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CADERNO DOUTRINÁRIO 2

TÁTICA POLICIAL, ABORDAGEM A


PESSOAS E TRATAMENTO ÀS VÍTIMAS

MANUAL TÉCNICO-PROFISSIONAL
nº 3.04.02/2013-CG
CADERNO DOUTRINÁRIO 2

TÁTICA POLICIAL, ABORDAGEM A


PESSOAS E TRATAMENTO ÀS VÍTIMAS

MANUAL TÉCNICO-PROFISSIONAL
nº 3.04.02/2013-CG

Belo Horizonte - MG
Academia de Polícia Militar
2ª Edição revisada
2013
Direitos exclusivos da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (PMMG).
Reprodução condicionada à autorização expressa do Comandante-Geral da PMMG.
Circulação restrita

Governador do Estado: Antonio Augusto Junho Anastasia


Comandante-Geral da PMMG: Cel. PM Márcio Martins Sant´ana
Chefe do Estado-Maior: Cel. PM Divino Pereira de Brito
Chefe do Gabinete Militar do Governador: Cel. PM Luis Carlos Dias Martins
Comandante da Academia de Polícia Militar: Cel. PM Sérgio Augusto Veloso Brasil
Chefe do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação: Ten.-Cel. PM Sílvio José de Sousa Filho

Tiragem: 3.000 exemplares

MINAS GERAIS. Polícia Militar. Tática Policial, Abordagem a Pessoas e


M663t tratamento às Vítimas - Belo Horizonte: Academia de Polícia Militar,
2013.
148 p.: il. (Manual Técnico-Profissional MTP 02.)

ISBN 978-85-64764-02-6
Abordagem policial. 2. Busca Pessoal. 3.Uso de Algemas. 4. Tática
Policial. I. Título. II. Série.
CDU 351.75
CDD 352.2
Ficha catalográfica: Rita Lúcia de Almeida Costa – CRB – 6ª Reg. n.1730

ADMINISTRAÇÃO:
Centro de Pesquisa e Pós Graduação
Rua Diábase 320 – Prado Belo Horizonte – MG
CEP 30410-440
Tel.: (0xx31)2123-9513
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SUPORTE METODOLÓGICO E TÉCNICO


- Seção de Planejamento do Emprego Operacional (EMPM/3)
Quartel do Comando-Geral da PMMG
Cidade Administrativa/Edifício Minas, Rodovia Prefeito Américo Gianetti, s/n – 6º
andar - Bairro Serra Verde – Belo Horizonte – MG – Brasil - CEP 31.630-900
Telefone: (31) 3915-7799.
RESOLUÇÃO N° 4151, DE 09 DE JUNHO DE 2011.

Aprova o Caderno Doutrinário 2 – Tática


Policial, Abordagem a Pessoas e Tratamento
às Vítima.

O COMANDANTE-GERAL DA POLÍCIA MILITAR DE MINAS


GERAIS, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo inciso I,
alínea I do artigo 6°, item V, do Regulamento aprovado pelo Decreto n°
18.445, de 15Abr77 – (R-100), e à vista do estabelecido na Lei Estadual
6.260, de 13Dez73, e no Decreto n° 43.718, de 15Jan04, RESOLVE:

Art. 1° Aprovar o Caderno Doutrinário 2 – Tática Policial,


Abordagem a Pessoas e Tratamento às Vítimas.

Art. 2° Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 3° Revogam-se as disposições em contrário.

QCG em Belo Horizonte, 09 de junho de 2011.

(a) RENATO VIEIRA DE SOUZA, CORONEL PM


COMANDANTE-GERAL
Colaboradores 1ª Edição 2010
Coronel PM Fábio Manhães Xavier
Coronel PM Antônio Leandro Bettoni da Silva
Tenente-Coronel PM Marcelo Vladimir Corrêa
Major PM Alfredo José Alves Veloso
Major PM Wágner Eustáquio das Silva Almeida
Major PM Eduardo Domingues Barbosa
Capitão PM Renato Salgado Cintra Gil
Capitão PM Wanderson Garcia Costa Neves
Capitão PM Arnaldo Affonso
Capitão PM Marco Aurélio Zancanela do Carmo
Capitão QOS Fabrízia Lopes Brandão Pereira
Capitão PM Rodolfo César Morotti Fernandes
1º Tenente PM Rodrigo Saldanha
1º Tenente PM Édson Henrique Rabello de S. Mendes
1º Tenente PM Ricardo Luiz Amorim Gontijo Foureaux
1º Tenente PM Molise Zimmermann Fonseca de Souza
1º Tenente PM Polyana Cristina Barbalho
1º Tenente PM Antônio Hot Pereira de Faria
1º Tenente PM Luciana do Carmo Socorro Nominato
2º Tenente PM Anderson Pereira de Sousa
1º Sargento PM Antônio Geraldo Alves Siqueira
3º Sargento PM Ricardo Martins Lopes
3º Sargento PM Márcia Daniela Bandeira Silva
3º Sargento PM Nadja Alves de Sousa
Cabo PM Elias Sabino Soares
Soldado PM Leonardo Giori de Oliveira
Soldado PM Aline Vanessa Alves
Professor Hugo de Moura
Professora Maria Sílvia Santos Fiúza

Colaboradores 2ª Edição 2013


Tenente-Coronel PM Sílvio José de Sousa Filho
Major PM Eugênio Pascoal da Cunha Valadares
Major PM Cleverson Natal de Oliveira
Capitão PM Ricardo Luiz Amorim Gontijo Foureaux
1º Tenente PM Rodrigo Saldanha
Subtenente PM Antônio Geraldo Alves Siqueira
2º Sargento PM Danilo Teixeira Alcântara
2º Sargento PM César Augusto Vilaça Júnior
2º Sargento PM Luiz Henrique de Moraes Firmino
Cabo PM Elias Sabino Soares
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 – Coberta (Perspectiva do policial militar)............................................................ 22

FIGURA 2 – Coberta (Perspectiva do abordado ......................................................................23

FIGURA 3 – Abrigo .............................................................................................................................23

FIGURA 4 - Rastejo 1º processo (arma de porte) e (arma portátil)..................... 25

FIGURA 5 - 2º processo (arma de porte) e (arma portátil)....................................... 26


FIGURA 6 – Uso de Escudo Balístico (Segurança Mínima) ................................................. 27

FIGURA 7 - Uso de Escudo Balístico (Segurança Máxima) ...................................................28

FIGURA 8 – Uso de Escudo Balístico (Segurança Mínima com arma na lateral) ......... 29

FIGURA 9 – Uso de Escudo Balístico (Segurança Mínima com arma à frente do visor) ......30

FIGURA 10 – Comunicação por gestos ......................................................................................32

FIGURA 11 – Técnica de Uso da Lanterna “Posição 1” .........................................................34

FIGURA 12 – Técnica de Uso Utilização da lanterna “Posição 2” ........................................34

FIGURA 13 – Tomada de ângulo ou “fatiamento” (visão do policial militar) ................35

FIGURA 14 – Tomada de ângulo ou “fatiamento” - (Visão do abordado) .......................36

FIGURA 15 – Olhada rápida (visão do policial militar) ..........................................................36

FIGURA 16 - Olhada rápida (visão do abordado) ................................................................... 37

FIGURA 17 – Uso do espelho .........................................................................................................38

FIGURA 18 – Ângulos de aproximação ......................................................................................39

FIGURA 19 – Postura Aberta - mãos livres ................................................................................41

FIGURA 20 – Postura de Prontidão ..............................................................................................41

FIGURA 21 - Postura Defensiva .....................................................................................................42

FIGURA 22 – Posição 1: Arma localizada coldre desabotoado.......................................... 44

FIGURA 23 – Posição 2: Guarda baixa .........................................................................................44

FIGURA 24 – Posição 3: Guarda alta ............................................................................................45


FIGURA 25 – Posição 4: Pronta-resposta ....................................................................................46

FIGURA 26 – Técnica de Aproximação Triangular e Área de Contenção ........................48

FIGURA 27 – Esquema tático de aproximação com 2 policiais e 1 abordado ..............50

FIGURA 28 – Esquema tático de aproximação com 2 policiais e 2 abordados ............50

FIGURA 29 – Esquema tático de aproximação com 2 policiais e 3 abordados ............51

FIGURA 30 – Esquema tático de aproximação com 3 policiais e 1 abordado ..............51

FIGURA 31 – Esquema tático de aproximação com 3 policiais e 4 abordados ............52

FIGURA 32 - Esquema tático de aproximação com 4 policiais e 4 abordados ............52

FIGURA 33 - Composição da patrulha com 6(seis ) PMs (vista pela retaguarda).........55

FIGURA 34 - Deslocamento ponto a ponto..............................................................................57

FIGURA 35 - Postura de combate- (vista lateral)....................................................................58

FIGURA 36 - Postura torre................................................................................................................58

FIGURA 37 - Postura Tática Siamesa Sequencia V L T Y..........................................................59

FIGURA 38 - Postura Hi-Low............................................................................................................60

FIGURA 39 - Resgate de feridos(posição dos braços) ........................................................... 61

FIGURA 40 – Busca minuciosa na posição de contenção em pé, sem apoio ...............85

FIGURA 41 – Busca minuciosa na posição de contenção em pé, com apoio............... 86

FIGURA 42 – Busca minuciosa na posição de contenção ajoelhado............................... 88

FIGURA 43 – Busca minuciosa na posição de contenção deitado ...................................89

FIGURA 44 – Sistema de trava de algemas ...............................................................................94

FIGURA 45 – Verificação da vítima .............................................................................................139

FIGURA 46 – Isolamento do local ..............................................................................................140

FIGURA 47 – Pessoas alterando local de crime .....................................................................141

FIGURA 48 – Tratamento com a imprensa ..............................................................................142


SUMÁRIO
1 APRESENTAÇÃO ............................................................................................................15
2 TÉCNICA E TÁTICA POLICIAL BÁSICA ...................................................................21
2.1 Deslocamentos Táticos ..............................................................................................21
2.1.1 Uso de cobertas e abrigos ....................................................................................22
2.1.2 Tipos de deslocamentos a pé ..............................................................................24
2.1.3 Deslocamentos por rastejo ..................................................................................25
2.1.4 Técnicas de uso do escudo balístico .................................................................27
2.2 Disciplina de luz e som ..............................................................................................31
2.3 Comunicação por gestos ..........................................................................................31
2.4 Técnicas de uso de lanterna .....................................................................................32
2.5 Técnicas de varredura ................................................................................................35
2.6 Posições/posturas adotadas pelo policial militar na abordagem a
pessoas .................................................................................................................................38
2.6.1 Ângulos de aproximação ......................................................................................39
2.6.2 Posturas de abordagem com as mãos livres ..................................................40
2.6.3 Posições de emprego de arma de fogo ...........................................................43
2.7 Técnica de Aproximação Triangular (TAT)........................................................... 47
2.7.1 Patrulha Policial Militar ...........................................................................................53
2.7.2 Tipos de Patrulha Policial Militar .........................................................................53
2.7.3 Fomação Básica da Patrulha ...............................................................................54
2.7.4 Deslocamentos da Patrulha ................................................................................56
2.7.4.1 Tipos de Deslocamentos ....................................................................................56
2.7.5 Posturas Táticas ........................................................................................................58
2.7.6 Resgate de Feridos .................................................................................................. 60
3 ABORDAGEM A PESSOAS ..........................................................................................65
3.1 Uso diferenciado de força nas intervenções policiais ....................................66
3.2 Níveis de Intervenção ................................................................................................66
3.3 Técnicas e táticas de abordagem a pessoas ......................................................70
3.4 Modelos de abordagem ............................................................................................71
3.4.1Intervenção nível 1 (assistência e orientação) ................................................71
3.4.2 Intervenção nível 2 (verificação preventiva) ..................................................72
3.4.3 Intervenção nível 3 (verificação repressiva) ...................................................74
4 BUSCA PESSOAL ............................................................................................................79
4.1 Aspectos legais da busca pessoal ..........................................................................79
4.2 Tipos de Busca Pessoal ..............................................................................................82
4.2.1 Busca Ligeira ..............................................................................................................82
4.2.2 Busca Minuciosa .......................................................................................................83
4.2.3 Busca Completa ........................................................................................................90
4.3 Uso de algemas ............................................................................................................90
4.3.1 Recomendações Gerais do Uso de Algemas ................................................. 95
5 PROCEDIMENTOS POLICIAIS ESPECÍFICOS ......................................................99
5.1 Procedimentos Policiais em Ocorrências Envolvendo Autoridades.......... 99
5.1.1 Membros do Poder Executivo ...........................................................................100
5.1.2 Membros do Poder Legislativo .........................................................................101
5.1.3 Membros do Poder Judiciário ...........................................................................102
5.1.4 Membros do Ministério Público .......................................................................102
5.1.5 Membros de Órgãos Policiais ........................................................................... 103
5.1.6 Membros das Forças Armadas ......................................................................... 103
5.1.7 Membros da Advocacia ...................................................................................... 103
5.1.8 Outras Instituições ............................................................................................... 104
5.2 Abordagens policiais a grupos vulneráveis .....................................................106
5.3 Atuação policial frente às minorias ....................................................................117
5.4 Abordagem a pessoas em surto de drogas .....................................................120
6 TRATAMENTO ÀS VÍTIMAS .....................................................................................125
6.1 Procedimentos com vítimas em locais de ocorrência .................................127
7 LOCAL DE CRIME .........................................................................................................133
7.1 Classificação do Local de Crime e Conceitos Correlatos .............................133
7.2 Prova ..............................................................................................................................134
7.3 Procedimentos no local de crime ........................................................................136
7.4 Cadeia de Custódia de Vestígios ..........................................................................143
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................145
REFERÊNCIAS

SEÇÃO 1

APRESENTAÇÃO
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

1 APRESENTAÇÃO

O Manual Técnico-Profissional 3.04.02 (MTP 2) – Tática Policial,


Abordagem a Pessoas e Tratamento às Vítimas está em conformidade
com a legislação brasileira, em especial à Portaria Interministerial do Uso da
Força1, e com as normas internacionais de Direitos Humanos, oriundas das
Organização das Nações Unidas (ONU), aos quais são aplicadas à função
policial.

Este documento tem como referência os fundamentos da abordagem policial


do Manual Técnico-Profissional 3.04.01 (MTP 1) – Intervenção Policial,
Processo de Comunicação e Uso de Força e trata da aplicação da técnica e
tática policial à atividade-fim.
A construção das técnicas e táticas descritas neste Caderno é fruto de
experiências positivas vivenciadas no cotidiano operacional, de pesquisa e
da análise de simulações de ações policiais em âmbito acadêmico.
Este volume enfatizará a abordagem a pessoas, bem como as ações que
devem ser realizadas de forma preparatória e posteriores a esta intervenção.
Logo, a leitura do MTP 2 deve, obrigatoriamente, ser precedida da leitura do
MTP 1.
A seção 2 do Caderno é dedicada à apresentação de técnicas e táticas policiais
que antecederão a abordagem policial, como deslocamentos táticos, uso de
equipamentos como escudos balísticos e lanternas, técnicas de varredura e
de aproximação, bem como posturas de abordagem com as mãos livres e
posições de emprego de arma de fogo.
A abordagem policial2 é tratada na seção 3, onde é feita uma exposição
transversal com os princípios de uso de força e a classificação de risco,
estudados no CD 1. São descritas técnicas e táticas de abordagem a pessoas,
e traçado um modelo policial de referência para as abordagens nos diversos
níveis de intervenção.
A abordagem a pessoas envolve um conjunto ordenado de ações policiais
para se aproximar de um ou mais indivíduos, com o intuito de resolver
demandas do policiamento ostensivo. Este conceito possui um sentido
amplo, ou seja, abrange a todos os cidadãos, não se restringindo às pessoas
em situação de suspeição.

1 Portaria Interministerial 4226/10.


2 Ver MTP 1

15
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Na seção 4 são descritos os procedimentos relacionados à busca pessoal,


bem como seu embasamento legal. Esta etapa da intervenção policial será
realizada desde que haja fundada suspeita em relação à pessoa.

Procedimentos policiais para o tratamento de públicos específicos


(minorias, grupos vulneráveis, entre outros) são temas presentes na seção 5,
demonstrando o compromisso institucional no alinhamento desta doutrina
às normas internacionais de direitos humanos.

No cumprimento da visão institucional da Polícia Militar de Minas Gerais


(PMMG), de atingir excelência na promoção das liberdades e dos direitos
fundamentais, este Caderno traz na seção 6 um enfoque de atenção do
policial militar à vítima de crime, tema pouco explorado nos documentos
normativos das polícias brasileiras e no ordenamento jurídico nacional.

A seção 7 é dedicada ao procedimento operacional em locais de crime, por


meio da classificação e conceitos dos locais de crime, bem como na descrição
de procedimentos específicos a serem adotados no local onde ocorreu um
delito e a cadeia de custódia de vestígios.

Diante desses conhecimentos, o policial militar deve refletir sobre seu


papel na sociedade e a melhor maneira de executar o seu trabalho. Ele
deve se reconhecer como integrante da comunidade que exerce um papel
diferenciado por sua qualificação profissionalização e atributos policiais
militares continuamente desenvolvidos a pautar sua conduta operacional.

Assim, o vigor operacional da Corporação, sua força e eficiência devem


se mostrar no esforço e energia diária desprendidos por todos militares
na garantia da lei e da ordem no Estado de Minas Gerais. Este exercício
profissional deve traduzir-se individualmente em disciplina, lealdade,
honestidade, espírito de corpo, iniciativa, dedicação, equilíbrio emocional,
coragem, abnegação, vigor físico, civismo e patriotismo.

16
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Este documento faz parte de um conjunto de Manuais Técnicos-Profissionais


denominados Prática Policial Básica, a saber:

Manual Técnico-Profissional 3.04.01 (MTP 1) – Intervenção Policial, Processo


de Comunicação e Uso de Força

Manual Técnico-Profissional 3.04.02 (MTP 2) – Tática Policial, Abordagem a


Pessoas e Tratamento às Vítimas

Manual Técnico-Profissional 3.04.03 (MTP 3) – Blitz Policial

Manual Técnico-Profissional 3.04.04 (MTP 4) – Abordagem a Veículos

Manual Técnico-Profissional 3.04.05 (MTP 5) – Escoltas Policiais e Conduções


Diversas.

17
SEÇÃO 2

TÉCNICA E TÁTICA
POLICIAL BÁSICA
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

2 TÉCNICA E TÁTICA POLICIAL BÁSICA

Entende-se por técnica policial o conjunto dos métodos e procedimentos


utilizados na execução da atividade policial. O estabelecimento de técnicas
visa alcançar os princípios da eficiência, segurança e legalidade.
Para cada recurso utilizado no serviço policial, seja humano ou material,
existem técnicas pré-estabelecidas. O emprego correto da técnica exige
treinamento permanente, e cabe ao policial militar conhecer e empregar
as técnicas apresentadas neste caderno. O treinamento policial deve estar
alinhado com a identidade organizacional e ser realizado de forma contínua,
sendo o policial militar protagonista neste processo de auto-aprimoramento
profissional.
Essas técnicas foram selecionadas e aperfeiçoadas a partir de diversas
experiências vivenciadas no cotidiano operacional e acadêmico, levando-
se em conta a segurança nas abordagens, a coerência com os fundamentos
legais e éticos presentes nas normas internacionais e nacionais de direitos
humanos.
Além do domínio das técnicas (como fazer?), outro fator importante para o
sucesso das intervenções é a disciplina tática.
Entende-se por tática policial a forma de se aplicar com eficácia os recursos
técnicos que se dispõe, ou de se explorar as condições favoráveis para se
atingir os objetivos desejados.
A disciplina tática consiste na obediência de todos os policiais militares,
quando atuando em grupo, ao exercer suas ações (o que e quando fazer?),
no exato local (onde fazer?) definido no planejamento de cada atividade.
Isso propicia uma melhor coordenação das ações e dos procedimentos
de cada policial militar na sua respectiva responsabilidade de atuação e,
consequentemente, aumenta a segurança dos envolvidos.
Para garantir a disciplina tática, todos os policiais militares devem conhecer
sua função no ambiente de intervenção e conscientizar-se que cada
atribuição, por mais simples que pareça, é imprescindível para que o caso
tenha uma solução satisfatória (por que fazer?).
2.1 Deslocamentos Táticos
Correspondem às movimentações, realizadas por policiais militares, com
o objetivo de progredir, aproximar e abordar pessoas, adotando técnicas

21
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

específicas que permitam agir com rapidez, surpresa e segurança. A


observância desses fundamentos da abordagem policial potencializa ações e
asseguram que o objetivo proposto seja alcançado com mais eficácia.
Abaixo, estudaremos as técnicas a serem empregadas nos deslocamentos:
2.1.1 Uso de cobertas e abrigos
Nos deslocamentos táticos, os policiais militares deverão identificar locais no
ambiente que permitam proteção e ocultação.
A ocultação visa possibilitar que os policiais militares desloquem até o
local determinado, sem serem vistos pelos suspeitos até o momento da
abordagem, ou seja, conseguindo assim o fundamento da surpresa.
A proteção visa diminuir o risco do policial militar ser agredido ou alvejado
pelo suspeito.
Portanto, nos deslocamentos, os policiais militares deverão buscar cobertas e
abrigos para proteção e ocultação.
As cobertas e os abrigos são anteparos existentes na natureza ou produzidos
pelo homem, encontrados ao longo do deslocamento ou no cenário onde
ocorre a intervenção policial, sabendo que:
a) as cobertas são usadas como ocultação. Não têm a capacidade de deter
projéteis disparados contra o militar. Exemplos: portas em madeira, arbustos,
fumaça, neblina, um local escuro ou outro fator que dificulte a visualização e
os movimentos do policial ( figuras 1 e 2).

Figura 1 – Coberta (Perspectiva do policial militar)

22
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 2 – Coberta (Perspectiva do abordado)

b) os abrigos são usados como proteções, e são anteparos que, por suas
características e dimensões, são capazes de proteger o policial militar contra
disparos de arma de fogo e arremesso de objetos.
Exemplos: postes, muros, paredes, parte frontal de veículos (compartimento
do motor), caçambas metálicas, tronco de árvores, dentre outros (Figura 3).

Figura 3 – Abrigo

23
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Para maximizar a proteção nos deslocamentos e nas abordagens, deve-se,


sempre que possível, conjugar a coberta com o abrigo.
O deslocamento tático em áreas amplas, abertas e sem proteção, podem
comprometer a segurança do policial militar. Todavia, sendo necessária a
movimentação nessas áreas, deverá ser realizada de forma rápida com silhueta
reduzida ou lenta através dos procedimentos de rastejo, se as circunstâncias
exigirem, e sempre com a cobertura da equipe.
2.1.2 Tipos de deslocamentos a pé
Existem três tipos principais de deslocamento tático de policiais no processo
a pé, variando de acordo com o objetivo a ser alcançado:
a) Deslocamento Lento: é o passo com velocidade moderada, que permita
ao policial militar observar todos os pontos de foco e pontos quentes antes
de progredir. O policial militar deverá estar de silhueta reduzida, com a
arma nas posições de guarda baixa ou guarda alta. Deverá ser empregado,
preferencialmente, nas intervenções de risco nível II e III, em que há necessidade
de aproximação mais segura do objetivo a pé, mantendo a ocultação dos
policiais militares até o momento da abordagem. Exige disciplina de luz e
som, que será apresentada no item 2.2. Exemplos: abordagens a edificações;
b) Deslocamento Normal: é o passo natural, com compostura, em que
o policial militar deverá estar no estado de atenção ou de alerta, com a
arma localizada no coldre, observando o que acontece à sua volta. Este
deslocamento, devido ao pouco desgaste físico, permite percorrer grandes
distâncias e empenho em jornadas prolongadas. Deverá ser empregado em
rastreamentos e deslocamentos longos até a aproximação mediata do alvo
principal da intervenção. Exemplo: deslocamentos para diligência de captura
de presos em fuga em área rural;
c) Deslocamento rápido: é o passo com velocidade acelerada que permite
ao policial militar alcançar o objetivo com rapidez. Este tipo de deslocamento
deverá ser empregado mediante prévia avaliação dos riscos, nos seguintes
casos, entre outros:
I- Perseguição de suspeito enquanto estiver à vista. O policial militar deve
alterar o tipo de deslocamento conforme a avaliação das áreas de risco ou
segurança;
II- Progressão em áreas amplas, carentes de cobertas e abrigos. Nestes casos,
o policial militar poderá empregar técnica de deslocamento com mudança
brusca de direção “ziguezague”;
III- Intervenções com objetivo de salvar vidas.
24
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

ATENÇÂO! Perseguição policial é o procedimento


adotado pelas forças policiais para acompanhar
visualmente ou seguir um suspeito da prática de um
delito, que se encontra em fuga, com objetivo de
capturá-lo para adoção das medidas legais cabíveis. (O
tema de perseguição policial a veículos é tratado no
Caderno Doutrinário 4).

2.1.3 Deslocamentos por rastejo

Existem três processos de deslocamento de policiais militares por rastejo,


variando de acordo com o objetivo a ser alcançado e a necessidade.
Mostraremos a seguir apenas dois processos que são mais aplicáveis a
atividade Policial Militar.

a) 1º Processo: o policial militar apoiará seu corpo ao solo em decúbito


ventral, mantendo seu corpo o mais próximo possível do chão. O PM se
locomoverá por meio da tração alternada de cotovelos e joelhos, ou seja,
o joelho esquerdo move-se junto com o cotovelo direito, e vice-versa, de
forma sucessiva. Durante o deslocamento, os joelhos flexionarão até o limite
do quadril. Caso o policial militar esteja portando arma longa, ela deverá ser
transportada nos braços, perpendicularmente ao corpo, para que não entre
sujeiras em seu cano. Caso esteja empunhando arma de porte, esta ficará na
mão forte, com dedo fora do gatilho.

Figura 4 - Rastejo 1º processo (arma de porte) e (arma portátil)

25
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

b) 2º Processo: o policial militar apoiará seu corpo ao solo em decúbito


ventral. Manterá seus cotovelos e antebraços no chão. Flexionará apenas uma
perna, e a utilizará para impulsionar o corpo para frente, juntamente com a
ajuda das mãos e antebraços. Caso o policial militar esteja portando arma
longa, ela poderá ser conduzida por uma das mãos à frente do corpo segura
pela bandoleira, cano da arma voltado para frente, elevando o armamento o
mínimo necessário a cada impulsão. Caso esteja empunhando arma de porte,
esta ficará na mão forte, com dedo fora do gatilho. Este processo faz com
que a movimentação seja mais lenta e cansativa em relação ao primeiro, mas
melhora as condições de ocultação e proteção.

figura 5 - Rastejo 2º processo (arma de porte) e (arma portátil)

26
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

2.1.4 Técnicas de uso do escudo balístico


Para maior segurança nos deslocamentos, o policial militar poderá, ainda,
recorrer ao escudo balístico.
O escudo balístico é um equipamento que visa proteger a pessoa que o
conduz. Contudo, com a técnica adequada, sua capacidade de proteção
poderá se estender aos demais policiais militares da equipe durante o
processo de deslocamento. As progressões utilizando escudos balísticos
podem ser feitas de duas formas principais, variando de acordo com o nível
de segurança:
a) Segurança Mínima:
to escudo será conduzido pelo 1° policial militar, na posição de pé (Figura 6).

Figura 6 – Uso de Escudo Balístico (Segurança Mínima)

a) Segurança Máxima:

t o escudo será utilizado pelo 1° policial militar, que deslocará com a silhueta
reduzida, com o escudo bem próximo ao solo. Em casos de disparo contra
a guarnição, ou para conceder mais segurança em uma abordagem, o 1º

27
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

policial militar interromperá o deslocamento e ficará na posição de joelhos


(escudo no chão) (Figura 7).

Figura 7 - Uso de Escudo Balístico (Segurança Máxima)

Em ambos os casos, o armamento será conduzido lateralmente ao escudo,


de modo que a armação encoste no equipamento e apenas o cano fique
exposto. Havendo necessidade extrema de disparo, o policial militar levará o

28
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

armamento para frente do visor do escudo, para melhor controle da visada,


fazendo a empunhadura lateral (figuras 7 e 8). Todavia, o mais recomendado
é que outro policial militar com melhor posicionamento tático realize os
disparos para neutralizar o agressor.

Figura 8 – Uso de Escudo Balístico (Segurança Mínima e Máxima com arma na lateral)

29
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 9 – Uso de Escudo Balístico (Segurança Mínima e Máxima com arma à frente do visor)

30
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

2.2 Disciplina de luz e som


A disciplina de luz e som é o conjunto de recomendações que pode ser
empregado para reduzir ou eliminar a emissão de ruídos e de luminosidade
que possam denunciar o posicionamento do policial militar.
Para manutenção da disciplina de luz, os policiais militares deverão
ocultar o visor do celular, caso seja necessário seu uso como instrumento
de comunicação. Além disso, jamais acender cigarro e evitar expor objetos
cromados com capacidade de reflexão de luz direta. Os policiais militares
deverão fazer o uso da lanterna de acordo com as técnicas de emprego deste
equipamento, conforme seção 2.4.
Simples medidas podem preservar a vantagem tática durante a abordagem.
Para manutenção da disciplina de som:
xrealizar a auto-inspeção (bater nos bolsos, efetuar pequenos saltos)
antes de iniciar o deslocamento, retirando materiais que façam barulho;
xmanter no modo silencioso ou desligado os telefones celulares, alarmes
de relógio e similares;
xcertificar-se de que os metais do cinturão ou de qualquer objeto
conduzido estejam realmente presos, como as algemas, apitos, tonfa,
outros;
xajustar o volume do rádio HT ou, quando possível, usar fones de ouvido
para comunicação.
Iniciada a progressão, deve-se observar a presença de objetos espalhados pelo
solo (copos plásticos, garrafas, folhas secas, outros) que possam provocar ruídos.
2.3 Comunicação por gestos
A comunicação por gestos é uma técnica utilizada nos deslocamentos.
Trata-se de comunicação não verbal, executada por intermédio de sinais
convencionados, que objetivam intermediar mensagens entre os policiais
militares de forma silenciosa. Propicia a aproximação cautelosa e discreta.

Os gestos mais utilizados nas intervenções são os demonstrados na figura 10.

31
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 10 – Comunicação por gestos

Além dos gestos apresentados, a equipe poderá convencionar outros, de


acordo com a necessidade. Para maior efetividade da comunicação, antes da
entrada em operação, as equipes deverão checar a compreensão dos gestos
a serem utilizados.

2.4 Técnicas de uso de lanterna


O olho humano não tem capacidade para se adaptar de forma rápida e efetiva
às variações da luminosidade dos ambientes.

32
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Ao passar de um ambiente iluminado para um de baixa luminosidade, ou


vice-versa, é preciso que o policial militar aguarde alguns segundos, para
que sua visão se adapte às novas condições do ambiente, antes de iniciar o
deslocamento.
No cotidiano operacional, o policial militar se depara com ambientes de
baixa luminosidade, mesmo durante o dia. Nessas circunstâncias, a visão em
profundidade e a percepção de detalhes ficam prejudicadas e os objetos, em
geral, adquirem uma tonalidade cinza ou parda.
A lanterna é um recurso eficaz para ambientes de baixa luminosidade. Suas
principais utilidades são:

xiluminação do ambiente;

xidentificação de pessoas ou objetos;

xauxílio na realização da pontaria;

xofuscamento da visão do abordado;

xsinalização.

A lanterna deve ser utilizada com acionamentos intermitentes, para que


a posição do policial militar e dos demais integrantes da equipe não seja
denunciada. Além disso, o acionamento de lanterna, atrás de outro policial
militar deve ser evitado.
Se, durante o deslocamento, o policial militar deparar com um suspeito,
poderá focalizar o feixe de luz nos olhos do abordado, com o objetivo de
ofuscar-lhe a visão, procurando abrigo para realização de uma verbalização
segura.
O feixe de luz deverá permanecer sobre os olhos do abordado o tempo
necessário para averiguar se ele está armado ou enquanto apresentar perigo.
A lanterna será conduzida pela mão que não estiver empunhando a arma de
fogo e sempre acompanhará a direção do cano. Desta forma, o foco de visão
do policial militar, o cano da sua arma e o feixe de luz deverão estar voltados
para a mesma direção.

33
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

As posições de empunhadura da lanterna são as seguintes:

a) posição 1: o policial militar apoiará a lanterna lateralmente na armação


da arma, segurando-a com o dedo polegar e o indicador. É apropriada para
lanternas com botão de acionamento lateral (Figura 11).

Figura 11 – Técnica de Uso da Lanterna “Posição 1”

b) posição 2: o policial militar coloca a mão que está com a lanterna abaixo da
mão que segura a arma. As costas das mãos se apóiam para dar estabilidade
ao conjunto, conforme ilustra a (Figura 10). É importante frisar que, nesta
posição, o armamento está em empunhadura simples com apoio, o que
poderia dificultar uma boa sustentação e estabilidade após o recuo da arma
entre um disparo e outro.

Figura 12 – Técnica de Uso Utilização da lanterna “Posição 2”.

34
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

2.5 Técnicas de varredura


A varredura consiste na verificação visual feita pelo policial militar, de um
determinado espaço físico localizado em uma área de risco. Para realizá-la,
os policiais militares poderão utilizar três técnicas básicas denominadas:
tomada de ângulo, olhada rápida e uso do espelho.

a) Tomada de ângulo

Conhecida também como fatiamento permite checar o ambiente por


segmentos. Seu objetivo é propiciar a visualização total ou parcial de uma
pessoa ou de um objeto (pés, mãos, roupas, armamento, dentre outros),
antes que o policial militar seja visto pelo abordado.

A varredura será feita de maneira lenta e gradual, frente a locais com ângulos
desconhecidos (esquina de becos, portas, corredores, escadas, dentre
outros). O policial militar se moverá lateralmente, sem a exposição do corpo e
sem cruzar as pernas, tendo como referência o obstáculo (parede, muro, por
exemplo), que lhe servirá de abrigo.

A tomada de ângulo será feita até que se tenha o controle visual total do
ambiente ou visualize partes do corpo do abordado, momento em que
recorrerá à verbalização e às técnicas de abordagem.

Com a arma na posição 3 – guarda alta, o policial militar manterá os


cotovelos recolhidos, para evitar a visualização de sua sombra e de peças do
fardamento (Figura 13 e 14).

Figura 13 – Tomada de ângulo ou “fatiamento” (visão do policial militar)

35
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 14 – Tomada de ângulo ou “fatiamento” - (visão do abordado)

A verbalização deverá iniciar-se tão logo o policial militar localize um suspeito,


procurando manter o controle visual.
b) Olhada rápida
Esta técnica tem por objetivo propiciar a visualização instantânea de um
suspeito, sem ser visto por ele.
Para realizá-la, o policial militar deve expor a cabeça lateralmente, observar a
área de risco, e retornar à posição abrigada, o mais rápido possível.
Se a repetição do movimento for necessária, o policial militar deverá alternar
o ponto de observação, como se vê na figura 15 e 16.

Figura 15 – Olhada rápida (visão do policial militar)

36
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 16 - Olhada rápida (visão do abordado)

Durante sua execução, a arma deverá estar no coldre ou em uma das mãos,
devendo o policial militar atentar para o controle da direção do cano.
Antes de empregar a técnica, o policial militar deverá ter próximo à sua
retaguarda, em cobertura, outro policial militar, que deverá estar em pé, com
a arma na posição 2 – guarda baixa, sem apontá-la em direção ao executor
e expô-lo ao perigo.
Ao avistar a área de risco e identificar o(s) suspeito(s) com a olhada rápida, o
policial militar executor sinalizará para os outros policiais militares o número
e localização dos suspeitos, bem como se estão armados.
Caso tenham supremacia de força3, deverão usar, após a olhada rápida, a
técnica de tomada de ângulo, com o objetivo de se posicionarem seguramente
para emprego da verbalização e abordagem.
c) Uso do espelho
O uso do espelho é uma técnica que contribui para aumentar a segurança do
policial militar. A varredura será realizada com o espelho de baixo para cima
ou vice-versa, cautelosamente e devagar, observando todos os ângulos. É
conveniente que o espelho a ser utilizado seja convexo e sustentado por uma haste,
para facilitar o manuseio e permitir uma maior amplitude visual. Ao conhecer a
posição do suspeito, o policial militar deverá recorrer à tomada de ângulo a fim de
3 Ver seção 3 deste Caderno.

37
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

manter o controle sobre os pontos de foco e pontos quentes4 e empregar


a verbalização.

Figura 17 – Uso do espelho

Embora apresentadas isoladamente, o policial militar deve dominar as três


técnicas descritas, para que as utilize segundo a conveniência e a necessidade.
Simultaneamente, poderá realizar o fatiamento, com olhadas rápidas ou com
o recurso do espelho, aumentando ainda mais o seu campo visual.
2.6 Posições/posturas adotadas pelo policial na abordagem a pessoas
Posições/posturas de abordagem, também conhecidas como “posturas
táticas”, são técnicas que definem o posicionamento do corpo e da arma do
policial militar, que o possibilitam aproximar-se e verbalizar com o abordado
de maneira segura, potencializando sua capacidade de autodefesa e
viabilizando o uso diferenciado de força.
As posturas referem-se ao posicionamento corporal do policial militar com
as mãos livres, enquanto posições referem-se a empunhadura de armas ou
equipamentos.
A posição/postura do policial militar durante uma abordagem influencia
diretamente no processo mental de agressão5 do abordado retardando
a etapa de decisão. Uma atitude relapsa transmite despreparo profissional
e expõe a segurança do policial militar, enquanto outra, demasiadamente
4 Ver Seção 4 do MTP 1.
5 Ver Seção 4 do MTP 1.

38
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

rígida ou desrespeitosa, poderia causar indignação.


A posição/postura do policial militar durante a abordagem deve estar
diretamente vinculada ao risco com o qual ele pode se deparar. Por isso, em
toda abordagem, este deve empregar a metodologia de avaliação de risco6
para decidir a melhor técnica a ser utilizada.
Antes de estabelecer as posições/posturas, é necessário definir os ângulos de
aproximação entre o policial militar e o abordado. A aplicação do conhecimento
sobre estes ângulos proporcionará maior segurança na abordagem.
2.6.1 Ângulos de aproximação
Nas abordagens7e buscas pessoais8, os policiais militares deverão atentar
pela segurança. Para tanto, foram estabelecidos ângulos de aproximação ao
abordado, conforme figura 18.

Figura 18 – Ângulos de aproximação

O policial militar procurará não se aproximar do espaço compreendido entre


os braços do abordado, porque poderá ser atingido com maior facilidade em
caso de uma possível agressão física.
Os demais ângulos descritos na (Figura 18) acima permitem uma aproximação
segura, sendo que o ângulo 3 oferece maior segurança e o ângulo 1, menor.

6 Ver Seção 3 do MTP 1.


7 Ver Seção 3 deste Manual.
8 Ver Seção 4 deste Manual.

39
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Uma aproximação, observando-se os ângulos de segurança, aumenta o


tempo do processo mental da agressão do abordado. Assim, ele terá que se
virar para atingir o policial militar que, por sua vez, terá melhor condição de
se esquivar.

2.6.2 Posturas de abordagem com as mãos livres

São técnicas em que o policial militar faz a intervenção sem recorrer a quaisquer
armamentos, instrumentos ou equipamentos. São estabelecidas para cada
nível de risco9, orientando a distância e a angulação de aproximação, bem
como a posição de mãos e braços do policial militar.

Estando preliminarmente com as mãos livres e visíveis, o policial militar


transmitirá ao abordado a mensagem10 de que deseja dialogar ou resolver
pacificamente o conflito.

Para todas as posturas a mãos livres, o policial militar deverá adotar a posição
de “base”, utilizada nas artes marciais, variando-se apenas a posição das
mãos e braços. Esta posição permite ao policial militar equilíbrio e melhores
possibilidades de defesa e contra-ataque. Também permite maior proteção
da arma de fogo do policial militar, haja vista que os braços e pernas mais
fortes e, consequentemente, o coldre (geralmente colocado do lado da mão
mais forte) ficam ligeiramente projetados para a retaguarda. Logo, mais
distantes do raio de ação do abordado.

Aposição de base está representada nas figuras 19,20, 21.

a) Postura Aberta

Deverá ser empregada nas intervenções em que o abordado não estiver


aparentemente portando armas e apresentar comportamento cooperativo.

Nesta postura, o policial militar se aproximará do abordado, preferencialmente,


pela angulação 1, conforme figura 16, e permanecerá a uma distância
de aproximadamente 3 metros, o que permitirá ao policial militar agir em
autodefesa e monitorar os pontos quentes (cabeça, mãos e pernas).

Na postura aberta, os braços do policial militar permanecerão naturalmente


abaixados, com as palmas das mãos voltadas para frente, manifestando
gestualmente uma mensagem de receptividade, conforme ilustra a figura 19.
9 Ver Seção 3 do MTP 1.
10 Ver Seção 6 do MTP 1

40
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 19 – Postura Aberta - mãos livres

b) Postura de Prontidão
Deverá ser utilizada nas intervenções em que o abordado não estiver
aparentemente portando armas e apresentar comportamento de resistência
passiva.
Esta postura com um dos braços elevados e mãos abertas (conforme figura 20)
permite ao policial militar o emprego mais eficiente das técnicas de controle
de contato, além de transmitir uma mensagem gestual de contenção do
conflito, não agressividade e intenção de resolução pacífica.

Figura 20 – Postura de Prontidão

41
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Sempre que o abordado tentar reduzir a distância de segurança, o policial


militar deverá ordenar que ele pare imediatamente e, concomitantemente,
dele se afastará. Esse procedimento retardará o tempo decorrente do
processo mental da agressão.
c) Postura Defensiva
Deverá manter a cabeça ereta na posição natural, com as mãos abertas
próximas ao rosto, e os cotovelos projetados na linha das costelas, a fim de
protegê-las, permanecendo assim em melhores condições de emprego das
técnicas de controle físico e com maiores chances de defesa contra golpes. As
mãos permanecerão abertas por assim representarem um gesto universal de
defesa, as pernas deverão estar formando uma base equilibrada, os joelhos
semifexionados e o corpo projetado à frente (figura 21). Jamais deverá ser
usado com punho cerrado, pois este gesto denota agressão.

Figura 21 - Postura Defensiva

A postura defensiva com as mãos livres deverá ser utilizada nos seguintes
casos:
a) abordado aparentemente desarmado que apresenta resistência
passiva continuada: após esgotada a tentativa de convencimento do
abordado ao acatamento das ordens, o policial militar deverá mudar a

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Manual Técnico-Profissional 3.04.02

postura de prontidão para postura defensiva, e realizar a aproximação para


emprego inicial de técnicas de controle de contato para prisão do abordado.

b) abordado aparentemente desarmado que apresenta resistência


ativa: neste caso, o abordado não obedece às ordens do policial militar e
tenta atingir o policial militar com socos e chutes. O policial militar deverá
adotar a postura defensiva para realizar o controle físico através do emprego
e técnicas de defesa pessoal policial.

Se o policial militar entender que não será possível dominar um abordado


com o emprego de técnicas de defesa pessoal policial com as mãos livres
(controle de contato e controle físico), desde que não exista risco iminente
de morte, deverá acionar reforço e avaliar a oportunidade e conveniência
para empregar instrumentos de menor potencial ofensivo (controle com
IMPO) ou até mesmo uso dissuasivo de arma de fogo11 .

A adoção de uma postura correta, somada a uma verbalização adequada,


poderão levar o abordado a cooperar com a abordagem policial, prevenindo
uma provável resistência, ainda na fase embrionária.

ATENÇÂO! Os procedimentos para o emprego de


instrumentos de menor potencial ofensivo serão
tratados em manual específico.

2.6.3 Posições de emprego de arma de fogo

São técnicas que objetivam garantir a segurança do policial militar e causar


impacto psicológico no abordado, proporcional ao nível de risco oferecido,
de forma dissuasiva.

Existem quatro posições básicas para se utilizar o armamento de porte


durante as intervenções policiais.

a) Posição 1 - arma localizada

O policial militar levará a mão até o punho da arma, e a manterá no coldre


desabotoado, conforme figura 22. Tal posição tem o objetivo de reduzir o
tempo de reação do policial militar e passar ao abordado a possível intenção
de usar a arma.

11 Conforme disposto no item 7.2.3 do MTP 1 e orientação do item 6 da Portaria Interministerial


4.226/10.

43
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 22 – Posição 1: Arma localizada coldre desabotoado

b) Posição 2 – guarda baixa


O policial militar manterá os braços ligeiramente flexionados, à frente e próximos
ao corpo; estará com a arma empunhada destravada (fora do coldre), posicionada
na altura do abdômen com o cano voltado para baixo e, como medida de
segurança, manterá o dedo indicador fora do gatilho, na mesma direção do cano,
conforme figura 23.

Figura 23 – Posição 2: Guarda baixa

44
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Esta posição é indicada para deslocamentos longos, pois minimiza o


cansaço físico causado pelo peso da arma, proporciona ao policial militar
condição para se defender de uma possível agressão, sem aumentar muito
o tempo de reação.
Ao se deslocar em grupo, o policial militar deverá manter o controle do cano
da arma e, em hipótese alguma, a apontará na direção dos integrantes do
grupamento.

c) Posição 3 – guarda alta


O policial militar manterá os braços à frente do corpo, ligeiramente
flexionados. A arma estará empunhada abaixo da linha dos ombros (altura
do tórax), e o cano ficará voltado pra frente, como mostra a figura 24.
Esta posição é indicada para deslocamentos curtos. O policial militar se
mantém em condições de responder rapidamente a uma possível agressão.

Figura 24 – Posição 3: Guarda alta

45
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

d) Posição 4 – pronta-resposta
A arma será apontada diretamente para o abordado, conforme figura 25.

Figura 25 – Posição 4: Pronta-resposta

Será empregada nas situações em que exista potencialidade real e imediata


de agressão letal, ou nas situações que ofereçam risco de morte ou ferimentos
graves ao policial militar ou a terceiros.

Ao visualizar um agressor armado, o policial militar apontará rapidamente


a arma para a sua massa central (tronco) e manterá, ao mesmo tempo, o
controle dos pontos quentes.

O policial militar somente deverá acionar a tecla do gatilho após identificar,


certificar e decidir para agir, ou seja, disparar a arma de fogo.

LEMBRE-SE: Recomenda-se evitar iniciar as abordagens na


posição de pronta-resposta, pois isso limita a alternância dos
níveis de força, e ainda acarreta o risco de disparo acidental.
O policial militar, ao verbalizar com um abordado cooperativo,
por exemplo, estando ainda com a arma no coldre, disporá de
outros níveis de força, sem que recorra, necessariamente, ao
disparo. Ver quadros 3, 4 e 5 na Seção 3.

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Manual Técnico-Profissional 3.04.02

2.7 Técnica de Aproximação Triangular (TAT)


Nesta técnica, dois policiais militares e o abordado dispostos de maneira
que formem um triângulo. É considerada a forma mais segura e eficiente de
aproximação policial militar.

A distância recomendada entre os policiais militares será de aproximadamente


4 metros, o que dificulta o controle visual simultâneo de ação dos dois policiais
militares por parte do abordado. A distância dos policiais militares em relação
ao suspeito será de aproximadamente 3 metros, para proporcionar segurança
à guarnição em caso de repentina agressão (Figura 26).

A postura ou posição de emprego de arma a ser utilizada pelos policiais


militares na realização da TAT deverá ser definida pelo policial militar de
acordo com o nível de risco e a evolução dos fatos durante a intervenção12.

A TAT poderá ser empregada em esquemas táticos variados, em função da


quantidade e comportamento dos abordados e do número de policiais
militares.

A área de contenção corresponderá ao espaço de abrangência da ocorrência,


em que os policiais militares manterão monitoramento mais constante, com
objetivo de conter os abordados e isolar o local de interferência de terceiros.

O setor de busca corresponde ao local onde se realizará a busca pessoal e


será definido pelos policiais militares após análise da área e da avaliação de
risco. Se possível, possuirá características que privilegiem a segurança tanto
dos policiais militares quanto dos abordados. Tais características são o relevo
adequado e se situar fora da área de tráfego de veículos e de locais onde os
policiais militares não tenham pleno controle no que se refere à segurança.

O setor de custódia corresponderá a um local dentro da área de contenção,


com as mesmas características do setor de busca, definido pela guarnição,
onde os demais suspeitos aguardam a busca pessoal e outros procedimentos
necessários (consulta de dados, checagem de objetos, outros). Recomenda-se
que estes locais não possuam pontos de escape, que permitam uma possível
evasão dos abordados.

12 Conforme posturas e posições de emprego de arma sugeridas na seção 3 deste Caderno

47
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 26 – Técnica de Aproximação Triangular e Área de Contenção

Numa abordagem a pessoas, os policiais militares exercerão as seguintes


funções:
xPM Verbalizador/Comandante: aquele que verbaliza com o abordado;
xPM Segurança/Comandante: responsável pela segurança da equipe;
xPM Revistador: encarregado de revistar o abordado e seus pertences
(busca).
Um único policial militar poderá exercer mais de uma função. É importante
lembrar que estas funções deverão ser previamente definidas pelo
comandante da abordagem, a fim de garantir a disciplina tática entre os
integrantes.
Para a realização da abordagem de um ou dois suspeitos, a equipe de policiais
militares adotará as seguintes providências:
x O PM Verbalizador determinará ao abordado todos os
procedimentos para a adoção de uma das posições de contenção
(definidas no item 4.2.2) que o policial militar julgar mais adequada.
Para tal, o PM Verbalizador deverá dar ordens claras e precisas para
o abordado até que este adote a posição determinada.
x Havendo mais de um suspeito, a equipe fará a busca pessoal em um
de cada vez.

48
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

x A equipe cuidará para que não se perca a triangulação necessária;

Para a realização da abordagem a três ou mais suspeitos, a equipe de


policiais militares adotará as seguintes providências:

x Dentre os suspeitos abordados posicionados no setor de


custódia, o PM Verbalizador determinará a um deles que se
poste em local distinto dos demais (setor de busca), tomando a
posição de contenção mais adequada, conforme sua avaliação,
para que seja procedida a busca pessoal.

x A pessoa a ser abordada ficará afastada a uma distância


aproximada de 3 metros do grupo, na lateral, conforme se
observa nas Figuras 31 e 32.

x O detalhamento das ações de Abordagem a Pessoa e Busca


Pessoal será feito nas seções 3 e 4, respectivamente.

x O abordado terá seus dados anotados para que seja averiguado


seu prontuário criminal e/ou para pesquisas de qualidade do
serviço operacional pós-atendimento. Após, o policial militar
informará ao suspeito o motivo do procedimento e agradecerá
a colaboração.

x Caso o cidadão, após terminado o procedimento policial,


deseje esperar por outro abordado, o PM Verbalizador
determinará que ele aguarde fora da área de contenção.
Entretanto, atenção ainda deverá ser dada a ele, através do
monitoramento pelo PM Segurança.

As funções policiais poderão variar no decorrer da abordagem, de acordo


com o local, número de abordados, grau de risco, e de informações obtidas
sobre os suspeitos.

Observe nos esquemas sugeridos a seguir, que o policial militar responsável


pela segurança da abordagem também se encarregará da segurança
periférica.

49
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

a) dois policiais militares e um abordado

Figura 27 – Esquema tático de aproximação com 2 policiais militares e 1 abordado

b) dois policiais militares e dois ou três abordados


O esquema tático sugerido aplica-se à abordagem a duas ou três pessoas.
No caso de três, o esquema dependerá da avaliação de riscos feita
pelos policiais militares.

Figura 28 – Esquema tático de aproximação com 2 policiais militares e 2 abordados

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Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 29 – Esquema tático de aproximação com 2 policiais militares e 3 abordados

c) três policiais militares e um abordado

Figura 30 – Esquema tático de aproximação com 3 policiais militares e 1 abordado

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PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

d) três policiais militares e vários abordados

Figura 31 – Esquema tático de aproximação com 3 policiais militares e 4


abordados

e) quatro policiais militares e quatro abordados

Figura 32 – Esquema tático de aproximação com 4 policiais e 4 abordados

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Manual Técnico-Profissional 3.04.02

ATENÇÂO! Em abordagens com buscas pessoais a grandes


grupos, mesmo não havendo um número superior de
policiais militares em relação aos abordados, desde que
se mantenha a segurança requerida para os militares,
poderá ser designado mais de um militar para realizar a
busca pessoal de forma concomitante, conforme Seção 5.

Em seguida, na seção 3, serão discutidas técnicas e táticas de abordagem a


pessoas, e será traçado um modelo policial de referência para as ações nos
diversos níveis de intervenção.

2.7.1 Patrulha Policial Militar

É um Grupamento de policiais militares com composição variada que atuará


temporariamente como uma força de pequeno efetivo, sendo empregado
no serviço operacional, empenhado em ambiente rural ou urbano com o
objetivo de incursionar, reconhecer e resgatar.
No cumprimento de uma missão de patrulha deve-se levar em consideração
a necessidade de um ponto de reunião próximo ao objetivo, local em que
se fará a checagem final de equipamentos, armamentos e se fará o último
briefing antes da execução da missão.

2.7.2 Tipos de Patrulha Policial Militar

a) Patrulha de incursão – tem por finalidade realizar deslocamentos


no interior de aglomerados urbanos. Utiliza das técnicas policiais com
objetivo de realizar operações, efetuar prisões, cumprir mandados, ocupar
determinadas áreas e restaurar a ordem ou garantir a lei.
b) Patrulha de reconhecimento – Tem por finalidade confirmar ou buscar
informações, denúncias, reconhecimento de áreas ou edificações.
c) Patrulha de resgate - É a Patrulha que utiliza das técnicas policiais a fim de
prestar apoio e socorro a outras patrulhas PM.

53
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

2.7.3 Formação Básica de Patrulha

Com seis policiais militares, as funções são, Ponta de vaguarda 1, Ponta de


vaguarda 2, Comandante, Ala/equipamento (operador de fuzil), Retaguarda
2 e Retaguarda 1.
O Quadro 1 retrata a composição de uma patrulha com 6 (seis) policiais
militares.

QUADRO 1 - Formação Básica de uma Patrulha Urbana 6 (seis) Policiais Militares

ÁREA DE NOMENCLATURA FUNÇÃO CARACTERÍSTICAS


OBSERVAÇÃO
- Primeiro homem a Experiência, higidez
Ponta de
incursionar; física, conhecimento do
Vanguarda 01
- Verbalizar terreno, concatenação
ou Ponta 1
de ideias.
- Segundo homem a
Experiência, higidez
Ponta de incursionar;
física, conhecimento do
Vanguarda 02 - Verbalizar;
terreno, concatenação
ou Ponta 02 - Dar segurança do
de ideias.
ponta 1
Comandante Mais antigo e
- Coordenar a equipe.
experiente
- Monitorar as partes
altas como janelas,
lajes, etc.;
-Proteger as laterais da
Ala, operador patrulha; Credenciado em operar
fuzil e - Efetuar buscas pes- fuzil
Equipamento soai;
- Transportar rádio,
bornais, escudos, kits
1º socorros, etc.
Experiência, higidez
Ponta de - Verbalizar;
física, conhecimento do
Retaguarda 02 - Dar cobertura ao
terreno, concatenação
ou retaguarda 2 retaguarda 1,
de ideias
- Verbalizar; Experiência, higidez
Ponta de
- Dar segurança à física, conhecimento do
Retaguarda 01
retaguarda da equipe. terreno, concatenação
ou retaguarda 1
de ideias.

54
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 33 composição da patrulha com 6(seis ) PMs (vista de frente e retaguarda)

A composição da patrulha pode variar de acordo com o efetivo, mantendo-se


constante as funções de Ponta de vangarda 1, Comandante, Retaguarda 2 e
Retaguarda 1, quando composta por 4 (quatro) policiais militares;
Das funções acumuladas, o Ala (operador do fuzil) é quem transporta o
que for necessário à execução da operação (escudo, rádio HT, bornais, kit
emergência ou outro equipamento/armamento que a missão demandar),
além de realizar buscas pessoais, bem como transporte de feridos.
O comandante da patrulha observará os fatores que influenciam na
organização e atuação da patrulha e juntamente com seu grupo decidirá
qual será o deslocamento mais seguro e efetivo para a equipe. São os fatores
que podem interferir na organização e atuação de patrulha:

- Segurança;
- Objetivo da ação;
- Formações;
- Disciplina de luz e som;
- Possibilidades de contato;

55
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

- Velocidade de deslocamento;
- Manutenção da integridade tática;
- Condições do terreno
- Sigilo das operações;
- Controle da equipe.

2.7.4 Deslocamentos da Patrulha

Utiliza-se dois tipos básicos de deslocamento quando em patrulha, de forma


a otimizar, agilizar, previnir e assegurar a integridade física do policial militar.

2.7.4.1 Tipos de Deslocamentos

a) por Lanço – Deslocamento curto e rápido realizado entre duas posições


abrigadas ou cobertas. Será realizado em um movimento decidido. Antes de
iniciar um lanço o policial militar avaliará o risco para evitar uma indecisão
no decorrer do deslocamento. Para uma decisão firme e acertada o PM, ao
preparar um lanço, responderá a si próprio as perguntas que se seguem: para
onde vou?, como?, por onde? e quando?

ATENÇÂO! A posição de arma ideal para este tipo


deslocamento é a guarda baixa.

b) Tomada ponto a ponto – O deslocamento é feito sempre com, no máximo,


3 policiais militares por abrigo, de acordo com a necessidade de cobertura,
becos em “T ou Y” que necessitam de uma cobertura maior. Posição de arma
ideal é a guarda alta.
O deslocamento ponto a ponto é caracterizado pela cobertura ininterrupta
do policial militar que vai a frente e pelo policial miltar que vem logo em
seguida assumir o ponto.
Sempre que chegar a cobertura, após ser observado o ambiente pelos dois
policiais militares, o primeiro efetua o lanço para o próximo ponto ou abrigo

56
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

e aguarda o deslocamento de sua cobertura para poder progredir, sendo


todo o tempo coberto pelos companheiros que estão abrigados, inclusive
após sua chegada no abrigo.
Somente o Retaguarda 2 que antes de deslocar até o Ala, voltará sua frente
para a retaguarda da patrulha, abrigará e apontará sua arma para o ponto de
foco que o Retaguarda 1 guarnece. Feito isto, chamará o Retaguarda 1. Este
por sua vez, olhará para o Retaguarda 2 preocupando-se primeiramente com
a direção do cano da arma do Retaguarda 2 e após confirmar esta posição,
deslocará de frente até o local de abrigo do retaguarda 2, assumindo este
ponto voltando sua frente novamente para a Retaguarda. Assim que recolher
o Retaguarda 1 até seu abrigo, o Retaguarda 2 desloca para o proximo ponto.
Este recuo do Retaguarda 1 até o local onde o Retaguarda 2 está é chamado
de curto recuo ou recuo lento.
Caso o Retaguarda 1 tenha espaço suficiente e seguro para deslocamento,
poderá deslocar até o Ala e procederá da mesma forma para recolher o
Retaguarda 2. Eeste recuo do Retaguarda 1 até o Ala é chamando de recuo
longo ou rápido.

Figura 34 deslocamento ponto a ponto

57
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

2.7.5 Posturas Táticas


São posturas que reforçam o domínio sobre determinados pontos de forma
que os policiais militares se adaptem para cobrir todas as áreas;

a) Combate: policial militar de pé, com os pés paralelos, empunhando sua


arma na posição de guarda alta ou pronta resposta, corpo ligeiramente
flexionado para frente, a fim de absorver melhor o recuo da arma.

Figura 35 Postura de combate- (vista lateral)

b) Torre: postura em que um policial militar guarnece um ponto do


deslocamento. Consiste na colocação do joelho da perna forte apoiado no
chão e a perna fraca realiza um apoio em 90º. Deve-se observar que a perna
forte permanece com o pé ereto, apoiando o bico do coturno ao solo. Arma
estará em guarda alta ou pronta resposta, conforme o caso.

Figura 36 Postura torre

58
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

c) Siamesa: policial militar de pé, estaciona ou desloca ombro a ombro


com outro policial militar de forma que cada um cubra determinado ponto
formando um ângulo que pode ser em L, V, T ou Y de acordo com a direção
do cano da arma dos primeiros policiais militares da equipe.

L V

T Y

Figura 37 Postura Tática Siamesa Sequencia V L T Y

59
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

d) Hi-Low: é a soma da Postura de Combate (“Hi”) e da Postura Torre (“Low”).


É utilizada para cobertura, onde o emprego de um homem naquela postura
é insuficiente para responder a disparos realizados contra a equipe. O policial
militar que realizar a Postura “Hi” deverá permanecer nas costas do policial
militar que fizer a Postura “Low” e posicionar-se paralelamente, oferecendo
o apoio das pernas e do tronco para apoio do “Low”, do mesmo modo que
sua posição deve impossibilitar qualquer ação do “Low” que possa levá-lo á
cruzar a linha de tiro.

Figura 38 Postura Hi-Low

2.7.6 Resgate de Feridos

Trata-se de um tópico que merece atenção por se tratar de uma situação


que foge a normalidade, quando um ou mais militares forem feridos ou
incapacitados para o combate.

Cabe agora, a esta mesma patrulha, ou outra realizar uma retirada da equipe
incluindo o ferido.

Para melhor entendimento, ver o QUADRO 2 com a situação hipotética


onde uma patrulha composta por 6 (seis) policiais militares, tem um de seus

60
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

componentes ferido.

A atuação a seguir será adapatada de acordo com o efetivo da patrulha.

Figura 39 resgate de feridos(posição dos braços)

61
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

QUADRO 2 - Situação 6 (seis) Policiais militares - Ponta 1 Ferido


Função Ação pós ferimento do Função posterior
policial militar
Utilizando das técnicas
policiais militares, identifica
Assume a função de Retaguarda 1,
o infrator e realiza disparos
Ponta 2 e mantém atenção nos pontos de
táticos enquanto progride
foco e quentes.
até um abrigo, mantendo o
ferido entre a patrulha.
Assume o abrigo do Ponta Acumula a função de CMT e
2 e dá cobertura de fogo Retaguarda 2, responsável por
Comandante
para que o Ala desloque retirar o Retaguarda 1 do ambiente
até o ferido. hostil.
Remove o ferido o mais rápido
Coldreia a arma, após ser possível até a área de segurança,
garantida sua segurança protegida pelos pontas. Comunica
Ala
pelo Ponta 2 e o CMT pedindo prioridade, passando
desloca até o ferido. localização. Inicia procedimentos
de emergência.
Após verificar não ser
necessário apoio ao CMT,
volta-se para a retaguarda Assume a função de Ponta 2, dá
Retaguarda 2 e desloca até o Retaguarda segurança ao ponta um e apoia o
1, dando suporte para Ala no socorro.
este abrir caminho para o
socorro do Ponta 1.
Após cobertura do
Retaguarda 2, avança Assume a função de Ponta 1 e
abrindo caminho, desloca com segurança exfiltrando
Retaguarda 1
buscando uma área a patrulha tão logo o CMT retire o
segurança para a patrulha Retaguarda 1 da área de risco
comunicar.

62
SEÇÃO 3

ABORDAGEM
A PESSOAS
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

3 ABORDAGEM APESSOAS

A abordagem policial é o conjunto ordenado de ações policiais para


aproximar-se de uma ou mais pessoas, veículos ou edificações. Tem por
objetivo resolver demandas do policiamento ostensivo, como orientações,
assistências, identificações, advertências de pessoas, verificações, realização
de buscas e detenções.

Já a abordagem a pessoas se refere apenas às ações policiais para se aproximar


de um ou mais indivíduos. Este conceito possui um sentido amplo, ou seja,
abrange a todos os cidadãos, não se restringindo às pessoas em situação de
suspeição.

Os procedimentos adotados pela guarnição variam de acordo com os fatos


motivadores da abordagem e com o ambiente. Além disso, o policial militar
deve compreender as peculiaridades daquele com quem interage e não
vincular essa interação, necessariamente, a ações delituosas.

Em cada abordagem realizada, o policial militar deverá utilizar técnicas,


táticas e recursos apropriados ao público-alvo desta intervenção policial,
esteja a pessoa em atitude suspeita ou não.

O poder de polícia, deve ser entendido como um conjunto de ações que


limitam e sancionam o direito individual e autorizam a intervenção do Estado,
executada por intermédio de seus agentes, em qualquer matéria de interesse
da coletividade.

A ação de abordar uma pessoa é um ato administrativo, discricionário,


autoexecutório e coercitivo. Significa dizer que a abordagem policial é
realizada de ofício.

O ato de abordar é discricionário, e jamais poderá ser ilegal, sob pena de não
atingir sua finalidade precípua, que é o bem comum. É imprescindível também
que, durante as abordagens, a pessoa receba um tratamento respeitoso.

A doutrina sobre Intervenção Policial estabelece etapas que sistematizam o


processo de solução de problemas, objetivando estruturar ações de resposta
adequadas durante a abordagem. Nesse enfoque, recomenda-se a leitura dos
seguintes tópicos, constantes no MTP 1:

65
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

x etapas da intervenção: seção 5;


x fundamentos da abordagem policial à pessoa em atitude
suspeita: seção 5;
x verbalização do policial militar face ao comportamento do
abordado: seção 6;
x uso diferenciado de força: seção 7.

Como explorado no MTP 1, a abordagem é uma intervenção policial,


rotineira, que se procede por meio de técnicas, táticas e uso de equipamentos
proporcionais aos níveis de riscos.

3.1 Uso diferenciado de força nas intervenções policiais

Durante a atuação policial, caso haja resistências e agressões em variadas


formas e graus de intensidade, o policial militar terá que adequar sua reação
a essas circunstâncias, estabelecendo formas de controlar e direcionar
o abordado, a fim de dominá-lo. Para lidar com esses diversos graus de
intensidade, foram definidos os níveis do Uso de Força.
Verifica-se, então, que a compreensão das atitudes do abordado, no que diz
respeito à relação de causa e efeito, será determinante para a avaliação de
riscos e a tomada de decisões seguras sobre o nível de força mais adequado
para fazer cessar a agressão.

3.2 Níveis de Intervenção

A abordagem policial à pessoa também é classificada em três níveis (1, 2


e 3) tendo como referência os níveis de intervenção policial, conforme
definidos pelo MTP 1.
Os quadros 2, 3 e 4, a seguir, sugerem táticas a serem empregadas na
abordagem a pessoas, em três variáveis principais:
xabordado aparentemente desarmado;
xabordado visivelmente portando arma branca;
xabordado visivelmente portando arma de fogo.

66
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

As variáveis principais, por conseguinte, estão divididas em tópicos estabelecidos


de acordo com a animosidade do abordado:
xabordado cooperativo;
xabordado resistente passivo;
xabordado resistente ativo.

QUADRO 3 – Tática de Abordagem a Pessoas - “abordado aparentemente


desarmado”

Comportamento do
Verbalizador Revistador/Segurança
Abordado

Iniciar a abordagem adotando a Iniciar a abordagem na posição


postura aberta (mãos livres); de arma localizada;
Cooperativo Uso da técnica de verbalização. Adotar a postura de prontidão
(mãos livres) quando for se
aproximar para realizar a busca
pessoal.

Iniciar a abordagem na posição


Iniciar na postura de prontidão;
de arma localizada;
Manter constante verbalização,
Caso o abordado não ceda à
buscando convencer o abordado
verbalização, o policial deverá
a acatar as ordens;
Resistente Passivo retirar a mão do punho da arma
Caso o abordado não ceda à
e adotar a postura defensiva
verbalização, o policial deverá
quando for se aproximar
atrair sua atenção para que o PM
do abordado para aplicar a
Segurança consiga se aproximar
técnica de controle de contato
para dominá-lo.
específica.
Iniciar a abordagem na postura Iniciar a abordagem na posição
defensiva; de arma localizada;
Manter constante verbalização; Será o responsável por imobilizar
Resistente Ativo Caso o abordado não ceda, e conduzir o abordado caso
deverá aplicar técnica de não acate às ordens do PM
controle físico, podendo ainda Verbalizador.
fazer uso de IMPO.

67
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

QUADRO 4 – Tática de Abordagem a Pessoas - “abordado visivelmente


portando arma branca”

Comportamento do Abordado Verbalizador Revistador/Segurança

Manter distância de segurança;


Iniciar na posição de arma localizada ou guarda baixa;
Cooperativo
Manter constante verbalização, Será responsável pela segurança
determinando ao autor que do PM Verbalizador;
coloque a arma branca no chão
e acate as ordens de busca.

Manter distância de segurança;


Emprego da arma na posição de guarda baixa;

Manter constante verbalização,


tentando convencer o autor a
Resistente Passivo colocar a arma branca no chão e
acatar às ordens de busca. Será responsável pela segurança
Caso, após tentativa de do PM Verbalizador;
verbalização, o abordado não
ceda às ordens de largar a arma Fará a aproximação para a
branca, deverá ser empregado imobilização e prisão do autor
IMPO para imobilização e prisão somente após ter sido cessado
do autor. seu poder de resistência face aos
A escolha do tipo de IMPO que efeitos do emprego do IMPO.
será empregado ficará a cargo
dos policiais, de acordo com os
instrumentos disponíveis, com
as informações do fato e com a
análise de risco.
Manter distância de segurança;

Verbalizar após estar abrigado Iniciar a abordagem na posição


(proteção física); de guarda baixa ou de guarda
Iniciar a abordagem na posição alta;
de guarda baixa (arma de fogo); Será responsável pela segurança
Caso, após tentativa de do PM Verbalizador;
verbalização, o abordado
continue tentando usar a arma Fará a aproximação para a
branca contra os policiais imobilização e prisão do autor
Resistente Ativo
ou contra terceiros, deverá somente após ter sido cessado
ser empregado IMPO para sua força de resistência face aos
imobilização e prisão do autor; efeitos do emprego do IMPO;
A escolha do tipo de IMPO que
será empregado ficará a cargo
dos policiais, de acordo com
os meios disponíveis, o fato e a
análise de risco;
Caso a tentativa de agressão do autor acarrete em risco real e
imediato à vida dos policiais e de terceiros, e o uso dos IMPO se
mostrarem ineficazes para o caso concreto, poderá ser efetuado
disparo com a arma de fogo.

68
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

QUADRO 5 – Tática de Abordagem a Pessoas - “abordado visivelmente


portando arma de fogo
Comportamento do Abordado Verbalizador Revistador/Segurança
Cooperativo Deverá estar coberto e abrigado;
(Ex.: policial aborda cidadão
que se identifica como policial, Iniciar a abordagem na posição Será o responsável pela
pessoa com arma na cintura e de guarda baixa ou guarda alta; segurança do PM Verbalizador
aparentemente disposição a Manter constante verbalização, durante o processo de
acatar as ordens policiais) devendo determinar ao autor verbalização;
que largue a arma de fogo e aca- Iniciar a abordagem na posição
te às ordens de busca. de guarda alta (arma de fogo).

Deverá estar coberto e abrigado;

Resistente Passivo
Iniciar abordagem na posição de
(Ex.: Arma de fogo na cintura ou guarda alta; Iniciar abordagem na posição de
na mão com o cano voltado para Manter constante verbalização, guarda alta ou pronta-resposta;
baixo, porém, não acatando tentando convencer o autor a Será responsável pela segurança
as determinações do PM largar a arma de fogo no chão e do PM Verbalizador;
Verbalizador) acatar as ordens. Fará a aproximação para a
Caso, após tentativa de imobilização e prisão do autor
verbalização não acate as somente após certificar-se
ordens, deverá ser empregado de que o autor largou a arma
IMPO para imobilização e prisão de fogo e não oferece poder
do autor. de reação face aos efeitos do
A escolha do tipo de IMPO que emprego do IMPO;
será empregado ficará a cargo
dos policiais de acordo com os
meios disponíveis, com o fato e
com a análise de risco.
Poderá efetuar disparo com a arma de fogo caso a ação do autor
Resistente Ativo configure risco real e imediato à vida dos policiais e de terceiros.
autor apontando arma em Deverá estar coberto e abrigado;
direção aos policiais ou a Iniciar abordagem na posição de pronta resposta;
terceiros; porém sem atirar.
O policial deverá fazer uma
análise do risco e verificar se o Será responsável pela segurança
autor tem intenção de atirar e se do PM Verbalizador;
o disparo tem probabilidade de Fará a aproximação para a
atingir aos policiais e a terceiros: imobilização e prisão do autor
a) caso o policial avalie que o somente após ter sido cessado
autor não tem intenção de atirar sua força de resistência face aos
E se caso vier a atirar o disparo efeitos do emprego do IMPO;
não tem condições de atingir Fará uso da arma de fogo caso a
os policiais e terceiros, face à ação do autor acarrete em risco
coberta e abrigo, deverá optar real e imediato à vida.
pelo emprego de IMPO capazes
de retirar, momentaneamente a
capacidade de reação do autor.
Sugerimos o uso do I.M.P.O e da
“munição de impacto controlado”
para o caso em análise;

69
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Comportamento do Abordado Verbalizador Revistador/Segurança


b) caso o policial avalie que
o autor vai atirar (ex.: pelo
grau de animosidade, pelos
antecedentes, dentre outros)
e que o disparo tem condições
de atingir os policiais e/ou
terceiros, deverá disparar a
arma de fogo contra o autor.
Resistente Ativo Deverá estar coberto e abrigado;
autor atirando contra os Iniciar abordagem na posição de pronta resposta;
policiais. Caso o policial avalie que os disparos estão colocando em perigo a
vida dos policiais e de terceiros, deverá ser efetuado disparo de arma
de fogo contra o autor dos disparos.

OBSERVAÇÃO: a posição de emprego da arma de


fogo pode ser alterada, de acordo com a percepção
do policial militar sobre o uso diferenciado de força,
podendo variar de acordo com o comportamento do
suspeito. O militar que aponta a arma para o abordado
não precisa se manter nesta mesma posição durante
toda a abordagem, se não for necessário.

3.3 Técnicas e táticas de abordagem a pessoas


Ao iniciar uma abordagem, a guarnição militar deverá realizá-la com
segurança. Se for realizada especificamente a uma pessoa em atitude
suspeita, é necessário que haja supremacia de força. Neste caso, a técnica
policial será fundamental para seu sucesso. Quando a guarnição entender
que necessitará de outros recursos (humanos ou logísticos), solicitará apoio
policial, mantendo o contato visual e, se possível, o controle do suspeito.
A supremacia de força é uma vantagem tática do policial militar em relação
ao abordado para uma atuação segura. Esta vantagem é medida de forma
qualitativa e quantitativa, podendo estar relacionada não só ao número de
policiais militares, mas também ao uso de força e à posse de instrumentos,
equipamentos e armamentos por parte da guarnição. Uma atuação policial
com supremacia de força é aquela em que os policiais militares envolvidos
dispõem de níveis de força adequados para reagirem às ameaças que poderão
advir dos abordados.

70
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

No desenvolvimento da abordagem, o policial militar manterá a atenção


às possíveis mudanças que venham a ocorrer no cenário e que podem, por
exemplo, obrigá-lo a aumentar ou diminuir o nível de força. O comportamento
do abordado (cooperativo, resistente passivo e ativo) será determinante para
a mudança de postura tática.

É importante saber que, em qualquer nível de intervenção, o policial militar


deverá adotar os seguintes procedimentos:

a) autoidentificação: demonstrar clareza, falando nome e posto


ou graduação. Atitude que reforça os valores institucionais da ética,
transparência, representatividade institucional e disciplina. O policial
militar deve saber que sua identidade deve ser pública diante da
função revestida pelo Estado;
b) tratamento respeitoso para com as pessoas: tratar os abordados
com respeito, cordialidade, urbanidade, solicitude e dignidade.
c) esclarecimentos sobre o motivo de uma abordagem: esclarecer
às partes interessadas sobre a motivação e o desdobramento da ação
policial, a qual se submete o abordado. Com essa medida, fortalecerá o
respeito, a cortesia e a credibilidade no trabalho da Polícia Militar.
d) relacionamento adequado com a imprensa: é responsabilidade
do policial militar preservar a pessoa quanto à veiculação de sua
imagem, quando estiver sob sua custódia.

Além disso, o policial militar deve ter em mente os Fundamentos da


abordagem policial à pessoa em atitude suspeita.

3.4 Modelos de abordagem


De acordo com os níveis de intervenção, serão apresentados modelos
que exemplificam a aplicação das técnicas e táticas policiais, de maneira
integrada, para a abordagem a pessoas.

3.4.1 Intervenção nível 1 (assistência e orientação)

Esta intervenção está alinhada com o conceito de Prevenção Ativa, que é


definido como as ações desenvolvidas visando o provimento de serviços
públicos à população, destinadas à prevenção da criminalidade. A finalidade
dos procedimentos policiais, neste nível, é orientar e prestar assistência.

71
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Dificilmente implicará em busca pessoal. O caráter preventivo predomina


(risco nível I).
Exemplo: policial militar aborda um cidadão e orienta-o a conduzir a própria
bolsa de maneira a evitar furto.
A aproximação dos policiais militares, junto ao abordado, será direta e natural,
devendo, entretanto, serem adotadas posições e posturas corporais
específicas. A arma permanecerá no coldre.
O policial militar se identificará profissionalmente e transmitirá ao abordado
a sua mensagem.
— Bom dia, Sr (a)! Sou o ... (dizer posto / graduação e o nome) da
Polícia Militar.
(Espere resposta).
— Sua bolsa está aberta (ou então outra situação que faça com que
o abordado se torne vulnerável à ação de algum cidadão infrator).
Para sua segurança, é melhor o(a) Sr(a) fechá-la e conduzi-la a
frente de seu corpo (ou dê outra orientação de autoproteção
para o abordado). Essa atitude evitará que seus pertences sejam
furtados. Tenha um bom dia.
3.4.2 Intervenção nível 2 (verificação preventiva)
A avaliação de riscos demonstra que há indício de ameaça à segurança
(do policial militar ou de terceiros), mas ainda não há, aparentemente, a
necessidade imediata de uma intervenção policial de nível mais elevado.
Neste tipo de intervenção, podem ser realizadas buscas em pessoas ou em
seus pertences, pois as equipes envolvidas iniciam suas ações com algum
risco conhecido (fundada suspeita) e o policial militar deverá estar pronto
para enfrentá-lo.
Exemplos: um cidadão que observa o interior de uma agência bancária ou
caixa eletrônico ou em atitude suspeita, em local classificado como Zona
Quente de Criminalidade (ZQC).
Os policiais militares planejarão a abordagem, indicando as características da
pessoa que se encontra em situação de suspeição, (vestimenta, tipo físico,
gênero) e, em seguida, rapidamente, elaborarão um plano de ação, com a
Técnica de Aproximação Triangular (TAT).

72
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Inicialmente, o PM Verbalizador deverá:


xidentificar-se como policial militar;
xrealizar a inspeção visual;
xdeterminar ao abordado que adote a posição de contenção 1 (em
pé) ou 2 (de joelhos), conforme previsto no item 4.2.2 ;
xexplicar o motivo da abordagem;
xdeterminar que o abordado entregue os documentos ao PM
Revistador;
xcontrolar a atenção do abordado por meio de verbalização,
perguntando seu nome, sua idade, o que faz/procura no local,
diminuindo, desta forma, sua capacidade de reação.
— Bom dia! Esta é uma abordagem policial preventiva.
— Por motivo de segurança da abordagem, siga as minhas
orientações, entendeu?
— Qual é o seu nome?
— Permaneça parado. Preciso ver seu documento de identidade.
Retire seus documentos e os entregue ao meu companheiro. (PM
Revistador)
— O que faz por aqui?
(a verbalização evolui de acordo com o prosseguimento da
abordagem).
— Obrigado pela colaboração com a Polícia Militar.
Se for necessária a busca pessoal, sugere-se a seguinte verbalização:
— Bom dia! Esta é uma abordagem policial.
— Por motivo de segurança da abordagem, siga as minhas
orientações, entendeu?
— Qual é o seu nome?
— Caminhe até ... (indique o local na área de contenção para o
qual o abordado deverá se dirigir). Coloque as mãos na parede e
afaste bem os pés (ou determine que ele adote outra posição de
contenção, conforme item 4.2.2).

73
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

— Retire seu documento e o entregue ao policial próximo.


— Vejo que foi expedido um mandado de prisão contra você e por
isso será conduzido à delegacia.
— Continue olhando para mim, você será algemado (se a guarnição
considerar necessário) e passará por uma busca pessoal.

Na intervenção nível 2, o PM Revistador deverá:


xavaliar a necessidade do emprego de algemas;
xrealizar a busca pessoal, conforme seção 4 deste caderno, dando
sequência aos demais procedimentos, como prisão, condução e
registro do fato.

3.4.3 Intervenção nível 3 (verificação repressiva)


Neste caso, a avaliação de riscos indica a iminência de algum tipo de delito
(risco nível III). Os policiais militares deverão estar prontos para se defenderem,
sempre com segurança, observados os princípios básicos do uso de força
(legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência),
conforme Seção 7, item 7.1 do MTP 1.
Aposição de arma adequada é a posição 4 (pronta-resposta).
Exemplos: infrator avistado no momento do cometimento do delito (roubo
a mão armada, agressão, outros), ou logo após; infrator identificado pelo
policial militar como procurado pela justiça de alta periculosidade.

Neste caso, o PM Verbalizador deverá:


xaproximar-se do abordado utilizando a Técnica de Aproximação
Triangular (TAT), em conjunto com o PM Revistador;

xidentificar-se como policial militar;


ƒ
determinar ao abordado que adote uma das posições de contenção
conforme item 4.2.2;
xcontrolar a atenção do abordado por meio de verbalização,
diminuindo a capacidade de reação do infrator.

74
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

O PM Revistador deverá:
x executar a busca pessoal, conforme seção 4 deste caderno, dando
sequência aos demais procedimentos da prisão, se confirmada
autoria;
x avaliar a necessidade do emprego de algemas, conforme item 4.4;

Após as técnicas e táticas de aproximação e deslocamento, vistas na Seção


2, e os ensinamentos sobre abordagens da Seção 3, serão apresentados
os procedimentos de busca pessoal na Seção 4, dando sequência às ações
policiais em uma intervenção.

75
SEÇÃO 4

BUSCA PESSOAL
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

4 BUSCA PESSOAL

É uma técnica policial utilizada para fins preventivos ou repressivos, que visa
a procura de produtos de crime, objetos ilícitos ou lícitos que possam ser
utilizados para a prática de delitos que estejam de posse da pessoa abordada
em situação de suspeição.
Será realizada no corpo, nas vestimentas e pertences do abordado,
observando-se todos os aspectos legais, técnicos e éticos necessários.
A busca poderá ser realizada independente de mandado judicial, desde que
haja fundada suspeita.
Quando o policial militar realiza busca pessoal, a situação de suspeição
deverá ser verificada através da atitude do cidadão, ou seja, da conjugação
entre comportamento e ambiente. Exemplos:
- estado de flagrante delito;
- mesma característica física e de vestimenta utilizada por autor de
crime/ contravenção;
- comportamento estranho do suspeito (tensão, nervosismo, aceleração
do passo ou mudança brusca de direção ao avistar a presença policial);
- volumes observáveis na cintura ou em outras partes do corpo;
- pessoa parada em local ermo ou de grande incidência de criminalidade;
-pessoa monitorando residências;
- pessoa portando objeto duvidoso;
-condutor que tenta evadir de bloqueio policial; dentre outros.
Os policiais militares devem estar preparados tecnicamente para realizar
a busca pessoal e cuidar para que esta ação não se converta em atos de
arbitrariedade e discriminação.
4.1 Aspectos legais da busca pessoal

O poder discricionário inerente à ação de abordar e efetuar a busca pessoal está


condicionado à existência de elementos que configurem fundada suspeita,
requisito essencial e indispensável para a realização do procedimento. O
Código de Processo Penal (CPP) assim prevê:

79
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Art. 244 - Abusca pessoal independerá de


mandado, no caso de prisão ou quando houver
fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse
de arma proibida ou de objetos ou papéis que
constituam corpo de delito, ou quando a medida
for determinada no curso de busca domiciliar
(BRASIL, 1941).

LEMBRE-SE: diante das circunstâncias previstas


no artigo 244 do CPP, que caracterizam a fundada
suspeita, o policial militar pode e deve realizar a
busca pessoal, independentemente de mandado.

Certifica o artigo 292 do CPP que caberá ao abordado cumprir as


ordens emanadas pelo policial militar, sob pena de incorrer em crime de
desobediência, previsto no artigo 330 do Código Penal (CP).
Quando o abordado se opuser, mediante violência ou ameaça, à submissão
da busca pessoal, estará incurso no crime de resistência, previsto no
artigo 329 do CP. Neste caso, o policial militar usará a força adequada para
vencer a resistência ou se defender, conforme previsão legal. É importante
não confundir relutâncias naturais por parte do abordado que se sente
constrangido, com o crime de resistência. Na verbalização o policial militar
deve esclarecer os motivos da ação policial.
No Código de Processo Penal Militar (CPPM) a busca pessoal (ou revista
pessoal) é tratada nos seguintes artigos:
Art. 180. A busca pessoal consistirá na procura material feita
nas vestes, pastas, malas e outros objetos que estejam com
a pessoa revistada e, quando necessário, no próprio corpo.
Art. 181. Proceder-se-á à revista, quando houver fundada
suspeita de que alguém oculte consigo:
a) instrumento ou produto do crime;
b) elementos de prova.
Art. 182. A revista independe de mandado:
tquando feita no ato da captura de pessoa que deve ser
presa;

80
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

x quando determinada no curso da busca domiciliar;


x quando ocorrer o caso previsto na alínea “a” do artigo
anterior; · quando houver fundada suspeita de que o
revistando traz consigo objetos ou papéis que constituam
corpo de delito; ·
x quando feita na presença da autoridade judiciária ou do
presidente do inquérito.
As buscas pessoais são realizadas em prol do bem comum, ainda que possam
causar eventuais desconfortos de caráter individual. É importante que a
restrição aos direitos individuais se dê o mínimo possível, ou seja, no limite
do que possa ser considerada necessária e razoável, para que não possa ser
interpretada como abuso de autoridade.
Nos casos em que a suspeição não se confirmar e nada de irregular for
encontrado, caberá ao policial militar:
xesclarecer ao abordado os motivos pelos quais ele foi submetido
a busca pessoal;
xdemonstrar que esta abordagem é um ato discricionário e legal,
com foco na segurança preventiva;
xprestar outras informações que possam minimizar possíveis
embaraçamentos causados;

xagradecer a colaboração com a segurança coletiva.


Ao final do procedimento, recomenda-se que a equipe:
xavalie o desempenho individual e do grupo;
xavalie os resultados obtidos;
xavalie as falhas no procedimento;
xcolha sugestões de correção;
xconfeccione relatório ao escalão superior, se necessário.

81
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

LEMBRE-SE: Não existe pessoa suspeita, mas pessoa em


situação suspeita. Ninguém se torna suspeito por suas
características pessoais (classe social, raça, opção sexual,
forma de se vestir, traços físicos ou outras características).
Não existem rótulos ou estereótipos que motivem uma
abordagem, pois os infratores podem apresentar todo tipo
de característica. Cabe ao militar a avaliação da suspeição,
levando-se em conta as variáveis da situação (horário, local da
abordagem, clima, características da região, comportamento
do cidadão, fatos ocorridos, dentre outros).

Buscas pessoais realizadas nos grupos vulneráveis e minorias, e outras


situações específicas, serão tratadas na Seção 5.
4.2 Tipos de Busca Pessoal
Há três tipos: a busca ligeira, a busca minuciosa e a completa. Embora
realizadas sob mesmo fundamento legal, cada qual cumprirá objetivos e
técnicas específicas, com a finalidade de minorar os riscos na ação policial.
4.2.1 Busca Ligeira
É uma revista rápida procedida nos abordados, comumente realizada nas
entradas de casas de espetáculos, shows, estádios e estabelecimentos afins,
para verificar a posse de armas ou objetos perigosos, comuns na prática de
delitos. Será iniciada, preferencialmente, pelas costas da pessoa abordada,
que ficará, normalmente, na posição de pé.
A busca será realizada por meio de movimentos rápidos de deslizamento
das mãos sobre o vestuário do cidadão. Deve-se verificar, sobretudo: cintura,
quadris, tórax, axilas, braços, pernas (entre as pernas), pés e cabelos. Bolsos,
bonés, chapéus, toucas, pochetes e demais pertences também deverão ser
revistados. Caso haja disponível detector de metal, a utilização desse aparelho
poderá substituir os movimentos rápidos de deslizamento das mãos sobre o
vestuário do cidadão.
A busca ligeira poderá progredir para outras modalidades, caso haja suspeição
de que o abordado ofereça maior risco à integridade das pessoas ou esteja

82
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

ele de posse de objetos ilícitos. O policial militar se certificará da necessidade


do procedimento, optando por local adequado e seguro para a realização.

4.2.2 Busca Minuciosa


Será realizada sempre que o policial militar suspeitar que o abordado porte
objetos ilícitos, dificilmente detectados na inspeção visual ou na busca ligeira.
Preferencialmente será feita pelas costas da pessoa abordada. Enquanto o
PM Revistador realizar a busca, o PM Verbalizador fará a cobertura policial.
A busca minuciosa pode variar conforme as Posições de contenção, que
são posturas que deverão ser adotadas pelo abordado na busca pessoal
minuciosa, e objetivam a garantia de segurança aos policiais militares e a
eficiência da revista, variando de acordo com o nível de risco e o ambiente.
São enumeradas quatro posições básicas de contenção:
a) posição de contenção 1 – abordado em pé, sem apoio;
b) posição de contenção 2 – abordado em pé, com apoio;
c) posição de contenção 3 – abordado ajoelhado;
d) posição de contenção 4 – abordado deitado.

a) Posição de contenção 1 -abordado em pé sem apoio


Será empregada quando não houver apoio para o abordado encostar as
mãos.
tFase de verbalização:
Nesta abordagem o PM Verbalizador deverá se identificar como policial
militar e determinará que o abordado:
— coloque as mãos sobre a testa;
— entrelace os dedos;
— vire-se de costas;
— abra as pernas (as pernas deverão estar abertas de maneira que
não permita ao abordado movimento de agressão sem antes se ver
obrigado a realizar o movimento de fechamento das pernas, o que
sinalizará aos policiais militares a intenção de agressão);

83
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

— aguarde e fique calmo que um policial fará a busca pessoal;

ATENÇÂO! Na posição de contenção em pé sem apoio,


deverá ser determinado ao abordado que coloque as mãos
sobre a testa e não sobre a cabeça, conforme as demais
posições.
Esta técnica permite que, em caso de reação durante a
vistoria, o PM Revistador, puxe os dedos do abordado
para trás, desequilibrando-o e projetando-o ao solo.
Este procedimento irá proporcionar ao PM Revistador
tempo para reação, com emprego de técnicas de
imobilização e uso de Instrumentos de Menor Potencial
Ofensivo (IMPO).

t Fase de Revista
- O PM Revistador, com a arma no coldre, deverá se aproximar
do abordado pela posição 2 ½ ou 3 (figura 18), adotando os seguintes
procedimentos:
— posicionará atrás do abordado;
— deverá segurar os dedos do abordado, que estarão sobre a testa;
— ao revistar o lado direito do corpo do abordado, deverá segurar os
dedos do abordado com a mão esquerda e fazer a revista com a mão
direita;
— ao revistar o lado esquerdo do corpo do abordado, deverá segurar
os dedos do abordado com a mão direita e fazer a revista com a mão
esquerda;

A busca minuciosa na posição de contenção em pé, sem apoio, vem ilustrada


na figura 40.

84
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 40 - Busca minuciosa na posição de contenção em pé, sem apoio

b) Posição de contenção 2 -abordado em pé com apoio


Será empregada quando houver apoio para o abordado encostar as mãos.
Nesta abordagem o PM Verbalizador determinará que o abordado caminhe
até uma superfície vertical (paredes, muros, dentre outros) e fique de frente
para ela, com pernas abertas e afastadas, braços abertos, mãos apoiadas na
superfície, acima da altura dos ombros e dedos abertos. Quanto mais distante
da parede estiver os pés do abordado, será mais difícil sua possibilidade de
reação.
t Fase de verbalização:
Nesta abordagem o PM Verbalizador deverá se identificar como policial
militar e determinará que o abordado:
— vire-se de costas;
— coloque as mãos apoiadas na superfície determinada (exemplo:
parede, muro);
— abra as pernas e afaste-as da superfície utilizada;

—aguarde e fique calmo que um policial militar fará a busca pessoal;

85
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

xFase de Revista
O PM Revistador, com a arma no coldre, deverá se aproximar do
abordado pela posição 2 ½ ou 3, adotando os seguintes procedimentos:
- posicionará atrás do abordado;
- ao revistar o lado direito do corpo do abordado, deverá apoiar a mão
esquerda nas costas do abordado, apoiar o joelho esquerdo atrás da
perna direita do abordado e fazer a revista com a mão direita;
- ao revistar o lado esquerdo do corpo do abordado, deverá apoiar a
mão direita nas costas do abordado, apoiar o joelho direito atrás da
perna esquerda do abordado e fazer a revista com a mão esquerda;
- o PM Verbalizador, no momento da revista, será responsável pela
segurança do PM Revistador e, portanto, deverá variar sua posição de
maneira a manter sempre a triangulação descrita na TAT.
A busca minuciosa na posição de contenção em pé, com apoio, vem ilustrada
na figura 41.

Figura 41 - Busca minuciosa na posição de contenção em pé, com apoio

86
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

c) Posição de contenção 3 – abordado de joelhos


É indicada para os seguintes casos:
- quando o número de abordados for maior do que o número de
policiais militares;
- abordado de alta periculosidade ou que tenha antecedentes de
reação;
xFase de verbalização:
Nesta abordagem o PM Verbalizador deverá se identificar como policial
militar e determinará que o abordado:
— coloque as mãos na testa e olhe para cima;
— entrelace os dedos;
— vire-se de costas;
— ajoelhe-se;
— cruze os pés;
— aguarde e fique calmo que um policial fará a busca pessoal;
xFase de Revista
- O PM Revistador, com a arma no coldre, deverá se aproximar do
abordado pela posição 2 ½ ou 3, adotando os seguintes procedimentos:
- posicionará atrás do abordado;
- ao revistar o lado direito do corpo do abordado, deverá segurar os dedos
do abordado com a mão esquerda e fazer a revista com a mão direita;
- ao revistar o lado esquerdo do corpo do abordado, deverá segurar
os dedos do abordado com a mão direita e fazer a revista com a mão
esquerda;
- o PM Verbalizador, no momento da revista, será responsável pela
segurança do PM Revistador e, portanto, deverá variar sua posição de
maneira a manter sempre a triangulação descrita na TAT.
A busca minuciosa na posição de contenção ajoelhado vem ilustrada na
figura a seguir.

87
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 42 - Busca minuciosa na posição de contenção ajoelhado

d) Posição de contenção 4 – abordado deitado


É indicada para os casos em que o abordado apresente potencial perigo para
a equipe policial.
xFase de verbalização:
Nesta abordagem o PM Verbalizador deverá se identificar como policial
militar determinará que o abordado:
- coloque as mãos na testa e olhe para cima;
- entrelace os dedos;
- vire-se de costas;
- ajoelhe-se;
- deite-se com o peito encostado no chão (decúbito ventral);
- abra os braços em forma de crucifixo;
- vire as palmas das mãos para cima;
- mantenha as pernas estendidas;
- aguarde e fique calmo que um policial militar fará a busca pessoal;
Após realizar estes movimentos, o PM Verbalizador caminhará em direção
a uma das laterais do abordado, ao mesmo tempo em que o PM Revistador
caminhará em direção ao lado oposto.
Após estar posicionado em uma das laterais do corpo do abordado, o PM
Verbalizador determinará ao abordado que:
- permaneça olhando em sua direção;
- fique calmo que um policial militar fará a busca pessoal.

88
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

xFase de Revista:
O PM Revistador, com a arma no coldre, deverá se aproximar pelo lado em
que o abordado não estiver olhando:
- certificará sobre a existência do fato motivador da abordagem
(existência de cometimento de crime);
- se necessário, efetuará a algemação , conforme item 4.4;
- conduzirá o abordado até a posição de pé;
- posicionará atrás do abordado, segurando-lhe as algemas;
- determinará ao abordado que abra as pernas ao máximo;
- ao revistar o lado direito do corpo do abordado, deverá segurar as
algemas com a mão esquerda e fazer a revista com a mão direita;
- ao revistar o lado esquerdo do corpo do abordado, deverá segurar as
algemas com a mão direita e fazer a revista com a mão esquerda;
- o PM Verbalizador, no momento da revista, será responsável pela
segurança do PM Revistador e, portanto, deverá variar sua posição de
maneira a manter sempre a triangulação descrita na TAT.

ATENÇÂO! Esta posição é indicada para os


casos de contenção voltada para algemação e
prisão segura do autor de crime.
A busca minuciosa na posição de contenção deitado vem ilustrada na
figura 43.

Figura 43 - Busca minuciosa na posição de contenção deitado

89
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

4.2.3 Busca Completa


É a verificação detalhada do corpo do abordado, que se despirá e entregará
seu vestuário ao policial militar. Cada peça de roupa deverá ser examinada.
O policial militar, além de atentar para todos os procedimentos previstos na
busca minuciosa, verificará o interior das cavidades do corpo.
Na busca completa, o policial militar, em conformidade com a avaliação de
riscos, determinará que o(a) abordado(a) retire todas as peças de vestuário e
fique na posição de pé. O policial militar determinará ao abordado que realize
pelo menos três movimentos de agachamento, a fim de detectar objetos
escondidos em orifício anal ou vaginal.
O policial militar deve evitar o uso do tato, no corpo do abordado, estando
ele já despido. A participação que se espera do revistado diz respeito à
observância das orientações que lhe são passadas: despir-se, entregar o
vestuário, abrir a boca, levantar os braços, abrir as pernas, agachar-se com as
pernas abertas, dentre outras.
Devido à exposição corporal do abordado e por questões de segurança,
recomenda-se que a busca completa seja realizada em local isolado do
público e, sempre que possível, na presença de testemunha do mesmo sexo
da pessoa abordada (preferencialmente, desconhecida por ela) que será
esclarecida sobre a necessidade do procedimento.
Por questões de biossegurança, recomenda-se o uso de luvas para o caso de
manusear peças de vestuário e objetos do abordado.

ATENÇÂO! Caso não se confirme a suspeição,


os policiais militares farão a liberação do
abordado, e explicando a importância da
busca pessoal na prevenção criminal. Caso
confirmada a suspeição, fará a prisão do autor.

4.3 Uso de algemas


Algemas são equipamentos policiais utilizados com os objetivos primários de
controlar uma pessoa, prover segurança aos policiais militares, ao preso ou
a terceiros e reduzir a possibilidade de fuga ou agravamento da ocorrência.
As algemas, além dos modelos tradicionais de argolas de metal, com
fechaduras e ligadas entre si, podem também ser de plástico (descartáveis)

90
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

ou consistir em objetos utilizados para restringir os movimentos corporais


de uma pessoa presa sob a custódia (corda com nó de algema, cadarço, etc).
A algemação não pode ser adotada como regra para todo caso de prisão/
condução, pois, quando utilizada, causa um constrangimento inevitável. Este
equipamento não deve ser utilizado como instrumento de subjugação ou
humilhação do preso.
O Código de Processo Penal (CPP) dispõe, em seu artigo 284, que não será
permitido o emprego de força, salvo o indispensável no caso de resistência
ou tentativa de fuga de preso.
Por sua vez, o Código de Processo Penal Militar (CPPM) em seu artigo 234,
assim prevê sobre o uso de algemas:
§1º - O emprego de algemas deve ser evitado, desde que não haja
perigo de fuga ou de agressão da parte do preso, e de modo algum
será permitido, nos presos a que se refere o art. 242 (BRASIL, 1969).

Significa dizer que a algemação se aplica aos casos de resistência e fundado


risco à integridade física dos envolvidos.
O §1º do artigo 234 prevê, ainda, que de modo algum será permitido o uso
das algemas nas autoridades descritas no art 242 do CPPM:
x os ministros de Estado;

x os governadores ou interventores de Estados, ou Territórios, o


prefeito do Distrito Federal, seus respectivos secretários e chefes
de Polícia;

x os membros do Congresso Nacional, dos Conselhos da União e da


Assembleias Legislativas dos Estados;

x os cidadãos inscritos no Livro de Mérito das ordens militares ou


civis reconhecidas em lei;

x os magistrados;

x os oficiais das Forças Armadas, das Polícias e dos Corpos de


Bombeiros, Militares, inclusive os da reserva, remunerada ou não,
e os reformados;

x os oficiais da Marinha Mercante Nacional;

x os diplomados por faculdade ou instituto superior de ensino


nacional;

91
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

x os ministros do Tribunal de Contas;

x os ministros de confissão religiosa.

Porém, é entendimento do Superior Tribunal Federal que, se houver


necessidade, o uso de algemas poderá ser feito, mesmo nas autoridades
elencadas anteriormente, e independente do cargo/função/posição social
do preso.

A Súmula Vinculante nº 11, publicada em 22 de agosto de 2008, assim discorre:


Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado
receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia,
por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade
por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e
penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do
ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade
civil do Estado. (BRASIL, 2008)

Ao empregar as algemas é indispensável que o policial militar justifique tal


medida por escrito no Boletim de Ocorrência (BO/REDS), conforme determina
a Súmula Vinculante, sob pena de responsabilização nas esferas civil, penal e
administrativa.

A formalização escrita dos motivos que ensejaram a algemação é o grande


diferencial que a Súmula traz para a prática policial e decorrerá de três
situações específicas:

x resistência do preso à ação policial;

x fundado receio de que o preso possa empreender fuga;

x comportamento do preso que ofereça risco à integridade física


do policial militar, de terceiros ou para si mesmo.

O quadro a seguir apresenta um rol, exemplificativo, de situações e


informações complementares que possam ser inseridas no BO/REDS para se
justificar o uso de algemas.

92
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

QUADRO 7: Sugestões de justificativas e informações complementares


quanto ao uso de algemas13
RESISTÊNCIA
- o preso resistiu à ação policial, durante a intervenção. Foi necessário o
uso de algemas para contê-lo;
- o preso com sintomas de embriaguez, ou sob efeito de substâncias
entorpecentes, demonstrou indignação ou resistência à prisão, investindo
contra a guarnição (chutes, socos, pontapés, cuspiu no policial, empurrões
e outros);
RECEIO DE FUGA
- há caso de tentativa de fuga nos registros policiais do preso;
- trata-se de preso foragido;
- no momento da prisão, o preso tentou fugir do local, sendo necessário
persegui-lo;
- trata-se de cidadão considerado de alta periculosidade, pelo envolvimento
com quadrilhas/bandos;
- o preso possui grande número de registros policiais e processos judiciais em
andamento.
PERIGO À INTEGRIDADE FÍSICADO PRESO
- situação verificada em razão da possibilidade do preso ser agredido pela
vítima e seus familiares, ou por populares;
- situação verificada por meio do comportamento agressivo do preso
(autolesão, possibilidade de quedas, fraturas);
PERIGO À INTEGRIDADE FÍSICADO POLICIAL MILITAR OU DE TERCEIROS
-situação verificada em razão do comportamento agressivo do preso em
relação aos policiais militares;
-houve necessidade de conduzir o preso algemado, em razão da viatura
não possuir compartimento fechado (xadrez), e havia possibilidade de fuga
e/ou necessidade de segurança no transporte;
-existe histórico de agressões perpetradas pelo preso;
- o preso apresentava sintomas de embriaguez e comportamento agressivo;
parecia estar sob efeito de substâncias entorpecentes ou análoga;
-trata-se de cidadão considerado de alta periculosidade, em virtude de
registros policiais com emprego de violência;
-a agressividade do preso foi demonstrada na execução do fato criminoso.

13 Adaptado do Memorando Circular nº 31.687.6/08-EMPM, de 10 out 2008

93
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

ATENÇÃO! O policial militar registrará no BO/


REDS que sua ação foi revestida de legalidade,
de razoabilidade e de proporcionalidade no uso
da força, para justificar o emprego das algemas.
Recorrerá para tal, à descrição minuciosa de cada
comportamento irregular do preso, que resultou
em sua algemação.

O policial militar deverá, preferencialmente, algemar o infrator com as mãos


para trás e com as palmas voltadas para fora. Certificará, ainda, de que
as algemas não ficaram frouxas ou apertadas, em demasia, trancando-as e
travando-as, corretamente. Figura 44.

Figura 44 – Sistema de trava de algemas

A descrição pormenorizada da algema, a aplicação, a condução e as técnicas


de emprego deste equipamento estão no Manual de Defesa Pessoal Policial.

94
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

ATENÇÂO! As algemas não impedem fugas.


São equipamentos de uso temporário para
conter uma pessoa. Sob esta condição, exige-
se uma vigilância constante do preso por parte
do policial.

4.3.1 Recomendações Gerais do Uso de Algemas


É importante que o policial militar entenda que a algemação é uma forma
temporária de conter pessoas presas. Trata-se de uma ação constrangedora
e por isso, recomenda-se que não se estenda por períodos longos, pois esta
atitude poderá resultar em lesões, como pulsos arranhados e até fraturas e
ruptura de ligamentos. A utilização da trava de segurança também contribuirá
com a integridade física do algemado.
A algemação pode parecer uma boa medida para conter um criminoso
violento, evitando que ele venha a machucar outras pessoas. Todavia, vale
ressaltar que, ao algemar alguém, você prejudica a capacidade dessa pessoa
de se proteger.
Por isso, algemar uma pessoa a um ponto fixo, como um poste, ou a partes
fixas de veículos, como as barras presentes no xadrez de algumas viaturas,
pode colocar em risco o preso. Sem as mãos livres para se defender, ele se
torna incapaz de se proteger de perigos iminentes, como por exemplo, do
ataque de um parente inconformado da vítima, ou até de choques mecânicos
e acidentes ocorridos com a viatura.
Algemar uma pessoa a um ponto móvel, como uma cadeira, uma mesa, ou
até a um policial militar ou outro preso, é uma conduta que não fornece
segurança à guarnição, pois o algemado pode utilizar a cadeira ou mesa
como arma contra os policiais militares, vítimas e testemunhas. Da mesma
forma, poderá utilizar da proximidade com o outro preso ou com o policial
militar para agredi-los.

Apesar do policial militar algemar preferencialmente o preso com as mãos


voltadas para trás, nem sempre isso será possível. O policial militar deve
definir se a algemação será pela frente ou pelas costas, de acordo com o
comportamento do algemado e suas condições de saúde. Obesos, grávidas,
pessoas adoentadas e de constituição mais fraca poderão ser algemados pela
frente sem expor a guarnição a perigo.

95
SEÇÃO 5

PROCEDIMENTOS
POLICIAIS
ESPECÍFICOS
97
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

5 PROCEDIMENTOS POLICIAIS ESPECÍFICOS

Existem diversos grupos na sociedade que, devido às suas condições


peculiares, merecem atenção especial por parte da Polícia.

A abordagem policial a essas pessoas seguirá os mesmos princípios éticos


e profissionais das demais intervenções, bem como os procedimentos
técnicos e táticos operacionais já estabelecidos, sobretudo aqueles relativos
à segurança dos policiais militares e de terceiros.

No atendimento, quer seja na condição de suspeito, agente de delito, vítima


ou testemunha, o policial militar deverá, prioritariamente, compreender
de maneira integral a complexidade no trato das questões relativas aos
respectivos grupos, para que exerça, com efetividade, a proteção e a
promoção de sua dignidade de seus integrantes.

Adiante, seguem as recomendações para a atuação policial, os quais serão


divididos em:

- autoridades;

- grupos vulneráveis;

- minorias;

- pessoas com surto por uso de drogas.

5.1 Procedimentos Policiais em Ocorrências Envolvendo Autoridades

Esta subseção abordará as providências que devem ser tomadas pelos


policiais militares nos casos de cometimento de ilícitos penais, prisão em
flagrante de autoridades e confecção de Boletim de Ocorrência (BO/REDS). Ela
está subdividida por poderes e cargos, para uma melhor organização. Além
disso, também estará definido o dispositivo legal que trata da prerrogativa
em relação à prisão no cometimento de ilícitos penais. No final deste tópico,
haverá um quadro para uma consulta rápida sobre esse tema.

99
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

5.1.1 Membros do Poder Executivo

a) Presidente da República: enquanto não sobrevier sentença condenatória


nas infrações comuns, o Presidente da República não estará sujeito à prisão
(Art. 88, § 3º, da CFB/88). O policial militar irá liberar o Presidente da República
no local e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS), encaminhando-o à
Polícia Judiciária Federal (Polícia Federal), para possíveis providências.

b) Ministros de Estado: não possuem prerrogativas em relação à prisão em


flagrante no cometimento de delitos, tendo o mesmo tratamento dos demais
cidadãos. O policial militar deverá, neste caso, prender o Ministro de Estado
e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS), encaminhando-os à Polícia
Judiciária Federal (Polícia Federal), para possíveis providências.

c) Diplomatas: a pessoa do agente diplomático é inviolável. Não poderá


ser preso ou detido (art. 29, da Convenção de Viena). O policial militar irá
liberar o Diplomata no local e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS),
encaminhando-o Polícia Judiciária Federal (Polícia Federal), para possíveis
providências.

d) Governadores de Estado: enquanto não sobrevier sentença condenatória,


nos crimes comuns, o Governador não estará sujeito à prisão (art. 92, § 3º, da
CE/89). O policial militar irá liberar o Governador de Estado no local e registrar
o Boletim de Ocorrência (BO/REDS), encaminhando-o à Polícia Judiciária
Federal (Polícia Federal), para possíveis providências.

e) Secretários de Estado: não possuem prerrogativas em relação à prisão


em flagrante no cometimento de delitos, tendo o mesmo tratamento dos
demais cidadãos. O policial militar deverá, neste caso, prender o Secretário
de Estado e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS), encaminhando-os à
Polícia Judiciária Estadual (Polícia Civil), para possíveis providências.

f) Prefeitos: não possuem prerrogativas em relação à prisão em flagrante no


cometimento de delitos tendo o mesmo tratamento dos demais cidadãos. O
policial militar deverá, neste caso, prender o prefeito e registrar o Boletim de
Ocorrência (BO/REDS), encaminhando-os à Polícia Judiciária Estadual (Polícia
Civil), para possíveis providências.

100
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

ATENÇÃO: CRIMES INAFIANÇÁVEIS


A lei brasileira considera como crime inafiançável os delitos que se
enquadram nas possibilidades previstas dos artigos 323 e 324 do
CPP, além da prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e
drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos
(homicídio quando praticado em atividade de extermínio, homicídio
qualificado, latrocínio, extorsão qualificada pela morte, extorsão
mediante sequestro, estupro e estupro de vulnerável, epidemia com
resultado morte, falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de
produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais e genocídio),
além da ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem
constitucional e o Estado Democrático.

5.1.2 Membros do Poder Legislativo


a) Deputados Federais e Senadores: o policial militar deverá, no caso de
flagrante de crime inafiançável, prendê-lo e registrar o Boletim de Ocorrência
(BO/REDS), encaminhando-o à Polícia Judiciária Federal (Polícia Federal), para
possíveis providências. Nos demais delitos (afiançáveis e de menor potencial
ofensivo), será feito apenas o registro do BO/REDS, encaminhando-o à Polícia
Federal, sendo os parlamentares liberados no local. Os deputados federais e
senadores são invioláveis civil e penalmente por quaisquer de suas opiniões,
palavras e votos. Nos casos de prisão em flagrante, os autos serão remetidos
dentro de vinte e quatro horas à respectiva Casa (Câmara dos Deputados ou
Senado), para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a
manutenção da prisão.
b) Deputados Estaduais: serão adotadas as mesmas providências dos
deputados federais e senadores, divergindo apenas no encaminhamento do
Boletim de Ocorrência (BO/REDS) e membro da Casa Legislativa, que será feito
para a Polícia Judiciária Estadual (Polícia Civil), e os autos serão remetidos à
Assembleia Legislativa.
c) Vereadores: se o delito praticado pelo vereador não tiver nenhum
vínculo político com sua função ou for fora de sua circunscrição, o policial
militar deverá prendê-lo, registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS),
encaminhando-o à Polícia Judiciária Competente. Os Vereadores gozam de
prerrogativa em relação à prisão no cometimento de delitos somente nos
casos relacionados com sua função, sendo invioláveis por suas opiniões,
palavras e votos no exercício do mandato e na circunscrição do Município.
Nos demais casos, recebem os mesmos tratamentos dos demais cidadãos.

101
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

5.1.3 Membros do Poder Judiciário

a) Desembargadores e Juízes Federais: os Membros da magistratura


da União não podem ser presos senão por ordem escrita do Tribunal ou
do órgão especial competente para o julgamento, salvo em flagrante de
crime inafiançável, caso em que a autoridade fará imediata comunicação e
apresentação do magistrado ao Presidente do Tribunal a que esteja vinculado.
O policial militar deverá, no caso flagrante de crime inafiançável, prendê-los e
registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS), encaminhando-os ao Presidente
do Tribunal a que esteja vinculado (Desembargadores ao STJ, Juízes Federais
incluídos os da Justiça Militar ao TRF). Nos demais delitos (afiançáveis e de
menor potencial ofensivo), será feito apenas o registro do BO/REDS para
possíveis providências, sendo os Magistrados liberados no local.

b) Juízes Estaduais: serão adotadas as mesmas providências dos juízes


federais e desembargadores, divergindo apenas no encaminhamento do
Boletim de Ocorrência (BO/REDS) e do membro desta instituição, que será
feito para o Tribunal de Justiça do Estado.

5.1.4 Membros do Ministério Público

a) Procurador e Promotor de Justiça da União: o Membro do Ministério


Público da União só poderá ser preso por ordem escrita do Tribunal
competente ou em razão de flagrante de crime inafiançável, caso em que
a autoridade fará imediata comunicação àquele tribunal e ao Procurador-
Geral da República, sob pena de responsabilidade. O policial militar deverá,
nos casos de flagrante em crime inafiançável, prender os Membros do
Ministério Público da União e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS),
encaminhando-os ao Procurador-Geral da República. Nos demais delitos
(afiançáveis e de menor potencial ofensivo), será feito apenas o registro do
BO/REDS para possíveis providências, sendo os promotores liberados no
local.

b) Procurador e Promotor de Justiça do Estado: serão adotadas as mesmas


providências dos procuradores e promotores de Justiça da União, divergindo
apenas no encaminhamento do Boletim de Ocorrência (BO/REDS) e do
membro desta instituição, que será feito para a Procuradoria-Geral de Justiça.

102
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

5.1.5 Membros de Órgãos Policiais

a) Membros da Polícia Federal e Rodoviária Federal: o policial militar


irá neste caso prendê-los e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS).
Após a chegada do superior hierárquico do conduzido, será encaminhado
à Polícia Judiciária Competente, para possíveis providências. Não possuem
prerrogativas em relação à prisão em flagrante no cometimento de delitos,
tendo o mesmo tratamento dos demais cidadãos.

b) Membros da Polícia Militar Estadual: o policial militar irá neste caso


prendê-los e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS). O militar e o BO/
REDS deverão ser encaminhados, por um superior hierárquico, à Polícia
Judiciária Competente, nos crimes comuns e ao Comandante do militar nos
crimes militares, para possíveis providências. Não possuem prerrogativas em
relação à prisão em flagrante no cometimento de delitos, tendo o mesmo
tratamento dos demais cidadãos.

c) Membros da Polícia Civil: o policial militar deverá neste caso prendê-los


e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS). Após a chegada do superior
hierárquico do conduzido, será encaminhado à Polícia Judiciária Competente,
para possíveis providências. Não possuem prerrogativas em relação à prisão
em flagrante no cometimento de delitos, tendo o mesmo tratamento dos
demais cidadãos.

5.1.6 Membros das Forças Armadas

a) Militares do Exército, Marinha e Aeronáutica: o policial militar deverá


neste caso prendê-los e registrar o Boletim de Ocorrência (BO/REDS). Após
a chegada do superior hierárquico do conduzido da respectiva Força, será
encaminhado à Polícia Judiciária Competente, nos crimes comuns e ao
Comandante do militar nos crimes militares, para possíveis providências. Não
possuem prerrogativas em relação à prisão em flagrante no cometimento de
delitos, tendo o mesmo tratamento dos demais cidadãos.

5.1.7 Membros da Advocacia

a) Advogado-Geral da União: se o delito tiver vínculo com sua função,


o policial militar só poderá prendê-lo em caso de crime inafiançável ou
desacato. Para quaisquer outros crimes, fora do exercício da função, não há
prerrogativas. O registro do Boletim de Ocorrência (BO/REDS) e a autoridade
quando for efetuada a prisão, serão encaminhados à Polícia Judiciária Federal

103
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

(Polícia Federal), para possíveis providências.

b) Advogado-Geral do Estado: serão adotadas as mesmas providências


do Advogado-Geral da União, divergindo apenas no encaminhamento do
Boletim de Ocorrência (BO/REDS) e do membro desta instituição, que será
feito à Polícia Judiciária Competente, para possíveis providências.

c) Advogado: serão adotadas as mesmas providências do Advogado-Geral


da União, divergindo apenas no encaminhamento do Boletim de Ocorrência
(BO/REDS) e do membro desta instituição, que será feito à Polícia Judiciária
Competente, para possíveis providências.
5.1.8 Outras Instituições
a) Guarda Municipal: o policial militar deverá neste caso prendê-los e registrar
o Boletim de Ocorrência (BO/REDS). Será encaminhado à Polícia Judiciária
Competente, para possíveis providências. Não possuem prerrogativas em
relação à prisão em flagrante no cometimento de delitos, tendo o mesmo
tratamento dos demais cidadãos.

b) Agentes Penitenciários: serão adotadas as mesmas providências dos


Guardas Municipais.

104
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

QUADRO 8 – Procedimentos policiais em ocorrências envolvendo autoridades

Cabe Prisão em Encaminhamento do


Autoridade Embasamento Legal
Flagrante? REDS
Presidente não Art. 86, § 3º CF/88
Ministros sim - Polícia Federal*
Diplomatas não Art. 29 Conv. de Viena
Governadores Art. 92, § 3º CE/89
Secretários Estaduais -
sim Polícia Civil*
Prefeitos
Art. 53, caput e §2º Polícia Federal
Deputados Federais
CF/88
só em crime
Senadores inafiançável Art. 56, caput, §§2º
e 3º CE/89 Polícia Civil*
Deputados Estaduais
Vereadores se não tiver vínculo Art. 29, inc. VII CF/88
político
Desembargadores Art. 33, inc II LC 35 Presidente do STJ
só em crime
Juízes Federais Art. 90, inc II LC 59/01 Presidente do TRF
inafiançável
Juízes Estaduais Presidente do TJ
Procurador de Justiça da União Art. 18, Inc II, alinea “d” Procurador-Geral da
LC 75/93 República
só em crime
Promotor de Justiça da União inafiançável Art. 40, inc III Lei
Procurador de Justiça do Estado 8.625/93 e Procurador-Geral de
Art. 105 inc III LC 34 Justiça
Promotor de Justiça do Estado
Policial Federal sim Polícia Civil*
Polícia Civil*
(crime comum),
Policial Militar Estadual sim -
Cmt do militar
(crime militar)
Polícial Civil sim - Polícia Civil*
Regra geral: Sim.
Advogado-Geral da União Nos casos de Polícia Federal
crime com vínculo Art. 7º, § 3º,
Advogado-Geral do Estado profissional, apenas Lei 8906/94
inafiançáveis e Polícia Civil*
Advogado desacato.
Guarda Municipal Polícia Civil*
sim -
Agente Penitenciário

* Nos crimes cuja competência para apuração é da União, o BO/REDS deverá ser encaminhado
para a Polícia Federal, desde que haja Delegacia desta Instituição no município.

105
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

5.2 Abordagens policiais a grupos vulneráveis

Por grupo vulnerável14 entende-se o conjunto de pessoas com características


específicas, relacionadas ao gênero, à idade, à condição social, às necessidades
especiais e diversidade sexual. E, por essa razão, podem se tornar mais
suscetíveis à violação de seus direitos.
A vulnerabilidade está na ação de sujeição da pessoa a constante preconceito
e discriminação, em razão de sua condição específica, independente de
outros fatores. Nesse conjunto, estão inseridas as mulheres, as crianças
e adolescentes, os idosos, a população em situação de rua, as pessoas
com necessidades especiais e a população de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Transexuais e Travestis (LGBTT).
a) Atuação policial no atendimento à mulher
Em praticamente todas as esferas sociais, a mulher está sujeita a desigualdades
por lei e de fato. Esta situação é causada e agravada pela existência de
discriminações, que normalmente se tornam comuns no seio da própria
família, na comunidade e no local de trabalho.
A discriminação contra a mulher se mantém por meio da sobrevivência de
estereótipos (do homem, assim como da mulher), de culturas tradicionais e
de crenças prejudiciais às mulheres.
Entende-se por discriminação contra mulheres qualquer distinção,
exclusão ou restrição baseada no sexo, e que tenha por objetivo ou efeito,
comprometer ou destruir o reconhecimento, o gozo ou o exercício de seus
Direitos Humanos e garantias fundamentais, em qualquer estado social em
que se encontrem, e em todos os campos da atividade humana (político,
econômico, social, cultural).
Entende-se por discriminação contra mulheres qualquer distinção, exclusão
ou restrição baseada no sexo, e que tenha por objetivo ou efeito, comprometer
ou destruir o reconhecimento, o gozo ou o exercício de seus direitos humanos
e garantias fundamentais, em qualquer estado social em que se encontrem,
e em todos os campos da atividade humana (político, econômico, social,
cultural).
Contudo, as especificidades femininas exigem um tratamento próprio com
as mulheres de forma a respeitar as suas características de sexo, e o policial
militar deve realizar uma busca pessoal de forma profissional e eficiente.

14 Diretriz para a Produção de Serviço de Segurança Pública (DPSSP) nº 08/2.004 – CG

106
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Recomendações:
xa abordagem de mulheres pode ser feita por qualquer policial militar,
independentemente do sexo, devendo a busca pessoal ser efetivada
conforme determina a legislação nacional15, que prescreve que a
busca em mulher será feita por outra mulher, “se não importar em
retardamento ou prejuízo da diligência”;

xas mulheres, quando capturadas, serão mantidas separadas dos


homens capturados (sempre quando houver condições logísticas e de
segurança);

xa busca pessoal em mulheres suspeitas de portarem objetos ilícitos


deverá ser realizada, preferencialmente, por outra mulher profissional
de polícia ou encarregada de fazer cumprir a lei. Em momento algum
poderá ser convocadas pessoas leigas ou civis, para realizar buscas
em caso de suspeição, pois, isto colocará em risco a segurança e a
integridade física destas pessoas;

xnão havendo a disponibilidade no grupo que realiza a abordagem,


a guarnição poderá recorrer à rede-rádio, solicitando apoio de uma
policial militar feminina que possa comparecer ao local e suprir as
necessidades da ocorrência;

xa busca pessoal feita por homens em mulheres é uma


excepcionalidade. Não deve ser realizada em situações operacionais
ordinárias, principalmente em relação à busca completa;

xprocedimentos mais simples como solicitar que a própria pessoa


abra sua bolsa, retire os sapatos, mostre a região da cintura e levante
os cabelos, diminuirá a exposição da mulher;

xse, em casos extremos, o policial militar precisar realizar uma busca


em uma mulher, esta deverá ser feita com respeito e profissionalismo,
em local discreto e, sempre que possível, na presença de testemunhas,
preferencialmente, do sexo feminino. O policial militar deve evitar o
contato físico com a abordada, principalmente nas partes íntimas,
procurando limitar-se a orientá-la quanto aos procedimentos a serem
adotados.

15 Conforme artigo 249 do Código de Processo Penal/1969.

107
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

b) Atuação policial no atendimento às crianças e aos adolescentes

Crianças e adolescentes possuem direitos próprios que estão previstos em


diversos instrumentos internacionais16 e na legislação brasileira. O Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), Lei Federal nº 8.069, de 13 de julho de
1990, dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. Em seu
artigo 2º considera criança a pessoa até 12 anos (incompletos) e adolescente,
pessoa entre 12 e 18 anos (incompletos.

Ato infracional é a ação tipificada como crime ou contravenção penal17,


que tenha sido praticada pela criança ou pelo adolescente. São penalmente
inimputáveis todos os menores de 18 anos e não poderão ser condenados.

A criança que incorre em ato infracional deverá ser encaminhada à presença


do Conselho Tutelar ou do Juiz da Vara da Infância e da Juventude, para que
seja social e legalmente assistida. Na ausência desses órgãos, deverá ser
encaminhada aos pais ou ao responsável legal, que dará recibo no Boletim
de Ocorrência, dirigido ao Juizado da Infância e da Juventude.

O adolescente, em caso de flagrância de ato infracional, será levado à delegacia


de polícia especializada. Na ausência desta, deverá ser encaminhado à
Delegacia de Polícia local, onde deverá permanecer separado dos adultos,
até que outra medida seja determinada.

As crianças e os adolescentes têm os mesmos direitos e liberdades dos


adultos.

As regras específicas propiciam proteção adicional aos interesses deste grupo


vulnerável.
Recomendações:
xcomunicar, imediatamente, aos pais ou representante legal sobre a
apreensão da criança ou adolescente;
xmanter a atenção às situações que possam implicar em risco à
integridade física ou mental da criança ou do adolescente;
xnão conduzir crianças e adolescentes em compartimento fechado da
viatura. Contudo, em casos extremos, em que o adolescente apresentar
séria ameaça à integridade física dos policiais militares, devido a sua

16 Convenção Americana sobre Direitos Humanos, dentre outros


17 Conforme artigo 103 do ECA

108
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

compleição física avantajada, com atitudes violentas em resistência à


ação policial, e com histórico de atos infracionais violentos, poderá ser
admitido o uso de algema e condução em compartimento fechado de
veículo policial, visando até mesmo a segurança do adolescente. No
REDS, deverá ser constado e justificado esse procedimento;
xnunca divulgar sem a autorização devida, por qualquer meio de
comunicação, o BO/REDS relativo à criança ou ao adolescente a que se
atribua ato infracional;
xevitar a exposição da imagem do conduzido conforme previsto nos
Arts. 17 e 18 do ECA;
xa busca pessoal será realizada, com segurança, procurando sempre
reduzir os constrangimentos, respeitando-se os princípios e as
orientações gerais contidas no ECA.

c) Atuação policial no atendimento à diversidade sexual


A diversidade sexual pode ser entendida como o termo usado para designar
as várias formas de expressão da sexualidade humana.
O cidadão, muitas vezes, tem seus direitos desrespeitados pelo fato de ter
orientação sexual diversificada. O policial militar, como promotor de direitos
humanos, deve lidar com o cidadão, de forma a respeitar sua sexualidade e a
lhe fornecer a devida atenção.
A heterossexualidade define os indivíduos que têm atração por uma
pessoa do sexo oposto. Por sua vez, a homossexualidade pode ser
definida como a atração afetiva e sexual por uma pessoa do mesmo sexo.
Homossexuais podem ser masculinos, afeminados ou não; femininos,
masculinizados ou não.
Na sociedade encontramos as seguintes definições:
xlésbicas: são mulheres, não necessariamente masculinizadas, que se
relacionam afetiva e sexualmente com outras mulheres;
xgays: são homens que se relacionam afetiva e sexualmente com
pessoas do mesmo sexo;
xbissexuais: são indivíduos que se relacionam sexual e afetivamente
com pessoas de ambos os sexos;

109
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

xtravestis: pessoa que apresenta sua identidade de gênero oposta ao


sexo designado no nascimento. Ela se diferencia da pessoa transexual,
por não ter se submetido à cirurgia de readequação sexual;

xtransexuais: pessoa que apresenta sua identidade de gênero oposta


ao sexo designado no nascimento, e que submeteu-se à cirurgia de
readequação sexual.

No caso das lésbicas, a busca será procedida seguindo as mesmas


recomendações para mulheres. Procedimento idêntico também será dado
no caso das transexuais com comprovada retificação de registro civil (nome
feminino).

Em relação aos gays e travestis, o policial masculino fará a busca pessoal,


evitando, sempre que possível, situações de constrangimento.

Recomendações:

xo cidadão homossexual deve receber tratamento respeitoso durante


as providências policiais, minimizando possíveis constrangimentos. Ao
abordar um homossexual deve-se evitar a reprodução de preconceitos
sociais, como exemplo, proferindo a leitura do seu nome de registro,
constante na Carteira de Identidade, em voz alta, para outros policiais
militares e público presente, ridicularizando-o;

xo policial militar não deverá coibir manifestações de afeto entre


homossexuais (mãos dadas, beijo na boca), uma vez que estes atos
não configuram ações ilícitas e ainda, configuram atos privados da
vida do cidadão, nos quais não deve haver interferência;

xé importante balizar a conduta policial, relembrando a diferença


fundamental entre o delito caracterizado por ocorrência de ato sexual
em via pública e a manifestação afetiva entre pessoas. As providências
policiais caberão apenas no primeiro caso, independentemente da
orientação sexual;

xo BO/REDS deve ser redigido com o nome de registro da pessoa e o


tratamento verbal deve ser feito pelo nome social (nome pelo qual a
pessoa quer ser chamada). Uma vez constatado que o fato que gerou a

110
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

intervenção policial, se deu por motivo de intolerância, discriminação


ou por homofobia, esse detalhe deverá ser constado no histórico do
BO/REDS, informando também a orientação sexual ou identidade de
gênero da vítima (lésbica, gay, bissexual, travesti ou transexual) afim
de que se possa futuramente possibilitar pesquisas e diagnósticos de
vitimização por seguimento.

d) Atuação policial no atendimento a pessoas portadoras de necessidades


especiais
O policial militar se aterá aos procedimentos específicos em ocorrências
que envolvam portadores de deficiência física e com sofrimento mental,
oferecendo-lhes encaminhamento adequado para a solução de suas
questões.
Alguns conceitos técnicos, relacionados a esse público, precisam ser
conhecidos, pois auxiliarão o posicionamento policial na ocorrência:
xdeficiência: é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou
função psicológica, fisiológica ou anatômica, podendo ser auditiva,
visual, mental, física, neurológica (paralisia cerebral) ou múltipla
(tetraplegia, cegueira e surdez);
x·doença: manifestações de falta ou de perturbações da saúde,
moléstia, mal, enfermidade, que podem ser temporárias (tuberculose
e pneumonia) ou definitivas (hanseníase e AIDS);
xincapacidade: inclui toda restrição, inaptidão, inabilidade ou falta
(devido a uma deficiência) de capacidade para realizar uma atividade,
na forma ou na medida em que se considera normal para um ser
humano;
ximpedimento: situação desvantajosa para um determinado indivíduo,
em consequência de uma deficiência ou de uma incapacidade, que
limita ou impede o desempenho de determinado papel, levando em
conta circunstâncias como idade, sexo, fatores sociais e culturais.

Recomendações Gerais para Portadores de Necessidades Especiais:


xdurante as abordagens, o policial militar se manterá atento às
questões da segurança, jamais subestimando a capacidade individual
do deficiente ou o seu envolvimento com outras pessoas na ocorrência;

111
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

xdeve-se evitar gracejos ou situações que possam ridicularizar as


expressões da pessoa abordada, causando-lhe constrangimento ou
exposição desnecessária;
xo abordado deverá ser avisado antes de receber a busca pessoal,
momento em que também será orientado a manter-se calmo, tendo
em vista que lhe serão assegurados todos os seus direitos. Assim,
enquanto um policial militar verbaliza e executa a busca, os demais
cuidarão da segurança.
Recomendações Específicas:
tpessoa com deficiência auditiva:
- verificar se a pessoa abordada consegue se comunicar e compreender
o que lhe foi dito. Prestar atenção nos lábios, gestos, movimentos e
nas expressões faciais e corporais da pessoa com quem o diálogo está
sendo mantido;
- enquanto estiverem conversando, é prudente que o policial militar
se mantenha em contato visual com o deficiente auditivo. Ao desviar
seu olhar para outras direções, o policial militar poderá emitir uma
mensagem ao deficiente, no sentido de que a conversa terminará;
- caso o policial militar tenha dificuldade para entender o que o
deficiente auditivo está falando, poderá pedir que escreva o que deseja
falar;
- não se deve iniciar o diálogo sem captar a atenção visual da
pessoa. A forma de comunicação também não deverá ser mudada
repentinamente;
- como os deficientes auditivos não podem ouvir as mudanças sutis do
tom de voz, indicando posturas, como sarcasmo ou seriedade, a maioria
deles lerá as expressões faciais, os gestos e movimentos corporais para
entender o que o policial militar deseja comunicar.
·pessoa com deficiência visual:
- ao guiar uma pessoa cega, o policial militar deixará que ela segure
em seu braço, devendo orientá-la quanto à presença de obstáculos no
trajeto, como degraus, escadas, calçadas e bueiros, dentre outros;
- estando o policial militar na presença de um deficiente visual, em
ambientes fechados ou não, na iminência de se retirar, deverá informá-

112
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

lo. Esta é uma atitude cortês que evitará a sensação desagradável de


se falar para o vazio e demonstrará respeito pela condição humana do
interlocutor;
- o policial militar não deve se constranger ao usar palavras como
cego, olhar ou veja bem, pois tratam-se de vocábulos coloquiais que
fazem parte, inclusive, da linguagem habitual dos deficientes visuais;as
indicações de direção devem ser claras e específicas, abrangendo
inclusive os obstáculos. Como algumas pessoas cegas não têm memória
visual, deve-se, ainda, indicar as distâncias em metros, com expressões
do tipo “a uns vinte metros para frente, para a direita, esquerda”.
tpessoa com deficiência física
Por questões humanitárias e profissionais, o policial militar não deve
subestimar a capacidade dessas pessoas, principalmente quanto à
manifestação intelectiva que mantém nos processos decisórios da vida em
sociedade.
Motivado pela necessidade de atuação, o policial militar conciliará em sua
abordagem os elementos da técnica policial, regida pela segurança, pelo
respeito e pela solidariedade.
Recomendações quanto a abordagem e busca a deficientes físicos com
restrição de locomoção:
- ao conversar com um cadeirante (portador de necessidade especial
que utiliza cadeira de rodas), em virtude da divergência de altura entre
os interlocutores e do desconforto que causa no cidadão olhar por
tempo prolongado para cima, o policial militar, quando possível, se
postará de maneira mais equânime, de forma a tornar mais confortável
e diligente a conversa, usando, inclusive, recursos como distanciar-se
ou abaixar-se;
- caso ofereça ajuda ao cadeirante, o policial militar não deverá insistir
na assistência. Se a pessoa aceitá-la, ele próprio informará o que deseja
que seja feito a seu favor;
- o cadeirante deverá ser conduzido em “marcha a ré”, quando auxiliado
a descer rampas ou a subir degraus. A conduta evitará que seu corpo
seja projetado para frente e venha a cair;
- o policial militar somente deverá tocar na cadeira de rodas, quando

113
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

seu objetivo for os procedimento da busca ou da assistência. Na busca


pessoal, a vistoria deverá abranger, além do corpo, os pertences e a
cadeira de rodas;

- diante de fundada suspeita, se necessário, o abordado poderá ser


retirado da cadeira, podendo ser colocado assentado no banco da
viatura. A revista da cadeira de rodas compreenderá toda a sua estrutura,
incluindo forros e o interior de sua estrutura metálica. Somente após a
vistoria na cadeira, o cadeirante, já abordado, será nela recolocado;

- se o abordado utilizar muletas ou bengala, o policial militar seguirá os


mesmos procedimentos previstos para a abordagem em pessoa sem
deficiência, adaptando as técnicas de acordo com a limitação motora
e tomando cuidado com possíveis golpes que ele poderá efetuar,
com a própria muleta. Há possibilidade de se ocultar objetos (drogas,
instrumentos perfurocortantes, armas de fogo), no interior das muletas.
Assim, é importante que o policial militar não permita que as muletas
sejam apontadas na direção das pessoas envolvidas na abordagem ou
próximas à intervenção.
tpessoa com deficiência mental
A deficiência mental caracteriza-se por um funcionamento intelectual
significativamente abaixo da média, com limitações associadas a duas ou
mais áreas da conduta humana, como comunicação, cuidados pessoais,
habilidades sociais, independência na locomoção, dentre outras. Exemplo:
Síndrome de Down, oligofrenia, autismo, algumas psicoses.
Existem deficiências mentais que provocam sinais de agitação no indivíduo:
não consegue se comunicar, não tem noção de perigo e pode se comportar
de maneira agressiva. Por isso, é necessária uma avaliação de risco cautelosa.
Recomendações:
- a condução deverá ser feita com muita cautela e preparo.
Antecipadamente, o policial militar se certificará da disposição dos
recursos humanos e materiais necessários à contenção do deficiente,
precavendo-se de situações em que ele possa se machucar ou provocar
acidentes, agravando, inclusive, a ocorrência;
- sempre que possível, a guarnição solicitará a presença de equipe
técnica da área médica, como enfermeiros ou médicos do Serviço
de Atendimento Médico de Urgência (SAMU), que possuem melhor

114
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

treinamento e condições técnicas para lidarem com pessoas nessa


situação;
- mesmo com a utilização de força física, proporcional ao agravo,
pode ser que o doente não recue ou não sinta dores, devido ao seu
estado clínico, tornando-se ainda mais agressivo. Se o abordado estiver
agitado ou nervoso, o policial militar, sempre que possível, aguardará
que ele se acalme, antes de iniciar a intervenção;
- ao fazer a condução a pé, o policial militar redobrará os cuidados
com a travessia de locais que ofereçam risco ao doente, como escadas,
rampas, pontes e ruas, para evitar que o indivíduo se lance aos
obstáculos ou à frente de veículos em movimento.
tpessoa com paralisia cerebral
A pessoa com paralisia cerebral anda com dificuldade ou simplesmente não
anda, podendo, também, apresentar problemas de fala. Seus movimentos
podem ser descontrolados. Pode, involuntariamente, apresentar gestos
faciais incomuns (contrações do rosto).
Recomendações:
- em caso extremo se o policial militar tiver que realizar uma busca em
uma pessoa com paralisia cerebral, no caso de suspeita dela ter sido
usada para ocultar algum objeto ilícito, esse deverá agir no ritmo da
pessoa abordada, demonstrar tranquilidade e evitar ações bruscas, e
seguir as orientações à pessoa responsável pelo abordado;
- caso não compreenda o que a pessoa diz, o policial militar pedirá para
repetir, sem constrangimentos.
e) Atuação policial no atendimento à pessoa idosa
O Estatuto do Idoso define como pessoa idosa, aquela com idade igual ou
superior a 60 anos. Nele se encontram estabelecidos, com prioridade absoluta,
as medidas protetivas ao idoso. A norma prevê novos direitos e estabelece
vários mecanismos específicos de proteção, que vão desde a melhoria das
condições de vida até a inviolabilidade física, psíquica e moral dos idosos.

Nesse enfoque, o Estatuto do Idoso também estabelece como obrigação da


família, da sociedade e do Poder Público, a efetivação de direitos fundamentais

115
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

da pessoa idosa, como o direito à saúde, ao lazer, à cidadania, à vivência com


dignidade, incluída aí, principalmente, a convivência familiar.
Recomendações:

- nas intervenções em razão de suspeita de prática de delito, o policial


militar observará a idade e as condições de saúde do idoso, e os demais
procedimentos técnicos, previstos neste Manual;

- sempre que possível, deve-se promover o acompanhamento do idoso


por algum membro familiar ou pessoa indicada por ele;

- quando houver necessidade da busca pessoal, o policial militar a


executará de modo a evitar constrangimentos desnecessários;

- prestar informações necessárias ao idoso, a respeito de sua condução


(local, providências).

f) População em situação de rua


Por intermédio do Decreto Federal nº 7.053, de 23 de dezembro de 2.009,
a população em situação de rua foi oficialmente reconhecida para fins
de implementação de políticas públicas que lhe garanta, sobretudo, a
sobrevivência e o desenvolvimento.
As diretrizes da Política Nacional para a população em situação de rua
dizem respeito à promoção de direitos civis, políticos, econômicos, sociais
e culturais, bem como o direito dos cidadãos, nessa condição, a terem
atendimento humanizado e universalizado, em face da não referência de
moradia.
A população de rua é bastante heterogênea: misturam-se famílias, homens,
mulheres, crianças e adolescentes, formando diferentes combinações
sociais. O que todos têm em comum é a luta pela sobrevivência, a carência
ou a precariedade de habitação, além de laços familiares fragilizados ou
interrompidos.
As ruas e avenidas são os lugares utilizados por este público como dormitório,
bem como para realizar as tarefas afetas ao interior de uma residência. A
pessoa que utiliza o espaço público para pernoite costuma sofrer violência
também de seus pares, em virtude de disputas de territorialidade, de estigma
de grupo ou conflitos individuais, de envolvimento com as drogas, dentre
outros fatores, dada a dimensão do contexto de rua. Dormir em grupo,

116
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

portanto, representa determinado nível de segurança; uma proteção coletiva


em relação às enormes adversidades que enfrenta pela sua inclusão.
Estar em situação de rua não implica necessariamente estar envolvido com
práticas ilegais. O policial militar deve respeitar essas pessoas, principalmente
em razão do isolamento social, do descrédito e do sentimento de abandono
que adquirem por viverem nas ruas, desenvolvendo normalmente o seu
trabalho.
Recomendações:

- agir com equilíbrio e bom senso, sobretudo nos momentos em que


as demandas decorrentes da aplicação da lei exigirem condutas mais
firmes. O policial militar deverá ter a consciência de que uma pessoa
que vive em condições sociais extremamente precárias apresenta
debilidades (deficiência linguística, invisibilidade social, falta de
higiene corporal), que inclusive podem funcionar como barreiras para
que recebam tratamento adequado;

- deverá atender e orientar as pessoas desse grupo a buscarem auxílio,


junto aos órgãos competentes de assistência social;

- lembrar que, de acordo com a Constituição Federal, ninguém será


obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de
lei. As pessoas em situação de rua não podem ser obrigadas a praticar
atos que não sejam exigidos por lei e são livres para estarem em
qualquer local, sem que as suas presenças signifiquem desrespeito à
lei;

-nos atendimentos, o policial militar não permitirá o tratamento


desumano ou degradante a esses cidadãos, por quem quer que seja;

-ter o cuidado no trato com os objetos pessoais e com os abrigos


improvisados do cidadão abordado, quando a revista for necessária.

5.3 Atuação policial frente às minorias


As minorias são grupos de cidadãos, sem posição dominante, dotados de
características étnicas, religiosas ou linguísticas, que os diferem da maioria
da população.

Neste grupo, observa-se comumente o surgimento de “um senso de


solidariedade um para com o outro, motivado, senão apenas implicitamente,

117
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

por vontade coletiva de sobreviver, e de conquistar a igualdade com a


maioria, nos fatos e na lei” .

Essas pessoas têm o direito de desfrutar de sua própria cultura, de professar


e praticar sua religião, de fazer uso de seu idioma em ambientes privados
ou públicos, livremente e sem interferência de quaisquer formas de
discriminação.

A discriminação é uma conduta (ação ou omissão) que objetiva separar ou


isolar as minorias do seio de uma sociedade.

Pelo fato do racismo e da segregação social ainda existirem na sociedade,


foram necessárias diretrizes legais que disciplinassem a matéria.

A lei nº 9.459, de 13/05/1997, que alterou a Lei Federal nº 7.716, de 05 de


janeiro de 1989, define os crimes resultantes de preconceito e tipifica o crime
de racismo, adotando três verbos principais: obstar, recusar e impedir, no
sentido de que ninguém seja privado de seus direitos em decorrência da cor,
da religião, da etnia, da língua ou da procedência nacional.

Prevendo uma natural aproximação entre a injúria preconceituosa


e o racismo, o policial militar deve ter extremo cuidado para que não
se equivoque quanto ao enquadramento legal do crime. Na injúria
preconceituosa (racial), o agente pratica o crime quando atribui qualidades
negativas a alguém, promovendo xingamentos e ações dessa natureza, com
base nos elementos de raça, cor, etnia, religião, idade, ou condição física do
ofendido. O racismo, por sua vez, atende diretamente a vontade do ofensor
em segregar socialmente o ofendido, obstando-lhe os direitos. É um crime
imprescritível, inafiançável, cuja ação pública é incondicionada, e que atinge
diretamente a dignidade da pessoa humana.

O policial militar deverá estar certo do alcance e do poder de ofensividade de


ambos os crimes, cujas condutas, indubitavelmente negativas e reprováveis,
atingem, com frequência, as minorias.

No que se refere a outras comunidades tradicionais como ciganos e povos


indígenas, reconhecido seu organismo social (língua, costumes, religião,
crenças e tradições), deve-se considerar que também eles gozam de direitos
fundamentais e, em igual importância, históricos, a contar a ocupação dos
espaços territoriais que tradicionalmente os tornou legítimos donos; bens
hoje reconhecidos, demarcados e protegidos pela União.

118
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Recomendações:
Em ocorrências que envolvam pessoas ou grupos que se caracterizam por
identidade étnica, religiosos ou linguísticos, resguardados os aspectos de
fundada suspeita e os respectivos fundamentos da abordagem, sempre que
possível o policial militar deverá:

xagir com profissionalismo e bom senso, ao lidar com situações em


que uma pessoa se sinta discriminada, demonstrando respeito por
suas características;

xconsiderar que a etnia da pessoa (negra, cigana, indígena) não


determina a suspeição. A condição étnica das pessoas não se confunde
com índole criminosa e não poderá determinar pré-julgamentos.

a) Religiões de Matriz Africana

A CF/88 informa: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo


assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei,
a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Estão inclusas as religiões
de matriz africana, como o Candomblé, Umbanda ou outras de manifestação
afro-católica, como o Congado. Elas são assim designadas devido a sua
origem, trazidas para o Brasil pelos negros vindos do continente africano,
desde o início da colonização portuguesa.

Estas religiões têm sofrido através dos séculos intolerâncias e discriminações


de todo gênero. Por serem de matriz africana, se tornam referências para a
cultura do racismo. O Brasil, constitucionalmente, é um país laico (não tem
religião oficial), por isto, todos têm diretos a praticar seus cultos religiosos,
manifestações ideológicas, políticas e culturais, sem intervenções de caráter
repressivo, discriminatório ou jocoso.

A liberdade de crença religiosa é um direito e o Estado tem por obrigação


garanti-lo e punir suas violações. Não há espaço, em um país democrático,
para prática de violência e discriminações por motivação religiosa.

Atualmente, o senso popular ainda associa os símbolos, práticas e ritos


sagrados destas religiões a coisas demoníacas, como possessões de “espíritos
malignos”, e causas determinantes de tragédias pessoais. Neste contexto, as
instituições de segurança pública devem estar preparadas para lidar com
estes diversos conflitos, principalmente os originados da ação discriminatória
e preconceituosa de outros grupos radicais.

119
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Recomendações:

xa intervenção policial, durante uma reunião pública, deve ser feita
com cautela, para não haver constrangimento aos presentes e também
para que o policial militar não incorra no delito de perturbação de
culto religioso;
xo policial militar deverá verificar antes o que está realmente
acontecendo, se inteirando dos fatos perante todos na região, sem
proferir juízo de valor. Se for apurado perante a própria população
local que não está ocorrendo delito, a operação deve ser encerrada
para evitar constrangimentos, comunicando-se o fato, discretamente,
ao denunciante, se identificado;
xem caso de denúncia, a intervenção policial, dentro do terreiro, deverá
ocorrer de maneira tranquila e, se possível, sem a utilização de farda. O
dirigente do terreiro deverá, se possível e no momento adequado, ser
cientificado dos fatos. O contato com o dirigente deverá ser em local
reservado, longe das demais pessoas;
xAlgumas denúncias são relacionadas a barulho, com incômodos aos
vizinhos. Também há denúncias de supostos sacrifícios de animais no
terreiro, ou ainda que há agressões físicas entre os participantes. O
policial militar deverá intervir caso a denuncia de sacrifício/maus tratos
seja verdadeiro ou não, verificando se há motivos preconceituosos na
denúncia e tomando as medidas legais que o caso requeira.
5.4 Abordagem a pessoas em surto de drogas
O funcionamento do organismo humano pode ser alterado em razão da
interação com substâncias capazes de provocar alterações fisiológicas ou
comportamentais. Essas modificações variam de acordo com cada pessoa,
com o tipo de droga, o ambiente de consumo, a via de administração e a dose
da substância ingerida, com a expectativa almejada pelo usuário, dentre
outros fatores.
Graus de intoxicação elevados, via de regra, possibilitam perturbações do
nível de consciência, da capacidade cognitiva, da percepção, do juízo crítico,
do afeto, do comportamento ou de outras funções e reações psicofisiológicas,
elementos essenciais a serem considerados quando da abordagem policial
ao consumidor de drogas, pois interferem na avaliação de risco e uso
diferenciado de força. Nesse sentido, evidências científicas indicam que
a ingestão de drogas perturbadoras, depressoras ou estimulantes, como o
álcool e os derivados da cocaína, podem desencadear atos ilícitos.

120
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Recomendações:

xcompreender que o consumo de drogas pode provocar alterações na


percepção do mundo: o tempo e o espaço passam a ter uma dimensão
diferente, estímulos visuais e auditivos são criados (alucinações) ou se
apresentam de maneira distinta;

xcolher o máximo de informações referentes ao histórico pessoal


do consumidor de drogas, caso possível, com os familiares e/ou
conhecidos, no que se refere aos surtos do abordado;

xavaliar o grau de consciência e o potencial de agressividade. Ao


identificar a pessoa a ser abordada, ela pode se apresentar com a
fala, os pensamentos, emoções e percepções confusas. Demonstram
desorientação e desvinculação com o mundo externo, como se
estivessem psiquicamente ausentes. O estado emocional pode, ainda,
mudar bruscamente;

xObservar a fala do abordado. O primeiro indicativo de interação com


substâncias psicoativas e de que pode haver uma reação inesperada, se
relaciona à fala da pessoa. Há necessidade de que as perguntas sejam
repetidas várias vezes pelo policial militar, em razão da dispersão da
atenção do abordado. Pode ser muito difícil engajar o usuário numa
conversação normal;

xTenha em mente que a instabilidade emocional pode ser frequente,


com apresentação de choro e risos imotivados. Além disso, pode se
apresentar alheio à realidade e com pouca, ou nenhuma sensibilidade,
mostrando-se como uma pessoa fria. Por vezes, o abordado terá um
olhar perdido, sem fixação em pontos, ou a demonstração de que está
assustado ou desconfiado;

xalertar para o fato de que a maioria das paranoias decorrentes do


consumo de drogas acarreta a necessidade do uso de força;

xcompreender que as técnicas de imobilização policial, na maioria


das vezes, não funcionam, devido ao seu rebaixamento da crítica e do
efeito anestésico da droga, momento em que não esboça reação de
dor e não atende às ordens emanadas, podendo precipitar uma reação
agressiva, quando da tentativa de controle físico.

121
SEÇÃO 6

TRATAMENTO
ÀS VÍTIMAS
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

6 TRATAMENTO ÀS VÍTIMAS
As ciências que estudam o ato delituoso (como a criminologia e o direito
penal) inicialmente não percebiam a importância da vítima como objeto de
estudo. A ênfase maior de tais disciplinas era dada à pena e ao delinquente.
Na atualidade, as vítimas já conquistaram a atenção destas ciências, e o seu
comportamento e atitudes são temas constantes de pesquisa.
Seguindo essa lógica, as vítimas também não podem ser desconsideradas
pelos organismos policiais. É necessária a conscientização dos profissionais
de segurança pública que o tratamento inadequado pode gerar a violação e
o desrespeito aos Direitos Humanos, o que resultaria em uma nova violência.
A Declaração das Nações Unidas sobre os Princípios Fundamentais de Justiça
Relativos às Vítimas da Criminalidade e do Abuso do Poder é o instrumento
internacional que oferece orientação sobre a proteção e a reparação a essas
pessoas. Para este documento, vítimas são todas as pessoas que, individual
ou coletivamente, tenham sofrido prejuízo ou atentado à sua integridade
física ou mental, sofrimento de ordem material, ou grave atentado aos seus
direitos fundamentais, como resultado de ações ou omissões violadoras da
legislação instituída pelo Estado.

Devido à prioridade que é dada à captura do autor do delito, muitas vezes, a


atenção à vítima é colocada em segundo plano pelo policial, deixando-a sem
apoio, informações ou esclarecimentos.

As vítimas, ao requererem a presença policial, criam uma expectativa de


conforto, de reabilitação do equilíbrio emocional e de solução do problema
e, por isso mesmo esperam uma atuação positiva por parte da Polícia.

É neste sentido que o policial militar deve, primeiramente, conscientizar-


se da importância de seu papel como mediador do conflito e se preparar
profissionalmente para dar um atendimento diferenciado à vítima e ao autor
do delito.

Medidas como informar sobre serviços sociais de atendimento à vítima,


existentes no município (serviços de atendimento psicossocial, jurídico,
grupos de ajuda e de orientação, abrigos, entre outros), complementam o
atendimento policial. A orientação e o encaminhamento da vítima e de seus
familiares para esses serviços podem ajudar a diminuir o seu sofrimento e a
prevenir novos episódios.

125
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

A Lei Estadual nº 13.188, de 20 de janeiro de 1999, dispõe sobre a proteção,


o auxílio e a assistência às vítimas de violência no Estado, elencando, ainda,
outras providências sobre a matéria.
O seu artigo 1º determina que o Estado ofereça proteção, auxílio e assistência
às vítimas de violência, por meio dos órgãos ou das instituições competentes.
Já o artigo 3º, informa que a proteção, o auxílio e a assistência previstos no
artigo 1º da Lei consistem em:
I -colaborar para a adoção de medidas imediatas que visem a
reparar os danos físicos e materiais sofridos pela vítima;
II - acompanhar as diligências policiais ou judiciais, especialmente
quando se tratar de crime violento;
III - elaborar e executar plano de auxílio e de manutenção
econômica para as vítimas, testemunhas e seus familiares que
estiverem sofrendo ameaças e necessitam de transferência
temporária de residência;
IV -pagar as despesas de sepultamento da vítima de que trata o
inciso I do art. 2º, se do ato de violência resultar a morte;
V -proporcionar alimentação para lesionados com dificuldades
econômicas e seus dependentes, enquanto durar o tratamento;
VI -apoiar programas pedagógicos para readaptação social
ou profissional da vítima. (Alterado pela Lei 15475, de
12/04/2005)
VI - criar programas especiais organizados nos termos da Lei
Federal n° 9.807, de 13 de julho de 1999.
§ 1º Em se tratando de vítima de crime tipificado nos arts.
130 e 213 a 220 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro
de 1940, que contém o Código Penal, os exames médicos
periciais que se fizerem necessários serão realizados em
hospital público ou hospital particular conveniado com o
poder público, onde a vítima terá direito a assistência médica
e psicológica. (BRASIL, 1999).

Um atendimento adequado e atencioso poderá minimizar os efeitos violentos


decorrentes do crime e facilitará, significativamente, a administração da
ocorrência.
Nos itens a seguir, sugere-se orientações e verbalizações para balizar esse
atendimento.

126
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

6.1 Procedimentos com vítimas em locais de ocorrência


x No ambiente de intervenção, o policial militar deve tranquilizar
a vítima e demonstrar preocupação com sua situação física e
psicológica. Sugerem-se os seguintes diálogos de verbalização:
“___Minha preocupação agora é com você (o senhor).
Você (o senhor) tem lesões aparentes? Necessita de
atendimento médico? Você (o senhor) gostaria de falar
sobre o ocorrido? Não se preocupe, pois outros policiais
de nossa equipe já estão procurando o agente do crime
para prendê-lo.”
x Na audição da vítima, que se encontra sob forte impacto
psicológico, decorrente de fato violento, o policial militar deve
permitir que ela fale livremente sobre o evento que ensejou
a intervenção policial evitando-se, quando possível, tratar de
detalhes que possam aumentar o constrangimento. Deve ouvir
de maneira cuidadosa e respeitar os limites da vítima, inclusive a
dificuldade em relatar os fatos e sentimentos.
x Deve-se resguardar a vítima dos populares, da imprensa, como
forma de preservá-la diante do acontecido.
x Sempre que possível, a medida de localização e prisão dos
infratores deverá ser tomada por outra equipe de serviço,
utilizando-se de informações obtidas pela vítima, por solicitantes,
testemunhas ou denunciantes.

ATENÇÂO! Policiais femininos podem ter mais


acessibilidade às vítimas mulheres ou crianças,
o que as tranquilizará de forma mais imediata
e facilitará a aproximação e o atendimento
policial.

xHabitualmente, as vítimas manifestam medo, insegurança,


desconfiança, dor, vergonha, incerteza ou culpa, além de apresentar
possíveis lesões físicas. Diante desse quadro, ela será acolhida e
orientada de maneira especial. No caso de violência sexual contra
pessoa adulta, deverá ser respeitada sua opinião, quando houver
recusa em prosseguir com as providências policiais.

127
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

ATENÇÂO! Nos casos em que houver


necessidade de socorro médico às vítimas,
este deve ser priorizado em relação a qualquer
outro procedimento policial.

xDurante a identificação de possíveis autores do delito, o policial


atentará para que a vítima não seja exposta, evitando que autor
e vítima tenham contato, devendo o reconhecimento ser feito de
maneira reservada e em momento oportuno.
xLembre-se que as testemunhas também poderão se tornar vítimas
e se sentirem ameaçadas pelo(s) agressor(es). Portanto, deve-se
adotar as mesmas providências que foram propostas para o caso de
identificação do autor por parte da vítima.

ATENÇÂO! O registro da ocorrência (BO/REDS) ou da


notícia crime deverá ser feito preferencialmente em
local seguro e privado, principalmente quando se
referir a crimes sexuais, ocasião em que a vítima estará
fragilizada e exposta psicologicamente.

xA atenção à vítima somente se encerrará no momento em que todos


os procedimentos policiais estiverem completos. A guarnição, diante
de circunstâncias tais como a vítima não possuir meios para voltar
para o domicílio, estar despida, se encontrar em horário e local de risco
ou temer nova agressão, poderá conduzi-la ou acompanhá-la para sua
residência ou para local estabelecido por ela, mediante contato com a
Coordenação Operacional da fração e autorização do Comandante do
turno de serviço.
xDependendo da situação avaliada pela equipe, os policiais militares
precisarão ser incisivos, para fornecer segurança à vítima.
“___Para termos certeza de que você (o senhor) estará
seguro, vamos acompanhá-lo até a sua casa.”
Ou,
“___Você (o senhor) será levado para casa em nossa viatura,
para termos a certeza de que estará seguro.”

128
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

x Após a chegada na residência da vítima ou outro local indicado


por ela, o policial militar deverá certificar-se de que tudo esteja bem,
porém evitará entrar. Na hipótese da vítima solicitar a presença policial
no interior da casa para, por meio de uma vistoria, verificar se há algo
suspeito, o procedimento será realizado na presença da própria vítima
e, preferencialmente, de testemunhas, para a defesa posterior de
possíveis reclamações.

x É importante que o policial militar entenda que esta vítima está


emocionalmente fragilizada. Logo, ele deve manter uma postura
profissional e acolhedora, mas evitar o excesso de intimidade e
proximidade com esta pessoa.

x Antes de se retirar do local, o policial militar tranquilizará a vítima,


informando que terá todo o apoio necessário e, se for preciso, poderá
acionar uma equipe policial por meio do 190.
x Os casos de violência doméstica devem ser tratados de forma
diferenciada. Violência doméstica e familiar contra a mulher18 é
qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte,
lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou
patrimonial. A vítima deverá ser orientada quanto aos seus direitos,
medidas protetivas e de possíveis locais ou órgãos de apoio e, se
possível, que procure abrigo em casa de parentes ou amigos.
x A orientação quanto aos direitos legais proporciona o acesso à justiça
ao vítimado e à sua família, bem como a responsabilização do agente
infrator. É recomendado que o policial militar conheça as instituições
para o encaminhamento e atendimento inicial das vítimas (hospitais
de pronto atendimento, hospitais de referência para violência sexual,
Delegacias Especializadas, Defensoria Pública, dentre outros).
x Vários são os órgãos que podem cooperar com o trabalho da Polícia
Militar: conselhos tutelares, programas de atendimento às mulheres
vítimas de violência, conselhos de direitos humanos, conselhos dos
portadores de deficiência física, de idosos, negros, dentre outros. São
espaços de cidadania habilitados a oferecer serviços que asseguram
o exercício dos direitos das vítimas e dos familiares de vítimas de
crimes, e que são eficazes na prevenção e no combate à violência e à
impunidade, bem como na promoção da cidadania.
18 Conforme disposto no Artigo 5º da Lei Maria da Penha (Lei 11340/06).

129
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Em geral, essas instituições se ocupam de atividades, como:


x prestação de atendimento interdisciplinar (psicológico, jurídico e
social) a vítimas de crimes violentos graves e aos familiares;
x identificação dos perfis da violência criminal urbana e das formas de
prevenção;
x identificação e redução dos efeitos traumáticos provenientes da
violência sofrida pelas vítimas e por suas famílias;
x atuação como auxilio na ruptura de ciclos e códigos de violência;
x apoio à inserção da vítima no processo penal, garantindo-lhe acesso
à Justiça;
x apoio e orientação, quanto a direitos e deveres, àqueles que podem
contribuir como testemunhas para a realização da justiça.
x atuação no combate e/ou minimização dos efeitos da vitimização,
por meio de capacitação dos agentes do Estado e demais profissionais.

O Núcleo de Atendimento as Vítimas de Crimes Violentos (NAVCV), por meio


de um programa federal e estadual, presta apoio jurídico, psicológico e
social gratuito aos familiares e às vítimas de homicídio, de latrocínio e crimes
sexuais.
No caso de atendimento de familiares de vítimas fatais, o policial militar
poderá aplicar os mesmos procedimentos definidos para atendimento às
vítimas, naquilo que couber. Estas pessoas são indiretamente afetadas pelo
cometimento do crime, que envolve normalmente alto grau de comoção.

IMPORTANTE: O respeito aos direitos humanos e cuidados com


as vítimas não exclui o foco operacional, a tradição militar e a história da
PMMG. Ao contrário. O caminho principal da Corporação na promoção
dos direitos humanos é justamente o cumprimento da missão ordinária
de preservação da ordem e garantia da lei; o principal “projeto social” da
Corporação deve continuar pautado no combate incisivo e sistemático
à violência e ao crime; em ações e operações policiais diversas. Essa tem
sido a missão principal da PMMG em toda sua história bissecular; história
que registra ainda o protagonismo legítimo da Corporação em missões
extraordinárias decorrentes de graves crises, missões para as quais a
Corporação também deve estar sempre preparada. Uma PMMG forte,
disciplinada e operacionalmente vigorosa representa em larga escala um
Estado capaz de proporcionar ordem, segurança e tranquilidade pública a
todos cidadãos mineiros, ambiente propício ao desenvolvimento de Minas
Gerais e do Brasil.

130
SEÇÃO 7

LOCAL DE CRIME
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

7 LOCAL DE CRIME
É o espaço onde tenha ocorrido um ato que, presumidamente, configure
uma infração penal e que exija as providências legais por parte da polícia.
Compreende, além do ponto onde foi constatado o fato, todos os lugares
em que, aparentemente, os atos materiais, preliminares ou posteriores à
consumação do delito, tenham sido praticados.
O local de crime é fundamental para a investigação criminal. Ele fornece
elementos relevantes para concretizar a materialidade do delito e chegar à
autoria.
7.1 Classificação do Local de Crime e Conceitos Correlatos
A Criminalística19 apresenta uma classificação própria do local de crime. Para
a atividade policial-militar destacam-se as seguintes:
a) Consoante à natureza:
Pode ser de homicídio, infanticídio, suicídio, atropelamento, incêndio,
afogamento, furto, roubo, arrombamento, dentre outros.
b) Consoante ao lugar do fato:
x local interno: área compreendida por ambiente fechado, que preserva
os vestígios da ação dos fenômenos da natureza. Ex.: Interior de
residências, interior de veículos, galpões, dentre outros;
x local externo: área não restrita, e que não preserva os vestígios da
ação dos fenômenos da natureza. Trata-se de áreas abertas, como ruas,
rodovias, praças, estradas, matagal, beira de rios, dentre outros;
x local imediato: é a área exata onde ocorreu o fato ou o crime;
x local mediato: são as adjacências; os pontos e áreas de acesso ao local
do crime. Ex.: corredores, ambientes ao redor de cômodos, jardins,
estradas, trilhas, dentre outros;
x locais relacionados: são as áreas que podem apresentar conexão
com o fato criminoso e, por isso, oferecer pontos comuns de contato
(vestígios) a serem observados.

19 A Criminalística é uma disciplina autônoma, integrada pelos diferentes ramos de


conhecimento técnico-científico, auxiliar e informativa das atividades policiais e judiciária da
investigação criminal. Seu objetivo é estudar os vestígios encontrados nos locais de crime,
para a elucidação dos fatos.

133
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

c) Consoante ao exame

local idôneo: é aquele que não foi violado, que não sofreu nenhuma
alteração desde a ocorrência do fato.

O artigo 169 do CPP discorre sobre as providências policiais a serem tomadas,


imediatamente, no local de crime. De sua interpretação, vale lembrar que o
primeiro policial que chegar ao local terá a responsabilidade inadiável de
preservá-lo, devendo recorrer, inclusive, a todos os meios necessários para
que o estado das coisas não seja alterado até que a perícia técnica assuma
seu trabalho na ocorrência.

Art. 169 – Para o efeito de exame do local onde houver


sido praticada a infração, a autoridade providenciará
imediatamente para que não se altere o estado das coisas
até a chegada dos Peritos, que poderão instruir seus laudos
com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos.

Parágrafo Único: Os Peritos registrarão no Laudo, as


alterações do estado das coisas e discutirão no relatório,
as consequências dessas alterações na dinâmica dos fatos.

xlocal inidôneo: é aquele que foi violado, que sofreu alguma


alteração após a ocorrência dos fatos delituosos.

7.2 Prova

Tudo que demonstra a veracidade de uma proposição ou a realidade de um


fato. Na criminalística, existem as provas objetivas e as subjetivas.

x Prova Objetiva: tem por base os vestígios encontrados nos locais


de crime, que são interpretados pelos Peritos, por meio dos exames.
Exemplo: laudo pericial.

x Prova Subjetiva: tem por base as informações colhidas da vítima,


das testemunhas ou de qualquer pessoa relacionada com o fato.
Exemplo: boletim de ocorrência (BO/REDS), expedido pela Polícia
Militar.

O boletim de ocorrência (BO/REDS) é um documento que necessariamente


será lavrado nas intervenções policiais, descrevendo os fatos ocorridos no

134
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

local do delito e materializando a presença policial. O boletim formaliza


a comunicação ao poder público de que determinada situação requer
providências, quer seja pela superveniência de ações criminosas ou de outros
fatos que ofereçam riscos à sociedade.
Por esse registro, a equipe de Polícia Judiciária extrairá as primeiras
informações do fato criminoso, formando as primeiras imagens e abstraindo
as primeiras idéias que subsidiarão uma linha de ação. É de suma importância
que os primeiros policiais militares que chegarem ao local do crime descrevam
o cenário (vítima, instrumentos, vestígios, testemunhas), da forma mais
autêntica e detalhada possível, para que esses elementos não se percam com
tempo.
O exame de corpo de delito é outro instrumento de coleta de provas,
imprescindível para a elucidação dos fatos. O Código de Processo Penal (CPP)
determina em seus artigos 158 e 167 que:
Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será
indispensável
o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não
podendo supri-lo a confissão do acusado.
(...)
Art. 167. Não sendo possível o exame de corpo de
delito, por haverem desaparecido os vestígios, a prova
testemunhal poderá suprir-lhe a falta (BRASIL, 1941).

ATENÇÂO! De acordo com o art. 167 do CPP, se no local


do crime não forem encontrados vestígios, a descrição
dos fatos pelas testemunhas arroladas no Boletim de
Ocorrência poderá ser a única prova do ato delituoso.

É importante distinguir os seguintes elementos:


xevidência: é o vestígio que, após analisado pela perícia técnica e
científica, possui relação com o crime;
xvestígio: é todo objeto ou material bruto, suspeito ou não,
encontrado no local de crime e que deve ser recolhido e
resguardado para exames posteriores;

135
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

xindício: é todo vestígio cuja relação com a vítima ou com o


suspeito, com a testemunha ou com o fato, foi estabelecida. É o
vestígio classificado e interpretado, que passa a significar uma
prova judiciária.
São exemplos de vestígios considerados importantes para a elucidação
do crime: manchas diversas (sangue, saliva, sêmen, vômito), substâncias
orgânicas, cabelos, impressões digitais, marcas de calçados ou pés,
documentos (manuscritos, datilografados, desenhados), resíduo de explosivo,
explosivos, armas, munições, fibras, tecidos, objetos de vidro, líquidos, metais,
marcas de tintas, plásticos, gesso, escombros, concreto, argamassa, cordas,
linhas, cordões, pneus e suas marcas, ferramentas e suas marcas, material
tóxico, veículos, fios, cabos, madeira, dentre outros.
Antes de adotar os procedimentos no local de crime o policial militar deverá
diferenciar isolamento de proteção:
xisolamento: é a delimitação da área física, interna e externa do
local de crime, por meio de recursos visíveis, tais como cordas,
fitas zebradas e outros, cuja finalidade é proibir a entrada de
pessoas não credenciadas no local de crime;
xproteção: consiste em impedir que se altere o estado das coisas,
visando à inalterabilidade das provas.
7.3 Procedimentos no local de crime
A conscientização dos policiais militares e da sociedade é fundamental para a
conservação do local de crime. Qualquer alteração nesse ambiente prejudicará
os trabalhos periciais, a investigação policial e, consequentemente, a
elucidação do fato.
Os policiais militares, ao serem acionados para atuarem em um local de crime,
obedecerão às etapas da intervenção policial20, razão pela qual é necessário,
inicialmente, fazer um diagnóstico para elaborar um plano de ação e, só
então, efetuar o isolamento do local (execução). A avaliação é pertinente em
qualquer tipo de intervenção.
Quanto à sequência das três etapas anteriores, temos inicialmente o
diagnóstico, que será elaborado a partir das informações sobre o motivo
e o local de crime, obtidas por meio da avaliação de risco, da análise do
cenário feita a partir do pensamento tático e da observação e identificação
dos locais mediatos, imediatos e relacionados.
20 ver MTP 1

136
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

A segunda etapa, plano de ação, consiste na decisão, acerca das atribuições


de cada policial, dos métodos e procedimentos para alcançar objetivos do
efetivo isolamento e proteção do local. Os policiais militares, trabalhando
em equipe, devem ter atitudes coerentes entre si, fruto de uma mesma
avaliação de risco e uso diferenciado de força caso seja necessário empregá-
la. É imprescindível considerar os dados que subsidiaram o diagnóstico,
os fundamentos para o isolamento e os recursos disponíveis (pessoas e
equipamentos). O plano de ação deve ser elaborado de forma simples e
verbal, ou exigir maior estruturação, conforme a avaliação da complexidade
do local.

O policial militar, para elaborar o plano de ação, precisa responder às seguintes


perguntas:

xPor que estamos isolando este local?

xQuem, ou o que iremos isolar e proteger?

xOnde se dará o isolamento?

xO que fazer?

xComo atuar?

xQual a função e posição de cada policial?

xQuando iniciar o isolamento?

xQual material necessário?

A terceira etapa, execução, é a ação propriamente dita, resultante das fases


anteriores. Consiste na aplicação prática do plano de ação, bem como da
adoção de medidas decorrentes do próprio isolamento e o registro do fato
em BO/REDS.

O policial militar, ao chegar, deve dar atenção a tudo que estiver presente
no local de crime, sem fazer qualquer juízo de valor. A preservação deverá
ser realizada por meio do isolamento e proteção de forma efetiva para
que as pessoas não tenham acesso a ele, evitando-se que vestígios sejam
modificados ou destruídos, antes de seu reconhecimento. Em princípio, tudo
que estiver no local é importante.

137
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

A preocupação inicial da guarnição será com o socorro à vítima e com a


segurança dos envolvidos. Também deve se atentar ao fato de que o autor
do delito poderá permanecer nas imediações. Além disso, em decorrência do
crime, o local poderá ser alvo de manifestações e da comoção social.

O policial militar, que normalmente é o primeiro a chegar, deverá providenciar


para que não se altere o estado e conservação das coisas21, isolando o local,
até a chegada dos peritos criminais.
O local a ser isolado deverá abranger todos os vestígios visualizados numa
primeira observação, além de áreas adjacentes que possam ter relação com
o crime. Exemplo: em um local de homicídio, com uma vítima caída no
chão de um dormitório, não basta isolar apenas o quarto. O local do crime
deve ser considerado como a casa inteira (garagem, passeio e outros) e a
rua em frente, já que não se sabe onde poderão ser encontrados vestígios
relacionados ao delito. Vale lembrar que esses locais não se restringem às
ocorrências com homicídios provocados por armas brancas ou de fogo,
tentados ou consumados.
A avaliação é a última etapa e consiste em um feedback das condutas
individuais e do grupo, os resultados alcançados e as falhas notadas em cada
intervenção devem ser, posteriormente, discutidas e analisadas. Possíveis
correções devem ser apresentadas, visando aperfeiçoar as competências
profissionais para um eventual novo isolamento e proteção do local de crime.
Como forma de ilustrar procedimentos policiais nos locais de crime, este
Caderno exemplificará cenas de uma ocorrência de homicídio em via pública.
Ao chegar ao local de crime, o policial deverá:
a. saber que o público normalmente desconhece a importância da
preservação dos vestígios no local de crime, e poderá tê-lo alterado;
b. adentrar em linha reta, ou pelo menor trajeto possível, enquanto os
demais policiais militares cuidarão da segurança. Somente quando
se tratar de área de risco, poderá e será necessária a entrada de mais
de um ao mesmo tempo;
c. verificar os sinais vitais da vítima;

21 Conforme disposto no art. 6º do Código de Processo Penal.

138
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

Figura 45 – Verificação da vítima

d. priorizar o socorro da vítima;


e. em caso de óbito, evitar mexer na vítima (tocar, remover, mudar sua
posição original, revirar bolsos, tentar identificá-la). A identificação
é responsabilidade da perícia criminal, salvo se houver a efetiva
necessidade da guarnição de preservar materialmente a vítima
ou seus documentos em caso de mudança de tempo (chuva,
enchente), com possibilidade de lavagem de manchas e arrasto do
corpo, ocorrência de incêndio, ou outras ações que possam fugir do
controle dos policiais;
f. Realizar constantemente a observação e o controle visual, para
verificar se há segurança na atuação policial;
g. Quando necessário, retornar lentamente, pelo mesmo trajeto feito
na entrada, observando outros detalhes dentro daquela área;
h. prender o criminoso. Caso não seja possível, coletar informações
sobre o autor e divulgá-las para os demais policiais militares de
serviço;
i. observar todas as imediações para definir os limites de isolamento,
podendo abranger trechos de ruas, ou quarteirões (quadras) e
estabelecimentos comerciais que tenham relação direta com o
crime;
j. isolar a área, onde se deu os acontecimentos, usando fitas zebradas.
Na ausência desse material, poderão ser utilizados materiais

139
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

alternativos, como arames, cavaletes, cones, cordas, cabos de aço ou


outros meios disponíveis, sendo que ninguém poderá se deslocar
dentro da área isolada, antes do trabalho periciais;

Figura 46 – Isolamento do local

k. afastar as pessoas, sinalizar, desviar e controlar o trânsito de veículos


e de pedestres;
l. fazer anotações e croquis para facilitar a redação do texto do Boletim
de Ocorrência (BO/REDS);
m. arrolar testemunhas do delito;
n. preservar armas ou outros instrumentos vinculados ao crime;
o. impedir que a posição dos objetos ou de coisas seja modificada.
Tratando-se de locais fechados, manter portas, janelas, mobiliários,
eletrodomésticos, utensílios, tais como foram encontrados. Deve-
se evitar, por exemplo, abrir ou fechar, ligar ou desligar quaisquer
objetos; usar aparelhos de telefonia (fixa ou móvel), sanitários
ou lavatórios, e demais recursos disponíveis no local), salvo o
estritamente necessário para conter riscos;
p. Posicionar-se fora da área isolada, prosseguir com a vigilância,
preservando os vestígios até a chegada dos peritos criminais;

140
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

q. transmitir as informações já obtidas à equipe de Polícia Judiciária ou


a quem for pertinente, procurando interagir com os diversos órgãos
que compõem o Sistema de Defesa Social;
r. em caso de suspeita de alteração do local de crime, identificar o(s)
possível(eis) causador(es), registrar tal situação no BO/REDS e avisar
aos peritos que comparecerem ao local;
s. acompanhar os trabalhos dos peritos, anotando e conferindo o
material apreendido, visando constar todos os dados no Boletim de
Ocorrência (BO/REDS);

Figura 47 – Pessoas alterando local de crime

t. avisar ao responsável pelo exame pericial sobre possíveis vestígios


deixados por terceiros que adentraram ao local de crime (por
necessidade ou equivocadamente), para que os peritos não percam
tempo analisando vestígios ilusórios.
u. proibir que repórteres e fotógrafos acessem o local de crime, antes
da realização dos trabalhos periciais, explicando-lhes a necessidade
de manter os vestígios preservados e que será garantida a liberdade
de imprensa após resguardada a prioridade do serviço pericial;
v. prestar informações à imprensa de forma objetiva sobre os fatos;

141
PRÁTICA POLICIAL BÁSICA

Figura 48 – Tratamento com a imprensa

x. caso a perícia não seja realizada, proceder à apreensão dos materiais


encontrados, na presença de testemunhas, relacionando-os no BO/
REDS, para encaminhamento ao delegado de polícia, (Cadeia de
Custódia de Vestígios – Ver item 7.4 deste Manual);
y. liberar o local após encerrados todos os trabalhos periciais, e na
ausência da perícia, somente após o recolhimento dos objetos;
z. dar atenção especial aos familiares em casos de vítimas fatais,
que poderão reagir de forma agressiva ou tentar invadir o local de
crime. Esta consideração decorre do estado emocional provocado
pela perda de uma pessoa querida. Os policiais militares deverão
assisti-los de forma profissional, entendendo o momento que estão
passando.

ATENÇÂO! A ordem dos procedimentos poderá ser


alterada, dependendo da prioridade observada no
momento da intervenção policial. Exemplo: em alguns
acidentes de trânsito, a prioridade é sinalizar a via para
evitar agravamento da ocorrência ou o surgimento de
novas vítimas e, somente após resguardar a segurança,
procede-se a assistência necessária aos envolvidos e o
isolamento.

142
Manual Técnico-Profissional 3.04.02

7.4 Cadeia de Custódia de Vestígios


É um modelo utilizado nas mais variadas áreas do conhecimento, que tem
como preocupação a manutenção, no âmbito judicial, da qualidade das
provas coletadas. Seu objetivo é garantir a identidade e integridade das
provas até seu destinatário final.
Uma das principais dificuldades encontradas para a elucidação de
determinados fatos e comprovação da conduta criminosa praticada pelo
agente é o levantamento eficiente de provas que estejam preservadas e
tenham idoneidade comprovada. A falta de integridade desse material pode
comprometer o processo de conhecimento criminal.
Nesse contexto, a Cadeia de Custódia de Vestígios é usada para manter e
documentar a história cronológica da evidência, para rastrear a posse e o
manuseio da amostra a partir do preparo do recipiente adequado (quando
necessário), da coleta, do transporte, do recebimento, do armazenamento
e da análise, fazendo sua ligação direta com a infração penal cometida.
Ela é usada para registrar as informações no local da coleta das provas, no
laboratório de análises e também das pessoas que manusearam a amostra.
Assim, apesar desse trabalho ser destinado prioritariamente à polícia
Judiciária, mais precisamente ao perito criminal, outras pessoas, mesmo que
por curto período de tempo, podem eventualmente serem responsáveis pela
coleta e controle dessas provas, como é o caso dos profissionais da área de
saúde e também dos policiais militares que posteriormente conduzirão essas
provas para a autoridade competente.
Os responsáveis pela coleta das provas devem desenvolver um trabalho em
equipe, preferencialmente, conforme programa previamente estabelecido e
acordado pelas Instituições envolvidas, com conscientização e treinamento
sobre as suas respectivas responsabilidades.

Tal responsabilidade dos profissionais envolvidos na Cadeia de Custódia


de Vestígios não tem apenas uma implicação legal, mas também moral, na
medida em que o destino das vítimas e dos réus depende do resultado da
perícia.

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