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VERSÃO DO PROFESSOR

D I S C I P L I N A Organização do Espaço

Aprofundando o conceito de espaço

Autoras

Eugênia Maria Dantas

Ione Rodrigues Diniz Morais

aula

Material APROVADO (conteúdo e imagens) Data: ___/___/___


02
Nome:_______________________________________
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Apresentação

N
a aula passada, foi abordada a discussão do espaço geográfico a partir da relação
homem-natureza. Nesta aula, aprofundaremos a discussão, verticalizando a noção de
espaço geográfico a partir da inter-relação que se estabelece com o tempo. Assim,
a aula está dividida em duas partes que se articulam e se complementam. Na primeira,
estabelecemos um diálogo entre o espaço e as diversas faces do tempo; na segunda,
aproximamos as variáveis espaço e tempo a uma sociedade dada, ou seja, à sociedade
capitalista, mostrando a relação entre essência e aparência na leitura da ciência geográfica.
No enredo da aula, você será levado a refletir sobre o espaço geográfico a partir de sua
conexão com o tempo em uma sociedade específica.

Objetivos
Entender a definição de espaço como objeto de estudo
1 da ciência geográfica.

Saber como criar situações-problema reveladoras da


2 relação entre espaço-tempo e sociedade.

Compreender a relação entre sociedade-tempo na


3 interpretação do espaço geográfico.

Aula 02  Organização do Espaço 1


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O espaço e o tempo:
um casamento indissolúvel
Trabalhar o conceito de espaço geográfico relacionado-o à variável tempo, eis o desafio
inicial desta aula. Para isso, vamos refletir sobre a seguinte afirmação de Milton Santos:

“... O espaço é a acumulação desigual de tempo.”

Figura 1 – O que é o tempo?

2 Aula 02  Organização do Espaço


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Uma afirmação curta e densa de sentidos. Para compreendermos o que ela significa,
um bom exercício inicial é identificar os termos da questão. Nela, encontramos: espaço
– acumulação – desigualdade – tempo. Parece ser muita coisa junta. E é mesmo! Então,
vamos por parte.

A afirmação de Milton Santos nos leva a querer entender melhor o espaço geográfico
a partir do diálogo que deve se estabelecer entre os elementos que interferem na sua
composição. Nesse diálogo, que sugerimos ser aberto e reflexivo, o tempo assume uma
posição central.

Assim, perguntamos: o que é o tempo?

Vejamos, para responder a essa questão, algumas expressões em que esse termo
aparece.

Não tenho tempo para nada!


O tempo está fechado.
O tempo parece veloz!
No tempo do meu avô, as coisas eram diferentes!
Esta rua não é mais a mesma, o tempo passou, as coisas mudaram!
(Eugênia Dantas e Ione Rodrigues).

Você deve ter percebido nas expressões que a palavra tempo foi empregada em uma
linguagem corrente, incorporando-se como uma variável do cotidiano. Na vida diária, há a
necessidade de localizar as ações, visões e procedimentos no tempo. Por meio dele, pode-se
enxergar os limites e as possibilidades dos fazeres e saberes dos homens.

Partindo da perspectiva de que o tempo está presente em todas as ações humanas,


vamos aprofundar a relação espaço/tempo, por meio de um conjunto de análises necessárias
à leitura do espaço geográfico.

A Geografia, ciência cujo objeto de estudo é o espaço, estabelece com a História um


diálogo de conflitos e complementaridades. Desde os primórdios da história do pensamento
geográfico, essa aproximação está rodeada de debates e reflexões, cujos objetivos variam e
alimentam a (in) certeza de que a totalidade do espaço se realiza no conteúdo do tempo.

Assim, vamos colocar mais lenha nessa fogueira?

Aula 02  Organização do Espaço 3


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Atividade 1
Procure em diversos meios, como literatura, música, jornais ou
1 revistas, imagens que possibilitem revelações distintas do tempo.
Escreva no espaço a seguir comentários a respeito do que você
encontrou.

Com base no que você encontrou, elabore algumas afirmações


2 ampliando as noções de tempo até aqui trabalhadas.

1.
sua resposta

2.

A partir dessa atividade, você pôde perceber que o tempo não é só companheiro da
Geografia, mas está em diferentes campos de interpretação humana. Ele é uma variável que
transversaliza as variadas esferas de representação social.

No entanto, com o desenvolvimento da humanidade e da Ciência, o estudo do tempo


passou a ser matriz de reflexão teórica e metodológica de diversas áreas de estudo, como a
Física, a Filosofia, a Biologia, a História. Em cada uma delas, há uma abordagem que pretende
se diferenciar da outra, de forma a garantir o seu “quinhão científico” na interpretação da
realidade. No entanto, nessa diversidade há que se encontrar uma unidade, qual seja o eterno
desejo humano de revelar as faces da natureza e do homem tecendo a vida na Terra. A
Geografia como a ciência que é responsável pela “escrita da Terra” estabelece com o tempo
um casamento indissolúvel

Assim, para você compreender o espaço geográfico é necessário “treinar” o olhar a fim
de enxergar nas formas espaciais as marcas do tempo, da natureza e do homem.

4 Aula 02  Organização do Espaço


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Figura 2 – As faces do tempo

Para exercitar o olhar, é necessário saber observar, caminhar, parar, registrar e


perguntar:

O que vejo?
Como surgiu?
Por que existe?
Desde quando?
Quem o construiu?

A resposta a essas perguntas pode ser dada submetendo-se o que foi visto à variação
temporal, social e cultural.

Assim, veja: tomando uma realidade espacial qualquer, você pode ampliar as questões
anteriores interrogando:

Isto é novo?
Isto é velho?
Isto é atual?
Isto é natural?
Isto é artificial?

Aula 02  Organização do Espaço 5


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As perguntas feitas levam você, impreterivelmente, a colocar na interpretação
geográfica o tempo perpassando as ações humanas. No espaço, revelam-se as marcas do
tempo. Temos, simultaneamente, o registro do que foi o passado, das deformidades do
presente, do que é atual e real, do imbricamento entre o natural e o artificial na tessitura do
ser e do cotidiano, construindo a vida no ambiente terrestre.

Figura 3 – Entre o natural e o artificial, o fazer cotidiano

Para dar mais substância as nossas discussões, leia um trecho de Milton Santos (1986,
p. 10) a seguir.

O passado passou, e só o presente é real, mas a atualidade do espaço


tem isto de singular. Ele é formado de momentos que foram, estando agora
cristalizados como objetos geográficos atuais; dessas formas-objetos, tempo
passado, são igualmente tempo presente, enquanto formas que abrigam uma
essência, dada pelo funcionamento da sociedade atual.

6 Aula 02  Organização do Espaço


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Atividade 2
Agora, exercite mais um pouco.

a) Observe a escola. O seu ambiente de trabalho é a escola que você


leciona e o seu entorno. Submeta o espaço observando aos questionamentos
anteriormente apresentados.

b) Procure identificar a variável do tempo a partir da aplicação das


perguntas.

c) Elabore uma descrição do ambiente observado, articulando as idéias


colocadas por Milton Santos.

a.

sua resposta
b.

c.

Aula 02  Organização do Espaço 7


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Voltemos agora à afirmação inicial desta aula.

“... O espaço é a acumulação desigual de tempo.”

Vamos submeter está frase a pergunta “por quê?” Para responder a essa pergunta,
é necessário considerarmos o que foi dito até agora e acrescentarmos à palavra tempo a
designação social. Assim, o tempo para a Geografia é uma construção social. O que nos
remete a condição de que no tecido espacial a ação humana institui-se como tempo social. O
que isso significa? Significa que quando nos referimos ao espaço estamos considerando o
registro de tempos em sucessões desiguais, que se acumulam em formas ou feições distintas.
Isso ocorre a partir de interesses, saberes, fazeres, técnicas, conhecimento e trabalho que
variam, fazendo coexistir feições fragmentadas de tempos distintos em ambientes também
distintos, porém complementares.

Henri Lefbvre nos ajuda a pensar sobre essa coexistência de tempo no espaço, ou no
espaço como uma memória ampliada do tempo. Leia a seguir o que ele afirma.

Consideramos a relação entre o espaço e o tempo. Os dois infinitos simultâneos


e atuais se diferenciam e se cruzam na representação. Cada um se representa
no outro e somente se representa através desse encontro. (LÉFBVRE apud
SANTOS, 2002, p. 26/27).

A afirmação do geógrafo nos sugere que há “uma cumplicidade” entre estrutura espacial
e estrutura social. Assim, o desenvolvimento social marca o desenvolvimento espacial, que
por sua vez, condiciona o próprio desenvolvimento social. Temos a forma espacial sendo
organizada em um movimento espiralado que se alimenta da dinâmica sócio-espacial que
une e separa, dialogicamente, homens e coisas.

Figura 4 – Espaço e sociedade: onde está o começo, será que tem fim?

8 Aula 02  Organização do Espaço


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Para ampliar a nossa problematização no sentido de se compreender da afirmação que
movimenta esta aula, vamos a mais um exemplo.

Tomemos a cidade como uma forma sócio-espacial e procuremos encontrar em sua


organização as variáveis postas na afirmação (espaço, tempo, desigualdade, acumulação). O
que você tem diante de seus olhos e sob os seus pés? A expressão máxima dessa afirmação.
Na cidade, encontram-se de forma imbricada os termos propostos na máxima de Santos.

Atividade 3

Faça você um exercício. Tome a sua cidade como forma espacial. Caminhe
por suas ruas, praças, bairros... Observe o que ela é. Registre as diferentes
imagens que você encontrou e monte um quadro, procurando aproximar
imagens do passado a imagens do presente. Encontre o que une e separa os
homens no tecido urbano visitado. Responda a questão: o que é a cidade em
termos sócio-espaciais?

Aula 02  Organização do Espaço 9


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Agora, vamos aprofundar o que institui e é instituinte da “cumplicidade” entre estrutura
espacial e estrutura social.

Da aparência à essência
A cidade que você viu pode ser considerada uma forma espacial. O que você registrou
pode ser lido de maneira metafórica, a casca do ovo, o invólucro, o papel que embrulha
um presente. Ela constitui a primeira impressão sobre algo, podendo ser considerada a
aparência das coisas. É uma parte de um todo. Assim, no que vemos existe um conjunto de
elementos que não vemos e que são fundamentais para que aquilo que se vê possa existir. É
a incorporação ou incrustação de idéias, procedimentos, técnica, trabalho e meios utilizados
para a produção de um determinado objeto ou forma espacial. O que não se vê, mas que está
lá constitui a essência do que foi visto. É a outra parte da totalidade espacial.

O espaço geográfico como acumulação desigual de tempo contém o conjunto das


forças produtivas que foram responsáveis para uma organização espacial específica. Nela,
estão a força de trabalho, o valor de uso e de troca, os desejos e as necessidades humanas,
as realizações e frustrações de uma sociedade, que ao longo do tempo submeteu a natureza a
uma transformação de físico-natural para humano-artifical. O motor dessas transformações
está preso às diferentes formas dos homens produzirem e acumularem riquezas. Na
sociedade capitalista, os desejos estão enredados na teia do fetiche e da mercadoria. Nesta,
não sabemos distinguir o que é necessário do que é supérfluo. Tudo é, simultaneamente,
supérfluo e necessário para fazer girar a roda do capitalismo.

Figura 5 – O motor do capitalismo

10 Aula 02  Organização do Espaço


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Epa, agora complicou! Quantas palavras difíceis apareceram! Forças produtivas,
força de trabalho, valor de uso e de troca, fetiche, mercadoria. É possível
simplificar?

Não! Mas, para entender melhor, vamos definir e caracterizar o capitalismo?

O capitalismo é uma estrutura que se enraíza sócio-econômica e culturalmente, cuja


mola propulsora é a acumulação de riquezas em fatias específicas da sociedade. A maneira
como essa estrutura realiza-se parte da relação que se estabelece entre o trabalho e a
capacidade de criar excedentes, ampliando em proporções geométricas a possibilidade de
consumo da população.

Como funciona essa estrutura? De maneira resumida, pode-se dizer que há a


propriedade privada dos meios de produção (máquinas, utensílios, ferramentas, matérias-
primas etc.) nas mãos de uma parcela da sociedade denominada de capitalista, a qual é capaz
de assegurar o funcionamento desses meios comprando força de trabalho humano, cuja
remuneração se dá por pagamento de salários. O que temos como síntese primeira e básica
dessa estrutura: uma divisão social do trabalho e a concentração dos meios de produção. Há
muitos aspectos a serem debatidos, mas vamos nos ater apenas às características relativas
à propriedade privada (já definida anteriormente), à divisão social do trabalho e à capacidade
de trocar, típica de uma sociedade produtora de mercadorias.

A divisão social do trabalho refere-se à incapacidade que os indivíduos têm de


assumirem todas as profissões necessárias para suprir as suas necessidades. Vejamos
como exemplo: todos nós temos necessidade de estudar, de comer, de vestir... Mas, não
temos a condição de sermos, simultaneamente, professores, agricultores, costureiros. Por
isso, na sociedade capitalista, há ocorrência de muitas profissões, por que os indivíduos
passam a ser vistos como “máquinas” capazes de transformar matéria-prima em produtos
diversos através da sua força de trabalho. Como “máquina”, o homem está condicionado a
uma capacidade produtiva relativa ao tempo necessário para produzir um equivalente que
será recompensado em salário. O trabalho é uma força motriz que se introduz no mercado
de trocas material e simbólica.

A capacidade de trocar os produtos, resultantes de diferentes especialidades, constitui


a condição básica que alimenta a teia sócio-econômica e cultural dessa sociedade. O produto
a ser trocado denomina-se mercadoria.

Aula 02  Organização do Espaço 11


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De maneira geral, precisamos compreender o que é mercadoria.

[...] a mercadoria é concebida, em primeiro lugar, como uma coisa ou um objeto que
satisfaz uma necessidade qualquer do homem; em segundo lugar, como uma coisa
que se pode trocar por outra. A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso, isto
é, tem utilidade específica para o seu consumidor. Conseqüentemente, pode-se afirmar
que as mercadorias diferenciam-se umas das outras pelo seu valor, uma vez que a cada
necessidade específica corresponde uma mercadoria com características específicas. Por
sua vez o valor de troca (ou simplesmente valor) poderia ser caracterizado como sendo
a relação ou a proporção na troca de um certo número de valores de uso de uma espécie
contra um certo número de valores de uso de outra espécie. (CATANI, 1983, p. 22)

A capacidade de trocar o valor que a mercadoria assume no mercado é relativo à variável


força de trabalho, sofisticação dos meios de produção, valor de uso e valor de troca. Para que se
realize enquanto mercadoria, os produtos são revestidos de um conjunto de atributos que os
tornam essenciais no viver cotidiano. Esses atributos precisam ser veiculados e consumidos
como necessidades sociais, que ultrapassam as fronteiras espaciais, transformando-se em
desejos e necessidades sociais. A mercadoria, para se realizar no mercado de trocas, tem
agregado um valor simbólico que ilude e que recria o sentido do que é necessário para se
viver. Essa idealização do objeto a ser consumido é o que se chama fetiche da mercadoria.

Figura 6 – O fetiche da mercadoria

Nesses termos, a realização do capitalismo ocorre na medida em que se ampliam


as oportunidades de produção de mercadorias para serem consumidas em um mercado
ávido por novidades. Nele, as fronteiras são obstáculos a serem transpostos, desafios
mercadológicos que instigam a criação de meios técnicos capazes de dominar as dificuldades
existentes. As distâncias, as intempéries físico-ambientais, as disparidades regionais se, por
um lado, podem ser empecilhos ao motor do capitalismo, por outro, se constituem “reserva
de valor” a ser incorporado à dinâmica das trocas comerciais e simbólicas. O que não pode
ser transformado em mercadoria, hoje, não está descartado para o amanhã.

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O espaço e o tempo para esse modelo de organização social não se revelam de maneira
linear, mas apresentam uma composição complexa. O que isso quer dizer? “Que o homem
trabalha sobre herança”. O que ele vive e constrói é sempre um acoplamento entre as forças
do passado e as do presente, reorganizando as relações sócio-espaciais. “Através do espaço,
a história se torna, ela própria estrutura, estruturada em formas”.

Para isso, é necessário termos claro que estamos tratando da organização espacial
em um contexto sócio-histórico, ou seja, a criação do espaço geográfico está atrelada ao
processo de produção social do tempo.

Para ampliar o nosso entendimento, vamos ler o que Milton Santos diz:

Produzir significa tirar da natureza os elementos indispensáveis à reprodução da vida.


A produção, pois, supõe uma intermediação entre o homem e a natureza, através das
técnicas, dos instrumentos de trabalho inventados para o exercício desse intermédio.
O homem começa a produzir quando, pela primeira vez, trabalha junto com outros
homens em um regime de cooperação, isto é, em uma sociedade, a fim de alcançar
os objetivos que haviam antecipadamente concebido, antes mesmo de começar a
trabalhar. A produção é a utilização consciente dos instrumentos de trabalho com um
objetivo definido, isto é, o objetivo de alcançar um resultado preestabelecido. Nenhuma
produção, por mais simples que seja, pode ser feita sem que se disponha de meios de
trabalho, sem vida em sociedade, sem divisão do trabalho. [...] Cada atividade tem um
lugar próprio no tempo e um lugar próprio no espaço. Aquilo que é criado pela vida
não pode ser morto ou imóvel. As maneiras de produzir mudam; as relações entre o
homem e a natureza mudam; a distribuição dos objetos criados pelo homem para poder
produzir e assim reproduzir a sua própria vida podem igualmente mudar. (SANTOS,
1978, p 162/163).

Para exemplificar a relação existente entre sociedade e organização do espaço, vejamos


as seguintes figuras:

Figura 7 – Onde está a natureza?

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Se perguntarmos o que vemos, somos capazes de responder sem vacilar: um carro,
uma cadeira. Mas, se perguntarmos como eles são feitos, para que eles são feitos, em que
período foram fabricados, quais os materiais utilizados, vamos precisar de mais elementos
para chegar próximos de uma resposta plausível. Assim, sobre o visível, encontra-se uma
enorme quantidade de informações que não aparecem de imediato, pois estão incrustadas
nos objetos.

O mesmo exercício vale para o espaço geográfico. Quando olhamos, somos capazes
de identificar formas, contornos, sinais... Adentramos suas formas como se fossem portas
abertas para um universo complexo de informações, sentidos, simbologias, técnicas, idéias.
Sob um objeto fixo, subjaz um conjunto de informações que não aparecem de imediato e
que o põe em movimento, dando fluxo e vida a sua existência. O ato de criar espaço está
submetido às regras dialógicas que satisfazem as distintas maneiras de (dês) organização
de uma sociedade. Quando construímos uma casa, um bairro, uma cidade, é uma sociedade
que se revela em fragmentos.

Figura 8 – “Tá vendo aquele edifício, moço, ajudei a levantar...” (Lúcio Barbosa).

O espaço é a movimentação geral da sociedade edificando uma massa heterogênea de


formas que se impõem ao cotidiano, ao trabalho, ao lazer. Essas formas, por vezes, seduzem,
por vezes, aprisionam. Em alguns momentos são reais, em outros, imaginárias. Ao assumir
as diferentes faces de uma mesma realidade, pode engana o leitor desavisado.

Em verdade, todas essas faces do espaço são cunhadas na fetichização de um processo


de criação que é sempre histórico, gravado com as marcas indeléveis do tempo, em que a
natureza primeira se transforma em uma segunda natureza, que por sua vez se transforma
novamente. Assim, podemos dizer que a natureza do espaço está em revelar as distintas
faces da natureza humana em sua trajetória pela Terra. Nessa trajetória, encontramos no
espaço a acumulação desigual dos tempos.

14 Aula 02  Organização do Espaço


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Resumo
Nesta aula, abordamos a relação existente entre espaço e tempo, contextualizados
em uma sociedade capitalista. Mostramos a interdependência existente entre a
organização social e a interpretação do espaço geográfico. Demonstramos como
se realiza a acumulação desigual do tempo a partir da relação de coexistências
e complementaridade que se realiza entre homem e natureza, mediatizados
pelas relações técnicas e de trabalho, as quais variam com o desenvolvimento
social. Por fim, concluímos que a organização espacial é uma criação histórica
que sintetiza a transformação de uma natureza natural em uma natureza
transformada, alimentando um ciclo de trocas mútuas e dependentes.

Auto-avaliação
a) A partir do que você estudou e realizou ao longo desta aula, defina o que é o espaço
geográfico como objeto de estudo da Geografia.

b) Crie uma situação-problema de caráter geográfico em que estejam presentes as


variáveis espaço, tempo e sociedade.

c) Explique a situação criada por você utilizando os conhecimentos discutidos nesta aula
a respeito do espaço, do tempo e da sociedade.

Aula 02  Organização do Espaço 15


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Referências
CATANI, Afrânio Mendes. O que é capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1983.

DOWBOR, Ladislau. O que é capital. São Paulo: Brasiliense, 1985.

MENDONÇA, Francisco; KOSEL, Salete (Org.). Elementos de epistemologia da geografia


contemporânea. Curitiba: UFPR, 2004.

SANTOS, Douglas. A invenção do espaço: diálogos em torno do significado de uma categoria.


São Paulo: UNESP, 2002.

SANTOS, Milton. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica.
São Paulo: HUCITEC, 1978.

______. Pensando o espaço do homem. São Paulo: HUCITEC, 1986.

______. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo:


HUCITEC, 1996.

Anotações

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Organização do Espaço – GEOGRAFIA

EMENTA

Objeto de estudo da geografia; as correntes filosóficas que embasam o pensamento geográfico; espaço, território,lugar,
região e paisagem nas diversas abordagens geográficas; a importância das redes no estudo geográfico do mundo
globalizado; a ciência geográfica na sociedade pós-moderna:paradigmas, perspectivas e dificuldades; as formas de
abordagens dos temas geográficos no Ensino de geografia; atividades práticas voltadas para a resolução de problemas
referentes ao espaço geográfico em situações de ensino

AUTORAS

n  Eugênia Maria Dantas

n  Ione Rodrigues Diniz Morais

AULAS

01   Despertando para a leitura do espaço

02   Aprofundando o conceito de espaço

03   A Organização do Espaço: um desafio inter-trans-disciplinar?

04   A dinâmica entre o global e o local na globalização

05   Paisagem como categoria da análise geográfica

06   Lugar e (des) identidade

07   Território e territorialidade: abordagens conceituais

08   Território e territorialidade: abordagens conceituais (parte II)

09   Por entre territórios e redes: múltiplas leituras


Impresso por: Gráfica

10   Região e a Geografia tradicional

11   Região no contexto da renovação da geografia

12   Organização do espaço: do universo conceitual ao ensino da Geografia


2º Semestre de 2008