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ISSN 00347272 ARTIGO DE REVISÃO

Enterococcus faecalis na Endodontia: um


desafio ao sucesso
Enterococcus faecalis in Endodontics: a challenge to success

Marcia Christina André Moreira Nacif Introdução

E
Especialista em Endodontia pela São Leopoldo Mandic-
Rio de Janeiro mbora seja um comensal anfibiôntico na microbiota in-
Mestre em Endodontia pela Unesa
Flávio Rodrigues Ferreira Alves testinal humana, Enterococcus faecali s tem importância
Professor do Programa de Pós-graduação em Odontolo- na área médica, visto que está associado a infecções hu-
gia da Unesa
Doutor em Ciências (Microbiologia) pela UFRJ manas como: bacteremias, endocardites, infecções urinárias,
Professor do Curso de Especialização da Unesa e São
Leopoldo Mandic-Rio de Janeiro infecções no trato biliar, abscessos intra-abdominais (16, 17).
Na Endodontia, um entendimento minucioso da microbio-
Resumo logia que infecta os canais radiculares é fundamental para lo-
Enterococcus faecalis habitam normalmente na ca-
vidade oral humana e são patógenos oportunistas. Es- grar êxito na terapia; visto que, bactérias desempenham um
tes micro-organismos são frequentemente detectados papel crucial na etiologia destas doenças (29). Outros micro-
em infecções endodônticas persistentes e mais frequen-
temente, assintomáticas. Este estudo se propõe a revi- organismos como fungos (6, 32) e vírus também têm sido iden-
sar a literatura científica a respeito desta bactéria,
apontando e discutindo suas características estrutu- tificados em sítios endodônticos (24). Estudos têm indicado
rais, fatores de virulência e sua resistência a antimicro- que o Enterococcus faecalis está associado aos casos de insu-
bianos, buscando justificativas para sua alta prevalên-
cia nos casos de fracasso do tratamento endodôntico e cesso do tratamento endodôntico (15, 27) e persistência de pa-
sua ampla utilização em pesquisa na Endodontia. Pode- tologias perirradiculares (6, 23, 31). Quando estabelecido no
se constatar que as principais características que ex-
plicam a prevalência desta espécie em casos de fra- canal, o Enterococcus faecalis possui mecanismos de sobrevi-
casso endodôntico são a sua capacidade de formar
biofilme e sua elevada resistência ao hidróxido de vência. SEDGLEY, LENNAN, APPELBE (28) evidenciaram a so-
cálcio. Diante de sua importância, E. faecalis tem sido brevivência de E. faecalis em dentes ex vivo, que foram instru-
utilizado como padrão em estudos na Endodontia.
Palavras-chave: Enterococcus faecalis; infecções mentados e inoculados com cepas de E. faecalis , e avaliados
endodônticas persistentes e secundárias.
depois de 6 meses, por até 12 meses.
Abstract Este micro-organismo apresenta também uma resposta ao
Enterococcus faecalis are normally inhabitants of the pH alcalino, adaptando-se através de uma bomba de prótons
human oral cavity, and are opportunistic pathogens. The-
se microorganisms are frequently detected in asympto- capaz de acidificar o citoplasma bacteriano (2), isto justifica
matic persistent endodontic infections. This study propo- sua resistência a medicamentos intracanais à base de hidróxi-
ses to review the scientific bibliography about these bac-
teria, pointing out and discussing their structural charac- do de cálcio (8, 19). DISTEL, HATTON, GILLESPIE (1) evidenci-
teristcs, virulence factors and resistance to antibiotics, justi-
fying their prevalence in cases of insucessful root canal tre-
aram a formação de biofilme em canais radiculares, mesmo
atment and their extensive use in Endodontics research. naqueles que receberam medicação com hidróxido de cálcio .
The principal characteristics of E. faecalis which explain their
high prevalence in insuccessful endodontic therapy are the Dentro deste contexto, dada a importância do E. faecalis ,
ability to form biofilm and their low susceptibility to calcium evidenciada pela sua alta prevalência em infecções secundári-
hydroxide. Given their importance, E. faecalis have been
used as standard in Endodontics studies. as e persistentes do sistema de canais radiculares, este estudo
Keywords: Enterococcus faecalis; persistant and se-
condary endodontics infections. se propõe a revisar a literatura científica apontando e discutin-
do suas características gerais, destacamos seus fatores de viru-
lência, sua resistência a antimicrobianos, sua prevalência nos
casos de fracasso do tratamento endodôntico e sua utilização
em pesquisa na Endodontia.

Características Gerais do Gênero Enterococcus


Enterococcus são cocos fermentativos, não esporulados, fa-
cultativamente anaeróbios, Gram-positivos. Suas células me-
dem de 0,5 a 1µm em diâmetro, ocorrendo únicos, em pares ou
em cadeias curtas, frequentemente alongados seguindo a dire-
ção da cadeia de células. Muitas cadeias são não hemolíticas,

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mas podem ser alfa ou beta he- rados exibindo sinais de perio- A habilidade do E. faecalis to-
molíticas (23). A temperatura óti- dontite apical crônica (32). lerar ou se adaptar às severas
ma de crescimento é de 35°C. condições ambientais lhe confe-
Apresentam crescimento rápido Enterococcus faecalis re vantagens sobre outras espé-
em meios de cultura suplemen- cies. Isto pode explicar sua so-
Segundo GIARD, HARTKE,
tados com sangue, produzindo brevivência nas infecções endo-
BENACHOUR et al. (4), células de
colônias brancas após vinte e dônticas onde são escassos os
Enterococcus faecalis podem se
quatro horas de incubação. nutrientes. Um estudo in vitro
adaptar às condições adversas
Os Enterococus podem ser mostrou que este micro-organis-
quando expostas a situações de
cultivados na presença de altas mo é capaz de assumir o estado
estresse subletais. Os mecanis-
concentrações de sal (NaCl a de “viável mas não cultivável”,
mos de aquisição de resistência
6,5%), toleram sais biliares a 40% uma estratégia adotada pelas
apresentam diferentes respostas
e têm a capacidade de hidrolisar bactérias quando expostas a
de acordo com a intensidade e
a esculina em presença de bile, ambientes estressantes (28).
duração do estresse. Quando pri-
produzindo um pigmento preto Essa enorme capacidade de
vados de nutrientes sua viabili-
em meio bili-esculina-agar resistência e sobrevivência aos
dade é mantida por extensos pe-
(meio de cultura identificador tratamentos endodônticos faz
ríodos, mostrando que o desen-
seletivo entre Enterococcus e do E. faecalis objeto de inúme-
volvimento de tolerância é pro-
Streptococcus Grupo D). Estas ras pesquisas na avaliação da
gressivo à duração da supressão
propriedades básicas ajudam a efetividade de procedimentos
de nutrientes, ao calor, hipoclo-
diferenciar os Enterococcus de endodônticos (8, 19) e medica-
rito de sódio, peróxido de hidro-
outros cocos Gram-positivos, ções antimicrobianas intraca-
gênio e etanol.
catalase negativos. São necessá- nais (15, 28).
Fatores de resistência do E.
rios testes fenotípicos selecio-
faecalis a agentes químicos, in- Resistência a
nados, como por exemplo: rea-
cluindo antibióticos não estão
ções de fermentação, motilida- Antibióticos
totalmente esclarecidos. A facili-
de, hidrólises da pirrolidonila-
dade na transferência de genes MOLANDER & DAHLÉN (15)
rilamidase (PIR), da bile-escu-
que codificam a produção de fa- justificam a indicação do uso de
lina, para diferenciar as espéci-
tores de virulência: gelatinases, alguns antibióticos após conhe-
es deste gênero (16).
citolisinas, proteínas de superfí- cimentos recentes do papel de-
Baseados nos resultados de
cie de Enterococcus , como tam- sempenhado por diferentes bac-
seus estudos SCHLEIFER & KIL-
bém substância de agregação de térias no interior dos canais e
PPER (26) e KILPPER & SCHLEI-
Enterococcus , podem estar rela- relatos da não efetividade do hi-
FER (12) propuseram que os En-
cionados à persistência destes dróxido de cálcio contra o Ente-
terococcus fossem removidos do
micro-organismos nos diferen- rococcus faecalis . O estudo de
gênero Streptococcus e designa-
tes sítios humanos (17). GOMES, SOUZA, FERRAZ et al. (5)
dos como um gênero indepen-
A capacidade de sobrevivên- mostrou que dada à predomi-
dente. Neste gênero existem
cia, de crescimento e de recupe- nância do E. faecalis em dentes
duas espécies de grande preva-
ração em soro permite que mes- com tratamento endodôntico as-
lência nas infecções humanas:
mo uma pequena população de sociados a lesões periapicais,
Enterococcus faecalis e Entero-
coccus faecium (16) . Os Entero- E. faecalis possa sobreviver em drogas alternativas devem ser
coccus faecalis são causadores água por mais de quatro meses consideradas para profilaxia em
de 80-90% de infecções entero- e, quando introduzidos nos ca- indivíduos com risco de endo-
cócicas nos humanos (16). nais, podem manter sua viabili- cardite durante o retratamento
Nas infecções endodônticas, dade por 12 meses sem nutrien- endodôntico. A efetividade da
apesar de estarem presentes em tes adicionais (28). Estas células vancomicina está ameaçada pelo
pequena proporção na microbi- bacterianas são capazes de se aumento de ocorrências de En-
ota inicial de dentes com necro- recuperar utilizando soro huma- terococcus vancomicina-resis-
se pulpar, os Enterococcus spp, no como fonte nutricional (3) e tentes (13, 18). MOLANDER &
particularmente o Enterococcus continuarem hábeis para invadir DAHLÉN (15), em seu estudo,
faecalis , vêm sendo encontrados túbulos e aderirem ao colágeno evidenciaram o desempenho su-
com frequência em canais obtu- na presença de soro humano (6). perior da eritromicina sobre a

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tetraciclina, especialmente de dentes infectados e extraídos. A clorexidina gel a 2% foi utilizada


em casos de cultura pura de como solução irrigadora em modelo laboratorial ex vivo , exibindo
Enterococcus, sugerindo que em todos os grupos experimentais células residuais de E. faecalis
esta poderia ser associada ao viáveis dentro de túbulos dentinários, mesmo após 60 dias de obtu-
hidróxido de cálcio como op- ração dos canais.
ção contra monoinfecções por
Enterococcus. Prevalência do Enterococcus faecalis nos Casos de
Fracasso no Tratamento E ndodôntico
Endodôntico
Resistência ao
Embora pouco frequente nos casos de necrose pulpar sem des-
Hidróxido de Cálcio
truição óssea perirradicular, nos casos de fracasso da terapia endo-
Várias pesquisas avaliaram a dôntica, o Enterococcus faecalis assume lugar de destaque, dada a
atividade antimicrobiana do hi- alta prevalência com que é identificado. A Tabela I apresenta os dife-
dróxido de cálcio e o Enterococ- rentes percentuais de prevalência desta espécie encontrados por
cus faecalis foi considerado o diferentes estudos e método de identificação empregado. O E. faeca-
micro-organismo mais resisten- lis correlaciona-se com uma série de patologias sistêmicas impor-
te (5, 8, 19, 31). Estudos revela- tantes, o que indica a priorização da reintervenção nestes casos de
ram que o hidróxido de cálcio insucesso endodôntico (30).
não promove ação satisfatória
Tabela I. Prevalência de Enterococcus faecalis nos fracassos endodôntico apon-
sobre micro-organismos presen- tada por diferentes estudos
tes no interior de tú-
bulos dentinários, nº de casos nº de casos prevalência Método de-
necessitando contato estudados c/crescimen- do E. faecalis detecção
Autor/ano to bacteriano
direto e difusão no 32/68 = 47% Cultura
MOLANDER et al. (14) 100 68
meio para exercer
SUNDQVIST et al. (33) 54 9/24 = 38% Cultura
sua atividade anti- 24
PECIULIENNE et al. (20) 25 20 14/20 = 70% Cultura
microbiana (8, 19).
EVANS, DAVIES, HANCOCK et al. (9) 54 33 10/33 = 30% Cultura
SUNDQVIST et al . PECIULIENNE et al. (21) 40 33 21/33 = 64% Cultura
(2) apontam como PINHEIRO et al. (22) 30 24 11/24 = 46% Cultura
possível mecanis- SIQUEIRA & RÔÇAS (30) 22 22 17/22 = 77% PCR
mo desta resistência GOMES et al. (6) 19 19 6/19 = 32% Cultura
a bomba de prótons RÔÇAS et al. (23) 30 30 20/30 = 67% PCR
deste micro-orga-
SCHIRRMEISTER et al. (25) 20 13 4/13 = 31% PCR
nismo que o permi-
SCHIRRMEISTER et al. (25) 20 12 nenhuma Cultura
te manter níveis
GOMES et al. (7) 45 39 35/45 = PCR
adequados de pH 77,8%
intracitoplasmático.
Fonte: Modificado com base em SCHIRRMEISTER et al. (25).
PCR: Polymerase Chain Reaction (Reação em Cadeia da Polimerase)
Resistência a
Clorexidina Fator es de V ir
atores ulência do E nter
irulência ococcus faecalis
nterococcus
A clorexidina é reconhecida- Os fatores de virulência analisados e apontados pela literatura
mente um antisséptico para uso como determinantes do poder agressivo do Enterococcus faecalis
endodôntico em concentrações sugerem que sua patogenicidade é multifatorial, podendo estar re-
que variam de 0,2 a 0,12% (5). Seu lacionados à colonização, à competição com outra bactéria, à resis-
atributo mais atraente é a sua tência contra mecanismos de defesa do hospedeiro: diretamente atra-
substantividade, ou seja, sua vés da produção de toxinas e, indiretamente, através da indução da
ação residual. VIVACQUA-GO- inflamação (10, 11). SEDGLEY, MOLANDER, FLANNAGAN et al. (27)
MES, GURGEL, GOMES et al. (34) apontam dois fatores de virulência importantes em Enterococcus, a
avaliaram a ação antimicrobia- proteína de superfície dos Enterococcus (esp) e a gelatinase (gelE)
na da clorexidina sobre E. faeca- como fatores de virulência importantes. Estes autores evidenciaram
lis após obturação endodôntica que a expressão do gelE está associada à adesão do E. faecalis à

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dentina, in vitro, e, portanto, as- pais aplicações em pesquisa ci- lis destaca-se nas infecções
sociada à formação de biofilme tamos: avaliação da eficácia an- endodônticas secundárias,
nos canais radiculares. KAYAO- timicrobiana de soluções irriga- pois é capaz de se desenvol-
GLU & ØRSTAVIK (11) listam os doras, de cimentos obturadores ver tanto em aerobiose quan-
fatores de virulência do E. faeca- e de medicamentos intracanais. to em anaerobiose.
lis apontados pela literatura: Repousa na adequada identifica- Embora os E. faecalis estejam
substância de agregação, feromô- ção das espécies e na detecção presentes em pequena propor-
nios sexuais, ácido lipoteicoico, de resistência a antimicrobianos ção nas infecções primárias, são
superóxido extracelular, gelatina- a vital importância na imple- frequentemente encontrados em
se, hialuronidase e citolisina. mentação eficaz das medidas de canais obturados endodontica-
Embora, não estritamente atuan- controle das infecções (10). mente com sinais de periodonti-
te como fator de virulência. Uma te apical crônica, isolados entre
bacteriocina denominada AS-48 Discussão 23% a 70% das culturas positivas,
assim como outras, parecem ser podendo haver várias ocorrênci-
O desenvolvimento de uma
responsáveis pela supremacia as em monocultura (1, 5, 23). O
efetiva estratégia de terapia en-
dos E. faecalis, em detrimento de E. faecalis tem sido apresentado
dodôntica depende principal-
outras bactérias em infecções como a espécie mais comumen-
mente do conhecimento da com-
persistentes. De acordo com RÔ- te encontrada nos canais quan-
posição da microbiota patogêni-
ÇAS, SIQUEIRA, SANTOS (23), do do fracasso da terapia endo-
ca do sistema de canais radicu-
enzimas líticas como a gelatina- dôntica (31). Estudos in vitro
lares. Segundo SIQUEIRA (29),
se e a hialuronidase estão envol- evidenciaram a capacidade do E.
para uma bactéria ser conside-
vidas com o dano tecidual; a faecalis invadir túbulos dentiná-
rada um patógeno deve atender
substância de agregação está re- rios (19, 23, 32). A despeito de
aos seguintes requisitos: tal mi-
lacionada com a ligação dos leu- seu discreto papel em infecções
cro-organismo deve estar em
cócitos e matriz conjuntiva extra- primárias, estudos comprovam
número suficiente para iniciar e
celular; feromônios sexuais en- que este micro-organismo pode
manter a doença perirradicular;
volvidos na transferência por colonizar áreas do canal inalcan-
ser possuidor de fatores de viru-
conjugação através de plasmíde- çáveis aos mecanismos de desin-
lência que devem ser expressos
os e atração química de neutró- fecção (11, 23). E. faecalis podem
durante o curso da infecção; o
filos e o ácido lipoteicoico está ser encontrados em monocultu-
micro-organismo, ou mesmo
associado na adesão da célula ra, o que denota um caráter in-
seus fatores de virulência, deve
bacteriana à superfície do hos- dependente deste micro-orga-
ter acesso aos tecidos perirradi-
pedeiro. nismo. Além disso, podem se
culares; o ambiente deve permi-
adaptar em ambientes com es-
tir crescimento e sobrevivência
Enterococcus faecalis das células, além de estimular a
cassez de nutrientes (23, 28) e se
recuperar após longo período de
na Pesquisa em
Pesquisa expressão dos genes de virulên-
carência nutricional na presen-
Endodontia cia, ausência ou redução do nú-
ça de soro humano (3).
mero de agentes inibidores no
O Enterococcus faecalis , pela O E. faecalis mostra-se resis-
local; o hospedeiro deve estabe-
sua capacidade de resistir ao tra- lecer uma estratégia defensiva, tente aos efeitos antimicrobia-
tamento endodôntico, tem sido inibindo a disseminação da in- nos do hidróxido de cálcio (5, 8,
utilizado em várias pesquisas in fecção. Dentro de tal contexto, o 19, 31). Pesquisas microbiológi-
vitro como parâmetro de avalia- E. faecalis atende aos seguintes cas avaliaram a combinação de
ção da efetividade dos procedi- requisitos: é uma espécie micro- várias substâncias ao hidróxido
mentos antimicrobianos (8, 19). biana que é bem sucedida na de cálcio na tentativa de suple-
Uma pesquisa por nós realizada colonização do sistema de canais mentar sua atividade antibacte-
na base de dados PubMed (http:/ radiculares. É altamente preva- riana (5, 31). Outros estudos exi-
/www.ncbi.nlm.nih.gov) em 19 lente e produtora de fatores de biram a clorexidina em diferen-
de janeiro de 2010, com os ter- virulência, é patogênica em mo- tes concentrações e sua ação re-
mos: Enterococcus faecalis; en- delos animais e está implicada sidual prolongada, utilizando o
dodontic e in vitro, resultou em na etiologia de outras doenças E. faecalis como indicador bio-
153 trabalhos. Dentre as princi- humanas. O Enterococcus faeca- lógico, avaliando sua atividade

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antimicrobiana (5, 25, 31, 34). A resistência do Enterococcus faecalis a agentes químicos incluindo anti-
bióticos ainda não foi totalmente esclarecida. Alguns autores, como MURRAY (16), atribuíram a resistên-
cia do Enterococcus faecalis à pressão seletiva provocada pelo uso extensivo do uso de antimicrobianos
de amplo espectro e a outros antimicrobianos de limitada ação contra os mesmos. Outros, como EVANS,
DAVIES, SUNDQVIST (2) apontaram o mecanismo de compensação do pH citoplasmático como a me-
lhor explicação.
Conclusão
Embora o tratamento endodôntico não seja seletivo, até o presente momento, um maior entendi-
mento da microbiota que infecta os canais, principalmente aquela relacionada ao fracasso da terapia
endodôntica, permitirá, com toda a certeza, a elaboração de estratégias futuras que permitam controlar
e/ou eliminar seletivamente a infecção endodôntica. Neste contexto, a espécie Enterococcus faecalis
destaca-se por sua elevada prevalência nos casos de fracasso de tratamento endodôntico. Com base
nesta revisão de literatura ficou evidenciado que a alta prevalência se deve aos seguintes fatores: resis-
tência a agentes antimicrobianos como hidróxido de cálcio e à grande variedade de antibióticos; capa-
cidade de sobrevivência e rápida recuperação quando submetido a condições de estresse ambiental,
privação nutricional e a seus fatores de virulência.

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Recebido em: 10/09/2010


Aprovado em: 13/10/2010

Marcia Christina André Moreira Nacif


Rua Conde de Bonfim, 232/507 - Tijuca
Rio de Janeiro/RJ, Brasil - CEP: 20520-054
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Rev. bras. odontol., Rio de Janeiro, v. 67, n. 2, p.209-14, jul./dez. 2010