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Sobrevivendo nos gabinetes de Argentina e

Brasil: uma análise do turnover ministerial


Adriano Codato (UFPR)
Barcelona, 2018
ESTRUTURA DA APRESENTAÇÃO

O problema: objetivos, relevância da comparação e hipótese


Universo da pesquisa
Médias de permanência por tipos de ministérios
Análise de sobrevivência ministerial
Razões de saída
Comparações e conclusões
1. O PROBLEMA
Objetivo principal: Comparar dois países, Brasil e Argentina, no período pós-ditatorial
(1983-2016) para identificar semelhanças e diferenças no tempo de permanência dos
ministros de Estado em seus cargos.

Relevância da comparação: Os presidencialismos no Brasil (“presidencialismo de


coalizão”) e na Argentina (presidencialismo forte do partido único) são diferentes.

A comparação, portanto, poderia revelar singularidades importantes referentes ao


modo de funcionamento dos dois regimes presidenciais dos maiores países da
América do Sul na formação de suas equipes de governo, na taxa de sobrevivência
dos ministros no cargo e nas principais razões que provocam a troca de ministros.
Hipóteses a serem testadas:

H1: Os gabinetes no Brasil H2: Razões de saída dos


teriam um tempo de vida menor ministros seriam essencialmente
do que na Argentina em função diferentes porque os dois
da necessidade de, no primeiro sistemas políticos têm de lidar
caso, acomodar as demandas e de forma também diferente com
exigências de partidos aliados. as coalizões/apoios.
2. UNIVERSO DA PESQUISA: N de ministros por país
Argentina N Brasil N
Raul Alfonsín 31 José Sarney 76
Carlos Menem I 34 Collor de Mello 43
Carlos Menem II 18 Itamar Franco 54
Fernando de la Rúa 27 Fernando Henrique Cardoso I 47
Eduardo Duhalde 16 Fernando Henrique Cardoso II 56
Néstor Kirchner 19 Lula da Silva I 64
Cristina Kirchner I 25 Lula da Silva II 57
Cristina Kirchner II 25 Dilma Rousseff I 71
Dilma Rousseff II 38
TOTAL 195 TOTAL 506
3. Tempo de permanência, em meses, por tipo de ministério e por país

Argentina Brasil

Desvio Coeficiente de Desvio Coeficiente de


Média Mediana Média Mediana
padrão variação padrão variação

econômico 21 17 16 0,77 20 14 15 0,74


social 21 17 16 0,77 20 14 14 0,70
militar 19 17 12 0,62 28 24 18 0,65
político 22 17 17 0,74 19 14 14 0,74
4. ANÁLISE DE SOBREVIVÊNCIA
• definição: teste estatístico que mede o tempo entre o início da observação até a ocorrência de um
evento (demissão do gabinete)

• “A análise de sobrevida utiliza probabilidade condicional; ou seja, a probabilidade de sobreviver até o


momento t, dado que o sujeito estava vivo no início de um intervalo de tempo especificado.
• O método de Kaplan-Meier é utilizado para estimar a probabilidade de sobrevida em vários intervalos
de tempo e para ilustrar graficamente a sobrevida ao longo do tempo.
• O teste de log-rank é um teste não paramétrico utilizado na comparação de curvas de sobrevida entre
dois ou mais grupos”.

Ferreira, J.C. & Patino, C.M., 2016. What is survival analysis, and when should I use it? Jornal
Brasileiro de Pneumologia, 42(1), pp.77–77. Available at:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-
37132016000100077&lng=en&tlng=en [Accessed January 14, 2018].
4. ANÁLISE DE SOBREVIVÊNCIA
Log Rank (Mantel-Cox) Qui-quadrado ,552 df 1 p value ,458
Log Rank (Mantel-Cox) Qui-quadrado ,552 df 1 p value ,458
Teste de Kruskal-Wallis de amostras independentes

Decisão

Reter a hipótese nula.


Resultados comparados para 9 ministérios e todos
os ministérios
5. RAZÕES DE SAÍDA
Razões de saída por país (% válida) (N=378)
Excluídos “fim de mandato presidencial” e “sem informação”
Argentina Brasil

desempenho 18,8% 2,8%

eleições 10,4% 18,4% Qui-quadrado de


Pearson 43,324 df
embate 18,8% 15,2% 8 p value ,000
escândalo 11,5% 12,8%

fim da pasta 2,1% 3,2%

impeachment/queda do governo 5,2% 15,2%

razões pessoais/doença/falecimento 5,2% 7,4%

reforma ministerial 28,1% 19,9%

troca de pasta ministerial 5,0%

Total 100,0 100,0


6. COMPARAÇÕES E CONCLUSÕES
Diferentemente do que sugere a literatura sobre sistemas presidencialistas e seus
impactos sobre o funcionamento das instituições políticas, não encontramos, entre
Argentina e Brasil, para o período analisado e para os ministérios estudados neste
paper, qualquer diferença estatisticamente significativa no que diz respeito ao
tempo médio de permanência dos ministros em suas pastas e às curvas de
sobrevivência dos titulares.

Portanto, uma análise quantitativa do tempo de permanência dos


ministros (frise-se sempre, nos ministérios aqui analisados) não
revela diferenças significativas entre o presidencialismo argentino
e o presidencialismo brasileiro, refutando a hipótese inicial.
6. COMPARAÇÕES E CONCLUSÕES

• a ausência de diferenças estatisticamente significativas não


quer dizer que as saídas dos ministros, em cada caso, se deem
exatamente da mesma maneira ou pelas mesmas razões

• podemos especular que, enquanto o presidente brasileiro é


forçado a promover reformas para reequilibrar a coalizão
partidária, o presidente argentino o é para atender a facções
do seu partido ou a questões relacionadas com sua própria
liderança
6. COMPARAÇÕES E CONCLUSÕES

• Os dados aqui apresentados sugerem que os ministérios econômicos são mais


insulados, já que a saída dos titulares dessas pastas não se dá predominantemente
por reforma ministerial.
• Ao contrário, os ministros das pastas sociais e políticas, em ambos os países, são
os que deixam os seus cargos predominantemente por razões de reforma
ministerial.
• Isso sugere, para o caso do Brasil, que tais posições são as principais moedas de
troca políticas nessas circunstâncias.
• Para o caso argentino, porém, seria mais adequado pensar tais ministérios
como “curingas” (wildcards). A expertise difusa dos agentes que ocupam tais
posições faz deles “ministeriáveis” passíveis de serem recrutados para distintas
pastas.
Obrigado

adriano@ufpr.br