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SOBRE A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS, DE GARDNER


Por psicopr
15 de abril de 2005
Última Atualização 25 de junho de 2006

SOBRE A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS, DE GARDNERLeandro KruszielskiTrabalho apresentado à


disciplina de Psicologia da Aprendizagem,da Universidade Federal do Paraná (1999)

Existem
teorias científicas que revolucionam o modo de pensar de determinada
área do conhecimento. Outras ganham espaço na mídia em geral e,
consequentemente, são reconhecidas pelo grande público. A teoria das
Inteligências Múltiplas de Howard Gardner (pesquise livros e preços de edições brasileiras) parece estar enquadrada nos
dois casos.

Existem teorias científicas que revolucionam o modo de pensar de


determinada área do conhecimento. Outras ganham espaço na mídia em
geral e, consequentemente, são reconhecidas pelo grande público. A
teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner parece estar
enquadrada nos dois casos.

Este fato acarreta vantagens e


desvantagens. A grande vantagem, neste caso, é a mudança de pensamento
de pessoas que normalmente não tem acesso ou interesse em artigos
científicos. A desvantagem encontra-se no fato de que, ao tornar-se uma
teoria "popular", correria riscos de ser tratada superficialmente
permitindo que os eventuais erros fossem expostos sem uma análise mais
crítica.

Pensando desta maneira, o presente trabalho pretende


apresentar de forma sucinta a teoria das Inteligências Múltiplas e
realizar uma breve análise crítica da teoria, enfocando principalmente
o aspecto neuropsicológico inserido nela. Por esta razão, durante a
exposição da teoria em si, embora mantendo fidelidade ao conteúdo
original, serão utilizados outros autores para fundamentar as
inteligências em seu aspecto cerebral. Fundamentando-se assim, poderá
acontecer uma crítica mais consistente por estar enfocada em
determinado aspecto, que anteriormente foi destacado na apresentação da
teoria.

2. A TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Em
1900 o psicólogo francês Alfred Binet foi solicitado para que
desenvolvesse uma medida de predição do sucesso escolar de crianças das
primeiras séries. Desta forma surgiu o primeiro teste de inteligência.
Tal teste tinha por finalidade geral diferenciar crianças retardadas e
crianças normais nos mais diferentes graus. Após a I Guerra Mundial,
onde o teste de Q.I. (Quociente Intelectual) foi utilizado para medir a
inteligência dos soldados, tornou-se muito popular sua aplicação.

Com
a popularização do teste, propagou-se a idéia de inteligência nele
inserida. A inteligência seria única, estagnada, passível de ser medida
quantitativamente. Segundo GARDNER (1995, p. 21), autor da teoria das
Inteligências Múltiplas que veremos a seguir, segundo esta visão
tradicional: "a inteligência é (...) a capacidade de responder a itens
em testes de inteligência". Os testes psicométricos consideram que
existe uma inteligência geral, nos quais os seres humanos diferem uns
dos outros, que é denominada g. Este g pode ser
medido através da análise estatística dos resultados dos testes. É
importante acrescentar que tal maneira de encarar a inteligência ainda
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hoje está presente no senso comum e mesmo em muitas parcelas do meio


científico.

Porém podemos observar que durante todo o século XX,


vários psicólogos e cientistas de outras áreas do conhecimento fizeram
fortes críticas aos testes de Q.I. Vygotsky, por exemplo, apontou o
erro no que diz respeito aos testes de inteligência abordarem as zonas
de desenvolvimento proximal de modo errado. Piaget trabalhava com tais
testes, mas a sua atenção era voltada para as linhas de raciocínio das
crianças, não para as respostas dadas. Estudando as respostas erradas e
os raciocínios que conduziam a elas, Piaget construiu parte de sua
teoria. Ao criticarem o modo como era medido a inteligência, o próprio
conceito de inteligência contido em tais testes era também criticado.

Entretanto
uma proposta mais revolucionária surgiu recentemente através de Howard
Gardner, psicólogo e professor norte americano. GARDNER (1995, p.14)
entende por inteligência "a capacidade para resolver problemas ou
elaborar produtos que sejam valorizados em um ou mais ambientes
culturais ou comunitários". A novidade dentro da teoria de Gardner é
considerar a inteligência como possuindo várias facetas. Tais facetas,
que na verdade são talentos, capacidades e habilidades mentais; são
chamadas de inteligências na teoria das Inteligências Múltiplas, como o
próprio nome explicita.

Antes de discorrer a respeito da teoria e


das diversas inteligências vale lembrar de um curioso incidente que
aconteceu em nosso país antes de Copa do Mundo de 1958. O Brasil
possuía seu primeiro psicólogo esportivo, João Carvalhaes, que atendia
a seleção brasileira de futebol. O psicólogo resolveu aplicar em todos
os jogadores testes de QI. Garrincha, que estava no apogeu de sua
carreira, após responder os testes ficou sabendo que seu quociente
intelectual era irrisório, sendo classificado como débil mental. Por
este motivo quase foi impedido de participar da Copa. (MODERNELL, 1992,
p. 56)

Ninguém duvida do talento que possuía este atleta quando


se encontrava no meio de um gramado com a bola nos pés. Todavia, o
teste psicométrico de inteligência indicava Garricha como uma pessoa
sem grandes chances de ser bem sucedido em sua vida, o que não
correspondeu à realidade. Fica claro que os testes de QI predizem
apenas como vai ser o desempenho escolar e não o sucesso profissional
depois de concluída a instrução formal.

É dentro desta
perspectiva que Gardner apresenta a teoria das Inteligências Múltiplas
(IM). Os testes de QI medem apenas as capacidades lógica e lingüística,
capacidades que normalmente são as únicas exigidas e avaliadas pelas
escolas e, sem dúvida, as capacidades mais valorizadas em nossa
sociedade. Gardner pretende considerar também as outras capacidades, as
outras "inteligências" menos lembradas, para analisá-las em sua teoria.

Para
selecionar quais as inteligências que seriam trabalhadas em sua teoria
foram utilizadas diversas fontes: as informações disponíveis sobre o
desenvolvimento normal e o desenvolvimento do indivíduo talentoso;
estudos sobre populações prodígios, idiotas sábios, crianças autistas,
crianças com dificuldade de aprendizagem; dados sobre a evolução da
cognição; considerações culturais comparadas sobre a cognição; estudos
psicométricos; estudos de treinamento psicológico e principalmente
análise da perda das capacidades cognitivas nas condições de lesão
cerebral. Foram consideradas inteligências genuínas apenas as
inteligências candidatas que satisfaziam todos ou, pelo menos, a
maioria dos critérios acima. Além disso cada inteligência deveria ter
uma operação nuclear ou um conjunto de operações identificáveis e
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deveria também ser capaz de ser codificada em um sistema de símbolos.


(GARDNER, 1995, p. 21-22)

Deste modo, foram selecionadas sete


inteligências em particular: lógico-matemática, lingüística, musical,
corporal-cinestésica, espacial, interpessoal e intrapessoal. Cada uma
delas será analisada separadamente.

2.1 INTELIGÊNCIA LÓGICO-MATEMÁTICA

Como
o próprio nome indica, a inteligência lógico-matemática é a capacidade
lógica e matemática, assim como a capacidade de raciocínio científico
ou indutivo, embora processos de pensamento dedutivo também estejam
envolvidos. Esta inteligência envolve a capacidade de reconhecer
padrões, de trabalhar com símbolos abstratos (como números e formas
geométricas) assim como discernir relacionamentos ou então ver conexões
entre peças separadas ou distintas. Relaciona-se, também, à capacidade
de manejar habilmente longas cadeias de raciocínio, elaborar perguntas
que ninguém fez, conceber problemas e levá-los a diante. Juntamente com
a linguagem, é a principal base para os testes de QI. O desenvolvimento
de tal inteligência foi o grande objeto de estudo de Jean Piaget.

Tal
inteligência possui uma natureza não-verbal, de modo que a solução de
um problema pode ser construída antes de ser articulada. Alguns idiotas
sábios realizam grandes façanhas de cálculo sem sequer saberem
comunicarem-se ou até mesmo realizar simples operações de adição ou
subtração. Como dois gêmeos relatados por SACKS (1997, p.217) que
apenas vêem a resposta do problema: "Uma data é mencionada e, quase
instantaneamente, eles informam em que dia da semana ela cairá. (...)
Eles também podem dizer a data da Páscoa durante o mesmo período de 80
mil anos." Enquanto tais gêmeos são tragicamente deficientes em
diversas áreas, conseguiram realizar um algoritmo para a data da Páscoa
que até mesmo o grande matemático Gauss teve uma enorme dificuldade
para descobrir. Possuem uma inteligência lógico-matemática extremamente
desenvolvida.

A região do córtex responsável pelo cálculo


matemático em si e, provavelmente, pela inteligência lógico-matemática
situa-se na região têmporo-paríeto-ocipital do hemisfério esquerdo.
(LURIA, 1981, p. 25)

Está presente nos cientistas, programadores de computadores, contadores, advogados, banqueiros e matemáticos.

2.2 INTELIGÊNCIA LINGÜÍSTICA

A
inteligência lingüística é manifestada no uso da linguagem (seja ela
escrita, falada ou através de outro meio), no significado das palavras;
pela capacidade de seguir regras gramaticais e usar a linguagem para
convencer, estimular, transmitir informações ou simplesmente agradar.
Ainda é responsável por todas as complexas possibilidades lingüísticas,
entre elas, a poesia, as metáforas, o raciocínio abstrato e o
pensamento simbólico.

São duas as principais áreas corticais


responsáveis pela linguagem. A área de Wernicke (lobo temporal do
hemisfério esquerdo) é responsável pelo entendimento da linguagem e a
organização das palavras. A área de Broca (giro pós-central do
hemisfério esquerdo) cuida da articulação da fala, da produção da
linguagem expressiva. Ainda contribuem para a linguagem a região
têmporo-ocipto-parietal responsável pela organização gramatical e o
hemisfério direito para criar o ritmo, entonação e fluxo da fala.
(SPRINGER; DEUTSCH, 1993. p. 184-186).
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Nos poetas, teatrólogos,


escritores, novelistas, oradores e comediantes podemos encontrar a
inteligência lingüística bem desenvolvida.

2.3 INTELIGÊNCIA MUSICAL

Esta
inteligência baseia-se no reconhecimento de padrões tonais (incluindo
sons do ambiente) e numa sensibilidade para ritmos e batidas. Inclui
também capacidades para o manuseio avançado de instrumentos musicais.

Não
podemos separar para a inteligência musical determinadas áreas
corticais como fizemos para a inteligência lingüística. Mas sabemos que
o hemisfério direito, principalmente o lobo temporal, é o encarregado
da audição e da criação musical. Uma lesão maciça neste hemisfério pode
levar a uma amusia: o lesionado não consegue perceber combinações
rítmicas ou até mesmo entonações de voz. (LURIA, 1981, p. 112)

É destaque dos músicos, cantores, compositores e maestros.

2.4 INTELIGÊNCIA CORPORAL-CINESTÉSICA

A
inteligência corporal-cinestésica está relacionada com o movimento
físico e com o conhecimento do corpo. É a habilidade de usar o corpo
para expressar uma emoção (dança e linguagem corporal) ou praticar um
esporte, por exemplo. Garrincha, reprovado no teste de QI,
provavelmente apresentaria um ótimo desempenho nesta inteligência se
esta fosse submetida a um teste psicométrico.

"O controle do
movimento corporal está, evidentemente, localizado no córtex motor, com
cada hemisfério dominante ou controlador dos movimentos corporais no
lado contra-lateral." (GARDNER, 1995, p. 23) Porém é possível
acrescentar outras áreas corticais também importantes para a realização
do movimento que Gardner deixa de lado. Uma delas é o giro pós-central,
onde está localizado o Homúnculo de Penfield sensitivo. É uma
representação somatotópica: cada ponto sensitivo do corpo tem uma
representação nesta parte do córtex. Por exemplo, a mão, que possui
muitos receptores sensitivos, possui uma representação grande no córtex
enquanto que o pé, com menos receptores, possui uma área menor.
(MACHADO, 1981, p. 219) Deste modo, esta área cortical tem como função
sentir, perceber o corpo para que o movimento possa ser harmônico.
Outra área importante é o córtex pré-motor, que integra os impulsos
motores no tempo, permitindo a criação de movimentos habilidosos,
suaves e finos. (LÚRIA, 1981, p. 154)

A inteligência
corporal-cinestésica pode ser melhor observada em atores, atletas,
mímicos, artistas circenses e dançarinos profissionais.

2.5 INTELIGÊNCIA ESPACIAL

A
inteligência espacial é a capacidade de formar modelos mentais
(imagens) e operar com tais imagens. A imagem não é necessariamente
visual, pode ser construída uma imagem tátil, por exemplo, que é o que
geralmente faz uma pessoa cega ao tatear objetos. Esta inteligência
lida com atividades como as artes visuais, a navegação, a criação de
mapas e a arquitetura.

Enquanto o hemisfério esquerdo do


cérebro tornou-se mais lingüístico durante a evolução, o hemisfério
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direito especializou-se no processamento espacial. A principal área


cortical que controle toda esta questão espacial é a região
têmporo-paríeto-ocipital. Uma lesão em tal área impede que o lesionado
consiga interpretar os ponteiros de um relógio, encontrar sua posição
em um mapa ou então orientar-se dentro de espaços fechados. Fica claro
o quanto esta a região têmporo-ocipto-parietal é importante para uma
inteligência espacial. (LURIA, 1981, p.24)

Engenheiros,
escultores, cirurgiões plásticos, artistas gráficos e arquitetos
dependem desta inteligência para atuarem com êxito.

2.6 INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL

Esta
inteligência opera, primeiramente, baseada no relacionamento
interpessoal e na comunicação. Envolve a habilidade de trabalhar
cooperativamente com outros num grupo e a habilidade de comunicação
verbal e não-verbal. Constrói a capacidade de perceber, por exemplo,
alterações de humor, temperamento, motivações e intenções de outras
pessoas. Em sua forma mais avançada a pessoa consegue ler, mesmo que os
outros tentem esconder, os desejos e intenções, podendo ter empatia por
suas sensações, medos e crenças.

"Todos os indícios na pesquisa


do cérebro sugerem que os lobos frontais desempenham uma papel
importante no conhecimento interpessoal. Um dano nessa área pode
provocar profundas mudanças de personalidade, ao mesmo tempo em que não
altera outras formas de resolução de problemas - a pessoa geralmente
‘não é a mesma' depois de um dano desses." (GARDNER, 1995, p.27)

A inteligência interpessoal é desenvolvida nos professores, terapeutas, políticos e líderes religiosos.

2.7 INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL

Esta
outra inteligência pessoal está relacionada aos estados interiores do
ser, à auto-reflexão, à metacognição (reflexão sobre o refletir) e à
sensibilidade perante as realidades espirituais. Podemos dizer que é a
capacidade de formar um conceito verídico sobre si mesmo pois envolve o
conhecimento dos aspectos internos de cada um, como o conhecimento dos
sentimentos, a intensidade das respostas emocionais, a auto-reflexão e
um senso de intuição avançado.

"Assim como na inteligência


interpessoal, os lobos frontais desempenham um papel central na mudança
de personalidade. Um dano na área inferior dos lobos frontais
provavelmente produzirá irritabilidade ou euforia, ao passo que um dano
nas regiões mais altas provavelmente produzirá indiferença, desatenção,
lentidão e apatia - um tipo de personalidade depressiva". (GARDNER,
1995, p. 28)

Um bom desempenho da inteligência intrapessoal pode


ser encontrada em filósofos, conselheiros espirituais, psicólogos e
pesquisadores de padrões de cognição.

Estas são as sete


inteligências "clássicas" apresentadas no livro "Estruturas da Mente"
de Gardner. O autor, posteriormente passou a considerar também outras
inteligências conforme podemos observar em diversos artigos na
internet. Uma delas é a inteligência naturalística, que é a capacidade
do ser humano relacionar-se com a natureza. Outra inteligência
"recente" é a pictórica ou pictográfica. Trata-se da habilidade para
desenhar. Existe ainda a "inteligência" existencial que, na verdade, é
considerada como uma meia inteligência por preencher apenas quatro dos
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oito requisitos avaliados para assegurar a existência da inteligência.


Ela é responsável pela necessidade do homem fazer perguntas sobre si
mesmo, sua origem e seu fim.

Uma das características das IM é a


independência em grau significativo entre essas múltiplas faculdades
humanas. Para explicar esta independência Gardner apoia-se no fato de
que, em caso de lesão cerebral, determinadas capacidades são perdidas
enquanto outras permanecem intactas. Desta forma, segundo o autor, as
inteligências não interferem umas nas outras. (GARDNER, 1995, p. 29-30)

Contudo
as inteligências agem de forma integrada. Um alto nível de capacidade
na inteligência corporal-cinestésica apenas, por exemplo, não
asseguraria a ninguém um sucesso como jogador de futebol. Seria
necessário também um bom desenvolvimento da inteligência espacial para
realizar bons passes e chutes a gol e também inteligência interpessoal
desenvolvida para um bom relacionamento com os companheiros, os
adversário e a imprensa. Estas três inteligências agindo de forma
integrada provavelmente possibilitariam uma maior chance de sucesso no
esporte. Todavia não seria necessário, neste caso, um bom desempenho da
inteligência lógico-matemática, por exemplo, com bem demonstrou
Garrincha.

Como era de se esperar, as inteligências possuem um


desenvolvimento natural. Este inicia no início da vida com a capacidade
de padronizar. Isto equivaleria a diferenciar tons na inteligência
musical ou apreciar arranjos tridimensionais na inteligência espacial.
O passo seguinte é a manifestação das inteligências em sistemas
simbólicos: a linguagem nas frases, a música nas canções, a
corporal-cinestésica na dança e assim por diante. A medida em que o
desenvolvimento avança e surge um ambiente formal de educação, as
inteligências passam a ser representadas em sistemas notacionais. São
exemplos a matemática, a notação musical, os mapas e plantas e assim
por diante. Finalmente o desenvolvimento atinge seu auge na expressão
inteligente nas atividades profissionais e de passatempo na
adolescência e adultez. As inteligências pessoais parecem não seguir
este curso, surgindo muito mais gradualmente. (GARDNER, 1995, p. 31-32)

3. CRÍTICA À TEORIA DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

3.1 INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS E NEUROPSICOLOGIA

Uma
das fontes para a escolha das inteligências propostas acima foi o
estudo de como tais capacidades falham sob condições de lesão cerebral.
Isto pressupõe que cada inteligência possui uma localização cerebral,
mais especificamente cortical. Assim sendo, uma lesão que incapacitaria
determinada inteligência, deixaria as demais intactas. A tabela abaixo
apresenta um resumo da representação cortical de todas as inteligências
consoante vimos ao analisar cada inteligência em particular.

Tabela 1 - Localização cortical das inteligências múltiplas propostas por Gardner.InteligênciaÁrea cortical
responsávelLógico-matemáticaregião têmporo-paríeto-ocipitalLingüísticaárea de Wernicke, área de Broca, região
têmporo-paríeto-ocipital (hemisfério esquerdo)MusicalLobo temporal (hemisfério direito)Corporal-cinestésicaGiro pós-
central, córtex pré-motorEspacialregião têmporo-paríeto-ocipitalInterpessoallobos frontaisIntrapessoallobos frontais

Podemos
perceber através da tabela que diversas inteligências são regidas pela
mesma área do córtex cerebral. A região têmporo-paríeto-ocipital é
responsável ao mesmo tempo pelas inteligências lógico-matemática,
lingüística e espacial. As inteligências pessoais também são comandadas
por uma única área: os lobos frontais.

Isto invalida a
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independência das inteligências que Gardner propõe. Imaginemos uma


lesão na região têmporo-paríeto-ocipital. Ela acabaria por afetar três
inteligências ao mesmo tempo e não apenas uma.

Além disso,
neste caso, os desenvolvimentos das inteligências lógico-matemática,
lingüística e espacial não aconteceriam separadamente, mas seriam
dependentes entre si. LURIA (1981, p. 24-25) desenvolve uma explicação
destas áreas como sendo integradoras e essencialmente espaciais. Assim,
tanto a matemática quanto a gramática seriam trabalhadas pelo cérebro
de uma forma espacial. Uma deficiência espacial tornaria incapazes
tarefas de relacionar "espacialmente" os números entre si e construir
uma frase trabalhando as relações "espaciais" entre as palavras.

Não
se trata das inteligências lógico-matemática e lingüística serem
englobadas pela inteligência espacial, mas da aceitação de uma
dependência e de uma relação íntima entre determinadas inteligências.

O
mesmo ocorre com as inteligências pessoais. É possível perceber que em
várias características tais capacidades equivalem-se. Afinal, uma mesma
área cerebral é responsável pelas duas. Todo psicoterapeuta conhece e
chega mesmo a ser lugar-comum o fato de que só podemos conhecer bem o
outro se conhecermos bem a nós mesmos primeiro. Sendo assim uma
inteligência interpessoal desenvolvida necessita de uma inteligência
intrapessoal também bem trabalhada, o que sugere não existir uma
independência entre as inteligências.

3.2 AS NOVAS INTELIGÊNCIAS

"Uma
lista de 700 inteligências seria proibitiva para o teórico e inútil
para o praticante. Consequentemente, a teoria das IM tenta articular
apenas um número manejável de inteligências que parecem constituir
tipos naturais". (GARDNER, 1995, p.45) Esta foi a resposta dada pelo
autor da teoria das inteligências múltiplas quando perguntado o que
impediria a construção de novas inteligências: elas poderiam deixar de
ser 7 e tornarem-se 700!

Porém surge a impressão de que o próprio


autor está caminhando contra o que afirmou ao apresentar as "novas"
inteligências naturalística, pictórica e existencial. Tendo em vista as
inúmeras capacidade humanas, por que a escolha arbitrária de algumas
delas em detrimento de outras? Se o objetivo era tornar as
inteligências manejáveis estando elas em número limitado de modo que o
uso prático da teoria possuísse maior eficácia, a adoção de novas
inteligências somente dificultaria este processo.

Se Gardner
apresenta novas inteligências, nada impede que outras inteligências
sejam descobertas - ou criadas - por outros autores. Isto é preocupante
pois não parece ser tarefa muito árdua a criação de uma nova
inteligência. Para demonstrar esta afirmação, apresento neste trabalho
um esboço de uma nova inteligência: a inteligência palato-olfativa.

Podemos
considerar tal inteligência como a capacidade de sentir o gosto e o
cheiro das substâncias e identificá-las com precisão. Em nossa
sociedade esta inteligência seria valorizada nos cozinheiros, enólogos
e provadores nas empresas como cervejarias e torrefação e moagem de
café. A fim de evidenciar a veracidade desta inteligência, seguirei os
critérios para a escolha de um inteligência conforme foram descritos
anteriormente.

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Um dos critérios é a existência de estudos sobre


populações excepcionais, incluindo prodígios. Nada melhor para a provar
a existência de tais estudos do que o relato realizado por Oliver Sacks
a respeito de um estudante de medicina que, por usar determinadas
drogas (cocaína, cloridrato de fenociclidina [PCP] e anfetaminas),
passou algumas semanas de sua vida com o olfato e o paladar
extremamente aguçados. "Ele descobriu que podia distinguir todos os
seus amigos - e pacientes - pelo cheiro. (...) Ele era capaz de cheirar
as emoções - medo, alegria, sexualidade - como um cachorro. Podia
reconhecer cada rua, cada loja pelo cheiro - era capaz de se deslocar
por Nova York , infalivelmente, guiado pelo cheiro." (SACKS, 1997,
p.176)

Outro critério é a informação sobre o colapso da


inteligência em condição de lesão cerebral. A área responsável pelo
olfato possui uma pequena representação cortical na parte anterior do
uncus e do giro parahipocampal. Nos casos de epilepsia focal nesta
área, o epilético queixa-se de cheiros, normalmente desagradáveis, que
não existem. (MACHADO, 1981, p. 220) Uma lesão nesta área leva a uma
anosmia, ou sejam incapacidade de sentir odores.

Para aceitar
tal inteligência é preciso considerar também os dados sobre sua
evolução. Sobre tal assunto, "Freud escreveu em várias ocasiões que o
sentido do olfato no homem era uma ‘perda', reprimido no crescimento e
na civilização quando o homem assumiu a postura ereta e reprimiu a
sexualidade primitiva, pré-genital." (SACKS, 1997, p. 177) Nas obras de
Freud tal idéia é encontrada principalmente nas cartas número 55 e 75.
A adoção da postura ereta deixava o nariz mais longe do chão e fornecia
um maior campo para a visão e para a audição. De fato, a representação
do olfato e da gustação passaram a ocupar um lugar pronunciadamente
menor no córtex por serem eclipsados pela representação central dos
sistemas exteroceptivos superiores, principalmente a visão e a audição.
(LURIA, 1981, p. 49)

Ainda devemos considerar o aspecto cultural


da inteligência palato-olfativa, que para ser considerada como tal,
precisa ser universal. Deste modo temos a culinária, presente em todas
as culturas e em todas às épocas. Cada povo possui uma culinária
própria onde cheiros e sabores são apreciados ou depreciados e a
capacidade da preparação de alimentos crus, fritos ou cozidos é
valorizada.

Da mesma maneira todos os outros critérios para a


aceitação de uma inteligência - como o conhecimento do desenvolvimento
desta inteligência, os estudos psicométricos e os estudos de
treinamentos psicológicos - também podem ser encontrados e explicitados
da forma como realizada acima.

E, trabalhando de igual modo, poderiam ser criadas tantas inteligências quanto o número de capacidades humanas
existentes.

4. CONCLUSÃO

A
teoria das Inteligências Múltiplas tem enorme importância ao conseguir
derrubar a idéia de uma inteligência única, fechada. A muito a ciência
estava impregnada com tal idéia e já era tempo de fazermos uso de uma
noção de inteligência mais dinâmica.

Embora ninguém possa


discordar das afirmações acima, também esta teoria tens seus erros.
Talvez o grande erro seja, tendo em vista as inúmeras capacidades
humanas valorizadas em nossa sociedade, escolher algumas ignorando, com
efeito, as outras não mencionadas. Por outro lado considerar todas as
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inteligências seria impossível e inadequado.

Por isso Gardner


escolheu um número limitado de determinadas inteligências e acreditou
em uma independência entre elas. Tal comportamento foi exemplo típico
do pensamento pragmatista americano. Deste modo as inteligências
escolhidas poderiam ser trabalhadas de modo mais eficaz.

Porém
poderíamos considerar também as inúmeras capacidades existentes em cada
ser humano e, sem pretensão de desejar um desenvolvimento total,
procurar desenvolver a inteligência em que cada pessoa em particular é
mais apta, que não necessariamente precisa estar incluída nas dez inteligências descritas na teoria das IM.
Desta forma, o educador - ou qualquer outro profissional que
trabalharia com a inteligência- precisaria conhecer melhor cada
indivíduo para perceber nele a capacidade que se sobressai. Os
resultados provavelmente seriam melhores pois, conforme vimos, a
independência pura entre as inteligências não existe e desenvolvendo
melhor uma capacidade, outras também seriam afetadas.

Mas este
seria um passo mais adiantado. Levando-se em conta a atual situação dos
profissionais que, de qualquer forma, trabalham com o aprendizado, a
simples adoção da teoria das IM já é mais do que satisfatório.REFERÊNCIAS BIBILIOGRÁFICAS

GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática 1. ed. Porto Alegre :

Artes Médicas, 1995

LURIA , Aleksandr Romanovich. Fundamentos de Neuropsicologia. 1. ed. São Paulo:

Editora da Universidade de São Paulo, Livros Técnicos e Científicos Editora, 1981.

MACHADO, Angelo. Neuroanatomia Funcional. 1. ed. São Paulo : Atheneu, 1981.

MODERNELL, Renato; GERALDES, Elen. O Enigma da Inteligência. Globo Ciência, Rio

de Janeiro, v.2, n. 15, p.56-63, out. 1992

SACKS, Oliver. O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. 1. ed. São Paulo :

Companhia das Letras, 1997

SPRINGER, Sally P.; DEUTSCH, Georg. Cérebro Esquerdo, Cérebro Direito. 1. ed. São

Paulo : Summus, 1993

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