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Acorda com os poemas mas não adormece se lhes sentir a presença.

Em pequena, o sono
também não era sereno, mas a inquietação era outra. Levantava-se para ver se a mãe
estava por perto. “Teresinha, fecha a luz”. Era sinal que sim. Não só de alívio se faz esta
frase, que amargamente significava ter de ir ler para debaixo da cama, com o auxílio da
lanterna que pediu no aniversário. É aí que lê as primeiras frases do livro Le Deuxième Sexe
[Segundo Sexo] da Simone de Beauvoir, sem saber que, 10 anos mais tarde, a escritora iria
percorrer França em sua defesa. Nos cartazes erguidos aclamava-se as Novas Cartas
Portuguesas, o livro que, em plena ditadura, desafiava o papel social e sexual das
mulheres. A aventura, partilhada com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, valeu-
lhes lugares na primeira fila do Tribunal da Boa Hora. “São as Marias que vão presas”, já
dizia o polícia. Agora é um dos livros portugueses mais traduzidos no estrangeiro.

Feminista, jornalista, poetisa. Difamada, perseguida, agredida. A paixão desregrada que


tem pela liberdade não permite à tinta secar - e trouxe ao mundo mais de 30 obras, várias
delas premiadas. Ao longo dos verdes (81) anos, nunca deixou uma arma por disparar, mas
pensou duas vezes antes de publicar um livro que pudesse magoar a mãe.

Sei que não gosta que leiam a sua poesia, mas vou começar por lhe ler um poema
seu.

É verdade. Detesto que leiam a minha poesia, porque as pessoas fazem as paragens nos
tempos errados. Sinto um embaraço. Quando vou a algum lado e começam a ler os meus
poemas eu saio da sala. Sempre que me posso escapar, escapo-me, só se estiver na
primeira fila é que não dá. Uma vez estava na RTP2, no programa da Rita Ferro. Eu tinha
sido convidada, e um rapaz ia ler o meu poema Minha Senhora de Mim. Coitadinho…
depois arrependi-me tanto. Ele começa a ler o meu poema e eu fico tão enervada, ele
estava a dizer tudo fora do sítio, estava tudo mal. E eu não aguentei, e interrompi-o, em
direto, e disse-lhe “olhe, desculpe, tem de parar de ler, é que você está a ler tudo mal”. Ele
ficou branco, e passou-me o papel. Depois, quando olhei, percebi logo porque é que ele
tinha lido tudo mal. Tinham-lhe escrito no papel o poema dividido palavra a palavra.
Parecia uma lista de supermercado. Coitado… e a Rita Ferro ria… ria à gargalhada. Mas faça
favor.

É o poema Minha Memória Cetim do livro Minha Senhora de Mim. “Minha mãe/
Mulher-infância/com sua pele marfim/minha água de beber/minha memória/Cetim”.
Parte da Teresa é determinada pela sua mãe, pela sua génese?

A minha mãe passa por quase todos os meus livros, à exceção de dois ou três. Aliás, até
tenho um livro, chamado "Minha Mãe Meu Amor", que é passado entre mim e a minha
mãe, comigo na barriga dela e acabada de nascer. Mas este é também um livro
influenciado pela minha passagem pela psicanálise. Fiz psicanálise durante 17 anos para
perceber quem eu era; e aprendi a fazer a regressão, que nos permite ir muito atrás, até
atrás das nossas origens. Esta regressão faz com que tenhamos um entendimento da mãe
que uma pessoa que não tenha feito psicanálise e que não esteja interessada no tema
poético 'mãe' não consegue. A nossa mãe é de onde partimos, é a nossa génese. E isso diz
muito de nós. Eu penso que as pessoas não entenderão muitos dos poemas em que falo
da minha mãe. Mas, para mim, a minha mãe é uma grande paixão. Essa paixão nem
sempre é boa, nem sempre é regozijo. É uma paixão que tem muita dor. Quanto mais se
ama uma pessoa, mais difícil é ter distanciamento em relação a ela, querer-se menos dela,
exigir-se menos dela, ser menos obsessiva em relação a ela. Estou a falar de paixão. E
paixão não é amor, vai além do amor. A paixão aconteceu-me três vezes na minha vida.
Com a minha mãe, com o homem que eu amo há 50 anos, e com a minha poesia.

A paixão que tem pela sua mãe é a que lhe traz mais dor?

É assim… eu tinha nove anos e a minha mãe foi embora, saiu de casa, mas ela continuou a
ser a minha paixão. Se possível, tornou-se numa paixão ainda maior, porque foi só o
objeto da paixão é que se foi embora. Podem dizer-me que ela foi embora e deixou os
filhos para trás. Mas para mim as coisas nunca foram assim, quando se sente paixão nunca
se vê as coisas dessa forma. Na paixão, a perda do ser amado pode determinar a queda,
mas, ao mesmo tempo, não é isso que nos faz abrir mão desse ser. Portanto, se essa
paixão se vai embora fisicamente de ao pé de nós, cada vez a obsessão é maior. Quando
tudo está bem, a paixão anda por ali, mais calma. Eu acordava muitas vezes à noite
quando era pequenina para ir ver a minha mãe. Saía da cama e ia espreitar a ver se a via,
se ela estava quieta, sossegada. Se estivesse, eu voltava a adormecer. Mas era muito difícil
encontrá-la assim. A minha mãe era uma mulher moderna, diferente, ela dizia que era
feminista e não sabia. E eu acho que ela tinha razão. Eu não queria nada a minha mãe em
casa, boazinha e queridinha. A minha mãe fez o melhor que podia e a vida era dela. Eu não
posso achar que as mulheres devem ter o direito a fazer o que querem da sua vida, e
depois à minha mãe não lhe conceder esse direito, só porque é minha mãe. Mas claro que
quando ela sai de casa me faz sofrer. Ela sai e a minha vida desmorona. Eu senti que, de
repente, havia um ciclone na casa, em que tudo fica no ar. E eu quero organizar-me
naquele espaço e não consigo. Mas muito fez ela, não podia ser de outra maneira... e cá
estou eu sempre a desculpá-la. Ao meu pai eu não desculpo nada, à minha mãe desculpo
tudo.

Também escreve muito sobre a beleza dela.

A beleza dela acaba por despertar o meu lado transgressor e poético. Ela era linda de
morrer. Lisboa era muito pequenina naquela altura, e ela era considerada uma das
mulheres mais bonitas de Lisboa. Sempre ouvi isto. A verdade é que quando conheci a
Natália Correia, ela perguntou-me logo se eu era filha da Carlota. Porque a Natália e a
minha mãe eram consideradas as mulheres mais bonitas daqui. A Natália era morena e a
minha mãe era loira, e encontravam-se no S. Carlos. Paravam para se verem uma a outra,
viam como é que estavam vestidas. A beleza dela, a maneira estranha de se comportar,
tudo o que a envolvia a ela e a à literatura. Porque, no meio disto tudo, para mim, a
grande rival da minha mãe era a biblioteca do meu pai. Eu aprendi a ler com quatro
ou cinco anos, portanto aquela biblioteca era a coisa mais linda que eu tinha visto na vida.
No livro Mulheres de Abril diz “não cales mais a recusa do que quiseram que fosses”.
O seu pai não aceitava que a Teresa escrevesse ou não aceitava o que a levava a
escrever?

Ele sempre quis mandar em mim e eu sempre quis mandar em mim própria. O meu pai
adorava a literatura e lia imenso. Mas tentava controlar aquilo que eu lia no princípio,
porque eu lia desgovernadamente. Lia os papéis das pastas de dentes e dos remédios. E
isso preocupava-o, então havia coisas que ele me proibia logo e que não eram bem
aceites por mim, já em pequena. O meu pai não tinha uma única escritora nas estantes da
biblioteca. Para ele, o lugar da mulher não era na literatura, nem na arte, não era em nada
que fosse grandioso. O lugar da mulher era em casa a parir filhos, a ser muito bonita e a
esperar por ele ao fim da tarde. O meu pai era muito misógino. Quando o meu filho
nasceu, ele telefonou-me umas quatro horas depois e disse-me: “olha eu ainda não fui aí
porque tenho estado nas aulas [era professor], mas quero dizer-te já que te dou os
parabéns, cumpriste a tua obrigação, deste um rapaz ao teu marido”. Isto quer dizer que
quando eu nasci, que fui a primeira filha dele, a minha mãe não tinha cumprido a sua
obrigação. A verdade é que para o meu pai ser filho é... ser filho, era aquele que passava o
nome. Os meus filhos passam o nome do Luís, não o meu. Tudo isto é uma construção de
uma sociedade realmente misógina, machista, discriminatória em relação às mulheres. Ele
era um homem justo, mas nunca achou que era injusto discriminar as mulheres. Esse foi
um dos motivos da nossa penúltima discussão. Ele disse-me que não havia discriminação
nenhuma contra as mulheres, e não percebia o que é que eu andava a escrever porque
não havia razão para tal.

O que é que o seu pai a proibia de fazer?

Houve uma vez que disse à minha psicanalista que o meu pai nunca me deu nada. E ela,
que raramente falava, respondeu “deu-lhe sim, deu-lhe as ferramentas para a Teresa ser o
que é hoje". E é verdade. Até porque ele, quando me proibia de algo, eu reagia. Era
matemático. E ele percebeu a tempo que era melhor não proibir assim diretamente. Ele
não me dizia “olha não lês”, mas tirava os livros, havia várias maneiras. Um homem que
amava tanto a literatura e que faz destas coisas… os ditadores... ele era um pai ditador em
relação a mim. Quando eu tinha lido quase tudo da biblioteca do meu pai, às escondidas,
foi na altura em que eu estudava no Liceu Filipa [D. Filipa de Lencastre]. E algumas amigas
minhas tinham pais que liam e eu perguntava-lhes logo se eles tinham um escritório.
Sempre que tinham, elas passavam-me livros deles, nem avisavam os pais. E eu, com uns
10,11 anos, tinha pedido uma lanterna como prenda de aniversário e ninguém sabia
porquê. A lanterna servia para eu descer a roupa da cama até ao chão e ir ler para debaixo
da cama. Isto porque à noite eu ficava a ler e a minha mãe via a luz pela fisga da porta, e
dizia sempre “Teresinha, fecha a luz”. É das frases mais presentes que tenho da minha
infância. E eu fechava a luz e ia para debaixo da cama com a lanterna e lia. Lia, por
exemplo, o Segundo Sexo da Simone de Beauvoir. Aí já tinha 15 anos, e li o livro
exatamente porque o pai de uma amiga tinha o livro em francês. Eu só sabia o francês do
liceu, portanto custou-me imenso ler. Tinha de ler com um dicionário ao pé.
Quando lê o Segundo Sexo, há janelas que se abrem?

Este livro acaba por mudar completamente a minha vida, porque muitas das coisas que ela
ali dizia me fizeram perceber que era precisamente aquilo que eu queria. Além disso, o
livro permitiu-se conhecer mais sobre o passado das mulheres. Ela maravilhou-me, abriu-
me portas e janelas e tudo… para uma vida diferente. São as mulheres que mudam a
minha vida. O Luís mudou a minha vida, claro, mas não me mudou a mim. Ao
passo daquilo que um livro me consegue mudar.

"PORQUE TODA AQUELA GENTE QUE ME RODEOU NA ALTURA ME FEZ AQUILO QUE
FIZERAM ÀQUELA MENINA DO CONTO DORES, QUE FOI DESTRUIR-ME COMPLETAMENTE"

Como é que passa da leitura para a escrita?

Como o meu pai não tinha mulheres nas estantes, eu, com uns sete anos, perguntei à
minha mãe: “Mas não há mulheres que escrevem!?” e a minha mãe respondeu-me: “Claro
que há. Claro que há mulheres que escrevem. Olha a avó!” e aponta para o retrato dela,
que também estava no Palácio de Benfica. E é essa a primeira vez que eu ligo à minha avó
Leonor, Marquesa de Alorna, à poetisa. E aí abriu-se uma porta. Eu repetia: “as mulheres
escrevem, as mulheres escrevem!” e comecei a escrever romances de três páginas, que
para mim pareciam grande romances. O meu pai era professor de Anatomia Patológica e
preparava as aulas nos cadernos, mas deixava sempre umas páginas vazias no fim. Eu ia
buscar os cadernos, rasgava as outras páginas, e escrevia um romance. Foi assim até fazer
o meu primeiro poema, quando tinha 14 anos. A poesia eu descobri com o maior poeta do
mundo que é o Camões.

A morte da sua avó faz com que deixe de chorar, como já disse anteriormente. Nesta
altura, a escrita era a única forma de se expressar?

A minha avó era sufragista feminista e eu não sabia. Acabo por saber através da Maria
Lamas. Ela era o meu esteio, levava-me para todo o lado. Cheguei a ir com ela, em
pequena, às reuniões da Casa Jardim, reuniões que ficaram na história das mulheres em
Portugal. Ainda hoje ela é a única pessoa que me consegue mesmo fazer chorar. Eu nunca
penso na morte da minha avó sem ficar com os olhos cheios de lágrimas. Mas, na altura,
eu não podia chorar, isso era o meu fim. Chorar é mostrar aos outros a brecha por onde
podem entrar. Há o estereótipo de que a mulher é aquele ser sensível que quando chora
fica à nossa mercê e isso é uma coisa que nós não podemos deixar acontecer. Se eu
tivesse chorado quando era pequenina, provavelmente não estava aqui a falar consigo,
porque me tinham morto, tinham dado cabo de mim. Porque toda aquela gente que me
rodeou na altura [depois de a mãe sair de casa] me fez aquilo que fizeram àquela menina
do conto Dores, que foi destruir-me completamente. Porque eu, naquela casa,
representava a minha mãe. Eu era o produto da minha mãe. O meu pai dizia-me que o
cordão umbilical não tinha sido cortado. Mas se ela não tivesse cortado o cordão dela
comigo, ela não teria saído de casa. Eu é que nunca admiti que esse cordão tivesse sido
cortado, portanto eu não o cortei. Eu não podia chorar. Se eu chorasse mostrava o ponto
exato onde eles podiam enterrar a faca. Aprendi isso muito cedo comigo própria.

Foi essa “recusa do que quiseram que fosse”, de que falávamos há pouco, que a fez
sair de casa aos 18 anos?

Com certeza, aquilo era insuportável. Eram normas insuportáveis, loucas, já naquela altura.
Ele acabava com os meus empregos todos. Eu enquanto ali estivesse e comesse na mesa
dele, como ele dizia, obedecia às ordens todas dele. Mas eu nunca levantei a voz contra o
meu pai, e um dia, já no fim, disse-lhe isso. E ele disse-me “pois não, é pior. São os teus
olhos. Eu estou a falar contigo e tu estás a pensar fala para aí e eu ralada”. Eu respondia-
lhe logo “ isso já é a sua imaginação”. Mas já não dava mesmo, tive de sair. Na altura, já
escrevia, mas ainda não tinha publicado o meu primeiro livro. Publiquei o meu primeiro
livro com 19, 20 anos. Na altura era-se maior aos 21, mas os filhos de pais divorciados
eram maiores aos 18, e eu aos 18 fui-me embora, no dia seguinte ao meu aniversário. Já
podia ir, ele já não me podia proibir de nada e eu não tinha medo dele nem nunca tive.

E depois quando sai, continuam a zangar-se?

Sim. Eu pergunto-me porque é que aguentei tanto. Se eu saí tão cedo de casa, porque é
que aguentei tanto a minha relação com o meu pai. Passámos a vida muito zangados. Ele
zangava-se sempre comigo, era ele que se zangava. Cortava relações, e depois era ele que
voltava, não era eu. Mas havia um laço interior entre nós que tinha a ver com a parte do
conhecimento, curiosamente, com a parte da inteligência dele, da sua cultura, e da sua
integridade.

Esse sair de casa balançava entre o libertador e o aterrador?

Eu tinha um amigo muito grande naquela altura, e esse grande amigo dizia-se muito
apaixonado por mim, ainda que eu dissesse que não queria ter paixões por ninguém.
Perante aquele debacle que foi o caso do meu pai e da minha mãe, eu acreditava zero no
amor. Aquilo que eu queria ser era independente, escrever, fazer a minha vida. Eu queria lá
saber do amor. Eu dizia que não queria casar nem ter filhos, não ia fazer o que o meu pai e
a minha mãe fizeram e não ia prejudicar criança nenhuma. Mas mesmo assim, ele propôs
que casássemos, mas ele ficava com a sua vida e eu ficava com a minha. Dizia-me: “saímos
de casa e o teu pai já não vai a mais sítio nenhum atrás de ti”. Hesitei muito, falei com as
minhas amigas, mas acabei por casar. Mas naquela época, nos anos 50, era muito difícil
uma atitude destas, dizer “vou sair de casa, vou-me embora, vou por aí”. E não
havia ninguém que me ajudasse, porque a minha mãe nem estava aqui e o meu pai era a
figura... era o professor Horta, e ninguém me ajudava para não ficar mal com ele. Mas na
altura aquilo tudo até me parecia bonito, tipo Simone Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Cada
um tinha a sua vida, e ele nunca se meteu na minha, nunca me aborreceu. Depois o
casamento acaba quando conheço o Luís, o homem com quem estou há 50 anos. Mas ele
era um bom homem, de esquerda, pertencia ao ABC Cineclube. Aliás, eu fui a primeira
mulher a ser diretora de um Cineclube em Portugal. O que me complicou a vida porque o
Moreira Batista, que era ministro da altura, não achou isso nada bem e andou sempre atrás
de mim, até ao 25 de Abril. Foi um grande inimigo, aliás quando morreu eu disse “morreu
o meu único inimigo”.

"EU TENHO PRAZER QUANDO ESCREVO"

A sua poesia fez-se de todos estes sentimentos que atravessaram a sua infância?

Às vezes não, às vezes era a luta que me fazia escrever. No tempo do fascismo, o que me
movia para fazer poesia tinha a ver com a liberdade, tinha a ver com a resistência à
ditadura. Na realidade a poesia é feita de muitos lados; de coisas muito fortes e coisas
muito frágeis. A poesia é liberdade. Quando se conta uma história, por mais que se a vire
de pernas para o ar, conta-se sempre uma história. Na poesia pode dizer-se tudo e fazer
tudo. A poesia começa e termina quando nós queremos. Tem asas, desaparece e aparece
outra vez. Um dia não aparece e depois aparece a meio da noite. Uma pessoa acorda com
o poema.

Acorda com o poema?

Acontece-me muito. Acordo com um poema. E ou perco o poema ou levanto-me para o ir


escrever. Comecei então a ter esferográficas e papéis no quarto, mas depois, como o Luís
está a dormir, tinha de escrever às escuras e ficava tudo encavalitado. Tenho mesmo de
me levantar e vir para aqui [a sala de sua casa] escrever o poema. Depois de escrever, vou
para a cama, mas já não durmo. Ou é o poema ou o sono, e o poema ganha sempre.

Ganha ao sono e a tudo?

O veio primeiro do meu coração é poético. Eu sou a minha poesia. Eu não faço nada para
que a poesia não seja eu. Vou sempre atrás de mim e vou atrás dela ao mesmo tempo. O
meu distanciamento na escrita existe apenas no ato da escrita, enquanto literatura. Eu
preciso de ter um distanciamento para saber o que é bom ou o que é mau, para jogar com
as palavras. A literatura é um jogo literário, um puzzle onde se pode ter tudo desarrumado.
Não é um puzzle onde se tem de arrumar tudo muito bem arrumadinho. É por isso que
sempre detestei fazer puzzles, embora goste imenso de ver as pessoas a fazer. Mas
apetece-me sempre trocar-lhes as peças. É isso que a gente faz na literatura, uma espécie
de puzzle com as peças todas trocadas, e é a paixão que determina essa troca. É a paixão a
causadora dessa troca, a causadora de perturbação, do fogo, da fuga, mas também é a
causadora de regresso, de asas. A poesia é a minha voz mais segura, a minha voz mais real,
mais perturbadora. É o meu sentir, a minha transgressão maior e o meu prazer maior. É um
prazer imenso, muito sexuado. A minha poesia é o meu corpo. Quando eu digo que eu sou
a minha poesia não é uma metáfora. Não. Eu tenho prazer quando escrevo. O Vergílio
Ferreira dizia-me “ó Teresa, eu sofro tanto quando escrevo” e a mesa dele era sempre
virada para uma parede. Eu, pelo contrário, tenho prazer. É um sobressalto do corpo, como
quando se faz amor. É a mesma coisa. Aquele sobressalto em que a gente vai atrás e
galopa, e vai... e vai... até ao fim. Portanto, eu sou a minha poesia, porque eu faço poesia
com o meu corpo. Essas coisas da alma são muito bonitas mas não têm a ver comigo.
Como não sou católica, não acredito em nada a não ser na poesia. Mas posso falar da alma
como algo transgressor, é algo que existe dentro de nós e que nós não sabemos entender
bem o que é. Não entendemos bem o que é que nos faz escrever. E não interessa saber, se
um dia viesse a descobrir se calhar deixava de fazer poesia. Portanto, não me interessa
saber.

No poema Mulheres de Abril diz “Mulheres de Abril/ somos/ mãos unidas/ certeza já
acesa/ em todas nós. Juntas formamos/ fileiras/decididas/ ninguém calará/ a nossa
voz”. Antes de Abril, foram várias as vezes que a tentaram calar. Entre tanta coisa
que aconteceu, o que é que fica mais guardado?

Eu escrevi o Minha Senhora de Mim, que deu origem a um murmurinho, um


grande murmurinho. Uma mulher a escrever assim, a falar de prazer, não dava com nada. A
Florbela já na altura dela tinha causado um grande escândalo, mas ela nunca foi tão fundo
no acto do erotismo, a Florbela não era uma poetisa do erótico mas sim do amor. Nos
anos 50, 60 o que causa escândalo em Portugal é o erotismo, e é eu começar a falar
daquilo que se faz na cama, no desejo que se tem pelo homem, e daquilo que me dá
gozo. Ser eu, a mulher, a dizer “eu quero que tu, homem, me faças isto porque é o que me
dá gozo” não caía bem. Quando sai o livro, o Moreira Batista falou com a Abecassis da
D.Quixote [Snu Abecassis, fundadora da editora] e a PIDE foi lá buscar os meus livros, fez
um auto de apreensão. Normalmente era a censura que o fazia, mas comigo foi logo a
PIDE. E eles disseram à Abecassis que se voltasse a editar Maria Teresa Horta lhe fechavam
a editora. E ela perguntou: mas qualquer coisa que ela escreva? E ele disse, mesmo assim,
“até pode publicar a história da carochinha que se tiver assinado Maria Teresa Horta eu
fecho-lhe a porta”. Percebi logo que a minha vida ia começar a piorar. Eu tinha um
telefone em meu nome, o que era raro, não havia nenhuma mulher com telefone em seu
nome naquela altura, e eu recebia telefonemas ordinários, horrorosos. Ligavam para o Luís
a dizer “és um banana, dá-lhe uma tareia”. No jornal, eu escrevia na Capital, passou a haver
uma triagem feita pelas telefonistas porque ligavam a dizer “Essa puta da Maria Teresa
Horta! Essa cabra da Maria Teresa Horta!”. E à minha frente estava o Rogério Fernandes,
que fazia a segunda triagem, e depois é que os telefonemas vinham ter a mim. Depois
ainda havia aqueles que me ligavam a dizer “Meu deus que coisa horrível. Não quer vir
jantar comigo?”. Mas o que ficou muito presente foi a minha tareia. Morava no bairro
social do Arco do Cego com o Luís e com o meu filho, que na altura tinha sete anos. Um
dia fui ter com o Luís ao jornal, saí de casa por volta das 23h30, íamos apanhar o táxi ao pé
da estátua de Antonio José de Almeida. Quando saí de casa, houve um carro que acendeu
a luz, mas nem pensei nisso. Naquela altura o bairro tinha passeios muito estreitinhos e
com candeeiros altos. E um carro, com homens lá dentro, vem atrás de mim. Tentaram
atropelar-me mas não conseguiram, tiveram de travar se não iam de encontro ao
candeeiro. Eles decidem parar o carro, mais adiante, e saem dois homens do carro, ficou lá
um. Empurraram-me para o chão e começaram a bater com a minha cabeça no chão; a
dar-me tareia em todos os sítios. Eu julguei que era para me roubar, mas depois percebi
que não. Houve um que me disse "Isto é para tu aprenderes a não escrever como
escreves". Entretanto, houve um senhor do bairro social que nos viu e começou a gritar
com eles. Eles foram-se embora a correr. A partir daqui era como se enlouquecesse...

Mas é esta confusão que faz, em parte, nascer as Novas Cartas Portuguesas

Sim. A Maria Velho da Costa e a Maria Isabel Barreno eram as minhas grandes amigas e
íamos almoçar todas as semanas. Elas passavam pela Capital, estávamos ali na Rua do
Século. No almoço depois da tareia, a Velho da Costa diz "a Maria Teresa acaba de ser
espancada, vou-vos dizer uma coisa, nós temos de fazer um livro as três. Agora é que é". A
Isabel estava a começar a escrever o livro sobre a morte da mãe e disse-nos "Vocês estão é
malucas, eu quero escrever o meu livro". Então eu ia falando com a Velho da Costa e a
Isabel ia ouvindo em silêncio. Nós decidimos que tínhamos de partir de alguém, de uma
mulher. Surgiu o nome da Mariana Alcoforado [freira portuguesa que escreve as cartas da
Lettres Portugaises]. A Isabel disse logo “Eu não quero a Mariana, ela é horrível, uma
mulher hipócrita, horrorosa, insuportável”. Eu respondi-lhe “Olha, se queres é escrever o
teu livro, deixa a mulher. Mas pronto, vamos fazer outra coisa”. Passado uma semana,
voltamos a almoçar e a Isabel aparece com o primeiro texto, é o único texto que se sabe
qual de nós é que escreveu. Ficámos danadas, piursas. Dissemos-lhe: “quer dizer, vais para
casa, chamas a mulher de todos os nomes, nós ficámos a pensar que já não querias e
depois apareces aqui com um texto”. A partir daí nunca mais parámos. Às duas por três,
fizemos as contas e percebemos que demorámos nove meses a escrever o livro. Quando
acabámos, organizamos três cópias do livro para entregar aos editores. Na altura, não
havia computador, nem máquinas que fazem cópias, por causa dos panfletos políticos.
Tínhamos de pôr papel químico. Um dia, na minha casa, lá estavam os três editores: Pedro
Tamen pela Moraes, o Leão de Castro pela Europa-América e a Natália Correia pelo
Estúdios Cor. Entregámos uma cópia a cada um. O Pedro Tamen disse que queria, mas que
a Moraes não deixava porque tinha medo. O Leão e Castro disse que não podia porque lhe
fechavam a porta e a Natália disse que ia publicar. Ela ameaçou a editora: “Ou publico o
livro ou saio da editora”. E publicámos o livro. Tinha de ser uma mulher.

EU E A VELHO DA COSTA FOMOS TER COM UM POLÍCIA E DISSEMOS: “OLHE, FAZ FAVOR,
ESTÁ AQUI TANTA POLÍCIA PORQUÊ?” E ELE RESPONDEU “AH, MENINAS, ISTO É POR
CAUSA DAS MARIAS QUE VÃO PRESAS”.
Aliás, a Natália acaba por ser muito importante nas Novas Cartas Portuguesas.

Sim, o livro saiu e foi apreendido passado três dias. Foi-nos feito um processo, quiseram-
nos amachucar. Pensavam erradamente que os outros escritores nos iam virar as costas,
mas isso nunca aconteceu. Eles e elas ‘esgadanhavam-se’ para serem nossas testemunhas,
mas nós só podíamos ter sete, penso eu. A Natália foi sempre de uma coragem espantosa.
No tribunal, ela foi a primeira a ser ouvida e disse logo “Se alguém tem de ir preso sou eu,
porque os senhores não podem proibir ninguém de escrever, podem proibir de publicar. E
a responsável de o livro estar cá fora sou eu”. Ela era uma mulher espantosa, e por causa
disso foi muito marginalizada. Hoje já ninguém fala dela. Ela chegou quase à sua morte
sem ter tido um prémio. Felizmente, ganhou o prémio da Associação Portuguesa de
Autores, em 1990, com o livro Sonetos Românticos. Mas ganhou porque eu estava lá,
porque o júri nem tinha lido o livro dela… era uma mulher… e a escrever determinadas
coisas. E eu avisei que, enquanto jornalista, ou eles liam todos os livros, incluindo o dela,
ou ia divulgar aquela situação. E quando marcámos outra reunião, vinha tudo com o dela
em primeiro lugar. Ela ganha com unanimidade.

O livro cá é apreendido passados três dias, mas no estrangeiro movimentou muita


gente...

Foi o primeiro caso internacional feminista no mundo! moveu as mulheres do mundo


ocidental todas. Incluindo a Simone de Beauvoir. Atravessaram Paris duas vezes, com
escritores e atores, em direcção à embaixada portuguesa. Iam com as velas acesas, por
causa das velas de Fátima. Faziam sempre aquilo ao crepúsculo, como se fosse uma
procissão. E quando chegavam à embaixada era a Simone de Beauvoir sempre que ia falar
com eles. Também houve o caso das mulheres que subiram ao teto da embaixada
portuguesa, na Holanda. Puseram os homens da embaixada todos cá fora, como eram
muitas, e só ficaram mulheres lá dentro. Quando subiram ao telhado colocaram uma faixa
grande a dizer “viva as três marias”. Com este movimento, cá em Portugal mandaram uma
advogada falar conosco. A advogada estava casada com o Salvação Barreto que lhe batia.
E ela vem propor-nos, para terminar o caso, que nós disséssemos que o livro não era bem
era aquilo que queríamos ter escrito. Está-se mesmo a ver que nós aceitámos… Nós
respondemos logo “ó minha senhora, mas era exatamente aquilo que nós queríamos
escrever”.
Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno no Tribunal da Boa Hora
E como foi o dia em que são chamadas ao Tribunal da Boa Hora?

Eu cheguei lá com a Isabel e a Velho da Costa e vimos duas carrinhas da polícia. Pensámos
que era por causa das pessoas da Ação Revolucionária Armada que também estavam em
tribunal. A Isabel Barreno, que não se importava com nada, diz logo “eu quero lá saber [da
polícia], vou sentar-me aqui no degrau das escadas [do tribunal]l”. Eu e a Velho da Costa
fomos ter com um polícia e dissemos: “olhe, faz favor, está aqui tanta polícia porquê?” e
ele respondeu: “Ah, meninas, isto é por causa das Marias que vão presas”. Antes de o juiz
nos dar a sentença, já estava ali a polícia para nos levar para a cadeia. A Velho da Costa
disse logo “Que horror. Então e agora como é que a gente escreve?” e eu disse-lhe “Sei lá,
nós na prisão não temos papel”. Chegámos ao pé da Isabel e dissemos: “Olha vamos
presas, já sabemos a sentença do juiz”. Mas aquilo estava cheio, cheio de feministas de
todo o mundo. E a televisão americana tinha pedido licença para gravar em tribunal. O juiz
ficou muito aflito e deu parte doente, e adiou o julgamento para o dia 8 de Maio.
Entretanto deu-se o 25 de Abril.

"SE A GENTE ACEITA O MEDO NÃO HÁ NADA A FAZER. SOMOS UM FARRAPO. SOMOS
AQUILO QUE ELES QUEREM, UNS FANTASMAS, UMAS MARIONETAS NAS MÃOS DELES"

Mas antes disso, já tinha estado na iminência de ser presa?

Sim. Numa das reuniões das Novas Cartas, na minha casa do bairro social do Arco do
Cego, o Luís subiu as escadas, vinha do jornal, e encontrou-nos às três. "Estão a escrever?
Vocês vão presas. Qual é o vosso tabaco, para eu levar lá?” perguntou ele à Isabel e à
Velho e Costa. Na altura, todas fumávamos. Olhe, bem dito e bem feito. Passado uns dias,
tive de fugir de casa, porque o meu advogado ligou-me a dizer que a polícia tinha um
papel para me prender, e que eu tinha de estar na Boa Hora no dia seguinte às 9 horas da
manhã, para pagar a caução, de 25 contos. Eu tinha lá esse dinheiro. O meu advogado, o
Francisco Rebelo, disse-me para eu pedir ao meu pai mas eu ao meu pai não pedia nada. A
certa altura, ele disse-me: “olha está aqui o David Mourão Ferreira e ele diz para estares
amanhã na Boa Hora que ele está lá com o dinheiro”. O David sempre foi um grande
amigo. Mas até às 9h havia outro problema. Eles podiam prender-me até à meia noite e da
meia noite às 6 da manhã, por isso tive logo de fugir de casa mal soube a notícia. O meu
filho nessa altura tinha sete anos e eu disse-lhe " filho, nós temos de fugir, vamos para
casa da avó, porque a PIDE anda atrás da mãe. E se me apanham vou presa. Não fico lá
muito tempo porque pago a caução, mas é chato”. Quando chegámos à porta para sair de
casa, estávamos só os dois, o Luís Jorge diz-me “Mãe, vou até à rua ver se vejo a PIDE”. Ele
viu, disse que não estava lá ninguém e saímos de casa. Ele agarrou tanto, tanto, tanto a
minha mão que parecia uma tenaz. E olhava para todo o lado. Eu disse: “ó filho, não
estejas sempre a olhar para trás. Não anda aqui PIDE nenhuma, eles nem sabem que a mãe
já sabe que eles vêm atrás da mãe. Eles não estão aqui, só vêm mais tarde”. E foram, mas já
não estava lá ninguém. No dia seguinte, pago a caução e a Velho e Costa também. A
Isabel, como estava divorciada e o ex-marido não estava cá, o advogado argumentou que
ela não podia ir presa, pois tinha as crianças a cargo dela. Eles permitiram que ela não
pagasse, mas tinha de ir à esquadra todas as semanas assinar um papel.

Qual é a sensação que se tem ao saber que se pode ser presa a qualquer momento?

Isto é tudo muito bonito, até se ter medo de ir para a prisão. É preciso fazer uma grande
reflexão, e ter uma grande coragem. Mas era muito empolgante para mim. Confrontar a
PIDE era empolgante. Mas havia muito medo. Sem medo acho que não se faziam os actos
heróicos que se fizeram na altura. Eu acho que o heroísmo só existe porque existe medo e
uma pessoa para vencer o medo, a coisa é de tal maneira exaltante, que vai até à morte.
Naquela altura ia-se, fazia-se. Porque não se queria ter vergonha de olhar para si próprio
no espelho, que é uma coisa que eu nunca senti. Nunca senti vergonha de olhar para os
meus olhos. Sem liberdade nada se faz. Não se é ninguém. Se a gente aceita o medo, não
há nada a fazer. Somos um farrapo. Somos aquilo que eles querem, uns fantasmas, umas
marionetas nas mãos deles. Para tudo é preciso ter muita coragem, e acima de tudo
coragem para nos vencermos a nós próprios, porque de vez em quando ficamos cansadas
desta vida. Mas olha-se em frente e diz-se "não, não pode ser. Eu sou assim". Dizer isto
tem os seus custos, tem os seus custos todos os dias.

Hoje falta essa coragem?

Sim. Eu quando disse “não quero receber um prémio desse senhor chamado Passos
Coelho”, dele não recebo uma côdea de pão, nem que morra à fome” [Prémio D. Dinis
pelo romance As Luzes de Leonor em 2012] foi um burburinho. Eu fiquei estarrecida,
porque aquilo não era nada! O que é que me podiam fazer? nada, vivemos em liberdade.
Eu fiz muitíssimo pior no tempo do fascismo e ninguém me achava uma heroína e eu
também não. Era perigoso, mas combatia-se pela liberdade, não há coisa mais importante
que a liberdade. Eu sempre me senti uma pessoa incompleta sem a liberdade. A primeira
vez que em que me senti uma pessoa completa foi no dia 25 de Abril. Eu percebi muito
cedo que nada se faz sem a liberdade. Quando lia a Simone, em pequena, percebi logo
que não era possível lutar pelos direitos das mulheres sem ganhar primeiro a luta pela
liberdade. Podia lutar dentro da casa do meu pai, mas é uma luta muito pequenina. Não
era isso que eu queria fazer. Faltava a liberdade para poder lutar pela igualdade das
mulheres.

"OS HOMENS SÃO MAIS REACIONÁRIOS DO QUE AS MULHERES, NÃO TEM A VER COM A
ESQUERDA"
No poema Mulher de Abril diz “Basta/digo/que se faça/ do corpo da mulher/ a
praça/ a casa/a taça/ A água/ com que se mata/ a sede/ do vício e da desgraça”. A
sua luta era para que o “Basta” fosse repetido por mais mulheres?

Claro. Não se esqueça nunca que um homem podia matar a sua mulher se houvesse
flagrante delito. Não era sequer preso, ia a tribunal e ia para fora da comarca um mês.
Pegavam nele e punham-no, por exemplo, em Almada, e ele continuava a sua vida, apenas
noutro sítio. Ficava livre. O marido podia chegar ao nosso emprego e acabar com o nosso
contrato de trabalho quando quisesse. Como é que a mulher saía de casa assim? E ainda
tinham os filhos, que sempre as limitou muito. As mulheres sempre foram preservadas
para parir, para assegurar a continuação da espécie. A maternidade sempre se virou muito
contra as mulheres. Além disso, havia muita pressão. Não se podia estar com mais
que duas ou três pessoas na rua que a polícia podia chegar e prender-nos. Sempre que eu
chegava a um café, tocava por debaixo da mesa para ver se estava lá algum gravador. Isto
é uma situação que vai pressionando os homens e as mulheres, mas mais as mulheres, que
viviam numa situação de dependência e sujeição. Esse meu livro, o Mulheres de Abril, é um
livro completamente diferente dos outros mas não me arrependo nada de o ter escrito.
Devo esse meu livro às mulheres que trabalhavam nas fábricas. Eu até sou madrinha da
filha de uma das operárias. Sou madrinha, mas não fui ao batismo, era desonesto da minha
parte, mas o padre aceitou ir uma pessoa por mim à igreja, e eu assinei um papel. Eu
assinei como madrinha, mas não como testemunha. Mas esse livro diz muito sobre uma
parte de mim, que é uma parte de sacrifício. Nos meus livros, o feminismo está sempre
presente. Quando lê Maria Teresa Horta, lê a feminista.

O contacto com as mulheres operárias estimulou a aproximação ao Partido


Comunista Português?

Eu propus-me para o Partido Comunista, na altura do fascismo, e o partido disse que não,
disse que eu era muito nova. E eu fiquei ofendida, e a partir dai não tentei mais. E
quando foi o 25 de Abril registou-se tudo no partido. E eu pensei que era uma pouca-
vergonha, se eu não voltei a tentar entrar no partido porque tinha ficado ofendida não ia
tentar agora que já não havia perigo. Então só entro no partido no dia 26 de Novembro,
um dia depois do dia 25, em que se pensa que o partido ia deixar de existir legalmente.
Subi a escada António Serva e inscrevi-me. Estive lá durante 14 anos. Sempre numa grande
luta, porque era feminista, porque dizia poesia erótica, porque... porque... sempre porque.
Depois saí.

Mas já tinha ligação com o partido antes.

Com 15 anos já andava na rua a distribuir papéis do partido. Um dia… se o meu pai ou a
minha mãe soubessem. Foi na altura do Arlindo Vicente [opositor ao Estado Novo]. Eu era
novinha, andava à frente dessa gente toda, e aparecem na rua os guardas republicanos em
cima dos cavalos. E eu, carregada de papéis do partido, começo a correr à frente deles.
Mas ninguém me ligava muito, porque era miúda, muito magrinha, pensavam que eu
estava a correr porque estava assustada. Tenho uma história linda, ainda vou ter de
escrever sobre isto. O meu padrasto era um bom padrasto, mas era fascista, fascista,
fascista. Ele ofereceu-se para ajudar o Franco na Guerra de Espanha. Está dito. À entrada
de casa tinha tudo o que era livros fascistas. O Mein Kampf… Enfim. Se ele soubesse que,
dentro da casa dele, debaixo da minha cama, havia tantos, mas tantos panfletos do partido
comunista… Claro que era muito perigoso, mas eu fazia tudo com muito cuidado. O
partido formou-me muito. O contacto que tive com a resistência ao ir dar apoio aos presos
políticos, entre eles a Vera Lagoa [pseudónimo da poetisa e jornalista Maria Falcão],
formou-me muito. As mulheres mudaram muito a minha vida. Os homens são mais
reacionários do que as mulheres, não tem a ver com a esquerda. A esquerda tem dos
homens mais reacionários que eu já vi em relação às mulheres. São impecáveis,
maravilhosos, corajosos mas se estiverem com a sua mulher são capazes de lhe dar uma
bofetada.

Hoje continua a ser a mesma pessoa que era?

Eu vou ser sempre uma rapariga seja qual for a minha idade, porque esta coisa da idade só
sinto fisicamente - e irrita! - mas por dentro não sinto. Ninguém faz considerações sobre a
idade do David Mourão Ferreira, que fazia poesia erótica e tinha 70 e tal anos. Mas se vier
uma mulher, como eu, que faça poesia erótica, fica tudo pasmado. Às mulheres acham
sempre tudo mal, seja no início ou no fim. Não julgue que vai mudar com a idade. Eu não
sigo os estereótipo da idade, eu não penso “com esta idade não sinto, com esta idade não
apaixono, com esta idade não vou para a cama, com esta idade não tenho prazer, com
esta idade não vou dizer isto, vão vou fazer aquilo”. Eu não aceito estes estereótipos, se
aceitasse estava a desrespeitar-me a mim própria. Eu nunca aceitei essas regras. Essas
regras machucam as pessoas, deformam as pessoas. Eu não quero isso para mim. Nunca
quis e até à minha morte não quero.
No Poema para os Amigos diz “há um clima de raiva com armas que não disparam”.
Embora diga que é a sua poesia, houve armas que a Teresa não disparou, coisas que
guardou só para si?

Acho que hoje em dia já não. Durante algum tempo, provavelmente sim. Eu tenho muito
pouca auto-defesa, porque eu mostro tudo aquilo que sou e isso é um grande defeito.
Esse clima de que falo é o fascismo. Dentro do feminismo, as minhas armas disparam.
Quando lê Maria Teresa Horta, lê a feminista. Mas poderei ter um certo cuidado de vez em
quando com as pessoas que eu mais amo. Escrever escrevo, depois posso é não publicar
determinados poemas. Poemas que eu possa pensar que podem chocar alguém que eu
amo muito. Por exemplo, a minha mãe, quando ela era viva. Eu de vez em quando pensava
duas vezes antes de publicar um poema sobre ela. Mas no livro Destino escrevi um poema
para a minha mãe que a deixou muito magoada e eu nunca me arrependi de o ter
publicado. Ela não me contou a mim, disse às minhas irmãs. Mas essa preocupação sim.
Agora eu tenho muita dificuldade em não disparar uma arma que deva ser disparada.

Já no poema Um dia diz “Talvez um dia ainda/me arrependa/de não ter tudo dito e
tudo escrito/Não ter tudo extremado/Ao infinito/nem ter amado tanto nas
palavras”. Que arrependimentos ficam?

Eu tenho mais arrependimentos de não fazer do que arrependimentos de ter feito.


Quando faço uma coisa assumo, e raramente me arrependo. Ao passo que muitas vezes
me arrependi de não ter feito, de não ter dito, de não ter ido mais longe. Não ter
extremado tudo ao infinito… posso arrepender-me, mas eu tenho esse entrave dentro de
mim que também me permite viver em comunidade. Esse entrave de vez em quando pode
impedir-me de publicar, mas não de escrever.

No poema Alumbramento diz “Pergunto a mim mesma/ o que continuo/ a esperar


da vida/Alumbramentos? Paixões?/Como Teresa de Ávila/diria noutros tempos e
trevas:/ - Êxtases! Entregas!”. Que êxtases e entregas se esperam?

Eu vivo com pessoas que amo muito, vivo com a paixão desregrada que tenho pelo Luís,
com os meus netos, os meus filhos, a minha nora que é a minha filha, com quem até hoje,
e eles estão casados há 30 e tal anos, houve um entendimento perfeito, é um dos maiores
entendimentos da minha vida. Quando tive um cancro da mama, há 20 anos, foi a ela a
quem contei, e só nós é que sabíamos no princípio. Mas de vez em quando é preciso
sabermos abdicar de coisas, mas isso não é porque é mulher nem porque é homem, é
porque se ama. Ama-se as pessoas, a família, as amigas, esta história do amor deixa logo
tudo muito aflito. Eu tenho amigas que eu amo muito. É tudo muito espartilhado, proibido,
é tudo muito olhado de lado, de segundos sentidos. Porque as pessoas não se fazem de si
próprias, não se deixam florescer, há qualquer coisa que fica ali morto. Agora os êxtases da
Teresa de Ávila gostava de ter, mas é difícil, porque ela acreditava mas eu não. Eu gosto
muito das mulheres dos êxtases, do além. Mas comigo não dá. As coisas do além comigo
não dá. Mas êxtases… Só sou capaz de ficar assim com o Luís.
Só agora Maria Velho da Costa (Lisboa, 1938) se começa a dar conta de
que Myra, publicado em 2008, pode muito bem ter sido o seu último livro. "Já
dei", diz-nos, como se à literatura que tanto influenciou já não devesse nada.
E, por isso, espera, como sempre esperou, que as ideias para os livros
cheguem.

Pedir a Maria Velho da Costa que se defina, pedir-lhe que eleja o livro com o qual
mais se identifica, distraí-la dos dias que passa a ler, a ouvir o ressonar da cadela
pug a quem chama Rosa, solicitar que analise uma passagem de um dos seus
livros é passar ao lado de uma voz, de um discurso, de um olhar que vai viajando
entre memórias de escrita, entre palavras que são exercícios de conjugação de
uma língua e de uma linguagem que ela gosta de descobrir como se a descobrisse
sempre pela primeira vez.

Diz que Myra (2008) será, provavelmente, o seu último livro, mas não o
escreveu dessa forma. E olha para a atenção que lhe tem sido dada por causa da
montagem que Nuno Carinhas fez do seu romance Casas Pardas (1977), a partir
de uma versão de Luísa Costa Gomes, com temor e agradecimento. Casas
Pardas foi apresentado no Porto, em Dezembro, e vai estar no Teatro São Luiz,
em Lisboa, de 24 a 27 de Janeiro. A escritora também vai lá estar, para uma
conversa em final de dia, a 26.

Maria Velho da Costa recolhe-se em copos de chá de pêssego, cigarros e ovos


moles, numa casa com vista para um jardim de que cuida. Nas paredes, ao invés
dos livros, tem retratos seus pintados por amigos, ou quadros oferecidos que
sugerem uma vida dedicada a pesquisar como a palavra pode ser imagem. No
quarto ficam os diários que nunca quis que fossem publicados, fica a lírica de
Camões, a quem reza, fica o recato de quem fez da vida de escritora um modo de
dizer na cara do país o que o país não sabia digerir. Foi assim com Maina
Mendes(1969), livro-problema onde a mudez da personagem era a mudez de
uma nação. Foi assim com Novas Cartas Portuguesas (1972), onde, com Maria
Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, expôs a falência da abertura da primavera
marcelista e deu ao corpo da mulher portuguesa a carne que o pudor, a cegueira
e o ostracismo da ditadura lhe haviam roubado. Foi assim com Missa in
Albis (1988), poema em branco para uma memória por construir, perdido a
penáltis, como diz, por causa da acesa discussão que motivou no júri do Grande
Prémio do Romance da Associação Portuguesa de Escritores naquele ano. Foi
assim comIrene e o Contrato Social (2000), homenagem a Irene Lisboa, mas
retrato da força feminina portuguesa, texto habitado por fantasmas de outros
livros, por vozes de outras escritoras.

E isto tudo - para além do Prémio Camões em 2000, de todos os prémios que foi
recebendo, da passagem pelo governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, por
Londres como leitora, por Cabo Verde como adida cultural, pela presidência do
PEN Clube - nunca chegará para definir uma escritora que nos recebe de aperto
de mão e se despede de braços estendidos. Fumou vários cigarros à luz do fim de
tarde numa Lisboa fria, cidade da qual nunca quis sair. Ao início, só um pedido,
diz-nos: "É melhor começar a fazer perguntas ou fico preparada de mais..."

Maria Velho da Costa ou Fátima?

Maria. As pessoas que têm relações comigo chamam-me Maria. Só as de família


me tratam por Fátima.

Não tem o apelido da sua mãe, Vaz Monteiro, mas guarda o do seu
pai, Bívar Velho da Costa.

É uma coisa quase cómica. O meu pai era militar e devia estar de serviço, porque
mandou o meu irmão fazer o registo. Ele era meio-irmão, filho do primeiro
casamento do meu pai. Tinha 16 anos e não se deve ter lembrado. Fiquei só com
nomes do meu pai. A minha mãe ficou desgostosa.

Houve uma altura em que assinou como Maria de Fátima Bívar.

Foram dois ensaios porque era uma coisa mais profissional. [Ensino Primário e
Ideologia, 1972; Português, Trabalhador, Doente Mental, 1976, ambos edição
Seara Nova] Não me lembro porque não usei o meu nome literário, mas a razão
deve ter sido essa, mas estou a conjecturar. Maria de Fátima Bívar era um nome
escolar e profissional, como era conhecida no ensino secundário e na faculdade.

Quando surgiu a Maria Velho da Costa?


[risos] Não surgiu, não é uma coisa autónoma. Eu identifico-me com ele, não é
um pseudónimo.

Claro. Mas quando é que se deu conta de que era a Maria Velho da
Costa?

Acho que foi com o Maina Mendes. Algumas pessoas puseram a hipótese de ser
um pseudónimo. Hoje em dia já não. Mas não são assim tantas as pessoas que
me lêem.

Acha que não? Há autores que são mais conhecidos de nome que de
leitura.

Eu acho que sou conhecida num meio relativamente restrito. De um modo geral,
depende da camada social e dos interesses. As pessoas podem saber que há um
nome que é o de uma escritora mas nunca terem lido nada meu.

Interessa-lhe saber o que as pessoas pensam dos seus livros ou


interessa-lhe mais a importância que tiveram para quem os leu? E as
que ouviram falar de si mas não a leram, interessam-lhe?

Que pergunta complicada. As pessoas que não me leram, que são a grande
maioria, não me magoam nem incomodam. Por razões várias. Por um lado, o
que faço exige um nível de literacia, porque a minha escrita é complicada. Por
outro, tal como não me lêem, há muitos outros autores que também não lêem,
mesmo autores mais clássicos. Quantas pessoas não leram Camilo? E Eça? São
milhões. Em relação aos que me leram, embora me intimide, tenho sempre
atenção e curiosidade em saber o que significou ler-me. Há pessoas que não
tiveram estímulos que criassem um código de referência que lhes permita entrar
em universos de fruição. Ou não tiveram o treino para ter o prazer em
determinado tipo de interesse.

Que diferença entre o modo como a lêem e o modo como a Maria se lê


a si?

Uma pergunta interessante. Eu tenho tido a sorte, ou chamemos-lhe outra coisa,


de, não sendo muito lida, ter tido sempre recepção favorável da crítica altamente
especializada, e não só. Isso é um ganho. Há sequências do meu trabalho que são
devedoras da escuta, ou da escrita, que sobre mim fizeram, ou fazem. Eu não
tenho, nem posso ter, uma atitude negativa, porque aprendi muito sobre o meu
próprio trabalho, sobre a literatura, sobre a gente que me lê. E eu dei sempre a
ler os meus manuscritos, nunca tive dificuldade em os mostrar.

E dava-os porquê?

Para ganhar confiança. Por exemplo, quando alguém em cuja opinião se confia,
ou porque tem uma obra respeitável ou é um leitor atento. Como o José Cardoso
Pires, que eu respeito muito, e que leu mais do que o manuscrito do Missa in
Albis, escrito quando vim de Londres, e o livro com o qual ainda hoje me
identifico mais me diz que é muito bom, isso é importante.

Fá-lo para criar uma distância relativamente ao que escrevia?

Não. E de um modo geral não mudo nada, nem tenho muitas coisas que tenha
deitado fora. Não haverá muita coisa minha no caixote do lixo. Na gaveta sim,
argumentos de cinema que não foram feitos, por exemplo. Quando dou a ler, já
não faço alterações. Posso fazê-las, a posteriori, noutros livros, mas não tenho o
secretismo do manuscrito.

E a sua relação com a escrita? Diz que se impressionava com a


escritora Irene Lisboa porque se levantava todas as manhãs e ia
escrever.

É completamente diferente. Para começar, é contraditória. Nas alturas em que


estava a produzir mais, era capaz de tomar grande parte do dia a fazer outras
coisas, a ler, a fazer trabalhos domésticos, como se estivesse a evitar o confronto
com a escrita. No fundo, a engonhar. E depois o contrário. Uma vez começado,
muitas vezes dava por mim às quatro ou cinco da tarde sem ter comido. A tensão
era tão grande que nem dava para interromper. E eu escrevi sempre com
bastante tensão.

Escrevia à mão?
Sim. E continuo a fazê-lo. Nem consigo pensar em escrever de outra maneira. É
qualquer coisa que tem que ver com o gesto. E na altura em que tive problemas
de saúde que afectaram aquilo que os médicos chamam "o gesto fino", é evidente
que era impensável uma outra solução. Mas escrevia, e reescrevia, um romance
inteiramente à mão. E depois passava-o à máquina de escrever. Ao computador
não. Nunca me digitalizei. Tenho uma certa pena, mas no fundo é inércia e
recusa. É cansaço.

Tem a ver com a palavra ser acção e a escrita da palavra ser a


materialização dessa acção?

Não sei. Há qualquer coisa que não deverei dizer que seja mágico, mas tem
muito a ver com a força do hábito. Só me ocorre o Herberto Helder, que falava
do que existe entre a gestualidade, a mão, o corpo e a escrita. A mão a martelar,
ou a digitalizar, também será a mão, mas não é a mesma coisa. É qualquer coisa
que emana do braço. Quando estou imersa num texto, em qualquer lugar,
acontece-me tomar notas em bilhetes de transportes. E ter sempre sempre
comigo um caderninho. O processo de escrita não é só a escrita, é tudo o que se
processa em nós.

Como se a palavra escrita pela mão fosse a extensão mais natural do


que estará a pensar.

Exactamente. Daquilo que estou a ouvir, mais do que pensar. A escrita é, e não é,
pensar. A palavra que me ocorre é "auditivo". A partir de certa altura é como se
ouvisse vozes.

Elas surgem do que está a sua volta ou cria as coisas que estão à sua
volta?

Ambas. Acontece-me, na rua, uma experiência qualquer e posso integrá-la num


texto no qual esteja a trabalhar. Ou posso imaginar. Fui sempre assim.

Lembra-se de um conto chamado Welwitschia Mirabilis?

Foi uma das primeiras coisas que escrevi, quando tinha 20 anos.
Deixou-o inédito até 2010, quando o divulgou no PÚBLICO. Queria
ler-lhe um excerto, há nele uma espécie de ars poetica, como se
explicasse ao que vem. "Havia, no entanto, no essencial de Marta,
algo que não aderia, que não coincidia. Se aquela identidade de
gostos e opiniões, acariciando certezas suas formuladas
anteriormente, envaidecia, por outro lado, e sem dúvida o mais
pessoal, porque não excitado pela imaginação, ou pelo amor-próprio,
ou pela prova gratuita, cabotina, que dava aos outros, de um
discernimento fora de comum, idêntico ao de uma autoridade, por
outro lado, havia nela um murmúrio do real, dissonância, de vago e
ténue pânico, determinado exactamente por essa coincidência de
gostos, de juízos. O seu entusiasmo, ao ser expresso por ele, bem
mais adequadamente, parecia-lhe incompleto, distorcido." Lembra-
se de o ter escrito?

Não [risos].

O que significa o nome?

É o nome de uma flor que existe no deserto e que parece ser deslumbrante.

Maria, uma flor no deserto? Lembra-se de como era aos 20 anos?

Isso sim, lembro-me bem. E isso tem muito a ver com aquilo que eu era.

Já tinha deixado a vida feita entre os quartéis e o convento?

Sim. O convento foi só até ao ensino secundário, e não foi completo. Escrevi-o já
estava empregada na função pública, mas ainda vivia em casa dos meus pais.

Os seus pais foram como duas ordens diferentes. A sua mãe


catequista e o seu pai militar.

Com semelhanças...

Estudava no Convento das Escravas do Sagrado Coração de Jesus e


vivia num quartel. Alguma dessas ordens, a militar e a religiosa,
recusava mais veemente?
O colégio, evidentemente. Os códigos militares até os aceitava, na pessoa do meu
pai. O quartel não era um ambiente que me fosse hostil. Há certos traços, uma
certa moral do trabalho, da disciplina, da qual nem sempre me sirvo mas que
está inculcada, que tem muito a ver com o filão militar. As freiras eram de uma
ordem espanhola bastante severa e variavam muito, até do ponto de vista
afectivo. Havia umas, não há outro termo, que eram sádicas. E havia outras,
como a professora de História, uma galega chamada Rajoy, que tinha umas aulas
fascinantes. Contrariamente, a de Português, a D. Emília, era laica.

Alguma vez se perguntou o que levará alguém a abraçar o imaterial?

Não. E elas eram tudo menos imateriais, eram bem materiais. Havia um certo
elitismo, era uma escola para famílias de elite. E com uma certa diferença de
classes dentro da própria comunidade de freiras, as madres, de véu preto, e as
hermanitas, que eram de classe inferior, faziam limpezas e cozinhavam e usavam
véu branco.

Desafiava-as?

Não era bem um desafio. Mas a partir dos 13 anos comecei a ser relativamente
indisciplinada. Aprendi espanhol por causa delas, como defesa. Elas falavam
entre elas o espanhol e nós aprendíamos. Nunca fui muito hostil com elas, nem
fui muito hostilizada, até porque eu as satisfazia do ponto de vista académico.

Gostava de estudar?

Estudar para mim não era um sacrifício, excepto na Matemática, e mais tarde na
Física. Gostava de tudo, inclusivamente da parte de Ciências e Química. Houve
uma altura em que queria ir para Medicina, mas era extremamente deficiente e
indisciplinada para a Matemática. Havia uma rejeição que ainda hoje tenho, e
que está ligada ao meu problema com as datas. Tem um nome clínico,
discalculia. A minha relação com os números nunca foi fácil. Quando quero fazer
contas, conto pelos dedos. E o contraponto nisso era o interesse pela Ciência,
mas também a Geografia, as Ciências Naturais.

E escrever começou como?


Aos seis anos. Até porque era aprovada. Havia redacções minhas que eram lidas
às outras meninas, o que me punha muito ufana.

Quando chega a esta rapariga de 20 anos, a sua escrita já é habitada


por esses contrários.

Mas são contrários que se completam. Há um conto que fiz, chamado Ponte de
Serralves, que é um dos meus predilectos, sobre aquela casa que me causou
sempre um fascínio enorme, porque é um ponto dissonante na arquitectura do
Porto e que tem a ver com isso.

Uma casa que diz que gostaria que fosse sua, porque a sua escrita é
como uma arquitectura de falsos cantos, angulosa, esquinada?

Onde todas as arestas são limadas.

São truques de ilusão. Como se fossem fantasmas.

Eu sempre achei que aquela casa tinha fantasmas.

Acredita em fantasmas?

Não sei.

As vozes que surgem para os textos que escreve, não são esses
fantasmas? Ou são sonhos?

Eu maço-me com sonhos e maço-me que me contem os sonhos. Mas uma vez
sonhei que uma cadela que tive, e que já tinha morrido, estava no seu sítio
preferido, no alto de um prado na Tapada da Ajuda. Eu tinha decidido que não
queria mais cães e ela diz-me, em francês, que é uma língua com a qual eu nunca
falo aos animais: il faut trouver une autre chienne et qu"elle s"appele Blanche [é
preciso encontrar outra cadela e deverá chamar-se Blanche, Branca. A cadela da
escritora é preta e Maria Velho da Costa trata-a por Rosa]. E assim ficou
registado. Mas nunca lhe chamei Blanche porque achei sempre muito
pretensioso.

Em que língua fala com os animais?


Em inglês. O código comportamental das freiras [quando estudava] era
influenciado por uma certa anglofilia. Nós tínhamos Inglês desde a pré-primária.
Quando cheguei à faculdade, senti um grande desfasamento em relação às
pessoas da minha geração, para quem o grande fundamento cultural era o
francês.

Pensa em inglês?

Não intencionalmente, não sou propriamente bilingue. Mas as palavras


influenciam os nossos pensamentos. Eu comecei a ler em inglês logo desde
muito cedo.

O que lia?

Tudo o que viesse à mão. Do Steinbeck à Jane Austen.

Livros que ia procurar ou que lhe davam?

Livros que eu pedia ao meu pai para comprar. Na minha família não havia
anglofilia nenhuma, nem falada nem lida. A Jane Austen demos no colégio.

As paixões dessas raparigas num colégio de freiras?

Sim, eram lidas e traduzidas, mas tratadas somente do ponto de vista da língua.
Ainda estamos na pré-história.

Acha mesmo?

Talvez não. Sim, talvez não. Na Jane Austen não há sexualidade, pelo menos
explícita.

Mas há um desejo, uma vertigem, cujo próximo passo é a


materialização desse desejo, a renúncia ao espiritual, ao imaterial, e
o descobrir da carne.

Sim, mas a religião católica é muito carnal, ao contrário de uma educação


puritana anglo-saxónica. As freiras eram espanholas, há uma abertura à paixão,
quanto mais não seja, à paixão de Cristo. Basta ver as procissões, é tudo mais
passional, é uma paixão mais dorida, ao contrário da portuguesa, que é mais
casta. Há uma corporalidade na religião católica apostólica romana, sobretudo
nos países latinos, que não existe no puritanismo anglo-saxónico.

É uma paixão poética.

[pausa] Aos 16 ou 17 anos, o meu grande poeta era o Régio...

Um poeta carnal.

Carnal e muito sofrido. Eu andei em letras e germânicas, e fui tendo afinidades


electivas que de um modo geral se mantiveram, como a Maria Gabriela Llansol e
o Herberto Helder, onde há emoções mais contraditórias, complexas, com
interesses como perturbação. Interessaram-me poetas e escritores que tivessem
um trabalho sobre a linguagem e a língua, mas não só. Quando me dizem que o
meu trabalho é sobre a língua, é-o também, mas não só. Isso é omitir o trabalho
com a linguagem.

São escolhas ou vão surgindo?

Umas escolhas puxam outras.

Mas fala de língua e linguagem e nunca lhe li nada sobre Fernando


Pessoa.

[risos] Tive uma vez uma conversa com a Ana Luísa Amaral sobre o Pessoa. Acho
que se uma pessoa tem um grande fascínio por Camões, ou nos tempos que
correm por Herberto Helder, é muito difícil sentir-se fascinada por Fernando
Pessoa. O que eu sinto é uma espécie de compaixão pela pessoa que ele foi.
Aquela vitalidade toda centrada no trabalho literário. Mas de facto não tenho um
grande fascínio pelo Pessoa.

Mais depressa o tem por Guimarães Rosa.

O Guimarães Rosa para mim foi uma revelação profunda. E no entanto a poesia
do Guimarães Rosa é fraca.
E porquê Camões? É verdade que se tivesse de rezar a alguém era a
Camões?

Não é se tivesse, rezo mesmo. E regularmente. Por coisas comezinhas, como uma
caneta que me desaparece, e digo qualquer coisa ao Luís.

Ao Luís Vaz. Vaz, como a sua mãe, apelido que não tem.

Nunca tinha pensado nisso. É capaz de ter razão. É capaz não, tem mesmo. Rezo
em nome da mãe.

Foi no colégio que descobriu Camões?

Sim, e de que maneira. Nós tínhamos Camões à séria. Era uma paixão. E
consegui sempre encontrar o que era o sujeito e o predicado, mesmo que ele
estivesse no rabo da estrofe. Ler Camões era um prazer.

O que é que lia nele? Percebia-o?

Não, mas percebia que aquilo era uma sonoridade lindíssima. Quando estava
numa dessas sessões de esclarecimento que fazíamos no chamado PREC,
lembro-me de, no Alentejo, onde têm com a palavra uma relação especial, um
daqueles homens sem instrução ouvir um poema do Herberto Helder e dizer
"não sei se entendi mas gostei muito do barulho". Essa eufonia, com Camões eu
senti-a logo ao 5.º ano, que foi quando começámos a estudar a lírica.

Fala de Camões, de James Joyce e Guimarães Rosa, fez todo este


trabalho com a palavra. Posso acreditar que os tenha como pares...

Como pares, tenha calma. Não é uma questão de humildade, é uma questão de
bom senso. É preciso ter noção das proporções. Até porque eu não trabalhei
tanto quanto eles. Tenho muita coisa publicada mas não tenho uma grande obra.

Quem são os seus pares?

Acho que sou um bocado ímpar. Não no sentido grandioso, mas qual é o escritor
português que eu possa dizer que seja mais da minha família? Talvez o José
Cardoso Pires. E o Nuno Bragança. Posso ter uma admiração enorme e não
sentir que seja meu par. Duas figuras com as quais tenho uma aproximação
muito diferente são a Agustina a Maria Gabriela Llansol. São duas escritas e duas
maneiras de estar na literatura completamente diferentes. A Llansol, da primeira
vez que a vi, meteu-me medo. Tinha uma relação com a escrita onde não havia
distinção entre vida e escrita.

E para si há?

Para mim, há. Esse medo que me causou foi como se estivesse perante uma
forma de santidade. Eu disse-lhe isso da única ocasião que tive para falar com
ela. E ela disse que não havia razão nenhuma: "Eu sou uma pessoa normal"
[risos].

O que é que singulariza Camões?

Para já o vitalismo da personagem, coisa de que carece o Pessoa. Podemos


chamar, para simplificar, um gosto pela vida, que se reflecte no som, na
musicalidade da palavra ou da frase. Tenho sempre Camões ao pé de mim, numa
cadeira no quarto. Não é como o Ramos Rosa, que esse tinha a cama rodeada de
livros.

E outros autores?

Há grandes poetas franceses mas nenhum que eu ponha tão alto. São as tais
afinidades electivas. Muito cá em baixo, há claro Rimbaud, Baudelaire, Verlaine,
mais tarde o Mallarmé, que também me deixaram extasiada. Mas que não li
nunca da forma apaixonada como li Camões e, depois, Shakespeare. [pausa]
Talvez Rimbaud. Mas também porque era mais jovem, legética.

E sabe versos de cor?

Não, de cor praticamente nada. É uma das coisas que admiro imenso naquelas
pessoas que sabem poemas inteiros, não necessariamente seus. Eu posso ter
uma grande paixão por um autor mas não sei nada de cor. Nem meu. Por causa
do espectáculo, tive de ir reler o Casas Pardas e não tenho muito hábito de me
reler.
O que descobriu?

Uma certa petulância [risos]. É um livro, até certo ponto, muito convencido. Mas
foi feito num curto espaço de tempo. O meu filho é que me lembrou que eu pedi
uma licença sem vencimento para o escrever. Até digo por brincadeira que não
tive tempo de o fazer mais curto [risos]. É um livro ambiciosíssimo. Aquelas
mudanças de registo todas...

Isso já estava no Maina Mendes. Não é um livro menos exigente.

Exigente sim, ambicioso não tanto. É um livro mais entregue. No fundo, era um
livro mais humilde.

Porquê? Estava consciente de que seria o seu primeiro romance?

Sabia que queria escrever um romance, mas não tive muita consciência do que
estava a fazer. É, aliás, um romance relativamente clássico, não há ali grandes
fantasias. É uma narrativa relativamente sequencial. Nem sequer se notam as
influências de James Joyce que mais tarde se fizeram sentir nos meus livros,
nem de experimentalismo verbais, como tem o Casas Pardas. Mas acho que
desde o princípio que pensei que podia escrever um romance.

Quando é que decidiu que o conflito dessa personagem, e o modo


como iria alterar o mundo que a rodeava, vinha de ser muda?

Não me lembro de todo.

Incomoda-a não se lembrar?

Não, significa que fiz apelo a zonas do inconsciente. Sabe, durante muitos anos
mantive um diário. Não que o tenha estudado ou pensado muito, mas uma coisa
de que estou convencida é que ao registar por escrito os dias, é como se a
memória se desobrigasse.

Tem ideia de quando o começou?

Nos anos 1960, talvez, e vai até ao fim de 1970, até ir para Londres.
Ajudam a ler a sua obra?

Esses diários dizem mais sobre mim e o que me acontecia, mas não lhes pego há
muito tempo. Há uns anos olhei e tem coisas sobre tudo. Tenho cadernos e
cadernos. Tenho muitos do período do 25 de Abril, com recortes de jornais, com
fotografias, com postais, com imensa coisa. Da altura em que escrevi o Maina,
lembro-me que já estava casada, já tinha o meu filho, e que fui um fim-de-
semana para uma hospedaria em Sintra, gerida por uns alemães. Agora, como é
que estruturei aquilo não tenho memória nenhuma. Há referências ao trabalho.
Escrevi hoje não sei quantas páginas de X e o comentário a isso. Depois iam
coisas de um lado para o outro, ou talvez mais coisas do diário que passavam
para o livro. Eu era funcionária pública, do Instituto Nacional de Investigação
Industrial [foi assistente da direcção e do gabinete de relações humanas entre
1970 e 1978], e durante muitos anos a vida era escrita no fim-de-semana ou ao
fim de dia.

Ia para casa a correr à espera do texto?

Dependia até que ponto estava envolvida com o texto. Hoje sou capaz de passar
longos períodos sem escrever. Mas quando fechava a porta do instituto era um
alívio, embora também fosse penoso escrever. O momento de escrita pode, às
vezes, ser eufórico. Mas a ideia de me pôr a escrever foi sempre uma ideia
penosa, que me dá ansiedade. A escrita diarística era uma maneira de largar
tensão, porque na escrita há sempre um outro, um leitor que somos nós
próprios. Os diários criam uma sensação de liberdade que a escrita de um livro
não dá. A não ser que a pessoa o esteja a fazer a pensar que o vai publicar, o que
não era o meu caso.

Nunca pensou em publicá-los?

Pensei, mas só se for postumamente. Alguém terá de ter paciência para fazer
uma triagem do que pode ser publicado, no sentido plástico, não de conteúdo.
Eu não vou fazer nada nem me apetece.

Que Maria de Fátima está ali?

Eu não faço distinção, são a mesma pessoa.


Ajudam a compreender como chegou a algumas soluções?

Acho que sim, quer de escrita, quer de vida.

E quando começa sabe já o que daí vai resultar?

Fiz sempre uma planificação para as coisas mais longas. Depois um dia li que a
Marguerite Duras não fazia qualquer plano. Não fico demasiado desconfortável
com a ideia de não-escrita. Escrever, para além de me ter dado muitas
satisfações, e haver coisas que escrevi com muito júbilo, é também uma
ansiedade enorme, é quase como se fosse uma culpa. Mais culpa de escrever do
que não escrever. Quando fiz o Irene, não fiz qualquer planificação, e disseram
que era o mais estruturado de todos os meus livros. Toda a escrita é isso.

Uma experiência laboratorial, um somatório. O que para quem


nunca teve qualidades para a Matemática...

Acho que tem mais a ver com o meu gosto pelas Ciências Naturais, uma certa
objectividade, em relação ao facto, à palavra, ao som. O experimentalismo vem
talvez por influência de Guimarães Rosa. Ou talvez seja o contrário. O meu
fascínio pelo Guimarães Rosa, que chegou a auges de criatividade verbal, é que
tinha a ver com aquilo que eu estaria a tentar. Desde criança que tive sempre
bastante sensibilidade vocabular. Dizia coisas muito estranhas.

Como as crianças nos livros de Agustina, que fazem medo aos


adultos.

Ou qualquer pessoa rural que num livro da Agustina é um intelectual. É um


outro tipo de naturalismo. É por isso que me escandalizo quando me dizem que a
Agustina é reaccionária. Ela é tudo menos isso. As pessoas trataram sempre as
classes baixas com curiosidade e deferência. Não é possível falarem assim, mas
no livro da Agustina falam. Tal como não é possível no Casas Pardas uma
personagem falar de forma extremamente complexa. Mas isso é da
responsabilidade do narrador, que sou eu. Quando a Elisa está a fazer a escrita
literária, não é a voz dela, é a do narrador, é a minha. As tiradas épicas e líricas,
que não são irrealistas, só o são porque aquele tipo de personagem não tem, não
pode ter, aquele tipo de linguagem.
É por isso que se tiver de se identificar com alguma personagem é
esta Elisa, a que tem a pátria não na língua portuguesa mas nos
pronomes dolorosos, como diz depois à Irene, anos mais tarde?

É uma auto-referência. Como a Marta do Welwitschia Mirabilis era


autobiográfico. Há pessoas que gostam muito que eu seja auto-referencial.
No Myra há uma referência ao Maina. E o nome da cadela da Irene é Maina.

Pensa nos seus livros como objectos autónomos ou as coisas vão


surgindo e depois ganham um sentido que não tinha imaginado?

Absolutamente. A tal ponto de, quando releio, me espantar com a força da


personagem, que às vezes se impõe. Não vou ao ponto de dizer, como o António
Lobo Antunes, que é a mão que escreve. É evidente que são projecções do nosso
imaginário, mas não totalmente conscientes.

E os títulos dos livros?

Costumam aparecer primeiro.

E influenciam o destino do livro?

Pensando bem, sim. Por exemplo, a Missa in Albis é uma missa, o Irene é uma
homenagem à Irene Lisboa. O Casas Pardas vem de uma estrofe do Gil Vicente,
o que é estranho, porque a estrofe é um apelo à austeridade [Oh deixai de
edificar/ tantas câmaras dobradas/ mui pintadas e douradas/ que é gastar sem
prestar.// Alabardas, alabardas/ espingardas, espingardas/ nam queirais ser
genoeses/ senam muito portugueses/ e morar em casas pardas.] Ora o livro é
tudo menos austero. Lembro-me que me apareceu uma estrutura de tríade
feminina e que queria trabalhar figuras de castas diferentes. A Elisa é da mesma
casta que a irmã, mas tenta ser uma intelectual. Mary é alta burguesia e a Elvira
é a passagem da ruralidade para a pequeníssima burguesia.

Preocupou-se em identificar variações da mulher portuguesa?


Não era um trabalho sociológico, mas tinha uma dimensão sociológica bastante
forte, até a nível linguístico. Há fonéticas e semânticas que distinguem as várias
castas.

Como foram surgindo esses perfis? Fala com elas?

Não. Falam elas por mim. Nos romances não há diálogos a não ser com as
personagens.

E vive com as personagens? Onde é que estão quando as está a


trabalhar?

Estão nos livros. Não as incorporo, embora muitas das falas da Elisa são muito
do que eu era aos 20 e tal anos. Mas isso de viver com as personagens pode
ocorrer quando vou na rua e me dou conta de que não posso estar a trabalhar
uma figura assim, que há algo que não está bem. Há um exemplo concreto de
quando estava a trabalhar no Casas Pardas. Estava a descrever aquela rapariga
que se casa com o republicano e sonhei que aos pés da minha cama, uma cama
de grades que eu nunca tive, estava uma figura alta, loura, forte que me diz: olha
que eu não me chamo Matilde, eu chamo-me Elvira. E ficou.

As personagens ganham nomes antes de construírem identidade?

Tanto quanto me lembro acho que sim. Embora a origem dos nomes, por
exemplo, a figura principal do Missa in Albis chama-se Sara. Ora, Sara é o nome
da cozinheira no Casas Pardas, eu não me lembrei. Há coisas que só me
apercebo lendo. As coisas não são, vão sendo. Os livros são condicionados pela
vida, pelas relações, pelas acções cívicas, políticas e profissionais. Por todos esses
aspectos. Escrever faz parte dessa vida. O Amante do Crato foi escrito num
período em que estava muitíssimo empenhada política e civicamente. Mas de um
modo geral associo a escrita à solidão. Quando estou muito emprenhada pela
escrita prefiro não ter solicitações exteriores. O silêncio é para a maioria dos
escritores preferível à reclusão. Acho que foi a Agustina que disse que não se
podia escrever sem silêncio. O silêncio permite principalmente que a pessoa não
se disperse muito. Há um lado excessivo na escrita, pelo menos na minha.
Essa vida política e cívica, no modo como foi concebendo as
personagens para os seus livros, respondiam a inquietações, dúvidas
e incertezas sobre a sua própria vida cívica e política?

Absolutamente. Eu acho que o Casas Pardas é um livro muito político. E há um


último discurso da Elvira, no último capítulo, que parece maoísta, eu nunca fui
maoísta. Também é um livro escrito depois da grande agitação política e depois
de uma certa decepção com como as coisas tinham corrido.

Li numa entrevista sua que dizia que o grande drama da sua geração
era ter vivido todas as projecções permitidas pela década de 1970. E a
sua grande frustração vinha de reconhecer que o que havia sido
projectado corria o risco de não acontecer do modo como se tinha
imaginado.

Exactamente. A relação entre a primavera marcelista e as apostas da evolução da


continuidade, tudo isso foi exposto bastante a ridículo. E há coisas que
continuam actuais. É muito deprimente.

Teve, mais do que agora, uma vida política e cívica activa. Agora
recolhe-se muito mais.

Eu costumo dizer que quando for grande vou para Herberto Helder, que não dá
entrevistas, nada. A mim essa vida não me diz nada. Evito o mais que posso.

A dada altura, as pessoas passam a ser símbolos de qualquer coisa e


os escritores postos num determinado pedestal.

Eu acho que é uma questão de carácter. Intimida-me imenso a mitificação do


autor. A Agustina diz numa entrevista que aquilo que mais odeia no mundo,
mais do que a maldade, é a lisonja. Eu, uma vez estava muito maldisposta e disse
a uma pessoa que veio ter comigo que eu não era eu - "Não, já disseram que
somos muito parecidas, mas não sou eu." As pessoas não têm consciência de que
pode ser intimidante. Mas há pessoas que gostam imenso do culto.

Em que é que toda a atenção que a rodeou quando da publicação


deNovas Cartas Portuguesas contribuiu para essa reacção?
Já era assim, antes. Nas cartas foi uma agressão. Foi horrível. Eu estava a
trabalhar a pleno nessa altura. Nenhuma de nós tinha consciência de que estava
a fazer uma coisa que viesse a ter o peso e a importância internacional que teve.
Eu acho que nós tínhamos consciência de que aquilo era interessante, mas não a
esse ponto.

Como é que começaram? Encontram-se por quererem produzir


alguma coisa juntas?

Não, eu acho que não. Eu tenho mais afinidades de escrita com o Armando Silva
Carvalho - com quem fiz O Livro do Meio, uma outra experiência de trabalho
colaborativo - do que tenho com a Maria Isabel Barreno e a Maria Teresa Horta.
Tanto quanto me lembro era um jogo, um divertimento.

Os diários ainda apanham o período das cartas?

Sim, mas estava tão emprenhada porque aquilo tinha um certo cunho diarístico
que não me lembro de ter escrito muita coisa nos meus diários. Foi muito grave.
Durou dois anos. Foi uma coisa completamente absurda e injustificada.

O livro foi apreendido pelo seu conteúdo considerado pornográfico e


a sua venda interditada. Também foram sujeitas a julgamento e a
uma exposição pública com impacto internacional. O seu filho era
ainda criança. Deu-se conta do impacto que o livro causou?

Não se deu muito, não.

E os seus colegas de trabalho?

Não me lembro de nada desagradável. Também não sei se leram o livro. Como
tinha sido apreendido, vendia-se debaixo do balcão. Mas de um modo geral era
gente de esquerda e centro-esquerda, não tive reacções hostis. O director que
tinha, muito reaccionário - devia lembrar-me do nome dele, para mal, mas não
me lembro -, tinha tudo preparado para, caso fôssemos condenadas, rescindir o
contrato. Chegou a haver uma referência ao livro do Marcello Caetano nas suas
conversas ao serão. E o livro nem sequer é muito erótico.
O seu pai já não era vivo, mas como reagiu a sua mãe?

Reagiu muito mal, mas depois foi ao tribunal, ao julgamento. Era tudo muito
difícil de explicar, principalmente uma acusação daquelas. A acusação era de
costumes mas a causa era política. Fomos interrogadas no mesmo corredor onde
estavam prostitutas.

Quando, já em democracia, esteve na Secretaria de Estado da Cultura


do governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, com Hélder Macedo,
percebeu a sede de controlo do poder? Percebeu, enfim, algumas das
coisas que lhe tinham acontecido durante o julgamento?

Há tiques, de esquerda e de direita, que a posição de governante dá a toda a


gente. Nesse aspecto, o Hélder Macedo foi exemplar, que era muito pouco
autocrático. Mas o contrário é mais frequente. O poder que o poder tem é um
dos temas do Casas Pardas. De cada vez que se diz a palavra "poder" o lustre
treme. O poder está em todas as minhas coisas, desde o Maina Mendes. Mas o
que foi desagradável dos interrogatórios é que perguntavam quem tinha escrito o
quê, coisa que nós tínhamos decidido que nunca seria dito. Ainda hoje. Algumas
inconfidências mas de um modo geral não dizemos quem escreveu o quê. Foi o
pacto que assumimos.

Ainda saberão identificar o que cada uma escreveu?

Sim, eu consigo. E acho que as outras também.

Dá-se com elas?

Não. Praticamente nada. Eu acho que foi um processo de esgotamento. Depois a


vida separa um bocado as pessoas com actividades e gostos diferentes em muitas
coisas. Outras não tanto. Ideologicamente, estamos próximas, mas não temos
praticamente nenhum trato.

Isso incomoda-a?

Um pouco. Dá-me uma certa pena. Houve uma proximidade tão grande que
depois há uma necessidade de distanciamento. Não tive muita consciência disso.
Você verá quando chegar à minha idade que, ou por razões de morte ou por
razões de vida, as relações vão mudando e só fica o núcleo duro dos amigos, dos
mais próximos.

O que defende hoje são valores que foram sendo construídos em


diálogo com essa memória?

Não, já estavam presentes. Qualquer uma de nós já era, na altura, uma pessoa de
esquerda. Eu talvez mais radicalizada por causa do trabalho no Departamento de
Psiquiatria do Hospital Miguel Bombarda. Salvas as devidas proporções, mais
uma vez, era como trabalhar em Auschwitz. Era uma enfermaria de 80 mulheres
fechadas, de 18 anos acabadas de entrar até mulheres demenciadas de 80 anos,
com oito enfermeiras e poucos médicos disponíveis. Essa experiência foi das
que, em muitos aspectos, mais me radicalizaram. Era um trabalho no contexto
no Instituto de Investigação Industrial e eu estava lá para fazer uma recolha de
depoimentos de doentes mentais oriundos da indústria. Acabei por fazer parte
de uma equipa com funções terapêuticas dirigida pelo dr. Nuno Afonso Ribeiro.
Foi lá que conheci o António Lobo Antunes, que na altura ainda trabalhava no
hospital.

O que é para si uma mulher de esquerda? E sobretudo hoje quando se


diz que as fronteiras já estão todas diluídas?

Não é verdade. No fundo, no fundo, é ter uma consciência formada pela noção de
que a luta de classes existe e que existe de diversas formas, como a de castas, que
é uma luta de classes. Tudo o mais vem daí. Ser uma pessoa de esquerda
significa assumir que existe, de facto, uma oposição entre o capital e o trabalho
que se reflecte em tudo. Desde a actividade profissional até às escolhas artísticas.

E às emocionais também?

Às vezes a pessoa dorme com o inimigo. Tenho pessoas na família com quem
tenho relações de afecto que não são propriamente de esquerda. Mas aí são os
afectos a funcionar. Mas os meus amigos escolhidos são todos eles pessoas de
esquerda, com maior ou menor empenhamento cívico.

É possível apaixonar-se por alguém que não seja de esquerda.


Não. Pelo menos nunca me aconteceu e acho que nunca vai acontecer. Para mim,
a relação afectiva profunda passa muito pela relação com a palavra. E, portanto,
ouvir um discurso de direita é o suficiente para me pôr com pele de galinha e
ficar com uma certa rejeição.

E de um escritor, é importante saber a filiação ideológica?

É, mas não para o admirar ou não. O critério cívico e político e o critério estético
não são, para mim, concomitantes. E posso reconhecer injustiças. Quando se
disse que a Agustina era reaccionária, e de facto ela foi mandatária da
candidatura presidencial do Freitas do Amaral, ela não é uma pessoa
reaccionária. É até, sobre certos aspectos, revolucionária.

Agustina disse que podia ser feminista, mas as suas obras não.

E confere. A postura ideológica de uma artista não dá nem a chave nem o calibre
do homem. Ttenho dúvidas que a obra de um fascista, cujo conteudo seja racista,
tenha qualidade, mas admito perfeitamente, é perfeitamente possível que um
autor conservador tenha uma obra revolucionária, notável e interessante.

E faz a mesma distinção entre homens e mulheres?

Exactamente. Como em muitas outras coisas. Não sei o que é escrita feminina.
Acho que há temáticas e tratamentos de temáticas que obviamente só podem ser
femininos. Mas haver uma escrita feminina, não sei o que isso quer dizer. Já
foram feitos estudos que dizem, por exemplo, que a virgulação e as pausas são
femininas. E há atitudes a esse respeito muito fortes. Mas a escrita feminista
existe em oposição a quê? Pode haver um texto que é feminista claramente na
defesa dos seus temas. A escrita da Elfriede Jelinek [autora austríaca, Prémio
Nobel da Literatura 2004] tem um poder de chamada de atenção para a situação
da mulher, mas ela é uma grande escritora, independente da temática que usa.
Se é que é possível dizer isto, independentemente da temática que usa.

O que não se pode dizer é que é um grande escritor,


independentemente de ser homem ou mulher?
Não se pode dizer? Eu digo. Como digo, apesar de não ser bem a mesma coisa,
independentemente de ser de esquerda ou direita. Há pessoas e movimentos
feministas muito sofisticados e elaborados que declaram que há uma escrita que
é feminina. Eu acho que é feminina se for escrita por mulheres e acabou. Dizer
que aquela escrita só podia ser feminina, não faz sentido.

Por que isso significa que há uma diminuição do potencial da própria


escrita?

Há uma diminuição da recepção da escrita. Há uma redução do leitor, não da


obra. É a temática que é feminina, não é a escrita. São os valores, é a chamada de
atenção. Pode haver uma feminista convicta de que o que faz não tenha o
mínimo interesse. É tão pertinente como dizer que um autor é um autor macho.
Um autor machista até pode ter graça como autor. Mas não é isso que faz a
qualidade da sua escrita.

É compreensível que esse tipo de definições tenha surgido no


seguimento de lutas sociais.

Mas isso é outro assunto. Como se pode dizer que não há mais mulheres geniais
na escrita porque, por razões de iliteracia, de valores familiares, é elevada a
mortalidade infantil de potenciais escritores. Mas já ninguém se atreve a dizer
que não há grandes pintoras. Mas que há menos mulheres que homens em
determinadas profissões artísticas com certeza que sim, porque ainda há uma
certa pressão sobre certos aspectos da criatividade feminina. Agora, não
confundamos as coisas. Uma é a falta de acesso e a denegação, outra é desejar
que exista uma escrita especificamente feminina. Para quê? Para quem? O que
não significa que não existam grandes escritoras que tenham sido feministas
convictas, como a Marguerite Duras, por exemplo. Eu acho que essas definições
são sempre redutoras. Com certeza que a obra da Paula Rego é uma obra
feminina e as convenções dela são feministas, mas isso não invalida nem valida a
obra. Ela podia ter outra temática.

Uma vez falou numa relação de sedução/submissão, que seria uma


estratégia de convencimento que atrai os leitores para a obra, as
personagens umas para as outras, que atrai eventualmente a autora
para um determinado tema. E depois, reconhecida essa atracção,
como se vai trabalhar isso?

Se eu soubesse responder...

Termino a perguntar o que está a escrever?

Nada.

Está à espera?

Ou se esgotou o filão... mas não me dá grande angústia, ou estou à espera não sei
bem de quê.

E como ocupa os dias?

Leio, muito. Estou a ler o Musil, que tem uma novela sublime chamada A
Portuguesa, que a Agustina queria adaptar com o Manoel de Oliveira e também
o César Monteiro, mas era caríssimo. E Herberto. Fiquei a tremer com A faca
não corta o fogo. Estive dois dias de lápis na mão a ler. Ele teve o gesto de me
mandar com uma dedicatória que me deixou inchadíssima. É de uma entrega
tremenda à poesia.

Poesia nunca quis escrever.

Deus me livre. Em miúda, isso é que foi para o caixote do lixo. Nunca me atrevi.
Se calhar é o lado romântico da minha educação, uma sacralização da poesia. E
nem quero falar de poetas e tão extraordinários. Estou a reler o Vale Abraão da
Agustina, com muito proveito. Há um livro extraordinário dela, que é o último, A
Ronda da Noite, que é uma despedida. Eu não gosto muito de dizer isto, mas
penso que há uma tonalidade no Myra que também é de despedida.

Quando diz que não está muito preocupada em não voltar a


escrever...

Já dei [risos].
Não se vai deitar a pensar que hoje foi mais um dia em que não
escreveu?

Nem pensar. E se pensasse, pensava: que alívio. Às vezes perguntam-me: então,


estás a escrever?, e eu respondo, eu não, nada, e tu? [risos]. Não fico demasiado
desconfortável com a ideia de não-escrita. Escrever, para além de me ter dado
muitas satisfações, e haver coisas que escrevi com muito júbilo, é também uma
ansiedade enorme, é quase como se fosse uma culpa. Mais culpa de escrever do
que não escrever. Tem a ver com a moral de trabalho de que falava.

Mas a culpa não pressupõe que exista algo ou alguém sobre a qual se
está a agir erradamente?

Não. A não ser comigo própria. Do ponto de vista quotidiano e económico, talvez
não fosse má ideia escrever mais qualquer coisa. Não sei fazer mais nada. Mas o
facto de ter estado tantos anos com um emprego das nove às seis também me
limitou e cansou muito.

Se não voltar a escrever, como é que a tratam, Maria Velho da Costa,


quê?

Once a writer, always a writer [risos]. Já não lhes passa. A mim pode passar,
aos outros não.
«Maria Isabel Barreno é portuguesa, escritora e tem 52 anos de idade. Edita “De Noite as árvores são
Negras” em 1968 e “Outros legítimos Superiores” em 1970, mas vê-se catapultada para a fama
internacional com o processo levantado em 1972 ao livro “As Novas Cartas Portuguesas” escritas de
parceria com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Para o bem e para o mal, tornou-se uma das
“Três Marias”.
Esta “entidade” um pouco nebulosa, poderá surgir, às gerações mais novas, como uma pequena
“hidra” de três cabeças, que estigmatiza três personalidades e três escritas completamente diferentes.
O processo judicial acabou por funcionar como uma espécie de “casamento”, que não deixa
reconhecer as diferenças, nem as distâncias naturalmente instaladas por percursos e vivências
diferentes.
HB – Torna-se óbvio que já não é possível qualquer identidade entre os três nomes, mas a
ligação mantém-se apesar do tempo. Maria Isabel Barreno, como entende a permanência desta
associação?
MIB – Já havia distanciação na altura. Quando nós começamos a escrever, já eramos três pessoas
muito diferentes, de personalidades diferentes, mesmo sem ter em conta as escritas. Tínhamos um
determinado tipo de assuntos que gostávamos de discutir em conjunto, e foi esse o nosso ponto de
partida para o livro, e só esse. O livro foi surpreendente, e para além do livro em si, o processo, com
toda aquela repercussão, teve a ver, obviamente, com circunstâncias determinadas por aquele tempo.
Foi uma surpresa. Nunca esperámos aquilo.
HB – Temos a certeza de que, sempre que alguém fala consigo não resiste à tentação de referir
o processo das “Três Marias”. Como reage?
MIB – Francamente, ainda quase que me irrito quando as pessoas me vêm falar nisso. Não renego o
livro, nem sequer renego as minhas posições de então. Hoje em dia não as tornaria a ter, também
porque a sociedade em que vivo já é muito diferente. Acho que, na altura, nós fizemos livro porque,
certamente, ele correspondia a um desejo e a uma necessidade nossa muito profunda. E estou
convencida que, para além das circunstâncias que facilitaram o êxito, o êxito deu-se porque existia
uma consonância entre as nossas necessidades e as necessidades da época. Só assim um discurso
daquele tipo podia fazer as ondas e ter os resultados que teve.
HB – E neste momento, não acha que toda essa história se terá tornado numa maldição? Uma
espécie de “praga” que parece acompanhá-las pela vida inteira?
MIB – Realmente, de certa maneira, foi uma condenação. Porque criou, como que uma aparência
externa em que toda a gente nos liga, as três Marias, como se nós alguma vez fossemos uma
entidade, e que isso tivesse existido para além daquele momento em que nos encontrávamos e
escrevíamos o livro. Várias pessoas perguntavam, “Então e vocês vão escrever outro livro?” Escrever
outro livro, mas que disparate! Nunca nos passou tal coisa pela cabeça. A nossa profissão de fé não
era fazer livros a quatro ou a seis mãos. Isso foi uma coisa que nos aconteceu. Mas pronto, é um
episódio da minha história individual e da história deste século que ali está. E depois disso já fiz tantas
coisas!
HB – Pensa que o seu trabalho posterior – como “Inventário de Ana” de 1982 – terá sido
ofuscado e deturpado por isso? Sente-se defraudada?
MIB – Nesse aspecto às vezes sinto, e fico um bocado irritada, porque foi criada uma imagem que de
certa maneira, tapou, e às vezes dificultou, quase que a minha comunicação individual. A pessoa fica
realmente tapada com aquele tipo de imagem.
HB – Agora ofereceu-nos um novo romance, de grande folego: “Crónica do Tempo”.
Começando pelo título, não existirá um certo pleonasmo, uma vez que a palavra “crónica” traz
já consigo a noção de tempo?
MIB – Já tem a noção de tempo, mas de facto não é entendido como pleonasmo, ou como
redundância. Obviamente que a crónica descreve a situação de uma coisa num determinado tempo.
Mas para além disso, do tempo em que se vive, e no qual se ritmam as coisas – em cuja acepção
estaria a crónica – eu queria acentuar um outro tempo. O tempo também como personagem principal,
o que faz e desfaz as coisas, que as torna relativas, aquelas coisas que em determinada altura
parecem absolutamente importantes ou absolutamente decisivas, e depois até não o são.
HB – Então é possível considerar o seu romance como histórico?
MIB – Nesse sentido é. Evidentemente que não tenho pretensão histórica, mas tenho pretensão de
crónica. Esta preocupação é mais chegada aos acontecimentos do que a perspectiva histórica
propriamente dita.
HB – Mas a História presidiu à sua intenção?
MIB – Não digo que fosse uma intenção – porque eu não acredito que se possa escrever com
intenções. Quando se escreve com intenções geralmente sai mal, porque não é o voluntarismo que faz
as coisas boas em literatura, ou em arte no geral. O processo criativo é bastante mais complicado que
isso. Tem que se estar implicado em níveis muito mais profundos do que o da intenção voluntária. Mas
à medida que vai escrevendo, uma pessoa dá-se conta, até pelo resultado da escrita, de emoções ou
de desejos, que estavam por detrás de um certo discurso.
HB – E qual a emoção ou desejo que se lhe impôs?
MIB – Dei-me conta de um desejo de narrar, e de transmitir, enfim, um apanhado de uma coisa, que é
não só a minha experiência de vida, mas a de um período muito mais amplo, que enquadrava o
percurso de muita gente, da sociedade portuguesa num certo tempo e num certo lugar. Não há dúvida
nenhuma que isso era um desejo importante.
HB – Nessa perspectiva, é possível que Jorge, a sua personagem principal, se apresente de
alguma maneira como símbolo de um certo Portugal que desapareceu após o 25 de Abril?
MIB – Acho que sim. Não sei até que ponto desapareceu, ou até que ponto se reformulou, se
transformou numa outra coisa que eu ainda não sei identificar. É possível que daqui a uns anos
perceba quais são os Jorges de hoje, não é? Trata-se de um tipo de pessoa que já nem está muito
presente na minha geração, digamos que é da geração dos meus pais, ou de uma geração de trás.
Durante um tempo, quando era nova, via essa geração com uns olhos próximos demais, emotivos
demais, ainda demasiado embrenhados naquela proximidade do conflito de gerações. Depois, quando
se olha para essas raízes anteriores, começa-se a entender muito melhor as pessoas.
HB – Jorge será então uma espécie de “self-made-man”, uma figura quase herdada do tempo
dos Descobrimentos?
MIB – É interessante que refira quase o tempo dos Descobrimentos, porque de facto tem umas raízes
bastante antigas. É aquele tipo de figura do aventureiro que tem uma noção muito particular do seu
próprio país, e do seu próprio espaço, num mundo bastante peculiar.
HB – Pela ousadia com que a qualifica, torna-se uma personagem muito portuguesa, “à antiga”.
Já disse que não teve intenções, mas houve algum desejo específico de salientar um
determinado tipo de coragem?
MIB – Sim, pareceu-me bastante importante. Talvez porque a minha geração foi muito crítica em
relação a esse tipo de características na geração anterior. É curioso. Uma vez li uma frase que achei
interessante: os filhos olhavam para os pais achando que a história dos pais tinha começado só no dia
em que eles próprios, os filhos, tinham nascido, e que para trás não havia nada, era o vazio.
HB – Para os filhos, os pais já nasceram crescidos?
MIB – É um pouco isso. Há até um período em que olhamos a geração anterior assim. Vê-se só aquilo
que essa geração aparenta, a face que está virada para nós. Portanto, quando se vê um homem de
sucesso, um homem rico, criticam-se os vícios da riqueza, ou os vícios do sucesso, sem se ter em
conta, muitas vezes, o esforço e a coragem que também estão por detrás disso. E eu penso que em
Portugal – talvez isso tenha sido também uma das minhas motivações profundas – há muito pouco o
prémio do sucesso.
HB – Acha que o sucesso não tem recompensas?
MIB – Em termos teóricos até tem. Mas depois, em pormenores menos teóricos e mais imediatos há
muito a tendência para punir o sucesso. Isso vê-se ainda muito hoje em dia, embora a mentalidade das
pessoas tenha mudado bastante. Toda a gente sente muito mais naturalmente simpatia pelo
“desgraçado”. A pessoa que falhou merece sempre simpatia, compaixão, quando não é
necessariamente melhor – em termos morais ou em termos humanos – do que a pessoa de sucesso.
As coisas são muito mais complicadas do que isso. Mas há muito essa visão um pouco simplista dos
bons e dos maus, onde os bons são necessariamente os coitadinhos, e os maus são sempre os que
tiveram sucesso.
HB – Essa sua opinião não será um pouco “contra-revolucionária”?
MIB – Se eu me colocar nos termos simplistas do discurso revolucionário de aqui há uns tempos, sim.
Naquela perspectiva, até legítima, em que se diz que os ricos têm tendência para explorar os pobres,
ou que os empresários têm tendência para explorar os trabalhadores. Agora, obviamente, é uma linha
de discurso que é possível, é credível, e muito útil em muitas circunstâncias. O que acho mal é reduzir-
se toda a realidade a isso, é tomar isso como a única forma absoluta, inclusive até, do relacionamento
entre as pessoas.
HB – Talvez em resultado do processo de 1972, a sua imagem está ligada à esquerda. Mas um
dos aspectos surpreendentes neste seu romance é o equilíbrio conseguido entre
posicionamentos ideológicos aparentemente antagónicos. Näo digo que exista uma viragem
política de esquerda para direita, mas este equilíbrio corresponde à busca de um novo olhar
sobre as coisas?
MIB – Sem dúvida. Há certas teorias, ou convicções, ou mentalidades, que nascem numa determinada
época, e não é por acaso. É porque aquela época determinou aquele tipo de posicionamento. Eu não
consigo desligar o facto de o marxismo ter aparecido no final do século XIX quando realmente, a
exploração do trabalho era uma coisa que até hoje em dia já não se entende – os horários de trabalho
de 14 e 16 horas, o modo como as pessoas eram tratadas nas fábricas, etc. Aliás, esse tipo de
realidade é retratado, não apenas na forma ideológica e política de Marx, mas na ficção literária de um
Dickens, por exemplo, que dá a belíssima imagem negra do que era o capitalismo da época. Portanto,
a ideologia da esquerda nasceu daquela realidade social que existiu naquele tempo, e foi criada por
aquela realidade social e, obviamente, teve a sua utilidade.
HB – Então as ideologias dependem da sua utilidade?
MIB – Ainda hoje estou convencida de que o discurso marxista, embora ao nível da realização social
tivesse falhado completamente, em termos de se tentar fazer sociedades segundo um determinado
modelo, foi útil. Não há dúvida nenhuma que aquele tipo de pensamento, e a polémica que gerou e de
certa forma também a consciencialização que foi trazendo às pessoas até a nível individual, foi um dos
grandes motores das transformações que se seguiram. Se hoje em dia, toda a relação de trabalho
entre as pessoas é diferente, e se as democracias actuais têm uma outra concepção, foi devido a essa
ideologia, que inicialmente era de esquerda e depois até deixou de ser de esquerda. Hoje há coisas
que se aceitam pacificamente como sendo de centro ou até de direita, e que no século XIX seriam
perfeitamente revolucionárias e de esquerda.
HB – Assim, as oposições ideológicas não fazem sentido, ou acabam por se dissolver?
MIB – Uma coisa que também me parece muito óbvia – e até que ponto consegui transmitir essa ideia
no livro, não sei – é que uma oposição política numa época, acaba por estar profundamente
condicionada pela situação política dessa mesma época. Não há dúvida nenhuma que as coisas se
articulam como polos opostos; uma oposição quer ser um discurso libertador e abrir vias para outras
coisas, mas acaba por ficar fixada na situação contra a qual combate, e logo, quase com os mesmos
vícios. Como um reflexo de espelhos. Não é por acaso que numa determinada época, a chamada
esquerda e a chamada direita, nos polos mais fortes que apareceram na Europa, por um lado o Hitler,
por outro o Estaline, são profundamente semelhantes. Em níveis não tão extremos, esquerda e direita
eram o espelho uma da outra que estavam polarizadas numas quantas questões, numas quantas
visões do mundo que eram sempre redutoras.
HB – Concorda com a hipótese que corre, de que chegámos ao fim das ideologias?
MIB – Não sei. Acho esse tipo de juízos sempre muito definitivos. Eu penso que chegámos ao fim de
algumas ideologias, nomeadamente as que durante um tempo foram denominadas de esquerda e de
direita. Ao fim do confronto entre esse tipo de visões do mundo, e dos diversos conflitos que daí
nasceram. Chegámos ao ponto em que as pessoas se deram conta de que, pelo menos no modo
como elas eram formuladas, as ideologias se tinham esvaziado, até pela interacção que houve entre
vários dados, pelo adquirido da sociedade, pelas transformações que vivemos. Hoje em dia, e
qualquer pessoa o pode constatar, esquerda e direita já não têm característica nenhuma definível e
taxativa. Ouve-se uma pessoa de um partido de direita dizer coisas que poderiam perfeitamente ser
ditas por alguém de um partido de esquerda e vice-versa. Há um intercâmbio de posições, de
convicções e de discursos, pelo menos ao nível das palavras…
HB – E ao nível das atitudes?
MIB – Já é muito mais complicado…
HB – Regressando a outros aspectos do seu romance. Disse que este livro representava para si
o fechar de um ciclo. Está a preparar algo de novo?
MIB – Eu não sei se disse só isso. De certa forma, cada vez que acabo um livro tenho sempre um
pouco a sensação do fechar de um ciclo. O próprio livro, em si, é sempre um fecho de um ciclo. Agora,
não sei ainda o que vai ser o próximo. Neste meu “ciclo”, no que posso ver nas coisas que fui
escrevendo até este romance, não há uma linha muito seguida. Fui escrevendo coisas de vários
géneros e de vários registos, e nem sequer posso dizer que este faz parte de uma trilogia que comecei
não sei quando.
HB – Qual é, para si, principal característica deste romance relativamente aos anteriores?
MIB – Há um sentimento muito forte na escrita deste romance, a necessidade de uma reflexão
profunda. É uma narração distanciada e ao mesmo tempo afectuosa, de todo um corpo colectivo do
qual eu faço parte. Há um momento em que todos nós sentimos esse tipo de necessidade, houve
muita viragem em Portugal e agora há muita necessidade de reflectir…
HB – …de apanhar os bocados?
MIB – De apanhar os bocados. E sobretudo fazer um inventário sério de todos esses bocados, e deixá-
los para trás. Por razões mais ou menos óbvias, das nossas peripécias políticas e históricas passadas,
até num passado relativamente recente, resultaram muitas visões falseadas. Durante muito tempo, a
nossa posição foi muito isolada, estivemos muito fechados sobre nós próprios. Isso levou-nos a
posições muito emotivas, muito pouco relativizadas. Em Portugal há muito a tendência para os juízos
absolutos sobre tudo, sobre o que é ser português, o que é Portugal. Senti a falta de uma narração
distanciada, onde se constate, com outro olhar, da relatividade de tudo, e do que há realmente de
aproveitável, ou de “desaproveitável” naquilo que se contempla.
HB – O romance acompanha uma vida, é a história da vida de Jorge, e acaba com a morte da
personagem. A que conclusão se pode chegar, para além da morte, e para além do livro?
MIB – Conclusäo? não posso dizer. Sinto que em Portugal há muito esta tendência para chegar a uma
conclusão geral, um partir para uma reformulação das coisas. Até pela fase em que nós estamos. Não
há dúvida nenhuma que, gostando-se ou não da CEE, do Mercado Europeu, etc., o facto é que vai-nos
obrigara sair de nós próprios, é um desafio. E não estou a afastar-me do livro, tudo isto está muito
ligado.
Foi isso que senti no final do livro, e que estará mais em consonância com o tempo português actual.
Há uma reformulação, há uma viragem profunda da nossa face do interior para o exterior, e temos que
fazer uma reavaliação profunda de todo este nosso colectivo. E isso está a ser feito, melhor ou pior,
com mais ou menos custos, com mais ou menos auto-recriminações – o que também é uma tendência
muito generalizada – mas sinto que isso está a fazer-se.
HB – Ainda no romance, uma outra personagem, Diogo, refere:”Uma saudade das mulheres
quietas e conservadoras da sua juventude” (p.186), insinuando o retorno da mulher à casa.
Subscreve esta posição?
MIB – Distancio-me nitidamente da personagem. Não falo em regresso da mulher à casa porque pura
e simplesmente não acredito que sejam possíveis regressos, nunca, a coisa nenhuma. Porque nada
fica na mesma, nunca. É uma das coisas que sempre me fez uma certa confusão, a defesa do
“regresso”. Não há regressos possíveis. Nas sociedades humanas nunca há nada que fique na
mesma. De modo que, mesmo que se retomem certas coisas, nunca são um retorno, são um retomar
sob outra forma.
HB – Portanto, pensa que, para uma mulher, é mais importante a realização profissional?
MIB – Houve um tempo, até por reacção contra o papel tradicional da mulher (que devia era estar na
sua casinha com as suas crianças, etc.), em que se alimentou a ideia oposta. Óptimo era o sair de
casa, a realização profissional. Mas só depois de as mulheres terem tido a possibilidade de sair de
casa e ir investigar por si próprias o que era o mundo do trabalho, é que se pode fazer, por um lado, a
crítica do próprio mundo do trabalho, por outro lado a reformulação da vida das pessoas noutros
termos. Sinto cada vez mais, e qualquer mulher me acompanhará nisso, que a sociedade está mal
porque está tudo mal. Está mal o mundo do trabalho, está mal toda a inserção das vidas individuais no
mundo do trabalho. Anda toda a gente a correr desvairada de um lado para o outro, nunca ninguém
tem tempo para nada. E se se disser: “Ai é muito mau, porque as criancinhas não têm a mãe”, é muito
mau porque ninguém tem tempo para si próprio, é muito mau porque as pessoas têm muito pouco
tempo para as suas relações individuais, as amizades, o convívio. Portanto, há uma necessidade
profunda de reformulação da sociedade, que também de certa forma já se está a dar. As coisas vão
andando nesse sentido.
HB – Então a mulher não vai regressar ao lar?
MIB – A mulher regressar ao lar… Através dessa personagem exprimo o que acho que aconteceu
muito aos homens da minha geração. Os homens eram mais avançados do que as mulheres, tanto
política como moralmente, tanto mais que a educação dos homens era mais livre. Os rapazes da
minha geração achavam sempre que as raparigas eram umas conservadoras, preconceituadas. Mas
eles não tinham ido até ao fundo da questão. Porque quando as mulheres realmente começaram a sair
desse seu conservadorismo, o mundo abanou para esses homens duma maneira que não esperavam.
Eles nunca tinham suspeitado quanto a contestação que faziam era de facto superficial. E as
mulheres, dando passos em frente, abalaram coisas que eles tinham por garantidas e por quietas para
a eternidade.
HB – E no que respeita à sua vida particular – a casa o trabalho, a escrita. Os seus filhos
sentem-se incomodados, ou sempre aceitaram isso naturalmente?
MIB – Sempre aceitaram porque eu sempre trabalhei, mesmo quando eram pequenos. Aqui em
Lisboa, no círculo onde eu me movia, já era relativamente frequente as mulheres trabalharem. Mas era
obviamente restrito. A maioria das mulheres da burguesia, classe média, ainda não tinham muito uma
perspectiva do trabalho fora de casa. Foi uma das coisas que eu sempre fiz questão. Agora, sinto que
isso é um conflito que marcou a minha geração e ainda está a marcar a geração das mulheres actuais.
Um conflito que as mulheres acabam por aguentar, se não sózinhas, pelo menos em grande parte
recai sobre delas.
HB – Alguma vez se sentiu roubada no seu tempo para escrever?
MIB – Sim, sim. E sobretudo, acho que é muito comum às mulheres, tinha a sensação de culpa,
porque estava a fazer uma coisa quando deveria estar a fazer outra.
HB – Já se passaram alguns meses sobre a escrita de “Crónica do Tempo”. Embora ainda a
pequena distância, o livro está a devolver-lhe outras perspectivas, que não esperara na altura,
está a causar-lhe surpresas?
MIB – Ainda não lhe sei dizer. Já acabei há bastantes meses, mas ainda não tive essa experiência.
Geralmente as maiores surpresas vêm das conversas com as pessoas, que vêm ter comigo para falar
sobre o livro. Mas ainda não tive muitas conversas sobre o livro.»
Como surgiu o livro para você?

Em parte, esse livro contém o relato de uma memória vivida, ainda que transfigurada, voluntária
e involuntariamente, como sempre acontece. Participei, enquanto, observadora privilegiada e
comovida, dos últimos anos do domínio colonial português em Angola e Moçambique. À época, eu
era casada com um oficial da Força Aérea em missões de combate e a realidade quotidiana vivida
era muito diferente dos fatos reais. Foi desse contraste, entre o que se escrevia oficialmente e o
que se passava no terreno, que a narrativa de "A Costa dos Murmúrios" foi imaginada.
O livro é só ficção ou tem alguns elementos biográficos, talvez seus ou da sua própria família?
Baseei-me em determinados fatos ocorridos em Moçambique no final da década de 60, que eu não
vivi diretamente, mas cuja memória estava muito presente quando vivi na Beira. Refiro-me,
sobretudo, à Operação Nó Górdio e, posteriormente, já mais próximo da minha vivência, ao
Massacre de Wiriamu, ambos ocorridos no Norte de Moçambique. Mas a história que relato no livro
foi-me muito próxima. Tratava-se do aparecimento misterioso de uns bidons boiando nos rios e no
mar, contendo álcool metílico com o qual as populações locais, por ignorância, se envenenavam,
se cegavam e morriam. Esse elemento, que no livro surge sob forma de garrafas empalhadas que
surgiam na costa, e a mudança de caráter de um alferes com talento para a Matemática, mas
transformado pela força das circunstâncias num carrasco de guerra, foram os dois elementos que
deram corpo ao livro.
Como cidadã portuguesa, qual é a sua opinião sobre o processo de independência de
Moçambique? Você acredita que o governo agiu de forma concreta?
A independência das ex-colônias portuguesas aconteceu tarde demais, quando a situação, de um
lado e de outro já tinha apodrecido. Por isso os processos de transição incluíram grandes desastres
e guerras terríveis. Mas não posso culpar o governo português . Nós próprios em Portugal vivíamos
uma Revolução, que no primeiro momento, foi uma festa de alegria na História do século XX.
Nessa festa estava incluída a autodeterminação dos novos países da África. Mas como travar a
urgência, evitando a confusão e a perda para milhares de pessoas? Moçambique, como os outros
territórios, não podia esperar. Estávamos todos, no mínimo, vinte e cinco anos atrasados.
Começamos a correr na direção do futuro, e foi o que se viu. Por mais que se leia, só uma parte
da prudência se aprende com a história.
No livro e no filme, a personagem vive sob a autoridade masculina. Essa seria uma situação
vivida pela personagem ou seria a realidade da sociedade da época?

Nesse campo, a personagem Evita, interpretada no filme pela atriz Leonor Batarda, representa as
mulheres do seu tempo. A figura da Helena de Tróia, também. Os movimentos de emancipação
das mulheres ainda estavam na fase da conquista, isto é, na sua fase heroica. A tentativa de
generalização, nas sociedades ocidentais, foi acontecendo lentamente, e como se sabe ainda está
em processo. Mas para se avaliar a distância, basta pensar que nessa altura, altura também da
Guerra do Vietnam, as mulheres não eram soldados, não iam à guerra. A menos que fossem
médicas ou enfermeiras, isto é, como auxiliares. Olha-se para os contingentes atuais, e eles estão
repletos de mulheres soldado. Uma metáfora que marca a diferença.
Como você vê o desenvolvimento do papel da mulher na sociedade portuguesa desde os anos 60?
Estamos a falar de Portugal, um país latino e de cultura católica. Isso significa que a evolução tem
sido lenta, e que ainda agora há cantos de atividade por partilhar. Diria que as garotas portuguesas
de hoje, em termos de formação, educação, ambição de desempenho de um papel ativo na
sociedade, não estão longe do padrão normal da mulher europeia. Mas em termos de
representação política, e na mídia, sim. Nas grandes decisões elas estão praticamente ausentes.
Na mídia, as mulheres ainda se colam muito ao papel da boneca dos fogos. Aliás, a crise financeira
que atravessamos atualmente, até potencia isso mesmo – a marginalização das mulheres, e, por
contraste, o incentivo aos seus papeis de superfície. Não gosto disso.
Quais foram os seus outros livros adaptados para cinema?

Até agora só este conseguiu ir para diante. São sempre muitos os projetos, mas ficam encalhados
nos financiamentos. Seriabom se houvesse boas novidades.
Você provavelmente já deve ter visto a adaptação do seu livro feita pela Margarida Cardoso.
Qual é a sua opinião sobre o trabalho ?

Acho o filme da Margarida Cardoso bom . A cena da matança dos pássaros já é uma sequência
clássica no cinema português. Também o olhar da protagonista, surpreendido do princípio ao fim,
é extraordinário. A Margarida Cardoso fez do meu livro um objeto diferente, mas revestiu-o da
mesma alucinação, a mesma memória delirante, com uma verdade tórrida oferecida de forma
suave, como se nada fosse. Gostei muito dessa pose da Margarida, num tempo em que o cinema
se transformou num pano encharcado de violência e sangue. Ela soube filmar a guerra com repulsa
e imensa decência. Não é fácil. Plasticamente, o filme é muito belo. Neste caso, não pertenço ao
grupo dos escritores que passam ao pugilato com os realizadores dos filmes a que os livros dão
origem.
Quando você criou "A Costa dos Murmúrios", você com certeza colocava rosto em seus
personagens conforme o livro ia se desenvolvendo. O elenco escolhido para o filme se
assemelha com a imagem criada por você?

É muito diferente. Quando se escreve um livro de ficção conhecemos melhor o coração e a alma
das personagens do que os seus traços fisionômicos, a sua altura, a cor dos cabelos. Depois vem o
cinema ou o teatro e aquela imposição do modelo físico é avassalador. Impõe-se. O que posso
dizer é que nenhum dos atores defraudou a imagem das personagens. No caso das mulheres, a
Evita e a Helena de Tróia, sinto-as tão fortes que acabaram por integrar o imaginário prévio. O
mesmo aconteceu com o noivo Alex e com o Major Forza Leal. Espaços, cenas, canções, nada me
atrapalha no regresso ao livro, em que o que me interessa são as vozes, os murmúrios das vozes
que eu desejei que se prolongassem antes que a história os diluísse em nada. Para isso, o filme da
Margarida Cardoso é o melhor colaborador que poderia ter encontrado.
Se as personagens criadas por um escritor lhe podem fazer perguntas, propor
reflexões? Claro que sim! Que o diga Teolinda Gersão que, sem hesitar, aceitou o
nosso convite e se sentou connosco, atenta às nossas questões e às do Senhor
Matos, um bancário reformado, com quem não tem afinidade nenhuma, e ainda às
da avó, que pode ser qualquer avó do mundo que “não se canse de olhar os netos”.
O fio condutor desta entrevista com a escritora Teolinda Gersão, 72 anos no BI, 30
em muitas manhãs de sol, assenta em dois contos de “A mulher que prendeu a
chuva” [Sextante Editora]: “As Tardes de um viúvo aposentado” e “Avó e neto
contra vento e areia”.

“A idade é sobretudo um estado de espírito. Muitas vezes me esqueço da minha,


talvez por gostar tanto do que faço, por ter tanto para fazer. Aos 66 anos tive um
enfarte do miocárdio, pensei que morria.
Agora sinto-me muito bem, nem sequer penso nisso”. A escritora é frequentemente
convidada para palestras, conferências, tertúlias. “Gosto muito de dialogar com as
gerações mais novas. Aprendo muito com
as suas perguntas e inquietações e a sua energia é contagiante”.
Não acredita no dolce far niente e sempre achou que a vida das princesas deve ser
um tédio.

Atentíssima ao ritmo do mundo, foi acompanhando o mote proposto pelas suas


personagens e pelo narrador omnisciente.
Falamos de envelhecimento, solidão, família, sonhos, Deus, eutanásia, vida e
política. “Espero mais da sociedade civil do que dos governos.
A única coisa boa desta crise é que nos fez acordar. Sair da ficção em que
vivíamos”, afirma Teolinda Gersão, que publicou o seu primeiro livro aos 14 anos,
pois sempre quis ser escritora. “Chamava-se Liliana. Depois de o publicar é que vi
que tinha feito mal. Mas era um sonho e os meus pais fizeram-me a vontade. Nunca
parei de escrever. Mas, para se escrever, tem de se viver. E ler muito, até se
encontrar uma voz própria”.
Autêntica, jovial, irónica às vezes e sempre bem-humorada, entre sorrisos e pausas
serenas, ficou quase uma tarde inteira à conversa com a FOCUSSOCIAL.
Encontrámos uma mulher sem medos, cheia de
memórias e que gosta de recordar.
“No entanto a sua morte [da mulher] deixara nele um grande vazio e além disso
aposentara-se. A aposentação é ter diante de si todo o vagar do mundo”. É assim?

As pessoas lidam com as etapas da vida de formas muito diferentes e, em todas elas, se
tem um olhar diverso sobre o mundo. Creio que para a maioria é difícil encarar o
envelhecimento, sobretudo se existem problemas de saúde, mais ou menos graves, que a
idade vai trazendo. E
isto é um ponto fundamental, pois a forma de enfrentar a idade depende, essencialmente,
da saúde física, psíquica e emocional. Enquanto há saúde e projetos, penso que as
pessoas se sentem jovens. Eu, por exemplo, nasci em 1940, tenho 72 anos e sinto-me
ótima. Tenho uma imensa curiosidade pela vida.

Qual é o seu segredo?

[Risos] Tenho saúde, força, otimismo – pelo menos tento ver sempre o lado bom das
coisas – e sou lutadora.
Como me sinto bem, não dou pelo passar dos anos e continuo
a fazer o que sempre fiz. Mantenho-me interessadíssima no mundo à minha volta,
continuo a participar e a escrever. Para mim, a aposentação foi a libertação de algo que
fiz com muito gosto e dedicação durante várias décadas. Durante esse tempo em que
exerci a minha profissão
de professora universitária (catedrática, no fim da carreira), fui muito feliz. No entanto,
reformei-me mais cedo do que poderia, para ter tempo de escrever.

Adiou a escrita?

Sim, percebi que era fundamental gerir o tempo. Embora nunca parasse de escrever, só
comecei a publicar ficção aos 41 anos, depois de fazer o doutoramento e de as minhas
filhas estarem mais crescidas. Tentei
encontrar um tempo para cada coisa, pois, se fazemos tudo ao mesmo tempo, não dá. E
o mundo hoje tem tantas solicitações que é difícil gerir seja o que for. Por isso, quando
deixei a Faculdade, senti-me muito bem
por ter mais tempo para escrever, fazer outras coisas e dedicar-me a outras causas. Mas
a escrita é a minha causa maior. Leva-me a estar com os outros e a estar atenta ao outro.
Leva-me a escolas, a tertúlias e a conversas com os leitores e a dar ao mundo uma
atenção especial. No
entanto, sei bem que a aposentação é um problema para a maioria das pessoas,
principalmente para os homens. As mulheres, geralmente, têm os filhos e os netos, que
as ocupam muito (os avôs, muitas vezes, dão menos atenção aos netos do que as avós).
Além de que as mulheres têm
em geral um círculo de amigas que foram envelhecendo com elas. Os homens têm menos
isso, provavelmente por se terem dedicado ao trabalho de um modo quase exclusivo.
Quando o perdem, ficam muito no vazio. Por outro lado, noto que têm mais dificuldade de
adaptação do que as mulheres, porque não têm a mesma humildade ou simplicidade. As
mulheres são mais flexíveis, estão mais habituadas a trabalhos diferentes, aderem muito
mais aos voluntariados e às universidades da terceira idade, não se sentem
“despromovidas” por fazerem coisas dessas.
 1/3 - Fotografias: Sonja Valentina

Isso é mesmo a antítese do Senhor Matos, personagem do seu conto…

Exato. O Senhor Matos, reformado bancário, é o tipo de homem que sempre trabalhou e
não sabe fazer mais nada. Depois de aposentado, continua a fingir que trabalha, para
sentir que existe. Chega a fechar-se no escritório tardes inteiras, diz à empregada para
não o incomodar, porque está a trabalhar, e dorme na sua poltrona. As mulheres são
menos assim. Pegam em qualquer coisa que lhes interesse, arriscam mais, motivam-se,
metem-se em novos projetos e preenchem mais facilmente a vida com sentido e utilidade.
Embora, naturalmente, também haja muitas mulheres para quem envelhecer é o maior
drama do mundo…

Mas não vão para uma sala de espera, fingir que aguardam por uma vez fictícia,
como o Senhor Matos…

[Risos] Pois é! Escrevi este conto a pensar na situação terrível de não saber como
preencher o tempo. A personagem é masculina, mas é verdade que a desistência de
viver, a dificuldade em envelhecer, a ausência de sentido e objetivos, atinge homens e
mulheres. E a vida de cada pessoa condiciona tudo isto. A minha mãe, por exemplo,
esteve num lar, que é um ambiente muito triste. Mas faleceu com cem anos e, quando
morreu, já estava há uns anos sem lucidez nem mobilidade. Não foi mais possível mantê-
la na sua casa, como chegou a estar, com enfermeira de dia e de noite. Ficou num lar,
muito perto de mim, para que eu a pudesse visitar todos os dias. Essa experiência fez-me
perceber a solidão de algumas pessoas no fim da vida, a tristeza de já não poderem estar
nas suas casas, a falta de acompanhamento da família. Verifiquei que muitas pessoas, no
lar da minha mãe, nunca tinham visitas. Mas não culpo as famílias. Compreendo a
incompatibilidade dos horários, o peso do trabalho, dos filhos, por vezes também dos
netos, as mil e uma dificuldades da vida. Atualmente, estes problemas acentuam-se cada
vez mais. É preciso arranjar respostas sociais, que não existem. As famílias estão
desprotegidas e sobrecarregadas, o que é doloroso, quer para uma quer para outra
geração. Os idosos sentem-se por vezes abandonados, os filhos, que também
envelheceram, sentem-se culpados, com uma carga excessiva de responsabilidade e de
trabalho. Agora imagine-se esta situação agravada com problemas de Alzheimer, de
imobilidade ou de outras doenças que exigem acompanhamento permanente. Sentimo-
nos desamparados. Os lares, além de serem um último recurso, têm preços
elevadíssimos, incomportáveis para as famílias. No meu caso, pagava bastante mais de
dois mil euros mensais, um valor bem superior à minha reforma. Sem luxos nenhuns. Mas
podia visitar a minha mãe diariamente e ver como estava a ser cuidada, fundamental para
mim. Mas sinto que a sociedade continua sem dar resposta. Assim como não está a dar
resposta suficiente ao outro lado da vida, o início. A falta de infantários e outros
equipamentos, a ausência de suporte social para quem está a iniciar uma família, também
é grave. Portanto, a vida não está nada fácil. Para ninguém.

Nem mesmo para os Senhores Matos desta vida, que têm algum dinheiro, tempo
disponível e saúde…

O conto é obviamente ficção, mas baseou-se na realidade de pessoas que conheço, em


situações parecidas. Normalmente, vou buscar à realidade grande parte do que escrevo.
Um gerente de banco aposentado, viúvo, que tem todo o vagar do mundo e, a maior parte
do tempo, finge que vive. Para pessoas com um perfil psicológico como o do Senhor
Matos isto é terrível. Como têm todo o tempo disponível, ficam perdidos num deserto, sem
direção, e não conseguem fazer nada. Há pessoas que nem sequer tinham um hobby
quando trabalhavam, nem que fosse fazer uma caminhada. Quando se reformam ficam
completamente desorientadas.

“Demorava-se no cemitério cinquenta minutos aproximadamente. (…) Sentava-se


depois na beira da campa e olhava o céu e as árvores. Os cemitérios eram lugares
pacíficos”. Envelhecer também é pensar mais na morte?

Quando somos muito jovens, sentimo-nos imortais. Só depois, à medida que o tempo
passa, é que vamos percebendo que, de facto, o tempo é um bem escasso, que temos de
gerir o melhor que soubermos. Mas penso pouco na morte, e com serenidade. Já decidi
que vou ser cremada. Não vou ficar em campa nenhuma, regresso aos elementos, ao

vento, à terra, à água.

É crente?

Essa é uma pergunta difícil. Não me sinto a pertencer a igreja nenhuma, mas acredito em
Deus. Acho que Deus está muito para além das religiões e é, se calhar, algo que temos
no nosso ADN. A nossa espécie foi evoluindo e tem necessidade de perceber que existe
muita coisa para além da nossa capacidade de compreensão. Acredito numa
transcendência, tenho essa noção, que é obviamente mais da ordem do sentimento do
que do racional. Acredito que existirá uma dimensão qualquer para além do tempo e do
espaço, a que chamamos Deus. Mas não me sinto amargurada com esta questão, até
porque, se Deus existir, não poderá ser mau nem estúpido, e por isso não terei de me
confrontar com uma entidade malévola, o que me deixa tranquila. Mas claro que não sei
definir Deus, está para lá de tudo o que possamos imaginar.

“Quando filhos e netos moram noutras cidades mas se juntam todos no Natal, é
suficiente?”
É muito pouco. E há famílias que, mesmo assim, se juntam nessa altura por “obrigação”.
Infelizmente, muitas vezes não têm grande prazer em estar juntas, o que é triste. Porque
se perdeu um pouco a noção de família alargada, de família com quem efetivamente se
partilham as coisas. É uma consequência do tipo de vida que levamos, muito mais
isolada.

“Ela [a empregada do Senhor Matos] tinha um marido jovem, com trinta anos como
ela, onde é que ele tinha a cabeça. A cabeça e o resto, meu Deus…” O desejo não
envelhece?

Nem o desejo, nem o amor, nem o sexo. Por momentos, no conto, o Senhor Matos olha
para a empregada com desejo, sim, mas sabe que não tem qualquer hipótese. O desejo
está vivo e o sexo é de todas as idades. Depende da forma como as pessoas o encaram
e da forma como se sentem, física e emocionalmente. Mais uma vez, isso é sobretudo
uma questão individual. O envelhecimento está em grande parte na cabeça das pessoas.
Também está no corpo, claro, mas está mais na mente. O envelhecimento não tem de ser
necessariamente uma desgraça que nos cai em cima. Ouvi de uma mulher que conheço o
quanto se sente angustiada quando se olha ao espelho, não aceita de modo nenhum
envelhecer. Deve ser terrível viver assim. Quando se recusa o que o espelho nos devolve,
é terrível. A maior sabedoria que podemos alcançar é a de que somos mortais, e viver
tranquilamente com isso.

“Pois a velhice não trazia nada de bom, nem sequer trazia nada. Só levava”. Então
não é assim?

Não. Também traz. Mas quando, por exemplo, se perdem capacidades mentais e se tem
consciência disso, acredito que possa ser dramático. A minha avó lia sempre o mesmo
livro, chegava ao fim e recomeçava, porque já não se lembrava do que tinha lido. Quando
se perdem as qualidades mentais, a velhice é um roubo, sim. De outro modo, ganha-se
maturidade, serenidade, sabedoria. Temos é de nos manter ativos e não esquecer que o
cérebro também se treina. Paracelso dizia que enquanto uma obra nos ocupa
inteiramente, não envelhecemos. Dizia que queria entrar na eternidade com a caneta na
mão. E Schiller morreu a escrever. Faz-nos bem olhar esses exemplos. O importante é
sentir que fizemos tudo o que nos foi possível, e demos o nosso melhor.

“Claro que podia tirá-lo da máquina (ao dinheiro), mas entrava em vez disso no
Banco, desculpava-se com a vista fraca”. A solidão é que dói…

Sim, os mais velhos sofrem muito com a solidão. Há tantas pessoas a procurar
companhia… Trabalhei bastantes anos num voluntariado, com vista a atenuar a solidão
dos outros. E foi algo que me fez sentir útil. Sou aquele tipo de pessoa com quem os
outros gostam de meter conversa. Há dias, no metro, uma senhora tirou de um saco uma
blusa que tinha comprado e perguntou-me se a achava bonita, para uma neta de vinte
anos. E outra, em frente a uma vitrina, perguntou-me: De qual dos tecidos gosta mais?
Normalmente, são senhoras velhinhas que – imagino – vivem sós e não têm com quem
conversar. E eu respondo sempre e converso. Lisboa ainda vai tendo destes episódios.
Fazem parte do quotidiano do bairro, dessa vida em comunidade que está a desaparecer.
Estamos a construir uma sociedade cada vez mais desencontrada de si mesma. Cheia de
pessoas que não falam com ninguém, morrem em casa sozinhas e só anos depois são
encontradas.

“Olhava com estranheza os homens apressados, na rua, a caminho do trabalho.


Como se nunca os tivesse visto, e ele próprio nunca tivesse sido um deles”.

Pessoas como esta personagem vivem o drama de não saberem ocupar o tempo, ou,
pior, de não terem vontade de o fazer. E sentem-se excluídas. Mas, confesso-lhe que,
atualmente, com a elevada taxa de desemprego, me preocupa sobretudo o quanto
angustiante deve ser o sentimento daqueles que, vendo os outros irem trabalhar, estão
privados de o fazer. Isso dói-me muito, ver tantas pessoas jovens excluídas da vida ativa.
Não há perdão para a situação a que chegamos na Europa e em Portugal. Há
responsabilidades a pedir a quem nos conduziu a esta situação. Temos de exigir que as
coisas mudem. Vivíamos numa ficção e não sabíamos. Agora, temos de agir. Acredito
mais na sociedade civil dos que nos políticos.

“Porra, mas havia de certeza alguma coisa que ele podia fazer para ocupar a tarde.
A sociedade, os governos ou o raio que os partisse até tinham inventado uns
quantos programas a pensar nos velhos. Centros de dia por exemplo…”.

Lares, centros de dia, são uma realidade que não me é estranha. Mas é preciso fazer
mais. Como as respostas não são suficientes, a sociedade civil tem de se organizar.
Formar clubes, associações e grupos, organizar passeios, workshops, viagens,
atividades. E exigir que os lares não sejam sobretudo um negócio. Não nos podemos
acomodar. Estou confiante que este Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e
Solidariedade entre Gerações possa gerar atividades e espaços de encontro que vão para
além do ano em si. Mas o mais importante é sempre a vontade e o empenho de cada um.

“Universidades para eles? Não valia a pena fingir. Para eles o que havia eram lares,
infantários da terceira idade, com fraldas, babetes. E açoites no rabo, segundo
alguns.”

A violência contra os idosos é uma realidade preocupante. Os telejornais vão mostrando


isso: lares que fecham por falta de condições, pessoas que são maltratadas. Os velhos,
como as crianças, estão muito fragilizados. Relativamente às universidades, não estou de
acordo com a personagem. Entendo que as universidades da terceira idade são ótimas e
até conheço pessoas que, nesse âmbito, fazem investigações muito interessantes,
históricas, patrimoniais ou outras. Estar sempre a aprender é uma atitude imensamente
construtiva.

“Atravessou o jardim público, aquela hora já cheio de velhos ociosos, sentados nos
bancos”.

Impressionam-me os velhos, parados no jardim a olhar o vazio. Também eles, como a


personagem, “esperadores”. Parece que o ofício deles é esperar, numa passividade
aflitiva. Quando as pessoas desistem de viver, uma das coisas graves que acontecem é
entrarem em depressão. E isso é também um grave problema social.
“A Izilda é que gostava de viajar, de conhecer outras coisas, sonhava visitar outros
países. Não tinha passado de Espanha e de uma ida a Paris…”. Tem sonhos por
realizar?

Tenho ainda alguns que espero concretizar. Por exemplo, nunca fui a Veneza e quero ir.
É uma das cidades que não conheço e quero muito ver. E tenho outros pequenos sonhos
por realizar. De resto, tenho muito trabalho, que é o que quero ter sempre, e faço-o com
imenso prazer. E isso é um privilégio.

“Ter-lhe-ia sido, alguma vez, infiel?” Pensava o Senhor Matos…

Essa é a parte mais irónica e ao mesmo tempo mais cruel do conto. O vazio da sua vida é
tão grande que ele deseja encontrar provas da suspeita que construiu, de que a mulher
lhe foi infiel com o seu melhor amigo. A fidelidade assume importância maior ou menor
conforme as pessoas, para o senhor Matos seria um imenso terramoto emocional. Mas,
apesar de extremamente doloroso, ele deseja-o, para sentir que está vivo.

“As mulheres nunca deitam fora essas coisas”. Também guarda cartas?

Das que o senhor Matos procurava? Dessas não tenho!...[risos] Os escritores, talvez até
ao século passado, juntavam montanhas de cartas. Agora mudámos para os emails, que
são efémeros … Algumas cartas que guardei ficarão no meu espólio, e, se alguém lhes
encontrar utilidade, poderá publicá-las. Mas não sou muito de guardar, deito fora muita
coisa. O meu marido, nesse aspeto, é muito mais conservador do que eu.

“Viu as fotografias do álbum de retratos (…) e outras que tinham ficado de fora,
dentro de envelopes”. Que fotografias guarda?

Fotografias, guardo todas. Tenho muitos retratos da família. O meu pai fazia filmes em
Super 8 e um tio, irmão do meu pai, fazia belíssimas fotografias. Minhas, tenho poucas.
Não gosto muito de tirar fotografias.

[mudança de conto]

“Ir à praia com a avó era das melhores coisas que lhe podiam acontecer, nos dias
livres”.

Gosto muito de ser avó, é uma segunda oportunidade de conhecer e lidar com as
crianças, já com uma certa bagagem que, com os filhos ainda não tínhamos. É um reviver
desses tempos, mas de outra maneira, com mais sabedoria e tranquilidade. É menos
pesado do que ser mãe e é uma situação de grande prazer para avós e netos.
Estabelece-se uma relação muito importante e até equilibradora, entre as gerações.
Agora que são adolescentes (dois rapazes de 12 e 14anos) o meu papel de avó adaptou-
se às circunstâncias. Sou exigente, há sempre regras e horários, mesmo quando vão de
férias connosco. Todos trabalhamos e temos as nossas tarefas. E vamos à praia,
fazemos passeios, levo-os ao teatro e à ópera. Já os trouxe aqui, a esta sala, que é muito
bonita. Gosto de lhes mostrar Lisboa. Levei-os à ourivesaria Aliança, antes de ela
desaparecer. O meu marido também adora estes programas com os netos. Como não
tivemos rapazes, ele é muito feliz por ter tido agora esta oportunidade.
“A mãe do neto confiava nela. A avó sentia-se orgulhosa. Ainda era suficientemente
forte por ter alguém por quem olhar”. Quer comentar?

Pois é, quando podemos ajudar e somos úteis sentimo-nos muito melhor. O problema
surge quando começamos a notar que já não confiam em nós e que já não estamos
integrados nos afazeres familiares. A intergeracionalidade também é isso, participar nas
tarefas diárias, quando estamos juntos.

“Ainda era uma avó útil, antes que viesse o tempo que mais temia, tornar- se um
encargo”. É um temor?

É horrível perceber que somos um encargo para os outros. Vou dizer-lhe: sou a favor da
eutanásia. E deu-me uma imensa tranquilidade a notícia, que vi algures, de que na Suíça
há uma clínica para pessoas que queiram utilizar os seus serviços. Pessoas com doenças
graves, sem cura, em profundo sofrimento. Eu tenciono fazer isso, se alguma vez me vir
nessa situação. Inclusivamente, combinei com algumas pessoas amigas que, se
estivesse incapacitada, elas me levariam. Não quero passar por essa fase que vi a minha
mãe passar, da degradação da saúde física, de grande sofrimento.

“Quando saía com o neto, a avó tinha a sensação de entrar para dentro das
fotografias, tiradas nos mesmos lugares, muitos anos antes”. Devemos ou não
voltar aos lugares onde fomos felizes?

É uma boa pergunta. Eu volto sempre. Ainda está na família a casa dos trisavós e
bisavós, onde nos encontramos espaçadamente. E eu gosto muito. De cada vez é
diferente. Há pessoas que vão faltando, que já cá não estão. Mas a vida é assim. Olho
para isso tudo com tranquilidade. E gosto de lá voltar. Mas, não sou pessoa de ir, por
exemplo, ao cemitério, não cultivo esse saudosismo.

“Outras vezes a avó pensava que a vida era como uma lição já tão sabida, tão
aprendida de cor e salteada, que ela se sentia verdadeiramente mestra”. Sente-se
mestra?

Oh, não, mestra, não. Mas tenho a sensação de ter uma experiência, que acumulamos
com o tempo e nos traz uma certa paz e talvez alguma sabedoria. Sabemos mais ou
menos como as coisas acontecem porque já as vimos acontecer, a nós ou a outros. Em
muitos aspetos, a vida é uma espécie de eterno retorno. As coisas vão voltando, não em
círculo mas em espiral, porque é sempre diferente.

Tem “a sensação de entender o mundo”, como esta avó, que inventou?

Às vezes sim, outras não. Na escrita, procuro isso, entender o ser humano e o mundo.
Quem somos, o que andamos aqui a fazer, como é a nossa sociedade, o que podemos
mudar em nós e no mundo à nossa volta. Essa é uma das motivações para a escrita. Um
trabalho de atenção. E de escuta.

Onde “vê o mundo mais desfocado”, mesmo com óculos?


[Risos]. Essa pergunta tem sentido de humor, como a avó do conto… O mais difícil de
entender é a vida, claro. É muito complexa, estranha e difícil, para toda a gente. E tem
lados dolorosos. É uma tarefa que exige força e coragem. Não há receitas que possam
ajudar. Mas esse também é o seu lado fascinante. É-nos dada a possibilidade de
escolher, embora às vezes seja tão difícil.

“Muitos anos atrás a avó perdera uma criança. A lembrança veio subitamente e ela
não conseguia afastá-la. Sempre quisera esquecê-la”. Qual a sua memória mais
antiga?

Ah! Não sei… tenho muitas memórias. Mas não consigo situar a mais antiga.

E há algo de que não queira lembrar?

Também não. Gosto de me lembrar de tudo. Gosto de recordar. Lembro-me de que o


Eduardo Prado Coelho dizia que nunca seria romancista porque esquecia tudo. Eu sou o
contrário, não esqueço nada. As memórias em mim são muito intensas, e a cores. Os
sonhos também, são muito fortes e sonho muito. A memória é fundamental para um
escritor. Nesta passagem do conto, refiro-me à perda de um filho. Essa deve ser a
experiência mais aterradora e dolorosa. Felizmente nunca passei por ela, mas tenho
amigas que passaram, e que admiro muito. Uma dessas amigas é a Manuela Carneiro
Pinto, fundadora da Associação Portuguesa de Spina Bífida e Hidrocefalia. Teve um caso
desses na família e, em vez de se fechar no problema, criou uma associação para ajudar
outras famílias.Com uma enorme generosidade e uma enorme coragem. Sem perder a
capacidade de sorrir.
Depois de uma estreia aclamada pela crítica com “Campo de Sangue”, Dulce Maria Cardoso regressou
com um romance sobre a morte. “Escrevi sobre a morte, com o intuito de celebrar a vida. Nada torna a
vida mais urgente do que a proximidade da morte” Este foi um alerta que Dulce Maria Cardoso deixou
aos seus leitores, na sua entrevista a propósito de “Os Meus Sentimentos” (Edições ASA). Um ponto de
partida para uma conversa sobre livros, literatura, escrita, imaginação, leitores, pessoas… a vida em
geral.
De que trata o seu romance “Os Meus Sentimentos”?
É um livro sobre a morte, não a morte física, mas todo o tipo de morte. O que me interessava era a
ideia de que os vivos são pedaços de mortes, morte do tempo, morte de sonhos, a morte de ideais, a
morte que cada nascimento representa – é a morte da grávida, daquele ser duplo que durante nove
meses existiu. Uma vez que era sobre a morte em geral achei que este livro deveria ter uma estrutura
circular no sentido de dar a eternidade. Achei também, em termos de escrita, que não iria usar tempos
verbais no condicional uma vez que isto é tudo uma hipótese – durante três anos que escrevi não
decidi se a senhora morreu ou não. Não uso futuro porque a morte rouba o futuro, não uso pontos
finais porque achei que era uma redundância… são brincadeiras que faço.
Quando termina um livro, sente saudades desse mundo onde trabalhou durante tanto tempo?
Sinto, mas resolvi isso habilmente porque em cada livro meu aparecem as personagens anteriores,
como secundárias. Elas acompanham-me. É como se criasse um universo paralelo onde estão todos.
Não acha que o facto de, hoje em dia, qualquer pessoa poder escrever um livro acabe por ser
prejudicial à qualidade literária?
Não, acho é que dá mais trabalho aos críticos e a quem se interessa por literatura. Se se publicarem
duzentos livros, em vez de cinco, é mais provável três serem muito bons. A quantidade ajuda.
Também há vários públicos que devem ser respeitados. Há vários tipos de literatura, nem sempre é
justo os rótulos que se colocam.
O que se poderia fazer para melhorar os níveis de leitura em Portugal?
Melhorar as condições de vida dos portugueses! Eu leio muito, mas se tivesse de me levantar às seis
da manhã, pôr um filho no infantário, outro na avó, levar a marmita… os livros são caros, as pessoas
estão cansadas… Ler é um prazer, mas é preciso que as necessidades básicas estejam satisfeitas.
Não podemos pedir a pessoas que trabalham dez a doze horas e ganham o salário mínimo que
peguem num livro. No dia-a-dia o que precisamos é de ter comida, estar agasalhados e ter casa.
Também saímos de um regime que nos tolheu, em que qualquer actividade, mesmo ler, era perigosa e
não é numa geração que isto muda.
Muitas vezes vendem-se livros para embelezar estantes. Deve ser um bocado frustrante para um
escritor?
Vender é bom, ser lido é óptimo. As pessoas cada vez mais compram por impulso e as capas e os
títulos têm uma função muito importante. O sonho de qualquer escritor é ser lido. Se disser o contrário
tem um problema grave. Escreve e publica para comunicar.
Tenho para mim que um livro morre nas mãos de um escritor quando o acaba e é nas mãos dos
leitores que ressuscita e nesse processo há sempre um novo livro. Não há ninguém que não tenha
falado do que tenho escrito que tenha sido semelhante ao que quis escrever e isso é que é
interessante. A diferença é sempre tão grande entre o que escrevi e o que os leitores leram que chego
a perguntar se não há qualquer coisa que ganha autonomia neste processo.
Consegue viver-se da escrita em Portugal?
Eu não consigo (risos), mas foi uma opção que fiz. Como para mim a escrita é tão absorvente, sou
muita lenta, não poderia fazer outra coisa. Não se vive, prescinde-se de outras coisas, arranja-se
maneira de concorrer a prémios, bolsas, coisas que não são ordenados e esse é o problema dos
criativos.
Não acaba por ser limitativo e prejudicial para o processo criativo ter de pensar nesses problemas?
Acho que se escreve no presente para o futuro. Penso sempre que um dia isto vai compensar, que um
dia terei a obra que quero. Depois tem um reverso da medalha porque não faço concessões, escrevo o
que quero porque a única vantagem da arte é a verdade que cada autor pode pôr. A mais-valia da arte
é a autenticidade. Quando isso se perde estamos a falar no artifício.
Costuma contactar muito com os seus leitores?
Pouco, porque não saio muito. Acho um bocado perversa esta coisa do escritor vendedor, publicitário,
relações públicas… acho que se perde muito tempo nos arredores da arte e se deixa pouco tempo
para o essencial.
Mas tem uma boa relação com os leitores?
A experiência mais gratificante que tive foi numa ida a Loulé a convite da Câmara em que falava com
os leitores. Aí sim, as pessoas gostam realmente de literatura.
Mas os livros agora têm de se bater com a televisão e com o cinema, que são muito mais fáceis e
imediatos?
Sim, mas a leitura tem uma vantagem que é a imaginação. Ou seja, um leitor é dono de imaginar tudo.
Num filme é tudo evidente e num livro não. Cada livro é o que cada leitor quiser que ele seja.
Como é que se passou a transição da advocacia para a literatura?
Uma vez que não tenho a capacidade de perceber as leis de Deus, ou seja, não tenho jeito seja para
Física e a Matemática (risos), talvez a lei dos homens me fosse acessível. E também porque me é
muito cara a justiça. Uma sociedade sem justiça é uma sociedade condenada.
FE- Já faz mais de um ano (11.02.09) que foi convidada a dirigir a Casa Fernando Pessoa.
Como recebeu esse convite?
IP - O convite, para ser sincera, recebi com surpresa, com o agrado de se terem lembrado
de mim, mas a minha primeira resposta foi não, não, não. Não estou à procura de um
emprego das nove às cinco. Depois falou-me Francisco Viegas, o anterior director: não é
das nove às cinco! Aquilo é muito tranquilo. E, de facto, o contrato não tem qualquer
horário.
Só que eu devia ter-me conhecido melhor. Estava muito centrada em ter tempo para
escrever, porque durante anos no jornalismo, não o conseguia ter. Quando tinha
jornalismo, fazia jornalismo a tempo inteiro, não tinha tempo para pensar, para ler,
disponibilidade mental; e, depois de ter deixado o jornalismo, na realidade, até foi o
jornalismo que me deixou a mim; mas enfim, depois dessa mudança de vida, habituei- me
a ter outros tempos e até não me habituei muito, porque as pessoas solicitavam-me para
muitas coisas fora de Lisboa, animei várias comunidades de leitores ao longo dos anos em
bibliotecas pelo país todo e estava numa fase em que pressentia que precisava mesmo
assim de aprender a dizer que não, daí a minha reacção inicial; mas, por outro lado, o
Francisco disse-me que não havia obrigatoriedade nenhuma e o facto de não haver livro de
ponto já me acalmou e depois acabei em vez de entrar às nove, porque de facto nunca entro
às nove, e sair às cinco, entro às onze às vezes ao meio-dia e saio à meia-noite, ou à uma.
Por um lado, já tinha carinho pela Casa, conheço a Casa desde o início, sempre gostei
muito do projecto e, a equipa é muito estimulante. Entrei em Fevereiro, tinha começado o
ano dos 120 anos do Fernando Pessoa, achei que tinha pelo menos que experimentar e, de
facto, estou muito contente por ter aceite, porque tem sido muito entusiasmante, embora
prejudique o meu trabalho mais pessoal, a minha trajectória mais definida, que é a escrita.
Mas digo sempre: prejudica mas também alimenta, até porque
necessariamente fui reler Pessoa. Ainda agora, ando a reler, em particular o Livro do
Desassossego, porque temos uma série de acções pensadas para o ano que vem em torno do
Livro do Desassossego e é um livro tão inspirador que também acaba por me alimentar
como escritora: o contacto mais directo, mais diário com a obra de Pessoa.
Por outro lado, tinha saudades de trabalhar em equipa e de fazer projectos, ou seja, há um
lado meu que tem a ver com os vinte anos, mais ou menos, de jornalismo que exerci, que
gosta da adrenalina, de ter datas para cumprir, de ter projectos com outras pessoas, de ter
impossíveis para alcançar, de ter de fazer um texto em muito pouco tempo, ou de não ter
condições para e arranjar essas condições e, portanto, isso acaba por me estimular e como:
desde que o grupo seja bom, nem noto que estou a trabalhar; é uma coisa que me
entusiasma mesmo e aqui foi o que aconteceu; portanto, entusiasmei- me muitíssimo,
havia muito entusiasmo disponível. Até porque a Casa também tinha muito poucas
condições materiais de funcionamento no período em que entrei. O orçamento anual da
casa para actividades era de 15 000 €, o que não dá para nada. A Casa faz parte da Câmara
Municipal e tinha havido uma certa desistência das pessoas de lutarem contra a falta de
dinheiro e contra a máquina, porque às vezes nem é tanto a falta de dinheiro e eu isso
percebo muito bem. Mas o facto de, para qualquer pequena acção se ter de fazer vinte
procedimentos, quarenta mil ofícios, muita burocracia, ou seja: conseguir ter sempre papel
higiénico nas casas de banho era uma complicação, as pessoas da casa pagavam as águas
dos debates em roulement entre elas e sentiam-se já muito desgastadas. A Câmara estava
numa situação particular, tinha mudado a gestão há pouco tempo, estava de facto com um
buraco financeiro enorme e tinha passado por um período de gestão conturbada, que se
reflectiu também nas condições da Casa. Consegui, por um lado, ter a compreensão, que
não o dinheiro, do presidente da Câmara e do Executivo para o facto de que isto tinha de
funcionar de outra maneira. Claro que as coisas demoram. Por exemplo, vamos reabrir a
cafetaria, que estava desactivada, e vai ser transformada em restaurante.
FE - Um espaço mais agradável...
IP - Um espaço mais agradável, que nos permitirá, com bom tempo, fazer actividades ao ar
livre. Temos uma escada lindíssima, que também que temos de reparar. Para
acontecimentos musicais, podem utilizar-se as traseiras do edifício. Enfim, este é o
exemplo mais vistoso, mas do ar condicionado, que não funcionava, aos problemas
eléctricos, há toda essa parte estrutural que se foi resolvendo a pouco e pouco, com o apoio
da Junta de Freguesia local e das outras duas freguesias ligadas a Pessoa, que se uniram
para nos ajudar a equipar a Casa; portanto, foi uma boa sintonia.
FE - Sendo público que sucedeu a Francisco José Viegas, que por sua vez sucedera a Clara
Ferreira Alves, tendo sucedido a Manuela Júdice, pode dizer-se que os dirigentes formam
uma maioria qualificada de mulheres, dirigindo a casa de um homem?
IP - Aqui é particularmente irónico, não? Costumo dizer que esta casa nasceu com uma
mulher, porque o projecto nasceu de facto com a Manuela Júdice, e com muita paixão da
parte dela e com muito empenhamento e, se temos o acervo extraordinário de pintura que
temos devemo-lo a ela, claro. Depois, os directores fazem o que podem consoante o facto
de isto estar tão dependente da política camarária e às vezes demasiado dependente
directamente do poder político - que não é só o do presidente da Câmara, porque o nosso
orçamento teve de ser aprovado também pela oposição. As pessoas às vezes não têm noção
porque o governo central pode fazer imensas coisas, há muita legislação que pode não
passar pela Assembleia e tudo o que se decide na Câmara passa pela Assembleia Municipal
e um governo minoritário tem muita dificuldade, mas mesmo muita, em fazer passar as
coisas. Portanto, o espectro de acção de um presidente é muito limitado e numa casa onde
não há pão há sempre problemas, porque não há dinheiro à partida para nada.
FE - É quase uma luta pela sobrevivência?
IP - Tenho concentrado os meus esforços em conseguir transformar a Casa numa
Fundação Municipal - já outros directores, aliás, tinham falado disso. Temos os Estatutos
prontos e, sem essa transformação, não nos é possível crescer, nem dar a Pessoa a
expressão que o mundo inteiro - à excepção de Portugal - entende que ele merece!
FE - Criar uma imagem de independência, talvez?
IP - Com a Fundação, a Casa fica com um corpo gerente e com uma autonomia; passa a ter
gestão própria, uma capacidade de decisão muito maior, porque todo o dinheiro que
qualquer equipamento cultural faça vai para a Câmara Municipal. Sem autonomia, não
temos a hipótese de cobrar ingressos, nem de rentabilizar as actividades através da venda
de produtos com a marca Pessoa. Por outro lado, criámos um projecto educativo sério e
continuado. Estamos a fazer uns cadernos para distribuir pelas escolas de Lisboa: são 88
escolas e 15 000 alunos e a imprensa municipal não tem capacidade, de repente, para fazer
uma tiragem dessas mas vamos a pouco e pouco. Vamos começar por trabalhar com umas
dez escolas, com um caderno que se chama Clube Pequenos Pessoas que é um resumo da
vida de Fernando Pessoa e dos heterónimos, com os seus poemas infantis, que são muito
divertidos e com exercícios lúdicos. Vamos pedir aos professores que aquele caderno faça
parte do programa do ensino básico, 1.° ciclo, e nós vamos acompanhando o trabalho.
Temos, em permanência, ateliês de expressão musical, de expressão poética e de expressão
plástica e os miúdos fazem coisas maravilhosas: fizeram Lisboa toda com reciclagem de
cartão, fizeram esta rua e a Casa Fernando Pessoa. São extraordinários.
Já fizemos uma exposição de quartos de Pessoa. Entretanto, recompusemos o quarto como
era, com alguns móveis autênticos, que tínhamos, com as estantes e a cómoda. A Casa
esteve «alugada» ao Alberto Caeiro, e agora está «alugada» ao Ricardo Reis, sobre o qual
existem duas exposições, no 3.° andar, como houve já sobre Álvaro de Campos. O quarto,
notavelmente reconstituído por uma extraordinária dupla de funcionárias da Casa -
Gabriela Maldonado e Noémia André -, está habitado pelo médico Ricardo Reis e inclui, na
antecâmara, o seu consultório. A primeira directora teve uma ideia muito original, que
funcionou durante uns anos, que foi entregar o quarto a artistas plásticos para a respectiva
recriação. A opção agora é manter o quarto tal como era em vida de Pessoa - esta é, afinal,
a sua Casa-Museu -, mas transformá-lo em função da personalidade dos heterónimos que o
vão habitando. Em 2011, vai ter a personalidade de Bernardo Soares e vai ser o ano do
Desassossego, esperemos que haja dinheiro para o desassossego; mas, se não houver,
inventa-se.
Depois, há o problema dos livros da biblioteca pessoal de Fernando Pessoa, que
possuímos, cerca de 1140 volumes, que necessitam de restauro e para o qual conseguimos
um orçamento parcial. Como Pessoa escrevia muito a lápis, e este desaparece com o sol
então, pusemos os livros na cave. Estão fora da vista, mas estão disponíveis para os
investigadores. Uma equipa de investigadores ofereceu-nos a digitalização completa e
gratuita da Biblioteca, que está pronta e vamos colocar online dentro de muito pouco
tempo, disponibilizando ao mundo essa biblioteca preciosa, porque profusamente
manuscrita.
Esta casa é muito alegre, mas não é nada a casa que era quando ele cá vivia, porque o
prédio, quando a Câmara o comprou, foi reconstruído, pensando já em fazer dele um
centro cultural, mas com a ideia de, e muito bem, de se manter o espaço do quarto tal como
era.
Agora também acho que o museu não pode ser sempre só a mesma coisa, que é para as
pessoas terem vontade de vir vê-lo. E, como ele toda a vida foi tantos, o quarto vai
mudando consoante as personalidades dele que lá moram.
Às vezes as pessoas esperam que a Casa esteja como era em vida dele. Mas, além de Museu,
a casa é um centro cultural e tem a única biblioteca pública especializada em Poesia. E tem
um excelente acervo de pintura - Almada Negreiros, Júlio Pomar, Jorge Martins, Pedro
Proença, etc. A Casa está situada num bairro residencial, fora do circuito turístico, mas
com bom comércio. Tem o problema da falta de metro (embora planeado), e de pouco
estacionamento. A sinalética de Lisboa também não ajuda, não sei como é que um
estrangeiro aqui se orienta. Mas, temos o 28, que é um eléctrico turístico que vem do
Chiado, e até já pensei, embora com a Carris até agora não tenha sido fácil, que esse
eléctrico podia ter os desenhos de Fernando Pessoa, pagava com todo o gosto a pintura!

FE - O facto de ter vasta experiência como jornalista, faz de si uma líder sui generis?
Recordamos a rubrica que inicia para o Expresso, intitulada “Crónica Feminina”, tendo sido
convidada a desenhar e dar-lhe vida, enquanto coluna “supostamente” de leitura “cor-de-
rosa”. De um modo inteligente e arguto, conquistou para esse espaço os grandes temas da
condição feminina da época que ainda hoje são marcos da história feminista portuguesa.
Como era, então, escrever no feminino?
IP - Não sei o que é escrever no feminino. Creio que há marcas culturais do feminino na
escrita, como há do masculino. Só admitirei voltar a falar do feminino quando se fizer o
confronto com o masculino. Agora, olhar para essas marcas é um bom pretexto: a partir da
literatura, ver o que há de masculino e de visão feminina. Temos o problema de achar que
a legislação já nos equipara, que a igualdade está legalmente conquistada (estou a falar de
Portugal e do Ocidente) e, portanto, que já não há o problema do género, mas esse
problema subsiste, mesmo nas sociedades que acham que já não têm esse problema, em
marcas culturais muito específicas que não estão a mudar tão depressa como
esperaríamos. Nós não classificamos as mesmas acções da mesma forma, se forem feitas
por um homem ou por uma mulher, em muitos campos. A escrita traduz isso e às vezes
traduz isso de uma forma involuntária, muito forte. Por exemplo, uma das coisas do
feminino é que perguntam sempre a qualquer mulher que tenha uma actividade pública,
entre muitas outras coisas mais óbvias, como é que concilia a actividade pública, seja ela
economista, seja ministra, seja escritora, com as actividades domésticas, e não perguntam
isso aos homens. Além disso, perguntam sempre às escritoras: como é que consegue
quando faz figuras masculinas pôr-se na pele de um homem? Nunca perguntam a um
homem, nunca perguntam ao Saramago. Podem dizer: a Blimunda é extraordinária, mas
como é que se pôs na pele da Blimunda? Como? Acham isso normal? Porque um homem é
um deus e, portanto, tem o saber, e a mulher tem sempre aquela limitação do feminino e,
portanto, é suspeita quando fala de outra coisa.
No caso da Crónica, de facto, a oportunidade que me foi dada foi a de escrever uma página
para a mulher, dito pelo director do jornal, ao qual aliás estou muito grata, porque, pelo
menos, me deu essa oportunidade, e penso que, se olhamos para os jornais, verificamos
que ainda não há uma proporção equitativa de cronistas homens e mulheres. Mas há uma
questão, farto-me de a referir: as crónicas de mulheres não são citadas, consideradas, para
o melhor e para o pior, não são alvo de atenção como são as dos homens que, aliás, têm o
cuidado de se citar entre si, quer como adversários, quer como cúmplices. E há um outro
aspecto que é muito sensível, e isto só estando na pele do cronista é que se sente, é que as
pessoas pensam que me consolam, não me consolam nada até me desgostam, quando me
vêm elogiar, comparando com outras. No Expresso Revista, escrevem as mulheres, até
porque as mulheres são mais para a revista e os assuntos sérios são para o 1.° caderno, não
é? O Miguel Sousa Tavares não escreve na revista. Uma colega minha, que tem uma
crónica regular no Público, diz que, passados seis meses, perguntou ao director o que é que
ele achava da crónica e ele disse: “Ah! Não tive tempo de ler, porque tenho sempre muito
trabalho e tenho que ler as crónicas do Pacheco Pereira e do Miguel Sousa Tavares, para
ver se há alguma coisa que tenha que comentar no editorial”. Os leitores, apesar de tudo,
são mais democráticos do que as estruturas do poder. E se as mulheres têm espaço, devem
aproveitá-lo. Foi o que me disse, aliás, o director que me deu a oportunidade e me
reconheceu alguma qualidade, quando lhe propus uma revista feminina. E o espaço que há
deve ser ocupado na esperança de ser apoiado e reconhecido. Foi assim que o director do
Expresso, na época José António Saraiva, me disse: você não escreve nada do que eu lhe
pedi que escrevesse, não concordo com 90 por cento, ou mais, do que você escreve, mas
este é um jornal livre e, surpreendentemente, as pessoas gostam. Ao que respondi: pois é....
Extraordinário aquilo de que as pessoas são capazes de gostar... E ele riu-se. O mesmo
director, quando me mudei para a Marie Claire, aconselhava-me a arranjar um homem ou
dois para a redacção, porque lhe parecia que uma redacção só de mulheres devia ser um
terror. Repliquei: olhe a sua que é só de homens, ou, pelo menos, maioritariamente de
homens! E os chefes na época eram todos homens. Agora, o panorama já começou a mudar
um bocadinho, mas ainda não é propriamente um paraíso.
Mas as crónicas são boas não porque sejamos mulheres ou não. E porque é que nos
comparam sempre? Nos homens, não há essa noção de rivalidade permanente e quando há
uma rivalidade ideológica, criam-se polémicas, como na crítica violenta de Vasco Pulido
Valente a um romance de Miguel Sousa Tavares. Portanto, consciente ou
inconscientemente, de qualquer das maneiras, zangando-se uns com os outros ou não, eles
estão por cima do mundo e eles estão a dominar o jogo e eles são aquilo de que se fala e
isso continua assim. Quando, no Fórum das Letras, no Brasil, perguntaram a Patrícia Reis se
o seu romance era sobre o amor, ela respondeu: ah claro, quando uma mulher escreve
sobre o amor, é uma coisa fresca, é uma coisa cor-de-rosa, porque, se um homem escrever
um romance de amor é um tratado sobre a condição humana. Porque todos os romances
são romances de amor: a Guerra e Paz também é um romance de amor, não é? A Anna
Karenina não é outra coisa senão um romance de amor.
FE- No desdobramento de diferentes papéis, cronista, romancista, directora da Casa
Fernando Pessoa, mãe e mulher, é possível reconhecer-se como uma mulher que faz a
convergência dos valores de uma época?
IP - O facto de ter tanta consciência do meu género significa que ainda não vivo em
igualdade e isso sempre senti. Àquelas mulheres que dizem «eu nunca fui discriminada»
até costumo dizer que tive sorte na vida, uma sorte relativa, porque trabalhei para a sorte
que tive, entrei aos 19 anos para O Jornal, estive um ano a estagiar sem receber e, se fiquei,
foi porque o meu trabalho foi reconhecido e, portanto, não tive apoios à partida, nem os
desejaria, mas fiz um percurso de trabalho normal. Por exemplo, detesto que me telefonem
a perguntar se arranjo emprego a este ou àquele, porque nunca telefonei a ninguém, assim
como nunca telefonei a nenhum escritor. Na questão dos livros, tive a sorte de um editor
me perguntar se eu não estava a escrever um romance e que gostaria muito de o ler e de o
publicar, porque achava que, pela minha escrita, se notava que eu tinha esse desejo.
Portanto, tive um acesso mais fácil; mas, porque já estava a trabalhar na área da cultura,
foi um percurso decorrente do meu trabalho. Também é verdade que, nos jornais, tive
várias vezes que dizer que, por ser mulher, não tinha que ganhar menos do que o homem
que estava ao meu lado. E ouvi chefes dizerem-me: «para que é que precisas de ganhar
mais? Tu ainda és tão nova!» Devo dizer que senti muito mais esse paternalismo nos
patrões de esquerda que tive do que nos patrões de direita. Quando fui para o Independente,
cujos directores eram de direita, e me criticavam por ter aceite trabalhar com a direita,
afirmei: não sei, a direita paga-me o triplo do que me paga a esquerda e diz que faço o que
eu quiser e escrevo o que eu quiser porque gosta muito do que escrevo, querem ter um
jornal aberto. Realmente devo dizer que nos patrões de direita senti que a competência, a
originalidade e a força da escrita eram importantes e nos da esquerda senti que era
eternamente «a menina». Portanto, preferi ter os patrões de direita que tive do que os
patrões de esquerda: no Independente e na Marie Claire. Depois, tive problemas; mas,
porque há muito uma visão que tem a ver com o puritanismo ainda do Partido Comunista,
da clandestinidade, que é um puritanismo muito visível num livro como o Até Amanhã,
Camaradas! de Álvaro Cunhal, que escreveu sob pseudónimo, em que havia as
companheiras dedicadas que estavam na obscuridade e que alimentavam os homens que
andavam a lutar contra o fascismo e que não se pintavam; há um homem que se apaixona
por uma fulana dos correios que pinta os olhos, que usa meias de vidro e saltos altos e que
é uma provocadora. Esse puritanismo sentia-o ainda nos anos 80, na Faculdade. Se vestia
minissaias e punha um salto alto a malta da esquerda achava que eu era de direita porque
uma mulher de esquerda não podia rapar as pernas, andava de botas do Alentejo, mesmo
que fosse Verão e de saias rodadas. Portanto, havia todos esses complexos. Havia também
outras situações quando fui para o jornalismo. Referi logo que queria ir para a área da
cultura, mas puseram-me no Parlamento. Era um trabalho difícil e rapidamente percebi
que só mandavam as raparigas porque confiavam que elas teriam mais facilidade em
extrair informação aos deputados, sobretudo aos que vinham da província e se
deslumbravam mais. Os chefes diziam-nos que devíamos ir com decotes amplos para o
Parlamento. A certa altura, respondi a um deles: eu se quisesse seguir essa profissão, na
Avenida da Liberdade, ali encostada à porta com muito menos trabalho, ganhava mais
dinheiro!
Na Assembleia, também durei pouco, porque tinha um ar muito infantil. Também é
verdade que andava de jardineiras, sapatos de ténis, um estilo muito infantil e por isso eles
próprios desistiram, porque não tinha aquele perfil e também não fiz nada para o ter,
porque não queria ficar na Assembleia da República. Pedi apoio ao editor de cultura do
Jornal, onde estagiava, à época, o Fernando Dacosta. Admirava imenso a escrita dele e
supliquei-lhe: por amor de Deus, dá-me qualquer coisa para fazer na área da cultura! Ele lá
me deu uns trabalhos e acabei por ser convidada pelo José Carlos de Vasconcelos e pelo
António Mega Ferreira a ir para a redacção do JL-Jornal de Letras Artes e Ideias, do mesmo
grupo. Porque eu já queria escrever ficção, tinha imensa vontade de conhecer os escritores,
tinha imensa vontade de ler a ficção portuguesa que se publicava imenso na época. Quer
dizer, agora também se publica, mas apareceu a nova geração como uma grande força do
pós-25 de Abril: Lídia Jorge, António Lobo Antunes, João de Melo, Mário de Carvalho,
Hélia Correia ... aquilo que me interessava. Mas, mais do que ecoar os valores da minha
época, espanta-me, e já tenho escrito isso, que no século XXI ainda haja coisas que não são
dadas por adquiridas, depois de todo o trabalho que se fez e de todas as lutas que
existiram: que seja polémico o casamento das pessoas do mesmo sexo é uma coisa que não
me cabe na cabeça. Como é que se pode pôr em causa os direitos de escolha das pessoas,
como é que não se percebe que se está a discriminar, porque as pessoas depois adoecem e
não podem ter a pessoa com quem viveram toda a vida perto de si, as pessoas não têm os
direitos de herança que têm os outros casais. Portanto, como é que essa ainda é uma
questão hoje, que achamos que somos modernos e libertários? Não se trata de se
concordar ou não concordar, ou achar mais ou menos estranho, como é que a pessoa se
pode arrogar vetar a vida de alguém? Como uma lei se pode arrogar o direito de decidir a
vida íntima das outras pessoas, no século XXI? Neste aspecto, tive muita sorte, tive uma
mãe que toda a vida me disse que gostava de ter nascido no século XXII e que ainda hoje
mo diz. Tive aquela fase em que dizia: quem me dera ter nascido no século XIX, para ter
aqueles vestidos como do E Tudo o Vento Levou. E, para ir aos bailes, aos 15, 16 anos, tinha
esses devaneios, e a minha mãe dizia: que horror! Os espartilhos! A vida, era tudo um
drama! Se queres dançar a valsa, danças! Gostas de música clássica, podes ouvi-la! E, de
facto, ela vivia sempre a estranhar que as coisas não andassem mais depressa, quer
tecnologicamente, quer mentalmente - o culto das aparências e os cargos e as solenidades.
A minha mãe era e é muito terra-a-terra, muito ligada à vida real e acredito que ela está na
base da minha reflexão sobre os valores. Como é que as pessoas de esquerda podem
compactuar e silenciar a violência dos extremistas árabes e fazer dessa violência uma causa
da esquerda? Como é que se pode dizer que na cultura cigana tem de se respeitar a tradição
e deixar que tirem as meninas da escola tão cedo para as casar? Como é que aceitamos ser
tolerantes contra a intolerância, sem pensar nisso segunda vez e dizendo que são variantes
culturais? Portanto, a multiculturalidade, para mim, tal como é vista hoje, não faz sentido
nenhum!
FE- A crónica é um género que permite uma sintonia constante com o mundo, espaço de
interacção entre o tempo e a memória de uma sociedade, um povo, ou país. Que temas
abordados, nas suas crónicas, escolheria para expressar ou definir a voz de Inês Pedrosa?
IP - A voz é aquela coisa que nós não sabemos o que é, ou seja, defendo que um escritor só
é um escritor quando tem uma voz, mas isso é a grande busca, precisamente. Sinto que
estou a caminho da minha voz como escritora. É uma voz que tem um tom de indignação.
Acho que faz muita falta, e está fora de moda na literatura, a indignação. As crónicas que às
vezes provocam mais reacção, porque são sobre assuntos como a mutilação genital, ou os
atentados contra as mulheres, ou contra crianças ou se reportam a factos que estão a
acontecer agora e a guerras em curso, ou a justiça em Portugal, e que escrevo muito a
quente - procuro não escrever muito em cima da hora, o que às vezes acontece, para ainda
ter tempo de rever, até para não me distrair, para que não me perca eu mesma, não perca a
força do que digo pela veemência ou pela revolta - , mas acho que essa revolta faz falta e
sinto que as coisas que mais me revoltam são as que me fazem escrever com mais força,
com mais vontade. Lembro-me de que escrevi uma vez uma crónica sobre a violência sobre
as mulheres, por causa de uma actriz francesa conhecidíssima, foi há dois ou três anos, que
foi morta pelo namorado, que era um cantor, também conhecidíssimo. Mas, na altura,
apareceram umas capas, em França, de umas revistas, a justificar o crime com «o amor
extremo», que é outra fraude que se vende às mulheres, outra armadilha, o amor violento.
E escrevi essa crónica, gostei imenso de a ter escrito. Estava com uma intoxicação
alimentar fortíssima - é tão engraçado o efeito que a raiva tem sobre nós: eu, que nunca
tinha tido uma intoxicação, nem sabia o que era, senti-me muito mal, e tinha a crónica
para escrever e escrevi-a! Depois é que fiquei tão mal que durante três dias estive num
quarto fechada às escuras, nem ler podia, dormia, acordava... Como é que escrevi aquela
crónica? Tinha de escrevê-la naquele dia mesmo. Pensei: é tão forte o efeito da revolta e da
raiva que acaba por ser uma adrenalina. Acredito que faz falta agitarmos as pessoas,
porque somos tão bombardeados com acontecimentos globais que parece que já não vemos
que são pessoas que estão lá dentro e também já não vemos a forma como as histórias nos
são dadas e isso significa o prolongamento dos preconceitos e dos estereótipos que temos.
Uma outra crónica que me deu imenso gosto foi sobre uma capa do Nouvel Observateur, que
é de esquerda, com uma mulher nua, associada à filosofia. Eu pensei: aqui está uma
maneira de vender papel pretensamente com um tema feminista... Os filósofos e as
mulheres, portanto, não se cruzavam. Escrevi um texto sobre isso, não sobre o que
Aristóteles e Platão tinham escrito, mas sobre a visão contemporânea de que há os filósofos
e há as mulheres. Até porque ainda hoje nós assistimos ao nível da escrita a uma
disparidade de situações e reacções. Quando a Agustina dava entrevistas onde dizia que
escrevia bem, isso era comentado e troçado como vaidade. O António Lobo Antunes
chegou a Parati e disse: escritor genial, em Portugal, só eu. E foi aplaudido. A Agustina
disse sempre: “eu escrevo bem”, mas nunca disse: “sou só eu”. Voltando à indignação, o
português indigna-se pela calada, queixa-se no café. As pessoas dizem-me: «ah! Tens uma
coragem!» Não tenho coragem, tenho a obrigação de viver em liberdade, porque ainda me
lembro da não liberdade e porque o meu pai tinha um grande amigo que fez parte do grupo
dos capitães de Abril, que fizeram aquela revolução lindíssima, sem derramar sangue, para
a entregar à população civil. Agora tenho uma filha. Um filho coarcta-nos um bocado a
liberdade, mas, para alimentar a minha filha, eu seria capaz de tudo, até de me prostituir.
No filme Tudo sobre a minha mãe, do Almodovar, o filho pergunta à mãe: tu por mim serias
capaz de te prostituir? E ela responde: eu por ti já fui capaz de tudo. Mas abdicar daquilo
que eu sou, da minha liberdade e de dizer a verdade, não. Ocultar uma infâmia ou a maior
parte das pessoas que são injustiçadas nos locais de trabalho por isto e por aquilo também
não. Digo: falem, protestem! “Ah não, porque depois ainda é pior.” Então é porque querem
singrar no sistema! Se não põem em causa o sistema, não se podem queixar dele! O
problema em Portugal é que se quer sol na eira e chuva no nabal, agradar a gregos e
troianos. Estou sempre disposta a ajudar as pessoas, mas não a passar por cima de uma
injustiça.
E, com as crónicas, passou-se uma coisa muito bonita. Houve uma altura em que estava
uma enfermeira presa, antes de a lei do aborto ser aprovada. Foi denunciada por fazer
abortos, apanharam-lhe papéis, descobriram a casa onde ela os fazia e ela foi condenada a
oito anos de prisão por uso de drogas. Porquê? Porque ela comprava a medicação no
hospital onde trabalhava e não disse os nomes para não incriminar os médicos, mas nunca
teve nenhum caso de ninguém que morresse ou que ficasse mal. Ela fazia aquilo
profissionalmente, só que são drogas que saem do hospital ilegalmente e foi o bode
expiatório. Depois, lá livraram as mulheres, mas ela ficou com oito anos de prisão. Escrevi
uma crónica dizendo que não era possível que não houvesse um movimento para libertar
aquela mulher, que era o símbolo de tudo o que estava mal e da hipocrisia e que se devia
fazer um abaixo-assinado para pedir um indulto ao Presidente da República, o que é
sempre possível. Comecei a receber imensas assinaturas e respostas para o meu email ou
para o email do Expresso. Acabei por arranjar um site, com o apoio de juristas. Depois, na
campanha do aborto, vi muito isso: as pessoas que querem apoiar são muitas, mas as que
querem trabalhar mesmo são sempre muito poucas. O que é verdade é que se juntaram já
não sei quantas mil assinaturas. É que eram precisas 5000 para terem acesso ao
Presidente da República, que ainda indultou para metade a pena da mulher, da qual já
tinha cumprido metade. Para mim, o poder real é transformar qualquer coisa que achamos
que está mal. Essa sensação é inebriante... Às vezes, não me apetece escrever a crónica,
mas penso: tenho este espaço e este poder, que é o poder da palavra, que mobiliza e a
escrita pode transformar. Eu vi, ela transformou a vida daquela mulher, recebo imensos e-
mails de gente a dizer: «não chego a perceber bem qual é a sua posição política. Mas
agradeço-lhe o ter-me chamado para eu pensar livremente». Nós produzimos muito pouca
filosofia e a filosofia que produzimos vem do exterior: é o Eduardo Lourenço, que vive em
França; o José Gil que viveu muitos anos em França; o Boaventura de Sousa Santos, que
passa muito tempo no Brasil. Os que vivem cá em permanência têm muito medo de dizer
qualquer coisa que seja mal vista. Foi sempre muito assim.
FE- Perguntamos ainda se tem consciência da ponte que faz entre o Brasil e Portugal, através
da palavra escrita, onde os seus textos são muito bem acolhidos. A primeira viagem ao Brasil
é feita em 1999. Quer contar-nos em que circunstância se dá?
IP - Fico muito contente de saber. A minha história com o Brasil é o conto de fadas da
minha vida. Tinha um grande amor pela música brasileira e pela literatura brasileira desde
muito jovem. Em 99, houve uma grande embaixada de escritores para a Bienal do Rio,
comissariada pelo Eduardo Prado Coelho com José Saramago no seu papel de mister Nobel
a liderar as hostes. Iam para aí uns trinta. Eu vivia com o Fernando Pinto do Amaral, pai
da minha filha, que ia nessa comitiva. Ele perguntou: não queres ir? Sempre manifestara
desejo de conhecer o Rio. Quando chego lá, o próprio Eduardo Prado Coelho, coisa que lhe
agradeço, veio-me mostrar uma página inteira do jornal O
Globo sobre o meu livro Nas Tuas Mãos, escrita pelo crítico Paulo Roberto Pires, a dizer
maravilhas do livro. Depois, havia uma noticiazinha sobre a delegação, onde se dizia que a
autora daquele livro, que ele tinha lido em edição portuguesa, ia na comitiva, como mulher
de um poeta e não como escritora, o que dizia muito sobre a realidade portuguesa, porque
iam mais homens que mulheres e ia uma escritora que ia como mulher de um poeta. O
Eduardo sentiu-se atingido no seu feminismo, ele foi também um grande embaixador do
Brasil em Portugal, muito atento, quer à literatura brasileira, quer à crítica e aos jornais
brasileiros. Então disse-me isto: este crítico é muito bom, escreve muito bem e, se ele diz
que o teu livro é bom, é porque é bom e eu tenho que o ler. Eu respondi: olhe, ainda bem,
muito obrigada! Se não te importas - acrescentou ele - vou pôr-te no programa para vires
às Universidades. Entretanto, depois passou-se uma cena muito engraçada. Andávamos
em camioneta, para a Biblioteca Nacional, para a Academia Brasileira de Letras, a ver
vários monumentos, e lembro-me de ver um rapaz de óculos a chamar: Inês! Inês!
Andámos um dia inteiro e lá descobri esse tal Roberto Pires que, mais tarde, fez uma
entrevista comigo. Depois, ficámos muito amigos, tendo- me apresentado a outros
jornalistas. Tenho um projecto no Brasil para fazer uma peça sobre Mariana Alcoforado,
mas trazida para a contemporaneidade. Foi uma produtora de televisão, amiga do Paulo
Roberto Pires, a quem ele deu o meu livro para ler, que veio a Lisboa procurar-me. A partir
daí, estabeleci uma rede.
Depois, houve uma série de outras coincidências maravilhosas, em 2004. Há essa relação
de amizade muito forte que ficou, tanto que A Eternidade e o Desejo é dedicada ao Paulo e a
esta amiga de quem eu vou falar agora, que é uma estudiosa brasileira, chamada Maria
Lúcia Dal Farra, uma das pioneiras dos estudos de literatura portuguesa, uma mulher que
gosta muito da literatura portuguesa já desde os anos 60, 70, que esteve cá, fez a tese sobre
o Virgílio Ferreira, escreveu sobre Augusto Abelaira, sobre Cardoso Pires, sobre muitos
escritores dessa geração e a mim tinham-me pedido em Portugal para fazer um prefácio a
uma edição de cartas inéditas da Florbela Espanca, que tinha um aparato crítico e
académico da Maria Lúcia. Fui convidada para a Universidade de Berkeley como escritora
residente, onde encontrei a Maria Lúcia Dal Farra, que eu não conhecia, no momento em
que eu estava a fazer o prefácio para o livro dela. Confidenciei-lhe: é extraordinário,
pediram-me para fazer um prefácio para a sua edição. E ela respondeu: pois é, e eu queria
conhecê-la há tanto tempo, porque tinha lido Fazes-me Falta, do qual gostei muito e passei
a um grande amigo, o José Miguel Wisnik, que é professor de literatura na USP e músico.
Dois anos depois, ia encontrar- me com ele, em Berkeley, mas acabei por adiar essa
viagem, porque ia com a Agustina, que adoeceu, e ele foi. Portanto, houve um desencontro.
Vim, entretanto, a encontrar Wisnik aqui em Portugal, quando ele veio fazer um
espectáculo, tornei-me amiga dele e de um outro estudioso brasileiro que conheci em
Berkeley e que morreu há pouco tempo, Haquira Osakabe, um grande especialista de
Pessoa. Passei a conhecer muito mais escritores brasileiros, que Haquira me deu a
conhecer, embora seja especialista em literatura portuguesa. Ele é um grande apaixonado
da Agustina e eu, que tinha inicialmente contactos no meio jornalístico, passei a ter
também contactos académicos, por via dessas pessoas que são grandes seres humanos,
além de serem excelentes académicos. Queria que Haquira viesse ao Congresso do Pessoa,
mas, infelizmente, já não pôde vir. Cada vez que eu vou ao Brasil, conheço alguém. São
assim encontros centrais com pessoas que se tornaram muito importantes na minha vida.
Na segunda vez que fui ao Rio, o Paulo quis fazer-me uma surpresa muito comovente: no
jantar, em casa dele, apareceu o Caetano Veloso, que eu amo de paixão há muitos anos.
Tinha-o entrevistado duas ou três vezes, quando tinha vindo fazer um concerto em Lisboa,
nos anos 80. Tinham-me pedido um texto sobre o Brasil para a Egoísta e uma amiga,
editora, sugeriu: escreve uma carta ao Caetano, dizendo porque é que gostas do Brasil.
Tinha acabado de escrever quando ele chegou. A minha amiga fez-lhe chegar o texto e,
depois, no concerto, ele dedicou-me um fado que a minha avó me cantava. Ouvi-o: eu
gosto muito de cantar fado de vez em quando. Há um que eu ando a ensaiar há muito
tempo, que nunca cantei em público e é muito difícil. E ele explicou: o corte das palavras e
a pronúncia são muito diferentes dos do brasileiro. Ando há anos a tentar e não sei porque
é que insisto tanto num fado tão complicado, mas esta tarde percebi porque é que eu
andava a experimentar este fado: era para o cantar para uma pessoa, para a Inês Pedrosa.
Desatei a chorar. A partir de então ficámos com uma relação muito próxima.
O estudo de Maria Lúcia sobre as cartas de Florbela está escrito com muita clareza. O
prefácio não fala da análise literária, até porque essa já estava feita, mas fiz um texto mais
poético, do meu ponto de vista como leitora e, do ponto de vista ensaístico, sobre o que se
considera poesia séria e não séria, sobre os preconceitos que há em Portugal e no Brasil
não, a este respeito.
A Descoberta do Mundo é o livro dela de que gosto mais, à parte os Contos de A Legião
Estrangeira.
São só dez anos de uma relação tão densa e tão profunda com o Brasil, mas dois ou três dos
meus principais amigos são brasileiros e tenho mesmo falta de lá ir: por um lado, por essas
pessoas; e, por outro lado, porque sempre que aterro no Brasil sinto-me cheia de energia,
sinto-me compreendida.
FE - Que palavras escolheria para traduzir o que foi conquista e o que ainda é anseio na
história da trajectória das mulheres?
IP - É mais fácil começar por aquilo que ainda é anseio: o respeito e o fim do paternalismo
bem-intencionado, que é pior do que o machismo mal intencionado, porque mais subtil.
Engana mais... Quanto ao que foi conquistado, apesar de tudo, uma dose grande de auto-
estima e direitos civis.Mas falta conquistar também o direito à mediocridade. Não suporto
ouvir dizer a alguns homens que pensam que são feministas que fazem falta mulheres na
política, porque têm outro olhar e porque têm outra capacidade. Não: elas têm que estar
porque é justo, porque são metade da população. Acho que nunca haverá o mesmo número
de mulheres incompetentes que de homens, porque as mulheres esforçam-se mais e
porque culturalmente têm vantagens. Como sempre tiveram que fazer muita coisa, as
mulheres são estereofónicas e os homens são monofónicos: um homem não é capaz de
fazer duas tarefas ao mesmo tempo. Às vezes, alguns são capazes de fazer duas, mas nunca
três, quatro, ou o que for preciso, como as mulheres. Rio-me com uma amiga, que também
tem montes de trabalhos e escreve, porque estamos a mexer a sopa, ela está ao telefone
comigo, eu a ralhar com a Laura a dizer para não pôr os dedos na ficha enquanto o marido
lhe pergunta ela se a camisa está passada. Esta capacidade de tomar conta de tudo ao
mesmo tempo é culturalmente muito feminina. Os homens não estão preparados para
tratarem de tudo. As mulheres têm radar e os homens são educados para serem obsessivos.
Eu, que nunca gostei da Thatcher, nunca gostei de ouvir dizer que ela não era uma mulher,
porque era de ferro. Ainda há muito que combater os estereótipos.
Fiquei tão tocada pela figura, pela força, pela escrita da Clarice que a quero pôr como
personagem num livro, acho que ela merece ser tratada da mesma forma que Virgínia
Woolf e Miss Dalloway ...
Terminamos a nossa conversa com Inês Pedrosa, marcando encontro de novo com ela pela
escrita prometida, que promete!