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Capítulo 3

Algumas observações sobre o


tratamento behaviorista radical
dos eventos privados

Alexandre Díttrich*
UFPR

Este texto tem objetivos modestos. Partiremos de alguns pressupostos


aparentemente consensuais entre os behavioristas radicais sobre o estudo de eventos
privados, e a partir deles teceremos algumas considerações sobre este problema.
Nem os pressupostos, nem as considerações pretendem-se exaustivos. O tema tem
sido explorado com freqüência por behavioristas radicais, e certamente não faremos
justiça à totalidade dessas contribuições. Não obstante, tentaremos esclarecer ou
destacar alguns aspectos do problema que talvez não sejam imediatamente óbvios.
Historicamente, a ampla utilização da introspecção enquanto método nos
primórdios da psicologia acadêmica constitui um marco significativo para a compreensão
do tema. Entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, parte importante
da definição da identidade de um psicólogo enquanto pesquisador consistia em saber
sua posição em relação à introspecção: se a utilizava, em que medida, de que modo, para
o estudo de quais problemas, etc.1 No texto que é considerado por muitos uma peça
definidora da filosofia behaviorista radical, Skinner (1945/1984) trata o problema da
introspecção de uma perspectiva absolutamente original, apresentando uma proposta
que foi (e continua sendo) pouco compreendida: introspectar é comportar-se. E mais:
relatar o que se observa introspectivamente também é comportar-se. As conseqüências
dessa "virada” na forma de compreender o problema da introspecção são tão amplas que
é impossível listá-las todas. Eis algumas: (1) a introspecção passa de método a objeto de
estudo da psicologia; (2) a psicologia se vê diante da oportunidade de se propor, em
sentido amplo, como uma epistemologia empírica2; (3) o vocabulário mental/subjetivo
passa a ser tratado como uma construção dependente da história e das culturas.
O último problema é o que mais nos interessa aqui. Temos, ao que parece,
uma tendência de tratar o vocabulário mental/subjetivo como algo dado, natural,
* Contato com o autor: aledittrich@ufpr.br
' Provavelmente, tais perguntas continuam sendo hoje tão importantes quanto foram à época.
2 Leia-se Skinner: “... uma análise cientifica do comportamento tem gerado uma espécie de epistemologia emptrica. O objeto de uma ciência do
comportamento inclui o comportamento de cientistas e outros oonhecedores. As técnicas disponíveis a tal ciência dão a uma teoria empírica do
conhecimento certas vantagens sobre teorias derivadas da filosofia e da lógica. O problema da privacidade pode ser abordado em uma nova direção
aocomeçarcom o comportamento ao invés da experiência imediata" (1963/1969, p. 228). A proposta de uma epistemologia empírica dá margem
a vários problemas e questionamentos, parte dos quais buscamos analisarem Díttrich (2004).

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intrinsecamente correto. A primeira e mais óbvia implicação do tratamento típico do
behaviorismo radical ao problema dos eventos privados é esta: não nascemos com um
vocabulário inato, “pronto”, para falar sobre eventos privados (nem sobre eventos públicos,
a propósito). Portanto, tivemos que aprendê-lo de alguma forma. Isso implica o contato
com uma comunidade verbal que já utilizava este vocabulário antes de nascermos (do
contrário, de onde viria o vocabulário?). Diferentes comunidades verbais demandam
diferentes graus de introspecção de seus membros, e certamente ensinam vocabulários
mentais/subjetivos variados.
É impossível compreender cientificamente os eventos privados observando ou
descrevendo apenas os próprios eventos privados, pois eles não existem à parte de
relações comportamentais - antes, fazem parte delas. Essas relações são histórica e
culturalmente mutáveis, assim como os nomes que damos a elas.3 Não existe um padrão
de nomeação de eventos privados que seja "padrão” para toda a humanidade, que descreva
o mundo interno dos seres humanos de forma universalmente válida - e, portanto, não
existem descrições mais ou menos fidedignas de eventos privados.4 5 Dito de outra forma:
não há um jeito "certo” ou “errado” de nomear eventos privados. Em contextos terapêuticos,
pode-se falar em uma nomeação mais ou menos “apropriada” de sentimentos, por
exemplo, dado um conjunto mais ou menos amplo de dados empíricos - mas, como
aponta Guilhardi (2004), o termo escolhido será “arbitrário, convencionado pela comunidade
verbal ... Mesmo assim, o nome do sentimento (ansiedade, angústia, fobia etc.) não
acrescenta nenhuma informação adicional que possa ajudar no processo terapêutico.
Talvez a função de usar tais palavras seja a de facilitar a comunicação entre terapeuta-
cliente (desde que fique claro para ambos o que elas descrevem)...” (p. 239).
Ainda que não exista um vocabulário mental/subjetivo “correto”, é possível
analisar a evolução histórica deste vocabulário, e afirmar com alguma segurança que,
se ele não é universal, a forma de aprendê-lo é. Não é por outro motivo que Skinner
(1989) demonstra um interesse especial pela etimologia - a ciência que estuda, em
termos históricos, a origem das palavras: “A etimologia é a arqueologia do pensamento”,
afirma ele (p. 13). Seu estudo da etimologia do vocabulário mental/subjetivo o leva a
concluir (1) que as palavras utilizadas para descrever sentimentos "quase sempre provém
da palavra que designa a causa da condição sentida”, e (2) que as palavras utilizadas
para descrever “estados da mente ou processos cognitivos ... quase sempre começam
como referências ou a algum aspecto do comportamento, ou ao setting no qual o
comportamento ocorre” (p. 13).
Isso evidencia, novamente, que o vocabulário mental/subjetivo não é controlado
apenas por eventos privados, mas também por eventos públicos. Mais exatamente: ele
é controlado por contingências de reforço que seguramente envolvem variáveis públicas,
e que provavelmente envolvem, pelo menos em alguns momentos, também variáveis
privadas. Há aqui uma curiosa inversão de perspectiva: variáveis púbticas são
absolutamente necessárias para explicar instâncias particulares de uso do vocabulário
mental/subjetivo - variáveis privadas, nem sempre.
Expliquemos tal ponto mais detalhadamente. Já apontamos o sentido mais
evidente em que se dá essa dependência do vocabulário mental/subjetivo em relação a
variáveis públicas: há uma comunidade verbal que ensina este vocabulário. Como ela
faz isso? Skinner aponta, em seu texto de 1945, as “quatro maneiras pelas quais a
3O trabalho de Tourinho (2006) ilustra esse ponto com muita propriedade.
4A ignorância em relação a tais fatos provavelmente ajuda a explicar porque um projeto de psicologia cientifica como o estrutuialismo de E. B.
Titchener (1898) não obteve sucesso. Sua proposta de uma taxonomia exaustiva dos "elementos da experiência consciente" soa hoje quase ingênua,
mas consumiu os esforços de pesquisa de miiitos psicólogos por pelo menos duas décadas.
6Cabe sempre lembrar que Isso se aplica também a eventos públicos, embora nosso interesse no momento dlredone o texto para o tratamento dos
eventos privados. A própria privacidade dos eventos privados cria problemas especiais, mas o radocfnio se aplica igualmente a eventos públicos.

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comunidade verbal, sem acesso a um estímulo privado, pode gerar comportamento
verbal em resposta a ele” (1945/1984, p. 549).6 Todas elas apontam para a seguinte
conclusão: as comunidades verbais ensinam vocabulários mentais/subjetivos com base
na observação de relações comportamentais públicas - isto é, interações entre o
comportamento público do sujeito a ser ensinado e as variáveis públicas que o cercam.
Isso não significa que as relações comportamentais das quais participa o sujeito a ser
ensinado envolvem apenas variáveis públicas, mas que a comunidade que ensina o
vocabulário mental/subjetivo está necessariamente limitada à observação de variáveis
públicas. A comunidade que nos ensina a dizer, por exemplo, que estamos tristes, ou
alegres, ou irritados, etc., nos ensina a dizer isso (1) porque observa certas características
de nosso comportamento tipicamente classificadas como “tristeza", “alegria” ou “irritação”
e/ou (2) porque nos observa em certa situação que, naquela comunidade, é tipicamente
classificada como alegre, triste ou irritante. Pode ocorrer (mas não necessariamente)
que o sujeito a ser ensinado esteja, simultaneamente a tais eventos publicamente
observáveis, experimentando certos estados corporais especialmente conspícuos7, que
ele aprende a chamar de “tristeza”, “alegria” ou “irritação". Tanto a situação quanto o
estado corporal podem, portanto, adquirir a função de estímulos discriminativos que
aumentem a probabilidade de emissão de uma descrição como “estou triste”.
Teoricamente, isso faz com que seja possível, posteriormente, relatar um sentimento
diante da mera presença de um estado corporal semelhante: sentimentos são mais
“salientes” para quem os sente do que as variáveis públicas a eles relacionadas, como
afirma Skinner (1972/1978a, p. 51; 1978b, p. 85). A situação inversa, porém, também é
plausível: uma pessoa que se diz triste, alegre ou irritada pode estar sob controle tão-
somente (ou predominantemente) da situação pela qual passa ou passou, sem que
haja estados corporais especialmente conspícuos acompanhando a situação. Assim,
uma pessoa que diz “estou triste" pode estar sob controle de uma situação que aprendeu
a chamar de triste, mesmo que não esteja, necessariamente, sentindo um estado
corporal que aprendeu a chamar de tristeza. Neste caso, o termo mental/subjetivo pode
estar exclusivamente sob controle de variáveis públicas, embora aparentemente
descreva uma condição privada. Mesmo que estados corporais estejam presentes,
porém, as variáveis públicas podem ainda ser importantes no controle do vocabulário
mental/subjetivo. Se a ocorrência de eventos privados depende necessariamente da
ocorrência de eventos públicos, isso é facilmente compreensível. Além disso, o controle
por variáveis públicas é mais facilmente estabelecido do que o controle por variáveis
privadas - pois, lembremos, a comunidade que estabelece tal controle conta somente
com a evidência das variáveis públicas; a ocorrência concomitante de variáveis privadas
é apenas uma suposição. Estados corporais especialmente conspícuos podem estar
presentes ou ausentes - e se presentes, podem apresentar variações de qualidade e
intensidade indistinguíveis para a comunidade verbal. Portanto, variáveis públicas
provavelmente exercem um controle mais preciso do que as privadas sobre o vocabulário
mental/subjetivo. Uma pessoa que descreve sentimentos está, em última análise,
descrevendo elementos de contingências de reforço ou punição - e está, inclusive,
descrevendo a si própria (suas respostas públicas e/ou privadas) como parte delas.
Contudo, a participação de estados corporais nesse controle talvez seja menos freqüente
do que costumamos pensar. A pessoa que afirmar estar “se sentindo triste” pode estar
“sentindo” apenas uma “situação triste”, sem sentir um estado corporal de “tristeza”.8
6 Não as repetiremos, pois são bem conhecidas pelos analistas do comportamento.
' "Especialmente conspícuos”é importante, se considerarmos que, estritamente falando, todos estamos "experimentando estados corporais"
durante todo o tempo.
' Cabe lembrarque um estado corporal, por si só, é um fenómeno que pouco interessa ao analista do comportamento. Ele interessa na medida
em que partidpa de relações comportamentais, e estas “não são públicas ou privadas; estímulos e respostas é que podem ter esse status
(Tourinho, 2007, p. 5).

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Iniciamos nosso texto recuperando a importância histórica da introspecção
enquanto método de pesquisa na psicologia, e afirmando que, na proposta de Skinner,
a introspecção passa de método a objeto (como já apontava Matos, 1999). É possível,
porém, sustentar uma afirmação mais ampla, e talvez mais ousada: para o próprio
Skinner, a introspecção foi não apenas objeto, mas também método - ainda que em
sentido restrito. Ao falar sobre eventos privados, Skinner não está falando sobre
fenômenos que não pode observar: ele pode observá-los em si mesmo. Na verdade, se
Skinner não observasse seus próprios eventos privados, toda a sua interpretação sobre
tais eventos provavelmente seria impossível - visto que, nestas condições, Skinner não
teria acesso a nenhum mundo privado, e não poderia, portanto, ter qualquer conhecimento
dos estímulos que controlam respostas verbais como “pensar” e “sentir", por exemplo.9
Mas se a introspecção foi subsídio necessário para que Skinner apresentasse sua
interpretação comportamental da privacidade, deve-se destacar, por outro lado, que ela
foi um dos subsídios para tanto, não o único. Sua importância, nesse sentido, não deve
ser exagerada. A interpretação proposta por Skinner é uma extensão, para o campo das
relações comportamentais que envolvem eventos privados, de princípios fundamentados
no estudo sistemático de relações comportamentais que envolvem eventos públicos.
Alguém poderia afirmar, talvez em tom crítico, que mesmo as referências
genéricas de Skinner a pensamentos e sentimentos são necessariamente "subjetivas”,
culturalmente construídas, típicas das comunidades verbais que ensinaram o próprio
Skinner a descrever seu “mundo intérno”. Certamente o são - mas isso se aplica a
qualquer forma de descrição, seja de eventos públicos ou privados. O erro está em
insistir na busca por uma linguagem neutra, que descreva o que os eventos privados
“realmente são”: “Uma ciência independente da subjetividade seria uma ciência
independente de comunidades verbais” (Skinner, 1974, p. 221). As limitações impostas
a Skinner são as mesmas impostas a qualquer pessoa que se proponha a estudar
eventos privados - psicólogo ou não, behaviorista radical ou não.

Referências

Díttrich, A. (no prelo). Sobre a observação enquanto procedimento metodológico na análise do


comportamento: Positivismo lógico, operacionismo e behaviorismo radical. Psicologia: Teoria e
Pesquisa.

Dittrich, A. (2004). Behaviorismo radical, ética e política: Aspectos teóricos do compromisso


social. Tese de doutorado, Universidade Federal de São Carlos. Disponível na Biblioteca Digital de
Teses e Dissertações do IBICT/MCT, no World Wide Web: http://www.bdtd.ufscar.br/tde_busca/
arquivo.php?codArquivo=122 \ •

Guilhardi, H. J. (2004). Considerações sobre o papel do terapeuta ao lidar com os sentimentos do


cliente. Em M. Z. S. Brandão, F. C. S. Conte, F. S. Brandão, Y. K. Ingberman, V. L. M. Silva & S. M. Oliani
(Orgs.), Sobre comportamento e cognição: Contingências e metacontingências: contextos sócio-
verbais e o comportamento do terapeuta (pp. 229-249). Santo André, SP: ESETec.
Matos, M. A. (1999). Introspecção: Método ou objeto de estudo para a análise do comportamento?
Em R. A. Banaco (Org.), Sobre comportamento e cognição : Aspectos teóricos, metodológicos e de
formação em análise do comportamento e terapia cognitivista (pp. 189-198). Santo André, SP:
ARBytes.

Skinner, B.F. (1969). Behaviorism at fifty. Em B.F. Skinner, Contingencies o f reinforcement A theoretical
analysis (pp. 221-268). New York: Appleton-Century-Crofts. (Trabalho original publicado em 1963).
"Abordamos este problema com mais profundidade em Dittrich (no prelo).

32 A lexandre Díttrich
Skinner, B.F. (1974). About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B.F. (1978a). Humanism and behaviorism. Em B.F. Skinner, Reflections on behaviorism and
society (pp. 48-55). Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall. (Trabalho original publicado em 1972)

Skinner, B.F. (1978b). Can we profit from our discovery of behavioral science? Em B.F. Skinner,
Reflections on behaviorism and society (pp. 83-96). Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall.
Skinner, B. F. (1984). The operational analysis of psychological terms. The Behavioral and Brain
Sciences, 7, 547-553. (Trabalho original publicado em 1945)

Skinner, B.F. (1989). The origins of cognitive thought. Em B.F. Skinner, Recent issues in the analysis
of behavior (pp. 13-25). Columbus, OH: Merrill.

Titchener, E. B. (1898). The postulates of structural psychology. Philosophical Review, 7, 449-465.


Retirado em 15 de junho de 2008, de http://psychclassics.yorku.ca/Titchener/structuralism.htm

Tourinho, E. Z. (2006). Subjetividade e relações comportamentais. Tese de professor titular


apresentada ao Departamento de Psicologia Experimental da Universidade Federal do Pará, Belém,
PA.
Tourinho, E. Z. (2007). Conceitos científicos e “eventos privados” como resposta verbal. Interação
em Psicologia, 11, 1-9.

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