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Sumário

Prefácio
Apresentação
Revolução!
A bola é total
Perder como em 1982 ou...
... Ganhar como em 1994?
O outro lado
O pai do 4-2-4
O nascimento do 4-2-4
Ideias demais, futebol de menos
A formiga e a cigarra
A volta dos pontas
A experiência da derrota
Os menottistas
Silêncio sobre o 3-5-2
Os Onze da Breslávia
O Milagre de Berna
Ganhar assim é melhor
O reino do toque de bola
A África existe
A bola laranja
Ferguson e a Copa do Mundo
Tiki-taka
O centro-médio
Os bilardistas
Socorro! Um líbero?!
O WM torto
O lado A... Azul
O nascimento do 4-4-2
Três zagueiros
Quadrado trágico
A maldição do bi
Referências bibliográficas
Prefácio

C onheci o PVC nem sei quanto tempo atrás. Ele diz que me entrevistou pela primeira vez no vestiário
do estádio Olímpico, na véspera da decisão da Copa do Brasil de 1995, aquela que perdemos para
o Corinthians.
Ele não deu boa sorte, então.
Mais tarde, quando fui para o Palmeiras, ele me perseguiu de novo. Vamos dizer que, daquela vez, ele
trouxe mais sorte. Mais do que no Olímpico. Estava em toda a campanha da Libertadores de 1999, que
conquistamos contra o Deportivo Cali.
Também foi ao Japão.
Às vezes ele me enchia um pouco com aquela mania de desenhar as jogadas do meu time. A prancheta,
como ele diz.
Ficamos mais próximos. É um dos jornalistas desse meio que respeito.
Meu negócio sempre foi o futebol, mas nunca essa coisa de ler livros e tal. Futebol pra mim é
trabalhado, no campo. Já o PVC gosta da prancheta e dos livros. E ele leu para escrever este Tática
mente que está em suas mãos. Leu um bocado!
Leu, por exemplo, para dizer que a nossa Seleção, que tive o prazer de dirigir em 2002, é a única na
história das Copas a ser campeã mundial vencendo todos os sete jogos. O time do Zagallo em 1970
venceu seis. Mas só a nossa Seleção ganhou sete vezes para levantar a taça.
Leu também para afirmar que posso ser o segundo técnico na história a ganhar duas Copas do Mundo.
Poxa vida. Tem o italiano, nos anos 1930. E só!
Claro que este Tática mente tem muitas outras coisas, muitas histórias da formação das grandes
seleções, as vitoriosas e as que não ganharam também. Por isso fiquei muito feliz com o convite para
apresentar este livro.

Espero que você goste.


Luiz Felipe Scolari
APRESENTAÇÃO

A tática mente. Não explica totalmente a vitória de um time em um jogo ou em uma Copa do Mundo.
Normalmente, é responsável por uma parcela da vitória. Há quem diga que quem superestima a parte
tática subestima o acaso. Não é assim. Veja o último gol, marcado por Carlos Alberto, na vitória por
4 X 1 contra a Itália, na final da Copa de 1970.
Tostão estava lá atrás, desarmando, o que significa que o time trabalhou para todos participarem das
ações defensivas. É parte do desenho do time. Então, Tostão rouba a bola na lateral esquerda e recua-a
para Clodoaldo, que dá três passadas do pé sobre a bola. Perder o domínio seria um perigo. Dali para
Rivellino e o lançamento para Jairzinho na ponta esquerda.
A Itália marcava homem a homem e isso mantinha o lateral esquerdo, Facchetti, deslocado para
acompanhar Jair do lado oposto do campo, deixando espaço para Carlos Alberto finalizar.
Pelé recebe de Jairzinho e rola a bola macia. E ela, caprichosa, bate num morrinho e sobe um
centímetro, o suficiente para Carlos Alberto acertar uma bomba.
O desenho da jogada foi fundamental. Mas e a bola ter resvalado num morrinho?
É o acaso. E como analisá-lo? Impossível!
Ninguém desconsidera essas possibilidades. Times históricos foram formados por pensar nas
características dos jogadores, nos estilos de cada época e também no acaso.
Eu sempre colecionei camisas de futebol. Um dia, além delas, comecei a aproveitar as viagens
profissionais para comprar livros da área, que estão repletos de casos assim. Colecionei também
histórias que explicam as montagens das seleções nacionais. Como a Brauslen Elf, a Seleção Alemã dos
anos 1930, formada quando Hitler mandou encostar o técnico Otto Nerz, porque a partida a que foi
assistir, pelo torneio olímpico de futebol das Olimpíadas de 1936, terminou com uma derrota alemã para
os noruegueses.
E justamente dois dias depois de o norte-americano Jesse Owens ganhar a prova dos cem metros no
estádio Olímpico de Berlim. Foi por isso que Sepp Herberger assumiu a Seleção Alemã e iniciou a
equipe campeã mundial 16 anos depois.
Este livro tem tudo junto. O acaso, a tática, as histórias. Tem um pouco do que você talvez tenha
aprendido a ler às segundas-feiras – e antes às quintas – na coluna chamada “Prancheta do PVC”, criada
no diário Lance!, já publicada nos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo.
O critério, às vezes, é nenhum critério. Ou escolher histórias curiosas, inusitadas e desconhecidas. Ou
discutir se os sistemas mais conhecidos nasceram onde você pensa que nasceram – como o 3-5-2, usado
pela Itália timidamente na vitória sobre o Brasil em 1982.
A ideia é ter uma história para contar. Uma história apurada, com uma pauta que saia da cabeça e
contenha uma visão tática sobre o jogo de futebol.
Tática mente.
Mas nem sempre.
Tática e mente!
As duas coisas juntas, a cabeça e o campo, contam bastante da história das Copas.
E é isso o que este livro procura mostrar.
Divirta-se!
Paulo Vinicius Coelho (PVC)
Revolução!
A dramática epopeia do tricampeonato
Brasil na Copa de 1970

D e tudo o que se escreveu sobre a campanha do terceiro título brasileiro, só o texto escrito por João
Máximo e publicado na edição 833 da revista Placar, em 12 de maio de 1986, contém este adjetivo:
“dramática!”.
Mas como pode ter sido dramática, se o Brasil venceu todas as seis partidas que disputou e no
final ergueu a taça Jules Rimet? Mas como, se a seleção de Zagallo, Pelé e Jairzinho foi eleita em
enquete da revista inglesa World Soccer a melhor de todas as Copas do Mundo?
“Topo!”
As quatro letras poderiam servir para explicar o significado de quem aceita explicar o inexplicável.
Mas são as quatro letras com que João Máximo começa a descrever a campanha do tri, no México.
“Topo!” foi como João Saldanha aceitou assumir a Seleção Brasileira depois do fracasso no Mundial
da Inglaterra. O supervisor da Seleção, Antônio do Passo, fez-lhe o convite. Saldanha respondeu ao seu
estilo:
“Topo!”
Saldanha estava afastado do futebol havia dez anos, desde 1960, quando foi dispensado do cargo de
técnico do Botafogo. Voltou à função de conselheiro e no ano seguinte assumiria um cargo de
comentarista esportivo na Rádio Guanabara.
Muita gente pensa que João Saldanha foi um jornalista que se transformou em técnico. Não aconteceu
assim. Saldanha era dirigente do Botafogo numa excursão pelo Brasil em 1957. O técnico Geninho,
empossado no lugar de Zezé Moreira para um período de experiência meses antes, julgou que poderia
pedir muito e renovar contrato. Faltavam dois meses para o início do Campeonato Carioca, dias para a
excursão começar, e o presidente Paulo Azeredo respondeu a Geninho, o ídolo da torcida, campeão
carioca de 1948: “Não!”.
Saldanha saltou de diretor para técnico num piscar de olhos e apenas três contos de réis por mês.
Pretendia permanecer apenas durante o Campeonato Carioca de 1957, mas uma incrível goleada por 6
X 2 sobre o Fluminense, com cinco gols de Paulinho Valentim, rendeu-lhe o título estadual e o convite
para permanecer. Ficou até 1960.
Quando deixou o time, sua mulher na época, Ruth, conseguiu com o irmão jornalista Ruy Viotti um
emprego na Rádio Guanabara. De comentarista ao reinício como treinador, dez anos mais tarde, não seria
fácil. Os amigos lhe abriram os braços e os inimigos torceram o nariz.
Saldanha nunca foi unânime e não apenas por ser comunista. Também por seu estilo e pelas suas
convicções como treinador, algumas ultrapassadas para o início da década de 1970.
Segundo João Havelange:
"João Saldanha foi um grande jornalista e um excelente analista de futebol, mas não tinha as mesmas excepcionais qualidades como
técnico, e isso foi comprovado durante a preparação da Seleção com vistas à Copa do Mundo de 1970."

Que Havelange tenha tido interesses escusos na demissão é de se considerar. Mas e se Saldanha
tivesse permanecido? A Seleção ganhou todas as seis partidas das eliminatórias da Copa do Mundo,
marcou 23 gols e sofreu dois. Então, perdeu um amistoso contra o Atlético Mineiro. E outro, em março de
1970, contra a Argentina, em Buenos Aires.
E caiu depois de um empate num jogo-treino contra o Bangu. Esqueça as questões políticas, seu
relacionamento diferente com comunistas e militares. Pelos resultados, pela lógica do século XXI, não se
pode dizer que a demissão foi justa. Não foi!
Zagallo assumiu a Seleção.
“Observamos a maneira como a equipe estava jogando e percebemos que naquele 4-2-4 não dava”,
disse Zagallo ao programa Bola da vez, da ESPN Brasil, em setembro de 1998.
Também é injusto dizer que Zagallo não fez nada para montar a equipe tricampeã mundial. Fez.
Transformou Piazza em quarto-zagueiro para fixar Clodoaldo como volante; escalou Everaldo no lugar
de Marco Antônio, um mérito mesmo considerando os conselhos dos jogadores mais veteranos – saber
ouvir é para poucos; deu a camisa 11 a Rivellino e montou um 4-3-3.
Acima de tudo, convenceu todos os jogadores a voltarem para marcar, exceção feita a Tostão, o
centroavante que não precisava voltar ao campo de defesa.
Também fez sua equipe jogar no contra-ataque. Não era um time que atraía o adversário apenas para
contra-atacar. Mas dos 19 gols da Seleção de 1970, 15 nasceram de bolas rápidas saindo da defesa para
o ataque.
Todos marcavam e quase todos atacavam. O volante Clodoaldo, autor do primeiro gol contra o
Uruguai, invertia com Gérson em situações especiais. Carlos Alberto, o lateral-direito, autor do gol da
taça, nos 4 X 1 sobre a Itália, via a bola correr por todo o campo, finalizava e sempre aparecia no ataque.
Pelé disputou a melhor de suas quatro Copas do Mundo, infinitamente melhor do que a de 1958,
melhor até do que na de quatro anos antes. Seu mérito: correr o campo inteiro.
Se o torcedor comparar com a Holanda de quatro anos mais tarde, verá com certeza absoluta: o Brasil
de Zagallo teve responsabilidade sobre o estilo da Laranja Mecânica.
Sistema: 4-3-3
Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo
A bola é total
Holanda na Copa de 1974

O trabalho de dois técnicos marca a história da Holanda: Jack Reynolds, que atuou na década de 1940,
e Vic Buckingham, nos anos 1960.
Não se pode dizer que Reynolds tenha sido um pioneiro do Futebol Total. Mas foi um dos
primeiros a incentivar a posse de bola como princípio para o controle da partida. Reynolds passou
32 anos de sua vida, entre 1915 e 1947, ensinando aos holandeses como se movimentar em campo e
preservar a bola.
Já o técnico inglês Vic Buckingham fez mais do que lançar Johan Cruyff aos 17 anos na equipe
principal do Ajax, em 1964. Em sua primeira passagem pelo clube de Amsterdã, Buckingham ajudou os
holandeses a conhecerem uma palavrinha com a qual se identificariam no futebol: “tática”.
Apesar das inovações de Reynolds e Buckingham, a Holanda insistia em jogar no velho e surrado 2-3-
5, aposentado em vários países desde os anos 1930.
Buckingham chegou a Amsterdã em 1959, um ano depois de o Brasil ter conquistado o planeta com o
sistema 4-2-4. Mas ainda mantinha o seu velho esquema e, ainda assim, o Ajax conquistou o campeonato
de 1960, com 3,2 gols por partida, em média – não se pode dizer que se praticava futebol de alto nível
em território holandês naquela época.
Antes, sob o mesmo conceito, Jack Reynolds usava frases que seriam mais tarde atribuídas a Carlos
Alberto Parreira, nos anos 1990, ou a Pep Guardiola, nos 2010: “Se você tem a bola, eles não podem
fazer gols”.
O britânico Buckingham, mais jovem, era um sujeito fechado, fleumático, sisudo. Seus times, não.
Prezavam o toque de bola, muito mais do que o histórico estilo kick and rush – de lançamentos longos
para correr atrás da bola, praticado na Inglaterra. Ele deixou o Ajax em 1961, passou duas temporadas no
Sheffield Wednesday e retornou para mais um ano. Passou mais metade de um turno jogando no arcaico
WM e, com o Ajax brigando para não ser rebaixado, foi demitido.
Rinus Michels abdicou de sua carreira de centroavante, em 1958, e foram os times de Vic Buckingham
que serviram de referência para ele quando se assumiu como técnico do Ajax.
Michels mudou o sistema tático e o estilo do time. “Era o mais disciplinador que já vi. Até do
assistente técnico ele pegava no pé”, conta o atacante Swart. Foi no 4-2-4, já um pouco ultrapassado
depois da vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo do Chile inaugurando o 4-3-3, que o Ajax
estreou na Copa dos Campeões da temporada 1966/67. No ataque: Swart, Cruyff, Keizer e Nuninga.
O Liverpool, campeão inglês duas vezes em três temporadas após o retorno à primeira divisão em
1964, viajou com discurso arrogante para Amsterdã, para a segunda fase da Copa dos Campeões. Falou
mesmo em trucidar o Ajax marcando pelo menos sete gols. O jogo teve seis. Cinco dos holandeses. Em
quarenta minutos, o Ajax vencia por 4 X 0. O jogo terminou com 5 X 1.
A confirmação da classificação para a terceira fase com um empate na Inglaterra por 2 X 2 deu aos
holandeses um confronto contra o forte Dukla Praga, da Tchecoslováquia. Não passaram de um empate
por 1 X 1 em Amsterdã e perderam a vaga com uma derrota por 2 X 1 fora de casa, gol contra de
Soetekouw a três minutos do apito final.
Michels percebeu nesse momento que já não fazia sentido jogar com quatro atacantes. Nasceu então o
4-3-3 holandês.
Nos anos 1980, contava-se que o Futebol Total da Copa de 1974 teria nascido de uma conversa de
Cruyff e Michels à beira da piscina. Relaxados debaixo do sol, os dois teriam percebido como o vento
produzia ondas na água, e cada ondinha percorria todo o espaço da piscina. Ideal seria repetir esse
movimento em campo. Michels tinha um conceito semelhante ao de outros treinadores, como Vic
Buckingham, de que os jogadores deveriam saber executar todas as funções.
Depois da eliminação em Praga, o Ajax classificou-se para a decisão da Copa dos Campeões contra o
Milan, em 1969, não disputou o torneio seguinte por não ter sido campeão nacional no ano anterior e
completou a última temporada de Michels no comando com o título europeu.
No ano seguinte, Stefan Kovacs assumiu o comando e manteve a movimentação constante e o sistema
4-3-3. Rinus Michels transferiu-se para o Barcelona em 1971 e levou Johan Cruyff para a Catalunha duas
temporadas mais tarde. Kovacs levou o Ajax ao tricampeonato europeu, Michels e Cruyff juntos tiraram o
Barça de uma fila de 14 anos sem taças. Também ensinaram os espanhóis a jogar com posse de bola e
movimentação; fundamentos da escola holandesa.
Quando assumiu a seleção da Holanda, apenas três meses e três amistosos antes da Copa do Mundo da
Alemanha de 1974, bastava manter a base do Ajax, trazer Cruyff, do Barcelona, e torcer para ter química.
Deu certo!
Um empate contra a Áustria por 1 X 1, uma goleada de 4 X 1 sobre a Argentina e um empate em 0 X 0
com a Romênia.
Quando a Holanda estreou no Mundial trucidando o Uruguai, mas vencendo por apenas 2 X 0, Kovacs
já estava demitido, acusado de ser bonzinho demais com os jogadores do Ajax. Michels era duro, sério,
tático e profissional. Kovacs nunca mais teve sucesso no futebol. Michels foi campeão espanhol pelo
Barcelona, voltou a vencer pelo Ajax e conquistou o vice-campeonato mundial pela Holanda em 1974 e a
Europa em 1988.
Do suposto encontro na piscina para discutir tática, Cruyff passou a ser acusado de uma festa privada
na piscina do hotel. Os jogadores teriam levado prostitutas para o setor reservado à equipe e isso,
durante anos, serviu de acusação depois da derrota da Holanda para a Alemanha. Mais fácil dizer que os
alemães entenderam como os holandeses jogavam.
A Holanda sofreu pênalti antes de a Alemanha tocar a bola na final do Mundial de Munique.
“Queríamos brincar em cima dos alemães”, confidencia o ponta Rep no livro Brillant orange [Laranja
brilhante], de David Wimmer. O time holandês perdeu a chance de marcar o segundo e em pouco tempo
Cruyff estava controlado pela marcação do lateral Berti Vogts, escalado como zagueiro.
Em seguida, o ponta-esquerda da Alemanha, Hölzenbein, avançou e sofreu pênalti de Jansen. A
Alemanha empatou e seguiu marcando forte. A Holanda estava paralisada. Não se movia, não era o
Futebol Total, não era nem sequer o 4-3-3 do princípio de Rinus Michels no Ajax. Neeskens poderia
ajudar, mas Bonhof o aniquilava na marcação.
E não apenas isso. Dois minutos antes do final do primeiro tempo, Bonhof avançou pela direita e fez o
cruzamento para Müller marcar.
Bonhof marcava e avançava.
Por um período de 45 minutos que valeu a vitória na Copa do Mundo, isso foi Futebol Total para os
alemães.
A Holanda ficou na história, nos livros e passou a figurar no mapa do futebol mundial. Antes, os
holandeses só haviam jogado Copas do Mundo em 1934 e 1938. Ainda estavam crus para serem os
vencedores.
Sistema: 4-3-3
Técnico: Rinus Michels
Perder como em 1982 ou...
Brasil na Copa de 1982

O dilema perder como em 1982 ou ganhar como em 1994 tem variáveis mundo afora. Os argentinos,
por exemplo, perguntam se é melhor jogar no ataque como Menotti, o técnico campeão mundial em
1978 ou, pragmaticamente, como com Carlos Bilardo, do título de 1986.
Mas o dilema 1982 ou 1994 no futebol brasileiro é falso. E o que confirma isso é a contratação
de Telê Santana para técnico da Seleção, em fevereiro de 1980.
O Brasil vinha de duas Copas do Mundo péssimas. Nada como o fiasco de 1966, na Inglaterra;
campanhas com um futebol sem graça, insosso e defensivo.
“Desculpe, seu Zagallo, mexe nesse time que tá muito fraco...”, cantava Luiz Américo, em 1974.
Em 1978, o título moral comemorado por Cláudio Coutinho foi ironizado no Brasil. Um ano e meio
depois, num jogo de quartas de final do Brasileirão, o Flamengo, dirigido por Coutinho – que acumulava
o cargo na Seleção – enfrentou o Palmeiras, treinado por Telê Santana.
O Flamengo tinha Zico, Adílio, Júnior, Cláudio Adão... mas não era visto como um time espetacular
naquele período. O Palmeiras tinha Beto Fuscão, Pedrinho, Mococa, Jorginho e Jorge Mendonça. Sem
estrelas, aniquilava um adversário após o outro com goleadas incríveis. Em um mês, o Palmeiras fez 5 X
1 no Santos, 4 X 0 na Portuguesa, 5 X 1 no Comercial e no São Bento, antes de enfrentar o Fla, no
Maracanã, em 9 de dezembro de 1979.
Quarenta dias antes, a Seleção havia sido eliminada da Copa América no Maracanã com um empate
por 2 X 2 com o Paraguai. O ódio a Coutinho estava quente e mais acentuado entre os paulistas que
alimentaram o duelo Coutinho X Telê.
A goleada palmeirense por 4 X 1 definiu a contratação de Telê. Seria a volta do futebol-arte contra o
jogo baseado no preparo físico que se atribuía a Coutinho.
Telê estreou em junho do mesmo ano de 1979 com vitória por 2 X 0 sobre o México e uma semana
depois sofreu seu primeiro revés, derrota por 1 X 2 para a União Soviética no Maracanã. Houve críticas
e perdão. A Seleção iniciava um trabalho diferente. Chamava-se seleção permanente, ou seja, o time se
reuniria uma vez por mês, em média, como as principais seleções da Europa. Diferente do período em
que o time só se encontrava antes de competições oficiais ou excursões, disputava meia dúzia de
partidas, dissolvia-se e voltava a se encontrar um ano depois. Pela lógica anterior, era um time de
momento. Numa seleção dita permanente, era importante a continuidade.
A nova direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), do presidente Giulite Coutinho, também
fez a Seleção rodar o país. Vitória sobre o Chile em Belo Horizonte, empate com a Polônia em São
Paulo, 1 X 0 na Espanha em Salvador. Em um ano e meio, o time só perdeu uma vez depois da União
Soviética, para o Uruguai na final do Mundialito – torneio comemorativo dos cinquenta anos da Copa do
Mundo, disputado no Uruguai em 1981. Invariavelmente, Telê jogava no ataque. O plantel era elogiado
pela maior parte dos críticos, embora João Saldanha fizesse restrições a questões táticas e o personagem
Zé da Galera, criado por Jô Soares, “cornetasse” a ausência do ponta-direita: “Bota ponta, Telê!”.
A excursão foi um marco para vários titulares de Telê Santana. O Brasil venceu pela primeira vez em
Wembley por 1 X 0 contra a Inglaterra, com gol de Zico. Ganhou da França no Parc des Princes, virou o
jogo contra a Alemanha com gols de Júnior e Toninho Cerezo – e dois pênaltis defendidos por Valdir
Peres contra Paul Breitner, invicto em cobranças até então.
Aqui começa a discussão entre o time imaginário, perfeito, e os problemas que levaram à derrota para
a Itália na segunda fase. Paulo Isidoro vestiu a camisa 7, antes de Tita, durante praticamente todos os
amistosos entre a estreia contra a mesma União Soviética, no Maracanã em 1980 e a vitoriosa excursão à
Europa, em maio de 1981.
O time que venceu ingleses e alemães tinha só duas mudanças em comparação com a base montada
inicialmente por Telê Santana. Leandro ganharia, em outubro de 1981, a posição de Edevaldo, lateral de
enorme força física do Fluminense. Reinaldo perderia o lugar para Serginho Chulapa.
O centroavante foi um problema até o fim da preparação. O ponta-direita, não. Reinaldo não convencia
Telê pelas questões de sua vida pessoal e pela sequência de lesões. A Seleção testou Roberto, do Sport,
César e Roberto Dinamite, do Vasco, Serginho Chulapa, do São Paulo, Baltazar, do Grêmio. No amistoso
contra a Alemanha, no Maracanã, em março de 1982, escalou Careca pela primeira vez. Convenceu-se de
que esse era o nome ideal, mas o centroavante do Guarani sofreu uma lesão na fase final de preparação,
em Portugal. Serginho vestiu a camisa 9. Não combinava com o time técnico de Zico, Sócrates, Toninho
Cerezo, Falcão...
Falcão?
Pela primeira vez na história da Seleção, um jogador de clube estrangeiro era convocado para uma
Copa do Mundo. Falcão estava na Roma desde 1980 e só se juntou ao time na temporada em Portugal.
Dirceu, do Atlético de Madrid, também se uniu ao grupo. O time era técnico, cadenciava o jogo, tinha
posse de bola, mas não ocupava todos os espaços. Paulo Isidoro tinha de ocupar a ponta direita. Mas nem
sempre o fazia.
Então, Telê tomou a pior decisão. Trocou Paulo Isidoro por Dirceu no jogo de estreia contra os
soviéticos. Não funcionou e o Brasil perdeu o primeiro tempo por 1 X 0. No segundo, voltou com Paulo
Isidoro, virou com gols de Sócrates e Éder. Com o retorno de Toninho Cerezo, suspenso no primeiro
jogo, o quadrado de meio de campo mudou de novo. Ficou mais técnico, mas também mais centralizado.
Faltava alguém pela direita.
O time rodava a bola, mas não tinha velocidade em alguns momentos. Era lindo quando funcionava.
Pouca gente percebia os defeitos. Mas eles existiam e João Saldanha escrevia sobre eles.
Em três das quatro primeiras partidas da Copa, o Brasil sofreu gols – a exceção foi contra a Nova
Zelândia. Das quatro primeiras partidas, os italianos empataram três e ganharam uma. Eram fortes e
jogavam de um modo diferente da maior parte das equipes do mundo.
Cabrini subia forte pela esquerda, no espaço vazio do lado direito de Telê. Ninguém o acompanhava e
ele marcava quem chegasse por ali. Com cinco minutos, foi ao ataque livre e cruzou para Paolo Rossi
marcar 1 X 0. A Itália conhecia os erros brasileiros.
Oriali ficava pela direita marcando Éder, Gentile, o lateral-direito fechava como volante para
acompanhar Zico. Tardelli pegava Sócrates, Collovati pegava Serginho, Bruno Conti esperava Falcão,
Antognoni organizava, mas também marcava Cerezo. Nenhum jogador brasileiro tinha liberdade para
armar uma jogada.
Naquele tempo, futebol já era marcação e a Itália mostrava isso. O Brasil apresentava posse de bola,
belos passes, lindos gols, mas pouca competitividade. Não foi a melhor seleção que já tivemos, embora
seja uma das mais bonitas de se ver jogar.
Antes do início da Copa, um menino de 13 anos comprou a camisa da Seleção vendida nas lojas da
Caderneta de Poupança Continental. Tinha o símbolo da Topper no braço esquerdo, um ramo de café do
patrocinador do lado direito do peito e o escudo da CBF com a taça Jules Rimet no lado esquerdo, com
três estrelas acima. No dia em que o garoto comprou a camisa, disse a seu pai: “Pena que depois da Copa
haverá quatro estrelas”. Sábio, seu pai o advertiu: “era preciso jogar antes de festejar”. No dia 5 de
julho, por volta de 12h30, o mesmo garoto foi ao banheiro e rezou pela vitória brasileira. Ela não veio. O
garoto aprendeu que o jogo se ganha com trabalho, estudo e também talento. A Itália tinha tudo isso.
O garoto era eu.
Sistema: 4-2-2-2
Técnico: Telê Santana
... Ganhar como em 1994?
Brasil na Copa de 1994

C arlos Alberto Parreira, impassível, mantinha o corpo ereto enquanto se sentava numa cadeira
desconfortável, num hotel da cidade de Fullerton, nos arredores de Los Angeles, nos Estados
Unidos. Já era a reta final da Copa do Mundo, mas a fleuma de Parreira esteve intacta durante os 45
dias anteriores. Respondia a cada pergunta com a mesma elegância. Em Fullerton, eram mais
amenas. No início da preparação, na Universidade de Santa Clara, perto de São Francisco, a fúria dos
inquisidores era maior.
O futebol da Seleção era europeizado, questionavam. Parreira respondia com cuidado. Argumentava
que a defesa com quatro jogadores em linha, a bola no chão, a troca de passes, tudo isso era tradição do
futebol brasileiro.
A crítica justa poderia dizer que o Brasil de 1994 não era espetacular. Não era mesmo. Mas europeu?
Incrível notar que vinte anos atrás, às vésperas da Copa do Mundo de 1994, a maior ressalva que se
faz ao jogo brasileiro é não ser atualizado com tudo o que se faz na Europa. O estilo da Seleção passou a
ser pouco europeu...
Naquela época, não era nada. Nadinha!
Parreira era o inverso de Telê. Mas nem tanto. Se a Seleção de 1982 trocava passes insistentemente,
tinha posse de bola e sabia a hora certa de se infiltrar na defesa rival, o Brasil de 1994 fazia o mesmo. A
inspiração de Parreira era Sepp Herberger, o lendário técnico campeão mundial pela Alemanha em 1954.
“Futebol é um jogo de imposição de estilos.” O Brasil só queria impor seu estilo. Trocava passes quando
possuía a bola, recuava para marcar quando não a tinha.
Diferente do Barcelona dos anos 2010 e do Flamengo de 1981, faltava à equipe apenas a marcação por
pressão. Daí a impressão de o jogo ser chato. Toca, toca, toca, toca... e não sai do lugar.
"Lembro-me de um jogo do Bragantino dirigido por Parreira contra o Fluminense, nas Laranjeiras. Tínhamos de empatar e ele disse:
‘Agora você vai ver: vamos trocar passes e eles não vão tocar na bola’. Aconteceu exatamente isso e Parreira ria sem parar.
Divertia-se."

Recorda Marco Aurélio Cunha, médico do Bragantino na campanha do vice-campeonato brasileiro de


1991. A derrota daquele Bragantino veio só na final contra o São Paulo, de Telê Santana.
Aquela Seleção foi formada com o intuito de ter a bola desde o primeiro jogo, em outubro de 1991,
contra a Iugoslávia, em Varginha (MG). Vitória por 3 X 1 que teve Elivélton como destaque e apenas três
titulares que jogariam a final de três anos mais tarde: Márcio Santos, Mauro Silva e Bebeto. O time
tocava a bola e marcava.
Aquele time foi formado na adversidade, com o registro da primeira derrota da história num jogo de
eliminatórias. O Brasil perdeu por 2 X 0 para a Bolívia, em La Paz. Segurou o empate até os minutos
finais, quando Taffarel engoliu um peru. O goleiro treinava como zagueiro nessa época, pois o Parma
tinha quatro estrangeiros e só podia escalar três, pelas regras do Campeonato Italiano da temporada
1992/93. O técnico Nevio Scala preferia os jogadores de linha, o zagueiro Grun, os atacantes Brolin e
Asprilla. Na hora do jogo de competição, Taffarel não tinha ritmo, seus pés falhavam, suas mãos estavam
destreinadas. Deixou a bola passar entre as pernas na altitude de La Paz. O alívio só veio contra o
Uruguai, no Maracanã, com atuação impecável de Romário, convocado depois da lesão de Müller na
partida contra a Venezuela, duas semanas antes.
Romário fora afastado do trabalho em dezembro de 1992, dez meses antes de realizar uma das partidas
mais espetaculares na passagem pela Seleção. Rebelou-se por ser convocado como reserva num amistoso
contra a Alemanha, em Porto Alegre. Ficou no banco depois de ter dito não aceitar tal decisão. Zagallo
prometeu não convocá-lo mais.
Parreira convocou no aperto e Romário não desapontou nem nas eliminatórias nem na Copa do Mundo.
O primeiro gol da campanha nos Estados Unidos foi dele. Escanteio cobrado por Bebeto no estádio
Stanford, em Palo Alto, próximo a São Francisco. Desvio com a ponta do pé direito de Romário. O
segundo foi de Raí, de pênalti.
Raí era um capítulo à parte. Em junho de 1991, declarou à revista Placar que tinha tomado a decisão
no início daquele ano de se transformar no maior jogador em atividade no Brasil. Foi artilheiro do São
Paulo campeão brasileiro em 1991, goleador do Campeonato Paulista daquele ano e terminou a
temporada com o prestígio que antes parecia destinado a Neto, do Corinthians. Seria Raí, e não Neto, a
referência da equipe de Parreira.
E assim foi. No meio de 1992, vitória sobre a França no Parc des Princes, com gol de Raí. Mas
quando a Copa se aproximou, Raí já tinha se transferido do São Paulo para o Paris Saint-Germain (PSG),
depois de se sagrar campeão mundial em 1992 pelo Tricolor. Seu futebol já não brilhava tanto quanto
antes no PSG, apesar de ter ajudado a equipe a ser campeã francesa depois de oito anos.
Na Seleção não era assim. O Brasil da posse de bola e dos recuos estrategicamente pensados, o Brasil
criticado por seu jogo chato era também brilhante quando a bola caía nos pés de Romário e Bebeto.
Contra os Estados Unidos nas oitavas de final, Romário pegou a bola na intermediária e levou toda a
defesa americana. Não foi egoísta. Rolou de leve e deixou Bebeto frente a frente com o goleiro Meola. O
tiro certeiro encostou caprichosamente na trave direita e entrou. Gol do Brasil! Bebeto correu em direção
a Romário, com o dedo indicador apontando para o craque do time e soltou a frase traduzida a olho nu
pelos jornalistas brasileiros, antes do tempo da leitura labial: “Eu te amo, Romário!”.
Raí não era mais titular.
Foi nesse jogo, em São Francisco, que Müller saiu reclamando com Carlos Alberto Parreira, flagrado
pelas câmeras das emissoras de televisão do Brasil. A vitória seguinte, sobre a Holanda, foi construída
com a falta sofrida e cobrada por Branco, cometida por Overmars. Os dias anteriores à partida foram de
perguntas sobre Branco. Ele voltava a ser titular naquela partida, pois Leonardo foi expulso contra os
Estados Unidos. Teria de marcar Overmars, o ponta-direita da Holanda.
Não era bem assim. Overmars era ala, no sistema 3-5-2 do técnico Dick Advocaat. Ponta no Ajax,
teria também de marcar Branco. Não conseguiu. Em Dallas, Brasil 3 X 2 Holanda. Minutos depois do
jogo, Zagallo deu seu depoimento mais marcante: “Só faltam dois! Só faltam dois! Só faltam dois jogos!
E nós vamos ser tetra!”.
Semifinal em Pasadena, estádio Rose Bowl, perto de Los Angeles. Paciência era indispensável contra
a Suécia, adversário contra o qual o Brasil já havia empatado em Detroit, na primeira fase. Toca, toca,
tiki-taka, e nada do gol sair. Até os 39 do segundo tempo, quando Jorginho cruzou na medida e Romário
deslocou de cabeça. A fotografia de Nelson Coelho, da Placar, mostra o zagueiro Björklund caído,
enquanto Romário abre os braços e agradece os aplausos, como se fosse um maestro terminando o
espetáculo.
Faltava só a Itália na decisão e no primeiro encontro entre duas das melhores escolas do futebol
mundial depois da vitória da Azzurra no Sarriá, em 1982.
Tudo diferente da Copa da Espanha. O Brasil controlou a partida por mais tempo, teve a chance mais
clara de gol e Romário desperdiçou embaixo da trave. Foi ameaçado numa bola de Massaro, bem
defendida por Taffarel.
O calor de Los Angeles para uma partida iniciada ao meio-dia ajudou a tornar o jogo modorrento,
arrastando-se para a prorrogação e na sequência para os pênaltis.
Baresi iniciou a sequência chutando por cima. Márcio Santos bateu mal. Albertini, Romário, Evani e
Branco converteram. Massaro cobrou para defesa de Taffarel. Dunga marcou e Roberto Baggio chutou
por cima.
De todo o time de 1994, Dunga sempre foi o mais crítico em relação ao culto ao time de 1982. Foi
dele o gol do título, do último pênalti convertido. O placar final da disputa depois do tempo normal, da
prorrogação e da disputa por pênaltis? Brasil 3 X 2 Itália!

Sistema: 4-4-2
Técnico: Carlos Alberto Parreira
O outro lado
Itália na Copa de 1994

A Europa inteira começou a jogar com o líbero atrás dos zagueiros a partir do sucesso do Milan do
técnico Nereo Rocco, campeão da Copa dos Campeões em 1963. E começou a abandonar o líbero
depois de ver o Milan de Arrigo Sacchi ser bicampeão europeu nas temporadas 1988/89, 1989/90.
No final dos anos 1980, era comum ouvir repórteres e comentaristas brasileiros referindo-se a
Franco Baresi como o melhor líbero do planeta. Na Seleção Italiana de 1990, dirigida por Azeglio Vicini
e escalada num 3-5-2, Baresi era líbero. No Milan, não.
Desde o retorno do treinador Nils Liedholm, campeão como jogador em 1951, 1955, 1957 e 1959 e
como técnico em 1979, Baresi já atuava numa linha de quatro beques. Não era líbero, porque o Milan não
jogava assim. Era quarto-zagueiro.
Arrigo Sacchi chegou em 1987, contratado pelo presidente Silvio Berlusconi, um ano depois de o
magnata das comunicações da Itália – mais tarde primeiro-ministro – ter adquirido a maior parte das
ações do clube.
Sacchi ficou famoso ao eliminar o Milan da Copa Itália na temporada 1986/87 como técnico do Parma
e, por isso, foi chamado por Berlusconi. O presidente queria cativar novos torcedores, figurar nas
primeiras páginas dos jornais e entendeu a melhor maneira de fazer tudo isso: jogar bonito; contradizendo
a tradição de marcação forte e individual do futebol italiano.
Com Sacchi, o Milan se tornou uma equipe revolucionária. Marcava por zona, o que dava horror aos
italianos. Jogava no ataque, um escândalo para os conservadores. Usava linha de quatro jogadores na
defesa. Mas, principalmente, marcava por pressão e fazia linha de impedimento, repetindo um pouco do
que fez a Holanda na Copa de 1974. Além disso, no final dos anos 1980, a preparação física já era muito
mais apropriada. Dizia-se que os jogadores percorriam 12 quilômetros por partida, cinco a mais do que a
média dos que jogavam no início dos anos 1970.
Mas o que o Milan espetacular, bicampeão europeu em 1989 e 1990, tem a ver com a Copa do Mundo
de 1994? Tem Arrigo Sacchi.
No final da temporada 1990/91, eliminado nas quartas de final da Liga dos Campeões pelo Olympique
de Marseille e desgastado por problemas políticos com Silvio Berlusconi, Arrigo Sacchi pediu demissão
do Milan, cedendo o seu lugar para Fabio Capello e rumou para a Seleção Italiana.
O desgaste com Silvio Berlusconi começou antes até da conquista da primeira Liga dos Campeões. O
presidente queria aproveitar a terceira vaga de estrangeiro para escalar o argentino Claudio Borghi.
Berlusconi se encantou com Borghi desde a final do Mundial de Clubes de 1985. Jogando pelo
Argentinos Juniors, Borghi destruiu a Juventus, mas foi derrotado nos pênaltis.
Em 1988, Berlusconi queria o jogador. Sacchi preferia Frank Rijkaard – já contava com Marco van
Basten e Ruud Gullit. A história deu razão a Sacchi e Rijkaard marcou o gol do bicampeonato europeu
contra o Benfica. A derrota tirou a razão de Berlusconi.
Sacchi seguiu para a Seleção Italiana, o que não era comum naquele período. O técnico mais
respeitado da Itália, e o mais caro, assumia a Squadra Azzurra. E levava à Seleção o jeito de jogar do
Milan. Moderno, ousado, com linha de quatro homens na defesa, diminuição do espaço para os
adversários, marcação por pressão, linha de impedimento.
A Itália de Sacchi nunca foi tão forte quanto seu Milan. Mas viveu momentos gloriosos durante a
campanha da Copa do Mundo dos Estados Unidos.
Estreia em Nova York diante da enorme comunidade italiana da cidade. E com derrota, para festa da
também gigante comunidade irlandesa nova-iorquina. Irlanda 1 X 0 Itália.
Na segunda rodada, vitória insossa por 1 X 0 sobre a Noruega. O empate por 1 X 1 contra o México
deu a classificação, mas também o vexatório terceiro lugar na chave, à frente apenas da Noruega,
eliminada.
Bateu na trave também a classificação nas oitavas de final. O gol de empate contra a Nigéria aconteceu
apenas aos 44 minutos do segundo tempo, marcado por Roberto Baggio. Aos 13 minutos do primeiro
tempo da prorrogação, Roberto Baggio marcou o segundo e iniciou seu show particular.
Daí até a final da Copa, Baggio foi o craque. Ele era o jogador mais caro do planeta, vendido pela
Fiorentina à Juventus por 20 milhões de dólares. Jogava à frente de uma linha de quatro homens de meio
de campo, pouco atrás de Massaro, o outro atacante. Na prática, Arrigo Sacchi não tinha um
centroavante, mas dois pontas de lança de movimentação constante. A semifinal contra a Bulgária foi um
espetáculo à parte de Roberto Baggio. Em 25 minutos já tinha marcado dois gols, um em arrancada
fulminante, outro em tiro da meia-direita depois de receber passe preciso de Demetrio Albertini. Saiu de
campo machucado aos 26 minutos do segundo tempo, substituído por Giuseppe Signori.
O 4-4-2 de Arrigo Sacchi não era tão perfeito quanto no Milan, mas tinha um craque: Roberto Baggio.
Aliás, dois. Franco Baresi operou o joelho depois do segundo jogo contra a Noruega, recuperou-se em
inacreditáveis vinte dias e foi escalado para a decisão contra o Brasil. Foi o melhor em campo
disparado!!!
Os dois craques do time italiano, Baresi na defesa e Baggio no ataque, perderam os pênaltis e
decidiram a final da Copa a favor do Brasil.
Na entrevista coletiva, vinte minutos depois da decisão, Franco Baresi vestia uma camiseta polo de
cor salmão, levemente avermelhada. Seus olhos marejados pelo choro combinavam com o tom da
camiseta.
Sistema: 4-4-2
Técnico: Arrigo Sacchi
O pai do 4-2-4
Brasil na Copa de 1958/1962

A história conta que o Brasil de 1958 e de 1962 tinham exatamente a mesma formação. O time era
quase o mesmo, com pequenas sutilezas no posicionamento. Zagallo estava ainda mais habituado a
fazer o papel do meio-campista, voltando desde a ponta esquerda. O 4-3-3 estava mais sólido.
Então, pode-se dizer que a formação do Chile foi a continuação do que se fez na Suécia, quatro anos
antes.
“Os brasileiros adoram dizer que são os pais do 4-2-4, mas a história não é bem assim”, dizia o
goleiro húngaro Grosics, titular da fantástica Seleção Húngara vice-campeã mundial de 1954.
Atribui-se internacionalmente à seleção de Vicente Feola, no Mundial da Suécia, a criação do 4-2-4.
Ocorre que Feola foi assistente-técnico no São Paulo campeão paulista de 1957, período em que
trabalhou com o treinador Béla Guttmann. Húngaro!
Guttmann foi um cigano, que deixou seu país em 1956 junto com uma legião de craques descontentes
com a dependência à União Soviética por parte do governo de Budapeste. Na verdade, Guttmann deixou
Budapeste muito antes, mas retornou para se tornar o último técnico do histórico Honved, time no qual
jogou Ferenc Puskás, base da Seleção Húngara. Antes, foi jogador e deixou seu país em 1921 para atuar
na Áustria, por causa da perseguição aos judeus na Hungria. Foi a primeira mudança de endereço. Até o
final da vida, atravessaria 23 fronteiras e viveria em 23 países diferentes, sempre trabalhando com
futebol. Foi técnico do Milan, da Itália, entre 1953 e 1955, dirigiu o Benfica, de Portugal, e foi campeão
da Copa dos Campeões da Europa em 1961 e 1962.
Fez uma escala no Brasil, antes de seu breve segundo retorno a Budapeste. O primeiro aconteceu no
final dos anos 1940, quando assumiu o cargo de treinador do Kispest, clube que depois se chamaria
Honved. Chegou logo depois do final da Segunda Guerra Mundial para assumir o lugar que era do pai e
homônimo de Ferenc Puskás.
Isso mesmo, o pai do craque da Copa do Mundo de 1954 era o técnico do filho famoso no Kispest, no
final dos anos 1940. Béla Guttmann assumiu o posto depois da demissão do pai de Puskás e teve
problemas com o filho, tratado como príncipe enquanto o pai estava no comando.
Guttmann discutiu com Puskás, o filho, logo depois de uma derrota por 4 X 0 para o Gyor, sobre a
permanência do zagueiro Pathy na partida. Guttmann avisou ao beque que estava substituído no intervalo
da partida. Puskás informou-o que continuaria.
A briga entre Puskás e Guttmann só se resolveu depois do levante de outubro de 1956, na Hungria. Em
novembro, o Honved partiu para uma excursão à Europa, passou pela Espanha para amistoso contra o
Athletic Bilbao e anunciou que não retornaria a Budapeste até o final da crise.
Em janeiro de 1957, a delegação chegou ao Brasil para continuar a excursão. No comando técnico da
equipe, Béla Guttmann, que havia feito as pazes com Puskás depois do incidente com Páthy.
O Honved jogou no Rio de Janeiro contra o Botafogo, o Flamengo e contra um combinado das duas
equipes. Ao retornar à Europa Ocidental, a delegação do time tinha um desfalque: o técnico Béla
Guttmann ficou no Brasil e foi contratado pelo São Paulo.
“Foi o grande treinador do clube”, dizia o historiador Agnelo Di Lorenzo.
Guttmann dirigiu o São Paulo por pouco menos de um ano, mas montou uma equipe inesquecível. O
Tricolor Paulista contratou Zizinho do Bangu e este passou a vestir a camisa 10, a mesma de Puskás no
Honved, mas com papel diferente. Pela idade, jogava mais recuado. Em vez de ser o atacante, dono da
camisa 8 dos tempos da Copa do Mundo de 1950, Zizinho recuava e lançava. Também se aproximava da
área para finalizar, mas já sem a potência do passado. Assim, Maurinho e Canhoteiro eram pontas
avançados. Gino, o centroavante, e Amauri formavam a dupla de atacantes. Zizinho armava o time inteiro.
Foi o primeiro passo do 4-2-4 no Brasil, mesmo que se possa afirmar que o Villa Nova já atuava dessa
forma em 1951. Foi também a grande novidade aprendida por Vicente Feola, que já havia sido treiandor
da equipe em que brilhava Leônidas da Silva, bicampeã entre 1948 e 1949. Nessa época aprendeu a não
desrespeitar um talento.
A eleição da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) no início de 1958, com a vitória de João
Havelange para presidente e do dirigente são-paulino Paulo Machado de Carvalho na direção de futebol,
serviu para levar Feola à Seleção Brasileira, dessa vez, como chefe de uma comissão técnica que teria
várias vozes importantes e na qual palavra final seria a dele: o assistente de Béla Guttmann.
A influência húngara no futebol brasileiro veio desde a adoção do WM, introduzido aqui por Dori
Krüschner – nascido na Hungria – técnico do Flamengo em 1937. Guttmann ensinou os princípios
teóricos do 4-2-4.
Não era como na Seleção Húngara de 1954, quando o recuo era feito pelo centroavante que se tornava
amador. Feola ouviu os psicólogos antes de definir Garrincha na ponta-direita – e apenas no terceiro
jogo, contra os soviéticos. Didi retornava para armar o jogo.
O que decidiu a Copa do Mundo de 1958 foi o talento. Especialmente a partir das entradas de
Garrincha e Pelé, na terceira partida, contra a União Soviética. Mas organizar os talentos foi mérito de
Feola.
E do húngaro que nos ensinou o 4-2-4: Béla Guttmann.

Sistema: 4-2-4
Técnico: Vicente Feola
O nascimento do 4-2-4
Hungria na Copa de 1954

N ándor Hidegkuti não era um centroavante comum. Verdade que vestia a camisa 9, mas até esse
detalhe perde um pouco a relevância com a lembrança de que 1954 foi apenas a segunda Copa do
Mundo com números nas camisas. E a primeira com números fixos, entre 1 e 22.
Então, ser ou não o número 9 não significava necessariamente ser um homem gol. Na Seleção
Húngara de 1954 os artilheiros eram Kocsis, o camisa 8, e Puskás, o 10. Nas Olimpíadas de Helsinque,
em 1952, a Hungria recebeu a medalha de ouro graças aos gols da dupla. Kocsis marcou seis vezes,
Puskás anotou outras quatro.
Hidegkuti era o operário da camisa 9. Dos cinco atacantes, era quem mais recuava para formar uma
dupla de armadores com o volante Bozsik. Os pontas Budai e Czibor tinham a missão de abrir as defesas
rivais; Kocsis e Puskás entravam em diagonal.
É possível atribuir o sucesso da Hungria, o maior time do planeta no início da década de 1950, ao
trabalho tático e à novidade. Há quem diga que o 4-2-4 nasceu no interior de Minas Gerais, com o
técnico Martim Francisco, no Villa Nova. É impossível determinar se não apareceu num outro modesto
clube do interior da Hungria, ou da Inglaterra. Sabe-se apenas que os húngaros dominavam essa técnica.
O grande time surgiu a partir de 1951, época em que o Estado húngaro dominava praticamente sobre
todos os aspectos da vida social e cultural. Gustav Sebes foi levado ao segundo comando do Ministério
dos Esportes, mas trabalhava mais ativamente do que o ministro Gyula Hegyi. Sebes também dirigia o
Comitê Olímpico e passou a ser o homem forte da Seleção. Lia muito e era influenciado pelo trabalho de
treinadores do passado, como o italiano Vittorio Pozzo, bicampeão mundial pela Itália, e Hugo Meisl,
comandante do histórico time da Áustria, quarta colocada na Copa do Mundo de 1934. Sebes era o
mandachuva, mas abaixo dele estava o técnico Gyulia Mandi.
Sua estratégia foi montar a equipe com amistosos nos meios de semana no interior do país, onde a
torcida era mais paciente e era possível escalar jovens jogadores. Assim, foram entrando na equipe
talentos como Kocsis, Hidegkuti, Czibor – Puskás já fazia parte do time.
Hidegkuti era o meia. Até os zagueiros entenderem isso, muitas vezes já tinham saído da área e
liberado espaço para as investidas em diagonal de Kocsis e Puskás.
A estratégia também foi inspirada em outros dos que influenciaram Gustav Sebes. O treinador Márton
Bukovi, do MTK dos anos 1940. “Quando treinávamos no meio da semana, Bukovi mudava a posição de
todos os jogadores”, contou Hidegkuti.
Assim, o escrete húngaro somou 27 vitórias e quatro empates em 31 partidas entre 1950 e 1954.
Diferente do que se escreveu na maior parte da história, houve uma derrota no meio dessa sequência: 2 X
4 para a Suíça.
Tática mente.
A Hungria marcou dois gols contra todos os adversários nos primeiros vinte minutos em todos os jogos
da Copa do Mundo, exceto na semifinal contra o Uruguai, quando fez 1 X 0 aos 12 minutos e 2 X 0 aos
dois minutos da segunda etapa. A conta inclui a derrota na final por 3 X 2 para a Alemanha, acabando
com mito do escrete húngaro e com o sonho da conquista do Mundial.
Uma parcela significativa dos massacres húngaros não era respondida por questões táticas, mas
físicas. Os jogadores brasileiros se espantavam ao entrar em campo e perceber a Hungria se aquecendo
de maneira incessante. Imaginavam que os húngaros já começariam o jogo cansados.
Bobagem. Entravam em campo aquecidos.
Enquanto nos primeiros dez minutos os rivais procuravam o tempo certo de cada jogada, o ritmo
correto para acompanhar seus adversários, os húngaros estavam com os músculos prontos para
estraçalhar.
E não era pouco!
Dos 27 gols da campanha, nove foram marcados nos primeiros vinte minutos.
Hidegkuti tinha uma parcela de responsabilidade, por abrir espaços para seus colegas que chegavam
pelas meias.
Em Puskás, uma lenda do futebol, Puskás dizia:
"O desenvolvimento da estratégia do centroavante recuado – o sistema 4-2-4 com Hidegkuti no papel central – era nossa obra-
prima. Ele era um grande jogador e um maravilhoso conhecedor do jogo. Era perfeito, postado no meio de campo, fazendo os passes
certos, tirando a defesa adversária de formação."

Mas a parte tática não é responsável por todo o sucesso do escrete húngaro. A questão física
respondeu muito pelo sucesso do grande esquadrão vice-campeão mundial na Copa da Suíça.

Sistema: 4-2-4
Técnico: Gyula Mandi (Gustav Sebes)
Observação: este time sempre aparece escalado no WM. Aqui, a escalação está como era no 4-2-4.
Ideias demais, futebol de menos
Holanda na Copa de 1990

E m janeiro de 1986, os técnicos dos times holandeses debateram em um congresso em Amsterdã o


futebol recém-eliminado da Copa do Mundo do México. O debate travou-se principalmente entre
Johan Cruyff, técnico do Ajax, e a cúpula da Seleção Laranja: Rinus Michels, diretor-técnico, e Leo
Beenhakker, o treinador contratado às vésperas da eliminação.
Sabia-se que havia uma rivalidade grande de Cruyff com Michels – e com Beenhakker. Mas não
estavam claros os motivos do debate ocorrer em níveis tão altos.
Depois de um dia de discussões, Johan Cruyff leu nos jornais que os técnicos do Ajax, do Groningen,
do PSV Eindhoven e do Utrecht estavam de acordo em quase tudo sobre o futuro do futebol holandês.
Cruyff surpreendeu-se: “Li que estamos todos de acordo e levei um susto. Só estamos de acordo no fato
de que não há uma maneira única de as coisas serem feitas. Somente nisso”.
Um ponto era fundamental. Beenhakker acusava seu antecessor, Kees Rijvers, do fracasso na
classificação para a Copa do México. Ele assumira na reta de chegada, antes da repescagem contra a
Bélgica. Cruyff rebatia.
Havia também discussões conceituais e quase ideológicas. Michels e Beenhakker afirmavam que,
futuramente, o futebol holandês jogaria como o resto do mundo, com apenas dois atacantes. Cruyff
contestava: “Digam-me dois atacantes holandeses aptos a jogar assim. É preciso que sejam ótimos pelo
ar, mas não são”.
O conceito sempre deu razão a Cruyff, muito melhor nos debates do que seus oponentes. A prática
pareceu dar razão a Rinus Michels três anos mais tarde, quando a Holanda fez uma campanha quase
impecável na Eurocopa da Alemanha. Quase, porque começou com derrota para a União Soviética. Mas
na semifinal houve uma virada por 2 X 1 sobre a Alemanha em Hamburgo. Parece até hoje, para vários
holandeses, a revanche perfeita à derrota na final da Copa de 1974.
O time havia voltado a ser dirigido por Rinus Michels e atuava com dois atacantes: Wim Kieft e
Marco van Basten. Ou Gullit e van Basten infiltrados na grande área. Na decisão contra os soviéticos,
Ruud Gullit inaugurou o marcador. De cabeça!
Michels voltou à função de coordenador logo depois da Eurocopa. Problemas de saúde o tiraram do
banco de reservas e, para entrar em seu lugar, foi contratado Thijs Libregts. Outra escola, outra história.
Libregts era técnico do Feyenoord, pensava em futebol de modo antagônico a van Basten, Gullit e a
tradição do Ajax. Também, de maneira inversa ao Milan, no qual as principais estrelas daquela geração
brilhavam. Em vez de ataque, certo pragmatismo.
Ninguém confirma, mas os jogadores derrubaram Libregts logo depois de uma derrota da Holanda
campeã europeia contra o Brasil, em Roterdã, em dezembro de 1989. Em seu lugar assumiu Leo
Beenhakker, o velho inimigo de Johan Cruyff.
Importante dizer que durante todo o período de Libregts, os boatos de que Johan Cruyff assumiria –
emprestado temporariamente por seu clube, o Barcelona – se desfizeram com a declaração do maior
jogador que já vestiu a camisa laranja: “Só se for tudo do jeito em que acredito”, Cruyff afirmava.
Não seria. Não com Michels na direção de futebol da Seleção Holandesa.
O fiasco materializou-se pelas diferentes correntes, dentro e fora de campo. Os jogadores sonhavam
com Cruyff, aceitaram Beenhakker, estrearam com empate contra o Egito, ouviram críticas cruyffistas,
desfizeram-se em campo nas oitavas de final contra a Alemanha.
“O Egito é um país pequeno e muita gente se espanta de eles conseguirem jogar futebol. É claro que
jogam. Se você der espaço a eles, vão jogar mesmo!”, declarou Johan Cruyff.
A crítica era direta a Leo Beenhakker, seu desafeto. E ao fato de que aquela Holanda dava espaço
demais.
Mas talvez Cruyff não tenha percebido que a definição que durante anos ele próprio usou no Barcelona
servia também para definir sua relação com a Laranja Mecânica. “O maior inimigo está aqui mesmo!”, e
Cruyff era um deles.
Sem condições físicas, Marco van Basten se preparava para a terceira de suas seis cirurgias. Lembre-
se de que a primeira aconteceu porque Cruyff forçou a barra para ter van Basten em campo na final da
Recopa da Europa, contra o Lokomotive Leipzig. O jogador nunca mais foi o mesmo depois daquela
lesão no tornozelo.
A Holanda não podia mais ser igual ao time vencedor da Eurocopa.

Sistema: 3-5-2
Técnico: Leo Beenhakker
A formiga e a cigarra
Uruguai X Argentina na Copa de 1930

O livro foi publicado em Roma e trata da Storia critica del calcio italiano [História crítica do futebol
italiano]. Mas tem uma definição importante a respeito da decisão da Copa do Mundo de 1930, em
Montevidéu: “Os uruguaios eram as formigas e os argentinos, as cigarras”.
A definição do livro de Gianni Brera explica em parte por que os argentinos tiveram jogadores
extraordinários, times brilhantes, mas só chegaram a títulos intercontinentais nos anos 1970. Eram
talentosos e indisciplinados taticamente.
Os uruguaios se organizavam defensivamente, usavam as faltas como artifícios e apoiavam o jogo
ofensivo nos mais talentosos de seus jogadores.
O sistema das duas seleções era o 2-3-5.
O técnico Alberto Suppici dirigia a Seleção Uruguaia já na Olimpíada de Amsterdã, em 1928. Tinha
ligação íntima com o Nacional, clube em que encerrou a carreira de jogador em 1923.
E foi justamente o Nacional quem sugeriu à Associação Uruguaya de Fútbol sediar o primeiro Mundial
de futebol, em 1930. A Fifa recebeu outras candidaturas – Itália, Hungria, Suécia, Espanha e Holanda –,
mas julgou os méritos esportivos dos uruguaios – bicampeões olímpicos – suficientes para que fossem
escolhidos. Os candidatos derrotados decidiram boicotar a Copa do Mundo. Os uruguaios se encheram
de orgulho e decidiram levantar o maior estádio de futebol da época. Argumentavam que já havia outros
maiores na Europa, mas nenhum como o estádio Centenário, dedicado exclusivamente à prática do
futebol, que foi construído em tempo recorde – dez meses.
As tribunas homenagearam os títulos olímpicos. De um lado, a Tribuna Amsterdã, cidade onde a
Celeste conquistou sua segunda medalha de ouro. De outro, a Tribuna Colombes, estádio francês onde o
primeiro troféu olímpico foi vencido em 1924. A terceira se chamava Tribuna Olímpica, ao lado das
cabines de rádio.
A cereja do bolo, a melhor seleção do planeta – ou melhor, uma das melhores –, era a Argentina. Mais
talentosos, contavam com o centroavante que seria o goleador do primeiro Mundial, Guillermo Stábile.
Jogador do Huracán, disputou 119 partidas e marcou 102 gols entre 1924 e 1930, quando se transferiu
para o Genoa, da Itália.
A Argentina estreou com uma vitória magra sobre a França, por 1 X 0, gol do centro-médio Monti.
Goleou o México por 6 X 3, com os três gols do centroavante Stábile. Fez 3 X 1 no Chile e se classificou
para a decisão com goleada de 6 X 1 sobre os Estados Unidos.
O Uruguai debutou contra o Peru no estádio Centenário, ainda com a Tribuna Colombes incompleta e
em obras. O melhor jogador em campo foi o goleiro peruano Pardón. O técnico Suppici escalou cinco
jogadores do Nacional: o médio-direito Andrade, o ponta-direita Urdinarán, o meia Manco Castro, o
centroavante Petrone e o meia-esquerda Cea.
Dos jogadores históricos do Nacional que disputaram o bicampeonato olímpico, faltava o goleiro
Andrés Mazali, afastado do grupo por ter escapado da concentração com uma garota e ter sido
descoberto pelo técnico Suppici.
Houve quatro mudanças para o segundo jogo, dia 21 de junho, contra a Romênia. Saíram Tejera,
Urdinarán, Castro e Petrone, entraram Dorado, Scarone, Anselmo e Mascheroni – os três primeiros
marcaram e a goleada por 4 X 0 completou-se com gol de Cea.
O mesmo time goleou a Iugoslávia por 6 X 1 nas semifinais. Na final, apenas Manco Castro entrou no
lugar de Anselmo.
Com isso, Castro se tornava o meia e Cea virava o centroavante. Mudança sutil, porque naquele 2-3-5,
os dois meias e o centroavante se aproximavam em busca da grande área e do gol.
Castro foi o grande personagem daquela final. O apelido Manco vinha da perda do antebraço direito
na adolescência. Mas jogava com as pernas. E jogava muito. Participou de todos os gols e marcou o
último, da vitória por 4 X 2 do Uruguai sobre a Argentina. A Celeste Olímpica, apelido oferecido pelas
duas medalhas de ouro, agora era Celeste Mundial.
Além de Castro, houve um outro destaque, o árbitro belga Langenus, que expressou a tensão da partida
no livro Historia de Nacional [História do Nacional]. Ele relatou que, por questão de segurança, foram
vendidos apenas 90 mil ingressos, apesar de a capacidade do estádio ser de 100 mil pessoas, e que os
dirigentes europeus discutiam medidas para proteger os árbitros, por isso só ao meio-dia Langenus
recebera autorização para arbitrar. Além disso, cada time havia levado a sua bola e sustentavam que só
jogariam se usassem a própria bola, portanto a decisão foi levada à sorteio.
O jogo também teve um clima tenso. Segundo Lagenus, no primeiro tempo, com 2 X 1 para a Argentina,
os uruguaios defendiam que o segundo gol argentino havia sido feito com o jogador impedido. “[...] Se o
espírito da multidão tivesse sido belicoso, ali haveria acontecido muitos mais incidentes. Nada disso
ocorreu, embora os donos da casa estivessem tristes [...].”
Contudo, no segundo tempo, os uruguaios viraram o jogo e fecharam em 4 X 2. “Houve aplausos da
multidão, as tropas se alinharam e quando a bandeira uruguaia começou a se elevar lentamente no mastro,
começaram a cantar o hino.”
O árbitro então partiu rapidamente para o vestiário e descreveu que os argentinos o acusavam de ter
escapado com a ajuda da polícia, adicionando que só não puderam jogar livremente por risco de
receberem tiros – para ele, nada disso era verdade.
Langenus termina seu relato descrevendo a repercussão do jogo nos dois países: enquanto o Uruguai
estava envolvido na comemoração, a derrota sacudiu a Argentina, e os dirigentes, que haviam prometido
a vitória, renunciaram. Ao saber que a Argentina começara uma revolução e que o presidente Hipólito
Yrigoyen havia sido deposto, Langenus não teve dúvida: “[...] a derrota no Mundial não foi a causa da
revolução, mas sem dúvida ajudou para que ela não fosse evitada”.
URUGUAI
Sistema: 2-3-5
Técnico: Alberto Suppici
ARGENTINA
Sistema: 2-3-5
Técnico: Francisco Olazar
A volta dos pontas
França na Copa de 1998

D esde que Renato Gaúcho foi cortado da Seleção Brasileira, antes da Copa do Mundo de 1986, não
se ouvia mais falar em pontas. A não ser quando a referência era a lembrança do personagem Zé da
Galera, de Jô Soares, cobrando de Telê Santana pelo telefone a inclusão dos jogadores que atuam
pela borda do campo, carregam até a linha de fundo e cruzam na medida para o centroavante.
A Copa do Mundo de 1998 tornou visível o sistema 4-2-3-1 e marcou o retorno do 4-4-2 com duas
linhas de quatro homens e com jogadores bem abertos pela direita. No estádio Trois Sapins, na cidade de
Ozoir La Ferrière, onde treinava a Seleção Brasileira num 4-3-1-2 sem pontas, havia quem dissesse que
os pontas tinham voltado em seleções como a da Holanda e a da França. Outros discordavam. Diziam não
serem pontas, mas jogadores de meio de campo ocupando a lateral.
O jornalista Alberto Helena Jr. tinha a observação mais justa sobre a utilização dos jogadores pelos
lados do gramado: “Vocês acham que pontas são só os que vão à linha de fundo, mas houve pontas de
todos os estilos”.
Referia-se a Telê Santana e Zagallo, em parte das carreiras, pontas que recuavam para auxiliar o meio
de campo.
A seleção da França era a maior representante do 4-2-3-1, sistema que tomou conta do futebol mundial
na década de 2000. Mas não a inventora.
Na temporada 1996/97, o clube que jogava assim era o Barcelona, dirigido pelo técnico inglês Bobby
Robson, com o brasileiro Ronaldo, o Fenômeno, como maior destaque.
Robson escalava Figo na ponta direita, um atacante. Do lado oposto, fechava um pouco mais o meio de
campo com Luis Enrique, um meia. Duas características distintas exerciam funções parecidas. O
Barcelona atacava com Figo, bloqueava com Luis Enrique, mas os dois precisavam acompanhar os
laterais adversários e criar por seus setores. O Barcelona foi sensação do Campeonato Espanhol até a
reta de chegada, quando o Real Madrid o ultrapassou e ganhou o título. Fabio Capello, apontado por
muitos como retranqueiro e demitido do Real depois de ganhar a taça, usava um sistema parecido, mas
com um volante só e dois centroavantes. Redondo fazia a cabeça de área, Seedorf ocupava o lado direito,
Raúl jogava centralizado, Amavisca, um ponta, avançava pela esquerda. Na frente, Suker e Mijatovic. O
Real era mais combativo do que o Barcelona, mas tinha mais atacantes. Fechava pela direita com
Seedorf, um meia, avançava pela esquerda com Amavista, um ponta.
O Real Madrid ganhou o Campeonato Espanhol. O Barcelona foi campeão da Recopa Europeia.
Aimé Jacquet fazia o mesmo já nessa época.
O meia Djorkaeff fechava pelo lado direito e se aproximava de Zidane, meia revelado no Cannes,
brilhante na campanha do Bordeaux, vice-campeão da Copa da UEFA em 1996. O Bordeaux eliminou o
Milan nas quartas de final. O clube italiano se encantou por uma das duas estrelas do time francês. Entre
Zidane e Dugarry, escolheu Dugarry.
Quebrou a cara.
Do lado esquerdo da Seleção Francesa jogava Henry, garoto que disputou o Mundial sub-20 em 1997 e
foi negociado pelo Monaco com a Juventus, da Itália, em 1998. A França armava pela direita com
Djorkaeff e avançava pela esquerda com Henry, mas não tinha um bom centroavante.
Dugarry e Guivarc’h revezavam-se e nenhum dos dois convencia. A terceira opção era David
Trezeguet, argentino de nascimento, francês por opção, também titular da seleção do Mundial sub-20 de
1997. Não estava maduro.
Nem tanto quanto Henry, titular nos quatro primeiros jogos, até a França chegar às semifinais contra a
Itália. A dureza do adversário fez o técnico Aimé Jacquet escolher o volante Karembeu e mudar a cara da
equipe. Do 4-2-3-1 com Henry na ponta esquerda, a equipe passou a formar num 4-3-2-1, com Zidane e
Djorkaeff atrás do centroavante Guivarc’h.
A essa altura, Henry já havia marcado três vezes, uma na estreia contra a África do Sul, duas na
goleada por 4 X 0 sobre a Arábia Saudita, resultado responsável pela demissão do técnico brasileiro
Carlos Alberto Parreira do time árabe, em meio à primeira fase do Mundial.
Jacquet era um treinador experiente e conservador. Havia atingido o ápice no Bordeaux, campeão
francês da temporada 1986/87, equipe onde orientava os selecionáveis da Copa do México como o
zagueiro Battistton e o meia Jean Tigana. Aquele Bordeaux registrou o melhor ataque e a melhor defesa
da França, terminou quatro pontos acima do Olympique de Marseille, o segundo colocado.
A experiência daquela campanha balizaria suas decisões na reta de chegada da Copa do Mundo.
Daí o time mais fechado e marcador, em comparação com o que fez as quatro primeiras partidas do
Mundial. Os três gols de Thierry Henry fariam dele o artilheiro da campanha do título, mesmo sem jogar
no 11 inicial nas três últimas rodadas.
A Itália dirigida por Cesare Maldini utilizava duas linhas de quatro marcadores cada uma – Moriero
pela direita e o lateral improvisado Pessotto ocupavam as pontas. Liberava Del Piero para a criação e
confiava em Vieri para fazer os gols. Foi pouco para vencer o duelo das quartas de final, mas o bastante
para parar os franceses em Marselha. A vitória dos comandados de Aimé Jacquet veio apenas nos
pênaltis, no travessão com o volante Di Biagio chutando por cima a última cobrança.
A semifinal foi contra a estreante seleção da Croácia, herdeira da tradição da Iugoslávia, país do qual
havia se separado havia apenas sete anos.
O centroavante Suker – do Real Madrid – fez 1 X 0 no primeiro minuto do segundo tempo e obrigou os
franceses a uma virada que só seria possível por uma jornada inspiradíssima do lateral Thuram.
Taticamente, Djorkaeff se enfiava em diagonal e deixava o corredor direito livre para o lateral Thuram se
infiltrar.
A França sofria e isso aumentava a ideia de favoritismo do Brasil, apesar de a seleção dirigida por
Zagallo também ser inconsistente. Perdeu da Noruega a terceira partida de sua campanha, empatou a
semifinal contra a Holanda e jogou mal a maior parte do jogo, apesar de uma prorrogação espetacular.
Chegou à decisão por mérito do goleiro Taffarel, nos pênaltis cobrados por Phillip Cocu e Ronald de
Boer.
Um pouco do aparente favoritismo brasileiro vinha do fato de a seleção de Zagallo ter o melhor
jogador do planeta, eleito no ano anterior: Ronaldo. O mesmo que seria o alvo de todas as análises pelos
anos seguintes: Ronaldo teria sido vítima de uma convulsão, levado ao hospital e liberado para jogar.
Às 19h48 no horário parisiense, as escalações foram divulgadas com o número 21, Edmundo. Ronaldo,
o 9, estava no banco. Às 20h18, a escalação corrigida tinha Ronaldo, número 9, entre os titulares.
Ronaldo jogou. Ou melhor, entrou em campo. A França marcou 3 X 0, dois gols de cabeça de Zidane,
seus únicos naquele Mundial.
O Brasil estava apático, mas o capitão Dunga foi mais pragmático em sua entrevista coletiva depois da
partida: “Trabalhamos o suficiente para ser vice-campeões do mundo!”.
A França trabalhou o bastante para ganhar a Copa.
O primeiro campeão num 4-2-3-1.
Sistema: 4-2-3-1 (4-3-2-1)
Técnico: Aimé Jacquet
A experiência da derrota
Alemanha na Copa de 1974

O melhor momento da história da Seleção Alemã aconteceu dois anos antes de decidir a Copa do
Mundo contra a Holanda. Na Eurocopa da Bélgica, em 1972, um time extraordinário, com
Beckenbauer como líbero e o meia Netzer como cérebro do meio de campo, a Alemanha venceu a
Bélgica por 2 X 1 na semifinal, e por 3 X 0 sobre a União Soviética, na finalíssima.
A atuação contra a Bélgica foi razoável apenas. O jogo contra os soviéticos chamou a atenção de toda
a imprensa internacional como o melhor momento do futebol alemão desde 1937. O britânico Times
chamou o jogo germânico de elegante e inventivo. O italiano Corriere dello Sport definiu como brilhante
e genial. O belga La Libre chamou o time alemão de “o novo Wunderteam”, referência à Áustria, quarta
colocada na Copa do Mundo de 1934.
Pensar num confronto entre o Futebol Total e o antifutebol na decisão de Munique dois anos depois é
um exercício de incompreensão do que foram os seis primeiros anos da década de 1970.
A Holanda venceu com seus clubes as quatro primeiras edições da Copa dos Campeões da Europa
daquela década – Feyenoord em 1970, Ajax em 1971, 1972 e 1973.
Em seguida, o Bayern tomou conta e ganhou o tri até 1976. Gerd Müller, artilheiro do futebol mundial
em 1973 e da Copa de 1970, foi destaque nas duas finalíssimas. Fez dois gols na Eurocopa contra a
União Soviética, marcou mais um, o da taça, contra a Holanda em 1974.
Aquela Alemanha dirigida por Helmut Schön aprendeu a vencer perdendo. A Seleção vinha se
formando e se fortalecendo desde a Copa do Mundo de 1966, a primeira competição disputada com o
treinador – assistente de Sepp Herberger, o campeão mundial de 1954 – e a primeira disputa dos alemães
depois da adoção do profissionalismo, em 1963.
A Alemanha esteve muito perto de ganhar as duas Copas sucessivas à adoção do profissionalismo. Na
final de 1966, houve o gol de Geoff Hurst, sem a convicção de que o lance validado pelo árbitro suíço
Gottfried Dienst tenha de fato ultrapassado a linha fatal.
Houve outras questões envolvidas naquela decisão.
Helmut Schön, em seu primeiro Mundial, foi indeciso e agiu provavelmente de maneira equivocada em
duas decisões preliminares ao jogo final. Uma delas, quem seria o goleiro. Tilkowski, titular durante toda
a campanha, machucou o ombro gravemente na semifinal contra a União Soviética. Schön tinha duas
alternativas. Poderia escalar o goleiro Günther Bernard, do Werder Bremen, ou o novato e talentoso Sepp
Maier, do Bayern. Como nenhum deles tinha mais de quatro partidas internacionais no currículo, Schön
decidiu manter Tilkowski, mesmo lesionado.
A outra dúvida era sobre como marcar o armador inglês, Bobby Charlton. O craque poderia ser
seguido por qualquer jogador. Franz Beckenbauer, no Mundial inglês, não era líbero, mas volante.
Chegava ao ataque, fazia gols, criava. Schön decidiu usar seu poder na marcação de Bobby Charlton.
Não anulou o principal articulador da Inglaterra e ainda perdeu a criatividade de seu jogador mais
talentoso.
O assistente Dettmar Cramer, mais tarde treinador de Beckenbauer no Bayern campeão europeu,
ponderou que os alemães perderiam seu jogador mais criativo. Anos mais tarde, o meia Overtath
concordou que foi um erro, mas ponderou: “Houve outras decisões equivocadas. Schnellinger foi marcar
Alan Ball e seria mais útil acompanhando de perto Geoff Hurst, o autor de três gols”.
Nas quartas de final de 1970, a Alemanha venceu a Inglaterra, e o técnico Helmut Schön, quatro anos
mais experiente, pediu outra vez a Beckenbauer para acompanhar Bobby Charlton. Mas alertou: “Mas
faça seu jogo desta vez. Faça-o precisar marcar você!”. A Inglaterra fez dois gols e sofreu a virada.
Os alemães reclamam da sorte e do árbitro na semifinal contra a Itália, mas o cansaço também os
derrotou. Questionam decisões do árbitro em pênaltis sobre Beckenbauer e Seeler nos últimos minutos,
quando perdiam para a Itália por 1 X 0. Então, empataram o jogo por 1 X 1 com Schnellinger, ídolo do
Milan, atrapalhando a caminhada italiana para a final contra o Brasil.
E então a prorrogação fatal com vitória dos italianos por 4 X 3 alijou os alemães, que só seriam
campeões europeus com Helmut Schön no comando dois anos depois.
Esse time espetacular, muito bem treinado, organizado e com a experiência de duas derrotas nas
prorrogações, entrou na disputa da Copa do Mundo dentro de casa.
A equipe cuidou de cada detalhe. Das vitórias com gols de longa distância, como os de Breitner contra
o Chile, na primeira fase. Da derrota nunca comprovadamente proposital contra a Alemanha Oriental, gol
de Sparwasser, que colocou os alemães ocidentais num grupo teoricamente mais simples, contra suecos,
poloneses e iugoslavos, enquanto holandeses e brasileiros se matavam do outro lado. Os alemães
ocidentais nunca admitiram por algumas razões: os jogadores dizem que sabiam do interesse de Schön em
vencer, acima de tudo por mostrar imparcialidade – Schön nasceu em Dresden, em território alemão
oriental; e em segundo lugar, argumentam que os orientais estavam absolutamente relaxados pelo fato de
não serem favoritos. E os ocidentais sabiam que ninguém esperava deles menos do que uma goleada.
Com dez minutos, Schwarzenbeck tinha errado duas bolas e Sparwasser não marcou por incompetência.
De qualquer maneira, ou o nervosismo ou o acaso ou a estratégia levou a Alemanha Ocidental ao grupo
teoricamente mais simples.
Teoricamente, porque foi um parto a vitória por 4 X 2 sobre a Sué​cia, com gols de Grabowski aos 32
do segundo tempo e de Hoeness, de pênalti, no último minuto. Também não foi fácil a vitória por 1 X 0
sobre a Polônia, campeã olímpica em 1972. O timaço de Lato e Deyna vendeu caro a derrota no alagado
gramado de Frankfurt.
Choveu tanto a ponto de obrigar funcionários do estádio a tirar o excesso de água do gramado com
rodos. Gerd Müller fez 1 X 0, gol da classificação para a final aos 31 minutos do segundo tempo. Aos
oito minutos da segunda etapa, o goleiro polonês Tomaszewski defendeu um pênalti cobrado por
Hoeness.
O drama contrasta com a facilidade da classificação dos holandeses, vencedores contra o Brasil por 2
X 0 – correram riscos – e por 4 X 0 sobre a Argentina – com lições de Futebol Total.
A Holanda era um timaço.
A Alemanha, também.
E as lições da derrota fizeram Schön escolher estratégias mais vitoriosas. Como deixar o lateral Berti
Vogts encarregado da marcação a Johan Cruyff. Beckenbauer, o líbero, ficou na sobra e deu sempre o
primeiro passe, a primeira organização de jogo.
A Holanda confiante fez 1 X 0 de pênalti cobrado por Neeskens sem que a Alemanha tocasse a bola,
ainda no primeiro minuto. Os alemães corrigiram seu jogo e avançaram. Controlaram o meio de campo,
avançaram seu lateral-esquerdo Paul Breitner como se fosse um meia, enquanto Vogts marcava Cruyff e o
zagueiro Schwarzenbeck se ocupava de Rep.
Chegaram ao empate com Paul Breitner, que jamais havia perdido um mísero pênalti e cobrou com
perfeição aos 25 minutos do primeiro tempo.
E usaram o lado mais frágil da Holanda, o esquerdo da defesa, para que Banhof construísse a jogada
consolidada por Gerd Müller no final do primeiro tempo.
É possível dizer que a Alemanha era mais pragmática do que a Holanda. Mas dizer que o antifutebol
perdeu é desconhecer a construção de um time sólido, eficiente, que não foi superado nem pela fantástica
equipe holandesa.
Sistema: 4-3-3
Técnico: Helmut Schön
Os menottistas
Argentina na Copa de 1978

N o dia 30 de junho de 1974, a Argentina perdeu para o Brasil por 2 X 1 e foi eliminada da Copa do
Mundo da Alemanha. No dia seguinte, o noticiário em Buenos Aires não tratava da derrota. No dia
1o de julho, morreu Juan Domingo Perón.
Do pesadelo ao planejamento.
Ao final da Copa do Mundo de 1974, David Bracuto assumiu a presidência da Associación de Fútbol
Argentino (AFA) e iniciou o trabalho de reconstrução da Seleção.
Ou melhor, de construção.
Nunca antes uma Seleção Argentina tinha se formado com começo, meio e fim. Acreditavam no talento
dos jogadores, trocavam de técnicos como de camiseta e colecionavam derrotas em fases finais de
Mundiais.
Bracuto definiu a contratação de Cesar Luis Menotti e um trabalho em sequência até a Copa do Mundo
de 1978, que disputaria em casa.
Cesar Luis Menotti teve chance de assumir o posto dois anos antes de começar o trabalho, antes
mesmo da Copa do Mundo da Alemanha. Era o treinador do Huracán, campeão metropolitano em 1973.
Jogava futebol ofensivo e fazendo com que a alta qualidade técnica de seus jogadores representasse
ofensividade.
Jogavam Roganti; Chabay, Cantú, Basile e Carrascosa; Leone, Russo e Quiroga; Houseman, Del Valle
e Larrosa. Naquele mesmo ano, a direção da AFA procurou o treinador. Menotti afirmou que não
conversaria, enquanto o treinador titular, Omar Sivori, estivesse no posto. Não foi à Copa.
Mas Bracuto definiu sua presença no Mundial seguinte. E Menotti decidiu o que queria: organização.
Começou criando os seus mandamentos:
Terminarei com um vício: o jogador brasileiro quando corre não pensa e quando pensa não corre. Não
me interessa ganhar por 1 X 0 com gol de falta. Quero vencer por superar futebolisticamente o nosso
rival.
Tenho nomes que certamente chegarão ao Mundial. Não os conto nem ao meu pai.
Escolherei jogadores hábeis, com inteligência e bom gosto e como único argumento a busca do gol.
Isso no aspecto esportivo. E com sentido de solidariedade aos companheiros.
Não terei nenhuma trava para convocar os jogadores quando for necessário. A ideia é hierarquizar a
seleção.
Nesse ponto, queria o time nacional acima dos clubes. Se um dirigente ou treinador contestasse a
convocação, num tempo em que não havia datas pré-estabelecidas pela Fifa e os clubes podiam contestar
as convocações, Menotti clamou por um sentimento de prioridade à Seleção, que poderia ganhar a Copa
e mudar o panorama do futebol doméstico depois do torneio.
A prioridade à seleção foi verdadeira em relação aos clubes, não em comparação com a política. Em
24 de março de 1976, um golpe de Estado derrubou a presidente Isabelita Perón, viúva e sucessora de
Juan Domingo Perón, primeira mulher chefe de Estado de um país da América Latina. Na mesma noite, a
Argentina faria um amistoso na Polônia. Os jogadores quiseram adiar o jogo, preocupados com seus
familiares. A ditadura não permitiu nem deixou a televisão de Buenos Aires apresentar a partida ao vivo.
A Polônia venceu por 2 X 1.
Havia problemas em relação a alguns jogadores. Menotti não pôde contar com Norberto Alonso
durante a excursão, por um pedido de dispensa em função da gravidez de sua esposa. E Fillol, goleiro do
River Plate, não aceitava a reserva de Hugo Gatti.
Mas Menotti contornou os problemas e montou uma equipe ofensiva, sempre em busca do gol. O time
jogaria um futebol vistoso, alegre, o futebol-arte. Importava o ataque e o sistema adotado foi o 4-3-3.
Verdade que houve opções táticas. O ponta-esquerda Ortiz, de passagem pelo Grêmio, era mais defensivo
do que Houseman, titular do histórico Huracán. Mas não tinha fama de levar sua vida pessoal tão a sério.
Com Ortiz, Menotti liberava Mario Kempes como terceiro atacante para fazer gols, como gostava e
sabia.
Kempes foi revelado pelo Istituto de Córdoba, sua cidade natal, transferido para o Rosário Central em
1974 e vendido ao Valencia, da Espanha, em 1976. Não fez parte das primeiras listas de Menotti, mas já
tinha a experiência na fracassada campanha do Mundial de 1974, o que ajudava ainda mais no time
principal.
Naquele período, diferente do Brasil, a Argentina já exportava jogadores para os quatro cantos do
planeta.
No Mundial, a Seleção praticou seu melhor futebol na primeira fase. Sempre de virada. Na partida
contra a França, começou sofrendo um gol de Lacombe. Virou para 2 X 1. Fez o mesmo contra a Hungria,
mas sofreu no clássico contra a Itália. Uma bola lançada entre os dois zagueiros surpreendeu a defesa e o
atacante Roberto Bettega fez 1 X 0 para os italianos.
Isso jogou os argentinos para o grupo contra o Brasil.
Venceu a Polônia por 2 X 0, vingança do amistoso de dois anos antes, do golpe de Isabelita Perón.
Empatou com o Brasil em 0 X 0 numa partida que até hoje merece uma definição cruel dos analistas do
país: “A pior apresentação da Argentina de Menotti naquele Mundial”.
E então veio o jogo da grande polêmica contra o Peru.
“Não houve nada de anormal naquele jogo, tanto que mandamos na partida nos primeiros dez minutos e
chutamos uma bola na trave”, disse o zagueiro peruano Héctor Chumpitaz ao programa Bate Bola da
ESPN Brasil em 2007, às vésperas do jogo Peru X Brasil pelas eliminatórias da Copa do Mundo de
2010.
Mas houve quem dissesse que o goleiro Quiroga, peruano por adoção, argentino de nascimento, teria
participado do complô e favorecido seu país de origem.
Diga-se, Quiroga já tinha fama de frangueiro mesmo antes dos 6 X 0. A tradição dos goleiros peruanos
era de fragilidade embaixo das traves, desde Rubiños, o número 1 na Copa do Mundo de 1970, que
falhou feio num gol de Tostão, em Guadalajara.
A Argentina tinha de fazer 4 X 0 para superar o Brasil no saldo de gols – a Seleção Brasileira venceu
a Polônia por 3 X 1 e o Peru por 3 X 0. Com dois de Kempes, dois de Luque, um de Tarantini e outro de
Houseman, a Argentina classificou-se para a decisão.
O 4-3-3 de Menotti contra o 4-3-3 da Holanda, mais pragmática, do treinador austríaco Ernst Happel,
em comparação com a equipe de 1974.
A terceira decisão com prorrogação na história das Copas demonstra o equilíbrio, desmentido apenas
pela qualidade individual de Mario Kempes, o principal jogador daquele Mundial. Ou pelo planejamento
do trabalho de Menotti, desde 1974.
No último minuto do tempo normal, um chute do ponta-esquerda Rensenbrink, da Holanda, tocou
caprichosamente na trave do goleiro Ubaldo Fillol.
Em outros momentos, sem plano, no improviso, a bola batia na trave e tornava inevitável o fracasso.
Desta vez, garantiu o sucesso.
Sistema: 4-3-3
Técnico: Cesar Luis Menotti
Silêncio sobre o 3-5-2
Itália na Copa de 1982

J ogava-se com quatro zagueiros em linha ou com um líbero, atrás de outros três homens. E havia
poucas variantes para esses sistemas defensivos, com marcação por pressão, ou por zona,
dependendo do país, do estilo, do continente.
Era assim, antes de o alemão Sepp Piontek inaugurar o 3-5-2. Oficialmente a Eurocopa de 1984
apresentou ao mundo o novo sistema, que tinha por princípio básico manter apenas um homem na sobra.
Se todos os times jogavam com dois atacantes apenas – e havia pouquíssimas exceções naquele início
dos anos 1980 – por que ter quatro homens na defesa?
Verdade que nesse caso havia outras variáveis, como o futebol brasileiro com seus laterais subindo ao
ataque alternadamente. Funcionavam como elemento surpresa e não existia uma linha com quatro
defensores fixos, daqueles que nunca saem da frente da grande área.
Mas Piontek pensou de maneira mais radical. Manteve só dois zagueiros na marcação individual e
deixou o líbero fazendo a cobertura. O outro jogador a ser utilizado na linha defensiva passou a ser
escalado como armador.
Três na defesa, cinco no meio de campo, dois atacantes, como fazia a maior parte dos times fortes da
Europa.
A Dinamarca foi semifinalista da Eurocopa e reapareceu no cenário internacional, onde não figurava
desde 1964, quando também jogou a semifinal do campeonato europeu de seleções. Em 1986,
classificou-se pela primeira vez para a Copa do Mundo. Já merecia o apelido de Danish Dynamite,
traduzido para Dinamáquina, em português do Brasil. Ficou marcada como a criadora do 3-5-2.
Volte quatro anos no tempo, da Copa do México para a da Espanha. Lembra-se daquele time que
venceu o invencível Brasil de Telê Santana? Esqueça o preconceito de que o jogo feio venceu o futebol-
arte. Deixe de lado a ideia de que a Itália não tinha grandes jogadores. Veja só o desenho da equipe
italiana dirigida por Enzo Bearzot. Era o 3-5-2.
Vá lá que a Itália tivesse a tradição de jogar com um líbero, nesse caso o extraordinário Gaetano
Scirea. E de ter um lateral-direito defensivo, contraposto ao lateral-esquerdo atacante. Chamavam o
lateral-direito de terzino marcatore e o esquerdo de terzino fluidificante.
Na prática, o lateral-direito Gentile funcionava como zagueiro de caça ao atacante adversário e o
lateral-esquerdo Cabrini avançava pelo lado esquerdo do campo.
Transfira isso para o jogo contra o Brasil, no histórico estádio de Sarriá, em 5 de julho de 1982.
Bearzot teve uma série de problemas para chegar com força à quinta partida do Mundial.
Nas eliminatórias, o segundo lugar abaixo da Iugoslávia pegou mal. Também não teve boa repercussão
a primeira derrota da história para a Dinamarca – olha ela aí de novo. Em Copenhague, a Azzurra caiu
por 3 X 1.
As más notícias se somaram ao início da campanha na Copa do Mundo. Antes mesmo da estreia, os
jogadores já haviam decretado greve de silêncio, em protesto contra as críticas – justas – da imprensa
italiana.
Silenzio Stampa!
Os empates contra a Polônia por 0 X 0, contra o Peru por 1 X 1 e principalmente contra Camarões,
estreante em Copas do Mundo, por 1 X 1, ampliaram a ideia de que a Itália seria o fiasco do grupo da
segunda fase, contra Argentina e Brasil.
A única boa notícia em muitos meses foi o retorno de Paolo Rossi. Em abril, estreou pela Juventus,
dois anos depois de ser suspenso por ocultar informações no caso do escândalo da loteria esportiva.
Na época, era centroavante do Perugia, vice-campeão italiano de 1979.
Já tinha experiência de um Mundial, em 1978, na Argentina, quando foi suspenso por dois anos. Pelo
talento, a Juventus decidiu contratá-lo e esperar até poder escalá-lo. E Bearzot o convocou para a Copa
do Mundo às cegas. Fez cinco jogos antes da viagem para a Espanha. E nenhum gol até a partida contra o
Brasil. Passou em branco contra a Polônia, contra o Peru (gol de Bruno Conti), contra Camarões (gol de
Graziani), contra a Argentina (gols de Tardelli e Cabrini).
Então, com oito minutos de jogo contra o Brasil, o lateral ofensivo Cabrini cruzou no segundo pau,
Paolo Rossi entrou de surpresa por trás da defesa e cabeceou para o fundo da rede de Valdir Peres.
O sistema de Enzo Bearzot privilegiava Paolo Rossi. Sua função dali até o final do Mundial foi fazer
os gols. Tirando o centroavante, cada jogador tinha sua utilidade tática.
Scirea era o líbero. Dava o primeiro passe, com visão de jogo. Collovati marcava o centroavante
Serginho e Gentile acompanhava o ponta de lança Zico.
Pela direita, o volante Oriali fazia o papel de ala, marcava Éder. Pela esquerda, Cabrini atacava e
marcava quem caísse por aquele setor, muitas vezes o lateral Leandro.
Conti era um meia-direita, embora chamado de ponta por toda a imprensa internacional. Jogava por
dentro, perto de Tardelli, o volante. Os dois acompanhavam Sócrates e Falcão.
Antognoni, o homem criativo do meio de campo, fazia a bola chegar ao ataque, mas também
acompanhava de perto Toninho Cerezo, bom volante brasileiro, de ótimo passe.
Graziani marcava a saída dos laterais e aproximava-se de Paolo Rossi. Sim, tinha um goleiro.
Zoff, aos quarenta anos, consagrou-se como o grande capitão da conquista do terceiro título mundial da
Itália. Quatro anos antes, tinha saído sob críticas pelos gols sofridos contra Haan, da Holanda, e Nelinho,
do Brasil.
O 3-5-2 nasceu dois anos antes de ser popularizado.
Mas além do líbero no sistema de três zagueiros, também tinha um grande goleiro.
Sistema: 3-5-2
Técnico: Enzo Bearzot
Os Onze da Breslávia
Alemanha em 1936, rumo à Copa de 1938

N enhuma seleção do planeta teve tanta continuidade ao longo de um século quanto a da Alemanha. As
diferenças só foram mais drásticas no comecinho da história do país. A culpa seria do primeiro dos
treinadores da linha de sucessão da continuidade, Otto Nerz. O mérito de dar continuidade e chegar
até 1954 com um time capaz de ser campeão mundial pela primeira vez foi do assistente de Nerz na
fase anterior à Segunda Guerra Mundial: Sepp Herberger.
“O futebol é um jogo de imposição de estilos, como sempre disse Sepp Herberger.” A frase foi
escutada no Brasil por muitos anos na voz de Carlos Alberto Parreira, que citou Herberger diversas
vezes nas passagens pela seleção de 1991 a 1994 e de 2003 a 2006.
Herberger era o assistente técnico de Otto Nerz durante as Olimpíadas de Berlim, em 1936, marcadas
pela vitória do velocista negro Jesse Owens, nos cem metros rasos, diante dos olhos de Adolf Hitler. A
grande derrota do Führer no esporte tinha de ser respondida por alguma modalidade alemã nos dias
sucessivos.
Hitler foi aconselhado a assistir às provas de polo, mas um de seus conselheiros, Albert Forster,
sugeriu o futebol.
A Alemanha não tinha um time forte, mas havia aplicado nove gols em Luxemburgo e a informação caiu
bem aos ouvidos de Hitler. Lá se foi ele com seu séquito para o Berlin Poststadion disposto a ver o
triunfo de seu povo, quatro dias após abandonar enfurecido o estádio olímpico assim que a medalha de
ouro foi confirmada para Jesse Owens e antes de ela ser posta no peito do velocista americano: “Você
acha mesmo que me deixaria fotografar com um negro?”, relata o livro Tor! – The story of German
football [Tor! – A história do futebol alemão], de Ulrich Hesse-Lichtenberger, sobre uma suposta frase de
Hitler ao deixar o local.
No Poststadion, Hitler assistiu apenas a um pedaço da partida de futebol entre Alemanha e Noruega.
Sentou-se ao lado do ministro da propaganda, Joseph Goebbels. Foi o ministro quem observou aos
interlocutores a reação de Hitler aos sete minutos, quando a Noruega vencia por 1 X 0: “O Führer está
muito agitado!”. Cinco minutos antes do fim da partida, os noruegueses fizeram 2 X 0 e a irritação foi um
pouco maior pelo nome judeu do atacante Isaksen.
Hitler levantou-se e deixou o campo alucinadamente. Otto Nerz prosseguiu seu trabalho, mas nunca
mais com a mesma autonomia.
Naquele dia, o assistente Sepp Herberger havia se deslocado para observar o jogo entre Suécia e
Japão, possíveis adversários na sequência da campanha alemã. Voltou ao alojamento e, enquanto jantava,
perguntou o resultado de Noruega X Alemanha. Ouviu em silêncio, abaixou a cabeça e continuou
comendo.
Sabia que a vida mudaria e a pressão sobre a seleção seria muito mais forte.
Otto Nerz não foi afastado oficialmente, mas mandado para a academia do exército. Herberger foi
promovido a supervisor, mas passou a exercer na prática a função de treinador.
O ano seguinte começou com quatro vitórias e com um amistoso marcado contra a Dinamarca em
Breslávia, na época território alemão, hoje parte da Polônia. Duas semanas antes do jogo, Otto Nerz deu
a Sepp Herberger um pedaço de papel com a escalação que supunha ser a mais adequada. Afastado, Nerz
continuou como conselheiro. Herberger ouvia a tudo. E aproveitava as opiniões como lhe pareciam mais
convenientes.
Sepp Herberger fez três mudanças e formou a equipe: Jakob, Janes e Münzenberg; Kupfer, Goldbrunner
e Kitzinger; Lehner, Gellesch, Siffling, Szepan e Urban.
Gellesch e Urban, do Schalke, eram jogadores fundamentais na visão de Herberger.
Só dois times da história da Seleção Alemã mereceram tanta fama quanto o Breslau Elf [Os Onze da
Breslávia]: o Milagre de Berna, o time da final de 1954, e o da final da Eurocopa de 1972, com Gunther
Netzer brilhantemente eleito o melhor jogador da Europa.
A vitória por 8 X 0 forjou o estilo do futebol alemão, uma mistura entre o estilo danubiano e o do sul
bavariano. Um mix entre as bolas longas dos ingleses e os toques de bola no chão dos escoceses.
Esse estilo misturou-se ao dos austríacos. Em 1934, o maior time daquela região, o Wunderteam,
dirigido pelo técnico Hugo Meisl e com o centroavante Mathias Sindelar, que encantava a ponto de
receber o apelido de Homem de Papel, terminou a Copa em quarto lugar.
Nos anos seguintes, a Áustria anexada levou também cinco jogadores extraordinários a vestir a camisa
da velha Prússia.
A seleção com os austríacos não fez boa campanha na Copa do Mundo de 1938, talvez pela rivalidade
entre dois países adversários que nada tinham a ver um com o outro e com a raiva da anexação no
coração dos jogadores. Mas estava montado o esboço da escola alemã.
O esboço para o Milagre de Berna explica por que a Alemanha chegou forte e determinada para vencer
a Hungria em 1954.
Os austríacos seguiram anexados e humilharam Hitler, que viu o Rapid Viena campeão da Alemanha
em 1942. Herberger tinha suas relações com o governo nazista. Há cartas que indicam o respeito que
desfrutava das autoridades de Hitler. Talvez por isso tenha conseguido manter a seleção em atividade.
Em 1 de setembro de 1939, o Führer anunciou a anexação da Polônia. Em 5 de setembro, Herberger já
tinha perdido nove jogadores titulares para o Exército. Daí até 1942, a seleção disputou 25 partidas
amistosas.
Apesar disso, ele nunca foi visto com um membro do governo nazista, diferente de Otto Nerz,
condenado depois da guerra e morto em 1949. Herberger seguiu seu trabalho durante e depois da
Segunda Guerra Mundial.
Em 1940, Herberger provocou a estreia de um garoto nascido a quarenta quilômetros de sua cidade
natal, Mannheim. Tratava-se de Fritz Walter, do Kaiserslautern, o maior jogador alemão antes do
surgimento de Franz Beckenbauer, e o capitão em Berna, em 1954. Dos 25 amistosos entre 1939 e 1942,
Walter jogou 23.
Um dos garotos desse time sofria com problemas do joelho, o que evitou sua convocação ao Exército.
Disputou apenas cinco das 25 partidas entre 1939 e 1942. Era Helmut Schön, escudeiro fiel de Sepp
Herberger e seu sucessor anos depois.
A linha de passagem de um técnico a outro prosseguiu até 1998, quando Berti Vogts deu o lugar a Erich
Ribbeck, o sétimo treinador da história da seleção alemã – foram dez até 2014.
Nada disso explica exatamente a vitória sobre a Hungria, que você lerá no próximo capítulo. Explica
mais: a força do futebol alemão no decorrer das sete décadas sucessivas.
Sistema: 2-3-5
Técnico: Sepp Herberger (Otto Nerz)
O Milagre de Berna
Alemanha na Copa de 1954

D ois dias antes de enfrentar a Hungria pela segunda vez na Copa do Mundo de 1954, o técnico Sepp
Herberger reuniu seus jogadores e apresentou o filme da partida de Hungria 6 X 3 Inglaterra, do ano
anterior. Não eram tão usuais palestras assim naquele tempo, ainda mais porque Herberger chamou a
atenção com flechas para pedaços do jogo em que a Inglaterra também incomodava os húngaros.
Os jogadores descobriram que havia espaços. Pensaram: “Há espaços! Então, eles não são
imbatíveis!”.
A descrição é feita no livro Tor!, de Ulrich Hesse-Lichtenberger. O livro também descreve a suposta
arrogância de que os alemães são acusados. Narra o sentimento como semelhante ao de brasileiros e
holandeses, por se sentirem muito fortes quando o assunto é futebol.
De fato, arrogância é a confiança sem a mistura adequada de respeito pelo adversário.
Aquela Alemanha não tinha isso, porque jamais havia conquistado um torneio internacional e seus
jogadores não eram campeões nacionais. Ao contrário. Três semanas antes da estreia na Copa do Mundo
da Suíça, Sepp Herberger foi a Hamburgo assistir à decisão do Campeonato Alemão entre Kaiserslautern
e Hannover. Quando o Kaiserslautern levou o quinto gol e consolidou o vexame com 5 X 1 no marcador,
a torcida olhou para as tribunas e começou a gritar o nome do treinador. “Eles olhavam para mim como
se dissessem: olha o que estão fazendo os seus queridinhos”, confessou Herberger antes da morte.
Os zagueiros Liebrich, Eckel e Kohlmeyer, os irmãos Ottmar e Fritz Walter, todos pertenciam ao
Kaiserslautern. A cobrança parecia justa.
Mas Herberger tinha convicções que só a morte tirou. Além da confiança nos cinco titulares do
Kaiserslautern, também precisava do ponta-direita Helmut Rahn, do Rot-Weiss Essen.
Rahn foi protagonista de uma história inversa à que acontece no futebol mundial desde a década de
1980. Numa excursão do Rot-Weiss à América do Sul, seduziu dirigentes do Independiente, Peñarol e
Nacional de Montevidéu, que tentaram convencê-lo a ficar do outro lado do Oceano.
Não ficou.
Outra das convicções de Herberger era que o próximo adversário seria sempre o mais difícil, nunca o
anterior, com o que convencia seus jogadores a entender a dificuldade das partidas. Nem tão difícil que
não pudesse ser vencida, nem tão fácil que não fosse perigosa.
Às vezes era diferente. Por exemplo, depois de vencer a Turquia na estreia na Copa do Mundo, ser
derrotada pela Hungria seria sabidamente apenas o caminho para chegar ao jogo desempate previsto no
estranho regulamento criado pelos suíços. Durante muitos anos, Herberger foi questionado se entrou com
reservas contra os húngaros por tentar enganá-los, com um nível de atuação inferior ao que seria
apresentado na finalíssima. Sempre desconversou.
Os historiadores alemães garantem que queria menos do que enganar os húngaros. Almejava somente
preservar seus jogadores para a batalha mais certa, a da classificação para as quartas de final, de novo
contra os turcos. A derrota por 8 X 3 para a Hungria não teve importância, porque a vitória por 7 X 2
sobre a Turquia no jogo desempate levou à sequência da Copa. Naquele jogo, Liebrich, um de seus
prediletos, fez a outra parte do serviço ao acertar Puskás e tirá-lo de ação depois da segunda partida.
Veio o jogo contra a Iugoslávia, que os alemães encararam com raiva, por assistirem ao time rival ser
condecorado antes da partida começar. Branko Zebec, um dos principais jogadores, recebeu homenagens
pelos serviços prestados à seleção. Nada contra os alemães, mas os súditos de Sepp Herberger
interpretaram como arrogância iugoslava e fizeram uma partida exemplar, vencida por 2 X 0.
Na semifinal, a Alemanha jogou de camisas verdes, seu uniforme de visitante. Lembrança da decisão
de terceiro e quarto lugares da Copa do Mundo de 1934, quando a Alemanha venceu os austríacos.
Desta vez, trucidou-os por 6 X 1. O relato da revista Kicker diz que a Alemanha atropelou os
austríacos, que vinham de uma vitória por 7 X 5 sobre a Suíça, dona da casa.
Contra a Áustria, Sepp Herberger tirou o zagueiro Laband e escalou Posipal. E assim formou-se o time
titular, que disputou apenas duas partidas durante toda a sua história: Turek, Posipal, Liebrich e
Kohlmeyer; Eckel e Mai; Rahn, Morlock, Ottmar Walter, Fritz Walter e Schäfer.
A questão era assistir ao filme da partida Hungria X Inglaterra, ganhar confiança e jogar a final. E
jogar debaixo de chuva, clima do verão suíço.
O capitão Fritz Walter tinha uma história com aquele tipo de clima. Durante a guerra, pegou malária no
verão europeu. Odiava o calor. Adorava jogar debaixo de chuva, quando seus chutes e lançamentos
pareciam funcionar melhor. Também funcionava melhor seu entrosamento com Helmut Rahn. Fritz Walter
era o passador, Rahn, o ponta, a velocidade, a finalização.
Até hoje, em algumas regiões da Alemanha, o clima chuvoso é chamado de “dia Fritz Walter”.
Mas os húngaros fizeram 2 X 0 em oito minutos.
E depois? Morlock aos 11 e Rahn aos 18 empataram a partida. Até o gol de Rahn, da vitória, do
milagre, aos 39 minutos do segundo tempo.
O gol na Alemanha ficou conhecido pela narração de Herbert Zimmermann: “Rahn chuta! Gol!”. E
então, oito segundos de silêncio de Zimmermann, que ele definiu como o tempo necessário para saber se
seus olhos estavam vendo corretamente.
A Alemanha estava na frente: 3 X 2. “Me chamem de louco! Me chamem de louco!”, dizia
Zimmermann.
Ele não estava.
A história do futebol alemão, do Brauslen Elf em 1934 até Berna, explica um pouco o milagre. Mas a
melhor definição é a de Ulrich Hesse-Lichtenberger, em seu livro: “Naquele Alemanha X Hungria, a
Alemanha jogou muito melhor do que os livros de história costumam contar”.
Sistema: WM
Técnico: Sepp Herberger (Otto Nerz)
Ganhar assim é melhor
Brasil na Copa de 2002

S e você até hoje tem dúvidas se é melhor ganhar como em 1994 ou perder como em 1982, se não
consegue se convencer dos méritos do time de Parreira, mas não gosta do sofrimento que Telê lhe
causou, pense nisso.
O Brasil de 2002 foi a única seleção na história das Copas a vencer todos os sete jogos para ser
campeã – a seleção de Pelé venceu seis, em 1970. Teve o melhor ataque, com 19 gols marcados e sofreu
apenas quatro. O artilheiro de seu time foi também o goleador da Copa, Ronaldo, quebrando um
incômodo tabu de o principal anotador não superar a marca de seis gols – Ronaldo fez oito. E para
muitos, Rivaldo jogou mais durante a competição do que Ronaldo.
Se você pensar que exatamente 364 dias antes o técnico Luiz Felipe estreou com derrota para o
Uruguai e que se dizia que o futebol brasileiro estava na mais profunda crise de sua história ao ser
derrotado por Honduras na quinta partida de sua trajetória, a campanha no Oriente foi surpreendente. Os
hondurenhos eliminaram o Brasil da Copa América da Colômbia em 2001, no estádio Palo Grande, em
Manizales. Parecia o fundo do poço do futebol brasileiro. Lembre-se desse contexto e verá que a
conquista não foi pequena, mas enorme!
Um mês depois da derrota para Honduras, o Brasil se preparava para enfrentar o Paraguai e um
telefonema para o técnico da Seleção Guarani foi elucidativo. Questionei o que pensava da crise do
futebol brasileiro. O uruguaio Sergio Markarián respondeu:
"Que crise? Crise vocês tinham nos anos 1970, quando o futebol tinha mudado e vocês não conseguiam encontrar a mistura certa
entre o jogador técnico e o físico. Desde o final dos anos 1990, com o auxílio dos preparadores físicos, o Brasil passou a ter o tipo de
jogador de futebol que o mundo inteiro deseja. O que mescla força, velocidade e muita técnica."

Markarián estava tão certo que a Seleção Paraguaia foi derrotada pelo Brasil duas semanas depois,
por 2 X 0, em Porto Alegre. Aquele foi apenas o sétimo jogo sob o comando de Felipão, apenas a quarta
vitória. De 1o de julho, quando estreou, até 30 de junho de 2002, quando foi campeão do mundo, Felipão
convocou sessenta jogadores e testou tudo o que viu de novidade.
Até inaugurar um sistema tático completamente novo na sua carreira – e também na Seleção Brasileira.
Algo que pode ser chamado de 3-4-2-1.
O objetivo era privilegiar o trio ofensivo, formado por Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, completado por
Ronaldo no ataque.
Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo jogavam à frente de uma linha de quatro homens, composta por dois
alas, um meia – Juninho Paulista – e um volante. E atrás de Ronaldo, o centroavante isolado, capaz de
destruir quase sozinho as defesas inimigas. Quase, porque Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho se
aproximavam, vindo de trás, para auxiliar o atacante, apelidado de Fenômeno na Europa.
Poucos acreditavam que Ronaldo e Rivaldo pudessem jogar o Mundial. Dois anos antes, Ronaldo
sofreu ruptura completa do tendão patelar. Era seu jogo de retorno, Lazio X Internazionale disputando a
final da Copa Itália no estádio Olímpico de Roma, e também seu retorno de lesão grave no joelho.
Disputou seis minutos de partida e caiu, via satélite, para todo o mundo assistir ao seu infortúnio. Muitos
apostaram que ele jamais jogaria de novo. Jogou! Muito!
A descrença e os maus resultados entre a contratação de Felipão e a aproximação da Copa do Mundo
produziram críticas de todos os tipos e calibres.
Menos uma.
Diferente de 1994, quando Carlos Alberto Parreira era acusado de europeizar a Seleção Brasileira,
Felipão nunca recebeu essa pecha. Curioso. Felipão era mais gaúcho, mais pragmático e mais defensivo
do que Parreira em sua história de formar times competitivos. E escalava três zagueiros, como Lazaroni
em 1990 – diferente de Parreira em 1994.
Rivaldo, a seis meses da Copa, teve uma lesão de joelho diagnosticada. O departamento médico do
Barcelona contestava os diagnósticos da CBF e jurava que ele não teria condição se jogar a Copa. Teve.
E muita!
Com os dois em campo, o Brasil estreou contra a Turquia num clima diferente do que Felipão assumiu.
Sofreu 1 X 0 da boa equipe turca, mas virou o marcador – verdade que com pênalti inexistente marcado
sobre Luizão e cobrado com maestria por Rivaldo.
Goleou a Costa Rica e a China, avançou para a segunda fase, para enfrentar a Bélgica.
Até ali, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho destruíam. Eram os destaques do time, junto com Cafu
e Roberto Carlos. Era o jogo mais importante da campanha, porque o mau desempenho do primeiro
tempo fez Felipão trocar Juninho Paulista por Denilson aos 12 minutos do segundo tempo e colocar
Kléberson no lugar de Ronaldinho Gaúcho aos 36.
Kléberson então assumiu a posição de titular, e o time encorpou.
Kléberson tinha realizado um Campeonato Brasileiro estupendo pelo Atlético Paranaense, campeão em
2001. Desarmava como cabeça de área brucutu e construía o jogo como meia condutor de bola e criativo.
Fazia o que Vampeta, um ano antes, conseguia de maneira incomparável. Mas a Copa da Ásia era o
tempo de Kléberson.
E de Rivaldo... atuação irrepreensível no segundo tempo contra a Bélgica, um gol belíssimo, e a
proximidade de igualar Jairzinho, o único brasileiro a fazer gols em todos os jogos.
Rivaldo também marcou nas quartas de final contra a Inglaterra e só perdeu a chance do recorde contra
a Turquia, nas semifinais, vitória por 1 X 0 com gol de Ronaldo.
As quartas de final foram de Ronaldinho Gaúcho, condutor da bola da grande área do campo de defesa
até rolar e deixar Rivaldo frente a frente com o goleiro Seaman, para empatar um jogo cujo placar se
abriu com gol do inglês Michael Owen por falha individual do zagueiro Lúcio.
As semifinais foram de Ronaldo. Mas só o segundo tempo, depois de o Brasil inteiro ouvir a
transmissão da TV Globo dizer que era preciso substituir o Fenômeno. O gol da vitória, de bico, foi a
prova de que Ronaldo era o cara mais decisivo.
A final, com atuação impecável do goleiro Marcos, do volante Kléberson, de Roberto Carlos, de
Rivaldo.... Mas os dois gols de Ronaldo levaram-no aos oito gols, número inalcançável para todos os
artilheiros das Copas desde que Gerd Müller marcou dez em 1970.
Em 1974, Lato da Polônia marcou sete vezes. Entre 1978 e 1998, o goleador dos mundiais sempre
anotou seis gols. Ronaldo marcou oito.
Mas com a inestimável colaboração de Rivaldo, participativo nos dois gols.
No primeiro, com um chute de fora da área, mal rebatido pelo goleiro alemão Oliver Kahn, até então o
melhor do Mundial.
No segundo, abrindo as pernas para fazer o passe de Kléberson chegar ao pé direito do Fenômeno.
A final contra a Alemanha não deixou dúvidas de que o Brasil ainda estava vivo, diferente do que se
dizia depois da eliminação da Copa América contra Honduras. Jogando diferente de sempre, com três
zagueiros, num inusitado 3-4-2-1.
A única dúvida que sobrou foi sobre o melhor jogador da Copa. Foi Rivaldo ou Ronaldo?
Meu voto é Ronaldo.
Sistema: 3-4-2-1
Técnico: Luiz Felipe Scolari
O reino do toque de bola
Colômbia na Copa de 1994

A Colômbia chegou como favorita à Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Não porque fosse
uma potência do futebol, mas por uma série de circunstâncias que fazia com que se levasse a sério a
possibilidade de os colombianos vencerem. Uma delas, uma declaração de Pelé ao jornal norte-
americano USA Today: “A Colômbia é favorita!”.
Virou piada na Colômbia em 2013, quando a proximidade da classificação ao Mundial depois de 16
anos ficou evidente. Em campanha nacional, os colombianos pediam que Pelé não se pronunciasse a
favor da equipe de Radamel Falcão Garcia, como fez em 1994 a favor do time do meia-armador Carlos
Valderrama.
O tal favoritismo da Colômbia também se devia à incrível goleada por 5 X 0 na última rodada das
eliminatórias sobre a Argentina, em Buenos Aires. A maior goleada sofrida pelos argentinos desde os 6
X 1 na Copa do Mundo de 1958 levou-os à repescagem – e a Colômbia diretamente à Copa do Mundo.
Apesar disso tudo, o técnico Francisco Maturana chegou aos Estados Unidos desprezando os elogios.
Na semana que antecedeu a estreia contra a Romênia, Maturana atendeu por telefone à equipe da
revista Placar. Declarou: “Não estamos prontos para ganhar a Copa!”.
A entrevista nunca foi às bancas, porque na data marcada para circular a Colômbia já havia sido
derrotada na estreia. Adiada a publicação para depois da segunda partida, a derrota para os Estados
Unidos já havia sacramentado a eliminação.
Até hoje, Francisco Maturana se orgulha de ter feito um time moderno, embora não vitorioso. Diz que
jogava num 4-2-3-1, o que não é absoluta verdade. A Colômbia tinha dois volantes, Leonel Alvarez e
Wilson Perez, dois meias, Rincón e Valderrama, e dois atacantes, Valencia e Asprilla. Desses, um
contribuía para marcar os laterais.
Daí a chamar o sistema de 4-2-3-1 vai uma distância. Era um 4-4-2 inspirado nos velhos ensinamentos
dos colombianos, do toque de bola.
A Colômbia goleou a Argentina por 5 X 0 seguindo justamente essa escola, adotada a partir da invasão
de argentinos à liga colombiana no final dos anos 1940.
Alfonso Sênior Quevedo, cidadão nascido em Barranquilla, presidente e idealizador do Millonarios
de Bogotá, criado como clube profissional a partir do Deportivo Municipal, apelidado assim. A ideia
impulsionou outros clubes a adotarem o profissionalismo na Colômbia e a criar uma liga independente da
Federação Colombiana, em 1948.
Simultaneamente, uma greve de jogadores na Argentina permitiu a elaboração de um plano ousado,
capaz de levar para essa nova liga craques consagrados como Adolfo Pedernera, Nestor Rossi e Alfredo
Di Stéfano, todos argentinos, todos integrantes do histórico River Plate dos anos 1940, conhecido no
início daquela década como La Máquina.
O River Plate seria bicampeão argentino, não fosse a greve mais famosa da história do futebol. O
River foi líder até o início de outubro, quando caiu em Rosário, contra o Rosario Central por 4 X 3. A
rodada seguinte marcava o encontro com o Independiente, que assumiria a ponta com vitória por 4 X 3,
em Nuñez.

O JOGO DO ÊXODO
31/10/1948
RIVER PLATE 3 X 4 INDEPENDIENTE
Local: Monumental de Nuñez (Buenos Aires, Argentina)
Juiz: Fox
Público: 28.538
Gols: Muñoz 7’, Labruna 9’ e Pairoux 39’ do 1o; Di Stéfano 9’, Cervino 10’, Fernández 31’ e Pairoux
41’ do 2o.
River Plate: Grisetti, Vaghi e Ferreyra; Yácono, Rossi e Ferrari; Muñoz, Moreno, Di Stéfano, Labruna
e Lostau.
Independiente: Cammarata, Crucci e Riera; Sastre, Bisutti e Rivas; Cervino, De la Mata, Pairoux,
Fernández e Mourin.

Foi o último dia com jogadores profissionais antes do grande êxodo. A greve nasceu não por motivos
econômicos, como explica Alfredo Di Stéfano em seu livro de memórias Gracias, vieja [Obrigado,
velha]. O problema era com as equipes pequenas. Esses contratavam jogadores a preços altíssimos,
colocavam em dia os dois primeiros meses, mas, à medida em que os resultados desapareciam, deixavam
de pagar e assim milhares de jogadores profissionais ficavam à míngua.

Conta Di Stéfano:
"Fazíamos partidas em hospitais, maternidades, em benefício de sanatórios, de crianças, nas escolas... Era a chance de comentar
com as pessoas que nossa greve não era uma questão de dinheiro, mas de justiça com os jogadores mais pobres."

No primeiro momento, o campeonato parou. Ficou paralisado por duas semanas e retornou no dia 14
de novembro, com jogadores juvenis tomando os postos dos grevistas. Quando o problema se resolveu,
os jogadores haviam perdido. O campeonato terminado mostrou que a torcida seguia seus times, não seus
craques. O governo estabeleceu um teto salarial.
No início do ano seguinte, Pedernera recebeu convite do Millonarios e foi levado por seu presidente,
Alfonso Sênior, para Bogotá.
O seguinte foi o meia-direita Moreno, também integrante da melhor formação do River Plate, entre
1942 e 1943. Seguiram o ponta-esquerda Rial, que brilharia no Real Madrid.
Adolfo Pedernera seguiu fazendo os contatos e Di Stéfano sendo seduzido, até que, em 11 de agosto de
1949, decidiu partir. Tinha convite do Torino, o River Plate não desejava vendê-lo. O Millonarios era
mais do que isso.
“Eles pagavam dez vezes mais do que qualquer outra proposta da época”, conta Di Stéfano.
Pedernera, Nestor Rossi, Di Stéfano, Moreno... todos jogadores importantes de bola introduziram na
liga profissional da Colômbia o prazer pelo toque de bola.
Os melhores jogadores colombianos foram se formando assim. Menos interesse pelo gol, mais pelo
estilo. A Liga Mayor terminou em 1953, com um acordo formalizado pela Fifa, entidade da qual Alfonso
Sênior havia se tornado vice-presidente.
A Colômbia voltou a seu futebol mediano, sem grandes craques, mas cheios de estilo. Nunca mais
perdeu o gosto pelo toque refinado, pelo tiki-taka.
Quando a primeira geração de talento foi produzida entre Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla,
movidos pelo dinheiro do narcotráfico, o toque de bola tornou-se fabuloso. A Colômbia começou a dar
sinal de vida na Copa América de 1987, quando foi semifinalista. Seguiu com o título do Atlético
Nacional na Copa Libertadores de 1989 e a derrota por 1 X 0 para o Milan de Arrigo Sacchi, com gol de
Evani no último minuto da prorrogação. A essa altura, a primeira classificação para a Copa do Mundo em
28 anos estava assegurada.
No Mundial da Itália, um histórico gol de Rincón no último instante da partida contra a Alemanha
garantiu a passagem para as oitavas de final. A eliminação contra Camarões, sensação daquele
campeonato, aconteceu também apenas no segundo tempo da prorrogação.
Tudo construído com o 4-2-2-2 de Francisco Maturana e muito toque de bola. Rincón recebeu de
Valderrama em jogada com troca de passes intensa, até sair frente a frente com o goleiro Illgner.
A Colômbia do toque manteve-se assim na estreia na Copa do Mundo contra a Romênia. Trocava
passes, infiltrava-se pouco. No primeiro contra-ataque, o romeno Raducioiu finalizou. Em seguida,
Gheorghe Hagi carregou pela esquerda e evitou a troca de passes. Chutou por cobertura. A Romênia
venceu por 3 X 1.
No segundo jogo, um gol contra de Escobar começou a aniquilar todas as chances de classificação.
Num grupo de quatro seleções, os colombianos terminaram em quarto lugar, atrás de romenos, suíços e
norte-americanos.
O toque de bola ficou na história.
O favoritismo, na teoria.

Sistema: 4-4-2
Técnico: Francisco Maturana
A África existe
Camarões na Copa de 1990

E ra apenas o segundo trabalho da carreira do soviético Valery Nepomnyashchy como técnico de


futebol. E o primeiro aconteceu cinco anos antes de chegar a Iaundé para dirigir a seleção de
Camarões.
Na prática, Nepomnyashchy foi contratado pela Federação Camaronesa para ser um colaborador
das divisões de base. O técnico seria o francês Claude Le Roy. Mesmo para trabalhar na formação de
jogadores, a falta de experiência e a dificuldade de comunicação – o treinador não falava francês –
seriam problemas para o treinador soviético, nascido na Rússia, zagueiro de times modestos do oeste do
país.
Por que um técnico inexperiente do interior da União Soviética seria contratado para trabalhar na
Federação Camaronesa era uma pergunta que só poderia ser respondida por um histórico preconceito dos
africanos com os técnicos locais. Se fosse estrangeiro – e muitas vezes branco – os treinadores levavam
vantagem.
A história contava isso. A estreia de Camarões em Mundiais aconteceu sob o comando de Jean
Vincent, o mesmo ponta-esquerda da Seleção Francesa do ataque avassalador na Copa do Mundo de
1958.
Campanha excelente, eliminação na primeira fase contra a Itália, futura campeã.
A segunda empreitada seria também conduzida por um treinador francês, Claude Le Roy, não fosse o
técnico aceitar o convite do Senegal logo depois da conquista da Copa da África de Nações, de 1988.
Sobrou o emprego no colo de Nepomnyashchy.
Ou quase.
Por não falar francês, o técnico soviético precisava de um tradutor e a função ficou a cargo do
camaronês Jules Nyongha, também treinador de futebol. Até hoje, é impossível dizer com absoluta
clareza quem foi o responsável pelo sucesso dos camaroneses na Copa do Mundo de 1990. O soviético
Valery Nepomnyashchy, o treinador? Ou Jules Nyongha, que traduzia e orientava os jogadores como
queria? A história conta que Nepomnyashchy dava a palestra e Nyongha mudava todas as recomendações
táticas. Nas duas hipóteses, Camarões apresentou soluções novas. Seis anos antes de o inglês Bobby
Robson montar seu Barcelona num 4-2-3-1, os africanos jogavam assim. Recheavam o meio de campo,
desarmavam muito, abusavam das faltas em alguns momentos e saiam com rapidez e bom toque de bola.
Mérito também da geração de jovens jogadores como o meia-direita Mbouh, o meia-esquerda
Makanaky, o armador Mfédé e o atacante Omam-Biyik.
O primeiro sinal de uma equipe sólida foi visto em Milão, na abertura da Copa do Mundo. O volante
Massing ajudou a anular Maradona. A Argentina, sem criatividade, esbarrou no zagueiro Kundé e no
volante Kana-Biyik. E uma bola levantada para a grande área encontrou o atacante Omam-Biyik voando.
De cabeça e contando com a falha do goleiro Nery Pumpido, Camarões fez 1 X 0. Surpresa para todo o
mundo do futebol.
A partida seguinte teve como destaque o centroavante Roger Milla. Remanescente da campanha de
1982, na Espanha, e com passagens por clubes franceses como Monaco, Bastia e Saint-Etienne, Milla
emprestava sua experiência, aos 39 anos, nos segundos tempos das partidas. Contra a Romênia, marcou
aos 31 e 41 minutos do segundo tempo e assegurou a vitória por 2 X 1.
Camarões manteve sua estrutura tática nas cinco partidas que disputou. Uma linha de quatro homens,
com o goleiro veterano Bell, os laterais Tataw pela direita e Ebwelle pela esquerda, os zagueiro Kundé e
Ndip – o mais fraco do grupo.
Os dois volantes eram Massing e Kana-Biyik, irmão do centroavante Omam-Biyik. Pela direita jogava
o armador Mbouh, pela esquerda Makanaky e centralizado o meia Mfédé, que fazia a bola chegar ao
ataque com categoria.
O time era rápido, usava as laterais, marcava forte, tinha bons cruzamentos.
A cereja do bolo era o veterano Roger Milla.
A terceira partida de Valery Nepomnyashchy foi contra seu país de origem. A União Soviética goleou
por 4 X 0, com Milla em campo por 55 minutos, seu maior período no gramado.
O sucesso voltou com a vitória na prorrogação sobre a Colômbia, por 2 X 1, dois gols de Milla.
O veterano era artilheiro da Copa quando foi enfrentar Gary Lineker – goleador do Mundial do
México, em 1986 – e a Inglaterra nas quartas de final. Foi o melhor jogo daquele Mundial.
Os ingleses foram surpreendidos pela velocidade dos camaroneses, principalmente depois da entrada
de Ekéké na ponta-esquerda, no lugar de Mfédé. Em vez de um armador, naquele segundo tempo a opção
foi por mais um atacante. De muita velocidade.
Lineker empatou de pênalti em 2 X 2 aos 37 minutos da segunda etapa, quando Camarões dava uma
aula.
Faltou perna na prorrogação para segurar o time inglês e um novo gol de Lineker deu a vitória aos
britânicos aos 15 minutos do primeiro tempo suplementar.
Mas Camarões ficou na história como o primeiro time africano classificado para as quartas de final.
Também como o primeiro time que tinha um técnico que não mandava e um assistente que dava as
ordens.

Sistema: 4-2-3-1
Técnico: Valery Nepomnyashchy
A bola laranja
Holanda na Copa de 1998

G uus Hiddink nunca foi um retranqueiro. Tampouco um idealista do futebol ofensivo, do 4-3-3, dos
polivalentes, como é tradição do futebol de Amsterdã. Destacou-se em Eindhoven, sul da Holanda,
comandando o PSV, um time brilhante, campeão da Copa dos Campeões da Europa pela primeira
vez na história do clube da Phillips.
O time tinha talento de sobra. Começava pelo passe do líbero Ronald Koeman e a bola seguia com o
volante Lerby, o mesmo da seleção dinamarquesa da Copa do Mundo de 1986. Passava pelo meia
Vanenburg, chegava às vezes pelo alto ao centroavante Kieft.
Jogava sim num 4-3-3. Mas não necessariamente assim. Na decisão da Copa Intercontinental contra o
Nacional de Montevidéu, o PSV jogou com quatro homens no meio de campo, Romário como
centroavante.
Mas o xis da questão, o segredo do futebol de Guus Hiddink, era a troca de passes. Estilo Parreira de
1994, seis anos depois. Toca, toca, toca... e mesmo sem sair do lugar, o adversário não tem chance de
fazer gol.
A Holanda de Hiddink começou a nascer em 1994, logo depois da derrota para o Brasil nas quartas de
final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, sob o comando de Dick Advocaat. Nem com o técnico de
1994, nem com Hiddink, os Laranjas seguiam os mandamentos de Johan Cruyff e Rinus Michels. Não
atuavam com três atacantes. Nos Estados Unidos, era 3-5-2, com Overmars escalado como ala.
A partir de agosto daquele ano, com Guus Hiddink no comando, o sistema era o 4-4-2, duas linhas de
quatro homens, dois atacantes infiltrados.
“Para jogar com dois avantes é preciso ter um muito alto e bom no jogo aéreo”, disse Johan Cruyff no
congresso de 1985, em que fuzilou toda a cúpula da Seleção Holandesa, Leo Beenhakker e Rinus Michels
incluídos.
Hiddink não existia como treinador naquela época e não foi fuzilado por Cruyff. Mas foi pela
imprensa, durante a Eurocopa da Inglaterra, em 1996.
Naquele ano, surgiu a informação de que negros e brancos não se misturavam no time. Um grupo
conduzido por Clarence Seedorf, Edgar Davids, Bogarde e Kluivert se separava do grupo dos jogadores
formados pelos brancos Ronald e Frank de Boer, Phillip Cocu, Dennis Bergkamp.
A verdade era que os jogadores do Ajax agrupavam-se mais e havia divisões, não necessariamente
criadas por racismo. A Holanda foi eliminada nas quartas de final pela França, nos pênaltis.
Era tradição.
Em 1992, na semifinal da Eurocopa contra a Dinamarca, em 1996 nas quartas de final contra a França,
em 1998 na semifinal da Copa contra o Brasil, em 2000 na semifinal da Euro contra a Itália.
A derrota para os franceses ao menos serviu para apaziguar os ânimos. Hiddink conseguiu reunir todos
e formar uma seleção forte com Van der Sar, Reiziger, Stam, Frank de Boer e Numan.
A defesa tinha três jogadores do Ajax acostumados a jogar no 3-4-3, dois do PSV (Stam e Numan)
formados no 4-4-2.
Ronald de Boer, Jonk, Davids e Cocu.
Ronald e Davids eram do Ajax, onde de Boer era atacante, Davids meia. Jonk e Cocu jogavam mais ou
menos igual no PSV.
Bergkamp e Kluivert foram formados no Ajax, rodaram o mundo, juntaram-se com a camisa laranja.
O time era brilhante, mas diferente do Ajax de 1995, que acelerava mais do que o estilo Hiddink
permitia.
Toca, toca, toca... muitas vezes não saía do lugar.
Mas o time avançava sempre, mesmo correndo riscos.
Na primeira fase, dois empates, contra Bélgica e México, contrastaram com os 5 X 0 aplicados na
Coreia do Sul.
Nas oitavas de final, a classificação chegou no último minuto, gol de Davids, num chute de fora da
área, aos 45 minutos do segundo tempo.
Contra a Argentina, a superioridade foi a mesma, mas o gol da vitória veio numa rara jogada em que o
passe curto foi trocado pelo lançamento longo. Frank de Boer dominou na entrada de sua grande área e
inverteu a jogada até a risca da pequena área, onde Bergkamp cortou o zagueiro Ayala e finalizou: 2 X 1.
Então veio o Brasil.
O jogo de troca de passes, o Brasil enfrentava. O time de Zagallo gostava mais de acelerar as partidas,
mas enfrentava o jogo mais lento, pelo talento de Leonardo, Rivaldo, Ronaldo, Bebeto...
A derrota por 1 X 0 arrastou-se até os quarenta minutos do segundo tempo. De novo, o passe curto foi
trocado pelo cruzamento alto. Patrick Kluivert subiu mais do que a defesa brasileira e empatou por 1 X 1.
O risco foi definitivo nos pênaltis. Cobranças de Ronald de Boer e Cocu pararam nas mãos do goleiro
Taffarel.
Ou melhor, na tradição holandesa, na terceira derrota consecutiva nas penalidades máximas. A seleção
de 1998 foi a primeira em vinte anos a chegar às semifinais.
Não era o estilo holandês e eles observam isso até hoje.
A Holanda odeia vencer.

Sistema: 4-4-2
Técnico: Guus Hiddink
Ferguson e a Copa do Mundo
Escócia na Copa de 1986

N o início da temporada 1984/85, Alex Ferguson era técnico do Aberdeen, da Escócia. O clube do
norte do país recebia investimentos dos empresários do petróleo da região e Ferguson montou um
time capaz de encerrar a hegemonia da Old Firm (Celtic e Rangers), ganhar três campeonatos
nacionais e bater o Real Madrid na decisão da Recopa da Europa de 1983. Não era pouca coisa.
Então, o técnico da Seleção Escocesa, Jock Stein, convidou o amigo do Aberdeen para integrar a
comissão técnica durante as eliminatórias para a Copa do Mundo do México.
Stein tinha história. Foi o primeiro treinador britânico campeão da Copa dos Campeões da Europa,
pelo Celtic, em 1967, antes de qualquer clube inglês se aproximar da taça. Dirigiu a Escócia na Copa do
Mundo de 1982, período em que se aproximou e fez amizade com Telê Santana.
Ferguson virou o grande conselheiro de Stein e ajudou a montar a equipe. Ajudava também a
solucionar problemas surgidos depois das derrotas para Espanha e País de Gales, já na reta de chegada
das eliminatórias. Alta tensão entre os craques do Liverpool, Kenny Dalglish, Alan Hansen e Graeme
Souness com a comissão técnica produziu problemas.
Souness admitiu ter passado do ponto, mas a relação de Stein com Dalglish e Hansen nunca mais foi a
mesma – só Souness iria ao Mundial seguinte.
A situação era difícil nas eliminatórias e só foi atenuada antes da última rodada com uma vitória em
Reykjavík, na Islândia, com gol de Jim Bett, meio-campista do Aberdeen, contratado por Ferguson depois
de uma passagem pelo Lokeren, da Bélgica.
O gol de Bett deu aos escoceses uma chance de avançar para a repescagem contra a Austrália, com um
empate contra o País de Gales, em Cardiff – a Espanha ganhou a chave. A derrota eliminaria a Seleção
Escocesa do Mundial.
Souness estava suspenso e Alan Hansen sentiu uma lesão na véspera da partida.
O galês Mark Hughes colocou o País de Gales em vantagem no começo da partida. Com poucos
minutos do segundo tempo, o goleiro Jim Leighton perdeu suas lentes de contato. Stein ficou vermelho de
raiva e preparou a alteração com a entrada do goleiro Rough, enquanto Ferguson pedia ao médico da
seleção que examinasse o treinador – com os nervos à flor da pele.
Aos 36 do segundo tempo, o árbitro holandês Jan Keizer marcou pênalti apontando um toque de mão
do galês Phillips. O goleiro Southall chegou perto de defender, mas Cooper empatou a partida.
Então, aos 45 do segundo tempo, uma bola se aproximou da grande área da Escócia e o árbitro apitou.
Stein gritou comemorando o final da partida e levou um susto ao perceber a marcação de uma falta a
favor do País de Gales. Caiu!
Quando os jogadores chegaram ao vestiário depois do apito final, Stein estava morto.
Alex Ferguson foi imediatamente convocado para duas missões. A mais difícil, informar a família da
morte de Jock Stein. A outra, assumir o comando do time – não era muito mais simples formar um time
capaz de vencer a repescagem contra a Austrália, chegar à Copa do Mundo e pela primeira vez avançar
para a segunda fase.
Os australianos fizeram jogos duros, empataram por 0 X 0 na Oceania, mas Cooper e McAvennie
marcaram nos 2 X 0 em Glasgow.
O primeiro semestre de 1986 correu em meio a bons resultados, muito trabalho e várias propostas.
Ferguson dividia-se entre o Aberdeen, campeão da Liga Escocesa, a seleção em fase preparatória e os
rumores de que seria o técnico do Metz, da França, a partir da temporada 1986/87. Na mesma época,
Ferguson foi entrevistado pelo Barcelona, junto com o treinador da Seleção Inglesa, Bobby Robson. Mas
a possibilidade de transferência diminuiu quando o também britânico Terry Venables confirmou sua
permanência na Catalunha apesar da derrota para o Steaua Bucareste na decisão da Copa dos Campeões
da Europa.
Tantas possibilidades num período de preparação para a Copa do Mundo poderiam dar problemas.
O fato é que a Escócia de Ferguson jogou bem o Mundial, mas teve a dificuldade de cair no Grupo da
Morte, apelidado assim no início de 1986.
Historicamente, o jogo escocês foi diferente do inglês. Troca de passes, bola no chão, menos
cruzamentos para a grande área na comparação com os ingleses e de seu estilo kick and rush (chutão para
a frente e corrida atrás da bola).
Foi de troca de passes o estilo escocês na estreia contra a Dinamarca, mas um gol de Elkjaer Larsen,
aos 13 do segundo tempo, deu a vitória aos dinamarqueses.
Um gol de Strachan deu a vantagem aos escoceses contra a Alemanha, mas a força de Rudi Völler e
Klaus Allofs permitiu a virada para a equipe dirigida por Franz Beckenbauer.
Antes da partida, um jogo de mistério entre os dois treinadores. Ferguson fez treino fechado e deixou
claro para seus jogadores o desejo de evitar que Beckenbauer tivesse certeza se o melhor jogador
escocês, Graeme Souness, jogaria ou não – estava machucado. Beckenbauer, nas entrevistas para os
jornalistas alemães, escancarou o fato de que sabia todo o tempo que Souness jogaria, o que deixou
Ferguson profundamente irritado.
Nem tanto quanto com a virada que sofreu.
No último jogo, a Escócia teve a chance clara de vencer, por causa da expulsão do volante uruguaio
Batista aos trinta segundos, o mais rápido cartão vermelho da história das Copas. Mas desta vez, Souness
não jogou mesmo e o toque de bola que Ferguson conduziu foi incapaz de furar a defesa Celeste.
A Escócia voltou para Glasgow frustrada e sem intenção de renovar o acordo com Alex Ferguson. O
treinador também estava mais interessado no futebol de clubes do que no de seleções. Deixava claro para
quem conversava com ele que daria prioridade para trabalhar em um, entre dois clubes: ou Barcelona, ou
Manchester United.
Em 6 de novembro daquele ano, começou a história em Old Trafford, cujo desfecho o mundo inteiro
apaixonado por futebol conhece.
Sistema: 4-4-2
Técnico: Alex Ferguson
Tiki-taka
Espanha na Copa de 2010

L uis Aragonés assumiu o comando da Seleção Espanhola logo depois de um dos maiores fiascos da
história da Fúria. Num grupo contra Portugal, Rússia e Grécia, os espanhóis terminaram a primeira
fase da Eurocopa em penúltimo lugar. Iñaki Sáez, treinador de sucesso nas divisões de base da
Espanha, deixou o cargo e a Real Federação Española de Fútbol apostou num veterano.
Luis Aragonés não fazia sucesso havia muito tempo. No passado, fora meia-direita importante do
Atlético de Madrid, campeão espanhol em 1966, 1970 e 1973, vice-campeão da Copa dos Campeões da
Europa em 1974. Era clássico, mas praticava futebol vertical. Camisa 8, infiltrava-se procurando sempre
o gol. Nada de toque para o lado.
Era assim também o Atlético que herdou como treinador logo depois da Copa dos Campeões da
Europa, pouco antes de ganhar o título mundial interclubes (Copa Intercontinental) de 1974.
O Atlético de Madrid dirigido por Luis Aragonés era forte na marcação, rápido no ataque. Em 1975,
Aragonés apaixonou-se pelo futebol de dois brasileiros. Contratou do Palmeiras o zagueiro Luís Pereira
e o ponta de lança Leivinha.
Com os dois em estado de graça, e mais os argentinos Ruben Cano e Ruben Ayala, o Atlético
despachou o Barcelona e Real Madrid e conquistou seu penúltimo campeonato espanhol.
A carreira de Luis Aragonés foi um entrar e sair pelos portões do estádio Vicente Calderón, ao lado do
rio Manzanares, na zona sul de Madri. Foi técnico do Barcelona na temporada 1987/88, enquanto o time
esperava a liberação de Johan Cruyff do Ajax. Passou pelo Betis. Mas sucesso mesmo fez no Atlético,
onde conquistou também as Copas do Rey de 1976, 1985 e 1992, além do título mundial de 1974 e do
Campeonato Espanhol de 1977.
Sucesso também entre 2004 e 2008, como treinador da seleção da Espanha, onde chegou sem alarde,
sem festa nem protestos.
Aragonés foi inteligente no comando da Seleção Espanhola. Percebeu antes de muitos a revolução do
Barcelona, treinador por Frank Rijkaard, conduzido em campo por Ronaldinho Gaúcho, que voltava ao
estilo de toques curtos, posse de bola e marcação sob pressão – como nos tempos de Rinus Michels e
Johan Cruyff como treinadores.
Aquele Barcelona na primeira temporada de Rijkaard foi apenas vice-campeão espanhol, à esteira do
Valencia. Apesar disso, Aragonés não usou os valencianistas como base, mas os barcelonistas.
E o estilo também.
Com conversas com jogadores como Xavi, Iniesta, Puyol e Casillas, Aragonés definiu que sua seleção,
diferente de seu Atlético de Madrid, seria menos vertical, com mais toque de bola.
Em 54 partidas no comando da Seleção Espanhola, Aragonés venceu 38 e só perdeu quatro. Teve 78%
de aproveitamento. Mas não chegou à Eurocopa de 2008 como favorito ao título europeu. Acreditava-se
muito na Holanda, dona do melhor ataque da primeira fase, em que teve 100% de aproveitamento.
Ou na Alemanha, dirigida por Joachim Löw com o time terceiro colocado no Mundial de 2006
amadurecido – e jogando em Viena, perto de sua casa. Ou até mesmo na Rússia, que detonou os
holandeses nas quartas de final, acabou com a invencibilidade Laranja e chegou à semifinal justamente
contra os espanhóis.
Todos foram aniquilados pelo estilo tiki-taka. Toca, toca, toca... quando perde a bola, marcação por
pressão até recuperar a posse novamente. Era o Barcelona com menos pressão no campo de ataque,
apenas. Um pouco menos.
Essa equipe venceu a Alemanha por 1 X 0, com passe preciso para Fernando Torres deslocar o goleiro
Lehmann e sair festejando.
Aragonés deixou o comando da Seleção com a vitória sobre a Alemanha. Deixou o lugar para Vicente
Del Bosque, zagueiro do Real Madrid no final dos anos 1970, técnico-interino que assumiu o lugar de
John Toshack para comandar os galácticos madridistas em 1999. De interino, virou bicampeão da
Europa, com os títulos da Liga dos Campeões em 2000 e 2002, conduzindo uma legião de estrelas, como
Raúl, Zidane e Figo.
Raúl já não era um de seus jogadores, desde que foi limado da convocação da Eurocopa por Luis
Aragonés. Em 2006, na Copa do Mundo da Alemanha, a Espanha teve 100% de produtividade na
primeira fase, com Raúl na reserva. Na partida contra a França, nas oitavas de final, Aragonés abriu uma
exceção e escalou o ídolo do Real Madrid, pela experiência. Raúl não tinha nada a ver com o estilo tiki-
taka. A Espanha perdeu por 3 X 1 para os franceses, mais tarde vice-campeões mundiais.
A inclusão de Raúl é um ponto fundamental da transição da Espanha dos passes longos para o jogo de
passes curtos, que terminou pela mudança do apelido, de Fúria, para Roja. Hoje, os espanhóis não
aceitam serem chamados de Fúria. Preferem La Roja.
Aragonés arrependeu-se profundamente de voltar a contar com Raúl nos dois últimos jogos da Copa do
Mundo de 2006, a partida contra a Arábia Saudita, para poupar titulares, e o jogo contra a França, por
não ter coragem de excluí-lo. Nunca mais Raúl voltou e a decisão mudou o destino da Seleção Espanhola
nos quatro anos seguintes à Copa da Alemanha.
Sem Raúl, o trabalho ficava mais fácil para Vicente Del Bosque. Com inteligência, um pouco mais
ainda. Del Bosque era um administrador de vaidades, não um estrategista. Manteve o estilo tiki-taka, não
teve preocupação em colocar sua marca registrada, trocou poucos jogadores.
Com o mesmo estilo, a Roja estreou na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, defendendo o
favoritismo gerado apenas pela taça da Eurocopa. Estreou com derrota que pôs fim a uma sequência
invicta que durava desde a semifinal da Copa das Confederações de 2009, perdida para os Estados
Unidos.
A recuperação veio em grande estilo. Seis vitórias, com o ataque mais magro na história das seleções
campeãs do mundo. Oito gols marcados em sete partidas, a partir do 0 X 1 para a Suíça na estreia.
Daí em diante, jogos brilhantes, como os 2 X 1 sobre o Chile ou a espetacular (?!) vitória (1 X 0)
sobre a Alemanha na semifinal.
Partidas com dificuldades, como o magro 1 X 0 sobre o Paraguai, em que a classificação só veio pelo
pênalti defendido por Iker Casillas, cobrança de Oscar Cardozo, aos 15 minutos do segundo tempo, 22
minutos antes de os espanhóis marcarem 1 X 0.
A semifinal contra a Alemanha foi um capítulo à parte. Acostumada a jogar a seu estilo contra quase
todos os adversários do planeta, a Alemanha não conseguiu trocar três passes. Foi afogada pela
marcação por pressão da Espanha de Vicente Del Bosque. Onde um zagueiro alemão tentava fazer um
passe, havia um atacante espanhol disposto a recuperar a bola.
Até o gol, nascido de cobrança de escanteio cabeceada por Puyol na marca do pênalti.
A Holanda, odiada pelos holandeses por ser pragmática, como não manda a tradição Laranja, deu
trabalho demais. Às vezes pelo estilo de jogo, conduzido pelo meia Sneijder, às vezes acelerado pelo
ponta Arjen Robben. Os dois que ajudaram a eliminar o Brasil, nas quartas de final.
A vitória veio depois de 69% de posse de bola, longas trocas de passe e uma finalização perfeita:
Iniesta. A Espanha tiki-taka preferiu tocar a bola a fazer gols. Mas é reconhecida como uma campeã
brilhante.
Sistema: 4-2-3-1
Técnico: Vicente Del Bosque
O centro-médio
Itália na Copa de 1934/1938

J oão Saldanha morreu em 1990 rejeitando o rótulo de revolucionários a todos os que produziram
táticas a partir de 1925. “A última grande transformação do futebol mundial foi a mudança da lei do
impedimento”, dizia Saldanha. Tinha razão.
Os dirigentes anteriores a 1925 forçaram a barra e conseguiram que o International Board
aceitasse fazer testes a respeito da lei do impedimento. Até 1924, quando os testes começaram, era
preciso haver três jogadores entre o atacante e a linha de fundo para a jogada valer. Durante um ano, o
International Board permitiu dois tipos de testes. Alguns jogos com uma linha imaginária na
intermediária, atrás da qual não havia impedimento. Outros, com apenas dois defensores à frente do
último atacante para caracterizar a jogada irregular. Depois de um ano, foi aprovada a segunda opção.
O efeito imediato no Campeonato Inglês foi a explosão do número de gols. A temporada 1924/25, a
última antes da mudança da regra, teve 1192 gols em 462 partidas, com média de 2,58 gols por jogo. A
seguinte registrou 1707 gols, média de 3,69, crescimento de 43%.
A razão não era óbvia na época, a não ser para um técnico escocês. Herbert Chapman não esperou o
número de gols crescer para recuar um dos beques para a função de terceiro zagueiro. O que antes era o
primeiro sistema tático do futebol, o 2-3-5, passou a ser um 3-2-2-3. Nascia o WM.
Muitos técnicos ingleses se valeram do mesmo sistema, a ponto até de haver historiadores que não se
permitem definir Chapman como o introdutor do WM. Com certeza, foi o mais vitorioso com a
transformação tática. Bicampeão inglês pelo Huddersfield entre 1924 e 1925, seria o técnico a fazer o
Arsenal ganhar taças sem parar, nos anos 1930 – Copa da Inglaterra em 1930, campeão inglês em 1931,
1933 e 1934, antes da morte do treinador escocês.
Na época em que Chapman transformava o futebol taticamente, Vittorio Pozzo dirigia a Itália, mas
carregava na sua biografia uma longa passagem pela Inglaterra anterior ao WM. Pozzo resistia.
Nascido perto de Turim, teve longa carreira como corredor de quatrocentos metros rasos, no atletismo.
Seguiu seus estudos em Zurique, na Suíça, antes de se transferir para a Inglaterra, onde morou em
Bradford e, depois, Manchester.
Nessa época, o Manchester United tornou-se seu time favorito e Pozzo começou a frequentar Old
Trafford e a ter conversas longas com o zagueiro Charlie Roberts. Iniciou-se uma longa amizade de Pozzo
com quem lhe serviu de referência. Era um zagueiro adepto das bolas longas, estilo inglês kick and rush.
Essa aproximação explica por que no início dos anos 1930, quando a Itália superou a Áustria de
Mathias Sindelar e tornou-se o time mais forte da Europa, Pozzo ainda não adotava o WM. Porque,
quando foi campeão mundial em 1934, a Itália jogava no velho 2-3-5. Ou melhor, numa adaptação dele.
Vittorio Pozzo deixou a Inglaterra em 1912. Voltou para a Itália, aproximou-se da Federação Italiana e,
no mesmo ano, dirigiu a Azzurra nas Olimpíadas de Estocolmo.
Não teve sucesso. Voltou a ser comissário técnico da Itália em 1924, quando a Áustria era a equipe
mais forte da Europa. Nesse ano, os italianos foram massacrados pelos austríacos e Pozzo aproveitou a
lição para se aproximar do técnico Hugo Meisl. Tomou-lhe lições do 2-3-5. Fez nova referência entre os
não adeptos do WM.
Só havia adaptações a fazer. A principal delas, escolher um jogador capaz de proteger a defesa,
mesmo sem fazer parte formalmente do sistema defensivo. O escolhido foi Luisito Monti.
Craque argentino com passagens pelo Huracán, Boca Juniors e San Lorenzo, Monti foi um dos filhos
de italianos que se transferiram para a Itália depois da Primeira Guerra Mundial. Desembarcou em 1930
na Juventus, em Turim. No ano seguinte, Pozzo, também da região piemontesa, convocou-o para a
Squadra Azzurra.
Diga-se que Monti não era o único trunfo estrangeiro de Vittorio Pozzo. O ponta-direita Guaita e o
ponta-esquerda Orsi também vinham da Argentina. O ponta reserva Guarisi era brasileiro, com passagem
pelo Paulistano-SP.
Pozzo seguiu o figurino do futebol dos anos 1920, mesmo correndo riscos com apenas dois zagueiros
contra adversários velozes no ataque. Monti fazia o contraponto. Foi escalado numa função híbrida. Fazia
a saída de bola como centro-médio, mas posicionava-se entre o trio final e a linha média. Entre o goleiro,
os dois zagueiros e os dois laterais.
Quando era preciso um beque a mais, Monti fazia o papel. Quando o jogo precisava de alguém que
conduzisse ao ataque, Luisito estava presente.
Entre 1931 e 1934, a Itália disputou 23 partidas, venceu 15, empatou cinco, só perdeu uma vez para a
Tchecoslováquia e duas vezes para a Áustria.
Meisl era um pouco mais radical do que Pozzo. Não costumava utilizar nem o híbrido de volante e
terceiro zagueiro e seu time aos poucos ficou obsoleto, até perder a semifinal da Copa do Mundo para os
velhos fregueses, os italianos.
O 23o jogo da Itália no período entre a entrada de Monti na equipe e a Copa do Mundo foi válido pelas
eliminatórias. Pela primeira e única vez na história, o país-sede da Copa teve de disputar um jogo para
confirmar presença em seu próprio Mundial – venceu a Grécia por 4 X 0.
Na partida seguinte, em 27 de maio, a Itália estreou na Copa do Mundo com vitória por 7 X 1 sobre os
Estados Unidos.
Do time titular no Mundial, Combi, Monti, Bertolini, Ferrari e Orsi pertenciam à Juventus,
pentacampeã italiana entre 1931 e 1935. Isso também garantia o conjunto, nascido bem perto da casa de
Pozzo, em Turim, embora o técnico fosse mais ligado ao Torino.
Outro feito do treinador foi montar uma equipe reserva quase tão forte quanto a titular. Isso foi notado
pelo rival – e amigo – Hugo Meisl, antes da semifinal contra a Áustria. A Itália vinha de vitória por 1 X 0
sobre a Espanha no jogo-desempate. A primeira partida terminou empatada por 1 X 1, teve lances de
violência e obrigou os dois treinadores a optarem por suplentes no jogo que levaria à penúltima fase do
Mundial. Pozzo escalou quatro jogadores diferentes e venceu por 1 X 0, gol de Meazza aos 11 minutos.
O cansaço alegado pelos italianos era descartado pelo austríaco Hugo Meisl: “Eles têm melhores
reservas do que nós”. O duelo de estilos, entre os técnicos austríacos – melhores do que os vizinhos
alemães naquela época – e os fortes italianos foi decidido muito em função da boa atuação de Luisito
Monti. O argentino-italiano marcou Matthias Sindelar, o craque da Áustria, como se fosse o terceiro
zagueiro. Mas fez a saída de bola como centro-médio, o médio-volante dos tempos modernos. O jogo
decidiu-se por uma bola perdida que o ponta-direita Guaita conseguiu evitar e servir Giuseppe Meazza,
autor do gol.
Na final, a Tchecoslováquia liderou o marcador até os 36 minutos do segundo tempo, quando Orsi
empatou. Schiavio fez o gol da vitória aos 5 minutos da prorrogação, a primeira da história dos
Mundiais.
A conquista italiana, com futebol à base da força, com o desempate violento contra a Espanha e as
vitórias sobre os times mais técnicos da Áustria e da Tchecolosváquia, produziu o comentário do árbitro
belga John Langenus de que faltou espírito esportivo. E que o Mundial, em qualquer outro país, teria sido
considerado um fiasco.
Nem o ditador Benito Mussolini nem o técnico Vittorio Pozzo concordavam com isso. Menos ainda os
italianos, que festejaram a taça com o time no arcaico 2-3-5, mas com Luisito Monti como homem da
transição.
Quatro meses depois, a Itália foi derrotada pela Inglaterra no estádio do Arsenal, time precursor do
WM, criado pelo escocês Herbert Chapman.
No primeiro tempo, os ingleses abriram 3 X 0. O segundo teve a diminuição do placar para 3 X 2. A
partida, repleta de faltas, ficou na história como A Batalha de Highbury, como era chamado o campo do
Arsenal.
Entre as vítimas da Batalha, Luisito Monti quebrou um dedo e só voltou a jogar mais duas vezes com a
camisa da Azzurra. Pelo menos isso serviu para mudar o destino da Copa seguinte, a de 1938. A Itália
não passou ao mais puro WM. Mas se aproximou um pouco mais, sem a figura de seu centro-médio
argentino, misto de força na defesa e de passes longos na saída de bola para o ataque.

Sistema: 2-3-5
Técnico: Vittorio Pozzo
Os bilardistas
Argentina na Copa de 1986

O técnico campeão mundial pela Argentina em 1986, Carlos Sal​vador Bilardo, é a antítese do
treinador campeão de 1978, Cesar Luis Menotti. Ele teve como referência um dos maiores
campeões da Copa Libertadores, no tempo em que o jogo sujo prevalecia.
A campanha do tricampeonato do Estudiantes entre 1968 e 1970 foi marcada por acusações de
catimba, violência, lâminas de barbear colocadas dentro do calção. Era assim a equipe dirigida por
Osvaldo Zubeldia, o treinador daquela equipe extremamente vitoriosa do final dos anos 1960.
Não que Bilardo tenha usado o jogo sujo como artimanha para ganhar a Copa do Mundo.
Não muito, digamos.
Cesar Luis Menotti tinha o cigarro como fiel companheiro no banco de reservas. E o jogo bem jogado
como objetivo.
As duas Copas conquistadas com estilos antagônicos forjaram gerações de técnicos e jogadores
argentinos, até o aparecimento de Marcelo Bielsa na Seleção Argentina, já em 1998. Até aí, o futebol do
país se dividia entre menottistas ou bilardistas.
Digamos que fosse mais difícil ganhar a Copa sem Maradona, mas Menotti abriu mão de convocar o
garoto, então com 17 anos, para o Mundial de 1978. E Bilardo não tinha outra alternativa a não ser
montar uma equipe extremamente estruturada na defesa e dar liberdade para Diego Maradona decidir as
partidas.
Na Copa em que a Dinamarca caracterizou o 3-5-2 como novidade tática, a Argentina usou o mesmo
sistema, mais discretamente.
Bilardo começou o Mundial com o, ofensivo e talentoso, lateral-direito Clausen, do Independiente.
Rapidamente trocou-o por Cuciuffo, um zagueiro, improvisado como terceiro homem de defesa, para
liberar o outro lateral, Olarticoechea, pela esquerda.
Não era um 3-5-2 tão ortodoxo nem visível, mas o lado direito de Bilardo marcava para que o
esquerdo atacasse. Giusti cobria o lado direito, Batista e Enrique fechavam como volantes, liberavam o
talentoso Burruchaga e o genial Maradona.
Estava formado o time.
Mas não sem sofrimento.
Sem Maradona nas eliminatórias, a Argentina perdia para o Peru no Monumental de Nuñez por 2 X 1
até os 30 minutos do segundo tempo. Um gol de Ricardo Gareca perto do final da partida evitou o
vexame da eliminação do Mundial do México, exatamente como aconteceu 16 anos antes – em 1969, um
empate por 2 X 2 entre Argentina e Peru no La Bombonera classificou os peruanos e eliminou os
argentinos.
A partir daí, Carlos Bilardo teve Maradona. A vida muda...
Antes, já havia um sentido tático do trabalho. Organização em campo, que dependia do craque. E ele
estava ausente.
No livro Argentia mundial – Historia de la Selección (1902-2002) [Argetina mundial – História da
Seleção (1902-2002)], publicado com o selo do jornal Clarín, Bilardo resumiu seu trabalho para formar
a seleção:
"Em 1983, a primeira coisa que fiz [...] foi visitar a todos os jogadores que atuavam na Europa [...] e fiz o mesmo com os que
jogavam na Argentina. O ciclo prévio não foi fácil, porque tínhamos que explicar um novo sistema tático, o 3-5-2. Jogamos muito,
fomos ao Torneio de Toulon, a Calcutá. Em 1984, fizemos uma excursão à Suíça, Bélgica e Alemanha. Eu seguia com meu método
[...]. Muitos diziam que eu os deixava chateados. Tempos antes do embarque para a Copa, soube por um dono de restaurante que
queriam me demitir. O fato se tornou público e impediu a demissão."

Bilardo conta também que no sorteio já tinha um representante seu em cada sede, para fazer o acerto
com o local da concentração que havia escolhido, antes que os concorrentes chegassem. A Argentina foi
sorteada no Grupo A, na Cidade do México. Ficou no estádio e na concentração do América. Diz no
testemunho ao Clarín que soube de reclamações de jogadores depois do empate com a Itália. Reuniu a
todos e disse: “Se formos campeões, todos ganharão. Se não, poucos sobreviverão”.
A questão é que o sistema tático era bom – pragmático, bilardista, mas bom. Os jogadores estavam
todos unidos, principalmente pelas críticas que todos receberam durante as eliminatórias: “Quando
embarcamos para o México, talvez apenas nossas famílias estivessem a nosso favor”, dizia o zagueiro
Oscar Ruggeri.
Além de tudo isso, o craque estava em campo. Na primeira rodada, logo depois da vitória por 3 X 1
sobre a Coreia do Sul, todas as emissoras de TV do mundo fizeram vídeos com a caça ao Maradona.
Levou uma infinidade de faltas. Fez uma quantidade superior de jogadas de efeito e decisivas.
Vitória sobre a Coreia, Bulgária, empate contra a Itália, vitória suada sobre o Uruguai por 1 X 0 na
oitavas de final, antes do encontro com a Inglaterra, no estádio Azteca, no domingo dia 22 de junho – na
véspera, o Brasil fora eliminado pela França.
O jornalista brasileiro Ariel Palacios conta no livro Os argentinos que a rivalidade com o Brasil é
muito inferior à que existe contra a Inglaterra. A razão é a Guerra das Malvinas, datada de 1982. Quatro
anos depois, os nervos ainda estavam à flor da pele.
O primeiro tempo foi tenso e terminou empatado. No começo da segunda etapa, Maradona levantou sua
mão esquerda, desviou do goleiro Shilton e fez o gol que, para a história, ficou conhecido como “a mão
de Deus”. Pouco depois, construiu a maior obra de arte da história das Copas. Recebeu de Enrique no
campo de defesa, passou como uma luz por Beardsley e Reid. Puxou a bola para a direita para
surpreender ao zagueiro Butcher. Acelerou e passou por Fenwick, ainda com Butcher ao seu encalço.
Butcher ainda tentou se atirar aos seus pés, mas Maradona passou por ele e pelo lateral Gary Stevens.
Driblou também o goleiro Shilton e finalizou.
Jorge Valdano, seu companheiro de ataque, conta no El libro de oro de Mundial (1930-1998) [O livro
de ouro do Mundial (1930-1998)], editado pelo jornal Clarín, o encontro com Maradona no chuveiro,
minutos depois do gol de placa.
Maradona dizia ao amigo:
“Eu queria lhe passar a bola, mas não achei espaço!”
Valdano respondeu:
“Quer dizer que você conseguiu me ver?”
“Sim, eu via você no segundo pau, mas não consegui fazer o passe.”
Valdano completa o raciocínio dizendo que ficou enlouquecido com a revelação e perguntou a si
mesmo: “Quantas coisas passaram-se pela cabeça de Maradona naqueles 10,6 segundos?”.
A Argentina avançou às semifinais contra a Bélgica, jogo em que Diego fez outro gol quase tão belo
quanto o daquele domingo contra os ingleses. E chegou à decisão contra a Alemanha.
O técnico alemão, Franz Beckenbauer, dizia que os argentinos se cansariam no final da partida, ou pelo
menos Maradona não conseguiria manter o ritmo na altitude da Cidade do México. Definiu a marcação a
Diego com Förster, o zagueiro, em vez de Matthäus, o volante. Sua estratégia era chegar à prorrogação,
com a Argentina cansada.
Quase conseguiu. Os argentinos fizeram 2 X 0 com o zagueiro Brown, de cabeça, aos 23 do primeiro
tempo, e com o atacante Valdano, aos 11 do segundo. Mas Rummenigge aos 29 e Völler, aos 37,
empataram e deram a Beckenbauer a noção de que o tempo suplementar pretendido aconteceria.
Até Maradona achar uma brecha e fazer o lançamento que deixou Burruchaga frente a frente com o
goleiro Schumacher. Aos 43 do segundo tempo, o chute saiu lento, caprichoso, entrou no canto direito do
histórico goleiro alemão.
Carlos Bilardo afirma ter pensado em Osvaldo Zubeldía e toda sua contribuição para o futebol.
O ensinamento era que o futebol pragmático também é bom e pode vencer.
Os próximos vinte anos do futebol argentino se dividiriam sobre esse assunto. O pragmatismo ou a
beleza? Bilardo? Ou Cesar Luis Menotti?

Sistema: 3-5-2
Técnico: Carlos Bilardo
Socorro! Um líbero?!
Brasil na Copa de 1990

É líbero ou não é?
O Brasil era tão cru do ponto de vista tático que se discutia até mesmo isso. Sem levar em conta
os estilos diferentes de líbero que havia no futebol mundial ao longo da história.
Líbero atrás da defesa, como os suíços do ferrolho usavam com o técnico Karl Rappan. Ou atrás
de uma defesa que marcava homem a homem, como na Itália, mas com liberdade para fazer a cobertura e
o primeiro passe. Ou com autonomia para subir e se tornar volante, o primeiro armador da equipe, Franz
Beckenbauer na seleção da Alemanha.
Quando o Brasil adotou o líbero, ninguém discutia a função de maneira correta, por absoluta falta de
cultura.
Ou pela emergência.
Na manhã de domingo, 18 de junho de 1989, o Brasil levou um dos maiores choques de sua história
futebolística. Apanhou de 4 X 0 da Dinamarca.
Repare que em 1989, três anos depois da Copa do México, não era mais a Dinamáquina. Era uma
Dinamarca, como se imaginava antes, até pela presunção característica dos brasileiros.
Perder de 4 X 0 da Dinamarca era como levar uma surra de vassoura da vizinha louca. Um vexame
sem precedentes – ah, o Brasil levou 5 X 1 da Bélgica em 1963, desfalcado de Pelé, mas... quem se
lembra?
O assistente técnico do treinador Sebastião Lazaroni era Nelsinho Rosa Martins. Se você não ligou o
nome à pessoa, o Nelsinho, craque do Flamengo dos anos 1960, meia do histórico meio de campo
formado junto com Carlinhos, o Violino.
Nelsinho também foi o técnico campeão carioca pelo Fluminense em 1980 e 1985 e seria campeão
brasileiro pelo Vasco no final daquele ano de 1989.
Era um técnico bom! E auxiliar melhor ainda.
Pois Nelsinho virou-se para Sebastião Lazaroni na viagem de volta ao Brasil e indicou ao técnico da
Seleção Brasileira, o primeiro contratado por Ricardo Teixeira, que deveria montar uma defesa mais
fechada, com um líbero por trás dela.
E Lazaroni escutou.
Não é que a ideia deu certo?!
Dois jogos depois do vexame contra a Dinamarca, Lazaroni pôs Ricardo Gomes de líbero contra a
Venezuela, estreia na Copa América. O Brasil jogou razoavelmente e venceu por 3 X 1. A história
prosseguiu apesar das vaias da torcida baiana, na Fonte Nova. E chegou ao Maracanã para as finais da
Copa América, vencida pelo Brasil quarenta anos depois da última conquista continental.
No Rio, o Brasil venceu o Paraguai, a Argentina e o Uruguai no 3-5-2 com o qual a Argentina foi
campeã mundial em 1986. Ganhou a Copa América no mesmo Maracanã, no mesmo dia 16 de julho,
contra o mesmo adversário uruguaio, só que por um placar magro de 1 X 0, gol de Romário.
Com o título da Copa América assegurado depois de quarenta anos de espera, o 3-5-2 só poderia ser o
sistema adotado!
Pouco antes, uma reportagem do Jornal do Brasil destacou a presença de Dunga no time, querido por
Lazaroni, e atribuiu o título que marcou aquela campanha: “Era Dunga”.
Só poderia dar errado.
Veio a classificação nas eliminatórias – jogo polêmico contra o Chile, vencido por 1 X 0, mas que a
Fifa transformou em 2 X 0 porque o goleiro chileno Rojas simulou lesão após queda de um sinalizador no
Maracanã.
E os jogos seguintes continuaram animados, especialmente um amistoso contra a Itália em Bolonha, 14
de outubro de 1989. Gol de André Cruz, de falta. Os sinais de que algo estava errado começaram com
discussões seguidas na televisão sobre o uso do líbero, evidência de que nenhum dos debatedores sabia
exatamente do que se tratava. O Brasil não tinha cultura tática suficiente. Se os críticos não tinham, os
jogadores teriam?
No passado, havia jogadores acostumados a fazer a função de líbero em clubes brasileiros, mas com
linha de quatro zagueiros, não com três homens posicionados na defesa. Um exemplo disso era Luís
Pereira. Se na seleção na Copa do Mundo de 1974, o beque do Palmeiras era zagueiro-central, no retorno
do futebol espanhol para o Flamengo e Palmeiras, acostumou-se a jogar na espera.
O motivo era diferente de 1989. Luís Pereira já não tinha pernas. Empurrava o colega de zaga, Vagner
Bacharel, para o combate com os jogadores mais rápidos, resguardava-se na retaguarda, como fez várias
vezes também nos anos 1970.
Já na Itália, semanas antes da Copa, havia também problemas extratáticos, como a discussão sobre os
prêmios a partir do dinheiro arrecadado pela CBF pelo contrato da Pepsi, patrocinadora recém-
empossada.
Mas o principal defeito foi a sequência de jogos ruins no início de 1990. Talvez por excesso de
confiança depois de vencer a Itália em Bolonha, em outubro, e a Holanda em amistoso realizado em
Roterdã, em dezembro.
No início do ano, derrota para a Inglaterra, vitória surrada contra a Bulgária, empate por 3 X 3 contra
a quase desfeita seleção da Alemanha Oriental, no Maracanã. Aquele foi o penúltimo jogo dos alemães
orientais reunidos sob sua bandeira. A partir de 1991, a Alemanha estaria unificada.
A casa caiu mesmo num jogo-treino, sem caráter de jogo-amistoso, mas com transmissão ao vivo para
o Brasil. Com camisas azul-marinho com o logotipo gigante da Topper, fornecedora de material
esportivo, e sem a marca Pepsi, o Brasil perdeu por 1 X 0 para o combinado da região da Úmbria, perto
de Turim. Gol do centroavante Artístico.
Para quem queria futebol-arte, era um prato cheio.
“Vai jogar mal assim lá na Úmbria”, destacou a revista Placar em sua capa.
Na Copa, o futebol evoluiu passo a passo. Jogo medíocre contra a Suécia, vitória por 2 X 1, dois gols
de Careca. Futebol medonho contra a Costa Rica, vitória por 1 X 0. Futebol terrível contra a Escócia,
vitória por 1 X 0, gol de Müller.
E então a sorte deu o ar da graça. A Argentina caía pelas tabelas, perdera de Camarões, terminou o
grupo no risível terceiro lugar e só avançou às oitavas de final por um estranho regulamento que dava
direito à repescagem aos melhores terceiros colocados das chaves.
A combinação fez a Argentina cruzar com o Brasil, favoritíssimo, pelos seis pontos conquistados –
apesar do futebol ruim – contra três da Argentina.
O Brasil fez sua melhor partida. Com líbero, dois volantes – Dunga e Alemão – Valdo na ligação com
o ataque, Müller e Careca na frente. Chutou três bolas na trave.
E sucumbiu.
Aos 36 minutos do segundo tempo, Maradona apanhou a bola no meio de campo, passou por Dunga e
por Alemão – seu companheiro no Napoli – avançou sobre Ricardo Rocha, aproximou-se da grande área
e deu passe que deixou Caniggia frente a frente com o goleiro Taffarel. Caniggia desviou de leve e a bola
caprichosamente tocou a rede.
O título da revista Placar no dia seguinte não poderia ser mais preciso para definir o período do 3-5-2,
dos três zagueiros e dois volantes, da Era Dunga.
“Era Maradona!”
Sistema: 3-5-2
Técnico: Sebastião Lazaroni
O WM torto
Brasil na Copa de 1950

A história da formação do time vice-campeão mundial pode começar 13 anos antes, quando o Brasil
importou o técnico húngaro Dori Krüschner. Não é verdade que até então o Brasil não tivesse
nenhuma noção tática. Mas era incipiente.
Krüschner teve passagens pelo futebol alemão antes de chegar ao Brasil para dirigir o Flamengo e
teve Flávio Costa como seu assistente – e detrator.
Antecessor de Dori Krüschner no Flamengo e sucessor mais tarde, Flávio Costa nunca interpretou
como absolutamente crucial a passagem do treinador húngaro. Mas herdou alguns de seus ensinamentos.
O principal: o WM.
Quando o húngaro chegou ao Brasil jogava-se ainda no 2-3-5. É fato que três anos antes, a Itália
tivesse sido campeã mundial jogando da mesma maneira, mas era cada dia mais consensual que o futebol
caminharia para ter três zagueiros, como Herbert Chapman introduziu no Arsenal do final dos anos 1920.
Krüschner aproveitou os problemas de saúde de Fausto, dois anos mais tarde morto por tuberculose.
Volante clássico na Copa do Mundo de 1930, com passagem pelo Barcelona, da Espanha, e pelo
Neuchatel Xamax, da Suíça, Fausto, o Maravilha Negra, retornou ao Flamengo no ocaso da carreira.
Krüschner aproveitou seu estilo clássico e o colocou no meio da defesa. Não funcionou. A sequência de
vitórias do Fluminense no Campeonato Carioca o levou ao desemprego no final de 1938.
Flávio Costa voltou ao comando do Flamengo e se perpetuou no cargo até o tricampeonato carioca de
1944. Dois anos depois, transferiu-se para o Vasco, consolidou o esquadrão conhecido como Expresso
da Vitória. Como Flávio Costa acumulava o cargo de técnico do Vasco ao da Seleção Brasileira, fez
daquele time, o melhor do país, a base da Seleção.
O Vasco, o Flamengo tricampeão e a Seleção Brasileira jogavam num WM. Mas Flávio Costa chamava
seu sistema de Diagonal. Em 1948, numa exposição sobre sua maneira de jogar em Portugal, foi
ridicularizado por apresentar sua grande novidade e ver detectada uma simples adaptação do WM.
Consistia em recuar um dos médios, fosse o direito ou o esquerdo, e adiantar um dos meias, para que
fosse um ponta de lança, mais próximo do centroavante do que o outro meia.
Se o médio esquerdo fosse recuado, Flávio Costa chamava seu sistema de diagonal pela esquerda.
Nesse caso, no ataque, o meia-direita virava ponta de lança, normalmente o camisa 8 (veja ilustração).
Se o médio direito fosse recuado, Flávio Costa chamava de diagonal pela direita e o ponta de lança
passava a ser o número 10.
Nasceu assim também o estilo diferente dos camisas 10 brasileiros. Uns mais recuados, como meia-
armadores. Outros, mais ofensivos, como Pelé e Zico, pontas de lança.
Flávio Costa assumiu a Seleção Brasileira em 1944, numa vitória por 6 X 1 sobre o Uruguai. Dos 22
jogadores em campo, só um, Jair Rosa Pinto, faria parte da decisão do Maracanã, seis anos mais tarde. A
diagonal era pela esquerda, com Noronha mais recuado em comparação com Piolim, Jair como camisa
10 de armação, Lelé mais perto do centroavante Isaías.
Na Copa de 1950, o sistema era diferente. Augusto, o lateral-direito, recuava para jogar mais próximo
à defesa, com Juvenal e Bauer. Bigode ficava mais perto da linha dos médios, mais avançado, razão que
pode ter facilitado o avanço de Ghiggia sobre seu setor no gol da vitória uruguaia em julho de 1950.
Na verdade, Ghiggia já dava trabalho há dois meses, quando o Brasil recebeu o aviso de que deveria
respeitar a Celeste. Em 6 de maio de 1950, Flávio Costa viu seu time perder para os uruguaios pela Copa
Rio Branco, no Pacaembu, por 4 X 3.
O jogo difícil ficou ainda mais complicado quando Ghiggia entrou na ponta direita aos 20 minutos do
segundo tempo. Acabou a vida tranquila do lateral-esquerdo Noronha, do São Paulo.
Oito dias depois, no segundo jogo da Copa Rio Branco, em São Januário, Noronha foi de novo titular e
não deu conta da marcação a Ghiggia, apesar de o Brasil vencer por 3 X 2.
Mário Filho fez a avaliação que pode ter definido a titularidade de Bigode no Mundial: “Tímido e
escondido, Noronha não marcava Ghiggia. Ficava na frente de deste e não avançava sobre ele. Ia
recuando, recuando, até a área”.
No início da Copa, os problemas ofensivos chamaram mais a atenção do que os defensivos. Faltava
Zizinho, que só pôde jogar na terceira partida, por uma lesão no joelho. Marcou o segundo gol nos 2 X 0
sobre a Iugoslávia que classificou para o turno final e ajudou Ademir a marcar quatro vezes contra a
Suécia.
Veio a penúltima partida contra a Espanha e a euforia tomou conta da Seleção. Vitória por 6 X 1, com
dois gols de Chico, dois de Ademir, um de Jair e outro de Zizinho.
E então veio o confronto de Bigode com Ghiggia, o WM torto que deixava o médio esquerdo na
marcação do ponta-direita, com o zagueiro-central Juvenal na sua cobertura. Na teoria, tinha tudo para
dar certo, mas não deu.
No começo do segundo tempo, com o Brasil já vencendo por 1 X 0, a torcida festejando o título
antecipado que poderia vir até mesmo com um empate, Bigode deu o bote em Ghiggia. Tentou tirar-lhe a
bola com um carrinho.
"Ghiggia livrou as pernas de modo que, quando partiu, o Bigode estava no chão. O Ghiggia caminhou uns vinte, trinta metros, com a
bola até a linha de fundo. [...] quando Ghiggia bateu Bigode tinha que levar combate de Juvenal. E o Juvenal se escondeu, permitiu
que Ghiggia fosse à linha de fundo, perseguido por Bigode [...]. Ghiggia teve tempo de olhar para trás e atrasar a bola para
Schiaffino, que vinha pela meia-direita. O Schiaffino acertou um chute de pé direito, reto, que foi no ângulo. E empatou o jogo."

O depoimento é de Flávio Costa, dado aos jornalistas Pedro Zamora e Ivan Soter, em 1990, publicado
em Todos os jogos do Brasil, de Ivan Soter, André Fontenelle, Mario Levi Schwartz, Dennis Woods e
Valmir Storti, em 2006. Dá a noção do que Flávio Costa esperava de seu marcador e de sua cobertura. E
de como as coisas não saíram bem.
Bauer tinha de estar mais à frente, marcando Julio Pérez.
Pois foi Julio Pérez, o meia-direita uruguaio, quem fez o lançamento para o segundo gol. Culminando
no Maracanazo.
Antes dele, Flávio Costa se lembra de uma segunda falha: “O Uruguai fez a mesma jogada. O Ghiggia
bateu o Bigode e foi à linha de fundo. Quando ele deu para trás, o Barbosa saiu e cortou a jogada”.
De novo, o depoimento do técnico descreve que na terceira vez que Ghiggia escapou, foi lançado às
costas de Bigode e correu à linha de fundo. Barbosa se adiantou, pois esperava que Ghiggia tocasse para
trás, e Ghiggia chutou fazendo gol.
Flávio Costa montou o time no WM torto. Não que o sistema fosse ruim. Na prática, todos os times
jogavam mais ou menos do mesmo jeito, porque mesmo o sistema criado por Herbert Chapman previa ter
um lado mais recuado em comparação com o outro. Flávio Costa não inventou a roda, nem a diagonal.
Mas passou cinquenta anos analisando o que saiu errado naquela tarde. E seu diagnóstico foi de que
falhou mais a cobertura do que a marcação. Falhou mais Juvenal do que Bigode e Barbosa.
“As falhas de cobertura não puderam ser percebidas nos jogos anteriores. Não havia substituição. Eu
não podia intervir.”
Palavra final de Flávio Costa.
Sistema: WM (diagonal)
Técnico: Flávio Costa
O lado A... Azul
Uruguai na Copa de 1950

D urante os seis anos em que Flávio Costa foi treinador da Seleção Brasileira houve 13 encontros com
os uruguaios. A Celeste venceu quatro vezes. Os números servem para avalizar a tese de que não era
simples enfrentar o Uruguai. Nunca foi.
“Eles venceram porque tinham um time melhor do que o nosso!”, disse o treinador.
Das 19 Copas do Mundo, só cinco vezes o campeão não teve o treinador montando sua equipe por
mais de três anos. Juan López fez parte da comissão técnica uruguaia por longo período, mas só assumiu
o cargo definitivamente no dia 6 de junho, a um mês e meio da decisão do Maracanã.
Na primeira metade do Mundial, os uruguaios contaram com a benevolência dos organizadores. Tudo
por causa de uma confusão de informações entre o Comitê Organizador da Copa e a Federação Francesa:
"A Federação Francesa [...] tomou uma grave decisão. Considera que não houve resposta a seu telegrama de 1 de junho e decidiu
não enviar sua seleção à Copa Jules Rimet [...].
O calendário oficial da Copa do Mundo prevê os jogos do Grupo IV para os seguintes dias e locais:
25 de junho: França X Uruguai, em Porto Alegre.
29 de junho: França X Bolívia, no Recife.
2 de julho: Uruguai X Bolívia, em Belo Horizonte.
[...] é injusto, inadmissível, obrigar a equipe francesa a jogar seus dois jogos, a quatro dias de intervalo, nas duas extremidades do
Brasil, a 3.500 quilômetros de distância, e passar de uma temperatura de 0 a 35 graus."

O trecho acima é do jornal francês L’Equipe de 6 de junho de 1950, 19 dias antes da estreia agendada
para a França na Copa. O presidente da Federação Francesa, Henry Delaunay, chegou a receber um
telefonema de Sotero Cosme, desenhista, músico e diplomata brasileiro, falando em nome do Comitê
Organizador. Cosme insinuou a possibilidade de mudar a tabela, mas Delaunay não considerou o
telefonema uma resposta oficial.
A França não veio ao Brasil em 1950.
Como os franceses enfrentariam o Uruguai, houve só um jogo da primeira fase para a Seleção Celeste,
que massacrou a Bolívia por 8 X 0. Vale lembrar que no dia do conhecimento do gramado, na véspera da
partida com os uruguaios, a Seleção Andina fazia o aquecimento e chutava bolas ao gol minutos antes da
chegada da delegação Celeste. Ao perceberem a aproximação dos adversários, passaram a esconder o
jogo. Chutes para longe, passes errados, nada do que pretendiam fazer no dia seguinte.
O despiste não serviu para nada e o Uruguai venceu por 8 X 0.
O Uruguai era um time forte. Mantinha uma defesa com três homens, Gambetta à direita, Matías
González e Tejera no meio da zaga. Andrade fazia a marcação pelo lado esquerdo, mas mais perto de
Obdulio Varela, um cabeça de área nos tempos do WM.
Juan López não era um tático, mas seguia a tradição do futebol oriental. Marcação pesada e toque de
bola quando retomava o controle das ações.
No turno final, uma vitória magra sobre a Suécia e um empate por 2 X 2 com a Espanha deu a ideia de
que a Celeste não estava em seu melhor momento.
Os jogadores repetiam-se, apesar da alternância dos treinadores. Alguns especiais, como Juan
Schiaffino.
Se o retrospecto uruguaio contra o Brasil de Flávio Costa era forte, com Schiaffino era melhor ainda.
Quatro vitórias, três derrotas e um empate, com seu melhor jogador em campo.
Com Ghiggia era diferente. O ponta-direita do Peñarol estreou apenas em abril com a camisa da
Seleção Celeste. E os confrontos contra os brasileiros tornaram-se tormentos para os laterais-esquerdos
do Brasil, fossem Noronha, Bigode ou Nilton Santos.
Como Schiaffino e Ghiggia, o centroavante Míguez era jogador do Peñarol. Ou seja, havia
entrosamento.
Quem lançava os jogadores do ataque não era carbonero, mas tricolor, pertencia ao Nacional: Julio
Pérez. Era o lançador, o homem que deixou Ghiggia no mano a mano com Bigode na jogada do gol de
empate do Uruguai.
Depois, um baile se seguiu de Ghiggia sobre o lateral Bigode, sem a cobertura do zagueiro Juvenal.
O Uruguai venceu porque era melhor. A frase de Flávio Costa resume tudo, assim como Dunga ter dito
que o Brasil de 1998 trabalhou o suficiente para ser vice-campeão define a campanha de 48 anos mais
tarde.
O Uruguai era um time respeitável. Por isso foi campeão mundial de 1950.
Seus dirigentes nem tanto.
Conta-se que no retorno a Montevidéu, os diretores da Associação Uruguaia de Futebol entregaram
medalhas de prata para os campeões mundiais. E eles próprios ficaram com as medalhas de ouro.
Há uma versão segundo a qual Obdulio Varela teria dito que perderia a decisão se conhecesse o
descaso de seus dirigentes.

Sistema: WM
Técnico: Juan López
O nascimento do 4-4-2
Inglaterra na Copa de 1966

A lf Ramsey teve uma experiência ruim no Brasil. Era o centro-médio da Seleção Inglesa que passou o
maior vexame de todas as Copas ao perder para os Estados Unidos no estádio Independência, em
Belo Horizonte, em 1950. Ramsey e os ingleses voltaram para casa criticando a hospedagem e a
alimentação no Brasil. Camas e comidas ruins.
Jogador do Tottenham, tornou-se técnico dos bons no Ipswich Town a partir de 1956. Gostava de jogar
com pontas abertos e foi assim que venceu o Campeonato Inglês de 1962, quatro pontos à frente do
poderoso Tottenham, campeão da temporada anterior, dirigido por Bill Nicholson e com o destaque do
volante Blanchflower no meio de campo. Um dos destaques do Ipswich era o ponta-esquerda Leadbetter,
tipicamente ofensivo.
Foi com dois pontas abertos, mas prestando atenção aos ensinamentos do Brasil campeão mundial em
1962, que Alf Ramsey assumiu a Seleção Inglesa no segundo semestre daquele mesmo ano. Substituiu a
Walter Winterbottom, que em quatro mundiais não conseguiu superar as quartas de final.
Pior, em 1958, protagonista do primeiro 0 X 0 da história dos Mundiais, foi eliminado na primeira fase
da Copa do Mundo no grupo de Brasil, Áustria e União Soviética.
Ramsey assumiu a seleção no segundo semestre de 1962, estreou em fevereiro de 1963 e adotou o
velho 4-2-4. Mas com Bobby Charlton, estrela do Manchester United, aberto pela ponta-esquerda. Uma
imitação do que Zagallo fazia no Brasil de 1962. O 4-2-4 de Feola virou o 4-3-3 de Aymoré Moreira na
campanha do Mundial do Chile, porque Zagallo protegia muito mais o lado esquerdo do campo.
Trabalhava como formiguinha, preenchia espaços no meio de campo e atacava pela esquerda sempre que
possível.
Essa foi a missão dada a Bobby Charlton, fora de sua posição original do Manchester United, porque
Ramsey tentava privilegiar o talento de Bobby Smith e Jimmy Greaves, do Tottenham, que continuava
sendo a mais temida equipe inglesa daquela época.
Na ponta-direita, Tambling, do Chelsea.
Era quase um 4-3-3, mas Charlton atacava muito, o que permitia que muitos olhassem o desenho com
quatro atacantes.
Essa mesma formação estreou na Copa das Nações, no Maracanã, contra a Seleção Brasileira.
Taticamente, o mesmo desenho, com uma única alteração: Eastham, do Arsenal, na vaga de Tambling.
O Brasil tinha Rinaldo aberto pela esquerda fazendo o papel de Zagallo e massacrou os ingleses,
abertos demais para enfrentar os campeões do mundo: levaram 5 X 1.
Empate com Portugal na segunda partida e no terceiro jogo, no Maracanã, contra a Argentina, os
ingleses perderam para o talento sul-americano e também para a tática latina. O zagueiro e capitão
argentino, Ramos Delgado, mais tarde craque do Santos, conta no livro Inverting the pyramid [Invertendo
a pirâmide], do inglês Jonathan Wilson, que o ponta-esquerda Telch imitava Zagallo do lado esquerdo do
time argentino.
Mais do que isso, do lado oposto o ponta-direita Onega voltava e formava uma linha de três homens,
com o volante Rattín.
Havia proteção por todos os lados da Seleção Argentina. A Inglaterra perdeu-se com seu time
totalmente atacante. Nunca mais o 4-2-4 foi utilizado num time inglês. Nasceu assim o sistema com linha
de quatro homens na defesa e quatro em linha no meio de campo.
Alf Ramsey passou a ser considerado – e culpado – o pai dos pontas-defensivos. A morte dos wingers,
como são chamados os ponteiros no futebol inglês. O camisa 7 e o camisa 11 passaram a bloquear,
marcar pelos lados e cruzar muitas vezes da intermediária.
A Argentina venceu a Taça das Nações em 1964, em território brasileiro, uma das vitórias
comemoradas pelos argentinos antes das Copas do Mundo de 1978 e 1986. Ramsey jamais admitiu ter
sido influenciado pelos argentinos. Digamos que tenha sido influenciado pela derrota.
Aos poucos até o final daquele mesmo ano, Alf Ramsey começou a mudar sua equipe. Num amistoso
contra a Holanda, em Amsterdã, em dezembro, testou Bobby Charlton ainda mais recuado, com a camisa
11. Charlton jogava como se fosse o Zagallo da Copa de 1962 ou como se fosse Telch, da Argentina, na
Taça das Nações, no Maracanã. O empate por 1 X 1 contra os frágeis – na época – holandeses, poderia
ter desestimulado o treinador inglês. Ao contrário.
As mudanças foram progressivas. Sua solução foi encontrar um volante à moda Rattín, o argentino a
quem Ramsey havia conhecido no Maracanã. No primeiro jogo de 1965, um empate por 2 X 2 contra a
Escócia, a Inglaterra entrou em campo com o volante Nobby Stiles, um cão de guarda capaz de liberar ao
jogo ofensivo Bobby Charlton, como terceiro homem de meio de campo.
Em maio daquele mesmo ano, tirou de campo o ponta-direita Thompson, do Liverpool, elogiadíssimo
durante a Taça das Nações, para escalar Alan Ball, do Blackpool. A força física de Ball dava condição
de fazer o serviço duplo, compor o meio de campo e chegar ao ataque com força.
A mudança definitiva veio também contra a Iugoslávia, em novo amistoso, mas já em maio de 1966.
Depois de meses tentando o ponta-esquerda Connelly, do Manchester United, Ramsey encontrou no multi-
homem Martin Peters, do West Ham, o homem certo para reproduzir o argentino Telch – ou o brasileiro
Zagallo.
Peters fechava o lado esquerdo, Ball bloqueava o lado direito, Stiles marcava como cão feroz na
frente da defesa e liberava Bobby Charlton. Em tese, era um 4-4-2 com duas linhas de quatro. Na prática,
Bobby Charlton escapava dessa linha e se aproximava dos dois avantes, Roger Hunt, do Liverpool,
escalado como titular contra a Hungria, em janeiro de 1966. E Geoff Hurst, do West Ham, que se tornou
indispensável a partir de uma vitória sobre a Alemanha, amistoso em fevereiro do ano da Copa. Vitória
por 1 X 0, gol de Nobby Stiles.
O sistema estava consolidado. Poderia se chamar de retranca, mas ficou mais conhecido por
eficiência: “Há cinquenta anos, o 4-4-2 é o sistema mais usado no mundo”, repete exaustivamente Carlos
Alberto Parreira, campeão mundial em 1994 com o esquema inglês.
Apesar das experiências terem levado às conclusões de que Hunt e Hurst poderiam jogar juntos no
ataque e que Bobby Charlton teria mais liberdade com Ball pela direita e Peters pela esquerda, a
insistência em jogadores talentosos como Jimmy Greaves, do Tottenham, adiou a formação do time
campeão mundial.
Jimmy Greaves era um mito. Autor de 124 gols em 157 partidas pelo Chelsea, passou pelo Milan e
deixou números impressionantes no Tottenham. Fez 220 gols em 321 partidas. Natural que Ramsey
insistisse com ele.
Por tudo isso, o time campeão mundial só foi escalado integralmente nas quartas de final, dentro da
Copa: Banks, Cohen, Jack Charlton, Bobby Moore e Wilson; Ball, Stiles, Bobby Charlton e Peters; Hurst
e Hunt.
Assim, em duas linhas de quatro, mesmo que a liberdade a Bobby Charlton desarmasse o sistema para
formar por vezes um losango no meio de campo. Ou, como o volante Nobby Stiles definiu em sua
autobiografia, um 4-1-3-2. “Eu ficava um pouco atrás da linha com Alan Ball, Bobby Charlton e Martin
Peters”, escreveu.
O time campeão mundial, o que se consolidou na Copa de 1966 e definiu o 4-4-2 como o sistema mais
usado no mundo nasceu na derrota para a Argentina em 1964. Mas estreou na vitória sobre os mesmos
argentinos dois meses depois.
Virou mito com três vitórias. Depois das quartas de final contra a Argentina, a semifinal contra
Portugal e a decisão, vencida na prorrogação contra a Alemanha Ocidental.
Verdade que talvez a consagração do 4-4-2 não acontecesse não fosse a mãozinha dada pelo árbitro
suíço Gottfried Dienst. Talvez Ramsey preferisse ter só um homem imitando o ponta-esquerda defensivo.
E ele nunca fosse considerado o assassino dos pontas no futebol moderno, como acontece na análise
sobre seu trabalho em toda a Europa.

Sistema: 4-4-2
Técnico: Alf Ramsey
Três zagueiros
Alemanha na Copa de 1990

J oão Saldanha, o João Sem Medo, morreu a uma semana do fim do Mundial vencido pela Alemanha e
assistiu a toda a construção da seleção de Lazaroni, com líbero e tudo. Talvez não tenha tido saúde
para perceber que na penúltima Copa com 24 seleções – a partir de 1998 o Mundial saltou para 32
times – vinte delas jogavam no 3-5-2.
A teoria descrita pelo alemão Sepp Piontek, técnico da Dinamarca na Copa de 1986, de que menos
gente na defesa significaria mais gente atacando não se confirmou no Mundial de 1990. O pior da história
em média de gols, porque os três zagueiros somavam-se em vários times a dois laterais defensivos e, na
prática, várias equipes jogavam num 5-3-2. Só dois camicases isolados no ataque para tentar um gol
solitário.
Era assim a Argentina, que seguiu aos trancos e barrancos, passando pela primeira fase em terceiro
lugar, avançando nos pênaltis pelas quartas de final e pela semifinal. A nobre exceção na primeira fase
do mundial foi a Alemanha dirigida por Franz Beckenbauer.
Desde a final da Copa de 1986, muita coisa havia mudado no time alemão. Também no futebol
germânico, que passou por uma de suas crises mais sérias na segunda metade da década de 1980. As
arquibancadas esvaziaram-se e o tênis virou o esporte mais popular nas telas de TV, por causa dos
fenômenos Boris Becker e Steffi Graf. A Alemanha estava no topo do ranking da Associação dos Tenistas
Profissionais, tanto entre os homens quanto entre as mulheres. O resultado durante alguns anos fez
despencar o prestígio do futebol.
No meio disso, a Eurocopa disputada em território alemão ajudou a depressão. A Alemanha começou
mal com empate contra a Itália, avançou à segunda fase, mas foi eliminada nas semifinais pela rival
Holanda, com gol de Marco van Basten no último minuto, num carrinho improvável que fez a bola parar
no fundo da rede.
Nesse ano, os alemães já haviam aderido ao sistema da moda, o 3-5-2, mas sem mostrar grande avanço
de sua seleção nacional. Foi diferente quando o pontapé inicial do Mundial de 1990 foi dado.
No primeiro jogo, vitória e massacre por 4 X 1 diante da Iugoslávia. Lembre-se de que apenas três
anos antes os iugoslavos haviam sido campeões mundiais sub-20 e revelaram a geração de Prosinecki,
Panceve e Savicevic que faria história nos maiores clubes da Europa nos dez anos seguintes.
Mas a Alemanha tinha diferenciais fantásticos. Seu lateral-esquerdo era um armador de origem,
Andreas Brehme. Seu líbero, Klaus Augenthaler, tinha alta classe e o primeiro volante, Lothar Mathäus,
chegava a seu terceiro Mundial no ápice. Armava o time desde o primeiro passe e chegava à frente da
grande área adversária pronto para finalizar – marcou dois na estreia contra os iugoslavos.
O segundo jogo contra os Emirados Árabes foi também um show, com goleada por 5 X 1. Em duas
partidas, os alemães marcaram nove vezes e sofreram dois gols.
O espetáculo terminou aí.
Na pior Copa de todos os tempos, a Alemanha seguiu sendo o melhor time até o final, mas passou a
sofrer em todos os jogos. Empatou com a Colômbia por 1 X 1. O veterano Pierre Littbarski, ponta-direita
que ajudara o meio de campo no vice-campeonato de 1982, meia de ligação pelo lado esquerdo na
campanha de 1990, fez o gol que parecia dar a terceira vitória e 100% de aproveitamento na fase de
grupo até o gol de Freddy Rincón no último instante da partida.
Veio o clássico cheio de rivalidade contra a Holanda, nas oitavas de final.
Uma espécie de Milan X Internazionale, o derby de Milão. Nos dois anos anteriores, o Milan foi
campeão italiano e bicampeão da Europa escalando os holandeses Marco van Basten, Ruud Gullit e
Frank Rijkaard – este último não ganhou a taça nacional.
Do outro lado, a Inter foi campeã italiana de 1989 com os alemães Andreas Brehme e Lothar Matthäus
e incorporou Jürgen Klinsmann na temporada seguinte.
Isso sem contar a rivalidade entre alemães e holandeses, proveniente das grandes guerras, alimentada
na final da Copa do Mundo de 1974, reforçada no duelo da segunda fase do Mundial de 1978, aumentada
na semifinal da Eurocopa de 1988, vencida pela Holanda.
Vitória por 2 X 1, com direito a cusparada de Rijkaard em Rudi Völler nos minutos finais e eliminação
holandesa no mesmo estádio San Siro, protagonista dos clássicos dos dois maiores times da Itália
daquele período.
Alemanha seguia favorita. Seguia com sua maneira de jogar, Augenthaler, Kohler e Buchwald na
defesa, lateral defensivo pela direita – Berthold – e ofensivo pela esquerda – Brehme. Volante criativo,
Lothar Matthäus, alimentado por meias de carregar a bola, como Thomas Hässler pela direita, Littbarski
ou Uwe Bein pela esquerda.
E uma dupla atacante eficaz, formada por Rudi Völler e Jürgen Klinsmann.
Apesar disso tudo, a vitória nas quartas de final só veio com gol de pênalti de Matthäus, nos últimos
instantes. A classificação para as finais apenas nos pênaltis contra a Inglaterra do técnico Bobby Robson,
escalada de maneira inédita com um líbero – impensável para os tempos de 4-4-2 rigoroso dos ingleses.
E a finalíssima vencida por um gol de pênalti inexistente, marcado pelo discutível árbitro mexicano
Edgardo Codesal, cometido sobre Rudi Völler, que mais caiu por receber o contato do zagueiro Monzón
do que por ter sido de fato atingido.
A Copa das estranhezas terminou com a cobrança de Andreas Brehme. Mas como, se Lothar Matthäus,
craque do time, líder da equipe e batedor oficial, estava em campo?
Matthäus queixou-se de uma dor no pé direito e se disse incapaz de fazer a cobrança. Por isso Brehme
cobrou... mal... e deu chances para o goleiro Goycochea tocar na bola antes de vê-la tocar a rede.
Curioso que a Argentina só tenha chegado tão longe pelas defesas incríveis de seu goleiro reserva, que
só virou titular porque Nery Pumpido, campeão do mundo em 1986, fraturou a perna na segunda partida,
contra a União Soviética.
O mérito da conquista era também de Franz Beckenbauer, o primeiro homem na história a levantar
Copa do Mundo como capitão e depois como técnico – e o segundo como jogador e treinador, depois do
brasileiro Zagallo.
Mas a Alemanha foi a única capaz de formar um time digno com aquele sistema da moda, com três
zagueiros e um monte de meio-campistas defensivos.
Talvez porque João Saldanha tivesse razão. Até aquele momento, com gols rareando e emoções
diminuindo, a última revolução do futebol tinha acontecido 65 anos antes.
Sistema: 3-5-2
Técnico: Franz Beckenbauer
Quadrado trágico
Brasil na Copa de 2006

O cenário é o bairro paulistano do Parque Continental, na zona oeste. O ano, 1982. O garoto comprou
a camisa oficial da Seleção Brasileira, vendida nas agências da Caderneta de Poupança Continental.
Ao chegar em casa e encontrar-se com o pai, o garoto de 13 anos apontou para as três estrelas acima
do escudo da CBF e disse: “Pena que daqui a alguns meses vai ter de mudar. Serão quatro estrelas”.
A mudança não aconteceu meses, mas 12 anos mais tarde.
Em fevereiro de 2006, a cena se repetiu no lar da família Coelho. Desta vez, foi o garoto João Pedro,
seis anos, quem ganhou o presente do pai. Uma camisa oficial, cinco estrelas bordadas acima do escudo
da CBF.
A cena é real e revela o otimismo de duas gerações sobre o futuro próximo de duas seleções repletas
de craques. A de 1982 entristeceu a geração nascida no final dos anos 1960, início dos 1970. A de 2006
feriu o pequeno coração nascido no final de 1999.
A seleção da Copa da Alemanha e do quarteto apelidado Quadrado Mágico, formado pelos atacantes
Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano, já fazia parte de um tempo de pouca intimidade entre time
e torcida brasileira. Salvo em uma ou outra apresentação grandiosa, como na final e na semifinal da Copa
das Confederações, em 2005.
Em Nuremberg, uma vitória por 3 X 2 sobre a Alemanha, anfitriã. Gol de falta de Adriano aos 30
minutos do segundo tempo selou a classificação para a decisão contra a Argentina, em 29 de junho,
aniversário de 47 anos do título mundial na Suécia.
Com 11 minutos, Adriano fez 1 X 0 e Kaká repetiu 5 minutos depois. Jogo fácil em que Ronaldinho
Gaúcho fez o terceiro aos 2 minutos do segundo tempo e iniciou um show cujo ápice foi o gol de
Adriano, depois de 3 minutos de trocas de passes incessantes.
A apresentação reforçou a campanha de publicidade da fábrica de material esportivo patrocinadora da
CBF, cujo slogan era Joga Bonito. Dos últimos quatro premiados como melhor jogador do mundo, o
Brasil tinha dois – Ronaldo e Ronaldinho – e dois candidatos aos prêmios sucessivos – Kaká confirmou,
Adriano desapontou.
O time estava escalado com quatro homens em linha na defesa a frente do goleiro Dida: Cafu, Lúcio,
Juan e Roberto Carlos. Dois volantes de ótimo trato com a bola, como Émerson e Zé Roberto, um lateral
que virou meia e foi adaptado como volante pela excelente visão de jogo. Dois meias criativos e
ofensivos, como Kaká e Ronaldinho Gaúcho. E dois centroavantes decisivos, como Ronaldo e Adriano.
Essas eram as razões para o otimismo. Os motivos para realismo eram vários outros, como a
lembrança de dois anos antes quando o Brasil foi eliminado na Copa das Confederações, na França, na
primeira fase, com derrota para Camarões e empate contra a Turquia.
O técnico Carlos Alberto Parreira discursava sobre a ofensividade de sua equipe. Parecia querer
redimir-se das acusações – várias injustas – de ter sido defensivista com a seleção de 1994.
Faltou-lhe, é verdade, a companhia de Zagallo como seu para-raios. Doente, Zagallo viajou para o
período de preparação na Suíça e para o Mundial na Alemanha. Mas ficou muito mais recluso, sem
condição de saúde para acompanhar Parreira nos treinos e vigilância aos jogadores.
Todo o elenco desconversava quando se falava em abusos na noite e nas bebidas. Nos anos seguintes,
depoimentos de Gilberto Silva e Zé Roberto, principalmente, deixaram claro que faltou mais do que
talento. Faltou compromisso. Sobrou confusão, com treinos superlotados em estádios em que as
autoridades suíças cobravam ingressos na cidade de Weggis, nas proximidades de Zurique.
A seleção chegou à fase de preparação no dia 1o de junho de 2006. Exatamente um mês depois estava
eliminada da Copa do Mundo da Alemanha.
Não em um jogo qualquer, mas na maior apresentação da carreira de Zinedine Zidane, carrasco do
Brasil de Zagallo oito anos antes na decisão em Saint-Denis.
Zidane fez tudo. Deu chapéu, fez lançamento, chutou em gol, passes perfeitos, até desarmou.
Até chegar àquela fase das quartas de final, o Brasil não tinha repetido nenhuma grande atuação da
Copa das Confederações de um ano antes. A França, apenas uma, as oitavas de final vencidas contra a
Espanha, na segunda partida em que o treinador Luis Aragonés abriu mão de sua convicção e escalou o
atacante Raúl, do Real Madrid, como titular.
Kaká deu sinal de que poderia ser o melhor jogador da Seleção ao fazer um golaço na estreia contra a
Croácia. O segundo jogo registrou gols de Adriano e Fred, no último instante, para vencer com apuro a
Austrália. Na terceira partida, os reservas mostraram bom futebol e muita gente pediu a substituição dos
titulares Cafu, Roberto Carlos e Émerson pelo sangue novo de Cicinho, Gilberto e Juninho
Pernambucano.
Nas oitavas de final, a boa seleção de Gana foi batida por 3 X 0 e Ronaldo marcou seu 15o gol na
história das Copas – tornou-se o maior goleador de Mundiais de todos os tempos.
Contra a França, além do espetáculo de Zidane, o episódio do lateral Roberto Carlos ajeitando a meia
momentos antes da cobrança de falta com que o camisa 10 francês deixou o atacante Thierry Henry frente
a frente com o goleiro Dida para marcar. Não era sua responsabilidade marcar ninguém, mas ficar no
rebote. Mesmo assim, o país não o anistiou.
Eleito melhor jogador do mundo pela Fifa nos dois anos anteriores, Ronaldinho Gaúcho viveu 45 dias
de declínio. Venceu a Copa dos Campeões da Europa em Paris no dia 17 de maio, mas não foi
protagonista. Dizia-se semanas antes que estava a degraus de alcançar o que Pelé conseguiu.
Na semifinal da Liga dos Campeões, um drible no volante Gattuso no espaço de um lenço e um
lançamento perfeito deixaram o colega Giuly na cara do gol para garantir a vitória em Milão e o avanço
para a decisão de Paris.
Foi seu último grande momento nesses 45 dias que lhe custaram o prêmio de tricampeão. Ronaldinho
nunca mais foi o mesmo das duas partidas decisivas da Copa das Confederações de 2005 – ou das
quartas de final de 2002 contra a Inglaterra. Também nunca mais seria um jogador igual no Barcelona,
clube do qual sairia duas temporadas mais tarde, em maio de 2008.
Castigo supremo para uma seleção tão talentosa quanto sem compromisso. Ronaldinho assistiu no
palco à entrega do prêmio de melhor jogador do mundo ao zagueiro italiano Fabio Cannavaro.
A história quem conta são os vencedores.
Sistema: 4-2-2-2
Técnico: Carlos Alberto Parreira
A maldição do bi
2014

A imagem de Vicente Feola não é de um treinador estrategista. Ao contrário, era chamado de


dorminhoco. A fama já vinha dos tempos em que dirigia o São Paulo, bicampeão paulista em 1948 e
1949. Mas consolidou-se mesmo no Mundial de 1966. Torcedores revoltados com a eliminação da
Seleção apedrejaram sua casa depois da derrota para Portugal.
Feola foi o primeiro técnico campeão mundial a tentar o bi pela Seleção. Não o fez em 1962 ou teria
se tornado o segundo na história com duas taças. O primeiro e único foi o italiano Vittorio Pozzo.
Como se fosse uma praga imposta pelo técnico italiano, todos os treinadores que tentaram o segundo
título mundial fracassaram. Como se Pozzo tivesse a hegemonia da prancheta. Ele que não se notabilizou
por ser um estrategista, nem tampouco um treinador atualizado – montava suas equipes no surrado 2-3-5
num tempo em que já se jogava no WM.
A praga italiana não atingiu apenas os treinadores brasileiros, mas pegou feio quatro dos cinco
campeões mundiais pela Seleção. Só Aymoré Moreira não foi vítima, por ter disputado um único Mundial
como treinador – em 1962, justamente porque Vicente Feola não pôde continuar por estar doente –
Felipão fará a quarta tentativa.
Da casa apedrejada de Feola ao samba de Luiz Américo às vésperas da Copa do Mundo de 1974.
“Desculpe, seu Zagallo, mexe nesse time que tá muito fraco!”. Zagallo montava a equipe num 4-3-3,
tentava imitar o que fez em 1970 e contava com jogadores de categoria como Jairzinho, Rivellino e Paulo
Cézar Caju.
O problema pode ter sido o entusiasmo diluído dos jogadores ou a falta de confiança pela ausência de
Pelé em uma Copa do Mundo pela primeira vez em 16 anos. Fato é que o Brasil jogou um futebol feio,
empatou com Iugoslávia e Escócia por 0 X 0, só superou a primeira fase por um gol de saldo conquistado
aos 33 do segundo tempo contra o Zaire.
Parreira, o terceiro da fila, não teve a segunda chance logo depois de seu título mundial. Voltou três
Copas mais tarde, em 2006. E não conseguiu domar o ambiente festivo em excesso depois da conquista
da Copa das Confederações.
Mas não foram apenas os brasileiros os castigados pela maldição de Vittorio Pozzo. O último a sofrer
com ela também foi italiano.
Marcello Lippi estruturou a Itália com duas linhas de quatro homens rigorosamente marcadas,
Camoranesi, De Rossi, Pirlo e Perrotta no meio de campo como marcadores, liberando Totti para a
armação e Toni como centroavante.
A formação levou a taça de maneira surpreendente em 2006. E mais surpreendente foi a eliminação da
Itália na primeira fase da Copa do Mundo de 2010 pela primeira vez em 32 anos. Desde 1974 isso não
ocorria. Pois a Itália empatou com Paraguai e Nova Zelândia, perdeu da Eslováquia e caiu na fase de
grupos. Foi o primeiro técnico campeão mundial na Copa anterior eliminado na fase de grupos no
Mundial seguinte.
Lippi tinha uma carreira sólida na Itália, mas foi expurgado do futebol de seu país e refugiou-se na
China, para dirigir o Guangzhou, time do argentino Conca e do brasileiro Muriqui em 2013.
Há uma lista maior de treinadores fracassados na missão de vencer a maldição de Pozzo.
Começa com Juan López, treinador uruguaio da Copa do Mundo de 1950, semifinalista quatro anos
mais tarde no Mundial da Suíça, em 1954.
Sepp Herberger, vencedor na final da Alemanha contra a Hungria na Copa da Suíça, semifinalista na
Suécia, em 1958.
Alf Ramsey tentou o bi no México, em 1970, depois de ter levado a Inglaterra e seu 4-4-2 recém-
inaugurado à taça na Copa disputada em casa, em 1966. Chegou às quartas de final e só foi eliminado na
prorrogação contra a Alemanha, mas pagaria preço mais alto nas eliminatórias para o Mundial de 1974,
quando um empate contra a Polônia, em Wembley, tirou-lhe a vaga. Tirou-lhe também o emprego,
entregue a Don Revie, do Leeds United, seis meses depois da primeira – e vexatória – eliminação na fase
pré-Mundial.
Helmut Schöen envelheceu sua Seleção Alemã e ficou longe do bi, por cair na segunda fase de grupos
no Mundial da Argentina. Nem às semifinais chegou e pagou o maior mico de um treinador campeão
mundial antes do vivido por Marcello Lippi, na África do Sul.
Então foi a vez de Cesar Luis Menotti repetir o fracasso de Schöen e ver sua Argentina morrer também
na segunda fase de grupos, mas contra italianos e brasileiros, na Espanha em 1982. Maradona, aos 21
anos, não evitou o fiasco.
Enzo Bearzot, campeão com a Itália na Copa da Espanha, morreu também na primeira fase de mata-
matas, depois de superar os grupos no México, 1986. Perdeu da França do técnico Henri Michel e do
craque Michel Platini.
Ninguém chegou tão perto de igualar Vittorio Pozzo quanto Carlos Bilardo, finalista da Copa da Itália,
em 1990, campeão no México, em 1986. Na finalíssima contra a Alemanha, o gol do título surgiu apenas
por um pênalti mal assinalado pelo árbitro mexicano Edgardo Codesal, aos 39 minutos do segundo
tempo. Mais seis minutos e Bilardo poderia ser bicampeão mundial.
Beckenbauer, campeão em 1990, Aimé Jacquet, campeão em 1998, não tentaram o feito. Parreira, sim.
Voltou ao cargo na mesma Seleção Brasileira em 2006, 12 anos depois de ser campeão nos Estados
Unidos. Fracassou.
E até Felipão já tentou. Mas, nesse caso, por uma seleção diferente daquela em que se consagrou.
Campeão na Ásia, em 2002, Felipão levou Portugal às semifinais de 2006.
Sua tentativa em 2014 será mais corajosa. Dirigir o Brasil em casa, levá-lo à segunda final no
Maracanã e vencer. Superar o tabu imposto por Vittorio Pozzo desde a Copa da França em 1938 não é
missão para um treinador qualquer.
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Paulo Vinicius Coelho nasceu em São Paulo em 1969 e é jornalista desde os 18 anos. Trabalhou em
jornais do ABC paulista, como Gazeta de S. Bernardo e Diário do Grande ABC. Seu sonho era ser
jornalista esportivo, um especialista. Chegou à revista Placar em 1991 e cobriu quatro Copas do Mundo:
em 1994 pela Placar, em 1997 pelo diário Lance!, e em 2006 e 2010 pela ESPN-Brasil. Entre 1997 e
2008 foi colunista do diário Lance! e, em 2008, tornou-se colunista da Folha de S.Paulo. Desde 2002 é
chefe de reportagem e comentarista na ESPN-Brasil. Pela Panda Books publicou Os 50 maiores jogos
das Copas do Mundo e Bola fora – A história do êxodo do futebol brasileiro.
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Coelho, Paulo Vinicius
Tática mente / Paulo Vinicius Coelho. – 1. ed. – São Paulo: Panda Books, 2014.

ISBN: 978-85-7888-356-0

1. Futebol. 2. Jogadores de futebol – Brasil. I. Título.


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