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Alexandre Marques de Carvalho

Instituto Universitário de Lisboa

Princípio da Filiação

Relatório da aula de 9 de Março de 2015 apresentado no âmbito da disciplina de Direito do Trabalho II do


Mestrado em Direito das Empresas

Docentes: Professor Doutor António Monteiro Fernandes


Professora Doutora Maria Luísa Alves

2015
Abreviaturas

C.C. - Código Civil


C.R.P - Constituição da República portuguesa
C.T. - Código do Trabalho
I.R.C.T. - Instrumentos de Regulamentação Colectiva de Trabalho
S.T.J. - Supremo Tribunal de Justiça

1. O Princípio da Filiação

A expressão filiação provém do latim filiatio1que remonta à expressão filius que


significa inscrever (-se) em comunidade, grupo ou instituição.
O princípio da filiação vem previsto no artigo 496.º do C.T., nos seguintes termos:

Princípio da filiação
1 – A convenção colectiva obriga o empregador que a subscreve ou filiado em associação de empregadores celebrante,
bem como os trabalhadores ao seu serviço que sejam membros de associação sindical celebrante.

2 – A convenção celebrada por união, federação ou confederação obriga os empregadores e os trabalhadores filiados,
respectivamente, em associações de empregadores ou sindicatos representados por aquela organização quando celebre
em nome próprio, nos termos dos respectivos estatutos, ou em conformidade com os mandatos a que se refere o n.º 2
do artigo 491º

3 – A convenção abrange trabalhadores e empregadores filiados em associações celebrantes no início do processo


negocial bem como os que nelas se filiem durante a vigência da mesma.

4 – Caso o trabalhador, o empregador ou a associação em que algum deles esteja inscrito se desfilie de entidade
celebrante, a convenção continua a aplicar-se até ao final do prazo de vigência que dela constar ou, não prevendo prazo
de vigência, durante um ano ou, em qualquer caso, até à entrada em vigor de convenção que a reveja.

Da norma supra mencionada resulta que a eficácia da convenção colectiva de


trabalho necessita – que o empregador esteja filiado à sua respectiva associação, caso não
celebre a convenção directamente; que os trabalhadores estejam filiados a um sindicato
que celebrou a convenção colectiva ou a um sindicato que se encontre filiado na

1
http://www.priberam.pt/dlpo/filia%C3%A7%C3%A3o.

2
associação sindical que celebrou a convenção; e que exista um vínculo individual entre
os sujeitos2.
O número 3 do referido artigo estatui que os efeitos da convenção colectiva
resultam da filiação do trabalhador nas associações no início do processo negocial ou na
sua filiação durante a vigência da convenção colectiva de trabalho, comummente
apelidada de filiação pós-eficaz. A filiação posterior ao processo negocial não representa
uma excepção ao princípio da filiação, sendo antes uma consequência desse princípio3.
Refere a doutrina que o âmbito pessoal da convenção colectiva afere-se mormente
tendo por base o princípio da dupla filiação4. Definem este princípio como a necessidade
das normas constantes de uma convenção colectiva se aplicarem aos contratos de trabalho
que existam ou, durante a sua vigência, venham a existir entre trabalhadores e
empregadores representados no processo negocial que lhe deu origem (isto é, que sejam
membros das associações subscritoras), ou, quanto aos empregadores, que tenham
outorgado directamente a mesma convenção5.
Não podemos olvidar a origem da palavra filiação. O princípio da filiação deve
ser interpretado como a exigência de que os trabalhadores e empregadores estejam
integrados numa associação. Ora, o acordo de empresa caracteriza-se por ser um acordo
de vontades entre uma associação sindical e um empregador para uma empresa ou
estabelecimento (artigo 2.º, n.º 3, do C.T.). Pelo que, o princípio da dupla filiação só tem
aplicação nos contratos colectivos e nos acordos colectivos. Assim, será mais rigoroso
falar de uma dupla conexão, citando um acórdão do STJ6:

“O âmbito pessoal de um instrumento de regulamentação colectiva afere-se pela dupla e


simultânea conexão com os seus destinatários: trabalhadores (filiados nas associações
sindicais que tenham estado na contratação colectiva) e empregadores (que individual ou
colectivamente tenham estado na mesma contratação).”

2
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, Aplicação das convenções colectivas na esfera dos
trabalhadores: o princípio da filiação, Relatório de estágio de mestrado, Ciências Jurídico-Empresariais,
Faculdade de Direito, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2009, pág. 10.
3
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, Notas sobre a eficácia normativa das convenções colectivas,
Coimbra, Almedina, 2002, pág. 54.
4
AA.VV., Código do Trabalho Anotado, 9.ª Edição, Coimbra, Almedina, 2012, pág. 983.
5
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, Direito do Trabalho, Coimbra, Almedina, 2014, pág. 731.
6
Vd. o Acórdão do STJ de 05-12-2007 – P. 07S3656.

3
Importa mencionar que cabe ao trabalhador a prova da sua inscrição sindical como
pressuposto da aplicação de uma convenção colectiva, nos termos do artigo 342.º, n.º 1,
do C.C.7 O mesmo se aplica ao empregador - Sendo controvertida a questão da filiação
do empregador em associação de empregadores, a prova de tal facto deverá ser feita por
documento e não por via testemunhal8.

1.1. A eficácia geral das convenções colectivas de trabalho e o princípio da filiação

O princípio da filiação restringe os efeitos das convenções colectivas a quem


esteja filiado no início do processo negocial ou se filie durante a vigência da convenção
colectiva.
Assim, o princípio da filiação tem como consequência que possa existir mais de
uma convenção colectiva aplicável a uma mesma categoria, assim como trabalhadores
não abrangidos por qualquer convenção colectiva.
BERNARDO LOBO XAVIER9 exibe a contradição entre o princípio da filiação
e a necessidade de se atribuir às convenções colectivas uma eficácia geral, ou seja, erga
omnes.
Assinala o Professor que a eficácia geral das convenções colectivas de trabalho
está subjacente ao pensamento codicístico10. Acrescentando ainda que as convenções
colectivas carecem de ter eficácia geral, sob pena de se discriminar negativamente os
sindicalizados11.
De facto, a negociação colectiva não se conforma com ajustes contratuais travados
individualmente por cada trabalhador e empregador12. Todavia, actualmente, a extensão
das convenções por decisão do empregador, as portarias de extensão, o acordo de adesão
e a adesão individual dos trabalhadores não sindicalizados garantem a uniformidade do
regime jurídico a ser aplicável aos trabalhadores da mesma categoria profissional,
implicando uma eficácia geral às convenções colectivas. Por outro lado, se numa empresa

7
Acórdão do STJ de 14-04-1999, Processo n.º 98S388.
8
Acórdão da Relação do Porto de 30-01-2012, Processo n.º 21/11.8TTVNF.P1.
9
XAVIER, BERNARDO DA GAMA LOBO, As fontes específicas de Direito do trabalho e a superação
do princípio da filiação, Revista de Direito e Estudos Sociais, Ano 46, n.º 2 – 4, 2005.
10
XAVIER, BERNARDO DA GAMA LOBO, ob. cit., pág. 135.
11
XAVIER, BERNARDO DA GAMA LOBO, ob. cit., pág. 136.
12
XAVIER, BERNARDO DA GAMA LOBO, ob. cit., pág. 137.

4
se verificar a prática de aplicar a generalidade a todos os trabalhadores o acordo de
empresa, essa prática valerá como uso laboral13.
De referir, ainda, que não concordamos com a solução preconizada por
BERNARDO LOBO XAVIER14 da aplicação das cláusulas das convenções colectivas
fora dos mecanismos supra mencionados. Esta conclusão assenta na visão que detemos
do princípio da igualdade entre filiados e não filiados, conforme consta do capítulo 2.7.

2. Excepções ao Princípio da Filiação

2.1. Desfiliação

O n.º 3 do artigo 496.º do C.T. prevê uma excepção ao princípio da filiação,


permitindo a eficácia da convenção colectiva para além da filiação do trabalhador ou
empregador à associação outorgante. Este preceito visa obstar a que um empregador ou
trabalhador pretenda furtar-se à aplicação de uma determinada convenção colectiva com
a desfiliação da associação de empregadores ou de trabalhadores, no decurso ou após a
conclusão do processo negocial.
O elemento de conexão temporal15 é o início do processo negocial, remetendo
indirectamente para o disposto no artigo 486.º, n.º 1, do C.T. - o processo de negociação
inicia-se com a apresentação à outra parte de proposta de celebração ou de revisão de
uma convenção colectiva.
Será o regime instituído no n.º 3 do artigo 496.º do C.T. violador do princípio da
liberdade sindical negativa?
Como afirma LUÍS GONÇALVES DA SILVA16, a norma não esvazia a
contratação colectiva, antes assegura a efectiva eficácia da convenção colectiva. O
preceito resulta do princípio da boa fé e da segurança jurídica, incumbindo ao Estado a
garantia da aplicação de normas válidas e eficazes aos cidadãos, garantindo-lhes um
mínimo de certeza e segurança nos direitos assegurados a estes17.

13
XAVIER, BERNARDO DA GAMA LOBO, ob. cit., pág. 151.
14
XAVIER, BERNARDO DA GAMA LOBO, ob. cit., pág. 150.
15
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, ob, cit., pág. 54.
16
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, ob, cit., pág. 56; AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág.
984.
17
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 15.

5
Do regime constante do artigo 496.º n.º 4 resulta que se a convenção colectiva
previr um prazo de vigência, fica o trabalhador ou empregador que se tenha desfiliado
sujeito a ela até o final do prazo de vigência; não havendo prazo de vigência, a vinculação
terá o prazo de 1 ano ou até a data da entrada em vigor de qualquer alteração na convenção
colectiva.
Cabe referir que este regime continua a ser aplicável caso o trabalhador ou
empregador se filiem numa nova associação. Como assinalámos, a ratio da norma é obstar
o esvaziamento da eficácia subjectiva das convenções colectivas18, logo a teleologia do
preceito não admite a diferenciação entre a mera desfiliação e a desfiliação com
consequente filiação em associação diversa19. Naturalmente, situação diversa será a
mudança de profissão, passando a não ser aplicável a convenção vigente20.

2.2. Acordo de adesão

Nos termos do artigo 504.º do C.T., a adesão consiste num acordo superveniente
entre uma das partes da convenção e um sindicato, uma associação de empregadores ou
um empregador isolado, que nela não outorgou e deseja ser por ela abrangida.
Tal como assinalámos, a respeito da filiação pós-eficaz, também o acordo de
adesão não constitui uma excepção ao princípio da filiação, uma vez que os efeitos da
adesão surgem precisamente pela via da filiação.
O acordo de adesão está sujeito a depósito e publicação, nos mesmos termos das
convenções colectivas (artigo 504.º, n.º 4, do C.T.). A vinculação da entidade aderente à
convenção em causa só se opera depois da publicação do acordo de adesão, mas o prazo
de vigência da convenção permanece inalterado. A entidade aderente fica legitimada a
participar no processo negocial de revisão que se venha a abrir.
A adesão implica a aceitação total dos termos constantes no instrumento colectivo,
não podendo a parte que adere a este instrumento invocar qualquer modificação do seu
conteúdo, já que não existe uma verdadeira negociação21.
Subsiste a controvérsia acerca da admissibilidade ou não de adesão parcial da
convenção colectiva.

18
AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág. 983.
19
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, ob, cit., pág. 56; AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág.
984.
20
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, ob, cit., pág. 56.
21
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 799.

6
Neste ponto seguimos a posição de LUIS GONÇALVES DA SILVA22,
ROMANO MARTINEZ23 E PALMA RAMALHO24, distanciando-nos, desta forma, de
MENEZES LEITÃO25.
O artigo 504.º do C.T. não obsta a adesão parcial da convenção colectiva,
impedindo unicamente a modificação do conteúdo da convenção. A adesão parcial não
implica a alteração de conteúdo da convenção colectiva. Deste modo, existindo partes
autonomizáveis, a adesão pode restringir-se apenas às situações que se adaptem ao
interessado.26 Como assinala LUÍS GONÇALVES DA SILVA, a existir adesão parcial,
as cláusulas objecto dessa adesão não podem deixar de fora outras que com ela se
encontrem numa relação de incindibilidade27.

2.3. Portaria de extensão

O regime da portaria de extensão consta dos artigos 514.º e seguintes do C.T..


Este instrumento de regulamentação colectiva de trabalho caracteriza-se por ampliar o
âmbito originário da convenção colectiva a todo o sector de actividade ou a trabalhadores
de profissão definida naquela, desde que não se produza sobreposição com outra
convenção colectiva vigente.
A portaria de extensão permite alargar os efeitos da convenção colectiva de
trabalho a não filiados da associação sindical outorgante, corporizando uma excepção ao
princípio da filiação.
A extensão só é admissível caso “os trabalhadores sejam da mesma profissão,
ou profissões análogas, ou da mesma área económica e social; e que os empregadores
sejam do mesmo sector económico ou em relação a uma área com semelhança económica
e social”28.
Por se tratar de um acto administrativo, a eventual oposição dos interessados não
constitui impedimento à emissão da portaria de extensão. Porém, a extensão terá de conter
um fundamento - circunstâncias sociais e económicas. Assim como, resultante da

22
AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág. 1003.
23
MARTINEZ, PEDRO ROMANO, Direito do Trabalho, 6.ª Edição, Coimbra, Almedina, 2013. pág. 1078.
24
RAMALHO, MARIA DO ROSÁRIO PALMA, Tratado de Direito do Trabalho – Parte III, Situações
Laborais Colectivas, 4ª Edição, 2012, Coimbra, Almedina, pág. 355.
25
LEITÃO, LUÍS MANUEL TELES DE MENEZES, Direito do Trabalho, Coimbra, Almedina, 2012,
págs. 531 e 532.
26
MARTINEZ, PEDRO ROMANO, ob. cit., pág. 1078.
27
AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág. 1003.
28
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 29.

7
aplicação da Resolução do Conselho de Ministros n.º 90/2012, as associações de
empregadores outorgantes das convenções colectivas devem representar, pelo menos,
50% dos trabalhadores do sector para que a extensão possa operar, devendo ainda ser
tidas em conta todas as implicações para a competitividade das empresas do sector.
É discutida na doutrina portuguesa a possibilidade de estender os efeitos de uma
convenção colectiva a trabalhadores ou empregadores já filiados em outra associação
sindical ou de empregadores distinta daquela que outorgou a referida convenção
colectiva.
Neste ponto, divergimos da doutrina maioritária que defende a inadmissibilidade
da extensão dos efeitos da convenção colectiva a trabalhadores ou empregadores que
estejam filiados em outra associação sindical ou de empregadores, respectivamente29. A
doutrina maioritária invoca o princípio da liberdade sindical, considerando que não é
admissível que a opção do sindicato em não subscrever a convenção seja ultrapassada
pelo governo por via regulamentar, sujeitando os trabalhadores não inscritos à convenção
que recusaram outorgar30.
Em nossa opinião, a liberdade sindical não é posta é causa, já que o trabalhador
ou empregador não filiado continua a poder obstar à extensão dos efeitos da convenção
colectiva, através da celebração de uma novo instrumento colectivo, nos termos do artigo
484.º do C.T31. Mas mais, como afirma MENEZES LEITÃO, a aplicação de portaria de
extensão a trabalhadores não sindicalizados atinge igualmente a sua liberdade de não
filiação sindical32.

2.4. Adesão individual dos trabalhadores não sindicalizados

O artigo 497.º do C.T. visa superar as consequências do princípio da filiação,


permitindo a um trabalhador não filiado em qualquer associação sindical aderir
individualmente à aplicação de uma convenção, desde que esta seja aplicável, ou uma das
aplicáveis, no âmbito da empresa em que labora.

29
MARTINEZ, PEDRO ROMANO, ob. cit., pág. 1093.
30
LEITÃO, LUÍS MANUEL TELES DE MENEZES, ob. cit., pág. 534.
31
AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág. 1031.
32
LEITÃO, LUÍS MANUEL TELES DE MENEZES, ob. cit., pág. 534.

8
A possibilidade de escolha de convenção colectiva de trabalho aplicável foi
objecto de apreciação pelo Tribunal Constitucional, conforme consta dos acórdãos n.ºs
306/03 e 338/2010.
Os acórdãos do Tribunal Constitucional discutiram a possível violação dos
direitos das associações sindicais, em especial, o direito da contratação colectiva que
exclusivamente lhes compete, nos termos do artigo 56.º, n.º 3, da C.R.P.
O Tribunal Constitucional defendeu que o artigo 497.º do C.T. não viola os
direitos das associações sindicais, invocando ainda que o preceito resulta do princípio da
igualdade. Segundo o Tribunal, este princípio exige iguais condições gerais de trabalho,
para trabalhadores em igualdade de situações, dentro das mesmas unidades ou sectores
de produção.
Não concordamos com a argumentação do Tribunal Constitucional. Como
assinalou o Juiz Conselheiro Joaquim de Sousa Ribeiro, cabe à lei consagrar soluções
que, sem ferirem a liberdade sindical negativa, promovam condições normativas de
fortalecimento do associativismo sindical. Assinala ainda que o artigo 497.º do C.T.
funciona exactamente em sentido contrário, promovendo a desfiliação.
Quanto a nós, consideramos que a norma é inconstitucional, por violação do
princípio da proporcionalidade.
Conforme ensina JORGE REIS NOVAIS33, haverá que proceder a uma
subdivisão do princípio da proporcionalidade em sentido lato (princípio da proibição do
excesso) em cinco subprincípios: princípio da idoneidade, princípio da
indispensabilidade, princípio da proporcionalidade em sentido restrito, princípio da
razoabilidade e princípio da determinabilidade.
Ora, a norma em análise viola o subprincípio da proporcionalidade em sentido
restrito. Este subprincípio exige uma ponderação do fim que se pretende alcançar com a
norma e a gravidade do sacrifício que se impõe com a aplicação da mesma. Dito de outra
forma, vamos pesar os benefícios e os custos resultantes da medida.
De facto, a norma sacrifica de uma forma desproporcional o direito da contratação
colectiva, protegido pelo artigo 56.º, n.º 3, da C.R.P. A invocação do princípio da
igualdade pelo Tribunal Constitucional não procede, porquanto existem mecanismo que
prosseguem a aplicabilidade erga omnes das convenções colectivas sem sacrificarem de
uma forma desproporcional Direitos Fundamentais, conforme expusemos no capítulo 1.1.

33
NOVAIS, JORGE REIS, Os Princípios Constitucionais Estruturantes da República Portuguesa, Lisboa,
Coimbra Editora, 2004, págs. 161 e ss.

9
A opção de escolha restringe-se a trabalhador que não seja filiado em qualquer
associação sindical. Assim, se o trabalhador estiver inscrito em qualquer sindicato, não
poderá recorrer a este mecanismo, mesmo que o sindicato não tenha subscrito qualquer
das convenções34.
A aplicação da convenção colectiva segue os mesmos termos dos trabalhadores
filiados, o trabalhador não filiado fica vinculado até o final da vigência da convenção
colectiva (artigo 497.º, n.º 2, do C.T.). Não havendo o referido prazo, o trabalhador não
filiado ficará abrangido durante o prazo mínimo de 1 ano (artigo 497.º, n.º 3, do C.T).
Caso o trabalhador opte por revogar a escolha da convenção colectiva, aplicar-se-ão os
efeitos da desfiliação, conforme estatui o n.º 4 do artigo 497.º do C.T.
Destacámos a existência do ónus da prova do trabalhador da sua inscrição sindical
como pressuposto da aplicação de uma convenção colectiva. O mesmo raciocínio é
aplicável ao regime da escolha da convenção colectiva aplicável, cabendo ao trabalhador
o ónus da prova da condição de aderente a determinada convenção colectiva35.
Quanto à articulação entre o artigo 497.º do C.T. e a transmissão da empresa ou
estabelecimento, prevista no artigo 498.º do C.T., vide o exposto no capítulo 2.6.

2.5. Extensão das convenções por decisão do empregador

O princípio da filiação conduz a que, dentro de uma organização de trabalho,


possam ser aplicáveis, a trabalhadores com as mesmas funções, regimes diferentes, por
haver duas convenções colectivas subscritas por mais de um sindicato com a mesma parte
patronal; permite ainda que os trabalhadores que não tenham filiação associativa estejam
fora do alcance da regulamentação colectiva.
A equidade social e a racionalidade económico-organizacional impõem que,
dentro de um conjunto homogéneo de relações de trabalho, sejam aplicáveis os mesmos
padrões normativos36. Por essa razão tem surgido a figura da extensão das convenções
colectivas por decisão da entidade empregadora.
Questiona a doutrina quais são os limites a essa faculdade, mormente se o
empregador pode estender benefícios e desvantagens, ou somente benefícios.

34
LEITÃO, LUÍS MANUEL TELES DE MENEZES, ob. cit., pág. 524.
35
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 21.
36
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 735.

10
Conforme assinala MONTEIRO FERNANDES37, a uniformização por acto
unilateral da entidade patronal estará restringida aos benefícios.
Face à inexistência de regulamentação da possibilidade de extensão das
convenções colectivas por decisão do empregador, cabe indagar qual será o regime
aplicável. Na senda de MONTEIRO FERNANDES38, concordamos com a recondução
da figura a uma alteração do contrato individual de trabalho, seguindo o regime da adesão,
contante no artigo 104.º do C.T.
Por conseguinte, toda a manobra novatória em que se traduz o acto de gestão pode
ser precludida pela oposição dos destinatários39.

2.6. Transmissão da empresa ou estabelecimento

O artigo 498.º do C.T. prevê a vinculatividade dos IRCT no caso de transmissão,


por qualquer título, da titularidade de empresa ou estabelecimento, ou ainda de parte de
empresa ou estabelecimento que constitua uma unidade económica. Solução que já
decorreria do regime legal da transmissão de empresa ou estabelecimento, previsto no
artigo 285.º, n.º 1, do C.T - transmitem-se para o adquirente a posição do empregador
nos contratos de trabalho dos respectivos trabalhadores.
A norma materializa um desvio ao princípio da filiação, atribuindo eficácia da
convenção colectiva a sujeito não filiado na associação outorgante da convenção.
Conforme assinala LUÍS GONÇALVES DA SILVA, estamos diante de uma
transmissão legal da posição contratual, já que o legislador prescindiu da vontade dos
empregadores, verificando-se, pois, uma transmissão ope legis40. Desta transmissão
resultam todos os direitos e obrigações inerentes à convenção colectiva, visto tratar-se de
um instrumento único41.
Questão pertinente diz respeito à eficácia da convenção colectiva mediante a
filiação do trabalhador na associação sindical outorgante após a transmissão da empresa
ou estabelecimento42.

37
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 735.
38
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 733.
39
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 735.
40
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, ob, cit., pág. 59; AA.VV., Código do Trabalho Anotado, pág.
987.
41
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 24.
42
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 24.

11
A nosso ver, a convenção colectiva passa a ser aplicável aos trabalhadores que já
eram trabalhadores da entidade transmitente, podendo estes, quando não filiados em
associação sindical, fazer uso do direito de escolha da convenção colectiva aplicável, nos
termos do artigo 497.º do C.T.
Haverá que abordar ainda duas situações43 – aplicação da convenção colectiva aos
trabalhadores contratados posteriormente à transmissão da empresa ou do
estabelecimento e aqueles que já eram trabalhadores da entidade transmissária.
Entendemos que nestas situações não existe qualquer conexão com a transmissão da
empresa ou estabelecimento44, pelo que não lhes será aplicável a convenção colectiva,
assim como não poderão fazer uso do mecanismo previsto no artigo 497.º do C.T.
O estatuto aplicável aos trabalhadores manter-se-á vigente até o termo do
respectivo prazo, respeitando o prazo mínimo de 1 ano (artigo 498.º, n.º 1, 2ª parte, do
C.T.).
A norma em questão prevê a substituição da convenção colectiva de trabalho pelo
adquirente. Conforme destaca MONTEIRO FERNANDES45 haverá que distinguir
sucessão e substituição dos IRCT. Na primeira modalidade (sucessão em sentido próprio)
surge “uma nova convenção, resultante da revisão da que vinculava o transmitente, antes
de esgotar o prazo de 12 meses. A convenção substitutiva entra em vigor entre o fim do
prazo de vigência da anterior e o esgotamento do prazo de 12 meses. O adquirente deixa
de dever observância à convenção que vinculava o transmitente, pelo simples facto de
que ela deixou de vigorar”. No tocante à substituição, a entidade transmissária celebra
com os sindicatos uma convenção colectiva destinada a substituir a convenção colectiva
aplicável. Neste caso “não se trata, verdadeiramente, de sucessão, porque a convenção
substituída quanto a uma parte do seu âmbito de aplicação poderá manter-se em vigor no
espaço restante.”
LUÍS GONÇALVES DA SILVA questiona, embora não avance qualquer
resposta, se ocorrerá alguma especificidade se a convenção tiver sido celebrada intuitu
personae46. Diremos que, por regra, a totalidade da convenção colectiva será aplicável à
entidade transmissária. Contudo, mais do que discutir se a convenção foi celebrada intuitu

43
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 25.
44
KALINOWSKI, RODRIGO AUGUSTO, ob. cit, pág. 25.
45
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 734.
46
SILVA, LUÍS GONÇALVES DA SILVA, ob, cit., pág. 59.

12
personae, haverá que ponderar a adaptação da convenção colectiva à nova entidade, pelo
que não sendo a mesma adaptável implicará a restrição do seu conteúdo.

2.7. O Princípio da Igualdade e a diferenciação retributiva entre filiados e não filiados

A questão levanta-se, nomeadamente, se numa empresa vigorarem instrumentos


de regulamentação colectiva que estabeleçam diferenças de regime salarial, por força do
princípio da filiação.
Na jurisprudência e na doutrina foram defendidas duas posições.
Defendeu-se que o “princípio do trabalho igual salário igual” impunha que os
trabalhadores sindicalizados possuíssem o mesmo regime retributivo. Esta posição foi
seguida por vários acórdãos da década de 80 e 9047. Parafraseando um dos acórdãos: “se
uma entidade patronal paga a alguns dos seus trabalhadores determinado salário por força
de um Acordo de Empresa, assume a obrigação de pagar esse mesmo salário, se superior,
a todos os outros trabalhadores que desempenhem funções de idêntica quantidade,
natureza e qualidade, independentemente destes se encontrarem filiados noutros
sindicatos que não subscreveram o Acordo de Empresa ou, sequer, não sindicalizados”48.
A doutrina actual49 defende que o princípio da liberdade sindical possibilita a
existência de salários diferentes entre filiados e não filiados.
Contudo, como refere ROMANO MARTINEZ50 - é dificilmente sustentável que
só pelo facto de um trabalhador se encontrar sindicalizado possa auferir retribuição
superior à prestada a outro trabalhador.
Cabe tomar decisão. De facto no que toca à actividade prestada, a mera aplicação
de uma convenção colectiva não transforma o trabalho prestado como sendo diferente, o
trabalho continua a possuir a mesma quantidade, natureza e qualidade.
Estamos defronte de uma colisão entre direitos fundamentais, pelo que o princípio
da liberdade sindical para produzir o seu efeito implica a restrição na medida do
necessário do princípio da igualdade.
Discordamos da aplicação de convenções colectivas, por força da identidade de
regime retributivo, na esfera de trabalhadores não sindicalizados. É verdade que a mera

47
Acórdão do STJ de 26-05-1988; STJ de 14-11-1990.
48
Acórdão do STJ de 14-11-1990.
49
FERNANDES, ANTÓNIO MONTEIRO, ob. cit., pág. 419; AMADO, JOÃO LEAL, Contrato de
Trabalho, Coimbra, Coimbra Editora, 2011, pág. 311.
50
MARTINEZ, PEDRO ROMANO, ob. cit., pág. 348.

13
filiação não pode implicar uma diferença salarial desproporcional face a outro trabalhador
que preste trabalho materialmente igual em qualidade, quantidade e natureza.
A admissibilidade de uma diferença salarial resulta da restrição à liberdade do
trabalhador sindicalizado - sujeição aos estatutos da associação sindical, em certos casos
o pagamento da “taxa de adesão individual” (artigo 492.º, n.º 4, do C.T.) e o pagamento
da quota do sindicato. Por outro lado, dentro da própria relação laboral, o facto de o
trabalhador se encontrar filiado pode implicar para o empregador uma facilidade de
comunicação, surgindo uma “comunicação em bloco” com a associação sindical.
A diferenciação salarial deve ser proporcional com as restrições à liberdade do
trabalhador sindicalizado. Assim, a diferença salarial poderá ser aumentada se resultar de
uma convenção colectiva uma maior restrição à liberdade do trabalhador através de
cedências mútuas. Nesta situação o próprio princípio da igualdade permitirá essa
diferenciação, já que o trabalho deixa de ser igual em qualidade, quantidade ou natureza.
Em suma, opomo-nos à aplicação de uma convenção colectiva a trabalhadores não
filiados na associação sindical outorgante do instrumento colectivo, só por esta
estabelecer maior remuneração.

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