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JOSEANE DE NAZARÉ AMARAL DA SILVA

PATRÍCIA LIMA DE ALMEIDA

DEPENDENTE DE COCAÍNA:

REFLETINDO SOBRE A SUA DINÂMICA FAMILIAR

Belém

2002
Joseane de Nazaré Amaral da Silva

Patrícia Lima de Almeida

DEPENDENTE DE COCAÍNA:

REFLETINDO SOBRE A SUA DINÂMICA FAMILIAR

Trabalho de Graduação apresentado ao

curso de Psicologia do Centro de Ciências

Biológicas e da Saúde da UNAMA, como

parte dos requisitos para obtenção do

grau de bacharel orientado pelo professor

Carlos Alberto Prado Gomes.

Belém

2002.
JOSEANE DE NAZARÉ AMARAL DA SILVA

PATRÍCIA LIMA DE ALMEIDA

DEPENDENTE DE COCAÍNA:

REFLETINDO SOBRE A SUA DINÂMICA FAMILIAR

Trabalho de Graduação apresentado ao Curso de

Psicologia como parte dos requisitos para obtenção do

grau de bacharel, em novembro de 2002, orientado pelo

professor Carlos Alberto Prado Gomes.

Banca:

1º examinador: Carlos Prado __________________________________________

2º examinador: Célia Amaral __________________________________________

3º examinador: José Guilherme ________________________________________

Julgado em: ______/______/______

Nota: _______
Dedicamos esse trabalho aos profissionais que

anteriores a nós, se interessaram por este tema

tão complexo e relevante para a nossa

sociedade e, elaboraram artigos científicos

sobre tal assunto e ainda, ao Centro de

Reabilitação Desafio Jovem de Belém, onde

foram realizadas as pesquisas que

colaboraram para a conclusão deste trabalho.


Agradecemos a todos que contribuíram direta

ou indiretamente para a realização deste

trabalho e principalmente aos nossos pais e

familiares, aos nossos professores e ainda, ao

nosso orientador, pela sua paciência.


Para os adolescentes se manterem longe das

drogas, lícitas ou ilícitas, precisam muito do

exemplo dos pais, antes de tudo. Da sua

orientação, compreensão, do seu carinho,

atenção e amor. Mas precisam também de

segurança e limites [...] (ZAGURY, 2000, p.

116).
Joseane de Nazaré Amaral da Silva; Patrícia Lima de Almeida: Dependente de
cocaína: refletindo sobre a sua dinâmica familiar. Universidade da Amazônia,
Belém, Pará, 81 p.

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi averiguar a dinâmica das relações familiares dos
dependentes químicos de cocaína do sexo masculino, juntamente com os motivos que
os levaram a consumirem essa droga. Como problemática em relação á estrutura
familiar foram levantadas as seguintes questões: a relação familiar e o vínculo
emocional estabelecido pela mesma, com os dependentes químicos da cocaína.
Utilizou-se como método de coleta de dados a Entrevista Estruturada com o auxilio da
Observação simples. Foram entrevistados cinco dependentes. Para tanto, verificou-se
que nos relacionamentos familiares desses dependentes havia ausência de diálogos e
afetos, fatores que se considera muito relevante para o ingresso dos adolescentes no
consumo de drogas. Todos iniciaram seu processo de consumir drogas na
adolescência, primeiramente com as lícitas, como o álcool e em seguida com outra
considerada ilícita, como a maconha. Todos consumiram outra droga que não a
cocaína, antes da dependência desta. Assim, concluiu-se que estrutura familiar e
consumo de drogas possuem uma grande interligação.

Palavras - chave: drogas; cocaína; adolescente e; família.


ABSTRACT

The purpose this work was investigate the relation`s dynamics familiar of
dependencies chemist of cocaíne of sex masculine, together with the cause to used this
drug. The problematic purpose was: study the relations familiar and the entail
established for it dependencies of cacaíne. To the collection of information was utilize
the Conference Struture with the help the Simple Observation. Five dependencies was
conference. Was check the relations familiar this dependencies isn´t conversation and
affection. This work considerates this factors important to not permit the consume of the
drug. Everybody began him process consume drug in adolescent. First with the alcohol
and in second with other drug, for example, the marijuana. Everybody to consume other
drug isn´t cocaíne before dependeny. So, the work conluided the struture familiar and
consume of drug has a liaison.

Word – key: drugs, cocaíne, adolescent and family.


SUMÁRIO

Introdução .................................................................... 09

Metodologia .................................................................. 28

Resultados e Discussão ............................................... 30

Considerações finais ................................................... 44

Referências Bibliográficas ............................................ 48


O processo de iniciação principalmente de adolescentes, no uso de drogas, afeta

a sociedade em diversos setores. Este é um fenômeno que atualmente tem ganhado

cada vez mais a atenção das autoridades nacionais e internacionais, tornando-se um

assunto de grande popularidade, principalmente por intermédio dos principais meios de

comunicação, sejam eles, o rádio, as revistas, os jornais e a televisão. E foi a partir

deste último que foi escolhido o tema drogas, pois ele afeta a vida cotidiana de milhares

de famílias. Esses meios de comunicação abordam sobre as numerosas substâncias

(drogas ou fármacos) utilizados para fins terapêuticos ou para dependência física e/ou

psíquica.

A importância prática deste trabalho está em viabilizar uma intervenção nos

relacionamentos entre familiares por parte dos psicoterapeutas à medida que traz a

tona informações sobre o perfil familiar do dependente químico de cocaína. Navarro

(1993), assinala a importância deste conhecimento para a Psicologia:

O tratamento de indivíduos viciados em drogas é um dos principais desafios


que as diversas formas de psicoterapias enfrentam na sociedade pós-moderna.
Dentro do espaço desenvolvido pelos diversos segmentos das ciências da
saúde, a Psicologia vem contribuindo de forma significativa com o
desenvolvimento de estratégias psicoterápicas para o tratamento e reabilitação
dos indivíduos dependentes (p. 113).

Segundo Papalia e Olds (2000) o álcool, a maconha e o tabaco são as três

drogas mais populares entre os adolescentes, e normalmente são chamadas de drogas

de entrada, pois seu consumo muitas vezes leva a substâncias mais pesadas, como a

cocaína e a heroína.

Para Navarro (1993), deve haver uma compreensão maior dos problemas sociais

e psicológicos gerados pelo consumo de drogas por parte da sociedade de um modo


geral, pois é evidente o relato sobre o crescente aumento de consumo registrado nos

últimos anos e dos baixos índices de eficiência dos tratamentos existentes para os

drogados.

Navarro (1993), também esclarece a dificuldade existente para se avaliar a

extensão exata do consumo e dependência de drogas, em razão da enorme carência

de investigações a este respeito, uma vez que os poucos estudos existentes são gerais,

abrangendo o consumo de todas as drogas e não especificamente de uma.

O consumo de drogas desenvolve dependência e provoca uma circulação de

milhões de dólares no mundo inteiro. Essas substâncias propiciam e aumentam a

violência urbana através dos conflitos entre traficantes e dos viciados e o desespero de

alguns familiares.

O elevado consumo dessas substâncias proibidas ou controladas têm sido


estimulados pela flexibilização de leis determinando que consumir drogas não é
crime. Para legislação do setor, é crime apenas adquirir, guardar ou trazer
consigo para uso próprio, substância entorpecente ou que determine
dependência física ou psíquica sem autorização legal ou regulamentar
(OLIVEIRA, 2000, p. 51).

Segundo Loureiro (2002), os dependentes químicos costumam procurar

tratamento quando já estão totalmente dependentes, ou seja, eles não procuram

tratamento pela necessidade inicial, mas pela dependência em si “Os médicos

constatam a gravidade do problema, mas garantem, por experiência clínica que a

busca do “corpo limpo” de drogas é difícil, mas com paciência e persistência, é

possível” (p. 05).

Loureiro (2002) também descreve a necessidade de um trabalho preventivo

dentro das escolas e universidades para alertar as pessoas sobre o perigo da


dependência química. Ela sugere um movimento nos Conselhos de Medicina e dentro

dos hospitais também para prevenir e informar: “Além da ação curativa dos que já estão

dependentes, [...] nós precisamos tomar providências porque o problema é sério e

presente no cotidiano” (p. 07).

Os psiquiatras afirmam que a abstinência é o principal passo para o tratamento.

Barreto (2002) afirma que a regra para abstinência é parar imediatamente e de uma vez

o consumo de cocaína, álcool, maconha ou qualquer outro estimulante que possa

induzir ao consumo de droga. Depois é necessário mudar de estilo de vida, de amigos e

de ambientes onde o consumo de drogas seja o centro das atividades.

Os dependentes devem fugir de situações que possam causar recaída, já que a


taxa de recaída é alta, principalmente em pacientes internados devido á falsa
sensação de segurança após um tratamento estruturado. No entanto elas
devem ser aceitas e compreendidas não como uma falha do tratamento, mas
como um alerta (BARRETO, 2002, 1B).

Papalia e Olds (2000), relatam que o uso de drogas entre adolescentes

americanos aumentou durante a década de 90, tendo sido consideravelmente menor do

que seu auge na década de 60. A maconha mostrou o aumento mais drástico, porém

outras drogas ilícitas também estão se tornando mais populares. Segundo as autoras,

essas constatações são provenientes de uma série de pesquisas anuais com uma

amostra de representação nacional de aproximadamente 50.000 estudantes da oitava

série de ensino fundamental e da segunda e quarta série do ensino médio em mais de

400 escolas norte-americanas. A proporção de estudantes de oitava série que

admitiram ter tomado drogas ilícitas durante o ano anterior quase dobrou a partir de

1991, de 11 para 21%. A partir de 1992, o uso ilícito de drogas entre estudantes da
segunda série do ensino médio subiu de 20 para 33%, e entre os estudantes de quarta

série, de 27 para 39%. No entanto esses estudos não atingem os alunos que

abandonam o ensino médio, os quais tem probabilidade de taxas mais elevadas de

terem usado drogas, levando em conta a faixa etária (a fase da adolescência por

considerá-la mais conflituosa).

Em um estudo longitudinal apud Papalia e Olds (2000), mais de 1.000

estudantes da primeira à segunda série do ensino médio foram entrevistados e com 24

e 25 anos de idade entrevistados novamente. Aqueles que haviam começado a usar

uma determinada droga na adolescência tendiam continuar usando-a. Usuários de

drogas ilícitas, incluindo a maconha, tinham saúde mais fraca do que os não usuários,

histórico profissional e conjugal mais instável e maior probabilidade de terem sido

delinqüentes.

Uma pesquisa de Navarro (1993) estabeleceu diversas características do

indivíduo e do ambiente do dependente químico: (1) fraco controle de impulsos e

tendência para ir em busca de sensações ao invés de evitar riscos (o que pode ter base

bioquímica); (2) influências familiares, como predisposição genética para alcoolismo,

uso ou aceitação de drogas por parte dos pais, prática de criação irregulares ou pouco

expressivas, conflitos familiares e relacionamentos familiares perturbados ou distantes);

(3) temperamento difícil; (4) problemas de comportamento precoces e persistentes,

particularmente agressão; (5) fracasso acadêmico e ausência de comprometimento

com a educação; (6) rejeição dos pais; (7) associação com usuários de drogas; (8)

alienação e rebeldia; (9) atitudes favoráveis para com o uso de drogas; e (10) iniciação

precoce do uso de drogas, quanto mais cedo os jovens começam a usar uma droga
maior a probabilidade de que a usem com freqüência e maior a tendência de abusar da

mesma.

Evidentemente, essas características não levam necessariamente ao abuso de

drogas, mas são fatores bastante fidedignos do mesmo, ou seja, pode-se considerar

que, quanto maior o número de fatores de riscos presentes, maior a chance de que um

adolescente ou jovem adulto abuse de drogas, como coloca Barreto (2002):

Dependendo da pessoa, da estrutura social, dos vínculos afetivos, a droga, que


na verdade não deveria ameaçar, passa a ser um problema, um emblema de
dificuldades de espoliação, de exploração e perdas econômicas, ocupacionais,
afetivas e espirituais (p. 2B).

A influência dos amigos sobre o uso de drogas está amplamente documentada,

mas Papalia e Olds (2000) apontam para a influência de fatores familiares. Um estudo

longitudinal de seis anos acompanhou 312 adolescentes. Aqueles cuja às famílias não

estavam próximas e cujo os pais fumavam, tinham mais do que o dobro de chances do

que os outros da amostra de estarem fumando na idade de 17 e 19 anos. A publicidade

tabagista pode ser um fator ainda mais forte.

Pesquisas, apud Bock, Teixeira e Furtado (1998), têm provado que os efeitos

subjetivos das drogas dependem de três fatores: droga, indivíduo e ambiente, ou seja,

do tipo de droga (o mecanismo de ação, potência e concentração); das características

do indivíduo, (fisiológicas, como peso, idade, sexo, estado de funcionamento dos

diversos órgãos e sistemas do organismo e psicológicas, como a personalidade) e o

contexto no momento da utilização da substância, incluindo o significado que o

indivíduo dá ao seu ato de utilizar a droga.


No caso da cocaína a prevalência do consumo é maior entre homens do que em

mulheres e o consumo cresce a partir dos quinze anos de idade e, a maconha é a

principal porta de entrada para o consumo segundo Navarro (1993), depois de uma

pesquisa realizada em conjunto com três países da América Latina.

Nos E.U.A, em 1995, o último ano cujos dados foram publicados, foram

consumidas 72 toneladas de cocaína. Segundo Benachaque (1997), “No Brasil, 1987,

numa clínica especializada no tratamento de dependentes de drogas, no interior de São

Paulo, 63% dos pacientes que foram internados tinham usado cocaína”. (p. 20).

Nos Estados Unidos são usuários da cocaína 12% da população. São, contudo,
cocainomanos 2% da população. Em aplicações médicas, anestesia tópica, a
cocaína é apresentada em soluções: para uso oftálmico – 1 a 4% e para
anestesia do nariz e garganta – 10 a 20%. Como droga de rua varia entre 10 a
120mg por dose (MELO, 1998, p.04).

O Brasil possui 900.000 consumidores de cocaína do mundo o que faz com que

o país seja o segundo maior consumidor dessa droga, perdendo para os Estados

Unidos da América. Segundo Leite e Cabral (1999) os dependentes de cocaína são

totalmente heterogêneos em relação ao sexo, idade e condição social, por isso um

modelo único de tratamento não corresponde às necessidades de cada tratamento.

Papalia e Olds (2000) consideram que o reflorescimento da música e da cultura

popular nos anos 60 e 70 trouxeram um número grande de mensagens a favor das

drogas. Os argumentos em favor da legalização das drogas tiveram um certo efeito.

Aqui no Brasil, ainda hoje, há um polêmico debate em torno da legalização da


maconha, por exemplo. Ainda assim grande maioria dos jovens desaprova o
uso de drogas ilícitas diferente da maconha: e mesmo no caso da maconha, as
taxas de aprovação variam de 71% dos alunos de oitava série até 57% dos
alunos de quarta série do ensino médio (BENACHAQUE, 1997, p. 23).
Segundo Navarro (1993), as seqüelas do uso de cocaína não se restringem ao

organismo, sendo que sua utilização prolongada leva a um quadro crônico psicológico,

que normalmente se inicia com o aparecimento de mecanismos psicológicos de

racionalização, negação e de auto-engano como forma de minimizar as decorrências do

uso da droga.

O tratamento do usuário de droga depende de cada caso. Se for um caso sério

de dependência, o ideal é levar o usuário a fazer um tratamento especializado. Mas, se

é um caso inicial ou esporádico deve-se descartar a hipótese de agressão física e

castigo. O mais indicado, segundo Darwich (2002) é conversar. Para ela, diálogo é a

melhor maneira de lidar com as drogas. Os pais devem pesquisar sobre a mesma e

conversar com os filhos sobre as conseqüências do consumo o mais abertamente

possível.

[...] ignorar o assunto, esconder ou proibir só aguça ainda mais a curiosidade


dos adolescentes. [...] a melhor maneira de evitar que os adolescentes
comecem a usar drogas é por meio do diálogo. Assim como é importante
conversar com os filhos a respeito das doenças sexualmente transmissíveis e
sobre o uso de camisinha, também é necessário explicar sobre as drogas, seus
danos e efeitos (p. 03).

Segundo Leite e Cabral (1999) uma das dificuldades de tratar o dependente de

cocaína é que a maioria não procura tratamento. Quem procura tratamento são os

pacientes com quadros mais severos de consumo. Para eles o tratamento deve ser

individual e simultaneamente em grupo, já que as psicoterapias de grupo para

dependentes de cocaína, crack e pasta mostram-se bastante eficazes para

identificação e a expressão de emoções do dependente.


A dependência é uma doença crônica que acompanha o indivíduo por toda a
sua existência. A psicoterapia, portanto, deve ser paciente e persistente para
que ofereça a esperança de uma recuperação duradoura. O tratamento deve
atender às necessidades reais de cada paciente e em certos casos, dos
familiares (LEITE;CABRAL, 1999, p.21)

Embora a grande maioria dos adolescentes não use cocaína, uma minoria

significativa o faz (PAPALIA e OLDS, 2000). Eles se voltam para as drogas por

curiosidade ou em busca de sensações, por pressão dos amigos, ou como fuga de

problemas, e dessa forma põem em perigo sua saúde física e psicológica, presente e

futura. “Os adolescentes experimentam cocaína por muitos motivos: eles têm

curiosidade, querem fazer o que seus amigos fazem, e querem ser como os adultos”

(CAMPOS, 1995, p. 77).

Petersen e Takanishi (1993 apud PAPALIA e OLDS, 2000) afirmam que

atualmente os adolescentes enfrentam maiores ameaças a seu bem estar físico e

mental do que em anos anteriores. Essa afirmação faz referência a disseminação das

Doenças Sexualmente Transmissíveis e da divulgação e propagação das inúmeras

drogas, que ocorrem principalmente devido a fase mais “liberal” que atualmente os

adolescentes estão vivenciando, diferentes dos costumes de algumas décadas atrás.

Para Papalia e Olds (2000), a adolescência dura quase uma década. Não há

definição clara do seu ponto de início ou fim. Geralmente os autores concordam que a

adolescência inicia na puberdade, o processo que leva a maturidade sexual, fertilidade

ou a capacidade de reprodução.
[...] é possível que o início da adolescência, a saída da infância, seja o período
mais intenso de todo o ciclo da vida. Ele oferece oportunidades de crescimento
na competência, na autonomia, auto-estima e intimidade. Entretanto, ele
também oferece grandes riscos. Alguns jovens têm problemas para lidar com
tantas mudanças de uma só vez e podem precisar de ajuda para suportar os
perigos ao longo do caminho (PAPALIA;OLDS, 2000, p. 310).

Atualmente, as crianças têm cada vez mais acesso a todos os tipos de

informação, seja através da televisão ou do contato com os próprios colegas. Assim, é

possível que às crianças já tenham ouvido falar de drogas alguma vez na vida. Por isso

desde cedo, ainda na pré-adolescência, é primordial que a mãe ou o pai esclareça

seus filhos sobre as conseqüências do uso da droga, como colocado por Darwich,

(2002):

Se os pais colocam limites aos filhos desde de pequenos, dando parâmetros do


que é bom ou ruim, eles crescem tendo referências sólidas. [...]. Quando a
pessoa cresce sem ter a noção do que é certo ou errado, pode vir a ser um
delinqüente, roubando, agredindo ou cometendo outros delitos para conseguir a
droga (p. 02).

No plano da socialização, a adolescência marca a etapa em que o jovem se

desliga de seus pais para caminhar sozinho na vida. Segundo Papalia e Olds (2000), é

uma etapa cheia de experiências enriquecedoras, apesar de todos os problemas, pois a

tensão da emancipação, o encontro dos amigos íntimos, a influência do grupo de

amizades e o contato do jovem com o mundo exterior perturbam suas relações com os

pais dando lugar a muitas incompreensões e conflitos. E é neste contexto que a

personalidade vai se consolidando.

No sistema teórico de Freud (1914 apud SCHULTZ, 1992), ele não compreendia

os tópicos que costumavam ser incluídos no compêndio de psicologia da época. Ele

explorou áreas que os psicólogos tendiam a ignorar, tais como as forças motivadoras
inconscientes, os conflitos entre essas forças e os efeitos desses conflitos sobre o

comportamento humano. Em suas primeiras obras, Freud afirmou que a vida psíquica

consistia em duas partes, o consciente e o inconsciente. A parte consciente representa

o aspecto superficial da personalidade total. O inconsciente, os instintos que são a força

pulsora de todo o comportamento humano (SCHULTZ, 1992). Mais tarde, entre 1920 e

1923, ele remodelou a teoria do aparelho psíquico e introduziu os conceitos de id, ego e

superego, como assinala Carneiro, (2000) “[...] Freud sempre esteve interessado em

construir uma teoria da mente ou da personalidade, e não somente em conceber uma

teoria da neurose” (p. 73)

O id constitui o reservatório da energia psíquica, é onde se localizam as pulsões:

a de vida e a de morte. As características atribuídas ao sistema inconsciente, na

primeira teoria, são, nesta teoria, atribuídas ao id. É regido pelo princípio do prazer,

sendo a parte mais primitiva e menos acessiva da personalidade, incluem os instintos

sexuais e agressivos. O id não conhece juízo de valor, nem o bem e o mal (SCHULTZ,

1992).

O ego é o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as

exigências da realidade e as “ordens” do superego. Procura “dar conta” dos interesses

da pessoa. É regido pelo principio da realidade, que, com o princípio da prazer, rege o

funcionamento psíquico. É um regulador, a medida em que altera o princípio do prazer

para buscar a satisfação considerando as condições objetivas da realidade. As funções

básicas do ego são: percepção, memória, sentimentos e pensamento. Este princípio

mantém em suspenso as exigências voltadas para o prazer advindas do id até ser

encontrado um objeto apropriado para satisfazer a necessidade e reduzir ou


descarregar a tensão. O ego não existe independentemente do id. Aceita-se que os

processos do ego são operados por energias sexuais de agressão neutralizadas.

[...] Freud encarava o ego como a instância executiva da personalidade total,


pelo menos no que se refere a personalidade sadia, mas nunca o colocou em
uma posição autônoma: o ego sempre foi um servo dos desejos do id
(CARNEIRO, 2000, p. 77).

O superego origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização das

proibições, dos limites e da autoridade. A moral e as idéias são funções do superego. O

conteúdo do superego refere-se a exigências sociais e culturais. O terceiro componente

da estrutura da personalidade freudiana se desenvolve bem cedo na infância, quando

são assimiladas as regras de conduta ensinadas pelos pais mediante um sistema de

recompensas e punições. Os componentes errados (que produzem punição) se tornam

parte da consciência da criança, que é uma parte do superego. Comportamentos

corretos (que são recompensados) se tornam parte do ego ideal da criança. Ele

representa todas as restrições morais e está constantemente em conflito com o id. Ao

contrário do ego, o superego não tenta apenas adiar a satisfação do id, ele tenta inibi-la

por completo (SCHULTZ, 1992).

É importante considerar que estes sistemas não existem enquanto uma


estrutura em si, mas são sempre habitados pelo conjunto de experiências
pessoais e particulares de cada um, que se constitui como sujeito em sua
relação com o outro e em determinadas circunstâncias sociais (CARNEIRO,
2000, p. 56).

Assim, segundo Kaplan, Sadock e Grebb (1997), o termo personalidade pode ser

definido como a totalidade dos traços emocionais e comportamentais que caracterizam

o indivíduo na vida cotidiana, sob condições normais. É relativamente estável e


previsível. Esta estrutura é a base que organiza e une as diferentes condutas e

disposições do indivíduo, é a organização global que dá consistência e unidade à

conduta. Esses conteúdos estão relacionados com as vivências concretas do indivíduo

no seu meio social, cultural, religioso etc. De modo geral, a personalidade se refere ao

modo relativamente constante e peculiar de perceber, pensar, sentir e agir do indivíduo.

Esta definição tende a ser ampla e acaba por incluir habilidades, atitudes, crença,

emoções, desejos, o modo de comportar-se e, inclusive, os aspectos físicos do

indivíduo. A definição da personalidade envolve também o modo como todos esses

aspectos se integram, se organizam, conferindo peculiaridade e singularidade ao

indivíduo.

Na teoria psicanalítica do desenvolvimento psicossexual, Erikson reformulou os

estágios elaborados por Freud em termos das qualidades do ego e deu ênfase especial

ao período da adolescência. Carneiro (2000), explica a associação dos termos

psicossocial e desenvolvimento:

[...] ela significa especificamente que os estágios da vida de uma pessoa, do


nascimento á morte, são determinados por influências sociais que interagem
com um organismo em amadurecimento físico e psicológico. Nas palavras de
Erikson, “há uma adaptação mútua entre o indivíduo e o ambiente, ou seja,
entre a capacidade de um indivíduo para se relacionar com um espaço vital
formado por pessoas e n i stituições e em contínua expansão, de um lado, e a
disposição manifestada por essas pessoas e instituições no sentido de tornar o
indivíduo parte da cultura em construção, de outro lado” (p. 65).

Na teoria de Erikson, ele deixa de fazer referência ao termo personalidade para

substituí-lo por identidade, assim como faz Papalia e Olds (2000) também.

Segundo Erikson (1968 apud CARNEIRO, 2000) a principal tarefa da

adolescência é confrontar a crise de identidade versus confusão de identidade (ou de


papel) para tornar-se um adulto único com um senso de identidade coerente e um papel

valorizado na sociedade. O principal perigo dessa fase é a confusão de identidade, a

qual pode retardar muito a conquista da maturidade psicológica, mesmo depois da

idade de 30 anos.

Segundo Papalia e Olds (2000), certo grau de confusão de identidade é normal.

Os adolescentes podem igualmente mostrar confusão regredindo a infantilidade para

não ter que resolver conflitos. A crise de identidade raramente se resolve

completamente na adolescência, as questões relativas à identidade podem aparecer

repetidas vezes durante a vida adulta.

Para formar uma identidade, os adolescentes devem firmar e organizar suas

habilidades, necessidades, interesses e desejos para que possam ser expressos a um

contexto social. Segundo Erikson (1968 apud CARNEIRO, 2000) os adolescentes não

formam sua identidade modelando-se conforme outras pessoas, como fazem as

crianças mais jovens, e sim modificando e crivando as estruturas psicológicas de

outros.

Para Erikson, apud Papalia e Olds (2000), a identidade se forma à medida que

as pessoas resolvem três questões importantes: a escolha da ocupação, a adoção de

valores nos quais viver e o desenvolvimento de uma identidade sexual satisfatória.

Quando os jovens têm problemas para se estabelecer numa identidade ocupacional,

eles correm risco de apresentar comportamentos com graves conseqüências negativas,

como gravidez precoce ou atividade criminosa.

O grau de fidelidade dos jovens a esses compromissos influencia sua

capacidade de resolver a crise de identidade. Os adolescentes que resolvem essa crise

de maneira satisfatória desenvolvem a virtude da fidelidade: lealdade, fé ou um


sentimento de pertencer a alguém que se ama, ou a amigos ou companheiros. A

fidelidade também pode significar identificação com conjunto de valores, uma ideologia,

uma religião, um movimento político, uma busca criativa ou um grupo étnico. A

identificação pessoal aparece quando os jovens escolhem os valores e as pessoas com

as quais serão leais, em vez de simplesmente aceitar as escolhas de seus pais

(PAPALIA e OLDS, 2000).

A gravidade de uma crise na adolescência oscila muito em função do

temperamento do jovem e de seus pais, da qualidade da família e das capacidades do

meio social. Felizmente, são mais freqüentes os casos nos quais a adolescência

transcorre sem maiores problemas, isto é, as dificuldades do processo não chegam a

serem graves, mas também há outros em que os conflitos rompem os vínculos afetivos

e acarreta situações seriamente destrutivas, uma das quais, precisamente, o tema que

nos ocupa: a dependência da droga.

Os conflitos familiares podem ser componentes sociais importantes para que o


adolescente recorra ao consumo de drogas. [...] o fato de o adolescente sair de
casa em busca da droga é um sintoma secundário, resultante de outro
antecedente mais profundo, como problemas de relacionamento. Porém, a
droga é um sintoma que aparece mais externamente (ZAGURY, 2000, p. 92).

Freud, apud Papalia e Olds (2000), também achava que o atrito entre pais e

filhos era inevitável, originando-se da necessidade dos adolescentes de se libertar da

dependência de seus pais.

Segundo Benachaque (1997), uma educação adequada do adolescente por

parte dos pais reduz a severidade da crise e evita muitas das suas dificuldades, pois

em geral os problemas são simples e momentâneos quando o jovem cresce cercado de

afeto de seus pais, em um meio familiar sadio e com uma dose devidamente equilibrada
de controle e liberdade. Porém, o equilíbrio não é tão fácil de ser obtido, uma vez que

há um conjunto de decisões tomadas diariamente e que se baseiam em critério e

situações em permanentes mudanças.

Mas, infelizmente, a capacidade de reduzir os perigos da dependência às drogas

não garante que se possa eliminá-las totalmente, e alguns jovens podem chegar ao

vício apesar de terem recebido uma educação equilibrada e afetuosa. Porém, os pais

podem atuar muito para proteger seu filho das drogas.

Segundo Riera (1998), entre os 9 e os 15 anos, a quantidade de tempo que os

jovens passam com os pais e os irmãos diminui. Os adolescentes passam a maior parte

do seu tempo livre com os amigos, com os quais se identificam e se sentem á vontade.

Uma fonte importante de apoio emocional, durante a complexa transição da

adolescência, bem como fonte de pressão para um comportamento que os pais podem

deplorar é o envolvimento cada vez maior dos jovens com seus amigos.

“Os adolescentes em rápida transformação física encontram conforto em estar

com outros que estejam passando por mudanças semelhantes” (PAPALIA e OLDS,

2000, p. 333). Os jovens que desafiam os padrões adultos e a necessidade de

orientação dos pais tranqüilizam-se ao buscar conselhos de amigos que possam

compreendê-los e se identifiquem com eles porque estão na mesma posição.

A intensidade da amizade é maior na adolescência do que em qualquer outra

época da vida. No início dela, as amizades tornam-se mais íntimas e provedoras de

apoio do que nas idades anteriores (RIERA, 1998).


Os adolescentes que questionam a adequação dos pais com modelos de
comportamentos, e que ainda não estão seguros de si mesmos para ficarem
sozinhos, buscam os amigos para mostrar-lhes o que é certo ou o que é errado.
O grupo de amigo é um lugar de afeto, solidariedade, compreensão e um lugar
de experimentar situações novas (PAPALIA;OLDS, 2000, p. 333).

Os adolescentes tendem a escolher amigos que sejam como eles, e os amigos

influenciam uns aos outros para se tornarem ainda mais parecidos.

Além de reconhecer as características individuais de adolescentes

problemáticos, é necessário averiguar a influência do ambiente – a família, o grupo de

pares e a comunidade – para descobrir modos de reduzir a exposição dos jovens a

ambiente de auto-risco.

Desta forma, a instituição Família tem um papel social determinado por

necessidades sociais. Este grupo deve garantir o provimento das crianças, para que

elas futuramente exerçam atividades produtivas para a própria sociedade, e deve

educá-las para que elas tenham ética e valores compatíveis com a cultura em que

vivem, por isso a organização familiar muda de acordo com a história do homem ou das

próprias mudanças sociais.

A família tem estado em evidencia na sociedade como uma grande polemica.


Por um lado ela tem sido o centro de atenção por ser um espaço privilegiado
para o desenvolvimento da vida emocional dos seus componentes. Por outro,
tem chamado a atenção dos cientistas, pois ao mesmo tempo em que, sub
alguns aspectos, mantên-se inalterada, apresenta uma grande variedade de
mudanças (RIERA, 1998, p. 210).

Em 1945, Pichon-Riviéri (apud ZIMERMAN, 1993) introduziu o conceito de grupo

e estabeleceu o sistema “esquema conceitual referencial operativo” (ECRO)

considerando uma série de fatores, conscientes e inconscientes, que regem a dinâmica


de qualquer campo grupal e que se manifestam em três áreas: mente, corpo e mundo

externo.

Um conjunto restrito de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e


espaço, articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe de
forma explicita ou implícita, uma área a qual se constitui sua finalidade,
interatuando através de complexos mecanismos de atribuição e assunção de
papeis (PICHON-RIVIERI 1965 apud ZIMERMAN, 1993, p.67).

As noções de enquadramento, tarefa e formação de papeis mais a noção de

vínculo foram desenvolvidas através da interação continuada e dos processos de

comunicação e aprendizagem. Os componentes do grupo vão estabelecendo vínculos,

e cada um vai internalizando os demais (ZIMERMAN,1993).

A teoria do vínculo referida por Pichon-Riviére é, segundo Zimerman (1993),

uma estrutura complexa que inclui sujeito, objeto e a interação de ambos. É através da

noção de vínculo que se pode abordar a relação entre a estrutura social e a

configuração do mundo interno do sujeito. O sujeito é um ser de necessidades que

somente se satisfaz socialmente através de relações que o determinam. É um sujeito

produzido, na medida em que existem determinantes que atuam na sua concepção

como ser social. O fundamento motivacional do vínculo são as necessidades que

estabelecem as relações intersubjetivas.

O grupo interno se forma sobre a base de vínculos internalizados, começando

pelo grupo familiar, e continuando pelos subseqüentes grupos com os quais o sujeito

se relaciona. Este grupo interno serve-lhe como modelo de aproximação em cada nova

experiência (ZIMERMAN,1993).
O psicanalista francês Lacan afirma que a Família, entre todos os grupos

humanos, desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. Se as tradições

espirituais, a manutenção dos ritos e dos costumes, a conservação das técnicas e do

patrimônio são com ela disputadas por outros grupos sociais, a Família prevalece na

primeira educação, (responsável pelo modelo que a criança terá em termos de conduta,

no desenvolvimento de papeis sociais e das normas e valores que controlam tais

papeis), na repressão dos instintos (estruturação do ego) e na aquisição da linguagem

chamada de materna (BOCK; TEIXEIRA;FURTADO, 1998).

Através da popularidade do tema, observou-se que a droga pertence a um

conjunto de assuntos da atualidade desencadeado pela sua grande importância. Assim,

teve-se como objetivo geral nesta pesquisa estudar e investigar o “universo” psicológico

e familiar, com ênfase na estrutura da família do dependente químico de cocaína (ver

anexo I), ou seja, está no fato de contribuir à sociedade com o conhecimento da

dinâmica familiar deste dependente, uma vez que as conseqüências do abuso de

cocaína refletem diretamente na sociedade como um todo, principalmente em forma de

violência.

[...] a guerra pelo controle da cocaína pode aumentar a violência urbana, não só
nas favelas como em toda a sociedade brasileira, pois o viciado rouba para
sustentar o vício [...]. No caso da cocaína [...], o que faz com que ela seja uma
droga especialmente perigosa é a freqüência com que provoca acidentes fatais,
muitas vezes numa única experiência. (BENACHAQUE, 1997, p. 24).

Neste contexto, os objetivos específicos foram: a) analisar quais os motivos que

levaram os dependentes químicos a consumirem cocaína; b) compreender a estrutura

familiar do dependente químico relacionando-a com a cocaína e ainda; c) analisar e


compreender a estrutura familiar deste dependente fazendo ligação com o tipo de

relação com os pais e o vínculo emocional estabelecidos com eles.

De acordo com isso, a pesquisa se propôs a analisar as seguintes questões

norteadoras:

(1) - Qual a relação do ambiente e das pessoas envolvidas com o fato do indivíduo

consumir droga?

(2)- Em que medida a relação familiar influencia no uso de droga?

(3) - Qual a relação da estrutura familiar do dependente de cocaína com o vício?

(4) - Como o vínculo emocional da família interfere na iniciação do processo de

dependência da cocaína?
METODOLOGIA

Participantes:

Participaram da pesquisa 05 indivíduos do sexo masculino, na faixa etária entre

23 e 34 anos que usaram cocaína entre 15 a 21 anos, alfabetizados. Não foram

adotados critérios quanto: classe social, raça, grau de instrução e/ou indivíduos

recuperados, em recuperação ou não recuperados, uma vez que esses dados não

interferem no alcance dos objetivos desta pesquisa.

Local:

A coleta de dados foi realizada no estabelecimento de reabilitação de

dependentes químicos “Desafio Jovem de Belém” que está localizado na Avenida Dr.

Freitas nº 2A em Belém, no estado do Pará. O ambiente utilizado para a coleta foi uma

sala ampla onde se realizam os encontros semanais dos dependentes, as terças e

quintas-feiras.

Obs: Não foram adotados critérios quanto á escolha da localização da instituição

para coleta de dados.


Instrumentos e técnicas:

O instrumento usado foi um formulário com 13 questões abertas, elaborado pelas

proponentes (ver anexo II).

Como técnica de coleta de dados, foi utilizada a Entrevista Estruturada, uma vez

que foi bastante eficaz para obtenção de informações acerca dos motivos e

circunstâncias que levaram os participantes a consumirem cocaína e ainda, por

possibilitar a análise estatística dos dados. Além desta, utilizou-se a Observação

simples para coleta de dados, conjugada a Entrevista para melhor obtenção e

entendimento da dinâmica familiar do participante e, por ser adequada aos estudos

qualitativos, como é o caso.

Procedimento:

1ª Etapa: foi levado um ofício da Coordenação do Curso de Psicologia para a

Instituição onde foram realizadas as entrevistas.

2ª Etapa: contactou-se os participantes no local da coleta de dados para a seleção.

3ª Etapa: selecionou-se os participantes com as características pré-estabelecidas para

a Pesquisa.

4ª Etapa: colheu-se as informações através dos formulários elaborados pelas autoras.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

Levando em consideração que os problemas causados pelas drogas são

diversos e afetam vários setores da sociedade como já foi dito e confirmado por alguns

autores (BENACHAQUE, 1997; NAVARRO, 1993; OLIVEIRA, 2000) considerou-se que

os estudos dos relacionamentos familiares detinham parte das explicações que

motivavam os adolescentes a consumirem cocaína e outras drogas.

Portanto, observou-se diante da primeira questão norteadora – Qual a relação do

ambiente e das pessoas envolvidas com o fato do indivíduo consumir drogas? – que

este pode ter sido um aspecto relevante para o consumo de cocaína. Neste item,

observou-se que o meio exerceu uma influência sobre os participantes, de forma mais

significativa, para o uso de novas drogas, como é o caso da cocaína, se se levar em

conta que antes desta, todos experimentaram outros tipos que não a mesma.

Entendeu-se também que a possibilidade deste acontecimento ocorrer cresce, á

medida que as pessoas envolvidas são usuários de drogas. Assim, concluiu-se que,

certamente, a influência dos amigos, pode ser valida nesta pesquisa.

Diante da secunda questão norteadora – Em que medida a relação familiar

influência no uso de drogas? – observou-se que na relação familiar dos dependentes de

cocaína uma carência de afeto e/ou de diálogos, esteve presente em três (P-2, P-3, P-4

e P-5) dos cinco participantes da entrevista. Verificou-se que este fato também esteve

aliado à presença de educações liberais (vivenciada por dois dos cinco participantes; P-

1 e P-5) e repressora (vivenciada também por dois dos cinco participantes; P-2 e P-4)

dentro do ambiente familiar.


Quanto á terceira – Qual a relação da estrutura familiar do dependente de

cocaína com o vício? – verificou-se que, embora os relacionamentos familiares não

demonstrassem afetividade, todos os entrevistados relataram receber apoio e incentivo

por parte da sua família para se livrar do vício de drogas. Este fato também foi

observado durantes ás reuniões no Desafio Jovem de Belém, uma vez que o

acompanhamento dos genitores ou dos parentes familiares se fez real, assim como a

freqüência dos próprios familiares nas reuniões destinadas aos mesmos.

Para a quarta questão norteadora da pesquisa – Como o vínculo emocional da

família interfere na iniciação do processo de dependência de cocaína? - pode-se

perceber que as famílias dos participantes (com exceção da família de P-1) não

apresentavam uma estrutura de vínculos consolidada, isto é, essas famílias não

mantinham uma relação de reciprocidade afetiva com os seus membros. Por este fato,

considerou-se que um vínculo emocional familiar não estabelecido, pode ter interferido

de forma parcial, para o consumo das drogas, neste caso, conseqüentemente, a

cocaína.
QUADRO DEMONSTRATIVO DE RESPOSTAS

DADOS PRELIMINARES

SIGLA PARTICIPANTE
M.A.P P-1
JHDL P-2
ACLO P-3
DOC P-4
ETL P-5

IDADE GRAU DE INSTRUÇÃO RAÇA


P-1 34 ANOS ENSINO MÉDIO MESTIÇO
P-2 27 ANOS ENSINO MÉDIO BRANCO
P-3 34 ANOS ENSINO SUPERIOR BRANCO
P-4 34 ANOS ENSINO FUNDAMENTAL MESTIÇO
P-5 23 ANOS ENSINO FUNDAMENTAL BRANCO

POSSUI CASA PRÓRPIA? QUAL A RENDA FAMILIAR?


P-1 NÃO R$ 800,00 REAIS
P-2 SIM R$ 1.500,00 REAIS
P-3 SIM R$ 1.500,00 REAIS
P-4 SIM R$ 600,00 REAIS
P-5 SIM R$ 1.000,00 REAIS

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA QUANTAS PESSOAS CONVIVIAM


FAMÍLIA? DIRETAMENTE COM VOCÊ? QUAIS?
P-1 10 PESSOAS GENITORES E 7 IRMÃOS
P-2 08 PESSOAS GENITORES E 5 IRMÃOS
P-3 02 PESSOAS GENITORES
P-4 04 PESSOAS MAE
P-5 04 PESSOAS MAE E 3 IRMÃES
01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM SEUS PAIS?
P-1 O melhor possível. [...]
P-2 Bem, antes não era mal, como toda família. [...] A minha mãe me teve depois de 10
anos da minha irmã mais moça, então tinha aquela distância. Meu pai era daquela
educação muito arcaica. Não tinha diálogo, só mesmo no cinturão [...]. Sexo,
drogas, nada disso era conversado.
P-3 A gente conversava, mais com a minha mãe, né? Com meu pai nunca fui muito de
conversar, mas com a minha mãe, eu matinha diálogo. E afeto? Não tinha afeto
entre agente. Nem com a minha mãe nem com o meu pai, e nem eles comigo, de
vez em quando só.
P-4 Muito ruim. Ele batia na minha mãe... Meu pai não era legal.
P-5 Quase não tinha relacionamento direito com minha mãe, ela era muito fechada. Não
tinha o hábito com o meu pai.

Excetuando-se P-1 e P-4, todos os outros participantes disseram não ter diálogo

com os seus familiares, fato este, muito comentado pelas literaturas averiguadas para a

pesquisa. Vários autores como Darwich (2002) e Navarro (1993) colocam a importância

do diálogo entre os pais sobre drogas e qualquer outro assunto que possa causar-lhes

curiosidade. Além disso, o diálogo não lhes serve somente para o esclarecimento.

Serve-lhes também como fortalecimento das relações familiares, desenvolvimento da

confiança (Erikson faz referência a este valor em seu primeiro estágio na teoria

psicossocial do desenvolvimento) e para a formação de uma identidade menos

suscetível a influências.

Além da ausência de diálogo demonstrada pelos participantes, um outro aspecto

foi observado: o afeto. Excetuando P-1 e P-4, todos os outros participantes,

demonstraram no seu relato a falta de contato afetivo dos seus genitores para com

eles, na maioria das vezes e principalmente, com os pais. Entende-se que essa

carência afetiva não só compromete os relacionamentos a nível familiar, como os

relacionamentos interpessoais (P-3 descreve isso de forma nítida quando diz o porquê

do seu interesse por drogas – coragem e argumento para conversar – em resposta a

questão 04).
Embora algumas respostas (a seguir) tenham sido contraditórias (P-2 na questão

01, ao dizer que existia uma certa distância da sua família para com ele, e na 04, ao

dizer que era “paparicado” por ser o caçula), de fato, pude-se observar nas entrevistas

e em muitos depoimentos no Desafio Jovem de Belém, o quanto a não demonstração

do afeto e as educações repressoras e liberais estavam presentes.

02) QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VOCÊ CONSIDERA QUE TEVE?


P-1 [...] Liberal [...]
P-2 [...] uma educação bastante repressora.
P-3 [...] Eles não eram liberais nem repressores. [...]
P-4 Liberal. [...]
P-5 Liberal. [...]

Nesta questão verificou-se a ausência de um meio termo em relação à educação

liberal ou repressora (considerando-se uma educação de meio termo a imposição de

limites, com a presença de flexibilizações). Pois, os participantes P-1, P-4 e P-5

colocam a sua criação como sendo liberal. P-2 coloca que sua criação foi repressora e

P-3 disse não considerar sua criação nem como sendo repressora e nem liberal, no

entanto, nessa mesma resposta descreve que a autoridade foi bastante presente no

seu crescimento.

Com isso, notou-se que a necessidade de um meio termo se faz concreta. O

liberalismo total não só pode ser deficiente como perigoso, e a repressão não só pode

despertar mais a curiosidade dos adolescentes, principalmente nesta fase, como induzir

ainda mais na busca do novo e diferente. Darwich (2002) comenta sobre isso e

descreve a necessidade dos pais de impor limites desde cedo aos filhos, sem deixar de

ser flexíveis para com os mesmos.


É possível que ao dizer “não” aos filhos tenha uma eficácia maior se ocorrida nas

fases anteriores á adolescência. Não só os fatores biológicos, como a maturação

sexual com a ativação de hormônios que o adolescente recebe, como os fatores

ambientais, o possível ingresso a uma faculdade ou assumir qualquer tipo de

responsabilidade, como o primeiro emprego, induzem a confirmação desta afirmação.

Conclui-se em relação ao tipo de educação, que ela provavelmente possui uma

base sólida ao ser desenvolvida desde a infância, com a atribuição, no entanto, de

valores e costumes reconhecidos socialmente. Não roubar, não matar, não usar drogas

faz parte desta educação, a qual não deve ser nem liberal, tão pouco repressora.

03)QUAL A IDADE QUE VOCE INICIOU O USO DE DROGAS INCLUINDO AS LÍCITAS?


P-1 12 anos.
P-2 Uns 11 anos
P-3 [...] com uns 15 anos [...].
P-4 15 anos.
P-5 Desde os 17 anos.

Papalia e Olds (2000) escrevem a respeito de como os adolescentes têm

experimentado drogas ilícitas, chamando as drogas lícitas de “porta de entrada” para,

por exemplo, a cocaína e a heroína. Conclui-se, então, que essas drogas legalmente

aceitas são ponto de partida para outras drogas, já que não houve um consumo direto

para a cocaína de nenhum dos participantes, a medida que todos disseram iniciar o uso

de drogas que não a cocaína (resposta a questão 05).

Em sua pesquisa Zagury (1996) conta que a média de iniciação dos

adolescentes nas drogas é aproximadamente com 15 anos e a droga lícita mais usada

é o álcool. Assim, verificou-se que mesmo não se tratando da mesma realidade, mas do

mesmo problema, há uma semelhança notável nos resultados das duas pesquisas.
Vale ressaltar que por traz do consumo de drogas lícitas, muito se tem para

averiguar. O consumo de álcool e tabaco, por exemplo, e até mesmo da maconha, não

desenvolvem dependência química imediata (Loureiro, 2002), logo, percebeu-se que

esta dependência é muito mais de origem psíquica.

04)O QUE LEVOU VOCE A CONSUMIR DROGAS?


P-1 Eu comecei bebendo um gole de cerveja ali outro “açula”. [...] o próprio meio que eu
vivia, eu via as pessoas consumindo e eu queria poder saber o que era e por
curiosidade eu experimentei [...].
P-2 Curiosidade. Todo mundo consumia - “Ah! Bora!? – [...]
P-3 Curiosidade. Bastante curiosidade de conhecer a droga.
P-4 Me ofereceram a maconha, ai... Influência.
P-5 Quando eu saia de casa.. eu ia lá na ponte do galo, ai eu vendia droga. Tinha muita
droga. Ai, eu comecei a usar. Ai depois, eu comecei a exagerar, a usar muito até
parar no hospital. [...]

Verificou-se nesta questão uma parceria entre curiosidade e influência. No

entanto, este trabalho vai mais longe com esta problemática. De onde se deriva essa

curiosidade e essa influência colocada pelos participantes? Partindo do contexto

familiar desses participantes, pode-se concluir que o tipo de relacionamento com os

genitores, por exemplo, facilita a manifestação de tais sentimentos que muito

provavelmente induzem não só a experimentar drogas como a vida sexual sem

segurança e a outros comportamentos que não são discutidos neste ambiente.

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PELA SUA OPÇÃO AS DROGAS?


P-1 Não teve nenhuma contribuição da minha família, pra falar a verdade. [...]
P-2 Não foi uma opção – “Ah, eu vou optar pela droga!” – eu diria que foi uma fuga, [...]
P-3 [...] Acho que eles não foram culpados em nada, não. Eles conversavam com você
sobre drogas? Não. Eles não conversavam. [...]
P-4 Eles nunca falaram sobre isso, sobre a droga comigo.
P-5 Conflitos dentro de casa. Eles falavam muito!
Quanto a esta questão, P-4 e P-5 justificaram o seu envolvimento com drogas

retomando os seus contextos familiares. O primeiro por não ter conhecimento e o

segundo por ter conflitos dentro de sua própria casa. Avalia-se que possivelmente, a

estrutura psíquica (levando em consideração o nível de tolerância a frustrações de cada

indivíduo) junto a sua história de vida, facilitaram que tais acontecimentos descritos por

eles, os conduzissem ao envolvimento com drogas.

Desta forma, conclui-se que provavelmente é multifatorial a causa que leva um

indivíduo adolescente ao consumo da cocaína e outras tantas drogas. No entanto,

pode-se considerar que aqueles que apresentam relacionamentos familiares

disfuncionais e uma estrutura psíquica com tendência ao recalcamento podem ser

preditores ao uso de drogas.

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ?


P-1 O melhor possível. Hoje, meus pais já podem dormir direito. Eles me apóiam e já
são pessoas mais tranqüilas, são aposentados e são pessoas do bem.
P-2 [...] hoje eu sou um exemplo pra minha família, motivo de orgulho mesmo.
P-3 Sentimento de vazio. O que seria isso? Essa coisa de abraçar, beijar, carinho não
tem. Eu também não tenho muito isso com eles.[...]
P-4 Tristeza. Você se sente amado? Sim
P-5 Tinham carinho.

P-1, P-2 e P-5 colocaram que o sentimento dos seus familiares em relação a eles

era bom. E, ainda atribuem que seus esforços para se “libertarem” das drogas teve em

grande parte contribuição de seus familiares. Por sua vez, P-3 e P-4 apresentam que os

sentimentos dos seus familiares não são positivos.

Algumas dessas respostas confirmaram a análise feita acima sobre o perfil

familiar destes dependentes. A relação familiar apresenta-se fria e não há exatamente


uma clareza dos sentimentos ou vínculos estabelecidos por eles, o que não impede a

colaboração dos mesmos para deixarem o vício.

Então, pode-se considerar que geralmente, a maioria das famílias de envolvidos

com drogas procuram ajudar e depois, procuram ajuda (este, um pouco mais demorado

segundo BENACHAQUE, 1997 e LOUREIRO, 2002). Certamente isto é de grande

importância para o tratamento. Porém, se os hábitos familiares ou os relacionamentos

não mudarem, acredita-se que a recuperação torna-se mais dificultosa, já que os

conflitos devem ser solucionados para que os motivos que os levaram ao consumo

cessem.

07) POR QUAL DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA?


P-1 Álcool, juntamente com a maconha.
P-2 A maconha.
P-3 O álcool depois a maconha. Fiquei dependente mesmo da cocaína.
P-4 A maconha.
P-5 Dependência mesmo foi á cocaína.

Como já havia dito antes, o álcool e em segundo lugar a maconha induzem ao

consumo de drogas mais fortes, e a maconha como a grande droga popular, também

como porta de entrada segundo Papalia e Olds, (2000) para o consumo de cocaína.

Isto possivelmente ocorre principalmente devido ao meio ambiente já que o indivíduo

começa a freqüentar lugares que as drogas de vários tipos são diariamente consumidas

e as pessoas envolvidas são usuários freqüentes.

O fato das drogas, como a cocaína e mais ainda a maconha, por exemplo, serem

consumidas geralmente em grupo, reforça a idéia da influencia dos “amigos” para o uso

de drogas. Papalia e Olds (2000) descrevem bem isso quando abordam sobre os
amigos dos adolescentes, mesmo estilo de roupa, mesmas gírias, ás vezes os mesmos

gostos etc.

P-1 com a resposta a questão 09, justifica que, o que o levou ao consumo de

cocaína foi o momento. Ele ainda descreveu como experimentou, freqüentando um

ambiente onde outros consumiam. É muito provável que esta influencia, tanto do

ambiente como dos amigos, principalmente em se tratando de adolescente seja muito

forte.

08)QUAL A IDADE QUE VOCE INICIOU O USO DA COCAÍNA?


P-1 13 anos. [...]
P-2 17 pra 18 anos.
P-3 Com 15 anos.
P-4 20 anos. Eu misturava ela com a maconha.
P-5 Com 20 eu cheirava pó e com 22 a pasta.

Zagury (2000), coloca em sua pesquisa que 25,2% dos seus entrevistados

começaram a usar cocaína a partir dos 15 anos. Em nossa pesquisa, exceto P-1, todos

os outros participantes iniciaram o consumo também nessa faixa etária.

Esta fase é marcada pela atuação dos hormônios que propiciam a maturação

sexual (puberdade). Essa maturação sexual é acompanhada muitas vezes de estresse

e humor oscilante, sendo a impulsividade predominante em ambos os sexos (PAPALIA

e OLDS, 2000). Neste caso, entende-se que a possibilidade da atuação dos hormônios

seja muito viável unida aos fatores psíquicos para a impulsividade que induz ao

experimento da cocaína.
09)O QUE LEVOU VOCE A CONSUMIR COCAÍNA?
P-1 Foi o momento. Você tá numa, num apartamento, como um grupo de pessoas e
todos estão consumindo drogas, [...] e você tá ali já doidão tomando uisk ou então
tomando cerveja e ai eles vem, dá uma cheirada aqui ou dá um tiro aqui, e ai já
passa o prato pra a tua mão e tu vai cheirando, quando tu vê, já se acostumou. [...]
P-2 Também curiosidade. [...]
P-3 Uma droga nova, né? Outra tentação. Cocaína, o que faz? O que sente? Outro
prazer? Uma coisa diferente só isso.
P-4 Influência.
P-5 Curiosidade.

O relato dos entrevistados sobre o motivo que os levaram a consumir a cocaína

permaneceu semelhante ao da questão 04, e, os relatos dos participantes quanto a

esta questão, remontam uma das problemáticas colocadas por este trabalho “Qual a

relação do ambiente e das pessoas envolvidas com o fato do indivíduo consumir

drogas?”.

Entende-se que o fato de o indivíduo está se relacionando com outros que

consomem drogas e ainda, freqüentem ambientes onde tal acontecimento ocorra, seja

muito relevante. No entanto, considera-se que esta combinação seja ainda mais

perigosa quando se trata de consumir novos tipos de drogas. Tal teoria está embasada

no fato de que é necessário entender que o momento é sim favorável e propício a essa

decisão, principalmente porque os participantes geralmente não estão sóbrios para

decidir experimentar ou não uma nova droga.


10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA?
P-1 Eu sempre trabalhei. [...] o dinheiro que eu pegava era todo pra a droga. Eu subia os
morros e ia comprar. [...] Você não roubou? Não. Nunca.
P-2 Eu sempre trabalhei. [...[ Eu ganhava o meu dinheiro. E eu usava quase todo ele
para comprar minhas drogas. Você chegou a roubar? Sim. Várias vezes eu mexia
nas coisas dos outros.
P-3 Com o meu dinheiro. Eu trabalhava, ganhava o meu dinheiro. Passei a ser um
usuário descontrolado. E quando não tinha mais dinheiro? Roubava dentro de
casa.
P-4 Eu trabalho desde dos 18 anos. Você já tirou algo de alguém para comprar a
droga? Algumas vezes.
P-5 Eu conhecia os traficantes eles me davam pra eu vender. Eu não precisei roubar.
Vivia com os caras, né? [...].

Três dos cinco participantes (P-2, P-3 e P-4) disseram já ter roubado para

comprar droga. A resposta dessa questão traz consigo dois aspectos muitos

importantes a serem comentados. O primeiro deles é o fato do dependente químico

roubar para garantir o seu vício. Tem-se conhecimento que muitos dos dependentes

quando não tem mais de onde reter dinheiro, furtam seus próprios familiares e ás vezes

até assaltam para consumir droga, ou cometem comportamentos ainda mais

criminosos.

Fazendo relação com o consumo de drogas, especificamente a cocaína, é

possível concluir que o uso desta, causa um rompimento do ego, uma vez que não raro,

tem-se informações de que estes dependentes químicos passam a cometer atos antes

não cometidos, derivados de ensinamento dos pais ou da Família (superego), como por

exemplo, roubar (comportamento indesejável e reprovado por parte das leis de uma

sociedade).

O segundo aspecto foi que todos os participantes disseram que trabalhavam

durante o seu consumo de drogas. Percebeu-se que a facilitação dos recursos

financeiros, administrados por adolescentes, contribuem parcialmente para, no mínimo,

experimentarem drogas.
Concluiu-se que não só o ingresso precoce de adolescente para o mercado de trabalho,

mas também as chamadas mesadas, trazem a “liberdade” que tanto os adolescentes

procuram (PAPALIA e OLDS, 2000). Levando em consideração, a falta de comunicação

desses adolescentes com seus genitores, pode-se considerar que este possivelmente é

mais um aspecto que conduz o adolescente a experimentar drogas.

11)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA?


P-1 Contribuição nenhuma. [...]
P-2 A cocaína não contribui, ela só desgraça. [...]
P-3 Ela não contribui em nada. Nenhuma droga contribui em nada.
P-4 Tive só perdas. [...]
P-5 Ela não contribui em nada.

Percebeu-se que independente destes participantes estarem ou não em

tratamento ou tratados, todos consideram que as drogas são destrutivas, muitas vezes

não só para si, como para as pessoas que os envolvem.

12)COMO VOCE GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM


RELAÇÃO A VOCÊ?
P-1 Como é atualmente. São pessoas maravilhosas, nunca mudaram o jeito porque
souberam que eu consumia drogas. Eles me ajudam muito.
P-2 Todo mundo hoje tem orgulho de mim. Me apóiam. Eles agem certo comigo. [...]
P-3 Harmonia entre nós, melhor entendimento, melhor diálogo [...]
P-4 Mais compreensão.
P-5 Agora tô vivendo direito. Antigamente ninguém ligava...

As respostas a essa questão demonstram o quanto o tipo de relacionamento

entre genitores e filhos, é inadequado para o segundo. De certa forma que, para dois

dos participantes (P-3 e P-4), a relação precisa mudar e, para outros dois (P-2 e P-5) a

relação já mudou e os mesmos a consideram melhor atualmente.


13)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO AOS SEUS FAMILIARES?
P-1 O melhor possível também. Tenho que amá-los, depois de tudo que eles fizeram por
mim, eu não posso dizer que odeio, não tem sentido, não tem lógica [...].
P-2 Amor, né? São as pessoas que eu mais amo, são eles. Minha mãe, meus irmãos...
P-3 Sou o único filho, procuro dar carinho, mais atenção.
P-4 Bom. [...] O amor que sinto por eles é o mesmo.
P-5 Sinto amor. Agora eles viram que vai parar né? Toda hora apoiando, toda hora
apoiando.

Foi possível perceber nesta questão que, ainda que se considere a relação

familiar, sem diálogo, afeto ou com regras inflexíveis ou liberais (como é o caso de P-2,

P-3, P-4 e P-5) uma educação inadequada, todos os participantes disseram manter

afeto pela sua família.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do objetivo deste trabalho se fez necessário comentar a respeito do papel

dos pais, ou da família em geral, na educação dos filhos para a vivência em uma

sociedade. De certa forma, notou-se neste trabalho que uma educação inadequada por

parte dessa instituição pode acarretar uma variável de comportamentos também

inadequados que podem resultar em uma “agressão” a saúde deste indivíduo, seja ela

física (órgãos debilitados), psíquica (sistema emocional abalado) ou social (como a

perda da liberdade).

Ao nos remetermos para a discussão sobre o papel dos pais dentro da instituição

família, entendeu-se que estes têm o papel de mediador e facilitador para com os filhos.

A introdução dos filhos em um ambiente social, ou em qualquer outro grupo, como por

exemplo, a instituição escola, dependente primeiramente deles. Cabe a eles as

primeiras lições que dizem respeito a sua preservação, não só de forma física como

social.

Considerando-se que a família é a responsável pelos primeiros aprendizados

que são efetuados, os valores, os objetivos e os conhecimentos são os ensinamentos

repassados que vão permitir a inserção do indivíduo em outros grupos. Assim, embora

tantas mudanças tenham sido ocorridas nas últimas décadas não é possível

desvincular-se da família. Zimerman (2000) relata que a família é o primeiro grupo que

o indivíduo tem conhecimento. Por isso, considera-se também que a finalidade dela

está em permitir a sobrevivência e o desenvolvimento de seus membros, procurando

atender as necessidades, relativas á sobrevivência (segurança física, alimento e

moradia) e relativas ao desenvolvimento cognitivo e emocional.


Assim, a família, parte do sistema social e transmissora dos valores dessa

sociedade, traz consigo o primeiro passo para o processo de socialização do indivíduo,

ou seja, pode-se dizer que ela é a matriz de identidade que contem parte do poder que

garante a sobrevivência psíquica do indivíduo. Esta sobrevivência deve partir

principalmente dos seus genitores.

Impor limites aos filhos, ensinar o certo e o errado, é a mediação do indivíduo

com o seu mundo externo. De certo, aos poucos esse papel, vai sendo conjugado ao

da escola de forma implícita, porém ele tem seu início, primeiramente, com a família.

A família não deve satisfazer os desejos da criança e nem estimular o seu

narcisismo. O dizer “não” é papel primeiramente da família, a carência dessa

comunicação pode resultar em graves conflitos em diversos tipos de relacionamento.

Se se considerar que é a partir da família que o indivíduo se diferencia ao perceber que

ele é alguém para além da existência da mãe, (os pais são os primeiros modelos de

como é o ser homem e o ser mulher) conseqüentemente considera-se também que a

família é a primeira instituição que constrói o pilar do indivíduo. Com isso, considera-se

necessário uma dose de limite e diálogo na formação dos filhos. Esse limite também

deve vir acompanhado de flexibilidade, para que se chegue a um equilíbrio.

Essas funções muitas vezes não são agradáveis aos pais. Porém, ora fornecer

alegrias e ora tristezas, raivas, ou angústias, são inegavelmente necessárias para a

adaptação à realidade social.

Enfim, entende-se que esse tipo de educação é saudável para o

desenvolvimento das relações familiares. Tal fato deve-se iniciar na infância, o que

provavelmente trará conseqüências positivas para os relacionamentos futuros na fase

da adolescência. Fase que segundo Zagury (2000), os adolescentes são as principais


vítimas das drogas, ao se levar em conta que é um estágio, onde a insegurança ainda

se faz presente, acarretando sentimentos de ambivalência como, o medo de ser

diferente e o desejo de não ser igual.

Por isso, considerou-se que a dinâmica familiar contribui de forma parcial para o

consumo de drogas, haja vista que seria necessário mais companheirismo, e diálogo,

para que se estabelecesse todos os valores que conduzem ao desenvolvimento

saudável da identidade humana.

Por isso, conclui-se que no nível de prevenção, o diálogo quanto mais cedo se

estabelece nos relacionamentos familiares, maiores são as possibilidades de se evitar o

uso de drogas.

Relevando a importância do tema, sugere-se que haja uma continuidade da

pesquisa, abordando a questão familiar de forma mais direta com uma averiguação

acerca dos familiares de dependentes químicos, buscando principalmente as

informações sobre o uso de drogas por parte dos pais, antes, durante ou depois dos

filhos, sejam elas lícitas ou não.

Sugere-se também um estudo dos aspectos inconscientes dos dependentes

químicos com o intuito de averiguar se as drogas servem de “via de acesso” para

solucionar possíveis situações consideradas conflitos inconscientes para o indivíduo

que a vivência. Como assinala Riera (1998):

Para muitos adolescentes, [...] as drogas são um meio de encobrir ou manter


inconscientes algumas questões de desenvolvimento e alguns conflitos
pessoais, que só podem ser resolvidos no nível consciente. Eles relegam esses
conflitos ao domínio do inconsciente e, assim, os conflitos expressam-se pelas
ações, de um modo automático, sem serem abordados conscientemente. [...].
O abuso de droga alivia o estresse e a pressão interna causada pelos conflitos
inconscientes [...]. (p. 111).
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ZIMERMAN, D. Fundamentos básicos das Grupoterapias. Porto Alegre: Artes


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]

ANEXO I
O vocábulo COCAÍNA é originado do quíchua, falado pelo povo indígena dos

antiplanos andinos. A cocaína é um alcalóide de fórmula química C17H21NO4, extraída

das folhas da coca, Erytroxylon coca (arbusto natural dos altiplanos andinos

pertencentes à família das eritroxiláceas, que contem até 1,5% de cocaína por peso de

folha). Este arbusto é nativo, principalmente do Peru e da Bolívia.

Cocaína (molécula)

CH2-CH-CH-CO-O-CH3
| |
CH3 -N CH-0-CO-C6 H5
| |
CH2 -CH-CH2

Este arbusto da Khoka floresceu na região andina, nos tempos mais antigos,

acompanhado de lendas. Era a planta divina dos íncas utilizada nas cerimônias

religiosas e nos sacrifícios ao Deus sol. Esses nativos perceberam que o mascar das

folhas de coca, misturadas com alguns vegetais, estimulava e mitigava a fome, dando

disposição para longas caminhadas. Perceberam também que o sumo das folhas

produzia certa insensibilidade à dor, quando aplicado em algumas partes do corpo.

Os índios quando eram expostos à fome, a sede e ao cansaço, para diminuir

essas sensações desagradáveis, também aprenderam a mascar essa espécie de

chiclete, feito de folhas de coca misturadas com cal (óxido de cálcio), obtida de conchas

marinhas (o cal ajudava a liberar a cocaína das folhas, e a reduzir o sabor amargo

delas).

Na região andina, a planta da coca desenvolveu-se nas vertentes dos vales,

entre 500m a 2.000m acima do nível do mar, numa temperatura de 15ºC a 20ºC, na

zona. Segundo Benachaque (1997) isto mostra que a coca é uma planta de fácil
adaptação. Ela é germinada e desenvolvida em sementeiras e depois de alguns meses

é transferida para a plantação direta, onde se desenvolve rapidamente. Após 18 a 20

meses o arbusto começa a produzir e as folhas são colhidas três, quatro e até cinco

vezes por ano. Ela tem de 1,50m a 2,0m de altura, podendo atingir até 5,4m.

As folhas da coca são ovaladas ou elípticas, com 2cm a 4cm de comprimento e

depois de secas são trituradas; as flores, pequenas e brancas e o fruto, roxo ou

vermelho brilhante em bragas. É uma substância natural obtida a partir do tratamento

químico em Laboratório. O clorofórmio é ótimo extrator de coca e o extrato seco do

clorofórmio é vendido nas ruas.

A cocaína chega ao consumidor em forma de sal (cloridrato de cocaína), pedra

(crack) ou pasta. Depois de refinada, a cocaína se apresenta na forma de pó branco e

cristalino. Geralmente é vendida como pó branco que pode ser aspirado ou dissolvido

em água para uso endovenoso.

Os dissolventes orgânicos empregados na obtenção da cocaína – os que

precipitam de soluções e formam o pó branco – de acordo com Benachaque, (1997),

são voláteis e depois de algum tempo se evaporam e a cocaína fica sem odor

característico desses dissolventes.

Em 1862, W. Lossen determinou a fórmula bruta da cocaína (C17H21NO4) e, em

1884, Sigmund Freud e Karl Koller fizeram diversas experiências e comprovaram a

ação anestésica da cocaína. (SCHULTZ, 1992).

A partir de então, a droga passou a ser difundida na Europa e nos Estados

Unidos e a ser empregada legalmente na preparação de remédios e na fabricação de

cigarros, doces, gomas de mascar e bebidas estimulantes, como a Coca-Cola. Mas,

atualmente a cocaína já não faz mais parte desta bebida.


Nessa época, a droga foi vendida livremente em restaurantes e cafés, e entrou

na composição de muitos tônicos e remédios, ainda que isso nem sempre fosse

declarado em rótulos e bulas.

No começo do século, a cocaína foi usada na medicina, sob a forma de pomada

ou ungüento de xilocaína, como um anestésico local de mucosa, para pequenas

cirurgias do ouvido, nariz, gengivas, garganta, reto e vagina. Sua ação se fazia sentir,

no local, depois de um minuto, e o efeito perdurava por aproximadamente duas horas.

No início do século XX no Brasil e no mundo, a cocaína foi sendo gradativamente

abandonada e seus usuários passaram a preferir as anfetaminas, que podiam ser

compradas em farmácias. Além disso, por serem sintetizadas em laboratórios as

anfetaminas são mais seguras e podem permitir um “controle” melhor da dosagem

consumida.

Na década de 40, a xilocaína foi substituída pela procaína, substância sintética

que tinha as mesmas propriedades anestésicas, mas era menos tóxica, além de não

ser viciante. Atualmente, a lidocaína tomou o lugar da procaína, por ser mais facilmente

metabolizada e ter menos efeitos colaterais. Entretanto, a substância ativa só é

absorvida por mucosas, não penetra pela pele.

A cocaína pode ser: inalada, pois se dissolve na umidade da mucosa nasal;

injetada forma pela qual chega mais depressa ao cérebro; colocada debaixo da língua,

de onde é absorvida pelos vasos sangüíneos dessa área; ou fumada, sob a forma de

crack.

A coca distribui-se em todo organismo (levado pelo sangue), concentrando-se,

todavia, no cérebro, fígado, sangue e no local da penetração do alcalóide, e é

armazenada nos cabelos.


Em 1986 Wasthon e colaboradores mostraram que o emprego de base livre de

cocaína tornava-a possível de ser absorvida pelo fumo em cigarros ou cachimbos. Foi

ele quem incrementou o seu uso como “droga recreacional”, o “crack”. (BENACHAQUE,

1997)

O crack é uma variedade da cocaína, que se tornou popular entre consumidores

de drogas nos últimos anos da década de 80. Ele é derivado da cocaína e, é mais

potente que esta e, potencialmente mais perigoso, quanto aos efeitos imediatos sob a

conduta do usuário e sobre seu organismo. Extraído da mesma planta o pó é prensado

e consumido por aspiração através de um cachimbo. Este entorpecente também leva

muito mais rapidamente a condição de dependência.

O crack resulta da mistura da cocaína e água com alguma substância básica

(soda cáustica ou bicarbonato de sódio, por exemplo), o que faz com que a droga

cristalize. Assim, os cristais podem ser fumados, ao contrário da cocaína em pó que se

decompõe quando aquecida. Sua forma compacta facilita o transporte e torna a

comercialização mais fácil do que da cocaína em pó. Daí sua popularidade crescente.

O crack tem efeito imediato, leva menos de 15 segundos para o vapor atingir o cérebro.

Os problemas que provoca podem ser: convulsões, perturbações da memória, perda de

desejo sexual, comportamento violento, etc.

Quando injetada ou aspirada sob a forma de pó a cocaína tem sobre o cérebro o

efeito típico de um estimulante. Ao bloquear a reabsorção de neurotransmissores,

depois que esses são liberados nas sinapses, a coca faz com que a ativação do

sistema nervoso se mantenha por mais tempo.

Ao consumir a cocaína por via respiratória o indivíduo pode apresentar com: 10

segundos, euforia, excitação e percepção aguçada; 3 minutos, dilatação das pupilas,


suor, sede e agressividade; 15 minutos o efeito da primeira dose pode cessar e o

dependente passa a ter uma imagem negativa de si mesmo e; com 30 minutos há uma

fissura por outras doses.

Por via nasal a droga chega imediatamente aos alvéolos pulmonares, onde é

feita a troca do gás carbônico pelo oxigênio. Através dos alvéolos, as substâncias ativas

entram no organismo através da circulação, atingem os átrios e os ventrículos

esquerdos do coração e começam a atuar nos órgãos mais irrigados do corpo humano,

especialmente no cérebro.

A mucosa absorve com facilidade a cocaína, de modo a produzir a anestesia e

uma sensação típica de frio. No simples contado com o pó, a aspiração nasal provoca

irritação das mucosas, pequenas hemorragias nasais e a vaso compressão prolongada

e sucessivas necroses no tecido causando lesões no nariz. Essa renite atrópíca

permanece até a perfuração prolongada e sucessiva do tecido causando lesões no

nariz e na perfuração do septo nasal, com profunda epixta.

De acordo com a freqüência do uso, a substância provoca quadros de toxidade

em diferentes graus. No quadro agudo, decorrente de múltiplas aspirações ou injeções

em curto espaço de tempo, pode causar ao usuário disfunções importantes no sistema

nervoso central e neurovegetativo, com sintomas como perda de apetite, taquicardia,

elevação da pressão arterial, tremores, delírios, alucinações e convulsões. A morte

pode ocorrer por colapso do aparelho respiratório.

No sistema nervoso central a cocaína age diretamente nos neurônios. São eles

que diante de um impulso elétrico, liberam os neurotransmissores para as mensagens

para os nervos. A droga bloqueia a recaptura de um neurotransmissor chamado

dopamina. Quando este fica mais tempo na região de comunicação entre dois
neurônios da rede, provoca hiperestimulação da atividade motora, euforia e sensação

de bem-estar.

As pessoas acreditam erroneamente, que a dosagem é determinada apenas pela

quantidade de pó aspirada, ignorando o fato de que isso depende primeiramente da

pureza da substância. Se a dose tomada de uma só vez for alta pode desencadear

convulsões e a pressão arterial pode subir rapidamente acompanhada de taquicardia, o

que sobrecarrega o coração, provocando a fibrilação ventricular, condição

extremamente grave que muitas vezes leva a morte se não houver socorro imediato. A

atividade vasoconstritora da cocaína pode provocar insuficiência coronária, isquemia

cerebral localizada e acidente vascular cerebral.

Os sinais físicos que acompanham o quadro do dependente químico são: palidez

(pela vasoconstrição), hipertensão arterial, sudorese, pupilas dilatadas, tremores,

sonolência, euforia, loquacidade, riso sardônico, falsas sensações, depressão, fadiga,

torpor e excitação. Após esta fase de excitabilidade chega-se a uma depressão e há

tentativa de uso de nova dose para reverté-la.

Em relação aos batimentos cardíacos, no início a freqüência é diminuída, e,

depois, aumentada no desenvolver da ação da cocaína, podendo apresentar parada

cardíaca, assim, uma vez que há uma pressão arterial e o ritmo cardíaco aumenta, há o

riso de convulsão, infarto e derrame. “A dependência psíquica se manifesta pelo desejo

incorrido de usar a droga o que leva o indivíduo á dependência” (BENACHAQUE, 1997,

p.26).

A overdose pode provocar a morte do usuário por parada respiratória,

micordiopartia esquimemica (até infarto), arritmias ventriculares e estados epilépticos.


Além dos efeitos provocados diretamente pela bioquímica da cocaína, há outros

ligados à maneira como a droga é consumida. Assim, a aspiração pode resultar, a

longo prazo, em feridas no interior do nariz e garganta, sinusite, rouquidão e

ocasionalmente, rupturas da cartilagem do nariz. O hábito de injetar cocaína deixa o

usuário exposto aos riscos de contaminação, uma vez que o processo de esterilização

da agulha geralmente é negligenciado. Os usuários costumam partilhar da mesma

seringa e ás vezes da mesma agulha, podendo causar infecções como hepatite,

malária, endocardite ou Aids.

Após se estabelecer o equilíbrio entre os órgãos, a droga passa a ser excretada

pelo fígado onde é metabolizada e chega até os rins para ser eliminada por meio da

urina. Na fase de excreção uma grande parcela sofre degradação no organismo, onde o

fígado é o principal responsável. A biotransformação hepática muda a estrutura química

das diferentes substâncias, facilitando a sua excreção do organismo. Os rins são os

principais responsáveis pela excreção tanto de metabólitos, como de fármacos ativos.

Níveis significativos podem ser encontrados na saliva, suor, fezes e leite materno.

Apenas a monitorização farmacocinética poderá detectar precocemente os

efeitos indesejáveis que se manifestarão pelo excesso de fármacos no organismo, no

caso da cocaína. E, no sentido de suprir as necessidades relacionadas às

investigações científicas pertinentes ao conhecimento da toxologia do fármaco, a

identificação e à quantificação da coca e seus produtos de biotransformação vêm

sofrendo rápido avanço desde a década de 70. A identificação assim como a

quantificação das mesmas e seus produtos de biotransformação foram realizadas com

finalidade forense.
No organismo a cocaína tem uma meia vida de 0,5 a 1,5h, sendo sua eliminação

completa cerca de 18h. Por isso, as amostras de urina devem ser coletadas no intervalo

de tempo estimado de 6 às 18h, após o uso da mesma.

De acordo com Navarro (1993), os usuários da cocaína procuram no seu

emprego os efeitos estimulantes: euforia e sensação de bem estar; sensação de

aumento do vigor físico e da agilidade psíquica; e redução do limiar da dor. Portanto, há

melhora do humor e aumento da atividade física, e ainda redução da fome. Para manter

este nível sintomático o usuário chega a usar uma dose a cada 10 minutos.

A euforia, um dos principais efeitos da cocaína, é um estado de variação instável

que combina sensações de poder, segurança e suficiência com eliminação do medo ou

ansiedade. Esses efeitos se dissipam em pouco tempo, apresentando, assim, a

necessidade de usar de novas doses.

O indivíduo que usa a cocaína está propenso a ficar irritadiço, ranzinza,

agressivo e pode cair em depressão profunda, situação que pode levar ao suicídio.

Segundo Benachaque (1997) é possível desenvolver um quadro psicótico típico,

provocado pela droga e caracterizado por explosões de raiva e surto de violência. Na

maioria das vezes as perturbações perduram por algumas horas ou alguns dias.

Sobre o aspecto neuropsicológico da cocaína é necessário explicar que o

sistema nervoso recebe milhões de informações originadas de diferentes órgãos

sensoriais que se integram para determinar qual a resposta que deve ser produzida

pelo corpo. Essas informações do sistema nervoso, geralmente são transmitidas sob a

forma de impulsos nervosos, são as funções sinápticas dos neurônios. Kaplan, Sadock

e Grebb (1997) explicam tal processo:


As vesículas sinápticas contêm substâncias transmissoras que quando
liberadas na fenda sináptica, podem excitar ou inibir o neurônio pós-sináptico –
excita se a membrana neuronal contêm receptores excitatórios, inibe se contêm
receptores inibitórios (p. 81).

É o que acontece com a cocaína, pois ela atua através de dois mecanismos

diferentes. O efeito estimulante que resulta da ação da droga sobre as sinapses, e o

efeito anestésico que ocorre dentro dos neurônios, onde a cocaína dificulta a passagem

do estímulo. Com isso, a propagação do impulso nervoso fica interrompida e a

mensagem com a informação sobre a dor, fica pelo caminho, isto é, não consegue

atingir o cérebro.

A droga age sobre o sistema nervoso central de modo significativo no córtex

cerebral, estimulando e provocando os fenômenos motores que chegam ao grau de

convulsões epilétipcas tiformes. Altera o psiquismo produzindo fenômenos subjetivos.

O quadro crônico ocorre depois de semanas ou meses de uso moderado, mas

freqüente. Comporta uma atividade mental delirante, de tipo paranóide com sintomas

semelhantes aos da esquizofrenia. O usuário tem alucinações óticas e táteis nítidas e

não raro, descreve sensações como a de ser picado na pele, sofrer escoriações ou ter

o corpo infestado de parasitas.

O fenômeno de abstinência mais as alterações psíquicas que a cocaína

ocasiona, fazem com que o dependente se sinta deprimido e sofra alucinações que

persistem por algum tempo.


ANEXO II
NOME: SEXO: IDADE:

GRAU DE INSTRUÇÃO: RAÇA:

POSSUI CASA PRÓPRIA?

QUAL A RENDA FAMILIAR?

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA FAMÍLIA?

QUANTAS PESSOAS CONVIVIAM DIARIAMENTE COM VOCÊ? QUAIS?

01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM OS SEUS PAIS?

02)QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VECÊ CONSIDERA QUE TEVE?

03)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICIOU O USO DE DROGAS, INCLUINDO AS

LÍCITAS?

04)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR DROGAS?

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PARA A SUA OPÇÃO

PELAS DROGAS?

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ?

07)POR QUAL A DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA?

08)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICOU O USO DE COCAÍNA?

09)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR COCAÍNA?

10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA?

11)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA?

12)COMO VOCÊ GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES

EM RELAÇÃO A VOCÊ?

13)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO A SEUS FAMILIARES?

NOME: M.A.P. (P-1) SEXO: masculino IDADE: 34 anos

GRAU DE INSTRUÇÃO: 2º completo RAÇA: mestiço


POSSUI CASA PRÓPRIA? Sim, mora só.

QUAL A RENDA FAMILIAR? R$ 800,00 reais

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA FAMÍLIA? 10 pessoas, pais e sete irmãos.

QUANTAS PESSOAS CONVIVIAM DIARIAMENTE COM VOCÊ? QUAIS? Nenhuma.

Atualmente, vivo só.

01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM OS SEUS PAIS? O melhor

possível. A minha família sempre me deu muito apoio, antes e depois, quando

souberam que eu estava no vício, estava usando droga. 50% da minha recuperação foi

o amor da minha família, o amor que eles sentiram por mim e a ajuda que eles me

deram. Tudo isso contribuiu para a minha recuperação e contribuiu bastante para que

eu pudesse ficar longe das drogas. Então, o meu relacionamento com os meus pais,

antes das drogas, era bom. Seus pais eram casados? Meus pais são casados há 57

anos.

02)QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VECÊ CONSIDERA QUE TEVE? Meus pais sempre

me colocaram nos melhores colégios. Sempre me ensinaram o caminho certo, mas

sempre como a maioria dos jovens adolescentes têm a tendência de achar que é o

dono da vida. Eu era assim, dessa forma. Eu achava que eu mandava na minha vida,

eu achava que eu tinha que fazer tudo sem me preocupar com ninguém. Havia diálogo

na sua família? Vocês conversavam? Na minha família havia diálogo, mas não havia

diálogo sobre as drogas porque as drogas não eram tão liberadas como agora. Naquela

época não se ouvia falar de drogas como agora. Era difícil. E as pessoas consumiam

drogas escondidas. Hoje não. Hoje é como você chegar na farmácia e comprar um

remédio.
03)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICIOU O USO DE DROGAS, INCLUINDO AS

LÍCITAS? 12 anos.

04)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR DROGAS? Eu comecei bebendo um gole de

cerveja ali outro “aculá”. Eu chegava em casa escondido e ia tomar um gole. Eu achava

aquilo gostoso, geladinho, o próprio meio que eu vivia, eu via as pessoas consumindo e

eu queria poder saber o que era e por curiosidade eu experimentei, e como as pessoas

não querem o nosso bem, querem ver o mal – toma, fuma, faz bem.

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PARA A SUA OPÇÃO

PELAS DROGAS? Não teve nenhuma contribuição da minha família, pra falar a

verdade. A minha família só foi saber que eu consumia drogas, quando eu falei, porque

até então, eu nunca tinha dado nenhum trabalho para a minha família. Eu nunca

demonstrei dentro de casa. A única coisa que eles perceberam é que eu tinha me

afastado de casa, deles... Porque antes eu chegava, abraçava, beijava, conversava, e

chegou um período, um certo período que eu não tinha mais diálogo com eles. Ficaram

desconfiados, mas não sabiam o que era. Não tinha ninguém pra eles conversarem.

Naquela época os relacionamentos não eram tão abertos quanto hoje, quando se fala

de droga. O conceito de droga hoje todo mundo sabe, a causa e a conseqüência. Mas

eles nem desconfiaram? Os vizinhos contavam para os meus pais – Olha, o M. tá

usando drogas! – mas meus pais nunca acreditaram. Não sumia nada de dentro de

casa! Graças a Deus, eu sempre trabalhei e nunca precisei roubar para comprar minhas

drogas. Nunca tirei nada de dentro de casa. Eu conheço gente que por causa da droga,

limpa a casa, leva tudo mesmo, vídeo cassete, televisão... e como eu não fiz isso meus

pais nunca acreditaram, talvez se eu tivesse feito isso, eles teriam percebido mais cedo.

Então, eles só souberam quando eu contei. Você foi o único que usou drogas? na
minha família tenho mais 3 irmãos que usam cocaína e, eles continuam. Lá em casa é

liberal, meu pai e minha mãe sabem, mas...

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ? O

melhor possível. Hoje, meus pais já podem dormir direito. Eles me apóiam e já são

pessoas mais tranqüilas, são aposentados e são pessoas do bem.

07)POR QUAL A DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA?

Álcool, juntamente com a maconha.

08)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICOU O USO DE COCAÍNA? 13 anos. Quando você

está envolvido com drogas, quando você chega numa turma que todo mundo usa

droga, sempre no meio da turma tem alguém que usa cocaína, que cheira, que se

aplica. Você se envolve, e quando vê, já está cheirando, se aplicando. Dá um play

(aplicar na veia), dá um tiro (cheirar cocaína). É esse tipo de gíria que o viciado usa

para consumir a droga “vou fumar um pega ou vou dá um cano”, que é fumar maconha.

Eu fui nesse barco, na convivência com os meus amigos entre aspas, porque nesse

meio você não tem amigos, é só você e Deus.

09)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR COCAÍNA? Foi o momento. Você tá numa,

num apartamento, como um grupo de pessoas e todos estão consumindo drogas, um

bate o prato dali, outro começa a preparar a droga e você tá ali já doidão tomando uisk

ou então tomando cerveja e ai eles vem, dá uma cheirada aqui ou dá um tiro aqui, e ai

já passa o prato para a tua mão e tu vai cheirando, quando tu vê, já se acostumou.

Você convive com vários tipos de pessoas nessa área. Você convive com ladrão e com

doutor. Eu conheci muita gente em Belém com um poder aquisitivo muito bom, pessoas

conhecidas na sociedade: mulheres, homens, .... Você participa de coisas terríveis

como estar num lugar e de repente, vê uma pessoa que já não fala coisa com coisa se
dá um tiro na cabeça, como eu vi. Eu fui um coadjuvante na cena de uma história que

não é ficção. Ou então, você chagar no banheiro e encontrar uma pessoa dura lá,

morrendo de overdose, que você não sabe o que fazer, e tem pessoas que veêm isso e

vão embora, deixa lá morrendo. Esses são fatos verdadeiros, parece coisa de cinema,

mas é real. Pra você ter uma idéia eu tenho amigos que tiraram a vida de outros por

causa de R$ 5,00 reais. Por causa de uma peteca de pasta de cocaína, uma peteca

que você fuma em 3 ou 4 minutos..., um absurdo, né? O que me deixa mais triste é que

a ciência ajuda muito, sabe? Mas ela mesma diz que não tem cura. Quando vocês que

estão se formando agora não atentarem para o lado espiritual e é daí que vem a

solução, enquanto vocês baterem na mesma tecla, só cientificamente, só

cientificamente, só o que é provado, só cientificamente, nada espiritual, vocês nunca

vão ter uma resposta de cura que é Jesus Cristo, com certeza.

10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA? Eu

sempre trabalhei. Eu trabalhava numa grande empresa, ganhando bem viajava muito e

o dinheiro que eu pegava era todo para a droga. Eu subia os morros e ia comprar. Pra

isso só precisa de dinheiro e coragem. Dinheiro eu tinha, coragem eu ganhava na hora

que me dava vontade de consumir. Você não roubou? Não. Nunca.

11)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA? Contribuição nenhuma. A

cocaína é enganosa. Ela te dá à prioridade de dar um ar de liberdade, mas ela é

enganosa. Passando do tempo de uso de consumo abundante você vai ver que você tá

destruído, quando você olhar para trás você vai ver que não contribui para nada. Você

não deixou nada, só destruiu, deixou a família, deixou parte dos amigos que realmente

gostavam de você, enfim você fica com um mundo só para você. É tipo como o leão vai

marcar sua área, ele urina numa área e ali ninguém encosta. No mundo do viciado em
cocaína ele tem um mundo pessoal só dele, não quer que ninguém se meta e ele

praticamente vive só para a cocaína. Eu ficava três e quatro noites sem dormir, só

cheirando cocaína. Eu chegava numa casa umas 16:00 hs, quando eu menos me

espertava já estava amanhecendo, já era outro dia. Você esquece do mundo, você

perde a noção do tempo. Eu ficava perdido, sem saber que dia era, segunda, terça,

quarta... Eu ficava psicologicamente abalado e debilitado fisicamente. Eu não tinha

controle do que eu falava.

12)COMO VOCÊ GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES

EM RELAÇÃO A VOCÊ? Como é atualmente. São pessoas maravilhosas, nunca

mudaram o jeito porque souberam que eu consumia drogas. Eles me ajudam muito.

12)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO A SEUS FAMILIARES? O melhor

possível também. Tenho que amá-los, depois de tudo que eles fizeram por mim, eu não

posso dizer que odeio, não tem sentido, não tem lógica.

NOME: J.H.D.L. (P-2) SEXO: masculino IDADE: 27 anos

GRAU DE INSTRUÇÃO: 2º completo/ tec em informática RAÇA: branco

POSSUI CASA PRÓPRIA? Sim.

QUAL A RENDA FAMILIAR? R$ 1500,00 reais

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA FAMÍLIA? 6 pessoas, mãe e 4 irmãos.

QUANTAS PESSOAS CONVIVIAM DIARIAMENTE COM VOCÊ? QUAIS? Na

adolescência eu morei com várias pessoas. Primeiro com os meus pais, depois só com

a minha mãe, porque meu pai morreu, depois com um irmão, depois com outro irmão e

assim foi.

01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM OS SEUS PAIS? Bem, antes não

era mal, como toda família, não era um relacionamento mal. O problema é que eu
comecei a usar drogas muito cedo. Então, eu comecei e a beber com uns 11 ou 12

anos e a fumar maconha com 13 ou 14 anos e eu perdi meu pai muito cedo, eu tinha

uns 12 anos. Nós não morávamos aqui em Belém. Morávamos no Maranhão. Sempre

moramos aqui em Belém só que fomos para o Maranhão, ai teve um problema lá, meu

pai veio a falecer, ele foi assassinado e ai nós voltamos para Belém e eu fiquei

morando com os meus irmãos porque a minha mão não tinha estrutura, não estrutura

financeira, mas estrutura psicológica e física para me agüentar que já tava naquele

caminho, né? Ai, eu morei um ano com meu irmão, depois mais um ano com outro,

depois mais um ano com outro. O relacionamento depois da droga, acho que só existe

um. Acho que o drogado realmente só muda de endereço, os problemas são os

mesmos, as coisas que acontecem são as mesmas, têm uns que claro, já que tem

vários estágios da droga, existe um que é a curtição que você usa para si divertir, pra

você ir pra uma boate e pra você sair à noite, você usa droga pra você se divertir. No

outro estágio, você usa a droga pra você se manter, ai já é dependência química que é

o chamado sub-mundo. Quando eu comecei a usar maconha eu mentia muito, tirava as

coisas de casa. Era uma vida muito ruim. Confiança, zero. Então o relacionamento era

esse, muita mentira, desconfiança total, rendimento escolar baixo. Existia carinho

entre vocês? A minha mãe me teve depois de 10 anos da minha irmã mais moça,

então tinha aquela distância. Meu pai era daquela educação muito arcaica. Não tinha

diálogo, só mesmo no cinturão, eu não apanhei muito, mas os meus irmãos... porque

não tinha diálogo. Já a minha mãe não. Ela sentava pra dar um jeitinho, mas mesmo

assim, diálogo nada. Sexo, drogas, nada disso era conversado.

02)QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VOCÊ CONSIDERA QUE TEVE? Eu tive uma

educação boa, sempre estudei em colégios particulares, minha mãe sempre me


ensinou o que era certo ou errado. Meu pai sempre foi uma pessoa muito rígida, não

admitia mentira. Quando eu comecei a usar droga assim pesada, quando eu me envolvi

mesmo profundamente com as drogas, meu pai já tinha morrido. Com certeza se ele

tivesse vivo, com a primeira surra eu já tinha parado. Os meus irmãos brigavam muito

na rua, eles param de brigar por causa das surras que eles pegaram do papai. Então,

uma educação bastante repressora.

03)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICIOU O USO DE DROGAS, INCLUINDO AS

LÍCITAS? Uns 11 anos.

04)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR DROGAS? Curiosidade. Todo mundo

consumia - “Ah! Bora!? – Eu comecei bebendo vinho, eu achava doce, gostoso. Do

álcool eu passei pra a maconha.

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PARA A SUA OPÇÃO

PELAS DROGAS? Não foi uma opção – “Ah, eu vou optar pela droga!” – eu diria que

foi uma fuga, entendeu? Todo mundo tem problemas, mas infelizmente nem todo

mundo sabe enfrentar esses problemas de frente, sabe resolvê-los. Na realidade, acho

que não tinha problemas, eu só estudava, eu ficava o dia inteiro em casa, foi mais uma

opção de divertimento. Eu morava numa cidadizinha e lá não tinha muito divertimento.

Eu morei lá sete anos com o meu irmão. Foi quando eu comecei na maconha. Você

não sabe nem o que você tá fazendo, você não sabe pelo que você tá optando. Você

só percebe que tá fazendo alguma coisa errada quando seus pais descobrem.

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ? Todo

mundo quer ajudar você. É difícil uma pessoa da tua família dizer – eu não vou te

ajudar a se recuperar -Todos me ajudaram. Só que eles me apoiaram só quando eu

quis. O meu irmão me pegava e me botava dentro do carro e me levava lá para o


Dejob, só que é diferente eu não queria. Você pode pegar um cheira-cola da rua e dizer

– “Olha moleque, eu vou te levar para uma clínica”- não vai adiantar. Se você não

quiser não adianta, pode ser o melhor lugar do mundo, tanto faz. Se a pessoa não

quiser não existe nem Deus. Então o sentimento era muito bom, porque eu era o

caçula, todos me paparicavam, me adoravam. Depois eles ficaram com pé atrás comigo

por causa do uso da droga, minha compania já não era mais bem vinda, porque eu

mexia nas coisas, principalmente quando eu tava na cocaína, eu tirava dinheiro. Já hoje

eu sou um exemplo pra minha família, motivo de orgulho mesmo.

07)POR QUAL A DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA? A

maconha.

08)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICOU O USO DE COCAÍNA? 17 pra 18 anos.

09)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR COCAÍNA? Também curiosidade. Esse foi o

meu último estágio. Eu usava álcool, maconha, cocaína, crack... quando não tinha

cocaína eu fumava crack, quando não tinha crack eu fumava cocaína e continuava com

as outras. Aliás, você nunca para de usar as outras. Não tem isso – “Agora eu vou usar

só cocaína” – o que tiver é consumido.

10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA? Eu

sempre trabalhei. Eu trabalhava com informática e naquela época não era em toda

esquina que se encontrava alguém que mexia com computador. Então eu ganhava o

meu dinheiro. E eu usava quase todo ele para comprar minhas drogas. Você chegou a

roubar? Sim. Várias vezes eu mexi nas coisas dos outros. 11)QUAL A

CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA? A cocaína não contribui, ela só

desgraça. Quem usa cocaína sabe que ela deixa de ser droga, pra virar oxigênio. Você

acorda pensando em cocaína, você dorme pensando em cocaína, come pensando em


cocaína. Pa você ter uma idéia, teve um reveillon que eu ainda tava “preso” (viciado)

que eu tinha o seguinte pensamento – “eu quero passar o reveillon em qualquer lugar,

se eu tiver R$100,00 reais de pó, pra mim tá bom.

12)COMO VOCÊ GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES

EM RELAÇÃO A VOCÊ? Todo mundo hoje tem orgulho de mim. Me apóiam. Eles

agem certo comigo. Mesmo antes, eles sempre agiram certo comigo. Eles só queriam o

meu bem. Só não sabiam que eu precisava querer também pra ficar liberto.

13)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO A SEUS FAMILIARES? Amor, né?

São as pessoas que eu mais amo, são eles. Minha mãe, meus irmãos...
NOME: A.C.L.O. (P-3) SEXO: masculino IDADE: 35 anos

GRAU DE INSTRUÇÃO: 3º incompleto RAÇA: branco

POSSUI CASA PRÓPRIA? Sim.

QUAL A RENDA FAMILIAR? R$ 1.500 reais

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA FAMÍLIA? 2 pessoas, pai e mãe.

QUANTAS PESSOAS CONVIVEM DIARIAMENTE COM VOCÊ? QUAIS? As mesmas.

01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM OS SEUS PAIS? Bom. O que seria

bom? A gente conversava, mais com a minha mãe, né? Com meu pai nunca fui muito

de conversar, mas com a minha mãe, eu matinha diálogo. E afeto? Não tinha afeto

entre agente. Nem com a minha mãe nem com o meu pai, e nem eles comigo, de vez

em quando só.

02)QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VECÊ CONSIDERA QUE TEVE? Considero uma boa

educação. Eles me ensinaram a respeitar as pessoas. Aprendi a respeitar os outros,

como se comportar, eu até me comportava bem. Isso eu não posso negar. Eles me

ensinaram. Além disso, dessa educação técnica, eles eram repressores, eles eram

liberais, como eles eram? Não. Eles não eram liberais nem repressores. Eles tinham

uma coisa de cada, mãe e o pai. Eles tinham marcação em cima, quando eu fazia

alguma coisa errada. Tentaram ser liberais entre aspas. Você recebeu repressão

física? Você apanhou? Não. Papai nunca me bateu. E a mãe? A mãe sim, quando eu

era menor.

03)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICIOU O USO DE DROGAS, INCLUINDO AS

LÍCITAS? O álcool com uns 15 anos, depois maconha, cigarro não. Fumei cigarro só

quando tava bebendo, isso depois que eu comecei a usar a cocaína.


04)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR DROGAS? Curiosidade. Bastante curiosidade

de conhecer a droga. Tipo assim, geralmente a gente quando é jovem procura novas

sensações, vamos dizer assim, coisas novas né? Quando você usa a droga ela lhe dá

um prazer novo, né? Um prazer falso, né? E por uma curiosidade eu mandei comprar e

mandei fazer o cigarro pra eu fumar. Você fez isso por que você convivia com

pessoas que usavam? Foi. Mas antes eu já tinha curiosidade. E de onde vinha a sua

curiosidade? Porque já tinha aqui. Ouvia falar de maconha, maconha não presta.

Maconha te dá como é que diz? Ela te dá coragem para conversar ali com aquela

menina e tal, te dá mais argumento pra conversar. Com a droga você pode fazer, ás

vezes, coisas que você bom, não tem coragem. Ai, isso me causou curiosidade.

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PARA A SUA OPÇÃO

PELAS DROGAS? No que eles contribuíram? Acho que eles não foram culpados em

nada, não. Eles conversavam com você sobre drogas? Não. Eles não conversavam.

Você acha que se eles tivessem conversado você mesmo assim teria usado? Eu

creio que sim, que eu teria experimentado drogas. Você acha que a única culpa de

você ter usado drogas foi sua mesmo? Exclusivamente minha.

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ?

Sentimento de vazio. O que eles fazem para você sentir isso? Essa coisa de abraçar,

beijar, carinho não tem. Eu também não tenho muito isso com eles. Agora é que eu tô

procurando desenvolver isso.

07)POR QUAL A DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA? O

álcool depois a maconha. Fiquei dependente mesmo da cocaína.

08)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICOU O USO DE COCAÍNA? Com 15 anos.


09)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR COCAÍNA? Uma droga nova, né? Outra

tentação. Cocaína, o que faz? O que sente? Outro prazer? Uma coisa diferente só isso.

10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA? Com o

meu dinheiro. Eu trabalhava, ganhava o meu dinheiro. Passei a ser um usuário

descontrolado. E quando não tinha mais dinheiro? Roubava dentro de casa.

11)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA? Ela não contribui em

nada. Nenhuma droga contribui em nada.

12)COMO VOCÊ GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES

EM RELAÇÃO A VOCÊ? Harmonia entre nós, melhor entendimento, melhor diálogo.

Quando é pai e mãe tem que compreender. Pai e mãe aborrece a gente, não é

verdade? É melhor ficar calado e fazer o meu lado. Ainda não existe diálogo entre

vocês? Existe diálogo e compreensão, mas ainda é pouco.

13)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO A SEUS FAMILIARES? Sou o único

filho, procuro dar carinho, mais atenção.


NOME: D.O.C. (P-4) SEXO: masculino IDADE: 34 anos

GRAU DE INSTRUÇÃO: 1º incompleto RAÇA: mestiço

POSSUI CASA PRÓPRIA? Sim.

QUAL A RENDA FAMILIAR? 1 salário.

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA FAMÍLIA? 4 pessoas, mãe e duas irmãs.

QUANTAS PESSOAS CONVIVEM DIARIAMENTE COM VOCÊ? QUAIS? Uma, só a

mãe mesmo.

01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM OS SEUS PAIS? Muito ruim. Ele

batia na minha mãe... Meu pai não era legal.

02)QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VECÊ CONSIDERA QUE TEVE? Liberal. Por que? Ah,

eles não pegavam no meu pé.

03)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICIOU O USO DE DROGAS, INCLUINDO AS

LÍCITAS? 15 anos.

04)O QUE E LEVOU VOCÊ A CONSUMIR DROGAS? Me ofereceram a maconha, ai...

Influência.

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PARA A SUA OPÇÃO

PELAS DROGAS? Eles nunca falaram sobre isso, sobre a droga comigo.

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ?

Tristeza. Você se sente amado? Sim.

07)POR QUAL A DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA? A

maconha.

08)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICOU O USO DE COCAÍNA? 20 anos. Eu misturava

ela com a maconha.

09)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR COCAÍNA? Influência.


10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA? Eu

trabalho desde dos 18 anos. Você já tirou algo de alguém para comprar droga?

Algumas vezes.

11)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA? Tive só perdas. Usava

cocaína chegava de manhã em casa e ia trabalhar. Trabalha só pra comprar droga.

12)COMO VOCÊ GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES

EM RELAÇÃO A VOCÊ? Mais compreensão.

13)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO A SEUS FAMILIARES? Bom. A culpa

de eu usar drogas é minha mesmo. O amor que sinto por eles é o mesmo.
NOME: E.T.L. (P-5) SEXO: masculino IDADE: 23 anos

GRAU DE INSTRUÇÃO: 1º grau completo RAÇA: branco

POSSUI CASA PRÓPRIA? Sim.

QUAL A RENDA FAMILIAR? Mais ou menos 1.000 reais.

QUANTAS PESSOAS HÁ NA SUA FAMÍLIA? 5 pessoas

QUANTAS PESSOAS CONVIVIAM DIARIAMENTE COM VOCÊ? QUAIS? Mãe, pai e

dois irmãos.

01)COMO ERA O SEU RELACIONAMENTO COM OS SEUS PAIS? Quase não tinha

relacionamento direito com minha mãe, ela era muito fechada. Não tinha o hábito com o

meu pai.

02)QUE TIPO DE EDUCAÇÃO VECÊ CONSIDERA QUE TEVE? Liberal. Saia mais ou

menos 8 horas da noite e chegava 6 da manhã, desde os 12 anos. Meu pai era dono de

uma boate desde que eu tinha 12 anos.

03)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICIOU O USO DE DROGAS, INCLUINDO AS

LÍCITAS? Desde os 17 anos.

04)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR DROGAS? Quando eu saia de casa.. eu ia lá

na ponte do galo, ai eu vendia droga. Tinha muita droga ai eu comecei a usar. Ai depois

eu comecei a exagerar, a usar muito até parar no hospital. Havia brigas dentro da sua

casa? Tinha. Eu me aborrecia dentro de casa.

05)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DOS SEUS FAMILIARES PARA A SUA OPÇÃO

PELAS DROGAS? Conflitos dentro de casa. Eles falavam muito!

06)QUAL O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES EM RELAÇÃO A VOCÊ?

Tinham carinho.
07)POR QUAL A DROGA FOI INICIADO O SEU PROCESSO DE DEPENDÊNCIA?

Dependência mesmo foi á cocaína.

08)QUAL A IDADE QUE VOCÊ INICOU O USO DE COCAÍNA? Com 20 eu cheirava

pó e com 22 a pasta.

09)O QUE LEVOU VOCÊ A CONSUMIR COCAÍNA? Curiosidade.

10)O QUE DISPONIBILIZAVA RECURSOS PARA A COMPRA DA COCAÍNA? eu

conhecia os traficantes eles me davam pra eu vender. Eu não precisei roubar. Vivia

com os caras, né? Depois de vender eu comprava do nego um mais poderoso.

11)QUAL A CONTRIBUIÇÃO DA COCAÍNA NA SUA VIDA? Ela não contribui em

nada.

12)COMO VOCÊ GOSTARIA QUE FOSSE O SENTIMENTO DOS SEUS FAMILIARES

EM RELAÇÃO A VOCÊ? Agora tô vivendo direito. Antigamente ninguém ligava.

13)QUAL O SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO A SEUS FAMILIARES? Sinto amor.

Agora eles viram que vai parar né? Toda hora apoiando, toda hora apoiando.