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MEDOS EXAGERADOS, DÚVIDAS SEM FIM,


PENSAMENTOS E IMPULSOS RUINS (OBSESSÕES)
ALBINA RODRIGUES TORRES

Neste mundo há mais medos de coisas más


do que coisas más propriamente ditas.
MIA COUTO

O QUE SÃO OBSESSÕES?


Obsessões são, basicamente, pensamentos ruins, indesejados e repetitivos. O fato
é que nenhuma pessoa tem total controle sobre o que passa por sua cabeça. Com
frequência, nos surpreendemos com uma ideia “maluca” ou boba que pode até
nos assustar ou envergonhar um pouco, mas que, em geral, logo esquecemos, sem
maiores problemas. Ninguém pensa em coisas chatas ou desagradáveis “por gosto”,
esses pensamentos surgem assim, sem pedir licença.
No caso de pessoas com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), alguns des-
ses pensamentos desagradáveis se tornam repetitivos e, às vezes, até assustadores.
São ideias “entronas”, que chegam sem convite, a toda hora, gerando sofrimento.
Um paciente comparou esses seus pensamentos àquelas moscas em dias de chuva,
que, quanto mais tentamos espantar, mais voltam para nos atormentar.
De fato, por ironia, alguns estudiosos acreditam que é exatamente o esforço
voluntário para afastar tais ideias que acaba tornando-as repetitivas, pois leva-as a
adquirir mais importância. Pesquisadores fizeram a experiência simples de pedir a
algumas pessoas voluntárias, sem qualquer problema psicológico, que tentassem
por algum tempo não pensar de jeito algum na imagem daqueles ursos polares bran-
16 TORRES, SHAVITT E MIGUEL (ORGS.)

cos vistos em filmes. A simples tenta-


tiva de afastar essa imagem neutra, Alguns estudiosos acreditam que
ou seja, nem sequer desagradável, é exatamente o esforço voluntário
tendeu a aumentar, nessas pessoas, para afastar tais ideias que acaba
a ocorrência da imagem mental ou a tornando-as repetitivas, pois
lembrança desses ursos. leva-as a adquirir mais
Assim, se se der menos “bola” importância.
para algumas ideias chatas que ocor-
rem, se forem pouco valorizadas,
provavelmente incomodarão cada vez menos. O problema é que alguns pensamen-
tos amedrontam, assustam e ameaçam (às vezes, a ponto de causarem mal-estar
físico, como taquicardia, falta de ar, tremedeira, suor, tontura, enjoo, dor de barriga,
etc.), e a reação natural é tentar livrar-se deles. Esses pensamentos, que são da
própria pessoa, mas indesejados ou “intrusivos”, podem então adquirir essa caracte-
rística de repetitividade tão desagradável e acabam atrapalhando bastante. São as
chamadas obsessões ou, ainda, ideias,
imagens ou impulsos obsessivos.
É importante ressaltar que nem
todo pensamento repetitivo é obses-
sivo, somente aqueles de conteúdo É importante ressaltar que nem
incômodo ou mesmo neutro (p. ex., todo pensamento repetitivo é
um trecho de música) que, pela re- obsessivo, somente aqueles de
petição, se tornam aversivos, cau- conteúdo incômodo ou mesmo
sando desconforto relevante. Quan- neutro (p. ex., um trecho de
to mais agradável um pensamento, música) que, pela repetição, se
mesmo que repetitivo (p. ex., pensar tornam aversivos, causando
em um bom momento ao lado do na- desconforto relevante.
morado, no que vai fazer nas férias,
na roupa que vai usar em determina-
da festa), menor a possibilidade de
que seja uma ideia obsessiva. Infelizmente, as obsessões geram mal-estar, em geral
na forma de nervosismo, ansiedade ou medo, e podem interferir de forma negativa
na vida das pessoas.
Algumas frases de pacientes exemplificam isso:

Eu trocaria um prêmio da Sena pelo sossego de ficar livre desses


pensamentos, faria qualquer coisa para me libertar.
Não consigo dominar o que vem a minha mente, é um pensamento
ruim atrás do outro, não tenho liberdade de cabeça nem descanso.
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Não dá nem para contar as preocupações ridículas, as bobagens que


eu “‘encasqueto”, tudo pode ser motivo para minha cabeça me tor-
turar.

QUAL É O CONTEÚDO DAS IDEIAS OBSESSIVAS?


Visto que existem inúmeros tipos de obsessões, serão aqui descritos os mais co-
muns, para facilitar a compreensão do problema.
O medo de acontecimentos trágicos com a própria pessoa ou com os seres
amados, por exemplo, pode se apresentar como um pensamento obsessivo. A ideia
de que um filho possa ter se acidentado ou estar com alguma doença grave, que
toda mãe conhece tão bem, pode se tornar frequente, mesmo quando não há
motivos reais para tais preocupações. Um atraso de cinco minutos ou uma febre
baixa – ou, às vezes, nem isso – são suficientes para que a pessoa se desespere,
imaginando “o pior”. É como se os perigos do mundo (que de fato existem, ninguém
nega) se tornassem muito presentes o tempo todo e sua ocorrência muito mais
provável. O perigo estaria sempre por perto e à espreita, como se a vida cotidiana
fosse se transformar a qualquer momento em um noticiário de TV, repleta de aciden-
tes automobilísticos, assaltos, sequestros, balas perdidas, incêndios, deslizamentos
de terra, desabamentos, furacões, doenças raras e incuráveis, e mortes.
É claro que todos passam por momentos difíceis na vida, mas quase sempre
não são tão graves e, felizmente, não tão frequentes. Pessoas que sofrem de TOC
parecem interpretar o mundo por esse prisma “catastrófico”, em uma espécie de
“loteria do azar”, em que as chances de ocorrência das piores coisas são sempre
superestimadas. Elas consideram as situações perigosas ou arriscadas até prova
em contrário, enquanto a maioria das pessoas avalia de forma inversa. Esses medos
exagerados, e às vezes irreais ou irra-
cionais, geram insegurança, ansieda-
de e expectativas ruins quase cons-
tantes, uma sensação crônica de fragi- O que costuma diferenciar
lidade e vulnerabilidade, como se as pessoas com TOC e pessoas com
más notícias fossem a regra e não a hipocondria, que também têm
exceção na vida. “mania de doença”, é que as
Passam pela cabeça a todo mo- primeiras têm mais consciência
mento, por exemplo, ideias sobre a de que suas preocupações são
possível ocorrência de doenças, como exageradas e, mesmo assim, não
câncer e aids. O que costuma diferen- conseguem se livrar delas.
ciar pessoas com TOC e pessoas com
18 TORRES, SHAVITT E MIGUEL (ORGS.)

hipocondria, que também têm “mania de doença”, é que as primeiras têm mais
consciência de que suas preocupações são exageradas e, mesmo assim, não conse-
guem se livrar delas, além de se preocuparem não só com sua saúde, mas também
com a de outras pessoas queridas (ver Cap. 9).

COMO DIFERENCIAR AS OBSESSÕES DE PREOCUPAÇÕES


NORMAIS, SUPERSTIÇÕES E OUTRAS MANIFESTAÇÕES
HUMANAS DE MEDO E INSEGURANÇA?
De fato, é importante diferenciar as ideias obsessivas dos medos “normais”, que
protegem de perigos reais, que fazem, por exemplo, a gente dirigir com cuidado,
usar o cinto de segurança, não tomar bebida alcoólica antes de dirigir, evitar parcei-
ros sexuais pouco conhecidos e sexo sem proteção, evitar ir a lugares perigosos à
noite ou fumar. No TOC, os medos causam muito sofrimento, atrapalham a vida da
pessoa (p. ex., os estudos, o trabalho, os relacionamentos) e, além de exagerados,
costumam ser ilógicos.
Assim, como entender o medo de estar contaminado pelo vírus HIV em uma
pessoa virgem, que nunca usou drogas e que jamais recebeu transfusão de san-
gue? Pois é, os pensamentos obsessivos são assim meio (ou totalmente) sem lógi-
ca. Para se ter uma ideia, algumas pessoas com TOC acham que podem ter se
contaminado só por “passar perto” de algum doente, hospital ou farmácia, de al-
guma mancha de sangue ou mesmo de algum objeto vermelho – cor de sangue –
ou, ainda, só por ter assistido na TV ou lido em uma revista alguma reportagem
sobre aids. Enquanto alguns pensamentos obsessivos não são absurdos, mas ape-
nas improváveis, como um acidente de carro, por exemplo, outros são “malucos”,
quase como um pensamento mágico,
e a própria pessoa sabe que não têm
cabimento, mas mesmo assim é ator-
mentada por eles. Um adolescente te- Enquanto alguns pensamentos
mia que, ao engolir, a comida fosse obsessivos não são absurdos, mas
para os pulmões e ele morresse sufo- apenas improváveis, como um
cado, por isso, só se alimentava de lí- acidente de carro, por exemplo,
quidos, e sempre com muito cuidado. outros são “malucos”, quase
Conforme já ressaltado, uma das como um pensamento mágico, e
preocupações mais comuns no TOC é a própria pessoa sabe que não
com doenças graves, em particular têm cabimento, mas mesmo
aquelas adquiridas por contaminação, assim é atormentada por eles.
como aids, tuberculose, hanseníase,
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leptospirose, dengue hemorrágica ou gripe H1N1. Alguns pacientes, no entanto,


supersticiosamente temem “pegar” de outra pessoa doenças não transmissíveis,
como câncer. Ainda nessa linha, há pessoas que temem de forma exagerada a conta-
minação por substâncias tóxicas, como detergentes, produtos de limpeza, agrotó-
xicos, substâncias radioativas, etc. Uma paciente até recentemente evitava se aproxi-
mar de qualquer carro com chapa de Goiânia, devido àquele acidente com césio
radioativo ocorrido naquela cidade em 1987!
Na verdade, o medo maior que costuma estar por trás dessas preocupações é
a ameaça do sofrimento da perda, ou seja, o medo da morte, seja ela própria ou de
pessoas próximas. A inevitabilidade e o mistério da morte, questões presentes e
angustiantes para todo ser humano, parecem particularmente difíceis de aceitar
para quem tem TOC.

O QUE SÃO DÚVIDAS OBSESSIVAS?


Outra característica importante do TOC são as dúvidas exageradas ou obsessivas.
Torna-se muito difícil ter certeza de coisas aparentemente banais, confiar em si
mesmo, nas coisas que a própria pessoa faz. Assim, é quase impossível estar seguro
de ter enxaguado bem o copo ou lavado direito a verdura, ter trancado a porta,
desligado o botão do fogão, o botijão de gás ou o ferro de passar roupa. Mesmo
racionalmente sabendo que essas coisas foram feitas, duvida-se da própria memó-
ria, e a incerteza impera, gerando muita angústia.
Quando se está distraído por al-
gum motivo ou diante de algo muito
importante, é natural conferir uma ou
duas vezes se tudo está como deveria
(p. ex., o alarme do carro novo ligado Quando se está distraído por
em uma rua perigosa de São Paulo, algum motivo ou diante de algo
todas as questões passadas para a fo- muito importante, é natural
lha de respostas no exame final ou no conferir uma ou duas vezes se
vestibular, um documento indispen- tudo está como deveria. [...] O
sável na bolsa para aquela inscrição problema existe quando mesmo
no novo emprego, etc.). O problema as coisas rotineiras ou de menor
existe quando mesmo as coisas roti- importância são permeadas de
neiras ou de menor importância são dúvidas ou incertezas, e quando
permeadas de dúvidas ou incertezas, essas dúvidas parecem não passar
e quando essas dúvidas parecem não ou não ter fim.
passar ou não ter fim (p. ex., mesmo
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verificando 20 vezes a porta, não é possível atingir ou manter a certeza de que


esteja adequadamente chaveada).
No Capítulo 2, estão melhor descritas essas “manias” de verificação ou checa-
gem, muito relacionadas às dúvidas exageradas ou patológicas. É óbvio que essas
dúvidas são tão atormentadoras e angustiantes porque derivam daquela mesma
ótica catastrófica que já foi descrita. Ou seja, não trancar a porta significa que
ladrões podem entrar e que irão roubar tudo o que há na casa, violentar e matar as
crianças; o ferro esquecido ligado causará um incêndio de enormes proporções,
com muitos mortos; e assim por diante. Um aspecto importante é que em geral
tais dúvidas obsessivas pressupõem uma grande responsabilidade do indivíduo
pelos possíveis acontecimentos ruins. Uma paciente refere-se a isso como um “me-
do enorme de vir a sentir culpa”.
As dúvidas podem representar não apenas preocupações reais, porém exage-
radas, como também medos sem nenhum cabimento ou lógica, como foi visto em
relação a alguns medos de contaminação. Assim, por mais absurdo que pareça –
até para a própria pessoa –, é possível ter dúvida sobre ter feito algo perigoso ou
condenável sem querer ou perceber (p. ex., ter engolido um caco de vidro ou uma
agulha, ter ferido ou atropelado alguém, ter colocado veneno no filtro de água ou
na comida dos familiares), o que causa muito medo e angústia. Uma paciente, por
exemplo, relatou que evitava atender à porta, ir ao dentista sozinha ou mesmo ter
acesso à lista telefônica, já que depois ficava em dúvida se não teria feito alguma
proposta de relação sexual para algum homem, mesmo sabendo que não havia
feito. Outra, solteira e virgem, tinha dúvidas quase constantes sobre estar grávida,
mesmo sem nenhum motivo real para isso. Exatamente por essa característica de
incapacidade de ter certeza, o TOC já foi denominado “doença da dúvida”.

OBSESSÕES PODEM VIR NA FORMA DE IMPULSOS?


Sim, e isso é bastante frequente no TOC. As próprias dúvidas obsessivas podem
estar relacionadas a esse outro tipo de obsessão, que são impulsos ruins
indesejados. Sendo um dos sintomas que mais assustam, tais impulsos são comple-
tamente opostos aos valores, desejos e comportamentos habituais da pessoa. Os
impulsos agressivos podem ser contra si mesmo, contra pessoas desconhecidas ou
contra pessoas queridas (p. ex., ferir, esfaquear, empurrar, afogar, matar), além de
outros impulsos inaceitáveis ou vergonhosos (p. ex., furtar em lojas, trair o cônjuge,
gritar ou blasfemar durante a missa, tirar a roupa em público, estuprar uma criança,
colocar veneno na comida ou na água do filtro). É comum também a impressão de
que se vai perder o controle e se atirar ou empurrar alguém de um lugar alto, jogar
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o carro em direção a um barranco ou a outro veículo vindo na direção oposta, etc.


Vários pacientes rotineiramente escondem facas, tesouras e fósforos de si mesmos,
como se isso fizesse algum sentido! Alguns chegam a pedir aos familiares para
serem trancados no quarto e amarram as próprias pernas à noite na cama, com as
calças do pijama, por medo de fazerem algo muito errado ou condenável “sem
querer”. O problema é que tais atitudes acabam reforçando o medo do descontrole,
conforme veremos melhor no final deste capítulo e no próximo.

OS IMPULSOS OBSESSIVOS TRANSFORMAM-SE EM ATOS?


É fundamental saber que pessoas que têm TOC não são perigosas e que esses
impulsos são apenas medos exagerados de perder o controle e não desejo de fazer
tais coisas. Tais pacientes não são ladrões, estupradores ou assassinos em potencial.
Pelo contrário, são pessoas preocupadas em excesso, que têm muito medo de fazer
algo condenável ou prejudicar al-
guém. Pensar algo ruim é totalmente
diferente de fazer algo ruim, e há uma É fundamental saber que pessoas
enorme distância entre essas duas que têm TOC não são perigosas e
coisas. Não se deve sentir culpa pelas que esses impulsos são apenas
coisas que passam pela cabeça, nem medos exagerados de perder o
levá-las muito a sério. Sem dúvida, es-
controle e não desejo de fazer
sas ideias estranhas e indesejadas di-
tais coisas.
zem muito menos a respeito de quem
é o indivíduo do que sua história de
vida, seus valores e suas condutas.
Aqui também, pela maior estimativa de riscos e pela responsabilidade pessoal
exacerbada, a preocupação é “e se eu for capaz de fazer uma coisa horrível dessa?”.
Aliás, “e se” e “será” são as palavras que mais se ouvem de pacientes com TOC.
Saber que não há risco de descontrole costuma diminuir a ansiedade e o medo e,
consequentemente, a própria fre-
quência desses impulsos ruins.
Em relação a tais impulsos, é
bom reafirmar que, na verdade, pes-
soas com TOC têm muito medo de Pessoas com TOC têm muito
agir mal e podem ter dúvidas sobre medo de agir mal e podem ter
ter ou não feito aquilo que tanto te- dúvidas sobre ter ou não feito
mem. Os ladrões, estupradores e as- aquilo que tanto temem.
sassinos frios que aparecem nos no-
22 TORRES, SHAVITT E MIGUEL (ORGS.)

ticiários de TV na certa não têm TOC e, na maioria das vezes, nem sequer são
doentes mentais.
Ao contrário, pessoas obsessivas costumam se preocupar demais com os ou-
tros, mais até do que consigo mesmas; não querem de jeito algum prejudicar al-
guém, e tal característica pode ser até exagerada. Um paciente evitava sair de casa,
pois se sentia sempre obrigado a recolher da rua cacos de vidro, pregos ou outros
objetos que visse e que pudessem machucar quem passasse por ali. Outro verificava
várias vezes se a torneira estava bem fechada, para não acabar com toda a água do
mundo! Muitos não toleram assistir a noticiários de TV ou ler jornais, pois ficam
penalizados demais com o sofrimento alheio, pensando inutilmente em meios de
ajudar e se culpando pela própria impotência. Há pacientes que se preocupam de
maneira exagerada com o que é certo e o que é errado ou com o medo de pecar.
Um rapaz, por exemplo, evitava responder a perguntas simples, como “que horas
são?”, por medo de mentir sem querer, por seu relógio estar errado. Caso respondes-
se, ficava se questionando se teria respondido certo ou “mentido”, atormentado
pela dúvida e pelo medo do possível castigo divino.
Esse senso exagerado de responsabilidade pessoal e o excesso de escrúpulo
ou de sentimento de culpa habitualmente perturbam a pessoa sem necessidade. É
preciso saber e aceitar o limite das capacidades e possibilidades reais. É claro que
é fundamental para o convívio humano que as pessoas se preocupem e se res-
ponsabilizem por seus atos, se solidarizem com os demais, procurem ajudar os
outros e se culpem pelo que não deveriam ter feito. No entanto, quando esses
sentimentos “passam da conta”, podem ser sintomas do TOC.

HÁ OUTROS TIPOS DE OBSESSÕES?


Sim. Algumas vezes, as obsessões podem ocorrer na forma de imagens mentais
desagradáveis, como uma fotografia ou cena de filme, sempre relacionadas aos
medos principais da pessoa. Não são
alucinações, mas pensamentos na for-
ma de imagens internas, como “ver”
mentalmente a cena de um familiar Algumas vezes, as obsessões
acidentado ou de uma pessoa muito podem ocorrer na forma de
querida morta no caixão. A óbvia rea- imagens mentais desagradáveis,
ção natural é tentar afastar essa ima- como uma fotografia ou cena de
gem tão desagradável. O problema é filme, sempre relacionadas aos
que, com isso, ela tende a voltar ain- medos principais da pessoa.
da mais. Além de imagens, às vezes
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são palavras, frases ou músicas intrusivas que, mesmo quando têm conteúdo “neu-
tro”, vão se tornando, pela insistência, insuportáveis.
Outras vezes ainda, as obsessões têm conteúdo sexual. Nada parecido com
fantasias sexuais agradáveis e excitantes, muito pelo contrário: são pensamentos
ou impulsos proibidos que geram culpa e mal-estar. Podem ser pensamentos de
cunho sexual envolvendo figuras ou imagens religiosas, pessoas da família ou crian-
ças, dúvidas descabidas sobre a própria orientação sexual, ou impulsos proibidos,
que vão contra todos os valores morais e práticas do indivíduo. As obsessões tam-
bém podem envolver o tema do ciúme, em geral como uma desconfiança sem
justificativa do indivíduo de que possa estar sendo traído pelo parceiro ou parceira.

QUAIS SÃO OS CONTEÚDOS MAIS COMUNS DAS OBSESSÕES?


A seguir, estão listados os tipos mais comuns de obsessões (que podem se manifes-
tar como pensamentos, imagens mentais ou impulsos indesejados), exemplificados
por frases de portadores de TOC:

OBSESSÕES DE CONTAMINAÇÃO OU SUJEIRA


Fico desesperada quando encosto sem querer em alguém na rua, já
acho que talvez a pessoa esteja doente e que posso ter pegado aids.

Quando estou fazendo o almoço, às vezes fico “encanada” que posso


estar com alguma doença e que posso passar para toda a minha família.

Quando vejo um copo sujo que seja na pia, eu sinto uma agonia tão
grande, que não passa até eu lavar, enxugar e guardar, mesmo sendo
tarde e eu estando exausta.

OBSESSÕES DE AGRESSÃO OU VIOLÊNCIA


Quando vejo um bebezinho, tenho impulsos horríveis: parece que
uma força interna me manda fazer alguma coisa ruim contra a criança,
por isso evito até chegar perto, apesar de adorar crianças.
Quando minha filha viaja, eu chego a ver na minha cabeça a imagem
do carro dela acidentado, é horrível.
24 TORRES, SHAVITT E MIGUEL (ORGS.)

OBSESSÕES SEXUAIS
Às vezes, quando estou perto das minhas sobrinhas, me vem à cabeça
de repente a ideia de atacá-las sexualmente. Eu me sinto o mais sujo
dos seres humanos e morro de medo de um dia perder o controle.
Como posso pensar uma coisa dessas com crianças, e da minha famí-
lia?

Eu nunca tive atração por mulheres e sou feliz com o meu marido,
mas desde adolescente tenho um medo muito grande de ser homos-
sexual, evito até olhar para mulheres bonitas, porque essa dúvida
fica me atormentando.

OBSESSÕES RELIGIOSAS
Quase tudo que eu faço, por exemplo, fumar, ir a uma festa ou gostar
de alguma coisa dos outros, já penso que posso estar pecando ou
desagradando a Deus e que posso ir para o inferno. Por incrível que
pareça, minha consciência fica pesando.

Evito ter imagens de santo em casa, porque basta eu olhar que já me


vêm à cabeça pensamentos de ofender, xingar ou até impulsos de
bater no santo.

OBSESSÕES SOMÁTICAS OU CORPORAIS


Vivo achando que posso estar com câncer, mesmo sabendo que não
tem nada a ver. Mesmo sem sentir nada, essa ideia vive me ator-
mentando.

Eu sou “superencanada” com doença; qualquer sintoma que tenho,


mesmo que seja só uma gripe, já penso que é muito grave, que pode
ser pneumonia e que posso morrer.
MEDOS, DÚVIDAS E MANIAS 25

OUTRAS OBSESSÕES
Não consigo confiar em mim mesmo para nada: qualquer coisa que
faço deixa uma interrogação na minha cabeça: será que eu fiz mesmo?
Será que eu fiz direito? Não tenho segurança, nem paz, é um inferno.

Morro de medo de perder minha namorada, sei que ela nunca me


trairia, confio nela totalmente, mas essa dúvida não me dá sossego.

Quando vou jogar alguma coisa fora, como uma anotação superantiga,
me vem à cabeça a ideia de que posso precisar daquilo depois ou que
posso prejudicar alguém se eu jogar, e acabo guardando de novo.

AS IDEIAS OBSESSIVAS SÃO IDEIAS FIXAS?


Na verdade, não muito. Primeiro, nem todas as pessoas com TOC têm todos os
tipos de obsessões aqui descritas ao mesmo tempo; algumas vezes, têm um único
medo ou preocupação exagerados, mas isso não é o mais comum. Em geral, são
pensamentos ruins de vários conteúdos e que podem mudar ao longo do tempo.
Assim, preocupações que em algum
momento atormentavam demais po-
dem ser “esquecidas”, e outros temas, Assim, preocupações que em
que antes eram “neutros”, podem algum momento atormentavam
passar a preocupar. A intensidade dos demais podem ser “esquecidas”,
sintomas também pode variar bastan- e outros temas, que antes eram
te, diminuindo ou aumentando con- “neutros”, podem passar a
forme a ocasião ou a fase de vida (ver preocupar.
Cap. 3).

PESSOAS COM TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO SÃO “LOUCAS”?


De forma alguma. O que é bastante comum no TOC é o medo da “loucura”, entendi-
da como perda total de controle sobre os próprios pensamentos, sentimentos e
comportamentos. Na verdade, esse temor é bastante compreensível, levando-se
em conta tantos impulsos e ideias ruins passando pela cabeça. Porém, é fundamen-
tal saber que o TOC é bem diferente de outras doenças psiquiátricas em que o
indivíduo de fato perde – temporária ou cronicamente – a noção da realidade ou o
26 TORRES, SHAVITT E MIGUEL (ORGS.)

controle de seu comportamento,


como nas esquizofrenias, demências O que existiria no TOC, segundo
ou no transtorno bipolar. Nesses qua- alguns pesquisadores, é certa
dros, é comum ocorrerem delírios, confusão entre imaginação e
que são falsas crenças – muitas vezes realidade, de modo que o paciente
bem estranhas – mantidas com extre- sofreria por preocupações
ma convicção (p. ex., ideias de perse- imaginárias como se fossem reais.
guição ou de grandeza), e alucinações,
que são falsas percepções sensoriais
(p. ex., ouvir vozes ou ver coisas que
não existem), além de outros sintomas.
O que existiria no TOC, segundo alguns pesquisadores, é certa confusão entre
imaginação e realidade, de modo que o paciente sofreria por preocupações imaginárias
como se fossem reais. Porém, a noção de que tais preocupações são “ridículas” em
geral é mantida. A dúvida, o medo e a insegurança são as marcas características do
TOC, e não a certeza absoluta. Medo de perder o controle é bem diferente de risco
real de perder o controle. Portanto, o indivíduo com TOC não está louco, tem noção
do que pensa e do que faz, mesmo que certos sintomas pareçam “malucos”.
Exatamente por manterem a capacidade de julgamento crítico sobre seus sinto-
mas e por medo de serem considerados loucos, muitos têm vergonha de contar
esses pensamentos absurdos para outras pessoas e até mesmo de procurar ajuda
profissional, prolongando seu sofrimento. Essa foi uma das principais motivações
que levaram à organização deste livro.

PESSOAS QUE NÃO TÊM TRANSTORNO


OBSESSIVO-COMPULSIVO
TAMBÉM PODEM TER OBSESSÕES?
Certamente. É importante, mais uma Certamente. É importante, mais
vez, ressaltar que obsessões são fenô- uma vez, ressaltar que obsessões
menos que ocorrem no universo men- são fenômenos que ocorrem no
tal de todas as pessoas, só se consti- universo mental de todas as
tuindo sintomas de TOC quando ge- pessoas, só se constituindo
ram mal-estar e sofrimento significati- sintomas de TOC quando geram
vos ou quando tomam muito tempo mal-estar e sofrimento
e atrapalham a vida. significativos ou quando tomam
As crianças, por exemplo, têm muito tempo e atrapalham a vida.
muitos pensamentos obsessivos e
MEDOS, DÚVIDAS E MANIAS 27

comportamentos compulsivos (ver


Caps. 2 e 5), que fazem parte do de- Medos, pensamentos mágicos e
senvolvimento psicológico normal e comportamentos supersticiosos
só excepcionalmente são doentios, fazem parte da infância e tendem
merecendo tratamento específico. a diminuir de modo gradual com
Medos, pensamentos mágicos e com- a idade.
portamentos supersticiosos fazem
parte da infância e tendem a diminuir
de modo gradual com a idade. Mulhe-
res grávidas também costumam apresentar obsessões de que a criança pode ter
algum problema ou malformação, e é comum as mães (e pais) de bebês recém-
nascidos ficarem pensando quase o tempo todo se a criança está mesmo bem e
em segurança.
Visto os pensamentos obsessivos serem muito desagradáveis, é compreensível
que a pessoa costume fazer de tudo para evitá-los. Assim, os pacientes evitam as
situações que estimulam ou desencadeiam as obsessões, como, por exemplo, ficar
sozinho(a) com crianças pequenas, manusear facas ou visitar doentes. O problema
maior é que esses comportamentos evitativos de busca de segurança (também
chamados de comportamentos de esquiva) acabam reforçando os medos, pois
criam a falsa ideia de que o acontecimento temido só não ocorreu devido à atitude
de evitação. Desse modo, a pessoa passa a acreditar que só não atacou a criança
porque tinha gente por perto, que só não matou a mãe porque havia escondido a
faca ou que só não ficou doente porque não chegou nem perto do hospital, o que
não são verdades.
Já que todas as pessoas têm pensamentos obsessivos de vez em quando, acredi-
ta-se que o TOC seja desencadeado e os sintomas sejam mantidos não pelas obses-
sões em si, mas pela maneira como a pessoa avalia e lida com esses pensamentos.
Quanto mais os interpretar como algo muito grave e inaceitável, mais ansiedade,
medo ou culpa sentirá e mais esforços fará para evitá-los ou afastá-los. Com isso,
sem querer, acaba aumentando a frequência e a intensidade das obsessões e das
emoções ruins a elas associadas, gerando um círculo vicioso ou uma “bola de neve”.
Outro aspecto relevante é que nem sempre as obsessões e compulsões (ou
“manias” – ver Caps. 2, 3 e 5) são sintomas de TOC. Conforme já ressaltado, podem
ser fenômenos normais em algumas fases da vida ou sintomas de outros transtornos
psiquiátricos. Assim, na depressão, por exemplo, podem ocorrer pensamentos ruins
de linha obsessiva (“ruminações”) e, nos quadros demenciais da velhice, são comuns
comportamentos compulsivos ou “manias”. Só uma avaliação psiquiátrica adequada
poderá confirmar ou não o diagnóstico de TOC primário, ou seja, como o quadro
de base ou principal.
28 TORRES, SHAVITT E MIGUEL (ORGS.)

Será descrito, a seguir, como as obsessões se relacionam (ou não) com as “ma-
nias”, o segundo componente central do TOC.

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