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AS VISÕES DO BRASIL NO CONTEXTO DA MÚSICA BREGA BRASILEIRA DE

1968 A 1978: A(S) CULTURA(S) DO BRASILEIRO

José Eduardo Ramalho Dantas


HCTE/UFRJ; UAB/CEFET-RJ
eduardo@hcte.ufrj.br

RESUMO: A História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia vem se tornando


cada vez mais relevante no Brasil, ressaltando a importância na compreensão das
características do seu povo. Este trabalho analisa algumas dessas características à
luz do livro “Eu não sou cachorro, não”, do historiador e jornalista Paulo Cesar de
Araújo, sob a ótica de diversas “visões do Brasil” consagradas academicamente,
objetivando buscar correlações entre as características do povo brasileiro apontadas
no livro com outras estudadas através de consagrados autores que analisaram o
Brasil. O livro traz diversos pontos de conexão com esses autores além de trazer
outras propostas de leituras bastante instigantes, que certamente inspirarão
trabalhos futuros.

PALAVRAS-CHAVE: Povo Brasileiro, Música cafona, Regime Militar, Culturas,


Décadas de 1960 e 1970

INTRODUÇÃO
A área de História da(s) Ciência(s) e das Técnicas e Epistemologia é por si só
um campo interdisciplinar. Entretanto, essa interdisciplinaridade se expandiu de tal
forma que se tornou necessária uma compreensão mais abrangente dos locais
(países) onde as ciências e as técnicas são produzidas ou utilizadas, principalmente
de seus povos, para uma melhor análise da história das ciências e das técnicas de
cada lugar e é justamente nesse contexto em que se torna vital o estudo das
diversas visões existentes do povo brasileiro para uma melhor compreensão da
História das Ciências e das Técnicas do e no Brasil.
Ao se falar de uma História das Ciências e das Técnicas numa dada
localidade, é de fundamental importância analisar o contexto dessa sociedade no(s)
período(s) considerado(s). Podemos citar como exemplo a importância de uma
revisão sobre o perfil do povo brasileiro e com este perfil influenciou nos rumos da
ciência e tecnologia nacionais, sobretudo na década de 1970.

Scientiarum Historia VII . 2015 . ISSN 2176-1248


Este trabalho tem como objetivo principal analisar algumas características do
povo brasileiro num período que considero ser crucial para sua expansão
tecnológica: o “milagre brasileiro” dos anos 1970. Para a realização de tamanha
empreitada, usamos como objeto de pesquisa o livro “Eu não sou, cachorro, não”, do
historiador e jornalista baiano Paulo César de Araújo, que trata da música brasileira
que era apreciada pelo “povão”, a música cafona, rebatizada de “brega” na década
seguinte, e suas relações com o período mais tenso da ditadura militar (entre os
anos de 1968 e 1978).
O trabalho está dividido em três partes. Na primeira, há a definição do
referencial teórico, onde reunimos de forma sintética as principais características dos
autores estudados em Visões do Brasil. Na segunda parte fazemos uma descrição
do nosso objeto de estudo, o livro “Eu não sou cachorro, não”, do escritor Paulo
César de Araújo. Por fim, analisamos na terceira parte as visões do Brasil nas
músicas cafonas (“bregas”) para analisar a(s) cultura(s) do brasileiro.

VISÕES DO BRASIL: BREVE RETROSPECTIVA DOS CLÁSSICOS


O Brasil vem sofrendo transformações sociais bastante intensas dentro de
seu povo. Desde os protestos de junho de 2013 até a atualíssima campanha
eleitoral, passando pela polêmica dos “rolezinhos”, percebe-se que o modo que o
brasileiro se vê ou é visto varia bastante e tais visões exercem papel preponderante
em como analisamos as diversas situações onde os diversos tipos de brasileiros
estão envolvidos. Por isso, é importante que façamos uma breve retrospectiva
dessas visões que, apesar de não serem recentes, ainda ecoam com bastante
intensidade nas nossas vidas cotidianas.
Podemos pontuar como um marco inicial para a definição da sociedade
brasileira textos do político e cientista brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva,
com pesadas críticas à escravidão e às perseguições aos índios, em pleno ano de
1823.
Numa das obras mais emblemáticas do início do século XX, o intelectual
pernambucano Gilberto Freyre traça um perfil bastante peculiar da sociedade
brasileira, onde a relação entre as três “raças” constituintes é desconstruída,
mostrando diversas características e ecoam até hoje.

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A magistral obra de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, tratou da
influência da colonização portuguesa na construção do povo brasileiro,
principalmente no mito do “homem cordial” a as polêmicas em torno dele.
A trilogia clássica das visões do Brasil fecha com o seminal livro de Caio
Prado Júnior, “A formação do Brasil contemporâneo”, que traz o pioneirismo no uso
do materialismo dialético na forma de construção de uma historiografia do Brasil
Colônia levando em conta o contexto da época.
Além do triunvirato clássico, dois pensadores completamente deslocados no
tempo e no espaço merecem destaque: o sergipano Manoel Bonfim e o jurista
gaúcho Raymundo Faoro e suas obras clássicas América Latina, Males de Origem e
os Donos do Poder, respectivamente.

CULTURAS E VISÕES DO BRASIL: UM OLHAR MAIS APROFUNDADO


A fim de tentar analisar o contexto cultural do brasileiro à época do período
histórico do artigo, lançamos mão de dois pensadores bastante relevantes, ainda
que não tão conhecidos como os listados no tópico anterior. Estamos falando do
tcheco Vilém Flusser e do carioca Luiz Sérgio Coelho de Sampaio.
Flusser foi um filósofo tcheco que imigrou para o Brasil – onde se naturalizaria
posteriormente – durante o período mais crítico da Segunda Guerra Mundial,
tornando-se professor de filosofia da USP. Sua principal contribuição para o estudo
das visões do Brasil foi, sem dúvida, o livro Fenomenologia do Brasileiro, escrito em
1972 – quando ele já estava de volta à Europa e com uma versão em português
publicada em 1998.
Sampaio, engenheiro, economista e filósofo, nasceu em 1933 no Rio de
Janeiro. Sua principal contribuição no campo da filosofia é a elaboração da lógica
hiperdialética, que é a transcendência das quatro lógicas básicas, a saber:
identidade, diferença, dialética e dupla diferença ou lógica clássica. Cultura,
Segundo Sampaio, seria um processo hiperdialético de realização plena do modo de
ser coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência
e sua lógica, seja capaz de subsumi-la.

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O OBJETO DE ESTUDO: O LIVRO “EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO”, DE P. C.
DE ARAÚJO
Paulo César de Araújo é baiano de Vitória da Conquista e nasceu em 14 de
março de 1962. Formado em História (UFF) e Jornalismo (PUC-Rio), possui
mestrado em Memória Social pela UNIRIO, cuja dissertação foi o texto-base para o
livro Eu não sou cachorro, não, lançado em 2002 pela editora Record, como uma
extensão da dissertação de mestrado de Paulo César de Araújo intitulada “Eu não
sou cachorro, não: memória da canção popular cafona (1968-1978), orientada pela
professora Sonia A. de Siqueira, do programa de Memória Social da UNIRIO. O
autor analisou o contexto social, político e histórico dessas músicas e dos problemas
enfrentados pelos seus compositores e intérpretes com a censura da ditadura militar,
além de retratar diversos aspectos da sociedade brasileira de então, com diversos
ecos no passado e no futuro.
Em textos acadêmicos, sua maior contribuição foi preencher a lamentável
lacuna da música brega da historiografia da MPB, que começou a reconhecer a
relevância dessa obra em trabalhos acadêmicos recentes, como por exemplo as
teses de doutorado de Miliandre Garcia de Souza (2008) e Silvano Fernandes Baía
(2011).

A ERA DO PICHE
Cultura é um conceito de muitos significados, como se pode ver no dicionário
eletrônico Houaiss, chamando a nossa atenção as definições 6, 7 e 8:

Os defensores de cada um de seus conceitos lutavam com todas as forças


pela prevalência de seus pontos de vista e algumas vezes tecendo palavras nada
amistosas para seus opositores e, por que não dizer, contendores.

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Nos anos 1970, a música popular brasileira vivia a chamada “era do piche”,
onde a regra era se falar mal de seus desafetos ou mesmo de outros artistas que
não agradavam. Isso foi muito forte entre os músicos cafonas e os artistas da MPB,
sendo uma das principais metralhadoras giratórias nesse sentido o cantor Agnaldo
Timóteo, cujo alvo constante era Caetano Veloso, pelos cafonas e a cantora Rita
Lee, que pichava a tudo e a todos em seu sucesso “Arrombou a festa”.
Os jornalistas e críticos musicais lançaram mão do piche de forma ainda mais
pesada, quase sempre enaltecendo os baluartes da MPB e depreciando os músicos
cafonas, principalmente Waldick Soriano, que revidava à altura través de suas
composições, como a letra da canção Pedras e Lixo. Nem os defeitos físicos foram
poupados, como aconteceu com Nelson Ned, muitas vezes insultado por Ronaldo
Bôscoli, por seus defeitos físicos, o que rendeu ao ex marido de Elis Regina altas
críticas do Velho Guerreiro Chacrinha em suas colunas de jornal.

OBJETIVOS DIVERGENTES E CONVERGENTES


A difusão das músicas cafonas e das “intelectualizadas” era bastante
diferenciada. O primeiro grupo estava relegado às rádios AM o segundo gozando de
prestígio nas críticas dos principais jornais e revistas do país.
As discussões sobre a música brasileira estiveram polarizadas nos anos
1960-1970 através de duas figuras completamente distintas: o militante de esquerda
José Ramos Tinhorão e o direitista José Fernandes, que divulgavam suas análises,
respectivamente, no Jornal do Brasil e em diversos livros de história da MPB e nos
popularescos jornais O Dia e A Notícia, além de programas de rádio e TV.
Outro foco de disputa entre os cafonas e os “não cafonas” diz respeito às
suas pretensões e produções musicais. Enquanto os objetivos dos cafonas
almejavam sucesso, dinheiro e melhor qualidade de vida para seus entes queridos,
os “intelectuais da MPB” queriam apenas “transcender artisticamente”, originando a
divisão entre os compositores “meramente comerciais” e os “de prestígio”.
Interessante notar que, apesar do antagonismo, os artistas cafonas acabaram
financiando os artistas da MPB, com o dinheiro oriundo das vendagens de seus
discos. O caso da mais chamativo aqui é o da gravadora Polygram (atualmente
Universal Music), que tinha o selo Philips (azul) reservado para os artistas “de
prestígio” e o selo Polydor (vermelho), para os “meramente comerciais”.

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Essa espécie de “estratificação musical” provavelmente frustrou as tentativas
de cantores cafonas em realizar trabalhos mais elaborados, que não deram muito
certo no fim das contas. Como foi o caso de Odair José, que compôs uma ópera-
rock baseada em Jesus Cristo (o Filho de José e Maria) e recebeu inúmeras críticas
negativas.

O PATRULHAMENTO IDEOLÓGICO
Uma consequência natural da convivência desses dois blocos musicais
antagônicos ainda mais tensa que a “era do piche” foi o patrulhamento ideológico
imposto por diversos setores de direita e de esquerda que policiava declarações de
diversos artistas e intelectuais, como Caetano Veloso na época do LP Bicho (que
continha o sucesso Odara) e Gilberto Gil com o disco Refavela. Em resposta,
Caetano teria insinuado que alguns desses patrulheiros eram ligados ao Partido
Comunista, então um pesadíssimo tabu.
Evidentemente, os músicos cafonas também sofreriam (e muito) com esse
patrulhamento ideológico, sobretudo os irmãos Dom & Ravel por conta da música
“Eu te amo meu Brasil”, que foi bastante apreciada pelo presidente Médici e se
tornou pretexto para toda a sorte de ataques dos diversos setores simpatizantes de
esquerda da MPB.
O caso mais emblemático das patrulhas ideológicas foi sem dúvida o do
cantor Wilson Simonal, que no auge do sucesso teve seu nome associado a
delações de opositores do Regime Militar, fato que destruiu sua carreira artística por
completo.

MÚSICA CAFONA E A ACADEMIA: CAMINHOS FECHADOS PARA A TRADIÇÃO


E MODERNIDADE
Algo bastante peculiar no estudo das músicas cafonas é o quase completo
desdém da academia por essa vertente. Paulo César Araújo realiza uma brilhante
síntese, sob o referencial teórico de Maurice Habwards que destaca a relação direta
entreas recordações individuais e as experiências coletivas, bases do seu conceito
de memória. Isso significa que muitas memórias coletivas coexistem numa
sociedade.

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A partir disso, pode-se desconstruir a história da música brasileira e
reconstruí-la através dos conceitos de tradição (apresentado pelo crítico musical
José Ramos Tinhorão) e modernidade (pelo poeta Augusto de Campos). Apesar de
inicialmente antagônicas, essas vertentes não se opõem entre si. O público da
classe média ditava os rumos de casa vertente interpretativa.
Dos artistas representados pela tradição e pela modernidade, de acordo com
Tinhorão e Campos, não se vê nenhuma menção aos artistas cafonas, a despeito de
sua enorme popularidade. Isso se deve ao fato do conceito de “cafona” usado por
esses pesquisadores, que considerava essa produção musical não identificada com
a classe média e, consequentemente, com a tradição e com a modernidade.
Resumindo: quanto mais longe da tradição e da modernidade, mais perto se está do
brega ou cafona, e vice-versa.
O Museu da Imagem e do Som não gravou depoimentos de nenhum dos
artistas cafonas até o momento. Além das questões de tradição e modernidade,
provavelmente também ocorreram boicotes ideológicos, como no caso de Dom e
Ravel. Nem mesmo Nelson Ned, cantor de prestígio internacional na época, foi
poupado desse “esquecimento”.
Ironicamente, para o “povão”, os moldes da tradição e da modernidade não
exercem tanta influência assim. Por exemplo, há mais de 30 anos centenas de fãs
se reúnem no túmulo do cantor Paulo Sérgio para celebrá-lo, ao passo que o túmulo
do baluarte da tradição Orlando Silva está praticamente às moscas, mesmo
localizado em frente ao túmulo do cantor capixaba.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho de final de disciplina, fizemos um apanhado das diversas
visões do Brasil contextualizando a música brega dos anos de chumbo da ditadura
militar.
Verificamos que muitas das visões que os autores clássicos, além dos outros
utilizados nesse trabalho, vão de encontro com várias características da sociedade
brasileira, como o estamento de Faoro, a democracia racial de Freyre, o homem
cordial de Buarque de Hollanda, assim como suas contradições. A defasagem e a
miséria de Flusser também ecoam pelo livro.

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Algo que chamou a atenção na construção deste trabalho foi a inexistência de
certas informações na internet que constam no livro de Paulo César de Araújo, o que
o tornam ainda mais valioso. E também denotam que o “enquadramento” de certos
setores dominantes está chegando ao mundo virtual.
Por conta do tempo e da profundidade dos ensaios, foram descartados certos
temas que constam no livro que são muito interessantes para uma aplicação das
visões do Brasil no contexto da nossa sociedade. Podemos citar como exemplos a
censura e o divórcio.

REFERÊNCIAS

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