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IGREJA LUTERANA

Revista Semestral de Teologia

1
IGREJA LUTERANA

SEMINÁRIO
CONCÓRDIA

Diretor
Leonerio Faller

Professores
Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Leonerio Faller, Gerson
Luis Linden, Leopoldo Heimann, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum,
Vilson Scholz

Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Paulo F. Flor
Norberto Heine

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de
Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB),
São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

Conselho Editorial
Paulo P. Weirich (Editor), Gerson L. Linden e Acir Raymann

Assistência Administrativa
Ivete Terezinha Schwantes e Alisson Jonathan Henn

A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana


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2
SUMÁRIO

ARTIGO
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA
LUTERANA 5
Dr. Christoph Barnbrock

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 22

RESENHA BIBLIOGRÁFICA 172

IGREJA LUTERANA
Volume 72 – Novembro 2013 - Número 2

3
ARTIGO

EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO


DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA1
Christoph Barnbrock2
Tradução: Vilson Scholz
Revisão: Gilberto Silva

1. ONDE, NA IGREJA, OCORRE A FORMAÇÃO CRISTÃ?

É provável que, quando alguém trata de educação cristã no contexto


da igreja evangélica luterana, provavelmente tenha em mente as formas
clássicas em que se processa a formação no contexto da igreja: escola
dominical para as crianças e instrução de confirmandos. Talvez acrescen-
te ainda a educação religiosa nas escolas, que, na Alemanha, está sob
a responsabilidade das igrejas, e ainda, em muitos lugares, o ensino de
doutrina cristã como elemento catequético no culto ou (principalmente
na Alemanha oriental) durante a semana.
É verdade que em todos esses contextos ocorre uma atividade formati-
va cristã. No entanto, teríamos um significativo estreitamento de foco caso
pensássemos que somente naqueles contextos ocorre formação cristã. As
pessoas aprendem na igreja de várias maneiras. Jovens e velhos partici-
pam de coros e conjuntos musicais. Aprendem, assim, a fazer música e
ao mesmo tempo crescem na tradição da música eclesiástica e na men-
sagem que ela traz. Em grupos de estudo bíblico, pessoas interessadas
conversam sobre temas bíblicos e doutrinários e, desta forma, aprendem
na companhia umas das outras. Outros buscam formação para poder
colaborar com o trabalho da congregação. Na SELK, a Igreja Evangélica
Luterana Independente da Alemanha, o curso teológico a distância oferece
um programa de formação que possibilita a membros da igreja engajar-se
de forma responsável no trabalho da congregação, sob a responsabilidade
1
Palestra apresentada na Comunidade Evangélica Luterana da Trindade, em Frankfurt, no
dia 10 de novembro de 2013. Para ser impressa, a palestra foi ampliada e foram acrescen-
tadas notas de rodapé. Na palestra, ocorreram dois momentos de discussão em grupo. O
primeiro, depois do ponto 2, girou em torno das seguintes perguntas: Quem ou o que foi
importante para o meu aprendizado na comunidade, seja como jovem ou já como adulto?
Quem ou o que me atrapalhou nesse processo? O segundo momento de discussão ocor-
reu bem ao final, com a seguinte pergunta: Como e o que as crianças e os adultos devem
aprender na congregação ou igreja?
2
Pastor da SELK (Selbständige Evangelisch-Lutherische Kirche, da Alemanha), formado
pela Lutherische Theologische Hochschule de Oberursel, Alemanha. Tem doutorado pela
Universidade de Göttingen (2002), com uma pesquisa sobre as pregações de C. F. W.
Walther, fundador do Sínodo de Missouri, no século XIX. É professor de Teologia Prática
em Oberursel desde 2011. Também é o representante dos professores de Oberursel na
comissão que gerencia o curso de teologia a distância, na SELK.

5
IGREJA LUTERANA

e orientação do pastor. E, por fim, é preciso mencionar o culto como um


lugar onde ocorre formação cristã dentro da igreja. Isto ocorre não ape-
nas quando se tem uma pregação de cunho mais catequético, mas pela
simples participação na liturgia. Quem participa do culto regularmente
assimila os textos fundamentais da fé cristã e aprende, pela prática, a ter
uma postura adequada, ganhando com isso competência religiosa. Seria
possível ampliar a lista de lugares e momentos na vida da congregação
em que as pessoas podem aprender, mas vou me limitar ao que acabo de
dizer. Espero que tenha ficado claro que a aprendizagem na congregação
e na igreja não pode ser reduzida a um “formato” específico, algo como a
instrução de confirmandos, mas ocorre numa variedade de formas.3 Mas
isto também já permite ver que, ao longo das últimas décadas, a atividade
de educação cristã passou por uma modificação.

2. A ATIVIDADE FORMATIVA DA IGREJA NUMA SOCIEDADE EM


TRANSFORMAÇÃO

Quando se conversa com membros de igreja que já têm mais idade,


sempre de novo aflora a decepção desses mais idosos que dizem que,
hoje, na instrução de confirmandos, não se aprende mais tanto quanto se
aprendia no passado. Quem se expressa assim não apenas lamenta, mas
ao mesmo tempo revela a preocupação de que ficará faltando aos jovens
de hoje algo daquilo que foi importante para a vida dos mais velhos, espe-
cialmente na forma de textos que foram assimilados ou memorizados. Ao
mesmo tempo, pessoas de mais idade também têm sentimentos em parte
ambivalentes em relação ao tempo em que foram confirmandos. Muitos
entendem que a severidade e o rigor empregados pelo pastor na condu-
ção do ensino confirmatório deixou a impressão de ser uma experiência
incômoda e ameaçadora. Já outros, olhando para trás, concordam com o
que foi dito de forma bem franca por Thomas de Maizière, Ministro do In-
terior da Alemanha e homem engajado no trabalho da igreja: “Achávamos
principalmente que a instrução de confirmandos era muito chata”.4
Assim, é fácil notar que não há como voltar a uma suposta “era
dourada” da instrução de confirmandos. Ao contrário, o que se impõe
é um desafio duplo. Por um lado, que, em nossos dias, o trabalho com
os confirmandos seja organizado de uma forma que não se perca a pre-

3
No contexto alemão, para designar esse campo de atuação diversificado, foi desenvolvido
o conceito da “pedagogia congregacional”. Uma visão geral disso aparece em Peter Bub-
mann et alii [eds.], Gemeindepädagogik, Berlin/Boston, 2012. Naquilo que apresentarei
a seguir, a instrução religiosa nas escolas, que, na Alemanha, assume contornos próprios,
não será levada em conta, ou, quando muito, aparecerá apenas tangencialmente.
4
Thomas de Maizière, in: Burkhard Weitz (ed.), Der erste große Auftritt. Erinnerungen
an die Konfirmation, Frankfurt am Main, 2013, p. 23.

6
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

ciosidade daquilo que foi transmitido de geração em geração dentro da


igreja. Por outro lado, que a igreja também interaja com os processos de
transformação da sociedade de tal forma que facilite às novas gerações
o acesso à fé cristã.
No caso da Alemanha, que é a minha realidade, as modificações na
sociedade são preocupantes. Em 1950, 95,6% da população ainda perten-
ciam a uma das grandes igrejas; em 2010, essa percentagem havia caído
para apenas 59,4%. Na Alemanha, a maior “confissão” é a do grupo dos
que não têm confissão de fé, e estes são 30,3% da população.5 Segundo
as estatísticas, a expectativa (ou temor) é de que, em 20 anos, de cada
dois alemães apenas um pertença a uma das duas grandes igrejas (evan-
gélica e católica).6 Isto significa, ao mesmo tempo, que a participação em
atividades da igreja não é mais a situação normal, como era duas gerações
atrás, sendo algo que requer uma explicação, mesmo levando-se em conta
diferenças regionais. Assim, na Alemanha, a “socialização religiosa” está
diminuindo: na Alemanha ocidental, onde até hoje se faz sentir uma ên-
fase cristã mais acentuada, 70% dos entrevistados com mais de 66 anos
responderam que receberam educação religiosa, enquanto que na faixa
etária entre 16 e 25 anos menos de 30% responderam que receberam
esse tipo de formação.7 Isto é tanto mais problemático na medida em que
é possível mostrar estatisticamente que existe uma conexão entre ter re-
cebido educação religiosa e vivência religiosa (ou a falta dela) numa fase
posterior da vida.8 A ausência de religião está se tornando algo normal:

A carência de experiências religiosas e a falta de conhecimento


religioso internalizado com certeza levarão a um quadro em que
muitas pessoas pensarão que uma vida sem religião é algo per-
feitamente óbvio e natural. Diante de um quadro assim, parece
pouco provável que num futuro próximo venhamos a ter um
renascimento da religião na sua forma tradicional.9

Sem querer entregar os pontos à vista desses dados estatísticos ou,


num ativismo desenfreado, jogar fora tudo que está bem estabelecido,
me parece que, ainda assim, é necessário que a igreja interaja com esses
desenvolvimentos em nossa sociedade. Na instrução de confirmandos,
mesmo nos círculos de uma igreja luterana confessional, não se pode mais

5
Dados estatísticos segundo o Religionsmonitor Deutschland 2013 (http://www.religions-
monitor.de/pdf/Religionsmonitor_Deutschland.pdf - situação em 19 de dezembro de 2013),
p. 32.
6
http://www.pro-medienmagazin.de/gesellschaft/detailansicht/aktuell/emkonfessionslos-
gluecklichem/ - Situação em 23 de dezembro de 2013.
7
Religionsmonitor Deutschland 2013, p. 15.
8
Idem, p. 16.
9
Idem.

7
IGREJA LUTERANA

pressupor que todas as crianças, ao virem para a instrução, já conheçam


os textos fundamentais da fé cristã. Também não se pode mais contar
com a mesma disposição dos pais para acompanhar e dar apoio ao que
está sendo feito na instrução de confirmandos. De uns tempos para cá,
não se pode mais pressupor que todos os filhos dos membros da igreja
estão interessados em participar da tradicional instrução de confirmandos,
visto que resistem ao convite que lhes é feito. Em tempos recentes, a
transição entre a instrução de confirmandos e a reunião dos jovens nem
sempre é bem sucedida, ou seja, é difícil fazer com que os confirmandos
se integrem no grupo de jovens. Como lidar com isso? Será que a igreja
deve se resignar ou aceitar a realidade de que as crianças fatalmente
perderão o contato com a igreja? Não seria necessário desenvolver novos
formatos, que sejam mais atraentes do que a tradicional instrução de
confirmandos?10 Agora, em que momento, então, deveriam aprender os
conteúdos ou as doutrinas da fé que professam? Estas perguntas talvez
deixem claro que, neste particular, não existem respostas simples. Por
outro lado, mostram que a igreja está desafiada a fazer frente às trans-
formações da sociedade, sem abrir mão da sua confissão e sem deixar
de apresentar aos confirmandos aquilo que um cristão precisa para crer,
viver e morrer. Para a explicação mais detalhada disto, será importante
conhecer algo sobre os objetivos da educação cristã.

3. QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ?

Em se tratando dos objetivos da instrução, um consagrado modelo de


pedagogia religiosa utilizado no contexto alemão, o assim chamado “modelo
de Berlim”, faz distinção entre três dimensões: a dimensão cognitiva, a di-
mensão pragmática e a dimensão emocional.11 Sem querer me aprofundar
na discussão em torno da pedagogia da religião desenvolvida mais recen-
temente, entendo que esta distinção em três dimensões é muito útil para
o conceito de instrução e educação no contexto escolar e eclesiástico.

3.1. Saber e compreender coisas


Ainda hoje, e certamente em dias futuros, caberá aos educadores e
formadores cristãos (da igreja) transmitir conhecimentos. A fé no Deus
triúno não consiste num sentimento difuso, pois sempre está conectada

10
Como exemplo, cito a possibilidade de combinar módulos clássicos de instrução com el-
ementos de lazer ou retiro. (Veja a respeito disto a exposição de Marcell Saß, Frei-Zeiten
mit Konfirmandinnen und Konfirmanden [APrTh 27], Leipzig, 2005, que abordei numa
resenha publicada em Lutherische Theologie und Kirche 29 [2005], p. 206-208).
11
Helmut Hanisch, Unterrichtsplanung im Fach Religion, Göttingen, 2007, p. 49-85, es-
pecialmente p. 54-56. Esta obra forma, também, o pano de fundo das considerações que
se seguem.

8
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

com o exame de textos e, por conseguinte, com conteúdo ou tópicos re-


lacionados com a fé. Assim, na Igreja Antiga, foi criado o catecumenato
para os candidatos ao batismo.12 Também os catecismos de Lutero foram
escritos exatamente por causa da perda total de conhecimento religioso
básico, verificada em grande parcela da população.13 Assim também em
dias futuros a tarefa de formação cristã no contexto eclesiástico não po-
derá deixar de transmitir conhecimentos, estimular uma compreensão e
despertar convicções. Nisto se inclui, por exemplo, o conhecimento sobre
como, segundo o testemunho da Escritura Sagrada, Deus se revelou na
história de seu povo. Cristãos maduros deveriam poder explicar para
alguém por que ou para que Jesus Cristo morreu na cruz. Palavras e con-
ceitos que sempre de novo aparecem na liturgia, como “amém” e “aleluia”,
deveriam ser entendidos quanto a seu significado. Textos fundamentais
da fé, como, por exemplo, Salmos e hinos, deveriam ser memorizados,
sempre respeitando a capacidade individual das pessoas. Isto para que
estejam internalizados e para que se possa fazer uso deles em tempos
de crise. Por fim, os confirmandos deveriam conhecer no mínimo o Cate-
cismo Menor de Lutero, para que tenham pelo menos uma compreensão
básica do que significa ser um cristão luterano, e para que, na medida da
necessidade, possam também (futuramente) assumir responsabilidades
numa igreja confessional.

3.2. Saber fazer coisas


No entanto, ser cristão não significa (apenas) poder enumerar deter-
minados conteúdos ou recitar certos textos bem conhecidos, pois, além
disso, a vida cristã exige e traz consigo determinadas capacidades ou
habilidades. A religião tem, num certo sentido, uma dimensão “artesanal”,
no sentido de que existem coisas a fazer.14
No caso da formação para a vida na igreja, isto significa que, por meio
de treinamento, a pessoa cristã deveria ser capacitada a escolher orações
adequadas para determinado momento ou, então, formular orações livres.
Ou, para citar um segundo exemplo: é desejável que um membro da igreja
tenha condições de fazer um batismo de emergência. Também isto pode
ser ensaiado na instrução de confirmandos, com o uso de bonecas.
Outro objetivo pragmático da instrução na igreja é fazer com que as
pessoas se sintam seguras e tenham posturas corretas durante o culto.

12
Christian Grethlein, Religionspädagogik, Berlim e Nova Iorque, 1998, p. 473-477.
13
Veja o Prefácio ao Catecismo Menor de Lutero, onde o Reformador diz: “A lamentável e
mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que
me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve,
simples e singela. Meu Deus, quanto miséria não vi! O homem comum simplesmente não
sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias...” (Livro de Concórdia, p. 363).
14
Veja Manfred Josuttis, Religion als Handwerk, Gütersloh, 2002.

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IGREJA LUTERANA

Na instrução de confirmandos isso acontece de modo especial com o pre-


paro para a primeira participação na santa ceia. Ligado a isto, e indo um
pouco além, é preciso dar condições a que, na igreja, tanto jovens quanto
pessoas de mais idade possam aprender a verbalizar pessoalmente a fé
que professam, além de saber o que fazer com as formulações que nos
foram legadas pela tradição.
A moderna “didática religiosa performativa” dá um destaque todo
especial a este último aspecto:

A mensagem não existe sem as formas por meio das quais ela se
torna inteligível. Antes de mais nada, e por razões teológicas, a
aprendizagem litúrgica é aprendizagem de ordem estética. Isto
significa que os alunos precisam levar em conta palavras, movi-
mentos e atividades que ocorrem no ambiente do culto.15

3.3. Ter aprendizagem emocional


Por fim, o que as pessoas podem e devem aprender na igreja ainda
não se esgota em conhecer conteúdos e saber fazer coisas, porque, além
disso, toda aprendizagem envolve uma dimensão emocional.
Quem leva a sério as histórias dos fiéis que aparecem na Bíblia per-
ceberá que nelas se encontra uma variedade de emoções: alegria e luto,
dúvida e esperança, raiva e alívio. Sentimentos como estes fazem parte
de nossa natureza, que recebemos de nosso Criador. Assim, é preciso
abrir espaço para a aprendizagem emocional também no contexto da
formação eclesiástica.
Isto se dá, por exemplo, quando cristãos são habilitados a estabelecer
uma conexão entre os seus próprios anseios, medos ou esperanças e a
fé cristã. Ou, então, quando são orientados a empatizar com as emoções
de personagens bíblicos, estabelecendo paralelos ou conexões com as
experiências pessoais.
Também podem ser inseridos neste âmbito todos os esforços no sentido
de fazer da igreja e da comunidade local um lugar onde se põe em prática
o amor ao próximo e a vivência da comunhão e onde cada pessoa, com
a sua própria história, é bem-vinda.

3.4. A peculiaridade da aprendizagem religiosa


Existe, no entanto, uma diferença entre processos de aprendizagem
religiosa e outras atividades discentes. Posso aprender fórmulas mate-
máticas e fazer exercícios até chegar à perfeição, mesmo sabendo que
isso não têm maior significado para a minha vida em geral. Ou, para citar
um exemplo tirado do âmbito pragmático, posso aprender a dirigir um

15
Bärbel Husmann e Thomas Klie, Gestalteter Glaube. Liturgisches Lernen in Schule und
Gemeinde, Göttingen, 2005, p. 14 (ênfase dos autores).

10
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

automóvel, mesmo que, diante da ameaça de uma catástrofe climática


mundial, eu não concorde com o fato de cada pessoa ser proprietária de
um automóvel.
Em última análise, porém, a aprendizagem religiosa visa, por um
lado, a combinação de conhecimentos, habilidades e competências, e, por
outro lado, a orientação e convicção interior. Sem isso, estaríamos desen-
volvendo, em nossa atividade docente dentro da igreja, uma ciência da
religião focalizando o cristianismo, mas não uma teologia cristã. No final
das contas, trata-se de uma atividade formativa em que aquilo que ouvi,
aprendi, vivenciei e assimilei não fica sendo simplesmente algo exterior,
mas me impacta de forma existencial, vai ao meu coração e me remolda
de dentro para fora.
De forma um pouco alterada, seria possível afirmar também a respeito
dos processos formativos no contexto da igreja luterana o que Sibylle Rolf
escreveu a respeito da pregação de Martinho Lutero:

Na proclamação ocorre um evento relacional que é dinâmico,


comunicativo e cristológico, operado pelo Espírito Santo. Nele se
faz ouvir a palavra de Deus que tanto solicita quanto possibilita
ao ser humano ter essa experiência de relacionamento com Deus.
Por isso, na pregação, interessa a Lutero aquilo que a “estrutura
de experiência” do texto possibilita ao ouvinte em termos de ex-
periência. Essa experiência com o texto deve se exteriorizar na
forma de fé e, com isso, como uma “sintonia existencial” e um
encontro do ser em sua totalidade com a graça de Deus. Essa
graça de Deus conclama a pessoa a sair de si mesma e a convida
a entrar numa estrutura de ser que é receptiva, responsiva e na
qual se tem vida a partir daquilo que Deus faz.16

Fazendo uma conexão com a instrução cristã, pode-se afirmar que


o que se tem em vista é possibilitar experiências com Deus, objetivar
uma “sintonia existencial” e abrir espaço para uma resposta à palavra
de Deus.

3.5. Será que é possível ensinar e aprender a crer?


Esta reflexão sobre a atividade de formação cristã necessariamente nos
leva à pergunta se de fato é possível aprender a fé cristã, se alguém pode
“aprender” a crer. Até que ponto a instrução de confirmandos, a pregação,
o trabalho com os adultos na igreja conseguem criar a fé?
A resposta a esta pergunta é ao mesmo tempo fácil e difícil. É fácil,
porque a fé, para nós, seres humanos, é algo que não está à disposição,
não é uma faculdade natural. Lutero inicia assim a explicação do Terceiro

16
Sibylle Rolf, Zum Herzen sprechen. Eine Studie zum imputativen Aspekt in Martin Luthers
Rechtfertigungslehre und zu seinen Konsequenzen für die Predigt des Evangeliums (ASTh
1), Leipzig, 2008, p. 371 (ênfase da autora).

11
IGREJA LUTERANA

Artigo do Credo: “Creio que por minha própria razão ou força não posso
crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele”.17 Estas palavras não
apenas dizem algo sobre a minha incapacidade pessoal de obter a fé,
mas também deixam claro que ela está fora do alcance de todos os seres
humanos. Nós mesmos não podemos produzir a fé; ela está além das
nossas próprias possibilidades. O Espírito Santo opera a fé, através do
evangelho, “onde e quando lhe apraz”.18
Ao mesmo tempo, nesse mesmo contexto, fala-se a respeito do meio
pelo qual o Espírito Santo opera a fé, a saber, o evangelho na forma da
palavra de Deus e dos sacramentos. Este evangelho pode ser visto como
um grande esforço de Deus junto a nós. Lutero inicia assim a explicação
do Pai-Nosso, no Catecismo Menor: “Deus quer atrair-nos carinhosamente
com estas palavras, para crermos...”.19 Isto permite dizer que esse “atrair e
estimular” é um tema fundamental na reflexão catequética de Lutero.20
Somente o evangelho opera a fé. Sem o evangelho não existe fé. Agora,
as pessoas que estão engajadas em processos formativos dentro da igreja
podem, através daquilo que fazem, envolver-se nessa ação divina de atrair
e estimular e, desta forma, dar a sua contribuição para que as pessoas não
sejam impedidas de ouvir o evangelho. À luz disto, é preciso ficar atento
para que, na ação formativa em contexto eclesiástico, o evangelho não
seja deixado de lado. Isto ocorre quando nessa ação formativa da igreja
as pessoas nunca chegam a entrar em contato com o evangelho. Tam-
bém seria impossível reconhecer a presença dessa ação divina de atrair e
estimular numa situação em que a instrução é estruturada de forma tão
mecânica e opressiva que a experiência de aprendizagem é prejudicada,
a formação não se processa e, por fim, a impressão geral que fica é que
tudo aquilo foi pouco atraente ou uma grande chatice.
Friedrich Schweitzer expressou de forma bem interessante essa cone-
xão entre a “não-docência” da fé (a impossibilidade de ensinar a fé) e a
necessidade de investir na formação dos cristãos: “Com isto (a saber, com
a explicação de Lutero ao Terceiro Artigo) foram demarcados os limites de
todo e qualquer processo educacional ou formativo com vistas à fé. Na visão
de Lutero, a fé não é um alvo educacional ou formativo, embora também
seja verdade que essa fé pressupõe um processo formativo (posterior)”.21

17
Lutero,Catecismo Menor, O Terceiro Artigo Da Santificação, Livro de Concórdia, p. 371.
18
CA V (Livro de Concórdia, p. 30).
19
Lutero, Catecismo Menor, O Pai-Nosso (Livro de Concórdia, p. 372).
20
A respeito disto e das consequências disso para o processo de aprendizagem em nossos
dias, veja uma discussão mais detalhada em Christoph Barnbrock, Der (ver-)lockende Kat-
echismus. Überlegungen zur Didaktik und Methodik kirchlichen Unterrichts, Lutherische
Theologie und Kirche 28 (2004), p. 177-194.
21
Friedrich Schweitzer, Religionspädagogik (Lehrbuch Praktische Theologie 1), Gütersloh,
2006, p. 31 (ênfase do autor).

12
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

Agora, que contornos pode assumir a ação formativa cristã em nossos


dias? Naquilo que segue, sem qualquer pretensão de ser exaustivo, quero
apresentar algumas ênfases.

4. COMO SE PROCESSA A AÇÃO EDUCATIVA CRISTÃ?

4.1. Aprender a partir de exemplos


Na igreja cristã, a aprendizagem se dá fundamentalmente da mesma
forma como ocorrem as demais aprendizagens: pelo exemplo. Muito an-
tes de entrarem numa instituição de ensino, as crianças já aprenderam
muito: sentar, engatinhar, caminhar, falar, pintar. Nisto as crianças imitam
os pais, os irmãos mais velhos e outras pessoas com as quais entram em
contato, e aprendem dessa maneira.22
Muito do que se aprende na igreja cristã acontece através de um pro-
cesso semelhante. Embora eu pessoalmente não tenha levado meus filhos
a memorizar o Pai-Nosso, vários hinos e partes da liturgia (ou tenha feito
isso de forma pouca intencional), eles aprenderam muito disso através
do que ouviram, repetiram ou cantaram regularmente com os adultos. A
intensidade dessa aprendizagem depende da idade de cada criança.
O apóstolo Paulo escreve algo semelhante na sua Primeira Carta aos
Coríntios: “Sejam meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co
11.1). Assim, existe uma série de modelos de vida cristã que a pessoa pode
seguir, série esta que retrocede até o principal modelo da fé cristã, a saber, o
próprio Jesus. Neste contexto pode ser inserido também o que diz a Confissão
de Augsburgo, no Artigo XXI, que trata Do Culto aos Santos, a saber, “que
devemos lembrar-nos deles, para fortalecer a nossa fé ao vermos como rece-
beram graça e foram ajudados pela fé; e, além disso, a fim de que tomemos
exemplo de suas boas obras, cada qual de acordo com sua vocação”.23
A vida de fé não é aprendida através de meditação ou introspecção
espiritual em isolamento, mas acima de tudo no convívio da comunidade
cristã. Os pais, os padrinhos, o pastor, os jovens da própria comunida-
de são “pontos de referência” muito importantes para as crianças e os
adolescentes,24 dos quais eles aprendem, em quem se espelham e de

22
Para uma exposição mais fundamentada e detalhada, veja Christoph Barnbrock, Mimesis.
Praktisch-theologische Überlegungen, in: Christoph Barnbrock e Werner Klän (eds.), Gottes
Wort in der Zeit: verstehen – verkündigen – verbreiten (Festschrift para Volker Stolle),
Münster, 2005, p. 467-483.
23
CA XXI (Livro de Concórdia, p. 39).
24
Um estudo empírico sobre o trabalho com confirmandos nas igrejas estatais da Alemanha
permitiu constatar mais uma vez o seguinte: “Ao lado da satisfação com a experiência de
fazer parte de um grupo […], os fatores fundamentais que levam os jovens a valorizar o
período da instrução de confirmandos são o pastor e também, em grande medida, embora
isso nem sempre tenha sido devidamente levado em conta, a escolha dos temas a serem
estudados” (Wolfgang Ilg et alii, Konfirmandenarbeit in Deutschland [Konfirmanden-
arbeit erforschen und gestalten, Volume 3], Gütersloh, 2009, p. 72).

13
IGREJA LUTERANA

quem eles também conseguem se diferenciar ou distinguir (sendo que


este último aspecto pode ser muito valioso e importante para os proces-
sos de aprendizagem).25 O trágico em tudo isso é constatar que, numa
sociedade que cada vez mais se afasta do cristianismo e da igreja, existe
uma carência desses modelos para os jovens.

4.2. A aprendizagem que engloba várias gerações


Com isso já tocamos em outro aspecto, a saber, a aprendizagem que
engloba várias gerações. Quando diz, no Salmo 148: “Louvem o SENHOR,
moços e moças, velhos e crianças! Que todos louvem a Deus, o SENHOR”
(Salmo 148.12-13), o que se tem em mente é uma comunidade em que
pessoas de diferentes idades e de circunstâncias diversas se unem no
louvor a Deus. O mesmo vale também para a aprendizagem em comunhão
que ocorre no contexto da congregação e da igreja.
A congregação ou igreja local é um dos poucos grupos que ainda en-
globa várias gerações, isto é, em que pessoas jovens e pessoas idosas de
fato ainda se encontram. Há momentos em que isso resulta em conflitos,
devido ao fato de ali entrarem em contato diferentes estilos de vida e de
piedade. No entanto, esse encontro entre jovens e velhos pode ser en-
riquecedor para o processo de aprendizagem de todas as faixas etárias.
Não foi por acaso que Jesus colocou as crianças como modelo de fé para
os adultos.26 Por outro lado, uma das características fundamentais das
primeiras comunidades cristãs foi a valorização dos presbíteros ou mais
velhos.27
Seja como for, é preciso certa criatividade para, em meio a proces-
sos de aprendizagem, fazer com que membros mais jovens da igreja e
membros com mais idade efetivamente dialoguem entre si, e não apenas
estejam uns ao lado dos outros. Agora, onde esse diálogo acontece, os
jovens muitas vezes descobrem o tesouro de vivência cristã que os cristãos
de mais idade trazem consigo. E membros da igreja que têm mais idade
muitas vezes ficam admirados com o tipo de linguagem que os jovens da
igreja usam, a dedicação que têm e a forma mais descontraída com que
esses jovens vivem como filhos de Deus.

4.3. Levar em conta a relevância


Jan Hermelink, professor de teologia prática em Göttingen, notou uma
“modificação no comportamento eclesiástico da atualidade” na Alemanha,
que, em termos conceituais, pode ser descrita como “um deslocamento de

25
Veja o que aparece sob 4.6.
26
Mt 18.3 em diante.
27
Veja, por exemplo, 1Tm 5.17.

14
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

sua natureza institucional para sua natureza organizacional”.28 Com isso


ele quer dizer que instituições eclesiásticas não mais são significativas
para as pessoas por serem socialmente reconhecidas em toda parte, mas
porque elas “devem claramente produzir determinado resultado que seja
socialmente relevante”.29
Sem concordar integralmente com tudo o que Hermelink afirma, penso
que é correta a observação que ele faz no texto citado. As pessoas vão
à igreja não (mais) porque isso é o que se espera que elas façam, mas
porque pensam e esperam que isso lhes “dê” ou “traga” algo. As pessoas
perguntam pela relevância da mensagem cristã, pelo proveito que terão
do fato de pertencer a uma igreja e participar do culto.30
É claro que esta maneira de encarar a situação traz consigo o risco de ape-
nas se perguntar pelos “interesses dos consumidores”, que são os membros
das igrejas de hoje, e descartar tudo aquilo que, em termos de mensagem,
já não parece relevante ou não desperta mais o interesse dos “clientes”.
Isto certamente não poderá ser aceito numa igreja que se declara leal às
Escrituras Sagradas e às Confissões Luteranas. Agora, levantar a questão e
sempre de novo dar respostas à pergunta sobre o que me “dá ou aproveita”
a fé cristã – para aproveitar uma formulação de Lutero, no contexto do ensino
sobre o batismo, no Catecismo Menor31– me parece uma tarefa perene para
a igreja, além de ser uma tarefa urgente em nossos dias.
Para mim, um interessante exemplo, neste contexto, é o apóstolo
Paulo e sua pregação no Areópago, em Atenas, que ele começa com uma
referência ao altar dedicado ao deus desconhecido. Desta forma, Paulo
faz uma conexão entre o mundo dos seus ouvintes e a mensagem que ele
tem a apresentar. Esta é uma estratégia a ser recomendada também na
área da educação dentro da igreja. A cultura popular, com suas canções,
filmes e imagens, oferece uma variedade de pontos de contato, pois as
noções de esperança e salvação que ali aparecem não passam, muitas
vezes, de formas secularizadas da mensagem cristã de salvação.32 Nesse
tipo de situação é fácil fazer uma ponte entre o mundo em que vivem
as pessoas de hoje e a mensagem cristã. Ao mesmo tempo, o exemplo
de Paulo em Atenas ensina que essas tentativas nem sempre encontram

28
Jan Hermelink, Praktische Theologie als Theorie der kirchlichen Organisation, in: Eberhard
Hauschildt/Ulrich Schwab (eds.), Praktische Theologie für das 21. Jahrhundert, Stut-
tgart, 2002, p. 101-119. O texto citado é da página 107.
29
Idem.
30
O significado da relevância para o labor teológico de hoje se tornou bem claro para mim a
partir da leitura de Volker Stolle, Luther und Paulus (ABT 10), Leipzig, 2002, especial-
mente p. 477 em diante.
31
Lutero, Catecismo Menor, O Sacramento do Santo Batismo (Livro de Concórdia, p.
375).
32
Veja, por exemplo, Hans-Martin Gutmann, Der Herr der Heerscharen, die Prinzessin
der Herzen und der König der Löwen, Gütersloh , 1998.

15
IGREJA LUTERANA

ouvintes receptivos. Ao contrário, numa sociedade marcada por uma plu-


ralidade de visões de mundo, tais esforços são frequentemente rejeitados.
Isto, porém, não deveria ser razão suficiente para abandonar todas essas
tentativas de se comunicar com as pessoas. E isto me leva ao próximo
tópico que gostaria de desenvolver.

4.4. Ensinar e aprender são processos que ocorrem a longo prazo


É possível que, entre as experiências mais deprimentes nas igrejas
cristãs, esteja a de pais cujos filhos não pertencem ou não mais pertencem
à igreja, seguindo seu próprio rumo.
Algumas das perguntas que são feitas em situações como esta são:
“Teria sido a educação em casa que falhou?” “Será que a instrução de
confirmandos não foi boa?” Seria muita ousadia querer, numa situação
dessas, receitar um remédio que pudesse curar todos esses males. É
verdade que os cristãos não são “do mundo”, mas estão “no mundo”
(João 17. 11,16), e com isto estão expostos às forças dos processos de
secularização e pluralismo que marcam nosso tempo.
Apesar disto, me parece essencial que, em todos os processos edu-
cativos dentro da igreja, contemos com períodos de tempo mais longos.
Dois anos de instrução de confirmandos não “fazem” de ninguém um
cristão “completo” – isto sem levar em conta que, neste mundo, nunca
se alcança a perfeição na vida cristã. Cada nova fase da vida traz novos
desafios para a vida (como cristão), que podem levar ao afastamento da
igreja cristã e de sua mensagem, mas que podem também levar as pes-
soas a novamente se aproximar da igreja e da mensagem que ela prega.
Numa época que também não estava isenta de conflitos, o apóstolo Paulo
admoesta Timóteo: “Enquanto você espera a minha chegada, dedique-se
à leitura em público das Escrituras Sagradas, à pregação do evangelho e
ao ensino cristão” (1Timóteo 4.13). Vale a pena não simplesmente jogar
a toalha, mas ter à disposição ofertas que podem ser feitas às pessoas,
que possam servir de oportunidade de aprendizagem, e apresentar essas
ofertas sempre de novo e de formas sempre novas.
Estudos sobre a conversão, realizados recentemente na Alemanha,
mostram que, no caso de pessoas que se criaram, por assim dizer, nas
proximidades da igreja e que encontraram o caminho (de volta) à fé através
de um processo mais demorado, a instrução de confirmandos tem, num
olhar retrospectivo, uma importância que chega a surpreender.33 Verifica-

33
Veja Anna-Konstanze Schröder, Die persönliche Konversionserfahrung und das kirchliche An-
gebot, in: Martin Reppenhagen (ed.), Konversion zwischen empirischer Forschung und
theologischer Reflexion (Beiträge zu Evangelisation und Gemeindeentwicklung, vol. 18),
Neukirchen-Vluyn, 2012, p. 67-87, em especial p. 78: “Os dados indicam uma maior proba-
bilidade de que a instrução dos confirmandos seja encarada como algo importante por aqueles
cuja conversão se deu na forma de um processo ocorrido dentro da igreja e que tiveram um
processo de socialização ou integração (na igreja) que se estendeu ao longo da vida toda”.

16
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

se também que os processos que acabam levando à conversão ou a um


retorno à fé muitas vezes demoram vários anos.34 Também por isso vale
a pena, em todos os processos de educação cristã, ter em vista ou contar
com prazos mais dilatados.35

4.5. Aprendizagem pontual


Por outro lado, serão cada vez mais raras as situações em que uma
pessoa passará pelo processo de aprendizagem da fé cristã, previsto para
a vida toda, num mesmo lugar ou numa mesma congregação. Os jovens
frequentemente mudam de cidade em busca de formação profissional
ou para estudar numa universidade. Depois, continuam mudando, em
busca de emprego ou quando constituem família. Assim, por exemplo, na
Alemanha, por volta de oito milhões e quatrocentos mil pessoas mudam
de domicílio anualmente, o que dá mais de 10% da população. Desses,
dois milhões e quatrocentos mil mudam para uma cidade ou região di-
ferente.36
Isto significa que sempre de novo as pessoas estarão deixando a
comunidade em que até certo momento foram instruídas. Em contra-
partida, novas pessoas interessadas, vindas de outro lugar, entrarão em
contato com a comunidade. Num contexto desses, me parece importante
que as comunidades que estão cientes da presença dessas pessoas que
se mudaram recentemente para aquele lugar criem oportunidades de
aprendizagem específicas para esse tipo de gente, que não são necessa-
riamente as formas clássicas de “socialização religiosa” (escola dominical,
instrução de confirmandos, etc.). Cursos intensivos, do tipo seminário,
em que as pessoas recebem uma primeira informação básica a respeito
da fé e da confissão da igreja, certamente se tornarão mais significativos
numa situação dessas.
Ao mesmo tempo, a saída de membros da igreja e a sua ida para outro
lugar não deveria ser vista apenas como uma “baixa” ou perda para o rol
de membros, porque, em última análise, a transferência de cristãos para
outro lugar traz consigo multiplicadores em potencial, que, por sua vez,
podem desencadear processos de aprendizagem junto a outras pessoas.
Por exemplo, a história de Priscila e Áquila, em Atos dos Apóstolos, dá a

34
Veja Johannes Zimmermann et alii, Zehn Thesen zur Konversion, in: Johannes Zimmermann
e Anna-Konstanze Schröder (eds.), Wie finden Erwachsene zum Glauben. Einführung
und Ergebnisse der Greifswalder Studie, Neukirchen-Vluyn, 2010, 57-167, em especial p.
74: “Para mais de 30% dos entrevistados o processo de conversão durou de dois anos
e meio para menos; para a metade, a conversão durou de cinco anos e oito meses para
menos. Existe também a possibilidade de que seja necessário um período mais longo”.
35
Veja também as reflexões sobre aprendizagem ao longo da vida, no ponto 4.8.
36
http://deutscher-umzugsmarkt.de/umzugsstatistik.html (situação em 23 de dezembro de
2013).

17
IGREJA LUTERANA

entender que pessoas que num lugar ainda eram alunos passaram a ser
professores quando chegaram a outro lugar.37

4.6. Permitir que haja diferenças de opinião


Uma das peculiaridades do ensino bíblico é que relatos de desavenças
e diferenças de opinião não foram suprimidos, mas incluídos na Escritura
Sagrada. Assim, ficamos sabendo da discussão entre Paulo e Pedro (Gálatas
2.11-21) e ouvimos do debate que os apóstolos tiveram sobre o que fazer
com a lei do Antigo Testamento num contexto de missão entre os gentios
(Atos 15). A solução só foi encontrada “depois de muita discussão”.38
Na ação formativa da igreja, vale a pena abrir espaço para esse tipo
de “conflito”, para essas discussões, para um debate em torno da correta
compreensão da Escritura Sagrada e das práticas corretas dentro da igre-
ja. Assim, as pessoas podem apresentar as suas questões, a visão que
(naquele momento) têm a respeito das coisas, sem ficarem com medo
de que vão trazer algo que é “falso” e que imediatamente será corrigido.
Por exemplo, na vida prática da igreja, surge a questão de como lidar
com percepções intuitivas que crianças têm em relação a textos bíblicos,
e que, em termos de conteúdo, muitas vezes são “incorretas”. Friedrich
Schweitzer aborda esta questão e, num contexto em que descreve a in-
terpretação que uma criança fez de uma das parábolas de Jesus, formula
o seguinte princípio:

Quando não se podem adotar procedimentos que, embora


adequados do ponto de vista pedagógico, seriam tentativas de
correção que de qualquer forma não teriam maior efeito e tam-
bém não se pode simplesmente manter distância ou ficar inerte
diante da forma de compreensão espontânea das crianças, é
necessário fazer algo que revele sensibilidade tanto para com
as crianças quanto para com a parábola bíblica. [...] Somente à
luz deste pressuposto é que se podem dar impulsos que de fato
representam um ponto de partida para as crianças e através dos
quais elas ao menos são colocadas no caminho em que poderão
obter uma compreensão da Bíblia que seja mais adequada em
termos de conteúdo.39

Independentemente do problema sobre como lidar com a interpre-


tação infantil da Bíblia, é preciso fazer esta afirmação fundamental:
conhecimentos adquiridos e posições já definidas pela igreja não devem
ser arbitrariamente abandonados no processo de ensino e aprendizagem
na igreja, como se coisas que são verdadeiras e corretas pudessem ficar

37
Veja Atos 18.2; 18.26 e Rm 16.3.
38
At 15.7.
39
Schweitzer, Religionspädagogik , p. 16-17.

18
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

ao lado de coisas que não o são. No entanto, uma congregação ou igreja


luterana confessional precisa estar tão preparada para o diálogo a ponto
de abrir espaço para opiniões e observações que a princípio soam estra-
nhas e permitir que sejam feitas críticas e perguntas, sem que, num tom
autoritário, elas sejam simplesmente rejeitadas como “falsas”.

4.7. Oferecer oportunidades de formação diversificadas


Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo descreve como se relacionou
com diferentes grupos de pessoas nas igrejas, de tal forma que, no final,
ele se fez “tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar
alguns”.40 Já houve momentos em que esta passagem foi interpretada de
forma errônea, como ensinando que a mensagem bíblica e a confissão
da igreja devessem ser amoldadas às expectativas de diferentes grupos
na igreja e na sociedade. Falar a respeito da verdade, que precisa ser
confessada, seria algo que, em nossa sociedade pós-moderna, no final
das contas não faria mais sentido algum.
Entendo que tal interpretação é equivocada na medida em que não há
dúvida de que Paulo, com veemência, se empenhou pela correta compre-
ensão do evangelho e claramente também se afastou de ensinamentos e
de práticas incorretos.
Agora, de Paulo com certeza aprendemos que as pessoas têm formas
diferentes de se aproximar desse evangelho, que é um só, e que vale a
pena, também nas comunidades cristãs, oferecer oportunidades de apren-
dizagem com formatações diferentes. Nem todos se sentem à vontade num
grupo de estudo bíblico sediado numa casa. É possível que, para muitos,
o contexto mais apropriado para aprofundar o conhecimento teológico
seja o ambiente mais anônimo ou neutro de uma série de palestras num
auditório. Outros têm dificuldade de apenas ouvir uma pregação. Neste
caso, a solução poderia ser abrir um espaço para conversar a respeito do
sermão após o culto, para que se possa dialogar e esclarecer o que foi
ouvido durante o culto, além de aprofundar o tema e aplicá-lo a situações
individuais.
Seria bom admitir, com muita sobriedade, que nem todas as oportu-
nidades de aprendizagem que são oferecidas pela igreja alcançam todas
as pessoas de forma idêntica. Ao mesmo tempo, esta observação deveria
despertar a nossa imaginação sobre como podemos formatar o programa
de educação cristã nas comunidades cristãs de tal forma que o maior nú-
mero de pessoas seja alcançado, para que “por todos os modos, alguns
possam ser salvos”.41

40
1Co 9.22.
41
Idem.

19
IGREJA LUTERANA

4.8. Aprendizagem ao longo da vida


Por fim, é preciso dizer que processos formativos, e, em especial,
processos formativos no contexto da igreja, nunca podem ser dados por
finalizados. Fé, conhecimentos teológicos e habilidades não são coisas
que a gente simplesmente “tem” ou “possui”. Acontece que na vida
surgem sempre novos desafios e questionamentos diante dos quais as
pessoas, e também os cristãos, precisam reagir. Surgem sempre novos
processos de aprendizagem: o que parecia apenas perifericamente
relevante a uma criança, passa a ter uma importância maior para
uma pessoa idosa. Respostas convincentes a perguntas sobre a vida
e sobre a fé, que até bem pouco tempo ainda faziam sentido, podem
de repente parecer menos sólidas quando as circunstâncias não forem
mais as mesmas.
Portanto, não é nenhum exagero quando Martinho Lutero afirma
a respeito de si mesmo que precisa “permanecer criança e aluno do
Catecismo”.42 É da natureza desses processos de aprendizagem existencial
que nunca podem ser dados por finalizados, pois continuarão ao longo
de toda a nossa vida.
A biografia do apóstolo Pedro pode ser um belo exemplo desse tipo de
aprendizagem vitalícia. Sempre de novo e, talvez, de forma mais marcante
na visita que fez ao centurião Cornélio (Atos 10), Pedro precisou aprender
que suas ideias e convicções de fé tradicionais não lhe permitiam fazer
frente às situações novas que se apresentavam a ele. Mais do que isso:
foi a ação do próprio Deus que alargou o horizonte de compreensão que
Pedro tivera até aquele momento, levando-o a uma nova maneira de ver
aquela situação.43
Assim, processos de aprendizagem continuam a desafiar a pessoa
ao longo de toda a vida. Por vezes, isto é doloroso, mas, por outro lado,
também é sempre enriquecedor e “inspirador”, na medida em que novos
desenvolvimentos revelam algo sobre a atividade do Espírito Santo, como
Gerhard Ebeling o expressa em suas reflexões sobre a “atualidade” do
Espírito Santo. Por um lado, é verdade que

essa busca doentia por atualidade sempre revela falta de Espírito


Santo. Porque em relação àquilo que, segundo a opinião corrente,
passa por atual, o Espírito Santo mais impulsiona a que se vá
contra a nossa época do que a colocar-se ao lado dela.44

42
Martinho Lutero, Catecismo Maior, Prefácio, 8 (Livro de Concórdia, p. 388).
43
At 10.47.
44
Gerhard Ebeling, Dogmatik des christlichen Glaubens, volume 3, Tübingen, quarta
edição, 2012, p. 123.

20
EDUCAÇÃO CRISTÃ NO CONTEXTO DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA

Ao mesmo tempo, porém, é preciso afirmar que

igualmente seria uma incompreensão do que significa o fato


de a presença do Espírito Santo na pessoa ser a presença da
eternidade de Deus em nossa época, se disso concluíssemos
pela atemporalidade do Espírito Santo e, por conseguinte, se já
víssemos nisso uma indicação, a partir do Espírito Santo, de que
é preciso reter, sem modificação alguma, aquilo que é tradicional
ou convencional. O Espírito Santo (...) nos capacita a descar-
tar coisas que envelheceram, a deixar crescer o que é novo, a
envolver-nos com aquilo que em cada momento se apresenta
como necessário.45

Assim, é preciso entender que enfoques novos no processo de apren-


dizagem, que é vitalício, não devem necessariamente ser vistos como
correção daquilo que até aquele momento teriam sido, à luz disso, con-
cepções errôneas, mas como acontecimentos do mesmo tipo daqueles
que ocorreram no Pentecostes, em que o Espírito Santo atua e fala de tal
forma que cada um ouve Deus falar a respeito de seus grandes feitos46 nas
“línguas” da situação em que cada um se encontra e da idade que tem.

45
Idem.
46
Segundo At 2.11.

21
IAUXÍLIOS HOMILÉTICOS
GREJA LUTERANA

PRIMEIRO DOMINGO NO ADVENTO


Salmo 122; Isaías 2.1-5; Romanos 13.11-14; Mateus 24.36-44

LEITURAS

Advento não trata apenas das quatro semanas que antecedem o Na-
tal. A igreja e os cristãos vivem em constante advento. Isto implica estar
preparado para partir deste mundo e aguardar a parousia (vinda final de
Cristo).
As leituras bíblicas para este Primeiro Domingo no Advento falam sobre
a necessidade de se buscar a Cristo, não somente em relação ao Natal,
mas principalmente apontam para a escatologia (com relação à vinda final
de Cristo) e de como devemos viver neste período de espera do advento
final – a parousia de Cristo.
Salmo 122: Convite para irmos à casa do Senhor. As tribos se dirigem
a Jerusalém para louvarem ao Senhor.
Isaías 2.1-5: Palavra que em visão veio a Isaías. O monte Sião será
estabelecido; Deus julgará entre os povos. Por isso, o convite: Vinde, ó
casa de Jacó – para andar na luz do Senhor.
Romanos 13.11-14: O apóstolo Paulo chama a atenção para se
despertar do sono devido à salvação estar perto. A justificação em Cristo
move a se viver a vida em santificação: no revestir-se das obras da luz,
no andar dignamente – não em desordem, bebedices e ciúmes. Fomos
revestidos no Senhor Jesus Cristo para uma nova vida.
Mateus 24.36-44: Enquanto no mundo, devemos estar atentos à
vinda de Cristo. Nos dias de Noé não levaram a sério a palavra de Deus.
Até que veio o dilúvio e destruiu os que não deram créditos às orientações
divinas.

TEXTO DE MATEUS 24.36-44

V. 36: Jesus está falando aos discípulos a respeito da sua parousia


(vinda final de Cristo). Ele vai voltar, mas a respeito do dia e a hora, so-
mente Deus sabe; heméra dia – refere-se a um período geral de tempo.
Não se trata de um dia específico.
Nem os próprios anjos do céu sabem o dia e a hora da parousia (vinda
de Cristo). Conforme confessamos no Credo Apostólico, “subiu ao céu e
está sentado à direta de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar
os vivos e os mortos”, nem mesmo diante desta situação Jesus, segundo
a natureza humana, sabe o dia e a hora de sua volta.

22
PRIMEIRO DOMINGO NO ADVENTO

É evidente que a Trindade sabe e conhece todas as coisas. Mas no es-


tado de humilhação de Jesus, ele não usa seus divinos atributos. Ele não
sabia a data do fim. Lenski bem formula a questão: Como a encarnação
do Filho pode restringir o uso dos divinos atributos? Resposta: Isto é um
mistério de sua pessoa.
Vv. 37-39: A parousia vai ocorrer como foi nos dias de Noé. Nos dias
precedentes ao dilúvio, as pessoas não levaram a pregação da palavra
de Deus a sério. Desperdiçaram o tempo. Até que Deus estabeleceu o dia
limite da sua graça. Neste ínterim as pessoas comiam, bebiam e davam-
se em casamento. Achavam que não tinham problemas em relação aos
seus pecados. Até o momento em que Deus ordena entrarem na arca. O
fato de construírem a arca em lugar seco era interpretado como sendo
brincadeira, até que o dilúvio aconteceu.
Assim é a parousia. Perigosa por um lado, graciosa de outro, devido
os cristãos finalmente desfrutarem do aconchego eterno, junto ao Pai.
Não obstante, as pessoas no período de Noé estavam com os corações
fechados. Interpretavam os sinais da parte de Deus como fenômenos na-
turais e tinham uma explicação racional para muitos acontecimentos que
revelavam a ação de Deus entre o seu povo. A cegueira espiritual tomou
e continua tomando conta de corações e mentes das pessoas que foram
lavados pelo batismo de seus pecados, mas que hoje não aceitam a ação
e sinais de Deus na vida de cada indivíduo e no mundo.
Vv.40-41: Como entender os vv. 40-41, diante de um ser “preservado”
e o outro ser “levado”? Não se está falando de um arrebatamento, segundo
os milenistas, mas da ação de Deus em salvar os que creem. Assim como
Noé e sua família foram preservados, os cristãos vão desfrutar da glória
eterna. Isto explica o fato de um ser deixado e o outro (cristão) ser levado
para junto de Deus. Um é como Noé e o outro o que morreu no dilúvio
por não dar crédito à palavra de Deus.
V. 42: Portanto, o próprio Jesus conclui dizendo: “Vigiai”. Estejam com
os “olhos abertos” para os sinais que anunciam a parousia, lembrando a
cada dia das promessas de Deus. Isto implica, conforme lido no Salmo
122, alegrar-se diante do convite em louvar e adorar a Deus em sua casa
(onde estão a Palavra e os sacramentos sendo administrados em confor-
midade com os seus desígnios).
V. 43: O pai tem falhado em sua vigília por não saber o dia e o momento
da ação do ladrão. Quando ele acha que vem – ele não vem. Quando acha
que não vem – ele vem e arromba a porta ou a janela para entrar. Jesus
coloca a situação de que se o pai soubesse o momento da ação do ladrão,
vigiaria e não deixaria o ladrão entrar. Acontece que o pai não sabe. Por
isso, a orientação: estejam alerta. Conforme o apóstolo fala em Romanos
13.11-14: Vamos despertar do sono espiritual, deixar as trevas de lado e

23
IGREJA LUTERANA

viver sob a luz de Cristo no viver o batismo, ao afogar o velho homem e


viver em novidade de vida.
V. 44: O alerta de Jesus é claro. Os que vivem na fé e nos frutos da fé
estão vigiando e não serão surpreendidos diante da parousia.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Tema: Vivemos em constante Advento em relação à parousia de


Cristo!
1. Podemos partir a qualquer momento
a. Jesus orienta para se viver em constante Advento.
b. Preocupação somente com o bem-estar e coisas terrenas im-
pedem a plena preparação.
c. Jesus proporciona os meios para manter-nos atentos aos sinais
de sua parousia.

2. Jesus pode voltar a qualquer momento


a. Jesus move o cristão a vigiar.
b. O trabalho e as prioridades deste mundo fazem com que a
perspectiva da eternidade seja perdida.
c. Jesus nos capacita, através da Palavra e sacramentos, à vigi-
lância constante.

Celso Wottrich
Foz do Iguaçu/PR
celso.wottrich@gmail.com

24
SEGUNDO DOMINGO NO ADVENTO
Salmo 72.1-7; Isaías 11.1-10; Romanos 15.4-13; Mateus 3.1-12

O profeta João Batista é o personagem que se destaca no período do


Advento. A sua maneira diferente de se vestir, comer e pregar é a própria
mensagem. Diferente de tudo o que as pessoas estavam acostumadas,
atraía multidões sedentas de consolo e orientação. Sua pregação ecoa
até o nosso tempo, quando precisamos de pregadores destemidos e de-
sapegados de vaidades e ganância. Porque seu tempo se assemelha em
muito ao nosso em todos os aspectos.

O PROFETA E O SEU TEMPO

Há séculos o Senhor tinha silenciado. Cumprira-se a profecia de Amós


8.11-12: “Eis que vêm dias, diz o Senhor Deus, em que enviarei fome
sobre a terra, não de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras
do Senhor. Andarão de mar a mar e do Norte até ao Oriente; correrão
por toda a parte, procurando a palavra do Senhor, e não a acharão”.
Nesse tempo, uma religião perversa se desenvolveu, baseada em
tradições e ordenanças humanas. A hipocrisia reinava entre os líderes
religiosos que, ávidos por fama e posses, exploravam e marginaliza-
vam os pobres e fracos. Para isso lançavam mão de superstições e leis,
aplicando-as como sendo palavra de Deus. O resultado eram os terrores
de consciência que torturavam o povo de Deus.
No campo político e econômico, o Império Romano impunha a sua
“Pax Romana” baseada no autoritarismo e na força militar. Pesados
impostos, massacres de rebeldes, espionagem e terror estavam sobre
os ombros do povo. Aqueles que deviam defendê-los, como era o caso
dos sacerdotes, acomodavam-se sob a proteção do estado, e o povo era
explorado e violentado pelo exército romano.
O povo clamava por libertação tanto espiritual como material. Isso
explica a corrida desenfreada das pessoas ao encontro de João Batista,
que representava oposição a todo o sistema religioso e político. Sua forma
de viver e pregar chamavam a atenção. Livre das tradições e ordenanças,
desapegado da vida material e com uma pregação diferente, a própria
pessoa de João Batista era uma mensagem de libertação.
IGREJA LUTERANA

SUA MENSAGEM

Toda a mensagem de João Batista é resumida pelos evangelistas na


frase “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus”. Mateus nos
dá a razão para esta pregação: “Porque este é o referido por intermédio
do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do
Senhor, endireitai a suas veredas”. Ou seja, a mensagem do profeta é de
uma completa mudança de mente, uma preparação para a chegada do
Messias. O povo de Deus era conclamado a se voltar para Deus, abando-
nar a autojustiça e a hipocrisia e confessar os seus pecados, confiando
na misericórdia divina.
Isto está claro na repreensão que João faz aos fariseus e saduceus:
“Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer
entre vós mesmos: temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que
destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. Já está posto o machado
à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada
e lançada no fogo” (vv.8-10). São palavras duras, palavras de repreensão
e condenação. Seu objetivo é derrubar toda tradição e autojustificação da
religião judaica e também chamar a atenção do povo sobre o seu modo
de viver.
É mensagem de juízo para os hipócritas, para os dominadores do povo
e para o próprio povo. João não mede suas palavras, é duro e inflexível.
Em seu testemunho sobre o profeta, Jesus afirma: “Que saístes a ver
no deserto? Um caniço agitado pelo vento? [...] Um homem vestido de
roupas finas? [...] para ver um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais
do que profeta” (Mt 11.7-9). João não é um caniço que se dobra quando
agitado pelo vento, não se deixa iludir com o luxo dos escribas e fariseus,
muito menos se apega a tradições e genealogias, mas proclama a che-
gada o Reino de Deus que vem para “limpar a eira”. E sua fidelidade vai
até a morte, porque não se atemoriza em condenar o pecado do próprio
rei Herodes.
João Batista é duro, é irredutível e sua palavra incomoda consciências
e condena os pecadores e hipócritas. Por outro lado, sua mensagem está
repleta de esperança. Aqueles que clamavam por justiça, os esquecidos
pela religião e os sem voz, viram e ouviram, através do profeta, a pro-
clamação de um novo tempo, de um novo Rei e um novo mundo. Para
aqueles que vinham ao seu encontro em busca de paz e consolo, através
do batismo e da proclamação da Palavra, eram consolados e pacificados.
Assim temos, como é de se esperar de todos os profetas, uma clara pre-
gação de lei e evangelho.

26
SEGUNDO DOMINGO NO ADVENTO

A ATUALIDADE DE JOÃO E SUA MENSAGEM

Sabemos, pelos evangelhos, que a missão de João Batista foi cum-


prida, que o Messias já veio e nos conquistou a salvação plena em sua
vida, morte, ressurreição e ascensão. No entanto, o profeta continua
atual e sua pregação é necessária em nosso tempo. Principalmente por-
que vivemos no limiar do tempo quando nosso Salvador virá “recolher o
trigo no celeiro e queimar a palha em fogo inextinguível”. Vivemos num
tempo onde se busca a justiça, onde falsas e cruéis religiões e profetas
exploram a fé maliciosamente, onde o povo de Deus se acomodou em
tradições e práticas religiosas externas, onde o pecado se tornou “normal”
e onde a palavra de Deus é ignorada em sua plenitude.
Nosso país tem passado por momentos tensos de protestos e palavras
de ordem. O clamor por justiça toma conta das ruas e há uma completa
indiferença dos governantes. Mas, os mesmos que clamam por justiça,
defendem práticas e valores contrários à palavra de Deus, tais como
aborto, casamento homossexual, liberação das drogas, sexo sem respon-
sabilidade e tantos outros. Por outro lado, aqueles que, publicamente,
condenam tais práticas e se dizem defensores do evangelho, exploram
a fé vergonhosamente, tiram dinheiro de viúvas e pobres para construir
verdadeiros impérios luxuosos. E, por fim, aqueles que são portadores
de doutrina pura se escondem nos templos e nas estruturas da igreja,
acomodados em tradições e seguros em seus púlpitos.
Sim, João Batista é atual. Sua pregação precisa ecoar pelas igre-
jas, ruas e palácios. Precisamos ouvir as duras palavras do profeta:
“Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus [...] produzi,
pois, frutos dignos de arrependimento”. Nossas congregações precisam
ser despertadas, nosso povo precisa ser exortado e nossos pastores
fortalecidos porque chegou a hora e precisamos “preparar o caminho
do Senhor e endireitar nossas veredas”. É tempo de arrependimento, é
tempo de esperança.
Neste tempo de Advento, a voz do profeta precisa ecoar em cada
templo, em cada lar, em cada coração. O povo de Deus precisa de um
profundo arrependimento e precisa produzir frutos dignos dele, pois nos-
so Senhor está voltando para julgar o mundo, para trazer justiça e nos
levar para o seu reino celestial. E os pregadores, fortalecidos e guiados
pelo Espírito Santo, precisam ter a mesma coragem de João Batista e
proclamar, destemidamente, a palavra do Senhor para o mundo todo.

27
IGREJA LUTERANA

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Tema: Ouçamos a voz que clama no deserto.

Introdução:
Contextualizar o profeta e sua época.

1. Por que precisamos ouvir a voz?


- Porque vivemos em um mundo parecido com o dele (apresentar
pontos de contato).
- Porque o pecado, o mundo e o diabo nos tentam constantemente
ao pecado e ao desespero.

2. Qual é a mensagem que a voz proclama?


- Arrependimento (v.2) (sugerimos que o pregador estude o texto
da Apologia, artigo XII, sobre arrependimento, especialmente a
página 196 ss.).
- Esperança (vv.11-12).

3. Para onde a voz quer nos levar?

Para Aquele do qual nos fala o profeta Isaías 11.1-10 (trabalhar o que
Jesus oferece e o que tem reservado para aqueles que, arrependidos,
confiarem nEle).

Conclusão
Vivemos um tempo em que se clama por justiça e falta esperança. Mas
a voz que clama no deserto nos chama a não buscarmos neste mundo ou
em nós mesmos, mas nAquele que veio para nos salvar.

Cezar Squiavo Schuquel


São Leopoldo/RS
csschuquel@bol.com.br

28
TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO
Salmo 146; Isaías 35.1-10; Tiago 5.7-11; Mateus 11.2-15

VEM, Ó TÃO ESPERADO CRISTO

Há muita gente esperando ser alvo das obras do Cristo Jesus. A


exemplo daqueles cegos, surdos e coxos, muitos também querem ter a
vida restaurada. Vivem uma ansiosa espera e, às vezes, se questionam:
“És tu aquele que estava para vir ou devemos esperar outro?” É diante
dessa pergunta que surge a oportunidade de a igreja proclamar as obras
do Salvador.
João Batista prepara o terreno no Advento. Na trienal C ele também
aparece no 2º Domingo no Advento como a “voz do que clama no deserto”.
Com uma mensagem “afiada”, ele afirma que toda árvore “que não produz
fruto é cortada e lançada ao fogo” e mais adiante fala daquele que vem
depois dele e que é mais poderoso do que ele.
No texto para o 3º Domingo no Advento, “o Elias que estava para vir”
clama no cárcere. É quase inevitável comparar o João do deserto e o João
do cárcere. Por um lado eles são parecidos, pois carregam a expectativa
da vinda do Salvador. Há, entretanto, uma mudança de perspectiva quanto
ao modo de agir desse Salvador. Aquele que é mais poderoso ainda não
estava separando “o trigo da palha”.
O profeta Isaías dita o objetivo para este Domingo: “Digam aos de-
sanimados: Não tenham medo; animem-se, pois o nosso Deus está aqui.
Ele vem para nos salvar, ele vem para castigar os nossos inimigos” (Is
35.4).
O texto do evangelho pode ser dividido em duas partes. Nos vv. 2 a
6 existe esse “diálogo” entre João e Jesus, intermediado pelos discípulos
de João. E nos vv. 7 a 15 Jesus fala a respeito de João.

AS OBRAS DE CRISTO (VV.2-6)

Jesus cumpre as promessas registradas em Isaías 35. Jesus espera


que João relembre as promessas feitas no AT e finaliza: “Bem-aventurado
é aquele que não achar EM MIM motivo de tropeço” (v.6).
Essas promessas são escatológicas, falam da restauração final e, talvez
por isso, João precisou fazer a pergunta: “És tu aquele que estava para vir
ou devemos aguardar outro?”. As obras condizem com as promessas, mas
ele ainda vive na prisão. Se ele veio, por que João ainda está na prisão?
É necessário compreender o tempo de Deus e perceber que antes do Dia
IGREJA LUTERANA

do Senhor, o Messias invade nossa realidade, trazendo a novidade que


confunde a mente natural.
O tropeço pode facilmente acontecer se alguém está à espera de um
ato maior e mais poderoso do que esses apresentados por Jesus, os quais
têm seu clímax no seu sacrifício e morte na cruz. Em termos da razão
humana, é realmente difícil de entender que, se os cegos podem ver e os
coxos andar, etc., por que ele, que é o mais poderoso foi crucificado?
Essa é a novidade: antes da separação do trigo e da palha, o “mais
poderoso” veio fazer aquilo que não está ao nosso alcance: assumir todas
as nossas dores e fazer com que elas, juntamente com seu corpo, fossem
crucificadas.
Quando Cristo veio ao mundo, ele abraçou nosso multiforme pecado
e o “pendurou” na cruz, para que figurássemos entre o trigo no dia da
separação.

ELIAS JÁ VEIO (VV.7-15)

A segunda parte contém uma referência às profecias de Malaquias.


Há, entretanto, uma mudança significativa nessa citação registrada em
Mateus.
O texto de Malaquias 3.1 diz: “Eis que envio o meu mensageiro, que
preparará o caminho diante de mim”. Quem profere essas palavras é
o Senhor dos Exércitos. Já em Mt 11.10 lê-se: “Eis aí eu envio diante da
tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de
ti”. Jesus atualiza a profecia e a coloca numa perspectiva diferente. Agora
ele assume o lugar do Senhor, confirmando que João é esse mensageiro
enviado para preparar o caminho dele.
Mais adiante ainda Jesus afirma que João é Elias que estava para vir.
Essa parece ser outra referência a Malaquias, conforme Ml 4.5: “Eis que
eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do
Senhor”. E talvez por isso, quase ao modo das parábolas, Jesus afirma:
“Quem tem ouvidos ouça”. Falta perguntar: “Se Elias já veio, quando e
como será o terrível Dia do Senhor?”
Esse talvez seja o propósito de Jesus repetidas vezes anunciar aos
seus discípulos a respeito da necessidade do seu sofrimento, morte e
ressurreição. O terrível Dia do Senhor é o dia em que o próprio Cristo
clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). É
o dia em que o Filho do Homem foi julgado no lugar de todas as pessoas,
de modo que ele pode fazer cumprir a promessa de dar descanso para a
alma (11.28-30).
João Batista havia preparado o caminho do Senhor não apenas com
palavras, mas com a própria vida, conforme Mateus 17.12: “Eu, porém,

30
TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO

vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com
ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de pade-
cer nas mãos deles”. Aquele que veio depois, entretanto, tomou sobre si
o padecimento e a dor em proporções muito maiores, pois o fez em lugar
do mundo inteiro.
A referência a João como sendo o maior entre os homens (v.11) se
deve, possivelmente, ao fato de João preceder Jesus no sofrimento. A
referência ao menor no Reino dos céus fica obscura. Arisco a dizer que
podem ser os desalentados, os cegos e todos aqueles que foram alvos
das obras de Cristo.
Para o 3º Domingo no Advento a proclamação da Palavra tem por
objetivo assegurar a todos que Cristo é aquele que estava por vir e que
as suas obras são todas em favor das pessoas. Com suas obras ele quer
revelar que veio salvar. Essa salvação, entretanto, é conquistada pelo
caminho da cruz, onde ele realiza a maior de todas as obras.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Vem, ó tão esperado Jesus!


Vem nos visitar na prisão.
Vem nos falar das tuas obras e confirmar nossa fé.
Vem nos tornar benditos em ti para o Dia do Senhor!

Clécio Leocir Schadech


Congregações Paz e Ressurreição – Canoas/RS
clecioschadech@hotmail.com

31
QUARTO DOMINGO NO ADVENTO
Salmo 24; Isaías 7.10-17; Romanos 1.1-7; Mateus 1.18-25

CONTEXTO

Os textos bíblicos indicados para este Quarto Domingo no Advento,


especialmente o evangelho, nos apontam para a chegada do Natal – o
nascimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Apontam para o
cumprimento da promessa que Deus, no passado, havia feito ao seu povo
(cf. Gn 3.15).
Essa promessa começa a ser cumprida com a notícia de que Maria
achava-se grávida pelo Espírito Santo, passa pela rejeição de José, o noivo
de Maria, a visita do anjo a ele para explicar-lhe o que realmente havia
acontecido e finalmente chega ao ponto principal: o anúncio definitivo do
nascimento do Salvador Jesus Cristo (v.21).
A partir de então, está cumprido o que o profeta (Is 7.14) anunciou:
Emanuel nasceu. Deus está conosco, nos garantindo o perdão de todos
os nossos pecados, salvação e vida eterna.

TEXTOS

Salmo 24: Este Salmo está apontando para um rei que está chegan-
do a fim de demonstrar sua glória e poder em beneficio da humanidade
pecadora. A glória deste rei está oculta, razão pela qual as portas se fe-
cham para ele, ninguém o deixando entrar em sua própria morada. Isto
pouco vai adiantar, pois ele é um rei todo-poderoso, que mesmo sendo
crucificado, demonstrou toda sua glória e poder sobre pecado, diabo e
morte, a fim de que todos nós pudéssemos ter a vida eterna garantida
na glória eterna.
Isaías 7.10-17: Encontramos neste texto a promessa de que a virgem
Maria conceberá e dará à luz o menino Emanuel. A partir de seu nasci-
mento, Deus estará conosco, estará com o seu povo, livrando-o de todo
pecado. Deste modo, destrói em nós os pavores do pecado por meio de
seu filho Jesus Cristo, o menino Emanuel que se fez presente entre nós.
Romanos 1.1-7: Este texto lembra que, no passado, Deus prometeu
o Salvador, seu filho Jesus Cristo. Que na carne ele se fez homem; se fez
ser humano (v.3). Ele foi feito filho de Deus segundo o Espírito de Deus,
a fim de ressuscitar dos mortos, para que por meio de seu nascimento,
condenação, crucificação, morte e ressurreição pudéssemos ter a certeza
de que Deus está conosco.
QUARTO DOMINGO NO ADVENTO

Mateus 1.18-25: Aqui neste texto, paralelo com Lucas 2.1-7, temos
o relato detalhado do anúncio de que Maria encontrava-se grávida pelo
Espírito Santo. Cumpre-se, portanto, a promessa do Emanuel nascido, o
Deus-conosco. Deus se fez presente entre o seu povo por meio de seu
filho Jesus Cristo, que salvou a humanidade dos seus pecados.

OBJETIVO DOS TEXTOS

O objetivo dos textos é destacar a importância do nascimento de Jesus


Cristo para a humanidade pecadora, dando a todos perdão dos pecados,
vida eterna e salvação.

O TEXTO DE MATEUS 1.18-25

V. 18: Maria está grávida. Como? De que forma? Isso não pode estar
acontecendo, pois Maria nem havia tido relação sexual com homem al-
gum, nem ao menos com José, o homem com quem estava de casamento
marcado.
Isso pode estar acontecendo sim. O que está sendo gerado no ventre
de Maria não é obra humana, mas é obra do Espírito Santo de Deus, que
agiu em Maria para que, por meio dela, tivesse início o cumprimento da
promessa do Salvador à humanidade pecadora.
V. 19: José tem uma reação típica de qualquer homem que se sente
traído, entra em desconfiança em relação a Maria. No entanto, com uma
atitude “cristã”, não age com violência; até mesmo para proteger Maria
e não colocá-la nos comentários do povo, resolve fugir sem que Maria
perceba.
Incapaz de acreditar na inocência de Maria, diante das evidências
que eram maiores que a força de uma pessoa comum, ele ainda encontra
forças para se livrar desta complicada situação. Como esposo prometido
a Maria em casamento, José tinha direitos e deveres para cumprir. E por
ser um severo cumpridor da lei, que em relação à infidelidade matrimonial
era bem rígida (cf. Dt 22.22-24), ele encontrava-se em dificuldade para
aceitar uma aparente traição.
V. 20: José ainda estava pensativo, angustiado, aflito com toda aquela
situação quando em sonho aparece um anjo do Senhor pedindo que ele
livre sua noiva (Maria) de uma situação desastrosa. Pois o que nela foi
gerado é obra do Espírito Santo.
Reconhecendo publicamente Maria como sua mulher, José não livraria
apenas a honra de Maria, mas também da criança que estava para nascer.
Pois em vez de ser o fruto de um relacionamento adúltero, a criança era
obra do Espírito Santo, concebida pela intervenção de Deus, agindo contra

33
IGREJA LUTERANA

a natureza humana pecadora e dando a estes perdão dos pecados, vida


eterna e salvação.
V. 21: Temos aqui o ponto alto da mensagem do anjo: Maria em breve
será mãe, ela está prestes a dar à luz a uma nova vida. Não qualquer vida,
mas a vida de Jesus Cristo, que, aliás, terá este nome porque salvará a
humanidade dos seus pecados. Este, portanto, é o objetivo de Jesus vir
à terra: dar a salvação aos pecadores, vir à terra para dar vida e vida em
abundância para todas as pessoas.
Vv. 22-23: Não foi por acaso que tudo aconteceu, assim como nos
conta o presente texto bíblico. Tudo foi planejado por Deus séculos atrás,
conforme registro de Isaías 7.14. As palavras do profeta lembradas aqui
destacam o milagre do perdão, Deus se humilhando, vindo até nós, nos
resgatando por meio de seu filho Jesus Cristo.
As pessoas que conheciam, em especial os que aceitavam a salvação,
chamariam a criança recém-nascida de Emanuel, teriam certeza de que
aquela criança ali presente era o verdadeiro Deus em carne e osso, que
veio para salvá-las dos seus pecados.
Vv. 24-25: José desperta do sono e faz o que anjo lhe mandou. Rece-
be Maria como sua esposa, esquece toda aquela história de traição, tudo
para que, através desta criança Deus pudesse perdoar uma traição ainda
maior, a traição de seus filhos, a traição da humanidade pecadora que se
afastou dele por causa do pecado.

OBJETIVO DO SERMÃO

Mostrar ao ouvinte que em todos os tempos Deus está conosco por


meio de seu filho Jesus Cristo.

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: DEUS ESTÁ CONOSCO EM CRISTO


1. Por causa do pecado, Deus promete enviar o Salvador
2. Para estar conosco e sentir na pele o que nós deveríamos ter
sentido
3. Apesar de tudo, Ele veio até nós e nos lavou de todo pecado.

Laudemar Gunsch
São João da Baliza/RR
laudemargunsch@yahoo.com.br

34
DIA DE NATAL
Salmo 2; Isaías 52.7-10; Hebreus 1.1-6 (7-12); João1.1-14 (15-18)

TEXTOS BÍBLICOS

Salmo 2: Destaque para o versículo 4: o SENHOR que habita (é en-


tronizado) nos céus ri da estultícia humana. O termo “habitar” se reveste
de importância no contexto das demais leituras. O riso, aqui, não é de
prazer ou alegria – é como que deboche e escárnio frente à rejeição ao
SENHOR.
Isaías 52.7-10: O “evangelista” do AT anuncia restauração (graça e
salvação) a um povo que outrora não recebeu e não reconheceu a presença
do SENHOR em seu meio. Aliás, papel de todo o profeta: apontar o pecado
e mostrar a beleza do amor do SENHOR em perdoar esse pecado.
Hebreus 1.1-6 (7-12): a) o autor fala da maneira como Deus se co-
municava no tempo de ‘antigamente’. No novo tempo (Novo Testamento),
Ele fala pela palavra – lógos – que é o seu próprio Filho, o Verbo que se
fez carne e habitou entre os homens, a fim de demonstrar o resplendor
da glória do Pai – ou como diz João no Evangelho, Cristo é “a verdadeira
luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem”. b) Citação direta do
Salmo 2 (trienal) no versículo 5: “Tu é meu Filho, eu hoje te gerei”. Com
outras citações, demonstra que em Cristo está o cumprimento dessas
profecias.
João 1.1-14 (15-18): O texto base para a reflexão. Destaque para
os versículos 11 e 14: destaca-se o fato de o SENHOR vir ao mundo e não
ser recebido (tanto no Antigo Testamento quanto na vinda encarnada); de
igual forma, e acima de tudo, o fato de Ele continuar entre nós, mesmo
e apesar da reiterada rejeição.

ESQUEMA

1. A rejeição humana ao plano da salvação;


1.1: a queda em pecado nada mais foi do que a primeira vez em
que o homem rejeitou o SENHOR;
1.2: “veio para o que era seu e os seus não o receberam.” Mais
uma vez, a humanidade caída rejeita o SENHOR.
1.3: durante sua história, a humanidade continua obstinadamente
a ‘reinventar’ sua rejeição.
IGREJA LUTERANA

2. O SENHOR continua morando entre nós!


2.1: mesmo diante das tantas vezes que o mundo – em especial o
seu próprio povo – tenha rejeitado o plano da salvação, Deus
continua a executá-lo entre nós.
2.2: quão formosos os pés dos que correm para anunciar boas
novas, daqueles que anunciam: a salvação chegou!

DESENVOLVIMENTO

Ilustração de introdução: “Um menino, olhando para o céu, perguntou:


‘Mamãe, é verdade que Deus mora no céu?’ Ao que ela respondeu: ‘Sim,
meu filho, o céu é a casa de Deus!’ ‘Mas será que Ele não poderia pôr a ca-
beça para o lado de fora só um pouquinho pra gente ver como ele é?’”
A bem da verdade, Deus já fez muito mais do que isso. Ele já se
apresentou em sua glória, poder e majestade e isso em mais de uma
oportunidade. Primeiro lá no Éden, onde havia comunhão perfeita entre
Criador e criaturas. No Sinai (e o evangelista João nos lembra disso, “a
lei foi dada por intermédio de Moisés”, v. 17) o SENHOR apareceu na sua
glória, poder e majestade. Jesus é a face do Pai. Na transfiguração, vimos
a sua glória, glória como do Unigênito do Pai (sobre isso, veja ainda 2
Pedro 1.17-18). Deus ainda hoje continua colocando-se ao alcance dos
homens através da Palavra (lógos) e dos sacramentos.
O povo continuamente rejeita o SENHOR.
- Se no passado foi a adoração aos deuses dos outros povos (Antigo
Testamento) – e essa idolatria foi muitas vezes desmascarada e condenada
por Deus através de seus profetas – temos hoje o exemplo de Isaías;
- Se nos tempos bíblicos do Novo Testamento foi a dureza de coração
dos ouvintes da Palavra (Jesus, o lógos encarnado);
- Atualmente são os muitos ‘ismos’ presentes no verdadeiro cardápio
religioso que nos é oferecido por rádio, TV, jornal, etc., que nos afasta
do nosso Deus. Até mesmo a indiferença pode se apresentar como um
desses ‘ismos’: o ateísmo – oposição aberta contra Deus e sua Palavra; ou
mesmo o relativismo da fé. “Religião é tudo igual, no final todos querem
a mesma coisa...”
Eis aí a importância, a beleza e a sublimidade de reconhecermos que
o mesmo SENHOR continua fazendo morada (versículo 14: ‘eskenosen –
morou, fez morada’ tem uma ligação íntima e teologicamente profunda
com o tabernáculo [skene] do Antigo Testamento) com a humanidade,
mesmo e apesar de toda essa rejeição. Aliás, ao trazer a lume essa
ideia, precisamos, mesmo que rapidamente, fazer a devida alusão ao
tabernáculo do AT: Êxodo 40. Era o lugar onde a glória do SENHOR se
manifestava visivelmente, noite e dia (coluna de nuvem de dia e coluna

36
DIA DE NATAL

de fogo à noite). Cristo “tabernaculizou” entre nós, isto é, veio trazer de


uma vez por todas a glória, a majestade, o poder e, sobretudo, o perdão
e a salvação para todos!
A Igreja que quer manter-se fiel ao seu Senhor – comunicando sempre
e oferecendo a água da vida em todo o seu frescor e refrigério – precisa,
sim, estar consciente da presença sempre constante do Cristo – lógos de
Deus – cheio de amor e de verdade a cada dia. Jesus fez mais do que
simplesmente “colocar a cabeça do lado de fora do céu...” Ele deu-se a si
mesmo, completamente, para ser o único caminho para o Pai.
Que na missão de levar Cristo para Todos possamos fazer também
dos nossos pés, pés formosos que anunciam a salvação que o SENHOR
preparou mesmo antes do início da nossa História. Natal é Cristo sempre
presente! Natal é Cristo comigo e contigo, agora e sempre! Amém.

Edemar Drews Fuhrmann


Santa Cruz do Sul/RS
edemarfuhrmann@yahoo.com.br

37
PRIMEIRO DOMINGO APÓS O NATAL
Salmo 111; Isaías 63.7-14; Gálatas 4.4-7; Mateus 2.13-23

TÍTULOS (MATEUS 2.13-23)

Revista e Atualizada: “A fuga para o Egito” (vv.13-15); “A matança


dos inocentes” (vv.16-23). Revista e Corrigida: “A fuga para o Egito. A
matança dos inocentes” (vv.13-18); “A volta do Egito” (vv.19-23). Tradu-
ção Ecumênica: “A oração de Jesus”. Nova Tradução na Linguagem
de Hoje: “A fuga para o Egito” (vv.13-15); “A matança das crianças”
(vv.16-23). Harmonia dos Evangelhos: “O menino Jesus levado para o
Egito e a matança dos infantes em Belém” (vv.13-18); “O menino Jesus
trazido do Egito para Nazaré” (vv.19-23; Lc 2.39). NIV: “The escape to
Egypt” (vv.13-18); “The return to Nazareth” (vv.19-23).

TEXTO (MATEUS 2.13-23)

Vv. 13-23: A fuga para o Egito é contada em três etapas (vv.13-15,


16-18, 19-23), cada uma delas terminando com a citação de uma passa-
gem do AT (v.15, 18, 23). Como aconteceu com Israel, o primeiro filho de
Deus (Êx 4.22), também Jesus, o Filho de Deus, volta do Egito, a terra da
escravidão, para Israel, a Terra Prometida (Bíblia de Estudo NTLH).
V. 13: “Tendo eles partido”: tanto os magos como José e Maria foram
desviados do caminho de Herodes pela mensagem mandada por Deus
(Bíblia Vida Nova). “Foge para o Egito”: outros já tinham feito isso antes
(Gn 42.1-3; 1Rs 11.40; 2Rs 25.26; Jr 26.21) (Bíblia de Estudo NTLH).
Vv. 13-14: “o menino e sua mãe”: toda vez que o filho Jesus e sua mãe
são mencionados juntos, ele é mencionado em primeiro lugar (v.13-14;
cf. Mt 2.11) (Concordia Self-Study Bible – CPH).
V. 15: “morte de Herodes”: Herodes, o Grande, morreu em cerca de 4
a.C. Calcula-se, então, o nascimento de Cristo para 5, 6 ou 7 a.C. José e Ma-
ria permaneceram no Egito até que receberam a ordem divina de voltar.
Observação: Nosso calendário, que divide o tempo em antes e depois
de Cristo, foi criado no sexto século d.C. Antes disso, costumava-se contar
os anos a partir da fundação da cidade de Roma (753 a.C.). O monge que
calculou o ano do nascimento de Jesus em relação ao ano da fundação de
Roma cometeu um erro de cálculo de uns 5 ou 6 anos. Esse erro nunca
foi corrigido e, por isso, Jesus nasceu no período a.C. (Bíblia Vida Nova e
Bíblia de Estudo NTLH).
PRIMEIRO DOMINGO APÓS O NATAL

“Do Egito chamei o meu filho”: texto de Os 11.1 (Nm 24.8), que fala
sobre Deus livrando os israelitas da escravidão na terra do Egito. Esta ci-
tação de Oséias 11.1, então, originalmente se referia a Deus chamando o
povo de Israel do Egito no tempo de Moisés. Mas Mateus, sob a inspiração
do Espírito Santo, aplica isto também a Jesus. Ele vê a história de Israel
(filhos de Deus) recapitulada na vida de Jesus (único Filho de Deus). Assim
como Israel, como uma infante nação, desceu ao Egito, assim o menino
Jesus foi para lá. E como Israel foi levado por Deus para fora do Egito,
assim também foi com Jesus. Quanto tempo Jesus e seus pais estiveram
no Egito não é conhecido (Concordia Self-Study Bible – CPH e Bíblia de
Estudo NTLH). Em outras palavras, a citação de Oséias 11.1 refere-se
ao povo de Israel como filho do Senhor (cf. Êx 4.22). Deus fez voltar da
escravidão do Egito o “seu filho” Israel; agora Jesus, “o seu Filho” por
excelência, também esteve exilado naquele mesmo país.
Observação: Um dos temas característicos de Mateus é o do cumpri-
mento, na história de Jesus, do que Deus havia anunciado por meio dos
profetas (cf. Mt 1.22; 2.15, 17, 23; 4.14; 8.17; 12.17; 13.14, 35; 21.4;
26.54, 56; 27.9) (Bíblia de Estudo Almeida).
V. 16: “[...] matar todos os meninos... de dois anos para baixo”: O nú-
mero de mortos tem sido frequentemente exagerado como sendo milhares.
Em uma aldeia tão pequena como Belém, no entanto (mesmo com a área
em volta incluída), o número provavelmente não era grande – embora o
ato, é claro, não tenha sido menos brutal (Concordia Self-Study Bible –
CPH). Calcula-se que em Belém e nas suas vizinhanças haveria entre trinta
e quarenta meninos nessa idade (Bíblia de Estudo NTLH). “Dois anos”: A
estrela pode ter aparecido aos “magos” quase dois anos antes (cf. v.7)
(Bíblia de Estudo Almeida).
V. 18: “Ouviu-se um clamor em Ramá…”: Jeremias 31.15, citado em
Mateus 2.18, onde as ordens de Herodes para matar todas as crianças do
sexo masculino “de Belém e de seus arredores” (Mt 2.16) são indicadas
para ser o cumprimento dessa passagem. (Concordia Self-Study Bible –
CPH). Esta citação de Jeremias 31.15 refere-se ao cativeiro dos israelitas
descendentes de José, filho de Jacó e Raquel (Bíblia de Estudo Almeida). O
evangelista, então, cita Jeremias 31.15, que usa linguagem figurada para
falar sobre a tristeza dos israelitas quando muitos de seus companheiros
foram levados para o cativeiro (Jr 40.1). “Raquel”: a esposa preferida do
patriarca Jacó (Gn 19.30). (Bíblia de Estudo NTLH)
V. 19: “um anjo do Senhor apareceu em sonho a José”: é a terceira
vez que isso acontece com José (Mt 1.20; 2.13; também 2.22) (Bíblia de
Estudo NTLH).
V. 20: Cf. Êx 4.19-20 (Bíblia de Estudo Almeida)

39
IGREJA LUTERANA

V. 22: “Arquelau”: este filho de Herodes, o Grande, governou a Judeia,


Samaria e Idumeia por apenas dez anos (4 a.C. – 6 A.D.). Ele era extra-
ordinariamente cruel, violento e tirânico e por isso foi deposto. A Judeia,
em seguida, tornou-se uma província romana, administrada por prefeitos
nomeados pelo imperador. “Galileia”: a parte norte da Palestina no tempo
de Jesus, onde moravam muitos pagãos (Mt 4.15). Era governada por
Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. (Concordia Self-Study
Bible – CPH, Bíblia de Estudo Almeida e Bíblia de Estudo NTLH).
V. 23: “Nazaré”: pequena cidade que ficava a uns 25 quilômetros a
oeste do ponto sul do lago da Galileia. Uma cidade um tanto obscura,
não mencionada no AT. Era a cidade natal de Jesus (Mt 13.54-57; cf. Lc
2.39-51; 4.16-24; Jo 1.45-46). Naquele tempo, Nazaré era uma povoa-
ção de pouca importância, nas montanhas da Galileia. “Ele será chamado
Nazareno”: estas palavras exatas não são encontradas no AT e, prova-
velmente, referem-se a várias prefigurações do AT e/ou previsões (note
o plural, “profetas”) de que o Messias seria desprezado (por exemplo, Sl
22.6; Is 53.3). Mateus, então, menciona os “profetas”, dando a entender
que está pensando em mais de uma passagem bíblica. O nome “naza-
reno” quer dizer “de Nazaré” (Mc 1.24; Lc 2.39; Jo 1.45). No tempo de
Jesus, “nazareno” era praticamente um sinônimo para “desprezado” (cf. Jo
1.45-46). Alguns sustentam que, ao falar de Jesus como um “nazareno”,
Mateus está se referindo principalmente para a palavra “renovo” em Is
11.1. Já outros afirmam que, nesta citação, Mateus parece fazer alusão
a Juízes 13.5, 7, que fala do “nazareno” (ou “nazireu”; é possível que
“nazareno” tenha algo a ver com “nazireu”), ou possivelmente a Isaías
11.1, que fala do “renovo” (Concordia Self-Study Bible – CPH, Bíblia de
Estudo Almeida e Bíblia de Estudo NTLH). De qualquer forma, a palavra
“nazareno” aplica-se a quem mora em Nazaré, relembra o “nazireu”, que
se consagrava especial e totalmente à adoração de Deus (Nm 6.1-5) e
ainda coincide com a palavra hebraica “renovo”, que é um dos títulos do
Messias (Is 11.1). Jesus tornou-se triplamente merecedor do título de
“Nazareno” (Bíblia Vida Nova).

REFLEXÕES E CONTEXTO – “IN HIS SHOES – THE LIFE OF JESUS”

Por que Deus fugiria de uma luta (a fuga para o Egito)? O rei Herodes
acabara de ordenar o assassinato de toda criança do sexo masculino de
até dois anos de idade, em um dos mais hediondos infanticídios já visto.
Então, o que um pobre carpinteiro, sua esposa e filho recém-nascido po-
diam fazer? Enfrentar o rei Herodes e seus exércitos? E por que Deus os
enviou para o Egito, entre tantos outros lugares? Troy Schmidt afirma:
“Se pensarmos a esse respeito, Maria e José carregavam a arma mais

40
PRIMEIRO DOMINGO APÓS O NATAL

poderosa em seus braços. A criança recém-nascida era Jesus Cristo, que


com suas palavras fez o mundo existir, e pela sua palavra podia fazer
os exércitos de Herodes desaparecer”. Um anjo de Deus veio até José e
lhe disse para seguir para o Egito. José concordou e esta ação livrou o
Salvador do mundo.
Avner Goren (arqueólogo) diz: “No século I, havia muitos judeus
vivendo no Egito, principalmente em Alexandria, que era uma das três
maiores cidades do mundo, habitada por muitos povos de outros países,
nações e religiões, inclusive grandes grupos de judeus”. Naquele tempo,
o Egito era o império mais poderoso do mundo. Era uma encruzilhada
multicultural para o comércio. Os judeus se sentiam bem ali. Desde o
Antigo Testamento tinham uma ligação com a religião. As histórias sobre
sua fuga dramática do Egito alimentavam a paixão por Deus, seu templo
e as leis pelas quais viviam.
Dr. Joel Hunter (pastor) faz a sua reflexão: “Acho que a viagem ao
Egito estabeleceu, desde o princípio de sua vida, que Jesus agiria além
da cultura judaica, que ele não seria o Messias apenas dos judeus”. Max
Lucado (autor e ministro) afirma: “Jesus tinha a propensão de cruzar
fronteiras”. Hunter: “Acredito que a direção de Deus para que ele fosse
ao Egito, a jornada soberana de Deus, pode-se dizer, foi um preparo para
uma visão maior de mundo do que se tivesse sido criado em uma pequena
cidade do seu país natal”.
Troy: “Lemos, em Mt 2.19, que eles ficaram no Egito até a morte de
Herodes, que ocorreu por volta de 4 a.C. Jesus deve ter visto o lugar mais
espetacular do Egito... as pirâmides”. Goren: “As pirâmides representa-
vam o imenso poder do Egito e como este era centralizado na pessoa do
faraó. Ele era considerado uma divindade, que podia pegar centenas de
milhares do povo e colocá-los para trabalhar na construção de uma coisa
que serviria como túmulo para si. Ele era considerado o único que tinha
ligação com as divindades, e através dele os deuses passavam para a
humanidade, na crença do povo, todas as coisas. Pessoa alguma tinha
acesso a Deus. Somente o faraó”.
Hunter: “Os egípcios tinham monumentos de morte. E a morte era uma
grande preocupação na cultura egípcia”. Goren: “A vida após a morte era
a continuação da vida na terra. Quem desejasse passar para a vida após a
morte, ainda precisava de alguma coisa para vestir, comer, jogos para se
entreter e tudo mais. Sabemos disso olhando para o túmulo de Tutancâmon
com todas as coisas que possuiu em vida, inclusive seus brinquedos de
criança”. Hunter: “Mais tarde Jesus diria: ‘Não acumuleis para vós outros
tesouros sobre a terra... mas ajuntai para vós outros tesouros no céu’ (Mt
6.19-20). Saber que não se poderia levar coisa alguma porque a traça e
a ferrugem corroem. Enfim, tudo se acaba”.

41
IGREJA LUTERANA

Troy: “Um dia, Jesus se encontraria num túmulo, mas para ele seria
apenas temporário. Uma mera parada de três dias a caminho da eter-
nidade”. Então, nesta terra de faraós mortos, todos os que ainda estão
mortos, chega Jesus, que, um dia, ressuscitaria dos mortos. Nenhum
túmulo poderia segurá-lo... (Glow – Immersion Digital).

HINÁRIO LUTERANO

Hinos do Hinário Luterano que citam os textos do dia e época/tema em


que estão relacionados: Sl 111 (este texto não é citado no Hinário Lute-
rano); Is 63.7-14 (este texto não é citado no Hinário Luterano); Gl 4.4-7
(Hinos 34 [Natal] e 124 [Ascensão] – v.4; Hino 373 [Fé e Justificação]
–vv.4-5; Hino 376 [Fé e Justificação] – vv.4-7; Hinos 133 [Pentecostes]
e 233 [Cantos Litúrgicos] – v.6); Mt 2.13-23 (este texto não é citado no
Hinário Luterano).

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: Deus constrói a história da salvação. a) Fornece os rumos


certos para a caminhada do menino Jesus (vv.13, 19-20, 22). b) Cumpre
todas as suas promessas (vv.15, 17-18, 23). Conclusão: Apesar da sua
humildade, vemos que toda a história de salvação através de Cristo é uma
história de grande poder e ação de Deus para a nossa salvação.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Online – SBB. Bíblia de Estudo Almeida – SBB. Bíblia de Estudo NTLH
– SBB. Bíblia Vida Nova – Vida Nova e SBB. Harmonia dos Evangelhos –
Casa Publicadora Batista. Glow – Immersion Digital. Concordia Self-Study
Bible – CPH.

Ezequiel Blum
Balneário Camboriú/SC
ezequielblum@gmail.com

42
VÉSPERA DE ANO NOVO
Salmo 90.1-12; Isaías 30.(8-14)15-17; Romanos 8.31b-39;
Lucas 12.35-40

CONTEXTO

Ainda não foi nesse ano que Cristo, o noivo da igreja, nos surpreen-
deu com o seu retorno. A expectativa continua. As leituras do dia nos
lembram da presença constante de Deus em nossa vida. O evangelho
nos alerta para estarmos preparados para o grande evento, o retorno de
Cristo. Somos orientados para administrar o nosso dia a dia com sabedoria
até a sua chegada. Sabemos que vale a pena esperá-lo como servos. Já
desfrutamos das bênçãos (vantagens) de sua casa e usufruímos da sua
despensa, mas o desfrute, definitivo e futuro, quando ele retornar, será
incomparavelmente melhor, pois nos servirá eternamente, inclusive de
sua presença física, num novo céu e nova terra.

TEXTOS DO DIA

Salmo 90.1-12: Diante de uma vida frágil, limitada, carente e de-


pendente, o homem dispõe de um Deus infinito em poder e misericórdia
para se refugiar e viver infinitamente.
Isaías 30.(8-14)15-17: O povo de Israel, rebelde e resistente ao
chamado divino, preferiu fazer aliança e confiar em povos opressores
e perversos a buscar a Deus. E, por se recusar a converter-se a Deus,
estava perdendo a oportunidade de usufruir a paz e a salvação que ele
lhes oferecia.
Romanos 8.31b-38: O ser humano, devido às consequências do
pecado, está sujeito a todo tipo de sofrimento. Poderíamos nos assustar
diante de tanta fragilidade. Deus, porém, está ao nosso lado. Ele é todo-
poderoso, não só para nos amparar e assistir nas necessidades corporais
e terrenas, mas para garantir a nossa vitória quando lutamos diante dos
inimigos e potestades espirituais do mal. Em Cristo, por causa do seu amor,
somos mais que vencedores e podemos viver sem temor.

TEXTO DO EVANGELHO: LUCAS 12.35-40

Vv. 35,36: Os dois elementos mencionados por Jesus, o vestuário e o


uso da lamparina nas bodas de casamento, enriquecem em muito o en-
tendimento da parábola. As vestes orientais, que eram longas, serviam de
empecilho aos movimentos rápidos e tinham de ser amarradas à altura da
IGREJA LUTERANA

cintura quando alguém desejava gozar de maior liberdade de movimentos.


Esta atitude de cingir-se, então, torna-se um símbolo de preparação (1Rs
18.46; 2Rs 1.8; Jo 13.4; 1Pe 1.13), despojamento e prontidão em servir,
um nobre propósito na vida. Pois a chegada do noivo era imprevisível,
ninguém sabia quando iria acontecer a sua chegada. Por isso, a pronti-
dão se torna uma virtude fundamental. Bom servo é aquele que espera
vigilantemente o seu senhor.
As candeias devem ser mantidas acesas a noite inteira para receber
o noivo, porque, a qualquer momento, ele poderá retornar. As candeias,
neste caso, são as mesmas lâmpadas de Mateus 5.15, que os vigilantes
seguram em suas mãos. Esse período das candeias acesas é o período que
antecede o raiar do novo e grande dia. As candeias acesas são o espírito
de esperança que permanece na vida dos seus servos.
Neste versículo, diferente e inverso de Mateus 25.11, o Messias é
representado como um proprietário, rodeado de muitos amigos e convi-
dados, que retorna à sua mansão após ter celebrado o seu casamento.
A palavra “volta de” (analuse), neste caso, é derivada do termo grego
que descreve a ação dos marinheiros que retornam ao porto de onde
velejaram inicialmente.
Após o banquete, o noivo retorna à sua mansão. Ele espera encontrar os
seus servos fiéis, por administrarem a sua mansão muito bem na sua au-
sência e terem o bom senso de esperarem vigilantes pelo seu retorno.
Jesus conclama os discípulos a estarem prontos. Os termos “vossos”
e “sede vós”, usados por Jesus, possuem um sentido enfático. Ele ultra-
passa de uma simples sugestão para uma particularidade apelativa de
prontidão, pois, no momento em que o senhor aparecer, os servos e suas
tarefas estarão à disposição para abrir a porta e servi-lo cheios de júbilo
e satisfação.
V. 37: Se, porventura, o alerta do retorno imprevisível do senhor
possa ter causado algum mal estar entre os servos, dissipa-se com o
propósito que ele reserva de reuni-los em sua mansão. Pois a grande
surpresa é a reunião cerimoniosa que celebrará junto aos seus servos.
Todos os requisitos que antes havia exigido dos seus servos, agora
serão obedecidos e cumpridos por ele. Nosso código social determina
que os servos sirvam o seu senhor, mas Jesus quebra esse paradigma
e estabelece uma atitude inversa. Ele prima em servir os seus servos,
tornando-se servo e surpreendendo com o seu propósito de amor. Aquilo
que havia sido exigido na casa, por parte do senhor, agora será realizado
por ele na sua volta. Ele honrará os seus servos à mesa para desfrutar
das suas riquezas. O serviço do Senhor sempre é superior e a concessão
é dele de fazer parte da sua mesa. Ele preenche os seus servos com a
sua presença e suas iguarias especiais. Na verdade, não somos nós que
o servimos, pelo contrário, ele nos escolheu para servir. Ele sempre é

44
VÉSPERA DE ANO NOVO

o nosso servo, pois sem o seu serviço, nós não seríamos nada (ver Jo
13.4-5 e 15.13; Lc 17.8; Mt 20.28).
Sem dúvida alguma, não podemos relacionar a concessão de tal re-
compensa como merecimento pessoal em pequenas coroas, mansões e/ou
outras possessões materiais. A bem-aventurança concedida pelo Senhor
são bênçãos e capacidades espirituais para usufruto da sua presença
acolhedora e restauradora. Esse serviço espiritual conserva o modelo de
Cristo que, apesar de ser Senhor, nos acolhe em sua mesa com o propósito
de nos servir, o alvo de toda a sua missão. E o termo “bem-aventurado”,
repetido, revela o empenho gracioso que o senhor deseja para coroar
todos os servos fiéis.
É o desejo do Senhor não perder nenhum dos seus servos, mas
conservá-los na sua casa. Não é qualquer lugar da casa, mas à mesa
principal. O Senhor é quem faz o acolhimento de todos que o aguardavam.
Este é o propósito final de servir na sua mesa e na sua casa. Felizes são
aqueles que permanecerem sendo servos fiéis e viverem com expectativa
a parousia com o seu Senhor.
V. 38: Lucas admite três vigílias (Jz 7.19), contrariando o sistema
romano, que dividia em quatro (Mt 14.25). O sentido, porém, é um só: o
retorno do noivo é imprevisível e pode demorar. Isto, porém, não invalida
a promessa. É uma advertência contra a impaciência e o cansaço. Pelo fato
de não marcar tempo, Jesus deseja que o nosso vínculo com ele não seja
limitado a um encontro casual, temporário ou extemporâneo, mas uma
comunhão ativa, permanente e escatológica, que se inicia com o batismo
e perdura pela eternidade. A esperança do cristão se baseia na promessa
de Cristo, no viver com ele diariamente, e não em cálculos apocalípticos.
Jesus deseja que os seus servos desejem e vivam a sua vinda a noite
inteira até a sua vinda, o alvorecer da salvação eterna.
V. 39: Jesus, para reforçar o espírito de vigilância que o servo deve con-
servar, enfatiza com mais uma parábola. A estratégia de apresentar outra
parábola sobre o mesmo tema nos revela a preocupação de Jesus com os
pecadores: facilitar a compreensão, chamar a atenção sobre o perigo e
incentivar a vigilância. E exemplifica com o modus operandi de um ladrão
que pode surpreender um chefe de família. Assim como um chefe de família
vigilante impediria um ladrão de roubar a sua casa, se estivesse de guarda,
da mesma forma o vigia atento não perderá a ceia da sua mansão.
V. 40: Jesus insiste para nos preservarmos como seus servos. Ele
quer nos conservar no seu reino. Apesar de não marcar o dia exato do
seu retorno, pois somente o Pai disso é sabedor, Jesus reafirma que um
dia voltará. Portanto, a nossa missão é não vacilar, estar sempre pronto
e alerta, aguardando ansiosamente o dia da sua volta. Pois o Filho do
homem virá e deseja que todos os seus servos estejam ao redor de sua
mesa para servi-los com a bem-aventurança eterna.

45
IGREJA LUTERANA

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS

O tempo sempre é um mistério. Ainda mais quando se trata do tempo


de Deus e do nosso tempo. A sociedade vive a virada do ano civil com
muita festa e comemoração. É o tempo cronológico. A sociedade aposta
no tempo futuro uma esperança material. Diferente deve ser a igreja.
A igreja, além de acompanhar o feriado e as férias coletivas, possui um
motivo especial para comemorar a sua esperança e o seu futuro. Ela es-
pera o cumprimento da Palavra do seu Senhor, o noivo, que está por vir a
qualquer momento. E a festa da igreja, pela passagem do ano, se reveste
de um significado muito especial: o privilégio, pela graça de Deus, de ter
sido a serva dos bens do seu Senhor. E, no ano novo, celebra a renovação
de sua permanência na casa como sua serva, aguardando o seu retorno.
O Senhor acredita e ama a sua serva, zela para que ela permaneça fiel a
ele até a sua volta. Ela está sujeita a passar por muitas dificuldades, tanto
materiais como espirituais. Vai envelhecer, será assediada por Satanás,
terá de lutar pela sua sobrevivência, administrar os seus bens: trabalho,
lar, família, congregação, Palavra e zelar pela sua fé. Diante de tudo isso,
o Senhor lhe garante que nada a separará do seu amor e que, nele, é mais
que vencedora. Ela deve confiar na sua volta, pois, ao voltar o seu Senhor,
a livrará definitivamente para conviver na eterna bem-aventurança.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Texto: “Bem-aventurados aqueles servos a quem o Senhor, quando


vier, os encontre vigilantes; em verdade vos afirmo que ele há de cingir-
se, dar-lhes lugar à mesa e, aproximando-se, os servirá.” (37)

O Senhor pede que vigiemos!


1. Para recebê-lo preparado.
2. Para fazer parte de sua mesa.

REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.


BÍBLIA DE ESTUDO NTLH. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005.
KRETZMANN, Paul E. Popular Commentary of the Bible. Saint Louis:
Concordia Publishing House.

Danilo V. Fach
Vitória/ES
danilofach@gmail.com

46
CIRCUNCISÃO E NOME DO SENHOR / DIA
DE ANO NOVO
Salmo 8; Números 6.22-27; Gálatas 3.23-29; Lucas 2.21

CONTEXTO

Contexto no evangelho de Lucas: Os primeiros capítulos justapõem


a narração da infância de Jesus e de João Batista. Deve-se interpretar
Lucas 2.21 olhando para Lucas 1.59-63, que é a parte correspondente. A
circuncisão não é o foco dos dois textos, mas a segunda parte que trata
da imposição do nome de João. Era costume entre os judeus dar o nome
por ocasião do batismo. Ambos receberam o nome por determinação
divina. Lucas narra com detalhes o fato. Os parentes queriam dar outro
nome e Isabel não concordou. Consultaram Zacarias, que escreveu que
o nome deveria ser João por ordem divina. Isto mostra que João era
alguém muito importante nos acontecimentos relacionados à vinda do
Reino de Deus.
O nome de Jesus. O nome de Jesus havia sido determinado pelo
próprio Deus. Lucas não explica o nome como o faz Mateus: “Você porá
nele o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt
1.21). Lucas usa o substantivo sôter, que significa “Salvador” (Lc 2.11; At
5.31; 13.23) e é uma tradução do nome hebraico Jesus. O nome “Jesus”
significa “Javé é (ou dá) salvação”.1 Josué, nome do sucessor de Moisés
na condução do povo de Israel à terra prometida, é outra forma do nome
de Jesus. Jesus evoca a salvação aguardada nas mais antigas profecias
messiânicas do Antigo Testamento. A tradução grega do título “Salvador”
não corresponde exatamente ao uso bíblico feito no Antigo Testamento.
O Antigo Testamento hebraico usa expressões “Deus nossa salvação” ou
“Deus que nos salva”, porém não usa o substantivo “salvador”. A LXX usa
o substantivo e o aplica 35 vezes para Deus e 7 vezes a homens. Nos
evangelhos o nome não aparece em nenhum outro lugar e apenas volta
a ser usado por Lucas em Atos 5.31 e 13.23. Paulo usa este nome em
Fl 3.20; Ef 5.23; 2Tm 1.10; Tt 1.4, 2.13, 3.6. O apóstolo João o usa em
duas oportunidades. Uma vez em seu evangelho no capítulo 4.42, onde
os samaritanos creem em Jesus como Salvador do mundo e também em
1 João 4.14. O apóstolo Pedro o usa em 2Pe 1.11, 2.20, 3.2, 3.13.

1
RUIJS, Raul. Mesa da Palavra, ano A, Comentário Bíblico Litúrgico. Petrópolis: Vozes, 1983,
p. 78
IGREJA LUTERANA

O vocábulo foi usado como antídoto nas igrejas cristãs helenistas em


resposta às religiões pagãs, que usavam os termos “deuses salvadores”
e em especial ao imperador divinizado.2 Lucas usa sôter para mostrar o
verdadeiro Salvador em face ao culto ao imperador. Todo o evangelho de
Lucas procura revelar este Salvador. O pensamento judeu do Messias não
era muito diferente do pensamento romano em relação ao imperador. O
Messias seria mais um libertador político que iria tornar Israel um estado
livre do domínio romano e proporcionar todo conforto terreno ao povo
de Deus. Leon Morris lembra que “a palavra era amplamente usada no
mundo antigo e podia ser uma referência à ajuda prestada por deuses,
médicos, filósofos, políticos e outros. Era usada em referência a gover-
nantes e ao imperador (que podia ser chamado de salvador do mundo)”.3
O Salvador que o evangelista Lucas apresenta é o prometido por Deus no
Antigo Testamento e os acontecimentos registrados são iluminados pelo
mistério pascal. Este foco já aparece nos registros natalinos. Percebe-se
claramente quando Simeão profetizou: “Este menino foi escolhido por Deus
tanto para a destruição como para a salvação de muita gente em Israel.
Ele vai ser um sinal de Deus; muitas pessoas falarão contra ele, e assim
os pensamentos secretos delas serão conhecidos. E a tristeza, como uma
espada afiada, cortará o seu coração, Maria” (Lc 2.34-35). Simão está
revelando que o Salvador iria ser morto na cruz.4 O anjo proclamou que
tinha uma Boa Notícia de grande alegria para todo o povo de Deus, que o
Salvador tinha nascido na cidade de Davi (Lc 2.11). Esta notícia só foi de
grande alegria para os filhos de Deus por causa do triunfo pascal. Lucas
deixa claro que a morte e ressurreição de Jesus são o cumprimento das
Escrituras. O próprio Jesus afirma isto para os discípulos de Emaús: “Era
preciso que o Messias sofresse e assim recebesse de Deus toda a glória”
(Lc 24.26). Mais adiante, quando apareceu aos discípulos, ele disse: “O
que está escrito é que o Messias tinha de sofrer e no terceiro dia res-
suscitar. E que, em nome dele, a mensagem sobre o arrependimento e o
perdão dos pecados seria anunciada a todas as nações, começando em
Jerusalém” (Lc 24.46-47). O nome tinha determinação divina, porque sua
vinda é o cumprimento do plano divino de salvação, revelado por Deus
nas Escrituras.
Na realidade, existe um uso limitado do substantivo sôter em contraste
ao verbo sózo, que significa salvar, e o substantivo sotería, que tem o sen-
tido de salvação e libertação. Esta reserva provavelmente se deve ao fato

2
RUIJS, Raul. Id idem, p. 79.
3
MORRIS, Leon. Teologia do Novo Testamento. Tradução Hans Fuchs. São Paulo: Vida Nova,
2003, p. 204.
4
JAGNOW, Elmer. A importância de se ler as parábolas dentro do contexto literário, a partir
do exame de Lucas 12 a 18, na perspectiva do Reino de Deus. Dissertação de Mestrado de
Teologia do Seminário Concórdia de São Leopoldo, 2013, p.20

48
CIRCUNCISÃO E NOME DO SENHOR / DIA DE ANO NOVO

da palavra na esfera judaica facilmente ser ligada à expectativa de alguém


que libertaria o país da servidão ao império romano e no mundo gentílico
a palavra dava a entender um benfeitor terreno, ligado ao imperador. Por
isso, quando usada, seu sentido era sempre esclarecido que Jesus era o
Salvador que livra o povo de Deus do pecado e suas consequências.

USO HOMILÉTICO

Ao iniciar um ano novo, muitos o fazem temerosos e cheios de incer-


tezas. Os filhos de Deus não estão livres do temor. O sentido do nome do
Salvador pode servir de consolo e encorajamento. “Deus salva” traz ao
nosso coração a paz desejada a nós em muitos votos recebidos de um feliz
ano novo. O nome de Jesus carrega consigo uma história de misericórdia
de Deus iniciada no jardim do Éden e que perdura até os dias atuais. Cada
dia deste novo ano também podemos viver nessa certeza: “O amor do
Senhor Deus não se acaba, e a sua bondade não tem fim. Esse amor e
essa bondade são novos todas as manhãs; e como é grande a fidelidade
do Senhor!” (Lm 3.22-23). Em situações adversas, Deus sempre interveio
libertando o seu povo das adversidades. Deus salvou o povo. Iniciar o ano
novo em companhia de Jesus significa a certeza de perdão para erros
cometidos no ano que passou e também para falhas que acontecerão
durante o novo ano que está diante de nós.

Tema: Iniciar o ano em nome de Jesus...


I. é certeza de paz no ano, mesmo nas adversidades, porque Jesus
é “Deus que nos salva”;
II. é viver seguro todos os dias do ano e de toda vida , sabendo que ao
terminar a jornada aqui há a garantia de uma eternidade feliz.

Elmer Teodoro Jagnow


Marechal Cândido Rondon/PR
elmerjagnow@ibest.com.br

49
EPIFANIA DO SENHOR
Salmo 72.1-11(12-15); Isaías 60.1-6; Efésios 3.1-12; Mateus 2.1-12

CONTEXTO

O evangelho segundo Mateus costuma conectar suas narrativas com


as profecias do Antigo Testamento. Jesus, conforme retratado aqui, é o
cumprimento das promessas de Deus feitas ao seu povo. No entanto, o
evangelista não limita as promessas de Deus ao povo de Israel. Outra
ênfase deste evangelho é a inclusão dos não judeus no Reino do Messias.
Destaca-se o fato de que o Rei dos Judeus governa sobre o mundo in-
teiro. A visita dos magos testemunha esta abrangência. Ela é retomada
pelo evangelista em diversas partes do texto. Por exemplo, ao narrar o
elogio que Jesus faz à fé do centurião (8.5-13) ou reconhecer que o Filho
do homem julgará todas as nações (25.31ss.). Esta perspectiva culmina
com a narrativa da Grande Comissão, quando Jesus encarrega os “onze”
de fazer discípulos de todas as nações (28.18-29).
Possivelmente, a visita dos magos não ocorreu como tradicionalmen-
te retratamos, no contexto do nascimento de Jesus, mas algum tempo
depois, enquanto Maria e José ainda estavam em Belém. O centro deste
evento, no entanto, está no fato de que Deus revelou o nascimento do seu
Filho a pessoas que não eram do povo de Israel. Pessoas que certamente
ouviram dos israelitas a respeito da vinda do Rei em algum momento da
história. Estas pessoas foram atraídas a Cristo e creram.

CENÁRIO LITÚRGICO

O tempo de Epifania convida a meditar sobre a graça de Deus manifes-


tada em Cristo a todos os povos. Todas as pessoas do mundo são objetos
do amor de Deus e ele deseja que todos se arrependam e sejam salvos.
A igreja é chamada a manifestar o evangelho em palavras e ações para
que os povos sejam atraídos a Jesus e se tornem seus discípulos.

TEXTOS DO DIA

Salmo 72.1-11 (12-15): Salmo de Salomão exaltando o Rei. Teste-


munho de sua fé no Rei eterno, ao qual todas as nações e reis dobrariam
seus joelhos. Em seu reinado eterno agiria com justiça favorecendo os
pobres e oprimidos. Salomão pede a justiça divina para que seu reinado
seja uma prefiguração do reinado do Messias.
EPIFANIA DO SENHOR

Isaías 60.1-6: De Jerusalém virá o Rei que será luz para todos os
povos. A face das nações se voltará para ele.

Efésios 3.1-12: O mistério de Cristo, oculto nos séculos passados,


foi agora revelado: todos os povos da terra, mesmo os não judeus, são
co-herdeiros e participantes da promessa de Cristo pelo evangelho.

Mateus 2.1-12: Deus atraiu os magos a Jesus testemunhando que


o Salvador foi enviado a todos os povos. A graça de Deus em Cristo é
universal.

ANÁLISE DO TEXTO
V. 1: “uns magos”: chamar os magos de astrônomos é inexato ou no
mínimo questionável. O objetivo do estudo das estrelas não era científico,
no sentido moderno da palavra. Possivelmente o termo se refere a pessoas
ou mesmo sacerdotes da Babilônia que interpretavam as estrelas e sonhos
e por isso eram considerados “sábios” (NDITNT: HDCG, II, 97-101).
V. 2: “viemos para adorá-lo” – O aoristo com infinitivo denota propó-
sito. Os magos não são movidos por curiosidade e nem pela expectativa
de algum benefício. Eles vêm para reverenciar e adorar Jesus, o qual
reconhecem como o prometido Rei. Este é o propósito da viagem.
“viemos” – A vinda dos magos também é um testemunho da univer-
salidade da graça de Deus.
“adorá-lo” – proskinéw – A palavra é utilizada por Mateus denotando
a adoração prestada a Deus. Com exceção do seu uso em parábolas, ela
sempre se refere a Deus e a Cristo. É um gesto exterior que brota da
disposição interior de reverência e submissão. É um ato de fé. Demonstra
aqui a confiança e o testemunho dos magos de que estavam diante do
próprio Deus.
V. 11: “ouro, incenso e mirra” – As três ofertas são um testemunho
não verbal da fé que habitava o coração dos magos em relação ao meni-
no. O ouro, nobre metal, enfatizava a realeza do nascido Rei dos Judeus.
O incenso destacava a fé na divindade de Cristo, pois se oferece a Deus.
A mirra, perfume com o qual se ungiam os defuntos, parece ser um ele-
mento estranho na categoria “presentes que se dá a um recém-nascido”.
No entanto, testemunha que aquele menino estava destinado a morrer
pelos pecados da humanidade.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Moléstia: Preguiça e desânimo em relação à missão de Deus.


Meio: O testemunho de que Deus mesmo atrai para si os que são seus,

51
IGREJA LUTERANA

não fazendo acepção de pessoas. Deus executa sua missão no mundo


chamando pessoas de todos os povos à fé.
Objetivo: Animar os ouvintes com a certeza de que Deus continua
chamando pessoas à fé pelo Espírito Santo, e que esta sua graça se es-
tende até os confins da terra pelo testemunho e vida consagrada da sua
Igreja.

Tema: Deus atrai para si!


Esboço:
Deus atrai para si
I – O povo que estava distante e andava em trevas
Viu grande luz – Cristo é a luz do mundo
Conheceu o Filho – vencedor sobre o pecado que afasta
Recebeu o ministério – que proclama a Palavra da reconciliação

II – Pois o nascido Rei dos judeus é Rei de todos


De todos os povos e etnias
Mesmo dos que se desviaram do caminho (Is 53.6)
Da igreja que, como os magos, foi chamada para perto

III – Para que Cristo seja adorado e reverenciado (Fp 2.10-11)


Por uma vida consagrada e de testemunho cristão
Por ofertas sinceras
Pela ação da igreja que leva o evangelho a toda criatura.

Fernando E. Garske
Pastor no Colégio Luterano Concórdia – São Leopoldo/RS
pastorfernando@gmail.com

52
O BATISMO DO SENHOR / PRIMEIRO
DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 29; Isaías 42.1-9; Romanos 6.1-11; Mateus 3.13-17

Salmo 29: Este salmo nos revela que a voz de Deus é tão forte como
quando na época da Criação, voz que controla o mundo e que abençoa
o seu povo.
Isaías 42.1-9: A referência ao “servo do SENHOR” é de vital impor-
tância no livro de Isaías. Dizer “Eis aqui o meu servo” é como dizer: “Olha
ele aí na frente, vá atrás dele”. As palavras que seguem dão-nos bons
motivos para realmente seguirmos este servo; ele é o escolhido de Deus
sobre quem está o Espírito de Deus.
Romanos 6.1-11: Esta é uma reflexão sobre o batismo e a conse-
quente união com Cristo. O batismo nos une à morte e à ressurreição de
Cristo. Estando mortos para o pecado, não mais o servimos. Estando vivos
para Deus, a ele servimos.
Mateus 3.13-17: O evangelho traz elementos dos três textos an-
teriores: a voz de Deus, o servo do SENHOR e o batismo. É claro que
temos aqui um momento específico; o batismo de Jesus. João Batista
queria negar o batismo a Jesus, não porque João pensava que Jesus não
estivesse arrependido (Mt 3.7-8), mas porque não se achava digno de
batizar Jesus. Jesus, para a surpresa de João, age como um servo, sem
gritar na praça para falar de sua santidade, afinal ele poderia ficar sem o
batismo. A voz de Deus, que muitas vezes é sentida como assustadora,
quando se refere a Cristo é suave: “Este é o meu Filho amado, em quem
me comprazo”.
O começo da pregação de João Batista marca a proximidade de uma
nova era na história da igreja de Deus. Os profetas anteriores a João
anunciavam um tempo da graça que viria quando o povo de Israel seria
redimido de seus pecados por meio do servo, o “mediador da aliança com
o povo e luz para os gentios” (Is 42.6). Não se sabia direito quando isso
aconteceria e nem como seria cumprida essa promessa. Tanto é que os
judeus passaram a interpretar as mensagens de redenção profética como
uma redenção política, quando os judeus voltariam a dominar politica-
mente sobre os povos.
Mateus, porém, retoma a mensagem profética como tal. Um pouco
antes de falar do batismo de Jesus, em Mt 3.3, ele cita a passagem de
Isaías 40.3: “[...] voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do
Senhor, endireitai as suas veredas”. O capítulo 40 de Isaías principia a
parte do consolo que Deus reserva ao seu povo escravizado e humilhado.
IGREJA LUTERANA

Ao lermos os capítulos subsequentes, percebemos que tipo de consolo


Deus reserva ao seu povo. Há uma palavra-chave: “servo do SENHOR”.
Esta palavra refere-se a Jesus Cristo e está também em Isaías 42. No
v.1, nos é revelado que este servo estabelecerá o direito para os gentios.
Seguem-se nos versículos seguintes descrições muito diferentes das des-
crições de políticos: não fará a sua voz ouvida na praça, terá compaixão
dos fracos, etc. Em Is 42.6 nos é mostrado um servo que seria bom para
os judeus e para os não-judeus. Esse certamente não é um princípio da
política, que ensina a oprimir para governar e, portanto, não visa o bem
de todos. A mensagem profética estava se cumprindo.
João era um homem que não aparentava qualquer poder ou força.
Vestia-se com pelos de camelo e cinto de couro, e o seu alimento eram
gafanhotos e mel silvestre. Não parecia corresponder, portanto, às expec-
tativas messiânicas de muitos judeus da época, os quais pensavam que o
Messias deveria estar falando nos palácios (Lc 7.24ss.). Ele mesmo dizia:
“Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem
depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno
de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).
Em meio ao seu ofício de anunciar a vinda do Messias e de pregar
o batismo de arrependimento, vem ao seu encontro aquele a quem ele
anunciava. Seu nome? Jesus! Jesus veio para ser batizado por João Batista.
Essa ação foi logo repreendida por João. Em Mateus 3.11, João diz que o
batismo do Messias era maior que o dele. Como ele poderia agora batizar
o Messias? Será que Jesus também não era o Messias? Ter-se-ia que espe-
rar por outro? João manifestará essa dúvida explicitamente mais tarde em
Mateus 11.2-3. Muitos judeus questionaram isso constantemente. Porém,
após receber o batismo de João, duas coisas muito importantes acontecem
simultaneamente. Desce sobre Jesus uma pomba e vem do céu uma voz. A
pomba era uma forma corpórea do Espírito Santo e a voz era o testemunho
do Pai: “Este é o meu Filho amado em quem me comprazo” (Mt 3.17). O
grego diz: Ou-toj esti,n o` uio,j mou o` avgapeto, evn w|- euvdo,khsa. A Bíblia traz
referência ao filho amado em Gn 22.2; Sl 2.7; Is 42.1; Mt 12.18; 17.5; Mc
9.7; Lc 9.35 e 2Pe 1.17. Cada uma dessas passagens deve ser analisada em
seu contexto. Cabe-nos dizer aqui tão somente da importância da referência
a Jesus Cristo como filho amado de Deus por ocasião de seu batismo. Deus
dá o testemunho de que Jesus é o Messias, mesmo que o seu batismo possa
nos confundir como confundiu o próprio João.
Este texto traz consigo uma importante referência histórica para a
igreja cristã! Aqui está registrado o início da prática do batismo. O povo de
Deus não estaria mais necessariamente marcado pelo sinal da circuncisão.
Aliás, não haveria mais um sinal permanente que marcasse a carne, pelo
menos das pessoas de sexo masculino.

54
O BATISMO DO SENHOR / PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA

Mais tarde, Jesus dará ordem aos seus discípulos para que façam discí-
pulos de todas as nações. O modo que isso deveria acontecer era através
do batismo e do ensino (Mt 2818-20). Paulo diz ter sido enviado para
batizar (1Co 1.17). Filipe batizou um eunuco (At 8.38). Outros exemplos:
At 2.41; 8.12; 9.18; 16.15; 16.33; 18.8; 19.5.
Também nós, hoje, como igreja, mantemos o batismo. É uma herança
que temos da igreja antiga, desde Cristo e do seu mensageiro. O batismo
nos faz participantes da mesma graça na qual foram inclusos todos aqueles
que receberam o batismo de João e de todos os discípulos de Cristo que
o procederam.
O interessante é que também Cristo recebeu esse batismo. É de se
notar que não há referência de arrependimento na ocasião do batismo
de Jesus, ao contrário do caso dos demais que chegavam a João Batista.
Ainda hoje se pratica o batismo de arrependimento, no sentido de mudança
de vida como percebemos em Romanos 6.1-11. Isso nos faz perguntar o
porquê de Jesus ter-se deixado batizar.
João batizou Jesus. João viu o próprio Deus aceitar que mãos pecado-
ras lhe colocassem água sobre a cabeça. Jesus recebe o Santo Batismo
em um processo inverso ao nosso. Quando nós recebemos o Batismo, o
recebemos para a nossa salvação. Quando Jesus recebe o Batismo, ele
o recebe para a sua condenação. A água e a Palavra não podiam limpar
Jesus de nada, pois não havia sequer uma sujeira em Jesus, nem um
pecado sequer e, portanto, ele não precisava arrepender-se. Jesus então
recebe a água do Batismo para carregar as nossas sujeiras. Para usar
os termos de Mateus, “nos convém cumprir toda a justiça” ou no grego:
ou]twj ga.r pre,pon evsti.n hvmi/n tlhrw/sai pa/san dikaiosu,nen. Cumprir
toda a justiça é algo que somente o Messias poderia fazer. Ele é o me-
diador da aliança com o povo, pois sem ele não se mantém a aliança
com Deus por causa da desobediência do povo de Deus em relação à
justiça de Deus. Assim posto, ao invés de o batismo limpar Jesus de
seus pecados, é Jesus quem limpa o batismo. Não é à toa que logo após
o seu batismo Mateus nos mostra Jesus sendo tentado. Não que Jesus
só tenha começado a ser tentado neste momento, mas essa ligação é
importante para nos mostrar que Jesus aceita sofrer os mesmos males
que nós sofremos. É assim que ele carrega as nossas dores; Jesus se
fez pecador por nós (2Co 5.21).
Dizer que Jesus carrega as nossas dores não significa dizer que não
teremos mais sofrimentos nesta terra. Após Jesus aceitar carregar os pe-
cados da humanidade, João Batista foi preso (Mt 4.12). E não há nenhuma
contradição nisso. É após a prisão de João Batista que Jesus assume a
posição de pregador porque agora o tempo estava cumprido. Nem antes e
nem depois; era naquela hora! Jesus não passou por cima da autoridade

55
IGREJA LUTERANA

que João Batista tinha. Ele o respeitou e o honrou até o fim, pois ele era
um pregador da palavra de Deus, que viu as maravilhas de Deus e falava
delas. Agora, aquele que é a luz dos gentios, principia o seu ministério na
terra dos gentios (Mt 4.12ss). Assim vemos Jesus, antes de ser batiza-
do, falando da importância de se cumprir toda a lei e, após ser batizado,
anunciando a mensagem de arrependimento aos gentios: “mediador da
aliança com o povo e luz para os gentios” (Is 42.6).
Alguém poderia questionar: “Mas Jesus era maior que João; ele podia
passar por cima dele!” Mas não o fez! O importante ali não era humilhar
ninguém, mas falar daquela grande maravilha que João teve a oportunidade
de ver, e muitos outros não viram, mas tinham que saber também. Então,
quando João não mais podia pregar, Jesus faz a mesma pregação que João
Batista fazia: “Arrependam-se dos seus pecados e creiam no evangelho!”
Isso nos mostra que a pregação de João Batista era, na verdade, a pre-
gação de Deus. Mostra-nos também que João preparara o caminho para
Jesus tanto em sua mensagem quanto no batismo.
Há muitos assuntos que esta pequena perícope nos coloca à disposição.
Poderíamos ensinar sobre a Trindade, sobre o batismo, sobre a humilhação
de Cristo em favor dos seres humanos, sobre a confirmação da obra de
Cristo pelo Pai. Não podemos, porém, perder de vista a época litúrgica em
que estamos; 1º Domingo após Epifania. Um tema característico deste
período da Epifania é a revelação de Deus aos gentios. Este tema é latente
em Mateus, pois o lugar onde Jesus começa a pregar é na Galiléia dos
Gentios. O fato de Jesus cumprir a lei era importante não apenas para os
descendentes de Moisés, mas também para aqueles que não sabiam o que
era a lei. Assim posto, segue abaixo uma possível estrutura de sermão:
I. Não compreendemos as obras de Deus
• João Batista não compreendeu por que Jesus precisava ser
batizado (Mt 3.14)
• Nós não compreendemos por que precisamos do batismo (como
pode simples água tão grandes coisas fazer?)
II. Vivemos pela fé
• Jesus responde a João dizendo que está certo ele ser batizado
(Mt 3.15)
• João não compreende, mas acredita que Jesus lhe diz a ver-
dade
• Deus nos diz que o batismo nos salva
• Não compreendemos isso, mas sabemos que no batismo não
há só água, mas o próprio Cristo está no batismo, o que nos
mostra essa passagem
• Se Cristo está no Batismo, o Pai e o Espírito Santo também
estão, logo, o Espírito Santo também desce sobre nós e o Pai

56
O BATISMO DO SENHOR / PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA

nos declara como seus filhos (não filho unigênito como nesta
passagem, mas filhos) por ocasião de nosso batismo.
III. Vivemos as obras de Deus pela fé
• Vivificados pelo Deus Triúno no batismo, vivemos para Deus.

Francis Dietrich Hoffmann


CEL São João – Canguçu/RS
francisdh_87@yahoo.com.br

57
SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 40.1-11; Isaías 49.1-7; 1Coríntios 1.1-9; João 1.29-42a

CONTEXTO LITÚRGICO

A palavra Epifania, do grego evpifa,neia, tem variados significados.


Ligado à cultura cristã, trata-se da manifestação de Cristo ao mundo,
principalmente em três eventos distintos: perante os magos do Oriente (Mt
2.1-12) – Epifania propriamente dita; perante João Batista no rio Jordão
(Jo 1.29-34) e perante os discípulos no casamento em Caná da Galileia
(Jo 2.1-12) – início do ministério terreno de Jesus.
O termo Epifania também pode significar uma súbita sensação de
realização ou compreensão da essência de algo. O termo é usado nos
sentidos filosófico e literal para indicar que alguém “encontrou finalmente
a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem com-
pleta” (Wikipedia). Isso coaduna-se com a sensação experimentada por
João Batista ao encontrar Jesus, que o leva a exclamar em alto e bom
tom: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29b).
Epifania, na literatura, é uma forma de mostrar um conceito de modo que
o leitor compreenda de forma exata que ele quer dizer. É tornar legível
aquilo que só o autor compreende. Pensando nos fatos revelados na Bíblia,
isso torna-se possível através da manifestação do Espírito Santo na vida
das pessoas, clareando o entendimento do texto sagrado.

CONTEXTO LITERÁRIO

O apóstolo João utiliza-se de uma linguagem diferenciada dos outros


escritores dos evangelhos, embora o assunto seja o mesmo. Percebemos
isto tanto no seu evangelho como também em seus escritos nas epístolas
e no livro de Apocalipse. Ele parece desenvolver um raciocínio bem fun-
damentado na razão para revelar mistérios espirituais profundos. Assim
percebemos no início de seu evangelho, quando fala de Cristo, tratando-o
como o Verbo de Deus: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com
Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as
coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo
1.1-3). João aqui faz uma referência ao livro de Genêsis 1. 1-3: “No
princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e
havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre
a face das águas. E disse Deus: Haja luz. E houve luz”. O dizer de Deus
SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA

é a palavra de ação de Deus, ou seja, o Verbo de Deus que se fez carne


e habitou entre nós (Jo 1.14). Eis a revelação, a Epifania tida por João,
o escritor, percebendo a ligação de Jesus com o restante da Trindade na
criação do mundo: Deus Pai criando; o Espírito de Deus pairando sobre a
face das águas e o poder criador de Jesus, o Verbo divino. Vemos a Epi-
fania tida também por João Batista que, logo ao ver Jesus, o identificou
como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ligando Jesus aos
sacrifícios do Antigo Testamento e, principalmente, à história do sacrifício
de Isaque (Gn 22.1-19).
João, ao ser questionado a respeito de quem ele era, revelou não ser
ele o Messias, mas um simples porta-voz do mesmo. Revelou também que
Jesus já estava entre eles e que este Jesus era o filho unigênito de Deus
(Jo 1.18). E logo no dia seguinte a este episódio Jesus vai ao encontro
de João Batista, e este o identifica como o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo (Jo 1.29).
Jesus, na sequência do texto, começa a arregimentar os seus discípulos
e no cap. 2.1-12 revela-se ao seu povo em um casamento em Caná da
Galileia, operando o seu primeiro milagre e iniciando ali o seu ministério
terreno.

DESTAQUES DO TEXTO

V. 29:Ide o` avmno.j tou/ qeou/( o` ai;rwn th.n a`marti,an tou/ ko,smouÅ


Tradução: Veja, o cordeiro de Deus (tou/ qeou – genitivo) que vem da
parte de Deus, o que ai;rwn (leva para longe) o pecado que vem da parte
do mundo. Por meio do sacrifício de Cristo, o cordeiro de Deus, ele mani-
festa o seu amor à humanidade, tirando o pecado que vem da parte dos
homens (mundo). Aqui pode-se ressaltar duas doutrinas de modo espe-
cial: a doutrina da salvação exclusivamente pela fé em Jesus, o Cordeiro
de Deus, o único que pode remover o pecado do mundo; e a doutrina da
eleição da graça. Somente aqueles que lavarem as suas vestes no sangue
do cordeiro é que herdarão a vida eterna. O Cordeiro morre por todos, mas
nem todos aceitam seu sacrifício. A salvação é obra de Deus e a perdição
é culpa do próprio homem pecador que, aliás, já nasce nessa condição
(pecado original). Este pecado obscurece o entendimento do homem de
forma que ele não consegue entender e aceitar as coisas divinas, a não
ser se reveladas pelo Espírito de Deus: “... o homem natural não aceita as
coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-
las, porque elas se discernem espiritualmente (1Co 2.14). Somente pode
entender as coisas de Deus quem tem em si efetivada a ação do Espírito
Santo nos meios da graça.

59
IGREJA LUTERANA

Vv. 30,31: João testemunha a respeito de Jesus, afirmando ter ele


primazia por ser Deus eterno. E para manifestá-lo ao mundo, João vinha
batizando com água. Este batismo era uma forma externa de mostrar ar-
rependimento de pecados; por isso João Batista afirma lá no livro de Lucas
que Jesus viria para batizar com o Espírito Santo e com fogo: “... disse
João a todos: Eu, na verdade, vos batizo com água, mas vem o que é mais
poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das
sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.16).
Profecia plenamente cumprida no dia de Pentecostes (At 2.1-12).
prw/to,j – primeiro: Jesus existia antes de João, já existia desde a
eternidade, e este atributo de eternidade é confessado por João.
fanerwqh/| – 3ª pessoa do singular do aoristo passivo do modo subjun-
tivo – fosse manifestado; ou seja, que ele fosse tornado claro ao mundo,
revelado. O batismo de João era de natureza preparatória. Apontava para
frente, para a plenitude da redenção de Cristo. Jesus devia ser revelado,
primeiro, a Israel, que era o povo escolhido de Deus, e foi para este fim
que o batismo de João devia servir. O povo, tendo recebido no batismo a
certeza do perdão, devia estar desejoso pela revelação plena e completa
da graça e da misericórdia de Deus na pessoa e na obra de Jesus.

Vv. 32-34: João, embora ainda não conhecesse Jesus pessoalmente,


recebe uma revelação de Deus com a qual ele iria identificá-lo. Jesus
seria manifestado a ele de uma maneira especial; desceria sobre ele o
Espírito Santo, sob a forma de uma pomba. E Deus nos revela ainda mais
no evangelho de Mateus 3.13-17. Deus revela-se neste episódio como
Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus Filho sendo batizado; Deus
Espírito Santo em forma de pomba e Deus Pai na voz por entre as nuvens
do céu. Revelação direta de Deus e do plano da salvação; manifestação
direta de Deus e do seu amor pela humanidade. Jesus insiste com João
para ser batizado, mesmo sem pecado, para cumprir toda a justiça de
Deus. O Espírito Santo paira sobre ele como a dizer: estou aqui pairando
sobre os filhos de Deus. E o próprio Pai testemunha de seu filho amado
dizendo que ele lhe dá muita alegria.
V. 34: memartu,rhka – 1ª pessoa do singular do perfeito ativo do
modo indicativo – tenho testemunhado; ou seja, é uma ação contínua. O
testemunho a respeito de Jesus deve fazer parte de nosso dia a dia em
palavras e ações, de forma que toda a nossa vida se torne um testemunho
contínuo do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Vv. 35-42a: No outro dia João novamente encontra-se com Jesus e de


novo dá testemunho a respeito dele, dizendo ser ele o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo. Desta vez, João está acompanhado de dois

60
SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA

discípulos e os encaminha a seguir Jesus, mostrando de quem realmente


o homem precisa ser discípulo. Em uma época como a nossa, em que as
pessoas estão cada vez mais seguindo a criatura ao invés do Criador, esta
mensagem faz-se cada vez mais urgente e efetiva. Não devemos seguir
a homens, sejam eles religiosos, políticos ou artistas; porque a Bíblia nos
orienta no livro de Salmos: “Não confieis em príncipes, nem em filho de
homem, em quem não há salvação. Sai-lhe o espírito, volta para a terra;
naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos. Bem-aventurado
aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, e cuja esperança está
posta no Senhor seu Deus” (Sl 146.3-5). O nosso verdadeiro Mestre é o
Senhor Jesus e ele se revela a nós também como o Bom Pastor (Jo 10.1-
16) e, por isso, só a ele devemos ouvir e atender a voz.
V. 37: ...hvkolou,qhsan tw/| VIhsou/Å – Seguiram Jesus. Os discípulos de
João recebem o testemunho do mesmo a respeito de Jesus e o seguem
como discípulos. Toda pregação verdadeiramente cristã segue a proclama-
ção e o testemunho de João. Primeiramente, pela pregação da lei, busca-
se o verdadeiro arrependimento; depois, pela pregação do evangelho,
apresenta-se Cristo como nosso único e suficiente Salvador.

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Assunto: A salvação pela graça de Deus em Cristo, nosso Cordeiro


Santo.
Objetivo de fé: Confiança no sacrifício de Cristo como suficiente para
a nossa salvação.
Tema: Jesus, o Cordeiro Divino que tira o pecado do mundo.
Introdução: Cristo foi o cumprimento das profecias do AT a respeito
do Cordeiro que oferece plena satisfação pelo pecado, de todos os pecados
sem exceção, por todas as transgressões com todas as suas culpas.
Desenvolvimento:
Jesus é o Cordeiro de Deus que foi providenciado pelo próprio Deus e
enviado por ele para tomar sobre si os pecados da humanidade e levá-los
embora, sem deixar nenhum vestígio dos mesmos.
Este Cordeiro Santo carrega não só os meus pecados, mas os de toda
a humanidade, tornando todos os povos pertecentes a uma mesma famí-
lia, a família da fé, a família de Deus, bastando, para isso, aceitar o seu
sacrifício como suficiente e confiar nele como seu salvador pessoal.
João, ao encontrar Jesus, revela-o como o Cordeiro de Deus que tira
o pecado do mundo. Esta mensagem deve ecoar na igreja de todos os
tempos para mostrar a todos os povos que Jesus continua sendo o nosso
único e suficiente Salvador.

61
IGREJA LUTERANA

Conclusão: Nos meios da graça Jesus revela-se a todos como o Cordei-


ro Divino que tira o pecado do mundo. Portanto, os seus filhos reúnem-se
na igreja ao redor destes meios e, fortalecidos na fé, proclamam e revelam
“Cristo Para Todos”.

Jaider Sodré de Oliveira


Serra/ES
jaidersodre@bol.com.br

62
TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 27.1-9 (10-14); Isaías 9.1-4; 1 Coríntios 1.10-18;
Mateus 4.12-25

O final de Mateus 3 relata o momento em que Jesus aparece para ser


batizado por João. O espanto de João não é de espantar: “Eu careço de
ser batizado por ti, e vens a mim?” (3.14). A cena toda, porém, configura
aquilo que fica explícito nos evangelhos: desde o primeiro instante, desde
o começo do seu ministério, Jesus identifica-se com os pecadores que viera
salvar. Está na fila com eles. Porque se importa com eles.
E é assim também que inicia o capítulo 4. Depois do seu batismo com
água, o “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is 53.5) tem agora
o seu batismo de fogo. Ele se coloca na fila dos tentados, a exemplo de
Israel. Seria Ele desobediente como o fora seu povo no AT? Sabemos a
resposta. E por causa dela temos o consolo de que podemos nos achegar
com confiança junto ao trono da graça, para acharmos graça e misericór-
dia, pois Jesus “é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18).
Sim, Ele se importa conosco.
Mas a fila anda. João Batista havia sido preso, e esse acontecimento
marcara o início do ministério querigmático de Jesus. E este início, onde
e como ele se deu, também mostra que Jesus se importa conosco.
Uma sugestão seria ler (ou ouvir) o texto de Mateus 4.12-25 sem
os títulos, sem a divisão por perícopes. Logo salta aos olhos (e ouvidos)
uma palavra que se repete cinco vezes: Galilai,a. – v. 12, 15, 18, 23, 25.
Saindo de Nazaré, a cidade onde passou sua infância, Jesus “retirou-se”
para a Galileia. Por que lá?
Há quem pense tratar-se de uma fuga, uma vez que João havia sido
preso e o mesmo poderia acontecer com o Mestre. Mas também a Galileia
estava sob a jurisdição de Herodes Antipas (a “raposa”, segundo o adjetivo
dado por Jesus), o mesmo que mais tarde dá a ordem de decapitar João
Batista. A Galileia esteve no caminho de Jesus por outra razão.
A Galileia era um distrito da Palestina com grande densidade demo-
gráfica, com área produtiva muito fértil e cortada por duas estradas muito
utilizadas na antiguidade. Além dos judeus que ali moravam, os gentios
também estavam presentes, e uma das razões para isso fora a revolta
dos macabeus. E, ademais, havia fenícios a oeste, sírios ao norte e leste,
e samaritanos ao sul. Enquanto a Judeia, montanhosa e isolada, não fa-
vorecia o contato com os gentios, a Galileia era o oposto. Se pensarmos
na presença de gentios, poderíamos pensar que, por si só, isso já daria o
aspecto de uma terra “em trevas”. Mas há mais.
IGREJA LUTERANA

A Galileia localizava-se na região que outrora fora atribuída a Zebu-


lom e Naftali. A terra que estas tribos herdaram tinha como moradores
povos idólatras. Não obstante, a ordem de Yahweh fora, por ocasião da
posse, expulsar os antigos moradores e destruir seus altares pagãos (Êx
34.12-16). Ou seja, nenhuma aliança com aqueles moradores, nenhuma
prostituição (idolatria) e, por conseguinte, nenhum casamento misto.
Juízes 1 relata o motivo da derrocada: ambos não expulsaram os
antigos moradores cananeus (Jz 1.30,33). Deu no que deu. Os inevitá-
veis casamentos mistos conduziram o povo à idolatria e rebelião contra
Yahweh, além dos prejuízos materiais. O resultado final foi a devastação
com o exército assírio (2 Rs 15.29).
A leitura bíblica do AT, Isaías 9.1-4 (o ideal seria ler até o v. 6), relata
com precisão a angústia do povo: como bois, estavam com uma canga
sobre os ombros; como escravos, sob uma vara que lhes feria; como
súditos, dominados por um rei de cetro opressor (Is 9.4). A imagem da
“bota com que anda o guerreiro” é forte e atemorizante – logo se imagina
uma cena de guerra, com soldados assírios calçados, onde se pode sentir
a terra vibrando. Este cenário, porém, iria mudar. Deus interviria para
acabar com essa humilhação. Para esta terra “aflita”, “desprezível” e em
“obscuridade” viria a redenção; aquele povo “em trevas” e “na região da
sombra da morte” também era precioso para Deus. Porque ele se importa
com as pessoas. Sejam elas de sangue judeu ou não.
A repetida menção da Galileia nos faz, portanto, olhar além da geografia
e enxergar o propósito de Deus em salvar a humanidade. Zebulom e Naftali
também aparecem duas vezes cada. E é por isso que a aparentemente
singela referência à agora morada de Jesus, “Cafarnaum”, também não
pode passar despercebida – há um i[na que indica finalidade e liga o verso
13 ao 14. Ali, entre judeus e gentios, algo grandioso está para acontecer
– o cumprimento da profecia de Isaías, o Reino de Deus mostrando sua
cara. Jesus se importa também e especialmente com os humilhados – e
o salmo do dia (27.1-9) também fala disso.
É interessante notar que “daí por diante” (avpo. to,te) Jesus começou
a pregar. O verbo khru,ssw também aparece repetido na perícope (aqui
e no v. 23). Profeta é um dos ofícios de Cristo – e não à toa o chamaram
de “profeta Jesus” por ocasião da sua entrada triunfal em Jerusalém (Mt
21.11). Sua mensagem está alinhada com a mensagem de João Batista.
O reino dos céus (Mateus prefere “céus” ao invés de “Deus” como uma
reverente substituição, pensando nos judeus) “está próximo” (um perfeito
indicativo ativo, que dá conotação de algo já iniciado que tem duração
no presente). De fato, o reino estava próximo, muito próximo, bem perto
mesmo – na vida e obra do próprio Jesus. Esse chamado ao arrependimento
era um chamado a mudar de direção e dar atenção à mensagem que o

64
TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA

Filho de Deus lhes viera entregar; era um convite à fé, o que fica claro
pelo v. 23: “pregando o evangelho do reino” (khru,sswn to. euvagge,lion
th/j basilei,aj).
O fato de que Jesus se importava com as pessoas estava no fato de
que Ele cumpriu seu ofício profético per se. O v. 23 reafirma a verdade
do v. 17. O Verbo que se fez carne não é apenas a própria Palavra, senão
Aquele que também a apresenta. Ele proclamava e “ensinava” – dida,skwn
– um verbo que aparece 58 vezes nos evangelhos, sendo que em apenas 8
Jesus não é o sujeito. Marcos chega a dizer que era “seu costume” ensinar
(Mc 10.1). Não era apenas uma proclamação evangelística esporádica,
mas um ensino substancial, que fica evidente com os capítulos 5 a 7 em
Mateus.
O caráter didático do ministério de Jesus é, por vezes, subestimado, es-
pecialmente no meio neopentecostal, que volta suas atenções unicamente
às curas e milagres. Em Jesus as duas práticas não estão desvinculadas,
e Mateus deixa isso claro com o v. 23. Num contexto onde a doença era
associada ao pecado, a libertação da doença comprovava a autoridade
de Alguém maior do que toda e qualquer força maligna, uma autoridade
evidenciada também no Seu ensino. Aliás, ambos – pregação/ensino e
curas/milagres – denotavam que Jesus se importava com o povo.
O v. 23, inclusive, traz as mesmas três frases repetidas posteriormente
em 9.35. Tanto lá no cap. 9 como aqui, no início do ministério de Jesus,
a preocupação é com o povo – lá Mateus diz que Jesus ficou com com-
paixão da multidão “porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que
não têm pastor” (9.36). À compaixão de Jesus, o seu amor incondicional
pelo pecador a ponto de se importar sacrificialmente por ele, está ligada
a escolha e a chamada dos discípulos.
Aqui, os quatro primeiros são chamados e prontamente O seguem
– Simão Pedro e seu irmão André, e os dois filhos de Zebedeu, Tiago e
João. A frase imponente não poderia ser outra: “Vinde após mim, e eu
vos farei pescadores de homens” (v. 19). Os discípulos compreenderam
bem o que significa ir “após” (ovpi,sw) Jesus – um chamado a, sem olhar
para trás, seguir irrestritamente o Mestre para uma missão que talvez
nem eles esperavam seria tão grandiosa – pescar gente.
Jesus se importava com estes quatro, e também com os outros oito
que estariam com ele. E isso não foi um acontecimento assim tão banal.
Pescadores não eram, na visão dos judeus, os modelos ideais de pessoas
(como, aliás, também não o eram um publicano e um zelote). Isso porque
os pescadores estavam em contato com todo tipo de pessoas e, portan-
to, também em contato com gentios, o que os deixava cerimonialmente
impuros. Dentre a população mista da Galileia, portanto, e não de dentro
dos muros religiosos de Jerusalém, vieram os primeiros auxiliares de

65
IGREJA LUTERANA

Jesus. Não eram homens extraordinários para uma tarefa comum – era
justamente o contrário.
Mas a escolha dos discípulos mostra um Jesus que se importa não
apenas com aqueles que o haveriam de ajudar a espalhar as boas novas,
mas também e especialmente um Jesus que se importa com a igreja de
todos os tempos. Quando escolheu homens para divulgarem a boa nova
do evangelho, Jesus pensou, então, em mim e em você.
É assim que Ele faz até hoje, quando desperta obreiros, pastores e
missionários que pregam a sua Palavra. Paulo lembrou, com uma fina
ironia, que nem se lembrava de quantos batismos havia feito, mas que
fora chamado a pregar o evangelho, “poder de Deus” (1 Co 1.18) para
salvar os que creem. A epístola do dia põe o foco, portanto, não na dife-
rença entre os pregadores, muito menos nas divisões da igreja; mas sim
na pregação do evangelho. Quando Deus no-lo deixou, mostrou que se
importava conosco.
Contudo, é claro que o início do ministério de Jesus – tal qual a in-
trodução de um sermão – nos aponta para a sua conclusão. A cruz e o
túmulo vazio nos mostram, com evidências sanguíneas, que temos um
Deus que se importou e se importa com a nossa salvação. Cada vez que
a igreja anuncia esta mensagem, “a palavra da cruz”, o Verbo faz a sua
luz brilhar em meio à escuridão do nosso pecado. Aí a luz brilha para que
a levemos para fora do templo, quando todos os cristãos, cada qual com
sua vocação particular, dá seu testemunho falado e vivido. Ou seja, daí é
a nossa vez, como igreja, de nos importarmos com as pessoas, especial-
mente com os que sofrem.
Se é verdade que podemos pensar em como podemos melhor pregar
e cumprir nossa missão – de como podemos com mais eficácia nos impor-
tarmos com a salvação da humanidade – também é verdade que temos
um consolo e um privilégio muito grande em fazer parte da equipe deste
Deus que, em Jesus, se importou e se importa com judeus e gentios,
com humilhados como os galileus Zebulom e Naftali, um Deus que morre
e vive novamente por eles, e ainda os permite, sem qualquer mérito ou
dignidade, fazer parte da sua rede de colaboradores.

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Jesus, um Deus que se importa conosco


O quanto você se importa com alguém?
Você se importa com alguém pensando no que pode receber em troca?
Você abriria mão de algo ou faria algum sacrifício para com aquele
pelo qual você se importa?

66
TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA

Jesus se importou com a humanidade desde o começo da sua missão.


Isso fica expresso:
a) no seu batismo e na sua tentação
b) no início do seu ministério de pregação – pregação/ensino e curas/
milagres
c) no lugar escolhido para iniciar – a mista Galileia
d) na escolha e no chamado dos discípulos
e) na sua preocupação com a igreja de todos os tempos
Mas o fato de que Jesus se importou conosco está expresso de forma
real e definitiva na sua morte e ressurreição.

Agora nós somos chamados a nos importar com as pessoas – sejam


elas de sangue judeu ou não, estejam elas na maior humilhação possível
ou não, sejam elas benquistas ou não – Epifania.
Pregar o evangelho dentro e fora do templo, com palavras e com a
vida, é missão de alta responsabilidade. A igreja não pode sonegar a fiel
proclamação e a correta administração dos sacramentos. E também não
pode ignorar as implicações práticas da vocação cristã.
Mas esta missão também é um consolo. O consolo de fazer parte da-
queles que reconhecem o quanto Jesus se importou com eles e agora se
importam verdadeiramente pelos outros.
Porque mesmo no desempenho deste serviço a nossa certeza é que a
sua luz continua brilhando sobre nós. Não há o que temer (Sl 27.1). Ou
seja, Ele continua se importando conosco.

Júlio Jandt
Itararé/SP
jullynho@yahoo.com.br

67
QUARTO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 15; Miqueias 6.1-8; 1Coríntios 1.18-31; Mateus 5.1-12

LEITURAS

Salmo 15: O salmo traz perguntas por parte dos homens, no caso
Davi, e as respostas por parte de Deus, pois é o único que as pode res-
ponder correta e suficientemente. Estas perguntas nos levam a refletir
sobre a comunhão e habitação celeste. Perguntas sempre presentes no
ser humano.
A resposta de Deus aponta para uma vida de atitude, de prática, tanto
de fala quanto de ação. No entanto, não é uma lista exaustiva, como que
apontando para uma vida sob o peso da lei, mas fala da integridade do
homem, a qual somente é possível quando unido a Cristo. Sob a graça
do perdão e ação do Espírito Santo, o homem vive a cidadania celeste
já neste mundo. Destaque possível quando colocado em paralelo com o
Sermão do Monte.
A resposta de Deus aponta para uma vida sem culpa, íntegra e de
prática da justiça. Isto é lei. No entanto, é justamente então que podemos
reconhecer que habitar no tabernáculo e morar no santo monte somente
é e será possível pela graça, a qual levará o ser humano a viver nas obras
da fé.
Miqueias 6.1-8: O versículo 8 dá ênfase à justiça. Justiça esta que se
estabelece em Cristo e não no homem, tema que é destacado em todas
as leituras paralelas. Observemos que os capítulos 1, 2 e 3 apresentam o
juízo do Senhor contra Judá e Israel; os capítulos 4 e 5 oferecem consolo
e esperança, anunciando restauração da casa do Senhor; os capítulos 6 e
7 declaram o caminho da salvação. E é neste caminho que o cristão deve
permanecer, vivendo, agindo e praticando as boas obras.
1Coríntios 1.18-31: Louco significa estar sem a sabedoria divina como
um tolo, ou pelo menos negá-la (Pv 1.7; Pv 14.9). O mundo não vê desta
forma. Pensa no caminho humano, feitos humanos, segue a lei para ir a
Deus. Falha. Apontar a cruz é loucura para eles. Mas é a verdade divina
e, portanto, sabedoria que somente Deus pode ter e revelar.
Refletir sobre este texto e sua importância no período de Epifania
nos leva a destacar a pregação da vinda de Jesus como Deus ao mundo
diante da loucura do mundo. Confronta os caminhos de Deus com os
caminhos da mente humana, a qual sempre o leva para longe do Criador
e, especialmente então, para longe do Salvador. Do texto, extraímos que
QUARTO DOMINGO APÓS EPIFANIA

sendo a cruz a referência de morte e justiça divina, é dela que obtemos a


mensagem consoladora da vida e da graça. Sem a obra de Cristo, que se
entregou em obediência à vontade do Pai até a morte de cruz, não pode
haver salvação.

O TEXTO DE MATEUS 5.1-12

Contexto
O Sermão do Monte, diferente do que parece por estar no início do
livro de Mateus, não foi proferido no início do ministério de Jesus, mas
foi proferido em meados do mesmo, quando já era bem conhecido pelo
povo e por seus discípulos. Os versículos anteriores apontam para uma
extensa caminhada de Jesus que ia da Galileia, Decápolis, Jerusalém e
Judeia (1.25). Sua fama já havia corrido por toda a Síria (1.24).
Falando sobre o texto, Lange sugere que Jesus havia se preparado
para este momento. Afirma ele: “O tempo e o local desta grande aula
foram escolhidos por Jesus com cuidado. Ele passou a noite orando na
montanha”. Jesus tinha um propósito para com os seus discípulos, que
bem o conheciam, mas que precisavam agora ser ensinados quanto à
prática.
Em Lucas 6, encontramos outro relato sobre as bem-aventuranças
proferidas por Jesus. Mesmo que alguns comentaristas defendam que
Mateus e Lucas apresentam o mesmo Sermão do Monte, encontramos
também opinião contrária entre os mesmos. Lange, por exemplo, aponta
para o sermão das bem-aventuranças em Lucas 6.20ss. como sendo um
ensino proferido em outro momento por Jesus, não sendo o mesmo que
encontramos em Mateus. Alguns pontos são destacados por Lange: Ma-
teus descreve que Jesus subiu ao monte e Lucas diz que desceu do monte
(6.17). Um dirigido aos discípulos, outro, a todos que o seguiram.

Expressão
Makarioi - bem-aventurado: significa bendito, feliz, usualmente no
sentido de recebedor privilegiado do favor divino. Expressa a felicidade
de alguém que tem a paz com Deus.
A partir das frases explicativas, que iniciam com o[ti, a bem-aven-
turança que Jesus tem em vista é o Reino do Messias. Jesus declara
bem-aventurados aqueles a quem o mundo teria por infeliz. Isto porque
valorizam o exterior. No entanto, nada é novo, uma vez que todas as
bem-aventuranças são baseadas em passagens do Antigo Testamento. É
digno de nota que, assim como as bem-aventuranças de Jesus como as
do Salmo 1, ambas pressupõem um estado correspondente da mente e
exortam os crentes a valorizar e buscar uma disposição espiritual.

69
IGREJA LUTERANA

Para Lange, as bem-aventuranças são um crescente que chegam ao


“ápice”; elas formam uma linha ascendente, na qual a nova vida é tra-
çada de estágio para estágio, desde o seu início até a sua conclusão. Na
base temos a pobreza de espírito, ênfase no Antigo Testamento. Mas, ao
compreender a linha ascendente pela justiça em Cristo, entenderemos a
progressão: os humildes de espírito, os que choram, os mansos, os que
têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração,
os pacificadores, os perseguidos. Manifestamente, cada uma das bem-
aventuranças expressa uma nova relação (religiosa) em direção a Deus
e, lado a lado com ela, uma nova relação (moral) para com o mundo. O
desafio é viver a verdadeira cidadania cristã no mundo civil.

Destaques
Lenski diz que o Sermão do Monte é um excelente exemplo dos ensi-
namentos de Cristo. Vemos inúmeras referências destes nos evangelhos.
No entanto, ele é mais do que isto. Nele, vemos apresentada a descrição
plena da vida no Reino, desde a entrada no reino aqui na terra à consu-
mação final, entrada no reino da glória, no dia do julgamento. Somente
quando esta natureza abrangente do sermão é percebida, sua verdadeira
grandeza vai ser percebida.
O perigo na aplicação das bem-aventuranças é colocá-las como atitude
e comportamento moral para então receberem de Deus o que Ele promete.
Assim sendo, colocariam as obras como mérito para as bem-aventuranças.
E a abordagem deve ser justamente oposta.
O Sermão do Monte foi muitas vezes considerado como lei e não como
evangelho. Kretschmann escreve que “em linguagem simples, mas com
específica força e pertinência, Jesus dá um sumário do seu ensino moral, a
doutrina ‘dos frutos e boas obras do cristão’ conforme Lutero”. Jesus expõe
o verdadeiro sentido da lei frente à exposição superficial e pervertida dos
escribas judeus e rabinos, fazendo de novo o trabalho de Moisés, porque
os judeus tinham perdido a verdadeira compreensão de Moisés. Por isso
diz que Jesus aqui ensinou e não pregou.
O sermão lida com a vida destes verdadeiros discípulos e emprega a lei
só como regra pela qual eles vivem e provam ser verdadeiros discípulos.
É a contrapartida para o último julgamento, 25.31-46, em que as obras
são “decisivas” na revelação dos que estão à direita e dos que estão à
esquerda: funciona como evidência para a presença da fé, e para outros,
como evidência para a sua ausência. Por isso, a epístola recebe destaque,
quando aponta para a cruz de Cristo.
O sermão fala das obras, mas que não podem estar independente da
fé. E a cada instante aponta para o evangelho consolador, para o futuro
garantido pela obra salvadora de Jesus, o Reino dos Céus. Encerra con-

70
QUARTO DOMINGO APÓS EPIFANIA

vidando ao regozijo, mesmo diante da perseguição, algo que somente é


possível para quem está na graça do evangelho.

Doutrina
No Sermão do Monte, toda a doutrina de Cristo é exibida na primeira
etapa de seu desenvolvimento, como depois é exposta de uma forma um
pouco análoga na epístola de Tiago. Temos aqui a nova vida cristã, base-
ada agora na lei do amor, uma vida de resposta. A questão não é a vida
exterior, mas interior, a qual se mostra diante dos homens. O primeiro
contraste entre a ação de Deus e as performances do homem – entre o
juiz e o pecador culpado – é contemplar que a bênção é receber as bem-
aventuranças de um Pai misericordioso e compassivo Salvador. Em suma,
a justiça em toda a sua plenitude consiste no fato de que o próprio Cristo
é toda a justiça.
O contraste aponta para Moisés e Cristo. Monte Sinai, no deserto, e o
Monte das Bem-aventuranças, no meio de uma multidão na terra santa.
Moisés sozinho, escondido entre as nuvens de uma tempestade terrível,
Cristo rodeado por seus discípulos, sentando-se no meio deles. O Monte
Sinai, com limites estabelecidos e as pessoas a distância, e o Monte das
Bem-aventuranças abrangendo a multidão. No Monte Sinai, as pessoas
que fogem da montanha, no outro, as pessoas indo até o monte para no
seu cume encontrar a Jesus. Moisés recebeu as tábuas da parte do Senhor,
Jesus revelou do seu coração. A lei de Moisés escrita em tábuas de pedra,
a palavra de Cristo no coração dos seus discípulos. No primeiro caso, o
trovão e relâmpagos, noutro, apenas bem-aventuranças.
Lange diz que existe uma clara conexão entre o Monte das Bem-
aventuranças e o Monte Santo. A primeira bem-aventurança (espírito hu-
milde, pobre) nos leva ao Sinai; a segunda e terceira apontam para Moriá
e Sião; a quarta e quinta nos dirigem ao Gólgota, enquanto a sexta e a
sétima nos fazem lembrar do Getsêmani e Monte das Oliveiras, Betânia
e Monte das Oliveiras ou Tabor. No entanto, é um grande engano colocar
as bem-aventuranças do Sermão do Monte na mesma categoria dos 10
mandamentos.

ESBOÇO DO SERMÃO

Cidadão no mundo, vivendo como cidadão do reino de Deus


1. Estamos no mundo, mas dele não somos. Somo cidadãos aqui e
do Reino de Deus
a. Aqui reinvindicamos, criticamos, achamos difícil.
b. O mesmo se dá quando vivemos como cidadãos do Reino

71
IGREJA LUTERANA

2. Cidadania requer uma mudança de coração


a. Precisamos reconhecer que por natureza não temos méritos
(v.3)
b. Choramos como enlutados por nossa vida diante de Deus
(v.4)
c. Aprender de Jesus a mansidão (v.5)
d. Desejar a justiça de Deus diante da fraqueza e carência hu-
manas (v.6)
3. Cidadania requer uma mudança de vida
a. Refletir sobre a misericórdia de Deus (v.7)
b. No perdão, viver a comunhão dos santos, estabelecendo rela-
ções honestas e íntegras
c. Promovemos a paz que Jesus dá, não como o mundo dá (v.9)
4. Verdadeira cidadania traz tanto dificuldades quanto recompensas
a. Perseverar diante das perseguições, na alegria da salvação
(vv.10-12).
Séculos atrás, o poeta romano Horácio escreveu: dulce et decorum
est pro patria mori (odes 3.2.13) - é doce e glorioso morrer pelo seu país.
Cidadania sempre teve o seu preço. A verdadeira cidadania, seja no reino
de Deus ou do mundo, nunca é fácil. Mas sem ela os benefícios da vida
e da sociedade são de curta duração. E assim Deus nos pede para viver
segundo a sua vontade, mas sempre à luz dessas recompensas que ele já
nos deu em Jesus Cristo e que ele ainda está ansioso para conceder-nos.
A vida cristã deve ser sempre uma resposta agradecida pelo que Deus fez
por nós na obra redentora de Jesus Cristo.

Klaus Kuchenbecker
Congregação Martinho Lutero – Planaltina/DF
klausek@terra.com.br

72
QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 112.1-9; Isaías 58.3-9a; 1Coríntios 2.1-12 (13-16);
Mateus 5.13-20

LEITURAS BÍBLICAS

Salmo 112.1-9: Salmo que fala da bem-aventurança e confiança


daquele que teme ao Senhor. Destaque para o versículo 4, que nos liga
à leitura do Evangelho, e o versículo 7, que mostra a confiança e fé no
Senhor mesmo em tempos difíceis.
Isaías 58.3-9a: Deus repreende e instrui o povo sobre o verdadei-
ro jejum, que consiste em obras de amor ao próximo (cf. também o Sl
112.5,9) e não observâncias externas que não vêm do coração, o que
tem ligação com Mateus 5.20. O versículo 8 também se relaciona com o
texto do evangelho e o Salmo 112.4.
1Coríntios 2.1-12 (13-16): Paulo resume toda sua pregação em
uma frase: “Jesus Cristo e este crucificado”. Mostra que seu ensino e a fé
que ele e os coríntios têm baseia-se no poder de Deus e não em sabedoria
humana, e que somente tendo o Espírito Santo podemos ter a mente de
Cristo e compreender os mistérios e verdades de Deus.
Mateus 5.13-20: Jesus usa sal e luz, coisas essenciais e muito pre-
sentes na vida das pessoas na época, para mostrar qual o papel de seus
discípulos no mundo, e mostra que o cumprir da Lei é algo muito mais
profundo que a aparência exterior e o cumprimento de certas regras
diante das pessoas.

TEXTO E CONTEXTO

Nosso texto está inserido no início do Sermão do Monte, logo após


as bem-aventuranças. Este sermão, dentro do contexto de Mateus, está
situado no início de seu ministério público, após chamar os 12 discípulos
e pregar na Galileia, ficando cada vez mais conhecido e procurado pelas
multidões que, aparentemente, eram o público secundário deste sermão,
tendo os discípulos como audiência primária (cf. Mt 5.1-2).
Na sequência de nossa perícope, Jesus faz referências diretas à sua
afirmação do versículo 20, falando sobre ódio, adultério, divórcio e outros
temas da Lei. Temos passagens paralelas diretas apenas do versículo 13
(Mc 9.50 e Lc 14.34-35).
O texto grego não apresenta dificuldades na tradução. Destaco ape-
nas no versículo 13 o verbo mwranqh/ (subj. aor. pas.), que significa “agir
IGREJA LUTERANA

como tolo” e, aplicado ao sal, “ficar sem sabor”. Isso já nos proporciona
uma ponte: se o cristão age como tolo, fica “sem sabor” e não pode ser
o sal da terra, pois se torna semelhante ao mundo e, assim, inútil como
o sal sem sabor.
Nesta época de Epifania, Jesus nos mostra que é através de nós que
Ele continua se manifestando ao mundo, como sal e luz que apontam
para sua salvação.

COMENTÁRIOS HOMILÉTICOS E APLICAÇÃO

O texto fala em sal, luz e cumprimento da lei. Quero destacar algo


de cada tema, especialmente com os versículos 13 a 16, e depois sugerir
uma proposta homilética.

a. Sal
Como sabemos, o sal na época de Cristo tinha valor e uso muito im-
portantes, apesar de não ser tão puro e processado como hoje. Além de
temperar, sua função principal era preservar alimentos, impedindo sua
putrefação, e era usado também para purificação. Por isso seu valor era
grande, usado até para transações comerciais e pagamento de tributos.
Ao dizer que o sal, se perder o sabor, não serve para mais nada, Jesus
estava usando algo que é muito difícil de acontecer na natureza – o sal
ficar insosso. Isso reforça a aplicação que ele faz do “vós sois o sal da
terra”: que não há como ser cristão e não ser o sal da terra, isto é, sermos
aqueles, como indivíduos e como igreja, que impedem ou retardam a pu-
trefação total do mundo e que denunciam o pecado, provocando reações
(o sal na ferida arde!).
Se deixarmos de ser sal, agimos como tolos (mwranqh/ – v. 13) e nos
tornamos semelhantes ao mundo. Aqui entra o “estamos no mundo, mas
dele não somos”, o cuidado para que as tentativas de ser “tudo para com
todos” não nos torne insípidos e nos deixemos contaminar com as influ-
ências do mundo (isto sim, naquela época, mudava ou anulava o gosto do
sal – a contaminação com outros elementos químicos), perdendo nossa
influência denunciadora, purificadora e de dar “tempero” ao mundo – o
bom tempero do amor de Cristo.
Lutero diz que “com a palavra ‘sal’, Jesus mostra qual deve ser a fun-
ção dos seus seguidores. Pois sal não é sal para si mesmo, pois não pode
salgar a si mesmo, mas serve para salgar carne e o que mais é necessá-
rio na cozinha, para que preserve seu gosto, se mantenha conservado e
não apodreça. Assim, também vocês são sal, diz ele, não um sal para a
cozinha, e sim, para, com ele, salgar a carne, ou seja, o mundo inteiro”
(OS 9, 68-69). E continua: “Se quiseres pregar o evangelho e ajudar às

74
QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA

pessoas, também tens que ser incisivo, tens que esfregar sal nas feridas,
mostrando o reverso e denunciar o que não está certo...” (OS 9,70).
Lenski nos lembra que “o mundo preferiria que fôssemos mel em vez
de sal” e que, por outro lado, o sal não é um alimento (Matthew, 199).
Não podemos ser “mel” no sentido de tentar agradar ao mundo com nossa
pregação (Gl 1.10). Podemos dizer, do ponto de vista da interpretação
luterana, que o sal é a Lei, que denuncia o pecado, e que se queremos
usar a palavra “mel”, este seria o doce Evangelho, que salva e alimenta a
alma (cf. Sl 119.103, 19.10). A Lei, como o sal, não alimenta, mas serve
para denunciar, purificar e provocar sede pela água da vida.

b. Luz
Ao dizer que somos “luz do mundo”, Jesus novamente usa a figura
absurda para reforçar seu ponto: é de fato ilógico e insensato alguém
querer esconder uma cidade sobre um monte, ou acender uma lamparina
para colocá-la debaixo de um cesto. Ou seja, o óbvio e natural é esperado
– que se coloque a luz no lugar onde pode iluminar bem.
Cristo é a verdadeira luz que veio ao mundo (Jo 1.8-9, 3.19-21, 8.12)
e os seus discípulos tornam-se luz para o mundo por estarem unidos com
ele (2Co 5.17; Gl 3.27). Esta luz a podemos refletir apenas pelo poder dado
pelo Espírito Santo (Fp 2.13; Gl 5.22-26; Jo 15.4-5; 2Co 3.5) e é assim
que as pessoas poderão ver nossas boas obras e glorificar o Pai.
Ao lado de ser sal, “esse é o segundo aspecto do ministério do qual
Jesus incumbe os amados apóstolos: que sejam chamados luz do mundo
e que, também, o sejam, isto é, que instruam as almas e lhes mostrem o
caminho para a vida eterna [...]. Isso, também, é necessário porque Cristo
não quer que esse ministério seja exercido às escondidas ou, somente,
em determinado lugar, mas que seja louvado publicamente pelo mundo
afora”, comenta Lutero (OS 9,75-76).
Lutero também argumenta que as obras da luz (v.16) são sobretudo
“ensinar corretamente, praticar a fé, instruir, fortalecer e perseverar nela,
com o que testemunhamos que somos cristãos íntegros”, pois “ensinar
e confessar a Cristo, de verdade, não é possível sem a fé, conforme diz
Paulo em 1Co 12.3 [...]. Por isso, a mais certa obra de um verdadeiro
cristão é somente uma: glorificar e anunciar a Cristo de tal modo que as
pessoas aprendam que elas nada são e que Cristo é tudo [...] Assim, as
duas coisas estão no devido lugar: em primeiro lugar, devemos sempre
ensinar e promover a fé e, consequentemente, também viver de acordo
com ela, para que, desse modo, tudo o que fazemos seja feito na fé e
proceda da fé” (OS 9,79-80).
Este viver de acordo com a fé é o nosso brilhar, que pode ser iden-
tificado também com os frutos do Espírito (Gl 5), e com as palavras de

75
IGREJA LUTERANA

Jesus em todo o sermão do monte. Assim, unidos à Luz, podemos fazer


tudo em nome de Cristo e dar graças ao Pai (Cl 3.17).
A luz serve para iluminar o ambiente e mostrar o caminho, e não
para chamar a atenção sobre si mesma (pois então já não é luz, mas um
canhão de luz ou fogos de artifício). Assim, como uma vela ou lâmpada
ilumina o seu ambiente e não a rua ou a cidade inteira, somos chamados
a ser luz ali onde Deus nos coloca – no lar, no trabalho, na escola, no
lazer, entre vizinhos, amigos e colegas, deixando Cristo brilhar através de
nós naturalmente no testemunho do evangelho e nos pequenos gestos de
amor a Deus e ao próximo.
Vivendo na luz poderemos mostrar ao mundo que Cristo nos livrou das
trevas (1Pe 2.9) e que agora, guiados em sua luz (Sl 119.105), somos
transformados, diferentes, sem sermos fanáticos, exibicionistas, orgulhosos
ou falsos, como os fariseus e escribas que Jesus cita no versículo 20.

c. Jesus e a lei
Resumindo o que Jesus diz nos versículos 17 a 20, podemos dizer
que Jesus cumpriu a lei no sentido de que lhe deu seu sentido completo,
enfatizando seus princípios profundos e o total compromisso com ela em
vez de um mero conhecimento e obediência exterior a ela.
Jesus é contra o legalismo e a hipocrisia demonstrados pelos fariseus
de então e de hoje. Desaprova o seguir a lei só exteriormente (vide Is 58
acima) sem que isso venha do coração transformado por Deus, e mostra
(v. 20) que a justiça das obras é, na verdade, impossível.
Somente Cristo excedeu a justiça dos escribas e fariseus. Por isso,
unidos com Ele recebemos esta justiça, como afirma Paulo (Rm 8.1 e 2Co
5.21), e podemos ser sal da terra e luz do mundo.

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: Faça diferença no mundo, sendo sal e luz!

Introdução: O mundo avança em muitas áreas (tecnologia, medicina,


educação, etc.), mas continua mergulhando e apodrecendo no pecado –
violência, imoralidade sexual, corrupção, etc. Vivemos no mundo, mas
dele não somos. No entanto, Deus quer que sejamos seus agentes para
apontar o pecado, sendo sal, e apontar a salvação de Cristo, sendo luz.
– Mostrar a utilidade do sal e da luz (vide comentários acima) na época
de Jesus e hoje. Sem sal a comida fica sem gosto. Sem luz há o caos e
oportunidade maior para o mal – violência, roubos, etc.
– Ser sal é temperar o mundo com a lei de Deus e o amor de Cristo
para preservá-lo da podridão, apontando e repreendendo o pecado e lu-

76
QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA

tando contra suas consequências. Para isso precisamos “mexer o saleiro”,


isto é, agir, para que o “sal” de Cristo atinja os que estão ao nosso redor,
começando com nossa família e indo até onde Deus nos permitir “salgar”
em nossas vocações.
– Ser luz é mostrar o caminho da salvação ao mundo, refletindo a luz
de Cristo na vida pessoal, familiar, profissional, social e religiosa, com amor,
sinceridade e verdade, guiados pelo Espírito de Cristo, com humildade e
alegria, e não como os fariseus citados por Jesus.
– Como fazer isso? Primeiro, mostrando que buscamos cumprir os
mandamentos da primeira tábua e que somos totalmente dependentes
de Cristo. Segundo, vivendo a fé no dia a dia, não nos deixando conta-
minar pelo mundo, mas tentando ser influência nele, sem fanatismo ou
exibicionismo, sem ar de superioridade, mas com compaixão pelos que
ainda estão nas trevas.

Conclusão: Para fazer a diferença, sendo sal e luz de Cristo, preci-


samos da força que vem só dele e a devemos buscar continuamente na
Palavra e sacramentos.
Para cada pessoa que “salgarmos” e mostramos a luz da salvação, isso
fará toda a diferença – da morte para a vida – e então a luz terá cumprido
sua missão e o sal terá dado um tempero especial naquela vida – o sabor
da vitória conquistada por Cristo na sua cruz e ressurreição.
O mundo, de sabor amargo de morte e perdido nas trevas, precisa cada
vez mais do sal e da luz de Cristo, o Salvador. Então, façamos diferença
no mundo, sendo sal e luz!

OBRAS CONSULTADAS

Concordia Self-Study Bible; Novo Testamento Interlinear Grego-Português;


Chave Linguística do Novo Testamento Grego; Obras Selecionadas de
Martinho Lutero – V. 9; El Sermón del Monte, John Stott (Buenos Aires,
Ediciones Certeza, 1998); The Interpretation of St. Matthew’s Gospel,
R.C.H. Lenski (Columbus, Wartburg Press, 1943).

Leandro D. Hübner
Rio Branco/AC
ledahu@gmail.com

77
SEXTO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 119.1-8; Deuteronômio 30.15-20; 1Coríntios 3.1-9;
Mateus 5.21-37

CONTEXTO

O evangelho do dia traz uma boa oportunidade para pregação de


santificação. As demais leituras do fim de semana também favorecem
o tema. O Salmo 119, em seus 176 versículos, não deixa de destacar
a lei de Deus de diversas formas e a alegria que é poder conhecê-la e
cumpri-la. Deuteronômio traz a imagem do povo de Deus diante da es-
colha entre fazer o bem e fazer o mal. E Paulo, em Coríntios, ataca um
dos aspectos da santificação: evitar o ciúme e as brigas entre os irmãos.
Os textos apontam para a realidade da santificação como ela de fato é:
somente pode praticá-la aquele que foi plantado por Cristo na fé, e cujo
crescimento vem de Deus.

TEXTO

Um dos pontos centrais para não perder de vista a adequada aplicação


de santificação é dado pelo próprio Cristo. Na perícope em destaque, ele
indica o que Paulo, mais tarde, vai afirmar: ‘a letra mata, mas o espírito
dá vida’. Santificação não trata de ler a lei letra por letra e, uma vez che-
gando à conclusão pessoal de que se está cumprindo o que Deus pede,
repousar seguro de o estar agradando. Jesus Cristo aborda o espírito da
lei e, ao fazê-lo, torna claro que é impossível para qualquer ser humano
cumpri-la. Seja adultério, divórcio, juramento, vingança, amar os inimi-
gos... Se a letra da lei já é pesada, quando se trata do espírito dela fica
evidente que não existe meio de sermos fiéis à palavra de Deus, nem de
escolher o bem, nem de evitar brigas e ciúmes, nem mesmo de termos
prazer em cumpri-la; é pesada demais.
A realidade da fé em Cristo, a justificação por ele concedida, é a cer-
teza de que somos plantados e regados por ele, vindo a crescer única e
exclusivamente por graça. Este é o ponto de partida da santificação. A
partir dele, a lei de Deus se torna alegria. Torna-se norma e ensinamento.
Desta realidade da graça que somos convidados a escolhermos o bem e
a praticá-lo. Disseminá-lo.
E a esta mesma lei, como espelho, somos também chamados diariamen-
te a, em humildade, reconhecer nossa limitação e fraqueza em observar,
para, perdoados, novamente buscarmos cumprir a vontade de Deus.
SEXTO DOMINGO APÓS EPIFANIA

Quanto aos versículos da perícope, é difícil abordar cada um dos pontos


em detalhe no mesmo sermão. A abordagem da santificação, portanto,
permite destacar esta dinâmica. Tanto o de não conseguirmos cumprir,
por nós mesmos, nenhum ponto da lei. Como o fato de que Cristo nos
chama a andarmos em sua vontade, como resposta ao seu amor. Não é
necessário ter medo de ser moralista e evitar os pontos que o próprio
Jesus não evitou.
Destaque pode ser dado para a importância do casamento e o pecado
do divórcio. A necessidade de evitar o adultério, tanto o que acontece so-
mente na mente como aquele que se concretiza em ações. A clareza na
palavra, no sim e no não, em um mundo em que a verdade, muitas vezes,
é apenas uma questão de se ter a melhor versão. O evitar a vingança,
no mundo que normalmente só entende o ‘olho por olho’, praticando a
tolerância e o amor.
E uma ênfase especial pode ser dada a amar os inimigos. Na verdade,
parece que Jesus constrói este trecho em forma de gradação, do ponto
de vista humano, deixando a coisa ‘cada vez mais difícil’ até chegar no
‘impossível’, que é amar e orar por um inimigo. Mas o evangelho não é
palavra simples ou simples justiça humana, nem mera lei moral. É poder
de Deus para a salvação e para conduzir a um amor sem limites a ele e
ao próximo. Vai além, surpreende, impulsiona à ‘loucura’. E nos traz de
volta sempre ao amor, perdão e recomeço, pela fé.
Pregar santificação é esquecer da predominância que o evangelho
precisa ter, como sugere Walther? Não. Ao menos quando se prega a
santificação da perspectiva bíblica evangélica – fruto da fé, ação de Deus
em e por nós.

SUGESTÃO DE ABORDAGEM HOMILÉTICA

Tema: Você ouviu o que foi dito?

Introdução – Quanto do que ouvimos guardamos? Existem pesquisas


que dizem que é muito pouco.
Uma das coisas que ouvimos muito, e que normalmente guardamos e
repetimos, é que nosso mundo anda perdido. Nosso país anda cada vez
mais violento, sem amor, falta de pudor, imoral... No entanto, o Censo mais
recente continua a apontar que pelo menos 90% dos brasileiros acreditam
em Deus e, destes, ao menos 80% são cristãos. Então: podemos atribuir
a não-cristãos, ateus, pagãos, o estado das coisas como estão?...
Isto nos leva à certeza de que, no que diz respeito à prática do que
ouvimos da vontade de Deus, podemos dizer o quanto temos capacidade
de guardar por nós mesmos: nada.

79
IGREJA LUTERANA

1. Não somente os de ontem


Nós também, hoje, não costumamos dar ouvidos à palavra de Deus.
Alguns exemplos estão na leitura do evangelho.

2. Cristo praticou em nosso lugar


Somente ele foi capaz de praticar o que ensinou – perfeitamente, e
em nosso lugar.
E somente ele pode nos fazer ouvir e praticar.

3. Praticar o que ouvimos


A fé nos coloca na graça e na família de Deus. E, então, ele nos conduz
a fazermos sua vontade. Em amor.
Escolher o mal, não o bem.
Ir além da letra da lei, agindo em amor.
Evitando o adultério, o divórcio, os juramentos, a vinganças e amando
nossos inimigos.
Lembrando sempre do perdão que cobre a nós e todos os pecadores
por pecarmos contra a vontade de Deus.

Conclusão – Você ouviu o que foi dito? Agradeça a Deus, isto é graça,
justificação, ação dele em nós. Você quer praticar o que ouviu? Agradeça
igualmente, isto é santificação – ação dele em nós! Não vamos mudar o
país inteiro? Não importa, este não é o objetivo principal. Mas sim, res-
ponder ao amor de Deus, amando ao nosso próximo. Para que ele também
conheça este amor, creia. E seja salvo.

Lucas André Albrecht


Canoas/RS
lucasalbrecht@gmail.com

80
SÉTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 119.33-40; Levítico 19.1-2,9-18; 1Coríntios 3.10-23;
Mateus 5.38-48

CONTEXTO

O evangelho do dia proporciona uma ótima oportunidade para pre-


gação sobre amor e perdão. Jesus estava reunido com seus discípulos e
assim aborda este assunto tão importante. As demais leituras deste final
de semana procuram seguir o mesmo tema, complementando ainda so-
bre a importância da confiança em Deus, o Senhor. Na leitura do Salmo
119 podemos perceber o destaque que é feito sobre a lei de Deus e no
versículo 33 o salmista nos mostra o desejo de aprender e seguir os de-
cretos do Senhor Deus. Em Coríntios, Paulo destaca a responsabilidade
dos que ensinam. Paulo destaca e deixa claro que ser humano nenhum
tem o direito de lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual
é Jesus Cristo.
Os textos apontam para a realidade do amor, do perdão e da impor-
tância de se manter firme e fiel nos ensinos de Deus, o Senhor.

TEXTO

Na perícope em destaque, vemos Jesus debatendo com seus seguido-


res. Jesus procura citar e destacar durante o seu ensino a lei de Moisés:
“olho por olho, dente por dente”. A expressão que Jesus cita se encontra
em Levítico 24.20, e faz parte do que se chama de lex talionis, ou “lei
do talião”. Essa lei concedia o direito de retaliação, em que uma pessoa
agredida poderia retribuir ao seu agressor na mesma medida.
Diante deste assunto polêmico e até mesmo assustador, Jesus se
pronuncia: qual é a reação de Jesus? O que ele diz sobre isso? Jesus con-
corda com a lei do olho por olho, dente por dente? Não, Jesus apresenta
um novo olhar, um caminho melhor. O caminho que Jesus apresenta é
o caminho do amor, do perdão, da amizade até mesmo entre inimigos.
Diante disso, precisamos imaginar os rumores que se sucederam diante
da proposta de Jesus: amar e perdoar as pessoas que queremos bem
pode ser até normal, mas quando Jesus fala em amar o inimigo, será que
isso é tão fácil assim?
Jesus, como podemos notar, não fica na “lei de talião”. Jesus possui
outra compreensão a respeito deste assunto. As duas colocações que
Jesus faz levam-nos ao ponto mais alto do Sermão do Monte, ponto pelo
IGREJA LUTERANA

qual ele tem se tornado mais admirado e, ao mesmo tempo, objeto da


maior indignação. Trata-se da atitude de amor total que Cristo manda
que demonstremos ao perverso (v.39) e aos nossos inimigos (v.44). Em
nenhum outro ponto o sermão é mais desafiador do que este.
Podemos, diante de tudo, mencionar o paralelo deste texto com a
oração do Pai Nosso, quando oramos: “e perdoa as nossas dívidas assim
como nós perdoamos aos nossos devedores”? Viver o perdão de Deus é
algo tão grandioso e digno de ser celebrado pela igreja sempre! Deus vem
se manifestar graciosamente na palavra anunciada, no batismo e na san-
ta ceia. Mostra-nos sua face de amor e convida-nos a viver a nossa vida
com muita alegria. De fato, somos peregrinos em meio a muitas situações
conflitantes, de perigo e de tentações. No entanto, temos esta promessa
de Deus, que nos sustenta e dá ânimo para seguirmos a jornada: nossos
pecados estão perdoados. Isso é algo para ser lembrado sempre! Temos
paz com Deus. Pode haver bênção maior? Acredito que não. Desfrutar
gratuitamente do perdão de Deus é maravilhoso.

SUGESTÂO DE ABORDAGEM HOMILÉTICA

Tema: Vivamos o perdão de Deus.

Introdução: Dentre as dezenas de ditos populares que conhecemos,


gostaria de destacar apenas um. Quem sabe você já ouviu o mesmo em
seu meio, mesmo em outras palavras? O dito é este: “Aqui se faz, aqui
se paga”. Este dito popular que se ouve no dia a dia nada mais quer dizer
que o certo é pagar com a mesma moeda, não é?
Isto é o que os homens procuram dizer, por isso podemos dizer que é
um dito popular. Deus, nosso Pai, tem outros planos para seus filhos: ele
fala-nos sobre o maravilhoso presente que é o perdão.

1. Lei de Moisés
Nós também queremos seguir a lei do talião, não costumamos dar ou-
vidos à palavra de Deus, queremos sempre devolver na mesma moeda.
Alguns exemplos da leitura do Evangelho, especialmente sobre o
perdão.

2. Cristo fez tudo em nosso lugar e, assim, suportou sofrimentos


Somente ele foi capaz de praticar o que ensinou – perfeitamente, e
em nosso lugar.
E somente Ele pode nos fazer ouvir e assim praticar o perdão, pois
fomos perdoados primeiro por ele.

82
SÉTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA

3. Praticar o que ouvimos


Precisamos praticar o perdão, pois Cristo perdoou os nossos pecados
e assim precisamos também perdoar aqueles que tentam o mal contra
nós. Cristo é nosso Salvador.

Conclusão: Vivamos diariamente este amor de Deus por nós e a


salvação obtida através do perdão de todos os nossos pecados. Assim
podemos construir toda a nossa vida cristã em cima do alicerce que nunca
se abalará, Cristo, o verdadeiro fundamento. Amém.

Djosef Lambrecht
Xanxerê/SC
djosefhz@hotmail.com

83
OITAVO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Salmo 115.(1-8) 9-18; Isaías 49.8-16a; 1 Coríntios 4.1-13;
Mateus 6.24-34

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Preocupação ou confiança: um teste à nossa lealdade


I. Deus espera nossa completa lealdade.
A. Deus é o Senhor.
1. Ele não age no benefício próprio, mas em nosso benefício.
Ele se tornou escravo para nos servir (Fp 2.6-8).
2. Ele requer nossa completa lealdade. Nós devemos temer, amar
e confiar em Deus acima de todas as coisas.
B. Mamon é um falso Deus, que também espera nossa exclusiva
lealdade.
1. Mamon é a riqueza personificada. As bênçãos confiadas a nós
por Deus vêm a ser o deus no qual confiamos.
2. Quando Mamon reina, nossa primeira preocupação é o acu-
mular posses terrenas.
C. Dividir lealdade é impossível, “ninguém pode servir a dois se-
nhores”.
II. Preocupações podem ser evidência de que Mamon reina (25-30)
A. Mamon diz: “Tenha mais”.
1. Preocupamo-nos de não ter o bastante.
2. Isto é bem diferente dos pássaros. Eles trabalham, mas não
se preocupam em acumular para o futuro.
3. A preocupação não pode prolongar nossas vidas.
B. Mamon é colocado no lugar de Deus, o qual já nos deu “muito
mais”.
1. Ele nos deu corpo e vida, os quais são mais do que comida e
roupas.
2. Ele nos deu seu Filho, com o qual viveremos para sempre, de
corpo e alma.
3. Não devemos confiar nele em nossas necessidades de comer
(somos mais valiosos do que os pássaros) e vestir? (somos
mais importantes do que as flores).
C. Preocupar-se, portanto, pode ser evidência de que não estamos
confiando em Deus acima de todas as coisas. Isto aponta para
o quão pequena é nossa fé.
III. Deus é quem reina em nossas vidas (31-34).
OITAVO DOMINGO APÓS EPIFANIA

A. Nós vivemos como filhos do Pai celestial.


1. Preocupar-se em primeiro lugar com os bens materiais é
uma característica pagã.
2. Nós confiamos no Pai celestial, que nos sustenta em todas
as nossas necessidades.
B. Nós buscamos o governo e a justiça de Deus.
1. Nossa preocupação primeira é pelas necessidades espirituais.
2. Nós confiamos que Deus proverá.
C. Nós vivemos um dia de cada vez.
1. Nós experimentamos a ajuda de Deus nos problemas do
nosso dia a dia.
2. Nós confiamos em Deus também no que diz respeito às
necessidades do amanhã.

(Tradução e adaptação do original de Roger J. Humann publicado em


Lectionary Preaching Resources, CPH, 1986).

Marco Antonio Meyer Jacobsen


Canoas/RS
pastormarcoj@gmail.com

85
A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
Salmo 2.6-12; Êxodo 24.8-18; 2Pedro 1.16-21; Mateus 17.1-9

A história da Transfiguração de Jesus tem a tarefa de conectar dois


períodos bem distintos do Ano da Igreja que não podem ser separados.
Enquanto a Epifania impulsiona os cristãos para o testemunho, a Quaresma
projeta Jesus para o seu sofrimento e a sua morte em favor da humanidade.
Na vida prática das congregações no Brasil, este domingo anterior à Quarta-
feira de Cinzas e o próprio período de Epifania normalmente encontram-se
num momento de recesso, de férias, do Carnaval, e, por isto, com pouca
frequência nos cultos. Nesta experiência pastoral, quando a quadra de
Epifania com temas ricos para a vida da igreja é marcada pela ausência
de boa parte dos membros, há uma certa desmotivação no preparo de
um bom sermão. No entanto, esta história narrada por três evangelistas
tem uma mensagem significativa para os seguidores de Jesus do século
21, que necessita de profunda atenção na mesma medida que Jesus deu
importância quando convidou os discípulos para o acompanharem nesta
empreitada “morro acima”. Por isto, se Jesus levou apenas três para a
sua transfiguração, aqueles que estão nos bancos da igreja merecem ver
e ouvir tudo o que os discípulos viram e ouviram.
Diz o evangelho que Jesus levou consigo os discípulos Pedro, Tiago
e João para um monte bem alto, poderíamos dizer, para um retiro de
Carnaval. Provavelmente ao monte Hermon, com 3 mil metros de altura,
cinco horas numa caminhada de tirar o fôlego. Era quase noite quando
chegam ao topo da montanha, onde Jesus se afasta dos três para orar.
É neste momento que os discípulos testemunham algo fora do comum:
Jesus aparece todo iluminado. Não por um reflexo de uma luz. A claridade
brota do próprio corpo do Senhor. Ele transfigura, resplandece. Mateus
e Marcos usam o termo metemorfwqh (metamorfoseou-se), que exprime
uma transformação com mudança de forma exterior, enquanto Lucas evita
usar o termo, preferindo dizer apenas que o rosto de Jesus mudou de
aparência. Comentaristas explicam que Lucas não usou esta palavra para
que os leitores gentílicos não confundissem Jesus com alguma divindade
pagã. Na verdade, o que Pedro, Tiago e João enxergam é a legítima e única
glória e majestade provinda da divindade de Jesus. Mas eles testemunham
mais. Presenciam Jesus conversando com Moisés e Elias. Avistam também
uma nuvem luminosa que encobre Jesus, Moisés e Elias. Esta nuvem era
a manifestação da presença do Espírito Santo. E os discípulos também
podem ouvir. Ouvem uma voz que diz: “Este é o meu filho querido, que
me dá muita alegria. Escutem o que ele diz”. De repente, como num toque
de mágica, tudo volta à normalidade, à realidade habitual.
A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

Interessante o que diz um comentário da religião espírita sobre a


transfiguração de Jesus: “Como vemos, trata-se de verdadeira e legítima
sessão espírita, realizada por Jesus em plena natureza, a céu aberto, con-
firmando que as proibições, formuladas pelo próprio Moisés ali presente,
não se referiam a esse tipo de sessões, mas apenas a consultar os espíritos
dos mortos sobre problemas materiais (conforme Lv 19.31 e Dt 18.11),
em situações em que só se manifestam espíritos de pouca ou nenhuma
evolução”. Este é um dos textos mais importantes na Bíblia na errônea
interpretação espírita sobre mediunidade com os mortos.
É importante que se compreenda que o que Pedro, Tiago e João viram
foi uma visão semelhante às que recebeu João ao escrever o Livro de Apo-
calipse. Não foi um contato mediúnico com mortos, apenas uma permissão
divina para que estes discípulos enxergassem um pedacinho do céu, onde
já se encontram Moisés e Elias. Qual o motivo para o Senhor lhes mostrar
esta glória? Podemos imaginar o espanto desses homens felizardos. Eles
já tinham presenciado muitos milagres e maravilhas realizadas por Jesus.
Mas nunca tinham visto algo semelhante. Jesus nunca tinha lhes mostrado
a sua glória como revelou nesta sua transfiguração. Qual o motivo para o
Senhor lhes mostrar esta glória? E qual o significado e a importância do
relato desta visão do céu para nós hoje? Nestes tempos, quando assisti-
mos a tantas revelações espantosas, magníficas, encantadoras – é graça,
pura misericórdia de Deus poder ver, ouvir e presenciar o esplendor das
coisas celestiais. Aliás, sem esta visão, é extremamente difícil viver “lá
embaixo do monte”, no mundo, nas tentações que impulsionam para longe
das promessas divinas. Um cristão que não sobe o monte e não enxerga
a glória de Deus é um cristão despreparado, fraco, desencorajado, sem
condições para um discipulado vigoroso, decidido e dedicado.
Outros detalhes a destacar no Evangelho: (1) Os discípulos estavam
desapontados pelas declarações anteriores de Jesus sobre seu sofrimento,
paixão e morte. Por isso esta experiência: para animá-los. (2) A transfi-
guração aconteceu enquanto Jesus orava. É através da comunhão íntima
com Deus que se manifesta a glória celestial. (3) As figuras de Moisés e
Elias representam respectivamente a Lei e os Profetas, ou seja, a palavra
de Deus revelada nas páginas do Antigo Testamento e que aponta para a
pessoa de Cristo Jesus. (4) A sugestão de Pedro: “Como é bom estarmos
aqui, Senhor! Se o senhor quiser, eu armarei três barracas neste lugar...”.
Outro evangelista concluiu que “Pedro não sabia o que estava dizendo”. Às
vezes não sabemos o que estamos dizendo, nem sabemos o que estamos
fazendo. Queremos construir “barracas” neste mundo, viver aqui e agora,
e esquecemos que é preciso descer o monte. (5) Conta o evangelho que,
ao descerem o monte, os discípulos receberam a ordem do Senhor para
que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que Ele ressusci-

87
IGREJA LUTERANA

tasse. Provavelmente por causa da incredulidade, falsidade e enganos de


milagreiros e visionários. Os discípulos poderiam ser confundidos com este
tipo de situação, e esta experiência deveria permanecer, no momento, só
para um grupo seleto da igreja.
O texto do Antigo Testamento, Êxodo 24.8-18, também conta uma
história que acontece num elevado, o Monte Sinai, onde Moisés enxerga a
glória de Deus ao receber os Dez Mandamentos. Ali Deus o capacita para
o exercício da missão que recebe, de conduzir o povo de Israel até a terra
prometida. Cabe lembrar que outro monte marcou a vida de Moisés, ou me-
lhor, a sua morte: o Monte Pisga. Foi nesta montanha o desfecho da jornada
terrena do patriarca, onde é sepultado pelo próprio Deus e conduzido à glória
celestial. Percebe-se que os montes têm um simbolismo forte nas Sagradas
Escrituras quando o assunto é a manifestação da glória de Deus.
Dessa forma, não deixa de ser significativa a Epístola, 2 Pedro 1.16-
21. O texto indica qual monte que precisa ser escalado para se chegar
à presença amorosa da glória divina. Nesta carta, o apóstolo Pedro fala
de sua experiência ao ver Jesus transfigurado. Ele diz: “vimos a sua
grandeza com os nossos próprios olhos” (v.16). O discípulo então con-
fessa que agora, através desta visão, ele “... tem mais confiança ainda
na mensagem anunciada pelos profetas”. Ele refere-se à mensagem da
Bíblia. E então recomenda: “Vocês fazem bem em prestar atenção nessa
mensagem. Porque ela é como uma luz que brilha em lugar escuro até que
o dia amanheça e a luz da estrela da manhã brilhe no coração de vocês”
(v.19). Pedro declara, em outras palavras, que para alguém poder ver a
glória de Deus, é preciso ser iluminado pela luz da estrela da manhã. A
estrela da manhã, ou a Estrela d’Alva, é o planeta Vênus, a mais brilhante
estrela do firmamento depois do Sol e da Lua. Oportuno dizer que a Estrela
d’Alva tem inspirado muitos poetas carnavalescos, sempre referindo-se às
sensuais mulheres do Carnaval. Para as pessoas que buscam as glórias
das avenidas e dos salões carnavalescos, a Estrela da Manhã, ou Vênus,
são os desejos carnais deste mundo. No entanto, quando a Bíblia fala da
Estrela d’Alva, refere-se a Jesus. E qual a razão de Jesus ser chamado de
“a estrela da manhã”? De todas as estrelas que brilham no céu, a Estrela
d’Alva é a mais forte, e é também a primeira estrela que aparece antes do
nascer do Sol. Essa estrela anuncia o aparecimento do Sol. Assim Cristo
é a luz que veio para o mundo das trevas, a luz que nasce nos corações
e que anuncia a chegada do grande e ensolarado Dia da Salvação Eterna,
quando Deus finalmente virá em glória e majestade.

Marcos Schmidt
Novo Hamburgo/RS
marsch@terra.com.br

88
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Salmo 51; Joel 2.12-19; 2Coríntios 5.20b-6.10; Mateus 6.1-6, 16-21

CONTEXTO

A Quarta-Feira de Cinzas dá início à Quaresma. É tempo de olharmos


para a caminhada de Jesus rumo à cruz. É tempo de olharmos para a
grande prova do amor de Deus em dar-se em nosso lugar. “Porque Deus
amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para todo
aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
Na Quaresma podemos ver Deus agindo – agindo em prol do pecador
– para salvar e buscar o perdido. É Jesus caminhando para nos salvar, e
essa caminhada leva à cruz. Neste contexto, podemos ver Deus agindo
pelo pecador. É ação de Deus. É Deus quem faz. Diante do que Deus faz
e porque ele faz, podemos fazer. Fazer o quê? As obras que ele quer que
os seus filhos façam. (Conversão e santificação).

LEITURAS

Salmo 51: O pecado é uma triste realidade que faz parte de toda
humanidade. O rei Davi sabia disso, por isso pede: “Apaga as minhas
transgressões, lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-
me do meu pecado”.
É fato, todos somos pecadores, e a consequência maior é a morte eter-
na. Davi sabia disso, por isso diante do presente de Deus, que é o perdão,
a salvação (v.12), ele pode dizer: “Então ensinarei aos transgressores os
teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti” (v.13). A ação é de
Deus. Diante desta ação – que é perdão, é salvação – Davi então faz.
Primeiro ele, Davi, ganha e depois ele pode fazer.

Joel 2.12-19: Diante de um povo infiel, Deus continua fiel e não


deixa de enviar profetas para convidar o povo ao arrependimento e ao
reconhecimento das dádivas que dá. É ele quem dá todas as coisas, tudo
vem dele. Longe dele, a morte; com ele, a vida. O povo merecia a morte,
mas Deus é misericordioso e diante do arrependimento a misericórdia se
torna clara (vv. 18 e 19).

2Coríntios 5.20b-6.10: A obra é de Deus. “Aquele que não conheceu


pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de
IGREJA LUTERANA

Deus” (v.21). Jesus Cristo é aquele que assume o nosso lugar. Ele pagou o
preço do nosso pecado. Ele cumpriu a lei em nosso lugar, e é ele, somente
ele, que nos faz justos diante de Deus. É por ele e por meio dele que nos
é dada a salvação, por ele somos feitos justos aos olhos de Deus.
Paulo reconhece os feitos, a graça que Deus concedeu a ele, e não
somente a ele, mas a todas as pessoas. O apóstolo Paulo vive essa graça.
Deus fez tudo por ele, deu tudo a ele e agora ele vive essa graça (2 Co
6.4-10).

O TEXTO

Mateus 6.1-6, 16-21: Guardai-vos de exercer a vossa justiça (di-


kaiosyne). A justiça no AT não é questão de ações que se conformam a
um determinado conjunto de padrões legais absolutos, mas sim, de com-
portamento que está em conformidade com o relacionamento bidirecional
entre Deus e o homem. Dessa forma, a justiça de Deus aparece no seu
modo divino de tratar com o seu povo, e na redenção e na salvação (Is
45.21; 51.5-6; 56.1; 62.1).1
No judaísmo rabínico, a justiça se identificava completamente com a
conformidade à lei. Muitas das leis, mormente as leis cerimoniais, já não
eram relevantes na forma em que estavam, mas, segundo os rabinos,
tinham a intenção de treinar os homens na obediência e, especialmente,
providenciar uma maneira para os homens adquirirem méritos aos olhos
de Deus. A paixão pela obediência agora ficou transformada em esforço
em prol do mérito, para garantir sua própria participação no reino de
Deus. As obras de caridade e as obras de misericórdia eram considera-
das especialmente meritórias, sendo que as primeiras abrangiam tudo
quanto podia ser feito mediante o gasto de dinheiro, tal como: alimentar
os famintos, vestir os nus, dando de beber aos com sede, etc., enquanto
as obras de misericórdia eram aquelas que exigiam esforço, como por
exemplo: condoer-se com os enlutados, visitar os que estão doentes ou
encarcerados.2
A doutrina da justiça, segundo Mateus, é a parte central da mensagem.
A justiça de Deus é Jesus Cristo.
Nenhum ser humano é justo diante de Deus, todos somos pecadores
(Sl 51.5). O que nos faz justos diante de Deus é a obra de Jesus na cruz.
Ele pagou o preço. Ele cumpriu a lei. Ele é o único Salvador (At 4.12).
Lutero dizia que nós somos pequenos cristos. A nossa vida deve trans-
parecer o que Cristo fez. Através das nossas atitudes, Cristo é louvado,
é conhecido.

1
Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do NT, p. 1120.
2
Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do NT, p. 1123, 1124.

90
QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Como cristão, que foi justificado, salvo, regenerado e perdoado por


Cristo, como vou viver? Deus me criou, salvou e me deu a fé. Como vou
viver essa fé?
O texto destaca dois pontos: esmola e jejum. Qual o objetivo de
ambos? Não é para o engrandecimento próprio ou para sermos vistos. É
exatamente isso que Jesus reprova. Então, qual o objetivo? A resposta
está um pouco antes do texto em destaque; nós a encontramos em Mateus
5.13-16, com destaque para o v. 16: “Assim brilhe também a vossa luz
diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem
o vosso Pai que está nos céus”.
A salvação é um presente de Deus dado a nós pela fé. Isto é tranquilo
e claro nas Escrituras Sagradas, “visto que a justiça de Deus se revela
no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm
1.17).
Porém, como cristãos luteranos, será que não estamos vivendo tanto
esta ênfase da fé que nos esquecemos dos seus resultados? A fé sem obras
é morta (Tg 2.614-26). Não devemos fazer para aparecer, porém muitas
vezes fazemos tão escondido que nem Deus sabe, ou seja, não fazemos,
e com isso ele não é glorificado.
É sempre complicado falar de fé, especialmente fé que salva, pois se
eu tenho fé, confio em Cristo como meu Salvador, serei salvo. Não é o
tamanho ou quantidade. Porém se o objetivo de Deus fosse só nos salvar,
assim que ganhássemos a fé, ele nos levaria para o céu, mas isso não
acontece, permanecemos aqui e precisamos cuidar desta fé e transformá-
la em ação, para que mais pessoas cheguem à fé e assim Deus possa ser
glorificado.
O combustível das nossas ações é a graça de Deus. Por isso ela precisa
ser muito bem entendida.

SUGESTÃO DE ESBOÇO

Tema: Jesus nos torna justos


Nós somos injustos (pecadores) (Sl 51).
A ação de Deus nos torna justos (Jesus) (2 Co 5.20b - 6.10).
Os propósitos de Deus em nos tornar justos (salvação e santificação)
(Mt 6.1-6, 16-21).

Nilson Proescholdt Walder


Herval, 2° Distrito de Canguçu/RS
waldernilson@yahoo.com.br

91
PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA
Salmo 32.1-7; Gênesis 3.1-21; Romanos 5.12-19; Mateus 4.1-11

TEXTOS

Salmo 32: Salmo de Davi. É o segundo salmo de penitência, o primeiro


é o Salmo 6. É um salmo didático. Ele ensina o caminho da salvação. Nos
primeiros versículos temos a bem-aventurança pelo perdão alcançado. Em
contraste com os próximos versículos, vemos a dificuldade em não con-
fessar o seu pecado. Davi por muito tempo tinha se calado quanto ao seu
pecado. Ele tentara esconder. Tentou aparentar justiça diante dos homens,
mas no seu interior a sua consciência lhe tirava a paz e, até mesmo, a
saúde física. Enquanto não confessou, estava sob a ira de Deus. Quando
confessou o seu pecado, encontrou alívio. A confissão do pecado a Deus
é essencial. É pela exortação da Palavra que somos levados ao verdadei-
ro arrependimento pela ação do Espírito Santo em nosso coração. Deus
promete nos amparar e proteger diante das tribulações. O final do Salmo
pede para não sermos teimosos. Por fim, temos uma exortação à gratidão
e ao júbilo de todos que passaram por esta experiência.

Gênesis 3.1-21: Este texto apresenta a primeira aparição do diabo.


O diabo se colocou no paraíso. Não sabemos de que forma ele entrou no
paraíso, só ouvimos o relato de como aconteceu. O diabo, sem revelar a
sua verdadeira forma, tenta o mais puro do ser humano. E para destruir
a inocência humana, ele coloca a humanidade criada contra Deus e diz:
“Será que foi assim que Deus disse mesmo? Será que você compreendeu
bem o que Deus disse? Será que por trás dessas palavras não há um outro
sentido?” E, diante dessas perguntas, abre-se espaço para a culpa ainda
desconhecida, diante da fé surge a dúvida nunca antes imaginada, diante
da vida surge o abismo da morte que era um mistério. E diante de tudo
isso, Adão e Eva caíram com a pergunta: “Mas é assim mesmo que Deus
disse?” Agora todo o ser humano, desde o seu nascimento, traz consigo
em sua natureza o pecado.

Romanos 5.12-19: Estes versículos resumem a descrição da queda


em pecado com Adão e Eva. Por causa de um só homem o pecado veio
ao mundo. No entanto, o apóstolo Paulo apresenta o plano de Deus para
a salvação. Deus enviou Jesus para que, por causa de um ato de salva-
ção, pudesse libertar a todos e lhes dar vida. A lei fez com que o pecado
ficasse em evidência, a boa notícia foi que a graça de Deus por causa do
pecado aumentou muito mais.
PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA

TEXTO PARA A PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO

Mateus 4.1-11:
1. Contexto bíblico do texto
2. Narrativa; personagens; momento histórico.

Três dos evangelhos descrevem a experiência de Jesus no deserto


quando confrontado com o diabo momentos após o seu batismo. Em es-
pecial, no evangelho de Mateus há um diálogo entre o tentador e Jesus
que explora profundamente a natureza desta tentação.
Esta narrativa normalmente é traduzida por: “A tentação de Jesus”.
No português, traduzir o verbo peira,zw por “tentação” não representa
completamente o seu significado. Ao que se percebe, o diabo se compor-
ta de uma maneira para tentar induzir Jesus a agir contra Deus. Talvez
“seduzir” seria a maneira mais correta de visualizar esta narrativa. No
entanto, não podemos esquecer que este mesmo verbo pode significar
“testar”. É o mesmo verbo que foi usado contra Jesus em inúmeras vezes
quando vinham fazendo perguntas difíceis para tentar derrubá-lo.
Apesar de o tentador ser o diabo, como indicado logo no início do pri-
meiro versículo, a experiência como um todo acontece sob a direção do
Espírito e, portanto, de acordo com os propósitos de Deus.
Como eco, podemos perceber a experiência dos israelitas no deserto
como um “teste” colocado por Deus “para saber o que estava no teu co-
ração, se guardarias ou não os seus mandamentos” (Dt 8.2). Eles tiveram
tempo para aprender, ou deveriam ter aprendido o que significava viver
confiando e obedecendo a Deus. Entre muitas lições que foram dadas por
Deus, algumas são necessárias lembrarmos: eles não deveriam depender
somente do pão, mas daquilo que Deus diz (Dt 8.3). Não deveriam co-
locar Deus à prova (6.16). Deus precisa ser o exclusivo objeto de culto,
adoração e confiança (6.13).
Agora o Filho de Deus está no deserto, não por 40 anos, mas por 40
dias, em preparação para entrar no seu chamado divino. Jesus esteve no
deserto e também passou pelos mesmos testes, no entanto, ele aprendeu
aquilo que os israelitas não conseguiram aprender. Jesus passou no teste,
venceu o diabo para restaurar aquilo que estava quebrado: a nossa conexão
com o Deus eterno. Agora, pela fé em Cristo, temos uma nova vida.
As duas primeiras formas introdutórias do diabo indicam um foco de
tentação: “Se és o Filho de Deus...”. A ligação com Mateus 3.17 é óbvia:
“E eis uma voz do céu, que dizia: Este é o meu Filho Amado, em quem me
comprazo”. Esta declaração coloca em evidência a relação que o Pai tem
com o Filho. O questionamento do diabo coloca em dúvida, primeiramen-

93
IGREJA LUTERANA

te, a relação entre o Pai e o Filho, mas explora as possíveis implicações:


Qual é a forma apropriada para o Filho de Deus se comportar em relação
ao seu Pai? Em que formas o diabo poderia usar esta relação para sua
vantagem? O diabo estava tentando colocar uma tensão, um afastamento
entre o Pai e o Filho.
Nas tentações apresentadas pelo diabo, a primeira apresenta a fome. O
povo de Israel também passou pela fome. Eles só receberam o maná após
um período de falta de alimento. Isso fez parte do processo educativo de
Deus, que confiassem em Deus, no tempo de Deus, não no momento que
eles achassem conveniente. Claro que a palavra de Deus não preenche o
vazio do estômago, mas é uma questão de prioridade e confiança. Deus
irá prover o alimento quando ele estiver pronto, assim como aconteceu
com Jesus no versículo 11.
A segunda tentação precisava de um cenário um pouco diferente. O
diabo leva Jesus ao alto do templo da cidade santa e pergunta: “Se és
o Filho de Deus, atira-te abaixo”. Parece indicar o que viria a acontecer
com Jesus no final do evangelho de Mateus, quando a sua missão como
Filho de Deus seria colocada à prova. A tentação do diabo ecoou pela
boca da multidão quando gritaram: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz
e salva-te a ti mesmo”. O diabo estava criando uma situação que, para
salvar outras pessoas, Jesus teria de primeiro salvar a si mesmo. Isso de-
monstraria a falta de confiança do Filho para com o Pai. Jesus usa o texto
de Deuteronômio para eliminar essa tentação, dizendo: “Não tentarás o
Senhor, teu Deus”.
A última tentação envolve novamente um novo cenário, agora uma
montanha que não sabemos exatamente sua localização. Não há muito o
que dizer nesta tentação, somente uma escolha de fidelidade e aliança. É
uma escolha com um final bom pelos meios errados. Várias vezes o diabo
é apresentado como o governador deste mundo. Apesar de possuir certo
poder nesta era presente, vivemos já na perspectiva da vitória final de
Deus em Jesus. Apesar de poder oferecer certo poder e glória, não pode
impedir o cumprimento da vitória de Cristo.

ENCAMINHAMENTO HOMILÉTICO

1. Objetivo deste sermão


Sublinhar a vitória de Jesus sobre as investidas do diabo é a principal
tarefa da igreja: “Se Deus está ao nosso lado, quem nos vencerá? Ele não
deixou de entregar nem o seu próprio Filho, mas o ofereceu por todos nós...
Em tudo temos a vitória por meio daquele que nos amou” (Rm 8.31,37).
Enfatizar os perigos das tentações de Satanás é enfatizar o valor do sacri-
fício e da vitória de Jesus. O Salvador venceu porque, além de homem, é

94
PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA

Deus. Sozinhos estamos perdidos porque somos apenas humanos. Mas a


vitória de Jesus já está em nossa conta quando acreditamos nesta vitória.
E Satanás não terá vez.

2. Tema: Enfrentamos o nosso inimigo pelo poder da palavra de Deus.

Matheus Schmidt
Santa Maria/RS
matheuschmidt@hotmail.com

95
SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA
Salmo 121; Gênesis 12.1-9; Romanos 4.1-8, 13-17; João 3.1-17

SALMO 121

De onde me virá o socorro?


Esse é um grito que fica trancado na garganta de muitos ou, até,
de todos. Esse deve ter sido o grito trancado na garganta de Abraão
enquanto, em obediência a Deus, levava o seu filho Isaque ao monte
Moriá. É, aqui, o grito de Davi, o mesmo que via o seu governo em Israel
desacreditado pelo próprio filho, Absalão. Quem pode socorrer um pai
que se vê renegado pelo próprio filho? É o grito de cada um quando a
vida se mostra completamente fora do controle que o homem pensa ter
sobre o seu presente e o seu futuro. O apóstolo Paulo grita: “Quem me
livrará do corpo desta morte?” E responde: “Graças a Deus que nos dá
a vitória em Jesus Cristo”. Isto nos leva ao próprio Deus, ao sentenciar
o seu próprio filho à morte para pagar a dívida infinita que temos acu-
mulada contra nós, pecadores. Aí se fecha o círculo de resposta para
os que levantam os seus olhos para os montes em busca de socorro.
Este socorro está na promessa que se torna esperança para cada um
na palavra de Deus que dá a vitória do seu Filho a cada um que o busca
para obter socorro.

GÊNESIS 12.1-9

E te abençoarei.
Geralmente a atenção do leitor deste episódio olha para o texto do
ponto de vista de Abraão. Em outras palavras, do ponto de vista do ser
humano como objeto da atenção de Deus. Em decorrência disso, a ten-
dência é fazer de Abraão alguém especial, uma pessoa destacada das
demais. Por fim, pode se tentar ver em Abraão alguma coisa especial, uma
qualidade, que tenha feito com que Deus o escolhesse. Nessa sequência,
fica mais difícil enquadrar nesse raciocínio a pessoa de Abraão tal como
ele aparece na narrativa.
Entretanto, a narrativa bíblica mostra um Abraão contraditório. Gene-
roso e cuidador dos seus e da sua família, como, por exemplo, ao cuidar
de Ló. Valente em defender o seu povo dos inimigos. Preocupado em
que Sodoma e Gomorra não sofram a punição de Deus. Por outro lado, o
vemos como homem medroso que não apresenta Sara como sua esposa
diante da autoridade no Egito. E, finalmente, a Escritura não descreve
SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA

nem indica o estado de espírito dele ao andar com Isaque ao monte onde
este seria sacrificado.
Como ele se torna bênção para as nações? Contraditório como é, por
que e como ele se tornaria em bênção? Para responder a essa pergunta,
precisamos tirar os olhos de Abraão e voltar o nosso olhar para aquele
que fez essa afirmação. Foi Deus quem pôs Abraão no centro da histó-
ria de Deus com o seu povo. Abraão desapareceria da história se Deus
não tivesse decidido que Abraão seria modelo para todos que precisam
de um Deus para confiar plenamente. O personagem não é Abraão. O
personagem é Deus como o Senhor que nos criou, nos amou, guiou e
protegeu assim como o fez com Abraão. O verdadeiro, o único, o Deus
em que se pode confiar quando precisamos confiar em alguém, quando
precisamos jogar o nosso destino e a nossa vida na mão de outro.
Abraão é uma bênção para nós na medida em que precisamos apren-
der a confiar neste Deus que confirmou a sua palavra, poupando Isaque
e todos os filhos dos homens para entregar por todos o seu próprio Filho
Jesus Cristo.
Por esta razão damos graças por Abraão que na sua experiência de
vida aponta para Deus. Assim, ele é a nossa bênção.

ROMANOS 4.1-8, 13-17

Ver Abraão e outros personagens bíblicos como heróis que não sen-
tem as fraquezas e mazelas do restante da humanidade é uma tendência
observável em muitos testemunhos de cristãos. Minimizar os problemas
e maximizar os acertos parece, por vezes, ser demonstração de respeito
e honra ao personagem bíblico.
O apóstolo Paulo vem na contramão desta tendência para dizer que
Abraão nada fez para receber de Deus a escolha, a bênção, a paternidade
histórica dos que são de Deus. Pois as obras de Abraão também são de
Deus. Abraão nada precisou fazer para receber a atenção e o cuidado de
Deus. Foi Deus quem decidiu escolher Abraão e acompanhá-lo passo a
passo em todos os caminhos por onde andou. Abraão somente lembrava
da promessa: “Tu serás uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem
e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”.
A ação, a obra é de Deus. O próprio Abraão é obra de Deus. Seu olhar
para a promessa e andar na promessa Paulo chama de “fé”. Os caminhos
tortuosos de Abraão Deus os endireitou. As escolhas de Abraão Deus as
santificou e fez redundar em bem. Abraão não apontava para si, mas para
um Deus que ele não via. Um Deus que ninguém jamais viu. Um Deus
não feito por mãos humanas. Um Deus que em vez de exigir, promete;
em vez de cobrar, santifica e abençoa quem nada fez por merecer a pro-
messa e a bênção.

97
IGREJA LUTERANA

Paulo quer que os cristãos de Roma deixem de olhar para Abraão e


aprendam a olhar para o Deus da promessa, o Deus que acolhe e cuida
de todos porque ele é Deus de misericórdia e compaixão.

JOÃO 3.1-17

Nicodemos tem um problema. Um problema que abala toda a sua


estrutura teológico-pastoral. Nicodemos é um mestre em teologia. Ele
guiou a muitos pelo caminho do ensino e do modelo que ele tinha recebi-
do e ensinado como sendo bíblico vindo de Deus. Nicodemos aprendeu a
prezar e a respeitar os mandamentos que Deus dera a Moisés e que seu
povo foi ensinado a conservar zelosamente. Bem por isso também e para
manter a doutrina pura, pessoas que desobedecessem os mandamentos
não poderiam passar impunes. Elas deveriam ser reconduzidas ao zelo
e à pureza de vida. Ainda mais que a desobediência aos mandamentos
acarretaria, segundo a palavra de Deus, a ira de Deus sobre todo o povo.
Nada mais coerente, então, que pecados e pecadores deveriam ser de-
nunciados e, em caso de reincidência, punidos e afastados. A fidelidade
à palavra exigia da igreja, segundo a escola de Nicodemos, esse compro-
metimento e zelo sagrado. Acima de tudo estava o amor e a obediência
a Deus. E, finalmente, o amor aos pecadores que, pela disciplina e zelo,
deveriam ser levados ao reconhecimento da sua situação e à necessária
mudança de vida.
A escola teológica de Nicodemos tinha ainda um último argumento.
Quando os mestres abandonam este zelo e afastam a punição do erro dos
pecadores, tanto eles como os pecadores caem sob a punição de Deus.
O exemplo mais gritante que tinham para corroborar esta visão estava
diante dos olhos de todos: as doenças, as deficiências físicas, as mortes
que se abatiam sobre as pessoas de forma traumática ou violenta. As
doenças que deformavam os corpos e as crianças que já nasciam defor-
madas. Tudo isso, na visão de Nicodemos, nada mais era do que o juízo
de Deus vivo e presente sobre o pecado e a indiferença com que o pecado
era tratado por muitos.
Na religião de Nicodemos tudo estava perfeitamente definido e dividido.
De um lado os religiosos a quem Deus abençoava e fazia progredir, os
fortes na fé, e do outro lado os doentes, os pobres, os caídos em pecado,
os fracassados na vida. Se Deus os tinha marcado como aqueles que ele
rejeita, a religião de Nicodemos nada queria ter a ver com eles. Enquanto
isso, Nicodemos e os seus levavam vidas dignas, dedicadas ao templo
e ao culto, eram ativos e participantes dos momentos de culto, davam
testemunho público de sua fé e piedade orando e professando sua fé nas
praças diante de todos.

98
SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA

Havia crentes como Nicodemos que se sentiam perturbados com a


presença daquele Rabino de quem pouco se sabia quanto à sua formação
rabínica. Quem foram os seus mestres? Qual fora a sua escola? Dizia-se
que vinha de Nazaré. Mas, “de Nazaré pode sair alguma coisa boa?”, per-
guntavam pessoas como Nicodemos e outros, como Natanael, que, mais
tarde, veio a ser discípulo (Jo 1.46).
Ainda mais que Jesus acolhia na sua comunhão exatamente aquelas
pessoas que a religião de Nicodemos e de Natanael descartavam. Jesus,
como rabino, andava na contramão da avenida religiosa da religião. Invo-
cavam Moisés e os profetas para, em nome deles e da fidelidade a eles,
rejeitar Jesus e o modelo religioso que ele vinha estabelecendo.
Jesus também acolhe Nicodemos. Jesus compreende a angústia de
Nicodemos. Os sinais que Jesus fazia a favor dos descartados e rejeitados,
a sua autoridade sobre as coisas da natureza levam Nicodemos a dizer:
“Sabemos que é Mestre vindo da parte de Deus...”. Nicodemos não está
só nessa angústia. “Sabemos”. Nicodemos e quantos mais?
Jesus não reprova Nicodemos em sua dúvida. A dúvida dele é também
uma doença de natureza diferente da doença física, mas não menos peri-
gosa. É a doença teológica que pode destruir a obra de Deus e certamente
causar a condenação de quem “não nascer de novo” para ver Deus e a
sua palavra sob este ângulo e moldar a prática e o ensino sob esta visão
que Deus, em Cristo, tem do mundo e da sua humanidade.
Nesse sentido, Jesus orienta Nicodemos de que o desvio da palavra
de Deus começa na tendência natural do ser humano em estabelecer re-
gras, leis e regimentos pelos quais pessoas são julgadas. E Jesus, então,
estabelece o não e o sim da sua obra neste mundo e da sua relação como
cada ser humano: não julgar, mas salvar (v.17). Essa é a encruzilhada que
Jesus, com a sua encarnação, estabelece. Nela está o “caminho, a verdade
e a vida”. O pecado contra a obra do Consolador é o julgar, o descartar e o
rejeitar pessoas. O não pecado está em crer que todos são indistintamente
amados por Deus em Cristo (v.16). É interessante ler os capítulos 14 a 17
à luz dessa conversa e do ensinamento de Jesus a Nicodemos.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo/RS
weirich.proskep@gmail.com

99
TERCEIRO DOMINGO NA QUARESMA
Salmo 95.1.-9; Êxodo 17.1-7; Romanos 5.1-8;
João 4.5-26 (27-30, 39-42)

CONTEXTO LITÚRGICO

Tempo de Quaresma: mostra tudo o que Cristo suportou em nosso


favor. Ele tem de sofrer e nós somos os libertados! Amor e misericórdia tão
grandes jamais deveriam ser esquecidos. A Água da Vida (Jesus) morre
para matar a sede e assim nos conceder a vida.
Que na Quaresma possamos refletir e ler Isaías 53 e dizer com o poeta:
“Que agonia dolorosa tu sofreste, ó meu Jesus! Foi por mim tanta amar-
gura que penaste ali na cruz. Quanto amor! Oh quanto amor revelaste, ó
meu Senhor! (Hinário Luterano, hino 75, estrofe 1).

LEITURAS DO DIA

Salmo 95.1-9: Somos convidados a cantar e a adorar ao Senhor, o


único que nos salva. Almeida traz “celebremos o rochedo da nossa Salva-
ção” e a NTLH traz “Cantemos com alegria à rocha que nos salva” (v.1). E
na outra parte do texto, Deus se dirige às “suas ovelhas” (v.7 em diante).
Cantamos unicamente porque Deus nos dá motivos para isso – ele nos
criou (v.6); ele é o grande Rei e nas suas mãos estão todas as coisas (vv.3
e 4); ele é o Bom Pastor que nos protege (v.7). Vinde, cantemos!

Êxodo 17.1-7: O povo está no deserto com sede e começa a reclamar.


Estão sem água. O servo de Deus, Moisés, obedece ao Senhor Deus, bate
em uma rocha e dali sai água para o povo matar a sede. Como compreender
que água saiu da rocha? É algo antinatural aos nossos olhos. Trata-se de
uma dádiva e quem domina essa arte e tem esse poder é somente Deus.
Ele é capaz de transformar. Esse texto tem algo a ver com o Salmo do Dia
– Sl 95.8,9 – onde Deus pede ao povo para não ser rebelde e teimoso.

Romanos 5.1-8: Aqui Paulo nos mostra que Cristo foi à cruz exata-
mente para morrer pelo povo pecador, teimoso. Quem nisso se firma e
nisso confia é aceito por Deus e tem paz (v.1), tem a certeza de estar livre
da maldição eterna. E no v.8 Paulo escreve e nos mostra o quanto Deus
nos ama: Cristo (o Justo) morre para salvar os rebeldes, os teimosos.
Morre para nos salvar.
TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA

CONTEXTO

O percurso de Jesus : ler João 2.13 – Jesus estava em direção a Jeru-


salém; ler João 3.22 – Jesus se dirige com seus discípulos para a Judeia;
ver João 4.3: deixa a Judeia e vai para a Galileia. Jesus escolheu o cami-
nho mais breve de Jerusalém até a Galileia, e esse caminho passava pela
Samaria (v.4). Após o texto proposto, nos é dito que Jesus passou ali dois
dias e partiu para a Galileia (v.43).

O TEXTO DE JOÃO 4.5-26 (27-30, 39-42)

Vv. 5 e 6: a cidade se chama Sicar, onde ficava a fonte de Jacó. Je-


sus chega ali ao meio-dia. Ele está cansado (kekopiakoj) – isso mostra a
verdadeira humanidade de Jesus. O verbo encarnado veio ao mundo para
experimentar a miséria humana, mas ele permaneceu sem pecado. Ele
se fez carne – mostra que Jesus deu muito crédito para a sua missão de
salvar o homem perdido e condenado.
Vv. 7-8: “Dá-me de beber” (doj moi peij) disse Jesus – isso também
mostra a natureza humana de Cristo. Ele teve sede. O cansaço da cami-
nhada lhe traz o desejo de beber água. Os discípulos foram providenciar
o alimento.
V. 9: A mulher samaritana fica surpresa: como um judeu vai pedir água
para alguém que é samaritano? Os dois grupos não se davam bem. Os ju-
deus até eram bastante criteriosos e consideravam impuro qualquer objeto
ou alimento que tivesse sido manuseado por alguém que é samaritano.
Vv.10-14: Dom (dorean): a dádiva de Deus está presente nas coisas
simples e diárias de nossa vida. Água viva (udor zoe): é o grande pen-
samento desses versos bíblicos. Refere-se à água que refresca, que não
cessa, a vida em sua plenitude. A metáfora da água é aqui usada para
mostrar a grande carência do ser humano. Passar um dia sem água é
péssimo para a saúde. Passar vários dias sem água é deplorável e leva à
morte. Pior ainda é passar os dias sem a Água da Vida.
V. 15: “Dá a mim esta água” (doj moi touto to udor): a mulher não
compreendeu que se tratava de algo além do material. Mas ela o chama
de Senhor (kirie), ela se rende ao Senhor que tudo pode. Nesse que é o
Senhor está algo a mais da necessidade material, nesse Senhor está a
Água da Vida, ou seja, a morte não é fim, mas além da morte há vida e
vida plena.
Vv. 16-19: Cristo pede para ela chamar o esposo. Ela fala que não
tem. Jesus replica dizendo que ela já teve vários. Jesus mostra que tam-
bém é verdadeiro Deus e mostra assim a sua onisciência. Afinal, ele é o
Senhor.

101
IGREJA LUTERANA

Vv. 20-24: A dúvida da mulher samaritana é: onde adorar? Jesus res-


ponde dizendo que a fé não tem lugar limitado para se manifestar, nada
depende da cidade ou do lugar. Mas que a adoração é dirigida somente ao
Pai e é em espírito e em verdade (patri en pneumati kai aleteia).
V. 25: Os samaritanos sabiam e esperavam que Cristo haveria de vir.
Mas não como o Salvador e Senhor, mas apenas um profeta como Moisés.
Não esperavam Cristo como aquele que dá a água da vida.
V. 26: Da conversa de Jesus com aquela mulher samaritana, chegamos
ao ponto alto do diálogo. Jesus se revela, ele mostra e diz que é o Messias,
a fonte da água da vida.
V. 27: Foi então que chegaram os discípulos admirados, mas não abri-
ram a boca para perguntar o que estava acontecendo.
Vv. 28-30 e 39-42: A mulher vai até a cidade para falar e testemunhar
do que ouviu e viu. E muitos samaritanos creram nele. O valor do testemu-
nho tem poder. Muitos creram nele, por causa da sua palavra (episteusan
dia ton logon autou). A Palavra não volta vazia.
Palavras de reflexão de C. F. W. Walther: “Uma pessoa que tem
sede, nada mais deve fazer do que beber, isto é, receber e aceitar o con-
solo. Quando uma pessoa está verdadeiramente com sede e alguém lhe
dá um copo d’água, ela se sente imensamente bem e refrescada. Mas
quando uma pessoa não está com sede, você pode encher um copo de
água e oferecer-lhe o mesmo, e não lhe fará nenhum bem especial; a
água não vai refrescá-la”.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Tema: A Água da Vida que mata a sede!

Introdução: Quantos dias você já passou sem água? Sem beber, sem
tomar banho, sem lavar as mãos, sem lavar roupa ou a louça? Vemos que
diariamente a água é indispensável.

Desenvolvimento:
a) A crise e a sede que o pecado traz. A falta de água é sinal de
desespero, boca seca, morte. A lei produz sede, leva ao inferno e
abate. Onde ter água?
b) Existem muitas fontes. Encontramos água suja e potável. Qual
utilizamos e para que fim? Tantas religiosidades prometem matar
a sede. Qual está apontando para o Senhor?
c) Quem mata a sede é o DOM de Deus. É Cristo. É gratuito. Ele mes-
mo se oferece a todos: seja samaritano, seja alemão, brasileiro,
pobre, rico, mulher, criança... Cristo, a Água da Vida, mata a sede
para sempre. O evangelho refresca, vivifica e leva ao céu.

102
TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA

d) Testemunhar: a mulher não “provou” da Água da Vida sozinha e


deixou os outros sedentos. Mas temos que testemunhar: a única
fonte é Cristo, ele mata a sede!

Conclusão: Cristo é o único que é a Água da Vida. Isso mostra que


o que ele nos concede vem dele – é vivo, faz viver e mantém vivo. Certo
teólogo alemão certa vez escreveu: Das Meer der göttlichen Gnade ist
grösser als das Meer menschlicher Schuld. (O mar da graça de Deus é
muito maior do que o mar da culpa humana). (G. Wachler). A Água da
Vida está entre nós em meio à nossa culpa.

Leandro Born
Crissiumal/RS
leandro.born@bol.com.br

103
QUARTO DOMINGO NA QUARESMA
Salmo 142; Isaías 42.14-21; Efésios 5.8-14; João 9.1-41
ou João 9.1-7,13-17,34-39

LEITURAS

Os textos para este final de semana demonstram um contraste entre a


escuridão do pecado humano e a luz de Cristo. No Salmo 142, o salmista
Davi se vê sozinho e amedrontado e ora a Deus pedindo a sua ajuda e
proteção. Em Isaías 42.14-21, vemos que o profeta prega a lei em nome
de Deus para um povo espiritualmente cego e surdo, mas há a promessa
de que a escuridão que cercava o povo se converteria em luz e os caminhos
seriam aplanados, algo que é cumprido no evangelho de João, onde a luz
é Cristo. Na leitura de Efésios 5.8-14, o apóstolo Paulo também exalta a
luz, e admoesta os cristãos de Éfeso que eles haviam renascido em Cristo,
e já não viviam mais como outrora, na escuridão do pecado.

CONTEXTO DE JOÃO 9.1-41

O evangelho de João procura apontar, desde o seu início, quem é Jesus.


No capítulo 1, já somos apresentados a Jesus como a Palavra criadora do
universo, Jesus é Deus. No capítulo 6, vemos que ele é o pão da vida. No
capítulo 7 ele é descrito como a água da vida, ou seja, quem se alimentar
e beber dessa fonte jamais sentirá fome nem sede. No capítulo 8 vemos
que ele é a luz do mundo, algo que é repetido na perícope deste final de
semana. E não teria luz melhor para iluminar alguém que vivia na profunda
escuridão da cegueira senão Jesus Cristo.
Todavia, Jesus, a Palavra da vida, o homem-Deus, não somente en-
frenta a escuridão do mundo e do pecado de forma genérica, mas de
forma específica na descrença e hipocrisia do farisaísmo. De fato, Jesus
se apresenta posteriormente no capítulo 10 como o bom pastor, como a
porta, e ainda no capítulo 11 como o caminho, a verdade e a vida. Mas
muitos permaneceriam na cegueira espiritual, e Jesus também demonstra
que estes, que até mesmo julgavam outras pessoas, como fizeram com o
cego, seriam julgados, como vemos no v. 39: “Prosseguiu Jesus: Eu vim
a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que
veem se tornem cegos”.
QUARTO DOMINGO NA QUARESMA

TEXTO

João 9.1-12: Logo no início do capítulo 9 do evangelho de João ocor-


re o milagre. Um homem que havia nascido cego passa a enxergar. Por
mais que possamos nos maravilhar com tamanho milagre, onde Jesus
literalmente tira alguém da escuridão e o leva para a luz, há elementos
na narrativa que revelam que o cego não era o único que precisava de
um milagre, nem o único que vivia sob escuridão.
Nos vv.2-3 uma grande questão feita pelos discípulos nos chama a
atenção, afinal, por que aquele homem havia nascido cego? Por causa
dos pecados dele ou dos pecados dos pais dele? Tal raciocínio revela
uma doutrina que pode ser denominada de teologia da retribuição ou do
merecimento. Teologia seguida invariavelmente por todos os judeus, e
principalmente pelos fariseus. Tal teologia está em voga nos dias atuais,
em muitas igrejas evangélicas pentecostais, neo-pentecostais e adeptas
da teologia da prosperidade que professam tal ideia. Contra esta errônea
doutrina, Jesus responde: “Ele é cego, sim, mas não por causa dos pecados
dele nem por causa dos pecados dos pais dele. É cego para que o poder
de Deus se mostre nele”.
Dessa forma, “Jesus deixou implícita a vontade governante de Deus,
a qual visa o bem final, o que inclui o sofrimento como um de seus meios
de operação” (Champlin, 424). Evidentemente que a cegueira e qualquer
tipo de sofrimento são causados pelo pecado. Todavia, o que os fariseus
e adeptos da teologia da retribuição não observam é que, devido ao
pecado, todos mereceriam nascer com problemas, pois não há justos.
Aliás, nem sequer mereceríamos nascer. O que predomina, no entanto,
é a misericórdia divina.

João 9.13-34: Um homem que era cego volta a enxergar. Tal fato,
sem dúvida, seria motivo de grande júbilo e de regozijo para qualquer
pessoa que tomasse conhecimento do mesmo. Bem, não para todas as
pessoas, porque os fariseus se preocupam em questionar o ex-cego com
as seguintes perguntas: De que maneira ele foi curado? Quem fez isso? A
cura havia sido realizada em um sábado? Se foi em um sábado, o homem
que realizou esta cura não podia ser de Deus. Sem dúvida, do Deus que
os fariseus conheciam por meio de suas leis e preceitos, não podia ser um
homem de Deus, pois para eles o importante era cumprir a lei, mesmo
que o cumprimento rígido da lei resultasse na perdição de alguém, ou que
alguém fosse deixado pelo caminho à beira da morte (como na parábola
do Filho Pródigo).
O homem curado não concorda, afinal se esse homem não fosse envia-
do por Deus, jamais poderia tê-lo curado. Sem dúvida, tal argumento era

105
IGREJA LUTERANA

incontestável e os fariseus não podiam combatê-lo. Diante disso, qual é a


atitude que eles tomam? Expulsam o ex-cego da sinagoga sob a alegação
de que ele era um homem pecador (afinal, havia nascido cego), e por isso
não deveria ser ouvido. Diante disso, o ex-cego, que ainda vivia sob a
escuridão espiritual em que os fariseus viviam, começou a observar que
tal ortodoxia obtusa e indiferente ao seu sofrimento não merecia crédito.
Fato é que os fariseus eram muito mais cegos do que ele.

João 9.35-41: Diante da expulsão do homem curado, Jesus se apro-


xima dele e realiza, por assim dizer, uma segunda cura, mais importante
e fundamental. Jesus abre os seus olhos espirituais e pergunta: “Você
crê no Filho do Homem?” E ao se identificar como sendo aquele que
conversava com ele, o ex-cego declara: “Eu creio, Senhor”. E Jesus lança
mão da declaração forte e contundente, de que veio para fazer com que
os cegos vejam, mas também como um juiz, fazer com que aqueles que
veem fiquem cegos.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Seguramente, o texto de João 9 é avassalador, questionador e profundo.


Nele somos confrontados com a nossa mania de racionalizar tudo e de que-
rer compreender o sofrimento. Neste texto, a teologia da retribuição perde
qualquer sentido. Contudo, para fins homiléticos, é importante sempre ter
o cuidado para não acentuar demais a lei e esquecer do evangelho. Uma
ponte muito boa a ser feita encontra-se exatamente no texto de Efésios
5.8-14, onde observamos que o cristão anda na luz do Senhor, e por isso
produz os frutos da luz, a saber, bondade, justiça e verdade.

SUGESTÃO DE TEMA E ESBOÇO

Tema: Jesus, a luz do mundo

Partes: 1. Por causa do pecado, o ser humano vive na escuridão


2. Cristo nos tira da escuridão do pecado e nos leva para a
sua luz
3. Na luz do Senhor produzimos frutos.

Rômulo S. Souza
São Gonçalo/RJ
rsluterano@yahoo.com.br

106
QUINTO DOMINGO NA QUARESMA
Salmo 130; Ezequiel 37.1-14; Romanos 8.1-11;
João 11.1-45 (46-53) ou João 11.17-27, 38-53

LEITURAS DO DIA

Salmo 130: Um salmo que mostra a confiança em Deus. O salmista


está esperando a ajuda de Deus e sabe que pode confiar. Teme porque
sabe que a única coisa que merece é a condenação pelos seus pecados,
mas sabe que Deus perdoou todos os pecados.
Ezequiel 37.1-14: O vale dos ossos secos mostra claramente o poder
de Deus. Ele fez com que tivessem vida novamente, assim como fará com
todos nós no último dia na ressurreição. Mas também nesse texto pode
ser feita referência à ressurreição que tivemos no batismo, ou seja, a nova
vida que recebemos de Deus.
O povo de Israel havia pecado, se desviado de Deus e a consequência
disso foi o exílio. Deus os faz voltarem para a sua terra. O ser humano
pecou, ficou distante de Deus e próximo do diabo, morto espiritualmente.
Mas Deus não desiste desse povo; ele vai e busca, dá vida novamente,
vida por causa de Cristo.
Pode ser enfatizado o que o pecado causa nas pessoas, ou seja, o
afastamento de Deus e toda a consequência de estar distante de Deus e
pode-se também mencionar que Deus busca novamente para junto de si
o seu povo. Como vemos no Salmo, Deus perdoa e, por causa do perdão,
temos vida novamente.
Romanos 8.1-11: Vemos aqui novamente o amor de Deus, que
enviou seu Filho ao mundo para nos salvar. A nossa vida é guiada pelo
Espírito Santo, pois fomos salvos por causa da obra de Cristo, e se Cristo
vive em nós, então não continuaremos a fazer tudo o que a carne quer
que façamos.

CONTEXTO DE JOÃO 11.1-45

Litúrgico: Estamos nos aproximando da morte de Cristo, o seu fim


aqui na terra está próximo, os judeus querem arrumar alguma maneira
de matá-lo. O evangelho conforme João segue essa linha e Jesus está
indo em direção ao fim. Cristo está indo para a morte, mas a sua morte e
ressurreição darão vida a todos nós. Mesmo nesse momento de sofrimento
de Cristo, há a esperança. E no texto de hoje, mais uma vez, ele mostra
IGREJA LUTERANA

quem é, mostra todo o seu poder e poder sobre a morte. Mostra quem é
o Messias e pode de fato ser o nosso salvador.
Histórico: Jesus havia pregado, e a pregação dele não agradou alguns
dos judeus, que quiseram matá-lo. Depois disso, ele havia se retirado para
a Pereia, a leste do Jordão, perto de Jerusalém. Mesmo estando lá, teve
notícias de seu amigo Lázaro. Nesse momento da narrativa, os judeus já
estão tramando para matá-lo. Veremos que depois que Jesus realiza o
milagre, alguns fariseus conspiram para tirar a vida dele.

O TEXTO

João 11.1-45 é um texto que parece estranho, pois Jesus sabe que
Lázaro, seu querido amigo, está doente (v.3). Mesmo assim, ele espera
por dois dias para decidir ir até lá, chegando quatro dias depois. Impor-
tante notar que Jesus já diz no início da narrativa que o resultado dessa
doença seria que revelaria o seu poder (v.4). Nem sempre entendemos
os desígnios de Deus. Ver também João 9.3.
Vv. 6,7: As irmãs se preocupam com a demora de Jesus. Se ele tivesse
vindo logo, isso poderia não ter acontecido, Lázaro ainda poderia estar
vivo. Elas não confiam totalmente, ficam com um pé atrás.
Vv. 9,10: Jesus quer mostrar que enquanto não chega a hora esti-
pulada pelo Pai, ele irá trabalhar, pois irá chegar o momento em que ele
não estará mais andando com eles. Ele também não precisa temer os
judeus, porque não poderiam matá-lo enquanto o dia que o Pai estipulou
não tivesse chegado. Vemos mais uma vez que Cristo vai morrer porque
ele quer, porque ele sabe a consequência da sua morte e ressurreição
(nossa salvação). Ele não morreu porque não conseguiu vencer os que o
queriam morto.
Vv. 14,15: Jesus dá a entender que se ele estivesse lá, Lázaro não teria
morrido. Mas foi melhor ele morrer, pois agora os discípulos verão uma
grande manifestação da glória de Deus. Ele já havia afirmado no início
que aquela doença era para a glorificação do Filho (v.4).
V. 17: Se Lázaro estava sepultado havia quatro dias, então ele mor-
reu logo após Jesus receber a notícia de que ele estava doente. Pois de
onde Jesus estava até Betânia era a distância de um dia, ele ficou dois
dias lá.
Quando Jesus chegou lá, falou com Maria e Marta. Maria reconheceu
que Jesus é o Messias. Jesus falou belas palavras de consolo para elas e
para nós também: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim,
ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim nunca morrerá”
(v.25). Nada pode ser tão consolador. Mesmo que tudo acabe aqui, ainda
assim temos a vida eterna.

108
QUINTO DOMINGO NA QUARESMA

V. 33: O verbo evmbrima,omai tem um dos significados sendo: estar


profundamente comovido. Este verbo é repetido nesta mesma perícope
no v.38. Jesus é humano, tem sentimentos, se comove com o sofrimento
humano.
V. 35: “Jesus chorou”. Ele havia ficado profundamente comovido (v.33),
então chorou. Aqui também temos uma demonstração de que Jesus é
verdadeiramente homem: ele chora. Também podemos perceber que
Lázaro era realmente um amigo querido. Talvez chorou por ver a situação
humana, assim como chorou quando viu a situação de Jerusalém e o que
aconteceria com ela (Lc 19.41).
V. 43: Jesus ressuscitou Lázaro, e isso fez com que muitas pessoas
cressem nele e reconhecessem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus.
Chamou Lázaro e ele veio. Uma demonstração de como será conosco na
nossa ressureição.
As leituras para este final de semana mostram a fragilidade humana
e, também, que sempre há a esperança em Deus.
O vale de ossos secos do exílio babilônico mostra a situação sem Deus.
A morte de Lázaro, pela qual Jesus chora, talvez pela situação do ser
humano, também mostra o que é o ser humano sem Deus. Mas sempre
há a esperança, e essa esperança está em Deus. O vale de ossos secos é
levantado pela palavra de Deus. Em Romanos vemos que Deus enviou seu
próprio Filho ao mundo para dar salvação. E no evangelho Cristo vence a
morte, mostrando como será no último dia. Também temos o Salmo que
nos fala sobre a confiança em Deus, do amor e do perdão divinos.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Tema: Confiemos sempre em Deus


- O ser humano sem Deus não é nada
- A fragilidade humana (morte)
- Em Deus sempre existe esperança (Cristo demonstra seu poder
sobre a morte)
- Confiando em Deus sabemos que o fim não é na morte.

Marcelo Júnior Götz


Colatina/ES
m.gotz@hotmail.com

109
DOMINGO DE RAMOS
Salmo 118. 19-29 ou Salmo 31.9-16; Isaías 50.4-9a;
Filipenses 2.5-11; Mateus 26.1-27,66 ou Mateus 27.11-66
[ou Mt 21.1-11] ou João 12.20-43

CONTEXTO

No calendário litúrgico, este é o Domingo de Ramos, no qual se celebra


a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Porém também chamado de
domingo da Paixão, enfatizando assim o início da semana na qual Jesus
seria preso, crucificado e morto. Jesus já revelara três vezes para os seus
discípulos o que viria a acontecer-lhe em Jerusalém (Mt 16. 21; 17. 22-
23; 20.18). O próprio Jesus afirmou que veio precisamente para esse fim,
para entregar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28).
É certo que este grande acontecimento não estava agendado entre
as autoridades religiosas e civis de Jerusalém, mas estava nos planos de
Deus e se tornaria o maior evento na história da humanidade. Jerusalém
tornou-se o cenário da restauração da humanidade, através da obra re-
dentora de Jesus Cristo.
Esta, a primeira opção da perícope (Mt 26.1-27,66), não narra a en-
trada triunfal de Jesus em Jerusalém. Porém registra parte dos aconte-
cimentos que viriam a acontecer posteriormente, durante a semana que
culminou no seu sofrimento, morte e ressurreição. Portanto, optamos por
este texto, através do qual objetivamos convocar a todos os ouvintes a
iniciar a semana refletindo sobre a paixão e morte de Cristo e a observar,
principalmente, o seu gesto de humildade e o seu servir, que resultou na
sua glorificação, com sua ressurreição no domingo da Páscoa.

LEITURAS

Salmo 118.19-29: Este é um texto que reflete a alegria do povo de


Israel diante do favor de Deus. Através de diversas frases identificamos
que se trata de um salmo profético relacionado ao domingo de Ramos,
da semana santa e do domingo da ressurreição. “Abri-me as portas da
justiça” (v. 1). Esta era a visão que Israel tinha de Jerusalém, da cidade
santa, apesar de Jerusalém frustrar esta expectativa do povo. Esta porta
da justiça viria a ser o próprio Jesus, ao afirmar: “Eu sou a porta, se al-
guém entrar por mim, será salvo” (Jo 10.9). “Bendito o que vem em nome
do Senhor” (v. 26). Palavras pronunciadas pelos discípulos e moradores
de Jerusalém durante a entrada triunfal, dando boas-vindas ao Rei dos
DOMINGO DE RAMOS

reis. “Adornai a festa com ramos” (v. 27), sendo esta festa marcada com
os ramos estendidos diante de Jesus. “Este é o dia que o Senhor fez” (v.
24). Provavelmente uma profecia referindo-se ao dia do Senhor, o dia da
ressurreição, no qual a vitória de Cristo seria declarada. “A pedra que os
construtores rejeitaram” (v. 22), referência clara às autoridades religiosas
de Israel que rejeitaram o Messias, a principal pedra da construção do
reino de Deus.

Isaías 50.4-9a: Este é o 3° cântico dos cânticos do Servo sofredor,


sendo um prelúdio do 4° cântico, no capítulo 53, que viria a enfatizar ainda
mais o sofrimento do Messias. O texto é uma nítida profecia do sofrimento
e humilhação que Jesus viria a sofrer no pretório de Pilatos e no pátio
do sumo sacerdote Caifás, conforme registrado em Mateus 26.67. Após
ter proclamado a palavra de Deus, consolado os abatidos, entregou-se
voluntariamente como servo para realizar sua obra messiânica.

Filipenses 2.5-11: A epístola é reconhecia como a mais pessoal es-


crita pelo apóstolo Paulo. Através dela retribui carinhosamente o auxílio
recebido por essa igreja, quando, provavelmente, estava na prisão em
Roma pela primeira vez.
Neste texto Paulo exorta seus destinatários a observarem o exemplo
de humildade que houve em Cristo, que se esvaziou de sua glória para
ser igual a nós, humanos. Ensinou a humildade e a exerceu em serviço:
“Quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” (Mt 20. 27);
ensinou sermos humildes como uma criança (Mt 18.1-4); lavou os pés
dos discípulos e exortou-os (Jo 23.12-15); e, finalmente, serviu com a sua
própria vida, em humildade e obediência. Entregou-se à morte, na mais
extrema humilhação, ao ser cravado na cruz como o pior bandido.
Ele se esvaziou da sua glória. Assim devemos nós nos esvaziar, mas do
nosso orgulho e da nossa vanglória, conforme Paulo exorta: “Nada façais
por partidarismo ou vanglória, mas por humildade” (Fp 2.3). E assim como
Cristo foi exaltado na sua ressurreição, seremos nós também exaltados,
conforme as palavras de Tiago: “Humilhai-vos na presença do Senhor, e
ele vos exaltará” (Tg 4.10).

TEXTO DA MENSAGEM

Mateus 26.1-27,66: Após analisar brevemente o salmo do dia e a


leitura do AT, percebem-se as evidentes profecias em relação aos acon-
tecimentos relativos a Jesus na semana da paixão. O mesmo percebeu-
se também na epístola, na qual temos o relato de Paulo sublinhando a
obediência, a humildade e o servir de Cristo por ocasião de sua morte e

111
IGREJA LUTERANA

ressurreição. Em análise do texto do evangelho, estaremos observando


alguns versículos que mais se harmonizam com os demais textos. “Sabeis
que, daqui a dois dias, celebrar-se-á a páscoa; e o Filho do homem será
entregue para ser crucificado” (v. 2). A festa da páscoa comemorada com
pães asmos e um cordeiro lembrava a libertação do povo de Israel do Egito.
E estava se aproximando. O libertador de todas as nações da escravidão
do diabo, do pecado e da morte, já estava na cidade. Aquela libertação
efetuada por Deus através de Moisés era um tipo da grande libertação que
Jesus realizaria, sendo ele o próprio Cordeiro a ser oferecido: “[...] como
cordeiro foi levado ao matadouro” (Is 53.7). Os mentores da sua prisão
e morte se reuniram no palácio do sumo sacerdote Caifás. “Mas diziam:
não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo” (v. 5). Mas
deveria ser assim, durante a festa da Páscoa judaica viria a acontecer a
páscoa maior e universal. Mesmo que as autoridades religiosas tentassem
desvincular a morte de Cristo da páscoa, para evitar tumulto entre o povo,
foi inevitável. A páscoa judaica daria lugar à páscoa universal, na qual
esta já era prefigurada.
Nos versículos 6 a 13 temos o relato do que aconteceu em Betânia,
a três quilômetros de Jerusalém, onde se hospedava na casa dos irmãos
Lázaro, Maria e Marta. O relato é semelhante ao registrado em Lucas
7.37-38, quando na ocasião Jesus foi ungido. A tradição apresenta o
relato como se fosse o mesmo, ao referir-se a um anfitrião com o nome
de Simão e, neste caso, Maria seria Maria Madalena. Mas não existem
evidências que comprovem essa hipótese. Porém o que destacamos deste
relato são as palavras de Jesus, quando o gesto de Maria foi questionado
pelos discípulos: “Ela praticou uma boa ação para comigo [...] derraman-
do este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento”
(vv. 10 e 12). Entre os judeus, dar um sepultamento respeitoso era digno
de maior honra do que dar esmolas aos pobres. Esta honra Maria estava
concedendo ao seu Salvador.
Nos versículos 14 a 16 é relatado o pacto da traição, e destacamos
as palavras de Judas: “Que quereis me dar, e eu vo-lo entregarei?” (v.
15). Judas faz o inverso em relação à Maria: enquanto esta disponibiliza
dinheiro em honra ao Mestre, aquele quer angariar dinheiro traindo e
entregando o Mestre.
Nos versículos 17 a 18 temos a preparação da páscoa e observamos a
disposição dos discípulos em servir o Mestre: “Onde quer que te façamos
os preparativos para comeres a Páscoa?” (v. 17). Aquela seria a última
oportunidade de celebrarem juntos com o Mestre a páscoa judaica, mas
que introduziria a páscoa cristã, a qual eles poderiam celebrar em comu-
nhão com Jesus sempre por ocasião da Santa Ceia, instituída por ele nos
versículos 26 e 27. Ceia que seria celebrada em memória da sua morte.

112
DOMINGO DE RAMOS

Morte decretada pelas autoridades religiosas: “É réu de morte” (v. 66). E


assim Cristo Jesus, em obediência e humildade, nos serviu, entregando a
sua vida. E assim se confirmam as palavras de Jesus: “O Filho do Homem
não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate
por muitos” (Mt 20.28).

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Em suma, percebemos que os textos do salmo, AT e epístola mencio-


nam a humildade e o servir de Cristo, e que culminaria em sua morte de
cruz, em Jerusalém. No texto do evangelho, bastante extenso, nos são
relatados os acontecimentos que precederam a prisão e a morte de Jesus.
Portanto, destacamos pontos que julgamos importantes para o desdobra-
mento e objetivo da mensagem.
O objetivo é fazer o ouvinte adentrar a semana santa em uma pro-
funda reflexão sobre os ensinos e atos de Cristo, em humildade e serviço.
E assim, como salvos e motivados, buscar uma vida em humildade e
serviço a Deus e ao próximo, observando também os gestos de Maria e
dos discípulos de Jesus.

Tema: Reflitamos sobre a paixão e morte de Cristo:


1. Despojando-nos de todo orgulho e egoísmo.
Com humildade, Jesus venceu e nos salvou.
2. Servindo, ao invés de ser servido.
Jesus já nos serviu com a sua própria vida.
E ainda no serve com a sua Palavra e sacramentos.

Valci Sering
Andreazza/RO
vsering@uol.com.br

113
QUINTA-FEIRA SANTA
Salmo 116.12-19; Êxodo 24.3-11; Hebreus 9.11-22; Mateus 26.17-30

CONTEXTO (CENÁRIO LITÚRGICO, HISTÓRICO)

Era a festa da Páscoa e celebrava-se a saída do Egito sob a poderosa


mão de Deus que abriu o Mar Vermelho. Jesus está na sua última reunião
com seus discípulos antes de dar a vida pela salvação da humanidade
perdida. Em seu encontro de “despedida” mostra-lhes o motivo de sua
vinda ao mundo. “Vemos uma pequena comunidade reunida em torno
de Jesus. É noite de quinta-feira, talvez por essa hora. O Senhor está
sentado à mesa com seus doze discípulos. Porém não é uma ceia comum
que os congrega junto à mesa posta. É uma ceia de despedida. A mesa
converte-se em altar, a reunião torna-se um culto – pois onde Jesus está
há sempre culto” (Otto Goerl, Púlpito, volume 3, p. 215).

ÊNFASES E ANÁLISE

Páscoa, Pásxa.
A Páscoa do Antigo Testamento aponta para a Páscoa do Novo Testa-
mento, a libertação que seria realizada pelo Messias. Nesta ceia pascal, o
Mestre Jesus revela aos seus discípulos quem seria o traidor (v.23). Depois
institui o sacramento da Santa Ceia, na qual oferece aos que nele creem,
junto com o pão e o vinho, seu corpo e sangue, como selo da remissão
dos pecados adquirido na cruz. Cristo, ao instituir a Santa Ceia, mostrou
que o seu sacrifício foi de doação pelo pecador. E que estaria na vida dos
seus, nos sofrimentos e angústias deles bem como intercederia por eles
junto ao Pai (João 17). Pois o Senhor, nosso Criador e Redentor, depois da
última ceia, quando está para começar sua amarga paixão e morte pelos
nossos pecados, entregou este sacramento como consolo para corações
angustiados e união dos cristãos com Cristo e de uns para com os outros.
Jesus é o verdadeiro Cordeiro Pascal dos pecadores. Seu sangue tira os
pecados do mundo (Jo 1.29, 1Jo 1.7). A cada celebração da Santa Ceia,
nosso Senhor, que foi morto, mas vitoriosamente ressuscitou, nos abraça
pessoalmente com o seu próprio corpo e sangue que preservam nossa
vida em seu novo corpo, a igreja.

Aliança, diatheke (acordo, testamento).


A primeira aliança foi selada com o sangue de animais sacrificados,
cujo sangue era aspergido. A nova aliança foi selada com o sangue de
QUINTA-FEIRA SANTA

Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). E,


assim, o homem é salvo pela graça de Deus, através da morte expiatória
de Cristo. Na nova aliança é o sangue do próprio ofertante que foi der-
ramado para expiação pelo pecado. Jesus tornou sua nova aliança per-
feitamente clara quando, ao compartilhar o pão e o vinho, disse: “Isto é
o meu corpo... Isto é o meu sangue”. Na Santa Ceia nós partilhamos
de Cristo oralmente.
Assim como a Páscoa apontava para o livramento do passado do Egito
e para a vinda futura de Cristo, assim agora, na nova aliança, a Santa Ceia
aponta para a sua morte no passado e para a sua vinda futura em glória.

Sangue, haima (sinal de redenção).


No Antigo Testamento, o sangue dos animais do sacrifício era devolvido a
Deus, sendo derramado à base do altar do sacrifício. Era usado para aspergir
o altar (Êx 29.16, Lv 3.2), o sumo sacerdote (Êx 29.21) e também o véu do
templo (Lv 4.6, Nm 19.4). O sangue do sacrifício tem poder expiatório (Lv
16.6, 15ss.), purificador (Lv 14) e santificador (Êx 29.30-31). Pertence ao
ato de fazer a aliança (Êx 24.6ss.). O sangue cobria o pecado em sacrifícios
pelo pecado e pela culpa, e de purificação, especialmente no grande Dia da
Expiação (Lv 16). Purificava os sacerdotes, o povo e o templo e renovava
a aliança (2 Cr 29.23-24). O sangue colocado nas ombreiras das portas
protegeu os primogênitos da morte (Êx 12.22-23).
O Novo Testamento continuou o conceito do sangue sacrificial do Anti-
go Testamento que operava em fazer a aliança e a reconciliação. Hebreus
9.7, 12-13,18-22, 25; 10.4; 11.28;13.11 mencionam o sangue sacrificial
de animais. Vinculam-se com os tipos do Antigo Testamento e indicam a
superioridade do sangue de Cristo, o antítipo no Novo Testamento. Isto por-
que a morte de Cristo tem um significado reconciliador. O poder do sangue
sacrificial de Cristo traz perdão e santificação. Estabelece paz com Deus e
é o fundamento de uma nova comunhão com Deus (Hebreus 9.22).
O sangue de Jesus (1Pe 1.2, Hb 10.19, 1Jo 1.7, 1Co 10.15, Ef 2.13,
Hb 9.14, 1Co 11.27, Ap 7.14, 12.11) ocupa uma posição central no pensa-
mento do Novo Testamento. É o sangue sacrificial que Cristo, em perfeita
obediência a Deus (Rm 5.19, Fp 2.8, Hb 5.8), ofereceu ao entregar-se na
cruz. Jesus, no seu sofrimento e morte, ofereceu o sacrifício verdadeiro
para a remissão dos pecados.
Cristo, mediante o seu sangue, resgatou e libertou a igreja, o novo
povo de Deus, do poder do diabo e de todos os poderes do mal (At 20.28,
Ef 1.7, 1Pe 1.18-19, Ap 5.9). O sangue sacrificial de Cristo justifica todos
aqueles que, pela fé, se apropriam da morte de Cristo (Rm 3.25, 5.19). O
sangue de Cristo possibilita a vida na presença de Deus, dá acesso a Deus
(Hb 10.19, Ef 2.13, 18) e é a garantia de que a promessa da nova aliança
foi cumprida. Este sangue traz a paz, tanto na terra como no céu.

115
IGREJA LUTERANA

PARALELOS, PONTES, PONTOS DE CONTATO

Jesus estava, naquele momento, apesar do sofrimento que tinha pela


frente, confortando e fortalecendo os seus discípulos que ficariam sem a
sua companhia. Esta ceia tinha como finalidade encorajar os discípulos
para que tivessem forças a fim enfrentar as hostilidades e provações do
seu discipulado cristão.
A celebração pascal anual tinha sido ordenada por Deus para lembrar
a poderosa intervenção divina há séculos atrás quando Deus livrou o seu
povo escolhido da escravidão egípcia (Êxodo 12). Esta festa foi substituída
pela nova refeição, instituída por Cristo, para ser celebrada como marco
da nova aliança, na qual recebemos o livramento da maldição do nosso
pecado e da condenação eterna que merecemos (Cl 1.12-14).

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Assunto: Jesus quis comemorar sua última Páscoa com os seus dis-
cípulos e, naquele momento, institui a Santa Ceia, a nova aliança entre
Deus e a humanidade. É uma aliança baseada no amor, na misericórdia,
na graça e no perdão de Cristo.

Tema: Comunicando sempre (Jesus – a água viva) através da Santa


Ceia.

Disposição:
1. Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
a. O seu sangue é a garantia da validade da nova aliança.
b. Temos a promessa de que onde pão é comido e vinho bebido em
sua memória, ele está presente com o seu corpo e seu sangue,
concedendo perdão, vida e salvação.
c. A Santa Ceia é alimento para vida eterna.
d. Haverá uma última ceia bem-aventurada na casa do Pai, onde
estaremos com ele em eterna comunhão.

Conclusão: Pela Santa Ceia, instituída pelo próprio Cristo, seguida


pela sua morte e ressurreição, recebemos a nova aliança no sangue de
Jesus. Ela reconcilia Deus com o seu povo e mantém-nos como seus filhos
amados.

Volmar Herbertz
Congregação São Lucas – Novo Hamburgo/RS
volmarhtz@bol.com.br

116
SEXTA-FEIRA SANTA
Salmo 22 ou Salmo 31; Isaías 52.13-53.12; Hebreus 4.14-16; 5.7-9;
João 18.1-19,42 ou João 19.17-30

CONTEXTO

As origens da Sexta-Feira antes do Domingo de Páscoa como um dia


santo remontam ao desenvolvimento da “semana santa” em Jerusalém
em fins do século IV. Está inserida na semana “maior”, ou “pascal”, por
ter seu ápice no acontecimento da ressurreição de Cristo. Atanásio de
Alexandria utilizava no século IV a expressão “semana santa”, que se tor-
nou tão conhecida e utilizada posteriormente. A confissão é uma marca e
experiência dessa semana como preparação para a celebração da Páscoa.
No desenvolvimento da semana santa, somente a Sexta-Feira Santa e o
Sábado (de Aleluia) eram designados, inicialmente, como dias santos.
Depois alguns incluíram a manhã do Domingo de Páscoa. E a Quinta-Feira
Santa tornou-se oficialmente um dia santo em meados do século IV. Ainda
antes de acabar este século (IV) foi também acrescentada a quarta-feira
que relembrava a traição de Judas para entregar Jesus aos seus inimigos.
Antes do Concílio de Niceia, a grande festa celebrada era a Páscoa cristã,
na noite do Sábado de Aleluia.
Há de se destacar que o título deste dia era chamado de “a Sexta-Feira
da Paixão e da Morte do Senhor”. Curiosamente, no Oriente foi denominada
de “grande” Sexta-Feira. No Ocidente, de “boa” Sexta-Feira. Os cristãos
celebram, de maneira especial, a paixão e morte de Jesus Cristo.
A Sexta-Feira Santa é a lembrança solene da morte de Jesus na cruz. O
caráter litúrgico (culto e mensagem) deste dia é marcado pela austeridade
e silêncio. Os sons musicais de instrumentos são minimizados. O altar pode
ser “desnudado” e as leituras são os pontos centrais do culto.
Tradicionalmente, o altar é desnudado após a o ofício da Ceia na Quinta-
Feira Santa. A razão é simbólica. Lembramos que depois da Quinta-Feira
Santa e antes de sua crucificação, nosso Senhor foi “desnudado” de suas
vestimentas. Simboliza a profunda humilhação de Cristo por nós. Serve
como estímulo à prática cristã da humildade como registra o apóstolo Paulo
na epístola aos Filipenses 2.5-11. Sugere-se que o altar permaneça assim
“desnudado” até a véspera da Páscoa. Se for um altar com esculturas e
cor, pode ser vestido com paramentos da cor preta.
O texto do evangelho (curto ou longo) talvez seja o mais indicado para
este dia. Apesar do caráter solene, o culto de Sexta-Feira Santa não é um
“funeral” de Jesus. A ênfase está na contemplação silenciosa e profunda
IGREJA LUTERANA

na sua grande obra salvadora, em seu grande amor por nós. Nem a morte
o pôde deter. A última palavra sobre a Sexta-Feira Santa está no Domingo
de Páscoa com a ressurreição do Senhor.

TEXTOS BÍBLICOS

Temos aqui exposta a experiência do sofrimento. Tal experiência é


ao mesmo tempo única e comum a todos os seres humanos mortais. Do
nascimento à morte, o sofrimento nos acompanha. Faz parte da vida. Faz
chorar, gritar. Acontece com todos e em todas as fases da vida humana
com suas respectivas peculiaridades. “Por quê?” – gritava o salmista.
Assim também bradou Jesus.
Compreender o sofrimento, buscar um sentido seria o caminho para
superá-lo. E isto, por sua vez, está intimamente ligado ao sentido da vida.
Qual o sentido que vemos em nossa existência? Os filhos de Deus, tanto
do Antigo Testamento como do Novo Testamento, não concebiam um sen-
tido em sua vida sem Deus, separados de Deus. O Salmo 22 é um salmo
de lamento e o expressa de maneira singular. Sugere que seja possível
à criatura humana relacionada com Deus, portanto ao “piedoso”, gritar
a sua angústia, o sentimento de abandono, de perdição, ao perguntar
pelo porquê. Clama a Deus, o Senhor da vida, da História, do universo,
sem se afastar definitivamente dele. Transparece aqui o mais profundo
sofrimento que o ser humano pode passar: ser abandonado por Deus! É
a pior solidão. É incomparável. É a mais horrível perda. Neste sentido é
muito semelhante aos sofrimentos narrados no livro de Jó, um homem
de Deus que se viu cair nas profundezas do sofrimento.
Jesus, ao clamar na cruz as palavras iniciais desse salmo, evidenciou
a plenitude de sua humanidade como verdadeiro homem! Também como
o salmista, Jesus não ficou só no grito de desespero. No fim exclamou:
“Está consumado” (Jo 19.30). O evangelista registra que logo “rendeu o
espírito”. De acordo com Lucas, Jesus teria declarado isto: “Pai, nas tuas
mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46). Entregou-se às mãos do Pai.
Jesus, o Cordeiro de Deus, é levado ao matadouro. Enfrentou morte de
cruz. Foi definitivamente o sacrifício da expiação pelo pecado do mundo.
“Ele foi rejeitado e desprezado por todos; ele suportou dores e sofrimen-
tos sem fim. Era como alguém que não queremos ver; nós nem mesmo
olhávamos para ele e o desprezávamos” (Is 53.3). Desprezado e o mais
rejeitado entre os homens, homem de dores e sofrimento. Ele é o Servo
justo que justifica muitos por seu inocente sofrimento e morte. Ele carrega
nossas dores e tristezas, ele foi ferido pelas nossas transgressões, ele foi
moído pelas nossas iniquidades; sofreu o nosso castigo, e pelas suas pi-
saduras fomos sarados (Is 53.4-5). Como Filho de Deus, ele cumpre a lei

118
SEXTA-FEIRA SANTA

por nós em carne humana, e assim cumpre as Escrituras (João 19.7,24).


Em perfeita obediência e fidelidade, ele compartilha das nossas fraquezas e
tentações, obviamente sem pecado (Hb 4.15). Como nosso misericordioso
Sumo Sacerdote, ele nos leva ao Pai, intercede pelos transgressores (Is
53.12) e se junta a nós para que as nossas orações sejam ouvidas (Hb
5.7). Da cruz ele completa: “Está consumado!” (João 19.30). Lava-nos dos
pecados com a água que sai do seu lado e nos cobre com o seu sangue
precioso nos purificando de todos os pecados (Jo 19.34).
Segue daí que, para nós cristãos, temos tantos mais motivos para
permanecer firmes em Deus, mesmo em toda a tribulação e sofrimento,
até a hora derradeira. Isto porque o próprio Filho de Deus passou por isso
(Hb 4), mas também por causa de toda a história da salvação (redenção)
em Cristo. Recordar é viver! Compartilhar esta boa notícia com o povo de
Deus é alentador. O culto é a expressão apropriada para buscar consolo no
Filho do Altíssimo, Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Serve
para a prática da oração e ajuda na superação do sofrimento. Temos força
para suportar o sofrimento e por causa da paz divina.
A mensagem da ressurreição e da vida eterna, que é parte integrante
do evangelho salvífico, é o consolo singular dos sofredores. Não há como
omiti-la nesse contexto e situação.

USO HOMILÉTICO

A proposta homilética é meditar sobre o crucifixo a partir das leituras


propostas, especialmente a do evangelho (curto ou longo). Uma opção
para quem quiser e puder é ilustrar através de imagens de Jesus (cabeça,
face, ombros, coração e braços, pés, morte) no projetor multimídia.
Somos herdeiros de uma longa e nobre tradição entre os cristãos
de meditar sobre o crucifixo. São Bernardo, monge erudito do séc. XII,
escreveu uma série de poemas sobre essa meditação. Lutero convidou o
povo a usar o crucifixo ou um quadro de Jesus crucificado como auxílio
para sua meditação. Paul Gerhard, grande compositor luterano de hinos,
adaptou várias estrofes de Bernardo para o famoso hino quaresmal Ó
fronte ensanguentada. Cantar-se-á algumas estrofes do hino 88 (Hinário
Luterano) durante a mensagem.
O objetivo nessa mensagem não é evocar piedade por Jesus, nem se
esforçar numa forma física e emocional para “imitar” Jesus. A meditação
é para estimular a vida de fé, instrução no temor e amor a Deus, que
por sua vez retorna a ele em vida de arrependimento. Renovamos nosso
apego a Jesus a fim de sermos purificados, auxiliados e preservados na
verdadeira e única fé através dele até o nosso fim.
Meditar é pensar com o coração e amar com a mente. Isto é praticar
a disciplina de ouvir Deus nos falar como supera a ira divina através de

119
IGREJA LUTERANA

sua misericórdia no sofrimento e morte de seu amado Filho. Essa é a arte


de meditar sobre o crucifixo: na cruz na qual nosso Senhor foi pendura-
do está a fonte na qual se movem vida e morte. Ela é a porta aberta na
presença da graça e glória de Deus. É o portal da justificação através de
quem o justo entra.

A cabeça
A meditação começa com o fixar dos olhos à cabeça coroada de Jesus.
Canta-se a estrofe 1 do hino Ó fronte ensanguentada:

Ó fronte ensanguentada, ferida pela dor


De espinhos coroada, marcada pelo horror
Ó fronte outrora ornada de eterna glória e luz
Agora desprezada, adoro-te Jesus.

Sua face
A meditação muda para a face e os olhos do Senhor crucificado. Canta-
se a estrofe 2 do hino Ó fronte ensanguentada:

Ó rosto glorioso, que sempre fez tremer


O mundo poderoso, fizeram-te sofrer!
O quanto estás mudado! O teu sublime olhar,
De tão atormentado, não vejo mais brilhar.

Os ombros (a troca)
A meditação volta-se para a vida na troca que Jesus faz ou os ombros
que suportam um fardo pesado. Ele toma o nosso pecado e recebemos a
justiça dele. Aqui Gerhard é um verdadeiro pregador e evangelista. Canta-
se a estrofe 3 e 4 do hino Ó fronte ensanguentada:

O que tens suportado foi minha própria dor;


Eu mesmo sou culpado de tua cruz, Senhor
Oh! Vê-me, aflito e pobre: sua ira mereci
Com tua graça encobre o mal que cometi.

Pertenço ao teu rebanho, Jesus, meu bom pastor


Senhor, favor tamanho provém do eterno amor.
Do Verbo dos teus lábios eu sempre me nutri.
Os pensamentos sábios obtenho só de ti.

120
SEXTA-FEIRA SANTA

Seu coração e braços


A meditação move-se para coração amoroso de Jesus e seu corpo
violado. Neste corpo ninguém pensa nas palavras de João “nenhum osso
dele foi quebrado”. Essas palavras são verdadeiras. Pense, especialmen-
te, no golpe ao lado de Jesus, onde a pele foi perfurada e aberta, fluindo
água e sangue. A congregação canta a estrofe 5 do hino Ó fronte ensan-
guentada:

Momentos de alegria e grande bem-estar


Ó meu divino Guia, eu sinto ao meditar
No que por mim fizeste. A fim de me remir,
A própria vida deste. É bom a ti seguir.

Seus pés
Vamos às feridas dos pés. Por nossa causa Jesus andou pelo caminho
da cruz, todo o caminho para a final e perfeita salvação. Ele não começou
a amar e desistiu em seguida. Ele amou até o fim. Canta-se a estrofe 6
do hino Ó fronte ensanguentada:

Penhor tão precioso me vem da tua cruz!


Por este dom gracioso te louvo, meu Jesus.
Concede fiel me apegue a ti, no meu final
E nunca te renegue, Amigo sem igual.

A viagem de volta a Deus é um andar sobre o vale da morte. A sombra


desse vale nos acompanha ao longo desse caminho até que cheguemos
ao momento final. A estrofe 7 surge da meditação dos pés. Canta-se ela
do hino 88:

Quando eu partir um dia, comigo vem estar


Perfeita garantia na morte vieste dar.
Que toda a tua angústia me livre da aflição
E o diabo e sua astúcia não mais me afligirão.

Sua morte
Corpo e alma padecem. A cautela não só nos ataca às vezes, mas
a presença da morte, a sombra do vale da morte é “morte à porta”. O
padecimento vem em forma de morte de sonhos, fome de esperança,
negligências em cuidar das necessidades internas, irritações por causa do
trabalho, problemas com os filhos e pais ou esposas, uma fadiga depois
de um longo sacrifício, o chamado pelo Salvador em sua angústia é para
que ele conquiste as nossas também.

121
IGREJA LUTERANA

A estrofe 8 do hino Ó fronte ensanguentada é uma clássica meditação


para a hora da morte. Canta-se essa estrofe:

Consola-me na morte, lembrando a tua dor


És meu escudo forte, glorioso vencedor.
Estando a contemplar-te, confiante vou dizer,
Feliz, ao abraçar-te: assim é bom morrer!

Conta-se que Bernardo estava entre a vida e a morte e os monges que


estavam ao redor de sua cama oravam por ele por causa da obra primorosa
que tinha feito. Ele lhes disse que segurassem um crucifixo diante dos
seus olhos. “Na morte, lembre-me de tua paixão, ó Jesus, meu consolo!
Meus olhos estarão sobre ti e sobre tua cruz. Pela fé em ti, meu coração
será, então, envolvido por ti.”

Wanderley Maycon Lange


Imbituva/PR
wmlange@gmail.com

122
SÁBADO DE ALELUIA
Salmo 16; Daniel 6.1-24; 1Pedro 4.1-8; Mateus 27.57-66

OS TEXTOS

O Salmo 16 faz parte de um conjunto de cânticos de confiança em


Deus, o Senhor. Esta confiança se expressa no versículo 2: “Tu és o meu
Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente”. Davi sabia que po-
dia confiar neste bem maior. Por isso, procura passar aos seus irmãos na
fé, os santos (v.3), esta confiança. De modo que a vida em Deus seja de
gratidão, louvor, reconhecimento, perseverança no santo e eterno Deus.
É nele que a herança de sermos santos continua até os nossos dias. O
amor em Cristo, o verdadeiro santo (v.10) proporciona um coração puro,
um caminho de vida agradável ao Senhor, alegria eterna e o desfrute da
vida eterna (v.11), sem olhar para a corrupção humana.
Daniel 6 traz uma fotografia daquilo que Cristo passaria. Segundo o
texto, Daniel tinha um espírito excelente (v.3) aos olhos do rei Dario e,
principalmente, diante de Deus. Ele era um homem especial. Devido a
isso, ele era perseguido pelos seus companheiros de trabalho (presidentes
e sátrapas). Procuravam achar alguma falha ou culpa para condená-lo.
Os fariseus do Novo Testamento também procuravam falhas na lei ou
nos ensinamentos de Jesus. Ambos os personagens foram vítimas de
suas ações. Daniel, por confiar e depositar toda sua vida em Deus. Jesus,
por se apresentar como Filho de Deus, fazer milagres e, principalmente,
por ter a missão de ser pendurado numa cruz. Missão exclusiva para a
redenção do ser humano. Deus salvou Daniel fechando a boca dos leões
(v.22), porque confiava. Deus salvou a humanidade, ressuscitando o seu
Filho amado, porque Deus planejou assim.
Em 1Pedro, o apóstolo fala dessa missão de Cristo. Ao vir ao mundo
e se tornar carne (Jo 1.14), sofreu na carne para que o pecado fosse des-
truído. Dessa maneira, o coração do homem tem a oportunidade de viver
de acordo com a vontade de Deus e não segundo as paixões mundanas
(v.2). O apóstolo alerta seus irmãos na fé para a ação de Deus. O desafio
é sempre lembrar dessa ação, pois o pagamento da salvação foi caro.
Por desejar a salvação e não a condenação, nosso Pai dá oportuni-
dade de arrependimento dos pecados. Pois o fim de todas as coisas está
próximo (v.7). Deus quer ver a sua imagem e semelhança viva em seu
espírito (v.6). E é através do evangelho que o amor de Deus vem até nós,
com a vontade de proporcionar salvação e uma vida eterna de comunhão
com o Senhor.
IGREJA LUTERANA

Para termos e vivermos estas condições de filhos e filhas de Deus,


Mateus 27 registra que Jesus precisou enfrentar as tentações de Satanás,
morte, inferno. Precisou sofrer muito, chorar, passar por necessidades e
perseguições. Mas também ensinou meios para enfrentarmos as tentações.
Além de realizar milagres, ele ainda aceitou a todos, independentemente
de sua classe social e econômica em amor a Deus. Por causa deste amor,
no capítulo 27 ele é entregue ao governador Pilatos para ser julgado por
seus atos. Condenado e morto, Jesus deixa saudades entre aqueles que
seguiam e que criam em seu nome. Jesus está morto e prestes a ser
sepultado por José de Arimateia. Para os discípulos, seria um sábado de
tristeza, medo e desânimo.

O SÁBADO DE ALELUIA

O Sábado de Aleluia é um momento de reflexão. É olhar para o pas-


sado e relembrar tudo aquilo que Deus fez pelo seu povo até o momento
da morte de seu Filho. Ver em cada momento, em cada palavra, em cada
ação, o amor, a persistência, a dedicação, o carinho de Deus para conosco.
É refletir o quanto Deus ama. O quanto é importante saber deste amor e
porque ele quer me contagiar.
Pensar no amor e na vida de Jesus é fundamental para fortalecer,
crescer, motivar a fé e continuar a segui-lo em qualquer situação. Pensar
no amor e na vida de Jesus é levar ao pensamento: porque ele fez isso
por mim?
O sábado pode servir para chorarmos, sentirmos saudade, refletirmos
naquilo que Jesus foi, é e sempre será. É refletir sobre seu amor. É pro-
curar entender a ação de Deus e o que ele espera de seus filhos e filhas,
agora, encaminhados para serem livres para servir a Deus.
Em toda ação de Jesus, o sábado pode servir para pensar melhor nas
ações do dia a dia. Como podemos ser filhos e filhas melhores e agirmos
melhor diante do próximo, como Jesus fez em amor por mim.

TEXTO PARA O SERMÃO

O texto de Mateus 27. 57-66 fala que um discípulo diferente, chamado


José de Arimateia, com o qual não estamos acostumados, apareceu diante
de Pilatos para pedir o corpo de Jesus. Pilatos consentiu e atendeu o seu
pedido. Então, José baixou o corpo de Jesus da cruz e cuidou dele.
O que chama atenção é o fato de os discípulos que sempre acompanha-
vam Jesus não tomarem partido. Um discípulo oculto teve de aparecer, se
apresentar e trazer o corpo de Jesus para ser cuidado e preparado para o
sepultamento. Junto com ele estava Nicodemos e algumas mulheres. O corpo
de seu Mestre foi envolvido num pano e colocado num túmulo novo.

124
SÁBADO DE ALELUIA

Para os discípulos, a sensação de que tudo havia terminado estava


muito presente. A perda do Mestre abalou seus corações. Muitas perguntas
se levantaram, como o seguimento de sua Palavra e missão.
Enquanto os discípulos estavam tristes e abalados, os sacerdotes
e fariseus procuravam uma forma de se encontrar com o governador
Pilatos. A intenção era colocar guardas no túmulo de Jesus para que os
próprios seguidores não o tirassem de lá com o propósito de anunciar
sua ressurreição.
O medo dos líderes judeus era de que “a fé na sua ressurreição” trou-
xesse mais problemas a eles. Eles queriam evitar (ou não crer) a todo
custo que a ressurreição era de fato possível, segundo as palavras de
Jesus anunciadas em todo seu ministério.
José de Arimateia deu seu testemunho diante do mundo quando os
evangelhos de Marcos e Lucas dizem: “José esperava pelo reino de Deus”.
A sua fé dizia que “Deus por meio deste homem organizaria um novo reino
sobre a terra, no qual os pecados seriam perdoados e concedidos o Espírito
Santo e a eterna salvação” (Comentarista Kretzmann).

SUGESTÃO

Na vida diária busca-se e coloca-se muito a confiança em outras


pessoas, objetos e outros deuses. Principalmente nas horas de aflição e
desespero. O pensamento de que toda ajuda é bem-vinda acaba mistu-
rando, confundindo aquilo que se crê. A busca incessante pela resolução
de problemas, o mais rápido possível, deixa a fé oscilante devido a toda
ajuda oferecida para tirar o sofrimento de sua vida.
Portanto, pode-se trabalhar:
1.
- o depositar a confiança em lugar errado;
- o medo de colocar a confiança nas promessas de Deus;
- na hora da morte.

2.
- saber que estas promessas são válidas;
- a morte leva o cristão para uma eterna vida com Deus;
- não há motivos para ter medo.

3.
- confie em Deus, o Senhor;
- Davi, Daniel e Paulo confiaram até à morte;
- nós também podemos confiar na obra salvadora de Cristo.

João César Paganelli


Macapá/AP
jcpluterano@yahoo.com.br

125
RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR
Salmo 16; Atos 10.34-43; Colossenses 3.1-4; Mateus 28.1-10

CONTEXTO LITÚRGICO

A congregação como parte e ponte na história da igreja (chro-


nós e kairós)
A Páscoa é o momento em que toda a igreja de Cristo volta os olhos
da cruz para a tumba vazia. A ressurreição é, por assim dizer, o nasci-
mento da Igreja Cristã (enviada no Pentecostes). Hoje nós continuamos
a testemunhar esse fato não só pela historicidade, mas, principalmente,
pela fé na palavra de Deus que dá testemunho desse acontecimento, que
é a majestosa vitória de Jesus sobre a morte.

As perícopes e sua função no lecionário anual


As perícopes ressaltam o efeito da ressurreição sobre a vida da huma-
nidade, mostrando que o Pai não abandonou o seu Filho, o que significa
que ele não abandonou também a nós, mantendo o plano da salvação
com fidelidade, cumprindo suas promessas. A nossa vida passa pela vida
e obra de Jesus. Portanto, nossa “vida está oculta juntamente com Cristo,
em Deus”.

OS TEXTOS

Ideia central
Salmo 16: As palavras escritas por Davi, divinamente inspiradas pelo
Espírito Santo, nos levam ao Salvador Jesus. Dando destaque aos versí-
culos 10 e 11, Davi sabia que a obra do Santo de Deus venceria a morte.
Em Atos 2.31 o apóstolo Pedro cita a confiança de Davi na ressurreição.
Porque Jesus vive, nossa alma não ficará na morte.
Atos 10.34-43: Pedro está pregando para seus companheiros de mis-
são. Sua ênfase está no poder de Deus em salvar pessoas, não importando
a nacionalidade, face, forma ou aspecto exterior. Eles são testemunhas do
Cristo benfeitor da humanidade e, principalmente, do Cristo que “comeu
e bebeu” na presença deles depois da ressurreição. Assim, o centro da
pregação e do testemunho deles é o nome de Cristo, pois “todo aquele
que nele crê recebe remissão dos pecados”.
Mateus 28.1-10: A ressurreição de Jesus é a prova final do pleno
perdão oferecido por Deus através de seu Filho em favor da humanida-
RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR

de. Quando Deus executa sua vontade para salvar os pecadores, não há
quem o impeça.
Colossenses 3.1-4: O fundamento de todo cristianismo está na res-
surreição de Cristo, pois somos ressuscitados com ele para uma vida com
Deus. Através da fé temos plena comunhão com Cristo, o que nos leva a
uma nova vida guiada pela vontade de Deus e não mais pelo pecado. Por
isso os cristãos buscam as coisas de Deus.

Ideias comuns
A ressurreição é o mais doce evangelho para o ser humano. Já podemos
experimentá-la nesta vida, tendo em vista que no último dia nossa alma
não ficará na morte, mas ressuscitará para a vida eterna.

Ênfase teológica
Com nosso pecado, morremos com Cristo. Para uma nova vida, res-
surgimos com Cristo.

CONTEXTO BÍBLICO DE MATEUS 28.1-10

Momento histórico: narrativa


A narrativa da ressurreição acontece dentro do contexto da semana
santa. As mulheres se dirigiram ao sepulcro para dar os primeiros passos
do processo de embalsamar o corpo de Jesus. Mas eis a surpresa: um anjo
estava lá para dar a boa notícia: “ele não está aqui” (v.6). A elas coube
o dever de avisar os outros discípulos sobre o acontecido. Paul Maier nos
esclarece a importância das testemunhas da ressurreição serem mulheres.
Se a história da ressurreição fosse inventada por algum dos apóstolos,
certamente as mulheres não seriam as principais testemunhas, pelo fato
de que mulheres eram consideradas mentes férteis de imaginação, incapa-
zes de relatar fatos corretamente, tanto que o testemunho delas não era
aceito num tribunal, por exemplo. Isso mostra a honestidade de nossos
escritores bíblicos, que não ousaram em mudar a história.
Outro questionamento feito por muitos pesquisadores são as diferentes
formas de narrar esse acontecimento entre os quatro evangelistas. Para
resolver essa questão, Maier fez uma pesquisa. Depois de assistirem uma
encenação, estudantes relataram o que viram somente vinte e quatro
horas depois. Diferentes relatos sobre a mesma encenação apareceram.
Na verdade, Maier mostra como as quatro narrações e ainda a do apóstolo
Paulo em 1Co 15, escrita dezenove anos depois da Páscoa, são importantes
e ricas fontes de informação.
Como curiosidade, podemos ainda falar das muitas teorias mira-
bolantes que tentam desmentir a ressurreição de Cristo. A primeira é

127
IGREJA LUTERANA

da “sepultura equivocada”, que tenta provar que as mulheres erraram


o túmulo de Jesus, dirigindo-se a um túmulo vazio. A segunda é a da
“alucinação”, que explica que as mulheres tiveram nada mais que uma
visão. Afinal, elas tinham o desejo de ver Jesus novamente. A terceira
e mais curiosa é a teoria da “alface”. O jardineiro que plantava alface
perto do túmulo de Jesus ficou bravo pelo fato de curiosos e seguidores
de Jesus pisarem nas sementes quando iam visitar o túmulo. Assim, ele
retirou o corpo de Jesus daquele local e o transportou para outro. Por
que tantas teorias tentando provar que Jesus não ressuscitou? É sim-
ples. O primeiro sinal que temos da ressurreição de Cristo é o túmulo
vazio. Primeiro, se a sepultura não estivesse vazia não haveria qualquer
debate entre os líderes judeus e os apóstolos. Segundo, que os judeus
admitiram a tumba vazia, pois a acusação de roubo do corpo de Jesus é
admissão da sepultura vazia. Assim, podemos crer no testemunho das
mulheres e dos apóstolos, na certeza que essa narrativa nos conta o
primeiro momento da ressurreição de Cristo.

ENCAMINHAMENTO HOMILÉTICO

Lei e evangelho
Lei: Quando falamos de ressurreição, é até difícil apontar a lei. Mas,
sem ela, a ressurreição se torna um “platonismo”, pois dizemos corre-
tamente que a ressurreição é a nova vida pela qual Deus nos levanta,
no batismo, a fim de vivermos conforme sua santa palavra. Porém, esse
“levantar-se” deve ser bem entendido, assim como o “morrer” para o
pecado. A Apologia da Confissão chama esse processo de mortificação e
vivificação, que são as duas partes da conversão do homem. A mortificação
da carne, que Paulo em Colossenses 2.11 chama de “despojamento do
corpo da carne”, não é uma transformação simulada, mas é verdadeira-
mente o terror da consciência, agonizante, que o homem naturalmente
é incapaz de suportar. “Nesses padecimentos a concupiscência natural é
expurgada”.1 É lógico que a lei posta sobre o pecado é sentida em nosso
corpo natural (pecador). Explicando sobre o batismo no Catecismo Maior,
Lutero diz que o velho homem é o que nos é inato desde Adão. A ira, o
ódio, a inveja, a infidelidade, a avareza, a preguiça, a soberba, a incredu-
lidade e os mais diversos vícios devem ser afogados na água do batismo.
Portanto, morrer para o pecado é um morrer verdadeiro, já provado em
nosso corpo mortal, traspassado na morte real de Cristo.

1
LIVRO DE CONCÓRDIA. Apologia da Confissão, artigo XII, Do arrependimento, p. 198.

128
RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR

Evangelho: O evangelho está no poder de Deus em vivificar e santi-


ficar tudo o que sua palavra toca. Nós só podemos suportar o peso da lei
pela fé. A fé é a nossa vivificação. É quando acordamos do corpo da morte
para uma vida com Deus. Lutero destaca a pregação dos anjos quando
eles dizem “ele não está aqui”. O nome de Cristo após sua ressurreição
é “Ele não está aqui”, pois agora ele se torna um homem diferente, que
não encontrará mais a morte. Em Cristo nós encontramos verdadeira vida.
Além do doce evangelho dos anjos, eles se preocupam em acalmar os
corações das mulheres. “Não temais” é a paz que Cristo quer trazer aos
corações desesperados e aflitos. A alegria de ter e ver Jesus novamente
foi uma notícia animadora, consoladora e renovadora da fé, trazendo a
esperança e a confiança para os corações dos discípulos. Assim também
essa notícia o é para nós hoje. Continuamos e perseveramos na fé porque
Cristo ressuscitou e, como aquelas mulheres, queremos levar a notícia da
salvação para muitos, lembrando que Deus não faz acepção de pessoas,
mas ama a todos. Certamente Cristo voltará, e nós também seremos res-
suscitados e seremos diferentes, pois a morte se faz necessária para que
o corpo pecador seja ressuscitado e vivificado para ser um corpo perfeito
- perfeito para habitar com o Senhor para sempre.

Objetivo do texto:
A ressurreição é a fonte da nova vida em Cristo.

Objetivo deste sermão:


Fortalecer a fé dos ouvintes mostrando que a nossa salvação está firma-
da e concentrada na obra completa de Cristo, que morreu mas ressuscitou,
renovando nossa esperança e confiança nas promessas de Deus.

Tema:
Não temais!

Filipe Luxinger Timm


Curitiba/PR
fltimm@hotmail.com

129
SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA
Salmo 148; Atos 5.29-42; 1Pedro 1.3-9; João 20.19-31

LEITURAS DO DIA

O Salmo 148 é um hino de louvor exuberante composto por duas


estrofes com uma estrutura paralela. O chamado universal para o louvor,
enumerando as pessoas assim convocadas (1-4,7-12), é seguido da razão
e do tema do louvor (5,6,13,14). Os céus e seus habitantes, os corpos
celestiais e os anjos são chamados para fazer parte do coro porque o
Senhor os criou e os estabeleceu onde estão para sempre. Da mesma
forma tudo o que está na terra, incluindo os seres humanos, deve louvar
o Senhor que está acima dos céus e da terra.
Em Atos, a expressão “Antes importa obedecer a Deus do que aos
homens” remonta às palavras de Pedro no final do julgamento anterior
(4.19,20). Então, o acusado se torna o acusador dos juízes culpados.
Pedro então afirma que Deus ressuscitou Jesus em cumprimento de suas
promessas. Aquele que os governantes haviam pregado na cruz foi res-
suscitado e exaltado para nos trazer o arrependimento e o perdão. Pelo
Espírito Santo, Deus fez de seus discípulos testemunhas disso. A prova
que o mestre Gamaliel propõe à mensagem dos discípulos fortalece a fé
e a convicção de todos os cristãos ao longo da história. Esta mensagem
e obra, vindas de Deus, jamais serão destruídas.
Em sua carta, o mesmo Pedro bendiz o nome do Senhor que cumpriu
a promessa de salvação anunciada pelos profetas e testemunhada por ele
mesmo. A ressurreição de Cristo é a razão da viva esperança que guia
todos os que creem. Por isso, Pedro chama os crentes a louvar ao Senhor
mesmo em meio a provações. Ele os lembra de que as provações confirmam
a fé e esta fé os levará à glória do Senhor. Em clara referência às palavras
de Jesus no evangelho do dia (Jo 20.29), Pedro exalta a fé daqueles que
amam a Jesus sem tê-lo visto, que confiando no seu testemunho creem,
obtendo assim o resultado da fé – a salvação.

O CONTEXTO DE JOÃO 20.19-31

O contexto desta passagem são os fatos “daquele dia”, o domingo


da Páscoa, o domingo da ressurreição. Os discípulos estavam fechados,
trancados, enclausurados com medo. Medo de que houvesse mais per-
seguição e morte. Angustiados porque três dias antes seu mestre havia
sido brutalmente crucificado. Suas consciências estavam pesadas, pois
SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA

nada ou muito pouco haviam feito para modificar aquela execução. Mes-
mo com as mulheres trazendo a notícia de que Jesus havia ressuscitado,
continuaram mergulhados na angústia, na desesperança, no medo e, por
isso, com falta de paz. Essa perícope nos leva ao período intermediário
no cumprimento da promessa que Jesus havia feito a seus discípulos:
“Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue
aos principais sacerdotes e aos escribas; condená-lo-ão à morte e o
entregarão aos gentios; hão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e
matá-lo; mas, depois de três dias, ressuscitará” (Mc 10.33,34). Grande
parte dessa promessa havia se concretizado, a chegada a Jerusalém, a
prisão, o sofrimento e a morte. Temos, então, uma breve visão do que
seria dos discípulos e de todos os cristãos, caso a ressurreição não se
tornasse um fato. Os discípulos, escondidos naquele lugar são a clara
imagem daquilo que o apóstolo Paulo expressa em 1Co 15.19: “Se a
nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais
infelizes de todos os homens”. Pela graça de Deus, o desfecho “daquele
dia” torna aqueles homens e todos que creem em Jesus Cristo as pessoas
mais felizes do mundo.

O TEXTO

V. 19: “Daquele dia” indica o mesmo dia em que Jesus apareceu a Maria
Madalena, o primeiro dia da semana, o domingo da ressurreição. O termo
grego usado para descrever o medo dos discípulos (phóbon) sugere um
grande terror. Um temor de que os judeus fizessem com eles o que haviam
feito com seu mestre. A paz é desejada em claro contraste ao medo.
V. 20: Jesus demonstra que não tinha havido nenhuma substituição,
aquele que estava ali era o mesmo homem que havia sido pregado na
cruz e ferido pela lança. Em contraste com o profundo medo causado pela
morte, está a extrema alegria pela ressurreição.
Vv. 21-23: Jesus havia orado: “Assim como tu me enviaste ao mundo,
também eu os enviei ao mundo” (Jo 17.18). Agora, ele vem concretizar
isso. Assim como Jesus recebeu o Espírito Santo para o desempenho da
sua missão (1.32-34;3.34), eles agora também o recebem com a mesma
finalidade. Este mesmo Espírito deve ser o guia e orientador no cumpri-
mento do Ofício das Chaves.
Vv. 24,25: Podemos supor que Tomé talvez fosse uma daquelas pes-
soas que em momentos de grande tristeza e pesar prefere se isolar a
permanecer com um grupo, por isso “não estava com eles quando veio
Jesus”. Quanto à sua dúvida, João 14.5 já nos apresenta o caráter um
pouco pessimista de Tomé, mas isso não faz dele alguém pior do que os
outros que da mesma forma só perderam o medo depois de ver.

131
IGREJA LUTERANA

Vv. 26-29: A evidência de que Jesus estava vivo não tem efeito dife-
rente ou menor porque Tomé primeiramente não creu. A fé que o salva
e a alegria que o toma são as mesmas dos outros discípulos, inclusive
daqueles que não viram (v.29). A confissão de Tomé fortalece o prólogo
ao evangelho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e
o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de
graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do
Pai” (Jo 1.1,14).
Vv. 30,31: Os evangelhos não são biografias. Pelo menos não no sen-
tido de expor tudo o que Jesus fez. O objetivo do evangelho é verificado
e confirmado por Paulo: “[...] também vós, depois que ouvistes a palavra
da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido,
fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13).

REFLEXÕES TEOLÓGICAS

O texto do evangelho é rico em possibilidades e em si apresenta uma


divisão temática que pode levar a muitas abordagens (19-23; 24-29;
30,31).
Entretanto, é muito oportuno, também, traçar um paralelo entre os
fatos relatados em João 20.19-31 e o que Jesus havia dito a seus discípu-
los em João 14.27-29: “Disse-vos agora, antes que aconteça, para que,
quando acontecer, vós creiais” (14.29).
a. Aquilo que Jesus prometera agora se cumpre. O “outro Consolador”
prometido, o Espírito Santo, vem aos discípulos agora e poste-
riormente no dia de Pentecostes (At 2). Este mesmo Consolador
habita neles e acompanha todos os cristãos no cumprimento do
envio (Mt 28.19,20).
14.16,17: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador,
a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade,
que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece;
vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós”.
20.21b,22: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.
E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o
Espírito Santo”.

b. A imensa alegria dos discípulos se deve ao fato de Jesus estar vivo.


A ressurreição de Cristo é para todo cristão motivo de alegria e
ânimo (1Co 15.19,20).
14.18,19: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. Ain-
da por um pouco, e o mundo não me verá mais; vós, porém, me
vereis; porque eu vivo, vós também vivereis”.

132
SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA

20.19,20: “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana,


trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com
medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz
seja convosco! E, dizendo isto, lhes mostrou as mãos e o lado.
Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor”.

c. Aquele que cumpriu e cumpre o que prometeu nos enche com a sua
paz, uma paz que nos acompanha em todo o nosso viver, mesmo
em meio às piores aflições. É com a paz de Cristo que devem ser
despedidos aqueles que vão à casa do Senhor ouvir o sermão.
14.27,28: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou
como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se ate-
morize. Ouvistes que eu vos disse: vou e volto para junto de vós.
Se me amásseis alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai, pois o
Pai é maior do que eu”.
20.21a: “Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco!”

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: Promessa e cumprimento


A. A promessa de Jesus: “[...] antes que aconteça, para que, quando
acontecer, vós creiais”.
B. O cumprimento da promessa traz: o Espírito Santo, fé, salvação,
missão e paz.
C. O objetivo da promessa e do cumprimento: “[...] para que creiais
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais
vida em seu nome”.

Jonas Pause
Dourados/MS
jonaspause@hotmail.com

133
TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA
Salmo 116.1-14; Atos 2.14a, 36-41; 1 Pedro 1.17-25; Lucas 24.13-35

CONTEXTO

A igreja vive o período de Páscoa e todas as leituras querem levar o


cristão a refletir sobre a ressurreição, sobre a certeza de que cremos no
Cristo vivo. O texto do evangelho apresenta uma história. Apresenta a
caminhada de dois dos seguidores de Jesus que têm a grande alegria de,
no domingo de Páscoa, ou seja, no mesmo dia da ressurreição de Jesus,
caminhar ao lado do mestre e ter seus corações aquecidos. Esse texto,
bem como todos que compõem o Terceiro Domingo de Páscoa, procuram
reafirmar a grande alegria do cristão, que consiste na certeza de que
Cristo vive e que não está distante dos seus, mas caminha ao lado. E
essa certeza aquece o coração e, assim impulsionado pelo evangelho, o
cristão vive uma nova vida.

TEXTOS

Salmo 116.1-14: Este salmo é um cântico de ação de graças que o


poeta recita perante a comunidade na celebração do culto. Tem a agrade-
cer a Deus por tê-lo livrado de um perigo de vida. Não se pode dizer com
certeza se a causa de sua angústia fora doença ou perseguição. Usando
livremente a forma estilística, o salmo permitiu ao poeta expressar os
mais diversos sentimentos e estados de ânimo, tendo passado da angústia
de morte e profundo desgosto de desesperança e amargura para com os
homens para a silenciosa felicidade de um coração amparado no amor de
Deus, que se entrega inteiramente à alegria de poder dar graças. Olhando
desta forma, podemos ver que o salmo se relaciona perfeitamente com
o evangelho, onde os dois seguidores caminham tristes, pensando na
morte do mestre Jesus, mas que após um encontro inesperado a alegria
e a certeza tomam conta de seus corações.
Atos 2.14a,36-41: Este texto apresenta uma parte do discurso ou
Sermão de Pedro que é proferido no dia de Pentecostes. Neste ele reafirma
a verdade sobre a pessoa de Cristo, o qual é verdadeiramente o Messias
prometido, o único que pode conduzir o ser humano à salvação. Quando
os ouvintes quiseram saber o que isso realmente significava, Pedro insis-
tiu com eles que deveriam ser batizados em nome de Jesus para perdão
dos pecados e receber o dom do Espírito Santo. Muitos ouviram o apelo e
TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA

foram conduzidos para uma nova vida. Esse texto mostra que o evangelho
tem poder de conduzir ao arrependimento e à fé. Mostra também como os
apóstolos pregavam claramente lei e evangelho e como o Espírito Santo
operava por essa pregação.
1Pedro 1.17-25: Os cristãos invocam Deus como seu Pai, levam a
ele todos os seus pedidos porque ele é seu Pai por causa de Cristo. O
apóstolo menciona o motivo básico para uma vida de santificação: “[...]
sabendo que fostes resgatados, não com coisas corruptíveis, com prata
ou ouro, de vossa vã conduta que por tradição vos foi transmitida, mas
com o precioso sangue de Cristo, como um cordeiro sem defeito e sem
mácula”. Temos aqui um lembrete do grande e decisivo fato da salvação,
o qual é a influência individual mais forte na vida dos cristãos. A vida in-
teira de todos os infiéis, por natureza de todas as pessoas, é uma vida de
escravidão vergonhosa e terrível sob o poder do pecado, sendo que todos
os pensamentos, palavras e atos dessas pessoas são vãos, sem sentido
no que diz respeito à vida espiritual. Os cristãos foram redimidos desta
escravidão porque aceitaram o fato do pagamento da remissão através
do sangue de Cristo. Exatamente tão sério como o apóstolo enfatizou a
necessidade da fé e duma confiança inabalável em Deus, tão fortemente
também ressalta a necessidade do amor cristão: “Tendo vossos corações
purificados na obediência à verdade ao amor sincero aos irmãos, amai-vos
de coração uns aos outros”. A característica da fé é que ela é obediente à
verdade do evangelho. Essa obediência dos cristãos purificou seus corações
do antigo egoísmo, do amor natural de si mesmo. Agora são capazes e
estão dispostos para mostrar amor real, genuíno e sincero, sem qualquer
traço de hipocrisia ou fingimento.
Lucas 24.13-35: “Dois deles”, não dos apóstolos, mas do conjunto
maior de discípulos caminham para Emaús. Emaús era uma vila que ficava
a noroeste de Jerusalém, sendo toda a distância uns onze quilômetros. Os
dois homens conversavam sobre todas as coisas que haviam ocorrido nos
últimos dias em Jerusalém, isto é, em todos os acontecimentos que lá se
tornaram públicos. E, enquanto assim prosseguiam em seu caminho, total-
mente pensativos do que os rodeava, o próprio Jesus decidiu caminhar com
eles. Os olhos deles, porém, estavam contidos, isto é, estavam impedidos
de reconhecer seu Senhor. Os dois discípulos enxergaram em Jesus só um
companheiro de viagem, e todo o procedimento dele tendia a confirmar
esta ideia. Inquiriu deles, de modo muito casual, quanto aos assuntos so-
bre os quais estavam trocando ideias pelo caminho afora, e sobre os quais
estavam tão preocupados. Eles pararam para encarar o recém-chegado, e
seus rostos registravam a dor profunda que enchia seus corações.
E quando Jesus, para levá-los a uma maior franqueza, interpelou sur-
preso: “Que coisas?”, então os dois homens, de modo muito mais vivo,
lhe expuseram a causa de toda sua preocupante conversa. Toda esta ex-

135
IGREJA LUTERANA

posição é fiel ao modelo de pessoas que falam sob o impacto de grande


emoção. Tocam em muitos pontos, mas não os explicam. Misturam suas
próprias esperanças e temores na narrativa. Toda a apresentação exalava a
confusão que então dominava os corações de ambos. Os atos sobre Jesus
de Nazaré faziam-nos sentir-se tão tristes. O fato que este já é o terceiro
dia desde sua morte. Houve, porém, mais outro fato inquietante. Certas
mulheres do círculo dos discípulos haviam-nos perturbado muito e os
enchido com grande ansiedade e medo, visto que ao raiar do dia haviam
estado junto à sua sepultura, e, não achando o corpo, vieram à cidade
com as notícias de que tiveram uma visão de anjos, que lhes disseram
que Jesus estava vivo.
Essa história que os dois contaram ao companheiro de viagem mostrou
quão fraca ainda era sua fé em muitos sentidos, que suas mentes ainda
estavam repletas de sonhos judeus sobre um Messias terreno, e que as
muitas conversas reservadas e os longos discursos de Jesus não haviam
tido o efeito esperado.
As primeiras palavras do Senhor, quando comentou a informação que
recebera, foram uma resoluta censura, sem a menor mistura de brandura.
Chama-os de homens tolos e lerdos de coração para confiar e crer em tudo
o que os profetas haviam dito. Eles, provavelmente, não haviam tomado
em consideração a descrição do Messias, assim como os profetas a deram
e nem haviam considerado com olhos iluminados os seus próprios ensinos
e milagres. O Senhor deliberadamente começou com os livros de Moisés
e, a seguir, continuou através dos livros dos profetas. Interpretou aos dois
discípulos as passagens concernentes à sua pessoa e obra. Comparou
profecia e cumprimento. Destacou passagens que lhes haviam sido caixas
de tesouros ocultos. Deu-se o tempo de explicar exatamente cada palavra,
para que finalmente os olhos deles fossem abertos. Foi um discurso longo
proferido pela boca do maior dos mestres de todos os tempos.
Fica, permanece conosco, pois está anoitecendo, e o dia já chega ao
fim. Sua verdadeira razão, evidentemente, foi que seus corações haviam
sido tão movidos e dominados com a beleza e o poder de sua explanação,
que queriam ouvir mais desta conversa encantadora e edificante. Jesus
entrou para ficar, para permanecer com eles, pelo menos para o jantar.
Mas quando com eles se reclinou à mesa, julgou que chegara o momento
para se lhes revelar. Neste tempo seus olhos foram abertos, e o reconhe-
ceram. Este estranho não era ninguém outro do que seu amigo e Mestre,
o mesmo que, tantas vezes na sua qualidade de cabeça do pequeno grupo,
realizava seu costumeiro trabalho. Mas, no exato momento em que seus
olhos foram iluminados por feliz reconhecimento, Jesus se tornou invisível
diante deles, desapareceu diante de seus olhos.
O desaparecimento de Cristo não encheu os corações destes dois
homens com nova tristeza e temor. Possuíam a bendita recordação das

136
TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA

palavras de Jesus que lhes falara pelo caminho. Cheios de ansiosa alegria,
repartiram um com o outro sua experiência. É uma palavra impressionan-
te: seus corações lhes ardiam no peito. “Seus corações lhes começaram a
queimar enquanto o estranho expunha a Escritura, e persistiram a quei-
mar enquanto ele prosseguia, inflamando-se com cada palavra sempre
mais.” O Senhor lhes abrira totalmente as Escrituras em seu discurso
pelo caminho. Agora se conscientizaram de que as antigas profecias lhes
haviam sido um livro selado e fechado. Mas agora este lhes fora aberto,
e conheciam alguns de seus maravilhosos tesouros e belezas. A alegria
destes homens não lhes permitiu que descansassem em Emaús. Mesmo
que já fosse passado das seis horas, eles se ergueram imediatamente da
refeição; foram depressa a Jerusalém e se sentiram constrangidos para
levar a boa nova aos demais.

SUGESTÕES DE USO HOMILÉTICO

Tema: Jesus caminha com os seus

Introdução
Em nossos dias é comum ouvir que as pessoas se sentem sozinhas,
sentem a falta de alguém para conversar, sentem a falta de alguém que
sente ao seu lado para juntos tomar um chimarrão, um cafezinho. É es-
tranho ouvir isso, pois vivemos cercados de pessoas por todos os lados.
O problema é que as pessoas, em sua maioria, estão tão preocupadas
consigo mesmas que não olham para o lado.

I. Jesus se aproxima dos seus


Jesus vai atrás de seus seguidores que haviam perdido a esperança,
aproxima-se deles. Jesus agora está caminhando com os seus. Jesus
poderia muito bem tê-los deixado partir, pois não haviam compreendido
a sua missão. Eles esperavam um libertador, e neste momento Jesus os
havia frustrado. Mesmo em sua incapacidade de crer naquilo que Jesus
havia ensinado, ele se aproxima deles. A ação é de Deus. Ele vai atrás,
explica as Escrituras, procura e acompanha os seus. Jesus caminha com
os seus mesmo que por vezes estes não percebam a sua presença. Mes-
mo que o pecado por vezes cegue a humanidade e não permita que ela
veja o seu Salvador. E é preciso que Deus aja no ser humano, através do
Espírito Santo, para que os olhos sejam abertos.

II. Jesus pergunta: O que vos preocupa?


Caminhando com os discípulos, Jesus faz a pergunta: O que vos pre-
ocupa? E eles olham entristecidos para Jesus e relatam tudo o que havia

137
IGREJA LUTERANA

acontecido com o seu mestre. Aquele no qual haviam depositado toda a


sua confiança agora estava morto. Os discípulos se sentem sozinhos e
desamparados em meio às suas preocupações e ansiedades. Contudo,
isso muda quando Jesus, no partir do pão, abre os olhos deles e os seus
corações se enchem de alegria. Pois o Cristo vivo estava ao lado deles.
Caminhou com eles.
Todos estão sujeitos a passar por problemas e frustrações. Mas, mes-
mo em meio aos sofrimentos e tribulações deste mundo, não estamos
sozinhos e desamparados. Martinho Lutero, escrevendo para Frederico,
o Sábio, que estava muito doente, diz: “Não posso fazer de conta que
não esteja ouvindo a voz de Cristo clamando do corpo e da carne de Vos-
sa Alteza, dizendo: “Eis-me aqui, doente!” Tais males como a doença e
outros males, quem os sofre não somos nós, os cristãos, mas o próprio
Cristo, Senhor e Salvador nosso, no qual vivemos” (OS. vol. 2, p.14).
Deus não se afasta, mas está presente. Jesus caminha conosco, e a
cada momento quer ser aquele a quem buscamos em oração, tanto para
agradecer como para suplicar.

Conclusão
Na caminhada aqui neste mundo não estamos sozinhos. Há alguém que
nos acompanha a cada segundo de nossas vidas. Mesmo que por vezes pa-
reça que estamos abandonados em meio à multidão, podemos ter a certeza
que Cristo vem ao nosso encontro, se aproxima de nós e caminha ao
nosso lado. Os discípulos no caminho de Emaús demoraram a perceber
que aquele com quem falavam era Jesus, ressuscitado. Que aquele que
perguntava: O que vos preocupa? era o seu mestre que estava ali para
consolá-los e fortalecê-los na fé. Por vezes o pecado nos fecha os olhos; as
preocupações são tantas que não conseguimos ver que Jesus está ali, bem
perto de nós, querendo consolar e amparar. Graças a Deus que Cristo não
desiste de nós e sempre de novo se aproxima, a cada dia, para ali ficar e
caminhar conosco. Pois sem Cristo ao nosso lado não sobreviveríamos
nem um segundo sequer. Se vivemos, isso é graça de Deus.

BIBLIOGRAFIA

KRETZMANN, Paul E. Popular Commentary of the Bible. New Testament.


St. Louis: Concordia Publishing House, 1965.

Jonas Roberto Schultz


Marechal Floriano/ES
schultz.roberto@hotmail.com

138
QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA
Salmo 23; Atos 2.42-47; 1Pedro 2.19-45; João 10.1-10

CONTEXTO LITÚRGICO

O Quarto Domingo de Páscoa é conhecido como o domingo do Bom


Pastor. Certamente uma das mais belas figuras que as Escrituras Sagra-
das empregam para descrever os cuidados amorosos de Deus por nós é
a figura do Bom Pastor que cuida das suas ovelhas. Jesus é o Bom Pastor,
o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas.

PANO DE FUNDO

Para falarmos do Salmo 23 precisamos falar primeiro do seu autor: o


rei Davi. Davi era um profundo conhecedor da arte de cuidar de ovelhas,
filho de uma família de pastores, pastor de ovelhas desde sua infância e
depois rei, o pastor do povo de Israel. Ele sabe o que representa o pastor
para suas ovelhas. Por isso, o Salmo 23 é uma conversa de uma ovelha
com o seu Pastor. O que um pastor significa para uma ovelha, isso e muito
mais Jesus significava para Davi e significa para nós.
A maioria dos leitores deste Salmo se prende apenas ao fato de
Davi ter sido pastor de ovelhas, esquecendo-se do Davi que comete
pecado com Bate-Seba, que foi capaz de matar Urias para ficar com
ela. Ele era o pastor de Israel, o grande líder do povo, o embaixador
de Deus. E aí Deus o acolheu na graça depois dele ter pecado contra
os 10 Mandamentos de uma tacada só. Então ele quer dizer para sua
igreja: Deus é evangelho! Mas Davi tinha os seus opositores que pro-
vavelmente diziam: o quê? Agora você quer falar de evangelho, depois
de ter aprontado? Agora que você caiu você quer falar de evangelho?
Esse precisa ser o pano de fundo para a leitura dos Salmos: um rei
rejeitado pela sua igreja, mas a igreja precisava ouvir cantos de evan-
gelho como o Salmo 23.

ANÁLISE DO TEXTO

Tendo como pano de fundo este Davi pastor de ovelhas e pastor com
sua reputação manchada, mas que foi acolhido na graça de Deus, então
o Salmo 23 ganha mais peso e profundidade para nós pastores e para as
ovelhas que Jesus nos confiou.
IGREJA LUTERANA

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.” Que evangelho maravi-


lhoso é dizer que eu pastor e eu ovelha tenho um Pastor! Ele trata suas
ovelhas individualmente, não como um bando. Ele é o meu Pastor. Quando
eu olho para a minha vida, posso observar e sossegar o meu coração e
dizer: “nada me faltará”. Pois o meu Pastor me dá o necessário para viver
e muito mais:
“Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto
das águas de descanso: refrigera-me a alma”. Além do alimento e da
água, eu preciso lembrar que o meu Pastor é o Pão da Vida (Jo 6.35) e
a fonte da Água Viva (Jo 7.37) e que além daqui ele me conduzirá “às
fontes da água da vida” (Ap 7.17). Destaque para as palavras repouso,
descanso e refrigério. Davi podia repousar e descansar das acusações
dos seus opositores e do próprio diabo nos cuidados do seu Pastor e
por isso podia sentir refrigério em sua alma. Bem diferente do Davi no
início do Salmo 32.
“Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que
eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, por-
que tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam.” Como
é maravilhoso constatar que o meu Pastor é capaz de transformar o mal
em bem, a morte em vida. Ele conduziu na minha vida o mal para o bem.
Aqui eu tenho a grande oportunidade de mostrar paras os meus ouvintes
como Deus conduz o mal para o bem na vida deles, como Deus transforma
um mal em um bem para o seu reino. O pecado de Davi fez com que ele
escrevesse os Salmos.
“Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me
a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.” Davi conhecia bem o que
era ter adversário, tanto de guerra quanto os seus opositores teológicos
que não queriam que ele pregasse o evangelho. Ele, um rei rejeitado pela
sua igreja, mas a igreja precisava ouvir cantos de evangelho. E como rei
ele tinha autoridade. Ele queria dizer para sua igreja: Deus é evangelho!
Então ele cantava e mandava o coro cantar e os seus adversários não
podiam fazer nada, ele era o rei.
“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da
minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” Como
é consolador ser uma ovelha do Bom Pastor! Ele me cuida, me dá o ne-
cessário para viver, consola e refrigera a minha alma com o seu perdão
e a sua graça, transforma o mal na minha vida em bem e me recebe, eu
miserável pecador. Eu que merecia todo o mal posso dizer como Davi:
bondade e misericórdia. Estas são as características que melhor descrevem
o meu Pastor. Ele está e estará para sempre comigo.

140
QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA

PROPOSTA HOMILÉTICA

O Senhor é o meu Pastor.

Miquéias Eller
Ariquemes/RO
miqueiaseller@yahoo.com.br

141
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA
Salmo 146; Atos 6.1-9; 7.2a, 51-60; 1Pedro 2.2-10; João 14.1-14

CONTEXTO LITÚRGICO

A Páscoa é o ponto alto dos atos de governo de Deus. Deus que proje-
tou, executou, organizou, legislou, e que, com justiça, uma vez comprovada
a afronta à soberania de seu governar, decretou ordem para condenação,
agora revoga essa ordem. A morte já era prevista como decorrência de uma
suposta desobediência. Logo, executar a morte obedece à lei e à ordem
estabelecidas por ele. A Páscoa, neste sentido, é um ato de governo, um
decreto muito maior, pois contraria o seu primeiro regime de justiça. Daí
se segue tudo novo. Nova criação. Novas criaturas. Nova aliança. Novo
relacionamento Criador x criatura. Ou seja, novo regime de governo. Não
mais “o salário do pecado é a morte”, mas sim “onde está, ó morte, o teu
aguilhão?”. Esta é a maravilha da Páscoa, que põe júbilo e alegria onde
havia dor e tristeza. Que anistia completamente o antes condenado ser
humano, dando-lhe benefícios, cuidados, enfim: misericórdia. O lugar
preparado por Jesus é um prêmio para uma, antes rebelde, mas agora
reconciliada humanidade com o seu Deus.

OS TEXTOS

Salmo 146: De aleluia a aleluia, primeira e última palavra deste sal-


mo, um contraponto entre a eternidade de Deus e a brevidade humana.
O salmista se inclui nesta verdade quando opõe “enquanto eu viver” (v.1)
à “reina para sempre...de geração em geração” (v.10). A realidade da
morte, ou seja, do pó a que todos os homens são reduzidos, em oposto à
também realidade da continuidade da criação: o céu e a terra (v.6). Esse
contraste entre fragilidade e força para suscitar confiança é conhecido,
identificado: o Deus de Jacó. Os argumentos aqui são inegáveis: por um
lado, o homem morre. Por outro, a criação tem continuidade. O céu e a
terra são testemunhas do governar de Deus e a sepultura é testemunha
da fraqueza humana. Logo, somente neste Deus é que se encontra a única
possibilidade de esperança contra a realidade da morte. Mas não só espe-
rança para a realidade final, também esperança para o cotidiano, pois se
é um governar eterno, é um governar também hoje (vv.7-9).

Atos 6.1-9; 7.2a, 51-60: Para exercer o seu governar, Deus vale-se de
instrumentos. Interessante é que Estêvão serviu mais que as mesas (v.2),
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA

ele serviu também às almas (v.8). Ligação direta com o próximo texto que
trata da função espiritual do discipulado (1 Pe 2.9). Outro, dentre estes
sete, que se destacou também na evangelização e que foi escolhido no
mesmo momento foi Filipe (At 8.8-40). A imposição de mãos (v.6) talvez
tenha feito mais que apenas conferir autoridade para exercer um cargo.
Pena que não lemos o v. 10, onde nos é apresentado o atuar do Espírito
Santo em Estêvão, usando-o como instrumento para testemunho; esse
aspecto aparece em 7.55. O fim da perícope nos apresenta o primeiro
mártir (Estêvão) e também um membro especial do Conselho Superior,
Saulo. A atuação de Saulo na morte de Estêvão não foi meramente a de
um espectador, tanto que a imagem de seu sangue não lhe deixou a me-
mória (At 20.22). Por um lado a dura cerviz (v. 51), por outro a contínua
insistência misericordiosa de Deus para, a seu tempo e à sua maneira,
converter o coração ao evangelho (Atos 9).

1Pedro 2.2-10: A dinâmica dos meios e dos instrumentos para o maior


ato do governar de Deus. O maior ato desse governar é a promulgação da
libertação, o revogar da pena (v.10). Essa dinâmica acontece pelo frutificar
que vem pelo leite espiritual, ou leite logiko.n. Palavra que só aparece
aqui e em Romanos 12.1, onde é traduzido por “racional”, mas que nos
tenta a olhar para a proximidade com lo,gion – palavras ou elocuções de
Deus, ou mesmo o lo,goj de João 1.1, e entender que esse frutificar do
testemunhar (v.9) da Páscoa começa no ouvir da palavra de Deus e dele
procede. No entanto não é um governar ditatorial, pois é possível resistir,
ou tropeçar no lo,goj (v.8). Em segundo, e só em segundo, é que se pode
exercer o sacerdócio (v.9) para o qual a Palavra, o lo,goj chama. Mas
nem por ser em segundo se prevê que em algum momento não se siga
o mesmo, como em automático. Caso não ocorra, é preciso perguntar-se
a respeito da verdade quanto ao conhecer (v.2) da misericórdia de Deus,
manifesta em Cristo, atestada pela Páscoa.

João 14.1-14: A identificação da unidade de Cristo Jesus com Deus,


ou com o Pai: “Credes em Deus, crede também em mim”. Ou “Credes:
em Deus e também em mim” (v.1). Sendo assim, ele, Jesus, é a face de
Deus (vv. 7b; 9b; 10). Mas para além de uma representação, ou imagem
de Deus (Gn 1.26). O agir de Jesus é o agir de Deus: “faz as suas obras”
no fim do v.10 e “mesmas obras” no fim do v.11. Porém, agora, se ausen-
tará aquele que faz as obras do Pai. É a união do Filho no Pai, a união do
lo,goj que estava com Deus, e que era Deus, e que, por aquele instante,
habita com os discípulos, precisa ser uma união que supra a ausência
dessa face, desse toque de Deus no mundo. Por isso “aquele que crê em
mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará, porque

143
IGREJA LUTERANA

eu vou para junto do Pai” (v.12). A ida de Cristo gera uma multiplicidade
de pequenos cristos e, assim, pequenos instrumentos do Pai a realizar as
suas obras. Em Cristo inaugura-se um contato novo com o Pai. A Páscoa
marca esse promulgar, esse autorizar de relação entre os incontáveis da
humanidade que creem com o seu Deus. Interessante é esse “pedir em
meu nome” (vv.13 e 14) e a afirmação “farei”, um contraste com João
16.23, onde o Pai é quem fará. Essa relação reforça a unidade de Jesus
Cristo com o Pai, já que eles são um, e que as obras de Cristo são obras
do Pai, ou, as obras do Pai se mostram em Cristo. Sendo assim, o uso do
me ajuda na indicação da unidade e até habilita as orações direcionadas
ao Senhor Jesus, não somente a Deus Pai.

PONTOS DE CONTATO (COMENTÁRIOS HOMILÉTICOS)

O testemunho do salmista referente ao governar de Deus é compro-


vado ainda que diante da morte ou partida daqueles que, em tempo, são
agentes desse governar. O salmista contou que a despeito do fato do ho-
mem morrer, Deus continua a governar. Em Atos, Lucas nos conta que os
escolhidos o foram para realizar parte do governar de Deus diante de seu
povo: no simples cuidar das mesas. Mas Estêvão foi assassinado! Jesus
realizou as grandes obras do Pai enquanto em carne. Obras que tinham,
sim, o propósito de o apontar como Messias, mas que também foram
obras de socorro aos necessitados que cruzavam o seu caminho. Mas Jesus
também foi assassinado! Ressuscitou e voltou para o Pai. Não dá, então,
para confiar na durabilidade das obras de Deus? Pois elas são, em parte,
executadas por homens que, como diz o salmo, morrem? A humanidade
hoje é prova de que Deus usa a fragilidade humana e sua brevidade para
que por essa fraqueza mostre o seu governar e seja ele glorificado. Pois
os homens passam, morrem, mas Deus continua, também, servindo às
mesas. Paulo, antes perseguidor, Deus o fez servo de Cristo. Tanto o texto
de 1 Pedro como do evangelho de João apontam para a multiforme ação
de Deus através dos que creem. A Páscoa é, nesse sentido, um revelar
desse agir estranho de Deus: Jesus morreu! Acabou? Não! Ele ressuscitou!
Ele vive! Foi para o Pai! Estamos sós? Não! A Palavra suscita fé em tantos
para continuarem o cuidado da criação! Mas esses servos são frágeis, eles
morrem! Acabou? Não! Novamente, dia após dia, a Palavra continua a
mover discípulos a serem as mãos de Deus para tocar a criação com seu
amor. A Páscoa inicia uma nova era onde todos os que creem, não mais
apenas Jesus ou sete diáconos, mas todos são sacerdócio. Todos estão
diante de Deus. Todos fazem parte, todos são representantes, pequenos
cristos, como instrumentos do amor de Deus. 1 Pedro pergunta se há fé,
ou conhecimento (v.2); Jesus também aponta para isso em João (v.7).

144
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA

A Paulo e aos do conselho contra Estêvão, em Atos, faltava justamente


esse conhecer a Jesus. Conhecimento que é definido no Salmo pela ex-
pressão “Deus de Jacó” (v.5); é um Deus pessoal e identificado, ou seja,
conhecido. Hoje, esse conhecer vem a nós pela Palavra. Palavra que, a
partir daí, frutifica, primeiro neste próprio conhecer, na própria fé, mas que
não para por aí, segue, também realizando as obras descritas no Salmo
(Sl 146.7-9), obras para as quais Estêvão foi escolhido (At 6.1), obras
que Jesus realizou (Jo 14.10-11) e que Deus continua a realizar através
daqueles que creem (Jo 14.12 e 1 Pe 2).

SUGESTÃO

Não se turbe o vosso coração (João 14.1)


a. Porque Deus está presente e vos socorre (Salmo 146)
b. Porque Jesus está presente e vos socorre (Atos 7.54-59)
c. Porque a Palavra e os discípulos de Jesus estão presentes e vos
socorrem (1Pe 2.9).

Ondiekson F. Lenke
Realengo/RJ
lenke.lenke@bol.com.br

145
SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA
Salmo 66.8-20; Atos 17.16-31; 1Pedro 3.13-22; João 14.15-21

LEITURAS

Salmo 66.8-20: O salmista lembra que Deus ouve a oração de seu


povo. Apesar de ter permitido que o povo sofresse, deixando que os inimi-
gos os atacassem, Deus preservou a vida de seus filhos não os deixando
cair, pois o seu amor não se afastou de seu povo. Ele sempre escuta a
oração daqueles que lhe pedem ajuda.

Atos 17.16-31: Enquanto Paulo esperava por Silas e Timóteo em


Atenas, percebeu que a cidade estava tomada de imagens de ídolos, si-
tuação que o deixou indignado, porém ele não ficou inerte diante desta
situação. Paulo pregou o evangelho em todos os lugares que conseguiu,
despertando a atenção das autoridades. Em uma reunião a que foi cha-
mado para dar explicações a respeito deste Deus que estava pregando,
Paulo fez uso da fé dos atenienses para lhes falar de Jesus: “[...] quando
eu estava andando pela cidade e olhava os lugares onde vocês adoram
os seus deuses, encontrei um altar em que está escrito: ‘Ao Deus desco-
nhecido’. Pois esse Deus que vocês adoram sem conhecer é justamente
aquele que eu estou anunciando a vocês” (v. 23).

1Pedro 3.13-22: O apóstolo Pedro nos lembra o bom testemunho.


Devemos falar da nossa fé sem querer impô-la às outras pessoas, muito
menos nos considerar superiores às demais pessoas por causa daquilo
que cremos; pelo contrário, tudo deve ser feito com mansidão e respeito.
Se esse testemunho, porém, nos trouxer sofrimento, não devemos ficar
envergonhados e nem desanimados, “pois é melhor sofrer por fazer o bem
se for esta a vontade de Deus, do que por fazer o mal”. Pelo contrário,
temos que nos considerar pessoas abençoadas se sofremos por causa do
evangelho. O próprio Jesus sofreu por nós e morreu em nosso lugar e nessa
oportunidade pregou aos espíritos que estão em prisão. Este mesmo Cristo
retirou de nós toda a sujeira dos pecados através do lavar regenerador do
batismo e agora reina para sempre ao lado do Pai.

João 14.15-21: Jesus promete enviar um auxiliador que ficará com


o povo de Deus para sempre. O mundo não pode receber este Espírito
porque não o pode ver, ele só pode ser visto pelos olhos da fé. Aqueles,
porém, que ouvem a mensagem, serão morada do Espírito Santo. Através
SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA

do Espírito, Jesus está com cada cristão, consolando nos momentos de


dificuldades e também capacitando os crentes a dar o seu testemunho a
respeito daquilo que creem em seu coração.

CONTEXTO, CENÁRIO LITÚRGICO, HISTÓRICO

Nos textos previstos para o 6º Domingo de Páscoa, um tema que se


destaca é o sofrimento. O salmista fala do sofrimento a que foi subme-
tido quando Deus provou o povo; Paulo sofre ao ver a idolatria do povo
e Jesus promete enviar o Espírito para consolar as pessoas que sofrem.
Na carta de Pedro não é diferente; ele dá muita ênfase aos sofrimentos
de Cristo. Ele deixa claro que foi por meio daquilo que Cristo sofreu que
Deus trouxe salvação aos pecadores. Dessa forma o apóstolo Pedro usa
este sofrimento de Cristo como exemplo para estimular os seus leitores
a suportar o sofrimento, o que deve ter sido importante para as pessoas
que estavam na situação em que os leitores se encontravam. Em todas
as eras é importante que a paixão de Cristo seja o nosso exemplo, pois
não há cristão que em algum momento não tenha que sofrer.
V. 13: O apóstolo diz que os sofrimentos não podem prejudicar os cris-
tãos enquanto eles acontecerem por causa da prática do bem. O propósito
de Pedro ao escrever, tanto este como o versículo seguinte, foi de iluminar,
confortar e fortalecer os leitores em seus sofrimentos e provações. Naquele
momento isso era muito significativo devido à perseguição que os cristãos
estavam sofrendo. Enquanto o cristão leva essa carga de sofrer por fazer
o bem, o mundo não está preocupado com essas coisas e, ao invés de se
esforçar em busca do amor, prefere o pender para o lado do ódio.
V. 14: Este versículo está ligado à reação dos apóstolos em Atos 5.41:
“Os apóstolos saíram do Conselho muito alegres porque Deus havia acha-
do que eles eram dignos de serem insultados por serem seguidores de
Jesus”. O fato de sofrer por fazer o bem, para o cristão não se trata de
um castigo, mas de graça diante de Deus.
Neste versículo é possível que esteja uma referência à oitava bem-
aventurança do sermão do monte. Importante é que a 1Pedro reage ao
sofrimento existente e acentua a dimensão da graça de Deus nessa situa-
ção. A 1Pedro não formula, portanto, nenhum princípio sobre a necessidade
de sofrimento nessa passagem.
V. 15: “Tenham no coração de vocês”. Pedro estimula os irmãos a ob-
servarem o primeiro mandamento também com a pessoa de Cristo. Isso
implica o compromisso firme e sincero com “apologia” em relação àqueles
que pedem dos cristãos um “logos” (logos – fundamento, razão, resposta,
prestação de contas) da esperança que o cristão tem, mesmo em meio à
dificuldade das provações. Essa exigência mostra uma vez mais que, para

147
IGREJA LUTERANA

a 1Pedro, a existência cristã não se realiza numa separação sectária do


entorno, mas na disposição para o diálogo. O conteúdo desse logos, que
pode e deve ser comunicado, é a “esperança que vocês têm”. A esperança
é aqui novamente o princípio da nova vida, isto é, a fé que, reportando-se
ao destino de Jesus, obtém certeza do seu futuro e que, por essa razão,
adquire forma como atitude da esperança em contraste com a futilidade
e deterioração até a morte de uma vida sem Cristo.
V. 16: A exposição da fé, ou a defesa dela, apesar de fundamental na
vida do cristão, não deve ser provocativa, mas acontecer “com mansidão”.
Portanto, a maneira como ela é transmitida para as demais pessoas deve
estar cunhada pelo ethos cristão. Não é através de brigas e discussões que
se expõe aquilo que está no coração, mas com educação e respeito.
A boa consciência, a partir da qual deve ocorrer a apologia, relaciona-
se, como mostra o que segue, com um bom comportamento. Novamente
são feitas referências à difamação e censuras levantadas contra o com-
portamento cristão. Esses difamadores devem ser contraditos pela ação,
pela “boa conduta”. Tal comportamento é bom em Cristo.
V. 17: O desejo de Deus é que, pela prática do bem, o cristão cale a
ignorância das pessoas tolas e não através de ataques e ameaças.
Não é de se estranhar que uma pessoa pode se dar mal e sofrer as
consequências de fazer aquilo que é errado, porém muitas pessoas são
surpreendidas quando sofrem por fazer o bem. Contudo, isso não deve ser
surpresa para o cristão, pois Cristo foi quem mais sofreu por ter dedicado
a vida para fazer o bem.
Vv. 18-22: Com um “pois” causativo essas exortações que interpretam
positivamente o sofrimento por causa de Cristo são novamente conectadas
à confissão protocristã do sofrimento e morte de Cristo, bem como de sua
ressurreição e ascensão. Isso acontece em linguagem formulada ritmica-
mente. Por essa razão, muitos entenderam que o texto seria a reprodução
de um hino tradicional, uma suposição cujo grau de plausibilidade eviden-
temente não aumenta com as tentativas de reconstrução tão diferenciadas.
Além disso, não é admissível que se postule um autor anônimo para um
texto que se insere harmoniosamente na intenção de 1 Pedro.
V. 18: O ápice na contraposição “justo” e “injusto” faz referência ao
contexto de exortação do texto, uma vez que os versículos anteriores ha-
viam acentuado que a promessa é válida unicamente para o sofrimento do
justo. A salvação consiste em que Cristo possibilitou o acesso a Deus. Na
medida em que nesse Deus encontra-se a vida imperecível, esse acesso
a ele aberto por Cristo implica a superação da morte.
Vv. 19-20: A próxima passagem é de difícil interpretação, uma vez que
o autor aparentemente pressupõe o conhecimento de tradições da parte
de seus destinatários às quais não temos mais acesso: não está claro nem

148
SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA

quem são aqueles espíritos aos quais Jesus prega, nem o que Jesus lhes
pregou, tampouco o que estava querendo dizer com “prisão”.

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Tema: Deus está presente no sofrimento do justo


I. Quais os motivos que levam as pessoas a sofrerem?
a. O pecado é causa primeira de todo sofrimento no mundo.
b. Existem os que sofrem por fazer o que é certo e os que sofrem
por fazer o mal.
II. Como entender as dificuldades e sofrimentos do cristão?
a. Provação
b. Para que se manifeste a graça de Deus (“A minha graça é tudo
o que você precisa.” 2 Co 12.9)
III. Qual a ação de Jesus diante do sofrimento do justo?
a. Jesus conhece o nosso sofrimento, pois ele mesmo sofreu por
nós.
b. Jesus sofre conosco.
c. Jesus envia o Espírito Consolador.

Adevair Negri Schulz


São Paulo/SP
adevair_schulz@hotmail.com

149
ASCENSÃO
Salmo 47; Atos 1.1-11; Efésios 1.15-23; Lucas 24.44-53

CONTEXTO DAS PERÍCOPES

Chegamos ao fim de uma etapa do ministério de Jesus; a cruz já era


coisa do passado, apesar de muito presente. A presença física como cos-
tumeiramente existente na relação do Mestre com seus discípulos estava
por acabar. A ressurreição estava realizada, a vitória contra os esforços de
Satã consumada e o preço pelo resgate da humanidade pago. No entanto,
apesar de todos os motivos para se alegrar e estarem ousados na fé, os
discípulos estavam atemorizados, pois não compreendiam exatamente
tudo o que acontecera e não sabiam o que mais se sucederia. Havia relatos
chegando de vários lados que afirmavam que Jesus estava ressurreto, mas
não se sabia exatamente se era mesmo fato ou talvez os que relataram
tal feito estivessem tendo alucinações ou vendo um fantasma.
Neste contexto Jesus se apresenta entre os seus e, diante do temor
de que estivessem vendo um espírito, o Mestre dá provas físicas de que
ele está vivo. Não só vivo, mas com sua morte e ressurreição a lei e os
profetas se cumpriram; tudo estava consumado. Agora era hora de a
igreja seguir a tarefa de anunciar o amor de Deus, missão para a qual
seriam revestidos com o Espírito Santo e a garantia de ter o mesmo Cristo
presente todos os dias até a consumação dos séculos, onde um retorno
especial de nosso Senhor nos deixa de olhos fitos para o céu na esperança
de sua vinda.

COMENTÁRIOS SOBRE AS PERÍCOPES

Os nossos textos falam de um momento espetacular na vida dos dis-


cípulos. O Rabino que os havia chamado para serem seus seguidores, o
mesmo que eles haviam presenciado morrer na cruz, estava ressuscitado
e não havia sombra de dúvidas, pois Jesus durante quarenta dias esteve
aparecendo a eles de maneira esporádica, e no presente caso, na presença
de todos eles.
Certo autor diz que estas aparições durante este período de tempo
foram muito importantes para que os seus seguidores se acostumassem
com a ideia do Jesus ressurreto e para que os mesmos, assim como pes-
soas que estão acordando pela manhã abrindo os olhos lentamente para
a luz do dia, pudessem os mesmos contemplar o raiar do sol da justiça
que estava presente entre eles.
ASCENSÃO

Jesus ressuscitou e isto é um milagre de uma excelência tal que


não se pode mensurar. Mas não só ressuscitou, também ascendeu aos
céus na presença de seus seguidores, deixando claro que a mensagem
por ele pregada sobre a existência de uma realidade que transcende ao
nosso mundo é verdadeira e que, portanto, por mais que a vida nos dê
certo desgosto para com a existência, temos em Deus a garantia de uma
realidade plena, livre de toda desgraça e amargor.
Os apóstolos, empolgados ao verem tudo isto, tinham agora o que
achavam ser o estímulo necessário para anunciarem a mensagem do
evangelho por todas as nações, cumprindo a missão que Jesus delegou
no “Ide por todo mundo...”. No entanto, são advertidos para que, por en-
quanto, não saíssem de Jerusalém, mas sim que esperassem a promessa
da descida do Espírito Santo, pois quando o ser humano fia-se em seu
ímpeto pode se decepcionar e ficar sem consolo. Mas, com a presença
do Consolador, todo e qualquer desafio teria de Deus a força necessária,
tanto para vencer os obstáculos como para conformar quando o nosso
tempo não for o tempo de Deus para que as coisas aconteçam.
O texto nos deixa a ideia de que por mais ímpeto que existisse nos
discípulos, era necessário esperar. E esperar sempre foi o fraco do ser
humano, pois achamos que as coisas precisam acontecer no nosso tempo.
Precisamos aprender que muitas vezes a passividade é o ponto em que se
encontra forças para o desenrolar das tarefas dadas por Deus. Há tempo
para agir e tempo de esperar, como dizia Salomão, e como o salmista
certa feita falou: o que esperam no Senhor renovarão suas forças...
Mas Lucas prossegue falando sobre a ascensão e nos deixa eufóri-
cos diante de uma promessa que deve alicerçar as esperanças de todo
cristão no que diz respeito ao futuro: Cristo voltará! Não da forma como
comumente se ouve nas igrejas de que ele vem até nos através da pre-
gação e dos sacramentos, o que também não deixa ser verdade. Mas
Cristo voltará da mesma forma como os discípulos o viram subir aos
céus. Haverá um momento em que os céus darão um sinal, e este será
o retorno do mesmo Jesus, da mesma forma como foi visto subindo e
todo olho o verá e todo aquele que nele creu se alegrará, pois o grande
dia terá chegado.
A ascensão de Cristo nos deixa uma esperança escatológica que não
pode deixar de estar presente em nossos almejos como cristãos. E assim
como Paulo, grande amigo e companheiro de Lucas, poderemos dizer:
Maranata, vem Senhor Jesus. Que esta comunhão que aqui temos seja
plena com o teu retorno. Esta é a esperança que a ascensão nos traz.

151
IGREJA LUTERANA

ESBOÇO

Tema: Enquanto aqui vivemos, dizemos: Vem, Senhor Jesus!

Desenvolvimento
1. A contextualização do momento
2. O diálogo com os discípulos
3. A partida e as advertências de esperar o Espírito Santo.
4. A importância da hora certa para todas as coisas.
5. A partida e a alegria da promessa do retorno.

Alexsandro Martins Machado


Porto Alegre/RS
professor.alexsandro.machado@gmail.com

152
SÉTIMO DOMINGO DE PÁSCOA
Salmo 68.1-10; Atos 1.12-26; 1 Pedro 4.12-19;5.6-11; João 17.1-11

ANÁLISE DO PERÍODO E DO TEXTO: JOÃO 17.1-11

Ainda estamos no tempo da Páscoa, e este tempo nos coloca frente


à realização da obra do Cordeiro de Deus que venceu a morte com sua
ressurreição.
Neste enfoque da ressurreição temos a sua vitória. Jesus venceu e sua
vitória também é nossa. Ele ressuscitou como penhor da nossa ressurrei-
ção para a vida eterna. Com o seu sangue precioso ele nos concedeu a
vitória. Por causa do seu amor por nós, são derrotados o diabo, o pecado
e o mundo. Desta forma temos o céu como herança. Sim, somos aceitos
por Deus, somos contados entre os santos. Nós ainda vamos morrer, mas
ele venceu a morte por nós. Ainda temos a luta contra a carne e o pecado,
mas o resultado já está decidido. Jesus reina e reinaremos com ele e isso
não é nenhuma surpresa para nós.
Olhando para o texto do Salmo 68.1-10, deparamo-nos com a ação
de Deus sobre aqueles que não creem e Davi também nos diz que Deus
vai à frente de seu povo, cuidando do mesmo. Se no Salmo nós temos
a ação de Deus, em Atos 1.12-26 nós temos a confiança nesta ação de
Deus pelo seu povo. Como? Orando! Eles buscam orientações de Deus
para o momento em que estão vivendo. Aqui Lutero nos ajuda a refletir:
“Há quem pergunte: Por que, afinal, Deus nos obriga a pedir e apresentar
o que nos falta, em vez de concedê-lo sem ser solicitado, já que ele co-
nhece e vê todas as necessidades melhor do que nós próprios? Afinal, ele
concede gratuitamente todos os dias ao mundo inteiro tantos benefícios,
como sol, chuva, alimento, dinheiro, corpo e vida. Isto ninguém lhe pede
e nem por isso se lhe agradece, pois ele sabe que o mundo não pode
dispensar um dia sequer a sua luz, a comida e a bebida; por que, então,
mandar pedir estas coisas?” A resposta dele é que Deus quer que nós
confiemos que é ele quem conduz a nossa vida, e pedindo e agradecendo
a ele, demonstramos que a nossa confiança está nele, diferente daqueles
que não creem, que não pedem e nem agradecem. Dessa forma, a oração
me ajuda a aprender e a reconhecer a ação de Deus na minha vida. No
texto de 1Pe 4.12-19; 5.6-11, o apóstolo Pedro nos coloca a sua oração
frente às dificuldade da vida. Mesmo sendo de Cristo, mesmo crendo nele,
o cristão enfrenta dificuldades em sua vida. Por isso, orai sempre!
Já no texto do evangelho de João 17.1-11, nós temos a alegria de ver
que antes de nascermos o Senhor orou por nós. E isto é maravilhoso, ele
IGREJA LUTERANA

já tinha a cada um de nós em sua mente. O texto apresenta Jesus antes


de ir para o jardim do Getsêmani, onde foi capturado e levado para o
seu julgamento e morte. É aqui que Jesus ora por nós, pedindo para que
sejamos um e que o Pai nos proteja. Não é nenhuma surpresa para nós,
pois se ele reina, nós também reinaremos com ele, mesmo em meio aos
sofrimentos. Ele sabia que o sofrimento viria para os seus discípulos, mas
ele olha para o céu e pede ao Pai para nos manter unidos a ele. E Paulo
demonstra que este pedido é real (Rm 8.35-39).
“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia,
ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? [...]
mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele
que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem
os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o
porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos
poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.”
Somos um, assim como ele e o Pai são um. Aqui vemos que através de
Jesus agora estamos reconciliados com Deus, nada nos impede de che-
garmos a Deus, agora somos da família de Deus. Se o pecado nos afastou
de Deus, Jesus nos uniu com o nosso Pai e por isso estamos indo para o
céu. Vemos esta afirmação de Jesus em João 17.21-23:
“Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti
[...] para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim”.
Aqui temos uma unidade mantida pelo Pai. Assim como o Pai e o Filho
são um, nós somos feitos um quando unidos a Cristo em seu corpo. Esta
unidade nós não criamos. É Deus que vem a nós em Cristo e cria a mesma,
abrindo os corações e estabelecendo a sua aliança. Por isso temos que
refletir, reconhecer e agradecer por esta unidade que temos com ele.
Além de ser um com Cristo, outra afirmativa também é que são
um com os outros irmãos. Isto é algo dado. Todos os que creem em
Jesus como seu Salvador são membros do corpo de Cristo e por isso
são ligados uns aos outros. E em Efésios 4.3-6, Paulo descreve as-
sim: “Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.
Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em
uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só
batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e
em todos vós”.
A comunhão é a celebração do perdão dos pecados e da união com
Cristo, recebendo o seu corpo e sangue.
Esta unidade está em todos que creem em Jesus Cristo como seu
Salvador. Onde quer que estejam, adoram e são uns com os outros. São
também um em sua missão, um para vencer.

154
SÉTIMO DOMINGO DE PÁSCOA

PROPOSTA HOMILÉTICA

Tema: Orando por unidade

Temos uma missão: “Portanto, vão a todos os povos do mundo e façam


que sejam meus seguidores”. Nesta grande comissão, Jesus nos diz que
somos testemunhas para contar o que temos visto e ouvido.
Será que não temos orado por esta unidade e missão?
Jesus neste texto nos estimula a orarmos. É um convite, não uma
obrigação. O campo é grande, poucos são os trabalhadores. Isso é uma
motivação para pedir ao senhor da colheita que mande trabalhadores.
Ou será que não oramos pelo crescimento do reino de Deus? Propomos
olhar para a oração como um caminho para a nossa unidade:

1. Se não orarmos por unidade, demonstramos que ele não está em nós?
Crer ou não crer. É fácil assim definir meu estado de ser cristão? Claro
que não, não sondamos os corações. Mas somos levados a refletir e colocar
em prática em nossa vida a oração. E por que não orarmos pela nossa
unidade em Cristo e com o nosso próximo? Claro que o pecado, o mundo
e a nossa própria carne tentam nos separar desta ferramenta preciosa
para a nossa vida e a vida do próximo, que é a oração.

2. Oramos por unidade porque somos vencedores.


Reconhecer que a nossa vida está nas mãos de Deus e que Cristo nos
uniu por meio da sua morte e ressurreição. É por isso que oramos por
unidade com ele e com o próximo. Sabemos que esta obra é ele quem faz
em nós. Sendo esta a sua vontade, nós também queremos aprender a pedir
diariamente esta unidade com ele, porque ele nos tornou vencedores.

3. Oramos por unidade porque ele nos ensinou.


Olhando a vida de Jesus, percebemos que o mesmo sempre buscava
a Deus em oração. Quantas vezes precisamos voltar a aprender dele que
é bom ouvir a sua voz e as suas palavras para firmarmos os nossos pés
diante das dificuldades? Sabemos que a unidade perfeita é entre ele e o
Pai, mas ele nos aceita em seu corpo e sangue por meio da fé, e dessa
forma estamos unidos por meio dele com o Pai.
No Pai Nosso, ele nos ensinou um modelo de oração e de unidade.

Celso Aleon Maroto Meira


Fazenda Rio Grande/PR
celsoaleon@yahoo.com.br

155
DOMINGO DE PENTECOSTES
Salmo 25.1-15; Joel 2.28-32; Atos 2.1-21; João 7.37-39

CONTEXTO LITÚRGICO

O Domingo de Pentecostes é geralmente lembrado pela descida do


Espírito Santo (At 2.1-13). As leituras bíblicas enfatizam o cumprimento
da promessa do envio do Espírito Santo e também a sua obra. É o Deus
Consolador que se faz presente em nossas vidas, dando-nos a fé em Cristo,
a água que dá vida. É o Deus que dá forças, ânimo e coragem e reveste
os cristãos de uma nova natureza.
A festa de Pentecostes já era celebrada nos tempos de Jesus, como
vemos no livro de Atos, no início do capítulo 2. Pentecostes, historicamente,
era a Festa das Semanas, ou das Primícias. Era celebrada 50 dias depois
da Páscoa. Era uma festa muito importante para os judeus, pois era a
festa da colheita, quando as primícias da ceifa de trigo eram trazidas ao
Senhor. Agradecimento e esperança de boas colheitas para o futuro era o
que estava na mente daqueles que dela participavam. Mas não somente
isso, também era uma ocasião de comemoração, renovação da Aliança
feita por Deus com o povo de Israel.
No domingo de Pentecostes, Deus quer lembrar a promessa da com-
panhia e ajuda do Espírito Santo à sua igreja na terra. A vinda do Espírito
Santo tem como objetivo acompanhar e ajudar a igreja, os cristãos, em
suas dificuldades, aflições, tristezas e, principalmente, na pregação do
evangelho. Para nós, cristãos, o Pentecostes se tornou a confirmação da
Nova Aliança, onde a base é a graça de Deus, revelada no nascimento,
vida, morte e ressurreição de Cristo Jesus, em favor e em lugar da hu-
manidade afastada de Deus.

LEITURAS DO DIA

Salmo 25.1-15: Salmo escrito por Davi, que nos fala da vida que é
guiada pelo Senhor. Especialmente neste domingo de Pentecostes, onde
lembramos que é Deus Espírito Santo que habita em nós e nos guia pelo
caminho da verdade e da salvação (25.4,5). O salmista ainda pede que
Deus tenha misericórdia e que não lembre dos seus pecados (25.7). É
Deus quem aponta o caminho certo para seguirmos (25.8,12) e guia o
cristão no caminho da justiça e da verdade (25.9,10).
DOMINGO DE PENTECOSTES

Joel 2.28-32: O texto de Joel fala da promessa do derramamento


do Espírito “sobre toda a carne” (2.28), esta que se cumpre no dia de
Pentecostes e se estende até os dias de hoje onde o evangelho é pregado
claro e puramente. Deus cumpre o que promete e envia o Espírito Santo
sobre todas as pessoas e nações, filhos e filhas, servos e servas. Todas as
pessoas, sem distinção, são objetos desta tão amorosa promessa: “Todo
aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (2.32). O apóstolo Paulo
nos lembra (em Rm 10.13-15) que somente pode “invocar” o nome de
Deus aquele que for tocado pelo Espírito Santo através da pregação da
palavra de Deus.
Atos 2.1-21: A promessa do envio do Espírito Santo, feita pelo profeta
Joel (Joel 2.28), se cumpre. No dia de Pentecostes, Deus Espírito Santo
derrama seu espírito na forma de línguas de fogo (2.3) e os seguidores de
Jesus passam a proclamar a sua obra nas mais diferentes línguas (2.4),
para que todos os presentes naquele evento possam entender a mensagem
da salvação na sua língua materna (2.6). Mostra-se, assim, a vontade de
Deus de que a mensagem da salvação é para todos. A partir do versículo
14, Pedro começa seu discurso falando da promessa do envio do Espírito
Santo, citando o profeta Joel (Jl 2.28-32). Naquele dia os que aceitaram
a palavra e foram batizados foram quase três mil pessoas (2.41).
Cabe destacar que a ênfase do Pentecostes não está no dom de lín-
guas, no fato de os discípulos de Cristo falarem em línguas diversas. O
fato principal do Pentecostes é a obra de Deus Espírito Santo: ensinar
todas as coisas e fazer com que todos os ensinamentos de Cristo sejam
sempre lembrados. Em resumo: a obra para o qual o Pai enviou o Espírito
Santo é criar a fé nos corações das pessoas e manter esta fé, por meio
da palavra.
João 7.37-39: As perícopes do dia, acima demonstradas, dão ênfase
à presença de Deus Espírito Santo na vida do cristão. Deus está presente
em todos os momentos de nossa vida. É para estas pessoas, onde Deus
Espírito Santo se faz presente, que Jesus diz: “Rios de água viva vão jorrar
do coração de quem crê em mim” (7.38). Sabemos que só crê verdadei-
ramente em Cristo aquele que foi abençoado pelo dom da fé, dado por
Deus Espírito Santo. O cristão se torna então, assim, fonte de água viva
para as pessoas sedentas pela verdade do evangelho.

ÊNFASES DO TEXTO DE JOÃO 7.37-39

V. 37: “O último dia da festa”. A festa que Lucas cita aqui era a festa
de Pentecostes. Ela era celebrada anteriormente pelo povo judeu e tam-
bém era conhecida como “Festa das Semanas ou das Primícias”. O povo
judeu também relembrava assim os anos no deserto, onde matar a sede

157
IGREJA LUTERANA

era a principal necessidade do povo de Deus. Assim, Jesus aproveita este


momento para ensinar aos ouvintes que para saciar a sua sede espiritual
deveriam ir até ele: “Se alguém tem sede, venha a mim” (v.37). Obvia-
mente, o ser humano precisa saciar a sua sede por água para continuar
vivendo aqui neste mundo. Porém, a procura por saciar a sede espiritual
é muito mais importante, porque aquele que busca da água viva (Cristo)
tem a vida eterna. Podemos somente saciar nossa sede espiritual em
Cristo Jesus, nosso Salvador.
V. 38: “Como dizem as Escrituras Sagradas”. “Essa passagem não é
citada no Antigo Testamento. Possivelmente se esteja pensando em passa-
gens como Ezequiel 47.1-12, que fala sobre a água que corria do Templo,
e Zacarias 14.8, que fala sobre água jorrando da cidade de Jerusalém”
(Bíblia de Estudo NTLH).
“Rios de água viva vão jorrar do coração de quem crê em mim.”
O enfoque das passagens deste final de semana é a ação do Espírito
Santo. O Espírito Santo que faz com que “rios de água viva” possam
jorrar do coração do crente em Cristo. O cristão aqui se torna fonte de
água viva para as outras pessoas, porque uma vez que o amor de Deus
atinge seu coração, dele jorrará também um coração firme e sincero no
propósito de inundar também o coração das outras pessoas com esse
amor. Quando o cristão se hidrata na fonte de água viva, que é Cristo,
ele assim também se torna uma pessoa que leva água viva para outras
pessoas, pois do seu coração jorra o amor, a paz, o perdão, revelados
(pelo Espírito Santo) na pessoa de Cristo. A glorificação de Cristo em
sua morte, ressurreição e ascensão possibilitou que o Espírito Santo
fosse derramado sobre nós. Mas, uma vez que o Espírito Santo foi der-
ramado sobre nós, chega a ser como um manancial de água refrescante
que purifica e revitaliza nossos pensamentos, emoções e sentimentos,
acalmando nossa sede de Deus e dando-nos a força para seguir nosso
peregrinar até a terra prometida.
V. 39: A referência ao Espírito Santo faz com que este texto seja apro-
priado para o Pentecostes. A função do Espírito é testemunhar o Cristo
glorificado. A glorificação ocorre na transfiguração, ressurreição e exaltação
de Jesus. Mais adiante (Jo 14.26; 16.7; 20.22) fica claro que o Espírito
Santo virá para a comunidade de fiéis após a glorificação de Cristo. O v.
39 aponta para a centralidade da cruz. Sem a cruz e a tumba vazia, o
Espírito Santo não poderia realizar sua obra de santificação. A plenitude
da obra do Espírito depende da obra redentora realizada previamente por
Cristo. Aqui fica claro que a água viva prometida por Jesus era o dom
do Espírito – que não podia ser concedido plenamente enquanto ele não
fosse glorificado.

158
DOMINGO DE PENTECOSTES

SUGESTÃO HOMILÉTICA
O ser humano vive na seca espiritual desde a queda em pecado. Ele
já nasce sedento espiritualmente e, geralmente, vive sua vida inteira em
busca de algo para saciar essa sua sede. Sozinho, por suas próprias forças,
o ser humano não consegue encontrar o caminho para a verdadeira fonte
de água viva – Cristo Jesus. Somente através da ação do Espírito Santo,
pelos meios da graça, palavra e sacramentos, o ser humano encontra a
verdadeira fonte de água viva.
Através da ação do Espírito Santo em nossas vidas, passamos de
recebedores da água viva para recipientes da água viva. Mas será que é
possível obter “água viva” de recipientes secos e disformes? Para o Espírito
de Deus tudo é possível!
Mas como isso é possível? Quem sou eu? Um pobre e miserável pe-
cador! Sim, mas essa não é toda a verdade. Também sou um pecador
perdoado, um pecador lavado e regenerado diariamente nas águas do
batismo. A água que flui tem sua força, não do recipiente em si, mas em
Jesus. A água que colocamos para fora depende das chuvas de bênçãos
que Deus faz descer dos céus – em sua Palavra e sacramentos. Em Cris-
to, não precisamos continuar como recipientes secos e disformes – feias
criaturas. Cristo nos transforma, as coisas antigas passam e eis que se
fazem novas.
No Pentecostes, rios de água viva fluíram dos apóstolos, que anuncia-
ram a mensagem de Deus para pessoas de diferentes lugares e nas mais
diversas línguas. Deus fez com que mais de três mil pessoas aceitassem a
mensagem da salvação e fossem batizadas. Através da proclamação da sua
palavra, o Espírito Santo ainda faz com que hoje muitas pessoas venham
a receber da água da vida. Ele usa cada um de nós como proclamadores
desta palavra de onde fluem rios de água viva.

Tema: A ação do Espírito Santo.


1. A ação do Espírito Santo nos leva à fonte de água viva – Cristo
Jesus.
2. Pela ação do Espírito Santo fluirão rios de água viva do cristão.

Diego Elias Neumann


Floriano/PI
diego_neumann@yahoo.com.br

159
FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DO SENHOR
Salmo 45.10-17; Isaías 61.7-11; Gálatas 4.4-7; Lucas 1.(39-45) 46-55

A festa de Maria não é sobre Maria, mas sim sobre Jesus

CONTEXTO LITÚRGICO
A Festa de Santa Maria comemora a “dormição” da Virgem Maria, isto
é, seu adormecer na morte e, seguramente, na fé em Cristo. A celebração
do dia 15 de agosto surgiu no Oriente por volta do séc. V, confirmando
uma antiga tradição da igreja. Por mais que seja uma festa em lembrança
de Maria, em última instância, é uma festa cristocêntrica.

LEITURAS
Salmo 45.10-17: O salmista dá conselho a uma mulher a qual chama
de filha e na última estrofe afirma: “O teu nome, eu o farei celebrado de
geração a geração, e, assim, os povos te louvarão para todo o sempre”.
Gálatas 4.4-7: O apóstolo Paulo escreve acerca da encarnação de
Cristo: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nas-
cido de mulher, nascido sob a lei”.
Lucas 1.(39-45) 46-55: Na perícope, temos dois relatos importantes:
1. Visita que a bem-aventurada Maria fez a Isabel; 2. Magnificat.

PRÓPRIOS DO DIA
Introito: O introito é uma ação de graças pela ação de Deus, pelo seu
constante auxílio e amparo.
Coleta do dia: A coleta pede para que todos os que foram redimidos
pelo sangue de Cristo possam ser reunidos com ela na glória eterna.
Gradual: O salmo utilizado como gradual é 45.13-14 e pinta um quadro
de uma princesa que, ornada, é levado ao rei.
Verso: O verso é parte do Magnificat, onde se enfatiza o anúncio da
grandeza de Deus, pois a alma de Maria está repleta de alegria por causa
do Criador.
Prefácio próprio: Se a celebração for dentro de um culto eucarístico,
o pastor tem duas possibilidades dentro do livro de liturgia1: 1) Prefácio
próprio “Anunciação do Senhor, A visitação e Santa Maria, Mãe do Senhor”;
2) Prefácio intitulado “Dia de Todos os Santos”.

1
Comissão de Culto da IELB. Culto luterano: liturgias. Porto Alegre: Concórdia Editora,
2010. p . 27 e 46.
FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DO SENHOR

ESTUDO DO TEXTO2
A perícope é composta de dois blocos: 1.A visita de Maria e 2. O cântico
de Maria. A opção é pelo texto expandido, pois não envolve somente o
cântico de Maria, o Magnificat, mas também a visita que a bem-aventurada
mãe do Senhor fez à sua prima Isabel. Arthur Just, em seu comentário
sobre Lucas, afirma que as duas partes, 39-45 e 46-55, formam uma
unidade.

VISITA DE MARIA A ISABEL


Ao ouvir a saudação, o bebê, João Batista, estremece no ventre de
sua mãe Isabel. Diante do Verbo encarnado, este é o primeiro responso
litúrgico que temos registrado no Novo Testamento.
A cena pintada nesta visita é cheia da presença de Cristo. Tudo o que
aconteceu nesta memorável visita é fruto da presença do Deus que se
fez carne: João Batista chegou a estremecer no ventre de Isabel, Isabel
ficou cheia do Espírito Santo e falou para Maria belíssimas palavras. Cada
detalhe é um responso à presença de Jesus. Segundo Just, aqui temos
o primeiro texto litúrgico cristão. Isabel proclama Jesus no ventre da
bem-aventurada Maria e ela é bem-aventurada pois carrega dentro de
si a fonte de toda bem-aventurança, a fonte de toda graça. A presença
de Cristo enche e permeia todo o quadro que Lucas nos desenha neste
relato.
O versículo 45 fala que Maria é bem-aventurada porque creu nas pro-
messas que lhe foram ditas: “Bem-aventurada a que creu, porque serão
cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor”.

MAGNIFICAT
O Magnificat pode ser dividido em duas estrofes: 1) 1.46b–49 re-
flete a ação poderosa de Deus sobre Maria e sua resposta de louvor e
agradecimento; 2) 1.50-55 é o cumprimento das promessas feitas por
Deus para seu povo.
Na primeira estrofe, Maria agradece a Deus que a contemplou. E ela
ser lembrada por que Deus, o todo-poderoso, fez grandes coisas. Este o
real motivo que é ela é bem-aventurada, pois Deus fez grandes e mara-
vilhosas coisas: “Porque contemplou na humildade da sua serva. Pois,
desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada”.
Em Lucas 11.27 temos um relato de alguém que enaltece o ventre e
os seios que amamentaram Jesus. Jesus responde que abençoados são
aqueles que ouvem a palavra de Deus e a guardam. E Maria foi essa

2
JUST JR., Arthur A. Luke 1.1-9:50. A Theological Exposition of Sacred Scripture.
Saint Louis: Concordia Publishing House, 2001. p.72-87.

161
IGREJA LUTERANA

pessoa. Ela ouviu e guardou as promessas. Segundo Just, ela foi a pri-
meira catecúmena. Ela foi a primeira cristã na nova aliança.
A ênfase da segunda estrofe está no cumprimento das promessas
feitas ao povo de Deus: a favor de Abraão e sua descendência. Ou seja,
descreve a salvação de Deus em favor de Israel. O centro desta segunda
estrofe está na palavra “misericórdia”. Por esta misericórdia Deus age.

MAGNIFICAT DE LUTERO3
Neste texto, Lutero escreve sobre o Cântico de Maria e o dedica ao
Duque João Frederico. Lutero chama atenção para três aspectos impor-
tantes:
1. Maria como expressão de vida a partir do Espírito Santo.
2. Como exemplo da graça de Deus.
3. Exemplo do agir de Deus na história.

CITAÇÕES DO TEXTO MAGNIFICAT DE LUTERO


1. Maria reconhece como primeira obra de Deus realizada nela o
contemplar. Esta também é a obra maior na qual se baseiam
todas as demais e da qual emanam. Pois quando Deus volta
o seu rosto para alguém para contemplá-lo, aí reina a pura
graça e a bem-aventurança, e todos os dons e obras hão de
seguir (p. 44).
2. Portanto, quem quiser honrá-la devidamente não deve con-
templá-la de forma isolada, mas deve vê-la diante de Deus
e muito abaixo de Deus, despojando-a de tudo e (como ela
diz) contemplando sua nulidade. Então ficarás maravilhado
com a exuberante graça de Deus que contempla, recebe e
abençoa ricamente e com tão grande misericórdia uma pessoa
tão insignificante e nula. (p. 45)
3. O mais nobre exemplo da graça de Deus para estimular a todo
mundo à confiança, ao amor e ao louvor na graça divina. (p. 45)
4. Ó bem-aventurada virgem e mãe de Deus, que grande consolo
nos revelou Deus em ti por ter contemplado tão misericor-
diosamente tua indignidade e nulidade. Isso nos mostra que,
de agora em diante, a teu exemplo, também não desprezará
a nós pobres homens nulos, mas que nos contemplará com
misericórdia. (p. 45 e 46)

3
LUTERO, Martinho. O Magnificat. In Obras Selecionadas, v. 6

162
FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DO SENHOR

BEM-AVENTURADA MARIA NA BÍBLIA4


A bem-aventurada Maria, mãe de Jesus, é mencionada várias vezes
nos evangelhos e no livro de Atos. Incidentes de sua vida que foram
registrados: 1) noivado com José; 2) a anunciação do anjo Gabriel que
ela seria a mãe do Messias; 3) visitação a Isabel, a mãe de João Batis-
ta; 4) na natividade de Nosso Senhor; 5) as visitas dos pastores e os
sábios; 6) a apresentação do menino Jesus no templo; 7) a fuga para
o Egito; 8) a visita pascal a Jerusalém, quando Jesus tinha doze anos;
9) o casamento em Caná da Galileia; 10) sua presença na crucificação,
quando seu Filho a legou aos cuidados de seu discípulo João; 11) e seu
encontro com os apóstolos no cenáculo depois da Ascensão, à espera
do Espírito Santo prometido.
Maria está presente em todos os eventos importantes da vida de seu
Filho. Ela é especialmente lembrada e homenageada por sua obediência
incondicional à vontade de Deus: “Aqui está a serva do Senhor; que se
cumpra em mim conforme a tua palavra” (Lc 1.38); por sua lealdade a
seu filho, mesmo quando ela não podia compreendê-lo: “Então, ela falou
aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2.5), e, acima de tudo,
a mais excelsa honra concedida a ela por Deus: o fato de ela tornar-se
a mãe de Deus que se fez carne: “Bendita és tu entre as mulheres, e
bendito o fruto do teu ventre!” (Lc 1.42). Segundo a tradição, Maria foi
com o apóstolo João para Éfeso, onde morreu.

HONRA AOS SANTOS E ARTIGO XXI DA APOLOGIA


DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO: “DA INVOCAÇÃO
DOS SANTOS”
A Apologia da Confissão, a nossa norma normata, no seu vigésimo
primeiro artigo prevê a honra aos santos de Cristo em três pontos: 1)
ação de graças; 2) confirmação da fé; 3) imitação, primeiro da fé, em
seguida das demais virtudes.
Aplicando estas três honras à bem-aventura Maria, mãe de Jesus:
1. A primeira honra é a ação de graças: demos graças a Deus
por ter mostrado o mais nobre exemplo da graça de Deus para
estimular a todo mundo à confiança, ao amor e ao louvor na
graça divina. Maria é uma representação muito importante
para a Igreja. Ela é uma representação tua e minha. Eu digo
que Maria é representação, pois ela estava cheia, repleta de
Cristo. A exemplo do que aconteceu com Maria, tu, desde o
batismo, estás repleto de Cristo. Cristo está em ti.

4
KINNAMAN, Scott A. (Ed.). Treasury of Daily Prayer. Saint Louis: Concordia Publishing
House, 2009. p. 625-626.

163
IGREJA LUTERANA

2. A segunda honra é a confirmação de nossa fé: Deus é


o mesmo, ontem, hoje e eternamente, porque em Deus não
pode existir variação ou sombra de mudança. O mesmo Deus
que contemplou e fez grandes coisas na vida de Maria é o
mesmo Deus que te contempla e faz grandes coisas em tua
vida. Ele é o teu Deus, é o teu Salvador.
3. A terceira honra é a imitação, primeiro da fé, em se-
guida das demais virtudes: Maria foi a primeira cristã que
temos registrada no Novo Testamento. Ela ouviu e confiou.
Ela esteve com Jesus nos momentos importantes de sua vida,
tanto antes de sua Ascensão como depois. A bem-aventurada
Maria ouviu e confiou.

ASPECTOS HOMILÉTICOS
Objetivo
1. Demonstrar que celebrar Maria é celebrar a presença física do
Deus encarnado, Jesus Cristo;
2. Honrar a bem-aventurada Maria conforme as nossas Confissões
preveem.

Tema: A festa de Maria não é sobre Maria, mas sim sobre Jesus.
1. Introdução:
a. A festa de Maria não é sobre Maria, mas sim sobre Jesus;
b. Cada detalhe do texto é resposta à presença física de Jesus.
2. Análise do evangelho do dia
a. Visita de Maria a Isabel;
b. Cântico de Maria
- ação de Deus sobre Maria;
- ação de Deus sobre o povo.
3. Citação das três honras a favor da lembrança dos santos
- 21º artigo da Apologia da Confissão. Citar as três honras
aplicando-as no caso da bem-aventurada Maria.

SERMÃO
A festa de Maria não é sobre Maria, mas sim sobre Jesus
Que a graça do Senhor Jesus Cristo, o Deus que se encarnou no ventre
da bem-aventurada Maria, o amor de Deus e comunhão do Espírito Santo
sejam com todos.
Meus caros irmãos em Cristo, devo lhes dizer de meu contentamento
de poder estar diante de vós e pregar no dia da bem-aventurada Maria,
a mãe de nosso Senhor. No semestre passado preguei sobre José, o tutor

164
FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DO SENHOR

de Jesus. Neste ano, estou tendo a oportunidade de pregar sobre toda


a família.
A festa de Maria não é sobre Maria, mas sim sobre Jesus. Estamos
honrando a bem-aventurada mãe do Senhor, sim, nós estamos. No entanto,
em última instância, estamos honrando o Cristo encarnado, o Cristo que
está presente entre nós.
O evangelho que acabamos de ouvir está repleto de Cristo. Cristo
em cada linha, em cada ponto. Nós cantamos na liturgia: “Santo, Santo,
Santo Senhor dos Exércitos, os céus e a terra estão cheios de sua glória”.
O evangelho é bom exemplo disso, do Cristo que preenche todo espaço,
toda vida, todo coração. A bem-aventurada Maria está repleta de Cristo,
o Emanuel, o Deus conosco.
O nosso texto é composto de dois blocos: 1º) A visita de Maria a Isabel
e o 2º) Cântico de Maria. Cada detalhe, cada linha, cada vírgula é uma
reação à presença física de Jesus: João Batista estremece no ventre de
Isabel; Isabel, cheia do Espírito Santo, proclama Cristo e o cântico de
Maria. Repito: cada detalhe deste texto é resposta à presença de Cristo.
Aqui temos o primeiro responso litúrgico da ação de Deus. Aqui temos
o primeiro texto litúrgico cristão da nova aliança.
O primeiro ponto que quero destacar é a visita que Maria fez a Isa-
bel. Nessa visita, Isabel, na presença de Cristo, o Deus que se encarna,
o Deus conosco, diz: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto
do teu ventre!”
Isabel proclama o Jesus que estava no ventre da bem-aventurada
Maria. Sim, ela é bem-aventurada, pois carregou dentro de si a fonte de
toda bem-aventurança, a fonte de toda graça e de toda misericórdia.
O segundo ponto que quero destacar é o cântico de Maria, o Mag-
nificat. Podemos dividir o texto em duas estrofes: 1) Maria fala da ação
de Deus sobre ela mesma; 2) Maria fala da ação de Deus sobre Israel.
O cântico da bem-aventurada Maria começa com um agradecimento a
Deus. Maria diz: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito
se alegrou em Deus, meu Salvador”. Maria tem motivos para agradecer
a Deus.
Ela engrandece o Senhor “porque ele contemplou a humildade da
sua serva”. Maria olha para si e vê quem ela é: “Uma mulher simples,
pobre, uma humilde serva”. Ao ver quem ela era, ela pode ver com
clareza quem Deus era e o que este Deus estava fazendo. Ao ter a real
noção do que Deus estava fazendo, ela exclama: “o Poderoso me fez
grandes coisas”.
Na segunda estrofe, Maria exalta a ação de Deus em favor de seu
povo, a Abraão e a toda a sua descendência. A chave desta ação está na
misericórdia. Deus atua na história de seu povo porque “a sua miseri-
córdia vai de geração em geração sobre os que o temem”.

165
IGREJA LUTERANA

As nossas Confissões aprovam e apontam a honra para os santos. E


fala em tríplice honra. A primeira honra é a ação de graças: demos
graças a Deus por ter mostrado o mais nobre exemplo da graça de Deus
para estimular a todo mundo à confiança, ao amor e ao louvor na graça
divina. Maria é uma representação muito importante para a Igreja. Ela
é uma representação tua e minha. Eu digo que Maria é representação,
pois ela estava cheia, repleta de Cristo. A exemplo do que aconteceu com
Maria, tu, desde o batismo, estás repleto de Cristo. Cristo está em ti.
A segunda honra é a confirmação de nossa fé: Deus é o mesmo
ontem, hoje e eternamente, por que em Deus não pode existir variação
ou sombra de mudança. O mesmo Deus que contemplou e fez grandes
coisas na vida de Maria é o mesmo Deus que te contempla e faz grandes
coisas em tua vida. Ele é o teu Deus, é o teu Salvador.
A terceira honra é a imitação, primeiro da fé, em seguida das
demais virtudes: Maria foi a primeira cristã que temos registrada no
Novo Testamento. Ela ouviu e confiou. Ela esteve com Jesus em momen-
tos importantes de sua vida tanto antes de sua Ascensão, como depois.
A bem-aventurada Maria ouviu e confiou.
Por isso, meus caros irmãos, hoje celebramos a festa da bem-aven-
turada Maria. No entanto, a festa de Maria não é sobre Maria, mas sim
sobre Jesus, o Deus que se fez carne e habitou entre nós e em nós.
Gostaria de concluir este sermão com as palavras de Lutero: “Ó
bem-aventurada virgem e mãe de Deus, que grande consolo nos revelou
Deus em ti por ter contemplado tão misericordiosamente tua indignidade
e nulidade. Isso nos mostra que, de agora em diante, a teu exemplo,
também não desprezará a nós pobres homens nulos, mas que nos con-
templará com misericórdia”.

Que a paz do Deus encarnado no ventre da bem-aventurada Maria


guarde a tua mente e o teu coração para a vida eterna.

Elissandro Silva
São Leopoldo/RS
hans_luther@hotmail.com

Devoção realizada na Capela do Seminário Concórdia no dia 15 de


agosto de 2013, Festa de Santa Maria. Oficiante Josemar Alves; mensa-
gem Elissandro Silva.

166
Festa de Santa Maria,
Mãe de Nosso Senhor
15 de agosto

SEMINÁRIO CONCÓRDIA
São Leopoldo/RS
IGREJA LUTERANA

ORAÇÃO DA NOITE
OFÍCIO DA LUZ • LUCERNARIUM

Em pé
L Jesus Cristo é a luz do mundo, [João 8.12]
C luz que escuridão alguma pode apagar. [João 1.5]
L Fica conosco, Senhor, pois já é noite
C o dia já está acabando. Lucas 24.49
L Que a tua luz afaste toda escuridão 1 Coríntios 4.5
C e ilumine a tua Igreja. [2 Coríntios 4.6]

HINO
Louvado sejas, ó Jesus. HL 35.1 Martinho Lutero, 1524

AÇÃO DE GRAÇAS PELA LUZ


L Bendito és tu, Senhor nosso Deus, rei do universo, que conduziste em
segurança o teu povo, protegendo-o durante o dia com uma coluna de nuvens
e durante a noite com uma coluna de fogo. Ilumina os nossos caminhos com
a luz de Cristo. Que a tua Palavra seja lâmpada para os nossos pés e luz para
os nossos caminhos. Tu és misericordioso e amas tudo que criaste e nós, tuas
criaturas, te glorificamos e adoramos, Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
C Amém.

LEITURAS
ALELUIA e VERSO Lucas 1.47

A Aleluia. A minha alma anuncia a grandeza do Senhor. O meu espírito está


alegre por causa de Deus, o meu Salvador. Aleluia.

168
FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DE NOSSO SENHOR

SANTO EVANGELHO
Lucas 1.39-55
Após a leitura:
L Ó Senhor, tem compaixão de nós.
C Graças te damos, Senhor.
L Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais,
pelos profetas,
C nestes últimos dias nos falou pelo Filho. Hebreus 1.1-2a

Sentado
SERMÃO
A Festa de Maria não é sobre Maria, mas é sobre Cristo.
Em pé

CÂNTICO
ANTÍFONA Antiphona super Magnificat, Livro de Culto de Magderburgo, 1613, p. 1046.
L Este é o dia que o Senhor fez; Salmo 118.24
C Hoje o Senhor olhou para a aflição de seu povo [Êxodo 3.7]
L e enviou a redenção. [Salmo 111.9]
C Hoje a morte que surgiu da mulher foi vencida
pela semente de uma mulher.
L Hoje Deus se fez homem.
C Ele permaneceu o que era e assumiu o que não era.
L Portanto, lembremos devotamente o princípio da nossa redenção
C e exultemos, dizendo: Glória a Ti, ó Senhor! Aleluia!

MAGNIFICAT
Cântico de Maria
Lucas 1.46-55
C A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus,
meu Salvador, porque ele contemplou na humildade da sua serva. Pois
desde agora todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque
o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia
vai de geração em geração sobre os que o temem. Agiu com o seu braço
valorosamente; dispersou os que no coração alimentavam pensamentos
soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes.
Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. Amparou a Israel,
seu servo, a fim de lembrar-se da sua misericórdia, a favor de Abraão
e de sua descendência para sempre, como prometera aos nossos pais.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora
é e para sempre será – de eternidade a eternidade. Amém.

169
IGREJA LUTERANA

COLETA Maria, Mãe do Senhor - Culto Luterano: Lecionários, p. 332.

L Todo-Poderoso Deus, que escolheste a Virgem Maria para ser a mãe de teu
único filho, concede que nós, que somos redimidos pelo sangue dele, tomemos
parte com ela na glória de teu reino eterno; através de Jesus Cristo, teu Filho,
nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, um só Deus, agora
e sempre.
C Amém.

PAI NOSSO Mateus 6.9–13

L Ensinados pelo nosso Senhor e confiando em suas promessas, ousamos


dizer:
C Pai nosso, que estás nos céus.
Santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos
nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação.
Mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.

BENEDICAMUS [Salmo 103.1]

L Bendigamos ao Senhor.
C Demos graças a Deus.

BÊNÇÃO
L O Deus de todo poder e misericórdia, Pai, Filho e Espírito Santo, vos abençoe
e preserve.
C Amém.

Soli Deo Gloria!

Oficiante: Josemar Alves. Pregador: Elissandro Silva. Organista: Charles da Rocha.


Acólitos: Argel Soares, Saulo Bledoff e Rodrigo da Silva.

170
FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DE NOSSO SENHOR

A Festa de Santa Maria lembra a dormição (κοίμησισ) da Virgem Maria,


isto é, seu adormecer na morte e, seguramente, na fé em Cristo. A celebração
do dia 15 de agosto surgiu no Oriente por volta do séc. V, confirmando uma
antiga tradição da igreja.

A pintura da capa é de autoria de Lucas Cranach, o Velho (* 1472, Krona-


ch, † 1553, Weimar), datada de 1525-30 e encontra-se atualmente no Museu
Nacional do Hermitage (São Petersburgo, Rússia). Trata-se de uma das muitas
representações da Virgem Maria e o Menino, tema favorito na iconografia deste
pintor luterano e amigo de Lutero. Como escreveu Arthur Carl Piepkorn (1907-
1973), “a imagem mais nobre que pode ser pintada dela é com seu filho em seus
braços”, visto que “a função da bem-aventurada Virgem Maria nas Sagradas
Escrituras, na história da salvação, na fé e no culto da Igreja, é apontar para o
seu Filho” (The Church: Selected Writings of A. C. Piepkorn. p. 328).

Liturgia traduzida e adaptada da Oração da Noite (Evening Prayer), do Luthe-


ran Service Book (St Louis: Concordia Publishing House, 2006. p. 243-252).

171
IGREJA LUTERANA

RESENHA BIBLIOGRÁFICA
SÁNCHEZ M., Leopoldo A. Pneumatología – El Espíritu Santo y la
espiritualidad de la iglesia. St. Louis: Concordia Publishing House, 2005.
192 p.

Um estudo sobre a pessoa e obra do Espírito Santo numa perspectiva


trinitária e cristológica e em conexão com a doutrina da Igreja, escrito
tendo em vista um contexto hispano-latino. Com estas palavras atrevo-
me a descrever sucintamente o propósito deste livro. Leopoldo Sanchez
é doutor em Teologia Sistemática e professor desta área no Concordia
Seminary de St. Louis, EUA. Sua tese de doutoramento abordou a pessoa
e obra de Jesus Cristo como aquele que é o receptor, portador e doador
do Espírito Santo. Áreas de especial interesse acadêmico para Sanchez
são, além da Pneumatologia, a Cristologia, a doutrina da Trindade, a Ecle-
siologia e o ministério com pessoas de origem hispânica. É atualmente
diretor do Centro de Estudos Hispânicos do Concordia Seminary. Sanchez
nasceu no Chile, viveu boa parte de sua infância e juventude no Panamá
e, ao participar de um programa de intercâmbio de estudantes, vivendo
com uma família luterana nos EUA, veio a ingressar na Lutheran Church
– Missouri Synod.
Pneumatología – El Espíritu Santo y la espiritualidad de la iglesia é um
texto relativamente breve, 192 páginas, incluindo um glossário bastante
útil, especialmente para os leitores sem um preparo acadêmico em Teolo-
gia. Sua linguagem procura ser acessível ao não especialista. No entanto,
sua abordagem inclui assuntos complexos, como a questão da processão
do Espírito Santo e o controvertido tema do filioque (se o Espírito Santo
também procede do Filho, assim como do Pai).
O livro está dividido em cinco capítulos, cada um deles concluído com
questões para debate, adequadas para estudos em grupo. No primeiro
capítulo, Sánchez apresenta o que considera serem três “tipos de espiritu-
alidade arraigados no contexto hispano/latino”, modelos de espiritualidade
presentes na fé popular ou mesmo em estudos acadêmicos, cada um deles
inadequado para apresentar a doutrina do Espírito Santo e sua ação con-
forme ensinada na Escritura. No segundo capítulo, a doutrina do Espírito
Santo serve de referência para um exame da antropologia e angelologia
bíblicas. O terceiro capítulo apresenta a Pneumatologia no contexto da
doutrina da Trindade e a relação de Deus com o mundo, na criação. No
capítulo 4, “A missão conjunta do Filho e do Espírito Santo no mistério de
Cristo”, Sánchez faz a conexão (fundamental no texto bíblico e apresentada
com ênfase pelo próprio Senhor Jesus) entre a ação do Espírito Santo e a

172
RESENHA BIBLIOGRÁFICA

pessoa e obra de Cristo. No último capítulo, o autor aborda aspectos da


ação do Espírito Santo na missão da Igreja de Cristo.
A abordagem de Sánchez ao tema da Pneumatologia contempla as-
suntos contemporâneos e de relevância para a reflexão teológica e vida
da Igreja. Ao tematizar o papel do Espírito Santo nas teologias da liber-
tação de fundo católico romano, Sánchez mostra que a partir do Concílio
Vaticano II desenvolve-se a visão de que o Espírito Santo age em toda
aspiração humana que dá início a movimentos sociais que promovam a
dignidade humana. O Espírito Santo passa a ser considerado a raiz uni-
ficadora de toda religiosidade e aspirações de libertação dos povos. Em
sua análise, Sánchez procura mostrar como tais ideias chegaram a ser
articuladas teologicamente e as avalia a partir de princípios escriturísticos
e confessionais luteranos.
Sánchez dedica espaço em seu texto para avaliar as interpretações
que por vezes são feitas sobre a ação do Espírito Santo em eventos da
história (queda do muro de Berlim, fim do apartheid, etc.) e como isso se
relaciona com a distinção entre a providência e a graça de Deus.
O leitor deste livro terá a oportunidade de ser confrontado com visões
bastante distintas sobre o papel do Espírito Santo na Santíssima Trinda-
de. Isso fica evidenciado na exposição de como teólogos do Ocidente e
do Oriente têm tradicionalmente tratado deste tema. Uma tendência na
teologia ocidental é de começar pela discussão da essência divina e então
dizer que as três pessoas expressam esta essência – Sánchez aponta aí
o perigo de chegar-se a uma forma de modalismo (como se cada uma
das três pessoas fosse apenas um modo de manifestação do Deus úni-
co). O autor também mostra que na teologia dos pais orientais, em que
primeiro se fala das três pessoas para então dizer que a essência divina
é o conteúdo comum entre elas, existe o perigo de afirmar uma subor-
dinação de uma pessoa a outra (que chegou a extremos no arianismo e
nos pneumatômacos).
Outro assunto bastante atual para as igrejas e para a Teologia na
academia é a conexão que pode ser feita entre a espiritualidade cristã e
a ecologia. Sánchez dedica espaço para a discussão e mostra com clareza
como a posição cristã se diferencia do neopaganismo.
Um dos pontos vitais da exposição de Sánchez sobre a Pneumatologia
é a importância do batismo de Jesus e particularmente a relação entre o
Espírito Santo e Cristo expressa naquele evento: “Se pensamos na pre-
sença dinâmica do Espírito no Filho, podemos dar ao batismo de Jesus no
Jordão o lugar constitutivo que lhe pertence, mas que não alcançou na
cristologia clássica. Este evento é tão importante na igreja primitiva que,
diferentemente do relato da concepção virginal, se encontra em todos
os evangelhos (Mc 1.9-11; Mt 3.13-17; Lc 3.21,22; Jo 1.29-34). Pedro

173
IGREJA LUTERANA

o inclui como dado básico na pregação da igreja nascente, junto com os


episódios chaves da morte e ressurreição (At 10.38).” (103)
Sánchez segue na linha da teologia luterana ao entender os meios
da graça como os instrumentos usados pelo Espírito para sua ação no
mundo. Para o autor é fundamental reconhecer que é escolha do Espírito
Santo atuar pelos meios que Ele próprio designou. Para Sánchez, isto não
significa entender estes meios como instrumentos mecânicos e automá-
ticos daquela ação. Desta forma, mostra o autor, preserva-se a liberdade
e o dinamismo do Espírito e ao mesmo tempo confessa-se aquilo que o
próprio Espírito revela sobre sua forma de agir.
A respeito dos dons espirituais, Sanchez procura evitar alguns extre-
mos e sugere o que chama de uma proposta “cautelosa, mas ao mesmo
tempo aberta”. Segundo ele, é preciso ressaltar tanto a diversidade de
dons como a unidade do propósito do Espírito em conceder os dons: “...
a diversidade de dons sem a unidade de seu propósito leva à divisão,
também ocorre que a unidade sem diversidade leva à uniformidade e à
hegemonia. [...] Quando indivíduos e seus dons, grupos e suas ideias,
dentro do corpo de Cristo ignoram ou suprimem a contribuição legítima
dos aparentemente mais débeis entre eles e enaltecem a dos que se cre-
em mais fortes em nome da unidade da igreja, o Espírito já não está por
detrás de tais manifestações. Aí se enalteceu o dom sobre a comunidade”,
afirma Sánchez. (143,4)
Em sua preocupação de mostrar o vínculo entre o Espírito Santo e sua
obra e Jesus, Sanchez articula de forma muito bem elaborada o argumento
de que a obra do Espírito de Deus tem uma dimensão corporal e históri-
ca, de modo que, para ele, “é fundamental afirmar que o Espírito nunca
deprecia o corpo, a vida e a história humana do Filho.” (151) Baseado na
presença ativa e amorosa do Espírito na humanidade de Jesus, Sánchez
denuncia como tendo origem no engano e no anticristo (cf. 1 Jo 4.2,3,6)
qualquer espiritualidade ou obra pastoral que minimize a importância do
corpo e sua história.
Recomendo este livro sobre a pessoa e obra do Espírito Santo, pela
forma positiva que se fundamenta na Escritura e nas Confissões Luteranas
e a partir do que examina com atenção questões contemporâneas sobre
a Pneumatologia. É uma leitura importante para pastores, estudantes de
Teologia e membros da Igreja que queiram aprofundar seu conhecimento
sobre Este que já foi chamado de o “Deus pouco conhecido”, mas cuja ação
é fundamental para a vida do povo de Deus neste mundo e sua condução
para a eterna comunhão com o Deus Triúno.

Gerson L. Linden
São Leopoldo/RS

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