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Atividade 5: Língua e Linguagem, na visão dos Mestres

A discussão pretendida gira em torno das concepções de língua e linguagem


apresentadas pelos grandes mestres da linguística, que estão no livro intitulado
Conversas com linguistas: virtudes e controvérsias da linguística, organizado por
Antonio Carlos Xavier e Suzana Cortez, publicado em 2003 pela editora
Parábola. Esses conceitos fundamentais ao trabalho da linguística são de difícil
definição e, por algumas vezes, controversos. Entretanto, a ideia de alguns
autores se aproxima bastante, especialmente no que diz respeito à relação entre
esses conceitos e sociedade.

A língua, para Ataliba de Castilho, deve ser definida através de uma “abordagem
multissêmica” que relaciona léxico, semântica, discurso e gramática através de
uma perspectiva sociocognitiva. A língua estaria situada na relação entre esses
elementos. Para o autor, a relação entre língua e linguagem remetem ao
estruturalismo: a língua entendida como um código abstrato e suas
manifestações concretas, como a fala, e a linguagem entendida como um meio
de comunicação não necessariamente verbal, um conjunto de sinais criados pelo
ser humano para se comunicar.

Fiorin, por sua vez, afirma que a língua está vinculada a uma sociedade; “língua
é a condensação de um homem historicamente situado”, “a concretização de
uma experiência histórica” (p. 72). Já a linguagem é a capacidade humana que
permite construir mundos, criar realidades e alcançar realidades não presentes.
A relação entre língua e linguagem está, então, para o autor, no fato de que a
língua está imbricada à sociedade e é parte constituinte da faculdade da
linguagem.

Já Mari Kato afirma ter duas visões sobre a língua: uma de caráter biológico,
derivada da visão chomskiana (língua-I), que envolve a ideia de que o ser
humano tem uma faculdade que lhe permite aprender uma língua, o que o
diferencia dos animais; e outra visão que deriva do conceito de língua
externalizada (língua-E), que é aquela produzida pelo homem, de forma
concreta, seja falada ou escrita. Já a linguagem, por outro lado, é tudo aquilo
que possui alguma estrutura e alguma informação; “é um termo muito mais
genérico” (p. 115). De acordo com os argumentos da autora, é possível inferir
que a língua está impressa na linguagem, contudo, ela não estabelece uma
relação clara entre esses dois fenômenos.

Marcuschi afirma que língua é algo de difícil definição, que é mais que um
sistema ou uma forma de dizer o mundo e que não é um sistema de
representação mental ou sistema de comunicação. Para o autor, a língua é uma
atividade que se desenvolve social, histórica e interativamente entre os
indivíduos, com o objetivo de se fazerem entender ou de construir um sentido
sobre algo. Marcuschi concorda com Chomsky quando entende a linguagem
como uma faculdade mental característica da espécie humana. A língua tem a
capacidade de organizar e concretizar essa instância humana da linguagem nas
atividades cotidianas situadas histórica, social e culturalmente. É nesse ponto
que se dá, para o autor, a relação entre língua e linguagem.

Para responder o que é língua, Diana Luz retoma a definição de Saussure: “o


que é sistemático e social entre os fatos da linguagem” define o que é língua.
Entretanto, a autora afirma que o conceito de língua se ampliou na medida em
que a sociolinguística, a pragmática e as teorias do discurso apresentaram novos
elementos relacionados a esse fenômeno. Língua e linguagem seriam, então,
elementos fundamentais para a organização do homem em sociedade, ou seja,
essas duas instâncias têm mútua relação com a sociedade.

Margarida Salomão considera ser mais importante a definição de linguagem, que


ela entende como uma capacidade humana que possibilita a representação do
mundo, seja para si mesmo, seja para os outros. Trata-se de uma semiose que
possibilita a representação do que está fora do contexto, a imaginação e a
memória. A língua, por sua vez, é a capacidade humana que permite essa
representação de mundo e de si, bem como a memorização de informações
diversas. Segundo a autora, língua, linguagem e sociedade têm uma relação
indissociável, já que língua é uma produção da linguagem situada sócio-
historicamente.
É possível perceber que as definições de língua apresentadas por Castilho,
Diana Luz e Margarida Salomão se aproximam, já que derivam da abordagem
estruturalista e, genericamente, a definem como signo ou código pertencente a
um sistema de representação ou comunicação. De maneira diferente, Marcuschi
não entende língua como um sistema, mas como uma atividade social e,
portanto, intrinsecamente humana. Já Mari Kato entende língua sob a
perspectiva gerativista, como faculdade humana e como produto concreto.

As definições de linguagem apresentadas por esses autores variam, de maneira


geral, entre as ideias de “representação do mundo” e “meio” de interagir e se
comunicar. É pela abordagem chomskiana que Marcuschi define linguagem:
faculdade humana em que a língua é uma das formas que essa faculdade
assume para as atividades de interação social. Mary Kato a entende como tudo
o que tem uma estrutura determinada e uma informação; Castilho como um meio
de comunicação; Diana Luz a define como aquilo que permite a organização do
homem em sociedade; Fiorin e Margarida Salomão afirmam ser uma capacidade
humana de construir representações.

As concepções sobre língua e linguagem são, portanto, variadas devido à


corrente teórica em que se baseiam ao fazer essa análise, aos fatores ligados a
essas instâncias que consideram ser mais relevantes e à perspectiva que
adotam nas pesquisas que desenvolvem no ramo da linguística. Sendo assim,
não é possível apresentar uma definição unívoca sobre o conceito de língua e
linguagem.

Talvez a forma como eu definiria língua seja controversa tanto em si mesma


quanto na comparação com a de outros autores, mas, como não há uma
definição absoluta para esse fenômeno, arrisco dizer que compreendo a língua
de duas maneiras: como uma atividade mental que se estabelece sobre uma
estrutura que recebe e processa códigos, e como uma atividade social, já que a
língua só é praticada a partir de uma interação social. Ainda que se pense na
língua como algo que se processa individualmente, ela é aprendida por meio da
interação social e, portanto, é socialmente estabelecida. Já por linguagem não
compreendo como algo único, porque existem várias linguagens que se
manifestam de maneiras diversas e com propósitos diferentes. As linguagens,
na minha visão, estão relacionadas às práticas sociais de interação e
comunicação, sendo que essas práticas sociais dependem do momento
histórico, do contexto e da cultura. Entendo, todavia, que as minhas
especulações sobre língua e linguagem são bastante precárias, mas a
possibilidade de refletir sobre esses conceitos a partir da perspectiva de
diferentes autores, ainda que apresentem definições controversas, ajuda a
compreender melhor esse complexo objeto de estudo da linguística.