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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!

9/11/2015
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INDEX
Cultura, democracia e ética
reflexões comportamentalistas

BOOKS
GROUPS

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INDEX
EDITORA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGA
RF.ITOR
Prof. Dr. M auro L uciano B aesso

VICE-REITOR
Prof. D r. Jxdio C ésar D am as ce no

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PRESIDENTE
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l uciano Wilian da Silva, Marcos Karuyoshi Sassaka, Marcos Roberto Andreussi

MARKETING
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COMERCIAUZAÇÃO
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Caroüna Laurenti
Carlos Eduardo Lopes
Organiz adores

Cultura, democracia e ética:


reflexões comportamentalistas

INDEX Prefácio
Maura Alves Nunes Gongota

BOOKS
GROUPS

Eduem
Maringá
2015

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P rojeto gráfico/Jiagram açãn: M arcos Kazuyoshi Sassaka
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Fonte: G aram ond
T iragem - versão im pressa: 500 exemplares

Dados Internacionais de Catalogaçâo-na-Puhlicaçâo (C1P)

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(Eduem ■D EM , M aringá - P R ., B rasil)

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L o p e E (o rg a n iza d o rc s). — M a r in g á : E d u e m , 2 0 1 S.
138p.
ISBN 978-85-7628-631-8

1. P sic o lo g ia . 2. C u ltu ra . 3. P o lítica . 4 . fin c a . 5. B e h a v io rism o ra d ic a l. I. la u r e n t i, C a ro lin a , o rg. 11.


I-o p es, C a rlo s E d u a rd o , o tg. III, T ítu lo .

BOOKS
C D D 21. ed. 1 5 0 .1 9 4 3

GROUPS Editora filiada à

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das Editoras Universitárias

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Prefácio 7
Apresentação................................................................................. 11

C a p ítu lo 1

Reflexões comportamentalistas sobre a maldade

INDEX
contemporânea
Carlos Eduardo Lopes eCarolina Laurenti........................................ 15

C a p ítu lo 2

O conceito de sobrevivência das culturas e suas


implicações para uma ética skinneriana
Camila Muchon de Melo e Marina Souto Lopes Bezerra de Castro 43

BOOKS
C a p ítu lo 3

Skinner, democracia e anarquia


José Antônio DamásioAbib.....................................................................

C a p ítu lo 4
75

políticas públicas GROUPS


Seleção pelas consequências como norte funcional para

Kester Carrara..................... ........................................................................ 97

Sobre os autores 137

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Prefácio

Antes de apresentar meus comentários a respeito do livro preciso


dizer algo sobre os autores. Fiquei feliz em ver aqui reunidos incansáveis
estudiosos do comportamentalismo radical e da análise do comportamento
que muito contribuem para manter vivo o debate nesses dois domínios.
Sinto-me honrada em poder comentar aqui os seus textos. Quanto ao livro,
antes de dizer qualquer outra coisa sobre seus méritos, já posso adiantar

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que recomendo a leitura de todos os seus capítulos para aquelas pessoas
que se interessam pelos problemas atuais de nossa sociedade e queiram
entender em que medida o comportamentalismo radical, como sistema
filosófico, pode fundamentar a compreensão de tais problemas e, ainda,
indicar possibilidades de intervenções que possam solucioná-los. São
quatro capítulos distintos, que podem ser lidos em qualquer ordem, mas
que se apresentam completamente integrados por relatarem análises de
questões relativas à cultura. O resultado é um belo conjunto de textos que

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compartilham diferentes qualidades entre as quais gostaria de destacar ao
menos quatro.
Em primeiro lugar, todos os capítulos apresentam exames da obra de
Skinner com destaques para seus pontos mais consistentes e também para
suas inconsistências, ou seja, são análises ponderadas e nada dogmáticas.
Em segundo, ao longo do livro, os autores retomam diversas questões
conceituais a respeito do modelo de seleção por consequências. Isto confere

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ao livro mais um mérito: permite ao leitor aprofundar a compreensão e a
reflexão sobre aspectos conceituais desse modelo. A análise do nível cultural,
conduzida em diferentes dimensões pelos diversos autores, certamente
contribui para diminuir a carência que temos de estudos e de bibliografia
relativa a esse nível seletivo. Além disso, a linguagem bastante acessível
de todos os capítulos permite que sejam consultados tanto por alunos de
graduação quanto por estudiosos de áreas afins.
Em terceiro lugar, além de aprofundar na análise dos processos culturais,
mencionados acima, o livro tem o mérito dc enfrentar, com competência,

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

dois dos temas mais difíceis da obra skinneriana (e, naturalmcntc, do


comportamentalismo radical): a ética e a política.
Rm quarto, as reflexões apresentadas são extremamente atuais e
urgentes. Aplicam-se a problemas não só do futuro, mas a questões atuais
que nos afetam diretamente, como o governo por oligarquias, o esgotamento
de recursos naturais, a criminalidade, o imediatismo, a impessoalidade das
relações mediadas por burocracia e tecnologia, a dificuldade em mudar
práticas culturais indesejáveis, e assim por diante.
Gostaria, ainda, de mencionar ao menos um ponto, entre tantos que
apreciei, em cada um dos capítulos.

INDEX
No primeiro capítulo, Lopes e Laurenti surpreenderam-me ao tratar de
um tema que está praticamente todo dia na pauta da mídia: a maldade. Aqui,
meu destaque é para a tese corajosa e totalmente pertinente que defendem:
nao há uma essência humana, boa ou má. O ser humano só é (bom ou
mau) em contexto. Embora o foco de análise desse capítulo seja a maldade,
essa tese permite discutir possibilidades de se promover a bondade, por
meio de condições favoráveis à ocorrência do bem ou de comportamentos
bons. Entre as reflexões desse capítulo gostaria, ainda, de indicar aos

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leitores especial atenção à discussão da importância do desenvolvimento da
‘sensibilidade ao outro’.
O capítulo seguinte, de Melo e Castro, é extremamente esclarecedor
de posicionamentos éticos de Skinner. Uma contribuição especial dessas
autoras está na elucidação e análise da ‘ética aplicada’ defendida por esse
autor e que sempre foi o centro de seus interesses. Nessa análise pode-
se destacar uma crítica contundente das autoras aos posicionamentos de
Skinner no campo da ética: sua tentativa de manter-se apenas no domínio

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da ética descritiva sem assumir, ostensivamente, que também defendia uma
ética prescritiva.
No terceiro capítulo, Abib trata de um tema raramente abordado com
propriedade em nossas fontes bibliográficas: um exame fundamentado das
posições políticas de Skinner. Entre outros esclarecimentos destacam-se
aqueles relativos à guinada de Skinner que, ao analisar a democracia, passou
a tratar de cultura. O autor esclarece como Skinner relaciona democracia
com cultura e como passa a criticar as ‘mediações’ que dão errado no mundo
(cultura) ocidental. A elucidação de um tipo de anarquismo defendido por

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PREFÁCIO

Skinner, no meu entender, representa mais uma contribuição inédita de


Abib às reflexões deste livro relativas à obra skinneriana.
No último capítulo, Carrara escreve como quem tem experiência prática
em pesquisa com intervenção cultural. Aborda as dificuldades de se planejar,
bem como as dificuldades de se conseguir adesão nos planejamentos
culturais e nas políticas públicas. Mas também aponta algumas saídas e até
sugere uma ferramenta de apoio construída por seu grupo de pesquisa.
Neste capítulo, chamou-me especial atenção a argumentação de Carrara
no sentido de defender as possibilidades da análise do comportamento
contribuir para mudar o mundo. Sua argumentação apresenta-se criteriosa e
cuidadosa, mas, mantendo-se otimista e contrapondo-se a uma declaração

INDEX
pessimista do próprio Skinner que, em uma de suas palestras, chegou a
duvidar dessa possibilidade.
Gostaria de encerrar cumprimentando os autores pela maneira
elucidativa e não dogmática com que trataram cada tema e por
compartilharem com Carrara a defesa de possibilidades das intervenções
comportamentais fazerem diferença nas soluções de nossos graves
problemas sociais. Foi muito bom verificar que, ainda que ponderado, o
que predomina ao longo do livro é um tom otimista. E, para encerrar,

BOOKS
gostaria de reforçar algo já pontuado pelos organizadores Lopes c
Laurenti na apresentação: espero que este livro seja um convite para que
seus leitores, sejam eles planejadores culturais ou não, coloquem na pauta
das suas reflexões a análise dos valores subjacentes às nossas práticas
culturais atuais.

Maura Alves Nunes Gongora

GROUPS Universidade Estadual de Londrina (UEL)

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Apresentação

O comportamentalismo radical, a filosofia da análise do comportamento,


foi alvo de muitas críticas desde o seu alvorecer com as reflexões de B.
F. Skinner (1904-1990). Essas críticas resvalam em diferentes aspectos e,
algumas delas, estendem-se até hoje, como é o caso de um conjunto de
restrições que atinge os pressupostos éticos e políticos dessa filosofia. O
comportamentalismo já foi acusado, por exemplo, de orientar uma prática

INDEX
psicológica voltada à manipulação dos indivíduos em favor da classe
dominante. No contexto dessa crítica, a análise do comportamento seria
uma psicologia preocupada com o ‘controle’ e o ‘condicionamento’ do
comportamento humano, e essas aspirações estariam balizadas por uma
concepção de ser humano passivo, entendido à imagem e semelhança de uma
máquina ou, no máximo, de um rato branco - um mero fantoche à mercê
das determinações do ambiente natural e social. Acompanhando ainda o
argumento de seus detratores, a ciência do comportamento preocupar-

BOOKS
se-ia com o controle justamente para poder condicionar os indivíduos de
modo que se tornem dóceis e susceptíveis aos ditames daqueles que detêm
o poder. E, para arrematar, tal controle seria inspirado por tendências
antidemocráticas, fascistas e conservadoras.
A análise do comportamento é uma proposta psicológica que, como
qualquer outra, apresenta limitações que precisam ser identificadas,
explicitadas e problematizadas, No entanto, as objeções anterior mente

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arroladas destoam das reflexões skinnerianas sobre a ética e a política e,
consequentemente, dos desideratos de uma ciência comportamentalista
tal como apresentados por essas acusações. O livro Cultura, democracia e
ética: reflexões comportamentatistas coloca essas críticas em perspectiva, já que,
inspirado pelo comportamentalismo radical, discute questões ético-políticas,
mostrando seus desdobramentos no contexto das possibilidades dc atuação
profissional.
Em que pesem essas pretensões, o livro não tem o intuito dc ser o porta-
voz da interpretação cabal, ou mesmo oficial, da análise do comportamento

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

e do comportamcntalismo radical. Trata-se, pois, de ‘uma’ interpretação


pautada por ‘reflexões comportamentalistas’, que situa o texto skinneriano
como ponto de partida, mas não necessariamente de chegada; são reflexões
‘com’ Skinner e não simplesmente ‘sobre’ ele.
O primeiro capítulo, intitulado ‘Reflexões comportamentalistas sobre
a maldade contemporânea’, busca entender um dos principais problemas
a serem enfrentados pela sociedade; a maldade. Para tanto, visita análises
de autores de outras áreas de conhecimento —como Bauman —e de outras
propostas psicológicas - como as de Milgram e Zimbardo - tentando
delimitar algumas contingências responsáveis pela ocorrência de atos de
maldade. A despeito do foco na maldade humana poder incitar uma postura

INDEX
pessimista e derrotista, não é isso que o capítulo tenciona. Ao contrário, na
esperança de construir um mundo melhor, lança o desafio de encontrarmos
alternativas à maldade, apontando, ao final, direções concretas de como
fazê-lo.
Não obstante esse otimismo, a lógica pragmatista subjacente a este livro
entende que a busca por técnicas que subsidiem estratégias de intervenção
para lutar contra o mal precisa ser orientada por uma reflexão ético-política.

BOOKS
É preciso, pois, resgatar o sentido aristotélico de prática, que foi subvertido
na história da psicologia. Para Aristóteles, ação prática (práxis) é ação
ético-política e não ação técnica (tecbnê). A psicologia aplicada ou prática
perdeu de vista a acepção aristotélica de ‘prático’ e acabou identificando
‘prático’ a ‘aplicado’ e ‘aplicado’ a ‘técnico’. Quando não orientada por uma
reflexão ética e política, a técnica pode, subvertendo seu próprio sentido
de meio ou instrumento, tornar-se um fim em si mesma. Tal subversão
pode ter efeitos nefastos no contexto profissional: sendo virtualmente ccga

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a valores, uma atuação pautada exclusivamente pela técnica pode orientar
propostas de intervenção que acabam mantendo os problemas sociais que,
a princípio, pretendiam superar. Ou, ainda, podem, lamentavelmente, acabar
fomentando outros e mais sérios problemas, a despeito da mais pura das
intenções.
Considerando esses pontos, o segundo e o terceiro capítulos compõem
o contexto das reflexões ético-políticas, preparando o caminho para
pensar, à luz desses pressupostos, as possibilidades de atuação profissional
problematizadas no quarto e último capítulo. O segundo capítulo, ‘O

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APRESENTAÇÃO

conceito de sobrevivência das culturas e suas implicações para uma ética


skinneriana’, descreve as principais características da proposta ética de
Skínner, apresentando seus fundamentos e implicações sociais, Contudo,
no curso dessa exposição, o texto não se exime de indicar algumas
controvérsias e limitações que cercam a própria teoria édca skinneriana,
e que se fazem notar logo na proposição da sobrevivência das culturas
como valor primordial dessa teoria. Esse capítulo é sucedido por ‘Skinner,
democracia e anarquia’, que expõe algumas tensões no posicionamento
político skinneriano, No entanto, o capítulo dá encaminhamento a essas
questões, pondo às claras as inconsistências das leituras antidemocrática e
conservadora dos compromissos políticos do comportamentalismo radical.
Para tanto, caminha por textos da filosofia política, problematizando o

INDEX
conceito de cultura e suas relações com diferentes formas de governo,
em especial, a democracia. O último capítulo, intitulado ‘Seleção pelas
consequências como norte funcional para políticas públicas’, recupera o
desafio de mudança social indicado pelo primeiro capítulo, enfrentando
o suposto pessimismo suscitado pela constatação da complexidade dos
problemas sociais que nos afligem, e pelo reconhecimento das dificuldades de
encontrar caminhos efetivos para superá-los. O capítulo mostra as possíveis

BOOKS
contribuições que uma ‘teoria consequencialista’ do comportamento pode
trazer ao delineamento de políticas públicas, discutindo exemplos concretos
de projetos voltados à transformação social.
Estamos em uma sociedade marcada pelo imperativo da busca por
soluções cada vez mais rápidas e imediatas aos problemas que enfrentamos.
Afinado com a lógica da tecnociência, esse imperativo tem orientado
investigações predominante mente tecnocráticas desses problemas sendo,
portanto, míopes quanto a valores e destinos últimos de suas intervenções. A

GROUPS
proposta deste livro é a de endossar movimentos que seguem na contramão
dessa tendência, que alimenta a ilusão de uma solução estritamente
tecnocrática dos problemas sociais.
Sem ignorar, contudo, as contribuições da ciência para um mundo mais
humanizado, Cultura, democracia e ética: reflexões comportamentalistas faz um
convite à discussão ético-política das propostas de intervenção social, que
se fazem prementes na contemporaneidade. Essa reflexão é imprescindível
para que os interessados na mudança do comportamento humano sejam
parte da solução e não dos problemas sociais que, em seu discurso, almejam

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

superar. Por fim, as reflexões deste livro pretendem contribuir, ainda que
modestamente, com a superação de um pessimismo paralisante, incitando
um otimismo circunstanciado às possibilidades de concretização de
intervenções locais, mas que trazem consigo um potencial revolucionário.

Carolina Laurenti e Carlos Eduardo Lopes

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Capítulo 1

Reflexões comportamentalistas sobre a maldade contemporânea


Carlos Eduardo Lopes e Carolina Laurenti

Considerações iniciais

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Desde a modernidade, a maldade humana é pensada a partir de
uma contraposição entre natureza e cultura, o que deu origem a dois
posicionamentos antagônicos em relação ao assunto. De um lado, a
vertente hobbesiana1 viu na natureza a fonte dos problemas humanos
e, por isso, justificou sua exploração científico-tecnológica, apostando
no desenvolvimento da racionalidade e da civilidade como modos dc
solucionar a maldade. De outro lado, a vertente rousseauniana culpou a

BOOKS
civilização pelas mazelas da humanidade, defendendo que em tempos pré-
modernos a simplicidade e o contato direto com a natureza caracterizavam
uma humanidade completamente livre do mal (cf. ROUSSEAU, 1978).
Estudos atuais têm criado dificuldades para a m anutenção dessa
visão dicotôm ica, ao m esm o tem po em que abrem espaço para se
pensar o m al em outras bases. Investigações sobre a história da espécie
hum ana têm questionado a visão estritam ente hobbesiana de natureza.
Evolucionistas contem porâneos têm m ostrado que com portam entos

GROUPS
de emparia, gentileza e cooperação estão presentes entre os anim ais
gregários, incluindo os grandes prim atas, questionando, assim , a visão
de que a natureza é necessariam ente egoísta, com petitiva e violenta (cf.
WAAL, 2010). A lém disso, estatísticas atuais sobre a história da cultura
m oderna m ostram que a vida social pré-m oderna estava longe de ser 1

1 De modo mais pteciso, essa vertente refere-sc a uma tradição de interpretação da teoria
moral e política dc Hobbes (1979). Obviamente, tal leitura não é isenta de controvérsias;
para uma análise mais detalhada desse assunto, consultar (TUCK, 2011).

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

pacífica e isenta de m aldade, como defendeu a visão rousseauniana.


Pautando-se nesses dados, alguns autores argum entam que a civilidade
ajudou a dim inuir drasticam ente certos tipos de violência com uns em
séculos passados, com o perseguições religiosas, torturas, execuções
públicas, entre outros (cf. PIN KER, 2013),
Tomados em conjunto, os dados apresentados por esses estudos
sobre a história da espécie e a história da cultura, aí) invés de resolverem
o problema, parecem criar um novo desafio. A história da cultura contada
com base nas estatísticas mais atuais mostra que o processo civilizador
ajudou na redução da maldade, o que nos faz pender a favor da visão
hobbesiana. No entanto, os dados evolutivos impedem que adotemos

INDEX
essa visão, na medida em que nos mostra uma abundância de exemplos de
bondade em diferentes espécies, incluindo os grandes primatas. Além disso,
se hobbesianos estivessem corretos, e o processo civilizador fosse capaz de
eliminar a maldade humana, os exemplos de maldade na atualidade seriam
escassos, o que não é confirmado pela história do século XX, com suas duas
guerras mundiais, e pelas ocorrências de maldade que temos presenciado
nesse início do século XXI. Mesmo os autores que destacam a presença
da cooperação e da empada nos grandes primatas não humanos recusam

BOOKS
a conclusão de que isso é uma evidência a favor da visão rousseauniana
de natureza. Isso porque a presença do que poderiamos considerar atos
de maldade nos grandes primatas é um dado bastante conhecido (WAAL,
2010). Os chimpanzés, por exemplo, muitas vezes formam bandos que
invadem o território de outros clãs, atacando e matando indivíduos que
encontram pelo caminho, sem qualquer justificativa ligada à sobrevivência
(WRANGHAM; PETERSON, 1998).

GROUPS
Uma interpretação analítico-comportamental do assunto talvez possa
encaminhar uma solução para esse impasse, ajudando na compreensão da
maldade humana fora das visões hobbesiana e rousseauniana. De um ponto
de vista analítico-comportamental, o comportamento individual situa-se no
entrelaçamento da história da espécie humana com a história da cultura, de
modo que natureza e cultura contribuem para a constituição do indivíduo,
embora nenhuma dessas histórias tenha, necessariamente, um caráter
preponderante sobre a outra. Isso quer dizer que natureza e cultura são
campos dc possibilidades e, como tais, não determinam unidirecionalmente
os rumos da vida individual. Encontramos na natureza um conjunto de

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1 R E F L E X Õ E S C O M P O R T A M E N T A L I S T A S S OB R E A M A L D A D E C O N T E M P O R Â N E A

predisposições, não só egoístas e violentas, mas também empáticas e


cooperativas. Nesse sentido, a natureza não é a fonte de nossos problemas e,
consequentemente, as práticas culturais não são um antídoto à natureza. Por
outro lado, a cultura não evolui sempre para melhor. Na história das culturas,
determinadas práticas, adotadas e transmitidas para outras gerações, podem
melhorar a vida dos membros do grupo, mas também podem colocar em
risco a existência da cultura e dos próprios indivíduos. Uma cultura que
institucionaliza torturas e execuções públicas, por exemplo, acaba criando
um sentimento de insegurança pública, bem como legitimando o uso
desmedido da força.
A interpretação comportamentalista, proposta aqui, sugere que a solução

INDEX
para os problemas humanos consiste em aproveitar o que há de melhor na
natureza e na cultura, ao mesmo tempo em cjue é preciso abandonar as
contribuições perniciosas e destrutivas dessas histórias. No que diz respeito
à história da nossa espécie, como mencionado alhures, encontramos não
só uma tendência à competição e agressividade, mas também à empatia
e cooperação. No entanto, a presença de uma tendência inata originada
por nossa história evolutiva, seja uma tendência à maldade ou à bondade,
não pode ser considerada como determinante dos fenômenos culturais. A

BOOKS
biologia evolutiva esclarece esse ponto fazendo uma distinção entre causa
última e causa próxima do comportamento individual. A causa última c
“[...] a razão por que um comportamento se desenvolveu numa espécie ao
longo do processo evolutivo [...]” (WAAL, 2010, p. 323); já a causa próxima
é “ [...] o modo como esse comportamento é produzido pelos indivíduos
no a q u i e a g o ra” (WAAL, 2010, p. 323, grifo do autor). A confusão entre
causa última e causa próxima parece estar na base de algumas interpretações
teducionistas difundidas pela sociobiologia, considerando, por exemplo,

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a guerra entre países como uma expressão de tendências filogenéticas de
defesa de território (cf. SKINNER, 1981, p, 503). Waal (2010) argumenta a
favor de uma ‘autonomia motivacionar para o comportamento individual,
o que quer dizer que os motivos para a ocorrência de um comportamento
atual devem ser buscados em causas próximas, o que muitas vezes contraria
os motivos evolutivos que explicam a origem filogenética desse tipo de
comportamento. Nas palavras desse autor:

A ideia por trás da autonom ia m otivacional é dc


que as motivações que levam a um comportamento

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

não são limitadas pela causa última da existência


desse comportamento. Ainda que determinado
comportamento tenha evoluído por razões egoístas,
estas não precisam fazer parte daquilo que motiva um
indivíduo a colocá-lo em prática, do mesmo modo como
uma aranha não precisa estar determinada a apanhar
moscas no momento em que está tecendo sua teia
(WAAL, 2010, p. 324, grifo do autor).

De um ponto de vista analítico-comportamental isso equivale dizer


que a compreensão de um comportamento atual depende da descrição das
contingências atuais que promovem e mantêm esse comportamento, e que,
por mais que esse comportamento possa ter raízes filogenéticas, os motivos

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da seleção na história da espécie e na história de vida do indivíduo não
precisam ser, e geralmente não são, os mesmos. Dessa forma, se quisermos
entender a maldade cometida pelos indivíduos precisamos nos voltar para
as condições atuais responsáveis por atos maus. Partindo dessa conclusão,
temos que nos voltar para o esclarecimento dessas condições; temos que
explicitar o contexto em que a maldade ocorre, para, em seguida, pensar
como mudar esse contexto de modo a promover a bondade. Em relação
à primeira tarefa, não é difícil constatar que os problemas relacionados

BOOKS
à maldade humana, que reclamam uma solução premente, ocorrem no
âmbito cultural. São fenômenos como guerras, genocídios, e violência
urbana em geral, que claramente pertencem ao terceiro nível de variação
e seleção do comportamento humano. Isso quer dizer que o contexto para
a compreensão da maldade humana é a cultura, ou, mais especificamente,
o comportamento que ocorre no grupo. Além disso, os exemplos mais
emblemáticos e intrigantes de maldade, sobretudo os ocorridos no século
XX, parecem, de modo geral, terem sido perpetrados por grupos de pessoas.

GROUPS
Isso não significa que a maldade só é cometida por grupos, ou que um
indivíduo isoladamente não pode ser cruel; mas não podemos questionar
o fato de que a maldade coletiva é um fenômeno contemporâneo que tem
produzido resultados assustadores. Como exemplo desse tipo de maldade,
basta lembrar da Segunda Guerra Mundial e do papel do nazismo nesse
episódio sombrio da história recente da humanidade.
A primeira parte deste ensaio consiste em uma tentativa de explicitar
contingências que podem estar operando no contexto desses grupos
que perpetram o mal. Para tanto, iniciaremos com alguns exemplos de

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1 R E F L E X Õ E S C O M P O R T A M E N T A I . I S T A S S O B R E A MA L D A D E C O N T E M P O R Â N E A

maldades cometidas por grupos nas últimas décadas, buscando avaliar


explicações tradicionais para esses atos. Na segunda parte, apresentaremos
uma explicação alternativa do mal, proposta pelo sociólogo Zygmunt
Bauman (1925-). Isso se justifica pelo fato de suas análises ajudarem na
construção de uma interpretação comportamentalista do assunto, na
medida em que permitem a identificação de algumas das condições sociais
para a maldade, considerando o papel das consequências das ações nesse
contexto —uma perspectiva que coaduna com uma teoria consequencialista
do comportamento. Por fim, apontaremos algumas práticas culturais que
parecem ainda manter o risco da maldade coletiva nos dias de hoje, o
que nos coloca o desafio de como substituir a maldade pela bondade na

INDEX
sociedade contemporânea.

1. Sobre o mal

O mal é um assunto tratado por muitos autores em diferentes contextos.


A presença do mal no mundo e sua compatibilidade com a existência de
Deus era tema recorrente em tratados filosóficos medievais (FERRATER

BOOKS
MORA, 2001); as ricas descrições do inferno —um lugar em que as mais
variadas formas de maldade são castigadas com maldades ainda piores —são
uma marca indelével de obras renascentistas (DANTE ALIGHIERi, 2001).
Nas artes plásticas, a representação do mal cruzou os séculos caminhando
lado a lado com a beleza e a bondade (ECO, 2007). Dada a extensão do
assunto, parece pouco plausível admitir que o mal tenha uma definição
unívoca compartilhada em todos esses contextos. Mesmo a concepção
religiosa abriga diversas possibilidades, que vão desde explicações do mal

GROUPS
recorrendo a demônios ou espíritos que desviariam o ser humano de suas
virtudes, até uma culpabilização inata, e de certa forma irremediável, do
homem, marcado pelo pecado original.
Assim, é necessário esclarecer o que estamos denominando de mal
neste ensaio. Como mencionado alhures, nosso interesse é discutir o mal
em uma perspectiva comportamentalista, o que nos leva a delimitar a
maldade como uma característica humana, mais especificamente, como
uma propriedade de alguns comportamentos humanos. Mantendo-se
nessa perspectiva, para definir ‘mal’ precisamos, inicialmente, delimitar as

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CUI.TURA, DEMOCRACIA E ETICA

características de uma ação má. Definiremos ‘m al’ como um conjunto de


ações, que se caracterizam por agressão, abuso, humilhação, exploração,
desprezo, acarretando o sofrimento de outras pessoas e, em situações
limite, a sua morte. Em linhas gerais, o mal está nos comportamentos
que promovem o dano e o sofrimento ao outro (ZIMBARDO, 2012).
N a medida em que os comportamentos individuais têm explicações
idiossincráticas, a explicação da maldade centrada em um indivíduo
particular não nos ajuda na compreensão da maldade como fenômenos
humano. Em outras palavras, contingências de reforçamento e punição
que explicam um comportamento mau de um a pessoa, isoladamente,
não podem ser transpostas como regra para todo comportamento mau.

INDEX
Isso nos obriga a outro refinamento em relação à análise da maldade
pretendida por este ensaio. Examinaremos, aqui, a maldade cometida
por grupos de pessoas, levantando de antemão a hipótese de que, nesses
casos, deve haver contingências compartilhadas pelos membros do grupo
que poderíam explicar a maldade em larga escala, que ocorreu e continua
ocorrendo na sociedade contemporânea.
Exemplos dc maldade de grupos marcaram o século XX, desafiando
psicólogos e sociólogos a explicar a ocorrência de massacres que pareciam

BOOKS
improváveis para uma sociedade moderna. Provavelmente o primeiro
e mais discutido caso de maldade extrema do século XX tenha sido
o Holocausto ocorrido na Alemanha nazista. As primeiras execuções
conduzidas oficialmente pelo regime nazista ocorreram a partir de 1939,
com a adoção da política de eutanásia dirigida a pessoas portadoras de
deficiência consideradas incuráveis. Embora a política de eutanásia tenha
sido abandonada em 1941, as execuções continuaram em número crescente

GROUPS
em campos de extermínio criados para judeus, eslavos, polacos, ciganos e
outras pessoas consideradas racialmente inferiores. Os números de mortes
são impressionantes. No campo dc extermínio de Auschwitz, na Polônia,
estima-se que até 6.000 pessoas eram assassinadas por dia no auge das
deportações de judeus (UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL
MUSEUM, s.d.). Além da crueldade, ricamente descrita na maioria dos
relatos de sobreviventes, o que causa perplexidade no caso do Holocausto
é que a maioria dos executores eram pessoas comuns, pais dc família,
agricultores e jovens que, por ocasião da guerra, foram obrigados a se alistar
no exército (BAUMAN, 1998). Esse dado c impressionante porque sugere

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1 R E F L E X Õ E S C O M P OR T AMEN T AL 1S T A S S OB RE A MA L DA DE C O N T E M P O R Â N E A

que a maldade está mais próxima do que podemos pensar e, como veremos,
ela não é exclusiva do contexto do Holocausto.
Outro exemplo de maldade bem mais atual e igualmente assustador
é o genocídio de Ruanda. Dados das Nações Unidas estimam que, em
1994, num período de apenas três meses, em torno de 800 mil a 1 milhão
de ruandeses foram exterminados. Na época, Ruanda era composta
predominantemente por dois grupos étnicos: os hutus, os tutsi2. A
separação hierárquica desses grupos, que estaria na raiz do conflito,
foi promovida pelos colonizadores europeus, inicialmente alemães e
posterior mente belgas (RWANDA..., s.d.). Os tutsi foram considerados
superiores na hierarquia social, até a introdução do cristianismo em

INDEX
Ruanda, na década de 1940, quando os hutus assumiram sua posição. Com
o apoio dos colonizadores belgas, os hutus passaram a ocupar a maioria
dos cargos administrativos, elegendo um presidente de sua etnia. Com a
independência, em 1962, os hutus, maioria em Ruanda, mantiveram-se
no poder, mesmo com o golpe m ilitar que depôs o presidente eleito e
instituiu um regime militar, em 1973. Nesse período, a perseguição e a
morte de cidadãos tutsi fizeram com que essa etnia se exilasse em países
vizinhos. A partir de 1990, Ruanda sofreu uma guerra civil e, com o apoio

BOOKS
de países vizinhos, os refugiados tutsi puderam voltar a Ruanda em 1993,
quando foram assinados acordos que previam a partilha de poder entre
as etnias. Em 1994, um acidente de avião que matou o presidente, de
etnia hutu, funcionou como estopim para o que se tornou um genocídio.
Os extremistas da etnia hutu interpretaram a morte do presidente como
uma conspiração tutsi e convocaram, por meio de programas de rádio e
outros meios de comunicação, os hutus ao exterm ínio dc todos os tutsi
(OLIVEIRA; GROSSMANN, 2012).

GROUPS
O resultado do conflito entre essas etnias foi o aniquilamento de
cerca de três quartos de toda a população tutsi. Além dos números, o que
impressiona são as armas utilizadas pelos hutus no ataque aos tutsis, que
vão desde armas de fogo até facões, porretes com pregos e pedras. Outra
arma usada nesse massacre, com a justificativa até dc poupar munição, foi o
estupro de mulheres e crianças (ZIMBARDO, 2012). A prática do estupro

2 Ilavia também uma minoria, cerca de 1%, da etnia Twa (OLIVEIRA; GROSSMANN,
2012).

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

no genocídio de Ruanda, além dos danos psicológicos, foi responsável pela


proliferação de doenças sexualmente transmissíveis às outras gerações tutsis.
Mas talvez o aspecto que mais chame a atenção no episódio de Ruanda
seja o fato de que, na maioria das vezes, esses atos cruéis contra os tutsis
foram perpetrados por pessoas conhecidas. Muitos hutus, a mando, mataram
antigos amigos, vizinhos de rua, e colegas de trabalho. Em uma entrevista,
dada algumas décadas depois, alguns hutus descreveram que:

“a pior coisa do massacre foi matar o meu vizinho;


costumavamos beber juntos e seu gado pastava na
minha grama. Ele era como um parente”. Uma mãe
hutu descreveu como espancou até a morte as crianças

INDEX
da vizinha, que olhavam-na com olhos arregalados de
assombro, pois tinham sido amigos e vizinhos durante
toda a vida. Ela relatou que alguém do governo lhe
dissera que os tutsis eram seus inimigos, e lhe deram
um porrete e a seu marido um facão, para que usassem
contra a ameaça. A mulher justificou o massacre dizendo
estar fazendo um “favor” àquelas crianças, que se
tornariam órfãs indefesas, visto que os pais já haviam
sido assassinados (ZIMBARDO, 2012, p. 34).

BOOKS
Não é preciso continuar descrevendo detalhes horripilantes de como os
vizinhos hutus estupraram suas colegas, as filhas delas, e de como forçavam
os filhos dos tutsis a estuprar suas próprias mães e irmãs (cf. ZIMBARDO,
2012). O que merece ser destacado é que esse massacre foi executado
por colegas e vizinhos, e as justificativas dadas pelos assassinos é que eles
estavam simplesmente seguindo ordens.
O terceiro exemplo de maldade é ainda mais recente. Veio a público

GROUPS
mundialmente em maio de 2004, com a divulgação das cenas de abusos e
diversas formas de tortura cometidas por jovens norte-americanos, homens
e mulheres, contra detentos da prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Os
soldados norte-americanos, responsáveis pelos prisioneiros, tiraram fotos
das perversidades que cometiam contra eles e as exibiam como troféus.
Uma das torturadoras, uma militar de 21 anos, relatou que esses atos eram
apenas ‘curtição’ (ZIMBARDO, 2012), Essas curtições consistiam em:

[...] socos, tapas, chutes cm detentos; pulos sobre seus


pés; detentos desnudos à força, encapuzados, enfileirados

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1 R E F L E X Õ E S C O M P O R T A M E N T A L 1 S T A S S OB R E A M A L D A D E C O N T E M P O R Â N E A

uns sobre os outros formando uma pirâmide; homens


nus forçados a usar roupas íntimas femininas sobre
as cabeças; homens obrigados a se masturbarem ou a
simularem sexo oral enquanto eram fotografados ou
filmados ao lado de militares do sexo feminino sorrindo
ou encorajando tais ações; prisioneiros presos nos
caibros das celas durantes longos períodos; arrastados
para lá e para cá com coleiras amarradas aos seus
pescoços; sendo assustados por cachorros de ataque sem
mordaça (ZIMBARDO, 2012, p. 42).

Uma das cenas mais perturbadoras, e que ganhou o mundo


rapidam ente pela internet e outros meios de comunicação, foi a do

INDEX
“homem triângulo” (cf. ZIMBARDO, 2012, p. 42). Esse prisioneiro foi
colocado em uma posição bastante desconfortável - encapuzado, de pé
em cima de um a pequena caixa com os braços abertos - e induzido
a acreditar que poderia ser eletrocutado se saísse dessa posição por
qualquer motivo. Como argum enta Zimbardo (2012, p. 42), “ [...] não
im porta que os fios term inassem em lugar algum; im porta que ele [o
prisioneiro] acreditava na m entira, e deve ter experim entado uma tensão
considerável” .

BOOKS
Novamente, os protagonistas dos atos de maldade não apresentavam
nenhum indício anterior que permitisse prever esse tipo de comportamento.
Pelo contrário, eram jovens considerados corretos, saudáveis e bem treinados
pelas forças armadas; jovens que poderiam ser nossos vizinhos, amigos
ou parentes, e que, provavelmente, nesses contextos, seriam considerados
acima de qualquer suspeita3.
Isso nos conduz a uma questão fundam ental em uma análise

GROUPS
com portam entalista da maldade: o que explica a ocorrência de ações
desse tipo? Será que essa explicação deve ser buscada na constituição

3 Muitos outros exemplos de maldade poderiam ainda ser mencionados em diferentes


partes do mundo, incluindo a América T.atina, com as perseguições políticas c mortes
ocorridas durante os regimes ditatoriais, que se estenderam por boa parte do século XX
nos países dessa região. No Brasil, em particular, há também o caso ocorrido no Colônia,
maior hospício do país, na cidade mineira de Barbacena, no qual cerca de 60 mil pessoas
morreram de fome, frio, doenças, choques e outras formas de abuso, agressão e maus-
tratos (cf. ARBEX, 2013). Dessa forma, as discussões apresentadas adiante poderiam ser
aplicadas a esses outros exemplos.

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C 1I I . T U R A , DEMOCRACIA E ETICA

dos indivíduos que com eteram esses atos? O Holocausto, por


exemplo, poderia ser pensado como uma conjunção infeliz dc pessoas
desajustadas, de psicopatas, que tomaram o poder. Ou talvez o nazism o
seja um desdobram ento quase inevitável do espírito alem ão, mais
especificam ente, de sua herança rom ântica irracionalista. Tanto em um
caso como no outro, tendem os a nos sentir aliviados, um a vez que esse
tipo dc maldade pertencería a indivíduos específicos ou a determ inada
cultura, distante de nós. Mas se esse fosse o caso, como explicar os
outros exemplos, em que os protagonistas de atos cruéis eram , até
então, considerados pessoas comuns, pais de família, com erciantes,
vizinhos que conviviam sem grandes problem as? Parece pouco sensato

INDEX
apelarm os para um a coincidência que aproxim ou desajustados nesses
casos, tampouco podem os encontrar traços culturais específicos que
aproxim em jovens norte-am ericanos de hutus. Assim, retom am os nossa
questão inicial: como explicar a ocorrência da m aldade?

2. Propostas tradicionais de explicação do mal

BOOKS
A primeira explicação tradicional do mal é de natureza sociológica. Ela
interpreta os atos de maldade como situações excepcionais de nossa sociedade
civilizada, ou como um indicativo de falta de civilidade em sociedades
primitivas4. Tratar-se-iam, portanto, dc exemplos atípicos, incidentes
singulares, anomalias, resquícios de barbárie que ainda sobrevivem em
nossa sociedade moderna, racional e civilizada. Esses episódios ocorreriam
quando o ser humano deixa de pensar, abandona sua racionalidade e dá

GROUPS
vazão aos seus instintos primitivos, necessariamente bárbaros e violentos.
Nesse sentido, seriam exemplos para pensarmos o ser humano ou uma
sociedade patológica e não o ser humano e a sociedade normais. Tais
situações ilustrariam, no máximo, onde o processo civilizatório ainda não
chegou. Portanto, se acelerássemos o processo civilizatório, barbáries como
essas não aconteceriam mais.

4 Como mencionado alhures, esse tipo de explicação remonta a Hobbcs (1979), mas
encontra apoio em outros autores como, por exemplo, Elias (2011). Atualmente, um dos
defensores mais contundentes dessa tradição é Pinker (2013).

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1 R E F L E X Õ E S C O M P O R T A M E N T A I . 1 S T A S S OB R E A M A L D A D E C O N T E M P O R Â N E A

O principal problema dessa visão é que ela retoma a dicotomia


natureza-cultura em bases hobbesianas. Em outras palavras, para que essa
tese se sustente é preciso garantir que a natureza seja essencialmente egoísta
e violenta, ao passo que a civilidade aparece como um antídoto cultural que
nos levaria à promoção da bondade. Como vimos anteriormente, é possível
encontrar na natureza exemplos de gentileza, empatia e cooperação (cf.
WAAL, 2010). Diferente do que defende a tese hobbesiana, os animais,
sobretudo os antropoides superiores, são capazes de resolver impasses
sem recorrer à agressão. Além disso, a cultura está longe de ser uma fonte
exclusiva de bondade. Nessa direção, Bauman (1908) considera que o
Holocausto não é um desvio no caminho reto do nosso progresso cultural,

INDEX
mas “uma possibilidade que a modernidade contém” (p. 24). Dessa forma,
o Holocausto seria um produto do próprio processo civilizatório, uma vez
que praticamente todas as características desse processo foram mantidas, e
não suprimidas, durante o extermínio de judeus no nazismo. Dando voz a
Bauman (1998, p. 27, grifo do autor):

A verdade é que todos os ingredientes do Holocausto —


todas as inúmeras coisas que o tornaram possível —foram
normais; [...'] no sentido de plenamcnte acompanhar

BOOKS
tudo o que sabemos sobre a nossa civilização, seu
espírito condutor, suas prioridades, sua visão imanente
do mundo —e dos caminhos adequados para buscar a
felicidade humana e uma sociedade perfeita.

Com a tese de que o Holocausto é um produto da modernidade, fica


impedida uma interpretação estritamente local desse acontecimento —como
algo específico de uma cultura ou povo; uma radicalização da história de

GROUPS
perseguição aos judeus O que legitima a opinião comum de que o que
aconteceu na Alemanha nazista não teve e não tem nada a ver conosco,
com o que acontece hoje. Para Bauman (1998), o Holocausto não é um
episódio da experiência particular dos judeus e daqueles que os odiavam; é
um episódio da modernidade, cujas características continuam preservadas e
influenciando nossas vidas.
Além disso, a interpretação de Baum an (1998) se opõe à visão
de que o H olocausto seria um retrato da dificuldade de dom ar
nossos im pulsos prim itivos, um a visão que culmina na exaltação dos
processos civilizatórios e das propostas de especialistas para resolver

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

o problem a de nossa agressividade inata (cf. PINKER, 2013). Nas


palavras de Baum an (1998, p. 31), o H olocausto deveria ser visto como
um laboratório sociológico3, como uma espécie de situação ou le s te
raro3 capaz de m ostrar as “possibilidades ocultas da sociedade m oderna
[...]” e do próprio processo civilizatório. Em suma, o H olocausto não é
um acontecim ento que m ostra um local refratário à civilização, ou um
exem plo de seu fracasso.
Outra explicação tradicional para o mal é de natureza psicológica.
Negando a possibilidade de que pessoas comuns ou ‘norm ais’ sejam
capazes de cometer atos de maldade, essa explicação invoca o seguinte
argumento: esses atos são perpetrados por pessoas com problemas severos

INDEX
de personalidade, por personalidades cruéis, autoritárias, perversas etc.
Embora tal explicação usualmente não se dedique ao exame das condições
que geram pessoas com personalidades assim, a ideia é a de que crimes
hediondos cometidos por um grupo, como aqueles perpetrados pelos
nazistas, pelos hutus e pelos jovens militares norte-americanos podem
ser entendidos como um acúmulo ou conjunção infeliz de personalidades
desviantes especiais em um local e momento histórico particulares.
Exemplificando: o nazismo era cruel, porque foi cometido por pessoas

BOOKS
cruéis e pessoas cruéis tendem a ser nazistas. Com base nessa explicação
circular, o mundo, então, passa a ser dividido entre “[...] protonazistas de
nascença e suas vítim as” (BAUMAN, 1998, p. 180).
Bauman (1998) também critica com veem ência essa tese. Todas as
pessoas que com eteram esses atos atrozes eram pessoas comuns, pais
de fam ília, vizinhos, colegas de trabalho, com quem eventualm ente
poderiam os sair para tom ar cerveja, ou que poderiam frequentar nossas

GROUPS
casas. No caso dos estupros em Ruanda, por exemplo, os perpetradores
dos crimes eram homens comuns, fazendeiros, frequentadores de
igrejas e antigos professores (cf. ZIMBARDO, 2012, p. 37). No caso
do Holocausto, os 6 m ilhões de judeus, 3 milhões de prisioneiros de
guerra soviéticos, 2 milhões de poloneses e centenas de m ilhares de
pessoas ‘indesejáveis’ como os ciganos (cf. ZIMBARDO, p. 33) foram
exterm inados por pessoas comuns, acim a de qualquer suspeita. O fato
de esses crimes terem sido com etidos por pessoas norm ais abalou toda
representação que tínham os do mal. Baum an (1998) descreve esse ponto
de m odo esclarecedor:

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1 R E F L E X Õ E S C O M P Ü RT AM E N TA L I S T A S S ODRE A MA L D A D E C O N T E M P O R Â N E A

O Holocausto fez minguar todas as imagens lembradas


ou herdadas do mal. Com isso, inverteu todas as
explicações estabelecidas dos feitos maléficos. De
repente ficou claro que o mais terrível dos males de
que sc tinha memória não resultou de uma ruptura da
ordem, mas de um impecável, indiscutível e inatacável
império da ordem. Não foi obra de uma turba ruidosa
e descontrolada, mas de homens uniformizados,
obedientes e disciplinados, cumpridores das normas e
meticulosos no espírito e na letra de suas instruções. Bem
cedo se soube que esses homens, sempre que estavam à
paisana, não eram de modo algum maus. Portavam-se de
forma bem parecida à de todos nós. Tinham esposas que
amavam, filhos que paparicavam, amigos que ajudavam e
consolavam no infortúnio. Parecia inacreditável que, uma

INDEX
vez uniformizadas, essas mesmas pessoas fuzilassem,
asfixiassem com gás ou presidissem ao fuzilamento e
asfixia de outras milhares dc pessoas, inclusive mulheres
que eram esposas amadas de outros homens e bebês que
eram filhos queridos de alguém. Era não só inacreditável,
mas aterrador (BAUMAN, 1998, p. 178).

Dizer que atos cruéis sao cometidos por pessoas com uma propensão
patológica, anormal ou perversa, obscurece o triste mas evidente fato de

BOOKS
que pessoas comuns, gentis, normais, podem se tornar cruéis se tiverem
uma chance (cf. BAUMAN, 1998, p. 180). Nesse sentido, Bauman adverte
que “a notícia mais assustadora trazida pelo Holocausto e pelo que
soubemos acerca de seus executores não foi a probabilidade de que isso
pudesse acontecer a nós, mas a ideia de que nós poderiamos perpetrá-lo”
(BAUMAN, 1998, p. 179, grifo do autor).

GROUPS
3. Uma explicação alternativa para o mal

As críticas baumanianas das explicações tradicionais —explicações que


endossam a opinião dc que c impossível ao homem civilizado, racional,
cometer atos atrozes —encaminham a discussão à primeira tese alternativa
sobre o mal. A maldade pode surgir no coração de condições sociais
modernas ou civilizadas. Essa tese é amparada em evidências empíricas
obtidas por dois estudos clássicos de psicologia social experimental, que
lançaram luz sobre a problemática da maldade. Trata-se dos experimentos

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CULTURA, DEMOCRACIA E ET1CA

de Stanley Milgram sobre obediência à autoridade, e o experimento de


Phillíp Zimbardo sobre as consequências psicológicas de condições de
aprisionamento.
O experim ento de M ilgram , realizado em 1961, foi publicado no
periódico TheJournal o f abnormal and socialpsjchology , em 1963, c discutido
em porm enores no livro Ohedience to authority: an experimental view,
publicado em 1974. Os participantes da pesquisa foram recrutados com
a inform ação de que fariam parte de um estudo sobre aprendizagem
e m em ória, mais especificam ente, sobre o papel da punição na
aprendizagem . Participaram 40 homens, com idade entre 20 c 50 anos,
das mais diversas ocupações como funcionários do correio, professores,

INDEX
engenheiros, e com níveis de escolaridade variados (desde aqueles que
não tinham com pletado o ensino médio até aqueles com doutorado).
Cada sessão do experim ento envolvia três pessoas: o sujeito da pesquisa,
que desem penhava o papel de professor, um experim entador, de 31 anos,
cujo papel era desem penhado por um professor dc biologia do ensino
médio, e uma pessoa com 47 anos, um contador, que fazia o papel dc
aprendiz, No experimento, o pesquisador e o aprendiz eram cúm plices,
e sabiam , de antemão, tudo o que iria acontecer, O procedim ento

BOOKS
consistia na apresentação de uma tarefa de mem orização dada ao
aprendiz, e o professor (o sujeito da pesquisa) era instruído a dar um
choque no aprendiz toda vez que ele errava a tarefa. O aprendiz ficava
cm um a espécie de cadeira elétrica, com eletrodos em seus pulsos. Esses
eletrodos estavam conectados a um sim ulador de produção de choques.
Os com andos que supostam ente liberavam os choques variavam de 15
a 450 volts. Essas voltagens foram distribuídas cm categorias tais como:

GROUPS
choque leve, moderado, forte, muito forte, intenso, extremo, e perigo:
choque severo. A cada erro do aprendiz, acendia-se uma luz acim a do
sim ulador de choque, que sinalizava o próxim o passo a ser executado
pelo professor: dar o choque. A cada erro o professor deveria dar um
choque mais forte que o anterior. Antes de adm inistrar o choque o
professor deveria anunciar qual era a voltagem que seria em pregada.
Vale destacar que o aprendiz não estava recebendo choque de verdade.
Ele estava apenas sim ulando; ele gritava, gem ia, suplicava para o sujeito
parar de aplicar o choque quando se tratava das voltagens mais elevadas;
mas tudo era um a simulação. Apenas o sujeito que fazia o papel de

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1 KE E L E XÕE S C O M P O R T A M E N T A L I 5 T A S S OB R E A MA L O A U E C O N T E M P O R Â N E A

professor não sabia da encenação; ele acreditava piam ente que estava
adm inistrando choques com fins pedagógicos (M ILGRAM , 1983).
Milgram pediu a 14 psicólogos experientes que fizessem uma previsão
dos resultados considerando cem participantes hipotéticos. De acordo com
a avaliação dos especialistas, desses cem apenas três chegariam a administrar
choques de 450 volts, ou seja, pouquíssimos participantes iriam além do
choque ‘muito forte’. Os resultados contrariaram essas expectativas. Dos
40 participantes, nenhum deles parou antes de administrar choque de 300
volts; 14 foram um pouco mais adiante, mas desistiram de participar do
experimento, desobedecendo às ordens do pesquisador de ir até o fim.
Os outros 26 sujeitos foram até o final, administrando o nível de choque

INDEX
mais potente. Os resultados mostraram que as pessoas, agindo contra seus
valores e convicções comuns, obedeceram a uma autoridade, infligindo um
grave dano a outra pessoa, mesmo diante dos protestos da vítima. Vale
ressaltar que essa autoridade nao tinha nenhum poder especial sobre os
participantes, não poderia prejudicá-los durante ou após o experimento
(MILGRAM, 1983).
Dez anos depois dos estudos de M ilgram , em 1971, Zimbardo realizou
seu experim ento nos porões da U niversidade de Stanford. Ele construiu

BOOKS
um am biente experim ental simulando uma prisão. Participaram do estudo
24 universitários norm ais, sadios e inteligentes (todos foram submetidos
a testes padronizados de personalidade). O objetivo do experim ento era
investigar a dinâm ica com portam ental em situações de aprisionamento.
M ais especificam ente, a ideia era verificar em que m edida o arranjo de
um contexto institucional específico, no caso o de uma prisão, poderia
se sobrepor às personalidades de pessoas ‘norm ais’ nessas situações.

GROUPS
Para tanto, os participantes foram distribuídos aleatoriam ente em dois
grupos de 12 pessoas cada. O prim eiro grupo representaria o papel de
guardas, recebendo, para tanto, instruções, uniform es e equipam entos
específicos; outro grupo representaria os prisioneiros, sendo literalm ente
apreendidos em suas casas por policiais, e mantidos sob o poder dos
guardas da prisão experim ental. O experim ento estava program ado para
durar duas semanas, mas teve que ser interrom pido no sexto dia, pois
os jovens que assumiram o papel de guardas com eçaram a submeter
seus ‘prisioneiros’, também universitários, a situações hum ilhantes e
vexatórias: eles pisavam nas costas dos colegas quando faziam flexÕes, os

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

hum ilhavam sexualm ente, os forçavam a cantarolar músicas obscenas, os


obrigavam a lim par privadas sem luvas, a defecar em baldes, rem oviam
das celas colchões como punição contra eventuais rebeliões, exigindo
que os prisioneiros dorm issem nus no chão de concreto. Por parte
dos prisioneiros, observou-se greve de fome, distúrbios em ocionais
chegando à despersonificaçao; na verdade, alguns dos prisioneiros
tiveram de sair m esm o antes do térm ino precoce do experim ento, pela
sua precária situação em ocional (ZIMBARDO, 2012).
Os estudos de M ilgram e Zimbardo mostraram que pessoas
psicologicamente normais poderiam cometer atos cruéis dadas certas
condições. Enfim, o mal emana menos de personalidades autoritárias do

INDEX
que de condições sociais que o favoreçam. Essas evidências empíricas foram
discutidas por Bauman no livro Modernidade e holocausto e, com base nelas, e
em suas análises teóricas sobre as condições sociais que propiciaram os atos
atrozes no Holocausto, o sociólogo polonês concluiu que:

[...] a crueldade relaciona-se a certos padrões de interação


de maneira muito mais íntima que às características
de personalidade ou outras idiossincrasias individuais

BOOKS
dos seus executores. A crueldade é social na origem,
muito mais do que fruto de caráter. Sem dúvida alguns
indivíduos tendem a ser cruéis se colocados num
contexto que enfraquece as pressões morais ou legitima
a desumanidade (BAUMAN, 1998, p. 194).

Com efeito, os binômios racionalidade/humanidade c irracionalidade/


desumanidade foram colocados em xeque. Essas análises mostram que
racionalidade e desumanidade podem caminhar juntas, lado a lado, em

GROUPS
cooperação, uma alimentando a outra. Se a maldade pode ser um produto de
condições sociais modernas, civilizatórias, em quais circunstâncias podemos
fazer o mal?

4. Condições modernas para o mal

As análises sociológicas de Bauman sobre o Holocausto, bem como os


experimentos de Milgram e Zimbardo, ensejaram a descrição de uma série

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de condições sociais catalisadoras do mal. Destacaremos, neste ensaio, duas


delas: a) mediação da ação e b) responsabilidade flutuante.
O conceito de mediação da ação está pautado em uma relação
muito simples: a maldade é uma função direta da distância social. D essa
form a, quanto mais fragm entada for a nossa ação, quanto m aior for a
distância entre nossa ação e as consequências que ela produz, m aiores as
chances de com eterm os atos atrozes. No caso do Holocausto, a ação da
elite do exército nazista de ordenar as execuções era m ediada por um a
longa cadeia hierárquica, recortada em especializações funcionais, que
term inava no soldado que executava a ordem fuzilando as pessoas ou
acionando os dispositivos das câm aras de gás. O com andante não via,

INDEX
não tocava, não experienciava diretam ente as consequências de sua ação
de ordenar a morte de m ilhares de pessoas. Os resultados de algumas
m anipulações experim entais nos estudos de M ilgram endossam essa
análise: quando os professores tinham que pegar na mão do aprendiz,
e colocá-la no aparato que, supostam ente, dispararia o choque, o
número de obedientes era cm torno de 30% , mas essa porcentagem
aumentava na medida em que aumentava a distância entre professor e
aprendiz. Quando os professores não podiam ver os aprendizes, que

BOOKS
ficavam escondidos atrás de um a parede, a porcentagem de professores
obedientes aos com andos do pesquisador chegou a mais de 60%.
Isso mostra que quanto mais mediada for a nossa ação, quanto mais
estiver distante das consequências que ela produz, mais suscetíveis somos
de cometer atos cruéis. Trata- sc de uma conclusão que também é conhecida
pela análise do comportamento, que há muito argumenta que o efeito das
consequências depende de seu caráter imediato, ou seja, a ação só pode

GROUPS
ser fortalecida ou punida se as consequências reforçadora ou punidora
forem imediatamente apresentadas depois da ação. Assim, quando nossa
ação leva ao sofrimento de outras pessoas, a distância nos poupa da agonia
de testemunhar os resultados de nossos atos. Por isso, Bauman (1998, p.
1 83, grifo do autor) conclui que “quanto mais racional a organização da
ação, mais fácil se torna produzir o sofrimento —e ficar em paz consigo
mesmo”.
A m odernidade cria, então, uma “m oralidade da tecnologia”, na qual
nossa atenção não está voltada para o objeto final de nossa açao, ou para

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CIJI.TURA, DEMOCRACIA E ETICA

quem sofrerá o im pacto dela, mas para a eficiência da realização da ação,


para o quanto ela está em conform idade com as regras prescritas e com
as ordens dadas (BAUMAN, 1998, p. 188). Isso acontece não só quando
a ação é mediada, mas também quando a ação participa da mediação
da ação de outros. Em outras palavras, é mais fácil ignorarm os nossa
responsabilidade quando somos apenas um elo interm ediário numa
cadeia de ações maléficas, cuja consequência final está longe de nossos
olhos. Nesse contexto, o objetivo de nossa ação é apenas encetar outra
ação e, nessa dinâm ica, a relação entre nossa ação e o sofrim ento de
outrem c diminuída.
A segunda condição catalisadora do mal, destacada por Bauman

INDEX
(1998), é a responsabilidade flutuante, que se caracteriza pelo ato de investir
outra pessoa (geralmente uma autoridade) da responsabilidade por nossas
ações. Em formas modernas de organização social, nas quais as ações são
mediadas, é comum imputar ao outro a responsabilidade de nossas ações.
Com isso, reitera-se a cadeia mediacional das ações sempre se deslocando
a responsabilidade a uma camada superior da hierarquia5. Assim, com a
instauração de uma responsabilidade flutuante somos afastados moralmente
das consequências de nossas ações.

BOOKS
Dessa maneira, a mediação da ação complementa e é complementada pela
responsabilidade flutuante, fazendo com que ninguém se sinta moralmente
ligado às consequências de suas ações. Se os comandantes no Holocausto
dos judeus e nos estupros de Ruanda ficaram insensíveis moralmente, pela
sua distância das vítimas, os executores não se sentiam responsáveis pelos
crimes, com a justificativa de que estavam apenas cumprindo ordens. Além
disso, essa insensibilidade é fortalecida por mecanicismos de organização

GROUPS
racional da sociedade moderna, que privilegiam a compartimentalização e
a especialização da ação, que valorizam a ação não pelo seu impacto no
objeto da ação, mas pela sua eficiência e rigor na execução da tarefa e na
conformidade às regras institucionalizadas.

5 Na contemporaneidade esse movimento de ‘terceirização da responsabilidade5 tende


a tornar o responsável cada vez mais abstrato e menos pessoal, uma vez que figuras
centralizadoras que poderíam ser culpabilizadas sào cada vez mais raras (BAUMAN,
2011). Dessa forma, ao final, a responsabilidade não é mais de uma pessoa em especial,
de um líder autoritário, mas de um sistema político ou econômico.

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5. Entendendo o mal na contemporaneidade

As análises anteriores suscitam um questionamento inquietante: será


que as condições propiciadoras do mal estão presentes ainda hoje? Bauman
(1998) descreveu essas condições no contexto da modernidade, mas elas
poder iam ser estendidas à contemporaneidade? Teríamos superado essas
práticas que sustentaram a maldade de grupos no século XX? O próprio
Bauman sugere que essas condições para o mal ainda estão presentes e, por
isso, atos cruéis em grande escala podem acontecer não só em qualquer
lugar, mas a qualquer momento. O que torna essa situação muito mais
perturbadora é a consciência de que

INDEX
isso poderia acontecer nessa escala maciça em outro lugar,
portanto poderia acontecer em qualquer lugar; está tudo
dentro da ordem das possibilidades humanas e, gostem
ou não, Auschwitz expande o universo da consciência
não menos do que o pouso na lua. Dificilmente pode
ser reduzida a ansiedade, tendo em vista o fato de
que nenhuma das condições que tomaram Auschwitz
possível realmente desapareceu e nenhuma medida
efetiva foi tomada para evitar que tais possibilidades c

BOOKS
princípios gerem catástrofes semelhantes a Auschwitz
(BAUMAN, 1998, p. 30).

Vale acrescentar que além dessas condições ainda estarem presentes e,


em alguns casos, até exacerbadas, qualquer um de nós pode realizar esses
atos cruéis.

Como é que pessoas comuns, como cu ou vocc,


podiam fazer aquilo? Com certeza, dc alguma forma,

GROUPSainda que por uma pequenina diferença, elas devem


ter sido diferentes, pessoas especiais, diversas de nós,
não? Certamente devem ter escapado ao impacto
enobrecedor, humanizante, de nossa sociedade civilizada,
iluminada. Ou, quem sabe, podem ter sido estragadas,
corrompidas, submetidas a alguma combinação infeliz
e viciosa de fatores educacionais, que resultaram numa
personalidade falha, doentia. Provar que todas essas
suposições estavam erradas não seria acolhido não
apenas porque isso desmoronaria a ilusão de segurança
pessoal que a vida numa sociedade civilizada promete.
Seria mal recebido também por uma razão muito mais

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CULTURA, DKMOCRACIA K ÉTICA

significativa: porque exibiría a irredimível ineficácia


de toda autoimagem moralmente virtuosa c de toda
consciência tranquila. A partir de agora, toda consciência
só podia ficar tranquila até segunda ordem (BAUMAN,
1998, p. 178-179, grifo do autor).

Como podemos entender essa possibilidade em termos


comportamentalistas? A resposta a essa questão pode ser encontrada em
alguns pontos discutidos pelo próprio Skinner, sobretudo no campo da
ética e da política. Mas antes de adentrar nesse ponto, cumpre esclarecer
algumas proposições comportamentalistas.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o comportamento é um

INDEX
fenômeno que tem em sua base um organismo sensível ao mundo. Skinner
(1981,1984) esclarece essa tese quando apresenta ahistória do comportamento,
defendendo que a sensibilidade às consequências produzidas pela ação teria
sido crucial para o comportamento, em especial, e para a vida, em geral. Isso
afasta terminantemente uma concepção mecanicista de comportamento,
na qual as ações do organismo seriam meras reações a eventos anteriores,
e ‘cegas’ ou insensíveis aos seus efeitos no mundo. A compreensão da
própria capacidade de aprendizagem operante, ou condicionamento

BOOKS
operante, depende do abandono dessa concepção mecanicista: alterações
na probabilidade de ocorrência de ações futuras dependem de uma história
em que consequências reforçadoras são consistentemente produzidas
pelas ações. Além disso, sc o comportamento é “[...] a atividade contínua
e coerente de um organismo integral” (SKINNER, 1953, p. 116), essa
continuidade e coerência dependem justamente da sensibilidade subjacente
ao fenômeno comportamental.

GROUPS
Nesse sentido, podemos entender a ocorrência do mal a partir
de contingências que diminuem ou bloqueiam a sensibilidade do
comportamento ao mundo, sobretudo, quando outras pessoas participam
desse mundo. Isso ocorre quando certas contingências interpõem ‘barreiras’
ou mediações entre a ação e o mundo social no qual essa ação opera. Esses
mediadores podem ser variados, mas vale mencionar alguns exemplos
bastante presentes na nossa vida atualmente.
O primeiro exemplo de mediação da ação são as regras
institucionalizadas que governam nosso comportamento no âmbito da

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sociedade contemporânea, fazendo com que nossa ação em relação a outras


pessoas fique mais sob o controle da norma, do regulamento, da burocracia,
do que da pessoa que sofre os efeitos de nossa ação. Esse controle é
especialmente importante para nossa discussão quando se trata de regras
organizadas e mantidas por agencias controladoras (SKINNER, 1953,
1978). Skinner (1953) definiu uma agência controladora como uma parte
organizada do grupo social que estabelece um controle mais homogêneo
sobre um grande número de pessoas que participam do grupo. Esse efeito
amplo das agências controladoras é obtido graças à formalização de normas
ou regras que passam a operar no interior da agência, bem como de sistemas
de reforçamento e principalmente de punição que levam os membros do

INDEX
grupo a agirem de acordo com as normas instituídas.
Pelo menos desde Foucault (1979), sabemos o quanto normas,
leis, ou regras difundidas por agências controladoras —o que esse autor
denominava ‘poder disciplinar’ —conduzem a uma padronização acrítica
do comportamento humano, vinculando-se, de modo geral, ao discurso
sobre a verdade, e criando estratégias para punir a desobediência. Quando
o controle pela agência é eficaz o resultado são pessoas obedientes às regras
e, portanto, insensíveis às contingências diferentes daquelas descritas pelas

BOOKS
regras. Interessante nesse caso é que, geralmente, a justificativa para a criação
e a manutenção das regras institucionalizadas é evitar o mal, evitar que o
grupo incorra em um caos social, que indivíduos isoladamente perturbem
o funcionamento do ‘coletivo’. Tudo se passa como se caso não houvesse
regras mediando o convívio social, se não houvesse uma normatização
das relações interpessoais, seríamos bárbaros, violentos, insensíveis. A tese
aqui é justamente a inversa: quanto mais ficarmos sob um controle estrito
de regras, normas, regulamentos, menos sensíveis seremos ao outro e,

GROUPS
consequentemente, maior a chance de fazermos mal a ele. Nas palavras de
Skinner (1978, p. 12, grifo do autor):

O comportamento de seguir regras é inferior ao


comportamento modelado pelas contingências
descritas pelas regras. [...]. Aprendendo as regras de
uma cultura somos capazes de lidar eficazmente com
pessoas, mas nosso comportamento será mais sensível
às contingências mantidas “pela pessoa” quando somos
diretamente censurados e elogiados, e as tegras da
cultura [...] esquecidas.

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Isso não quer dizer que algumas regras sociais não sejam importantes
para as relações interpessoais. Não podemos negar que um bom convívio
entre pessoas depende do respeito mútuo, e que a educação e a civilidade,
um conjunto de regras difundido socialmente nos últimos três ou quatro
séculos, facilitaram muito a vida na sociedade moderna (cf. E IJA S, 2011). O
problema está em regras institucionalizadas, que representam os interesses
de uma ou mais agências controladoras e, por isso, despersonificam as ações.
Um funcionário do serviço público de saúde, por exemplo, tem pelo menos
duas fontes de controle de seu comportamento de atender as pessoas. De
um lado, regras institucionalizadas que orientam rigidamente sua ação em
diferentes situações. De outro lado, contingências presentes que envolvem
as pessoas que ele precisa atender. Se o comportamento do funcionário

INDEX
estiver sob controle exclusivo da regra institucionalizada, ele será insensível
à pessoa que está atendendo, mesmo que isso gere sofrimento a essa pessoa.
Já se ele estiver sob controle da pessoa, a regra será colocada em perspectiva,
e a prioridade será o atendimento e os efeitos gerados imediatamente na
pessoa atendida.
O segundo exemplo de contingências que promovem a insensibilidade
ao outro, muito presente no nosso cotidiano, diz respeito às m ediações

BOOKS
tecnológicas que têm se proliferado nas relações interpessoais. Talvez o
início mais conspícuo dessa prática tenha sido a difusão dos telefones
celulares. A telefonia m óvel tornou m ais fácil conversar com um a pessoa
por telefone do que pessoalm ente, uma vez que com o celular é possível
falar em diferentes lugares e situações, dim inuindo muito o custo da
resposta de conversar. O próxim o passo foi a mudança de m ediação da
ligação telefônica, que ainda m antinha algum as das características de
um a conversa face a face, para a m ensagem de texto. A gora se torna

GROUPS
possível escrever um a m ensagem para alguém em diferentes situações,
e até mesmo fazendo outras coisas, com um baixo custo de resposta
e também com a dim inuição do custo financeiro (desde o início da
telefonia móvel é mais barato uma m ensagem do que uma ligação, e
hoje todas as operadoras oferecem pacotes prom ocionais em que as
m ensagens são ilim itadas pagando-se um valor fixo).
Por fim, complementando e acentuando esse processo de mediação
tecnológica das relações interpessoais, desenvolveram-se as denominadas
‘relações virtuais’, consagradas nas redes sociais. Com a sociabilidade virtual,

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1 R E F L E X Õ E S C O MP 0 KTAME N TA L I S T A S S O B R E A MA L D A D E C O N T E M P O R Â N E A

boa parte do que já acontecia com o celular foi transferido para a internet,
com o msn^posfs, tiviite/s etc. Tudo isso com baixo custo de resposta, maior
imediaticidade, e cada vez mais barato. Qual o resultado dessa revolução nas
relações interpessoais? Muitas vezes ouvimos dizer que nesses contextos
virtuais as pessoas ‘falam o que pensam’, sugerindo, com isso, que elas são
mais autênticas e espontâneas. No entanto, frequentando um ambiente
virtual é muito comum encontrarmos ‘conversas’ insensíveis, grosseiras,
depravadas. O interessante é que raramente essas pessoas comportam-se
dessa forma em relações interpessoais não mediadas; pelo contrário, em
contextos não virtuais as pessoas são retraídas, contidas, tímidas, impessoais,
discretas. Será que isso quer dizer que o contexto ‘real’ é castrador, repressor,
e as redes sociais libertárias e democráticas? Subjaz a essa interpretação a

INDEX
crença dc que o ser humano é ‘essencialmcnte’ mal e que o convívio social
sem mediação mascara essa maldade.
A tese aqui é outra. Em prim eiro lugar, não há uma essência
humana, boa ou má. O ser hum ano só é ‘em contexto’. N esse sentido,
em um contexto não mediado as relações sociais têm mais chances
de se autorregularem , isso quer dizer que na ausência de m ediações o
com portam ento do outro controla diretam ente nosso com portam ento,

BOOKS
e, por isso, temos um im pacto direto do mal ou do bem que estamos
fazendo a ele. Por outro lado, em um a relação m ediada, como no caso
das relações virtuais, essa sensibilidade é im pedida ou desviada, o que
faz com que não tenhamos acesso im ediato ao que estamos promovendo
na outra pessoa. Além disso, m esm o que estejam os fazendo m al a ela,
esse efeito nos afetará tardiam ente, sendo, por isso, ineficaz para mudar
o com portam ento que promoveu o mal.

GROUPS
Podemos encontrar amparo para essas análises no próprio texto
skinncriano, sobretudo, em algum as de suas recom endações políticas.
De um ponto de vista skinneriano, a política é o campo de discussão e
planejam ento do controle social, mais especificam ente, do controle que
há entre pessoas, o que, geralm ente, envolve a participação de agências
controladoras, como a econom ia e o Estado. Assim, um dos temas
da política é o papel que as agências controladoras têm na regulação
do com portam ento individual. D iscrepando de críticas com umcnte
dirigidas à análise do com portam ento (cf. GARRARA, 2005), Skinner
(1978) defende que a m elhor form a de política é o controle face a face,

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

o controle de pessoas por pessoas, com a m enor mediação institucional


possível. Nas palavras desse autor:

Quando delegamos o controle de pessoas a instituições


políticas e econômicas, renunciamos ao controle face a
face de um governo equitativo de pessoas pot pessoas,
e é um erro supor que o reconquistamos restringindo
o escopo daqueles a quem delegamos o controle. U m a
estratégia m elhor é fortalecer o controle face a
face. Um ambiente social, ou cultura, pode operar sem
a ajuda de governantes e empresários usurpadores ou
delegatários, e ele é mais claramente um governo de
pessoas pelas pessoas quando faz isso (SKINNER,
1978, p. 9, grifo do autor).

INDEX
Um dos principais motivos para essa recomendação política está no
modo dc funcionamento das agências controladoras responsáveis pela
difusão de regras institucionalizadas. De acordo com Skinner (1953), depois
que uma agência controladora se consolida, ela passa a funcionar para o seu
próprio bem, para manter-se, e, consequentemente, normas, regulamentos
e regras difundidas por essa agência começam a ser usadas apenas com essa

BOOKS
função.
Identificadas as situações contemporâneas que facilitam a maldade,
talvez seja possível combatê-la. Se comportamentos maus dependem de
contingências sociais, mais especificamente, se eles ocorrem com mais
facilidade em grupos permeados pela autoridade e por ações mediadas,
precisamos arranjar práticas para que os grupos não se organizem em torno
dessas características, fim poucas palavras, precisamos aumentar as chances

GROUPS
da ocorrência do bem.

6. Há possibilidades para o bem?

Todas as análises feitas até aqui parecem consistentes com uma


proposta comportamentalista, na medida em que o mal é uma propriedade
do comportamento, e não uma referência que transcenda o campo
comportamental. Enfim, para nenhum dos autores citados existe o mal
em si, algo de ‘fora’ do comportamento que o influencia ou determina.

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Consequentemente, a discussão é encarnada, é terrena, ou seja, é um assunto


humano. O mesmo raciocínio vale para o bem. A bondade deve ser definida
a partir do comportamento; ela diz respeito ao que o ser humano faz, ao
que ele faz consigo mesmo, com o mundo físico e, principalmente, com o
mundo social.
Precisam os com bater o m al com o bem. O que nos remete à questão:
o que é o bem? O que é a bondade? Em que condições ela surge? As
análises anteriores sugerem que o com bate à m aldade e a prom oção
da bondade estão em contingências que desburocratizam as relações
interpessoais, aumentando, assim, nossa sensibilidade ao outro. D essa
form a, é uma condição para a bondade que a relação entre a ação c o

INDEX
mundo social, no qual essa ação opera, seja a m ais direta possível, sem
mediações.
Talvez possamos ampliar a recomendação do controle face a face,
mencionada alhures, para situações cotidianas criando uma alternativa viável
e concreta para se combater as contingências responsáveis pela maldade.
Em primeiro lugar, o controle face a face acaba, por definição, com a
mediação da ação (SKINNER, 1978) e, por isso, esse tipo de relação tende a

BOOKS
ser mais calorosa, humana, sensível. Para evitar o mal e aumentar as chances
de promover o bem deveriamos preferir relações interpessoais mais diretas,
menos mediadas; deveriamos, portanto, preferir conversar pessoalmente
a conversar pelo telefone, deveriamos preferir conversar pelo telefone a
mandar uma mensagem, deveriamos preferir nos relacionar com pessoas a
máquinas.
O controle face a face também é uma alternativa à responsabilidade

GROUPS
flutuante. Quando diminuímos a interposição entre nossa ação e os efeitos
que produzimos no outro, sentimos-nos mais responsáveis pelo que
fazemos com ele, uma vez que somos afetados direta e imediatamente por
esses efeitos. Consequentemente, nessa contingência tornamo-nos sensíveis
a outrem. Vale lembrar que há diferentes tipos de interposição que precisam
ser evitados, como a tecnológica (sociabilidade virtual) e a burocrática
(regras, normas e regulamentos institucionalizados). Assim, além de preferir
conversar pessoalmente, deveriamos conversar com pessoas e não com
cargos.

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Considerações finais

Depois de todo esse percurso podemos finalmente levantar a seguinte


questão: é possível fazer o bem? As análises apresentadas anterior mente
vão na direção de uma resposta positiva, desde que nos empenhemos em
promover algumas mudanças. Em primeiro lugar, precisamos romper com
a lógica medieval de que o ser humano tende naturalmente ao mal, de que
ele é manchado pelo pecado original, de que sem uma regulação externa,
sem uma padronização as relações interpessoais serão necessariamente
violentas. É justamente essa imagem de um ser humano ‘decaído’ que povoa
os argumentos a favor da manutenção do poder das agências controladoras.

INDEX
Precisamos combater esse argumento mostrando o que corre nos bastidores
dessas agências, a função reacionária dos regulamentos, das normas e da
burocracia em geral. Enfim, precisamos aprender a desobedecer quando
necessário.
Além disso, c preciso insistir que o bem e o mal são inerentes ao
comportamento, e que não somos vítimas do mundo, mas somos, sobretudo,
responsáveis, já que construímos (ou destruímos) o mundo com nossas

BOOKS
ações. Isso quer dizer que a chave para a bondade está em como agimos,
como nos relacionamos com o outro, quanto lutamos pelo contato face a
face, e quanto resistimos à mediação das nossas ações.
H possível, portanto, fazer o bem, mas isso exige, antes dc tudo, uma
maior atenção às condições responsáveis pelo mal, que continuam mais
presentes do que nunca cm nossa sociedade atual.

Referências
GROUPS
ARBEX, Daniela. H olocausto brasileiro. 3. ed. São Paulo: Geração
Editorial, 2013.

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1 R E F L E X Õ E S C O M P O R T A M E N T A L I S T A S S O B R E A MA L DA DE C O N T E M P O R Â N E A

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Capítulo 2

O conceito de sobrevivência das culturas e suas implicações para


uma ética skinneriana
Camila Muchon de Melo e Marina Souto Lopes Bezerra de Castro

[...] a cultura poderá se tornar mais forte ou mais fraca, e

INDEX
pode-sc prever sua sobrevivência ou seu desaparecimento.
A sobrevivência de uma cultura emerge como um novo
valor a se considerar [...] (SKINNER, 2002, p. 129).

Considerações iniciais

O selecionismo consolida-se na obra de B. F. Skinner em 1981

BOOKS
com a publicação de Seíection hy consequences. Inspirado no modo causai
darwiníano de seleção natural, Skinner atribuiu aos processos de variação
e seleção a origem e a manutenção de comportamentos e de práticas
culturais. De acordo com essa perspectiva, os comportamentos humanos
são produtos de inter-relações de contingências filogenéticas (história da
espécie), contingências ontogenéticas (história do tempo de vida de um
indivíduo) e contingências culturais (história cultural). Os processos de
variação e seleção nesses três níveis são descritos pelo ‘modelo de seleção
pelas consequências’.
GROUPS
Esse modelo não pressupõe causas finais ou tcleológicas - “ [...]
apenas consequências passadas figuram na seleção [...]” —e não recorre à
explicação por meio de essências como a mente ou o Zeitgeist. A seleção
por consequências é encontrada apenas em seres vivos e define o viver
(SKINNER, 1981, p. 503).
Ao fazer um paralelo entre a seleção natural e a evolução das culturas,
Skinner (1981, 2002) defendeu que, como as espécies, as culturas podem
perpetuar-se por muitos anos, com extensas modificações em suas práticas

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

ou não e podem também colapsar e se extinguir. Como no caso da seleção


natural, o fato de uma cultura sobreviver durante longos períodos não
nos habilita a estabelecer a sua soberania em relação a outras culturas que
pereceram. Uma cultura pode ser considerada extremamente forte em suas
relações sociais e econômicas, mas não ser efetiva na resolução de problemas
gerados por uma catástrofe ambiental, por exemplo, e, como decorrência,
pode perecer. Ou seja, a força das culturas depende de um conjunto de
variáveis complexas que nem sempre podem ser previstas e controladas
pelos métodos e técnicas vigentes.
Nesse contexto, Skinner (1987,2002) defendeu que há práticas culturais,
como variações, que podem contribuir para o fortalecimento c consequente

INDEX
sobrevivência de uma cultura (práticas que apresentam um valor de
sobrevivência positivo) e há práticas culturais que não contribuem para o
fortalecimento e sobrevivência de uma cultura (práticas que apresentam
um valor de sobrevivência negativo) (DITTRICH, 2004). De acordo com
Skinner (2002), as práticas que fortalecem uma cultura são aquelas que
produzem o ‘bem da cultura’. Entretanto, o valor de uma prática é variável
— depende das contingências vigentes em determinado local e em um
momento histórico específico.

BOOKS
Práticas culturais são as unidades sujeitas à seleção no terceiro nível.
São unidades que se originam do comportamento operante de indivíduos e
tornam-se práticas quando reforçadas por uma cultura, transmitidas como
parte de um ambiente social entre membros dc uma mesma cultura, entre
gerações ou entre culturas (MELO; DE ROSE, 2012; SKINNER, 2002).
Nesse sentido, ao tratar da seleção no terceiro nível, o que está em questão é
que é o efeito sobre o grupo e não as consequências reforçadoras para

p. 502). GROUPS
seus membros, o responsável pela evolução da cultura” (SKINNER, 1981,

Nessa explanação, Skinner (1981) sugeriu que a sobrevivência das culturas


é o que determina a manutenção e a transmissão de suas práticas. Como ele
mesmo apontou: e quer gostemos disto ou não, a sobrevivência é o
critério final” (ROGERS; SKINNER, 1956, p. 1065).
Entretanto, algumas críticas foram direcionadas sobre tais asserções,
entre elas, por exemplo: como práticas extremamente complexas, nas quais
seu valor de sobrevivência não pode ser facilmente aferido, perpetuam-

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sc entre gerações de uma cultura? (MELO; DE ROSE, 2012). A resposta


skinneriana é simples: práticas que não fortalecem uma cultura podem
coexistir com práticas que a fortalecem.
De acordo com o modelo de seleção pelas consequências, o
comportamento humano, ao participar na formação e manutenção de práticas
culturais, é primeiramente selecionado ou modelado em contingências
de reforçamento. Sendo assim, contingências de reforçamento poderiam
explicar a manutenção de práticas culturais por meio de consequências
mais imediatas (consequências comportamentais) para o comportamento
individual.
O autor também salienta que características ‘não adaptativas’ podem ser

INDEX
selecionadas quando os organismos se tornam cada vez mais sensíveis às
consequências. Neste sentido, o paralelo da seleção natural com a evolução
da cultura possibilita argumentar que práticas culturais ‘não adaptativas1
podem sobreviver juntamente com práticas ‘adaptativas’. Segundo Skinner
(1969, p. 177), “[...] todas as características atuais de um organismo não
contribuem necessariamente para a sua sobrevivência e procriação, todavia
são ‘selecionadas’”.

BOOKS
Práticas culturais que não apresentam valor de sobrevivência positivo
podem ser preservadas simplesmente porque foram selecionadas em
conjunto com práticas que fortalecem uma cultura. Isso porque o que
determina o fortalecimento e a sobrevivência de uma cultura é a relação
entre diversas práticas culturais e a própria relação entre culturas. A análise
não pode restringir-se apenas às práticas culturais isoladas de seus contextos
mais amplos.
Por fim, como dito anteriorm ente, o m odelo de seleção pelas

GROUPS
consequências não estabelece a soberania de uma cultura em detrim ento
de outras culturas (embora a com petição entre culturas não seja
necessariam ente um fator secundário, ao contrário do que pressupôs
Skinner em 2002). Sendo assim, ao tratar a sobrevivência da cultura
como um valor a ser considerado no planejam ento de práticas culturais,
coloca-se cm evidência a sobrevivência da hum anidade. A preocupação
de Skinner é, em última análise, com a sobrevivência da espécie humana.
Estabelecido o contexto de discussão em que a sobrevivência
da espécie hum ana é o resultado de processos de variação e seleção,

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

temos que a sobrevivência é um dos resultados possíveis da relação


entre variações (que não precisam ser necessariam ente planejadas) e
contingências seletivas, ou melhor: “[...] as variações são randôm icas e
as contingências de seleção são acidentais [...]” (SKINNER, 1990, p.
1207). Então, Skinner (1987, p. 1) faz a pergunta: “ [...] por que não
estamos agindo para salvar o m undo?”. D eixarem os a sobrevivência da
hum anidade, da cultura humana, destinada ao encontro fortuito desses
dois polos —variações randôm icas e contingências seletivas acidentais?
Como mesmo salientou o autor, a sobrevivência da hum anidade seria
resultado de ‘felizes acidentes’,
E nesse contexto que Skinner, já em 1948, defendeu o planejam ento

INDEX
cultural em favor da sobrevivência da cultura, que em erge como
um valor especial para quem esteja na posição de planejar práticas
culturais (SKINNER, 2005). D essa form a, o bem da cultura, que é
sua sobrevivência, passa de critério a p osteriori e inexorável de juízo da
cultura no processo natural de variação e seleção no terceiro nível para
um critério a priori de julgam ento. Ou seja, deve se tornar o principal
valor a controlar o com portam ento de quem se ponha a planejar práticas
culturais.

BOOKS
Com essa manobra teórica, Skinner parece tentar vincular o uso da
tecnologia do comportamento, a qual ele julgava muito poderosa, a esse
valor, o que preveniría seu mau uso. Ao mesmo tempo, com essa passagem,
o autor parece buscar argumentos científicos para justificar seus próprios
valores, pois, como veremos mais à frente, apenas os pressupostos do
comportamentalismo radical skinneriano não são suficientes para que se
estabeleçam prescrições (CASTRO; DE ROSE, 2008).

GROUPS
Para que um planejam ento cultural ocorra, decisões a respeito do
que é melhor para uma cultura precisam ser realizadas. Indaga-se se o
conhecim ento científico proveria os melhores critérios de decisão. Ao
fazer isso, ao se voltar para prescrições, ao invés de descrições, estaria
a ciência perdendo seu status científico? Além disso: o cientista, que
tam bém está inserido no em aranhado causai das contingências, seria
capaz de avaliar de form a neutra e indicar ao grupo de indivíduos o que
é o m elhor a ser feito? Enfim: o conhecim ento científico pode legitim ar
prescrições?

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A í se estabelece o campo da discussão ética nos textos de Skinner. A


partir da defesa skinneriana de uma intervenção deliberada do cientista no
nível cultural em prol da sobrevivência da cultura é inaugurada e motivada
a abordagem de questões éticas na obra do autor. Pode-se considerar que o
primeiro texto ético de Skinner é Watden tim , publicado em 1948 (CASTRO,
2013).
Posterior mente, ao longo de seus escritos, ao buscar explicações para o
que são os valores e ao tentar estabelecer possíveis critérios para intervenções,
pode-se afirmar que o autor está a discutir questões pertencentes ao campo
da ética, embora ele próprio se recusasse a assumir isso. Essa recusa parece
ter atrapalhado a própria discussão, na medida em que Skinner deixou de

INDEX
analisar os determinantes de seu próprio comportamento de prescrever
e buscou justificá-lo ou explicá-lo por meio de argumentos descritivos
impessoais. Gerou-se, dessa forma, uma ‘tensão’ na ética skinneriana
(CASTRO; DE ROSE, 2008). O resultado é que os textos éticos de Skinner
são confusos e heterogêneos.
Isso se observa, por exemplo, no âmbito da ética aplicada, na qual o autor
sempre defendeu a sobrevivência da humanidade, em um planejamento que

BOOKS
levasse em consideração o equilíbrio entre o bem-estar dos indivíduos e o
bem da cultura (CASTRO, 2013; MELO, 2008). Contudo, buscou justificar
apenas a eleição do bem da cultura como necessária pautando-se no modelo
de variação e seleção nos três níveis.
Em meio à referida heterogeneidade nos textos éticos do autor, é
possível separar e caracterizar alguns dos aspectos da ética skinneriana
(CASTRO, 2013). No âmbito descritivo, é claramente identificável, e

GROUPS
não tanto polêmica, uma ciência dos valores, que visa explicar o que são
‘valores’ c como o sujeito aprende a agir de acordo com eles. Ainda no plano
descritivo, ocorre a derivação de um sistema ético com base no modelo de
seleção pelas consequências nos três níveis. Já no que se pode caracterizar
como sendo o âmbito prescritivo da ética de Skinner, identifica-se a eleição
de um valor primordial calcado naquele sistema ético; como vimos, o bem
da cultura. Também no plano prescritivo encontra-se a ética aplicada, a
qual surgiu primeiro —com Walden two —e motivou todo o restante da ética
skinneriana.

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Vejamos mais detalhadamente alguns desses aspectos, de modo a


entender as implicações do conceito de sobrevivência das culturas para a
ética.

1. Uma ciência dos valores

Skinner afirma categoricamente que a ciência do comportamento1


é também uma ciência dos valores (SKINNER, 1965). Com efeito, o
comportamentalismo radical pode ser considerado também uma filosofia
moral (ABIB, 2001). Neste aspecto de sua ética, o autor busca explicar o que
são os valores e como surge o comportamento moral.

INDEX
Como ciência dos valores, Skinner recusa uma dicotomia ontológica
entre fatos e valores, sendo ambos parte do ‘mundo empírico’ —valores
pertencem ao mundo dos fatos e podem scr analisados com as ferramentas
de uma ciência do comportamento. Segundo Leigland (2005), Skinner não
defenderia a distinção ontológica entre declarações de fatos e declarações
de valores.
O comportamentaüsmo radical defende que todos os fenômenos

BOOKS
comportamentais são decorrentes da interação entre o organismo e o
ambiente. Assim, de acordo com a perspectiva da análise do comportamento,
os valores, bem como todos os outros fenômenos psicológicos, são
analisados em termos dessa relação, das funções de certas variáveis presentes
nas interações entre o ambiente c o organismo.
Poderiamos falar, então, de uma ética empírica? Possivelmente. Para
Skinner (2002, p. 122): o que um dado grupo de pessoas chama de

GROUPS
bom é um fato: é o que os membros do grupo acham reforçador como
resultado de sua carga genética e das contingências naturais e sociais às
quais eles foram expostos”. Nesse sentido, o autor defende que valores são
reforçadores (SKINNER, 2002) e qualquer lista de valores é uma lista de
reforçadores, condicionados ou não (cf. SKINNER, 1961). Assim, o que

1 Neste caso a referência é à análise do comportamento ou à análise experimental


do comportamento, a ciência do comportamento baseada nos pressupostos do
compottamentaiismo radical (MELO, 2008). Embora outras ciências comportamentais
possam ser delineadas, trataremos ao longo deste texto apenas desse campo do saber.

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é julgado como bom para o indivíduo ou para um grupo de indivíduos é


decorrente das histórias filogenética, ontogenética e cultural específicas. O
bem é contextualizado, podendo diferir entre indivíduos, entre grupos e
entre períodos históricos.
Não há, portanto, para a ciência dos valores, critérios absolutos de certo
e errado, de moral e imoral. Os critérios éticos existentes decorrem das
contingências, principalmente sociais, atuantes em determinado ambiente
com suas características singulares.
Contudo, os indivíduos podem aprender a considerar certos eventos
como absolutamente bons ou ruins e a agir eticamente de acordo com os
padrões vigentes. Esse comportamento moral é estabelecido por meio de

INDEX
processos comuns a qualquer aprendizagem. Neste caso, o ambiente social
é um componente fundamental.
A comunidade estabelece grande parte das contingências, inclusive
contingências de nomeação. Nesse contexto, o sujeito aprende a responder
adequadamente às demandas do ambiente social, ao descrever suas opiniões,
seus sentimentos (frutos de toda essa história) por meio das palavras
aprendidas na comunidade. De acordo com Ruiz c Roche (2007), termos

BOOKS
carregados de valores, tais como ‘bom’, podem funcionar como tatos
(respostas verbais descritivas) para reforçadores.
Segundo Skinner (1965), um tipo de controle poderoso é aquele no qual
um grupo de indivíduos —governantes, professores, religiosos ou a dite
econômica, por exemplo —manipula certas variáveis que têm efeito comum
sobre quem está submetido ao controle desse grupo. Nesse tipo poderoso de
controle, podemos encontrar como principal técnica empregada a seguinte:

GROUPS
o comportamento do indivíduo é classificado como ‘bom’ ou ‘m au’,
ou, para o mesmo efeito, ‘certo’ ou ‘errado’, e é reforçado ou punido de
acordo. O autor afirma que ‘certo’ e ‘bom’ correspondem, em geral, àqueles
comportamentos que são reforçadores para os outros membros do grupo e
‘mau’ ou ‘errado’ correspondem aos comportamentos aversivos aos outros
membros do grupo. Esses estímulos verbais (‘certo’, ‘bom’, ‘mau’, ‘errado1)
passam a ser usados nas contingências, como reforçadores generalizados.
Eles são utilizados juntamente com outros reforçadores (como elogios,
agradecimentos, carinhos, gratificações, favores, agressão, culpa, censura,
crítica etc.) de modo a modelar o comportamento do indivíduo.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

Dessa forma, os comportamentos classificados como bons são


reforçados e aqueles classificados como maus são punidos. Como resultado
da punição, o comportamento punido passa a gerar estímulos aversivos
condicionados dos quais o indivíduo escapa ao se comportar de forma
diferente. Esse comportamento diferente é, portanto, negativamente
reforçado, pois retira uma condição aversiva, aumentando de frequência.
O estado emocional gerado por esse tipo de controle aversivo pode ser
classificado de várias formas, de acordo com a fonte da punição: vergonha,
culpa, sentimento de pecado, remorso.
O autocontrole pode ser um tipo de comportamento reforçado dessa
forma (SK1NNER, 1965). O resultado do controle do grupo sobre o

INDEX
indivíduo é o autocontrole, a diminuição dos comportamentos considerados
egoístas e o aumento dos comportamentos altruístas, geralmente
qualificados como éticos. Assim, o indivíduo também ganha, pois, apesar
de ter seus comportamentos egoístas reduzidos, o grupo o protege dos
comportamentos egoístas dos outros, pois também os reduz.
O controle do grupo tem outra importante ferramenta: as regras, que
ajudam o indivíduo a se adequar às práticas de sua comunidade e ajudam

BOOKS
a comunidade a manter suas práticas. Provérbios e máximas, na qualidade
de regras, funcionam como estimulação discriminativa. São descrições de
contingências de reforçamento social e não social, e quem os segue fica
sob o controle mais efetivo do ambiente, pois não é necessário passar pelas
contingências que os originaram. O comportamento governado por regras
mostra-se, dessa forma, mais eficiente em diferentes contextos sociais. Isso
vale, por exemplo, para regras gramaticais, para leis, códigos éticos, práticas
religiosas e leis científicas (SKINNER, 1963). Ele permite mais facilmente a

GROUPS
transmissão de padrões éticos entre as gerações.
O sistema educacional, como agência de controle, exerce papel
importante nesse processo. Utiliza, frequentemente, princípios mais gerais
para isso. Ao invés dc ensinar a criança a se comportar bem, ela ensina
regras que a criança deve seguir para se comportar bem, por exemplo: conte
até dez antes de agir quando estiver com raiva (SKINNER, 1968).
Mas nem todos os princípios levam a forma clara de uma instrução,
com verbos no imperativo. Podem ser descrições de contingências, como
em ditados populares: haste make waste (SKINNER, 1968) —£a pressa faz

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sujeira’ —, cuja versão brasileira, mais metafórica, seria: ‘a pressa é inimiga


da perfeição’. Isto é, as consequências do comportamento apressado são
aversivas.
Todavia, o sistema educacional é limitado, pois é incapaz de prever
todos os problemas éticos a serem enfrentados pelo indivíduo. Então,
a cultura precisa ensinar um tipo de solução de problemas éticos que o
permita chegar a seus próprios princípios quando necessário.

2. Um sistema ético

INDEX
Este aspecto da ética skinneriana também se refere ao âmbito
descritivo, isto é, à tentativa de responder a questões do tipo ‘o que é?\
No que se denomina aqui de sistema ético, o autor categoriza três tipos
de bens pautando-se no modelo de variação e seleção. Embora não haja
correspondência ponto a ponto, esse sistema ético se fundamenta nos três
níveis seletivos.
As proposições de Skinner enfatizam que os indivíduos, ao se

BOOKS
comportarem, podem produzir três tipos de bem ou valor: o bem do
indivíduo, o bem dos outros e o bem da cultura (SKINNER, 2002). Tais
bens constituem o sistema de valores skinneriano e estão relacionados com
as consequências do comportamento (DITTRICH, 2004; MELO, 2008):
um valor pode ser classificado como bem pessoal, bem dos outros ou bem
da cultura, de acordo com o beneficiado, o indivíduo, o grupo ou a cultura
como um todo, respectivamente. Nas palavras do autor:

GROUPS O que é bom para a espécie é o que leva à sua


sobrevivência. O que é bom para o indivíduo é o
que promove seu bem-estar. O que é bom para uma
cultura é o que a permite resolver seus problemas. Há,
como vimos, outros tipos de valores, mas eles acabam
assumindo segundo lugar (SKINNER, 1976, p. 226).

Os reforçadores de origem filogenética, incondicionados, são bens


pessoais, alguns reforçadores condicionados na ontogênese também são
bens pessoais, ou seja, reforçam positivamente o comportamento de quem
os produz; neste sentido, reforçadores negativos seriam o oposto de bens

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

pessoais, seriam ‘coisas ruins’. Assim, o comportamento que produz o bem


do indivíduo não apenas promove o que é bom, mas evita o que é ruim
(DTTTRICH, 2004).
Os bens dos outros podem ser considerados ‘bens individuais da
segunda pessoa’. O indivíduo, ao se comportar, pode produzir o seu próprio
bem, mas pode produzir também o bem dos outros. Esse comportamento
produz consequências reforçadoras para as outras pessoas, ou remove
reforçadores negativos em relação ao comportamento de outras pessoas.
O comportamento que produz o bem dos outros emerge e é mantido
por relações de reforçamento recíproco (mesmo em ações não deliberadas
nas quais poderiamos discutir uma espécie de altruísmo): ao se comportar,

INDEX
o indivíduo produz consequências reforçadoras para as outras pessoas, mas
também produz consequências reforçadoras para o seu comportamento
(ou evita a perda de reforçadores, ou evita que seu comportamento
produza consequências aversivas). Segundo Dittrich (2004), bens dos
outros são produzidos apenas em circunstâncias especiais de seleção do
comportamento no segundo nível. Bens dos outros apontam para o controle
do comportamento operante pelo grupo social.

BOOKS
As contingências ambientais, incluindo-se as sociais, estariam na origem
dos comportamentos e sentimentos correlatos. O autor enfatiza:

Não consideramos que os reforços biológicos sejam


eficazes devido a um amor próprio, e não deveriamos
atribuir o comportamento pelo bem dos outros a um
amor pelos outros. Ao trabalhar para o bem dos outros,
uma pessoa pode sentir amor ou medo, lealdade ou
obrigação, ou qualquer outra condição proveniente das

GROUPS contingências responsáveis pelo comportamento. Uma


pessoa não age pelo bem do outro por causa dc um
sentimento de posse, ou se recusa a fazê-lo por causa
de um sentimento de alienação. Seu comportamento
depende do controle do ambiente social (SKJNNKR,
2002, p. 110).

Por fim, o terceiro bem ao qual o comportamento humano pode estar


relacionado é o bem da cultura. As ações que têm como consequência o
bem da cultura estão produzindo o bem das pessoas do futuro” (ABTB,
2001, p. 114, grifo do autor). Pode-se argumentar que tais comportamentos

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2 O C O N C E I T O OE S OB R E V I V Ê NC I A DAS C U L T U R A S . . .

são aqueles que compõem práticas culturais que apresentam valor de


sobrevivência positivo, como indicado no início deste texto. O bem da
cultura c, portanto, um valor (MELO, 2008).
Note-se o importante papel conferido à sobrevivência no sistema ético
skinneriano. Ela está no início e no fim. Está na origem de todos os bens,
pois, em última instância, é na sobrevivência da espécie que surgem os
valores de primeiro nível, os bens pessoais mais fundamentais dos quais
se originam os outros. Ao mesmo tempo, o valor final, o bem da cultura,
c a sua sobrevivência, a qual garantirá, por seu turno, a sobrevivência dos
indivíduos que a compõem.
Assim, para o primeiro nível seletivo, temos que tudo o que é bom para

INDEX
a espécie é o que promove a sobrevivência de seus membros, até que sua
descendência tenha nascido e sido cuidada. Entre as coisas consideradas
boas está a sus cetib ilida de dos organismos ao reforço por certos tipos
de estimulação. A suscetibilidade da espécie humana ao açúcar, por
exemplo, é uma característica filogeneticamente selecionada provavelmente
porque favoreceu a sobrevivência da espécie. Sendo assim, dizemos que
alguns sabores doces têm ‘gosto bom’ (MELO, 2008), ou que a própria
suscetibilidade e a estimulação (o açúcar) foram ‘boas’ para a espécie.

BOOKS
O comportamento de uma pessoa é considerado bom se for efetivo
em contingências predominantes de reforçamento. Valorizamos esse tipo de
comportamento e reforçamos com reforçadores generalizados dizendo ser
um bom comportamento, um comportamento justo, certo, ético etc. Diz-se
que uma pessoa é boa provavelmente porque essa pessoa propicia, direta ou
indiretamente, reforçadores para o comportamento do indivíduo que faz
essa classificação. Nesse sentido, a comunidade verbal ensina o indivíduo a
agir pelo bem dos outros.
GROUPS
Na terceira categoria ética está o bem da cultura. O que é bom para
uma cultura é o que promove sua sobrevivência. Alguns exemplos podem
ser descritos, como: manter um grupo unido, práticas que favorecem a
produção e o não desperdício de recursos, práticas que promovam medidas
eficazes para a aquisição da saúde de seus membros (SK1NNER, 2002).
Para o autor, porém, o que é considerado bom em um nível de seleção
poderá não ser em um dos outros níveis. Isso não implica contradição,
desde que os níveis sejam especificados. Exemplos dessa análise são as

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

suscetibilidades humanas ao reforço pelo açúcar e sal, contato sexual e


sinais de danos agressivos a outros. Essas suscetibilidades devem ter sido
importantes para a evolução da espécie, ou seja, foram ‘boas’ para a espécie,
fundamentais para sua sobrevivência. Entretanto, nas sociedades atuais,
essas suscetibilidades podem ser letais.

3. A prescrição do valor principal

Até o momento, foram abordados dois aspectos descritivos da ética


skinneriana. Neste tópico, porém, apontar-se-á um sentido prescritivo que

INDEX
pode ser encontrado nessa ética e alguns de seus problemas. Passa-se, então,
à parte em que o autor parece tentar responder a questões do tipo ‘o que
deve ser?’.
Entende-se aqui que o aspecto imperativo da ética skinneriana pode
ser constatado já na própria defesa de uma intervenção deliberada na
cultura, pois, como vimos, Skinner opina em favor do planejamento cultural
em detrimento das variações randômicas e das contingências acidentais.
Segundo ele, quando se prova que as variáveis descobertas cm uma análise

BOOKS
experimental são manipuláveis, podemos ir além da interpretação para o
controle do comportamento em várias áreas, por exemplo: educação,
psicoterapia, economia, governo e vida diária. Skinner defende que a
ciência básica sempre leva à melhoria da tecnologia e uma ciência do
comportamento não poderia ser exceção: “ [...] ela deve fornecer uma
tecnologia do comportamento apropriada ao objetivo utópico final: uma
cultura efetiva” (SKINNER, 1969, p. 22).

GROUPS
Isso porque as coisas podem dar errado sob todos os três tipos de
contingências de seleção e pode ser necessário corrigi-las por meio de um
planejamento explícito, o qual, segundo ele, tem resistência de defensores
da liberdade e da dignidade. Trata-se de um fator limitante que precisa
ser superado, pois “[...] o que está além da liberdade e da dignidade é a
sobrevivência da espécie” (SKINNER, 1978, p. 126).
Vimos, no âmbito descritivo, além de uma ciência dos valores e do
comportamento moral, a derivação de um sistema ético, isto é, uma
categorização dos valores com base no modelo de seleção por consequências.

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2 O C O N C E I T O DE S OB R E V I V Ê NC I A DAS C U L T U R A S . . .

Vimos que isso ocorreu com o valor de sobrevivência da cultura, bem


oriundo no terceiro nível de seleção. Todavia, o autor vai além, já em 1953,
em Ciência e comportamento humano afirma que o fato de uma dada prática
ser relacionada à sobrevivência se torna uma condição efetiva antecedente
no planejamento cultural. Então, vemos delineando-se a prescrição do bem
da cultura num planejamento cultural: valores como liberdade e dignidade
‘devem’ ser subvStituídos pelo bem da cultura2.
De acordo com Abib (2001), com o valor de sobrevivência das culturas,
Skinner adota definitivamente o ponto de vista moral. Segundo Ruiz c
Roche (2007), na ética naturalista de Skinner, a sobrevivência emerge como
o critério e valor último pelo qual se acessa a riqueza das culturas e das

INDEX
práticas culturais.
Como é possível concluir, Skinner parte do aspecto descritivo de sua
ética para eleger o bem da cultura como o critério de avaliação para a inserção
ou a manutenção de práticas culturais: dentre os três bens que descreve, o
autor defende como principal valor de sua filosofia moral a sobrevivência
da cultura, subordinando os demais valores (bem do indivíduo e bem dos
outros) a ele (MELO, 2008).

BOOKS
Ao detalhar o processo de variação e seleção no terceiro nível, Skinner
(1965) conclui que a sobrevivência é, de fato, o único critério de acordo com
o qual uma determinada prática cultural pode ser avaliada, julgada. O valor
de determinada prática cultural é seu valor de sobrevivência, sendo que uma
cultura considerada boa em uma época pode não o ser em outra época.
Skinner (1965) tenta argumentar que o valor de sobrevivência é
‘necessário’, pois ninguém escolhe a sobrevivência como um critério de

GROUPS
acordo com o qual julgará as práticas culturais. E compara essa ‘não escolha’
com um homem que sai rapidamente do caminho por onde está passando
lim carro em alta velocidade. O autor aponta que o homem não escolheu o
valor da vida em detrimento da morte, sua ação pode ser explicada por meio
da história passada. A escolha não determinou o comportamento, nem o

2 I’^ssa proposta já é apresentada em W alden h vo, mas, naquela ocasião, o autor não elaborou
argumentação formal, técnica, em defesa do bem da cultura e de sua origem factual; além
disso, o bem da cultura era explicitamente equilibrado com a felicidade dos membros
daquela comunidade como valor supremo.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

valor determinou a escolha. O valor que o indivíduo parece ter escolhido


em relação ao seu próprio futuro é nada mais que aquela condição que
agiu seletivamcnte ao criar e perpetuar o comportamento que agora parece
exemplificar tal escolha. O autor indica que não elegemos o bem da cultura,
pois ele já está naturalmente eleito. Contudo, o próprio autor elencou
diversos bens que foram naturalmente eleitos, mas dá primazia ao bem da
cultura.
Tendo em vista esse tipo de argumentação nos textos skinnerianos,
percebe-se que, apesar de adotar uma postura prescritiva, o autor, em
várias ocasiões, faz ressalvas, considerando-se, sobretudo, sua tentativa,
sem sucesso, de justificar sua prescrição ou de negá-la. Tal ressalva

INDEX
ocorre, por exemplo, em trechos de sua obra de 1953, quando assume que
nenhum curso de ação deve ser exclusivamente ditado pela experiência
científica, a qual deve se aliar à experiência prática das pessoas em seu
complexo cotidiano, de modo a oferecer a melhor base para a ação efetiva
(SKINNER, 1965).
Ao prescrever o bem da cultura como o principal valor ético na ordem
da geração de práticas culturais, ou seja, como o valor que explica quais

BOOKS
sao as consequências, as razoes ou os valores derivados que devem servir
como critério para a escolha de práticas que promovam a sobrevivência
da cultura, Skinner estaria tentando ‘convencer’ sua audiência, por meio
de conselhos ou recomendações, a trabalhar para o bem da cultura. E uma
prescrição, uma sentença do tipo Você deve’ e não uma descrição (MELO,
2008). Segundo Dittrich (2004), o autor busca modificar o comportamento
de sua audiência em uma direção que considera eticamente correta. Há
a ‘eleição’ de um bem e essa é inspirada pelo modelo de seleção pelas
consequências.
GROUPS
4. A tecnologia do comportamento proposta nos textos
skinnerianos: o caminho para uma ética aplicada

Como afirmamos anteriormente, o aspecto inaugural da ética de


Skinner - e motivador de toda a discussão do autor sobre o assunto - é
sua ética aplicada. Nesse sentido, Skinner propôs, desde sua obra de 1948,
que os conhecimentos oriundos da ciência do comportamento tivessem fins

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práticos: fossem utilizados para solucionar problemas da vida diária, tornar


os indivíduos mais felizes e contribuir para a sobrevivência da cultura. Tais
propostas permeiam toda sua obra.
Nessa direção, é possível afirmar que a defesa de Skinner em relação
à utilização da tecnologia comportam ental de determinadas maneiras
representa uma importante faceta da ética skinneiiana, denominada ‘ética
aplicada’ (CASTRO, 2013).
Pode -se argumentar que há três âmbitos principais nos quais a
tecnologia comportamental aparece na obra do autor: na psicoterapia, na
educação e no planejamento cultural descrito em Walden two (MELO, 2008).
Abordemos brevemente cada um deles.

INDEX
4.1 A psicoterapia
Skinner (1965) discute que a psicoterapia é um campo de estudo
e de intervenção que trata dos produtos colaterais do controle sobre o
comportamento humano, principalmente relacionados ao controle aversivo
gerado pelo ambiente social e, nesse caso, também pelas agências de
controle como a religião e as agências governamentais. A psicoterapia tem

BOOKS
como objeto de análise e intervenção a emoção (como produto colateral
do comportamento, que está englobada príncipalmente no comportamento
respondente) e o comportamento operante.
Na obra de 1953, Ciência e comportamento humano, Skinner trata a
psicoterapia como uma agencia especial de controle. Especial porque ela
não seria tão organizada como a religião ou o governo, mas como uma
profissão engajada no controle do comportamento humano. A psicoterapia

GROUPS
com base nos pressupostos da ciência do comportamento identifica que
o comportamento que é desvantajoso para o indivíduo ou para o grupo é
produto de uma história genética e ambiental. O que é ‘desvantajoso’ ou
‘perigoso’ deve ser analisado em cada caso de acordo com as consequências
do(s) comportamento(s) problema(s) para o indivíduo e para os outros.
Skinner (1965, p. 372) afirma que a tarefa do terapeuta é completar
uma história pessoal de tal modo que o comportamento já não tenha essas
características”. Entendemos que, ao situar a psicoterapia como uma agência
de controle neste sentido, modificadora de comportamentos desvantajosos
ou perigosos para o grupo, pode-se pensar a posição do autor como, ao

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

menos, descrevendo a psicoterapia como uma tecnologia comportamental


que provê mudanças que podem favorecer o grupo e, em um sentido mais
amplo, favorecer o grupo significa favorecer a própria cultura, contribuindo
para que ela resolva seus problemas e, por fim, sobreviva.
Entretanto, Skinner (1965) sustenta que, de certo modo, a psicoterapia
como uma agência de controle pode estabelecer comportamentos nos
indivíduos de contracontrole às outras agências como à religião e ao governo,
principalmente no que se refere ao controle aversivo estabelecido por tais
agências. Nesse sentido, o autor salienta que a psicoterapia pode favorecer
certos comportamentos ‘egoístas’ em relação ao governo e à religião, ao
enfraquecer a estimulação aversiva derivada dessas agências de controle.

INDEX
Mas, por outro lado, a psicoterapia também prepararia o indivíduo para a
aceitação do controle aversivo gerado pelo grupo por meio dessas agências
e, sendo assim, o comportamento ‘egoísta’ pode ser minimizado.
Sugere-se que o autor defende um comportamento ‘egoísta’ apenas
quando há a necessidade de contracontrole ao controle aversivo gerado
por tais agências. Por fim, ele argumenta que o contracontrole gerado
pela psicoterapia ou por outras agências semelhantes é necessário em um

BOOKS
mundo em que técnicas poderosas e mal empregadas de controle aversivo
trazem desvantagens para o grupo e para os indivíduos. Assim, nota-se
a preocupação de Skinner para o uso de uma tecnologia que favoreça o
grupo (pode-se inferir como grupo mais amplo a própria cultura e a espécie
humana) e, ao mesmo tempo, o indivíduo.
O autor também salienta a possibilidade do mau uso da própria
psicoterapia. A psicoterapia como uma agência de controle pode exercer

GROUPS
um controle exacerbado como qualquer outra. Nesse caso, os padrões
éticos da cultura e os procedimentos empregados pela profissão organizada
devem exercer contracontrole efetivo para que não ocorra o abuso do poder
oriundo dessa prática. Essa questão salienta que a tecnologia pode produzir
consequências no mundo de acordo com os valores implícitos na teoria
skinneriana, mas também pode produzir consequências contrárias a esses
valores, elas podem ser utilizadas para o bem ou para o mal. De acordo
com a perspectiva skinneriana, pode-se argumentar que o uso da tecnologia
para o bem implicaria o favorecimento do bem da cultura ao mesmo tempo
em que favorecesse o bem do indivíduo. O autor ainda salienta que o mau

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uso da psicoterapia e a explicitação de que a psicoterapia comportamental


trabalha com o controle do comportamento humano (explicitação porque,
para o autor, todas as outras psicoterapias o fazem, porém negam que o
comportamento humano possa ser controlado) acabam por popularizar as
psicoterapias tradicionais. A questão não é a do controle, mas como ele é
empregado.
Em um sentido mais amplo, Skinner (1989) aponta que a terapia
comportamental pode contribuir para que as pessoas ‘estejam bem consigo
mesmas’. Esse estado introspectivamente observado é gerado por um corpo
que é positivamente reforçado, e indica uma forte probabilidade de ação e
liberdade de estimulação aversiva. Para o autor, essa terapia, quando bem-

INDEX
sucedida, acaba por construir um repertório comportamental efetivo, com
alta probabilidade de ação —efetivo na remoção de reforçadores negativos
desnecessários e na multiplicação de reforçadores positivos. Skinner (1989)
salienta que, nesse contexto, as pessoas vivem bem e que algo desse tipo
deve ser feito para todos, para a cultura como um todo. Um exemplo
disso seria Walckn two, em que os problemas dos indivíduos e da cultura
são tratados todos de uma vez (modificando todo o ambiente cultural) e,
como resultado, tem-se pessoas que ‘estão bem consigo mesmas’. O autor

BOOKS
discorre:

É provável que não consigamos nos direcionar


rapidamente para esse tipo de mundo melhor, mas,
penso eu, é valioso tê-lo como modelo. Todo o avanço
na terapia comportamental vai nessa direção, porque ela
começa mudando o mundo em que as pessoas vivem e
assim, apenas indirctamente, o que elas fazem e sentem
(SKINNER, 1989, p. 84).

GROUPS
Mas Skinner salienta que o primeiro passo para a construção de um
mundo em que todos vivam bem é parar dc construir um mundo no qual
será impossível viver. Ele cíta os problemas humanos mais amplos como
superpopulação, guerras, poluição ambiental, consumismo etc., e defende
que são problemas do comportamento humano e, como tais, devem ser
tratados também pela ciência do comportamento. Construir um mundo
melhor pode começar por construir um mundo cujas contingências não
sao incompatíveis com o ‘futuro do mundo’ (como os exemplos citados).
Para o autor, construir um mundo melhor “[...] não será fácil, mas ao menos

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c u l t u r a , d e m o c r a c i a e e t i c a

poderemos dizer que dispomos de uma ciência e de uma tecnologia que


atendem aos nossos problemas básicos” (SKINNER, 1989, p. 84).
É clara a preocupação do autor para que a ciência do comportamento
produza uma tecnologia que possibilite uma ação na direção de um
mundo melhor. E, sendo assim, podemos entender que a psicoterapia
comportamental, para Skinner, deve contribuir para que o indivíduo ‘esteja
bem consigo mesmo’ modificando seu ambiente de forma a favorecer o
fortalecimento de sua cultura.
Entretanto, entende-se que Skinner defende a psicoterapia como
uma tecnologia para a resolução dos problemas humanos enquanto esses

INDEX
problemas não são resolvidos com um planejamento cultural. Embora
também em Waldtn two haja psicoterapia, ela existe como um método
suplementar para resolução dos problemas individuais nos quais uma
mudança nas contingências culturais não fora necessária. O que é bem
diferente do que se observa no mundo ocidental atual, ou seja, muitas
pessoas recorrem à psicoterapia por problemas que são originados pelas
nossas culturas e pouco se vê de planejamento para a eliminação das
contingências que geram esses problemas. O fato é que a psicoterapia na

BOOKS
qualidade de tecnologia do comportamento é útil, mas o ideal seria que ela
não fosse necessária. Provavelmente é o que pensaria Skinner. Além disso,
o autor também faz algumas críticas às terapias tradicionais e ao próprio
modelo médico de terapia, que para ele funcionam porque de alguma forma
modificam as contingências de reforçamento. Ele poderia defender que as
terapias tradicionais funcionam assim como funcionam a feitiçaria c a ‘cura’
por meio dos rituais religiosos.

GROUPS
4.2 Uma tecnologia do ensino
A obra The technology o f teaching (SKINNER, 1968) nos indica grande parte
dos problemas atuais do sistema educacional, mesmo tendo sido publicada
há 40 anos (BAND1N1; DE ROSE, 2006). Nessa obra, Skinner defende que
a tecnologia comportamental deve promover um ensino eficaz e, em última
análise, defende-se aqui que tal ensino implica favorecer o fortalecimento da
cultura na qual os estudantes estão inseridos, em equilíbrio com o bem-estar
desses alunos.

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Skinner (1968) defendeu que, no planejamento de contingências


necessárias para um ensino eficaz, devemos pesquisar inicialmente
qual é o comportamento final que se pretende estabelecer; quais são os
reforçadores que estão disponíveis para a modelagem e a manutenção
desse comportamento; qual é a resposta inicial para a modelagem do
comportamento final; como os reforços podem ser esquematizados de
modo a manter o comportamento desejado fortalecido mais eficazmente.
As máquinas de ensinar (que atualmente seriam subsdtuídas pelos
computadores) e a instrução programada poderiam contribuir para isso.
Dentre algumas características em que a tecnologia da educação
deveria produzir está a criatividade, que está diretamente relacionada com

INDEX
a resolução de problemas. Comportamento criativo pode fortalecer uma
cultura porque produz variabilidades necessárias à sua evolução, novas
práticas que contribuam para a resolução dos problemas de um grupo
podem ser propiciadas na educação formal dos membros da cultura e, nesse
sentido, a tecnologia do ensino poderia ajudar. Obviamente, nem todo o
comportamento original é vantajoso para o indivíduo ou para uma cultura.
Skinner (1968) salienta que um pesadelo pode ser tão original quanto uma
obra de arte ou uma pintura, entretanto, não o desejamos. Novidades,

BOOKS
inovações e idiossincrasias que nascem do comportamento individual
podem scr válidas para o fortalecimento de uma cultura.
Qual é o lugar para o imprevisível, para o incontrolado, ou seja, para
o comportamento criativo no ensino aparentemente padronizado por uma
tecnologia do ensino? Uma abordagem comportamentalista radical define
que a criatividade pode scr ‘produzida’ e, sendo assim, o ensino deve gerar
comportamentos criativos.

GROUPS
Um dos principais papéis do ensino é a transmissão do conhecimento
adquirido em uma cultura. A educação trabalharia, então, para a construção
de extensos repertórios comportamentais. Entretanto, Skinner (1968)
enfatiza que ensinar o que já foi descoberto pode entrar em conflito
com ensinar como descobrir por si só e, sendo assim, apresentar um
comportamento original. O autor defende que um ‘meio term o’ é o caminho
para a originalidade que uma tecnologia do ensino deve perseguir.
Todavia, um problema consiste no fato de que nem todo comportamento
criativo é benéfico para o indivíduo ou para uma cultura. Há aqui certa

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

encruzilhada. Se o controle de estímulos é preciso, o aluno aprende ‘bem’,


mas não há o favorecimento da criatividade. Por outro lado, se o controle de
estímulos é pouco rígido, o aluno pode não aprender ou aprender mal, mas
pode haver maior probabilidade da emergência do comportamento criativo.
Além disso, mesmo o aluno, ao apresentar o comportamento criativo, esse
podería não ser benéfico. Defende-se que há a necessidade de a tecnologia
do comportamento ser efetiva na produção da originalidade ‘benéfica’, e
da aprendizagem de comportamentos importantes para o indivíduo e para
a sua cultura. Argumenta-se aqui que, como cientistas do comportamento,
precisamos experimentar e testar novas tecnologias que produzam o
comportamento criativo eficiente. Além disso, precisamos conjuntamente

INDEX
possibilitar a aprendizagem efetiva para o indivíduo e para sua cultura.
O comportamento criativo é uma das fontes de variação necessárias
para o processo de seleção, são novas variações. Ao propor uma tecnologia
do ensino, Skinner (1968) defendeu que ela deveria contemplar em seus
objetivos o ensino do aprender a pensar, contribuindo para a resolução
de problemas heurísticos. Em última análise, promover contingências
necessárias para a produção da originalidade. A educação para a criatividade
pode fortalecer uma cultura ao produzir novas práticas culturais que

BOOKS
resolvam os problemas por ela encontrados.
Skinner (1968) enfatiza que a educação tem o importante papel de
garantir um comportamento aceitável do estudante no mundo, assim divide
a responsabilidade com as instituições éticas, religiosas e governamentais
de possibilitar ao estudante o comportamento ético condizente com sua
cultura. A educação pode facilitar a resolução de problemas éticos com que
o indivíduo pode se deparar em ambientes não educacionais.

GROUPS
A cultura pode precisar ensinar a resolução de problemas éticos para
que o indivíduo chegue a suas próprias regras de acordo com cada contexto.
Ao ensinar técnicas de autocontrole e autogoverno, ou seja, ao ensinar ao
estudante sobre como seu organismo funciona, a educação pode facilitar
a resolução de problemas de ordem moral com os quais os estudantes se
depararão fora do contexto escolar. Para o autor: “um homem educado
é talvez mais apto para se adaptar ao seu ambiente ou para ajustar-se à
vida social de seu grupo, e uma cultura que valoriza a educação tem mais
probabilidade de sobreviver” (SKINNER, 1968, p. 200).

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Mas não é apenas o comportamento do estudante que está em questão


se queremos implementar uma educação que favoreça a sobrevivência de
uma cultura. Segundo Skinner (1968), o “[...] comportamento de todo o
sistema [...]” influencia a política educacional. O comportamento daqueles
que ensinam, dos que realizam as pesquisas relacionadas à educação, dos que
administram as instituições educacionais, dos que estabelecem as políticas
educacionais e dos que mantêm a educação. Todo esse sistema determina
quem será ensinado, por quanto tempo, que conteúdo será ensinado, a
qualidade do ensino etc. Para o autor, a ciência do comportamento deve
contribuir para que todo o sistema educacional trabalhe no sentido de
fortalecimento da sua cultura. Vejamos o que ele diz: “A sobrevivência é

INDEX
um valor difícil. Idealmente, um sistema de educação deve maximizar as
oportunidades que a cultura tem não só de lidar com seus problemas, mas
de aumentar firmemente sua capacidade de fazê-lo” (SKINNER, 1968, p.
232).
Segundo Skinner (1968, p. 227), para planejar uma cultura que
favoreça a sua sobrevivência, é preciso identificar 1) quais problemas a
cultura enfrentará, 2) quais comportamentos humanos contribuirão para a

BOOKS
resolução desses problemas e 3) quais técnicas promoverão a emergência
de tais comportamentos. A previsão dos problemas é da alçada de várias
áreas do conhecimento, os comportamentos que possibilitarão sua solução
podem ser investigados pela análise do comportamento, e as técnicas que
promoverão os comportamentos ou as práticas culturais necessárias à
resolução dos problemas de um grupo devem ser proporcionadas por uma
tecnologia da educação.
Novamente a posição do autor é pela defesa de uma ciência que produz

GROUPS
uma tecnologia que ‘deve’ trabalhar para o fortalecimento da cultura.
Sendo assim, as práticas educacionais devem ser avaliadas de acordo com
sua efetividade para este empreendimento. Skinner (1968) ressalta que
uma cultura que faz o melhor uso de uma tecnologia educacional eleva
ao máximo as suas probabilidades de sobrevivência e, portanto, eleva sua
contribuição para as culturas do futuro. Quem deve ser ensinado, quanto
deve ser ensinado e o que se deve ensinar são questões relacionadas com
a política educacional e suas discussões e intervenções podem favorecer o
fortalecimento da cultura.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

A tecnologia do ensino proposta por Skinner (1968), desde as máquinas


de ensinar, que implementam a instrução programada, até o planejamento
de contingências necessárias para ensinar ao aluno a pensar e a comportar-se
de forma original, deve servir para o fortalecimento da cultura e, portanto,
das culturas do futuro. Para o autor: “[...] não é fácil antever o que serão
os escritores, artistas, estadistas e cientistas do futuro, mas com auxílio da
análise experimental do comportamento, as potencialidades do organismo
humano podem ser cabalmente exploradas” (SKINNER, 1968, p. 237).

4.3 Walden two: a utopia skinneriana


Como um exemplo da aplicação da ciência do comportamento

INDEX
aos problemas sociais, Skinner (1969, 2005) defendeu o planejamento
cultural como ‘um experimento de comportamento’. Walden two descreve
uma comunidade imaginária em que toda a tecnologia comportamental
empregada para seu planejamento e para a manutenção de práticas culturais
possui como critério de julgamento explícito o valor de sobrevivência da
cultura em equilíbrio com o bem-estar do grupo. Vejamos alguns aspectos
dessa tecnologia no planejamento de uma cultura.

BOOKS
Uma das características essenciais que ocorre em todo o planejamento
de Walden two é que essa sociedade, diferente das sociedades ocidentais
atuais, eliminou todos os processos culturais cerimoniais e mantém as
contingências culturais por processos tecnológicos (GLENN, 1986). Tais
termos não sao skinnerianos, entretanto, fornecem-nos algumas descrições
amplas e precisas de Walden two.
Segundo Glenn (1986), contingências tecnológicas envolvem
comportamentos que são mantidos por mudanças não arbitrárias no

GROUPS
ambiente. O poder de todos os reforçadores em contingências tecnológicas
está relacionado com sua utilidade, seu valor ou sua importância para
aqueles que estão envolvidos nessas contingências. Já no comportamento
ou nas práticas culturais mantidas por contingências cerimoniais, o poder
reforçador está no controle social do status, da posição ou da autoridade do
agente reforçador, independente das mudanças ambientais que beneficiam,
diretamente ou não, as pessoas que se comportam. Um exemplo é que um
aluno pode ter seu comportamento de ir à escola e de estudar mantido
por consequências diretamente relacionadas ao comportamento de estudar.

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Podem ser elas: aprender sobre um novo país, aprender como manipular
uma ferramenta que lhe será útil, aprender matemática e com isso aumentar
a probabilidade de cuidar bem de seu dinheiro etc. É um exemplo de um
comportamento mantido por contingências tecnológicas. Por outro lado,
esse mesmo aluno poderia ter seu comportamento de estudar mantido por
consequências que não estão relacionadas com as consequências naturais do
estudar. Poderíam ser elas: admiração do professor, dos colegas c dos pais
por ter boas notas, premiações de seus pais com viagens e diversões ao obter
boas notas, eliminar uma ‘bronca’ de seus pais caso não estude etc. Seria
um comportamento mantido por contingências cerimoniais. No caso das
contingências mantidas por processos tecnológicos, os reforçadores sociais

INDEX
são utilizados apenas para mediar as relações entre o comportamento e seus
efeitos práticos.
Para Glenn (1986), os processos tecnológicos possibilitam maior
probabilidade de o comportamento operante ser efetivo quando ocorrem
mudanças ambientais, o que pode vir a contribuir para a sobrevivência do
grupo e do indivíduo. Entretanto, operantes e práticas culturais mantidos
por contingências cerimoniais retardam e até mesmo impedem mudanças.
Com isso, tem-sc que ao ‘abdicar’ do controle cerimonial e planejar práticas

BOOKS
culturais mantidas por controle tecnológico, Walden two apresenta-se
como uma sociedade que acaba por manter práticas culturais com valor
dc sobrevivência positivo, mas é ‘flexível’ quando as contingências exigem
soluções rápidas em que novas práticas devam emergir. Segundo Glenn
(1986), em Walden two o valor de qualquer comportamento é julgado em
termos de suas consequências práticas para os indivíduos juntamente com
o seu grupo.

GROUPS
Um exemplo é que todo e qualquer comportamento interpessoal não
é. mantido por reforçadores sociais arbitrários como méritos, admirações,
gratidão, fama etc., ou reforçadores negativos como expressões de culpa,
desaprovação etc. Os comportamentos são mantidos por processos
tecnológicos. O comportamento interpessoal apenas produz consequências
interpessoais, ele nao é ‘trocado’ por outros reforçadores tais como dinheiro,
segurança econômica, status ou posição social.
A família com a função de prover segurança física e psicológica foi
suprimida em Walden two, Todas as relações familiares perpassam pelo

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CULTURA, DE MOCRACIA E ET1CA

comportamento interpessoal e são mantidas por consequências tecnológicas.


A comunidade foi planejada de forma que essas relações sejam efetivas e
genuínas. Neste sentido, relações interpessoais efetivas e genuínas podem
ser exemplos de práticas culturais que fortaleçam a cultura, no sentido de
que a efetividade dessas relações pode produzir consequências culturais
positivas, como efetividade na educação das crianças, que deve resultar
em indivíduos mais adaptados à cultura e mais criativos; efetividade nas
relações entre homens e mulheres, que pode produzir mais cooperação no
desempenho das diversas atividades importantes para o fortalecimento da
cultura etc.
O sistema educacional também é um bom exemplo do uso da tecnologia

INDEX
comportamental no planejamento de uma cultura que assumiu o valor de
sobrevivência como critério. Em Walden two não há escolas como as que
conhecemos nas sociedades ocidentais. Há um sistema complexo voltado
para a educação das crianças, mas que se estende para toda a vida de um
indivíduo que se interesse pelo aprendizado de alguma nova habilidade ou de
um novo conhecimento. Toda a comunidade engaja-se em comportamentos
para estimular as crianças em todas as artes e ofícios, em instruí-las quando
necessário. A educação não tem restrição de idade, logo qualquer membro

BOOKS
que se interesse em adquirir uma nova habilidade ou conhecimento tem essa
possibilidade. Assim, a educação em Walden two é mantida por processos
tecnológicos, não há a necessidade de títulos e admirações para a manutenção
dos comportamentos necessários para a aprendizagem.
A ciência também é encorajada em Walden two. E interessante ressaltar
que a pesquisa científica é realizada em todos os espaços daquela comunidade.
A ciência, tanto a aplicada como a ‘ciência pura’, contribui dirctamcnte

GROUPS
para o fortalecimento de uma cultura, uma vez que pode produzir desde
tecnologias que proporcionem a sobrevivência física de uma cultura até um
conhecimento original sobre a natureza e sobre o comportamento humano,
que possa favorecer uma melhor aplicação das técnicas anterior mente
desenvolvidas. Mesmo que as atividades científicas não indiquem sua
contribuição imediata com a sobrevivência de uma cultura, elas produzem
um conhecimento que pode ser útil em vários campos na resolução de
problemas futuros que uma cultura poderá enfrentar. É consenso entre
os intelectuais de nossa época que uma cultura forte incentiva as práticas
científicas em todas as suas formas.

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Em Walden two, o autor também descreve cinco pontos principais


necessários para uma “boa vida” em uma cultura preocupada com sua
sobrevivência. Tais como —a saúde é melhor do que a doença; um mínimo de
trabalho desagradável é parte da boa vida; a boa vida significa oportunidade
para exercer talentos e habilidades; há o fomento do comportamento
interpessoal genuíno; a boa vida significa também relaxamento e descanso.
Para Skinner (2005), a £boa vida’ assim descrita tem uma justificação
experimental e não racional. Não há em Walden two ‘leis morais’, há o Código
Walden que define algumas regras de conduta, mas que pode ser modificado
de acordo com as contingências. Sendo assim, o que se observa é, segundo o
autor, uma ética experimental. Todas as práticas que devem levar ao tbem de

INDEX
todos’ são constantemente avaliadas e novas práticas sao experimentadas.
Portanto, não há um código absoluto e, sendo assim, essa ética consiste
em uma ética da experimentação. Em um diálogo entre Fra2 Íer e Castle
(personagens de Walden tato) Skinner apresenta sua voz:

Qual é a natureza humana? Quero dizer, quais são as


características psicológicas básicas do comportamento
humano - as características herdadas sc existem, e as
possibilidades de modificá-las e de criar outras? Esta é,

BOOKS
certamente, uma questão experimental - a ser respondida
por uma ciência do comportamento. E quais são as
técnicas, as práticas de engenharia que irão modelar o
comportamento dos membros de um grupo de maneira
que ele funcione eficazmente para o bem de todos? Essa
também é uma questão experimental, Sr. Castle —a ser
respondida por uma tecnologia comportamental. Requer
todas as técnicas da psicologia aplicada, desde as várias
maneiras de manter contato com opiniões e atitudes até
as práticas educacionais e persuasivas que modelarão

GROUPS
o indivíduo do berço ao túmulo. Experimentação, Sr.
Casde, não razão. Experimentação com a vida —poderá
haver algo mais fascinante? (SKINNER, 2005, p. 162).

Assim, defendemos que Skinner construiu uma ciência do


comportamento humano e propôs, por meio da tecnologia do
comportamento, o desenvolvimento de comportamentos individuais e
práticas culturais que podem promover o fortalecimento da cultura e a
sobrevivência da humanidade. Nesse sentido, Skinner apresenta não só uma
ciência dos valores, como o autor argumentou explicitamente, mas uma

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

ética aplicada e experimental quando o autor defende o uso da tecnologia


do comportamento. Lembremos que toda a tecnologia proposta poderia ser
utilizada para a promoção exclusiva do bem individual, mas isso não estaria
em concordância com os inúmeros argumentos defendidos pelo autor.

5. Considerações finais

Com base no que foi exposto, pode-se argum entar que Skinner
defendeu a ciência do com portam ento (no caso a análise do
com portam ento) como a ciência que nos daria a resposta do que

INDEX
‘deveriamos* fazer além do ‘com o’ fazer. Poderia responder a questões
dos dois tipos: ‘o que é?’ e ‘o que deve ser?1. Ou seja, nos oferecería
respostas científicas, tecnológicas e éticas.
Segundo Leigland (2005), Skinner seria contrário à visão tradicional de
que a ciência trata apenas das declarações de fato; além disso, os valores
dos cientistas podem ser agentes potenciais de mudanças sociais. Nessa
perspectiva, a ciência nos diria como, quando, onde devemos intervir

BOOKS
e por que, com suas análises, suas previsões e suas explicações. Isto é, a
ética skinneriana, além de nos brindar com uma ciência dos valores e um
sistema ético, apresenta, também, um viés normativo e aplicado. Skinner
nos prescreve o bem da cultura como o valor a ser ‘perseguido’, um
valor ‘inspirado’ na ciência do comportamento humano que indica que a
sobrevivência ‘é’ o critério final.
Além disso, caberia à tecnologia (e a tecnologia do comportamento
apresenta um papel fundamental na promoção de mudanças, uma vez que

GROUPS
grande parte de nossos problemas são ‘problemas de comportamento’) o
estabelecimento de um planejamento de práticas culturais com valor de
sobrevivência positivo. Para Skinner, a tecnologia do comportamento, desde
sua construção até sua aplicação, nos fornece os meios para a produção
do comportamento que, ao participar de práticas culturais, fortalece uma
cultura. A tecnologia — entendida como a produção deliberada dc certas
consequências no mundo utilizando-se do conhecimento científico —
também apresenta implícita ou explicitamente um valor, ela não é despida
de valores.

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É sobre esses âmbittxs que o analista do comportamento deveria se


pautar, pois todo projeto científico implica compromissos filosóficos.
Isso porque o comportamentalismo radical de Skinner, como filosofia,
apresenta a defesa do bem da cultura como valor fundamental de sua
filosofia moral.
Cabe ressaltar que o bem da cultura dá relevo à sobrevivência
da humanidade, da espécie humana. Além disso, a proposição de um
planejamento cultural que favoreça a sobrevivência ‘deve’ também
estabelecer um equilíbrio com o benefício individual. Ou seja, o equilíbrio
entre a produção de bens individuais c o bem da cultura possivelmente
apenas será alcançado com planejamento efetivo e não como produto de

INDEX
‘felizes acidentes’.
Tendo em vista a breve apresentação da ética de Skinner feita até aqui,
evidencia-se que a passagem de uma ciência dos valores e de seu sistema
ético para uma ética prescritiva -norm ativa e aplicada - é problemática.
E nosso compromisso filosófico com o compor tamentalismo radical
nao precisa ser cego. Importante que a comunidade dos analistas do
comportamento também pense criticamente sobre os problemas internos,

BOOKS
de modo a garantir que a análise do comportamento seja mesmo científica,
e não dogmática.
Os fundamentos apresentados por Skinner em sua ética descritiva,
ao contrário do que ele procura argumentar, não são necessários nem
suficientes para a elaboração de imperativos éticos. Ademais, apontam para
o risco de uma tecnocracia3 (CASTRO, 2013). Seria possível, por exemplo,
defender coerentemente - isto é, sem contradição com os pressupostos
tia teoria científica, da ciência dos valores — um planejamento cultural

GROUPS
fundamentado nos bens individuais, em que, por exemplo, os membros
da cultura usufruíssem de todos os recursos naturais, fizessem sexo sem
proteção e não tivessem nenhuma preocupação em relação ao futuro da
própria humanidade (CASTRO, 2013; DITTRTCH, 2008). Mas essa talvez

3 Ao mesmo tempo, há quem argumente (RICHELLE, 2003) que as propostas éticas


de Skinner, se implementadas de acordo, seriam extremamente subversivas, pois
desafiariam governos, sistemas econômicos, religiões c as formas de educação (como
ocorreu na fictícia comunidade de W alâen tw ò ), pois essas instituições garantem um futuro
incompatível com o futuro da humanidade.

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nao fosse a inspiração mais interessante produzida pelo modelo dc seleção


pelas consequências.
Conform e argum enta Chiesa (2003, p. 296), a sobrevivência da
espécie pode ser um valor im portante para Skinner, cujas tendências
hum anistas são bem conhecidas, porém , “ [...] a filosofia e a prática
científica do com portam entalism o não conduzem inevitavelm ente a
promover a sobrevivência como um valor. [...] Sem dúvida os valores
nao em ergem da m etaética” .
De acordo com Zuriff (1980), a ciência só pode dizer ‘A deve fazer X ’
se X já for um reforçador. Kendler (1993) aponta que a sobrevivência em si
não é uma propriedade universal do mundo biológico. Também há morte.

INDEX
Sobrevivência e morte fazem parte de um único fenômeno: a evolução.
Segundo Kendler, a linha de raciocínio de acordo com a qual os princípios
evolutivos são interpretados de modo a sugerir que a sobrevivência é o
imperativo moral último é rejeitada por Dawkins, pois ele afirma que a
evolução é cega, sem propósito, inconsciente, não havendo implicações
éticas na teoria da evolução.
Mas a questão aqui é: e quando é possível torná-la consciente e agir sobre

BOOKS
ela ‘intencionalmente’, corrigindo alguns de seus ‘erros’? Ironicamente,
reaparece o te/os; não como um futuro que controla o presente, mas como
uma previsão do futuro que controla o presente. Daí a defesa de Skinner
pelo planejamento e intervenção, sendo esses mesmos incoerentes com
uma ciência determinista. Neste caso, então, seria necessário um modelo
diferente de ciência no qual coubesse o te/os?
À guisa de conclusão, entendem os que o com portam entalism o

GROUPS
radical, como filosofia de um a ciência do com portam ento, fundamenta
essa ciência e guarda em si uma ética, em seus vários aspectos.
Longe da defesa por um a distinção ontológica entre fato e valor, o
com portam entalism o radical de Skinner apoia e defende um princípio
ético, inspirado na análise do com portamento. O bem da cultura é,
portanto, o principal valor que, segundo Skinner, ‘deve’ nortear nossas
práticas e a tecnologia do com portam ento teria papel fundam ental na
intervenção social para um mundo melhor. A defesa de uma intervenção
para uma cultura melhor, que sobreviva e enfrente seus problem as —
ou seja, a defesa do delineam ento cultural em prol do bem da cultura

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— é o pilar da ética skinneriana. N este capítulo, tentam os apresentar


brevem ente as propostas éticas de Skinner, seus fundam entos e alguns
dos riscos e problem as inerentes a elas.

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BOOKS
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Capítulo 3

Skinner, democracia e anarquia


José Antônio Damásio Abib

Considerações iniciais

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Em seu ensaio Comportamento humano e democracia , publicado em 1987,
Skinner critica o Estado de bem -estar social. Poderiamos, então, pensar
que ele é solidário com o Estado mínimo (pois um alvo, o preferido
quiçá, dos defensores desse Estado é o Estado de bem -estar social),
com o liberalism o c com o partido republicano. Porém, esse cenário
muda de figura quando consultam os sua novela, Walden tu>oy publicada
originalm ente em 1948, e verificam os que os dirigentes dessa pequena

BOOKS
com unidade utópica não são eleitos, o que, certam ente, viola o princípio
básico da dem ocracia. Poderiamos, então, pensar que Skinner não é um
adepto da dem ocracia, uma ilação que não tería sido feita pela prim eira
vez. Com efeito, Newman (1993, p. 171) m enciona que Sir K arl Popper
não som ente acusou Skinner de ser “ [...] um inim igo da liberdade e da
dem ocracia”, como também se recusou a assinar o M anifesto humanista
dois porque Skinner já o fizera.

GROUPS
Dado esse panorama de crítica ao Estado de bem-estar social, de
dirigentes não eleitos em Walden two, de ser acusado, por um filósofo liberal1,
de ser inimigo da democracia, é, aparentemente, inevitável concluir que
Skinner, efedvamente, não comunga com a forma democrática de governo.
Parece-nos, então, perfeitamente pertinente perguntar se Walden two seria,
por exemplo, uma tirania, haja vista que sociedades que não elegem seus

1 Sir Karl Popper fundou, ao lado de Hayek, Fnedman e outros, no ano de 1947, na Suíça, a
“Sociedade de M o n t P èk rin , uma espécie de franco-tnaçonaria neoliberal” (ANDERSON,
1995, p, 9-10).

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CULTURA, DEMOCRACIA E ET1CA

dirigentes são acusadas de autoritarismo e qualificadas como ditaduras,


tiranias, e por aí afora.

1. Formas de governo

Em sua teoria das formas de governo, Aristóteles (1997, p. 91) distingue


entre formas corretas e formas incorretas de governo. As formas corretas
visam o bem comum e as formas incorretas visam o próprio interesse.
As formas corretas são a monarquia (o governo de um), a aristocracia (o
governo de poucos), o governo constitucional (o governo da maioria)2. As

INDEX
formas incorretas são desvios das formas corretas, são elas, a tirania (desvio
da monarquia), a oligarquia (desvio da aristocracia), a democracia (desvio
do governo constitucional). Das três formas incorretas de governo, a pior
é a tirania, sendo seguida pela oligarquia e pela democracia. O interesse
próprio refere-se ao interesse de uma única pessoa (tirania), de poucas
pessoas (oligarquia), e da maioria das pessoas (democracia). Nas palavras de
Aristóteles: tirania é a monarquia governando no interesse do monarca,
a oligarquia é o governo no interesse dos ricos, e a democracia é o governo

BOOKS
no interesse dos pobres, e nenhuma destas formas governa para o bem de
toda a comunidade”.
Portanto, da perspectiva de Aristóteles, a democracia não é uma forma
correta de governo, embora seja a menos incorreta das formas incorretas.
O critério fundamental para avaliar a correção de uma forma de governo
é verificar se ela é exercida em defesa do bem para toda a comunidade e,
segundo o filósofo, a democracia defende o interesse da maioria3.

GROUPS
Se há um a coisa que é verdadeira em Walden two é a defesa do bem
comum: Walden two não é uma dem ocracia, mas visa o bem de toda a
com unidade. Entretanto, Walden two não pode ser caracterizada como
governo constitucional porque não se caracteriza pelo governo da
m aioria em defesa do bem para toda a com unidade. Se nos lem brarm os

2 Kury (1997) afirma que se trata da p o lite ia , isto c, constituição ou governo constitucional.
3 Referindo-se a Aristóteles, Bonavides (1984) diz que a p o lite ia ê a democracia, ou seja, a
democracia é o governo constitucional, e que o desvio da democracia é a demagogia ou
oclocracia. Nessa leitura, a democracia transforma-se em uma forma legítima de governo.

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3 S KI N NE R , D E M O C R A C I A E ANAR QUI A

da presença hegem ônica de Frazier, planejador de Walden two , em suas


discussões com Castle, filósofo que faz o papel de ‘advogado do diabo’
no debate com Frazier, podem os concluir, equivocadam ente, que ele é
uma espécie de m onarca legítimo, e não um tirano, visto que alm eja o bem
para toda a com unidade. Porém, Frazier é apenas um dos planejadores
de Walden two , que conta, tam bém , com uma equipe de adm inistradores.
No conjunto, eles podem ser caracterizados como uma aristocracia
tec no científica que sc norteia pela ciência do com portam ento para
planejar e adm inistrar um a pequena com unidade utópica. Na novela
de Skinner, diriam os que, seguindo Aristóteles (1997, p. 91), “ [...]
governam os m elhores homens [...] com vistas ao que é m elhor para a
cidade4 e seus habitantes”, orientados pelos procedim entos seguros da

INDEX
tecnociência. E, note-se, en passant, que não há qualquer possibilidade
dessa aristocracia tccnocientífica desviar-se para a oligarquia porque
não há ricos em Walden two\ nem Frazier, nem os planejadores, nem os
adm inistradores são ricos.

2. Governo

BOOKS
Porém, a aristocracia é uma forma de governo, e Skinner (1966, 1978)
é um crítico ácido da ideia de governo, que ele pretende substituir pela ideia
de controle. E é precisamente nesse sentido que, ao citar Abraham Lincoln,
que esta nação, sob Deus, terá um novo nascimento de liberdade; e que
o controle de pessoas por pessoas para as pessoas não pereça sobre a terra”
(SKINNER, 1978, p. 3), afirma que o presidente norte-americano disse
‘governo’ e não ‘controle’. Skinner (1978) critica a ideia de governo porque,

GROUPS
embora inicialmente signifique guiar, terminou por significar obediência à
autoridade, que é obtida por meio de controle aversivo, o que dá margem
ao contracontrole (principalmente quando o governo extrapola os limites
de sua legitimidade), como se verifica nos protestos, greves, boicotes,
revolução, terrorismo etc. E convém ressaltar que Skinner (1978) cridca não
só a autoridade, mas também o contracontrole, pois ambos se valem do
controle aversivo.

4 No caso dc W alden tw o , uma pequena comunidade experimental.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

Skinner (1966) é terminantemente contra o uso do controle aversivo


por razões as mais diversas, que, no entanto, não estão no foco deste
texto. O que nos interessa, aqui, é destacar o seu reconhecimento de que
a democracia tem um grande mérito que consiste em governar o povo
fazendo uso restrito de medidas aversivas. Isso significa dizer que teria
sido o abrandamento do controle aversivo e do contracontrole a fonte dos
grandes triunfos da democracia, como a conquista do direito à liberdade
e à vida. Esses triunfos teriam dado margem à busca pela felicidade, pelo
reforço positivo, que é a sua fonte. E estes dois triunfos, a liberdade e a
felicidade, seriam os principais objetivos de qualquer governo do povo pelo
povo para o povo*.

INDEX
Esse reconhecimento do valor da democracia não deveria, contudo,
ofuscar-nos ao ponto de não percebermos ou de ignorarmos os seus
problemas. Assim, Skinner (1978) critica a democracia, seja porque, apesar
de amainados, o controle aversivo e o contracontrole persistem, seja porque
os representantes do povo usurpam o poder que lhes é outorgado.
Após essas observações, Skinner (1978) imprime uma surpreendente
guinada em seu ensaio e passa a discutir o conceito de cultura. Ele declara
que ‘cultura’ se diz em dois sentidos: um antigo e outro moderno. No

BOOKS
sentido antigo, ‘cultura’ inclui não só as práticas familiares, ritualísticas e
religiosas, como também o artesanato, as artes etc., e exclui o Estado e a
economia. E, no sentido moderno, ‘cultura’ inclui tudo isso, inclui ‘cultura’
no sentido antigo, bem como o Estado e a economia, Esses dois sentidos
do conceito de cultura têm profundas raízes históricas e filosóficas que
passamos a examinar brevemente.

3. Conceito de cultura
GROUPS
Santos (2012, p. 24) também se refere a dois sentidos do conceito de
cultura, um antigo e outro moderno. No sentido antigo, cultura refere-se
“[...] ao conhecimento, às idéias e crenças, assim como às maneiras como
eles existem na vida social”. No sentido moderno, cultura refcre-sc “ [...]
a todos os aspectos de uma realidade social” (SANTOS, 2012, p. 23).

5 A certa altura dc seu debate com Casde, Frazier diz que a “[...] felicidade é nosso primeiro
objetivo” (SKINNER, 2005, p. 194).

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3 S K I N N E R , D E M O C R A C I A F. ANAR QUI A

No sentido moderno, referimo-nos, por exemplo, à totalidade da cultura


francesa ou da cultura xavante ou da cultura camponesa ou da cultura dos
as tecas, No sentido antigo, referi mo-nos à língua, literatura, conhecimento
filosófico e científico, por exemplo, da cultura francesa. E também nesse
sentido que nos referimos a culturas alternativas, como, por exemplo, a
cultura ecológica, a cultura do corpo, a cultura alimentar etc.
Elias, o sociólogo alemão, abre seu clássico O processo civilizador.,
publicado em 1939, fazendo um duplo contraponto no qual discute
a tensão não só entre os conceitos de civilização nos ambientes alemão,
francês e inglês; como também entre os conceitos de civilização e cultura no
ambiente alemão. No contexto francês e inglês, ‘civilização’ refere-se a fatos

INDEX
políticos, econômicos, sociais, técnicos, morais, religiosos etc. Elias (1990, p.
23) diz que, ao se referir e ao agrupar em torno de si toda essa diversidade
de fatos, o conceito de civilização tem a função geral de expressar “ [...] a
consciência que o Ocidente tem de si mesmo”. R prossegue observando
que essa consciência “ [...] resume tudo em que a sociedade ocidental dos
últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou
a sociedades contemporâneas mais primitivas” (ELIAS, 1990, p. 23, grifo
do autor). No ambiente alemão, ‘civilização’ não tem esse sentido. Com

BOOKS
efeito, de acordo com Elias, embora a palavra Zivilisation se refira a algo útil,
ela não passa de um valor de segunda classe: reconhece-se a utilidade das
esferas política, econômica, social, tecnológica, que, porém, só tratam com
a superfície da existência humana. Kultur, e não Zivilisation , é a palavra com
a qual os alemães se identificam. De acordo com o sociólogo alemão, “ [...]
o conceito alemão de Kultur alude basicamente a fatos intelectuais, artísticos
e religiosos” (ELIAS, 1990, p. 24). Ou ainda, “[...] reporta-se a produtos
humanos que são semelhantes a flores do campo6, a obras de arte, livros,

GROUPS
sistemas religiosos ou filosóficos, nos quais se expressa a individualidade
de um povo” (ELIAS, 1990, p. 24-25). O conceito de cultura no sentido
alemão adquire seu contorno mais nítido com o adjetivo ‘cultural’ {kulturell).

6 Elias (1990, p. 252) esclarece essa expressão introduzindo uma nota. na qual se refere a
Spengler: “Oswald Spengler, T h e D eclin e o f th e W est (LONDRES, 1926), p. 21: A todas as
culturas se abrem possibilidades novas de expressão que surgem, amadurecem, declinam,
e nunca mais voltam [...]. Essas culturas, essências vitais sublimadas, crescem com a
mesma soberba falta de propósito das flores do campo. Pertencem, como as plantas e os
animais, à Natureza viva de Goethe, e não à Natureza morta de Newton”.

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CULTURA, DEMOCRACIA E E T I CA

A pessoa culta é uma pessoa produtiva, nas antípodas, todavia, do sentido


neoliberal atual. Uma pessoa produtiva no sentido alemão é aquela que
produz obras que expressam a individualidade de um povo, ‘flores do
campo’, livros, obras de arte, obras filosóficas, obras religiosas. Uma pessoa
culta não quer dizer uma pessoa cultivada. Elias comenta que a palavra
‘cultivado’ (ku/tmerf) aproxima-se do conceito ocidental de civilização e que
“[...] pessoas e famílias que nada realizaram de kulturell podem ser kultivierf ’
(ELIAS, 1990, p. 24). Em suas palavras:

Tal como a palavra civilizado, k u ltiv ie r t refere-se


primariamentc à forma da conduta ou comportamento
da pessoa. Descreve a qualidade social das pessoas,

INDEX
suas habitações, suas maneiras, sua fala, suas roupas,
ao contrário de k u ltu r tíl, que não alude diretamente
às próprias pessoas, mas exclusivamente a realizações
humanas peculiares (HLIAS, 1990, p. 24, grifo do
autor)7.

O sociólogo alemão afirma, enfim, que o conceito de civilização no


sentido francês e inglês enfatiza a identidade entre os povos, minimizando

BOOKS
suas diferenças. E que, ao contrário, o conceito de Kultur enfatiza a diferença
entre os povos, a identidade particular de grupos. E que, por essa razão, o
conceito de Kultur “ [...] adquiriu em campos como a pesquisa etnológica e
antropológica uma significação muito além da área lingüística alemã e da
situação em que se originou o conceito” (ELIAS, 1990, p. 25).
Do que foi exposto, podemos, aparentemente, deduzir que o conceito
de civilização no ambiente francês e inglês aproxima-se do conceito de
cultura no sentido moderno e que o conceito de cultura no ambiente

GROUPS
alemão aproxima-se do conceito de cultura no sentido antigo. Essa dedução
ganha evidência adicional se observarmos que o conceito de cultura no
sentido moderno ganhou expressão inconteste na primeira orientação que

7 Santus (2012, p. 28) diz que a palavra ‘cultura’ c dc origem latina e que vem do verbo
co iere, que significa cultivar e que está ligada originalmente a atividades agrícolas, e que
“pensadores romanos antigos ampliaram esse significado para se referir ao refinamento
pessoal, e isso está presente na expressão cultura da alma. Como sinônimo de refinamento,
sofisticação pessoal, educação elaborada de uma pessoa, cultura foi usada desde então e é
até hoje”.

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3 S K I N N E R , D E M O C R A C I A E ANA R QUI A

estabeleceu os fundamentos da ciência antropológica: o cvolucionismo


cultural. Tanto é assim que em seu artigo A áênáa da cultura, publicado em
1871, Tylor (2009, p. 69) escreve que:

Cultura ou Civilização, tomada em seu mais amplo


sentido etnográfico, é aquele todo complexo que inclui
conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes, e
quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo
homem na condição de membro da sociedade.

As iniciais maiusculas dos termos ‘cultura’ e ‘civilização’ não são casuais.


Significam que cultura ou civilização são pronunciáveis no singular: existe

INDEX
somente uma cultura ou civilização. No evolucionismo cultural, a cultura
evolui no sentido do progresso, segundo estágios definidos, dc tal modo
que as ‘culturas atrasadas’ deverão passar obrigatoriamente pelos mesmos
estágios pelos quais já passou a ‘cultura evoluída’: a cultura ocidental. Castro
(2009, p. 17) diz que a definição de Tylor, que toma as palavras ‘cultura’
e ‘civilização’ como sinônimas, “disdngue-se do uso ‘moderno’ do termo
cultura (em seu sentido relativista, pluralista e não-hierárquico)8, que só
seria popularizado com a obra de Franz Boas, já no início do século XX”.

BOOKS
Castro diz ainda que a prática dos autores evolucionistas de se referirem à
cultura no singular teria sido modificada por Franz Boas, que passou a se
reportar à ‘cultura’ no plural. De fato, em seu ensaio As limitações do método
comparativo em antropologia, publicado em 1896, Boas (2004, p. 34) escreve,
“similaridades superficiais entre culturas”, ou ainda, “[...] história das
culturas de diversas tribos” (BOAS, 2004, p. 36). Enfim, Castro (2004, p. 35)
comenta que, desse ponto de vista, o objetivo da antropologia, “[...] passava
a ser não a reconstituição do grande caminho da evolução cultural humana,

GROUPS
mas sim a compreensão dc culturas particulares, em suas especificidades”.
‘Cultura’ no sentido antigo e ‘cultura’ no sentido moderno parecem,
então, ter trocado de sinal. O que é moderno teria ficado antigo e o que é

8 O pluralismo não deve ser confundido com o relativismo. Como escreve Berlin
(1991, p. 60), referindo-se a Vico, não se trata de defender “[...] que os homens vivam
enclausurados em sua ptópria época ou cultura, isolados em uma câmara sem janelas
e, consequentemente, incapazes de compreender outras sociedades e períodos cujos
valores podem ser muito diferentes dos seus, c que cies podem considerar estranhos ou
repugnantes”.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ET1CA

antigo teria ficado moderno. A Kultur e o pluralismo (o antigo) parecem ter


ficado modernos. E a civilização e o evolucionismo cultural (o moderno)
parecem ter ficado antigos. Essa aparente troca de sinais encontra apoio
no comentário que Berlin (1991) faz em seu livro, Limites da utopia, sobre o
filósofo italiano Giambattista Vico (1668-1744), autor de um livro clássico
sobre filosofia da história: Ciência nova (BERLIN, 1991; BOSI, 1979; BURKE,
1997; FERRATER MORA, 1984). Berlin (1991, p. 60, grifo nosso) escreve
que: “Vico é o verdadeiro pai tanto do m oderno conceito de cultura quanto
daquilo que poderiamos chamar de p lu ralism o cultural, segundo o qual
toda cultura autêntica possui seu próprio e singular ponto de vista”. De
acordo com Burke, por diversos motivos, entre os quais figurava a própria

INDEX
obscuridade da Ciência nova, foi tardia sua recepção, até mesmo entre autores
alemães, como Goethc c Herder, que sequer notaram as semelhanças
entre as idéias dele e as suas próprias” (BURKE, 1997, p. 16). Entretanto,
apesar desse atraso, é o pluralismo cultural de Vico que está no horizonte
do conceito moderno de cultura. De acordo com Berlin (1991, p. 61, grifo
nosso), isso se deve ao método de Vico que é:

Basicamente, similar àquele empregado pela maioria

BOOKS
dos antropólogos m odernos que buscam entender o
comportamento e a imaginação das tribos primitivas
(ou o que restou delas), cujos mitos, relatos, metáforas,
símiles e alegorias não são por eles descartados como
criações confusas ou desprovidas de sentido de bárbaros
irracionais e infantis (como fez o século XVIII): em
vez disso, procuram a chave que lhes permita penetrar
no mundo dessas tribos, bem como ver através de seus
olhos.

GROUPS
Segundo Berlin, esse método, que visa penetrar na mente do outro, é
denominado por Vico de fantasia, chamado mais tarde pelos alemães dc
verstehen, “[...] em oposição a wissen, a espécie de conhecimento encontrada
nas ciências naturais, onde o penetrar não está em questão, pois não
podemos penetrar nas esperanças e temores das abelhas ou dos castores”
(BERLIN, 1991, p. 62, grifo do autor). Bosi (1979, p. XI) também diz que a
metodologia de Vico consiste na fantasia poética e que “[...] por essa razão,
somente no século XIX, com a ascensão do Romantismo alemão, criou-se
um clima intelectual favorável ao seu pensamento”.

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3 S K1 NNE R , D E M O C R A C I A E A NA R QUI A

Talvez possamos esclarecer essa reversão dos sinais no conceito de


cultura em termos dos conceitos de moderno e de pós-moderno. Lyotard
(1987, p. 24) diz que o pós-moderno faz parte do moderno; comenta, por
exemplo, que Cézanne rompeu com os impressionistas e que Picasso e
Braque romperam com Cézanne, e pergunta, com que pressuposto
rompeu Duchamp em 1912?”. A primeira vista, não é, portanto, a ruptura
com o passado que caracteriza o pós-moderno, e que o diferencia do
moderno, pela simples razão de que a ruptura com o passado é a marca
do moderno. Com efeito, de acordo com Paz (1984, p. 24), o moderno,
de modo aparentemente paradoxal, inaugurou uma tradição: a tradição de
ruptura. Contudo, Lyotard escreve que “[...] uma obra só se torna moderna se

INDEX
primeiro for pós-moderna”. Logo, o pós-moderno não significa o que vem
cronologicamente depois do moderno, significa, isto sim, uma agonística,
uma crítica incessante das acomodações, fracassos e envelhecimentos
modernos. Significa uma busca incansável por rupturas, mesmo que isso
nos leve de volta ao passado, uma volta, nas palavras de Peixoto c Olalquiaga
(1987), ao ‘futuro do passado’, diante da crise contemporânea das utopias9.
O pós-moderno chama a nossa atenção para possibilidades, tendências, e até

BOOKS
mesmo realidades paralelas, que se organizam segundo visibilidades distintas.
Assim, cultura no sentido antigo (SANTOS, 2012; SKJNNER, 1978), Kuiíur
(ELIAS, 1990), a antropologia cultural de Boas e o pluralismo cultural de
Vico, conquistam maior visibilidade, apontam para possibilidades, tendências
e realidades que podemos denominar cpós-modernas\ J á cultura no sentido
moderno (SANTOS, 2012; SKJNNER, 1978), o conceito de civilização
nos ambientes francês e inglês, o evolucionismo cultural de Tylor e outros,
como Morgan (2009) e Frazer (2009), perdem visibilidade, apontam para

GROUPS
possibilidades, tendências e realidades que podemos denominar ‘modernas’.
E tentador seguir os passos de Vico (1979) e dizer que há um corso e um
ricorso: uma sequência e uma retomada. No entanto, não podemos afirmar
que o conceito de cultura no sentido antigo desapareceu com o advento

9 É como se diante da crise atual das utopias disséssemos sem perceber que reacionários
são os nossos pais; e que revolucionários são os nossos avós; e que nós mesmos só
vislumbramos distopias. Talvez, então, seja interessante perguntar aos nossos avôs como
é que eles imaginavam o futuro, e já que não somos capazes dc imaginar um futuro do
presente, talvez possamos aprender com o futuro do passado.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

do conceito de cultura no sentido moderno, e que, então, retornou10. Se


for verdade que o que temos agora é cultura no sentido moderno e pós-
moderno, somos tentados a perguntar; e, então, o que seria cultura no
sentido antigo? Uma boa resposta talvez seja esta: a obra de Vico, a Ciência
nova, Pois a Ciência nova contém uma concepção antiga de cultura. Com
efeito, Ferrater Mora (1984) diz que a filosofia da história de Vico expressa
uma visão renascentista da história, e Bosi (1979) e Burke (1997) observam
que Vico não era um pensador iluminista. Sendo assim, se tomarmos Vico
como ponto de referência, cultura no sentido pós-moderno, resgata uma
imagem renascentista da história.

INDEX
4. Democracia

Skinner (1978) discute o conceito de cultura nos sentidos antigo e


moderno porque, ao fim e ao cabo, pretende relacionar o conceito de
democracia ao conceito de cultura. E, sendo assim, já podemos deduzir
que se há dois conceitos de cultura então deve haver dois conceitos de
democracia. Inicialmente, ele expressa sua preferência pelo conceito de

BOOKS
cultura no sentido antigo. Do ponto de vista de nossa análise, Skinner
aproxima-se do conceito pós-moderno de cultura. Não pretendemos,
porém, dizer, com isso, que o que ele entende por cultura no sentido
antigo emule completamente o sentido pós-moderno, nem tampouco
que ele não teria nada a acrescentar a esse último sentido. Ao contrário,
cabe mencionar que uma de suas principais contribuições ao sentido pós-
moderno de cultura consiste em mostrar que, no sentido antigo, cultura
demarca um espaço para contingências sociais que escapam ao controle

GROUPS
das instituições, que Skinner (1966) batiza com o nome de agências de

10 Para Vico (1979), o tempo é cíclico e as três idades da história, a idade dos deuses, dos
heróis (ou dos bárbaros) e a idade humana, vão e vêm, são cíclicas. Assim, uma idade
que na sequência vem antes, na retomada, vem depois, c ‘pós’, mas é ‘pós’ na retomada,
e não na sequência. Burke (1997, p. 68) diz que depois do declínio do Império Romano, a
idade heróica ou bárbara retornou à Europa, mas que “Vico não diz sc a idade dos deuses
alguma vez retornou”, Além disso, de acordo com Burke, a recepção tardia da C iên cia
nova começou 40 anos após a morte de Vico, quando floresceu um culto ao filósofo, em
Nápoles, e quando a C iên cia n ova foi traduzida para o francês e o alemão. Portanto, se
houve ‘desaparecimento’ da C iên cia nova, ele durou 40 anos: foi somente um cochilo.

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3 S K I N N E R , D E M O C R A C I A E A NA R QUI A

controle: expressão notável, porque, na medida em que a noção de agência


aproxima-se da noção de autoria, ele insere a autoria do controle do
comportamento humano nos lugares certos: no governo, na economia, na
religião, na educação, na psicoterapia, na mídia11. E critica essas agências,
seja porque, mesmo quando ficam caducas, mesmo quando perdem a
capacidade de acompanhar as transformações sociais, elas continuam
a controlar o comportamento humano, seja porque elas justificam suas
práticas de controle apelando ao bem comum, mas o que fazem, na
realidade, é agir em interesse próprio.
O com portam ento humano está sob o controle de mediações
realizadas pelas agências de controle, o que significa dizer que as

INDEX
relações dc nosso com portam ento com a realidade são mediadas por
terceiros, por interm ediários, velando-se, desse modo, as possibilidades
de nossas relações diretas com a realidade. O controle exercido pelas
agências é uma form a de poder assim étrico que pode tudo ou quase tudo
sobre nós e que pouco ou nada podemos sobre ele. O ‘quarto estado’,
a mídia, ilustra bem a assim etria do poder exercido pelas agências de
controle. Skinner (1978, p. 28) m enciona que, no final do século X IX ,
surgiu o ‘quarto estado’, isento, aparentem ente, de m ediações, como

BOOKS
as que operavam (e continuam a operar) nos ‘três estados’, o governo,
a igreja, o sistem a econômico, que exerciam (e continuam a exercer)
seus poderes por meio, respectivam ente, da polícia e dos m ilitares, das
sanções sobrenaturais, e do dinheiro. Skinner prossegue dizendo que
o ‘quarto estado’ criticava os ‘três estados’, expressando, desse modo,
seu interesse pelo futuro da sociedade humana. Porém, escreve que
“uma im prensa que se torna instrum ento do governo, da igreja, ou do
sistem a econôm ico pode, contudo, não desem penhar mais esse papel”.

GROUPS
As palavras de Skinner estão no mesmo sentido desta observação dc
K apuscinski (citado por M ORAES, 2006, p. 5):

Rstamos vivendo duas histórias distintas: a de verdade


e a criada pelos meios de comunicação. O paradoxo, o
drama e o perigo estão no fato de que conhecemos cada1

11 Evidcntcmentc, os criadores dos sistemas de regras das agências de controle são as


pessoas e, sendo assim, a autoria é, em última análise, das pessoas. No entanto, elaborados
e instituídos, são esses sistemas que assumem o controle do comportamento humano.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

vez mais a história criada pelos meios de comunicação e


não a de verdade.

Skinner (19B6) discute cinco mediações que substituem as relações


diretas de nosso com portamento com a realidade. Elas parecem-lhe tão
im portantes que ele as apresenta como um diagnóstico sobre O que há
de errado com a vida diária no mundo ocidental. Duas dessas mediações que
nos interessam, aqui, são: o comportamento governado por regras e o
reforço planejado. O comportamento governado por regras substitui o
comportamento modelado por contingências, ou seja, o comportamento
que nos coloca em relação indireta com as coisas substitui o comportamento
que nos coloca em relação direta com as coisas. O comportamento

INDEX
governado por regras domina a vida cotidiana do mundo Ocidental,
transformando-a em uma vida comandada pelos poderes assimétricos das
agências de controle. Como decorrência do comportamento governado
por regras, o reforço planejado, o reforço artificial, passa a substituir o
reforço natural, o reforço que vigora no comportamento modelado
por contingências. Vivemos, então, dois mundos: o mundo das relações
mediadas e o mundo das relações não mediadas, e conhecemos cada vez

BOOKS
mais a vida mediada e cada vez menos a vida não mediada. A experiência
deixa de modelar o comportamento, que passa a ser controlado pelas
agências de controle.
Nesse contexto que envolve tensões entre mediações e não mediações,
relações indiretas e diretas, Skinner (1978) aponta para dois sentidos de
democracia, um que envolve e outro que não envolve mediações. Ele
diz que o termo ‘democracia’ tem um sentido especial se for aplicado à
cultura no sentido antigo, às contingências sociais que não são mantidas

GROUPS
por agências de controle; bem como um sentido mais usual, em que se
refere à cultura no sentido moderno, ao controle realizado pelas agências
de controle, especialmente pelo Estado e pela economia. Há, assim,
uma microdcmocracia: uma democracia em pequena escala. E uma
macrodemocracia: uma democracia em larga escala. E nesse contexto
de discussão que, para Skinner, a palavra ‘governo’ significa agências de
controle, vinculando-se, consequentemente, à democracia no sentido
moderno. Ou seja, ‘governo’ envolve uma concepção de controle ligada
às agências de controle. Mas há outra concepção de controle que remete

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3 S K I N NE R , D E M O C R A C I A E A NA R QUI A

à revelação do rosto humano: o controle face a face. Nessa revelação


não há mediações ou, se houver, são mitigadas, são mais fáceis de serem
identificadas e controladas. Governo e controle face a face são, portanto,
duas coisas bem diferentes. E é exatamente por isso que Skinner (1978, p.
3) sugere que se diga “[...] controle de pessoas por pessoas para pessoas
e não, como disse Lincoln, “ [...] governo de pessoas por pessoas para
pessoas” (SKINNER, 1978, p. 3). Essa distinção entre dois conceitos de
democracia coloca na ordem da discussão o tema do anarquismo.

5. Anarquismo

INDEX
Skinner (1978) refere-se à anarquia como exemplo de uma filosofia
política que defende algo parecido com o controle face a face; uma relação
que faz sentido, porque, dito de chofre, a filosofia política do anarquismo é
um ódio à autoridade, é negação da autoridade, é combate à autoridade; e o
ódio mais mortal dos anarquistas é ao Estado. Nas palavras de Costa (2011,
P- 17):

BOOKS
O ódio visceral de todos os anarquistas é contra este
leviatã da sociedade moderna, este organismo imenso e
todo-poderoso, a síntese da autoridade e da centralização,
a espada de Dâmocles que, pendida sobre a cabeça
de cada cidadão, foi paulatinamente conquistando o
poder político, econômico e social: o Estado. Todos o
fulminam com invectivas e adjetivos. Consideram-no seu
inimigo12.

GROUPS
12 A crítica dos anarquistas ao Estado não deve ser confundida com a crítica ao Estado liberal:
o Estado mínimo (mínimo com respeito à realização do bem para toda a comunidade e
máximo com respeito à realização dos interesses próprios das oligarquias e corporações).
O que os anarquistas querem é uma sociedade sem Estado, e não uma sociedade com um
Estado mínimo. O ataque dos anarquistas ao Estado foi tão virulento no século XIX, que,
segundo Costa (2011, p. 30), “[...] sem os anarquistas singelos e aventureiros Marx não
teria preconizado o fim do Estado depois da ditadura do proletariado”. Cabe observar,
todavia, que, de acordo com Bravo (1986), é necessário distinguir o antigo anarquismo,
que vigotou no final do século XIX, início do século XX, e no período da Guerra Civil
Espanhola, do novo anarquismo, que, nos anos sessenta, assumiu um tom mais moderado
em relação a entidades hierárquicas organizadas: o Estado, o governo, a lei.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

Certamente, Skinner não só não teria dificuldades em concordar


com essa descrição, como também a estendería, provavelmente, às outras
agências de controle, uma generalização que encontraria ressonância
na filosofia do anarquismo, de ontem e dc hoje, que combate não só o
Estado, mas também o capitalismo e a religião (COSTA, 2011; U N lAO
REGIONAL RHÔNE-ALPES DA FEDERAÇÃO ANARQUISTA
FRANCÓFONA, 2005).
No entanto, fazendo referência à opinião pública sobre o anarquista,
a de que se trata de um homem com uma bomba, vale-se dessa imagem
para dizer que a filosofia anarquista falhou nos meios para alcançar seus
objetivos. Referindo-se ao controle face a face, Skinner (1978, p. 9-10)

INDEX
escreve que:

Alguma coisa desse tipo tem sido proposta


ocasionalmente — por exemplo, na filosofia política
do anarquismo — mas nada podería ilustrar melhor a
falha para encontrar os meios apropriados do que o
estereótipo público do anarquista como um homem
com uma bomba.

BOOKS
Cabe ressaltar, porém, que essa imagem do anarquista não faz jus nem
à tese central do anarquismo nem à sua história. Com efeito, o anarquismo
é uma filosofia política que defende apaixonadamente o indivíduo e a
sociedade contra o Estado, o governo e a autoridade, e que viu surgir no
curso dc sua história uma notável diversidade de movimentos libertários,
tais como, o mutualismo de Proudhon, o coletivismo de Bakunin, o anarco-
comunismo dc Kropotkin, o anarco-sindicalismo13 que surgiu na França e
que sc propagou pela Europa e América, o anarquismo individualista de

GROUPS
13 Segundo Costa (2011, p. 27), o anarco-sindicalismo é “[...] a expressão mais forte c massiva
que encontrou o anarquismo em geral”. O anarco-síndicalismo criou na Rspanha a maior
organização anarquista do mundo, a CNT, e com os imigrantes chegou, no começo do
século XX, no México, na Argentina, nos F.stados Unidos e no Brasil, (insta (2011, p. 28)
escreve que no “Brasil é famosa, sobretudo a greve geral de 1917, organizada e comandada
pelos militantes anárquicos aqui radicados, muitos dos quais depois perseguidos pela
repressão do Estado e pelo stalinismo, que literalmente tentou arrasar com o anarquismo
em todo o planeta —tendo-o logrado completamente na URSS”. Para outras experiências
anarquistas no Brasil, ver J à b e r tâ n o s n o B ra sil: m em ó r ia , lu ta s, cu ltu ra (PRADO, 1986), ver
também Mello Neto (1998) sobre a Colônia Cecília no Paraná.

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3 S KI NNE R , D E M O C R A C I A E A NA R QUI A

Stirner, e o anarquismo cristão de Tolstoi. O anarquismo pode assumir


formas violentas, como no anarquismo individualista de Stirner, que defende
o interesse egoísta do indivíduo (a raiz nuclear da violência), Mas nem por
isso pode-se reduzir o anarquista à imagem de um homem com uma bomba,
pois, como observa Woodcock (1983, p, 62), embora Stirner seja um filósofo
libertário, não é possível incluí-lo no rol dos filósofos anarquistas. Por outro
lado, pode-se, ao contrário, pensar em reduzir o anarquista à imagem de
um homem com uma Bíblia. Pois, é o que diz Costa, o anarquismo cristão
de Tolstoi “[...] influenciou também os anarquistas pacifistas holandeses,
ingleses e norte-americanos. Seu maior discípulo foi Mahatma Ghandi”.
Contudo, como observa Woodcock, embora Tolstoi, como Stirner, seja

INDEX
um filósofo libertário, também não é possível incluí-lo no rol dos filósofos
anarquistas. É o que Woodcock (1983, p. 51) escreve, ao referir-se a outro
filósofo libertário:

Tal como Tolstoi e Stirner, Wiliam Godwin é um dos


grandes filósofos libertários que permaneceram fora do
movimento anarquista histórico do século XIX e que,
entretanto, pelo seu próprio isolamento, demonstram até
que ponto esse movimento teve origem no espírito da

BOOKS
época.

Costa (2011) comenta, ainda, que Tolstoi definia-se apenas como um


cristão e que são os estudiosos que o classificam como anarquista cristão.
Entre essas ‘duas radicalizações’, violência, de um lado, pacifismo, de
outro, encontram-se as outras versões de anarquismo que não podem ser
reduzidas à imagem de um homem com uma bomba; Proudhon e o anarco-
sindicalismo, por exemplo, defenderam a transformação da sociedade por

geral de sindicatos. GROUPS


meio, respectivamente, de organizações cooperativas e de uma confederação

O controle face a face é uma forma pacífica de anarquismo e é análogo


à ação direta defendida pelos anarquistas, que, nas palavras de Costa (2011,
p. 20 -21 ),

quer dizer simplesmente aceitar a responsabilidade


com todas as consequências, sem delegá-la a um
terceiro |.„] é um conceito de maturidade frente a um
conceito de infantilismo, pelo qual o homem desiste

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

de suas responsabilidades e as delega a outros, a seus


representantes, abstendo-se de fazer e pensar por sua
conta e risco14.

E o controle face a face é feito, nas palavras de Skinner (1978, p. 10),

por professores que descobrem meios melhores para


trabalhar com os estudantes na sala de aula [...] por
psicoterapeutas na consulta face a face com aqueles que
necessitam ajuda, por parentes que descobrem como
tornar a família uma instituição mais calorosa e salutar.

A democracia como cultura no sentido antigo assemelha-se à democracia

INDEX
anarquista, ao controle face a face; e a democracia como cultura no sentido
moderno assemelha-se à democracia não anarquista, ao controle exercido
pelas agências de controle. A noção de democracia anarquista é, na verdade,
paradoxal, porque a democracia, como Aristóteles disse, é uma forma de
governo, e o anarquismo nao é, evidentemente, uma forma de governo, é
ódio ao Estado, é ódio ao governo. Há, então, um paradoxo, uma tensão no
conceito de democracia anarquista, pois governo é poder, autoridade, tudo,
enfim, que o anarquismo rejeita. É possível mitigar essa tensão se aceitarmos

BOOKS
que no controle face a face e na ação direta vigoram relações de poder sobre
as quais temos mais controle do que sobre as relações de poder que vigoram
nas agências de controle, um a diferença que, naturalmente, não deveria
obscurecer o fato de que se trata de relações de poder em ambos os casos.
É possível, ainda, mitigar essa tensão se observarmos que a democracia é
uma forma de governo que, se quiser preservar sua legitimidade, não pode
ignorar a sociedade, os movimentos sociais, a voz das ruas; não pode, por
exemplo, ignorar os movimentos Occupy (HARVEY; SADER; TELLES,

GROUPS
2012) ou os recentes movimentos sociais no Brasil; não pode ignorar os
notáveis sinais anarquistas desses movimentos; não pode, enfim, alimentar
sua cumplicidade com as oligarquias econômicas e políticas15.

14 O conceito de ação direta reafirma o ódio dos anarquistas ao poder: “Abaixo o Estado, os
deputados, os prefeitos, o partido, a autoridade. Ação em casa, na fábrica, no escritório,
na terra, no amor, na vida” (COSTA, 2011, p. 2t).
15 A cumplicidade da democracia com as oligarquias transforma o governo do povo
pelo povo para o povo em governo do povo pelos representantes do povo para

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3 S K I N N E R , D E M O C R A C I A E A NA R QUI A

No campo da ficção, em Walden two , por exemplo, o anarquism o


m istura-se com a aristocracia tecnocientífica. Realm ente, há elem entos
anárquicos em Walden two , uma vez que se trata de uma pequena
com unidade na qual os planejadores, os adm inistradores e os membros
dessa com unidade podem exercer o controle face a face. Realm ente, no
Código de Walden two está previsto que qualquer pessoa pode no controle
face a face com os adm inistradores e planejadores apresentar suas
discordâncias em relação às regras do código dessa pequena com unidade
experim ental. Até aí temos os elem entos anarquistas presentes nessa
com unidade e, por essa razão, poderiam os dizer: Walden two é anarquista.
E convém ressaltar que nem mesmo o fato de cjue não haja eleições

INDEX
em Walden twoy seria uma objeção ao seu caráter anárquico, pois, sendo
contra o Estado e o governo, o anarquismo é avesso a eleições. Todavia,
seria mais adequado fazer um a observação paradoxal e dizer que Walden
two é e nao é anarquista. Com efeito, Walden two nao é anarquista, seja
porque é um a aristocracia tecnocientífica, ou por causa do trecho final
deste texto de Skinner (2005, p. 152, grifo nosso):

Com relação a desacordo, qualquer um pode examinar

BOOKS
a evidência sobre a qual uma regra foi introduzida no
Código. Ele pode argumentar contra a inclusão e pode
apresentar sua própria evidência. Se os Administradores
recusam alterar a regra, ele pode apelar aos Planejadores.
Mas em nenhum caso ele deve argumentar acerca
do Código com os membros em geral. Há uma
regra contra isso.

atender os interesses das oligarquias e aos seus próprios interesses de ascensão

GROUPS
social, em detrimento da realização do bem para toda a comunidade. Se, do ponto
de vista de Aristóteles (1997), a democracia é uma forma incorreta de governo por
contemplar o interesse próprio da maioria; cúmplice das oligarquias, ela se transforma
em uma forma muito pior de governo, por contemplar, agora, o interesse próprio das
minorias; talvez seja até mesmo pior do que a tirania, pois o tirano é visível, sabemos
quem ele é, onde ele age, tortura e mata, sabemos quem podemos combater, ao passo
que as oligarquias são difusas, dissimuladas, ideológicas, não sabemos exatamente
onde se escondem, não sabemos quem efetivamente devemos combater. Dante
Alighieri (1979) destinaria tais representantes do povo ao nono círculo do inferno,
o círculo mais infernal do inferno, no centro da Terra, cuja temperatura atualizada
recentemente é de 6.000 graus Celsius, habitado por T.úcifer, por terem cometido o
pior pecado: o da traição; no caso, a traição da pátria.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

Provavelmente nenhum anarquista subscrevería um código que


incluísse uma regra que proibisse as pessoas de argumentarem entre si
quando discordassem de suas regras, especialmente das regras de um código
às quais estariam submetidas.

6. Considerações finais

A democracia pode ser mediada pelas agências de controle e não


mediadas por tais agências. A democracia mediada enraíza-se no conceito
de cultura no sentido moderno e a democracia não mediada enraíza-se no

INDEX
conceito de cultura no sentido antigo. No contexto do debate que envolve
os conceitos de moderno e pós-moderno, a democracia mediada é solidária
com o conceito de moderno e a democracia não mediada é solidária com
o conceito de pós-moderno. Dito brevemente: a democracia mediada é
moderna e a democracia não mediada é pós-moderna.
A democracia não mediada é uma volta ‘às coisas elas mesmas’, é
uma volta à experiência singular das pessoas, é uma volta à experiência
compartilhada das pessoas, é uma versão anarquista pacifista, benigna e

BOOKS
inofensiva das relações interpessoais. Trata-se, na verdade, de um governo,
e se optarmos por falar em governo, e não em controle, diremos que se
trata de um governo em que os personagens principais são o indivíduo e a
sociedade, não o Estado.
Sendo um anarquismo, a democracia não mediada pertence à tradição
libertária, sempre irrealizada, sempre uma esperança, sempre uma decepção,
sempre um fascínio. Pois se trata sempre disto: liberdade.

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UNIÃO REGIONAL RHÔNE-ALPES DA FEDERAÇÃO ANARQUISTA


FRANCOFONA. O anarquism o hoje: um projeto para a revolução social.
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BOOKS
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C a p í t u 1o 4

Seleção pelas consequências como norte funcional


para políticas públicas
Kester C ar rara

Considerações iniciais

INDEX
A leitura dos textos skinnerianos sugere que o autor, na qualidade
de criador do comportamentalismo radical e da análise experimental do
comportamento — e provavelmente respondendo a panoramas sociais
de diferentes momentos históricos pelos quais passou - ora revela um
otimismo precoce, ora um pessimismo contido, ora um parcimonioso
realismo quanto às chances de que os avanços tecnológicos de sua ciência

BOOKS
pudessem contribuir para um mundo melhor.
Já em Walden tivo, obra de ficção assinada por Skinner (1978b), o
autor retrata uma comunidade concebida sob a lógica da programação de
contingências. No prefácio para a edição de 1969, observemos excertos da
avaliação que realiza:

[...] o crescimento de uma tecnologia do comportamento


pode ajudar o interesse renovado em W a ld en 11. Na época

GROUPS
cm que escreví o livro, alguns avanços dramáticos no
método experimental possibilitavam predizer e controlar
comportamentos bastante complexos com uma precisão
considerável. Mas tratava-se apenas de comportamentos
de ratos e pombos. Embora suspeitasse que os mesmos
métodos fossem aplicáveis aos homens, não estava certo
disso [...J. A “engenharia comportamental” de W a ld en
I I era ainda um sonho. Mas o sonho deveria realizar-
se [...]. Naturalmente, o livro seria diferente sc cu o
escrevesse hoje. As práticas educacionais seriam muito
alteradas, os materiais de instrução programada estariam
disponíveis e contingências de reforço bem planejadas

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

forneceríam aos estudantes bons motivos para estudar


[...]. Eu aceitaria sem crítica o princípio marxista de que
o cidadão trabalhará naturalmente para o bem comum;
são, porém, necessárias contingências mais explícitas de
reforço para se conseguir “de cada um segundo suas
capacidades [...]” (SKINNER, 1978b, p. 2).

Nesse prefácio, Skinner também revela que, ao terminar o livro,


estava seguro da exequibilidade de uma comunidade como Walden II, o
que considerava exigir uma vigorosa rejeição aos padrões culturais então
vigentes, requisito para ele claramente satisfeito. No entanto, assinalava;
“Mas o otimismo deve sobreviver à rejeição e necessita de confiança em
certas capacidades técnicas que não estão ainda amplamente divulgadas”

INDEX
(SKINNER, 1978b, p. 3, grifo nosso).
Seja em Ciênáa e comportamento humano (1967, Seção IV), seja em The design
o f cultures (1961), Skinner deixa clara a convicção de que um planejamento
cultural é preferível a uma sociedade baseada no acaso, do mesmo modo
que assegura a consolidação gradativa, mas rápida, dos princípios de uma
análise comportamental. Os sinais de sua confiança estão presentes em
discussões propositivas acerca das questões do controle e contracontrole

BOOKS
em sociedades planejadas, da defesa da diversificação do controle como
forma de prevenção ao despotismo, da proposta do (polêmico) critério de
sobrevivência da cultura, da análise contundente sobre as várias dimensões
ético-morais inerentes à proposição de objetivos nas intervenções culturais,
além, naturalmente, da exposição dos avanços tecnológicos de sua ciência
comportamental, Skinner (1967, p. 12-13) escreve: “[...] os métodos da ciência
têm tido um enorme sucesso onde quer que tenham sido experimentados.
Apliquemo-los, então, aos assuntos humanos. [...] Na verdade, esta é a nossa
única esperança”.
GROUPS
O otimismo do autor se confirma em O mito da liberdade (1983, p. 160):
“ [...] uma visão científica do homem oferece possibilidades estimulantes.
Ainda não vimos o que o bornem pode fazer do homem”. Mais adiante, por
ocasião de uma conferência proferida em 10 de maio de 1968, cujo conteúdo
se converteu em publicação apenas em 2004 (em comemoração ao centenário
de Skinner), o otimismo do autor é visível. Quando está analisando os
problemas sociais de então, comparando sua análise naquele momento e as
perspectivas para o futuro (ano 2000), esclarece que o delineamento cultural

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

passará das soluções intuitivas para as soluções baseadas na identificação de


relações entre variáveis independentes e dependentes. Pontua:

[...] Essa forma de ação vai se desenvolver muito


rapidamente durante o último terço do século 20. Até o
ano 2000 teremos de deixar muito menos a solução de
nossos problemas à experiência pessoal e às analogias
históricas. Possivelmente, hoje isso é ficção científica,
mas que pode, contudo, tornar-se realidade - a análise
científica do comportamento humano está gerando uma
tecnologia que pode ter consequências extraordinárias
(SKINNER, 2004, p. 213).

INDEX
O período subsequente, principalmente depois dos anos 1980, parece
revelar um Skinner redimensionando as possibilidades de a análise do
comportamento viabilizar soluções para uma nova sociedade com a celeridade
que antes imaginara. Seus textos e comunicações orais, embora continuem
registrando os avanços tecnológicos, passam a um tom considerado pelos
seus comentadores como pessimista (CHANCE, 2007). Esse autor relata
que, em entrevista pessoal, Skinner o deixou atônito com uma revelação:

BOOKS
No final dos anos 80, entretanto, o otimismo de Skinner
parecia ter desaparecido. Eu descobri isso quando
falei com ele sobre uma antologia que estava editando
[...] A entrevista dele, de 1967, iria aparecer nesse livro
e eu perguntei a ele se sua visão havia mudado desde
essa época. Isso havia acontecido, ele contou: “Eu
acreditava que a ciência do comportamento poderia
nos mostrar como resolver problemas com os quais
nos confrontamos - como a poluição, superpopulação,
pobreza e ameaça de guerra nuclear. Mas eu sou forçado

GROUPS
a concluir que o que a ciência do comportamento nos
mostra é que não podemos resolver esses problemas”
(CHANCE, 2007, p. 154).

Para Chance (2007), a se considerar a aparência pessoal de Skinner


durante a entrevista, não havia razão alguma para supor que seu pessimismo
estivesse vinculado a uma depressão, à idade avançada ou à leucemia que já o
acometia; Skinner se apresentara ‘disposto e sorridente’, o que tería deixado
seu entrevistador ainda mais surpreso e sem ação. O que se segue, no texto
de Chance (2007), é a descrição rápida de uma série de condições, variáveis

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CUI.TURA, DEMOCRACIA E ET1CA

ou situações que, no seu entendimento, provavelmente contribuíram para


o suposto pessimismo de Skinner, que, como vimos, na conferência de
1968 estimara que até o ano 2000 já se pudesse constatar na prática as
contribuições de uma ciência do comportamento para a construção de uma
sociedade justa e feliz.
Chance (2007, p. 154) considera, ainda, que infelizmente, é
muito fácil listar a espécie de constatações da ciência comportamental que
podem ter levado Skinner ao pessimismo”. E segue citando as principais
dificuldades, aqui resumidas: (1) consequências imediatas são mais eficientes
que consequências atrasadas; (2) consequências para o indivíduo podem
competir com as consequências para o grupo, o que dificulta a manutenção

INDEX
de comportamento altruísta; (3) eventos que não têm relação ‘causai’
com o comportamento (adventícios) podem manter comportamentos de
funcionalidade equivocada (por exemplo, uso de preparados populares versus
medicamentos resultantes de pesquisa controlada); (4) alguns compostos
químicos (sal ou açúcar, por exemplo) induzem a consequências imediatas
prejudiciais à saúde, em detrimento do consumo de alimentos saudáveis; (5)
embora a maior parte do comportamento possa ser explicada em termos

BOOKS
de biologia, história de aprendizagem e contexto corrente, não apenas
leigos, mas muitos psicólogos preferem explicações baseadas em uma
mente misteriosa e teleológica; (6) a suscetibilidade a reforçadores sociais,
levada ao extremo, pode desencadear comportamentos incompatíveis com
as situações pacíficas (11 de setembro, por exemplo); (7) na ausência de
contracontrole o uso dc estratégias aversivas tende a se tornar reforçador
para quem usa punição (regimes autoritários e várias agências de controle);
(8) crenças persistentes na ‘causalidade’ sobrenatural de muitos eventos

GROUPS
induzem a comportamento supersticioso, por vezes sofisticado, associados
a práticas culturais deletérias ao bem estar social. Chance (2007) referencia
sua lista com a citação de diversas pesquisas consideradas variações sobre
os temas apontados. Ele pondera ainda (CHANCE, 2007) que se fosse o
próprio Skinner a compor esse rol, não resta dúvida de que poderia ser
razoavelmente diferente, mas que a maioria dos itens constituiria desafios
concretos para a resolução dos problemas complexos da sociedade. Com
isso, o autor assegura-se de que Skinner tinha boas razões para estar, na
entrevista, um tanto pessimista sobre o futuro da humanidade.

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4 SELEÇÃO TELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

Chance conclui (2007) que, a um Skinner pessimista, os otimistas


poderíam responder que se não podemos lidar efetivamente com nossos
maiores problemas sociais como desejaríamos, isso acontece por conta
de que é preciso tempo para novas idéias sc consolidarem, tais como as
da análise do comportamento (notemos que Skinner esperava, quem sabe
£ansiosamente’, que sua conferência otimista sobre o mundo no ano 2000
se concretizasse no tempo previsto). Chance argumenta que, para manter o
otimismo, precisamos ser pacientes, como aconteceu em relação às idéias
de Darwin, que levaram muitas décadas para serem razoavelmente aceitas.
Convoca: “dê-nos tempo, o otimista diz, dê-nos tempo” (CHANCE, 2007,
p. 156, tradução nossa)1. E finaliza:

INDEX
Entretanto, nas atuais circunstâncias, mesmo os otimistas
precisam admitir que nosso futuro é uma dúvida. Na
minha conversa com Skinner, a única esperança que ele
explicita como razoável está em um número substancial
de pessoas influentes - educadores, escritores, jornalistas,
ciendstas e estudantes — que podem pressionar os
elaboradores de políticas públicas para ações efetivas
de mudança. O fato de que nós estamos fazendo pouco
para obter sua contribuição talvez justifique a visão

BOOKS
skinneriana. Assim, nosso último desafio é este: provar
que a evolução não nos deu apenas impulsos para minar
nossa saúde; para impelir-nos à violência; para nos
transformar em trapaceiros, mentirosos ou bandidos
que ameaçam tornar nosso mundo inabitável, mas
também nos deu a habilidade para superar todas essas
falhas. Ironicamente, o último desafio para a Análise
do Comportamento é provar que B, E Skinner estava
errado [em seu pessimismo| (CHANCE, 2007, p. 158).

GROUPS
De qualquer modo, ainda restava um ano para o derradeiro
pronunciamento público de B. F. Skinner. Em 10 de agosto dc 1990, a
American PsycbologicaíAssociation (APA) resolveu conceder, pela primeira vez,
por ocasião de sua 98a Convenção Anual, o A ivaráfor lifetime contributions to
psycbokgy , maior prêmio da academia americana para psicólogos. Skinner
foi o escolhido. No seu discurso de agradecimento, embora a leucemia
viesse a retirá-lo de cena oito dias depois, falou de improviso por 15

1 “[•••] give us time, the optimist says, give us time”.

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CULTURA, D E M O C R A C I A E E T 1 C .A

minutos e foi veemente nas explicações sobre obstáculos e avanços da


análise do comportamento. Considerou impertinente a lógica explicativa
cognitivista para as ações humanas, incluindo a conhecida afirmação:
“Até onde concerne a mim, as ciências cognitivas são o criacionismo da
Psicologia” (B. F. SKINNER..., 1990). Entretanto, seu vigoroso discurso
não parece representativo de qualquer desânimo ou pessimismo em relação
à possibilidade de que uma ciência do comportamento pudesse contribuir
para melhorar a vida humana no planeta. Skinner revela-se muito realista e
relembra sutilmente à sua audiência a gravidade dos problemas com que a
civilização se defronta. Assim finaliza sua manifestação:

INDEX
Recordando minha vida —62 anos como psicólogo —,
eu diria que o que tentei fazer, o que estive fazendo, foi
deixar claro este ponto, mostrar como a seleção pelas
consequências no indivíduo pode ser demonstrada no
laboratório, com animais e com sujeitos humanos e
mostrar as implicações disso para o mundo como um
todo, não apenas para a Psicologia profissional, mas
considerando o que vai acontecer ao mundo a menos
que algumas mudanças muito vitais sejam feitas.
Gostaria de ser lembrado por qualquer evidência de ter

BOOKS
sido bem sucedido nisso. Mais uma vez, obrigado por
esta homenagem c por sua atenção (B. F. SKINNER...,
1990).

Não seria a única vez em que Skinner alertava para a necessidade de


planejar consequências capazes de estabelecer e manter ações concretas
para mudanças sociais de amplo alcance. Já o fizera em diversas ocasiões,
destacando o fato de que, consistentemente c por longo período, no nível

GROUPS
filogenético, foram selecionados padrões comportamentais importantes
para a sobrevivência da espécie mediante reforçadores que seguem
imediatamente nossos comportamentos. Isso se exemplifica, num contexto
em que a população era muito menor no planeta, pelo padrão extrativista
adotado, uma vez que havia abundância e, mesmo, sobra de suprimentos
para alimentação de todos. Apenas muito mais tarde no processo evolutivo,
a formação de comunidades, a ampliação da densidade demográfica e,
como consequência, a necessidade de provisão de mantimentos levou à
produção de bens de sobrevivência, como, por exemplo, aqueles derivados
da agricultura. Plantar para o futuro exemplificava, na agricultura familiar,

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

a forma mais rudimentar e eficiente de assegurar atendimento seguro às


‘necessidades básicas’. Desse modo, passaram a ser selecionados (não sem
que fosse mantida maior eficiência dos comportamentos controlados por
consequências imediatas) outros comportamentos, cujas consequências
principais ocorriam em médio prazo2, o que significava, neste caso
particular, o período necessário entre plantio e colheita.
Na história da humanidade — a considerar os inúmeros exemplos
apontados pela antropologia, pela sociologia, pela biologia evolutiva —
podem ser encontradas ‘marcas’ culturais que revelam claramente, quanto
mais remotas as épocas às quais retrocedemos, em que medida a espécie
humana teve sua sensibilidade às consequências de longo prazo relegadas

INDEX
ao pensamento utópico. O fato é que, com o desenvolvimento do processo
educacional, seja no âmbito da família ou das instituições, o conhecimento
a respeito dos efeitos deletérios sobre bens de sobrevivência da nossa e
de outras espécies avançou significativamente. Somos, hoje, capazes de
projetar com razoável precisão os futuros efeitos devastadores da poluição,
do uso não sustentável de recursos naturais (água, petróleo, energia elétrica
e assim por diante), da ampliação descontrolada do número dc veículos

BOOKS
automotores, dos conflitos armados, do desmatamento e da monocultura,
para exemplificar. Há, em todas essas áreas, informação bem estabelecida
sobre a dimensão dos prejuízos que causamos e causaremos aos nossos
pares amais, assim como aos nossos descendentes, se o prosseguimento
dos padrões comportamentais mobilizados (apenas) por consequências de
curto prazo para as nossas particulares demandas continuar ocorrendo sem
qualquer preocupação com o planejamento cultural.
D esafortunadam ente, em bora esse conhecim ento dos efeitos

GROUPS
futuros de atuais práticas não sustentáveis se tenha desenvolvido e
seja hoje com partilhado por grande parte da população mundial, o
fato é que as pesquisas já m ostraram que ‘saber que’ não im plica ‘agir’
coerentem ente com a espécie de conhecim ento que temos a respeito

2 Evidentemente, não há consenso ou critérios bem estabelecidos para a qualificação do


que seja curto, médio ou longo prazo, do mesmo modo que não há para consequências
imediatas ou atrasadas. Trata-se, via de regra, de estimativas relativizadas à situação que se
está examinando, como é o caso, aqui, das práticas culturais e suas consequências atuais e
as previstas para o futuro.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

desses efeitos sobre o com portam ento das pessoas. Em bora nem
sempre, ‘dizer’ e ‘fazer’ guardam entre si incoerências visíveis quando
se trata, especialm ente, da em issão de com portam entos operantes,
particularm ente no contexto de práticas culturais, onde é m arcante a
predom inância da nossa sensibilidade às consequências im ediatas. Ou
seja, se não somos (ou se somos apenas lim itadam ente) controlados
por consequências de futuros distantes (30, 50, 100 anos), temos à
frente um grande problem a e um grande enigm a para resolver. A
solução im plica, necessariam ente, a proposição de consequências que
efetivam ente controlem nosso com portam ento atual, reduzindo quanto
possível e cabível o controle por consequências im ediatas e am pliando

INDEX
o repertório de padrões altruístas de com portamento. M as, ainda:
como instalar com portam entos individuais altruístas e, especialm ente,
práticas com portam cntais altruístas se a finalidade (original) delas está
no futuro e se, quanto mais distantes da ocorrência de tais práticas
estão as consequências, m enos provável é que elas controlem o nosso
com portam ento corrente? É exatam ente à (persistente) resistência da
hum anidade em aderir aos padrões com portam entais altruístas que
respondera de maneira relativam ente pessim ista B. F. Skinner, em bora

BOOKS
tivesse ele todas as razoes experim entais e teóricas para continuar, até
o fim da vida, acreditando que a seleção pelas consequências é a lógica
do processo evolutivo. Por um lado —na dimensão filogenética - nossos
padrões biofisiológicos garantem estarmos prontos para o prim eiro passo
no processo dc sobrevivência ao nos depararm os, já no nascim ento,
com as exigências am bientais mais agrestes. Por outro - nas dim ensões
ontogenética e cultural - ainda somos incipientes no desenvolvim ento
de padrões com portam entais que garantam , respectivam ente, as

GROUPS
consequências para nosso estilo operante de responder cotidianam ente
ao nosso ambiente individual tanto quanto garantam a transm issão às
novas gerações de padrões de prádeas com portam entais sustentáveis.
O desenvolvimento tecnológico não parece causar dúvida a Skinner
e aos demais analistas do comportamento. O problema está em outros
aspectos: por um lado, em como viabilizar a escolha de ‘bons valores morais’
e, por outro, como garantir, no delineamento, a sustentabilidade, ou seja, o
fato de que as gerações futuras (e, por conseguinte, o ‘mundo’ do futuro)
sejam beneficiadas por um bom planejamento cultural?

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

Parece bastante com preensível, nessa perspectiva, que Skinner


não fosse dem ovido de seu ‘sonho com um m undo m elhor5 por conta
de qualquer desconfiança em relação ao que seus próprios dados,
tão cuidadosam ente coletados e analisados, disseram -lhe em todos
os seus m ais de 60 anos como psicólogo e m uitos como analista
do com portam ento. De fato, o que parece incom odar Skinner,
paralelam ente à interpretação de seus com entadores como ‘pessim ism o5,
parece ser bem mais um a decepção aguda ao se defrontar, no fim dos
anos 1980, com a frustração de não vislum brar (como previra para o
ano 2000 na conferência proferida em 1968) praticam ente nenhum a
mudança positiva no panoram a social mais am plo da hum anidade que

INDEX
pudesse ser pelas contribuições diretas da análise do com portamento.
N aquela conferência, Skinner revelara, de fato, bastante esperança de
que até 2000 a ciência do com portam ento pudesse estar presente no
planejam ento cultural de m aneira mais incisiva, o que não ocorreu de
fato até sua morte, em 18 de agosto de 1990, apesar dos grandes avanços
tecnológicos alcançados.
Se fizer sentido a análise desenvolvida até aqui — e considerando

BOOKS
o fato de que a Skinner pouco tempo restou para poder interagir com
os novos analistas que, a partir de Glenn (1986), passaram a dar novo
impulso às pesquisas na análise com portam ental da cultura (algumas
das quais Skinner talvez considerasse auspiciosas para um projeto
mais amplo) - é de se considerar possível um a resposta positiva ao
desafio m etafórico estampado no título c na conclusão do artigo de
Chance (2007): The ultimate challenge: prove B. F. Skinner wrong. Ou seja,

GROUPS
se o pessim ism o skinneriano não for considerado um a descrença na
possibilidade de a tecnologia com portam entalista radical haver-se bem
com os grandes problem as da hum anidade, mas apenas uma decepção
m om entânea com a m orosidade ocasionada pela com plexidade desse
processo, resta ainda uma real possibilidade de concretização da análise
com portam ental da cultura. Nessa perspectiva, sob que condições teóricas
e instrum entais seria possível delinear, na atualidade, um novo cenário
para consubstanciar eventuais contribuições da ciência com portam ental
para as m udanças culturais? Alguns conceitos, im passes e obstáculos
teórico-tecnológicos precisam ser analisados.

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CULTURA. DEMOCRACIA E ÉTICA

1. A dimensão comportamental da cultura

Compreender o sentido de ‘cultura’ no âmbito da análise do


comportamento é uma das condições imprescindíveis para se falar em análise
comportamental da cultura. Juntos, o jargão popular e a literatura acadêmica
de diversas disciplinas — especialmente da antropologia, da filosofia, da
psicologia e da sociologia —revelam acepções que, num certo sentido, se
complementam: (1) cultura como ‘conhecimento’, frequentemente associada
a estudo, a educação, a formação acadêmica, a refinamento ou erudição
intelectual, a sofisticação estética - nesse sentido, diz-se que alguém tem
cultura ou é culto quando se constitui, de alguma forma, em uma referência

INDEX
no grupo em termos da amplitude do seu repertório de habilidades
intelectuais; (2) cultura como ‘manifestação artística’, vinculada às diversas
maneiras de expressão no teatro, no cinema, na música, na escultura e várias
outras, de maneira que o comportamento (como no caso das artes cênicas)
ou o próprio resultado de comportamentos específicos (como nas peças
musicais, filmes, esculturas) constituam ‘produtos’ culturais que expressam
habilidades ou padrões comportamentais identificadores das características
de certos segmentos sociais, não importando que estes constituam grandes

BOOKS
ou pequenos grupos; (3) cultura como ‘ação midiática’, representada pela
atuação e eventos típicos, incluindo toda sorte de informações, análises
e críticas da realidade social vigente, engendradas, mediadas e divulgadas
pelos jornais, rádio, televisão e, em certo sentido, também pelo cinema
e pela Internet (redes sociais, por exemplo); (4) cultura como ‘eventos
cerimoniais’, abrangendo representação pública, folclórica ou não, das
tradições populares, seja mediante festas, lendas, maneira de se vestir,

GROUPS
comidas típicas, idioma e outros resultados culturais que fazem referência
ao cotidiano de grupos de pessoas, sejam esses confinados tcrritorialmente
(cidadãos de um país, por exemplo) ou, independentemente de um território
que delimite geograficamente sua abrangência (cristãos, por exemplo); (5)
cultura como ‘produtos humanos’ exemplificados pelos perfis regionais das
edificações (que sugerem padrões arquitetônicos, por exemplo), dos imóveis,
dos móveis, dos livros, de utensílios de toda sorte, de roupas, de armas;
(6) cultura ‘como comportamento’, que se refere aos repertórios comuns
(compartilhados, articulados, entrelaçados) de diferentes grupamentos
sociais; a cultura, nessa acepção, implica padrões de práticas sociais

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tipificadas por diferentes comunidades a partir de sua história de interação


com o ambiente (físico-químico, biológico, social) que contextualizou ou
contextualiza sua existência. Nesta última acepção, a referência quanto às
situações em que pode ser identificada a dimensão comportamental da
cultura atravessa todas as demais acepções já mencionadas; é com ênfase
nessa acepção que se desenvolve o trabalho do analista comportamental da
cultura.
De modo complementar aos sentidos de cultura mais comumente
encontrados e já (superficialmente) descritos, há uma especificidade no que
respeita à análise comportamental da cultura. Nesta, podem-se conceber
(embora complementares e inseparáveis), dois significados de cultura: (1)

INDEX
como já mencionamos, ‘na qualidade de práticas culturais’ (implicando
comportamentos entrelaçados e interdependentes) pertencentes ao terceiro
nível de variação e seleção (o nível cultural), práticas estas que, do mesmo
modo que os comportamentos individuais discretos (do nível ontogenético)
se desenvolvem com características peculiares do arranjo típico de
contingências que opera por ocasião de sua instalação e manutenção; (2)
‘corno ambiente’, pensado como um conjunto de condições (contexto)
específicas em que se dão essas práticas; nas palavras de Skinner (1978a, p.

BOOKS
9), além de comportamento, cultura também pode ser entendida como
ambiente social completo, em que algumas contingências são mantidas por
indivíduos e outras por instituições”. No entanto, Skinner, aqui, pondera:

Já constituiu uma prática dividir o ambiente social em


três partes: (1) a política (governo, no sentido estrito,
especializado em controle aversivo), (2) a economia
(especializada na produção e troca de reforçadores)
e (3) a cultura, ou todas as outras contingências dc

GROUPS
reforçamento mantidas pelo grupo - nas práticas
familiares, ritos religiosos, artes, artesanato e assim por
diante. Mas c provavelmente impossível tomar esses
campos separadamente e, modernamente, o termo
cultura cobre todos eles. A cultura é um ambiente social
completo [...] (1978a, p. 8-9).

A ideia de cultura é, então, necessariamente ampla e abrangente. Às


vezes é confusa, justamente por conta da generalidade de sua aplicação e das
diferentes disciplinas em que tem centralidade indiscutível. O conceito mais
popular é aquele em que cultura é ‘tudo aquilo que caracteriza a existência

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CULTURA, DEMOCRACIA E ET1CA

de um povo ou nação’. Embora essa generalização, por um lado, torne difícil


o trabalho científico-acadêmico que busca mostrar com clareza as variáveis
que determinam os processos aí subjacentes, por outro inspira o interesse
intelectual (que vai além da ciência empírica) pelo tema. Evidentemente,
o interesse numa análise comportamental da cultura parece nos levar
exatamente ao centro desse caminho inóspito que delimita o trânsito entre
a pesquisa empírica a respeito da dimensão comportamental das práticas
culturais e as demandas ético-morais que completam os limites de sua
abrangência.
Q ualquer que seja o ponto de partida de um a análise com portam ental
da cultura, portanto, em algum momento inevitavelm ente ela esbarrará

INDEX
nos em pecilhos ético-m orais da definição de objetivos de intervenção, de
avaliação do que seja um bom entendim ento de sobrevivência da cultura,
de confrontar-se com o que sejam os custos sociais da sobrevivência da
espécie, das diferenças entre o que é ‘bom ’ para o indivíduo sem mesmo
constituir-se num ‘bem ’ indiscutível para o grupo. Trata-se da escolha
de um ponto arbitrário de partida para qualquer m udança nas práticas
culturais. Estejamos cientes de que, ainda que comecemos pela análise
(propriamente) com portam ental da cultura (no sentido já exposto)

BOOKS
iremos necessariam ente ter que nos haver com m uitas outras questões
para além do domínio da tecnologia se pretendem os, por qualquer
m ilím etro que seja, cam inhar em direção à discordância de Chance
(2007) em relação ao ‘pessim ism o’ (real ou m etafórico) atribuído a B.
F. Skinner.
Ressalvados, portanto, os limites possíveis de uma ciência
com portam ental da cultura, algum as outras condições conceituais

GROUPS
precisam scr atendidas. A prim eira delas im plica certo cotejam ento
entre herança genética e herança cultural. O que parece óbvio, nesse
campo, pode por vezes gerar enorm es equívocos. Se se concebe, por
exemplo, o caráter ‘social’ do com portam ento como inerente, im anente
ou natural da espécie (o que as pesquisas já dem onstraram falso), os
desdobram entos de interpretação e eventuais intervenções terão como
característica derivada desse pressuposto o fato de que há ações possíveis
em decorrência dessa condição. N esse sentido, a ‘sociabilidade’ seria
biologicam ente originada e preexistente às interações com o am biente c,
desse modo, a tarefa do planejador im plicaria desvelar essa condição e

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCLAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

dar-lhe vazão no âmbito da educação para a vida ética. Para além desse
aspecto, essa natureza social seria transm itida geneticam ente e, com isso,
alguns adjetivos funcionais acabam por fazer parte da caracterização
idiossincrática dos indivíduos: otimismo, pessim ism o, bom ou mau
humor, dons artísticos, virtudes e deficiências morais. N essa perspectiva
da sociabilidade, a análise do com portam ento não ‘faz’ uma psicologia
social.
O utra form a de pensar a questão da sociabilidade entre seres humanos
parte da prem issa segundo a qual, em função do tem poralm cnte lento e
extenso processo de evolução das espécies, m utações bem -sucedidas são
selecionadas e a ‘configuração’ de seus corpos biológicos (não apenas

INDEX
anatom icam ente, mas funcionalm ente) é transm itida aos descendentes.
Não há transm issão biológica da sociabilidade em si mesm a, no sentido
de que possa estar nos genes um conjunto de características prontas
de padrões de interação social. Ao inverso, as condições corporais
asseguram a possibilidade física da instalação de certos repertórios
que funcionam como pré-requisitos para as interações sociais: o
com portam ento verbal, por exemplo, parece (a contar pela história das
civilizações narrada com base nos achados da antropologia física, da

BOOKS
biologia ou da historiografia) ter se desenvolvido, na espécie hum ana,
a partir de mudanças bem -sucedidas, mediante a em issão de sons
vocais, para obtenção de suprim ento às necessidades básicas (incluindo
controle de tem peratura do corpo, alim entação e atividade sexual).
F;videntemente, o com portam ento verbal se revelou, gradativam ente,
como recurso com plexo que cada vez mais instrum entaliza o acesso
hum ano às consequências que dependem da m ediação de outras
pessoas para sua consecução. A o menos m etaforicam ente, talvez essa

GROUPS
possibilidade rem onte aos efeitos (numa interpretação ficeionista, quem
sabe) dos prim eiros gritos hum anos diante da am eaça representada pela
postura de suposto ataque por outros seres vivos e transcorra até, no
outro extremo, o com portam ento verbal escrito viabilizado pela escolha
das opções ‘cu rtir’, ‘com partilhar’ ou ‘com entar’ da rede social facebook.
Esse é o contexto em que adquire sentido um a conceituação
com portam entalista radical de com portam ento social. Dando voz
a Skinner: “o com portam ento social pode ser definido como o
com portam ento de d u a s ou m a is p e sso a s u m a em re la ç ã o à

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

o u tra ou, em conjunto, em relação a um am biente com um”3 (1967,


p. 171, grifo nosso). N essa asserção, fica clara a proposta skinneriana
de conceituação de com portam ento social em função da mediação
necessária entre pessoas, seja dirctam ente entre si (como num diálogo),
seja de ambas em relação ao am biente com um (no exem plo dos mais
rudim entares, a cooperação de duas pessoas para, inevitavelm ente
juntas, retirarem um a pesada pedra do cam inho por onde passarão; ou,
pouco mais complexo, m as na mesma linha, puxarem juntas um a rede
de pesca, o que provavelm ente gera consequências (na form a de venda
dos peixes, por exemplo) para essa ação com partilhada; ou, ainda mais
com plexo, num debate entre dois cientistas que apresentam soluções

INDEX
distintas para equacionar a explicação de um fenômeno da natureza).
Em bora a potencialidade biológica indispensável para o com portam ento
social, são as contingências (planejadas ou casuais) que controlam (no
sentido básico de exercer influência sobre) o episódio sociointerativo.
Não parece ocorrer de m aneira diferente no contexto das práticas
culturais (diversas pessoas, cooperativam ente, se envolvendo em práticas
am bientais sustentáveis, por exemplo) ou nas interações individuais com
o am biente físico (alguém colocando a chave na fechadura da porta de

BOOKS
seu escritório, para exem plificar).
Voltando à dim ensão com portam ental da cultura, na qual os
analistas estão interessados, convém observar que, se, por um lado,
as m udanças resultantes de um planejam ento e intervenção cultural
incidem diretam ente sobre com portam entos, por outro, uma boa
interpretação indireta dos resultados ou produtos do com portam ento
constitui instrum ento bastante útil para subsidiar essas intervenções.

GROUPS
Senão, vejamos: é evidente que a dim ensão com portam ental não está
nos objetos produzidos por determ inada cultura, por determ inada
sociedade, mas o com portam ento e seu entorno (contexto precedente e
consequências) podem ser indiretam ente ‘lidos’ nos objetos, podem ser
identificados neles. O corre que tais objetos resultam de com portam entos,

3 E, não, como consta da edição brasileira consultada (SKTNNER, 1967, p. 171, grifo
nosso) e de algumas outras: “[...] o comportamento social pode ser definido como o
comportamento de duas ou mais pessoas em relação a uma outra ou, em conjunto,
em relação ao ambiente comum",

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4 SELEÇÀO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAI- PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

são produzidos m ediante com portam entos (embora um móvei de estilo


colonial, na qualidade de objeto físico —a própria m adeira —não seja a
própria cultura ou um ‘objeto cultural’) c o padrão de práticas culturo-
com portam cntais que esteve provavelmente associado à sua confecção
pode ser ‘vista’ m ediante observação do m aterial em pregado, das suas
linhas arquitetônicas, da textura, das cores e da sua funcionalidade. N esse
particular, os relatos descritivos dos antropólogos muito contribuíram
para que, por meio do exame de objetos de diferentes com unidades,
a ciência pudesse tom ar conhecim ento, com razoável precisão, sobre
o tipo de história cultural (e com portam ental, naturalm ente) que
provavelmente acompanhou esse legado.

INDEX
Do mesmo modo, a cultura (como ambiente e como praticas culturais
características) não está propriamente na simbologia das cerimônias, mas
delas deriva enquanto reveladora de rotinas comportamentais. Apenas com
Malinowski, a antropologia passou a ter uma visão econômica do uso de
colares e adereços de conchas e contas pelos ilhéus participantes do Círculo
de Kula. Há, pois, um avanço importante na compreensão de que cerimônias
aparentemente estranhas, curiosas, idiossincráticas, exóticas, primitivamente
revel adoras de uma ‘natureza’ diferente daquela reconhecida tipicamente

BOOKS
nas grandes civilizações (como a europeia, à época de Malinowski), não
passam de práticas culturais de comunidades com histórias sociais diferentes
da história dessas civilizações. Ou seja, a diferença está nas contingências
distintas que, historicamente, controlaram o desenvolvimento de repertórios
comportamentais individuais e, mais, de práticas culturais das diversas
comunidades. Do mesmo modo que as cerimônias, os rituais, as crenças
e todas as demais manifestações culturais resultam da forma como são
entrelaçadas as contingências c os comportamentos implicados nas práticas
coletivas.
GROUPS
Quando se retomam as diferentes acepções de ‘cultura’, esse conceito
evidentemente emerge com uma vinculação a marcas, referências,
características. Assim, se fazemos referência a uma ‘cultura brasileira’,
estamos, a um só tempo, explicitando características que estão presentes
na literatura, no folclore, no conhecimento filosófico, científico e artístico,
nos usos e costumes manifestados pelos cidadãos brasileiros. No entanto,
embora se possa fazer uma referência geral à cultura ou uma referência
particular a cada qual de seus componentes, sempre podemos deles extrair

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CULTURA, DEMOCRACIA F. ETICA

dimensões comportamentais. É nas possíveis contribuições que a análise


do comportamento possa oferecer à economia, à segurança, à saúde, às
relações exteriores, à educação e tantas outras áreas ou atividades, que se
vislumbra a necessidade de aprofundar o exame científico das variáveis que
determinam, funcionalmente, a ocorrência dos fatos compor tamentais que
embasam a trama social.
Outro aspecto im portante a considerar, que por vezes intriga leigos e
cientistas, passa pela consideração de que só se poderia considerar cultura
entre grupos de humanos, seja, especialm ente, pela grande im portância
do processo de mediação, seja pelo valor vital do com portam ento verbal,
só possível em tal com plexidade entre hum anos (embora seja possível se

INDEX
falar, num sentido mais estrito, por exemplo, em com portam ento social de
abelhas, de form igas e de outras espécies). N esse cenário, parece bastante
evidente o papel crucial do com portam ento verbal como m ediador de
mudanças nas práticas culturais, como recurso descritor sobrem aneira
econôm ico das regras com portam entais, como instrum ento m odelador
de repertórios e como instrum ento auxiliar da transm issão de práticas
culturais aos nossos descendentes (para exemplo, tosco quanto claro,
com pare-se a viabilidade da mediação feita pelo com portam ento verbal

BOOKS
para repassar aos nossos descendentes os padrões técnicos apropriados
para edificações, em com paração com a (in)viabilidade da retransm issão
de padrões arquitetônicos ‘novos’ por uma ave comum, o pássaro joão-de-
barro, à sua prole). Por essas razões, será, mais adiante, renovada a ênfase
no papel do com portam ento verbal no uso de regras para a descrição
de relações entre com portam entos (no caso dos delincam entos, entre
práticas culturais) c suas consequências, dado um contexto específico. A

GROUPS
m ediação verbal, via regras com portam entais, auxilia não apenas como
maneira econômica de se repassar inform ações na form a de instruções
(em que aquilo que se econom iza, de fato, está relacionado com o tempo
e possíveis consequências adversas de que todos necessitem passar por
contingências, inclusive aversivas, para aprender; em alguns casos, isso
seria absolutam ente desastroso, como quando precisam os aprender os
sinais de trânsito), mas auxilia também na ajuda ao discernim ento dc que
os m esm os elem entos físico-quím icos recebem outras denom inações
e precisam ser discrim inados não em função dessa sua com posição
substantiva, mas do contexto antecedente ao qual os com portam entos

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em questão precisam ser relacionados (por exem plo, o com posto H 2 0


é sempre, como substância, água; no entanto, água destilada e água
benta certam ente servem a funções distintas e exigem com portam entos
diferentes).
Pensadas numa dimensão comportamental, portanto, desaparecem
certas práticas culturais, pela sua insuficiência ou impropriedade funcional,
enquanto aparecem outras, de maneira natural ou planejada. Por vezes,
esperar pelas mudanças naturais pode levar muitas gerações à destruição
do ambiente e à insustentabilidade (exemplifique-se pela dilapidação do
entorno marítimo e da vegetação, que levaram à exaustão de recursos
naturais na ilha de Páscoa). Nesses casos, temos percebido —infelizmente

INDEX
muito tempo depois dos efeitos nocivos terem se acumulado —quanto teria
sido possível e vantajoso evitar as mazelas de práticas culturais destrutivas
(mas, como qualquer outra, mantidas por consequências), substituindo-as
por um contexto onde consequências positivas selecionassem repertórios
mais compatíveis com valores bastante aceitos, como os de preservação e
conservação de recursos naturais.
Optar pelo planejamento parece cada vez mais ‘logicamente
correto’, simbolicamente em paralelo com o abandono da interpretação

BOOKS
antropológica clássica para o ‘sentido mágico’ e idiossincrático antes
atribuído a certos usos e costumes ‘estranhos’. A magia que iludia — à
distância da realidade — o im aginário dos primeiros antropólogos nos
gabinetes de trabalho europeus deu lugar a um a análise dos eventos
que antecedem e seguem o comportamento de seres humanos, vivam
seus exemplares nos apartamentos dos grandes centros, vivam eles nos
recônditos gelados de vilas nas mais altas montanhas do planeta. Não há

GROUPS
magia. Há contingências operando.
Na antropologia funcional de B. K. Malinowski (1970, cf. capítulos
9 a 11), o que o autor denominava de necessidades básicas constituía o
elemento motivador das ações humanas. Com a palavra o autor:

A função sempre significa, por conseguinte, a satisfação


de uma necessidade, do mais simples ato de comer
à ação sacramental na qual o ato de comungar está
relacionado a todo um sistema de crenças determinado
por uma necessidade cultural de unificação com o Deus
vivo (MALINOWSKI, 1970, p. 148).

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CUI.TURA, DEMOCRACIA E ET1CA

Mais tarde, o materialismo cultural de Marvin Harris (KANGAS,


2007) definiu de modo compatível com a análise do comportamento (via
seleção pelas consequências) esses elementos motivadores, concordando
com a importância da explicitação das variáveis componentes das situações
e condições em que ocorriam as práticas e os efeitos selecionadores das
consequências ambientais.

2. Delineamentos culturais: obstáculos e estratégias de


superação

INDEX
Conceito bem estabelecido nas pesquisas empíricas, revela-se
paradigmática na análise do comportamento a noção de que o efeito das
consequências está correlacionado positivamente com a proximidade
temporal que mantém com as respostas emitidas. Ou seja, quanto mais
(temporalmente) próximo da resposta esdver a consequência, tanto mais
eficientemente ela controla a probabilidade de ocorrência (obviamente,
futura e diante de contexto similar) de outra resposta pertencente à mesma
classe do operante a que pertencia a resposta original.

BOOKS
Dada essa condição, se considerarmos que planejamento cultural implica
projetar para algum momento futuro as condições (leia-se: as contingências)
para ocorrência de determinadas práticas culturais, seguramente precisaremos
dc consequências imediatas que controlem as práticas esperadas. Por si,
tais práticas não se estabeleceriam consistentemente apenas sob a (remota)
possibilidade de que sejam consequenciadas positivamente num futuro
distante. Podemos nos valer de um exemplo muito simples, mas emblemático

GROUPS
sobre a dificuldade de estabelecer consequências que se concretizarão apenas
em um futuro distante: a poluição. Há forte consenso, seja entre cientistas
que estudam o assunto, seja entre os cidadãos de todo o planeta, a respeito
de que a poluição redunda em prejuízos para a saúde. Para se usar uma
expressão popular, mais do que um simples consenso, grande parte dessa
população tem ‘consciência’ (no sentido de ‘saber que*) das consequências
deletérias para nós e nossos descendentes, Se perguntados, talvez um bom
número entre nós responda que ‘tem a intenção’, ‘acha correto’ colaborar
para a redução da poluição. No entanto, se - além de arguidos - formos
observados nas nossas ações diárias em relação ao ambiente, o resultado

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

pode ser outro, incoerente com nosso ‘saber que’: muitos de nós não
agimos efetivamente para redução da poluição. Os exemplos cotidianos
estão no cada vez maior contingente de veículos particulares, na falta de
equipamentos não poluentes nas indústrias, na precária seleção, deposição
e tratamento do lixo, na contaminação da água e outros recursos naturais.
Nesse sentido, apenas saber que a vida pode se tornar insustentável em
menos tempo do que supomos não é consequência que efetivamente afete
nossos comportamentos, uma vez que a insustentabilidade é uma hipótese
longínqua e que, numa aparente contradição lógica, agimos ampliando a
poluição pelo fato de que a maioria dos comportamentos que a produzem é
mantida por consequências imediatas. Muitos outros exemplos da resistência
em ‘trabalhar’ em função de consequências remotas, sejam positivas ou

INDEX
aversivas, estão à nossa volta: consumo de drogas, bebidas alcoólicas,
gorduras e conservantes mostram bem o confronto entre reforçadores
positivos imediatos e reforçadores negativos em longo prazo. Esta é uma
das tarefas a enfrentar: como o analista comportamental da cultura pode se
haver com o planejamento de contingências que levem as pessoas a, cada
vez mais, sc comportarem em função de consequências que assegurarão, no
futuro, a sobrevivência de toda a espécie?

BOOKS
Algumas pesquisas revelam resultados que corroboram os problemas
mais comuns no planejamento de contingências para ‘um futuro melhor’:
ali estão descritas dificuldades na utilização de reforçadores imediatos
versus de longo prazo na frequente incoerência entre dizer e fazer e nos
procedimentos de transferência de controle entre reforçadores arbitrários
e naturais4.
Numa investigação (para dissertação de mestrado) bastante interessante

GROUPS
(HORI, 2010), realizada por pesquisadora de outra área dc conhecimento
(engenharia da produção), a coleta de dados cobriu dois aspectos de práticas
ambientais sustentáveis: (1) de um lado, uma série de questões sobre em
que medida eram conhecedores da importância das reservas ambientais
(por exemplo, aquíferos) e outros recursos naturais os alunos de um curso
de Engenharia Ambiental de uma universidade pública paulista; (2) de
outro, algumas questões relacionadas à própria vida particular dos mesmos

4 Um estudo recente sobre essa última dificuldade, comum nos delineamentos culturais,
pode ser encontrado em Souza e Garrara (2013).

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

estudantes, na sua rotina diária dentro e fora da universidade: qual seu


padrão de utilização de água, luz e recursos similares. Os primeiros dados
corroboraram a expectativa da pesquisadora: revelaram alta competência
dos estudantes, tanto m aior quanto mais se aproximavam do final do
curso, para responder corretamente às perguntas técnicas sobre práticas
sustentáveis, fontes de recursos naturais e previsão de consequências para
o futuro caso o atual modo de convivência com o ambiente permanecesse.
O segundo conjunto de dados, sobre os hábitos pessoais dos participantes,
no entanto, apesar de seu alto conhecimento técnico-tecnológico, foi
significativamente discrepante em relação ao primeiro. Embora tivessem
‘consciência’, no sentido de ‘saber que’ seus comportamentos eram
ambientalmente incorretos, os dados revelaram, por exemplo, um tempo

INDEX
excessivo de chuveiro ligado durante o banho, torneira permanecendo
ligada durante o barbear ou escovar os dentes durante todo o tempo. Ou
seja, entre saber da necessidade de conservação e preservação e as práticas
culturais cotidianas, fica transparente o grande poder do reforçamento
imediato, ainda que o indivíduo saiba, se perguntado, se tratarem de
comportamentos inapropriados em relação ao meio ambiente e, portanto,
socialmente reprováveis.

BOOKS
Em outras áreas de interesse também se revela a mesma tendência
à discrepância entre estar informado sobre algo e, efetivamente, agir
conforme a informação. Perossi e Carrara (2012) analisaram seis campanhas
ou programas de conservação de água, desenvolvidas por órgãos públicos,
em relação aos objetivos adotados e às estratégias de campanha. Observou-
se que, de modo geral, os dados indicam a ausência de consequências
contingentes aos comportamentos de desperdiçar ou economizar água e
a presença de práticas mentalistas, evidenciando uma contraposição aos

GROUPS
fundamentos da análise do comportamento, especialmente no que diz
respeito à lógica de seleção pelas consequências. Cinco das seis campanhas
enunciavam, nas suas propostas, o objetivo de ‘conscientizar’ a população.
Outro estudo (BRUM; CARRARA, 2012) investigou características do
uso de preservativos e possíveis variáveis controladoras desse comportamento
em estudantes com idades entre 13 e 18 anos. Entre outros aspectos, os
resultados identificam bom conhecimento, pelos participantes, em relação
à necessidade do uso de preservativos, mas o percentual dos que não os
utilizam é considerável. Esse estudo, em parte, como também a literatura

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em geral, aponta que, nessa situação, é comum a justificativa da dificuldade


do uso mediante argumentos de que a posposiçâo da relação pode gerar
ansiedade de desempenho. Do mesmo modo, a eventual consequência em
longo prazo, por problemas de saúde ou por conta de gravidez indesejada,
muitas vezes não é considerada, seja por conta da dificuldade de posposição
da relação para depois de colocado o preservativo, seja porque as
consequências aversivas em longo prazo para a saúde constituiriam ‘apenas’
uma possibilidade e não uma certeza.
Embora o fato de estarmos informados sobre as consequências
prováveis do nosso comportamento (‘saber que’ manter atividade sexual
sem uso de preservativo constitui comportamento de risco para a saúde)

INDEX
tenha alguma influência sobre como agiremos em função dessa informação,
isso não significa que nos comportaremos necessariamente de acordo
com aquilo que sabemos sobre uma consequência, especialmente se essa
pode acontecer em longo prazo ou, mesmo, não acontecer (na pesquisa
que acabamos de relatar, contrair ou não uma doença scxualmente
transmissível). Paralelamente, uma solução intermediária para a questão
da limitada eficiência das consequências em longo prazo (por exemplo: se
conservarmos os recursos hídricos será notável como teremos um ambiente

BOOKS
excelente para nossa saúde daqui a, digamos, 30 anos) consiste na utilização
provisória de consequências imediatas e arbitrárias. Essa possibilidade pode
se concretizar mediante o uso de reforçadores simbólicos (condicionados
pelo pareamento com outros reforçadores), na forma de cartões, fichas ou
recursos similares. Um exemplo desse tipo de procedimento foi utilizado
em pesquisa que objetivou a instalação e consolidação de práticas culturais
recomendadas para a prevenção da dengue (CARRARA ct al., 2012).

GROUPS
No estudo, que teve como participantes 214 moradores de três bairros
geograficamente contíguos de pequena cidade do interior paulista, após uma
linha-de-base dos comportamentos de prevenção à proliferação do mosquito
transmissor (Aedes Aegypti) c apresentação de orientações dos agentes de
vigilância sanitária, foram feitas novas visitas (em datas não comunicadas
previamente aos moradores), para avaliação da frequência de práticas
totalmente corretas, parcialmente corretas e incorretas. As primeiras foram
consequenciadas positivamente mediante um cartão (verde) que poderia ser
trocado por reforçadores (incluindo produtos para consumo alimentar e
material escolar); as segundas geravam um cartão (amarelo) que possibilitava

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CULTURA, DEMOCRACIA F. ETICA

a troca por alguns reforçadores, mas não outros (previamente ordenados


em estudo piloto); diante de práticas incorretas, os moradores não recebiam
pontos, mas poderiam tê-los se, em nova visita, mudassem corretamente
suas práticas. A maioria expressiva dos participantes apresentou, ao final
do procedimento, práticas consistentes de prevenção. Observe-se que,
embora o estudo demonstre claramente a efetividade de consequências
(mesmo que arbitrárias) sobre o comportamento, ainda assim a garantia de
sua manutenção por tempo indefinido não está assegurada. Neste caso, os
autores orientaram os funcionários e dirigentes da área de saúde a apoiarem
verbalmente as práticas corretas quando de visitas regulares dos agentes
de saúde às residências e a darem visibilidade social às ações significativas

INDEX
dos bairros objetivando prevenção na área de saúde. No entanto, está
claramente estampada, nesse exemplo, a dificuldade de tornar concreta e
Visível' a consequência principal de ‘estar livre da dengue’ ou ‘estar com
saúde’, Além disso, evidentemente não é possível (nem natural) manter
indefinidamente consequências arbitrárias (cartões e reforçadores pelos
quais foram trocados), já que para práticas corretas de prevenção, nesse caso,
o que se espera é uma população saudável. As consequências arbitrárias,
nesse sentido, podem ser úteis, mas provisórias. Justamente aí reside uma

BOOKS
das dificuldades do planejamento cultural.

3. Questões centrais: unidade de análise e sequência de


planejamento

E paradigmática na análise do comportamento a relação de contingência


tríplice. Essa unidade de análise das relações comportamentais especifica

GROUPS
um contexto antecedente, um comportamento e um evento consequente.
Na análise experimental, em particular, as pesquisas geralmente buscam
evidenciar um estímulo ou uma condição descritível e mensurável que
antecede uma resposta (mensurável pela frequência, duração, intensidade
ou mesmo topografia, a depender do objetivo da pesquisa). Do mesmo
modo, participa uma consequência específica, na forma de apresentação ou
remoção de um estímulo reforçador positivo ou negativo.
Embora as interações do indivíduo com seu ambiente físico não
difiram, em sua natureza, das interações sociais, estas, mediadas por outro

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indivíduo, costumam apresentar-se mais sofisticadas, no sentido de que o


contexto antecedente pode constituir-se (por exemplo) de um arranjo de
estímulos que seguem uma operação estabelecedora. Além disso, outras
condições podem estar presentes, como quando comportamentos de vários
indivíduos precisam estar entrelaçados de alguma forma específica para a
produção de uma consequência. Dessa maneira, como propusera Skinner
(1967), considerando uma contingência a descrição de relações entre uma
classe de respostas e uma consequência comum a todas as respostas da
classe, uma contingência tríplice serviría como unidade conceituai básica
suficiente para a análise de qualquer tipo relação comportamental. Ou seja,
o autor não lançou mão, em sua obra, de uma unidade conceituai adicional

INDEX
para a descrição das práticas culturais, considerando que essas implicam, em
última análise, comportamentos operantes e esses, por sua vez, classes de
respostas.
Entretanto, a partir dos anos 1980 —mais especificamente com uma
publicação de Glenn, em 1986 - cria-se um novo termo, metacontingcncia,
para referir-se a uma unidade de análise a ser empregada para as práticas
culturais. O argumento para uso desse novo conceito é o fato de que
metacontingências, para além da descrição de relações entre classes de

BOOKS
‘respostas’ e suas consequências, serviría à função de descrever relações
entre uma classe de ‘operantes’ e uma consequência cultural em longo prazo,
comum a todos os operantes. Evidentemente, Glenn (1988, 1991, 2003,
2004) e outros autores (GLENN; MALOTT, 2004; MALOTT; GLENN,
2006) procedem a ajustes nesse conceito. Uma boa análise da trajetória
dessas mudanças pode ser encontrada em Moreira (2013, espccialmente p.
121-134) e uma interpretação conceituai recente está sintetizada no artigo

GROUPS
de Morford e Cihon (2013), podendo apresentar discrepâncias em relação a
outras versões também atuais. Esses autores resumem quatro conceitos para
uma análise de práticas culturas via metacontingências:1

(1) Contingências Comportamentais Entrelaçadas —


contingências operantes envolvendo duas ou mais
pessoas em que o comportamento de cada uma
(ou o seu produto) funciona como antecedente ou
consequente para o comportamento de outro(s); (2)
Produto Agregado - um resultado físico produzido
pelo entrelaçamento de contingências comportamentais.
Dois exemplos incluem um projeto aprovado pelos

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c u l t u r a . d e m o c r a c i a e e t i c a

membros do Congresso ou um chute ao gol no futebol,


que envolveu uma complexa série de passes entre vários
jogadores do time; (3) Consequência Cultural — um
evento ambiental que ocorre temporalmente próximo,
depois de uma contingência comportamental entrelaçada,
onde a ocorrência depende da emissão de uma ou várias
contingências comportamentais entrelaçadas. Isso seria
análogo à relação de dependência entre a pressão à barra
por um rato e a liberação de comida; (4) Metacontingência
—uma contingência que descreve relações entre eventos
ambientais antecedentes, a ocorrência de contingências
comportamentais entrelaçadas e as consequências
culturais que mudam ou mantêm alguma dimensão
mensurável dessas contingências comportamentais
entrelaçadas (MORTORD; CIHON, 2013, p. 6).

INDEX
O conceito de metacontingência (e os demais que lhe são adjacentes,
como produto agregado, contingências comportamentais entrelaçadas e
outros) não parece mudar a essência lógica da análise de relações funcionais
machianas. Muitos autores, a exemplo de Guerin (1994) e Biglan (1995),
examinaram as questões culturais de modo competente, valendo-se do
emblemático paradigma tríplice da seleção pelas consequências (SKINNER,

BOOKS
1981). Ali, as contingências, reapresentadas e devidamente sistematizadas por
Skinner, eram a unidade conceituai já consagrada na análise experimental.
A metacontingência, paralelamente, constitui uma bem-vinda formulação
teórica que tem tido duas consequências muito importantes para a análise
do comportamento como uma disciplina no cenário científico: (1) o artifício
do prefixo ‘meta’ revela que, quando estamos no terceiro nível de variação
e seleção, comumente nos referimos a práticas culturais, mais do que a
comportamentos discretos em uma situação individual; nesse sentido, a

GROUPS
ideia de metacontingência alerta para o fato de que há um terceiro nível de
análise, que extrapola (embora a inclua) a individualidade do comportamento
e alcança a combinação, o entrelaçamento entre comportamentos, seus
resultados diante da interação com o ambiente e suas consequências; (2)
como Skinner basicamente limitou-se a conjecturar no campo das práticas
culturais, a experiência aplicada dos analistas do comportamento não teve
oportunidade de explorar suficientemente o conceito de contingências
nas situações onde comportamento entrelaçado estava presente, ou seja,
por exemplo, em grandes questões, como a poluição, a preservação e
conservação de água, energia elétrica, petróleo e demais recursos naturais,

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conflitos bélicos e sustentabilidade ambiental; mas, com o surgimento do


conceito de mctacontingências e todo o importante empenho da professora
Glenn e seguidores, houve um crescimento significativo de pesquisas
e trabalhos teóricos explorando possíveis contribuições de uma análise
comportamental da cultura para a instalação, consolidação e mudança de
práticas culturais importantes.
Contingências ou metacontingências? Essa não parece ser a pergunta
crucial a ser feita antes de um esforço para o delineamento cultural.
Paralclamente aos argumentos dc que uma unidade de análise especial
é necessária, há outros em favor do paradigma da tríplice relação de
contingências: embora (por exemplo, na área de equivalência de estímulos)

INDEX
se tenham aduzido outros eventos possíveis, especialmente nas condições
antecedentes (quádrupla ou quíntupla relação de contingências), há análises
no sentido de que mesmo que sejam possíveis muitos eventos ou condições
específicas nessa relação básica, o fato é que as instâncias do episódio
comportamental são sempre três: a anterior, a atual e a futura, correspondendo
ao contexto, ao comportamento e à consequência. Nessa direção, como não
há diferença alguma na natureza do comportamento social em relação a

BOOKS
qualquer outro, assim como não há no comportamento privado em relação
ao público, a unidade de análise seria a mesma: contingência tríplice, que
descreve a maneira pela qual se apresentam as três instâncias pétreas. O que
muda seriam os arranjos pelos quais cada qual dos eventos ou operações
podem se apresentar naturalmente ou de forma planejada.
Nesses termos, embora o prefixo 'm eta’ faça referência a ‘contingências
de contingências’ e se, originalmente, contingências são descritivas das

GROUPS
relações comportamentais, estaríamos diante de dois grandes arranjos
possíveis: ou teríamos respostas individuais, numa dimensão ontogenética,
gerando consequências discretas, ou teríamos, além dessas, operantes
entrelaçados, de diferentes indivíduos, arranjados de tal modo que possam
não apenas levar a consequências imediatas compartilhãvcis por vários
indivíduos, mas a uma consequência comum em longo prazo. Em ambas as
situações, tudo sc passa como se estivéssemos no mesmo mundo conceituai
descritivo, ou seja, talvez um arranjo complexo, com interdependência
comportamental, correspondente a um modelo avançado dos tradicionais
esquemas de reforçamento (que bem poderíam ser ‘de consequenciação’,

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

já que aí se incluem reforços positivos e negativos, nos procedimentos de


reforçamento positivo e negativo e punição positiva e negativa).
Notemos, ainda, que ao falar em consequência comum em função de
uma prática cultural, estamos nos referindo a contingências entrelaçadas,
nas quais o que é consequência para alguém pode constituir estímulo
discriminativo para outrem (e várias outras combinações possíveis). De
todo modo, é o arranjo particular que implica comportamentos de mais do
que uma pessoa que caracteriza uma prática. A forma particular do arranjo
pode ou não produzir consequências comuns a várias pessoas. Se essas
consequências forem reforços positivos, obviamente a prática permanece
ou se fortalece. Nesse senddo, mesmo considerando que neste caso se fale

INDEX
cm entrelaçamento, é pertinente lembrar que as consequências, embora
estejam no contexto de grupos ou comunidades (contexto social), não são
para o grupo, mas para as pessoas que, individualmente, o compõem. O
que remete, novamente, à possibilidade de uma análise de contingências que
articula a dimensão individual e as dimensões coletivas das práticas culturais.
Para nenhuma finalidade, inclusive para aquelas aqui cogitadas, de
análise comportamental da cultura, o paradigma da tríplice relação de

BOOKS
contingências pode ser entendido linearmente, como um a-b-c estático e
discreto em que se tem uma resposta diante de um estímulo discriminativo
e que ela será afetada pela consequência que produz. Tomamos essa
representação simplificada, quase reduzida, da contingência (a-b-c) apenas
como instrumento didático para garantir coerência entre nossa inspeção
visual da sinalização gráfica e a própria sequência das três instâncias que
compõem o processo. Adicionalmente, se a análise se dá aparentando um
recorte da realidade, que dicotomiza os ‘significados1 de ambos (o recorte

GROUPS
e a realidade integral), lembremos que não é assim que Sldnner concebe as
relações comportamentais, quando afirma (1967) que “o comportamento
não é uma coisa, mas um processo, mutável, fluido e evanescente [...]” (p.
17). Para Lopes, Laurenti e Abib (2012, p. 78-79),

O monismo vê nesse fluxo uma perfeita harmonia,


uma espécie de sinfonia clássica, que mostra notável
regularidade e repetições. Por outro tado, um pluralista
vê nesse processo algo que não fecha completamente;
aspectos bastante regulares, mas também idiossincrasias;
padrões que se repetem, mas tentativas que fracassam

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e são abortadas; um rio ordenado com margens de


confusão. Não há problema nenhum em destacar a
regularidade do fluxo comportamental, afinal é isso que
permite alcançar resultados práticos, mas a parte não
deve ser tomada pelo todo. O mérito de uma ciência do
comportamento não é mostrar que o comportamento
é puramente regular e, em decorrência disso,
completamente previsível e controlável; mas mostrar
que há regularidade e que, olhando para esse aspecto do
comportamento, é possível ter algum controle e fazer
previsões bastante acuradas.

Além do exposto, observemos que a permanência ou mudança na


probabilidade de ocorrência de operantes ou práticas culturais enquanto

INDEX
conjunto articulado de operantes depende da ‘configuração’ das três
instâncias já caracterizadas na conccituação original de contingências.
Assim: (1) no contexto antecedente, localizamos, independente de que a
análise seja ontogenética ou cultural, a partícula lógica ‘Se’ (de ‘se, então’) c
descrevemos o arranjo que o delimita (Se A... , Se A+B..., Se A+C..., Se A
acima de B..., Se A ao lado de B..., Se A unicamente com a cor vermelha...),
ou seja, aí especificamos, necessariamente, o formato de organização

BOOKS
têmporo-espacial dos eventos componentes do contexto diante do qual
as unidades de resposta, comportamento ou prática cultural irão ocorrer;
(2) no contexto atual da atividade analisada, podemos ter, propriamente,
respostas ou operantes completos, mas independentes de entrelaçamento,
do mesmo modo como poderiamos ter um padrão de responder no
âmbito do terceiro nível, de nosso especial interesse aqui, mediante práticas
culturais, que exigem articulação, compartilhamento ou interdependência
entre indivíduos (evidentemente, há infinitas combinações possíveis:

GROUPS
padrões imitativos, cooperativos, competitivos, por exemplo); (3) no
contexto das consequências, além de reforçadores positivos ou negativos,
há uma variedade de arranjos (como nos esquemas de reforçamento de
Ferster e Skinner (1957): intervalo ou razão, fixo ou variável, implicando,
naturalmente, uma dependência clara entre o padrão de consequências e o
padrão comportamental.
A questão mais relevante no âmbito de uma análise comportamental
da cultura, nos dias atuais, não parece ser, portanto, se devemos considerar
duas unidades conceituais (contingências ou mctacontingências) como

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

mutuamente excludentes, já que há exemplos na literatura sobre a


funcionalidade de ambas, naturalmente em conformidade com a maneira
pela qual são utilizadas. Em última análise, o que sobressai como essencial
é que o pesquisador faça uma boa análise funcional. Para fazê-lo, é menos
importante usar este ou aquele termo; é importante, em contrapartida,
descrever com precisão os termos dc uma relação funcional. Como Mach
defendia: ‘descrever é explicar’.
Nesse cenário, embora a escolha da unidade conceituai ainda esteja em
franco debate, as questões mais relevantes atualmente são o aprimoramento
tecnológico e a análise dos parâmetros ético-morais que irão nortear a
direção das mudanças em práticas culturais. Avançar nesses aspectos

INDEX
significa avaliar concretamente em que medida o aludido pessimismo de
Skinner se justificaria.
No que respeita a esses aspectos, Carrara et al. (2013) desenvolveram
um instrum ento auxiliar que sugere ao usuário responder (e providenciar
ações) a questões prelim inares, mas críticas, em relação a qualquer
inciativa de planejam ento (com portam ental) da cultura. Os autores
ponderam :

BOOKS No contexto da Análise Comportamental da Cultura,


permeando os conflitos ético-teóricos e as dificuldades
tecnológicas que sc antepõem aos delineamentos
culturais, observa-se a carência de um trabalho de
sistcmatização das opções disponíveis para a conversão
de planejamentos culturais cm intervenções concretas.
[.,.] Nesse contexto ]...] [são apresentados] um guia
orientador e um fluxograma para delineamentos
culturais, instrumentos concebidos como facilitadores

GROUPSc preliminares à consecução de intervenções planejadas


em práticas culturais interpretadas sob a ótica da Análise
do Comportamento, [...j [Porém] os autores encarecem
aos leitores e eventuais usuários contra qualquer
possibilidade de que os instrumentos sejam tomados
como receitas prontas para elaboração de delineamentos
culturais. Na direção contrária, entendem que referidos
instrumentos são contextualizados teórica e eticamente e
sugere-se que testá-los, criticá-los e, por certo, reformulá-
los e aperfeiçoá-los pode constituir atividade bem-vinda
da parte da comunidade científica da área (CARRARA et
al., 2013, p. 99, grifo do autor).

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTrCAS PÚBLICAS

As principais questões e obstáculos examinados pelos autores estão


vinculados às perguntas ‘Como?’ e ‘Para quê?’. M ais especificamente, a
primeira se orienta pela dimensão tecnológica e a segunda pela dimensão
ético-moral dos delineamentos. Ambas são tão cruciais quanto inevitáveis
para o analista do comportamento interessado em atuar no cenário dos
comportamentos sociais complexos. O ‘Guia1 procura instrumentalizar o
planejamento, oferece muitas questões orientadoras de decisões técnicas para
o analista, e acrescenta um cbecküst. No entanto, também levanta questões
relacionadas à escolha dos objetivos do delineamento: a quem interessa,
quais são os critérios de escolha dos objetivos e quais as consequências
das mudanças nas práticas culturais pretendidas. Também acompanha um

INDEX
fluxograma de decisões, que busca ajudar na sequenciação mais comumente
encontrada de etapas do procedimento e que reconduz o planejador a
pontos que, eventualmente, deixou de atender.
Seja no âmbito ético-m oral, seja no âmbito de desenvolvim ento
tecnológico, está longe, no entanto, uma real possibilidade de que
possam os assum ir o estado atual do conhecim ento como ‘estável’,
isento de qualquer receio de que tenhamos um desenvolvim ento ainda
incom pleto da análise com portam ental da cultura. D esse modo, um a vez

BOOKS
que essa disciplina se pretende científica ao m esm o tem po em que não se
revela pronta para a sistem atizaçâo e síntese de seus procedim entos, não
há como se tom ar uma decisão à m aneira de uma N avalha de Ockham,
O tema da cultura, visto sob a ótica com portam ental, exige que o
planejam ento de novas práticas inclua um elem ento modulador. Ou seja,
tendo em vista que os objetivos m ajoritários se colocam em longo prazo
(redução da poluição, preservação e conservação de recursos naturais,

GROUPS
sustentabilidade, equacionam ento da m obilidade urbana, resolução
pacífica de conflitos de interesse no âmbito internacional), ainda que
possam os olhar para o passado e conceber possíveis consequências
que manterão com portam entos com patíveis com essas metas no tempo
corrente, quando projetam os as mudanças para um futuro distante não
temos quaisquer garantias de que, nesse tempo (daqui a 30, 50,100 anos),
os eventos consequentes capazes de manter as práticas planejadas sejam
os m esm os dos tempos contem porâneos. Para exem plo, considerem os
que tivesse sido tecnologicam ente possível estabelecer alguma grande
m eta, há 50 anos, para os tempos atuais e que essa m eta fosse controlada

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

por algum tipo de consequência social, na form a de atenção face a face.


O procedim ento teria sido eficaz, até certo ponto. Mas, não para qualquer
tempo futuro, considerando que os tempos atuais também, para além das
relações face a face, controlam o com portam ento de milhões de pessoas
por um a ‘atenção social’ que é m ediada pelas redes sociais da internet,
antes inexistente. Se ao planejador tivesse sido lícito apenas olhar
retrospectivam ente, à época do planejam ento, jamais poderia se valer
dos recursos online como selecionadores de com portam ento, a não ser
num lampejo ficcionista. A ssim , os planejam entos devem, tam bém , ser
com postos por elem entos m oduladores, ou seja, deve ser prevista uma
instância de análise constante da eficácia dos reforçadores em vigor nas

INDEX
novas práticas. E deve ser possível m udar esse aspecto das contingências.
A com unidade m exicana Los horcoms , criada ao então inovador modo
Walden, mantém uma instância m oduladora de contingências, assegurada
por reuniões regulares de um a assem bléia que decide, por exemplo, os
valores dos créditos de trabalho disponíveis. Trata-se de uma situação
(numa personocracia) bastante mais sim ples para serem tom adas tais
decisões, em contrapartida àquela em que vivem os atualm ente (em tese,
um a democracia representativa).

BOOKS
D e toda maneira, o fato de que os delineam entos culturais, por suas
características únicas, desafiam o analista do com portam ento com várias
dificuldades tecnológicas, organizacionais e éticas, sinaliza que, passados
15 anos após o ano 2000 (estimado em 1968 por Skinner como um
m om ento em que as aplicações da sua ciência já estariam adiantadas
e presentes também em instâncias soei o culturais) e continuando a
realidade social com padrão muito sem elhante, seria um indício de

GROUPS
que deveriamos concordar com o pessim ism o de Skinner? Será que
se passarão ainda muitas décadas até que se vislum bre a possibilidade
real de que a análise do com portam ento seja reconhecida como um
esforço válido em busca de um mundo m elhor para toda a hum anidade?
Ou será possível engrossar fileiras com Chance (2007) no sentido de
que Skinner estava errado se —de fato —reconhecia a im possibilidade
de que tal meta se concretizasse? Diante do nosso estado atual de
conhecimento é parcim onioso concluir que não há resposta definitiva a
essas perguntas, evidentem ente. No entanto, um exame histórico revela
que, pelo volume e qualidade das pesquisas em píricas e artigos teóricos

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCLAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

publicados, certam ente não estamos no mesmo lugar em que estávam os


em term os de conhecim ento quando das prim eiras análises culturais em
Ciência e comportamento humano (SKINNER, 1967). Há novos desafios,
cujo enfrentam ento é aparentem ente plausível.

4. Atendendo ao convite de Glenn: a criação de uma unidade


gestora de políticas comportamentais e novas perspectivas de
planejamento cultural

Independentemente de que escolhamos contingências ou

INDEX
metacontingências como unidade de análise, independentemente do
nosso modesto estado da arte atual em análise comportamental da cultura,
independentemente dos dilemas ético-morais que circunscrevem a escolha
dos objetivos dos delineamentos culturais, um gentil convite feito pela
professora Sigrid Glenn em seu seminal artigo Metacontingencies in Walden
two (1986) sugere uma forma de encaminhamento de nossos esforços. A
autora usa como recurso ilustrativo metafórico o episódio do êxodo do
povo egípcio para a Terra Prometida. A1Í, a vida dos cidadãos estaria livre

BOOKS
do controle despótico e todos seriam definitivamente felizes. No entanto, o
caminho para essa solução utópica era agreste e complexo. Nesse cenário,
Glenn (1986, p. 8) assim se pronuncia:

Para aqueles de nós que encaram W a ld en tw o como a


Terra Prometida e o local onde estamos como um Egito,
precisamos lembrar que existe um caminho agreste entre
os dois. A inclinação para partirmos c começarmos algo
novo, em algum novo lugar, onde poderemos construir

GROUPS
uma nova sociedade nunca se concretiza; levamos
conosco nossos velhos comportamentos e eles provem
contingências para o comportamento dos outros, em
nosso novo ambiente. Podemos, portanto, começar aqui
mesmo, no Egito, e lidar com a menor área possível,
aquela com a qual temos contato contínuo e direto -
nosso ambiente doméstico, nosso ambiente de trabalho,
nossos projetos de lazer. Para nos ajudar em nossa
rota através do caminho selvagem, sugiro que primeiro
olhemos dc perto para o nosso próprio comportamento.
Somos capazes de separar os reforçadores tecnológicos
dos reforçadores cerimoniais e virar as costas a esses

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

últimos? O que podemos fazer para criar um ambiente


de trabalho para os outros, que os coloque em contato
com reforçadores tecnológicos e minimize os efeitos
de contingências cerimoniais? Ousamos dar afeição
livremente e não a acumular para usá-la em troca de
acesso ao controle cerimonial? Existe algum modo de
organizarmos um sistema, mesmo que pequeno, no qual
o comportamento dc todos seja igualmentc valorizado,
no qual todos contribuam para o bem-estar do grupo,
partilhando igualmente os produtos dos esforços do
grupo? Em qualquer grau que consigamos atingir tais
objetivos, estaremos progredindo pelo caminho agreste.
Nós, os pouco afortunados, não faremos junto a
viagem, mas em nossos locais e momentos diferentes.
Mas, graças aos modernos meios de comunicação, é

INDEX
possível nos beneficiarmos com o que outros aprendem
ao fazer a viagem. Talvez sejamos capazes de utilizar os
momentos em que nossos caminhos se cruzarem, para
relembrarmos uns aos outros para o quê exatamente
estamos trabalhando, E nós precisamos começar. O
tempo é curto.

Escolhemos, aqui, aceitar o convite de Sigrid Glenn, no sentido de


concordar com a possibilidade atual dc contribuir, sem infundado otimismo,

BOOKS
para que a análise do comportamento possa concretizar intervenções
pequenas, mas vinculadas a uma pretensão nao utópica de mudanças nas
práticas culturais. Naturalmente, não apenas as limitações oriundas de uma
ciência em plena construção contribuem para essa decisão, mas a história
pessoal de nossas interações em um país ainda repleto de desigualdades
sociais, que tem problemas inteiramente básicos a resolver, também
motiva uma atitude de otimismo controlado. No entanto, não parece

GROUPS
completamente verossímil que unicamente a interpretação que Skinner faz
do cenário social americano, a seu tempo, possa ter sido razão plausível para
sua contrariedade com o limitado avanço da análise do comportamento no
contexto cultural. Assim fosse e não teríamos hoje, num cenário político-
econômico dc mais graves discrepâncias entre os países desenvolvidos e os
em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, uma motivação crescente para
engendrar novos empreendimentos de planejamento cultural - não com
a ingênua ilusão de uma solução meramente tecnocrática - todavia, nao
ignorando as contribuições da ciência para um mundo mais humanizado.
Talvez seja justamente da ciência socialmente contextualizada nos países

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

onde a democracia ainda tem muito a fazer para se consolidar, que surjam as
melhores alternativas teórico-tecnológico-éticas para se pensar em formas
de contracontrole que acarretem modos de vida mais justos em sociedade.
E nessa perspectiva que se edifica a possibilidade de criação de unidades
gestoras de dimensões comportamcntais de políticas públicas.
Historicamente, essas políticas têm sido concebidas de um ponto de
vista razoavelmente intuitivo, o que as torna frequentemente incompletas,
imprecisas e à mercê de interesses pardeulares. Políticas públicas
compreendem decisões de governo, em diversas áreas, que influenciam a
vida de um conjunto de cidadãos. São os atos que o governo faz ou deixa
de fazer e os efeitos que tais ações ou sua ausência provocam na sociedade.

INDEX
Essas políticas, portanto, constituem uma forma de regulação ou intervenção
social, articulando diferentes - e, por vezes, contrastantes - interesses sociais.
As políticas públicas organizam-se —ao menos é assim que deveria ser —
a partir da explicitação c intermediação de interesses sociais mobilizados
em torno dos recursos produzidos social mente e, na prática, dependem,
quanto à sua real execução, de que sejam incluídas em programas de ação
governamental. A título de exemplo, confiram-se as políticas: habitacional,
de assistência social, de saúde, de segurança, educacional, monetária, de

BOOKS
relações exteriores e assim por diante. Numa democracia representativa, as
aspirações e necessidades da população (em tese) deveriam ser transformadas
em ações concretas de governo por meio de um sistema ouvidor (sejam os
ministérios, secretarias e outros órgãos assessores, seja o conjunto federal,
estadual e municipal do poder legislativo, por meio das proposições dos
representantes eleitos). É evidente que, no entanto, em muitas situações
o que ocorre é que essa oitiva cuidadosa da população ou não acontece

GROUPS
ou é distorcida em função de outros interesses, por vezes compreensíveis
quanto à sua origem e curso, mas, no entanto, frequentemente ilegítimos e
injustificáveis em face de escolhas éticas duvidosas. O fato é que, ainda em
tese, há lugar para uma contribuição das ciências comportamentais para o
planejamento de políticas, o que deveria soar como conclusão plausível, já
que em todos os segmentos de interesse social, para além de outros eventos,
mecanismos e finalidades, há comportamento presente. Senão, vejamos
exemplos: (1) se se planeja uma educação para o consumo, não basta (embora
importante) uma instrumentalização econômica mediante redução de custo
de alimentação apropriada, mas é fundamental o estabelecimento planejado

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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

de consequências para o comportamento de escolha alimentar correto; (2) se


se planeja a redução do consumo inadequado de energia elétrica, não basta
(embora igualmente importante) o desenvolvimento de novas fontes de
energia limpa, materiais mais baratos, duráveis e consistentes de transmissão
de energia; são imprescindíveis consequências para estabelecer e consolidar
as práticas culturais adequadas de consumo sustentável; (3) se se planeja
o envolvimento dos filhos de famílias pouco abastadas com os processos
educativos, ao mesmo tempo em que se objetiva o envolvimento dos adultos
dessas famílias com o trabalho e, como resultado, a emancipação das pessoas
como cidadãos na melhor acepção do termo, parece igualmente necessário
o planejamento de contingências tais que não tornem uma política pública

INDEX
de tal envergadura um empreendimento unicamente assistencialista e que
apenas motive os beneficiários a uma dependência social que lhes é deletéria
em longo prazo (para um exemplo corrente, talvez uma análise nesses
termos possa ser pertinente quanto ao programa federal Bolsa Família).
Dito de outro modo, em todos os campos —educação, saúde, economia,
segurança, relações exteriores - há comportamento. Em todos eles, há
contingências operando. E esse é o campo de trabalho natural dos analistas
comportamentais da cultura. É nesse contexto que se insere a possibilidade

BOOKS
de disponibilização de uma espécie de instância competente para assessorar
a criação de políticas públicas comportamentais. Ou seja, se concebemos
projetos de políticas públicas como unidades mínimas de aplicação
de recursos que, por intermédio de um conjunto integrado de regras,
pretende transformar uma parcela da realidade, diminuindo ou eliminando
um déficit ou solucionando um problema social, parece bastante clara a
pertinência da criação de uma instância (seja governamental, seja mediante
uma organização não governamental ou outra forma), que possa fornecer

GROUPS
aos dirigentes públicos, num primeiro momento (experimentalmente),
a assessoria necessária para a implantação de políticas que realmente
funcionem e abranjam as variáveis comportamentais pouco visíveis para os
leigos.
Não nos esqueçamos, todavia, dos problemas ético-morais vinculados
à definição dos objetivos das políticas públicas, No que toca à sobrevivência
da cultura (se tomada no singular), já se discutiu o risco de conflito de
interesses entre culturas gerando, por exemplo, práticas culturais que,
embora beneficiem uma comunidade, possam ser extremamente deletérias

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4 SELEÇÃO PELAS CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

para outras. Além disso, nos casos em que a identificação mesma das
práticas que deverão sobreviver fica a cargo de um planejador pertencente
à própria cultura a ser mudada, o viés endógeno da legitimação prescritiva
pode representar um problema adicional. Castro (2013, p. 166) assim analisa
a questão:

O relativismo cultural, do ponto de vista da ciência de


Skinner, implica o relativismo moral, daí, conforme
buscamos analisar, a dificuldade de sc legitimar a eleição
de um valor principal a partir da Metaética. Mas, se a
defesa da sobrevivência da cultura como valor supremo
não encontra legitimidade na Metaética, onde se podería
buscá-la? A legitimação para a ética prescritiva de

INDEX
Skinner vem de seu próprio contexto cultural, por isso
ela não pode ser absoluta, como quer o autor. Desse
modo, talvez seja possível defender a ética prescritiva
skinneriana como norte, regra, para utilização da
tecnologia comportamental, mas dentro daquela cultura,
não como algo absoluto e que serviria para qualquer
cultura. Portanto, o que a legitima é a própria cultura na
qual surgiu a ciência natural da qual emergiu a ética da
sobrevivência com seu “imperativo categórico natural”.

BOOKS
Ainda que ao ser encampada por agências de governo a responsabilidade
legal pelas ações pudesse ficar sob o encargo delas mesmas, cabe ao analista
do comportamento a incumbência de manter-se crítico em relação a poder
vir a servir a interesses pouco transparentes.

Considerações finais

GROUPS
Como já discutimos, não apenas a ideia de sobrevivência da cultura
como critério final deve ser considerada com cautela, como, paralelamente
à instância assessora da dimensão comportamental das políticas públicas,
devería emergir um sistema de consultoria ético-jurídica, talvez pautada
nos valores soberanos, nacionais e internacionais, da boa convivência e da
superação de conflitos de interesse. Essa instância também podería levar em
consideração que o valor dos comportamentos a serem emitidos deveria
ser analisado em termos dos benefícios que resultam para a comunidade,
embora o alto risco de uma avaliação contaminada por excessivo relativismo.

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C1JT. TURA, DEMOCRACIA E ETICA

Nesse sentido, a maximização do benefício para o grupo deveria orientar


(embora a inviabilidade de que esse possa constituir um valor absoluto)
benefício para o indivíduo e vice-versa.
Uma consultoria com portam ental de políticas públicas, na prática,
poderia disponibilizar assessoria, especificam ente, para adequações
na dim ensão com portam ental das políticas de governo, na elaboração
dc leis, regras, norm as e campanhas que visem a instalar ou mudar
repertórios de práticas culturais, tendo com o objetivo mais geral a
convivência social plena de cidadania e justiça social. Esse organism o
desenvolvería estratégias de sensibilização dos dirigentes e agentes
públicos mediante produção de docum entos educativos a respeito das

INDEX
estratégias de intervenção apoiadas na lógica natural da seleção pelas
consequências, oferecería cursos de capacitação e gestaria políticas
com portam entais baseadas na seleção pelas consequências. N a mesm a
direção, viabilizaria reivindicações às agências de fomento sobre editais
frequentes para apoiar a produção científica de novos instrum entos,
procedim entos e elaborações teóricas, filosóficas e éticas orientadas
para a consecução de m edidas viabilizadoras de iniciativas apoiadas
numa perspectiva de seleção pelas consequências como norte funcional

BOOKS
para políticas públicas. A im plantação de políticas experim entais, com
abrangência populacional reduzida, para testes de viabilidade, análise
de desdobram entos ético-m orais dos objetivos, caracterizando a já
discutida modulação experim ental, constitui parcela im prescindível do
empreendimento. Para todos nós, cidadãos, talvez isto seja um projeto
pouco abrangente, dada a am plitude dos problem as sociais vigentes,
im ensa e incalculável. No entanto, para alguns de nós, que estudamos
o tem a dos delineam entos culturais, será justificável nos esquivarm os

GROUPS
do com prom isso profissional com a justiça social, dando-nos ao luxo
de desconsiderar uma nova alternativa ao nosso alcance? Nova utopia?
Talvez, apenas projeto utópico se, no m esm o clim a que decepcionou
Skinner, não se conseguir mudar o com portam ento de sequer alguns
poucos dirigentes públicos para, dem ocraticam ente, assegurar que se
experim ente.
M as há o que possa ser melhor, sem dúvida alguma: um grande
projeto para aprenderm os e ensinarm os com portam ento altruísta.
Este, sem dúvida, é, no mínim o, sonho de m uitos: instalar e consolidar

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4 SELEÇÃO PELAR CONSEQUÊNCIAS COMO NORTE FUNCIONAL PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

práticas culturais sustentáveis, que mesmo que não nos beneficiem


diretam ente, garantirão, em gesto altruísta, a vida das pessoas e do
planeta em boas condições por m uito mais tempo do que as nossas
existências pessoais. Por um lado, a ideia do altruísm o desinteressado
e ‘genuíno’ parece inconsistente com a seleção pelas consequências,
uma vez que im plica um padrão com portam ental inato ou instalado
sem ter sido consequenciado. Já um altruísm o ‘interessado’, ou seja, um
padrão com portam ental que poderia se instalar m ediante consequências
seletivas de operantes que geram o bem de outros e o bem da espécie,
parece ser um com portam ento como outros quanto à sua natureza e
funcionalidade. N ada temos contra o fato de que aprender a cuidar

INDEX
do futuro dos nossos descendentes seja suscetível de seleção pelas
consequências. N esse sentido, planejar m elhores condições de vida,
ouvindo parcim oniosam ente os mais variados segm entos sociais,
respeitando minorias e instrum entalizando a partir de reivindicações
populares as mais legítimas políticas públicas, parece constituir uma
prática da dem ocracia orientada constitucionalm ente. Essa form a
de planejam ento se encontra longe e em posição exatam ente oposta
à de pensar uma autocrática e danosa ‘engenharia social’ subsidiada

BOOKS
por interesses particulares, eivada de nuances deletérias à equidade de
oportunidades e à justiça social. Talvez consequências simples, como
o reconhecim ento social, constituam uma retribuição mais palpável
do que aparenta para com portam entos efetivam ente cidadãos. Talvez
possam fazer parte de um a abrangente educação para a sensibilidade,
como nos ensina Abib (2007, p. 78, grifo nosso):

A cultura da identidade, ou seja, a reprodução do

GROUPS
passado, das tradições, do mesmo, do similar, deve
ser deslocada para um segundo plano ou pode ser até
mesmo abandonada. Com essa estratégia, a cultura
da alteridade, a cultura que estabelece as condições
para o afloramento da pluralidade e diversidade,
que são necessárias para a compreensão de mundos
diferentes, toma a frente do processo de ed u cação
d a se n sib ilid ad e . Uma educação da alteridade
ressalta exatamente os aspectos que uma cultura da
identidade passa por alto ou até mesmo desestimula,
como, por exemplo, os desvios, os erros, os acidentes,
o imprevisto e o novo.

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CULTURA, DEMOCRACIA E ETICA

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GUERIN, Bernard. Analyzing social behavior: behavior analysis and the

BOOKS
social Sciences. Reno, NV: Context Press, 1994.

HORI, Clara Yoshíko. Descrevendo a (in)coerência entre consciência


e práticas ambientais sustentáveis: um estudo com alunos de engenharia
ambiental. 2010. 162f. Dissertação (Mestrado) —Programa de Pós-graduação
em Engenharia da Produção, Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita
Filho, Bauru, 2010.

KANGAS, Brian D. Cultural materialism and behavior analysis: an

GROUPS
introduction to Harris. The Behavior Analyst, v. 30, n. 1, 2007, p. 37-47.

LOPES, Carlos Eduardo; LAURENTI, Carolina; ABIB, José Antônio


Damásio. Conversas pragmatistas sobre comportamentalismo radical:
mundo, homem e ética. Santo André: ESETec, 2012.

MAL1NOWSKI, Bronislaw Kasper. Uma teoria científica da cultura. Rio


de Janeiro: Zahar Editores, 1970.

MALOTT, Maria E; GLENN, Sigrid S. Targets of intervention in cultural and


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CULTURA, DEMOCRACIA E ÉTICA

MOREIRA, Márcio Borges. (Org.). Comportamento e práticas culturais.


Livro online. Disponível em <www.waldcn4.com.br>. Acesso cm: 8 jun. 2013.

MORFORD, Zachary H.; C1HON, Traci M. Developing an experimental


analysis of metacontingencies: considerations regarding cooperation in a four-
person prisioners dilemma game, Behavior and Social Issues, v. 22, p. 5-20,
2013.

PEROSS1, Gabriela Rizzo; GARRARA, Kester. Por que funcionam


limitadamente campanhas e programas de conservação de água? Uma análise
comportamental. Interação em Psicologia, v. 16, n. 2, p. 199-210, 2012.

SKINNER, Burrhus Frederic. The design of cultures. Daedalus, v. 90, n. 3,

INDEX
p. 534-546,1961.

SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. Brasília:


Editora Universidade de Brasília, 1967. [Contendo apresentação da Edição
Brasileira pelo autor; original de 1953].

SKINNER, Burrhus Frederic. Reflections on behaviorism and society.


Englewood Cliffs, New Jcrsey: Prentice-Hall, Inc., 1978a.

BOOKS
SKINNER, Burrhus Frederic. Walden II: uma sociedade do futuro. São
Paulo: EPU, 1978b. [contendo o prefácio para a edição de 1969; original de
1948].

SKINNER, Burrhus Frederic. Selection by consequences. Science, v. 213, p.


501-504, 1981.

SKINNER, Burrhus Frederic. O mito da liberdade. Sao Paulo: Summus


Editorial, 1983.

GROUPS
SKINNER, Burrhus Frederic. Psychology in the year 2000. Journal of the
Experimental Analysis of Behavior, v. 81, p. 207-213, 2004. [Original:
conferência apresentada em 10/5/1968, ao Departamento de Psicologia da
Wayne State LTniversity].

SOUZA, Vivian Bonani de; GARRARA, Kester. Delincamentos culturais:


transferência de controle de reforçadores arbitrários a naturais e de imediatos
a atrasados. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v.
15, n. 1, p. 83-98, 2013.

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S o b r e os a u t o r e s

Camila Muchon de Melo. Psicóloga pela Universidade Estadual de Londrina.


Mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos.
Realizou estágio durante o doutoramento na U n iv e r s it y o f S o u t h A u s l r a l i a , sob a
orientação do professor PhD. Bernard Guerin. Fez pós-doutorado no Instituto
Nacional sobre o Comportamento, Cognição e Ensino, na Universidade Federal de
São Carlos. Atualmente é professora Adjunta do D epartamento de Psicologia G eral

INDEX
e Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina e professora
credenciada no Programa de Pós Graduação cm Análise do Comportamento da
mesma Universidade, Desenvolve pesquisas em Fundamentos do Behaviorismo
Radical e Análise Comportamental da Cultura. Publicou capítulos de livros e artigos,
com destaque para o artigo S o m e R e l a t io n s b e t w e e n C u ltu r e , E t h i c s a n d T e c h n o lo g y i n B .
F . S k i n n e r (2015) na B e h a v i o r a n d S o c i a l I s s u e s (em co-autoria com Marina de Castro
e Julio de Rose).

Carlos Eduardo Lopes. Graduado em Psicologia pela Universidade Federal de

BOOKS
Sao Carlos e doutor em Filosofia pela mesma instituição. Atualmente é professor
Adjunto do D epartamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, e
coordenador do Laboratório de Filosofia e Metodologia da Psicologia (LAFIMEP),
no qual desenvolve pesquisas conceituais sobre a filosofia do Comportamentalismo
Radical e História da Psicologia. Publicou diversos artigos e capítulos de livros, com
destaque para o livro C o n v e r s a s P r a g m a t i s t a s s o b r e C o m p o r t a m e n t a lis m o R a d ic a l: M u n d o ,
H o m e m e É t i c a (em colaboração com Carolina Laurenti e José Antônio Damásio
Abib) (ESEtec, Santo André, 2012).

GROUPS
Carolina Laurenti. Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de
Londrina. Mestre e doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos.
Atualmente é professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade
Estadual de Maringá, no qual desenvolve pesquisas conceituais sobre a filosofia do
Comportamentalismo Radical no âmbito do Laboratório dc Filosofia e Metodologia
da Psicologia (LAFIMEP). Publicou diversos artigos e capítulos de livros, com
destaque para o livro C o n v e r s a s P r a g m a t i s t a s s o b r e C o m p o r t a m e n t a lis m o R a d ic a l: M u n d o ,
H o m e m e E t i c a (em colaboração com Carlos Eduardo Lopes e José Antônio Damásio
Abib) (F.SEtec, Santo Andrc, 2012).

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CULTURA. DEMOCRACIA E ÉTICA

José Antônio Damásio Abib. Psicólogo pela Universidade de Brasília, mestre e


doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP), pós-
doutor em Epistemologia da Psicologia pela Universidade de Aarhus (Dinamarca).
Foi professor visitante da Universidade de Aarhus (Dinamarca), Universidade
Federal de Santa Catarina, Universidade Federal do Paraná, Universidade
Estadual de Maringá. Professor no Programa de Pós-Graduação cm Filosofia no
Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos. Publicou vários
ensaios e capítulos de livro sobre Epistemologia da Psicologia. É autor dos livros
Teorias do Comportamento e Subjetividade na Psicologia (EDUFSCar, São Carlos, 1997),
Comportamento e Sensibilidade: Vida, Prazer e Etica (ESETec, Santo André, 2007), O
Sujeito no Labirinto: Um Ensaio Psicológico (ESETec, Santo André. 2007) e Conversas
Pragmatistas sobre Comportamentalismo Radical: Mundo, Homem e Etica (em colaboração
com Carlos Eduardo Lopes e Carolina Laurenti) (ESEtec, Santo André, 2012).

INDEX
Kester Carrara. Mestrado pela PUC-SP, doutorado e livre-docência pela Unesp.
Atua em Análise Comportamental da Cultura na graduação e no Programa de Pós-
Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem do Campus de
Bauru, SP. Tider de pesquisa do GEPEDEC (Grupo de Estudos e Pesquisas em
Delineamentos Culturais). Bolsista de Produtividade do CNPq. Publicou diversos
artigos em periódicos qualificados, capítulos de livros e livros, com destaque para
Behaviorismo Radical: Crítica e Metacrítica (Editora UNESP, 2005).

BOOKS
Marina Souto Lopes Bezerra de Castro. Psicóloga formada na Universidade
Federal de São Carlos, é mestre e doutora em Filosofia pela mesma instituição. Sob
a orientação do professor Júlio de Rose, teve, como objeto de investigação, a ética
na obra de B, F. Skinner. Publicou, em coautoria com seu orientador, o livro A
Etica Skinneriana e a Tensão entre Descrição e Prescrição no Behaviorismo Radical (ESETec,
Santo André, 2008). Desde 2010 atua como psicóloga judiciária na Comarca de
São Carlos - SP. Está vinculada ao Departamento de Psicologia da UFSCar como
pesquisadora associada e professora voluntária, realizando pesquisas a respeito do

GROUPS
fenômeno da alienação parental sob a supervisão da professora Lúcia Cavalcanti de
Albuquerque Williams.

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