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A LITERÃTURÃ
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Ì\íà ESCOLA

Re5çína ZíLber'rnan

1 14 Edição rerrista, orualí...l.


.,rr-plí"d.
@ Regina Zllberman, 2003
-,. * --JlÍ t:r,t çà o, Rr tl si,1, A i t i^ r,r zÀ DÁ t. / nÍ r\,L1 DÁ
t" nrnutl,çsÀo. 2ooi
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Capa
EDUARDo OriuNo

E d i t o r.t çà o El e t rôn.i c a
AN.roNÍo S[vro LopEs

Dados lnlernacionais de Catalogação na publicação (Clp)


(Câmara BÍasileira do Livro, SB Brasil)

Zjlberman, Regina
A literatura inÍantil na escola / Reqjna Zilberman. -
'11. ed. rev., atual. e
ampl. - São paulo: clobat,2003.

BibliooraÍia.
rsBN 85-260-0332-1

1. Literatura infanto-juvenil - Êstudo e ensino 2. Ljte-


Íatura infanto,juvenil História e crítica 3. Crianças -
Livros e leiìura L Tílulo.

03-1 940 CDD-372 64


lndices para catálogo sistemático:
1. LiìeÍatura inÍantil na escola : Ensino fundamental 372.64

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Colabore conr a produção cientílica e cultÌ-ì1'2Ì1.
l)r'oibicla :r reploclução total ou parcizrl clesta obra INFANTIL
\<--^.? senì :Ì iÌutorrzttção clo editor.
Na r)E cATÁLoGo: 1257 NA ESCOLA
SUMÃRIO

INTRODUÇÃO 71

A CRIANÇA, O LIVRO E A ESCOLA

Literatura Infantil e Escola rc


A Formação do Leitor 25

O ESTATUTO DA LITERATURA INFANTIL

Literatura Infantil e Tradição pedagógica 34


História da Família 35
 Função da Literatura infantil 43
Da Produção à Leitura 57
A Literatura Infantil e o Leitor Burguês 56

A LITERATURA iNFANTIL ENTRE O ADULTO E A CRIANCA

A Traiçào ao Leitor 63
A Perspectiva do Leitor 70
A representação da criança 72
O mágico de Oz, de Frank Baum 73
Peter Pan, de Monteiro Lobato B3
As auenturas do auião uermelho,
de Érico Veríssimo 94

9
lr.rrr:;lrrisslro clc normas e n-lptltra ..... IO2
,l i/ltrr 1rcrclida, de MariaJosé Dupré .............. 104
t,itrtlcr bcm,tba, de Lygia Bojunga Nunes........ 112
l,itt.r.:rtrrra infantil: fantasia e exemplariclacle ....... 126
lr.ur:;itoriccl:rclc do Leitor e do Gênero ....................... 732

O LIVRO PARA CRIANÇAS NO BRASIL IÏ\TTRODUçÃO


i\lorrtcir.<t Lobato e a Aventura clo hnaginílrio 155
A ntarcação clo território 159
 chavc entre os limites do real 163
l,ilt'l'lrtrrra Infantil: Texto e Renovação ............... 770 A literatura infantil apresenta, no Brasil, um campo cle
O irnperialismo do texto ......... trabalho tão extenso e desconheciclo, que ocorre com o
770
investigador o que se pâssoll com Cristóvão Colombo:
l.iteratura infantil entre normativiclacle e rLÌpnlrx ... 773 pensa-se ter descoberto o caminho para as Ínclias quanclo,
O exemplo da literatura brasileira 776 de faÌo, mal se tangenciou um continente inexploraáo, cuyo
Literatum infantil e outros meios de comunicação .. 792 perfil ainda está por ser definiclo. À vasticlão dã empresa Áe
() Vcrisrno e a Fantasia das Crianças ............ 195 somam os equívocos que cercam o objeto em pallta. Aincla
Literatura infantil e realismo aqui uma comparação coln Colombo é elucidativa, porqrÌe
195
a literatura infantil, como o Novo Mundo no século iV, esta
Coleção do Pinto - O programa realista 196 envolvida por uma capa protetora cle enganos e precon_
As narrativas infantis produzida.s 198 ceitos que, ao mesmo tempo, a diminuem intelectuãlmente
A lìepresentação da Família 204 e reprimem uma averiguação que ponl-ra em eviclência sua
O rnodelo eufórico 207 validacle estética ou suas fraquezas icleológicas.
O rnodelo crítico Os esrr:dos a seguir proclÌram ocupar esse território tor-
277
O modelo emancipatório ............. nado vago talvez pela negligência, clescaso ou comprometi_
275
mento com estes prejuízos por parte cla Teoria Literâria. Tenclo
A lìevitalização da Memória Nacional 222 procedência diversificada, eles não objetivam atingir a globa-
IìI]IìERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS lidade do terreno que se oferece, talvez por não pro.úre-
......... 228
colonizá-lo definitivamente. poÍ isso, nas primeiras pafies, tra-
A autora %3 tam de questões gerais; mas, quanclo se volhm à análise indivi-
dual de obras, dizem respeito principalmente a naffativas,
tendo ficado ausente a produção em verso. Da mesma ma_
neira' provindo a reflexão da óptica literâria, foram delxados
de lado os problemas relativos à ilustração, embora se cliscuta
a razão da primazia atribuída ao texto. Enfim, esperou-se atin-
gir determinadas metas, balizadas por algumas teses cliretoms:

I0
11
.r) A lilcrrtLrra infantil é um campo a ser privilegiado
'l't.oli:r Ì,itcr/rria, devido à rica contribuição que pro-
;rt.l;r
lrrrrr iorì;l :r <1r-ralquer indagação bem intencionada sobre a
! t.tl I il(.2:t ilO literário.

lr) Aclr,rcle gênero pode ser questionado por tal ciên-


( i:r, l)()l'(lr.lc é da qualidade estética das obras produzidas
t;rrt' r.c'tir:r sua importância e valor.
r') IÌ o enfoque estético que preside a abordagem do
livrrr lrrrra crianças, porque somente a realização literaria-
nr('rìtc viúida rompe os compromissos (que estão na gênese
lri.sl<ilica da produção infantil) com a pedagogia e, sobre-
Irrrkr, corn a doutrinação.
cl) O fato de a literatura infantil não ser subsidiária cla
r'.scola e do ensino não quer dizer que, como medida de
lrrccar-rção, ela deva ser afastada da sala de aula. Como
iÌ.qcr-ìtc de conhecimento porqLÌe propicia o questionamen-
to clos valores em circulação na sociedade, sell emprego
crrr anla oLÌ em qualquer outro cenário desencadeia o alar-
ÍÌrÌrìrento dos horizontes cognitivos do leitor, o qlle justifica
à CRL4'"IVçÃ, O LIYRO
c clcmanda sell consLllno escolar. E A, ESCOLÃ
c) Porque este tipo de arte com a palavra, clivicle-se
cntre Luna aptidão poética e um apelo externo clo adulto à
ckrutrinação da criança, patenteia-se sua inscrição social,
r1r-rc não dei:xa de ser também a de tocla a literatura. Nessa
rncclida, valida-se a reflexão crítica sobre sua natureza, pois
rcpresenta, de um lado, a interrogação sobre os vínculos
iclcológicos da manifestação artística (no que colabora com
ru 'I'eoria Literária) e, de outro, o desvelamento de um dos
processos - espelhando, portanto, os demais
naçiro da infância (no que colabora com sua emancipação).
- de clomi-
O desdobramento dessas questões unifica os ensaios,
rprc visam encetar um diálogo com uma modalidade de
pr-oclurção artística por muito tempo votacla ao silêncio, devi-
clo lì mordaça que a sociedade, regida pela norma aclulta, Bcrita é 6tt,tto-estrctnbarnento. Sua superaçiío,
f.rsoLr para abafar a voz da criança e de todos objetos cul- a leituLra do texto, é, pois, a mais alta
trrrais relativos ao seu mundo e às suas formas de expressão. tarefa de compreensão.
Hans-Georg Gadamer

l2
os primeiros livros para crianças foram Ot"dY::d.ïi
Í'inal clo século XVII e durante o século XVIII' A":::^:Ì,"^:'
não se escrevia para elas, porque não existia "
"íit:tltÏ^
I-Ioje, a afìrmação pode suipreËnder; toclavia, "
toll"-lj"ttl
clc uma faixa etâria diferenciada, com interesses Pt:lll1t^.:
necessitando cle uma formação específica, tO
"""'^llÏ
cm meio à Idade Moderna. A mudança se'devet' ^a^"^Y:
acontecimento da êpoca: a emergência de uma "$trï:
c1efamília,centradanãomaisemamplaSreleçt/'-
rentesco, rìas nlrm nútcleo unicelulaq preocuped" "::1:"
ter sua privacidade (impedinclo a intervenç': d":#r" ;ì;
(iL'+-" "---"
em seus negócios internos) e estimular o ateto
membros.
Antes da constituição desse modelo famüiÚ ?-ï:t.t|e,j'
t^1':,::1
inexistia uma consideráçao especial para corn '
Essa faixa etâria não erã p.r.óbidu .ãrno
"* '"1ïï;Ï:.
rente, nem o mundo da criança como um esDaço "-'
Pequenos e grandes compartilhavam dos -ãtá"t,;;"rXt1
porém nenhum laço amoroso especial os ap1'{l:"i;,.,.,iti"r.
nova valorização da infância gerou maiorJfltau.--"-'
mas igualmente meios de controle do a"t"nuol]^l1"^11elie,]e.s-
intelectual da criança e manipulação de suas
e '-::l'i'-
Literatura infantil e escola, inventada a primeira ínlssao'.^
da a segunda, são convocadas para c.,mp,i' essíl ltt^e*tto
A aproximação entre a instituição e o gênero
textos para
não êfortuita. sintoma disso é que os primeïros

I5
' il.ilt(.:ts .stì() c.scritos por pedagogos e professoras, com unifamiliar privacla, desvinculada de complolttis:,o:, rrr,ll',
nr,r(;uì{c ilrtlritct educativo. E, atê hoje, a literatura infantil estreitos com o gftlpo social e dedicada à presct'vltç=;lr t t lt r:,
l)('r rììrrìccc colno uma colônia cIa pedagogia, o que lhe filhos e do afeto interno, bem como de sua itttitttirl,trk'
(,ilt..;lÌ gl'iÌlldes prejuízos: não é aceita colÌìo arte, por tef Estimulada ideologicamente pelo Estado absolutistrr, clt'1,,,1r,
rrrrr:r l'inlLliclade pragmática; e a presença clo objetivo didáti- pelo liberalismo burguês, que encontraram neste núclt'o o
t tt l't7. com que ela participe de uma atividacle compro- suporte necessário para centralizar o poder político c c()lì
rrrt'(iclu com a dominação c1a criança. trabalançar a rívalidade da nobreza feudal, ela recebctt <r
I,lsscs fatos tornam problemáticas as relações entre a aval político para irradiar seus principais valores: a primazi:t
litcr';rtur:r e o ensino.'De um lado, o vínculo de ordern prá- da vida doméstica, fundada no casamento e na educaçã<r
ticrr prcjudica a recepção clas obras; o jovem pode não que- dos herdeiros; a impoftância c1o afeto e da solidarieclade cle
r'('r' .scr instruído por meio da arte literária; e a crítica des- seus membros; a privacidade e o intimismo como condi-
plc.stigia globalmente a produção destinada aos pequenos,
ções de uma identidade familiar. A ficção do século XVIII
rrrrtccipando a intenção pedagógica, sem avaliar os casos está impregnada pela propagação desta visão de mundo:
cspccíficos. De outro, a sala de aula é um espaço privile- ao mesmo tempo que diagnostica a decadência da aristo-
ÍÌiaclo para o desenvolvimento do gosto pela leitura, assim cracia tradicional (Choderlos de Laclos, Beaumarchais), qua-
colno um campo impoftante para o intercâmbio da cultura lifica positivamente aspectos relativos à vida burguesa ascen-
litcrírria, não podendo ser ignorada, muito menos desmen- dente (Henry Fielding, Diderot).
ticlzr sua utilidacle. Revela-se imprescindível e vital um redi- Edward Shorter descreve este fenômeno como "um
rucnsionamento de tais relaçôes, de modo que eventual- surto de sentimento em três diferentes áreas (que) ajuda-
rììcnte transforme a literatura infantil no ponto de partida ram a desaloiar a familia tradicional", quais sejam:
pera um novo e saudável diálogo entre o livro e seu desti-
Namoro. O amor romântico em vez das considerações
natírrio mirim.
materialistas na aproximação do casal. Propriedade e linhagem
deram lugar à felicidade pessoal e ao autodesenvolvimento indi-
vidual, como critérios para a escolha do parceiro matrimonial.
LITERATURÃ INFÃNTIL E ES COI,A. O relacionamento mãe-filbo. Embora um afeto residual
entre mãe e filho - produto de uma ligação biológica - sempre
Foram as modificaçÕes acontecidas na Idade Moderna tenha existido, houve uma mudança na propriedade que o
infante veio a ocupar na híerarquia racional de valores da mãe.
c solidificadas no século XWII que propiciaram a ascensão
Enquanto, na sociedade tradicional, a mãe era preparada para
clc rnodalidades culturais como a escola com sua organi- colocar muitas consideraçôes - a maioria delas relacionadas à
zu.ção atual e o gênero literário dirigido ao jovem. Com a luta desesperada pela existência - acima do bem-estar da criança,
clecadência do feudalismo, desagregam-se os laços de pa- na sociedade moderna, o infante tornoLÌ-se o mais itnportante; o
rcntesco que respaldavam este sistema, baseado na cen- amor maternal providencia parâ que seu bem-estar esteja acima
tralização de um grupo de indivíduos ligados por elos de de qualquer outra coisa.
A linba fronteiriça entre a família e ct comunidade cir-
.slrnglre, favores, dívidas ou compadrio, sob a êgide de um
cundante. [...] Os laços com o mundo exterior foram enfra-
.scnhor cle terras de origem aristocrática. Da dissolução desta quecidos, e os laços unindo membros da família entre si foram
Iricrarquia nasceu e difundiu-se um conceito de estrutura reforçados. Um escudo de privacidade foi erigido para Proteger

l(i 77
.t ittÍitttirl:ttlt' tkt .lúer da intrr.rsâo estranha. Ì.1 :r Íìunília nucleâf
rn,r, lt'rr:l rìlrsccLl no abrigo da domesticiclaclc. I
vessa o período infantil. A conseqüência é sult rììitrl{in;rlir;i
ção em relação ao setor da produção, porquc cx('r'1 (' llrn,r
r\ r,:rl,r'ização da infância enqLlzìnto faixa etária clife_ atividade inúrtil do ponto de vista econômico (nrìo lr;tz tll
r('r( i:l(l:l c Lnn clos baluartes deste rnodelo clornéstico. parti- nheiro para dentro de casa) e, até mesmo, contraproclrrt't'rrlt'
, ul,uiz;t ^sc, primeiramente, a criança como um tipo de indi_ (apenas consome). Em segundo lugaE possibilita 2t cxl)lul
r,r,lu. <yrrc merece consideraçâo especial, convertenclo_a no são do desejo de superioridade por pafie do adulto, tlttt'
cr\() (()rìì base no qual se organiza a família, cuja responsa_ mantém sobre os pequenos um jugo inquestionável, que crcs'
lrilitl;rrlc ÍÌleior é permitir que os fiihos atinjam a iclacle adul- ce à medida que esses são isolados do processo de pro-
t,r rlt' rnuneira saudável (evitando-se sua morte precoce) e dução. Enfim, esse afastamento se legítima pela alegação a
rrr:rrlrrlrr (providenciando-se sua formação intelectual). tné- noções previamente estabelecidas, relativas à índole frágil
tlir:rs ra época, tais iniciativas acabaram por se transformar e dependente da criança, desmentindo-se o fato de que esta
rrrr r'<rticliano da classe média, razão do convívio harmônico foi tornada incapacitada para a ação devido às circunstân-
('rìtrc pais e filhos e, enfim, fator indispensável par- a manu_ cias ideológicas com que a infância é manipulada.
It'rr('ìo de um estilo doméstico de vida; O círculo se fecha: postula-se a fragilidade natural da
lln segundo lugar, a infância como uma cefia etapa criança de acordo com sua situação biológica em formação;
.tÍr'ie imobilizada nllm conceito demarcado veio a ser iclea- em razão disto, é distanciacla dos meios produtivos, o que
liz.:tcl,a. Tratados de pedagogia foram escritos para assegurar determina sua clependência, acentuada pelo fato de que não
.stur .singularidade, e o recurso à fragilidade biológica do in_ vem a ser dotada de um conhecimento pragmático que a
Ílrrrtc o fundamento da diferença eln relação ao períoclo ajude a transmlÌtar em trabalho suas habilidades. E esse isola-
:rclulto. Assim, um fator de ordem fisiológica e transitória mento é coroado por uma total marginalização, no momento
clctcnnina uma teoria sobre a dependência da criança, o que em que se torna condição de permanência da naturalidade
lcgitirna o estreito vínculo dessa aos mais velhos. EnquaÀto infantil e de sua inocência original a ignorância dos fatores
isto, sua falta de experiência existencial converte-se no sin_ que poderiam tornála socialmente produtiva e, portanto,
tolna de uma inocência natural que tanto se deve preservar emancipada.
iclcllmente, sobretudo em ensaios teóricos de cunho cientí- É, pois, a natureza o âmbito preferencial da criança; não
Í'ico, como destruir aos poucos, por meio da ação pedagó- apenas seu hábitat mais adequado, como aquele que abriga
gica predatória, que justifica a necessidade cle preparar os o modo mesmo como a infância é concebida. O Emile, de
pcquenos para os duros embates com a realidade. Jean-Jacques Rosseâu, sintetiza este funcionamento, porque,
A infância corporifica, a partir de então, clois sonhos para preservaÍ a pureza infantil, o autor sugere que seu edu-
clo aclulto. Primeiramente, encarna o ideal da permanência cando seja afastado da sociedade pelo maior tempo possível.
cfo primitivo,-pois a criança é o bom selvagem, cuja natu_ Nessa medida, tal faixa etária corporifica o não-contaminado
rrrliclade é preciso conservar enquanto o ser humano atra_ da natureza, com o qual se identificai e, par conservar esta
ingenuidade primeira, ou, pelo menos, fazê-la mais dura-
doura, é necessário intensificar sua improdutividade social.
1 SuOntnR, Eclward. Tbe making of
tbe modernfamity. Glasgow: Nada mais contraditório que essa concepção de intân-
lÌ rrrtana-Collins, 1979. p. 74-75.
cia, que o adulto elaborou depois de abandonar tal perío-

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' I )(.1)rr;r(l;r
.Lr,tìr.icleaÌismo que ignora as circunstân_
r., l,r{.:;(.rìt(.\ <l:r vida
1rt,r.
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il sociedecle esperam dela. (...) A criança é, assirr, () r.t.llr.r, r ,1,, ,Ir,
infantil, se'ceráter
utópico Ài.r"ir"_
Jl, ',r(l() t. tliíiutcliclo pelos o aclulto c a sociedade queren qr-re ela seje e tcr.rrcrrr (lu( r l.r .,
poetas romandcos, que a
1,,'r.rrr (.()lìì() o perícclo conce_
pà. a"aaierrcia cla vicla, visto que,
ll torne, isto é, do que o adulto e a socieclacle (lur.t(.n), ,.1,.
il próprios, ser e tenern tornar-se.3
l', r r rr'.sÍì tt razão, pnr"rrr"".o_
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;;;;" impossibìliclacle cle ili'
tt't rr't'r.:i-l:r, cÌuanto a
irreversibilictacìe "clo temno 2 F.^,,. il
As instituições encarregadas do atenclimento 1Ì()s i(
rr r iss,, c()'o
;'tì;;;;'ffi*
)
a criança vercracreirz vens projetarn e propagam esta imagem <la intância. A
rl:r ;rllrci:r aos rneios
á" pr;uç;;e cornprtmicla pelos
ïlïliï_
vt.llros, clue assir mais escola tem, neste processo, uma atuação preponclerantc,
que cabe especificar. Como assume um cluplo papel _ o clc
i, ;,J, ::ï5ïi: :1ïr:;:,:
r ì, r,
iÍìcução dos pequenos
r rr:rI
r, o ra cr;
? i,ï-#,..:;ili:i introcluzir a criança na vida adulta, mas, ao [Ìesmo tempo,
1
e reprocÌ Jziramicleologicamente o de protegêla contra as agressões clo munclo exterior elzr
sr:r cli.rinuiçâo social, -,
" _.r,ori,tnãe,
rrì.r:rl, a irnaturiclacle intelecrud
;;i;"".
a fragilidade física e se identifica corì as contradições antes expostas, refletinclo-
rrì..ino, que vivencia diariamerrt" Éõ;;;*" as de moclo visível. Em primeiro lugar, acent'a a clivisão
strltlantar esta fase, e n irrf".io.ia"ã", entre o indivích-ro e a sociedade, ao retirar o aluno cla famí.
toclo aclulto a aÌmejar sua "';;;. lia e da coletividade, enceffando-o num:r sala cle aula em
r.'ì<r, :rpós fazê_la passar reclÌpera_
pelo filtro cJa id.ealização. Concomi_ que tuclo contraria a experiência que até então tivera. Em
lrÌrìternente, como clescre"" g";.ã
duzicla ;r iclentificar_se
õirrtor, a criança é con_ vez de uma hierarquia social, vive uma comuniclacle em qlle
com r:òsi1
rvrrr essa im:
lmáÌgeln projetada pelo
:rcl.lto: todos são igualados na impotência: pera.nte a autoriclade clo
mestre e, mais adiante, da própria instituição eclucacional,
Se a imagem cla criança todos estão despojados de qualquer pocler. Em vez de um
porqtlc o
é contracÌitória, é precisamente
a<_lulto u r snrip.t.,t- ^^r. , convívio social múrltiplo, com pessoas de variacla proceclên-
j.i.:,,,""ïïïï jrH,ïi1;ï;:,::::f
suasaspiraçõ"::
rcflex, do quc o ecrurio .
,' ,o.r".r,,Jïn"nr.,,r rre si mesrnos.
ï:: cia, reúne um gmpo homogeneizado porque compartilha a
mesma idade; e irnpede que se organize uma vi<ia comuni-
este reflexo nìo é iltrsào: M:rs
,"n.Ì., ,,o-Jontririo. e tornrr-sc rerli_ tiria, jâ que todos são obrigados a ficar cle costas Ltns para
drcle. Conr efe..
t::, t.:ill,::, os outros, de frente apenas para um alvo investicl0 cle
r ren s rornra -se ;ï,.:': ïïi:
,"
;::: ;,ritÍ:
-ro.t".r".r",
autoridacle - o professor.
n em funçâo
3Jï::...":::texigências "a"i,, " cte
O sistema de clausura coroa o processo: a escola fecha
.",pà, a" J
Ãoi",":::ï':iì*;'" :Í: l,: j^1, ::.:"9 "aceitam-nas,
cre cerra
reclrsam-nas suas poÍtas par? o mundo exterior e, se o regime cle interna_
;, ;:;.:l:"'^'.::Ì "o'ottzarn-nas,
imagemo",,_J,ï,llï";::'ri::ï,;ïÌlJï:":;ïïïr*,rlí
" tos entrou em franca decadência, isto não significa qlle sell
define-se assim, eta p.op.à,
.;;;"f;;.ìa modo de pensar a realidade tenha siclo suplantaclo. O pré_
ao que o aclutro e a
dio do colégio permanece como um espaço separado cla
)
r.\ poesla rontintica
brasileira ressente_se clesta temática,
qlle
,fi.ïÏil;ii,.'Jr:mplo, nos conheci<los r,".ro, J" casimiro cte Abreu, cle
3 CUenfOf, Bernarcl. A mistificação peclagógica
Rio de Janeiro:
Zahx, 1979. p. 108-109.
)n
27

r
rt

,,,l,.rrr itl.rtlt' t', tÌtLlitas vezes, fechado ou adverso zÌ seus soneganclo o clireito cle expressão aos menorcs, ( .rlì.r( rr.r .,
lírlr'l(",'r("j.'l
a transmissão do conhecimento e sells mcios (lt' rrr:rrul, ,

r\r; r'cllrções da escola com a vicla são, portanto, cle


tação segunclo a óptica adulta. Por isso, pode pc,rstLrliu ,,,rrr',
, rìrrl:rit'rllrclc: ela nega o social, para introcllÌzir,
em sell irnprescindível a posse cle um tipo de saber que iÌ r'ri.ur,.,r
liir':rr', . r.ì()rrnativo. Inverte o processo verclacleiro com qlle
não tent, o que, mais urna vez, gÃrantelhe a razão c ( ) l)(
,, irrrlivícluct vivencia o mundo, cle modo que não sao ãis- )

cler. Desarmacla, a criança não reage; e sua impassibilicl:r<1,'


t rrÍitkrs, nem questionados, os conflitos qLÌe persistem no
é tomada colno sinal cle aceitação da engrenagem.
I'l.rrro coletivo; por sua vez, o espaço que se abre é ocu_ Por todos estes aspectos, a escola participa clo proces-
1,;rrkr 1>elas normas e pelos valores cla classe clominante, so cle manipulação cla criança, conduzinclo-a 2ìo respeito cla
tr:rrrs'riticlos ao estudante. Em outras palavras, é por omitir
norma vigente, que é também a cla classe dorninante, a bur-
, s.ciul qLle a escola pode-se converter nurn clos veículos guesia, cuja ernergência, como se viu, desencadeou os fatos
rrr:ris lrerl-sucedidos cla educação burguesa; pois, quanclo
até aqui clescritos. A literatura infantil, por sua vez, é outro
r lc'^s(u ocorrência, torna-se possível a manifestação
cloi icieais dos instrumentos que têm servido à rnultiplicação da norlna
(luc rcgem a concluta da camada no pocler, evitanclo_se o
em vigor. Transmitinclo, em geral, um ensinurmento confor-
c'vcnttral questionamento que revelaria sua face rnais autên-
me a visão aclulta cle mundo, ela se compromete com pa-
ticlr. Nesse momento, a educação perde sua inocência, e a
drões que estão em clesacordo com os interesses do jovem.
t'scola, sua neutraliclade, compoftando-se como uma clas
Contuclo, pode substituir o adulto, até com maior eficiên-
in.stitr"rições encarregaclas da conquista de todo jovem para
cia, quando o leitor não está em aula oLÌ rnantém-se desa-
:r icleologia que a slÌstenta, por ser a que sllpofta o funcio_
tento às ordens dos mais velhos. Ocupa, pois, a lacuna
lìiÌlÌlcnto do Estado e cla socieclade.
surgida nas ocasiões em que os meiores não estão âutoriza-
Não por acaso foi a burguesia ascenclente clos séculos
dos a interferir, o que acontece no momento em que os
XVIII e XIX a patrocinaclora da expansão e aperfeiçoamen_
meninos apelam à fantasia e ao lazer.
l. clo sistema escolar. Tanto é responsável por slÌa estftltu- Nessa medida, também a obra literária pode reproduzir
nrçiro claustraÌ, como pela elaboraçâro do conjunto cle icléias
o mundo adulto: seja pela atuação de um narrador que blo-
r;rre jtrstifica a validade da edr-rcação e sr-ras principais con-
queia ou censura a ação de suas personagens infantis; seja
ccpções e atividades - a pedagogia. Com isso, soliclifica o
pela veiculação de conceitos e padrões comportamentais
I)rocesso desencadeado pela valorização cia infância e que estejam em consonância com os valores sociais predi-
clil.são de seu conceito moderno, assim como acentlla o
letos; seja pela utilização de uma norma lingüística ainda não
carátcr diferenciado dela, em sua depenclência e fragili<lacle,
atingida por seu leitor, devido à falta cle experiência mais
o qlle asseguÍa a posterior necessidade de proteÇão. Enfim,
complexa na manipulação com a linguagem. Assim, os fato-
res estrutllrais de um texto de ficção - narrador, visão de
propósito cla história cla escola as seguinres obras: AIìIÉS,
Cf. mundo, linguagem - podem-se converter no meio por inter-
" Historin.
I'lrilippe. ^
social da criança e cla fantília. Rio cle Janeiro, zah,oi:, médio do qual o adulto intervém na realidade imaginária,
1978. crlARlol Bernard. A mistificaçôío pedagógica. Rio cle usando-a para incutir sua ideologia.
Janeiro:
z.htrr, 7979- cosrA, Jurandir Freire. orclent métlica e norma Essa situação bastante comum, se examina<la a produ-
familiar.
lÌi<r cÌc Janeiro: Gra,al, 1,979.
ção especialmente destinada aos garotos, comprova a falta

22
23
.lt' rrrot i'rrc'irr clo gênero. Muitas vezes procurando incorpo- passivo, porque jogado num sistema sobre o c1t-rtl n:ì( ) ('\.'t
r,rr :r irrtcrìuicl:rde atribuída às crianças, na verdade o dis- ce o controle dos aparelhos vinculados ao podcr.
l:rrt't' s<i intensifica o compromisso com uma concepção
,'rlrrivoclcl:r e degradante de infância. A máscara cai quan-
t k r .sc percebe a intenção moralizante; e o texto se revela
A FORMAçÃO DO LEITOR
urìì lììunual de instruções, tomando o lugar da emissão
:rrlultu, rnas não ocultando o sentido pedagógico. Preselar as relações entre a literatura e a escola, oLl ()
O problema pode-se agÍavaÍ quando o livro é introdu- uso do livro em sala de aula, decorre de ambas comparti-
ziclo na escola. Porque, nesse caso, as forças se conjugam lharem um aspecto em comLÌm: a natureza formativa. De
rro projeto de doutrinar os meninos ou então seduzilos fato, tanto a obra de ficção como a instituição do ensino
('()Íìì :Ì imagem que a sociedade quer que assumam a de estão voltaclas à formação do indivíduo ao qual se dirigem.
-
scrcs enfraquecidos e dependentes, cuja alternativa encon- Embora se trate de produções oriundas de necessidades
tr1ì-se na adoção dos valores vigentes, todos solidários ao sociais que explicam e legitimam setÌ funcionamento, sua
:rcltrlto. Isso é, a saida acaba sendo o reforço da dependên- atuação sobre o recebedor é sempre ativa e dinâmica, de
cia, porque aceitar as normas impostas significa corroborar modo que este não permanece indiferente a seus efeitos.
o modelo dentro do qual a criança é manipulada. Que essa é a meta da educação é fartamente conheciclo,
A oposição a esse estado pode-se revelar igualmente enfatizando-se em tal caso sua finalidade conformadora a
problemática. Propor a abolição da literatura na escola otr padrões de existência e pensamento em vigor.
lr-Ìeslno a abolição da escola representa tão-somente aban- Como procede a literatura? Ela sintetiza, por meio dos
clonar a criança à sua própria sorte, após têJa feito adotar recursos da ficção, uma realidade, que tem amplos pontos
a imagem de sua impotência e incapacidade. Em outras de contato com o que o leitor vive cotidianamente. Assim,
palavras, trata-se de doarlhe um poder sem instrumenta- por mais exacerbada que seja a fantasia do escritor ou mais
lizâ-la para seu uso; e, com isso, reforçar o conceito de seu distanciadas e diferentes as circunstâncias cle espaço e tem-
dcspreparo e inabilitação. Além disso, enquanto instituições,
po dentro das quais uma obra foi concebicla, o sintoma de
sua sobrevivência é o fato de que ela continua a se comuni-
a escola e a literatura podem provar sua utilidade quando
car com seu destinatário atual, porque ainda fala de seu
se tornarem o espaço para a criança refletir sobre sua con-
mundo, com suas dificuldades e soluções, ajudando-o, pois,
dição pessoal. Pois, de um modo oll outro, escola e litera-
a conhecê-lo melhor.
tura infantil têm sido o que restolr para a infância, após o
Também a escola tem uma finalidade sintetizadora,
êxito do processo de ilhamento antes descrito. E, se sua
transformando a realidade viva nas distintas disciplinas ou
dominação procede do gesto soberano do adulto, os fato-
âreas de conhecimento apresentadas ao estudante. O pecu-
re.s de sua emancipação podem derivar de uma nova alian-
liar, neste caso, é que, duÍante o processo de síntese, ocor-
Ça entre estes dois sujeitos. Gesto de rebeldia que inclui o rem inversões que maculam seu objetivo cognitivo. Assim,
professor, sua validade provirá do fato de que incorre igual- inteÍïompem-se ou atenllam-se os vínculos com a vida atual
lnente na liberação do adulto, comprometido com um e é intensificado o enclausuramento da criança, porque,
processo de dominação que o coloca como ser também convertida em aluno, ela se isola ainda mais da sociedade

21t 25
e se intro(ltrz rrrrrrr rrrt'io sobre o quâl igualmente nâo na medicla em que é o ponto de partida p^ra a revclrt(:1,r
exefce ncnlìÌilÌì |)()tk^r.. I)cs.slt lnaneira, einbora compafti- cle uma visão original cla realiclade, atraindo seu bencli-
lhem trmu Í'urr(:r,r, litt'r':rtrrr.lr c escola não se iclentificam, se ciário para o munclo com o qual convivia diariamente' mas
bem qr.rc t'stt'lt rrlr:r sitlo () pretexto para justificaro Llso da q.," clËsconhecia. Nesse sentido, o índice cle renovação de
obra clc lrlt'lir'r'iorr:rl crìì sala de aula com intuito LÌnice- Jma obra ficcional está na razão diteÍa de sua oferta de
mcntc Pt'rl:rr',,)f i( (); :Ìl)r'()xirna, porém, oS dois Setores. E, se conhecimento cle uma circunstância da qual, de algum mo-
isso j:i r('l)r(':;('rìlorr :r sujeição da arte âo ensino, pode-se do, o leitor faz Parte.
irrvt'sti1i;rl rr:; po:,siliiliclucles que oferece o oposto deste mo- Da coinciclência entre o mundo representado no texto
<lt'lo, rro ,lrr:rl ;r rlirllitica se submete zìs virtualidacles cogni- e o contexto clo qual participa seu destinatário emerge a
tiv:rs rlo tt'xto lilr^r'lirio. Noutra formulação, é o último que relação entre a obia e o leitor' Pois, quanto mais este de-
pe-
llorlt'r:i r()rììl)('l':t.s lrerreiras entre a escola e a coletividacle, mancla uma consciência clo real e um posicionamento
lt'irrtlotlrrzirrrl<l () cstuclante no presente e fazenclo que ele rante ele, tanto maior é o subsídio que o livro de ficção tem
cx('r'(:r urÌÌ l)irl)cl rÌtivo no processo de transferência. a llre oferecer, se fot capaz de sintetizar, de modo virtual' o
'l':rl tlt'c'islro por LÌma muclança de rumos implica algu-
toclo da sociedacle. A criança é um indivíduo que se res-
rrr:rs o1x'ircs lx)r parte do professor, clelimitaclas estas, de sente clessa abertura cle horizontes, conseqüência da situ-
rrrrr l:rrkr, pcl:r cscolha do texto e, de outro, pela adequação ação claustral a que foi lançada'
<lcstc' últirno ao leitor. Dessa maneira, as fronteiras se esten- Em vista clisso, a grande carência dela é o conheci-
tlcrrr clrr vtrlorização da obra literária à relevância dada ao mento cle si mesma e clo ambiente no qual vive, que é pri-
prrrccclimento cla leitura. morclialmente o da família, depois o espaço circundanle e'
A .seleção dos textos advém da aplicação c1e critérios por fim, a história e a vida social' O que a ficção lhe ou-
clc cliscriminação. O professor que se vale do livro p^r^
^
iorga é uma visão cle mundo que ocupa as lacunas resul-
vcicr-rlação de regras gramaticais ou normas de obediência tantes c1e sua restrita experiência existencial, por meio dc
c bom comportamento oscilará da obra escrita de acordo sua linguagem simbólica. Logo, não se trata de privilegiar
corrì urn padfão culto, mas adulto, àquela criação que tem um gênero ou uma espécie em detrimento de outras' Lìma
-q.ta
ínclole edificante. Todavia, é necessário que o valor por exce- .r", os problemas peculiares necessitam ser examinzr-
lência a guiar esta seleção se relacione à qualidade estética. clos à luz clos resultaclos alcançaclos por escritor; e sim de
Porque a literatura infantil atinge o estatuto de arte literária admitir que, seja pelo conto de fadas, pela reapropriaçã-o
e se distancia de sua origem comprometida com a peda- cle mitoi fábulas e lendas folclóricas, ou pelo relato clc
gogia, quando apresenta textos de valor artístico a selÌs aventuras, o leitor reconhece o contorno no qual está inse-
pequenos leitores; e não é porque estes aincla não alcan- riclo e com o qual compartilha lucros e perdas'
çaram o stcttus de adultos que merecem uma produção O convívio com o i"*to, o que implica ahrgrmento tle
literária menor. horizontes, se o último preencher o requisito relativo r'r
Assim, os critérios que permitem o discernimento entre qualidacle litetâria, climensiona sua adequação ao leitor"
justi-
o bom e o mau texto para crianças não destoam daqueles Portanto, não se trata cle dar relevância a obras que
que distinguem a qualicladc de qualquer outra modalidade fiquem a condição cla criança em sua marginalidade clrr
cle criação literária. Seu aspecto inovador merece destaque, cotnpensem sua inferioridacle social pela elevação moral otr

'zf
26
I
!.u,tt('l (^x(,IÌìl)lltr clo herói mirim. Pois aquelas, se se afas- I
f Portanto, não é atribuição clo professor lrl)ctì;t..; (,nr,nr.rr .l
t.rrrr tlo rrroclclo edificante que dá prioridacle à emissão
ì

criança a ler corretamente; se está a seu alc:rnt.t. .t (.,Íl


rlt:r, igtr:rlmente se integram a um protótipo pedagógico,
.r, lr
cretização e expansão da alfabetização, isto é, () (h rrrrrrr,,
urÌr;r vcz (pre, cle algum moclo, uma lição é dirigida a seu dos códigos que permitem a mecânica da leitunr, (. ;un(l,r
tlt'stirlrtárict. Com efeito, a adequação se situa num nível tarefa slla o emergir do deciframento e comprecn.slìo tl,,
de abertura pÃÍa a realidzrde
r;rr1rt'r'ior': cliz respeito ao grzÌLÌ texto, pelo estímulo à verbalização da leitura proccclitl;r,
vivcrrcirtcla pelo recebedor do texto, seizÌ ela de n tureza auxiliando o aluno na percepçâo dos temas e seres hrrrrlr
lrrtirrur ou social. nos que afloram em meio à trama ficcional.
Sr-rpondo esse processo rÌm intercârnbio cognitivo en- É a partir claí que se pocle falar cle leitor crítico. A
tr('() texto e o leitor, verifica-se que está implicado aí o clenominação, quanclo aplicacla à criança, parece exorbi-
Ít'nômeno cla leitura enquanto tal. Esta nào representa x tante. Priva-se a criança de uma interação cotn o meio social;
:rlrsorçirct de uma certa mensegem, mas antes uma convi- e, posteriormente, ela é considerada incapaz de assumir urn:r
vôncia particular com o mundo criado pelo imaginário. A postlÌr:Ì inquiridora. Todavia, se o livro fornece conclições
olrra clc arte literária não se reduz a cleterminado conteúclo para essa compreensão - de seu munclo interior, nurn pri_
lciÍ'icado, mas depende da assimilação individual da reali- meiro momento, como propõe Bmno Bettelheim;5 do real
clucle que recria. Sem ser compreenclida na sua totalidade, circunclante, transcendendo o âmbito famiiiar -, ele tambérn
clu não é autenticamente lida, do que advêrn algumas con- proporciona a seu destinatário um lastro com base no qual
secliiências: se funda utna concepção autônoma e, pofianto, crítica cla
que se utiliza clo livro em sala de aula não
- o professor vicla exterior.
Jrocle ser igualmente um redutor, transformando o sentido do A literatura infantil, nessa meclicla, ê levacla a realizar
tcxto nlÌm número limitado de observações tidas como cor- sua função fonnadora, que não se confuncle com uma rnis-
retas (proceclimento que encontrx seu lirniar nas fichas cle são pedagógica. Com efeito, ela ciá conta cle uma tarefa a
lcitnra, cujas respostas clevem ser uniforrnizaclas, a fim de que está voltada toda a cultura - a de ,,conhecimento clo
(lLre possam passar pelo crivo clo certo e do errado);
mundo e do ser", como sugere Antônio Cândic1o,6 o que
- ao professor cabe o desencadear das mÍrltiplas visões representrÌ Llm acesso à circunstância individual por inter_
clue cada criação literária slÌgere, enfatizando as variadas méclio da realidade criacla pela fantasia do escritor. E vai
intcrpretações pessoais, porque decorrem da compreensão mais além - propicia os elementos para ulna emancipação
que o leitor alcançou do objeto afiístico, em razão cle su:r pessoal, o que é a finalidacle irnplícita do próprio saber.T
percepção singular do universo representado. Integrando-se a esse projeto Ìiberador, a escola rotnpe sLtas
A atividade com a literatura infantil - e, por extensão,
com todo o tipo de obra de arte ficcional - desemboca num
cxercício de hermenêutica, LÌma vez que é mister clar ) cf. net.IgtHElM, Bruno . A psicanarise co,tos
cros cre fcrcras. Rio
relevância ao processo de compreensão, complementar à de Jrneiro: l'rz c 'l ernt, 1978.
ó Cf. CÂNOIOO, Antônio. A lireratura e a formação
reccpção, na medida em que nào epenas evidencia a cap- clo homem.
Ciência e Ctrltu.ra, São PauÌo, vol. 24, n. 9, p. g06, set. 7972. I

taçào clc um senticlo, mas as relações que existem entre 7 So[-r.. a f'nção emancipaclora clo .saúer
e cla literatrrra, cf. JAUSS,
cssa significação e a situação atual e histórica do leitor. Hans-iìobert. La literatura corno prouocación. BarceÌona: península, 1976.
l

.-(ì
7C)

i
lirrritrrq'ocs, inerentes à situação com a qual se comprome-
t('u ('rìì sua gênese. É essa possibilidade de superação de um
r.sllt,itlrnrcnìo c1e origem o que a literatura infantil oferta à
t'tltrcrrçitcr. Aproveitaãa na sala de aula em sua natuteza fic-
t'iorrrl, quc aponta a um conhecimento de mundo, e não co-
nro súclitzr do ensino bem compoftado, ela se apresenta
('()rììo o elemento propulsor que levará a escola à ruptura
c()rÌì 1Ì eclucação contraditória e tradicional'
A ir-rstifiòativa que legitima o uso do livro na escola
rìrÌsce, pois, de um lado, da relação que e'stabelece com
seu
lcitor, conveftendo-o nuflÌ ser crítico perante sua circuns-
târ-rcia; e, cle outro, do papel transformador que pode
cxcrcer dentro do ensino, trazendo-o p^ra a realidade do
cstuclante e não submetendo este último a um ambiente
rarefeito do qual foi suprimida toda a referência concretâ'

O ESTÃTUTO DÃ
LITE RÃTUR,A, ITíFÃ,ÌVTIL

Se nã.o aceitamospresunçosamente a literatura infantil como,


antes de tudo, um artificio seguro, saudãuel e anti-séptico
para a preseruação cla pueriliclade, é porque seus apelos mais
fundamentais são os .tpelos de toda a efetiua literatura -
ela explora nosso anseio de nouidade, assim como nossa
insistência da realidade bumana.
Edward \7. Rosenheim, Jr.

30
Entre os gêneros literários existentes, um dos mais
r.ccentes é constituído pela literatura infantil, que aparecell
ch-rrante o século XVIII, época ern que as mudanças na
cstftitura da sociedade provocaram efeitos no âmbito artís-
tico, mudanças que vigoram até os dias atuais. Entraram em
clecadência os gêneros clássicos, como a tragêclia e a epo-
péia, substituídos pelo drama, o meloclrama e o romance,
fbrmas voltadas à manifestação dos eventos da vida burgue-
sa e cotidiana, qlÌe tomaram o lugar dos assuntos mitológi-
cos e das personagens aristocráticas. Além disso, o progresso
clas técnicas de industrializ.tção chegou à arte literâria, faci-
litando a produção em série cle obras e cle materiais de fácil
clistribuição e conslÌmo, fenômeno posteriormente designa-
c1o como cultura de massa. Assinalada pela banalidade dos
temas, a fixação dos estereótipos humanos e a veiculação
de comportamentos exemplares, a literatura trivial revela
como cÍitério de elaboração a retomada dos mesmos artifí-
cios composicionais até sua exaustão.
Nesse contexto, aparece a literatura infentil; ser,r nesci-
mento, porém, tem características próprias, pois decorre da
ascensão da familia burguesa, clo novo stnttLts conceclido à
infância na sociedade e da reorganização da escola. Conse-
qüentemente, vincula-se zÌ aspectos particulares da estr'ì-l-
tura social urbana de classe média, não requerendo neces-
sariamente que o processo de indusffialização tenha-se
completado. Por sua vez, o aparecimento e a expansão da

t)
literatura infìrntil clcvcrarn-se antes de tudo à sua associação lrl;rrtlnrpia, e de novos campos epistemológicos, ( ()urrì ;l
com a peclltgogirt, jíL clue aquela foi acionad^ par^ conver- 1'r'tl;rq<rgi:r e a psicologia, não apenas inter-rcllrc'iorr;trl.r,,
ter-se clìì itìsl l'ttlììcllto clesta. Por tal razão, o novo gênero nr.rs urìì1Ì conseqtiência do novo posto que a fanrílilr, r.,rr':,
careccu tlt' ilttttcliato cle estatuto artístico, sendo-lhe negaclo lrct tivrrrììeflte a criança, adquire na sociedade. É nc, irrlt'r'ror
:r paltir rlt' r'rttlìo um reconhecimento de valor estético, vale ,1,'r.s;r rnolchÌra que eclode a literatura infantil.
cli)cr, rr <rporltrnidacle c1e fazet parte do reduto seleto cla
litcrt(r lr';r.
 rlcgraclação de origem motivoLÌ a identificação apres- , I I,S'I()RIà DA FAI{-.ÍLIA
slclrr cllr liter;rtura infantil com a cultura cle massa, com a
<1rrrl c'otnpartilha a exclusão do muncio das artes' TÔclavia' A c.strLÌtura designada como familia moderna é um
r.rnr rcclitnensionamento clo problema se faz necessário, ,r, , rrrtt't'itìlento do Século das Luzes. Diferentes historiado-
tcncl() como meta a verificação das propriedades do gênero, r, .l t',rirrcidem naafirmação de que foi ao redor de 7750
strponclo-se, por um lado, o exame de suas relações com a lr,':r(':rssistiu ao término de um processo iniciado no final
pcclagogia, a quem deve seu nascimento; e, por outro, a ,l,r lr l:rrle Média, com a decadência das linhagens e a desva-
clefìúaã de suã dimensão estética, o que o aproxima cla lite- l, 'rrz.r('iro clos laços de parentesco, e culminou com a con-
nÌtLlra e da afie. 1,,rr11,1r"i,, cle uma modalidade familiar unicelular, amante
,l.r ;,riv:rr:iclade e voltada à preseruação das ligações afeti-
r r', r'rrtrc ltais e filhos.
LrTERÃTURÃ. INFÃ.NTLL E TR 4D rçÃo ( ) ..ii.stema de linhagens e clientela predominolì na
PEDÃGÓGICÃ. I rlri )l ).r <lrrrante aldade Média, vinculado ao modelo feudal.
r , rrtr.rliz:r(lr) na presetvação de amplas relações de paren-
Para conceituar-se a literatura infantil, é preciso pro- tr .r ,, vl1,ivf lt sempre que se tem como meta a manutenção
cecler a Llma consideração de ordem histórica, uma vez que 'lr ;'1,;rlicclad€ e a transmissão da herança. SupÕe, pois, a
não apenas o gênero tem Llma origem determinável crono- r 11
'1r
.11111i'i11
cle uma classe aristocrática, proprietária de terras,
logicamente, como também setl aparecimento decorreu de ,t, r, .rnrPli:r sr,ra dominação pela expansão dos vínculos fami
exìgências próprias cla época. Assim, há um vínculo estrei-
to entre seu nascimento e LÌm processo social que marca
inclelevelmente a civilização européia moderna e' por exten- I licl:rriv:rrnente à história da família moderna e seus antececlentes,
são, ocidental. Trata-se da emergência da familia burguesa, I ,, , ,, 1,uirllcs elttores: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da
a que se associam, em decorrência, a formulação do con- ",,'ilt,t l(irr tlc Jançir6 Zahar, 1979; DONZELOI Jacques. Tbe policing
ceito atual de infância, modificando o status da criança nzt : i,ttt lltr': Ncw York: Pantheon Books, 1979; POSTER, Mark. Teoria
;;t1,,1 ,1,1 /ìrrrtília. Rio de Janeiro: Zahar,7979; RICHTER, Dieter. Til
socieclacle e no âmbito cloméstico, e o estabelecimento de I,ii, rr.1,1, 1r'f cler asoziale Held und die Erzieher. Kindermedien.
aparelhos ideológicos que visarão preseffar a unidade do t '!',ítl' trtrtl Kontmu.nikation. Berlin: Auk Verlag, n.27, abr. 1977;
lár e, especialmente, o lugar c1o jovem no meio social' As t r'
'rr rr li, litlr.vercl. Tbe making of tbe modern family. Glasgow:
ascensõós respectivas de uma instituição como a escola, cle I ',r ,r ! r rrllirì:i, 1979; STONE, Lawrence. Tbefamily, sex and marriage
práticas políticas, como a obrigatoriedacle do ensino e a ,., Ì tt, l,rtrrl l5(X)-IBOO. London: Pelican Books, 1979.

34 35
li:rrt's. () casarnento é um de seus principais instrumentos, de rlento psíquico", que criou muitos adr,rltos, cuj:ts tt':'Pr|il.t" ,t,,,
rrroclo c1-re dele se excluem os laços afetivos, devendo aten- outros eram, no melhor dos casos, de incliferença cltlcul;trl,r ,', tt, '
tlcr, antes de tudo, às prerrogativas do gn-rpo.2 Por isso, ine- pior, uma mistura de suspeita e hostilidade, tirania c sttllri:,:,,1,r,
alienaçâo e violência.4
xistc rÌ noção de privacidade ou vontade indiviclual, já que o
clrcf'e da familia cenÍraliz^ o todo e defende seus interesses,
No século XVII acontecem mudanÇas sensíveis. A cctt
rrssirn como está ausente uma solidariedade especial entre os
tnlização do pocler em torno de um governo absolutista vini
cônjuges ou as geraçôes.
;Ì('olnpanhada do enfraquecimento dos grupos de paren-
Stone descreve a situação das crianças nessa épocat não
l('sco, vinculados às grandes propriedades e à aristocracia
rccebiam qualquer atenção pafticular, nem gozavam de um lìrncliária. O Estado moderno, no processo de abolição clo
stóttLrs diferenciado, verificando-se ainda altas taxas de mor-
pocler feudal, encontra na família nllclear seu sustentáculo
talidade infantil, quando do parto ou em tenra idade. Partici- nurior, cabendo-lhe então reforçar e favorecer sua sitllação
pírvam de modo igualitário da vida adulta, conforme assinala (' estrutllra,5 assim como sua Llniversalidade. Vê-se, pois,
Dieter Richter: (lue a mudança âponta para a aliança entre o poder políti-
ccr centralizador e a camada burguesa e capitalista, que se
Na sociedade antiga, não havia a "infância": nenhum
espaço separado do "mundo adulto". As crianças trabalhavam e llnça à expansão de sua ideologia familista, fundada no
viviam junto com os adultos, testemunhavam os processos nâtu- inclividualismo, na privacidade e na promoção do afeto:
rais da existência (nascimento, doença, morte), participavam clltre esposos, estimulando a instituição do casamento; e
junto deles da vida pública (política), nas festas, guerras, audiên- cntre pais e filhos, por estar interessada na harmonia inte-
cias, execuções, etc., tendo assim seu lugar assegurado nas
rior do núrcleo familiar.
tradições culturais comuns: na narração de histórias, nos cantos,
nos iogos.3
Stone identifica, no processo, dois momentos diferen-
ciados: no século XVII, a organização é fortemente patriar-
Estavam, porém, excluídas do processo decisório, cal e recebe grande influência e estímulo dos protestantes,
tanto quanto os demais membros do clã. A respeito da exis- jír que os pastores entendiam a criança como um indivíduo
tência cotidiana em tal período, complementa Stone: a ser domado pela educação religiosa rigïda, cabendo aos
pais alcançar a sujeição da vontade infantil; no século XVI[,
As crianças eram freqtientemente negligenciadas, tratadas os pequenos e as mulheres gozam de maior liberdade, de
brutâlmente e até mortas; muitos adultos tratavam-se mutua- modo que a familia exibe a imagem de uma parceria inter-
mente com suspeita e hostilidade; o afeto era baixo e raro. [...] A
na, dominada pelo liberalismo e calor afetivo, e não pelo
falta de uma única figura materna nos primeiros dois anos de
vida, a perda constante de parentes próximos, irmãos, pais, amas
poder paterno e a obediência hierárquica. E, se no século
e amigos devido a moftes prematuras, o aprisionamento físico do )ilru iá se verifica um interesse especial pela criança, pro-
infante em fraldas apertadas nos primeiros meses e a deliberada vocando a edição dos primeiros tratados de pedagogia,
quebra da vontade infantil, tudo contribuiu para um "entorpeci- escritos pelos protestantes ingleses e franceses, o século

2 cf. stoNr, Lawrence. op. cit., p.69-16. 4 StONn, Lawrence. Op. cit., p. 80.
3 rucrtlen, Dieter. op. cit., p. 36. > A propósito, v. também DONZELOT,
Jacques. Op. cit., p. 50.

36 37
yV II I r s.siste à passagem completa da infãncia ao centro das Entre as camadas inferiores, a evoluçâo i' rrr;tir; h,rrt,r,
..,11.sicler:rções. Descrevendo os traços que caracterizam a urììír vez que se tratava de incorporar o traballlrtkrr' ;i { r,n
Írrrtrílirt nesse período, comenta Stone: t r'1rÇrio de familia. Habituados a abandonar as cri:urç',r,. ,rr,,,
t rricledos de instituições de caridade mantidas pclo 1ro. l,,r
Um quarto sinal era a identificaçâo das crianças coulo Llm
grupo de stcttlts especi^I, distinto dos adultos, com suâs institui- 1rírlrlico ou religioso, o casamento não lhes parecirr ('()nl()
urÌì1r necessidacle, menos ainda a educação dos filhos, t,rrr
ções especiais próprias, como as escolas, e seus próprios circui-
tos de informação, dos quais os adultos tentaram excluir, de ricrlrl ilegítimos. A adoção dessas crianças aumenta o cust()
rnodo crescente, o conhecimento sobre o sexo e a morte.6 :;ocial da pobreza; além disso, as altas taxas de mortalicluclc'
irrÍìrntil, por falta de atenção e cuidados na época convc-
Jacques Donzelot verifica na França fenômeno similar, rricnte, privam as inclústrias nascentes de mão-de-obra ba-
voltxdo à preseruação das crianças. O movimento tem riìtrr e disponível. Dai a modificação: cabia estimular o
ctr-rpla finalidade: de um lado, valofiza a familia burguesa; rrlrtrimônio e a manutenção das crianças. Mais umâ vez
de outro, dirige-se às crianças pobres, cuja sobrevivência é ('ssa meta foi atingida por meio da aliança com as mLÌ-
.gpsiderada importante, ao significar a garantia de mão-de- llrcres, ao se valorizar a circunstância de, nlÌma família
ob1â flÌtura. Por isso, o processo toma características pró- orcleira e ascendente, ainda que de proceclência proletária,
prias nas diferentes camadas sociais. No âmbito da familia l esposa não deveria trabalhar, e sim voltar-se às suas fun-
burguesa, trata-se de diminuir a importância concedida às cr)cs, agora promovidas como natllrais, quais sejam, os encar-
x6as-deJeite, responsáveis pela manutenção alimentar e gos domésticos e o cuidado das crianças.
educação dos infantes nos primeiros anos e causa do gran- Stone igualmente salienta a ascensão do modelo familiar
6[s número de mortes precoces.T Desse modo, reforça-se o orientado para os filhos, o que acontece sobretudo na bur-
ptpel da esposa dentro do núcleo familiar, a fim de fazê-la .qLresia, ocasionando LÌma nova qualificação da figura lnater-
rssumir sua funçào materna. Resulta daí a ascensão da mu- ne enquanto personagem dominante da estnÌtLl1? doméstica:
her no ambiente doméstico, o que lhe permite assegurar o
6epffole do universo caseiro e adquirir um novo lugar so- Não há clúviclas de que, entre 1660 e 1800, aconreceram
mucÌanças significativas na prática de criação das crianças, parti-
ciaI, alsrandvndo o patriarcalismo do século anterior e avan-
ideologicamente, na medida em que o Estado não cularmente entre a alta br-rrguesia e os profissionais liberais. Os
çando cueiros apertados deram h-rgar a roupas soltas, amas-deleite
poderâ mais prescindir de sua colaboração para a estabili- pagas à amamentação materna, a dominaçâo da vontade pela
dade e funcionamento da engrenagem social. força à permissividade, a distância formal à empatia, assim que a
mãe se tornou a figura dominante na vida das crianças.8
6 sroNn, Lawrence. op. cit., p. 149-150.
7 Cf. a propósito DONZELOT,;acques.
p. 16: ,,preservar
Todavia, no redlÌto da classe proletâria, o processo
Op. cit.,
as crianças passoll a significar, por um lado, dar um fim nos malfeitos não se dá com a mesma uniformidade. Donzelot assinala os
d65 servos domésticos, criar novas condiçôes de educaçâo capazes de cliferentes esforços, ao longo do século XIX, não apenas
ss1 a corìtrapartida dos efeitos penosos sofridos pelas crianças conliadas para consoliclar a vida doméstica do operariado, com base
a eles, e, poÍ outro, atrair à educação de seus filhos todos aqueles indi-
yi6[1ros Que tendiam a abandoná-los aos cuidados do Estaclo ou ao negó-
B stoNn, Lawrence. op. cit., p.284.
61s homicida das amas."

1Õ 39
rì() rnesmo centro, a mulher, como para garantir a
eclucação ,, rl:rr rr1)rcsentou respostas particularizadas nas clil'cl'crttcs
cl:rs crianças. Entretanto, não apenas estas continlÌaram
a , ,ilìlilclus, o que correspondeu, no plano da educação, lì
.scr abandonadas precocemente, quanto, no caso de
sua grr.rticlr social no plano comunitário. Desse moclo, caltc
conse.ação na família, obrigadas a trabalhar ceclo, tratadas
com violência ou então negligenciacras.g Nessa meclida, ,rvt'r'istrar as circunstâncias peculiares do meio ambientc c
embora o modelo familiar burguês pretendesse se univer_ vivi'r'rcin clos jovens de proveniência, respectivamente, btu-
sa,lizar pof sells tfaços característicos 1lr rL'slÌ e proletária.
- a saber: a valoriza- A criança burguesa encontra-se plenamente integra-
ção da unidade interna e dos raços de afet{ elevanclo-se a
r lrr rì() contexto familiar, solidificado para resguarciá-la. O
importância da mulher e da criança; o estímulo à privaci-
,uÌL'r.Ìte dessa proteção é a personagem materna, o que dír
clade, diminuindo tanto a ingerência cros criaclos na
vicra rrrrr cmbasamento histórico e social ao complexo do Édipo,
fÌrmiliar, quanto a influência clos parentes _, ele não impecle
íÌ manutenção da clivisão social e a permanência clé um ,'onfbrrne Stone e Poster.ll A mulher alÌmenta sua parti-
tratâmento diferenciado dos cidadãos, cle acorclo com o cil>eção na organização doméstica, embora, como no caso
r l:r criança, o acréscimo de importância no círculo privado da
interesse do Estado moderno.
O êxito no processo de privatização cla família _ maior l:rniília corresponda à exclusão da esfera púrblica, acessível
na camacla burguesa, menor entre os operários _ gerou rì toclos durante o período de predomínio da estnttura de
Irrna lacuna, referente à socializaçâo cla criança. Se a con_ linhzrgens e clientela. Mulher e criança, mãe e filhos, cres-
('cnÌ em suas ftrnçÕes internas, Llma vez que se isolam do
figuração da familia burguesa leva à varorização clos firhos
e :ì diferenciaçâo cla intância enquanto faixa etâria e estra- inrbito exterior, e também este retraimento dá novas dimen-
tct social, há, concomitantemente, e por callsa disto,
sires ao trauma edipiano num meio burguês.
um iso- A situação entre os proletários não é idêntica. A pre-
larÌento da criança, separando-a do mundo aclulto e da rea-
lidacle exterior. Nesta medicla, a escola aclquirirá nova scrvação da criança visa à formação e mânutenção de um
sig- contingente obreiro disponível; e lega-se essa tarefa à fami
nificação, ao tornar-se o traço de união entre os meninos
e lizr, dentro da qual a responsabilidade maior cabe às mães.
o rnunclo' restabelecendo a unidade perclicra. philippe Ariès
associa a esse fenômeno a ascensão cla pedagogia Contudo, devido à necessidade premente de aumento da
e clo renda familiar, os menores são jogados pelos pais no mundo
cnsino modernos, baseados nas classes Oe iaide, homo_
gôneas e encadeadas, visando inserir progressivamente com muito maior rapidez e violência. Por sua vez, os adul-
os tos não cumprem seu papel integralmente, o qìie justifica a
pequenos no mundo.10 Contudo, também a instituição
es_ reação dos poderes público e privado, intensificando sua

9 Cf. a propósito STONE, Lawrence.


Op. cit., p.294:*Entre a rnassa
rl.s r.'uito pobres, os testem.nhos clisponíveis slrgererr que o 11 cf. postnR, Mark. Op. cit., p. 42: "o segreclo do Éclipo está aqui
compor-
(rÌrÌrcnto comll'' de r-''itos pais em relação localizado; nâo nos belos mitos da Grécia antiga, mas no prosaico lar
a seus filhos era freqüàte_
rììcntc' inìprevisível e, muitas vezes, indiferente ou cruel.,, burguês"; e STONE, Lawrence. Op. cit., p. 115: "Atualmente estír bast?nte
Cf. a propósiro ARIÈS, philippe. Op. cir., p.232:,,Como se claro que quatro dos principais traumas (oral, anal, genital e edipiano)
a
lìrlríli;r ur.dcrna tivesse nascido ao mesmo tempo que a escora, que Freud pesquisou entre sells pacientes e que supôs como universais,
ou, ao dependem de experiências peculiares à sociedade de classe rnédia do
rìÌcrì()s, <1uc o híbito geral de educar as crianças na
escola.,,
período europeu vitoriano, de onde vinham seus pacientes."

4o
47
significativo de mão-de-obra, com o fito de protegcr lt
irllrttt
irrlt'r'ÍcrC'ncia no quadro doméstico operário. Assim, apare-
( ('rìì :Ì^s organizações filantrópicas que, dirigidas zìs camadas ciá e evitar o aviltamento dos salários. Ao mesmo tclìÌl)()'
polrrrlrrres, procuram sanar as dificuldades internas cla farní- porém, essa providência provocou a diminuição da rcncllt
iamiliar, o que repercutiu necessariamente no aumento
cllt
lirt (rnenos as de ordem financeira), interuindo n2Ì slÌa intirni-
rlrrclc. !. a freqüência à escola recebe novo estímulo, o que produtividade do adulto.
t()r'na esta instituição acessível e aberta a toclos os compo- Donzelot descreve o fenômeno' com base no fato sa-
rìcrìtes cto corpo social. bido cle que, no século XIX, eram as crianças que recebiam
Se a escola tem essa procedência liberal, procurando melhores oportunidacles de emprego' Mão-de-obra mais
baraÍa, gerâvâm LÌm lucro imecliato; porém' menos
habilita-
universalizar o conhecimento, a ênfase na freqtiência clo
empre-
rulr-rno às aulas, no entanto, terá um papel icleológico bas- dos, apresentavam produtividade menor' Além disso'
tunte compreensível, relacionado à sua furnção de instru- gnndo os filhos, os adultos passavam o dia em bares' parti-
nÌcnto saneador dos contrastes sociais. Seu funcionâmento ãiparrdo de movimentos políticos olr provocando violência'
cttrtcÍeriza-se por invefter simetricamente a atividade ma- Hãvia urgência em ocupá-los exaustivamente' assim como
o
terna, na medida em que lhe cabe reintroduzir a criança na em capacitar os operários do futuro' Fazenclo obrigatório
ensinó, as crianças eram retiradas do mercado; porém'
era
realiclacle externa. Contudo, mesmo âssim, exerce uma tarefa
fetninina, uma vez que atua como mediadora entre o mlÌn- preciso estimular os pais a colocarem os filhos no colégio'
clo interior do pequeno e a sociedade. Por sua vez, esta bi, o pro."dimento adotado pelo Estado:
última só aparece ao estudante de modo indireto, via livros
Somente a eclucação gratuita não era a solução' Dever-se-ia
clicláticos, laboratórios, conferências, mapas, clando-se ainda
entãoclecretarurlsistemasimplesdeedtrcaçãocomptrlsória?Não,
a convivência social apenas entre os garotos, e não com os taÌ proposta chocava seriamente com a lógica liberal' Então
por
aclultos. É, pois, outra modaliclacle c1e clausura, que tam- que não invefter l^trcú Valemo-nos da isenção de pagamento
^ em blocos de depen-
bém reforça o estado pueril e retira a criança do con;'unto )n ^ ^t ^í, famílias que estavam imbricadas
àêncla e cla obrigatorieciacle contra aqueles que viviam
marginaÌ-
cla sociedade.
Mais uma vez cabe distinguir o que diz respeito à cri- mentenosdúbiosvestígiosdasantigasreclesdesolidariedade.lz
ança proletâria. Ela tem maior vivência mundana, de mo-
É nessa medicla que se desvelam o sentido enclausu-
do que a escola não pode pretender concorrer com o
aprendizado qlle vem das ruas. Ainda assim, a educação rador clo ensino e as condições em que se dá a formação
cla criança no meio familiar atual, seja rico ott
pobre'
formal é imprescindível, uma vez que possibilita a separa-
ção entre o jovem e o adulto, tarefa que a familia, e sobre-
tudo a mulher, preenche de modo imperfeito. E é quando
A FUNçÃO Dà LITERATURA INFANTIL
a escola quer dissolver os laços que prendem os meninos
à vida social, como no caso dos trabalhadores, que se A psicologia infantil responsabiliza-se pela teoria da
mostram claramente seus objetivos isolacionistas. Pois foi
formaçáo cla criança; sua aplicação no campo didático
rela-
por causa dos alunos oriundos da classe operâria que o
ensino tornou-se obrigatório na Europa, a partir do século
XIX. Assim, foi retirado do meio proletário um contingente 12 ooNzilo! Jacques. op. cit', p' 76-77'

1+2 43
( i()lrr .s(ì Ì
pcclagogia. E repercute ainda no terÍeno artísti-
Cabe, todavia, colocar a questão não apcnus (lc :lt'or
r',r, rJtrrrìclo clo aparecimento da Ìiteratura infantil. Assim, a tkr corn uma sociologia da iniância, mas tomar c<;rno lr:r.s('
t'r.t'rgôncia deste gênero explica-se historicamente, na me- rr vivência que esta tem no mundo, em nível propriaurcrrtr-,
tlirLr cr'que acontecelÌ em estreita ligação com Llm contexto t'ristencial. K. W. Peukert, estabelecendo um fundarncnttr
.s,r:irrl clelimitado pela presença cla família nuclear domés- ;uìtropológico para o livro infantil, o que pocle se clar .so-
ri<'rr c particlìlarização da condição puerir enquanto faixa rrrcnte se estiver centrado na criança, caracteriza o ntuncl<;
c'tÍria e estaclo existencial. Todavia, tornou-se um clos ins- irrtcrior desta como um "espaço vazio"; e explica: "'o espzr-
t.rÌrÌlentos pelo qual a peclagogia armejou atingir seus obje- ç<r vazio'não ê vazio porqlle as crianças aincla não vive-
tiv.s'13 A. c. Baumgãftner clenuncia a prioricÌacre das moti- porque não poclem orclenar as vivências".16 Assim,
rirrÌ-ì, mas
veçÕes eclucativas sobre as literárias, quando cla gênese, sc a criança - devido não só à sua circunstância social, mas
clurante o século XVIII, cla proclução cle textos jovens: trrnrbém por razões existenciais - se vê privada ainda de
rrnt meio interior para a experimentação do mundo, ela
\O que chamamos de literatura infantil ,,específica,,,
isto é, ttccessitará de um suporte fora de si que lhe sirva de auxi-
os textos escritos exclusivamente para criençls, tem sua origem
liur. É esse lugar que a literatura infantil preenche cle moclo
primariamente nâo em motivos literários, r.nas peclagógicos.la;
lxtrticular, porque, ao contrário da pedagogia ou dos ensi-
rìlÌrnentos escolares, ela lida com dois elementos adequa-
Em decorrência disto, afirma aincla o autor que ,,a lite_
ratura infantil é primeiramente um problema peclagógico, e rlos para a conquista da compreensão do real:
não literário".15 por tal razão, se clecorre de uma-siiuação - uma história, qlÌe apresenta, de maneira sistemática,
I'ristórica particular, vinculada à origem cla família burguàsa
ls relações presentes na realidade, qlÌe a criança não pode
perceber por conta própria:
e cla infância como "classe" especial, participa ciesta cir-
cunstância não apenas porque provê textos a esta nova A criança entende a l-ristória sefiì estes pressupostos [do
fàixa, mas porque colabora em sua dominação, ao aliar_se adultol. Sua compreensão da realidade, existência e vida nâo -
ao ensino e transformar-se em seu instrumento. ainda nâo - se baseia em pÍocessos lingtiísticos de comunicaçâo,
mas nas relações sociais primárias e nas próprias atividades. As
histórias infantis desempenham, pois, uma primeira forma cle
73 V. propósito a relação comunicação sistemática das relações da realidacle, que aparecenì
estabelecicla por IìAACKE, Dieter. Der
junge Leser^in sozialisationsprozess. Zur Konstituition von à criança numa objetividade corrente. Ou, por oLltra: as histórias
Realitât. In: infantis sâo uma espécie de teoria especulativa além da atividade
Modern realistic stories for cbildren ancl 1o,ng people. l6th IBBy-
imediata social e individual da criança.17
Congress. Germany: Arbeitskreis fürrJugenclliteratÌrr e. V., 7978. p. 49:,,A
existência de um mercado próprio do livro infantil e juvenil é
uma
invençâo da pedagogia (cujo primeiro ponto alto deu_se clurante a - a linguagem, que é o mediador entre a criança e o
Ilustmçào), e a pedagogia é uma invençâo cla sociedade burguesa.,, mundo, de modo que, propiciando, pela leitura, um alarga-
r+ BaUMGÀRTNER, Arfrecr
Clemens. Realistische Literatuifür Kinder.
Moglichkeiten und Grenze. rn: Modern realistic stories 16
for cbildren ancl erUfnnf, Kurt \iüerner. Zr.rr Anthropologie <les Kinclerbuches.
young poaple. 16th lrlBy-congress. Germany: Arbeitskreis fiir
JugenclJite- In: HAAS, Gerhard (ed). Kinder- undJtrgendliteratur. Ztr Typologie und
ratur e. V., I9lS. p. 127.
15 r.l. tb., Ftrnktion einer literarischen Gattung. StÌrttgart: Reklam, 1976. p. 95.
p. r24. 77 rcL. ttt., p. az.

44
45
rì('llt() ckr clomínio lingüístico, a literatura preencherá uma Vinculado o descrédito ao compromiss() c()tìì () (,nr,l
Iurrç':ìo cle conhecimento: "o ler relaciona-se com o desen- n() c com o processo de dominação da intâncie, zr litcr.:rtrr
v<rlvirrrento lingtiístico da criança, com a formação cla com- r:r inÍÌrntil, ainda assim, tem o que oferecer à criançtr, clc.sclt,
plc'cn.são do fictício, com a função específica cla fantasia ,1rrc cxaminacla em relação à sua constmção proprianrcrrtt.
inlìrntil, com a credulidade na história e a aquisição de lit.r'írria. É quando se verificam os benefício, q.,,"-, histíri:r
slr lrer".1B (^ () clisclÌrso trazem para o leitor. Tal construção pocle
scr.
Em vista dessas peculiaridades estruturais, a literatura t'rrtcnclicla aincla de acordo com olltra peculiariclacle artísti-
infrrntil contraria o carâter pedagógico antes referido, com- t:r clo gênero: é o fato, assinalado por peukefi, de não co-
lrreensível com o exame da perspecliva da criança e o sig- rrlrccer fronteiras. com efeito, o livro infantil clesconhece
rrificado que o gênero pode ter para ela. Sua atuação dá-se urìì tema específico, não é determinado por uma forma
clentro de uma faixa de conhecimento, não porque trans- (scja verso oll prosa, novela ou conto) e, ainda, escorrega
mite informações e ensinamentos morais, lnas porque pocle livrcmente da realidade para o maravilhoso. Além clisso, incor-
outorgar ao leitor a possibilidade de desclobramento cle l)ora ao texto a ilustração e aclmite modaliclades próprias,
suas capacidades intelectuais. O saber adquirido dá-se, assim, ('oulo o conto de fadas ou a história com animais.
pelo domínio da realidade empírica, isto é, aquela que lhe Essa amplidão, simétrica e contrâria à limitação antes
é negada em sua atividade escolar ou doméstica, desenca- rncncionada, decorre da relação particular que estabelece
cleando um "alargamento da dimensão de compreensão,,19 colÌÌ o leitor. Carecendo a criança de horizonte qualquer,
(llre, no adulto, provém de sua vivência acumulacla no
e a aquisição de linguagem, produto da recepção da his-
tcrnpo, ela é permeâvel a tudo; daí a maleabiliclade clas ba-
tória enquanto audição ou leitura e de sua decodificação.
Iizas oferecidas aos textos ditos infantis. Tal fato fornece a
Em razão disso, explicita-se a duplicidade própria da
cstes últimos LÌma grande margem de criativiclacle, que po-
natureza da literatura infantil: de um laclo, percebld" d"
cleria ser capitalizada. Todavia, não é o que acontece, Llma
írptica do adulto, desvela-se sua participação no processo vez qlÌe, de modo geral, eles apenas se apropriam, do
cle dominação do jovem, assumindo um caráter pedagó- ponto cle vista técnico e temático, dos resultaclos alcança_
gico, por transmitir normas e envolver-se com sua formação clos pela literatura para os adultos. Nessa medicla, portanto,
moral; de outro, quando se compromete com o interesse cla embora a literatura infantil tenha originaclo algumas espécies
criança, transforma-se nlÌm meio de acesso ao real, na me- exclusivamente suas, como a história de animais, ou então
clicla em que facilita a ordenação de experiências existen- adotado olÌtras de modo irremediável, como o conto de
ciais, pelo conhecimento de histórias, e a expansão de setr fadas, ela não apresenta urna trajetória que faça frente à
clomínio lingüístico. Essa duplicidade assinala sua limitação, literatura, propondo técnicas e recLÌrsos próprios cle expres-
gerando o desprestígio perante o pírbÌico adulto, já que este são, preferindo acompanhar cie longe o progresso di arte
não admite o legado doutrinário que lhe transfere. poética.
Com base no.s aspectos apontados, examinam_se os pro_
blemas relativos ao realismo e à verossirnilhança. O fato de
lB t.t. ib., rr. 79.
oferecer um campo ilimitado de ação no ârnbito narrativo
19 r.l. ib., p.
s4. parece privar a literatura infantil de verismo. Assim, a exi_

46
4/
rla'lì('i;r(lc rm realismo pode ser contraposta à inevitável A fantasia tem um nítido sentido cornpcn.s:rtírlio, lt'1ii
l)r'('scrìçlr cla fantasia, incorporada às histórias para a infãncia tirrto, segundo Richter e Merkel, caso se pense cltrc ck'r'olrr.
t lc'sclc suas origens. ,lc urì-ìa situação de absoluta depauperação e imltos.silrili
A parceria com o fantástico remonta aos começos da ,l:rclc cle mudar o sistema. Por essa mesma tazão, os c()tìt().s
Pr,clrrção orientada ao público infantil, quanto os primeiros ,lt' f:rdas revelaram-se bastante adequados ao novo púl;lic'o
c:scritores, como Charles perrault, no século XWI, e os t'rrrcrgente. Em primeiro lugar, porque não se pode csc:r-
irntâos Grimm, no início do século XIX, adonaram_se clos rÌì()tear a circunstância de que'a fantasia é um importxntc
c()ntos de fadas. Esses relatos fundam-se preferencialmente :;rrlrsíclio para a compreensão de mundo por pafte da cri-
r-ìLrrìa ação de procedência mágica, resultante da presença :uìç'a: ela ocupa as lacunas que o indivíduo necessaria-
clc um auxiliar com propriedades extraordinárias que se rììcnte tem durante a infância, devido ao selÌ desconheci-
pÕc a serviço do herói: uma fada, um duende, um animal rÌìcnto do real; e ajuda-o a ordenar sllas novas experiênci:rs,
cncantado. Essa colaboração voluntária possibilita a supe_ Íì'cqtientemente fornecidas pelos próprios livros.21 No entan-
ração, por parte da personagem central, do conflito que to, a fantasia pocle tomar a con-figuração clo sonho, enquanto
cleflagrara o evento ficcional; e sua ajucla é imprescinclível trrrr desejo insatisfeito que se realiza apenas de modo repa-
clevido à condição sempre precária oLÌ carente cla figura r-rttório. É essa significação que o ente maravilhoso, pre-
principal. scnte no conto de fadas, pode corporificar: representará o
Explicando a discrepância entre o estaclo de penúria ;rclulto onipotente, aliado e bom, que soluciona o proble-
econômica, afetiva ou intelectual do agente cja narrativa _ rnu maior do herói, de modo que este se sujeita à domina-
r,rm soldado pobre, uma enteada rejeitada pela família, um c-ìo do olÌtro, sem questionar de onde provém seu poder
fill-ro mais moço e pouco inteligente ()Lr quem o delegou a ele. Na passagem do relato folclóri-
- e a onipotência clo
auxiliar mágico, Dieter Richter e Johannes Merkel aludem à co à literatura infantil, perdeu-se o conteúdo de rebeldia;
origem sociológica destes contos. Esses provinham das clas_ rìlas permaneceu o elemento de natureza fantástica, com um
ses mais pobres e inferiorizadas da pirâmide social da Euro- conteúdo escapista e uma representação do estado de im-
pa centfal: os camponeses e os artesãos urbanos, que se l)otência do protagonista central e, por extensão, da criança.
defrontavam com uma estratificação rígicla e imutável, <le Contudo, pelas razões assinaladas, a fantasia é com-
modo que, embora revoltados, não podiam transformá-la.20 ponente indispensável do texto dirigido à intância; devido
Somente pela intervenção de uma força sobrenatural a si_ 1r este fato, somado ao seu comprometimento com o inte-
tllação poderia ser revertida - assim, o soldaclo destrona o resse adulto, ela parece banir dos livros o realismo. E este
rei, e a pobre enteada revela-se a preferida do príncipe. resultado pode ser mais uma comprovação do desprestígio
Contudo, esses heróis nada fízeram poÍ seus próprios meios, da literatura infantil.
tão-somente aceitando de bom agrado a contribuição clos
entes superiores. 27 v. a propósito PERKERT, Kurt \Merner. Op. cit., p. 85: "Quanto
menos as palavras sâo conhecidas, tanto mais fortemente a fantasia é
pressionada a produzir, conceitualmente e de modo substitutivo, as
20ueRrrt, Johannes; RICHTER, Dieter. Mcircben, pbantasie uncl relações de significaçâo." Cf. igualmente BETTELHEIM, Bruno. A psi-
soziales Lernen. Berlin: Basis yerlag, 1974. canálise dos contos defadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

48 49
E
A. (). Iì:rumgâftner coloca o problema em olÌttos ter- O dilema realismo X fantasia só pode scr rcsolvirLr r.r,
nr(),.i: l'ct()lÌlandouma tradição aristotélica, vincula-o pri-
lx)sto em outros termos. Diz respeito antes âo cho<1Ut.t.rrtrr.
rrr,rltlirrlnrente às exigências de verossimilhança, fundadas r>s condicionamentos de que padece a literatura inÍìrnlil
rrrurr clcsernpenho possível do ser humano, traduzido pela ;ror
trilhar o caminho do didatismo e as possibilidacle.s ilirrritrr
;rç,'rì<> cla personagem.22 Ser realista é, portanto, correspon-
rlrr.s de criação, resultantes da natureza ainda molcl:lvcl <l<r
tlcr', no plano artístico, àquilo que é próprio ao humano no
lcitor, o que pode repercutir em experimentalismo inovl-
pl:rr-rct existencial. Nessa medida, uma história cle aventuras
clor ou expansão das técnicas literárias e das vias narrativtÌs.
()u Lrm conto maravilhoso são válidos quando apresentam
Deste modo, o conflito vivido pela literatura infantil ó,
cocrência interna (leis cle possibilidacle e necessiclade) e
crn outras palavras, entre ser ou não ser literatura, o qlle
coinciclência com um conceito de humanidade (lei da veros-
nÌo significa necessariamente uma diluição na generaliclade
sirnilhança externa).23
rla arte literâria, devido à constituição específica de seu
Todavia, essa exigência pode ser desobedecida, não
r-ccebedor.
clcvido à presença da fantasia, mas ao cumprimento das
prcrrogativas pedagógicas. Por callsa delas, os Ìivros siro
levados a embelezar o real e oferecer modelos perfeitos de
cornportamento, assim como a falsificar certas circunstân-
Í),{ PRODUÇÃO Ã LETTURÃ
cias ou obscurecer outras. A deforrnação repercutirá na
coerência interna da narrativiÌ, mas não provirá da ocor-
A descrição do conteúdo da literatura infantil mostra
(lue seu dilema decorre da necessidade de preenchimento
rência de elementos de tipo maravilhoso, o que revela a
clc uma missão não propriamente literâria em sua origem e
índole pseudodicotômica da contraposição verismo X fan-
ílrncionamento, de que resultam questionamentos reÌativos
tasia. Nessa medida, mesmo a clenúncia da realidade, a que
ìr oposição entre fantasia e realismo ou à inexistência cle
visa cefto tipo de livro para jovens, pode ser tão fâlsa quan-
uÍna preocupação experimental. Todavia, cabe assinalar
to o texto farto de intenções moralizantes, porque em am-
(lue a compreensão do gênero, em geral, não se faz por
bos repousa a mesma meta pedagógica.24
cste caminho. Pelo contrário, ela se vê classificada em ana-
logia à tipificação das relações entre o adulto e a criança,
22 Cf. sauÀ4cÃRtNnn, Allrecl Clemens. op. cit., p.
118.
23 v. a propôsito ARISTÓTELES. poética. Porro Alegre: Globo, 1966. <rjovem está profunclamente inserida na natvÍeza humana. E se alguén-r
A respeito das leis de construçâo artística, cf. KITTO, H. D. F. poiesis.
ol>servar a 'qualidade' dos livros infantis de hoje, e ainda mais o que
Structure and thought. Berkeley and Los Angeles: Universiry of California cstá escrito sobre eles, é difícil evitar a conclusão de que o cliclatismo está
Press, 1966; FUHRMANN, Manfred. Einfiibrung in die antike Dicbtun- :rinda muito vivo e que, envolvendo as fraquezas intelectuais, estanìos
gstbeoríe. Darmstadt: 'l7issenschaftlicl.re Buchgesellschaft, 7973; LIMA, Lttiz lptos a rejeitar o conceito ao aceitar a realidade. [...] Anos atrás, loga-
Cosll. EstnLturalismo e teorict da literutura. Petrópolis: Yozes, 7977. rnos o velho didatismo (o moralismo desajeitado) pela janela; ele voltou
24 Cf . respeito as observações cle
John Rowe Townsencl: ,'Está lrela porta, vestindo roupas modernas (valores inteligentes) e nâo conse-
^
extinto atllalmente o espírito didático dos livros para crianças? Tendemos guimos nem mesmo reconhecê-1o." (TO\íNSEND, John Rowe. Didac-
a faÌar e escrever.cotno se estivesse. Ele é o contrário à nossa visão cle ticism in modern dress. In: EGOF4 Sheila; STUBBS, G. T.; ASHtEy, L.
rclaçõcs felizes, relaxadas e mais ou menos igualitárias entre gerações, o 1.. Only connect. Readings on children,s literature. Toronto and New
(3le encaramos atualmente como ideais. Todavia, a tendência a instruir York: Oxford Universiry Press, 1969, p.33-34.)

50 51
r'('lì(l()-llìc intputadas, por conseguinte, as qualidades atri- clucle e inferioridade com que o gênero é a<pril:rl:rrl(, rr;l(r
lruíclrr.s lì infância em geral, quais sejam: a menoriclade, a srìo ocasionados pelos consumidores nÌirins, a tclltlttiv;t (l(.
irrÍi^rioriclacle e o estágio de "ainda não" literatura. rcproduzir a condição destes por parte do escritor, rr liln rlt.
'l'al qualificação deriva do desconhecimento dos fato- sllperal a assimetria mencionada, converte o texto rrrrrrr:r
rc.s cle produção, vinculados todos ao adulto, responsável ilÌìpostrlra, que repercute no enfraquecimento cla Íìrlltr:r
l)()r rÌm circuito que se estende da criação das histórias à ;rrtística, justifica a acusação de simulacro oLÌ pseuclolitcr:r
cclição, distribuição e circulação, culminando coln o consu- tura e legitima o descrédito.
lÌìo, controlado sobretudo por pais e professores. Em vista A desigualdade entre o emissor e o leitor interferc,
clisso, a criança participa apenâs colateralmente nesta se- pr>is, no processo cle escrita, restringindo o campo de cria-
clriência, o que assinala a assimetria congênita aos livros a ç'io da obra. Mais LLma vez transparece o dualismo da litera-
cla destinados.25 É o recurso à aclaptação que indicará os ttrra infantil, evidenciado agora com base no exame de suzr
rrreios de relativizar este fato; o autor adulto identifica a yrlodução; visto o fenômeno do ângulo de sua recepção,
perspectiva de seu pequeno leitor e solidariza-se com ela: rìovas características podem ser acrescidas a ele.
Que a literatura infantil não pode prescindir de um
A particularidade mais geral e fundamental deste proces- rccebedor determinado, foi indicaclo anteriormente: não
so de comunicação é a desigualdade entre os comunicadores,
1Ìl)enas a emergência da infância enquanto público diferen-
estando de Ìado o autor adulto e de outro o leitor infantil. Ela
r.rn'r
diz respeito situaçâo lingtiística, cognitiva, ao s/atassocial, para

ciaclo, carecendo de (inXormação, motivou o aparecimen-
mencionar os pressllpostos mais importantes da desigr.raldade. O to do gênero em dada época, colno este sempre pôde lhe
emissor deve desejar conscientemente a demoliçâo da distância lÌrrnecer um subsídio existencial e cognitivo inalcançável
preexistente, para avançar na direção do recebedor. Todos os pcla educação domésticzr ou escolar. Essas duas qualifi-
meios empregados pelo autor para estabelecer uma comunicação cações têm, por slla vez, carâter contraditório, refletindo
com o leitor infantil podern ser resumidos sob a denorninaçâo de
rrspirações diversas, a do emissor adulto e a do beneficiário
adaptação.26
criança, reforçando a assimetria mencionada, gerando a
Entretanto, é preciso reconhecer que permanece a trni- rrclaptação e configurando, de novo, uma dualidade. De
Ìateralidade do processo, tanto quanto a superioridade e rnodo que, da perspectiva do destinatârio, o que a literatura
presença maciça do adulto. Assim, se os fatores de menori- infantil tem a lhe proporcionar deve provir necessariamente
clc sua inclinação dual, a fim de não desmentir ou falsificar
slra natureza.
25 A propósito cla assimetria,
cf. Lypp, Maria. Asymetrische Kom- Nessa medida, oscilando o texto entre a ajucla intelec-
munikation als Problem moderner Kinderliteratur. In: KAES, Anton; ZIM- tual, produto de sua elaboração Iiterâria (história e discur-
MERMANN, Bernhard (ed). Iiteraturfür Viele I. GÕttingen: Vandenhoeck so), e a formação pedagógica e moral - o que pode muito
tund Ruprecht, 1975.

lrem acontecer no interior de uma mesma narrativa -, ele
LYP| Maria. Op. cit., p. 165. Gote Klinberg caracïeriza a adap-
tação descrevendo-a segundo quatÍo modelos: adaptaçâo do assunto, da
cxibe ao leitor a imagem de uma realidade concomitan-
forma, do estilo e do meio. Cf. KLINBERG , Gote. Kinder- unclJugendlite- tcmente solidária e inimiga, como é o próprio mundo adul-
raturforccbung. Eine Einführung. Koln-Vie n-Graz: Bóhlaus Wissenscha- to e suas instituições (escola, assistência médica etc.). Esse
ftliche Bibliothek, 1973. lrspecto, por sua vez, pode ser configurador de insegu-

52 53
l;ut(':t, lì1Ì tncdida em que ao recebedor caberá Llma toma- rrrl:rntil vincula seu aparecimento à emergêncilt (lc ttltt ttot',,
tl;r tlc clccisão diante de um objeto que não apresenta con- lr:rlrito, o de leitura, e existe para propagá-lo. I., rt le'ilttt:t,
t( )r'rì()s clefinidos, nem objetivos explícitos. ( ()rìì() pr/atica difundicla em diferentes camaclas soc'i:tis t'
Além disso, o texto tornar-se-á tanto mais inquietante, l:rirrrs etírrias, isto é, enquanto um procedimento clc olltctt
lx)r(pÌe pode penetrar impunemente na privacidade e no r;r() clc informações cotidiano e acessível a todos, c ttlttr
rrrr.rnclo íntimo do leitor - setores que a escola, por exem- r.rlo crudito, é uma conquista cla sociedacle burguesa tltr
plo, não atinge, ao se opor, até geograficamente, ao lar e, :,,'t'trlo XVIII. A expansão do mercado editorial, a ascensittr
cspecialmente, ao refúgio último da criança, seu dormitório , k r jornai como meio de comunicação, a ampliação cla reclc

Qtursery), espaço da leitura. Assim, é por intermédio da ,'r.t'r>lar, o crescimento das camadas alfabetizadas - toclos
lcitura, hábito vivido na solidão, que zì subjetividade da cri- ,':'tcs são fenômenos que se passam durante o Iluminismo,
ança é virtualmente invadida. Esse resultaclo pode ser igual- :,('lìclo esta filosofia a sistematização e culminância teóricil
lÌìente obtido pelo brinquedo (produto cujo aparecimento ,lrre justifica a práxis social, voltada à aceleração do proces-
se deu no século XVIII, decorrendo também da ascensão :;o c:ivilizatório. O ler transformoll-se em instntmento de
cla infância) ou jogo, mas com uma diferença: estes últimos ilrrstração e sin:rl de civiliclade. É o que destaca Dieter
são ações oriundas da inventividade dos próprios partici- l|urcke: "a leitura representa originariamente â arte bur-
pantes, o que nunca se passa com o livro, recebido pronto rÌucslÌ, que é um elemento da cultura burguesa", descreven-
e acabado. Desse modo, se a obra literária, por um lado, r k r u seguir os sinais característicos desta atitude:
pode oferecer um horizonte de criatividade e fantasia en-
Na representação da vida burguesa, a leitura desempenha
quanto ficção, solidarizando-se com o mundo infantil, em-
desde entâo um papel central, pois possui o iá clescrito momento
bora reforce a sua diferença, por outro, ela reproduz, por civilizatório: distanciamento da açâo, expansão do espaço inte-
seu funcionamento, os confrontos entre a criança e a reali- lectual, aprolunclamento da sensibilidade, interiorização de opi-
clade adulta. E pode fazê-lo de maneira mais eficiente, niões e princípios morais. Nenhuma dúvida: há uma estreita
porque atinge o âmago do universo infantil, alcançando relação entre o mundo social da vida burguesa e as formas da reali-
uma intimidade nem sempre obtida pelos mais velhos; e dade descritas nos livros, assim como a pretensâo colocada nestes
últimos. Esta reÌação tornou-se historicamente estnttural, como
vem a converter-se em hábito, o de leitura, uma das metas mostrou Norbert EÌias, e até hoje não foi suplantacla. "Cultura", do
prioritárias do ensino e da arte literária, qr.re precisa estim- modo como ela se impôs na Europa em todos os câsos, é cultura
ular intermitentemente seu próprio consumo. burguesa; livros são primariamente comoção burguesa, e a leitura
O resultado derradeiro dessa operação cle intercâmbio dos livros é primariamente expressão do nível cultural burguês.27
entre o texto e seu destinatârio ê a integração deste à cul-
tura burguesa. Ter nascido contemporaneamente à família Por isso, cabia ser diftrndido o hábito de ler, o qLÌe, se
moderna de classe média; incentivar a especificidade cla 1;ocle ser compreendido como industrialização da cultura,
infância como faixa etâria e condição humana; assumir um :;isnificou igualmente socialização do conhecimento. Ao
carâter pedagógico, ao transmitir valores e normas da socie- ilìtclwir diretamente no contexto infantil, tornando-se um
dade que a gerou - todos estes aspectos, já mencionados, Iuibito, o livro participa deste processo, trazendo seu bene-
comprovam essa inserção. Contudo, há mais um fator caÍac-
teristicamente burguês que merece menção - a literatura 27 gAAcrs, Dieter. op. cit., p. 44

51+
<q
írci;rrir) l)lrr:r x reaÌidade que o produziu _ a dos adultos, sc útil à formação da criança e capturando-a clctiv:lrìrcnr(,,
(()lìì .scus valores de consumo. De modo que a leitura, ;r. transformar o gosto pela leittrra nllrna disposiçâo l):lt.it (,
.leritr cla convivência com a leitura infantil cla óptica do ('()nsllmo e para a aquisição de normas.
tk'.stinutírrio, incorpora a duplicidade que caracteriza este Contudo, na mesma proporção em qlle se auto-inr1t<-rc
13i'ncro; como propiciadora de conhecimento, compreensão rrrrr alvo, a literatura infantil invoca um recebedor cletcrrrri:
tlrr rcaliclade empírica e até mesmo meio de experimen- rrrrclo, cabendo-lhe atender a seus interesses. Esses são, pri-
trrç-rìo desta úrltima; é igualmente um recurso para a inte- nrordialmente, os de posicionamento diante do real, que sc
grlção do leitor mirim à existência burguesa, marcada pela <Li a ele de modo fragmentário e descontínuo. É decisiv<r
clicotomia entre o uso e a especulação, o setor clo trabãho l)iÌra a sobrevivência do gênero que responda a essas soli_
c a privacidade, a atividade comercial e olazer, reforçando t'it'ções por intermédio de suas singularidades literárias: é
<r individualismo e o isolamento, processos que a criança :r linguagem narrativa que acaba por organizar a percepção
pxssa a vivenciar clesde cedo. irríìtntil do mundo, às vezes negado à criança pela escola
t rrr pela familia. Por isso, o texto precisa ser coerente
e
vcrossímil, sem o que não coincidirá com as expectativas
à LITERÃTURà INFÃNTII E O LEITOR BURGUÉS rlo leitor. CabeJhe, pois, ser literatura, e não mais peda-
riogia. Nessa medida, pode-se dizer que o sucesso cio livro
Uma reflexão que procure abarcar a natureza peculiar rlcpenderá de sua orientaçâo paÍa o recebedor, clescle que
da literatura infantil não pode evitar a verificação dos pris- ('tìì termos literários e artísticos, jamais educativos, compro-
mas diferentes e contraditórios que o gênero apresenta. r,:rnclo a correspondência simétrica nos dois movimentos
Esse é um dos traços de sua relevância, não apenas porque rltrc conduzem à justificativa da existência do livro para a
se trata de uma espécie artística singular, enquanto tal irrlância: da produção pan a recepção, cla pedagogia para
merecendo reconhecimento teórico, mas também porque :r literatura. Desse modo, define-se umer metoclologia cle tra_
invoca a necessidade de uma ponderação sobre as relações lxrlho: .somente uma centralização no destinatário criança,
que estabelece, de ordem social, com o meio de onde ,yuendo da compreensão da natureza do sujeito cla recep_
provém, e estética, com a definição de literatura. r,rìo e de sua relação com a literatura ou quando do exame
Ao se particularizar sell conceito, mostra-se imprescin-, (l()s textos, legitima uma abordagem cla literatura infantil.
dível o recurso à sua história, üma yez que as conclições A questão da autonomia de tal moclalidade literária
que decretaram seu nascimento se imprimem nos próprios <lccorre dessa conclusão, já que sua especificidacle vincula-
textos, aparecendo por meio do didatismo, da presença de sc uo relacionamento peculiar mantido com o leitor, que não
informações moralizantes e cla veiculação de normas de per- pocle ser produzido nem por outra atividade, nem pela arte
cepção estética. Assim, acaba por legar um horizonte de rl:r palavra em outras faixas etárias. Entretanto, igualmente
expectativas - ético e/ou estético a quem não o tinha. É
- t'ssc fato restabelece sua unidade com a literatura, matriz de
este o limite externo do livro para jovens, que não se li- oncle se destacam os livros infantis, Llma vez que a qualida_
berta de uma índole teleológica, originada no caráter prag- rlc cle ordem literâria não somente é uma necessidacle intrín_
mático e finalista da ideologia burguesa que patrocinou seu .s(ìce, enquanto auto-afirmação do gênero, como também a
aparecimento. Assume então traços educacionais, fazendo- t onclição de enfraquecimento da inclinação peclagógica.

56
Como aqucll s()rÌlrrìl(' llrovilri cle uma realização mimética vrrliclade desta incriminação revela mais uma vcz lÌ (.ir.t.rrrr.r
e verossímil, ck';rcorrlo c'<)lìì o postulado cla teoria da lite- r riçrìo ideológica da literatura infantil, decorrente clo tr.rrt:r-
ratura, torrìlr-s(' t'virlt'rrlt' cltrc tais criações apenas podem ser nì('nto diversificado que a sociedade proporciona às crianç'rrs.
consiclcnrcllrs lro:rs, st' vcrclacleiras em sua representação. ( l( )lìì() se descreveu antes, embora
o conceito de infânci:r
A corrtliq':ro tlt' vclclztcle mais Llma vez permite a reto- It'rrlrr uma aspiração totalitâria por ser uma conseqüência,
mecll rlo tlitl:rlisrrro. Scgt-tndo Baumgâftner, a inclinação tlrrr-lnte o século XVIII, da tomada do poder pela burgue-
pcrl:rg<i1iir':r rrrol iv:r () rÌìescaramento da verdacle; a teoria do :'i:r e, portanto, por sua cultura e ideologia cenÍralizada na
cnsirro, r'orrÍirrrrristl porque visa adequar o sujeito a LÌma lrrrrrília, de fato há uma cisão profunda no que se refere ao
socit'tl:rtlt' rlut' <lcvc permanecer imutável, não pode ques- tr':rturnento dos jovens provenientes de classes diferentes. A
tiorr:rr's('u ('()rìt()rno social. Transferida ao texto infantil, ela r'r.irrnça burguesa deve ser preparada para assumir sua
irrr;rctk' <1tr:rl<1ucr representâção verossímil, exagerando os lunÇão dirigente, a criança pobre precisa ser amparada para
Ir':r<,,'os tk' positividade do statL$ quo oLt os sinais de nega-
r'orrverter-se em mão-de-obra. Em ambos os casos, a fina-
tivirl:rrlt' clos espectos marginais que possam desestabilizar o lirllcle social é única, porém o treino recebido é personali-
lo<lo circrrnclante. Logo, não é o verismo da representação '/lt(lo paÍa lideraq o ser humano demanda unidade interior
tlrrt' l.roclc suplantar esta dificuldade, se nele subsistir a inten- r' .srrúde mental, enquanto do proletário, para cumprir sua
<-;ìo cliclíttica, mesmo que tenha em vista a denúrncia social; rrrissão, são exigidas confiança na classe dominante e saúde
<rrr sc.ia, se nele vigorar a primazia da palavra adulta sobre o
lísicur. Portanto, o recebedor que solicita o tipo de suporte
intcrcsse c1o leitor. Por essa r^zão, a plena realização literária (luc o livro pode oferecer provém da burguesia, o que ex-
sigr-rifica a superação do dilema realismo X fantasia, assim
r lrri o interesse e a necessidade de representação dos males
colÌìo da assimetria, proveniente da supremacia da pro- soc^iais. Circunscreve-se o último limite de literatura infantil,
ch-rção adulta sobre a recepção infantil. O escritor precisa
ricluclo, como os outros, por sua condição histórica e função
considerar a peculiariclade da criança e recorrer à adaptação;
social, fatores que, se estão na raiz de seu nascimento, for-
esta, porém, não pocle gerar ingenuidade ou impostura, pois
rrram igualmente as barreiras de que se deve liï>ertar, para
os valores exigidos dela são idênticos àqueles que contam
:rtingir a plena realização artistica e a autonomia.
para avaliação do universo literário destinaclo aos adultos.
^ Reproduz, assim, de certo modo, a situação de seu lei-
Todavia, no debate realismo X fantasia, uma outra acll- (or, não por incorporar as qualificações de menoridade ou
sação sempre pesa: a de que inexiste a representação dos
iníèrioridade, mas porque, para ambos, urge o rompimen-
problemas sociais e, sobretudo, das classes populares.2S A
lo do círculo de giz da dominaçâo burguesa que, por inter-
rnédio da ideologia da superioridade adulta, decreta sua
28 Cf. po. exemplo IEESON, Robert. Cbilclren's books ancl class soci-
submissão e manipula seu descrêdito. Desvenda-se a uto-
eIy. P^st and present. London: \{/riters and Readers Publishing Cooperative, pia do gênero, que assinala, por outras vias, seu ftrndamen-
1976. p. 12:_"Milhões de crianças da classe trabalhadora sabem, a partir da
Io lrumanista e a eventualidade de uma índole progressista,
experiência pessoal, o que tal vida pode envolver. Mas, para os propósitos
dos livros infantis, elas positivamente não existem." Ou: "A classe trabalha- voltada à abertura de novos horizontes, dentro dos quais
dora vista de dentro, a fim de dar às personagens a dignidade de uma exis- cla pode mesmo desaparecer, assim como a condição de
tência integral, é uma das maiores raridades em livros infantis" (id. ib., p. 38). pLrerilidade atribuída a seu recebedor.

5B
59
A LITERÃTURÃ IÌVFÃÏ{TIL
ET{TRE O ÃDULTO
E A CRrÃNçÃ
,'t 'r'|ìAIÇAO ÃO LEITOR

tJrna reflexão sobre natuïeza da literatura infantil não


,r lt' ^
vir separada da considcração sobre o estatuto de sua
1 'r
r..rir. A configuração desta última em livros científicos data
rlr't''lX)Ca recente, mas, se se tomar em conta sobretudo o
rrr,rl() como o texto infantil é recebido no lar e nas escolas,
r',trr ó', uma cefia prâtica, podemos estabelecer seus princi-
1
que
,.ris critérios. Nessa medida, verifica-se que a concepção
(,'r(:ì literatura infantil é, como sugere a expressão de
1r
Nl.rlil Lypp, "adultocêntrica".1 Em outras palavras, embora
',t j:r consumida por crianças, a reflexão sobre o produto
,
'lcleciclo a elas provém do adulto, que a analisa, em pri-
nrt'ir.() lugar, de acordo com seus interesses e que, além
,li:;to, a descreve em comparação com o tipo de arte posta
,r tlisposição dele, qual seja, a literatura propriamente dita,
:,t'rrr adjetivos.
Conseqüentemente, embora o proclutor do livro infan-
Iil scja o próprio adulto, o objeto produzido é visto, anali-
:;:rrlo e classificado em analogia a seu consumidor, o leitor
rnil'irn. Conforme Maria Lypp adverte, temos que "a menori-
,l:rclc clo recebedor é transferida ao procluto literário".2

1 LYI'R Maria.
Einleitung. In: L\?P, Maria (org.). LiteraturftirKinder.
{ ;()ttingen: Vandenhoeck und Ruprecht,7977. p.8.
2 Icl., p. a.
-E

'll:rrrsÍì)nÌÌ.rcla t'xcrcicizt no lar e/ou na escola, o que garantc .suir n(.(.(,:,:,1


num gênero menor, ela absorve aindt o carâ-
It'r' prrrvis(rrio da própria infância, tornanclo-se uma espécie rl:rclc e importância no seio cla vida social. Por cs.s:r tìrc;nr.t
r lr' ":rinclzr não literatura" .3 r;tt.:\o, o não-preenchimento de algumas dessas lirr'ìç.,.rt.s,,rr
A natureza ideológica dessa tomada de posição evi- ,lt'todas elas - seja porque a criança não lê, prcíi'rirrrltr
<lencia-se de imediato, pois privilegia uma modalidade de lrlinc;ìr, ver televisão etc., seja porque certos text<ts s:rrr
, , rrrsiclerados nefastos
litcratura em detrimento da criação para crianças, mimeti- - pode desencadear a polêmiclr c rr
zrtnclo a primazia atribuída à iclade adulta em comparação l,rrsca cle uma correção de rlÌmos, visando à reintroclrrç:lì<r
coln o período infantil. Todavia, se a literatura correspon- ,1, r Irítbito da leitura, pesquisando-se novâs linguagcrr^s,
(lcnte a essa faixa etâría tem sua importância estética dimi- r('.rvlÌlianclo-se o poder de alcance do gênero artístico. l)c
nuída, é-11-re atribuída uma função social qlÌe a torna im- ,;rr:rl<1uer moclo, nesta segllnda acepção cla literatura infun-
prescindível e que até mesmo decretou seu aparecimento: til, srrlienta-se a contrapartidzì da proposição anteriormentc
c:rbe-ll-re um papel preparatóÍio, isto é, tem uma missão IrvrrlrÌ: apesar c1e ter carâter provisório e ser uÌn tipo clc
formadora que pode ser examinada em dois sentidos: l,rorlrrçiro menor, espeihando a condição de seu leitor e
l,t nr'í'iciário, o texto para criançes pode atuar sobre ela,
a) incute na criança certos valores, sejam eles de natu-
r, llt'tinclo neste caso a perspectiva do adulto, mesÍìo quan-
reza social ou ética (ou ainda, ambas), não cabendo neste
,1,r t.stc tern em mente o interesse (atual e/ou ftrturo) clo
momento investigar se estes valores são convenientes à so-
r, ,,'lrcclor. Nesse sentido, senclo "adultocêntrica", a teoria
ciedade (vale dizer, conformativos) ou ao desenvolvimen-
,l.r lilet'lÌtLlra infantil evidencia a contradição que esta situa-
to intelectual e psíquico do leitor (isto é, se colaboram na , ,r,, llrc transmite: visanclo manter os privilégios do adulto,
emergência de uma visão de munclo autônoma e inqui-
r I'rotlrrção para crianças tem seu valor diminuído; porém,
ridora);
b) propicia a acloção de hábitos, que podem ser de l','r t'sl1Ì fÌesma razão, tudo o qlle se espera dela é o qlÌe
,'.r(lult() ali deposita, isto é, seus valores e hábitos sociais.
clois
i lr",:,.r lÌlcclicla, ela manifesta antes de tudo os interesses dos
- c1e consumo, incluindo-se aqui a freqüência ao texto rr,,u'; vcll'ìos, e não os do universo infantil, de modo que,
literário, ao estimular a aquisição de livros com certa cons-
tância e a leitura permanente; ' ir.r :rlsLrma analogia a estabelecer, ela está entre o gênero
lrr, r.rrio clirigido à intância e a organização cla sociedade
- de comportamentos socialmente preferidos, visto , rr ',u;t totalidade, conforme os maiores a concebem.
que igualmente neste caso estes modelos atuacionais cor-
l'ol tudo isso, a produção de uma teoria da literatura
respondem a variadas possibilidades, que se estendem cles-
rrrl,rrrtil clcve evitar a circunscrição à óptica adulta, na qual
de a adoção de boas maneiras até o estímulo a uma ativi- r,,'l.r :r ;tnntazia lhe é concedida, pois é o sujeito da pro-
clade de questionamento das bases de organização cla ,irr,.Ìrr, tlo consumo (uma vez que são principalmente os
sociedade.
t. il. ,llt(' c()mpram os livros, os professores que recomen-
Em todos esses casos, atribui-se uma tarefa eclucativa ,lu,ì ,rì lcituras etc.) e da recepção de seus próprios textos.
à literatura infantil, complementar à atividade pedagógica , ',r nrr'llror-, cabe o exercício de uma reflexão que verifique
., ' l.rlos cle tal pafiicipação e mostre a posição ocupacla
3 t.1., p. s 1,, lr , ri.rrr(,'lr dentro deste processo particular de circulação

- -'6í"*'-"-,
iÍ-; ::,'ii,"l*lìs t

;
&illrjl *i"iii:,i ï*j]ii
rlt'irlt'ologir.Ìs, porque é ela que dá o nome de que êtão- Em razão de tais fatores, a condição pzrssugcir':r rkr lr,i
..;ornt'ntc o beneficiário e objeto de manipulação. l<rr é absorvida pela literatura, que setorna in.stírvcl, tìr.t r,r;
tÌccebendo tal designação de seu destinatârio, a litera- r;itu adequar-se aos interesses diferenciados de proclrrr';i<r
tru'rr inÍhntil debate-se de imediato com dr-ras dificuldades: (luc a cercam e, ainda, deve estar conforme as lnucllrrr('lrs
rr primeira delas diz respeito à transitoriedade do leitor. tle toda a aÍte arte literâria.
Alrrangendo tudo o que é produzido para pessoas de até A segunda dificuldade advém de sua unidireci<>nlli-
rrrais ou menos 12 anos, a literatura infantil deve ir se modi- rl:rcle, uma vez que é produzida apenas do adulto pztre l
Íicanclo à medida que evolui a criança, até perdê-la por t'r'itrnça, e não o contrário.
completo, fenômeno paralelamente vivenciado pelo pró- Em virtude disto, Meria Lippi assinala que há uma assi-
prio leitor, que vai aos pollcos se afastando do produto a nrctria entre o emissor e o recebedor na origem dessa mo-
cle oferecido. Essa índole passageira do gênero determina .l:rliclade de obra, o que somente pode ser superado pela
suzì temporalidade, o que se relaciona, de um lado, com a irìtrodução do conceito de adaptação. Nessa medida, como
condição de seu recebedor e, de outro, com a própria natu- :rlilma Gote Klinbetg,6 a adaptação não cliz respeito uniczr-
reza histórica da faixa eÍâria a qlle se destina. A compreen- rrrcnte aos textos clássicos que foram reelaborados para as
são cla infância como um período existencial diferenciado e criunças sobretudo no século XVIII, mas pertence à índole
passível de uma abordagem pela pedagogia provém de r l:r.s criaçôes a elas destinadas. Por sua vez, esse fator un!

èpo.n recente, mais precisamente da Idacle Moderna.4 Essa tlirccional é o que determina a preocupação com a trans-
temporalidade particulariza-se do seguinte modo: nris.sho de normas, eue tanto podem ser de tipo social,
( ( )rÌro as anteriormente descritas, qllanto estéticas. Portanto,
a) a literatura infantil apresenta um tipo de evolução
histórica determinada pelas modificações que sofreram as (' rìcsse momento da leitura que se assiste à gênese clo "hori-
concepções, respectivamente, da infância e do tratamento zr >nte de expectativas"T do leitor, de modo que se explica

(peclagógico) desta faixa da existência; ,r clrrpla inquietação que assola os educadores que lidam
b) outro tipo de modificações decorre das transforma- t orn arte literâria para crianças: de um lado, com a for-

ções vividas pela literatura e que repercutem nas obras rn:rç-iro dos hábitos de leitura; de outro, com o consumo de
infantis, em termos de novas técnicas, temas e meios mate- t('\tos de reconhecido valor estético, esperando construir,
riais originais de transmissão artística; t ()rtt cstes recursos, um dique de proteção contra as histórias

c) o que lhe é mais particular diz respeito à evolução , rrr cluadrinhos ou outros produtos da indústria cultural.
interna que o gênero sofre, na medida em que deve acom-
panhar as mutações etárias por que passa seu recebedor. 5 Cf. fVfq Maria. Asymetrische Kommunikation als Problem mo-
,k rrcr Kinderliteratur. In. KAES, Anton; ZIMMERMANN, Bernhard (org.).
I ttt'tirljtrrt'ir Wcle 1. Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1975.
4 Cf . o propósito FIASS, Gerharcl. Einleitr,rng. In: HASS, Gerhard. o C. XtINBenG, Gote. Kinder- uncl
Jugendliteraturforccbung. Eine
(org.) Kinder-und JugendlitercttLr. Zur Typologie und Fr"rnktion einer I rrrÍiìlrrung. Koln-\7ien-Graz: Bôhlaus'üíisseschaftliche Bibliotl-rek, 1973.
Literariscl-ren Gattung. Stuttgart: Reklam, 7976.e RICHTER, Dieter. Til 7 O termo é empregaclo no senticlo que lhe clá Hans-Robert
Jauss.
Eulenspiegel - der asoziale Held und die Erzieher. Kindermedien. Cf.: JAUSS, Hans-Robert. La historia de Ìa literatura coilìo provo-
Ásthettik uncl Komunikation. Berlin: Ãsthetik und Kornmunikation ,.rr'irln de la ciencia literaria. In: _. Ia literatura como prouocación.
Verlag, n. 27, abril de 1977. IÌ,rt t:l<>na: Península, 1976.

66 o/
l'.nÍ'irn, cste caráter unidirecional reproduz, no plano ,r,r lìumano, e não à singularidade individulÌI, rì:r litt.r:rtrrr,r
t't;rlio, um conflito de tipo social: a oposição adulto X cri- rnlìrntil, esta inclinação ao universal se torna a corrcliq.;ro tL,
rrì(':r correspondente aos modelos opressor X oprimido e :,u;r .sobrevivência e autonomia. Por isso, o val<;r litt.r.;rrr,,
l)rl)clLrtor X consumidor, cabendo à criança o papel passi- l,r()-.somente emergirá da renúncia ao normativo, o cprc ilrr
vo, .situação qlÌe somente abandona na adolescência, quan-
;rlit'rr abandono do ponto de vista adulto, ampliaçlto clo lrr r
cl<r não mais absole literatura infantil. Este fato dâ a tal !rr()rìte temático de representação e incorporação clc rrrrr:r
clicotomia uma natureza de certo modo estática e, por esta lrru3tragem renovadora, atenta ao discurso da vangu:rr-cl:r, :rs
rìÌcslÌìa causa, contínua e permanente. E a necessidade de rrrocluliclades da paródia, enfim, acompanhando a evoluç-rìo
luclárptâção que pode levar o adulto a sLlperar tal posição de tl:r rrlte Iiterâria, que se dá sempre colno ruptura e nào c()rìì()
sr-rperioridade, porém igualmente essa é uma decisão uni- , ,l rcrliência.
latcral, do que resultam, outra vez, os dois aspectos ressal- Se a literatura infantil revive os mesmos problernas clc
tados anteriormente:
l,rorlr-rção que envolvem toda criação poética, encarir-llr
a) a literatura infantil orbita na esfera do adulto, como, { | )nìo LÌma área menor da teoria e da prâtica artística signifì-
antes de rnais nada, se encarada do ângulo da pro<lução, , ,r irnorar seus reais problemas em favor de um propósito
um problema dele, e não da criança; , litiste, qlre tem como meta garantir a primazia da condiçã<r
b) esta, a rigor a principal interessada, localiza-se fora ,r,lrrltu. E significa ignorar tarnbém os reais problemas cla
de tal processo decisório, o que reforça a situação pouco lrroyrlirÌ teoria literârie, na medida em que a literatura infan-
atllante que previamente ocupa em olÌtros setores da vida rrl oÍcrece um campo de trabalho igualmente vâlido, ao
social (familia, escola etc.). r,'pnrcluzir, nas obras transmitidas às crianças, as particula-
É desse fato que advém a questão mais problemática rrtl;r<lcs da criação artística, que visa à interpretação da exis-
envolvendo a modalidade literária aqui discutida: é que, r, rrt'irÌ que conduza oser humano a uma compreensão
provindo de uma tomada de decisão da qual a criança não rrr.ris rrrnpla e eficaz de seu universo, qualquer que seja sua
participa, mas cujos efeitos percebe, a literatura infantil po- r,l.rtlc ou situação intelectual, emotiva e social. Assim, é
de ser considerada uma espécie de traição, uma vez que ',rrrlì('r'ìte quando a meta se torna o exercício com a palavra,
lida com as emoções e o prazer dos leitores, par^ dirigi-los rlu(' () texto para a infância atinge seu sentido autêntico,
â Lrma realidade que, por melhor e mais adequada que seja, ,1r;rl scjzt, como escreve Kurt Werner peukert, ,,a expansão
eles em princípio não escolheram. Nessa medida, a litera- ,l.r t lirncnsão de entendimento da criança,,9 e, por extensão,
tura infantil somente poderâ alcançar sua verdadeira ,1,' toclo e qualquer indivíduo.
dimensão artística e estétice pela superação dos fatores que
intervieram em sua geração.
Se a propalacla universalidade da arte provém dessa
circunstância, to que aponta a hermenêutica dos fenô-
menos literários,B ao ver no simbólico aquilo que pertence

B Cf. a propósito cla hermêutica clo texto GADAMER, Hans-Georg. ') l,liUKERT, Kurt rüíerner. Zur Anthropologie cles Kindersbucl-res.
Verdarl y método. Salamanca: Sígueme, 7977. E RICOEUR, Paul. Inter- irr ttÂÂS, Gerhard (Org.). Kinder- undJugendliteratLff. Zvr Typologie
prelação e icíeologias. I{io de Janeiro: Francisco Alves, 7977. , rr r, I tir nrl<tion einer literarischen
Gattung. Stuttgart: Reklarn, 1976.

6B
69
,,r,l;rs 1ro alcance da ascendente popuÌação urltunlt. l)isso
,l.r'trÍr'clr uma democratização do saber, mas iguullrre'rrlt'
rrrrr:r <'i.siro no interior das produções estéticas: de unr l:r<lo,
.r,.,rllllrs qlÌe conservam os atributos de arte, sem se clllrc'-
ri,f r('rìì lì sedução do consumo fâcll; de outro, a churnlrcl:r
'', rrllrrrÌ cle massa", destinada às muÌtidões,
ao responclcr ir.s
A PERSPECTIVÃ DO LETTOR ',rr.rs rlcrÌlandas c1e estímulo à emoção e abandono cla prco-
, rrlr.11.'i1; com a noviclade formal ou o questionamento cl:t
Afurtção social da literatura só se faz maniíesta na sLtcl , '.i:,ri'nci:r. À primeira vista, a elevação quantitativa clo pú-
genuína possibilidade ali onde a experiênciít literaria do
l,lrr r r niro determinou a melhora da qualidade, uma vez qLte
leitor entra no borizonte de expectatiuas da prática cle vm uida,
i ì rrl('r'c.sse em motivar a aquisição permanente ocasiona :r
pré-forma sua compreensão cle munclo e com isto repercute
tantbém em stLas forntas de comportamento social. l '( ,rr( :Ì clurabiliclade do objeto; dai a transitoriedacle atribuí-
,l.r ,r <'rrltura massificada, de modo quc os extremos Íepre-
Hans Robert Jauss
',, rrr:rrl()s por grande número cle obras e pequeno valor aca-
l,,rr,rrrr por se tocar, causa do desprestígio dessas produções.
A literatura infantil integra-se a este movimento, na
rn,,litl:r cm que foi a qualificação de determinado tipo de
Raramente algum tipo de arte se define pela modali-
,
',nr.rlÌìiclor que justificou sell aparecimento. Contudo, a
r',rrr 1;1'limita a aproximação, uma vez que o objetivo pri-
clade de consumo que recebe. No âmbito da literatura, o rrr.rrlill clo gênero não é estimular o consumo, nem sr'la
elemento de ordem diferencial é atribuído à linguagem r,,r t'11.,;iis decorreu do processo de industrialização qr-Ìe a
(poesia X prosa), aos rnodos de representação (narração X
lrrr.1:xr sofreu ao longo do século XIX.10 Além disto, ao
cliálogo) ou ainda ao assunto: relato policial, romance de
tese, tragêdia. A originalidade dos textos para crianças ' ,,rìÍrlirio cla literatura trivial, qlle se dirige a qualquer públi-
, r, r' rììo impõe restrições desta natureza, os textos para cri-
advém do fato de que é a espécie de leitor que eles espe-
rrr,. :rs clesignam antecipadamente seus recebedores, não
ram atingir o que determina sua inclusão no gênero desig-
rr,, r'ssit.Ìndo lançar-se à caça de mercado, nem lhes caben-
nado como literatura infantil. Assim, ela se originou do
aparecimento deste público, vinculando sua história e trans-
formações às mudanças por que passaram o tratamento e a
compreensão da infância nos últirnos 250 anos. l0 A. literatura infantil originou-se da valorizaçâo que recebeu a
O crescimento e a diferenciação dos públicos leitores rrrl,rrrr'i:Ì a partir do século XVIII e da necessidade de educála, o que,
associam-se ao pÍocesso de industríalização da cultura que tì,,r r,u;ì vez, decorreu da centralizaçâo da sociedade em torno da família
1,rrr1,111'511. Este processo, conforme expõe Lawrence Stone (Tbefamily,
acontece a partir do século XVIII. Com o desenvolvimento
, t ruÌ(l tnctriageinEngland 150O-180O. London: Pelican Books, 1979),
dos meios de reprodução mecânica, o aumento dos grupos rr r, r Íoi trrn:r conseqüência tão-somente da ascensão do capitalismo e da
alfabetizados e a necessidade de estímulo ao consumo, as rrr,lrr,,tli:rlização. Da mesma maneira, não é unicamente o recurso ao
criações artísticas passíveis de rnultiplicação foram colo- ,,,'rrirrrrico que explica a origem do gênero para crianças.

70
,h rr'orrrpctir colÌf outros prodlltos que se valem igualmente r.rtllts por meninos colno Tom Sawyer, meninlts t'olttt I r\ltt r',
,l.r p:rl:rvla. 'fendo de antemão assegurado seu leitor e ,rrr l>onccos humanizaclos, imitando criançâs, c()lìì(t l'ilto
,lt'vt'nclo-lhe slÌa existência, as histórias infantis obrigam ,;rrio. Cresce o número cle obras, sendo Alice no fxrrs tlrtt
rì('('cs.siÌriáÌrnente à consicleração teórica cle sua relação com tttttrutuilbas, As auenturas cle Huck, Os nenês d'ítgttrt, ,l:
o clcstinatário. nt('tÌiLr.AS exemplares, O magico de Oz, Peter Pan :tlstttt';
Se à literatura infantil não cabe disputar uma fatia do r('l)r'cscntAntes mais conhecidos dessa categorir.
rrcrcaclo cultural (embora atualmente sofra a concorrência A centralização da história na criança provocolÌ oLrtrlts
rlc outros meios de comunicação e informação), ela ainda rrrrrtl:rnÇas: a ação tornoll-se contemporânea, isto é, datacle,
jrrstific:r sua existência por ocupar uma função determinacla ,' ,,.'rr clcsclobramento apresenta o confronto entre o mttncl<r
na vicla infantil: orientar sua formação. Assim, o mais im- ,1,, lrcr-(ri e o clos adultos. Desse modo, o leitor encontra Llm
portante não é estimular a aquisição de textos e impul- , 1,, visível com o texto, vendo-se representado no âmbito
sionar a inclírstria do livro (apesar de este fator estar igual- lr, , ir rnnl. A nova orientação foi bastante fértil, iâ que a tra-
lÌrcnte presente), e sim propiciar à criança um conjunto de ;, t.rir posterior da literatura infantil demonstra a inclinação
normas cle comportamento e meios de decodificação do t, ) :rl)r()veitamento do universo da criança ou de heróis que
lÌrlÌnclo circundante, integrando e adequando o leitor :r ele. '.rrnlroliz:.tm esta condição (animais, preferenternente). O
Há, pois, um dirigismo patente na obra, que também cabe r,lrrllo não se viu banido do texto, pois os livros de aven-
lcvar ern conta, quando da abordagem da relação do texto rrrr.r:; cr)ntinuam a atrair o leitor juvenil; porém, teve sua
corÌ selÌ leitor. Legitima-se a opção metodológica voltada à rrrr;,ollância restringida no conjunto do gênero, fato que
investigação dos processos de recepção do texto infantil, r',.rrr:rll a ascensão do adjetivo infantil como próprio à
na suposição ainda de que poderá favorecer uma reflexão r r.rrr n('z:r desta modalidade literária.

sobre o carâter ideológico da literatura par^ crianças en- I)ccorre clesse fato uma indicação de ordem metodo-
quanto introdutora cle normas do mundo adulto no âmbito l,,r,rt :r: ó preciso que se examine em que medida são os inte-
cla infância, revelando o lugar social do gênero. r{ . .('rì clas personagens que saem valorizados no transcor-
r, r ,l,s cventos narrativos, averiguando se os livros falam a
lrruirr:rr1cr.tt de seus leitores, oferecendo â eles um ponto de
A Represent ação ãa Críança ' 'rt' nl:l('ato e entendimento diante de sua realidade
existen-
' rrl ,' tlo zrmbiente dominado pela norma adulta.
utilização de personagens crianças na literatura
A
infantil não tem a mesma idade do gênero. Os primeiros
livros escritos para a infância continham contos de fadas, t I 11r.i,(it'o de Oz, de Frank Baurn
aclaptações de obras destinadas a adultos, como Robinson
Crutsoe e Viagens de Gulliuer, ou ainda narrativas moralizan- t I livro de L. Frank Baum apareceu em 1900, e selt
tes, como as de Madame Leprince lleaumont (mais conhe- ,r, { ,:'() l)rovocou a continuação dos episódios, dando se-
cicla por um conto que escape a esta classificação: 'A bela ,t,,{ n( i:r lì trajetória de algumas personagens (o Homem de
e a fera'). A modificação ocorre na segunda metacle do I rr r, pol ex€fiìplo) ou à utilização do mesmo cenário - a
século XIX, quando as histórias passam a ser protagoni- r, (lc Oz, a Cidade das Esmeraldas - para novas aven-
'.r
73
Iur;rs. lÌ.scritos os quatro primeiros entre 1900 e 1!10,11 :,c^14rrnclo passa a governar os Pisca-PiscáÌs c o rrltilrro, ,r
li;rrrrrr tcntolt encerrar a série neste ano; mas foi impedido t,itlucle das Esmeraldas. O retorno cle Dorotl'ry sul)()(' unr
l)()r'sclrs leitores, o que o levou a prossegui-la, atê a sta ,rlr:rnclono de Oz; por isso, é o mais complexo. No crrl;rn
rìì()t1c, em 1919. t( ), scgllndo ainda a tradição da história de aventurÌ.s, rììirr
A personagem central da narrativa não é o mágico, t('nÌ-se como motivação para o prosseguimento clx ir('i(),
rr:rs Dorothy, LÌma menina qlle mora em Kansas, com sells rluc somente se encerra quando o autor explora os ([ulrtr'()
lios, e vem a ser transportada por um ciclone ao Reino de (.uìtorì de Oz e todos os seus diferentes povos.
()2. Ao chegar lá, descobre que o mágico, que governa a O desdobramento do relato está fundamentaclo rx)
Ciclacle das Esmeralclas, pode ajudâ-la a voltar para casa, ,1,'slocamento no espaço; contudo, o problema dos her(ris
.scu principal objetivo. Durante a viagem, encontra três ami- t :,t:i clentro deles. Com efeito, todos eles possuem clescle o
Ilos, o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde, que rnrt'io as qualidades que almejam: não apenas os amigos clc
csperam também que Oz possa resolver slÌâs respectivas |)()totlÌy são corajosos, inteligentes e generosos, como ela
clificuldades. As aventuras por que passam podem ser divi- 1'rr'rlrrizr recebe, assim que apofta emOz, os sapatos mági-
clidas em três seqtiências: r { )ri (ple lhe permitirão retornar a Kansas. Portanto, a tra-

;r'tr.rlirr deles por toda a nação de Oz visa não apenas


- a viagem atê a Cidade das Esmeraldas, após a destrui- ,1,':;t'nvolver um modelo de narrativa de aventuras, mas
ção da Bruxa Má do Leste e a libertação dos anões, quan-
clo Dorothy, acornpanhada cle seu câo, encontra os amigos; ;,, ,:;silrilitar o desdobramento das virtudes que as persona-
ri,'rrs previamente têm, mas não sabem e não as vêem reco-
- a viagem até a Bruxa Má do Oeste, a fim de destruí- rrlrt'r'icles pelo gmpo. À medida que a ação evolui, dá-se o
la, por ordem do mágico, e a volta à Cidade das Esmeral-
das, com a concessão das recompensas ao Leão, ao Lenha- .r',:,rrrrìir dessas qualidades interiores, como se pode ver
dor e ao Espantalho; .rl r,rix<l:

- a viagem até a Brr.rxa Boa do Sul, Glinda, que indi-


ca o caminho de casa a Dorothy e distribui seus compa-
nheiros pelos diferentes reinos de Oz.
A seqüência de viagens, própria à nanativa de aven-
turas, é motivada por uma busca por parte cle cada perso- viagem de Kansas à Cidade
nagem: Dorothy almeja a volta à casa, tendo perdido os clas Esmeraldas

meios para isto; o Leão, o Lenhador e o Espantalho querem viagem ao Oeste e à Cidade superaçâo da carên-
ganhar respectivamente coragem, coração e cérebro, cuja das Esmeraldas cia por parte do Leão,
conquista lhes permite alcançar um lugar político no mun- olltra vez do Lenhaclor e do
do de Oz: o primeiro acha seu reino entre os animais, o Espantalho

viagem da Cidade das superação da carência


71 Thn wonderful uizarcl Esrneraldas para o Sul: por Dorothy. Todos
of Oz ê. de 1900; em 7904, Baum publi-
volta de Dorothy para casa encontram seu lugar
ct Tbe land of Oz: em 1907, Ozma of Oz e, em 1910, The Esmerald City
of Oz. social

/4
() n'útgico de Oz narra, pois, o encontro de cada um rÌlenti-las, sem revelar o que está fazendo, corìì() sc ;xrrlt' v|ri
<'on.sigo mesmo e o reconhecimento do grupo. Cabe veri- Íicar:
Certa ocasião, porém, o Homem de Lata esrììug()r.l r'r'ur
Ii<:ur,pois, como estas duas descobertas são tratadas pelo (prerer um besouro, e ficor-r mr-rito infeliz, derrantanclo rlrr':rrrtt'
nurrzrclor tanto no desdobramento da açào quanto na uti- elgum tempo lágrimas de tristeza, tantas que acabaram lhc t:nÍì'r
liztrção dos recursos do relato. rtrjando as dobradiças do queko. (p. 45)
A carência vivida pelos agentes diz respeito à ausên-
cláÌ de uma qualidade que cada um julga imprescindível. tÌelativizada a palavra das personagens por sua açã() c
Ela pode ser expressa pelas personagens: pcllrs inclicações do narrador, o texto cria um universo clt:
:,u11cstÕes que demandam a interpretação do leitor. Estc
- Estamos a caminho da Cidade das Esmeraldas, para falar It'r;i cle reconhecer, antes de todos, que as personagens
com o Grande Oz
- respondeu Dorothy. - Paramos em sua 1,ossuíam de antemão o que buscavam, faltandolhes ape-
cabrne para descansar.
rr:rs u autoconfiança adquirida após o segundo encontro
- E o que desejam de Oz? (()rìì o mágico. De modo que a ação do leitor passa a per-
- Eu, voltar para Kansas; ele, um cérebro.
- Será que Oz pode me dar um coraçâo? l('n('er ao relato, já que a necessidade de reconhecimento
- Acho que sim - disse Dorothy. - Deve ser fácil para ele.72 r'r rc irrl é tematizada no livro. Além disso, na medida em que
:,(' l)ropicia a identificaçào entre a criança e os heróis, uma
ou reforçada pelo narrador: \,('z (lLre estes simbolizam as dificuldades pessoais dela, o
livrrr confere ao narratâtio um importante espaço em seu
Quando se aproximavam dum buraco, Totó o transpunha irrlt'ri<rr; e lhe oferece meios de reflexão sobre sua
num salto, Dorothy o contornava, mâs o Espantalho, sem cére- ^inda
, orrclição, enquanto ser carente de autoconfiança e na
bro para raciocinar, seguia em frente, tropeçava e caía (p. 30).
I'rrsclr do reconhecimento pelo grupo.
Todavia, acaba por ser desmentida pela ação dos heróis: A formulação de uma auto-imagem encontra reper-
r rrsslì<) no leitor, de modo que a ele caberá uma tomada de

- Tive uma idéia: se eu for com você até a Cidade das 1rr rsiç'rìo diante dos agentes e de si mesmo. E a narrativa
Esmeraldas, será que o Grande Oz me dará um cérebro para pen- :,urì('rc ainda que recursos cada um tem para refletif sobre
sar? (p. 28) :;r rÌìcsrno e o outro: diz respeito à obserwação da ação. São
Quando o lenhador conseguiu movimentar-se livremente, ,u; :rtitudes dos heróis que revelam que nada lhes falta,
não se cansava de agradecerlhes. Parecia muito bem educado, e
depois de finalmente esgotada sua incomum capacidade de gra.
Iliiliruando-lhes a concessão de um alto posto na comuni-
tidão declarou. (p. 37) ,l.rrlt'. Portanto, o narrador se submete à decisão de todos,
O texto desautoriza a palavra do narrador, porque este rvil:rnclo interpretar antecipadamente o que acontecelr com
pode reforçar a noção qÌle as personagens fazem de si ou des- ',t'rrs heróis.
Sito as personagens Leão, Homem de Lata e Espan-
12 BAUM, L. Franck. Tbe uonderful tuizard of Oz. London: Denr, t:rllro que encaÍnam a busca de identidade, encenando o
, orrÍ'lito que se passa na intimidade; sua configuração sim-
1975. A citação provém, assim como as seguintes, da edição brasileira:
BAUM, L. Frank. O má.gico cle Oz.'[ra.d. de Paulo Mendes Campos. Rio I'r,lic'l legitima a forma não humana deles, possibilitando
de Janeiro: Tecnoprint, 1969. p. 23. (
lu('scja avaliada como projeção da interioridade de Dorothy
( )u (l() lcitor. Por sua vez, ê a menina que representzÌ o ,.r,zinh<> pleto, cle pêlo comprido e sedoso, ()llìos t':;t rrr,,,,
1i('rìcr() humano, acompanhada do Grande Oz, o que os , trìiri(l()s qr-re piscavam alegremente, corn o qual l):ts.s:lv,l
corìvclte, diante do número cle personagens não humanas ,l t( nìlx) brincando" (p. 12).
clo livro (fadas, bruxas, anòes, animais), num subgrupo à I'.rrrbora essa vida não seja muito emocionul'rtt', t'
l)1Ìrtc. Essa caracterização se complementa por outros dados: rÌì{':,ilì() e áÌlneace de tOrná-la CinZenta e Calada coÍÌl() ()s
nito são originários cle Oz, e sim dos Estados Unidos; e per- rrrr,,, ('tì'ì nenhum morTìento a menin:r cogita em ficar crrr
tcncem a um tempo (fins do século XIX, época de expe- i ).' l)t'scle que chega, quer voltar para LL fazenda, diriginckr
riências com balÕes) e espaço reais (Kansas e Omaha), r,,, l.r:, rrssuas ações para este alvo. Sen perclÌrso diviclc-sc
tendo uma condição familiar e faixa etária determinada '.r', \,i:rlclls antes mencionaclas, coinciclinclo, cacla uma delas,
(criança e velho). Os clemais vivem em Oz e estão total- 'rìr :r clcstruição de uma entidade mágica:
mente integrados a esta nação, oncle não se percebe a ) primeira viagem -> destruição da llruxa Mír do Leste
:r
ação do tempo e a estrutura monárquica lembra a do mun- lr) scguncla viagem -à destruição da Bruxa Mír do Oeste
do dos contos de fadas, justificando o aparecimento das , ) (crceira viagem -+ destruição clo Mírgico de Oz
enticlades sobrenaturais, os deslocamentos fantásticos no lrrnlrctra o írltimo vilão não seja caracterizado como um
espaço e zr convivência harmônica entre o reino animal e nrrrr t'lc'rÌlento, sua vigarice coloca-o ao lado das Bruxas
o humanizado. ,,tr'., :r (lllclrÌ teme. Essa qualidade explica seu alinhamen-
Sendo a única personagem com atributos contemporâ- r., ( ( )ÍÌl lrs feiticeiras, eliminadas pela ação voluntária ou
neos e verídicos, Dorothy é o ponto cle entrada e vivência rr i,, rlt' I)orothy. Por sua vez, evidencia-se por que a meni-
do texto. Seus companheiros comportam conotação simbó- ,,ì ,,r uptr o lugar de herói no relato: nâo rpenas sujeita a
lica que personifica os conflitos interiores do destinatário; , ,' , ,,rrìlutdo a atividade dos companheiros, como também
mas a menina ocupa o lugar do herói, conteto fundamen- ,1, .r rrrri rlo poder as figuras malignas e colabora decisiva-
tal entre a realidade e a magia, entre o leitor e o livro. Con- ilr' !ìr('l)lrr1Ì a instauração de uma ordem positiva ern Oz. É
tudo, não solrÌente sua condição humana assegura-lhe este ,rrr,Lr rlrrcm orienta a ação em direção ao munclo adulto,
privilégio; é que a focalização do texto provém dela, e o , r,lu.uìt() os demais buscam uma auto-imagem no âmbito
narrador incorpora em quase todos os momentos do relato 1,, , ,, ,.r1, c ô capaz de instituir sua lei em meio dele. Enfirn,
seu ponto de vista, completando o esforço de relativização .,,' .rrlt:rrl<t cle seu empreendimento não se esgota na rein-
cle seu papel narrativo. r,,,, lrrr.:ro (llÌ ordem de Oz; produz também uma dessacra-
Nessa medida, cabe verificar a trajetôria da menina. li.r,,r,r tlo meio, ou melhor, exorciza as entidades malé-
Expelida cle casa por um ciclone, suas aventuras visam ao ' ,,1 r . l)('ssc modo, embora menos poderosa que as Fadas
retorno à fazenda, onde vivia com seus tios Henry e Em, l,' ii,rr('c clo Sul, é ela quem destrói as Bruxas do Leste e
"num longínquo recanto duma das grandes planícies de It i'scu cão que clesmascara o mágico, revelando sua
Kansas, no meio dos Estados Unidos" (p. 11). A residência irrrlr...trrr.:r. Ao final, é responsável pelo cleslocamento do
com os tios, numa pequena casa bastante afastada da civi- r,,', 1,,, (luc vem a ser exercido por pessoas boas, como o
Iização, devia-se ao fato de ter ficado órfã; sua vida era bas- i, rrlr.r,Lrr c o Espantalho, sucedendo-se, por isso, a substi-
tante solitária e, conforme descreve o narrador, ela "só não !,,ì, i,,,1:r lrÇão sobrenatural pela humana e natLlral. Dorothy
desaprendeu a rir e não ficou cinzenta graças ao Totó, um r ,i, 't ',, r.r :r rcgulagem do ambiente em justiça e inteligência,

78 79
:,rl):itiluirìcl() o absolutismo mágico pelo liberalisrno huma- l'lrìtretento, o vigarista mostra-se ineficaz, r;Ìr:rnrkr :,r'
rro t' lrl:rstll-se de Oz, na suposição de que, posta em mar- tr.rl,r <lc solucionar a crise mais séria, a da cri:rnç1t lx)r'cx(('
clr:r u cngrenagem, ela funcionará regularmente.
l, n, i:r: Dorothy. Configura-se, assim, a duplicidacle cl<l lrclrrl
Sr-ra relação com o munclo adulto não impecle a con-
trr ('rìì relação à infância enquânto uma oposiçaÌo clìlr'('
tinrriclade de sua ação liberadora, na companhia de amigos. rl,:u.i'rìcirÌ de poder e fragilidade na solução dos problcmlrs;
N() cntanto, o exercício dessa liberclade tem raízes pessoais
1,, )r sulÌ vez, necessidade de desmascaramento X clepcn-
lrcrn definidas: é órfã, nâo sofrendo a Ìimitação da familia ,l, rrcilr nssinala a orientação contrária, do menor para ()
c ainda é expelida para fora de casa; seus adversários são mu- rìr.u()r. A fuga do mágico poderia indiciar qlÌe o process()
lheres (as bmxas), enqlÌanto os companheiros são mascuii- ,l, tlcsmascaramento foi total, mas não é assim: Dorothy
nos. Aincla assim, é ela quem comanda o grLÌpo, vacilando rrr.rrtórìl decisão de voltar para casa, e precisa de alguém
xpenas quando se depara com um adulto poderoso: o rrr,ris vclho que lhe revele os meios.
rnirgico. A desmitificação deste é sua ação mais importante, (,omo acontece com seus colegas, ela Íraz esse poder
porque significa o desmascaramento de um igual, prove- , ( )nsiso: provém de seus sapatos de prata, que recebe logo
niente de lugar similar ao selÌ. .r,, i lrcgar em Oz e cujo poder cle deslocamento espacial é
O mágico corporifica de modo cabal o âmbito aduito .rrrrrnciado por Glinda na última parte. É, pois, a fada que
na narrativa: não apenas porque provém da mesma comu-
,r:'r.rrrrìirá, ao final, o papel doador do adulto, fechando o
nidade que a menina, mas porque personifica o falso poder.
Em seu primeiro encontro com as personagens, quando ' r( ul(). Distribui as regências aos heróis masculinos e asse-
lur':r () retorno à garota. Essa configuração maternall3 ainda
atende um a um (e a divisão do grupo faz sua fraqueza), ',(' ('()rnpleta pela l>eIeza eterna e a bondade natural, que
aparece em todo seu esplendor, assllstando os assistentes e
llrt' siro atribuídas. Dessa maneira, configr,rrando o herói ati-
fazendo falsas promessas. Na ocasiâo seguinte, revela-se sua
\'( ), cLÌja determinação leva à conquista de autoconfiança e
impostura, mas os heróis ainda esperam dele uma solução. ( r('sciffÌento interior, uma vez que as viagens significarão
Embora tenham conseguido a chave para z resolução de
irirnlrnente uma iniciação à existência, o texto assinala sua
ser"rs problemas, precisam de confirmaçâo externa. O mágico
, orrtrapartida, devido à manutenção de um laço de depen-
procede a isto ainda de modo ambíguo: finge uma solução
r li'nci:r e afeto em relação ao mundo adulto. Entretanto, na
para os três, mas falha (e foge) quando se trata de Dorothy.
rrrt'clicla em que a ação das personagens ruma para a desti-
Seu poder aparece ainda vinculado ao engano, pois o nar-
tui('rro do poder dos mais velhos (importando para isto a
rador desvela o pensamento dele após o terceiro encontro r:rrrcterização física do Grande Oz, que aparece gigantes-
com o Leão, o Lenhador e o Espantalho, o que não julgara r o, c é pequeno e enrugado), percebe-se qlÌe esta depen-
necessário em outros pontos da narrativa:

Ao ver-se sozinho, o mágico sorriu, pensando: ,,Como


73 cf . o propósito igualmente a interpretaçào cle
Jorclam Brotman:
posso deixar de ser um farsante se essa gente me obriga a fazer ''t;linda não tem um regulamento meramente temporal; ela é a grande
coisas que todos sabem ser impossíveis? E no entanto foi tão fácil rrrire, a senhora do amor em Oz". (BROTMAN, Jordan. A late wanderer
dar felicidade ao Espantalho, ao Leão e ao Homem de Lata. por rn ()2. In: EGOFF, Sheila; STUBBS, G. T.; AHLEY, L. F. (Ed). Only con-
quê? Porque eles acreditavam que eu fosse capaz de qualquer
r/{'cl. Reading on children's literature. Toronto and New York: Oxlord
pÍoeza" (p. 107). t lniversiry Press, 1969.)

80 81
dência decorrc <llr silrur('lìo cle carência existencial e não rirrr:rlio cle plena harmonia entre os inclivícluo.s, ('()lt(ltti:-l.l
implica dominrr('rro. l)orrrthy alcança seu lugar, mas rejeita ,l,r por' .suas ações meritórias e clesinteressaclas; c.st:t t'ec tt:;;1,
a solidão, clc rrrorlo rlrrc:r ação de Glinda é recompensar, Í
lilr' .sUpÕe um deslocamento espacial semelhante 1t<l clt' stt:t
mas não irnlrol rì()r'rììiÌ.s. lr,'roírì1r, clo Leste para o Oeste e clo Norte para o Sr-rl,:tssi
O cxcrc'íc'io rLr lil>crclacle pela criança coincide com o rr.rl.r rr índole utópica de seu sonho que, se se configr-rrlt t'ltr
icleário lilrt'rrrl rlo lt'xto. Este diz respeito à destituição dos ' ( rr()s moclelos políticos, indicia tambérn o desconíìrt1<r
ttt:ttrs cl<l 1ro<lt'r'tlo lÌstaclo e ao desmascaramento dos char- ',,rr atualidade
:r e a aspiração de ruptura e mudança. IÌ, sc
lutircs; c os vikrr's sìo, ao mesmo tempo, adultos e tifanos, ,, 111,11; alcança sua grandeza ao tomar partido clas crianÇlts
crnlr<l:r :r t'oncltrsâo não seja generalizada, nen-Ì mesmo r' proCur'âr reprocluzir artisticamente seus desejos e bltscrt
.srrlrt'r'irl:r, rrrlì vez qlÌe é Glinda quem assegura o pleno ,l, irlcntidade, ele revela ainda um sonho do adulto, o clc
rc'sl:rlx'lt'<'irììcr)t() cLr ordem ao final. Fica clara, porém, a r, rlr:rl iÌo passado e recllperar a infância ingênua de .sue
c'<1triv:rlC'rrcil cntre harmonia no nível político, interpessoal
1'ro;lr.ia nação.
(lrclrrltos c cri:rnças) e intrapessoal (busca e aceitação de
rrnlr irlcnticlaclc). Nesse mundo perfeito, que é Oz, trans-
l)lìr'('cc o icleal da democracia americana, tanto pela pro- Iì rt'r- I)an, ãeMonteiroLobato
rrrr>('rìo clo liberalismo, como pela valorização do contexto
s<iciul clus personagens. Sc O mágico de Oz não deixa de apresentar, sob o
O mundo de Oz contém muito do conto de fadas: é l,ri:,rììrr político, um sonho infantil de retorno à pureza
lrel>itaclo por fadas, bmxas e anões. Se faltam os príncipes, l,rrrritiv:Ì, ainda que mediada pelo modelo democrático
sol;ram os elementos mágicos próprios ao gênero fantástico. .rrrrt'r'ic;Ìno, em mutação em seu tempo,75 Pete, Pan tem
Contuclo, os heróis principais, exceto o Leão, são membros , { )nì() ponto de partida o desejo por excelência do adulto:
cla primitiva sociedade norte-âmericana: os fazendeiros, , , t lr' r-ìão ter crescido.
representados por Dorothy, sua família e o Espantalho, e os O livro de James M. Barrie teve LÌma história particu-
lenhadores.14 Figurações que remontam à primitiva mitolo- l.rr. IÌr-n 7902, o autor, clramaturgo em evidência na época,
gia da colonização, estes seres apontam para um ideal de ( :,( rcvclÌ Llm conto infantil - "The little white bird" - que,
democracia rural que, segundo Jordam Brotman, marca o ,'nt I)04, transformou em uma peça para adultos, com o
pensamento não apenas do livro, mas de seu autor, qlle r(.veleclor título de Peter Pan, tbe boy tbat wouldn't grou
proclÌrou, numâ Los Angeles ainda não contaminada pela rr7r. O sucesso do texto levott-o à produção de dois novos
indústria cinematográfica, construir uma espécie de paraíso r('liÌtos: o conto "Peter Pan in Kesington Gardens", de 1906,
terrestre, Ozcot. ,. o livro para crianças, Peter Pan and Wendy, de 1911. A
Recusando a civilização e o progresso industrial, que 1', rptrlirridade da comédia estencleu-se à novela que, no
se anunciavam em seu tempo, Baum cria um universo ima-
15 A afirmação cliz respeito à ascensâo cle uma política imperia-
14 o lenhaclor é personagem funclacla num mito firmemente lr.,r;r, (lLre caracteriza a administraçâo Roosevelt, no final do século XIX,
irnplantado na cultura norte-lmericenr, como se pode ver na promoção ,' trrnsparece nas intervenções militares, que se estendem de 1B9B
da juventude de Abraham Lincoln, quando era lenhador. (lrilil)inas e Cuba) até a primeira gllerra, na Ettropa.

82 B3
lÌr:rsil, rrlóm de ser traduzido, foi reelaborado por Monteiro l,rç'rr natural - um pássaro, devido à capaciclaclc tlt: vo:tr; ;r
l.ol xtt<1. l,ris:r, invisível e rebelde; o próprio deus Pan, sínrlrolo rl;r
l-obato manteve os principais episódios do relato de vrrl:r selvagem e do instinto. Ao mesmo tempo, o tttt:rrirrrr
lì:trric: ,)l)tr por não crescer, cabendo-lhe sintetizar a infâncilr.
No entanto, conforme observa John Rowe Town.scncl,l /
- Peter Pan vem espiar a Senhora Darling contar his- rr,rtr-se cla infância na concepção do adulto, o que explic'lr
t<irias para seus filhos: uma noite, acal:a perdendo a cabeça
.r :rssociação procedida pelo relato entre juventude e esp()rì-
clc sua sombra, dependendo de wendy pan recuperáJa;
t.rrrciclade, ausência de História e primitivismo. Resulta clc
clo cliálogo dos dois nasce a idêia. de levá-la à Tena do
rrrn:r visão mítica da infância, porque se funda numa idea-
Nnnca, a fim de naÍÍaÍ histórias para os Meninos Perdidos;
lrz:rç'iro de suas condições: vivência de uma absoluta liber-
- ao chegar àTerra do Nunca, a jovem asslÌme a fun- rl:rtlc e aliança com a natureza. Seu mundo carece de nor-
ção maternal: cuida da casa, dos garotos e conta histórias;
rrr:rs, não constituindo ainda uma sociedade. Íl o mundo do
- nlÌm passeio à Lagoa das Sereias, Peter Pan, acotn-
l', rrrr selvagem na concepção idealizada do adulto, mas não
panhado por \7endy, salva a india Pântera Branca; ajuda
,' ;r infância.
ainda no salvamento de \7endy e consegue escapar dos
piratas com a ajuda de um pássaro;
O fato de a ação situar-se na Terra do Nunca é igual-
nrcrìtc significativo. Trata-se de uma fantasia que se con-
- os pequenos Darling sentem saudades de casa; luirrra previamente como impossibilidade de realização, em
quando abandonam a casa, são apanhados pelos piratas
! l('('()rrência não da inoperância dos heróis, mas de um
chefiados peÌo Capitão Gancho, mas Peter salva-os ainda
l.rt()r qlre não dominami a inexorabilidade do tempo. Em
uma vez mais;
r.rzrio disso, \flendy, seus irmãos e os Meninos Perdidos
- as crianças voltam, e os seis meninos perdidos são { r('sccm e não são mais reconhecidos por Peter. Integram-
adotados pelos Darling; Peter Pan prefere fìcar na Terra do
',,' ì civilização e não interessam mais ao selvagenÌ; mas
Nunca, porque não quer crescer. Ainda visita Wendy um clt's ainda se lembram do outro e reconhecem-no, quando
ano depois, porém, mais tarde, aparece apenas para suas r('.sslrrge para os mais novos; a nostalgia permanece, mas o
descendentes, levando-as a aventuras similares.
t.nìpo é irreversível. A infância é também um "nunca" a
Na história original, Barrie lida basicamente com dois ,lrrc não se tem acesso, desde que o indivíduo se torne
temas,16 de um lado, o confronto entre a civilização e a natll-
.rtlrrlto. Por isso, predomina a perspectiva desse em todo o
ïeza, representada a primeira pela família Dading, a segun- r lcc r.trso da história.
da pelo herói; de outro, a divisão etária que separa infância A criança tem, todavia, LÌma conduta no texto.que con-
e idade adulta, pan a qual marcham todos, menos o meni- tr:rr.irr est€ fato, o que caracteriza a inserção de sua óptica,
no que não quis crescer. O autor dá unidade à sua temáti- .rirrrll que de modo colateral. É que \lendy, assim que
ca, porque Peter Pan sintetiza os dois aspectos: ele é uma , lrt'sur à ilha, assume o lugar da mãe de que todos sentiam
l.rltrr; zr familia lhes é necessária, mesmo para Peter Pan que
16 cf. geRRtE, James M. Percr Pan and rYendy. Lonclon: Dent,
79i4. V. igualmente a edição nacional: BARRIE, James M. Peter Pan. 17 cf. towrvsEND, for cbildren.
John Rowe. lvritÍen London:
Trad. de Paulo Mendes Campos. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1!72. t',.rr{trin, 1977.

B5
()r;l sc c()locâ como pai dos Meninos e esposo de'Vendy, ,'tr'. l)cclrinho e Emília são os ouvintes ativos, c lt st'11tttttl:t
()rr c()rno seu filho e irmão dos outros. É, por sua. vez, a ,rirrrlrr passa do domínio da ficção à realidade (1lrrt':t t'l;t),
slrr.rclacle qlle motiva o regresso e a reintegração ao tempo, ,1rr:urclo, fuftivamente, rouba pedaços da sombra clc 'l'i:r
() (luc se completa ao final. Contudo, esse retorno, ao con- t.l.r:;tlicizr. Narizinho não tem uma atuação tão exigentc, (' ()
trirrio do de Dorothy, não é acompanhado de uma apren- \/i:;r'oncle é solicitado como detetive.
clizagem; representa, antes, uma opção pelo tempo e pela O leitor é convidado a participar do mundo ficciorurl
ciclade, abandonando a ldade de Ouro da infância, rele- rnt'rliante esse reclÌrso, de modo que sua identificação colìì
gada ao sonho e al:afada como desejo. rrrrlr clas personagens coincide necessariamente com o assll-
Monteiro Lobato conservolt a seqüência original; optou, rrrir. rlc uma posição mais ou menos critica, como fazem a.s
no entanto, pela introdução do mundo ficcional que criara, , ri:rnças do livro. Além disso, como essas refletem sobre lt
o Sítio do Pica-pau Amarelo, no universo de Barrie, proce- , ,,rrrposição de uma história infantil, ele é levado a colÌì-
dimento que gerou modificações fundamentais em sua estrLl- I'r('cr'Ìder sua própria situaçâo enquânto recebedor de um
tllra e concepção, assim como na solução do problema do r rr rivcrso imaginário.
leitor. Fazendo com que Dona Benta conte a seus netos as A teoria da história infantil é outro aspecto da origi-
aventuras de Peter Pan, o autor reproduz dentro cle sua rrrrliclede do livro. Por intermédio das reflexões de Dona
história o modelo comunicacional da narração: li('rìtx e das crianças, emerge uma versão sobre a natufez
,l.r literatura moderna para a infância, a motivação do inte-
Emissor-> Mensagem -+ Recebedor r('ssc do leitor e sua linguagem.
Iç-II A opção por LÌma criação desligada da tradição do
Dona Benta Peter Pan moradores do sítio i r rrìto de fadas é o que impulsiona a todos para a leitura de
l't'!arPa.n; mas isto não se deve à rejeição do gênero, e sim
Os ouvintes do relato de Dona Benta são: as crianças, .r rr<rvidade que caracteriza as histórias infantis mais recen-
Pedrinho e Narizinho, os bonecos, Emília e o Visconde, e It's, segundo Narizinho:
um adulto, Tia Nastácia. Dona Benta ê a nanadora adulta
que, após a leitura do livro, refaz à sua moda os principais - Estou notando isso, vovó - disse ela. Nas histórias anti-
gas, de Grimm, Andersen, Perrault e outros, a coisa é sempre a
episódios do original. Desse modo, reproduzem-se por duas
mesma - um rei, uma rainha, urn filho de rei, urna princesa, un't
vezes o sistema de leitura e a situação do leitor: pelo urso, vira príncipe, uma fada. As histórias modernas variam mais.
Íesumo da avô, explicitando o procedimento do adulto para Esta promete se. boa.18
ler um livro infantil; e pela inserção dos leitores crianças,
que ouvem e paÍticipam na elaboração da narrativa final. Mais adiante, é enfatizada a questão referente à com-
O lugar do leitor ê mimetizado pelo próprio relato e, 1rosição do texto, fundada necessariamente no mistério, já
ao mesmo tempo, multiplicado em posições distintas, o ,;rrc é o elemento não banal da existência que propicia a
que motiva as diferentes reações de Pedrinho, Emília e os .t vcntlÌra.

outros. Estas podem dar-se de vários modos: por meio dos


comentários sobre as ações, das exigências de explicação 18 rogATo, Monteiro. Peter Pan. São Paulo: Brasiliense, 1956. p.
pare- situações desconhecidas, do desejo de continuação r /.Í. Todas as citações provêm desta edição.
^s

86 87
- Não entendo como é que a senhora Darling foi deixar
:r janela aberta. Quarto de criança a gente nâo deixa de janela
eberta nunca. Entfx morcego, entfa comja - e entranì até esses
cliabinhos, como o tal Peter Pan.
- Boba! - exclamou Emília. Se ela não deixasse a janela
aberta não podia haver essa história. Se você fosse a mãe dos
meninos deixava a janela fechacla, não é? E o que aconteceria?
Cortava a cabeça da história iogo no começo @.774-17).

O mistério é importante não apenas por possibilitar a


Siro os
l)ona Benta riu-se.
- Minha filha, a língua está cheia de exprcssircs potllir;t"
poetas que inventam essas coisas tào lirlclirllr:rs p;rr'r
cnfeite da linguagem (P. 224).

O úrltimo elemento referido diz respeito aincla zÌ() .sr.rs


l,( rìsc e à exploração clo conteúclo sedutor do relato. íì rr
,lrrt' lcgitima as interrupções, a projeção cle dÍrvidas e inccr-
r(.,.irs para o futuro da narrativa, e alimenta o interesse cl()
l,'ilt>r'. Det€rmina a clivisão em capítulos e os adiantamcn-
l
ii

seqüência da história; é também o elemento de sedr:ção da


r,,:ì, l)rovocando o comentário de Pedrinho:
literatura. A opção pela representação verista pode diluiÌo
c, mesmo se originando de uma aspiração à rejeição da
- E clePois? - indagou Pedrinho.
banalidade e da repetição, liquida o encanto da ficção. Por - Depois, can-ra. Já são nove horas. Para a carna todos!
isso, Dona Benta adverte Emília, quanto esta quer dessacra- Amanhã veremos o que aconteceu.
lizar as sereias: Pedrinho danou.
- É sempre assim. As histórias sâo sempre interrompidas
- Hei de fazer utna história dilerente - declarou Emília. nos pontos mais interess:lntes. Chega até a ser juciirçrìo íp' 238)'
Uma l-ristória onde todas as sereias seiarn agarradas e amarradas
e trazidas para a cidade dentro cium caminhão. A interrupção é o aspecto composicional mais empre-
- Pois você errarlr, Emília, se escrever urna história assim ri,rrl<r em Peter Pan. Determina, de um lado, a divisão em
- disse Dona Benta. Alén'r de ser um:ì judiação arrancar do seu
da narração, que toma
elemento criaturas tâo Ìindas, essa pesca e essa trazida para a ',ll)ítLÌlos e o tratamento clo tempo
cidade em caminhâo viria destruir a beleza e o mistério das ',t'is serões. De outro, o processo de retardamento decorre
sereias. Sabe o que acontecia? Os jornais davam o retrato delas t:rrrto da preocupação em motivar o interesse do leitor na
impresso em tinta preta (nos livros elas aparecem em lindas pin- r ontinuação da história, como da introdução da perspectiva
turas de cores macias); os sábios de óculos vinham estÌ-rdálas, rlt'ssc rÌo texto, qlle solicita informações suplementaresl9 e
isto é, abri-las com as suas facas chamadas bisturis para ver o
que tinham clentro, e mil outros homores. Nâo, EmíÌia. É melhor ilì('orpofa sua realidade ao texto, buscando diminuir as
que ninguém nuncr pegue uma sereia - nem você tarnpouco. lronteiras que os separam.
Na sua historinha, agaÍre I sereia, mas faça que ela escape no A atuação de Dona Benta, ao longo do relato, indicia
momento de entrar para o caminhão. Ficará muito mais poética ,r l)resença cle uma concepção sobre o papel do narraclor.
a sua historinha, eu garanto (p. 206-208).
:ì(' comenta e explica a ação, isto decorre sempre da soli-
, il:tção das crianças, evitando introduzir seus valores no pro-
O carâter atraente do texto por meio do universo re-
t t'sso cle narração; ao mesmo tempo, não perde o controle
presentado é incorporado pela própria linguagem; é o que
a" faz poêtica e justifica os iogos semânticos:
:,,rlrre ele, manipulando as emoções dos ouvintes, pelas

Narizinho estranhou aquela expressão "cor de outono".


19 v. or pecliclos de informação sobre a pigmentação da pele
-Que história é essa, vovó? O outono é uma das estações
lrrrrrrana, o outono, lareiras etc., que povoam a seqiìência de Peter Pan.
do ano, mas nâo me consta que tenha cor...

89
rrrlt'r.r'rrpcÕes e cortes no andamento seqliencial. A sua -Ibdavia, ela não deka de transmitir seus valorts' ( ilt:tttt;t
lt'c:l:rboração da história original é igualmente significativa,
,r :rtcnção de Emília devido às atitudes dessa em l'clltçrtrt:t
lx)r(lllc a avó procura concentrar-se no cerne dos aconteci-
rììcntos, evitando as digressões do original de Barrie, cuja l'irr Nzrstácia e enfatiza a necessidade do saber' coln() tllìì
rrção evolui lentamente devido às intromissões contínuas rrrt'io cle cada um se impor no mundo. Se tais valorcs 's:t<r
,lu('sitionáveis, porque não impedem, por outras vias, o rc-
clo narrador, assim como aos comentários à margem dos
l()rr.<t clo racismo ou uma visão utilitarista do conhecimcrr-
cventos. A valorização da ação e o desprestígio da descri-
r, r,l0 o livro não se converte em obra moralista ou ped:rgó-
ção, o emprego de uma linguagem coloquial destituída de
rlit'rr, pois este enllnciado provém de uma narradora, cuja
segundos sentidos ou ironias (bastante freqtientes no origi-
1,.,l,rvia não é absolutizada, diluindo-se uma
situação de
nal) são os atributos que se salientam numa obra para cri-
ulrrrlclade com o ouvinte.
anças, e é ao que Dona Benta procede em selr contar.
A este universo ficcional se opÕe a presença de outros
Ao liberalismo do narrador acrescenta-se slÌa conduta i,('r'cs, quais sejam: um narrador anterior, doador do relato
como chefe de familia. Embora mantenha sua autoridade rorlo, e um ouvinte posterior, leitor implícito. Como o livro
sobre as crianças, não assume um papel punitivo. É o que
r('l)rocluz as condições de transmissão da história, as fun-
clemonstra o episódio com a sombra de Tia Nastácia: se, ,.,,cs originais de comunicação são também apresentadas,
por um lado, este episóclio visa atrair a atenção igualmente tlt'sclobrando-se o modelo antes descrito:
para o mundo das personagens do Sítio e dar-lhe uma vida
autônoma em relação ao primeiro Peter Pctn, assim como a l\:rlraclor 1 -> Narrador 2 -+ Mensagem -+ Ouvintes -> Leitor
criar um mistério em torno cla ação, inclependentemente do
que acontece aos meninos na Terra do Nunca, por outro, IIIII
ele coloca Emília na posição cle merecer um castigo. Assim, :rrrônimo Dona Benta Peter Pan Meninos anônimo
à expectativa sobre a descoberta do criminoso, soma-se a
dúvida quanto ao tipo de punição que a boneca receberá. A duplicação das funções narrativa e receptiva possi-
E o leitor é contrariado: Emília corrige-se a tempo e não é lrilita a reflexão em torno dos atributos do narrador e do
punida. É o que explicita a medida da liberaliclade da histó- rr:rrratário; ficcionalizados ambos, o exercício de uma ação
ria: porque, como ela é um dos veículos de integração do
leitor à obra, sua punição inevitavelmente repercutiria nele. 20 La*..tturrelmente, a reprimenda de Dona Benta não exclui o
E o autor a evita, omitindo aincla o remorso de Emília; pois, , I rrnponente racista: "mais respeito com os velhos, Emília! - advertiu
se o objetivo do livro é incentivar a criatividade e a toma- t)()rìu Benta. Não quero que trate Nastácia desse modo' Todos aqui
cla de posição, o castigo daquele que assim procede - isto r,:rlrcrn que ela é preta só por fora" (p. 166). E que se perceba a relaçâo
( rìlre conhecimento e objetivo prático: "Neste mundo' Pedrinho, pre-
é, do que responde positivamente aos apelos cla ficção -
, isuuros conhecer a linguagem <las gentes simples e também a lin-
provocaria não apenas uma incoerência com a temática
rtu:ìÉlem dos pedantes - se não os pedantes nos embrulham' Você iá
desenvolvida, mas o assumir de uma atitude autoritária e ,,1,r"..1e, o que é cinegético e se em qualqr-rer tempo algun-r sábio da
castradora. Conseqüentemente, Dona Benta nada faz, como (;rúcia quiser tapear você com Lrm cinegético elÌì vez de abrir a boca,
narradora e como adulta, limitando-se a advertências vagas. (()rìro um bobo, você iá pocle dar uma risadinha cle sabidão" @'227 -
t;rifb do Autor).

90
97
-Em que momento?
cola-
l)('l() lxilÌÌeiro se contrapõe à presença dos comentários - No momento em que batemos palmas clttlttt<Lr ;tl;1ttt'trt
tcrri.s, clemonstrando as regras de funcionamento do discur- nos pergunta se existem íadas.
.so nzrrrativo. Todavia, este desdobramento relatíviza a posi- - E que molnento é esse?
ç-rìo clo primeiro narrador que, como intedocutor do relato, - É o momento em que somos do tamanho clclc. M:ts
depois a idade vem e nos faz crescer... e Peter Pan, entâo, t.tttttt ;t
vai-se apagando em seu transcorrer e cedendo terreno a
mais nos procura... (p. 262).
t)ona Benta. Esse outro discurso é o que ascende; mas nun-
ca se instaura soberano, porque sofre constantemente o É nesse aspecto que Monteiro Lobato não rompe c()rìì
assédio e o interrogatório dos ouvintes. .r visão de James M. Barrie, mas desloca-^ para um segLlll-
A relativização do narrador não ê, pois, simétrica à do ,l, r plano. Além disso, o conteúdo nostálgico é emitido por
recebeclor. Se a duplicação do primeiro o enfraquece' a ,rnr udulto, de modo que ele obtém uma coerência entre o
multiplicação do segundo fortalece a posição do leitor, que ,ujcito da enunciação e sell enunciado, o que não existia
encontrâ aliados, com os quais se identifica. Por isso, Peter rr.r obra anterior. O confronto entre dois espaços ficcionais
Pan representa um reforço da posição da criança e o reco- rr.r história de Monteiro Lobato acrescenta ainda outros
nhecimento de seu status de leitor que impõe normas' na ,rr;l)cctos à questão temática.
medicla em que interfere, interrompe, interroga e julga as Peter Pan, de James M. Barrie, contrapõe dois campos,
personagens, cle acordo com suas necessidades e con- ,, cle civilização e o da natureza, eqttivalentes respectiva-
cepções. nr('rìte à realidade e à fantasia das personagens. A trajetória
A ascensão da perspectiva da criança ao primeiro rlt'strÌs se orientará do real para o imaginário, por meio do
plano inverte o sentido do relato original. Neste, era a nos- :,rrrrlìo e do "faz-de-conta", e de seu contrário: a volta sig-
talgia clo adulto que predominava e contradizia o desejo rrilica uma adequação à realidade, a aceitação do mundo
infantil de imitar o mundo dos pais. Por isso, a história esta- ,r,lrrlto. O leitor de Monteiro Lobato acompanha esse traje-
biliza de imediato a função de Peter Pctn: se este oscilava t(), rÌlas selÌ Íetorno não o leva para Londres, à ciclade mo-
entre ser o chefe cla família e o filho de Wendy, no livro de rlt'r'r'râ e ao progresso, mas a Llm outro espaço fantástico, o
Monteiro Lobato, ele é um pai consciente e responsável, .sitio clo Pica-pctu Amarelo. Uma fantasia é substituída por
assim como um aventlÌreiro irrequieto que não se slÌbmete .rttl'iÌ, mais próxima e nacional, porém oposta ainda à civi-
ao poder do Capitão Gancho. Este é o lado que encanta as lizlçiro. Cabelhe preseffar, pois, o Sítio, um mundo edênico
crianças e com o qual querem se identificar; porém' não ,' livre, visitado sempre por entes maravilhosos e aven-
acontece a ruptura completa com o original, uma vez que rurciros configurado como sinônimo da imaginação e do
também a inexorabiliclacle do tempo e a irreversibilidade lú'.17,ef .

clos acontecimentos são assinaladas. Emília e Pedrinho criti- Como fazer para asseguÍar este mundo? A integração
cam a atitude dos heróis que voltam para Londres, e Dona ,r, r Sítio faz-se tão-somente pela leitura, isto é, pela imitação
Benta explica, ao final, a simbologia da história, invocando ,lo uto de suas personagens. Desse modo, o livro solicita a
a transitoriedade da infância: :,i rrresmo, e a continuidade do mundo da fantasia ê t per-
rrr;rnôncia do ato de narração da história. Tematizando sua
Significa - disse Dona Benta, que Peter Pan é eterno,
- 1'rrrclr.rção e relacionamento com o leitor, Peter Pan, de
mas só existe num momento da vida de cada criatttra.

c)7
93
lVltrrrle:iro Lobato, garantepara si e para a literatura um !r'z l)cla atitude comportada: um avião vert]lcllro. l'}il(,l.l,
Irrg:rr na vida da criança. Mas o faz enquanto apela para a ,h'poi..i, esse avião, saindo em aventuras pelo ttnivcr.so, :tlt'
Í:rntasia, retardando o ato de adequação à realidade, na i,rlt:u' para casa, qllando é repreendido pelo pai, <lttt'
rrrcclicla em que representa uma renúncia à imaginação e à , n( ()rìtra o novo brinquedo em pedaços.
inÍância, ou seja, uma aceitação da soberania adulta. A narrativa pocle ser dividida em dois níveis:21 o cllt
O fator de contestação do texto não advém, pois, de rrr,,ltltrrlÌ, que compreende o recebimento do livro e cl<r
rrnra aspiração a um mundo liberto de normas, ideal por- rvr.ro, sitLrâdo no terreno familiar; e o das aventuras pelx
clue inalcançâveI, mas coincicle em que a preservação da lrr.r t' contioentes, acompanhado de dois bonecos. A sepa-
infância faz-se na medida em que consegue se isolar dos r.r',.r() clos níveis corresponde a utrìa divisão nos planos
valores adultos e civilizados, o que apenas pode acontecer , ,1';rc'iul e temporal e à qualificação entre real e onírica,
enquanto o livro influenciar sua existência. Rompido esse r,':,lrt'ctivâmente, cle um e olltro:
laço, a criança clesaparece. Dessa maneira, à literatura atri-
bui-se o papel protetor em relação às investidas do mundo SETOR FAMILIAR SETOR MUNDANO
aclulto, o que, mais uma vez, refotça o sentido dúbio que o l',1 )íÌÇo interno: c:rsa externo: unlvefso
gênero nâo consegue suplantar. Constitttindo o meio que l('l ììpo uma noite cinco dias
o leitor infantil tem para posicionar-se perante o real, sett rlrito real fantástico (sonho)
resultaclo será ott a conversão forçada e o abandono da
l:Ìl() moldura ação (aventura)
ficção ou a insistência nessa e o retardamento da maturi-
dade. Superando o fator nostálgico do livro de Barrie, o Peter
Pan brasileiro não alcança suprimir a cisão entre o mundo
infantil e o adulto, embora opte por aquele e lute pelo reco- IÌxaminando o setor familiar, pode-se verificar a repre-
,, rrl:r('ho da criança no plano social e pessoal. Este último
nhecimento de seus valores e autonomia.
rl,r('scntáÌva-se por meio da carência clesencadeada pelo
lrvro, cr-rjâ doação deveu-se a LÌm pacto entre pai e filho,
Ãs aventura s ão avíã.o vennelho, d. Í)ri.o Yeríssirno , rrr',rlvcndo bom comportamento. Resultando, pois, de um
r r{ )lf ìcÍrto de trégua doméstica, o livro vem propiciat a faltt
Peter Pan, de Monteiro Lobato, lida com dois temas nr.u( )r'vivenciada pela personagem: a de lançar-se para fora
férteis da literatura infantil: o papel do livro na vida da cri- '1,, r;rrrdro familiar e reprisar as façanhas do Capitão Tor-
ança e o desejo de voar, conhecer novas teffas e aventurar' rrr.nllr. Isto é, ele ocasiona LÌma nova travessura do garoto:
É ã q.,. aparece igualmente no relato de Érico Veríssimo, r lrrr',:r cle casa pela imaginação.
As auenturas do auião uermelho. Sua história está centrali-
za<la em Fernando, o menino travesso' que ganha de sett il U-o aborclagem clas funções narrativas neste e nos outros livros
pai um livro, em troca de seu bom comportamento. O rece- rrri rrrtis cle Érico Veríssimo pode ser encontrada en'r FILIPOUSKY, Ana
bimento do livro como recompensa leva-o ao conheci- , I r z,
r r; ZILBERIIAN, Regina. Erico Veríssimo e a literatura infantil. Porto
r

mento clas aventuras do Capitão Tormenta, com o qual se rl, r,rt': lr-rstituto Estaciual do Livro; Universidade Federal do Rio Grande
iclentifica. Pede então um novo presente, trocando-o outra , l' , : ,r rl, 1978.

94 95
Slì<; as imagens presentes no texto que estimulam a llrriclttnente o recurso à imaginação resolvcrít o lltrr
Í:rrrtrrsia de Fernando22 e levam-no ao desejo de ter e diri- l,l,'rrr;r rlo herói: usando um instrumento que amplill
()'5

sir <r avião; todavia, o menino esbarra numa dificuldadc ,l r1r'to..;, uma lente, ele obtém o efeito contrário' Ficzt 1lc-
nutural: ele é muito grande e não pode entrar na máquina, rlr{'n()r sei em aventuras e volta apenas por acaso, sencl()
Sc o livro aciona o imaginário e motiva a identificação dc ,'rr, ,,rrtr':Ìclo pelo pai, que mais úma vez não entende o qLle
lìcrnando com o bravo piloto, o avião, segundo objeto ,,,, l).ilis()Ll com o filho:
rrrágico da narrativa, patenteia as dificuldacles físicas da cri-
xnça para efetivar seu sonho. Menino mau! Dei-te este avião onterÌì e iá espatifaste
-
A questão relativa ao tamanho avulta com a represen- totl<> o coitadinhol (.'.)
Fernanclinho compreendeu tudo' Papai nâo sabia da aven-
tação concreta dos problemas de toda criança. Fernando
tU I1ì.
sente-se muito grande para comandar o veículo,

Pois é isso mesmo A incompreensão paternã e a âtitude repressiva confi-


- - refletiu Fernandinho. - Eu não
caibo no :rvião.23 r:ilr,ilÌr <r nível familiar do texto. O menino ê caracÍ"erizado
o diabo. Era respondão' Gostava de
' 11111 I {çl1vssso ("Fazia
mas o pai focaliza a questão do ângulo contrário: ,ur,rrrlurr a cara da cozinheira e de botar a língua para os
ru,ri:r vclhos") e causador de tristeza para os pais:
- Papai - disse Fernandinho colÌÌ voz tremida - eu tenho
tanta vontade de viajar de avião... O pai e a mãe de Fernando viviam muito tristes' Só ti-
Papai passou a mão peÌos cabelos clo filho. nham aquele filho. Queriam que ele fosse quietinho, obediente,
- Pois sim, meu querido, quando ficares grande poderás l.>on-r.
entntr num aviào.
Avulta, pois, a assimetria entre o desejo dos pais e a
A impotência da ação infantil no plano real fica reve-
,rrrtrrtlc clo garoto. A harmonia só é alcançada, quando Fer-
lada por sua condição biológica e acaba reforçada pela
rr.urrlo vê uma vantagem nisto, tal como receber um pre-
incompreensão adulta, como se pode verificar pela reação ,,r.rrrc. o sistema cle trocas vai garantir o equilíbrio familiar,
cle Fernando às palavras do pai, acima transcritas: .,,,l rctr.rdo nas relações entre pai e filho, já que a mãe' em-

Os olhinhos de Fernando brilharam corno bolitas de vìdro. l,,rr:r l-Ì-Ìencionada, nlrnca aparece. Mas é uma harmonia
1,rt'r'riria, porque o avião, sinal
de paz, converte-se em pre-
-Não, papai, eu acho que só posso entrar no aviâo quan-
clo ficar pequeno. t('\t() para novas travessuras' assegurando ao pai a manu-
Papai nâo compreendeu. lcrtl-io de seu papel autoritário:
22 S"li..rtn-r" que
o narraclor não cliz que o menino leu o texto, e - Fernandinho! - gritou ele. - Que é que estás fazendo de
sim que viu suas figuras, o que indica sua laixa etária e condiçâo de pré- rnanhã cedinho em cima da mesa do meu escritório?
alfabetizado. Fernandinho baixou os olhos, com medo'
23 lcnÍSSuraO, Érìco. As auenturas
do auião uermelbo. porto
Alegre: Globo, 7976. As cirações provêm desta eclição, ern que não há a É a configuração do plano familiar que diminui o
numeração das páginas. lr,'r'(ri. Não impede sua ação, mas determina que se passe

L)b 97
ulÌi(':uììcntc no imaginário e na companhia de bonecos. ',,,t ,rt'sslÌi o caráter desconexo de todos esses olljct<)s' () (lll('
l;illro único, incompatibilizado com as exigências de bom ,lrlr, rrltrt a formulaçào, pelo menino, de uma c()tlcclx';l()
('()lììportamento, sem arnigos humanos, está confinado ao rrrlctir':Ì cla realiclacle, que lhe ofereceria um conhecitttctlltr
c'írcr-rlo familiar, de que pode escapâr em âventllrâs que o ,
'l 'r t'
() universo.
lcvam para toclo lugar, menos para fora de casa. É para essa Assitn, se o cerceamento no plano familiar e a diminr'ri-
(lLrc retorna inevitavelmente, porqlre, de fato, nunca a aban- ,= r,, rì() nível pessoal levam-no a refugiar-se na fantasilt,

clonou. Por essa razão, a aventurzì não lhe acrescenta nada, ,1, ',t'rrt'rrcleâcla pela apreensão do livro, os objetos refletickrs
a não ser a compreensão da cliferença entre sell tempo e o t",r .'la clernonstram a ausência de uma vivência, pelo
clos aclultos: rr, ilirì(), clo real ou de um tempo e espâço determinados'
.\rr r'orrtríÌrio clo munclo de Oz, onde Dorothy vê simboli-
Fernandínho compreendeu tudo. Papai não sabia da ..r,l.r sLra circunstância, o que lhe permite chegar zì auto-
âventura. Eles tinham fugido de c:Ìs:ì ontem. Qr,ranclo a gente é
rlrrnnçiÌo, o meio por onde circula Fernando é caótico,
peqì,reno, do tamanho do dedo mingr,rinho, cada dia dos homens
grandes vale cinco dos nossos.
,.r{'rìtc cle referências que permitam situá-lo num âmbito
r, .rl. Nito se trata apenas de uma aprendizagem inexistente,
Em outras palavras, a reflexão cla criança leva-a l acei- rrr.r:, (lo fato de que a fantasia de Fernando não está reela-

tar a divisão e acentuar a desproporção física: qlÌânto menor l.rr.rrìclo seus contatos com o real. Como afarrrilia não lhe
1,r,picilÌ experiências por mantêlo em casa' e o
livro ocu-
o tamanho, maior a diferença entre os tempos e a distância
g'., ,, pólo oposto, oferecendo-lhe imagens desconexas de
entre os valores. A harmonia é, pois, utópica, cabendo a
rrrn ruìiverso fantástico, o menino não tem o que transpor-
c:rdzr um clos pólos etários - criança e aclulto - guardar seu
t.rr :r intaginação, logo, nada retirando de seu passeio aêteo'
espaço e tirar o melhor pafiiclo dele: o adulto exercendo o
l)cqueno para enfrentar o mundo, tornado menor para
controle sobre o real e a familia, a criança tendo acesso à
1,, ,r lt'r ocupar o avião cle
brinquedo, isolado de todos na
fantasia, qlÌe compensa seu desprestígio cloméstico.
, ,,rrrpanhiá de bichos de pano, Fernando é um ser frágil
A fantasia posiciona a criança no real, sendo sua fonte
,lr(' nzrcla obtém de suas vivências, porque estas não se
de informações o livro. Que munclo aparece para Fernan- , r rrrVCrtetrÌ em experiências. Contudo, isso não o torna um
dinho? Geograficamente, fala-se da lua e da Terra, de céu, rrr,livícluo passivo; se não se amotina contfa a repressão
e mar ou continentes exóticos como a rtrica e a Ásia; os advertên-
;r,rtcnìâ, permanece indiferente a eIa e ignora as
grupos humanos são representados por tribos africanas e , i,rs ÀléÀ disso, adotando a postura de leitor desde o rece-
chineses. A vida urbana é configurada pela cidade selenita l,inrento do livro, espelha a condição do destinatário em
e a dos tico-ticos. Em outras palavras, Fernandinho encon- ',rr:r inoperãncia, quando sua situação infantil é reforçada
tra ambientes totalmente fantásticos ou ultrapassados, como se a identificação esta-
lì( )r um isolacionismo. Nessa medida,
os antropófagos cla África. Mesmo os animais são extraor- l,r'lccicla entre o leitor e a personagem não produz a eman-
clinários, como o prefeito dos tico-ticos ou o porco que tem , ilxrÇão do primeiro devido à fragilidade da segunda, ela
uma casa, um mato e uma lagoa no estômago. No mundo ,,'.1r.,, n umà conclusão oriunda do percurso do caminho
visitado por Fernando, nada é verossímil, e sim desvincu- rìvcrso. É que a dificulclade da literatura infantil não está
lado de um tempo e espaço possíveis. Simultaneamente, .rìÌ seu up"io à fantasia, como fazem O magico de Oz ou

99
q
ì

l\'lt'r'l)an, neln em sua cisão com a existência histórica da cr:r ridícula, toclos riam dela. E a sua barriga, cr.ìt1ì()i/l,or r1rrr.r.r.r
r ri:rrrça ou da personagem; decorre, também, do fato de <1uc clc não tinl-ra nascido borboleta? Oh! eue l)orrr.sr,t.lr. l,,,,,,,.
(luc carecerâ de consistêncil - e, portanto, de interesse lxrrboletal24

rtrlístico - quando resultar de uma vivência empobrecida,


lì:rsílio sai em busca da satisfação de sua vor-rtlrclt..
itlctrpaz de elaborar seus dilemas.
I rtt('tiu-ìto, quando alcança as desejadas asas, não acontccc
Dessa forma, a fantasia na história infantil sempre espe-
r rrrr'tlrrnorfose, e sim o aparecimento cle um ser grotesc(),
lhará, de algum modo, a circunstância histórica e, transitando
' 'l r;r'lo clo desconhecimento e do riso clos outros. Esse ca.s-
no âmbito do maravilhoso, a personagem atinge um grau de
111',, 1X)rérl, não basta; ao voitar para casa, é alvejado por
superação interior que lhe pennite suplantar os percaÌços
ìrn (iìÇtÌdor, que o confunde com LÌm perdigão. A narrati-
com a familia e o meio ambiente. Entretanto, quando isso
!,ì ('t)ccrrzr COm a recuperaçãO do elefante, Sem mencionar
não ocorre, como em ,4s alenturc$ clo auião uermelbo, a
,' luturo cle suas asas, dando a entencler que os percalços
cleformação não se situa na atitude escapista ou no apelo à
, rvrtlo.s determinarâm a renúncia a elas.
imaginação, mas no fato de que esra naò tem concliçães cle
A aspiração de conversão em borboleta, a antítese de
traduzir o mundo íntimo da criança, porque o adulto, como
rrrrr t,lcfante, denota a insatisfação do protagonista consigo
o pai de Fernando, cerceou seu desenvolvimento.
nr( :;rÌì(). E a vontade de voar, que o aproxima tanto do para-
Tal repressão, por vias transversas, reflete igualmente
,lrjlrìì:ì cle Peter Pan, quanto de Fernandinho, quando, no
a condição da criança, mas, como no livro de Fernando,
rrrr, io clo felato, era o selÌ contrário. Sua sortc é a mesma
não resulta numa aquisição de saber; e converte a aventura
numa soma de eventos sem maior conteúdo. No entanto, o '1, r rììcnino, pois é impelido de volta à condição original, e

cerceamento pode impedir ainda o próprio desejo da aven- ' (,lìÌ utÌì agravante em relação à figura central de _4s auen-
trrri r.s rlo auiôío uermelbo: o eÌefante é punido, de modo que
tlÌra, como se verifica em outra obra de Érico Veríssimo, A
',,,llrc resta reprimir o desejo e conformar-se com sua for-
uicla clo elefante tsasílio.
rrr.r t' iclentidade. Enquanto que Fernando ainda pode guar-
A história do elefante Basílio apresenta duas seqtiên-
' l,r
( (x'ìsigo, na memória, os frutos (embora parcos) de suas
cias: na primeira, são narrados o aprisionemento e trans-
\ r,r)l('rì.s, a excursão de Basílio é, por todos os seus aspec-
porte do herói para um circo, e, posteriormente, a compra
r r,,, ç11t21511[fica: torna-se um ser híbrido; perde a identi-
dele por trrnr família rica conro recompensa por uma açào
,1.r, lt', ulÌ'Ìâ vez que não ê reconhecido; provoca risos;
positiva. As atitudes sempre elogiáveis do animal e os prê-
,' rrrlo, enfim, punido e retornando à fonna primitiva. O
mios que recebe fazem dele a antítese de Fernando; porém,
,1, ,t'j<r dc mudança gera deformação, o qlÌe induz ao con-
instalado na casa do menino Gilberto, manifesta um desejo
li,lrìislno e à passividade. Se Basílio tem uma lição a tirar
surpreendente: quer ser borboleta, isto é, seu contrário:
. , r;tir, cle modo que a saida para o mundo só produz resul-
Uma borboleta passorÌ voando diante dos olhos de Basi r r, k rs positivos para o aventureiro, quando lhe são ofereci-
lio, fezLÌmas piruetas no af e depois pousou numa papoula ver- ,1.r, normas de comportamento, a que se sujeita. portanto,
melha. Era uma borboleta azul, com asas pintadas de ouro verde.
Basílio achou-a tão leve, tâo bonita, tão brilhante qìle teve von-
tade de chorar. Ficou pensando nela todo o dia. Olhou-se no 14 vEnÍsstuo, Érico. A uitía tto elefante Basílio.
In: Histórias
espelho. Achou-se gordo, pesaclo, sem gÍaça. Aquela sua tromba ,ttl,uÌtis de Erico Veríssinto. Porto AÌegre: Globo; RBS, 1978.-.p. 98.

100 ,15639 101


uma aprendizagem por meio da metamorfose,
()l )ta'Íìì-.sc r' .t :,u:t rcpressão, apresentando as excursões acl Ittci() t'tlt'
ltì:ìs (llle não implica, como também acontecera com Fer- n' 'r ( ()rÌì() zÌventufas com finais desastrosos otl incl'tictltrttt'r;'
rxrnclo, urn crescimento humano. rl,.ilt()cl() que acaba por reforçaf a estrlltllra famililtt'c':t
r, , lrrslì() cla personagem no âmbito doméstico' recant()
sc'-
Da representação da criança no livro infantil decorrerá
() tratamento artí.stico de sua busca de identidade e lugar !,ur(), 1Ìo aliance dos pais, que mantêm tranqüilos stlll
.social. Se o resultado ficcional pode apresentar caminhos ,, ,l rt'r'rrni2l. Assim, realçanclo a êgide familiar
e condenancltr
, , lrt'r'oi ltttscaclor, o texto assume um papel normativo' incli-
comprometidos com o leitor, na medida em que lhe propi-
preferenciais e reprovzÌn-
ciam o reconhecimento e a solução para seus dilemas internos, ' ,ilr(l() ao leitor comportamentos
ct contrário também pode ocorrer. Nesse caso, a persona- , I r :r.s postltras interrogadoras.

gem é a primeira prejudicada: seus desejos são contraria- A veiculação de normas pertence, portanto' à natureza
clos, afirma-se a autoridade paterna ou aclulta por meio da , l.r litcratura infantil, poclenclo aparecer em
graus diferentes'
valorização cla norma e presencia-se a eusência de um cres- , { luc clepencle cle seu comprometimento icleológico com
cimento íntimo por meio da aventura no mundo. por sua ,,:, intcresses clo aclulto. O caráter formador do texto é visto
vez, ê a familia que acaba consagrada como lugar social rrr'stc primeiro momento, cla óptica temática; porém'
não se
do emprego de uma
pleno, uma vez que apenas ela pode traduzir os valores. O 1,,,,lc negligenciar que esta clependerá
real não apenas é desconexo ou fantástico, como em ,4s ,.'.le cle recursos, imperando sobre todos eles a manipu-
l.r,.,rìo cla linguagem. A soberania clo narrador sobre
a dicção
auenturas do auião uermelbo; ele é ainda um cenário cle
perigo, onde o herói perde sua liberdade ou acaba avilta- ,l.r pcrsonagem, a valorização da correção gramatical e a
clo pelo outro, o que o traz de volta para o âmbito domés- tlistância maior oLÌ menor (inclusive etária) entre o emissof
tico, agora duplamente justificado. É o que revelam os últi- r k r relato e o sujeito da ação são os
meios pelos quais se
l;ì7.ctÌt a imposição e a interferência de certos valores
no
mos textos analisados, evidenciando desta vez o compro-
.rrnltito clo evento narrativo e' por extensão, do leitor' O fato
misso ideológico oposto, o que atenta contra a autonomia
da criança. r lt'(crmina, de um la<lo, a coexistência
entre um projeto ideo-
It.rsico e o emprego clos meios literários; e, de outro' o
que
,' rnais signifiiativo, a afitmação cle um modelo de leitura'
Transnlissão ãe Norrnas e Rupcura ,1,'. excl.li a decodificação do destinatário' Como a voz do
,r,,rrador ocllpa toclos os espaços, ao leitor é fornecido um
A cenÍalização do evento narrado num herói infantil, rrrunclo pronto, previamente interpretado e facilmente con-
nascida do interesse de estabelecer um vínculo profundo srrmível. Com isso, um processo cle percepção textual -é
entre o leitor e a obra, tem como conseqüência a revelação igr-ralmente imposto, cJe moclo que o recebedor é colocado
no âmbito
do dilema inerente à literatura para crianças. Se sua natu- 1r.r".tr" u- prãd.rto acabaclo que' se é opressivo
reza foi definida com base em suas relações com a pedago- iclcológico, é digerível do aspecto estético'
gia e sua evolução literâria, a verificação das particularidades Fáciliclade de leitura e transmissão de valores fepres-
estruturais deságua na mesma evidência: a oscilação entre sivos caminham juntos, numa espécie de comércio em que
a representação da trajetória da criança, visando à elabora- se intercambia um relaxamento na decodificação pela con-
ção artística de um caminho comprometido com a infãncia, lìrrmiclacle com os conteútc1os passados pelo relato' No

103

:o'
('rìtluìt(), ó uma troca desigual e um negócio enganador, que f i",,, ('stcs resolvem, com toda a familia e mais os clois ttt,'
cokrcu o leitor na trilha dos produtos similares da cultura de urn,)rj, visitar a ilha. Mas nada acham de especill, ttc'ltl
lÌìr.sslÌ. Portanto, a forma fácil não é tão-somente a atração ll, rrli<1rrc revê o amigo.
( ) tcma do livro pertence à tradição de Robinson Cnrsttt',
l)1Ìrr o cânone adulto cle comportamento: é igr-ralmente o
Iurbituar aos objetos em série da indúrstria cultural, ao con- ,1,'l):rnicl Defoe. Isolados dafazenda, desprovidos de toclos
às próprias cllstxs.
sLlmo acumulativo e não crítico, à leitura domesticada. ",, nr('i()s, os meninos têm de sobreviver
A literatura infantil vê-se também perante a possibili- f ,,, l.rvi1ì, essa sugestão não é levada às últimas conseqtiên-

clade ou não de adesão à vanguarda. A ruptura com os valo- ' r,r,,, l)()is Henrique encontra Simão
e passa a tirat paftidcr
res adultos é igualmente a negação de uma narração em que ,1,,', lrcnefícios da sociedade implantada por ele. O ver-
predomina um narrador judicativo, superior às personagens ,lr,lcir'o Iìobinson é Eduardo, mas o narrador acompanha a
por seu conhecimento e capaciclade de avaliação de seus rr,r;r'tr'rria de Henrique, até que os irmãos se encontram nova-
clestinos. Resguarda-se, portanto, no nível temático, a homo- rf rlrrtr'c voltam ao convívio da civilização.

logia entre o reforço de uma percepção aguçada e crítica, A presença de Simão e sua harmonia com os animais
e sua provocação por meio de um tratamento dos recursos rt.r.,('nì pá;ra o livro a trtopia selvagem doTatzan, como lem-
Ìiterários postos à disposição do escritor. No exame da repre- l,r,r llcnrique. Contudo, Simão, após a revelação do garo-
sentação da criança foi possível evidenciar essa relação em r'r, lr;rt1r de preservar a peculiaridade de sua vida: ele havia
O mãgico de Oz, por intermédio do uso da sugestão pelo e viver num mundo à pafte,
',l,r.r(l() por fttgir à civilização
narrador, ou em Peter Pan, pelo desdobramento da situa- rrr, llror e mais justo. A fusão do filão robinsoniano, indi-
ção comunicacional. Cabe verificar agora como o problema , r.r{l() l)cla aventura dos meninos, com a temática naturista
pode ser equacionado de acorclo com o ângulo da trans- ,l, liirnão sugere o eixo que estrutura o livro e organiza o
missão de normas, tratando-se, neste caso, de um enfoque tr,rr.ilììcnto das personagens: é a oposição entre civilização
clo texto não mais com base na perspectiva infantil, mas cla , r itlrr natural. Eduardo e Henrique são habitantes da cidade
adulta, responsável pela narração. ,1,r,' <'lrcgam ao extremo oposto: a "ilha perdida"; Simão é
', ll( )lììcm que a escolhe, otganizando aí seu modus uiuen'
,/r.,,rrclc ê feliz.
Ã. ílha y.rãiãa, deMartaloséDuyré A integração à natureza ê, pois, a volta ao paraíso.
A narrativa de Maria José Dupré conta as aventuras de llrurtlo sem conflitos onde o homem é soberano, a ilha
Henrique e Eduardo numa ilha do rio Paraiba. Decidindo ,,u,ì('tcriza-se ainda por sua separação e inacessibilidade.
explorá-la contra a vontade de seus tios, em cuja fazenda, ,\., l)('ssoas podem chegar lá, porém nem todas conhecem
no interior de São Paulo, estavam hospedados, os meninos ., r ('()ração, apenas Simão, que aí introduz o neófito Hen-
acabam por se perder. Destruído o barco que os trouxera, r r, lr r(.. Este, por sua Yez, um saber não transmissível:
^tinge
permanecem alguns dias na ilha. Constroem uma iangada e ,1,.v()lta à ilha na companhia dos outros, não mais conse-
vêm a ser resgatados. Durante sua estada, Henrique co- ,.u{' :rtingir seu âmago. A ilha se fecha ao grupo ou à curio-
nhece Simão, que vive isolado da espécie humana, na com- .,r,l.rtlc incômoda. Por isso, ela só pode ser interiorizada ou
panhia dos animais do local. Após o reencontro com os , ,l rt itllt na solidão:

704 105
Antes de deixar a ilha, deram aincia um pequeno passeio ,' ,t lt'c'nologia. Esse pensamento se complelncíìt1r pcl:r t'rt'tr
1;clos arredores; a mat:Ì estâva muito nrolhacla clerri<.lo à cìruve .
,..r rr:r lutrmonia entre o homem e a naturezâ, e llrÌ lrorrcl;r,1,'
escorregavam a todo rnomento.
(...) , r,l,ontânea do primitivo.2T Contudo, a primeinr contr':rrlr
Colheram algumas flores pera a maclrinha; Henrique clizia ',r{) trÌnsparece quando se verifica que o alvo maiol i' :r
consigo mesmo: ,,Um dia voltarei sozinl-ro.,,25 rr\'('rsìo de um dos modelos, aquele que impele à avcr.rtrrr':r
r' .r() (lcsconhecido, próprio às proezas de Robinson.
Advém daí a sugestão do senticlo onírico da experiência (lorn efeito, se os meninos excursionam à ilha motivlr-
cle Henrique, justificando a increclulicrade clos
compànheiros. r l, r:;
1)clo espírito de aventura, a validacle dessa iniciativa ó'
Seu sonho constrói um tnunclo icleal e mágico, realizanclo ,1rrt'.stionacla de imediato por meio cle dois fatores: as forçírs
uma experiência pessoal que não pode ser compafiilhada. ,l.r rlrtLrreza castigam Henrique e Eduardo, já que uma cheia
Tal "egoísmo" espelha e legitima o isolacionismo clo objeto r ,rusir iÌ perda do barco, sucedendo-se depois outras des-
clesse sonho, Simão, de moclo que a harmonia rir.r(,'1rl;; e emefge forte sentimento cle culpa e arrepencli-
com a natu_
reza é simultânea a um repúdio ao social e à afirmação r!Ì('rìt(), tão logo aportâm na ilha:
cla
inclividr-ralidade. À netLtreza, que se caracteúza
com a totali-
dade, contrapõe-se LÌm ell unitário, mas clividido Foi com verdadeira emoção qlle os dois meninos pllseram
em relacão
zì comunidade. pé em terra; estavam afinal na célebre ilha. Tr"rdo fora tiro fhcil,
pensoLl Eduardo, e Henrique era tâo remador, nâo cleviam
A experiência solitária de Henrique parece valorizada.
errepender-se da mentira pregada aos padrinhos (p. 19).
porque seu resultado é um fortalecimento do ego diante
de
natureza, assim como a promoção de um icleal rousseauni_ 'fais emoções retornam durante a primeira noite pas-
ano, em que a bondade natural do ser humano é reforça_ ,,:r< llr fbra:
cla pelo meio selvagem. Toclavia, essa conclusão
é clesmen-
tida ao se contrapor a outro valor que se sobressai no texto, Os dois meninos estavam arrependidos de se terem
com maior saliência ideológica: a obecliência. arriscado nessa aventura: tinham vontade de chorar, mas queriam
O fundamento edênico cla concepção de natureza mostrar-se fortes, um para o outro (p. 2B).
Não falavam; cada um pensava com tristeze no erro que
salienta-se com base nos paracligmas de que a história
se haviam cometido. Nunca deviam ter feito isso às escondidas clo
apropria,26 o de proveniência Àbinsoniana, asseguranclo padrinho. Nunca. (...) Que arrependimento! (p. 28)
que o indivíduo tem condições cle sobreviver num meio
incivilizado; e o rosseauniano, que atribui a este ambiente E permanecem vivas atê a volta ao lar:
uma superioridade em relaçâo à victa urbana, ao progresso
Eduardo e Henrique sentiam-se muito envergonhados do
que haviam feito; baixaram as cabeças com vontade de chorar. (...)
25 OUpnÉ, Maria Eduardo fezcara de choro e Henrique pediu logo desculpas (p. 103).
José. A ilba perdida. Sâo paulo: Ãtica, 1979.
p. 126. As citaçòes sào retiradas desta e<liçâo.
zo Hâ únda outro paraclig*n 27 os animais representam essa bondade, organizados numa
o.ulro, o cla ,,visâo do paraíso,,,
-Buarque
descrito por Sérgio Buarque de Holanda (Cf. HOIANDA, rrrrnunidade sem conflitos, que imita o melhor do ser humano. Exemplar
Sérgio
de. Visão do paraíso. Sâo paulo: Nacional, 7977) e io._ilud"
p"ìo, c a cena da morte da veadinha, em que todos se solidarizam com o pai
primeiros viajantes europeus em relaçâo à recém-descoberta
Amérìca. crrlurado (p. 63 e 84).

706 t07
fl
I

() cspírito cle aventurâ é contrariacro e substituícro pela a um adulto que, etnbc)l'll ('tì(,lltt.'lllrl
,rr,rlr:r subjugado
irrrpo.siçâo do modelo de obecliência e bom.o-po.,r_".,_
i,l',rl clc liberdade, autonomia e poder sobre o Ittt'ir), í' ,rlrl
to' Prevalece a necessidade de submissão :ì orclem pâterna ,l,r r;rrpcrior e senhor de sua sorte. Composto pclos t'r,lt'tr'l
r' :rclulta, imperando acima de tuclo as prerrogativas rrpos clo pai, rei e soberano, Simão representa o t'clìrr'ço,l,t
ào gm_
P.' Tal fato justifica o carárer oníricô cla Jxperiência"do ,1, ,rrrinução adulta, transferindo o projeto de HenriclLl('l)ill,l
Ircrói, que o texto sugere ambiguamente, esclarecendo
sua rrru lìrturo distante, quando a posse da condição aclttltrt lìrr l

rlrziro de ser, qual seja, a ânsia cle escapar a LÌma ,, :,,rlvo-conduto para o poder.
orclem
clominadora, possível somente quando se afirmar
como A supremacia adulta é ainda realçada pelo narr:rclor,
indivíduo isoÌado. Simão é, pois, a projeção do eu ideal ,lu('('crra fileiras com o grupo dos mais velhos, estrangulan-
cle
Henrique, soberano e senhor cle sua vontacre até o momen- ,l, t'ntão a autonomia da personagem e a liberdade do leitor.
to em que se exaure o desejo da soliclão clo jovem. por
isso, Iì.m A ilba percíícla, o discurso provém de um narrador
Simào administra a açào do protagonista, clomina_o
e trans_ rrrrpc.ssoal e onisciente. Ele bloqueia não apenas a mani-
mite-lhe noções de respeito à natureza; também por causa
lr':;trrÇão das personagens, que se comunicam pelo discur-
clisto, ele se esconde dos <iemais, desvendaclo apenas ,,, inclireto, como também a interpretação do leitor, pois
a
Henrique quando despojado de seu remorso e ansioso
por r.rkrs os atos são explicados, não deixando margens a
auto-afirmação. Contudo, Simão é um aclulto, o q.,e
f"cha ,lrrviclas. A onisciência relaciona-se ainda à permissividade
o círculo e estrangula a recém_conquistacla libeiclacle do r r)rìì qLÌe interfere na intimidade das personagens, fazendo
garoto.
1ror clas as perguntas e formulando as respostas. O exem-
Produto de uma projeção do menino, que elabora
eu ideal, Simão assume cle imecliato um papel paterno:
um I'1,, rtl'raixo é ilustrativo:
veicula lições a ele, controfa seus passos e ctetermina Cada um tomou utn gole de água e depois iniciaram a
quan_
do deve retornar à casa. É o qte-o converte em superego caminhada de regresso. Mas quem diz de encontrar o caminho?
e justifica sua conduta, aprisionando o jovem. Este, Eduardo dizia que era à direita, Henrique afirmava que era à
por s.:,a esquerda. Ficaram assim discutindo durante uns instantes, depois
vez, foi incapaz de mentalizar um ideal cle liberãade que
resolveram caminhar para a direita; andaram uma meia hora e
não o transformasse em prisioneiro e, simultaneamente,
refle_ nâo acharam o caminho por onde haviam passado (p.21).
tisse sua condição. Desse modo, ê a criança que confirma
a necessidade do poder adulto, assim como sua icleologia, O narrador não se limita a descrever a ação; ele ela-
fundada na obediência e contrariedade ao espírito d" lrora ainda a pergllnta que indica a indecisão dos heróis.
,rrã.r_
tura. Por isso, ao final, o jovem posterga para o futuro A.ssim, não são eles que se questionam: "Mas quem diz de
sua
utopia da solidão metaforizada na ilha selvagem, perdicla, ('rìcontrar o caminho?", e sim o emissor do relato, que inter-
e seu sonho de uma vida livre, oposta à que a civilizàçâo
lhe l)rcta e decodifica a incerÍeza das personagens, sem parti-
oferece, na qual imperam o conformismo e a obediência. cilrar dela. A distância da qual assiste aos acontecimentos
A norma adulta sai fortalecida: fugindo do munclo lrcrmiteìhe, por sua vez, não se comprometer com os even-
dominado pelo padrinho, o filho pródigã volta arrependi_ to.s: por isso, contrasta tlagrantemente a segurança com que
do e humilde. Sonha com uma realicladã icleal, na qual ('onta os passos perdidos dos meninos com a angústia deles,
se
oferece a possibilidade de expansão plena de seu t1r.re andam em círculos.
".,,-n,
108 109
 clistância, a impessoalidade e a capacidacÌe cle inva_ ,, r'cluto igualmente sugere qlÌe a experiênci:t tlt' I lrttt l' 1t,=
na intimidade dos heróis assinalam a separaçâo rad.icar
.srì<r
lor lìo-somente LÌm sonho, justificarn-se tanto it íttt.5('tt{ l,t rlr I

clltre o âmbito das personagens e o do nairador. por sua


1'rirrreiro, quanto a falta de passado do segr-rnclo. l'torlulrr
vez, a absorção da dicção dos dilemas interiores clelas à sua , I r imaginário de Henrique e dependente dele, tocllt :t :tvrtt
voz não apenas uniformiza o discurso, mas o submete às tur':Ì na selva pode ser omitida, restaurando-se a tttticllttlt' ,1, ,

sllas normas lingüísticas. Como se pocle ver abaixo,


rrrrrnclo narrado. Logo, o narrador não solicita a intervc'n(;to
,l,r leitor no mundo criado, e a exclusão acaÏta por tnintt'li
O homem deitor.r-se no leito cle couro e penas e colreçou
a ressonar. Henriqrre preprroì.I_se tenrbém para clormir; nesse z:rl a impotência de Henrique, a necessidade de obecliôrr
momento sentiu o coraç:ìo apertar_se de tristeza: oncle estaria r i:r lÌos maiores e sujeição às suas leis.
Eduardo? Que pensaria ele nâo o encontranclo na prainha? E
os Ressaltando a importância de uma regra de comporta-
paclrinhos? Ë os pais em Sâo paulo sem saber cle nâcla? E nìcnto que funda a convivência social e familiar, e assegtt-
acluele
Ìromem barbudo que o tinha prisioneiro e quase nâo falava? O
rrrrclo a supremacia dos que já detêm o poder, A ilba per-
que seria dele ali prisioneiro? Até quando ficaria na caverna? Era
preciso fugir, sir-r'r, fugiria. Na noite seguinte, sairia cla caverna tlitla constrói-se literariamente com base n:t qualificação da
enquanto estivessem donnindo e acharia o caminho da prainha. lxrlavra do narrador, que se concilia ao projeto de pro-
Nâo podia ficar sempre na grura. Impossível (p. 56). rrroção dos valores adultos. Se revela, por via indireta, o
irrconformismo do jovem, acaba por reduzi-lo a uma expe-
o narrador absorve o drama interior de Henrique e expres_ riôncia momentânea, cujos resultados desastrosos confir-
sa-o em sua sintaxe: usa do futuro do pretérito, porque o rììrrm a veracidade da razão patriarcal. O inconformismo
fato atual para o menino é passado para ele; portanto, lC'nue se configura na projeção de um eu ideal, Simão, que
sujeita a personagem a seu tempo. E o empregò da lin_ .'<>ncede proteção e seglìrança, independentemente ao mes-
guagem gramaticalmente perfeita corrobora que a rììo tempo de qualquer lei comunitãria; todavia, ele é um
ansiedade do garoro ê filtrada pela norma lingüísticá regu- :rclnlto, que pune, aprisiona e ensina, incorporando a tare-
ladora e, por isso mesmo, amenizadora da angfrstia. lìr do superego. Até em selÌ mundo ideal Henrique é domi-
Por essa circunstância, o dilema do herói nâo transita rrado, embora consiga preservar sua individualidade; mas
para o leitor. Filtrado sempre pela linguagem correta e cali_ não dispõe de liberdade, uma vez que esta lhe é outorgada.
brada do narrador e explicado em i.,o, ."r.lrrs e conse_ tÌ é preciso que assim seja, a fim de que o projeto atinja seu
qüências, ele produz a exclusão do recebedor, que se vê, lcsultado positivo, isto é, promover a obediência filial. Mes-
como Henrique, cativo de uma vontade adulta que mani_ rÌìo transposto o desejo de liberdade e aventlÌra parz' o
pula suas reações, mas não consegue mover suas emoções. rnundo do sonho, a contÍadição não ê evitada. Apenas muda
O tratamento das lacunas completa esse processo que <r plano em que apatece: o universo ideal transforma-se num
caracteriza o imperialismo do narrador no texto e, por exten- rulçapão em que cai e é punido Henrique, até incorporar as
são, dos cânones adultos. Como nenhuma motivação é regras que o convefierão num homem útil à sociedade. É
deixada em aberto, a narração ocupa toclos os espaç;s do para ela que o menino é destinado, assim como o leitor, e o
relato. No entanto, duas lacunas avultam: a primeira diz trânsito do sentido das palavras de Simão do âmbito de Hen-
respeito ao que aconteceu a Eduardo enquanto o irmão rique para o do destinatârio configura, de uma vez por todas,
esteve ausente; a outra, à origem de Simão. Como, todavia, sua intenção doutrinária.

110 111
licccita de vida na concepção do adulto, o texto não rrrt.rrtos vinculados ao acidente de Márcia e Mltt't't'l() t' ;t
irrrlrcclc o mascaramento de sua ideologia contrâria ao inte- possibilitam-lhe visitar quartos vrtzios, po
rc.s.sc da criança, ao se defrontar a cada instante com con_
' ur';r cla amnésia
\'í );r(l()s por suas vivências e a construção de uma cxistôrt
tr:rclições entre a situação da personagem e as expectativas , r:r Í'cliz.
cl. narrador. A transferência dessas contradições de um nível O confronto com A ilha perdida pode ser proceclicl<r
A olrtro, na tentativa de alcançar uma solução final har_ rlt' ucordo com os elementos espaciais, sociais e pessoltis'
rnônica, evidencia que o problema permanece e atinge a r ls cenários onde transcorrem as respectivas ações são bctn
composição literâria. E demonstra o pacto ideológico pos- t liÍcrentes: o livro de Maria José Dupré passa-se no campo,
sível no gênero a que o livro peftence. Este opta pela ,r r'óu abefto, prevalecendo a natúreza e a vida selvagem'
aliança com o mundo adulto e a condenação do heróì ao
r,'rtrda bamba transcorre no Rio de Janeiro e, especialmen-
percllrso de uma via-sacra penosa, decorrência de sua ati_
Ir., Írurrì apartamento no 9e andar de um edifício em copa-
tude independente. Como é com este último que convive o
t :rlrana. Maria vê de sua janela "o quarto fqueì dava pra
leitoç o texto busca finalmente atingir sua obediência, que
rrna área interna, só se via fundo de apartamento"'28 A
acompanha passivamente as indicações do narraclor. Veicu_
r'onclição de clausura é metaforizada pelo espaço de que
lação de regras e ocultamento do interesse da criança vêm
cle só se afasta quando tem aulas particulares, sob a guar-
aí acompanhados, revivendo a gênese da literatura infantil
tle de um cão feroz.
comprometida com a pedagogia e a formação moral.
Se liberclade e prisão diferenciam os dois relatos com
lrase no elemento físico, este configura ainda outro nível de
Corda b atnba, d.e Lygia B ojunga Nunes civrlização e história. Henrique, na fazend4 está junto à
nao)Íeza e, de certo modo, ausente da história, uma vez
Corda bamba, de Lygia Bojunga Nunes, justifica o que não há traços do tempo e da época no ambiente em
contraponto com A ilba perdida, nos aspectos composi_ clue vive. O mundo rural, pelo contrário, aponta uma situa-
todos acei-
cionais e temáticos. Um resumo de sua ação fornece os ção retrógrada que não se transforma, porque
dados para a comprovação desta assertiva: Maria, filha de tam-na como irreversível, visto que o conformismo final
equilibrista de circo, mas neta de uma dama da sociedade acentua esta tendência. Maria vive o presente do circo
carioca, fica ôrfã e vem morar com a avô. É calada e está mambembe, inserido na vida urbana; sua ação está regiona-
at"rasada nos estudos, o que leva sua tutora a proviclenciar Iízada no Rio de Janeiro do presente, do qual foi excluída
auias particulares para a menina. Não se interessa pelos a naturezal
estudos, mas por descobrir o que se esconde atrás de uma
Era hora de galo cantar, mas era Copacabana: não tem
janela que vê de seu quarto. Usando as habilidades de
mais lugar pra quintal nem jarclim, não tem mais lugar pra galo
equilibrista, dirige-se para lâ, saltando a distância que a se_ nenhum @.4I-42).
para do outro lado. Encontra um corredor com sete poftas
fechadas, uma de cada cor. A visita aos quartos permite
descobrir o passado de seus pais até a morte delès, fato 28 NuNBs, Lygia Bojunga. Corda bamba' Rio de Janeiro: Civili-
bloqueado em sua memória. A recuperação dos aconteci- zação Brasileira, 1979. P' 39. As citações são retiradas desta edição'

r72 r73
lj :r csse f:rto que se liga a vicla
social e familiar clas per-
s()rìírscns' igualmente cristinta, ,l,r livr'o. É a ligação de sua janela à outr:1, "jar"rcl:r rlilt'rcrrtr.
mas nâo tanto. pois amtos,
M:rri:r e Henrique, sâo pareni", ,l.r' otrtras janelas todas [...] arredonclada em cinr:r, (lu(' lr('rr
.1" l
rrrrr ;u'co" (p.25), que lhe permitirá romper cofiì () clrrrrsl ro,
lx)r esta razão, à
ticipam apenas de"rtr.,_rtrr,
;";oãr:;ffiJ:ï;:rÍ]: nr,r.\ .sLr.Ì jornada leva t Llme outra interiorização, pallr clt'rr
modo.olntàl dest"
clcr:ro carâter inclireto a" ,.,nr-i"ü!u"r,".rgrenagem, clevi_ Iro 1lg si mesma.
Irma mulher rica, e o outro, Maria é neta de A concentração dos eventos narrativos na rnentc clt'
sobrinho de um proprietárìo Nl.rrilr clecorre do processo por que passa: vítima clc r.rrrrlr
rural. Dessa maneira,,emU"r"
.o_f"rtllhem, por herança e ,rrnrrósia, ê narrada a recuperação paulatina de seu pus.slr-
condição social, cla classe ai.ig".rtã,
não têm acesso diret<r r lo, <ple culmina com a morte de Márcia e Marcelo. As pol-
a ela e ao poder.
t.r; (llle pouco a pouco abre representam os diferentes lÌìo-
heróis, a verificaçã"_ nr('rìtos de sua existência que precisa incorporar a selÌ ego,
1: ,J" "d, ;;;r" at acaba por corro-
borâ-la. A menina é órfã,.ra., .r lirn de fortalecêlo e ter meios de enfrentar uma realiclaclc
t"_ ii;;;r, e seus únicos ami_ ,rtulrl adversa. Por isso, as sete portas reproduzem as clifc-
gos são Barbuda e Foguinho,
afastados
do circo. Henrique^.tem a companhia cleviclo à, ;"á;;;;, r('r'Ìtcs etapas de sua vida, desde o namoro entre o pobrc
apenas Eduardo e, finalmenr",
cla familia, clepois l)irìLor e a moça rica (primeira porta) até o acidente com os
fi.n só com seu sonho, clo t lr ris (sexta porta); a sétima é a que leva a menina acr
qual nâo se livra mais. E, ,"
á ,.q"rãria vivida pelos clois ('rìc()ntro de si mesmai abre para LÌm quarto vazio, que ela
expande a diferença entre
eles, configuracra inicialmente l)()vozÌ com seus projetos e escolhas.
pela oposiçâo dos espaços,
cabe antecipar que um fato A utilização do espaço, que situava Maria num cenário
aproxima: a companhia da os
próprìa solidão. urlrano e no tempo presente, tem ainda uma dupla fr-rn-
o percurso cle Maria áo tà.rgo ão livro , i<rnalidade: sua estrutura metaforiza a condição solitária de
exclusivamente cle ordem existencïal é quase que
J'r.rrr_n. Cotejaclas as Muria e simboliza sua libertaçâo, que transcorre pela pau-
ações sociais da personagem
e as introjetaclas, constata_se l:rtina conquista do passado. Somente por intermédio dessa
que estas predominam em larga
escala. Á à"";;.ì;
"rã"
rcconstituição a menina descobre quem é; a revelação lhe
pcrmite a autoconfiança e a passagem de uma atitude pas-
Ëï1ü::ï,+,i,:ï"',"::*ff:li:k-t1ï,ï.*Í,:W:
ticular; o carâter in.sulaclo cle
sua ;;;;;""rparece
.siva e ensimesmada a um comportamento exigente e lúci-
<lo a respeito de si, das pessoas com que convive e de setr
mâo por estes fatos, cÌe anre_
u1a que, tão logo chega ao apaÍta_ rneio ambiente.
mento da avó, não sai mais Iez
à ;"". A ,;l acontecimentos
se
O espaço é o elemento construtivo fundamental do
opõem as incursões ao corredor tcxto por apresentar concomitantemente a situação social
do outro laclo, processo
vivido por seu inconsciente,2g cla criança - sua clausura - e sua interioridade, na medida
o 0"";:"o" a maior parte
cm que se vale de poftas e janelas, corredores e quartos,
29 Cf . n propósito para mostrar de modo simbólico a conquista a que procede
BORDINI, Marja çl,a Glôria.
nho para o inconscienr"-de irla.ta. Corcla bamba; cami- a heroína e a implosão de sua claustrofobia. A caracteriza-
à;;;;à;ruo. porto Alegre,27 de
our. 7979. Caderno de Sábaclo. ção da menina - introvertida, ensimesmada e tímida - com-
pleta o processo literário e dá-lhe coerência interna; não

774
115
lx)clcnclo irro no munclo 1á fore,,
rctìrzÌ slras ,orrPa. é cle dentr.<.r
<1.c clr
uma p alavra jilã;ii"ïïi:t:"':: a *";"- .,,Ï,"i,.ì" u., r,'z;r <'i|crrlutr, representa a condição de a menina rì.ìrÌrìt(,r.
xpressa ao" final,
.s(,
versa com pedro. "
,,r,1 )l(,sclls próprios pés, conforme transparece nos clrl>ítrr
na con-
O processo artístico promo\ 1"" irriciuis da obra. Enfim, a importância cro arco e s'a virr-
dois tipos .t" ....r..r.,1",;;",ï::]:-""' interpenetraçìo
crc ' rl:rq.rì. à liberação ainda aparece na clescrição cla janclrr
meiro, r"tn.ior,.u.JJ, óÌico ; ou rro ,1rrt. lrtftÌi Maria, encimada por um arco.
:".,i"r,ff "â.Jr".= ô p., -
Arco e barco são, pois, os meios c1a mobiliclacle clu
inlorRoraçâo ctos expande-se aÍavés
-!a.
rrara de àtu. à, "or;r":;Paço' que lida Maria. lrt'r.í.a e conclição de seu equilíbrio interior, unificancro os
o""1."7].::^.:ï
oot'ut de sua vida por Como se
rrrorrrcntos de sua vida. Vinculados ao mar, com o qual
no inconscr"rr, cuja meio da circulaçâo el:r
dente, irrtro.r.,z,"'
exp1s"â;; ,,( )rìlìiÌ,
seu sentido liberaclor se amplia, o que
lustfica a
poder.r" uniao]T-T l" "r''" àúrcË'ff$:Í;::Ï iï: .r:rlriração de viajar ao encontro dos pescadores cia familia
,lt' llarbuda. Contuclo, os recursos simbólicos não se esgo_
g
:ï,"i" i'] *#r,ï{{iiff ;i.:::iïa
simboriza;,;'',;ï:#:1ïffi:'frïÍ:"o..'""L,;;,ï.,. r :ï**f t.rrrr aí, já que o signo MAR está contido na clenomirrnçao
,l:r.s personagens: MARia, MÁRcia, MARcelo. Outra vez,
-D.rr" que prende a trtttÌ-se de uma viagem ao encontro cle si mesma e clos
nina pãir.
uma Liberaçâo drante -;iJ, ; ï;i:"*t
.aos me- prri.s, cadeia interminável dentro da qual orbita a jovem.
t":"^ significa
cro senr ime"r.
do pela perda a, r^^),iíil.'il";Ï;de I:ssado
abandono. Sua mobilidade é então visivelmente circular, como
'nttiur- .scLt arco, num processo que se estende do
confiançi actvém .r. conhecimento
u-oìf;::i
o assumir cra identicra.r"
ltalavras, essa auro- tlc si ao avanço sobre o real, evitando um rompimento
dos pais. e
Se a corda
d";;;:;,;""rï,ï;1" crìtre estes pólos, a fim de garantir seu equilíbrio. iodavia,
é c.sse conhecimento que, num primeiro momento, levou_a
suprimido ," o;; i:"ïïi:j",lg,rr"
q,i" u..n
l'uptura com o passado, trocando os qllartos ocupados por
à
substituiçâo pelo
barco. urrà"roì'o 'r-compenhado por" sra
"*,
rrmbientes vazios que preenche a gosto, acaba deìenhanclo
Y^:i:::'"#::ï";:::ï'o'"oã;üÏT""'1x:i::'ïï:
que
rrrna circunferência perfeita, em que o ponto cle chegada
coincide com o começo; e Maria retorna ao mar, princípio
viagem de férias vai a menina,
u=ïïffii" "r;;.t;; gerador de seu eu, desencadeador da vida em comum^de
seus pais e gênese de todas as coisas.
E clepois de tudo ela
botou, lá b Privilegiando a consolidação do eu, a trajetôria de Maria
e borou uma ponre
incro até ú;;;. fr,:oo, um barco.
depois ela ficou n".."*;-^::""'" ;;:ilo.
uma ponte tìotâo finìnha.
fininha, qu-;
a,,o culmina numa comunidade ideal, representada pela familia
se era o",rì"*
.llnrun<Ìo
coraa. No orr.o tinha ou se nào er" a primordial, desvinculada do tempo e do espaço. Fortaleci_
um,-'"',.- :;;.r::t',"
nclo ela. Ela foi (p.
124). mento do ego e confiança no passado familiar caminham
juntos, portanto, e são a condição da integração ao
mundo
j:.i'ffi.ï:.;,:ï,:-,.noin,eriorda adulto. Este vê-se cindido em dois campos: o dos aclultos
1"1,:ï,:i:ï;'#Hf
instrumenro
qr" lh.;.;;"": :':..Ifu. d" Maria: o arco,
permite o equilíbri
bons, papel preenchido por seus pais e, posteriormente,
significandã ;LìË"tr u m ereme,;J por Barbuda e Foguinho, todos oriundos da vida circense;
;;ï":Ji ;::.ï,ï:,,ï e dos adultos maus, desempenhaclo pela avó, Dona Maria
Cecília Mendonça de Melo, e pela professora, Dona Eunice.
776

I17
Arrrlr:r.sconfiguram a autoridade ("dona") por excelência. - Menor múltiplo colrìum. Ou será qr're vocô ili t':;t;ttt't t'ttl
M:rrirr Cecília separa a neta do universo circense, onde era -Não esqueci, não. (Mas de que ieito? Se sacttcli:t :l lx'rrl;1,
Ícliz; reprime, pois, a menina, ao romper o úrltimo vínculo ela batia no cachorro')
(llre a prendia ao passado. Em vista disso, a recuperação a -EoMDC?
<1r-rc procede a menina significa também desobeclecer a avô:
- MDC? (E se a perna batia... e o cachorro, nlto Illcxi;ri')

não apenas porque o faz por meio de sua habilidade cir- - Qtte que ten-r? (Ilom, se ele nâo rnexia...)
cense, como porque torna a unificar sua vida presente à - Você está bem lernbrada clo MDC?
clos pais perdidos. O caráter clominador da avô é desdo- - Tô, sim senhora. (... é porque tinha mesmo tnorricl<r
brado ao longo da história e refere-se igualmente à sua vida baixinho.)
- Então vamos ver: faça aí as operações (p- 54-55).
pessoal, já que tentoll controlar os maridos e a filha. O
paradoxal é que Maria Cecília é uma tirana malsucedida: o
O adulto autoritário é alvo da ironia da narrativa. De ttnl
úrnico marido que conserva é Pedro, em quem não manda;
l.rrlo, a superficialidade de Maria Cecília, preocttpada antes
Márcia foge de casa, voltando depois por meio de Maria, ( ( )rÌr slÌa aparência e o exercício de seu poder, estéril em
que também escapa a seu domínio.
,rlcto e dividindo o mundo entre dominantes, onde pensa se
Esses fatos relativizam a critica à autoridade pretendida
incluir, e dominados, onde se encontra, pelos aspectos acima
por meio dessa personagem; sua inoperância ê sinal de r ituclos; e cle outro, a professora, guardiã de um saber desu-
falência, exigindo um reforço que vem a ser ocupado pela
rnlnizaclo. Ambas esperam de Maria a obediência e obtêm
professora particular. A índole dominadora do mundo adul-
,lc:la o me<lo. Do contraste entre tais atitudes, o relato alcan-
to (e do ensino, em especial) ar,ulta na construção desta figu- (:r Lrm efeito paródico do adulto, que o de.sautoriza ao reve-
ra ficcional: acompanhada de um cachorro assustador para
l:rr sua prepotência.
Maria, incapaz de se comunicar com a aluna, transmite-lhe
A comiciclade de algumas cenas - e principalmente do
um saber abstrato (suas lições versam sobre matemática e crrpítulo referente à aula particular - tem como meta a crí-
geometria) e incompatível com a situação da ouvinte, sem-
rica clas personagens envolvidas. E é obtida pelos recursos
pre desatenta.
rurrrativos, apesar de a focalização proceder de Maria.
A presença do cão de guarda, metonímia da mestra, A utilização de um foco narrativo identificado à pers-
corporifica o papel autoritário do ensino. Ameaçando a
cada instante a menina, que tem desviada sua concentração
lrcctiva de Maria decorre das exigências do próprio relato.
(.arecendo a menina de uma ação pública e vivendo um
entre não se deixar morder e agradar à professora, o que
tanto pode se dar mediante uma resposta correta como um l)rocesso exclusivamente mental, emerge como necessária
rr coincidência entre o fluxo do pensamento (ou sonho,
comportamento conveniente. A divisão interior da garota
como se verá) e o da narrativa. Todavia, há cenas em que
traduz-se pela construção do diálogo, desdobrado na pers-
.sc abre uma alternativa devido à introdução de novas per-
pectiva interna e externa de Maria:
sonagens: ou a manutenção da visão ou a troca. Nos dois
- Mas, olha, Maria, eu quero que você use o MMC. cliálogos telefônicos com Barbuda, ocorre a mudança; no
- MMC? (Ai, como â perna tava esquisita! Como ia ser primeiro, o relato acompanha o ponto de vista da moça
bom sacudir ela bem.) clue vive os percalços de um telefone público. Além de

118 r1.g
('()lìtfapor o movimento externo da
rua ao encafcerament() O olho de Maria foi procurar o número dlt 1>:igittrr ttt;rr
rlc Maria, o narrador pode-se omitir de examinar ('rlcontrou a mão da Dona Er"rnice no caminho' Dedo cltcrio tlt'
as reaçòes
cl:rquela às palavras de Barbuda, acentuando :rrtcl. E cada unha grancle assim, pintada de vennelho cscllr()
as clificulda_
clcs de comunicação. Maria não consegue expor rrnhl clo cleclo qr,te aponta ficava puxanclo uma pelezinlt:t <1trt'^
seus pro_
blemas, e a outra não alcança uma ionfissão linltzr clo lado cla unha do polegar. Puxava, puxavâ' lìs vezcs clr>i:l
.o-pio", e Dona Eunice gemia balrinho, distraícla, ui (p. 51).
porque cai a ligação. É dada, pois, ao leitor a
oportuniJaàà
de esboçar uma imagem dos clilemas viviclos plla 'ltrlavia, ao olhar de Maria se sobrepõe um outro olhar,
heroína,
cada vez mais só com o afastamento do circo. ,1rr,'ol)serva a menina a distância, de fora, mas que, conco-
o segundo diálogo telefônico omite um narrador. Este rrìrt;uìtcmente, interfere em sua intimidade:
oculta-se totalmente atrâs çJa fala das personagens,
mas con_ O canário na gaioÌa cantou; Maria olhou. A gaiola estava
tinua manipulando a confissão cle Maiia, cal:ã a
essa formu- pencluracla na janela, batia sol no canário, ele parou de cantar e
lar a recuperação da memória, o que acontece ao
final da começolÌ a pular pra um lado e pra outro, será que ele queria
conversa, sem que Rarbuda consiga entender do porta estava fechada, uma gaiola de nada, como é que
que se sair? Mas a
trata. Portanto, ê. ao leitor que a revelaçâo é feita, prendiam ele assim apertado com tanto lugar pra voar? Esclttott
de modo
que, embora o narrador nâo intervenha nem por :r voz da Done Eunice:
meio clos
verbos dicendi, assiste-se à sua operação clelicada, - Mas antes você me diz se esses números são divisíveis
moven_ por três, por dez e por mil.
do o relato na direção clas palavrã.s finais de Maria. Antes? Antes por quê? O que é que ela tinha falado pri-
Assim, se a focalização obeclece ao comanclo de
Maria, meiro? Será que ela tinha explicado muita coisa? (p. 52)'
acompanhando sua trajetôria, percebe_se que a visão
não
coincide com a dicção do texto. O narrador mantém
sua
O trecho é ilustrativo para a descrição do processo naÌra-
autonomia em relação à personagem e ainda constrói, tivo, uma vez que a cena é vista simultaneamente de fora e de
para
além dela, um leitor a quem determina um papel r lt'ntro. O interior é dado pela visão que Maria tem da profes-
u,iro. É
este quem reconstrói o perclÌrso existenciaÌ àa r,or'.Ì: é ela quem escuta Dona Eunice, e a denominação da
menina,
organiza a cadeia temporal e antecipa sua liberação, rÌìcstra, antecedida pelo "Dona", provém igualmente da meni-
confir-
mada depois pela confissão a Barbuda. Nessa _.ái.ln, rr:r. No entanto, o exterior está presente e indica a presença de
uo
leitor cabe a reprodução da aventura de Maria, mas urÌì olltro, que vê Maria olhando para o canário (ainda qlle este
não a
identificação, uma vez que seu diálogo implícito fur_r. r;cja outro símbolo de sua própria condição), fato não obser-
.oÀ vuclo pela professom cuja intimidade mantém-se inacessível.
o narrador, e não com a personagem, conforma mostra
a
cena ao telefone. O dentro, por sua vez, provém da interferência do dis-
Por isso, o relato pode ainda obter efeitos cômicos, ('LÌrso de Maria na fala do narrador. Invertendo o modelo
in_
compatíveis com o texto se este fosse narraclo numa clo relato onisciente, que se apropria do pensamento das
falsa
primeira pessoa, isto é, se focalização e narração
coincidis_ l)crsonagens por meio àos "verbos de processos internos",3o
sem integralmente. Na cena da aula particular, o fato
é visí
vel. O nanador identifica sua visão ão- u de Maria: 30 A clenominação é cle Kâte Hamburger e designa os verbos sentir,
é esta
quem se sente atraída pelos detalhes que desviam pcnsar, refletir e outros, que denotam a penetração pelo narrador na inte-
sua aten-
rioriclade cla personagem, fato somente possível na ficção narrativa. Cf' }IAM-
ção, temendo ao mesmo tempo o avanço do cachorro:
IìIJRGER, Kâte. ,4 tógica da ciação lüeraria. São Paulo: Perspectiva, 1975'

120
1.21
'";r( ) ;l'sl)clgtlntas cle Maria gue se introduzem
r,r rr:rrnrclor, redtrzindo na mensagem
ãrlã".à,'ïn,,rao evirancÌo n ,èpn_
t.r(.;r() da individualidade, a expectativa de utlrr iclc.rrliÍir.;r
r';rç.;ìo "
enrre estes dois ."..,
ii.ã-iã*ir. cnfiaqlÌeceria este obietivo, convertendo a hcroíntr lrrrrrr
'.,r()
Por essa razão, trata_se
a" rrrrclclo. Por isso, cabe ao leitor conservar um c.sl)1r(.() .\()
;r'ssiste' mas cuio privilégio
e "_n cenapela
a qlle o narraclor
',r'u clentro do texto, análogo ao quafio vazio cl.t gltr()tit,
cliscurso de Maria,. É ","Àurìo inrerferência clo
.:;; ;;;;ïr.la sue propria r\rsirn, o narrador manipula os eventos, a fim de qrrc sr,jrr
tençâo; suas atirudes
desastro; ã conhecidas, na cìesa_ , r leitor quem, compartilhando como espectador da sor1r.
ria das vezes, maio_
neta;-.niravras ãil ;;" se descreve, r l;r rnenina, alcance uma interpretação dos acontecirnentos
escapar a uma renrancÌo
oïiç3" maior. Opt".rao, pois, por alternar
a descrÌçâo da situaçâo
r rrìicamente sua, sem comentários explicitadores.

cle Maria lorn ,um reaçòes


interio_ Tal seria o efeito emancipatório do texto, coinciclincl<r
res, o narrador oÌlém
um balanço àrrrr" ,.,n presença ( ()rn a liberação por que passa a equilibrista. Temáticl c,
autonomia da personagem. ea
Simuìtaneamente, concecle r('cLlrsos literários coincidiriam, alcançando Llma unidade n:r
espaço à interpretação um
clo leitor, ãË'-oao que
revela-se aberto à 'participaf;;' j"" o discurso ruptura com um padrão vigente, tanto no comportament()
criança, represenracla tl:r criança, que não se configura em exemplo a ser segtri-
pela heroínn o., p.io
,..;Àã;;r."ioaurrin se rais sujeitos tlo, como no tratamento do narrador, que deixa uma séric
estâo em igualclade com
o ãrr"aïr,
-ã...r",não cleìxam cle se tlc lacunas para o preenchimento do destinatário. Estc,
patentear dois níveis
distintos: o de que tomam ('orÌìo Maria, percorre uma trajetória do desconhecimento
parte Maria, Eunice e
o cachorro; e o cÌa assistência, :ro saber, recompondo o passado e o futuro da protago-
tes o narrador e o leitor. presen_
O a.rà.n".n_"rrro dos emissores rrista. Todavia, cabe salientar que o passo final da narrativa
não impede a clife
('ontradiz o projeto inteiro: nos derradeiros parágrafos d<>
:rT:"il.ã;üüïi".:ïïï1,;.'i:ïJ.ï:,3::":"*m-
tos, identifica-se com _.-;:_;^'"1'
texto, o narrador se apropria da dicção do relato, fazendo

. Focatiz,r."
basilares do rex1o. p*
"i..
.'ï"ilïi;#ã::"#:;l:::J
_;ì;;;;;;jr",
J,tri,?;:iï
rrrna projeção do futuro e colocando nele a atitude funda-
rnental conquistada pela menina:
a manìfestaçào da oerspectiva o narradorobtém
ieroína dentro da narração.
da O tempo foi passando, mais portas vâo aparecendo, e
Identifica-se com àlr,
.o_ ,ìil;.;rao o. mundo e, so_ Mariavai abrindo elas todas, e vai arrumando cada quarto, e cada
brerudo, sua vìsào cto dia arruma melhor, nâo deixa nenhum cantinho pra lá. Num
aaulto. a iì"ìríìrrr" de
normas con_ quarto ela bota o circo onde ela vai trabalhar; no outro ela bota
tTf"r_ribiÌidade, ;
Il.lï.r^. "1r-,
oe que a consolidaçâo il; reforçado pelo fato o homem que ela vai gostar; no outro os amigos que ela vai ter.
de ia*,lande por Mariaresul_ Arruma, prepara: ela sabe que vai chegar o dia de poder esco-
ra numa rejeição clos "_á
cânoner;;;;;; lher (p. 125).
uma vida autônoma. a ela e na busca de
Por sua vez, é da presença O último parâgrafo indica a grande vitória: a obtenção
clo cômico que se formula
o lugar do leitor. Este retira
com a linha de açâo. de
,_ ,"rrrrdo do texto de acordo de um poder, o de escolha, assim como a interferência no
M"ri;; ;;"rïïo pnrnaoxat se esra próprio destino. Contudo, como é enunciado? Não pela voz
trajetôria fosse oferecia",
se a afirmaçâo pessoar
.t. -o-ã"uÀ' .n-irrrro necessário. de Maria, mas pelo discurso do narrador que, neste mo-
,"-.oÃo".""ï.ouu"cia a manifes- mento decisivo, impede a emissão pela heroína de seu pro-
jeto existencial, convertendo-o, pois, em objeto de seu
722

723
;ul)ítri(). Iì o que relativiza sua intenção libertária, caçando para a verossimilhança do relato. C'onltt lnttttlut
;rrc'jr-rízos
:r lxrlavra do outro, quando este pretende dar conta de seu r';rlc-se da mesma ambigüidade, porém de modo lttrtis tit'o,
l'trl-uro, e convertendo-o, ainda qlle por um breve instante, urìì1Ì vez que é no sonho de Quico, seu primo, qr-rc Mltlilt
crn modelo a ser seguido. r ( )rììeça a andar na corda:
A contraposição com A ilba perdicla, procedida no iní-
cio, anunciava as diferenças e as aproximações entre os dois Todo o mundo estava dormindo, era um sonho cltticto,
textos. Essas se configuram inicialmente por meio dos pro- muito quieto.
tagonistas centrais, que vivem uma situação semelhante: per- Quico viu Maria sair da ianela e pegar o arco da flor. Iìl<>r
cle tanta cor. Viu Maria olhando pro arco; depois ela voltou pr:r
tencem aos estratos superiores da sociedade e passam por janela e ficou espiando pra baixo. Por que Maria ia e vinha' assim
uma experiência decisiva, da qual retiram regras de condu- de lista e pé no chão, olhando tudo tanto? Maria botou o arco nx
ta par^ a vida futura. A diferença está em que, em Corcla cacleira, foi pra balro da cama, saiu colll o rolo de corda.
bamba, o carâter exemplar não passa para o leitor, Llma vez Desenrolou.
(...)
que explora a separaÇão entre a personagem e o recebedor.
Além disso, a conseqtiência da aventura de Henrique ê a Quico viu. Viu direitinho a corda laçando uma antena de
televisão de un-r edifício bem em frente.
aceitação dos padrões adultos, o conformismo e a obediên- Maria puxou a corda com força pra ver se estava benÌ
cia, enquanto Maria adquire autonomia, autoconfiança e presa. Esticou ela bem. Se debruçou na janela; parecia que esta-
ruma à construção de seu mundo pessoal, livre da interfe- va amarrando a corda @. 42).
rência alheia, quando esta representa dominação e autori-
tarismo. Assim, da transmissão de modelos oriundos da A ambigtiidade cresce na conclusão do capítulo:
órbita adulta e patriarcal passa-se à construção de normas A corda cedeu. Quico viu Maria ir ficando mais baixa. E
pessoais, provenientes da experiência, o que se oferece aí não quis mais olhar: enfiou a cara no travesseiro pra não ver
como um deciframento para o leitor e não enquanto obje- mais sonho nenhum, pra acordar de uma vez.
to de identificação. Ficou de cara enfiada no travesseiro e logo depois dormiu.
A obtenção de um lugar ativo no texto pelo leitor não Acordou. Sonhou. Acordou. Dormiu.
Maria foi seguindo na corda com as andorinhas atrás
depende apenas do deciframento; a ele cabe aceitar ou não a (p.43-4Õ.
crítica ao mundo adulto e compreender as dificuldades de I

Maria. Tal leque de alternativas (feita a ressalva ao final) Alternando os sonhos (de Maria para Quico e deste
não existe em A ilha perdída, o qlÌe assinala o aspecto reno-
l):ìra a menina) e as situações de dormir e acordar, o narra-
vador de Corda bamba. Contudo, hâ ainda um índice de r lor permite uma leitura tanto fantástica quando verídica do
li

aproximação entre os dois relatos, que oferece outros daclos l('xto, sem prejudicar sua estrutura global. Além clisso, intro-
à oscilação entre normatividade e ruptlÌra vivida pela lite- ,luzindo o relato de Barbuda, que conta como Maria dor- llr
1l

ratura infantil. rrrirr vários dias após a morte dos pais, advindo daí sua
Embora Henrique e Maria vivam espaços radicalmente .rrrrnésia, fica antecipada a circunstância de que a equili- lli

diversos, sua aventura tem um lado em comum: transcorre lrr ista precisarâ refazer este ato para superar seu efeito.
na fantasia. Em A ilba perdida, o caráter onírico é ambíguo, Assim, o esquecimento será substituído pela recordação
podendo ser interpretado igualmente como verídico, sem por intermédio do mesmo remédio: o sono.

r24 725
(,<rrrro em A ilba perdida, a fantasia tem LÌm efeito
rt'plrnrclor: no universo fantástico, a personagem passa por
urÌìa transformação individual que a ptepaïa para o con_
Irrrr-rt' com a realidade e o mundo aclulto. E é igr-ralmente
cs.se o lugar da formulação do ideal: o universo utópico,
harmônico, que the permite sintetizar experiência, . à"r._
a) cla constittrição de um universo ficciorlltl, t't'ttlt;trlo
tì1Ì personagem;
b) da projeç:to procluzida pelo narrador de
l)ere o destinatário.

Tais atividacles transcorrem simultaneamente, porclLlc,


r.ttn llrtpt'l
l I
1

jos, alcançando tranqtiilidade interior. cleviclo à circunstância partictllar do gênero, o herói zttttrt
I

O último quafio mobilado por Maria tem este significa_ como indicador da condição de seu recebedor. Assim, a
clo: advém de uma vitória sobre si mesma, estando isento cle rtveriguação leva em conta, cle um lado, as relações entre o
uma concessão adulta. por isso, tem pleno domínio sobre ltrotagonista e o mundo
(adulto), e, cle outro, como este
ele, que está livre de qualquer conteírclo repressor. É o que ÍlÌto mimetiza os confrontos cla criança com a realidacle, a
a distingue de Henrique, que, na ilha, viu-se cativo cle um eu etr-ração clo narrador que conveÍe o narratário num papel
ideal, atê desejar ser expelido dela; e que converteu a expe- clesenhado pelo relato. Dessa forma, o discurso desse não
riência vivenciada num paraíso perclido, acessível apenas na pode ser negligenciado, cabendo o exame de sua conces-
imaginação, mas não mais comutável em realiclade. são ou não de um lugar para o processo cle deciframento
A reabiÌitação e confiança na fantasia infantil é a princi_ clo leitor.
pal vitôria de Maria e de Corcía bamba. Torna-se um reduto Esses dois aspectos - referentes à representação social
de onde a menina retira forças para enfrentar o mundo adul- cla infância e à diligência menos ou mais liberal do narrador
to e onde não habitam a autoridade e a repressão. A garota
não se vê punida em seu universo fantástico, ao contrário de
- podem ser verificados nas obras analisaclas. Todas se ca-
racterizam pela apresentação de uma certa vivência comum
Henrique, nem precisa se desfazer dele, para aceitar o mun_ clo herói: a passagem da realidade à fantasia e posterior
do adulto. Endossanclo o mundo da criança e valorizando as retorno3l por uma viagem (Dorothy; os Darling; Fernando)
situações em que ela se libera da punição adulta, introjetacla ou uma saícla de casa (Henrique; Maria; Basílio). Todos, de
no caso de Henrique, reprimicla no caso de Maria, quando alguma maneira, fogem do lar, a maioria deles de modo vo-
inicia a narrativa, Corda bamba isenta-se de um conteúdo luntário (a exceção é Dorothy, conduzida por um ciclone).
normativo, abrindo o relato às interpretações do leitor. E, por
Os habitantes do Sítio do Pica-pau Amarelo vivem de ante-
meio deste e de sua participação, a fantasia recebe um novo
mão fora de casa, pois Pedrinho e Narizinho estão lá em
estímulo, não para o encerramento no contorno do livro,
férias; mesmo assim, a natração da história por Dona Benta
mas para o confronto pessoal com a realidade.
tem efeito idêntico, levando-os a terras longínquas.
A saíc1a, como, às vezes, uma fuga, porque provém de
uma transgressão à ordem (Henrique; Eduarclo; Maria), não
Líreraxura InfantíI: Fanrasia e E xernpLaríd ade

A abordagem da literatura infantil do ângulo de seu 31 B.u.ro Benelheirn atribui ao conto de fadas esta seqiìência, o
relacionamento com o leitor supõe .,-u ,r".ifiaação em clue clemonstra em qlle medicla a literatt-rra infantil é a legítima stlcesso-
duas etapas: ra daquela forma narrativll.

r26 I27
-t
(' ('.sc:rpista,
pois desencadeia a consolidação da personali- Examinando o destino dos heróis agrut1-llttkr; tt;t ( *lti
cl:rclc. Esse fato supõe uma atividacle biclirecionàI, de nu da direita, verifica-se que todos eles voltattt l);u;t (,1ì,! É'
um
lrrcl<>, rumo à auto-afirmação, enquanto confiança
em si mes_ t aprendizagem que retiram de sua excursão Íìtnlltstit.! r' ;l
rììo e reconhecimento do grupo; é o que se passa com Do_ c'onformação à vicla familiar. Em PeterPai?, na vct'sil() otlFl
rothy, Maria e, de modo mais tênue em peter pan, com as nal, isso significa igualmente a aceitação da temp()l'ltlitl;t,1,'
crianças do Sítio. E, de outro, rumo à aceitação das regras como envelhecimento e perda do estado paradisíact>; (', ('nr
do mundo adulto, de obediência, reclusão no âmbito da A uida do elefante Basílio, a satisfação com a forma Íísit:t
familia e conformismo com sua condição existencial; são imperfeita, devido ao insucesso da revolta.
os casos paradigmâticos de FernancÌo, Basílio, Henrique, Os agentes reunidos na coluna central não apresentluìì
Eduardo, os Darling e os Meninos perdidos. rcspostas idênticas, matizando a tipologia, qlle pode scr'
O relacionamento com o mundo adulto liga_se estrei_ rlividida em três subgrupos, com base nas reações dos
tamente à confirmação da ideologia familista. por isso, é lreróis diante do confronto com o mundo aduÌto:
vâlida a averiguação do estado pessoal das personagens, a) Dorothy representa a personagem ativa, cuja liber-
que se dividem em órfãs (ou cujos pais não são menciona_
clade, decorrente da orfanclade e separação do lar, leva-a a
dos) e crianças que vivem com os genitores, conforme o clefrontar-se com LÌma ordem adulta, reciclando-a e impon-
quadro abaixo: clo valores igualitários;
b) os moradores do Sítio, Peter Pan, Henrique e Maria
configuram o segundo tipo, manifestando sua insatisfação
com a vida presente - infantil - por meio da fantasia, mas
ORFAOS OU SEPARADOS FILHOS QUE VI\TM
realizando suas aspirações tão-somente neste plano; advém
DOS PAIS COM OS PAIS claí uma separação entre o sonho e a realidade, no qual a
O mâgíco de Oz Dorothy criança não tem oportunidade de atuar. Justifica-se a revol-
Peter Pan Pedrinho \ü7endy tlÌ, mas não ê oferecida ao rebelde a chance de uma atua-
Narizinho Napoleão ção real. Maria é a úrnica personagem que transporta slÌas
Emília Miguel vivências oníricas pan o campo familiaq provocando modi-
Visconde fìcações, embora estas sejam relativas exclusivamente à sua
Peter Pan
situação pessoal;
Meninos Perdidos
c) Henrique compartilha com todo o grupo a liberdade
As auenturas do Fernando
auião uermelbo originária da ausência dos pais; porém, como acontece com
os Darling e Basílio, compreende que os adultos sempre têm
A uida do BasíÌio
elefante Basílid razão e que, portanto, deve adaptar-se a seus valores e
A ilba perdicla Henrique
expectativas. Seu castigo diante da transgressão e o senti-
Eduardo lÌlento de culpa colocam-no no paradigma dos conformistas.
Corda bamba Maria
As personagens tematizam nos livros a condição da
* Na seqüência analisada.
criança, determinando o lugar que a fantasia desempenha

128 729
('rìì .su:l vicla e representando o relacionamento com os adul- Se se verifica unidade entre o estreitamcnto cll irtlt't
lo.s, .scjam pais, professores ou governantes. Vcrrção do leitor e a conversão do herói aos valorcs lttlttll():;,
A fantasia é o setor privilegiado pela vivência do livro l)('r'cebe-se a homologia na obru literâtia entre os
nívcis rt:tt
inÍ:rntil. De um lado, porque aciona o imaginário do leitor; r:r(ivo e ideológico. O primeiro é representado pela collstrr.r
c, cle outro, porque é o cenário no qual o herói resolve seus (:t() clo narrador que, enquanto ente ficcional, pode exct't't't'
clilemas pessoais ou sociais. Conseqüentemente não é a saí- urìì fiìaior ou menor poder sobre a atuação da personagcttt
cla que coloca o herói perante o mundo, mas sua volta; o ,' clas disposiçÕes do leitor. O recurso aos comentário.s otr
primeiro movimento leva o protagonista ao encontro de si :rÍluência cle lacunas são os pólos entre os quais o narraclol'
mesmo - esta é sua grande aventura, a qual lhe permitirá o.scila, e a quantidade de Llm ou outro indicia o tipo clc:
enfrentar o contexto circundante, confiando em si ou con- rlornínio que exerce sobre o deciframento da história do prrl-
fbrmado com sua falta de poder. Em razão disso, a fantasia trrgonista e, por extensão, do narratário. Esse fato revela o
configura a condição de funcionamento do gênero, pois rr'ânsito do âmbito ficcional ao social - c1a personagern ao
este impõe um modelo narrativo que se desenvolve à medi- lcitor que, embora uma projeção do texto, é um lugar que
da que o protagonista abandona o setor familiar e ingressa vern a ser preenchido por um indivíduo real. Portanto, cla
em horizontes sobrenaturais, voltando depois à posição rrrenipulação do leitor implícito passa-se ao controle sobre
primeira, agora mais experiente ou sábio. Além disso, desen- ÌrrÌì ser humano - uma criança' Desse acontecimento que
cadeia o modelo de leitura da obra, pois tão-somente pela rlccorre do nível ideológico do texto, desvelando o carâter
ativação do universo imaginário da criança dá-se sua aceita- cvcntualmente dominador da literatura. Por sua vez, tal ocor-
ção e deciframento. Em virtude de tal fato, mesmo lidando r'.^ncia simultânea legitima a divisão metodológica procedida,
com eventos extraordinários, o relato precisa ter algo a dizer opon<lo a representação infantil à veiculação de normas
ao leitoq fundado na coerência da história e na validade rrclultas enquanto interesses antitéticos que são filtrados pela
dos conflitos que apresenta, fatores indispensáveis para sua <>lrra de arle, cabendo examinálos num livro.
comunicabilidade. O narrador consiste na figura-chave deste processo'
A apresentação do relacionamento com os adultos vin-
lrois exerce a atividade desencadeadora da narrativa. Con-
cula-se à natureza ideológica da obra. Da oscilação entre a tnclo, o ato primário invoca o leitor necessariamente, dan-
transmissão de normas - que denunciam a ingerência das clo-se a comunicação somente quando avultam os dois
concepções adultas na feitura do relato - e a discussão da sujeitos. Evidencia-se a unidade concomitantemente com-
validade das mesmas provém o carâter doutrinário ou não
lrosicional e dialó,gica do fenômeno literário, que circula do
do texto. A veiculação de normas ou modelos de compor- plano ficcional ao ideológico com base em sua estrutura,
tamento significa o compromisso com um grupo pedagógi- inclependentemente da sociedade que a produz ou que a
co e limita, de um lado, a contribuição da criança no texto; reflete. E patenteia-se ainda, quando se trata de literatura
de outro, restringe seu valor artístico. Tal fato tem ainda infantil, a condição comprometida do gênero que, mais que
uma repercussão no leitor: na medida em que impõe igual- qualquer outra forma narrativa, conhece seu destinatário e
mente modelos para leitura e interpretação dos eventos, sabe como e onde atingi-lo.
bloqueia a participação do destinatário, convertendo-o em Decorre daí o último item referente à direcionalidade
objeto passivo da exemplaridade da história. rumo ao leitor: a literatura infantil converte-se num dos res-

130 r37
l)()rì.s:ivcis diretos pela configuração de um horizonte de rìÌrÌssa. Por todos esses fatos, uma conceitttltÇlìo tl;r lilt'
('xl)cctativas na criança. Ao contrário das outras modalicla-
r':rtLrra infantil significa concomitantemente Llmlt lìì1ll'('ilçil( I
tlcs urtísticas, que se defrontam com um horizonte soliclifi-
rlc fronteiras e o desenho de um campo de trabalho, clivc'tr,o,
c'rrclo, a literatura infantil possui um tipo de leitor que
r lc nm lado, das formas não literárias e, de outro, claclttilo It:tt I
curece de uma perspectiva histórica e temporal que lhe per_
t'specificamente dedicado ao leitor infantil. Uma veriÍ'icltr,'rttr
ltrita pôr em questão o universo representado. por isso, ela
rro âmbito histórico e no conteúdo do termo composto litcrrt-
ó necessariamente formadora, mas não eclucativa no senti-
trrra infantil fornece os indícios para slÌa caracterizaçào.
clo escolar do termo; e cabelhe uma formação especiaÌ que,
Gênero incompreensível sem a presença de seu clcst i-
íÌntes de tudo, interrogue a circunstância sociaÌ cle onde
rurtário, a literatura infantil não pôde surgir antes da inÍân-
provém o destinatário e seu lugar clentro clela. Nessa medi-
<'ie. A configuração diferenciada dessa fase etâtia data clc
da, o gênero pode exercer o propósito cle ruptura e reno-
i'1roca recente. Como escreve Dieter Richter, para o homenr
vação característico da afte literária, evitando que a opera_
rrnterior à Idade Moderna, que repartia com velhos e jovens
ção de leitura transforme seu beneficiário num observador ls tarefas na lavoura e manufaturas, as divisões hoje conhe-
passivo dos produtos triviais da indúrstria cultural. Em ou-
ciclas como infância ou adolescência inexistiam:
tras palavras, pode impedir qlle sell leitor se torne um dissi-
dente da literatura e a1Íe de seu tempo e LÌm mero con_ Na sociedade antiga, não l-ravia a "infância": nenhum
espaço separado do "n-rundo adulto". As crianças traball-ravam e
sumidor de uma cultura despersonalizada.
viviam junto com os adultos, testemunhavam os processos natu-
rais da existência (nascimento, doença, morte), participavarn
junto cleles da vida pública (poÌítica), nas festas, guerras, audiên-
TRÃNSITORIEDÃDE DO TETTOR E DO GENERO cias, execuções, etc., tendo assim seu lugar assegurado nas tradi-
ções culturais colÌÌuns: na narração de histórias, nos cantos, nos
jogos. Somente quando a "infância" aparece enquanto instituiçào
Confundida freqüentemente com o livro diclático, o
econômica e social, surge também a "infância" no âmbito peda-
conto de fadas ou a história em quadrinhos, a literatura in- gógico-cultural, evitando-se "exigências" que anteriormente eram
fantil necessita, inicialmente, para sua definição, cle uma parte integrante cla vida social e, poftanto, obviedades'32
demarcação de seu alcance e uma fixação cre seus limites.
Como um dos produtos culturais que a sociedade contem_ A ascensão da ideologia burguesa a partir do século
porânea oferece à criança, ela se vê imiscuída ou àquilo XWII modifica esta situação: promovendo a distinção entre o
que não pertence integralmente ao mundo infantil (hisiória setor privado e a vida pública, entre o mundo dos negócios e
em quadrinhos, por exempÌo) ou, dando_se o contrário, t fan-úlia, provoca uma compartimentação na existência do in-
parece abarcar o que não diz respeito, com legitimidade, à clMduo, tãnto no âmbito horizontal, opondo casa e trabalho,33
literatura; é quando se converte em sinônimo de teatro
infantil ou transforma-se em instrumento de ensino, diver- 32 Rrcutrn, Dieter. Til Eulenspiegel - der asoziale Held und die
sões públicas ou jogos. Enfim, devido à sua produção ma_ Erzieher. Kindermedien. Astbetik und Kommunikation. Berlim: Asthetik
ciça em nossos dias, quando praticamente inexistia antes und Kommunikation Verlag, n. 27, abril de 7977.
do século x\1IÌ, tem seu eventual valor estético contesta- 33 v. propósito BENJAMIN, rwalter. Paris, capital do sécuÌo XIX'
^
In: LIMA, Luiz Costa. Teorta cJa literatrta em suasfontes. Rio de Janeiro:
do, relegada ao setor da literatura trivial e da cultura de
F'rancisco Alves, 1975.

1.32 r33
ï
( )lrì() .o verticaÌ, sepafando a infância da idade
(
Dessemodo,nemoscontosdefaclascrltltlllltt.;tt.ti
n'
I
adulta e rele- I
"<l t'olìltr
rlrrrrclo aquela à condição de etapa prepaïatôria aos
compro_ .ur('rrs, nem fazia;m parte da educação.burgttesa: ri

rttisso.s Íirturos. Fomentando a necessidacle <Ia ,1,' lìrclas folclórico sempre se liga de alguma 11xngi1'11 lottt
formaçao pes_ (ltl('
i

scral de tipo profissionalizante, cognitivo e ético, a pedagàgia .r (.rìtÌìecla inferior e extrelnamente explorada,
de [Ìocl()
cncontra um lugar destacado no contexto da configuraçao ,,('rx)cle Derceber a conexão com a situação social e a ct>rltli'
e
transmissão da ideologia burguesa. ,.,,,, ,"-iÌ".37 É nesse sentido que, vinculado à sua orig'clÌl'
A literatura infantil emerge dentro desse pano rama, ,'1.., po,l" manifestar a re,eição do camponês
submeticlo rttr
contriblÌindo para a preparação cla elite cultural, pela reuti_ ,,,',,Ào. feuclal de suas condições de trabalho, embora cx-
lização do material literário oriuncro cle cluas fonìes l)r'csse igualmente a
impossibilidade de transformá-las' iír
ciistin- pelo herói só-decorre do empregcr
tas e contrapostas: a adaptação dos clássicos e dos conto.s ,1rrc todimelhoria vivicla
de fadas de proveniência folclórica. .i" magin e dos auxiliares fantásticos (fadas, cavalos alados'
Conto de fadas e literatura infantil são freqüentemente :rnões) a quem ele se subordina'
confundidos e tornados sinônimos. E a maioria dos estu_ Aclapiados pelos lrmãos Grimm, os Mcirche?x sofrem
rrincla uma mudãnça de função: por um lado,
transrnitern
diosos, ao lidar com o primeiro, considera aprioristicamen_ o
te a criança como seu público natural, uma vez que, como velores burgueses <le tipo êtico e religioso e conformatn
olÌtro, é mantido o ele-
descreve Dieter Richter e Johannes Merkel, .,a deilniçao iovem a um certo pnp"l social; -por
c1e ,r"r".rro maravilhoso è.tq,-,uttto fator constitutivo da fábula
contos de fadas (Mcircben) não é dada nem pela forma
lìterária, nem pela relação sócio-histórica em que aparecem narrativa, úma vez q.t" ,"- ele inexiste o conto de fadas;38
todavia, esn permânência vincula-se à necessidade de que
estas narrativas, mas depende afinal de ser ele apropriaclo de
,Lio orr"g.t."ão o valor compensatório do conto fadas'
ou não para as finalidades da eclucação infantil burg.re_
oásse -ã.1o, é o maravilhoso que endossa, de modo
subs-
sa".34 No entanto, advefiem os autores, a situação
nem sem_ titutivo, a pequena participação da criança no meio adulto'
pre aconteceu assim:
Pormeio-da-magia,elafogeàspressõesfamiliareserea-
liza-seno sonho; porém, ao contrário do relato original'
.Primitivamente,
em
os contos folcÌóricos colecionados pelos e a inevita-
Innâos Grimm e ouros não eram ,,fabulosos,,, nem restritos
a uma
que o fantástico revelava a vitória do camponôs
certa idade. "O conto, em princípio, era contaclo por e para
aclul UiUaua" de seus laços servis' nas narrativas dos Irmãos
tos (na Alemanha, tanto por homens, como por mulheres).
Os Grimm, ele propicia escapismo e a conformação:
narradores faziam parte, via cle regra, clas classes mais pobres:
eram empregados, pequenos arrendatários, marinheiros, diaristas, O conto de fadas, como é apresentado à infãncia' faz a'

a reagir
lavradores, artífices, pastores, pescadores e também mendigos.,,3i criança acos[lmar-se, ou pelo menos deve acostumâ-la'
tle sonbos, quando desenuolue impulsos
São as classes mais baixas que escutam e narram o, aoartor.:6

fir*" conformada
qu'e estão em desacordo com a sociedacie39

34 ntcHtrR, Dieter; MERKEL,


Johannes. Mcircben, pbantasie und 37 6., p. 44.
soziales-Iernen. Berlin: Basis Vedag, 1974. p. 4l-42. 38 v. i propósito igualmente LÜTHI, Max' -ãs war einmal' Yom
35 HrruIcu, vilhelm.
Die eizâhlende volks - und Kunsdichtung W.esen<iesVol.ksmârchen.Góttingen:VandenhoeckundReprecht,l9TT.
---
in der-Sçhule_._Apud RICHTER, Dieter; MERKEL,
Johannes. Op. cit., p. 4i. 39 RICHTER, Dieter; MERKEL, Johannes' op' cit', p' 65 (Grifo dos
ru RICHTER, Dieter; MERKEL,
Johannes. Op. cit., p. 44. Autores).

r34 735
().s íÌutores ressaltam,
todavia, a peculiariclade que ofe_ No conto de fadas, não é representaclo rculistir.;rrrrt.rrtr.,
t(.('(ì o conto de fadas, qual seja,
a eventualidade de sua mas de moclo figurado; assim, as pe[sonagens mís rì;ì() ,\;l(t
f .lrr.r.srnutação em instrumento percebidas como seres vivos, rnas como símbolos do nral.'lJ
emancipatório, na meclida em
r1r'rc é capaz de sintetizar
a organiznçao ao modelo sociar
vigente e torná-lo compreensível: Bruno Bettelheim igualmente salienta o carâter simlt<i
lico desse tipo de narÍativa, assinalando ainda que decorre
A atração do conto folclórico para clo fato a adequabilidade do gênero à criança, assim corx)
a criança resicle, como
afirmamos, alén-r cle outros aspectos, srra índole exemplar dentro da literatura infanti|.44 Por sua
n:r elaboraçâo cle um esboço
compreensível da socieclacle; isto
é, cadn personagem é ã;ã" vez, o autor vincula esta validade à noção de que o relato
um papel definido em reÌaçâo às "
outras, e sua posição é ctesig_
nada no contexto geral cla organizaçâo traduz, de modo imagético, os conflitos interiores do jo-
social.40 vem, assim como suas possíveis soluções, de sorte qlle a
É da presença do eremento maravilhoso leitura do texto pode levar ao reconhecimento e à supera-
que advém ção do problema. Portanto, para ambos os escritores, é da
esta faceta do conto de fadas:
tracluçãoda fantasia,ele não
aparece no texto como algo cliferenciaclo, Íirnção que a literatura pode exercer com a criança que
como úm mitn_ ludvém sua justificativa e seu valor.
gre, que pode seÍ assustaclor, na
medicla em que .olo., à
indivíduo diante do sobre_humano, O mesmo aspecto é destacado por Richter e Merkel,
mas é percebiclo como quando vêem no maravilhoso - presente num conto de
natural:
fãdas renovado, livre das imposições ideológicas que atua-
Na saga e na legencla, o maravilhoso fascina, sacocle, ram sobre os Irmãos Grimm - a possibilidade de represen-
assusta ou anima, enquanto qlÌe, no conto
de faclas, ele ," ,o..rl
tação da estrutura da realidade social (e não apenas psi
natural. Na saga e na legencle, quica, como quer Bettelheim) em entendimento do jovem.
o milagre, o maraviÌhoso, nos
deixa pasmados, senclo o ponto
.".r,J'.1" toda a narrativâ, en- Dessa maneira tornar-se-ia acessível ao leitor o reconhe-
quanto que, no conto de fadas,
ele aparece em seqüências maio_ cimento da organização da sociedade que o cerca, e sua
res, torna_se episódico e percle, justamente
por isso, seu peso.4t complexidade poderia ser transposta, na medida em que o
percebido como constitutivo recurso ao fantástico oferece meios mais concretos de
do real, adquirinclo assim tradução de certos mecanismos sociais e econômicos.
naturalidade, ele possibilita uma
ruptura com os constran_ A caracterização da literatura infantil com base em um
gimentos espaÇo-temporais, de
moào que as personagens prisma histórico revela as particularidades do gênero:
podem assumir um caráter simbólico:
1) Sua especificidade decorre diretamente de sua
príncipes e princesas dependência a um certo tipo de leitor, a criança. Resultado
sào personagens cle um simbolismo
compreensíver. Eles representam disso é sua pafticipação num processo educativo; tanto é
o inclivíàuo erevaclo.4z

19 ,0.. o.101-102. 43 tÜTTn, Max. É's war einmal. Vom W'esen des Volksmârchen:
at t'üTHt, Max. op. cit., p. 2).
a. LUTHI, Max. So tybey Gõttingen, Vandenhoeck und Ruprecht, 1977. p.84.
sie nocb beute. Betrachtungen 44 V. u respeito BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos
marchen. Gorringen: Vandenhoeck zum Volks- contos de
R";;";; t, D76. p. 7. fadas. Rio de Janeiro: paz e Terra, 'J,978.
"",1

736
r37

l-t
asslm, que só ('()tìì('(..()' il cxistir a paftir do momento ern I cr-atura infantil somente merece esta dcn<>rr ì i rr: ç.: r ) ( | I ti I I I
il r r

que surgiu u r.rcr.r'ssirl:rclc clc se preparar os pequenos para rLr incorpora as características claquele gênerct. Iìrrrlr,r.;r t.r,t;r
o mundo, i.slo i., rJu:rnclo se originou Llma preocupação , onclusão pafeça redutora, pertencem legitimrrntcrìlc,;t nr()
com a criar.rq':r ('r'r(l.lrìt() tal. Desse modo, se o confinamen- ,l;rliclade literária em questão preferencialmente rr<;rrt,lt,s
to do livr. irrlrrrrlil rr, cliclático não é legítimo porqlre <lescon- l('xtos que compartilharem as propriedades do cOn(O tl.
siderr . r';rr':irt'r Íic'cional e a submissão à norma estética l;rtlas, quais sejam:
pclo lrrirrrcinr, o <1rrc Ìhe clá autonomia e natureza própria, a) a presença do maravilhoso;
clc tclrr rrrr lìrrrclrr'ento qlle nâo pocle ser negligánciãdo, b) a peculiaridade de apresentar um universo ern rlirri:r
[)()r1lu(' P*r.eclc cla índole histórica e ideoÌógica da litera- Itt rlr./15
trrllr iníìrrrtil. Resulta daí, em primeiro lugar, uma ampla dc.sc<tnÍi
2) A c.'.stitr-rição de um acervo de textos infantis fez- ,uì(-'Aem relação à eventualidade de uma literatura infirrtril
sc l)()l'rrrci. cl<; recurso a um mâterial preexistente: os clás_ rt'llista; e fica mais claro por que a história em quadrinhos
sic'os c ()s crolltos de fadas. Foram estes últimos que se mos- t' Íì-eqtientemente consideradâ como produção literária apro-
tr:u'ruìì rnuis apropriados à execução da tarefa, por dois pliacla às crianças, Llma vez qlle, seja por meio do recLlr.s()
lrsl)cct().s: ,ro sr:per-herói, seja pela abstração das condicionante.s clc
e) eles têm um conteúdo onírico latente, qlÌe coffes_ l('lì'ìpo e espaço, é reproduziclo um universo semelhante a<r
pondc às aspirações frustraclas cle uma certa camada social tkr relato fantástico.
(lLrc, por suas condições peculiares, está conclenacla 4)Por essa razão, a história da literatura infantil se con-
à ina- Íìrnde com a das transformações vividas peÌo conto clc
tiviclade, situação semelhante àquela compartilhada pela
criança; l:rclas: no século XIX, havendo a preocupação em dotar os
b) abriga a presença do elemento mágico cle um moclo i( )vcns com textos considerados aclequados à sua educação,
t lclr-se a reelaboração do acervo popular elÌropelÌ, desta-
natural, ao contrário da saga e da legencla (em que o fan_
t rrndo-se especialmente a atuação dos Irmãos Grimm.
tástico é o milagre, signo da fragrlidacle e finitude Èumanas) euan-
,l<r a moderna pedagogia passou a enfatizar a necessiclacle
e do mito (em que o evento sobrenatural revela a presença
dos entes fundadores da realidacle, os creuses e heróis crivi-
rle uma formação emancipada das crianças, a literatura
irrÍìrntil respondeu com textos renovados, que procuram
nizados, diferentes dos seres humanos). Assim, a magia
lilrerar a criatividtde infantil, transmitindo ao mesmo tempo
torna-se um adjuvante do qual a personagem não depende
.ros leitores uma mensagem progressista.
existencialmente, mas que o auxilia a vencer as dificul_
Pode-se afirmar, Íodavia, que a recíproca é vercladeira,
dades; além disto, desacre<litanclo as limitações de tempo e
p<tis não apenas ambos os gêneros evoluem juntos, como
espaço, permite uma representação visível, concreta e si-
trrrnbém não se pode mais pensxr a na.rrativa de fadas fora
multânea de todas as facetas que constituem o universo da
tl<r âmbito exclusivo da literatur^ paÍa crianças.
criança.
3) Se o conto de fadas se revelou o mais apto à for_ 45 A .*p."rrâo é de Max Lürhi, quando
maçâo de um catálogo de textos destinaclo às crianças, de_ diz ,,clas Mãrchen ist ein
t lrìiversum im Kleinem". Cf. IÜTHI, Max. Ê's- uar einmal. Vom rX/essen
vido às qualidades mencionadas antes, isto significà qr. n tlt's Volksmãrchen. Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 7977. p.9.

138 r39
')) (itìÌ últirno aspecto decorre
dai: ê que, visanclo à
rrrtr,Íìr';r('tì. ao meio burguês 1) Adaptação do assunto: consideranclo c;rrc' il ('()tÌl
rl;rtk.,
o, à srn liberaçâo e criativi_
yrrcensão de mundo do recebedor, assim como srrrs vivtìrr
u literatura infantil erriaenúï
rt.:rcÍLrlro pn.n .ã- a criança. Nessa;ffi:,,"ri;ï:"fJ:i cilrs, são limitadas, o escritor obriga-se a uma restli('lìo lro
lipo cle comunicação assimétri.n, lrrt:Ìmento de certos temas, idéias ou problemas; cl() lÌt(,:ì
inflLrência do primeiro sobre "À que
n ;;";;n,
é endossacla a
uma vezque cola_
rno modo, é conclição do sucesso do livro a prescnçrr clc.
lrora na configuração de seus run conteúrdo doutrinário que estimule o leitor clo ltorrto
ideológicos.
A assimerria mencion ada ""Ë;;,
é revelacla poï úrri" rypp, rle vista comportamental e conduza-o à aceitação de vlrl<r
;rssinalando que a literatura rcs que colaborem em sua integração ao meio social.
infantil nao pocÌe ser crescrita fora
clo modelo da teoria d, comu.rlcaiü 2) Adaptação da forma: sempre visando ao intercs.st'
vez qlre é uma
rnodalidede que se define em
.rzàoï" r., "_"."."bedor, clo leitor, assim como às condições especiais de sua perccl)-
ra identifica a particulaficlade e euto_
que nqr"ìn assume, em decor_ ção do real, ê importante que a forma escolhida coinciclrr
rência da circunstância cle que
o .l.r'tútario é uma criança: com suas expectativas recepcionais. Nesta medida, o enrc-
do deve ter um desenvolvimento linear e personagens qrìc
A particr-rlariclade mais geral e
fundamental deste proces_ motivem uma identificação; por sua vez, são prescindívei.s
so de comunicaçào é a desigialclale
enrre os comuniceclores.
estando de um laclo o x-.tor ,'cjr-,tto os flasb-bacfrs ou as interrupções do andamento para
cle outro, o leiror infantil.
".
Ela diz respeito à sìruaçào lingriisticr,'cognitivâ,
ao status social,
introdução de conceitos ou ensinamentos morais. Cabe ao^
para mencionar autor ainda manter a atenção, evitando trechos muito lon-
cÌacre.o.-,,,o.ï"ïj":,'",:,:"ï:'"i:,:J,:;ï'Ëï:*,ÍËï:i gos com descrições e adotando mecanismos de suspense
distância preexistente, p^ru'
Todos os meios empregacios^u^nç^r-.rn
ai."çao clo recebedor. pela intensificação da ação e da aventura.
perà autor para estabelecer
comunicaçâo com o leitor uma
infántil poclem ser resumidos sob
a
3) Adaptação do estilo: o vocabulário e a formulação
denominação cJe acJaptação.46 sintática não podem exceder o domínio cognitivo do leitor.
Como se vê, se os livros destinados
Por isso, a preferência dos escritores é por um tipo de
à infância têm sua redação que coincida com as particularidades do estilo
origem histórica na aclaptaçao,
prôpria natuÍeza e
.rt.-into decorre de sua infantil. Numa pesquisa sobre a linguagem da literatura
.mantém_se',nig"nte em qualquer pro_
dução infantil. por isso, infantil, Bernhard Engelen constatou as predileções estilís-
ela transiar"L ._ toclos os ticas das crianças, que agem como modelo lingtiístico para
mentos do rexro, conforme^a ele_
descriçao de Gote KÀÇ;;, os escritores, comprovando a vigência dessa modalidade
que identifica os seguintes ângulo,
.ro áanpru Ção:47 de adaptação:
46 typp, Maria. As estnrturas sintáticas utilizadas pela criança sào, como
Asymerische Kommunikation
erner Kinderliteratur. In:.KAES, als problem mocl_ se sabe, relativamente simples e podem ser assim caracterizadas:
Anton; ZUUnnlaaNN, Bernhard (org.).
Literahrr.fiir we\e I. Gõrtinge.r, vurra"nno".ïïìo Frases reiativamente curtas.
47 v. a propósiro Ruprecht, 1975.
*l*ennc, C;;;.'à;';", Elos frasais relativamente curtos.
Forscbung. Eine Einftihmng. Koln_Wìe"_C*r,-gãhfrusunct Jugendtiteratur
.Wissenschaftliche Poucas frases subordinadas, geralmente de primeiro grau.
Bibliothek, 1973. Utilização mínima da voz passiva.
Utilizaçâo muito pequena de atributos mais complexos. (...)

740
74L
Utilização muito pequena de nominalizações mais com- portanto, a partir clo conteúrdo - pode decoclilicrrr r'()r r('t;urtlrtr',
ela aprende ignalmente, no mínimo de modo rcccplivo, ;r ('i,t!lr
lrlcxas. (...)
Utilizaçâo mínima do discurso indireto. tura sintáticl correspondente.50
Falta qr.rase total de conlpostos nominais mais complexos.4S
4) A adaptação do meio: a presença de ilustnr('irc; r'
Como se pode constatar, estas estftÌturas sintáticas são tipos gráficos graúÌclos, assim como a escolha de clctclrri
próprias à expressão oral, verificando-se na literattÌra infantil nado formato e tamanho, enfim o aspecto externo clo livrr,
o predomínio da oralidade sobre a linguagem escrita, soma- são condições de atração das obras.
clo :ì supremacia da expressividade afetiva sobre conceitual. O lugar da adaptação na literatura infantil é cle nutrr
Em razão disso, o escritor é levado muitas vezes a empregar reza estrutlÌral, na medida em que atinge todos os .seusi
;t giria ou o jargão popular, ao entender que a valorização da aspectos e determina o tratamento do enredo, estilo, ep:r-
oralidade não precisa necessariamente estar compreendida rência do livro etc. Assim, ela procura amenizar o olrtr()
pelo padrão lingüístico culto. lado da assimetria de que provém, qual seja, a maciç:r
Em conseqtiência disto, tal é o estilo predominante na influência do adulto, que é o criador, sobre a criança. Nr>
literatura infantil: entanto, essa não chega a ser completamente anulada, e a
introdução do conceito de adaptação - uma relativizaçio
Resultam assim, entre oì.ltras, as seguintes regras: prefe- do lugar do adulto no livro para infância - somente acen-
rência pela voz aÍiv:r, em vez de passiva; pelo discurso direto, em ^
tlra este fato. Mediadora entre os pólos da comunicação,
vez do indireto; frases curtas, em vez de longas; oraçâo reÌativa, ^
em vez de atributo complexo; frase subordinada ou algumas xclaptação reforça sua existência diferenciada, denuncia o
orações principais, em vez de uma nominalizaçâo mais com- fator unidirecional da literatura infantil, dando-se exclusi-
PÌexa'49 vamente do adulto païa a crixnça, e revela a condição ideo-
lógica do texto, que poderá oscilar entre um papel condi-
Isso não significa que o escritor deva simplesmente cionador ou emancipador, mas que não ultrapassará estes
transcrever o discurso infantil ao longo de sua criação, uma limites imediatos.
vez que a leitura pode conduzir à ampliação do domínio Neste sentido, a literatura infantil pode agir à revelia
lingüístico do jovem, retomando-se no plano da linguagem da criança, isto é, trai-la, na medida em que endossa sua
a função pedagógica inerente à literatura destinada às crian- dependência existencial ao adulto, dando-lhe um papel
ças. Engelen descreve como se dá este processo: passivo, já que os pólos do modelo comunicacional não
podem ser invertidos, permanecendo o jovem como o eter-
Se a criança, no decorrer de seu desenvolvimento lingtiís-
no beneficiârio de uma mensagem de que não é, nem pode
tico, encontra muitos exemplos com estruturas sintáticas mais
complexas, que ela, devido ao seu conhecimento de mr,rndo - ser, o autor. Daí sua duplicidade de carâter, que se revela
de maneira mais flagrante quando pretende, por meio da
adaptação, obscurecer a distância que lhe é peculiar, entre
48 ENGetnN, Bernhard. Zur Sprache des Kinder-und Jugend o produtor e o intérprete: apropriando-se da criança, que
Buchs. In: LYPP, Maria (Org.). IiteraturfúrKinder. Goningen: Vandenhoeck
und Ruprecht, 1977. p. 798.
49 ft., p.z7o-ztr. 5o Ia., p. zro-21r.

742 143
rì('lusivc nomeia o gênero de que é apenas o destinatário de natureza didâtica, produto sobretudo de cchtc:ttl<)t('.s ('
unìrÌ vez que a literatura infantil significa uma modalidade religiosos, nos quais se verifica acima de tudo o irttuilo
tlc criação artística para crianças, e não das crianças -, quer pedagógico, introdutor de valores e normas de conclttt:t."1
scr Lrma aliada sua. Entretanto, objetivando dirigi-la para O papel exercido por Monteiro Lobato no quaclro clt
lulgum lugar, por meio de noções e procedimentos a serem literatura infantil nacional tem sido seguidamente reitertclo,
aclotados, mantém-se exterior a - e contra - ela. e com iustiça. Com esse autor rompe-se (ou melhor: co-
Sendo essa duplicidade própria ao gênero em questão, meça a ser rornpido) o círculo da dependência aos padrõcs
cabe avaliar a história da literatura infantil nacional desse literários provindos da Europa, principalmente no que diz
prisma. As primeiras criações advêm da mesma preocupa- respeito ao aproveitamento da tradição folclórica. Yalorizan-
ção que norteou o início da literatura infantil no Ocidente: do a ambientação local predominante na época, ou seja, a
tratava-se de dotar o jovem com textos condizentes com pequena propriedade rural, constrói Monteiro Lobato uma
suas necessídades de formação. No Brasil, foi um europeu realidade ficcional coincidente com a do leitor de seu tem-
que procedeu a essa tarefa: Carl Jansen, radicado primeira- po, o que ocorre pela invenção do Sítio do Pica-pau Ama-
mente no Rio Grande do Sul e depois no Rio de Janeiro, relo. Além disso, não apenas utiliza personagens nacionais,
estimulou o desenvolvimento de uma cultura nacional en- como também cria uma mitologia autônoma que se repete
quanto participou do grupo O Guaíba, em Pofio Alegre, e, em quase todas as narrativas; daí a presença constante de
mais tarde, como ativo educador e mestre do Colégio Pedro Pedrinho, Emília, Narizinho, Dona Benta, Tia Nastácia, o
II. Traduziu e adaptou os clássicos para a juventude, como Visconde. É igualmente razão de seu êxito literário e estéti-
As mil e uma noites, Dom Quixote, Viagens de Gulliuer, co o emprego de crianças como heróis, o que possibilita
Robínson Crusoe, As auenturas do Barão de Münchba.u.sen, uma identificação imediata com o leitor.\,
entre outros.51 No plano das personagens, cabe ressaltar ainda outro
O que não ocorreu entre nós foi o aproveitamento da procedimento do escritor, que resultou no sucesso de sett
tradição folclórica brasileira paÍa a constituição dos textos empreendimento: trata-se do modo como ele resolve o
juvenis, de modo que eles careceram de uma temâtica h,rgar do adulto em seus textos. No mundo fictício do Sítio

nacional. Embora essa fase de formação da literatura infan- do Pica-pau Amarelo, microcosmo do qual se desenvolvem
os outros contextos ambientais de seus livros num crescen-
til ainda se dê sob a égide do Romantismo, as aspirações
te avanço rumo aos espaços fantásticos (já que se passa de
nativistas do movimento não atingiram esse tipo de criação
um cenário de certo modo reconhecível como o mencio-
aÍtistic . Pelo contrário, ao lado das adaptações escritas por
rrado Sítio, parahorizontes cada vez mais fantasiosos, como
Carl Jansen, houve a utilização do conto de fadas europeu,
particularmente o ibérico, que passou a circular em antolo-
o Reino das Águas Claras, a Lua, a Grécia clássica etc.),
gias como Contos da Carochinba, de Figueiredo pimentel.
A seu lado, acrescente-se o aparecimento de alguns livros 52 Sobt" os inícios da literatura infantil no Brasil, consulte-se
AÌÌROYO, Leonardo. Litera.tura infantil brasileira. São Paulo: Melho-
rxmentos, 1968; e SANDRONI, Laura Constancia. Retrospectiva da lite-
5l v. a respeito CESAR, Guilhermino. Um precursor de Lobato. r':rtura infantil brasileira. Cadernos da PUURJ. Rio de Janeiro: Pontifícia
Comeio do Por,o. Porto Alegre, 3 dez. 1977. Caderno de Sábado. tJniversidade Católica do Rio deJaneiro, n. 33, 1980.

1.44 M5
('\tsl(,lìì :rpenas dois seres mais velhos,
Dona Benta e Tia O terceiro aspecto a destacar nas criaçõcs tlo t'st'ttlul
N;rsl;icia, visto que experiência, maturiclade
e responrnfrìfi_ paulista diz respeito ao aproveitamento da sugcstlto ttl'itttl
rl:rclc, enquanto propriedades específicas
a" uá.,fi", ,ãà cla clo folclore. Conforme foi afirmado anteriorlìì('rìl(" ('
:rtril>utos exclusivos cla primeira, ã avó.
demais personagens são: as crianças, realistas (pe_ clessa fonte que se alimentou intensamente a litclltltrr':t
clrìnho e Narizinho) ou fantásticas Cnmitia, t;;;;;, infantil em seus primórdios. No Brasil, deu-se por ltttrilrr
Peninha), os animais mágicos (o Rinoceronte " tempo o transplante da tradição estrangeira, visto (lr-lc :ls
euindim, o
Ìlurro Falante) e a cozinheira Tia Nastácia, cujoìível narrativas de cunho oral não receberam atenção sitrlilltl',
irue_
lectual e comportamental não ultrapassa o áo, mesmo durante a vigência de movimentos literários cle cot'
_".ro.ar, nacionalista, como o Romantismo, o Regionalismo otl ()
sendo, às vezes, trÌesmo inferior. Aisim, unicamente
uma
personagem representa o universo do indivíduo Modernismo. Foi Monteiro Lobato quem procurotl incorpo-
aclulto _ e
coln uma singularidade: a de que não clesempenha rar esse acervo às suas histórias, pelo aproveitamento clc
uma
função paterna. Assim, Monteiro Lobato preserva cefias personagens, fantásticas, como o Saci Pererê, históri-
um lugar
a um papel fiscalizador e de sustentação financeira, cas, como Hans Staden, por exemplo, e dos relatos poptl-
,.Ã lares; daí a presença do ciclo das lendas relativas à onça ou
e filhos"
conotação problemática que a relação entre pais
necessariamente contém.53 Nesse sentido, as
crianças fic_ ao jabuti, entre outras. Todavia, se a ambiência modernista
cionais que vivem no Sítio clo pica_pau Amarelo
saã órfas do autor transparece em tais procedimentos, cabe a ressal-
- Pedrinho passa as fêrias lâ, longe cla mãe, e os pais de va <le que ele emprega igualmente a mitologia clássica
Narizinho não são mencionaclos, e Emília e o Visconde, (como em O minotauro ou Os doze trabalbos de Hércules)
as
criaturas mais originais de Lobato, são inventados
por brico_ e personagens oriundos da literatura européia (Peter Pan,
lagem,54 isto é, provêm do aproveitamento
do material D. Quixote) ou da religião (S. Jorge, em Viagem ò Lrta),
existente no próprio meio oncle moram os entes integrando o universo infantil de suas pessoas imaginárias
fictícios _
o que se torna condição de sua liberdade, pois Dona e leitores à história nacional e ocidental, assim como ao
Benta
não exerce um poder de coerçâo. E, quando insinua mundo cultural que os cerca.
o
exercício de um procedimento desse tipo, acaba Da obra criativa e, ao mesmo tempo, respeitadora das
vítima clo
desafio dos pequenos protagonistas, sem que tal peculiaridades do mundo da criança, não se deve omitir
atitude
implique desobediência (uma vez que nào se rata igualmente o ângulo pedagógico: Lobato sempre teve em
de
recusa a uma ordem paterna) ou falta de educação.
mente a formação de seu leitor, visando dotá-lo de uma
certa visão do real e da circunstância local, assim como de
53
uma norma de conduta. Emerge dai a presença de uma
cf' a propósito igualmente
-In: BELINK! as observações de Tatiana Berinky. doutrina nacionalista, transparente sobretudo em seu livro
Tatiana. Literatura inlantil é Monteìro Lobato. ln,
Sfú, mais polêmico, O poço do Visconde. Preocupado com a
Joâo carlos Marinho. conuercancro cíe Monteiro Lobato. são paulo:
ObeliTo, 1977. p.22. defesa dos interesses internos, investe contra o capital es-
)4 o termo é usacro no senticro que trangeiro que, segundo ele, prejudicaria a autonomia eco-
lhe clá craucle Lévi-strauss. V.
tÉvI-srRAUSS, Claucle. o pensamento seruagem. sâo paulo:
NacionaÌ, nômica da nação. Propõe também um certo modelo socio-
7970.
econômico, ao partilhar a valorização da livre-iniciativa e

746
147
r t'1;11;1r'rr.Ìdimento privado,
,l:rnça cle sua visho de mundo, sem mocliÍìc1ll' ll.'j ( llr rlll:,
r l't
increpencientemente cra tute,Irr
r Lr l,lsl:rclo, como é próprio à icleoiogia
da classe méclia. I:rnc:ias originais em qlle elas viviam e sonhavltttt'
. :S:,, protótipo
.irrrlivícluo social vem clas ãamaclas urbanas: é <r É esse o aspecto contraclitório de seus textos: ltottvt' 't
empreencleclor, esperto, astucioso,
qlÌe nâo co_ irrcorporação cle ceftas idéias (que proceclem evitlt'rrl,'
rrlrccc limites, em contraposição
à estagnação clo pequencr rrrcnte cle sua profunda aclmirzrção pelo modo nortc-lllìÌ('li
l:rvrador. por isso,.seus hãróis precliletos, pe<lrinho
e Emília, ,.ilno de vicla), sem qlìe ele as tenha conseguiclo trlrcltrzir
.sìo em primeiro lugar inclivícjuos
desrespeitaclores; repre_ (.rìì personagens e ações. Por isso, as narrativas têtlt ttttt
scntam um inconformismo qì.Ìe somente
se satisfa, q.rnrr,lo t.onteútdo doutrinário, o que inclubitavelmente perttlrl)lì ()
sc pocle traduzir em açâo. São a
produtivo, imprescinclível clentro cla
encarnaçâo cÌo ser humano t,lèito emancipaclor que a caracterização inconformista clc
nova orclem a qlle o scus heróis clesejaria alcançar. E tal dificuldacle advém clrr
autor aspirava: o desenvolvimento
inclustrial, o cresciÁento rìetureza do gênero a que o alltor dedicou grande parte clc
econômico, a afirm-ação cla pujança
nacional. Dessa forma, slra existência e o melhor de sua criatividade: é que, para
o nacionalismo de Monteiro Lobato
coincide com as aspira_
ções de sua época, quanclo se assistia à modernizaçaà llcançar o efeito formador e pedagógico, o escritor não
país pela introdução cle uma inclústria ao pôcle aprimorar sua mensagem, discutindo slÌas nlÌances c
Ìocal, ao crescimen_ conseqüências, nem tornar mais complexas as personagens
to urbano e ao foftalecimento cla classe
méclia. É nessa c ambiência, fazenclo-as viver crises existenciais, pertllr-
nova realidade social ele quer introcluzir
.que
deste modo, sendo o inconfor-ir-o
seu leitor; baçôes ou mudanças. Por isso, o programâ político de
que susten ta a ação
de Emília, pedrinho e o Viscond" Monteiro Lobato liquida o mundo de seus heróis, sem qLle
n .o.ráição a" p.rrf..rl,rn
emancipadora de sua obra, vê_se que estes, que encarnam aquele, possam se dar conta do fato,
o alltor também bus_
ca canalizâ-la para um cefto tipo
dâ proclutivicla cle, cle cará,_ aprová-lo ou contestá-lo. Nesse sentido, as personagens aca-
ter burguês, a que a criança, ,eceËedo, bam por incorporar a ptôpria, condição do leitor infantil, a
sempre p"r;i;;,
sujeita-se. cla aceitação e passividade. Em outras palavras, por terem
Salienta-se ainda outro aspecto
clecorrente do caráter si<lo criaclas à imagem e semelhança de seu recebedor, para
ideológico que as narrativas poìrr"*,
é que, patrocinanclo motivar a iclentificação e o interesse dele, acabam por ado-
a imagem do universo urbano e a doutrina
burguesa da tar seu clestino, o que tem por conseqüência a limitação e
livre-iniciativa, Monteiro Lobato acaba a ameaça de extinção de sua circunstância'
condenanclo _ e ele
o faz confe.ssadamente, por meio de Porque deu ênfase ao ideal da vida urbana e represen-
Jecas Tatus que per_
passam sua obra e moram preferenciai_"rrt.
no Sítio cle D. tou progfamaticamente as transformações socioeconômicas
penla - o próprio espaço existencial cle oncle provêm
seus que vivia a nação em sr-Ìa êpoca, Lobato criou a literatura
heróis (o cenário rural) e seu nacional num contexto de cenário' personagens e sugestão
-"io-a" vida (a exploração
da pequena propriedade de terra). folclórica que já não podia ser seguido por nenhum outro
E ã"rto que, ao proce_
der assim, Lobato evidenciava .; escritor do gênero. Noutra formulação: fazet literatura
que ocorria na sociedade brasileira
;"; obra um processo
de seu tempo. No en_ infantil após Monteiro Lobato significa começar quase tudo
tanto, o que surpreende é que ele
consegue situar suas outÍí- vez, pois a experiência do escritor foi levada por ele
personagens neste novo contexto
tão_somente pela mu_ próprio às suas últimas conseqüências' A evolução dessa

748 r4g
('.sl)('(.ic litcr.ril.ilrr n()
I3ra.sil rcllctc
r.c'tcs. c.st:rs cliÍjculcl:rclcs clccor_
i,ulx)c, rllr p;rr'(t' rlo lcitor', um detemrinaclo ltrc-corrlrt'r.i
Há escritor rrrcrìto clc.stc rrrcsmr> rnaterial. Esse pressulposto fnlh:r, <1rr:rrr
mocleÌos fonrr"ï"]ï :,"^],_,ram áÌ reperir os princip:ris
precisamente o , - Lr'rrroríÌm narrativas em que firlta rlo.sc trttlr clc trm recebedor mirim, o qlÌe intensifica otrtr':r
consistill seu vt'7. Lt necessiclade de adaptação. Conseqtientelìlentc, lì{
criçâo .1o .,nirr"rQue srende achacìo: zr circ,ns- )

r':rs<r cla proposição de tipo realista pare literatura irrÍìrrr


cicla pelo r.ito,. ïïtt:::i] vivícla e,/ou conhe- ^ e recluçìo, j:i
., ..uyucraÌ '""Iïtlacl"
epocÍì. aincla cra preciomi_ til, a ;rclaptação vem a significar simplificação
nxnlemente
fantasia transfor^rrt,e lnteriorenr. presente nurn texto atual, a <;r-re não pode se dar um questionamento sobre as raízc'.s
ckrs problernas examinados, nem sugeridas propostes rk.
vicla, neglir"".,j;:j:,*"1.^-l"tt'cação a. .,*,r.'.Ë a" solução, a não ser qlÌe o escritor descubra alternativ:rs cslru,
natârio, o q.,. referênci:t clo cÌesti-
-",t"" ,"ìÌulì:ï:1:-it
incompreensão ch r..-"1ì), tlslnteresse e representa tlrrais, propiciaclas pelo relato ficcional, para esta espócit'
__"orLraoe Llma cle dificuldade.
formais. ce renovação e criatividade
Se, portanto, no primeiro caso mencionaclo a omi.sslìo
Evitando tâo
Lobaro, outra linhagem do mundo vivido pelo leitor dentro do universo textrr:rl
escrirores ,rnrn a"-IË"ïrerepetir cle
_o-qr u mero
urbano à criação literária. conduz e uma criação totalmente desvinculada da rclli,
Cabe mencionar -
clade, cujo conteúdo venÌ a ter natllrezzr unicamente utírpiclr,
oi u nsl N;;,,
f ;, :'i: ï ;ï:::ï::.J"_T LrrDano
s,rcecü cros' rve i"
na perspectiva da
no último, a rejeição clo fantástico pelo epego ao parricl<r
interioriclade cla criancr. n_l.,llrr.s
Machaclo ã o"ïnï.nï, neonaturalista provoca uma falsificação em tudo contrirrilr lr
que aborcra-
"r.:i:::::::i-y1'* intenção qlle norteou a produção artística.
cundante; Fernancla r."...---;'lt^os menlnos e o contexto cir-
Tais são os transtornos coln os quais convive a litcrlr
peculiaridacles fantásr;;" ':: Almelda' que redimensiona as
tura infantil nacional. O exemplo de Monteiro Lobato porlt'
Marigny, q,-," r"*lrì;.:^,:,,tonto. de fadas; carlos cre
sociedade com base ajuclar a compreender e descrever o fenômeno, assim c()rìì( )
na óptica infantil, ist" é. :;':l:t]:i*:"
proregonisras cenrais. a resolvê-lo, se o examinarmos na perspectiva da criu(-:ì< r
A dificuldaá" _rià.*ì^SelÌs de novos textos. Entretanto, ao mesmo tempo, ele sír .sc'ri
úrltima inctinaçào eue diz respeiro à
do munclo urbano .,.,ao
-"n.ionlìJ,ïïï;,i:,zru raro cle que a valorizaçâo
um prestimoso auxiliar, se o resultado for uma literrtrrr':r
^ll.l
"ï: i :ü;:t: :
original, não-lobateana, pois, como foi visto, o próprio c's
p ersp e c r i va ."
lismo. pois, se u
- o, :-
"":
t :ï :",:,l:Ï
ì-'' uDjeto tem ï1T
sido tratedo: a c.lo rea- critor esgotoll os caminhos inventados e trilhados por clt'.
cleveu E mesmo em seu caso, evidenciam-se os limites do gônclr r
",
programa, ,ro ,e.,,iït3,iÌil1t:t" seu aparecimenro e
a, introduçìo escolhido ou, com outras palavras, as dificuldaclcs cytrr.
assunro (decorrenre-,t;;i::'
conseqüênciasclo6
-- *'rcnvolvlmento de um novo industrial e
vivencia para transpor sllas fronteiras. Que, como dccctrrcln
clas da função ideológica a que a literatura se sujeita, caltc pcr'
r:,,fl ï::ïïHïfrï...ïËl;,ï:;r;:;hïi;,",:ï
naruralmente a incorporar
guntar se a recllsa desse papel não provocará seu clc.srr
parecimento. Oriuncla da constituição de determinaclu Íìrir:r
foco realisr, _.rr.il.l;f"1" o
todavia, tem sicro etâria, a infância, a partir de um cefto momento cle cv()lu
incerro, pois a tit"rntu.,-a1
de que a ane pocte reflet,.üj"rt":',ïf, ção da civilização ocidental, sua transitoriedade é antpli:rtl:r
ï;;'#.il,1i:,ï*J;J::t: ainda pela relação especial que estabelece com seu clcstirr:r
tário, uma vez que está constantemente a perclê-lo. I,or'
150
t5t
t;,rt(), lt literatura infantil
talvez seja tão_somente uma
Irislolicr, passageira .:*9 fase
n condiçâo de seus leitores,
rlcnclo sua eliminaçâo depen_
da _"jid;;ç;; da esffurura
(lLle zÌ gerou. No social
enhnto, enquanto existir,
mantém_se como
teórico, sándo a imagem acabadado
x:'::1!:-""
ltteratura nâo quer ?-orqu":
ser, isto é, revelan-do que
que
igualmente ftaição, e não "
;.;;;
ler
permanência,
p""",.g*o, passagem, e não
farsifìcaçâo, e'"à" ;;;;de,
outro lado, a primeira, vista crenuncia esse
inaamirr?J.f, mas verídico, cla
criaçâo com a palavra,, o
que deflagra a necessicrade
; ,";i;;?;;;u ao f"r,o_eno uma
reflexâo renovada sobre cre
rârio e estético. tire_

O LIVRO PÃRà CRIÃNçÃS


I\TO BRÃSII

r52
/\IONTEIRO IOBÃTO E A
r\vENTURÃ. Do IMÃGINÁnto

Localizando a ação do presente de seus leitores e


des-
das perso-
tlobrando as peripécias com base no cotidiano
com iÌ
tìlrgens, Monteiro Lobato teve os meios para romper
,',,ãição literâria destinada aos jovens de seu tempo'
Essa

,,'r';t caudatâria do folclore europeu' constituído por narrati-


vas de transmissão oral, recolhidas, e conseqüentemente
e de Hans-
c'ristalizadas, nas compilações dos irmãos Grimm
(lhristian Andersen. O sucesso que alcançaram ocasionou a
A
cópia e adaptação delas em diferentes partes da Europa'
I)cnínsula Ibérica não ficou imune a esses acontecimentos;
c, por este intermediâtio, acabaram por desembarcar nc>
tlraìil as mesmâs histórias, somadas à contribuição aleatíri.r
cle escritores mais antigos, como Chades Perrault'
ou mais
de tex-
lecentes, como Heinrich Hoffmann, acompanhadas
nos quais
tos de procedênciavaúadae autoria desconhecida'
de figuras da
se destacam o conteúdo religioso e a presença
mitologia cristã.
Hãrdeiras, talvez espúrias, da ttadição popular euro-
pêia esombras do legítimo Mrircbencoligido pelos Grimm'
ver
esses relatos acabaram por perder - ou, ao menos'
ligavam ao mei<>
enfraquecerem - as peculiaridades que os

É5
.\()ciíì.I no qual surgiram.l Se os compilaclores mencionaclo.s tlo passado, assim como suas atitudes, condição cltrc' t'lcgt'
j:i lraviam tratado de amenizar o conteúdo original dos p:rra evitar o sepultamento definitivo deles.
tex_
tos - aquele que traduzia a revolta dos segmentos sociais Com tal decisão, o escritor revela-se simultancarrrcrrlt'
rnais oprimidos, como os dos camponeses e afiesãos urbâ_ rrrn homem de sua época - porque permeável à influôrrc'irr
nos, que elaboraram as narrativas primitivas _, o processo tlo cinema e dos quadrinhos (veja-se por sua reitcllrcl:r
se complementou nas transposições que sucessivamente :rclmiração por Disney, para ele, um dos maiores artistus ckr
foram feitas. Adaptações de adaptações, as histórias come_ sóculo) - e um atvalizadot, ffazendo para a mentalidade <k'
.scLÌ momento histórico o que lhe parecia ultrapassado otr
çaram a falar de um mundo sem qualquer vínculo com zÌ
possível experiência do leitor; atenuadas até em seus con_ cnvelhecido. A literatura infantil, como se afirmou ântes, enr
flitos simbólicos, converteram-se em resumos que pouco rÌ que experimentava mais nevralgicamente esta dificuldade.
mostravam, seja a propósito da realidade que expressaram Amarrada à contribuição do passado, nào se renovxva; e,
um dia, seja a respeito da sociedade em que posteriormen_ com isto, impedia o aproveitamento do moderno, da atua-
te se implantaraln, por nada terem assimilaclo do novo solo. lidade, do tempo, em suma.
As histórias reunidas por Figueireclo pimentel que o É o que muda radicalmente com o desdobramento da
digam: seu Ifistorias da auozinba tem a ver com o livro de obra de Monteiro Lobato. Pode-se supor, por conseguinte,
mesmo nome, elaborado por Travassos Lopes,2 alÌtor por_ que ela acabasse por refletir a êpoca em que foi produzi-
tttguês, e esse, por sua vez, com algum ancestral mais dis_ cla. Que, com a incorporação de personagens contemporâ-
tante, remontando ao folclore da Europa Central cle que se neos, fosse introduzido na literatura infantil o sistema social
valeram os famosos irmãos, ou a Llma origem mais clifusa, vigente, com seus valores e compoftamentos, organização
como a asiâtica, que se expandira pelos conto s das Mil e política e funções. Yale dizer, pode-se esperar dela uma
uma noites. É com esse panorama que Lobato rompe, o que representação da realidade que nos faça conhecer, com
não significa que o ignore. No entanto, somente o incor_ maior ou menor número de detalhes, a êpoca a que o autor
pora quando o submete às regras dos moradores clo Sítio fbi profundamente sensível (e que lhe rendeu uma série de
ensaios polêmicos e uma vida pública agitada).
do Pica-Pau Amarelo; e, sobretudo, quanclo o moderniza,
procedimento que o leva a renovar a linguagem dos heróis Todavia, quando inquirida, os traços de contempo-
raneidade e cotidiano da realidade representada parecem
escapulir. Pelo contrário, revela-se de imediato que insti-
1 As relações tuições basilares da sociedade brasileira de seu tempo (e de
entre os Màrcben e a sociedacle agrâria cla Europa
pré-industrial podem ser verificadas em RôHRICH, Lutz. Mcircben hoje), como a familia (patriarcal), a escola e a religião (ou
und
'Mirklicbkeü. \Tiesbaden F-Íanz Steiner yerlag, 7974. a Igreja) estão completamente ausentes. Se Dona Benta e
2 Cf. u respeito PIMENTEL, Figueiredo. seus netos, rodeados de alguns animais incomuns, como os
Histórias da auozinba.
Livro para crianças. Rio cle Janeiro: falantes burro Conselheiro, rinoceronte Quindim e Marquês
euaresma, s.cl. Id. Histórias cla
carocbinba. Rio de Janeiro:
euaresma, 7954. Id. Histórias do arco-da_ de Rabicó, ainda coincidem com uma idéia de família, falta-
uelba. Rio de Janeiro: Quaresma, 1957. E LOPES,
José euintino Travas_ lhe a orientação patriarcal e autoritâria que perdurava no
sos. Os contos da auozinba. Coleçâo ilustrada cle histórias, lenclas,
fábu_
las e contos. Lisboa: Livraria de Antonio Maria pereira período, sobretudo no meio rural habitado pelos protago-
, 1894_1896. 2 v.

156 757
rÌist:rs. Por sua vez, a escola desaparece, já que Pedrinho A Marcação ão Terrítórío
c'stri crrr férias permanentes, sendo alvo de uma aprendiza-
Ílcrìì que crê muito mais eficaz, já que recorre à leitura de As caçadas cle Pedrinbo, sendo uma clas pot'tc:t's olrt':ts
livros e comparece diariamente aos serões, abeftos a todos cnl que a ação transcorre inteiramente clentro do 'sítio, oÍi'
<rs interessados, de Dona Benta. A organização religiosa rcce os dados para uma primeira aproximação ao tcllìlt' A
rìLlnca é mencionacla, como se jamais tivesse existido, nem rrarrativa pode ser dividida em duas grandes seqtiênci:ts,
funcionaclo como um dos principais esteios da sociedade rlecorrência natural das duas fases em que o livro foi cs-
nacional ao longo de sua história.3 crito.5 A primeira dá conta da caçada da onça, e a seÍltllì-
Tais fatores - mais a visão harmônica do relaciona- cla, cla adoção clo rinoceronte, posteriormente batizacl<r
mento entre os indivíduos, humanos e animais, que moram como Quindim pela prole de Dona Benta.
no sítio (o que não impede conflitos internos, mas passa- A primeira seqtiência, por sua vez, reparte-se em clois
geiros, e aventuras, estâs contínuas) - reforçam a noção de rnovimentos: no primeiro, os meninos, acompanhados por
que aquele cenário representa a.corporificação mais nítida lÌmília, Visconde e Rabicó, dirigem-se à mata, na procllráÌ
áu r.rtopin concebida por Lobato.4 Se assim é, e a conclusão cla onça, cuja presença o último havia detectado antes' Ten-
parece inquestionável, resulta comprometida a tarefa que clo-se sagrado vencedores, após um ataque simultâneo ao
ele se clispôs a. realizat: a de criação de uma obra para cri- inimigo, eles se vêem acossados pelos animais, que querem
anças fundada ntlm tempo e espaço determinados, o do vingar o crime. De agressores, as crianças se convertem em
Brasil cle sua época, rompendo com um tipo de literatura rrgrecliclos, porém não perdem o carâÍer heróico, já que é
até então consumida pela infância. cleles a simpatia do escritor. Por isso, são os animais os
Antes cle confirmar se esse projeto foi viabilizado ou ruutênticos selvagens, embora esta conotação negativa fique
não, torna-se imprescindível verificar que realidade - ou rumenizada pela justificativa oferecida por um dos bichos à
que sociedade - a obra Íradtz. Isso significa igualmente r-recessidacle de vingança: eles vinham sendo paulatina-
interrogar a metodologia que pode servir de amparo no rnente desalojaclos de seu hábitat original, devendo então
caso, a sociologia literâria- Pois, na falta de uma contrapar- reagir, para conselvar uma parte c1e suas áreas primitivas'
tida real ao mundo construído por Lobato, que metodolo- Tendo razão e agindo democraticamente (os animais
gia pode ser útil? Ou, com outra formulação: até que ponto cliscutem o problema em assemblêia, e a decisão é fruto do
a sociologia liÍerâria, explicitando as aproximações entre consenso geral), nem por isso eles deixam de ser aniquila-
uma obra e a sociedade que lhe serve de modelo, pode dar clos, outra vez em decorrência da ação coletiva das cri-
conta cle uma narrativa na qual estes vínculos são rejeita- rÌnças, lideradas pela esperteza de Emília. Não evitam, pois,
dos e até expulsos como indesejados? a expulsão que temiam, produto da ocupação, pelo ser
humano, cle seu território. Assim, o sítio, por intermédio de
3 A .onttutnção dessas ausências na obra de Monteiro Lobato
deve-se a Rose Lee Hayden. cf. HAYDEN, Rose Lee. Tbe cbildren's lite-
rature ofJosé Bento Monteiro Lobato of Brazil: A peclagogy for progress' 5 Originalmente constituíclo pela história da caçada da onça, pu-
Ann Arbor: Universiry Microlilm International, 1974' lrlicacla em 7924, o livro tomou a forma que detém atualmente em 1933,
4 Cf . a propôsito FIAYDEN, Rose Lee' op' cit' com o acréscimo da seqüência relativa à busca do rinoceronte'

158 r59
:,('u.s lìabitantes, expande seu espaço físico, civilizando, Além disso, as crianças também percebcnì :t ilìt'oltl
perscgLlclìì tllll
1r<>clc-se dizer, a n tureza primitiva que o rodeia. Ao mesmo lletência dos homens que, ainda por cima,
tcrÌìpo, delimita uma zona de relação com o mundo não scr que jâ conta com a simpatia dos heróis:
lrr-rrnano, em que isola - ou submete o selvagem que existe
- Peclrinho estava assombrado da esperteza daquelcs lro'
nele.
mens. Iam construir uma Ìinha de cabos só para levar ao tcrrci|rr
A segunda seqüência também se inicia por uma caça- um canhãozinho e uma metralhador:r!"' Muitos rinocerontcs jÍ
cla. Ou melhor, abre por um projeto de caçada - a do rino- haviam siclo caçaclos desde que o mr,rnclo é mundo, mas nenhtttlt
ceronte, encontrado na própria fazenda por Emília. Ado- seria caçaclo tão caro e com tanta ciência como aquele' Apeslrr
nando-se do animal, que fugira de um circo, ela o vende a cle nunca saíclos claqui, Ìais homens bem que podiam mudar-sc
Pedrinho. O fato - pacífico, o que o torna simetricamente para a África, a fim de ensinar âos negros do Uganda como é que
oposto à caçada anterior - tem, por sua vez, uma conse- se caçam feras... (p. 96-97).

qüência similar: dá-se a invasão dos funcionários do go-


verno, em busca da pretensa fera, e, embora não almejem Todavia, é a circunstância de colocá-los' no desdobrar
verdadeiramente concluir a tarefa, ocasionam transtornos clo texto, na mesma posição ocupada antes pelos animais
equivalentes nas terras de Dona Benta. O resultado de suas selvagens, que traduz de maneira mais palpável a aversão
ações, somado ao carâter indesejável de todos eles, coloca- aos vilões. Por isso, eles não contam com nenhum atenlÌ-
os no eixo dos animais bravios que, na seqüência anterior, Irnte: pelo contrário, são ridicularizados e, para tanto, o es-
queriam destmir o sítio. critor arrisc a-se a exageraf cm seus comentários sobre as
A rejeição dos funcionários provenientes do Rio de Ja- personagens, já que a proporção desses é visivelmente
neiro transparece ainda em outros níveis. Não se aventuran- maior que em qualquer outro momento do livro'
do a uma incompreensão por parte do leitor, o narrador trata Também a ferocidade humana é punida, e seus porta-
de expressar com veemência a ineficâcia e mâ-fê do grupo: dores expulsos do local de um modo irreversível' o que
ainda ocorre ao advogado e ao proprietário do circo em
Fazia meses que o governo se preocupava seriamente com que vivia o rinoceronte. Esse, por sua vez, Íem uma sorte
o caso do rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Depar- clistinta, se comparado à onça, a quem se assemelhava por
força c1a estrutura espelhada do texto. E adotado pela fami
tamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, com um importante
chefe geral do serviço, que ganhava três contos por mês e mais
doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um, afora grande Iia, ainda que gradualmente: Emília é a primeira a reconhe-
número de datilógrafas e 'encostados'. Essa gente perderia o cer sua mansidão e, a seguir, todos os demais membros'
emprego se o animal fosse encontrado, de modo que o telegrama desde Pedrinho e Narizinho até Dona Benta e Tia Nastácia'
de Dona Benta os aborreceu bastante. Em todo caso, como acabam por conviver tranqüilamente com ele'
outros telegramas recebidos de outros pontos do país haviam
Dessa maneira, o rinoceronte não apenas inverte o
papel da onça; ele representa igualmente o avesso da
dado pistas falsas, tinham esperança de que o mesmo acontecesse
com o telegrama de Dona Benta. Por isso vieram. Se tivessem a
cerÍeza de que o rinoceronte estavâ mesmo lá, nâo vinham!6 iunçao desempenhada pelos demais agressores - as feras
animais e as humanas -, demonstrando que o sítio está
6 fOgATO, Monteiro. As caçadas de ped.rtnho. São paulo: Brasi- aberto tão-somente paÍ^ um tipo de indivíduo: aquele que
liense, 1956. p. 84. As demais citações provêm clessa edição. compartilha de algum dos valores enfatizados por alguma

160 761.
(l:rs l)cr.sonagens. Nesse caso, o carâter sereno, cuja contra- vrv(), que incorpora o evento mais paÌpitantc clo 1tt.r'urthr
lrrrrt.icla humana é protagonizada por Dona Benta; mais í'nì cÌLle foi escrito - a guerra européia.
lulcle, a sabedoria e a inclinação docente, igualmente atri-
lrr.rtos da av6, aliviando a missão pedagógica que eÌa vinhzr
ocupando até então. /l Chaue erlÍre os Lírnítes do Real
Na medida em qlre os heróis do sítio esclarecem as
regras par^ a admissão de novos parceiros, fica evidente O píca-pau amarelo (193D pode ser descrito, nurrr
que este território recebe um segundo limite. Na seqüência lrlirneiro momento, como a história que reflete, pelo avc.s-
inicial, esse se caracterizara por urna rejeição do natural e ',r r, cr sentido global de ,4s caçadas de Pedrínbo. A ação se
c1o selvagem, configurando um âmbito civllizado qlÌe avança ;r.rssa outra vez integralmente no sítio, embora Dona Benter
sobre as regiões que se opõem a ele. Contudo, a civilização tt'rrha de ampliar suas fronteiras, a fim de abrigar todas as
corporificada pelo sítio procede a um novo tipo de expul- Ir('r.sonagens do Mundo da Fábula, que se deslocam para
são: a do mundo urbano, cujo grau de desenvolvimento l,r. Contudo, em vez de acolher apenas alguns eleitos (co-
gerara uma organização institucional difícil de tolerar. Em rno Cléu e o rinoceronte na narrativa anterior, a menina
conseqüência, ao laclo do rechaço da estrutura administra- t('rì(lo atuâção passageira no conjunto da obra), a Velha
tiva, segue-se a negação de qualquer tipo de instituição - a lìr'nhora hospeda a todos indiscriminadamente, incluindo-
familiar, a escolar, a religiosa e a governamental. O pan- ',r' :tí os malvados, como o Capitão Gancho, Barba Azul e
doxal é que elas se confi:ndem com o mundo civllizado, '
):; rì-ìonstros que interrompem a festa de casamento de
aquele que submete a natureza circunvizinha e desenca- lirrr.lca de Neve. A condição de acesso justifica a diferença:
deia a transformação do ambiente original. ,:, rìovos moradores originam-se todos, bons ou maus, em
Corn isso, Monteiro Lobato procede à crítica à socieda- {'\r'rcício ou aposentados, do universo fabuloso da literatu-
de brasileira de seu tempo, ainda que a alusão ao estamen- r.r, cr-rja localização é contígua às terras de Dona Benta.
to burocrático revele que ele apenas a apalpava epidermica- Em razão desse fato, O pica-pau amarelo parece pro-
mente. Mais decisivo é que acaba por criar üm zona nelÌtra, , r'tlcr a uma opção por uma das realidades entre as quais
que somente se consolida por oposições: ao mundo da ,,r,< il:Ìva, dirigindo-se à região da fantasia atemporal. Congre-
natLreza, por não admitir um retorno à sociedade primitiva; 1i,utclo, num único espaço, escolhido para este fim, seres de
ao mundo da civllização, por não concordar com a forma de r',rriuclas procedências, pode abolir as fronteiras históricas
evolução que tomaram os acontecimentos históricos. r;rrr.r os prendiam a determinada circunstância e, conseqüen-
Que essa zona neutra veio a confundir-se com o ima- tr'rrìcflte, alterar as fronteiras da representação. Entretanto,
ginário, comprova-o o paulatino afastamento do contempo- Alortteiro Lobato não elege essa via, preferindo permanecer
râneo em sua obra, ou seja, a sonegação dos fatos sociais \] 7.ona neutfa antes mencionada, reiterando-se a cons-
de que deveria consistir a realidade recriada. É o que trans- l,rl:rÇão de que o livro desempenha função similar a ,4s
parece em O pica-pau amarelo, também transcorrido intei- t (t(zdas de Pedrinbo. Apresentando resultado semelhante,
ramente no sítio. Que todavia o real cobrou sua dívida, ,, t'scritor recorre a teses diferentes, fazendo com que as
impondo uma fronteira à ação ilimitada dos heróis, verifica- , ,l rlls espelhem uma à outra, refletindo simultanearnente a

se em A cbaue do tamanbo, texto em que o presente é tão nl('srÌìa imagem.

r62 163
A noção de que o sítio encarna uma zona especial, Restauraclas a separação e a diferença, dá-sc ittíc'io ltrr
rìlas neutra, porque alternativa tanto à sociedade real, como () lì()v(t
transplante clos seres dafâbvla. E esses, ocupando
ao mundo da fantasia, é expressa pelo narrador na abertu- territàrio, proceclem a uma alteração profunda do ccttlitirr
ra do relato, ao qualificar o local como "fabuloso tanto no original, como observam as crianças, sintomaticamentc itttt
mundo de verdade como no chamado mundo de mentira".T to à cerca fronteiriça:
Ciente da precariedade do último conceito, o narrador
procura esclarecer sua natureza: "O Mundo-da-Fábula não Os personagens vinham vindo sem interrupção coltt lt

enormíssima bagagem dos castelos e palácios maravilhosos,


é realmente nenhum mundo de mentira, pois o que existe terras ordinaríssimas, onde só havia saúrva e sapé, colltt'-
Aquelas
na imaginação de milhões e milhões de crianças é tão real çarem a transformar-se como por encanto @'
2D'
como as páginas deste livro" (p. 3). No entanto, a expli- Pedrinho estava maravilhado corn a transformação tllts
terras novas. Um puro milagre, aquilo! Tudo mr'rdado
(p' 2)'
cação apenas reforça o caráter impreciso e inconsistente do
conceito: a veracidade deste mundo decorre de sua pro-
cedência imaginária, o que apenas transfere para um outro Tais alterações não atingem o sítio de modo essencial'
nível a necessidade de resolução da ambivalência. É certo que algllns, como o Pequeno Polegar, D' Qttixotc
Além disso, a nova população fantástica não se instala ou Belerofonte perturbam o sossego da casa' sem mocli-
propriamente no sítio. Dona Benta compra fazendas limí- ficar, todavia, a natureza dessa. Por sua vez, o preiuíz<>
trofes, denominando-as de Terras Novas, e doa-as aos inte- maior decorre do seqüestro da tia Nastácia' assunto qlÌc'
por obrigar os meninos a abandonarem o lugar em busca
ressados. Trata de construir depois Llma cerca com porteira
cla cozinheira, converte-se em matêtía para outra aventufe,
para separar as duas âreas e confia ao Visconde a chave
narrada em O minota'uro.
afirmando: "Ficamos nós aqui e eles nas Terras Novas."S
Outros acontecimentos confirmam que o sítio resiste
ao assédio da fantasia, como resistira antes ao aÍaqÚe feroz
TLOSATO, Monteiro. Opica-paLt amarelo. São pauÌo: Brasiliense, de homens e animais. Um deles mostra o aparecimento dx
1956. p.3. V. também o subtítulo deste texto: O sítio de Dona Benta, Quimera, agora domesticada e caduca'
A esclerose do
um mundo de verdade e de mentira. As den-rais citações provêm dessa Àorrrt.o denuncia a desconfiança de Lobato em relação a
ediçâo.
B uma imersão completa no universo fantástico. Prefere con-
A itto se seguem algumas ações cliscriminatórias: "Nesse mesmo
dia Pedrinho tratoll da construção duma grande cerca de seis fios de servar seus lâços com o cotidiano, pelo qual lutam sobre-
arame farpado, que dividisse as teffas do Pica-pau Amarelo das novas tudo as velhas, Dona Benta e Tia Nastácia, tentando res-
terras adquiridas. No meio da cerca, bem defronte do terreiro, tinha de guardar o ordinário de suas vidas em meio à nova invasão.
ficar uma boa porteira de peroba, com cadeado" (p. 1B). Além disso, o Outro recurso empregado para ^fiançar a fidelidade ao
código de posturas é rígido: "Havia cláusulas. Que viessem todos - projeto original ê a nanação do episódio em que crianças
todos, todos, até o Barba AzuÌ - mas com a condiçâo de não invadirem
o sítio, de não pularem a cerca. Eles ficavam paralâ da cerca e ela e os
brasileiras visitam o sítio. Como os heróis da fábula, tomam
netos licavam para ci da cerca, nas velhas terras do sítio. Qr,rando algum conhecimento do local por intermédio dos livros; e, como
quisesse visitálo, tinha de tocar a campainha e esperar que Visconde no caso anterior, aquele cenário ê, para elas, tão real quan-
abrisse. l'jroibido pular. Quem o fizesse, correria o risco de espetar-se no to o objeto livro que lhes dá vida' Por isso, podem-se acer-
pontudo chifre de Quindim - o guarda,' (p. 18). car dele com segufança. o autor alcança assim dois resul-

164 765
tlrrlos: preselva seus laços com a realidade nacional, na crrtaclismo que acaboll por alterar a naÍurcz.r cllt ltttttt:l
<;rr:rl semeara e colhera seus protagonistas; e consegue con- rriclacle e o funcionamento cla vidasocial. É o que o plri;lr.it r
tr:rbalançar a ocupação estrangeira (jâ que é patente a rìirrr:Ìdor declara na abertura do livro:
rusência do folclore brasileiro) com a presença de crianças
vercladeiras, batizadas e contemporâneas à época de pro- A vicla no Ì)ica-pau Amarelo é um interminável sr'tcctlcl'tlt'
reinaçôes maraviÌhosas, nenhutna clas qr-rais equivale eur ot i13i'
clução da história.9
nalida<Ìe e imprevistas conseqüências para o mundo :ì clesclit:t
Assim, ressalvam-se os limites, que isolam o sítio por nesta obra. En-rília excedeu-se, con'ìo disse o Visconde - e por tltlì
dois lados - tanto do universo fantástico atemporal e des_ triz não determinou no gênero humano a mais radical <lrrs

nacionalizado, quanto da reprodução Ìiteral da socieciade mudanças.1o


cle seu tempo, evitanclo a imersâo de sua obra em situações
que, por excesso oll por falta, esterilizariam a criatividade Passando-se os eventos à época da guerra, qlÌancl()
cle seus heróis. Londres era bombardeada e a Rússia invadida, respectivl-
Ao redor desta zona privilegiada, aparece uma cerca, rnente pela aviação e exército nazistas, A cbaue do tama'
cujo portão é aberto por uma chave, em posse clo Vis_ nbo parece ser um dos livros, ao lado de O poço do Vis-
conde. A existência da chave impede o enclausuramento; conde, em que Lobato foi mais sensível às ocorrências con-
mas determina simultaneamente a seleção a respeito dos temporâneas a que assistia. Emília toma as dores do mundo
que podem entrar ou não. Ela converte-se, pois, em con_ e decide dar fim ao morticínio; ocasiona outro, que conso-
dição de sobrevivência clo sítio, permitindo a manutenção me até alguns vizinhos do sítio, mas de sllas conseqüências
de suas peculiaridades e não se deixando absorver por poderia nascer uma nova humanidade.
mundos que provocariam seu desaparecimento. Pelo menos, esta é a crença do livro: a de que, redu-
Outra chave, correspondente à utilizada em O pica_paLr zindo-se o tamanho dos seres humanos (e tão-somente
amarelo, vem a ser manipulada, agora por Emília. E, se a deles), adviriam novas condições de relacionamento com o
ação da boneca foi motivada por mais uma invasão da vida meio ambiente e com os semelhantes, mais soiidárias e sere-
contemporãnea na paz do sítio, a recíproca determinou o nas. Partidário de Darwin, acredita qlle a seleção nalural
recrutaria os melhores - e estes seriam os mais sábios,
como o professor americano, Dr. Barnes, que coordena os
9 É i.rt"r"rru.rte obseruar a preocupação em oferecer trabalhos na cidade planeiada por ele, e os mais espertos'
clados que
tornassem as crianças reconhecíveis aos leitores de sua época: ,,euem como Emília, que se safa de uma série de perigos recorren-
pode, por exemplo, com a Maria de Lurdes? ou com a Marina piza, ou
do à inteligência.
a Maria Luíza, on a Bjornberg de Coqueiros, ou o Raimundinho de
Araújo, ou o Hélio Sarmento, ou a Sarinha Viegas, ou a Joyce Campos,
O remédio é suprimir completamente a força física,
ou a Edite Canto, ou o Gilbert Hime, ou a Ayrton, ou o Flávio Morfetes, dekando lugar apenas pan o saber. Como observa Emília,
ou a Lucília carvalho, ou o Gilson, ou a Leda Maciel ou a Maria vitória, ela diminuiu de tatnanho, mas não de inteligência: "Apesar
ou Nice Viegas, ou os três Borgesinhos (Estila, Mário e Marila), ou o Davi de eu ter agora tamanho de uma saúva, possuo a mesm:l
Appleby, ou o Joaquim Alfredo, ou a Hilda Vilela, ou o Roclriguinho
Lobato e tantos outros? Essa criançada achou meios de descobrii onde
era o sítio de Dona Benta; e comandados pela Maria de Lurdes, ou a 10 rogATo, Monteiro. A cbaue do tamanbo. São Paulo: Brasi-
Râzinha, lá foram ter" (Id. ibid., p. 155). liense, 1956. p. 1-2. As demais citações provêm dessa edição.

r67
inteligência de anres" çp.2D. É o que viabiliza a desejacla
Constituindo o sítio como Lrma zofla intermccliír'irt, tt:t
Ordem Nova, que chega a entrever, acompanhada pelo
r1r-ral se aloja o imaginário com plenos poderes, Mol.ttcitrr
Visconde, em sua visita a Pail City, na Califórnia.
Lobato teve meios de transformálo na utopia qlle sc ol)tl'
Contudo, a nova organização não vem a se concretizar.
nha, de acordo cotn sua formulação, à estrutura da socic-
Não contando com unanimidade da população do sítio
clzrde brasileira. Vendo a esta úlltima como cristalização cllr
para o andamento do projeto, é obrigada a submeter-se a
incompetência e do autoritarismo, fatores que percebc'
um plebiscito, que julgaria qual o melhor caminho a tomar.
rnais tarde, para além da nação, mas sempre em regimes
No escrutínio, fica decidido o retorno ao sistema antigo, e
tirânicos, como o n zista, em A cbaue do tamanbo, reivin-
Emília precisa dobrar-se à vontade rnajoritária, sob pena de
clica, em sua obra, um espaço para a liberação da criativi-
empanar a imagem liberal que deseja difundir.
clade e da inteligência. Aloja-as na propriedade de Dona
Mais uma vez o Visconde aparece senhor da chave. De
Benta; e, com isto, expulsa segmentos importantes da vida
um lado, porque é seu voto que desempata a eleição, rebe-
nacional, embora evite compartilhar da estética escapista cla
lando-se contra a boneca, ao contrário clo que ocorrera em
literatura infantil que o precedeu. Essa é igualmente posta
outras ocasiões, e desmentindo o narrador, que afirmara ao
cle lado e ultrapassada, o que o remete de volta para o rea-
início: "(Emília) praticamente é quem governa o sítio de
lismo, fundado na mimese e na verossimilhança, desta vez
Dona Benta - e sempre exerceu uma completa ascenclên-
sem poder fugir a ele.
cia sobre o Visconde" (p. 1). De outro, porque é ele o Por conseglÌinte, é nessa estreita faka de terreno - o
único que tem força suficiente para mover o mecanismo.
imaginário, constituído entre o real e a fábula escapista; o
Entretanto, dessa vez a chave tem um significado
realismo decorrente do verossímil, entre a reprodução da
diverso. Se, no livro anterior, fora a salvaguarcla contra os
sociedade e sua abolição completa - que circula sua obra
assédios dos excessos a fantasia ou realismo, agora ê ela a
Iiterâria dirigida à infância. Com tal recurso, Lobato delimita
condição da verossimilhança do texto. yale cJizer, Lobato,
o método que pode abordá-lo, o qual, se for fundado num
como Emília, esta mais uma vez seu alter ego ficcional, pre-
procedimento sociológico estrito, se deparará com uma
cisa aceitar que os homens não mudaram seu tamanho e
ausência, quando esta é tão significativa quanto LÌma pre-
que a gueffa - ou a rivalidade entre as grandes potências _
sença, sem se tornar omissa ou onírica. É também neste
continuava cada vez mais aguda. portanto, não podia tra-
limite que transita sua estética, cuja chave êtrazida por seus
pacear com a realidade, que era sua e do leitor. De modo
heróis, os quais, para serem decifrados, exigem a supera-
que, mesmo sonegando-a ou tentando modificá-la, não
pôde evitar uma cobrança ulterior. E esta veio sob a forma ção do mero âmbito do confronto com o mundo histórico,
para o mergulho no imaginário que congrega algumas das
de uma estética - a do realismo, a que mesmo o gênero
aspirações da humanidade.
para crianças precisa sujeitar-se, sob a pena de pôr a perder
sua validade literâria. Configura-se nesses termos o perí-
metro do círculo dentro do qual se desenvolve a criação de
Lobato, abrigando dentro dele não apenas um modelo de
mundo imaginário, mas também a opção estética que per-
mite traduzi-lo.

168 169
É o que clccreta em nossos dias o impcriltli.srtlo thr
texto e a noçâo cle ser ele superior aos outros t.tlcios tlt'
comunicação, sobretudo quando estes prescinclenr clos
recursos ligados ao verbo. Tal situação pode ser collll)l'()-
vada não apenas por esta inclinação ao estabelecimento clc:
uma hierarquia dos objetos culturais, na qual o livro ocllplt
LITERÃTURÃ INFÃNTIL: o prirneiro lugar, reinando soberano; mas também pela
TEXTO E RENOVÃçÃO ênfase no domínio da linguagem escrita como objetivo últi-
mo tanto do ensino, como da habilidade de ler. No entan-
to, ela ainda pode ser confirmada, se se examina a questão
historicamente.
A posse de um alfabeto, isto ê, a utilização de um
código qlre se transmite por intermédio de signos gráficos,
O Itnperíalisrno do Texro tem sido um critério para a distinção entre os povos e as
civilizações, assim como pata segmentação da História.
O contato com a literatura infantil se faz inicialmente ^
Os grupos humanos mais primitivos, como os chamados
por seu ângulo sonoro: a criança ouve histórias narradas povos selvagens, e as épocas mais bárbaras têm sido assim
por adultos, podendo eventualmente acompanhálas com classificadas em vista da presença ou não de meios de fixa-
os olhos na ilustração. Essa introduz a epiderme gráfica do ção e documentação de seu patrimônio cultural. O atribu-
livro, de modo que a palavra escrita apresenta-se em geral to de civilidade vem associado ao domínio da expressão
como o derradeiro elo de uma cadeia que une o indivíduo escrita, pois os proprietários desta deixam gravados para as
à obra literâria. Contudo, tão Ìogo ela se instala no domínio futuras gerações seus produtos - seia uma mitologia, uma
cognitivo de um ser humano, converte-o num leitor, isto é, religião, filosofia ou literatura. Todavia, a expansão do có-
modifica sua condição. Poftanto, ê a posse dos códigos de digo escrito no Ocidente data de época relativamente
leitura que muda o status da criança e integra-a num uni- recente, impulsionado durante a Renascença, graças à inven-
verso maior de signos, o que nem a simples audição, nem ção da imprensa por Gutemberg. O século XViiI assistiu à
o deciframento das imagens visuais permitiam. sua ampla divulgação, verificável tanto pelo aumento do
O crescimento da criança se faz por essa imersão no público leitor, como pela ampliação da rede escolar e pro-
universo da palavra escrita, e seu desenvolvimento intelec- liferação das empresas ligadas aos meios de comunicação
tual pode ser medido por meio de sua habilidade de ver- por escrito.
balização dos conteúdos assimilados durante a eclucação A ascensão da expressão escrita e, por extensão, a
formal. Expressão escrita e domínio de hábitos de leitura nova ênfase na leitura, está profundamente relacionada aos
distinguem o indMduo superior, submetendo a essas ativi- novos fenômenos sociais do século, sintetizados na emer-
dades os outros meios de apropriação da realidade: o aucli- gência da classe burguesa. Oriunda da dissolução dos laços
tivo e o visual. feudais e associada à valorização da vida urbana, a nova
camada ascendente trouxe consigo um conjunto de valores,

770 171
('r() ;ll:f'st.ufiìento
ainda se presencia na atuaÌidade.
carac-
I.r'iz:r-'sc por um ideário coroacro 1-xtssando a ter força de lei apenas quando J'iltrrrtlo 1rt'lo
pela noçâo de libercracle:
:r política, já que visa promover Llm regime crivo da critica.
cle governo Por sua vez, quando se examina o universo cla clilrrrç'rr,
irclcpcndente da influência da aristocracia ou cras
redes de vcrifica-se que o contato original dela com o mundo sc Íìrz
l)llrentesco; :r social, pois quer encontrar uma vaga
rrrrquia cla sociedade; a econômica,
na hie_ por intermédio cla audição e da recepção de ir-n:rgcrrs
porque valorizaa livre_ visuais. O texto escrito lhe é imposto tão-somente apírs rr
iniciativa e o jogo autônomo clas
variáveis financeiras. E interferência e intermediação da escola. A partir de então,
privilegia a educação pessoal, qualificanclo
o inclivíduo não cla tem acesso às mesmas modalidades de cultura, podcn-
por seLÌ passado ilustre, mas por
seus dons intelectuais que d,o fazê.-lo de modo autônomo, liberando-se paulatina-
incrementa ao longo cle sua
É o que determina p;;_ rnente do adulto, senhor da voz que até então lhe transmi-
moção da cultura e do ensino. "iao. " tia o conhecimento.
A conquista do poder pela burguesia,
-
los XVIII e XIX, veio acompanhadã
durante os sécu_ Entretanto, por tomar o lugar do adulto, pode ocorrer
da dir,ulgação desres qlÌe a história infantil se transforme no representante do
valores liberais. A rejeição da primazia
atribuida antes à rnundo dos mais velhos, convertendo-se em veículo de auto-
tradição sintetiza a todos: o que iem
clo berço e cla familia, ridade e instrumento para a transmissão de normas, sejam
isto é, a herança cle títulos e patrimônios,
nada mais justifi- éticas, compoftamentais ou lingtiísticas. Todavia, como pro-
ca' o indivícruo é o que ele faz cre
si mesmo durante sua duto de uma ideologia que patrocina o questionamento da
existência, e somente a história pessoal tradição, o livro pode significar seu contrário, atuando como
explica nn urlrà
de cada um. por isso, as aftes se ^ propulsor de uma nova postura inquiridora e inconformada
moclificam, favorecenclo a
strbstituição da epopéia (forma que em face dos padrões instituídos. Investigar como a literatura
clá vazão literária a um
passado consagrado pela tradiçãà) infantil se posiciona perante esses aspectos e onde eles se
p"to romance ou o apa_
recimento de gêneros ligados à formação localizam no interior de um texto de ficção é ao que cabe
do ser humano:
os tratados de pedagogia e a lireratura proceder agora.
infantil. E torna_se
norma dominante a valorização da
cultura como cabedal de
informações que permitem tanto
o acúmulo cle saber en_
quanto tal, como o questionamento Lit eractrra InfantíI eÍrÍr e No rmat nrr d aã e e Rupcura
cla realidad" N.;;;
medida, os prestígios respectivos
cla ciência e da leitura
aparecem concomitantemente e, Determinar o lugar da literatura infantil não pode pres-
com ele, o a"tt" no tirraà,
o aumento do número de bibliotecas cindir de uma formulação sobre seu caráter artístico e seus
e escolas, a classe dos
intelectuais e o magistério. O Iluminismo, vínculos com a literatura inteira.
distinguinclo a
Razão e a Filosofia, ê a síntese
teórica d"ste mJri;;", Procurando determinar a natureza do literário, a mo-
cujos efeitos ainda se presenciam. derna filosofia da literatura, independentemente de suas
Advém daí o respeito Í
palavra escrita e o imperialismo divergências, tem insistido em alguns tópicos comuns. O
do texto que, como docu_
mento, jamais se converte em tradição. jivro primeiro deles diz respeito à primazia do texto, isto é, à sua
ser questionado ou para deflagrar
O ."irr" fnru autonomia. O fenômeno literário deve ser examinado, antes
a perquirição científica,
de tudo, em função de sua estrutura, verificando as rela-

772
173
(()cs clÌtre seus eÌementos, com base nos quais ,1,' linguzrgem; porém, como a ideologia istcl ó" ll's lìtlç"''r'
-
sc 1r.<lt,rí
c.sltoçar sells contatos, seja com a tracliçãã literárìlr, r;t.i,r , ilnìr-ll-ÌS em cirCulaçãO num determinado momcllt(> Iti.';ltr
corn zÌ história social. Nesse sentido, a maior pafie clas lirrlr;r.,1 il( () - se inscreve na língua, torna-se evidente qltc lt tllll;t
tcóricas são estmturalistas, termo empregiclo tanto pt,l;r lrtt'r'l-rria pocie romper também com os padrÕes vigetl(cs tlt'
sociologia de Lucien Golclmann e Antônio Cândiclo, c<'rrrr,, vrsìo cia realiclacle. Nesse sentido, a literatura pode-sc c'orts
pelo formalismo, que, originaclo na Rússia pré-revolrrr.io trluir em objeto cle conhecimento, arnpliando e renovlttr<l<r
nária, estende-se até nossos clias com reflexós na Se'rirr ,r lrorizonte de percepção de seu leitor. E, se ela não rcÍlctt'
tica, Semiologia e Estilística. 1r;rssivamente uma socieclade ou uma época,
é porcltrt'
 prioriclade clo texto e de sua hermenêutica, cr)lrìrr ('x[)Õe suas contradições, tornando petente suas fissr'trlts,
critério de análise literária, reprocluz a centralização, arrrr,s ,rs.sim como as tentativas, por parte da classe dominantc, clc
mencionada, na escrit:r, conceito que recebeu alguntlrs :rc'obefiá-las.
apologias especiais em ensaios produzidos pelo estÃturrr O exame dos cliferentes processos cle que se vale a litc-
lismo francês, que se valeu clele para repudiàr toda e qual t.lÌtLÌra para atingir esse fim permite que se dimensione se sc
quer investigação no nível cle representação cla realiáaclt, trata ou não c1e uma criação cle vanguarda''É', pois, c<;ttr
na obra literária.l1 lrase em seus índices de ruptura, qual seja, de seu maior otr
Entretanto, mesmo recusanclo a inclinação miméticlr rìÌenor comprometimento com a vanguarda, que toclo <r
cla literatura, também o formalismo mais exacerbaclo coin- tcxto é anaiisaclo e valorizado. Tal fator cletermina a ínclolc
cide com outra noção tornacla comum nas cliversas constc_ cminenternente histórica da literatura, pois ela está em cons-
lações teóricas: a de que a obra Ìiterária rompe com tante transformação, ao reagir de maneira ativa às circuns-
áÌs
expectativas de seu leitor e existe para isto. Em óutras pala_ tâncias sociais de onde Procede.
vras, a criação artística é uma mensagem que se orienta Aclvém dai a relação da obra com as normrs em cir-
necessariamente para seu recebeclor, reproduzin<io, cr,rlação. Visando à ruptura com o convencional, a criaçãcl
neste
aspecto, o processo usual de comunicação. Mas ela literária só pode introduzir a norma em seu interior para
se par_
ticulariza na medida em que provocâ um estranhu_"rrto; revelar sua ínclole aglutinadora; clesse modo, ao incorporar
poftanto, precisa apfesentar_se enquanto uma mensagem os moclelos estéticos, sociais, lingüísticos, éticos ou reli-
original, criação no amplo sentido clo vocábulo, o q.,Jlh. giosos, o texto revela-os, enqllanto convenções destinadzrs
assegura o carâter permanentemente renovaclor. a manter LÌm certo tipo de dominação no meio social, con-
Essa ruptura com ceftas expectativas pode
tribuinclo, pois, para seu conhecimento e transformação'
ser verifica_ Em tal medida, o texto se converte em instrumento de inves-
cla sob dois ângulos: de um lado, significa um
rompimento
com as modalidades ordinárias de expressão; dã outro, tigação da realidade, questionando-a sem abdicar de sua
natLtrezaliterârta, pois transforma todos os elementos exter-
com os clichês ou a ideologia de uma certa época. Assim,
nos em componentes de sllâ estrutura' A relação com as
um texto autenticamente criativo explora formas inusitaclas
normas e os paclrões estabelecidos de uma dada época e
sociedade vem participar do universo artístico, garantindo
11 Sinto-áti.o é o ensaio cle Rolancl Barthes, Grclu zero cla escri_ a autonomia deste, mas, ao mesmo tempo, reativando ser-r
ta, publicado na década de 1960. contato com a vida social.

774 175
(lrrrro se comporÍa a literat.ra infantir diante dessc
tliunças. A mais freqüentemente citada diz t-c.spcito ;lr'
e'syrcctro? Conforme toda a criação com a linguagem, czr_ rrrcr.rrsões no verismo naturalista; a essa podc-.sc :tlittlt;tt
llcri uma opção entre o assumir clesta natureza eminente_ r;ulto a preocupzrção com a renovação do conto clc Íltcl:rs,
rììcnte renovadora ou a conformação com os modelos esté_
rlrnnto o esforço rumo à simbolização dos estados cxistt'tt
ticos e sociais vigentes, transmlìtanclo-se em porta_voz <ie
t'irris infantis, qual seja, a investigação do mundo interior clrt
noções previamente estabelecidas.
r'r.iunça. Ao lado dessas, permanecem atrÌantes outrzÌs vct'-
com efeito, a caÍacterização cla obra rìterâria eviclencia t('ntes literárias, como a histÓria ou de aventuras, que p()-
o dilema da literatura infantil. Se esta quer ser riteratura, rlcrn se passar no campo (com os heróis em férias, nr.tttt
precisa integrar-se ao projeto desafiador próprio a toclo
o :,ítio ideal) ou na cidade grande, as narrativas com personlt-
fenôrneno artístico. Assim, creverá ser interrogàd,oro cras nor-
ricns animais (porém, freqtientemente humanizados) e <r
mas em circulação, impulsionando seu leitor a uma pos-
:rproveitamento de episódios da história do Brasil.
tura crítica perante a realidade e dando margem à efeiiva_
Cabe verificar, nllm primeiro momento, o que se passa
ção dos propósitos da leitura como habiliclacle humana. ( oln o conto de fadas, gênero que remonta às origens cla
Caso contrário, transformar-se-á em objeto pedagógico, trans_
litcratura infantil, pois foi de seu aproveitamento por Charles
mitindo a seu recebedor convenções instituídai, ém vez de
l'crrault e pelos Irmãos Grimm que viveu ela seu primeiro
estimulálo a conhecer a circunstância humana que adototr
srrrto produtivo eficaz. Assim, da análise das criações mais
tais padrões. Debatendo-se entre ser arte ou ser veículo de
lccentes poder-se-á verificar o engal'amento com uma arte
doutrinação, a literatura infantil reveÌa sua natureza; e sua
rcnovadora, retirando daí seu valor, ou a inclinação a um
evolução e seu progresso decorrem c1e sua inclinação à
rliclatismo transmissor de valores estabelecidos e desfa-
afie, absolendo, ainda que lentamente, as contrib.iiçO",
v<>r/rvel à óptica infantil.
da vanguarda, como se pode constatar no exâme cla pro_
História meío ao contrarío, de Ana Maria Machado,
dução brasileira mais recente.
lrr.rblicada em 1979, protagoniza, com seu título, a inversão
clo modelo do conto de fadas, de modo que, de seu exame,
ó possível dimensionar-se a questão posta acima.
O E xeznplo da Líteratura BrasíIeíra
A convenção do conto de fadas supõe uma seqüência
nnrrativa tipica e um elenco de personagens. A evolução do
Como a literatura infantil é uma modaliclacle de expres_
são que não conhece limites definidos, torna-se bastante relato se apóia em três momentos básicos, no mínimo: um
difícil estabelecer suas principais linhas cre ação. Ela pocle conflito ou a situação de dano ou carência, usando a ter-
rninologia da morfologia do conto;12 uma ação saneadora,
englobar histórias veristas ou fantásticas, miscigenar gente
e animais antropomorfizados, simbolizar ou simplificu, iit,rn_
por meio de um herói que recebe a colaboração de uma
cntidade mâgica; e o sucesso da empresa, que culmina num
ções humanas existenciais, misturanclo até todas estas pos_
sibilidades num único texto; deste modo, incorre-se r"Ápr" rnatrimônio. Os figurantes se dividem em dois grupos:
no risco de separar o que está coeso ou aproximr o q.," htrmanos e mágicos, e cada um desses biparte-se em bons
é distinto. Mesmo assim, pode-se identificar algumas orièn_
tações comuns na produçã o literâria nacional dirigida às 12 nnOnn,'$Tlaclimir. Morpbologie du conte. Paris: Seuil, 1970.

776 177
-lã
(.rÌr;ru.s lr:i r.rrn herói, que representa
- o positivo, e o vilão,
r;irr;rl ckr negativo; e existem fadas ou vel-hos
bondosos, em rador se apropria dele. Por isso, o desenvolvir.Ìì(,nl() (l.l
r'ontlult<tsição a bruxas, duendes, anões
oll gigantes maus. fábula narrativa é sempre contraposto a um paclrio l'ix;rtltr
A rcaliclade é dicotômica, mas marcha inevitavãlmente pela tradição, embora o narrador evite, a partir cluí, rlt.ix;rr
para
:r ir'posição do bem sobre o mal, instauranclo
.rrrru o.à.- muito nítido o procedimento empÍegado, pois panr trrrrlo
rlue tende a permanecer imutável. investira o início da narração.
História meio ao contrario tematiza sua condição O segundo fator de desequilíbrio é dado pelas 1rc,r.
desde o início: sonagens. Contando com o elenco tradicional do gôncr<r
Príncipe, Princesa, Rei, Rainha, Gigante, Dragão e primcir.o-
- inverte a seqtiência narrativa, ao aluclir, no título,
qlre as ações se darão ,,meio ao contrário,,; ministro - a caracterização deles subverte a convençãct, rlr
- sendo ,,meio ao contrário,,, mesmo o conceito de medida em que
inversâo ê relativizado, pois não se trata do
negativo de um - são abolidas as distinções sociais: o príncipe sc
positivo, evitando a divisão maniqueísta; enamora da pastora, desinteressando-se da princesa;
- verbaliza que o processo será diferente neste relato: - a princesa opta ao final por escolher seu próprio
"tem muita história que acabou assim, mas este caminho, afirmando que "minha história quem faz sou eu"
é o começo (p. 3B);
da nossa".13
- e sintetiza em poucas linhas o desclobramento usual - são introduzidas figuras oriundas das camadas infe_
do conto de fadas, a fim cle tornar evidente que riores, como artesãos (a Tecelã, o Carpinteiro, o Ferreiro) e
o clesenro_
lar da história será outro: trabalhadores do campo, como a pastora, o Vaqueiro e o
Camponês;
Mas vamos começar cle novo pelo começo. as personagens que constituem o povo configuram
Ou pelo fim, que esta história é mesmo ao contrário. -
o âmbito do coletivo, isto é, formam uma multidão, que,
... E então eles se casaram, tiveram uma fiÌha
um raio de sol e viveram felizes para sempre.
lincla como por seu catâter numérico, impressiona o Rei:
Eles eram um rei e uma rainha de um reino
muito dis_ Do alto de uma escada, o Rei olhou e viu aquela multi_
tante e encantado. para casar com ela, ele
tinha enfrentado mil dão reunida lá em baixo. Ficou assombrado:
perigos, derrotado monstros, siclo ajudaclo por
uma fada, tuclo
aquilo que a genre conhece das históiias antigas
que as avós con_
- Tudo isso é o povo?
tavam e que os livros trazem cheios cle figús
bonitas e colori_
- Isso e muito mais, explicou o primeiro-ministro. Todas
as pessoas que trabalham no campo, na aldeia, nas casas do vale,
das. Depois, viveram felizes para sempre (p.
5_6). tudo isso é o povo (p. 1B).
Em razão disso, as páginas iniciais do texto têm em
vista não o deslanchar da ação, mas o patentear
As modificações mais importantes dizem respeito aos
de que um protagonistas encarregados de representar concomitante-
certo modelo está sendo contrariado, à medida que
o nar_ mente o bem e o mal, o humano e o sobrenatural: ou seja,
o Rei, que sintetiza a ordem humana, e o dragão e o gigante,
13,wIACfUOO,
Ana Maria.
que simbolizam a desordem, senhora de atributos mágicos.
.. História meio ao contrárío.São paulo:
Atica, 7979. p. 4. Todasas cirações provêm desta edição. O Rei é a figura mais saliente na primeira parte da
história (também este fato representa uma contrariedade, jâ

178
17g
-u
(
lu(' clc selnpre se destaca nas últimas seqüências): viven- sido uma tônica cla literatura brasileira para criançlts voll;t
tlo rnrrito feliz, porque isolado de qualquer problema, cla ao reaproveitamento do conto de fadas. Em O reizitrl.trt
lcpcntinamente se vê perante uma dificuldade que deman- mandão, Ruth Rocha uttliza semelhante procedimcnto,
cl:r urna solução - assistiu ao roubo do dia. O Rei presen- bem como Eliardo França, em O rei de quase tudo. Assirt't,
ciou um evento natural, o qlte o deixou perturbado, até â personagem responsável pelo mando tem atitudes ao
qLle se viu diante de outro acontecimento LÌslÌal: o trans- lnesmo tempo arbitrárias e pueris, percebendo-se aí LÌma
curso da noite e o aparecimento da lua. preocupação com a critica à autoridade. No entanto, cabe
Como se percebe, o Rei, por suas atitudes pueris, con- a ressalva de que, na medida em que o herói se infantilizzr,
fìgr-rra o protótipo da conclição infantil: ocorre igualmente o oposto: a voz infantil, quando se con-
- foi isolado do mundo exterior, a fim de que não se verte em senhora do poder, é contrariada e condenacla por
rompesse sua ilusão de felicidade, como lhe explica o intermédio das insinuações do narrador, invariavelmcnte
Primeiro-ministro: "Vossa Majestade é um homem feliz para trm adulto. A ameniztção dessa clificuldade advém clo
sempre e ninguém quis incomodá-lo com essas coisas" recurso a um outro procedimento narrativo: é introcluzicla
(p. 15). Mais adiante, complementa: "Ninguém quis abor- LÌma nova personagem, agora jovem ou criança, que dcsa-
recer nem preocupar Vossa Majestade, só isso. Se nós fôsse- fia o poder estabelecido. É a Princesa que diz não ao pai,
mos trazer a vossos reais ouviclos todos os problemas do a menina que manda o reizinbo mandão "calar a boca",
povo, como é que Vossa Majestade ia poder continuar a ser repetindo-se o process o cle A roupa noua do imperador, cle
feliz para sempre? Aqui dentro é protegido, claro, tranqüi- Hans Christian Andersen, no qual cabe à inocência infantil
1o..."(p. 16); a denírncia da farsa encenada pelos adultos.
- e tem atitudes de garoto mimado, como o fato de Conseqtientemente, um estereótipo do conto de faclas
querer mudar o ciclo da natureza. é contrariado - o que atribui ao Rei a iustiça, a sabedoria e
Vivendo numa redoma que o afasÍa da sociedade o pocler -, substituindo essas virtudes pela puerilidade e il
(ignora, como se viu, a existência do povo) e a natureza tirania. Contudo, a associaçào carrega consigo o colnpro-
(desconhece o ciclo normal do dia e da noite), o Rei repre- misso com outro protótipo - o da crítica à criança mimada,
senta ao mesmo tempo a puerilidade e o autoritarismo. que pode permanecer como compofiamento latente no
Pefience à primeira qualificação o fato de que ele só vem adulto, o que vem â ser relativizado ou não pela introdução
a perceber a noite (isto é, o roubo do dia) por ter desobe- de um novo procedimento -, a denúncia da falsidade dos
decido à Rainha, que o chama primeiro para o banho e, valores adultos pelos mais jovens que, não estando ainda
mais tarde, paÍa a janta. E duas decisões suas caracteÍizam envolvidos com sua ideologia, podem revelar sua superação.
a arbitrariedade e o autoritarismo: mudar a ordem da Se o elemento configurador do padrão positivo encon-
naÍureza, embora isto não convenha a ninguém, como dão Íra-se matizado nos termos antes descritos, cabe verificar o
a entender os membros dâ coletividade; impor um destino que acontece com os estereótipos do mal, o que transpa-
à sua filha. rece por intermédio da evolução da narrativa. Esta apre-
A caracterização do Rei como representando concomi- senta dados originais em relação à norma do conto de fadas:
tantemente um modelo de comportamento infantil estereo- - o conflito é desencadeado pela falsa acusação do
tipado e de exercício do poder (ou de regime político) tem Rei, de que o Sol e, depois, a Lua foram furtados;

180 181
rut
- há um herói que se clispõe a resolver o clesequilíbrio, ,r Írrncionamento cla natureza, só que esta deix<xr clc st.r.o
porém não ê bem-sucedido, ou melhor, .r.- ,"qt,"r chcglr
a se defrontar com o pretenso vilão; lrrg:rr da afirmação da supremacia da ordem hluÌllrìrìi r.nl
,lt'corrência, o Príncipe não leva seu projeto adiantc, rr:r<r
- os representantes do povo não desejam a vitória ckr t:uìto por se ver bloqueado por rios, plantas e insetcts, rrr:rs
Príncipe Encantador e são eles que solicitam a ajuda cl:r
entidade má.gica, em favor do dragão; l)()rque, iluminado pela lua (o olho do dragão), elc vô rr
l'trstora e enamorâ-se dela.
- nem o gigante, nem o dragão são rnaus e é de suu Assinalando a solidarieclade da natureza, e sobretucl() ;l
colaboração mútua que nasce a proteção contra as investi-
das do Príncipe. lrroteção que a noite oferece ao homem, o texto proclamu :r
Assim, as entidades tradicionalmente más perclem a rccuperação da ordem por intermédio da recllsa à ação grrcr-
conotação negativa, dissolvendo-se o dualismo cãracterísti- rcira. O herói se convefie em amante, o homem de ação qtrc
co do gênero; por isso, pocle ser clispensado também o "rrão (tinha) nada para fazer o dia inteiro" (p. 24), em tra-
auxiliar do herói, em geral uma facla, já que é o dragâo que lralhador dos "campos em volta da aldeia"-(p. 4O).
carece de ajuda. Enfim, dragão e gigante têm uma cono- Nessa medida, o relato se encerra pela anulação cle
tação simbólica que remete o texto às origens da narrativa cliferentes tipos de dicotomias, próprias ao gênero:
folclórica.
tXdadimir Propp, analisanclo as - a etâria, já que os jovens têm mais sabedoria que os
raízes populares da velhos;
narÍativa fantâstica,74 observa que aquela teve iua gênese
em relatos de tipo mítico q,_,. .o.rtnrram as provas inicia_
- a política, uma vez que é o povo que toma a inicia-
tiva de preservar o que julga certo, contrariando a orclem
tórias do rapaz em vias de alcançar a idadê viril. Assim, real;
cabia a ele o afastamento do âmbito social cla tribo e o
enfrentamento de uma realidacle adversa, que estava encar_
- a ideológica, pois não mais se proclama a superio-
ridade do homem sobre a natureza;
nada na floresta a que se clirigia e nos entès maléficos que
derrotava. Bruxas e outros seres sobrenaturais eram a cor_ - a social, pois a Princesa se transforma em persona-
gem itinerante (papel antes ocupado pelo Príncipe); além
porificação do medo ao desconhecido, que devia ser cler_
disto, como este torna-se um vaqueiro, o casamento não
rotado como pÍova de qualificação à vidá social e aclulta.
aparece como possibilidade de promoção na escala social;
Na narrativa de Ana Maria Machaclo, essa tópica retor_
na, e também de modo inverticlo: o dragão é a noite e seu - a êtica, na medida em que não está flrado de ante-
mão o lugar do bem e do mal, cabendo a cada um verificar
olho brilhante, a Lua, ou nas palavras do Rei: ,,o sol bran_
a procedência e a validade desses conceitos.
co e frio que brilhava na escuridão', (p. 36); e o ,,Gigante
Dessa maneira, Histo4a meio ao contrário compartilha
adormecido", "deitado eternament.,, (p. 26), a natíreza
com Sop4nho, de Fernanda Lopes de Almeida, o questiona-
poderosa que protege os que estâo a seu laclo. Desse mo_
mento do recorte maniqueísta da realidade. Também nesse
do, os seres sobrenaturais outÍa vez passam a corporificar
caso o alvo é a verificação da validade dos conceitos pre-
14 rnOeg rüZladimir. estabelecidos relativos ao bem e ao mal. E a trajetória dos
ras raíces bistoricas clel cuento. Madrid: meninos, em sua estada no Bosque Encantado, leva-os à
Editorial Fundamentos, s.d.
experimentação de que "os dois lados (...) sempre foram

1.82
183
nristtrrados".15 Nessa narrativa, as personagens rnírgicu.s ,prc' sortltavluÌì c()rn cidades onde toda fantasil (.t';t l)(ìr,:;l
igualmente corporificam - e de modo mais eviclente _ lui vt'1" (p. 25). Após se converter em idéia das crianç'us e'l)r{)
forças da natureza: a Rainha ê a Fada clo Bom Tempo, e :r jt'to clc ação, desaparece, mas seu efeito é senticlcl lr e';rrl;r
tempestade, a chuva e o vento são protagonizaclos pel<r rrrornento:
Gigante Surumbamba, o Rei do Mau Tempo, cujo segreclc>
é gtrardado pela Bruxa Asa Negra. Desse modo, Soprínbo Quando algum adulto, impaciente com o desaparccirrrt'rr
to da Fada, pergunta a um menino qual é o segredo que a lirrl:r
igualmente transita no âmbito da natureza, ressaltanclo seLr
conrou, ele responde: - "AMANHÃ EU FAÇO" (p.27).
carâter benéfico. Por essa razão, converte-se no cenário por
excelência pan a formação da personaliclacìe, cle moclo que Assim, a presença da Fada na terra, quando ela recebe
as personagens, jovens e crianças, necessariamente passam
lu adesão das crianças e se defronta com a reação do poder
por uma transformaçâo a seu contato. Eis o vínculo com o edulto (um banqueiro, um industrial, um economista, um
conto de fadas tradicional, assinalando que a ligação não clelegado), corresponde à revelação de uma força infantiÌ e
provém apenas da vtilização de seus elementos composi_
a abdicação à esperança, pois esta significa uma protelação:
cionais (personagens e seqüência narrativa), mas t"-bé- "A Fada compreendeu por que era importante para os meni-
dos resultados a que chega a trajetôria existencial cras figu-
nos terem esperanças. A esperança é uma coisa que sempre
ras humanas. É preciso verificar o que ocorre quan<io se
espera e nada faz" (p. 23). Objetivada a mensagem, está
introduz a paisagem urbana, como no relato cle Bartolomeu
ctrmprida a missão; e a heroína volta a seu lugar de partida.
Campos Queirós, Oncle tem bntxa tem.facla...
O carâter mítico do relato se complementa ainda por
Essa narrativa se incorpora ao gênero aqui analis açlo a
outros aspectos: a Fada é o elemento mediador entre dois
partir de seu títlllo, tendo como protagonista central uma
pólos - o adulto e o infantil; e sua proveniência é celeste,
idéia qtre se faz fada: Maria do Céu - ,,E Maria, icléia no
representando uma concepção que vem do alto e é trans-
céu, virou fada."16 Sua trajetória terrestre ê râpida e guarda
mitida aos que são merecedores dela, devido à sua pureza
analogias com o modelo cristão: vem ao mundo, não é
de alma. São os que podem sonhar, tornando-se, pois, per-
reconhecida por ninguém, porque se defronta com uma
meáveis à mensagem fantástica.
sociedade materialista. Faz seu primeiro milagre _ um me_
Dessa forma, a narrativa peÍtence ao paradigma aqui
nino aprende a ler sem ir à escola -, o que atrai a atenção
examinado, na medida em que abole o compromisso do
das crianças, seus principais adeptos. Atende ao pedido de
relato de fadas com a afirmação da ordem adulta. Essa é
uma delas, mas, significando isto uma alteração cla orclem
repressora, sobretudo quando envolvida com a sociedade
adulta, é presa. Foge da cadeia e se aloja no sonho de cada
capitalista e urbana; por isso, os vilões são representados
criança: "visitou cada menino e entrou no sonho deles. Viu
por um elenco de figurantes relacionados às finanças e à
indústria da construção: o banqueiro, o economista, o arqui-
15 eUraftOe, Fernancla Lopes
cle. Soprinbo. São paulo: Melhora_ teto. É essa configuração das personagens que aproxima o
mentos, s.d. p. 171. texto da realidade cotidiana: não são mencionados prínci-
16 qurnós, Bartolomeu Campos. Onde tem b.,axa tem fada... pes, castelos e gigantes, mas indMduos inseridos no dia-a-
Belo Horizonte: Vega, 1979. p.8. As citações provêm desta e<iiçãt. dia, crianças, professores, delegados, o que indicia a con-

784 185
It'rrrponrneiclade do conflito examinado. Dessa maneira, o
tcrrr:r cliscutido é atualizado, integrando-se ao horizonte cxistência e da própria literatura: é por meio clo <lttrsl iot t;t
t:ult() existencial como social de seus leitores. rÌìento de seus fttndamentos ideológicos, valenclo-st', p;tt;t
i.sto, de suas bases literárias. É o que se passa con'r Ilislttt'ttt
Entretanto, ao contrário das histórias antes examinadas,
tneio ao contrario, que retoma a estrutura do gêncr<l p:tt:t
cssa reforça dicotomias. O fato já é cornprovaclo pelo títu-
:rlcançar a inversão de seu efeito.
lo, que acentua a oposição latente entre o bem e o mal. E
essa cisão estará corporificada por duas ordens humanas _
O exame das narrativas que se inscrevem no ântllil<r
clo conto de fadas revela que a qualidade dos textos advóttt,
a infantil e a adulta, de modo que igualmente estes estaclos,
que sâo por excelência transitórios e muitas vezes tão cle um lado, da contradição às expectativas do leitor ettt
rclação a um padrão consagrado pelo uso. E, de outro, essc
somente aparência (como comprovam as narrativas antes
examinadas, de Ruth Rocha e Ana Marja Machado: os reis lrrocedimento determina uma mudança no foco tradicional
clo gênero: em vez de se patrocinar a afirmação de uma
são as figuras mais pueris do relato), convertem-se em
ordem estabelecida, na qual os privilégios e o saber cabem
condições imutáveis. Em vista disto, não é o ser humano
que é posto em questão, mas uma divisão passageira, tor- aos adultos, promove-se a perspectiva dos jovens, perquiri-
clora e rebelde em relação à arbitrariedade dos mais velhos.
nada permanente e sinal de identiclade.
Portanto, tratando-se aqui também de uma ,,fada que
Enfim, facilita-se a dissolução de certas divisões instituídas
tinha idéias", estas últimas visam à consoliclação cla .roçao cliscricionariamente na realidade, que, de maneira quase
invariável, depõem contra o lado mais fraco: o da natureza,
de que a idade infantil ou a adulta pertencem à natureza
do ser humano. E que esse necessariamente se situa num o da criança ou jovem, o das camadas inferiores. Produz-se,
dos pólos da oposição, devendo compaftilhar de seus valo-
assim, um determinado questionamento do poder e pro-
res - as crianças, com seu universo onírico; e os adultos,
põe-se sua modificação, com base nos recursos mesmos
que, em olltras épocas e circunstâncias, serviram à sua con-
com seus interesses materiais e consumistas. O único ele_
mento que não participa dessa visão ê Maria do Céu, o que solidação, assim como da própria literatura infantil: o conto
legitima seu papel mediador; porém, ela não p".t..r.ã n de fadas.
Examinada a produção nacional para crianças, não é
este mundo, ela simplesmente ,,passou pela terra,, (p. 27),
apenas deste lugar que se desencadeou o processo de re-
legando uma mensagem qlle visa ao reforço clo dualismo
adulto/criança.
novação artistica, significando um redimensionamento do
uso que até então se fazia do texto destinado à infância. É
Assim, embora Onde tem bruxa tem fada... apenas
preciso assinalar, ainda que de modo mais breve, outras li-
tangencie o conto de fadas, afastando-se bastante de seu
nhas de ação que chegaram a semelhante resultado.
modelo narrativo e elenco de protagonistas, cle fato ele
insiste nllma visão dicotômica da realidacle, tão fértil no Mesmo que se considere que não cabe insistir numa
gênero. Com isso, acaba por acentuar as divisões (etária, oposição entre realismo e fantasia, devido à sua falta de
social, ideológica) das quais depencle a orclem aclulta para
fundamento teórico, é necessário assinalar quais as metas
confirmar seus privilégios. Em vista disso, esclarece-se em de uma literatura voltada ao verismo na representação. Sua
que medida o gênero, apesar de antigo e traclicional, pode eclosão, que se deu sobretudo na segunda metade da dêca-
ser o veículo para a transmissão de um sentido original da da de 70, coincidiu com uma rápida, mas decisiva, ascen-
são de uma ampla inclinação neo-realista na literatura bra-

186
787
silc'irlr, (lLlc proclÌrou ocupar certos espaços então negligen_ Ganem, o motivo típico da aventura policial - o toul,o rir
<'irrclr.s na produção literâria anterior: a narrativa ae partlci-
transforma em pretexto para a investigação clu clilì.rlr rq,l , L'
;r:rçâo política e a representação das camadas populares. Se classes e exposição do problema do adolescentc: l)ol r1r,r;rr,'
cssa temática jâhavia gerado o romance d" 30, na literatura
é empurrado para o crime. E torna-se necessário {qut.o !nr n
ir-rfàntil constituía-se numa lamentável lacuna: a traclição narrativo compartilhe a perspectiva dos pequenos ltt'roir,, ,r
literária para crianças evitava o "laclo podre" cla sociedacle, fim de que se amenize a influência adulta na perccl)('rro rl.t:,
seja em termos sociais (ausência de temas relacionaclos ao
questões sociais. Em Os meninos da rua da Pruirr, rlt
sexo, às diferenças raciais ou conflitos de classe), seja exis_
Sérgio Caparelli, é o ponto de vista dos garotos - os jol.
tenciais, faltando a apresentação de cleterminados proble-
naleiros - que predomina, de modo que emerge :r vislro
rnas familiares, como a falta de dinheiro ou dos pais, a que eles têm da realidade, segundo sua posição sociul r.
molte, os tóxicos.
estado existencial, abstendo-se o narrador de uma intcrÍc-
Se no tratamento do conto de fadas, o leitor é surpreen_
rência que auxilie a decodificação da mensagem:
dido, porque não ocorre o retorno do conhecido, nà caso
de uma literatura interessada na apresentação clos clramas - Pra iora é mais fácil. Tem mais terra, muita terr:Ì.
sociais, ele se defronta com uma realidade inusitada e estra- - Muita terra coisa nenhuma. Ninguém tem onde rnofirr.
nha. É o que se passa, por exemplo, com as histórias cen_ Todo mundo vagueando em beira de estrada.
tradas no pequeno traball-rador ou no menor abanclonado: A tartaruguinha se surpreendeu com o que dizia a mulhcr.
Para ela, as distâncias eram muito grandes e a terrâ se perdia clc
Lanclo clas ruas, Piuete ou Os meninos cía nta rla praia
vista. Atrás de um morro sempre existia um outro morro; depois
valem-se, como na grande parte das histórias infantis, de de um rio corria outro. A terra era grande demais. Con-ro poclia e
personagens crianças; mas estas apresentam uma particu_ mulher dizer que não tinha teffa? Na beira da estrada, terra; nlr
laridade social - a de pertencerem às camadas marginais. ilha, terra; gado pastava na teÍra coberta de grama e capirl. I,ì
Com este recurso, amplia-se o espaço de representação lite_ como uüÌa mulher e tantos meninos podiam nâo ter terra? Devie
râúa, aparecendo, além de setores sociais inéditos, cenários haver engano. Ela não tinha sido bem informada, qualquer coisa
assim.
até então ausentes, como a favela ou o subúrrbio, e relações
humanas conflitantes: entre filhos e pais ou entre grupos
- Claro que tem terra - falou Tonho. - Uma vez viajei cor-r-r
meu pai um mundão de quilômetros e na campanha tinha terra
antagônicos. às pampas; se tivesse pouca, a gente teria ido mais depressa.
Por sua vez, a introdução de uma temâtica apropriada - Ah bom - disse a muÌher -, ter, tem. Mas de quem?
à narrativa de denúncia social na literatura infantil pode - Ué, acho que de todo mundo, não ê?17
desencadear uma dificuldade em que submergem algumas
criações: a insistência numa visão adulta do problema, de Se, por um lado, a exposição dos males que afligem a
modo que o texto se converte num manual cle regras para sociedade brasileira se depara com a carência, por parte clcr
a percepção da realidade circundante. por esse aspecto, ele
pode cair na mesma armadilha do didatismo que aflige 17 CAperuttl, Sérgio. C)s meninos cla rua da praia. porto Alegre:
grande pane da produção para a infância. por isso, é pÃ_ Instituto Estaduai do Livro; L&pM, 1979. p. 54.
ciso que o tema se convefta em gatilho para o desenvolvi_
mento da ação; assim, em Coisas de menino, de Eliane

188 1Bg
Icilor rrririr.n, cle uma vivência social mais ampla, o qllc
potle scr um fator de inibição no rnomento da iriaçao lite_ .scrn preconceitos. Portanto, a renovação se faz por trrrr clili
r':irirr, por outro, contribui para o alargamento dela. É krgo com o pass:rclo clo gênero, modificando-o cle acorcl<r
ness:r ('olÌì slìa intimidacle. O resultado é o questionamento clc r-tnrlr
rrrcclicla que pode dar margem à renovação no âmbito
artís_ icleologia incrustacla naquela modalidade literârra, o da pus-
tico, o que implica a necessidade cle conversão clo tema em
cvento narrativo. A preservação de um foco narrativo acle_ sividade da criança e supremacia do adulto, qlre serviu por
quado às figuras ficcionais em cena será igualmente a con_ rrrr,rito tempo aos propósitos didáticos com os quais as obras

clição da harmonia entre a realidacle representacla e sua l)ara a infância se colnprometeram desde seu nascimento.
enunciação ao leitor. Em outras palavras, a ampliação temá_ O processo é mais complexo quanclo se trata de uma
tica transmllta-se em recurso estético, de moclo que a cos- literatura de denúrncia social. Trata-se, neste caso, de incor-
movisão renovadora ressoa no interior da construç ão artis_ porar dados externos à interioridade do livro infantil, que os
tica, clando-lhe coerência e verossimilhança. renegolÌ por muito tempo. Por isso, sacode com as estrutllras
Por isso, se o aspecto temático verista tem na literatu_ literárias, que precisam ser acomodadas à nova situação. E,
ra infantil uma importância como vanguarcla, porque rom_ cnquanto o conto de fadas pode ser remexido ao extremo,
pe com os padrões ordinários relativos às procluções para Lrma vez que se está questionando sua rigidez e automatiza-

crianças, sua plena realiza.ção clependerá de sua obediência Ção, a narrativa verista precisa se manter obediente às leis de
aos parâmetros inerentes a toda a literatura: verossimi- necessidacle e verossimilhança a fim de que permaneça lite-
lhança no tratamento da história, afinanclo o munclo repre_ ratura. O resultado é uma divergência de meios, o que pode
sentado à enunciação do narrador; e coerência no cleido_ ser falsamente compreendido como uma oposição de princi
bramento da ação, que cleve <iecorrer cle uma necessiclade pios ideológicos: o conto de fadas fica totalmente livre,
interna e causalidade narrativa. porque problematiza um ideário estagnado, mas sempre
No exame de duas tendências cla literatura infantil acessível a todo leitor-menino; e o verismo amplia o espaço
nacional, o que importa verificar não é uma oposição cla representação, voltando-se ao mundo exterior; por isso,
inócua e ineficaz entre o conto de fadas ou a fantásia e o precisa se ater a um tipo de narrativa tradicional.
realismo. E sim que ambos os gêneros se clefrontam com É por intermédio desses aspectos que se pode verificar
certos padrões vigentes, que sucedem de uma tradição dois rumos diversos no processo de evolução da prosa
liÍerâria, procurando .o-pè-lo, e inováJos. procedem_no infantil brasileira. Sua validade decorre de sua infiltração
de modo original e distinto, em decorrência clo panoÍama em modelos tradicionais, visando transformá-los e, com
com o qual se deparam. O conto de fadas quer ser o seu isto, modificar a percepção do leitor, tanto em relação à lite-
contrário, como diz o título clo livro analisadà, e contrariar ratura como em relação à realidade. Desse modo, se a litera-
este passado significa abdicar do uso daclo ao gênero ao tura infantil nacional tem uma história relativamente breve,
longo de sua história. Deixa, pois, de servir à afirmação da por outro lado ela apresenta modificações que denotam
superioridade do mundo adulto, evidenciando a infantili_ uma sensibilidade para os avanços da afie literâria. Ao mes-
dade deste, sua tirania ou arbitrariedade. Anulando tam- mo tempo, trata de renovar seus quadros internos, já que,
bêm a percepção do mundo por dicotomias, enseja o des_ quando se fala do conto de fadas, alude-se a um modo de
dobramento de uma percepção critica davida circundante, expressão definitivamente incorporado à produção p^ra
crianças.

190
197
__---t!

'lirclavia, a vanguarda no setor da literatura infantil


t'omunicação, sobretudo os de ordem 6ptica, corìÌ() rt cx rl, 1
r

<liligc-se preferencialmente aos processos de escrita. Mes- r':rção do visual, próprio às artes pictóricas e aos vcíctrlos rft'
rÌì() qLÌe ultrapassemos as fronteiras aqui estabelecidas - cultura de massa. Essas interferências, porém, não atittgt'ttr
cntre o conto de fadas e o verismo -, mencionando as preo- o âmago do gênero, dando-se na periferia e facilitanclo r <

cr-rpações coln a simbolização da situação infantil e a inves- trânsito do texto em regiões dominadas pela história crn
tigação de seu mundo interioq como procede Lygia Bo- r1r-radrinhos, por exemplo, ou pela televisão.
junga Nunes, o resultado da análise será similar: as modifi- Tal circunstância, de que a literatura infantil renovzl-.sc
cações se fazem no âmbito do texto, ao qual se agregam os cnquanto se mantém fiel a si mesma, afirma a soberania cl<r
programadores gráficos e ilustradores. Desse modo, a pro- texto, jâ referida. O que acontece quando ela abdica dessrr
dução para crianças define-se antes por seu carâter literá- condição e transforma-se em auxiliar para outros meios dc
rio, submetendo-se ao imperialismo da cultura textual antes comunicação? Isto é, o que ocorre quando se examina a
descrito. De maneira que slìa forma preferenciaÌ de comu- recíproca da situação anteriormente desenhada?
nicação dá-se pela palavra e depende do domínio de habi- A menção a outros meios de comunicação determina
lidades ligadas à leitura. Seu recebedor é, antes de tudo, inevitavelmente a associação com a cultura de massa. Pois,
um leitor, e ela existe para propagar esta condição. Se esse quando se verifica a relação entre as artes nobres, como a
fato não indica que a literatura infantil permaneceu estáti- literatura, o teatro, as artes plásticas, a conclusão é sempre
ca aos avanços dos outros meios de comunicação, sua tra- pela irredutibilidade de suas linguagens. Teatro não ê litera-
jetória deu-se nos limites do literário, apropriando-se das tura dramática, ê mise-en-scène; e o filme tem sua estética
conquistas da atte com a palavra. própria, o que dificulta sua comparação com a literatura,
Por isso, seu dinamismo decorre de seus contatos com mesmo quando os argumentos são idênticos. Assim, se se
o campo dentro do qual se inscreve e de onde retira suas postula que a literatura infantil é antes de mais nada arre
regras de ação: 'à arte literária inteira. Depende de tal asso- literâria, por suas aproximações estéticas, ela vem a parti-
ciação não apenas seu desenvolvimento histórico e caráter cipar da mesma irredutibilidade no âmbito da linguagem. E
de vanguar<la, rnas seu valor e permanência. Em vista disso, o fato de afirmarmos que ela ó primordialmente texto, cola-
ela não se posiciona ao lado dos meios cle comunicação de borando atê na expansão de uma cultura textual, vem a
massa, embora esses a ameacem continuamente. comprovar a unidade.
No entanto, seria ilusório confinar pura e simples-
mente a literatura infantil ao teffeno da arte literâria. A exis-
Líteraturalnfantil e Oucros Meios d.e Cornunícação tência do vínculo não impede que os livros para crianças
circulem como cultura de massa, jâ que estão comprome-
A inserção da literatura infantil não apenas se faz nos tidos com um sistema de divulgação e consumo caracterís-
quadros da escrita, como é desta relação que ela retira suas ticos da indústria cultural. Em vista disso, eles passam,
normas e valor. Isso significa sua permeabilidade à história quando examinados em quantidade, pelos mesmos proces-
literâria e a necessidade do compromisso do escritor com sos de produção a que se une grande parte da indústria do
uma iniciativa para o novo e o transformador. Todavia, as livro infantil: grandes tiragens, repetição de clichês, perso-
obras para crianças absorvem recursos de outros meios de nagens estereotipadas, banalização do assunto, reforço da

192 1.93
*:-|

itk'ologiu vigente. Assim, o modo de produção a que se


urrc grande parte da indústria do livro infantil provoca sua
t'xpansão, de maneira que sua penetraçâo nos lares bur-
gLleses é rnuito maior que qualquer olltro tipo de literatura.
'lbclavia, isso não significa que esse fato a desvalorize;
com
ef'eito, o prejuizo maior da literatura infantil pode decorrer
de sua adesão à pedagogia, como incentivadora de com- OVERISMOEÃFÃNTÃSIÃ
pofiamentos socialmente adequados e edulcorando a visão
da criança, rumo à sua aceitação do sistema em vigor.
DÃS CRTÃNÇAS
O esforço da obra infantil para converter-se em arte
pode afastâ-la tanto da inclinação pedagógica, quanro da
tÍivialização da existência e do rebaixamento do estilo. por
isso, se a linguagem da literatura infantil não pode ser trans-
plantada para outros meios de comunicação, devido à irre- Lít era'ann a lnfancíL e R ealís rn o
dutibilidade antes mencionada e fato de suas transfor-
mações darem-se no universo da ^o escrita, enquanto os ou- Após um período de visível estagnação nos anos 50 e
tros apelam ao visual, ela pode funcionar como espelho no 60, o gênero infantil passou, na dêcada de 70, por uma reno-
qual eles se podem mirar, na medida em que compartilham vação, proveniente do aparecimento de um bom número de
a dificuldade de massificação. Se coube à literatura infantil novos autores. O fato pode ser associado ao desenvolvi-
o desejo de liberar-se da orientação ao consumo e à solidi- mento da literatura brasileira em sua totalidade, LÌma vez que
ficação de idéias prontas, o que a separa da influência peda- se assistiu a uma grande movimentação, devido à eclosão de
gógica, incorporando qualidade poética à produção quan- um grupo novo de contistas e poetas (os "novos", os "mar-
titativa, ela atua como um exemplo para as demais criações ginais", a "genção mimeógrafo"), assim como à ocorrência
voltadas à criança. Por isso, sem renunciar à difusão em de acontecimentos de ordem social ou política, visando agre-
grande número, essas podem atingir um valor maior, con- gar os homens de Letras em torno de ideais comuns.
tribuindo para o crescimento da arte e abrindo novos cami- O aparecimento de novos autores e de muitos livros
nhos à sua expansão no mercado consumidor. Somente para crianças não significou necessariamente que todos fos-
assim poder-se-á depor os preconceitos contra as artes me- sem renovadores ou que tivessem boa qualidade literâria;
nores, que decorrem de sua fafta veiculação, e se pesquis- ou ainda, que seguissem uma linha uniforme de conduta.
ar trilhas originais em cada uma das diferentes modalidades, Contudo, ao menos evidenciou-se uma orientação comum no
evitando a renúncia à especificidade de suas respectivas lin- grupo de escritores que se impôs, coletivamente pode-se
guagens. E inaugurar-se rotas novas de ação que avancem dizer, um program determinado, dispôs de uma editora
além do texto, sob cujo abrigo vive contemporaneamente a especializada e foi recebido pela crítica como a vanguarda
cultura ocidental. da literatura infantil brasileira. Tratou-se da adoção de um
progïama de perspectiva realista na criação dos textos, ao
mostrar a vida "tal qual é" ao leitor mirim. André Carvalho,

194 195
('(lit()Í'cla Coleção do pinto, da Editora
Comunicação, Belo 1. O escritor parte da constatação de quc () r.ct't'|r... l,,r
I l( )r'izonte, sintetizou esta aspiração com
as seguintes palavras: virtual do livro infantil, a criança, não ê o mesm() clc rrrrliri;r
E ele nos dá um livro forte, corajoso, com uma temática mente, o que o motiva à criação de obras diferentc.s. li o
que vai assustaf pessoas que ainda acreditam em meninos
desin_
que Henry Corrêa de Araújo declara a Luís Fernanclo lrrrrt.
formados e que nâo participam de problemas sociais, diato: "As crianças de hoje são mais adultas que lrs clt.
_", q.,.
vai responder aos interesses das crianças e pais atentos ontem, e não merecem aquelas histórias um tanto iutltc't'i:;
à reali-
dade do mundo de hoje.
e fora de época, aquelas fadas, varas de condão, príncillt's
Patenteia-se o propósito verista desses textos, o que encantados, bruxas, caçadores, porquinhos e chapeuzinlros
demonstra a coincidência dessa orientação dacla à prod.riao vermelhos."lB
destinada às crianças e o desenvolvimento cra literatura 2. Não apenas se modificou o destinatário, mas igrurl
brási-
leira daqueles anos, em que se verificou, com mente as intenções do emissor: ao escrever seu livro, clt.
João Antônio. quer "manter esta criança com os pés na terra, na rclrli-
Ignácio de Loyola Brandão e outros, a preocupação com
a dade" (Corrêa de Araújo, loc. cit.). Deve abordar, pois, "urìr
fotografia da sociedade brasireira, principarmentã dos
seg- problema social imediato" (Danúsia Bârbara), do que resr.rl-
mentos populares urbanos, traduzindo sua linguag"_
visão de mundo, no sentido da denúncia de uma ..ulldn.l"" ta uma obra "mais realística e social".19 Assim, o objct<r
desses textos coincide com o da literatura naturalista antc.s
imediata. o caso extremo foi dado pelo chamado romance-
mencionada.
repoftagem Çosé Louzeiro, Aguinaldo Silva, plínio Marcos),
que pretendia abolir a ficção da narrativa, a fim de tornar 3. Qual a finalidade do compromisso com o real intc-
diato? Ampliar a visão de mundo da criança, ou, corìl()
mais pungente e eficaz a amostragem de uma *fatia da vida,,.
escreve Ricardo Ramos, "o objetivo parece ser o de demons-
se o objetivo temático foi retirar a matêria ficcional da viçla
trar que a criança não pode ser murada".20 No entanto, ll.
presente, o modelo literário encontrado não era tão
atual, Corrêa de Araúrjo reconhece que não se pode mostrar tuclo:
pois provinha do romance naturalista de Zola (de Aluízio
"É claro que, escrevendo para crianças, não pude contzÌr'
Azevedo, na versão local) e do realismo da década
d" 30, certos fatos, certas coisas que vi, como o uso de drogas, o
que reagiu à vanguarda modernista dos Andracle. problema sexual. Não pude também empregar o seu lin-
Se foi a Editora Comunicação, de Belo Horizonte, guajar típico, pois é violento demais" (loc. cit.).
que
se transformou no principal reduto desta literatura infantil 4. Resulta daí a presença nos textos (mesmo quancl<r
realista, o exame das obras aí publicadas pode apontar atenuada) da violência, o que, todavia, não ê novidade paru
para
as vantagens e os limites de tal conduta literãrja.

18 gltgDntO,
Luís Fernando. A literatura infantil abanclona o
Coleção do Pínto - O Prograrna Realísta reino do faz-de-conta. Jornal do Brasil, Rio de Janeìro, 27 mato 1977.
Livro.
Além do editor André Carvalho, críticos literários se 19 eÁngeRA, Danúsia.
A violência da vicla real, Jornal do Brasil
pronunciaram reTativamente à produção da Editora comu- Rio de Janeiro, 21 maio 1977. Liuro n. 33. p. 6.
20 nanAOS, Ricardo.
nicação. Escreveram eles: Realismo, em sinal cle respeito à criança. IstoE,
São Paulo, n.32, p.40-47,3 ago.7977.

196
L97
:r i:llìç'u cle hoje: "Por que continuar falando às crianças
('r se aproprioll este gênero (a dos contos clc lìrcl:rs, l)(,1 {'\''rrr
rrt'.st:t lìnguagem cheia de inbos e inhas se ela passa três plo). Pelo contrário, clizem respeito especifìcrrlrìt'ttlt',i t't' l.t
(lu:rrtos da infãncia diante da televisão, deglutindo crimes, brasileira tnoderna, urbanizacla, que sofre os p('l't':tlr.,:, rl"
cstLlpros, novelas, uma infinidade de coisas violentas e crescimento econômico desigual. Além clisso, {r ltttl:tt ,;rt,'
rrlicnantes?" (Corrêa de Araújo, loc. cit.). Além disso, a vio- as personagens ocupam na sociedade é semprc illlt'ttlt ,

lência sempre fez parte da literatura infantil: ,,euem se sejam eles pivetes ou peftençam à classe méclie, lotlr:,
lembra bem das histórias que ouviu em criança não vai estão afastados dos tnecanismos do poder, o qlle atestlÌ stl;l
achar o livro tão violento. É menos do que João e Maria, impotência diante cle uma engrenagem que os sacriÍ'it':t.
abandonados pelos próprios pais e qlle por pouco esca- Mais uma vez defrontamo-nos com temas que povoam lt litc-
pam de serem devorados por uma bmxa. Muito menos que ratlÌra deJoão Antônio, Rubem Fonseca, Vancler Piroli (nos
Pele de Asno, obrigada a fugir das intenções incestuosas c1e
contos não destinados às crianças).
seu pai. Comparado com a Bela Adormecida, quase truci- No entanto, o fato de ocorrereln em Ìivros infantis gera
dada com seus dois filhos pela sogra, ou com a pequena
uma série de problemas não resolvidos, como os que sc
vendedora de fósforos de Andersen, qlle morre de frio no
seglÌem:
Natal, é um texto muito suave" (Danúsia Bârbara,loc. cit.).
- A primeira dificuldade é dada pela impossibilidade
de esclarecer as callsas das irregulariclades denunciadas,
lls sobretudo quando se trata de questões sociais (a poluição,
Narracrva s Infanús P ro duziãas
o trombadinha). A exceção aparece por meio clo tema clo
A Coleção do Pinto conta com quatro títulos: O mení- desquite, que não é propriamente social; no entanto, como
no e o pinto cío menino, Os rios morTenx de sede, ambos de a autora não esclarece a tazão de ser cla separação, a per-
Wander Piroli, O dia cle uer rneu pai, de Vivina de Assis sonagem infantil, e o leitor por extensão, mais uma vez fica
Viana, e Piuete, de Henry Corrêa de Araújo. Em tais privada de conhecer o porquê, fato que acentua a paralisia
histórias, são Íocalizadas as seguintes questões: antes referida.

- a vida familiar, com as dificuldades econômicas que - O ponto cle vista com que a história ê narrada é sem-
assolarn a cÌasse média brasileira, assim como os probÌemas pre o do adulto, não o da criança, traduzindo uma dificul-
de relacionamento entre os pais, determinando eventual- dacle permanente da literatura infantil e que depõe contra
mente a separação do casal e a solidâo dos filhos; ela, uma vez que a torna um meio de manobrar o pequeno
leitor e incutir-lhe suas idéias.
- a poluição, resultado do crescimento urbano e do Em Os rios morrem de sede e Piuete, o problema rela-
abandono pela sociedade de suas fontes naturais;
- a desigualdade social urbana, que origina uma classe tivo ao foco narrativo é mais flagrante; no primeiro, não é
marginal, levada ao crime pela necessidade de assegurar as a decepção do menino durante a pescaria falhada o que
suas condições mínimas de sobrevivência. ocupa o primeiro plano, mas a de seu pai. E Piuete é, como
escreve Ricardo Ramos, "uma história contada de fora pata
Esses temas não podem ser considerados peculiares à dentro" (loc. cit.),,pois predomina a preocupação do autor
literatura infantil, nem se enraizam nlÌma tradição da qual em justificar o problema social dos trombadinhas ao leitor

198 799
(
lu(' cvidentemente não é um deles. Mais uma vez a exce- to realista. Isso significa que, à literatura infantil, cltlrt' pro
r':r<r cstá constituída pelo livro de Vivina de Assis yiana,
rt:rrrado em primeira pessoa pelo menino que, entretanto,
l)crmanece em interrogação constante sobre o mal que o
aflige, sem que seus pais o esclareçam.
T ceder à virada que tem caracterizado a produçâc> t-utt't'rtliv:t
clos últimos anos, apropriando-se dos recursos ficciort:rir'
vinculados ao fantástico. Por suavez, como a fantasia 1totl.'
atuar num texto dessa rratLrceza? D. Richter e J. Merl<c'|,
- Como as personagens defrontam-se com situações pesquisadores alemães de uma literatura infantil progrc.ssis
de certo modo insolúveis, torna-se impraticável qualquer ta e, ao mesmo tempo, adequada à perspectiva da criançrt,
ação. Dai o clima sentimental resultante e o excesso de procuram esclarecê-lo, recusando em princípio uma expli-
lágrimas derramadas. Os casos extremos são O menino e o cação exclusivamente psicanalitica dada ao processo mcn-
pinto do menino e O dia de uer meu pai, cuja ação trans- tal que produz a fantasia. Assim, em vez de tomála apenas
corre no meio familiar. Considerando que o choro é uma como compensatória, tais autores consideram que ela poclc
reação tipica da criança a uma situação de impotência ou também tornar-se um meio de transformação de uma rea-
contrariedade, vê-se que os livros identificam-se aos leito- lidade vivida como opressiva. O exemplo oferecido é o dcr
res a que se destinam, sem todavia proporJhes uma saída conto de fadas, cuja propagação deu-se durante o feudalis-
menos passiva. mo, quando refletia o anseio da camada popular inferiori-
Em vista disso, torna-se claro que, à iniciativa de tra- zada de se libertar de seus opressores. As personagens fan-
zer a realidade imediata do leitor (pelo menos, daquele que tásticas, como fadas, e as propriedades mágicas, como a
vive em grandes centros urbanos e pertence à classe média) força sobrenatural ou as múltiplas metamorfoses, vêm a ser
para dentro de seus livros, o que é, por todas as razões, lou- a transfiguração, em meios palpáveis e concretos, do dese-
vável, corresponderam alguns percalços: como nomear as jo de transformação social, embora demonstrem também a
causas profundas da situação que vive e como propor uma impossibilidade de uma modificação do estado vigente, por
ação que o retire da apatia que se verifica ao final do texto intermédio dos instrumentos imediatos e reais à disposição
e que seja ao mesmo tempo compatível com a condição do camponês revoltado com sua condição servil.21
infantil? Pasteurizadas posteriormente pelos Irmãos Grimm,
Tais questões não pertencem apenas à literatura infan- essas narrativas perderam a carga de rebelião que conti-
til nacional; com efeito, elas se colocam a todo aquele que nham, vindo a colaborar na formação da criança burguesa,
se dispõe a fazer livros para crianças que agudizem a sua o que justifica sua rejeição, como foi citado antes, por
visão de mundo, sendo concomitantemente emancipató- aqueles que querem produzir uma literatura infantil reno-
rios. No entanto, se faltam à criança um senso do real mais vadora. Contudo, é patente que elementos de inclinação fan-
desenvolvido, vivências mais profundas e um conhecimen- tástica, oriundos de uma fantasia criadora, podem exercer
to que lhe permita decodificar apropriadamente sua circuns- uma função não alcançada por um verismo restrito, a saber:
tãncia, não se pode esperar que uma literatura infantil rigo- - colocar as causas reais dos problemas vividos pelas
rosamente realista preencha o efeito desejado, pois para personagens, já que o recurso ao maravilhoso pode supe-
tanto teria de contar com o que ainda não existe.
É talvez o recuÍso à fantasia que pode ocupar essa 21 nICgTfn, Dieter; MERKEL,
Johannes. Marcben, Pbantasie und
lacuna, mas, neste caso, trata-se da renúncia ao pressupos- soziales Lernen. Berlin: Basis Yerlag, 7974.

200 207
riu ir.s l>:rrreiras impostas por srÌa representação naturalist:r Colocanclo clurestões centrais relativas à vicllr tl:t t t i;tttt,'t
rlo c.spaço e do tempo; e solidarizando-sc com a óptica desta última, o cllrc srti vrtl '
- fazer com que a criança colabore no desempenho clcr rizado é o mundo infantil enqlÌanto simboliza lnaniÍestrr(.:r( )
lrupel transformador, desenvolvenclo sua atividade criado- clo novo, do livre e clo criativo. Por suzÌ vez, é pela prcsc'lì(':l
ra, devido à identificação do leitor com a personagem que clo elemento Íàntástico que a imaginação aclquirc vitl:r
rompe os limites impostos pela socieclade repressora; (como a chuvÍÌ coloricla ou a ampliação dos horizontt's),
- adotar um ponto cle vista representativo do ângulo cxercendo a representatividade esperada; igualtnentc, tot"
infãntil. na-se possível o acesso da criança .Ìos mecanismos tlttt'
É nessa meclicla que a fantasia, que orienta o emprego manipulam o poder, visualizando o exercício da atttol i-
cle personagens e recursos fantásticos no interioÍ clo texto, clacle, clesde seus sintomas aparentes - a velhice, a "rabttgicc"
assume grande proeminência na literatura infantil e, não - até suas singularidades mais obscuras, como o parasitisnt<r
sendo meramente compensatória (e, neste sentido, regres- cias Conselheiras e o servilismo clas Damas de Honra.
siva), exerce função emancipadora. Entre a produção nacio- Contudo, o mundo das fadas não paira no incleterttti-
nal recente, pode-se destacar o livro de Fernanda Lopes de naclo, alimentando-se, pelo contrário, de referências zì vicllr
Almeicla, A fada que tinha idéias. urbana nacional, isto é, à vida brasileira contemporânclt'
As c'.rr:rcterísticas dessa obra são cliscerníveis a partir Toclavia, o âmbito escolhiclo pelzt autora restringe-se prati-
de seu título: o universo é fantírstico, pois as personagens camente ao lar e à escola. Em razão disso, não estão intc-
são fadas; e, entre estas, salienta-se Llma que "tinha idéias", gra<los ao relato aspectos da realiclade masculina' colÌÌo ()
cle modo que sua vir-tucle principal consiste na criatividade trabalho e o relacionamento com a mulher (para não fallrr
que possui e fuga aos padrões convencionais. Com efeito, c1o que constitui t matêria dos livros cle 'Vander Piroli: clifi-
a heroína, Clara Luz, desde as primeiras páginas da narra- culclacles econômicas, poluição etc.). A única família conr-
tiva, chama a atenção por seu temperamento original, que pleta é a clo Sr. Relâmpago, mas este parece antes Lun velh<>
seglle suas inclinações mais espontâneas e rejeita o que the aposentado, sem maior atuação no meio social, do qr'rc
parece autoritário ou ultrapassado (representado pelo Livro resulta a supremacia do gineceu e do horizonte feminin<r
das Fadas, a que suas companheiras obedecem). Em virtu- ao longo do livro.
de disto, entretanto, ela desencadeia uma autêntica crise de Afada que tinba idéias configura, pois, uma alternativa
Estado, quando suas idéias, que são manifestações de espon- ao realismo estrito de que se falou antes e demonstra como'
taneidade e liberdade de criação (de fantasia, portanto), cle acorclo com as oportunidades ficcionais desencadeaclas
invadem o palácio da Rainha, fonte cle repressão e arbi- pela fantasia, é possível uma literatura emancipatória, con-
trariedade. O confronto entre as duas personagens, nos capí- duzindo a alenção da criança à discussão dos valores que 1ì
tulos finais, representa - como no conflito entre Alice e a circunclam e, concomitantemente, assentando-se na reali-
Rainha de Copas - a oposição entre o velho e o novo, a dade imediata percebida pelo leitor.
autoridade e a liberdade, o medo (vivido pelas Fadas-Mães,
diante da ameaça de despejo, ou pelas Conselheiras, qlÌe
não querem perder seus vultosos honorários) e a coragem
de quem sabe que tem idéias próprias.

202 20i
Janeiro, devido às exportações do cafê, a expxnsrt(, :rgl t( { )

la e financeira de São Paulo, o ensino universitlirio l;rrili


tando o surgimento do profissional liberal, a orglutiz;rç':ìn
clo exército e sua nova influência na vida brasileinr, r' tt.r
se-á um quadro dos segmentos que permitiram a fornrlrç';ìr I
à REPRESENTÃçÃO de um grupo, heterogêneo, é certo, que consistiu a ltusc rl;r
DA FAI.{.ÍLIA burguesia nacional.
A ascensão da escola e da educação faz parte clc.ssc
mesmo p^norama, cabendo a ambas garantir a transmissÌo
das normas sociais em vigor e a obediência aos interesses ckr
Estado, quais sejam, a valorização da pâtria e suas institui-
ções. Assim, o Segundo Reinado presencia e estimula, de um
Sendo a literatura infantil um clos tantos lado, a arregimentação da sociedade burguesa e, de outro, a
produtos cul_
turais oriundos da ascensão da camada burguËsa, emergência de seus instrumentos de ação: uma ideologia da
lação na sociedade brasileira teve cle ug.,nidn,
,.,, lrrrrn_
a emergên_ fan-úlia, patrocinada em sua privacidade e isolada das influên-
cia das classes médias urbanas. Esse processo cias dos laços de parentesco, os quais constituíram, no perío-
deu_se n"pur_
tir da segunda metade do século XtX, devido, a" do colonial, um sistema de relações bastante forte e autô-
r.r_ tijo,
à implantação de um setor burocrático nomo; e a organização da escola, lugar de integração do ser
no Rio de Janeiro: a
expansão do aparelho administrativo do humano aos padrões burgueses e urbanos de vida.
Impériá a.rnrrr_
dou pessoal, engrossando o grupo incìpiente Pertence a essa moldura a valorização específica da
de funcioná_
rios num estamento que se solidificou .àdn infância. Jurandir Freire Costa narra o processo histórico
u",
tir de então.22 De ouro lado, a interrupção do^ui", u-p*_ brasileiro, versão nativa do fenômeno europeu: a norma
tráfico de
africanos propiciou a aplicação de recursos familista se consolida quando de uma descoberta da crian-
monetários,
originalmente destinados ao mercaclo de
escravos, na indús_ ç4. A faixa etâria correspondente à infância recebe nova
tria nascente. Mauá, inaugurando a comunicação importância, passando a criança a ser o centro de interesse
fenoviâria
entre a Corte e petrópolis e pondo em relevo da célula unifamiliar, que se volta à sua conservação de
a lmportarrcã
do desenvolvimento inclustrìal, encarna o acordo com uma divisão de papéis: a mãe torna-se a res-
novo tipo emer_
gente; e sua aliança com os ingleses revela ponsável pelo lar e pela preservação dos filhos, a prove-
que a i".firrufão
a outros modelos econômicos nâo rompe a dora de alimentação e afeto; e o pai assume os encargos
dependência
colonial a uma Metrópole esÍangeira, no
caso a brjtãnica.
financeiros do pequeno grupo, advindo do trabalho sua
Somem-se a estes fatos o crescimento
comercial do Rio de principal fonte de renda.Z3 O ócio não ê produtivo e, numa

22 cf. a propósito 23 Cf . propósito COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma


deste fenômeno FAoRo, Raymundo.
os cronos ^
do poder. Formação do patronato político brasileiro. porto
AÌegre: Globo; familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1979. V. ainda MACHADO, Roberto; l

Sâo Paulo: Universidade de São paulo, 1975. LOUREIRO, Angela; LUZ, Rogério; MURICI Katia. Danação da nornta.
Medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro:
l

204
205
:'( )(i('(l:tclc que vai se identificando com os valores do capi_ tos de Figueiredo Pimentel, o autor rnais c()lìltt't itl.r 'l'I
t;rli.slrro, ele começa a ceder terreno para o prestígio da períoclo, é preciso reconhecer a preocupação 1-lctllrllr rlitr ;r
oc'r-rpação rendosa. àe Monteiro Lobato, em relatos como Geograf irr tlt' lt
Em vista disso, não é surpreendente que a literatura Benta ot História clo mundo para crianÇds' Nã() se'lttl"'
infhntil faça seu aparecimento na sociedacle brasileira que evidentemente, obras conformistas, nem destinadas 1Ì() tl:;(
)

transita da Monarquia à RepÍrblica. Os primeiros textos con- no colégio, Lobato lhes dá um c:Ìráter escolarizant€, rcpttr
fìndem-se com o livro didático, e um clos autores, Cad cluzinclo D. Benta a posição de mestra - crítica e lro:t
Jansen, produziu obras sobretudo para o ensino, tenclo se ouvinte clas interrupções dos meninos, é certo - e Peclri-
clestacado como educador. Desse modo, ao mesmo tempo nho, Narizinho e os olttfos' a de alunos compenetrados,
que adapta narrativas consagradas na Europa pelo gosto atentos à lição transmitida.
infantil - como Robinson Cntsoe ou Auenturas clo Barão cle Assim, é no âmbito da ascensão de um pensamento
Mtinchhausen -, traduz livros didáticos dedicaclos à ciên- burguês e familista qlre sLÌrge a literatura infantil brasileira,
cia, revelando sua preocupação em promoveÍ essa ãrea de ."pãtirtdo-te aqui o processo ocorrido na Europa um sécu-
conhecimento em nosso meio: lo antes; e, como no Velho Mundo, o texto literário preen-
che uma funÇão pedagógica, associando-se muitas vezes à
Esperamos, pois, que estes peqrÌenos, mas valentes bata_ própria escola, seia por semelhança (convertendo-se no
lhadores pela ciência, abrirão caminho nas demais províncias cle ii r.ã diaatico empregado em sala de aula) ou contigüidade
nosso país, a fim de tornar uniforme em todas as nossas escolas
(o livro de ficção que exerce em casa a missão do profes-
o estudo tâo indispensáveÌ deste ramo de conhecimento.24
sor, como nas narrativas de cunho histórico de viriato cor-
A vinculação do livro infantil ao ensino não é privilé- reia e Érico Veríssimo, o' informativo, em Monteiro Lobato).
gio de Jansen. Mesmo que se ignore o caráter moralizante Toclavia, cabe examinar um outro processo adjacente ao
da maioria dos textos produzidos na época, como nos con- fenômeno histórico: como o gênero destinado às crianças
Íeflete sobre as condições sociais que decretaram seu nasci-
mento. Isto é, como a ficção apresenta a familia burguesa,
foco com base no qual veio a existir a infância tal como a
Graal, 1978. A respeito de história da educação e/ou cia fan.rília, v. aincla:
ARIES, Philippe. História social da crictnça e da
família. Rio cle Janeiro:
Zahar, 7978. CHARIOT, Bernard. A mistificação pedagógica. Rio cle concebemos hoje e a afte literâria a ela dirigida. Deste
Janeiro: Zahar, 7979. DONZEIOT, Jacques. Tbe policing offamilies. New moclo, o procedimento é voltar às origens do problema,
York: Panrlreon Books, 1979. POSTER, Mark. Teoria crítica ctafamília. contudo, por intermédio de sua inscrição na obra ficcional.
Rio de Janeiro: Zahar, 1979. RIBEIRO, Maria Luisa Santos. Históia cla
echtcação brasileira. A organização escolar. Sâo paulo: Cortez & Moraes,
1979. SHORTTR, Edward. Tbe making of modern famity. Glasgow:
Fontana/Collins, 7979. STONE, Lawrence. Tbefamity, sex & marriage in O ModeLoEufórico
England 15OO-1BOO. London: penguin, 1979.
24;eNSfN, Carl. Ao leiror. In: GEIKIE. A geografia pbysica. A literatura infantil não pode ser considerada, em sen-
Adapt.
de Carl Jansen. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, s.cl. (Impressão ém ticlo estrito, uma modalidade realista de representação.
Lisboa). Carl Jansen data de 22 de outubro de 1B82 seu prefácio (cuja Apresentando entidades mágicas' como fadas e duendes,
atualizaçâo ortográfica foi procedicla por nós). uË.., u.rrropomorfizados' como animais e obietos, e ainda

206 207
irs 1)ossibilidades de metamorfoses múltiplas, a arte desti- pimentel se apropriando ou datradição ibéric:r ()tl tltÌ; tt,ll
nucla à criança confunde-se muitas vezes com o animismo tos de Perrault e Grimm, os quais simplesmentc lttl:t;rlntt,
qLre caracteriza seu pensamento. Por isso, a instalação pura torna-se preferível verificar o tema de acordo colÌì 0s t','it.li
c simples da estrutura familiar nas histórias nem sempre tores modernistas. Nesse sentido, a obta de Érico Vcl'íssittt('
ocorre, pois a relação entre a realidade social e sua tradu- oferece um bom exemplo, pois, embora tenha siclo ptn
ção ficcional pode ser filtrada de tal modo por variados duzida à sombra de Monteiro Lobato, elabora um moclt'lt I
instrumentos de mediação, que estes acabam por atenuar e cla vida familiar característico de boa parte da prosa nacio-
diluir, de maneira crescente, a reprodução do imediato. nal: é aquele que privilegia os valores da existência domÓs-
Entretanto, mesmo no conto de fadas tradicional existe um tica, encerrando nela as personagens infantis' Portanto,
resíduo de vida familiar burguesa. Embora a procedência transparece aqui uma euforia com a vida administrada pela
dessas narrativas seja popular, vinculada a uma sociedade família, que lega a seus rebentos os principais padrões da
marcada pelas relações feudais de produção, durante o sociedade.
transplante, feito pelos Irmãos Grimm, do mundo original Examinada em coniunto a produção de Érico Verís-
que elas mostravam para a vida urbana da Europa em fase simo, verifica-se que as pefsonagens centrais de seus livros
de industrialização, foram introduzidas circunstâncias pró- são ou representam crianças: ao primeiro caso' pertencem
prias à fanúlia burguesa, à sua ideologia e seqüelas traumá- Fernando (As auenturas do auião uermelbo) e Rosa Maria
ticas. Por causa dessa passagem, Bruno Bettelheim pôde (Rosa María no castelo encantado); ao segundo, os animais
descobrir nelas vestígios do complexo de Édipo (como na antropomorfizados: os três porquinhos (Os três porquinbos
"Branc de Neve e os sete anões"), das fases do amadure- pobres; Outra uez os três porquinhos), o elefante Basílio ('4
cimento da criança rumo ao princípio da realidade (em ,,Os uida do etefante Basílio) e o Urso (O urso com música na
três porquinhos"), e assim por diante.Z5 O abrandamento baníga). No início das histórias, todas elas vivem fechadas
dos laços da personagem com a vida exterior e a concen- Os porquinhos, que se queixam do chiqueiro onde
tração daquela no setor exclusivo da fanúlia, afrouxando a "*.ur".
rnoram, corporificam melhor esta situação de clausura, com
cútìca ao poder político que havia nos contos primitivos,26 a qual não ie conformam. Tal rebeldia e mais o desejo de
são igualmente fatoÍes que comprovam a inserção dos aventura cleterminam a fuga: os porquinhos e Fernando
relatos na vida burguesa e a possibilidade de examinálos abandonam, logo que podem, o lugar de origem e soltam-
à luz do critério ideológico. se pelo espaço; o Urso e Basílio são levados para fora por
Todavia, devido ao processo de transfusão que mar- outros, mas igualmente lançam-se ao mundo e precisam
cou o início da literatura infantil nacional, com Figueiredo sobreviver nestas novas circunstâncias.
No entanto, voluntariamente ou nào, esses aventurei-
25 gelTErHrIM, Bruno. A psicanãlise dos contos defad.as. Rio cìe ros sempre retornam; os três porquinhos terminam num
Janeiro:,Paz e Terra, 7978.
2Ó Cf. o.,t.o .hiqrreiro, onde ouvem histórias contadas por Cha-
nfCHtER, Dieter. Til Eulenspiegel - der asoziale Held und
die Erzieher. Kindermedien. Astbetik und Kommunikation. Berlin: peuzinho Verde; Fernandinho acaba em casa' repreendido
Asúretik und Kommunikation Verlag, n. 27, 1977. RICF{TER, Dieter; abr. pelo pai; o Urso reencontra seu lar, e Basílio, uma nova
MERKEL, Johannes. Marcben, Pbantasie und soziales Lemen. Berlin: Basis familia, tão solícita quanto a primeira. o circuito dos heróis
Yerlag, 1974. vai da cas para o universo e, deste, para os braços dos

208 209
l),ri.s. lj, pois, a família o setor promovido pelos textos,
l)()r'(lLrcali os heróis estão seglÌros, embora a tlnham aban_ na barriga; ou o contato com a realiclaclc t,xl.l ..r rr.r,l.r
rÍ.raclo inadvertidamente. E essa promoção fica tão acrescenta à interioridade da personagem, poi.s ;ìrpr,,l.r ,,,=
mais apresenta de modo desconexo e desvinculaclo .lr r , , ,
cviclente quando os protagonistas cleixam a
casa a contra_
g()sto: Basílio, feito prisioneiro, espera pacientemente nhecido.
a
liberdade, que coincide com a acloção pelo pai Em razão disso, o patrocínio da vida famililr. (.()ntrl
cle Gilberto;
e o lJrso, comprado por insistência de Rafael, sonha setor restrito ao convívio entre pais e filhos, no qtral <krrr'
em nam os primeiros, não decorre apenas da ênfase postlr l.ì(...ir(.
voltar para seus genitores, o que consegue, após
fugir cle modelo de existência. Advém igualmente cla negaçìo rlt.
seu clono.
Por sua vez, são os progenitores as figuras que qtralquer outro tipo de experiência relativa ao munclo extc,
detêm rior, sobretudo porque este não adquire contornos precis's,
o poder e a razão nos relatos: Gilberto goÀhn o
Rafael, o urso, porque seus pais podem comprar "l"fu.rt., " evitando-se a possibilidade de que se identifique com alg<r
os bichos conhecido. Assim, não é apenas o protagonista criança qr_rc
para os filhos. E é o pai de Fernando que lhe
doa o livro retorna ao lar; é igualmente o leitor que, acompanhanclo :r
e, mais tarde, o avião, objetos que estimulam a
fantasia do trajetôria dos heróis mirins, reconhece sell pequeno munclo
menino e o desejo de voar por ambientes cÌesconhecidos.
E esse pocler de compra que assinala o lugar somente quando a personagem está oL volta à casa. Fecha_
social .1"; ;;_
sonagens paternas e, simultaneamente, a força se o circuito doméstico e, dentro dele, está aprisionado o
de seu leitor, levado a prestigiar não apenas sua circunstância, mas
raciocínio; por isto, elas têm sempre razão. Mesmo
famílias os papéis adr-rltos e dominadores exercidos pelos pais.
mais modestas, como as cle Basílio e clo Urso, têm
no pro_
genitor avoz da razão, aquela que explica ao
pequeno'ete_
fante o valor cla moral, áo bom .o-porrn-ento,
cla tole_
rância e da peciência. O Mod.elo Crtcíco
Assim, o universo dos textos divicle_se em cluas
cama- A presença de uma visão benevolente em relação
das, a das crianças, que abanclonam o campo à
domiciliar, vicla famlliar caracteriza grande parte da produção literâria
mas nâo têm condições de romper com ele clefinitivamente.
a dos adultos, de preferência os pais (as mães são raraJ destinada às crianças. Isto significa que permanece viva em
nestes relatos), que regulam a vida familiar, mais outros autores, podendo caracterizar_se seja pelo pres-
orclenanclo suas
concepções existenciais e o moríus uíuendí. tígio concedido ao modelo doméstico, do qual não se cleve
Entretanto, o fato cle as crianças buscarem romper escapar, como em O sobraclinbo dos pardais, de Herbefio
este Sales, ou A casa das três rolinbas, de Marques Rebelo; seja
cerco pode ser o sintoma cle uma insatisfação.
Sem clúvicla,
esta última ocorre, senclo posta em relevo uma pela atribuição de um poder crescente clentro tla nanativa
monotonia,
como fazem os porquinhos, que querem deixar o chi_ à figura infantil, como nos relatos de Ecly Lima, em que o
queirg. No entanto, igualmente acontece que a nanador criança tão-somente testemunha os eventos, não
experiência
trazidas pelas crianças é a <le que: ou o munclo podendo parÍicìpar ativamente dos principais fatos apre_
èaseiro é sentados. Por sua yez, em A fada que tinba icteias, d,e
superior em sua tranqüiliciacle pequeno_burguesa,
o que se Fernanda Lopes de Almeida, é proposta LÌma reforma <ia
passa em A uida clo elefante Basílio ott
O urso com música
est ntura, paftindo do interior da família: clara Ltz ê a cri-

270
211
.uì(';t (lr.tc rnodifica o compoftamento do grupo, embora ta a percla do paraíso infantil, por obra dos lllo1 ttt." 't'lrtl
rrì. transforme a modalidade social e política,nig.nt.. po.- tor, à professora, que ilusoriamente doa o anirrt;rl' ;l' l'''li
t;rnto, é o modelo familiar liberal que sai prestigiado. O ( lllii 'rrrr 'r
tando Lstar agindo com correção; os pais' qLlc
n<rvo relevo dado à criança ainda ocorre em O menino (entrc o ;tlr'll 't
mestra, dividem os sentimentos do menino
magico, de Raquel de eueirós, e A curiosiclade premiada, eles ou à boa professora) e são incapazes de alcrrrÌ("'rr 't
l)t'r-tttl.'
clc Fernanda Lopes de Almeida. solução para um problema aparentemente simples'
A partir dai, cabe verificar se é possível a elaboração tifica-se ò adulto, ao fazer com que perca sua attrJ
ttt:t1"i' 't
de um modelo crítico da familia, investigando quais o, ,á.,, de remecliaclor, e desnuda-se avlda doméstica como lrrli:tr
efeitos na representação quando se pensa que a literatura de conflito e irascibilidade'
infantil permanece circunscrita aos ideais expostos no iní- Coisas d'e menino' de Eliane Ganem, Segue
trajct<it i;r
cio: os davida burguesa, balizados pelavalorização da vida similar.AoadotarcomoprotagonistacentralameninaClltr.it't',
doméstica controlada pelos adultos, e a posse de um conhe_ o livro mostra o desajuste entre os desejos infantis c lts
cimento universal, nem sempre pragrnâtico, transmitido para o's Í'i
aspiraçOes do aclulto: os pais constroem moldes
pela escola, senhora dos códigos clominantes. É a vertente lhos, contra os quais alguns se rebelam, como é o caso
cl:t
vinculada mais diretamente ao realismo verista na represen- g:Lrota. Decorre ãaí o clima cle hostilidade dentro
da casrt'
tação quem se encarregou desta tarefa crítica. centrancro a os irmãos ou entre pais e filhos'
[r.,,e a.r.tlta nas brigas entre
maior parte das histórias no cenário urbano e utilizanclo óutra vez o cotidiano é documentado, servindo a literattr-
personagens oriundas da classe média, estas narrativas ra como meio para a revelação das contradições
do sistclrl:t
burguês: llberàl por princípio, acaba por impor
enfatizam os problemas que resultam de seu lugar na es_ formrts
.o-portutnentais; patrocinando a imagem da familia
cala social e profissional. O meníno e opinto do menino, cle col-Ìì()
Vander Piroli, inaugura, de cefto modo, essa inclina em gerações e sexos clìì
ção, ao céluia harmônica, revela-a cindida
abordar as dificuldades experimentadas por uma familia conflito.
O fracasso do modelo burguês evidencia-se ainda
encastelada num pequeno apartamento, quando o filho m"ris
menor ganha da professora um pinto. O assunto do texto no confronto com a farrúlia favelada Nezinho' que se con-
é a impossibilidade de assimilação do animal aos aperros vefte no pivete Olho de Boi, e sua mãe querem introduzir'
que vivencia o grupo, devido à falta de local, de dinheiro, o padrão vigente da família ajustada e do filho educaclo'
Contudo, a pressão social é mais forte' decorrendo
de harmonia. O sacrifício do pinto representa, pois, o do tant<r
próprio menino que perde a ilusão cle poder t ni., algo de qr'rc
dos precon.ài o, (contra o menino de cor e analfabeto)
seu mundo particular ou de seu clesejo privado pu.n d..r_ impàdem que ele tenha um emprego, quanto dos desacer-
tro do lar. Não há espaço para ambos _ menino e pinto _ tor.lu sociãdacle brasileira: o crescimento da camada pobrc
nesse campo estreito, assim como para a prórpria classe gera o marginal a quem resta lào-somente o crime "lqu"n.
to chance de sobrevivência' Assim, a norma em vlgor
média no espectro social brasileiro, esmagada ..rìr. o, np._ (:
por
los de ascensão e consumo e a necessiclade cre sobrávi- duplamente posta em questão i a partír de seu interior'
vência econômica. intèrmédio da insatisfação de Clarice; e de seu exterior,
Instantâneo da vida familiar cla pequena burguesia quando sua imagem ,. ttt*n nas deformaçÕes da socie-
urbana nacional, o menino e o pinto dò menino documen- dade nacional.

212 273
l)cs.sa forma, a vertente rnais engajada com LÌma re-
do contexto social urbano atinge seu
T O Mo delo Ernancíp at órío
l)rc.ser-ìtaçâo verista
olrjctivo inicial, ao denunciar os desequilíbrios no interior Monteiro Lobato poderia representar o pritttt'll( l r'\r''rr
clu unidade doméstica que LÌma Ìiteratura mais traclicional plo cleste modelo: recusando a intermediaçãO tk)ri l);rt" rr'r
scnlpre incensou. Todavia, são essas mesmas metas os limi- ielação entre a criança e a realidade, coloca 'ì('tl'ì lt.t.t"
tes do programa artístico: a clenúrncia toma a configuração numa posição de autonomia em relaçâo a LlmlÌ irtr'l'rtì( r'r
cle uma fotografia exterior do problema, de modo que não superior e dominadora. D. Benta, a avô, é antes LtlÌ1lÌ 1ì( )\/( l
é filtrada pelas personagens, e muito menos pelos heróis nanta do Sítio (a ela cabem as tarefas de provisão ccorttlttrt
crianças. Dessa maneira, colno no ceso do modelo eufóri- ca e alimentar, funções concomitantemente paternlì c lÌìrl
co, este moclelo crítico aincla encerra sells heróis no círcu- terna) e uma preceptora, ministrando o saber no rnolììclìl()
lo familiar, embora apareç incômodo e desajustado. O fato em que é solicitada e fazendo com que as criattlr:ts tlttt'
fica evidente quando se verifica que as personagens mirins vivem com ela se postem criticamente perante a realicl:rclc'.
não conseguem elaborar internamente a crítica que o nar- Ao mesmo tempo, o escritor deu maleabilidacle rr<r
rador - um adulto, como se pode constatar em O menino cenário criado: o Sítio do Pica-pau Amarelo pocle ser ttttt
e o pinto do menino - desenvolve, por intermédio de seu microcosmo do Brasil (como em O poço do Visconcle), tcrt-
procedimento narrativo ou dos acontecimentos desdobra- clo um funcionamento metafórico em relação à realidacle clrr
dos no tempo. Mesmo quando os eventos são apresentados criança leitora; ou então representa pafte de Llm todo qtlc
em primeira pessoa, como em O clia de uer meu póti, de ultrapassa os meninos e D. Benta, de moclo que eles lan-
Vivina de Assis Viana, a alÌtora não produz um esboço çu--i" para fora, experimentando contextos desconheci-
compreensível do problema de sua personagem, o menino clos, sempre numa postura interrogadora.
Fabiano, que é igualmente o narrador. Assim, por não trans-
Lobato evita, por intermédio desses recursos, as 2ìrme-
clilhas em qlle cairam os adeptos do modelo eufórico:
cender ao fato crítico (a dissolução da família, devido à
separação dos pais), o herói não se transforma internamen- - o retorno clos heróis, imprescindível à continuztçãoe
te, de modo que se lhe torna impraticável uma emanci- clas histórias, significa invariavelmente uma aprendizagem
pação dos laços domésticos, convertidos numa modalidade Lìm crescimento do conhecimento da realidade;
de prisão domiciliar. - este retorno não significa necessariamente LÌm reco-
Configuram-se as fronteiras que experimenta um mo- nhecimento da superioriclade do lugar de origem, visto
delo crítico de representação da familia, fundado numa qlÌe, em alguns casos, esta volta não é bem acolhida por
alguns heróis (Emília, em A cbaue do tamanbo);
perspectiva verista de tratamento literário. Da mesma ma-
neira, esboça-se aquilo em que ele pode-se tornar, se se- - o fato de que, em muitas narrativas, olÌtros agentes
sejam introduzidos no Sítio e clepois queiram abancloná-lo
guir o processo evolutivo a qlÌe naturalmente aponta: na (o anjinho, em Memórias de Emília) indica a reversibiliclacle
criação de uma personagem qlÌe tem em mira sua eman-
clo sistema e a similaridade entre o Sítio e o qr-le não lhe
cipação individual de acordo com um ângulo question- pertence.
ador das circunstâncias sociais e familiares nas quais está Não se pode, pois, afirmar que Monteiro Lobato tenha
inserida. promoviclo um conceito estabeleciclo de existência familiar

214 21>
('(l()nìcritìca e lutado por ele em suas obras. Embora se
autor. Em todos, os protagonistas vivem umlt .sittl:tç.lr I {",, I I
rt'rrltlreçam nos livros momentos do cotidiano, como, por
lar, na qual o tempo estagnou, de modo (ltl(' :.rr,l lìrrr
cxcrrrplo, o serão na fazenda, o fato insere-se num contex_
gressão intelectual não ê acompanhada por Lllìì:l ('\'{,ltr,-,i',
to rnaior, que é o da discussão dos valores que emergem cronológica, seja dos indivíduos envolvidos ncl:t, r;,';,t ,1,,
crrr tais circunstâncias. O serão, que aparece em peterpan,
ambiente. Como quando freqtientam o colégio, os lÌl('trltr,r,
<tu Serões de D. Benta, propicia o momento do cliálogo; as
isolam-se do meio vivo, podendo então receber ,,'11 ;;;1ltr'l
atividades econômicas ou os jogos são os pretextos com
universal e teórico, separaclo da práxis diâria. É cslrt ,pr,'
base nos quais surgem as grandes aventuras: assim, o impe_
falta nos livros, de modo que, ao lado da sonegaç-rio rl,r
rialismo aparece em O poço do Visconcle, e o lúclico, .ro úro
familia, foi abolida a atualidade, o que convertelì o Stli.
do pó de pirlimpimpim, que esrá na base das trajetórias no
num reduto inexpugnável, dentro do qual, como na cs('( )
tempo e no espaço. A partir daí nasce a possibilidade do
la, as crianças nunca precisam crescer, para não poclct'
padrão emancipatório antes referido; não se trata cle um
escapulir dela. Esbarrando a criação lobateana neste limitc,
reforço da estrutura familiar ou cle uma reforma em seu é preciso verificar se mesmo esse protótipo não pode scr
interior, mas da proposta de um outro funcionamento da
rompido, instaurando-se uma nova espécie de visão emân-
relação entre indivíduos, segundo a qual ficam suprimidas
cipadora para o leitor mirim.
as divisões estanques entre o adulto e a criança, assim
É nos relatos de Lygia Bojunga Nunes que se pode
como as ligações de dependência e sujeição entre eles.
constatar a ficcionalização dessa alternativa emancipadora,
Com Monteiro Lobato, abre-se a perspectiva de uma já que os laços de parentesco ocorrem na maioria de seus
proposta renovadora no tratamento das relações familiares
textos. Não em Os colegas, sua primeira narrativa, que enfa-
e do lugar da criança em seu contato com o mundo exte_ tiza a importãncia da amizade e solidariedade entre as pes-
rior ou com os maiores. Todavia, evitando proceder a uma soas, mas em Angélica e A bolsa a'marela', que colocam em
critica à família (como ocorre no moclelo antes examinaclo),
questão o lugar da criança no interior do grupo familiar. É
o escritor simplesmente a aboliu de seus textos, sonegando
a heroína do primeiro relato que o desafia, quando nega a
o problema (viu-se como D. Benta tem antes uma função mentira sobre a qual se apóia a celebridade das cegonhas.
administrativa, e não doméstica). Gerou-se, pois, uma lacu_
Raquel, no outro livro, sente o peso da falta de prestígio
na e, diante da alternativa de lançar seus heróis no con_ das condições (somadas) de criança e mulher. Angélica,
temporâneo ou introduzir um setor intermediário dentro do
pois, enfrenta os adultos, abandonando o meio em que
qual a solução final pudesse ser protelada, o escritor optou
vive, para construir sua vida isoladamente; Raquel, pelo
pela segunda. Foi assim que o Sítio se converteu numa
contrário, é sufocada pelo ambiente doméstico, do qual
escola, de modo que a escolha feita mostrou-se ainda mar-
não escapa, podendo, quando muito, racionalizar que ser
cada pelos condicionamentos peclagógicos cle seu tempo,
menina não ê tão ruim assim. A cegonha oferece a lição de
quando a mentalidade escolarizaclora encontrava-se em
uma existência exterior à farrília e, como em Os colegas, o
fase de expansão, em decorrência do reaparelhamento cla
convívio com os artistas substitui o calor doméstico, Ercatz
sociedade para a circunstância burguesa emergente.
compensatório de uma carência deflagtada pela decisão da
Devido a isso, não existe solução cle continuidacle entre
protagonista. E Raquel se conforma com seu estado, forne-
os livros informativos e os propriamente ficcionais clesse cendo, neste caso, aos companheiros mágicos o exemplo a

216 2r7
.scr seguido
- o guarda-chuva, da valiçJacke de ser mulher; o conflitiva da criança no interior da famílil. liillr;t t[' tttn
rrlfinete cle fraldas, d,a valiclad,e de ser pequena.
casal de equilibristas, Márcia e Marcelo, MaLirt vt'ltt rnoi,tr,
Os livros mencionados buscam a emancipação
ança perante os condicionamentos que os
da cri_ quando fica ôrfã, com a avó materna, D. Mru'irt ( ìr'r tli,t
adúltos impõem Mendonça de Melo. A narrativa mostra, do ponto tlt' r,ir,l.t
a ela, utilizando o períoclo existencial clominado
cunsrância familiar a infância, fase deficitária ;;ã;, exterior, os primeiros momentos da nova vicla tlt' iVl;ttt;t,
-
duo, porque ele acumula depenclências (econôrnica,
oà i.rairri- suas aulas particulares, a festa de aniversário, <t t'r:lrtciott.t
mentar, cognitivas e outras), sem poder oferecer
ali_ mento com os avós; do ângulo interno, apresentx () lt'nl,,
q.rníq.r., avançar da menina rllmo a seu passado, descobritttlo n:t
contrapartida. Entretanto, as balizas dessa
ema.rclpuçâo memória (e no sonho) o primeiro encontro entre ser.rs 1'l:tis,
mostram um horizonte relativamente estreito
cle açao _ cle a ruptura de Márcia com slÌa mãe devido à inferioricllrclc'
um lado, o abandono do lar, compensaclo pela
artista, numa comunidade de iguais; de outro,
vida de social do noivo, o nascimento da filha, a vida circense. ()
o conformis_ momento mais traumâÍico ê, para Maria, a aceitação cl:t
mo com o presente, num assumir_se que é igualmente
espécie de adaptacionismo. Em A boísa amarela.
uma morte dos dois, que concordam com uma exibição nlt
esse fato corda sem a rede protetora, a fim de obter um rendimentc>
ainda ê reforçado por olltro, quando a personagem
senteada com um último consolo: ao visitar
é pre_ melhor e p gar as dívidas contraídas com a garota, o qLrc
u Cnrn .lo" ocasiona suas mortes simultâneas e o sentimento de culpa
consertos, descobre que há famílias boas
e ru.r.io.rri-, na filha.
colÌìo a que vive em tal lugar.
A recuperação da memória vem acompanhada de utnzt
Corda bamba rompe com essa inclinação, oferecendcr
a modalidade de emancipação autêntica. Maria, liberação total - da culpa, já que fora Maria Cecília qlÌem
a protago_ verdadeiramente ocasion r^ dívidas que Márcia querizt
nista central, não se converte em artista, como ^s
os animais pagar; da influência dos pais, pois, ao assumir sua mofie, a
em Os colegas, e Angélica ou Raquel, em A bolsa
amarela. menina se livra simultaneamente do poder repressivo da
que quer ser escritora; sendo apresentad, a" iro"áãio
como equilibrista de circo, sua caracte rização avó e da lembrança opressiva ocasionada pela perda dos
como artista genitores. Trata-se, simbolicamente, da mptura de um cor-
suplanta, de antemão, a de ser criança. E o fato
a" ,.. hatri dão umbilical, representado, na obra, pela corda bamba
na corda bamba .simboliza sua situaçâo humana,
estar numa faixa etâria infantil, mas porque precisa "t"
p"; que conduz a menina de volta a seus procriadores. Recon-
,,_,p..n. quistar o passado é também desprender-se dele e, pofian-
uma dificuldade radical, a amnésia. Em visia disso,
com ti;;i;, to, desenvolver feclìrsos para viver autonomamente o
confluem profissão e esrado exisrencial, sem que
no processo o fato de ainda ser uma menina.
i";;;fir" futuro. Por isso, o livro encerra sintomaticamente com um
O horizonte catálogo de projetos mentalizado pela protagonista.
do tratamento do problema se alarga, no momento
em que Em Corda bamba, Maria defronta-se com muitos geni-
a autoÍa desiste de circunscrever a personagem
ao âmbito tores: de um lado, os pais ideais, Mârcia e Marcelo, o casal
exclusivo de sua fatxa etâria
modelar que ela perdeu; de outro, os pais reais, a repres-
Por sua vez, atribuindo a Maria uma amnésia
decor- sora Maria Cecília e o benévolo, mas indiferente, Pedro; e,
rente da não-assimilação da morte dos pais num
no circo, o livro apresenta como pode ser tratacla
acidente enfim, os pais sobressalentes (substitutivos), Barbuda e
a relação Foguinho, a quem Maria apela quando falham tanto o

278
219
,1()lìlr(), qLranto a realidade. Dividindo, dessa maneira, em ridora. Tal escolha determinará, por sua ve7-, <> ( ( )llrl)1,llrl',
p;rrc.s diferentes a percepção distinta
que a menina tem de so do texto com uma postura pedagógica ott t-tlìt ), vlr'lr ) , lrlt'
.scus parentes, o livro oferece concomitantemente
uma é o afastamento desta índole transmissora clc tt,)Írrr'l'. {'
vi.são da familia por seu prisma dicotômico (isto
é, em sua ensinamentos um dos fatores de sua autonoltti:t t' t':llot
repartição entre afeto e abafamento) e artístico. Se, por um lado, a produção nacional rtilltl,t r,t'
,a necessidade de
uma emancipação destes dois protótipos de sujeita em muitos casos ao patrocínio de um moclo tlt' vtr l:t
vida domésti_
ca. E nessa medida que o relato rompe com
a trajetória marcado pela dominação da criança e afirmação clo potlt't
antes referida pela autora e que não representava
uma libe_ adulto, por outro, avulta igualmente a tendência corltl'ritirt,
ração verdadeira: porque a protagonista, que
oscilava entre por meio do reformismo ou do questionamento, visltttckr
dois modelos familiares o real ú substitutivo _,
- vem criar antes à ênfase na emancipação do ser humano, concliç:ìtr
instrumentos para uma vida autônoma, decorrente para a mudança das circunstâncias que produziratn lrtis
de uma
conquista interior. Raquel chega a esse ponto aparelhos de dominaçâo.
e estaciona;
Maria passa pelo processo que oferece os
meios individuais
para esse salto fora do lar e procede
ao mesmo, como ante_
cipara Angélica. Síntese, pois, das garotas
das narrativas
precedentes, é Maria quem demonstia
a medida da eman_
cipação, sem recorrer seja a circunstâncias que
são tão_
somente uma pergu\tn (n escola, o grupo
de ãrtistas), seja
ao conformismo, ainda que temporá.ú,
á.t.r_inando a rota
de uma possível representaç ão cla existência burguesa
na
literatura infantil fora aa camisa-de-força
de seus valores
ideológicos, promovidos pelos aclultos.
Se a literatura infantil está circunscrita
historicamente
pela emergência de uma classe social, a
burguesia, e alguns
de seus pilares ideológicos, como a'valorilação
especïfica
dada à família e à .situação infantil, ela pode,
po, .ri" _"r_
ma razão, proceder a uma representação delte
processo.
Interioriza, desse modo, os fatóres que estão
na raizcle sua
produção como gênero literário, val,endo_se
seja dos recur_
sos ligados ao maravilhoso e à fantasia,
como nos relatos
de Monteiro Lobato e Lygia Bojunga Nunes,
seja daantro_
pomorfização de animais e objetãs, à
maneiía cle Érico
veríssimo, ou ainda respeitando os limites
do verismo. Em
todos esses casos, e independentemente
cla opção técnica,
o que se evidencia é o aproveitamento da temâíica
familiar
segundo uma óptica afirmativa e eufórica
ou crítica e inqui_

220 227
-q
T isso, não apenas questionam a narriÌtivlr lr;rtlrt i,,11,s1 rp1,=
retirou sua inspiração do passado nrÌcior.ìíÌ1, nì;r, lrr,r ur,uii
romper o cordão que a prende umbiliclrlrrr('nl(' .rir liu,,
didático. Desse modo, evitam o probÌenlll vivt'rrr r.irl' 1r,1
essa espécie de texto - sua natlÌreza escolrrr, sulrir, lr,il tr h r .r':

REVrTÃLIZHçA.O DA
,4.
informações recebidas na sala de aula, lÌs (lu:ri:, r'lr,lr ì':':.r
entusiasticamente; decorrência disto é slrlr Ir'inr,llr rrr.r,-,ìi r

MEMÓRIIT NÃCIONÃL em apêndice do sistema escolar, o que iurpt'tlt' ,r .rrrt,,n,r


mia da obra e, sobretudo, corrobora sua inc'lirr;rr..i,r 1,,,|.i
gógica.
Em vista clisso, inverter o tratamento tl:rtll .r,, l.lt,,
histórico gera estas conseqüências:
São tantas lutas inglórias
- enfaliza-se o indivíduo anônimo ou lrrrrrrrlrlt' ,yr, l.r-
São bistorias que a bistória
a História nacional, evitando apresentá-l() ('( )n rr Ì I rr , ,! lr rr ' r

Qualquer dia contará dela, o que ocon'e quando se veicula qlÌe n()ss( )r, I rrirr, il' ri
De obscuros pesonagens
As passãgens, cts coragens
heróis são apenas os líderes oLÌ os generais (r'orrr,r rrr,-: ii l.l
São sementes espalbadas pelo cbão tos sobre as Bandeiras, em Viriato Correa, ()u it í ru.:ri.r '1,,
De.fttuenctis e de raimundos Paraguai, nos livros dicláticos), ou que tocl<x; r'r' rl,,l ,r,lrr
Tantos julíos cle santana passivamente a leis, decretos e outras cletclrrrirr.r,=r=rr: r,!i
Uma crença num enorme coração undas da esfera administrativa do Estado (conÍìrrrru ,r', rr.,!i
Dos bumilbaclos e ofendiclos
cias relativas à abolição da escravatura, resr-rrrrirl,r !rnilr i l, i
Lxplorados e oprimidos
sancionada pela Regente);
Qtte tentam encontrar a solução
Lliz Gonzaga Jr.: pequena memória - rompem-se necessariamente os laços i(k'olnui',,= .l,r
para um tempo sem memoria literatura infanto-juvenil com o aparelho esc()liu, ',rrl'-=;,!i i
(A legião dos esquecidos) rio do poder político e da classe clominante;
- emerge uma visão crítica dos fatos nlur:rrl,,'. . .1. ',
É a "legião clos esquecidos", cle que fala a canção de paÍticipantes neles, mais ou menos ativos.
Luiz GonzagaJr., que parece ter adentrado na literatura por Por isso, O solclado que nã.o era, ao colltíu ,l lri.r,,iir
intermédio das novelas O soldado que não era e Do outro do levante baiano contra as tropas portugllcslt:i (1r' r, !

Iado tem segredos, respectivamente de Joel Rufino clos tiam à proclamação da independência lideracll 1ror l', .1,, , I

Santos e Ana Maria Machado. Se a literatura infanto-juvenil, contrapõe-se à versão difundida que apreseillír r' r ;,r .lr',
quando se debruçou sobre os eventos da História do Brasil, da autonomia política como um aconteciment() tr,lrr ,, .,, r i

sempre pfocurou feforçar seu compromisso com a versâo do "às margens plácidas" do riacho lpirang:r. l)r" r,,t, 1,
oficial dos fatos, aqueles escritores inveftem o ângulo de zando a placidez paralisada do mito oficial,Jocl l{rrllri.' .l' '
tratamento do problema e lhe dão novas dimensões. Com Santos mostra as lutas sangrentas e os sacriÍìc'io:, r i. ;,1,,
pelo povo da Bahia na defesa da liberdade polítir.r

222
() caráter popular do levante é outro âspecto ressalta_
nacionalismo desmesurado, o que aproximarilr r;t'rr livr,r,lr
rl<r 1>clo autoÍ em sua narrativa. Evitando fazer uma história
outras tantas visões deturpadas do passado lor':rl.
rlc rniÌitares e aristocratas, salienta os heróis populares que
O ufanismo ainda ê contornado pela inlr'otlu(,i{}, !!(r
l()lnaram parte no evento e cujo sangue foi o preço da texto, de um segundo narrador. Quem conta ()s l)rn( rl,.u,
vitória. Destaca-se, por esse ângulo, sua heroína, ,,o solda_ episódios da luta é o corneteiro Luis Lopes, dc tnotlr r1u,'
clo que não era" Maria euitéria cle Jesus, moça humilde, as opiniões mais exacerbadas e ufanistas pefienc:r'rrr :r cl,',
filha de um pequeno proprietário, que abandona a familia e não ao narrador primeiro, que se apresenta c()rìì() unr
para acompanhar o exército nacional que enfrenta o pocler ouvinte mais jovem. Esse recurso permite que se atcrìrr<' o
lusitano. O livro recupeÍa, portanto, uma personagem em entusiasmo e os exageros de Lopes, que participotr tk x.
geral negligenciada pela história brasileira, já que, quanclo principais eventos transcritos. E possibilita igualmentc rlrrr'
é mencionada, a jovem aparece tão-somente como curiosi_ o autor evidencie ficcionalmente o fenômeno mesmo quc ( )
dade, espécie de enfeite ou pitoresco que sempre caracte_ levou a escrever o livro: o de que, por negligência cl:r
riza o ensino do passado numa nação que procura ignorar história oficial, comprometida com o poder político, esquc-
os heróis provenientes das camadas menos favorecidas. cemos nossos heróis mais simples. Desse modo, Lopc.s
Dessa forma, em sua novela, Joel Rufino dos Santos introduz a seus ouvintes de lembrança curta a valente Muriu
propõe uma seqüência de desmistificações dignas de men_ Quitéria, cuja importância nem seus vizinhos recordavam,
ção, porque consistem numa revisão da tradição nacional: os quais ainda faziam blague dela, por não entenderent
seus hábitos excêntricos. Em vista disso, o ouvinte reproduz
- a de que não houve dificulclades, nem clerramamento
de sangue nos episódios relativos à conquista da autonomia a situação do leitor juvenil, e este tem meios a partir dai de
nacional, o que garante a continuidade dos laços coloniais en_ refletir sobre os fatos da história e o modo como ele é nor-
tre Brasil e Portugal e, por extensão, o imperialismo europeu; malmente convidado, por meio, principalmente, da ação da
escola, a consumi-los.
- a de que se pode continuar ignorando a participação O processo de recuperação de uma memória recalca-
popular no movimento separatista, quando ela existiu e
tomou colorações nacionalistas. da pela versão oficial dos acontecimentos, usando para isto
E, usando como protagonista central uma mulher, o o próprio adolescente que é leitor ou personagem do texto,
autor ainda problematiza a questão da eventual colabora_ ocorre igualmente na narrativa de Ana Maria Machado, Do
outro lado tem segredos. Não se tratando de um relato pro-
ção feminina nos episódios que dizem respeito à trajetôria
da sociedade brasileira. vare dizer, ele mostra as dificul- priamente histórico, como o anterior, seu propósito é mos-
dades que revestiram as possibilidades de participação num
trar como a coletividade negra foi rompendo pouco a
pouco os laços com seu passado. Assim, o livro apresenta,
acontecimento político, já que não apenas Maria
euitéria de um lado, o protagonista central, Benedito ou Bino, em
precisou antes travestir-se em homem para ser aceita como
busca da compreensão de suas taizes com base nas refe-
soldado, como sua ação jamais foi reionhecida pelo pai,
rências esparsas que recebe dos mais velhos. Coletando e
que a expulsou da famílja e deserdou-a. Nessa meclida, èvi_
compondo os pedaços, o menino obtém um quadro de
denciando os contornos do pensamento da época, seus
informações mais completo sobre o aprisionamento e escravi-
preconceitos e limitações, Joel Rufino dos Santos evita um
zação dos negros africanos, suas constantes revoltas, o papel

224

fl
rlo líclcr Zumbi ., o qy. é mais importante, o lugar que clados verídicos sobre a realiclade e a tracliÇlìtt ( it;lt";t:' ;t l:tt:'
()cr-rpa Bino neste encadeamento de fatos. por outio raào,
escolhas, a literatura infanto-juvenil tambérrl sc: ll;lttr,l, )l lrr,ì í'
1r<rr intermêdio da inquirição do garoto, o livro alcança
cli'rensão do relato de cunho histórico, pois reconstitui
a modifica a tendência de ser mera pârceira ckrs 11i11111'1r t;, ,lt
eventos mencionados antes e fornece novos meios
os ciais, ntmando para sua autonomia artísticáÌ c v:th)Íll,1(..1r)
de inter- estética.
pretaçâo dos modos como se deu a ocupação
e coloniza_
ção do território americano.
Assim, a narrativa organiza_se em duas camaclas,
cor_
respondendo a primeira à trajetôria passacla clos
negros,
desde a prisão pelos brancos, até a introclução
cle suicul_
tura no interior da sociedade e história brasireiras,
e a se-
gunda, à lenta apropriação por Bino deste aceruo
de ocor-
rências por intermédio de sua investigação.
er-rando os clois
motivos se encontram, constitnindo no conÀecirnento
que
o protagonista adquire sobre si mesmo e sobre as origËns
de seu povo e situação social, o menino conquista
o solo
sobre o qual constrói sua existência e consolictà
seu enten_
dimento sobre a amplitude clos costumes e ambiente
que o
circundam. De modo que, integranclo o tratamento
do pro_
blema e o horizonte de compreensão cro herói
,,'!rrl-
no à perspectiva crítica buscada, esta pode questionar
"i.rau
a
tradição e recuperar uma parte _ e â menos .rãbr",
o que
propiciou sua rejeição - do passado cla nação.
Do outro lado tem segredos e O solclado que não era
são, pois, narrativas que compartilham um projeto
comllm:
de um lado, visam mostrar acontecimentos em geral
obs_
curecidos nos livros que se ocupam em transmitir
a vida
colonial brasileira e o processo de autonomia porítica (res-
pectivamente dos negros e brancos, provando que
não se
deram da mesma maneira). De outro, liclam .o-
o ;"J;
de recuperação desses eventos: peranie uma memória
amordaçada pela falta de informações verdacleiro,
o., p."_
cisas, torna-se necessária uma tomada cle decisão
inversão do procedimento. por isso, ambos os livros -mo a
inte-
riorizam o problema, fazendo que as personagens
discutam
o esquecimento e tratem de preencher esta lacuna com

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Regina. Zilberman, nascida em Porto Alegre, licen-


ciou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul e doutorou-se em Romanística pela lJniversidade de
Heidelberg, na Alemanha. É professora da Pontifícia Univer-
sidade Catôlica do Rio Grande do Sul, onde leciona Teoria
c1a Literatura e Literatura Brasileira. Dirige a Faculdade de
Letras e coordena o Programa de Pós-Graduação em Letras.
Entre 7987 e 7991, dirigiu o Instituto Estadual do Livro,
instituição ligada à Secretaria de Cultura, do Governo do
Estado do Rio Grande do Sul. Foi Honorary Research
Fellow no Spanish & Latin American Department, da Uni-
versidade de Londres, no ano escolar de 1980-1981. Reali-
zou o pós-doutoramento no Center for Portuguese & Btazi-
lian Studies, da Brown University, Rhode Island (EUA). É
pesquisadora !Ã do Conselho Nacional de Desenvolvi-
mento Científico e Tecnológico (CNPq). Foi assessora-cien-
tifica da Fapergs, entre 1988 e 7993. Coordenou a ârea de
Letras e Lingüística entre 7991-1992 e 7993-7995, da Fun-
dação Capes, fazendo parte de seu Conselho Técnico-
Científico. Pertenceu ao Conselho Estadual de Ciência e

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