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OS 27 + 1 ERROS MAIS COMUNS

DE QUEM QUER ESCREVER


UMA TESE EM PSICANÁLISE

THE 27+1 MOST COMMON MISTAKES


ABOUT WRITING
A THESIS IN PSYCHOANALYSIS
Christian Ingo Lenz Dunker

Resumo
Este artigo baseia-se na ex p eriencia do autor com a reda<;ao de teses,
d i s s e r t a t e s e arligos científicos no conlexlo da teoria e da clínica
psicanalilica. Sen objetivo é apontar de m odo sum ario e sintético al-
gu m as dificuldades e p roblem as frequentes encontrado s por aqueles
que prelen dem escrever, no escopo universitario, um trabalho inspi­
rado pela psicanálise. Salienta-se, principalm ente, as di lerendas entre
a f o r m a d o psicanalítica e a f o r m a d o universitaria, os equívocos a r ­
gum entativos, estilísticos e retóricos mais com uns, bem com o algu-
m as p ressu p o si9Óes erróneas d ecorrentes da peculiar i n f i l t r a d o que a
psicanálise possui ñas universidades brasileiras.
Palavras-chave: psicanálise e universidade - método de pesquisa
redando de leses e textos científicos.
Abstract
This article is based on the author experience with the writing o f
thesis, texts and scientific articles in the context o f psychoanalytical
theory and i t ’s clinical practice. The proposal aims to point out,
sum m arized and synthesized m ost common difficulties and problems
fa c e d by those who try to write a text, inspired by psychoanalysis, at
the university. We mainly stress differences between psychoanalytical
training and research university training. The most often
argumentative, rhetorical and stylistic errors as well as some wrong

Associagáo Psicanalítica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 p. 53-77 53


Christian Ingo Lenz Dunker
presuppositions are frequently linked with the particular position i f
psychoanalysis in Brazilian universities.
Keywords: psychoanalysis in university — research methods, academic
writing - scientific rules.

IN T R O D U C Á O

Este ensaio é lima tentativa de reunir e com entar as princi­


páis dificuldades daquele que pretende redigir uní texto académ ico
inspirado na tcoria e na clínica psicanalítica. Nao abordarei as dificul-
dades m etodológicas e epistem ológicas i n eren tes ao estatuto particular
da psicanálise no cam po da cie ncia, com o fiz em outras ocasióes
(Dunker, 2007; 2008; Dunker & Parker, 2008). O objetivo é apresentar
um elenco de dificuldades pláticas com binado com uní número de
i n f o r m a l e s eventualmente úteis e além de alguns principios gerais. O
leitor deve estar cíente da relatividade e do contexto do qual derivam
tais i n d i c a r e s , ou seja, tanto m inha trajetória lorm ativa na tradi^áo da
psicanálise lacaniana, quanto as particularidades dos program as de
pós-graduagao aos quais pertenci, inicialmente com o aluno do Depar­
tamento de Psicología experim ental da USP - Universidade de Sao
Paulo, depois com o orientador na Universidade Sao M arcos, e hoje no
departam ento de Psicología Clínica do Instituto de Psicología da USP.
Nos program as de p o s - g r a d u a d o que conheci fora do Brasil, com
exee 9 áo da Franca, os problem as enfrentados sao substancialm ente
diferentes.
Estamos diante de duas culturas niuito específicas. Quando se
pensa no caráter bastante peculiar, tanto da pesquisa universitária de
extra 9 áo psicanalítica no Brasil, quanto na pos¡ 9 áo algo extraordinaria
que a forma^áo em psicanálise possui, em c o m p a r a d o com outros per-
cursos de qualificapáo profissional, temos que reconhecer o caráter
idíossincrático de nossa condicao. Ilá uma série de costumes, de regras
tácitas e de exigéncias difusas que muito surpreendem os que estáo de
fora. As rela 9 oes entre custo e beneficio envolvidas na forma 9 áo, e
m esm o na escolha de uma carreira académica, as vezes fazem supor aos
que nos cercam um toque de aspira 9 áo vocacional. Isso ás vezes redun­
da em excessiva reverencia e deferencia. Foi pensando nisso, e na ne-
cessidade de íntroduzir algum distanciamento etnológico na matéria,
que apresento minhas considera 9Óes sobre forma de lista e em estilo
paródico.

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Os 27 + 1 Erros mais ComunS de qufem quer escréver urna Tese em Psicanàlise
Dividi a lista em très grupos. Os eq u ívo co s, decorrentes d a
simnles falta de informacào, fonnacäo ou localizaçào subjetiva; os e r-
ros, causados como diria Descartes, principalmente pelo pié juízo e
pela precipïïacào e finalmente os erro s c ra s s o s , tipo mais grave e ge-
raím ente mais renitente de resistencia à tarefa. Cada qual deve encontrar
por si m esm o a tipificaçào de suas dificuldades preferidas. Quando o
pretendente incluir-se majoritariamente no terceiro tipo há que se le­
vantar urna dúvida razoável de natureza diagnóstica: estaremos diante
de urna superficie orientável ou nao orientável? Quando o candidato nao
apresentar nenliuma das imperleiçôes abaixo resumidas rccomcnda-se
que ele repense ¡mediatamente sua escollia ou a orientaçào de scus pla­
nos de vida. Esta é lima tarefa desaconselhável aos demasiadamente
puros de alma e aos que precisan! por demais de normas e legras para
obedecer.
Finalmente, se seu perfil concentra-se exclusivamente nos er­
ros típicos, genéricos ou esperados, mude de área, pois esta nao é para
quem pode suportar o senso com um. Ou seja, assilli como na lógica dos
inquisidores medievais, nao há lugar que nos possa por a salvo e nos
garanta a legitim idade de nossas pretensöes universitarias ou psicanalí-
ticas. Nenhum desejo pode ser julgado desta mancini, ele sempre será
avaliado por seus efeilos. Dai que seja em irónica homenagem ao
M a lie n s M a le fic a rn m (Kram er & Sprenger, [1484] 1990), composto por
34 questòes de teologia canònica sobre a arte de descobrir bruxas e he-
reges, que este manual tenlia se inspirado.
Outra maneira de encarar o que se apresentará a seguir é pen­
sar em um pequeño manual de autoajuda universitària. Vai aqui um
exemplo de corrupçào do formato esperado. O que constimi de saida
urna adverténcia aos que nào se colocaram o problema bàsico de que
pesquisa universitaria constituí um gènero especifico de escrita A psi­
canàlise, pode ou nào, constituir oulro gènero, mas a considerar o con­
traste, neste quesito, entre as diferentes escolas, grupos e tradiçôes. O
critèrio de escolha baseia-se no recorrente aparecimento destes eq u ív o ­
cos, erro s e erro s c r a s s o s , nas iniciaçôes científicas, dissertaçôes de
mostrado e teses de doutorado, mas apenas ñas v erdaderam ente interes­
santes, quer do lado do orientador, quer do lado do orientando.
Mo mais, procurei seguir o espirito das R a tsc h lä g e freudianas
(Freud, [1912] 1975), ou seja, conselhos e indicaçôes que possiiem dois
critérios fundamentáis. Devem adaptar-se à p e r s o n a lìd a d e m èdica do
p re te n d e n te e enfatizar aspectos a sereni evitados e nào m odos d e açcio
i/ne d evem s e r rep etid o s. Em tempos de popularizaçào do autodiagnós-
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tico esperamos que ele possa ser de alguma valia tanto para aqueles que
especulan! ou estao firmemente decididos a incursionar pelo mundo
medieval da pós-gradua 9 áo... s lric to sen su , como diria Nicolau Eyme-
rich (Eymerich, 1376).
Finalmente, dedico este escrito para aqueles que nutrem inte­
resses apenas etnográficos e indiretos pela sobrepos¡ 9 áo destas duas
subculturas discursivas, a universidade e a psicanálise. Refiro-me aqui
aos pais, esposas, maridos, filhos e amigos daquele que se candidalou as
prova 9 óes da fé universitária, e que serao mais fortemente tocados pelos
tormentos que ela causa. Espero que esse pequeño libelo possa servir
como tratado de etiqueta e de alivio para estes viajantes, ou melhor,
caronistas involuntarios, que tiveram seus entes queridos abduzidos por
esta estranha aventura e que náo conseguem entender com o isso se tor-
nou algo táo importante na vida de alguém, estes que se sentem desp ie­
zados e enciumados com a “ maldita tese” .

1 NÁO D ESCO NIIEC A SEU O R IE N T A D O R

Náo quero dizer a pessoa simpática que o representa, mas o


que ele escreveu, quem ele orientou e quem o orientou, o que ele leu,
com quem ele esludou, onde ele publica, quais laboratorios e colabora­
dores ele frequenta e quais associagóes ele pertence. Isso tudo deve ter
alguma congruéncia. Lembre-se, a palavra mágica aqui é p e sq u isa . Se
vocé agir com o alguém que precisa de conselhos, ordens ou indica 9 des
sobre tudo, como se estivesse em um curso de gradua 9 áo, querendo
saber “co m o fa z p a r a p a s s a r d e a n o ”, reavalie seu interesse em pós-
gradua 9áo. Se vocé náo tem a iniciativa ou curiosidade para 1er e co-
nhecer aquele com quem vocé irá passar os próximos anos de sua vida é
melhor procurar outro ramo. Este aqui se chama p e s q u is a , e sua habili-
dade para isso será avahada desde o inicio.

2 N U N C A IGNORE O MAPA DA S IT U A ^ Á O

A situa 9áo é com posta pelo program a de pós-gradua 9 áo, pe­


los outros al unos e orientadores, pela área na qual seu program a está
incluido, pelos óigaos externos e internos aos quais ele deve satisfa 9 áo
e pelos quais ele é avahado. CNPq, Capes, FAPESP, CCint, CPG, CCP,
sao siglas com as quais vocé deve se familiarizar. Dentre elas é preciso
destacar o soberano C u rricu lo L a tte s, a verdadeira mistura entre carteira
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de identidade e imposto de renda do pesquisador (ademáis é gratis, và
pegar o se u 1). Se você ainda nào tem um volte para o inicio do jogo.
Prazos, condiçôes, regulamentos e comissôes com pôem a paisagem de
sua aventura. Lembre-se, a pôs-Kiaduaçào descende, em espirito c con-
ceito, da Idade M ed ia. Se você nunca estudou o feudalismo, fàça um
curso rápido: laços de vassalagem, teoria dos dois gládios, territorios
defendidos com murallias e castelos, tribunais do Santo Oficio, qualifi-
caçôes, provas de amor cortés, ataques de Sarracenos, Cruzadas e here-
ges. Por toda parte haverá hicrarquia, sinais e decifraçôes. Imagine o
seguinte, a burocracia é a Igreja, os orientadores sao os nobres (sempre
lutando para ver quem é mais nobre que o outro), há também os servos
da gleba e os santos em martirio. Casamentos acabam, gravidez m últi­
pla acontece, trabalho é perdido, o com putador conspira contra nos, isso
aqui é vida real. O mundo nào vai parar para você fazer sua tese. Você
precisa sobreviver a isso tildo, levando a cabo seus próprios sonhos de
autonomia e liberdade. Conlieça o mapa. Sem ele os perigos viráo de
toda parte. Nào esqueça: duas ou très vidas para o mestrado e cinco
vidas para o doutorado, dependendo do modelo do seu videogame.
Rui casos especiáis seis meses de prorrogaçào, mas nào conte
com isso, algumas máquinas dao g um e o ver, sem aviso. Observe ainda
que se você perdeu o prazo seráo prejudicados, em ordem de importan­
cia: você (que terá que prestar contas disso até o juízo final), seu orien­
tador (que escolheu você), seu Programa (que ganhará menos bolsas),
seus colegas (que teráo menos bolsas para se degladiar), seu Departa­
mento (que terá m enor produçào científica), sua Universidade (que terá
que explicar a má escolha de candidatos), sem lalar em seus descen­
dentes alé a quinta geraçào que serào amaldiçoados pelo pecado com e­
tido.

3 NÁO PERCA TEM PO FAZENDO MAPAS IMAGINARIOS

Escrever urna tese, particularmente quando o tema é psicanáli­


se, é um desafio ao narcisismo. Se você nào se coloca o texto é anodino,
se você se coloca o texto te expôe. Suas limitaçôes, preconceitos e os
mais loucos devaneios seráo chamados a trabalhar durante o tempo
gestacional de seu texto. Ele será um fragmento de sua conversa com
seus analistas, supervisores, pacientes, amigos, concorrentes, inimigos,
pseudoinimigos, grupos, antigrupos e déniais figuras fantásticas que só
o seu imaginário sabe criar. Mas, além disso, é importante que ele seja
parte de sua conversa com a com unidade de autores com os quais você
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quer falar. Escolha-os com cuidado, mas nao demasiado. Fale com os
clássicos (Freud, Lacan, Klein, etc.), mas fale tambérn com os vivos,
com as teses e artigos publicados na última década, fale com seus atuais
professores, fale com seus antigos professores, fale com os eventos
fortuitos da semana, fale com tudo o que lhe cair na mao e se m ostrar
útil para a conversa. James Joyce revirava latas de lixo, lia desde bula
de remédio até propaganda de desodorante.
Assim como na análise tudo é farinlia para o moinho da trans-
feréncia, na tese tudo é p r e te x to p a r a o texto. Especialmente benéfico
ao espirito é falar com os oulros peregrinos, seus colegas e adjacenles,
que apesar de seu ensimesmamento, gerado pela tese, continuam a viver
no mesmo mundo que vocé. A Idade Media foi um período farto em
suspeitas, temores e regido pelo intenso temor de perseguitpao. Por isso
ela é também uma época de extremo fechamento meditativo e inlros-
pec 9 ao. Nao gaste seus preciosos e escassos recursos em compara^oes
inúteis tentando saber todo o mapa antes de c o n t a r . Q ualquer tentativa
de fazer o texto e ao mesmo tempo construir sua própria m etalinguagem
explicativa deve ser deixada para depois da defesa.

4 D O M IN E O D R A G Á O DA O R IG IN A L ID A D E

Coragem é bom, aspira^ao de santidade nao. Um dos piores


pesadelos de mestrandos e especialm ente de doutorandos é que sua
amada tese fique “e sq u e c id a em lim a b ib lio teca , em p o e ira n d o n a q u e le
ca n to escuro, co m id a p o r r a to s ’’. O caminho de Santiago é longo e ar­
duo, por isso os peregrinos com efam a imaginar o jardim das delicias.
O desejo de se tornar um autor, de ser reconhecido por uma ideia genial,
ou por uma nova forma de ver as coisas, ou por um tema único, do qual
vocé será o dono e conquistador, é louvável. Ninguém se mete em uma
Cruzada como esta sem ter para si um grande motivo.
Considere sua tese como uma donzela a ser conquistada (ou
um donzelo, quando for o caso). O dragao da originalidade, com suas
cabepas narcísicas das quais brotam duas quando a gente corta uma,
torna a sua tese invulnerável. Detalhe chato: sua tese nao existe... ainda.
Traga o tal dragao, que solta labaredas de idealiza 9 ao pelas ventas, para
a viagem, mas guarde-o em seu alforje. Olhe bem para ele quando tudo
parecer perdido. Depois guarde-o de novo, rápidamente. A originalida­
de é um efeilo, nao uma causa. Vocé nao a procura, ela encontra vocé.

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M a g iste r dixiV. “ a o rig in a lid a d e q u e n o s é p e r m itid a se re d u z
a fr a n ja d e e n tu sia sm o q u e d o ta m o s ” (Lacan, [1968] 2001). Mas isso só
acontece se vocé nao se obcecar com ideáis e for corajoso o suficiente
para deixar aparecer sua própria voz. Curiosamente, os que aspiram á
suprema originalidade, em geral sao inibidos ou engolidos por ela. O
toque da Gra^a acontece para alguns, mas vos garanto, nao sao os mais
preocupados com isso. Enquanto isso se contente em lazer sua parte, ou
seja, o m elhor que vocé tem para dar neste momento de sua vida, ñas
condigóes reais que vocé dispóe, com os recursos que vocé tem. Esque-
9 a o conceito de c o n d e c e s ideáis de pressáo e temperatura. Alcm de ter
sido inventado depois da Idade das Trevas isso só vai atrapalhar seus
familiares que rápidamente seráo responsabilizados pela sua falla de
criatividade. Deixe os ralos roerem sua tese, daqui a vinte anos ela será
apenas um pecado de juventude.

5 E N C O N T R E SEU UNIC O R N IO INTERIO R

Alguns comparam a escrita da tese á procura de um tom.


Com o em urna banda na qual depois que ela consegue comegar, lodo o
resto virá com maior lacilidade. Na escrila de ficgáo este é um lema
nobre. Há livros que abordam especificamcnte a escrita da primeira
página, ou até mesmo do primeiro parágrafo (Edgcrton, 2007). Freud
nao parece desconhecer o problema ao insistir 11a importancia das pri­
meiras com unica 9 Óes em análise, seja no inicio do tratamento, seja na
abertura de cada sessáo (Freud, [1913] 1975).
E por isso também que se costuma insistir, quase sempre sem
efeito, de que a introdugao da tese deve ser a última coisa a ser escrita.
Contudo a ordem de criacáo d o texto nao deve se confundir com a ar-
quitetura do texto final" E comuin, apesar de nño deixar de ser parado­
xal, por ex em pío, que o capítulo sobre o método seja escrito ou finali­
zado, após a discussáo dos resultados. Este “tom ” é como estar apaixo-
nado. Quando ele acontece vocé sabe que “tem urna tese”. Isso pode
acontecer em qualquer ponto do caminho e certamente muda tudo. Seu
conteúdo pode estar simplesmente errado, mal acabado ou em arquitetu-
ra precária, mas vocé, e na maior parte das vezes seu orientador, sabe
que vocé tem uma tese.
M esmo que seu texto seja uma disserta 9 áo de mestrado ou um
relatório de Iniciagao Científica, ou seja, m esm o que nao se exija a pre-
sen 9 a de uma tese, em sentido estrito, que será apresentada e defendida,

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no caso de trabalhos em psicanálise há sempre urna tese. Por isso deve­
se entender a emergéncia da voz da autoría, da responsabilizacáo e da
i m p lic a d o com o que se está dizendo. Sao tantas as vozes que com-
póem um texto; outros autores, vocé mesmo em oiilros momentos, seus
professores. Há vozes que aparecem no texto e que nem mesmo sabe­
mos de onde provém. Nossa ingerencia nesta polifonía é relativa, mas
nunca deixe de procurar o instante em que por obra do acaso ou do es-
foi^o, elas param de brigar urnas com as outras e voce sente que este
tom é a sua voz. Depois é só nao perder isso. Assim com o os Unicorni­
os, a procura do “ seu tom ” é urna procura 1'eita pela inferencia incorrcta
de que se existem ehilVes únicos (sern corpos de cavalos) e se existem
cavalos (sem chifres únicos), de alguma maneira devem existir cavalos
com chifle. Unicornios nao existem. O que nao nos impede de procura-
ios. Quando os encontramos eles sáo feitos, naturalmente, de outra coi­
sa: chifles de Nerval morios há muito tempo, fantasías sobre cavalos
fálicos, desejos em torno da virgindade, desconhecimento sobre cavalos
reais, ou a simples vontade de contar urna historia que valha a pena.

6 NAO C O M PL IQ U E O Q UE NAO EXISTE

As vezes quando se está insone durante a noite somos assalta-


dos por lima “ ideia maravilhosa” . A tese toda nos vem á tona como a
pedia fallante de um quebra caberas. Todavia, no dia seguinle a euforia,
que prolongou a insónia, termina em duas frases deslocadas, pifias e
vazias. Há outras versóes deste problema. Urna longa, rica e esclarece-
dora conversa com seu orientador pode redundar em mais lima página
em branco, que teima em nao se entregar para vocé. Grandes promessas
proclamadas no bar diante dos amigos viram poeira quando tornamos á
casa dispostos a nao deixá-las na inconsequéncia verbal. Aceite isso
como urna legra do jogo, o tempo de a r tic u la d o do significante é um
tempo lógico, nao cronológico, mesmo que a Comissáo de Bolsa nao
saiba disso.
O lado trai^oeiro disso é que vocé nunca sabe quando será
hora, logo escreva sempre. Escreva quanto tiver cinco ou dez m inutos.
escreva antes de ir ao bar contar bravata aos amigos, ou antes de ter
aquela insónia. Nunca espere que, na hora certa, as palavras viráo. É
como urna sessao de anáhse, vocé pode nao ter nada para dizer naquele
dia. Vá mesmo assim, geralmente sáo as melhores. Inversamente jam ais
complique o que ainda nao existe. Os livros que vocé ainda nao leu, o
fim de semana sem as crianzas, aquela tarde de dom ingo tranquila e
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serri i n t e r r u p 9Òes te le f ó n ic a s , o q u e se u o r i e n t a d o r vai a c h a r se... tu d o
is s o n à o e x i s te , lo g o n ao co m p liq u e, escreva .

1 ACEITE AS C RÍTICAS M AIS IM PIE D O SA S EM SEU


CORACÀO

Há uní conselho constantemente dado aos escritores. Depois


de terminado o livro releia-o coni ateii 9ào e grife as frases que vocé
acha as mais sensacionais, criativas e retoricamente perfeitas. Em se­
guida retire-as sumariamente do seu texto. Provavelmente elas só váo
interessar a vocé. Quando se com para lima tese ao nascimento de um
fillio há de fato milita pertinencia. Poneos projetos na vida demoram
tanto paras serení l'eitos, e geralmente essas coisas sào milito im portan­
tes. Nela depositamos nossos sonhos e esperanzas. Uni dia eia nasce
para a vida e sai de nossas màos, indo parar na aleada destes terríveis
leitores inescrupulosos. Aqui eia nào nos pertence mais e terá que so-
breviver seni nossa ajuda.
Como dizia Montaigne, escrever é aprender a morrei', assilli
tambéni é ter filhos. Ora, qualquer psicanalista lembrarà aqui que “sua
majestade o bebé” precisará de uní longo processo de s e p a r a l o , no
qual a atitude dos pais será decisiva. A fallici bàsica aqui é a seguinte: o
juizo mais íntimo de seu ser (kern i/.seres w esens) nào està em jogo na
tese. Nào é voce quem está sendo julgado, é o que vocé escreveu. A
psicanálise é urna atividade na qual os parámetros narcisicos de sucesso,
realizazào e progresso sào milito inapropriadamente aplicáveis. O carà-
ter sigiloso da experiencia, o cotidiano relativamente solitàrio, as in­
certezas da pràtica costumam inquietar nossos ideáis.
Nào é incornimi que a tese venha a colocar à prova os mais di­
ferentes aspectos da form asào e da pràtica clinica. Nào é boa ideia ali­
mentar esta tentazào. Freud recomendava que nào nos deixássemos
levar pelos elogios transferenciais do paciente assim como tomássemos
as reazòes críticas coni parcimónia. Se seu orientador ou os seus cole­
gas criticam um ponto do seu texto, recue, avalie com calma, e responda
ao que foi dito. Um académico que nao escuta, é como um psicanalista
surdo. Na dúvida aceite a crítica como instrumento para separar-se de
sua “o bra” , decline de sua gula ou soberba psicanalitica, admita o cará-
ler projetivo da inveja e da ira alheia, deixe que a melancolía e a acidia
fa9am seu traballio. Sobretudo, jam ais deixe de entregar-se à luxúria,
com outros e outras, que nào o seu texto.

A s s o c ia lo Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 61


[Nota: a melancolía e a acidia (preguiga espiritual) com punham os p e­
cados capitais, em número inicial de oito e nao sete, segundo a classifl-
cagao de Evágrio do Ponto (345-399 d.C.)].

8 OS LIMITES DE SUA L IN G U A G E M SAO OS L IM ITES


DE SEU M U N D O

Aprenda línguas e se nao for possível a leitura 110 original,


busque textos que possam ser cotejados, com edigoes de controle e es­
teja a par das discussóes sobre tradugao, compilagao, reedigáo e esta-
belecimento das obras dos autores que Ihe sao importantes. Nunca se
esquega de mencionar 011 discutir com o tradutor, este goleiro da vida
académica (Se ele segura ludo, nao fez mais que a obrigagao, ninguém
repara. Se erra unía vez, todos criticam. Profissáo maldita, até onde ele
pisa a grama nao nasce). Nao obligue seu leitor a falar sua lingua. Espe­
cialmente 110 que ela comporta de idioleto, jargáo, gíria, proverbialismo
e particularismo. O seu litoral entre saber e gozo nao é uma praia parti­
cular. Lembre-se, o nome do jo g o é Universidude, nao é Particulcirida-
de. Ferenczi já apontara que toda colonizagao comega por obl igar o
outro a Talar nossa lingua. Reeusar-se a falar uma “ lingua coinum ” nao
deve amparar-se em falsa associagao entre o discurso do psicanalista e o
estilo gongórico de Jacques Lacan. Cuidado também com monomanias,
Freud e Lacan recomendavam uma diela onivora, balanceada e diversi­
ficada. Construir um estilo, o seu estilo , é essencial, para autorizar-se
como autor. Nada ajuda mais nesta tarefa do que separar-se do outro.
Logo quanto mais rico, complexo e extenso o outro, melhor será sen
estilo, seu corte, sua separagao. Separar-se no deserto é bein mais difí­
cil. Dé preferencia aos clássicos da psicanálise, literatura, mas tam bém
todas as línguas da ciéncia, da cultura e da arte. Pense com a linguagem
do cinema e da propaganda. Pense com o teatro e com as novelas de
televisao. Pense com sua clínica. Dominar bem uma lingua básica (um
autor 011 um tema) é altamente desejável.
Há alguns bons textos que ajudam a desenvolver a escrita de
ficgáo (Bickham, 1997; Gardner, 1991; Burroway & Stuckey-French,
1996; Strunck & White, 2000), urna aptidáo necessária. para -teses em
psicanálise. Há outras referéncias gerais sobre escrita da clínica, sua
estilística e os problemas da constituigao da autoría em psicanálise
(Mezan, 1998; Costa, 2008; Gongalves, 2000). Há que se ter um pouco
de formalidade. Isso comega pelo seu e-mail (evite coisas como rockfu-
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Os 27 + 1 Erros mais Comuns de quem quer escrever urna Tese em Psicanálise
ckev2001@ fritz.com .br). O material enviado, que terá que ser classifí-
cado pelo seu orientador e colegas, pode seguir alguma ordem e método
(evite coisas com o In/r.geral-agora-vai-m esm o-33). Escolha o que voeé
quer que seja lido com mais atenpáo, indicando suas dificuldades (evite
coisas como lese-total-tudo-de-um a-vez).
Respeite a urbanidade dos horarios de envió e expectativas de
resposta (evite comentarios como l'E ai? L eu meu e-m a il?" m andado ás
3h34 da madrugada anterior). Se o leitor náo entendeu, regra geral, a
culpa é suu. Neste jo g o o leitor é soberano, ou seja, é vocé náo se ex-
pressou bem, ou escolheu mal seus destinatários. Lembre-se que vocé
nao estará ao lado d n ^cn s leilorgs para longas e x p l i c a r e s verbais sobre
o sentido daquela intérjeipáo, daquela akisáo ou do pior, “do que voeé
quería dizer ”.

9 N Á O P E RC A A E XPE RI ENCI A

Urna pesquisa clínica náo é apenas explicitajáo de conceilos


ou a re c o n s tru y o de seu desenvolvimento dentro da obra. Mes ino ues­
tes casos se trata de urna experiéncia intelectual. Ela lambcm náo é o
relato ou testemunho autojusti Picador de urna experiencia pré-
constituída. Ou seja, a pós-araduacáo náo é o lugar no ciual voce vai
aprender o que este ou aquela autor disse. nem co mpreender o que ele
quería dizer. Isso é pressuposto pela si la form acáo. Ela tambcm nao é o
lugar no qual vocé vai confirmar que sua prática é boa e que vocé está
agora “certificado” . O que se espera da pós-graduagáo é que novos pro­
blemas, novos ángulos, novas respostas possam ser propostas e tratadas.
Se vocé ainda náo se sente em con d ijo es de levantar lima questio, ou
seja, urna questáo capaz de gerar um conjunto articulado de pcrguntas,
que se inclua em urna d isputado, ou seja, que leve a mais de urna res-
posta, e que permita dialogar com outras pessoas da com unidade de
estudiosos na qual vocé pretende se incluir, continué a 1er. Mas, sobre-
ludo, nunca, jam ais perca de vista a experiéncia que seu texto tem como
horizonte. E ela que deve trabalhar em seu texto da primeira á última
nátíina.

10 N A O I G N O RE SEU P R Ó PR I O T E X T O

Na ansia de 1er o que se deve, o que se pode e o que náo se


11<>de é com um que nos esq u e ja m o s de 1er a sério e com atenpao o que
AssociapSo Psicanalítica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 63
Christian Ingo Lenz Punker
estamos dizentìo. Ler-se e conhecer os meandros e bastidores de seu
pròprio texto é lima atividade que nunca se pode rec o niend áF dem asia-
dámente. A procura da concisáo, da correçâo ortográfica, da fluidez e
'clareza constituí um verdadeiro universo à parte dentro da tese. Verifi­
que a concordancia, e lembre-se e leia-se: “sujeito-verbo-predicado
‘‘unía ideici, um p a rá g ra fo ”, “prem issas, argum entos, conclusáes "
Imagine-se um piloto de aviào. A cada momento terá que decidir se dá
mais força ao eixo horizontal (aperta ou solta o acelerador) ou ao eixo
vertical (sobe ou desee no interior do texto). Regra básica: a gente n u n ­
ca ganha ñas duas. Se desceu, perde em “visào geral” . Se subiu, perde
em detalhe e força de torque. Se corren, deixou algo para trás. Se foi
milito devagar... o aviào cai. Ao contrario da análise, aqui os entime-
mas, alusóes, elipses e enunciaçôes indeterminadas, sao mal-vindos. A
arte de polir um texto introduz urna relaçâo temporal nova que cria án ­
gulos e problemas inesperados. Nao é um acaso que na época de Espi­
nosa, todo filósofo devesse ter urna atividade manual (ele mesmo era
polidor de lentes). O polidor e o ourives devem caminhar lado a lado
c o i t i o engenheiro e com o arquiteto do (exto. Estas duas funçôes devem

se articular ainda com a máxima “seja psicanalista de sen pròprio (ex­


to ”. Escute-o, reconheça as insistencias, os sintonías, as inibiçôes, as
mensagens que retornan! invertidas desde o Outro. Principalmente sus­
tente os significantes que vocé introduz.
Explique títulos, desenvolva conceitos, varie e enriqueça o uso
de expressoes ao longo do texto, use recursos filológicos, aproveile as
flutuaçôes semánticas e ambiguidades. Faça sua questào de pesquisa
trabalhar. Aproveite para exam inar seu traballio tam bém corno uni es-
trategista militar. Onde estào os flancos, onde estào as melliores colunas
de sustentaçào, onde liá buracos fazendo água, por onde queremos que o
inimigo se introduza. Sobretudo, nunca entregue um texto para aprecia-
çào: seni homogenizar o tipo de letra (times New Roman 12), sem o
espaçamento entre linhas (1,5), seni justificá-lo (a forma do texto e seu
conteíido de preferencia), seni a titulaçào e sub-titulaçào numerada dos
itens (1; 1.1.; 1.2.4.), sem nom ear propriamente o arquivo (no texto e no
computador), sem usar corretamente itálico (expressoes estrangeiras,
nom es de livros), sem usar propriamente o negrito (nunca como estres-
sador ou interjeiçâo de ênfase, use milito criteriosamente a exclamaçâo
(!) e a pergunta retòrica), sem rigor formai nas citaçôes (mais de 30
palavras fora do corpo do texto em espaço recuado, letra tamanho 11;
menos de 30 palavras no coipo do texto, entre aspas, tamanho 12), sem
especificar a fonte corretamente (nome de autor, ano de publicaçâo, ano
da ediçâo utilizada, página na quai se encontre a passagem).
64 Associaçâo Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010
Os 27 + 1 Erros mais Comuns de quem querescrever urna Tese em Psicanálise
Sobretudo, minea, jam ais, em tem po algtnn cite sem colocar
entre aspas ou mencionar o autor. O nome técnico para isso é plagio, ou
também chamado furto de texto. Quer usar paráfrases, glosas ou sínte-
ses de ideias de autores ou mesmo de passagens genéricas de um texto?
Fa^a-o com suas palavras. Imagine que vocé é um advogado apresen­
tando e defendendo urna causa. Assim como no processo jurídico, um
erro de forma, lima perda de prazo, lima anomalía de procedimento,
impede que sua causa seja apreciada. Ela pode ser indeferida simples-
mente por problemas de forma. Isso gera unía confusSo dupla, pois po-
derá ser assimilado como urna recusa do conteúdo, descncam inhando a
alma de seu trajeto rumo ao paraíso, prendendo-a ao limbo, ou ao pur­
gatorio, por lempo indeterminado.

11 AS CA B R A S FRAGAS FICAM PARA TRAS

Nunca deixe as c i t a r e s para serem checadas depois. A p ré­


sente os textos parciais com o melhor nivel de acabam ento que vocé
conseguir. A perspectiva de que o importante no m om ento é passar a
ideia é completamente incompatível com a s u s te n ta d o universitaria do
significante. O mesmo se aplica a títulos que nao sao explicitados, cita­
r e s nao trabalhadas ou argumentos inconcluídos. Evite os dois pecados
atitudinais da escrita académica: dogmatismo (cabras concentradas de-
inais) e o ecletismo (cabras dispersas). Bom antídoto estilístico para
oles: alterne momentos de c o n s t r u y o de justificativas e argumentos,
com momentos de c o n s t r u y o das regias ou critérios pelos quais os ar­
gumentos devem ser julgados. Imagine que seu precioso tempo é táo
precioso quanto o dos colegas ou de seu orientador que terá que se inte­
ressar por problemas ortográficos, de d i a g r a m a d o ou de homogeniza-
<;ao de chacóes e referencias, em vez que se concentrar no que é o mais
importante. Moral da historia: as cabras que vocé deixa para Irás sempre
voltam pela frente.

12 A PÓ S-G R A D U A C A O N A O SU B ST IT U I A F O R M A D O

A pós-gradua 9 áo forma pesquisadores e professores. A form a­


dlo psicanalítica forma psicanalistas. A m elhor maneira de viver esta
contradifáo é assumi-la como tal. A forma 9áo é um processo muito
mais ampio que a p o s -g ra d u a d o , ela com preende sua formayáo psica-
Associagáo Psicanalítica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 65
Christian Ingo Lenz Dunker
nalitica, mas também sua f o r m a l o geral ( B ild u n g ). É necessàrio que
voce leia ampia, extensa e intensamente sobre seu tema. C o n l o a os
comentadores e autores. Nunca, jamais, em tempo algum traga para a
universidade as secpòes e divisòes entre as escolas, linhas e grupos psi-
canaliticos. A regra pela qual um grupo nào deve ler, nem discutir o que
os outros grupos concorrentes fazem, nào só nao se aplica na universi­
dade como é virtualmente maléfica à form afào psicanalitica. Ao contrà­
rio de outras áreas de pós-gradua 9 ào que tendem à e s p e c ia liz a d o , no
caso da psicanálise a especializatpào é tendencialmente problemática.

13 A F O R M A L O NÀO SUBSTITUI A P Ó S -G R A D U A ^ Á O

A pós-graduapào deve ocupar lini lugar suplem entar na for-


m a^ào do psicanalista. Ou seja, além da pròpria anàlise, da supervisào,
do estudo de textos, das apresentapòes de paciente, pode-se incluir a
pós-gradua<pào. Se eia for pretexto para descuidar da forma 9 ào esteja
certo que será a brecha pela qual o diabo da resistencia entrará na sua
vida. Em termos mais específicos, este problem a acaba se concentran­
do no seu capítulo sobre método.
A psicanálise nào apenas possili lini metodo, mas eia foi defi­
nida, mais de urna vez por Freud como sendo, eia pròpria, uní método.
Um método de tratamenlo e um m ètodo de investiga 9 ào. No que toca o
m étodo de investiga 9 ào ele está bem longe do transporte de categorías
com o associa 9 ào livre, transferencia e interpreta 9 ào para a pesquisa
científica. Uà equivalentes sim, mas que exigem urna espécie de “qua-
rentena de aclim ata 9 ào ” . N unca pense que p s ic a n á lis e = o q u e F re itd
d isse , e principalmente nào incorra na inversào, se F r e u d (ou se u e q u i­
va len te) n à o d isse = n ào p s ic a n á lis e . Ocorre que, em geral, a form a 9 ào
em psicanálise nào enfatiza a form afào em investiga 9 ào psicanalitica.
Isso porque, geralmente, as institui^des psicanaliticas distanciam-se da
pesquisa formal. Ou seja, nào imagine que da sua forma 9 ào lhe sairà
espontáneam ente as regras do m étodo psicanalitico. O método deve
estar adequado ao seu objeto, e neste caso, à experiència em questào.
Lem bre-se da solugào algo tautològica, mas elegante proposta por L a­
can: a psicanálise é todo tratamento conduzido por um psicanalista. A
pesquisa psicanalítica é toda pesquisa conduzida por uni psicanalista.
Diferente e mais restrita do que a pesquisa em psicanálise, que será
feita por qualquer um que tenha aptidào e interesse pela psicanálise,
66 Associaçâo Psicanalítica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010
Os 27 + 1 Erros mais Comuns de quem quer escrever urna Tese em Psicanálise
seja ele ou nao psicanalista ou clínico platicante. Ora, para construir
um m étodo que eleve o objeto á dignidade de experiencia, vale o que
servir ao pesquisador e convier a seus objetivos. Ou seja, existem ¡nú­
meros recursos, técnicos e m etodológicos, que podem ser com binados
e articulados aos conceitos metodológicos da psicanálise: análise de
discurso, pesquisa apáo, hermenéutica crítica, o b s e r v a d o livre ou con­
trolada, crítica de conceitos, esludo de caso, para citar os mais comuns
110 quadro mais ampio da pesquisa qualitativa (Banister el al., 1994).
Nao os desconfíela.

14 COM Q UEM VO CÉ PENSA Q UE ESTÁ FALANDO?

Argumentos de autoridade, do tipo F r e u d d isse , ou L a va n ja ­


lón, revelam militas vezes apenas a subserviéncia reverente do autor
dianle da tradigao que o precedeu. T o rn a r su a a h e ra n ^ a q u e te le v a -
ram , esta liase de Goethe pode ser usada para dom esticar a transferen­
cia de servidao. Ademáis, em nosso país, a extensáo representada pela
lormagao em psicanálise, suplementada pela pós-graduagao trazein unía
responsabilidade nova. A cham ada responsabilidade do intelectual.
Ela implica situar-se e com partilhar seu percurso com oulros. () pri-
meiro dever do intelectual é a liumildade, caso contrario ele apenas
reproduzirá o sistema de opressoes que o gestou. O segundo dever do
intelectual é destruir as autoridades constituidas e ja la r jo r a do lu g a r
que lhe é reservado. Esta dupla tarefa foi sintetizada brilhanleinente
110 que Bloom (1991) chamou de angustia da inlluéncia. Ou seja, ;i tare-
la formativa de autodilacerar-se diante da autoridade recebida, de sepa-
rar-se dos autores e influencias que recebemos.

15 Z E R O É IG UAL A ZERO

Urna das legras da teoría geral da c o n v e r s a d o de Grice é:


co n lrih u a p a r a a c o n v e rsa a c re sc e n ía n d o a lg o n o vo. A mellior maneira
de reduzir o interesse de sua tese, inclusive o interesse para vocé mes-
mo, é esquecer que a tese é apenas um fragmento composto de palavras,
íi ser adicionado a urna conversa que com efou muito antes de vocé e
)ue terminará muito depois de vocé. Vocé dará uma contribuipao, mas
nao se espera que seja nem a primeira nem a última. Aqueles que ficam
quietos cinco anos porque esperam sair de seu gabinete com “ a palavra

Associacao Psicanalítica de Curitiba. em Revista. n° 20. 2010 R7


Christian Ingo Lenz Punker
final” sobre um assunto, deveriam voltar para seu gabinete (zero =
zero). Aqueles que querem participar da conversa, mas sem dizer nada
que seja pròprio ou comprometedor, recolham-se ao gabinete para p en­
sar por mais cinco anos (0 = 0).
A conversa mais ¡mediata, vam os dizer, inevitável, é com seu
orientador e depois com os m em bros da banca. Mas vocè pode aplicar
o m étodo da diagonal de Cantor para perceber a extensào potencial da
conversa em questào. Ir para urna defesa sem ler, citar ou com entar o
que escreveram os m em bros da banca e seu orientador sobre aquele
assunto é sim plesmente inadmissivei. Se voce os escolheu é porque
eles tèm algo a dizer sobre o que vocè estuda. E se eles te escolheram ,
para o r i e n t a l o ou para participar de sua banca, é porque eles conside­
ran! que vocè tem algo a contribuir para as pesquisas que eles estào
desenvolvendo. Lembre-se, seu orientador nào é urna versào piorada
de m am àe, cuja única expectativa terrena (sob sua ótica narcisica) é
adular e re fo rja r a a d o r a l o pela sua cria. Pe£a licenza, discorde, po-
sicione-se, de preferencia com elegancia e e d u c a l o , mas jam ais tome
o caminlio pelo qual vocè se torna o mostre do universo, sim plesm ente
porque vocè desenvolveu esta estranila liabilidade de ignorar os mais
próximos, reduzir ca beras ou dim inuir o tam anho do m undo no qual
estamos. Isso aplica-se, m ututis m utandì, à indiferen^a para coni o u ­
tras escolas, linlias e o r i e n t a l e s dentro da psicanálise. Em suma, n u n ­
ca esqueza aqueles coni quem vocè està falando, nein justifique sua
pregui^a coni preconceitos.

16 N A O M A TA R Á S PASSA R IN H O S COM C A N H Ò E S

Cuidado para dimensionar beni o esfoi^o de levantamento de


argumentos, o b s e r v a r e s , dados e históricos tendo em vista o que vocè
realmente precisa no quadro de seu argumento. Principalmente no co-
me 90 queremos cercar todas as brechas e costumamos gastar muitos
recursos sem os devidos beneficios para a demonstrazào. Especialmente
quando nào estamos bem certos do que vamos fazer na tese, com efam os
a reunir argumentos com forte “aspecto critico” ou com “altas doses
dogm áticas” para justificar o que já sabemos e para afastar o que ainda
nào sabemos. A arte de acabar com passarinhos por meio de canhòes é
no fundo a arte de disfaldar a covardia.
A psicanálise nào é urna ciencia que tenha por critèrio nem
exclusivamente a exatidào, nem exclusivamente a empiria. Seu critèrio
68 Associaçâo Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010
Os 27 + 1 Erros mais Comuns de quem quer escrever urna Tese em Psicanálise
é o rigor, do texto e dele para com a experiéncia, m as também a clínica.
Lembremos, clínica é nome de lima experiéncia e de um método, na
verdade lima familia de métodos. A clínica exige rigor e minucia no
estabelecimento da semiología, crítica comparativa da diagnóstica, ava­
h a d o ponderada da terapéutica, in v e s tig a d o hipotética de seus esque­
mas etiológicos. Clínica sob transferencia, clínica com o t r a d i d o , daí a
proximidade entre a tese em psicanálise e a escrita do romance policial
¡Dunker el a/., 2002).

17 NAO R E V E L E O A S S A S S IN O NO PR IM E IR O
C A P ÍT U L O

Fsta nao é apenas lima fallía retórica que desqualifica a aten­


d o de seu leitor, e na verdade ignora as regias da f o r m a d o «-la intriga
pela qual valerá a pena continuar a 1er seu trabalho. Este erro costuma
revelar algo mais sério: vocé já sabe onde quer chegar. Vocé já sabe o
que será concluido. Vocé já sabe o que liá para ser dito. Fique em casa.
Vocé já sabe. Queremos pessoas que ainda nao sabem.

18 N A D A SE PERDE, T U D O SE T R A N S F O R M A

A escrita de um texto longo como um meslrado e mais ainda


de um doutorado exige urna planta ou um projelo no qual os capítulos
sao diagramados. A estrutura de nosso texto académico segue com va­
r i a r e s aquilo que os antigos retóricos chamavam de disposilio: intro-
d u d o , objetivos, justificativa, método, resultados, discussao, conclusao.
Note, essas sao f u n d e s lógicas do texto e nem sempre devem corres­
ponder á t i t u l a d o e ordem dos capítulos. O importante é que sua escrita
possua escoadouros alternativos. Um capítulo que perdeu o rumo pode
virar um bom artigo. Urna s e d o sem propósito ou lugar pode ser rea-
proveitada em um congresso. Urna abertura ousada que nao deu certo
pode ser guardada no seu baú para emergéncias. Ou seja, se vocé nao
íem nenlium outro projeto de escrita que nao a tese, vocé tem um pro­
blema grave. Cedo ou tarde seu desejo de fazer ludo entrar vai engordar
sen trabalho e poluir sen ambiente. As redufoes e emagrecimentos seráo
sentidos com o perdas melancólicas, ás quais vocé resistirá com fervor.
Seu texto fica lento, perderá a agilidade e morrerá como um elefante
preso na areia movediza._____________________________________________
Associagáo Psicanalítica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 69
Christian Ingo Lenz Punker
19 Q UAL O T A M A N H O DA PISTA O N D E V O C Ê VAI
PO U SA R ESTE BOEING?

Sempre dim ensione sens planos e ideáis lendo em vista seus


recursos. Grandes promessas exigem ¡mensas áreas de alerrissagem:
prazos longos e faustos, escrita pródiga, lempo de dedicaçào extenso.
Calcule o centro de sen projeto, o ponto 110 quai se deve aplicar mais
força e densidade. Veja se ele se ajusta realmente às suas previsôes. Se
possível comece por ele. Tenlia certo que pianos, cronogramas e proje­
tas podem ser totalmente corrompidos por urna paixâo repentina no
meio do caminho. Um livro que nos desorganiza, um comentario lateral
que nos atinge em cheio no que queremos fazer.

20 NAO ME V E N H A CO M C H O R U M E L A S

Sim, a impressora tem vontade própria. É verdade, ela está


m ancom unada com seu com putador e às vezes em quadri lha com a in­
ternet. Todos eles juntos conspiran! contra vocé. Sem talar na falta de
sorte pelo término do papel às très horas da manliá na véspera de sua
apresentaçào. Chuva, pneu furado, tsunam i na familia, cñimbra do es­
critor, tudo isso acontece mesmo. Se vocé ainda nao se esqueceu das
condiçôes ideáis de pressào e temperatura e ainda sonha com aquela
casa ñas montanhas, ao lado dos passarinhos, só vocé, seus livros e sen
laptop, volte para o número (1) desta lista. A regra aqui é: traga alguma
coisa, por menor que seja. Um papel amassado com lima frase aforis-
mática. Urna pergunta vetusta, sem propósito ou destino? Traga. Um
sonlio 110 qual vocé se imagina o grande Berzelius? Se estiver escrito
traga. Todo orientador sabe se virar com o que foi possível escrever.
Ningiiém sabe o que fazer com o vazio (considere levar este para sua
análise).

21 N A O BATA EM C A C H O R R O M O R T O

Críticas aos perdedores da historia sempre constituem a c h a­


m ada posiçâo fácil. A com unidade a qual vocé pertence possui c o n ­
sensos firmados. É importante m ostrar que vocé os conhece, m as é
mais im portante ainda reverter as expectativas criadas a partir de tais
consensos. Por exemplo, repetir as vellias críticas de Lacan à p sico lo­
gia do ego da década de 1950, pode ser útil para dizer que vocé faz
70 Associaçâo Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010
Os 27 + 1 Erros mais Comuns de quem quer escrever uma Tese em Psicanálise
parte da turma, mas se nâo acrescentar nada, cedo ou tarde vai parecer
covardia e preguiça, ou pior, falta de coisa mellior para dizer. Sempre
que possivel procure a posiçào difícil, sein que isso se torne apenas o
cultivo de pequeñas dilerenças. Falso antídoto para aplacar seu senti­
m ento de m ediocridade e suas aspiraçôes de especialidade.

22 NÂO ABUSE DA ELASTICIDADE DA T RANSFERENCIA

A escrita de uma tese está atravessada por transferencias, nao


só aquela que costuma se formar com o orientador. Nao imagine que se
seu orientador te amasse mais uni pouquinho as coisas se resolveriam
fácilmente. As portas de Sésamo se abririam com uma pitada a mais do
pô de Pirlimpimpim? Freud dizia que nas instituiçoes a transferencia
pode assumir as formas mais liumilhantes e empobrecedoras. Nào tente
adivinliar aquilo que seu orientador realmente quer, abrindo mào do que
você gostaria. Negocie seus interesses com os de seu orientador. C onsi­
dere que na escrita académica liá qualro tipos de saberes maieriais.
Aquilo que você sabe que sabe, mas que você mesnio está l'arto de pen­
sar, escrever e dizer. Aquilo que você sabe que nào sabe e te aparece
como uin imenso e sedutor continente a conquistar, ou a desviar-se.
Aquilo que você nào sabe que sabe, e que seu orientador deve
ser astucioso o suficiente para extrair, dar voz e aproveilar. Finalmente
liá aquilo que você nào sabe que nâo sabe, por exemplo, o trabalho infi­
nito que aquele tema (aparentemente fácil) representa, mas também sua
incrível facilidade para pegar e entender os movimentos daquele outro
autor. Agora suponlia que isso tildo está acontecendo também do lado
de seu orientador. Ele pode saber menos que você sobre o seu assunto.
Ele pode estar tarto de 1er as mesmas ideias. Ele pode desconliecer sua
própria ignorancia. Only hu m a n ? Nâo force a barra, vocês estâo juntos
como dois cegos em uma floresta escura. Lacan dizia que a transferen­
cia une, ao modo de uma banda de Moebius, a psicanálise em intensào e
ii psicanálise em extensáo. Lide com as transferencias académicas da
mesma forma como você lida com as transferencias analíticas, basta
saber onde está o ponto de torçâo.

23 N Á O É C O M FO R Ç A , É CO M JE ITO

Lembre-se sua tese é um a donzela a ser conquistada. N âo vai


adiantar tirar as calças pela cabeça, praguejar contra a sorte ou rezar
Associaçâo Psicanalítica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 71
Christian Ingo Lenz Punker
pela ajuda divina. Ela só se entregará a vocé segundo os caprichos e
designios que serâo os déla, no tempo déla (infelizmente ela nao está
sincronizada com a Capes-CNPq) e da forma que ela condicionar. Très
máximas do fulebol sao aplicáveis aqui: (1) nà o é com fo r ç a , é com
je ito ; (2) q u em se d e slo c a recebe, quein p e d e lem p r e fe r e n c ia e (3) na o
vá q u e re r m a rc a r o terc e iro g o l a n te s d e m a rc a r o p rim e iro .
Se a ideia nao vem, mude de capítulo, com ece outra parle, re­
vise um pedaço deixado para trás. Imagine que seu texto é como urna
casa em construçào. Sempre há algum reparo para fazer aqui ou ali.
Algumas definiçôes devem vir necessariamente antes que outras, mas
uma vez começado (lembra-se da importancia do começo?), há sempre
algo por fazer. Sobretudo nào brigue com seu lexto, nao o insulte, nao
amaldiçoe o dia cm que vocé quis se meter com isso. Nào fique cobi-
çando o tema do próximo, nem fique sonhando com um novo começo.
Uma radical mudança de tema deixará os problemas para trás assim
pensa o senso comum sobre os sintonías.

24 SE NÀO DEU COM JEITO , VÁ NA FO R Ç A M E SM O

Apesar de tudo existem textos indóceis, momentos de m aras­


mo criativo e desorientaçào de ideias. Existem estradas lindas que ligam
nada a lugar nenhum. Sempre há uma soluçào absolutamente simples
para qualquer problema complexo: a soluçào errada. Cedo ou tarde os
caprichos da inspiraçâo submetem-se à disciplina da transpiraçào. Se
sua donzela nào quer se entregar, apesar de suas súplicas, lembre-se, o
amor cortés desenvolveu-se em paralelo com os concursos de cavalaria,
com os exercícios militares e com as Justas cerimoniais. Quem nào te
quer nào te merece. O importante é nào voltar para casa de máos vazias:
resuma, fiche, comprima, resenhe, organize, leia e rabisque. Em casos
extremos, faça justiça com suas próprias màos. Cuidado, esteja ciente
que nào é por todos que isso será recebido como a coisa mais linda do
mundo. A sublimaçâo é um recurso limitado, o trabalho é a condiçâo de
seu acontecimento.
Eco (1977) nos lembra de um a estratégia importante para a
escollia do tema, um a estratégia que pode ser usada de forma reversa.
Im agine que vocé deve escolher um tema de tal forma que vocé seja
capaz de efetivam ente conhecer (isso inclui desde 1er e saber de cor,
até situar v agam ente o que aquele autor faz) todas as referéncias im­
portantes. O u seja, se vocé nao se acha capaz de refazer todas as refe-

72 Associaçào Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010


Os 27 + 1 Erros mais Comuns de quem quer escrever urna Tese em Psicanálise
r e n d a s importantes sobre, digam os, a tr a n s fe r e n c ia , especifique para
“a transferencia em F reud” . Se ainda nào dá reduza para: “a tr a n s fe ­
re n c ia d e p o is d e 1920, em F re itiP . Se mesmo assim, as peinas estfio
curtas, especifique para “a tr a n sfe re n c ia e sita recep^cto e n tre os p ó s -
fr e u d ia n o s d a L e tó n ia a té 1 9 5 0 ”. Se ainda assim seu lólego nao dá,
procure oulra praia, algo com o “d a e s c o lh a d e te m a s im p o ssív e is na
n e u ro se o b s e s s iv a ” .

25 RESPEITE A LÓ GICA DO E N C O N T R O

.lamais apresenlamos o mcsmo nivel de normalidade que espe­


ramos de nossos pacientes, dizia Freud. Ñas provas de sele^áo para
ingresso é comuni vermos candidatos decepcionados por nào screm
aprovados. Geralmente tomam isso como sinai de sua insuficiente sabe-
doria ou formagao académica previa insatisfatória. Às vezes isso de (ato
se verifica, mas na maior parte dos casos lrata-se de um desencaixe
entre as disponibilidades do orientador e do programa e as ofertas e
interesses do candidato. A selegào nào mede conhecimentos absolutos e
qualificagòes do tipo Fuvest. Se vocé ainda aclia que ser bom aluno
equivale a ser boni pesquisador, volte para o item (I) desta lista. A es-
colha é feita tendo em vista o que aquele programa em particular pode e
deve receber, e o que vo ce tem e p o d e o fe re c e r p a r a a q u e le p ro g ra m a
esp e cífic o . Cada orientador tem compromissos a cum plir em termos de
sua pròpria pesquisa, de seus temas, de suas áreas. Se vocé nào sabe
disso, repito, volte para o item ( I ).
Muitos consideram isso injusto, pois creem que o mérito deve
equalizar as condigoes de todos. Mas como receber um verdadeiro es­
pecialista internacional na psicologia de Jung se nào há nenlium conhe-
cedor da Psicologia Analítica no seu program a? O Outro nào existe, é
descompleto, falta-lhe um significante e há um furo real no Simbólico,
sem falar na relagao sexual que nào existe - sad, b u l tru e! (T ra u rig a b e r
W ahr). Certo, está mais para namoro ou casam ento do que para prova
anònim a que avalia os méritos. É por isso que se deve, na medida do
possível, frequentar o programa pretendido, apresentar-se ao orientador,
quando nào pessoalmente, por escrito, estagiar em suas atividades
abertas quando as houver, conhecer o programa ( kn o w th y en em y). É
prudente experimentar a cultura local antes de se mudar para eia, ou de
se sentir rejeitado por eia. Há casam entas que surgem de encontros as
escuras, mas eles sào de alto risco. Ou vocé prefere a ideia de dote?

Associapào Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010 73


Christian Ingo Lenz Dunker
26 JA M A IS DE SPRE ZE A IM P O R T A N C IA DOS
PE Q U E Ñ O S DE T AL H E S

Considere a possibilidade de que outros tenham trilhado ca-


m inhos sem elhantes aos que agora voce enfrenta em seu texto. F. pos-
sível que mais de urna vez voce seja destruido pela certeza de que ludo
de útil que havia para ser feito sobre aquele tema, já foi feito por tal
autor, que voce, infelizmente, leu dois m eses antes da entrega final de
seu traballio. C onsidere que boa parte desta sensatpào decorre de suas
expectativas sintomáticas ou das inibi^óes de escrita e criapao. Mas há
casos nos quais de lato, o espirito do tem po , e a disponibilidade de
recursos levam fatalmente a trabalhos innàos. N este caso seráo os
detallies e o acabam ento que farào a di lerenda. Refi ita ainda sobre a
quantidade de vezes que sua banca ou orientador já leu aquela citapáo
clàssica. Vocè quer estorvá-los com um com entario superficial, ou
valeria a pena tentar descobrir e valorizar um detalhe revelador?

27 VA L E O ESCRITO

Lembre-se que voce nào estará ao lado de seu leitor para ex­
plicar ambigiiidades mal postas, frases sem sentido ou a f i r m a r e s in­
justificadas. Evite recursos de ambigua^ao excessiva, tais como aspas,
expressoes como “e/ou” , exemplos que vao datar seu texto (tipo íuna
fam osa peq a de teatro em car taz. . . q u e será esquecida daqui a dois
anos), ausencia de e x p l i c a d o para títulos de capítulos ou se^óes. Evite
deixar de com entar as citafóes, citar em demasía, ou em extensáo inde-
vida. O critèrio de um texto académico é o rigor, e rigor quer dizer de-
sambiguagào 011 ambiguidade calculada. O que claro se concebe, bem se
exprime. Se vocé nào consegue explicar “aquilo” que está em sua m en­
te, talvez vocé esteja sendo iludido por urna Quimera.

27 + 1 A LEI DO M Ù T U O M E R E C IM E N T O UNIV ER SAL DOS


O R IE N T A D O R E S E O R IE N T A N D O S (L M M U O O )

Militas pessoas acreditan! nos poderes mágicos dos orientado­


res. Fazem questáo de que o seu seja bem dotado, de tal forma a fun­
cionar com o um cartao de visitas. Poneos considerara, nesta matèria, a
tese de Lacan sobre o progresso. C om o nào sabem os o que foi perdido
74 Associaçâo Psicanalitica de Curitiba, em Revista, n° 20, 2010
Os 27 + 1 Erras mais Comuns de quem quer escrever urna Tese em Psicanálise
nao podem os avaliar o que ganhamos. No fundo, nao há progresso. Olí
seja, aquele orientador mais concorrido provavelm enle terá menos
tempo para acom panhar sen traballio. A quele orientador mais confuso
te dará liberdade para que voce se organize cnquanto tenta organizá-
lo. Os orientadores que pegam ñas màos do orientando e seguem cada
linha de seu texto, podem ser sentidos com o controladores. Os que
am am dem ais, podem destruir seus orienlandos com excessos de e x ­
pectativas. Os que am am de menos, abrem espado para a liberdade e
para a diversificazào de transferencias. N em sem pre o orientador que
vocé quer é o que vocé precisa, e nem sempre o que voce precisa é
aquele que te farà feliz. A inda mais aquele que vocé quer e precisa
geralm ente nao está disponível naquele program a que vocé pode, ou
na hora que vocé tem. Os que sào milito exigentes intimidan!, os pou-
co exigentes dispersan!. Os com muito tem po deixam vocé paranoide,
os com pouco tempo te melancolizan!, os que dosam perfeitam ente o
tempo para vocé te deixam em esquize, diante de tam anho ideal.
Acredite: o orientador nào é táo im portante assim. Ele é
com o o Cálice Sagrado, mais vale a procura do que sua posse. Ele ou
eia nào precisan! saber mais que voce para acontecer um boni traba­
llio. É sem pre interessante quando é possivel dizer " a q u i v o c e esiti p o r
s u a p r ò p r ia c o n ta e risc o ". Durante o progresso de escrita, e espe­
cialm ente ao final, as relazòes tendem a ficar tensas. As insùl'iciéncias
sào silenciosam ente atribuidas de um a outro. Seu odioso orientador
vai crescentem ente representando tildo o que vocé poderia ter lido,
nào leu ou nào elaborou. Toda a m iserável im piedade de uni Inquisi­
dor. Eie, do alto de seus poderes deixou que vocé vivesse a extrema
impoténcia de term inar um texto. Lem bre-se do que se diz corrente­
mente “v o c é n u n c a a c a b a urna tese, e ia a c a b a coni v o c é ”. Ou seja, o
tempo, o prazo, o possivel, acaba por impor-se ao desejado. O que é
certo e com provado é que na imensa gam a de desencontros e encon-
Iros entre orientandos e orientadores confirm a-se a cada vez a Lei
Universal de que eles se m erecem . Sejam quais foreni. Sempre. O erro
ùltimo e prim eiro é acreditar que existe tal coisa com o unía tese em
psicanálise. Há teses em psicologia clínica, em teoria psicanalitica, em
epistemologia da psicanálise, e assim por diante. A psicanálise nào é
urna disciplina universitària. Seu orientador nào é seu analista, nem
supervisor, nem analisante, mas, p orque voces se m erecem , tentarào
inevitavelmente fazer o impossivel.

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Christian Ingo Lenz Punker
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NOTA

I . < h!lp://lalles.cnpq.br/>.

SOBRE O AUTOR

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, possili g r a d u a l o


sin Psicologia pela Universidade de Sào Paulo (1989), inestrado em
Psicologia Experimental (1991), doutorado em Psicologia Experimental
1996) e Livre Docencia em Psicologia Clinica pela Universidade de
Sào Paulo (2007). Pós-Doutorado pela M anchester Metropolitan Uni­
versity (2004). Atualmente é professor do Instituto de Psicologia da
Universidade de Sào Paulo (Departamento de Psicologia Clinica). Ana-
ista M em bro de Escola (AM E) da Escola de Psicanálise do Fòrum do
Zampo Lacaniano. Autor de: “ Lacan e a Clínica da I n te r p re ta d o ”
Hacker) e “ O Cálculo Neurótico do G ozo” (Escuta, 2002).
E -ntuil: chrisdunker@ usp.com

Recebido em 09 de feverciro
A ceito em 24 de fevereiro