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Sally Heywood

Flerte Perigoso
Simply Forever

Flame descobriu que o marido era um mentiroso!

No auge da festa, Flame se divertia junto à piscina ouvindo


Rafael, rapaz simpático, disposto a impressioná-la. Então, como que
atraída por um ímã, ela olhou em direção dos portões e viu Marlow
entrando...
Chocada, notou que estava acompanhado de uma mulher, a
mesma que, certa vez, encontrara na cama dele. Como Marlow podia
ser cínico a ponto de exigir que Flame fosse uma esposa fiel?
Respirando fundo, ela abriu um sorriso e aceitou o convite que Rafael
lhe fazia.

Disponibilização: Cássia
Digitalização: Simoninha
Revisão: Rachel Lara
Capítulo 1

Flame levantou a cabeça quando ouviu a porta de seu escritório sendo aberta. Era Johnny, o chefe da equipe de
consultores para a qual trabalhava. Ele a encarou e atravessou a sala imediatamente, adotando um ar preocupado.
— O que é isso, doçura? — perguntou.
Flame afastou a mão que ele tentava segurar, esbarrando na carta, via aérea, que estava a seu lado, sobre a mesa, e
balançou a cabeça.
— É apenas uma carta de minha irmã — respondeu.
— Más notícias?
— Parece que sim — admitiu com relutância.
Pretendia dar o assunto por encerrado, mas, vendo que Johnny continuava em silêncio, fitando-a com expressão
ansiosa, viu-se forçada a prosseguir.
— É mamãe. Está doente há alguns meses, mas agora parece que piorou bastante. — O rosto pálido, emoldurado pela
cascata de cabelos ruivos, estava triste, e os olhos verdes mal podiam conter as lágrimas — Não sei o quanto é grave.
Samantha não é de fazer alarde, mas é como se me pedisse ajuda nas entrelinhas. Acho que quer que eu volte para casa.
— Para casa?
— Sim, para a Espanha. Johnny fez uma careta.
— Você nunca falou em voltar — comentou.
Ela abaixou a cabeça, apertando as mãos num gesto involuntário.
— Não pretendo partir até ter certeza de que é realmente necessário.
Levantou-se e caminhou até a janela, observando a movimentada rua de Londres lá embaixo. Depois se virou e o
encarou.
— Oh, Johnny! Sei que Samantha não me pediria para voltar se não estivesse muito preocupada. Mas não sei o que
fazer... Não quero ir para lá, não quero ter de rever todos aqueles lugares!
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— Não acha que ela teria telefonado, se o problema fosse tão sério quanto está imaginando? — sugeriu.
— Talvez esteja querendo me prevenir.
— Conhece sua irmã melhor que eu — disse e aproximou-se, pousando uma das mãos sobre seu braço. — Ouça,
doçura, pare de se preocupar. Há um telefone bem na sua frente. Ligue para ela, esclareça tudo e pronto. Vai se sentir
melhor, garanto.
Sentiu os dedos dele escorregando de seu braço quando se afastou.
— Você é maravilhoso, Johnny — disse, tentando disfarçar a relutância em ser tocada. — Mas prefiro telefonar mais
tarde, assim que chegar em casa.
— Não sou maravilhoso. Pelo contrário, estou sendo bem egoísta. Não terá nenhuma utilidade para mim se estiver com
a cabeça em outro lugar. — Enquanto dizia isso, empurrou a lista telefônica através da mesa. — Vamos, Flame, deixe de
ficar imaginando coisas e encare os fatos de frente. Espero que não seja nada sério, não só pelas razões óbvias, mas por
que... bem, porque não quero que vá.
Apesar de tentar disfarçar, havia algo de muito mais profundo por trás daquelas palavras, e Flame percebeu
instintivamente que ele não estava pensando apenas na carga excessiva de trabalho. Mordeu o lábio, confusa, mas ele a
poupou de ter de dizer alguma coisa. Levantou-se e saiu, voltando para o próprio escritório.
Sentia-se tensa, quando discou o número da família na Villa Santa Margarita. Costumava combinar antecipadamente
os telefonemas, para que a mãe ou a irmã pudessem estar ao lado do aparelho quando tocasse. Nervosa, imaginava quem
atenderia do outro lado. Preparou-se para ouvir aquela voz, mas para seu alívio foi Samantha quem respondeu.
— Querida! — a irmã a saudou. — Fico feliz por ter ligado. Pretendia telefonar mais tarde, para saber se recebeu minha carta.
— Recebi esta manhã — respondeu Flame. — Como está ela?
— Oh, Flame... — Samantha interrompeu-se e prosseguiu em seguida, esforçando-se para manter o tom calmo. — Ouça,
querida, vou ser direta. Ela quer vê-la. Está aflita com sua ausência. É claro que tem se mostrado muito corajosa, insistindo que não devemos
nos preocupar, mas eu acho que você deveria largar tudo e vir para cá o mais rápido que puder. Sabe que eu não estaria sugerindo tal coisa se
não estivéssemos tão temerosos, não é? Por favor, diga que vai ao menos tentar...
— Irei assim que puder — respondeu, sentindo as mãos geladas.
— Ótimo. Quanto mais cedo, melhor... — interrompeu-se fazendo um esforço para manter o controle. Em seguida informou
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sobre os exames clínicos e disse que estavam aguardando os resultados. Finalmente concluiu: — Não queria que se
preocupasse, Flame. Por isso decidi escrever antes de telefonar.
— Eu compreendo, Sammy — usara o apelido da irmã mais velha inconscientemente. — Vou entrar em contato com as
companhias aéreas agora mesmo e voltarei a ligar mais tarde, para informar quando devo chegar.
Ainda restava uma pergunta, mas no último minuto não teve coragem de tocar no assunto. Depois de perguntar sobre
as crianças, desligou e apoiou a cabeça na mesa, censurando-se pela covardia.
Marlow. O nome martelava em sua cabeça. Teriam de se encontrar.
Não haveria escapatória, agora que voltava para casa. Só esperava que ele tivesse o bom senso de não estar no
aeroporto. Samantha trataria de evitar, caso ele tentasse, pois já devia saber como as coisas haviam terminado entre eles...
— Tudo bem?
Johnny estava parado na soleira da porta, tentando sorrir, interrompendo-lhe o fluxo de memórias. Assim que a viu de
perto indicou, com o rosto sério:
— Não, não está bem, pelo que vejo.
Ela balançou a cabeça em sentido negativo, sentindo os olhos subitamente úmidos.
— Estou assustada, Johnny. Samantha parecia tão estranha. Disse que mamãe teve de fazer vários exames... Parece
sério, não?
Era difícil imaginar sua mãe, tão linda e alegre, como uma inválida. Embora já estivesse com mais de cinqüenta anos,
Flame sempre pensava na mãe como alguém mais jovem e muito saudável. O pai fora muito doente. Haviam se mudado
para o sul da Espanha, cujo clima era mais quente, por causa do problema crônico de respiração que acabara por matá-lo,
dez anos atrás.
— Então vai mesmo partir? — perguntou Johnny, olhando para o calendário da parede.
— Sinto muito. Sei que vou deixá-lo em dificuldades, mas...
— Não é isso o que me preocupa. — Os olhos cinzentos escureceram por um momento, mas um sorriso iluminou seu
rosto logo depois. — A solução é fácil. É só procurar uma agência e pedir um temporário, de preferência alguém que possa
manter o controle durante uma crise e fazer um café decente. Faça isso por mim, depois ligue para a Transflight e fale com
Tim.
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Ela o encarou, surpresa, mas, antes que pudesse perguntar alguma coisa, Johnny explicou:
— Ele poderá arrumar um lugar num dos próximos vôos. Diga que trabalha para mim, está bem?
Flame continuou olhando para ele, sem reagir.
— E então, o que está esperando?
— Sua eficiência sempre me deixa sem fala — disse, tentando brincar. Mas sabia que Johnny percebera sua hesitação e
compreendera os motivos,
— Vai voltar a vê-lo, não é? — perguntou.
— Não poderei evitar — sorriu com amargura e prosseguiu:
— Tudo bem, não é o fim do mundo... apesar de parecer que sim.
Estava tentando amenizar a tensão que parecia um fardo sobre suas costas, mas Johnny insistiu:
— Diga a ele que encontrou um rapaz muito bem-sucedido em Londres, e que ele ficou louco por você...
A voz tornou-se mais fraca subitamente, e ele passou os dedos trêmulos pelos cabelos castanhos.
— Droga! Não quero tornar as coisas mais difíceis, especialmente num momento como este, mas não posso vê-la
voando de volta para ele sem dizer como me sinto. — Fez uma pausa e sorriu, prosseguindo: — Sei que deve pensar que é
apenas mais uma, mas vai acabar entendendo que é muito especial para mim.
Aproximou-se e segurou-lhe o queixo, forçando-a a levantar o rosto e encará-lo. Ela não tentou evitar, mas seus olhos o
preveniam sobre a inutilidade do gesto.
— Sabe o que eu sinto por você, Flame. E francamente, se soubesse que as coisas poderiam chegar a esse ponto, teria
me afastado de você há muito tempo. Mas agora é tarde. Sei que seu divórcio estará pronto em seis meses, e vou usar todo
o tempo para tentar conquistá-la. Me dê uma chance, sim?
— Johnny — ela retribuiu o sorriso da forma mais doce que pôde, afastando-se um pouco e quebrando a atmosfera de
intimidade —, eu gosto muito de você, admiro sua competência profissional, adoro trabalhar em sua agência, mas depois
de tudo que passei com...com Marlow, realmente não tenho a menor intenção de começar outro relacionamento.
— Eu não estou fazendo pressão, doçura. Mas, se mudar de idéia, sabe a quem procurar. — Passou a mão pelos
cabelos, embaraçado por ter perdido a frieza e o controle emocional, e mudou de assunto. — E então? O que está
esperando? Ao trabalho! — E dirigiu-se para o próprio escritório, onde o telefone tocava, insistente.
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Aquele era mais um dia agitado. No entanto, Flame interrompeu suas tarefas para falar com Tim, o amigo de Johnny, e
tentar conseguir um lugar num dos vôos. Assim que obteve a reserva, voltou a ligar para Samantha e avisou que chegaria
às cinco e meia da manhã seguinte.
— Eu posso pegar um táxi em Málaga — disse. — Não quero ninguém me esperando no aeroporto.
Não precisou esclarecer a quem se referia, pois Samantha parecia informada a respeito.
— Vai ter de enfrentá-lo mais cedo ou mais tarde — disse. — Afinal, ele ainda faz parte da família.
— Só por mais seis meses.
— Legalmente, sim, mas os vínculos existirão por muito mais tempo, querida. O que eu quero dizer é que ele ainda está morando na villa e
que eu espero, pela saúde de mamãe, que vocês sejam ao menos civilizados um com o outro. Sabe o que ela pensa dessa situação, não é?
— Não se preocupe, ele não vai conseguir fazer com que eu perca o controle — respondeu, dizendo a si mesma que,
finalmente, havia superado tudo aquilo. — Serei uma perfeita lady. Só não permita que ele vá ao aeroporto. Posso até
suportar a idéia de voltar a vê-lo, mas não às cinco e meia da manhã.
— Emílio já se ofereceu para ir apanhá-la.
— Ainda estão juntos? — Samantha riu, apesar de notar a ironia da irmã.
— Nos comportamos de maneira estúpida no passado, mas felizmente admitimos nossos erros — comentou.
— Eu sempre achei que os tolos que se comportam de maneira estúpida devem viver juntos — brincou, sentindo-se
feliz por Samantha.
Mais tarde, quando começou a arrumar a pequena bagagem para a viagem, sentiu uma pontinha de inveja da felicidade
que notara na voz da irmã. Tivera sua chance com Marlow há quase dois anos, e o resultado da tentativa fora um fracasso
absoluto.
No entanto, as coisas pareciam ter sido diferentes para Samantha e seu marido espanhol. No início tiveram uma
relação difícil, pois a natureza exuberante de Sammy e o temperamento latino de Emílio causavam choques freqüentes e
intensos. Durante o período anterior ao casamento de Flame, os dois estavam vivendo separados. Mas todos os problemas
foram sendo resolvidos com o tempo, e Marlow e ela começaram a caminhar em direção ao abismo. Agora, vivendo com o
marido outra vez, Samantha parecia estar radiante como uma noiva.
No fundo, Flame sabia que o casamento podia ser uma excelente opção de vida, mas uma coisa não conseguia esquecer:
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a preocupação da mãe durante todos aqueles anos, quando pensava que a separação era um estigma da família.
Mais tarde pôde compreender que essa situação fora uma das razões pelas quais a mãe se mostrara tão ansiosa com
relação a seu casamento, como se o sucesso da filha mais nova nesse sentido pudesse compensar o que considerava como o
fracasso da mais velha. Não seria absurdo dizer que a mãe praticamente a empurrara para o matrimônio, no centro do
qual, é claro, estava a questão das terras.
E no meio de tudo, como se já não houvesse o bastante, ainda havia o seu próprio sentimento por Marlow. Agora sabia
que tudo não passara de uma paixão fulminante, porém absurda. Não necessitara de estímulos para mergulhar de cabeça
naquele casamento, e agora pagava o preço da própria ansiedade.
Deu uma olhada no apartamento, verificando as torneiras e os interruptores. Pensamentos amargos bailavam em sua
mente e, mais tarde, quando o táxi começou a inevitável viagem ao encontro de Marlow, sentiu-se incapaz de impedir o
fluxo das recordações.
Lembrou-se de como deixara a Espanha, jurando nunca mais voltar enquanto Marlow Hudson fosse o rei sem coroa de
Santa Margarita. Agora estava sendo forçada a quebrar o juramento.
O casamento fora uma sucessão de desastres desde o início. Pegue uma garota inexperiente, de apenas dezenove anos,
um homem forte e poderoso, adicione um excelente pedaço de terra esperando por alguém que o explore e, finalmente,
acrescente uma proprietária interessada em encontrar alguém para dividir a carga das responsabilidades dos negócios. O
resultado só podia ser um desastre. Lembrou-se da primeira vez em que teve uma vaga desconfiança de que alguma coisa
estava acontecendo.
— Tudo isso será de vocês um dia, minhas queridas — dissera a mãe para ela e Samantha, quando faziam um
piquenique no alto de um rochedo, com o aroma doce dos pinheiros e o azul brilhante do mar lá embaixo. — O problema é
que não posso evitar a preocupação, quando penso que isso é apenas um grande pedaço de terra sem nenhum
desenvolvimento. O que farão com ela? Seu pai fez planos maravilhosos para tudo isso aqui, como se pudesse transformar
as rochas e a imensidão desabitada em um lindo jardim.
— Mas nós gostamos daqui — murmurou Samantha, entretida na tarefa de esfregar o óleo de bronzear em um dos
filhos.
Flame concordou com um gesto de cabeça, mas Sybilla ainda argumentou:
— Mas não seria maravilhoso se pudéssemos encontrar alguém que cuidasse da propriedade para nós, que a
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transformasse em algo realmente especial? O que precisamos é de alguém que trate de todos os detalhes chatos e faça com
que nossa propriedade seja o paraíso que sempre sonhamos.
As duas moças, Flame recém-saída da escola, e Samantha nos primeiros anos de um casamento bastante difícil, mais
absorvida por ele e pelos bebês do que por qualquer outra coisa, concordaram com tudo o que estava sendo dito. Mas
nenhuma delas podia indicar uma maneira de transformar o sonho em realidade.
Foi então que Sybilla Montrose dirigiu sua atenção para o homem que tratava de povoar toda a costa em volta delas,
construindo e urbanizando grandes áreas.
— Seria ótimo se ele pudesse construir em toda a extensão do Cabo de Santa Margarita — disse ela.
— Mamãe! Você não está pensando em vender Santa Margarita, está? — perguntou Flame, assustada.
— Não, nunca. Mas deve haver outro meio de conseguirmos o que queremos, não é?
Havia um brilho de ambição nos olhos de Sybilla. Devia ter prevenido as filhas sobre seus planos, e agora Flame
compreendia tudo. O misterioso salvador possuía um nome, e Marlow Hudson passou a visitar a villa com bastante
freqüência.
Devagar, porém decididamente, percebia agora, fora manipulada e induzida pela mãe, que, inocentemente, via apenas
duas conseqüências para o joguinho casamenteiro: a união da filha com o solteiro mais requisitado da costa e a
conseqüente realização de um velho sonho. E também havia Marlow. Agora estava convencida de que ele aceitara o jogo
por saber que a villa, de localização invejável, seria o dote que acompanharia a criança que lhe era oferecida como noiva.
Assim que o plano foi posto em andamento, tudo aconteceu com uma velocidade estonteante. Conheceram-se e casaram-
se em menos de dois meses.
Na verdade, pensava, fizera o papel do cordeiro sacrificado. Seria loucura imaginar uma criança de dezenove anos
resistindo ao charme de um homem como Marlow. Dez anos mais velho que ela, vivera em grandes centros urbanos, o que
possibilitara um rápido amadurecimento e um maior conhecimento dos fatos da vida. Flame ficara deslumbrada,
exatamente como ele esperava que acontecesse. Nos poucos dias de namoro, chegara a pensar que aquele homem tinha a
capacidade de ler seus pensamentos, tal a forma como correspondia à sua imagem de super-herói. Não passara de uma
marionete nas mãos dele.
Poucos dias depois de terem se conhecido, Marlow parecia saber tudo sobre ela, como explorar sua sinceridade
inocente e como iludi-la com a promessa de uma vida no céu. Entregara o coração a ele, e passara a viver à espera de ver
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seu rosto ou ouvir sua voz.
Mesmo agora, depois de toda a dor que seguira o prazer tão de perto, ainda podia sentir uma pontinha de desejo só em
pensar nele. E era ainda pior, pois agora possuía a lembrança de seu toque, seu cheiro e seu gosto para provocar a
imaginação.
Por um momento sentiu-se invadida pela lembrança de sua masculinidade, que parecia mais forte quando
acompanhada pelo ar de mistério que o envolvia. Era uma coisa estranha, mas só percebeu que sabia muito pouco sobre
ele depois de ter partido. Antes disso estava apaixonada demais para preocupar-se com o passado. Depois de dezoito
meses, vendo claramente quem era Marlow Hudson, chegara à conclusão de que ele nunca passara de um aventureiro.
Impediu o fluxo das lembranças com uma reprovação silenciosa. Pagou o motorista, pegou a bagagem e entrou no
aeroporto.
À medida que a distância entre eles diminuía, os minutos acompanhando rapidamente a passagem de uma etapa da
viagem para a seguinte, Flame sentia que se aproximava de uma zona de perigo infinito. O fato de perceber o quanto ainda
estava vulnerável fez com que tivesse certeza de que nunca mais poderia ser estúpida a ponto de ceder aos encantos de
Marlow. Nunca mais...
O casamento estava terminado. O avião começou a se mover e, poucos minutos depois, as luzes de Londres perdiam-se
na noite escura. O casamento terminara no dia em que ela descobrira a verdade.
Nos dezoito meses que se seguiram à partida, ele fizera apenas uma tentativa de aproximação, o que demonstrava
claramente o quanto estava desinteressado. Sempre estivera. Encontrara sua pista através de Samantha, e fizera uma
chamada telefônica só para perguntar quando pretendia voltar.
Flame repetiu o argumento do bilhete de despedida, dizendo que o casamento era uma coisa chata e que queria ser
livre para viver como preferisse. Não era a verdade. Até aquele terrível momento, o casamento fora o céu na terra. Mas não
passara de um paraíso falso, e o orgulho e o amor-próprio trataram de mostrar-lhe o caminho da saída.
Desde então; tudo o que sabia sobre ele era dito por Samantha, ou então pela mãe. Tudo não passava de uma grande
representação teatral, e chegara a suspeitar que as constantes referências de Sybilla ao desespero de Marlow e sua vontade
de tê-la de volta eram frutos do desejo da própria mãe, e não tinham nenhuma relação com qualquer coisa que o ex-marido
pudesse ter dito.
Há apenas dois meses havia informado categoricamente:
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— Acabou, mamãe. Por favor, não insista. Tenho uma vida nova em Londres, um bom emprego, um bonito
apartamento, e não preciso de Marlow Hudson para estragar tudo outra vez.
Havia jurado nunca mais voltar, mas agora estava sendo forçada a quebrar o juramento.
Fechou os olhos, cansada e amargurada, e acabou adormecendo.
Uma hora depois foi acordada por alguém da tripulação, anunciando que estavam próximos da costa espanhola,
minutos depois um colar de luzes brilhava através da escuridão, indicando a pista de pouso. A aeronave passou pela
avenida formada pelas duas fileiras de potentes holofotes e, com um choque súbito, Flame percebeu que estava outra vez
no território de Marlow.
Emílio aguardava perto do portão de desembarque, e mostrou-se surpreso com a elegância da cunhada. Um abraço
apertado acompanhou os votos de boas-vindas.
— Sentimos sua falta, sabe? Desta vez vai ter de ficar bastante tempo — disse ele, apanhando a valise da mão de Flame.
— Também senti saudade. O que aconteceu com a viagem que fariam à Inglaterra?
Enquanto caminhavam na direção do carro, Emílio explicou o quanto era difícil deixar os negócios por muito tempo,
principalmente agora que a área da construção civil entrava em franco crescimento. Ainda estava escuro, mas um brilho
de pérolas no leste indicava o começo de um novo dia.
Emílio acomodou Flame no banco do passageiro, pôs a bagagem no porta-malas e iniciou a viagem pelos subúrbios
adormecidos de Málaga, antes de tomar a estrada costeira para Santa Margarita.
— No meio do caminho podemos parar em um bar — sugeriu. — Assim você vai se acostumando com a idéia de estar
de volta e chegaremos bem na hora do café da manhã.
— Beber às seis da manhã? Meu Deus, eu já nem me lembrava mais disso! — exclamou, recordando as férias de verão,
quando jantavam às onze horas da noite, segundo o costume espanhol, dançavam até o amanhecer e terminavam a noitada
num dos cafés que pareciam não fechar nunca.
Emílio certamente fora prevenido por Samantha, porque evitou mencionar o nome de Marlow e ocupou todo o tempo
falando de sua família, orgulhoso e feliz com a chegada de mais um bebê em breve. Seria o quarto.
Quando atravessaram o portão de Santa Margarita, o céu era de um azul intenso e limpo, absolutamente sem nuvens.
O carro percorreu o caminho inclinado que levava à casa, ladeado por palmeiras, até que a construção surgisse em toda
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sua imponência.
Era tudo tão familiar que Flame não pôde evitar um suspiro. Jamais prestara atenção à beleza natural das palmeiras,
dos ciprestes e das parreiras, mas agora se sentia extasiada pela visão do jardim que cercava a villa e suas paredes
perfeitamente brancas.
O arranjo dos balcões, das sacadas e do terraço que dava vista para o mar, havia sido feito pelo próprio pai, que sonhara
com a construção de um lar maravilhoso para a família, para sua amada esposa e as filhas. Ali estava a realização de um
sonho de amor, construído com muito trabalho. Por dentro, as acomodações chegavam a ser luxuosas. Do outro lado da
casa, protegido pela privacidade da forma em "L" do prédio, ficava o terraço principal e a piscina com o solário elevado, de
onde se podia ver o Mediterrâneo.
Seus olhos voltaram-se para a construção menor, meio escondida no meio das árvores. Devia ser um presente do pai
para a filha mais velha, e no futuro haveria uma segunda casinha como aquela, que seria dada a Flame assim que ela
atingisse a idade certa. Esses eram os planos do chefe da família Montrose, muitos anos atrás.
Samantha e Emílio foram os primeiros ocupantes da casita como era chamada, até que Sybilla convenceu o casal a
mudar-se com a família cada vez maior para a casa principal, muito mais espaçosa. A pequena réplica da villa ficara vazia
por algum tempo, até que Flame e Marlow se mudaram para lá, depois do casamento.
Seguindo uma sugestão de Sybilla, Marlow iniciou o projeto de conclusão dos desenhos de uma segunda villa, que seria
de Flame. Assim que a nova residência estivesse pronta, o empresário poderia mudar o centro nervoso de seu império para
a casita. Pouco depois iniciavam os trabalhos de construção, mas logo em seguida Flame deixou a Espanha.
De acordo com o que soube, todos os planos de Marlow haviam sido adiados, é ele continuava morando na casita.
Podia vê-la agora, através dos pinheiros que adornavam a alameda em volta da casa principal.
Emílio desligou o motor, e tudo ficou em silêncio. Pegou a bagagem da cunhada e dirigiu-se para a casa, subindo os
vários degraus do caraiano inclinado. Flame ficou parada, em pé, como se não pudesse mover-se. Os raios de luz passavam
por entre as folhas das árvores, pintando o caminho com um quadro de sombras e claridade.
Suspirou fundo, retomando o controle dos próprios atos e virando-se em direção a casa, disposta a seguir o cunhado.
Mas um movimento no meio dos pinheiros, na direção da casita, impediu que continuasse. Estremeceu. Observou a
alameda, mas não viu nada além da luz do sol reclamando seus domínios. Retomou os passos, mas alguma coisa fez com
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que se virasse outra vez.
Com um arrepio, notou a figura familiar movendo-se entre as árvores, vestido de branco como sempre costumava estar.
Marlow!
Sabia que o encontraria, mas não podia evitar o espanto.
Esperou, sentindo as mãos geladas, enquanto ele caminhava devagar em sua direção.
Flame disse a si mesma que ele devia ter ouvido o barulho do carro. Talvez tivesse dormido na cidade, e estivesse
chegando agora. Ou talvez estivesse acostumado a começar a trabalhar cedo. Não havia outra explicação para sua
aparição.
Quando Marlow estava a poucos passos de distância, parou como se alguma barreira invisível os separasse. Flame
sentiu o coração disparar. Alto e forte, com os ombros largos e o cabelo negro como os de um cigano, teve o poder de
trazer de volta a lembrança de uma força física quase esquecida. Uma imagem rápida e proibida de braços fortes a
enlaçando pela cintura e transmitindo calor, tirando-a do chão. Naqueles dias Flame sentia-se perdidamente apaixonada,
e lembrou-se de como ele costumava correr com ela nos braços, enfrentando as ondas da praia da enseada próxima. Foi
nessa época que Flame sentiu todo o poder que Marlow exercia sobre ela, acreditando que seria seu para sempre. Estava
enganada.
Agora podia vê-lo parado a pouca distância, podia quase tocá-lo, mas ele não se aproximou. Ao contrário, permaneceu
no mesmo local e disse seu nome em voz alta e forte, como se estivesse surpreso com sua chegada, encarando-a com os
olhos azuis que pareciam mais profundos que o oceano.
— Então encontrou algo para trazê-la de volta... — disse, da mesma forma lenta e controlada que fora capaz de
arrepiá-la tempos atrás.
Desta vez, no entanto, estava preparada para resistir. Erguera barreiras contra o poder de sedução que Marlow exercia
sobre ela, disposta a enfrentá-lo. Mesmo assim, gaguejou antes de forçar-se a responder em tom seguro.
— Como pode ver, estou de volta. Pela saúde de minha mãe.
Os olhos dele eram algo que pensava ter esquecido. Azuis e profundos como os oceanos, tão pacíficos e, ao mesmo
tempo, agitados quanto podiam ser os mares. Sentiu que estavam fixos em seu rosto e não pôde sustentar o olhar. Desviou
o rosto, mas mesmo assim um arrepio de desejo percorreu-lhe o corpo.

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Retrocedeu dois passos, devolvendo o mesmo olhar de avaliação. Sem dúvida, Marlow tinha uma ótima aparência.
Havia quase se esquecido dos cabelos negros e abundantes, através dos quais costumava deslizar os dedos num gesto de
carinho. Os traços duros do rosto estavam bronzeados, com um tom dourado e tropical, e os lábios sensuais pareciam
mais atraentes do que nunca. Sim, tinha de admitir que era um homem atraente, mas agora sabia que a sedução não
passava de um instrumento para atingir seus propósitos a qualquer preço.
— Por que não me avisou que estava voltando? — perguntou Marlow.
— Acha que devia ser avisado? — respondeu ela, com um olhar frio.
— Sabe o que quero dizer. Nem uma palavra, nada...
— Foi tudo decidido às pressas — explicou, como se o assunto não lhe dissesse respeito. — Samantha deve ter dito a
você.
— Não, não disse. Eu não estava em casa ontem, e ela apenas deixou um recado na minha secretária eletrônica. Não
deu nenhuma explicação.
Flame mal ouvia o que ele dizia, sentindo-se assustada pela forma abrupta como os velhos sentimentos voltavam a
invadi-la. O bronzeado de Marlow era acentuado pela camiseta branca, a marca registrada que completava sua
personalidade. Sempre se vestia de branco. Uma vez dissera a ela que isso poupava o trabalho de pensar antes de escolher
uma roupa, porque todas combinavam entre si. O tempo sempre era curto para aquele homem. Aos dezenove anos, Flame
pensava que ele parecia esplêndido no terno branco e bem cortado, como um astro de cinema.
Agora, continuava observando cada detalhe de sua figura, deixando bem claro que estava mais velha e que não voltaria
a impressionar-se com tais coisas.
— Bem — disse, virando-se e mostrando que pretendia afastar-se —, sem dúvida nos veremos por aqui.
— Será inevitável — respondeu ele num tom seco.
Flame baixou a cabeça quando percebeu o olhar ansioso sobre seus seios, furiosa consigo mesma por não poder evitar o
rubor repentino nas faces. Forçou-se a caminhar em direção a casa, subindo os degraus do terraço da frente. Quando
parou no alto da escada e virou-se, viu que ele continuava no mesmo lugar. Uma figura enigmática, um vulto branco
recortado contra o céu ainda escuro. Apesar do que sentia por ele, houve um breve segundo no qual todas as emoções
foram vencidas por um único sentimento e quis correr para ele e atirar-se em seus braços. Mas sabia que isso nunca mais
seria possível, e o impulso foi sufocado no mesmo instante. Entrou e fechou a porta atrás de si, deixando os sentimentos
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tolos do lado de fora.
O ambiente estava frio e escuro, principalmente para alguém que acabava de encarar o céu avermelhado do amanhecer.
Lembrou-se de um velho ditado que dizia que um céu daquela tonalidade sempre representava um mau presságio. O
vermelho indicava perigo iminente, e até as crianças sabiam disso. Agora era uma mulher madura e não estava disposta a
esquecer o passado e cometer o mesmo erro pela segunda vez.

Capítulo 2

O dia já havia começado, e Flame achou absurdo ir para a cama àquela hora. Por isso, depois de dar uma olhada na mãe,
ainda adormecida, tomou o café da manhã com Samantha, Emílio e as três crianças na cozinha branca e espaçosa.
Depois da saída de Emílio para o trabalho, as duas irmãs foram para o terraço com as crianças.
— Ultimamente mamãe costuma dormir até tarde — explicou Samantha. — Está muito fraca.
Em seguida apresentou a babá, uma garota sueca de vinte anos.
— Britt me ajuda a manter a sanidade apesar dos três pequenos monstros — brincou.
— São todos uns anjinhos — discordou a garota com um sorriso simpático.
— Emílio já contou sobre o número quatro? — perguntou Sammy, virando-se para Flame.
Ela assentiu, e alguma coisa em sua expressão fez com que a irmã a pegasse pelo braço, forçando-a a sentar-se em uma
das espreguiçadeiras à beira da piscina.
— Oh, querida! Você também poderia ter os seus bebês, não? Não devia ter partido, Flame!
— Não tive escolha. Eu apenas saí com dignidade, nada mais. E estou feliz, pois foi a decisão certa.
— Parece tão segura...
— E estou. Totalmente segura.
— Então, por que o ar preocupado?
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— Por mamãe, é claro. O que mais poderia ser?
Samantha aproximou-se um pouco mais da irmã mais nova, atenta e observadora.
— Será que não podem deixar todas essas besteiras de lado? Acho que ainda não é tarde demais, querida.
— Deve estar louca, Samantha! Depois do que ele fez?
— O que ele fez, exatamente? Nunca nos contou toda a história.
— Sabe muito bem que Marlow não merece confiança.
Flame nunca entrara em detalhes sobre a separação. Envolvida com a própria dor, concluiu que todos deviam conhecer
os fatos até melhor que ela mesma. Afinal, a esposa não era sempre a última a saber?
— Tenho certeza que o erro não foi tão grave. Além do mais, homens são homens — justificou Samantha com
simplicidade. — O que esperava de alguém tão atraente?
— Apenas a fidelidade que ele também esperava de mim. Não aceito duplos padrões, Sammy! — O estômago lhe doeu
com a lembrança do dia em que seu coração fora partido.
— Duplos padrões... Imagino que seja alguma insinuação a meu respeito, não? — perguntou a mais velha, com os olhos
azuis fixos nos olhos verdes da irmã.
— No seu caso foi um pouco diferente. Que eu saiba, vocês eram exatamente iguais!
Flame tentava usar um tom moderado, e Samantha baixou a cabeça para esconder o sorriso divertido.
— Nunca houve ninguém realmente sério entre nós. O problema era que sempre gostamos de flertar, e então passamos
a ter brigas terríveis por causa de ciúme. Mas posso garantir que agora somos duas pessoas diferentes.
— Então também não aceita duplos padrões, não é?
— Devo admitir que seria difícil continuar se descobrisse que Emílio prefere a companhia de outras mulheres...
— Felizmente ele é louco por você.
A forma como o cunhado olhava para a esposa durante a refeição matinal deixava claro que todos os problemas haviam
ficado no passado.
— E Marlow? — perguntou Samantha. — Por acaso não é louco por você?
— Ah, é? Se fosse só um pequeno flerte, eu teria sido capaz de perdoá-lo, mas foi muito mais que isso. Ouça, Sammy...
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eu não quero discutir com você. Vamos deixar Marlow Hudson de lado, está bem? Você pensa como todos os outros e
também foi cativada pelo charme desse homem. Agora tenho os olhos bem abertos, e nada vai me fazer fechá-los outra vez.
Eu sei o que existe sob a aparência agradável e sedutora e pode ter certeza que são coisas que fariam um tubarão parecer
um peixinho dourado. Como pensa que ele teve tanto sucesso nos negócios? Sempre foi um egoísta, um oportunista, e vo-
cê não pode negar... E isso não é tudo. Ou vai tentar me convencer de que ele nunca esteve com outra mulher, desde que eu
parti?
— Se esteve, foi muito discreto — respondeu. Fez uma breve pausa e prosseguiu — Pode imaginar o que ele passou
depois que você foi embora? Ele é o tipo que sempre está cercado por admiradoras, e você não pode esperar que um
homem seja mais que humano. Ele não é nenhum super-herói!
— Eu posso esperar, sim! — respondeu Flame, levantando-se e indicando que a conversa estava encerrada. Olhou para
a irmã e tentou mudar de assunto. — Acha que a piscina ainda está muito fria para um mergulho? Estamos em março, mas
o sol já está bem quente, não?
— Sim, se fizer um bom aquecimento antes...
— Então vou dar um mergulho antes que mamãe acorde.
Entrou em casa e, na privacidade do quarto, passou um ou dois minutos contemplando o próprio reflexo no espelho. O
que Marlow vira em seu rosto? O que fizera com que a olhasse com tanto interesse há poucas horas? Talvez agora visse
uma mulher, não a garota que havia seduzido e traído. Uma mulher capaz de controlar as emoções e, desta vez, enfrentá-lo
e resistir.
Usando um biquíni preto e rosa sobre o corpo ainda bronzeado, resultado das férias recentes, percorreu o corredor que
a levaria até a piscina. No entanto, quando passou diante da porta da sala, ela se abriu com um estrondo súbito que fez
com que parasse assustada. Marlow estava parado na soleira. A onda de energia que passava de um para o outro era quase
visível.
Ele se encostou-se ao batente com um sorriso enigmático.
— Uma mudança bem rápida — comentou. — Você estava no terraço há poucos minutos...
— Não devia estar trabalhando, em vez de ficar espionando pelas janelas? — respondeu, retrocedendo como se a
presença dele representasse uma ameaça.
— Com você por perto?
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A voz baixara de maneira sugestiva. Então a atenção começou a viajar lentamente pelo corpo quase nu, e ela sentiu que
o rosto era invadido por uma onda de calor crescente.
— Vá para o inferno, Marlow! — explodiu. — Não pense que o velho charme vai funcionar comigo outra vez. Já tive
minha cota enquanto estivemos casados. Agora chega!
— Mas ainda somos casados. Ou será que esqueceu? — Estendeu a mão e pegou-a pela cintura num gesto possessivo.
— Eu posso ser um homem muito paciente quando é necessário, Flame. E tenho sido um poço de paciência com você.
Estou esperando há muito tempo. — O tom era carregado de ameaça, e ela sentiu um arrepio de medo.
— Tire as mãos de cima de mim, Marlow!
Tentou afastar-se dele, mas sentia os dedos cada vez mais fortes sobre sua pele.
— Frieza não é uma de suas características marcantes, Flame.
— Pois é apenas uma das mudanças. Com certeza vai ficar surpreso com as outras, Marlow — disse, sentindo-se
aliviada ao perceber que as mãos fortes a soltavam.
Afastou-se da zona de perigo, retrocedendo alguns passos e sentindo que o calor tão conhecido ainda permanecia
sobre sua pele, avivando a memória.
— Quero que saiba de uma coisa — falou furiosa. — Não sou mais a garotinha que você conheceu. Tenho muito que
agradecer a você, Marlow, e ter crescido é uma das razões da minha gratidão.
— Não quero ser agradecido por ter ajudado nessa transformação, se é que ela realmente aconteceu. Acho que
devemos ter uma conversa séria, Flame, e quanto mais cedo melhor.
— Não tenho nada a dizer...
— Mas eu tenho. Espere aqui. — Voltou para dentro da sala e, antes que ela pudesse perceber o que pretendia,
retornou com uma agenda nas mãos. — Tem o tempo exato para dar um mergulho e ir vestir alguma coisa menos
provocante. Tenho de dar alguns telefonemas urgentes e, depois, vou ter de ir à cidade para um encontro importante.
Conversaremos entre as duas coisas. Pena eu não ter sido avisado de sua volta. Teria deixado o dia livre. Venha ao meu es-
critório na casita dentro de meia hora. E nem pense em não ir. Eu odiaria ter de voltar e levá-la à força, na frente de todos.
Virou-se e caminhou para fora, sem esperar pela resposta. Vermelha de raiva Flame também saiu e dirigiu-se à piscina,
passando por Samantha sem dizer nada. Depois de algumas braçadas lembrou-se de que não havia feito o aquecimento e
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começou a sentir frio.
— Não queria voltar a falar de Marlow, Sammy — disse, enquanto esfregava o corpo com uma toalha —, mas ele
costuma andar pela villa como se estivesse em casa?
— Eu tentei preveni-la. Marlow é como um membro da família. Mamãe gosta muito dele, e como ainda mora na casita,
costumamos vê-lo com bastante freqüência. Pensei que ele estaria presente para o café, mas acho que decidiu nos dar
algum tempo a sós.
— Nunca entendi por que não voltou para o apartamento de solteiro quando nos separamos. Por que tem de viver
aqui?
Samantha a encarou por um momento e depois balançou a cabeça.
— Francamente, Flame, é óbvio, não é?
— Acha que é? — comentou, recusando-se a chegar à mesma conclusão que a irmã. Sabia por que ele insistia em
permanecer por perto.
— Ele sempre teve certeza que você voltaria — disse Sammy.
— Deve ter sido um choque para alguém tão pretensioso perceber que uma mulher era capaz de abandoná-lo. Acabei
de dizer a ele que não tenho nenhum assunto para tratar, pois acho que existem coisas muito mais importantes neste
momento. Acha que mamãe já acordou?
— A enfermeira esteve aqui enquanto você nadava. Pode ir até o quarto quando quiser. Mas... por favor, não a deixe
nervosa ou preocupada, sim? Mamãe quer vê-los juntos novamente. Tem vivido apenas para isso.
Com o aviso de Samantha nos ouvidos e o encontro com Marlow na mente Flame foi ver a mãe. Parecia tão fraca
quanto antes, quando ainda dormia, mas, apesar da doença, os olhos azuis brilharam quando Flame surgiu na porta.
— Querida, eles disseram que você viria. Isso é maravilhoso. — A voz era apenas um sussurro. — Está com um
bronzeado lindo... Mas parece magra demais, querida.
— Continua a mesma de sempre, mamãe! — comentou, procurando os sinais da doença no rosto familiar. Com um
pouco de maquiagem, Sybilla poderia enganar qualquer um que não a conhecesse bem.
— E então? — perguntou, tomando a mão da filha que havia se sentado na beira da cama. — Voltou para ele ou não?
— Voltei para ver você. Sammy disse que não estava bem...
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— Besteira. Isso não é nada. Logo estarei bem, e só gostaria de não ter de me preocupar com você e Marlow.
— Não foi esse o assunto que me trouxe de volta, mamãe — disse com cuidado, lembrando-se da recomendação da
irmã.
— Eu sei — indicou Sybilla, parecendo desapontada, mas tentando não demonstrar. — Acho que deve fazer o que for
melhor para você, mas pensei que já tivesse reconhecido o erro que cometeu. Ele tem sido tão paciente... e não pense que
paciência é uma atitude comum num homem como Marlow.
— Ele não tem por que ser paciente. Eu disse que estava acabado há dezoito meses. Se tem sido tão paciente como diz,
deve ter algum outro motivo. Certamente não é por minha causa...
Assim que terminou de falar, Flame percebeu que agira errado. Os olhos da mãe estavam cheios de lágrimas.
— Espere até vê-lo — Sybilla comentou. — Ele sempre vem aqui antes de ir para o trabalho.
— Nós já nos encontramos — Flame respondeu, sabendo que desapontara a mãe e incapaz de encará-la.
— E ele não disse nada a você?
De volta ao mesmo ponto, pensou Flame.
— Vamos conversar mais tarde — informou, torcendo para que isso não alimentasse as esperanças de Sybilla. — Ele
conseguiu me encaixar na agenda.
— Esse é Marlow! Um verdadeiro dínamo!
— Como sempre foi.
— Agora mais que nunca. A villa está terminada, e o complexo do hotel ficará pronto para ser aberto em breve. Ele não
contou? Era apenas um projeto quando você partiu.
— Bom para ele.
Flame ouviu o ressentimento na própria voz e tentou sorrir, mas Sybilla disse em seguida:
— Está na hora, querida.
— Na hora? — perguntou, tentando fingir que não entendia.
— Na hora de acabar com essa bobagem. Ele tem cuidado de nós durante todo o tempo, desde que você se foi. É o filho
que seu pai sempre quis. Antes de morrer, ele me disse que a única coisa que realmente sentia era não ter tido um filho
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para olhar por mim quando ele já não estivesse aqui. Se pudesse ver Marlow, saberia que seu desejo foi satisfeito. Emílio é
um amor, mas é diferente. — Então fechou os olhos.
Flame percebeu o quanto a mãe havia se esforçado para manter o fluxo das palavras. A vivacidade era falsa.
A enfermeira entrou e sugeriu que ela saísse, acompanhando-a até o corredor.
— Pode me dizer o quanto a doença é grave? — perguntou Flame, assim que saíram do quarto. — Ela parece mais
magra, mas...
— Teve um ataque cardíaco depois do Natal, e em seguida contraiu um vírus que piorou o quadro. Mas é uma
lutadora, e está fazendo progressos. O maior problema é a preocupação, sabe?
Flame sentiu um estremecimento, como se pudesse prever as conseqüências da situação. Sentindo-se estranhamente
culpada, tomou o caminho da casita.
Seguiu pela alameda que passava entre as duas construções e, através da janela do que um dia fora seu quarto, viu
Marlow sentado atrás de uma mesa. Estava ao telefone, com uma calculadora na mão. Era o retrato do homem de negócios
bem-sucedido.
O casamento terminara tão depressa que não haviam tido tempo de escolher a mobília. Agora o ambiente era
preenchido por equipamentos modernos, de alta tecnologia.
— Parece que tomou conta do lugar, não? — falou com sarcasmo, assim que entrou.
— Alguém tem de cuidar do clã Montrose — ele respondeu, sem nenhuma emoção na voz.
— Por que não Emílio, ou Sammy? Os dois já são bem grandinhos, não?
— Por mais que eu adore os dois, tenho de reconhecer que não passam de crianças quando o assunto é tão grande
quanto Santa Margarita — disse com um sorriso.
— Tem razão, você é perfeito — disse Flame, irônica.
— Sente-se.
— Estou bem em pé.
— Como quiser. Chamei você aqui para que pudéssemos convergir seriamente sobre o que vamos fazer.
— Pensei que já soubesse. Eu quero o divórcio.
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— Mas eu não quero.
— Ora, Marlow, pare com isso! Que razão pode ter para tentar manter um casamento como o nosso? Uma união que
não existe...
— Mas vai passar a existir em breve.
— O que quer dizer? — perguntou, encarando-o atônita.
— Pensei que estivesse sendo claro até para a criatura mais obtusa...
Subitamente percebeu o que ele queria dizer. A lembrança da traição voltou-lhe como um soco no estômago, a
imaginação pintando o quadro do homem que amava nos braços de outra mulher.
— Nada vai mudar entre nós — gritou. — Além do mais, já conseguiu tudo o que queria no dia em que eu assinei a
certidão de casamento. Desde então, tem feito tudo para garantir a lealdade do resto do clã — acrescentou com frieza. —
Está ganhando a partida, Marlow, mas isso não quer dizer que eu vá fazer parte do seu império.
— Que diabos está dizendo?
— Pensei que estivesse sendo clara até para a mais obtusa das criaturas!
— Disse que havia crescido... Pode até ter adquirido um pouco de experiência sexual enquanto esteve em Londres, mas
o seu crescimento não vai além disso, pode acreditar. Ainda é a garotinha imatura com quem me casei. Vamos tentar ser
adultos e discutir o problema da melhor forma, sim? Não posso acreditar que esteja falando sério. Império? Não está
querendo me dizer que anda por aí, com esse tipo de coisa na cabeça, desde que foi embora, está?
Marlow olhava direto para ela, mas a janela às suas costas e a sombra sobre o rosto impediam que Flame pudesse ver
claramente sua expressão. No entanto, podia detectar uma nota de incredulidade no tom de voz. Não soava falso, mas
devia ser, como tudo nele.
Deve ter ficado em silêncio por muito tempo, pois ele consultou o relógio e começou a tamborilar com os dedos na
mesa, impaciente, esperando pela resposta. Mesmo assim, Flame ainda se lembrou do toque daqueles dedos tão
dolorosamente familiares.
Atravessou a sala e parou perto da janela, olhando para o jardim:
— Devia saber que tentaria alguma coisa, mas não podia imaginar que voltaria ao conto do casamento. É claro que
deve ter algum motivo desconhecido e inimaginável para nós, simples mortais. Sempre gostou desses esquemas
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maquiavélicos, não? Foi o que o levou à posição que ocupa hoje. Infelizmente para você, não sou estúpida o suficiente para
não enxergar que fui usada. Era só isso que tinha a me dizer?
Virou-se e dirigiu-se à porta, mas Marlow levantou-se de um salto e impediu sua passagem.
— Um momento — disse, com o rosto sombrio. — Não vou permitir que vá embora e transforme nosso casamento
numa piada. Já brincou bastante, já teve sua liberdade, mas agora chega! Não vai mais fazer o joguinho da noiva garotinha.
Está na hora de crescer e assumir suas responsabilidades. Preciso da minha esposa por perto, e infelizmente, minha esposa
é você.
— O que está dizendo, seu imbecil? Vai me obrigar a ficar? Gostaria de saber como! Eu voltei porque quis, e não
preciso de sua permissão para tomar atitudes!
— Pensei que tivesse voltado atendendo ao pedido de Samantha. Quem acha que convenceu sua irmã a sugerir a
viagem de volta? — perguntou com um sorriso. — Se tivesse ignorado o chamado da família, eu teria pego um avião e
traria você para cá, nem que fosse à força.
— Não posso acreditar no que estou ouvindo!
— Mas é verdade — afirmou, ainda sorrindo. — Tem de admitir que já deixei a brincadeira ir longe demais. Você
ganhou seu próprio dinheiro, cuidou de sua vida durante dezoito meses, mas minha paciência tem limite. Agora quero
uma esposa, uma mulher, não uma criança. Já tem quase vinte e um anos, Flame! Está na hora de se comportar como um
adulto!
A intensidade e a segurança de Marlow chegaram a intimidá-la, mas um esforço brutal conseguiu encará-lo e
responder:
— Não é a mim que você quer, Marlow! Nunca foi! Por que fazer com que sejamos infelizes? Não pode suportar a idéia
da derrota?
— Derrota, minha querida esposa, não faz parte deste assunto. E, se fizesse, não tenha dúvidas de que seria sua. No
entanto, há pontos mais importantes a serem tratados no momento.
— Como quais? Orgulho masculino? Ego? Mania de Poder? Não consigo pensar em nenhum outro!
— O que me diz da felicidade de outras pessoas? Já pensou no efeito disso tudo sobre a saúde de sua mãe?
Pega de surpresa Flame hesitou. Mas no momento seguinte ergueu a cabeça e deu uma gargalhada.
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— Francamente, Marlow, não pode pensar em nada melhor?
Ele não respondeu de imediato, forçando-a a encará-lo com atenção à procura de algum sinal de reação.
— Você mesma viu o quanto Sybilla está doente — prosseguiu com tom grave. — A enfermeira pode afirmar o que
estou dizendo. Sua mãe não ficou nesse estado de um dia para outro; a situação vem se agravando desde que você foi
embora. Até você pode perceber o quanto nosso casamento é importante para ela. Tudo o que Sybilla deseja é ver a filha
junto do marido novamente.
— Não sei por quê.
— Talvez para ter certeza de que alguém cuidará de você.
— Cuidar de mim? Eu posso cuidar de mim sozinha, muito obrigada!
— Duvido que possa pagar suas despesas todos os meses — disse Marlow, calmo e controlado.
— Isso não é problema seu! Quem acha que é, para interferir na minha vida e nos meus problemas financeiros?
Marlow sorriu, mas não parecia nada divertido.
— Problemas financeiros? — perguntou, ainda sorrindo.
— É claro que não tenho tanto dinheiro quanto você! Esteve correndo atrás dele durante anos! Mas, se quer saber,
posso viver muito bem em Londres. Tenho um ótimo emprego, e se uso a mesada que mamãe manda para comprar
algumas roupas, qual é o problema? É meu dinheiro. O dinheiro dos Montrose!
— É mesmo? — perguntou sorrindo.
Sem perceber o que ele realmente pretendia dizer, Flame ficou vermelha de raiva e respondeu com foz alterada:
— Não preciso de ninguém, muito menos de alguém como você! Mamãe devia estar louca quando achou que você seria
o marido ideal. Estamos no século XX, e eu não preciso de um homem para sobreviver! Além do mais, se quer mesmo
saber, eu já tenho outro homem, bem melhor que você. Pelo menos não é mentiroso!
Pensava em Johnny, e imaginou como ele se sentiria se soubesse que estava sendo usado como argumento numa
batalha conjugal. Ignorando o insulto, Marlow perguntou em tom cortante:
— Você tem um homem? Um amante, não é? Em Londres?
Flame virou-se, sentindo as mãos trêmulas. Quando voltou a encará-lo, ele mantinha a expressão sombria. Agora tinha
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em que pensar, com certeza.
— Você não disse nada a Samantha — ele disse, agora totalmente controlado. — Certamente teria comentado, se fosse
alguém importante.
— E por que acha que tem alguma coisa a ver com isso? O que pode interessar a você, se tenho ou não um amante?
Quando fui embora, tornei-me independente. Não pensou que eu fosse passar a vida à espera de um pouco da sua atenção,
não? Eu precisava ser livre, Marlow.
Mordeu o lábio e virou-se, sentindo o coração saltar dentro do peito. A única liberdade pela qual sempre ansiara fora a
liberdade de amá-lo para sempre. Como pudera ser tão ingênua!
— Tenho certeza de que falei sobre ele com Sam, uma ou duas vezes. — Colocado daquela maneira, parecia a relação
casual que realmente existia. Esforçando-se por manter o controle, prosseguiu: — Não sei por que tem tanta certeza de
que ela comentaria com você. Afinal, não tem tanta influência assim, não é? Posso até não ter mencionado nada porque...
porque... Droga, o que é que você tem a ver com minha vida pessoal? Perdeu o direito de opinar há dezoito meses! —
Subitamente incapaz de sustentar o olhar de Marlow, correu para a porta.
— Espere! — Ele não elevou a voz, mas o tom de autoridade foi suficiente para fazê-la parar. — Vamos deixar uma
coisa clara, Flame. Não vou permitir que vá embora sem lutar. Não sei nada sobre seu amante de Londres, mas, até onde eu
sei, você ainda é minha esposa, e vou fazer tudo o que puder para que continue sendo...
— Só para agradar sua sogra? — perguntou, sarcástica.
— É claro que não. É claro que quero agradá-là, mas há outros pontos em consideração. Você é minha esposa, e eu
quero o que me pertence?-— Aproximou-se dela com expressão furiosa. — Está de volta ao meu território, Flame, e vai
saber o que isso significa.
Trêmula, retrocedeu alguns passos, sem deixar de encará-lo.
— O que você quer e o que você pode são duas coisas bem diferentes, Marlow. Aceitar a realidade também é uma
prova de maturidade. Pode tornar nosso divórcio difícil, se quiser, pode até torná-lo impossível. Mas tenha certeza de uma
coisa: eu nunca serei sua esposa de verdade. Posso representar um papel, se é o que quer, mas nada além disso. É isso o que
quer?
— Não, não é. Eu vou ter você de volta, Flame, de corpo e alma. Você me pertence e eu quero o que é meu.

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Como se pretendesse enfatizar as palavras estendeu a mão e deslizou os dedos por sobre seu corpo. Flame sentiu que a
respiração tornava-se difícil, entrecortada, e não conseguiu afastar os olhos daquele rosto másculo e bronzeado. Os olhos
azuis brilharam de satisfacão quando captaram os sinais de reação da esposa.
— Algumas coisas nunca mudam, e seu ponto fraco é uma dessas coisas — murmurou.
— Meu o quê? — perguntou Flame, surpresa.
— Seu ponto fraco. Sua fome, Flame. A fome que só pode satisfazer de uma maneira.
— Não sei do que está falando.
— Sabe, sim. Veja.
Devagar, como se tivesse tomado o controle de sua vontade, Marlow apoiou as duas mãos na parede, uma de cada lado
de sua cabeça. Sem tocá-la, beijou-a lentamente e com movimentos suaves.
Sentiu os lábios dele, os mesmos pelos quais tanto ansiara, pressionados contra o seus, até que sua boca começasse a se
abrir para ele. Tudo o que reprimira durante dezoito meses explodia num espasmo de necessidade selvagem, numa onda
de desejo que tomava seu corpo de forma quase dolorosa. Era proibido, indesejável e, enquanto tentava reunir todas as
forças para resistir, Marlow afastou-se devagar e a encarou.
— Esse é seu ponto fraco — disse ele. — Eu!
Por um momento continuou olhando para ela como se fosse dizer mais alguma coisa, mas, aparentemente pensando
melhor, afastou-se e abriu a porta, esperando que ela partisse.
Como uma sonâmbula, Flame retirou-se sem dizer nada, e só quando já estava do lado de fora virou-se e olhou para
trás. Marlow continuava na soleira, com um sorriso de triunfo nos lábios. Então ele entrou e fechou a porta. Tentando
manter os próprios pensamentos sob controle, reunindo todas as forças que ainda lhe restavam, Flame respirou fundo e
esforçou-se para conter as lágrimas.
Quando descobrira que Marlow mantinha um romance com outra mulher, seu mundo fora destruído. Em vez de ficar e
suportar o sofrimento de conviver com aquele homem, preferiu pegar o primeiro avião para longe, sentindo que o tempo e
a distância poderiam curar a ferida. Mergulhara num inferno, e durante meses fora incapaz de reconhecer a si mesma. Mas
conseguira sair do abismo de dor e, devagar, juntara os pedaços do coração ferido e magoado.
Até que Samantha sugerisse que voltasse, realmente acreditava ter superado todo o problema. A muralha que
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construíra em torno de si permanecera intacta até aquele momento. Nada fora forte o suficiente para abalá-la.
Mas, agora, bastava um olhar, um toque, um beijo, para que todas as defesas caíssem por terra. Marlow fora seu
primeiro amor. Mesmo sabendo que a usara, percebia que não podia defender-se. Ele estava pronto para fazê-la sofrer
outra vez. Era um homem que dizia mentiras com voz aveludada e com um sorriso sedutor. E, para aumentar sua agonia,
ainda era seu marido.

Capítulo 3

Flame caminhou até o terraço com dificuldade. O corpo parecia estar em chamas, e os nervos continuavam sob forte
tensão. Tremia e sentia calafrios, até que se forçou a respirar fundo várias vezes e relaxar.
Observava a forte reação física e dizia a si mesma que tudo isso era devido ao fator surpresa. Se imaginasse que ele
podia tentar o velho truque, estaria pronta para resistir. Mas fora enganada. Comparecera ao encontro na casita pensando
que teriam apenas uma conversa séria sobre o divórcio, não uma reabertura das discussões sobre o casamento.
O que ele dissera causara uma reação quase desesperada, uma resposta totalmente inadequada aos sentimentos que
nutria por ele. Agora lutava para sair da confusão emocional.
Começou a tremer assim que se lembrou do olhar dele, informando que não queria um casamento de aparências. Como
podia pensar em longas noites de sexo sem amor? Imaginou que seria fácil para ele. Afinal, seu instinto animal e a
satisfação dos próprios anseios era tudo o que contava para aquele homem egoísta. Sentimentos refinados pareciam ter
sido banidos de sua existência. E Marlow devia pensar que ela podia comportar-se da mesma maneira!
Trincou os dentes ao pensar em noites como aquela. No entanto, assim que controlou as emoções, concluiu que ela
mesma pensava dessa forma. Se não sentia nada por Marlow como pessoa, uma necessidade insaciável apoderava-se de
todo seu ser quando o recordava como amante.
Era horrível. Sentia-se presa numa armadilha. O desejo não podia servir como desculpas para cair na mesma cilada, e
precisava afastar-se do perigo. Mas não sabia como. Devia enfrentá-lo, combater o inimigo que abrigava no peito, a
serpente do desejo que parecia mais viva do que nunca.
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Afetando um ar de indiferença pela dificuldade crescente, acomodou-se em uma das espreguiçadeiras à beira da
piscina, fechou os olhos e comentou com Samantha:
— Estou exausta depois da viagem. Durmo muito mal em vôos noturnos.
Percebeu a curiosidade da irmã, que devia estar se perguntando como as coisas haviam sido resolvidas entre ela e
Marlow, mas manteve os olhos fechados até que ouviu o motor de um carro deixando a propriedade. Sammy estava indo
para o salão de beleza, e as crianças haviam saído com Britt. Assim que ficou sozinha, levantou-se, incapaz de permanecer
quieta com a mente em tamanha confusão. Andou em volta da piscina durante um ou dois minutos, com os pensamentos
tumultuados.
Seria verdade o que Marlow dissera há pouco? A doença da mãe teria alguma relação com a separação? A culpa era
quase insuportável. No entanto, sabia que Marlow tentaria esse tipo de truque. Tinha razões para querer fazê-la sentir-se
mal, errada, quando na verdade era o único culpado de tudo.
Atravessou o jardim, cada vez mais confusa, mas além de todas as emoções estava a lembrança dos lábios de Marlow
tocando os seus. Ainda sentia o mesmo desejo por ele, não podia negar. Mas como podia sentir desejo por uma criatura tão
baixa? Será que não aprendera a lição? Não tinha nenhuma dúvida sobre o tipo de homem com quem se casara. Era frio
como uma cobra quando o assunto era dinheiro, apesar de não poder dizer o mesmo dele como amante.
Mas, fora da cama, Marlow era uma serpente. Um rato. Um manipulador oportunista. Então por que conservava esse
desejo inconsciente de mantê-lo na dúvida, quando sabia que para ele seria um benefício? Ele não costumava portar-se de
maneira diferente nas relações pessoais. Apanhara-o na cama com outra mulher. Que outras provas ainda esperava para
vê-lo como realmente era?
Fora uma noiva durante três semanas, e a traição causara uma dor imensa, quase física. O tempo tratara de curar a
ferida, mas não trouxera e esquecimento. E nunca traria.
A memória voltou a focalizar o dia em que, inocentemente, decidira ir a Ibiza para encontrar o marido. A alegria com
que pegara o táxi para o aeroporto, a excitação que sentira ao entrar no hotel... parecia reviver cada segundo. Estava tão
segura de ser bem recebida, tão certa do amor do marido...
No entanto, o mundo desabara sobre sua cabeça em segundos.
Mesmo agora, depois de tanto tempo, ainda podia sentir a dor e a decepção.
No entanto, bastara um toque, um beijo, para que considerasse a possibilidade de estar com ele novamente. Era terrível
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descobrir o poder que Marlow ainda exercia sobre ela.
Sentou-se na beira da piscina e ficou ali, imersa nos próprios pensamentos. Seu reflexo parecia partir-se em mil
pedaços a cada movimento da água, e sentia como se sua vida estivesse quebrada também. E não via como juntar os
pedaços outra vez.
O barulho de passos fez com que se virasse, e a carícia fria do medo arrancou um gemido de sua garganta.
— Há quanto tempo está aí? — perguntou, ansiosa.
— O bastante para notar que está com cara de quem perdeu o cachorrinho — respondeu Marlow com um sorriso
irônico.
— Não estou interessada em suas opiniões.
— Não mesmo, Flame? Nem um pouquinho? — perguntou ele com expressão enigmática e, ao mesmo tempo, intensa e
cruel.
— Deixei de me preocupar com você há muito tempo, Marlow.
— Bem, se isso é verdade, vou ter de fazer com que volte a se preocupar... como antes.
Flame deu uma gargalhada.
— Em seu lugar eu aproveitaria o tempo de maneira mais produtiva.
— Meu tempo sempre é produtivo — disse, aproximando-se.
Parou a um passo de distância. Como se estivesse destituída da própria vontade, Flame tentou desviar os olhos, mas
ele a encarava com a mesma expressão fria que possuía o poder de deixá-la absolutamente sem controle. Sabia que não
havia amor naquele olhar, mas sentia-se hipnotizada e dominada pela necessidade de atirar-se em seus braços e sufocar
todos os medos e ressentimentos. Forçou-se a virar a cabeça e disse:
— Isso me deixa doente. Que direito acha que tem de me obrigar a fazer alguma coisa?
— O direito da lei — ele respondeu imediatamente.
Flame o encarou, surpresa, percebendo que o coração batia acelerado.
— Não imaginei que pretendesse levar as coisas tão longe.
— Você não me deixa outra escolha, querida. Eu dispensaria todas as leis do mundo para tê-la de volta, do jeito que eu
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quero.
— Não duvido. Faria qualquer coisa para demonstrar o seu poder, não é? Você não passa de um oportunista, Marlow!
Ele se aproximou e pegou uma mecha de cabelos que caía sobre os ombros de Flame, ofendido e violento. Forçou-a a
levantar a cabeça e encará-lo. Estava bem próximo, o rosto a poucos centímetros do dela, e mesmo que fechasse os olhos,
Flame tinha certeza de que ele saberia o que se passava em sua mente.
— Não preciso provar nada a ninguém, muito menos a você — disse, furioso. — Eu consigo o que quero e quando
quero. E, nesse momento, quero você! — puxou o cabelo com mais força, até que ela curvasse o corpo para trás, mas Flame
negou-se a dar qualquer demonstração de dor ou humilhação.
— Pensei que tivesse dito que não iria... — mordeu o lábio para conter as palavras, mas os olhos deixavam claro que
pensava em algo muito específico.
— Não iria o quê? Não iria tê-la, talvez?
Flame mordeu os lábios com força, impressionada com a imagem criada pelas palavras dele.
— Eu terei você quando quiser — ouviu-o dizer. — E terei como eu quiser. Não pense que poderá escolher. Perdeu o
direito de escolha quando quebrou as regras, fugindo de mim. Está muito enganada se pensa que pode me fazer desistir
dificultando as coisas.
Os dedos apertavam os cabelos com força, machucando a região da nuca, mas Flame recusou-se a dar o prazer de
demonstrar a dor.
— Não estou preocupado em satisfazer sua vontade — prosseguiu. — Você pode esperar. O tempo está do meu lado, e
eu sei que acabarei tendo você comigo, do jeito que eu quero.
— Desista! Eu nunca mudarei de idéia, Marlow!
— Continue pensando assim se isso lhe agrada, mas saiba que está enganada. Infelizmente, chegou ao fim da linha.
Não há mais para onde fugir, Flame.
— Eu posso voltar à Inglaterra — disse, tentando não demonstrar a humilhação que a invadia. No entanto, a
humilhação aumentou assim que ouviu as palavras seguintes.
— Você não vai para a Inglaterra, nem para qualquer outro lugar, se eu não permitir — disse, sorrindo. — Pensei que já
tivesse entendido.
29
— Não pode impedir!
— Não? — Marlow riu, debruçando-se sobre ela. — Posso impedir e posso fazer o que eu quiser com você. Caso tenha
esquecido, agora está no meu território. Se está querendo me testar, é só tentar fazer qualquer movimento. Vamos ver se
consegue alguma coisa.
— Se eu quiser, Marlow, posso sair desta villa agora mesmo! Tenho meu passaporte em ordem e tenho dinheiro. Você
não tem como impedir!
— Eu sempre achei que a força física é um instrumento muito antiquado. É claro que não vamos deixar a situação
chegar nesse ponto, não é?
— O que está querendo dizer? — perguntou, apavorada.
— Você ainda está aqui.
— Mas não por sua causa!
— Não? Mas fui eu quem indicou as conseqüências de outra partida súbita. Não esqueceu suas obrigações de filha, não
é?
— Acha que vai me controlar com essa chantagem emocional? Além do mais, a minha volta não tem nenhuma relação
com a sua vontade. Se não fosse pela saúde de minha mãe, eu não estaria aqui!
— Estaria, se eu quisesse.
Flame tentou virar a cabeça, gemendo. Ainda podia feri-la, depois de tanto tempo, deixando clara a indiferença que
sentia com relação à sua felicidade e seu bem-estar. Marlow saberia o quanto a fizera sofrer durante os meses de silêncio?
— Se nunca quis que eu voltasse durante dezoito meses, não vejo por que haveria de querer minha volta agora!
— Está totalmente enganada, Flame. — E baixou a voz para um sussurro sedutor — Eu sempre quis que voltasse.
Sempre deixei isso claro, e agora minha paciência acabou. Você me deve muito, Flame, e agora chegou a hora de pagar sua
dívida.
— Sempre dinheiro, não é? Não pode conversar sem se referir a lucros ou prejuízos!
— Está dizendo isso porque este é o seu jogo — sorriu.
— O que está querendo dizer?

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— Sabe que quando receber a herança será uma jovem rica, e poderá decidir vender o cabo Santa Margarita. Talvez,
depois de ter provado o gosto da liberdade, esteja disposta a livrar-se do inconveniente que representaria um marido, não?
Mas pode esquecer, pois não vai conseguir se ver livre de mim.
Confusa, Flame tentou mover a cabeça.
— Está machucando meu pescoço — disse, pensando que Marlow devia estar perdendo o equilíbrio emocional. Jamais
imaginara nada do que ele acabara de insinuar.
Em resposta ao protesto, os dedos apertaram com mais força.
— Machucando? Minha vontade é quebrá-lo! — disse, puxando-a para mais perto. — Deve me odiar por ter estragado
seus planos, não é? Deve estar muito arrependida por ter tomado a decisão de se casar aos dezenove anos, embora tenha de
admitir que era bastante ardente naquela época.
— Vá para o inferno, Marlow! Eu odeio você!
— Oh, eu sei disso — murmurou. — Já me acostumei com a idéia. Também posso odiar você, mas e daí? Há mais coisas
na vida, além do amor. Como o sexo, por exemplo. E nós dois sabemos que nesse ponto sempre concordamos.
— Pois saiba que tenho novidades para você — ela falou, sentindo que as palavras queimavam seus lábios como
faíscas. — Não costumo ir para a cama com alguém que não me interessa muito. Tenho de estar totalmente envolvida e...
— Deve ter mudado muito — cortou, irônico. — Lembro que não conseguia ficar muito tempo longe de mim durante
nosso casamento. Vai querer me convencer de que estava interessada em algo além do meu corpo? — E apertou os dedos
com mais força. — Vai? — insistiu.
— É você quem está afirmando — ela murmurou e fechou os olhos, pensando que jamais permitiria que soubesse o
quanto o amara.
— Então, de onde vieram todos esses sentimentos refinados? Acho que só existem na sua imaginação, querida.
— As pessoas podem mudar. Podem aprender que há coisas mais importantes na vida do que possuir alguém...
— Ou serem possuídas? — murmurou com um brilho ansioso nos olhos. —Estamos perdendo tempo, querida, e
sabemos disso. Em vez de ficarmos discutindo, poderíamos estar aproveitando para nos entendermos no único campo em
que concordamos... Não vai me convencer com essa história de sentimentos refinados. Os últimos meses serviram para me
mostrar como você é realmente.
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Flame tentou imaginar o que ele pretendia fazer, mas as últimas palavras não deixavam nenhuma dúvida.
— Vamos ao que interessa — ouviu-o murmurar, os lábios tocando a pele delicada de seu pescoço.
— Não, Marlow! — sentiu que era jogada para trás sob o peso dele, e o corpo tocou o piso de mosaicos da piscina. Os
pés permaneciam na água e um dos joelhos de Marlow, colocado entre suas pernas, impedia que tentasse livrar-se. — Não!
— protestou com voz mais forte.
Moveu a cabeça de um lado para outro num gesto desesperado, mas a mão dele segurou seu queixo e sentiu que os
lábios eram cobertos pelos dele, quase com violência. Sentiu que o corpo sucumbia sob o peso do desejo de Marlow, e
quanto mais se debatia e tentava resistir, mais apaixonado e ávido ele parecia. Segundos depois não podia mais dizer se o
cansaço era proveniente da luta para resistir, ou do desejo que sentia brotar dentro de si, em resposta ao dele. Um breve
gemido escapou de seu lábios quando ele, finalmente, interrompeu o beijo ardente. Marlow notou a reação e comentou,
satisfeito.
— Podemos nos dar muito bem se decidirmos não conversar. Por que não mantemos as coisas desse jeito, sempre?
Flame voltou a debater-se, mesmo sabendo que seria inútil. Os lábios dele estavam novamente minando suas defesas,
acabando com o que restava de sua resistência, e quando Marlow ergueu a cabeça, em busca de outros pontos de prazer,
Flame teve um último pensamento prático, dizendo a si mesma que o guarda-sol da piscina serviria para protegê-los de
olhares indiscretos.
Os carinhos de Marlow fizeram com que se esquecesse de todos os outros sentimentos, uma necessidade incontrolável.
Dissera que a teria quando e como quisesse, e agora estava demonstrando que era verdade.
Mas havia o outro lado da moeda, como ele mesmo prevenira. Quando estava quase pedindo para que a possuísse, os
dedos deslizando pelas costas musculosas e fortes, sentiu que Marlow se afastava e abriu os olhos. Ele a encarava com o
peso do corpo apoiado sobre as próprias mãos, com o mesmo brilho que vira pouco antes, enquanto discutiam.
Quando ainda tentava entender o que ele pretendia fazer, Marlow levantou-se e ficou em pé, num movimento ágil e
rápido.
— Infelizmente tenho de dar um telefonema urgente — disse, com um sorriso enigmático. — Sinto muito, mas eu
avisei que seria quando e como eu quisesse. Vai ter de esperar mais uma pouco. Mas não se preocupe, não será por muito
tempo.
Ele parecia estar à espera de uma resposta, mas Flame estava tão chocada, tão confusa, que mal podia articular as
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palavras. Viu que ele se afastava, pensou em chamá-lo, mas conteve o impulso, percebendo subitamente o que estivera
prestes á fazer.
— Meu Deus, o que há comigo? — disse a si mesma, envergonhada. Marlow já estava a caminho da casita, e Flame
tentou convencer-se de que era melhor assim. Reviver o sofrimento de antes seria, no mínimo, uma estupidez.
As lágrimas de frustração rolavam pelas faces desoladas, e não podia entender por que ele sentia tanto prazer em
magoá-la e humilhá-la.
Quando Marlow desapareceu sem olhar para trás, ela se sentou e tratou de recuperar o controle. Agora tinha certeza
de que nunca mais poderiam pensar num retorno. A vida com Marlow seria impossível. Apenas os tolos teriam a
capacidade de permitir o grau de dor e sofrimento que ele podia impor.
Levantou-se e caminhou na direção da casa, ainda sem saber exatamente o que fazer. A mente estava confusa, o desejo
insatisfeito como um tufão de fogo queimando suas entranhas. Parou na escada do terraço, olhando para o disco brilhante
da piscina.
Então virou-se e retomou o caminho para dentro de casa. Havia movimento na janela do quarto da mãe, e assim que
entrou a enfermeira apareceu.
— Gostaria de subir? — perguntou.
Sem dizer nada, Flame a acompanhou. Sentia-se como um zumbi, e tentava desesperadamente varrer da expressão
qualquer sinal do tumulto emocional que a invadia. Parou na porta do quarto e respirou fundo. Quando entrou, mostrava
um semblante absolutamente controlado.
No entanto, bastou olhar para o rosto da mãe para que o descontrole voltasse ainda mais forte. Ela parecia mais doente
que nunca.
— Posso fazer alguma coisa por você, mamãe? — perguntou esforçando-se para ocultar os próprios problemas.
— A enfermeira vai descansar um pouco e pensei que pudéssemos ter uma conversa — respondeu Sybilla, com um
sorriso apagado. Estendendo a mão, apontou as fotos sobre a mesa de cabeceira.
— Não são crianças lindas? — murmurou. — Estou tão feliz com meus netos...
Flame pegou os porta-retratos com a imagem dos pequenos sobrinhos.
— Cresceram muito desde a última vez que os vi— comentou pensativa. — Eram apenas bebês, há dezoito meses.
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Uma nota de lamento podia ser notada em sua voz, ao contemplar as três pequenas faces sorridentes.
— Adoro ouvi-los brincando no terraço — disse a avó. — São como pequenos pássaros, felizes o tempo todo. — Fez
uma pequena pausa e, então, disse algo que feriu o coração da filha. — Se você e Marlow tivessem um bebê, tenho certeza
de que as coisas seriam muito diferentes. E todos teriam a mesma idade, cresceriam juntos... Não seria maravilhoso?
— Mamãe, acho que não...
— Eu sei que Marlow quer uma família. Alguém que o acompanhe em tudo...
— Mamãe, era essa a conversa que queria ter? Por que se for...
— Claro que sim, querida. — A voz era apenas um sussurro. — O que pode ser mais importante que a felicidade de
minha filha? Odeio vê-la jogando a vida fora, sendo infeliz...
— Quem está infeliz?— tentou sorrir, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Abaixou a cabeça, usando o pretexto de colocar as fotos sobre a pequena mesa. A mãe estava em silêncio e quando
voltou a encará-la notou que havia mudado de posição, apoiando a cabeça nos travesseiros e erguendo o corpo.
— Conheci um Marlow diferente durante este último ano — comentou Sybilla. — Ele tem sido maravilhoso conosco,
e às vezes me pergunto se você tem idéia do que está fazendo com ele.
— O que é que estou fazendo com ele?
Flame estava realmente atônita, mas, vendo a sombra de dor no rosto da mãe, mordeu o lábio, impedindo o fluxo de
palavras furiosas que insistia em brotar de sua garganta. Sybilla parecia mais pálida e cansada, e sua mão era tão frágil que
cortou o coração da filha.
Tentando animá-la, confessou:
— Nós conversamos um pouco antes de Marlow sair para o trabalho.
Não disse nada que pudesse trair o verdadeiro sentido das palavras, mas Sybilla leu nas entrelinhas e respondeu:
— Ótimo, já é um começo! Sabia que só precisavam de um novo encontro. Não estava esperando nenhum milagre,
afinal eu sei que são dois cabeças-duras, mas nunca consegui esquecer o ar de felicidade de vocês quando ficaram lado a
lado, no altar. Eram as pessoas mais apaixonadas que eu já havia visto — e sorriu. — Eu não teria permitido o casamento
se não estivesse absolutamente convencida de que nasceram um para o outro. E saiba que nunca me preocupei com a
questão do dinheiro. O amor é mais forte e mais importante que qualquer outra coisa, querida.
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— E acha que foi assim mesmo?
— Tenho certeza que sim — a mãe respondeu, estendendo a mão. — Meu amor, quer fazer algo por mim? Abra aquela
gaveta do meu armário, a da esquerda. Isso, essa mesmo — indicou, vendo que a filha atendia ao pedido.
Assim que abriu a gaveta, Flame compreendeu o que a mãe pretendia. Viu o retrato na moldura prateada, tirada do
lado de fora da igreja no dia em que ela e Marlow haviam se casado. Seu rosto estava radiante, inundado por uma
felicidade inocente, e o marido tinha o semblante carregado de emoção. Agora, após os meses de separação, sabia muito
bem de onde vinha tanta satisfação.
Lembrou-se de como, após o retrato, Marlow inclinou-se para beijá-la sob a chuva de pétalas de rosas e papéis picados,
jogados pelos convidados.
— Agora você é minha — murmurou. — Minha para sempre, meu amor.
Na época, a frase tivera um efeito protetor, mas agora parecia uma sentença de morte.
Os dedos apertaram a moldura e ela se virou, entregando a fotografia para a mãe, que a colocou sobre a mesa de
cabeceira, ao lado das outras. As palavras de Sybilla cofirmaram suas suspeitas.
— Agora está no lugar certo. E o seu lugar, querida, é ao lado de Marlow.
Sabia que não era o momento de discutir, mas teria de informar que o casamento realmente acabara. No entanto, se a
separação de dezoito meses não fora suficiente para convencê-la, nada do que dissesse naquele momento teria o poder de
fazê-la compreender a realidade dos fatos. Além do mais, como poderia matar as esperanças de uma mulher doente? Disse
a si mesma que poderia deixar a verdade para um momento mais oportuno, quando a saúde de Sybilla estivesse norma-
lizada. Assim que a mãe soubesse toda a verdade, teria de aceitar que algumas coisas nunca voltariam a acontecer,
independente de quanto as quisesse. Agora os olhos de Sybilla estavam fechados.
— Os médicos disseram que devo dormir o máximo que conseguir, mas isso parece uma grande perda de tempo
quando minha filhinha querida está por perto. Quero que me conte tudo sobre Londres, e também tenho muitas coisas a
contar, sobre o jardim, sobre os maravilhosos planos de Marlow... embora tenha certeza de que ele mesmo gostaria de
contar tudo isso a você. E, Flame, a maior parte deles... — fez uma pausa, como se subitamente estivesse sendo
abandonada pelas forças — a maior parte deles inclui você. E depois quero falar sobre o testamento, não esqueça...
O coração de Flame parecia querer saltar do peito.

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— Mamãe, por favor, não quero falar sobre isso! Você já está bem melhor, e sei que logo estará boa.
— É importante garantir que todos terão sua parte da propriedade. Marlow ficará com os hotéis e o village de férias
que está construindo lá embaixo, perto da praia, mas nós ainda temos as terras onde tudo está sendo construído. Quero
ver as coisas arranjadas no caso de alguma coisa acontecer comigo... Se você decidisse levar o divórcio adiante, acabaria
criando uma situação difícil para todos nós, mas felizmente, agora...
— Agora Marlow não tem mais com o que se preocupar?
— Isso mesmo, querida. Tirou um peso do meu coração.
Flame não conseguiu dizer nada que expressasse adequadamente seus sentimentos. Permaneceu em silêncio,
percebendo que a mãe voltava a adormecer. A enfermeira retornou depois de alguns minutos e fez um gesto de aprovação.
— A sua chegada está ajudando muito na recuperação — comentou. — Mas não podemos exagerar. Ainda é muito
cedo para conversas prolongadas.
Percebendo que não seria de grande utilidade, Flame saiu do quarto. Sob a aparência calma, estava furiosa. Já devia
saber que Marlow havia conquistado a todos, mas a demonstração de afeto da mãe foi inesperada e provocava reações de
indignação e revolta. Realmente, aquele homem era o próprio demônio!
Fora tola ao pensar que poderia mudar as coisas. Marlow Hudson continuava sendo a mesma cobra venenosa de
sempre. Ainda utilizava os velhos truques, através dos quais conseguira construir todo um império. Seduzia as pessoas e
as usava para atingir seus propósitos, e agora havia conquistado sua própria família. Aproveitara-se da fraqueza de uma
mulher doente e tentava enganá-la novamente, enchendo seus ouvidos com mentiras a fim de fazer com que as coisas
retornassem ao ponto de partida. E tudo por ambição! O que ele realmente queria, e sempre quisera, não era uma esposa,
mas as terras que traria consigo.
Nenhuma mudança nada de novo. Dissera que queria o que lhe pertencia, fazendo-a acreditar que se referia à esposa.
Isso já era ruim o bastante, mas a realidade era ainda pior. O que realmente desejava era o cabo de Santa Margarita.
Como pudera cair no mesmo truque novamente?
Sentiu-se furiosa ao lembrar que quase voltara a acalentar as esperanças de tê-lo outra vez.
Há dezoito meses, quando era ainda ingênua demais para compreender qualquer coisa, acreditara que sentiam amor
verdadeiro um pelo outro. Agora, não havia mais desculpas para sucumbir e permitir uma nova desilusão.

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Tremeu ao pensar como fora fácil convencê-la de seu desejo. Apenas dissera as palavras tolas que qualquer mulher
gostaria de ouvir, e no momento seguinte já estava suspirando em seus braços. Desta vez não houvera necessidade de jurar
um amor falso. Não existira nenhuma gentileza, nenhum sinal de carinho. Apenas a expressão crua de um instinto quase
animal, primitivo. Ficou vermelha ao lembrar de como respondera a tal estímulo.
Caíra no mesmo truque, mais rápido que da primeira vez. Marlow não precisara fazer nenhum esforço para
demonstrar o quanto ainda era vulnerável ao seu poder de sedução, que era incapaz de lhe dizer não!
Humilhada e furiosa desceu as escadas e dirigiu-se ao terraço. O lugar parecia estranhamente vazio, sem Samantha e as
crianças. Era como se refletisse sua própria desolação interior causada principalmente pela compreensão súbita de um
fato concreto: não poderia ir embora novamente. Não agora. Não com a mãe naquele estado. Teria de sufocar os próprios
sentimentos e ficar até que ela estivesse fora de perigo. Mal podia suportar a idéia de conviver com Marlow tão próximo,
mas teria de ficar. Pela mãe.
Mas como faria para que Sybilla entendesse que o casamento estava acabado? Considerou todas as implicações de sua
permanência em Santa Margarita, e concluiu que seria o inferno na terra.
A entrada do carro de Samantha pôs um ponto final nas especulações. Saiu do terraço e foi ao encontro da irmã.
— Pronta para o almoço, Flame? — Sammy perguntou, saindo do carro atrás de um enorme maço de flores. — Pensei
que estivesse dormindo, depois do vôo noturno.
— Dormindo? Eu adoraria, mas nunca tive muita sorte — comentou sorrindo, sem explicar o que exatamente queria
dizer.
— Deve ser insônia, por causa da preocupação com mamãe. Depois o encontro com Marlow... Bem, se ainda estiver
acordada, gostaria que fosse conosco à cidade para um jantar. Vai gostar de reencontrar as pessoas daqui. Alguns amigos
estão organizando uma pequena festa, nada de especial...
— Especial o bastante para que tenha ido ao salão de beleza — observou Flame, entrando em casa com a irmã mais
velha.
— Oh, não! Eu costumo ir ao salão uma vez por semana. Se quiser arrumar os cabelos, posso garantir que esse homem é
o máximo...
— Homem? Difícil de acreditar — falou, rindo.

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Samantha também riu, sem perceber a nota de dor existente sob aquela alegria aparente.
— Vou levar estas flores para o quarto de mamãe.
Flame deixou que Samantha subisse e fez o mesmo, minutos depois, a fim de vestir-se para o almoço. Perguntou-se se
Marlow estaria presente. Dissera que teria um encontro na cidade, mas normalmente encerrava o expediente às duas
horas para o almoço, seguido pela sesta. Pelo menos era esse o padrão de comportamento durante os poucos dias após a
lua-de-mel. Recusou-se a recordar o que representava a sesta naquela época.
Quando Samantha deixou o quarto da mãe, Flame estava no terraço tomando um aperitivo e tentando voltar ao
normal.
— Querida, estou feliz por ter sido tão sensível — ouviu a voz de Sammy. — Nem imagina o bem que fez a ela. Parece
que melhorou muito em poucas horas!
Com o copo a meio caminho dos lábios, sem entender bem o significado daquelas palavras, Flame perguntou:
— Como... Não entendi...
Nesse instante Emílio apareceu com duas das crianças, e a atenção de Samantha foi desviada. Flame tentou
compreender o que a irmã queria dizer, apesar de pressentir que era algo relativo a Marlow e Sybilla.
— Sammy, por favor... — tentou, segurando o braço da mais velha. — O que mamãe disse a você?
— Ela contou sobre você e Marlow, é claro! Fiquei surpresa, depois de tudo o que disse hoje de manhã, mas imaginei
que a conversa entre vocês dois tivesse esclarecido tudo. Espertinhos, hem? Enquanto todos nós sonhávamos e torcíamos,
vocês já estavam tratando de resolver a situação! Oh, e aí vem ele, o homem dínamo em pessoa!
Flame preferiu não dizer nada, com receio de trair os próprios pensamentos. Entraram em casa, e ela esperou que todos
se sentassem à mesa. Então, respirando fundo, anunciou em voz alta.
— Marlow, parece que todos estão tendo a idéia absurda de que nós dois pretendemos recomeçar...
— E não pretendemos? Não foi o que combinamos há poucas horas? — E a encarou com expressão fria, os olhos
lançando o desafio silencioso para que negasse suas palavras.
Samantha rompeu o silêncio pesado que tomou conta do ambiente.
— Chega, Flame! Você chegou a me assustar. Mas sei que mamãe não pode ter sido enganada. Não faria isso, não é? Ela
está tão animada! Seria péssimo descobrir que tudo não passou de um alarme falso...
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— Espero que não tenha confirmado as suspeitas de mamãe, Sam!
— Que importância tem isso, Flame? — interferiu Marlow. — Confirmadas ou não, as suspeitas de Sybilla são
verdadeiras! E nosso casamento significa muito para ela, sabe disso, não?
Flame baixou a cabeça, tentando controlar o impulso de gritar e sair correndo. Era como se seu destino estivesse sendo
decidido por outros mais uma vez. Voltava a ser o bebê da família, a esperança de felicidade para todos.
Antes que pudesse protestar ou fazer qualquer coisa, Marlow tomou a dianteira novamente.
— Pensamos bem e decidimos tentar mais uma vez, Samantha. Admitimos nossos erros e resolvemos voltar atrás.
— Ei, espere um minuto... — cortou Flame.
— E minha esposa decidiu atender aos pedidos da mãe — prosseguiu ele, ignorando os protestos. — Vai ficar aqui
durante seis meses. Se durante esse tempo não conseguirmos resolver nossos problemas, então daremos o assunto por
encerrado.
— Mas...— Flame abria e fechava a boca como um peixe fora da água.
— É uma ótima idéia — concordou Emílio.
Samantha também aprovou a decisão com um movimento de cabeça, e Flame apenas conseguiu olhar para todos,
pálida e atônita.
— Estou sendo manipulada! — explodiu em seguida, os olhos brilhando de raiva.
— O que está dizendo, querida?
— Ele sabe, Samantha!
Incapaz de prosseguir com a discussão sem perder o controle, levantou-se e informou:
— Não quero comer! E se querem saber por quê, perguntem ao meu querido marido! Ele possui todas as respostas!
E saiu correndo, seguida pela expressão enigmática de Marlow e pelo chamado perplexo de Samantha.
Atravessou o jardim e afastou-se da casa, caminhando depressa, ansiosa para ficar o mais longe possível de Marlow,
seu sorriso de satisfação e seus planos diabólicos.
Subiu por uma das encostas das muitas colinas e, alcançando o topo, ofegante e cansada, sentou-se sobre uma das
pedras e ficou olhando para o mar. Minutos depois ouviu um ruído às suas costas. Virou-se e viu Marlow, com um copo de
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vinho em cada mão, aproximando-se lentamente, porém decidido.
— Tome, acho que está precisando — disse, sem expressão, estendendo um dos copos. — Está pensando nas
conseqüências do comunicado que acabei de fazer?
— Conseqüências? Eu não consegui sequer entender... Parece que já decidiram tudo por mim, não? — gritou.
— Devo admitir que fiquei surpreso ao ouvir Sammy anunciando nossa reconciliação. Pensei que você tivesse pensado
em tudo que eu disse hoje de manhã e que tivesse decidido voltar.
— Nem pensei nisso! Sam esteve falando com minha mãe e ela... bem... acho que mamãe tirou algumas conclusões
precipitadas. O desejo de me ver a seu lado deve ter feito com que compreendesse mal os fatos. De qualquer forma,
Marlow, você merece os parabéns. Tem todos eles na palma da mão! Como consegue tudo isso?
— Não sei o que está querendo dizer — ele respondeu, sentando-se ao lado dela.
Flame sentiu a perna musculosa tocando a sua e lembrou-se do que acontecera naquela manhã. Até o cheiro da pele de
Marlow era capaz de despertar-lhe desejo.
Era estranho pensar que o simples toque do braço dele no seu pudesse provocar sensações tão intensas, especialmente
suando sentia uma raiva incontrolável daquele homem.
Tentou afastar-se, mas sentiu a mão forte segurando-a pelo braço com possessividade, impedindo qualquer
movimento.
— Seis meses — disse ele. — É tudo o que estou pedindo. Se depois disso ainda achar que não pode viver a meu lado,
ou se eu chegar a essa conclusão, damos o assunto por encerrado, e você poderá ter o seu divórcio.
A proposta parecia razoável, principalmente se levasse em consideração a saúde da mãe e o próprio desejo de entregar-
se a ele. Mesmo assim, Flame ainda argumentou:
— Parece que está esquecendo alguns detalhes, Marlow. Sabe tão bem quanto eu que seis meses de união, sem
morarmos na mesma casa, é motivo suficiente para que o divórcio seja extremamente fácil de ser conseguido. No entanto,
se decidirmos morar juntos, é quase certo que me dará a oportunidade de conseguir uma prova de adultério.
Sentiu que a pressão dos dedos em seu braço tornava-se mais forte.
— Que diabos está insinuando? Será que pensa que vai conseguir me levar a tal grau de decadência?
— Você pode chegar bem mais longe, sem minha ajuda — respondeu com frieza. — Sempre foi minha palavra contra a
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sua, e dizem por aí que olhos azuis costumam ser muito convincentes. Não pense que, porque deu certo uma vez, vai
conseguir a mesma façanha pela segunda vez. E, Marlow... por favor, nem pense em mentir para mim. É tarde demais para
conseguir me enganar. Além do mais, eu sei por que quer continuar casado comigo. Mamãe deixou escapar.
— O que está dizendo, Flame? Não entendo uma palavra... — retrucou Marlow, levantando-se.
Ela ergueu a cabeça e o encarou.
— Desta vez vai descobrir que não sou mais a menininha tola de antes — continuou. — Eu devia ter desconfiado
desde o início, mas era jovem demais para entender que algumas pessoas não dão a menor importância para os
sentimentos humanos. O amor é o último conceito em sua escala de valores.
Flame levantou-se e parou diante dele, olhando-o direto no rosto, ainda com o copo de vinho entre os dedos.
— Às vezes você parece tão convincente que quase acreditei nas mentiras mais uma vez. É difícil saber onde termina a
verdade e começa a ficção, mas agora tenho certeza de que tudo é minuciosamente calculado, planejado... e eu sou o peão
do seu joguinho de xadrez novamente.
Vendo que ele não procurava se defender, sorriu e prosseguiu:
— Realmente, Marlow, estou estranhando. Onde estão todos os seus argumentos? Será que compreendeu que não
funcionarão mais comigo?
— Eu não... isso não faz sentido! Por que está dizendo todas essas coisas absurdas?
— Sabe de uma coisa? — ela continuou, ignorando a pergunta. — Acho que seria capaz de admirá-lo, se admitisse o
quanto é desonesto em tudo que faz. Seria uma atitude quase heróica. O que não posso suportar é essa hipocrisia!
Sentindo-se magoada e ferida, Flame virou-se e começou a caminhar pela encosta, tomando o caminho de volta.
A posição de Marlow era indefensável, e ele sabia disso. Por essa razão não tentara argumentar, ficaram em silêncio.
Já se distanciara, quando ouviu passos atrás e compreendeu que era seguida. Acelerou a marcha, mas Marlow foi mais
ágil, e Flame sentiu a mão poderosa sobre seu ombro. Foi forçada a virar-se e encará-lo.
Por um momento ficaram parados, olhando-se como dois animais selvagens, a tensão crescente fazendo com que
Marlow tremesse, à beira do descontrole total. Então algo de estranho aconteceu. Ao contrário de dizer o que pretendia,
ele a puxou para si e abraçou-a com força, quase a impedindo de respirar.
Quando tentou livar-se dos braços fortes, Flame ouviu-o dizendo.
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— Vá para o inferno, Flame! Você é uma criatura destrutiva e eu não sei qual é o seu jogo, mas pode ter certeza de que
não vai dar certo comigo! Ouviu o que eu disse?
— Me solte, Marlow! Eu quero ir embora! Guarde suas mentiras para você, não quero ouvir mais nada! — gritou.
Sentia o corpo trêmulo em conseqüência do contato com o dele. Assim que percebeu que as resistências de Flame
cediam, a voz de Marlow voltou a ser um sussurro e, com o mesmo poder de sedução de sempre, murmurou.
— Quando a vi pela primeira vez, pensei que fosse a mais inocente das criaturas. Mas, sob essa aparência angelical,
você é tão ingênua quanto uma cobra venenosa! Nunca suspeitei disso, até que fugisse de mim. Acho que me enganei com
você...
— Está absolutamente certo! — ela respondeu, fechando os olhos para apagar a imagem daquele rosto bronzeado, tão
perto do seu, tão perigosamente sedutor.
— O que queria de mim naqueles dias? — murmurou, os lábios próximos aos dela. — Eu queria dar a você tudo o que
fosse meu, e pensei ter deixado isso bem claro. O que mais poderia ter feito? Pus tudo em suas mãos, meu nome, minha
vida, minha riqueza! Não era o bastante?
— Acho que era pouco em vista do retorno que esperava.
— E o que eu esperava, pode me dizer?
— Sabe muito bem! Todos nós sabemos!
Ficou em silêncio, pensando que Marlow não poderia saber o que esperava dele. Estava além de sua capacidade de
compreensão. A única coisa em que podia pensar era o dinheiro, mas o que mais desejara dele, sempre, fora seu amor. O
tipo de amor que faz com que as pessoas se tornem cúmplices e, principalmente, fiéis. Um sentimento desconhecido para
um homem como Marlow Hudson. Quando voltou a falar, o rosto de Flame parecia talhado em pedra.
— Chega de jogos comigo, Marlow. Sabe exatamente o que quero dizer.
— Não estou jogando, muito pelo contrário! Nunca fui mais sério em toda minha vida. Quero respostas, Flame! Vamos,
o que acha que eu queria de você?
— Queria sangue! — explodiu. Ele deu uma gargalhada.
— Continuo sem entender. Em todo caso, ainda acha que eu quero sangue, seja lá qual for o significado disso?
— Conhece a verdade tão bem quanto eu!
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Tentou livrar-se do abraço, mas Marlow segurou-a com mais intensidade e disse:
— Eu quero o que é meu!
— Seu, seu, seu! É tudo o que consegue pensar! Pois eu não quero ser uma de suas coisas, não pretendo ser catalogada
ao lado das outras peças de sua propriedade! Sou uma pessoa, tenho sentimentos e desejos que não têm absolutamente
nada a ver com você! Por que tenho de ser colocada na sua galeria como parte de uma de suas coleções? Por que tenho de
suportar o seu nome fazendo parte do meu? — gritou, agitando-se para escapar dos braços que a seguravam, sem con-
seguir.
— Porque eu quero! Você é minha, e está acabado! Jurou diante do altar, prometeu ficar comigo até a morte. Quebrou a
promessa uma vez, mas ainda tem o meu nome! O nome que eu lhe dei, Flame Hudson! É minha, e será para sempre!
— Eu sou uma Montrose! E continuarei sendo, até o dia da minha morte. Nada do que faça poderá me afastar da minha
família! Nem você nem a pirataria que está fazendo com as terras, nem os seus advogados, nem os seus milhões! Nada pode
ficar entre nós! Minha família é o que tenho de mais importante!
Marlow ficou subitamente pálido, os lábios apertados como se uma dor repentina o invadisse, mas a expressão de
sofrimento físico, na verdade, era raiva. Flame compreendeu de imediato, assim que seus olhos encontraram os dele.
Estava furioso, e o pavor da reação que pudesse ter fez com que começasse a tremer.
— Pode fazer o que quiser comigo! — gritou, apavorada. — Mas nunca poderá me possuir! Não sou sua propriedade,
entendeu?
— Eu posso e vou! — ele murmurou em tom ameaçador. — Já venci batalhas mais difíceis que essa, sabe? Uma
garotinha como você nunca será capaz de ficar entre mim e o que eu quero.
— Ótimo! Agora está falando claro! — disse com ar vitorioso. — Estamos chegando aos motivos reais que o levam a
querer minha volta!
Marlow levantou as sobrancelhas, sorrindo.
— E daí? — perguntou, sarcástico.
— A terra, não é? Sempre a terra!
— Terra? — ele repetiu, surpreso. — Você parece obcecada pelo assunto, Flame. Estava pensando em coisas muito
mais íntimas e agradáveis...
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Não precisou perguntar o que ele queria dizer. O brilho dos olhos azuis e o sorriso malicioso foram mais claros do que
uma enxurrada de palavras.
— Quantas vezes terei de repetir? De quantas maneiras diferentes terei de dizer? Eu quero você, seus lábios, sua pele,
seus cabelos... quero tudo, e você vai compreender de uma vez por todas. Quero que volte para o lugar de onde jamais
devia ter saído. Minha cama. Eu a quero nua, suspirando de prazer como costumava fazer antes. Tente evitar, se o seu
orgulho disser que deve, mas no fundo sabe que é inevitável como o nascer do sol. Vai voltar para mim, do jeito que eu
quero, e não poderá fazer nada para evitar. Não tem como escapar, Flame.
A força daquelas palavras foram quase suficientes para persuadi-la. Parecia que todas as saídas se fechavam. Mas a
amargura de saber que ele não a amava, que talvez nunca pudesse amá-la, despertou o instinto de luta.
— Pode usar seu domínio e sua força para me obrigar a fazer algumas coisas, Marlow, mas nunca será capaz de me
forçar a uma total submissão. Nunca, entendeu?
Antes mesmo de terminar de falar, sentiu que ele a atraía com força para si, e os dedos começavam a mover-se com um
ritmo alucinante, febril, acariciando e explorando os cabelos longos e ruivos. Assim que sentiu a força daqueles braços e a
intensidade do desejo que partia de Marlow, pôde compreender que seria inútil resistir. Seu corpo todo respondia ao
apelo das carícias ardentes, apesar de suas intenções, e o sangue passou a correr por suas veias como uma língua de fogo,
incendiando cada fibra, cada músculo, cada pequena porção de pele.
— Não, Marlow, não! — protestou, quando sentiu que a intimidade dos toques crescia a cada instante.
No momento em que percebeu que estava prestes a perder o controle, ouviu a voz dele sussurrando:
— Você me quer. Sempre me desejou, e nada mudou desde que nos conhecemos. Quando todas as palavras se esgotam,
quando não há mais nada a ser dito, ainda temos esse recurso.
Começou a acariciar seus seios com uma das mãos, demonstrando o que acabava de dizer.
— Mas não sou nenhum tolo, Flame. Desta vez a barganha será equilibrada. Os dois lados terão sua parte na troca. Não
vou lhe dar a oportunidade de demonstrar o domínio que exerce sobre mim quando estamos na cama. Não vou lhe dar
nenhuma satisfação, até que tenha algo em retorno.
Fez uma pequena pausa para beijá-la nos lábios e prosseguiu em seguida.
— Sabe o que quero dizer, não é? Quero que me dê a sua palavra. Vai ficar comigo durante os próximos seis meses.

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Diga que sim, Flame. Seis meses... é tudo o que peço.

Capítulo 4

Flame sentiu que a pressão dos braços afrouxavam. Estava livre. Então, Marlow não pretendia obrigá-la a fazer amor
ali, no topo da colina...
Era algo que teria de agradecer.
O alívio, mesclado com outra espécie de sensação que preferia não experimentar, misturou-se à raiva por estar sendo
usada mais uma vez. Seis meses! Não era tão estúpida. Sabia muito bem que seria tempo suficiente para que os advogados
acertassem todos os detalhes e definissem quem possuía o quê. Não precisava pensar muito para concluir que era essa a
intenção de Marlow ao fixar o prazo de tempo.
Estava descendo a encosta, e virou-se assim que ouviu os passos atrás de si. Com muito esforço, conseguiu banir o
tremor da voz e disse.
— Está tentando me controlar com essa chantagem emocional, não é? Está usando a doença de minha mãe...
Marlow balançou a cabeça em sentido negativo.
— Não seja ridícula! Você é livre, ninguém está tentando coagi-la a nada. Tudo o que estou fazendo é mostrar as
conseqüências de suas atitudes egoístas. Já passou da hora de começar a pensar um pouco nas outras pessoas. Sua mãe
precisa de você. Tem de crescer e perceber que os outros esperam um adulto, não uma eterna garotinha mimada e
insegura.
— Isso é maravilhoso, vindo de você! — disse, virando-se e retomando a caminhada.
Andava depressa, tentando afastar-se dele e daquelas palavras odiosas que costumava dizer. No entanto, ouviu os
passos dele próximos, e aproximavam-se cada vez mais, apesar da velocidade cada vez maior com que descia a encosta.
Queria ficar o mais longe possível dele, mas sabia que desta vez não haveria saída. Corria, e os pensamentos voavam,
frenéticos, buscando uma fuga para a tensão crescente. Por quê? Por que Marlow aceitara os dezoito meses de separação?
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Dissera que teriam um casamento de verdade, não uma união de aparências, mas insistia em manter a questão da saúde de
Sybilla como fator principal para que permanecesse na Espanha. Se decidisse aceitar o acordo, Marlow aceitaria as
condições que pretendia impor?
Poderiam portar-se como uma casal normal, poderiam manter as aparências de uma união feliz, até que a mãe estivesse
melhor de saúde. Aceitaria tais condições, ou recusaria a proposta?
Parou subitamente e sentiu que Marlow apoiava a mão em seu ombro, para evitar o choque. Deixou o braço estendido,
apoiado em seu ombro. Um arrepio percorreu todo o corpo de Flame, acusando a reação ao toque, de forma que, por um
momento, quase esqueceu o que pretendia dizer. Então afastou-se e virou-se para encará-lo com um olhar frio.
— Parece que terei de ficar, até que minha mãe esteja melhor. Mas só pretendo ficar com uma condição...
— Qual?
— Tentarei me comportar como a esposa perfeita, a mulher que sempre quis a seu lado, mas... apenas em público.
Marlow retrocedeu como se tivesse levado uma bofetada.
— Nem pense nisso! — explodiu. — Desta vez eu dou as cartas... e você vai voltar para a minha cama, todas as noites,
como todas as esposas do mundo!
— Então é isso! Não pensei que fosse egoísta a esse ponto! Era bom demais para ser verdade! Então estava pensando na
saúde de minha mãe, não é?
— Por acaso vai voltar para a Inglaterra, se eu não concordar? — perguntou com a voz macia e um sorriso cínico nos
lábios.
Não havia pensado nisso. Não pretendia ir tão longe em suas decisões, e seu silêncio provocou um novo sorriso,
carregado de triunfo.
— Nem mesmo você pode ser tão infantil, Flame. Vai ficar, eu sei disso. E nas condições que eu colocar. Não tem
escolha, compreenda...
Quando Marlow dissera que queria possuí-la, o tom selvagem da declaração causara um arrepio de pavor quase
incontrolável. E o que acabava de dizer parecia tão definitivo e apavorante quanto a manifestação de seu desejo. Ele estava
certo. Sybilla encontrava-se muito doente para suportar o trauma do divórcio da filha.
Admitiu a verdade com relutância. Não podia partir o coração da mãe, mesmo que para isso tivesse de partir o seu.
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— Odeio você, Marlow. Gostaria de nunca tê-lo encontrado. Sabe que não posso discutir, não posso partir e deixar
minha mãe doente, estava contando com isso! — Lágrimas de raiva corriam por suas faces e tornaram-se mais abundantes
quando o pensamento dos próximos seis meses surgiu em sua mente. — Pode ficar feliz, Marlow Hudson! Conseguiu o
que queria — disse, referindo-se às terras do cabo de Santa Margarita. — Mamãe também terá o que deseja e, portanto,
ficará feliz. A única infeliz nessa história serei eu mesma! Mas não se preocupe, eu poderei sobreviver... Já aprendi a lidar
com a infelicidade. Vou passar por tudo isso e vou sair ilesa, pela saúde de minha mãe. Não será para sempre, ela logo
estará melhor e... bem, é melhor prestar muita atenção e acreditar nisso, Marlow: quando minha mãe melhorar, nunca
mais porá os olhos em mim!
E lembrou-se de Johnny. Ele era a única via de escape. Mas poderia continuar esperando por ela, depois de tudo? Para
ser honesta, realmente não se importava com a resposta. Estava de volta aos dezenove anos, quando vivia exclusivamente
para Marlow. Não havia lugar para mais ninguém. Mas, dessa vez, podia ver a relação como realmente era: apenas um
envolvimento sexual. Não amava Marlow. Como poderia amá-lo, sentindo tanto ódio?
Quando chegou à villa, o terraço estava vazio, e a cozinha já fora limpa e arrumada. As cortinas dos quartos estavam
fechadas, e Flame compreendeu que todos estariam fazendo a sesta nas próximas duas horas.
— Parece que perdemos o almoço. Vamos ver se encontramos alguma coisa para um lanche — sugeriu Marlow.
— Fique longe de mim — explodiu Flame, assim que entrou na cozinha. — Por que acha que pode mudar a situação
de uma hora para outra, como se tivesse uma varinha mágica? Por que não pode ser honesto comigo, pelo menos uma vez?
Sabe que vou ficar, sabe que nunca deixaria minha mãe aqui, doente, mesmo porque não posso deixar de me sentir
culpada pela doença dela...
Ele não respondeu. Depois de alguns segundos de silêncio, limitou-se a comentar.
— Sabe que preciso de seu apoio para levar em frente a questão do nosso casamento...
— Você é muito cruel! Não tem o direito de me obrigar a dormir com você! — E ficou vermelha, inundada por um
sentimento que gostaria de não ter.
— Dormir é a última coisa na qual estou interessado. Eu quero você, Flame. É minha esposa. Se não puder tê-la na
minha cama quem terei?
— Nunca imaginei que o casamento fosse um pré-requisito para isso.
Ignorando o comentário ferino, Marlow continuou.
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— Seis meses. Sua mãe já estará fora de perigo depois desse tempo. É pedir muito?
— É uma eternidade — retrucou e fechou os olhos, pensando no sacrifício de conviver com um homem como aquele
durante seis meses.
Já era ruim o bastante ser forçada a concordar com a proposta de uma nova tentativa, mas o desejo crescente e
insaciável que nutria por ele era pior que qualquer castigo.
Confortou-se com a esperança de acabar de uma vez por todas com aquela tortura. Depois de passar seis meses
vivendo com ele, o desejo estaria exaustivamente satisfeito e o assunto, encerrado.
— Vai ter de me dar um ou dois dias para... para me acostumar com a idéia — informou.
— Temos muito tempo pela frente.
Marlow movia-se pela cozinha pegando pratos e copos, como se conhecesse o lugar muito bem. Mais uma vez, Flame
compreendeu o quanto ele estava incorporado à rotina da casa, como um autêntico membro da família.
— Salada — anunciou ele, fechando a geladeira. — E queijo, sardinhas, pão, azeitonas...
— Não quero nada. Todas essas delícias pareceriam serragem na minha boca.
Marlow colocou as travessas e os pratos sobre a mesa e sentou-se. Tentando romper o silêncio pesado que se formara,
Flame comentou.
— Não posso entender por que não me avisaram sobre mamãe desde o início da doença.
— Eu pedi a Sam que não dissesse nada. Não queria que você... — e parou, hesitante.
— Não queria o quê?
— Que você se preocupasse, mas, depois de tudo o que me disse, fiquei pensando se não veria essa atitude como mais
um sinal da minha hipocrisia.
Flame mordeu o lábio, sentindo o peso dos olhos azuis sobre seu rosto.
— É, poderia ser mesmo. Não consigo imaginar por que haveria de se preocupar comigo.
Ele encolheu os ombros e sorriu.
— Talvez esteja certa — respondeu, olhando para os pratos sobre a mesa. — Se quer um vilão, Flame, é só dizer. De
qualquer forma, eu poderia obrigá-la a voltar quando quisesse.
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— É claro que poderia! Faria qualquer coisa para pôr as mãos sobre o que deseja tanto...
— É meu sucesso que a incomoda tanto? — perguntou, olhando-a com expressão fria. — Eu aprendi a lutar pelo que
quero, e aprendi da forma mais dura. Os que não lutam nunca conseguem nada. É claro que... — Fez uma pausa e sorriu
com amargura, antes de prosseguir — ...o que achamos muito importante enquanto estamos lutando, pode perder o valor
depois que conseguimos alcançar. Mas isso é um outro problema.
Ainda tentando decifrar o enigma da resposta, Flame observou como ele preparava dois sanduíches de queijo,
apanhava um deles e dirigia-se à porta da cozinha, dizendo antes de sair.
— Aí está seu almoço. Desculpe se não é uma grande refeição, mas serve para encher o estômago. — E saiu, fechando a
porta atrás de si.
Receosa de que Marlow pudesse exigir o atendimento imediato de seus direitos conjugais, apesar do pedido de um ou
dois dias para acostumar-se à idéia, sentiu-se aliviada com a partida súbita. Pegou o sanduíche e perguntou-se por que não
dissera mais diretamente que sabia das razões que o levavam a querer prolongar o casamento fracassado. Imaginou quanto
tempo seria necessário para resolver a questão das terras e das propriedades, e disse a si mesma que, talvez, quando tudo
isso estivesse definitivamente solucionado, pudesse ficar livre da aliança diabólica.

Usando um vestido de tecido leve e um corpete justo, com o tom rosado da roupa combinando com o bronzeado da
pele, Flame disse boa-noite à mãe e saiu. Assim que chegou ao terraço, Emílio comentou.
— Está linda! Então decidiu vir conosco esta noite?
— Não gosto de deixar mamãe sozinha — falou Samantha —, mas acho que um passeio fará muito bem a nós todos,
não é, querida?
A irmã e o cunhado estavam de braços dados, como um casal de noivos, e Flame sentiu uma pontinha de inveja. No
entanto, sentia-se feliz por não ter de suportar a companhia de Marlow.
— É muito longe? — perguntou, assim que entraram no carro.
— Não, mas vamos pela rota mais longa. Assim poderá ver as obras da Playa Del Rey — informou Emílio.
Notando o ar de interrogação da irmã, Samantha explicou.
— É o nome que escolhemos para o novo village de Marlow, na praia. Parece que vai ficar maravilhoso, cheio de
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arcadas, varandas e balcões de estilo espanhol. Adoraria viver num lugar assim!
O conversível branco passou pelos portões, da propriedade e, poucos minutos depois, estavam na estrada.
Tudo o que Flame pensava era que, felizmente, Marlow não aparecera. Não o vira desde que saíra da cozinha, quando
devia ter ido para o escritório da cidade.
Passaram pelas obras de Playa Del Rey, e Flame viu-se obrigada a concordar com a irmã. O lugar parecia magnífico, e
tudo indicava que seria mais um empreendimento absolutamente bem-sucedido. Apesar do prédio estar sendo construído
muito perto da encosta, os projetistas haviam tomado o cuidado de deixar intacta a plantação de palmeiras, o que dava um
ar tropical bastante agradável. Os balcões de ferro forjado e as varandas em estilo espanhol completavam o conjunto de
beleza incomparável.
— Mamãe me disse que as terras ainda são nossas — disse, quando retomaram o caminho inicial. — No entanto, todos
os prédios pertencem a Marlow.
— Sim, e daí? — perguntou Samantha.
— Bem, só estava me perguntando se você sabia desse detalhe.
— É claro que sim. Marlow discutiu todos os planos conosco. Assim que os hotéis e os villages começarem a dar
lucros, nós duas, como diretoras da Montrose Holdings e proprietárias das terras onde Marlow realizou os
empreendimentos, receberemos uma boa parte do dinheiro. Como você insistia em manter atitudes estranhas com relação
a ele, mamãe tratou de garantir tudo para que não pudesse cometer nenhuma estupidez, como tentar impedir que Marlow
pudesse desenvolver o local como achasse melhor. Pessoalmente estou muito satisfeita com os resultados do trabalho
dele, sabe? Ele conhece o assunto como ninguém, e está assegurando lucros fabulosos.
Flame não disse mais nada. Sem dúvida, o assunto voltaria a ser discutido em outra ocasião, especialmente se a questão
do testamento voltasse à tona.
Quando chegaram à casa luxuosa, num dos pequenos bairros da cidade, Samantha e Emílio mostraram-se muito à
vontade e pareciam conhecer todos os convidados.
— Irei dizendo quem é quem à medida que formos encontrando as pessoas, está bem? — sussurrou Samantha,
conduzindo a irmã para o terraço bem iluminado. — Muitos deles são contatos de negócios, gente importante para o
trabalho, mas Marcos e Rosa são velhos amigos. Marcos é advogado, especializado em causas referentes a propriedades,
terras e coisas assim...
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Flame pensou em perguntar alguma coisa, mas alguém entrou com uma bandeja de bebidas, e as duas foram envolvidas
por uma enxurrada de cumprimentos e apresentações. Sentindo-se um pouco cansada depois da noite de viagem, e
atordoada com tanto movimento, Flame conseguiu afastar-se do grupo e procurou uma cadeira para descansar. Pouco
depois estava à beira da piscina, confortavelmente instalada e acompanhada de um rapaz chamado Rafael. Depois de se
apresentar, ele explicou que era o sócio minoritário de Marcos.
Ficaram admirando o brilho das estrelas no céu limpo de verão. Rafael afastou-se para encher os copos e, quando
voltou, disse.
— Espero que sente a meu lado durante o jantar. Percebendo que os olhos do rapaz brilhavam com interesse exage-
rado, Flame decidiu preveni-lo.
— Não sei se sabe, mas eu sou casada.
Mordeu o lábio inferior tentando conter a tristeza causada por tal pensamento, e ficou encabulada quando ouviu o
acompanhante perguntando:
— Mas onde está esse marido descuidado?
Estava justamente pensando numa resposta adequada, quando avistou os olhos azuis tão familiares.
Respirando fundo, ela informou, tentando manter a voz controlada.
— Está chegando neste momento.
E então, olhando com mais atenção para o marido, notou que ele não estava sozinho.
Rafael também se virou e compreendeu a situação imediatamente. Marlow estava acompanhado por uma loura
atraente e obviamente ficou surpreso por ver Flame num lugar como aquele.
Sentiu que Rafael pegava seu braço num gesto amistoso:
— Quem sabe ainda possa se sentar a meu lado durante o jantar? — murmurou, tentando diminuir a tensão.
Mas era inútil. Os olhos de Flame estavam fixos na acompanhante de seu marido. Era um rosto conhecido, tinha
certeza quase absoluta.
Na última vez em que a vira parecia assustada e surpresa, e... De repente, lembrou-se. Era a mulher que vira na cama de
Marlow!
Flame sentiu o sangue gelar. As pernas tornaram-se estranhamente pesadas, e teve a sensação de que iria desmaiar.
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Estendeu a mão para tentar sustentar o corpo, apoiar-se em alguma coisa, mas algo parecido com um copo escorregou de
seus dedos e o barulho do vidro se partindo interrompeu a conversa dos convidados mais próximos. Então sentiu que um
braço a amparava pela cintura. Alguém disse algo em espanhol, e a multidão se afastou. Estava sendo carregada, meio
inconsciente, e fora levada para um ponto mais sossegado do terraço.
— Está tudo bem. — Ouviu uma voz decidida. — Vamos dar um jeito nisso.
Percebeu que fora colocada em uma cadeira confortável, e que uma mão empurrava sua cabeça para baixo, entre os
joelhos. Pouco depois voltava a ver as cores em volta e a ouvir os sons da festa. Levantou a cabeça, tentando ver quem a
auxiliava. Marlow estava a seu lado. A mão que empurrara sua cabeça era a dele. Afastou o braço que ainda apoiava seu
pescoço e sorriu para Rafael, que devia tê-los acompanhado até ali.
— Esse é meu marido — disse. — Já se conheciam?
Fez uma pausa para garantir a firmeza da voz e prosseguiu.
— Eu aceito seu convite, Rafael, obrigada.
Levantou-se e sorriu, apesar de ainda se sentir um pouco tonta. Os joelhos tremiam de maneira incontrolável, e ela
cambaleou, incapaz de sustentar o peso do próprio corpo.
Marlow estendeu a mão para ampará-la, e Rafael fez o mesmo. Os dois homens se encararam.
— Já disse que posso dar um jeito nisso — Marlow disse. — Se quer mesmo ajudar, poderia ir buscar um copo de água
para ela.
Rafael não parecia satisfeito com a sugestão, mas, depois de olhar para o rosto pálido de Flame e dispensar outro olhar
furioso para o marido negligente, virou-se e dirigiu-se à casa.
— Pensei que ele nunca mais fosse se afastar — comentou Marlow. — O que há de errado com você? Não está grávida,
está?
— Não seja ridículo! Por que haveria de estar? — perguntou, sem encará-lo, mas sabendo que os olhos azuis brilhavam
de raiva.
— Não sei. Sabe-se lá o que andou fazendo em Londres, como aproveitou sua liberdade... Esse seu amante inglês pode
não ter sido muito cuidadoso e...
— O que você tem a ver com isso?
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— Como o que eu tenho a ver com isso? Tudo o que lhe diz respeito me interessa! E tem mais: quando Rafael voltar
vou acertar as contas com ele, cara a cara.
— Pare com isso, Marlow. Ninguém vai acreditar numa cena de ciúme.
Rafael retornava com o copo de água, então Marlow disse.
— Não se esqueça de que sou seu marido, querida.
Falou em tom mais alto para que o outro pudesse ouvir, e beijou o rosto da esposa com exagero. Com um olhar
silencioso, Rafael estendeu o copo na direção de Flame e se afastou.
— Parece um homem sensato — murmurou Marlow, com um sorriso de triunfo.
— Quem sabe ele poderá manter sua amiga ocupada? — provocou com voz doce.
— Amiga?
Devia saber de quem estava falando, mas ergueu uma sobrancelha e adotou um ar surpreso.
— Acha que amante é mais adequado? — continuou Flame, apertando o copo com força, surpresa por não quebrá-lo
entre os dedos.
No entanto, ele não demonstrou nenhum sinal de compreensão, aumentanto ainda mais a irritação de Flame, à beira do
descontrole. Quem o visse naquele momento, poderia jurar que travavam uma conversa agradável e inconseqüente.
Flame forçou-se a manter a expressão tranqüila, o semblante controlado, mas por dentro ainda não conseguira se
refazer do choque de ver novamente a amante de Marlow. Em sua imaginação, aquela mulher adquirira o aspecto de uma
criatura horrível, uma figura típica dos pesadelos, uma Jezebel cujo poder de sedução fazia novas vítimas a cada dia. Mas
sempre pensara nela como alguém que pertencia ao passado, não como uma pessoa presente e, muito menos, como alguém
que ainda desfrutava de relações íntimas com seu marido.
Sentia-se chocada, revoltada, mas nem pensava na possibilidade de um confronto com Marlow diante de uma multidão
de estranhos. Nem em qualquer outro lugar, na verdade. Obviamente, ele se julgava no direito de fazer o que achasse
melhor com a própria vida, sem ter de dar satisfações a ninguém. Um simples casamento de conveniência, como o que
mantinham, não teria a menor influência sobre seu comportamento habitual.
Marlow pegou-a pelo braço e começou a andar por entre os convidados, conduzindo-a a algum ponto determinado.
Percebeu que se dirigiam para perto da piscina, onde sua amante conversava animadamente com um grupo de pessoas.
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— Quero que conheça minha esposa — disse, assim que se aproximaram o suficiente.
Estava tentando prevenir a amante, e não fazia o menor esforço para esconder sua intenção.
A loura estendeu a mão bem cuidada, cheia de anéis, e disse com um sorriso amplo.
— Olá. Sou Victória, a sombra de Marlow.
Flame não retribuiu o sorriso, questionando a forma estranha de Victória referir-se aos serviços que, sem dúvida,
prestava a Marlow. A dúvida devia estar expressa em seu rosto, pois ela apressou-se em explicar.
— Sou secretária particular de seu marido.
Muito particular, pensou Flame, cheia de ciúme. Notou que o marido parecia impaciente, e ouviu quando ele disse.
— Ela acabou de ter um desmaio. Creio que ainda deve estar muito cansada da viagem. Os vôos noturnos costumam
ser pouco confortáveis. — Virando-se para a esposa, acrescentou: — Espero que durma bem esta noite, querida.
— Fique tranqüilo — respondeu ela, em tom sarcástico. Victória ainda estava com a mão estendida, mas, percebendo
que Flame não pretendia apertá-la, encolheu os ombros e sorriu.
— Veio no vôo noturno de Gatwick? Eu o conheço muito bem — disse e olhou para o chefe com um brilho
significativo nos olhos castanhos. — Tenho certeza de que já nos encontramos...
— Não, deve estar enganada. Com certeza nunca nos vimos. Estive morando em Londres durante algum tempo —
explicou Flame, confusa com a revelação crua de toda a verdade.
— Cuidando de sua carreira — prosseguiu Marlow em tom de brincadeira.
Em seguida, notando que o copo de Victória estava vazio, tratou de apanhá-lo num gesto de intimidade e saiu à
procura de um garçom, deixando as duas mulheres juntas. Deviam estar se sentindo muito mais próximos pela
cumplicidade, pensava Flame, observando o marido que se afastava. Depois virou-se para Victória.
— Há quanto tempo... trabalha para ele? — perguntou, tentando descobrir mais detalhes sobre a traição.
A resposta de Victória foi como uma pedra sobre sua cabeça.
— Oh, estamos juntos há muito tempo! Seis anos, eu acho. Mas eu estava trabalhando em uma das filiais, em Ibiza, e
fiquei lá durante muito tempo. Há poucos meses, Marlow insistiu na minha transferência para cá, e só então passei a atuar
direto em seu escritório central. Eu gostava da ilha, sabe? Mas depois de tanto tempo já estava um pouco enjoada. Aqui
fico mais perto da ação.
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— Seis anos... muito tempo, não? — comentou Flame com voz fraca.
Torturava-se com a idéia de que haviam sido amantes durante todo esse tempo. O tempo em que namoraram, os meses
nos quais ele dissera todas aquelas mentira sobre amá-la e respeitá-la. Mas... como pudera esconder o casamento de
Victória? Estaria ela tão longe da ação, como dizia, que não chegara sequer a suspeitar de nada? Teria enganado as duas,
durante todo o tempo?
— Se esteve por perto todos esses anos — disse Flame —, deve ter comparecido ao nosso casamento. Foi há dezoito
meses.
— Oh, sim! Eu mesma organizei a parte da decoração. As flores foram escomendadas perto de San Antônio, mas eu não
pude comparecer à recepção.
Não deu nenhuma explicação, mas Flame percebeu que Marlow havia conduzido a situação da maneira mais
adequada... para ele. Como conseguira convencer a amante a cuidar da decoração do casamento, e ainda dar um jeito para
que não assistisse à cerimônia? No mínimo, usara um incentivo dos mais poderosos. Mas... o quê? Amor, sexo ou dinheiro?
Não fazia diferença, agora.
Marlow retornou trazendo o copo da secretária e, olhando para a esposa, comentou:
— É melhor ficar com o copo. Vou levá-la para casa daqui a poucos minutos, está bem?
— Não se preocupe, estou bem. Não quero estragar sua noite.
Certa de que ele tentava tirá-la do caminho, Flame afastou-se e dirigiu-se ao terraço. Encontrou Samantha e Emílio e,
com eles, entrou na sala de jantar, onde os convidados tratavam de ocupar os lugares à mesa.
— Linda festa, não? — perguntou a irmã. — Venha, sente-se aqui conosco.
Flame pretendia acompanhar a irmã e o cunhado, mas Rafael surgiu a seu lado e perguntou:
— E então? Sente-se melhor?
— Sim, obrigada.
— Por quê, não estava bem? — perguntou Samantha, alarmada.
— Estava apenas cansada, nada sério. E um pouco surpresa por encontrar meu marido.
— E então? — insistiu Rafael. — Vai aceitar meu convite?

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Estava seguro e tomou-a pelo braço. Certamente, devia ter visto Marlow no terraço, com a mesma mulher com a qual
chegara. Flame pensou que, provavelmente, ele sabia sobre o romance e estava tentando deixar isso claro, sem ter de dizer
com todas as palavras. Aquela comunidade era bastante pequena, e todos deviam estar sabendo sobre o romance secreto
de Marlow Hudson! O pensamento fez com que se sentisse humilhada e envergonhada.
Pensou que isso talvez explicasse o súbito ataque de culpa de Samantha, quando perguntara sobre as namoradas de
seu marido. Decidiu esclarecer tudo com ela mais tarde.
Aguçou os ouvidos, tentando ouvir as conversas dos outros convidados, querendo descobrir até onde sabiam sobre sua
tolice e sua ingenuidade.
Não conseguiu escutar nem uma palavra.
Infeliz, decidiu permitir que Rafael sentasse a seu lado durante o jantar. Afinal, o que mais poderia acontecer depois de
tantos incidentes? Não era capaz de imaginar nenhuma outra desgraça que pudesse ser adicionada às que já conhecia.

Capítulo 5

Rafael mostrou-se muito atencioso, mas Flame não pôde deixar de notar como era observada de maneira estranha por
alguns convidados. Não precisou esperar muito para encontrar uma explicação. Samantha pegou-a pelo braço e levou-a
para o banheiro, puxando-a para dentro e fechando a porta.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou, indignada.
Flame olhou para a irmã com expressão surpresa, sem responder.
— Não tem a menor idéia, não é? — Samantha conhecia a irmã mais nova o suficiente para saber que a expressão de
inocência era verdadeira. — Será que não percebe que está sendo observada e criticada? Todos sabem que foi embora
pouco depois do casamento. Agora que todos questionam sua volta repentina, na primeira aparição em público aceita as
cortesias de outro homem! Os espanhóis levam esse tipo de coisa a sério! É o tipo de atitude que costumam considerar
infidelidade.

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— Não seja ridícula, Sam! Infidelidade? Se está falando de Rafael, nós apenas conversamos como duas pessoas normais.
O que há de mal nisso?
— Tudo! Devia estar ao lado do seu marido!
— Mas ele já tem alguém ao lado! Ou será que não notou?
— Está falando de Victória?
— É claro que sim!
— Ainda está casada com ele, Flame, apesar de ter feito questão de demonstrar o quanto essa união é pouco
importante para você — observou com expressão severa. — Marlow trouxe a secretária particular, isso é normal. Veio
preparado para discutir negócios, como sempre acontece nas festas de Marcos. Sempre existe a oportunidade de fazer
novos contatos.
— Victória não é nenhum novo contato.
— Não, mas alguns convidados poderiam ser. Por isso Marlow trouxe a secretária.
— Sem dúvida — respondeu com sarcasmo.
— Tem o dever de respeitar seu marido, especialmente em público! Essa comunidade é pequena, e a reputação de
Marlow pode ser prejudicada por suas atitudes infantis. E estou surpresa, pois Rafael sabe disso melhor que eu...
— Talvez não concorde com seus conceitos antiquados, Sam. Estou decepcionada com o que acabei de ouvir.
As duas ficaram se olhando sob a luz brilhante do banheiro. Depois de alguns instantes, ambas disseram ao mesmo
tempo.
— Desculpe, querida...
E Samantha abraçou a irmã mais nova.
— Não pensei que estivesse fazendo algo de errado — explicou Flame.
— Eu devia tê-la prevenido. E devia ter feito alguma coisa quando percebi a intenção de Rafael.
— Está querendo dizer que dei uma impressão errada?
— Como todo mundo, ele sabe que vocês viviam separados. A forma como se comportou esta noite dever ter
confirmado as suspeitas de que sua volta não significava uma possibilidade de reconciliação.
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— E não significa mesmo!
— Sabe o que penso sobre você e Marlow? — perguntou, observando a irmã com atenção. — Não acredito que
realmente saiba o que está fazendo...
— Por que você e mamãe não podem ficar do meu lado? Por que estão sempre a favor dele? — perguntou com
amargura.
— Não é nada disso, Flame. Nós estamos do seu lado e sabemos muito bem que está apaixonada... os dois estão. Foi
um verdadeiro encontro de amor!
— Certamente foi. E ele ficou muito ferido quando eu fui embora, não é?
— Isso mesmo. Mais do que pode imaginar...
— Não diga! — exclamou Flame com um sorriso sarcástico.
— Ele viveu um verdadeiro pesadelo! — contou Samantha com ar de piedade. — Depois tomou a decisão de mergulhar
no trabalho para tentar esquecer. Ocupava o tempo todo com os negócios como se, com isso, pudesse bloquear a dor. E
saiba que ele me odiaria se soubesse que estou lhe dizendo tudo isso.
— Não acredito em uma palavra — confessou com amargura — Conheço Marlow muito melhor que você. Assisti ao
espetáculo dos bastidores e já conheço o fim da história, obrigada.
— Ele não... — Samantha mordeu o lábio, hesitando. — Ele não bateu em você, não é?
— É claro que não!
— Então... não posso entender por que tanto ressentimento.
— Ele se casou comigo por causa das terras... já devia saber disso. Só percebi quando descobri outras coisas — disse e
baixou a cabeça. — Está tentando me dizer que Marlow sofreu quando fui embora? Se fosse verdade... — ergueu os olhos
e encarou a irmã com um sorriso amargo — teria ido atrás de mim, não acha?
Sammy fez um movimento negativo com a cabeça, lentamente.
— Eu não acredito. Marlow pode ser muito cabeça-dura, quando quer. Como você. A última coisa que faria seria correr
atrás de alguém que o rejeitou. Deve ser algum trauma de infância, imagino.
— Trauma de infância?

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— O padrasto não o queria por perto e... enfim, toda a história que deve conhecer melhor que eu.
Flame balançou a cabeça como se não quisesse ouvir. Em seguida, vencida pela curiosidade, encorajou a irmã a pros-
seguir.
— Ele ainda sente um certo ressentimento por não ter se reconciliado com a mãe antes que ela morresse. Quando se
casaram, o padrasto deixara claro que não queria um garoto de dezessete anos por perto. Foi então que Marlow saiu de
casa e foi percorrer o mundo.
— Eu não sabia... — disse Flame, perplexa.
— Talvez não saiba muitas coisas.
— Pois acho que sei o suficiente, obrigada.
— É mesmo? Sabe como ele tem sido bom para nós?
— Há uma boa recompensa por isso.
— Não seja cínica — censurou Samantha.
— Não está imaginando que ele cuida do clã Montrose, como costuma nos chamar, a troco de nada, não é?
— Talvez veja em nós a família que nunca teve.
Flame sentiu lágrimas nos olhos.
— Quero que ele vá para o inferno!
Abriu a porta do banheiro e ameaçou sair, mas Samantha a impediu.
— Espere, Flame. Se realmente não quer tentar a reconciliação, é só dizer. Mas espero que tenha muito cuidado
quando comunicar sua decisão a mamãe. Ainda está muito fraca e... — hesitou, mordendo o lábio. — Bem, eu me preocupo
muito com três aspectos. Quero que você seja feliz e mamãe também... e Marlow, é claro.
— E minhas ações são a chave para tudo isso.
Flame baixou a cabeça. O piso era quadriculado, o que aumentou a sensação de ser apenas uma das muitas peças de
um jogo. Só precisava esperar e alguém viria e a mudaria de posição. Gostaria muito de interromper a partida, mas... como?
Samantha colocara a situação de maneira muito clara. Não era apenas a, sua felicidade que estava em jogo, mas a vida de
sua mãe.
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— Eu já disse a Marlow que concordo com uma nova tentativa — informou com um tom irônico e amargo. — Eu... eu
vou voltar para a sala, dar as costas a Rafael e assumir meu lugar ao lado do meu marido durante o resto da noite. Acha
que é o bastante?
— Não precisa exagerar. Eu posso falar com Rafael, se quiser. Somos bons amigos. Na verdade, gostaria mesmo de
saber o que pretendia, comprometendo minha irmã em público.
Ambas sorriram, Samantha com ar protetor e Flame com resignação, mascarando a infelicidade que a invadia.
E juntas voltaram para a festa.
Quando Flame encontrou Marlow, ele estava se afastando de um grupo para cumprimentar outras pessoas. Virou-se ao
perceber sua aproximação, deixando os amigos para mais tarde. Victória não estava por perto, e de repente ficaram
sozinhos.
— Devia ter me prevenido de que estaria aqui e que a noite seria um teste de relações públicas. Pensei que fosse apenas
um jantar entre amigos — começou Flame, tentando se defender.
Marlow ergueu uma sobrancelha.
— Por quê? Que diferença faria se eu tivesse avisado?
Ela encolheu os ombros e baixou a cabeça, encabulada.
— Eu teria desempenhado melhor o papel da esposa perfeita.
— Não se preocupe, ninguém sabe se estamos juntos novamente ou não.
Apesar das palavras, havia uma hostilidade contida no tom de voz e no brilho dos olhos dele.
Mesmo numa situação tão tensa, Flame não pôde deixar de perceber o quanto ele estava atraente no smoking bem
cortado. Possuía um charme selvagem, como um animal da selva, um predador à espera da vítima.
Subitamente a enlaçou pela cintura e atraiu-a para o seu lado, forçando-a a acompanhá-lo até a beira da piscina, de
onde partia uma parede que seguia até o portão da casa. Como uma prisioneira, foi obrigada a caminhar ao longo do muro
até que alcançassem um pequeno bosque cheio de árvores, onde Marlow obrigou-a a virar-se e encará-lo. Puxou-a com
tanta força que seu corpos se chocaram. Voltava a ser prisioneira do poder físico que exercia sobre ela. Por um segundo o
desejo voltou a invadi-la com intensidade, mas em seguida recobrou o controle e retrocedeu.
Mas ele não permitiu, sorrindo ao perceber o efeito daquele contato.
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— Controle-se, Flame. Será que a conversa com Rafael causou tanta excitação assim?
Ela sentiu as mãos geladas e pensou que daria qualquer coisa para poder escapar daquela situação. Olhou-o direto nos
olhos, como se essa atitude representasse a única possibilidade de fuga.
Mas Marlow estava apenas começando. Aproximou-se ainda mais e apoiou as duas mãos na parede, ao lado de sua
cabeça, e pressionou o corpo contra o dela de maneira sugestiva. A boca iniciou um passeio lento por seu pescoço, e Flame
tremeu, sentindo-se incapaz de suportar a tortura do contato sobre a pele nua. A intensidade do desejo, quase animal, que
Marlow não fazia a menor questão de esconder, envolveu-a em ondas de expectativa, e visões que antecipavam o prazer
que estava prestes a ter.
Notando a intimidade crescente do contato do corpo musculoso contra o seu, tentou protestar. Mas as mãos que
deslizavam sobre seus seios, vencendo a resistência do tecido leve do traje de verão depois de soltar os três botões do
corpete, afastaram qualquer possibilidade de relutância. Os dedos ágeis moviam-se com experiência por sobre a pele
macia e delicada, arrancando suspiros que pareciam aumentar ainda mais a avidez dos toques.
Marlow parecia não conhecer limites. Após a fracassada tentativa de protesto, Flame abandonou-se à delícia das
carícias e sentiu que era carregada ao ponto máximo do desejo. Estaria agindo errado? A questão martelava sua cabeça,
enquanto o corpo respondia com intensidade cada vez maior, sem preocupar-se com o certo ou o errado. Queria Marlow,
e nada do que pudesse dizer a si mesma, sobre os dezoito meses de sofrimento, poderia mudar o que sentia.
— Marlow... — gemeu, em busca das palavras que pudessem expressar as emoções.
Deixando-se levar pelo momento, esperava ouvir algo carinhoso dos lábios dele, qualquer coisa que pudesse fazê-la ter
esperanças de ser amada de verdade.
Mas, ao contrário, escutou apenas o gemido que indicava uma ansiedade quase animal de possuí-la, enquanto os lábios
prosseguiam o percurso torturante sobre a pele do seu pescoço. As palavras expressavam apenas desejo físico, uma fome
primitiva e unicamente sexual.
Beijou-a com desespero, buscando descobrir os segredos da caverna úmida de sua boca. Em seguida voltou a traçar a
rota de prazer inimaginável pelo pescoço, encontrando o caminho por entre os seios, acariciando-os com a boca e
apertando-a com mais força contra si, suspirando de prazer.
— Sempre poderei contar com isso... sua fraqueza, Flame. É assim com todo mundo?
Apesar de ainda sentir o corpo dele contra o seu, abriu os olhos e assustou-se, vendo a expressão selvagem que tinha
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no rosto, os olhos azuis fixos nos dela, como se quisesse arrancar a verdade à força. Com esforço descomunal, Marlow
conseguiu controlar-se e voltou ao normal, frio como sempre. Mesmo não sendo capaz do mesmo grau de controle, a raiva
que sentia pelo ataque à sua moral fez com que Flame recuasse. Sentiu que as lágrimas escorriam de seus olhos, não só
pela ofensa, mas também, e principalmente, pela sensação de frustração em vista do desejo não satisfeito e da certeza de
que ele não a amava.
Tentou desesperadamente acalmar a necessidade de satisfação, apoiar-se nele por um momento enquanto tentava
recuperar as forças, tentando não responder aos movimentos involuntários causados pelo desejo intenso, querendo que
Marlow a abraçasse e a amasse totalmente.
— Não pode ser bom se não amamos de verdade, Marlow — murmurou, tentando convencer a si mesma. — Eu
pensei... eu queria...
— A ausência de sentimentos é um problema fácil de ser solucionado. Sofremos da mesma fraqueza, somos iguais
nesse sentido... desejar e amar acaba dando na mesma. Afinal... — Parou, incapaz de continuar. Então, subitamente,
retomou com um tom furioso. — Isso é absurdo! O que está querendo fazer comigo?
Os olhos brilhavam de maneira estranha, e começou a abotoar o corpete de Flame com movimentos rápidos, afastando
os cabelos ruivos sem gentileza.
— Não trouxe você até aqui para isso. Droga, nós temos uma cama esperando por nós, um leito matrimonial! Não
precisamos nos comportar como um casal de adolescentes... — Sorriu com amargura, como se estivesse decepcionado
consigo mesmo. — Você me surpreende, Flame. Quando penso que estou curado, tenho de admitir repentinamente todo o
poder que exerce sobre meus instintos mais primitivos. Mais uma coisa: é melhor avisar Rafael que serei capaz de quebrar
seu pescoço, se voltar a se aproximar de você. Sou muito ciumento e não me responsabilizo por minhas reações quando
vejo minhas coisas cobiçadas por outros.
Mais uma vez, nenhuma menção às palavras que Flame gostaria de ouvir de seus lábios. Obviamente estavam
reservadas para Victória.
— Não precisa ser dramático — ela respondeu com sarcasmo. — Eu não percebi que estava tomando atitudes que
poderiam ser mal compreendidas.
Sentindo-se enganada, manipulada e humilhada por ter sido levava ao descontrole total e não ver suas necessidades
satisfeitas, tentou recuperar a força de vontade e, poucos segundos depois, ouvia novamente os sons da festa que
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emanavam do terraço. Estavam longe das vistas dos outros convidados, escondidos pelas sombras das árvores.
Ajeitou o vestido com mãos trêmulas e sugeriu:
— Não seria melhor voltarmos? Victória deve estar à sua procura.
— Ela já foi embora.
— É claro — ela respondeu com frieza. — Não estaria aqui comigo se ela ainda estivesse por perto.
— Provavelmente não — sorriu. — Mas poderia dizer que fui arrastado. Foi você quem me procurou, lembra-se?
Remorsos? Ou alguém disse alguma coisa que despertou sua consciência de esposa?
— Vá para o inferno. — Estava furiosa consigo mesma agora que recuperara o controle totalmente. Furiosa por ter
cedido novamente, por permitir que ele visse o quanto o desejava.
Pelo menos conseguira conter as palavras que quase dissera durante aqueles minutos de prazer, palavras que insistiam
em brotar do fundo de sua alma, humilhantes, carregadas do amor que sentia por ele. Mas talvez não fosse amor, afinal.
Talvez fosse tão inexperiente que não pudesse perceber a diferença entre a Obsessão selvagem e a emoção mais profunda e
sincera do amor. Desejou que fosse assim. Entre amor e desejo, certamente o último desapareceria primeiro.
Observou o perfil másculo, os traços familiares, os lábios que habitualmente estavam distendidos num sorriso, e tentou
encontrar um indício qualquer de carinho, de afeição, qualquer coisa que pudesse diminuir a sensação de rejeição.
Finalmente disse a si mesma que não permitiria que o amor crescesse ainda mais, e que jamais daria a ele a satisfação
de saber da existência desse sentimento.
Virou-se para ele e disse, com o rosto na penumbra:
— Você é mesmo um garanhão, Marlow. Quase havia me esquecido disso — mentiu. — Não me surpreende o fato de
Victória ser tão insistente. Por que um simples casamento a afastaria de você? Deve ser louca pelo poderoso Marlow
Hudson, e deve ter aproveitado esse fator para mantê-la doce enquanto decidia casar-se comigo. Com esse fator e com seu
insuperável poder de sedução, é claro.
— O que está dizendo? O que o nosso casamento pode ter a ver com Victória?
— Aparentemente nada.
Virou-se e começou a caminhar rapidamente pelo jardim. Estava quase subindo os degraus do terraço quando ouviu a
voz dele às suas costas.
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— Vamos para casa?
— Vou com Emílio e Samantha, obrigada.
— Não vai, não. Irá comigo.
Flame sorriu, mas em seguida percebeu que a irmã e o cunhado não estavam mais na festa. Rosa pareceu surpresa
quando perguntou por eles. Naturalmente esperava que Flame acompanhasse o marido.
Assim, quando se despediram dos convidados lado a lado, pareciam um casal normal e comum. Em seguida dirigiram-
se ao local onde Marlow estacionara o carro.
— Pode ficar na casa grande quanto tempo quiser, Flame — ele falou quando pararam dentro da villa. — Talvez seja
melhor não precipitarmos as coisas.
— Mas... e mamãe?
— Pelo amor de Deus, Flame! Eu não pretendo ir para a cama com você só para agradar sua mãe!
— Pensei que fosse melhor para ela pensar que estamos juntos novamente...
— Então fique na casita, se isso faz todo mundo mais feliz. Me dê um ou dois dias para botar tudo em ordem por lá e,
depois, pode se mudar.
Deu a volta no carro e abriu a porta do passageiro. Flame esperou algum comentário sobre o que acontecera na festa,
alguma indicação do que pretendia dali em diante, mas Marlow não disse nada além de um breve boa-noite.
Voltou a entrar no automóvel e ficou sentado diante do volante, provavelmente esperando que ela entrasse em casa.
Assim que Flame introduziu a chave na porta, ouviu o barulho do motor sendo ligado. Viu o carro descendo pelo caminho
que levava até o portão e compreendeu que pretendia voltar para o lugar de onde tinham vindo. Não era difícil imaginar
que o destino seria o apartamento da amante, na cidade.
Lágrimas de raiva e frustração, e mais alguma coisa que mais tarde descobriu ser ciúme, encheram os olhos verdes. Mas
estava tão cansada que finalmente se despiu, pulou na cama e adormeceu assim que pousou a cabeça sobre o travesseiro,
sem pensar em mais nada.

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Capítulo 6

Quando acordou, na manhã seguinte, demorou alguns instantes para compreender de onde vinha a luz que ofuscava
seus olhos. Era um raio de sol que a atingia bem no meio do rosto. Foi o que a despertou. Por um momento não conseguiu
lembrar-se de onde estava, ainda confusa pelo sono pesado da noite. Mas um momento depois notou que era o sol
espanhol que entrava pelas cortinas, e não os raios fracos da Inglaterra. Levantou-se com a impressão de ter dormido
demais. Aproximou-se da janela e viu os sinais da passagem das crianças pelo terraço, mas não havia ninguém à vista. A
piscina vazia brilhava sob o forte sol de verão.
Retornou para dentro do quarto e procurou pelo relógio de pulso dentro da valise de viagem. Assustou-se ao ver que já
passava das onze horas. Perguntou-se a que horas Marlow teria voltado, se é que voltara.
Talvez tivesse ido direto para o escritório da cidade, depois de tomar o café da manhã com Victória. Irritada, tentou
afastar os pensamentos sobre ele e a amante.
Tomou uma ducha e vestiu uma camiseta leve e um short. Com os cabelos ainda úmidos, dirigiu-se ao quarto da mãe
para desejar bom-dia. No entanto, quando abriu a porta e olhou para dentro, a enfermeira balançou a cabeça em silêncio.
Sybilla ainda dormia, as faces ligeiramente avermelhadas, embora não soubesse dizer se isso seria bom ou mau sinal.
— Não quer tomar um café? — perguntou à senhora.
A enfermeira concordou, levantou-se e dirigiu-se à porta, pegando Flame pelo braço e levando-a até o corredor.
— É melhor descer também. Ela está dormindo e precisa de repouso.
Entraram na cozinha, e Flame sentiu-se momentaneamente feliz, apesar de todos os acontecimentos recentes. Afinal,
aquela ainda era a sua casa.
— Posso fazer alguma coisa para ajudar? — perguntou à enfermeira.
Ela balançou a cabeça.
— Não há muito a fazer. Sua mãe tem tudo o que precisa aqui, o Sr. Hudson já cuida de tudo.
Flame sorriu com amargura. Que bom para o Sr. Hudson! Até os empregados temporários estavam nas mãos dele!
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— Onde está todo mundo? — perguntou, recusando-se a permitir que o mau humor a invadisse numa manhã tão linda.
— A senora está na praia com as crianças.
— Calahonda? — perguntou, referindo-se à praia pública que ficava a dez minutos da villa.
— Não, em Santa Margarita.
Santa Margarita era a praia privada na ponta da região. Era cercada por rochas e colinas, e Flame ficou surpresa por
Samantha ter enfrentado tantas dificuldades com as crianças, quando havia um balneário de acesso muito mais fácil,
próximo da casa, para onde poderiam ter ido caminhando.
— Vou encontrar com eles mais tarde — disse, apertando o botão da cafeteira e derramando o líquido quente em duas
xícaras. A enfermeira conversou por mais cinco minutos, depois retornou para perto de sua paciente.
Flame ficou sozinha, pensando no que fazer. Não havia nada de útil que pudesse realizar por ali, e não voara até a
Espanha com a intenção de tirar férias. Há apenas dois dias, preocupava-se com a organização de um simpósio destinado a
companhias de informática, e agora estava ali, parada, sem nada para fazer. Não sentia a menor vontade de descansar.
Quais seriam os deveres de esposa que esperavam que cumprisse? Além dos óbvios, tentava imaginar os outros. Estaria
Marlow esperando que se ocupasse apenas com os afazeres domésticos? Pelo que dissera a enfermeira, e pelo que vira com
os próprios olhos, nesse caso não teria muito a fazer. Nunca conseguiria fazer um prato na cozinha. Poderia se bronzear
e... o que mais?
Pensar em trabalho fazia com que pensasse em Johnny. Devia telefonar e dizer-lhe que não voltaria tão breve quanto
imaginara. Ele não gostaria muito da notícia, e tinha todo o direito de ficar furioso. Afinal, ele era o chefe. Se pelo menos
sua substituta temporária fosse boa como a agência afirmara...
Serviu-se de outra xícara de café, pensando no momento em que teria de encarar Johnny. Justamente quando dizia a si
mesma que não poderia adiar muito o telefonema, a porta da cozinha se abriu, e Marlow entrou.
Andava com cuidado, sem fazer barulho, e Flame só notou sua presença quando já estava parado a seu lado. Como
soubera que estava ali? Com certeza pela mesma telepatia de sempre, mais viva que nunca, apesar de todos os outros
sentimentos existentes entre os dois.
Parecia mais bonito, usando calça branca e uma camisa da mesma cor. Os cabelos estavam mais escuros, acentuados
pela tonalidade da roupa, e sua expressão tornou-se severa quando os olhos encontraram os dela.
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— Espero que esteja mais descansada — disse, fazendo-a sentir-se culpada por estar sentada no meio da cozinha, ao
meio-dia, tomando café. — Será que poderia me servir uma xícara?
Esperou por alguma resposta grosseira, mas vendo que ela se levantava e dirigia-se à cafeteira, sorriu com um certo ar
de satisfação e surpresa.
— Estava pensando numa maneira de ser útil por aqui, e acabei decidindo fazer um café fresco — disse, tentando
desculpar-se pela inatividade.
— O que vai fazer durante o resto do dia? — Flame encolheu os ombros antes de responder. — O que fazem as esposas
de homens bem-sucedidos? Vou me bronzear, é claro.
— Mas elas não fazem só isso. — Não continuou, mas quase instantaneamente Flame compreendeu o que pretendia
dizer. Ficou vermelha, e o rubor acentuou-se quando ele prosseguiu: — Ainda bem que a carga horária de Rafael é tão
pesada quanto a minha. E, quando ele está de folga, eu também estou. Seria complicado manter um romance secreto
nessas condições, não acha?
— Não estou interessada em nenhuma aventura extraconjugal, Marlow — disse num tom frio. — Além do mais,
ontem foi a primeira vez que o vi. Gosto de conhecer bem um homem antes de... — interrompeu-se, decidindo deixar a
frase no ar.
— É mesmo? Pois pode ter certeza de que não terá oportunidade de conhecê-lo melhor.
Levantou-se e aproximou-se da janela, parecendo contrariado, depois retornou e deixou-se cair em uma das cadeiras
perto da mesa.
— Espero que não esqueça o que eu disse, Flame.
Ela não respondeu, tentando compreender por que fazia questão de mostrar-se ciumento, quando ambos sabiam os
motivos que o levavam a querer continuar com o casamento.
— Conheceu muitos homens em Londres? — ele perguntou com ar de provocação. — Não sei por que, mas nunca
imaginei que fosse do tipo casual, inconseqüente.
— Imaginou que eu fosse mais caseira? — perguntou com um sorriso amargo. Na verdade, conhecera um ou dois
homens na Inglaterra antes de Johnny, mas nunca tivera nada com nenhum deles. Soterrara os próprios sentimentos
durante todos aqueles meses, e o que Marlow a fizera sentir novamente era quase chocante.

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— Acho que teve todas as oportunidades trabalhando com... o que mesmo? — continuou Marlow, disposto a irritá-la.
— Qual é mesmo o nome de sua função em Londres? Relações-públicas? É isso?
— Sabe muito bem que sim. Fiz um curso assim que cheguei em Londres. Certamente não esperava que tivesse esse
tipo de atitude, não é? — E lembrou-se do que ele lhe dissera pouco antes. — Quero que saiba que eu não desconfiava que
a mesada era depositada por você. Pensei que fosse dinheiro da família, e não teria tocado em um centavo se tivesse sido
avisada.
— Eu já imaginava. Deve ter passado um período muito divertido, não? Jamais imaginei que minha esposa pudesse
estar na Inglaterra, ocupando seu tempo com encontros casuais.
Estava sendo sarcástico, mas Flame não pôde mais controlar-se e cedeu à provocação.
— Sabe qual é seu problema, Marlow? Não suporta a idéia de perder o controle sobre qualquer coisa.
— Pense o que quiser, querida — respondeu sorrindo. — Mas juro que se soubesse o que estava fazendo por lá, não
teria mandado um tostão para você.
— Eu não estava fazendo nada do que está insinuando! — gritou. Em seguida deu as costas a ele, furiosa consigo
mesma por ser tão transparente.
— Bem, se está dizendo que não...
— Não acredita em mim, não é?
— Não vejo por que deveria acreditar em uma palavra do que diz, mesmo que grite.
— Não estou gritando!— explodiu, elevando ainda mais o tom de voz. Em seguida controlou-se com esforço e
prosseguiu: — Pobre Marlow! Deve ser horrível desconfiar de todos por acreditar que são capazes de fazer as mesmas
coisas horríveis que faz... Deve ser impossível confiar em alguém, com uma vida como a sua...
— Só procuro não ser bobo — respondeu com um tom duro. — Eu confio, quando tenho provas de que merecem
minha confiança. Se não posso acreditar em todo mundo... bem, é a vida, não é? — O sorriso dele era mais cínico que
nunca. — Ninguém consegue arrancar lágrimas dos meus olhos, nem me comover, só por demonstrar que é humano. Já
percorri uma longa estrada, desde o dia em que percebi que o mundo não era pintado de cor-de-rosa.
— Oh, sua vida deve ser cheia de áreas cinzentas, com certeza!
— Não entendo — ele continuou, ignorando o comentário sarcástico. — Se queria uma carreira, devia ter conversado
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comigo. Nós teríamos discutido o assunto...
Ela o encarou surpresa. Carreira era a última coisa em que pensava, desde o momento em que pusera os olhos sobre
Marlow. Como uma garota de dezenove anos poderia pensar em trabalho, estando absolutamente apaixonada? Só queria
fazê-lo feliz, e ser feliz ao lado dele.
— Talvez esteja certo — disse, tentando esconder a tristeza trazida pelas lembranças. — Se não tivesse partido em
busca de minha carreira, você teria me transformado numa governanta de luxo, com nada para pensar além de como
arranjar as flores no vaso da sala.
— Você, me conhece o suficiente para saber que não gosto de mulheres fúteis.
— Claro. Prefere as profissionais bem-sucedidas, não é? De preferência as secretárias eficientes.
— Eu? Por que diabos está dizendo isso, Flame? Já que sabe tanto, do que mais eu gosto?
— De sexo. Muito sexo. O que, afinal de contas, não é nenhuma novidade. Você é um homem, e todos os homens são
iguais.
— É você quem está dizendo — apontou em tom ameaçador. Flame baixou a cabeça, deixando que o cabelo
escondesse o rosto perturbado pelas emoções. Por que tentava provocá-la o tempo todo? Estaria tentando testá-la? Devia
saber que era tão inexperiente agora quanto era quando partiu para a Inglaterra. Tudo o que sabia fora ensinado por ele.
Encheu outra xícara de café e aproximou-se dele, depositando a bebida quente sobre a mesa. Podia sentir os olhos dele
sobre seu corpo, e quando se virou para evitar o confronto ouviu a risada sarcástica de Marlow.
— Por que tudo isso? Está querendo me impressionar? Você nunca fez o tipo doméstico.
— E que tipo de mulher acha que sou? — perguntou, virando-se agressiva para encará-lo. — Não, não responda. Deixe
que eu adivinhe. Deve pensar que sou do tipo imbecil, não é? A garotinha ingênua e tola que pode ser conduzida e
manipulada, sem perceber que está sendo usada. Sempre acreditou que poderia pôr as mãos em tudo o que queria, apenas
falando coisas doces no meu ouvido. Pensou que eu nunca descobriria, e estava certo. Tenho vergonha de admitir, mas
estava absolutamente certo. Se não tivesse descoberto o quanto seria capaz de me decepcionar... Só então soube realmente
o tipo de pessoa que é, e as razões pelas quais se casou comigo.
— Razões?
Mas Flame não respondeu. O coração estava aos saltos, disparado. Odiava aquele homem. E o amava. Mas queria ficar

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livre dele para poder amar um homem que a respeitasse, um homem em quem pudesse confiar, alguém com quem pensasse
em ter filhos e que fosse capaz de tratá-la com carinho.
— Por que eu, Marlow? — perguntou com os olhos inundados de lágrimas. — Ou melhor, por que não eu? Eu possuía
as chaves de Santa Margarita, não é? A garotinha tola e rica, pronta para ser incorporada ao seu império.
Ele se levantou de repente com violência, jogando a cadeira para trás. Aproximou-se dela e a segurou pela cintura,
puxando-a contra si com força.
— Devia ter pensado nisso antes do casamento. Por que só foi capaz de imaginar esse tipo de coisa depois de tanto
tempo? Que tipo de coisa permitiu que ficasse tão amarga, Flame?
Tentou livrar-se do abraço, mas sentiu que seria impossível. Estava segura por braços fortes, e o corpo dele se grudava
ao dela como se fossem um só. Marlow empurrou-a até perto da mesa, fazendo com que encostasse nela.
— E então? — perguntou. — Não vai responder?
Flame balançou a cabeça com energia.
— Não tenho de responder nada. Não tenho de fazer o que diz. Só vou responder por que eu quero, entendeu?
Fez uma breve pausa, antes de prosseguir com tom furioso.
— Nunca imaginei que alguém pudesse pensar em se casar comigo para pôr as mãos nas terras de Santa Margarita. Era
ingênua demais para considerar essa possibilidade, e o dinheiro dos Montrose era algo que não fazia parte dos meus
pensamentos. Nunca pensei em mim mesma como uma herdeira. A propriedade era apenas o lugar onde eu vivia, um local
adorável construído por meu pai para servir como lar para nossa família. Nunca imaginei que alguém pudesse querer as
terras, pelo menos até o momento em que mamãe tocou no assunto.
— Me lembro quando Sybilla conversou comigo a esse respeito. Pensei que fosse um verdadeiro elefante branco. Já
possuía terras até demais, mas ela foi muito convincente — ele disse e deu um sorriso amargo. — Mas então você
apareceu, como uma princesa. A Princesa de Santa Margarita. Por que fez isso? Nunca me disse. Por que se casou comigo?
A raiva cresceu até atingir o limite do insuportável e a voz de Flame era apenas um sussurro quando ela respondeu.
— Acha que tive escolha? Você decidiu que iria se casar comigo, e todos concordaram com a idéia. O que acha que eu
podia fazer?
Sentiu que o abraço ia afrouxando aos poucos, dedo por dedo, o calor do corpo de Marlow esfriando lentamente, até
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que ele se afastou. A voz era estranhamente trêmula quando falou.
— Cheguei a pensar que estava cometendo um engano. Várias vezes questionei nosso casamento. Nós nos conhecemos
e nos casamos em menos de dois meses... Você era jovem, jovem demais para sua idade, na verdade, mas eu estava
impaciente. Eu sou um homem impaciente! Sempre fui... Sempre soube o que quis, sempre lutei sozinho... E você estava
ali, a jóia da coroa...
Flame pensou que a jóia a que Marlow se referia era Santa Margarita, mas não disse nada. Deixou que ele prosseguisse.
— Todos dizem que o casamento deve ser uma atitude pensada, ponderada... Pois eu tive muito tempo para pensar nos
últimos dezoito meses. Milhões de vezes. Gostaria que pudesse ter a mesma oportunidade que eu tive e... — De repente
concluiu de maneira surpreendente — Desculpe, Flame. Eu não devia ter feito isso.
Jamais vira aquela expressão no rosto de Marlow antes. Vulnerável, insegura, cheia de dor. Mas, antes que pudesse
dizer qualquer coisa, ele já havia voltado ao normal. Era novamente o homem controlado, frio e calculista.
— Não vou permitir que vá embora de novo. Pode me chamar de tolo, de teimoso, do que quiser, mas não posso
permitir. Talvez esteja fazendo uma grande besteira, mas prefiro tentar até o fim. Não posso deixar as coisas como estão,
sem fazer uma última tentativa, E não tenho motivos para desistir... Você me prometeu seis meses, e vou aproveitá-los até
o fim. Mas tem minha palavra que se depois disso ainda quiser partir, não criarei nenhuma dificuldade.
Flame continuou olhando para ele, perguntando-se se tudo não seria uma representação. Marlow, inseguro? Era quase
impossível de se acreditar. Talvez fosse outro truque... Sabia que ele poderia tornar tudo mais difícil, se quisesse. No
entanto, apesar das dúvidas, olhou-o direto nos olhos e concordou.
— Não há necessidade de todo esse discurso — disse — Já combinamos tudo, já disse que eu vou ficar por minha mãe.
Apesar da aparência, Flame ainda temia estar interpretando a atitude dele de forma errada. Não havia nenhum sinal do
selvagem autoritário que conhecera, e linhas de incerteza marcavam a pele em volta dos olhos azuis e profundos. Mesmo
assim...
— Vou tentar não pressioná-la — disse Marlow. — Mas acho que precisamos estabelecer algumas regras básicas.
Flame balançou a cabeça num gesto de concordância.
— Como respeito, por exemplo — prosseguiu ele.
— Concordo.
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— Ótimo. O mínimo que espero de você é discrição, Flame. — Antes que ela pudesse responder ou fazer qualquer
comentário, Marlow continuou. — E prometo que devolverei na mesma moeda. Cuidarei de você e a respeitarei como
minha esposa. Fique do meu lado quando eu precisar de você. Me dê lealdade. Se ajudar, lembre-se de que meu império,
como você mesma o chama, pertence a todos nós. O que é bom para ele, é bom para a família.
— Exceto o fato de você ser o dono dos prédios que são a fonte dos lucros — Flame disse, antes que pudesse se
lembrar das palavras de Samantha. — Oh, honestamente, Marlow! Vai querer me convencer de que sua preocupação com
os Montrose é verdadeira? — Apesar de estar certa do que dizia, procurou alguma confirmação no rosto dele, mas não
encontrou nada. — Sam me garantiu que ela e Emílio estão a par de tudo, que sabem de cada detalhe dos empreendimen-
tos. Espero que seja verdade, porque não gostaria de descobrir que está nos fazendo de idiotas.
Virou-se e caminhou até a janela, exausta pela carga de emoção que o marido era capaz de provocar. Era como se o
peso do oceano desabasse sobre sua cabeça, cada vez que discutiam.
— Marcos é mais amigo de Emílio que meu. Se eu estivesse tentando lesar a família Montrose, com certeza ele já teria
alertado seu cunhado.
— Não sei não — ela duvidou, pensando já no lucro do advogado ao esconder os truques de Marlow Hudson.
Ele ergueu os olhos e, por um momento, Flame teve a impressão de ver uma ponta de dor no fundo do azul profundo.
— Vou até a praia — disse Flame, encerrando o assunto. — Samantha está lá com as crianças, e deve estar me
esperando.
— Eu vou com você. Acho que estou mesmo precisando de um pouco de sol. Hoje pela manhã notei meu rosto muito
pálido.
— Não deve ter dormido o suficiente. — Marlow sorriu, cansado.
— É verdade, dormi muito mal. Não quer ir até a casita e ver seu quarto?
— Mais tarde. O quarto ainda vai estar lá quando eu voltar da praia.
Marlow levantou-se e caminhou em direção à porta, atrás dela.
— Não está pensando em ir à praia vestida desse jeito, não é? Onde está o biquíni?
Flame retrocedeu ao perceber que ele estava se aproximando mais. Marlow já havia brincado com seu autocontrole
durante toda a manhã, e não precisava repetir a cena humilhante da noite passada. Na próxima vez em que a tocasse,
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descobriria que já estava curada de sua fraqueza, como costumava chamar. A firmeza seria sua defesa, e não permitiria que
ele voltasse a se aproximar dela como fizera antes.
Saiu da cozinha, dizendo;
— Estou mais bronzeada do que nunca estive. Não vou conseguir um tom mais escuro, portanto não tenho motivos
para ficar me torturando sob o sol.
E afastou-se, atravessando o terraço e o jardim, torcendo para que ele desistisse de acompanhá-la. Mas Marlow
continuava atrás dela, subindo as colinas e escalando os morros mais inclinados, cumprindo a difícil trilha para a praia
particular.
— Vai quebrar o pescoço, Flame! — gritou, vendo que ela ia mais depressa do que permitia o terreno perigoso.
Mas a advertência só fez com que andasse ainda mais depressa. Só parou quando avistou a irmã e os sobrinhos,
acompanhados pela babá sueca.
As crianças brincavam na beira, da água, e as duas mulheres estavam confortavelmente instaladas em cadeiras de praia,
observando-as. Flame juntou-se a elas, tentando ignorar o fato de Marlow ter se despido e estar usando apenas o calção de
banho.
Flame sentia-se desconfortável com o short e a camiseta, pois o calor era quase insuportável. Teria tirado a roupa e
dado um mergulho, se Marlow não estivesse ali. Desejou ardentemente que ele se fosse.
Uma hora depois, ficar sob o sol tornava-se uma verdadeira tortura. Marlow continuava no mesmo lugar, bronzeando
o corpo musculoso. Flame tentava distrair a atenção com outras coisas, mas não podia evitar de olhar para as costas
largas, as pernas bem-feitas e os cabelos negros.
Ele deve ter percebido que era observado, pois virou-se para ela e perguntou com tom casual:
— Sente-se menos cansada?
O tom sugestivo das palavras fizeram com que um arrepio percorresse seu corpo.
Virou a cabeça, irritada consigo mesma, e não respondeu.
— O que me diz disso? — insistiu ele.
— Isso o quê? — perguntou alarmada. Samantha ouvia um walkman e não prestava a menor atenção à conversa, e Britt
olhava as crianças de longe, aparentemente desinteressada do assunto dos patrões.
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— Um mergulho.
— Por que não está trabalhando?
— Porque hoje é meu dia de folga.
— Ora, é surpreendente saber que alguma coisa funciona sem que esteja por perto — comentou com ironia.
— Eu sempre carrego um telefone sem fio — respondeu, apontando para o aparelho portátil no bolso da calça branca,
pendurada no encosto da cadeira de praia. — Além do mais, Victória está lá.
— Tenho certeza de que está.
Marlow encarou-a pensativo e falou:
— Parece que a presença dela a aborrece, não? Pois saiba que ela conhece muito bem o seu lugar.
Então, tentando evitar mais uma discussão desgastante, ele se levantou e disse:
— Venha, vamos para a água.
— Mas eu não quero...
— Vamos — insistiu, puxando-a pela mão.
— Mas eu não trouxe o maio...
— Para que precisa disso numa praia particular? Está com seu marido e sua irmã, Flame. Qual é o problema?
— Se está pensando que vou me despir na sua frente, Marlow Hudson...
— Já vi você nua antes, esqueceu? — Então, vendo a expressão séria de Flame, deu uma gargalhada e continuou: —
Está bem, conserve seus pudores se acha que deve.
E antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele a ergueu nos braços e começou a correr na direção da água.
Furiosa, Flame sentiu a primeira onda bater em suas costas, antes de ser jogada no mar como um fardo.
— Você é um demônio! — gritou.
Uma mistura de lágrimas e água salgada inundava seus olhos. Não podia evitar a recordação, dos tempos felizes de
casamento, quando essa era a brincadeira favorita de Marlow.
Parecia feliz e satisfeito, nadando tranqüilo a largas braçadas. O corpo musculoso vencendo a força da água fez com

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que Flame ficasse parada, admirando a beleza do quadro.
Os cabelos negros, mais brilhantes por estarem molhados, aderiam à cabeça, acentuando a beleza dos traços do rosto, e
o corpo coberto por óleo de bronzear aparecia e desaparecia entre as ondas, criando uma imagem encantadora.
Nos velhos tempos, teria nadado atrás dele, jogando água em sua face, empurrando-o para o fundo, num jogo de
sedução quase infantil. Já acontecera antes. Costumavam brincar como duas crianças, felizes e despreocupadas, e quando
faziam amor sempre existia uma deliciosa mistura de inocência e pecado. Agora estava muito amargurada para poder
acreditar que tudo voltaria a ser como antes.
Virou-se de costas para ele, tirando a camiseta por cima da cabeça e livrando-se do short ensopado. Jogou a roupa na
areia, pensando que estar com ela ou estar nua seria a mesma coisa. Afinal, Marlow já tinha Victória. Por que haveria de
olhar para ela? Todas as provocações e aproximações tinham um único objetivo: deixar claro que nunca poderia dizer não
a ele. Talvez isso servisse para alimentar seu egoísmo e sua vaidade.
Absolutamente nua, cortou as ondas como uma sereia, os cabelos longos criando um efeito místico e encantador.
Nadou na direção oposta à de Marlow, sentindo a água morna na pele nua e notando que o contato com a natureza trazia
de volta a sensualidade aguçada desde que chegara, dois dias antes.
Continuou nadando, tentando manter-se o mais afastada dele que pudesse, satisfeita por sentir o sol e a água do mar
sobre a pele. O céu era de um azul profundo, e ela boiou de costas batendo os pés para continuar movimentando-se. De
repente, uma cabeça negra rompeu a superfície tranqüila ao lado dela.
Era Marlow. Nadou até aproximar-se mais e mergulhou exatamente sob seu corpo, os braços enlaçando-a pela cintura,
puxando-a contra si até que os corpos se tocassem. Incapaz de impedir a proximidade, notou que ele pegava seus braços e
os colocava em torno do próprio pescoço. Marlow pôs a cabeça para fora da água e respirou, antes que uma onda
encobrisse os dois.
— Marlow! — ela protestou, agitando os braços para tentar manter o equilíbrio e enfrentar as ondas. — Marlow... —
mas seus lábios foram encobertos pelos dele, enquanto as ondas seguiam-se quase sem intervalo.
Quando se separaram, estavam sem fôlego, e Flame compreendeu que a falta de ar não era devido apenas ao esforço de
vencer a correnteza.
Antes que pudesse livrar-se do abraço, outra onda, mais forte que as anteriores, os empurrou para a praia. Assim que
puderam ficar em pé, Marlow estava com as duas mãos apoiadas em seu rosto, uma de cada lado. Flame curvou o corpo
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para trás e deitou-se na areia quente, fechando os olhos ao sentir o peso do corpo dele sobre o seu.
Tentou afastar-se, mas ele era muito mais forte e poderoso. Abriu os olhos ao notar que a cabeça negra bloqueava os
raios do sol, e não pôde evitar o beijo apaixonado e ansioso que veio em seguida.
Os movimentos eram lentos, quase relutantes, mas o demônio do desejo parecia estar acordando nos dois, ao mesmo
tempo, e embora Flame procurasse convencer-se de que estava lutando contra a aproximação, sentia-se cada vez mais
cativa da necessidade de satisfazer os impulsos.
— Podem nos ver... — disse, quando ele afastou os lábios dos dela para beijar seus seios nus.
— É só esse o problema?
— É claro que não!
— Não? Que pena... — disse, esboçando um sorriso malicioso. — Se fosse o único empecilho, estaríamos livres, pois
eles já foram embora há cinco minutos.
— O quê? — ela perguntou, tentando levantar-se para olhar para a praia toda.
Apesar do calor e da fome que a invadiam, ouviu a própria voz repetindo:
— Não, Marlow... por favor, não...
Mas ele impediu o protesto com novos beijos, cada vez mais ardentes. Quando estavam quase atingindo o ponto de
onde não haveria mais retorno, Flame notou que ele interrompia as carícias.
— Daqui para a frente, você só poderia ser salva por um helicóptero voando acima de nós.
— Uma coisa dessas seria capaz de fazê-lo parar?
— Só você seria capaz disso. Não quero forçá-la a nada... Deitou-se ao lado dela e a abraçou, antes de prosseguir:
— Disse que queria você de corpo e alma, e se não for assim não me interessa.
Aliviada, Flame notou que a raiva tornava-se cada vez menos intensa. Permitiu que Marlow continuasse abraçando-a,
sorrindo ao pensar que ele ignorava o quanto o queria.
Ficaram, na areia, juntos, até que o som de uma sirene, no alto da colina, anunciou a hora do almoço.
Marlow ajudou-a a levantar-se e esperou que se vestisse. Depois voltaram para casa em silêncio, enquanto Flame
imaginava os motivos pelos quais ele estaria tão contrariado, como indicava sua expressão. Quase não conhecia o homem
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com quem se casara. Seu passado era uma incógnita, pois não houvera tempo para que pudessem trocar confidencias. A
paixão súbita e fulminante ocupara todo o tempo em que viveram juntos.
Caminhava atrás dele, quieta, tentando desesperadamente recobrar o controle sobre as próprias emoções e sensações,
sobre o desejo intenso e crescente que Marlow voltara a lhe despertar e que não parecia disposto a satisfazer.

Capítulo 7

Depois do almoço, quando Samantha e Emílio foram para o quarto e a babá levou as crianças para a sesta, Marlow
insistiu para que Flame fosse até a casita, a fim de ver o quarto.
— Agora, não. Mal vi mamãe hoje, e estava pensando em ir conversar com ela.
— Então vou subir com você. Depois poderemos ir até a casita.
— E a sua sesta? — perguntou, tentando evitar que ficassem sozinhos.
— Desde quando preciso dormir à tarde?
— Pensei que quisesse descansar, depois da noite agitada.
Marlow não respondeu. Subiram, e ele segurou a porta do quarto de Sybilla para que Flame entrasse na frente. A
doente estava sentada e parecia mais bem-disposta.
— Você é o meu melhor remédio, Flame — disse. — Não concorda comigo, Marlow? Estou melhorando depressa,
desde que minha filha chegou.
Sybilla pegou as mãos dos dois, sentados em lados opostos da cama. Marlow tratou de pegar a outra mão de Flame,
como um marido perfeito e carinhoso.
— Sei que vão resolver tudo isso da melhor forma possível — indicou a matriarca. — Esqueçam o passado. O presente
é mais importante, meus filhos.
Ficaram ali por vinte minutos, comportando-se como o casal perfeito, e vendo a felicidade no rosto de mãe Flame

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sentiu que tomara a melhor decisão. Marlow indicou que ele e a esposa precisavam resolver o problema da mobília, e
Sybilla sorriu.
— Podem ir — disse. — Ainda é cedo para que eu dispense muito tempo em conversas prolongadas. Depois voltem
aqui e me contem tudo. Já estão pensando em um segundo quarto?
— Segundo quarto? — perguntou Flame ao marido, assim que deixaram a doente. — Será que ela imagina como estão
as coisas entre nós?
— Se eu conheço bem sua mãe, o segundo quarto a que se referiu não é para nenhum de nós dois. Acho que quer
encher o aposento de bichinhos de pelúcia.
— Nós? Um filho? — perguntou, perplexa.
— E por que não? Nunca pensou em ter uma família?
— Não me admiro por mamãe pensar em novos netos, com você se comportando como o marido ideal — provocou,
enquanto andavam pelo jardim. — Pobre mamãe — continuou. — Estou me sentindo culpada por alimentar suas
esperanças, sabe?
— Acha que ela está sendo enganada? Ou será que está apenas alimentando esperanças que podem ser correspondidas?
Sua mãe não é nenhuma tola, Flame.
— Por que estaria tão satisfeita, se não acreditasse que estamos realmente apaixonados?
— Porque tem esperanças, querida. Além do mais, está se recuperando de uma doença séria, e tem todo o direito de ter
todas as esperanças que quiser.
— Já que tocou no assunto, eu devia ter sido avisada sobre a doença há mais tempo. Como podem ter pensado em
esconder isso de mim?
— Já disse que não queria preocupá-la. Além do mais, tive receio de que sua chegada pudesse fazê-la pensar o pior. E...
bem, fiquei com medo de que você não se comportasse da maneira mais adequada. Seria péssimo para sua mãe.
— Não sou nenhuma criança, Marlow!
— Mas era quando foi embora. E experiência sexual não tem nada a ver com maturidade. Portanto, ainda é uma
criança.
— Que direito acha que tem de...
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Mas ele a enlaçou pela cintura e perguntou, direto.
— Acha que sou muito velho para você?
— Velho? — perguntou, pega de surpresa.
— Sim, Flame. Acho que não teve as coisas que todo jovem gosta, como discotecas e festas malucas, e aqui estou eu,
esperando que converse comigo sobre mobília e casa. Você tem apenas vinte anos!
— Nunca me preocupei com esse tipo de coisas. As discotecas são divertidas, mas nunca foram o centro de minha
existência.
— E qual é o centro? Seu trabalho? Está ressentida comigo por ter afastado você de seu emprego, é isso?
— Não, o trabalho é importante, mas não é o fator principal.
Virou-se, incapaz de conter as lágrimas, e começou a correr em direção a casa. Quando Marlow voltou a se aproximar,
Flame já havia se controlado e descansava em uma das espreguiçadeiras.
— Parece uma deusa do sol — comentou, sentando-se ao lado dela. — Podemos deixar o problema da mobília para
depois, está bem?
— O que vai fazer hoje à tarde, Marlow?
— Devo entender que está querendo me ver longe? — Vendo que ela não respondia, levantou-se e falou. — Vou até lá
dentro preparar um drinque.
Vendo-o afastar-se, Flame voltou a pensar na pergunta que lhe fizera. Se ele soubesse qual era o centro de sua vida, a
humilhação seria completa. Finalmente ganharia o ponto final, e descobriria que conseguira muito mais que o cabo de
Santa Margarita.
Sentiu a mão que segurava seu queixo e puxava seu rosto para cima, e fechou os olhos para esconder as emoções. Como
podia não perceber o quanto o amava? E como era capaz de não amá-la da mesma maneira? Por que tinha de ser assim?
Como se pudesse ler seus pensamentos, Marlow disse.
— Não temos razões para tanta agressão. Quero que você seja feliz, Flame.
— Feliz?
Como podia ser feliz quando sabia que Marlow se casara com ela só para ter as terras, amando outra mulher? A
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suavidade de agora era pior que a indiferença, pois gerava esperanças que sabia serem falsas.
Talvez estivesse tentando dizer que o aborrecia, e que Victória era mais madura e mais interessante. Levou as mãos ao
rosto, sentindo-se infeliz. Era fácil tentar odiá-lo quando exercia o papel do homem duro e frio, mas quando se tornava
doce e suave, como agora, tudo ficava muito mais difícil.
Marlow era esperto demais para ela. Sabia como controlar uma mulher, como fazer para obrigá-la a ceder a todos os
seus caprichos.
Tentando conter as lágrimas, Flame pegou o copo que ele trouxera e observou, desviando o assunto e amenizando o
próprio sofrimento.
— Parece o trabalho de um perfeito barman.
— Eu já fui um barman — ele respondeu, sentando-se ao lado dela novamente. — Sabia que comecei a trabalhar aos
dezessete anos?
Flame lembrou-se das palavras de Samantha, mas não respondeu, permitindo que ele continuasse.
— Barman foi um de meus empregos. Sabe pouco sobre mim, não é? Quando eu tinha a sua idade já havia feito uma
montanha de coisas. Às vezes me esqueço que teve uma vida muito diferente da minha... Poderia contar um monte de
histórias sobre mim, histórias de um tempo ruim... Nunca tivemos tempo para isso antes, não? Apenas sentar e conversar.
— Nosso namoro durou só seis semanas. Além disso, você sempre foi muito ocupado. Quase não teve tempo para a
lua-de-mel, lembra-se?
— É assim que você se sente com relação a mim? Fica ressentida pela minha falta de dedicação, Flame?
— Eu... bem, agora não tenho mais expectativas. Além do mais, nunca fui casada antes, nunca tive muita experiência e
nunca pensei muito no assunto. Aconteceu, só isso. Não sei se fico ressentida ou não, se senti falta de dedicação...
— Devia ter dispensado mais tempo à minha jovem esposa.
— Marlow — disse, virando-se para encará-lo. — Não está representando, está? — fez uma pausa, hesitante, e
continuou: — Disse que ficaria seis meses, mas o mínimo que espero é que seja honesto comigo. Sei por que se casou
comigo, não precisa ficar representando o papelão arrependido. Embora esteja gostando de ser tratada como uma pessoa,
com consideração, preferia que parasse de pensar que sou uma idiota. Sei que não se importa comigo, pelo menos do jeito
que está tentando mostrar. Felizmente... isso não faz muita diferença agora.
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Fez uma pausa, esperando alguma resposta, mas o silêncio de Marlow encorajou-a a continuar:
— O que me irrita é que parece pensar que sou tola o suficiente para acreditar em todas essas palavras doces. Não é
necessário, Marlow. Já entramos num acordo, não precisamos mais fingir...
Marlow ficou em silêncio por tanto tempo que ela se perguntou se teria entendido o que dissera. A expressão do rosto
dele era carregada, como se não gostasse do que acabara de ouvir.
— É assim que prefere? — disse finalmente. — Sexo sem amor, é isso? Tem certeza?
Flame não respondeu, surpresa com o comentário.
— Tudo bem — disse ele. — Tire a roupa.
— O quê?
Antes que pudesse evitar, ele já a estava desnudando. Sentiu a carícia das mãos dele e tentou afastar-se, mas o desejo
era mais forte que tudo. Fechou os olhos e bebeu o prazer com avidez. Tentou protestar quando ele a ergueu nos braços,
levando-a para dentro, mas a voz fraca sequer foi ouvida.
Quando voltou a abrir os olhos, estavam na cama dele. Marlow sorria de forma selvagem, quando a pegou pelos cabelos
e obrigou-a a permanecer deitada.
— É assim que prefere, querida? Por que não disse antes?
Nesse instante o telefone tocou, ao lado da cama. Ele parecia disposto a ignorar o chamado, mas depois do terceiro
toque estendeu a mão, irritado, e atendeu. Flame pensou em aproveitar a oportunidade e fugir, mas ele segurou uma
mecha de seus cabelos com mais força e impediu qualquer movimento.
— Alô — ouviu-o dizer. — Oh, Victória, é você?
Só podia ouvir o que ele dizia, mas imaginava as palavras da secretária do outro lado da linha. Depois de uma série de
sins e nãos, concluiu:
— Quer que eu vá até aí?
A resposta deve ter sido afirmativa, pois ele desligou e comentou:
— Vamos ter uma pequena interrupção, querida... mas não pense que não voltaremos ao assunto.
Levantou-se, deixando Flame no mesmo lugar, incapaz de fazer qualquer coisa após os últimos acontecimentos.
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Depois de alguns minutos ela também se levantou, pegou as roupas e vestiu-se.
Marlow já estava pronto para sair quando ela passou pela porta e chegou ao jardim. Queria sumir dali e nunca mais
voltar a vê-lo, mas alguma coisa obrigou-a a parar no meio do caminho. Ficou ali, imóvel, e quando Marlow saiu
encontrou-a no mesmo lugar.
— Tenho de ir à cidade — disse.
Ela não respondeu, tentando parecer desinteressada.
— Flame? — insistiu.
— Já ouvi — respondeu sem encará-lo, dirigindo-se ao terraço.
— Flame, eu tenho de ir. É necessário.
— Por mim, pode ir até para o inferno.
— Desista. Vou até a cidade e, quando voltar, você vai estar aqui esperando por mim — sorriu e concluiu — Nos
vemos daqui a pouco.
— Sem dúvida — ela respondeu, com ar de quem não se importava.
Com expressão contrariada e impaciente, Marlow subiu os degraus e aproximou-se dela, segurando-a com força e
retomando as carícias ardentes e tão conhecidas. Beijou-a com paixão e afastou-se em seguida.
— Agora preciso ir — disse. — Victória deve estar impaciente...
Quando teve certeza de que ele já se afastara da propriedade, Flame permitiu que as lágrimas rolassem livres,
lembrando-se da ansiedade com que o marido correra para os braços da amante.

Capítulo 8

Quando Flame foi se vestir para o jantar, Marlow ainda não retornara. Sabia que ele esperava que levasse suas coisas
para a casita, mas a idéia de passar a noite ao lado dele faz com que hesitasse. Evitava pensar sobre o que teria acontecido,
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se não tivesse recebido o chamado urgente.
Samantha entrou no quarto, perguntando se precisava de ajuda com a mudança.
— Não, Sam. Estou pensando em esperar mais um pouco. Já que Marlow passa a maior parte do tempo na cidade,
prefiro ficar aqui com vocês.
— Com o tempo irá se acostumar — Samantha disse, com um sorriso compreensivo. Flame explicou por que o marido
não estava presente, e a mais velha concluiu — Então jantaremos em uma hora. Normalmente ele toma as refeições
conosco, mas se está na cidade é melhor não esperarmos.
— Ele sempre almoça e janta por aqui? Bastante conveniente, não acha?
— Precisa entender uma coisa, Flame. Ele é mais que generoso com os problemas domésticos. Temos de ser gratos, no
mínimo, pelo que tem feito por mamãe.
— Ela não precisa de nenhuma ajuda financeira. Estou cansada de ouvir todos elogiando a bondade de Marlow! Parece
caridade e, pelo que sei, nenhum de nós precisa disso.
— Está se tornando cada vez mais amarga. O ar de Londres parece ter feito mal a você, querida.
— Não foi o ar de Londres. Foi Marlow, e está farta de saber. Ele me fez crescer.
— Talvez consiga superar tudo isso em pouco tempo. — Samantha aproximou-se da cama, perguntando: — Vai usar
esse vestido esta noite?
— Não, estava apenas guardando.
Samantha alisou o tecido cor creme e sugeriu.
— Devia usá-lo, querida. É lindo. Também vou escolher uma roupa bonita e tornaremos esta noite uma ocasião muito
especial. Afinal, ainda não comemoramos sua volta para casa.
— Está bem — respondeu Flame, tentando sorrir. — Vou me vestir e descerei em seguida.
Já pronta para o jantar, notou que parecia mais velha com aquele vestido, mais segura, mas recusou-se a pensar nas
conseqüências de uma aparência tão bem cuidada.
Vinte minutos depois, Flame surgiu no terraço. Emílio fora convencido pela esposa a usar um terno, mas, apesar do
traje, tratava de manejar a churrasqueira. Ao lado dele, uma figura alta e bem vestida chamou sua atenção. Rafael!

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Ao vê-la dirigiu-se a ela com a mão estendida.
— Está maravilhosa, Flame. Espero que tenha me desculpado pela noite da festa. Samantha me censurou pela falta de
tato.
— Sabe como são essas coisas, não é? Acabei de chegar...
— E a relação ainda está problemática, não? — Sorriu.
— Tenho certeza de que resolveremos nossos problemas — ela afirmou, irritada com o convidado, que parecia saber
tudo sobre ela e o marido.
— É claro. — Aproveitando a entrada de Emílio na casa, aproximou-se e explicou— Espero que minha presença não
cause problemas, mas eu fui convidado para o jantar. Uma ocasião especial, não?
Flame abriu a boca para responder, mas desistiu e simplesmente sorriu.
— Não se preocupe. Quer uma bebida? — perguntou, à procura de um pretexto para entrar.
Rafael aceitou, e Flame encontrou a irmã na sala de visitas, preparando um gim-tônica.
— Marlow vai ficar muito feliz com isso! O que deu em Emílio? Por que convidou Rafael, Sam?
— Ele não fez por mal. Fiquei sabendo agora, e pensei em telefonar e convidar mais alguns amigos para tornar a
atmosfera menos íntima. Vou fazer isso agora mesmo.
Quando saiu, Rafael ajudava o amigo perto da churrasqueira. Aproximou-se de Flame e pegou o copo que ela levara
para fora, a pedido da irmã.
— À sua saúde, Flame — brindou. — Seja bem-vinda em casa.
— À sua saúde também.
Sentia-se incomodada pela intimidade que Rafael parecia forçar, demonstrando tanto interesse.
Ele estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelos de sua face, dizendo:
— Compreendo como são essas coisas. De qualquer forma, pode contar comigo quando precisar. É bom ter amigos.
Devia saber tudo sobre Marlow e Victória. Queria que confiasse nele, mas Flame estava disposta a não permitir que o
galanteio fosse mais longe, e deixou muito claro com o olhar frio que dispensou ao convidado.
De repente, sentiu um calafrio percorrendo sua espinha. Havia visto uma figura silenciosa em uma das janelas. Marlow!
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Começou a tremer, sentindo-se culpada. Mas... culpada de quê? Ficou furiosa ao ler a mensagem de condenação nos olhos
azuis e duros...
— Então vamos ter uma festa. Que ótimo!
Aproximou-se da esposa e beijou-a no rosto, demonstrando possessividade. Em seguida falou para o convidado:
— Não acabei de vê-lo na cidade? — Rafael parecia confuso. — Pensei tê-lo visto passar por mim de carro, há poucos
minutos — insistiu.
— É verdade. Desculpe, mas estava apressado e não pude parar. Pensou que eu fosse ficar fora mais tempo, não?
Marlow sorria, apesar de estar furioso. Evidentemente, Rafael dirigia-se para lá a fim de cortejar Flame, enquanto o
marido tolo estivesse na cidade. Estava parado entre a esposa e o convidado, excluindo-a da conversa.
Furiosa, Flame tentou entender por que o marido insistia nas cenas de ciúme. Não queria sua liberdade? Então por que
a impedia de ter a mesma coisa? Era quase patético! Especialmente quando acabava de chegar dos braços da amante.
— Vou deixar vocês dois a sós — disse ela, disposta a se afastar da cena irritante.
— Honestamente, Sam — disse, assim que encontrou a irmã. — Aqueles dois estão me tratando como um pedaço de
carne à venda em um açougue barato.
— Está sendo exagerada, Flame!
— Eles é que estão exagerando!
Samantha ainda estava ocupada com o telefone, mas ainda teve tempo de comentar.
— Não está gostando de ver seu poder de atração funcionando? Rafael é um homem adorável, o tipo que faz com que
os maridos se preocupem. Embora você não precise desse tipo de ajuda.
— Estou cansada disso tudo, Sam. Por que não pode ser mais simples? — E parou de falar, percebendo que admitia sua
preocupação com o marido.
Mais tarde, quando o último dos convidados foi embora, já mudara de idéia. Fora uma reunião agradável, e a única
nuvem no horizonte fora... Marlow.
Observara-a durante a noite toda, como um animal espreitando a vítima. Os olhos de Rafael também a seguiram
durante todo o tempo, apesar de ter se portado de maneira exemplar.

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Estava sozinha no terraço, pensativa, quando Marlow se aproximou.
— Nota dez pelo comportamento — disse ele, passando o braço em torno de sua cintura, puxando-a com violência
contra si. — Estive esperando por isso desde que fomos interrompidos, hoje à tarde. — E beijou-a, antes que ela pudesse
responder. — Está com frio?— perguntou, vendo que estava trêmula.
Mas não era a temperatura que a fazia tremer, e sim a expectativa do que aconteceria nas próximas horas. As longas
horas da noite...
— Vamos ficar aqui mais um pouco — disse Marlow, beijando-a no pescoço.
Depois, aparentemente pensando melhor, puxou-a para os degraus que conduziam à parte superior. Longe das luzes
da casa, era como se o tempo tivesse parado, e o mundo fosse apenas deles.
— Há uma lenda que diz que as estrelas são um jogo dos deuses. Cada uma delas encerra uma chance, uma
oportunidade, e descreve um destino. Há uma delas para você, outra para mim...
Flame temia por seu destino inevitável, sentindo os dedos dele deslizarem por sua cintura, sobre o tecido do vestido.
Marlow levou-a até o parapeito e abraçou-a, frente a frente.
— Está linda com esse vestido, Flame. Não sei como pude me manter longe de você a noite toda. Está me deixando
louco, sabe?
Flame tentava controlar a onda de desejo que a invadia, mas era impossível. Sabia que as palavras doces eram mais um
truque do homem experiente, mas a necessidade de sentir o toque de suas mãos crescia a cada instante.
— Já é muito tarde... — disse, tentando evitar o que estava prestes a acontecer.
— Foi horrível ter de sair daquela forma, à tarde, mas as coisas estavam ficando fora de controle. Disse algo que não
queria dizer, e felizmente recebi aquele chamado. Isso me deu oportunidade para esfriar a cabeça. Espero que tenha
pensado sobre o assunto, Flame.
— Não tem importância. Os negócios sempre são mais importantes — disse com amargura, virando o rosto para não
ter de encará-lo.
— Foi um chamado urgente, realmente. Foi melhor assim, Flame. Eu estava perdendo o controle sobre mim.
Flame tentou afastar-se, pensando em Victória nos braços de Marlow, suspirando de prazer, mas a voz dele era tão
doce e convincente que interrompeu o movimento. Talvez fosse mesmo trabalho, algo urgente... Afinal, Marlow possuía
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empreendimentos colossais.
Mas não fora a primeira vez que acontecera, e ainda havia o fato de saber que ele mentia todo o tempo.
Quando voltou a encará-lo, ficou surpresa ao notar um tique nervoso ao lado da boca. Antes que pudesse imaginar que
tipo de emoção causava o movimento, ouviu-o dizer:
— Por que não tenta me conhecer, Flame? Tente aprender como eu sou...
— Como?
— De todas as formas possíveis.
O calor que emanava do corpo musculoso, aquecendo-a, não permitia que fizesse qualquer tipo de jogo. Por isso, foi
sincera.
— Gostaria muito de conhecê-lo de verdade, Marlow. Nunca tivemos tempo para isso. Nunca me falou sobre você,
sobre o passado... e sei que deve ter um — concluiu com um sorriso triste.
A tentativa de normalizar a situação, antes que fossem levados para um ponto sem retorno, funcionou.
— Não acha que poderia ter ficado chocada com as minhas revelações?
— Por que está falando no passado?
— Porque não pretendo cometer o mesmo erro pela segunda vez.
— Erro?
— Sim, o erro de pensar que preciso de alguém.
— Mas isso é terrível! Deve se sentir muito sozinho...
— Sozinho? — perguntou, sorrindo. — Pois quando o navio afunda, só tenho de pensar em mim mesmo. Você sempre
teve uma família adorável, nunca conheceu nada diferente disso... De qualquer forma — fez uma pausa, hesitante — não
estou disposto a falar do passado. — Isso não tem importância.
— E o que tem importância? Sucesso? É só isso que interessa?
— Exatamente. Sucesso, ter tudo que eu quero... Ter você.
— Para que serve o sucesso, se não há ninguém com quem dividi-lo?
Quando a única resposta foi um abrupto suspiro de aborrecimento, Flame esforçou-se para tentar retomar a conversa
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íntima que nunca haviam tido.
— Não sei por que pensa que eu poderia ficar chocada com alguma de suas revelações. Como você mesmo afirmou o
passado não importa.
— Gostaria de me ouvir falando sobre uma antiga namorada, por exemplo?
— Talvez não gostasse de saber tudo — respondeu com um sorriso sem graça —, mas acho que não devíamos ter
segredos um para o outro. Afinal, se pretendemos viver juntos durante seis meses...
Para seu alívio, ele se afastou cruzando os braços atrás da cabeça e respirando fundo.
— Acho que está certa. Nunca conversamos muito. Ainda há tanto a dizer... — Seus olhos pareciam cheios de emoção,
mas no instante seguinte ele voltou a se aproximar e disse: — O passado está muito distante. Não há nada em minha vida
atual que possa lembrá-lo, e agradeço a Deus por ser assim.
— Não pode ter sido tão ruim.
— Não, não foi. Existiram alguns momentos de alegria, prazer e até algumas vitórias. Não sou do tipo que passa a vida
toda carregando um coração cheio de ressentimentos.
Afastou-se novamente e olhou para as estrelas. Em seguida, admitiu com um sorriso:
— A primeira garota que beijei chamava-se Holly Cinnamon. Eu tinha catorze anos e ela, dezesseis. Decidiu que
gostava de mim e isso foi tudo. E a primeira garota por quem me apaixonei chamava-se Helen Jones. Nós dois tínhamos
dezessete anos. Quando saí de casa, tive de deixá-la, e parti achando que essa era a maior perda. Mas já havia decidido que
não podia ficar.
— Por que saiu de casa?
— Na verdade estava fugindo da escola. Eles haviam decidido me mandar para um colégio interno, e eu peguei o
primeiro trem que vi e fui parar no porto. Embarquei num navio mercante, disposto a trabalhar, e fui parar no Rio de
Janeiro, vários meses depois. Nessa época, Helen Jones e todas as outras pessoas não passavam de uma recordação
distante. Esqueci tudo, exceto as regras do jogo que tive de aprender sozinho.
Deu um suspiro profundo, antes de prosseguir:
— Eram regras duras, sabe? Mas eu aprendi depressa. Meu Deus! Eu realmente tive sorte, muita sorte. Lutei e venci. Eu
sobrevivi. E decidi que nunca permitiria que meu filho tivesse uma experiência como a que tive.
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Encarou-a e pegou uma de suas mãos entre as suas.
— Eu tive... — hesitou, antes de continuar. — Bem, você perguntou. Eu tive várias mulheres. Uma garota em cada
porto, como dizem. Sempre havia alguém por perto, disposto a oferecer uma cama e um prato de comida para um garoto
simpático, em troca de um pouco de carinho e atenção. Hoje estou muito mudado, mas naquela época vivia cada dia como
se fosse o último.
— Por que parou de viajar, se gostava tanto?
— Porque acabei pegando aversão aos marujos bêbados que encontrava em todos os portos. E porque... bem, foi a
época em que minha mãe morreu.
O silêncio tornou-se pesado, a ponto de Flame pensar que ele não continuaria, mas após alguns minutos voltou a ouvir
a voz do marido.
— Depois de muito tempo fiquei sabendo que ela perguntava por mim até o último instante. E eu não voltara a
tempo... Meu passado de aventuras terminou nessa época. Foi então que decidi deixar alguma coisa neste mundo, fazer
história... Deixar a minha marca.
— E conseguiu.
— É... consegui. Esta região não passava de um pedaço de terra deserta, quando eu cheguei. Agora é uma comunidade
progressista. Eu trouxe as pessoas para cá, eu construí a clínica, a escola, a biblioteca... Fiz tudo o que vê na cidade.
Apesar das palavras, não parecia satisfeito.
— Fico me perguntando se é justo termos tudo isso — sussurrou, como se falasse consigo mesmo. — No fundo, sou o
que sou graças à minha mãe. Sempre vivemos na pobreza, mas não o tipo de miséria que vi em várias partes do mundo.
Apenas não possuíamos luxo, e tínhamos de lutar com dificuldade. Eu resolvi deixar a escola e conseguir um emprego na
primeira oportunidade. Então ela se casou. No início fiquei satisfeito, porque ela estava feliz. Mas depois as coisas
mudaram... Não que o marido não fosse bom para ela, mas eu o incomodava, fazia com que se sentisse velho... A família
com que sonhava por tanto tempo, quando via irmãos e irmãs juntos, tornou-se apenas um sonho distante. Ele não me
queria por perto, e eu me afastei.
Os olhos pareciam mais brilhantes, talvez pelo efeito das lágrimas, mas Marlow recuperou-se em seguida e concluiu:
— É a vida... Agora tenho tudo o que sempre quis, tudo o que queria dar à minha mãe, mas aquele sonho, aquela família

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que imaginei que um dia teria... essa escapou de mim.
— Mas você tem a nós, Marlow. Está aqui, conosco... — Ele sorriu com amargura, antes de responder.
— Eu também pensava assim, porque acreditava ter encontrado a garota certa. E pensava... pensava em ter meus filhos.
Acho que tinha uma noção muito romântica de uma família, porque nunca tive a minha. Cheguei a acreditar que
finalmente a teria. Ilusão, não?
A confissão conquistara a simpatia de Flame, que se sentia mais próxima do marido. No entanto, ao mesmo tempo, a
química tão conhecida dos dois voltou a funcionar. Marlow abraçou-a novamente, e ela sentiu o fogo que a queimava por
dentro, insaciável.
Sentiu os lábios dele sobre seu pescoço, depois sobre a boca, coberta por uma tempestade de beijos ardentes e
desesperados.
— Eu quero você, Flame. E sei que também me quer... Por que precisa esconder?
Sem dar tempo para que respondesse, iniciou uma seqüência de carícias que se tornavam mais íntimas a cada minuto.
Apesar de o cérebro ordenar que resistisse, o corpo de Flame estava absolutamente entregue e sem defesas.
Desistiu da relutância, pois os suspiros e gemidos evidenciavam as emoções reais que se apossavam de todo seu ser.
Era inútil ocultar.
— Vamos, Flame — ouviu a voz dele. — Você não precisa lutar. Você me quer. Deixe que eu mostre o quanto podemos
ser bons um para o outro.
Nesse momento notou que ele começava a levantar sua saia, centímetro por centímetro, suspirando e demonstrando o
desejo crescente e incontrolável. Sentiu que as mãos firmes e quentes tocavam sua pele, arrancando gemidos de prazer que
era incapaz de conter. Queria que ele a tomasse, que satisfizesse a necessidade que despertara de maneira deliberada.
Não resistiria mais. Ele tomaria tudo o que realmente possuía. Era o único homem a quem amara, e um dia, talvez,
pudesse aprender a amá-la da mesma forma, com a mesma intensidade, sem limites.
— Nós nos queremos — ouviu-o murmurar entre beijos. — Você tenta evitar, mas não pode. Não pode resistir a isso...
— E beijou seu pescoço. — E isso... — Acariciou seus seios. — E isso... — Moveu a cabeça para baixo, traçando uma trilha
de prazer por todo seu corpo. — Eu posso ter você, Flame... Poderia tê-la agora, e Deus sabe o quanto desejo isso... mas...
Diante da hesitação, Flame abriu os olhos e viu os dele, como duas estrelas na noite. Compreendeu que, mais uma vez,
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seria rejeitada.
Ele ainda hesitava, talvez tentando controlar os próprios impulsos, mas sabia que não iriam em frente. Podia ler nos
olhos azuis. O pânico de ser rejeitada por ele fez com que reagisse imediatamente. Abraçou-se ao marido, quase
desesperada, mas ele se livrou de seus braços e disse:
— Você me deseja... Sempre foi assim. Mas o que isso significa?
Flame tremeu ao sentir que ele voltava a acariciar seus seios. Em seguida, no auge do descontrole, Marlow puxou seu
vestido com força, e Flame, temendo que ele o rasgasse, contorceu o corpo, ajudando-o a despi-la.
O controle de poucos minutos atrás cedera lugar ao desejo selvagem, incontrolável, que aumentou diante da visão do
corpo nu e dos suspiros que Flame emitia. Marlow colou o corpo ao dela, num abraço apertado.
— Preciso de você, Flame. É minha mulher. Não pode negar o que me pertence. É minha, só minha... — Sua voz era um
sussurro que expressava a urgência melhor que as palavras.
No entanto, as palavras de Marlow acordaram nela a voz da razão. Sabia o que queria dela, e não era amor.
Tentou um último esforço para resistir, mas era tarde demais. Agarrou-se ao corpo musculoso, os dedos acariciando as
costas fortes e a pele bronzeada.
De repente teve a impressão de ouvir outro som, além do próprio nome repetido com insistência pelo homem que
amava. Abriu os olhos e viu um raio de luz a distância, nas sombras da estrada. Segundos depois, a luz entrava na
propriedade, seguida pelo ruído de um motor.
— Quem pode ser? — perguntou Marlow, irritado.
Ficaram abraçados, tentando enxergar através da escuridão, e quando conseguiram vislumbrar a figura na noite,
souberam que o visitante inoportuno dirigia-se à casita.
— Seja quem for, está à sua procura — disse Flame, atenta ao som dos passos que indicavam o sexo do intruso. Uma
mulher.
— Droga, agora não! — disse Marlow, apertando-a contra si. Então ouviram a voz que o chamava pelo nome. Uma voz
feminina, sem dúvida nenhuma.
— É melhor ir até lá e ver quem é — disse ele, abotoando a camisa com relutância.
— Isso mesmo, vá! — gritou Flame com desespero, enquanto se vestia.
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Correu para longe dele, mas Marlow alcançou-a e a segurou pelo braço.
— Vá de uma vez! — Flame voltou a gritar. — Corra para ela. Sei muito bem quem está lá embaixo! Vá e nunca mais
ponha suas mãos em cima de mim!
Livrou-se dele e correu para a escada, descendo os degraus enquanto abotoava o vestido.
— Flame, espere! — gritou Marlow, correndo atrás dela e segurando-a no meio da escada. — Por que está fugindo
outra vez? Vai fazer isso sempre?
— Por que tenho de ficar? Para ser humilhada?
— Humilhada? Do que está falando? Não está pensando que é alguém...
— E não é? — gritou, parada na frente dele em atitude desafiante.
— Venha comigo e veja com seus próprios olhos — sugeriu, tentando acalmá-la.
O tom de voz era tranqüilo, e todas as suspeitas de Flame voltaram à tona. Marlow não poderia estar tão calmo, a
menos que estivesse fingindo o descontrole de pouco antes.
— Venha, Flame.
Não teve escolha, pois ele a puxava pelo braço. Uma figura magra correu ao encontro deles, assim que os viu. Victória
passou por entre as árvores e atirou-se nos braços dele, chorando como uma histérica.
— Marlow, ainda bem que está aqui!
Flame olhou para os dois e notou que Marlow a abraçava, murmurando alguma coisa que não pôde escutar.
No momento seguinte os dois dirigiram-se para o carro, esquecidos de sua presença.
Mas subitamente, como se houvesse se lembrado, Marlow virou-se e gritou.
— Flame. Vou ter de sair para resolver um problema...
Sem responder, absolutamente atônita, ela começou a caminhar em direção à casa. Entrou no banheiro, escovou os
dentes, tomou um banho e foi para a cama.
Várias horas se passaram. Pensou ter ouvido vozes do lado de fora, mas estava enganada. Silêncio. Sentia-se incapaz de
pensar, de refletir, e não conseguia dormir. Mais algumas horas. O rosto estava quente, como se tivesse febre. Gotas de
suor frio escorriam pelo corpo, mas ela parecia não perceber. Tremia. E, nesse momento, Marlow entrou no quarto.
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Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele se sentou, apesar da tontura, e disse:
— Não precisa dizer nada. Trabalho de novo, não é? Uma noite cheia de obrigações! Deveres noturnos, praticamente
inevitáveis. Saia daqui!
— Eu posso explicar...
— Não perca seu tempo! — E baixou a voz, que parecia uma pedra de gelo: — Eu só estava tentando melhorar minha
performance, lá em cima. Desculpe se dei a impressão errada, mas tenho sentido muita falta de Johnny e... bem, sabe como
são essas coisas, não é? No meio da tempestade, qualquer porto serve.
Sorriu, tentando entender por que ele não respondia.
— Parece chocado — continuou. — Deve estar surpreso por perceber que não é o único a representar o papel com
perfeição, quando necessário. Como vê, aprendi alguma coisa em Londres, ao contrário do que pensava.
Fez uma pausa, tentando controlar a voz. Marlow permanecia imóvel, olhando para ela, e a frieza que pensou ver no
rosto bronzeado aumentou sua raiva. Então prosseguiu, cada vez mais ferina:
— Só quero que saiba que não precisa me explicar nada. Combinamos dizer a verdade, lembra-se? — Vendo que não
obtinha resposta, provocou: — Qual é o problema, Marlow? Parece sério demais. Isso é só um jogo! Espero que não tenha
me levado a sério. Afinal, é experiente o bastante para saber que estamos apenas jogando.
— Estava fingindo? — ele perguntou num sussurro.
— Não totalmente. Estava ótimo, sabe? Pena que não pudemos ir até o fim. Devia dizer às suas namoradas para
tomarem mais cuidado com o horário de visitas, no futuro. Se é que haverá um futuro...
Ignorando o comentário sarcástico, Marlow perguntou.
— Foi apenas sexo para você? Não houve mais nada? Pensei que...
— Não se preocupe, não há necessidade de sentir-se culpado — sorriu. — Tenho certeza de que seu ego pode suportar
o golpe. Afinal, eu não estou apaixonada, mas ele está — quase gritou, perdendo o controle. Forçou-se a manter a
serenidade e continuou — Como pode ver, não foi tão importante assim. Podemos até nos divertir um pouco, quando
tiver resolvido seus outros problemas. Quem sabe? Agora, se não se importar, gostaria de dormir. — Deu um bocejo
exagerado e concluiu — Estou exausta.
Deitou-se e puxou as cobertas acima da cabeça, sabendo que não poderia continuar com a brincadeira por mais tempo.
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Era uma ferida viva, e sentia o coração sangrando. Não sabia a quem odiava mais, se a ele ou a ela, por permitir que a
ferisse novamente.
Ouviu um som suave, seguido por um estrondo que indicava a saída de Marlow, batendo a porta.

Na manhã seguinte, ficou na cama até tarde, num sono agitado e povoado por sonhos estranhos.
Num deles, estava com o marido no terraço, no andar de cima, e conversavam de maneira amigável e carinhosa. De
repente ele a abraçou e começaram a trocar beijos apaixonados, até que as carícias foram se tornando mais íntimas, e
começou a desabotoar a camisa dele, ansiosa por sentir sua pele.
Quando conseguiu livrar-se da peça de roupa, havia outra por baixo. E outra, outra... então, ouviu Marlow dizendo:
— Hora de ir. Tenho de trabalhar.
Quando acordou, o travesseiro estava encharcado de lágrimas.

Capítulo 9

Sentindo dores pelo corpo todo e imaginando o quanto um coração partido podia causar sofrimento físico, Flame
desceu um pouco antes do almoço e deitou-se em uma das espreguiçadeiras, usando um par de óculos escuros. Era como
se não possuísse mais lágrimas.
Enquanto estivera em Londres, sufocara todas as emoções, e algumas vezes se perguntava se não estaria causando um
dano permanente a si mesma, impedindo a carga de sentimentos que insistia em aflorar.
No entanto, bastara pôr os olhos sobre Marlow para perder o controle sobre si mesma.
As crianças brincavam na água, e alguma coisa na alegria infantil fez com que a dor se tornasse ainda maior.
Lembrou-se do olhar de Marlow, ao afirmar que o segundo quarto da casita seria para os bichinhos de pelúcia, e
concluiu que desejara isso em segredo durante toda a vida.

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Levantou-se e entrou em casa, disposta a preparar um drinque. Sorriu com amargura, imaginando como seria afogar as
mágoas. Era uma excelente oportunidade, mas não queria que Marlow presenciasse a cena e tivesse certeza de como
estava ferida.
Olhou para o telefone e lembrou-se de Johnny. Ainda não dera a notícia a ele, e talvez tivesse sido melhor. Um dia
antes, teria dito que ficaria na Espanha por tempo indeterminado, mas agora, o máximo que poderia afirmar, era que
ficaria apenas até ter certeza de que a mãe estava bem.
Uma vontade louca de ouvir a voz amiga a invadiu. Precisava de alguém como ele, tranqüilo e controlado. Olhou para o
aparelho mais uma vez, a mão sobre o fone, mas lembrou-se que, naquele horário, o chefe devia estar ocupado. Ligaria no
final da tarde, antes que ele deixasse o escritório. O pensamento de ter uma longa conversa com Johnny seria um grande
auxílio para que passasse o resto do dia.
Sem que percebesse, estava atenta a qualquer som que pudesse indicar a volta de Marlow. Não estava na casita, pois o
carro não era visível em parte alguma.
Quando, na hora do almoço, notou que ele ainda estava ausente, decidiu perguntar pelo marido à irmã.
— Na cidade, trabalhando. Sabe como ele é, sempre ocupado.
— Espero que esteja mesmo — respondeu Flame com sarcasmo.
— Telefone para lá, se quer conversar com seu marido.
— Talvez eu ligue depois — mentiu.
Mesmo que tivesse um assunto urgente a tratar com ele, não correria o risco de ter de ouvir a voz de sua amante do
outro lado.
Durante a tarde, enquanto todos dormiam, procurou por um livro e encontrou um Raymond Chandler na estante de
Marlow, uma obra que não lia há muito tempo, mas antes de deixar a casita deu uma olhada em volta. Parecia um hotel,
não um lar. Correu para fora e bateu a porta com força, afastando as recordações.
Às cinco e meia da tarde, ainda com o livro nas mãos, foi até a cozinha e aproximou-se do telefone. Samantha e Emílio
estavam no terraço, e preferia que não escutassem sua conversa com o amigo.
— Johnny? Sou eu — e acrescentou, em vista do silêncio do interlocutor. — Flame. Estou telefonando da Espanha.
— Flame, querida! E então, tudo resolvido?
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— Deve estar brincando... As coisas estão péssimas por aqui, muito pior do que eu imaginei.
— Esse homem precisa de um exame psiquiátrico. Mas tudo tem o seu lado bom, não é? Aposto como está pensando em voltar logo...
— Se ainda me quiser...
— Você é muito competente, sempre será bem-vinda por aqui. — Flame sorriu.
— Estou com saudade, Johnny. As coisas têm sido muito difíceis para mim... não pode imaginar.
— Posso, sim. Ouça, querida, estava de saída para ir... bem, um encontro. Diga quando chega e eu irei apanhá-la no aeroporto, está bem?
— O mesmo Johnny de sempre — disse, certa de que o encontro envolvia uma mulher. — Está bem, assim que souber
quando volto, ligarei para avisá-lo. Vai ser ótimo revê-lo!
— Volte logo, doçura. E cuide-se, está bem? Adoro você.
— Também adoro você, Johnny.
E desligou, sentindo-se aliviada pela possibilidade de ir embora, de ter um braço amigo à sua espera.
— Vai ser ótimo revê-lo, não é?
A voz carregada de sarcasmo interrompeu o fluxo de pensamentos, causando-lhe um sobressalto.
Virou-se e viu Marlow na porta, com uma expressão que nunca vira antes. Estava pálido, e os olhos azuis brilhavam
com raiva.
Mas... que direito tinha de estar furioso, depois de passar a noite e boa parte do dia com a amante?
Levantou-se e decidiu enfrentá-lo.
— Sim, será realmente maravilhoso. Já avisei que devo voltar em breve.
— Eu ouvi — ele respondeu, dando mais um passo em sua direção. — Quando?
A voz era cortante, como se pudesse ferir fisicamente.
— Não sei. Logo. O mais depressa que puder. Por que pergunta?
— Por quê?
— É muito importante saber quando devo partir. Marlow? Por quê? Tenho certeza de que já ajeitou tudo com os
advogados. Marcos, Rafael... Com certeza cuidarão de tudo para que tenha o que quer, sem ter de suportar o sacrifício de
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permanecer casado comigo.
— Sacrifício? Acho que não está falando sobre mim. A julgar pela conversa que acabou de ter ao telefone... —
interrompeu-se, como se pudesse diminuir o sofrimento evitando as palavras conclusivas. — Talvez não esteja
exagerando agora. Quem sabe não está realmente apaixonada pelo sujeito? Como ele é? — Aproximou-se um pouco mais.
— Vamos, Flame, satisfaça minha curiosidade. Como é o garoto adorável de Londres?
De repente percorreu os passos restantes e ficou à frente dela, como se prentendesse atacá-la, mas não encostou um
dedo sequer na esposa.
— Está falando de Johnny? — perguntou ela, tentando ganhar tempo. — Bem, ele é bonito. Cabelos castanhos, olhos
cinzentos... Agradável.
— Agradável?
— Sim, é uma pessoa divertida.
— Divertida?
— Não sei por que fica aí repetindo tudo o que eu digo. Que importância tem para você como ele é? Eu não fico
fazendo perguntas sobre Victória...
— Que diabos Victória tem a ver com esse assunto? Ela é funcionária, trabalha comigo, só isso.
Flame sentiu que a tristeza de ouvir aquela mentira era muito maior do que teria sido a dor de conhecer a verdade
pelos lábios dele.
— É claro — respondeu com voz cansada. — Ela é apenas uma companheira de trabalho...
De repente, Marlow explodiu, incapaz de conter a raiva.
— Afinal, do que está me acusando? O que significa tudo isso?
— Não grite. Mamãe pode ouvir.
— Dane-se... — Então parou e esforçou-se para manter o controle. — Acho melhor irmos conversar em outro lugar —
falou, pegando-a pelo braço.
— Eu não quero...
— Não estou preocupado com a sua vontade! Se pretende ir embora logo, acho que pode abrir mão de seu egoísmo por
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alguns instantes e me dar o que eu quero. — Puxou-a para si, apertando-a entre os braços. — E sabe muito bem o que eu
quero, não sabe? — sussurrou com tom ameaçador.
Protestando, embora soubesse que seria inútil, Flame foi arrastada para fora da cozinha. Sentindo que Marlow
apertava seu braço com força cada vez maior, gritou:
— Está me machucando!
Mas ele não deu a menor importância. O livro que Flame estivera lendo até o momento do telefonema ficou caído no
piso de azulejos.
— Marlow, está machucando meu braço! — insistiu, já do lado de fora.
— Fique calma — ele disse, sarcástico. — Vai aprender algumas coisas novas, que poderá ensinar ao seu amante inglês
quando voltar para ele.
Andou mais alguns passos, arrastando-a, e comentou com voz carregada de fúria:
— Machucar seu braço é apenas o começo. Espere só até ver o resultado final!
— Não seria tão louco... — disse Flame, tentando livrar-se das mãos que a seguravam com força.
— Cale a boca! Está querendo que todos venham assistir ao espetáculo?
— Me solte, eu odeio você!
Mas Marlow só concordou em soltar o braço que apertava quando conseguiu fazê-la prometer que o acompanharia até
a casita.
Mesmo assim, manteve a mão em torno de sua cintura, fazendo-a tropeçar uma ou duas vezes por andar depressa
demais. Estava realmente furioso, e Flame temia que pudesse tornar-se violento. Mesmo assim, estava disposta a
aproveitar a oportunidde que finalmente teria para dizer tudo o que pensava a seu respeito, sem meias palavras. Ou
melhor, quase tudo.
Marlow abriu a porta da pequena casa e a puxou para dentro. Imediatamente, dirigiu-se ao bar e preparou um uísque
duplo.
— Quer um? — perguntou.
— Sim, mas não ponha tanto para mim.

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Apanhou um copo e, sem fazer caso da observação, serviu a mesma medida. Empurrou o copo por cima do balcão do
móvel, como se quisesse evitar uma aproximação.
— Não sei por que está tão furioso. Essa raiva toda é por minha causa? — ela começou, antes que pudesse acusá-la de
alguma coisa ou usar o velho truque da voz aveludada.
Porém Marlow parecia ter esquecido o truque do tom de voz, apesar da bebida e da expressão do rosto. Flame esperou
que ele respondesse, mas o silêncio era cada vez mais pesado.
Marlow aproximou-se da janela, com uma segunda dose de uísque nas mãos. Os ombros eram realçados pela jaqueta
branca de corte perfeito, e os cabelos negros sob a luz do sol fizeram com que sentisse vontade de tocá-lo. A fraqueza de
sempre retornou com intensidade incontrolável, e Flame teve de fechar os olhos para conter as lágrimas.
— Como pudemos chegar a esse ponto? — perguntou com tom ressentido, sem se virar para ela. Era como se falasse
consigo mesmo. — Tentei trabalhar cada palavra, cada gesto, cada pequeno movimento que pudesse fazê-la voltar a me
amar. Por que, Flame? — Então virou-se. — Deve me odiar para agir desse modo. O que foi que eu fiz?
Ela se aproximou, o sarcasmo tomando o lugar da perplexidade anterior.
— Marlow... não pode estar falando sério... Essa pergunta é no mínimo absurda... O que quer que eu diga?
— Foi o jeito que nos amamos? Fingiu prazer o tempo todo?
Ela encolheu os ombros.
— Sabe que não foi nada disso — admitiu com voz fraca. Fechou os olhos, tentando afastar as lembranças das noites
de amor, do corpo musculoso próximo ao seu...
— Sei o que está fazendo — prosseguiu. — Se eu ficar aqui ouvindo, vai fazer aquilo de novo. Como sempre fez.
— Do que está falando?
— Você sabe. É sua especialidade, seu grande talento. A maneira como consegue seduzir as pessoas e fazê-las acreditar
no que quer. Mas comigo acabou, Marlow. O truque não vai funcionar outra vez, apesar de ter o poder de me fazer
acreditar no contrário do que sei ser verdade.
— Parece que não estou tendo muito sucesso agora — disse com amargura.
Flame terminou a bebida sem dizer mais nada. Pôs o copo sobre a mesa, e Marlow aproveitou a pausa para enchê-lo
novamente, sem perguntar se ela queria ou não, fazendo o mesmo com o dele.
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— Meu Deus! — disse, levando o copo ao lábios. — Bebi o suficiente para um mês inteiro. Espero nunca mais ter um
dia como o de hoje. Só quero saber o que devo fazer, Flame. Diga, o que quer que eu faça?
— Vamos ficar discutindo o mesmo assunto para sempre? Jamais conseguiremos nos entender. É inútil, Marlow.
Voltarei para a Inglaterra o mais cedo que puder.
— Vai fugir de mim novamente? Será a segunda vez... e juro que a ultima— Aproximou-se dela com os olhos
carregados de ressentimento. — Não vai a lugar algum, entendeu? Não vou permitir. E sabe muito bem que posso impedir.
— O quê?
Pega de surpresa, foi obrigada a sentar-se na cadeira onde estava até pouco antes, conduzida pelas mãos fortes que
seguravam seu braço.
— Vou fazê-la ficar, seja como for. Só queria que sentisse por mim o mesmo que sinto por você. É verdade, fiz tudo
para seduzi-la, porque precisava de você. Por isso me casei com você... para que fosse minha. — Alguma coisa parecia estar
mudando sua expressão subitamente.
Começou a puxá-la lentamente contra si. Flame sabia o que pretendia, mas não possuía forças para evitar.
— Quero que sinta o mesmo que eu, e só há um jeito de tornar isso uma realidade...
Mostrou o que tentava dizer deslizando a mão por sobre seu corpo, observando as reações involuntárias de satisfação.
— Apesar do que disse sobre estar fingindo na noite passada, sei que não estava sendo absolutamente sincera. Sei que
sente prazer quando a toco, sempre sentiu... É a única coisa sobre a qual tenho certeza em toda essa loucura. Não estava
fingindo, Flame. — Fez uma pausa, e, quando voltou a falar, a voz estava carregada de desejo. — Talvez tenha pensado no
outro homem, quando começamos, mas logo passou a pensar só em mim.
As mãos passeavam por toda a extensão do corpo feminino, tocando uma melodia de prazer e atração que se fazia
ouvir cada vez mais forte. O mundo estava reduzido aos dois, às sensações físicas que, agora, eram absolutamente
incontroláveis.
A dor da última noite desaparecera de sua memória, e por um breve momento Flame pôde fechar os olhos para tudo
que não fosse Marlow.
Ouviu-o sussurrando em seu ouvido.
— Sei que um garoto bonito não é o que você quer. Prefere um diabo, como eu. Eu sou o vilão, lembra-se? É a mim que
100
quer. E se ainda não está totalmente convencida, estará daqui em diante.
— Marlow, não estou disposta a suportar seus joguinhos.
— O jogo acabou, querida. Agora é sério...
Assustada com o tom de voz, sentiu que não poderia mais evitar. Era como se estivesse hipnotizada, despojada de
vontade própria. Queria gritar, pedir que não a magoasse outra vez, mas de sua boca não brotou um único som.
— Vou mostrar a você o que é amor, Flame. E quando voltar para a Inglaterra, amanhã, na próxima semana, ou quando
decidir, vai levar a lembrança disso em sua bagagem. A recordação de como pode ser o amor. Tenho certeza de que nunca
poderá dizer que sou apenas agradável e divertido...
Amor. Por quanto tempo Flame esperara por essa palavra? No entanto, agora que a ouvia, o sentido era inteiramente
diferente do que queria.
Marlow puxou sua blusa com força, arrancando os botões e rasgando o tecido. As mãos começaram a explorar os seios
nus, exatamente como sempre fizera, sabendo que ela seria incapaz de resistir.
Era como se o corpo de Flame se oferecesse a ele, num discurso sem palavras que só os dois seriam capazes de
compreender.
Sem abrir os olhos, ouviu o barulho do zíper sendo aberto e, em seguida, sentiu o peso do corpo musculoso sobre o
dela. Seus dedos procuravam por ele, deslizavam pelas costas de Marlow, e o desejo crescia a cada instante, intenso e
incontrolável. Todas as tentativas para resistir caíram no esquecimento. Sentiu que sua saia era retirada com facilidade, e
no momento seguinte notou que as roupas dele estavam no chão, ao lado das dela.
Acariciavam-se com desespero, suprindo a necessidade que haviam renegado por tanto tempo. Era como se o tempo
houvesse parado, e o mundo girasse apenas em torno dos dois.
Marlow a beijava com fúria, descontrolado, e ela respondia com a mesma força.
Então, quando se uniram, Flame sentiu que a terra se abria sob ela e a engolia, numa bola de fogo e luzes que
explodiam coloridas.
Flame respirava com dificuldade e ficou em silêncio por longos minutos. Alguma coisa a levava a tentar prolongar o
momento de entrega, antes que a amargura e a tristeza da realidade voltassem a imperar entre eles. Mas Marlow ainda não
terminara.
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Tomou as mãos dela e guiou-as pelo corpo bronzeado, bebendo a renovação do prazer que proporcionavam. Minutos
depois retomavam os passos da dança, e Flame aproveitava cada segundo como se fosse o último.
Depois quando descansavam deitados lado a lado, passou as mãos pelos cabelos negros num gesto de carinho, confusa
com a mudança de atitude que notava no marido. Não pôde resistir e beijou o rosto tranqüilo, vendo que ele abria os olhos
em seguida.
— Tenho certeza de que vai se lembrar disso para sempre. Quando for embora... — Então interrompeu-se, ressentido.
Flame abraçou-se a ele, invadida pela súbita visão da verdade. Era só daquele jeito, com ele, que se sentia viva. Só assim
poderia encontrar uma razão para viver...
— Eu vou embora? — perguntou.
— É o que quer, não é?
— Então acho melhor voltar para a casa de mamãe agora mesmo.
— Espere! — Marlow levantou-se e começou a se vestir. Apanhou a saia e a blusa que estavam no chão e estendeu-as a
Flame. Assim que vestiu a roupa, ela se surpreendeu com a atitude carinhosa dele, abotoando o que restara da blusa,
destruída no auge do descontrole. Andou até a porta com ela e disse, sem tocá-la.
— Adeus!
Flame olhou para o marido, em busca das palavras que pretendia dizer, uma palavra que pudesse livrá-la para sempre
da dor que sentia naquele momento.
— Adeus? — perguntou, o coração partido em milhões de pedaços. Marlow sorriu e respondeu com voz suave:
— É uma despedida, não é?
E conduziu-a para o lado de fora, fechando a porta entre eles. Flame parou no caminho entre as duas casas, recusando-
se a acreditar no fim. Não seriam capazes de se amar daquela maneira se não houvesse uma emoção real e intensa dentro
de cada um deles. Era loucura ir embora e tentar viver longe dele. Pertencia a ele... completamente e para sempre.

Já era hora do jantar, mas a refeição ainda não estava servida, quando Flame perguntou por Marlow.
— Sabe onde ele está, Emílio? — perguntou Sam.

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— Talvez não saiba que horas são. Sabe como é Marlow quando mergulha no trabalho. Quer que eu vá procurá-lo,
querida?
— Por favor.
Cinco minutos depois, Emílio retornava.
— Nem sinal dele. Deve ter saído, mas o carro está lá fora.
— Tem certeza de que ele não está na casita?
— A porta está aberta, eu entrei e verifiquei... Mas não se preocupe, deve ter ido dar um passeio pela praia.
Marlow não voltou para o jantar, e quando Flame foi até a casita, certificou-se de que realmente não estava lá.
Apreensiva, voltou para casa grande e ficou esperando.
Meia-noite.
— É melhor irmos dormir — disse Samantha. — Ele deve ter ido para a cidade a pé. Já fez isso antes, sabe? Está
preocupada, Flame? Pensei ter ouvido dizer que não se importava com ele...
— Descobri que me preocupo e muito. Não adianta resistir, Sammy. Simplesmente não posso viver sem ele.
Sam abraçou-a com um sorriso de satisfação.
— Sempre soube disso, querida tola. Você o ama desde o primeiro encontro... todos nós sabemos disso. Só espero que
já tenha contado a ele... O coitado está vivendo no inferno.
— Nunca quis fazê-lo infeliz. Foi ele quem começou com tudo, quando fez aquilo...
— O que ele fez, Flame?
— Não sabe? Pode achar que sou louca por dar tanta importância a um fato como esse, mas... Bem, lembra-se de
quando fui a Ibiza para fazer uma surpresa a Marlow, logo depois de nossa lua-de-mel?
— Lembro, sim. Foi um pouco antes de você ir para a Inglaterra.
— Isso mesmo. Pois fui eu quem teve a surpresa... E não foi nada agradável. Encontrei Victória na cama dele, no hotel.
É claro que, naquela época, não sabia quem era ela.
— Na cama... com Marlow?
— Não exatamente com ele. Estava sozinha, mas a cama era dele. Não é suficiente?
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— Não posso acreditar. Haviam acabado de se casar. Sei que trabalham juntos há muito tempo, mas nunca imaginei
que ela fosse o tipo de Marlow. Tem certeza do que diz, Flame?
— Ela estava na cama! Lembrei dela assim que a vi, na noite da festa. Depois admitiu que trabalhava em Ibiza. Não vai
tentar me convencer de que enganei, não é?
— Não, com relação a tê-la visto não...
— Então...
— Talvez fosse melhor perguntar a Marlow o que realmente aconteceu, ele não mentiria para você.
— Ah, não?
— Não seja ridícula, Flame. É claro que não. Conhece Marlow. Se ele tivesse alguma coisa com Victória, simplesmente
diria e pronto. Nunca permitiria que a situação chegasse a esse ponto. Converse com ele e esclareça tudo, é o melhor que
tem a fazer.
Flame compreendeu que teria de esquecer o orgulho e dizer tudo o que sentia. Diria a Marlow por que fora embora e
por que começara a suspeitar que havia se casado com ela por causa das terras. Um homem capaz de adultério faria coisas
bem piores. Explicaria por que se sentia tão decepcionada e por que não acreditava em seu amor.
No entanto, tudo o que ouvira nos últimos dias abalara sua certeza. Samantha estaria errada? E Sybilla? E Emílio? E
todos os outros amigos que o adoravam?
Mas por que se casara com ela, se não por causa das terras?
Foi para a cama, disposta a ficar acordada até que ele chegasse, mas o sono foi mais forte e acabou adormecendo. Foi
despertada horas depois pelo barulho da chuva forte.
Imaginou Marlow sozinho, andando sob a tempestade, e desejou sair à sua procura e trazê-lo de volta para casa. Mas
não sabia por onde começar.
Só tinha uma certeza: estava infeliz por não ter dito a ele o quanto o amava.

Capítulo 10
104
Incapaz de ficar na cama por mais tempo, levantou-se e foi para a casita. Marlow não voltara. Ficou no jardim
encharcado pela chuva da noite, imaginando o que fazer. O fato de tê-lo ouvido dizer adeus gerava maus pressentimentos,
mas decidiu verificar todas as possibilidades antes de entrar em pânico. Iria à cidade assim que o comércio abrisse.
Uma hora depois, pegava a estrada no carro da irmã. Havia um lugar onde poderia encontrar uma pessoa que saberia
de alguma coisa.
Estacionou na frente do edifício branco, no centro da cidade, e foi até o quinto andar. A primeira pessoa que encontrou
ao entrar no escritório foi a própria Victória.
— Flame, que prazer em vê-la! — disse sorridente. — Quer falar com Marlow? Está em reunião, mas posso
interromper se for urgente.
— Reunião?
Então, todos os pressentimentos, toda a preocupação... tudo em vão. Todos os pesadelos da noite passada davam lugar
a um só, muito mais poderoso e doloroso. A outra mulher.
— Não deve demorar — disse Victória, ainda sorrindo. — Quer que eu o avise que está aqui?
— Não, não faça isso...
— Então venha comigo até minha sala. Podemos tomar um café, enquanto espera.
Segundos depois, Flame estava confortavelmente instalada na poltrona da sala da secretária, absolutamente atônita.
— Continuo com a impressão de que já nos encontramos — disse Victória. — É estranho... Normalmente sou ótima
fisionomista, mas não consigo me lembrar quando...
— Posso ajudá-la — cortou Flame, certa de que estava a poucos instantes da verdade.
Hesitou, com medo do que ouviria em seguida. Perderia o benefício da dúvida assim que desmascarasse a amante, mas
seria melhor do que conviver com a incerteza pelo resto da vida. Como não se decidisse a prosseguir, a secretária tomou a
dianteira e perguntou.
— Foi no escritório, por acaso?
— Não — decidiu. — Foi no Hotel Excélsior, mais precisamente na cama.
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— Isso mesmo!
— Foi há dezoito meses...
Para aumentar a surpresa de Flame, Victória começou a rir.
— Foi isso. Meu Deus, como pude me esquecer? Parecia absolutamente surpresa, lembra-se? Esperava encontrar
Marlow, não é? — mordeu o lábio, contendo a risada. — Deve ter pensado mal de mim... Mas foi embora antes que eu
pudesse explicar alguma coisa. Na verdade, eu também estava perplexa. Primeiro, pensei que você fosse alguém do
escritório, e me assustei por ver alguém invadindo o quarto de repente.
— Oh! Se soubesse teria me desculpado — respondeu Flame com sarcasmo.
— Deve ter rido muito quando soube da verdade, não? Marlow contou a você? Eu estava pronta para atendê-lo durante
a reunião na cidade. Sabia que estava voltando de lua-de-mel, e imaginei que quisesse voltar para casa o mais rápido
possível. Mas deu tudo errado!
— Será que pode ser mais clara, por favor?
— Eu trabalhava em San Antônio, e havia acabado de ser transferida para Ibiza. Era agosto, mês de férias, e todos os
hotéis estavam lotados. Na empresa me disseram que um dos quartos do Excélsior pertencia a Marlow, e fiquei lá duas
semanas. Ele devia chegar no dia seguinte, quando teria de sair de lá e procurar qualquer lugar para ficar. Mas ele chegou
antes... Flame, quase morri de vergonha! Resumindo, ele deixou a bagagem no hotel e foi dormir na casa de um amigo. Não
permitiu que eu saísse de lá, pois sabia que não havia vagas em parte alguma. Foi então que você chegou.
Incapaz de se conter, Victória deu uma gargalhada, antes de prosseguir.
— Depois da reunião ele voltou para casa, e só voltei a vê-lo três meses depois, quando voltou à ilha para resolver um
problema.
Nessa época Flame já estava na Inglaterra. Agora, depois de ouvir tudo aquilo, sentia-se absolutamente tonta, incapaz
de coordenar as idéias.
O telefone tocou, e a secretária afastou-se para atender.
Flame ficou ali observando-a, pensando no tempo que perdera por pura tolice. Devia tê-la procurado antes, esclarecido
tudo.
Quando Victória desligou o aparelho, seus olhos estavam cheios de lágrimas. Voltou para sua mesa e explicou.
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— Graças a Deus... Desculpe-me, mas estou um pouco nervosa. Meu namorado foi surrado há alguns dias por uma
gangue de delinquentes juvenis, e estava correndo risco de vida. O telefonema que acabei de receber era do hospital... está
salvo.
Apertou um botão do interfone e perguntou.
— Quer mais um café, Flame? Vou pedir um para mim.
Depois de pedir a bebida, ligou para outra sala e pediu que dissessem ao chefe que a esposa dele estava à sua espera.
— Marlow foi um grande amigo — disse. — Lembra-se de quando fui até a villa, de madrugada? Estava voltando do
hospital. Não haviam permitido minha entrada, porque não era parente. Marlow foi até lá comigo e resolveu o problema
em poucos minutos — suspirou aliviada e concluiu: — Não imagina o que passei nos últimos dias.
Levantou-se quando uma mulher entrou com uma bandeja e duas xícaras de café.
— Pegue — disse, estendendo uma das xícaras a Flame. — Pode ficar esperando por Marlow aqui.
Absolutamente confusa, incapaz de articular uma palavra, Flame tentava pôr um mínimo de ordem nos pensamentos.
Mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, a porta se abriu e Marlow apareceu, pálido e abatido.
— Veio me dizer quando vai embora? — perguntou.
— Eu... eu... não. Não é o que eu... Oh, Marlow!
Deixou a xícara sobre a mesa e correu ao encontro dele, atirando-se em seus braços. Ele a puxou para o corredor e
fechou a porta, deixando as duas mulheres do outro lado.
— O que está acontecendo? O que veio fazer aqui, Flame?
Olhava para ela com desespero, à espera do que poderia ter para dizer.
— Eu estava errada. Não espero que me desculpe, mas se quiser que eu fique, como sua esposa, para sempre... por
favor, diga alguma coisa! Amo você... — Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e ergueu a mão para tocar os lábios dele
com suavidade, perguntando-se por que tinha de ser tão incoerente quando a verdade era tão simples de ser dita. — Amo
você, Marlow. Para sempre...
Ele apanhou as mãos dela entre as suas e as beijou, sem dizer nada. Depois, lentamente, inclinou-se e a beijou nos
lábios.

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Quando se afastou, seus olhos eram azuis como o oceano, brilhantes como se houvesse sol dentro deles.
— Acho que estamos atrapalhando o trabalho das duas — disse — Estão trancadas lá dentro.
Abriu a porta e chamou a secretária, dizendo que podiam sair quando quisessem. As duas deixaram a sala
imediatamente, lançando olhares de incompreensão para o chefe, talvez questionando os fatos que o faziam perder a
postura profissional. Os dedos que acariciavam a cintura da esposa, abraçada a ele, deixavam claro que postura
profissional era a última coisa em que pensava naquele momento.
Assim que entraram no escritório dele, Flame explicou.
— Conversei com Victória.
— E daí?
— Cometi um horrível engano — confessou, contando toda a história. — Ela teria me odiado, se soubesse o juízo que
fiz a seu respeito todo esse tempo.
— Ou, então, teria pensado que o chefe se casara com uma louca. Ela sabe que nunca teria uma chance comigo. Meu
Deus — suspirou, abraçando a esposa. — Não posso acreditar. Esta manhã estava preparado para procurar por Marcos e
discutir os detalhes do nosso divórcio. Pensei que fosse a única coisa que realmente queria, e estava disposto a fazê-la
feliz, mesmo que isso me custasse muito caro.
— Marlow, sei que causei muito sofrimento a nós dois, mas saiba que farei tudo para recuperar o tempo perdido. Era
muito jovem e inexperiente, e nunca acreditei que pudesse fazer com que se interessasse por mim por muito tempo.
Queria crescer depressa, e mesmo quando estava em Londres, tudo o que fazia era pensando em você. Meu curso de
relações-públicas, meu emprego... queria ser a melhor em tudo, só para conquistar sua admiração. Sentia-me
profundamente infeliz, pois achava que não me amava. Afinal, não fez nada para impedir minha partida...
— Essa foi a parte mais difícil, permitir que fosse embora. Engoli todo o sofrimento e esperei até que achei que já havia
tido tempo suficiente para descobrir o que queria. Comecei a me sentir culpado por ter me casado com você, tão jovem...
Queria que conhecesse um pouco da vida, antes de assumir as responsabilidades de um lar, uma família... Será que
compreende?
— Agora, sim.
— E o rapaz de Londres?

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— Nunca foi meu amante. Demonstrou interesse por mim, mas sempre soube que não era o homem dos meus sonhos.
— E o outro problema? Aquela história de ter me casado com você por causa das terras?
— Tudo o que tenho é seu, meu amor. Não tem a menor importância.
— Tem, sim. Se acredita nisso, é porque não acredita no meu amor por você.
— Mas agora sei toda a verdade, e compreendi que me ama de fato.
— Mesmo assim, insisto em deixar tudo claro. As terras dos Montrose sempre serão suas, de sua irmã e das crianças...
todas.
— Todas? O que quer dizer?
— Não quer ter filhos? — perguntou sorrindo e abraçando-a com força.
Ela levantou a cabeça e o encarou, com lágrimas nos olhos.
— Oh, Marlow! Pergunte a mamãe e a Samantha o que penso sobre bebês. Se estiver de acordo, acho que podemos
comprar a mobília hoje mesmo. O que me diz de bichinhos de pelúcia?
Já era tarde quando voltaram para Santa Margarita. Haviam passeado por toda a costa, e Marlow fizera questão de
mostrar o hotel que estava construindo e os outros locais, onde pretendia desenvolver os outros projetos.
Assim que entraram, notaram a família reunida em volta da mesa para o jantar. Pela primeira vez em várias semanas,
Sybilla estava presente à refeição.
— Chegaram bem na hora, queridos — disse com um sorriso, vendo a filha e o genro abraçados. — Estive esperando
por este momento durante muito tempo.
Sem saber se ela se referia a sair da cama ou vê-los abraçados, aproximaram-se para juntarem-se à família.
Emílio levantou-se e propôs um brinde, e todos ergueram os copos em sinal de felicidade. Flame e Marlow trocaram
um olhar de cumplicidade, pois sabiam que em breve teriam outros motivos para comemorar. Por enquanto, a felicidade
de todos era o bastante.
Depois do jantar, despediram-se de todos e foram para a casita.
— É como se estivesse entrando aqui pela primeira vez — disse Marlow, emocionado. Abraçou-a com paixão e
acrescentou: — Sempre achei esse aroma de pinho bastante erótico. O que acha?
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— Marlow! Você ainda é capaz de ler meus pensamentos.
E saíram da pequena casa abraçados, buscando a sombra discreta das árvores.
— Leia-me para sempre, meu amor — sussurrou Flame, entre beijos e carícias.
— Para sempre — respondeu ele, a voz misturando-se ao murmúrio do mar. — Simplesmente para sempre... meu
amor.

*Fim*

110
Uma casa no campo
Annabel Murray
Presa nos braços de Mike, Francesca sé debatia entre a vergonha e a culpa. Como era possível sentir tanto desejo por
esse homem quando estava noiva de outro?
Apesar do clima de sensualidade, Francesca achava que era muita petulância de Mike exigir que ela desistisse não só
do noivado, mas também da sofisticada carreira de modelo em Londres, para se afundar naquele fim de mundo e cuidar de
um santuário de animais.

Um amor no paraíso
Gloria Bevan
A noite estava quente e estrelada, como costumava ser nas ilhas do sul do Pacífico. O clima era agradável, os hóspedes
do hotel se divertiam ao redor da piscina, e o ritmo sensual da música nativa convidava ao romance.
Joanne, no entanto, estava triste. Viera até ali para reencontrar o noivo, depois de dois anos de separação, e o
encontrara casado com outra. Agora, apaixonada por Craig, sofria uma nova decepção: há poucos instantes o ouvira
combinando o casamento com a bela e provocante Robyn!

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