ano,
eu já havia feito alusão, a propósito do uso clássico do silogismo: "todo
homem é mortal, Sócrates ... etc. ", com o que conotei de passagem sua
função transferencial. Creio que algo pode ser trazido a nós na abordagem
dessa função da negação, no nível do uso original, radical, pela consideração
do sistema formal das proposições, tal como Aristóteles as classificou
nas categorias ditas da universal afirmativa e negativa e da particular
dita igualmente negativa e afirmativa: A E I O. Digamo-lo imediatamente:
esse assunto dito da oposição das proposições, origem, em Aristóteles,
de toda su.a análise, de toda sua mecânica do silogismo, não deixa,
apesar da aparência, de apresentar as mais numerosas dificuldades.
Dizer que os desenvolvimentos da logística moderna esclareceram essas
dificuldades seria muito certamente dizer alguma coisa contra a qual
toda a história lança desmentidos. Muito pelo contrário, a única coisa
que ela pode fazer aparecer de surpreendente é a aparência de uniformidade
na adesão que essas fórmulas ditas aristotélicas encontraram até Kant,
já que Kant mantinha a ilusão de que estava aí um edifício inatacável.
Seguramente, não é coisa pouca poder, por exemplo, fazer notar que a
acentuação de sua função afirmativa e negativa não é articulada como
tal no próprio Aristóteles, e que é muito mais tarde, com Averróis,
provavelmente, que convém marcar-lhes a origem disso. Significa dizer
que as coisas não são tão simples, quando se trata de sua apreciação.
Para aqueles que necessitam fazer uma revisão da função dessas
proposições, vou relembrá-las brevemente. Homo mendax, já que é o

- 123 -
A Identificação

que escolhi para introduzir essa revisão , tomemo-lo então, homo e mesmo
omnis homo, omnis homo mendax, todo homem é mentiroso. Qual é a
fórmula negativa? Segundo uma forma [que traz] e em muitas línguas ,
omnis homo non mendax pode bastar. Quero dizer que omnis homo non
mendax quer dizer que , de todo homem , é verdadeiro que ele não seja
mentiroso. Todavia, para efeito de clareza, é o terrno nullus que empregamos,
nullus homo mendax. Eis aí o que é conotado habitualmente pela letra,
respectivamente , A e E da universal afirmativa e da universal negativa.
O que vai ocorrer no nível das afirmativas particulares? Posto que
nos interessamos pela negativa, é sob uma forma negativa que vamos
aqui poder introduzi-las. Non omnis homo mendax, nem todo homem é
mentiroso, dito de outra maneira , eu escolho e verifico que há homens
que não são mentirosos. Em suma , isso não quer dizer que qualquer
um, aliquis, não possa ser mentiroso, aliquis homo mendax, tal é a
particular afirmativa habitualmente designada, na notação clássica,
pela letra I. Aqui, a negativa particular, O, será, o non omnis, sendo
aqui resumida por nullus, non nullus homo non mendax, não há nenhum
homem que não seja mentiroso. Em outros termos, na medida em que
tínhamos escolhido aqui, O, para dizer que nem todo homem era mentiroso,
isso o exprime de uma outra maneira , a saber, que não há nenhum que
haja aí de ser não mentiroso. Os termos assim organizados se distinguem,
na teoria clássica , pelas formulas seguintes, que as põe reciprocamente
em posição dita de contrário ou de subcontrário, isto é, que as proposições
universais A e E se opõem em seu próprio nível como não sabendo e
não podendo ser verdadeiras ao mesmo tempo. Não pode ao mesmo
tempo ser verdadeiro que todo homem possa ser mentiroso e que nenhum
homem não possa ser mentiroso, quando todas as outras combinações
são possíveis. Não pode ser ao mesmo tempo errado que haja homens
mentirosos e homens não mentirosos. A oposição dita contraditória é
aquela pela qual as proposições situadas em cada um desses quadrantes
se opõem diagonalmente, A - O e E - I, de forma que cada um exclui,
sendo verdadeira, a verdade daquela que lhe é oposta a título de contraditória,
e , sendo falsa, exclui a falsidade daquela que lhe é oposta a titulo de
contraditória . Se há homens mentirosos , I , isso não é compatfvel com
o fato de que nenhum homem não seja mentiroso , E. Inversamente, a
relação é a mesma da particular negativa, O, com a afirmativa, A.

- 124 -
Lição de 1 7 de janeiro de 1962

A E
omnls homo mendax omnis homo non mendax
nullus homo non mendax nullus homo mendax
aliquis homo mendax aliquis homo non mendax
non omnis homo non mendax non omnis homo mendax
o

O que é que vou propor a vocês, para fazê-los sentir o que, no nível
do texto aristotélico, se apresenta sempre como o que se desenvolveu,
na história, de embaraço em torno da definição, como tal, da universal?

Contrárias
A E
� d. /
contra Itónas
/ �
o
subcontrárias

Observem primeiramente que, se aqui introduzo o non omnis homo


mendax, O, o pas tout (não todo), o termo pas incindindo sobre a noção
de tout como definindo a particular, não é que isso seja legítimo, pois
precisamente Aristóteles se opõe a isso de uma maneira que é contrária
a todo desenvolvimento que pode ter em seguida a especulação sobre a
lógica formal, a saber, um desenvolvimento, uma explicação em extensão
fazendo intervir a carcaça simbolizável por um círculo, por uma zona
na qual os objetos que constituem seu suporte são agrupados: Aristóteles,
mui precisamente, antes dos Primeiros Analíticos, pelo menos na obra
que antecede no agrupamento de suas obras, mas que aparentemente
o antecede logicamente, senão cronologicamente que se chama Da
Interpretação, faz observar que - e não sem ter provocado o espanto
dos historiadores - não é sobre a qualificação da universalidade que
deve incidir a negação. É, pois, exatamente por algum homem, aliquis,
que se trata e de um algum homem que devemos enquanto tal interrogar
como mentiroso. A qualificação portanto do omnis, da omnitude, da

- 125 -
A Identificação

paridade da categoria universal é aqui o que está em causa. Será que é


alguma coisa que seja do mesmo nível, do nível de existência do que
pode suportar ou não suportar a a firmação ou a negação? Será que há
homogeneidade entre esses dois níveis? Dito de outra forma: será que
é de alguma coisa que simplesmente supõe a coleção como realizada
que se trata, na diferença que há da universal para a particular?
Subvertendo o alcance daquilo que estou tentando explicar-lhes, vou
propor-lhes algo, algo que é feito de certa forma para responder a quê?
À questão que liga, justamente, a definição do sujeito como tal àquela
da ordem de afirmação ou de negação na qual ele entra na operação
dessa divisão proposicional. No ensino clássico da lógica formal, é dito
- e se se buscar a quem isso remonta, vou dizer-lhe, não deixa de ser
algo picante - é dito que o sujeito é tomado sob o ângulo da qualidade
e que o atributo que vocês vêem aqui encarnado pelo termo mendax é
tomado sob o ângulo da quantidade. Digo de outra forma: em um eles
são todos, eles são vários, até há um. É o que Kant ainda conserva no
nível da Crítica da Razão Pura, na divisão ternária. O que não deixa de
. levantar grandes objeções por parte dos lingüistas. Quando se olha as
coisas historicamente, percebe-se que essa distinção qualidade-quantidade
tem uma origem: aparece pela primeira vez num pequeno tratado,
paradoxalmente, sobre as doutrinas de Platão e isso - é, ao contrário, o
enunciado aristotélico da lógica formal que é reproduzido, de uma maneira
abreviada mas não sem didática, e o autor é ninguém menos que Apuleio,
' o autor de um tratado sobre Platão - acaba por ter aqui uma singular
função histórica, a saber, ter introduzido
uma categorização, a da quantidade e
da qualidade, da qual o mínimo que se
pode dizer é que é por ter sido introduzida
e por ter ficado por tanto tempo na análise
das formas lógicas que foi ali introduzida.
Eis, de fato, o modelo em torno do
qual proponho a vocês h oje que 1 { t
concentrem sua reflexão. Aqui está um
,mmm;���w} E

quadrante [1] dentro do qual vamos colocar


traços verticais. A função traço vai .._.
preencher a do sujeito e a função vertical o

- 126 -
Lição de 1 7 de janeiro de 1962

que, aliás, é escolhida simplesmente como suporte, a do atributo. Eu


bem poderia ter dito que tomava como atributo o termo unário, mas
para o lado representativo e Imaginável do que tenho a lhes mostrar,
eu os ponho verticais. Aqui (3), temos um segmento do quadrante onde
há traços verticais, mas também traços oblíquos. Aqui , (2), não há traços.
O que isto é destinado a ilustrar é a distinção universal-particular, enquanto
ela forma um par distinto da oposição afirmativa-negativa, deve ser
considerada como de um registro bem diferente daquele que, com maior
ou menor destreza, os comentadores, a partir de Apuleio, acreditaram
dever dirigir, nessas fórmulas tão ambíguas , escorregadias e confusas
que se chamam respectivamente de qualidade e quantidade, e opô-lo
nestes termos. Chamaremos de oposição universal-particular uma oposição
da ordem da ÀEÇtÇ, o que é para nós ÀEyro [ÀEyEtvl, eu leio, mas também
eu escolho, muito exatamente ligada a essa função de extração, de escolha
do significante que é aquilo sobre o que, por enquanto, o terreno, a
passarela sobre a qual estamos avançando. Isto para distingui-la da q,amç,
isto é, de algo que aqui se propõe como uma fala por onde, sim ou não,
eu me engajo quanto à existência desse algo que é posto em causa pela
ÀEÇtÇ primeira. E, de fato, vocês vão ver, de que é que vou poder dizer
todo traço é vertical? Obviamente, do primeiro setor do quadrante [l],
mas, observem-no, também do setor vazio [2]. Se digo todo traço é vertical
isso quer dizer que, quando não há verticais, não há traço. Em todo
caso, isso é ilustrado pelo setor vazio do quadrante. Não somente o
setor vazio não contradiz, não é contrário à afirmação todo traço é vertical,
mas a ilustra. Não há nenhum traço que não seja vertical, nesse setor
do quadrante. Eis, portanto, ilustrada pelos dois primeiros setores a
afirmativa universal.
A negativa universal vai ser ilustrada pelos dois setores de direita (2
e 4), mas o que importa aí se formulará pela articulação seguinte: nenhum
traço é vertical. Não há, nesses dois setores , nenhum traço. O que há a
ser notado é o setor comum [2], que essas duas proposições recobrem
que, segundo a fórmula, a doutrina clássica, em aparência, não poderiam
ser verdadeiras ao mesmo tempo. O que é que iremos encontrar seguindo
nosso movimento giratório que também começou muito bem; aqui O,
como fórmula, assim como aqui I, para designar os dois outros agrupamentos
possíveis dois a dois dos quadrantes? Aqui I, nós vamos ver o verdadeiro
desses dois quadrantes sob uma forma afirmativa, há - digo-o de uma

- 1 27 -
A Identificação

maneira fásica, constato a existência de traços verticais - há traços


verticais, há alguns traços verticais que posso encontrar, seja aqui [ l i
sempre, seja aqui [3], em certos casos. Aqui, se tentamos definir a distinção
da universal e da particular, vemos quais são os dois setores [3 e 4) que
respondem à enunciação particular O, ali há traços não verticais, non
nullus non verticalis. Assim como, há pouco, estivemos um instante
suspensos pela ambigüidade dessa repetição da negação, o non. . . non . . .
está longe d e ser forçosamente equivalente a o sim, e é algo a que
retornaremos em seguida.
O que isso quer dizer? Qual é o interesse para nós de nos servirmos
de um tal aparelho? Por que eu tento destacar para vocês este plano da
ÂEÇlÇ do plano da cpacnç? Vou tomar essa direção imediatamente e não
por quatro caminhos, e vou ilustrá-lo.
O que podemos dizer nós, analistas? O que nos ensina Freud? Uma
vez que o sentido foi completamente perdido, daquilo que se chama de
proposição universal, desde, justamente, uma formulação à frente da
qual pode-se colocar a formulação euleriana que consegue representar
para nós todas as funções do silogismo por uma série de pequenos
círculos, seja excluindo-se uns aos outros, reagrupando-se, interseccionando­
se, em outros termos e para falar propriamente em extensão, a que se
opõe a compreensão que seria distinguida simplesmente por não sei
que inevitável maneira de compreender. De compreender o quê? Que
o cavalo é branco? O que há a compreender? O que nós trazemos e
que renova a questão é isto; digo que Freud promulga, avança a fórmula
que é a seguinte: o pai é Deus ou todo pai é Deus. Dai resulta, se mantivermos
essa proposição no nível universal, a de que mio há outro pai senão
Deus, o qual, por outro lado, quando à existência, é antes na reflexão
freudiana aufgehoben, antes posto em suspensão, até mesmo em dúvida
radical. O que está em questão é que a ordem de função que introduzimos
com o Nome do pai é essa alguma coisa que, ao mesmo tempo, tem seu
valor universal, mas que remete a você, ao outro, o encargo de controlar
se há um pai ou não dessa natureza.
Se não há, é sempre verdadeiro que o pai seja Deus. Simplesmente,
a fórmula só é confirmada pelo setor vazio (2) do quadrante, por meio
do qual, no nível da cpacnç, temos há pais que preenchem mais ou menos
a função simbólica que devemos denunciar como tal, como sendo aquela
do Nome do pai, há os que, e há os que não. Mas, que haja que não que

- 128-
Lição de 1 7 de janeiro de 1962

sejam não em todos os casos, o que aqui é suportada pelo setor [4], é
exatamente a mesma coisa que nos dá apoio e base à função universal
do Nome do pai, pois, agrupado com o setor no qual não há nada [2],
são justamente esses dois setores, tomados no nível da ÀEçtç, que se
encontram, em razão deste aqui, deste setor suportado que complementa
o outro, que dão seu pleno alcance ao que podemos enunciar como
afirmação universal.
Vou ilustrar de uma outra maneira, já que também, até certo ponto,
pode ter sido feita a questão sobre o seu valor, falo em relação a um
ensino tradicional, que deve ser o que eu trouxe na última vez, concernente
ao pequeno i. Aqui, os professores discutem: "o que vamos dizer? " O
professor, aquele que ensina, deve ensinar o quê? O que os outros têm
ensinado antes dele. Quer dizer que ele se funda sobre o quê? Sobre o
que já sofreu uma certa ÀEçtç. O que resulta de toda ÀEÇLÇ é, justamente,
aquilo que importa para nós no momento, e no nível do qual tento
manter vocês hoje: a letra. O professor é letrado; em seu caráter universal,
ele é aquele que se funda sobre a letra no nível de um enunciado particular.
Podemos dizer, agora, que ele pode ser metade metade, ele pode não
ser todo letrado. Daí resultará que ainda que não se possa dizer que
nenhum professor seja iletrado, haverá sempre, no seu caso, um pouco
de letras. Não é menos verdadeiro que se, por acaso, houvesse um
ângulo sob o qual pudéssemos dizer que há eventualmente, sob um
certo ângulo, [professores iletrados] que se caracterizem como dando
lugar a uma certa ignorância da letra, isso não nos impediria, ainda
assim, de fechar o círculo e de ver que o retorno e o fundamento, se se
pode dizer assim, da definição universal do professor está estritamente
nisso, é que a identidade da fórmula de que o profes�or é aquele que se
identifica com a letra impõe, exige mesmo o comentário de que pode
haver professores analfabetos. A casa negativa [2], como correlativa essencial
da definição da universalidade, é algo que está profundamente oculto
no nível da ÀEçtç primitiva.

- 129 -
A Identificação

A N
todo traço é vertical Não há nem traço nem vertical
( = quando não há vertical, Nome do pai
não a traço) Professor analfabeto
Todo pai e Deus Pai não-pai
(não há outro pai senão Deus) causa perdida
O professor se funda sobre a letra

PHASIS

Há traços verticais (A. P.)


Há pais que preechem
+ ou - a função simbólica Nenhum traço é vertical
do Nome do pai H á alguns que não
O professor não se funda Nenhum professor se
senão parcialmente sobre a letra funda sobre a lexis

- 130 -
Lição de 17 de janeiro de 1962

Isso quer dizer alguma coisa: na ambigüidade do suporte particular


que podemos dar no engajamento da nossa palavra ao Nome do pai
como tal, não é menos verdadeiro que não podemos fazer o que quer
que seja que, aspirado na atmosfera do humano, se posso dizer assim,
possa - se se pode dizer - considerar-se como completamente desembaraçado
do Nome do pai. Que mesmo aqui [2 vazio] onde só há pais para quem
a função do pai é, se assim posso exprimir-me, de pura perda, o pai­
não-pai, a causa perdida sobre a qual terminou meu seminário do ano
passado, é todavia em função dessa perda [déchéance]. em relação a
uma primeira À.Eçtç, que é aquela do Nome dos pai, que se julga essa
categoria particular. O homem só pode fazer com que sua afirmação ou
sua negação, com tudo o que ela implica, aquele é meu pai, ou aquele
é seu pai, não esteja inteiramente suspensa por uma À.EÇtÇ primitiva
que, bem entendido, não é do senso comum, do significado do pai que
se trata, mas de algo a que somos provocados aqui a dar seu verdadeiro
suporte e que legitima, mesmo aos olhos dos professores - que, vocês
vêem, estaria em grande perigo de serem sempre postos em alguma suspensão
quanto a sua função real - que, mesmo aos olhos dos professores, deve
justificar que eu tente dar, mesmo a seu nível de professores, um suporte
algoritmo a sua existência de sujeito como tal.

- 131-
LIÇAO IX
24 de janeiro de 1 962

Experimento uma certa dificuldade para retomar com vocês o que


estou perseguindo, esses traços sutis, ligeiros, pelo fato de que ontem
à noite tive que dizer coisas 111ais pesadas38 . O importante, no que se
refere à continuação deste seminário, é que o que eu disse ontem à
noite concerne evidentemente à função do objeto, do pequeno a na
identificação do sujeito, isto é, algo que não está imediatamente ao
nosso alcance, que não será resolvido imediatamente, sobre o qual dei
ontem à noite, se posso dizer, uma indicação antecipada, servindo-me
do tema dos três escrínios. Este tema dos três escrínios esclarece muito
o meu ensino porque, se vocês abrirem o que se chama bizarramente
de Ensaios de Psicanálise Aplicada e lerem o artigo sobre os três escrínios,
vocês se aperceberão que, no final das contas, vocês ficam um pouquinho
insatisfeitos. Vocês não sabem muito bem onde ele quer chegar, nosso
pai Freud. Creio que, com o que lhes disse ontem à noite, que identifica
os três escrínios à demanda, tema com o qual, penso, vocês já são
craques há muito tempo, que diz que em cada um dos três escrínios -
sem isto não haveria adivinhação, não haveria problema - há o objeto
a, o objeto que é, enquanto nos interessa a nós analistas, mas não
forçosamente, o objeto que corresponde à demanda. De maneira alguma
forçosamente também não o contrário, porque sem isto não haveria
dificuldades. Esse objeto é o objeto do desejo, e o desejo onde está?
Está fora; e aí onde está verdadeiramente, o ponto decisivo, é você, o
analista, na medida em que seu desejo não deve se enganar sobre o
objeto do desejo do sujeito. Se as coisas não fossem assim, não haveria

- 133 -
A Identificação

mérito em ser analista. Há uma coisa que lhes digo também, de passagem,
é que tenho, ainda assim, acentuado, diante de um auditório suposto
não saber, algo sobre o qual talvez não tenha insistido suficientemente
aqui, isto é, que o sistema do inconsciente, o sistema 'I', é um sistema
parcial. Mais uma vez repudiei - evidentemente com mais energia que
motivos, visto que deveria andar rápido - a referência à totalidade, o que
não exclui que se fale de parcial. Insisti, nesse sistema, sobre sua característica
extra-plana, na sua característica de superfície sobre a qual Freud insiste
com toda força, o tempo todo. Pode-se apenas ficar surpreso que isso tenha
engendrado a metáfora da psicologia das profundezas. É inteiramente por
acaso que, há pouco, antes de vir, tenha encontrado uma nota que eu
havia tomado sobre O Ego e o /d: "o eu é antes de tudo uma entidade
corporal, não somente uma entidade toda em superficie, mas uma entidade
correspondente à projeção de uma superficie". É um nadai Quando se lê
Freud, lê-se sempre de uma certa maneira que chamarei de maneira surda.
Retomemos agora nosso bastão de peregrino [?], retomemos de onde
estamos, onde lhes deixei na última vez, a saber, na idéia de que a negação,
se ela está em algum lugar no centro de nosso problema, que é aquele do
sujeito, não é antes imediatamente, nada mais que tomá-la em sua
fenomenologia, a coisa mais simples de manejar. Está em muitos lugares,
e depois acontece todo tempo que ela escorrega entre nossos dedos. Vocês
viram, por exemplo, da última vez, durante um instante a respeito do
, non nullus non mendax, vocês me viram colocar este non, retirá-lo, e
recolocá-lo. Isto se vê todos os dias. Alguém me assinalou, no intervalo,
que nos discursos daquele que alguém num bilhete, meu pobre e caro
amigo Merleau-Ponty, chamava "o grande homem que nos governa", num
discurso que o dito grande homem pronunciou, escuta-se "não se pode
não crer que as coisas se passarão sem problemas". Sobre isso, exegese:
o que ele quer dizer? O interessante não é tanto o que quer dizer, é que
evidentemente compreendemos muito bem, justamente, o que quer dizer
e, se analisarmos logicamente, veremos que diz o contrário. É uma bela
fórmula na qual se desliza sem cessar para dizer a alguém: "vocês não
deixam ignorar... " [vous n'êtes pas sans... ). Não são vocês que estão errados,
é a relação do sujeito com o significante que de tempos em tempos emerge.
Não são simplesmente pequenos paradoxos, lapsos que aponto aí, de
passagem. Encontraremos essas fórmulas pelo caminho, e penso dar-lhes
a chave desse porque "vocês deixam de ignorar", quer dizer, o que vocês

- 134 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

querem dizer. Para que vocês se localizam af posso dizer-lhes que é sondando­
º que encontraremos o justo peso, a justa inclinação dessa balança onde
coloco, diante de vocês, a relação do neurótico com o objeto fálico, quando
lhes digo, para agarrar essa relação, é necessário dizer: "ele não é sem
tê-lo". Isso evidentemente não quer dizer que ele o tem. Se o tivesse,
não haveria questão.
Para chegar aí, partamos de um pequeno lembrete da fenomenologia
de nosso neurótico, concernente ao ponto em que estamos: sua relação
com o significante. Há algum tempo começo a lhes fazer apreender o
que há de escrito no caso do significante, de escrito original. Deve,
mesmo assim, ter-lhes vindo à mente que é essencialmente com isso
que o obsessivo tem a ver todo tempo: ungeschehen machen, fazer com
que isso não tenha acontecido. O que isto quer dizer, a que isso se
refere? Evidentemente, isso se vê no seu comportamento: o que ele
quer extinguir é o que o analista escreve ao longo de sua história, o
annalista com dois n39 , o que ele tem em si. São os anais do caso que
ele quer apagar, raspar, extinguir. Por qual viés nos atinge o discurso
de Lady Macbeth, quando ela diz que toda a água do mar não apagaria
essa pequena mancha, se não fosse por algum eco que nos guia ao
cerne de nosso assunto? Somente , vejam, apagando o significante -
como está claro que é disso que se trata - em sua maneira de fazer, em
sua maneira de apagar, em sua maneira de raspar o que está inscrito,
o que está muito menos claro para nós, porque disso nós sabemos um
pouquinho mais que os outros, é o que ele quer obter com isso.
É nisso que é instrutivo continuar nessa estrada em que estamos,
aonde lhes levo, no que se refere a como advém um significante enquanto
tal. Se isso tem uma tal relação com o fundamento do sujeito, se não
há outro sujeito pensável além dessa alguma coisa x de natural, enquanto
ela é marcada pelo significante, deve ainda assim haver um princípio
motor para isso. Não nos contentaremos com essa espécie de verdade
de olhos vendados. Está bem claro que é necessário que encontremos
o sujeito na origem do próprio significante. "Para sair um coelho de
uma cartola ... ", foi assim que comecei a semear o escândalo nos meus
propósitos propriamente analíticos. O pobre caro homem defunto, e
comovente em sua fragilidade, estava literalmente exasperado com esse
lembrete que eu fazia com muita insistência porque, nesse momento,
são fórmulas úteis - de que, para fazer sair um coelho de uma cartola ,

- 135 -
A Identificação

era preciso tê-lo previamente colocado lá. Deve ser do mesmo modo,
no que concerne ao significante, e é o que justifica essa definição que
dou do significante, essa distinção feita com o signo: é que, se o signo
representa algo para alguém, o significante é articulado de outra forma,
representa o sujeito para um outro significante. Isso vocês o verão
suficientemente confirmado, em todos os passos, para não largar esse
firme corrimão. E se ele representa assim o sujeito, como é isso?
Voltemos ao nosso ponto de partida, ao nosso signo, ao ponto eletivo
em que podemos tomá-lo como representando algo para alguém, no
nível do rastro. Partamos outra vez do rastro para rastrear nosso pequeno
problema. Um passo, um rastro, o passo de Sexta-feira na Ilha de Robinson:
emoção, o coração batendo diante desse rastro. Tudo isso não nos ensina
nada, mesmo se desse coração batendo resulta todo um pateado em
torno do rastro. Isso pode acontecer a qualquer cruzamento de rastros
animais. Mas se, surgindo aí, encontro o rastro daquilo, de que alguém
se esforçou para apagar o rastro, ou mesmo se não encontro mais o
rastro, desse esforço, se retornei porque sei - não fico mais orgulhoso
para tanto - que deixei o rastro, que eu acho que, sem nenhum correlativo
que permita ligar esse apagamento a um apagamento geral dos traços
da configuração, realmente apagou-se o rastro como tal, tenho certeza
aí de que estou me deparando com um sujeito real. Observem que,
nesse desaparecimento do rastro, o que o sujeito procura fazer desaparecer
é sua passagem de sujeito mesmo. O desaparecimento é redobrado pelo
desaparecimento visado que é o do ato, o próprio ato de fazer desaparecer.
Isso não é um mau traço para que aí reconheçamos a passagem do sujeito,
quando se trata de sua relação com o significante, na medida em que
vocês já sabem que tudo o que ensino da estrutura do sujeito, tal como
tentamos articular a partir dessa relação com o significante, converge
para a emergência desses momentos de fading propriamente ligados a
essa batida em eclipse do que só aparece para desaparecer e reaparece
para de novo desaparecer, que é a marca do sujeito como tal.
Dito isto, se o rastro é apagado, o sujeito cerca o lugar por um cerne,
algo que desde então lhe concerne, ele, a referência a partir do lugar
onde ele encontrou o rastro, vocês têm aí o nascimento do significante .
Isso implica todo esse processo que comporta o retorno do último tempo
sobre o primeiro, que não poderia haver aí articulação de um significante
sem esses três tempos. Uma vez constituído o significante, há forçosamente

- 136 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

dois outros antes. Um significante é uma marca, um rastro, uma escrita,


mas não se pode lê-lo só. Dois significantes é um qüiproquó, juntar
alhos com bugalhos. Três significantes é o retorno daquilo de que se
trata, isto é, do primeiro. É quando o passo marcado no rastro é transformado,
no vocalise de quem o lê, em pas [não], que esse passo, na condição de
que se esqueça que ele quer dizer o passo pode servir inicialmente, no
que se chama de fonetismo da escrita, para representar pas e, ao mesmo
tempo, para transformar o rastro de passo [la trace de pas] eventualmente
em nenhum rastro [pas de trace] .
Penso que vocês escutam de passagem a mesma ambigüidade d a qual
me servi quando falei, a respeito do chiste, do pas de sens 40 , da ausência
de sentido, jogando com a ambigüidade da palavra sentido com esse
salto, essa ultrapassagem que nos surpreende ali onde nasce o riso,
quando não sabemos por que uma palavra nos fa; n r ; essa transformação
sutil, essa pedra rejeitada que, por ser retomada, torna-se a pedra angular,
e farei de bom grado o jogo de palavras com o m4 1 da fórmula do círculo,
tanto mais que é nela - anunciei isso outro dia, introduzindo a �
que veremos que se mede, se posso dizer, o ângulo vetorial do sujeito
em relação ao fio da cadeia significante. É aí que estamos suspensos e
é aí que devemos nos habituar um pouco a nos deslocar, numa substituição
por onde o que tem um sentido se transforma em equívoco e reencontra
seu sentido. Essa articulação constantemente giratória do jogo da linguagem,
é em suas próprias síncopes que temos de localizar o sujeito, nas suas
diversas funções.
As ilustrações nunca são ruins para adaptar uma ótica mental, em
que o imaginário desempenha um grande papel. É por isso que, mesmo
sendo um rodeio, não acho ruim traçar rapidamente para vocês uma
pequena observação, simplesmente porque a encontro, a essa altura,
em minhas notas. Falei mais de uma vez a propósito do significante,
dos caracteres chineses, e me empenho muito em lhes desencantar da
idéia de que sua origem é uma figura imitativa. Hâ um exemplo disso,
que tomei somente porque era o que melhor me servia : tomei o primeiro
daqueles articulados nesses exemplos, essas formas arcaicas na obra
de Karlgren que se chama Grammata serica, o que quer dizer exatamente
os significantes chineses. O primeiro do qual se serve sob sua moderna
fórmula é o seguinte, é o caractere ke, que quer dizer poder no Shuowén,
que é uma obra de erudito, ao mesmo tempo preciosa para nós pelo seu

- 137 -
A Identificação

caráter relativamente antigo, mas que já é muito erudito, isto é, emaranhado


de interpretações sobre as quais podemos ter que retomar. Parece que
não é sem razão que podemos confiar na raiz que o comentador nos dá,
que é bem bonita, a saber, que se trata de uma esquematização do
choque da coluna de ar tal como ela vem a impelir, na oclusiva gutural,
contra o obstáculo que lhe opõe a parte posterior da língua contra o palato.
Isto é tanto mais sedutor que, se vocês abrem uma obra de fonética, encontrarão
uma imagem que é quase aquela -;; para traduzir o funcionamento da
oclusiva. E confessem que não fica mal que seja íf o que é escolhido para
representar a palavra poder, a possibilidade, a função axial introduzida no
mundo pelo advento do sujeito ao belo meio do real.
A ambigüidade é total, pois um grande número de palavras se articulam
kê em chinês, nas quais isto 'í nos servirá de fonética, com o acréscimo
t1 [kou]. que as completa, como presentificando o sujeito na armadura
significante, e isto, t1 [kou ] , sem ambigüidade e em todos os caracteres ,
é a representação da boca. Coloquem esse signo -Ji.. [da] acima, é o
signo dà que quer dizer grande \ . Tem manifestamente alguma relação
com a pequena forma humana ,Á , em geral desprovida de braços. Aqui,
como é de um grande que se trata, há braços. Isto, iJ nada tem a ver
com o que se passa quando vocês acrescentarem esse signo, Á , com o
significante precedente iJ . De agora em diante isto se lêji', mas conserva
a marca de uma pronúncia antiga, da qual temos provas graças ao uso
desse termo na rima de antigas poesias, principalmente aquelas do Chi­
King que é um dos exemplos mais fabulosos das desventuras literárias,
uma vez que ele teve o destino de se tornar o suporte de todas as espécies
de clucuhrações moralizantes, de ser a hase de todo um ensino muito
enrolado dos mandarins sobre os deveres do soberano , do povo e do
tutti quan t i , ainda que se trate principalmente de canções de amor de
origem camponesa. Um pouco de prática da literatura chinesa - não
procuro fazê-los crer que tenho grande prática, não me tomo por Wieger
que, quando faz alusão à sua experiência da China... , - trata-se de um
parágrafo que vocês poderão encontrar nos livros do pai Wieger, ao
alcance de todos. O que quer que seja, outros além dele esclareceram
esse caminho, principalmente Marcel Granet, que, afinal, vocês não
perdem nada em abrir seu belo livro sobre as danças e lendas e sobre

- 138 -
Lição de 24 de janeiró de 1962

as festas antigas da China. Com um pouco de esforço, vocês podem se


familiarizar com essa dimensão verdadeiramente fabulosa que aparece
do que se pode fazer com algo que repousa nas formas mais elementares
da articulação significante. Por sorte, nessa língua as palavras são
monossílabas. Elas são soberbas, invariáveis, cúbicas, não dá para se
enganar. Elas identificam-se com o significante, é o caso de dizê-lo.
Vocês têm grupos de quatro versos, cada um composto de quatro sílabas.
A situação é simples. Se vocês as virem e pensarem que daí tudo pode
sair, mesmo uma doutrina metafísica que não tem nenhuma relação
com a significação original, isso começará, para aqueles que não chegaram
lá ainda, abrindo a sua mente. Entrelanto é assim; durante séculos
ensinou-se a moral e a política com estribilhos que significam no conjunto
" gostaria de trepar com você". Não exagero nada, vocês vão ver.
Isso, i , quer dizer, ji, que se comenta grande poder, enonne ; isso,
naturalmente, não tem absolutamente nenhuma relação com essa conjunção.
]i igualmente não quer dizer mais " grande poder" quanto essa palavrinha
para a qual em francês não há realmente algo que nos satisfaça; sou
forçado a traduzi-la por o ímpar, no sentido em que a palavra ímpar
pode tomar de deslizamento, de erro, de falha, de coisa que não acontece,
que manca , em inglês tão lindamente ilustrado pela palavra odd. E,
como eu dizia há pouco, é o que me lançou para o Chou-King . Por
causa do Chou-King , sabemos que estava muito aproximado do kê, pelo
menos nisso: é que havia uma gutural na língua antiga, que dá a outra
implantação do uso desse significante para designar o fonema ji. Se
acrescentarem isso *
antes, que é um determinalivo, o da árvore, e
que designa tudo o que é de madeira, terão, uma vez que as coisas
estão ai, um signo, *l que designa a cadeira. lsLo se diz yi, e assim
por diante. l sLo conlinua assim, não há razão de parar. Se colocarem
aqui, no lugar do signo da árvore , o signo de cavalo ,J., [md ) , isto quer
dizer instalar-se escachado ,J., .
Esse pequeno rodeio, eu o considero, tem sua utilidade para lhes
fazer ver que a relação da letra com a linguagem não é algo a ser considerado
numa linha evolutiva. Não se parte de uma origem consistente, sensível,
para destacar daí uma forma abstrata. Não há nada que pareça com o
que quer que possa ser concebido como paralelo ao processo dito do

- 139 -
A Identificação

conceito, nem mesmo apenas da generalização. Há uma seqüência de


alternâncias em que o significante volta a bater a água, se posso dizer,
do fluxo pelas palhetas de seu moinho, sua roda levantando, a cada vez,
algo que jorra para de novo recair, enriquecer-se, complicar-se, sem que
nunca possamos, em nenhum momento, apreender o que domina; a partida
concreta ou o equívoco.
Eis o que vai nos levar ao ponto de hoje, com o passo que lhes farei
dar, uma grande parte ilusões que nos param de uma vez, aderências
imaginárias, nas quais pouco importa que todo mundo fique aí mais
ou menos com as patas presas como moscas, mas não os analistas, são
precisamente ligadas ao que chamarei de ilusões da lógica formal. A
lógica formal é uma ciência muito útil, como tentei apontar a idéia da
última vez, com a condição de vocês perceberem que ela lhes perverte
nisso que, uma vez que ela é a lógica formal, deveria lhes interditar, a
todo instante, de lhe dar o menor sentido. É, naturalmente, aquilo a
que se chegou com o tempo. Mas os im portantes, os bravos, os honestos
da lógica simbólica, conhecidos há cerca de cinqüenta anos, isso lhes
causa, asseguro, um mal danado, porque não é fácil de construir uma
lógica tal como deve ser, se ela responde verdadeiramente ao seu título
de lógica formal, só se apoiando estritamente no significante, se interditando
toda relação e, portanto, todo apoio intuitivo no que pode se insurgir
do significado, no caso em que fazemos erros. Em geral, é nisso que
nós nos referenciamos, raciocino mal, porque, nesse caso, resultaria
qualquer coisa: minha avó de cabeça pra baixo. O que é que isto pode
nos fazer? Em geral não é com isto que nós somos guiados, porque
somos muito intuitivos. Se faz-se lógica formal, só se pode sê-lo.
Ora, o divertido é que o livro de base de uma lógica simbólica encerrando
todas as necessidades da criação matemática, os Principia Mathematica
de Bertrand Russel e Whitehead, chega a algo que está bem perto de ser
a finalidade, a sanção de uma lógica simbólica digna desse nome, de
encerrar todas as necessidades da criação matemática, mas os próprios
autores bem perto se detêm considerando como uma contradição de
natureza a questionar toda a lógica matemática, esse paradoxo dito de
Bertrand Russel. Trata-se de algo cujo viés atinge o valor da teoria dita
dos conjuntos. Em que se distingue um conjunto de uma definição de
classe, a coisa é deixada numa relativa ambiguidade, uma vez que o que

....: 140 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

vou lhes dizer - e que é admitido por qualquer matemático - é, a saber,


que o que distingue um conjunto dessa forma da definição do que se
chama uma classe não é nada além de que o conjunto será definido por
fórmulas que se chamam de axiomas, que serão colocadas no quadro em
súnbolos reduzidos a letras às quais se juntam alguns significantes suplementares
indicando relações. Não há absolutamente nenhuma outra especificação
dessa lógica dita simbólica com relação à lógica tradicional, senão essa
redução a letras. Garanto-lhes, podem crer, sem que eu tenha mais que
me engajar em exemplos.
Portanto, qual é a virtude, que está forçosamente em algum lugar,
para que seja em razão dessa única diferença que se tenha podido
desenvolver um montão de conseqüências, as quais asseguro que a
incidência no desenvolvimento de algo que se chama de matemática
não é escassa, em relação ao aparelho de que se dispôs durante séculos
e cujo cumprimento que lhe foi feito, que não tenha evoluído entre
Aristoteles e Kant, se inverte'? Está bem, se apesar de tudo as coisas
começam a fugir como têm feito -- pois os Principia Matlicmalica constitui
dois enormes volumes e só têm um interesse muito escasso - mas enfim,
se o cumprimento se inverte é que o aparelho outrora, por alguma razão,
encontrava-se singularmente estagnado. Então, a partir daí, como os
autores chegam a se espantar com o que se chama de paradoxo de Russel?
O paradoxo de Russel é o seguinte: fala-se do conjunto de todos os
conjuntos que não se compreendem a eles mesmos. É preciso que eu
esclareça um pouco essa história que pode parecer, à primeira vista, árida.
Indico-lhes isso imediatamente. Se desperto-lhes o interesse para isso,
pelo menos é o que espero, é com este objetivo: de que há a mais estreita
relação - e não apenas homonímica, justamente, porque trata-se de significante
e, em conseqüência, trata-se de não compreender - com a posição do
sujeito analítico enquanto, com ele também, num outro sentido da palavra
compreender... e, se digo de não compreender é para que possam compreender
de todas as maneiras que ele também não se compreende a ele mesmo.
Passar por ai não é inútil, vão ver, pois vamos por essa estrada poder
criticar a função de nosso objeto. Mas paremos um instante nesses conjuntos
que não se compreendem a eles mesmos.
Evidentemente, para conceber o que está em questão, é preciso partir. . .
uma vez que, apesar de tudo não podemos na comunicação, não nos
fazer concessões de referências intuitivas, porque as referências intuitivas

- 14 1 -
A Identificação

vocês já têm. É preciso, portanto, desarrumá-las para colocar outras.


Como vocês têm a idéia de que há uma classe, e como há uma classe
mamífera, é preciso, mesmo assim, que eu tente indicar que é necessário
referir-se a outra coisa. Quando se entra na categoria dos conjuntos, é
preciso referir a classificação bibliográfica, cara a alguns, classificação
composta de decimais ou outra; porém, quando se tem algo de escrito,
é preciso que isso se arrume em algum lugar. É preciso saber como
encontrá-lo automaticamente. Então, tomemos um conjunto que se
compreende a ele mesmo. Tomemos, por exemplo, o estudo das
humanidades numa classificação bibliográfica. Está claro que será necessário
colocar no interior os trabalhos dos humanistas sobre as humanidades.
O conjunto do estudo das humanidades deve compreender todos os
trabalhos concernentes ao estudo das humanidades enquanto tal. Mas
consideremos agora os conjuntos que não se compreendem a eles mesmos:
isto não é menos concebível, é mesmo o caso mais comum. E, uma vez
que somos teóricos dos conjuntos e que já há uma classe do conjunto
dos conjuntos que se compreendem a eles mesmos, não há verdadeiramente
nenhuma objeção a que façamos a classe oposta - emprego classe, aqui,
porque é bem aí que a ambigüidade vai residir - a classe dos conjuntos
que não se compreendem a eles mesmos, o conjunto de todos os conjuntos
que não se compreendem a eles mesmos. E é ai que os lógicos começam
a quebrar a cabeça, a saber, que eles dizem a si mesmos: esse conjunto
· de todos os conjuntos que não se compreendem a eles mesmos, será
que ele se compreende a ele mesmo ou será que ele não se compreende?
Num caso como no outro ele vai cair na contradição. Pois se, como
parece, ele compreende a ele mesmo eis-nos em contradição com o
princípio que nos dizia que se tratava de conjuntos que não se compreendem
a eles mesmos. Por outro lado, se ele não se compreende, como excetuá­
lo justamente do que dá essa definição, a saber, que ele não se compreende
a ele mesmo? Isso pode parecer bastante infantil, mas o fato de que
isso toca a ponto de parar os lógicos, que não são precisamente pessoas
de uma natureza que pára diante de uma vã dificuldade, e se eles sentem
Ili algo que podem chnmar de c:ontradiçãa, colocando em c.ausa todo
seu edif1cio, é exatamente porque hâ algo que deve ser resolvido e que
concerne - se quiserem me escutar, a nada além disso - que concerne
à única coisa que os lógicos em questão não têm exatamente em vista,
a saber, que a letra da qual eles se servem é algo que tem, em si mesmo,

- 142 -
Lição de 24 de janeiro de 1962

poderes, um princípio motor ao qual eles não parecem absolutamente


acostumados.
Pois - se ilustrarmos isso na aplicação do que dissemos, que não se
trata de nada mais do que do uso sistemático de uma letra - ao reduzir,
ao reservar à letra sua função significante para fazer recair sobre ela e
unicamente sobre ela todo o edifício lógico, chegamos a esse algo muito
simples, que é totalmente e simplesmente que isto retorna ao que se
passa quando encarregamos a letra A, por exemplo, se nos colocamos a
especular sobre o alfabeto, de representar como letra A todas as outras
letras do alfabeto. Das duas coisas uma: ou as outras letras do alfabeto,
enumerando-as de R a Z, em que a letra A as representará sem ambigüidade
sem, entretanto, compreender a si mesma; mais está claro do outro lado
que, representando essas letras do alfabeto, enquanto letra ela vem
naturalmente - eu não diria mesmo enriquecer, mas - completar, no
lugar de onde a tiramos, excluímos, a série das letras e simplesmente
nisto que, se partimos disso : que A - está aí nosso ponto de partida
concernente à identificação - essencialmente não é A, não há ai nenhuma
dificuldade: a letra A, no interior do parêntese onde são orientadas todas
as letras que ela vem simbolicamente subsumir, não é o mesmo A e é, ao
mesmo tempo, o mesmo. Não há aí nenhuma espécie de dificuldade.
Não deveria haver nenhuma, tanto menos que os que vêm alguma são
justamente aqueles que inventaram a noção de conjunto para fazer face
às deficiências da noção de classe, e, por conseqüência, desconfiando
de que deve haver outra coisa na função do conjunto além do que há na
função da classe.
Mas isso nos interessa, pois o que isso quer dizer? Como indiquei
ontem à noite, o objeto metonímico do desejo, esse que, em todo os
objetos, representa esse objeto a eletivo, onde o sujeito se perde, quando
esse objeto emerge de uma maneira metafórica, quando chegamos a
substituí-lo ao sujeito que, na demanda, chega a se sincopar, a desaparecer,
ausência do rastro, $ barrado, nós revelamos o significante desse sujeito,
damos-lhe seu nome: o bom objeto, o seio da mãe, a mama. Eis a metáfora
na qual, digamos, estão presas todas as identificações articuladas da
demanda do sujeito. Sua demanda é oral, é o seio da mãe que as prende
no seu parêntese. É o a que dá seu valor a todas essas unidades que vão
se adicionar à cadeia significante, a (1 + 1 + 1 . . . ). A questão que temos a
colocar é estabelecer a diferença que há entre esse uso que fazemos da

- 143 -
A Identificação

mama, com a função que ela toma na definição, por exemplo, da classe
mamífera. O mamífero é reconhecido porque tem mamas. Entre nós, é
bastante estranho que sejamos tão pouco informados sobre o que se faz
com isso efetivamente, em cada espécie. A etologia dos mamíferos está
ainda arrastando-se rudemente, uma vez que estamos, nesse assunto, como
na lógica formal, quase não além do nível de Aristóteles, excelente, a obra
A História dos Animais. Mas, para nós será que é isso que quer dizer o
significante 'mama', na medida em que ele é o objeto em torno do qual
substantificamos o sujeito num certo tipo de relações ditas pré-genitais?
Está bem claro que fazemos disso um uso completamente diferente,
bem mais próximo da manipulação da letra E no nosso paradoxo dos
conjuntos e, para mostrá-lo, lhes farei ver o seguinte: a ( 1 + 1 + 1) é
que, entre esses um da demanda do qual revelamos a significância concreta,
há ou não o próprio seio? Em outros termos, quando falamos de fixação
oral, o seio latente, o atual, aquele após o qual o seu sujeito faz "ah 1
ah l ahl ", é mamário? É bem evidente que não o é, porque os seus orais
que adoram os seios, adoram os seios porque esses seios são um falo. E
é mesmo por isso, porque é possível que o seio seja também falo que
Melanie Klein o faz aparecer imediatamente tão rápido como o seio,
desde o início, dizendo-nos que, afinal, é um pequeno seio mais cômodo,
mais portátil, mais delicado. Vocês vêem bem que colocar essas distinções
estruturais pode nos levar a algum lugar, na medida em que o seio
recalcado reemerge, se sobressai no sintoma, ou simplesmente num
lance que não qualificamos de outra forma: a função sobre a escala
perversa, a produzir essa outra coisa que é a evocação do objeto falo. A
coisa se inscreve assim:
g seio (a)
seio falo

O que é o a? Coloquemos no seu lugar a pequena bola de pingue­


pongue, isto é, nada, o que quer que seja, qualquer suporte do jogo de
alternância do sujeito no fort-da. Aí vocês vêem que não se trata estritamente
de nada além da passagem do falo de a + a a- e que, através disso
vemos, na relação de identificação - uma vez que sabemos que nisso
que o sujeito assimila, é ele, na sua frustração, nós sabemos que a
relação do g com esse , 1/A - ele, 1 , enquanto assumindo a significação

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Lição de 24 de janeiro de 1962

do Outro como tal - tem a maior relação com a realização da alternância


a x -a, este produto de a por -a que formalmente faz -a2 •
Saberemos por que uma negação é irredutível. Quando há afirmação
e negação, a afirmação da negação faz uma negação; a negação da afirmação
também. Vemos aí apontar, nessa própria fórmula do -a 2, reencontramos
a necessidade de colocar em causa, na raiz desse produto, a .../-1. Trata­
se não simplesmente da presença, nem da ausência do pequeno a, mas
da conjunção dos dois, do corte. É da disjunção do a e do -a que se trata,
e é aí que o sujeito vem se alojar como tal, que a identificação tem que se
fazer, com esse algo que é o objeto do desejo. É por isso que o ponto a que
os levei hoje é uma articulação que nos servirá daqui por diante.

- 145 -
LIÇAO X
2 1 de fevereiro de 1 962

Terminei, na última vez, com a apreensão de um paradoxo concernente


aos modos de aparecimento do objeto. Essa temática, partindo do objeto
enquanto metonímico, se interrogava sobre o que fazíamos quando fazíamos
aparecer esse objeto metonímico, como fator comum dessa linha dita
do significante, cujo lugar eu designei como numerador na grande fração
saussuriana, significante sobre significado. É o que fazíamos quando o
fazíamos aparecer como significante, quando designávamos esse objeto
como, por exemplo, o da pulsão oral. Como esse tipo novo designava o
gênero do objeto, e para lhes fazer apreendê-lo, eu lhes mostrei o que
há de novo, trazido à lógica pela maneira como é empregado o significante
em matemática, na teoria dos conjuntos. Maneira que é impensável se
não colocamos, ali, num primeiro plano, como constitutivo, o famoso
paradoxo, dito paradoxo de Russel, para fazê-los apreender de onde
parti, a saber, enquanto tal o significante, não somente, não está submetido
à lei das contradições, mas é propriamente falando seu suporte, a saber,
que A é util iz,1vc l . enquanto significante, na medida que A não é A. De
onde resultava que o objeto da pulsão oral, considerado como seio primordial,
a propósito dessa mama genérica da objetalização psicanalítica, a questão
podia se colocar: o seio real, nessas condições, é mamário? Eu dizia
não, como é bem evidente, visto que, na medida em que o seio se
encontra no erótico oral, erotizado, é na medida em que ele é uma
coisa totalmente diferente de um seio, como vocês não o ignoram, e
alguém, após a aula veio, aproximando-se de mim, dizer-me: " Nessas
condições, o falo é fálico? "

- 147 -
A Identificação

O que é preciso dizer é que, enquanto é o significante falo que vem


como fator revelador do sentido da função significante num certo estado,
é na medida em que o falo vem no mesmo lugar, sobre a função simbólica
onde estava o seio, é na medida em que o sujeito se constitui como
fálico, que o pênis, que está no interior do parêntese do conjunto dos
objetos que chegaram para o sujeito no estado fálico, que tanto o pênis,
podemos dizer, não é mais fálico quanto o seio não é mamário, mas que
as coisas se colocam muito mais gravemente nesse nível, a saber, que o
pênis, parte do corpo real, cai sob o corte dessa ameaça que se chama de
castração. É em razão da f...;1 , i;ão significante do falo, como tal, que o
pênis real cai sob o golpe do que foi de início apreendido na experiência
analítica como ameaça, a saber, a ameaça da castração. Eis, então, o
caminho pelo qual os conduzo. Eu lhes mostro aqui o objetivo e o que
visamos. Trata-se agora de percorrê-la, passo a passo, dito de outra maneira,
de chegar ao que, desde o início deste ano, eu preparo e abordo pouco a
pouco, a saber, a função privilegiada do falo na identificação do sujeito.
Entendemos que em tudo isso, a saber, que ncsle ano, falamos ela
identificação e, a saber, que a partir de um certo momento da obra
freudiana, a questão da identificação vem ao primeiro plano, vem dominar,
vem remanejar toda a teoria freudiana. É na medida em que - quase
coramos de ter que dizê-lo - que a partir de um certo momento, para
nós depois de Freud, para Freud antes de nós, a questão do sujeito se
coloca como tal, a saber, o que é que .. . o que está ali? O que é que
funciona? Quem é quem fala? O que são muilas coisas ainda, e é enquanto
era preciso, todavia, esperar por isso, numa técnica que é uma técnica
grosseira de comunicação, de endereçamento de um ao outro e, para
resumir, de relação, era preciso igualmente, saber bem quem é que
fala, e a quem? É realmente por isso que, neste ano, utilizamos a lógica.
Não dá para evitar. Não se trata de saber se isso me agrada ou desagrada.
Isso não me desagrada. Isso pode não desagradar a outros, mas o que é
certo é que é inevitável. Trata-se de saber a qual lógica isso nos leva.
Vocês puderam ver realmente, já lhes mostrei - eu me esforço por ser
tão curto-circuitante quanto possível, e lhes asseguro que não estou
enrolando - onde nos situamos em relação à lógica formal, e que certamente
não estamos nisso sem ter nossa palavra para dizer.
Eu lhes lembro o pequc 1'. D ,-1 .i ,1 ,l rante que construí para todos os fins
úteis e sobre o qual teremos, talvez, mais de uma vez, ocasião de voltar

- 148 -
Lição de 21 de fevereiro de 1962

a ele, ao menos isso, em razão do ritmo que somos forçados a manter


para chegar, neste ano, ao nosso objetivo, não deve permanecer ainda
durante alguns meses ou anos, uma proposição suspensa para a
engenhosidade daqueles que se esforçam para voltar sobre o que lhes
ensino. Mas., seguramente, não se trata senão da lógica formal. Trata­
se, e é do que se chama desde Kant, quero dizer, de uma forma bem
constituída desde Kant, uma lógica transcendental, em outros termos,
a lógica do conceito? Seguramente não. É mesmo bastante surpreendente
ver a que ponto a noção do conceito está ausente, aparentemente, do
funcionamento de nossas categorias. O que fazemos -não vale absolutamente
a pena nos esforçarmos demais por hora, para dar sobre isso uma definição
mais precisa - é uma lógica da qual, de início, alguns dizem que tentei
constituir um tipo de lógica elástica. Mas, enfim, isso não é suficiente
para constituir alguma coisa reconfortante para o espírito. Fazemos uma
lógica do funcionamento do significante, pois, sem essa referência constituída
como primária, fundamental, da relação do sujeito com o significante,
o que eu adianto, é que ele é, propriamente falando, impensável, mesmo
que se venha situar onde está o erro, onde se engajou progressivamente
toda a análise e que se prende precisamente a isso, que ela não fez
essa crítica da lógica transcendental no sentido kantiano, que os fatos
novos que ela traz impõem estritamente. Aqui - vou fazer a confidência,
que não tem em si uma importância histórica, mas que acredito poder
ao menos lhes comunicar a título de estímulo - isto me levou durante
pouco ou muito tempo, durante o qual eu estive separado de vocês e de
nossos encontros semanais, me levou a recolocar o nariz, não como
tinha feito há dois anos, na Crítica da Razão Prática, mas, na Crítica
da Razão Pura .
O acaso tendo feito com que eu não tivesse trazido, por esquecimento,
a não ser o meu exemplar em alemão, não fiz a releitura completa,
mas somente a do capítulo dito d'A Introdução à Análise Transcendental,
e embora deplorando que alguns dez anos desde os quais eu me dirijo
a vocês, não tenham tido, creio, muito efeito na propagação entre vocês
do estudo do alemão, o que não deixa de me causar sempre admiração
- é um desses pequenos fatos que obrigam algumas vezes a refletir
minha própria imagem como aquela desse personagem de um filme
surrealista bem conhecido que se chama Le chien andalou, imagem
que é aquela de um homem que, com a ajuda de duas cordas, carrega

- 149 -
A Identificação

atrás dele um piano, sobre o qual repousam , sem alusão , dois burros
mortos... salvo que , ao menos todos aqueles que já saibam o alemão,
não hesitem em reler o capítulo que lhes indico da Critica da Razão
Pura. Isso os ajudará seguramente, a melhor centrar a espécie de reviravolta
que tento articular para vocês, este ano. Creio poder muito simplesmente
lembrar que a essência prende-se de maneira radicalmente diferente,
descentrada, que tento lhes fazer apreender uma noção que é aquela
que domina toda a estruturação das categorias em Kant. É nisso que
ele só fez colocar o ponto purificado, o ponto fechado, o ponto final
naquilo que dominou o pensamento filosófico, até que este, de alguma
maneira, af alcance a função de Einheit , que é o fundamento de toda
síntese a priori, como ele se exprime, e que parece muito, com efeito,
se impor, desde o tempo de sua progressão a partir da mitologia platônica,
como a via necessária: o Um, o grande Um que domina todo o pensamento,
de Platão a Kant, o Um que, para Kant, enquanto função sintética, é o
próprio modelo do que em toda categoria a priori traz consigo , disse
ele, a função de uma norma, entendam bem, de uma regra universal.
Bem, digamos, para acrescentar seu ponto sensível a isso que, desde o
início deste ano , eu articulo para vocês, que se é verdadeiro que a
função do um na identificação, tal que a estrutura a decompõe, a análise
da experiência freudiana , é aquela, não do Einheit, mas aquela que
tentei fazer vocês sentirem concretamente desde o início do ano, como
o acento original do que tenho chamado de traço unário, isso quer
dizer, bem diferente do círculo que junta, sobre o qual, em suma, desemboca
num nível de intuição sumária toda a formalização lógica; não o círculo,
mas outra coisa; a saber o que chamei para vocês, de um 1 ; esse traço,
essa coisa insituável, essa aporia para o pensamento que consiste em
que, justamente, nisso ele é tanto mais apurado, simplificado, reduzido
a qualquer coisa. Com suficiente enfraquecimento de seus apêndices,
ele pode terminar reduzindo-se a isso: um 1. O que há de essencial, e
faz a originalidade disso, da existência de um traço unário e de sua
função, e de sua introdução, por onde? É justamente o que deixo em
suspenso, pois não é tão claro que isso seja pelo homem, se é, por um
certo lado, possível, provável, cm todo o caso, posto em questão por
nós que é de lá que o homem tem saído. Então, esse um, seu paradoxo
é justamente isso: é que tanto mais se assemelha, quero dizer, quanto
mais a diversidade das semelhanças se apaga, quanto mais ele suporta,

- 150-
Lição de 21 de feveréiro de 1962

mais um-carna [un-carne] - direi se vocês me passam esta palavra - a


diferença como tal. A reviravolta da posição em torno do Um faz com
que, da Einheit kantiana, consideramos que nós passamos para a Einzigkeit,
a unicidade expressa como tal. Se é por aí, se posso dizer que tenho -
para tomar emprestado uma expressão, espero, célebre para vocês, de
uma improvisação literária de Picasso - se é por aí que escolhi, este
ano, tentar fazer, o que espero levá-los a fazer, isto é, agarrar o desejo
pelo rabo, se é por aí, quer dizer, não mais a primeira forma de identificação
definida por Freud, que não é fácil manejar, aquela da Einverleibung,
a da consumação do inimigo, do adversário, do pai, se parti da segunda
forma da identificação, a saber, dessa função do traço unário, é
evidentemente neste objetivo. Mas vocês vejam onde está a reviravolta,
é que essa função, - creio que é o melhor termo que nós tenhamos
para tomar porque é o mais abstrato, é o mais maleável, é o mais,
propriamente falando, significante -, é simplesmente um F maiúsculo.
Se a função que damos ao um não é mais aquela da Einheit, mas a da
Einzigkeit, é que passamos - o que conviria contudo que não esquecêssemos,
que é a novidade da análise - passamos das virtudes da norma às virtudes
da exceção. Coisas que vocês retiveram, mesmo um pouquinho e com
razão; a tensão do pensamento, a gente se vira com isso, dizendo: a
exceção confirma a regra. Como muitas besteiras, é uma besteira profunda,
basta, simplesmente, saber desmontá-la. Se tivesse só retomado essa
besteira totalmente luminosa como um desses pequenos faróis que se
vêm em cima dos carros da polícia, isso já seria um pequeno ganho no
plano da lógica . Mas evidentemente, é um benefício lateral. Vocês o
verão, sobretudo se alguns dentre vocês. . . talvez alguns pudessem ir
até se dedicar, até fazer no meu lugar, um dia, um pequeno resumo da
forma como seria necessário repontuar a analítica kantiana. Vocês pensem
bem que há esboços de tudo isso; quando Kant distingue o julgamento
universal e o julgamento particular e quando ele isola o julgamento
singular, mostrando nisso as afinidades profundas com o julgamento
universal, quero dizer, isso que todo mundo se apercebeu antes dele,
mas mostrando que não basta juntá-los, enquanto que o julgamento
singular tem exatamente sua independência, existe aí como uma pedra
de espera, o esboço dessa reviravolta da qual lhes falo. Isso só é um
exemplo. Há muitas outras coisas que esboçam essa reviravolta em Kant.
O que é curioso é que não se tenha feito isso antes.

-151-
A Identificação

É evidente que isto ao qual eu fazia alusão, de passagem, diante de


vocês, quando da penúltima vez, a saber, o lado que escandalizava tanto
o senhor Jespersen, lingüista, o que prova que os lingüistas não são de
modo algum providos de nenhuma infalibilidade - a saber, que haveria
algum paradoxo àquilo que Kant coloca, a negação na rubrica das categorias
designando as qualidades, a saber, como segundo tempo, pode-se dizer,
das categorias da qualidade, a primeira sendo a realidade, a segunda
sendo a negação e a terceira sendo a limitação. Esta coisa que surpreende,
a qual nos surpreende que surpreenda muito esse lingüista, a saber,
Mr. Jerpensen, nesse longo trabalho sobre a negação que ele publicou
nos Anais da Academia Dinamarquesa. Estamos tanto mais surpresos
que esse longo artigo sobre a negação seja justamente feito, em resumo,
do começo ao fim, para nos mostrar que, linguísticamente, a negação é
alguma coisa que só se sustenta, se posso dizer, por uma supervalorização.
Não é então uma coisa tão simples como colocar a rubrica da quantidade
onde ela se confundiria pura e simplesmente com o que ela é na quantidade,
isto é, o zero. Mas, justamente, sobre isso eu já tenho indicado bastante.
Àqueles a quem isso interess::i dou a referência, o grande trabalho de
Jespersen é verdadeiramente alguma coisa de considerável.
Mas, se vocês abrirem o Dicionário de etimologia latina de Ernout e
Meillet, referindo-se simplesmente ao artigo ne, percebem a complexidade
histórica do problema do funcionamento da negação, isto é, essa profunda
ambigüidade que faz com que, depois de ter sido essa função primitiva
de discordância, sobre a qual tenho insistido, no mesmo tempo que
sobre sua natureza original, é preciso sempre que ela se apóie sobre
alguma coisa que é justamente essa natureza do um, tal qual tentamos
cercá-lo aqui, de perto; que a negação nunca é lingüisticamente um
zero, mas um não um. No ponto que o sed nom latim, por exemplo,
para ilustrar o que vocês podem encontrar nessa obra publicada na
Academia dinamarquesa durante a guerra de 1 9 1 4 e, por isso, muito
dificil de encontrar, o próprio não latino, que parece ser a forma de
negação a mais simples do mundo, já é um ne oinon, na forma de unum.
Já é um não um e, no final de um certo tempo, esquece que é um não
um e se coloca ainda um um na seqüência. E toda a história d a negação
é a história desta consumação por alguma coisa que está onde? É justamente
o que tentamos cercar: a função do sujeito como tal. É por isso que as
observações de Pichon são muito interessantes, que nos mostram que

- 1 52 -
Lição de 21 de fevereiro de 1962

em francês é bem visível o jogo dos dois elementos da negação, a relação


dada do ne com o pas, podendo-se dizer que o francês, com efeito, tem
esse privilégio que, aliás, não é o único entre as línguas, <lc mostrar que
não há verdadeiramente negação em francês. O que é curioso, aliás, é
que ele não se apercebe que, se as coisas são assim, isso deve ir um
pouquinho mais longe que o campo do domínio francês, se a gente pode
exprimir-se assim. É, de fato, muito fácil, sobre todas as diferentes formas,
de se aperceber que é forçosamente assim em todo lugar, visto que a
função do sujeito não está suspensa até a raiz à diversidade das línguas.
É muito fácil aperceber-se que, o not, num certo momento da evolução
da língua inglesa, é alguma coisa naught.
Voltamos ao assunto, a fim de assegurar-lhes que não perdemos nosso
objetivo. Partamos novamente do ano passado, de Sócrates, de Alcibíades
e de toda a claque que, espero, tem feito naquele momento o divertimento
de vocês. Trata-se de conjugar essa reviravolta lógica concernente à função
do um com alguma coisa com que nos ocupamos há bastante tempo, a
saber, o desejo. Como, há tempo que não lhes falo nisso, é possível que
as coisas tenham se tornado, para vocês, um pouco nebulosas. Faço um
pequeno lembrete que acredito ser justamente o momento de fazer nesta
exposição deste ano, concernente a isso. Vocês se lembram, é um fato
discursivo que é através disso que introduzi, no ano passado, a questão
da identificação. É, propriamente falando, quando abordei o que, a respeito
da relação narcísica, deve se constituir para nós como conseqüência da
equivalência alcançada por Freud entre a libido narcísica e a libido de
objeto. Vocês sabem como a simbolizei na época: um pequeno esquema
intuitivo; quero dizer alguma coisa que se representa, um esquema, não
um esquema no sentido kantiano. Kant é uma referência muito boa, em
francês, é cinzento. Messieurs Tremesaygues e Pacaud realizaram, contudo,
essa proeza de tornar a leitura da Crítica da Razão Pura, que não é
absolutamente impensável dizer que, sob um certo ângulo, pode-se
ler como um livro erótico, em alguma coisa absolutamente monótona
e poeirenta. Talvez , graças aos meus comentários, vocês chegarão,
mesmo cm francês, a lhe restitu ir uma espécie de pimenta que não é
exagerado dizer que ele comporta. Em todo o caso, cu tinha-me sempre
deixado persuadir que, em alemão, estava mal escrito porque, em primeiro
lugar, os alemães, com exceções de alguns, têm a reputação de escrever

- 1 53 -
A Identificação

mal. Isso não é verdade.


A Crítica da Razão Pura
é tão bem escrita quanto
os livros de Freud e isso
não é dizer pouco.
O esquema é o
seguinte :
Trata-se do que nos
............ -------"
fala Freud, no nível da
Introdução ao Narcisismo, a saber, que amamos o outro pela mesma
substância úmida da qual nós somos o reservatório, que se chama a
libido, e é enquanto ela está aqui, em 1 , que talvez ela possa estar ali,
em 2, isto é, rodeando, afogando, molhando o objeto que está em frente.
A referência do amor ao úmido não é minha, ela está no Banquete que
nós comentamos no ano passado. Moralidade dessa metafísica do amor
- visto que é disso que se trata, o elemento fundamental da Liebesbedingunf,
da condição do amor, moralidade, num certo sentido eu não amo - o
que se chama amar, o que chamaremos aqui de amar, maneira de saber
também o que há como resto, além do amor, então, o que se chama de
amar de uma certa maneira - eu só amo meu corpo, mesmo quando,
este amor, eu o transfiro sobre o corpo do outro. Certamente resta sempre
uma boa dose sobre o meu. É mesmo, até certo ponto, indispensável, a
não ser no caso extremo no nível do que é preciso que funcione auto­
eroticamente, a saber, meu pênis - para adotar por simplificação o ponto
de vista androcêntrico. Não há nenhum inconveniente nessa simplificação,
como vocês vão ver, isto não é o que nos interessa. O que nos interessa
é o falo.
Então, eu lhes propus implicitamente, senão explicitamente, nesse
sentido que é mais explícito ainda agora do que no ano passado... Eu
lhes propus definir, em relação ao que eu amo no outro, que ele está
submisso a essa condição hidráulica de equivalência da libido, a saber,
que quando isso sobe de um lado, sobe também do outro, o que eu
desejo, o que é diferente do que eu experimento, é o que, sob a forma
de puro reílcxo do que resta de mim investido em todo estado de causa,
é justamente o que falta no corpo do outro, enquanto ele é constituído
por essa impregnação do úmido do amor. No ponto de vista do desejo,
no nível do desejo, todo esse corpo do outro, pelo menos tão pouco

- 1 54 -
Lição de 21 defevereiro de 1962

quanto eu o ame, só vale justamente pelo que lhe falta. E é precisamente


por isso que eu ia dizer que a heterossexualidade é possível. Pois é preciso
se entender: se é verdade, como a análise nos ensina, que é pelo fato da
mulher ser efetivamente do ponto de vista peniano, castrada, que amedronta
a alguns; se o que dizemos aí não é absolutamente insensato, e não é
absolutamente insensato, porque é evidente, a gente encontra isso em
todas as viradas, nos neuróticos, eu insisto, digo que é aí realmente que
o descobrimos. Quero dizer que estamos certos disso pelo fato de que é aí
que os mecanismos entram em jogo, com um refinamento tal que não há
outra hipótese possível para explicar a forma pela qual o neurótico institui,
constitui seu desejo, histérico ou obsessivo. O que nos levará, neste ano,
a articular completamente para vocês o sentido do desejo do histérico,
como do desejo do obsessivo, rapidamente, pois eu direi, até um certo
ponto, é urgente. Se é assim, é ainda mais consciente no homossexual
que no neurótico. O homossexual, ele próprio lhe diz que isso provoca
nele, assim mesmo, um efeito muito penoso de estar diante desse púbis
sem pinto. É justamente por causa disso que podemos confiar tanto nisso
e, aliás, temos razão. É por isso que minha referência, eu a tomo no
neurótico. Dito tudo isso, restam ainda muitas pessoas para as quais
isso não provoca medo e que, por conseqüência, não é loucura - digamos
simplesmente, sou forçado a abordar a coisa dessa forma, uma vez que,
afinal, ninguém disse assim, quando eu lhes tiver dito duas ou três vezes,
penso que isso terminará por se tornar completamente evidente para
vocês - não é loucura pensar que, nos seres que podem ter relação normal,
satisfatória, quero dizer, de desejo com o parceiro do sexo oposto, não
apenas isso não lhes provoca medo, mas é justamente isso que é interessante,
a saber, que não é porque o pênis não está ali que o falo não está. Eu
direi mesmo, ao contrário.
O que permite reencontrar um certo número de encruzilhadas, em
particular isso: que o que o desejo procura é menos, no outro, o desejável
que o desejante, isto é, o que lhe falta. E aí, ainda, peço-lhes para
relembrar que é a primeira aporia, o primeiro bê-á-bá da questão, tal
qual ela começa a se articular quando vocês abrirem esse famoso Banquete,
que parece só ter atravessado séculos para que a gente faça em torno
dele teologia. Tento fazer disso outra coisa, a saber, fazer vocês se aperceberem
que, a cada linha, fala-se efetivamente do que se trata, isto é, do Eros.
Eu desejo o outro como desejante. E, quando digo como desejante, nem
sequer disse, não disse expressamente como me desejando, pois sou eu

- 1 55 -
A Identificação

quem deseja, e desejando o desejo, esse desejo não poderia ser desejo de
mim senão se eu me reencontro nessa reviravolta onde estou bem seguro,
isto é, se me amo no outro, de outra maneira, se sou eu a quem amo.
Mas, então, eu abandono o desejo.
O que estou acentuando é esse limite, essa fronteira que separa o
desejo do amor. O que não quer dizer que eles não se condicionem por
todos os tipos de pontas. É exatamente aí que está todo o drama, como
penso que isso deve ser a primeira observação que vocês devem fazer
sobre sua experiência de analista, estando bem entendido que acontece,
como para muitos outros sujeitos nesse nível da realidade humana, e
que seja frequentemente o homem comum que esteja mais perto do
que chamarei, nessa ocasião, de osso. O que se deseja é evidentemente
sempre o que falta, e é bem por isso que, em francês, o desejo se chama
desiderium42 , o que quer dizer lamento43 •
E isso também junta-se àquilo que, no ano passado, acentuei como
sendo esse ponto visado desde sempre pela ética da paixão, que é fazer,
não digo, essa síntese, mas, essa conjunção que se trata de saber se ela
não é, justamente, estruturalmente impossível , se ela não permanece
um ponto ideal fora dos limites da épura, o que chamei de a metáfora
do verdadeiro amor, que é a famosa equação o Eprov sobre EproµEvov,
Eprov se substituindo ... O desejante substituindo-se ao desejado nesse
ponto, e por essa metáfora equivalente à perfeição do amante, como
está igualmente articulado no Banquete, a saber, a reviravolta de toda
a propriedade do que se pode chamar de o amável natural, a separação
no amor que coloca tudo o que se pode ser a si mesmo de desejável
fora do alcance do adorável, se posso dizer. O noli me amare, que é o
verdadeiro segredo, a verdadeira última palavra da paixão ideal desse
amor cortês, do qual não é à toa que eu usei o termo tão pouco atual,
quero dizer, tão perfeitamente confuso que se tenha tornado, na perspectiva
que eu tinha no ano passado articulado, preferindo antes substituí-lo
como mais atual, mais exemplar, esse tipo de experiência - de modo
algum ideal mas perfeitamente acessível - que é a nossa, com o nome
de transferência, e que lhes ilustrei, mostrei já no Banquete, sob essa
forma totalmente paradoxal da interpretação, propriamente falando,
analítica de Socrátes, depois da longa declaração loucamente exibicionista,
enfim, a regra analítica aplicada a todo vapor àquilo que é o discurso de
Alcibíades. Sem dúvida, vocês puderam reter a ironia implicitamente
contida nisso, que não está escondida no texto, é que aquele a quem

� 1 56 -
Lição de 21 de fevereiro de 1962

Sócrates deseja no momento, para a beleza da demonstração, é Agaton,


em outros termos o besteirógrafo44 , o espírito puro, aquele que fala do
amor de uma maneira tal, como se deve sem dúvida falar, comparando­
º à paz das ondas, com o tom francamente cômico, mas sem fazer de
propósito, ou mesmo sem se aperceber disso. Dizendo de outro modo, o
que quer dizer Sócrates? Por que Sócrates não amaria Agaton se. justamente,
a besteira nele como em M. Teste é, justamente, o que lhe falta? "A besteira
não é o meu forte". É um ensinamento, pois isso quer dizer, e isso está
então articulado com todas as letras para Alcibíades: "Meu belo amigo
conversa sempre, pois é a ele que tu também amas. É para Agaton todo
esse longo discurso. A diferença é unicamente que tu não sabes do que se
trata. Tua força, teu domínio, tua riqueza te iludem". E, de fato, nós sabemos
bastante, ao longo da vida de Alcibíades, para saber que poucas coisas lhe
faltaram na ordem do mais exagerado que se possa ter de primeira necessidade.
À sua maneira, inteiramente diferente da de Sócrates, ele também não
era, em lugar algum, recebido, aliás, de braços abertos por onde ele ia, as
pessoas sempre felizes demais com uma tal aquisição. Uma certa aromcx
foi sua sorte. Ele era ele mesmo muito embaraçador. Quando chegou a
Esparta, ele achava simplesmente que fazia uma grande honra ao rei de
Esparta - a coisa é narrada cm Plutarco, articulada às claras - engravidando
sua mulher, por exemplo. É para lhes mostrar seu estilo; é a menor das
coisas. Existem uns que são brabos. Foi preciso, para acabar com ele,
cercá-lo de fogo e abatê-lo a golpes de flechas.
Mas para Sócrates o importante não está aí. O importante é dizer: "Alcibíades,
ocupa-te um pouco de tua alma", o que, creiam-me, estou bem convencido
disso, não tem de modo algum o mesmo sentido em Sócrates que o sentido
que tomou na seqüência do desenvolvimento platônico da noção do Um .
Se Sócrates lhe responde "Eu não sei nada, senão, talvez o que seja da
natureza do Eros", é exatamente que a função eminente de Sócrates é de
ser o primeiro que tenha concebido qual a verdadeira natureza do desejo.
E é exatamente por isso que, a partir dessa revelação até Freud, o desejo
como tal, em sua função - o desejo enquanto própria essência do homem,
diz Spinoza, e cada um sabe o que isso que dizer, o homem em Spinoza é
o sujeito, é a essência do sujeito - que o desejo se manteve, durante um
número respeitável de séculos, como uma função pela metade, a três quartos
ou quatro quintos, ocultada na história do conhecimento.
O sujeito de que se traia, aquele do qual seguimos o rastro, é o sujeito
do desejo e não o sujeito do amor, pela simples razão de que não se é
sujeito do amor; é-se ordinariamente, normalmente , sua vítima. É
- 1 57 -
A Identificação

completamente diferente. Em outros termos, o amor é uma força natural.


É isto que justifica o ponto de vista que chamamos de biologizante, de
Freud. O amor é uma realidade. É por isso, aliás, que lhes digo, os deuses
são reais. O amor é Afrodite que bate, sabia-se muito bem, na antiguidade.
Isso não causava espanto a ninguém. Permitam-me um jogo de palavras
muito bonito. Foi um dos meus mais divinos obsessivos que o fez, há alguns
dias: "A horrorosa dúvida do hermafrodita". 45 Quero dizer que não posso
fazer menos senão pensar nisso, desde que evidentemente aconteceram
coisas que nos fizeram deslizar da Afrodite à horrorosa dúvida. Há muito
a dizer em favor do Cristianismo; eu não saberia sustentá-lo bastante, e
especialmente qu anto ao desprendimento do desejo como tal. Não quero
deflorar demais o sujeilo, mas estou decidido, a esse respeito, <le avançar
para vocês coisas incríveis que, contudo, para obter entre todos esse fim
louvável, esse pobre amor tenha sido colocado na posição de tornar-se um
mandamento, e, de qualquer modo, ter pago caro a inauguração dessa
busca que é a do desejo. Naturalmente, nós, mesmo assim, os analistas,
seria preciso que soubéssemos resumir um pouquinho a questão sobre o
sujeito, que o que nós adiantamos sobre o amor, é que ele é a fonte de
todos os males. Isso os faz rir!? A núnima conversa está aí para lhes demonstrar
que o amor de mãe é a causa de tudo. Não digo que se tenha sempre
razão, mas é ainda assim por essa via que nos exercitamos todos os dias. É
o que resulta de nossa experiência cotidiana. Portanto, está bem claro
que, concernente à busca do que é, na análise, o sujeito, a saber, a que
convém identificá-lo, embora fosse só de maneira alternante, não poderia
se tratar senão do sujeito cio desejo.
,:: nisso que cu lhes deixarei hoje, não sem fazer-lhes observar ainda
que, claro, estejamos na postura de fazê-lo muito melhor do que foi feito
pelo pensador que vou nomear, não estamos tanto no no man 's land.
Quero dizer que, logo após Kant, há alguém que lembrou disso, que se
chama Hegel, do qual toda A fenomenologia do espírito parte daí, da Bergierde.
Só havia um erro, o de não ter nenhum conhecimento, ainda que se possa
aí designar o seu lugar, do que seria o estádio do espelho. Donde essa
irredutível confusão que põe tudo sob o ângulo da relação do mestre e do
escravo, e que toma inoperante essa caminhada, e que é necessário retomar
todas as coisas a partir daí. Quanto a nós, esperamos que, favorecidos pelo
gênio de nosso mestre, possamos focar, de maneira mais satisfatória, a
questão do sujeito do desejo.

- 158-
LIÇAO XI
28 de fevereiro de 1 962

Pode-se achar que me ocupo aqui um pouco demasiadamente disso


que se chama de - Deus condene tal denominação ! - grandes filósofos.
É que talvez não apenas eles, mas eles, eminentemente, articulam o
que se pode bem chamar de uma busca, patética pelo fato dela sempre
retornar, se soubermos considerá-la através de todos os seus desvios,
seus objetos mais ou menos sublimes, nesse nó radical que tento desatar
para vocês, a saber: o desejo. É o que espero nessa busca, se vocês me
quiserem seguir, restituir decisivamente a sua propriedade de ponto
inultrapassável, inultrapassável no sentido mesmo que compreendo quando
digo-lhes que cada um daqueles a quem se pode chamar pelo nome de
grande filósofo não poderia estar, num certo ponto, ultrapassado. Creio
ter o direito de lançar-me, com a assistência de vocês, numa tal tarefa
porque, enquanto psicanalistas, o desejo é nosso negócio. Sinto-me
igualmente convocado a dedicar-me a esse assunto e a convocá-los a
fazê-lo comigo, porque é somente retificando nossa visão sobre o desejo
que podemos manter a técnica analítica em sua função primeira - ã
palavra "primeira" devendo ser entendida no sentido de primeiramente
surgida na história, não havia dúvida no início - uma função de verdade.
É isso, sem dúvida, que nos leva a interrogar essa função num nível
mais radical. É esse que tento mostrar-lhes, ao articular para vocês o
seguinte, que está no fundo da experiência analítica: que estamos
escravizados, como homens, quero dizer, como seres desejantes, quer
o saibamos ou não, acreditando ou não que queiramos isto - a essa

- 1 59 -
A Identificação

função de verdade. Porque, será preciso lembrá-lo, os conflitos, os impasses,


que são a matéria de nossa práxis, só podem ser objetivados ao fazerem
intervir no seu jogo o lugar do sujeito como tal, enquanto ligado como
sujeito na estrutura da experiência. Está aqui o sentido da identificação
enquanto tal, na definição de Freud.
Nada é mais exato, nada é mais exigente que o cálculo da conjuntura
subjetiva, quando se lhe encontrou aquilo que posso chamar - no sentido
próprio do termo, sentido como foi empregado por Kant - de razão
prática. Prefiro chamá-la assim do que dizer viés operatório, por causa
daquilo que esse termo operatório implica, há algum tempo: uma espécie
de evitação do fundamento. Lembrem-se, a esse respeito, daquilo que
lhes ensinei, há dois anos, sobre essa razão prática, no sentido em que
ela interessa o desejo. Sade está mais perto que Kant, embora Sade,
quase louco, se se pode dizer, por sua visão, só se possa compreender,
nesta ocasião, relacionado à medida de Kant, tal como tentei fazer.
Lembrem-se do que lhes disse, da analogia espantosa entre a exigência
total da liberdade do gozo, que está em Sade, com a regra universal da
conduta kantiana. A função na qual se funda o desejo, para nossa
experiência, torna-se evidente que ela nada tem a ver com o que Kant
distingue como Wohl, opondo-o ao Gut e ao bem, <ligamos com o bem­
estar, com o útil. Isso nos leva a perceber que i-s so vai bem além, que
essa função do desejo, não tem nada a ver, eu diria, com aquilo que,
em geral, Kant chama - para relegá-lo a um segundo plano nas regras
da conduta - de patológico. Portanto, para aqueles que não se lembram
bem em qual sentido Kant emprega tal termo, para aqueles que poderiam
fazer ali um contra-senso, tentarei traduzir falando do protopático, ou,
ainda mais amplamente, do que há na experiência de humano demasiado
humano, de limites ligados ao cômodo, ao conforto, à concessão alimentar.
Isso vai mais longe, vai até implicar a própria sede tecidual. Não nos
esqueçamos do papel, da função que atribuo à anorexia mental, como
aquele cujos primeiros efeitos nos quais poderíamos sentir essa função
do desejo, e o papel que lhe dei, a título de exemplo, para ilustrar a
diferença entre des�jo e necessidade. Portanto, tão longe de ser comodida<le,
conforto, concessão... Não me venham falar de compromisso, pois disso
estamos falando todo o tempo. Mas os compromissos pelos quais ela
tem de passar, essa função do dc:-,cjo, são de uma ordem diferente daqueles
ligados, por exemplo, à existê1 1da de uma comunidade fundada sobre a

--160 -
Lição de 28 de fevereiro de 1962

associação vital, pois é sob essa forma que, mais comumente, temos de
evocar, constatar, explicar a função do compromisso. Vocês bem sabem
que, no ponto em que estamos, se seguirmos até o extremo o pensamento
freudiano, a tais compromissos interessam a relação de um instinto de
morte com um instinto de vida, os quais, ambos, não são menos estranhos
a considerar em suas relações dialéticas que em sua definição.
Para recomeçar, como faço sempre, em algum ponto de cada discurso
que lhes dirijo semanalmente, lembro-lhes que esse instinto de morte
não é um verme roedor, um parasita, uma ferida, nem mesmo um principio
de contrariedade, algo como um tipo de Yin oposto ao Yang, de elemento
de alternância. É , para Freud , algo nitidamente articulado: um princípio
que envolve todo o desvio da vida, cuja vida, cujo desvio só encontram
seu sentido ao se juntarem a ele. Para dizer a palavra, não é sem motivo
de escândalo que alguns se afastam disso, pois vemo-nos sem dúvida
de volta, de retorno, apesar de todos os princípios positivistas, é verdade,
na mais absurda extrapolação, propriamente falando, metafísica e em
detrimento de todas as regras pré-concebidas da prudência. O instinto
de morte, em Freud, é-nos apresentado como o que, penso, em seu
lugar, se situa para nós se igualando ao que chamamos aqui de significante
da vida, já que o que Freud nos diz disso é que o essencial da vida,
reinscrita nesse quadro do instinto de morte, nada mais é senão o desígnio,
necessitado pela lei do prazer, de realizar, de repetir o mesmo desvio
sempre para retornar ao inanimado. A definição do instinto de vida em
Freud - não é inútil voltar a isso, acentuá-lo novamente - não é menos
atópica, não é menos estranha pelo fato d e q ue é sempre conveniente
ressaltá-lo: que ele é reduzido a Eros, à libido. Observem bem o que
isso significa. Vou acentuá-lo por meio de uma comparação, daqui a
pouco, com a posição kantiana.
Mas, desde já, vocês vêem a que ponto de contato estamos reduzidos,
no que concerne à relação com o corpo. Trata-se de uma escolha, e de
tal forma evidente que isso, na teoria, vem a materializar-se nessas
figuras em relação às quais não se deve esquecer que, ao mesmo tempo,
elas são novas, e quais dificuldades, quais aporias, até mesmo quais
impasses elas nos opõem para justificá-las, até mesmo para siluá-las,
para defini-las exatamente. Penso que a função do falo, de ser aquilo
cm torno do qual vem se articular esse Eros, essa libido, designa
suficientemente o que aqui pretendo salientar. No conjunto, todas essas

- 1 61 -
A Identificação

figuras, para retomar o termo que acabo de empregar, que temos de


manejar no que concerne ao Eros, o que têm elas a fazer, o que têm
elas em comum, por exemplo, para fazer-lhes sentir a distância, com as
preocupações do embriologista, em relação ao qual não se pode, de
qualquer forma, dizer que não tem nada a fazer com o instinto de vida,
quando ele se interroga sobre o que é um organizador no crescimento,
no mecanismo da divisão celular, na segmentação dos folíolos, na
di ferenciação morfológica?
Espantamo-nos quando encontramos em algum lugar, sob a pluma
de Freud, que a análise tenha levado a uma descoberta biológica qualquer.
Isso se encontra às vezes, pelo menos que eu me lembre , no Abris/3.
Que bicho o terá mordido, naquele instante? Pergunto-me qual descoberta
biológica foi feita à luz da análise. Mas também, já que se trata aqui de
salientar a limitação, o ponto eletivo de nosso contato com o corpo,
enquanto, é claro, ele é o suporte, a presença dessa vida, é surpreendente
que, para reintegrar em nossos cálculos a função de conservação desse
corpo, seja necessário que passemos pela ambigüidade da noção do
narcisismo, suficientemente designada, penso, para não ser preciso articulá­
la novamente, na própria estrutura do conceito narcísico - e a equivalência
que é posta ali, na ligação ao objeto - suficientemente designada, repito,
pelo acento posto, desde a Introdução ao Narcisismo , sobre a função da
dor, e desde o primeiro artigo - releiam esse artigo, excelentemente
traduzido - enquanto a dor não é sinal de dano, mas fenômeno de
auto-erotismo, como há pouco tempo eu lembrava, numa conversa familiar
e a propósito de uma experiência pessoal, a alguém que me escuta, a
experiência de que uma dor apaga uma outra. Quero dizer que, no
presente, é difícil sofrer de duas dores ao mesmo tempo; uma toma a
dianteira , faz esquecer a outra; como se o investimento libidinal, mesmo
sobre o próprio corpo, se mostrasse ali submetido à mesma lei, que
chamarei de parcialidade, que motiva a relação com o mundo dos objetos
do desejo. A dor não é simplesmente, como dizem os técnicos, em sua
natureza aprazível. Ela é privilegiada, ela pode ser fetiche. Isso para
levar-nos àquele ponto que já articulei, numa recente conferência, não
aqui, que é atual em nosso propósito, de pôr em causa o que quer dizer
a organização subjetiva que designa o processo primário, o que ela
quer dizer quanto ao que é e o que não é de sua relação com o corpo.

- 162 -
Lição de 28 de fevereiro de 1962

É aqui que, se posso dizer, a referência, a analogia com a investigação


kantiana vai-nos servir.
Peço desculpas, com toda a humildade possível, àqueles que têm dos
textos kantianos uma experiência que lhes dá direito a alguma observação
à margem, quando eu for um pouco depressa na minha referência ao
essencial do que a exploração kantiana nos oferece. Não podemos, aqui,
demorarmos nesses meandros, talvez em alguns pontos às custas do rigor,
mas também, por outro lado, se nos detivermos demasiadamente neles,
podemos perder alguma coisa do que têm de maciço, em alguns pontos,
os seus relevos; falo da Crítica kantiana e principalmente daquela chamada
da Raziio Pura. Desde já, tenho o direito de deter-me por um instante
naquilo que, para qualquer um que simplesmente tenha lido uma ou
duas vezes com uma atenção esclarecida a citada Crítica da Razão pura,
isto que, aliás, não é contestado por nenhum comentador, que as categorias
ditas da Razão Pura exigem seguramente, para funcionar como tais, o
fundamento do que se chama de intuição pura, a qual se apresenta como
a forma normativa e, vou mais longe, obrigatória, de todas as apreensões
sensíveis . Digo de todas, quaisquer que sejam. É nisso que essa intuição,
que se organiza em categorias do espaço e do tempo, acha-se designada
por Kant como excluída daquilo que se pode chamar de originalidade da
experiência sensível, da Sinnlichkeit , de onde só pode sair, só pode surgir
alguma afirmação que seja de realidade palpável, essas afirmações de
realidade estando, em sua articulação, submetidas às categorias da dita
razão pura, sem as quais elas não poderiam, não somente ser enunciadas,
mas tampouco ser percebidas. Desde então, tudo se acha suspenso no
princípio dessa função dita sintética, o que não dizer outra coisa além de
unificante, que é, se podemos dizer assim, o termo comum de todas as
funções categoriais, termo comum que se ordena e se decompõe no quadro
muito sugestivamente articulado que dá Kant, ou, antes, nos dois quadros
que ele dá disso, as formas das categorias e as formas do julgamento, que
apreende que em direito, enquanto ela marca, na relação com a realidade,
a espontaneidade de um sujeito, essa intuição pura é absolutamente exigível.
O esquema kantiano, podemos chegar a reduzi-lo à Beharrlichkeit, à
permanência, à continuidade, diria eu, vazia, mas à continuidade possível
do que quer que seja no tempo.

- 163 -
A Identificação

Essa intuição pura em direito é absolutamente exigida em Kant para


o funcionamento categorial, mas afinal, a existência de um corpo, enquanto
ele é o fundamento da Sinnlichkeit, da sensorialidade, não é exigível
em absoluto. Sem dúvida, quanto ao que podemos chamar validamente
de uma relação com a realidade, isso não nos levará muito longe porque,
como ressalta Kant, o uso de tais categorias do cntendimc11l0 só dirá
respeito ao que ele vai chamar de conceitos vazios. Mas, quando dizemos
que isso não nos levará longe é porque somos 111ósof'os, e mesmo kantianos.
Mas, a partir do momento em que não o somos mais - o que é o caso
comum - cada um sabe justamente, ao contrário, que isso leva muito
longe, porque todo esforço da filosofia consiste em ir contra toda uma
série de ilusões, de Schwiirmerei, como se diz na língua filosófica e
particularmente kantiana, de sonhos ruins - na mesma época, Goya
nos diz: "O sono da razão engendra os monstros" - cujos efeitos teologizantes
mostram-nos bem todo o contrário, a saber, que isso leva longe, posto
que, por intermédio de mil fanatismos, isso leva simplesmente às violências
sanguinárias, que continuam, aliás, muito tranqüilamente, apesar da
presença dos filósofos, a constituir, é preciso dizê-lo, uma parte importante
da trama da história humana.
É por isso que não é indiferente mostrar onde passa efetivamente a
fronteira do que é eficaz na experiência, malgrado todas as purificações
teóricas e as retificações morais. Fica perfeitamente claro, em todo
caso, que não há como admitir como sustentável a estética transcendental
de Kant, apesar de eu ter falado do caráter inultrapassável do serviço
que ele nos presta em sua crítica e espero fazê-lo sentir justamente, ao
mostrar pelo que é preciso substituí-la. Porque, justamente, se é preciso
substituí-la por algo e que isso funcione conservando alguma coisa da
estrutura que ele articulou, é isso que prova que ele pelo menos entreviu,
que ele entreviu profundamente a dita coisa. É assim que a estética
kantiana é insustentável, pela simples razão de que ela é, para ele,
fundamentalmente apoiada numa argumentação matemática que se
funda no que poderíamos chamar de época geometrizante da matemática.
É na medida em que a geometria euclidiana está incontestada, no momento
em que Kant prossegue sua meditação, que é sustentável para ele que
haja, na ordem espaço-temporal, certas evidências intuitivas. Basta abaixar­
se, abrir seu texto, para recolher exemplos daquilo que pode parecer,
agora, a um aluno medianamente avançado na iniciação matemática,

- 164 -
Lição de 28 de fevereiro de 1962

de imediatamente refutável. Quando ele nos dá, como exemplo de uma


evidência que não tem sequer necessidade de ser demonstrada, que
por dois pontos só pode passar uma reta, cada um de nós sabe, na
medida em que o espírito se tenha facilmente inclinado à imaginação,
à intuição pura de um espaço curvo pela metá íora da esfera , que por
dois pontos pode passar mais de uma reta e mesmo uma infinidade de
retas. Quando ele nos dá, no seu quadro dos Nich ts, dos nadas, como
exemplo do lecrer Gegensland o/me Begriff, do objeto vazio sem conceito,
o exemplo seguinte, que é bastante notável: a ilustração de uma figura
retilínea que teria somente dois lados, eis algo que pode parecer, talvez
a Kant - e provavelmente não a todo mundo em sua época - como o
próprio exemplo do objeto inexistente, e além do mais impensável. Mas
o mínimo uso, eu diria, de uma experiência de geômetra totalmente
elementar, a busca do traçado descrito por um ponto ligado a uma ciclóide,
o que se chama de uma ciclóide de Pascal, mostrar-lhes-á que uma
figura retilínea, na medida em que ela propriamente põe em causa a
permanência do contato de duas linhas ou de dois lados, é algo que é
verdadeiramente primordial, essencial a toda espécie de compreensão
geométrica; que há ali, sem dúvida, articula<,-ão conceituai, e mesmo
objeto completamente definível.
Da mesma forma, mesmo com essa afirmação de que nada é fecundo
senão o julgamento sintético, ele pode, ainda, após todo o esforço de
logicização da matemática, ser considerado como sujeito à revisão. A
pretensa infecundidade do julgamento analítico a priori, a saber, disso
que chamaremos simplesmente de uso puramente combinatório de
elementos extraídos da posição primeira de um certo número de definições,
que esse uso combinatório tenha cm si uma f..:cundidade própria, é o
que a crítica mais recente, mais avançada dos fundamentos da aritmética,
por exemplo , pode seguramente demonstrar. Que haja, em último termo,
no campo da criação matemática, um resíduo obrigatoriamente
indemonstrável, é aquilo a que sem dúvida a mesma exploração logicizante
parece ter-nos conduzido - o teorema de Gõdel - com um rigor até
aqui não refutado. Mas não é menos verdadeiro que é pela via da
demonstração formal que essa certeza pode ser adquirida. E, quando
digo formal, entendo os procedimentos mais expressamente formalistas
da combinatória logicizante.

- 165 -
A Identificação

O que isso quer dizer? Será, no entanto, que essa intuição pura, tal
como Kant, nos termos de um progresso crítico que concerne às formas
exigíveis da ciência, que essa intuição pura não nos ensina nada? Ela
nos ensina seguramente a discernir sua coerência e também sua disjunção
possível do exercício, justamente sintético, da função unificante do termo
da unidade enquanto constituinte em toda formação categorial e, sendo
uma vez mostradas as ambigüidades dessa função da unidade, a mostrar­
nos a qual escolha, a qual inversão somos conduzidos a partir da solicitação
de diversas experiências. Evidentemente, só nos importa aqui a nossa.
Mas, será que não é mais significativo que de anedotas, de acidentes,
até de façanhas, no ponto preciso em que se pode fazer notar a finura
do ponto de conjunção entre o funcionamento categorial e a experiência
sensível em Kant, o ponto de estrangulamento, se posso dizer, em que
pode ser levantada a questão: se a existência de um corpo, totalmente
exigível de fato, é claro, não poderia ser posta em questão na perspectiva
kantiana, quanto ao fato de que ela seja exigida em direito? Será que
alguma coisa não é absolutamente feita para presentificar essa questão,
na situação dessa criança perdida que é o astronauta de nossa época em
sua cápsula, no momento em que ele está no estado de imponderabilidade?
Não insistirei mais sobre essa observação de que a tolerância, parece-me,
embora talvez nunca posta à prova durante longo tempo, a tolerância
surpreendente do organismo no estado de imponderabilidade é de qualquer
forma feita para obrigar-nos a formular uma pergunta. Posto que, afinal
de contas, uns sonhadores se interrogam sobre a origem da vida, e entre
eles há os que dizem que ela começou de repente a frutificar sobre nosso
globo, mas outros dizem que deve ter vindo por um germe vindo dos espaços
astrais - eu não saberia dizer-lhes a que ponto esse tipo de especulação
me é indiferente -seja como for, a partir do momento em que um organismo,
seja ele humano, seja o de um gato ou o do menor senhor do reino vivo,
parece se portar tão bem no estado de imponderabilidade, não será ele
justamente essencial à vida, digamos, simplesmente, que ela esteja de alguma
forma numa posição de equipolaridade em relação a todo efeito possível
do campo gravitacional? Bem entendido, o astronauta está sempre sob os
efeitos da gravidade, no entanto é uma gravidade que não lhe pesa. Ora,
pois, lá onde ele está, em seu estado de imponderabilidade, trancado como
vocês sabem em sua cápsula, e ainda mais sustentado , acolchoado por

- 166 -
Lição de 28 de fevereiro de 1962

todos os lados pelas dobras da dita cápsula, o que transporta ele consigo de
uma intuição, pura ou não, mas fenomenologicamente definível, do espaço
e do tempo?
A questão é tanto mais interessante quanto nós sabemos que, desde
Kant, temos ainda assim retornado a ela. Quero dizer que a exploração,
justamente qualificada de fenomenológica, ainda assim , voltou a dirigir
nossa atenção sobre o fato de que aquilo que se pode chamar de dimensões
ingênuas da intuição - sobretudo espacial - não são, mesmo para uma
intuição, tão purificadas como pensamos, tão facilmente redutíveis e
que o alto, o baixo, até a esquerda, conservam não somente toda a sua
importância ele fato, mas mesmo de direito para o pensamento mais
critico. O que é que adveio para Gagárin, para Titov, ou para o Glenn
de sua intuição do espaço e do tempo, cm momentos em que certamente
ele tinha, como se diz, outras idéias na cabeça? Talvez não fosse totalmente
desinteressante, enquanto ele estivesse lá em cima, de ter com ele um
pequeno diálogo fenomenológico. Naturalmente, em tais experiências,
considerou-se que isso não era o mais urgente. De resto, temos o tempo
de voltar a esse assunto. O que constato é que, seja o que for desses
pontos sobre os quais podemos estar bastante apressados para ter respostas
da Erfahrung, da experiência, ele, em todo caso, isso não o impediu de
estar totalmente capacitado ao que chamarei de apertar botões, pois
está claro, ao menos para o último, que a coisa foi comandada em tal
momento, e mesmo decidida do interior. Ele permanecia, portanto,
em plena posse dos meios de uma combinatória eficaz. Provavelmente
sua razão pura estava poderosamente aparelhada com toda uma montagem
complexa, que constituía certamente a eficácia última da experiência.
Não é menos verdadeiro que, por tudo que podemos supor e tão longe
quanto possamos supor o efeito da construção combinatória no aparelho
e mesmo nas aprendizagens, nos comandos repetidos, na formação exaustiva
imposta ao próprio piloto, por mais longe que nós o suponhamos integrado
ao que se pode chamar de automatismo já construído da máquina,
basta que ele tenha de apertar um botão na direção certa e sabendo
porquê para que se torne extraordinariamente significativo que um tal
exercício da razão combinatória seja possível, em condições que talvez
estejam longe de ser ainda o extremo atingido do que podemos supor
de constrangimentos e de paradoxos impostos às condições de motricidade
natural, mas que já podemos ver que as coisas são levadas muito longe

- 167 -
A Identificação

desse duplo efeito, caracterizado, por um lado, pela liberação da dita


motricidade dos efeitos da gravidade, sobre os quais se pode dizer que
nas condições naturais não é demasiado dizer que ela se apóia sobre
essa motricidade, e que, correlativamente, as coisas não funcionam senão
porque o dito sujeito motor está literalmente aprisionado, preso na carapaça
que, sozinha, assegura a contenção, ao menos em tal momento de vôo,
do organismo naquilo que se pode chamar de sua solidariedade natural.
Aqui está, portanlo, esse corpo que se tornou - se posso dizer - uma
espécie de molusco, mas arrancado de seu implante vegetativo. Essa
carapaça torna-se uma garantia tão dominante da manutenção dessa
solidariedade, dessa unidade, que não estamos longe de pensar que é
nela, no final das contas, que ela consiste; que se vê ali numa espécie
de relação exteriorizada da função dessa unidade como verdadeiro
continente do que se pode chamar de polpa viva. O contraste dessa
posição corporal com a pura função de máquina de raciocinar, essa
razão pura que continua sendo tudo o que há de eficácia e tudo do que
esperamos uma eficácia qualquer no interior, é bem ali algo de exemplar
que dá toda sua importância à questão que levantei há pouco, da conservação
ou não da intuição espaço-temporal, no sentido em que a frisei suficientemente
como aquilo que chamarei de falsa geometria do tempo de Kant. Será que
essa intuição está sempre presente aí? Tenho grande tendência a pensar
que ela está sempre ali. Ela está sempre ali, essa falsa geometria, tão besta
e tão idiota, porque é efetivamente produzida como uma espécie de reflexo
da atividade combinatória, mas reflexo que não deixa de ser também refutável,
pois, como a experiência da meditação dos matemáticos já o provou, sobre
esse solo não estamos menos arrancados à gravidade do que naquele lugar
lá em cima, onde seguíamos nosso astronauta. Em outros termos, que essa
intuição pretensamente pura saiu da ilusão de logras ligados à própria
função combinatória, totalmente passíveis de serem dissipados, mesmo
se ela se mostra mais ou menos tenaz. Ela é apenas, se posso dizer, a
sombra do número.
Mas evidentemente, para poder afirmar isso, é preciso ter fundado o
próprio número em outro lugar que nessa intuição. De resto, a supor
que nosso astronauta não a conserva, essa intuição euclidiana do espaço,
e aquela, muito mais discutível, ainda do tempo que lhe é ligada em
Kant, a saber, algo que pode se projetar sobre uma linha, o que é que isso
provará? Provará simplesmente que ele é, de toda forma, capaz de apertar

- 168 -
Lição de 28 de fevereiro de 1962

corretamente os botões sem recorrer a seu esquematismo, provará simplesmente


que o que é, desde já, refutável aqui, é refutado lá em cima na própria
intuição! O que reduz talvez um pouco - vocês me dirão - o alcance da
questão que temos a lhe colocar. E é exatamente por causa disso que há
outras questões mais importantes a lhe colocar, que são justamente as
nossas, e particularmente esta: o que se toma, no estado de imponderabilidade,
uma pulsão sexual que tem o hábito de se manifestar tendo o aspecto de ir
contra. E, se o fato de que ele esteja inteiramente colado no interior de
uma máquina - entendo no sentido material da palavra - que encarna,
manifesta, de uma maneira tão evidente o fantasma fálico, não o aliena
particularmente em sua relação com as funções de imponderabilidade natural
ao desejo macho? Eis aí uma outra questão na qual me parece que temos
todo o direito de nos intrometer.
Para retomar a questão do número, a qual pode lhes surpreender
que eu faça um elemento tão evidentemente desligado da intuição pura,
da experiência sensível, não vou fazer aqui para vocês um seminário
sobre os Foundations of arithmetic, título inglês de Frege, ao qual peço
que vocês se reportem, pois é um livro tão fascinante quanto as Crônicas
Marcianas, no qual vocês verão que é, em todo caso, evidente que não
há nenhuma dedução empírica possível da função do número, mas
que, como não tenho a intenção de dar-lhes uma aula sobre esse assunto,
me contentarei, pois está em nosso propósito, em fazê-los observar que,
por exemplo, os cinco pontos assim dispostos : • : que se podem ver
sobre a face de um dado, é precisamente uma figura que pode simbolizar
o número cinco, mas que vocês estariam redondamente enganados em
crer que, de algum modo, o número cinco seja dado por essa figura.
Como não desejo cansá-los, fazendo-lhes desvios infinitos, acho que o
mais rápido é fazê-los imaginar uma experiência de condicionamento
que vocês estariam realizando com um animal.
É muito freqüente, para ver essa faculdade de discernimento nesse
animal, em tal situação constituída por objetivos a atingir, suponham
que vocês lhe dêem diversas formas. [Suponham que] ao lado dessa
disposição, coisa que constitui uma figura, vocês não esperarão em
nenhum caso, e de nenhum animal, que ele reaja da mesma maneira à
seguinte figura: •••••, que é, no entanto, também um cinco, ou esta
aqui :·:, que não o é menos, a saber, a forma do pentágono. Se alguma
vez um animal reagisse da mesma maneira a essas três figuras, ora,

- 169 -
A Identificação

vocês ficariam estupefatos, e não sem razão, pois estariam então


absolutamente convencidos de que o animal sabe contar. Ora, vocês
sabem que ele não sabe contar. Isso não é uma prova, certamente, da
origem não empírica da função do número. Eu lhes repito: isso merece
uma discussão detalhada, cuja única razão verdadeira, sensata, séria,
que tenho para lhes aconselhar vivamente a se interessarem por isso é
que é surpreendente ver a que ponto poucos matemáticos, ainda que, bem
entendido, sejam apenas matemáticos que trataram bem desses assuntos,
interessam-se verdadeiramente por isso. Portanto, tratar-se-á, da parte de
vocês, se vocês verdadeiramente se interessarem por isso, de uma obra de
misericórdia, visitar os doentes, interessar-se por questões pouco interessantes,
será que não é também, de alguma forma, a nossa função?
Vocês verão que, em todo caso, a unidade e o zero, tão importantes
para toda constituição racional do número, são o que há de mais resistente,
evidentemente, a toda tentativa de uma gênese experimental do número,
e mais especialmente se se pretende dar uma definição homogênea do
número como tal, reduzindo a nada todas as gêneses que se pode tentar
· dar do número a partir de uma coleção e da abstração da diferença a
partir da diversidade. Aqui toma seu valor o fato de eu ter sido levado,
pelo fio diretor da progressão freudiana, a articular, de uma maneira
que me pareceu necessária, a função do traço unário, enquanto ela faz
aparecer a gênese da diferença numa operação que se pode dizer situar-
' se na linha de uma simplificação sempre crescente, que está num propósito
que é o que leva à linha de bastões, isto é, à repetição do aparentemente
idêntico, que é criado, destacado, o que chamo não de símbolo, mas de
entrada no real como significante inscrito - e é isso o que quer dizer o
termo primazia da escrita, a entrada no real é a forma desse traço repetido
pelo caçador primitivo, da diferença absoluta enquanto ela ali está. Da
mesma forma, vocês não terão dificuldades - vocês os encontrarão na
leitura de Frcge, embora Frege não se engaje neste caminho, por falta
de teoria suficiente do significante - para encontrar no texto de Frege
que os melhores analistas matemáticos da função da unidade, sobretudo
Jevons e Schrõder, puseram exatamente o acento, do mesmo modo como
eu fiz, na função do traço unário. Eis o que me faz dizer que o que
temos de articular aqui é que, ao inverter, se posso dizê-lo, a polaridade
dessa função da unidade, ao abandonar a unidade unificante, a Einheit,
pela unidade distintiva, a Einzigkeit , levo-os ao ponto de levantar a

- 1 70 -
L ição de 28 de fevereiro de 1962

questão, de definir, de articular passo a passo a solidariedade do estatuto


do sujeito enquanto ligada àquele traço unário, com o fato de que o
sujeito está constituído, em sua estrutura, onde a pulsão sexual entre
todas as aferições do corpo tem sua função privilegiada.
Sobre o primeiro fato, a ligação do sujeito com esse traço unário, vou
pôr hoje o ponto final, considerando a via suficientemente articulada,
lembrando-lhes que esse fato tão importante em nossa experiência,
posto por Freud à frente do que ele chama de narcisismo das pequenas
diferenças , é a mesma coisa que chamo de função do traço unário;
pois não é outra coisa senão o fato de que é a partir de uma pequena
diferença - e dizer pequena diferença não quer dizer senão essa diferença
absoluta de que lhes falo, essa diferença destacada de toda comparação
possível - é a partir dessa pequena diferença , enquanto é a mesma
coisa que o grande I, o Ideal do eu, que se pode acomodar todo o propósito
narcísico; o sujeito se constitui ou não como portador desse traço unário.
É o que nos permite dar, hoje, nosso primeiro passo no que constituirá o
objeto de nossa lição seguinte, a saber, a retomada das funções privação,
frustração e castração. É ao retomá-las, antes de tudo, que poderemos
entrever onde e como se coloca a questão da relação do mundo do significante
com o que chamamos de pulsão sexual, privilégio, prevalência da função
erótica do corpo na constituição do sujeito.
Abordemo-la um pouquinho, belisquemo-la, essa questão, partindo da privação,
pois é o mais simples. Existe um menos a no mundo, há um objeto que falta
a seu lugar, o que é bem a concepção mais absurda do mundo, se se dá seu
sentido à palavra real. O que pode estar faltando no real?
Da mesma forma, é em razão da dificuldade dessa questão que vocês
vêem ainda, em Kant, arrastarem-se, se posso dizer assim, bem para lá
da intuição pura, todos aqueles velhos restos de teologia que o entravam,
e sob o nome de concepção cosmológica. "ln mundo non est casus",
lembra-nos ele, nada de casual, de ocasional. "ln mundo non est fatum",
nada é de uma fatalidade que estaria além de uma necessidade racional.
"ln mundo non est saltus", não há nada de salto. "ln mundo non est
hiatus", e o grande refutador das imprudências metafísicas encarrega­
se dessas quatro denegações, em relação às quais lhes pergunto se na
nossa perspectiva elas podem aparecer como outra coisa senão o próprio
estatuto, invertido, daquilo de que nos ocupamos sempre: casos, no
sentido próprio do termo; fatum, falando propriamente, já que nosso

- 17 1 -
A Identificação

inconsciente é oráculo, tantos hiatus quanto há de significantes distintos,


tantos saltos qu�nto se produz de metonfmias. É porque há um sujeito
que se marca a si mesmo ou não com o traço unári o , que é 1 ou - 1 , que
pode haver um -a, que o sujeito pode identificar-se com a bolinha do
neto de Freud e especialmente na conotação de sua falta, não há, ens
privativum. Obviamente, há um vazio e é daí que vai partir o sujeito :
leerer Gegenstand ohne Begriff.
Das quatro definições do nada que Kant dá e que retomaremos na
próxima lição, só uma se mantém com rigor: há ali um nada. Observem
que no quadro que lhes dei dos três termos, castração, frustração, privação,
a contrapartida, o agente possível, o sujeito propriamente falando imaginário
do qual pode derivar a privação, a enunciação da privação, é o sujeito
da onipotência imaginária , isto é, da imagem invertida da impotência.
Ens rationis, leerer Begriff ohne Gegenstand, conceito vazio sem objeto,
puro conceito da possibilidade, eis o quadro em que se situa e aparece
o ens privativum.
Kant, sem dúvida , não deixa de ironizar sobre o uso puramente formal
da fórmula que parece ser óbvia: todo real é possível. Quem dirá o
contrário? Forçosamente! E ele dá o passo mais ousado, fazendo-nos
notar que, portanto, algum real é possível, mas que isso pode querer
dizer também que algum possível não é real, que há possível que não é
real. Da mesma forma, sem dúvida, o abuso filosófico que se pode fazer
disso é aqui denunciado por Kant. O que nos importa é que percebamos
que o possível de que se trata aqui não é nada senão o possível do
sujeito. Só o sujeito pode ser esse real negativado por um possível que
não é real. O - 1 , constitutivo do ens privativum, nós o vemos assim
ligado à estrutura a mais primitiva de nossa experiência do inconsciente,
na medida em que ela é aquela, não do interdito, nem do dito que não,
mas do não-dito, do ponto onde o sujeito não está mais para dizer se
ele não é mais mestre dessa identificação ao 1, ou dessa ausência repentina
do 1 , que poderia marcá-lo. Aqui se encontra sua força e sua raiz. A
possibilidade do hiatus, do saltus, casus, factus, é justamente aquilo
que espero, a partir da próxima sessão, mostrar-lhes: qual outra forma
de intuição pura e mesmo espacial está especialmente implicada na
função da superfície, enquantu a creio capital, primordial, essencial a
toda articulação do sujeito que poderemos formular.

- 172 -
LIÇÃO XII
07 de março de 1 962

Ao reagrupar os pensamentos dificeis aos quais estamos sendo conduzidos,


em torno dos quais deixei vocês da última vez , começando a abordar
pela privação o que concerne ao ponto mais central da estrutura da
identificação do sujeito, ao reagrupar tais pensamentos eu me apreendi
partindo novamente de algumas observações introdutórias. Não é do
meu costume retomar absolutamente ex-abrupto o fio interrompido;
essas observações faziam eco a alguns desses estranhos personagens
de que lhes falava, na última vez, e que chamávamos de filósofos, grandes
ou pequenos. Essa observação era mais ou menos esta, no que nos diz
respeito: que o sujeito se engana. Está aí, com certeza, para todos nós,
analistas , tanto quanto filósofos, a experiência inaugural. Mas se ela
nos interessa, a nós, é claramente, e direi, exclusivamente pelo fato,
que ele pode se dizer. E esse dizer se demonstra infinitamente fecundo
e mais especialmente fecundo na análise que alhures , ao menos gostamos
de supor assim. Ora, não esqueçamos de que a observação foi feita por
eminentes pensadores, que o que está em questão, no caso, é o real, a
via dita da retificação dos meios do saber poderia bem - é o mínimo
que se pode dizer - afastar-nos indefinidamente do que se trata de
atingir, isto é, do absoluto, pois, trata-se simplesmente do real. Trata­
se disso. Trata-se de atingir o que é visado como independente de todas
as nossas amarras; na procura do que é visado, é isso que se chama de
absoluto; portanto, soltem tudo até o fim, toda sobrecarga. É sempre
uma maneira mais sobrecarregada que tende a estabelecer os critérios
da ciência, na perspectiva filosófica, entendo eu. Não estou falando

- 173 -
A Identificação

daqueles eruditos que, bem longe do que se crê, de nada duvidam. É ner;;sa
medida que somos os mais seguros disso que eles ao menos abordam: o real.
Na perspectiva filosófica da crítica da ciência, devemos fazer algumas
observações; e principalmente o termo do qual devemos desconfiar mais
para avançarmos nessa crítica, é o termo aparência, pois a aparência
está muito longe de ser nossa inimiga, digo, quando se trata do reaL
Não fui eu que fiz encarnar o que lhes digo, nessa simples pequena
imagem. É bem na aparência dessa figura que me é dada a realidade
do cubo, que ela me salta aos olhos como realidade. Ao reduzir essa imagem
à função de ilusão de óptica, desvio-me simplesmente do cubo, isto é, da
realidade que esse artificio é feito para lhes mostrar. O mesmo se dá na
relação com uma mulher, por exemplo. Todo aprofundamento científico
dessa relação irá, no fim das contas, àquela das
fórmulas, como aquela célebre, que certamente vocês
conhecem, do coronel Bramble, que reduz o objeto
em questão, no caso a mulher, àquilo que ele é,
justamente, do ponto de vista científico: um aglomerado
de albuminóides, o que, evidentemente, não está
muito de acordo com o mundo de sentimentos que
são relacionados ao dito objeto.
De toda maneira, está perfeitamente claro que
o que chamarei, se vocês permitirem, de vertigem
do objeto no desejo, essa espécie de ídolo, de adoração que pode prosternar­
nos, ou pelo menos nos curvar diante de uma tal mão, digamos mesmo,
para melhor nos fazermos entender sobre o assunto que a experiência
nos oferece, que não é porque é sua mão, posto que num lugar mesmo
menos terminal, um pouco mais acima, alguma penugem sobre o antebraço
pode tomar para nós, de repente, este gosto único que nos faz de algum
modo tremer, diante dessa apreensão pura de sua existência. É evidente
que isso tem mais relação com a realidade da mulher que qualquer
elucidação daquilo que se chama de atração sexual, na medida em que
elucidar a atração sexual coloca em princípio que se trata de pôr em
questão seu engodo, enquanto esse engodo é sua própria realidade.
Se o sujeito se engana, pois, ele pode ter razão do ponto de vista do
absoluto. Acontece, todavia, que mesmo para nós, que nos ocupamos
do desejo, a palavra erro mantém seu sentido. Aqui, permitam-me dar
aquilo que concluí, de minha parte, a saber, dar-lhes como acabado o

- 174 -
Lição de 7 de março de 1962

fruto de uma reflexão cuja seqüência é precisamente o que eu vou


desenvolver hoje. Vou tentar mostrar-lhes o bom fundamento dessa
reflexão: é que não é possível dar um sentido a esse termo erro, em
qualquer domínio e não apenas no nosso - é uma afirmação ousada,
mas isso supõe que considero que, para empregar uma expressão à
qual retornarei, no curso de minha lição de hoje, dei a volta bem em
torno dessa questão - se trata apenas, se a palavra "erro" tem um sentido
para o sujeito, de um erro em sua conta. Dito de outro modo, para todo
sujeito que não conta, aí não poderia haver erro. Não é uma evidência.
É preciso ter tateado num certo número de direções para se aperceber
que se crê - é aqui que estou e peço-lhes que me sigam - que só há isso
que abre os impasses, os divertículos nos quais nos engajamos em torno
dessa questão. Isso, evidentemente, quer dizer que a atividade de contar,
para o sujeito, começa cedo. Tenho feito uma ampla releitura de alguém,
e todos sabem que não tenho grandes inclinações por ele, apesar da
estima e do respeito que merece sua obra e, além disso, do charme
incontestável que sua pessoa espalha, refiro-me ao Sr. Piaget; mas não
é para desaconselhar quem quer que seja de lê-lo ! Fiz, então, a releitura
de La genese du nombre chez l' enfant. É de causar confusão que se
possa crer poder detectar o momento em que aparece num sujeito a
função do número fazendo-lhe perguntas que, de algum modo, implicam
suas respostas , mesmo se tais perguntas são feitas por intermédio de
um material do qual se imagine que exclua o caráter orientado da pergunta.
Pode-se dizer uma só coisa, que, no fim das contas, se trata antes de
um engodo nessa maneira de proceder. Aquilo que a criança parece
desconhecer não está absolutamente seguro de que não se relacione
com as próprias condições da experiência. Mas a força desse terreno é
tamanha que não se pode dizer que não haja muito a instruir, não
tanto no pouco que é, enfim, recolhido dos pretensos estágios da aquisição
do número na criança, quanto das reflexões fundamentais do Sr. Piaget
- que é certamente muito melhor lógico que psicólogo - dizendo respeito
às relações da psicologia e da lógica. E, sobretudo, é o que torna uma
obra infelizmente inencontrável, publicada pela editora V rin em 1 942,
que se chama Classe, relation et nombres, uma obra muito instrutiva,
porque nela, sim, se valorizam as relações estruturais, lógicas , entre
classe, relação e números, a saber, tudo o que se pretende a seguir ou
previamente encontrar na criança que manifestamente já está construído

- 1 75 -
A Identificação

a priori. E , obviamente a experiência nos mostra ali apenas o que se


organizou para encontrar antes de tudo.
É um parêntese que confirma isso, que o sujeito conta bem antes de
aplicar seus talentos a uma coleção qualquer, ainda que, é claro, uma
de suas primeiras atividades concretas, psicológicas, seja constituir coleções.
Mas ele está implicado como sujeito na relação dita do cômputo, de maneira
muito mais radicalmente constituinte do que se quer imaginar, a partir
do funcionamento do seu sensorium e de sua motricidade. Uma vez mais
aqui, o gênio de Freud ultrapassa a surdez, se posso dizer, daqueles a
quem ele se dirige com toda a amplidão das advertências que ele lhes dá
e que entram por um ouvido e saem pelo outro. O que provavelmente
justifica o apelo ao terceiro ouvido místico do Sr. Thedor Reik, que não
estava naquele dia muito inspirado, pois para quê um terceiro ouvido se
já não se ouve nada com os dois que se tem i O sensorium em questão,
quanto ao que Freud nos ensina, serve para quê? Será que isso não quer
nos dizer que só serve para isso, para nos mostrar que o que já está ali
no cálculo do sujeito é bem real, existe bem? Em todo caso, é o que
Freud diz, é com ele que começa o julgamento de existência, isso serve
para verificar as contas, o que, de qualquer maneira, é uma posição
estranha para alguém que é tido como ligado em linha direita ao positivismo
do século XIX.
Então, retomemos as coisas onde as havíamos deixado, já que se trata
de cálculo, e da base, e do f undamento do cálculo para o sujeito: o traço
unário. Pois, obviamente, se começa tão cedo a função do contar, não
andemos demasiadamente depressa quanto ao que o sujeito pode saber
de um número mais elevado. Parece pouco pensável que 2 e 3 não venham
bastante depressa, mas, quando nos dizem que certas tribos ditas primitivas
do lado da desembocadura do Amazonas só puderam descobrir recentemente
a virtude do número quatro e lhe erguerem altares, não é o lado pitoresco
dessa história de selvagens que me surpreende; isso me parece mesmo
óbvio, pois, se traço unário é o que lhes digo, a saber, a diferença, e a
diferença não somente que suporta, mas que pressupõe a subsistência,
ao lado dele, de 1 + 1 + 1 ... [um, mais um, e ainda um) o mais estando
ali apenas para marcar a subsistência radical dessa diferença. Ali onde
começa o problema, é justamente que se possa adicionar-lhes, dito de
outro modo, que dois, que três têm um sentido. Visto desse ponto de
vista, isso apresenta dificuldades, mas não há por que se espantar com

- 176 -
Lição de 7 de março de 1962

isso. Se vocês tomarem as coisas no sentido contrário, ou seja, se vocês


partirem de 3, como o faz John Stuart Mill, vocês não conseguirão nunca
reencontrar 1 , a dificuldade é a mesma.
Para nós, aqui - assinalo-lhes isso de passagem - com nossa maneira
de interrogar os efeitos da linguagem em termos de efeitos de significante,
enquanto esse efeito de significante, estamos habituados a reconhecê­
lo no nível da metonímia, ser-nos-á mais simples do que a um matemático
solicitar a nosso aluno reconhecer em toda significação de número um
efeito de metonímia virtualmente surgido de nada mais e, como de seu
ponto eletivo, da sucessão de um número igual de significantes. É na
medida em que algo se passa que faz sentido da simples sucessão de
extensão x de um certo número de traços unários, que o número três,
por exemplo, pode fazer sentido, a saber, que faz sentido - que isso
tenha ou não sentido; que escrever a palavra and em inglês, talvez
esteja aí ainda a melhor maneira que tenhamos de mostrar a aparição
do número 3, porque há três letras. A nosso traço unário, não nos é
necessário, no que nos toca, pedir-lhe tanto, pois sabemos que, no nível
da sucessão freudiana, se vocês me permitem essa fórmula, o traço
unário designa algo que é radical para a experiência originária, é a
unicidade, como Lal, da volta na repetição.
Penso ter marcado suficientemente, para vocês, que a noção da função
da repetição no inconsciente se distingue absolutamente de todo ciclo
natural, no sentido de que o que é acentuado não é seu retorno, é que
o que é procurado pelo sujeilo, é sua unicidade significante e enquanto
uma das voltas da repetição - se podemos dizer - marcou o sujeito que
se põe a repetir o que ele não poderia evidentemente repetir, pois isso
nunca será mais que uma repetição, mas com o objetivo, com o desígnio
de fazer ressurgir o unário primitivo de uma de suas voltas. Com o que
acabo de lhes dizer, não me é necessário acentuar isso, é que isso já
funciona antes que o sujeito saiba contar. Em todo caso, nada implica
que ele tenha necessidade de contar demais as voltas do que ele repete,
pois ele o repete sem sabê-lo. Não é menos verdadeiro que o fato da
repetição está enraizada neste unário original, que, como tal, este unário
está estreitamente colado e co-extensivo à própria estrutura do sujeito,
enquanto ele é pensado como repetindo, no sentido freudiano.
O que vou mostrar-lhes hoje, por meio de um exemplo e com um modelo
que vou introduzir, o que vou lhes mostrar hoje é isso: que não há nenhuma

- 1 77 -
A Identificação

necessidade de que ele saiba contar para que se possa dizer e demonstrar
com que necessidade constituinte de sua função de sujeito ele vai fazer
um erro de conta. Nenhuma necessidade de que ele saiba, sequer que
procure contar, para que esse erro de conta seja constituinte dele, sujeito,
enquanto tal, ele é o erro. Se as coisas são como lhes digo, vocês devem
estar dizendo a si mesmos que esse erro pode durar muito tempo sobre
tais bases, e isso é uma verdade. É tão verdadeiro que não é somente no
indivíduo que isso vai atuar em seu efeito, os efeitos disso atuam nos
caracteres mais radicais do que se chama de pensamento. Tomemos, por
um instante, o tema do pensamento, quanto ao qual existe, de toda maneira,
lugar para uma certa prudência; vocês sabem que, a esse respeito, a
prudência não me falta; não é tão certo que se possa validamente referir­
se ao pensamento de uma forma que seja considerada como uma dimensão
propriamente falando genérica. Tomemo-lo, todavia, como tal: o pensamento
da espécie humana. Está bem claro que não foi por nada que, mais de
uma vez, avancei-me, de uma forma inevitável, a pôr em causa aqui,
<lcs<le o começo do meu discurso deste ano, a função <la classe e sua
relação com o universal, a tal ponto que é, de alguma maneira, o inverso
e o oposto de todo esse discurso que tento trazer diante de vocês. A esse
respeito, lembrem-se apenas do que eu tentava mostrar-lhes a propósito
do pequeno quadrante exemplar, sobre o qual tentei rearticular, diante
de vocês, a relação do universal ao particular e das proposições respectivamente
1, .

afirmativa e negativa.
Unidade e totalidade aparecem aqui na tradição como solidárias, e
não é por acaso que volto a elas sempre para delas fazer surgir a categoria
fundamental. Unidade e totalidade, ao mesmo tempo solidárias, ligadas
uma a outra nessa relação que se pode chamar de relação de inclusão, a
totalida q e sendo totalidade em relação às unidades, mas a unidade sendo
o que funda a totalidade como tal, ao lançar a unidade em direção a esse
outro sentido, oposto àquele que distingo como sendo a unidade de um
todo. É em torno disso que prossegue esse mal-entendido dentro da lógica
dita das classes, o mal-entendido secular da extensão e da compreensão
sobre o qual, parece, a tradição efetivamente ainda se apóia, se é verdade,
ao tomar as coisas na perspectiva, por exemplo, da metade do século
XIX, sob a pluma de um Hamilton, se é verdade que só se começou
francamente a articulá-lo a partir de Descartes e que a lógica de Port­
Royal, vocês sabem, é calcada sobre o ensinamento de Descartes. Ademais,

- 178-
Lição de 7 de março de 1962

isso não é mesmo verdade, pois ela existe há muito tempo, e desde o
próprio Aristóteles, essa oposição entre extensão e compreensão. O que
se pode dizer é que ela nos causa, no que diz respeito ao manejo das
classes, dificuldades sempre mais irresolvidas, de onde todos os esforços
que fez a lógica para colocar o nervo do problema alhures: na quantificação
proposicional, por exemplo. Mas por que não ver que, na estrutura da
própria classe como tal, um novo ponto de partida nos é oferecido se, na
relação de inclusão, substituímos uma relação de exclusão como a relação
radical? Dito de outro modo, se nós consideramos como logicamente original
quanto ao sujeito isso, que eu não descubro, que está ao alcance de um
lógico de classe média, é que o verdadeiro fundamento da classe não é
nem sua extensão, nem sua compreensão, que a classe supõe sempre a
classificação. Dito de outro modo, os mamíferos, por exemplo, para fazer­
me compreender imediatamente, são aquilo que se exclui dos vertebrados
pelo traço unário mama. O que isso quer dizer? Quer dizer que o fato
primitivo é que o traço unário pode faltar, que há de início ausência de
mama, e que se diz: não pode acontecer que falte a mama. Eis o que
constitui a classe dos mamíferos. Vejam bem as coisas ao pé do muro, ou
seja, reabram os tratados para dar a volta em torno dessas mil pequenas
aporias que lhes oferece a lógica formal, para vocês se aperceberem de
que é a única definição possível de uma classe, se vocês quiserem de fato
assegurar-lhe seu estatuto universal, enquanto ele constitui ao mesmo
tempo, de um lado, a possibilidade de sua inexistência, sua inexistência
possível com essa classe, pois vocês podem também, e é válido, faltando
ao universal, definir a classe que não comporta nenhum indivíduo, o
que não deixará de ser uma classe constituída universalmente, com a
conciliação, digo, dessa possibilidade extrema com o valor normativo de
todo julgamento universal, enquanto ele só pode transcender toda inferência
indutiva, ou seja, saída da experiência. A
Esse é o sentido do pequeno quadrante que
eu havia representado a propósito da classe, a -{-I)
constituir entre os outros, ou seja, o traço vertical.
-1

Primeiramente, o sujeito constitui a ausência 1 {


de tal traço. Como tal, ele próprio é o quarto
no alto, à direita. O zoólogo, se vocês me permitem
+)

ir tão longe, não corta a classe dos mamíferos .........


na totalidade assumida da mama materna: é o

- 179 -
A Identificação

porque ele destaca a mama que pode identificar a ausência de mama.


O sujeito como tal é - 1 . É a partir daí, do traço unário enquanto excluído ,
que ele decreta que há uma classe onde universalmente não pode haver
ausência de mama: - (- 1). E é a partir disso que tudo se ordena, sobretudo
nos casos particulares, para todos e qualquer um, há ou não há. Uma
oposição contraditória estabelece-se em diagonal, e é a única verdadeira
contradição ·que subsiste no nível do estabelecimento da dialética universal­
particular, negativa-afirmativa, pelo traço unário. Tu elo se ordena , pois,
para todos e cada um, 1 1 0 nível in ferior, há ou não h;\, e isso só pode
existir na medida em que é constituído, pela exclusão do traço, o nível
do vale-tudo ou valendo como tudo no nível superior. É, portanto, o
sujeito, como era ele se esperar, que introduz a privaçáo e pelo ato de
enunciação, o qual se formula essencialmente assim : seria possível que
houvesse mama? 46 - Ne que não é negativo, ne que é estritamente da
mesma natureza do que se chama expletivo na gramática francesa. Seria
possível que houvesse mama? Não possível . . . nada, pode ser. É aí o começo
de toda enunciação do sujeito, no que concerne o real.
No primeiro quadrante ( 1 ), trata-se de preservar os direitos do nada ,
no alto, porque é ele que cria, embaixo, o pode ser, isto é, a possibilidade.
Longe de se poder dizer como axioma - e tal é o erro espantoso de toda
a dedução abstrata do transcendental - longe de se poder dizer que todo
real é possível, é somente a partir do não possível que o real ganha lugar.
O que o sujeito busca é esse real enquanto justamente não possível; é a
exceção, e esse real existe, obviamente. O que se pode dizer é que só há,
justamente, o não possível na origem de toda enunciação. Mas isso se vê
na medida em que é do enunciado do nada que ela parte. Isso, para
dizer a verdade, está já assegurado, esclarecido cm minha enumeração
tríplice: privação - frustração - castração, tal como eu anunciara que a
desenvolveríamos outro dia.
E alguns se preocupam que eu não dê lugar à Verwerfung . Ela está
lá, antes, mas é impossível partir dela de uma maneira dedutível. Dizer
que o sujeito constitui-se primeiramente como - 1 é algo onde vocês
podem ver que efetivamente, como era de se esperar, é como verworfen
que nós o vamos encontrar, mas para perceber que isso é verdade será
preciso dar uma volta incrível. É o que vou iniciar agora.
Para fazê-lo, é preciso que eu desvende a bateria anunciada, o que
não se faz sem estremecimento, vocês podem imaginar o quanto, e que

- 180 -
Lição de 7 de março de 1962

eu tire da minha manga para vocês uma das minhas reviravoltas, sem
dúvida longamente preparada. Quero dizer que, se vocês procurarem
no relatório de Roma, já encontrarão em alguma parte o lugar disso
indicado ali: falo da estrutura do sujeito como a de um anel. Mais tarde,
quero dizer, no ano passado, e a propósito de Platão - e vocês o vêem
sempre em relação com o que se trata, nesse momento, ou seja, a classe
inclusiva - vocês viram todas as reservas que achei ter de introduzir a
propósito dos diferentes mitos do Banquete, tão intimamente ligados ao
pensamento platônico, 1 1 0 que diz respeito à funçüo da esl'e ra. A esfera ,
esse objeto obtuso, se posso assim dizer, basta olhar para ela, vê-la !
Talvez seja uma boa forma , mas, como ela é tola ! Ela é cosmológica,
tudo bem. A natureza é suposta mostrar-nos muitas delas, mas nüo
tantas assim, quando a gente olha de mais perto; e as que ela nos mostra,
nós nos apegamos a elas. Exemplo: a lua, que, no entanto, seria de um
uso bem melhor se nós a tomássemos como exemplo de um objeto unário.
Mas deixemos isso de lado. Esta nostalgia da esfera que nos faz, com
um Von Uexküll, arrastar para dentro da própria biologia essa metáfora
do Welt, innen e um, eis o que constituiria o organismo. Será que é
completamente satisfatório pensar que no organismo, para defini-lo,
devamos satisfazer-nos com a correspondência, da coaptação desse innen
e desse um? Sem dúvida há aí uma visão profunda, porque é bem aí
que está, de fato, o problema, e já somente no nível em que estamos ,
que não é do biólogo, mas do analista do sujeito. O que faz o Wclt lá
dentro? É o que me pergunto. Em todo caso, pois é necessário que , ao
passar por aqui, nós nos isentemos de não sei qual homenagem aos
biólogos, perguntarei por que, se é verdade que a imagem esférica tenha
de ser considerada aqui como radical, que se pergunte então por que
esta blástula só cessa quando se gastrula, e que, sendo gastrulada , ela
só esteja contente quando ela tiver redobrado seu orifício estomático
por um outro, a saber, de um buraco do cu? E por que, também, num
certo estágio do sistema nervoso, ele se apresenta como uma pequena
trompa aberta nas duas extremidades para o interior? Sem dúvida,
isso se fecha, e mesmo está muito bem fechado, mas isso, vocês verão,
não é para nos desencorajar, pois abandonarei desde já este caminho
dito da Naturwissenschaft. Não é isso que me interessa agora e estou
bem decidido a levar a questão para outro lado, mesmo se eu devo,

- 181 -
A Identificação

para isso, lhes parecer me enfiar, é o caso de dizê-lo, em meu toro. Pois
é do toro que vou falar-lhes hoje.
A partir de hoje, vocês estão vendo, abro deliberadamente a era dos
pressentimentos. Num certo tempo, eu gostaria de encarar as coisas sob
o dublo aspecto do a torto e a direito, e muitas outras coisas que lhes
são oferecidas. Tentemos agora esclarecer o que lhes vou dizer. Eu acho
que vocês sabem o que é um toro. Vou fazer um desenho grosseiro. É
algo com que se brinca, quando é feito de borracha. É cômodo; um toro
se deforma, é redondo, é cheio. Para o geômetra, é uma figu ra de revoluções
engend rada pela revolução de uma circunferência em torno de um eixo
situado em seu plano. A circunferência gira; no fim, você está envolvido
pelo toro. Acho até que ele foi chamado de bambolê. O que gostaria de
ressaltar aqui é que este toro - falo no sentido geométrico estrito do
termo, isto é, segundo a definição geométrica - é uma superfície de
revolução, é a superfície de revolução deste circulo em torno de um
ei_xo, e o que é engendrado é uma superfície fechada. Isso é importante
porque vem encontrar-se com algo que lhes anunciei, numa conferência
fora da série47 , em relação ao que lhes digo aqui, mas algo a que me
tenho referido desde então, ou seja, o acento que entendo pôr sobre a
superficie na função do sujeito. Hoje em dia é moda encarar quantidade
de espaços com multidões de dimensões. Devo dizer-lhes que, do ponto de
vista da reflexão matemática, pede-se que não se acredite nisso sem reservas.
Os filósofos, os bons, aqueles que deixam atrás de si um cheiro bom de giz,
como o Sr. Alain, dirão a vocês que já a terceira dimensão, ora, está bastante
claro que, do ponto de vista que eu avançava há pouco sobre o real, é
completamente suspeita. Em todo caso, para o sujeito duas bastam, acreditem­
me. Isso explica minhas reservas sobre o termo psicologia das profundezas

--
e não nos impedirá de dar um sentido a tal lermo .
...
/
I

, ... __r __ ....


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''

- 182-
Lição de 7 de março de 1962

Em todo caso, para o sujeito, tal como vou defini-lo, dizem vocês que
este ser infinitamente plano que fazia, penso, a alegria de suas aulas
de matemática, quando vocês estudavam filosofia, o sujeito infinitamente
plano, dizia o professor, como a classe era bagunceira, e eu mesmo o
era, não se ouvia tudo. É aqui, ora, oral É aqui que nós vamos avançar
no sujeito infinitamente plano, tal como o podemos conceber, se quisermos
dar o seu valor verdadeiro ao fato da identificação tal como Freud no-lo
promove. E isso terá ainda muitas vantagens, vocês verão, pois, enfim,
se é expressamente à superfície que lhes peço aqui de se referirem é
pelas propriedades topológicas que ela vai estar em condições de lhes
demonstrar. É uma boa superfície, vocês vêem, pois ela preserva, direi
necessariamente, ela não poderia ser a superfície que ela é se não
houvesse um interior. Conseqüentemente, tranqüilizem-se, não subtraio
a vocês nem ao volume, nem ao sólido, nem a este complemento de
espaço do qual vocês certamente têm necessidade, para respirar. Simplesmente
peço-lhes para observar que, se vocês não se proibirem de entrar nesse
interior, se vocês não consideram que meu modelo é feito para servir
no nível simplesmente das propriedades da superfície, vocês vão, posso
dizer, perder todo o sal disso, pois a vantagem dessa superfície está
justamente no que vou lhes mostrar de sua topologia, do que ela traz
de original, topologicamente, em relação, por exemplo, à esfera ou ao
plano. E, se vocês se puserem a trançar coisas no interior, a ter levado
linhas de um lado para o outro dessa superfície, quero dizer, contudo,
que ela tem a aparência de se opor a si mesma, vocês vão perder todas
as suas propriedades topológicas. De tais propriedades topológicas vocês
vão ver o nervo, o tempero e o sal. Consistem essencialmente numa
palavra suporte, que me permiti introduzir sob forma de adivinhação, na
conferência ele que falava, há pouco; e essa palavra, que não podia aparecer
a vocês, naquele momento, cm seu verdadeiro sentido, é o laço4H [lacs).
Vocês vêem que, à medida que avançamos, eu reino sobre minhas palavras;
durante um certo tempo, eu enchi os ouvidos de vocês com a lacuna,
agora lacuna se reduz a laço.
O toro tem essa vantagem considerável sobre uma superfície, todavia
bastante boa para se degustar que se chama esfera, ou simplesmente
plano, de não ser de forma alguma Umwelt quanto aos laços, quaisquer
que sejam. Laços é entrelaçamento, é lacis, que vocês podem traçar
em sua superfície. Dito de outro modo, vocês podem, sobre um toro,

- 183 -
A Identificação

assim como sobre qualquer outra superfície, fazer um pequeno círculo,


e depois, como se diz, por encolhimentos progressivos, vocês o reduzem
a nada, a um ponto. Observem que, qualquer que seja o laço que vocês
situam assim, em um plano ou na superfície de uma esfera, será sempre
possível reduzi-lo a um ponto, e tanto é que, como nos diz Kant, há
uma estética transcendental, acredito. Simplesmente creio que a dele,
Kant, não é correta, justamente porque é uma estética transcendental
de um espaço que não é espaço de início, e em segundo, onde tudo
repousa sobre a possibilidade da redução do que quer que seja traçado
à superfície, o que caracteriza essa estética, de maneira a poder se
reduzir a um ponto, de maneira que a totalidade da inclusão que define
o círculo possa reduzir-se à unidade evanescente de um ponto qualquer
em torno do qual ele se concentre, de um mundo cuja estética é tal
que, tudo podendo dobrar-se sobre tudo, se crê sempre poder ter o
tudo na palma da mão. Dito de outro modo, que o que quer que seja
que se desenhe ali, ei-;Lá-se em con<liçúei-; de produzir ali essa sorte <lc
colapso que, quando se tratar <le significância, se c hamará de t a u Lologia.
Tudo entrando em tudo, conseqüentemente o problema se coloca: como
pode acontecer que, com construções puramente analíticas, possa-se
chegar a desenvolver um edifício que faça tão bem concorrência ao
real, como as matemáticas?
Proponho que se admita que de uma maneira que sem dúvida comporta
um escamoteamento, algo de escondido que será preciso trazer, reencontrar
onde está, coloca-se que há uma estrutura topológica da qual se tratará
de demonstrar em que ela é necessariamente a do sujeito, estrutura
que comporta que haja alguns de seus laços que não possam ser reduzidos.
É todo o interesse do mod d o do meu toro. É que, como vocês vêem,
basta olhar para ele, há sobre esse toro um certo número de círculos
traçáveis; aquele, já que se fecharia em si mesmo, eu o chamarei, simples
questão de denominação, círculo pleno. Nenhuma hipótese sobre o que
está em seu interior, é uma simples etiqueta que acredito, Deus meu,
não ser pior que nenhuma outra, considerando-se tudo. Hesitei longamente,
quando falava a respeito com meu filho - porque não citá-lo? - poderíamos
chamar isso de círculo 1: ngcndrante, mas Deus sabe aonde isso nos
levaria ! Mas suponhamos, portanto, que toda enunciação dos métodos
que se chama de sintética - porque espantamo-nos especialmente com
isso, ainda que se possa enunciar, a priori; elas têm o aspecto, não se

- 184 -
Lição de 7 de março de 1962

sabe onde , não se sabe o quê , de conter alguma coisa, e é o que se


chama de intuição; e busca-se seu fundamento estético, transcendental
- suponhamos, pois, que toda enunciação sintética - há certo número
delas no princípio do sujeito e para constituí-lo - se desenrola segundo
um desses círculos, ditos círculos plenos e que é isso o que melhor nos
dá a imagem daquilo que, no giro dessa enunciação, é série irredutível.
Não vou limitar-me a esse simples gracejo, porque teria podido contentar­
me em tomar um cilindro infinito; depois, porque se isso se limitasse
ao que se disse, não haveria como ir mais longe. Metáfora intuitiva ,
geométrica, digamos. Cada um sabe a importância que tem toda a batalha
entre matemáticos: ela só se desencadeia em torno de elementos dessa
espécie. Poincaré e outros sustentam que há um elemento intuitivo
irredutível, e toda a escola dos axiomáticos pretende que podemos formalizar
inteiramente a partir de axiomas, de definições e de elementos, todo o
desenvolvimento das matemáticas, isto é, arrancá-lo a toda intuição
topológica. Felizmente, o Sr. Poincaré percebe muito bem que é na
topologia que se encontra o suco do elemento intuitivo, e que não se
pode resolvê-lo. E que, eu diria mais, fora da intuição não se pode
fazer essa ciência que se chama de topologia, não se pode começar a
articulá-la, porque é uma grande ciência.
Há grandes verdades primeiras que estão ligadas ao redor da construção
do toro, e vou fazê-los apreender alguma coisa: sobre uma esfera ou
sobre um plano, vocês sabem que se pode desenhar qualquer mapa,
por mais complicado que seja, que se chama de geográfico, e que, para
colorir seus domínios, de modo a permitir que não se confunda com
seu vizinho , bastam quatro cores. Se vocês encontrarem uma boa
demonstração dessa verdade verdadeiramente primeira, yocês poderão
levá-la a quem de direito, porque lhe darão um prêmio , já que a
demonstração até hoje ainda não foi encontrada. Sobre o toro, não é
experimentalmente que vocês verão, mas isso se demonstra: para resolver
o mesmo problema, são necessárias sete cores. Dito de outro modo,
sobre o toro vocês podem, com a ponta de um lápis , definir até sete
domínios, e nenhum a mais, sendo estes domínios definidos cada um
como tendo uma fronteira comum com os demais. Significa dizer que
se vocês tiverem um pouco de imaginação, para vê-los bem claramente,
vocês desenharão tais domínios hexagonalmente. É facílimo mostrar
que vocês podem , sobre o toro, desenhar sete hexágonos e nem um a

- 185 -
A Identificação

mais, cada um tendo com os demais uma fronteira comu111. Isso , cu


peço desculpas, é para dar um pouco de consistência a meu objeto.
Não é uma bolha, não é um sopro esse toro; vocês vêem como se pode
falar dele, ainda que inteiramente, como se diz na filosofia clássica,
como construção do espírito, ele tem toda a resistência de um real.
Sete domínios? Para a maioria de vocês, impossível. Enquanto eu não
o tiver demonstrado, vocês estão no direito de me opor esse impossível.
Por que não seis? Por que não oito?
Agora, continuemos. Não há apenas aquela argola que nos interessa
como irredutível. I lá outras que vocês podem desenhar na superfície
do toro e das quais a menor é o que podemos chamar de o mais interno
desses círculos, que chamaremos de círculos vazios. Eles dão a volta
em torno do buraco. Podemos fazer muitas coisas com ele. O que há de
certo é que ele é essencial, aparentemente. Agora que ele está ali,
vocês podem esvaziá-lo - o toro de vocês, como uma bóia - e colocá-lo
no bolso, pois não procede da natureza desse toro que ele seja bem
redondo, bem igual. O que importa é essa estrutura esburacada. Vocês
poderão enchê-lo novamente cada vez que tiverem necessidade, mas
ele pode, como a girafinha do pequeno Hans,
que fazia um nó com seu pescoço, torcer­
se. Há uma coisa que lhes quero mostrar
im ediatam ente. Se é verdade que a
enunciação sintética, enquanto ela se mantém
no um das voltas, na repetição desse um,
não lhes parece que isso vai ser fácil de
representar? Basta-me continuar o que eu
primeiramente desenhara em cheio, depois
cm pontilhados, isso vai dar uma bobina. Vejam,
portanto, a série elas voltas que fazem, na
repetição unária, com que o que volta seja o
que caracteriza o sujeito primário em sua relação
significante de automatismo de repetiç.io. Por
que não levar a bobinagem até o fim, até que
essa pequena serpente de bobina morda sua
própria cauda? Não é uma imagem a se estudar
como analista que existe sob a pluma do Sr.
]ones. O que se passa no final desse circuito?

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Lição de 7 de março de 1962

Ele se l'e elia. E11co1 1 lra111os, al iás, ali, a posslbllltlade de co11dllar o que há
suposto, de implicado e de último retorno, no sentido da Natunvissenschaft,
com o que sublinho concernente à função necessariamente unária do Todo.
Isso não lhes aparece aqui, tal como o represento para vocês, mas já
lá, no começo, e na medida em que o sujeito percorre a sucessão das
voltas, ele necessariamente se enganou de 1 na sua conta, e vemos
aqui reaparecer o - 1 inconsciente, em sua função constitutiva. Isso pela
simples razão de que a volta que ele não pode contar é a que ele fez ao
fazer a volta do toro, e vou ilustrá-lo para vocês de uma maneira importante,
através do que é próprio para in troduzi-los na função que vamos dar
aos dois tipos de laços irredutíveis, aqueles que são círculos plenos e
aqueles que são círculos vazios, dos quais vocês já adivinham que o
segundo deve ter alguma relação com a função do desejo. Pois, em relação
a essas voltas que se sucedem, sucessão de
círculos plenos, vocês devem perceber que
os círculos vazios, que estão de algum modo
presos nos anéis dessas argolas e que unem
entre si todos os círculos da demanda, deve
haver, bem aí, alguma coisa que tenha relação
com o objeto a , objeto da metonímia, enquanto
ele é esse objeto. Eu não disse que é o desejo
que está simbolizado por tais círculos, mas
o objeto, como tal, que se propõe ao desejo.
Isso para lhes mostrar a direção na qual
avançaremos em seguida. É apenas um
comecinho.
O ponto sobre o qual quero concluir, para
que vocês sintam que não há artifício algum
nessa espécie de volta saltada, que pareço
querer fazer passar para vocês, como que
por uma escamoteação, quero mostrá-lo a
vocês, an tes de deixá-los. Quero mostrá­
lo, an tes de deixá-los, a propósito de uma
só volta sobre o círculo pleno. Eu poderia
mostrá-lo fazendo um desenho no quadro­
negro. Posso traçar um círculo que esteja
de tal sorte pronto para dar a volta completa

- 187 -
A Identificação

em torno do toro. Ele vai passear no exterior do buraco central e depois


voltar pelo outro lado. Uma maneira melhor de fazer vocês sentirem
isso: vocês tomam o toro e uma tesoura, vocês cortam-no segundo um
dos círculos plenos - ei-lo aberto como um chouriço de duas pontas.
Retomem a tesoura e cortem ao comprido: ele pode abrir-se completamente
e estender-se. É uma superfície que é equivalente à do toro. Basta,
para isso , que a definamos assim : que cada uma de suas bordas opostas
tenha uma equivalência implicando a continuidade com um dos pontos
da borda oposta. O que acabo de desenhar sobre o toro desdobrado se
projeta assim.
Vejam como algo que não é mais do que um único laço vai apresentar­
se sobre o toro convenientemente cortado por esses dois golpes de tesoura.
E esse traço oblíquo define o que podemos chamar de uma terceira
espécie de círculo, mas que é justamente o círculo que nos interessa,
no que diz respeito a esse tipo de propriedade possível que tento articular
como estrutural do sujeito, que, ainda que ele tenha dado só uma volta,
ele simplesmente deu duas, a saber: a volta do círculo pleno do toro e
ao mesmo tempo a volta do círculo vazio; e que, assim, essa volta que
falta na conta é justamente isso que o sujeito inclui nas necessidades
de sua própria superficie de ser infinitamente plano, que a subjetividade
não poderia apreender senão por meio de um desvio : o desvio do Outro.
É para lhes mostrar como se pode imaginá-lo de uma maneira particularmente
exemplar, graças a esse artifício topológico, ao qual, não tenham dúvida,
concedo um pouco mais de peso que apenas um artífice, assim como, e
pela mesma razão, pois é a mesma coisa - que, ao responder a uma
pergunta que me fizeram em relação à raiz de - 1, tal como a introduzi
na função do sujeito:
"Será que ao articular a coisa assim", perguntaram-me, "você entende
manifestar outra coisa além de uma pura e simples simbolização, substituível
por qualquer outra, ou alguma coisa que se prenda mais radicalmente à
própria essência do sujeito?" " Sim", respondi, "é nesse sentido que é
necessário entender o que desenvolvi diante de vocês" e é o que me
proponho continuar a desenvolver, com a forma do toro.

- 188 -
LIÇÃO XIII
14 de março 1 962

No diálogo que empreendo com vocês, há forçosamente hiatus, saltus,


casus, ocasiões, para não falar do /atum. Dito de outro modo, ele é
cortado por diversas coisas, por exempl o : ontem à noite ouvimos a
interessante, a impo l'lal l le comunicação de Lag;achc na sessão científica
da Sociedade, sobre a sublimação. Esta manhã, eu ti11ha vontade de
retomar a partir daquele ponto, mas, por outro lado, domingo eu havia
partido de o utro ponto, quero dizer, de uma espécie de observação sobre
o caráter daquilo que se persegue aqui como investigação. É , evidentemente,
uma investigação condicionada por quê? Por enq uanto, por uma certa
perspectiva que chamarei de perspectiva de uma erótica. Considero
isso legítimo, não que sejamos por natureza essen cialmente destinados
a fazê-la quando estamos no caminho onde ela é exigida, quero dizer,
que estamos um pouco nesse caminho assim como aqueles que, no curso
dos séculos, meditaram sobre as condições da ciência estiveram no caminho
daquilo em que a ciência efetivamente tem êxito, donde minha referência
ao astronauta, que tem seu sentido, na medida em que aquilo em que
ela tinha êxito certamente não era forçosamente aquilo que ela esperava,
até um certo ponto, embora as fases de sua investigação estejam abolidas,
refutadas por seu êxi to. É certo que tem gente - empregamos esse Lermo
no sentido mais amplo, a menos que o empreguemos n um sentido
ligeiramente reduzido, o dos gentios, o que evidentemente deixaria aberta
a curiosa questão dos gentios defin idos em relação a x - vocês sabem
de onde parte essa definição de gentio - o que deixaria aberta a curiosa
questão de saber como acontece que os gentios representem, se posso

- 189 -
A Identificação

dizer, uma classe secundária no sentido cm que cu a entendia da última


vez: alguma coisa fundada numa certa acepção anterior. Apesar de tudo,
isso não seria ruim, pois, em tal perspectiva, os gentios são a cristandade,
e todos sabem que a cristandade, como tal, está numa relação no tória
com as dificuldades do erótico, a saber: que as querelas do cristão com
V ênus são, todavia, algo que é muito difícil desconhecer, ainda que se
finja tomar a coisa, se posso dizer, nas coxas.
De fato, se o fundo do cristianismo encontra-se na Revelação paulina,
ou seja, num determinado passo essencial dado nas relações com o pai,
se a relação de amor com o pai é o passo essencial disso, se ele representa
verdadeiramente a ultrapassagem de tudo o que a tradição semita inaugurou
de grande, nessa fundamental relação com o pai, nessa baraka49 originária
à qual é de toda forma dificil desconhecer que o pensamento de Freud
se ata, ainda que de uma maneira contraditória, maleditória [maledictoire]
- não podemos duvidar disso, pois, se a referência ao Édipo pode deixar
a questão aberta, o fato dele ter terminado seu discurso sobre Moisés,
como ele o fez, não deixa dúvidas de que o fundamento da Revelação
cristã está, pois, nessa relação da graça que Paulo faz suceder à Lei. A
dificuldade é que o cristão não se mantém - e não sem razão - à altura
da Revelação e que, entretanto, ele a vive numa sociedade tal que se
pode dizer que, mesmo reduzidos à forma mais leiga, seus princípios de
direito são, todavia, oriundos de um catecismo que não deixa de ter
relação com aquela Revelação paulina. No entanto, como a meditação
do Corpo místico não está ao alcance de cada um, fica aberto um vazio
que faz com que praticamente o cristão se ache reduzido a algo que não
é tão normal, fundamental, de não ter realmente nenhum outro acesso
ao gozo, como tal, senão fazendo amor. É o que chamo de suas querelas
com V ênus. Pois, bem entendido, com aquilo com que ele está colocado
nessa ordem, tudo se arranja muito mal no cômputo final.
Isto que digo é muito sensível, por exemplo, quando se sai dos limites
da cristandade, quando se vai às zonas dominadas pela aculturação
cristã, quero dizer não as zonas que foram convertidas ao cristianismo,
mas as que sofreram os efeitos da sociedade cristã . llei ele me lembrar
por muito tempo de uma longa conversa, tida numa noite de 1 94 7,
com alguém que era meu guia para uma viagem feita ao Egito. Era o
que se chama de um árabe. Era, naturalmente, por suas funções, e
também pela zona onde vivia, tudo o que há de mais incluso na nossa

-190-
Lição de 14 de março de 1962

cate�oria. Estava muito nítido, cm seu discurso, esse tipo de efeito de


promoção da questão erótica. Certamente, ele estava preparado, por
toda sorte de ressonâncias muito antigas de sua esfera, a pôr no primeiro
plano da questão da justificação da existência o seu gozo; mas, a maneira
como ele o encarnava na mulher tinha todas as caracteristicas em impasse
do que se pode imaginar de mais desnudado em nossa própria sociedade:
a exigência, em particular, de uma renovação de uma sucessão infinita,
devida ao caráter de sua natureza essencialmente não satisfatória do
objeto, era exatamente o que fazia o essencial, não apenas de seu discurso,·
mas de sua vida prática. Personagem, dir-se-ia num outro vocabulário,
essencialmente desarraigada às normas de sua tradição.
Quando se trata do erótico, o que devemos pensar de tais normas?
Dito de outro modo: estamos encarregados de dar, por exemplo. justificativa
à subsistência prática do casamen to como instituição através mesmo
de nossas transformações mais revolucionárias? Creio que não há
necessidade alguma de todo o esforço de um Westermarck para justificar,
através de toda sorte de argumen tos, de natureza ou da tradição, a
instituição do casamento, pois, simplesmente, ela se justifica por sua
persistência, que temos visto sob nossos olhos, e sob a forma mais
nitidamente marcada de traços pequeno-burgueses, através de uma
sociedade que, no início, acreditava poder ir mais longe no questionamento
das relações fundamentais, quero dizer, na sociedade comunista. Parece
muito certo que a necessidade do casamento sequer foi tocada pelos
efeitos dessa revolução. Será que, falando propriamente, esse é o domínio
ao qual somos levados a trazer a luz? Não o creio, em absoluto. As
necessidades do casamento, para nós, mostram ser um traço propriamente
social de nosso condicionamento; elas deixam completamente aberto
o problema das insatisfações que resultam, a saber, do conflito permanente
onde se encontra o sujeito humano, apenas por isso que ele é humano,
com os efeitos, as repercussões dessa lei do casamento.
O que é que nos dá testemunho disso? Muito simplesmente a existência
do que nós constatamos, desde que nos ocupamos do desejo, quero
dizer, que existe nas sociedades, sejam elas bem organizadas ou não,
que se façam nelas em maior ou menor abundância as construções
necessárias ao habitat dos indivíduos, constatamos a existência da neurose;
e não se vá pensar que lá onde as condições de vida são as mais

- 19 1 -
A Identificação

satisfatoriamente asseguradas, nem onde a tradição está mais assegurada,


a neurose seja mais rara. Longe de ser assim !
O que quer dizer a neurose? Qual é, para nós, a autoridade, se posso
dizer, da neurose? Isso não está simplesmente ligado à sua pura e simples
existência. A posição é demasiado fácil naqueles que, em tais casos,
atribuem seus efeitos a uma espécie de deslocamento da humana fraqueza.
Quero dizer que aquilo que se verifica, efetivamente, fraco na organização
social como tal, é lançado sobre o neurótico, do qual se diz que é um
inadaptado. Que provai Parece-me que o direito, a autoridade que deriva
do que temos a aprender do neurótico, é a estrutura que ele nos revela.
E, no fundo, aquilo que ele nos revela, a partir do momento em que
compreendemos que seu desejo é exatamente o mesmo que o nosso, e
não sem razão, o que, pouco a pouco, vem revelar a nosso estudo, o
que confere a dignidade ao neurótico, é que ele quer saber. E, de alguma
maneira, é ele quem introduz a psicanálise. O inventor da psicanálise
não é Freud, mas Anna O, como todos sabem, e, bem entendido, por
trás dela muitos outros, nós todos.
O neurótico quer saber o quê? Aqui, vou diminuir o ritmo do meu
discurso, para que vocês compreendem bem, pois cada palavra tem
importância. Ele quer saber o que há de real naquilo de que ele é a
paixão, ou seja, o que há de real no efeito do significante, o que supõe ,
é claro, que já avançamos suficientemente longe para sabermos que o
que se chama de desejo, no ser humano, é impensável a não ser dentro
dessa relação com o significante e os efeitos que ali se inscrevem. Esse
significante que ele mesmo é por sua posição, ou seja, enquanto neurose
viva, é - se vocês se reportarem a minha definição do significante - é,
aliás, inversamente o que a justifica, é que ela é aplicável, aquilo por
que esse criptograma que é uma neurose, o que o faz assim, o neurótico,
como tal um significante e nada mais, pois o sujeito a que ele serve
justamente está em outra parte : é o que chamamos de seu inconsciente.
E é por isso que ele é, segundo a definição que lhes dou, enquanto
neurose, um significante : é que ele representa um sujeito oculto. Mas
para quê? Para nada mais que um outro significante.
Que o que justifica o neurótico como tal, porquanto a análise - deixo
passar esse termo tomado emprestado do discurso de meu amigo Lagache,
ontem - o valoriza é porque sua neurose vem contribuir para o advento
desse discurso exigido por uma erótica enfim constituída. Ele,

- 1.92 -
Lição de 14 de março de 1962

evidentemente, nada sabe disso e não o procura. E nós também, só


temos de procurá-lo porque vocês estão aqui, isto é, para que eu lhes
esclareça sobre a significação da psicanálise em relação a este advento
exigido de uma erótica. Vale dizer, daquilo por meio do qual é pensável
que o ser humano faça também, nesse domínio - e por que não? -, a
mesma brecha e que, aliás, termine nesse instante bizarro do astronauta .r
dentro de sua carapaça. O que lhes permite pensar que não procuro
sequer entrever o que poderá dar uma erótica futura. O que há de
certo é que os únicos que sonharam convenientemente com isso, ou
seja, os poetas, sempre chegaram a construções muito estranhas. E, se
alguma prefiguração pode-se entreabrir nisso em que me demorei mais
longamente, os esboços que podem ser dados disso, em alguns pontos
paradoxais da tradição cristã, o amor cortês, por exemplo, foi para
ressaltar as singularidades absolutamente bizarras - de que os que foram
os ouvintes disso se lembram - de alguns sonetos de Arnault Daniel,
por exemplo, que nos abrem perspectivas bem curiosas sobre o que 1
representavam efetivamente as relações entre o enamorado e sua dama.
De forma alguma, isso é indigno da comparação com o que tento situar
como ponto extremo sobre os aspectos do astronauta. Obviamente, a ; ·
tentativa pode parecer-nos participar de alguma forma da mistificação
e, de resto, ela deu em nada. Mas ela é completamente esclarecedora
para nos situar, por exemplo, aquilo que se deve entender por sublimação.
Eu lembrei, ontem à noite, que a sublimação, no discurso de Freud, é
1

inseparável de uma contradição, ou seja, que o gozo, a perspectiva dq '


gozo, subsiste e é, num certo sentido, realizada em toda atividade de 1
sublimação. Que não há recalcamento, que não há apagamento, que
não há sequer compromisso com o gozo, que há paradoxo, que há desvio,
que é pelos caminhos aparentemente contrários ao gozo que o gozo é ,
obtido. Isso só é propriamente pensável porquanto, no gozo, o médium 1
que intervém, médium por onde é dado acesso a seu fundo que só
pode ser - eu lhes mostrei - a Coisa, que este médium também só pode
ser um significante. Donde esse estranho aspecto que toma, a nossos 1
olhos, a dama no amor cortês. Não conseguimos acreditar nisso porque ;
não podemos mais identificar, nesse ponto, um sujeito vivo com um
significante, uma pessoa que se chama Beatriz, com a sabedoria e com ·
o que era, para Dante, o conjunto, a totalidade do saber. Não está ,
completamente excluído, pela natureza das coisas, que Dante tenha .

- 193 -
A Identificação

efetivamente dormido com Beatriz. Isso não muda em nada o problema.


Queremos crer que não, mas isso não é fundamental na relação. Tendo
feito tais observações, o que define o neurótico? O neurótico se entrega
a uma curiosa retransformação daquilo de que ele sofre o efeito. O
neurótico, em suma, é um inocente: ele quer saber. Para saber, ele
parte na direção mais natural, e é naturalmente por isso mesmo que
ele é logrado. O neurótico quer retransformar o significante naquilo
de que ele é o signo. O neurótico não sabe, e não sem razão, que é
enquanto sujeito que ele fomentou isso: o advento do significante enquanto
o significante é o apagador50 principal da coisa; que é ele, o sujeito que,
ao apagar todos os traços da coisa, faz o significante. O neurótico quer
apagar esse apagamento, quer fazer com que isso não tenha acontecido.
Esse é o sentido mais profundo do comportamento sumário , exemplar,
do obsessivo. Aquilo sobre o qual ele volta sempre, sem jamais poder,
obviamente, abolir seu efeito - pois cada um de seus esforços para aboli­
lo só faz reforçá-lo - é fazer com que esse advento da função de significante
não se tenha produzido, que se encontre o que há de real na origem, a
saber, aquilo de quê tudo isso é signo. Isso, eu o deixo aqui indicado,
introduzido, para voltar mais tarde de uma forma generalizada e ao mesmo
tempo mais diversificada, ou seja, segundo as três espécies de neuroses:
fobia, histeria e obsessão, depois que eu tiver dado a volta à qual tal
preâmbulo está destinado a trazer-me de volta, em meu discurso.
Esse desvio, portanto, foi feito para situar, e justificar ao mesmo
tempo, a dupla perspectiva de nossa investigação, que é a que perseguimos ,
este ano, no terreno da identificação. Por mais extremamente metapsicológica
que nossa investigação possa parecer, a alguns, para não prossegui-la
exatamente sobre a mesma aresta onde a prosseguimos, porquanto a
análise só se concebe nessa perspectiva das mais escatológicas, se assim
posso exprimir-me, de uma erótica, mas impossível também sem manter,
ao menos num certo nível, a consciência do sentido dessa perspectiva
de fazer com conveniência na prática, o que vocês têm a fazer, isto é,
obviamente, não pregar uma erótica, mas se virar com o fato de que ,
mesmo entre as pessoas mais normais e no interior da aplicação plena
e inteira, e de boa vontade, das normas, bem ! Isso não funciona. Que
não apenas como La Rochfoucauld disse, "há bons casamentos, mas
não os há deHciosos " , podemos acrescentar que, desde então , tudo se
deteriorou um pouco mais, j á que não os há tampouco bons, digo, dentro

- 194 -
Lição de 14 de março de 1962

da perspectiva do desejo. Seria, todavia, um pouco inverossímil que


tais propósitos não possam ser postos no primeiro plano, numa assembléia
de analistas. Isso não faz de vocês os propagandistas de uma erótica
nova, isso lhes situa o que vocês têm a fazer em cada caso particular:
têm a fazer exatamente o que cada um tem a fazer para si e pelo motivo
que o leva a maior ou menor necessidade de sua ajuda, ou seja, aguardando
o astronauta da erótica futura, soluções artesanais.
Retomemos as coisas de onde as deixamos na última vez: no nível da
privação. Espero ter-me feito compreender, no que concerne a esse sujeito
enquanto o simbolizei por aquele - 1 , a volta, forçosamente não contada,
contada a menos na melhor hipótese, ou seja, quando deu a volta da volta,
a volta do toro. O fato de eu ter logo em seguida estendido o fio que relaciona
a função daquele - 1 ao fundamento lógico de toda possibilidade de uma
afirmação universal, ou seja, a possibilidade de fundar a exceção - e é
isso, aliás, que exige a regra: a exceção não confirma a regra, como se diz
gentilmente, ela a exige; é ela que é o verdadeiro princípio. Em suma,

ao traçar-lhes meu pequeno quadrante, isto é ao mostrar-lhes que a


única verdadeira segurança da afirmação universal é a exclusão de u m
traço negativo: não há homem que não seja mortal, posso ter provocado
uma confusão que entendo agora retificar, para que vocês saibam em
que terreno, a princípio, faço-os avançar. Eu lhes dava essa refertncta,
mas é claro que nilo se deve tomá-la como uma dedução do prpcesso
in teiro a partir do eimbólico. A p a rte vazia, onde não há nada t10 meu

- 195 -
A Identificação

quadrante, é preciso, nesse nível, ainda considerá-la como destacada.


O - 1, que é o sujeito nesse nível em si mesmo, não é de forma alguma
subjetivado, não se trata ainda, de forma alguma, de saber ou de não
saber. Para que alguma coisa da ordem desse advento aconteça, é necessário
que todo um ciclo seja fechado, ciclo do qual a privação é apenas, portanto,
o primeiro passo. A privação em questão é privação real, para a qual,
com o suporte da intuição, da qual vocês me concederão que eu possa
ter o direito, tudo o que faço aqui é seguir as próprias pegadas da tradição,
e a mais pura. Concede-se a Kant o essencial de seu procedimento, e
tal fundamento do esquematismo, procuro um melhor para tentar torná­
lo sensível a vocês, intuitivo. O mecanismo dessa privação real, eu o
forjei. É, portanto, somente depois de um longo desvio que pode advir,
para o sujeito, esse saber de sua rejeição original. Mas, daqui até lá,
digo-lhes logo em seguida, muitas coisas se passarão para que, quando
vier à luz, o sujeito saiba não apenas que esse saber o rejeita, mas que
esse saber, ele próprio, deve ser rejeitado, uma vez que ele se mostrará
estar sempre ou além ou aquém do que é necessário atingir, para a
realização do desejo. Dito de outro modo, se jamais o sujeito - o que é
seu objetivo desde o tempo de Parmênides - chega à identificação, à
afirmação de que é -ro au-ro, o mesmo, que pensar e ser, uoetu xat EtUat,
nesse momento aí ele próprio se encontrará irremediavelmente dividido
entre seu desejo e seu ideal. Isso, se posso dizer, está destinado a demonstrar
o que eu poderia chamar de estrutura objetiva do toro em questão.
Mas, por que me recusariam esse uso da palavra objetivo, já que é
clássico, no que concerne ao domínio das idéias, e ainda empregado
até Descartes?
No ponto, pois, em que estamos, e para não mais voltar a ele, aquilo
de que se trata de real é perfeitamente tocável, e só se trata disso. O
que nos levou à construção do toro, no ponto em que estamos, foi a
necessidade de definir cada uma das voltas com um um irredutivelmente
diferente. Para que isso seja real, a saber, que essa verdade simbólica,
já que ela supõe o cômputo, a contagem, seja fundada, se introduza no
mundo, é preciso e basta que algo tenha aparecido no real, que é o
traço unário. Compreender-se-á que, diante desse 1 , que é o que dá
toda sua realidade ao ideal - o ideal é tudo o que há de real no simbólico,
e basta - compreende-se que nas origens do pensamento, como se diz,
no tempo de Platão e em Platão, para não remontar mais longe, isso

- 196 -
Lição de 14 de março de 1962

tenha acarretado a adoração, a prosternação; o 1 era o bem, o belo, o


verdadeiro, o ser supremo. Aquilo em que consiste a inversão à qual',
somos solicitados a fazer frente, nessa ocasião, é apercebermo-nos que,,
por mais legítima que possa ser essa adoração, do ponto de vista de
uma elação afetiva, não é menos verdadeiro que o 1 nada mais é senão'
a realidade de um muito estúpido bastão. Só isso. O primeiro caçador, 1
eu lhes disse, que, sobre uma costela de antílope, fez um entalhe, para,
se lembrar simplesmente de que havia caçado 1 O vezes, 1 2 ou 13 vezes; ·
ele não sabia contar, observem, e é mesmo por causa disso que era'
necessário colocá-los, esses traços, para que as 1 0, 1 2 , 1 3 vezes não se·í
confundissem umas dentro das outras, como mereciam, todavia, ser1
confundidas. Portanto, no nível da privação de que se trata, enquanto
o sujeito é, de início, objetivamente, essa privação na coisa; essa privação1
que ele não sabe que é da volta não contada, é de lá que partimos, parar
compreender o que se passa. Temos outros elementos de informação1
para que daí ele venha a constituir-se como desejo, e que ele saiba a
relação que há dessa constituição com essa origem, enquanto ela pocle1
nos permitir começar a articular algumas relações simbólicas mais(
adequadas do que estas até aqui promovidas, no que concerne ao que1
é sua estrutura de desejo, ao sujeito. Isso não nos faz, de qualquer
forma, presumir o que se manterá da noção da função do sujeito, quando',
o tivermos posto em situação de desejo; é o que somos forçados a percorrer(
com ele, segundo um método que é tão somente o da experiência - é o
subtítulo da Fenomenologia, de Hegel: Wissenschaft der Erfahrung, ciência
1

da experiência - seguimos um caminho análogo, com os dados diferentes!


.

que são os que nos são oferecidos.


O passo seguinte está centrado - eu poderia, aqui, também não marcar,
com um título de capítulo, faço-o para fins didáticos - é aquele da'
frustração. É no nível da frustração que se introduz, com o Outro, a'
possibilidade, para o sujeito, de um novo passo essencial. O um da,
volta única, o um que distingue cada repetição em sua diferença absoluta,
não vem ao sujeito, mesmo se seu suporte nada mais é que o do bastão
real, não vem de céu algum, vem de uma experiência constituída, para 1
o sujeito do qual nos ocupamos, pela existência, antes que ele tenha1
nascido, do universo do discurso; pela necessidade que essa experiência
supõe, do lugar do Outro com o grande A, tal como anteriormente o'
defini. É aqui que o sujeito vai conquistar o essencial, o que chamei de '

- 197 -
A Identificação

segunda dimensão, uma vez que ela é função radical de sua própria
referência em sua estrutura, ainda que metaforicamente, mas não sem
pretender atingir, nessa metáfora, a própria estrutura da coisa, nós
chamamos de estrutura de toro essa segunda dimensão, já que ela constitui,
em meio a outras, a existência de laços irredutíveis a um ponto, de
laços não evanescentes. É no Outro que vem necessariamente se encarnar
essa irredutibilidade das duas dimensões, porque, se ela é, em algum
lugar, sensível, isso só pode ser - posto que, até o momento, o sujeito só
é sujeito porque fala - no domínio do simbólico. É na experiência do
simbólico que o sujeito deve encontrar a limitação de seus deslocamentos,
que lhe faz entrar em primeiro lugar na experiência, a ponta, se posso
dizer, o ângulo irredutível dessa duplicidade das duas dimensões. É
para isso que o esquematismo do toro vai-me servir ao máximo - vocês
vão ver - e a partir da experiência majorada pela psicanálise e pela
observação que ela desperta.
O sujeito pode empreender dizer o objeto de seu desejo. Ele só faz
isso mesmo. É mais que um ato de enunciação; é um ato de imaginação.
Isso suscita nele uma manobra da função imaginária, e, de um modo
necessário, essa função se revela presente, tão logo aparece a frustração.
Vocês sabem a importância, o acento que tenho posto, depois de outros,
depois sobretudo de Santo Agostinho, sobre o momento do despertar
da paixão ciumenta na constituição desse tipo de objeto que é o mesmo
que construímos como subjacente a cada uma de nossas satisfações: a
criancinha, presa da paixão ciumenta, diante de seu irmão que, para
ela, em imagem, faz surgir a posse desse objeto, o seio principalmente,
que até então foi apenas o objeto subjacente, elidido, mascarado para
ele por trás desse retorno de uma presença ligada a cada uma de suas
satisfações; que não foi - nesse ritmo em que se inscreveu, em que se
sente a necessidade de sua primeira dependência - senão o objeto
metonímico de cada um de seus retornos; ei-lo repentinamente produzido
para ele na claridade, nos efeitos para nós assinalados por sua palidez
mortal, a claridade dessa alguma coisa de nova que é o desejo. O desejo
do objeto como tal, uma vez que ele repercute até no próprio fundamento
do sujeito, que ele o abala bem além de sua constituição, como satisfeito
ou não, como repentinamente ameaçado no mais íntimo de seu ser,
como revelando sua falta fundamental, e isso na forma do Outro, como
trazendo à luz ao mesmo tempo a metonímia e a perda que ela condiciona.

- 198 -
Lição de 14 de- março de 1962

Essa dimensão de perda, essencial à metonímia, perda da coisa no objeto,


está aí o verdadeiro sentido dessa temática do objeto enquanto perdido
e jamais reencontrado, o mesmo que está no fundo do discurso freudiano,
e incessantemente repetido.
Um passo a mais: se levamos a metonímia mais longe, vocês sabem,
é a perda de alguma coisa de essencial na imagem, nessa metonímia
que se chama de Eu, nesse ponto de nascimento do desejo, nesse ponto
de palidez onde Santo Agostinho pára, diante do lactante, como faz
Freud, diante de seu neto, dezoito séculos mais tarde. É falsa a idéia de
que se pode dizer que o ser de quem tenho ciúmes, o irmão, é meu
semelhante. Ele é minha imagem, no sentido em que a imagem em
questão é imagem fundadora de meu desejo. Essa é a revelação imaginária,
e é o sentido e a função da frustração. Tudo isso já é conhecido. Tudo
o que faço é relembrá-lo, como segunda fonte da experiência, depois
da privação real, a frustração imaginária. Mas, como para a privação
real, tenho tentado, hoje, situar a vocês para que ela serve no termo
que nos interessa, ou seja, na fundação do simbólico, assim como estamos
aqui para ver como esta imagem fundadora, reveladora do desejo, vai
situar-se no simbólico.
Essa situação é difícil. Seria, bem entendido, completamente impossível,
se o simbólico não estivesse ali, se - como tenho lembrado, martelado
desde sempre e há tempo suficiente para que isso lhes entre na cabeça
- se o Outro e o discurso onde o sujeito tem de se situar não o esperassem
desde sempre, desde antes de seu nascimento, e que, pelo intermédio
ao menos de sua mãe, de sua lactante, se fala para ele. O princípio de
que se trata, este que é ao mesmo tempo o bê-á-bá, a infância de nossa
experiência, mas para além do qual, há algum tempo, não se sabia
mais avançar por falta justamente de saber formalizá-lo como bê-á-bá,
é este, a saber: o cruzamento, o intercâmbio ingênuo que se produz
pela dimensão do Outro entre o desejo e a demanda. Se há, vocês sabem,
algo a que se pode dizer que, desde o início, o neurótico foi pego, é
nessa armadilha; e ele tentará fazer passar na demanda o que é o objeto
de seu desejo, de obter do Outro não a satisfação de sua necessidade,
pela qual a demanda é feita, mas a satisfação de seu desejo, isto é, de
ter o objeto, isto é, precisamente o que não se pode demandar. E isso
está na origem do que se chama de dependência, nas relações do sujeito
com o Outro. Da mesma maneira, ele tentará, mais paradoxalmente

- 199 -
A Identificação

ainda, satisfazer pela conformação de seu desejo à demanda do Outro.


E não há outro sentido, sentido corretamente articulado, quero dizer,
para aquilo que é a descoberta da análise e de Freud, para a existência
do Superego como tal. Não há outra definição correta, digo, nenhuma
outra que permita escapar de deslizes que criam confusões.
Penso, sem ir mais longe, que as ressonâncias práticas, concretas de
todos os dias, ou seja, o impasse do neurótico, são em primeiro lugar e
antes de tudo o problema cios impasses de seu desejo, esse impasse
sensível a cada instante, grosseiramente sensível, e contra o qual a
gente o vê sempre chocar-se. É o que
exprimirei sumariamente, dizendo
que, para seu desejo, é-lhe necessária
a sanção de uma demanda. O que
vocês lhe negam, senão isto que ele
espera de vocês, que lhe peçam que
deseje congruentemente? Sem falar
do que ele espera de sua cônjuge,
de seus pais, de sua linhagem e de
todos os conformismos que o rodeiam.
O que é que isso nos permite construir
e perceber? Na medida em que a
demanda se renova, segundo as voltas
percorridas, segundo os círculos plenos,
bem em torno e os sucessivos retornos
de que necessita a revinda mais inserida
pelo laço da demanda, da necessidade,
suposto que, como lhes deixei ,"
,entender através de cada um de tais
, retornos, o que nos permite dizer que
o círculo elidido, o círculo que chamei simplesmente - para que vocês
vejam o que quero dizer, em relação ao toro - de círculo vazio, vem
aqui materializar o objeto metonímico sob todas as demandas. Uma
construção topológica é imaginável de um outro toro, que tem por propriedade
permitir-nos imaginar a aplicação do objeto de desejo, círculo interno
vazio do primeiro toro, sobre o círculo pleno do segundo que constitui
um anel, um desses laços irredutíveis. Inversamente, o circulo sobre o
primeiro toro, de uma demanda, �·cm aqui superpor-se no outro toro, o

-200 -
Lição de 14 de março de 1962

toro aqui suporte do outro, do outro imaginário da frustração, vem aqui


superpor-se ao círculo vazio deste toro, isto é, preencher a fu nção de
mostrar essa inversão : desejo num, demanda no outro; demanda de um,
desejo do outro, que é o nó onde se atravanca toda a dialética da frustração.
Essa dependência possível das duas topologias, a de um toro à do outro,
não exprime, em suma, nada além do que é o objetivo de nosso esquema,
uma vez que o fazemos suportar pelo toro. É que, se o espaço da intuição
kantiana, cu diria <leve, graças ao novo esquema que introduzimos, ser
posto entre parênteses, anulado, aufgehoben, como ilusório, porque a extensão
topológica do toro nos permite isso, só considerando as propriedades da
superfície, estamos certos da manutenção, da solidez, se posso dizer, do
volume do sistema, sem ter de recorrer à intuição da profundidade.
O que, vocês vêem, e o que isso representa é que, ao nos mantermos,
em toda a medida em que nossos hábitos intuitivos no-lo permitem, nesses
limites, resulta daí que, já que se trata apenas, entre as duas superfícies,
de uma substituição por aplicação biunívoca, ainda que ela esteja invertida,
a saber, que uma vez recortada, será nesse sentido sobre uma das superficies
e neste outro sobre a outra. Não é menos verdadeiro

1'
1
a'
- b '-+--_.
2'

que o que isso torna sensível é que, do ponto de vista do espaço exigido,
estes dois espaços [superflcies], o interior e o exterior, a partir do momento
em que nos recusamos a lhes dar outra substância que não topológica,
são os mesmos. É o que vocês verão expresso na frase [que o indica] já,
no relatório de Roma, o uso que eu contava fazer disso para vocês, a
saber, que a propriedade do anel, enquanto simboliza a função do sujeito

- 201 -
A Identificação

em suas relações com o Outro, se deve ao fato de que seu espaço interior
e o espaço exterior são os mesmos. O sujeito, a partir disso, constrói seu
espaço exterior sobre o modelo de irredutibilidade de seu espaço interior.
Mas, o que esse esquema mostra é, evidentemente, a carência de harmonia
ideal que poderia ser exigida do objeto à demanda,
da demanda ao objeto. Ilusão que está suficientemente A
demonstrada pela experiência, eu acho, para que
tenhamos sentido a necessidade de construir esse
modelo necessário de sua necessária discordância.
Conhecemos o princípio disso, e bem entendido, se
pareço avançar a passos muito lentos, acreditem­
2

me, nenhuma estagnação é demasiada se queremos


assegurar-nos dos passos seguintes.
O que já sabemos, e o que há aqui de representado
B
intuitivamente, é que o próprio objeto como tal,
enquanto objeto do desejo, é o efeito da
impossibilidade do Outro para responder à demanda.
É o que se vê aqui, manifestamente, nesse sentido,
é que à dita demanda, qualquer que seja seu desejo,
o Outro não poderia atendê-la, que ele deixa
forçosamente a descoberto a maior parte da e
estrutura. Dito de outro modo, que o sujeito não
é envolvido, como se acredita, no todo, que pelo
menos no nível do sujeito que fala, o Umwelt não
envolve seu Inncnwelt . Que se houvesse algo a
fazer, para imaginar o sujeito em relação à esfera
ideal, desde sempre o modelo intuitivo e mental
da estrutura de um cosmos, seria, preferencialmente, Alça
que o sujeito fosse, se posso permitir-me avançar,
explorar - mas vocês verão que há mais de um D
modo de o fazer - sua imagem intuitiva, seria
representar o sujeito pela existência de um buraco
na dita esfera e seu suplemento por duas suturas.
Suponhamos o sujeito a constituir sobre uma esfera
cósmica. A superficie de uma esfera infinita é um
plano: o plano do quadro-negro indefinidamente
Segunda sutura
prolongado. Eis o sujeito: um buraco quadrangular,

-202-
Lição de 1 4 de março de 1962

como a configuração geral de minha pele há pouco, mas dessa vez em


negativo. Eu costuro uma borda na outra, mas com a condição de que
são bordas opostas, que eu deixe livres as duas outras bordas. Resulta
disso a figura seguinte, a saber, com o vazio preenchido aqui, dois buracos
que permanecem na esfera de superfície infinita. Basta puxar cada
uma das bordas destes dois buracos para constituir o sujeito de superfície
infinita, como constituído , em suma , por isso que é sempre um toro,
mesmo se ele tem um alforje de raio infinito, a saber, uma alça emergindo
à superfície <lo plano. Eis o que isso quer dizer, ao máximo : a relação
do sujeito com o grande Todo. Veremos as aplicações que disso podemos
fazer.
O que é importante captar aqui é que, para esse recobrimenlo <lo
objeto à demanda, se o outro imaginário [é) assim constituído, na inversão
das funções do círculo do desejo com o da demanda, o Outro, para a
satisfação do desejo do sujeito, deve ser definido como sem poder. Insisto
sobre esse sem, pois, com ele, emerge uma nova forma de negação, na
qual se indicam, propriamente falando, os efeitos da frustração. Sem é
uma negação, mas não uma qualquer: é uma negação-ligação, que
materializa bem , na língua inglesa, a homologia conformista das duas
relações dos dois significantes: within e without . É uma exclusão lig.ada
que, já em si só, indica sua inversão. Um passo a mais, vamos dá-lo, é
o do não-sem. O Outro sem dúvida se introduz, na perspectiva ingênua
do desejo como sem poder, mas essencialmente o que o liga à estrutura
do desejo é o não-sem : ele também não é sem poder. É por isso que
esse Outro, que introduzimos enquanto metáfora do traço unário, isto
é, do que enconlramos em seu nível e que ele subslitui numa regressão
infinita, já que ele é o lugar em que se sucedem esses um diferentes
uns dos outros, dos quais o sujeito é apenas a metonímia, esse Outro
como um - e o jogo de palavras faz parte da fórmula que emprego aqui
para definir o modo sob o qual o introduzi - acha-se, uma vez fechada
a necessidade dos efeitos da frustração imaginária, como tendo esse
valor único, pois ele só não é sem , não-sem poder, ele está na origem
possível do desejo posto como condição, mesmo se tal condição fica
em suspenso. Por isso, ele é como não-t,1m ele dá ao - 1 do sujeito uma
outra função , que se encarna, antes de tudo , nessa dimensão que esse
como situa para vocês , como sendo o da metáfora. É nesse nível, no
nível do como não-um e de tudo o que vai ficar em seguida suspenso,

- 203 -
A Identificação

como o que chamei de condicionalidade absoluta do desejo, que nós


nos ocuparemos na próxima vez, isto é, no nível do terceiro termo, da
in trodução do ato de desejo como tal, de suas relações com o sujeito,
por um lado, à raiz desse poder, à rearticulação dos tempos desse poder,
na medida em que - vocês vêem - ser-me-á necessário voltar atrás
sobre o passo possível51 para marcar o caminho que foi cumprido na
introdução dos termos poder e sem-poder. É na medida em que teremos
que prosseguir essa dialética, na próxima vez, que paro aqui, por hoje.

- 204 -
LIÇÃO XIV
21 de março 1 962

Eu os deixei, da última vez, no nível desse abraço simbólico dos dois


toros, onde se encarna imaginariamente a relação de interversão, se se
pode dizer, vivida pelo neurótico, na medida sensível, clínica, onde vemos
que aparentemente, ao menos, é numa dependência da demanda do
Outro que ele tenta fundar, instituir seu desejo. Evidentemente, há aí
alguma coisa de fundada nessa estrutura que chamamos de estrutura do
sujeito, na medida em que ele fala, que é aquela para a qual fomentamos
para vocês essa topologia do toro, que nos parece fundamental. Ela tem
a função daquilo que se chama, em topologia, de grupo fundamental e,
afinal, será a pergunta para a qual será preciso que indiquemos uma
resposta. Espero que essa resposta, no momento em que for preciso dá­
la, já esteja de fato abundantemente delineada. Por que, se está aí a
estrutura fundamental, foi durante tão longo tempo e sempre tão
profundamente desconhecida pelo pensamento filosófico? Por que, se é
assim, a outra topologia, a da esfera, [é) que tradicionalmente parece
dominar toda a elaboração do pensamento, no que concerne à sua relação
com a coisa?
Retomemos as coisas onde as deixamos na última vez, e onde eu
indicava a vocês o que está implicado em nossa própria experiência:
há, nesse nó com o Outro, posto que ele nos é oferecido como uma
primeira aproximação sensível, talvez fácil demais - veremos que o é,
certamente - há, nesse nó com o Outro, tal como ele é aqui representado,
uma relação de engodo. Retornemos aqui ao atual, ao articulado dessa
relação com o Outro. Nós o conhecemos. Como não o conheceríamos,

- 205 -
A Identificação

quando somos cada dia o próprio suporte de sua pressão, na análise, e


quando o sujeito neurótico, com quem trabalhamos fundamentalmente,
se apresenta diante de nós exigindo de nós a resposta, isso mesmo se
nós lhe ensinamos o preço que há em suspender essa resposta? A resposta
sobre o quê? É justamente aí que se justifica o nosso esquema, uma
vez que ele nos mostra, um substituindo ao outro, desejo e demanda é
que, justamente, a resposta é sobre seu desejo e sobre sua satisfação.
Aquilo, sem dúvida, a que hoje serei quase limitado certamente pelo
tempo que me é dado, é em bem articular a quais coordenadas se suspende
essa demanda feita ao Outro, essa demanda de resposta, a qual especifica
em sua razão verdadeira, em sua razão última. junto a qual toda aproximação
é insuficiente, aquela que, em Freud, é designada como versagen, la
Versagung, o desdito, ou ainda a palavra enganosa, a ruptura de promessa,
enfim, a vanitas, enfim, da má palavra, e a ambigüidade - lembro-lhes
aqui - que une o termo blasfêmia àquilo que deu, através de toda sorte
de transformações, aliás, em si mesmas interessantes e valendo ser
seguidas, a desaprovação. Não avançarei mais nesse caminho. A relação
essencial da frustração - da qual nos ocupamos - com a palavra é o
ponto a sustentar, a manter, sempre radical, sem o qual nosso conceito
de frustração se degrada: ela degenera até reduzir-se ao defeito de
gratificação concernente ao que, em último termo, não pode mais ser
concebido senão como a necessidade. Ora, é impossível não se lembrar
do que o gênio de Freud nos assegura originalmente quanto à função
do desejo, aquilo de que ele partiu ao dar seus primeiros passos, deixemos
de lado as cartas a Fliess, comecemos pela Ciência dos Sonhos e não
nos esqueçamos de que Totem e tabu era seu livro preferido, e o que o
gênio de Freud nos assegura é o seguinte: que o desejo é fundamentalmente,
radicalmente estruturado por esse nó que se chama de Édipo, e de
onde é impossível eliminar esse nó interno que é o que tento sustentar
diante de vocês por estas figuras, esse nó interno que se chama de
Édipo, uma vez que ele é essencialmente o quê? Ele é essencialmente
o seguinte: uma relação entre uma demanda que toma um valor tão
privilegiado que se torna o comando absoluto, a lei, e um desejo que é
o desejo do Outro, do Outro de que se trata, no Édipo. Essa demanda
articula-se assim: tu não desejarás aquela que foi meu desejo. Ora, , é
isso que funda em sua estrutura o essencial, o ponto de partida da
verdade freudiana. E está aí, é a partir daí que todo desejo possível

- 206 -
Lição de 21 de março de 1962

está, de alguma maneira, obrigado a esse tipo de desvio irredutível,


esse algo semelhante à impossibilidade no toro da redução do laço sobre
certos círculos, que faz com que o desejo deva incluir em si o vazio,
esse buraco interno especificado na relação com a Lei original. Não
nos esqueçamos de que os passos, para fundar a relação primeira em
torno da qual - nós nos esquecemos demasiadamente disso - são para
Freud articuláveis, e apenas por elas, todas as Liebesbedingungen, todas
as determinações do amor, não nos esqueçamos dos passos que, na
dialética freudiana, isso exige: é a relação com o Outro, o pai assassinado,
além desse passamento [trépas] do assassinato oribrinal , que se constitui
essa forma suprema do amor. É o paradoxo, não de todo dissimulado,
mesmo se ele é elidido por esse véu nos olhos , que parece sempre
acompanhar a leitura de Freud. Esse tempo é ineliminável, que após o
assassinato do pai surge para ele mesmo - se isto não é suficientemente
explicado , é o bastante para que nós retenhamos disso o tempo como
essencial nisso que se pode chamar de estrutura mítica do Édipo -
esse amor supremo pelo pai, o qual faz justamente desse passamento
do assassinato original a condição de sua presença doravante absoluta.
A morte, em suma, desempenhando esse papel, manifestava-se c?mo
podendo apenas fixá-lo nesse tipo de realidade , sem dúvida a única
como absolutamente perdurável, de ser enquanto ausente. Não há nenhuma
outra fonte para o absolutismo do mandamento original.
Eis onde se constitui o campo comum no qual se institui o objeto do
desejo , na posição sem dúvida que nós lhe sabíamos já como necessário,
no nível unicamente imaginário, a saber, uma posição terceira. A única
dialética da relação com o outro enquanto transitivo, na relação imaginária
do estádio do espelho, vocês já tinham aprendido que constituía o objeto
do interesse humano como ligado a seu semelhante, o objeto a, aqui,
em relação a essa imagem que o inclui, que é a imagem do outro no
nível do estádio do espelho: i (a) . Mas esse interesse só é de algum
modo uma forma, é o objeto desse interesse neutro em torno do qual
mesmo toda a dialética da investigação do Sr. Piaget pode organizar-se,
pondo em primeiro plano essa relação que ele chama de reciprocidade,
que ele crê poder juntar a uma fórmula radical da relação lógica. É
dessa equivalência, dessa identificação com o outro como imaginário
que a ternariedade do surgimento do objeto se institui. É tão-somente
uma estrutura insuficiente, parcial e , portanto, que devemos encontrar

- 207 -
A Identificação

no final como dedutiva da instituição do objeto do desejo no nível em


que, aqui e hoje, o articulo para vocês. A relação com o Outro não é de
forma alguma essa relaçiín ; maginária, fundada sobre a especificidade
da forma genérica, posto que essa relação com o Outro ali está especificada
pela demanda, uma vez que ela faz surgir desse Outro, que é o Outro
com O maiúsculo, sua essencialidade, se posso dizer, na constituição
do sujeito, ou - para retomar a forma que se dá sempre ao verbo inter­
essar - sua inter-essencialidade com o sujeito. O campo do qual se
trata não poderia, pois, de modo algum ser reduzido ao campo da necessidade
e do objeto que, pela rivalidade de seus semelhantes, pode , em última
análise, impor-se, pois esta será ai a inclinação onde nós iremos encontrar
nosso recurso para a rivalidade derradeira: impor-se como objeto de
subsistência para o organismo. Esse outro campo, que nós definimos e
para o qual é feita nossa imagem do toro, é um outro campo, um campo
de significante, campo de conotação da presença e da ausência e onde
o objeto não é mais objeto de subsistência, mas de ex-sistência do sujeito.
Para chegar a demonstrá-lo, trata-se, exatamente, em último termo,
de um certo lugar de ex-sistência do sujeito necessário e que está aí a
função à qual é elevado, conduzido o objeto a da rivalidade primeira.
Temos, diante de nós, o caminho que nos resta a percorrer, desse cume
aonde levei vocês na última vez , do domínio do outro na instituição da
relação frustrante. A segunda parte do caminho deve conduzir-nos da
frustração a essa relação a definir, que constitui, como tal, o sujeito no
desejo, e vocês sabem que é somente aí que poderemos articular
convenientemente a castração. Portanto, só saberemos, em última análise,
o que quer dizer esse lugar de ex-sistência, quando o caminho tiver
terminado. Desde já, podemos, devemos mesmo lembrar, mas lembrar
aqui o filósofo menos introduzido em nossa experiência, esse ponto
singular, ao vê-lo tão amiúde esquivar-se de seu próprio discurso. É
que há uma questão , a saber, por que é necessário que o sujeito seja
representado - e digo no sentido freudiano - representado por um
representante representativo como excluído do próprio campo onde
ele tem de agir em relações digamos lewinianas com os outros como
indivíduos, que é preciso, no nível da estrutura, que consigamos dar
conta do porquê é preciso que ele seja representado em algum lugar
como excluído desse campo para aí intervir, nesse mesmo campo. Pois,
afinal, todo o raciocínio a que nos leva o psico-sociólogo, em sua definição

- 208 -
Lição de 21 de março de 1962

do que acabei de chamar de campo lewiniano, nunca se apresentam


senão com uma perfeita elisão dessa necessidade de que o sujeito esteja,
digamos, em dois lugares topologicamente definidos, isto é, nesse campo,
mas também essencialmente excluído desse campo, e que ele chegue a
articular alguma coisa, mas alguma coisa que se sustente. Tudo o que,
num pensamento da conduta do homem como observável, chega a se
definir como aprendizagem e, em último termo, objetivação da
aprendizagem, isto é, montagem, forma um discurso que se sustenta e
que até um certo ponto dã conta de uma multidão de coisas, salvo
disso: que efetivamente o sujeito funciona, não com esse emprego simples,
se posso dizer, mas num duplo emprego, no qual vale a pena que nos
detenhamos e que, por mais fugidio que ele se nos apresente, é sensível
de tantas maneiras que basta, se posso dizer, debruçar-se para recolher
as provas disso. Não é outra coisa que tento fazê-los sentir cada vez,
por exemplo, que incidentemente trago as armadilhas da dupla negação
e que o eu não saiba que eu queira não é entendido da mesma maneira,
penso, que eu sei que eu não quero.
Reflitam sobre esses pequenos problemas jamais esgotados, pois só
os lógicos da língua exercitam-se aí e seus balbucios são mais que instrutivos,
pois, tão freqüentemente quanto houver palavras que escoam e mesmo
escritores que deixem fluir as coisas na ponta de sua pluma como elas
se dizem, dir-se-ã a alguém - jã insisti nisso, mas nunca é demais retomar
- você não deixa de ignorar para lhe dizer você sabe bem, mesmo assim/
O duplo plano sobre o qual se representa isso é que isso funciona,
que alguém escreve assim e que aconteceu. Isso me foi lembrado
recentemente num desses textos de Prévert, dos quais Gide se admirava:
"Será que ele quis ironizar ou será que ele sabe bem o que escreve? n .
Ele não quis ironizar: isso escorreu- lhe da pluma. E toda a crítica dos
lógicos não farã com que nos advenha, por pouco que estejamos engajados
num verdadeiro diálogo com alguém, a saber, que se trate de uma maneira
qualquer de uma certa condição essencial a nossas relações com ele -
que é esta à qual penso chegar daqui a pouco - que é essencial que
alguma coisa entre nós se institua como ignorância, que eu deslizarei
a lhe dizer, por mais sãbio e purista que eu seja, você não é sem ignorar.
No mesmo dia em que eu lhes falava aqui, desviei-me de citar o que
acabava de ler no Le Canard Enchainé, no final de um desses trechos
de bravura que se publica sob a assinatura de André Ribaud, com o

- 209 -
A Identificação

título de A Corte: "Não há por que se eximir", num estilo pseudo-saint­


simoniano, assim como Balzac escrevia numa língua do século XVI
inteiramente inventada por ele, "de; uma certa dei;;conflança dos rois" .
Voei!& compreendem perfeitamente o que isso quer dizer. Tentom analisá­
lo logicamente e verão que isso diz exatamente o contrário daquilo que
vocês entenderam; e vocês estão inteiramente no direito de compreender
o que compreendem, porque está na estrutura do sujeito. O fato de as
duas negações que aqui se superpõem, não apenas não se anularem,
mas antes efetivamente se sustentarem, deve-se ao fato de uma duplicidade
topológica que faz com que o não há por que se eximir não se diga sobre
o mesmo plano, se posso dizer, em que se institui o alguma desconfiança
dos reis. A enunciação e o enunciado, como sempre, são perfeitamente
separáveis, mas aqui a hiãncia 52 entre eles brilha.
Se o toro, como tal, pode-nos servir, vocês verão, de ponte, confirma­
se já suficiente para nos mostrar em que consiste, uma vez passado no
mundo esse desdobramento, essa ambigüidade do sujeito, não seria
bom nesse ponto determo-nos sobre o que essa topologia comporta de
evidência, e antes de mais nada em nossa mais simples experiência,
quero dizer a do sujeito? Quando falamos de engajamento, serão necessários
grandes desvios, desses que aqui faço vocês ultrapassarem pelas necessidades
de nossa causa? Serão necessários grandes desvios, para os menos iniciados,
para evocar isso: que se engajar implica, já em si, a imagem do corredor,
a imagem de entrada e da saída e até um certo ponto a imagem da
saida atrás de si fechada, e que é mesmo nessa relação com esse fechar
a saida que o último termo da imagem do engajamento se revela? Muitos
desvios são ainda necessários? E toda a literatura que culmina na obra
de Kafka pode fazer-nos perceber que basta retornar aquilo que, parece,
na última vez, não desenhei suficientemente, ao mostrar-lhes essa forma
particular do toro, sob a forma de um alça destacada de um plano,
sendo que o plano só apresenta aqui o caso particular de uma esfera
infinita alargando um lado do toro. Basta fazer bascular essa imagem,
apresentá-la de barriga para cima e como o campo terrestre onde nós
nos debatemos, para nos mostrar a razão mesma onde o homem se
apresenta como o que ele foi, e talvez o que ele continua a ser: um
animal de toca, um animal de toro. Todas essas arquiteturas não são,
contudo, sem algo que deve reter-nos por suas afinidades com alguma
coisa que deve ir mais longe que a simples satisfação de uma necessidade;

.:.. 210-
Lição de 21 de março de 1962

por uma analogia que salta aos olhos que


ela é irredutível, impossível de se excluir
de tudo o que se ch ama para ele interior
e exterior e que um e outro desembocam
um sobre o outro e se comandam, o que
chamei há pouco de corredor, de galeria,
de subterrâneo. Memórias escritas do
subterrâneo, intitula Dostoievski esse ponto
extremo, onde ele detecta a palpitação de
sua questão última. Será que aí está alguma
coisa que se esgota na noção de instrumento
socialmente utilizável? Evidentemente, como
1 -----
1 , .,,. .....

nossos dois toros, a função de aglomerado


1

social e sua relação com as vias, enquanto ---<?'"-------�-· 1

sua anastomose simula algo que existe no


1
1

mais íntimo do organismo, é para nós um


1
1

objeto prefigurado de interrogação. Aquilo Pode m 1


1
1

que não é nosso privilégio, a formiga e o


cupim o conhecem; mas o texugo, de que
nos fala Kafka, em sua toca não é
precisamente um animal sociável. Que quer
dizer esse lembrete? É, para nós, no ponto
em que temos de avançar, que se essa relação
de estrutura é tão natural que, bastando
pensar nela nós encontramos, por toda parte
e muito longe, impregnadas suas raízes
na estrutura das coisas, o fato de que,
quando se trata de que o pensamento se
organiza, a relação do sujeito com o mundo,
ele o desconheça no curso das eras tão
abundantemente, levanta justamente a
questão de saber por que há aí, tão longe,
o recalque, digamos pelo menos, desconhecimento.
Isso nos traz de volta a nosso ponto de partida, que é o da relação
com o Outro, tal como a chamei, fundada sobre algum engodo que se
trata agora de articular em outra parte que não nessa relação natural,
posto que também vemos o quanto ele se esquiva do pensamento, o

- 21 1 -
A Identificação

quanto o pensamento o recusa. É de outro ponto que devemos partir e


da posição da questão ao Outro, da questão sobre seu desejo e sua
satisfação. Se há um engodo, ele deve decorrer, em algum ponto, daquilo
que chamei, há pouco, de duplicidade radical da posição do sujeito. E
é o que eu gostaria de fazê-los sentir, no nível próprio do significante,
tal como ele se especifica por duplicidade da posição subjetiva, e por
um instante pedir a vocês que me sigam em alguma coisa que se chama,
em último termo, a diferença pela qual o grafo ao qual, durante um
certo tempo de meu discurso, mantive vocês presos, é, para falar propriamente,
forjado. Essa diferença se chama de diferença entre a mensagem e a
questão. Esse grafo se inscreveria tão bem aqui.

Na própria hiância por onde o sujeito se liga duplamente ao plano do


discurso universal vou inscrever hoje os quatro pontos de confluência
que são aqueles gue vocês conhecem: A; s(A) , a significação da mensagem
en quan to é do retorno vindo do Outro, do significante que ali reside;
aqui $ < > D, a relação do sujeito com a demanda, enquanto aí se
especifica a pulsão, aqui o S(;() , o significante do Outro, uma vez que
o Outro, em último termo, só se pode formalizar, se significantizar enquanto
marcado ele próprio pelo significante, dito de outro modo, enquanto
ele nos impõe a renúncia a toda metalinguagem. A hiância que se trata
aqui de articular se suspende inteiramente na forma em que, no último
termo, esse pedido ao Outro que responda alterna, oscila numa seqüência
de retornos entre o nada pode ser e o pode ser nada. É aqui uma mensagem.
Ela se abre sobre o que nos apareceu como a abertura constituída pela
entrada de um sujeito no Real. Estamos, aqui, em relação com a elaboração
a mais certa do termo possibilidade: Moglichkeit . Não é do lado da coisa
que está o possível, mas do lado do sujeito. A mensagem se abre sobre o
termo da eventualidade constituída por uma espera na situação constituinte

- 212 -
Lição de 21 de março de 1962

do desejo, tal como nós tentamos aqui cingi-la. Pode ser, a possibilidade
é anterior a esse nominativo nada que, no extremo, toma valor de substituto
da positividade. É um ponto, e só isso, ponto final. O lugar do traço
unário está ali reservado no vazio que pode responder à espera do desejo.
É uma outra coisa diferente da questão, enquanto ela se articula
nada pode ser? Que o pode ser, no nível da demanda "o que é que eu
quero?", falando ao Outro, que o pode ser que vem aqui em posição
homóloga àquilo que no nível da mensagem constituía a resposta eventual.
Pode ser nada, é a primeira formulação da mensagem. Pode ser nada,
isso pode ser uma resposta, mas será a resposta à pergunta nada pode
ser? Justamente não! Aqui, o enunciativo nada, como colocando a
possibilidade do não-lugar53 de concluir, inicialmente, como anterior à
quota de existência, à potência de ser, esse enunciativo no nível da ,
questão toma todo seu valor de uma substantivação do nada da própria
questão. A frase nada pode ser se abre, por sua vez, sobre a probabilidade
de que nada a determina como questão, de que nada seja determinado,
de que continua possível que nada seja seguro, de que é possível que
não se possa concluir, a não ser pelo recurso à anterioridade infinita
do processo kafkiano, que haja pura subsistência da questão com a
impossibilidade de concluir. Só a eventualidade do Real permite determinar
alguma coisa, e a nominação do nada da pura subsistência da questão,
eis aquilo a que, no nível da própria questão, nos dedicamos. Pode ser
nada podia ser no nível da mensagem uma resposta, mas a mensagem
não era justamente uma questão. Nada pode ser, no nível da questão,
não dá senão uma metáfora, a saber, a potência de ser é do além. Toda
eventualidade já desapareceu ali, e toda subjetividade também.
Ilá apenas efeito de sentido, remessa do sentido ao sentido até o 1
infinito, exceto que para nós, analistas, já estamos habituados por experiência
a estruturar essa remessa em dois planos e que é isso que muda tudo,
a saber, que a metáfora para nós é condensação, o que quer dizer duas
cadeias e que ela faz, a metáfora, sua aparição de maneira inesperada,
bem no meio da mensagem, que ela se torna também mensagem no 1
meio da questão, que a questão família começa a se articular e que 1
surge no exato meio o milhão do milionário, que a irrupção da questão
na mensagem se faz nisso que nos é revelado, que a mensagem se manifesta
no exato meio da questão, que se esclarece no caminho onde somos
chamados à verdade, que é através de nossa questão de verdade, digo,

-213-
A Identificação

da própria questão e não na resposta à questão, que a mensagem se


esclarece. É, portanto, nesse ponto preciso, precioso pela articulação
da diferença entre enunciação e enunciado, que era necessário nos
determos um instante. Essa possibilidade do nada, se ela não é preservada,
é o que nos impede ver, malgrado esta onipresença que está no princípio
de toda articulação possível propriamente subjetiva, esta hiância que
está igualmente mui precisamente encarnada na passagem do signo ao
significante, onde vemos aparecer o que é que distingue o sujeito nessa
diferença.
É ele signo, afinal de contas, ou significante? Signo, signo de quê? É
justamente o signo de nada. Se o significante se define como representando
o sujeito junto a outro significante, remessa indefinida dos sentidos, e
se isso significa alguma coisa, é porque o significante significa, junto
do outro significante, essa coisa privilegiada que é o sujeito enquanto
nada. É aqui que nossa experiência nos permite pôr em relevo a necessidade
da via por onde se suporta nenhuma realidade na estrutura identificável,
enquanto ela é a que nos permite prosseguir nossa experiência. O Outro
não responde, portanto, nada, a não ser que nada é seguro, mas isso só
tem um sentido, é que há algu ma coisa da qual ele não quer saber
nada e muito precisamente dessa questão. Nesse nível, a impotência
do Outro se enraíza num impossível, que é exatamente o mesmo sobre
a via do qual nós já tínhamos conduzido a questão do sujeito. Não
possível era esse vazio onde vinha surgir, em seu valor divisório, o traço
unário. Aqui, vemos esse impossível tomar corpo e unir-se ao que vimos,
há pouco, ser definido por Freud da constituição do desejo na interdição
original. A impotência do Outro em responder se deve a um impasse, e
esse impasse nós o conhecemos: chama-se de limitação de seu saber.
Ele não sabia que estava morto, que ele só chegou a essa absolutidade
do Outro pela morte não aceita, mas sofrida, e sofrida pelo desejo do
sujeito. Disso o sujeito sabe, se posso dizer; que o Outro não deva sabê­
lo, que o Outro demanda não saber. Está aí a parte privilegiada nessas
duas demandas não confundidas, a do sujeito e a do Outro, é que justamente
o desejo se define como a intersecção daquilo que, nas duas demandas,
não é para ser dito. É somente a partir dai que se liberam as demandas
formuláveis por toda parte, menos no campo do desejo.
O desejo, assim, se constitui inicialmente, por sua natureza, como
aquilo que está escondido do Outro por estrutura. É o impossível ao

-" 214-
Lição de 21 de março de 1962

Outro justamente que se torna o desejo do sujeito. O desejo constitui-se


como a parte da demanda que está escondida do Outro. Esse Outro que
não garante nada, justamente enquanto Outro, enquanto lugar da palavra,
é aí que ele toma sua incidência edificante, ele torna-se o véu, a cobertura,
o princípio de ocultação do próprio lugar do desejo, e é aí que o objeto vai
se esconder. Que, se há uma existência que se constitui primeiramente, é
esta, e que ela substitui a existência do próprio sujeito, porque o sujeito,
enquanto suspenso ao Outro, fica igualmente suspenso ao fato de que, do
lado do Outro, nada está seguro, salvo justamente que ele esconde, que
ele cobre alguma coisa que é esse objeto, esse objeto que talvez ainda não
seja nada enquanto vai tornar-se o objeto do desejo. O objeto do desejo
existe como esse próprio nada, do qual o Outro não pode saber que é tudo
aquilo em que ele consiste. Esse nada, enquanto oculto ao Outro, toma
consistência, torna-se o invólucro de todo objeto diante do qual a própria
questão do sujeito estanca, na medida em que o sujeito torna-se, então,
apenas imaginário. A demanda é liberada da demanda do Outro, na medida
em que o sujeito exclui esse não-saber do Outro. Mas, há duas formas
possíveis de exclusão. Lavo minhas mãos quanto a você saber ou não saber,
e ajo. Você não deixa de ignorar quer dizer a que ponto eu pouco me
importo com que você saiba ou não. Mas há também a outra maneira, é
absolutamente necessário que você saiba, e é o caminho que o neurótico
escolhe, e é por isso que ele é, se posso dizer, designado antecipadamente
como vítima. A maneira certa para o neurótico resolver o problema desse
campo do desejo, enquanto constituído por esse campo central das demandas,
que justamente se recortam e por isso devem ser excluídas, é que ele acha
que a maneira correta é que você saiba. Se não fosse assim, ele não faria
psicanálise.
O que faz o homem dos ratos, ao levantar à noite, como Teodoro? Ele se
arrasta em pantufas, em direção ao corredor, para abrir a porta ao fantasma
de seu pai morto, para lhe mostrar o quê? Que ele está tendo uma ereção.
Não estará aí a revelação de uma conduta fundamental? O neurótico quer
que, por falta de poder, já que está assegurado que o Outro nada pode, que
ao menos ele saiba. Falei-lhes há pouco de engajamento; o neurótico,
contrariamente ao que se crê, é alguém que se engaja como sujeito. Ele se
fecha após a saída dupla da mensagem e da questão; ele próprio se põe em
balanço para decidir entre o nada pode ser e o pode ser nada, ele se põe
como real face ao Outro, isto é, como impossível. Sem dúvida, lhes parecerá

-215-
A Identificação

melhor saber como isso se produz. Não foi à-toa que hoje fiz surgir essa
imagem do Teodoro freudiano em sua exibição noturna e fantasmática, é
que há algum meio e, para melhor dizer, algum instrumento para essa incrivel
transmutação do objeto do desejo na existência do sujeito, e que é justamente
o falo. Mas isso está reservado para nosso próximo debate. Hoje, verifico
simplesmente que falo ou não, o neurótico chega ao campo como o que do
real se especifica como impossível.
Isso não é exaustivo, pois essa definição não poderá ser aplicada à
fobia. Só poderemos fazê-lo na próxima vez, mas podemos muito bem
aplicá-la ao obsessivo. Vocês não compreenderão nada do obsessivo se
não se lembrarem dessa dimensão que ele encarna, nisso que ele é a
mais, é, para ele, sua forma do impossível, e que, desde que ele tenta
sair de sua posição emboscada de objeto oculto, é preciso que ele seja
o objeto de lugar nenhum. Donde essa espécie de avidez quase feroz,
no obsessivo, de ser aquele que está por toda parte, para não estar
justamente em lugar nenhum. O gosto de ubiqüidade do obsessivo é
bem conhecido e, na falta dessa referência, vocês não compreenderão
nada na maior parte de seus comportamentos. A menor das coisas, já
que ele não pode estar em toda parte, é de estar, em todo caso, em
vários lugares ao mesmo tempo, isto é, que, em todo caso, em nenhum
lugar o possamos apreender. O histérico tem um outro modo, que é o
mesmo, evidentemente, uma vez que a raiz deste, embora menos fácil,
menos imediata à compreensão. O histérico também pode colocar-se
como real enquanto impossível, então seu truque é que esse impossível
subsistirá, se o Outro o admite como signo. O histérico se apresenta
como signo de alguma coisa em que o Outro poderia crer; mas, para
constituir esse signo ela é bem real, e é preciso a todo preço que esse
signo se imponha e marque o Outro.
Eis, pois, onde desemboca essa estrutura, essa dialética fundamental,
repousando inteiramente sobre a falência última do Outro enquanto
garantia do certo. A realidade do desejo ali se institui e toma lugar por
intermédio de algo de que jamais assinalaremos suficientemente o paradoxo,
a dimensão do oculto, isto é, a dimensão que é exatamente a mais
contraditória que o espírito possa construir, quando se trata da verdade.
O que há de mais natural que a introdução desse campo da verdade, se
não fosse a posição de um Outro onisciente? No ponto em que o filósofo
mais afiado, mais perspicaz, não pode fazer sustentar-se a própria dimensão

-216-
Lição de 21 de março de 1962

da verdade, senão ao supor que é essa ciência daquele que sabe tudo
que lhe permite sustentar-se. E, no entanto, nada da realidade do homem,
nada do que ele busca e do que ele segue se sustenta senão dessa dimensão
do oculto, uma vez que é ela que infere a garantia de que há um objeto
existente, sim, e que ela dá por reflexão essa dimensão do oculto. Afinal,
é ela que dá sua única consistência a essa outra problemática, a fonte de
toda fé, e da fé em Deus eminentemente, é bem o fato de nós nos deslocarmos
dentro da própria dimensão daquilo que, embora o milagre do fato de
que ele deva saber tudo lhe dê, cm suma, toda sua subsistência, nós
agimos como se sempre os nove décimos de nossas intenções fossem por
ele ignorados, ele não sabia nada disso. Nem uma palavra à Rainha­
mãe, tal é o principio sobre o qual toda constituição subjetiva se desdobra
e se desloca.
Será que não é possível que se conceba uma conduta na medida
desse verdadeiro estatuto do desejo, e será mesmo possível não nos
apercebermos de que nada, nem um passo de nossa conduta ética pode,
apesar da aparência, apesar da ladainha secular do moralista, sustentar­
se sem uma referência exata da função do desejo? Será possível que
nós nos contentemos com exemplos tão derrisórios quanto os de Kant
quando, para nos revelar a dimensão irredutível da razão prática, ele
nos dá, como exemplo, que o homem honesto, mesmo no cúmulo da
felicidade, não deixará de ter pelo menos um instante em que ponha
em balanço que ele renunciaria àquela felicidade para não lançar contra
a inocência um falso testemunho em benefício do tirano? Exemplo
absurdo, pois, na época em que vivemos, e também na de Kant, não
será que a questão não estará em outro ponto? Pois o justo vai hesitar,
sim, para saber se, para preservar sua família, ele deve ou não lançar
um falso testemunho. Mas o que quer isso dizer? Será que quer dizer
que, se ele dá chance através disso ao ódio do tirano contra o inocente,
ele poderia lançar um testemunho verdadeiro, denunciar seu companheiro
como judeu, quando ele o é de fato? Não será aí que começa a dimensão
moral, que não é saber qual o dever que temos de preencher ou não
face à verdade, nem se nossa conduta cai ou não sob o golpe da regra
universal, mas se nós devemos ou não satisfazer ao desejo do tirano?
Aí está a balança ética propriamente falando; e é nesse nível que, sem
fazer intervir nenhum dramatismo externo - não precisamos disso -
temos também de nos ocupar com aquilo que, no término da análise,

-217-
A Identificação

fica suspenso ao Outro. É enquanto a medida do desejo inconsciente,


no término da análise, permanece ainda implicada no lugar do Outro
que encarnamos, como analistas, que Freud, no término de sua obra,
pode marcar como irredutível o complexo de castração, como inassumível
pelo sujeito. Articularei isso na próxima sessão, fazendo força para lhes
deixar pelo menos entrever que uma justa definição da função do fantasma
e de sua assunção pelo sujeito nos permite, talvez, ir mais longe na
redução do que pareceu até aqui, à experiência, como uma frustração
última.

-218-
LIÇÃO XV
28 de março 1962

Para que nos serve a topologia dessa superfície, dessa superficie chamada
toro, se sua inflexão constituinte, isso que necessita essas voltas e mais
voltas é o que pode melhor nos sugerir a lei à qual o sujeito está submetido,
no processo de identificação? Isso, é claro, só poderá nos aparecer,
finalmente, quando tivermos realmente feito a volta de tudo o que ele
representa e até que ponto convém à dialética própria do sujeito, na
qualidade de dialética da identificação. A título, então, de referencial e
para que, quando eu ressaltar tal ou qual ponto, acentuar tal relevo,
vocês gravem, se posso dizer, a cada instante o grau de orientação, o
grau de pertinência em relação a um certo objetivo a ser alcançado do
que nesse momento eu adiantarei, eu lhes direi que, de certa maneira,
o que pode inscrever-se nesse toro, por mais que isso possa nos servir,
vai mais ou menos simbolizar-se assim, que essa forma, esses círculos
desenhados, essas letras pertencentes a cada um desses círculos vão
nos designá-lo imediatamente. O toro, sem dúvida, parece possuir um
valor privilegiado. Não acreditem que seja a única forma de superfície
não-esférica capaz de nos interessar. Eu não poderia encorajar demais
aqueles que têm por isso alguma inclinação, alguma facilidade, em
referir-se ao que se chama de topologia algébrica e às formas que ela
lhes propõe nesse algo que, se vocês quiserem, em relação à geometria

-219-
A Identificação

clássica, aquela que vocês guardam inscrita no íntimo, em conseqüência


de sua passagem pelo ensino secundário, apresenta-se exatamente na analogia
do que tento mostrar-lhes no plano simbólico, o que chamei de uma lógica
elástica, uma lógica flexível. Isso se manifesta ainda mais na geometria de
que se trata, pois esta, na topologia algébrica, apresenta-se ela mesma como
a geometria das figuras feitas de borracha. É possível que os autores façam
intervir essa borracha, esse rubber, como se diz em inglês, para bem colocar
no espírito do ouvinte de que se trata. Trata-se de figuras deformáveis e
que, através de todas as deformações, permanecem em relação constante.
Esse toro não é forçado a se apresentar, aqui, em sua forma mais plena.
Não creiam que, entre as superfícies que se definem, que se deve
definir, que são aquelas que nos interessam essencialmente, as superficies
fechadas, embora gue, em todo caso, o sujeito se apresente, ele mesmo,
como algo fechado, as superfícies fechadas, qualquer que seja seu talento,
vocês verão que existe todo um campo aberto às invenções mais exorbitantes.
Não creiam, aliás, que a imaginação presta-se de tão bom grado ao forjamento
dessas formas flexíveis, complexas, que se enrolam, se atam entre elas
mesmas. Vocês têm somente que tentar se tornar flexíveis à teoria dos
11<ís, para perceber o quanto j:í é difícil se representar as combinações
mais simples; isso ainda não lhes levara muito longe, já que demonstra­
se que, sobre toda superfície fechada, por mais complicada que ela seja,
vocês chegar:io sempre a reduzi-la, através de procedimentos apropriados,
a algo que nfw pode ir mais longe que uma esfera provida de alguns
apêndices, dentre os quais estão justamente os do toro, que se representam,.
como uma alça anexa, uma alça acrescentada a uma esfera, tal com
desenhei recentemente para vocês, no quadro, uma alça suficiente para
transformar a esfera e a alça num toro, do ponto de vista do valor topológico.
Logo, tudo pode se reduzir à adjunção da forma de uma esfera, com
um certo número de alças, mais um certo número de outras formas
eventuais. Espero que, na sessão antes das férias, eu possa iniciar-lhes
nessa forma que é bem engraçada - porém, quando penso que a maioria
de vocês aqui nem mesmo imagina a sua existência! É o que se chama,
em inglês, de cross-cap ou, o que se pode designar pela palavra francesa,
mitre.54 Enfim, suponham um toro que teria como propriedade, em
alguma parte do seu contorno, inverter sua superfície, quero dizer que,
num lugar que se situa aqui entre dois pontos A e B, a superfície exterior
atravessa.. . a superfície que está na frente atravessa a superfície que

-220-
Lição de 28 de março de 1962

está atrás, as superfícies se cruzam entre elas. Eu posso apenas aqui 1


indicá-lo a vocês. Isso tem propriedades muito curiosas e pode ser bastante
exemplar, embora, cm todo caso, é uma superfície que possui essa
1
propriedade de que a superfície externa, se querem, encontra-se em
continuidade com a face interna, passando ao interior do objeto, e então
pode voltar cm um só giro para o outro lado da superfície de onde ela 1

partiu. É a coisa mais fácil de fazer, da maneira mais simples, quando


você faz com uma tira de papel, o que consiste em prendê-la e torcê-la
de modo que sua borda seja colada à borda extrema estando revirada.
Você percebe que se trata de uma superfície que tem realmente uma 1
só face, no sentido de que algo que passeia por lá não encontra jamais,
num certo sentido, algum limite, que passa de um lado para o outro,
1

sem que você possa perceber, em nenhum instante, onde o passe de 1


mágica se realizou. Logo, aí existe a possibilidade sobre a superfície de.
uma esfera qualquer, como vindo para realizar, para simplificar uma
1
superfície, por mais complicada que seja, a possibilidade dessa forma
aí. Acrescentemos aí a possibilidade de buracos; vocês não podem ir
além, quer dizer que, por mais complicada que seja a superfície que1
voc(\s imaginem , quero dizer, por exemplo, que por mais complicada
que seja a superfície com a qual vocês tenham a ver, vocês não poderão'
nunca encontrar algo mais complicado que isso. De maneira que existe,
um certo natural cm se referir ao toro como a forma mais simples1
intuitivamente, a mais acessível.
Isso pode nos ensinar algo. A respeito disso, eu lhes falei da significação1
que podíamos dar, por convenção, artifício, a dois tipos de laços circulares,r
enquanto eles são privilegiados. Este que gira em torno do que se pode 1

chamar de círculo gerador do toro, se ele é um toro de revolução, na


medida em que é suscetível de repetir-se indefinidamente, de certa'
maneira o mesmo e sempre diferente. Ele é bem feito para representar,r
para nós, a insistência significativa e especialmente a insistência da1
demanda repetitiva. Por outro lado, o que está incluso nessa sucessão
de voltas, a saber, uma circularidade completa, embora inteiramente
desapercebida pelo sujeito, e que sucede nos oferecer uma simbolização1
passiva evidente e, de alguma forma, máxima quanto à sensibilidade,
intuitiva do que está incluso nos termos próprios do desejo inconsciente,
já que o sujeito segue as suas vias e os seus caminhos sem saber. Através
de todas essas demandas, é, de alguma forma, esse desejo inconsciente,·

-221 -
A Identificação

a metonímia de todas essas demandas. E


vocês vêem a í a encarnação viva dessas
referências às quais lhes tornei flexíveis,
habituados ao longo do m eu discurso ,
principalmente a o d a metáfora e d a
metonímia. Aqui, a metonímia encontra, de
algum modo, sua aplicação mais sensível,
como sendo manifestada pelo desejo, sendo
este o que nós articulamos como suposto
na sucessão de todas as demandas, enquanto
elas são repetitivas. Nós nos encontramos
em face de alguma coisa onde vocês vêem
que o círculo aqui descrito merece que
atribuamos a ele o símbolo D maiúsculo, ____
.... .,,
como símbolo da Demanda . Esse algo,
concernente ao círculo interior, deve estar
relacionado com o que chamarei de desejo
metonímico. Bem, há entre esses círculos, a prova que podemos fazer,
um círculo privilegiado que é fácil de descrever: é o círculo que, partindo
do exterior do toro, encontra o meio de fechar-se, não simplesmente
inserindo o toro na sua espessura de alça, não simplesmente ao passar
através do buraco central, mas ao circundar o buraco central sem, contudo,
passar pelo buraco central. Esse círculo aí tem o privilégio de fazer as
duas coisas ao mesmo tempo. Ele passa através e o circunda. Ele é ,
então, a soma desses dois círculos, quer dizer, ele representa D + d, a
soma da demanda e do desejo, e de algum modo nos permite simbolizar
a demanda com sua subjacência de desejo.
Qual é o interesse disso? O interesse é que, se chegamos a uma dialética
elementar, como a da oposição de duas demandas, se é no interior desse
mesmo toro que eu simbolizo por um outro círculo análogo a demanda
do outro, com o que ele vai comportar para nós de "ou. .. ou ... ", "ou o
que eu demando", ou o que tu demandas". Nós vemos isso todos os dias,
na vida cotidiana. Isso para lembrar que, nas condições privilegiadas,
no nível onde vamos procurá-la, interrogá-la na analise, é preciso que
nos lembremos disto, a saber, da ambigüidade que existe sempre no próprio
uso do termo ou, ou então, esse termo da disjunção, simbolizado em
lógica assim : A v B.

-222 -
Lição de 28 de março de 1962

Há dois usos desse ou . . . ou . . . Não é à toa que a lógica marcaria todos


os seus esforços e, se posso assim dizer, faz força para lhe conservar
todos os valores da ambigüidade, isto é, para mostrar a conexão de um
ou. . . ou. . . inclusivo com um ou. . . ou . . . exclusivo. Que o ou . . . ou . . . concernente,
por exemplo, a esses dois círculos pode q uerer significar duas coisas: a
escolha dentre um dos dois desses círculos. Porém isto quer dizer que
simplesmente quanto à posição do ou . . . ou . . . haja exclusão? Não. O
que vocês vêem é que o círculo no q ual vou in troduzir esse ou . . . ou . . .
comporta o que se chama d e in terseção, simbolizada n a lógica por n . A
relação do desejo com uma certa interseção, comportando certas leis,
não é simplesmente chamada para colocar no local, matter of fac t , o
que se pode chamar o contrato, o acordo das demandas; é considerando­
se a heterogeneidade profunda que existe entre esse campo [ l ) e aquele
[2] , suficientemente simbolizado por isto: aqui estamos frente ao fechamento
da superfície [ 1 ] , e aí, falando claramente, ao seu vazio interno. [2) É
isso que nos propõe um modelo que nos mostra que se trata de outra
coisa, e não de apreender a parte comum entre as demandas. Em outras
palavras, tratar-se-á, para nós, de saber em que medida essa forma pode
nos permitir simbolizar como tais os constituintes do desejo, na medida
em que o desejo , para o sujeito, é esse algo que ele tem que constituir
no caminho d a demanda. Desde já, mostro-lhes que há dois pon tos,
duas dimensões que podemos privilegiar, nesse círculo particularmente
significativo na topologia do toro: por um lado, é a distância que junta
o centro do vazio central com esse ponto que ocorre ser, que pode definir­
se como uma espécie de tangência, graças ao que um plano que corta o
toro vai nos permitir destacar, da maneira mais simples, esse círculo

-223 -
A Identificação

privilegiado. É isso que nos dará a definição, a medida do pequeno a


enquanto objeto do desejo. Por outro lado, na medida em que ele mesmo
seja localizável, definível apenas em relação ao próprio diâmetro desse
círculo excepcional, é no raio, na metade desse diâmetro, se vocês assim
o preferirem, que veremos o que é o princípio, a medida última da
relação do sujeito com o desejo, a saber, o pequeno <p como símbolo do
falo. Eis aqui cm que direção nós tendemos e o que tomará seu sentido,
sua aplicabilidade, e seu alcance, do caminho que teremos percorrido
antes, para nos permitir conseguir tornar para vocês flexível, sensível e
até certo ponto sugestivo de uma verdadeira intensidade estrutural, essa
imagem mesmo. Dito isto, está bem entendido que o sujeito, na tarefa
que nos ocupa, com esse parceiro que apela para nós, naquilo que
temos à nossa frente na forma desse apelo, e o que vem falar na nossa
frente, apenas o que se pode definir e escandir como o sujeito, apenas
isso se identifica. Vale a pena lembrá-lo porque, cm todo caso o pensamento
desliza facilmente. Por que, se não se colocam os pontos nos "is", porque
não se diria que a pulsão se identifica e que uma imagem se identifica?
Somente pode ser dito com justiça identificar-se, somente introduz-se
no pensamento de Freud o termo identificação, a partir do momento
cm que se pode, num grau qualquer, mesmo se não está articulado em
Freud, considerar como a dimensão do sujeito - não quer dizer que isso
não nos conduza muito mais longe que o sujeito - essa identificação. A
prova aí também - eu lhes lembro isso que não se pode saber se é nos
antecedentes, os primeiros, ou se é no futuro do meu discurso que o
aponto - é que a primeira forma de identificação, e essa à qual se faz
referência com tanta leveza, com psitacismo de papagaio, é a identificação
que, dizem-nos, incorpora, ou ainda - acrescentando uma confusão à
imprecisão da primeira fórmula - introjecta. Contentemo-nos com o
"incorpora", que é a melhor. Como começar por essa primeira forma de
identificação, já que nem a mínima indicação, nem a mínima referência,
senão vagamente metafórica, não lhes é dado numa tal fórmula sobre o
que isso pode, de fato, querer dizer? Ou então, se se fala de incorporação,
é porque deve se produzir alguma coisa no nível do corpo. Eu não sei
se poderei, este ano, conduzir as coisas tão longe - eu o espero mesmo
assim, temos tempo, diante de nós, para conseguir, vindo lá de onde
partimos, dar seu sentido pleno e seu sentido verdadeiro a essa incorporação
da primeira identificação.

-22 4 -
Lição de 28 de março de 1962

Vocês o verão, não há outro meio de fazê-la intervir, senão reunindo-


ª novamente por uma temática que j{i foi elaborada, e desde as tradições
mais antigas, míticas e mesmo religiosas, sob o termo "corpo místico" . '
Impossível não tomar as coisas na medida que vai da concepção semítica
primitiva: há algo do pai de sempre a todos os que descendem dele,
identidade de corpo. Porém, na outra extremidade, vocês sabem, há a
noçáo que acabo de chamar pelo seu nome, aquela de corpo místico, ,
enquanto é de um corpo que se constitui uma igreja. E não é a toa que
Freud, para nos definir a identidade do eu, nas suas relações com o que
ele chama, na ocasião, de Massenpsychologie, refere-se à corporeidade
da Igreja. Mas, como lhes fazer partir daí sem cair em confusões e acreditar ,
que, como o termo "místico" o indica suficientemente, é em caminhos
completamente diferentes que esses onde nossa experiência queria nos
arrastar. É apenas retroativamente, de algum modo, voltando às condições
necessárias da nossa experiência, que poderemos nos introduzir no que
nos sugere antecipadamente toda tentativa de abordar na sua plenitude
a realidade da identificação.
Portanto, a abordagem que escolhi, com a segunda forma de identificação,
não foi ao acaso; é por que essa identificação é apreensível, sob o modo
de abordagem pelo significante puro, pelo fato que nós podemos apreender
de uma maneira clara e racional uma via para entrar no que quer
dizer a identificação do sujeito, enquanto este faz surgir no mundo o
traço unário... antes, que o traço unário, uma vez destacado, faz aparecer ,
o sujeito como aquele que conta - no duplo sentido do termo. A amplitude
da ambigüidade que vocês podem dar a essa fórmula aquele que conta,
ativamente sem dúvida, mas também o que conta simplesmente na
realidade, o que conta verdadeiramente, evidentemente vai demorar a
encontrar-se na sua conta, exatamente o tempo que gastaremos para
percorrer tudo o que acabo de lhes indicar aqui - terá, para vocês, seu
sentido pleno. Shacl<leton e seus companheiros na Antártica, a várias
centenas de quilômetros da costa, exploradores entregues à maior frustração, ,
essa que não diz respeito somente às carências mais ou menos elucidadas,
naquele momento - porque é um texto escrito já há uns cinqüenta
anos - às carências mais ou menos elucidadas de uma alimentação '
especial que está ainda, nesse momento, em fase experimental, mas
que se pode dizer desorientados dentro de uma paisagem, se posso
dizer, ainda virgem, ainda não habitada pela imaginação humana, nos

- 22 5 -
A Identificação

trazem em notas bem singulares de se ler, que eles contavam sempre


um a mais do que eram, que eles não se reencontravam nessa conta:
"Nós nos perguntávamos sempre para onde tinha ido o ausente" , o
ausente que não faltava senão pelo fato de que todo esforço de conta
lhes sugeria sempre que havia um a mais, logo, um a menos. Vocês
tocam aí no aparecimento no estado nu do sujeito, que não é nada
mais do que isso, nada mais além da possibilidade de um significante a
mais, de um 1 a mais, graças ao qual ele constata por si próprio, que
existe um que falta. Se lhes lembro isso, é simplesmente para indicar,
numa dialética comportando os termos mais extremos, onde situamos
nosso caminho, e onde vocês poderão acreditar e às vezes se perguntar
mesmo se nós não esquecemos certas referências. Vocês podem mesmo,
por exemplo, se perguntar que relação existe entre o caminho que lhes
fiz percorrer e esses dois termos com os quais nós tivemos um contato,
nós temos contato constantemente, porém em momentos diferentes,
do Outro e da Coisa.
Claro, o sujeito, ele próprio, no último termo é destinado à Coisa,
mas sua lei, mais exatamente seu destino, é esse caminho que ele só
pode descrever através da passagem pelo Outro, enquanto o Outro é
marcado pelo significante. E é no aquém dessa passagem necessária
para o significante que se constituem como tais o desejo e seu objeto.
O aparecimento dessa dimensão do Outro e a emergência do sujeito,
eu não saberia lembrá-lo demais para lhes dar o sentido do que se trata
e cujo paradoxo, eu acho, deve ser suficientemente articulado nisso,
que o desejo, no sentido mais natural - entendam - eleve e apenas
pode constituir-se dentro da tensão criada por essa rcla<,:ão com o Outro,
a qual se origina no advento do traço unário - na medida em que,
primeiramente e para começar, ele apaga tudo da coisa - esse algo,
coisa bem diferente que esse um que foi, para sempre insubstituível. E
nós encontramos aí, desde o primeiro passo - ressalto-o para vocês de
passagem - a fórmula, aí termina a fórmula de Freud: onde estava a
Coisa, eu [Je] devo advir. Seria preciso substituir na origem: Wo es war,
da durch den Ein , de preferência por durch den Eins, aí, pelo um enquanto
um, o traço unário, werde Ich , tornar-se-á o eu [Je] . Tudo do caminho
é inteiramente traçado, a cada ponto do caminho.

· -226 -
Lição de 28 de março de 1962

Foi exatamente aí que tentei lhes deixar em suspenso na última vez,


mostrando-lhes o progresso necessário a esse instante, enquanto ele só
possa instituir-se pela dialética efetiva que se realiza na relação com o
Outro. Estou surpreso com a espécie de xeque-mate no qual pareceu­
me que minha articulação caía, articulação, entretanto, bem cuidada,
do nada pode ser e do pode ser nada . O que é preciso, então, para lhes
tornar sensíveis a isso? Talvez, meu texto justamente nesse ponto e a
especificação de sua distinção como mensagem e questão, depois, como
resposta, porém não no nível da questão, como suspensão da questão
no nível da questão, foi complexo demais para ser entendido facilmente
por aqueles que não anotaram os seus diversos contornos, a fim de
voltar a eles posteriormente. Por mais decepcionado que eu possa estar,
sou eu, inevitavelmente que estou errado. É por isso que volto a isso, e
para me fazer entender. Será que hoje, por exemplo, eu não lhes sugeriria
ao menos a necessidade de voltar novamente a isso? E, afinal de contas,
é simplesmente lhes perguntando: Vocês pensam que "nada de seguro",
como enunciação, pode lhes parecer prestar-se ao mínimo deslize, à
mínima ambigüidade com "certamente nada"? Contudo, não é parecido.
Existe a mesma diferença entre o nada pode ser e o pode ser nada. Eu
diria mesmo que existe no primeiro, no nada de seguro, a mesma virtude
de solapar a questão na origem que há no nada pode ser. E mesmo no
certamente nada existe a mesma virtude de resposta eventual, sem
dúvida, porém sempre antecipada em relação à questão, como é fácil
apreender, me parece, se eu lhes lembrar que é sempre antes de qualquer
questão e por razões de segurança, se assim posso dizer, que se aprende
a dizer, ao longo da vida, quando se é criança, certamente nada. Isso
quer dizer: certamente, nada além daquilo que já é esperado, isto é, o
que se pode considerar antecipadamente como redutível a zero, como o
laço. A virtude desangustiante do Erwartung, eis o que Freud sabe articular
para nós, na ocasião, nada senão o que já sabemos. Quando estamos
assim, estamos tranqüilos, porém não é sempre que estamos assim .
Portanto, o que nós vemos é que o sujeito, para encontrar a Coisa,
envereda, a princípio, na direção oposta, que não há meios de articular
esses primeiros passos do sujeito, senão por um nada que é importante
fazer-lhes senti-lo nessa dimensão mesma, ao mesmo tempo metafórica
e metonímica do primeiro jogo significante, por que, cada vez que nos
confrontamos com essa relação do sujeito com o nada, nós, analistas,

-227 -
A Identificação

escorregamos regularmente entre duas inclinações. A inclinação comum,


que tende em direção a um nada de destruição, é a inoportuna interpretação
da agressividade, considerada como puramente redutível ao poder biológico
de agressão, que não é, de maneira alguma, suficiente senão por degradação,
para suportar a ten dência ao nada, tal qual ela aparece num certo
estágio necessário do pensamento freudiano - justamente logo antes
de ele introduzir a identificação - com o instinto de morte. O outro é
uma nadificação que se assimilaria à negatividade hegeliana. O nada
que tento, para vocês, fazer proceder desse momento inicial na instituição
do sujeito, é outra coisa. O sujeito introduz o nada como tal e esse nada
é distinto de qualquer ser de razão, que é aquele da negatividade clássica,
de qualquer ser imaginário, que é aquele do ser impossível quanto à sua
existência, o famoso Centauro que detém os lógicos, todos os lógicos, e
mesmo os metafísicos, na entrada de seus caminhos em direção à ciência,
que também não é o ens privativum que é, propriamente falando, o que
Kant, admiravelmente, na definição dos seus quatro nadas, da qual ele
tira tão pouco partido, chama de nihil negativum, a saber, para empregar
seus próprios termos: leerer Gegenst and ohne Begriff, um objeto vazio,
porém acrescentemos, sem conceito, sem ser possível agarrá-lo com a
mão. É por isso, para introduzi-lo, q ue tive de recolocar, diante de vocês,
a rede de todo o grafo, a saber, a rede constitutiva da relação com o
Outro e todas as suas conexões.
Eu gostaria, para lhes conduzir nesse caminho, de ladrilhar essa via
com flores. Vou exercitar-me nisso hoje, quero dizer, marcar minhas
intenções. Quando lhes digo que é a partir da problemática do além da
demanda que o objeto se constitui como objeto do desejo ; quero dizer
que é porque o Outro não responde a não ser nada pode ser, que o pior
não é sempre certo, que o sujeito vai encontrar num objeto as próprias
virtudes de sua demanda inicial. Entendam que é para lhes ladrilhar a
via com 11ores que lhes lembro essas verdades de experiência comum,
da qual não se reconhece bastante a signi!icação, e tratar de lhes fazer
sentir que não é acaso, analogia, comparação, nem somente flores,
mas afinidades profun das que me farão lhes indicar a afinidade, por
fim, do objeto com esse Outro - com O maiúsculo - enquanto, por
exemplo, que ela se manifesta no amor, que o famoso trecho que Eliante,
no Misantropo, retomou do De natura rerum de Lucrécia :

- 228 -
Lição de 28 de março de 1962

"A pálida, em brancura, é comparada aos jasmins;


"A negra causa medo a uma morena adúrável;
"A magra tem estatura e liberdade;
"A gorda é, no seu porte, cheia de majestade;
"A suja, carregada de poucos atrativos;
"É conhecida pelo nome de beleza descuidada", etc.

Isso não é nada mais do que o signo impossível de se apagar, pelo


fato de que o objeto do desejo constitui-se apenas na relação com o
Outro, enquanto ele próprio se origina do valor do traço unário. Nenhum
privilégio no objeto, senão nesse valor absurdo dado a cada traço por
ser um privilégio.
O que falta ainda para lhes convencer da dependência estrutural
dessa constituição do objeto, objeto do desejo, em relação à dialética
inicial do significante, enquanto ela vem encalhar na não-resposta do
Outro? Senão o caminho já percorrido por nós da busca sadiana, que
longamente lhes mostrei - e se está perdido, saibam ao menos que me
empenhei a voltar a esse assunto, num prefácio que prometi a uma
edição de Sade - que nós não podemos desconhecer, com o que chamo
aqui de afinidade estruturante desse caminho cm direção ao Outro,
enquanto ele determina toda instituição do objeto do desejo, que vemos
em Sade, a cada instante, misturadas, entrançadas uma com a outra, a
invectiva - quero dizer a invectiva contra o Ser Supremo, sua negação
não sendo senão uma forma de invectiva, mesmo que isto seja sua
negação mais au têntica - absolutamente entrelaçadas com o que eu
chamaria, para aproximar, para abordá-la um pouco, não tanto de destruição
do objeto, mas o que poderíamos tomar inicialmente por seu simulacro,
porque vocês conhecem a excepcional resistência das vítimas do mito
sadiano, em todas as provas pelas quais as fazem passar o texto romanesco.
E depois, que quer dizer essa espécie de transferência para a mãe encarnada
na na tureza de uma certa e fundamental abominação de todos os seus
atos? Será que isso deve dissimular o que está cm questão e que não
nos dizem, entretanto: que se trata, imitando-o nos seus atos de destruição
e levando-os até o último limite, por uma vontade aplicada, de forçá-la
a recriar outra coisa, quer dizer o que? D .1r novamente lugar ao criador.
No final das contas, em última instância, Sade o disse sem saber, ele

- 229 -
A Identificação

articula isso por seu enunciado: eu te dou tua realidade abominável, a


ti, o Pai, substituindo-me a ti nessa ação violenta contra a mãe. Claro,
a restituição mítica do objeto ao nada não visa apenas à vítima privilegiada,
no final das contas adorada como objeto do desejo, porém a própria
multiplicidade de tudo aquilo que é. Lembrem-se das tramas anti-sociais
dos heróis de Sade, essa restituição do objeto ao nada simula essencialmente
a aniquilação da potência significante. Aí está o outro termo contraditório
dessa relação fundamental com o Outro, tal como ele se institui no
desejo sadiano, e ele é suficientemente mostrado no último desejo do
testamento de Sade, na medida em que visa precisamente a esse termo
que especifi quei para vocês como a segunda morte, a morte do próprio
ser, na medida cm que Sadc, no seu tcstamelllo, especifica, que do seu
túmulo e intencionalmente de sua memória, apesar de ser escritor,
não deve literalmente permanecer nenhum traço [pas de trace ] . E a
floresta deve ser reconstituída no local onde ele tiver sido sepultado.
Que dele, essencialmente, como sujeito, é o nenhum traço que indica
aí onde ele quer se afirmar : mui precisamente como o que chamei de
aniquilação da potência significante.
Se existe outra coisa que devo lhes lembrar, aqui, para escandir
suficientemente a legitimidade da inclusão necessária do objeto do desejo
nessa relação com o OUtro, na medida em que ele implica a marca do
significante como tal, eu a designarei a vocês menos cm Sade que num
de seus comentários recentes, contemporâneos, mais sensíveis e mesmo
os mais ilustres. Esse texto, que apareceu imediatamente após a guerra,
num número de Tempos Modernos, reeditado recentemente aos cuidados
do nosso amigo Jean-Jacques Pauvert, na nova edição da primeira versão
de Justine, é o prefácio de Paulhan. Um texto como aquele não pode
nos ser indiferente, na medida cm que vocês acompanhem, aqui, os
rodeios do meu discurso; porque é notável que seja pelas únicas vias de
um rigor retórico, vocês verão, que não há outro guia para o discurso
de Paulhan, o autor de Fleurs de Tarbes, a não ser o seu desembaraço
tão sutil, isto é, por essas vias, de tudo o que foi articulado até o momento
sobre o sujeito da significação do sadianismo, a saber, o que ele chama
de cumplicidade da imaginação sadiana com o seu objeto, isto é, a
visão do exterior, quero dizer pela aproximação que pode fazer disso
uma análise literal, a visão mais segura, mais estrita que se possa dar
da essência do masoquismo, do qual justamente ele não diz nada, a

_ - 230 -
Lição de 28 de março de 1962

não ser que ele nos faz sentir muito bem que está nessa via, que está aí
a última palavra do procedimento de Sade. Não para julgá-lo clinicamente
e, de alguma maneira, de fora onde, entretanto, o resultado se manifesta.
É difícil se oferecer mais a todos os maus tratos da sociedade do que
Sade o fez a cada minuto, porém não está aí o essencial, o essencial
estando suspenso nesse texto de Paulhan, que lhes peço para ler, que
não procede senão pelas vias de uma análise retórica do texto de Sade
para nos fazer sentir, apenas atrás de um véu, o ponto de convergência,
enquanto ele se situa nesse reviramento aparente fundado na mais
profunda cumplicidade com esse algo do qual a vítima é, no final das
contas, apenas o símbolo marcado por uma espécie de substância ausente
do ideal das vítimas sadianas. É enquanto objeto que o sujeilo sadia110
se anula.
Em que efetivamente ele reúne o que fenomenologicamente nos aparece
então nos textos de Masoch. A saber, que o fim, que o cúmulo do gozo
masoquista não reside tanto no fato que ele se oferece a suportar ou
não tal ou qual sofrimento corporal, porém nesse extremo singular que,
nos livros, vocês encontrarão sempre nos textos pequenos ou grandes
da fantasmagoria masoquista, essa anulação propriamente dita do sujeito,
na medida em que ele se torna puro objeto. Há apenas como fim o
momento onde o romance masoquista, qualquer que seja, chega a esse
ponto que, de fora, pode parecer tão supérfluo, e mesmo de Jloreios, de
luxo, que é, propriamente falando, que ele se forja a si próprio, esse
sujeito masoquista, como o objeto de uma transação comercial ou, mais
exatamente, de uma venda entre os dois outros que o transferem como
um bem. Bem venal e, observem, nem mesmo fetiche, porque o fim
último se indica pelo fato de que se trata de um bem vil, vendido por
pouco dinheiro, que não precisará nem mesmo ser preservado como o
escravo antigo que ao menos se constituía, se impunha ao respeito
pelo seu valor comercial.
Tudo isso, esses rodeios, esse caminho ladrilhado com as flores de
Tarbes precisamente, ou com as flores literárias, para lhes marcar bem
o que quero dizer, quando falo do que acentuei para vocês: a saber, a
perturbação profunda do gozo, na medida em que o gozo se define em
relação à Coisa, pela dimensão do Outro como tal, enquanto que essa
dimensão do Outro se define pela introdução do significante.

-231 -
A Identificação

Ainda três pequenos passos à frente, e deixarei para a próxima vez a


continuação desse discurso, com receio de que vocês não percebam
demais que fadiga gripal se abate sobre mim, hoje. Jones é um personagem
curioso, na história da análise. Com relação à história da análise, o
que ele impõe a meu espírito - eu lhes direi imediatamente, para continuar
com esse caminho de flores, de hoje - é qual diabólica vontade de
dissimulação podia bem haver em Freud, para ter confiado nesse astucioso
galês, como tal, com uma visão muito curta, para que ele não fosse
longe demais no trabalho que lhe era confiado, o zelo de sua própria
biografia. É aí, no artigo sobre o simbolismo, que consagrei à obra de
Jones - o que não significa simplesmente o desejo de concluir meu
artigo com uma piada - o que significa sobre o que eu concluí, isto é,
a comparação da atividade do astucioso galês com o trabalho do limpador
de chaminés. Com efeito, ele limpou muito bem todos os canos e poder­
se-á me fazer justiça que, no dito artigo, eu o acompanhei em todas os
rodeios da chaminé, até sair com ele, todo preto, pela porta que desemboca
no salão, como talvez vocês se lembrem. O que me valeu, da parte de
um outro eminente membro da Sociedade analítica, um dos que admiro
e gosto mais, galês tambén1 IWinnicot t ] . a certeza, numa carta, de que
ele não compreendia absolutamente nada da utilidade que eu acreditava
aparentemente encontrar nesse minucioso procedimento. Jones nunca
fez nada mais, na sua biografia, para marcar, ainda que um pouco,
suas distâncias, a não ser trazer uma luzinha exterior, como os pontos
onde a construção freudiana se encontra em desacordo, em contradição
com o evangelho darwiniano - o que é, de sua parte, simplesmente
uma manifestação propriamente grotesca de superioridade chauvinista.
Jones, então, no curso de uma obra da qual o encaminhamento é
apaixonante em razão de seus próprios desconhecimentos, a propósito
especialmente do estado fálico e de sua experiência excepcionalmente
abundante das homossexuais femininas, Jones encontra o paradoxo do
complexo de castração, que constitui certamente o melhor de tudo a
que ele aderiu - e bem fez em aderir - para articular sua experiência,
e onde literalmente ele nunca penetrou um tanto assim! [gesto com a
mão]. A prova é a introdução desse termo, certamente flexível, com a
condição de que se saiba o que fazer dele, por exemplo, que se saiba
localizar aí o que não pode ser para compreender a castração: o termo
aqiavlplç55 • Para definir o sentido do que posso chamar, sem nada forçar

- 232 -
Lição de 28 de março de 1962

aqui, do efeito de Édipo, Jones nos diz algo que não pode melhor se
situar no nosso discurso; aqui, ele acaba por compactuar, quer ele queira
ou não, com o fato de que o Outro, como articulei para vocês na última
vez, interdita o objeto ou o desejo. Meu ou é, ou parece ser, exclusivo.
Não exatamente: ou tu desejas o que eu desejei, eu, o Deus morto, e
não há mais outra prova - porém ela basta - da minha existência que
esse mandamento que te proíbe o objeto; ou, mais exatamente, que te
faz constituí-lo na dimensão do perdido. Tu não podes mais, por mais
que tu faças, senão encontrar um outro. jamais aquele. É a interpretação
mais inteligente que posso dar a esse passo que ]ones transpõe alegremente
- e, asseguro-lhes, veementemente. Quando se trata de marcar a entrada
dessas homossexuais no domínio sulfúreo que será, desde então, seu
habitat, ou o objeto, ou o desejo, eu lhes asseguro que isso não demora.
Se me detenho aí é para dar a essa escolha, vel . .. vel . . . , a melhor
interpretação, quer dizer que exagero, faço falar da melhor maneira
possível meu interlocutor. "Ou tu renuncias ao desejo", nos diz Jones,
quando se fala rapidamente, isso pode parecer evidente, mais ainda
porque e antes deram-nos a oportunidade do descanso da alma e ao
mesmo tempo da compreensão fácil, traduzindo-nos a castração como
a<pavtptç. Mas, o que quer dizer renunciar ao desejo? Será que é tão
sustentável, essa a<pavtcrtç do desejo, se nós lhe atribuímos essa função,
como em Jones, de sujeito de temor? Será que é mesmo concebível
primeiramente como experiência, no ponto onde Freud o faz entrar
em jogo numa das saídas possíveis, e eu concordo, exemplares do conflito
freudiano, esse do homossexual feminino? Observemos isso de perto.
Esse desejo que desaparece, ao qual, sujeito, tu renuncias, será que
nossa experiência não nos ensina que isso quer dizer que, desde então,
teu desejo vai estar tão bem escondido que, por um tempo, ele pode
parecer ausente? Digamos mesmo, à maneira de nossa superfície do
cross-cap, ou da mitra: ele se inverte na demanda. A demanda, aqui,
uma vez mais, recebe sua própria mensagem de forma invertida. Porém,
no final das contas, o que quer dizer esse desejo escondido? A não ser
o que nós chamamos e descobrimos, na experiência, como desejo recalcado?
Em todo caso, existe apenas uma coisa que sabemos muito bem que
não encontraremos nunca, no sujeito: é o medo do recalcamento como
tal, no próprio momento em que ele se opera, no seu instante. Se se
trata, na acpavtcrtç, de algo que concerne ao desejo, é arbitrário, dada a

- 233 -
A Identificação

maneira pela qual nossa experiência nos ensina a vê-lo se esquivar. É


impensável que um analista articule que, na consciência, possa se formar
algo que seria o temor do desaparecimento do desejo. Lá, onde o desejo
desaparece, isto é, no recalcamento, o sujeito está completamente incluso,
não separado desse desaparecimento. E nós o sabemos: a angústia, se
ela se produz, não vem nunca do desaparecimento do desejo, mas do
objeto que ele dissimula, da verdade do desejo, ou, se vocês preferirem,
daquilo que nós não sabemos do desejo do Outro. Toda interrogação da
consciência concernente ao desejo, como podendo desfalecer, só pode
ser cumplicidade. Conscius quer dizer, aliás, cúmplice, no que, aqui, a
etimologia retoma seu frescor na experiência e é por isso que lhes lembrei,
há pouco, no meu caminho ladrilhado de flores, a relação da ética sadiana
com o seu objeto. É o que chamamos de ambivalência, de ambigüidade,
a reversibilidade de certos pares pulsionais. Mas nisso nós não vemos -
para dizer simplesmente, isso desse equivalente que se reverte, que o
sujeito se torna objeto, e o objeto, sujeito - não apreendemos o verdadeiro
princípio que implica sempre essa referência ao grande Outro, onde
tudo isso faz sentido.
Então, a aq>avtcrtç, explicada como fonte da angústia no complexo de
castração é, propriamente falando, uma exclusão do problema; porque
a única questão que um teórico analista tem a se colocar aqui - compreende­
se muito bem que ele tenha, com efeito, uma questão a se colocar,
porque o complexo de castração permanece, até o presente momento,
uma realidade não completamente elucidada - a única pergunta que
ele tem a fazer a si próprio é aquela que parte desse fato feliz que,
graças a Freud, legou para ele a sua descoberta a um estágio bem mais
avançado que o ponto onde ele pode alcançar, como teórico da análise,
a questão é saber porque o instrumento do desejo, o falo, toma esse
valor tão decisivo. Por que é ele e não o desejo que está implicado
numa angústia, num temor do qual não é ainda assim vão, a propósito
do termo aq>avtcrtç, que tenhamos feito testemunho, para não esquecer
que toda angústia é angústia de nada, na medida em que é do nada
pode ser que o sujeito deve se proteger. O que quer dizer que, por um
tempo, é para ele a melhor hipótese: nada pode ser temido. Porque é aí
que surge a função do falo, aí onde, de fato, tudo seria sem ele tão fácil
de compreender, infelizmente de uma maneira completamente exterior
à experiência? Por que a coisa do falo, por que o falo vem como medida,

- 234 -
Lição de 28 de março de 1962

no momento em que trata-se de quê? Do vazio incluído no coração da


demanda, quer dizer, do além do Princípio do Prazer, cio que faz da
demanda sua repetição eterna, isto é, o que constitui a pulsão. Uma
vez mais, eis-nos trazidos a esse ponto que não ultrapassei hoje, em
que o desejo se constrói no caminho de uma questão que o ameaça e
que pertence ao domínio do "não ser"56, que vocês me permitirão introduzir
aqui com esse trocadilho.
Uma última reflexão foi-me sugerida, nesses dias, com a presentificação
sempre cotidiana da maneira pela qual convém articular decentemente,
e não somente gracejando, os princípios eternos da Igreja ou os desvios
vacilantes das diversas leis nacionais sobre o birth contrai. A saber,
que a primeira razão de ser, na qual nenhum legislador até hoje se
apoiou, para o nascimento de uma criança, é que se a deseja e que
nós, que conhecemos bem o papel disso - que ela foi ou não desejada -
em todo o desenvolvimento ulterior do sujeito, não parece que tenhamos
sentido a necessidade de lembrar, para introduzi-lo, fazê-lo sentir através
dessa discussão ébria, que oscila entre as necessidades utilitárias evidentes
de uma política demográfica e o temor angustiante - não o esqueçam -
das abominações que eventualmente o eugenismo nos prometeria. É um
primeiro passo, um pequeno passo, mas um passo essencial, e quanto, ao
colocá-lo à prova, vocês o verão, desempatando, que ao fazer observar a
relação constituinte, efetiva, em todo o destino futuro, supostamente a se
respeitar como o mistério essencial do ser que está por vir, que ele tenha
sido desejado e por que. Lembrem-se que ocorre freqüentemente que o
fundo do desejo de uma criança é simplesmente isso que ninguém diz:
"que ele sqja como nenhum, que ele seja minha maldição sobre o mundo".

- 235 -
LIÇAO XVI
04 de abril de I 962

Aqueles que, por diversas razões, pessoais ou não, se distinguiram


por sua ausência nessa reunião da Sociedade que se chama de provincial
vão sentir-se vítimas de um pequeno aparte; pois, por agora, é aos
outros que vou dirigir-me, já que é com eles que estou em dívida, pois
eu disse alguma coisa nesse pequeno congresso. Isso foi para defender
a parte que eles tomaram e isso não se deu em mim, devo dizê-lo, sem
recobrir certa insatisfação a respeito deles. É preciso, apesar de tudo,
filosofar um pouco sobre a natureza do que se chama de congresso. É,
em princípio, um desses tipos de encontro onde se fala, mas cada um
sabe que qualquer coisa que diga participa de alguma indecência, de
sorte que é bem natural que não se diga, ali, mais que nadas pomposos,
e cada um fica bem aparafusado no papel que se reservou. Não é bem
isso o que se passa no que chamamos, mais modestamente, de nossas
jornadas. Mas, desde há algum tempo, todos são modestos. Chama-se
isso de colóquio, encontro. Isso não muda nada ... No fundo da coisa,
continua sempre a ser um congresso. Há a questão das relações57 [rapportJ .
Parece-me que vale a pena que nos detenhamos nesse termo, porque,
finalmente, é bem interessante olhá-lo de perto: relação entre o quê,
ou mesmo, relação contra o quê? Como diz, o pequeno relator? Será
que é bem isso o que se quer dizer? Seria preciso ver. Em todo caso, se
a palavra relação é clara, quando se diz: "o relatório [rapport] do Sr.
Fulano de tal sobre a si tuação financeira", não se pode, apesar de tudo,
dizer que estamos à vontade para dar um sentido que deve ser análogo
a um termo como "relatório sobre a· angústia" , por exemplo. Vocês devem

- 237 -
A Identificação

reconhecer que é bastante curioso que se faça um relatório [rapport]


sobre a angústia, ou sobre poesia, aliás, ou sobre um certo número de
termos desse gênero. Espero, seja lá como for, que a estranheza da
coisa lhes apareça, e especifique não somente congressos de psicanalistas,
mas um certo numero de outros congressos, digamos, de filósofos em
geral. O termo rapport , devo dizer, faz hesitar; eu mesmo, durante
algum tempo, não hesitava em chamar de discurso o que se podia chamar
com termos análogos: " Discurso sobre a causalidade psíquica", por exemplo.
É precioso. Como todo o mundo, acabei vol tando a rapporl .
Contudo, esse termo e seu uso são f'e itps para l'azer com que vocês
coloquem justamente a questão do grau de conveniência com que se
mede essas relações estranhas com seus estranhos objetos. É certo que
há uma certa proporção de tais relações com um certo tipo constituinte
da questão ao qual elas se relacionam: o vazio que está no centro de
meu toro, por exemplo. Quando se trata da angústia ou do desejo, é
muito sensível. O que nos permitiria crer, compreender que o melhor
eco de significante que poderíamos ter do termo rapport dito científico,
no caso, seria a ser tomado com aquilo que se chama também de relação,
quando se trata da relação sexual. Uma e outra não deixam de ter
relação com a questão de que se trata, mas é bem assim.. É exatamente
aí que encontramos essa dimensão do n ão sem , enquanto fundadora
do próprio ponto em que nos introduzimos no desejo e na medida em
que o acesso do desejo exige que o sujeito não esteja sem tê-lo, ter o
quê ? Aí é que está toda a questão. Dito de outra maneira, que o acesso
ao desejo reside num fato, n esse fato de que a cobiça do ser dito humano
deva deprimir-se inauguralmente para se restaurar sobre os degraus
de uma potência, da qual a questão é saber do que ela é, mas sobretudo
saber em direção a que essa potência se esforça. Ora, aquilo em direção
ao qual ela se esforça visivelmente, sensivelmente, através de todas as
metamorfoses do desejo humano, parece que é em direção a algo sempre
mais sensível, mais precisado, que se apreende para nós como aquele
buraco central, aquela coisa, a qual é preciso cada vez mais contornar,
para que se trate desse desejo que conhecemos, esse desejo humano,
enquanto é cada vez mais informado.
Eis o que faz, portanto, até um certo ponto legítimo, com que a relação
deles, do relatório sobre a angústia em particular daquele outro dia, só
possa ter acesso à questão por não estar sem relação com a questão.

-238 -
Lição de 4 de abril de 1962

Isso não quer dizer que o sem, se posso dizer, deva preceder o não, dito
de outra maneira, que se creia um pouco demasiadamente fácil responder
ao vazio constitutivo do centro de um sujeito, por excessivo desnudamento
nos meios de sua abordagem. E aqui vocês me permitirão evocar o mito
da V irgem louca que, na tradição judaico-cristã, responde tão perfeitamente
ao da penia 58, da miséria, em O Banquete de Platão. A penia consegue
o que quer porque está a serviço de Vênus, mas isso não é forçado; a
imprevidência que simboliza a dita Virgem louca pode muito bem malograr
seu engravidamento.
Então, onde está o l i mite irnpcrdo,ível, nessa qucstüo - porque, enl"irn,
é bem disso que se trata, é do estilo daquilo que pode comunicar-se
num certo modo de comu1 1icac,:ão que temamos definir, aquele que me
força a voltar à angústia, aqui, não como pretexto para repreender,
nem dar lição àqueles que falaram disso, não sem falhas - limi te
evidentemente buscado, a partir do qual se pode fazer uma reprimenda
aos congressos em geral, por seus resultados. Onde se deve buscá-lo?
Já que falamos de algo que nos permite apreender o vazio quando se
trata, por exemplo, de falar do desejo; será que vamos buscá-lo nessa
espécie de pecado no desejo contra não sei que fogo da paixão, da paixão
da verdade, por exemplo, que é o modo no qual poderíamos designar
muito bem, por exemplo, uma certa postura, um certo estilo: a postura
universitária, por exemplo? Isso seria cômodo demais, seria fácil demais.
Não vou, evidentemente, aqui, parodiar sobre o famoso rugido do vômito
do Eterno diante de uma tepidez qualquer; um certo calor desemboca
também muito bem - é sabido - na esterilidade. E n a verdade, nossa
moral, uma moralidade que já se sustenta muito bem, a moral cristã, diz
que não há mais que um só pecado: o pecado contra o Espírito.
Ora, quanto a nós, diremos que não há pecado contra o desejo, assim
como não há temor da (jlavtcni;, tal como entende M. Jones. Não podemos
dizer que, em nenhum caso, possamos repreender-nos de não desejar
suficientemente. Só há uma coisa - e quanto a isso nada podemos - só
há uma coisa a se temer : é essa obtusão em reconhecer a curva própria
do processamento desse ser infinitamente plano, do qual lhes demonstro
a propulsão necessária sobre esse objeto fechado que chamo aqui de
toro, que, a bem dizer, é apenas a forma, a mais inocente, que a dita
curvatura pode tomar - já que, em tal outra forma, que não é menos
possível, nem menos difundida - ele está na própria estrutura de tais

- 239 -
A Identificação

formas, às q uais pude introduzir vocês n a última sessão, que o sujeito,


ao se deslocar, se encontra com a sua esquerda no lugar da direita e isso
sem saber como tal pôde acontecer, como isso se fez. Isso, a essa altura,
todos aqueles que aqui me escutam nada têm, a esse respeito, de privilegiados;
até um certo ponto, direi que eu também não; isso pode me acontecer,
tan to quanto aos ou tros. A única diferença entre eles e eu, até o presente,
parece-me, residia apenas no trabalho que dedico a isso, uma vez que
invisto nisso um pouq uinho mais do que eles.
Posso dizer que n u m certo número de coisas que foram avançadas
sobre um assunto q ue, provavelmente, ainda n ão abordei, a angústia,
não é isso o q ue me faz decidir anunciar a vocês que será o tema do
. meu seminário do ano que vem, se o século nos permitir que haja um
seminário. Sobre esse assunto da angústia tenho ouvido muitas coisas
estran has, coisas aventuradas, nem todas erradas e que n ão terei que
retomar, dirigindo-me especificamente a esta ou aquela, a u m a ou outra.
Parece-me, entretanto, que o que se revelou ali, uma certa falência, era
bem a de um cen tro e de forma alguma de natureza a recobrir o que
chamo de o vazio do ce1 1 lro. De toda f'orrna , alguns propósitos de meu
último seminário deveriam ter posto vocês em guarda quanto aos pontos
mais vivos; e é por isso que me parece também legítimo abordar a questão
sob este prisma , hoje, já que isso se encadeia exatamente no discurso de
oito dias atrás. Não foi à-toa que sublinhei tudo aquilo, que lembrei a
distância que separa, em nossas coordenadas fundamentais, estas em
que se devem inserir nossos teoremas sobre a identificação este ano,
sobre a distância que separa o Outro da Coisa, nem tampouco que, em
termos próprios, acreditei ter de apontar-lhes a relação da angústia com
o desejo do Outro. Na falta de verdadeiramente partir dali, de se enganchar
a isso como a uma sorte de alça firme e por só ter dado voltas em círculos,
nfw sei por qual pudor, isso verdadeiramente em alguns momentos, direi
quase todo o tempo, e m esmo naquelas relações de que falei, relações
com não sei quê, que se liga a esse tipo de falta que não é o bom, até
nessas relações, assim mesmo, vocês podem conotar à margem esse não
sei q uê, que era sempre a convergência, impondo-se com uma espécie
de orientação de agulha, de bússola, que o único termo que podia dar
uma unidade a essa espécie de movimento de oscilação, em torno do
q ual a questão tremia, era esse termo: a relação da angústia com o desejo
do Ou tro. E é isso que eu queria . . . pois seria falso , vão, mas não sem

- 240 -
Lição de 4 de abril de 1962

risco, de não marcar aqui algo de passagem que possa ser como um germe,
para impedir tudo o que se tem dito, sem dúvida de interessante, no
decorrer das horas dessa pequena reunião onde coisas cada vez mais
acentuadas vinham enunciar-se, para que isso não se dissipe, para que
isso se ligue a nosso trabalho, permitam-me tentar, aqui, muito grosseiramente,
como à margem e quase em antecipação, mas não também sem uma
pertinência de pontos exatos, no ponto a que havíamos chegado, de pontuar
um certo número de indicações primeiras. É a referência que não deveria,
em momento algum, fazer falta a vocês.
Se o fato de que o gozo, enquanto gozo da Coisa, é proibido em seu
acesso fundamental, se é isso o que lhes disse durante todo o ano do
seminário sobre A Élica, se é nessa suspensão, no fato de ele estar, este
gozo, aufgelz oben , suspenso, propriamente, que jaz o plano de apoio
onde vai-se constituir como tal e se sustentar o desejo - isso é, na
verdade, a aproximação mais longínqua de tudo o que o mundo pode
dizer - vocês não vêm que podemos formular que o Outro, esse Outro
enquan to, a um só tempo, ele se apresenta ser e que não é, que ele está
para ser, o Outro aqui, quando avançamos em direção ao desejo, nós
vemos bem que, enquanto seu suporte é o significante puro, o significante
da lei, que o Outro se apresenta aqui como metáfora dessa interdição.
Dizer que o Outro é a lei ou que é o gozo enquanto proibido, é a mesma
coisa. Então, alerta àquele - que, aliás, não está aqui hoje - que da
angústia fez o suporte e o signo e o espasmo do gozo de um si identificado,
identificado exatamente como se ele não fosse meu aluno, com esse
fundo inefável da pulsão como do coração, do centro, do ser justamente
onde não há nada. Ora, tudo o que lhes ensino sobre a pulsão é justamente
que ela não se confunde com este si mítico, que ela nada tem a ver
com o que dela se faz dentro de uma perspectivajunguiana. Evidentemente,
não é comum se dizer que a angústia é o gozo daquilo que se poderia
chamar de último fundo de seu próprio inconsciente. É a isso que se
referia esse discurso. Não é comum, e não é porque não é comum que
é verdadeiro. É um extremo ao qual pode-se ser levado quando se está
dentro de um certo erro que repousa inteiramente sobre a elisão da
relação do Outro com a Coisa, enquanto an tinômica. O Outro está
para ser, ele ainda não é. Ele tem, ainda assim, alguma realidade, sem
isso eu não poderia sequer defini-lo como o lugar onde se desdobra a
cadeia significante. O único Outro real, já que não há nenhum Outro

- 241 -
A Identificação

do Outro, nada que garanta a verdade da lei, sendo o único Outro real
aquilo de que se poderia gozar, sem a lei. Essa virtualidade define o
Outro como lugar. A Coisa, em suma, elidida, reduzida a seu lugar, eis
ai o Outro com O maiúsculo.
E vou ser bem rápido sobre o que tenho a dizer a propósito da angústia.
Isso passa, eu já lhes anunciara, pelo desejo do Outro. Então, é aí que
nós estamos, com o nosso toro, e é aí que devemos defini-lo passo a
passo. É aí que farei um primeiro percurso, um pouco depressa demais ;
isso nunca é ruim, porque se pode voltar atrás. Primeira abordagem:
vamos dizer que essa relação que arliculo, dizendo que o desejo do
homem é o desejo do Outro, o que evidentemente pretende dizer alguma
coisa, mas agora o que está em questão, o que isso já introduz, é que,
evidentemente, eu digo uma coisa totalmente diferente, digo que: o
desejo x do sujeito ego é a relação com o desejo do Outro, que estaria,
em relação ao desejo do Outro, dentro de uma relação de Beschrdnkung ,
de limitação, viria a se configurar num simples campo de espaço vital
ou não, concebido como homogêneo, viria limitar-se por seu choque.
Imagem fundamental de toda sorte de pensamentos, quando se especula
sobre os efeitos de uma conj unção psico-sociológica. A relação do desejo
do sujeito, do sujeito com o desejo do Outro, nada tem a ver com o que
quer que seja de intuitivamente suportável desse registro. Um primeiro
passo seria dizer que, se medida quer dizer medida de grandeza, não
há, de forma alguma, entre eles medida comum. E nada mais que, ao
dizer, encontramo-nos com a experiência. Quem, alguma vez, encontrou
uma comum medida entre seu desejo e qualquer pessoa com quem
tem a ver como desejo? Se não se põe isso em primeiro lugar em toda
ciência da experiência, quando se tem o tíllllo de Hege l , o verdadeiro
titulo da Fenomenologia do espírito, pode-se permi tir tudo, inclusive as
pregações delirantes sobre as benfeitorias da genitalidade. É isso e nada
além disso que quer dizer minha introdução do símbolo-,JT, é algo destinado
a sugerir a vocês que ..f-I x IT, o produto de meu desejo pelo desejo do
Outro, isso só dá e só pode dar uma falta, - 1 , a falla do sujeito, nesse
ponto preciso. Resultado: o produto de um desejo pelo outro só pode ser
essa falta, e é daí que se deve partir, para obter alguma coisa. Isso quer
dizer que não pode haver nenhum acordo, nenhum contrato no plano
do desejo, senão isso de que se trata nessa identificação do desejo do
homem com o desejo do Outro, é isso, que lhes mostrarei num jogo manifesto;

- 242 -
Lição de 4 de abril de 1962

fazendo atuar, para vocês, as marionetes do fantasma, uma vez que elas
são o suporte,·o único suporte possível do que pode ser, no sentido próprio,
uma realização do desejo.
Ora, pois, quando chegarmos a esse ponto - vocês já podem, de toda
forma, ver indicado em mil referências; as referências a Sade, para
tomar as mais próximas, o fantasma uma criança é batida, para tomar
uma das vias primeiras com as quais comecei a introduzir esse jogo - o
que mostrarei é que a realização do desejo significa, no próprio ato
dessa realização, só pode significar ser o instrumento, servir o desejo
do Outro, que não é o objeto que vocês têm na sua frente, no ato, mas
um outro que está por trás. Trata-se aí do termo possível na realização
do fantasma. É apenas um termo possível, e antes de vocês mesmos se
terem feito o instrumento desse Outro, situado num hiperespaço, vocês
lidam pura e simplesmente com desejos, com desejos reais. O desejo
existe, está constituído, passeia através do mundo e exerce suas devastações,
antes de qualquer tentativa de imaginações de vocês, eróticas ou não,
para realizá-lo, e mesmo sequer está excluído que vocês encontrem,
como tal, o desejo do Outro, do Outro real, tal como defini há pouco. É
nesse ponto que nasce a angústia.
A angústia é besta como chuchu. É inacreditável que, em momento
algum, eu não tenha visto sequer o esboço disso que parecia, em certos
momentos, como se diz, ser um jogo de esconde-esconde, que é tão
simples. Foi-se procurar a angústia, e, mais exatamente, o que é mais
original que a angústia, a pré-angústia, a angústia traumática. Ninguém
falou sobre isso, a angústia é a sensação do desejo do Outro. Todavia,
como, evidentemente, cada vez que alguém lança uma nova fórmula,
não sei o que se passa, as precedentes caem no fundo de seus bolsos ou
dali não saem mais. É preciso, apesar de tudo, que cu imagine isso, eu
que me desculpo, e até grosseiramente, para fazer sentir o que pretendo
dizer, para que, depois disso, vocês tentem servir-se, e isso pode servir
em todos os lugares onde há angústia. Pequeno apólogo, que talvez não
seja o melhor, a verdade é que eu o forjei nesta manhã, dizendo-me
que era preciso que eu tentasse fazer-me compreender. Normalmente,
faço-me compreender de uma maneira enviesada, o que não é tão ruim;
isso evita que vocês se enganem da maneira certa. Lá, vou tentar fazer­
me compreender no lugar certo e evitar-lhes erros. Imaginem-me dentro
de um recinto fechado, sozinho com um louva-a-deus59 de três metros

- 243 -
A Identificação

de altura. É a proporção correta para guc cu tenha o tamanho do dito


macho. Além do mais, estou vestindo uma pele do tamanho do dito
m acho, guc tem 1 , 75m, mais ou menos minha altura. Eu me miro,
miro minha imagem assim fantasiada dentro do olho facetado do louva­
a-deus fêmea. Será que a angústia é isso? É muito perto disso. No
entanto, dizendo-lhes que é a sensação de desejo do Outro, tal definição
manifesta-se pelo que ela é, ou seja, puramente introdutória . É preciso
evidentemente que vocês se reportem à minha estrutura de sujeito,
isto é, conhecer todo o discurso an tecedente para compreender que,
se é do Outro com O maiúsculo que se trata, não posso contentar-me
cm não ir mais longe, para só representar n esse negócio essa pequena
imagem de mim como louva-a-deus macho den tro do olho multifacetado
do outro. Trata-se, propriamente falando, da apreensão pura do desejo
do Outro como tal, se justamente eu desconhecia o quê? Minhas insígnias:
a saber, que estou fan tasiado com a pele do macho. Não sei o gue sou,
como objeto para o Outro. Diz-se que a angústia é um afeto sem objeto,
mas essa falta de objeto, é preciso saber onde ela está: está do meu
lado. O afeto da angústia é um efeito conotado por uma falta de objeto,
mas n ão por uma falta de realidade . Se eu n ão me sei mais objeto
even tual desse desejo do Outro, esse Outro que está à minha frente,
sua figura é-me in teiramente misteriosa na medida, sobretudo, e m que
essa forma como tal, que tenho diante de mim, tampouco pode, de
fato, estar constituída para mim como objeto, mas onde, de toda maneira,
posso sen tir um modo de sensações que fazem toda a substância do
que se chama de angústia, dessa opressão indizível por onde chegamos
à própria dimensão do lugar do Outro, e nquanto pode aparecer ali o
desejo. É isso, a angústia. É somente a partir daí que vocês podem
compreender as diversas vias que toma o neurótico, para se arranjar
nessa relação com o desejo do Outro.

\
'
... _ _ _ _

- !.+-t -
Lição de 4 de ábril de 1962

Entã:o , no ponto em que estamos, esse desejo - eu o mostrei a vocês


na última vez - como incluído primeiramente e necessariamente na
demanda do Outro. Aliás, aqui, o que vocês encontram como verdade
primeira, senão o comum da experiência quotidiana? O que é angustiante,
quase que para qualquer u m , não somente para as criancinhas, mas
para as criancinhas que todos somos, é o que, em alguma demanda,
pode bem esconder-se desse x, desse x impenetrável e angustiante, por
excelência, de "o que é que ele pode estar q uerendo aqui?". O que a
configuração aqui demanda, vocês podem ver bem, é um medium entre
demanda e desejo . Esse medium, ele tem um nome: chama-se falo. A
função fálica não tem nenhum outro sentido, senão ser aquilo que dá
a medida desse campo, e também, se quisermos, que tudo o que nos
conta a teoria analítica, a dou trina freudiana, na matéria, consiste
justamente em nos dizer que é por ali, afinal de contas, que tudo se
arranja. Não conheço o desejo do Outro, angústia, mas conheço-lhe o
in strumento : o falo, e quem quer que cu seja, espera-se que eu passe
por ali e não crie histórias; o que se chama, em linguagem corrente, de
continuar os princípios de papai. E, como cada um sabe que, desde há
algum tempo, papai não tem mais princípio, é com isso que começam
todas as infelicidades . Mas, enquanto papai estiver ali, enquanto ele
for o centro em torno do qual se organiza a transferência daquilo que
é, nessa matéria, a unidade de troca, a saber,

cp
quero dizer, a unidade que se instaura, que se torna a base e o princípio
de todo sustentáculo, de todo o fundamen to, de toda articulação do
[campo do] desejo . . . Ora, ora, as coisas podem ir bem! Elas estarão
exatamente estendidas entre o rtT] cpuvm, pudesse elejamais ter-me gerado!,
no limite, e o que se chama de baraka r.n na tradição semítica, e até
bíblica, para falar propriamente, a saber, ao contrário, o que me torna
o prolongamento vivo, ativo, da lei do pai; o pai como origem daquilo
que vai-se transmitir como desejo.
A angústia d e castração, portanto, vocês vão ver aqui que ela tem
dois sentidos e dois níveis. Pois se o falo é esse elemento de mediação
que dá ao desejo o seu suporte, ora, a mulher não é a menos favorecida,
nessa história, porque, afinal de con tas, para ela é muito simples : já
que ela não o tem, tudo o que lhe resta é desejá-lo; e, minha fé, nos

- 245 -
A Identificação

casos mais felizes, é, de fato, uma situação à qual ela se acomoda muito
bem. Toda a dialética do complexo de castração, enquanto para ela,
ela introduz o Édipo, diz-nos Freud, isso não quer dizer outra coisa.
Graças à própria estrutura do desejo humano, a via para ela necessita
menos desvios, a via normal, que para o homem. Pois, para o homem,
para que seu falo possa servir de fundamento ao campo do desejo, vai
ser preciso que ele peça para tê-lo? É exatamente de algo assim que se
trata, no nível do complexo de castração, é de uma passagem transicional
daquilo que, nele, é o suporte natural, tornado meio estrangeiro, vacilante,
do desejo, através dessa habilitação pela lei; aquilo cm que esse pedaço,
essa libra de carne vai tornar-se a caução, algo por onde ele vai se
designar no lugar onde ele tem de se manifestar como desejo, no interior
do círculo da demanda. Essa preservação necessária do campo da demanda,
que humaniza pela lei o modo de relação do desejo com seu objeto, eis
do que se trala, nesse ponto, e o que faz com que o perigo para o
sujeito seja, não como se diz em todos aqueles desvios que fazemos, há
anos, ao tentar contrariar a análise, que o perigo para o sujeito não
seja de abandono algum da parte do Outro, mas de seu abandono de
sujeito à demanda. Pois, na medida em que ele vive, que desenvolve a
constituição de sua relação com o falo estritamente sobre o campo da
demanda, é aí que essa demanda não tem, propriamente falando, fim;
pois esse falo - ainda que seja necessário para introduzir, para instaurar
esse campo do desejo, que ele seja demandado - como vocês sabem,
não está no poder do Outro, propriamente falando, fazer dele o dom,
no plano da demanda.
É na medida em que a terapêutica não consegue absolutamente resolver,
melhor do que tem feito, o término da análise, não consegue fazê-la
sair do círculo próprio à demanda, que ela esbarra, que ela termina no
fim nessa forma reivindicatória, esta forma interminável, unendliche,
que Freud, em seu último artigo, "A análise terminável e interminável",
assinala como angústia não resolvida da castração, no homem, como
Penisneid, na mulher. Mas uma justa posição, uma posição correta da
função da demanda na eficiência analítica e da maneira de dirigi-la
poderia talvez permitir-nos, se não tivéssemos quanto a isso tanto atraso,
um a traso já suficientemente demonstrado, pelo fato de que ,
manifestamente, é somente nos casos mais raros que conseguimos nos
deparar com esse término, marcado por Freud como ponto de parada

· - 246 -
Lição de 4 de abril de 1962

em sua própria experiência. Permitisse o céu que chegássemos ali, mesmo


que como um impasse ! Isso provaria já ao menos até onde podemos ir,
enquanto que aquilo que importa é saber efetivamente se ir até ali nos
conduz a um impasse ou se poderemos passar adiante.
Será preciso que, antes de lhes deixar, eu lhes indique alguns desses
pequenos pontos que lhes darão satisfação, para lhes mostrar que estamos
no lugar certo, quando nos referimos a algo que esteja em nossa experiência
do neurótico? O que faz, por exemplo, o histérico ou a neurose obsessiva
no registro que acabamos de lentar construir? O que fazem ambos, um
e outra, nesse lugar do desejo do Outro como tal? Antes que caiamos
em suas armadilhas, ao incitá-los a jogar todo o jogo no plano da demanda,
ao imaginarmos - o que, aliás, não é uma imaginação absurda - que
chegaremos, finalmente, a definir o campo fálico como a intersecção
de duas frustrações, o que é que eles fazem espontaneamente? A histérica
é bem simples, o obsessivo também, mas é menos evidente. A histérica
não tem necessidade de ter assistido a nosso seminário para saber que
o desejo do homem é o desejo do Outro e que, por conseguinte, o Outro
pode perfeitamente, nessa função do desejo, ela, a histérica, suplementá­
la. A histérica vive sua relação com o objeto fomentando o desejo do
Outro, com O maiúsculo, por esse objeto. Reportem-se ao caso Dora.
Creio ter suficientemente articulado isso, em todas as medidas, para
que não haja necessidade de relembrá-lo aqui. Faço apelo simplesmente
à experiência de cada um e às operações ditas de intrigante refinada
que vocês podem ver desenvolverem-se em todo comportamento histérico,
que consiste em sustentar, em seu ambiente imediato, o amor de alguém
por um outro que é sua amiga e verdadeiro objeto último de seu desejo;
permanecendo sempre, evidentemente, bem profunda a ambigüidade
de saber se a situação não deve ser compreendida no sentido inverso.
Por quê? É o que, evidentemente, vocês poderão, na seqüência de nossa
exposição, ver como perfeitamente calculável, pelo simples fato da função
do falo, que pode sempre aqui passar de um ao outro dos dois parceiros
da histérica. Mas isso será visto por nós mais pormenorizadamente.
E que é que faz verdadeiramente o obsessivo com respeito, falo
diretamente, ao seu negócio com o desejo do Outro? É mais astucioso,
porque esse campo do desejo é constituído pela demanda paterna, enquanto
é ela que preserva, que define o campo do desejo como tal, interditando­
º· Ora, que ele então se vire sozinho! Aquele que é encarregado de

- 247 -
A Identificação

sustentar o desejo no lugar do objeto, na neurose obsessiva, é o morto.


O sujei to tem o falo, pode mesmo ocasionalmente exibi-lo, mas é o
morto quem é chamado a servir-se dele. Não é à-toa que apontei a
história do "Homem dos ratos" , a hora noturna em que, depois de ter­
se longamente contemplado em ereção no espelho, ele vai à porta de
entrada abrir para o fan tasma do pai, pedir-lhe que verifique que tudo
está pronto para o supremo ato narcísico que é, para o obsessivo, o desejo.
Aqui, então, não se espan tem vocês que com tais meios, a angústia só
aílore de tempos em tempos, que ela não apareça ali o tempo todo, que
ela seja mesmo muito mais e muito melhor afastada no histérico que no
obsessivo, já que a com placência do Outro é muito maior que aquela,
todavia, de um morto que é sempre difícil, todavia, manter presente, se
pode dizer. É por isso que o obsessivo, ele tempos em tempos, cada vez
que não pode ser repetido à saciedade todo o arranjo que lhe permite
arranjar-se com o desejo do Outro, vê ressurgir, eviden temente de uma
maneira mais ou menos transbordante, o efeito de angústia.
Daí apenas, para voltar um pouquinho para tr(,s, vocês podem compreender
que a história fóbica marca um primeiro passo, nessa tentativa que é
propriamente o m o d o neurótico ele resolver o problema do desejo do
Outro, um primeiro passo, digo, da maneira como isso se pode resolver.
Esse é um passo, como todos sabem , que está longe, evidentemente, de
chegar àquela solução relativa da relação de angústia. Bem ao contrário,
é apenas de uma maneira absolutamente precária que essa angústia é
dominada, vocês sabem, por intermédio desse objeto cuja ambigüidadejá
nos foi bastante sublinhada para nós, entre a função pequeno a e a função
pequeno cp. O fator comum, que constitui o pequeno <p em todo pequeno a
do desejo, está ali, de alguma maneira extraído e revelado. É sobre isso
que salientarei, ressaltarei na próxima vez, para retomar a partir da fobia,
para precisar em quê exatamente consiste essa função do falo.
Hoje, grosso modo, o que vocês vêem ? É que, afinal de contas, a
solução que percebemos do problema da relação do sujeito com o desejo,
em seu fundo radical, propõe-se assim: já que se trata de demanda e
que se trata de definir o desejo, digamo-lo grosseiramente: o sujeito
deman da o falo e o falo deseja. Realmente, é tão bobo assim. Mas é daí,
pelo menos, que se deve partir, como fórmula radical para ver efetivamente
o que, de fato, se dá na experiência. Esse modelo se modula em torno

- 248 -
Lição de 4 de abril de 1962

da relação do sujeito com o falo porquanto, vocês vêem, ele é essencialmente


de natureza identificatória e que, se há alguma coisa que efetivamente
pode provocar surgimento da angústia, ligado ao temor de uma perda,
é o falo. Por que não o desejo? Não há temor da afânise, há o temor de
perder o falo, porque só o falo pode dar seu campo próprio ao desejo.
Mas agora, que não nos falem tampouco de defesa contra a angústia.
Ninguém se defende contra a angústia, assim como não há temor da
afânise. A angústia está nos princípios das defesas, mas ninguém se
defende contra a angústia. Evidentemente, se lhes digo que consagrarei
um ano inteiro ao tema da angústia, isso significa dizer que não pretendo
dar a volta completa no assunto hoje; que isso não causa problema. Se
a angústia - é sempre nesse nível que foi definido para vocês, quase
caricaturalmcnte, por meu pequeno apólogo, que se situa a angústia -
se a angústia pode tornar-se um signo, é claro que, transformada em
signo, ela talvez não seja completamente a mesma coisa que ali onde
tentei colod-la para vocês, primeiramente cm seu ponto essencial . Há
Larnbém U l l l si111u lacro da angúslia. Nesse nível, evidentemente, pode­
se ser tentado minimizar-lhe o alcance, já que é bem sensível que, se o
sujeito envia a si mesmo signos de angústia, é manifestamente para que
isso seja mais alegre. Mas não é, contudo, daí que vamos partir para
definir a função da angústia. E depois, enfim, para dizer, como pretendi
unicamente fazê-lo hoje, coisas maciças, que possamos nos abrir a esse
pensamento q ue, se Freud nos disse que a angústia é um sinal que passa
no nível do cu, é preciso sempre saber que é um sinal para quem? Não
para o eu, já que é no nível do eu que ele se produz. E isso também,
lamentei muito que, em nosso último encontro, essa simples observação
não foi feita por ninguém.

- 249 -
LIÇÃO XVII
1 1 d e abril 1 962

Eu havia anunciado que continuaria hoje a falar sobre o falo. Ora,


não lhes falarei sobre ele, ou melhor, só lhes falarei sob essa forma do
oito invertido, que não é assim tão tranqüilizadora. Não se trata de um
novo significante. Vocês vão ver. É ainda do mesmo significante que
estou a falar, desde o princípio do ano. No entanto, por que reapresentá­
lo como essencial? É para renovar com a base topológica de que tratamos,
isto é, o que isso quer dizer, a introdução feita, este ano, do toro. Não
está assim tão certo que o que eu disse sobre a angústia tenha sido
bem ouvido. Alguém muito simpático e que gosta de ler, pois é alguém
do meio onde estuda-se, observou-me muito oportunamente - e digo
que escolho esse exemplo porque é bastante estimulante - que o que
eu disse sobre a angústia como d esejo do Outro abrangia aquilo que se
lê em Kierkegaard . Na primeira leitura , pois é mesmo verdade, vocês
pensam que eu me lembrava que Kierkcgaar<l, para falar da angústia,
evocou a mocinha no momento cm que, pela primeira vez, ela dá-se
conta de que é desejada. No entanto, se Kierkegaard o disse, a diferença
com o que eu digo é, se posso assim dizer, empregando um termo
kierkegaardiano, que eu o repito . Se houve alguém que fez notar que
nunca é à toa que a gente diz: "Eu o digo e o repito", foi justamente
Kierkegaard. Se se sente a necessidade de ressaltar que se repete após
ter dito, é porque, provavelmente, não é de forma alguma a mesma
coisa repetir e dizer; e é absolutamente certo que, se o que eu disse na
ú ltima vez tem um sentido, é justamente nisto que o caso levantado por

-25 1 -
A Identificação

Kierkegaard é algo absolutamente particular e, como tal, obscurece, ao


invés de esclarecer, o sentido verdadeiro da fórmula : a angústia é o
desejo do Outro, com o maiúsculo. Pode acontecer desse Outro encarnar­
se para a mocinha, num momento de sua existência, em algu m vagabundo
qualquer. Isto nada tem a ver com a questão que levantei na última vez
e com a introdução do desejo do Outro como tal para dizer que é a
angústia, mais exatamente que a angústia é a sensação desse desejo.
Hoje vou, portanto, retornar à minha via deste ano, e tanto mais
rigorosamente porque, na última vez, tive de fazer uma excursão. E é
por essa razão que , mais rigorosamente que nunca, vamos trabalhar
com topologia. E é preciso trabalhar com ela, porque vocês não fazem
mais do que trabalhar com ela a todo instante, quero dizer, quer vocês
sejam lógicos ou não, quer vocês saibam ou não o próprio sen tido da
palavra topologia. Por exemplo, vocês utilizam a preposição ou. Ora, é
bastante notável, mas seguramente verdadeiro, que o uso dessa conjunção
só foi, no campo da lógica técnica, da lógica dos lógicos, bem articulada,
bem precisada, bem posta em evidência, numa época bastante recente,
recente demais para que, em suma , seus efeitos já tenham chegado até
vocês . E é por isso que basta ler o menor texto analítico corrente, por
exemplo, para ver que, a todo instante, o pensamento tropeça , desde
que se trate, não somente do termo identificação, mas mesmo da simples
prática de identificar o que quer que seja do campo de nossa experiência.
É preciso partir dos esquemas, apesar de tudo, digamos, in abalados no
pensamento de vocês , inabalados por duas razões: primeiro, porque
eles remetem àquilo que chamarei de uma certa incapacidade, propriamente
falando, típica do pensamento intuitivo ou, mais simplesmente, da intuição,
o que quer dizer das próprias bases de uma experiência marcada pela
organização daquilo que se chama de sentido visual. Vocês se darão
conta muito facilmente dessa impotência intuitiva, se eu tiver a felicidade
de que, depois dessa pequena conversa, vocês se ponham a colocar
para si mesmos simples problemas de representação sobre o que vou
lhes mostrar que pode se passar na superfície de um toro. Vocês verão
a dificuldade que terão para não se embaralharem. E, no entanto, um
toro é bem simples: é um anel. Vocês se embaralharão, aliás, eu também
me embaralho como \·ocês: foi-me necessário exercício para me encontrar
ali um pouco e mesmo para dar-me conta do que isso sugeria e do que
isso permitia fundar praticamente . O outro termo está ligado àquilo
Lição de 1 1 de abril de 1962

que se chama de instrução, isto é, que essa espécie de impotência intuitiva,,


faz-se tudo para encorajá-la, para assentá-la, para dar-lhe um caráter
de absoluto, e isso, eviden temente, com as melhores intenções. Foi o
que aconteceu, por exemplo, quando, em 1 74 1 , Euler, um grande nome
na história da matemática, introduziu seus famosos círculos que, saibam
vocês ou n ão, muito fizeram, de fato, para estimular o ensino da lógica
clássica num certo sentido que, longe de abri-la, só podia tender a tornar
inoportunamente evidente a idéia que dela podiam fazer os simples
alunos. A coisa produziu-se porque Euler havia posto na cabeça - e só
Deus sabe porquê - ensinar a uma princesa, a princesa de Anhalt Dessau.
Durante todo um período, ocupou-se muito das princesas, ainda nos
ocupamos com elas, e isso é deplorável. Vocês sabem que Descartes
tin ha a sua : a famosa Christine. É uma figura histórica de outro relevo:
ele morreu por causa dela. Isso não é assim tão subjetivo; há uma espécie
de fedor muito particular que se destaca de tudo o que envolve a entidade
princesa ou Prinzessin. Temos, durante um período de mais ou menos
três séculos, alguma coisa que está dominada pelas cartas endereçadas
a princesas, as memórias das princesas, e isso tem um lugar certo dentro
da cultura. É uma espécie de suplência daquela Dama cuja função
tentei explicar-lhes, função tão difícil de se compreender, tão difícil de
se abordar na estrutura da sublimação cortês, cujo verdadeiro alcance
não estou muito seguro, afinal de con tas, de ter-lhes feito perceber. Na
verdade, só lhes pude dar algumas projeções, como se tenta representar
num outro espaço figuras em quatro dimensões que não se pode ver.
Fiquei sabendo, com prazer, que alguma coisa disso chegou a ouvidos
que me são próximos e que começam a se interessar, em outros lugares
além daqui, por aquilo que poderia ser o amor cortês. Já é um resultado.
Deixemos de lado a princesa e os embaraços que ela pode ter causado
a Euler. Ele escreveu-lh e 24 1 cartas, não unicamente para fazê-la
compreender os círculos de Euler. Publicadas em 1 7 75 em Londres,
constituem uma sorte de corpus do pensamento científico da época.
Delas, a única coisa que se destaca efetivamente são esses pequenos
círculos, esses círculos de Euler que são círculos como todos os círculos;
trata -se simplesmente de ver o uso que deles se fez. Serviam para explicar
as regras do silogismo e, afinal de contas, a exclusão, a inclusão e depois
o que se pode chamar de intercessão de dois o quê? De dois campos
aplicáveis a quê? Mas, meu Deus, aplicáveis a muitas coisas, aplicáveis,

- 253 -
A Identificação

por exemplo, ao campo onde uma certa proposição é verdadeira, aplicáveis


ao campo onde uma certa relação existe, aplicáveis simplesmente ao
campo onde um objeto existe.
Vocês vêem que o uso do círculo de Euler - se vocês estiverem habituados
à multiplicidade das lógicas tal como elaboraram num imenso esforço,
cuja maior parte está na lógica proposicional, relacional e lógica das
classes - foi distinguido da maneira mais útil. Não posso sequer sonhar
em entrar, evidentemente, nos detalhes que necessitaria dar a distinção
de tais elaborações. O que quero simplesmente fazer reconhecer aqui
é que vocês têm certamente a lembrança de tal ou tal momento de sua
existência em que lhes chegou, sob essa forma de suporte, u ma
demonstração lógica qualquer de algum objeto como obj eto lógico, quer
se tratasse de proposição, relação, classe, ou até mesmo de objeto de
existência. Tomemos um exemplo no nível da lógica das classes e
representemos, por exemplo, por um pequeno círculo no interior de
um maior, os mamíferos em relação à classe dos vertebrados. Isto é
fácil, e ainda mais simples, porque a lógica das classes é certamente
aquilo que, no princípio, preparou os caminhos da maneira mais cômoda
para essa elaboração formal e para que nos reportemos ali a algo já
encarnado numa elaboração significante, a da classificação zoológica
simplesmente, que verdadeiramente dá o modelo. Só que o universo
do discurso, como se diz com razão, não é um universo zoológico, e, se
quisermos estender as propriedades do universo da classificação zoológica
a todo o universo do discurso, escorregaremos facilmente num certo
número de armadilhas que nos incitam a cometer erros e deixam muito
rapidamente ouvir o sinal de alarme do impasse significativo. Um desses
inconvenientes é, por exemplo, um uso inconsiderado da negação. Foi
justamente numa época recente que esse uso se achou aberto como
possível, a saber, justo na época em que se fez a observação de que, no
uso da negação, esse círculo de Euler exterior da inclusão devia desempenhar
um papel essencial, a saber, que não é absolutamente a mesma coisa
falar sem nenhuma precisão, por exemplo, do que é não-homem, ou do
que é não-homem no interior dos animais. Em outros termos, que para
que a negação faça sentido, um sentido mais ou menos seguro, utilizável
em lógica, é necessário saber cm relação a que conjunto alguma coisa
está sendo negada. Em outros termos, se N é não A, é preciso saber em
quê ele é não A, a saber, aqui, em B. A negação, vocês a verão - se

- 254 -
Lição de 11 de abril de 1962

abrirem Aristóteles nesta ocasião - arrastada a toda sorte de dificuldades.


Todavia, não é,menos contestável que não se esperou de forma alguma
essas observações, nem tampouco se fez o menor uso desse suporte
formal, quero dizer que não é normal fazer uso disso para se servir da
negação, a saber, que o sujeito em seu discurso faz freqüentemente
uso da negação, em casos onde não há a menor possibilidade do mundo
de garanti-la sobre essa base formal . Donde a utilidade das observações
que lhes faço sobre a negação, distinguindo a negação no nível da
enunciação, ou como constitutiva da negação no nível do enunciado.
Isso quer dizer que as leis da negação, justamente no ponto em que
elas não estão asseguradas por essa introdução completamente decisiva
e que data da distinção recente da lógica das relações com a lógica das
classes, que é, em suma, para nós, absolutamente em outra parte e
não ali onde ela encontrou seu equilíbrio que temos de definir o estatuto
da negação. É um lembrete, um lembrete destinado a esclarecer-lhes
retrospectivamente sobre a importância disto que, desde o princípio
do discurso deste ano, sugiro-lhes no que concerne à originalidade
primordial , em relação a essa distinção, da função da negação.

O+O
3

Intersecção n x

união u x
Vocês vêem, portanto, que esses círculos de Euler - não foi Euler
que se serviu deles com esse fim. Foi necessário, depois dele, que se
introduzisse a obra de Boole, depois a de De Morgan, para que isso
fosse plenamente articulado. Se retorno a esses círculos de Euler, portanto,
não é porque ele próprio tenha feito tão bom uso assim deles, mas é

- 255 -
A Identificação

que é com seu material, com o uso desses círculos que se puderam
fazer os progressos que se seguiram e dos quais lhes dou ao mesmo
tempo um dos que não são os menores n em o menos notório, em todo
caso particularmente interessan te, de apreensão imediata. Entre Euler
e De Morgan o uso desses círculos permitiu uma simbolização que é
tão útil quanto lhes parece, de resto, implicitamente fundamental , que
repousa na posição desses dois círculos que se estruturam assim. É o
que chamaremos dois círculos que se recortam, que são especialmente
importantes, por seu valor intuitivo, que parecerá a cada um de vocês
incontestável, se lhes faço observar que é em torno desses círculos que
podem articular-se, primeiro, duas relações que convém ressaltar bem,
que são, primeiro, a da reunião. Que se trate do que quer que seja que
enumerei há pouco, sua reunião, é o fato ele que, após a operação da
reunião, o que é unificado são estes dois campos. A operação dita da
reunião, que se simboliza normalmente assim u, é precisamente o que
intro duziu esse símbolo, é, vocês vêem, algo que niio é de forma alguma
pareci do com a a d i çfto. É a vantagem desses círculos, fazer sentir essa
<lil"e rença. Não é a mesma coisa adicionar, por exemplo, dois círculos
separados ou reuni-los nessa posiçã o. 1-Iá uma outra relação, que é
ilustrada por esses d ois círcul os que se recortam: é a da intersecção,
simbolizada pelo sinal n, cuja significação é completamente diferente .
O campo de intersecção está compreendido dentro do campo de reunião.
No que se chama de álgebra de Boole, mostra-se que, até pelo menos
um certo ponto, essa operação da reunião é bastante análoga à adição,
para que se possa simbolizá-la pelo sinal da adição (+). Mostra-se igualmente
que a intersecção é estruturalmente bastante análoga à multiplicação,
para que se possa simbolizá-la pelo sinal da multiplicação (x).
Garanto-lhes que faço aqui um extrato ultra-rápido, destinado a levar
vocês até onde tenho de l evá-los, e me escuso junto àqueles para quem
tais coisas se apresen tam em toda a sua complexidade , quanto às elisões
que isso comporta, pois é preciso que avancemos ainda mais longe. E ,
sobre o ponto preciso que tenho a i ntroduzir, o
que nos interessa é algo que. até De !.\lorgan - e
temos de ficar espantados com uma semelhante
omi$$lo -. nlo tinln sido. propri:lmente falando.
Lição de 11 de abril de 1962

uso absolutamente rigoroso da lógica; é precisamente esse campo constituído


pela extração, na relação desses dois círculos, da zona de intercessão.
E considerar o que é o produto, quando dois círculos se recortam, no
nível do campo assim definido, isto é, a reunião menos a intersecção, é
o que se chama de diferença simétrica. Essa diferença simétrica é o
que vai nos reter, o que para nós, vocês verão porquê, é do mais elevado
interesse. O termo diferença simétrica é aqui uma denominação que
lhes peço simplesmente que tomem em seu uso tradicional, é assim
que a chamaram. Não tentem dar um sentido analisável gramaticalmente
a essa pretensa simetria. A diferença simétrica quer dizer o seguinte:
esses campos, nos dois círculos de Euler, enquanto definem como tal
um "ou" de exclusão. Dizendo respeito a esses dois campos [recortados),
a diferença sim étrica marca o campo tal como está construído, se vocês
dão ao ou nüo o sentido alternativo, e que implica a possibilidade de
uma identidade local entre os dois termos, e o uso corrente do termo
ou, que faz co111 que, de f'a to, o termo 011 se aplique aqui muito bem ao
cam po da reu niüo. Se uma coisa é ou A ou B, é assim que o campo de
sua extensão pode ser desenhado, a saber, sob a forma primeira em
que esses dois campos estão recobertos. Se, ao contrário, é exclusivo, A
ou B, é assim que podemos simbolizá-lo, a saber, que o campo da intersecção
está excluído.

ou A ou B vel A ou B é exclusivo
Isso deve nos levar a um retorno a uma reflexüo que diz respeito
àquilo que supõe intuitivamente o uso do círculo como base, como
suporte de algo que se formaliza em função de um limite. Isso se define
muito suficientemente pelo fato de que, num plano de uso corrente, o
que não quer dizer um plano natural, um plano fabricável, um plano
que entrou completamente no nosso universo de instrumentos, a saber,
uma folha de papel - vivíamos muito mais em companhia de folhas de
papel que em companhia de toros. Deve haver razões para isso, mas,
enfim, razões que não são evidentes. Por que, afinal, o homem não

- 257 -
A Identificação

fabricaria mais toros? Aliás, durante séculos, o que temos atualmente


sob a forma de folhas eram rolos, que deviam ser mais familiares com a
noção do volume em outras épocas que na nossa. Enfim, há certamente
uma razão para que essa superfície plana seja algo que nos baste e,
mais exatamente, algo com que nos bastemos. Essas razões devem estar
nalgum lugar. E, eu o indicava há pouco, não se poderia atribuir demasiada
importância ao fato de que, contrariamente a todos os esforços dos físicos,
assim como dos filósofos, para nos persuadirem do contrário, o campo
visual, por mais que se diga, é essencialmente em duas dimensões.
Numa folha de papel, numa superfície praticamente simples, um círculo
desenhado delimita da maneira mais clara um interior e um exterior.
Eis todo o segredo, todo o mistério, o mecanismo simples do uso que
dele é feito na ilustração euleriana da lógica.
Coloco a vocês a seguinte questão: o que aconteceria se Euler, ao
invés de desenhar esse círculo, desenhasse meu oito invertido, este
com que quero hoje entreter vocês? Aparentemente, é apenas um caso
particular do círculo com o campo interior que ele define e a possibilidade
de ter um outro círculo no interior. Simplesmente o círculo interior
toca - eis o que, à primeira vista, alguns poderão dizer-me - o círculo
interior toca no limite constituído pelo círculo exterior. Só que não é,
apesar de tudo, exatamente isso, no sentido de que está bem claro, da
maneira como eu o desenho, que a linha aqui do círculo exterior

continua na linha do círculo interior para se reencontrar aqui. E então,


simplesmente para marcar logo em seguida o interesse, o alcance dessa
forma tão simples, eu lhes sugeriria que as observações que introduzi
num certo ponto de meu seminário, quando introduzi a função do
significante, consistiam no seguinte: em lembrar-lhes o paradoxo, ou
pretenso paradoxo, introduzido pela classificação dos conjuntos, lembrem­
se, que não se compreendem eles próprios. Lembro-lhes a dificuldade

- 258 -
Lição de 11 de abril de 1962

que eles introduzem: devemos incluir ou não esses conjuntos que não
se compreendem eles mesmos, no conjunto dos conjuntos que não se
compreendem eles mesmos? Vocês vêem aí a dificuldade. Se sim, é,
portanto, que eles se compreenderão eles mesmos nesse conjunto dos
conjuntos que não se compreendem eles mesmos. Se não, achamo-nos
diante de um impasse análogo. Isso é facilmente resolvido, com a simples
condição de que se perceba pelo menos o seguinte - é a solução, aliás,
que deram os formalistas, os lógicos - que não se pode falar, digamos da
mesma maneira, dos conjuntos que se compreendem eles mesmos e dos
conjuntos que não se compreendem eles mesmos.

E E : conjuntos que se
copreendem eles mesmos

ElE : conj u ntos que não se


compreendem eles mesmos

Em outras palavras, que os excluamos como tais da definição simples


dos conjuntos, que coloquemos, afinal, que os conjuntos que se
compreendem eles mesmos não podem ser colocados como conjuntos.
Quero dizer que, longe que essa zona interior de objetos tão consideráveis
na construção da lógica moderna como os conjuntos, longe de que
uma zona interior definida por essa imagem do oito invertido pelo
recobrimento ou pelo redobramento, nesse recobrimento de uma classe,
de uma relação, de uma proposição qualquer por si mesma, por seu
alcance na segunda potência, longe que isso deixe num caso notório a
classe, a proposição, a relação de um modo geral, a categoria no interior
de si mesma de um modo algo mais pesada, mais acentuada, isso tem
por efeito reduzi-la à homogeneidade com aquilo que está no exterior.
Como isto é concebível? Porque, enfim, deve-se de toda maneira dizer
que, se é assim que a questão se apresenta, a saber, entre todos os
conjuntos um conjunto que se recobre a ele mesmo, não há nenhuma
razão a priori de não fazer dele um conjunto como os outros. Vocês
definem como conjunto, por exemplo, todas as obras que dizem respeito
às humanidades, isto é, às artes, às ciências, à etnografia. Vocês fazem
uma lista. As obras que são obras feitas sobre a questão do que se deve
classificar como humanidades farão parte do mesmo catálogo, isto, que

- 259 -
A Identificação

o que acabo de definir ao articular o título "obras que dizem respeito às


humanidades", faz parte do que há a catalogar. Como podemos conceber
que algo que se coloca assim como se redobrando sobre si mesmo na
dignidade de uma certa categoria, possa praticamente nos levar a uma
antinomia, a um impasse lógico tal como somos, ao contrário, forçados
a rejeitá-lo? Eis alguma coisa que não é assim de tão pouca importância
como se poderia crer, porque temos visto os melhores lógicos verem aí
uma espécie de fracasso, de obstáculo, de ponto de vacilação de todo o
edi fício formalista, e não sem razão. Eis, no entanto, algo que faz à
intuição uma sorte de objeção maior, sozinha inscrita, sensível, visível
na própria forma desses dois círculos que se apresentam, na perspectiva
euleriana, como inclusos um em relação ao outro.
É justamente em cima disso que vamos ver que o uso da intuição de
representação do toro é completamente utilizável. E, dado que vocês
sentem bem, imagino, aquilo de que se trata, a saber, uma certa relação
do significante consigo mesmo, eu lho disse, é na medida em que a
definição de um conjunto aproximou-se cada vez mais de uma articulação
puramente significante que ela conduziu a esse impasse . É toda a questão,
pelo fato de que se trata para nós de pôr em primeiro plano que um
significante não poderia significar-se a si mesmo. De fato, é uma coisa
excessivamente besta e simples esse ponto tão essencial de que o significante,
enquanto ele pode servir a se significar a si mesmo, deve colocar-se
como diferente de si mesmo. É isso que se trata de simbolizar, em
primeiro lugar, porque é também isso que vamos encontrar, até um
certo ponto de extensão que se trata de determinar, em toda a estrutura
subjetiva até o desejo, inclusive . Quando um dos meus obsessivos, ainda
muito recentemente, após ter desenvolvido todo o refinamento da ciência
de seus exercícios para com objetos femininos aos quais, como é conhecido
nos ou tros obsessivos, se posso dizer, ele continua ligado por aquilo
que se pode chamar de uma infidelidade constante : ao mesmo tempo
impossibilidade de abandonar qualquer um desses objetos e extrema
dificuldade de mantê-los todos juntos, e, quando ele acrescenta que é
muito evidente que nessa relação [relation l , nesse rapport tão complicado
que necessita este tão alto refinamento técnico, se posso dizer, na
manutenção de relações que, em princípio, devem permanecer exteriores
umas às ou tras, impermeáveis, se se pode dizer, umas às outras e no
entanto ligadas, que, se tudo isso , me diz ele, não tem outro fim senão

- 260 -
Lição de 11 de abril de 1962

deixá-lo intacto para uma satisfação contra a qual aqui ele tropeça, ela
deve portanto, achar-se em outro lugar, não apenas num futuro sempre
recuado, mas manifcstaclamente num outro espaço, posto que dessa
intactitude e de seu fim ele é incapaz, no final das contas, de dizer
sobre o quê, como satisfação, isso pode desembocar. De qualquer maneira,
temos aqui sensível algo que, para nós, levanta a questão da estrutura
do desejo da maneira mais quotidiana.
Voltemos a nosso toro e inscrevamos nele nossos círculos de Euler.
Isso vai exigir que se faça, desculpem-me, um pequenino retorno que
não é, por mais que possa parecer a alguém que entrasse pela primeira
vez em meu seminário, um retorno geométrico - ele o será talvez no
final, mas incidentalmente - que é, propriamente falando, topológico.
Não há necessidade alguma de que esse toro seja um toro regular, nem
um toro sobre o qual possamos tomar medidas. É uma superficie constituída
segundo certas relações fundamentais que serei levado a recordar para
vocês, mas, como não quero parecer ir longe demais do que é o campo

de nosso interesse, vou-me limitar às coisas que já introduzi e que são


muito simples. Fiz vocês observarem: sobre uma superfície tal, podemos
descrever esse tipo de círculo [ 1 ) . que é aquele que já conotei para
vocês como redutível, aquele que, se ele é representado por um pequeno
barbante que passa no fim por uma argola , cu posso, ao puxar esse
barbante, reduzi-lo a um ponto, ou, melhor dizendo, a zero. Fiz vocês
observarem que há duas espécies de outros círculos ou laços, qualquer
que seja sua extensão, pois poderia também, por exemplo, aquele ali
(2) . ter essa forma [2']. Isto quer dizer, um círculo que atravessa o buraco,
qualquer que seja a sua forma mais ou menos fechada, mais ou menos

- 26 1 -
A Identificação

aberta. É isso o que o define: ele atravessa o buraco, passa pelo outro
lado do buraco. Está aqui representado em linhas pontilhadas, ao passo
que lá está representado em linha cheia. É isso que simboliza: esse
círculo não é redutível, o que quer dizer que, se vocês o supõem realizado
por um barbante passando sempre por esse pequeno arco que nos serviria
para fechá-lo, não podemos reduzi-lo a algo de punctiforme; ele continuará
sempre, qualquer que seja sua circunferência, no centro, a circunferência
daquilo que se pode chamar de espessura do toro. Esse círculo irredutível,
do ponto de vista que nos interessava há pouco, a saber, da definição
de um interior e de um exterior, se mostra de um lado uma resistência
particular, algo que, em relação aos outros círculos, confere-lhe uma
dignidade eminente, sobre esse outro ponto eis que de repente ele vai
aparecer singularmente despojado das propriedades do precedente; pois,
se esse círculo de que lhes falo, vocês o materializarem, por exemplo,
por um corte de tesoura, o que vocês obterão? De maneira nenhuma,
como no outro caso, um pequeno pedaço que se vai e em seguida o
resto do toro. O toro continuará bem inteiro, intacto sob a forma de um
tubo ou de uma manga de camisa.

Se, por outro lado, vocês tomarem um outro tipo de círculo [3] , aquele
do qual já lhes falei, aquele que não é o que atravessa o buraco, mas
que lhe dá a volta, aquele se acha na mesma situação que o precedente,
quanto à irredutibilidade. Ele se acha igualmente na mesma situação
que o precedente, no que diz respeito ao fato de que ele não basta para
definir um interior, nem um exterior. Dito de outra forma: que se vocês
o seguem, esse círculo, e se vocês abrem o toro com a ajuda de uma
tesoura, vocês terão no fim o quê? Ora, a mesma coisa que no caso
precedente: tem a forma de um toro, mas é uma forma que só apresenta
uma diferença intuitiva, que é completamente essencialmente a mesma,

- 262 -
Lição de 11 de abril de 1962

do ponto de vista da estrutura. Vocês têm sempre, depois dessa operação,


como no primeiro caso, uma manga de camisa, simplesmente é uma
manga mais curta e mais larga. Vocês têm um cinto, se quiserem, mas
não há diferença essencial entre um cinto e uma manga, do ponto de
vista topológico: chamem-no também de faixa, se preferirem.
Eis-nos, pois, em presença de dois tipos de círculos que, desse ponto
de vista, aliás, fazem um só, que não definem um interior e um exterior.
Faço vocês observarem incidentemente que, se vocês cortam o toro
sucessivamente seguindo um e outro [círculo], nem por isso vocês chegarão
a fazer aquilo de que se trata e que vocês obtêm, porém, imediatamente
com o outro tipo de círculo, o primeiro que lhes desenhei [ I ], a saber,
dois pedaços. Ao contrário, o toro não apenas fica inteirinho, mas era,
na primeira vez que eu lhes falava, um aplainamento resultante disso
e que nos permite simbolizar x
eventualmente, de uma maneira
particularmen�e cômoda, o to�o y -- z
1
como um retangulo que voces 1
podem, puxando um pouco, abrir f
como uma pele presa pelas quatro x'
pontas; definir as propriedades de correspondência dessas bordas uma
com a outra, de correspondência também de seus vértices, os quatro
vértices reunindo-se num ponto, e ter assim, de maneira muito mais
acessível a suas faculdades de intuição ordinária, um meio de estudar
o que se passa geometricamente sobre o toro. Isto é, haverá um desses
tipos de círculo que se representará por uma linha como essa [2], um
outro tipo de círculos por linhas como essa [3) representando dois pontos
opostos [x-x', y-y'], definidos de maneira prévia como sendo equivalentes
sobre o que se chama de bordas da superfície desdobrada, aplainada, o
aplainamento, como tal, sendo impossível, já que não se trata de uma
superfície que seja metricamente identificável a uma superfície plana,
repito-o, puramente metricamente, não topologicamente. Aonde isso
nos leva? O fato de que duas secções dessa espécie sejam possíveis,
aliás, com necessidade de se recortar uma ou outra sem fragmentar de
forma alguma a superfície, deixando-a inteira, deixando-a como uma
só faixa, se posso dizer, isso basta para definir um certo gênero de uma
superfície. Todas as superfícies estão longe de ter gênero. Se vocês fazem,

- 263 -
A Identificação

particularmente, uma tal secção sobre uma esfera, vocês sempre terão
dois pedaços, qualquer que seja o círculo. E isso para nos levar a quê?
Não façamos mais uma só secção, mas duas secções na base ú nica do
toro. O que vemos aparecer? Vemos aparecer algo que certamente vai­
nos espantar imediatamente, é, a saber,
que, se os dois círculos se recortam, o campo
dito da diferença simétrica existe
perfeitamente. Será que, por causa disso,
podemos dizer que existe também o campo
da intersecção? Acho que essa figura, tal
como está construída, é suficientemente
acessível à intuição de vocês para que vocês
compreendam bem, de imediato, que tal
campo não existe. É, a saber, que esse algo
que seria interseção, mas que não o é, e
que, digo, para o olho - pois, eviden temente, não se pode co1,>itar um só
instante que essa intersecção exista - mas que, para o olho, e tal como
lhes apresentei assim, nessa figura, tal como ela está desenhada, se
acharia ta lvez cm algum lugar aqui [ I ] nesse campo perfeitamente
continuado de um só bloco, de um só pedaço, com esse campo ali [2]
que poderia analogicamente, da maneira mais grosseira para uma intuição
justamente habituada a se prender às coisas que se passam unicamente
no plano, corresponder a esse campo externo onde poderíamos definir,
em relação a dois círculos de Euler que se recortam, o campo de sua
negação; a saber, se aqui temos o círculo A, e aqui o círculo B, aqui
temos A 1 negação de A e temos aqui B I negação de B, e há algo a formular,
no que diz respeito à intersecção deles nesses campos exteriores eventuais.

AI n 81

- 264 -
lição de 11 de ·abril de 1962

Aqui vemos, pois, ilustrado da maneira mais simples pela estrutura


do toro, isso: que algo é possível, algo que se pode articular assim: dois
campos que se recortam, podendo, como tais, definir sua diferença
enquan to diferença simétrica, mas que não deixam de ser dois campos
dos q uais se pode dizer que não podem reunir-se e q ue não podem,
tampouco, recobrir-se; em ou tros termos, que não podem nem servir a
uma função de ou ... ou . . . , nem servir a uma fun ção de multiplicação
por si mesma. Literalmente, eles não podem se retomar à segunda potência,
não podem refletir-se um pelo outro nem um no outro, eles não têm
interseção, sua intersecção é exclusão deles mesmos. O campo onde se
esperava a intersecção é o campo onde se sai daquilo que os concerne,
onde se está no não-campo.
Isso é tanto mais interessante q ue, na
representação desses dois círculos, podemos
s u bstituir nosso oito invertido de q ue
falávamos há pouco. Encon tramo-nos, então,
diante de uma forma que para nós é ainda
mais sugestiva. Porque ten temos lembrar­
n os daq u ilo com q u e eu pen sei
imediatamente comparar esses círculos, esses
círculos que dão a volta no buraco do toro:
a algo, eu lhes disse, que tem relação com
o objeto metonímico, com o objeto do desejo
enq uanto tal. O que é esse oito invertido,
esse círculo q ue se retoma a si mesmo no
in terior de si mesmo? O q u e é, senão um
círculo q u e, no limite, se redobra e se
recompõe, que permite simbolizar - posto
que se trata ele evidência intuitiva, e os
círculos e u lerianos nos parecem
particularmente convenientes para uma certa
simbolização do l imite - q ue permite
simbolizar esse limite, enquanto ele se retoma
a si mesmo, se identifica a si mesmo. Reduzam cada vez mais a distância
que separa a primeira argola, digamos, da segunda, e vocês têm o círculo 1
que se apreende a si mesmo. Será que há, para nós, objetos que tenham1
essa natureza, a saber, que subsistem unicamente nessa apreensão de 1

- 265 -
A Identificação

. aberta. É isso o que o define: ele atravessa o buraco, passa pelo outro
lado do buraco. Está aqui representado em linhas pontilhadas, ao passo
que lá está representado em linha cheia . É isso que simboliza: esse
círculo não é redutível, o que quer dizer que, se vocês o supõem realizado
por um barbante passando sempre por esse pequeno arco que nos serviria
para fechá-lo, não podemos reduzi-lo a algo de punctiforme; ele continuará
sempre, qualquer que seja sua circunferência, no centro, a circunferência
daquilo que se pode chamar de espessura do toro. Esse círculo irredutível,
do ponto de vista que nos interessava há pouco, a saber, da definição
de um interior e de um exterior, se mostra de um lado uma resistência
particular, algo que, em relação aos outros círculos, confere-lhe uma
dignidade eminente, sobre esse outro ponto eis que de repente ele vai
aparecer singularmente despojado das propriedades do precedente; pois,
se esse círculo de que lhes falo, vocês o materializarem, por exemplo,
por um corte de tesoura, o que vocês obterão? De maneira nenhuma,
como no outro caso, um pequeno pedaço que se vai e em seguida o
resto do toro. O toro continuará bem inteiro, intacto sob a forma de um
tubo ou de uma manga de camisa.

Se, por outro lado, vocês tomarem um outro tipo de círculo [3], aquele
do qual já lhes falei, aquele que não é o que atravessa o buraco, mas
que lhe dá a volta, aquele se acha na mesma situação que o precedente,
quanto à irredutibilidade. Ele se acha igualmente na mesma situação
que o precedente, no que diz respeito ao fato de que ele não basta para
definir um interior, nem um exterior. Dito de outra forma: que se vocês
o seguem, esse círculo, e se vocês abrem o toro com a ajuda de uma
tesoura, vocês terão no fim o quê? Ora, a mesma coisa que no caso
precedente: tem a forma de um toro, mas é uma forma que só apresen ta
uma diferença intuitiva, que é completamente essencialmente a mesma,

-262 -
Lição de 11 de abril de 1962

do ponto de vista da estrutura. Vocês têm sempre, depois dessa operação,


como no primeiro caso, uma manga de camisa, simplesmente é uma
manga mais curta e mais larga. Vocês têm um cinto, se quiserem, mas
não há diferença essencial entre um cinto e uma manga, do ponto de
vista topológico: chamem-no também de faixa, se preferirem.
Eis-nos, pois, em presença de dois tipos de círculos que, desse ponto
de vista, aliás, fazem um só, que não definem um interior e um exterior.
Faço vocês observarem incidentemente que, se vocês cortam o toro
sucessivamente seguindo um e outro [círculo], nem por isso vocês chegarão
a fazer aquilo de que se trata e que vocês obtêm, porém, imediatamente
com o outro tipo de círculo, o primeiro que lhes desenhei [ 1 ], a saber,
dois pedaços. Ao contrário, o toro não apenas fica inteirinho, mas era,
na primeira vez que eu lhes falava, um aplainamento resultante disso
e que nos permite simbolizar x
eventualmente, de uma maneira
particularmen�e cômoda, o to�o y -- z
1
como um retangulo que voces 1
podem, puxando um pouco, abrir f
como uma pele presa pelas quatro x'
pontas; definir as propriedades de correspondência dessas bordas uma
com a outra, de correspondência também de seus vértices, os quatro
vértices reunindo-se num ponto, e ter assim, de maneira muito mais
acessível a suas faculdades de intuição ordinária, um meio de estudar
o que se passa geometricamente sobre o toro. Isto é, haverá um desses
tipos de círculo que se representará por uma linha como essa [2] . um
outro tipo de círculos por linhas como essa [3] representando dois pontos
opostos [x-x', y-y']. definidos de maneira prévia como sendo equivalentes
sobre o que se chama de bordas da superfície desdobrada, aplainada, o
aplainamento, como tal, sendo impossível, já que não se trata de uma
superfície que seja metricamente identificável a uma superfície plana,
repito-o, puramente metricamente, não topologicamente. Aonde isso
nos leva? O fato de que duas secções dessa espécie sejam possíveis,
aliás, com necessidade de se recortar uma ou outra sem fragmentar de
forma alguma a superfície, deixando-a inteira, deixando-a como uma
só faixa, se posso dizer, isso basta para definir um certo gênero de uma
superfície. Todas as superfícies estão longe de ter gênero. Se vocês fazem,

- 263 -
A identificação

sua autodiferença? Pois, de duas coisas, uma : ou eles a apreendem ou


não a apreendem... Mas há uma coisa, em todo caso, que tudo que se
passa nesse nível da apreensão implica e n ecessita, é que esse algo
exclui toda reflexão desse objeto sobre si mesmo. Quero dizer, suponham
que é do objeto a que se trate - como já indiquei, que era aquilo para
que aqueles círculos iam servir - isso quer dizer que a 2 , o campo assim
definido, é o mesmo campo que esse que está ali, ou seja, não a ou - a .
Suponham, por enquanto, não disse que estava demonstrado, digo que
lhes forneço hoje um modelo, um suporte intuitivo para algo que é
precisamente aquilo de que precisamos, no que diz respeito à constituição
do desejo. Talvez lhes pareça mais acessível, mais imediatamente ao
alcance de vocês fazer disso o símbolo da auto-diferença do desejo consigo
próprio, e o fato de que é precisamente no desdobra mento sobre si
mesmo que vemos aparecer o que ele encerra, se esgueira e foge em
direção ao que o envolve. Vocês dirão: pare, deixe a coisa por aqui,
pois não é realmente o desejo que entendo simbolizar pelo duplo laço
desse oito interior, mas algo que convém muito mais à conjunção do
objeto a, do objeto do desejo, como tal, consigo mesmo.

Para que o desejo, efetivamente, seja inteligentemente suportado nessa


referência intuitiva à superfície do toro, convém fazer entrar ali ,
evidentemente, a dimensão da demanda. Essa dimensão da demanda,
eu lhes disse, por outro lado, que os círculos encerrando a espessura do
toro, como tal podiam servir muito inteligivelmente para representá-la,
e que algo - aliás, que é em parte contingente, quero dizer, ligado a
uma percepção inteiramente exterior, visual, ela própria demasiadamente
marcada pela intuição comum para não ser refutável, vocês verão, mas
e·n fim - tal como vocês são forçados a representar o toro, a saber, algo
como esse anel, vocês vêem facilmente quão comodamen te o que se

- 266 -
Lição de 1 1 de abril de 1962

passa na sucessão desses círculos capazes de se seguir de alguma forma


em hélice, e segundo uma repetição que é a do fio em torno da bobina,
quão comodamente a demanda, em sua repetição, em sua identidade e
distinção necessárias, seu desenrolar e seu retorno sobre si mesma, é
algo que consegue facilmente ter como suporte a estrutura do toro.
Não é isso que preten do hoje repetir mais uma vez. Aliás, se eu só
fizesse repeti-lo, aqui, seria inteiramente insuficiente. É, ao contrário,
algo para o qual gostaria de chamar a atenção de vocês, a saber, esse
círculo privilegiado que é constituído por isso que é não apenas um
círculo que dá a vol ta em torno do buraco central, mas que é também
um círculo que o atravessa . Em outros termos, que ele é constituído
por uma propriedade topológica que
confunde, que adiciona o laço constituído
em torno da espessura do toro com aquele
que se faria por uma volta feita, por exemplo,
cm torno do buraco interior. Essa espécie
de laço é, para nós, de um in te resse
inteiramente privilegiado, pois é ela que
nos permitirá suportar, imaginar as relações
como estruturais da demanda e do desejo.
Vejamos, com efeito, o que se pode produzir,
no que diz respeito a tais laços: observem
que pode haver alguns assim constituídos, que um outro que lhe é vizinho
se completa, retorna sobre si mesmo, sem, de forma alguma, cortar o
primeiro. Vocês vêem, dado o que tentei articular, desenhar, a saber, a
maneira como isso se passa de outro lado desse objeto que supomos
maciço, porque é assim que vocês o intuíram tão facilmente, e que
eviden temente não o é, a linha do círculo [ I ] passa aqui , a outra lin ha
[2] passa um pouco mais longe. Não há nenhuma espécie de interseção
desses dois círculos. Eis duas demandas que, implicando inteiramente
o círculo central com o que ele simboliza - ou seja, o objeto - e em que
medida ele está efetivamente integrado na demanda; essas duas demandas
não comportam nenhuma espécie de cruzamento, nenhuma espécie de
interseção e mesmo nenhuma espécie de diferença articulável entre
elas, embora ambas tenham o mesmo objeto incluído em seu perímetro.
Ao contrário, há um outro tipo de circuito, este que aqui passa efetivamente
do ou tro lado do toro, mais longe de se reunir a si mesmo no ponto de

- 267 -
A Identificação

onde partiu, começa aqui uma outra curva, para vir uma segunda vez
passar aqui e retornar a seu ponto de partida. Acho que vocês captaram
a coisa em questão; trata-se de nada menos que de algo absolutamente
equivalente à famosa curva do oito invertido de que lhes falei, há pouco.
Aqui, as duas laçadas que representam a reiteração, a reduplicação da
demanda e comportam então esse campo de diferença de si mesma, de
autodiferença, que é aquilo que ressaltamos há pouco,

aqui encontramos o meio de simbolizar de uma maneira sensível, no nível


da própria demanda, uma condição para que ela sugira, em toda a sua
ambigüidade e de uma maneira estritamente análoga à maneira como é
sugerida na reduplicação de há pouco do objeto do desejo sobre si mesmo, a
dimensão central constituída pelo vazio do desejo. Tudo isso, só trago a
vocês como uma espécie de proposta de exercício, de exercícios mentais, de
exercícios com os quais vocês têm de se familiarizar, se quiserem poder, no
toro, encontrar o · :tlor metafórico que lhes darei, quando tiver, em cada
caso, quer se trate , obsessivo, do histérico, do perverso, até mesmo do
esquizofrênico, de artic ular a relação entre o desejo e a demanda.
É por isso que é sob 0 1 1 tras formas, sob a forma do toro desdobrado,
aplainado, o que l hes mostrei há pouco, que vou tentar mostrar a vocês
a que correspondem os diversos casos que evoquei até agora, a saber, os
dois primeiros círculos, por exemplo, que eram círculos que faziam o
buraco central e que se recortavam constituindo, propriamente falando,
a mesma llgura de diferença simétrica que a dos círculos de Euler. Eis o
que isso dá no toro esticado, certamente, dessa maneira figurada, mais
satisfatória que a que vocês viam há pouco, porque vocês podem tocar
com o dedo o fato de que não há simetria, digamos, entre os quatro
campos dois a dois, tal como são definidos pelo cruzamento dos dois

- 268 -
Lição de 11 de ·abril de 1962

círculos. yocês teriam podido, há pouco, dizer a si mesmos, e certamente


de uma maneira que não teria sido um sinal de pouca atenção, que, ao
desenhar as coisas assim e ao dar um valor privilegiado ao que chamo,
aqui, de diferença simétrica, tudo o que faço é bastante arbitrário, já
que os dois outros campos, que fiz vocês verem que se confundem, ocupavam,
talvez, em relação a esses dois, um lugar simétrico. Vocês vêem, aqui,
que tal não se dá, a saber, que os campos definidos por esses dois

setores, de qualquer modo que vocês os unam - e vocês poderiam fazê­


lo - não são, de forma alguma, identificáveis ao primeiro campo.
A outra figura, a saber, a do oito invertido, se apresenta assim. A
não-simetria dos dois campos é ainda mais evidente.

Os dois círculos que desenhei em seguida, sucessivamente, sobre o contorno


do toro como definindo dois círculos da demanda, enquanto não se recortam,
ei-los assim simbolizados. Há um deles [A] que podemos identificar puramente
- falo dos dois círculos da demanda, tal como acabo de defini-los, uma vez que
incluíam também o buraco central - um pode facilmente definir-se, situar-se

- 269 -
A Identificação

sobre o toro esticado como uma oblíqua religando, em diagonal, um vértice ao


mesmo ponto em que ele está realmente na margem oposta, ao vértice oposto
de sua posição, AB. A segunda laçada [A'] que eu havia desenhado há pouco, se
simbolizaria assim: começando num ponto qualquer aqui, temos aqui A', aqui
C, um ponto C que é o mesmo que este ponto C ', e terminando aqui em B', A'
C C' B'. Não há, aqui, nenhuma possibilidade de distinguir o campo que está
em A A'; ele não tem nenhum privilégio em relação a esse campo aqui [BB'].
A' A

B B'
O mesmo não se dá se é, ao contrário, o oito interior que simbolizamos,
pois então ele se apresenta assim. Eis um desses campos: é definido
pelas partes sombreadas aqui. Ele, definitivamente, não é simétrico
com o que resta do outro campo, por mais que vocês se esforcem por
recompô-lo. É bastante evidente que vocês podem recompô-lo da seguinte
maneira, que esse elemento aqui, digamos o x, vindo para cá, esse y
vindo aqui e este z vindo aqui, vocês têm a forma definida pela auto­
diferença desenhada pelo oito interior.
Isso, cuja utilização veremos em seguida, pode parecer a vocês um
pouco fastidioso, até supérfluo, no momento mesmo em que tento articulá­
lo para vocês. Todavia, gostaria de fazê-los observar para que serve isso.
Vocês vêm bem: todo o acento que ponho na definição desses campos é
destinado a mostrar-lhes em que eles são utilizáveis, esses campos da
diferença simétrica e do que chamo de autodiferença, em que são utilizáveis
para um certo fim e em que eles se sustentam como existindo em relação
a um outro campo que eles excluem. Em outros termos, se, para estabelecer
sua função dissimétrica, dou-me a todo esse trabalho, é porque há uma
razão. A razão é a seguinte: é que o toro, tal como está estruturado

- 270-
Lição de 1 1 de abril de 1962

pura e simplesmente como superfície, é muito difícil simbolizar, de um


modo válido, o que chamarei de sua dissimetria. Em outros termos,
quando vocês o vêem esticado, a saber, sob a forma desse retângulo,
será preciso, para reconstituir o toro, que vocês concebam, primeiro,
que eu o dobre novamente e faça um tubo, depois que eu junte uma
ponta do tubo à outra e faça um tubo fechado; é evidente que o que
faço num sentido posso fazer também no outro. Posto que se trata de
topologia, e não de propriedades métricas, a questão do maior comprimento
de um lado em relação ao outro não tem nenhuma significação. Que
não é isso o que nos interessa, já que é a função recíproca desses círculos
que se trata de utilizar. Ora, justamente nessa reciprocidade, eles parecem
poder ter funções estritamente equivalentes. Da mesma forma, essa
possibilidade está na base do que eu, em primeiro lugar, tinha deixado
surgir, aparecer desde o princípio para vocês na utilização dessa função
do toro como de uma possibilidade de imagem sensível para seu propósito.
É que, cm certos sujeitos, certos neuróticos, por exemplo, vemos, de
alguma forma, de uma maneira sensível, a projeção, se se pode exprimir
assim, dos próprios círculos do desejo, em toda a medida em que se
trata, para eles, se posso dizer, de sair desses círculos nas demandas
exigidas do Outro. E é o que simbolizei, ao lhes mostrar isso: é que, se
vocês desenham um toro, vocês podem simplesmente imaginar um outro
toro que encerra, se se pode dizer, de certa maneira o primeiro. É preciso

- 271 -
A Identificação

ver bem que cada um dos círculos, que são círculos em torno do buraco,
podem ter, por simples rolamento, sua correspondência nos círculos
que passam através do buraco do outro toro; que um toro, de certa
maneira, é sempre transformável em todos os seus pontos num toro
oposto.

O que se trata de ver é o que originaliza uma das funções circulares,


a dos círculos cheios, por exemplo, em relação àquilo que chamamos,
em outro momento, de círculos vazios. Essa diferença existe com muita
evidência. Poderíamos, por exemplo, simbolizá-la, formalizá-la, indicando
por um pequeno sinal sobre a superfície do toro desdobrado, em retângulo,
se quiserem, a anterioridade segundo a qual se faria o encolhimento, e
se chamamos esse lado de a minúsculo e esse outro de b minúsculo,
anotar por exemplo a < b, ou inversamente. Seria isso uma notação
com que ninguém jamais sonhou em topologia e que teria algo de
completamente artificial, pois não se vê por que um toro seria, de alguma
maneira, um objeto que teria uma dimensão temporal. A partir desse
momento, é completamente difícil simbolizá-lo de outra forma, ainda
que se veja bem que há, ali, algo de irredutível e que constitui, mesmo,
propriamente falando, toda a virtude exemplar do objeto tórico.
I Iaveria uma outra maneira ele tentar abordá-lo. Está bem claro que
é pelo fato de só considerarmos o toro como superfície, e não tomando
suas coordenadas senão de sua própria estrutura, que somos postos
diante desse impasse, cheio para nós de conseqüências já que, se,
evidentemente, os círculos - em relação aos quais vocês me verão tender
a fazê-los servir para fixar a demanda, obviamente, em suas relações
com outros círculos que têm relação com o desejo - se eles são estritamente
reversíveis, será isso algo que desejemos ter como modelo? Certamente
não. É, ao contrário, do privilégio essencial do buraco central que se

- 272 -
Lição de 1 1 de abril de 1962

trata; e, por conseguinte, o estatuto topológico que buscamos como utilizável


em nosso modelo vai fugir e escapar de nós. É justamente porque nos
foge e nos escapa que se revelará fecundo para nós. Experimentemos
um outro método para marcar aquilo de que os matemáticos, os topólogos,
dispensam perfeitamente na definição, 1 1 0 uso que fazem dessa estrutura
do toro em topologia; eles mesmos, na teoria geral das superfícies,
valorizaram a função do toro como elemento irredutível de toda redução
das superficies àquilo que se chama de uma forma normal. Quando digo
que é um elemento irredutível, quero dizer que não se pode reduzir o toro
a outra coisa. Podemos imaginar tantas formas de superfícies tão complexas
quanto vocês queiram, mas será sempre necessário ter em conta a função
toro em toda planificação, se assim posso exprimir-me, em toda triangulação
na teoria das superficies. O toro não basta, são necessários outros germes,
é necessário, principalmente, a esfera, é necessário isto a que até hoje
não fiz alusão: introduzir a po, , ,!j , ; 1ue se chama de cross-cap e a
possibilidade de buracos. Quando vocês têm a esfera, o toro, o cross-cap e
o buraco, vocês podem representar qualquer superficie que se chama de
compacta, isto é, uma superfície que seja decomponível em fragmentos.
Há outras superfícies que não são decomponíveis em fragmentos, mais nós
as deixamos de lado.
Retornemos ao nosso toro e à possibilidade
de sua orientação. Será que poderemos fazê­
la em relação à esfera ideal, sobre a qual ele
se engancha? Essa esfera nós podemos sempre
introduzi-la, a saber, que com uma suficiente
potência de fôlego, qualquer toro pode vir a
se representar como uma simples alça na
superfície de uma esfera, que é uma parte
dele mesmo sullcientemente inflada. Será que
pelo intermédio da esfera poderemos, se posso
dizer, remergulhar novamente o toro naquilo que, vocês sentem-no bem,
buscamos por enquanto, a saber, esse terceiro termo que nos permite
introduzir a dissimetria de que necessitamos entre os dois tipos de círculos?
Essa dissimetria, todavia tão evidente, tão intuitivamente sensível, tão
irredutível mesmo e que é, no entanto, tal como se manifesta a propósito
como sendo esse algo que observamos sempre em todo desenvolvimento
matemático: a necessidade, para que isso comece a andar, de esquecer

- 273 -
A Identificação

alguma coisa no ponto d e partida. Isso vocês vão encontrar em toda


espécie de progresso formal; esse algo de esquecido e que literalmente
se esgueira de nós, foge de nós no formalismo. Será que vamos poder
capturá-lo, por exemplo, na referência de algo que se chama de tubo
na esfera?
De fato, olhem bem o que se passa e o que nos dizem, que toda
superficie formalizável pode-nos dar, na redução, a forma normal. Dizem­
nos que isso conduzirá sempre a uma esfera, com o que? Com toros
inseridos nessa aqui e que podemos validamente simbolizar ássim. Passo­
lhes a teoria. A experiência prova que é estritamente exato. Que, além
disso, teremos o que se chama de cross-cap. Esses cross-cap, abro mão
de falar neles hoje, mas será preciso que lhes fale a respeito, porque
eles nos prestarão grandes serviços.
Contentemo-nos em considerar o toro. Poderia vir à idéia de vocês uma
alça como essa aqui, que seria não exterior à esfera, mas interior, com um
buraco para entrar nela, é algo de irredutível, de ineliminável, e seria necessário,
de alguma maneira, distinguir os toros exteriores e os toros interiores. Em
que é que isso nos interessa? Muito precisamente a propósito de uma forma
mental que é necessária a toda a nossa intuição do nosso objeto. De fato, na
perspectiva platônica, aristotélica, euleri ana de um Umwelt e de

Toro exterior
Toro interior

um Innenwelt, de uma dominação colocada de saída na divisão do interior


e do exterior, será que não colocaríamos tudo o que experimentamos e,
mormente em análise, na dimensão do que chamei, outro dia, de subterrâneo,
a saber, o corredor que se perde na profundeza, ou seja, no máximo,

.:... 274 -
Lição de 1 1 de abril de 1962

quero dizer em sua forma mais desenvolvida segun do essa forma? É


extremam ente exemplar fazer sentir, a propósito, a não independência
absoluta d essa forma; pois, repito, por mais que se chegue a formas
reduzidas, que são as formas inscritas, vagamente esboçadas no quadro
no desenho, para dar um suporte ao que estou dizendo, é absolutamente
impossível sustentar, mesmo por um instante, na diferença, a originalidade
even tual da alça interior em relação à alça exterior, para empregar os
termos técnicos.
Basta, eu acho, ter um pouco de imaginação, para ver que se trata
de algo que materializamos em borracha, basta introduzir o dedo aqui
e engan char do in terior o anel cen tral desse punho, tal como ele está

assim constituído, para extraí-lo para o exterior exatamente segundo


uma forma que será essa aqui, isto é, um toro exatamente o m esmo,
sem nenhuma espécie de rasgadura, nem mesmo, propriamente falando,
de inversão. Não há nenhuma inversão, o que era interior, isto é, x, o
caminhar assim do interior do corredor, torna-se exterior porque sempre
o foi . Se i sso surpreende vocês, posso ainda i lustrá-lo de uma maneira
mais simples, que é exatamente a mesma, porque não há diferença
alguma en tre isso e o que lhes vou mostrar agora e que eu lhes havia
mostrado desde o primeiro dia, esperando fazê-los sentir de que se
tratava. Suponham que seja no meio de seu percurso, o que é exatamente
a m esma coisa, do ponto de vista topológico, que o toro seja tomado na
esfera . Vocês têm, aqui, um pequeno corredor, que caminha de um
buraco a outro buraco. Aqui, acho que lhes é suficientemente sensível
que não é difícil, simplesmente fazendo abaular um pouco o que vocês
podem agarrar pelo corredor com o dedo, fazer surgir uma figura que

- 275 -
A Identificação

será mais ou menos essa, de alguma coisa que é aqui uma alça e cujos
dois buracos que se comunicam com o interior estão aqui em pontilhadas.

Chegamos, pois, a um fracasso a mais, digo, à impossibilidade, por


uma referência a uma terceira dimensão, aqui representada pela esfera,
de simbolizar esse algo que ponha o toro, se se pode dizer, em seu lugar
em relação à sua própria dissimetria. O que vemos, uma vez mais,
manifestar-se, é algo que é introduzido por esse simplíssimo significante
que eu lhes trouxe no início, do oito interior, ou seja, a possibilidade
de um campo interior como sendo sempre homogêneo ao campo exterior.
Isso é uma categoria tão essencial de se marcar, de imprimir no espírito
de vocês, que achei dever hoje, sob o risco de cansá-los, até de fatigá­
los, insistir durante uma só de nossas aulas. Espero que vocês venham
a ver a utilidade disso, daqui em diante.

- 276 -
LIÇÃO XVIII
2 de maio 1 962

Não é forçosamente com a idéia de poupar vocês, nem vocês, nem


ninguém, que pensei hoje, para esta sessão de retomada, num momento
que é uma corrida de dois meses que temos pela frente para terminar
de tratar esse assunto difícil, que pensei fazer hoje uma espécie de
revezamento. Eu quero dizer que há muito tempo tinha vontade, não
apenas de dar a palavra a algum de vocês, mas mesmo precisamente
dá-la à Sr." Aulagnier. Há muito tempo que penso nisso, já que é no dia
seguinte de uma comunicação que ela fez numa de nossas sessões científicas.
Essa comunicação, não sei por quê alguns de vocês, que não estão
aqui, infelizmente, em razão de uma espécie de miopia característica
de certas posições que, aliás, chamo de mandarinais, pois esse termo
fez sucesso, acreditaram ver não sei que retorno à letra de Freud, quando
aos meus ouvidos, me pareceu que a Sr.ª Aulagnier, com uma particular
pertinência e acuidade, manejava a distinção longamente amadurecida,
já naquele momento, entre a demanda e o desejo. Seja como for, há
alguma chance de que se reconheça melhor a si mesmo sua própria
posteridade do que os outros . Havia, da mesma forma, alguém que
estava de acordo comigo sobre esse ponto: era a própria Sr.ª Aulagnier.
Lamenw. pClis. ter le,·ado ta11 10 tempo para dar-lhe a palaua, talvez o
sentimemo. aids. e:-,;cessirn de algo que sempre nos pressiona e nos
força a avançar.
Justamente hoje vamos fazer essa espécie de laço que consiste em
passar por aquilo que, no espírito de algum de vocês, pode responder,
frutificar. a propósito do caminho que temos percorrido juntos - e já é

- 277 -
A Identificação

grande, desde o momento que eu evoco - e é muito especialmente n esse


ponto de interseção, nesse cruzamento constituído no espírito da Sr.ª
Aulagnier sobre o que eu disse recentemente sobre a angústia, que
ocorreu dela ter-me oferecido, há algumas sessões, de intervir aqui. É,
portanto, em razão de uma oportunidade que vale o que teria valido
uma outra, o sentimento de ter algo a lhes comunicar e, exatamente a
indicar, sobre a angústia, e isso na relação mais estreita daquilo que
ela, como vocês, ouviu do que eu professo este ano sobre a identificação,
que ela vai trazer-lhes algo que ela preparou muito cuidadosamente, a
fim de terminar um texto. Esse texto, que ela teve a bondade de me
apresentar, quero dizer que o examinei com ela ontem e, devo dizer,
tudo o que fiz foi encorajá-la a apresentá-lo. Tenho certeza de que
representa um excelente m edium e, com isso, quero dizer que não é
uma média daquilo que, creio, os ouvidos mais sensíveis, os melhores
dentre vocês podem ouvir, e a maneira como as coisas podem ser retomadas,
em razão dessa escuta . Direi, pois, depois dela ter concebido esse texto,
qual uso pretendo dar a essa etapa que deve constituir o que ela nos
traz, que uso penso dar-lhe em seguida.

Exposição da Sra. Aulagniet


Angústia e iden tificação

Durante as últimas jornadas provinciais, um certo número de intervenções


trataram da questão de_saber se se podia definir diferentes tipos de angústia.
Foi assim que se perguntou se se devia dar, por exemplo, um status particular
à angústia psicótica.
Direi, imediatamente, que sou de uma opinião um pouco diferente;
a angústia, quer apareça no sujeito dito normal, no neurótico ou no
psicótico, me parece responder a uma situação específica e idêntica
do eu e está mesmo aí o que me parece ser um de seus traços característicos.
Quanto ao que se poderia chamar de posição do sujeito frente à angústia,
na psicose, por exemplo, pôde-se ver que, se não se tenta definir melhor
as relações existentes entre afeto e verbalização, pode-se chegar a uma
espécie de paradoxo que se exprimiria assim: por um lado, o psicótico
seria alguém particularmente sujeito à angústia - é mesmo na resposta
em espelho que ele suscitaria no analista que se deveria buscar uma
das dificuldades maiores da cura - por outro lado, foi-nos dito que ele

.- 278 -
Lição de 2 de maio de 1962

seria incapaz de reconhecer sua angústia, que ele a manteria à distância,


que ele se alienaria dela. Enuncia-se, com isso, uma posição insustentável,
se não se tenta ir um pouco mais longe. De fato, o que significaria
exatamente reconhecer a angústia? Ela não espera e não tem necessidade
de ser nomeada para submergir o eu, e não compreendo o que se poderia
querer dizer, ao dizer que o sujeito é angustiado sem o saber. Podemos
nos perguntar se o próprio da angústia não é justamente o não se nomear;
o diagnóstico, a denominação, só pode vir do lado do Outro, daquele
diante de quem ela aparece. Ele, o sujeito, é o afeto da angústia, ele a
vive totalmente e é exatamente essa impregnação, essa captura de seu
eu que se dissolve, que lhe impede a mediação da palavra.
Podemos, nesse nível, fazer um primeiro paralelo entre dois estados
que, por mais diferentes que sejam, me parecem representar duas posições
extremas do eu, tão opostas quanto complementares: quero falar do orgasmo.
Há, nesse segundo caso, a mesma incompatibilidade profunda entre a
possibilidade de vivê-lo e a de tomar a distância necessária para reconhecê­
lo e defini-lo no hic et nunc da situação, desencadeando-o.
Dizer que se é angustiado indica em si já ter podido tomar uma certa
distância em relação ao vivido afetivo; isso mostra que o eu já adquiriu
um certo controle e objetividade em relação a um afeto do qual, a partir
desse momento, pode-se duvidar que mereça ainda o nome de angústia.
Não preciso lembrar, aqui, o papel metafórico, mediador da palavra,
nem a distância existente entre uma vivência afetiva e sua tradução
verbal. A partir do momento em que o homem põe em palavras seus
afetos, ele faz deles justamente outra coisa, faz deles pela palavra um
meio de comunicação, ele os faz entrar no domínio da relação e da
intencionalidade; transforma em comunicável o que foi vivido no nível
do corpo e que, como tal, em última análise, permanece como algo da
ordem do não-verbal. Todos sabemos que dizer que se ama alguém só
tem longínquas relações com o que é, em função desse mesmo amor,
sentido no nível corporal. Dizer a alguém que o desejamos - lembra­
nos o Sr. Lacan - é incluí-lo cm nosso fantasma fundamental. É também,
provavelmente, fazer tlisso o testemunho, a testemunha ele nosso próprio
significante. Seja o que for que possamos dizer a esse respeito, tudo é
feito para nos mostrar a distância existente entre o afeto enquanto
emoção corporal, interiorizada, enquanto algo que adquire a sua fonte
mais profunda naquilo que, por definição, não pode se exprimir cm

- 279 -
A Identificação

palavras, eu quero falar do fantasma, e a palavra que nos aparece,


assim, em toda a sua função de metáfora. Se a palavra é a chave mágica
e indispensável que pode apenas nos permitir entrar no mundo da
simbolização, ora, penso que justamente a angústia responde a esse
momento em que essa chave não abre mais nenhuma porta, em que o
eu tem de enfrentar o que está por trás ou adiante de toda simbolização,
em que o que aparece é o que não tem nome, essa "figura misteriosa",
esse "lugar de onde surge um desejo que não se pode mais apreender",
em que se produz, para o sujeito, uma telescopagem entre fantasma e
realidade; o simbólico se esvai para dar lugar ao fantasma enquanto
tal, o eu aí se dissolve e é essa dissolução que chaprnmos de angústia.
É certo que o psicótico não espera a análise para conhecer a angústia.
É certo também que, para todo sujeito, a relação analítica é, nesse
domínio, um terreno privilegiado. Não é para nos espantarmos, se admitimos
que a angústia tem as relações mais estreitas com a identificação. Ora,
se na identificação trata-se de algo que se passa no nível do desejo,
desejo do sujeito em relação ao desejo do Outro, torna-se evidente que
a fonte maior da angústia, em análise, vai-se encontrar naquilo que é
sua própria essência: o fato de que o Outro é, nesse caso, alguém cujo
desejo mais fundamental é não desejar, alguém que, por isso mesmo,
se permite todas as projeções possíveis, desvela-as também em sua
subjetividade fantasmática e obriga o sujeito a se colocar periodicamente
a pergunta de o que é o desejo do analista, desejo sempre presumido,
jamais definido, e por isso mesmo podendo, a todo momento, tornar-se
esse lugar do Outro, de onde surge, para o analisado 61 a angústia.
Mas, antes de tentar definir os parâmetros da situação ansiogênica,
par:1 metros que s6 se podem clcsc11har a partir cios problemas pr6prlos :\
identificação, pode-se colocar uma primeira pergunta de ordem mais descritiva,
que é esta: o que entendemos, quando falamos de angústia oral, de castração,
de morte? Tentar diferenciar esses diferentes termos no nível de uma espécie
de escala quantitativa é impossível: não existe angustiômetro. Não se é
pouco ou muito angustiado: ou se é, ou nã.o se é.
O único caminho que permite uma resposta, nesse nível, é o de nos
colocarmos no lugar que nos cabe, o daquele que pode, e só ele, definir
a angústia do sujeito a partir do que essa angústia lhe sinaliza. Se é
verdade, como observou o Sr. Lacan, que é muito diflcil falar da angústia
enquanto sinal, no nível do sujeito, parece-me certo que sua aparição

- 280 -
Lição de 2 de maio de 1962

designa, assinala o Outro enquanto fonte, enquanto lugar de onde ela '
surgiu, e talvez não seja inútil lembrar, a esse propósito, que não existe ·
afeto que suportemos tão mal, no outro, quanto a angústia, que não há ,
outro afeto ao qual nos arrisquemos tanto a responder de forma paralela.
1
O sadismo, a agressividade podem, por exemplo, suscitar no parceiro
uma reação inversa: masoquista ou passiva; a angústia só pode provocar '
a fuga ou a angústia. Há, aqui, uma reciprocidade de resposta que não 1

deixa ele levantar um problema. O Sr. Lacan insurgiu-se contra essa


tentativa feita por muitos, que srria a procura de um conteúdo da angústia. ·
Isso me lembra o que c l ( 1 1 · . i . • •\i 1 , . a respeito de algo bem diferente, 1
que para tirar um coelho d e uma cartola era preciso tê-lo posto lá !
dentro, primeiro. Ora, pergunto-me se a angústia não aparece, justamente,
não somente quando o coelho é tirado, mas quando ele se Í( • i , , l';tar o
capim, quando a cartola só representa algo que se assemelha ao toro,
mas que envolve um lugar negro cujo conteúdo nomeável qualquer se
evaporou, face ao qual o eu não tem mais nenhum ponto de referência,
pois a primeira coisa que se pode dizer da angústia é que sua aparição
é sinal do desaparecimento momentâneo de toda referência identificatória
possível. É somente a partir daí que se pode responder, talvez, à pergunta
que cu levantava quanto às diferentes denominações que podemos dar
à angústia, e não no nível da definição de um conteúdo, o próprio
sujeito angustiado tendo, poderíamos dizer, perdido seu conteúdo. Não
me parece, em outros termos, que se possa tratar da angústia enquanto
tal. Para dar um exemplo, direi que fazer isso me pareceria tão falso
quanto querer definir um sintoma obsessivo, ficando no nível do movimento
a.utomático que pode representá-lo. A angústia não nos pode ensinar
nada sohrl' si llH's111a, se não a considerarmos como a conseqüência, o
resultado de um impasse onde se encontra o eu, sinal, para nós, de um
obstáculo surgido entre essas duas linhas paralelas e fundamentais cujas
relações formam o ponto capital de toda a estrutura humana: a identificação
e a castração. São as relações entre esses dois eixos estruturantes nos
diferentes sujeitos que vou tentar esboçar para ousar uma definição do
que é a angústia, daquilo que, segundo os casos, ela nos dá o testemunho.
O Sr. Lacan, no seminário de 4 de abril, ao qual eu me refiro ao
longo desta exposição, nos disse que a castração podia ser concebida
como uma passagem transicional entre o que está no sujeito, como
suporte natural do desejo, e essa habilitação pela lei graças à qual �le

-281 -
A Identificação

vai se tornar o penhor por onde ele vai se designar no lugar onde ele
tem que se manifestar como desejo. Essa passagem transicional é o que
deve permitir atingir a equivalência pênis-falo, isto é, que o que era,
enquanto emoção corporal, deve tornar-se, ceder lugar a um significante,
pois é somente a partir do sujeito e jamais a partir de um objeto parcial,
pênis ou outro, que pode tomar um sentido q ualquer a palavra desejo.
"O sujeito demanda e o falo deseja", dizia o Sr. Lacan; o falo, mas
nunca o pênis. O pênis é só um instrumento a serviço do significante
falo, e, se ele pode ser instrumento muito indócil é justamente porque,
enquanto falo, é o sujeito que ele designa, e, para que isso funcione, é
preciso que o Outro justamente o reconheça, o escolha, não em função
desse "suporte natural", mas porque ele é, enquanto sujeito, o significante
que o Outro reconhece, a partir de seu próprio lugar de significante.
O que diferencia, no plano do gozo, o ato masturbatório do coito,
diferença evidente, mas impossível de explicar fisiologicamente, é que
o coito, por mais que os dois parceiros tenham podido, cm sua história,
assumir sua castração, faz com que, no momento do orgasmo, o sujeito
vá encontrar, não como alguns disseram uma espécie de fusão primitiva
- pois, afinal, não vemos por que o gozo mais profundo que o homem
possa experimentar deveria forçosamente ser ligado a uma regressão
também total - mas, ao contrário, o momento privilegiado em que, por
um instante, ele atinge essa identificação sempre buscada e sempre
fugidia em que ele, sujeito, é reconhecido pelo outro como o objeto de
seu desejo mais profundo, mas em q ue, ao mesmo tempo, graças ao
gozo do outro, pode reconhecê-lo como aquele que o constitui enquanto
significante fálico. "lesse instante único, demanda e desejo podem, por
um instante fugaz, coincidir, e é isso que dá ao eu esse desabrochamento
identifica tório do qual o gozo tira sua fonte. O que não se deve esquecer
é que, se nesse instante demanda e desejo coincidem, o gozo traz, todavia,
em si a fonte da insatisfação mais profunda, pois, se o desejo é, antes
de mais nada, desejo de continuidade, o gozo é, por definição, algo de
instantâneo. É isso que faz com que, imediatamente depois, se restabeleça
a distância entre desejo e demanda, e a insatisfação, que é também
garantia da perenidade da demanda.
Mas, se há simulacros da angústia, há ainda mais simulacros de gozo,
pois, para que tal situação identificatória, fonte do verdadeiro gozo,

. - 282 -
Lição de 2 de maio de 1962

seja possível, é ainda preciso que os dois parceiros tenham evitado o


obstáculo maior que os espreita, e que é que, para um dos dois, ou
para os dois, o que se tem a ganhar ou perder tenha permanecido fixado
no objeto parcial, enfim, de uma relação dual onde eles, enquanto sujeitos,
não têm lugar. Pois, o que nos mostra tudo o que está ligado à castração
é que, longe de exprimir o temor de que lhe corte o pênis, mesmo se é
assim que o sujeito pode verbalizá-lo, trata-se do temor de que lhe seja
deixado e que se lhe corte todo o resto, isto é, que se tenha interesse
por seu pênis ou por seu objeto parcial, suporte e fonte do prazer, e
que se o negue, que se o desconheça enquanto sujeito. É por isso que
a angústia tem, não apenas relações estreitas com o gozo, mas que
uma das situaç�es mais facilmente ansiogênicas é bem aquela onde o
sujeito e o Outro têm de se enfrentar nesse nível.
Vamos, então, tentar ver quais são os obstáculos que o sujeito pode
encontrar, nesse plano. Não representam nada mais, senão as próprias
fontes de toda angústia. Para tanto, teremos de nos reportar àquilo que
chamaremos de relações de objeto pré-genitais, nessa época, entre todas
determinantes para o destino do sujeito, em que a mediação entre o
sujeito e o Outro, entre demanda e desejo, se fez em torno desse objeto
cujo lugar e definição continuavam muito ambíguos, e que é dito o
objeto parcial. A relação entre o sujeito e esse objeto parcial outra coisa
mais não é senão a relação do sujeito com seu próprio corpo, e é a
partir dessa relação, que permanece fundamental para todo humano,
que toma seu ponto de partida e se molda toda a gama daquilo que está
incluído no termo relação de objeto. Que nos detenhamos na fase oral,
anal ou fálica, em todas se encontram as mesmas coordenadas. Se escolho
a fase oral, é simplesmente porque, para o psicótico, do qual falaremos
daqui a pouco, ela me parece ser o momento fecundo daquilo que chamei,
em outra ocasião, de "abertura da psicose". Como podemos defini-la?
Por uma demanda que, desde o início, dizem-nos, é demanda de outra
coisa. Por uma resposta também que é não somente, e de uma maneira
evidente, resposta à outra coisa, mas é - e é um ponto que me parece
importantíssimo - o que constitui o que é um grito, um apelo, talvez,
como demanda e como desejo. Quando a mãe responde aos gritos da
criança, ela os reconhece, constituindo-os como demanda, mas o que
é mais grave é que ela os interpreta no plano do desejo: desejo da criança
de tê-la ali perto, desejo de lhe tomar alguma coisa, desejo de agredi-

- 283 -
A Identificação

la, pouco importa. O que é certo é que, por sua resposta, o Outro vai
dar a dimensão desejo ao grito da necessidade, e que esse desejo de
que a criança é investida é sempre, no i nício, o resultado de uma
interpretação subjetiva, função apenas do desejo materno, de seu próprio
fantasma. É pela via do inconsciente do Outro que o sujeito faz sua
entrada no mundo do desejo. Seu próprio desejo, ele terá, antes de
mais nada, de constituí-lo como resposta, como aceitação ou recusa de
tomar o lugar que o inconsciente cio Outro lhe designa. Parece-me que
o primeiro tempo do mecanismo-chave da relação oral, que é a identificação
projeti\;a, parte da mãe: há uma primeira projeção, no plano do desejo,
que vem del a ; a criança terá ele se i dentificar ali ou de combater, negar
t1 1 1 1 a ide11lil'icaçflo que ela poder,í sen tir como determinante. E, nessa

primeira fase i;2 da evolução humana, está também a resposta que ela
poderá dar, a propósito da descoberta do que sua demanda esconde. A
partir desse momento, o gozo, que não espera a organização fálica para
entrar em jogo, tomará esse lado revelação que guardará sempre; pois,
se a frustração é o que significa para o sujeito a distância existente
entre necessidade e desejo, o gozo, pela marcha inversa, lhe revela,
respondendo ao que não estava formulado, o que está para além da
demanda, isto é, o desejo.
Ora, que vemos, nisso que é a relação oral? Antes de tudo, que demanda
e resposta se significam para os dois parceiros em torno da relação
parcial boca-seio. Poderemos chamar esse nível de nível do significado;
a resposta vai provocar, no nível da cavidade oral, uma atividade de
absorção, fonte de prazer; um objeto externo, o leite, vai se tornar
substància própria, corporal. A absorção - é daí que ela tira sua importância
e sua significação. A partir dessa primeira resposta, é a procura dessa
atividade de absorção, fonte ele prazer, que vai se tornar a meta da
demanda. Quanto ao desejo, é em outro lugar que teremos de buscá-lo,
embora seja a partir dessa mesma resposta, dessa mesma experiência
de satisfação da necessidade, que ele vai-se constituir. De fato, se a
relação boca-seio e a atividade absorção-alimentação são o numerador
da equação representando a relação oral. há também um denominador,
o que põe em causa a rebção criança-mãe, e é aí que pode se situar o
desejo. Se. como penso. a ati\idade de amamentação. em função do
im l.'sü1m'nt0 dr qul' da é o l�bjeto de unu C' outra parte. pl'r causa do
rnntato e d.is e:xperiencias corpor.li� '.10 nh e! do corpo tomado em sentido

- !84 -
Lição de 2 de maio de 1962

amplo, que elá permite à criança, representa por sua própria escansão
repetitiva a fase fundamental, essencial, da fase oral, é preciso lembrar
que nunca tanto quanto aqui parece óbvia a verdade do provérbio que diz
"o modo de dar vale mais do que o que se dá". Graças, ou por causa desse
modo de dar, em função daquilo que isso revelará do desejo materno, a
criança vai apreender a diferença entre dom de alimentação e dom de amor.
Paralelamente à absorção do alimento, veremos então se [desprover?),
no denominador de nossa equação, a absorção, ou melhor, a introjeção
de um significante relacional, isto é, que paralelamente à absorção de
alimento haverá introjeção, uma relação fantasmática onde ela e o outro
scr.io representados por seus desejos inconscientes. Ora, se o numerador
pode facilmente ser investido do sinal + , o denominador pode, na mesma
hora, ser investido do sinal -. É essa diferença de sinal que dá ao seio
seu lugar de significante, pois é bem dessa distância entre demanda e
desejo, a partir desse lugar de onde surge a frustração, que encontra
sua gênese, que se origina todo significante.
A partir dessa equação que, m utatis mutandis, se poderia reconstituir
para as diferentes fases da evolução do sujeito, quatro eventualidades
são possíveis: elas desembocam naquilo que se chama de normalização,
a neurose, a perversão e a psicose. Tentarei esquematizá-las, simplificando­
as, obviamente, de uma maneira um pouca caricatural e ver as relações
existentes, em cada caso, entre identificação e angústia.
A primeira dessas vias é, sem dúvida, a mais utópica. É aquela em
que temos de imaginar que a criança possa encontrar, no dom do alimento,
o dom de amor desejado. O seio e a resposta materna poderão, então,
tornar-se símbolos de outra coisa; a criança entrará no mundo simbólico,
poderá aceitar o desfiladeiro da cadeia significante. A relação oral, enquanto
atividade de absorção, poderá ser abandonada e o sujeito evoluirá em
direção do que se chama de uma solução normativa. Mas, para que a
criança possa assumir essa castração, para que ela possa renunciar ao
prazer que lhe oferece o seio, em função d esse bilhete, desse passe
aleatório para o futuro, é necessário que a mãe tenha podido, ela própria,
assumir sua própria castração; é preciso que, a partir desse momento,
a partir dessa relação dita dual, o terceiro termo, o pai, esteja presente,
enquanto referência materna. Somente nesse caso, o que ela buscará
na criança não será uma satisfação no nível da erogenei dade corporal,
que faz dela um equivalente fálico, mas uma relação que, constituindQ-

- 285 -
A Identificação

a como mãe, reconhece-a igualmente como mulher do pai. O dom de


alimento será, então, para ela, o puro símbolo de um dom de amor, e
porque esse dom de amor não será justamente o dom fálico que o sujeito
deseja, a criança poderá manter sua relação com a demanda. Quanto
ao falo, ela terá de buscá-lo em outro lugar, ela entrará no complexo de
castração que, só ele, pode permitir-lhe identificar-se com outra coisa
que não um $ .
A segunda eventualidade é que, para a própria mãe, a castração tenha
permanecido como algo de mal assumido. Então, todo objeto capaz de
ser, para o outro, a fonte de um prazer e o objetivo de uma demanda,
corre o risco de tornar-se, para ela, o equivalente fálico que ela deseja.
Mas, na medida em que o seio não tem existência privilegiada, senão
em função daquele para quem ele é indispensável, ou seja, a criança,
vemos acontecer essa equivalência criança-falo que está no centro da
gênese da maioria das estruturas neuróticas. O sujeito, então, no curso
de sua evolução, terá sempre de enfrentar o dilema do ser e do ter,
qualquer que seja o objeto corporal, seio, pênis, falo, que se torna C!
suporte fálico. Ou então, terá de se identificar àquele que o tem, mas,
por não ter podido ultrapassar o estádio do suporte natural, por não
ter tido acesso ao simbólico, o ter significará sempre, para ele, um "ter
castrado o Outro", ou então ele renunciará ao ter, ele se identificará
então com o falo, enquanto objeto do désejo do outro, mas deverá,
então, renunciar a ser, ele, o sujeito do desejo. Esse conflito identificatório,
entre ser o agente da castração ou o sujeito que a sofre, é o que define
essa alternância contínua, essa questão sempre presente, no nível de
identificação que clinicamente se chama de uma neurose.
A terceira eventualidade é a que encontramos na perversão. Se esta
última foi definida como o negativo da neurose, essa oposição estrutural
é encontrada por nós no nível da identificação. O perverso é aquele
que eliminou o conflito identificatório. No plano que escolhemos, o
oral, diremos que, na perversão, o sujeito se constitui como se a atividade
de absorção não tivesse outro objetivo senão fazer dele o objeto, permitindo
ao Outro um gozo fálico. O perverso não tem e não é o falo: ele é esse
objeto ambíguo, que serve a um desejo que não é o seu; ele só pode
tirar seu gozo dessa situação estranha, em que a única identificação
que lhe é possível é a que o faz identificar-se não com o Outro, nem

e-- 286 -
Lição de 2 de maio de 1962

com o falo , mas com esse objeto cuja atividade propicia o gozo a um
falo cuja pertença ele ignora, cm absoluto.
Poder-se-ia dizer que o desejo do perverso é responder à demanda
fálica. Para tomar um exemplo banal, direi que o gozo do sádico precisa,
para aparecer, de um Outro para quem, fazendo-se chicote, surja o
prazer. Se falei de demanda fálica, o que é um trocadilho, é que, para
o perverso, o outro só tem existência enquanto suporte quase anônimo
de um falo para o qual o perverso cumpre seus ritos sacrificiais. A
resposta perversa traz sempre em si uma negação do outro enquanto
sujeito ; a identificação perversa se faz sempre em função do objeto
fonte de gozo, para um falo tão poderoso quanto fantasmático.
Há ainda uma palavra que gostaria de dizer, sobre a perversão em
geral. Não creio que seja possível defini-la, se ficarmos no plano que
poderíamos chamar de "sexual", ainda que seja a isso que pareçam nos
levar as visões clássicas, nessa matéria. A perversão é - e nisso parece­
me ficar muito perto da visão freudiana - uma perversão no nível do
gozo, pouco importa a parte corporal posta em jogo para obtê-lo . Se
partilho da desconfiança do Sr. Lacan sobre o que se chama de genitalidade,
é porque é muito perigoso fazer análise anatômica. O coito mais
anatomicamente normal pode bem ser tão neurótico, ou tão perverso
quanto o que se chama de uma pulsão pré-genital. Aquilo que assinala
a normalidade, a neurose ou a perversão, está somente no nível da
relação entre o eu e sua identificação, que permite ou não o gozo que
vocês podem constatar. Se se quisesse reservar o diagnóstico de perversão
só às perversões sexuais, não apenas não se chegaria a nada, pois um
diagnóstico puramente sintomático nunca quis dizer nada, mas ainda
seríamos obrigados a reconhecer que há muito poucos neuróticos, então,
que escapariam a isso. E também não é no nível de uma culpa, da qual
o perverso estaria isento, que vocês encontrarão a solução: não existe,
pelo menos que eu saiba, um ser humano tão suficientemente feliz
para ignorar o que é a culpa. A única maneira de abordar a perversão
é tentar defini-la ali onde ela está, ou seja, no nível de um comportamento
relacional. O sadismo está longe de ser sempre desconhecido, ou sempre
controlado, no obsessivo. O q u e ele significa no obsessivo é, sim, a
persistência daquilo que se chama de relação anal, ou seja, uma relação
onde se trata de possuir ou de ser possuído, uma relação onde o amor
que se experimenta, ou do qual se é o objeto, só pode ser significado,

- 287 -
A Identificação

para o sujeito , em função dessa possessão que pode, justamente, ir até à


destruição do objeto. O obsessivo, poderíamos dizer, é, de fato, aquele
que castiga bem porque ama bem; é aquele para quem a surra do pai
permaneceu como a marca privilegiada de seu amor, e que busca sempre
alguém a quem dá-la ou de quem recebê-la. Mas, tendo-a recebido ou
dado, tendo-se assegurado de que o amam, é num outro tipo de relação
com o mesmo objeto que ele buscará o gozo, e que essa relação se faça
oralmente, analmente ou vaginalmente, ela só será pervertida no sentido
como a entendo, e que me parece o único que possa evitar pôr a etiqueta
pervertida sobre um grande número de neuróticos ou sobre um grande
número de nossos semelhantes.
O sadismo torna-se uma perversão, quando a surra não é mais buscada
ou dada como sinal de amor, mas quando é , enquanto tal, assimilada
pelo sujeito à única possibilidade existen te de fazer gozar um falo; e a
visão desse gozo torna-se o único caminho oferecido ao perverso para
seu próprio gozo. Tem-se falado muito da agressividade, da qual o
exibicionismo tiraria sua fonte. Mostra-se para agredir o outro, sem
dúvida, mas o que não se deve esquecer é que o exibicionista está
convencido de que essa agressão é uma fonte de gozo, para o Outro. O
obsessivo, quando vive uma tendência exibicionista, tenta, poderíamos
dizer, lograr o ou tro : ele mostra o que pensa que o outro não tem e
deseja; mostra aquilo que para ele tem, de fato, as relações mais estreitas
com a agressividade. Lembrem-se do que se passou com O homem dos
ratos; o gozo do pai morto é a última de suas inquietações. Mostrar ao
pai morto o que ele, o Homem dos ratos, pensa que o pai morto teria
desejado arrancar-lhe fantasmaticamente, eis aí algo que se chama de
agrcssiviclacle, e dessa agressividade o obsessivo tira o seu gozo . O pervertido,
é apenas através ele u 1 1 1 gozo estrangeiro que ele busca o seu . A perve rsfw
é justamente isso: esse caminhar cm ziguezague, esse desvio que faz
com que seu eu esteja sempre, por mais que ele faça, a serviço de uma
potência fálica anônima. Pouco lhe importa quem é o objeto, bastar-lhe­
á que ele seja capaz de gozar, que ele possa fazer disso o suporte desse
falo diante do qual ele se identificará, e somente com o objeto presumido
capaz de lhe propiciar o gozo. É por isso que, contrariamente ao que se
Yê na neurose, a identificação per\'ersa, com o seu tipo de relação de
objl'll'. t' :\l�L' cu_ia unidade. cuja estabilidade é o que mais surpreende.
Lição de 2 de maio de 1962

E chegamos agora à quarta eventualidade, a mais dificil de se captar:


a psicose. O psicótico é um sujeito cuja demanda nunca foi simbolizada
pelo Outro, para quem o real e o simbólico, fantasma e realidade, jamais
puderam ser delimitados, por falt,1 de tr:r rodido ter acesso a essa terceira
dimensão, única a permitir essa diferenciação indispensável entre esses
dois níveis, isto é, o imaginário. Mas aqui, mesmo tentando simplificar
ao máximo as coisas, somos obrigados a nos situarmos no próprio começo
da história do sujeito, antes da relação oral, isto é, no momento da
concepção. A primeira ampuu1 ção ! J ' H ,;: i f"re o psicótico se passa antes
de seu nascimento: ele é, para ::tw mãe, " : i, · , .·to de seu próprio metabolismo;
a participação paterna é por ela negada, inaceitável. Ele é, desde esse
momento e durante toda a gravidez, o objeto parcial que vem preencher
uma ausência fantasmática no nível de seu corpo. E, desde seu nascimento,
o papel que lhe será designado, por ela, será o de ser o testemunho da
negação de sua castração. A criança, contrariamente ao que se tem
dito amiúde, não é o falo da mãe, é o testemunho de que o seio é o falo,
o que não é a mesma coisa. E, para que o seio seja o falo, e um falo
muito potente, é necessário que a resposta que ele traga seja perfeita e
total. A demanda da criança não poderá ser reconhecida por nada que
não seja demanda de alimento; a dimensão desejo, no nível do sujeito,
deve ser negada; e o que caracteriza a mãe do psicótico é a proibição
total, feita à criança, de ser o sujeito de algum desejo. Vê-se, então, a
partir desse momento, como vai se constituir, para o psicótico, sua
relação particular com a palana; como, desde o principio, lhe será
impossível manter sua relação com a demanda. De fato, se a resposta
só se dirige a ele sempre como boca a alimentar, como objeto parcial,
comprcl'11Cll'-SC' que. para clC'. toda demanda no próprio momento de
sua forn,ulaç.io, traz consigo a morte do desejo. Por 11:io ter sido simbolizado
pelo Outro, ele será levado a fazer coincidir, na resposta, o simbólico e
o real . Já que, peça ele o que pedir, é alimento o que lhe dão, será o
alimento enquanto tal que se tornará, para ele, o significante-chave. O
simbólico, a partir desse momento, fará irrupção no real. No lugar que
o dom de alimento encontra seu equivalente simbólico no dom de amor,
para ele todo dom de amor só poderá se significar por uma absorção
oral. Amar o outro, ou ser por ele amado, se traduzirá, para ele, em
termos de oralidade: absorver o outro ou ser por ele absorvido. Haverá
sempre, para ele, uma contradição fundamental entre demanda e desejo,
'

- 289 -
A Identificação

pois, ou bem ele mantém sua demanda e sua demanda o destrói enquanto
sujeito de um desejo, ele tem de alienar-se enquanto sujeito para se
fazer boca, objeto a alimentar, ou então buscará constituir-se enquanto
sujeito bem ou mal, e será, então, obrigado a alienar a parte corporal
dele mesmo, fonte de prazer e lugar de uma resposta incompatível ,
para ele, com toda tentação de autonomia. O psicótico é sempre obrigado
a alienar seu corpo enquanto suporte de seu eu, ou a alienar uma
parte corporal enquanto suporte de uma possibilidade de gozo. Se não
emprego aqui o termo identificação, é porque justamente creio que,
na psicose, ele não é aplicável. A identificação, na minha óptica, implica
a possibilidade de uma relação de objeto em que o desejo do sujeito e o
desejo do Outro estão em situação de conflito, mas existem enquanto
dois pólos constitutivos da relação. Na psicose, é no nível da relação
fantasmática do sujeito com seu próprio corpo que seria necessário
definir o Outro e seu desejo. Não farei isso aqui porque nos afastaríamos
de nosso assunto, que é a angústia. Contrariamente ao que se poderia
crer, foi exatamente dela que falei durante toda a minha explanação.
Como disse no princípio, somente a partir dos parâmetros da identificação
parecia-me possível alcançá-la.
Ora, o que vimos? Quer seja no sujeito dito normal, quer seja no
neurótico ou no perverso, toda tentativa de identificação só se pode
fazer a partir do que ele imagina, verdadeiro ou falso, pouco importa,
do desejo do Outro. Quer vocês tomem o sujeito dito normal, o neurótico
ou o pervertido, vocês viram que se trata sempre de se identificar, em
função ou contra aquilo que ele pensa ser o desejo do Outro. Enquanto
esse desejo puder ser imaginado, fantasiado, o sujeito vai encontrar
nele as referências necessárias para o definir como objeto do desejo do
Outro, ou como objeto que se recusa a sê-lo. Em ambos os casos, ele é
alguém que pode se definir, se encontrar. Mas a partir do momento em
que o desejo do Outro se torna algo de misterioso, de indefinível, o que
se revela, então, ao sujeito, é que era justamente esse desejo do Outro
que o constituiria como sujeito. O que ele encontrará, o que se desmascarará,
nesse momento, face a esse nada, é seu fantasma fundamental: é que
ser o objeto do desejo do Outro só é uma situação suportável quando
podemos nomear esse desejo, dar-lhe feições em função de nosso próprio
desejo. Mas, tornar-se o objeto de um desejo ao qual não podemos mais
dar nome é tornarmo-nos nós mesmos um objeto cujas insígnias não

:-- 290 -
Lição de 2 de maio de 1962

têm mais sentido, já que elas são, para o Outro, indecifráveis. Esse
momento preciso, em que o eu se referencia num espelho que lhe devolve
uma imagem que não tem mais significação identificável, isso é a angústia.
Chamando-a oral, anal ou fálica, tudo o que fazemos é tentar definir
quais eram as insígnias de que o eu se revestia para se fazer reconhecer.
Se, quanto ao que aparece no espelho, somente nós podemos fazê-lo, é
que somos os únicos a poder ver de que tipo são essas insígnias que
nos acusam de não mais reconhecer. Pois se, como eu dizia no princípio,
a angústia é o afeto que mais facilmente corre o risco de provocar uma
resposta recíproca, é justamente que, a partir desse momento, nos tornamos
para o Outro aquele cujas insígnias são absolutamente misteriosas,
absolutamente inumanas. Na angústia, não é apenas o eu que está dissolvido,
é também o Outro, enquanto suporte identificatório. Nesse mesmo sentido,
vou-me situar dizendo que o gozo e a angústia são as duas posições
extremas em que se pode situar o eu . Na primeira, o eu e o Outro, por
um instante, trocam suas insígnias, reconhecem-se como dois significantes
cujo gozo compartilhado garante, durante um instante, a identidade dos
desejos. Na angústia, o cu e o Outro se dissolvem, são anulados numa
situação em que o desejo se perde, por falta de poder ser nomeado.
Se agora, para concluir, passamos à psicose, veremos que as coisas
são um pouco diferentes. Evidentemente, aqui também a angústia nada
mais é que o sinal da perda, para o eu, de toda referência possível. Mas
a fonte de onde nasce a angústia é aqui endógena : é o lugar de onde
pode surgir o desejo do sujeito; é seu desejo que, para o psicótico, é a
fonte privilegiada de toda angústia.
Se é verdade que é o Outro que nos constitui, ao nos reconhecer
como objeto de desejo, que sua resposta é aquilo que nos faz tomar
consciência da distância que existe entre demanda e desejo, e que é
por essa brecha que entramos no mundo dos significantes, ora bem,
para o psicótico esse Outro é aquele que nunca lhe significou outra
coisa senão um buraco, um vazio no centro de seu ser. A interdição
que lhe foi feita, quanto ao desejo, faz com que a resposta lhe tenha
feito apreender não uma distância, mas uma antinomia fundamental
entre demanda e desejo, e dessa distância, que não é uma brecha, mas
um abismo, o que veio à luz não é o significante, mas o fantasma, ou
seja, aquilo que provoca a telescopagem do simbólico e real que chamamos
de psicose. Para o psicótico - e me desculpo por limitar-me a simples

- 291 -
A Identificação

fórmulas - o Outro está introjetado no nível de seu próprio corpo, no


nível de tudo o que circunda essa hiância 63 primeira que é tudo o que
o designa como sujeito. A angústia está, para ele, ligada a esses momentos
espC'r'f'icos em que, a partir dessa hiância, aparece alguma coisa que
poderia se chamar de desejo; pois, para que ele o possa assumir, seria
preciso que o sujeito aceitasse se situar no único lugar de onde ele
pode dizer "eu " [Je], ou seja, que ele se identificasse a essa hiância
que, em função da i 1 1 Lcrdição do Outro, é o único lugar em que ele é
reconhecido como sujeito. Todo desejo só pode levá-lo a uma negação
dele mesmo ou a uma negação cio Outro. Mas, desde que o Outro esteja
intn�jetado no nível de seu próprio corpo, que essa introjcçfw é a única
coisa que lhe permite viver - cu disse, aliás, que para o psicótico a única
possibilidade de se identificar com um corpo imaginário unificado seria
identificar-se com a sombra que projetaria diante dele um corpo que
não seria o seu - toda negação do Outro seria, para ele, o equivalente a
uma automutilação que só faria devolvê-lo a seu próprio drama fundamental.
Se, no neurótico, é a partir de nosso silêncio que podemos encontrar
as fontes que disparam sua angústia, no psicótico é a partir de nossa
fala, de nossa presença. Tudo o que pode fazê-lo tomar consciência de
que existimos como diferentes deles, como sujeitos autônomos e que,
por isso mesmo, podemos reconhecê-lo, a ele, como sujeito, torna-se
aquilo que pode disparar sua angústia. Enquanto ele fala, só faz repetir
um monólogo que nos situa no nível desse Outro introjetado que o constitui.
Mas, quando cabe a nós a palavra, e porque podemos, enquanto objeto,
tornar-nos o lugar cm que ele tem de reconhecer seu desejo, veremos
sua angústia disparar; pois desejar é ter de se constituir como sujeito, e,
para ele, o único lugar de onde ele pode fazê-lo é aquele que o devolve a
seu abismo. Mas, aqui ainda, cm conclusão, vocês o vêem, pode-se dizer
que a angústia aparece no momento em que o desejo faz do sujeito algo
que é uma falta de ser, uma falta de se nomear.
Há um ponto de que não tratei e que deixarei de lado - lamento
muito isso, pois é, para mim, um ponto fundamental e eu gostaria de
tê-lo abordado. Infelizmente, teria sido necessário, para que eu pudesse
incluí-lo, que tivesse um domínio maior do tema que tentei tratar. Quero
falar do fantasma. Ele também está intimamente ligado à identificação
e à angústia, a tal ponto que cu teria podido dizer que a angústia aparece
no momento em que o objeto real não pode mais ser apreendido senão

- 292 -
Lição de 2 de maio de 1962

em sua sign_i ficação fantasmática, que é a partir desse momento, já que


toda identificação possível do eu se dissolve, que aparece a angústia.
Mas, se é a mesma história, não é o mesmo discurso e, por hoje, vou
parar aqui. Mas, antes de concluir meu discurso, gostaria de lhes trazer
um exemplo clínico muito rápido sobre as fontes da angústia no psicótico.
Não lhes direi nada mais da história, senão que se trata de um grande
esquizofrênico, delirante, internado em diferentes ocasiões. As primeiras
sessões são um relatório de seu delírio, delírio bastante clássico, é o
que ele chama de "o problema do homem-robô". E depois, numa sessão
em que, como por acaso, mencionou-se o problema do contato e da
palavra, onde ele me explica que o que não pode suportar era "a forma
da demanda", que "o aperto de mão é um progresso sobre as civilizações
que saúdam vcrbalmente64 , onde a palavra falseia as coisas, impede de
compreender, onde a palavra é como uma roda que gira, onde cada um
veria uma parte da roda em momentos diferentes, e então, quando se
tenta comunicar, é forçosamente falso, há sempre um diálogo". Nessa
mesma sessão, no momento em que ele aborda o problema da fala da
mulher, ele me diz, de repente: "O que me preocupa é o que me disseram
sobre os amputados, que eles sentiriam coisas pelo membro que não
têm mais". E, nesse momento, aquele homem, cujo discurso mantém,
em sua forma delirante, uma dimensão de precisão, de uma exatidão
matemática, começa a procurar suas palavras, a se embaralhar, e me
diz não poder mais seguir seus pensamentos, e finalmente pronuncia
esta f rase, que acho realmente importante, no que diz respeito àquilo
que é, para o psicótico, sua imagem do corpo: " Um fantasma lfantôme),
seria um homem sem membros e sem corpo que, por sua inteligência,
somente perceberia sensações falsas de um corpo que ele não tem.
Isso me preocupa imensamente". "Perceberia sensações falsas de um
corpo que ele não tem", essa f rase vai encontrar seu sentido na sessão
seguinte, quando ele virá ver-me para dizer que quer interromper as
sessões, que não é mais suportável para ele, que é malsão e perigoso, e
o que é malsão e perigoso, o que suscita uma angústia que, durante
toda essa sessão, se fará sentir pesadamente, é que "percebi que você
queria seduzir-me e que você poderia conseguir". Aquilo de que ele se
deu conta foi que, a partir dessas "sensações falsas de um corpo que
ele não tem", poderia surgir seu desejo, e então ele teria que reconhecer,
que assumir essa falta que é seu corpo, teria de olhar aquilo que, por

- 293 -
A Identificação

não ter sido simbolizado, não é suportável ao homem: a castração como


tal. Sempre naquela mesma sessão, ele mesmo dirá, melhor do que eu
poderia fazer, onde está, para ele, a fonte da angústia : "A gente tem
medo de se olhar num espelho, porque o espelho muda, segundo os olhos
q ue o olham, não se sabe exatamente o que se vai ver ali. Se a gente
compra um espelho dourado é melhor. . . " Tem-se a impressão de que
aquilo do qual ele quer se assegurar é que as mudanças são do espelho.
Vejam: a angústia aparece no momento em que ele teme que eu
possa tornar-me um objeto de desejo; pois, a partir desse momento, o
surgimento de seu desejo implicaria, para ele, a necessidade de assumir
o que chamei de "a falta fundamental que o constitui". A partir desse
momento, a angústia aparece, pois sua posição de fantasma [fantôme] .
de robô, não é mais sustentável: ele corre o risco de não mais poder
negar suas sensações falsas, de um corpo que ele não pode reconhecer.
O que provoca sua angústia é bem o momento preciso cm que, face à
irrupção de seu desej o, ele se pergunta qu al imagem de si mesmo vai
lhe devolver o espelho, e essa imagem, ele sabe que corre o risco de ser
a da falta, do vazio, do que não tem nome, daquilo que torna impossível
todo reconhecimento recíproco e que nós, espectad ores e atores
involuntários do drama, chamamos de angústia.

- ]. Lacan - Eu gostaria muito, antes de tentar apontar o lugar


desse discurso, que algumas das pessoas que vi com mímicas diversas,
interrogativas, de espera, mímicas que foram precisas nesse ou naquele
momento do discurso da Sra. Aulagnier, queiram simplesmente indicar
as sugestões, os pensamentos produzidos nelas, nesse ou naquele
ponto desse discurso, como um sinal de que esse discurso foi ouvido.
Só lamento uma coisa: ele foi lido. Isso me fornecerá os apoios sobre
os quais acentuarei mais precisamente os comentários.

- X. Audouard - O que me surpreendeu associativamente foi, de


fato, o exemplo clínico que a Sra . nos trouxe no fim da palestra, foi
essa frase <lo doente sobre a palavra, que ele compara a uma roda
da q ual diversas pessoas não vêem n unca a mesma parte. Isso me
pareceu esclarecer tudo o que a Sra. disse, e abre - e não sei por
quê, aliás - toda uma ampliação dos temas que a Sra. apresentou.
Creio ter compreendido mais ou menos o sentido da palestra. Não

- 294 -
Lição de 2 de maio de 1962

tenho prática com esquizofrênicos, mas, no que diz respeito aos neuróticos
e aos perversos, a angústia, uma vez que ela não pode ser objeto de
simbolização, porque é justamente a marca de que a simbolização
não pôde se fazer e se simbolizar, significa realmente desaparecer
numa espécie de não-simbolização de onde parte, a cada instante, o
apelo da angústia. É , evidentemente, algo de extremamente rico,
mas que, talvez, num certo plano lógico, exigiria alguns esclarecimentos.
De fato, como é possível que essa experiência fundamental, que é
de alguma forma o negativo da palavra, venha a se simbolizar, e o
que é que se passa, pois, para que desse buraco central jorre algo
que tenhamos de compreender? Enfim, como nasce a palavra? Qual
a origem do significante, nesse caso preciso? Como se passa da angústia,
enquanto ela não pode se dizer, para a angústia, enquanto que ela
se diz? Há, talvez, aí um movimento que tem relação com aquela
roda que gira, que teria, talvez, necessidade de ser um pouco esclarecido
e precisado.

- A. Vergotte - Fiquei me perguntando se não haveria duas espécies


de angústia. A Sra. Aulagnier disse angústia-castração. O sujeito
tem medo de que se lhe arranque e que seja esquecido como sujeito;
é o desaparecimento do sujeito como tal. Mas me pergunto se não
há uma angústia em que o sujeito recusa ser sujeito, se, por exemplo,
em certos fantasmas ele quer, ao contrário, esconder o buraco ou a
falta. No exemplo clínico da Sr.ª Aulagnier, o sujeito recusa seu corpo,
porque o corpo lhe lembra seu desejo e sua falta. No exemplo da
angústia-castração, a Sra. teria dito: o sujeito tem medo de que o
desconheçam como sujeito. Uma angústia, portanto, tem duas direçôes
possíveis: ou ele recusa ser sujeito, ou há também a outra angústia
onde ele tem, por exemplo, na claustrofobia, a impressão de que ali
ele não é mais sujeito ou, ao contrário, ele está trancafiado, está num
mundo fechado, onde o desejo não existe. Ele pode estar angustiado
diante de seu desejo e também diante da ausência de desejo.

- P. Aulagnier - Não acredite que, quando se recusa a ser sujeito, é


justamente porque se tem a impressão de que, para o Outro, só se
pode ser sujeito pagando-lhe com sua castração. Não creio que a
recusa em ser sujeito seja ser verdadeiramente um sujeito.

- 295 -
A Identificação

- ]. Lac an - Estamos exatamente no coração do problema. Vocês


estão vendo imediatamente, aqui, o ponto em que a gente se embaralha.
Acho que esse discurso é excelente, na medida em que a manipulação
de algumas das noções que encontramos aqui permitiu à Sra. Aulagnier
valorizar, de um jeito que não lhe teria sido possível de outra forma,
várias dimensões de sua experiência.
Vou retomar aquilo que me pareceu importante naquilo que ela produziu.
Digo, logo de saída, que esse discurso me parece ficar na metade do
caminho. É uma espécie de conversão, não tenham dúvida, é bem o
que tento obter de vocês por meu ensino, o que não é, meu Deus,
afinal de contas uma pretensão tão única na história, a ponto de ser
considerada exorbitante. Mas, o certo é que toda uma parte do discurso
da Sra. Aulagnier, e muito precisamente a passagem em que, numa
preocupação com a inteligibilidade, tanto sua quanto daqueles a quem
ela se dirige, a quem ela crê se dirigir, retorna a fórmulas que são
aquelas contra as quais tenho advertido vocês, tenho preparado vocês,
tenho-os posto em guarda, e nunca simplesmente porque isso é como
uma mania que eu tenha ou uma espécie de aversão, mas porque sua
coerência com alguma , ·oisa que se trata de abandonar radicalmente
se mostra sempre, cada vez que a gente as emprega, feita com boas
razões. A idéia de uma antinomia, por exemplo, qualquer que seja, da
palavra com o afeto, ainda que seja da experiência empiricamente verificada,
não é, todavia, algo sobre o qual possamos articular uma dialética, se é
que o que tento fazer, diante de vocês, tem um valor, ou seja, permitir
a vocês desenvolverem, tanto quanto possível, todas as conseqüências
do el'eilo de que o homem seja um animal condenado a habitar a linguagem.
Através disso, não poderíamos de maneira alguma considerar o afeto
como o que quer que seja, sem dar numa primariedade qualquer. Nenhum
afeto significativo, nenhum desses de que nos ocupamos, da angústi a à
cólera e a todos os demais, não pode sequer começar a ser compreendido
senão numa referência, onde a relação de x com o significante é primeira.
Antes de marcar distorções, quero dizer que em relação a algumas
ultrapassagens que seriam a etapa ulterior, quero, obviamente, marcar
o positivo daquilo que já lhe permitiu o simples uso desses termos, no
primeiro plano dos quais estão,aqueles de que ela se serviu eom justeza
e destreza: o desejo e a demanda. Não basta ter ouvido falar disso, se se

- 296 -
Lição de 2 de maio de 1962

serve disso de �lguma maneira - mas não são, de todo jeito, palavras
assim tão esotéricas, para que cada um não se ache no direito de as
utilizar - não basta empregar esses termos, desejo e demanda, para
fazer deles uma aplicação exata. Algumas pessoas se arriscaram nisso,
recentemente, e não sei bem se o resultado disso foi de algum modo
nem brilhante - o que, afinal, não teria senão uma importância secundária
-, nem mesmo tendo a menor relação com a função que damos a tais
termos. Não é o caso da Sra. Aulagnier, mas foi o que lhe permitiu
atingir, em alguns momentos, uma tonalidade que manifesta qual espécie
de conquista, ainda que sob a forma de questões levantadas, o manejo
dos termos nos permite.
Para designar a primeira, mais impressionante abertura que ela nos
deu, vou assinalar o que ela disse do orgasmo ou, mais exatamente, do
gozo amoroso. Se me for permitido dirigir-me a ela como Sócrates podia
dirigir-se a alguém [Diotima], lhe direi que ela dá aí a prova de que
sabe do que está falando. Que ela o faça, sendo mulher, é o que parece
tradicionalmente óbvio. Estou menos certo disso; as mulheres, diria
eu, são raras, senão a saber, ao menos a poder falar, sabendo o que
dizem das coisas do amor. Sócrates dizia que certamente podia testemunhar
isso, que ele sabia. As mulheres são, pois, raras, mas compreendam
bem o que quero dizer com isso: os homens o são ainda mais. Como
nos disse a Sra. Aulagnier, a propósito do que é o gozo do amor, rejeitando
de uma vez por todas aquela famosa referência à fusão que justamente
nós, que temos dado um sentido completamente arcaico a esse termo
de fusão, deveria nos permitir um despertar. Não se pode, ao mesmo
tempo, exigir que seja no fim de um processo que se chegue a um
momento qualificado e único e, ao mesmo tempo, supor que seja por
um retomo a não sei qual diferenciação primitiva. Em suma, não relerei
seu texto porque me falta tempo, mas, no conjunto, não me pareceria
inútil que esse texto - ao qual certamente estou longe de dar a nota
1 O, quero dizer, considerá-lo um discurso perfeito - seja considerado
antes como um discurso que define uma escala a partir da qual poderemos
situar os progressos aos quais poderemos referir-nos, a algo que foi
tocado ou em todo caso perfeitamente captado, apanhado, agarrado,
compreendido pela Sra. Aulagnier. Evidentemente, não digo que ela
dá, ali, sua última palavra, direi até mais: em várias·ocasiões, ela indica
os pontos em que lhe pareceria necessário avançar, para completar o
!

- 297 -
A Identificação

que ela disse e, sem dúvida, uma grande parte da minha satisfação vem
d os pontos que ela designa. São justamente esses que poderiam ser
torneados, §e posso dizer. Esses dois pontos; ela os designou a propósito
da relação do psicótico com seu próprio corpo, por um lado - ela disse
que tinha muitas coisas a dizer, e nos indicou um pouquinho delas - e,
por outro lado, a propósito do fantasma, cuja obscuridade na qual ela o
deixou me pareceria suficientemente indicativa, pelo fato de que essa
sombra é, nos grupos, um pouco geral. É um ponto.
Segundo ponto que me parece muito importante, dentro do que ela
nos trouxe, é o que ela trouxe quando nos falou da relação perversa.
Não, certamente, que eu endosse em todos os aspectos o que ela disse
a esse respeito, que é de fato de uma audácia incrível. É para felicitá­
la altamente por ter estado à altura, mesmo se é um passo a se retificar,
de tê-lo feito, apesar de tudo. Para não qualificá-lo de outra maneira,
esse passo, direi que é a primeira vez, não apenas no meu ambiente -
e, quanto a isso, me felicito de ter sido precedido aqui - que vem em
antecipação alguma coisa, uma certa maneira, um certo tom para falar
da relação perversa, que nos sugere a idéia que é propriamente o que
me impediu de falar disso até agora, porque não quero passar por ser
aquele que diz: tudo o que se fez até agora não vale uma fava. Mas a
Sra. Aulagnier, que não tem as mesmas razões de pudor que nós, e
aliás que o diz em toda inocência, quero dizer, que viu perversos e se
interessou por eles de uma forma verdadeiramente analítica, começa a
articular algo que, pelo simples fato de poder apresentar sob essa forma
geral, repito, incrivelmente audaciosa, que o perverso é aquele que se
torna objeto para o gozo de um falo cuja pertença ele nem suspeita; ele
é o instrumento do gozo de um deus. Isso quer dizer, afinal, que isso
merece algum apontamento, alguma retificação de manobra diretiva e,
para dizer tudo, que isso levanta a questão de reintegrar o que chamamos
de falo. Que isso levanta a urgência da definição de falo não há d úvida,
já que isso certamente tem como efeito dizer-nos que se isso deve,
para nós, analistas, ter um sentido, um diagnóstico de estrutura perversa,
isso quer dizer que é preciso que comecemos por jogar pela janela
abaixo tudo o que se escreveu, de Kraft Ebing a Havelock Ellis, e tudo
o que se escreveu de um catálogo qualquer pretensamente clínico das
perversões. Em suma, há, no plano das perversões, a necessidade de se
ultrapassar essa espécie de distância tomada , soh o Lermo de clínica,

. - 298 -
Lição de 2 de maio de 1962

que na realid.ade não passa de uma maneira de desconhecer o que há,


nessa estrutura, de absolutamente radical, de absolutamente aberto a
quem q uer que tenha de dar esse passo que é justamente o que exijo
de vocês, esse passo de conversão que nos permita estar, no ponto de
vista da percepção, onde saibamos o que estrutura perversa quer dizer
de absolutamente universal. Se evoquei os deuses não foi por nada,
pois eu também poderia ter evocado o tema das metamorfoses e toda a
relação mística, alguma relação pagã com o mundo, que é aquela na
qual a dimensão perversa tem seu valor, direi, clássico. É a primeira
vez que ouço falar de um certo tom que é verdadeiramente decisivo,
que é a abertura nesse campo, onde é justamente o momento em que
vou-lhes explicar o que é o falo, temos necessidade disso.
A terceira coisa é o que ela nos disse a propósito de sua experiência
com psicóticos. Não preciso sublinhar o efeito que isso pode causar,
pois Audouard já deu testemunho disso. Ali, mais uma vez o que parece
eminente é justamente aquilo por meio do qual isso nos abre também
essa estrutura psicótica como sendo algo onde devemos sentir-nos em
casa. Se não somos capazes de perceber que há um certo grau, não
arcaico, a pôr de lado em algum lugar do nascimento, mas estrutural,
no nível do qual os desejos são propriamente falando loucos; se, para
nós, o sujeito não inclui em sua definição, em sua articulação primeira,
a possibilidade da estrutura psicótica, nunca seremos mais que alienistas.
Ora, como não sentir vivo, como acontece todo o tempo àqueles que
vêm escutar o que se diz aqui neste seminário, como não perceber que
tudo o que comecei a articular este ano, a propósito da estrutura de
superfície do sistema e do enigma que diz respeito à maneira como o
sujeito pode ter acesso a seu próprio corpo, é que isso não vem por si
só, aquilo de que todos estão há muito tempo advertidos, já que essa
famosa e eterna distinção de desunião ou união da alma e do corpo é
sempre, afinal, o ponto de aporia contra o qual todas as articulações
filosóficas vieram chocar-se. E por que é que, para nós, analistas.justamente,
não seria possível encontrar a passagem? Isso necessita somente de
uma certa disciplina, e, em primeiríssimo lugar, saber como fazer para
falar do sujeito.
O que causa dificuldade para se falar do sujeito é isso que vocês
nunca meterão na cabeça suficientemente, sob a forma brutal como

- 299 -
A Identificação

vou enunciá-lo, é que o sujeito nada mais é que a conseqüência de que


há significante e que o nascimento do sujeito prende-se a isso: que ele
só pode se pensar como excluído do significante que o determina. Aí
está o valor do pequeno ciclo que lhes introduzi na última sessão e do
qual ainda não terminamos de ouvir falar, pois, na verdade, será preciso,
de toda maneira, que eu desdobre mais uma vez, diante de vocês, antes
que possam ver bem exatamente aonde isso nos leva. Se o sujeito é só
isso: essa parte excluída de um campo inteiramente definido pelo significante,
se só é a partir daí que tudo pode nascer, é preciso sempre saber em que
nível fazemos intervir esse termo, sujeito. E, apesar dela, porque é a nós

que ela fala e porque é a ela, e porque há ainda algo que não está
ainda adquirido, assumido apesar de tudo, quando ela fala dessa escolha,
por exemplo, que há em ser sujeito ou objeto, a propósito da relação
com o desejo, então, apesar dela, contra sua vontade, a Sra. Aulagnier
se deixa escorregar, ao reintroduzir no sujeito a pessoa, com toda a
dignidade subseqüente que vocês sabem que lhe damos, em nossos
tempos esclarecidos: personologia, personalismo, personalidade e tudo
o que se segue, aspecto que convém, pois cada um sabe que vivemos
em meio a isso. Nunca se falou tanto da pessoa. Mas, enfim, como
nosso trabalho nãoié um trabalho que deva muito se interessar pelo se
passa na praça pública, temos de nos interessar, então, pelo sujeito.
Então, ali, a Sra. Aulagnier chamou em seu socorro o termo "parâmetro
da angústia". Ora, ali, ainda assim, a propósito de pessoa e da personologia,
vocês vêem um trabalho bastante considerável, que me tomou alguns
meses, um trabalho de observações sobre o discurso de nosso amigo
Daniel Lagache. Peço-lhes que se reportem a ele, para ver a importância
que teria tido na articulação que ela nos deu da função da angústia e
dessa espécie de fôlego cortado que ela constituiria no nível da palavra,
a importãncia que devia normalmente tomar em sua palestra a função
i (a) , dito de outro jeito, a imagem especular que, certamente, n ão está

- 300 -
Lição de 2 de maio de 1962

totalmente ausente de sua palestra, porque, afinal, foi diante de seu


espelho que ela acabou arrastando seu psicótico, e por quê? Porque
ele veio sozinho, esse psicótico, até o espelho, e foi ali então, portanto,
que ela lhe deu, com razão, uma sessão. E, para pôr um pouco de
sorriso, inscreverei, à margem das observações que fizeram sua admiração
naquilo que ela citou, esses quatro versinhos inscritos no fundo de um
prato que tenho em minha casa:

À Mina seu espelho fiel


Mostra, ai, traços alongados
Ah céus! Oh Deus ! Exclama,
Como os espelhos mudaram!. 65

É efetivamente o que lhe diz o seu psicótico, mostrando a importância


aqui da função, não do ideal do eu, mas do eu ideal, como lugar onde
vêm se formar as identificações propriamente egóicas, mas também
como l ugar onde a angústia se produz, a angústia que qualifiquei de
sensação do desejo do Outro. Levar essa sensação do desejo do Outro à
dialética do desejo próprio do sujeito, em face do desejo do Outro, eis
toda a dist:1 ncia que há entre o que eu tinha começado e o nível já
muito eficaz em que se sustentou todo o desenvolvimento da Sra. Aulagnier.
Mas, esse nível de alguma maneira conílitivo, como ela nos disse,
que é de referência de dois desejos já no sujeito constituído, não é ali
que, de alguma maneira, pode-nos bastar para situar a diferença, a distinção
que há nas relações do desejo, por exemplo, no nível das quatro espécies
ou gêneros que ela definiu para nós sob os termos de normal, perverso,
neurótico, psicótico. Que a palavra, de fato, faça falta em algo a propósito
da angústia, é nisso que não podemos desconhecer, como um dos parâmetros
absolutamente essenciais que ela não pode designar quem fala, que ela
não pode referir a esse ponto i (a), o je que, no próprio discurso, se
designa como aquele que atualmente fala, e o associa àquela imagem de
domínio que se encontra vacilante, nesse momento.
E isso pôde ser lembrado a ela, porque anotei, no que ela quis tomar
como ponto de partida, a propósito do seminário de 4 de abril. Lembrem­
se da imagem vacilante que tentei construir, diante de vocês, de meu
confronto obscuro com o louva-a-deus e disso, que se primeiro falei da
imagem que se refletia em seu olho, era para dizer que a angústia

- 30 1 -
A Identificação

começa a partir desse momento essencial em que essa imagem está


ausente. Sem dúvida, o pequeno a que sou para o fantasma do outro é
essencial, mas onde falta isso - a Sra. Aulagnier não o desconhece,
porque ela o restabeleceu em outras passagens de seu discurso, a mediação
do imaginário, é isso que ela quer dizer, mas ainda não está suficientemente
articulado. É o i (a) que falta e que está ali em função.
Não vou levar isso mais longe, porque vocês já perceberam que se
trata nada menos que da retomada do discurso do seminário, mas é af
que vocês devem sentir a importância do que introduzimos. lrata-se
do que vai fazer a ligação, na economia significante, da constituição
do sujeito no lugar do desejo. E vocês devem aqui entrever, suportar,
resignar-se a isso, que exige de nós alguma coisa que parece tão longe
de suas preocupações triviais, enfim, de uma coisa que podemos
decentemente pedir a honoráveis especialistas como vocês, que não
vêm, afinal, aqui para estudar geometria elementar. Estejam seguros,
não se trata de geometria, já que não é de métrica, é alguma coisa da
qual os geômetras não tiveram até agora nenhuma espécie de idéia: as
dimensões do espaço. Chegarei mesmo a dizer que o Sr. Descartes não
tinha nenhuma espécie de idéia das dimensões do espaço.
As dimensões do espaço é algo, por outro lado, que foi decidido,
valorizado por um certo número de brincadeiras feitas em torno desse
termo como a quarta ou quinta dimensão e outras coisas que têm um
sentido absolutamente preciso em matemática, mas das quais é sempre
maçante ouvir falar pelos incompetentes, de sorte que, quando se fala
disso, tem-se sempre o sentimento de que se está a fazer o que se
chama de ficção-científica, e isso tem, apesar de tudo, muito má reputação.
Mas, no fim das contas, vocês verão que temos nossa palavra a dizer a
esse respeito. Comecei a articulá-lo nesse sentido de que psiquicamente
eu lhes disse que só temos acesso a duas dimensões. Quanto ao resto,
só há um esboço, um para-além. No que diz respeito à experiência, em
todo caso para uma hipótese de pesquisa que pode nos servir para alguma
coisa, se quiserem admitir que não há nada de bem estabelecido além
- e já é suficientemente rico e complicado - da experiência da superficie.
Mas is;:;o não quer dizer que não possamos encontrar, na experiência
da superficie sozinha, o testemunho de que ela, superficie, está mergulhada
num espaço que não é de forma alguma esse que vocês imaginam, com
sua experiência visual da imagem especular.

- 302 -
Lição de 2 de maio de 1962

E, para resumir, esse pequeno objeto, que mais não é senão o nó


mais elementar, não esse que não fiz por falta de ter podido trançar
um barbante que se fecharia sobre si mesmo, [mas] simplesmente isso,
o nó mais elementar, aquele que se traça assim, suficiente para levar
em si um certo n úmero de questões que introduzo, dizendo-lhes que a
terceira dimensão não basta, de forma nenhuma, para dar conta da
possibilidade disso. No entanto, um nó é algo que está ao alcance de
todo mundo; n ão está ao alcance de todo mundo saber o que ele fazia,
ao fazer um nó, mas, enfim, isso tomou um valor metafórico : os nós do
casamento, os nós do amor, os nós sagrados ou não, por que é que se
fala deles? São modos completamente simples, elementares, de pôr ao
alcance de vocês o caráter usual, se querem entrar nisso, que se tornou,
uma vez u sual, suporte possível de uma conversão que, se se realiza,
mostrará bem e logo em seguida que talvez esses termos devam ter
algo a ver com essas referências de estru tura de que precisamos para
distinguir o que se passa, por exemplo, nessas escalas que a Sra. Aulagnicr
divisou , indo do normal ao psicótico.
Será que, nesse ponto de junção onde, para o sujeito, se constitui a
imagem-nó, a imagem fundamental, a imagem que permite a mediação
entre o sujeito e seu desejo, será que não podemos introd uzir as distinções
bem simples e, vocês verão, realmente u tilizáveis na prática, que nos
permitem represen tarmo-nos de uma maneira mais simples e menos
fon te de antinomia, de aporia, de embaraço, de labirinto finalmente,
que os que tínhamos até aqui a nossa disposição, a saber, essa noção
sumária, por exemplo, de um in terior e de um exterior que, de fato,
tem o aspecto de ser evidente, a partir da imagem especular e que não
é absolutamente, forçosamente, a que nos é dada pela experiência?

- 303 -
LIÇAO XIX
9 de maio de 1 962

Na última sessão, ouvimos a Sr.ª Aulagnier falar-nos da angústia.


Prestei toda a homenagem que seu discurso merecia, fruto de um trabalho
e de uma reflexão absolutamente bem orientados. Ao mesmo tempo,
fiz observar o quanto certo obstáculo, que situei no nível da comunicação,
é sempre o mesmo, aquele que se levanta toda vez que temos de falar
da linguagem. Seguramente, os pontos sensíveis, os pontos que merecem,
dentro cio que ela nos disse, ser retificados s.io aqueles precisamente
em que, pondo o acento no que existe, o indizível, ela faz disso o índice
de uma hetero[!;eneidade daquilo que justamente ela visa como o "não
podendo ser dito", enquanto aquilo de que se trata, no caso, quando se
produz a angústia, é justamente para se apreender na sua ligação com
o fato de que há o "dizer" e o "não podendo ser dito". É assim que ela
não pode dar todo o seu pleno valor à fórmula que o _desejo do homem
é o desejo do Outro. Não é por referência a um terceiro que seria renascente,
o sujeito mais central, o sujeito idêntico a si mesmo, a consciência de
si hegeliana, que deveria operar a mediação entre dois desejos que ela
teria, de alguma maneira, diante dr, si: o seu próprio, como um objeto,
e o desejo do Outro. E mesmo ao dar a esse desejo do Outro a primazia,
ela teria de situar, de definir seu próprio desejo numa espécie de referência,
de relação ou não de dependência a esse desejo do Outro. Evidentemente,
num certo nível em que podemos permanecer sempre, há algo dessa
ordem, mas esse algo é precisamente aquilo graças a que evitamos o
que está no coração de nossa experiência e o que se trata de apreender.
E é por isso que tento forjar para vocês um modelo do que se trata de

- 305 -
A Identificação

apreender. O que se trata de apreender é que o sujeitoGG que nos interessa


é o desejo. Obviamente, isso só faz sentido a partir do momento em que
começamos a articular, a situar a que distância, através de que truque,
que não é de tela intermediária, mas de constituição, de determinação,
podemos situar o desejo.
Não é que a demanda nos separe do desejo - se bastasse afastar a
demanda, para encontrá-lo! - sua articulação significante me determina,
me condiciona como desejo. Esse é o longo caminho que já fiz vocês
percorrerem. Se o tornei tão longo é porque era preciso que fosse assim
para que a dimensão que isso supõe lhes faça fazer, de alguma maneira,
a experiência mental de apreendê-lo. Mas esse desejo, assim levado,
retransportado numa distância, articulado assim - não além da linguagem,
por causa da impotência dessa linguagem, mas estruturado como desejo
por causa dessa mesma potência - é ele agora que se tem de reencontrar
para que eu consiga fazer com que vocês concebam, apreendam, e há,
na apreensão, na Begriff, alguma coisa de sensível, alguma coisa de
uma estética transcendental que não deve ser aquela até aqui concebida,
já que é justamente naquela até aqui concebida que o lugar do desejo,
até o presente, se tem esquivado. Mas é o que explica a vocês minha
tentativa, que espero tenha êxito, de levá-los por caminhos que são
também os da estética, na medida em que eles tentam agarrar alguma
coisa que nunca foi vista em todo seu relevo, em toda a sua fecundidade
no nível das intuições, não tanto espaciais quanto topológicas, pois é
preciso que nossa intuição do espaço não esgote tudo o que é de uma
certa ordem, posto que também aqueles mesmos que se ocupam disso
com a maior qualificação, os matemáticos, tentam de todas as maneiras,
e conseguem, extrapolar a intuição.
Levo-os por esse caminho, afinal, para dizer as coisas com palavras
que sejam palavras de ordem; trata-se de escapar à preeminência da
intuição da esfera como aquela que, de alguma maneira, comanda muito
intimamente, mesmo quando não pensamos nela, nossa lógica. Pois,
evidentemente, se há uma estética que se chama de transcendental,
que nos interessa, é porque é ela que domina a lógica. É por isso que
àqueles que me dizem: " Será que você não poderia dizer-nos realmente
as coisas, fazer-nos compreender o que se passa com um neurótico e
com um perverso, e em que é diferente, sem passar pelos seus pequenos
toros e outros desvios? ", eu responderei que é, todavia, indispensável,

- 306 -
Lição de 9 de maio de 1962

absolutamente indispensável, e pela mesma razão, porque é a mesma


coisa que fazer lógica, pois a lógica em questão não é coisa vazia. Os
lógicos, assim como os gramáticos, disputam en tre si, e essas disputas,
por mais que, evidentemen te, só possamos penetrar em seu campo ao
evocá-las com discrição, sob o risco de nos perdermos ali, mas toda a
confiança que vocês têm por mim repousa nisso: é que vocês me dão o
crédito por ter feito algum esforço para não tomar o primeiro caminho
que apareceu e por ter eliminado um certo número de caminhos.
Mas, assim mesmo, para tranquilizá-los, vem-me a idéia de fazê-los
observar que não é in diferen te pôr em primeiro plano, na lógica, a
função da hipótese, por exemplo, ou a função da asserção. No tea tro,
naquilo que se chama de ada ptação, faz-se com que Ivan Karamázov
diga : " Se Deus não existe, en tão tudo é permitido " . Reportem-se ao
texto. Vocês lêem - e, aliás, se minha memória não falha, é Aliocha
quem diz isso, quase que por acaso: "Já que Deus não existe, então
tudo é permitido " . Entre esses dois termos existe a diferença do se e do
já que , isto é, de uma lógica hipotética a uma lógica assertórica. E
vocês me dirão : "Distinção de lógicos, em quê ela nos interessa ? "
Ela nos interessa tan to que é para apresentar a s coisas d o primeiro
modo que, no último termo, no termo kan tiano, é mantida para nós a
existência de Deus. Já que, em suma, tudo está lá; como, é eviden te,
tudo não é permitido, en tão, na fórmula hipotética, impõe-se como
necessário que Deus exista. E eis por que sua filha é muda 67 e como,
na articulação ensinante do livre pensamento, mantém-se no cerne da
articulação de todo pensa men to válido a existência de Deus como um
termo sem o qual n ão haveria sequer meio de avançar alguma coisa na
qual se apreendesse a sombra de uma certeza. E vocês sabem - o que
acreditei dever lembrar-lhes um pouco sobre esse assunto - que a trajetória
de Descartes não pode passar por outros caminhos . Acon tece que não
é forçosamente, ao designá-lo com o termo de ateísta, que se definirá
melhor nosso projeto, que é talvez tentar fazer passar por outra coisa
as conseqüências que esse fa to comporta, para nós, de experiência , o
fato de que haja algo de permitido . "Há permitido porque há interdito ",
me dirão vocês, bem contentes de encontrar ali a oposição entre o A e
o não-A, entre o branco e o preto. Sim, mas isso não basta, porque,
longe de esgotar o campo, o permitido e o proibido, o que se trata de
estruturar, de organizar, é como é verdade que um e outro se determi nem,

- 307 -
A Identificação

e muito estreitamente, deixando, ao mesmo tempo, um campo aberto


q ue, não somente não é excluído por eles, mas os faz reunir-se e, nesse
movimento de torção, se se pode dizer, dá sua forma, propriamente
falando, àq uilo q ue s u stenta o todo, ou seja , a forma do desejo. Para
dizer a verdade: que o desejo se insti tui em transgressão, cada um sente,
cada um vê bem, cada um tem a experiência disso, o que não quer
dizer, não pode seq u er q uerer dizer que se trata, aí, apenas de u ma
questão de fronteira, de limite traçado. É para além da fronteira ultrapassada
que começa o desejo.
Evidentemente, isso parece freqüen temente o caminho mais curto,
mas é um caminho desesperado. É por um outro lugar que se faz a
passagem. Aind a que a fronteira, a do proibido, não signifique tampouco
fazê-lo baixar cio céu e da existência do significante. Quando falo a
vocês da Lei, falo dela como Freud, o u seja, que, se um dia ela s urgiu,
sem dúvida foi necessário que o significante imediatamente pusesse
ali sua marca, sua insígnia, sua forma , mas é ainda assim de algo q u e
é um desejo original que o nó s e pôde formar para que se fu ndem
jun tos a Lei, como limite, e o desejo, em sua forma. É isso que tentamos
figurar para entrar até no detalhe, percorrer novamente esse caminho
que é sempre o mesmo, mas que fechamos cm torno de um n ó cada
vez mais cent ral, do q ual não perco a esperança de mostrar a vocês a
figura umbilical . Nós retomamos o mesmo caminho e não esqueçamos
que o que está menos situado, para nós, em termos de referências , q u e
seriam q uer legalistas, quer formalistas, q uer naturalistas , é a noção
do pequeno a enquanto não é o ou tro imaginário que ele designa. Por
mais que nos identifi q uemos com ele no desconhecimento egóico, é
i (a) . E ali também encontramos esse mesmo nó interno, q ue faz com
que o que tem o aspecto de ser tão simples: que o Outro nos é dado sob
uma forma imaginária , não o é, porque esse Outro, é justamente dele
que se trata, quando falamos do objeto. Desse objeto, não se trata de
dizer absolutamente que é simplesmente o objeto real, que é precisamente
o objeto do desejo enquanto tal, sem dúvida original, mas que só podemos
considerar como tal a partir do momento em que tivermos captado,
compreendido, aprendido o que q uer dizer que o sujeito, enquanto se
constit ui como dependência do signif'icantc, como além da demanda,
é o desejo.

- 308 -
Lição de 9 de maio de 1962

Ora , é esse ponto do laço que ain da não está assegurado e é ar que
avançamos e 'é por isso que nos lembramos do uso que temos feito até
aciui cio peq ueno 11 . Onde foi que o vimos? Onde é que vamos designá­
lo primeiro? No fantasma , onde, bem evidentemente, há uma função
que tem alguma relação com o imaginário. Vamos chamá-la de valor
imaginári o n o fantasma . Ela não é
apenas simplesmente projetável de uma
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----
,,,, - .... ..... '
maneira intuitiva na função de engodo S(Á) I \
tal como n os é dada na experiência
biológica, por exemplo. É outra coisa
e é o que faz lembrar a vocês a
formalização do fantasma como sendo 1
constituído em sua relação pelo conjunto 1
1
$ desejo de a /$ < >a}, e a situação
'A
dessa fórmula no grafo que mostra
homologicamcnte, por sua posição no
estágio superior que a faz homóloga,
do i (a) do estágio inferior, enquanto
·----- ·,, ...
!J. 1
, m

ele é o suporte do eu, m minúsculo


aqui, assim como $ desejo de a é o
suporte do desejo. O que isso quer dizer? É que o fantasma está ali
onde o sujeito se apreen de, naquilo que lhes apontei por estar em questão
no segundo estágio do grafo, sob a forma retomada no nível do Outro,
no campo do Outro, nesse ponto aqui do grafo, da questão: "O que isso
quer?" , que é igualmente aquela que tomará a form a : "Que quer ele?"
se alguém soube tomar o lugar, projetado pela estrutura, do lugar do
Outro, a saber, esse lugar de quem é o mestre e o garante. Isto quer
dizer que, no campo e no percurso dessa questão, o fantasma tem uma
função homóloga àquela de i (a), do eu ideal, eu imaginário sobre o qual
repouso; que essa função tem uma dimensão, sem dúvida algumas vezes
apontada e mesmo mais de uma vez, da qual é preciso aqui que eu lhes
lembre que ele antecipa a função do eu ideal, como isso se representa
no grafo para vocês, que é por uma espécie de retorno que permite,
assim mesmo, um curto-circuito em relação à condução intencional do
discurso co11sidcrado como constituinte do sujeito, neste primeiro andar,
que aqui, antes que significado e significante, se cruzando novamente,
ele tenha constituído sua frase, o sujeito imaginariamente antecipa aquele

- 309 -
A Identificação

apreender. O que se trata de apreender é que o sujeito66 que nos interessa


é o desejo. Obviamente, isso só faz sentido a partir do momento em que
começamos a articular, a situar a que distância, através de q ue truque,
que não é de tela intermediária, mas de constituição, de determinação,
podemos situar o desejo.
Não é que a demanda nos separe do desejo - se bastasse afastar a
demanda, para encontrá-lo! - sua articulação significante me determina,
me condiciona como desejo. Esse é o longo caminho que já fiz vocês
percorrerem. Se o tornei tão longo é porque era preciso que fosse assim
para que a dimensão que isso supõe lhes faça fazer, de alguma maneira,
a experiência mental de apreendê-lo. Mas esse desejo, assim levado,
retransportado numa distância, articulado assim - não além da linguagem,
por causa da impotência dessa linguagem, mas estruturado como desejo
por causa dessa mesma potência - é ele agora que se tem de reencontrar
para que eu consiga fazer com que vocês concebam, apreendam, e há,
na apreensão, na Begriff, alguma coisa de sensível, alguma coisa de
uma estética transcendental que não deve ser aquela até aqui concebida,
já que é justamente naquela até aqui concebida que o lugar do desejo,
até o presente, se tem esquivado. Mas é o que explica a vocês minha
tentativa, que espero tenha êxito, de levá-los por caminhos que são
também os da estética, na medida em que eles tentam agarrar alguma
coisa que nunca foi vista em todo seu relevo, em toda a sua fecundidade
no nível das intuições, não tanto espaciais quanto topológicas, pois é
preciso que nossa intuição do espaço não esgote tudo o que é de uma
certa ordem, posto que também aq ueles mesmos que se ocupam disso
com a maior qualificação, os matemáticos, tentam de todas as maneiras,
e conseguem, extrapolar a intuição.
Levo-os por esse caminho, afinal, para dizer as coisas com palavras
que sejam palavras de ordem; trata-se de escapar à preeminência da
intuição da esfera como aquela que, de alguma maneira, comanda muito
intimamente, mesmo quando não pensamos nela, nossa lógica. Pois,
evidentemente, se há uma estética que se chama de transcendental,
que nos interessa, é porque é ela que domina a lógica. É por isso que
àqueles que me dizem: "Será que você não poderia dizer-nos realmente
as coisas, fazer-nos compreender o que se passa com um neurótico e
com um perverso, e em que é diferente, sem passar pelos seus pequenos
toros e outros desvios? ", eu responderei que é, todavia, indispensável,

- 306 -
Lição de 9 de maio de 1962

absolutamente indispensável, e pela mesma razão, porque é a mesma


coisa que fazer lógica, pois a lógica em questão não é coisa vazia. Os
lógicos, assim como os gramáticos, disputam entre si, e essas disputas,
por mais que, evidentemente, só possamos penetrar em seu campo ao
evocá-las com discrição, sob o risco de nos perdermos ali, mas toda a
confiança que vocês têm por mim repousa nisso: é que vocês me dão o
crédito por ter feito algum esforço para não tomar o primeiro caminho
que apareceu e por ter eliminado um certo número de caminhos.
Mas, assim mesmo, para tranquilizá-los, vem-me a idéia de fazê-los
observar que não é indiferente pôr em primeiro plano, na lógica, a
função da hipótese, por exemplo, ou a função da asserção. No teatro,
naquilo que se chama <le adaptação, faz-se com que Ivan Karamázov
diga: " Se Deus não existe, então tudo é permitido". Reportem-se ao
texto. Vocês lêem - e, aliás, se minha memória não falha, é Aliocha
quem diz isso, quase que por acaso: "Já que Deus não existe, então
tudo é permitido". Entre esses dois termos existe a diferença <lo se e do
já que , isto é, de uma lógica hipotética a uma lógica assertórica. E
vocês me dirão : "Distinção de lógicos, em quê ela nos interessa ? "
Ela nos interessa tanto que é para apresentar a s coisas d o primeiro
modo que, no último termo, no termo kantiano, é mantida para nós a
existência de Deus. Já que, em suma, tudo está lá; como, é evidente,
tudo não é permitido, então, na fórmula hipotética, impõe-se como
necessário que Deus exista . E eis por que sua filha é muda 67 e como,
na articulação ensinante do l ivre pensamento, mantém-se no cerne da
articulação de todo pensamento válido a existência de Deus como um
termo sem o qual não haveria sequer meio de avançar alguma coisa na
qual se apreendesse a sombra de uma certeza. E vocês sabem - o que
acreditei dever lembrar-lhes um pouco sobre esse assunto - que a trajetória
de Descartes não pode passar por outros caminhos. Acontece que não
é forçosamente, ao designá-lo com o termo de ateísta, que se definirá
melhor nosso projeto, que é talvez tentar fazer passar por outra coisa
as conseqüências que esse fato comporta, para nós, de experiência, o
fato de que haja algo de permitido. "Há permitido porque há interdito",
me dirão vocês, bem contentes de encontrar ali a oposição entre o A e
o não-A, entre o branco e o preto. Sim, mas isso não basta, porque,
longe de esgotar o campo, o permitido e o proibido, o que se trata de
estruturar, de organizar, é como é verdade que um e outro se determinem,

- 307 -
A Identificação

e m uito estrei tamen te, deixando, ao mesmo tempo, um campo aberto


que, não somente não é excluído por eles, mas os faz reunir-se e, nesse
movimento de torção, se se pode dizer, dá sua forma, propriamente
falando, àquilo q ue sustenta o todo, ou seja, a forma do desejo. Para
dizer a verdade: que o desejo se institui em transgressão, cada um sen te,
cada um vê bem, cada um tem a experiência disso, o que não quer
dizer, não pode sequer querer dizer que se trata, aí, apenas de uma
questão de fronteira, de limite traçado. É para além da fronteira ultrapassada
que começa o desejo.
Eviden temente, isso parece freqüen temente o caminho mais curto,
mas é um caminho desesperado. É por um outro lugar que se faz a
passagem. Ainda que a fron teira, a do proibido, não signifique tampouco
fazê-lo baixar do céu e da existência do significante. Quan do falo a
vocês da Lei, falo dela como Freud, ou seja, que, se um dia ela surgiu,
sem dúvida foi necessário que o significante imediatamen te pusesse
ali sua marca, sua insígnia, sua forma , mas é ainda assim de algo que
é um desejo original que o nó se pôde fo rmar para que se fundem
juntos a Lei, como limite, e o desejo, cm sua forma. É isso que ten tamos
figurar para entrar até no detalhe, percorrer n ovamente esse caminho
que é sempre o mesmo, mas que fechamos cm torno de um nó cada
vez mais central, do qual não perco a esperança de mostrar a vocês a
figura umbilical. Nós retomamos o mesmo caminho e não esqueçamos
que o q ue está menos si tuado, para nós, em termos de referências , que
seriam quer legalistas, quer formalistas, quer naturalistas , é a noção
do pequeno a en q uanto não é o outro imaginário que ele designa. Por
mais que nos iden tifiquemos com ele no desconhecimen to egóico, é
i (a) . E ali também encontramos esse mesmo nó interno, que faz com
que o que tem o aspecto de ser tão simples : que o Outro nos é dado sob
uma forma imaginária, não o é, porque esse Outro, é justamente dele
que se trata, quando falamos do objeto. Desse objeto, não se trata de
dizer absolu tamente que é simplesmente o objeto real, que é precisamen te
o objeto do desejo enquanto tal, sem dúvida original, mas que só podemos
considerar como tal a partir do momen to em que tivermos captado,
compreen dido, aprendido o que quer dizer que o sujeito, enquan to se
con stitui corno depend ência cio signi l'icante, como além da demanda,
é o desejo.

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Lição de 9 de maio de 1962

Ora, é esse ponto do laço que ainda não está assegurado e é af que
avançamos e ·é por isso que nos lembramos do uso que temos feito até
aqui do pequeno a . Onclc foi que o vimos? Onde é que vamos designá­
lo primeiro? No fantasma, onde, bem evidentemente, há uma função
que tem alguma relação com o imaginário. Vamos chamá-la de valor

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imaginário no fantasma . Ela não é
apenas simplesmente projetável de uma
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maneira intuitiva na função de engodo S(Á) I /
tal como nos é dada na experiência
biológica, por exemplo. É outra coisa
e é o que faz lembrar a vocês a
formalização do fantasma como sendo 1
constituído em sua relação pelo conjunto 1
1
$ desejo de a /$ < >a], e a situação
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dessa fórmu la no grafo que mostra
homologicamcntc, por sua posição no , m
estágio superior que a faz homóloga, ·---····· ' ·1
do i (a) do estágio inferior, enquanto ô,. 1
ele é o su porte do eu, m minúsculo
aqui, assim como $ desejo de a é o
suporte do desejo. O que isso quer dizer? É que o fantasma está ali
onde o sujeito se apreende, naquilo que lhes apontei por estar em questão
no segundo estágio do grafo, sob a forma retomada no nível do Outro,
no campo do Outro, nesse ponto aqui do grafo , da questão: "O que isso
quer?", que é igualmente aquela que tomará a forma: "Que quer ele? "
se alguém soube tomar o lugar, projetado pela estrutura, do lugar do
Outro, a saber, esse lugar de quem é o mestre e o garante. Isto quer
dizer que, no campo e no percurso dessa questão, o fantasma tem uma
função homóloga àquela de i (a), do eu ideal, eu imaginário sobre o qual
repouso; que essa função tem uma dimensão, sem dúvida algumas vezes
apontada e mesmo mais de uma vez, da qual é preciso aqui que eu lhes
lembre que ele antecipa a função do eu ideal, como isso se representa
no grafo para vocês, que é por uma espécie de retorno que permite,
assim mesmo, um curto-circuito cm relação à condução intencional do
discurso consid era do como constituinte do sujeito, neste primeiro andar,
que aqui, antes que significado e significante, se cruzando novamente,
ele ten ha constituído sua frase, o sujeito imaginariamente antecipa aquele

- 309 -
A Identificação

que ele designa como eu [moi]. É este mesmo sem dúvida que o je do
discurso suporta em sua função de shifter. O je literal no discurso não é
nada mais que o próprio sujeito que fala, mas aquele que o sujeito designa,
aqui, como seu suporte ideal, está adiante, num futuro anterior, aquele
que ele imagina que terá falado: "Ele terá falado". No próprio fundo do
fantasma existe também um "Ele o terá querido".
Não levarei isso mais longe. Assim, essa abertura e essa observação
não se referem, senão à partida de nosso caminho no grafo, eu quis
implicar uma dimensão de temporalidade. O grafo é feito para mostrar
já esse tipo de nó que estamos, por enquanto, buscando no nível da
identificação. As duas curvas que se entrecruzam em sentido contrário,
mostrando que sincronismo não é simultaneidade, já estão indicando
na ordem temporal aquilo que estamos tentando enlaçar no campo topológico.
Em suma, o movimento de sucessão, a cinética significante, eis o que
suporta o grafo. Eu o lembro, aqui, para lhes mostrar o alcance, pelo
fato de eu não ter feito absolutamente estado doutrinal disso, dessa
dimensão temporal, da qual a fenomenologia contemporânea tira grandes
vantagens, porque, na verdade, creio que não há nada de mais mistificador
que falar do tempo a torto e a direito.
Mas é, mesmo assim � aqui eu constato para indicá-lo a vocês - aí
que teremos de retornar para constituir, não mais uma cinética, mas
uma dinâmica temporal, o que só poderemos fazer depois de termos
ultrapassado - o que se trata de fazer agora - ou seja, a referência
topológica espacializante da função identificatória. Isso quer dizer que
vocês se enganariam se se detivessem em qualquer coisa que eu já
tenha formulado, que eu tenha acreditado dever formular de maneira
igualmente antecipadora sobre o assunto da angústia, com o complemento
que foi acrescentado pela Sr.ª Aulagnier no outro dia, tanto que efetivamente
não será restituído, reportado, reconduzido no campo dessa função o
que já tenho indicado desde sempre, posso dizer desde o artigo sobre o
estádio do espelho, que distinguia a relação de angústia da relação da
agressividade, a saber, a tensão temporal.
Voltemos a nosso fantasma e ao pequeno a, para captar o que está
em questão nessa imaginificação própria a seu lugar no fantasma. É
evidente que não o podemos isolar sem seu correlativo do $, porque a
emergência da função do objeto do desejo como pequeno a, no fantasma,
é correlativa dessa espécie de fading, de apagamento do simbólico que

-310-
Lição de 9 de maio de 1962

é aquilo mesmo que articulei na última sessão - acho que ao responder


à Sr.ª Aulagnier, se minha memória é boa - como a exclusão determinada
pela própria dependência do sujeito do uso do significante. É porque é
enquanto o significante tem de redobrar seu efeito, ao querer se designar
a si mesmo, que o sujeito surge como exclusão do próprio campo que
ele determina, não sendo então nem aquele que é designado, nem aquele
que designa, não obstante, o ponto essencial, que isso só se produz em
relação com o jogo de um objeto, primeiro como alternância de uma
presença e de uma ausência. O que quer dizer, primeiro formalmente,
a conjunção$ e pequeno a, é que no fantasma, sob seu aspecto puramente
formal e radicalmente, o sujeito se faz -a, ausência de a, e somente
isso, diante do pequeno a, no nível daquilo que chamei de identificação
com o traço unário.A identificação só é introduzida, só se opera pura

-a

e simplesmente nesse produto do -a pelo a, e que não é difícil ver em


que - não simplesmente como por um jogo mental, mas porque somos
aí levados por alguma coisa que é, para nós, nosso modo de alguma
coisa que recebe ali legitimamente sua fórmula - o -a2 = 1 que daí resulta
o que nos introduz ao que há de carnal, de implicado neste símbolo
matemático de IT Evidentemente, não nos deteríamos num jogo assim,
se não tivéssemos sido trazidos a ele por mais de uma via, de uma
maneira convergente.
Retomemos, por enquanto, nossa marcha, para tentar designar o que
comanda para nós, no desenho da estrutura, a necessidade de dar conta
da forma à qual o desejo nos conduz. Não o esqueçamos, o desejo
inconsciente, tal como temos de dar conta, acha-se na repetição da
demanda e, afinal, desde a origem daquilo que Freud modula para nós,
é ele que a motiva. Vejo alguém que me diz: "Ora, sim, é óbvio, nfto se
fala nunca disso", com exceção de que, para nós, o desejo não se justifica
somente por ser tendência, ele é outra coisa. Se vocês entendem, se
vocês acompanham o que entendo significar por desejo, é que nós não

-311-
A Identificação

nos contentamos com a referência opaca a um automatismo de repetição,


por mais que esse automatismo de repetição tenha sido identificado por
nós. Trata-se da busca, ao mesmo tempo necessária e condenada, de
uma vez única qualificada, rotulada como tal por esse traço unário,
aquele mesmo que não pode se repetir senão sempre para ser um outro.
E, desde então, nesse movimento, nessa dimensão nos aparece por
que o desejo é o que suporta o movimento, certamente circular, da
demanda sempre repetida, mas da qual um certo número de repetições
podem ser concebidas - aí está o uso da topologia do toro - como
completando alguma coisa. O movimento de bobina da repetição da
demanda se fecha em algum lugar, mesmo virlualmente, definindo um
outro círculo que se alcança nessa mesma repetição e que desenha o
quê? O objeto do desejo; isso que, para nós, é necessário formular assim,
porque igualmente na partida o que nós instituímos como base mesma
de toda nossa apreensão da significação analítica, é essencialmente
isso, que sem dúvida falamos de um objeto oral, anal, etc., mas que
esse objeto nos importa, esse objeto estrutura o que, para nós, é fundamental
da relação do sujeito com o mundo nisso, que esquecemos sempre, é
que esse objeto não permanece como objeto da necessidade. É pelo
fato de ter sido tomado no movimento repetitivo da demanda, no
automatismo de repetição, que ele se torna objeto do desejo.
É o que quis lhes mostrar no dia em que, por exemplo, tomando o
seio como signilkante da demanda oral, eu mostrava-lhes que é justamente
por causa disso que, eventualmente - era o que eu tinha de mais simples
para f'azer com que vocês o alcançassem-, é justamente nesse momento
que o seio real se torna, não oqjeto de alimentação, mas objeto erótico,
mostrando-nos uma vez mais que a função do significante exclui que o
si1-,rnillcante possa se significar a si mesmo. É justamente porque o objeto
se toma reconhecível como si!);nil'icante de uma demanda latente que
ele toma valor de um desejo que é de um outro registro. A dimensão
libidinal, pela qual se começou a entrar na análise como marcando
todo desejo humano, não quer dizer, não pode querer dizer outra coisa
senão isso. O que não quer dizer que não seja necessário relembrá-la.
É o fato dessa transmutação que se trata de apreender, o fato dessa
transmutação é a função do falo, e não há meio de defini-la de outra
maneira. A função do falo, cp, é isso a que tentaremos dar seu suporte
topológico. O falo, sua verdadeira forma, que não é forçosamente aquela

-312-
Lição de 9 de maio de 1962

de um pinto, embora pareça muito, é isso que não perco a esperança


de desenhar aqui no quadro-negro Se -.,oct�s fossem capazes, sem sucumbir
à vertigem, de contemplar o dito pinto de que eu falava, vocês poderiam
ver que, com o seu prepúcio, é de fato algo muito engraçado. Isso talvez
ajude vocês a perceberem que a topologia não é essa coisa sem nenhuma
importância como vocês devem imaginar, e certamente vocês terão a
oportunidade de se darem conta disso. Dito isso, não é à-toa que através
de séculos de história da arte só haja representações verdadeiramente
tão lamentavelmente grosseiras daquilo que chamo de pinto. Enfim,
comecemos por relembrar isso, de toda maneira porque não se deve ir
r.ípido demais: esse falo nunca está tanto ali - é dali que se deve partir
- quanto quando está ausente. O que já é um bom sinal para presumir
que é ele que é o pivõ, o ponto giratório da constituição de todo objeto
como objeto do desejo. Que ele não esteja tanto ali quanto quando está
ausente, seria ridículo que eu precisasse mostrar a vocês mais de uma
indicação disso, se não me bastasse evocar a equivalência girl-phallus,
para dizer tudo, que a silhueta omnipresente de Lolita pode fazer sentir.
Não preciso tanto de Lolita; há pessoas que sabem muito bem discernir
o que é simplesmente o aparecimento de um broto num galhinho de
árvore. Não é evidentemente o falo - pois, seja como for, o falo é o falo
- é, de todo jeito, sua presença justamente ali onde não está. Isso vai
mesmo muito longe. A Sra. Simone de Beauvoir fez todo um livro para
reconhecer Lolita em Brigitte Bardot. A distância que existe entre o
desabrochar completo do charme feminino e o que é propriamente o
mecanismo, a atividade erótica de Lolita, parece-me constituir uma
hiânciafjH total, a coisa mais fácil de se distinguir no mundo. O falo,
quando foi que começamos aqui a nos ocupar dele de um modo que
seja um pouco estruturante e fecundo? Foi evidentemente a propósito
dos problemas da sexualidade feminina. E a primeira introdução da
diferença de estrutura entre demanda e desejo, não nos esqueçamos,
foi a propósito dos fatos descobertos em todo seu relevo original por
Freud quando abordou esse assunto, isto é, que ele se articula da maneira
mais limitada a essa fórmula, que é porque ele tem de ser demandado
no lugar onde não está, o falo, a saber, na mãe, à mãe, pela mãe, para
mãe, que por ali passa o caminho normal por onde ele pode vir a ser
desejado pela mulher. Se, de fato, isso acontece, que ele possa ser constituído
como objeto de desejo, a experiência analítica põe o acento sobre o

-313-
A Identificação

fato de que é preciso que o processo passe por uma primitiva demanda,
com tudo o que ela comporta, na ocasião, de absolutamente fantasmático,
irreal, contrária à natureza, uma demanda estruturada como tal, e uma
demanda que continue a veicular suas marcas a ponto de ela parecer
inesgotável e que todo o acento do que lhe diz Freud não quer dizer
que isso baste para que o Sr. Jones o compreenda ele próprio. Isso quer
dizer que é na medida em que o falo pode continuar a permanecer
indefinidamente objeto de demanda àquele que não pode dá-lo nesse
plano que, justamente, se eleva toda a dificuldade de ele atingir o que
pareceria mesmo - se de fato Deus os tivesse feito homem e mulher,
como diz o ateu Jones, para que eles sejam um para o outro, como o fio
é para a agulha - o que pareceria, porém, natural, que o falo fosse
primeiramente objeto do desejo. É pela porta de entrada, e a porta de
entrada difícil, a porta de entrada que torce toda a relação com ele, que
esse falo entra, mesmo ali onde parece ser o objeto mais natural, na
função do objeto.
O esquema topológico que vou formar para vocês e que consiste, em
relação ao que primeiramente se apresentou para vocês sob essa forma
do oito invertido, está destinado a advertir vocês da problemática de
todo uso limitativo do significante, já que, por ele, um campo limitado
não pode ser identificado àquele puro e simples de um círculo.

O campo marcado no interior não é tão simples quanto isso aqui, quanto
o que marcava um certo significante de fora. Há, em algum lugar,
necessariamente, pelo fato do significante se redobrar, ser chamado à
função de se significar a si mesmo, um campo produzido que é de
exclusão e pelo qual o sujeito é rejeitado no campo exterior. Antecipo e
profiro que o ralo, cm sua runç:1o radical, é apenas sig11if'ica11lc, mas,
embora ele possa se significar a si mesmo, ele é inominável como tal. Se
ele está na ordem do significante - pois é um significante e nada mais -
ele pode ser colocado sem diferir de si mesmo. Como concebê-lo intuitivamente?

-314-
Lição de 9 de maio de 1962

Digamos que ele é o único nome que abole todas as outras denominações
e que é por isso que ele é indizível. Ele não é indizível, já que o podemos
chamar de falo, i:nas não se pode ao mesmo tempo dizer falo e continuar
a nomear outras coisas.
Última referência: em nossos apontamentos, no começo de uma de
nossas jornadas científicas, alguém tentou articular, de um certo modo,
a função transferencial mais radical ocupada pelo analista enquanto
tal. É certamente uma abordagem que não se deve negligenciar, o fato
de que tenha conseguido articular cruamente - e minha fé é que se
possa ter o sentimento de que é algo de ousado - que o analista, em
sua função, tenha o lugar do falo, o que isso pode querer dizer? É que
o falo, para o Outro, é precisamente o que encarna, não o desejável, o
EpcoµEvov, embora sua função seja a do fator pelo qual, qualquer objeto
que seja, seja introduzido na função de objeto do desejo, mas a do desejante,
do Epcov. É enquanto o analista é a presença suporte de um desejo inteiramente
velado que ele é esse Che vuoi? encarnado.
Eu lembrava, há pouco, que se pode dizer que o fator <p tem valor
fálico constitutivo do próprio objeto do desejo; ele o suporta e o encarna,
mas é uma função de subjetividade tão temível, problemática, projetada
numa alteridade tão radical, e é bem por isso que eu os trouxe e os
conduzi a essa encruzilhada, no ano passado, como sendo o mecanismo
essencial de toda a questão da transferência: o que deve ser ele, esse
desejo do analista?

Por enquanto, o que se propõe a nós é encontrar um modelo topológico,


um modelo de estética transcendental que nos permita dar conta ao
mesmo tempo de todas as funções do falo. Scd que há algo que se parl'ça
com isso? Algo que, como isso, seja o que se chama, em topologia, de
supcrfklc f'cchacla, noçüo que 10111a sua f'unç,111, ,) qual 11•11111s o dirl'ilo
de dar um valor homólogo, um valor equivalente da li.1111,:[w de signilkflllcia,
porque nós podemos defini-la pela função do corte. Já fiz referência a
isso mais de uma vez. Entendam o corte feito com um par de tesouras

-315-
A Identificação

num balão de borracha, de maneira a inibir, por hábitos


que se podem bem qualificar de seculares, que em muitos
casos uma multidão de problemas que se colocam não
saltam aos olhos. Quando acreditei dizer a vocês coisas
muito simples a propósito do oito interior sobre a superfície
do toro, e quando, em seguida, desenrolei meu toro crendo
que as coisas iam por si sós, que havia longo tempo que
cu l hes tinha explicado que havia uma maneira de abrir
o toro com um corte de tesoura e, quando vocês abrem o
toro através, vocês têm uma cinta aberta, o toro é reduzido
a isso; e basta, nesse momento, tentar projetar sobre essa superfície o
retângulo, que seria melhor chamar de quadrilátero, aplicar ali em cima
o que havíamos designado anteriormente sob essa forma do oito invertido,
para ver o que se passa e em que algo está efetivamente limitado, algo
que pode ser escolhido, distinguido entre um campo limitado por esse
corte e, se vocês quiserem, o que está do lado de fora. O que não é tão
evidente, não salta aos olhos. Todavia, essa pequena imagem que lhes
representei parece ter, para alguns, ao primeiro choque, trazido algum
problema. É porque isso não é assim tão fácil.
Na próxima sessão, terei não apenas de voltar a isso, mas de mostrar­
lhes algo ele que não tenho lugar para fazer mistério antes, pois, afinal,
se alguns querem preparar-se para isso, indico-lhes que fa larei de um
outro modo de su perfície, definida como tal e puramente em termos
de superfície, cujo nome já pronunciei e que nos será muito útil. Chama­
sc, en1 i1 1p;lês, línp;11a em que as obras são mais numerosas, um cross­
cap, o que q uer dizer alp;o como hmu: cruzado. Traduziu -se, cm francês,
crn alp;urnas ocasiücs pelo termo mitra, corn o que cf'ctivamcntc isso
pode ter uma semelhança grosseira. Essa forma d e superfície
topologicamente definida comporta em si certamente um atrativo puramente
especulativo e mental que, espero, não deixará de interessar a vocês.
Tomarei cuidado em dar-lhes representações figuradas que tenho feitas,
numerosas, e, sobretudo, sob os ângulos que não são aqueles, obviamente,
sob os quais eles implicam os matemáticos ou sob os quais vocês os
encontrarão representados nas obras que dizem respeito à topologia.
Minhas figuras conservarão toda sua função original, dado que não
lhes dou o mesmo uso e que não são as mesmas coisas que tenho pesquisado.
Lição de 9 de maio de 1962

Saibam, contudo, que o que se trata de formar de uma maneira sensata,


de uma maneira sensível, está destinado a comportar como suporte um
certo número de reflexões e outras que são esperadas na seqüência, a
saber, a de vocês, no caso; comportando um valor, se posso dizer, mutativo,
que lhes permita pensar as coisas da lógica, pelas quais comecei, de

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uma outra maneira que não as que os famosos círculos de Euler mantêm
para vocês amarradas.

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Longe que esse campo interior [x] do oito seja obrigatoriamente e
para tudo um campo excluído, ao menos numa forma topológica, fato
mais sensível e dos mais representáveis e dos mais divertidos dos cross­
caps em questão, por mais longe que esse campo seja um campo a
excluir, ele deve, ao contrário, ser mantido. Evidentemente, vamos abaixar
a bola. Haveria uma maneira que seria absolutamente simples de imaginá­
lo de um modo a ser mantido. B asta que vocês tomem algo que tenha
uma forma um pouquinho apropriada, um círculo mole e, torcendo-o
de um certo modo e dobrando-o, ter uma lingüeta cuja parte baixa
estaria em continuidade com o resto das bordas. Não obstante, assim
mesmo Ji;í o seguin te: isso n ,i o passa de um artifício, a saber, que esta
borda é e l"e tiva111e11Le sempre a mesma borda. É disso mesmo que se
trata: trata-se ele saber, muito diferentemente, se essa superfície, que
faz litígio para nós, que chega a simbolizar esteticamente, intuitivamente,
uma outra dimensão possível do limite significante do campo marcado,
é realizável de uma maneira diferente e de alguma forma imediata a
obter, por simples aplicação das propriedades de uma superfície com a
qual vocês ainda não estão habituados. É o que veremos na próxima vez.

-317-
LIÇAO XX
1 6 de maio 1 962

Essa elucubração da superfície, justifico sua necessidade, é evidente


que o que lhes dou é o resultado de uma reflexão . Vocês não esqueceram
que a noção de superfície, em topologia, não é evidente e não é dada
como uma intuição. A superficie é algo que não é evidente. Como abordá­
la'? A partir daquilo que no real a introduz, ou seja, o que mostraria
que o espaço não é essa extensão aberta e desprezível, como pensava
Bergson. O espaço não é tão vazio quanto ele o cria, o espaço guarda
muitos mistérios.
Coloquemos, de saída, alguns termos. É certo que uma primeira
coisa essencial na noção de superfície [surface] é a de face: haveria 2
faces ou 2 lados. Isso é evidente, se nós mergulharmos essa superfície
no espaço. Mas, para trazer até nós aquilo que, para nós, pode tomar a
noção de superfície, é preciso que saibamos o que ela nos oferece das
suas próprias dimensões. Ver o que ela pode nos oferecer, enquanto
superfície que divide o espaço com suas próprias dimensões, sugere­
nos o ponto de partida que vai nos permitir reconstruir o espaço de
outra maneira diferente daquela cuja intuição acreditamos ter. Em outros
termos, proponho a vocês considerar como mais evidente [devido à
captura imaginária], mais simples, mais certo [porque ligado à ação],
mais estrutural partir da superfície para definir o espaço - do qual
tenho certeza de que estamos pouco seguros - digamos, definir o lugar
antes que partir do lugar para definir a superfície. [Vocês podem se
reportar, aliás, ao que a filosofia pode dizer do lugar]. O lugar do Outro
já tem seu lugar em nosso seminário.

- 319 -
A Identificação

Para definir a face de uma superfície, não basta dizer que é de um


lado e de outro, tanto mais porque isso nada tem de satisfatório, e, se
algo nos dá a vertigem pascaliana são exatamente estas duas regiões
cujo plano infinito dividiria todo o espaço. Como definir essa noção de
face? É o campo onde pode estender-se uma linha, um caminho sem
ter de encontrar uma borda. Mas há superfícies sem borda: o plano ao
infinito, a esfera, o toro e várias outras que, como superfícies sem
borda, se reduzem praticamente a uma só : o cross-cap ou mi tra ou
boné cruzado, representado aqui embaixo.

--- - -- - - -- - - -- ....
Fig. 1 Fig. 2

O cross-cap, nos livros eruditos, é isso [fig. 21, cortado para poder inserir­
se sobre uma outra superficie. Essas três superfícies, esfera, toro, cross­
cap, são superfícies fechadas elementares, na composição das quais todas
as outras superl'ícies fechadas podem se reduzir. Chamarei, todavia, de
cross-cap a figura 1. Seu verdadeiro nome é o plano projetivo da teoria das
superl'ícies de Riemann, cuja plano é a base. Ele faz intervir pelo menos a
quarta dimensão. J;í a terceira dimensão, para nós, psicólogos das profundezas,
causa bastante problema para que a consideremos como pouco garantida.
Todavia, nessa simples figura, no cross-cap, a quartajá está necessariamente
implicada. O nó elementar, feito no outro dia com um barbante, presentifica
já a quarta dimensão. Não há teoria topológica válida sem que façamos
intervir algo que nos leve à quarta dimensão.

- 320 -
Lição de 1 6 de maio de 1962

Se vocês querem tentar reproduzir esse nó usando o toro, seguindo


as voltas e os desvios que vocês podem fazer na superffcie de um toro,
vocês poderiam, após várias voltas, retornar a uma linha que se fecha
como o nó abaixo. Vocês não o podem fazer sem que a linha corte a si
mesma. Como, sobre a superffcie do toro, vocês não poderão m arcar
que a linha passa acima ou abaixo, não há meio de fazer esse nó sobre
o toro. Em compensação, ele é perfeitamente factível sobre o cross­
cap . Se essa superfície implica a presença da quarta dimensão, é um
começo de prova de que o mais simples nó implica a quarta dimensão.
Essa superficie, o cross-cap, vou
dizer como vocês a podem
imaginar. Isso não imporá sua
necessidade, por isso mesmo,
trazida para nós. Ela não deixa
de ter relação com o toro, ela tem
mesmo, com o toro, a relação mais
profunda. A maneira mais simples
de fornecer essa relação a vocês
é lembrando-lhes como um toro
Fig. 3
é construído quando a gente o
decompõe sob uma forma
poliédrica, ou seja, reconduzindo-o a seu polígono fundamental. Aqui,
esse polígono fundamental é um quadrilátero .
Se vocês dobrarem esse quadrilátero sobre si mesmo, terão um tubo
cujas bordas se encontram. Vetorizam-se essas bordas, convencionando­
se que só podem ser colados um a outro os vetores que vão na mesma
direção, o início de um vetor aplicando-se ao ponto em que termina o
outro vetor. Desde então, teremos todas as coordenadas para definir a

f 1 O
estrutura do toro.
Se vocês fizerem uma superfície cujo
polígono fundamental é assim definido
por vetores que vão, todos, no mesmo
sentido sobre o quadrilátero de base, se
vocês partirem de um polígono assim
definido [fig. 4 - 1 ] , isso daria duas bordas
ou mesmo uma só; vocês obteriam o que Fig. 4-1 Fig 4-2

- 32 1 -
A Identificação

vou materializar como a mitra [fig. 4-2]. Retornarei sobre a sua função de
simbolização de alguma coisa e isso será mais claro, quando esse nome
servir de suporte.

., .,,,. -- - ---
Fig. 5
Em corte com sua goela de maxilar, não é o que vocês estão pensando.
Isso [fig. 5] é uma linha de penetração graças à qual o que está antes,
abaixo é uma semi-esfera ; acima, a parede passa por penetração na
parede oposta e retorna adiante. Por que essa forma aí e não outra?
Seu polígono fundamental é distinto daquele do toro [fig. 6]. Um polígono
cujas bordas são marcadas por vetores de mesma direção, e distinto
daquele do toro, que parte de um ponto para ir ao ponto oposto, o que
isso dá como superfície?
A partir de agora, sobressaem
pontos problemáticos dessas
superfícies. Eu introduzi para
vocês as superfícies sem borda,
a propósito da face. Se não há
borda, como definir a face? E,
se nós nos interditarmos, tanto
quanto possível, de mergulhar
demasiadamente depressa o nosso Toro cross cap
modelo na terceira dimensão, ali
Fig. 6
onde não há bordas, estaremos
certos de que há um exterior e um interior. É o que sugere essa superficie
sem borda, por excelência, que é a esfera. Vou livrá -los dessa intuição
indecisa: existe o que está dentro e existe u que está fora. No entanto,
para as outras superfícies, essa noção de exterior e interior desaparece.
Para o plano infinito, ela não bastaria. Para o toro, a intuição serve
aparentemente bem, porque há o interior de uma câmara de ar e o

- 322 -
Lição de 16 de maio de 1962

exterior. Todavia, o que se passa no campo por onde esse espaço externo
atravessa o toro, isto é, o buraco central, ali está o nervo topológico
daquilo que criou o interesse do toro e onde a relação do interior e do
exterior se ilustra como algo que pode tocar-nos. Observem que, até Freud,
a anatomia tradicional, mesmo que pouco Natunvissenschaft, com Paracelso
e Aristóteles, sempre considerou, entre os orifícios do corpo, os órgãos dos
sentidos como autênticos orificios. A teoria psicanalítica, enquanto estruturada
pela função da libido, tem feito uma escolha muito estreita entre os orifícios
e não nos fala dos orifícios sensoriais como orifícios, senão para reconduzi­
los ao significante dos orificios primeiramente escolhidos. Quando se faz
da escoptofilia uma escoptofagia, diz-se que a identificação escoptofílica é
uma identificação oral, como o fez Fenichel. O privilégio dos orificios orais,
anais e genitais nos retém, porque não são verdadeiramente orifícios que
dêem no interior do corpo; o tubo digestivo é só uma travessia, é aberto
para o exterior. O verdadeiro interior é o interior mesodérmico e os orifícios
que ali se introduzem existem sob a forma dos olhos ou e.lo ouvido, dos
quais a teoria psicanalítica jamais faz menção como tais, salvo na capa da
revista La Psychanalyse. É o verdadeiro alcance dado ao buraco central do
toro, embora não seja um verdadeiro interior, issojá nos sugere algo da ordem
de uma passagem do interior para o exterior.
Isso dá-nos a idéia que vem na investigação dessa superficie fechada,
o cross-cap. Suponham algo de infinitamente chato, que se desloca sobre
esta superfície [fig. 7]. passando do exterior [ I ) da superfície fechada ao
interior [2] . para seguir mais adiante, no interior [3] . até chegar na linha
de penetração onde reaparecerá no exterior [4]. de costas. Isso mostra a
dificuldade da definição da distinção interior-exterior, mesmo quando
se trata de uma superfície fechada, de uma superfície sem bordas.

--- - - - -
Fig. 7

-323-
A Identificação

Só fiz abrir a questão para lhes mostrar que o importante, nessa


figura, é que essa linha de penetração deve ser considerada nula e não
advinda. Não se pode materializar [esse paradoxo) no quadro-negro sem
fazer intervir essa linha de penetração, pois a intuição espacial ordinária
exige que se o mostre, mas a especulação não o leva em conta. Pode-se
fazê-la deslizar indefinidamente, essa linha de penetração. Não há nada
da ordem de uma costura. Não há passagem possível. Por causa disso, o
problema do interior e do exterior é levantado em toda a sua confusão.
Há duas ordens de consideração quanto à superficie: métrica e topológica.
Tem-se de desistir de toda consideração métrica. De fato, a partir desse
quadrado [fig. SI, eu poderia dar toda a superfície, do ponto de vista
topológico; isso não tem sentido algum. Topologicamente, a natureza
das relações estruturais que constituem a superflcie é apresentada em
cada ponto: a face interna se confunde com a face exterior, para cada
um de seus pontos e de suas propriedades.
Para marcar o interesse disso, vamos evocar uma questão também
nunca levantada, que diz respeito ao significante: um significante não
ter{1 sempre como lugar uma superfície? Pode parecer uma questão
bizarra, mas ela tem pelo menos o interesse, se levantada, de sugerir
uma dimensão. À primeira vista, o gráfico, como tal, exige uma superficie,
se é que se pode levantar a objeção de que uma pedra erguida, uma
coluna grega é um significante e que tem um volume; não estejam
assim tão seguros, tão seguros de poderem introduzir a noção de volume
antes de estarem bem tranqüilos da noção de superflcie. Sobretudo se,
ao pôr as coisas à prova, a noção de volume não é apreensível de outra
maneira senão a partir da noção de invólucro. Nenhuma pedra levantada
nos interessou por outra coisa, já não direi que apenas pelo seu invólucro,
o que seria ir a um sofisma, mas pelo que ela envolve. Antes de ser de

- 324 -
Lição de 16 de maio de 1962

volumes, a arquitetura se fez para mobilizar, para arranjar superficies em


torno de um vazio. Pedras levantadas servem para alinhamentos ou mesas,
para fazer algo que serve por causa do buraco que tem ao redor de si.
Pois é isso o resto do qual temos de nos ocupar. Se, agarrando a
natureza da face, eu parti da superfície com bordas, para fazê-los observar
que o critério nos falhava nas superfícies sem bordas, se é possível
mostrar a vocês uma superfície sem borda fundamental, se a definição
da face não é forçada, já que a superfície sem borda não é feita para
resolver o problema do interior e do exterior, devemos levar em conta
a distinção entre superfície sem e superfície com: ela tem a relação
mais estreita com o que nos interessa, a saber, o buraco que está para
ser introduzido como tal, positivamente, na teoria das superfícies. Não
é um artifício verbal. Na teoria combinatória da topologia geral, toda
superfície triangulável, isto é, componível de pequenos pedaços triangulares
que vocês colam uns aos outros, toro ou cross-cap, pode-se reduzir, por
meio do polígono fundamental, a uma composição da esfera à qual
seriam acrescidos mais ou menos elementos tóricos, elementos de cross­
cap e elementos puros, buracos indispensáveis representados por esse
vetor fechado sobre si mesmo. Será que um significante, em sua essência
mais radical, só pode ser encarado como corte numa superfície, esses
dois sinais > maior e < menor, só se impondo por sua estrutura de
corte inscrito sobre algo onde sempre está marcada, não somente a
continuidade de um plano sobre o qual a seqüência se inscreverá, mas
também a direção vetorial em que isso se reencontrará sempre? Por
que o significante, em sua encarnação corporal, isto é, vocal, sempre
se tem apresentado a nós como de essência descontínua? Não tínhamos,
então, nccessiclade da superfície; a descontinuidade o constitui. A
in terrupção no sucessivo faz parte de sua estrutura. Essa dimensão
temporal do funcionamen to da cadeia significante que articulei
primeiramente para vocês como sucessão, tem como conseqüência que
a escansão introduz um elemento a mais além da divisão da interrupção
modulatória, ela introduz a pressa que eu inseri enquanto pressa lógica.
É um velho trabalho, O tempo lógico. O passo que tento fazê-los dar já
começou a ser traçado, é aquele onde se enlaça a descontinuidade
com o que é a essência do significante, a saber, a diferença. Se aquilo
sobre o qual temos feito girar, temos feito retornar incessantemente
essa função do significante, é para atrair a atenção de vocês para aquilo

- 32 5 -
A Identificação

que, mesmo a repetir o mesmo, o mesmo, ao ser repetido, se inscreve


como distinto. Onde está a interpolação de uma diferença? Residirá
ela somente no corte - é aqui que a introdução da dimensão topológica,
para além da escansão temporal, nos interessa - ou nesse algo de outro
que chamaremos de simples possibilidade de ser diferente, a existência
da bateria diferencial que constitui o significante e pela qual não podemos
confundir sincronia com simultaneidade na raiz do fenômeno, sincronia
que faz com que, reaparecendo o mesmo, é como distinto do que ele
repete que o significante reaparece, e o que pode ser considerado como
distinguível é a interpolação da diferença, na medida em que não podemos
colocar como fundamento da função significante a identidade do A é A,
ou seja, que a diferença está no corte, ou na possibilidade sincrônica
que constitui a diferença significante. Em todo caso, o que nós repetimos
só é diferente por poder ser inscrito.
Não é menos verdadeiro que a função do corte nos interessa, em primeiro
plano, naquilo que pode ser escrito. E é aqui que a noção de superfície
topológica deve ser introduzida em nosso funcionamento mental, porque
é só ali que toma seu interesse a função do corte. A inscrição, levando­
nos à memória, é uma objeção a se refutar. A memória que nos interessa,
a nós, analistas, deve ser distinguida de uma memória orgânica, aquela
que, à mesma sucção do real responderia da mesma maneira para o
organismo se defender dela, aquela que mantém a homeostase, pois o
organismo não reconhece o mesmo que se renova como diferente. A
memória orgânica mesmo-riza. Nossa memória é outra coisa: ela intervém
em função do traço unário marcando a vez única, e tem como suporte a
inscrição. Entre o estímulo e a resposta, a inscrição, o printing, deve ser
lembrado em termos de imprensa gutemberguiana. O primeiro esboço da
teoria psicofisica, contra o qual nos revoltamos, é sempre atomístico; é
sempre à impressão de esquemas de superfície que essa psicofísica toma
sua primeira base. Não basta dizer que é insuficiente, antes que se tenha
encontrado outra coisa. Pois se há um grande interesse em ver que a
primeira teoria da vida relacional se inscreve em termos interessantes,
que traduzem somente, sem o saber, a própria estrutura do significante,
sob as formas disfarçadas dos efeitos distintos de contigüidade e de continuidade,
associacionismo, é bom mostrar que o que era reconhecido e desconhecido
como dimensão significante eram os efeitos do significante na estrutura
do mundo idealista, dos quais essa psicofísica nunca se livrou.

-326 -
Lição de 16 de maio de 1962

Inversamente, o que se introduziu por Gestalt é insuficiente para


dar conta do que se passa no nível dos fenômenos vitais, em razão de
uma ignorância fundamental que se traduz pela rapidez com a qual se
liga, para alguns, evidências que tudo contradiz. A pretensa boa forma
da circunferência, que o organismo se obstinaria em todos os planos -
subjetivos ou objetivos - em buscar reproduzir, é contrária a toda observação
das formas orgânicas. Direi aos gestaltistas que uma orelha de burro se

o: _______ .....
Fig. 9

parece com uma corneta, com um arum, com uma superfície de Moebius.
Uma superficie de Moebius é a ilustração mais simples do cross-cap: ela
se faz com uma faixa de papel da qual se colam as duas extremidades após
tê-la torcido, de maneira que o ser infinitamente chato que passeia por
ela pode prosseguir sem nunca ultrapassar nenhuma borda. Isso mostra a
ambigüidade da noção de face. Pois não basta dizer que é uma superfície
unilateral, de uma só face, como certos matemáticos formulam. Outra
coisa é uma definição formal, não deixa de ser verdadeiro que há coalescência,
para cada ponto de duas faces, e é isso o que nos interessa. Para nós, que
não nos contentamos em dizê-la unilátera, sob o pretexto de que as duas
faces estão presentes por toda parte, não deixa de ser verdade que podemos
manifestar, em cada ponto, o escândalo para nossa intuição dessa relação
das duas faces. De fato, num plano, se traçamos um círculo que gira no
sentido dos ponteiros de um relógio, do outro lado, por transparência, a
mesma flecha gira em sentido contrário [Fig. 9]. O ser infinitamente chato,
a personagenzinha sobre a superfície de Moebius, se veicula consigo um
círculo girando em torno dele no sentido horário, esse círculo girará sempre
no mesmo sentido, ainda que, do outro lado de seu ponto de partida, o que
se inscreverá girará no sentido horário, isto é, em sentido oposto ao que se
passaria numa faixa normal; no plano, isso não é invertido ! Fig. 1 O] .

- 327 -
A Identificação

É por isso que se definem essas superfícies como não-orientáveis e,


no entanto, elas não deixam de ser orientadas. O desejo, por não ser
articulável, nem por isso deixamos de dizer que não seja articulado.
Pois essas pequenas orelhas na faixa de Moebius, por mais não orientáveis
que sejam, são mais orientadas que uma faixa normal. Façam vocês
uma cintura cônica [Fig. I I ). retorçam-na: o que estava aberto embaixo
está aberto em cima. Mas a faixa de Moebius, dobrem-na: terá sempre
a mesma forma. Mesmo quando vocês retornam o objeto, ele terá sempre
a bossa côncava à esquerda, a bossa inflada à direita. Uma superfície
não-orientável é, pois, muito mais orientada que uma superftcie orientável.

.. ..
.. ....

,;//

Fig. 1 1

Alguma coisa vai ainda mais longe e surpreende os matemáticos, que


remetem com um sorriso o leitor à experiência: é que, se nessa superficie
de Moebius, com a ajuda de uma tesoura, vocês traçam um corte a
igual distância dos pontos mais acessíveis das bordas - ela só tem uma
borda - se vocês fazem um círculo, o corte se fecha, vocês realizam um
círculo, um laço, uma curva fechada de Jordan. Ora, esse corte não

-328 -
Lição de 16 de maio de 1962

apenas deixa a superficie inteira, mas transforma a superfície não-orientável


em superfície orientável, isto é, em uma faixa da qual, se vocês pintarem
um dos lados, todo um lado permanecerá branco, contrariamente ao
que se passaria a pouco na superfície de Moebius inteira: tudo teria
sido pintado sem que o pincel mudasse de face. A simples intervenção
do corte mudou a estrutura onipresente de todos os pontos da superficie,
eu dizia. E, se lhes peço que me digam a diferença entre o objeto de
antes do corte e este aqui, não há meio de fazê-lo. Isso para introduzir
o interesse da função de corte.
O polígono quadrilátero é originário do toro e do boné. Se jamais
introduzi a verdadeira verbalização dessa forma, < >, punção, desejo
que une o $ ao a no $ < >a, esse pequeno quadrilátero deve ser lido: o
sujeito, enquanto marcado pelo significante é, propriamente, no fantasma,
corte de a . Na próxima sessão, vocês verão como isso nos dará um
suporte que funciona para articular a questão, como o que podemos
definir, isolar a partir da demanda como campo do desejo, em seu lado
inapreensível, pode, por alguma torção, se ligar com o que, tomado por
um outro lado, se define como campo do objeto a, como o desejo pode
igualar-se a a? É o que introduzi e que lhes dará um modelo útil até na
prática de vocês.

- 32 9 -
LIÇAO XXI
23 de maio de 1 962

Porque um significante é apreensão da menor coisa, pode ele apreender


a menor coisa? Eis a questão, uma questão da qual talvez não seja
demais dizer que ainda não se colocou, devido à forma tomada classicamente
pela lógica. De fato, o princípio da predicação, que é a proposição universal,
não implica senão uma coisa, é que o que se apreende são seres nulificáveis:
dictum de omni et nullo. Aqueles para quem esses termos não são familiares
e que, conseqüentemente, não compreendem muito bem, recordo o
que é que venho lhes explicando já várias vezes, isto é, de tomar o
suporte do círculo de Euler tanto mais legitimamente quanto o que se
tratava de substituir é outra coisa; o círculo de Euler, como todo círculo,
por assim dizer, ingênuo, círculo a propósito do qual não se coloca a
questão de saber se ele cerne um pedaço, um fragmento . . . o próprio do
círculo ... destaca ele um fragmento dessa superficie hipotética implicada? ...
É que ele pode reduzir-se progressivamente a nada. A possibilidade do
universal é a nulidade.
Todos os professores são letrados, cu lhes disse um dia - escolhi esse
exemplo para não recair sempre nos mesmos problemas - todos os professores
são letrados; muito bem, se por acaso, em algum lugar, algum professor
não merece ser qualificado de letrado, não seja por isso, teremos professores
nulos. Observem que isso não é equivalente a dizer que não há professor.
A prova é que, os professores nulos, bem! nós os temos quando eventualmente.
Quando digo ter, tomem esse ter no sentido forte, no sentido de que se
trata. Essa não é, como tal, uma palavra escorregadia, destinada a deixar
escapar o sabonete. Quando digo nós os temos, isso significa que

-331 -
A Identificação

estamos habituados a tê-los, da mesma maneir a que temos montes de


coisas assim: nós temos a República ... Como dizia um camponês com
quem eu conver sava não faz muito tempo: "este ano nós tivemos o
gr anizo, e logo depois, os escoteir os" . Qualquer que seja a precar iedade
da definibilidade, par a o camponês, desses meteoros, o verbo ter, aqui,
tem bem o seu sentido.
Nós temos, por exemplo, também os psicanalistas, e isso é evidentemente
muito mais complicado, porque os psicanalistas começam a nos fazer
entr ar na ordem da definição existencial. Entr a-se nela pela via da
condição. Diz-se, por exemplo: "não há... ninguém poder á se dizer
psicanalista, se não tiver sido psicanalisado". Bem, há um grande perigo
em crer que essa declar ação seja homogênea com o que evocamos
anterior mente, no sentido em que, par a nos ser vir mos dos círculos de
Euler, haver ia o círculo dos psicanalisados, mas, como todos sabem, os
psicanalistas, devendo ser psicanalisados, o cír culo dos psicanalistas
poder ia, pois, ser tr açado incluído no cír culo dos psicanalisados. Não
preciso dizer que, se nossa experiência com os psicanalistas nos tr az
tantas dificuldades, é que, provavelmente, as coisas não são assim tão
simples, tendo em vista que afinal, se isso não está evidente no nível
do pr ofessor, que o própr io fato de funcionar como pr ofessor possa
aspir ar ao seio do professor, à maneir a de um sifão, alguma coisa que o
esvazie de todo contato com os efeitos da letr a, é, ao contrár io, realmente
evidente par a o psicanalista que tudo está aí. Não basta devolver a
pergunta : "o que é ser psican alisado ? ", pois, bem entendido, o que se
cr ê fazer ali, e com cer teza natur almente, ser ia apenas desviar a pessoa
de colocar no primeiro plano a questão do que é ser psicanalisado.

- 332 -
Lição de 23 de maio de 1962

Mas, no que se refere ao psicanalista, não é aquilo que se trata de


apreender, se queremos compreender a concepção do psicanalista, é
saber o que é que isso faz, ao psicanalista, ser psicanalisado, isso enquanto
psicanalista, e não da parte dos psicanalisados. Não sei se me faço
entender, mas quero reconduzi-los ao bê-á-bá, ao elementar.
Se, ainda assim, para entender o mais velho exemplo da lógica, o
primeiro passo que se dá para lançar Sócrates no buraco, a saber : "todos
os homens são mortais ... ", pelo tempo que nos enchem os ouvidos com
essa fórmula . .. eu sei que vocês tiveram tempo de se endurecer, mas,
para todo ser um pouco fresco, o próprio fato da promoção desse exemplo
no âmago da lógica não pode deixar de ser fonte de algum mal-estar, de
algum sentimento de escroqueria. Pois em que nos interessa uma tal
fórmula, se é o homem que se trata de apreender? A menos que se
trate - e é justamente o que os círculos concêntricos da inclusão euleriana
escamoteiam - não de saber que há um círculo dos mortais e no interior
o círculo do homem, o que estritamente não tem nenhum interesse,
mas de saber o que é que isso lhe faz, a ele, homem, ser mortal, sacar
o turbilhão que se produz em algum lugar no centro da noção de homem,
pelo fato da sua conjunção com o predicado "mortal", e que é bem por
isso que nós corremos atrás de qualquer coisa. Quando falamos do
homem, é justamente nesse turbilhão, nesse buraco que se produz ali
no meio, em algum lugar, que nós tocamos.
Recentemente, eu abria um excelente livro de um autor americano,
do qual pode-se dizer que a obra aumenta o patrimônio do pensamento (

e da elucidação lógica. Não lhes direi seu nome, porque vocês vão procurar
quem é. E por que eu não o faço? Ponp 1 1 · cu tive a surpresa de encontrar,
nas páginas nas quais ele trabalha tão bem, certo sentido tão vivo da
atualidade do progresso da lógica, onde justamente o meu oito interior
intervém. Ele absolutamente não faz dele o mesmo uso que eu, entretanto
me lembrei que alguns mandarins, entre meus ouvintes, vieram me
dizer, um dia, que foi ali que eu o pesquei. Sobre a originalidade da
passagem do Sr. Jakobson, considero, de fato, a mais forte referência.
É preciso dizer que, nesse caso - creio ter começado a desenvolver a
metáfora e a metonímia em nossa teoria, em algum lugar no discurso
de Roma que foi publicado - foi falando com Jakobson que ele me
disse: "Certamente, essa história da metáfora e da metonímia, nós torcemos
aquilo juntos, lembra-se, em 1 4 de julho de 1 950". Quanto ao lógico

- 333 -
A Identificação

em questão, há muito tempo que ele está morto, e seu pequeno oito
interior precede incontestavelmente sua promoção aqui. Mas, quando
ele adentra no seu exame do universal afirmativo, ele usa um exemplo
que tem o mérito de não dispersar. Ele diz: "Todos os santos são homens,
todos os homens são apaixonados, logo todos os santos são apaixonados".
Ele reúne isso num tal exemplo, pois vocês devem sentir bem que o
problema é saber onde está essa paixão predicativa, a mais exterior
desse silogismo universal, de saber qual espécie de paixão chega ao
coração para fazer a santidade.
Tudo isso, o pensei nesta manhã, quero dizer a vocês dessa maneira,
para fazê-los sentir do que se trata, no que concerne ao que chamei de
um certo movimento de turbilhão. O que é que tentamos cingir com
nosso aparelho concernente às superficies, as superficies que aqui entendemos
lhes dar um uso que, para tranqüilizar meus ouvintes inquietos, é talvez,
das minhas excursões, pouco clássica, mas é, ainda assim, algo que não
é outra coisa senão renovar, reinterrogar a função kantiana do esquema.
Penso que o radical ilogismo, na experiência, da pertinência, da inclusão,
a relação da extensão com a compreensão, nos círculos de Euler, toda
essa direção onde está enredada com o tempo a lógica, será que nesse
equívoco mesmo ela não é o lembrete do que foi, em seu início, esquecido?
O que foi, em seu início, esquecido é o objeto em questão, fosse ele o
mais puro, é, foi e será, o que quer que se faça, o objeto do desejo, e
que se se trata de cingi-lo para apanhá-lo logicamente, isto é, com a
linguagem, é que antes se trata de apreendê-lo como objeto de nosso
desejo, tendo-o apreendido, guardá-lo, o que significa cercá-lo, e que
esse retorno da inclusão ao primeiro plano da formalização lógica encontra
sua raiz nessa necessidade de possuí-lo, onde se funda nossa relação
com o objeto do desejo enquanto tal. O Begriff evoca a apreensão, porque
é correndo atrás da apreensão de um objeto de nosso desejo que forjamos
o Begriff. E cada um sabe que tudo o que queremos possuir que seja
objeto de desejo, o que queremos possuir pelo desejo e não pela satisfação
de uma necessidade, nos escapa e se esquiva. Quem não o evoca no
sermão moralista! " Não possuímos nada, enfim, é preciso abandonar
tudo isso", diz o célebre cardeal, como é triste! "não possuímos nada,
diz o sermão moralista, porque existe a morte" . Outra escamoteação, o
que nos promove aqui, no nível do fato da morte real, não é o que está
em questão. Não foi em vão que, durante um longo ano, os fiz passear

--334 -
Lição de 23 de maio de 1962

nesse espaço que meus ouvintes qualificaram de entre-duas-mortes. A


supressão da morte real não resolveria nada, nesse assunto do se esquivar
do objeto do desejo, porque se trata de outra morte, aquela que faz com
que, mesmo que não fôssemos mortais, se tivéssemos a promessa da
vida eterna, a questão fica sempre aberta se essa vida eterna, isto é,
aquela da qual estaria afastada toda promessa do fim, não fosse concebível
como uma forma de morrer eternamente. Ela o é, certamente, pois
que é nossa condição cotidiana, e devemos levar isso cm conta em
nossa lógica de analistas, porque é assim, se a psicanálise tem um sentido,
e se Freud não foi um louco, pois é isso que designa esse ponto dilo do
instinto de morte. Já o fisiologista mais genial de todos os que têm o
sentido desse viés da abordagem biológica, Bichai, diz: "A vida é o conjunto
das forças que resistem à morte".
Se algo de nossa experiência pode se refletir, pode um dia tomar
sentido ancorado sobre esse plano tão dificil, é essa precessão, produzida
por Freud, dessa forma de turbilhão da morte, sobre cujos flancos a
vida se agarra para não passar. Pois a única coisa a acrescentar, para
devolver a quem quer que seja essa função igualmente clara, é que
basta não confundir a morte com o inanimado, quando na natureza
inanimada basta que, nos abaixando, nós apanhemos o rastro do que é
apenas uma forma morta, o fóssil, para q ue compreendamos que a
presença do morto na natureza é outra coisa que não o inanimado.
Será que é seguro que está ali, conchas e dejetos, uma função da vida?
Seria resolver o problema um pouco facilmente, quando se trata de
saber porque a vida se retorce dessa forma.
No momento de retomar a questão do significante, já abordada pela
via do rastro, me veio a idéia irônica, saindo de súbito dos diálogos platônicos,
de pensar que essa impressão um tanto quanto escandalosa, que Platão
destaca pensando na marca deixada na areia do estádio pelos cús nús
dos amados, expressões para as quais, sem dúvida, se precipitava a adoração
dos amantes e cuja decência consistia em apagá-la, eles teriam feito
melhor deixando-a no lugar. Se os amantes tivessem sido menos obnubilados
pelo objeto de seu desejo, eles teriam sido capazes de tirar partido dele e
de ver aí o esboço dessa curiosa linha que lhes proponho hoje. Tal é a
imagem da cegueira que carrega consigo vivo demais todo desejo.
Partamos, pois, novamente de nossa linha, que é preciso tomar sob a
forma em que ela nos é dada, fechada e nulificável, a linha do zero

-335 -
A Identificação

original da história efetiva da lógica. Se aprendemos, regressando desde


já, que nenhum [nul] é a raiz de todos, ao menos a experiência não
terá sido feita em vão. Essa linha, para nós, a chamamos o corte, uma
linha, é nosso ponto de partida, que nos é preciso considerar a priori
como fechada. Está aí a essência de sua natureza significante, nada
poderá jamais nos provar, pois que é da natureza de cada uma dessas
voltas se fundar como diferente, nada na experiência pode nos permitir
fundá-la como sendo a mesma linha. É justamente isso que nos permite
apreender o real, é nisso que seu retorno, sendo estruturalmente diferente,
sempre uma outra vez, se se assemelha, então há sugestão, probabilidade
que a semelhança venha do real. Nenhum outro meio de introduzir, de
um modo correto, a função do semelhante. Mas é apenas uma indicação
que lhes dou, que precisa ser mais elaborada. Parece-me que já o repeti
muitas vezes se, quando mais não fosse, para não ter que voltar a ela,
mesmo assim a relembrando, os devolvo a essa obra de um gênio precoce
e, como todos os gênios precoces, muito precocemente desaparecido,
Jean Nicod, A geometria do mundo sensível, onde a passagem que diz
respeito à linha axiomática, no centro da obra - talvez alguns de vocês,
autenticamente interessados em nosso progresso, possam se reportar a
ela - mostra bem de que maneira a escamoteação da função do círculo
significante, nessa análise da experiência sensível, é quimérica e leva
o autor, apesar do incontestável interesse do que ele promove, ao paralogismo
que vocês não deixarão de encontrar aí. Nós tomamos no início essa
linha fechada, na qual a existência da função das superficies topologicamente
definidas serviu primeiro para inverter, para vocês, a evidência enganadora
de que o interior da linha fosse algo de unívoco, pois é suficiente que a
tal linha se desenhe sobre uma superfície definida de uma certa maneira,
o toro, por exemplo, para que seja aparente que, por mais que permaneça
em sua função de corte, ela não poderia, de modo algum, preencher aí
a mesma função que sobre a superfície que vocês me permitirão chamar
aqui de fundamental, aquela da esfera, a saber, de definir um fragmento
nulificável, por exemplo. Para os que estão aqui pela primeira vez, isso
quer dizer uma linha fechada, aqui desenhada (a), ou ainda esta aqui
(b) , que não poderia de modo algum se reduzir a zero, é, a saber, que a
função do corte que elas introduzem na superfície é algo que, a cada
vez, cria problema. Penso que o que está em questão, no que concerne
ao significante, é essa ligação recíproca que faz com que, se, por um

- 336 -
Lição de 23 de maio de 1962

,----- a ,------ b
, ,,'
,,, , ,'

lado, como lhes fiz ver na última vez, a propósito da superffcie de Moebius
- essa linda orelhinha contornada, de que lhes dei alguns exemplares -
o corte mediano, no que diz respeito a seu campo, a transforma em uma
superffcie diferente, que não é mais essa superffcie de Moebius; se se
pode dizer, que a superffcie de Moebius - nisso faço mais de uma reserva
- que talvez ela não tenha senão uma face, certamente aquela que resultava
do corte tinha duas faces.
O que está em causa, para nós, pegando o viés de interrogar os efeitos
do desejo pelo acesso do significante, é de nos darmos conta de como o
campo do corte, a hiãncia 69 do corte, é se organizando em superfície
que ela faz surgir para nós as diferentes formas onde podem se ordenar
os tempos de nossa experiência do desejo. Quando lhes digo que é a
partir do corte que se organizam as formas da superfície em questão,
para nós, em nossa experiência, de sermos capazes de fazer vir ao mundo
o efeito do significante, eu o ilustro, não é a primeira vez que o ilustro.
Eis a esfera, eis aqui nosso corte central tomado pelo viés inverso d o
círculo d e Euler. O q u e nos interessa n ã o é o pedaço q u e está
necessariamente deslocado pela linha fechada sobre a esfera, é o corte
assim produzido e, se q uiserem, desde já o buraco. Está claro q ue tudo

-337 -
A Identificação

deve ser dado do que encontraremos no fim, em


outros termos, que um buraco já tem ali todo seu
sentido, sentido tornado particularmente evidente
pelo fato de nosso recurso à esfera. Um buraco
faz aqui se comunicar um com o outro, o interior
com_-9 exterior. Só há um pequeno azar, é que,
uma vez feito o buraco, não há mais nem interior
nem exterior, como é bem evidente aqui, é que
essa esfera esburacada se revira com a maior
facilidade. Trata-se da criatura universal, primordial,
a do eterno oleiro. Não há nada mais fácil de revirar
do que um pote, isto é, uma calota.
O buraco, portanto, não teria grande sentido
para nós, se não houvesse outra coisa para sustentar
essa intuição fundamental - penso que, hoje, isso
lhes é familiar - isto é, que a um buraco, a um
corte, acontecem avatares, e o primeiro possível é que dois pontos da
borda se juntem. Uma das primeiras possibilidades, para o buraco, é
tornar-se dois buracos.
Alguns me disseram: "porque você não refere suas imagens à embriologia?"
Acreditem que elas jamais estão muito longe dela. É o que explico a
vocês, mas isso não passaria de um álibi, porque referir-me aqui à embriologia
é confiar no poder misterioso da vida, da qual não se sabe muito bem,
é claro, porque ela acredita não dever se introduzir no mundo senão
pelo viés, o intermediário desse glóbulo, dessa esfera que se multiplica,
se deprime, se invagina, se engole a si mesma, depois singularmente,
ao menos até o nível do batráquio, o blastóporo l blasl oporc l , a saber,
essa coisa que não é um buraco na esfera, mas um pedaço ela esfera
que se recolheu dentro do outro. Ilá muitos médicos, aqui, que fizeram
um pouco de embriologia elementar para se lembrar dessa coisa que
começa a se dividir em dois, para estimular esse órgão curioso que se
chama de canal neurentérico, completamente injustificável para alguma
função, essa comunicação do interior do tubo neural com o tubo digestivo
sendo mais para se considerar como uma singularidade barroca da evolução,
aliás, prontamente reabsorvida; na evolução posterior, não se fala mais
disso. Mas, talvez as coisas tomassem uma nova direção, sendo tomadas
como um metabolismo, uma metamorfose guiada por elementos de estrutura

- 338 -
Lição de 23 de maio de 1962

cuja presença e homogeneidade com o plano [no qual nós nos deslocamos
na sustentação do significante] sejam o termo de um isolamento de certo
modo pré-vital do rastro [trace] de algo que poderia talvez nos levar a
formalizações que, mesmo no plano da organização da experiência biológica,
poderiam revelar-se fecundas.
De qualquer forma, esses dois buracos
isolados na superfície da esfera, são eles que,
unidos um ao outro, estirados, prolongados
e depois conjuntos, nos deram o toro. Isso
não é novo, simplesmente, eu queria articular
bem para vocês o resultado. O resultado, em
primeiro lugar, é que, se há uma coisa que,
para nós, sustenta a intuição do toro, é um
macarrão que se une, que morde o próprio
rabo; é o que há de mais exemplar na função
do buraco, há um no meio do macarrão e há
uma corrente de ar, o que faz com que, passando
através do arco que ele forma... há um buraco
que faz comunicar o interior com o interior,
e depois há um outro, mais formidável ainda,
que coloca um buraco no coração da superfície,
que é ali buraco, estando em pleno exterior. A imagem da perfuração
está introduzida, pois o que chamamos de buraco é isso, é esse corredor
que se afundaria numa espessura [a], imagem fundamental que, quanto
à geometria do mundo sensível, não foijamais suficientemente distinguida,
e depois o outro buraco [b]. que é o buraco central da superfície, isto é ,
o buraco que chamarei de buraco corrente de ar. O que pretendo avançar,
para colocar nossos problemas, é que esse buraco corrente de ar irredutível,
se nós o cingirmos com um corte, é propriamente aí que se situa, nos
efeitos da função significante, a , o objeto enquanto
tal. Isso quer dizer que o objeto é extraviado, pois
não poderia de jeito nenhum existir ali senão o
contorno do objeto, em todos os sentidos que possamos
dar à palavra contorno. Abre-se, ainda, uma outra
possibilidade, que para nós vivifica, suscita interesse
na comparação estruturante e estrutural dessas
superfícies, é que o corte pode, em superfície,

-339 -
A Identificação

articular-se de outra maneira. Sobre o buraco


aqui desenhado na superfície da esfera,
podemos enunciar, formular, almejar que cada
ponto seja unido a seu ponto antipódico, que,
sem nenhuma divisão da hiância70, a hiância
se organiza em superficie dessa maneira que
a escamoteia completamente sem o meio
/"'"
a
[medium] desta divisão intermediária. Eu lhes
mostrei, na última vez, e mostrarei de novo ;
isso nos dá a superficie qualificada de boné
ou de cross-cap, isto é, alguma coisa da qual
convém não esquecerem que a imagem que
lhes dei não é mais que uma imagem, por
assim dizer, torcida, uma vez que o que parece
a todos que, pela primeira vez, têm de refletir
sobre ela, o que lhe faz obstáculo é a questão
impossível
dessa famosa linha de aparente penetração
da superfície através dela mesma, que é
necessária para representá-la em nosso espaço.
Isto que indico aqui, de maneira tremida, é
feito para indicar que é preciso considerá-la
como vacilante, não fixada. Em outras palavras,
não precisamos jamais levar em conta tudo o
que passeia aqui de um lado, no exterior da
superfície, que não poderia passar ao exterior
da superficie..., que não poderia passar ao
exterior do que está do outro lado, uma vez
que não há encontro real das faces, mas, ao
contrário, não poderia passar senão do outro
lado, no interior, pois, da outra face, eu digo
a outra, em relação ao observador aqui colocado
[flecha grande].
Portanto, representar as coisas assim,
considerando essa forma de super fície, deve­
se apenas a uma certa incapacidade das formas
in tuitivas do espaço com três dimensões, para

- 340 -
lição de 23 de maio de 1962

permitir o suporte de uma imagem que realmente dê conta da conUnutdade


obtida, sob o nome dessa nova superfície dita cross-cap, o boné em
questão. Em outras palavras, o que esta superficie sustenta? Nós o
chamaremos - pois que estão ai as teses que adianto primeiro, e nos
permitiremos em seguida dar seu sentido ao uso que lhes proporei fazer
dessas diversas formas - chamaremos essa superfície, não o buraco,
pois, como vêem, existe ao menos um que ela escamoteia, que desaparece
completamente em sua forma, mas o lugar do buraco. Essa superfície,
assim estruturada, é particularmente propícia a fazer funcionar, diante
de nós, esse elemento, o mais inapreensível, que se chama de desejo
enquanto tal, em outras palavras, a falta. Acontece, todavia, que para
essa superfície que preenche a hiância 71 , apesar da aparência que torna
todos esses pontos que chamaremos, se quiserem, de antipódicos, pontos
equivalentes, eles não podem, contudo, funcionar nessa equivalência antipódica,
a menos que existam dois pontos privilegiados. Estes estão aqui representados
por esse pequeno círculo [a] . sobre o qual já me interrogou a perspicácia
de um dos meus ouvintes: "O que você quer, de fato, representar assim,
com esse pequeno círculo? ". Certamente, não é algo equivalente ao buraco
central do toro, uma vez que, em qualquer nível que vocês se colocassem
desse ponto privilegiado, tudo o que passa de um lado para o outro da
figura, aqui passará por essa falsa decussação (b), esse quiasma ou cruzamento
que faz a sua estrutura. Contudo, o que é assim indicado, por essa forma
assim circulada, não é outra coisa senão a possibilidade por baixo, se podemos
exprimi-lo assim, desse ponto passar de uma superficie exterior à outra. É
também a necessidade de indicar que um círculo não privilegiado sobre
essa superfície, um círculo redutível, se vocês o fazem deslizar, se vocês o
extraem de sua aparência de semi-ocultação, para além do limite

- 341 -
A Identificação

aparentemente aqui de recruzamento e de penetração,


para levá-lo a estender-se, a se desenvolver assim
em direção à metade inferior da figura e, portanto,
a se isolar aqui em uma forma no exterior da figura,
deverá sempre aqui contornar alguma coisa que não
lhe permite, de maneira alguma, transformar-se no
que seria sua outra forma, a forma privilegiada de
um círculo, na medida em que faz a volta do ponto
privilegiado e que ele deve ser representado assim
sobre a superfície em questão. Esta aqui, de fato, não poderia, de jeito
algum, ser-lhe equivalente, pois essa forma é algo que passa em torno
do ponto privilegiado, do ponto estrutural, cm torno do qual está sustentada
toda a estrutura da superffcie assim definida. Esse ponto duplo e ponto
simples ao mesmo tempo, em torno do qual se sustenta a própria possibilidade
da estrutura entrecruzada do boné ou do cross-cap, é por esse ponto
que simbolizamos o que pode introduzir um objeto a qualquer, no lugar
do buraco. Esse ponto privilegiado, nós conhecemos suas funções e sua
natureza, é o falo, na medida em que é por ele, enquanto operador,
que um objeto a pode ser posto no lugar mesmo onde nós, em uma
outra estrutura [a saber, o toro) . não apreendemos senão seu contorno.
Eis aí o valor exemplar da estrutura do cross-cap, que tento articular
diante de vocês, o lugar do buraco, é no princípio esse ponto de uma
estrutura especial, enquanto se trata de distingui-lo das outras formas de
pontos, esse aqui, por exemplo, definido pelo recorte de um corte sobre
ele mesmo, primeira forma possível de se dar ao
nosso oito interior. Cortamos alguma coisa num
papel, por exemplo, e um ponto será definido pelo
fato do corte repassar sobre o lugar já cortado. Sabemos
bem que isso não é absolutamente necessário para
que o corte tenha, sobre a superfície, uma ação
completamente definível e nela introduza essa
mudança, cujo suporte devemos tomar para imajar
certos efeitos do significante.
Se pegarmos um toro e o cortarmos assim, isso
faz essa forma aqui desenhada. Passando ao outro lado do toro, vocês
vêem que, em nenhum momento, esse corte se junta de novo a ele
mesmo. Façam a experiência sobre alguma velha cãmara de ar, vocês

- 342 -
Lição de 23 de mato de 1962

verão o que isto vai dar; dará uma superfície contínua, organizada de
tal modo que ela se volta duas vezes sobre si mesma, antes de se juntar.
Se ele tivesse se voltado apenas uma vez, seria uma superfície de Moebius.
Como ela se volta duas vezes, isto produz uma superfície de duas faces,
que não é idêntica àquela que lhes mostrei outro dia, após a secção da
superfície de Moebius,

\
'
..... _____ .,,,.

pois aquela ali se volta duas vezes e uma outra vez ainda diferentemente,
para formar o que chamamos de um anel de Jordan. Mas, o interesse é
de ver o que é exatamente esse ponto privilegiado, na medida em que,
como tal, ele intervém, ele especifica o fragmento de superfície sobre o
qual permanece irredutivelmente, dando-lhe o acento particular que
lhe permite, para nós, ao mesmo tempo designar a função segundo a
qual um objeto está ali desde sempre, antes mesmo da introdução dos
reflexos, das aparências que dele temos sob a forma de imagens, o objeto
do desejo. Esse objeto, ele não é para ser tomado senão nos efeitos,
para nós, da função do significante, e, no entanto, não se reencontra
nele a não ser seu destino de sempre. Como objeto, é o único objeto
absolutamente autônomo, primordial em relação ao sujeito, decisivo
em relação a ele, a ponto de que minha relação com esse objeto seja,
de certo modo, para inverter, a ponto de, se, no fantasma, o sujeito, por
uma miragem em todos os pontos paralela àquela da imaginação do
estádio do espelho, ainda que de uma outra ordem, se imagina, pelo
efeito daquilo que o constitui como sujeito, isto é, o efeito do significante,
suportar o objeto que vem por ele cobrir a falta, o buraco do Outro, e é
isto o fantasma. Inversamente pode-se dizer que todo o corte do sujeito,
aquilo que, no mundo, o constitui como separado, como rejeitado, lhe
é imposto por uma determinação não mais subjetiva, indo do sujeito

-343-
A Identificação

para o objeto, mas objetiva, do objeto para o sujeito, lhe é imposto pelo
objeto a, mas, na medida em que, no coração deste objeto a, existe esse
ponto central, esse ponto turbilhão por onde o objeto sai de um além
do nó imaginário, idealista, sujeito-objeto que produziu, até aqui, desde
sempre, o impasse do pensamento, esse ponto central que, desse além,
promove o objeto como objeto do desejo. É o que perseguiremos, n a
próxima vez.

- 3 44 -
LIÇÃO XXII
30 de maio de 1 962

O ensino ao qual lhes conduzo é comandado pelos caminhos de nossa


experiência. Pode parecer excessivo, senão enfadonho, que esses caminhos
suscitem em meu ensino uma forma de desvios, digamos, inusitados
que, por isso, podem parecer, falando propriamente, exorbitantes. Eu
os poupo deles o quanto posso. Posso dizer que, por exemplos enlaçados
o mais próximo possível em nossa experiência, desenho uma espécie
de redução, se se pode dizer, desses caminhos necessários. Vocês não
devem, no entanto, se espantar de que estejam implicados em nossa
explicação campos, domínios tais como aquele, por exemplo, este ano,
da topologia se, de fato, os caminhos que temos a percorrer são aqueles
que colocam em causa uma ordem tão fundamental quanto a constituição
mais radical do sujeito como tal, dizendo respeito, por isso, a tudo o
que se poderia chamar de uma espécie de revisão da ciência.
Por exemplo, essa nossa suposição radical, que coloca o sujeito em
sua constituição, na dependência, numa posição segunda em relação
ao significante, que faz do próprio sujeito um efeito do significante;
isso não pode deixar de se destacar de nossa experiência, tão encarnada
quanto ela esteja nos domínios aparentemente mais abstratos do
pensamento. E acredito não estar forçando nada ao dizer que o que
elaboramos aqui poderia interessar no mais alto ponto ao matemático.
Por exemplo, como se constatava recentemente, olhando mais de perto,
creio, em uma teoria que, para o matemático, ao menos por um tempo,
causou muito problema, uma teoria como aquela do transfinito, cujos
impasses certamente antecedem em muito nossa valorização da função

-345-
A Identificação

do traço unário, na m'edida em que essa teoria do transfinito, o que a


funda é um retorno, é um apanhado da origem da contagem de antes
do n úmero, quero dizer, do que antecede toda con tagem e a envolve, e
a suporta, a saber, a correspondência bi-unívoca, o traço por traço.
Certamente, aqueles desvios, isso pode ser para mim uma maneira de
confirmar a amplitude, [o infinito] e a fecundidade daquilo que nos é
absolutamente necessário construir, quanto a nós, a partir de nossa
experiência. Eu lhes poupo disso.
Se é verdade que as coisas são assim, que a experiência analílica é
aquela que nos leva através dos efeitos encarnados daquilo que é -
certamente, desde sempre, mas cujo fato de que nós nos apercebemos
apenas é a coisa nova -, os efeitos encarnados pelo fato da primazia do
significante sobre o sujeito, não é possível que todo tipo de tentativa de
redução das dimensões de nossa experiência ao ponto de vistajá constituído
do que se chama a ciência psicológica - nesse sentido de que ninguém
pode negar, não pode não reconhecer que ela foi constituída sobre premissas
que negligenciavam, e por isso mesmo, porque ela estava elidida, essa
articulação fundamental sobre a qual colocamos o acento, este ano
apenas de maneira ainda mais explícita, mais acirrada, mais articulada
- não é possível, digo, que toda redução ao ponto de vista da ciência
psicológica, tal como ela já se constituiu, conservando como hipótese
um certo número de pontos de opacidade, de pontos elididos, de pontos
de irrealidade maior, chegue forçosamente a formulações objet