Você está na página 1de 2

ABORTO E EXCOMUNHÃO

Na Igreja Católica o tema do aborto, como aliás outros, é tratado a dois níveis: o
teológico-moral e o jurídico ou canónico.
No primeiro, sem dúvida o mais importante e determinante, é definido como acto
moralmente grave, como pecado, sempre que as pessoas envolvidas tenham o
conhecimento e o consentimento suficientes. O pecado é perdoado no Sacramento da
Reconciliação. Esta dimensão é intrínseca à própria realidade; não pode não ser assim.
O Código de Direito Canónico, por outro lado, considera o aborto como um delito;
este é um conceito estritamente jurídico. Sendo delito, exige uma sanção penal, uma
censura, que é a excomunhão latæ sententiæ. Vejamos o que isto significa.
Porquê esta disciplina canónica? Repare-se que quem cometer infanticídio não
incorre na pena. O que se pretende é chamar a atenção para a defesa da vida desde o seu
início, e incutir esse valor na consciência dos fiéis, e, consequentemente, para a gravidade
do acto do aborto, tanto mais que na mentalidade, nos costumes e nas legislações civis é
muitas vezes aceite e até legalizado (o que não é o caso do infanticídio). Por outro lado, se
essa disciplina canónica fosse modificada, poder-se-ia, erradamente, considerar que o juízo
moral sobre o aborto tinha sido modificado.
O cânone 1398 diz: “quem provocar aborto, seguindo-se o efeito, incorre em
excomunhão latæ sententiæ”.
Expliquemos: o código prevê alguns casos de pena em que se incorre pelo “mesmo
facto de se ter cometido o delito” (c. 1314), isto é, automaticamente, sem processo, sempre
que se verificarem as circunstâncias exigidas; são as penas latæ sententiæ. O aborto é um
desses delitos.
Para que haja a pena é necessário que se tenha dado, de facto, o abortamento. Nela
também “incorrem os cúmplices se sem o seu concurso o delito não teria sido perpetrado”
(cfr c. 1329 §2).
Dito isto é preciso acrescentar o que o mesmo Código prevê: não incorre na pena
quem “sem culpa ignorava a existência da pena” (c. 1324 § I, 9º); quem não tenha
completado dezasseis anos de idade (cfr cc. 1323, 1324), há intérpretes que consideram só
a maior idade, os dezoito anos completos (cfr 97 §1); quem está no “uso imperfeito da
razão” (c. 1324 §1, 1º) e quem agiu “coagido por medo grave, mesmo só relativamente, ou
por necessidade ou por grave incómodo” (c. 1324 § I, 5º). Por estes motivos, sobretudo
pelo último de interpretação tão ampla, estão isentas da pena muitas mulheres que praticam
o aborto.
A pena de excomunhão significa, como a palavra indica, a exclusão da comunidade
dos fiéis. Não se trata da comunhão substancial de pertencer à Igreja, o povo de Deus, o
Corpo de Cristo. É uma exclusão de significado canónico, que tem incidência sobretudo no
foro externo, e que priva de alguns direitos e deveres que decorrem da condição eclesial de
baptizados (cfr c. 1331). A excomunhão não tem o carácter de condenação eterna, como às
vezes pode perpassar pelo imaginário comum; nem é um juízo definitivo sobre a pessoa.
Esse pertence só a Deus.
A pena de excomunhão é, em linguagem canónica, uma censura, isto é, uma pena
medicinal. Não é de carácter expiatório nem punitivo; é pedagógico. “Com uma sanção
assim reiterada, a Igreja aponta este crime [o aborto] como um dos mais graves e
perigosos, incitando, deste modo, quem o comete a ingressar diligentemente no caminho
da conversão. Na Igreja, de facto, a finalidade da pena de excomunhão é tornar plenamente
consciente da gravidade de um determinado pecado e, consequentemente, favorecer a
adequada conversão e penitência” (Encíclica Evangelium Vitæ, 62).
Quem pode remitir da pena é o bispo diocesano (cfr c. 1355 § 2), que, por sua vez,
pode delegar a faculdade de remissão nalguns sacerdotes conforme os tempos, os lugares e
outras circunstâncias. Em caso de dificuldade no contacto com estes, qualquer outro o pode
fazer, decorrendo daí alguma diligência ulterior.
A dimensão canónica, aqui exposta rapidamente, pode ser retirada da disciplina
eclesial, como já aconteceu com outras acções consideradas delitos e punidas com a
mesma censura. Isso não tocaria a dimensão teológico-moral. Há teólogos, juristas e
pastores que assim o pensam, por considerarem que tem pouca relevância prática; às vezes
até confunde e atrapalha, também pelo tipo de linguagem utilizada.
De qualquer modo, o aspecto pedagógico pretendido não será despiciendo, tendo
sobretudo em vista quem executa o aborto. Pode ser entendido na vertente da Igreja como
“mãe e mestra”.

Cfr LEITE, António, “Remissão da excomunhão ‘latæ sententiæ’ pelo delito de


aborto”, Boletim Forum Canonicum, 23, 1999, 15-17.

Jerónimo Trigo