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Caso Esmeralda e a Espiral do Silêncio

de Elisabeth Noelle-Neumann∗
Miguel Midões

Índice afectar seriamente as sondagens.” Ri-


cardo Costa, editor de política da SIC, em
1 Introdução 1 siconline.pt, 16 de Fevereiro de 2005.
2 A Espiral do Silêncio 2
3 O que é a Opinião Pública? 2 Tendo como objectivo principal o resumo
4 A Descoberta da Natureza Social do do capítulo 13, “The Spiral of Silence and
Homem 3 the Social Nature of Man”1 , do livro “Hand-
5 Embaraço - indicador do medo do iso- book of Political Communication Research”,
lamento 4 tomei liberdade de relacionar estes princí-
6 A Teoria da Espiral do Silêncio 5 pios teóricos com um caso prático português,
7 Testes à Teoria da Espiral do Silêncio 6 bem conhecido pela sua, talvez exagerada,
8 Caso Esmeralda e a Opinião Pública 6 exposição nos meios de comunicação social.
9 Conclusão 8 De forma resumida, considerando que pe-
10 Bibliografia 8 rante uma situação de espiral do silêncio,
aqueles que detêm as opiniões maioritárias
1 Introdução tendem, ainda que indirectamente, a silen-
ciar os detentores de opiniões minoritárias,
“Há um facto que pode baralhar os es- que com o receio de represálias acabam por
tudos eleitorais. Os discursos de San- não expor o seu pensamento.
tana Lopes colocaram o seu eleitorado Sabendo que a melhor forma para anali-
“natural” contra as sondagens. É natu- sar esta teoria social é o método experimen-
ral que esse eleitorado, quando questio- tal, cabe-me desde já referir que o trabalho
nado pelas empresas de sondagens, não que se segue fica limitado nesse sentido, pois
responda ou diga que se vai abster. A apenas pretende analisar como os “mass me-
este fenómeno chama-se “Espiral do Si- dia” tomaram uma posição clara acerca deste
lêncio” e, quando é significativo, pode caso, levando (ou não) à formulação de uma

Trabalho realizado no âmbito do Mestrado opinião pública, apoiada pela maioria da po-
em Comunicação Pública, Política e Intercultu- pulação. É por isso um trabalho descritivo,
ral, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 1
2007/2008. Tradução: “A Espiral do Silêncio e a natureza
social do Homem”
2 Miguel Midões

se bem que com uma pequena análise pes- Noelle-Neuman. No entanto, desde então,
soal à temática. têm surgido várias ideias erradas e noções
Partindo do princípio que os meios de co- falsas acerca da mesma, que nunca é de-
municação formam, ou pelo menos contri- mais esclarecer. Falsos mitos que surgiram,
buem, para a opinião pública, pretendo ten- pela primeira vez, com a publicação da teoria
tar entender como é que no Caso Esmeralda, no “Journal of Communication”, em 1974.
os meios de comunicação portugueses se co- George Gerbner, editor deste mesmo jornal,
locaram do lado da família adoptiva, invo- chegou a dizer que o ideal de uma teoria tão
cando todos os direitos da pequena criança, complexa como esta nunca poderia ser com-
silenciando todos os que no vasto auditório pletamente apresentado num artigo de jornal.
de Portugal poderiam ter uma opinião con- Contudo, pode-se considerar que o núcleo
trária. Estou certo que os há, mas poucos duro desta teoria consiste no argumento de
foram os que não recearam vir a público ma- que as que as pessoas que têm uma opinião,
nifestar o seu ponto de vista. um ponto de vista, minoritário, tendem a cair
Mas, nem sempre a opinião vigorante é tão no silêncio ou no conformismo, perante a
forte como parece, ou pelo menos, a mais opinião pública geral. “Tend to fall silent
correcta. Francisco Saraiva de Sousa, no seu anda conceal their viiews in public”2 .
blog acerca da Espiral do Silêncio, lembra Contudo, apesar desta exposição estar cor-
que as pessoas que “recusam a perspectiva recta, Noelle Neumann e Thomas Peter-
dominante sentem-se marginalizadas e, fre- sen consideram ser necessário ir mais longe
quentemente, retiram-se e calam-se. Esta e não deixar este argumento colocado de
inibição faz com que a opinião que recebe forma tão simplificada. É necessário enten-
apoio explícito pareça mais forte do que re- der como a opinião pública interfere com o
almente é, e a outra, mais débil”. É sempre o comportamento das pessoas.
medo do isolamento que leva a que os apoi-
antes do ponto de vista menos visível fiquem
3 O que é a Opinião Pública?
silenciosos.
O resumo deste capítulo com a sua inter- Tentar entender o conceito de opinião pú-
ligação com este caso nacional, permite-me blica é entrar num mundo de confusões, mal
ainda aumentar, ainda que de dimensões re- entendidos e problemas de comunicação. E,
duzidas, a bibliografia e a literatura acerca apesar de não haver uma definição concreta
desta questão das Ciências da Comunicação, e geral do conceito de “opinião pública”,
tão chamada à ordem do dia, actualmente, muito se tem dito acerca deste, e o seu em-
que se designa por Teoria da Espiral do Si- prego nos mais variados contextos tem au-
lêncio. mentado de forma categórica.
2
Tradução: “Tendem a ficar silenciados e a con-
2 A Espiral do Silêncio ciliar as suas opiniões com as do público” – KAID,
Lynda Lee, Handbook of Political Communication
A Teoria da Espiral do Silêncio despertou Research, University of Florida, Lawrence Erlbaum
interesse nas Ciências Sociais quando foi Associates, Publishers, London, 2994, p.339.
apresentada pela primeira vez, em 1972, por

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Caso Esmeralda e a Espiral do Silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann 3

A nível histórico, a aplicação do conceito Nouelle-Neumann e Thomas Peterson de-


de “opinião pública” remonta já aos tempos fendem neste artigo do capítulo 13 que a ca-
das cartas trocadas entre Cícero e o seu ir- racterística mais importante da “opinião pú-
mão Atticus. Mas, só na idade moderna o blica” é o poder dominante que esta exerce,
termo aparece nas mais variadas línguas. Na tanto no Governo, como em cada elemento,
antiguidade, por exemplo, encontram-se vá- indivíduo, que compõe uma sociedade. Os
rios sinónimos para este conceito, como a autores chegam mesmo a referir que é com-
simples “opinião”. Está também relacionado pletamente impossível explicar como é que
com o controlo social, com o consenso social a “opinião pública” pode, por exemplo, de-
entre o governo e cada um dos elementos que sencadear uma revolução. Ambos defen-
compõem a sociedade. Para Aristóteles, “he dem que só voltando ao anterior conceito de
who loses the support of the people is a king “O.P.” se poderá entender este poder, só vol-
no longer”3 . É na opinião, essencialmente do tando à ideia de controlo social. Sublinham,
povo, a maior fatia da sociedade, que o go- no entanto, que o seu poder deriva da natu-
verno se encontra, tem a oportunidade de se reza social do homem.
rever.
No século XVI, a ideia de “opinião pú-
4 A Descoberta da Natureza
blica” aparece ligada à intelectualidade e
à elite. Digamos que no Romantismo as Social do Homem
ideias prevalentes eram as dos poetas e, por Todos os teóricos que entendem a opinião
isso, Montaigne chegou mesmo a considerar pública como o resultado de um “subcons-
que, a cidadania completa consistia no segui- cious collective behavior”5 , que é incompatí-
mento das ideias destes intelectuais. vel com o regime democrático e com a noção
É no século XVIII que o termo sofre uma de independência individual, têm, de certa
mudança semântica e aparece intimamente forma, dificuldade em entender e aceitar a
relacionado com a Razão. “Reason (. . . )was noção de Natureza Social do Homem.
now also viewed as the essence of public opi- John Locke, que preferia defender que a
nion”4 . Uma opinião formada através do de- relação entre a lei divina e a lei civil, dá lu-
bate de ideias, que ganhou força e que per- gar a uma outra lei tripartida: opinião, re-
maneceu até à segunda metade do século putação e estilo (“law of oopinion, reputa-
XX, defendida por Michel Foucault, Pierre tion and fashion”). A desaprovação do meio
Bourdieu, ou Jurgen Habermas. envolvente a uma pesssoa aparece, segundo
3
Tradução: “Aquele que perder o apoio do Locke, como uma punição para quem in-
povo não será rei por muito tempo” - KAID, Lynda fringe esta lei da opinião, que acaba por ser
Lee, Handbook of Political Communication Rese- bem mais temida que a punição divina ou ci-
arch, University of Florida, Lawrence Erlbaum As- vil. Locke acaba por ser vítima das suas pró-
sociates, Publishers, London, 2994, p.340.
4 5
Tradução: “A Razão (. . . ) era vista como a es- Tradução: “Comportamento colectivo inscons-
sência da opinião pública” - KAID, Lynda Lee, Hand- ciente” - KAID, Lynda Lee, Handbook of Politi-
book of Political Communication Research, Univer- cal Communication Research, University of Florida,
sity of Florida, Lawrence Erlbaum Associates, Pu- Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, London,
blishers, London, 2994, p.341. 2994, p.341.

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4 Miguel Midões

prias ideias, pois estas eram defendidas por melhor o outro, mas sim na “ability to fore-
uma minoria e por isso desaprovadas. see how others will react”. 6
Em meados do século XVIII, Jean Jacques Mais tarde, depois de Mead ter sido ri-
Rousseau vem acrescentar que o Homem, dicularizado pelas suas ideias, surge Erving
sendo um ser em sociedade, está sempre ori- Goffman, que se torna no próximo marco na
entado a partir do exterior e adquire senti- descoberta da Natureza Social do Homem.
mentos de existência, através da percepção Goffman era psicólogo clínico e trabalhava
que tem daquilo que os outros pensam de si. com doentes do foro psiquiátrico, logo com
Considero, aliás, esta ideia como um acres- as suas expressões faciais, as suas aparências
cento fundamental ao que chamamos hoje externas. Descobre que estes tentam ajustar
“Espiral do Silêncio”, uma vez que a mai- a sua aparência e o seu comportamento para
oria dos indivíduos de uma sociedade que que pareçam normais, melhor, para que se-
não pronunciam a sua opinião com medo de jam reconhecidos como tal. Segundo este
represálias, fazem-no, acima de tudo, com investigador, quanto mais anónimo é o pú-
medo daquilo que os outros possam vir a blico, maior é o medo de exposição do do-
pensar de si. Ou seja, antes mesmo de che- ente psiquiátrico. Mais um exemplo que vem
garmos ao isolamento pelo silêncio de um mostrar que, no dia a dia, por vezes até in-
ponto de vista minoritário, o ser humano re- conscientemente, adequamos as nossas opi-
aliza este exercício mental. Tenta perceber o niões à maioria, só para não sermos discri-
que os outros vão ficar a pensar se partir na minados, com o receio daquilo que os ou-
defesa de determinada opinião. tros possam vir a pensar de nós. Tentamos,
Rousseau considerou ainda que cada indi- no seio de um grupo, fazer-nos parecer “nor-
víduo trava uma batalha interior entre a sua mais”.
natureza individual, (a satisfação das suas
necessidades, dos seus interesses), e a natu-
5 Embaraço - indicador do medo
reza social, (a necessidade de ser reconhe-
cido e respeitado pelos outros). O problema do isolamento
está em conciliar as duas naturezas. O embaraço, ou o ficar embaraçado, numa
Também Mead, nos finais do século XIX, determinada situação, é também, sem dú-
inícios do século XX, tentou contribuir vida, um indicador de medo do isolamento,
para esta noção de Natureza Social do Ho- de reprovação social. Há, por isso, autores
mem. Ao descobrir a “Interacção Simbó- que defendem que o comportamento humano
lica”, Mead descobriu o “estado interior” – está sujeito a um tipo de controlo pessoal in-
onde cada indivíduo imagina o que os outros terior, mesmo antes de entrar em cena o já
dizem ou pensam de si, e como o vão jul- falado controlo social. Uma situação pode
gar perante determinada atitude ou tomada ser constrangedora, quando se vão contra
de posição. Agora, Interacção Simbólica não
6
pode ser confundida com empatia. Este pro- Tradução: “habilidade com que os outros vão
reagir” - KAID, Lynda Lee, Handbook of Politi-
cesso social não consiste na ideia de entender cal Communication Research, University of Florida,
Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, London,
2994, p.343.

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Caso Esmeralda e a Espiral do Silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann 5

as regras impostas por um grupo/sociedade, Resumem-se aqui os pontos mais impor-


quando se diverge do consenso social (opi- tantes da teoria:
nião maioritária), mesmo antes de haver
1. Medo da rejeição pelos que o rodeiam;
uma pressão social exercida pelo colectivo.
Mesmo antes de um grupo saber que a de- 2. Monitorização dos comportamentos, de
terminada opinião é desviante da maioria, já forma a observar quais são os aprova-
interiormente o indivíduo está em conflito. dos e os reprovados socialmente, (em
Precisamente o que descreveu Mead na “In- grupo);∼
teracção Simbólica” – o sentimento de ima-
ginar aquilo que os outros podem vir a pen- 3. Há gestos e expressões que, sem fala,
sar e como é que vão agir. expressam a aprovação ou não de deter-
minada ideia, comportamento;

6 A Teoria da Espiral do Silêncio 4. Tendência para não expressar a sua opi-


nião publicamente quando há possibili-
“The spiral-of-silence theory can be unders- dade de rejeição, objecções ou desdém;
tood only in light on this constellation of
ideas”7 – é apenas uma luz em toda a in- 5. Quando se conclui que a opinião é
vestigação que ainda há a percorrer acerca aceite, a tendência é expressá-la com
da Natureza Social do Homem. No entanto, convicção;
há conceitos como “pressão para o confor-
6. O falar livremente de determinado
mismo” e “medo do isolamento”, que são
ponto de vista reforça ainda mais a ideia
fulcrais. Entre outras coisas, os homens têm
de isolamento, por parte daqueles que
uma natureza social que lhes causa medo de
defendem a opinião contrária;
isolamento, o que os influência substancial-
mente no seu comportamento. 7. Este processo apenas ocorre nas situa-
Esta teoria não pretende ser um ideal teó- ções em que há uma questão moral forte
rico, também porque não é estática e por- – é a componente moral que dá poder à
que não se baseia num pensamento teórico. “opinião pública”;
É mais um puzzle de ideias que se cruzam
e se completam e ao qual pode sempre ser 8. Só questões controversas podem despo-
acrescentado mais uma peça. Trata-se de um letar a “Espiral do Silêncio”;
puzzle de ideias que está, muitas vezes, in- 9. Nem sempre o ponto de vista mais forte
terligado com as campanhas eleitorais, que é o defendido pela maioria da popula-
já foram alvo de estudo da própria Noelle- ção; há o medo de o admitir publica-
Neumann. mente;
7
Tradução: “A Teoria da Espiral do Silêncio pode
ser entendida como apenas uma luz desta constelação 10. Os “mass media” podem influenciar, e
de ideias” - KAID, Lynda Lee, Handbook of Politi- muito, o processo da “Espiral do Silên-
cal Communication Research, University of Florida, cio”, quando numa questão moral to-
Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, London,
mam determinada posição e exercem
2004, p.347.
influência no processo;

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6 Miguel Midões

11. As pessoas não se apercebem do medo identificar e comparar os apoiantes e


dos outros e da questão do isolamento; opositores de determinado assunto;

12. A “Opinião Pública” é limitada no 2. Observar o “Clima de Opinião” – aquilo


tempo e no espaço – a “Espiral do Silên- que a população considera que é a opi-
cio” apenas se verifica durante um pe- nião forte;
ríodo de tempo limitado; este processo
tende também a ser limitado pelas fron- 3. Quais as expectativas futuras? Que
teiras geográficas e culturais; campo de opinião se tornará mais do-
minante no futuro?
13. A “Opinião Pública” serve como instru-
mento de controlo social, mas também 4. Qual a vontade e a capacidade para de-
de coesão social; fender determinada posição e relatá-la
em público?

7 Testes à Teoria da Espiral do 5. Identificar o grau de emoção que existe


Silêncio na defesa de determinada questão e qual
a sua força moral;
Podemos considerar que esta teoria é inte-
grante da Teoria da Opinião Pública, logo 6. Identificar a intensidade da abordagem
não pretende ser universal, explicando todas dos “mass media” a esse assunto;
as situações sociais. Nas últimas décadas,
muitos investigadores têm-se debruçado para 8 Caso Esmeralda e a Opinião
saber como esta teoria pode ser testada em-
piricamente. O primeiro grande erro é o de
Pública
tentar, quase sempre ligá-la apenas ao trata- Em Janeiro de 2003, Baltazar (pai biológico
mento de dados estatísticos. de Esmeralda/Ana Filipa) sabe, através do
O pré-requisito para o sucesso de aná- teste de ADN que tem uma filha e reclama
lise da Teoria da Espiral do Silêncio reside a sua paternidade. A 13 de Julho de 2004,
na criação de uma situação de entrevista, o tribunal Judicial de Torres Novas decide
onde fosse perceptível a pressão vinda de um atribuir-lhe a paternidade da criança, mas já
clima de opinião. No momento em que o Luís Gomes, (conhecido no caso como “O
teste está ser conduzido deve aparecer uma Sargento”), e a mulher, tinham iniciado na
questão moral, para que leve ao surgimento Segurança Social um processo de confiança
de diferentes posições. Temos como o exem- judicial, uma vez que a mãe biológica da cri-
plo o facto desta teoria aparecer quase sem- ança, Aidida, lhes tinha dado a filha, com
pre em cena, quando os “mass media” to- apenas três meses, por falta de posses.
mam uma posição num determinado debate. A 16 de Janeiro de 2007, Luís Gomes re-
Formas de analisar a Teoria da Espiral do cusa entregar Esmeralda ao pai biológico,
Silêncio: contrariando a decisão do Tribunal Consti-
tucional de Coimbra e é condenado por se-
1. Recolher a informação necessária para questro. É, por esta altura, que a história as-

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Caso Esmeralda e a Espiral do Silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann 7

sume o seu clímax nos meios de comunica- adoptivo) que: “convenhamos, qualquer pes-
ção nacionais, desde jornais, rádios, revistas, soa de bem recusaria entregar a SUA filha
televisões e passa a ser tema principal na ida a um estranho”. A pessoa de bem aqui é o
para o trabalho, no café e ainda debatido em pai adoptivo, o estranho é o pai biológico.
escolas e universidades. Um só caso marca a A opinião é clara. A indução dos leitores à
actualidade nesta altura: caso Esmeralda. mesma opinião ainda mais clara o é. Mas,
Na Internet surgem centenas de “blogs” ainda acrescenta mais: “o espantoso é que o
pessoais, a partilhar opiniões acerca desta militar precisou de se defender de uma deci-
questão, quase todos eles, defendendo a opi- são do tribunal. É claramente um caso de jus-
nião maioritária e, neste caso, também a opi- tiça cega, mas infelizmente injusta”. Basta-
nião da maioria, senão totalidade, dos meios nos estes pequenos excertos para ficarmos
de comunicação portugueses. Petições, “Ha- sensibilizados para o facto de que os “me-
beas Corpus”, abaixo-assinados de apoio ao dia” constroem a opinião pública, ou pelo
sargento e à família adoptiva surgem um menos tentam, e que numa questão moral,
pouco por todo o país. Apresentadoras de e obviamente esta assume esse estatuto, os
televisão reiteram perante as câmaras que ta- jornalistas, editores, directores, melhor, os
manha injustiça jamais foi vista em Portu- profissionais da comunicação não só assu-
gal e que os juízes devem dar a volta à lei, mem uma posição como a defendem acer-
de forma a salvaguardar o bem-estar psico- rimamente. José Leite Pereira termina com
lógico da criança. No ecrã, pelas nossas casa chave de ouro a sua crónica, dizendo que:
dentro, entram psicólogos, médicos, políti- “por muito que custe a alguns juízes, nem
cos, desportistas, convidados dos mais vari- sempre os pais biológicos merecem os seus
ados programas a apoiar e a suportar a ideia filhos”8 .
de que nada havia de mais errado do que en- Mas, e o que acontece à minoria que tem
tregar a Esmeralda ao pai biológico. Durante uma posição diferente nesta história, e que
o tempo em que todo este processo se desen- consegue enfrentar o temor das represálias
rolou, e continua a desenrolar, embora agora e o medo do isolamento. Numa das muitas
com menos atenção por parte dos “mass me- notícias sobre este caso colocadas no site da
dia”, foi esquecida a minoria, aquela que par- RTP, conseguimos aperceber-nos porque se
tilha uma opinião diferente. A opinião pú- chega à espiral do silêncio, porque os indiví-
blica esteve e está marcada pela posição dos duos que defendem uma opinião minoritária
meios de comunicação e caíram no silêncio tendem a calar-se. Esta notícia tem anexado
todos aqueles que pensaram um dia de forma um blog que permite deixar comentários. A
diferente. A isto se chama de “Espiral do Si- Opinião Pública neste caso é a de que a Es-
lêncio”. meralda deve, sem lugar a dúvidas, ser man-
Para tal vejamos, no dia 21 de Janeiro de tida com os pais adoptivos.
2007, o próprio director do JN (Jornal de No- Neste “espaço público” de debate, Ma-
tícias), José Leite Pereira, na sua crónica ha- tilde, de Lisboa, a dois de Fevereiro de 2008,
bitual disse que a “justiça [é] cega mas in- 8
Citações do artigo do Anexo 1 – “Justiça cega
justa”. O dirigente de um jornal vem a pú- mas injusta”, JN, 21 de Janeiro de 2007.
blico dizer, e referindo-se ao sargento (pai

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8 Miguel Midões

atreve-se a ter uma opinião diferente. Co- mal entendidos e até rejeitados socialmente
meça mesmo por dizer que “não há dúvida levou-os ao consenso com a massa e a opi-
que os jornais manipulam tudo. Eu faria o nião de maior força, partilhada e alimentada
mesmo que o Baltazar (. . . ) quando foi fa- pelos meios de comunicação nacionais.
zer os testes e deu positivo foi requerer a fi- O número sete dos pontos mais fortes da
lha (. . . ) mas o senhor sargento resolve fazer Teoria da Espiral do Silêncio, atrás menci-
frente à justiça, a Portugal e a todos”. onados neste trabalho, refere que “este pro-
Quatro dias depois surge o comentário de cesso apenas ocorre nas situações em que há
Isabel A., de São João da Madeira, que diz: uma questão moral forte – é a componente
“nunca pensei encontrar este tipo de comen- moral que dá poder à “opinião pública”. No
tários incongruentes, cheios de raiva e sem caso Esmeralda é nítida a componente moral
mais valia nenhuma para o caso”9 . Seguem- – primeiro porque na sociedade portuguesa e
se uma série de argumentos em defesa da nos bons costumes nacionais “criar é amor”,
menina em casa dos pais adoptivos. Quero depois porque um sargento implica “solidez
com este exemplo mostrar como uma pes- financeira e posição social” e ainda porque a
soa que, tendo uma opinião de menor força, conduta da mãe biológica não é bem aceite,
acaba por ser encarada por quem está no logo a do pai também não o será.
grupo dos detentores da opinião forte. Pro- A aplicação da Espiral do Silêncio a este
vavelmente, Matilde não estava preocupada caso continua a ser possível quando Noelle-
com aquilo que os outros iriam pensar de si Neumann nos afirma que só questões con-
ao lerem o seu comentário, desconhecia por troversas podem despoletar este processo e
isso a interacção simbólica de Mead, e não ainda quando frisa que os “mass media” po-
teve medo da rejeição dos que a rodeiam. dem influenciar, e muito, o processo da “Es-
piral do Silêncio”, quando numa questão mo-
ral tomam determinada posição e exercem
9 Conclusão
influência no processo. Foi notório pelos
Ao ler as primeiras noções de “Espiral do exemplos que apresentámos anteriormente
Silêncio” e à medida que avançava na lei- que tal aconteceu.
tura do capítulo 13 do livro “Handbook of
political communication researsh”, tornava-
10 Bibliografia
se claro na minha mente a associação destes
pressupostos teóricos com tudo aquilo que KAID, Lynda Lee, Handbook of Political
vi, li, ouvi e me apercebi do caso Esmeralda. Communication Research, University
O Silêncio obrigado estava ali, no rosto de of Florida, Lawrence Erlbaum Associ-
todos os portugueses, no meu local de traba- ates, Publishers, London, 2004
lho. Muitos devem ter pensado e ainda pen-
sam como Matilde, mas o medo de serem NEUMAN, Elisabeth, La Espiral del Silen-
cio. Opinión Publica: nuestra peil so-
9
Citações do Anexo 2 – Artigo da RTP on line, cial, Paidós, Barcelona, 1995.
“Caso Esmeralda: Tribunal notificou médicos para re-
tomarem acompanhamento psiquiátrico da menor” –
31 Janeiro de 2008.

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Caso Esmeralda e a Espiral do Silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann 9

VV.AA, El nuevo espacio publico, Gedisa,


Barcelona, 1992.

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