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UNIVERSIDADE PEDAGÓGICA

FACULDADE DE CIÊNCIAS DE LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E ARTES


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DE LINGUAGEM

Sintaxe, Semântica e Pragmática do Português

Unidade 1: INTRODUÇÃO À SINTAXE E SEMÂNTICA DO PORTUGUÊS

O Objecto de Estudo da Sintaxe e da Semântica do Português

Como já é do seu conhecimento, os estudos linguísticos subdividem-se em vários domínios,


nomeadamente, a fonética, a fonologia, a morfologia, a lexicologia, a sintaxe, a semântica e a
pragmática. Estes domínios todos partilham o mesmo objecto – a língua. Contudo, notamos
alguma diferença entre eles na medida em que os seus focos de análise também são divergentes.
Em semestres anteriores do seu curso terá, de certeza, visto que a fonética e a fonologia têm
como objecto de estudo os sons (da fala e da língua); a morfologia se dedica ao estudo da
estrutura interna das palavras,isto é, das regras de combinação dos morfemas em palavras; a
lexicologia estuda o léxico de uma língua (o vocabulário) e as suas propriedades. E qual será o
objecto da sintaxe e da semântica? Por que razão podemos estudar estes dois domínios em
simultâneo?

Apesar de metodologicamente constituirem domínios distintos, a sintaxe e a semântica


interpenetram-se, visto que ambos partilham o seu objecto de estudo, que , segundo Campos e
Xavier (1991:31) «é a sequência linguística subjacente à qual se encontra pelo menos uma
proposição».
Repare o termo proposição, em dicionários de língua portuguesa é apresentado como
sinónimo de frase, enunciado, oração, sentença, asserção. Será que estes termos todos têm
estritamente o mesmo significado? Comecemos pela discussão da noção de proposição.

A noção de proposição não é exclusiva da Linguística. Ela tem sido aplicada em outras
ciências tais como a Filosofia e Matemática. De um modo geral, podemos definir a proposição
como sendo o conteúdo de uma asserção. Crystal (2000:212-213) define a proposição como
sendo um «termo tirado da filosofia (...) e frequentemente usado na Linguística como parte de
uma análise Semântica ou Gramatical». E acrescenta que se refere à «unidade de significação
que constitui o assunto de uma afirmação, na forma de uma sentença declarativa simples». Para
este autor, a análise de proposições conta com dois termos, nomeadamente, a expressão de uma
acção de estado único (um predicado) ou uma ou mais entidades (“nomes”) que delimitam o
efeito desta acção ou estado.
Outra definição de proposição é a que nos é dada por Campos e Xavier (1991), segundo a
qual proposição é uma estrutura abstracta constituída basicamente por uma relação entre um
predicado e seus argumentos. Ela exprime um estado de coisas real ou imaginário, concreo ou
abstracto.
Sintaxe, Semântica e Pragmática do Português; Carlos Mutondo, UP-Sede, 2018.

Uma proposição pode exprimir:


(a) Uma relação entre objectos:
Proposição: <escrever, Pedro, carta>
Frase: O Pedro escreveu uma carta.

(b) Uma propriedade que caracteriza um objecto:


Proposição: < (ser)1 simpático, menino >
Frase: Este menino é muito simpático.

Note que nos exemplos acima apresentados “escrever” e “(ser) simpático” são os predicados
que seleccionam “Pedro” e “carta”, e “menino” como seus argumentos.
Como podemos observar dos exemplos em (a) e (b), o resultado de uma proposição pode ser
uma frase ou enunciado.

Uma outra definição que podemos aqui apresentar é a que Lima (2006:109) nos propõe,
segundo a qual a proposição é o conteúdo exprimível numa frase ou oração, a que pode ser
atribuído um valor de verdade. Ou seja, uma proposição pode se verdadeira ou falsa.
Enunciado. Este conceito é de difícil tratamento, dado que muitas vezes se confunde com o
de frase. Por isso, iremos recorrer ao conceito de Campos e Xavier (1991), segundo o qual se
refere a uma sequência linguística cujos valores que o afectam – número, género, caso, aspecto,
quantificação, determinação – permtem localizar o estado de coisas expresso pela proposição em
relação ao chamado parâmetro situação de enunciação2.

E frase (também tida com oração ou sentença), de acordo com Dubois (1993:292) será a
«reunião de palavras que formam um sentido completo, distinta da proposição pelo facto de
poder conter várias proposições»; e Vilela (1992:288) acrescenta que a «frase configura numa
proposição, um estado de coisas e ocorre num texto transformada em um enunciado ou em parte
de um enunciado».
Há que realçar que muitos autores afirmam que a frase é determinada por princípios que
regem a sua boa formação sintáctico-semântica.

Comparemos as seguintes sequências linguísticas:


(1) (a) O Pedro está a escrever uma carta.
(b) O Pedro escreve uma carta.
(c) O Pedro estava a escrever uma carta.
(d) O Pedro estará a escrever uma carta.

1
Neste exemplo, o predicado é o adjectivo “simpático” e não o verbo ser, visto que este verbo é predicativo, e
assim sendo, não selecciona qualquer argumento, mas sim usa-se para ligar o predicado e o respectivo argumento.
2
De acordo com Campos e Xavier (1991:32) «Situação de enunciação é o parâmetro enunciativo definido pelos
parâmetros enunciativos Sujeito da Enunciação (ou Sujeito enunciador) e Tempo da enunciação.
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Sintaxe, Semântica e Pragmática do Português; Carlos Mutondo, UP-Sede, 2018.

Destas sequências, apenas a frase (1) (a) é que constitui um enunciado, pois nela está
subjacente um valor de quantificação (evento único) e um valor temporal (evento localizado
temporalmente como simultâneo à enunciação). Já as outras sequências linguísticas, na
perspectiva de Campos e Xavier (1991), não o são, dado que a eles não se pode atribuir qualquer
dos valores acima referidos. Para que sejam considerados enunciados, precisam de ser
localizados em relação ao parâmetro enunciativo Situação de Enunciação.
Repare que Lima (2006:23) ao estabelecer uma distinção entre frase e enunciado, afirma que
«uma frase é uma unidade abstracta, potencial, que pertence a uma língua, e que existe nela
independentemente de ser, ou não ser, enunciada por qualquer falante». Para este autor quando
um locutor enuncia uma frase está a torná-la real, no a cto de fala concreto. Daí que se deve
considerar que o enunciado como o produto da enunciação, ou seja, do acto de realização ou
produção de uma frase. Os enunciados de uma frase são sempre relativos a falantes, tempos e
lugares específicos.

A Organização de uma Gramática: O Modelo da Gramática Generativa Transformacional

De acordo com Campos e Xavier (1991), o modelo completo da Gramática Generativa


Transformacional, assenta na ideia de que existe uma Gramática Universal (GU) determinada
biologicamente nos seres humanos. Esta GU inclui princípios universais comuns às gramáticas
das línguas naturais, e parâmetros que caracterizam as línguas particulares. Por outras palavras,
todas as línguas são regidas pelos mesmos princípios. Estes princípios apresentam alguns
parâmetros que podem ser mais ou menos marcados numa dada língua. É por aqui que as
línguas, se diferem.
Afinal, o que têm de comum as línguas naturais? Esta foi a preocupação que levou o linguista
Noam Chomsky (1981) a propor o chamado Modelo (“T” invertido) da Gramática.

(2)
(i) Léxico

(ii) Sintaxe

Estrutura – P
Mover - α
Estrutura – S

(iii) COMPONENTE DA (iv) COMPONENTE DA


FORMA FONOLÓGICA (FF) FORMA LÓGIGA (FL)

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De acordo com este modelo, certos princípios universais determinam a interelação das várias
componentes da gramática.

O léxico de uma língua é a componente da gramática mais susceptível a variação e mudança.


Nele encontramos elementos universais e outros que são específicos de um deteminado grupo de
línguas. Um item lexical apresenta expressões equivalentes nas diversas línguas. De igual modo,
do léxico de uma língua fazem parte as chamadas construções idiomáticas.
O modo como o léxico se articula com a sintaxe, de acordo com Campos e Xavier (1991) é
determinado por um princípio universal: o princípio de projecção, de acordo com o qual as
representações sintácticas são projectadas no léxico, devendo respeitar as propriedades de
selecção dos itens.

A Estrutura P e a Estrutura S. A Regra de Mover α

Em sintaxe, consideraremos dois níveis de representação: a Estrutura P (Estrutura


Profunda) e a Estrutura S, que são associadas por meio da regra transformacional mover-α, em
que α é uma variável que pode ser qualquer categoria sintáctica.
A Estrutura P, que constitui a representação sintáctica abstracta de uma oração, é um nível
subjacente de organização estrutural que especifica todos os factores que regem a maneira como
a frase deve ser interpretada. (Crystal, 2000:99). A Estrutura P é determinada pelo Princípio de
Projecção como uma representação «pura» das propriedades dos itens lexicais. Contudo, há que
observar, por exemplo, que nem todas as frases têm sujeitos projectados no léxico
(principalmente nas línguas de sujeito nulo). Deste modo, propõe-se outro princípio, considerado
por Chomsky como Universal, denominado Princípio de Projecção Alargado, o qual consagra
a ideia de que toda a frase tem um sujeito.
Na base deste Princípio de Projecção Alargado está o conceito clássico de Predicação que é
a relação entre um predicado e um sujeito; relação esta conhecida por Princípio de Predicação.

O Princípio de Projecção, o Princípio de Projecção Alargado e o Princípio de Predicação


constituem a essência da frase (sentença ou oração), que é a unidade básica de análise em
sintaxe.
A Estrutura P de uma representação é derivada da projecção da informação lexical, segundo
o Princípio de Projecção, assosiado ao Princípio do Projecção Alargado; por outro lado é
determinada pela Teoria X-Barra (que será discutida nas próximas aulas).
A representação da Estrutura S é resultado de eventuais transformações da Estrutura P
devidas à aplicação da regra de movimento de constituintes (Mover α), que, segundo Campos e
Xavier (1991:45) prevê que qualquer categoria α pode se movimentar da posição sintáctica em
que foi projectada na Estrutura P para uma outra posição sintáctica na Estrutura S. Contudo,
há que ressalvar, no entanto, que a actuação desta regra é restringida e regulada pela interacção

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Sintaxe, Semântica e Pragmática do Português; Carlos Mutondo, UP-Sede, 2018.

de vários princípios das subteorias da gramática universal, tais como a teoria do caso, a teoria
temática e a teoria das barreiras.
Geralmente, a estrutura S apresenta categorias vazias [cv] sem realização fonética, que são
vestígios deixados pelas categorias deslocadas por actuação de Mover α nas posições de que
saem.
Outro princípio importante é o Princípio de Preservação da Estrutura, de acordo com o
qual, a representação estrutural de uma frase mantem-se inalterada nos aspectos essenciis na
sua derivação. Deste modo, a regra sintáctica de mover α apenas é aplicável se houver
deslocação de uma categoria para a posição de uma outra cateoria idêntica, deixando na posição
de origem um vestígio, identificado com o mesmo índice do constituinte movido. Regra geral,
esta regra, em Português actua no sentido ascendente, ou seja, da direita para a esquerda!
A Estrutura de Superfíce (interpretação fonológica) de uma proposição e a frase escrita ou
pronunciada. Ela já terá sofrido todas as transformações e adequações necessárias para que se
possa realizar no acto de comunicação.
É importante não confundir a Estrutura S com a Estrutura de Superfície3. Consideraremos a
Estrutura S como uma estrutura intermédia, entre a Estrutura P e a Estrutura de Superfície: Na
Estrutra P os constituintes encontram-se ainda nas posições sintácticas em que foram gerados
pelo Princípio de Projecção associado ao Princípio de Projecção Alargado; A Estrutura S dá nos
conta da actuação das regras transformacionais que deslocam constituintes das posições que
ocupam em estrutura S à novas posições estruturais. E a Estrutura de Superfície é o que nós
como falantes produzimos, ou seja, o resultado final da actuação das regras: a frase.

A Interpretação Semântica de uma Frase


A interpretação semântica básica de uma frase é derivada do conteúdo proposicional do
predicador, e é definido pela sua entrada entrada lexical; corresponde a uma proposição e
resume-se à relação de predicação.
De acordo com alguns autores, grande parte da leitura de uma frase simples é dada por uma
proposição, à qual se acrescentam outras informações relativamente a Determinação, Tempo,
Aspecto, Modalidade, etc.
Na componente da forma lógica explicitam-se as propriedades lógico-semântica da frase, que
segundo Campos e Xavier (1991) podem ser; a relação operador-variável, por exemplo, a
relação entre o predicado e variáveis-argumentos (proposição), a relação entre elementos
interrogativos...
Embora sejam independentes uma da outra a Forma Lógica e a Forma Fonológica obedecem
ao mesmo princípio – o Princípio de Interpretação Total segundo o qual todos os elementos
linguísticos têm de ser legitimados de forma adequada.
É muito relevante ter sempre em consideração que há condições que estabelecem a relação
entre os vários elementos e explicam a sua existência, legitimidade, e a sua interpretação, quer
fonológica, quer lógico-semântica.

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Note-se que alguns autores, consideram a Estrutura S e a Estrutura de Superfície como sendo a mesma.
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Sintaxe, Semântica e Pragmática do Português; Carlos Mutondo, UP-Sede, 2018.

EXERCÍCIO
Para uma melhor retenção do que acaba de aprender, resolva os seguintes exercícios:
1. A sintaxe e a semântica são dois domínios distintos porém em interacção.
1.1.Em que os dois domínios convergem?
1.2.Indique os aspectos nos quais a sintaxe e a semântica divergem.
2. É comum confundir-se as noções de proposição, frase e enunciado. Que implicações
acarreta a confusão destes três conceitos?
2.1.Considera as distinções entre estes conceitos como formais ou funcionais? Justifique.
3. A proposição podem exprimir uma propriedade que caracteriza um objecto.
Apresente 3 (três) exemplos de proposições distintas que exprime propriedades.
3.1.A partir das proposições por si apresentadas, construa frases e enunciados.
4. Apresente exemplos para cada um dos casos abaixo apresentados:
4.1.Duas frases que representam duas proposições distintas;
4.2.Uma frase que representa duas ou três proposições diferentes;
4.3.Duas frases distintas que representam uma mesma proposição.
5. Explicite o tipo de relação que se estabelece entre o léxico e a sintaxe.
6. O que entende por Estrutura P, Estrutura S e Mover α?
6.1.Explique como actua a regra Mover α?
6.2.Será que dizer “Estrutura S” é o mesmo que dizer “Estrutura de Superfície”? Em
caso de uma resposta negativa, justifique.
7. O que consagram os seguintes princípios:
7.1.Princípio de Projecção?
7.2.Princípio de Projecção Alargado?
7.3.Princípio de Predicação?
7.4.Princípio de Preservação da Estrutura?
8. Em que consiste a interpretação semântica de uma frase?
9. Registe no seu caderno as expressões-chave desta unidade.
10. Mencione três conteúdos desta Unidade que acha ter assimilado.
11. Mencione dois conteúdos desta Unidade que considera não terem sido claros.

BIBLIOGRAFIA:
CAMPOS, M.H,C & XAVIER, M.F., Sintaxe e Semântica do Português. Universidade Aberta.
Lisboa. 1991.
CRYSTAL, D., Dicinário de Linguística e Fonética. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2000.
DUBOIS, J., Dicionário de Linguística. 9ª ed., São Paulo, Editora Cultrix. (1ª ed. original, Paris,
1973), 1993.
LIMA, J.P de, Pragmática Linguística. Caminho Editorial. Lisboa. 2006
VILELA, M., Gramática de Valências: Teoria e Aplicação. Coimbra, Livraria Almedina, 1992.