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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

ÍNDICE

IGREJA LUTERANA
VOLUME 61 - NOVEMBRO 2002 - NÚMERO 2

Artigos
Que Dizer dos Evangelhos Apócrifos?
Vilson Scholz ..........................................................................

A Importância da Música Sacra na História


da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
David Karnopp ......................................................................

Movimento G-12 - O que é?


Edgar Züge ............................................................................

A Eucaristia nas Origens do Culto Cristão


Paulo G. Pietzsch ..................................................................

Auxílios Homiléticos .............................................................

Devoções ...............................................................................

Recensão ...............................................................................

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ARTIGOS

QUE DIZER DOS EVANGELHOS APÓCRIFOS?


*
Vilson Scholz

De uns tempos para cá, houve um renovado interesse nos assim chama-
dos evangelhos apócrifos. Até se publica livros sobre Jesus segundo os
Apócrifos. Ainda outro dia a revista Galileu (sucedânea de Globo Ciência)
quis uma entrevista sobre o assunto. Diante disto, cabem alguns dados a
respeito dessa literatura.

1. A razão do interesse — Fica a pergunta: Por que tal interesse nos


evangelhos apócrifos? Teria algo a ver com o famigerado “Jesus Seminar”,
que ganhou notoriedade nos Estados Unidos na década passada? Para
quem não lembra, o “Jesus Seminar”, além de se posicionar, por voto de
maioria, quanto à autenticidade das palavras de Jesus nos Evangelhos,
chegou à conclusão que Jesus era muito mais um sábio, um filósofo de
tendência cínica ou gnóstica (mais ou menos como se pensava a respeito
dele, em círculos acadêmicos europeus, no século XIX), do que propria-
mente um profeta apocalíptico (como muitos teólogos passaram a vê-lo
no início do século XX). Também se pode perguntar se as próprias
conclusões do “Jesus Seminar” não são um reflexo dessa releitura de
Jesus, feita, em parte, a partir dos apócrifos? Seja como for, é possível
traçar uma linha entre o “Jesus Seminar” e esse interesse pelos apócrifos,
pois a imagem de Jesus que emerge dos apócrifos é, em síntese, a ima-
gem de um mestre gnóstico. Isto porque muitos desses evangelhos fo-
ram produzidos num contexto gnóstico. O exemplo mais evidente é o
Evangelho segundo Tomé, uma coletânea de 114 palavras ou sentenças

*
Dr. Vilson Scholz é professor de Teologia Exegética (Novo Testamento) no Seminário Concórdia e na
Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

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atribuídas a Jesus, muitas delas sem paralelo nos evangelhos canônicos.1

2. O termo apócrifo – Pela etimologia, apócrifo é “coisa escondida, oculta”.


Na antiguidade, designava livros que se destinavam unicamente para
uso particular dos adeptos de uma seita ou membros de uma religião de
mistério.2 Entre os cristãos, veio a designar escritos cujo autor era des-
conhecido ou, então, cujo autor se ocultava sob um nome conhecido e
respeitado, para conseguir mais crédito junto ao público.3

3. Apócrifo versus canônico — Os apócrifos são livros que não pertencem


ao cânone bíblico. No caso dos evangelhos apócrifos, trata-se do cânone
do Novo Testamento (NT). Entende-se que o cânone estava definitiva-
mente fixado por volta do quarto século depois de Cristo,4 embora sua
estrutura básica já estivesse definida por volta do ano 200 depois de
Cristo. Logo, é a partir da noção de canônico que se define o que é
apócrifo. Em outras palavras, apócrifos do NT são livros que desenvol-
vem temas semelhantes aos dos livros canônicos e que pretendem de
forma mais ou menos velada arrogar-se o caráter de livros sagrados e
estar em pé de igualdade com aqueles que o cristianismo considera ins-
pirados, sem que tenham conseguido de fato entrar no cânone.

4. Tipos de apócrifos — Existem quatro grupos de apócrifos: evangelhos,


atos, epístolas, apocalipse. A maioria se enquadra nos dois primeiros
grupos: evangelhos e atos.5 Entre os muitos apócrifos do NT estão o
Evangelho segundo os Hebreus, o Proto-Evangelho de Tiago, o Evange-

1
Este evangelho apócrifo começa assim: “Estas são as palavras secretas que o Jesus vivo disse,
e Dídimo Judas Tomé escreveu: 1 – E ele disse: Quem descobre o sentido destas palavras não
experimentará a morte”. Evangelhos apócrifos. Tradução e introdução de Urbano Zilles.
Caxias do Sul e Porto Alegre: Pyr Edições, 1987, p. 59. O dito de número 10 ilustra a
semelhança desse material com os evangelhos canônicos: “Disse Jesus: Lancei fogo ao mundo
e o conservo até que arda”. Ibid., p. 60. O caráter gnóstico, e herético, transparece na última
sentença, a de número 114: “Simão Pedro disse-lhe: Maria afaste-se de nós, pois as mulheres
não são dignas de viver. Disse Jesus: Eis que a atrairei para fazê-la masculino, para que também
se faça um espírito vivo semelhante a vós homens, pois, toda mulher que se transforma em
varão entrará no reino dos céus. Evangelho segundo Tomé”. Ibid., p. 73.
2
OTERO, Aurelio de Santos. Los evangelios apocrifos: colección de textos griegos y latinos, versión
crítica, estudios introductorios, comentarios e ilustraciones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores
Cristianos, 1963, p. 1.
3
DATTLER, Frederico. Os evangelhos da infância de Jesus segundo Lucas e Mateus. São Paulo:
Edições Paulinas, 1981, p. 102.
4
O primeiro documento que traz a lista dos 27 livros, nem mais nem menos, é uma carta de
Atanásio, escrita em 367 depois de Cristo.
5
Convém notar que são poucos os casos de epístolas apócrifas, ou seja, epístolas escritas por uma
pessoa e atribuídas a alguém outro. Isto já era assim no período apostólico (primeiro século
depois de Cristo), e tem implicações para a discussão das assim chamadas “deuteropaulinas”.

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lho de Tomé, os Atos de Paulo e Tecla, etc. De alguns dos apócrifos só
se sabe que existiram, e isto a partir de outros documentos. Em outras
palavras, o texto desses apócrifos não foi preservado. De grande núme-
ro dos apócrifos só restam pequenos trechos, alguns preservados em
escritos de Pais Eclesiásticos, outros em fragmentos de papiros desco-
bertos recentemente em lugares secos como o Alto Egito. Pode-se afir-
mar que desapareceram os apócrifos mais antigos, de caráter mais duvi-
doso ou tendencioso. Sobreviveram os mais recentes, que estavam mais
próximos da teologia ortodoxa.6

5. Origem – Há quem diga que uma das influências para a escrita dos
evangelhos apócrifos foi a passagem de João 21.25. A isto se deve
acrescentar o gosto pelo extraordinário e misterioso, que caracteriza o
povo simples de qualquer parte do mundo, em especial também o povo
que habitava a parte oriental do mundo mediterrâneo. À ingenuidade do
povo crédulo se precisa acrescentar a astúcia dos hereges — docetistas,
gnósticos, e outros. Há momentos, ao que parece, em que até os assim
chamados ortodoxos recorreram ao gênero apócrifo para defender um
dogma. É o caso do Proto-Evangelho de Tiago, que defende a perpétua
virgindade de Maria.7 Aliás, parece que os evangelhos apócrifos surgi-
ram, em boa parte, da vontade de conhecer mais detalhes da vida de
Jesus, especialmente da natividade e infância (os assim chamados 18
anos de silêncio), bem como acontecimentos ligados à Sexta-feira Santa
e Páscoa (aqui entra o Evangelho de Pedro).8 Detalhes da vida de
Maria e dos apóstolos também foram assunto de alguns dos apócrifos.
O mesmo interesse em complementar o quadro pintado pelo relato
canônico se percebe nos atos apócrifos. Afinal, o Atos canônico se

6
OTERO, op. cit., p. 3.
7
No capítulo 19 deste apócrifo, que em alguns manuscritos recebe o título de “História do
nascimento da Santíssima Mãe de Deus e sempre virgem Maria”, uma parteira hebréia afirma
a virgindade de Maria. O texto reza assim: “Retirando-se a parteira da caverna, veio-lhe ao
encontro Salomé; e disse-lhe: Salomé, Salomé, contar-te-ei um novo prodígio; uma virgem deu
à luz, e não se lhe rompeu a ‘natureza’.” DATTLER, op. cit., p. 112. Na seqüência, Salomé
“estendeu o seu dedo à ‘natureza’ dela, mas soltou um grito e disse: Ai do meu crime e da
minha incredulidade, porque acabo de tentar o Deus vivo, e eis que a minha mão desprende-
se de mim como fogo!” Idem ibidem.
8
O evangelho de Pedro narra que, na noite que precedia o domingo, dois homens desceram do
alto, o sepulcro se abriu e eles entraram no mesmo. O relato segue assim: “Quando os soldados
viram isso, acordaram o centurião e os anciãos, pois também esses se encontravam aí para
vigiar. E, enquanto narravam o que tinham visto, vêem três homens sair do sepulcro, servindo
dois de apoio a um terceiro, e uma cruz os seguia. A cabeça dos dois primeiros tocava até o céu,
enquanto a do terceiro ultrapassava-o. Ouviram uma voz do céu a clamar: ‘Pregaste aos que
dormem’. [?] A partir da cruz ouvia-se uma resposta: ‘Sim’.” Evangelhos apócrifos, p. 52.

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limita às atividades de Pedro e Paulo. Em resumo, os apócrifos tentam
preencher lacunas, com apelo a uma imaginação não raras vezes bas-
tante fértil.

6. Influência — Ao longo dos tempos, os apócrifos exerceram influência


na piedade popular, na liturgia, na arte e na literatura. Algumas festas do
calendário católico não existiriam, não fossem os apócrifos. Ninguém
falaria em São Joaquim e Santa Ana, não fossem os apócrifos.9 Os três
reis magos (o dado de que eram reis, em número de três), bem como os
seus nomes, Melkon (=Melquior), Baltasar e Gaspar, derivam dos
apócrifos.10

7. Valor — Em geral os livros apócrifos são mais recentes do que os


canônicos (alguns do segundo século; muitos do quarto século). Quando
não são heréticos, têm pouco valor teológico. Na Igreja Antiga, não há
nenhum decreto oficial condenando categoricamente os apócrifos, as-
sim como também não houve um concílio ou coisa parecida para fixar o
cânone. Mas os teólogos, ou Pais Eclesiásticos, se manifestaram a res-
peito. Jerônimo achava que nada de bom podia ser encontrado neles. Já
Agostinho reconhecia que neles se podia encontrar “alguma verdade”
(aliqua veritas).11 Em tempos mais recentes, também há opiniões di-
vergentes. No século XVIII, por exemplo, a escola de Tübingen pensa-
va que os apócrifos serviram de inspiração aos canônicos. O curioso é
que ainda hoje muita gente pensa assim! Mais comum é simplesmente
ignorar os apócrifos, especialmente no mundo protestante.

Os apócrifos interessam ao historiador da igreja e da liturgia, e talvez


interessem à história da arte, mas têm pouca ou nenhuma importância para
a biografia de Jesus. Em geral, basta ler comparativamente um evangelho
canônico e um apócrifo para se notar a diferença. A linguagem dos apócrifos
tende a ser pobre, e muitos dos episódios são esquisitos, triviais e de mau

9
Os nomes de Joaquim e Ana aparecem no Proto-Evangelho de Tiago.
10
Lê-se no Evangelho Armênio da Infância, um apócrifo que foi traduzido do siríaco ao armênio
no final do sexto século: “E um anjo do Senhor se apressou em ir ao país dos persas para
prevenir os reis magos e ordenar-lhes que fossem adorar o menino recém-nascido. E estes,
depois de caminhar durante nove meses, tendo a estrela por guia, chegaram ao lugar de destino
no mesmo momento em que Maria veio a ser mãe. .... E os reis magos eram três irmãos:
Melkon, o primeiro, que reinava sobre os persas; depois Baltasar, que reinava sobre a Índia; e
o terceiro, Gaspar, que tinha em sua posse o país dos árabes”. OTERO, op. cit., p. 362 (nossa
tradução). Otero lembra que, na tradição latina, os magos são quatro, e não três. Na tradição
siríaca posterior, são doze.
11
OTERO, op. cit., p. 7.

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gosto. No entanto, este é um critério meramente estético. É na visão
teológica que se percebe a grande diferença em relação aos canônicos. A
própria estrutura de muitos dos evangelhos apócrifos, que, em geral, têm um
fundo gnóstico, já indica algo de sua orientação teológica. Falta-lhes uma
estrutura narrativa, ou seja, tendem a ser um aglomerado de sentenças atri-
buídas a Jesus. Além disso, não trazem uma narrativa da paixão de Cris-
to.12 A morte de Cristo, se não é de todo omitida, é tratada apenas de leve.
Na visão cristã gnóstica, a iluminação da mente possibilita que se evite o
sofrimento. Assim sendo, a glória de Jesus acaba engolindo seu sofrimento.
Em contraposição, os evangelhos canônicos, que também culminam com a
ressurreição de Jesus, mantêm esta realidade em tensão com o seu sofri-
mento e morte. Em nenhum dos quatro evangelhos canônicos o escândalo
da cruz é removido pela ênfase na sua glória. Em cada um deles, a rota
para a glória passa pelo vale do sofrimento. Nisto os evangelhos canônicos
concordam entre si e divergem fundamentalmente dos apócrifos.13

12
Os evangelhos canônicos são, na clássica frase de Martin Kähler, narrativas da paixão de Cristo
com uma longa introdução.
13
Quem acentua esta diferença é Luke Timothy Johnson, em The Real Jesus: The Misguided Quest
for the Historical Jesus and the Truth of the Traditional Gospels (San Francisco: HarperCollins,
1997), uma obra escrita para fazer frente aos pontos de vista do “Jesus Seminar”.

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AIMPORTÂNCIA DA MÚSICA SACRA


NA HISTÓRIA DA
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL
David Karnopp*

A igreja luterana já foi chamada de “a igreja que canta”. Deve-se isso


ao grande impacto que causou a música na vida e obra do Reformador
Martinho Lutero. Não me proponho, porém, a entrar no mérito dessa afir-
mação. Fato é que na história da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
(IELB) a música tem exercido um papel importante. Isso já se pode notar
pela 22ª Convenção Nacional de 1934, que elegia uma comissão “para di-
fundir a música e o canto sacros no seio da igreja”.1 No momento em que se
está vivendo o espirito do centenário dessa instituição, é saudável resgatar a
sua história com relação à música. Neste texto me proponho resgatar, pelo
menos em parte, dois aspectos: um pouco da história e da filosofia da músi-
ca na IELB.

1. UMA VISÃO PANORÂMICA DA MÚSICA

1.1 A IELB E SEUS MÚSICOS


Ao rever a história, nada mais justo do que lembrar aqueles que deram
valiosas contribuições na área da música. Fazendo assim, sempre se corre o
risco de se esquecer nomes importantes. Mas Deus viu a obra de cada um
deles, que certamente não foi em vão. Sem menosprezar outros, menciono
alguns nomes cuja obra musical foi de grande importância na história da
IELB.
Um dos que mais se dedicou na área musical foi o pastor e professor do
Seminário Concórdia de Porto Alegre, Werner K. Wadewitz. Na sua épo-
ca, foi um grande incentivador da música na igreja. Foi tradutor e escritor
de hinos e regente de corais. Um dos hinos mais queridos na IELB, “Res-
surgiu Jesus Senhor” (Hinário Luterano 117), é de sua autoria. Marcou
também forte presença outro professor do Seminário Concórdia, Johannes
H. Rottmann, como músico e regente de coral.

*
Rev. David Karnopp é pastor em Panambi, RS.
1
Carlos Warth, Crônicas da Igreja (Porto Alegre: Concórdia, 1979), p. 246.

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Uma das atuações mais significativas no campo da música em nossa
igreja é de Hans-Gerhardt Rottmann. Hans-Gerhardt foi professor de mú-
sica e liturgia no Seminário Concórdia, regeu vários corais, editou livros de
músicas. Foi também coordenador da última edição do Hinário Luterano e
gravou vários discos. Ele “sempre será lembrado como o primeiro grande
músico e maestro oriundo da IELB”2. Seu trabalho foi marcado pela pre-
servação da arte sacra luterana.
Jamais se pode esquecer de Rodolpho Hasse. Só no Hinário Luterano
temos, de sua autoria, 63 hinos e mais 83 de sua tradução, num total de 146
hinos. Em termos de música sacra o Hinário Evangélico Luterano foi a
sua grande obra, pois ele encabeçou a sua compilação e revisão.
Outro nome é o de Martinho Luthero Hasse. No âmbito da poesia, hinos
e melodias, ninguém, talvez, na história da IELB, tem tanta expressividade
como ele. Numa carta que enviou para a pesquisa deste trabalho, o pastor
Hasse informa o seu acervo poético-musical. O número de hinos, desde
composições sobre os mais diversos temas até algumas adaptações e tradu-
ções, ultrapassa o número de 400 hinos. Os poemas sacros que escreveu,
ultrapassam os 500, dos quais 145 para sua esposa. Além disso, ainda com-
pôs várias melodias para seus hinos e canções e escreveu hinos e poemas
em inglês e alemão. Todo seu acervo poético-musical ultrapassa o número
de 1000 títulos.3 É interessante notar que Paul Gerhardt, considerado o
maior poeta da história do luteranismo, tem um acervo de apenas 123 hi-
nos.4 Além de todo este cabedal, Martinho L. Hasse foi o primeiro a se
preocupar em tornar conhecida a história dos hinos. No final da década de
1950 e início de 1960, publicou histórias de alguns hinos, através da revista
O Jovem Luterano. Numa destas revistas ele lamenta o “quase completo
desconhecimento que as congregações têm da origem destes hinos, do nome
dos seus autores e das circunstâncias em que surgiram”. No mesmo artigo
ele alimenta um sonho de um dia ter “condições de publicar alguma obra
histórica referente aos hinos luteranos e sua origem”.5 A obra musical, a
beleza poética, a clareza e profundidade doutrinária dos seus hinos fazem
dele quiçá o maior poeta da história da IELB. Além disso, a genialidade da
sua poesia não é em nada menor do que a poesia dos grandes poetas da
história da igreja cristã.

2
Walter O. Steyer, “O maestro foi transferido”, Mensageiro Luterano (Maio de 1992): 13.
3
Martinho Luthero Hasse. Em carta enviada para este trabalho. Documento não publicado.
4
David Karnopp, Música e Igreja (Passo Fundo: Pe. Berthier, 1999), p. 67.
5
Martinho Luthero Hasse “Conhece os hinos que cantas?”. O Jovem Luterano, Porto Alegre, v.
22 (5,6): 26. Um exemplo de comentário sobre hinos luteranos está na edição de Julho-Agosto
de 1956, p. 19. A primeira obra na IELB que trata da história dos hinos foi publicada somente
1999, de autoria nossa (cf. nota anterior).

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Ainda é merecedor de lembrança Leonido Krey, que se tornou conheci-
do como tradutor e escritor de hinos e canções folclóricas, cuja vasta obra
lhe possibilitou publicar várias coletâneas de músicas. Notabilizaram-se tam-
bém por traduzir e compor hinos: Theodor Reuter e Nestor Welzel.

1.2 A IELB E SEUS HINÁRIOS


Quando os missionários americanos vieram ao Brasil para iniciar o tra-
balho da igreja, empregaram a língua alemã. O hinário que trouxeram con-
sigo também era em língua alemã,6 que aqui foi usado por muito tempo. E
mesmo o cantar de hinos alemães em muitos lugares ainda persiste. Em
1917, o Brasil, porém, rompeu relações diplomáticas com a Alemanha. Em
conseqüência, o uso da língua alemã foi proibido nas igrejas e nas escolas.
Como nem todos os pastores e membros sabiam falar ou entender portugu-
ês, várias igrejas permaneceram fechadas. Esta proibição, no entanto, “le-
vou os pastores a traduzirem os primeiros hinos, orações e porções da liturgia
para o português”.7 Os primeiros pastores a traduzirem hinos foram Martin
F. Frosch e Emil F. Mueller.8 Quando terminou a Primeira Guerra mundial,
a língua alemã voltou a ser usada até o período da Segunda Guerra. Mas a
base para a nacionalização da nossa linguagem cúltica havia sido lançada.
Outro fator relevante a dar impulso no uso da língua nacional foi a abertura
da missão Luso-brasileira em Lagoa Vermelha no estado do Rio Grande do
Sul.9 Em prol desta missão foi elaborado, em 1920, um hinário em língua
portuguesa com 23 hinos e algumas orações chamado Hymnos e Orações.
Outras edições seguiram com 25 hinos. Este Hinário basicamente é obra do
pastor Rodolpho Hasse, que traduziu hinos da língua alemã e adaptou outros
do hinário, Salmos e Hinos.10
Em 1938 o então Sínodo Evangélico Luterano, hoje IELB, dava um pas-
so decisivo no uso da língua nacional, quando editava o Hinário Evangéli-
co Luterano, com 217 hinos, encabeçado pelo pastor Rodolpho Hasse. A
convenção nacional da IELB de 1940 reconheceu o trabalho do pastor Hasse
e “expressou sinceros votos de agradecimentos pelo seu trabalho na con-
fecção do hinário português”.11 Mas cedo constatou-se que este hinário era
insuficiente. Por isso em 1946 ele recebeu um apêndice dos hinos 218 ao
315, sendo este apêndice reeditado em 1947. O estoque deste hinário esgo-

6
Kirchengesanbuch. Posteriormente foi publicado pela Casa Publicadora Concórdia, com 479
hinos.
7
Paulo Wille Buss, Histórico da nossa Prática Litúrgica. Monografia não publicada.
8
Warth, op. cit., p. 40, 41. No Hinário Luterano não constam hinos destes pastores.
9
Id., p.39-43 .
10
Salmos e Hinos é o primeiro hinário evangélico publicado no Brasil. Sobre sua história veja em
Karnopp, op. cit., 96-99.
11
Warth, op. cit. p. 248.

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tou e o único hinário que a IELB tinha à disposição era este apêndice. Mas
havia uma comissão que estava “em franca atividade”, trabalhando num
novo hinário e que pretendia entregá-lo em breve.12 Pois em 1949 foi publi-
cado o novo hinário com 340 hinos e assim permaneceu por 25 anos. Em
1972 a convenção nacional da IELB elegeu uma comissão para revisar este
hinário13. O resultado saiu em 1974 quando foi editado um novo apêndice
com 112 hinos sob o nome de Hinário Luterano: Segunda Parte. Este
apêndice era provisório, pois um hinário em caráter definitivo devia ser pu-
blicado. Finalmente no dia 9 de outubro de 1986, depois de 14 anos de traba-
lho com uma equipe de 20 integrantes,14 o novo hinário foi apresentado à
IELB,15 sob o nome Hinário Luterano, com 573 hinos.
Sob muitos aspectos, o novo hinário teve boa receptividade. Sua beleza e
qualidade poética foram muito elogiadas. Seu conteúdo doutrinário foi visto
como “autêntico tesouro teológico”, como “obra monumental” e como “obra
missionária de maior peso já lançado pela IELB”.16 No entanto foi bastante
criticado.17 Entre as críticas levantadas, ele foi acusado de estar fora da
realidade brasileira, principalmente no que se refere à música.18 Foram
questionadas algumas melodias, alegando-se que são “difíceis de serem
cantadas” e cheias de “floreios”. Questionou-se também a pauta musical
que acompanha a primeira estrofe de cada hino com a alegação de que
poucas pessoas conheciam notas musicais e, assim, o proveito seria míni-
mo. Outro aspecto criticado foi seu tamanho, o que é compreensível se o
compararmos com o do hinário anterior. O atual consta de 951 páginas,
enquanto o antigo hinário tinha 490 páginas. Mais tarde este problema foi
resolvido quando foram publicados hinários com o mesmo número de pági-
nas, porém, com letras menores.
Vimos assim que o hinário oficial tem uma trajetória de várias edições.
Esta é uma forma de se atestar que um hinário não é eterno. O passar dos
tempos e o avanço da igreja para novas frentes de missão, requerem a
contextualização da música.

12
Id., p. 251.
13
Id., p. 262.
14
Hinário Luterano: Igreja Evangélica Luterana do Brasil. 4. ed. (Porto Alegre: Concórdia,
1991), p. 8 apresenta a listagem dos integrantes da equipe que o elaborou.
15
Mensageiro Luterano, (Novembro 1986): 23.
16
Como mostram cartas publicadas no Mensageiro Luterano (Maio 1987): 2; (Julho 1987): 33;
(Outubro 1987): 31.
17
Mensageiro Luterano, (Maio 1987): 2; (Junho 1987): 32; (Julho 1987): 33; (Agosto 1987): 2;
(Setembro 1987): 2; (Outubro 1887): 31.
18
O Hinário Luterano compõe-se de 573 hinos. Algumas músicas, porém, aparecem mais de uma
vez, o que o reduz a 405 músicas. Destas, apenas 27 são brasileiras, apenas 18 são de
composição de autores da IELB. Destas 18 melodias, 16 são do pastor Martinho Luthero Hasse
e duas são do pastor Theodor Reuter.

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Não é propósito deste trabalho avaliar as criticas levantadas ao Hinário
Luterano. Me proponho, sim, a resgatar o fato histórico do hinário. O Hi-
nário Luterano é uma grande obra. Nas palavras de quem coordenou os
seus trabalhos, “a comissão fez sete revisões dos textos originais e tradu-
ções para que se chegasse ao melhor texto final possível. Para se chegar à
seleção final dos 573 hinos pesou-se muito o conteúdo bíblico-doutrinário, a
importância do hino na história do louvor do povo de Deus, a linguagem
clara e beleza poética e a melodia”.19

Uma característica marcante na formação da hinódia evangélica brasi-


leira, é o “empréstimo” de hinos de outras igrejas, de forma especial do
hinário Salmos e Hinos. A maioria das igrejas evangélicas no Brasil bene-
ficiou-se deste hinário para formar sua hinódia.20 No caso da IELB, este
hinário e também outras fontes têm forte presença.21 Para termos uma
idéia, basta ver que a sua maior compiladora, Sara Poulton Kaley tem no
atual Hinário Luterano, 26 hinos de sua autoria e mais três de sua tradu-
ção. O filho adotivo desta autora, João Gomes da Rocha, tem seis hinos de
sua autoria e mais cinco de sua tradução no Hinário Luterano. E por que
este hinário teve tamanha influência na formação do Hinário Luterano?
Ocorre que o hinário Salmos e Hinos nasceu no Rio de Janeiro, onde tam-
bém viveu por longos anos Rodolpho Hasse, o maior responsável pela for-
mação do Hinário Evangélico Luterano. É compreensível que ele esti-
vesse bastante familiarizado com estes hinos e os tivesse “tomado empres-
tado” para o hinário da IELB. Além disso, tais hinos já estavam em língua
portuguesa. Repentinamente, quando o uso da língua alemã foi proibido, era
fácil de “tomá-los emprestados”. É possível que este empréstimo de hinos,
de certa forma, nos tenha ajudado a nos aproximar e a nos identificar com
as igrejas evangélicas no Brasil.
Paralelamente ao Hinário Luterano, a IELB tem, na sua história, vári-
os outros livros musicais. Entre eles constam coletâneas de hinos com
músicas e livros para corais e organistas. Na década de 1960, com a ex-
pansão missionária, o Departamento de Missão da IELB preocupou-se em
oferecer um hinário voltado para as missões. Por isso em 1968 foi editado
um hinário com essa visão e que constava de 54 hinos selecionados do
Hinário Luterano e do Cantor Cristão. Em 1974 este hinário foi amplia-

19
Hans Gerhard F. Rottmann, “Hinário Luterano”, Igreja Luterana, 47 (1), (1988): 78.
20
Henriqueta Rosa Fernades Braga, Música Sacra Evangélica no Brasil (Rio de Janeiro: Kosmos,
1961).
21
Por exemplo o hinário Louvai ao Senhor” recebeu vários hinos do hinário batista Cantor
Cristão.

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do para 90 hinos com a edição de 5.000 exemplares.22 Em 1988, catorze
anos após, quando já havia sido lançado o novo hinário da IELB, este hinário
foi substituído pelo Louvai ao Senhor, com 158 hinos. Como é mencionado
na sua página de apresentação, o Louvai ao Senhor não quer atingir um
público específico, mas pretende “ser um hinário para fins e usuários diver-
sos”. Uma vez que seu estilo é de “melodias mais leves e andamentos mais
fluentes”23 e por nele haver vários hinos de autores brasileiros, preencheu
de certa forma aquela lacuna pela qual o Hinário Luterano fora criticado.
Um setor onde a IELB não se omitiu em termos de música foi com os
seus jovens. Há muito que ela vem procurando oferecer música mais apro-
priada para o público jovem. Os primeiros livros de canções voltados para
jovens foram Hinos e Canções de Rodolfo A. Warth e Lira Juvenil de
Leonido Krey.24 Mais tarde a própria Juventude Evangélica Luterana do
Brasil (JELB) começou a editar hinos em pequenos livretes fotocopiados.
O passo mais decisivo foi dado em 1982 pelo Distrito Porto-Alegrense (DIPA)
ao lançar a coletânea Musi Jovem, com 100 hinos e cânticos. Esta coletâ-
nea tinha o objetivo de trazer “hinos para a juventude de hoje” e “para
reuniões de jovens”25, servindo de base para o hinário Todos os Povos o
Louvem, que a JELB editou em 1982.
Outro trabalho relevante na IELB, ainda que tarde, foi o lançamento do
hinário Cânticos de Louvor, em dois volumes, com músicas próprias para
crianças. A primeira edição saiu em 1985. Até então, não havia um hinário
oficial da IELB com músicas para crianças. Esta lacuna era, em grande
parte, preenchida com os hinários da APEC, Cânticos de salvação.26
Pelos vários hinários, cancioneiros e livros musicais que a IELB produ-
ziu na sua história, podemos concluir que ela soube abraçar os desafios que
tinha diante de si. Já o lançamento do primeiro hinário em língua portuguesa
é prova disso. Desde cedo ela procurou voltar a sua hinódia e música para
realidades diferentes e não ignorou o contexto em que viveu e atuou. Assim
foi descobrindo que, ao lado do harmônio, era possível usar o violão e outros
instrumentos para louvar ao Senhor e propagar a Palavra. Em conseqüên-
cia ela também se viu cantando em ritmos diferentes do que o tradicional,
com o bater palmas e coreografias.

22
DEPARTAMENTO DE MISSÃO. Mensageiro Luterano (Abril 1974): 6.
23
LOUVAI AO SENHOR, (Porto Alegre: Concórdia, 1988), p. 7.
24
Warth, op. cit., p. 221.
25
Gijsbertus van Hattem, comp.MUSIJOVEM (Porto Alegre: DIPA), 1980.
26
Aliança Pró Evangelização das Crianças – APEC, que através da Imprensa Metodista, São
Bernardo do Campo, produziu hinários, com notas musicais, próprio para crianças.

160
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
1.3 A MÚSICA NAS ESCOLAS PAROQUIAIS
Quando missionários americanos se estabeleceram aqui no Brasil, trou-
xeram consigo uma forte política educacional, firmada no lema “ao lado de
cada igreja uma escola”.27 Várias escolas foram criadas, sendo que, no
final da década de 1950, a IELB chegou a ter 150 escolas paroquiais.28 Em
muitos casos elas foram o único meio de os filhos dos imigrantes terem
acesso ao ensino fundamental. Estas escolas não serviram apenas para
ensinar seus alunos a ler e escrever. O ensino religioso, por exemplo, ocu-
pava uma boa parte do currículo escolar. E é nesta parte que a música teve
um lugar importante e deixou marcas na igreja.
As primeiras escolas já tinham aulas de música, canto e memorização de
hinos no seu currículo.29 A memorização de hinos foi uma característica forte
nas escolas, o que contribuiu para que a IELB aprendesse a cantar muito.
Sobre este aspecto diz Carlos Fürstenau que “geralmente era cantado o mes-
mo hino durante um mês”, com o objetivo de memorizá-lo. Ele diz mais:
“antigamente se cantava muito nas escolas”. E, na sua opinião, “muitos dos
hinos hoje conhecidos na igreja foram aprendidos nas escolas paroquiais”.30
Henriqueta Rosa Fernandes Braga registra este aspecto, quando fala da vida
devocional no Instituto Santíssima Trindade de Moreira e diz que “no orfanato,
os hinos sacros acompanham diariamente as crianças”. Ela diz também:

Após o café da manhã, antes que se dispersem... reúnem-se em


família para o culto doméstico, no qual não faltam os cânticos. O
[hino] da abertura é chamado de hino da semana porque se mantém
o mesmo pelo espaço de sete dias a fim de que todos possam aprendê-
lo e decorá-lo, havendo grande preocupação em que seja claramente
compreendido o espírito da letra. Desta maneira as crianças adqui-
rem, sem muito esforço, um rico cabedal de textos e melodias.31

Nota-se que havia um grande interesse pelo ensino da música sacra nas
nossas escolas, principalmente no aprendizado de hinos. Preocupado com a
importância da música na escola foi que Wadewitz escreveu um artigo onde
incentiva o cantar de hinos nas escolas porque “a palavra de Cristo opera no
coração das crianças através dos hinos” .32 Vê também um aspecto instru-

27
Walter O. Steyer, Imigrantes alemães no Rio Grande do Sul e o Luteranismo (Porto Alegre:
Singulart, 1999), p. 36.
28
Warth, op. cit., 256.
29
Steyer, op. cit., p. 41, 88, 90, 91.
30
Carlos Fürstenau, em Entrevista não publicada. Além de ter recebido sua formação básica em
escola da IELB, formou-se professor pelo Seminário Concórdia em 1941.
31
Braga, op. cit., p. 215.

161
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
tivo no cantar de hinos: “criança que canta não briga; e, cantando hinos,
estará louvando a Deus. O ambiente todo duma escola pode mudar pelo
simples canto de um hino”. Nota-se, porém, que ao escrever este artigo, o
que Wadewitz mais almejava é que os hinos fossem aprendidos na escola
para serem aproveitados nos cultos. Na sua opinião, o canto congregacional
deveria começar na escola paroquial. Por isso chama a escola de “van-
guarda da música, dos hinos e da liturgia”.33

1.4 A MÚSICA CORAL


Na história da música da IELB, o que sempre teve lugar privilegiado foi
o coro. A maioria das congregações teve algum tipo de trabalho coral. O
grande interesse por eles pode estar vinculado ao germanismo e à própria
história do luteranismo, que estão fortemente ligados à música coral. Daí é
compreensível que o coral faça parte da nossa história.
Um dos primeiros registros de uma apresentação de coral na história da
IELB é de 1908 pelo coral da congregação Cristo de Porto Alegre, que
“apresentou um belo concerto por ocasião da 4ª Convenção Nacional”.34
A atuação mais significativa de um coral na história da IELB é a do Coral
Luterano de Porto Alegre. Ele surgiu em 1956 como “Orfeão Juvenil Luterano”
formado por jovens da uniões juvenis da IELB de Porto Alegre, sob a regência
do então estudante do Seminário Concórdia, Hans-Gerhard Rottmann. Em
1960 a 36ª Convenção Nacional da IELB o transformou em coro oficial da
igreja sob o nome de “Coral Luterano”. O coral gravou vários discos, cuja maior
parte eram hinos do Hinário Luterano, que contribuíram para que as congre-
gações aprendessem a cantar os hinos deste hinário. Foram também diversas
as excursões pelo sul do Brasil. O coral também participou em diversos festi-
vais nacionais e internacionais de coros, sempre se classificando entre os finalistas.
Possuía um vasto e variado repertório, desde músicas simples até obras de
grandes compositores, algumas inéditas no país. Merecem destaque os cultos
“Cantate” realizados anualmente em Porto Alegre, que era certamente um dos
maiores eventos sacros da capital gaúcha. Durante muitos anos, o Coral Luterano
foi um dos mais respeitados e prestigiados corais na grande Porto Alegre.35
Outro coral de grande expressão na história da IELB é o coral do Semi-
nário Concórdia. Ele surgiu em 1940, sob a direção de Werner K. Wadewitz,
integrado pelos alunos do Seminário. Inicialmente era conhecido como “Coro

32
Werner Karl Wadewitz, “A Importância da Música na Igreja e Na Escola”, Igreja Luterana,
Porto Alegre, v. 19, (5) (1958): 195-206.
33
Id., p. 199, 200, 203, 204, 206.
34
Warth, op. cit., p. 237.
35
Hans G. Rottmann, “Vinte e Cinco Anos do Coral Luterano”, Mensageiro Luterano, Porto
Alegre, (Janeiro 1982): 9-13.

162
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Radiofônico”, pois “gravava hinos luteranos em discos que eram usados nas
diversas irradiações”36 dos programas da Hora Luterana. Wadewitz fala
da função do coro na igreja e incentiva as congregações a formarem corais,
tendo “em vista o bem da igreja, servindo assim ao Senhor em adoração e
louvor”.37 Isso demonstra que o coral tem, desde o início, um lugar assegu-
rado na IELB. Qual é função dele na história e objetivos da igreja?
Primeiramente quer se ver o coro inserido no culto. Por isso incentiva-
se uma unidade na linguagem do culto. O coro não pode destoar desta uni-
dade. Pietzsch diz que esta unidade do culto “é salutar para um melhor
aproveitamento e retenção da mensagem por parte da congregação”. Diz
ainda que “por isso o coral sempre deveria estar inserido nesta unidade e os
textos de suas músicas deveriam estar relacionados com a mensagem cen-
tral”.38 Wadewitz salienta que “o hino do coro deve combinar com o espíri-
to do culto do dia. Não se canta um hino só porque o coro o conhece e o
sabe cantar, para servir à congregação meramente um prato musical e ar-
tístico”.39 Estando inserido nesta unidade, o principal objetivo do coral na
história da IELB é o de ensinar, ensaiar, conduzir e estimular o canto
congregacional. Não se quer um coral apenas para fazer apresentações.
Esta linha de pensamento transparece em vários escritos. Segundo Rottmann,

O coro, sendo parte integrante da comunidade, deve dirigir a mes-


ma no louvor. Deve o coro saber que sua função não é somente de
embelezar fazendo com que a congregação seja mera platéia. Não é
um concerto que o coro dá no culto. O cantar do coro é dirigido a
Deus em primeiro lugar e quer fazer com que toda congregação tam-
bém participe deste louvor. O coro deve ser o elemento vivo a condu-
zir todo cantar da comunidade, tanto nos hinos como na liturgia. É o
coro que zela pelo cantar correto...40

Rottmann afirma também que “na congregação em que o coro realmen-


te cumpre sua tarefa encontraremos uma comunidade que canta com ale-
gria contagiante”.41 Blum, ao falar da implantação do novo hinário, diz: “Se
a congregação tiver um coral, este deverá exercer sua função de líder no

36
Warth, op. cit. p. 226, 228.
37
Werner K. Wadewitz, “O Coro da Igreja”, Igreja Luterana, Porto Alegre, v. 5 (Setembro –
Outubro 1944): 149-152.
38
Paulo Gerhard Pietzsch, “A importância da música no culto divino”, Igreja Luterana , São
Leopoldo, v. 58, n. 1 (Junho 1999): 55.
39
Wadewitz, “O coro da igreja”, op. cit., p. 150.
40
Hans Gerhardt Rottmann, “O coro da congregação”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre
(Dezembro 1980): 10.
41
Ibid.

163
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
canto congregacional”.42 Também Wadewitz vê este como objetivo do co-
ral: “Vêm João e Pedro, vêm Alma e Luísa. Forma-se o coro. Verdadeira-
mente um coro misto para iniciar o trabalho. Que fazer? Primeiro cantar à
uma voz hinos do hinário, os hinos do próximo culto, para os membros do
coro poderem guiar e orientar o canto, para que não seja necessário o pas-
tor enrouquecer antes do sermão por gritar alto os hinos”.43

De fato, muitos dos hinos hoje cantados na IELB o são porque algum
coral os ensaiou antes. Além disso, muitas congregações perderam o medo
de cantar porque um grupo coral serviu de apoio e estímulo. Daí a sua
importância. Justamente a opinião de que “toda congregação, por menor
que seja, deve procurar organizar o seu coro”.44

2. A FILOSOFIA COM RELAÇÃO À MÚSICA SACRA


Como se pensou e se compreendeu a música sacra na história da IELB?
Qual é o lugar que ela ocupa como meio de propagação do que a IELB
ensina? É certo que nunca houve nela uma filosofia de música estabelecida.
No entanto, aquilo que se escreve sobre música e hinódia da igreja, eviden-
cia a sua posição.

2.1 A MÚSICA COMO ARTE


A música sacra é um lago que não tem um fim em si mesmo; é antes
uma vertente de fluxo circular. Ela serve tanto para conduzir a mensagem
de Deus ao povo como levar a resposta do povo a Deus. Por isso ela tem
servido para embelezar, dar brilho e enriquecer o culto divino. Ela é vista
como expressão viva da fé cristã, que responde de forma criativa ao Senhor
que ama seu povo. “Quando pensamos em música sacra, podemos dizer
que ela é arte que brota da cruz e é levada até a cruz”.45 Ou, então, “é por
intermédio da música que se pode melhor expressar o júbilo perante Deus e
render-lhe graças. A palavra revestida de música impressiona mais...”46
Pode-se dizer que “o nosso cantar é uma resposta da fé ao amor de Deus.
Daí não é possível que os cristãos cantem tristes lamúrias ao Senhor que
tanto os amou”.47 Ao se fazer referência à milagrosa travessia do povo de
Israel pelo Mar Vermelho e o conseqüente Cântico de Moisés, pode-se
afirmar que:

42
Raul Blum, “Implantação do Novo Hinário”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Julho
1987): 30.
43
Wadewitz, “O coro na igreja” op. cit., p. 151.
44
Rottmann, “O coro da congregação”, op. cit., p. 10.
45
Pietzsch, op. cit., p. 43.
46
Wadewitz, “A importância da música na igreja e na escola”, op. cit., p. 200.
47
Karnopp, “Música e adoração”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Junho 1998): 18.

164
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
É certo que nós não vemos um mar aberto para passarmos, mas
temos diante de nós um milagre maior. Por meio da morte e ressur-
reição de Cristo, Deus realizou a maior de todas as obras, abrindo-
nos a passagem pela porta do céu, para a bem-aventurada vida eter-
na. Isso é motivo para cantarmos com fervorosa alegria. A música é
umas das formas mais brilhantes e criativas de adorar a Deus por
causa do seu grande amor. Por Deus ter feito tão grande benefício
por nós, façamos da nossa música uma alegre adoração... Nosso
cantar precisa ser um fervoroso testemunho para o mundo, de que
estamos certos de que Deus triunfou gloriosamente no meio de nós.48

Por estas opiniões, vemos que a música na IELB é uma arte que enri-
quece o culto.

2.2. A CONFESSIONALIDADE NA MÚSICA


A IELB, desde o seu início, tem uma forte característica confessional. Isso
significa que ela adota documentos oficiais como exposição correta da Sagrada
Escritura os quais estão reunidos no Livro de Concórdia49. Tais documentos
expressam a doutrina que ela confessa e ensina. E a música não foge disso. O
próprio regimento da IELB compromete seus pastores e congregações a “usar
formas cúlticas, hinos... que estejam de acordo com a Escritura Sagrada e as
Confissões Luteranas.”50 A IELB tem registrado na sua história um grande
cuidado quanto ao conteúdo doutrinário dos hinos, para que eles sejam uma
forma correta de proclamação e defesa da doutrina pura. Em outras palavras,
aquilo que se canta, deve estar coerente com o que se prega. Essa preocupa-
ção está clara em vários escritos. Blum, ao falar do pastor como responsável
pela escolha dos hinos a serem cantados pela congregação, afirma:

Quanta asneira doutrinária muitas vezes é dita através de hinos


provindos das mais diversas fontes. E nós os consumimos às vezes
até dentro do culto. Acha-se um hino fácil e bonito para o coral e por
isso ele é cantado, esquecendo-se de olhá-lo em seu conteúdo doutri-
nário. Encontra-se um hino vibrante para os jovens e engraçadinho
para as crianças e não raras vezes menospreza-se o estrago doutri-
nário que ele vai incutir na mente de crianças e jovens ...51
48
Id., “O Cântico de Moisés, um exemplo de adoração”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre
(Agosto 1998): 18.
49
LIVRO DE CONCÓRDIA. Arnaldo Schüler, trad. (Porto Alegre/São Leopoldo: Concór-
dia/Sinodal, 1980).
50
IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL: Estatutos, Regimento e Código de Ética
(Porto Alegre: Diretoria Nacional, 2002), p. 48, 56.
51
Raul Blum, “O pastor Como Líder do Canto na Congregação”, Vox Concordiana: Suplemento
Teológico, São Paulo (Ano 1, n.º 2, 1985): 9.

165
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
A Comissão de Teologia e Relações Eclesiais da IELB emitiu um pare-
cer oficial da IELB em relação ao hinário Louvai ao Senhor, editado por
um Conselho Distrital. O documento alerta: “Verifica-se no cancioneiro a
presença de elementos que comprometem a doutrina pura segundo a Bíblia
e as confissões luteranas. Tal fato, portanto, impede que congregações
luteranas entoem cânticos em desacordo com aquilo que confessam”.52

A responsabilidade com a teologia luterana nos hinos também é preocu-


pação de Pietzsch quando diz: “... não basta o hino ser bonito e agradável ao
ouvido... O cuidado com a pureza doutrinária é fundamental, pois através do
cantar o Evangelho deve ser anunciado. Cuidado com os famosos hinos de
apelo à fé, ou que meramente descrevem experiências particulares, ou ain-
da, que confundem Lei e Evangelho”.53

Um comentário sobre a música jovem na IELB na década de 80 resume


a preocupação da IELB quanto à questão doutrinária dos hinos:

Apesar disso, no entanto, ainda são relativamente poucas as músi-


cas encontradas neste hinário jovem citado [Todos os Povos o Lou-
vem]. Isto faz com que algumas uniões juvenis recorram a músicas
de outras denominações cristãs, utilizando estas músicas
freqüentemente em suas reuniões ou até mesmo publicando seus hi-
nários locais com tais músicas sem terem submetido as tais canções
a qualquer supervisão teológica de seus pastores. Isto vem a consti-
tuir-se num risco bastante grande para aqueles jovens e cristãos em
geral que cantam as músicas sem prestar atenção na teologia envol-
vida nas mensagens destas músicas.54

Muito antes destas afirmações terem sido emitidas, Hasse já chamava a


atenção para uma maior valorização do conteúdo doutrinário dos hinos. Diz
ele que, “por nossos hinos serem substancialmente doutrinários”, precisa-
mos nos apegar a eles “com quase o mesmo ardor com que nos apegamos
à pureza evangélica”. Mais adiante, ao comentar sobre o sentimentalismo
em torno do sermão e dos hinos, declara: “Não é o gosto, mas a necessidade
da congregação que deve decidir a escolha tanto do sermão como do hino”.
E finaliza: “Não percamos tempo no templo agradando aos sentidos, mas
falando à alma com os nossos hinos“.55
52
COMISSÃO DE TEOLOGIA E RELAÇÕES ECLESIAIS, “Parecer quanto ao hinário
Louvai ao Senhor”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Abril 1992): 31.
53
Pietzsch, op. cit. p. 56.
54
COMO VAI A MÚSICA NA IELB, Vox Concordiana, São Paulo (Ano 8, n.2, l989): 3.
55
Hasse, op. cit., (Março Abril (3, 4). 1961): 25.

166
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Esta profundidade teológica, doutrinária e confessional o próprio Hiná-
rio Luterano a demonstra. Seus hinos são profundos na pregação da Lei de
Deus sobre o pecado. Também são muito claros na pregação do Evange-
lho, da graça e amor de Deus ao pecador. Sua linguagem clara e acessível
é também altamente cristocêntrica.56

Assim pode-se ver que o conteúdo da letra está acima do valor da músi-
ca e dos ritmos. Isso está claro no conceito de música na IELB, como
podemos ver no comentário de um grupo musical ao destacar que a música
é o condutor da mensagem e o captador da atenção do ouvinte; mas é
através da mensagem dela que o Espírito Santo age, porque o ouvinte cap-
tou a palavra de Cristo pregada por meio da música.57

2. 3 A BUSCA PELO APERFEIÇOAMENTO


Pelas declarações, nota-se que há consciência, na IELB, do quanto seus
hinos devem primar pela profundidade teológica e doutrinária. Em função
disso, tem havido incentivo no sentido de que as congregações aprendam
bem e cantem com alegria os hinos e a liturgia e aprendam conhecer novos
hinos e novos ritmos.58 Ou seja, o rico conteúdo teológico dos hinos precisa
ser valorizado e não pode ser mal cantado. Pois, “se Deus nos deu forma
tão bela e rica para louvá-lo, precisamos lhe oferecer o que temos de me-
lhor em música e de forma abundante”.59 Da mesma forma se pergunta:

56
David Karnopp, “O Índice Remissivo do Hinário Luterano”, Igreja Luterana, São Leopoldo
(Nov. 1996): 186-208, revela o quanto o nome de Cristo e sua obra estão presentes no hinário.
Destaco dois exemplos que mostram esta clareza e profundidade. O primeiro é a quarta estrofe
do hino 535 do Hinário Luterano, que fala em palavras claras da Lei de Deus, que condena o
pecado.

Mas ai daquele que tiver a Cristo desprezado


em vida sempre só houver riquezas ajuntado!
Jamais subsistirá em paz, devendo então com Satanás
sofrer no inferno horrendo.
O segundo exemplo é a primeira estrofe do hino 292 do Hinário Luterano, que mostra com
muita clareza o consolo que a graça de Cristo traz ao que crê:
Sou cordeiro de Jesus, e a alegria em mim reluz,
pois o meu Pastor querido tem-me sempre concedido
sua graça e seu favor, e me chama com amor.

57
“Grupo musical Centelhas. Sua música e Cristo caminham juntos?”, Vox Concordiana São
Paulo, v. 8 (l989): 5.
58
Veja por exemplo Martinho Krebs, “Música Sacra”, In: Lar Cristão (Porto Porto Alegre:
Concórdia Editora, 1986), p. 62-71; Hans Gerhardt Rottmann, “O coro da congregação”, op.
cit., p. 10; Raul Blum “O pastor Como Líder do Canto na Congregação”, op. cit., p. 9.
59
David Karnopp “Música e adoração”, op. cit., p. 18.

167
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
“Se a IELB possui o conteúdo da Palavra de Deus e se fora dela existem
ritmos agradáveis, por que não unir o útil e o agradável?”60
E cantar bem e com alegria não surge do nada. Este é um aspecto que
requer treinamento nas congregações. Este treinamento começa por uma
boa formação musical dos ministros61, que não são vistos como os únicos
músicos, mas como responsáveis por toda parte musical na congregação.
Por isso tem havido um grande esforço pelo aperfeiçoamento dos músicos
existentes, bem como pela formação de novos. Uma das primeiras tentati-
vas de aperfeiçoamento musical, em nível nacional na IELB, foi o “Curso
de Regência e Órgão”, voltado para pastores e leigos, cujo objetivo era
“dinamizar e reavivar o canto e a música nas congregações”.62
Mas a prova mais concreta por um aperfeiçoamento musical está no
“Mutirão pela música na IELB” e no “Curso de diaconia em música”. O
“Mutirão pela música” foi um projeto lançado em 1996 que atingiu 10 regi-
ões do Brasil. Sua meta: “em cada congregação da IELB pelo menos um
músico habilitado”.63 O projeto, dirigido por pessoas da própria região, foi
executado durante três anos. O crescimento musical que ele trouxe para a
IELB foi que despertou novos músicos e aperfeiçoou os que já existiam. O
“curso de diaconia em música” é promovido anualmente pelo Instituto Con-
córdia de São Paulo. No conceito de música sacra da IELB, o aperfeiçoa-
mento musical é uma preocupação constante.64 Nesse sentido, beneficiado
é o próprio povo de Deus:

O canto da congregação precisa ser treinado e estimulado. Um


hino mal cantado pode aborrecer e desestimular as pessoas a partici-
parem do culto, enquanto que um hino e uma liturgia bem cantados
são estimulantes e conduzem as pessoas a buscarem, no contato com
a palavra e sacramentos, maior comunhão com Deus. Se as congre-

60
Id., “Ainda somos a igreja que canta?”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Fevereiro e Março
1997): 10.
61
A preocupação com a formação musical de qualidade dos futuros pastores da IELB está
expresso no documento emitido pela COMISSÃO DE MÚSICA E ARTE SACRA da IELB,
“Ensino de música em nossas escolas pré-teológicas” de junho de 1982. Neste documento, a
comissão propõe as regras que deveriam reger a formação musical dos pastores. Estas regras
estabelecem a carga horária mínima, os tipos e a quantidade de instrumentos a serem ensinados
e que os professores contratados tivessem igualmente boa formação musical.
62
Há registros de dois cursos, um em Janeiro de 1981 no Seminário Concórdia de Porto Alegre e
outro em Janeiro de 1982 no Instituto Concórdia de São Leopoldo, cada um com uma semana de
duração. Cf. Judith D. Thomé, “Cursos de regência e órgão”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre
(Maio 1881): 7. Veja também Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Março/Abril 1982): 23.
63
Raul Blum, “Mutirão pela música na IELB”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Fevereiro/
Março 1996): 6.
64
Id., “O pastor Como Líder do Canto na Congregação”, op. cit., p. 9.

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gações forem estimuladas a louvarem a Deus de uma forma alegre e
bonita, e se forem ensaiadas desta forma, normalmente, elas cantam
muito bem.65

2.4 A DIMENSÃO MISSIONÁRIA NA MÚSICA SACRA


No conceito de música sacra na IELB, um aspecto que não aparece
com muita freqüência nos escritos é a música como meio da missão de
Deus. Como vimos, o aspecto confessional e doutrinário nos hinos aparece
com muita clareza. E isso por si só os torna evangelísticos. Fala-se muito do
conteúdo da música como meio de pregação e instrução nas congregações
e como meio de comunhão com Deus. Mas em se tratando da música como
meio de evangelização, temos falado menos e as palavras não têm sido tão
claras. O próprio autor deste trabalho publicou uma palestra na revista Vox
Concordiana com o título: “O testemunho da fé através da música”66. Este
trabalho destaca a relevância da música na igreja, mas não é muito claro ao
falar da música como meio de evangelização.
Um exemplo mais claro é do Coral Luterano de Porto Alegre. Uma das
integrantes do coral diz que um dos objetivos do coral era “anunciar o evan-
gelho através do canto”. Ela relata também de uma excursão do coral pelo
sul do Brasil e comenta as oportunidades que o coral teve de testemunhar a
fé. E, com muito entusiasmo, comenta a respeito do motorista do ônibus da
excursão, que “teve um encontro com Cristo” por causa do testemunho do
coral. E conclui: “se a excursão não tivesse dado nenhuma outra satisfação,
só este depoimento do novo amigo valeria por todo esforço que a excursão
exigiu”.67 O maestro do Coral Luterano, ao falar dos 20 anos de atividade
do coral e do lançamento de um novo disco, destaca o evangelismo como
um dos objetivos: “difundir cada vez mais o evangelho pela música”68.
Outro exemplo é do conjunto musical Centelhas, de São Paulo, que diz
que escolheu o evangelismo como objetivo para tornar suas músicas “em
veículo para a proclamação da palavra de Deus”. Com este objetivo em
mente, o grupo pergunta ao leitor: “por meio daquilo que cantamos estamos
realmente tendo em vista a salvação de nosso semelhante pela mensagem
de Cristo em nossa música?”69 Este talvez seja o exemplo mais claro e
direto sobre o assunto na história da IELB.

65
Erni Walter Seibert, Congregação Cristã: Enfoques Teológicos e Práticos, (São Paulo: EST, 1988),
p. 58.
66
David Karnopp, “O Testemunho da fé através da música”, Vox Concordiana: Suplemento
Teológico, São Paulo, v. 9, (1993): 63-69.
67
Norma Schoen, “Coral Luterano”, Mensageiro Luterano, Porto Alegre (Abril 1979): 6.
68
Hans Gerhard Rottmann, “A Igreja Canta Louvores a Deus”, Mensageiro Luterano, Porto
Alegre (Janeiro/ Fevereiro 1980): 72.
69
Grupo musical Centelhas, op. cit., p. 6.

169
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Os nossos hinários também não possuem muitos hinos que falem sobre o
assunto. No entanto, quando o fazem, falam com muita clareza e convic-
ção. Todos os nossos hinários, sem exceção, mesmo que poucos, têm hinos
que nos chamam ao compromisso da evangelização do mundo. Destaca-
mos dois exemplos.70 O primeiro é a primeira estrofe do hino 79 do hinário
para as crianças Cânticos de Louvor:

Ide já! É ordem de Jesus: Contar a todas as nações


que andando vão, sem luz, a Boa Nova de perdão,
que traz a paz ao coração. Oh quem quer ir?
Oh quem quer ir?

O Hinário Luterano também não possui muitos hinos que chamam ao


evangelismo. Mas quando fala sobre o assunto, fala com clareza. Talvez o
exemplo mais evidente seja a terceira estrofe do hino 330, que faz uma
pergunta inquietante:

E nós que conhecemos brilhante luz da fé,


nas trevas deixaremos aquele que não crê?
Sem mais demora vamos falar-lhe do perdão
que por Jesus gozamos: a eterna salvação.

CONCLUSÃO
Conhecer a fundo a função da música na história da IELB ainda é um
desafio a ser vencido. Certamente uma pesquisa mais abrangente revelará
aspectos ainda não conhecidos desta função. Neste trabalho apenas me
propus a resgatar alguns fatos dessa história. Que eles possam nos ajudar a
abraçar, com mais firmeza, os desafios que, nesta área, se avizinham.

70
Além destes, outros exemplos podem ser os seguintes: Hinário Luterano: 68.3; 83,3; 304.4;
316; 324-333; 469.3. Louvai ao Senhor 16-18; 21, 146, 153. Todos os Povos o Louvem: 42, 68.

170
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

MOVIMENTO G-12 - O QUE É?


Edgar Züge*

INTRODUÇÃO
Todas as vezes em que nos deparamos com algo novo em termos de
teologia vêm-nos à mente alguns questionamentos: Isto vem de Deus ou é
fruto da imaginação humana pós-queda? O ser humano tem direito de, em
nome de uma liberdade absoluta, produzir sua própria teologia? Pergunta-
mos isto tendo em vista que não há nada mais antidemocrático, nada mais
politicamente incorreto – para falar em linguagem atual - do que a revela-
ção de Deus. Sim, esta revelação nos é imposta, vem de fora, não nos
pergunta se a queremos ou se concordamos com ela; simplesmente sabe-
mos que ela é a melhor coisa que nos pode suceder. A questão se complica
quando vêm a nós outras revelações, não de Deus, mas de um pretenso
deus, o pai da mentira, Satanás. Este se vale da mente humana orgulhosa
para difundir a sua “teologia”. Todas estas coisas nos vem à mente ao olhar-
mos para uma das mais novas coqueluches do meio evangélico latino-ame-
ricano, o Movimento G-12, grupos de 12, sonho de alguém. Temos algo a
aprender com o movimento? Ou ele nos serve de alerta?
A formação de grupos para estudo da Palavra de Deus dentro das igre-
jas não é nenhuma novidade. Grupos por afinidade surgem ao natural. For-
mam-se grupos por faixa etária, sexo, profissão, parentesco, etc. Não há
nada de errado com eles em princípio. Mas tornam- se danosos quando
começam a semear discórdias, difamações, doutrinas falsas, ou quando se
tornam igrejinhas dentro da Igreja.
Por vezes surgem grupos com características sectárias, como por exemplo,
a lei do silêncio. Pessoas são convidadas a participar de um determinado
encontro sem poder saber previamente o que vai acontecer, sem poder se
comunicar com o mundo exterior durante o encontro e sem poder divulgar
posteriormente o que aconteceu. Pode ser apenas uma técnica. Toda técni-
ca é moralmente neutra; mas também pode haver uma preparação psicoló-

*
Rev. Edgar Züge é pastor da Comunidade Evangélica Luterana São Lucas, em Porto Alegre, RS.

171
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
gica, uma coação mental, para se levar os iniciantes aonde se quiser. Os
profetas, apóstolos e o próprio Cristo não agiam assim.
Nos últimos anos surgiu um novo movimento nas igrejas evangélicas
latino-americanas, o G-12. Este movimento está presente em muitas das
igrejas em células. O que caracteriza o G-12, como diz o próprio nome, é
que cada grupo ou célula é de 12 pessoas.

CONSIDERAÇÕES SOBRE OG-12


A visão dos 12 foi criada em 1991, em Bogotá, na Colômbia, pelo pastor
César Castellanos Dominguez, autor de Sonha e Ganharás o Mundo,
líder da Missão Carismática Internacional (MCI). Baseado em um método
de multiplicação que usa este número por base, o sistema é uma adaptação
do antigo modelo de igrejas celulares, inspirado no trabalho desenvolvido há
mais de 15 anos pelo pastor David Young Cho, líder da Full Gospel Church,
na Coréia do Sul, considerada a maior igreja evangélica do mundo, com
mais de 600 mil membros. Diante da quantidade de fiéis, a liderança daque-
le ministério decidiu que a única maneira viável de promover a comunhão e
o discipulado do imenso rebanho era estimular a formação de grupos fami-
liares, onde os crentes pudessem compartilhar suas experiências, estudar a
Palavra, orar e evangelizar.
Há os que querem separar o G-12 da igreja organizada em células. Mas
não há como fazê-lo, visto que o próprio fundador declara: “A colheita só
poderá ser alcançada por aquelas igrejas que tenham entrado na visão celu-
lar. Não há alternativa: a igreja celular é a igreja do século XXI.”1
No G-12 cada líder de grupo forma um grupo de líderes até chegar em
12. Então acontece o desmembramento. É um sistema exponencial. Grupos
nas igrejas sempre houve. A novidade do movimento fica por conta dos
encontros que são secretos, não abertos ao público. O comentário que mais
se ouve da boca de quem já participou de um é que “o encontro é tremen-
do”.2 No Brasil os dois maiores líderes são a pastora Valnice Milhomens,
autora de Plano Estratégico para a Redenção da Nação, e o pastor
Renê Terra Nova, autor de Manual do Encontro.
O G-12 tem uma série de práticas antibíblicas relacionadas à quebra de
maldições hereditárias, êxtase espiritual, extremo criticismo em relação à
igreja tradicional, ênfase demasiada no número 12, que tem função mágica,
tentativa de ser o único modelo detentor da verdade, ocultismo, regressão e
técnicas de hipnose para a cura da alma.

1
Citado por Larry Stockstill, A Igreja em Células (Belo Horizonte: Editora Betânia, 2000), p. 110.
Cf. também Paulo Cesar Lima, O que está por trás do G-12, 5. ed. (Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembléias de Deus, 2001), p. 33.
2
Carlos Fernandes e Francisco Beltrão, “Revolução ou Heresia” Eclesia 5 57) (Agosto 2000): 19.

172
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Um dos pontos mais importantes é a unção espiritual, chamada de “un-
ção de Toronto”, assim denominada por ter sido difundida pela Comunidade
Cristã do Aeroporto de Toronto, no Canadá. Trata-se de uma espécie de
êxtase espiritual, cuja manifestação mais visível é a queda no chão após a
oração. Outras manifestações são a unção do riso, o milagre do dente de
ouro e a imitação de animais. A “visão” dos iniciados também merece des-
taque. As pessoas têm que ter a visão de que este método dos 12 vem de
Deus para a Igreja.

O G-12 PASSO A PASSO


1. Pré-encontro: Quatro palestras preparatórias para o encontro de três
dias. Os temas são: salvação, cruz, oração e Bíblia. Nesta fase o novo
convertido recebe orientação sobre a Igreja, o senhorio de Cristo, mor-
domia e batismo. Em princípio não vemos nada de errado em estudar
estes temas. Pelo contrário. Os cristãos deveriam estudá-los muito mais,
também na IELB.
2. Encontro: Uma espécie de retiro espiritual, de três dias, onde a pessoa
recebe ministração nas áreas de segurança de salvação, arrependimento,
libertação, cura interior, e a “escada do sucesso”, espécie de processo de
crescimento espiritual. Geralmente os participantes são novos converti-
dos oriundos do trabalho nas células e não antigos membros da igreja.
Neste ponto vemos vários problemas. Os encontros são meio secretos,
com técnicas de manipulação mental e temas que fazem a pessoa duvi-
dar de sua fé anterior, como se só agora ela tivesse recebido a salvação.
A ênfase carismática é muito grande. Sabemos que a segurança da sal-
vação não depende de nosso grau de sentimento, mas da objetividade das
promessas de Deus. Notem que a “escada do sucesso” também é alta-
mente problemática, levando a pessoa ao farisaísmo ou ao desespero. E
por que tal trabalho é mais direcionado aos recém membros e não aos
antigos? Obviamente porque os neófitos são presas mais fáceis.
3. Pós-encontro: Quatro palestras para consolidação do que foi aprendi-
do no encontro. Essa ocasião é o momento de sacramentar o que foi
“ensinado”.
4. Escolas de líderes: Curso de formação de liderança ministrado nas igre-
jas, com o objetivo de preparar dirigentes de células e de grupos de 12.
5. Envio: É a execução do ministério. Após a consolidação da célula, o
líder começa a formar seu grupo de 12. Uma vez estruturado este gru-
po, o líder estimula cada um a formar seu próprio grupo de 12. Surge
então o líder de 144 e assim por diante.

O QUE ESTÁ POR TRÁS DO G-12


O assunto é explosivo mesmo. Conforme um pastor nos relatou, muitas
173
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
igrejas evangélicas já se dividiram no sudeste e nordeste brasileiro, princi-
palmente na Bahia.
O material que segue é extraído e adaptado do livro “O que está por trás
do G-12”, de Paulo César Lima, editado em 2000 pela CPAD.
As pessoas facilmente embarcam em “novas doutrinas” por puro desco-
nhecimento da palavra de Deus, pura ignorância espiritual. Pode-se detec-
tar pelo menos seis grandes problemas nas igrejas que adotaram o G-12 no
Brasil.
1. Empirismo. A palavra originalmente significa “experiência”. Dá-se mais
valor à experiência do que ao ensino, destronando-se a autoridade final
da Bíblia. Concordamos com o autor pois aponto o erro de todos aque-
les que defendem uma total liberdade teológica que está mais para
“ichtheologie”, teologia do eu, do que para revelação de Deus.
2. Pragmatismo. De “pragma”, que em grego refere-se a assuntos da
vida prática. A práxis cristã tende tão-só para o funcional, resultando
na quase total ausência de reflexão. Aqui queremos observar que mui-
tas vezes pessoas defendem algo como correto só porque “funciona”.
Realmente o caminho da doutrina falsa e da perdição é altamente “fun-
cional”.
3. Ativismo. Solapa-se a verdadeira comunhão cristã, pois a ênfase recai
toda sobre a “obra de Deus” a ser feita, tanto é que se esquece do
Deus da obra. Muito interessante esta observação do autor. Dá o que
pensar. E, quem sabe, até rever nossa agenda.
4. Utilitarismo. Os valores espirituais são tratados como produtos
descartáveis. A cada culto devem ser criadas novas receitas de auto-
ajuda para a solução dos problemas das pessoas. Procura-se a paz em
vez do Deus da paz. Procura-se um Deus quebra-galho. Deus passa a
ser previsível, é manipulado e domesticado por este sistema.
5. Instrumentalismo. Não é mais Deus que rege a vida do homem, mas o
homem que rege Deus. Este último fica em posição servil, fazendo tudo
que o homem determinar. Há de se notar que isto é teologia da glória
em detrimento da teologia da cruz.
6. Consumo do divino. Há uma “gula” por Deus, um convívio com Deus
de forma consumista, que cria em pouco tempo pessoas insensíveis e
apáticas em relação à sublimidade de Deus, perdendo-se o sabor da
sua visitação na sua graça a nós.3

Aqueles que dizem ter uma visão para o futuro da Igreja sempre têm
algo em comum: arrogam-se donos de uma visão única para a restauração

3
Lima, op. cit., p. 26-28.

174
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
do mundo. Seu projeto é “O projeto”, a grande solução para a Igreja. Com
isto se ignora que cada um tem dons diferentes e vive numa realidade dife-
rente, num mundo diferente. Cada um deve projetar levando isto em conta.
O G-12 confere ao número 12 um sentido mágico-espiritual que ele não
tem, mesmo que seja um dos números mais ricos em simbolismo na Bíblia;
leva as pessoas a confessarem pecados passados, que já foram perdoados,
solapando a doutrina da justificação pela graça, diminuindo o valor do sacri-
fício único de Cristo; faz o crescimento da Igreja depender do método e das
forças humanas em detrimento da pessoa e obra do Espírito Santo; atribui
ao diabo poderes que ele não tem, uma vez que ele foi derrotado na cruz;
mede o sucesso pessoal pelo número de pessoas que entram na Igreja;
ensina a “confissão positiva” (o “criar” pelo pronunciar da palavra); advoga
a “teologia da prosperidade” (as pessoas mandam em Deus nas orações);
e, finalmente, ameaça constantemente as pessoas com o fogo do inferno.

ANÁLISE DE ALGUMAS PRÁTICAS DO G-12


1. Mapeamento espiritual. São feitas 52 perguntas sobre o passado da
pessoa e familiares. Questão: Por que investigar o passado de alguém
que já é “nova criatura”? (2Co 5.17). O objetivo só pede ser o de
desestabilizar a pessoa em sua fé e então poder dominá-la com o uso
das informações adquiridas. É um verdadeiro “regime de terror espiri-
tual”.
2. Regressão psicológica. A regressão só pode ser feita por profissio-
nais preparados com fins terapêuticos, e isto com muito cuidado. Mas
no G-12 é feita por pessoas despreparadas, que fazem as mais absur-
das acusações aos candidatos. Pergunta: Se “o sangue de Jesus, o Filho
de Deus, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7), por que esta prática?
Pessoas despreparadas podem causar os maiores danos psicológicos a
alguém, isto sem falar dos danos espirituais.
3. Confissão regressiva e quebra de maldição. Primeiro se ministra ao
que se confessou, deitado e aos gritos, sob luzes muito fortes. Depois se
diz que há uma maldição hereditária, um vínculo sangüíneo a ser que-
brado. Verdade é que existe o pecado original, mas o entendimento do
G-12 é no sentido do filho ser castigado pelo pecado do pai ou avô,
interpretando muito mal Êxodo 20.5 e 6. Ezequiel 18 deixa muito claro
que a responsabilidade é pessoal, que os filhos não serão castigados
pelos pais e nem vice-versa.
4. Sopro espiritual. Os participantes são constantemente soprados para
cair no chão. É a prática do “cair no poder”, uma queda que é induzida

175
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
pelo que ministra. Em muitas igreja se insiste nesta prática bizarra.
Quando as pessoas se arrojavam aos pés de Jesus era por livre vonta-
de, em extrema humildade.
5. Cura interior. O G-12 visa curar o interior da pessoa através do seu
sistema. Mas a verdadeira cura é Jesus quem realiza: “Se, pois, o Filho
vos libertar, sois verdadeiramente livres.” (Jo 8.36.)

CONCLUSÃO
Um método é moralmente neutro; em princípio nem melhor e nem pior
do que outro. Mas antes de se usar este ou aquele método, esta ou aquela
técnica, deve-se ver se não traz em seu bojo pressupostos antibíblicos, dou-
trinas falsas, ideologias satânicas. É claro que devemos crescer muito mais
na fé em Jesus Cristo, no conhecimento da Palavra de Deus e na prática do
amor ao próximo. E Deus nos deu inteligência, dons a serem usados e de-
senvolvidos diligentemente no seu Reino. Tudo isto pode ser feito sem se
abdicar da verdade revelada por Deus, centrada na pessoa e obra meritória
de Jesus Cristo. O G-12, ou métodos similares, que tendem a fazer a Igreja
crescer pelo método em si e não pelo Espírito Santo - que age pela Palavra
de Deus e Sacramentos, Batismo e Santa Ceia - , não podem ser usados por
nós cristãos evangélico-luteranos, mesmo que temporária e aparentemente
“funcionem”. Intensifiquemos nossos estudos bíblicos com os pressupostos
confessionais que a Reforma nos legou. Muitas vezes agimos com nossas
confissões na base do “não vi e não gostei”. Enquanto isso, o nosso povo
pode estar morrendo de inanição espiritual por pura falta de conhecimento.
Deus nos ajude.

176
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

A EUCARISTIA NAS ORIGENS


DO CULTO CRISTÃO
Paulo G. Pietzsch*

1.1 - INTRODUÇÃO
Discorrer a respeito da Eucaristia1 e de seu significado para a Igreja
Cristã, sem levar em conta as origens do culto cristão, o que influenciou na
sua estruturação e os séculos de desenvolvimento do mesmo, seria, no míni-
mo, como erigir uma construção sem o devido fundamento. Por isso, o pri-
meiro capítulo desta pesquisa estudará o contexto religioso, social e cultural
do povo judeu da época em que a Eucaristia foi instituída.
Falar das origens do culto cristão implica considerar os elementos e sé-
culos de história do povo judeu que tiveram íntima relação com a estruturação
da liturgia cristã. O que os costumes, as refeições, o zelo pelo templo e a
sinagoga influenciaram na compreensão da Eucaristia e em toda a liturgia
cristã, será assunto para a primeira parte do capítulo um.
A relevância e o sentido do evento que marca a origem e instituição da
Eucaristia serão apreciados a partir do relato da última ceia de Jesus com
seus discípulos. Dar-se-á ênfase às palavras e às ações de Jesus naquela
ceia que marca a instituição da Eucaristia. O que é herança do povo judeu e
quais os elementos novos na ceia também é assunto a ser estudado.
Como os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia e qual era a estrutu-
ra, compreensão e dimensão de seu culto é assunto a ser abordado na
temática “O Partir do Pão na Igreja Primitiva”.
Ali serão apreciados os relatos de Atos dos Apóstolos e a experiência de
Paulo com os Coríntios, desde a “ceia perfeita”, até a abordagem de proble-
mas sérios relacionados com a Ceia do Senhor.
Finalmente, do período que vai do final do primeiro século até boa parte

*
Prof. Paulo Gerhard Pietzsch é professor de Teologia Prática no Seminário Concórdia e na ULBRA.
No Seminário ocupa também as funções de Regente do Coral, Coordenador de Estágio e Coordenador
de Atividades Cúlticas. Este estudo é uma síntese de sua dissertação de mestrado defendida em agosto
de 2002, no Instituto Ecumênico de Pós-graduação, São Leopoldo, RS.
1
Mesmo que no contexto da Igreja Evangélica Luterana do Brasil este termo não seja utilizado
com freqüência, seu uso, tanto no título como ao longo deste trabalho, objetiva resgatar
exatamente as ações de graças e, mais especificamente, a oração eucarística, ao culto dominical.

177
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
do terceiro, serão estudados documentos que descrevem como e quando a
Eucaristia era celebrada, qual o seu significado, e o registro dos primeiros
ordos do culto eucarístico, que, em parte, permanecem até a atualidade.

1.2 - AS INFLUÊNCIAS JUDAICAS


1.2.1 - INTRODUÇÃO
Não é de se admirar que o culto cristão tenha sofrido forte influência
judaica na sua forma, na sua estrutura e (também) na sua doutrina, pois o
cristianismo “nasceu” em meio a um povo que guardava a Lei2 e os Profe-
tas e que mantinha em suas tradições a freqüência ao templo com toda a
sua ênfase nos sacrifícios3. Do ofício da sinagoga, além da leitura pública
das Escrituras4 e subseqüente explicação (ver exemplo de Jesus em Lucas
4.16-21), as orações de ação de graças judaicas se tornaram padrão para as
orações eucarísticas, e eram, ao mesmo tempo, um credo e uma bendição.
Também das refeições familiares o culto cristão e, mais especificamente, a
Eucaristia, receberam influências consideráveis5.

1.2.2 – A IMPORTÂNCIA DAS REFEIÇÕES


Nas religiões antigas, o comer e o beber eram elementos importantes
para promover a união das pessoas entre si e a união das pessoas com
Deus6. Tal é a sua importância, que no Antigo Testamento há referência a
acordos seculares que foram concluídos com refeições, em que os envolvi-
dos comprometiam-se, sob juramento, cumprir com a sua parte do acordo.
Alianças entre Deus e seu povo, como é o caso do Sinai, igualmente foram
seladas com uma refeição, que foi uma verdadeira festa religiosa7.
As refeições eram momentos especiais de comunhão e festa. Através
delas, muito se sabe da própria cultura e identidade do povo de Israel8.
Nota-se, a partir destes exemplos, que a comida (e a bebida) não era ape-
nas elemento para o sustento corporal, físico, mas, e acima de tudo, elemen-
to de comunhão com Deus e com o semelhante.

2
Justo L. GONZALEZ, A Era dos Mártires, p. 18.
3
James WHITE, Introdução ao Culto Cristão, p. 175-176.
4
Entendia-se nos primórdios “Escrituras” como a Lei de Moisés (Pentateuco) e os Profetas, cf.
Lc 16.29,31.
5
WHITE, op. cit., p. 177.
6
B. KLAPPERT , Ceia do Senhor, p. 398.
7
Jürgen ROLOFF, Der Gottesdienst im Urchristentum..., p. 56, cita o exemplo de Êxodo 24.11,
em que o acordo com o Senhor foi ratificado com uma refeição. O mesmo é referido por Sissi
Georg RIEFF, Diaconia e culto cristão nos primeiros séculos, p. 76 e Romeu Ruben MARTINI,
Eucaristia e conflitos comunitários, p. 31-32 acrescenta ainda mais detalhes.
8
Gordon W. LATHROP, La Eucaristia em el Nuevo Testamento y su Marco Cultural, In :
Diálogo entre culto y cultura, p. 69, diz que as comidas simbolizam e formam relações sociais,
hierarquias, inclusões e exclusões. Para ele, a identidade nacional do povo de Israel é firmada
e festejada em refeições comunitárias.

178
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
O pão, elemento muito comum na vida do povo hebreu, representa o es-
sencial para o corpo9, de modo que o mesmo passou a ser sinônimo de tudo o
que era necessário para a preservação da vida10. O pão era visto como forti-
ficante e sustento para as pessoas e símbolo de todas as dádivas de Deus, a
ponto de, quando aquele veio a faltar para o povo de Israel no deserto, Deus
lhes enviou o Maná, o pão que veio do céu11. Em todas as refeições, o pão
figurava como elemento “insubstituível, especialmente para os pobres”12. Assim
pode-se entender por que Jesus, fazendo referência à sua missão de salvar a
humanidade, diz: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome...”13,
pois sabia que, tal como sem o pão (de trigo) o povo não tinha perspectivas de
vida, sem a Sua obra não haveria perspectivas de vida eterna 14.
Quase tão comum quanto o pão era o vinho na vida do povo hebreu15.
Na Palestina, pão e vinho eram componentes básicos na alimentação dos
hebreus que deveriam fazer uma longa viagem ou enfrentar a guerra. O
vinho era também utilizado como remédio e alívio nas aflições e importante
no serviço de Deus16. John Davis destaca que na Palestina havia carência
de carne e vegetais e que o vinho ajudava a suprir estas faltas17.
Não causa, portanto, admiração que Jesus tenha consagrado, ou seja,

9
John D. DAVIS, Dicionário da Bíblia, p. 169.
10
Gênesis 3.19 : “No suor do teu rosto comerás o teu pão” ; Mateus 6.11 e Lucas 11.3, Jesus
resume as necessidades da vida sob a expressão “o pão nosso de cada dia”.
11
Christian STOCKS, Brot, p. 181, citando Êxodo 16.4 e 8, lembra como Deus supriu a falta de
pão e, em seguida menciona a grande bênção que foi para o povo, ao entrar na terra prometida,
poder novamente “cultivar” o seu pão.
12
K. BERGER, Manna, Mehl und Sauerteig, p. 15 , Apud: Romeu Rubem MARTINI,
“Eucaristia e Conflitos Comunitários”, p. 27-32, além de afirmar que pão [e vinho] é base da
existência do povo judeu, destaca que este também é símbolo das dádivas de Deus, fruto do
trabalho, meio de comunhão e motivo de conflito entre os povos antigos.
13
João 6.35 ; Oscar CULLMANN, Essays on the Lord’s Supper, p. 8-9; e Gordon LATHROP,
La Eucaristía en el Nuevo Testamento y su Marco Cultural, p. 76-78, defendem a idéia de que este
texto e outros textos que fazem referência a refeições de Jesus deveriam ser interpretados com
os olhos voltados para a Eucaristia. Cullmann, a celebração que a igreja fez de refeições
escatológicas têm raízes nas refeições que ocorriam na ocasião dos aparecimentos de Jesus
depois da Páscoa. Cullmann atribuía ao partir o pão após a Páscoa influência sobre a emergên-
cia da Ceia do Senhor na Igreja Primitiva. Ver também E. LOHSE, Geschichte des Leidens und
Sterbens Jesu Christi, p. 57; J. JEREMIAS, The Eucharistic Words of Jesus, p. 106-110.
14
João 6.40.
15
DAVIS, Dicionário da Bíblia, p. 619, o vinho é importante nas refeições judaicas, não sendo, no
entanto, elemento indispensável em cada refeição; Christian STOCKS, Sabbath, p. 868-876,
em todo o sábado, festa sagrada de grande importância para a família judaica, o marido é
responsável pela bênção do vinho e é ele que corta o pão especial do Shabat.
16
MARTINI, op. cit., p. 28-29.
17
DAVIS, op. cit., p. 619, o vinho também era sinal de hospitalidade para com os hóspedes e
elemento obrigatório nas festas particulares, cf. Gênesis 14.18 e João 2.3. No entanto, há que
se registrar os cuidados que se devia ter para não incorrer na embriagues. Para neutralizar os
efeitos perigosos do vinho, adicionava-se água, como se pode observar no modo de celebrar a
Páscoa, em que os servos levavam uma vasilha com água usada nessa solenidade, cf. Mishna,
Pesachim, 7.13;10.2,4,7. Seguindo este costume, a Igreja Primitiva misturava água com vinho
nas celebrações eucarísticas, cf. Justino Mártir, Apol. 1.65.

179
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
separado do uso comum para Deus, o pão e o vinho utilizados na última ceia,
e que a Igreja Cristã tenha seguido a ordem de fazer isto em sua memória18,
pois tais elementos, além de familiares ao povo, representavam sustento e
fonte de vida, símbolo de hospitalidade e fraternidade, alívio para a dor e
motivo de alegria.
As refeições do povo judeu eram consideradas momentos sagrados19,
um lugar santo20, pois, «toda comida devia ser tomada com ação de graças,
e isto criava o sentimento de que toda a comida é tomada na presença [de]
Deus» (tradução do autor)21. Diante disso, a ritualização22 se torna impor-
tante, com regras detalhadas para a alimentação, e um grupo específico que
delas participa: a família ou um grupo de amigos23.
Dentre as refeições, destaca-se, primeiramente, o jantar do Shabat24,
como refeição semanal de renovação25, que festejava as delícias do dia de
Sábado na contemplação das obras do Senhor26. Nesta refeição, como em
qualquer outra, as mãos eram lavadas27, a esposa abençoava e acendia as
velas na mesa já posta e o marido era responsável pela bênção do vinho e o
cortar do pão especial do Shabat28. As orações, como ação de graças, eram

18
Lucas 22.14-20 e 1 Coríntios 11.22-25.
19
WHITE, op. cit., p. 177.
20
LATHROP, Culto: Local y, no Obstante, Universal, p. 35.
21
Id., La Eucaristia en el Nuevo Testamento y su marco cultural, In : Diálogo entre Culto y
Cultura, p. 72 : “Por cierto, toda comida debrá tomar-se com acción de gracias, y esto creaba
el sentimiento de que toda comida es tomada en presencia [sic] Dios” .
22
LATHROP, Culto: Local y, no obstante, universal, p. 35.
23
WHITE, op. cit., p. 177.
24
Wilhelm GESENIUS, Hebräisches und Aramaisches HandWörterbuch, p.736, traduz o termo
como “aufhören” (parar, concluir) ou “Arbeit aufhören” ( concluir o trabalho) e “Ruhen”
(descansar).
25
Christian STOCKS, Sabbath, p. 869.
26
John J. Davis, Dicionário da Bíblia, p. 520.
27
LATHROP, La Eucaristia em el Nuevo Testamento, p. 70. Cf. John J. Davis, op. cit. p. 506, os
hebreus e os gregos, como os árabes, lavavam as mãos antes de comer porque geralmente havia
só um prato na mesa, onde todos metiam a mão. Este costume converteu-se em ritual que era
minuciosamente observado pelos fariseus no tempo de Jesus.
28
Alfred J. KOLATCH, O livro judaico dos porquês, p. 181-182: “Nos tempos talmúdicos, as
velas eram acesas em cada lar todas as noites da semana, com a finalidade prática de iluminar
a casa. Uma residência comum tinha dois quartos e, geralmente, uma vela acesa era transporta-
da de um cômodo para outro, a fim de proporcionar a luz necessária. Mas na sexta-feira à noite,
duas velas eram acesas, uma para cada quarto, porque era proibido transportar velas”. (...)
“Outra explicação para o costume de acender as velas se baseia no livro de Ester (8.16), que
descreve que a vitória de Ester e Mardoqueu sobre Hemán foi celebrada com ‘luz e alegria’.
Por isso em todas as ocasiões alegres, tais como Shabat, festas e casamentos, acendem-se velas”.
(...) “Vários costumes surgiram ao longo dos séculos e eles diferem de comunidade para
comunidade e de família para família. Algumas pessoas acendem sete velas ou um candelabro
de sete braços, correspondendo aos sete dias da semana ou à menorá de sete braços, que era a
peça central do templo de Jerusalém. Em alguns lares, a mulher acende uma vela para cada
membro da família, inclusive aos netos. O Talmud encoraja este costume ao dizer que ‘a
multiplicação das velas é uma bênção do Shabat’”. (...) “A obrigação principal, mas não
exclusiva, pertence às mulheres.” Ver também Christian STOCKS, Op. cit., pp. 870-872.

180
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
momento significativo durante esta refeição familiar29, sendo esta uma das
formas de santificação do Sábado30.
A Habûrah31, segundo Gregory Dix, era uma refeição bastante freqüen-
te, podendo ser semanal (no início do sábado ou outro dia santo), na qual um
grupo privado ou sociedades informais reuniam-se para a devoção e a cari-
dade e os seus participantes sempre contribuíam com provisões para a mes-
ma32. Dix é da opinião de que a última ceia de Jesus era uma Habûrah,
pelas semelhanças de ambas e pelo fato de Jesus e seus discípulos estarem
acostumados a esta refeição33.
A Pesah, palavra hebraica que significa “passar por cima”, “saltar por
cima”34, lembra que Deus é Redentor35. A festa anual da Páscoa, “institu-
ída no Egito para comemorar o acontecimento culminante da redenção de
Israel”36, convidava o adorador a relembrar e reviver de modo muito realis-
ta a misericórdia do Senhor para com Seu povo na terra da escravidão. Os
elementos desta refeição incluíam, entre outras coisas, alguns cálices de
vinho, o pão ázimo e o cordeiro pascal37. Além dos elementos, dois dos
quais utilizados na Eucaristia cristã, algumas palavras e gestos também

29
WHITE, op. cit., p. 177.
30
Mário Curtis GIORDANI, História da Antigüidade Oriental, p. 252.
31
G. J. BOTTERWECK, H. RINGGREN (Hg.), Theologisches Wörterbuch zum Alten Testament,
vol. 2, Apud: Romeu Ruben MARTINI, op. cit., p. 34 (notas 27 a 29), o significado de
Habûrah pode ser ampliado : “estar unido ou aliado”, “fazer um pacto”, “narrar”, “informar”,
além da descrição dos termos derivados do mesmo radical: “colega”, “pacto”, “companhei-
ro”, “camarada”, “feliz reconciliação dos irmãos separados”, “comunhão dos tementes a
Deus”, “amigo e companheiro contra o qual não se deve planejar injustiça’; também refere-se
a tradução que a Septuaginta dá à palavra: “koinonía” ; Wilhelm GESENIUS, op. cit., p. 190,
traduz HABÛRAH como “binden” ou “verbinden” (“ligar”).
32
DIX, op. cit., p. 50-51; ver Romeu Ruben MARTINI, op. cit., p. 35.
33
DIX, op. cit., p. 54.
34
HARRIS et al., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 1223-1224; DAVIS,
op. cit., p. 443: Esta festa, também denominada “festa do pão ázimo”, celebrava a pressa com
que os judeus saíram do Egito, sem esperar o pão fermentar e crescer. Assim, durante os oito
dias da Páscoa, apenas “matsá”, pão sem fermento, podia ser comido.
35
Clyde T. FRANCISCO, Introdução ao Velho Testamento, p. 54.
37
MARTIN, op. cit., p. 133, diz que “não se trata apenas de um relembrar dos acontecimentos
do passado, mas revivê-los de forma muito realista, sendo este realismo transformado em
esperança de libertação nacional da escravidão (...) assim como as ervas amargas revivem a
escravidão sofrida pelos pais no Egito, os cálices são tomados como símbolo da libertação e
salvação futuras. A ordem desta refeição era a seguinte: Quando a família senta para fazer a
refeição de Passach, uma criança pergunta: ‘Por que esta noite é diferente de todas as noites?’.
E o pai então explica como os judeus saíram do Egito e se tornaram um povo. Esta refeição
segue um ritual fixo, com pratos tradicionais de significado simbólico. Devem-se mergulhar
ramos de salsa numa tigela com água salgada, simbolizando as lágrimas dos judeus no Egito. As
ervas amargas lembram a infelicidade da escravidão sob o domínio do faraó. Uma mistura de
maçã ralada, nozes, vinho e mel representa o cimento que os judeus utilizavam para fazer
tijolos. Um osso de carneiro assado simboliza o sacrifício pascal. Ovos cozidos recordam os
sacrifícios feitos no templo. Bebe-se também vinho, o símbolo da alegria”.
36
DAVIS, op. cit., p. 446.

181
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
merecem destaque, pois serão igualmente “incorporados” na tradição da
liturgia cristã, como é o caso da ação de graças pelas misericórdias passa-
das de Deus38, a anamnese (recordação) no recontar e reviver a história da
libertação39 e a esperança escatológica, manifestada na expectativa da res-
tauração futura do Reino de Israel40.
As refeições familiares contribuíram com valiosos elementos que mais
tarde puderam ser identificados no culto cristão, como por exemplo, as ora-
ções de ação de graças41, o costume de comer e beber com um grupo de
amigos ou familiares42(a Eucaristia é para pessoas batizadas43) e a refeição
experimentada na perspectiva de lembrança e re-atualização (anamnese) e
de expectativa de libertação futura (elemento escatológico)44.

1.2.3 - A SINAGOGA E SEUS RITOS


Ao se falar das influências judaicas na Eucaristia, é de vital importância
verificar até que ponto estas interferiram em toda a liturgia do culto
eucarístico45. Verificando as origens do culto cristão, descobre-se que da
sinagoga judaica originou-se aquela parte do culto denominada Liturgia da
Palavra46, que envolvia a leitura da Torah47 e sua interpretação (ensino e
exortação ao povo)48, orações (que além de ação de graças, tinham função

38
MARTIN, op. cit., p. 134.
39
Ibid.
40
Ibid.
41
WHITE, op. cit., p. 177.
42
DIX, op. cit., p. 51.
43
Didaqué X:6 ; “ninguém coma nem beba de vossa Ação de Graças, a não ser os que foram
batizados no nome do Senhor...”
44
WHITE, op. cit., p. 177.
45
A. G. MARTIMORT, A Eucaristia, p. 32 : “Embora os cristãos, em seu conjunto, não
participassem mais das assembléias judaicas, tiveram como modelo de suas reuniões o próprio
esquema das sinagogas”.
46
Christiane SAULNIER e Bernard ROLLAND, A Palestina no tempo de Jesus, p. 44, esse tipo
de serviço religioso surgira por necessidade durante o exílio babilônico, uma vez que ali os
judeus não tinham um templo onde orar. Ao voltar do exílio, eles continuaram praticando esse
serviço (orar e ler e ouvir as Escrituras) nas sinagogas; ver também Johannes EMMINGHAUS,
The Eucarist, p. 31-32.
47
SAULNIER e ROLLAND, op. cit., p. 46, no serviço da sinagoga das manhãs de sábado há um
grande cerimonial em torno da leitura da Torá; no decurso de um ano se lê o cânone inteiro; o
diálogo entre oficiante e comunidade, tão comum na liturgia cristã, também tem exemplo
similar na sinagoga; J. J. Von ALLMEN, O Culto Cristão, p. 157-158, diz que a leitura da
Escritura é um costume que a Igreja herdou do judaísmo, cuja tradição fixou um sistema de
perícopes que deviam ser lidas no correr dos sábados do ano, costume este (de ler as Escrituras)
que também integrou o culto comum da Igreja Apostólica; Ver também Johannes ROTTMANN,
Atos dos Apóstolos , p. 97-100.
48
Mateus 4.23 e Lucas 4.16 e 21; DAVIS, op. cit., p. 562-563, diz que nas sinagogas “não se
ofereciam sacrifícios: liam-se as Escrituras e fazia-se oração” e que no Antigo Testamento não há
referência a estes lugares de adoração...”seguia-se uma lição dos profetas que era lida pela
mesma pessoa que abria o serviço com oração. Depois da leitura era feita uma exposição sobre
ela, pelo leitor ou qualquer outra pessoa presente”.

182
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
de credo, proclamação, súplica por novos prodígios e intercessões)49, sal-
mos, bênçãos e o “Shemá”50. A liturgia da Palavra e a Eucaristia foram
pouco a pouco combinados numa mesma celebração (o que já é testemu-
nhado por Justino Mártir)51.

1.2.4 - O TEMPLO E SUA LINGUAGEM SACRIFICIAL


O templo de Jerusalém também teve papel significativo na história do
culto cristão, pois, além de ter sido lugar de adoração no tempo de Cristo e
no princípio da atividade da Igreja Cristã52, as imagens sacrificiais encontra-
das no templo podem ser identificadas com as palavras da instituição “san-
gue da aliança” e “derramado em favor de muitos”53. O cantar de Salmos
responsivamente54 e as orações, seguidas dos “améns” da congregação
também têm sua origem no culto do templo55. O templo era considerado
lugar sagrado56, e sob todos os pontos de vista o centro de Israel57, pois era
o lugar da presença do Senhor58. Vale destacar também que Jesus dava
valor ao templo como “a casa de meu Pai” (Lc. 2. 49) e “casa de oração
para todas as nações” (Mc 11.17), pois este oferecia instalações para a
comunhão com Deus e para as orações59.

49
WHITE, op. cit., p. 176-177, “a súplica por novos prodígios é a conseqüência da proclamação
do que Deus já fez”. Boa parte, tanto da forma como do conteúdo das orações das sinagogas
foram adotadas como modelos para as orações eucarísticas cristãs, “em especial a estrutura da
bendição (agradecer) de Deus por meio da oração de credo”.
50
SAULNIER e ROLLAND, A Palestina no tempo de Jesus, p. 45 : o roteiro do culto está centrado na
oração e na meditação nas Escrituras. Começa-se pela recitação do Shemá, o credo do povo de
Israel, composto de três passagens bíblicas: Deuteronômio 6.4-9; 11.13-21; Números 15.37-41. .
51
EMMINGHAUS, op. cit., p. 35.
52
ROTTMANN, op. cit., p. 106.
53
WHITE, op. cit., p. 176; M. C. GIORDANI, História da Antigüidade Oriental, p. 252: “Os
sacrifícios podiam ser cruentos ou incruentos. Os sacrifícios cruentos tinham finalidade expiatória
(dar satisfação por algum pecado), eucarística (agradecer algum benefício) ou ainda impetratória
(pedir graças). Os sacrifícios incruentos consistiam na oferta de líquidos (como libações com
vinho) ou de sólidos (como flor de farinha embebida em azeite, pão sem levedura, etc.)”.
54
WHITE, op. cit., p. 176, cita como exemplos o Salmo 43.4: “Subirei a altar de Deus, a Deus,
o doador de juventude e felicidade” e o Salmo 118.26: “Bendito o que vem em nome do
Senhor”. Este último, literalmente utilizado no Sanctus/Benedictus da liturgia eucarística. Ver
também Donald P. HUSTAD, A Música na Igreja, p.88-90.
55
MARTIN, op. cit., p. 27; ROTTMANN, op. cit., p. 106; HUSTAD, op. cit., p. 89.
56
MARTIN, op. cit., p. 25.
57
SAULNIER e ROLLAND, A Palestina no Tempo de Jesus, p. 37.
58
Id., p. 39; ALLMEN, op. cit., p. 293-294, o povo de Israel não estava desprovido da presença
de Deus quando não tinha templo; na oração de Salomão, quando da dedicação do Templo (1
Reis 8) está explícito que o Senhor habita nos céus e não pode tornar-se prisioneiro do lugar
onde se invoca o seu nome. O “lugar sagrado” é para demonstrar que Deus convoca o seu
povo para encontrar-se com ele dentro dos limites deste mundo. A teologia do Antigo Testa-
mento mostra que o lugar por excelência da presença do Senhor e conseqüentemente o lugar de
culto é o povo que invoca o seu nome.
59
MARTIN, op. cit., p. 27.

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
O templo e os seus sacrifícios desapareceram, a linguagem dos seus
cultos e rituais, porém, permanece: sacrifícios, ofertas, sacerdotes e santu-
ário são termos comuns60. A presença de Cristo, no entanto, é determinada
pela sua promessa “eis que estou convosco todos os dias” (Mt 28.20), pela
sua Palavra e pela Santa Ceia61.
Do templo, portanto, tornam-se significativos para o culto cristão e, es-
pecificamente, para a Eucaristia, a linguagem sacrificial e as ofertas
(ofertório), o cantar de salmos (salmódia) que passaram para a liturgia
cristã, o lugar como manifestação da presença de Deus e os benefícios:
certeza da comunhão com Deus e recepção de suas bênçãos, perdão e
expectativa pelos seus favores futuros.

1.3 - A ÚLTIMA CEIA


1.3.1 - AS PALAVRAS E AS AÇÕES DE JESUS
Os relatos da instituição da Eucaristia apontam para uma série de ações
e de palavras de Jesus62 que devem ser consideradas, pois nelas Ele declara
a sua presença, identificando o pão e o vinho com seu corpo e sangue63,
“dado e derramado em favor de muitos64 para remissão dos pecados”65.
Das palavras e ações de Jesus, confrontando os diversos relatos da institui-
ção, destacam-se as ações “tomar pão e cálice”66, “abençoar ou dar gra-
ças”67, “quebrar o pão [e apresentar o cálice]”68 e “dar aos seus discípu-
los”69. Estes são denominados por Gregory Dix como “Esquema de quatro
ações”70, que são centrais na celebração71.

60
Id., p. 28.
61
ALLMEN, op. cit., p. 296-297.
62
Dix, op. cit., p. 48, no seu “seven-action scheme” (“esquema de sete ações”) destaca que
“nosso Senhor 1- tomou um pão; 2- deu graças sobre este; 3- quebrou-o; 4- distribui-o, dizendo
certas palavras. Depois ele 5- pegou o cálice; 6- deu graças sobre este; 7- alcançou-o aos seus
discípulos, dizendo certas palavras.”
63
WHITE, op. cit., p. 178.
64
Cf. relatos de Paulo e dos Evangelhos sinóticos , todos relacionam pão com seu corpo e cálice
com seu sangue.
65
Cf. Mateus 26.28 : Mateus é o único que acrescenta no relato da instituição esta cláusula “para
remissão dos pecados”.
66
DIX, op. cit. p. 48, aqui acontece o que posteriormente é chamado de ofertório, em que os
elementos são trazidos e dispostos sobre a mesa.
67
Id. Ibid., p. 48 e 79, o relaciona com a oração eucarística, que Romeu Ruben Martini, Ceia do
Senhor : Um Esquema de Quatro Ações, p. 10-11 é o “cerne da comunhão de mesa”.
68
DIX , a fração aponta para o seu corpo sacrificado em amor pela humanidade e a comunidade
come do pão partilhado e com isso usufrui do corpo de Cristo, e bebe do cálice comum e com
isso usufrui do sangue de Cristo, tornando-se um em Cristo.
69
Id., p. 48, aí está a comunhão.
70
Ibid.
71
WHITE, op. cit., p. 179; Norman E. NAGEL, Holy Communion, p. 301, denomina as quatro
ações de Jesus de “verbos principais”: tomou, quebrou, deu e disse.

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Os discípulos, ao verem o Mestre com um pão diante de si sobre a mesa
e um cálice de vinho na mão72, ouviram de Jesus as “Palavras da Institui-
ção”73. As palavras e as ações de Jesus naquela ocasião tornaram-se signi-
ficativas, pois, “o culto principal da igreja foi instituído por nosso Senhor na
noite em que foi traído”74 e a “liturgia cristã começou no cenáculo numa
reunião privada, durante uma refeição entre amigos”75. “O central na cele-
bração da Igreja da Ceia do Senhor é a Palavra e promessa do Senhor que
a instituiu”(tradução do autor)76. Maraschin afirma que “a tradição mais
antiga não estabelece nenhuma relação de interpretação com a aceitação
das palavras de Jesus, pois nenhum dos discípulos quis saber de que manei-
ra o pão era o corpo e o vinho era o sangue, apenas comeram e beberam,
pois a confissão de que ele era o Cristo era o suficiente;”77 (...) “o litúrgico,
propriamente dito, era o que se fazia, no caso, a Ceia”78.
Mesmo que há quem não considere a última ceia como Eucaristia no
sentido que a Igreja Primitiva dá à palavra79, é certo que ali está a sua
instituição e as palavras e ações que fazem parte da celebração.

1.3.2 - A NOVA ALIANÇA


Jesus Cristo, ao instituir a Ceia do Senhor, fez uso, além do pão, do
cálice, dizendo: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue”80. Su-
bentende-se que, se há uma nova aliança81, é porque primeiramente houve
uma velha aliança82, feita por Deus com Israel através de Moisés (Êx 24.1-
11), selada com derramamento de sangue sobre um altar e sobre o povo (Êx
24. 6, 8 - o sacrifício de animais seria, a partir de então, repetido constante-
mente83), baseada na observância dos preceitos da Lei: se Israel permane-
cesse nos mandamentos do Senhor e ouvisse a sua voz, assim Ele seria um
Deus gracioso e Pai84. De acordo com Ralph Martin, o cálice está associa-

72
MARTIN, op. cit., p. 135.
73
WHITE, op. cit., p. 178.
74
ALLMEN, op. cit., p. 26.
75
Jaci MARASCHIN, A Beleza da Santidade, p. 148.
76
Charles J. EVANSON, The Divine Service, p. 427 .
77
MARASCHIN, op. cit., p. 148.
78
Id., p. 149.
79
Cf. DIX, op. cit., p. 77, a última ceia não é Eucaristia, porque Eucaristia é entendida como
resposta dos redimidos ao seu Redentor e obediência ao mandamento divino.
80
Cf. Lucas 22.20 e 1 Coríntios 11.25.
81
Júlio Paulo Tavares ZABATIERO, Ceia do Senhor, p. 413 : “A Ceia do Senhor é o antítipo da
celebração pascal da velha aliança. Esta celebrava o evento da libertação de Israel do Egito...Ao
falar do seu corpo e sangue, [Jesus] está aplicando a si mesmo termos de linguagem sacrificial
(...) O sacrifício inaugurador da Nova Aliança”.
82
Cf. Christian STOCKS, Abendmahl, p. 185, aliança normalmente era feita mediante meios
externos, mútuo juramento, refeições e seladas ou reforçadas com ofertas e sangue.
83
Sobre sacrifícios, veja-se Jonathan F. dos Santos, O Culto no Antigo Testamento, p. 63-110.
84
STOCKS, op. cit., p. 186.

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do com a aliança feita por Deus com Israel, e, por causa da rebeldia deste85,
fala-se de “uma nova aliança que o Senhor fará” (Jr 31.31-34), o que é
exatamente referido por Jesus, não mais pensando no sangue de animais
(Hb 9.12), “mas, pelo seu próprio sangue, (...) entrou no Santo dos Santos,
uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção (...) por isso mesmo ele é
o Mediador da nova aliança”86. Jesus ofereceu-se a si mesmo, em carne e
sangue, para restaurar a relação das pessoas com Deus, “aniquilando o
pecado, abrindo assim acesso a Deus”87.
Enquanto a velha aliança era restrita e imperfeita, porque dependia em
parte das obras humanas, a nova aliança88 é perfeita, porque feita inteira-
mente por Deus; enquanto que, na velha aliança os sacrifícios deveriam ser
constantemente repetidos, na nova aliança o sacrifício de Cristo foi de uma
vez por todas; a primeira aliança restringia-se a Israel e dependia do cum-
primento da lei para obter perdão e favores de Deus, a nova aliança é para
o mundo inteiro, para que todo “o que nele crê” (Jo 3.16), tenha a vida
eterna. Esta nova aliança, diante do exposto, é chamada de aliança de paz89,
promovendo a paz com Deus e, em conseqüência, a paz com o semelhan-
te 90 .
1.3.4 - O MANDAMENTO SOBRE A REPETIÇÃO
“Anamnesis” ou memorial91 é algo muito diferente do que apenas
relembrar fatos do passado. No contexto da cultura bíblica92, ela é uma
atitude de re-atualização ou reconstrução do passado93,”a possibilidade de
participar da história que se recorda”94, de forma a torná-la presente e
operante aqui e agora95. “Ao repetir essas ações, a pessoa torna a vivenciar
a realidade do próprio Jesus presente”96. Ao relembrar, reviver e comemo-
rar através da Eucaristia o que é central na obra da salvação (que a pessoa

85
MARTIN, op. cit., p. 136, fazendo referência a Êxodo 24.3-11.
86
Hebreus 9.12b e15a.; WHITE, op. cit., p. 178.
87
Leonhard GOPPELT, Teologia do Novo Testamento, Vol. 2, p. 510.
88
STOCKS, op. cit., p. 187-188.
89
Id., p. 187.
90
MARTIN, op. cit., p. 144.
91
Id., p. 146.
92
Id., p. 137, faz referência a Êxodo 12.14 e 13.9, em que , por meio deste sacramental a nação
era levada de volta à ação salvadora de Deus e envolvida por ela; Richard H. FEUCHT, The
Church’s Common Meal, p. 44, é importante conhecer o memorial entre os hebreus para
entender a Ceia do Senhor.
93
ALLMEN, op. cit., p. 33.
94
Id., Estudo sobre a Ceia do Senhor, p. 29.
95
Id., O Culto Cristão, p. 33; Nelson KIRST, Liturgia parte por parte, p. 59, “ aquilo que
aconteceu lá torna-se válido, na Anamnese, para os participantes desta celebração, neste preciso
momento”.
96
WHITE, op. cit., p. 178.

186
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foi comprada, redimida e reconciliada com Deus97 e “levada de volta ao
Cenáculo e ao Monte), o comungante participa daquela obra salvífica que
conhece como realidade presente - porque seu Autor é Aquele que vive no
meio de seu povo redimido”98. Na Eucaristia atualiza-se não apenas aquilo
que aconteceu na última ceia, ou seja, uma refeição entre amigos99, mas
recapitula-se a história da salvação100, proclama-se através da Ceia a morte
do Senhor (1Co 11.26), faz-se anamnese da cruz101, do Cristo crucificado e
ressuscitado102.
Cristo, ao dizer “fazei isto em memória de mim”103, aponta para uma
dimensão especial do culto, pois, segundo von Allmen, com tais palavras
Jesus instituiu o culto cristão104, que inclui a proclamação oral da Palavra
juntamente com a celebração da sua Ceia105. Nesse sentido, a Eucaristia é
necessária para o culto simplesmente porque Cristo a instituiu e deu à igreja
a ordem de celebrá-la106. Brunner reforça esta idéia ao afirmar que prega-
ção da Palavra e celebração da Eucaristia formam uma unidade
interdependente no culto, que envolve uma progressão da anamnese da
Palavra para a anamnese da Ceia, e direciona o crente batizado para a
participação na Eucaristia107. Portanto, “as palavras e os gestos de Cristo
na instituição da Eucaristia estão no coração da celebração: a refeição
eucarística é o sacramento do corpo e do sangue de Cristo, o sacramento da
sua presença (...)”108.
A discussão acerca da anamnese poderia estender-se muito mais, po-
rém, optou-se por destacar que houve uma instituição da Eucaristia por
Jesus, houve a ordem de celebrá-la, e que, nesta ordem de repeti-la em sua
memória, está incluída toda a obra de Cristo para a salvação da humanidade
e a garantia de sua presença entre o seu povo redimido através do culto, na
Palavra e na Eucaristia. A partir destas afirmações, considera-se a Euca-
ristia essencial para o culto cristão.

97
FEUCHT, op. cit., p. 45.
98
MARTIN, op. cit. p. 138.
99
DIX, op. cit., p. 50.
100
ALLMEN, O Culto Cristão..., p. 38.
101
Id., Estudo sobre a Ceia do Senhor, p. 31.
102
Ibid., p. 31: “quando no Novo Testamento se fala de comemorar a morte do Senhor, isto inclui
a comemoração da sua ressurreição. Não se faz uma sem a outra.”
103
Lucas 22.19 e 1 Coríntios 11.24.
104
ALLMEN, O Culto Cristão..., p. 33.
105
Peter BRUNNER, Worship in the Name of Jesus, p. 283.
106
ALLMEN, O Culto Cristão..., p. 180.
107
BRUNNER, op. cit., p. 284.
108
CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Batismo, Eucaristia e Ministério, p. 37.

187
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
1.4 - O “PARTIR DO PÃO” NO TEMPO DOS APÓSTOLOS
1.4.1 - INTRODUÇÃO
O testemunho que temos dos primeiros cristãos a respeito de sua vida de
culto é que os mesmos “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na co-
munhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). Nas primeiras déca-
das da Igreja Primitiva, a Eucaristia foi denominada pela expressão “partir
do pão”, devido ao fato de Jesus a ter instituído à mesa com seus discípu-
los109 e porque através deste sinal foi diversas vezes identificado110. Parece
“tratar-se de um termo proposital, o qual escondia o alimento típico da Igre-
ja, um alimento para a vida eterna”111. É um termo técnico para a refeição
inteira, a parte pelo todo112. Abordar-se-á sob este título o período de Pen-
tecostes até o início da segunda metade do século I.

1.4.2 - A FREQÜÊNCIA, O DIA E A UNANIMIDADE


A partir dos relatos bíblicos de Atos dos Apóstolos e 1 Coríntios pode-se
deduzir que a reunião dos cristãos para o “partir do pão” era muito freqüen-
te (At 2.42-47; 20.7; 1Co 11.20), podendo acontecer, nos primeiros tempos,
diariamente (At 2.46)113. Com base nos textos supracitados, von Allmen diz
que na era apostólica “a Ceia era celebrada regularmente”114, “no primeiro
dia da semana” (At 20.7; 1Co 16.2), também chamado “dia do Senhor” (Ap
1.10). O texto de Atos 20.7, “parece demonstrar a existência de um vínculo
quase automático entre ‘o dia do Senhor’ e o ‘partir do pão’115. “A Ceia é
parte integrante da assembléia dominical”116, que celebra a presença de
seu Senhor e Salvador117 ressuscitado118.
Pode-se concluir, pois, que a Eucaristia não era apenas parte integrante,
mas a base e objetivo de cada reunião dos cristãos119, o ponto culminante do

109
ROTTMANN, op. cit., p. 101.
110
LATHROP, La Eucaristía em el Nuevo Testamento, p. 73; WHITE, op. cit., p. 178-179.
111
ALLMEN, Estudo Sobre a Ceia do Senhor, p. 98.
112
MARTIN, op. cit., p. 143.
113
ROTTMANN, op. cit., p. 101,106: é da opinião que “em seus inícios a igreja perseverava na
celebração da Santa Ceia: não deixavam passar um único dia sem se reunirem para celebrar a
Santa Ceia em culto conjunto”... “Da mesma forma como diariamente oravam no templo...
também se reuniam à noite em casas particulares... Nestes cultos celebrava-se a Ceia”.
114
ALLMEN, O Culto Cristão..., p. 175.
115
Ibid.
116
Ibid.; LATHROP, Culto: Local y, no obstante, universal, p. 31.
117
ROTTMANN, op. cit., p. 101; 1 Coríntios 10.16.
118
Julian López MARTÍN, No Espírito e na Verdade, Vol. I, p. 171; Theodor BRANDT, Kirche
im Wandel der Zeit, p. 40-41: O dia do Senhor é o começo da semana. Ele carrega a alegria da
ressurreição. Este é o dia especial para lembrar os acontecimentos pascais tanto do Antigo
Testamento como do Novo Testamento. CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Batismo,
Eucaristia e Ministério, p. 44 : “Visto a Eucaristia celebrar a Ressurreição de Cristo, seria normal
ela ter lugar pelo menos todos os domingos”.
119
Oscar CULLMANN, Early Christian Worship, p. 29.

188
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
culto cristão, tanto que “em toda a Igreja Primitiva não há o menor indício da
celebração do Domingo sem a Ceia do Senhor”120.
A unanimidade e a perseverança na palavra, comunhão, partir do pão e
orações, demonstra que os primeiros cristãos agiam de comum acordo e
prestavam esse culto “como se fosse em coro, em harmonia”121, de tal forma
que “da multidão dos que creram era um o coração e a alma” (At 4.32).

1.4.3 - A ESTRUTURA DO CULTO


Como ou de que maneira os primeiros cristãos celebravam o seu culto ? A
resposta a esta pergunta poderia, quem sabe, ajudar a “moldar a liturgia”122?
Seria a doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações, confor-
me Atos dos Apóstolos 2.42, uma estrutura do culto da Igreja Primitiva ?
Siegmund Wanke aceita esta possibilidade ao descrever as característi-
cas do culto: a “doutrina dos apóstolos” refere-se à proclamação da Palavra
de Deus, a “comunhão” equivale à convivência dos irmãos, o “partir do
pão” refere-se à Eucaristia, e as “orações” são as súplicas e ações de
graças123. Rottmann, em seu comentário a respeito de Atos 2.42, denomi-
nou-o de “quatro pilares da vida espiritual”124 da Igreja Primitiva, e a falta
de um deles compromete toda a estrutura da igreja cristã.
Essa koinonía na qual perseveravam, não há dúvidas, trata-se de ofer-
tas para ajuda aos pobres, além das exortações, admoestações mútuas e
ósculo da paz125. Allmen menciona ainda, como um eco de Atos 2.42, “o
Catecismo de Heidelberg [que] ao enumerar os elementos componentes do

120
ALLMEN, O Culto Cristão, p. 176.
121
ROTTMANN, op. cit., p. 106.
122
Karl-Heinrich BIERITZ e Michael ULRICH, Gottesdienstgestaltung, p. 9-10, tal moldagem da
liturgia poderá ajudar na busca pela ecumene, para que todos sejam um (Jo 17.21), para que
juntos possam cantar e orar, ler as Escrituras e ouvir as boas novas de Jesus, reconhecendo-o e
confessando-o como Senhor e sendo abençoados por ele.
123
Cf. Siegmund WANKE, Questões Litúrgicas, p. 9,10, a comunhão pode ser relacionada à
linguagem de Paulo ao falar do “Culto Racional”; a Bíblia na Linguagem de Hoje a expressa
com a palavra serviço; este serviço do “Culto Racional” também é chamado de liturgia, e para
tanto cita-se o exemplo das ofertas arrecadadas para a comunidade empobrecida de Jerusalém
(2 Coríntios 15.12 e Romanos 15.27). Cf. Josef KÜRZINGER, Atos dos Apóstolos, Vol. 1, p.
81 : pode-se admitir que no versículo 42 “estão assinaladas as partes essenciais do rito das
assembléias comunitárias para celebração do culto divino na Igreja Primitiva... pode-se ver no
‘ensino dos apóstolos’ a leitura e a instrução, portanto, da posterior palavra de Deus. Na
‘comunhão fraterna’ (em grego koinonía) teríamos a coleta de donativos para os pobres (que
não consiste em dar as sobras, mas daquilo que também se precisa para viver) e, na ‘fração do
pão’, a ceia eucarística, emoldurada pelas ‘orações’.” Ver também Joachim JEREMIAS,
Eucharistic Words of Jesus, p. 118; B. KLAPPERT, Ceia do Senhor, p. 406.
124
ROTTMANN, op. cit., p. 100.
125
Cf. Nilo BELOTTO et al., Nós e o Culto , p. 144-145: Ainda sobre a oferta, o autor a situa no
culto como sinal efetivo da oferenda dos fiéis ao serviço de Deus, sinal de fraternidade e
unidade cristã, atendendo à missão e promovendo a ação social em favor daqueles pouco ou
nenhum recurso.

189
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
culto, fala de uma contribuição cristã para o sustento dos pobres, ao lado da
pregação, da Santa Ceia e das orações”126.
Todas as evidências supracitadas concordam que Atos 2.42 é a primeira
estrutura conhecida do culto cristão. Essa “liturgia”, neste caso, poderia ter
a seguinte construção: Liturgia da Palavra, Ofertório127 (= Comunhão), ce-
lebração da Eucaristia e Orações.

1.4.4 - OS LOCAIS, O SIGNIFICADO E AS CONSEQÜÊNCIAS DAS CELEBRAÇÕES


De acordo com os relatos bíblicos, mesmo que, inicialmente, os conver-
tidos ainda, “unânimes”, freqüentavam o templo (At 2.46) para orar e ado-
rar a Deus128, os locais próprios para as celebrações eucarísticas eram as
casas (At 2.40; 20.7-8), pois, segundo Anscar Chupungco:

A eucaristia, celebração específica e característica dos cristãos,


celebra-se em casa. É evidente que desde os primeiros tempos a
liturgia eucarística era considerada uma liturgia doméstica. Os discí-
pulos de Jesus assistiam aos atos cultuais do templo e da sinagoga,
mas não partiam o pão, nem lhes era possível fazê-lo nesses lugares.
Porque tanto o templo como a sinagoga jamais foram lugar apropria-
do para uma refeição comunitária. O templo era para sacrifícios, e a
sinagoga para a proclamação da Palavra e as orações comunitárias.
Refeições em comunidade, tal como a eucaristia, celebravam-se nas
casas129 (tradução do autor).

Além disso, o cristianismo muito cedo tornou-se religião ilegal no Impé-


rio Romano, o que impossibilitava aos cristãos primitivos erguer estruturas
que fossem especialmente designadas para o culto. Como não podiam pro-
fessar publicamente a sua fé, não havia possibilidade de grandes aglomera-
ções de pessoas, de modo que lugares mais espaçosos não eram necessári-
os130. O que, no entanto, parece ter acontecido muito cedo, foi a escolha de

126
ALLMEN, O Culto Cristão..., p. 197.
127
Sissi Georg RIEFF, Ofertório, p. 8-9.
128
ROTTMANN, op. cit., p. 106 afirma : “ Havia diversas horas de culto e oração no templo...
Não é de estranhar que os discípulos de Jesus nos primeiros meses e anos ainda participassem
dos cultos no templo. Eles não mais se juntavam aos judeus que tinham rejeitado a Jesus; ao
contrário, ali no templo eles adoravam o Deus verdadeiro, o Deus da Antiga e da Nova
Aliança, o Pai de seu Senhor e Salvador Jesus Cristo... Com respeito a este ponto devemos
observar que os discípulos não foram ao templo para oferecer sacrifícios, mas sim para orarem.
Em nenhuma passagem do Novo Testamento nos é dito que os cristãos ainda tenham oferecido
sacrifícios segundo a Lei cerimonial”. Cf. Atos dos Apóstolos 3.1 : “Pedro e João subiam ao
templo para a oração da hora nona” (15:00 horas).
129
Anscar J. CHUPUNGCO, La Eucaristia, p. 83.
130
Wayne E. SCHMIDT, The Place of Worship, p. 181-182.

190
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
uma casa, de um local específico para as reuniões e cultos na Igreja Primi-
tiva131, “uma casa particular ou uma casa adquirida pela comunidade. A
casa da igreja, com mais propriedade do que o templo, significa o acolhi-
mento e a hospitalidade que a comunidade eucarística mostra para com os
estranhos e pobres, com os quais compartilha a mesma fé em Cristo”132
(tradução do autor). Na verdade, a fé cristã e o culto cristão não estão
restritos a locais específicos, poderiam acontecer «em qualquer lugar. O
fato de ter começado numa espécie de sala de jantar e, depois, continuado
no interior de casas particulares, mostra que o lugar da liturgia é o lugar
onde as pessoas se encontram para a liturgia»133.
Quanto ao “partir o pão de casa em casa”, há quem interprete esta
referência como uma simples alusão à Eucaristia134, que nas origens pode-
ria ser celebrada em qualquer casa, a combinar e diariamente135. De “casa
em casa” também poderia demonstrar de forma clara e inconfundível que a
atividade dos cristãos não se restringia ao culto público136, mas, como uma
extensão deste137, também estendia-se aos ausentes, fossem estes doentes
ou pobres138, pessoas que necessitavam da caridade e do amor da comuni-
dade.
Quando se pergunta pelas origens do culto cristão, além do conhecimen-
to das raízes judaicas, influência das palavras e ações de Jesus por ocasião
da última ceia, estrutura e locais das celebrações, torna-se relevante per-
guntar: como era a postura e a conduta dos participantes? Qual era o signi-
ficado das celebrações?
Inicialmente, chama-se a atenção ao fato de que “o propósito principal
do culto não era chamar os fiéis à penitência, nem fazê-los sentir o peso dos
seus pecados, mas celebrar a ressurreição do Senhor e as promessas das
quais essa ressurreição era a garantia”139. Este propósito fazia com que o
partir do pão acontecesse num clima de “alegria e singeleza de coração”
(At 2.46), pois era uma celebração, tendo como tom característico o “gozo

131
Cf. Atos dos Apóstolos 1.4, 6,12-14; 20.7,8; cf. SCHMIDT, op. cit., p. 181; cf. Romanos
16.5, Paulo manda saudações especiais para a “igreja que se reúne na casa de Aqüila e Priscila”
e cf. 1 Coríntios 16.19 refere-se a “Áqüila e Priscila, bem assim a igreja que está na casa deles”;
cf. também Colossenses 4.15 e Filemom 2.
132
CHUPUNGCO, op. cit., p. 86-87 .
133
MARASCHIN, op. cit., p. 154.
134
ROTTMANN, op. cit., p. 106-107.
135
B. KLAPPERT, Ceia do Senhor, p. 400.
136
SCHMIDT, op. cit., p. 179, 181.
137
P. H. D. LANG, Manual para a Comissão de Altar., p. 27.
138
E. LOHMEYER, Vom Urchristlichen Abendmahl, p. 279, Apud: Romeu R. MARTINI,
Eucaristia e Conflitos Comunitários, p. 167; Sissi Georg RIEFF, Diaconia e culto cristão nos
primeiros séculos, p. 74 ss, também estuda com profundidade o assunto.
139
GONZALEZ, op. cit., p. 151.

191
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
e a gratidão e não a dor ou a compunção”140, tudo isto como fruto de um
coração cheio de paz com Deus141. Tais características só poderiam trans-
formar-se em “bênção também para os que conviviam”142 com os conver-
tidos. A Bíblia na Linguagem de Hoje traduz a expressão grega afelóteti
kardías por “humildade”143, isto é, o relacionamento entre todos era de
igualdade, de comunidade. Era como se os seus pensamentos estivessem
“sintonizados numa mesma freqüência”, e formavam um acorde harmonio-
so, afinado pela mesma fé144, onde “um era o coração e a alma” e “tudo
lhes era comum” (At 4.32)145.
No “partir do pão” os cristãos estavam unidos a Cristo146, pois os ele-
mentos distribuídos efetuavam a participação no seu sangue e corpo147, o
que pode ser denominado de comunhão ou união vertical148; no entanto, ela
não criava apenas a “comunhão com o Senhor, mas também dos celebrantes
entre si”149, a comunhão horizontal150. Daí porque o apóstolo Paulo, ao
falar da “comunhão no sangue e no corpo de Cristo” (1Co 10.16), conclui
seu pensamento com a afirmação: “Porque nós, embora muitos, somos uni-
camente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão”151.
Por isso, desprezar alguém a quem o Senhor deu seu corpo e sangue é
desprezar o corpo e sangue do Senhor152 e, conseqüentemente, negar que
Cristo cria comunhão entre os celebrantes, é receber a ceia para a própria
desgraça153. Vale, por isso, dizer que Cristo está presente com o seu próprio
corpo e sangue na Eucaristia, e, como conseqüência, os participantes são

140
Ibid.
141
ROTTMANN, op. cit., p. 107; BELOTTO, op. cit., p. 129 : “na Santa Ceia e no culto deve-
se demonstrar alegria porque o Senhor nos recebe. Ele é o dono, o Senhor do banquete que
parte o pão”.
142
ROTTMANN, op. cit., p. 107.
143
A BÍBLIA SAGRADA : Edição na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, ed.
1988.
144
ROTTMANN, op. cit., p. 144.
145
Id., p. 144-145, era grande o número de pobres e viúvas em Jerusalém, o que motivou da
parte de cristãos de outros lugares o envio de ajuda material.
146
MARTIN, op. cit., p. 144.
147
GOPPELT, op. cit., p. 414.
148
MARTIN, op. cit., p. 144.
149
GOPPELT, op. cit., p. 414.
150
MARTIN, op. cit., p. 144.
151
1 Coríntios 10.17; WHITE, op cit., p. 192, fala de confraternização na comunhão, dizendo
que “em seu compartilhar a comunidade recebe Cristo e o único pão torna-se um sinal da
unidade dos comungantes”.
152
NAGEL, op. cit., p. 305.
153
1 Coríntios 11.27-34; cf. GOPPELT, op. cit., p. 414-415 : “É isso que acontecia em Corinto,
pois lá comemoravam a Ceia para satisfazer necessidades religiosas individualistas”, perverten-
do a Ceia do Senhor.

192
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
chamados de “seu corpo”154, sua comunidade155, comprometidos em agir
com lealdade e dedicação a Deus e ao próximo156.
Finalmente, na celebração da Ceia do Senhor, destaca-se a reunião do
passado, presente e futuro, numa só festa sagrada e alegre da mesa do
Senhor157, conforme diz Richard H. Feucht: “A Ceia do Senhor também
comprime o tempo dentro de um só evento. O passado, presente e futuro
são conduzidos para dentro de uma ação – a sentença redentora de Deus
para o mundo. Deste modo a Ceia do Senhor é recordação do passado,
realidade presente e esperança futura, todos ao mesmo tempo”158. A di-
mensão que aponta para o passado lembra as palavras “fazei isto em me-
mória de mim”159, e é comemorada com ação de graças160; o presente é
atestado pela crença na presença de Cristo na Ceia161, e confronta o parti-
cipante enquanto está à mesa com tudo quanto a morte do Filho de Deus
significava então e significa agora162. Na Ceia do Senhor o cristão participa
do seu corpo e sangue163 e, recebendo pão e vinho em resposta à fé, é unido
ao sacrifício de Cristo164, tornando-o presente165 pela participação “do amor,
da graça e da comunhão com os irmãos”166. A expectativa do futuro167, a
dimensão escatológica168, é atestada pela expressão “até que ele venha”
(1Co 11.26), pois “o rito simples apontava para além de si mesmo, para uma
esperança futura no reino de Deus”169, onde a alegria e a comunhão com o
Senhor vivo serão plenamente consumados 170. Por isso a expressão

154
Cf. NAGEL, op. cit., p. 306: “O comer e o beber do corpo e sangue de Cristo não são apenas
individuais ‘eu e Jesus’. Quando ele dá seu corpo e sangue para mim, ele dá seu corpo e sangue
a mim com todos aqueles para quem ele também dá seu próprio corpo e sangue” (tradução do
autor).
155
Cf. ALLMEN, O Culto Cristão, p. 197-198: Oferta e comunhão de bens “não é o único
testemunho litúrgico da vida da comunidade. É necessário aditemos as exortações e admoesta-
ções mútuas, e tudo o que atesta a unidade da comunidade...”
156
MARTIN, op. cit., p. 147.
157
Id., p. 148.
158
FEUCHT, op. cit., p. 50 .
159
BELOTTO, op. cit., p. 162 e François AMIOT, A Missa e sua História, p. 11-12.
160
WHITE, op. cit., p. 192; MARTIN, op. cit., p. 147 : “À mesa, a história da redenção maior
é relatada cada vez que comemos o pão e bebemos o cálice”.
161
AMIOT, op. cit., p. 11-12; Cf. MARTIN, op. cit., p. 147 : “O pão e o vinho são para Paulo
portadores da presença de Cristo”; ver também WHITE, op. cit., p. 193.
162
MARTIN, op. cit., p. 144, 147.
163
Id., p. 144.
164
Id., p. 143.
165
AMIOT, op. cit., p. 11-12.
166
BELOTTO, op. cit., p. 162.
167
Id., p. 163.
168
WHITE, op. cit., p. 193.
169
MARTIN, op. cit., p. 143.
170
Id., p. 148.

193
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Maranatha171 passou a ocupar naturalmente o seu lugar no culto da Igreja
Primitiva.172
Cabe ressaltar que, em todas estas ações dos primeiros cristãos, era o
Espírito Santo173 quem os conduzia a viver nesta comunhão174, uma vez que
era por intermédio dele que Jesus Cristo agora falava e agia175. A ação do
Espírito Santo é aqui enfatizada, pois esta já era prometida por Jesus aos
seus discípulos (At 1.8), relacionada com o batismo e a fé176, aos que ouvi-
ram a pregação no dia de Pentecostes (At 2.37) e confirmada na conversão
de aproximadamente três mil pessoas num único dia177. A Eucaristia é vista
“como o local da obra do Espírito Santo”178 onde ele reatualiza o evento
salvífico179 e unifica a comunidade180, cria nela e torna eficaz o princípio do
amor181 e a “personalidade corporativa”182. A vida comunitária e a mútua
assistência fraterna183 demonstram “como o amor de Cristo e a Cristo, quan-
do verdadeiros, criam união e comunhão”184. Todas estas afirmações dão
suporte à manutenção da epiclese na oração eucarística.
Essas assembléias comunitárias para a celebração do culto185 eram
regidas pela alegria (um júbilo intenso que procurava estender-se e comuni-
car-se186) e pureza de coração (uma atitude que se abre para Deus em
absoluta confiança187, e para o próximo na comunhão188). Na refeição co-
memorativa, a pessoa confessava e participava dos bens espirituais que a

171
Expressão aramaica que significa “Nosso Senhor vem” ou “Nosso Senhor está vindo”, cf.
WHITE, op. cit., p. 200-201 : “... a Eucaristia como antecipação, olhando numa direção
escatológica para o banquete celestial que marcará a consumação de todas as coisas em Jesus
Cristo. .. Um sinal disso é uma aclamação ...: ‘Cristo voltará’”.
172
MARTIN, op. cit., p. 148.
173
WHITE, op. cit., p. 193.
174
GOPPELT, op. cit., p. 415.
175
Atos dos Apóstolos 1.1-2; Cf. Raymond E. BROWN, A Igreja dos Apóstolos, p. 81-82 :
“Alguns sugerem que o segundo livro lucano poderia ter sido chamado de Atos do Espírito, em
vez de Atos dos Apóstolos”. O termo pnema, “Espírito”, ocorre 70 vezes em Atos dos Apósto-
los, um quinto do total de vezes que o termo aparece em todo o Novo Testamento.
176
BROWN, op. cit., p. 87.
177
Atos dos Apóstolos 2.41. Cf. Josef KÜRZINGER, Atos dos Apóstolos, Vol. I, p. 76 :
“mediante o Pentecostes e sua revelação do Espírito, entra na história a Igreja de Cristo”
178
WHITE, op. cit., p. 193.
179
ZABATIERO, op. cit., p. 413.
180
Id., p. 414.
181
FEDERAÇÃO LUTERANA MUNDIAL E IGREJA CATÓLICA , Documento Conjunto
sobre a Ceia do Senhor, p. 8.
182
ZABATIERO, op. cit., p. 413.
183
KÜRZINGER, op. cit., p. 78. Cf. Atos dos Apóstolos 2.44 : “todos os que creram estavam
juntos e tinham tudo em comum”
184
ROTTMANN, op. cit., I , p. 105.
185
KÜRZINGER, op. cit., I , p. 81.
186
Id., p. 82.
187
Id., p. 82-83.
188
GOPPELT, op. cit., p. 414

194
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
morte de Cristo e sua ressurreição providenciaram, e também participava
da solidariedade que foi dada “à comunidade através da comunicação da
vida do Cristo ressurreto”189. Estas características cativavam a simpatia do
povo190, e a comunidade cristã, “fazendo sua luz brilhar diante dos homens...”
(Mt 5.16), viu como “o Senhor acrescentou-lhes, dia a dia, os que iam sendo
salvos” (At 2.47) e viu “os prodígios e sinais feitos por intermédio dos após-
tolos” (At 2.43).
Olhando para todos estes resultados, poder-se-ia pensar que a igreja do
tempo dos apóstolos era o modelo perfeito de cristianismo. No entanto, nem
tudo era tão perfeito. Quando esta unidade foi quebrada191, seja pela idola-
tria192, seja pela hipocrisia193, ou ainda pelos abusos egoístas e individualis-
tas (na congregação de Corinto havia até quem se embriagasse nesta refei-
ção, enquanto os pobres passavam fome), a comunidade foi afetada e a
união destruída194.
A indignidade195, da qual Paulo fala aos coríntios (1Co 11.27 ss), foi
causada por aqueles que em sua conduta na Santa Comunhão esqueceram
de sua unidade com seus parceiros cristãos e com Cristo e deixaram de
reconhecer que participar da Ceia do Senhor não é participar meramente de
Cristo, mas também de seus irmãos que são um em Cristo196.
Ao falar da Ceia do Senhor, o apóstolo queria apontar para as divisões
causadas pelo egoísmo e falta de amor, quando “algumas pessoas vinham
mais cedo para o local da reunião e comiam e bebiam antes dos outros;
quando chegavam estas, que são caracterizadas no v. 22 como as que nada
têm, passavam fome. Sobrava para elas a participação na liturgia da Ceia
do Senhor, destituída do seu caráter solidário”197. Paulo, em 1 Coríntios
11.24-26, apelou para o próprio relato da instituição da Ceia para tentar

189
ZABATIERO, op. cit., p. 415.
190
KÜRZINGER, op. cit., I , p. 83.
191
ZABATIERO, op. cit., p. 414.
192
MARTIN, op. cit., p. 145.
193
Atos dos Apóstolos 5.
194
GOPPELT, op. cit., p. 415.
195
Cf. Nélio SCHNEIDER, Pecado e sacrifício na Ceia do Senhor : Por isso há entre vós muitos fracos
e doentes, e vários já dormiram, p. 122, “comer e beber indignamente no contexto da celebração
da ceia do Senhor em Corinto não resulta da falta de um exame criterioso do pecado individual,
como se disso dependesse a dignidade da celebração eucarística. A celebração digna é aquela
em que cada pessoa envolvida leva em consideração o corpo de Cristo, evitando tudo o que
possa dividir ou desfazer a integridade do mesmo. Portanto, a dignidade da celebração provém
da presença do Senhor na ceia e não da atitude da pessoa que dela participa. Indigna na
comunidade de Corinto é a forma da celebração e não a condição pessoal de cada participan-
te”.
196
ZABATIERO, op. cit., p. 414.
197
Cf. SCHNEIDER, Pecado e sacrifício na Ceia do Senhor: Por isso há entre vós muitos fracos e
doentes, e vários já dormiram, p. 120-121, em Corinto estava em jogo a comunhão de mesa, e,
com ela, a comunhão como um todo.

195
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
reunir a comunidade (1Co 11.23-26), pois tinha a ciência de que a união era
determinante para a sobrevivência da comunidade, especialmente em meio
aos revezes pelos quais passou. É preciso, pois, demonstrar que a primeira
preocupação de Paulo quando ao falar da Ceia usa a expressão “indigna-
mente” (1Co 11.27-29), não se refere a pecado individual (sequer é menci-
onada a palavra pecado no texto), mas ao desvirtuamento de algo essencial
na celebração eucarística, o seu sentido comunitário.198 Manter a unidade
da comunidade, da Igreja, foi o objetivo do apóstolo Paulo, porque “esta
unidade é santa - decretada por Deus - e quebrar essa unidade é cair sob o
julgamento de Deus, pecar contra os irmãos e contra o próprio Cristo”199.
Segundo Schneider, “para as primeiras comunidades cristãs a comunhão de
fé na celebração eucarística implicava necessariamente a comunhão de
vida como um todo. Não há comunhão eucarística verdadeira onde as divi-
sões comuns à nossa realidade perduram”200.
A questão da unidade e comunidade tornou-se tão importante para o
apóstolo, que ele continua o seu discurso sobre a Igreja, vendo nela o corpo
de Cristo (1Co 12.12) e habitação ou meio de atuação do Espírito Santo
(1Co 12.1-11), e culmina o seu discurso com o grande capítulo acerca do
amor, que é o maior de todos os dons (1Co 13.1-13).

1.5 - O TESTEMUNHO DOS PAIS APOSTÓLICOS


1.5.1 - A CENTRALIDADE DA EUCARISTIA
É em Inácio, pastor e bispo, de Antioquia201, martirizado por volta de 107
A.D.202, que encontra-se a primeira referência à expressão “Eucaristia “
(ação de graças) para designar a cerimônia203, e Justino testemunha que
“este alimento chama-se entre nós Eucaristia”204. A participação na Ceia
era decisiva e necessária para demonstrar se alguém era ou não cristão205.
198
SCHNEIDER, op. cit., p. 121, é por isso que não se fala em pecado, mas em divisão.
199
ZABATIERO, op. cit., p. 414.
200
Cf. SCHNEIDER, op. cit., p. 123, a celebração eucarística que não leva em conta a realidade
concreta, promovendo as injustiças e divisões, constitui-se num “comer e beber para juízo” ,
numa comemoração indigna da memória de Cristo.
201
J. Reis PEREIRA, Da Ceia do Senhor à Transubstanciação., p. 34; cf. Inácio de Antioquia, Aos
Efésios 20.2: “...vos reunis na mesma fé e em Jesus Cristo... partindo um mesmo pão, que é o
remédio da imortalidade, antídoto contra a morte, mas vida em Jesus Cristo para sempre.
202
GONZALEZ, op. cit., p. 66; D. Paulo Evaristo ARNS, Cartas de Santo Inácio, p. 12;
Williston WALKER, História da Igreja Cristã, p. 70, situa a morte de Inácio por volta de 117
AD.
203
Cf. Inácio de Antioquia, aos Efésios 13.1 : “Cuidai pois de reunir-vos com mais freqüência,
para dar a Deus ação de graças [eucaristia] e louvor”.
204
Cf. Justino, Apologia1. 65 : “... os que chamamos diáconos convidam os presentes a participar
do pão e do vinho, e da água eucaristizados... Este alimento se chama entre nós de Eucaristia...”
205
Cf. Inácio de Antioquia, Aos Efésios 5.12 : “Não se iluda ninguém. Se não se encontrar no
interior do recinto do altar, ver-se-á privado do pão de Deus”. Cf. D. Paulo E. ARNS, p. 42,
nota 25 : “O altar levará a comunidade à união mais profunda. Faltar à celebração eucarística
significa excluir-se do pão eucarístico, da verdadeira oração e dos sentimentos fraternais”.

196
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Eucaristia, portanto, era central na vida da igreja pós-apostólica206 e o ponto
culminante do culto207. É também a solene manifestação de fé e o culto
perfeito208, “realizado em todos os lugares da terra pelos cristãos”209, de
forma tal, que não se conhece qualquer referência em toda a Igreja Primiti-
va de celebração do domingo sem a Eucaristia210. É importante ressaltar
que a falta da Eucaristia comprometeria outro sacramento, o Batismo, pois
consideraria os batizados ainda como catecúmenos em fase de preparação,
sem o direito de participar do corpo e sangue de Cristo, o que seria um
desprezo de um meio da graça211.
A crença de que o corpo e sangue de Cristo eram recebidos na Eucaris-
tia, é mais uma das ênfases da Igreja Antiga212. No entanto, acreditava-se
que não era apenas no rito que a presença do Senhor se manifestava. “Bus-
carás a cada dia a presença dos santos”213, recomenda o catequista, pois
onde os irmãos estiverem reunidos para ouvir a palavra de Deus, “ali está o
Senhor”214.
Quanto ao dia da semana escolhido para o culto eucarístico, o testemu-
nho dos pais é que este acontecia no dia do Senhor215. A expressão “dia do
Senhor” (Ap 1.10) já era usada no Novo Testamento, ou seja, “o primeiro
dia da semana”, data do encontro semanal da comunidade para o “partir do
pão”216. Os cristãos do período que vai além do Novo Testamento, do
segundo século em diante, mantiveram o mesmo dia para seus encontros
eucarísticos. O que se sabe é que “no dia do sol”217, a liturgia é celebrada
em memória da ressurreição do Senhor218, pois os cristãos faziam do do-
mingo o seu dia da guarda, e denominavam-no “dia do Senhor”219. Inácio de
Antioquia, referindo-se ao dia da celebração, diz que o cristão “não mais obser-
va o sábado, mas vivendo segundo o dia do Senhor, no qual nossa vida se levan-

206
CULLMANN, op. cit., p. 29.
207
José Gonçalves SALVADOR, O Didaquê ou Ensino do Senhor Através dos Doze Apóstolos, p. 57.
208
Maucyr GIBIN, Textos Catequético-Litúrgicos de S. Justino, p. 76.
209
Justino, Diálogo com o Judeu Trifão, 117.
210
ALLMEN, O Culto Cristão, p. 176.
211
Id. , p. 182.
212
AMIOT, op. cit., p. 13-14.
213
Didaqué IV:2.
214
Id., IV:1.
215
Id., XIV.
216
Cap. 1.1.4 : “ A freqüência, o dia e a unanimidade”.
217
Justino, Apologia I : Falando da liturgia dominical, Justino diz que “fazemos a reunião todos
juntos no dia do sol, por que é o primeiro dia, em que Deus, transformando as trevas e a
matéria, fez o cosmos, e Jesus Cristo, nosso Salvador no mesmo dia ressuscitou de entre os
mortos, pois na véspera do dia de Saturno o crucificaram, e um dia depois do de Saturno, que
é o dia do sol, tendo aparecido aos seus Apóstolos e discípulos, ensinou-lhes precisamente o
que propusemos também à vossa consideração”.
218
Justino, Apologia I .
219
Didaqué, XIV.

197
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
tou por Ele e por Sua morte”220. Hipólito ainda acrescenta que a reunião acon-
tecia “no domingo de manhã”221. Os cristãos dessa época viam no domingo o
seu dia mais solene, porque era o dia de “partir o pão e dar graças”222.
O domingo, portanto, tornou-se para os cristãos dos primeiros séculos o
dia de culto e celebração eucarística, lembrava que no primeiro dia da Cri-
ação, Deus criou o mundo, e no primeiro dia da semana Cristo ressuscitou
(simbolizando a Nova Criação) Ao mesmo tempo, os cristãos acreditavam
que através da Ceia e da comunhão fraterna para ouvir o Evangelho, Cristo
se fazia presente em meio ao seu povo.

1.5.2 - O ORDO DA EUCARISTIA


No primeiro século as referências a um ordo do culto eucarístico restrin-
gem-se223 à menção de algumas palavras, como “doutrina dos apóstolos, co-
munhão, partir do pão e orações”224. Somam-se a estas as palavras de Paulo,
“louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão em
vossos corações” (Cl 3.16), ou ainda expressões como “Maranatha” (1Co
16.22). A adoração neotestamentária, “regida” pelo Espírito de Deus, garantiu,
apesar da diversidade de formas225, a união dos primeiros cristãos226.
É somente a partir do segundo século227 que se poderá ver o início de
uma padronização do culto cristão228. Optou-se pela abordagem de três
documentos que fornecem maior número de informações a este respeito: a
Didaqué229, os textos catequético-litúrgicos de Justino230 e a Tradição Apos-
tólica de Hipólito de Roma231. Justo Gonzalez, ao citar depoimentos de Justino
Mártir, menciona que (referindo-se à celebração dominical) neles há ape-
nas referência ao culto com a Eucaristia232.
220
Inácio de Antioquia, Aos Magnésios IX.1 .
221
Hipólito, Tradição Apostólica, Parte III : A Comunhão Dominical.
222
Didaqué, XIV:1.
223
ALLMEN, O Culto Cristão, p. 354.
224
Capítulo 1.4.2 : “A Estrutura do Culto”.
225
MARTIN, op. cit., p. 152-153.
226
GOPPELT, op. cit., p. 415.
227
André BENOIT, A Atualidade dos Pais da Igreja, p. 78: “ Os pais também viveram sua fé no
culto e nos sacramentos. A sua época foi de considerável formação litúrgica. Praticamente
inexistente nos primeiros anos da vida cristã – ou, para ser mais preciso, fundamentando-se
apenas em algumas tradições judaicas – a liturgia cristã foi elaborada no correr dos primeiros
séculos ... É interessante observar que essa tradição litúrgica não se desenvolveu independen-
temente da Escritura... está repleta de conteúdo bíblico. A sua atmosfera ressalta notadamente
a Escritura. A liturgia não passa de uma adaptação da Escritura às necessidades do culto”.
228
GONZALEZ, op. cit., p. 150-151.
229
MARTIN, op. cit., p. 159, situa este importante documento da Igreja Antiga entre o final do
primeiro século e início do segundo século AD. Cf. CULLMANN, op. cit., p. 8, este é o
documento que contém a mais antiga coleção de liturgia do período após o Novo Testamento.
230
WALKER, op. cit., p. 65, Justino Mártir escreveu sua Apologia, em Roma, por volta do ano
153 AD.
231
MARTIMORT, op. cit., p. 44, a Tradição Apostólica é situada por volta do ano 225 AD.
232
GONZALEZ, op. cit., p. 151.

198
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Nas primeiras décadas da Igreja Cristã, a Eucaristía é apresentada, pri-
meiramente, no contexto de uma refeição completa233; depois passou a ser
integrada com uma refeição comunitária, denominada ágape 234 e, final-
mente, como celebração matutina separada da refeição vespertina (cf. Plínio;
Justino: Apologia 1 e Hipólito)235. Dix acrescenta que, por algum tempo o
termo Eucaristia foi usado com referência à celebração litúrgica e também
à refeição236.
A estrutura do culto eucarístico, conforme a Didaqué, pode ser vista atra-
vés da abordagem dos capítulos IX, X e XIV237, que apontam para uma pos-
sível ordem litúrgica, “a primeira etapa na elaboração da liturgia da missa”238.
Identificou-se a seguinte estrutura do culto eucarístico: ósculo da paz 239, não
especificamente mencionado na Didaqué, mas comum já no tempo dos após-
tolos (Rm 16.16; 1Pe 3.14), ação de graças sobre o primeiro cálice 240,
oração de graças sobre o pão, oração pedindo pela comunhão cristã,
seguida de uma doxologia, alerta para que os não-batizados não partici-
pem da Eucaristia e, finalmente, uma oração pós-comunhão de bendição
ou agradecimento pela revelação de Cristo, pela bênção da criação e reden-
ção e súplica pela união da igreja. O referido ordo conclui com uma fórmula,
que poderia ser responsiva241, e Maranatha242. Finalmente, os profetas ain-
da podiam bendizer à vontade243.
A respeito desta estrutura, algumas considerações. As orações de ação
de graças ou bendição ao final das celebrações eram livres, adaptadas às
circunstâncias pelos “profetas”244, enquanto que as orações dadas como
modelo, com características judaicas245, antes do cálice e antes de quebrar
o pão246, já demonstravam alguma preocupação litúrgica247. Quanto ao uso

233
WHITE, op. cit., p. 179-180.
234
MARTIN, op. cit., p.159; DIDAQUÉ X.1: “E depois de satisfeitos”.
235
WHITE, op. cit., p. 179; Urbano ZILLES, Didaqué: Catecismo dos Primeiros Cristãos, p. 64-
65.
236
DIX, op. cit., p. 99.
237
WHITE, op. cit., p. 180-181.
238
MARTIMORT, op. cit., p. 36.
239
WHITE, op. cit., p. 181
240
Didaqué, IX.2.
241
H. LIETZMANN, Messe und Herrenmahl, p. 237, sugere-se que Didaqué X.6 fosse utilizado
na forma de diálogo, assim : Líder: Venha a tua graça e passe este mundo.
Comunidade: Hosana ao Filho de Davi.
Líder: Se alguém é santo, aproxime-se; se não o é, arrependa-se. Maranatha.
Comunidade: Amém.
242
Didaqué, X.6.
243
Id. X.7.
244
CULLMANN, op. cit., p. 12.
245
MARTIMORT, op. cit., p. 43.
246
Didaqué, IX.2-3.
247
J. Reis PEREIRA, Da Ceia do Senhor à Transubstanciação, p. 40.

199
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
da Oração do Senhor, há fortes indícios de que nesta época já era utilizada
no culto eucarístico248, o que é fundamentado pelo uso da doxologia final
“pois teu é o poder e a glória pelos séculos”249. Portanto, é provável que no
tempo da Didaqué, pelo menos três tipos de oração eram utilizados no culto
eucarístico: as orações livres, as orações eucarísticas elaboradas e usadas
como modelo, e a Oração do Senhor.
Quanto à expressão “Maranatha”, Didaqué refere-se ao uso particular
da palavra ao final da Ceia e em conexão com a liturgia eucarística250. O
fato de não ter sido traduzida, pois já é mencionada pelo apóstolo Paulo aos
Coríntios (1Co 16.22), mas simplesmente utilizada pela comunidade cristã
primitiva, reforça ainda mais o seu significado, e aponta para um elemento
especificamente cristão da oração litúrgica, elemento que conecta estrita-
mente o dia do culto cristão com a ressurreição de Cristo251. Seriam estas
evidências de que Maranatha fizesse parte da oração eucarística da Igreja
Primitiva? Cullmann é favorável a esta conclusão ao dizer que “esta antiga
oração aponta ao mesmo tempo para trás, para a aparição de Cristo no dia
da sua ressurreição, para o seu presente comparecimento à refeição comu-
nitária da comunidade e antecipa a sua aparição no final, o que é represen-
tado freqüentemente no quadro da ceia Messiânica. Em todos os três casos
uma refeição está envolvida. Por essa razão o Maranatha é acima de tudo
uma oração da Eucaristia” (tradução do autor)252.
A idéia de união e fraternidade realizada através da presença de Cristo,
foi trazida para a liturgia da comunhão e recebeu ênfase na oração registra-
da pela Didaqué253. Esta fraternidade é ainda reforçada em Didaqué XIV.
1, que ensina a respeito da confissão de pecados, não caracterizada como

248
CULLMANN, op. cit., p. 12.
249
Cf. Didaqué, VIII.2; Didaqué IX. 4, mesmo não mencionando especificamente o Pai Nosso,
utiliza a doxologia final “Pois tua é a glória e o poder pelos séculos. Amém”. Cf. CULLMANN,
op. cit., p. 12, o uso litúrgico da Oração do Senhor é claramente indicado pela presença da
pequena doxologia final em Didaqué VIII, representando o eco litúrgico da comunidade. As
palavras “ Pois teu é o reino, etc.” não foram, certamente, ditas por Jesus, mas introduzidas
mais tarde por influência da liturgia cristã primitiva. Cf. LOHMEYER, op. cit., p. 173, há uma
suspeita de que a Oração do Senhor era originalmente dita na celebração da Ceia e, por esta
razão a fórmula de louvor teria sido adicionada. Cullmann ainda argumenta que o uso da
expressão Abba-Pai em Gálatas 4.6 e Romanos 8.15, aponta para o uso litúrgico da oração do
Pai Nosso.
250
Didaqué, X. 6.
251
CULLMANN, op. cit., p. 13-14, a oração de ação de graças alemã “Komm Herr Jesu, sei
unser Gast” ( “Vem, Senhor Jesus, sê nosso hóspede [ou ‘comensal’]”) pode ser considerada
como uma tradução fiel de “Maranatha”.
252
Id., p. 14.
253
Didaqué, IX. 4; Cf. ALLMEN, Estudo Sobre a Ceia do Senhor, p. 79 : “Como o pão, que é
santificado para o uso comum de todos nós, é feito de vários grãos tão misturados juntos que não
se poderia discernir um do outro, assim devemos ser unidos entre nós com uma amizade indissolúvel.
Além disso todos recebemos lá o mesmo corpo de Cristo, a fim de sermos membros”.

200
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
penitência, mas como reconciliação com o próximo, com quem há alguma
desavença. Isso é atestado pelas palavras: “Mas todo aquele que vive em
discórdia com o outro, não se ajunte a vós antes de ser reconciliado, a fim de
que o vosso sacrifício não seja profanado”254. O beijo ou ósculo santo obte-
ve nesse mesmo contexto também o seu uso litúrgico como sinal de amor
fraterno e mútua reconciliação255. E, como resultado dessa união (com Deus
e com os irmãos), a participação de todos na liturgia era afirmada com o
amém dito pela congregação256.
Parcialmente contemporâneo ao Didaqué257, Justino Mártir258 faz a pri-
meira descrição mais completa sobre a reunião dominical da comunida-
de259. O culto eucarístico continua sendo uma reunião exclusiva de pessoas
batizadas260, onde o ósculo santo marca seu início (depois da leitura da pa-
lavra, admoestações, exortações e orações)261. Na seqüência, são apresen-
tados o pão e um cálice de vinho misturado com água262; é o momento do
ofertório263. Ao receber das mãos do povo o pão e o vinho misturado com
água, o que preside, “na medida de seu poder, eleva orações e igualmente
ações de graças”264. Justino, “ao invés de fornecer um texto formulado
para a anáfora, nos dá indicações de um esquema que aponta para o con-
teúdo essencial de toda a oração eucarística”265.
254
Didaqué, XIV. 2; cf. CULLMANN, op cit., p. 22-23, fórmulas de confissão eram recitadas
no culto da Igreja Primitiva: assim “omologein e exomologeistai” (confissão), (Romanos
10.10 e Filipenses 2.11) em conexão com a confissão de que Cristo é o Senhor; na mesma
direção aponta a primitiva oração litúrgica Maranatha, relacionada com o segundo advento.
Todas essas fórmulas de confissão têm em comum o aspecto cristocêntrico, o que testemunha a
força do Senhorio de Cristo (O Cristo ressurreto e elevado ao céu está no centro). Em Didaqué
XIV. 1, encontra-se o conceito “confissão” relacionado à confissão de pecados, e esta, como
nos primeiros tempos, ao lado da confissão de fé e em conexão com a Ceia do Senhor.”
255
CULLMANN, op. cit., p. 20; cf. ALLMENN, Estudo Sobre a Ceia do Senhor, p. 79-80: “A
outra antiga atestação litúrgica dessa mesma comunhão fraternal é o beijo da paz. Ele precede
a comunhão. De prática apostólica, esse beijo quer provar que os que vão comungar aceitam
alcançar sua situação batismal e portanto estar acima de tudo o que neste mundo é ocasião de
oposição ou divisão, que eles aceitem em particular serem reconciliados entre si como e porque
eles o são de fato com Deus”.
256
CULLMANN, op. cit., p. 25.
257
AMIOT, op. cit., p. 12.
258
CULLMANN, op-. cit., p. 27, suas obras foram escritas em torno do ano 150 AD.
259
Id., p. 27-28: Cullmann demonstrou que os dois supostos cultos da época, referidos por Plínio
( sendo um da palavra e outro com a Ceia do Senhor), na verdade estavam unidos em um só.
260
Cf. WHITE, op. cit., p. 181; Cf. Justino, Apologia 1. 65: “Nós, porém, depois de assim lavado,
conduzimos o que creu e se agregou a nós, para junto dos que se chamam irmãos...”.
261
Justino, Apologia 1. 65.; Maucyr GIBIN, Textos Catequético-Litúrgicos de São Justino, p. 76.
262
Justino, Apologia 1. 65; MARTIMORT, op. cit., p. 35-36.
263
RIEFF, Ofertório, p. 8-9: No ofertório, além dos elementos da ceia, eram trazidos alimentos
para suprir as necessidades dos que tinham menos recursos.
264
Justino, Apologia 1. 67 e 1.65 : “ Recebendo-os [o pão e o cálice de vinho misturado com
água], ele [o que preside] eleva um hino de louvor e glória ao Pai de todas as coisas, pelo nome
do Filho e do Espírito Santo, pronuncia uma longa eucaristia por ele se ter dignado de conce-
der-nos estas coisas”.
265
GIBIN, op. cit., p. 76.

201
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
O povo responde com a aclamação “amém”266 e manifesta desta forma
a sua participação267. Ao término da oração eucarística, os diáconos são
encarregados de dar “a cada um dos presentes parte do pão, do vinho e da
água eucaristizados”268, que também eram levados para os ausentes269, pro-
vando que o serviço do domingo não estava restrito à liturgia eucarística,
mas que a reunião da comunidade também acontecia para uma troca de
bens e conseqüente distribuição aos menos favorecidos ou que tinham im-
pedimento de estar no culto270.
Nota-se que Justino traz alguns elementos a mais e mais precisos na
ordem do culto eucarístico. O ósculo é claramente mencionado e, especial-
mente, o esquema da oração eucarística com suas ênfases, a menção de
vinho misturado com água e, finalmente, a reunião dos bens doados pelas
pessoas batizadas, com o fim de socorrer os necessitados.
Com o passar dos anos, pouco a pouco, serão encontradas fórmulas mais
elaboradas da celebração eucarística. É em Hipólito271 que se encontrará a pri-
meira oração eucarística muito semelhante às que hoje são conhecidas272. O do-
cumento em questão, situado na Tradição Apostólica de Hipólito, é possivelmente,
em parte composição do próprio Hipólito e, em parte, compilação de outras liturgias
utilizadas na sua época273. Hipólito descreve detalhadamente duas situações em
que a Eucaristia era celebrada: a primeira trata da Ordenação e Consagração do
Bispo274, e a segunda acontece no contexto do batismo275.
A oração eucarística, também conhecida como anáfora276, é proferida
pelo celebrante277. Esta, de Hipólito, que aqui será apreciada, encontra-se
numa ordem para eleição e consagração dos bispos278. Não é mencionada a
liturgia da palavra que, segundo White, em ocasião especial ainda era sepa-
rável quando outra celebração precedia a eucaristia279. Após o rito de con-
sagração do bispo, menciona-se o ósculo da paz280. Segue, então, a liturgia

266
Justino, Apologia 1. 65: “Pois o amém, na língua hebraica, significa: assim seja”.
267
MARTIMORT, op. cit., p. 35.
268
Justino, Apologia I. 65.
269
Id., 67.; cf. MARTIN, op. cit., p. 160, nessa época a “distribuição dos elementos ao povo
pelos diáconos e a coleta para os necessitados, é bem conhecida e ficou padronizada”.
270
GIBIN, op. cit., p. 76.
271
Bengt HÄGGLUND, História da Teologia, p. 47 : Hipólito foi bispo em Roma e adversário do
Papa Calixto, foi banido para Sardenha durante uma perseguição (ca. 235), e morreu no exílio.
272
MARTIMORT, op. cit., p. 44.
273
H. BETTENSON, Documentos da Igreja Cristã, p. 135.
274
Hipólito, Tradição Apostólica: Eleição e Consagração dos Bispos.
275
Id., Os que se aproximam da fé.
276
Cf. AMIOT, op. cit., p. 14 : é formada por duas palavras gregas que significam elevar,
oferecer.
277
WHITE, op. cit., p. 114.
278
Hipólito, Parte I : Eleição e Consagração dos Bispos.
279
WHITE, op. cit., p. 114.
280
Hipólito, Parte I : Eleição e Consagração dos Bispos.

202
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
eucarística281. Nesta ordem, encontram-se os seguintes elementos: a) Diá-
logo inicial do prefácio282, seguindo um velho costume judaico (Rt 2.4); b)
inicia-se uma ação de graças pela encarnação do Filho de Deus e sua pai-
xão e morte; c) são mencionados os frutos da paixão; d) o relato da última
ceia, com as palavras da instituição; e) a afirmação de que a igreja age de
acordo com o mandamento do Senhor, fazendo isto em memória de sua
morte e ressurreição; f) oferece o pão e o vinho consagrados e, finalmente,
g) pede pelo envio do Espírito Santo a fim de que todos os participantes
sejam fortalecidos na fé e, por Jesus, louvem sem fim a Trindade283.
Falando sobre as características gerais da anáfora de Hipólito, e de ora-
ções semelhantes a esta, Martimort faz as seguintes considerações: trata-
se de uma oração coletiva e universal, e não individual; não é meramente
emotiva, mas racionalmente elaborada; o povo participa em pé e em silên-
cio, confirmando com o amém; é trinitária em seu todo e, especialmente, na
doxologia284.
Na celebração eucarística no contexto do Batismo285, a liturgia da pala-

281
Id., Eucaristia : “Logo que se tenha tornado bispo, ofereçam-lhe todos o ósculo da paz,
saudando-o por se ter tornado digno. Apresentem-lhe os diáconos a oblação e ele, impondo a
mão sobre ela, dando graças com todo o presbyterium, diga: - O Senhor esteja convosco.
Respondam todos: E com o teu espírito. – Corações ao alto! - Já os oferecemos ao Senhor. –
Demos graças ao Senhor. – É digno e justo. E prossiga, a seguir: Graças te damos, Deus, pelo
teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos últimos tempos nos enviaste, Salvador e Redentor,
mensageiro da tua vontade, que é o teu Verbo inseparável, por meio do qual fizeste todas as
coisas e que, porque foi do teu agrado, enviaste do Céu ao seio de uma Virgem; que aí
encerrado, tomou um corpo e revelou-se teu Filho, nascido do Espírito Santo e da Virgem. Que
cumprindo a tua vontade – e obtendo para ti um povo santo – ergueu as mãos enquanto sofria
para salvar do sofrimento os que confiaram em ti. Que, enquanto era entregue à voluntária
Paixão para destruir a morte, fazer em pedaços as cadeias do demônio, esmagar os poderes do
mal, iluminar os justos, estabelecer a Lei e dar a conhecer a Ressurreição, tomou o pão e deu
graças a ti, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu corpo que por vós será destruído; tomou,
igualmente, o cálice, dizendo: Este é o meu sangue, que por vós será derramado. Quando
fizerdes isto, fá-lo-eis em minha memória. Por isso, nós que nos lembramos de sua morte e
ressurreição, oferecemos-te o pão e o cálice, dando-te graças porque nos consideraste dignos de
estar diante de ti e de servir-te. E te pedimos que envies o teu Espírito Santo à Oblação da santa
Igreja: reunindo em um só rebanho todos os fiéis que recebemos a Eucaristia na plenitude do
Espírito Santo para fortalecimento de nossa fé na Verdade, concede que te louvemos e te
glorifiquemos, pelo teu Filho Jesus Cristo, pelo qual a ti a glória e a honra – ao Pai e ao Filho,
com o Espírito Santo na tua santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém”.
282
AMIOT, op. cit., p. 15.
283
Ibid. MARTIMORT, op. cit., p. 45-46 : Martimort esquematiza de forma mais simples o que
é descrito na anáfora de Hipólito, vendo nela seis partes distintas: 1- Expressão de ação de
graças logo após o diálogo entre o bispo e a assembléia; 2- o relato da instituição; 3- a anamnese,
que não é mera referência ao passado; 4- a invocação dos frutos do sacrifício de Cristo sobre os
que vão comungar ( também chamada de epiclese ou invocação do Espírito Santo); 5- a
doxologia e 6- o amém da comunidade.
284
MARTIMORT, Princípios da Liturgia, p. 146. BECKHÄUSER, Celebrar a Vida Cristã., p. 91-95.
285
Hipólito, A Primeira Eucaristia.

203
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
vra estava incluída nas exortações aos catecúmenos286 (“E permanecerão
vigilantes durante toda a noite, e se lerá para eles, e serão instruídos”287), na
renúncia e na profissão de fé e nas orações. O que foi batizado é, agora,
“digno, deve participar, na mesma hora da oblação”. O ofertório também é
mencionado, quando é dito que “os batizandi” não deviam ter “nada em seu
poder, a não ser o que trazem para a Eucaristia”288. Após a confirmação
com óleo e sinal da cruz em nome do Trino Deus, menciona-se o ósculo
santo289, então inicia-se o diálogo290. Na seqüência é mencionado o uso de
pão abençoado, vinho (imagem do sangue), leite e mel misturados, para
recordar a promessa da terra que mana leite e mel, e que em Cristo essa
promessa foi cumprida.291 O bispo dará graças sobre a água como repre-
sentação do batismo e, então, conduzirá a distribuição da Eucaristia292. Se-
gue imediatamente a ordem para que todos, após a Ceia, apressem-se em
fazer o bem293. Não é mencionado todo o texto da oração eucarística, pois
não se trata de uma ordem de culto, mas de uma “concisa instrução sobre
o batismo e sobre a oblação294.
Pode-se concluir, pois, que em Hipólito, a liturgia eucarística corresponde
à “oração dos fiéis, beijo da paz, ofertório, oração de consagração (apesar
de haver um texto, permite-se alguma liberdade, com regras para a improvi-
sação, para que seja correta e de acordo com a ortodoxia), - há menção de
bênçãos sobre a oferta para os necessitados -, a comunhão celebrada com
orações próprias, o rito e a despedida295. Quanto às regras para os ágapes296,
bem como as ceias das viúvas297 e a comunhão diária298, estão todos relaci-
onados com os batizados, na certeza da presença de Cristo, com profundo
espírito de oração299, e marcadas pela preocupação com os pobres, viúvas,

286
Hipólito, Os que se aproximam da fé.
287
Hipólito., A Tradição do Santo Batismo.
288
Hipólito, A Tradição do Santo Batismo..
289
Hipólito, A Confirmação.
290
Ibid.: “O Senhor esteja contigo”; Responda o que foi marcado: “E com o teu espírito”
291
Hipólito, A Primeira Eucaristia.
292
Ibid.: “Partindo o pão, diga, distribuindo os pedaços: O pão celestial em Jesus Cristo. E o que
recebe responda: Amém. Se os presbíteros não forem suficientes, peguem os cálices os diáconos
e, com dignidade, coloquem-se em ordem: primeiro o que segura a água, em segundo lugar o
que segura o leite, em terceiro, o que segura o vinho. Provem de cada cálice os que recebem,
dizendo três vezes aquele que dá; Em Deus Pai Onipotente. Responda o que recebe. Amém. -
E em nosso Senhor Jesus Cristo. – Amém. – E no Espírito Santo e na Santa Igreja. – E
responda: Amém. Assim proceda com cada um.
293
Ibid.
294
Ibid.
295
GIBIN, Tradição Apostólica de Hipólito de Roma , Introdução, p. 26.
296
Hipólito, O Ágape.
297
Hipólito, A Ceia das Viúvas.
298
Hipólito, A Comunhão Diária.
299
Id. 82, 84, 85.

204
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
doentes, coveiros, enfim, os ausentes.
Mesmo marcada por certo moralismo ou legalismo300, são preciosas as
informações sobre a vida cristã encontradas em Hipólito, especialmente
sobre a estrutura do culto, em parte ainda utilizada nos tempos presentes.

1.5.4 - OS TEMAS CENTRAIS DA EUCARISTIA


Os cinco temas identificados por Yngve Brilioth (ex-arcebispo luterano
da Suécia) na Eucaristia no Novo Testamento301, podem também ser iden-
tificados nos três documentos dos pais apostólicos, seja na sua totalidade, ou
em parte ao menos. “São eles: eucaristia ou ação de graças, confraterniza-
ção na comunhão, comemoração ou elemento histórico, sacrifício, e misté-
rio ou presença”302, além de outros dois temas mencionados por autores
mais recentes: “Obra do Espírito Santo e evento escatológico”303.
A ação de graças está presente nas diversas bendições na Didaqué,
sobre o cálice, sobre o pão e após a celebração304. Justino também o con-
firma “na longa eucaristia [que] é pronunciada”305 e declara que “este ali-
mento se chama entre nós de eucaristia”306. Em Hipólito, toda a temática da
oração eucarística gira em torno desse tema, desde a expressão inicial “De-
mos graças ao Senhor”307.
A temática da confraternização fica evidente no “ósculo santo” (menci-
onado especificamente em Justino308 e Hipólito309, e subentendido em
Didaqué310), e também no amém comunitário311, no pão único e cálice co-
mum312, além do mútuo acolhimento e ajuda material313.
A comemoração ou elemento histórico é comprovado no uso da anamnese
(em memória da criação e redenção)314 e nas palavras da instituição315,
além do uso de aleluias e salmos, repetidos por todos316.
O tema do sacrifício também aparece na narrativa da instituição, nas
palavras “meu corpo que por vós será destruído e sangue por vós derrama-

300
HÄGGLUND, op. cit., p. 14.
301
WHITE, op. cit., p. 192-194.
302
Id., p. 192.
303
Ibid..
304
Didaqué IX. 1-3; X. 1-4; XIV. 1.
305
Justino, Apologia 1. 65.
306
Id., 66.
307
Hipólito, Eleição e Consagração dos Bispos: Eucaristia.
308
Justino, Apologia 1. 65
309
Hipólito, Tradição Apostólica 54.
310
Didaqué XIV. 2.
311
Justino, Apologia 1. 65; Hipólito, Tradição Apostólica 16.25; Didaqué IX. 4 e X. 5.
312
WHITE, op. cit., p. 192.; ver também Didaqué IX. 4; X. 5; Apologia 65.3.
313
Justino, Apologia 1. 65 e 67.; Hipólito, Tradição Apostólica 58.; ver também Didaqué 11 e 12.
314
Justino, op, cit., 67; Hipólito, Tradição Apostólica 12 a 16; Didaqué IX. 2 e 3; X. 2 e 3.
315
Hipólito, op. cit., 14 -a 16; Justino, Diálogo com Trifão.
316
Hipólito, Tradição Apostólica 66.

205
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
do”317, no uso de expressões como oblação318, sacrifício319, oferenda320 e
raça sacerdotal321.
O tema da presença322 pode ser identificado na relação do pão e do
vinho com o corpo e sangue de Cristo na Eucaristia323 (fala inclusive do pão
como a carne de Jesus324) e no uso do domingo como dia de culto, recor-
dando que o Salvador vive325.
A idéia de que a Eucaristia também é local da atuação do Espírito Santo
aparece especialmente na epiclese326, ou seja, na invocação dos frutos do
sacrifício sobre os que vão comungar, pedindo que sejam repletos do Espíri-
to Santo327.
Finalmente, a dimensão escatológica328 é atestada na esperança de ser
“dignos de obter a salvação eterna”329, nas doxologias330 e (na Didaqué) na
expressão maranatha331.
Ainda pode-se destacar que se tratava da reunião dos irmãos332, san-
tos , batizados334, reconciliados entre si335 e em plena conexão com a Igre-
333

ja336. Destaca-se, pois, que a “Eucaristia é fonte de amor dos irmãos. Ela
leva à prática da caridade desinteressada e constitui o fundamento da uni-
dade da Igreja”337.

1.6 - CONCLUSÃO
Ao estudar as origens do culto cristão e especialmente da Eucaristia,
conclui-se que há uma série de elementos da cultura, culto e costumes
judaicos que influenciaram na sua composição. E não poderia ser diferente,
pois o culto cristão originou-se no meio desse povo. Destaca-se primeira-
mente que muitos acordos e alianças eram firmados e selados em meio a

317
Id., 14-16; Justino: Diálogo com Trifão 41.
318
Hipólito, Tradição Apostólica 11.
319
Justino: Diálogo com Trifão.
320
Hipólito, Tradição Apostólica 16.
321
Justino: Diálogo com Trifão.
322
Didaqué IV. 1.
323
AMIOT, op. cit., p. 13-14.
324
GIBIN, Textos Catequético-Litúrgicos de São Justino, p. 78.
325
Justino, Apologia 1. 67.
326
Hipólito, Tradição Apostólica 16.
327
MARTIMORT, A Eucaristia, p. 46.
328
WHITE, op. cit., p. 193.
329
Justino, Apologia 1. 65; 67.
330
Hipólito, Tradição Apostólica 16.
331
Didaqué X. 6.
332
MARTIMORT, A Eucaristia, p. 35.
333
Didaqué IV. 2.
334
Didaqué X. 6.
335
Didaqué XIV. 2.
336
SALVADOR, op. cit., p. 57-58.
337
GIBIN, Introdução aos Textos Catequético-Litúrgicos de Sâo Justino, p. 75.

206
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
uma refeição; festas religiosas incluíam refeições, que eram importantes
como sinal de comunhão com Deus e com o semelhante.
As refeições familiares também tiveram sua parcela de contribuição para
futuras concepções da Eucaristia. O pão como elemento imprescindível na
vida do povo judeu e o vinho como bebida que normalmente acompanhava
as refeições, eram símbolos do que é essencial para a vida. Estes foram os
elementos usados quando da instituição da Eucaristia, que se tornou pão
para a vida eterna. As diversas refeições familiares, tanto as anuais, quanto
as semanais, eram marcadas por ações de graça e recordações dos gran-
des feitos de Deus desde a criação e, em especial, na redenção de seu povo,
e ardente expectativa por uma libertação plena no futuro. Estes elementos
foram importantes na moldagem das orações eucarísticas, da anamnese e
das expressões escatológicas na liturgia. Além disto, destaca-se que nor-
malmente tais refeições aconteciam com um grupo específico, família ou
círculo de amigos. Foi o que aconteceu por ocasião da última ceia, e tam-
bém teve influências na restrição aos não batizados nos tempos da Igreja
Primitiva.
A sinagoga também contribuiu para a estruturação do culto eucarístico.
Aquela parte que é conhecida como liturgia da Palavra, ou seja, a leitura das
Escrituras e sua exposição através de uma homilia e as orações de interces-
são, são herança da sinagoga.
Do templo originou-se toda a linguagem sacrificial, presente nas pala-
vras da instituição (Nova Aliança e sangue), além do uso de salmos
responsivos e amém da comunidade.
A última ceia de Jesus com seus discípulos, que aconteceu em meio a
um refeição, estava envolvida por uma série de elementos característicos
das refeições judaicas. A novidade está na presença de Cristo e na identifi-
cação do pão e do vinho com seu corpo e sangue. Destacam-se, além das
palavras de Jesus, as ações “tomar”, “abençoar”, “quebrar o pão” e “dar
pão e vinho” aos discípulos, que tornaram-se importantes na moldagem fu-
tura da liturgia eucarística. A expressão “Nova Aliança” aponta para outro
elemento inédito no culto: é permanente e, referindo-se ao sacrifício único
e perfeito de Cristo, não precisa ser repetida mediante abate de animais,
como na “Velha Aliança”. O mandamento acerca da repetição tornou-se
significativo na instituição desse “novo culto”, o culto cristão (marcado pela
ação remidora de Cristo, sua morte e ressurreição) e evidenciou nele a
centralidade da Eucaristia.
No tempo dos apóstolos destaca-se a expressão “partir do pão” que faz
lembrar das ações do próprio Cristo e, também, do espírito de fraternidade e
comunhão. Para celebrar a presença do Ressurreto e assegurar a ação do
Espírito Santo, o “partir do pão” tornou-se freqüente, possivelmente diário
por algum tempo e, especialmente, dominical. A estrutura desse culto con-
207
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
tava com a proclamação da Palavra, a comunhão fraterna (parte essencial),
a Eucaristia e as orações. As casas dos “irmãos” tornaram-se pouco a
pouco o local de encontro dos cristãos, pois o templo e a sinagoga não se
prestavam para as refeições comunitárias. Tais celebrações eram marcadas
por alegria e simplicidade, e tinham como motivo principal a união com Cris-
to e com os irmãos. Os cristãos no tempo dos apóstolos olhavam para o
passado, recordavam os grandes feitos de Deus para a salvação da huma-
nidade e reviviam o que aconteceu na última ceia; no presente celebravam
a união com Cristo e com os irmãos e, vislumbrando o futuro, manifestavam
a expectativa do reino eterno, marcado pela expressão maranatha. Sendo o
local da atuação do Espírito Santo, a participação na Eucaristia trouxe como
conseqüência muito amor fraternal e ajuda mútua (a diaconia tinha um pa-
pel essencial), conquistou a simpatia do povo e promoveu um crescimento
fora do normal da Igreja.
Como nem tudo era perfeito, por envolver pessoas, muito cedo proble-
mas tiveram que ser atacados. O apóstolo Paulo chama a atenção de que o
que torna alguém indigno de participar da Eucaristia é a falta de amor a
Deus e ao semelhante, manifestada no egoísmo e descaso para com os
menos favorecidos. O seu discurso ataca o problema social da comunidade
de Corinto, e enfatiza que a falta de ajuda aos “que nada têm” quebra a
unidade da igreja e torna a celebração eucarística indigna. Por isso também
enfoca a questão da unidade em “um só pão, um só corpo”.
O testemunho dos Pais Apostólicos dos séculos II e III também leva a
conclusões importantes, pois não há qualquer evidência de culto dominical
sem a Eucaristia nesse período. Eucaristia é elemento central e, até certo
ponto, motivo da reunião da comunidade. Os anos passam, porém a certeza
da presença de Cristo é evidenciada em expressões como corpo e sangue e
carne e sangue de Jesus. O primeiro dia da semana é confirmado como dia
de culto e símbolo da “nova criação”.
Os três documentos (Didaqué, Apologia de Justino e Tradição Apostóli-
ca de Hipólito) apreciados para identificar uma ordem da liturgia eucarística,
apontam para uma gradativa padronização do culto cristão. O próprio uso
da expressão Eucaristia, a partir do final do primeiro século ou início do
segundo, denota essa padronização. Enquanto que nas origens da Igreja
Cristã a Eucaristia era celebrada no contexto de uma refeição completa,
pouco a pouco e, especialmente no segundo século, ceia e refeição foram
separados, até o quase completo desaparecimento desta. O que fica claro,
no entanto, é que a ação concreta de ajuda aos necessitados continuava
sendo elemento essencial da Eucaristia, caracterizada pela ênfase na ajuda
ao próximo e socorro aos ausentes.
A estrutura básica do culto, ao final desse período, é composta basica-
mente pelo que segue: Leitura das Escrituras, Exortações (homilia) e ora-
208
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
ções, reconciliação dos irmãos que culminava com o ósculo santo, o Ofertório
ou apresentação do pão e vinho (além da oferta para os necessitados), Di-
álogo do Prefácio, Oração Eucarística, possivelmente o uso da Oração do
Senhor (não se pode identificar o momento exato desta oração), Distribui-
ção, Ação de graças pós-comunhão e a exortação a que levassem também
para os ausentes e se apressassem em fazer o bem.

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1989, vol. 1, p. 412-415.

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

PRIMEIRO DOMINGO DE ADVENTO


Isaías 63.16b-17; 64.1-8
01 de dezembro de 2002

CONTEXTO
“Oh! Se fendesses os céus e descesses!” (Is 64.1) Este é o tema do
Advento, na forma de uma oração. É uma formulação muito apropriada.
Afinal, o Advento, como vinda de Deus, trata da ação de Deus. Não lem-
bramos nossos atos, tampouco enfatizamos o que nós queremos ou prome-
temos fazer. Celebramos o agir de Deus, e nada melhor do que fazê-lo na
forma de uma oração. E que oração! Ela é altamente poética e traz algu-
mas das mais belas imagens bíblicas.
Antes de entrar no texto, algumas observações sobre a forma da perícope
e o contexto em que está inserida. A perícope começa em Is 63.16b, com
as palavras: “Tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome
desde a antiguidade”. A isto se acrescenta o v. 17, e os primeiros oito
versículos do capítulo 64. O que se consegue com este recorte é uma
moldura em que a expressão “nosso Pai” abre (63.16) e fecha (64.8) a
perícope. Além disto, identifica a quem se dirige a oração, “Oh! Se fendes-
ses os céus e descesses!” Ela se dirige ao SENHOR, nosso Pai, nosso
Redentor (63.16).
O contexto imediato (63.7-64.12) pode ser descrito como “A última ora-
ção do profeta” (ver Almeida Revista e Atualizada). Esta oração é seme-
lhante a um lamento nacional, e lembra alguns dos Salmos, como, por exem-
plo, o Sl 44. É feita de duas partes: a) louvor, em que se lembra os feitos de
Deus no passado (63.7-14); b) súplica, em que se pede a Deus que realize a
redenção prometida (63.15-64.12). No meio da súplica, há uma confissão
de pecado (64.5b-7). A oração de Isaías deriva, não de amargura ou dúvi-
da, mas da confiança absoluta de que Deus não abandona seu povo (Is
64.8-12).

TEXTO
Um texto tão rico não pode aqui ser explicado em seus detalhes. Se-
guem algumas anotações.
2.1: “Nosso Pai” (63.16) – Em todo o AT, só aqui a expressão “nosso
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Pai” (no hebraico, uma só palavra - Wnyba, “abinu”) é aplicada a Deus.
É claro que Israel sabe que Deus é seu Pai. Além disso, há passagens
em que Deus chama Israel de “seu filho” (ver Êx 4.22; Dt 32.6; Jr 3.4;
31.9; Ml 2.10; ver também Jo 8.41). Detalhando isto, pode-se dizer
que o SENHOR é o pai de Israel porque foi ele quem formou a nação
(Is 64.8). Agora, essa paternidade tem a ver, acima de tudo, com a
aliança de salvação. Deus amou Israel (Os 11.1; Jr 31.20), comprou o
povo, ao redimi-lo do Egito (Dt 32.6), e continuou a guiar o seu primogênito
(Êx 4.22; Jr 31.9-10).

Em Is 63.16a existe um interessante contraste entre os “pais” de Israel,


Abraão e Jacó (“Israel”), e o verdadeiro Pai, que é Deus. Aqueles podem
esquecer-se de seu povo, mas o SENHOR não o faria.

2.2: “Nosso Redentor” (63.16) - O termo hebraico para “redentor” (laeGO,


“goel”) lembra a pessoa encarregada de proteger a família (veja-se a
história de Rute). O intérprete é tentado a sugerir que o SENHOR é
visto como “protetor familiar de Israel”. Em outras palavras, Israel é a
família de Deus, da qual ele é o “goel” ou Redentor.
2.3: “Oh! Se fendesses os céus e descesses!” (64.1) — Fender ou ras-
gar o céu é uma impressionante imagem, em que o céu é comparado à
lona de uma tenda. Na memória do povo de Deus está aquela impres-
sionante manifestação no Sinai (Êx 19.16-19; cf. Sl 18.7-9). A vinda de
Deus em juízo e redenção traz consigo efeitos cósmicos.

Deus rompe a barreira e se manifesta em nosso mundo. Por isso, o


profeta pede uma manifestação de Deus semelhante àquela do Sinai. Por
que esta súplica agora? Porque há problemas que afligem a nação, por
culpa do povo. Nessa situação sem saída, só resta clamar e pedir ao Deus
vivo que volte a agir, por mais indigno que seja o povo.
Registre-se que durante todo o período intertestamentário Israel viveu
com essa noção de que os céus estavam selados. Tanto mais nos impressi-
ona o evento do batismo de Jesus, em que temos um cumprimento desta
petição: os céus se rasgaram e o Espírito desceu sobre Jesus e o Pai falou
(Mc 1.10-11).

2.4: “Nem com os olhos se viu Deus além de ti” (v.4) – Parte deste
versículo aparece no NT em 1 Co 2.9. Notar que se nega, não apenas
que existe um Deus igual ao SENHOR, mas que exista um Deus além
dele. É a ênfase no monoteísmo, tão característica de Isaías.
2.5: “Te iraste” (v.5) — Esta ira culminou no exílio babilônico. O motivo
da ira é o pecado do povo.
214
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2.6: “Somos como o imundo” (v.6) – Mais um símile, em meio a tantos
outros. O povo (notar o “todos nós”, aqui e nos vv. 8,9) é como pessoa
com lepra (Lv 13.45; cf. Is 6.5). Agora, a imagem mais forte é a que
segue: “todas as nossas justiças (!), como trapo da imundícia” (v.6).
Não é trapo de imundícia, mas da imundícia. Parece que se pensa em
algo bem específico, como os panos que a mulher usa durante o período
menstrual, um tempo em que ela é imunda (ver Lv 15.19-24; Ez 36.17).
A Bíblia da CNBB ousa traduzir: “nossa justiça toda é como sangue
menstrual”.
2.7: “Nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro” (v.8) – Um imagem que
ecoa outros textos de Isaías (Is 29.16; 45.9) e que reverbera mais adi-
ante em Rm 9.20-21. Isto é verdade tanto em termos de juízo (lei),
quanto em termos de salvação (evangelho).

APLICAÇÃO HOMILÉTICA
Sugere-se desenvolver o tema: “Oh! Se fendesses os céus e desces-
ses!”, com as seguintes partes: 1. Quem pede (todos nós, imundos, etc.); 2.
A quem pede (ao Pai, Redentor, Deus único, Deus irado que esconde o
rosto, “oleiro”, etc.); 3. O que pede (uma súplica de advento; as implica-
ções do pedido: com que coragem pode um povo iníquo pedir a presença
desse Deus à cuja presença os montes tremem?; o cumprimento da prece).

Vilson Scholz
São Leopoldo, RS

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SEGUNDO DOMINGO DE ADVENTO


8 de dezembro de 2002
Isaías 40. 1-11

CONTEXTO
Neste texto temos a chave para toda a segunda parte do livro de Isaías.
É a introdução, o prólogo do que é chamado o “primeiro discurso”, anunci-
ando ao mesmo tempo toda a parte profética de 40.12 a 66.24. A fala retra-
ta Javé como o verdadeiro consolador, cuja palavra permanece em meio ao
sofrimento, o pastor que guia seu povo, correspondendo esta fala à repre-
sentação que vem em seguida, na segunda parte: Javé é o Deus infinito e
incomparável, que restaura o seu povo. Isaías, o evangelista do Antigo Tes-
tamento, se destaca por suas belas imagens do Senhor compassivo com a
nação quebrantada de Israel. No capítulo 40 está particularmente presente
a palavra de consolação. A palavra consolo é um presente de Deus para um
povo no meio de suas calamidades e desgraças. O caminho do arrependi-
mento está preparado, eles podem esperar o advento da salvação de Deus.

TEXTO: CONSIDERAÇÕES EXEGÉTICO-HOMILÉTICAS


O texto contém três chamamentos, três anúncios vívidos, três clamores,
que vão se intensificando, e que contêm uma tríplice especificação do anún-
cio geral da salvação nos vv. 1 e 2: no primeiro (vv.3-5), a “voz” chama o
povo a dar meia volta (pois Deus enviará salvação ao mundo inteiro, cf. a
antecipação: “a glória do Senhor se manifestará”, v.5). É o convite para se
eliminar todo obstáculo externo e interno que pudesse obstruir esta salva-
ção. A segunda “voz” (vv.6-8) lembra a realidade da vida humana que é
limitada pela finitude: toda flor seca, todos e todas morrerão. A realização
de um homem, o sucesso de uma mulher, tudo acabará, e o profeta não
esconde este fato brutal de nossa existência. Nenhuma experiência humana
escapa deste veredito. No entanto, esta finitude realça o valor para nós da
estabilidade e perenidade do consolador: “a palavra de nosso Deus perma-
nece eternamente”, v. 8. Um convite a finitos e frágeis seres como nós nos
apegarmos às promessas de Deus, que são como uma rocha no meio da
efemeridade da vida humana. Como povo de Deus, ajoelhando-nos em ar-
rependimento, confessamos nossas mais profundas necessidades, e afirma-
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
mos o poder e a disposição de Deus para ouvir e atender as nossas orações.
Finalmente, a terceira “voz” (vv.9-11) anuncia as boas novas de que Deus
está presente para salvar o seu povo. Ela conclama Israel, em exílio, a
confiar no Senhor, que vem como redentor, e a submeter-se à sua orienta-
ção fiel e paterna.
“Consolai [...] sua iniqüidade está perdoada” (v.1-2). Embora julgada e em
exílio, Israel deve saber que ainda é povo escolhido de Deus. Esta voz profé-
tica não se refere somente ao profeta, para quem seria impossível lidar pasto-
ralmente com cada israelita. Assim, estas palavras divinas são uma missão
dada a cada um, que leve a palavra de consolação ao seu semelhante, que
cada um ajude a consolar e reconfortar. “Falar ao coração” significa falar
calorosamente, cobrir com palavras, aquietar. Que se clame alto (consolai!)
ou que se fale suavemente ao coração, agora é chegado o tempo, para Israel,
de saber que o tempo da graça está aí. “É findo o tempo de sua milícia”, é
tomado mais no sentido figurado designando as vicissitudes e dificuldades na
vida, que podem ser vividos como conflitos (cf. Ef 6.11ss; 1 Tm 6.12; 2 Tm
2.3ss; 6.7), sendo que neste caso a expressão é ampliada para caracterizar as
aflições e sofrimentos de Israel neste período difícil: um tempo de conflito.

Vv. 3ss: “João Batista foi o primeiro daqueles mensageiros e arautos de


nossa redenção, da qual a redenção da Babilônia fora apenas um tipo. Mas
este compreende todos os outros ministros da Palavra, que Deus enviou e
que enviará até o fim do mundo para conduzir almas desafortunadas para
fora deste deserto miserável, e para fora desta prisão da lei, para a cidade
celeste de Deus. O caminho está preparado para o Senhor quando lança-
mos fora as grandes pedras e ídolos, como o orgulho, confiança nas própri-
as obras, e quando reconhecemos nossos pecados. Pois eles literalmente
barram a entrada da graça” (Heim e Hoffmann, cf. Lange).

“Quando nós observamos atentamente o movimento quieto, poderoso do


Senhor através da história do mundo, nós vemos como, diante do seu cami-
nhar, os vales se elevam sozinhos, e as montanhas afundam, como encostas
íngremes tornam-se planície, e paredões se tornam planos. Não tenhamos
medo de atravessar os desertos da vida se Deus está conosco! É uma cami-
nhada por belas sendas planas.” (Umbreit, cf. Lange).

V. 8b: “A palavra de nosso Deus permanece eternamente”. Esta palavra


cria o mundo (Gn 1; Jo 1; Sl 33.6) e também o sustenta por meio do seu
poder (Hb 1.3). Céus e terra são preservados para o último Dia (2 Pe
3.7), quando passarão, mas sua palavra não passará (Is 51.6; Sl 102.27;
Mt 5.18; Lc 21.33). Sua palavra não sairá vazia, como diz Isaías, mas
cumprirá o seu desígnio e produzirá seus frutos (55.11). “E quando
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
todas as formas terrestres, nas quais a palavra do Senhor se investe,
ficarem velhas e passarem como a relva que seca, ainda assim a verda-
de eterna, escondida nestas formas, aparecerá tanto mais gloriosamen-
te de suas configurações demolidas, e todos os que terão vivido na
palavra de Deus e que terão confiado nele ressurgirão com ele para
uma nova vida” (Lange).

ILUSTRAÇÃO
Um grupo de meninos na praça discutia sobre quanto dinheiro cada um
tinha, sendo que a conversa transformou-se em “medição de forças”: “Eu tenho
75 centavos”, dizia um, mostrando as moedas de 50 e 25. Imediatamente outro
dizia: “Eu tenho uma nota de um real”, dizia outro todo orgulhoso, exibindo a
“verdinha”, ao que emenda um terceiro dizendo que tinha dois reais, puxando as
notas do bolso. Foi quando o quarto arrematou: “Pois eu tenho cinco reais!” Só
que não mostrava o dinheiro. Quando os outros o intimaram a provar sua pre-
tensão, ele responde: “Meu pai me disse que hoje à noite vai me dar cinco reais,
então já são meus, porque meu pai disse.” (adaptado, CPR).

DISPOSIÇÕES HOMILÉTICAS
“Por que o advento de Jesus ainda é hoje um consolo e alegria?”
1. Através dele o tempo de servidão termina (v.2)
2. A maldição do pecado é removida (v. 2-3)
3. A prometida nova criação é introduzida (v.4)
4. A palavra do Senhor revelou a sua glória

“A preciosa missão do Senhor para os ministros da palavra: consolai o


meu povo!” Perguntamos:
1. A quem, segundo a palavra de Deus, o consolo deve ser levado?
2. Que tipo de consolo, segundo esta palavra, deveria ser levado?

“Que preparação Deus pede de nós para compartilharmos do consolo


em Cristo?”
1. Preparem o caminho do Senhor
2. Aprendam a conhecer sua pequenez

Fontes:
GAULKE, Stephen. A Christmas Confort. CPR, 9/1997, 17ss.
LANGE, John P. Commentary on the Holy Scriptures: Isaiah. Schaff,
Ph., trad. Grand Rapids: Zondervan, 1878.

Manfred Zeuch
Canoas, RS
218
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO


Isaías 61.1-3, 10-11
15 de dezembro de 2002

CONTEXTO
O presente texto encontra-se no coração da unidade literária que englo-
ba os capítulos 56-66, considerada pela crítica moderna como obra do Trito-
Isaías, um profeta do início do período persa que teria pregado o futuro
glorioso de Sião (59.15b–62) a um povo que lamenta seu estado presente
(58–59.15a; 63–64), apesar da idolatria e do abandono do culto verdadeiro
pela nação (56–57; 65–66).
Esta estrutura literária é preferível à que divide Is 40-66 em três seções,
demarcadas pelo refrão em 48.22 e 57.21. Após o chamado ao louvor no
capítulo 54, que evidencia o ápice atingido em 53, Is 55 marca um reinício
semelhante a Is 40 em conteúdo (40.1-2/55.1; 40.6-8/55.10-11) e função
(pregação de consolo e esperança). A voz que aqui se apresenta, porém,
não é a de um indivíduo do período do AT, mas sem dúvida a do Servo do
Senhor, já introduzido em Is 42, 49, 50 e 53, e personificado séculos mais
tarde em Jesus Cristo (Lc 4.16-21).
O Servo do Senhor atinge aqui o ápice de sua revelação na profecia de
Isaías e no AT como um todo, identificando-se como o Messias que vem
restaurar a justiça e o juízo em favor dos oprimidos (cf. 56.1; 5.8). Como
conseqüência da obra redentora do Messias, o tradicional paralelo justiça/
juízo típico dos escritos proféticos é substituído, em 60-62, pelo par justiça/
salvação (59.17; 61.10; 62.1), apontando para o efetivo cumprimento da
promessa feita em 56.1 na obra do Servo do Senhor.

TEXTO
O Espírito do Senhor Javé [está] sobre mim, porque Javé me ungiu
(v. 1). O Servo apresenta-se como o ungido de Javé. Esta não é, porém,
uma unção comum: ao invés da referência ao óleo da unção, tem-se a refe-
rência ao Espírito de Javé sobre o Servo (note-se a ausência de verbo ou
partícula circunstancial, sugerindo uma relação perene e incondicional entre
o Servo e o Espírito de Javé – como já 11.2-5 anunciara). Aqueles que
pretendem usar a tradução na linguagem de hoje devem ter especial cuida-
219
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
do neste aspecto. Ainda, a unção não é para determinada posição, como rei,
profeta ou sacerdote, mas sim para uma missão que engloba toda a série de
ações descritas até o final do v. 3. Essa missão detalha o que já havia sido
antecipado em 59.15b-20 como obra do próprio Javé: trazer justiça e salva-
ção, vingança e zelo.
Para trazer boas novas aos pobres (v.1). As boas novas aqui são
restritas àqueles a quem a justiça que Deus espera de seu povo (cf. 5.7;
56.1) fora negada: os empobrecidos, escravizados e oprimidos pela ganân-
cia das lideranças do povo. Tanto a referência ao jubileu como os capítulos
iniciais do livro de Isaías (1.12-17, 21-23; 3.14-15; 5.7-8) e a voz dos profe-
tas contemporâneos (Am 8.4-6; Mq 2.1-2) revelam a indignação de Deus
com aqueles que pervertem o direito e a justiça movidos pela ganância. A
injustiça jamais deveria deixar a igreja insensível, pois o grito dos excluídos
não encontra ouvidos surdos no Senhor que os criou e remiu.
Para proclamar aos cativos libertação (v.1). A expressão é a mesma
usada em Lv 25.10 na instituição do ano do jubileu, celebrado a cada 50
anos, quando todo escravo deveria ser libertado e toda propriedade voltar
ao seu proprietário original. A lei visava proteger as famílias em Israel da
escravidão e do empobrecimento, evitar a concentração de terras e renda e
lembrar que a terra era dádiva de Deus, seu real proprietário. É improvável
que o jubileu tenha algum dia sido observado, fato que os profetas denunci-
aram (Jr 34).
Ano aceitável / Dia da vingança (v.2). A vinda do Messias é evange-
lho, salvação e libertação para aqueles que o aguardam, mas juízo e conde-
nação para os que o desprezam. Não há esquecimento dos que provocaram
a ira de Javé, nem anistia aos que “não sabiam” que estavam errados. Evan-
gelho e Lei são anunciados para produzir consolo e arrependimento, e final-
mente salvação e juízo.
Carvalhos de justiça (v.3). O carvalho é uma árvore majestosa, de
raízes firmes que não podem ser arrancadas facilmente. Em imagem que
lembra o Sl 1, a glória dos antes oprimidos será firmada através da justiça
conferida por Javé para a sua glória.
Me cobriu de vestes de salvação e me envolveu com o manto de
justiça (v.10). O que o v. 3 promete para os oprimidos de seu povo é confe-
rido primeiro para o Servo: Javé cobre-o com justiça e salvação, como um
noivo ou noiva adornam-se em preparação para as núpcias. Aqui já não se
fala da vinda em juízo, mas da união do Servo com os que antes choravam.
O Servo de Javé compartilha com eles os mesmos atributos que a ele são
conferidos. Ele lhes traz justiça e salvação, de modo que o seu júbilo possa
também provocar o júbilo e a alegria do seu povo.
Como a terra . . . assim o Senhor Javé (v.11). O que aqui é anunciado
é uma certeza, não uma esperança utópica. O próprio ungido de Javé o
220
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
proclama e nos conclama ao louvor devido à salvação que vem de Deus.
Quanto mais devemos nós louvar o seu nome e fazer ecoar a sua voz,
sabendo que o Messias já veio, já nos cobriu com sua salvação, e pela
repetição destas mesmas palavras na sinagoga em Nazaré reafirmou nossa
esperança? Javé fará brotar a justiça e o louvor pela obra redentora de seu
Servo perante todas as nações da terra. E a Igreja, através da pregação do
Evangelho, tem o desafio e o privilégio de fazer parte desta missão de Deus.

PROPOSTA HOMILÉTICA
I. Em Cristo – Deus enviou a salvação
II. Em Cristo – Deus proclama a salvação – e o juízo
III. Em Cristo – Deus fará brotar consolo, justiça e louvor

Gerson L. Flor
Windsor, ON, Canadá

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUARTO DOMINGO DE ADVENTO


2 Samuel 7.1-7 (8-11, 16)
22 de dezembro de 2002

CONTEXTO
Dois temas distintos em textos subseqüentes da Bíblia têm neste capítulo
seu ponto de partida. Primeiro, a linhagem davídica recebe o direito de go-
vernar para sempre, e o Senhor dá a sua palavra de que não irá retirar dos
filhos de Davi a sua misericórdia. Assim o Senhor há de edificar a casa de
Davi, isto é, Davi encontrará uma dinastia (o reinado desta dinastia durou
quatro séculos inteiros sobre Judá). O segundo tema aponta para uma inter-
pretação escatológica: “seu tabernáculo será restaurado” (Am 9.11); “um
filho da casa de Davi estabelecerá seu trono com justiça e retidão” (Is 9.6-
7); “um renovo do tronco de Jessé criará um reino ideal” (Is 11.1-9; Jr 23.5;
Zc 3.8). Este capítulo tornou-se fonte de esperança messiânica, e esta foi
amplamente desenvolvida na mensagem dos profetas e salmistas.

TEXTO
Vv. 1-3: O rei Davi, vendo que as promessas de Deus com respeito à
vitória sobre os seus inimigos estavam sendo cumpridas, quer demons-
trar sua gratidão e glorificar a Deus. O meio de fazê-lo é providenciar
um lugar mais adequado e permanente para a arca da aliança (que era
símbolo da habitação de Deus no meio do seu povo). Era costume na-
quela época que reis piedosos construíssem templos para as suas divin-
dades. Davi também quer construir um templo ao Deus Altíssimo.

Nestes versículos pela primeira vez aparece o nome de Natã como con-
selheiro e confidente do rei. Natã vê a iniciativa do rei Davi como positiva.

Vv. 4-7: Deus agora toma a iniciativa e manda uma mensagem por meio
de Natã. Deus questiona a necessidade de um templo fixo e aponta
para o tempo que “habitou” com o povo numa tenda. A propósito, uma
tenda desmontável poderia ser símbolo mais significativo de sua mora-
da no meio do povo.
222
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Vv. 8-9a: “Meus servo Davi” é um título de honra e, ao mesmo tempo, um
lembrete para que Davi não esqueça que, mesmo sendo rei e cercado
por serviçais, ele também precisa viver como um autêntico servo na
relação com Deus. A grandeza do reinado de Davi devia começar com
submissão a Deus. Deus faz lembrar a Davi que na época em que
ainda cuidava de ovelhas, Ele o escolheu para ser rei e colocou os seus
inimigos debaixo dos seus pés.

Vv. 9b-11: Porque Deus está com Davi, seu futuro será brilhante, seu
nome será perpetuado. Um lugar para meu povo ...Israel, aponta para a
esperança e consolo em dias atribulados (Jr 32.37), segurança e des-
canso (cf. 2 Sm 7.1) e dimensão escatológica (Sl 89.22-24). “Casa” –
Não é Davi quem constrói uma casa para Deus, mas é Deus quem
constrói uma casa para Davi: a) referência à dinastia davídica; b) refe-
rência à promessa messiânica.

V. 16: O oráculo entregue a Davi por meio de Natã termina com a


reafirmação da promessa da aliança: “A tua casa e o teu reino ... firma-
dos para sempre; ... teu trono ... para sempre”. Davi teve a intenção de
honrar ao Senhor e recebeu muito mais do que poderia ter esperado:
bênçãos para o presente e futuro, promessa de que sua dinastia seria
reconhecida e, mais importante, a promessa messiânica.

DESTAQUES DO EVANGELHO DO DIA: LC 1.26-38


Destacam-se os versículos 27,32-33 e 37-38, por terem íntima relação
com o texto do Antigo Testamento e apontarem para o cumprimento das
promessas de Deus.

V. 27: A expressão “casa de Davi” é tema-chave na narrativa do nasci-


mento e infância de Jesus (Lc 1.32, 69; 2.4, 11); é afirmado na genealogia
(Lc 3.11); é declarado publicamente pelo homem cego de Jericó (Lc
18.38-39) e é tema de controvérsia durante os ensinamentos de Jesus
em Jerusalém (Lc 20.41-44).

Vv. 32-33: A grandeza do Reino de Jesus não está no fato de pertencer à


descendência de Davi, mas de ser chamado Filho do Altíssimo, que fez
e cumpriu as promessas . O reinado terreno de Davi era passageiro,
limitado e com falhas; o Reino de Cristo não é deste mundo, é eterno e
perfeito.

Vv. 37-38: “Para Deus não haverá impossível” - relaciona-se não só com
a concepção de João Batista ( apesar da esterilidade de sua mãe), mas
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
com o cumprimento de todas as promessas de Deus, que faz “grandes
coisas”. “Serva do Senhor” – como alguém que confia inteiramente no
Senhor e submete-se à sua vontade. A expressão Servo do senhor já
era atribuída a Davi, e o próprio Cristo também seria assim chamado.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Introdução: Muito se fala a respeito do déficit habitacional no Brasil e no
mundo inteiro. O provérbio popular “quem casa, quer casa” demonstra a
importância desse imóvel na vida das pessoas. Casa significa abrigo, prote-
ção, segurança, conforto e descanso. A preocupação de quem vive em uma
comunidade religiosa também relaciona-se com casa (templo): a) para ser
símbolo da habitação de Deus em meio ao seu povo; b) para abrigo da
própria comunidade cultuante.

TEMA
O SENHOR EDIFICA A CASA

PARTES
I- A intenção de Davi
II- A resposta de Deus através do profeta
III- A promessa de Deus para o presente e para o futuro

CONCLUSÃO
Deus não precisa de palácios para ser adorado e glorificado. Em Cristo,
cumprimento das promessas de Deus, e através dos meios da graça, Ele
quer fazer morada em nosso meio e em nosso coração. A promessa aos
que nEle confiam é de que habitarão na casa do Senhor para sempre.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: Introdução e comentário. São
Paulo : Vida Nova, 1996.
GEHRKE, Ralph David. Concordia Commentary: 1 and 2 Samuel.
Saint Louis : Concordia Publishing House, 1968.
JUST, Arthur A. Jr. Concordia Commentary: Luke : 1.1-9.50. Saint
Louis: Concordia Publishing House, 1996.
MESQUITA, Antônio Neves de. Estudo nos livros de Samuel. Rio de
Janeiro : Juerp, 1979.

Paulo Gerhard Pietzsch


São Leopoldo, RS

224
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

DIA DE NATAL
Isaías 62.10-12
25 de dezembro de 2002

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
O Salmo 98 é um convite para a festa. E Natal é festa! Mas é mais que
um convite: já é a festa sendo experimentada.
Ao ler o Salmo 98 e a narrativa natalina de Lucas, e refletir sobre as
duas leituras, parece inevitável que surja o seguinte questionamento: será
que tudo o que está no Salmo aparece contemplado em Lucas? Parece que
sim e que não!
Explico. Se passamos os Domingos do Advento dizendo que o “Senhor
veio, vem e virá”, quer-me parecer que igual ensino é verdadeiro também
para o Domingo de Natal! Afinal, na narrativa de Lucas a salvação se fez
notória a um pequeno grupo de pessoas: Maria e José, os pastores, os ma-
gos, e mais uma meia-dúzia de pessoas que viviam no templo, em Jerusa-
lém. No entanto, a salvação ganhou em notoriedade, seguiu ganhando noto-
riedade, venceu impérios, imperadores, forças inimigas, e um dia, “todo joe-
lho se dobrará e toda a língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor” (Fp
2), e assim “todas as extremidades da terra [verão] a salvação do nosso
Deus (Sl 98.3).
O evangelho de Natal (Lc 2.1-20) é algo do que existe de mais singular
e surpreendente. Singelo. Humilde. Simples. Nada sofisticado. A cena se
dá na atmosfera de Belém, uma humilde vila do interior. O dia é mesmo de
festa: cumpre-se a Promessa milenar do SENHOR! É dia de comemorar.

INTRODUÇÃO AO TEXTO
O mesmo material é encontrado nos capítulos 30 a 33 de Jeremias, co-
nhecido como o “Livro da Consolação”, ou “Livro da Esperança”.
As palavras são de restauração. Trata-se do anúncio do retorno dos
exilados. O Reino do Norte havia sido levado cativo no ano de 722, e o
Reino do Sul em 597. A realidade presente no país, visível aos olhos de
quem quisesse ver, é de abandono, de devastação. É o retorno de ambos
que está sendo anunciado. Desta forma, Sião não será mais chamada “a
desamparada”, a “abandonada”, mas a “procurada, a habitada” (v. 12).
225
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Quando Isaías diz que o “Salvador vem”, ele está, antes de mais nada,
anunciando o retorno dos exilados (ou dos exílios!). Mas isso não é tudo. A
história não acaba no retorno dos exilados. A restauração territorial e geo-
gráfica de Israel e de Judá é um prenúncio de uma restauração maior: a
Salvação em Cristo, o Messias que estava por vir.
Em Isaías o “teu Salvador” tem nome: “Maravilhoso, Conselheiro, Deus
Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (Is 9. 6). No Evangelho, o anjo
revela o nome aos pastores, depois do Seu nascimento: “É que hoje vos
nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc
2.11).

TEXTO
V. 10: O imperativo “passai” é dito ao povo. Talvez o mais interessante
aqui é o fato de que é o povo quem deve caminhar. Em outros contextos
é o Senhor quem caminha (Sl 24; Is 40). “O Povo” aqui é tradução para
~[h. Trata-se do povo do SENHOR, o povo escolhido. Desde Abrão
até a Igreja Cristã do início do século XXI. Se a pergunta em torno de
quem seja este povo persiste, a resposta está no próprio texto, no versículo
12: “povo santo, remidos do Senhor”.

V. 11: “Eis que!” - Poucas expressões hebraicas têm o peso de hNEh. Essa
interjeição aparece centenas de vezes (519) ao longo de todo o Antigo
Testamento. A interjeição “Eis que” por vezes vem seguida de lei e por
vezes de evangelho. Em Isaías a tônica está no evangelho, como é o
caso em nosso texto. Em Lucas o anjo diz: “não temais: eis que vos
trago evangelho” (Lc 2.10).

“Às extremidades da terra” - No Salmo 98.3 a expressão é #r,a’-ysep.a;-


lk. Em nosso texto a expressão é outra - #r,a’h’ hceq.-la, mas o sentido
parece ser o mesmo, denotando universalidade, totalidade. No Salmo temos
literalmente “todas as extremidades da terra”, enquanto que, em Isaías 62.11,
uma tradução literal seria “para as extremidades da terra”.
Nunca é demais lembrar o óbvio. “O SENHOR fez ouvir”. A forma
verbal hebraica hifil não deixa que essa importante lição evangélica nos
passe despercebida. Se ouvimos e escutamos é porque o SENHOR nos
abriu os ouvidos, que antes não podiam ouvir.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
A situação do povo de Deus, Israel, no tempo de Isaías, era complicada.
Tristeza era a tônica do dia a dia desse povo. Sofrimento. Tudo isso tinha
uma causa. O pecado era a causa. Também a igreja hoje sofre. Sofre com
e por diversas crises. Não está exilada. Mas sofre. Por vezes o cenário
226
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
também é muito triste. Questões pairam no ar e nas mentes das pessoas: O
que será de nossa igreja neste novo ano? E do país? Em suma: os quadros
de hoje e de então se parecem muito. Deus não apenas se parece. O SE-
NHOR é o mesmo: então e agora.
Se o pecado também faz sofrer e colher conseqüências duras na vida, é
bom manter próxima a seguinte certeza: “eis que o Salvador veio!” Parece
ser esta a certeza do Natal: o “teu Salvador veio”, movido pelo grande amor
de Deus, para mudar a realidade humana, de perdida e esquecida, para
remida e amada; de triste para alegre; de infeliz para feliz; de condenada
para salva.

SUGESTÃO DE TEMA
Eis que o dia chegou! Eis que o Salvador chegou!

Nestor Duemes
Goiatuba, GO

227
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

DIA DE EPIFANIA
Isaías 60.1-6
5 de janeiro 2003

CONTEXTO
Isaías 60.1-6 é texto importante no ciclo de Natal e Epifania. Uma, por-
que está repleto de luz. Outra, porque os reis (v.3) e os camelos (v.6) da
cena dos magos do Oriente foram tirados deste texto.
No contexto, Is 60.1-6, uma proclamação incondicional de salvação con-
trasta com os capítulos precedentes (Is 56-59). É doce evangelho após a
proclamação da lei. É resposta ao clamor de Is 59.9-11.

TEXTO
O texto é altamente poético, com imagens vívidas e linguagem dramáti-
ca. Alguns destaques:
1. O texto abre com dois imperativos: “dispõe-te”, “resplandece” (v.1). Não
se diz a quem são dirigidos os imperativos, embora o leitor do texto hebraico
saiba que os imperativos são femininos e estão no singular. A tradução
de Almeida preserva esta vagueza. A Septuaginta deixou claro o que fica
implícito, a saber, que a endereçada é Jerusalém. A Tradução na Lingua-
gem de Hoje faz o mesmo: “Levante-se, Jerusalém!”
2. Jerusalém pode resplandecer porque a glória do SENHOR nasce sobre
ela (v.1). Resplandecer é “brilhar de alegria” (ver NTLH).
3. A luz vem (v.1) para iluminar as trevas que cobrem a terra (v.2). Esta
luz é o próprio SENHOR (v.2). Epifania no mais alto grau!
4. As trevas (v.2) são símbolo de opressão e pecado (ver Is 8.22; 9.2; 59.9).
5. O caráter poético do texto é evidente, podendo ser visto claramente no
paralelismo sinônimo do v. 3.
6. As nações se encaminham para a luz de Jerusalém: este tema foi anun-
ciado pela primeira vez, em Isaías, no capítulo 2 (vv. 2-5).
7. Os filhos e filhas (v.4) são membros do povo de Deus. Aqui a cidade,
que é figura do povo de Deus, é apresentada como mãe.
8. Alguns dos elementos deste capítulo ajudam a compor o quadro da
Jerusalém celeste, no livro do Apocalipse. É o caso das riquezas das
nações que são trazidas a Jerusalém (v.5; ver Ap 21.26). Confira tam-
bém Is 60.18,19.
228
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
9. Jerusalém chama a atenção de todo o mundo. O “mar” (v.5) fica no
ocidente, Midiã (v.6), no oriente, e Sabá (v.6), no sul.
10. As nações publicarão os louvores do SENHOR (v.6). “Publicar” é, a
rigor, divulgar boas novas. Tanto assim que a Septuaginta traduziu por
“proclamar boas novas” (evu aggeln/uoi tai). O que seriam os “louvores do SE-
NHOR” (v. 6)? A Septuaginta traduziu por “a salvação do SENHOR”. Já
a Linguagem de Hoje prefere “as grandes coisas que o SENHOR fez”.
Um exemplo dessa proclamação, no passado de Israel, é a rainha de Sabá
(ver 1 Rs 10.9). Agora Isaías antevê todos vindo de Sabá (v. 6).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
Ao se pregar este texto, é preciso, antes de mais nada, atentar para o
caráter profético-poético do mesmo. Poesia não deve ser levada ao pé da
letra. E profecia não é história escrita antecipadamente. Isto significa que
esse texto não pode ser usado para “provar” que os magos do Oriente
eram reis e que vieram montados em camelos, por mais acostumados que
estejamos com tal cena natalina.
Por outro, o texto encerra uma grande mensagem de epifania. A glória
que brilha é o próprio SENHOR no meio do seu povo. Isto se cumpre,
parcialmente, na volta do exílio, no Natal (ver Jo 8.12), na visita dos magos,
no Pentecostes, a cada proclamação do evangelho, e só encontrará seu
cumprimento pleno e final na Jerusalém celeste. Cada cumprimento histó-
rico é mais do que história: é sombra e promessa de coisas vindouras.
O movimento aqui ainda é centrípeto, ou seja, em consonância com a
orientação missionária básica (embora não única) do Antigo Testamento, as
nações se encaminham a Jerusalém. No Novo Testamento, a orientação
básica (embora não única) passa a ser centrífuga, ou seja, de Jerusalém aos
confins da terra.
A epifania é ação de Deus. Jerusalém é, em grande parte, passiva. A
luz do SENHOR vem sobre ela, as nações se põem em marcha porque
vêem essa luz, os filhos chegam de longe, e os que publicam os louvores do
SENHOR são os que vêm de longe. Jerusalém resplandece (v.1) ou “brilha
de alegria”, vê e fica radiante de alegria (v.5).
O texto tem, pelo menos, três ênfases de epifania: a) a glória do SE-
NHOR vem e Jerusalém (“o povo de Deus”) brilha; b) a volta dos exilados
(v.4); c) a marcha das nações e dos reis que vêm de toda parte.

SUGESTÃO DE TEMA
Epifania: Haja luz para tanta treva!

Vilson Scholz
São Leopoldo, RS
229
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Isaías 42.1-7
12 de janeiro 2003

O texto é uma das mais belas e expressivas profecias messiânicas do


Antigo Testamento.
Como em todas as demais profecias messiânicas, também este texto nos
mostra que a salvação do homem é um ato exclusivo do próprio Deus.
A particularidade do texto é a apresentação do agente desta obra reden-
tora. E quem o apresenta é o próprio Deus Triúno (v.1). Chama-o de “meu
Servo”. Quem é este “meu Servo”? Como se trata de uma profecia, busca-
mos a resposta no Novo Testamento. Assim lemos em Mateus 12.17-21,
onde esta profecia de Isaías é repetida, que este “meu Servo” refere-se à
obra redentora de Jesus Cristo. Também Pedro no seu sermão proferido no
templo de Jerusalém (At 3.11-26) explica ao povo que este Jesus que a
poucos dias fora crucificado, é o Servo de Deus (v.12 e 26). Uma alusão
clara ao nosso texto.
“Eis aqui o meu Servo ...” Estranho! O Redentor da humanidade, Jesus,
o Messias, a segunda pessoa da SS. Trindade, um servo? Isto não contradiz
a onipotência de Deus? Sua glória e majestade ... sua própria onisciência e
onipresença? Aparentemente sim, tanto que para alguns, o fato de Jesus
assumir a figura de um servo foi motivo de escândalo (Mt 11.6; Mt 13.55;
Mc 6.3). Mas justamente nesta realidade de o Redentor da humanidade ter
sido um servo, está a grandeza de Deus. Sua justiça e seu amor. Justiça -
pelo fato de o homem ter caído em pecado, tendo como conseqüência a sua
morte física e morte espiritual (eterna condenação), ou seja, o completo
desligamento do Criador. Assim a justiça de Deus exigia que o próprio
homem providenciasse a sua religação, uma vez que ele não atendeu à
advertência de Deus (Gn 2.16,17) e se deixou ludibriar por Satanás(Gn 3. 1-
6), caindo em pecado. Mas esta religação era impossível ao próprio homem
(Rm 3.22,23). Deus, no entanto, levado pelo seu amor, entrou em ação e
planejou a salvação para o homem. Qual a solução encontrada? A segunda
pessoa da SS. Trindade – o Filho – prontificou-se a assumir a natureza
humana – e como servo obediente e fiel – cumprir a justiça de Deus. Como
verdadeiro homem – em lugar do homem – “cumprir a Lei, padecer e mor-

230
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
rer” – e como verdadeiro Deus “expiar a ira de Deus e vencer o pecado, a
morte e o diabo”. Assim a justiça de Deus foi cumprida. O homem está
reconciliado com o seu Criador, graças à prontidão do “seu Servo” em
humanar-se. Daí a alegria de Deus (v.1 cf. Lc 2.10-14).
Este ato de justiça e amor de Deus através do “seu Servo” deverá agora
ser promulgado, divulgado, também entre os gentios. Eles têm direito a esta
salvação, uma vez que a salvação do “meu Servo” abrangeu a toda a huma-
nidade, de todos os tempos e épocas. E cabe ao próprio “meu Servo” dar
início a esta pregação (v.2). Ele se distinguirá de todos que o precederam
(profetas e mesmo em relação ao seu precursor João Batista, cf. Mt 3.1-
10). Sua mensagem será pacífica, tranqüila, suave, cheia de paz e esperan-
ça, pois anunciará a sua obra de reconciliação entre Deus e o homem.
Inaugurará a era do amor, resumida nas palavras de Jo 3.16, l Jo 4.9. Como
Servo vitorioso – reassumirá a plenitude da sua divindade e imporá na terra
o direito. Direito que garante a salvação a todos os povos, raças, tribos e
nações. Uma vez que o Evangelho – a boa nova da salvação - será levado
até aos confins da terra (v.4).
E como para não deixar dúvidas a respeito da veracidade deste plano
da salvação através do “meu Servo”, Deus Pai faz um solene juramento.
Invoca sua divina Criação do Universo (v.5). Assim como o Universo é uma
realidade (Sl 19.1), a obra redentora do “meu Servo” está consumada inte-
gralmente pela sua obediência (v.6). Assim ele, “o meu Servo”, é o media-
dor da nova aliança (l Tm 2.5; Hb 8.6; 9.15; 12.24). Ele é a Luz para todos
os povos, luz que lhes ensina o caminho da salvação. Pela fé neste seu
sacrifício os gentios verão a salvação (Evangelho), e serão libertos das crenças
supersticiosas, dos falsos credos (Jo 8.12). A profecia messiânica encerra
assim com a “Ordem da Grande Comissão” do AT, levar a luz para os
gentios (v.6), renovada depois no dia da Ascensão de Jesus (Mt 28.19,20),
pelo “Ide”, isto é, levar o evangelho até aos confins da terra. Resumindo:
primeiramente a missão do “meu Servo” era como substituto de todos os
homens, salvar pela sua morte e ressurreição a humanidade pecadora, e
segundo levar esta mensagem da salvação e “abrir os olhos aos cegos, tirar
da prisão o cativo e do cárcere aos que jazem em trevas” (v.7) . Uma clara
alusão ao objetivo de Deus: a conversão dos gentios, de todas as raças,
tribos e nações (Lc 2.32; Gl 3.14; Ef 3.6).
O Deus Triúno apresenta o Messias profetizado: “Eis aqui o meu Servo”:
1. Como promulgador do direito
2. Como mediador da nova aliança
3. Como luz para os gentios
Walter O. Steyer
São Leopoldo, RS
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA


1 Samuel 3.1-10
19 de janeiro de 2003

CONTEXTO
Samuel, dentre todos os profetas, foi o primeiro (Atos 3.24). De certa
forma, a comunicação entre Deus e seu povo estava mudando de jeito, de
método. Sonhos, visões, presença no Santo dos Santos, etc., davam lugar a
que a palavra de Deus surgisse da boca dos profetas. Todos e em todos os
lugares poderiam agora ouvir o juízo e salvação da parte de Deus. Pode-se
dizer, portanto, que com Samuel, como novo mediador, reabre-se a comunica-
ção entre Deus e seu povo, dificultada pela idolatria, desobediência, increduli-
dade, indignidade generalizada, inclusive na casa do sumo-sacerdote Eli.
Samuel, com biografia muito especial (l Samuel 1), foi pedido ardente-
mente em oração por sua mãe Ana, que era estéril. O sumo-sacerdote Eli
pensou até que Ana estava embriagada enquanto orava, tal era sua concen-
tração e fervor.

TEXTO
V.1: o jovem Samuel servia... Samuel era como que um “servo especial”
no templo, sob a orientação e supervisão direta do sumo-sacerdote Eli.

a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram freqüen-


tes. Divinas revelações pressupõem prontidão da parte do ser huma-
no para aceitar a verdade. A infidelidade e a desobediência fizeram
com que a privação ou a pouca freqüência da palavra e as visões
ficassem como uma punição pela idolatria do povo.

V.2: olhos (de Eli) já começavam a escurecer-se... Isto explica o com-


portamento de Samuel em logo atender o suposto chamado do sumo-
sacerdote Eli.
V.3: a lâmpada de Deus... era um grande candelabro com sete lâmpa-
das (lamparinas), cujo reservatório de óleo combustível era reposto to-
das as manhãs, uma vez que, em geral, elas amanheciam apagadas.
V. 4: o Senhor chamou o menino: Samuel, Samuel! Este respondeu:
232
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Eis-me aqui! Samuel dormia em um dos quartos do Tabernáculo, para
uso dos sacerdotes e levitas que deveriam estar prontos para o cumpri-
mento do dever, no início das manhãs.
Vv. 5,6: Correu... torna a deitar-te. Ele se foi e se deitou. Sem dúvida,
um bonito exemplo para todos, especialmente para os jovens, de esta-
rem prontos para servir a seus superiores quando chamados. Nas duas
vezes, Eli deve ter pensado que Samuel meramente havia sonhado ou
delirado que fora chamado.
V.7: Samuel ainda não conhecia o Senhor... quer dizer, Samuel ainda
não possuía o especial, o completo conhecimento de Deus, porque isso
fora dado unicamente por revelações extraordinárias de Jeová através
de sonhos e visões. Essa forma de manifestação era até aquela data
praticamente desconhecida em Israel. Por essa razão, a ignorância de
Samuel.
Vv. 8,9: e foi a Eli, e disse: Eis-me aqui... Mesmo sendo a terceira vez,
Samuel prontamente atende ao chamado de seu superior, sem a mínima
irritação ou contrariedade, a quem queria servir de dia ou de noite.

... por isso... disse... Vai deitar-te; e se alguém te chamar, dirás:


Fala, Senhor, porque o teu servo ouve. E foi Samuel... sempre obedien-
te, mesmo estando maravilhado, estupefato diante da estranha voz de co-
mando.

V.10: Então, veio o Senhor, que havia se manifestado primeiramente só


pela voz, veio e esteve, numa visão que deve ter sido plenamente
visível a Samuel, nessas alturas, bem acordado: Samuel, Samuel! Este
respondeu: Fala, porque o teu servo ouve.

Samuel não é somente um exemplo de obediência, mas também de pron-


tidão em ouvir e obedecer à voz do Senhor. A mesma prontidão em ouvir,
seguir e obedecer à voz do Mestre, encontramos da parte de Felipe (Segue-
me, v. 43), que depois convida Natanael (Vem e vê, v. 46) no evangelho do
domingo de hoje (João 1. 43-51).
Sendo assim, todos os fiéis devem abrir seus ouvidos e seus corações a
Deus dando atenção e obedecendo a Sua voz que chega até nós através da
Palavra.

PROPOSTA HOMILÉTICA
A exemplo de Samuel, nós também somos chamados:
1) Que saibamos ouvir e obedecer à voz de Deus, mesmo em condições
surpreendentes;

233
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
2) É Ele mesmo que prepara perfeitamente o cenário, as circunstâncias;
3) Com prontidão e alegria, nos coloquemos, nos dediquemos para o
serviço, dizendo também: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”.

Norberto Ernesto Heine


São Leopoldo, RS

234
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Jonas 3.1-5,10
26 de janeiro de 2003

V. 1: “Pela segunda vez”.


Jonas não atendera o primeiro comando de Deus. Lutero aproveita para
dizer que Jonas fez bem em ficar parado depois de ter fugido ao primeiro
comando. Pois mais importante do que anunciar a palavra de Deus é que
aquele que anuncia esteja absolutamente seguro de que realmente é um
enviado de Deus.
É possível pressupor que Jonas, uma vez vomitado à beira do mar, tives-
se reconsiderado a sua recusa inicial concretizada na fuga. Também é
possível supor que agora ele próprio se declarasse inapto para o ministério.
E então espera. Lutero vê nessa atitude a coerência no arrependimento.
Jonas não apresenta as suas “novas” boas intenções para compensar-se
diante de Deus. Ele espera. Até que Deus o chame novamente. E, acres-
centa Lutero, somente o chamado que Deus decide dar permite alguém ser
anunciador mensageiro de Deus.

V.2: “Dispõe-te, vai”.


A palavra de Deus ainda é a mesma. A fuga de Jonas não modifica o
tratamento que Deus lhe dá. Nenhuma palavra extra de advertência. Ne-
nhuma repreensão ou menção ao episódio da fuga. Jonas orou a Deus (2.2-
9), deixando expressa a consciência do seu erro, equiparando-se aos idóla-
tras que nada têm a pedir de Deus.
Parece uma virada de página e o início de um capítulo sem ligação com
o anterior. Dispõe-te, vai. Jonas agora é um mensageiro de Deus com uma
missão porque Deus lhe estende um chamado.
É de refletir como Jonas terá se sentido em relação ao seu primeiro
chamado. A título de comparação podemos lembrar o episódio ocorrido
entre Paulo e Marcos. Paulo se recusa a aceitar a companhia de Marcos
na 2ª viagem porque Marcos literalmente fugira da responsabilidade como
Jonas o faz nesse episódio. O que pode ter significado para Jonas esse
“esperar” pelo chamado? Será que Paulo teve dúvida quanto à disposição
íntima de Marcos em sua decisão de voltar a acompanhá-los na viagem?
235
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
V.2: “A mensagem que eu te digo”
Mais importante do que a vontade e disposição do mensageiro, mais
importante do que a missão que recebe é a origem da mensagem: “Eu te
digo”. Talvez Jonas não tivesse se dado conta até aí nas implicações dessa
palavra: “Eu te digo”. A palavra será “de Jonas”. Ele será o anunciador.
Talvez na primeira convocação esse “Eu Jonas” tinha sido o termômetro e
a medida da sua disposição. E certamente foi por aí que começou a sua
fuga do ministério que lhe fora conferido por Deus.
Não há dúvida que essa é a grande cruz que ainda hoje limita o ministério
da igreja. Nem sempre está claro qual o Eu que está por trás da mensagem.
Mesmo Jonas, após ter sido vomitado à praia e devolvido ao ministério,
ainda revela traços da confusão quanto ao Eu que está por trás da mensa-
gem. Pois fica a pergunta: Que arrependimento Jonas está anunciando a
Nínive?
Deus tem a intenção de salvar Nínive. Jonas percorre Nínive com uma
mensagem que, em resumo, presume destruição iminente. A atitude de
consternação e de decepção posterior de Jonas ao constatar que Nínive não
tinha sido destruída bem permite supor que Jonas anunciou juízo e condena-
ção. Nada mais esperava Jonas como resultado da sua pregação. Simples-
mente a concretização das suas ameaças.
Jonas parece não ter recolhido nenhuma indicação a respeito das inten-
ções de Deus ao se ver vomitado à beira da praia. Também parece nada ter
ajudado a ele o fato de Deus o ter enviado uma segunda vez. Jonas parece
não ter visto que o perdão em Deus não é uma exceção, mas a regra.
Jonas não vira mas não entendera que Deus o estava salvando de si
próprio. Porque se Deus fosse como Jonas, Jonas não tinha sido vomitado
à praia, nem enviado uma segunda vez. Mas Jonas é profeta e mensageiro
de um Deus que se arrepende para salvar sempre de novo. Um Deus que
envia mensageiros com mensagem de salvação e não de destruição.
Esse Deus é o intérprete da sua mensagem nos corações. E mesmo que
o seu mensageiro, como Jonas, esteja confuso quanto à natureza da mensa-
gem que tem para transmitir; mesmo que Jonas tenha apresentado mensa-
gem de salvação como se fosse de destruição, Deus não permite que a sua
mensagem volte vazia. E Nínive se converte do seu mau caminho porque
Deus efetua a conversão e aceita o coração contrito.
Tema: Mensageiros de Deus são escolhidos de Deus
Segundo a vontade de Deus
Segundo o coração de Deus
Para os propósitos de Deus.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS
236
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUARTO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Deuteronômio 18.15-20
02 de fevereiro de 2003

CONTEXTO
No capítulo 18 de Deuteronômio, Deus está preocupado com os líderes
espirituais do povo de Deus. A preocupação do SENHOR é com aqueles
que vão liderar o povo, tanto com seus direitos como com os perigos que
vão enfrentar.
A princípio, parece que não tem nada a ver falar sobre herança e direitos
dos levitas e, em seguida, falar dos prognosticadores, adivinhos, etc. Deus
está preocupado com que os líderes espirituais estejam tranqüilos principal-
mente quanto a seu sustento físico (18.1-8), pois vão enfrentar batalhas espi-
rituais bem difíceis na terra em que o povo vai viver. Assim, estando bem
estabelecidos os direitos dos sacerdotes, eles podem concentrar esforços em
combater o mal que certamente enfrentarão na terra prometida (9-14).
Após alertar contra os perigos para a fé e mostrar quem são os falsos
profetas, Deus mostra quem é O Profeta, aquele que trará a mensagem
verdadeira, a mensagem vinda do próprio Deus - o próprio Filho de Deus!
Uma bela antecipação da figura de Cristo como Profeta, que traz a Palavra
que sempre se cumpre.

TEXTO – ÊNFASE NO VERSÍCULO 15


No v. 15, a ênfase é clara: “a Ele ouvirás”. Aqueles que consultam os
mortos, adivinham, agouram, fazem feitiçarias, estes falam muito. Estes fa-
larão muito aos ouvidos do povo. Serão vozes muito tentadoras, procurando
atrair a atenção dos israelitas para sua mensagem. Entretanto, Deus ante-
cipa já através de Moisés que o verdadeiro Profeta é aquele que Ele envia.
Deus não enviará um ser criado, um anjo ou algo de outro planeta. Este
profeta será levantado do meio do próprio povo. Será carne e sangue, como
diz o texto, “semelhante a mim”, isto é, semelhante a Moisés. Profecia con-
firmada em Mateus 1 e 2.
Quanto à semelhança com Moisés, no ofício profético, Lutero escreve:
“...é necessário que este profeta que é como Moisés seja superior a
Moisés e ensine coisas maiores...” E diz ainda: “... pelo que não pode
237
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
haver outra palavra além da que já disse a Moisés, a não ser que seja
o Evangelho, porque tudo o que corresponde ao ensinamento da Lei
já foi comunicado ampla e perfeitamente por Moisés, assim que nada
mais pode ser agregado... Portanto, é necessário que Ele seja um mes-
tre (profeta) e vida, graça e justiça, do mesmo modo que Moisés foi
mestre do pecado, da ira e da morte...” (LW IX, 176-8).
Ele é o Profeta que está em oposição frontal aos “profetas” deste mun-
do, que dizem possuir poderes e capacidades especiais. Mas estas, somente
Cristo traz. E o Evangelho do Dia traz este Profeta exercendo seu poder
sobre um espírito imundo. Mostra o Profeta libertando um homem do domí-
nio deste espírito, com o fim de salvá-lo.
Enquanto os outros profetas trazem apenas engano, medo, destruição e
morte, o Profeta – Cristo – traz libertação, justiça, vida, amor e paz – e,
principalmente, perdão e salvação eterna! A Ele, sim, vale a pena ouvir!

ASPECTOS HOMILÉTICOS
- O Evangelho do Dia demonstra a autoridade e poder do Profeta Jesus,
bem como a vida e graça. Ele expulsa o demônio, com vistas à salvação
daquele homem. Condena o pecado, salvando o pecador.
- O Salmo do Dia, Salmo 1, vem bem como um complemento ao capítulo
18 de Deuteronômio. O ímpio se detém no caminho dos feiticeiros,
adivinhadores... enquanto o justo ouve o Grande Profeta.
- O período litúrgico, Epifania, é uma lembrança da manifestação deste
Profeta anunciado no AT, do cumprimento de mais uma profecia. Quan-
do a profecia se cumpre, ela é divina.
- Na “terra prometida” em que vivemos, existem muitos “feiticeiros”,
que, com sua “gritaria” e seus “milagres e feitiços” encantam muitas
pessoas. E não são poucos os que dão ouvidos a estes profetas, en-
quanto se fecham à Palavra do Grande Profeta.
- O texto possui uma forte carga de Lei, que pode ser bem explorada. A
“ponte” evangélica pode ser construída para o Evangelho do dia, onde
Jesus mostra que Ele sempre está pronto para nos libertar do diabo e
seus “colaboradores”, que buscam incessantemente dominar o homem
moderno. Jesus é o Evangelho encarnado, que realmente LIBERTA.
“A Ele ouvirás”.

TEMA: A ELE OUVIRÁS


Sugestão de condução da mensagem
O pastor senta-se atrás de uma mesa (diante de cartas e ou revistas)
e diz que vai ler o futuro dos presentes. Diz que recebeu poderes de
Deus para tanto, e garante que terá resultado (Poderá, ou não, fazer
algumas ‘previsões’ absurdas, tipo “amanhã vai dar sol, se não chover”, ou
238
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
“tal time será o campeão, se não perder e se jogar bem e com vontade...”)
A partir daí, mostra o interesse que este tipo de proposta desperta no
homem moderno (jornais e revistas ajudarão bastante na ilustração. Even-
tualmente até cenas em vídeo)

LEI E O EVANGELHO
O Profeta em contraste com os profetas do mundo. O castigo para quem
segue falsos profetas. Jesus como aquele que liberta dos falsos profetas e
do próprio diabo e condenação eterna. Jesus, que faz com que revistas,
jornais – pensamentos humanos – fiquem seriamente em “xeque-mate”.

CONCLUSÃO
Da mesa, o pastor retira a Bíblia (até então oculta aos presentes) e lê
Profecias – que já se cumpriram e que vão se cumprir - mostrando quem
realmente é o Profeta que traz vida e salvação. “A ELE OUVIRÁS!”

Lucas André Albrecht


Campo Bom, RS

239
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Jó 7.1-7
9 de fevereiro de 2003

CONTEXTO (LITERÁRIO E LITÚRGICO)


Introduzindo o livro de Jó, utilizamo-nos das observações de Horace D.
Hummel: “Poucos iriam discordar do comentário de Lutero, ao dizer que Jó
é ‘magnífico e sublime como nenhum outro livro da Escritura.’ Da mesma
forma, não haveria muitos que discordariam da opinião que ele é também
um dos mais difíceis, um dos mais comentados, mas sobre o qual menos
concordância há [entre os estudiosos]. ... Tanto aquele que esquece que a
obra faz parte dos escritos de sabedoria [do Antigo Testamento], como
aquele que tenta ler o livro fora de seu contexto canônico perde chaves
fundamentais para sua compreensão.” (The Word Becoming Flesh, CPH,
p. 457,8) Parece-nos que as “chaves” a que Hummel se refere são particu-
larmente importantes na reflexão sobre o texto que temos diante de nós.
O texto faz parte da primeira “resposta” de Jó, após Elifaz fazer sua
intervenção. Na verdade, mais do que diálogos, as falas de Jó aos três ami-
gos muitas vezes parecem ter vida própria, dirigindo-se mais a Deus (e ao
leitor do livro!) do que aos três. No capítulo 7 Jó continua refletindo sobre
seu sofrimento. É sempre bom lembrar que, ao contrário do leitor do livro,
Jó desconhece o diálogo inicial entre Deus e Satanás (1.6-12), assim como
também desconhece o desfecho feliz (42.1-17). Seu lamento, por isso, é
bem compreensível! É um retrato claro do ser humano em sua situação
miserável, da qual não tem como sair sem que Deus mesmo venha e aja em
Sua graça.
O contexto litúrgico é significativo. É o 5o Domingo após Epifania - tem-
po de refletir sobre a graça de Deus manifesta a todos os povos, em Jesus
Cristo. As leituras do dia têm a contribuir para o sermão sobre o texto de Jó.
O Salmo (147.1-12) é um cântico de louvor a Deus, que celebra seus feitos.
Especialmente significativos para o sermão são os versículos 3, 6 e 11. O
Evangelho do dia (Mc 1.29-39) mostra muitas pessoas em necessidade,
tanto de ordem material como espiritual e aponta para o ministério de Jesus,
em que se enfatiza sua ação em favor daquelas pessoas. O mesmo Deus
que agia de forma aparentemente contraditória com seu filho Jó e mais

240
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
tarde manifestou-lhe sua bondade, é aquele que em Cristo vem atender as
pessoas em suas necessidades, de forma proléptica nas curas (que apontam
para a perfeição na nova criação) e de maneira plena na obra da cruz e
ressurreição.

TEXTO
A NTLH menciona “serviço militar” (v. 1), que traduz bem a expressão
hebraica, que também lembra extrema fadiga. O paralelo é feito para mos-
trar o quão dura é a vida humana. “Desengano” (v. 2) refere-se a um desa-
pontamento (“desilusões” - NTLH) próprio do enfermo que mês após mês
vê suas esperanças de cura serem frustradas. As dores físicas fazem as
noites parecerem intermináveis e os dias passam rápido sem trazerem es-
perança (vv. 4-6).
O v. 7 mostra Jó colocando diante de Deus sua situação; de uma certa
forma, apelando à piedade de Deus. No entanto, pode ser exagerado ver aí
um exemplo de fé e esperança do crente, em meio às aflições. Por outro
lado, não se pode afastar por completo a referência ao fato de que Jó ainda
vê em Deus o único a quem pode suplicar.
Teologicamente, o texto retrata o ser humano em sofrimento, do qual
não tem como se livrar por suas forças. Deus parece estar agindo de uma
forma contrária ao que se poderia esperar dele. De fato, Jó vem mostrar
uma realidade que a teologia da prosperidade não consegue explicar. O
próprio Jó não compreende toda a situação na qual está, e por isso também
chega a dizer coisas das quais depois irá se arrepender (40.3-5). No entan-
to, sob a luz do Novo Testamento, o texto bíblico retrata a realidade, ou seja,
que não se pode considerar a vida cristã como uma garantia de tempos de
fartura, desde que haja fé e fidelidade a Deus.
A teologia da cruz trata de forma honesta a situação da vida humana. O
sofrimento é real, assim como o pecado, também na vida do crente. Para o
pecador só há uma palavra de esperança, e esta não vem da sua própria
fidelidade. Ela está na obra de Jesus, que pelo sofrimento e morte suportou
a dor do abandono eterno em lugar de toda a humanidade. Deus se manifes-
ta de uma forma diferente (e até contrária) daquela que naturalmente se
esperaria. Ao invés de em poder e glória, Cristo vem se manifestar em
fraqueza e dor, e nisto revela o amor e graça de Deus pelo pecador.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
Os clamores de Jó não são muito diferentes daqueles feitos por quem
reflete sobre o sofrimento que há no mundo. Temos diante de nós um texto
em que a lei está manifesta na vida do homem. Como pregar este texto,
especialmente tendo em vista que somos, sobretudo, proclamadores do

241
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
evangelho? É preciso cuidar para não cair no moralismo, do tipo: “Mas Jó
era um bom homem e Deus fez tudo se tornar em bem, no final da história!”
O fato é que na vida de muitos crentes a cruz pesada segue até o fim da
vida (exemplos podem ser vistos no Salmo 73 e no caso dos cristãos perse-
guidos até a morte). A resposta do evangelho é escatológica, ou seja, está
na ação de Deus, que em Cristo coloca as coisas no seu devido lugar (as-
sim, veja-se no Sl 73, os vv. 17, 23,24,28). Cristo veio trazer consolo aos
sofredores. No Evangelho do dia isso fica evidente na Sua ação concreta
em favor daqueles que lhe eram trazidos. Mas sua missão vai além, tanto
geograficamente (como o Evangelho mostra), como também na abrangência
- “as nossas dores levou sobre si” (Is 53.4).
Não há como pregar sobre o texto do dia, de forma cristã, sem levar em
conta o contexto canônico, em que a obra de Cristo é o centro.

SUGESTÃO DE TEMA E/OU PROPOSTA HOMILÉTICA SUCINTA


Que esperança pode haver para o sofrimento humano, senão em Cristo?!

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

242
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEXTO DOMINGO APÓS EPIFANIA


2 Reis 5.1-14
16 de fevereiro de 2003

LEITURAS DO DIA
Como muitas vezes acontece com a série trienal de leituras, também
aqui temos uma correspondência direta entre o evangelho do dia e a leitura
do Antigo Testamento. O evangelho, Mc 1.40-45, relata a cura de um lepro-
so. Detalhe muito importante é a advertência de Jesus ao homem recém
curado: “Olha, não digas nada a ninguém” (v.44). É que Jesus não queria
ser reconhecido apenas como milagreiro. Seus atos deveriam apontar para
sua obra messiânica. A leitura do Antigo Testamento, 2 Rs 5.1-14, o texto
sugerido para a mensagem, também relata a cura de um leproso. Trata-se
de Naamã, general dos sírios. Também na sua cura, através do profeta
Eliseu, vemos que Deus não enfatiza o espetáculo, mas visa à salvação total
da pessoa. No Salmo 32, especialmente no versículo 2, vemos que Deus
sempre quer curar as pessoas de todos os seus males, sobretudo os da
alma. E em 1 Co 9.24-27, Paulo retrata a vida de gratidão dos curados como
uma vida de combate da carne, do velho homem, ao dizer: “Esmurro o meu
corpo e o reduzo à escravidão”; e aponta para o lado positivo da vida cristã,
do novo homem, com as palavras: “Corro também eu”.

CONTEXTO
a) Contexto litúrgico. Estamos no 6º Domingo após a Epifania, revela-
ção de Jesus Cristo aos gentios. Assim como a menina escrava revela o
Deus verdadeiro a sua senhora, esposa de Naamã, assim Cristo é revelado
a todos os gentios.

b) Contexto histórico. O reino de Israel está dividido entre norte e sul,


por volta de 850-800 a.C.. A Síria é inimiga número um do reino do norte.
Eliseu, sucessor de Elias, é profeta em Israel. Na Bíblia de Estudo de
Almeida, página 412, temos um resumo de dados importantes da vida de
Eliseu, com as respectivas referências bíblicas.
243
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
TEXTO
O texto bíblico pode ser dividido em duas partes. 1º) O testemunho da
menina escrava (2 Rs 5.1-7). 2º) A cura de Naamã (2 Rs 5.8-14). Vejamos
rapidamente alguns detalhes do texto, extraídos do Popular Commentary
of the Bible, Old Testament, Vol 1, de Paul Kretzmann, pp 611-612.

V. 1: Naamã, general sírio, goza de grande prestígio junto a seu senhor,


pois os sírios haviam vencido Israel, matando seu rei Acabe (1 Rs
22.34-35). Naamã era leproso.
V. 2: Os sírios haviam feito escravos. Levaram também uma menina que
se tornou escrava da esposa de Naamã.
V. 3: A menina diz à sua senhora que Eliseu poderia curar Naamã.
V. 4: Sabendo disso, Naamã conta o caso a seu senhor.
V. 5: Naamã parte, com belos presentes, para encontrar o rei de Israel.
V. 6: O rei sírio acha que o rei de Israel é o responsável pelo poder do
profeta.
V. 7: O rei de Israel rasga suas vestes pensando que os sírios o estavam
provocando à guerra.
V. 8: Diante disso, Eliseu pede que Naamã venha a ele, para saber que
há profeta em Israel. (Note: Deus está por detrás de tudo, querendo a
salvação de todos).
V. 9: Naamã vem e pára diante da porta de Eliseu, achando a residência
muito humilde para entrar.
V. 10: Mas Eliseu não se impressiona com isso, mandando que um men-
sageiro diga a Naamã que este se lave sete vezes (número da totalida-
de) no rio Jordão.
V. 11: Naamã, o grande comandante, não viera em estado de espírito de
suplicante. Acha que Eliseu deveria ter feito algo espetacular, vistoso,
ali mesmo. Pensa que o cerimonial e ato mágico é importante.
V. 12: Naamã cita o rio Abana, que desce do monte Hermom e o rio
Farfar, que nasce no antilíbano, como rios que banham Damasco. Diz
que tais rios são bem melhores que o Jordão, numa demonstração de
que para ele o exterior era o mais importante. Então faz menção de ir
embora.
V. 13: Mas os seus oficiais, que em respeito o tratam de pai, o conven-
cem a banhar-se no Jordão.
V. 14: Ele vai e fica limpo da lepra.

Observação: A lepra no Antigo Testamento tem sempre uma conotação


espiritual de impureza. Os leprosos são impuros cerimonialmente. É uma
impureza cultual ou legal (Lv 13), não necessariamente motivada por atos
reprováveis. Estavam impuros para o culto. No Novo Testamento vemos
244
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
como estas pessoas eram segregadas pela sociedade. Ser curado era ficar
limpo e capacitado para o culto (veja o evangelho de hoje, Mc 1.40-45).
Quem tocasse um leproso era considerado impuro (Lv 5.3). Mesmo assim,
Jesus “estendeu a mão e o tocou.” (Mt 8.3).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
- Há uma evidente correspondência entre o evangelho de hoje e o texto
do Antigo Testamento. A exemplo de outros lugares, aqui também fica
muito claro que o Antigo Testamento pode (e deve) ser lido à luz do
Novo Testamento.
- No evangelho de hoje Jesus não queria ser reconhecido como milagreiro
qualquer, tanto é que proíbe a divulgação da cura (Mc 1.44). Seus atos
apontam sempre para o fato de ele ser o filho de Deus e Salvador.
- A cura do homem tira sua dor, vergonha, motivo de segregação, res-
taurando-o totalmente, tornando-o limpo para adorar.
- A missão de Jesus, antes de entrar na glória, passa pela cruz. Na cruz
estão cravadas todas as nossas enfermidades (Is 53). Temos que car-
regar a nossa cruz.
- Naamã exemplifica o homem natural: necessitado, mas orgulhoso. Ne-
cessitado física e espiritualmente, mas seu orgulho o impede de reco-
nhecer e adorar o Deus verdadeiro. Adora a criatura em lugar do
criador.
- Eliseu, profeta de Deus, é apenas servo do Senhor, está a seu serviço.
O fim último de Deus sempre é a salvação do homem total. Deus quer
salvar Naamã, os sírios, Israel, todos.
- A menina escrava, ao testemunhar sobre onde achar socorro, é belo
exemplo de fé e testemunho para nós.

LEMBRETES HOMILÉTICOS
Procure recontar a história bíblica de uma forma viva, usando também o
evangelho do dia. Lembre-se de distinguir entre lei e evangelho. Lembre
também os três artigos do Credo, enfatizando Deus Pai como criador e,
principalmente na mensagem de hoje, mantenedor da vida; Deus Filho como
Redentor e Bom Pastor e Deus Espírito Santo como santificador. Lembre,
ainda, que o dano físico sempre aponta para o dano maior, o pecado; e que
a cura física, por sua vez, aponta para a cura maior, total, a doação da vida
eterna. E finalmente lembre que, enquanto não chegamos lá, devemos viver
a nova vida, como sugerido na epístola de hoje.
Edgar Züge
Porto Alegre, RS

245
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SÉTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Isaías 43.18-25
23 de fevereiro de 2003

CONTEXTO (LITÚRGICO E LITERÁRIO)


Iniciamos nossa reflexão pelo contexto litúrgico. Ele é particularmente
significativo para este dia. As leituras do Salmo, do Evangelho (principal-
mente) e do Antigo Testamento abordam, sob diferentes ângulos, o tema do
perdão. Estamos na Epifania - é tempo de glorificar a Deus pela sua graci-
osa manifestação, em Jesus, ao mundo. Neste dia temos a oportunidade de
celebrar a obra de Deus, que redime as pessoas através do perdão dos
pecados. O Salmo 130, como diz seu título, é Salmo de romagem. Parece
ter sido usado quando os peregrinos vinham a Jerusalém para as festas. Seu
cântico lembra a necessidade humana (“Das profundezas ...”) e se regozija
no perdão (“Contigo está o perdão” ... “É Ele quem redime a Israel de todas
as suas iniqüidades”). No Evangelho (Mc 2.1-12), Jesus se manifesta como
aquele que vem restaurar a criação, que foi maculada pelo pecado. Jesus o
faz através de um milagre, aliás, dois milagres. Um deles é a cura do para-
lítico. Sem desconsiderar o aspecto da misericórdia de Jesus pelo sofredor,
este evento também aponta para a futura restauração plena do homem e da
natureza, quando da volta de Cristo. O outro milagre é o perdão, que é
anunciado gratuitamente ao sofredor e pecador! As pessoas são levadas a
dizer: “Jamais vimos coisa assim.” De fato, o perdão gracioso de Deus é
coisa nova - é renovador, restaurador, vivificador. O texto do Antigo Testa-
mento do dia oferece uma abordagem muito rica para o tema do perdão.
Por certo, todo o culto deste dia será uma oportunidade de lembrar e cele-
brar, por leituras, hinos, orações e sermão, o perdão que temos graciosa-
mente em Cristo.
O texto em estudo (Is 43.18-25) faz parte da assim chamada segunda
parte de Isaías - o “Livro do Consolo” (capítulos 40 a 66). Seu contexto
mais próximo (43.1 a 44.5) foi caracterizado como “A reunião e renovação
de Israel - evento profético a respeito do Israel da nova aliança” (Concór-
dia Self-Study Bible, Concórdia Publishing House, p. 1019). O contexto
mostra a promessa de Deus de trazer de volta seu povo do exílio babilônico.
A linguagem, porém, lembra a criação do mundo e o êxodo, bem como a

246
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
nova criação. Horace Hummel chama a atenção para o fato de que teologi-
camente o contexto tem como “motivo principal a escatologia do livro ... cele-
brando a restauração de Sião ao longo de todo o texto. O retorno histórico a
Jerusalém após o Edito de Ciro (538 a.C.) não é apenas relatado com colorido
escatológico e cosmológico, mas os dois estão totalmente unidos: o evento
histórico é um tipo, ‘sacramento’, antecipação e realização proléptica da ‘res-
tauração de todas as coisas’.” (The Word Becoming Flesh, CPH, p. 215)

TEXTO (E APLICAÇÕES HOMILÉTICAS)


As palavras do v. 18 e seguintes estão ligadas ao v. 16 - “Assim diz o
Senhor”. Elas iniciam por um chamamento a olhar para a frente. O que
passou é digno de lembrança (o próprio profeta o faz), mas não se deve
ficar na história passada - vêm vindo coisas ainda mais especiais pela fren-
te. Deus tem preparado maravilhas para seu povo. A primeira referência é
a volta do exílio (vv. 19b-21). No entanto, à luz do Novo Testamento, o texto
é, como Hummel observa (ver acima), tipológico, a respeito dos aconteci-
mentos em que Deus age graciosamente para formar e redimir um povo
que se estende por todo o mundo, a sua Igreja.
Digno de nota nos vv. 19, 20 é a referência à criação. Note-se que este
é um tema freqüente na Escritura, ao se tratar da redenção do povo de
Deus. O mesmo Deus Criador é aquele que redime a humanidade, cria
novos céus e nova terra (Is 65.17ss), obra que está vinculada, em Isaías e
no todo da Escritura, à obra do Espírito Santo (44.3). Deus “pinta” o relato
a respeito da salvação com cores vivas, nada que se refira meramente a um
mundo de idéias. A redenção é concreta - a estrebaria, a cruz, o túmulo
aberto e vazio são fatos que apontam para a obra concreta de Jesus em
favor da humanidade. Assim também o perdão - tema deste dia - não é
coisa no campo das idéias, mas é real e concretamente distribuído também
no culto do dia - na palavra da absolvição, na mensagem, no corpo e sangue,
com o pão e o vinho.
Os vv. 22-24 são pregação de lei. Retratam a realidade do povo de Deus
durante o exílio na Babilônia. Duas realidades são mostradas, com peso
diferente. Invertendo a ordem, a segunda mencionada é a interrupção dos
sacrifícios. Sobre esta questão Deus não levanta juízo contra seu povo -
“não te dei trabalho com ofertas de manjares” (“Eu não os obriguei a me
apresentarem ofertas de cereais” - NTLH). A primeira menção traz consi-
go palavra de juízo - “não me tens invocado, ó Jacó, mas de mim te cansas-
te, ó Israel” - é uma referência à pecaminosidade do povo. Cedo esquece-
ram de Deus. Um retrato bem fiel do que somos, em nossa natureza! A
História da Igreja cristã mostra o quanto isto é realidade para o povo de
Deus em todas as épocas. “Me deste trabalho ... me cansaste ...”. O curi-
oso destas palavras é que parecem ser, no contexto, palavras de lei. No
247
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
entanto, tais palavras foram literalmente cumpridas no Servo Sofredor (Is
53.4,5). Em Cristo, o trabalho que lhe demos com nosso pecado não nos é
devolvido na forma de juízo, mas de remissão dos pecados. - esta é a grande
novidade da mensagem do evangelho. É a surpresa da graça! Ela é mani-
festa em um contexto de pecado do povo.
É exatamente em uma situação como esta que Deus se revela gracioso
e a salvação é apresentada como presente imerecido. O v. 25 é uma explí-
cita celebração do sola gratia - o perdão dos pecados é ação própria de
Deus (“Eu, eu mesmo”), tem em Deus mesmo o motivo (“por amor de
mim”) e é completo e sério (“apago as tuas transgressões ... dos teus peca-
dos não me lembro”). No entanto, isto não acontece sem o derramamento
de sangue. Não há graça barata - seu preço é a morte do Filho de Deus!

SUGESTÃO HOMILÉTICA
O pregador poderá observar um aspecto curioso do texto para o sermão
- ele inicia e conclui com uma menção a não lembrar do que passou. (Talvez
esteja aí uma dica de ilustração para Introdução e Conclusão - as coisas que
lembramos, mas gostaríamos - ou deveríamos - esquecer.) Sem dúvida, as
duas situações são diferentes. No entanto, há este ponto de contato, que
pode ser utilizado. Deus “não olha para trás”, isto é, para os nossos peca-
dos. Ele faz questão de esquecê-los. Por isso, somos chamados a olhar para
a frente, para as promessas graciosas de Deus. Sim, lembramos os feitos de
Deus no passado - eles estão na base de nossa fé. E fundamentam o per-
dão, que é uma realidade presente, pela fé em Cristo. Este perdão mostrará
toda o seu alcance, toda a sua bênção, por ocasião do juízo final. Aquele
evento, caracterizado normalmente como um ajuste de contas, uma lem-
brança dos pecados passados, será, para os que estão em Cristo, o evento
em que os pecados não serão lembrados!
Viver o perdão de Deus é algo tão grandioso e digno de ser celebrado
pela Igreja sempre. Hoje é uma ocasião especial para isto. É tempo de
Epifania - Deus vem se manifestar graciosamente na palavra anunciada, no
batismo e na santa ceia. Mostra-nos sua face de amor e convida-nos a viver
a nossa vida com genuína alegria. Somos peregrinos (como os que canta-
vam o Salmo do dia), em meio a muitas situações conflitantes, de perigo e
de tentação. No entanto, temos esta promessa de Deus, que nos sustenta e
dá ânimo para a jornada - nossos pecados estão perdoados. Isso é algo para
lembrar sempre! Temos paz com Deus. Pode haver bênção maior?

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA


2 Reis 2.1-12
2 de março de 2003

CONTEXTO
Assim como temos o livro de Atos no Novo Testamento, os livros de
Samuel e Reis nos mostram a história do povo de Deus. Por um lado, temos
uma história com muitos fracassos, pecados e infidelidades a Deus; por
outro, vemos como Deus agiu em meio a este povo com graça e juízo.
Uma das maneiras de Deus agir em meio ao povo foi indiretamente, por
meio do ministério dos profetas que colocou em meio ao povo. O texto em
destaque mostra o final do ministério de Elias. Elias foi profeta no Reino do
Norte, durante os reinados de Acabe e Acazias, entre os anos de 874 a 852
a.C. O relato de seu ministério tem início em 1 Rs 17 estendo-se até a
leitura do texto em destaque.
Sugiro uma leitura atenta do texto em que se destaca o ministério de
Elias sob a perspectiva de lei e evangelho para uma compreensão mais
acurada do texto para a reflexão deste culto.

TEXTO E NOTAÇÕES HOMILÉTICAS


Vv. 1,2: “redemoinho” literalmente “uma tempestade” ou “tormenta”, pró-
pria para caracterizar a revelação de Deus (Jó 38.1; Ez 1.4; Zc 9.4).
Gilgal e Betel são as cidades dos profetas, nas quais Elias fundou os
“seminários” de formação de profetas. O v.2 nos sugere os planos de
Deus para os dois profetas. Deus está falando através dos dois. A
intenção de Elias e o acompanhamento de Eliseu são os planos de Deus.
V. 3: Os personagens, os alunos dos profetas, também sabiam do que
estava por acontecer. Precisamos ter em mente a teofania que está
crescendo, até culminar no final da história. Deus está no controle da
situação e prepara o ambiente para o seu ponto culminante.
Vv. 4-7: O número de testemunhas aumenta mais. Agora em Jericó os
discípulos (alunos) também testemunham do que irá acontecer.
V.8: O milagre mostra quem está por trás de Elias. Assim como Moisés
dividiu as águas do Mar Vermelho (Êx 14.16,21), aqui também temos o
testemunho de que os homens de Deus sabem o que estão fazendo. O
249
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
“manto” usado representa a presença do Espírito de Deus, que depois
irá repousar sobre Eliseu (v.15).
Vv. 9-10: O importante aqui é destacar o pedido de Eliseu: a continuidade
do ministério de Elias. À luz de Dt 21.17, o pedido pela porção dobrada
do espírito é típica de quem se vê como o herdeiro espiritual de alguém,
como é o caso de Eliseu em relação a Elias.
Vv. 11-12: A teofania, ou revelação de Deus, está presente na forma
como as coisas acontecem neste momento crucial. Por um lado, temos
Deus revelando sua glória no contexto de “carros e cavaleiros de Isra-
el” e “em meio ao redemoinho” – Deus está no controle da situação.
Por outro, temos Eliseu assumindo a atitude de humildade diante das
circunstâncias da revelação.

Aproveitando o contexto de uma das outras leituras para o dia de hoje,


Mc 9.2-9, interessante observar o contraste entre Elias e Moisés. Enquanto
Moisés perece por causa do pecado (Dt 32.49s), Elias foi recebido nos céus
sem passar pela morte (1 Co 15.51,52; 1 Ts 4.15s).
Dois aspectos importantes precisam ser levados em conta quando se
prepara a homilia com base neste texto e contexto. Tipologicamente, os
incidentes que Deus proporciona a Moisés e Elias nos remetem à revelação
que ocorreu em Cristo. Já escatologicamente, nós somos envolvidos, com a
perspectiva de glória eterna. Mas, não podemos esquecer que estes dois
aspectos têm seu centro na pessoa de Cristo (conforme Mc), porque passa-
do e futuro estão ligados pelo presente (já).

TEMA HOMILÉTICO
Quando cantamos, “caminhando alegres, vamos para os céus”, estamos
reproduzindo o pensamento do texto em destaque. Sugiro o uso do hino
aplicado ao texto caracterizando o “já” e o “ainda não”, a graça de Deus
necessária enquanto caminhamos e a certeza da glória dos céus como evento
a ser realidade no futuro de Deus.

Clóvis Jair Prunzel


São Leopoldo, RS

250
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA


Gênesis 22.1-18
9 de março de 2003

O CONTEXTO
Abraão já havia sido provado em sua confiança em Deus: sair de sua terra
e aguardar a promessa do nascimento de um filho. Também já havia utilizado
sua amizade com Deus para interceder por Sodoma e Gomorra. Poderíamos
esperar que Deus já estivesse satisfeito com as provas de fé e comunhão que
Abraão já demonstrara. Mas eis que surge um fato novo, completamente fora
e acima dos padrões de testes que Deus já fizera com alguém de seu povo.

O TEXTO
V.1: “Eis-me aqui”. Abraão, mais uma vez, pronto para responder. Outros
exemplos de prontidão: Samuel (1 Sm 3.9); Isaías (Is 6.8); Maria (Lc
1.38).
V.2: “teu único filho, a quem amas”. Deus sempre especifica sua vontade.
Não há dúvidas quanto ao seu querer. “Toma teu filho” poderia gerar
dúvidas: Isaque ou Ismael? Mesmo sendo um “herói da fé”, Abraão
poderia querer interpretar à sua maneira. Mas Deus é específico: “teu
único filho, a quem amas”. Sem sombra de dúvida, deveria ser Isaque.
V.3: “de madrugada”. Por que esperar? Por que dar chance ao velho
homem de querer convencer-me ao desestímulo? “Sirva esse exemplo
para ensinar-nos que na obediência imediata está a prova da maior
sabedoria” (Henry Law. O Evangelho em Gênesis. São Paulo: Editora
Leitor Cristão, 1969, p.154). Se Deus espera algo de mim, não há justi-
ficativa que convença a deixar para depois.
V.4: “ao terceiro dia”. Se Abraão está decidido e resoluto, parece que
Deus não apenas quer provar a fé, mas também a persistência. Não
poderia ter Deus escolhido um lugar mais perto? São muito estranhos
alguns métodos de Deus. Três dias é um tempo demasiado longo de
espera para alguém que precisa fazer algo muito dolorido. Em outras
oportunidades, Deus também propiciou a queda da resistência, mas seus
servos permaneceram firmes. José teve a chance de ouro para come-
ter adultério (Gn 39) e também, mais tarde, de se vingar de seus irmãos
251
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
(Gn 52). Por duas vezes (1 Sm 24 e 26), Davi tem a chance de matar
Saul. Inclusive com a “ajuda” de Deus: “Tomou, pois Davi, a lança e a
bilha da água, da cabeceira de Saul, e foram-se; ninguém o viu, nem o
soube, nem se despertou, pois todos dormiam, porquanto da parte do
Senhor lhes havia caído profundo sono” (l Sm 26.12). Abraão tam-
bém teve tempo de desistir. Mas, acima de seu filho, está Deus. “Volta-
se para o filho, e seu pé vacila. Volta-se para Deus, e os seus passos se
firmam, na resolução inabalável”(H.Law).
V.5: “eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto
de vós”; v.8: “Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o
holocausto”. Simplesmente “mentiras consoladoras” ou uma certeza
acima da razão humana? “Porque considerou que Deus era poderoso
até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde, figuradamente, o re-
cobrou” (Hb 11.19) A confiança em Deus parece loucura e desvario
aos descrentes: “Nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os
judeus, loucura para os gentios” (l Co 1.23).
V.10: “e, estendendo a mão, tomou o cutelo para imolar o filho.” Deus é
mesmo incompreensível em algumas de suas atitudes. Permite que seu
servo chegue ao limite. Jó também teve que experimentar o seu limite,
bem como Jeremias.
V.13: “tendo Abarão erguido os olhos... viu um carneiro... e o ofereceu
em holocausto em lugar de seu filho.” Este é verdadeiro clímax evan-
gélico desta passagem. O sacrifício que antecipa a morte de Jesus em
lugar, em substituição, em cumprimento a uma ordem de Deus.

ÊNFASE PARA A MENSAGEM


Mesmo tendo à disposição tantos tópicos para uma reflexão, um detalhe
merece ser destacado. Um ponto que a narrativa bíblica deixa subentendido
e uma leitura apressada omite facilmente: a reação de Isaque quando seu
pai revelou quem seria o “cordeiro para o holocausto”. O v.9 diz o seguinte:
“Chegaram ao lugar que Deus havia designado; ali edificou Abraão um
altar, sobre ele dispôs a lenha, amarrou Isaque, seu filho, e o deitou no altar,
em cima da lenha.” Como Isaque reagiu a tudo isso? Tudo parece tão sim-
ples e automático. O ponto a ser enfatizado é a educação dada a Isaque.
Abraão é considerado herói na fé por sua fidelidade a Deus também no
quesito “educação cristã no lar”. Entramos na quaresma e a juventude de
hoje pouco sabe do objetivo, da preparação, do significado. Precisamos vol-
tar ao Antigo Testamento, quando Deus ordenava erguer um memorial e
dizia: “Quando algum dia seus filhos perguntarem...” Isaque, com certeza,
não reagiu contrariamente, porque em seu coração havia uma temor e um
amor a Deus transmitido por seu pai durante longas horas de meditação,
oração e diálogo sobre vontade de Deus.
252
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
CONSIDERAÇÕES HOMILÉTICAS
1. Objetivo
“Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade” (Sl
127.4); “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as
inculcarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando
pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te” (Dt 6.6-7). Deus nos deu
filhos para que os devolvamos a Deus, como fez Ana, ou melhor, para que
os preparemos para Deus. Nossos lares precisam ser transformados em
oficinas, em escolas, em locais de cursos intensivos de preparação. Para
quê? O evangelho do primeiro domingo da quaresma sempre se reporta à
tentação de Jesus. Nossos filhos estão expostos às tentações dia após dia.
Especialmente, os adolescentes e jovens. Deus quer que os preparemos
para os momentos de decisão, para as horas de provação. Eles precisam,
desde pequenos, como Isaque, conhecer a vontade de Deus, “compreender
seus caminhos incompreensíveis”, acatar e obedecer o seu querer, “renovar
a sua mente para saber qual seja a santa vontade de Deus” (Rm 12).

2. Moléstia
Mas como preparar o jovem, se o pai ainda não está preparado. Por isso,
em Dt, Deus ordena que as palavras estejam primeiramente no “seu cora-
ção” (dos pais). Preguiça, comodismo, “falta de tempo” levam os pais a não
crescerem na fé e não darem bons exemplos para os filhos. Com isso, a
transmissão da mensagem, da boa nova, para os filhos já está falha antes de
iniciar.
E o que dizer da transmissão da mensagem, da educação propriamente
dita? Cada vez mais, o mundo está conseguindo tirar nossos filhos da mesa
de refeições, dos momentos de estudo e devoção familiar, das reuniões dos
jovens, dos cultos. Como estamos lutando contra isso? Afinal, estamos lu-
tando? Nossos filhos ouvem de nós a vontade de Deus? Deus nos colocou,
como pais, para servirmos de representantes dele junto a nossos filhos?
Nossos filhos conhecem a vontade de Deus de nossos lábios? De nosso
exemplo? Eles sabem o que é “quaresma”? Conhecem o significado de
“quarta-feira de cinzas”? Sabem por que os paramentos da igreja têm uma
cor diferente (lilás/roxa)? Eles sabem o motivo de seu conselho para que
não participassem das festas de carnaval? Ou você nem sabe onde seus
filhos passam algumas noites? Muito menos com quem?

3. Evangelho
O primeiro passo para uma reconstrução e re-direcionamento é o pedido
de perdão. Pedir perdão a Deus por termos falhado em nossa missão de
pais. Pedir perdão aos filhos por não termos mostrado de forma eficiente a

253
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
vontade de Deus. Este segundo pedido de perdão talvez seja o mais difícil
porque, em geral, é o menos feito. Nossos filhos precisam saber que não
somos perfeitos e todo-poderosos. Eles necessitam saber que seus pais tam-
bém falham e procuram seguir a vontade de Deus em suas vidas.
Feito este restabelecimento de comunicações, estamos prontos para acei-
tar a ajuda de Deus. “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Co
12.10) é uma verdade na vida dos pais porque nestes momentos é que Deus
tem condições de colocar sua vontade e sua força em nós. Suas promessas
de presença, ajuda e bênçãos foram constantes na vida de Abraão. Ele se
firmou nestas promessas e, ao passar as informações para o filho Isaque,
confiou de que, no momento certo, os efeitos iriam aparecer.
O evangelho deste domingo, que fala da tentação de Jesus, traz o conso-
lo que o autor da carta aos hebreus expressa da seguinte forma: “Pois na-
quilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os
que são tentados” (Hb 2.18).

PROPOSTA HOMILÉTICA

TEMA:
Filhos: presentes que Deus nos deu para...
I – Conservar (sustento, cuidados pessoais)
II – Aperfeiçoar (educar, canalizar dons, orientar)
III – Preparar para devolvê-los a Deus (educação espiritual)

Sérgio R. Flor
Ponta Grossa, PR

254
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA


Gênesis 28.10-17
16 de março de 2003

CONTEXTO
A perícope relata a visão de uma escada que atingia o céu. É um evento
único, extraordinário e decisivo na história do povo de Deus do Antigo Tes-
tamento (AT). A personagem central deste acontecimento espetacular é o
patriarca Jacó.
Olhando um pouco para trás, Jacó vê Deus chamando e abençoando seu
avô Abraão (12. 1-8); vê a destruição de Sodoma e Gomorra (19. 23-29);
vê seu pai Isaque nascer na velhice de Abraão e Sara, como promessa
especial (18. 10-14; 21. 1-5); vê seu irmão-gêmeo, Esaú, o amor distorcido
de sua mãe Rebeca, a compra da progenitura e da bênção por um prato de
lentilha, o ódio e as ameaças de morte do irmão (25. 25-33; 27. 33-43). Que
passado de erros humanos e de bênçãos de Deus!
Olhando um pouco para frente, Jacó trabalha 14 anos para casar com
Lia e Raquel; Deus mudou seu nome de Jacó para Israel (32. 28) e ele
torna-se o patriarca dos “filhos de Israel”, pai das “12 tribos de Israel” e
vive o encontro de reconciliação com o irmão Esaú (33. 1-11). É com Jacó
que Deus fecha o trio para se identificar, no AT e NT (Novo Testamento),
como o Deus único, verdadeiro e salvador, o “Deus de Abraão, Isaque e
Jacó”.
Dentro desta significativa, colorida e emocionante moldura histórica,
encontra-se a fascinante e rica visão de Jacó sobre a escada que toca os
céus, repleta de detalhes marcantes, de promessas messiânicas e lições de
conforto e esperança.

TEXTO
Alguns destaques, visando o anúncio da mensagem sobre a fidelidade, a
presença e as promessas de Deus.
Jacó – Pela importância do patriarca na história das 12 tribos de Israel e
do povo de Deus de todos os tempos, é aconselhável sublinhar alguns fatos
da rica biografia de Jacó.
Partir – Jacó saiu de Berseba e foi para Harã, na Mesopotâmia (próxi-
255
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
mo dos rios Tigre e Eufrates, no Iraque de hoje, berço da civilização e das
cidades mais antigas do mundo), por duas razões principais: fugir da ira e
das ameaças de morte do irmão-gêmeo Esaú; encontrar uma esposa dentre
os filhos de Deus.
Dormir – Anoiteceu e Jacó está cansado. Improvisa uma cama à beira
da estrada, no deserto. Uma pedra – que depois serve como monumento da
“casa de Deus” (v.22) – serve como travesseiro. Está longe de tudo e de
todos. É fugitivo e peregrino. Está com medo e angústia. Sente-se só e
abandonado. Quer dormir e descansar.
Sonhar - Repentinamente, Deus transforma tudo ao redor do solitário
Jacó. Ao longo da história, o “Deus de Abraão, Isaque e Jacó” se comuni-
cou com seus filhos através de sonhos, visões e manifestações especiais
(Hb 1.1; Sl 16.7). Através deste sonho-visão, Deus se revelou e falou com
Jacó para ensinar, orientar e transmitir suas grandes promessas a Jacó. É
um processo de ensino e aprendizagem. Há lições de Deus nos sonhos de
Deus. O quadro da visão é fantástico: uma escada que liga terra e céus;
anjos de Deus – “que são espíritos ministradores enviados para serviço, a
favor dos que hão de herdar a salvação” – Hb 1.14 – caminham na escada-
ria; no alto está o Senhor Deus. E, agora, o mais importante: esse Deus fala
e faz promessas a Jacó.
Bênçãos – Deus garante quatro grandes verdades ao patriarca Jacó: 1)
Estar com ele e perto dele em todos os momentos de sua vida; 2) promete
guardá-lo, protegê-lo e defendê-lo “por onde quer que fores”; 3) promete
não desampará-lo ou desviar-se dele (v.15), (Conferir a promessa idêntica
em 1Cr 28.20); 4) e a extraordinária promessa messiânica, nas palavras
muitas vezes repetidas na Escritura: “Em ti e na tua descendência serão
abençoadas todas as famílias da terra” (cf 12.3; 13.16; 26.4; At 3.25; Gl
3.14-16) – promessa do Salvador Jesus. Deus promete ao patriarca Jacó
sua presença contínua com seus cuidados, sua proteção, seu amparo, seu
estímulo – e o Salvador que viria “salvar e abençoar todas as famílias da
terra”.
Acordar – Então Jacó despertou do sono. Perplexo, atônito, maravilha-
do e muito feliz, “caiu em si” (Lc 15.17), tomou consciência da realidade,
reconheceu a presença de Deus, aprendeu a lição do sonho-visão, então
exclama:
- O Senhor está neste lugar!
- É a casa de Deus!
- É a porta dos céus!
É preciso dormir, descansar e sonhar - sonhar grande na presença de
Deus. Aprender a lição e saber que até “durante a noite, em sonho, o Se-
nhor me ensina” (Sl 16.7). É preciso acordar do sono, cair em si, tomar
consciência da situação, reconhecer o ensino de Deus e então falar ao mun-
256
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
do sobre a presença, a promessa e a salvação de Deus.
Porta – No v.14, Deus fala a Jacó, ainda dormindo, sobre a salvação
com a vinda do Messias. Aqui no v.17, Jacó, já acordado, fala sobre a salva-
ção no Messias, “a porta dos céus” (cf. Jo 10.7: “Eu sou a porta”).

DISPOSIÇÃO
O propósito ou objetivo ou finalidade ou lição desta perícope de Gn 28.
10-17, para o período da Quaresma, está claro: mostrar a fidelidade de Deus,
a presença de Deus, os cuidados de Deus e a promessa da salvação em
Cristo. Os fiéis têm no “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, o Deus que salva
aqui e abre “a porta dos céus”.
Deus “falou muitas vezes e de muitas maneiras” (Hb 1.1), também atra-
vés de sinais, sonhos e visões. É preciso ver e ouvir a voz de Deus – e
aprender as lições. “Até durante a noite o Senhor nos ensina”. (Sl 16). Deus
quer comunicar-se conosco e ter um relacionamento harmonioso, orientador,
salvador – de Pai para filho. Por isso, o texto nos ajuda na sugestão do tema
e partes:

“EU ESTOU CONTIGO”


(Vv. 13, 15, 16)

Para quê? Com que finalidade, intenção ou propósito?

I – Para te abençoar (v. 14)


II – Para te guardar (v. 15)
III – Para te salvar (v. 17 e 14)

- De onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor (Sl 121)


- Ainda lá me haverá de guiar a tua mão e a tua destra me sustentará
(Sl 139.10)
- Perto está o Senhor de todos os que o invocam (Sl 145. 18)
- Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (Mt
28.20)
- Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida (Ap 2.10).

Leopoldo Heimann
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

TERCEIRO DOMINGO NA QUARESMA


Êxodo 20.1-17
23 de março de 2003

NOTAS INTRODUTÓRIAS
O livro de Hebreus descreve o acontecimento da entrega dos Manda-
mentos por Deus como um fato assustador (Hb 12.19-21). E o susto não
foi apenas pelo volume da voz de Deus (Êx 19.19; Sl 29.3-5), mas princi-
palmente pelas exigências da lei e a maldição resultante para quem não a
cumprir (Dt 11.26-28).
Havia uma tradição de que Deus teria oferecido sua lei no Sinai a todas
as nações na terra em sua respectiva língua. Os moabitas queriam saber a
lei, mas quando Deus chegou ao Sexto Mandamento eles disseram: “Obri-
gado, nossa origem foi de adultério”. Aos descendentes de Esaú foi feita a
oferta e Deus teve que parar no Quinto Mandamento. Só Israel teria tido
coragem de ouvir todos os Mandamentos.1

CONTEXTO
Mas será que os Dez Mandamentos2 são tão complicados assim? De-
pende da maneira como os enxergamos. Não que isso vá mudar o rigor das
exigências, pois eles continuarão a denunciar os dez pecados capitais do ser
humano, mas com um pressuposto mais soft, eles poderão ter um outro
impacto na hora da nossa pregação.
Observando o contexto histórico, vamos perceber que ele é mais evan-
gélico do que se pensa. Deus acaba de eleger seu povo como povo especial
e santo (Êx 19.5-6). Suas palavras iniciais apontam para sua obra de liber-
tação da escravidão egípcia (Êx 20.1-2). O começo nem exigência é, mas
afirmação da bondade de Deus. E se essas palavras tivessem sido original-
mente pronunciadas no Novo Testamento? “Eu sou o Senhor teu Deus, que

1
Martin H. Scharlemann, Proclaiming the Parables, Concordia Publishing House, p. 60.
2
Segundo Horace Hummel, “Dez Mandamentos” é um rótulo humano, pois o
título mais adequado deveria ser “As Dez Palavras” ou “Decálogo” (Horace
Hummel, How to Preach the Old Testament, Concordia Pulpit, 1986, p.6).

258
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
enviei meu Filho Unigênito para vos salvar, não terás outros deuses diante
de mim”. A questão parece ser mais funcional do que tratar o Decálogo
meramente como lei que só acusa.

A MULTIFUNCIONALIDADE DA LEI
Quando se fala em Mandamentos, quase sempre se alude aos três con-
troversos usos da lei. Estou convencido de que eles são antes multifuncionais,
à medida que o impacto que eles causam pode diferenciar de pessoa para
pessoa. Tudo depende do “espírito” do pecador.3 Isto não significa mera-
mente subjetivizar a questão, mas considerar que tipo de pessoa os está
ouvindo e absorvendo. A lei de Deus vai funcionar apenas como imperativo
negativo naqueles que não estão em relação saudável com o Deus da Gra-
ça. A famosa frase “A Lei sempre acusa” é dirigida aos pecadores distan-
tes de Deus. Quando o pecador está numa relação positiva com Deus, a
função primordial da lei também pode ser positiva.4 Só os afastados de
Deus é que perceberão a lei unicamente como cruéis e abomináveis exigên-
cias de Deus.
Acredito que para o velho homem a lei sempre acusará e condenará,
mas não para o novo homem em Cristo. Nesse caso a lei vai até o coração
devidamente filtrada e a maldição retida no sangue de Jesus Cristo (Gl
3.10-13). Para o homem sem Cristo a lei é só proibição e condenação, para
o homem com Cristo a lei também é atividade do Deus Redentor.
Além disso, há um outro aspecto que julgo relevante na abordagem fun-
cional do Decálogo. Em Cristo, o pecador poderá visualizar a bondosa e
positiva preocupação de Deus também para o seu próprio bem-estar. Se
Deus diz na primeira tábua que ele quer o homem todo confiando Nele,
orando, invocando e dedicando-lhe tempo, é porque ele não quer que seus
filhos vivam perdidos assim como ovelhas que não têm pastor. Se na segun-
da tábua ele pede para respeitar pais e superiores, não matar, não adulterar,
não roubar, não testemunhar falsamente, não cobiçar nem o que tem vida
nem coisas materiais, é porque ele quer que nossa autoridade seja respeita-
da, nossa vida preservada, nossa família mantida, nossos bens conservados,
nossa fama e nome prestigiados e tudo que é nosso não esteja exposto aos

3
Até certo ponto esse conceito concorda com o de David P. Scaer, que escreve isto
num artigo sobre Santificação (David P. Scaer, Sanctification in Lutheran Theology,
CTQ, April-July, 1985
4
Para Arand, a solução está no conceito de que de fato “a lei sempre acusa”, mas
não somente acusa, ela pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, acusar e
agradar ao pecador ( Charles P. Arand, Law and Gospel in the Church and World.
Concordia Seminary Publications, Symposium Papers, numbers 5 and 6, 1996,
p.29).

259
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
olhos alheios. Em outras palavras, o que é negativo sem Cristo, tornam-se
também positivas prescrições para viver com Cristo. A motivação à obedi-
ência não é a lei, mas Cristo.

O LUGAR DOS DEZ MANDAMENTOS NO CATECISMO DE LUTERO5


Um dos motivos6 que causou o aparecimento do Catecismo Menor de
Lutero foi o deplorável estado espiritual dos luteranos logo após o rompi-
mento com a Igreja Católica. As ofertas eram escassas, não havia oração,
não tinha estudo bíblico e nem à Santa Ceia se ia. Lutero e Melanchton
ficaram decepcionados, pois o povo da igreja preferia festas a participar nos
cultos e atividades da igreja. Na visitação feita às paróquias, Lutero e
Melanchton descobriram uma paróquia composta de 110 famílias, mas que
muitas vezes não tinha mais de três pessoas presentes aos cultos. Esse
estado de ignorância não estava presente só nos leigos. Também há infor-
mações que um pastor em Elsnig mal e mal sabia orar o Pai Nosso e recitar
o Credo. O evangelho havia sido restaurado, mas as pessoas se tornaram
mestres em abusar da liberdade. Qualquer semelhança com algumas de
nossas congregações hoje não é mera coincidência.
Lutero então lançou o Catecismo e começou com os Dez Manda-
mentos. Ele deu um novo arranjo às doutrinas fundamentais no catecismo.7
Ele começou com O Decálogo, pois sua função primária é diagnosticar a
doença e dizer quem sou eu. Seu papel é fazer as pessoas reconhecerem
sua enfermidade, o que se pode fazer e o que não se pode fazer, o que se
deve fazer e o que não se deve fazer. Mas logo em seguida vem o remédio
no Credo, o qual mostra a Graça medicinal que torna alguém justo diante de
Deus.8 Na verdade, o plano de Lutero era despertar seu povo para o fato de
que a vida cristã sob a graça de Deus não nos isenta do Decálogo, mas nos
remete de volta a ele, para cumprir seus conselhos na vida cristã. Lutero vê
o Decálogo no horizonte da criação, pois seu papel é instruir o uso correto
de tudo o que somos e temos na criação de Deus.9

SUGESTÃO PARA PREGAR O DECÁLOGO


Acredito que essa é uma oportunidade mais para conversar do que para
discursar. Penso que é fundamental zipar os Dez Mandamentos numa con-

5
Charles P. Arand, That I May Be His Own, An Overview of Luther’s Catechisms. Concordia
Academic Press, CPH, 2000, pp.72-73
6
O outro foi a controvérsia Antinomista com João Agrícola.
7
Em Agostinho, por exemplo, a ordem era o Credo, O Pai Nosso e então os Dez
Mandamentos (Arand, p. 124).
8
Arand, p. 130
9
Arand, p. 137

260
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
versa só e relembrá-los com quem já os memorizou, ensiná-los para quem
os está ouvindo a primeira vez e então perceber o impacto que eles exer-
cem na vida das pessoas que estão sentadas nos bancos da igreja. Ao invés
do pregador determinar o impacto, eu sugiro apenas guiar a conversa para
que os ouvintes assimilem os Mandamentos de acordo com seu estado de
“espírito”. Para umas pode ser apenas condenação, mas outras poderão ir
correndo ao corredor da Graça divina revelada em Cristo, lá receber graça
sobre graça, ou seja, graça que não tem limites nem interrupções (Jo 1.16-
17) e fazer as pazes com Deus e assim estar apto a olhar sem susto para os
Mandamentos de Deus. Deus vai velar por sua Palavra.

Anselmo Ernesto Graff


Barra do Garças, MT

261
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUARTO DOMINGO NA QUARESMA


Números 21.4-9
30 de março de 2003

Uma sombra de descontentamento surgiu entre os israelitas com respei-


to a Deus e seu servo Moisés (Nm 21.5). Os israelitas tinham viajado já
havia quase 40 anos depois de sua saída do Egito. Apesar de todo o cuidado
que Deus lhes dispensara, o povo ficou impaciente. Eles reclamaram contra
Deus e contra Moisés: Por que tu nos tiraste do Egito para morrer neste
deserto? Não há pão! Não há água! E nós detestamos este alimento que
nos dás (maná). Conseqüentemente, a maravilhosa proteção de Deus dos
perigos do deserto foi retirada. A necessidade de proteção que os israelitas
tinham de Deus só foi percebida depois que várias pessoas se viram picadas
pelas serpentes venenosas que Deus enviara e estavam morrendo.
Após este episódio os israelitas clamaram a Moisés: Nós pecamos, por-
que falamos contra o Senhor e contra você; ore ao Senhor para que Ele
afaste as serpentes de nós. E Moisés orou em favor do povo (Nm 21.7).
Os israelitas mereciam morrer por causa de sua rebeldia, mas, quando con-
fessaram seu pecado, o Senhor disse a Moisés: Faça uma serpente e coloque
num tronco; qualquer que for mordido e olhar para ela viverá. Assim, Moisés
fez uma serpente de bronze e colocou num tronco. Então quando alguém era
mordido por uma serpente olhava para a serpente de bronze e ficava curado.
E nós ficamos nos perguntado: Por que uma serpente? Por que pendurar
num tronco? Por que pedir para as pessoas olharem para a serpente no
tronco para viverem? O que será que Deus tinha em mente? A leitura do
Evangelho para este domingo (Jo 3.14-21) dá a maior e mais importante
indicação para a compreensão desta ordem estranha. A mensagem do amor
de Deus está lindamente presente neste episódio. A leitura do NT fala deste
incidente em conexão com o madeiro onde Cristo foi erguido. Jesus mes-
mo diz a Nicodemos que a serpente no tronco era uma figura ou tipo dEle e
de sua morte em favor da humanidade perdida. Na conversa particular que
teve com Nicodemos, Jesus fez referência a este acontecimento do AT e
disse: Se alguém não nascer de novo da água e do Espírito, não poderá
entrar no Reino de Deus. Aquele que é nascido da carne é carne e quem é
nascido do Espírito é espírito... e, assim como Moisés ergueu a serpente no
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
deserto, assim o Filho do Homem será erguido. Aquele que nele crer não
perecerá, mas terá a vida eterna (Jo 3.1-5, 14,15). Esta serpente de bronze
representava Aquele que haveria de vir para salvar a humanidade.
O fato da serpente de bronze ter sido feita do mesmo tipo de material
usado para o altar de bronze onde eram oferecidos os sacrifícios nos lembra
o local simbólico do julgamento de Deus contra o pecado.
Os israelitas eram de difícil trato. Eles dificultaram a liderança de Moisés,
a quem Deus indicou como seu profeta e juiz. Eles dificultaram as coisas
também para o próprio Deus que os tinha libertado da escravidão do Egito.
De algum modo, a partir da descendência de Abraão, Deus iria cumprir a
sua parte na aliança que fizera com os patriarcas, estabelecê-los na terra
prometida e, assim, trazer ao mundo o Salvador de todas as nações. Os
israelitas, porém, se encheram de uma atitude negativa, desconfiada e in-
grata, que os levou a esquecer por completo as maravilhosas bênçãos que
Deus havia lhes concedido. Mas o pior de tudo é que se esqueceram com-
pletamente do seu objetivo: a terra prometida e a promessa de serem, na-
quele lugar, uma bênção para todas as nações através da vinda do Salvador.
Não podemos negar que os israelitas tinham atitude, mas uma atitude
má. Nós, provavelmente, sabemos como isto funciona. Assim como se
pode olhar para o mundo com óculos multicoloridos, pode-se olhá-lo de modo
acinzentado. Mas tal posição ingrata e pessimista é pecaminosa. Paulo es-
creveu que tinha aprendido a viver contente em toda e qualquer situação e
isto só podia acontecer através da confiança em Cristo. A fé no Cristo
prometido, porém, não podia ser encontrada entre o povo. A falta de fé
causou a sua reclamação e os separou das bênçãos que Deus amorosa-
mente queria lhes conceder.
Não pensemos que estamos livres de tal atitude, mesmo não estando
peregrinando pelo deserto árido. A mesma descrença pode se apresentar
em nossa vida. Não que não tenhamos o que precisamos, mas porque
sempre queremos “mais”.
Mas, apesar disto tudo, Deus ainda manteve sua graça em relação aos
israelitas. Ele queria amá-los, perdoá-los e curá-los. Em vez de “riscá-los do
caderno” e, simplesmente, começar tudo de novo com outro povo, Deus criou
uma situação para chamá-los ao arrependimento, de tal modo que pudesse
perdoá-los e renová-los: Então o Senhor enviou serpentes venenosas...
Uma rebelião tão séria exigia providências sérias e foi isto que Deus fez. O
fato de se sentirem abandonados por Deus e verem a morte tão de perto fez
os israelitas cair em arrependimento. Chegaram para Moisés e disseram: Pe-
camos... Então Moisés orou ao Senhor em favor do povo.
Muitas vezes Deus também precisa nos disciplinar. Ele precisa nos fazer
passar por maus bocados para nos ensinar a deixar de confiar em nós e
aprender a confiar mais nEle. Mas quando Deus nos disciplina, o seu obje-
263
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
tivo é sempre nos conduzir para mais perto dEle através de contrição e
arrependimento. Ele deseja nos lembrar que dependemos dEle para tudo. E
isto nos leva ao maior objetivo de Deus, que nos regozijemos na revelação
de sua misericórdia e perdão que nos concede para a vida eterna.
A solução de Deus tinha como objetivo despertar fé nos seus filhos re-
calcitrantes. E que solução estranha e “louca” foi aquela! Isto nos lembra
as palavras do apóstolo Paulo: A loucura de Deus é mais sábia que a sabe-
doria dos homens. Para serem curados, os israelitas tinham que confiar
plenamente naquele de quem tinham desconfiado tão veementemente.
De um modo totalmente igual Deus trata conosco. Ele nos diz que atra-
vés da simples água do batismo, unida com sua Palavra e promessa, somos
purificados de nossos pecados e nos tornamos Seus filhos. Para receber-
mos suas bênçãos precisamos também esquecer nossas atitudes céticas e
arrogantes e simplesmente confiar na Sua Palavra e promessa e, quando
assim o fazemos, somos curados. Igualmente, Deus nos diz que, comendo
pão e bebendo vinho, consagrados pela Sua Palavra, recebemos, de modo
invisível e sobrenatural, Seu próprio corpo e sangue para perdão dos peca-
dos. A nossa razão não nos explica como tais coisas são possíveis. Através
destas “loucuras” somos levados a confiar, “infantilmente”, unicamente, nas
Suas palavras e obtemos a cura do mal que assedia a nossa alma, o pecado.
Assim como com a serpente, o poder da cura reside nas palavras de
promessa. Sem a ordem e promessa de Deus, olhar para a serpente de
bronze seria idolatria. Mas não vemos nenhuma hesitação por parte de Moisés
no fato de ter de fazer uma semelhança de algo que rastejava pela terra,
porque da promessa de Deus é que viria o livramento. Que símbolo estra-
nho, mas maravilhoso, Deus escolheu para ensinar a verdade de seus futu-
ros planos através de Seu Filho.
A humanidade foi envenenada pelo pecado, que foi introduzido pela velha
serpente, chamada Diabo (Ap 12.9), e a mordida dolorida do pecado atormenta
suas vítimas até a morte espiritual. A salvação está ao alcance de todos que
olham para Jesus, Aquele que foi erguido por nossos pecados. Pois, se quando
éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito
mais agora, sendo reconciliados, seremos salvos por Sua vida (Rm 5.10).
Comparemos a doença dos israelitas e a nossa. O pecado fere como
uma serpente. Compare o uso do remédio dos israelitas ao nosso. Eles olha-
ram e viveram, e nós, se cremos, somos salvos. É pela fé que olhamos para
Jesus (Hb 12.2). O Senhor nos livra de uma maneira que a natureza huma-
na nunca imaginaria. Então, que ninguém feche seus olhos para Cristo, ou
lhe vire o rosto.

Luiz Alberto S. dos Santos


Porto Alegre, RS
264
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUINTO DOMINGO NA QUARESMA


Jeremias 31.31-34
06 de maio de 2003

O profeta Jeremias foi um profeta muito sofrido. No seu primeiro perí-


odo aconselhou o jovem rei Josias, que promoveu uma grande reforma.
Mas este rei morreu cedo, aos 39 anos, na batalha contra o rei do Egito. Os
reis que se seguiram foram maus. O povo voltou-se para a idolatria. Isto
trouxe a ira de Deus sobre Israel, que desabou no ano 586, com a destruição
do templo e o cativeiro babilônico.
Diante da catástrofe, em seu grande amor e sua misericórdia para com
o povo de Israel e a humanidade, Deus anunciou ao povo de Israel a nova
aliança.
No Monte Sinai, Deus havia feito uma aliança com o povo de Israel, chama-
da aqui de a “antiga aliança”. A lei de Deus gravada em duas tábuas de pedra,
guardadas na arca da aliança, no templo, no Santo dos Santos. Esta aliança
requeria o diário sacrifício de animais, “pois sem derramamento de sangue não
havia remissão de pecados” (Hb 9.22). Esses sacrifícios, no entanto, eram figu-
ra do grande sacrifício que Jesus, “o Cordeiro de Deus” (Jo 1.29), traria. Mas o
povo de Israel, em vez de olhar para esses sacrifícios como o anúncio do amor
de Deus, olhou mais os sacrifícios como sua ação meritória diante de Deus.
Eles não compreenderam a profundidade desta aliança. Resvalavam sempre de
novo a olharem mais para suas ações humanas nesta aliança do que para a ação
de Deus. Deus teve que dizer-lhes: “Misericórdia quero e não holocaustos”!
(Mt 9.13). Além disso, o povo constantemente se desviava para toda a sorte de
pecados e a idolatria. Agora Deus estava prestes a derramar seu severo juízo
sobre Israel. Mas para que não desesperassem no cativeiro sob o peso do juízo
de Deus, Deus lhes promete uma nova aliança. Algo bem novo, para que, quan-
do reconhecerem seus erros e o mal que fizeram em abandonar a Deus, quando
estiverem no cativeiro em terra estranha, vendo o templo destruído, sem pode-
rem trazer seus sacrifícios, não desesperassem, Deus lhes concedeu esta boa
notícia: ainda há esperança. Deus não os abandonou. Ele fará nova aliança.
Tudo será novo.
Nova aliança! Será que Deus mudou? Não! Deus não muda. Ele é o
mesmo, ontem, hoje e sempre. Ele está por cumprir sua promessa. O Filho
265
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
de Deus, o Cordeiro de Deus, virá ao mundo para reconciliar a humanidade
definitivamente com Deus, por seu sacrifício na cruz. Então verão o cum-
primento de todas as leis e o cumprimento das profecias. Então terão uma
visão mais plena do grande amor de Deus, anunciado a Adão e Eva, aos
patriarcas, e pelos profetas. Jubilarão como apóstolo o descreve: “Ó pro-
fundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus!”
(Rm 11.33). “E assim habite Cristo nos vossos corações, pela fé, estando
vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com
todos os santos, qual a largura, e o cumprimento, e a altura, e a profundidade
e conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento, para que
sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.17-19).
“Na mente lhes imprimirei as minhas leis... (v.33,34). Esta nova aliança
trará uma nova força ao coração. Jesus disse a seus discípulos: “Recebereis
o Espírito Santo” (Jo 20.22; At 2.17-23). O Espírito será dado em sua plenitu-
de. Este conhecimento da graça de Deus em Cristo será uma forte luz que
iluminará os corações. O sentido não é de que um irmão não ajudará ao outro
na compreensão, ou de que não precisaremos mais de estudos bíblicos, devo-
ções e cultos. Não. Mas no sentido de reconhecimento da graça de Cristo.
Reconhecer a Jesus como Salvador e Senhor, como o confessam as crianças
no Credo Apostólico. Lutero afirma: “Graças a Deus, hoje toda a criança de
sete anos sabe o que é a igreja: as ovelhas que ouvem a voz do seu Pastor.”
“Todos me conhecerão, grandes e pequenos”. Quando o pai abraçou o filho
pródigo e o beijou (Lc 15.20), selando o completo perdão, o filho reconheceu
o profundo amor do Pai. Este amor renova tudo. “E assim, se alguém está em
Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram
novas (2 Co 5.13). Confere: Hb 8.8-12; 10.16,17, que retrata o texto.

INTRODUÇÃO
A aliança, da qual fala o profeta Jeremias, se cumpriu em Cristo. É uma
aliança mui sublime, diferente das demais. Aliança é um contrato entre duas
partes, na qual os dois têm responsabilidades. Aqui temos uma aliança de
paz, na qual Deus nos dá tudo, sem requerer nada de nós. Nenhum condici-
onal, nenhum mas ou se. Uma vez chamado a esta aliança queremos lhe
pertencer e viver voluntariamente submissos a ele.
1 – Aliança Antiga – Feita no Monte Sinai – Ordenanças e sacrifícios
que eram sombra. – Erros: Israel se apegou ao externo. “Misericórdia que-
ro e não sacrifícios” (Mt 9.13). – Desviaram-se muitas vezes, Deus os
castigou para que se arrependessem. Mas ele nunca os abandonou.
2 - Aliança Nova – Jesus cumpriu a lei. Ele reconciliou a humanidade
com Deus. – O Espírito Santo nos chama, ilumina e congrega. – Vemos em
plenitude. – Perigo de seguirmos a Israel, tornando-nos indiferentes. – Mui-
tos distanciados. – Quando voltamos arrependidos, ele nos aceita.
266
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
CONCLUSÃO
Queremos viver esta aliança, pois nela temos o consolo do perdão, a paz
com Deus e a esperança da vida eterna. E, enquanto aqui na terra, quere-
mos louvar a Deus e servi-lo em nosso próximo, dizendo com o apóstolo
Paulo: “O meu viver é Cristo” (Fp 1.21).

Horst Kuchenbecker
Porto Alegre, RS

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

DOMINGO DE RAMOS
Zacarias 9.9-10
13 de abril de 2003

CONTEXTO
Esta tradicional leitura do Antigo Testamento para o Domingo de Ramos
surpreende por ser tão breve e, ao mesmo tempo, tão densa quanto ao
conteúdo. São apenas dois versículos, muito ricos, que são ainda mais
marcantes quando lidos e analisados em seu contexto. E este contexto, Zc
9.1-11.17, fala do futuro do reino de Deus e anuncia sua universalidade.

NOTAS TEXTUAIS
V. 9: “Alegra-te muito, ó filha de Sião” - “Filha de Sião” é uma personifi-
cação de Jerusalém e de seus habitantes. A NTLH traduz por “povo
de Sião”. A segunda linha, “filha de Jerusalém”, explica que Sião é
sinônimo de Jerusalém.
V. 9: “te vem o teu Rei” – Depois da conclamação à alegria, o motivo
para tanto: “te vem o teu Rei”. É o rei de Jerusalém. É o filho de Davi
prometido desde 2 Sm 7.12-14.
V. 9: “justo e salvador (ou: vitorioso)” - O Rei que vem será “justo” (qyDIc,
tsadiq;). Será também [v’n (noshá’). Esta é uma forma nifal do verbo
[v;y (iasha’, “salvar”). Um nifal é, em geral, entendido como voz passi-
va. Assim sendo, a tradução deveria ser algo como “salvo” ou “sendo
salvo”. Theodore Laetsch (The Minor Prophets, p. 454-455) argu-
menta que esta é a única tradução possível. Agora, como isto se aplica
ao Messias? Laetsch explica que Jesus Cristo, segundo sua natureza
humana, “foi salvo das profundezas do inferno, sendo coroado de honra
e glória”. Ele foi salvo no sentido de que Deus o “ressuscitou, rompen-
do os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por
ela” (At 2.24). O Messias deve este reino não à sua força ou à força
do seu exército, mas ao poder de Deus, que o “salva”. Diante disto, faz
mais sentido a tradução por “vitorioso”, que aparece na NTLH.
V. 9: “humilde, montado em jumento” - Isto é o que mais se destaca neste
Rei. Ele é “humilde” (ynI[‘, ani) ou “manso” (prau>j, prays), como traduz a
Septuaginta. A maioria dos soberanos e líderes deste mundo não prima
pela humildade, mansidão e bondade. Pessoas como Nabucodonosor,
268
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Herodes, Stalin, Sadam Hussein são conhecidas pela sua arrogância e
prepotência. O Rei prometido no texto de Zc 9 será bondoso, manso e
humilde. O fato de vir montado em jumento aponta para sua humildade. O
jumento contrasta com os cavalos mencionados no v. 10, que são cavalos
de guerra (“cavalaria”, segundo a NTLH). Ao mesmo tempo, no entanto,
vir montado em jumento também é uma forma de dizer que ele é rei. Ao
ser ungido rei, Salomão montou “a mula que era do rei Davi” (1 Rs 1.38).
Aqui, em Zc 9.9, se fundem, por assim dizer, a imagem do Messias real da
linhagem de Davi (2 Sm 7) e o Servo sofredor anunciado em Is 53.
V. 10: “anunciará paz às nações” – Ele é o Príncipe da paz (ver Is 2.4;
9.5-7; 11.1-10; Jo 14.27; Jo 20.19,20,26; Ef 2.14-18). Sua única arma é
a Palavra de Deus, que anuncia paz a toda a humanidade. A paz
messiânica é implantada no mundo pelo cumprimento da “grande co-
missão” (Mt 28.18-20).
V. 10: “seu domínio se estenderá de mar a mar” - O reino de Deus é um
reino universal, muito maior do que o reino de Davi e Salomão (Sl 22.27-
28; Sl 72.8-11; Is 45.22; 52.10).

APLICAÇÃO
O Novo Testamento mostra que a profecia de Zc 9.9-10 se cumpriu na
entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21.4-5; Jo 12.14-16). Jesus se aproxi-
ma de Jerusalém, sem exército e montado num jumento, o animal messiânico
da paz, para manifestar-se como o rei de Jerusalém. Existe, aqui, uma
concentração ou cristalização da humildade e mansidão que caracterizaram
todo o seu ministério: na decisão de viver de toda palavra que procede da
boca de Deus (Mt 4.4); na bem-aventurança sobre os pobres e humildes
(Mt 5.3,5); em sua mansidão e humildade de coração (Mt 11.29); em sua
recusa em deixar que seus seguidores lutassem por ele ou em apelar para
legiões de anjos (Mt 26.51-53; Jo 18.36); na confiança inabalável de que
seu Pai faria de seus inimigos o escabelo de seus pés e o colocaria à direita
de seu trono celeste (Mt 22.41-45; 26.64). Assim, ele criou e deu uma paz
que o mundo não pode dar. (Martin H. Franzmann, Concordia Self-Study
Commentary, p. 653).
Na Semana Santa, a atenção dos cristãos está voltada para o sofri-
mento, a crucificação e morte do Deus-homem Jesus Cristo. Há uma ênfa-
se natural na humanidade e humildade do Senhor. O texto de Zc 9 ajuda a
lembrar que Jesus Cristo não deixou de ser rei. Mas é um rei humilde que,
com sua morte e ressurreição, trouxe a paz que o mundo não pode dar e que
é anunciada de mar a mar, até às extremidades da terra.
Vilson Scholz
São Leopoldo, RS
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
Isaías 53.4-12
18 de abril de 2003

Esta é a tradicional leitura do AT na Sexta-feira da Paixão. Um texto


citado e aludido muitas vezes no NT, do qual já se disse que “parece ter sido
escrito à sombra da cruz”. É, com razão, conhecido como “o evangelho no
AT”. É o quarto dos “cânticos do Servo”.
Causa estranheza a edição da perícope, que começa no v.4. Por certo,
procurou-se abreviar uma leitura que, na íntegra (52.13-53.12), fica bastan-
te longa. Fica a sugestão de, se possível, ler o texto todo, mesmo que na
pregação se dê destaque à parte selecionada. O presente estudo leva em
conta o cântico como um todo.

TEXTO
A estrutura deste cântico do Servo é feita de cinco estrofes, com três
versículos cada: a) a futura exaltação do Servo (52.13-15); b) o homem de
dores (53.1-3); c) seu sofrimento é vicário, ou seja, ele sofre pelos outros
(53.4-6); d) a morte vergonhosa (53.7-9); e) reabilitação e recompensa
(53.10-12). O texto também pode ser dividido em duas partes: a) o que se
diz do sofrimento (53.2-9) e da restauração do Servo (53.10-11a); b) o vere-
dicto de Deus (52.13-15 e 53.11b-12).
Percebe-se nitidamente que o sofrimento do Servo vem emoldurado pelo
anúncio de sua exaltação. O Servo vai per crucem ad lucem (“pela cruz
em direção à luz”), mas a ênfase recai sobre a exaltação. (O contraponto
disto, nos Evangelhos, é a moldura de Transfiguração e Páscoa ao redor do
sofrimento do Filho do Homem.). Além disso, o sofrimento é apresentado
no pretérito (“ele tomou sobre si”, v.4), mas a moldura, que dá o tom, aponta
para o futuro (“justificará a muitos”, v.11).
Pode-se analisar este texto em termos de relacionamentos entre os per-
sonagens, que são quatro: eu (o Senhor), ele (o servo), nós (o profeta, que
fala pelo povo), eles (muitas nações, reis, os poderosos, muitos). Existem
três tipos de relacionamento: a) o relacionamento “eu” (Senhor) – “ele”; b)
o relacionamento “nós” – “ele”; c) o relacionamento “eles” – “ele”.
a) O relacionamento “eu” (Senhor) — “ele”: O personagem principal é

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
apresentado como “meu Servo” (v.11). O Servo não tem nome. Basta
saber que ele é servo. Sua verdadeira natureza é pertencer a alguém
outro, a saber, ao Senhor. Ele foi considerado (de forma equivocada)
ferido de Deus (v.4). O Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos
nós (6b; cf. v.10). A iniciativa é de Deus. Seu sofrimento foi tenciona-
do por Deus. Não se trata apenas de algo que é aceito depois do
evento. Este relacionamento tem seu ponto alto quando o “eu” (o Se-
nhor) lhe dá muitos como a sua parte (v.12). Deus é a ponte que leva
do sofrimento à exaltação.
b) O relacionamento “nós” — “ele”: Quem somos “nós”? Tudo indica
que se trata de Israel e/ou do profeta. A rigor, é o profeta falando em
nome de todos. De hostilidade e desprezo (v.3), os “nós” passam a
consideração e confissão.
c) O relacionamento “eles” – “ele”: Além de “eu” e de “nós”, também
“eles” se relacionam com o Servo. Quem são “eles”? São muitas
nações e reis” (52.15), os poderosos (12), os muitos (v.12). Este “mui-
tos” aparece três vezes em 53.11,12 (mais duas vezes em 52.14,15).
Tem sentido inclusivo (muitos em oposição a um), não exclusivo (mui-
tos em oposição a poucos). Os “muitos” são o grande grupo, a multi-
dão, todos. (cf. palavras da instituição). De não-envolvimento passa-se
a envolvimento; do não-reconhecimento ao apreço.
O “ele” está no centro dos relacionamentos. Ele é a ponte, não havendo
conexão entre “eu” - “eles” ou “nós” - “eles”. Ele, o Servo, age ou sofre
ação. Não fala. É profeta, sacerdote e rei, mas acima de tudo sacerdote.
Ele dá a sua alma como oferta pelo pecado (v.10), derrama a sua alma na
morte (v.12). Ele é ao mesmo tempo o sacerdote (“intercede pelos
transgressores”, v.12) e vítima sacrificial (“a sua alma como oferta pelo
pecado”, v.10).

APLICAÇÃO
A narrativa do texto corresponde, em termos gerais, à seqüência do
Credo: sofreu, morreu, foi sepultado, ressuscitou. No entanto, o pregador
que proclama este texto à luz de seu cumprimento precisa lembrar que
profecia não é história escrita antecipadamente. Por exemplo, “ver a poste-
ridade” e “prolongar os seus dias” (v.10) apontam para a ressurreição, sem
falar dela em termos bem inequívocos. Aliás, a “recompensa” do Servo é
apresentada em terminologia típica do AT: ver a posteridade (v.10), prolon-
gar os dias (v.10), repartir o despojo (v.12).
O que não tem precedente, sendo totalmente singular no AT, é o anún-
cio de que alguém vai dar sua alma como oferta pelo pecado. De resto, no
AT, animais são sacrificados como oferta pelo pecado. O Servo é único e,

271
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
num certo sentido, Is 53 é a única passagem do AT que ajuda a entender o
sacrifício de Cristo.
O Servo é anônimo, isto é, no âmbito da profecia sua identidade é um
mistério. (O NT revela sua identidade!) Agora, o mesmo não se aplica à
sua missão. Aqui não há nenhum mistério. Trata-se de missão salvadora,
que consiste em sofrer. O sofrimento não é apenas conseqüência de sua
missão, mas é a missão em si. Ele sofre de forma voluntária (v.10 e v.12),
não merecida (“nunca fez injustiça”, v.9), em obediência ao Senhor (vv.6,10).
Sua morte é vicária, constituindo-se na “feliz troca” de que fala Lutero: o
Servo que merece bênção é amaldiçoado, e os pecadores que merecem a
maldição de Deus recebem a bênção do Servo. Esse caráter substitutivo
aparece mais de 10 vezes, especialmente nos vv. 4-6,8,10-12: nossas enfer-
midades (v.4), nossas dores (v.4), traspassado pelas nossas transgressões
(v.5), etc.
O pregador cristão por certo vai expor o texto profético à luz de seu
cumprimento. Segue uma lista de referências que indicam o cumprimento
no NT: v.5 - Rm 4.25; 1 Pe 2.24-25; v.6 - 2 Co 5.21; v.7- Mc 14.65; Jo
1.29; v.9 - 1 Pe 2.22; 1 Jo 3.5; v.10b - Mt 20.28; Gl 1.4; 1 Jo 2.2; v.12 - Mc
15.28; Lc 22.37; 23.34.

Vilson Scholz
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

DOMINGO DE PÁSCOA
Isaias 25.6-9
20 de abril de 2003

CONTEXTO
O texto está inserido no bloco de Isaías geralmente chamado de “primei-
ro volume de juízo e promessas gerais”, que compreende os versículos de
24.1 até 27.13. O bloco possui quatro sermões: a) O juízo universal de Deus
contra o pecado, que também é universal (24.1-23); b) Louvor a Deus como
libertador, vitorioso e consolador (25.1-12); c) Cântico de alegria e consola-
ção de Judá (26.1-26); d) Punição aos opressores e a preservação do povo
de Deus (27.1-13). Mas, especificamente, o texto está inserido no “cântico
de louvor pela misericórdia divina”, que compreende os versículos 1 a 12 do
capítulo 25.

TEXTO
V. 6: “neste monte” – O monte é o de Sião, situado em Jerusalém (veja
Isaías 2.2-4). É neste monte que o Senhor “mora”.
V. 6: “banquete” – A figura é utilizada na Bíblia para se indicar refeição
que celebra um evento importante. No caso do texto, o tipo de banque-
te é considerado messiânico, com um tom escatológico (banquete
celestial). Observe que o banquete é servido “a todos os povos”.
V. 7: “coberta” – Literalmente, em hebraico, esta “coberta” é o véu de
luto para cobrir o rosto. Simbolicamente, pode significar qualquer coisa
que impeça alguém a enxergar adequadamente uma outra realidade,
inclusive espiritual. Em 2 Coríntios 3.16 é dito que, quando alguém se
converte ao Senhor, “o véu lhe é retirado”. Também é preciso lembrar
quando Jesus, ao executar sua obra redentora, o véu do santuário foi
rasgado (cf. Mateus 27.51).
V. 8 – Este versículo é o central da perícope. Aqui, especialmente, está
situada a conexão com as demais leituras do Domingo de Páscoa, cujo
tema é a vitória sobre a morte. Aqui está antecipado o que Paulo disse
em 1 Coríntios 15.26. A narrativa do Evangelho do dia – a ressurreição
de Jesus Cristo - narra esta vitória.
273
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
PROPOSTA HOMILÉTICA
Sendo este o Domingo de Páscoa, o assunto está colocado: a ressurrei-
ção de Jesus é a vitória definitiva sobre a morte. A questão é: como locali-
zar este assunto em Isaías e fazer a ponte até a ressurreição, até o evange-
lho – sem que isto soe artificial e, até, arbitrário? Antes de verificarmos
uma possibilidade, é necessário lembrar que o texto de Isaías trabalha em
dois níveis, o histórico e o espiritual. As mensagens messiânica e escatológica
têm como base a destruição de Moabe e a libertação e o consolo operados
por Deus.
A sugestão é que a mensagem se fundamente na expressão “tragará a
morte para sempre” (v. 8). De acordo com a epístola (2 Coríntios 15.26),
ela tem seu cumprimento na ressurreição de Jesus.
As imagens “morte” e “vida” são conhecidas, mas não perdem sua atu-
alidade. Todavia, sugiro que a mensagem não fique apenas no plano salvífico,
mas que também aborde situações de “morte” no dia-a-dia (casamento,
família, sociedade, política, economia) e mostre que os caminhos de vida
são possíveis através da ação de cada crente que foi tocado pela ressurrei-
ção de Jesus.
Uma abordagem evangélica criativa seria um estudo da situação indicada
pelo termo “opróbrio” (vergonha). Aquele (Jesus) que se tornou opróbrio
em seu sofrimento vicário (cf. Isaías 53.1-12) é quem acabou sendo quem
pode tirar o opróbrio dos seres humanos (v. 8).
Também convém incluir o banquete escatológico, pois é o resultado final
da vitória sobre a morte.

Dieter Joel Jagnow


Porto Alegre, RS

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA


Atos 3.13-15,17-26
27 de abril de 2003

CONTEXTO
Com exceção de algumas festas maiores, como Ascensão e Pentecostes,
e algumas festas menores, como a conversão de Paulo (25 de janeiro) e o dia
de Estêvão (26 de dezembro), entre outras, o único momento em que o livro
de Atos dos Apóstolos tem vez na Série Trienal é no período dos sete domin-
gos de Páscoa. Figura aí como primeira leitura, em lugar da leitura do Antigo
Testamento. Pode parecer uma perda, mas, como se verá mais adiante neste
auxílio homilético, o Antigo Testamento não foi de todo esquecido.
O texto de Atos 3 faz parte do discurso de Pedro no Templo, depois da
cura de um coxo. Ao final do sermão, como se lê em At 4.3, o pregador e
seu colega (João) são presos. O v. 16, que faz esta conexão histórica, é
omitido, e disto resulta uma perícope mais “universal”. A leitura começa de
chofre com “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó ... glorificou a seu
Servo Jesus”. Sugere-se, ao menos na leitura, providenciar um texto-ponte
à guisa de introdução: “Depois da cura de um paralítico no Templo, Pedro
se dirigiu ao povo, dizendo: ...”

TEXTO
1. O texto se destaca por referências diretas e alusões ao AT. (Neste
sentido, a falta de uma “leitura do AT” neste domingo não vai ser tão
sentida quanto poderia ser.) O v. 13 é um eco ou quase citação de Êx
3.6,15. A referência ao Servo Jesus (vv.13 e 26) remete a Is 53. No v.
18, Pedro anuncia que o sofrimento do Cristo cumpriu o que Deus anun-
ciara por boca de todos os profetas. Os vv. 22-23 são citação de Dt
18.15,18-19. No final (v.25), Pedro lembra que seus ouvintes são “fi-
lhos dos profetas e da aliança” e, na seqüência, cita Gn 22.18.
2. O texto tem muito a dizer de Jesus Cristo. Ele é o Servo do Deus de
Abraão, Isaque e Jacó (vv. 13 e 26); o Santo e Justo que foi negado
perante Pilatos (v.14); o Autor da vida (v.15), morto pelos israelitas
(v.12) e irmãos de Pedro (v.17), a quem Deus ressuscitou dentre os
mortos (v.15); o Cristo (= Messias) de Deus (v.18), que sofreu e voltará
275
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
para a restauração de todas as coisas (v.21).
3. O texto anuncia com clareza a morte e ressurreição de Jesus, com
ênfase na última. Deus “glorificou a seu Servo Jesus” (v.13), “ressus-
citou dentre os mortos” o Autor da vida (v.15), ressuscitou o seu Servo
e “enviou-o primeiramente a vós outros para vos abençoar” (v.26).
4. O sermão de Pedro aponta o pecado (vv.13,14). É claro, reconhece
que os israelitas agiram por ignorância (v.17) e vê o propósito de Deus
por trás dos eventos da Sexta-feira santa (v.18). Mas nem por isso
afirma que está tudo OK. Ao contrário, há um claro apelo ao arrepen-
dimento (v.19), seguido de algumas das implicações disto: cancelamen-
to de pecados (v.19), tempos de refrigério (v.20), bênção (“para vos
abençoar”, v.26). A palavra final é outro convite ao arrependimento:
“cada um se aparte de suas perversidades” (v.26).
5. O evangelho aparece numa versão modificada da “feliz troca”, da qual
falava Lutero. É uma “feliz troca” em dose dupla: a) O homicida é
solto e o Justo é morto: “negastes o Santo e Justo e pedistes que vos
concedessem um homicida” (v.14); b) Escolheram o homicida e Deus
lhes devolveu o Autor da vida: “matastes o Autor da vida, a quem Deus
ressuscitou dentre os mortos” (v.15).
6. O grande destaque do texto é o v. 15. Duas expressões merecem um
pequeno comentário. A primeira é a “magnífica antítese” de que fala J.
A. Bengel: “matastes o Autor da vida”. Cristo é o Autor da vida (Jo 1,
Cl 1, Hb 1). Agora, como é possível matar o Autor da vida? A explica-
ção luterana é aquela da comunicação dos atributos na pessoa de Cris-
to. Pela união pessoal das duas naturezas em Cristo, “coisas humanas
são atribuídas à pessoa toda de Cristo segundo a natureza humana”
(Sumário da Doutrina Cristã, 2 ed., p. 75-76 – Gênero Idiomático).
Coisas peculiares à natureza humana – por exemplo, morrer – são ver-
dadeira e realmente atribuídas à pessoa toda de Cristo. A segunda
expressão é: Deus o ressuscitou “dentre os mortos”. Esta expressão
“dentre os mortos”, que ocorre 44 vezes no NT, é uma enfática decla-
ração de que Cristo realmente morreu e uma maneira bem plástica de
descrever sua ressurreição: Deus o levantou do meio dos mortos. Ele
ressuscitou da morte, sim; mas o NT gosta de dizer que ele ressuscitou
“dentre os mortos”. Morte é abstrato; mortos, concreto.

APLICAÇÃO
Por mais breve que seja, o sermão de Pedro é modelar. Pedro desvia a
atenção dos apóstolos (v.12) para aquele que os comissionou, a saber, o
Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó (v.13). Pedro não faz nenhum mani-
festo em nome do Messias rejeitado, muito menos anuncia um plano de
oposição ao judaísmo. Ao contrário, a exemplo do próprio Senhor (ver o
276
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
paralelo com João 20.21, o evangelho do dia: “Assim como o Pai me enviou,
eu também vos envio”), os apóstolos vão em busca das ovelhas perdidas da
casa de Israel ali onde elas estão. Para tanto, fala a linguagem bíblica que
o povo conhecia, como foi indicado acima (2.1). Na peroração (v.25-26),
Pedro se dirige a eles como “filhos dos profetas e da aliança”, isto é, os
herdeiros da promessa feita pelos profetas e da bênção ligada à aliança. A
eles o Servo de Deus foi enviado em primeiro lugar, para os abençoar. Mas,
acima de tudo, o sermão de Pedro é modelar no anúncio de lei e evangelho.
Mostra o pecado e anuncia o perdão (ver o paralelo com João 20.23: “Se de
alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados”). O v. 15, o anúncio da
ressurreição de Cristo, é o centro e clímax da mensagem. O centro da
mensagem não é o Pentecostes ou o poder do Espírito Santo, nem a cura ou
o poder de curar, mas a Páscoa e a ressurreição de Cristo.

Vilson Scholz
São Lepoldo, RS

277
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA


Atos 4.8-12
04 de maio de 2003

CONTEXTO
Este texto precisa ser analisado dentro do seu contexto, caso contrário é
impossível entendê-lo. Seu contexto imediato tem seu começo no capítulo 3,
versículo 1. Sugiro, pois, que em primeiro lugar se leia atentamente todo
este contexto, ou seja, os capítulos 3 e 4.

TEXTO
O trecho é um discurso. Surgiu a partir da cura (obra diaconal). Pedro,
cheio do Espírito Santo, desmascara o sistema religioso que descartou a
Cristo, pedra angular. Importa que Cristo seja nosso mediador para que
tenhamos vida.

Algumas coisas merecem destaque especial neste texto:


a) O que levou Pedro a proferir esta mensagem (o contexto dos capítulos
3 e 4);
b) A quem Pedro está proferindo esta mensagem (diante das autoridades
e líderes do povo: o Sinédrio);
c) A coragem de Pedro. É preciso lembrar que há poucos meses atrás,
este mesmo Pedro nega Jesus a uma simples empregada do palácio
real, e agora “rasga” o verbo, como o homem mais corajoso do mundo
diante das maiores autoridades, as mesmas que condenaram a Cristo e
que poderiam também condenar Pedro. No entanto, Pedro não demonstra
medo nenhum, mesmo após a proibição de continuar falando a respeito
de Cristo. No final ele é solto.
d) O centro da mensagem de Pedro. Pedro está sendo interrogado sobre
como é que eles realizaram a cura daquele que tinha nascido coxo. E
Pedro “desvia” (aproveitando a oportunidade) seu discurso para Cristo
Jesus. Cita o texto que encontramos no Salmo 118, versículo 22: “A
pedra que os construtores rejeitaram veio a ser a mais importante”. E
ainda faz uma aplicação, afirmando que “a salvação só pode ser
conseguida através dele. É por meio do nome dele e de ninguém mais
278
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
no mundo que podemos ser salvos”. E ainda acrescenta que “Deus tem
colocado este nome ao alcance de todos”.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
A situação em que Pedro e João se encontram é parecida com um depo-
imento numa CPI, onde reina o clima de julgamento e suspeitas. Pedro não
havia planejado estar lá diante das autoridades político-religiosas. Pelo con-
trário, tinha saído de casa a fim de orar no Templo. Talvez nem imaginava
que iria conhecer o famoso Sinédrio de perto. Aquele mesmo tribunal com
que Jesus se defrontara dois meses antes.
A oportunidade de falar em nome do Cristo ressuscitado, aquele espaço
de comunicação, não foi previamente pensado. Também não foi comprado,
nem requisitado pelos discípulos. Eles foram trazidos à força para explicar
uma boa ação: um serviço prestado a um paralítico. Só que por trás se
cumpria o propósito do Alto. A cura do coxo que vivia às portas do templo
em Jerusalém foi o estopim dos fatos e o ponto de partida da fala de Pedro,
que agora nos interessa.
Ao reconstruir a cena, temos de lembrar que aquele momento fazia par-
te da história, refletia conflitos, disputas pelo poder, e especialmente que
ainda repercutiam os últimos acontecimentos envolvendo a condenação e
morte do Nazareno Jesus, e o recente “boato” de que ele havia ressuscita-
do. Se este fosse confirmado, aquelas autoridades perderiam sua credibilidade,
pois teriam incorrido num erro lamentável.
Em meio a esta ameaça, com o receio de perder o domínio sobre o povo,
é que aquela elite prende e chama os dois discípulos para depor.
A primeira pergunta colocada à mesa, anotada pelo escrivão, é: “Com
que poder vocês estão fazendo isso? Quem está por trás?” Estas palavras
evidenciam o medo e como eles se julgavam os únicos que podiam ensinar,
dizer como se faz o bem, orientar e guiar o povo.
Pedro estava cheio do Espírito Santo. E não diz que Pedro ficou cheio só
naquele instante. Podemos deduzir que ele estava abastecido do Espírito,
com o “tanque cheio”, desde o Domingo de Pentecostes, tanto assim que
pôde operar o milagre na porta do Templo.
Pedro estava absorvido por Deus. A sua convicção no Cristo Ressusci-
tado lhe invadira a alma, transformara-o num homem de coragem. E ali,
diante do mais temido tribunal judaico, ele coloca os “pingos nos ‘is’.” Isso
vale para nossos projetos pessoais, nossas construções! Até que ponto mon-
tamos esquemas de vida e rejeitamos o amor, a misericórdia de Cristo a nós
revelada com o propósito de repassar a outros?
Ampliando um pouco, chegamos às instituições a que pertencemos. Sobre
que objetivos planejamos, trabalhamos e nos organizamos com estatutos e
regimentos? Será que nossos esquemas, projetos, arranjos institucionais tam-
279
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
bém não acabam tendo, por vezes, um fim em si e buscam apenas auto-
reproduzir um ideal terreno em detrimento da graça oferecida aos pecadores?
O mundo precisa perceber e ouvir que, em Cristo, estamos comprometi-
dos com a vida, com o amor e a justiça e que sempre há tempo para o
recomeço bem fundamentado.
Tomando a sério esta viva esperança, seremos transformados e teremos
oportunidades para sermos vistos e ouvidos em momentos inesperados e
não planejados, mas que o propósito de Deus de antemão já nos reservara
(Ef 2.10).
A exemplo de Pedro e João, ao vivermos de fato o amor de Deus, espa-
ços de testemunho vão surgir, sem precisarmos requisitar ou pagar por eles.
E estes momentos precisam ser usados para pregarmos a Cristo como sen-
do o centro da nossa fé. Não podemos nos perder em detalhes, nem em
disputas de menor importância, e muito menos em assuntos que não edificam.
Toda oportunidade precisa ser usada para nosso testemunho de Cristo, seja
ele planejado, ou surja de forma totalmente imprevisível.

SUGESTÃO DE TEMA
Ao meu ver este é um texto sobre o qual podemos refletir de diversas
maneiras, dependendo o que se quer enfatizar, ou o lugar onde a mensagem
será proferida. No entanto, não tenho dúvidas que o centro deste texto, e,
logicamente, a primeira opção para se refletir sobre ele é: a salvação só
pode ser conseguida por meio de Cristo Jesus. E as partes desta mensagem
poderão ser: 1º) Não existe nome dado entre os homens pelo qual possamos
ser salvos. Nesta parte pode-se falar sobre as muitas tentativas inventadas
pelos seres humanos para alcançar alguma graça, entre elas a autojustificação,
o sinergismo de muitos “crentes” de hoje em dia, os ídolos, os santos e suas
obras supererrogatórias, Maria como co-redentora, as simpatias, os despa-
chos, etc. 2º) Só Cristo salva. Nesta parte pode-se falar sobre como Cristo
veio a ser a pedra angular (sua vida, obra, morte e ressurreição – a exemplo
do que Pedro faz); o efeito da fé nesta verdade observado na vida de Pedro
(na quinta-feira santa nega a Jesus diante de uma simples empregada, e
agora, dois meses depois, dá um testemunho impecável diante do Sinédrio –
as autoridades da época); o efeito que a fé em Cristo quer e pode efetuar na
vida das pessoas de hoje.

Milton Buss Leitzke


Alta Floresta, MT

280
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA


Atos 4.23-33
11 de maio de 2003

CONTEXTO
O texto nos remete às primeiras semanas depois do Pentecostes. Estamos
não tão distantes da ressurreição e mais perto ainda da ascensão do Senhor.
Os primeiros crentes estavam ainda sob o regozijo da festa que foi a
vinda do Espírito Santo e os quase 3.000 convertidos e batizados. Os primei-
ros crentes e os apóstolos gozavam da simpatia de todo o povo. A igreja
estava feliz e crescendo.
Enquanto isso, os apóstolos já estavam pregando e testemunhando que
Jesus Cristo de fato ressuscitara dos mortos e era o Salvador prometido.
Num desses dias, quando iam ao templo, se depararam com um homem
doente desde sua nascença. Ele estava à entrada do templo. É o capítulo
três de Atos. E pelo poder de Jesus o homem foi curado.
Por mais que os apóstolos dissessem que foi Jesus quem curou o ho-
mem, mesmo assim foram presos. E foi na presença das autoridades que
Pedro proferiu aquele versículo que muitos citam de cor: “E não há salva-
ção em nenhum outro, porque abaixo do céu...” – At 4.12.
As autoridades haviam explicado claramente, sob ameaças, que não
queriam que os apóstolos falassem em o nome de Jesus. Mais claramente
ainda os apóstolos já disseram que não obedeceriam a esta proibição: “Por-
que não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”.
Aí foram soltos. E aí começa o nosso texto.

TEXTO
V. 23: “... procuraram os irmãos ...”. No original: sua própria companhia.
Os crentes, por serem da mesma fé e do mesmo espírito, querem estar
juntos. Ainda mais, quando há dor. E contaram tudo o que tinham ouvi-
do e pelo que tinham passado.
V. 24: A providência foi logo tomada. Os apóstolos e os crentes conheci-
am bem a fonte do recurso e a forma de buscá-lo: é Deus e a forma, a
oração.
281
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Sua oração começa com a adoração: “Tu, Soberano Senhor...”. Este
Soberano é o que conhecemos e confessamos no início de nosso Credo: “...
Criador dos céus e da terra”. Poderia haver um Senhor maior?

Vv. 25,26: Da adoração partem para a promessa. É o valor da Palavra. E


na Palavra, a promessa. Quanto os apóstolos e os primeiros crentes
conheciam a Palavra, o AT! Aqui, era o Salmo 2.
Vv 27,28: Da promessa para o cumprimento. Cumpriu-se o que Deus
prometera no Sl 2. Herodes e Pilatos e as autoridades da igreja judaica
eram os personagens de ponta. Quando Lucas cita o Sl 2, a palavra
Ungido é o nome Cristo. Cristo quer dizer Ungido.
V. 29: “... concede aos teus servos que anunciam com toda a intrepidez a
tua Palavra”. Surpreendente e impressionante a petição. Eles não pe-
dem livramento, mas coragem, ousadia e intrepidez. Livramento da per-
seguição ainda não era garantia da pregação, mas coragem, ousadia e
intrepidez, sim. Porque são virtudes do Espírito Santo.
V. 30: “... para fazeres curas, sinais e prodígios ... por intermédio do teu
santo servo Jesus”. Eles pediram que a verdade do seu testemunho
fosse demonstrado por milagres operados por Jesus. Deus está perto
dos seus servos que oram a Ele e está pronto a suprir a plenitude do
Espírito aos que o buscam, habilitando-os a dar testemunho e sofrer por
Ele.

Ouçamos bem: Deus faz curas, sinais e prodígios. Deus faz. Não é para
autopromoção humana. Nossa tarefa é testemunhar; a de Deus, confirmar.
E tudo o que Deus faz, só faz por intermédio do seu santo servo Jesus.

V. 31: Deve ter sido uma experiência impressionante: “Tremeu o lugar ...
e todos ficaram cheios do Espírito Santo”. Era o cumprimento de At
1.8.
Vv. 32,33: O que segue nestes dois versículos era agora uma felicidade e
bênção que a igreja experimentava entre os cristãos.

“... um o coração e a alma”. Aristóteles, quando perguntado o que é um


amigo, disse: “uma alma habitando em dois corpos”. O que teria dito ao ver
que “uma alma” habitava em cinco mil corpos dos crentes?
A sua comunhão era espécie de “comunismo” cristão. E este jeito de os
cristãos viverem é uma prova da ressurreição de Jesus.

SUGESTÕES HOMILÉTICAS
O que diz a igreja ao seu senhor quando ora

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
1 – Apresenta adoração; 2 – lembra a promessa; 3 – olha para o cumpri-
mento; 4 – pede ousadia para a pregação da Palavra.

A igreja segue o caminho de seu Senhor


1 – sob a cruz, pregando; 2 – na glória, se regozijando.

Benjamim Jandt
Cachoeira do Sul, RS

283
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA


Atos 8.26-40
18 de maio de 2003

CONTEXTO
O nosso texto faz parte da narrativa de Lucas sobre a primeira expansão
da igreja além das fronteiras de Jerusalém. Depois do apedrejamento de
Estêvão, relatado em Atos 7, levantou-se uma grande perseguição da igreja
em Jerusalém, encabeçada por Saulo, dispersando seus membros através
da Judéia e Samaria. Entre eles se destaca o evangelista Filipe que, na
Samaria, foi o instrumento de Deus para evangelizar multidões. Um pouco
mais tarde, talvez ainda em meio a seu trabalho extraordinário, é impelido
pela direção do Espírito Santo a evangelizar o eunuco da rainha Candace
dos etíopes a fim de que o evangelho se expandisse além das frontreiras da
Palestina e penetrasse fundo nas regiões da África até a Etiópia, ao Sul do
Egito. Segue então a narrativa sobre a conversão de Saulo através de quem
a igreja se expandiria até o continente europeu.

AS LEITURAS DO DIA
O Salmo 22.25-31 fala da expansão da igreja dizendo que ao Senhor se
converterão os confins da terra (v. 27). A epístola de 1 Jo 3.18-24 fala do
Espírito Santo, que é um sinal da fé em Jesus nos crentes, impelindo-os a
amar uns aos outros e, com certeza, não apenas os irmãos mas também os
de fora da igreja, levando-lhes a mensagem da salvação. A leitura do evan-
gelho, em Jo 15.1-8, nos lembra que só podemos produzir muito fruto no
trabalho da igreja e na missão se somos ramos da videira, que é Jesus.

TEXTO E APLICAÇÕES HOMILÉTICAS


V. 26: O evangelista Filipe era o segundo na lista entre os sete diáconos
escolhidos em At 6.3, que eram homens de boa reputação, cheios do
Espírito Santo e de sabedoria. Logo no início da grande perseguição em
Jerusalém escapou para Samaria onde seu trabalho evangelístico teve
um estrondoso sucesso com a conversão de multidões. Inesperada-
mente, Deus lhe deu a ordem através de um anjo para descer o cami-
nho de Jerusalém a Gaza.
284
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Mesmo sem compreender a estranha ordem, Filipe prontamente obede-
ceu. Isso comprovam as duas formas verbais no aoristo, avnasta,j e evporeu,qh
– levantando-se, foi.

Vv. 27-28: A estrada estava deserta, mas de repente surgiu nela uma
carruagem em que viajava um eunuco etíope, uma espécie de ministro
das finanças da rainha Candace, que era apenas seu título dinástico e
não seu nome próprio. A Etiópia daquele tempo compreendia a Núbia
de hoje e o Norte da Abissínia. O eunuco, portanto, era gentio e, segun-
do o historiador Eusébio, o primeiro gentio que abraçou o cristianismo.
Mas era com certeza um simpatizante da religião judaica, talvez até um
prosélito do portão ou um temente a Deus. Isso concluímos da informa-
ção de Lucas de que viera adorar em Jerusalém e que estava lendo,
durante a viagem, o profeta Isaías.
Vv. 29-31: Mais uma vez Filipe sofre uma intervenção divina. Dessa vez é
o próprio Espírito Santo que o orienta, dando-lhe a ordem de acompa-
nhar o carro, que Filipe fez correndo e ao mesmo tempo ouvindo-o ler o
profeta Isaías, pois o africano estava lendo em voz alta, seguindo uma
orientação dos rabinos judeus que a Torá deveria ser lida em voz alta,
durante uma viagem. Podemos aprender aqui uma lição importante com
o eunuco: a sua fome e sede da palavra de Deus e a sua procura da
verdade. Aproveitou bem o tempo da viagem para nela se aprofundar.
Quantos cristãos, hoje em dia, procedem da mesma maneira? Quem
ainda lê a palavra de Deus em particular ou a ouve freqëntemente em
cultos públicos ou em estudos bíblicos, impelido por uma fome ou sede
espiritual?

A pergunta de Filipe se estava entendendo o que vinha lendo revela uma


inteligente abordagem evangelística. Atingiu em cheio o desejo profundo do
prospecto. Era isso que o eunuco realmente desejava: entender o que esta-
va lendo e alguém que lho explicasse. E seu convite imediato de Filipe sen-
tar-se junto a ele era uma conseqüência natural da oferta e demanda. Filipe
ganhara sua confiança e respeito. Sua pergunta discreta recebera uma res-
posta favorável.

Vv. 32-33: O trecho que o eunuco estava lendo encontramos no cap. 53


de Isaías em que descreve o sofrimento e a morte do servo sofredor.
São os versículos que se encontram transcritos em nosso texto. São da
Septuaginta, apresentando algumas diferenças quando comparados com
o texto hebraico massorético, mais em palavras que no conteúdo. Com-
param o servo com um cordeiro mudo perante seus tosquiadores. O v.
33 fala de sua humilhação, quando lhe negaram justiça. Há diversas
285
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
interpretações da pergunta: “Quem lhe poderá descrever a geração?”
Uns acham que se trata aqui da geração contemporânea de Jesus, seus
inimigos, cuja maldade ninguém poderia descrever. Outros afirmam que
aqui não se trata da geração contemporânea de Jesus, mas de sua
grande descendência espiritual. Quem poderia, naquela hora trágica,
imaginar que iria ter uma tão grande família espiritual, já que da terra
sua vida era tirada? A NTLH transmite esse sentido.
Vv. 34-35: A quem se refere o profeta? Essa pergunta tem ecoado atra-
vés dos séculos e obteve muitas respostas. Alguns a atribuíram ao pró-
prio profeta Isaías ou a algum outro profeta. Vários escritos judaicos
antigos afirmam que se referem ao Messias, mas também há outros
que identificam o servo sofredor com o povo de Israel. Desde seu iní-
cio, a igreja cristã identificou o servo sofredor com Jesus, o Messias.
Também não poderia ser de outra forma, pois há tantos detalhes na
paixão e morte de Jesus que se identificam perfeitamente com os deta-
lhes descritos pelo profeta, que fez o Dr. Rottmann observar que as
palavras de Is 53 parecem ter sido escritas ao pé da cruz do Gólgota
(Atos dos Apóstolos, vl. 2, p. 45).

Durante anos os mais ferozes críticos da Bíblia afirmaram que aqui não
se trata de profecia, mas de acontecimentos descritos depois do fato acon-
tecido (post eventu). Diziam isso porque no tempo deles a cópia mais re-
cente que existia do livro de Isaías era de uns 900 anos D.C. Mas os
achados arqueológicos dos escritos de Qumran, nas cercanias do mar Mor-
to, descobertos em 1947, derrubaram estrondosamente o seu castelo crítico
artificial. Entre esses escritos encontraram duas cópias do profeta Isaías
que os peritos datam de uns 200 anos antes de Cristo.
Filipe dificilmente poderia ter achado um texto mais adequado para ex-
por sua mensagem evangelística a respeito do Salvador Jesus e de seu sa-
crifício substitutivo e expiador. Deve ter citado também muitas outras pas-
sagens referentes a Jesus no A.T., escritos na Lei de Moisés, nos Profetas
e nos Salmos (cf. Lc 24.44). A evangelização que não conduz a Cristo erra
o seu alvo.
Cabem aqui algumas aplicações práticas a respeito do estudo da palavra
de Deus e do testemunho de nossa fé.

1. A fome e sede da palavra de Deus que já comentamos anteriormente.


2. A persistência de prosseguir na leitura da Bíblia, mesmo sem compre-
ender tudo. É preciso que continuemos seu estudo, passando por cima
das passagens difíceis para uma posterior compreensão com o auxílio
de comentários ou de pessoas competentes.
3. O ideal do crescimento espiritual. Temos tantos ideais e cultivamos
286
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
tantos valores na vida, mas muitas vezes o ideal de crescermos na fé e
vida cristã é um dos últimos ou até falta completamente. Disse um
pastor que é trágico que tantos membros da igreja nunca se deixam
elevar a um nível espiritual mais alto do nível de respeitáveis descren-
tes. Um teólogo observou que mais perturbador ainda é que muitos
mestres e obreiros da igreja nada fazem para melhorar o seu conheci-
mento e sua habilidade de ensinar e assim as pobres congregações são
forçadas a contentar-se com uma classe de mestres de segunda, ter-
ceira ou quarta categoria. Isso não ocorre no mundo exterior onde o
empregado tem de fazer cursos de aperfeiçoamento para manter seu
emprego.
4. O ideal de cooperadores na tarefa redentora de Deus. Esse ideal Filipe
revelou em alto grau e mais tarde certamente também o eunuco na sua
terra natal. Filipe nada mais era que um evangelista leigo, cujo coração
ardia em testemunhar a sua fé. E fazia-o onde se encontrava, perante
multidões ou com uma só pessoa. Um pregador observa que ele não
tinha nada mais do que nós: a mesma fé, o mesmo amor com que tam-
bém nós fomos agraciados. Temos até mais conhecimentos de Jesus
por causa dos escritos do N.T. que naquele tempo ainda não existiram.
Temos todo o equipamento cristão necessário para o testemunho. A
única questão é se o usamos ou não. Os que não o usam podem ser
comparados com uma lanterna elétrica, cujas pilhas substituem com
alguns trapos. Deixemos, portanto, brilhar a luz com as pilhas que Deus
nos deu.

Vv. 36-38: Com certeza Filipe também incluiu na sua exposição a neces-
sidade do batismo e a grande comissão em Mt. 28.18-20. O Espírito
Santo já havia operado a conversão mediante a mensagem evangelística
que fluía da boca aberta de Filipe para o coração aberto do eunuco, de
modo que este pediu para ser batizado quando chegaram a uma água.
As palavras do v. 37, entre colchetes, não se encontram nos melhores
manuscritos, mas apenas no texto ocidental e podem ser uma glosa
muito antiga de algum escriba. Mas. mesmo não autênticas no texto,
podem ter sido proferidas na ocasião porque, sem dúvida, foram usadas
na igreja primitiva em cerimônias de batismo.

Quanto à água, pode ter sido de algum riacho, ou de alguma fonte ou de


algum açude, pois era escassa naquela região. O texto nada fala sobre a
forma do batismo, se foi por imersão, aspersão ou derramamento. Não im-
porta a forma desde que a água seja aplicada com as palavras da instituição
e com a palavra de Deus. Os que insistem na imersão devem também admi-
tir a correção das outras formas.
287
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Vv. 39-40: Alguns intérpretes procuram eliminar desse texto o óbvio intui-
to miraculoso do arrebatamento de Filipe. O verbo aqui usado para este
ato é a‘rpa,zw, usado também para uma remoção sobrenatural em 2 Co
12.2 e 1 Ts. 4.17. Temos também no A.T. indicações de semelhante
transporte sobrenatural em 1 Rs 18.12 e 2 Rs 2.16. O arrebatamento de
Filipe não prejudicou o eunuco, pois não estava mais dependendo de
seu instrutor. Com a fé em Cristo, adquirira agora um novo e suficiente
entendimento da Escritura para encontrar nela a vida eterna e aplicar
as profecias do A.T. a si e a seus semelhantes. Seguiu seu caminho
com júbilo, o que demonstra a autenticidade de sua conversão, experi-
mentando um dos mais deliciosos frutos do Espírito, que é a alegria
profunda dum coração agradecido. Eusébio nos informa que o eunuco
voltou a seu país de origem e ali anunciou a mensagem do Salvador,
cumprindo-se assim as palavras do Sl 68.31.

Quanto a Filipe, foi arrebatado pelo Espírito até Azoto, a antiga Asdode
no A.T., uma cidade dos filisteus. De lá foi subindo para o Norte,
evangelizando todas as cidades, até Cesaréia, cidade residencial dos gover-
nadores romanos da Judéia, onde provavelmente fixou residência, pois hos-
pedou ali o apóstolo Paulo na volta de sua terceira viagem missionária (At.
21.8). Foi ele o pioneiro de três métodos evangelísticos ainda praticados
hoje com muito sucesso: o evangelismo de massa, em Samaria; o pessoal,
com o eunuco; e o itinerante, evangelizando de cidade em cidade.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Predomina em nosso texto a obra da evangelização e da expansão da
igreja, realizada por Deus através de seus instrumentos, os próprios cris-
tãos. O texto nos estimula tanto para o crescimento de nossa fé como para
o crescimento na vida cristã. Ele nos inspira para os mais elevados ideais
cristãos, entre os quais se detaca o ideal de nos tornarmos cooperadores na
tarefa redentora de Deus. No desenvolvimento essa inspiração ou estímulo
deve predominar. O próprio tema poderia ser formulado no sentido de um
apelo evangelístico, a saber:

TEMA
Cooperemos na obra redentora de nosso Deus
1. Atentos para a direção do Espírito Santo.
2. Agradecidos a Deus e compadecidos de nossos semelhantes.
3. Equipados com a mensagem cristocêntrica.
Paulo F. Flor
Dois Irmãos, RS
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA


Atos 11.19-30
25 de maio de 2003

CONTEXTO
O sexto domingo de Páscoa prepara a Igreja para a comemoração da
Ascensão do Senhor Jesus, a ser lembrada na quinta-feira seguinte. Jesus
sobe ao céu, mas não deixa a igreja sozinha: deixa, sim, com desafios e
oportunidades. Alguns destaques das outras leituras:
Sl 98 – Salmo que mostra a conseqüência imediata da ação de Deus
entre os homens: alegria. Alegria porque Deus faz coisas maravilhosas,
porque vence com seu poder, porque é fiel e justo. Até a própria natureza é
convidada a festejar (cante a terra e os rios batam palmas). Como se
apresenta nossa alegria em nossa vida diária ? O poder e amor de Deus são
os principais motivos da nossa alegria ?
1 Jo 4.1-11 – “Nada de novo sobre a face da terra”. A Igreja Cristã
luta contra a falsidade e o engano. Falsos profetas, que diziam receber o
Espírito de Deus e ao mesmo tempo negavam a humanidade de Jesus, per-
turbavam a vida nas comunidades. O apóstolo João, orientado por Deus,
oferece uma alternativa: “ponham à prova essas pessoas” mostrando que
os que são de Deus têm vencido os falsos profetas. No entanto, não se
trata de inquisição, mas de tratar todos na perspectiva do amor de Deus.
Amemos uns aos outros porque o amor vem de Deus.
Jo 15.9-17 – Vindo logo após as palavras de Jesus sobre a videira, o
discurso sobre o amor segue a mesma lógica. O amor é orientado por
modelos: o Amor do Pai, o amor do Filho aos discípulos, amem uns aos
outros como eu amo e até dou minha vida por vocês. O escravo age por
obrigação. O filho de Deus se move na esfera da motivação e é isso que lhe
traz a alegria completa. Cumpre os mandamentos não por medo mas por
ter sido amado por Deus e por desejar automática e intensamente amar o
seu próximo.
At 11.19-30 – A polêmica principal dos últimos capítulos, com conseqü-
ência nos próximos, está resumida no versículo anterior à perícope: “Então
Deus deu também aos não-judeus a oportunidade de se arrependerem
e ganharem a vida eterna” (Atos 11.18). Pela descrição da “grande fome”,

289
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
é provável que tenha acontecido no ano 46. Cláudio foi imperador de 41 a
54 depois de Cristo.

TEXTO
V. 19: A morte de Estêvão, promovida pelas autoridades religiosas e com
o aval de Saulo, futuro Paulo, mostrou que a perseguição aos cristãos
era muito séria. As testemunhas do amor de Deus em Jesus Cristo
passam a ser mártires (em grego tem a mesma raiz). A defesa da vida
e da verdade motiva os cristãos a buscar a paz em outros rincões: a
maioria se espalha pelo mundo comercial da época (Fenícia, Chipre e
Antioquia). A prioridade é compartilhar a boa notícia de Jesus entre os
do seu povo, os judeus.
Vv. 20,21: Alguns são mais audazes: cristãos de Chipre e Cirene também
compartilham a missão de Jesus com não-judeus e o resultado é im-
pressionante: “O poder do Senhor estava com eles, e muita gente creu
e se converteu ao Senhor”. Já se apresentam diferenças importantes
na conversão de judeus e não-judeus. Os que não faziam parte do povo
escolhido de Deus se agarram à fé de outra maneira.
Vv. 22-24: Repercussões na vida da igreja: as boas notícias correram
mais que as más. A Igreja de Jerusalém, onde estavam os líderes,
recebe a notícia de uma “explosão evangelística” e envia Barnabé.
Essa perícope também é o texto-base para o dia de São Barnabé, 11 de
junho. Um pouco da sua biografia aparece em At 4.36-37. Provavel-
mente conhecia seus conterrâneos que foram de Chipre a Antioquia e
por isso foi enviado. Seu perfil também o ajudava: “era homem bom,
cheio do Espírito Santo e de fé”. Ao ver aquele entusiasmo pela fé,
Barnabé reconheceu as bênçãos de Deus e ficou alegre (exemplo para
nós, pastores!). Seu conselho aos irmãos da exitosa congregação de
Antioquia: ser fiéis a Deus de todo coração.
Vv. 25,26: Barnabé é homem de visão. Apesar de Paulo estar há pouco
tempo ao lado dos cristãos, depois de sua conversão em Damasco,
Barnabé o escolhe para ajudar no desafio missionário. Estratégia de
crescimento da Igreja: “eles se reuniram aquele ano todo com a gente
daquela igreja e ensinaram muitas pessoas”. O impacto foi tremendo
inclusive no âmbito social: pela primeira vez os seguidores de Jesus
passaram a ser chamados de cristãos.
Vv. 27-30: Ser igreja não significa estar livre de problemas. As crises
também servem como termômetro da vida espiritual e como oportuni-
dades de mostrar o amor. Os “cristãos”, muitos deles não-judeus, ofertam
de acordo com o que têm para ajudar os irmãos na fé que passam fome
na Judéia. Paulo e Barnabé são os representantes que levam o dinheiro
aos líderes da Igreja.
290
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. Barnabé como líder da igreja:
a. Sua dedicação (Atos 4.36-37)
b. Sua alegria: reconhecer as bênçãos de Deus (At 11.22)
c. Sua visão de igreja: buscando Saulo – formação teológica intensiva
com os membros.
d. Administrando o impacto: os seguidores são reconhecidos na socie-
dade e rotulados de “cristãos” porque seguem a Cristo.

2. A fome e a resposta dos cristãos


a. Profetizada por Ágabo
b. Mobilizando os cristãos: sem rancor, reconhecem os judeus como
seus irmãos.
c. Ofertando proporcionalmente: “cada um deu de acordo com o que
tinha”

3. Deus e a logística
a. Exílio como conseqüência da perseguição
b. Barnabé: de Chipre para ajudar os que eram de Chipre em Antioquia
c. Aproveitando recursos: Saulo estava começando seu trabalho
evangelístico. Barnabé, apesar das resistências, o busca e traba-
lham intensivamente na preparação dos novos cristãos.
d. Fome: estímulo ao amor na prática. Desafíos da igreja: observar as
crises, reconhecer as bênçãos e “arregaçar as mangas” amando ao
próximo como somos amados por Deus.

PROPOSTA HOMILÉTICA
(Adaptação de um texto de J.Sergio Fortes, consultor de logística
em São Paulo)

DEUS, ESPECIALISTA EM LOGÍSTICA.


INTRODUÇÃO
Logística na história humana: Logística é não apenas tema da hora, mas
matéria obrigatória hoje nos currículos de muitas Faculdades. Originada a
partir das necessidades de planejamento operacional do Exército em tempos
de guerra, a Logística tem revolucionado o processo de abastecimento e dis-
tribuição da empresa moderna, com o objetivo de atingir o consumidor final
mais rápido, com menor custo e, o que é essencial, antes do concorrente.
Logística na história de Deus: Contudo, essa nova ciência é velha para
Deus. A História está repleta de evidências do Deus da Logística. Vejamos
alguns exemplos:
291
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
1. Caso José Versus Seus Irmãos. Odiado por seus irmãos, José é vendido
como mercadoria para o Egito. Potifar, um preeminente funcionário do
palácio compra-o como escravo, para uso doméstico. A paixão doentia
e descontrolada da esposa de Potifar por José esbarra na integridade
inegociável deste, resultando em sua injusta prisão. Há controvérsia se
José ficou 2 ou 10 anos no calabouço. Contudo, ao interpretar o sonho
de um assistente de Faraó, também preso, as portas do palácio se abrem
para José. Interpretando estranho sonho do próprio Faraó, este confia a
José a governança da maior potência da época. Sua política sábia livra
não só o Egito da fome, mas sua família e seu povo. Ao ser negociado
a mercadores, era impossível se imaginar que Deus estava usando José
para implementar uma logística estratégica multinacional muito precisa
(detalhes em Gênesis 37 a 47).
2. Caso Ananias versus Saulo. Nocauteado na estrada poeirenta de Da-
masco, o perseguidor Saulo de Tarso foi confrontado com Aquele que
ele mesmo chamou, “O Caminho”. Depois desse encontro transforma-
dor, a autoridade de Paulo, seu poder, ódio e cartas precatórias para
expulsar devotos seguidores de Jesus se tornaram sem valor. Cego e
impotente, Paulo foi levado para a cidade onde pretendia implementar
santa inquisição. Contudo, Deus surpreende Paulo de forma especial,
mostrando-lhe que Seu “supply chain” era perfeito e Seu processo de
entrega tinha endereço e hora exatos. O “consumidor” Saulo de Tarso
foi atendido por Ananias EXPRESS, o mensageiro da logística de Deus.
Essa mensagem alcança Saulo, que se torna Paulo, o maior comunicador
sobre Jesus Cristo (veja história completa em Atos 9)
3. O exílio dos cristãos: conseqüência das perseguições contra os cristãos
e também pela expansão comercial, os cristãos são desafiados a levar o
evangelho a todas as nações. Aproveitam novas oportunidades, são
desafiados pelas condições culturais diferentes (paganismo), trabalham
com a escassez de recursos (ministério de tendas), recebem dons espe-
ciais (de línguas) para entender outros povos e compartilhar no seu
idioma a mensagem de Cristo, superam as más tradições do judaísmo e
mudam o perfil da sociedade da época, ao ponto de serem chamados de
“cristãos”. Coincidência ou trabalho logístico de Deus?

LOGÍSTICA NA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DA IGREJA (IELB)


4. Casos Seu e Meu. Você e eu somos o “mercado”, o alvo da precisa
logística estratégica de Deus todo dia, que, de forma especial e especí-
fica, atende nossas necessidades, acode chamadas de emergência, res-
ponde preces urgentes. Surpreende-nos como e quando o processo
começa, mas sabemos que chega de forma e meios inesperados. Dis-
plicentes e insensíveis erramos no diagnóstico: “Por acaso”; “Feliz co-
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Igreja Luterana - nº 2 - 2002
incidência”; “Por sorte”. Como se o consumidor, lá nos confins de seu
país, pudesse receber o produto necessário, na data e hora certas, por
mero acaso!

Deus é especialista em chegar “just-in-time”, mesmo quando achamos


que Ele está atrasado. Antes mesmo da necessidade bater à nossa porta, o
processo logístico de Deus já se iniciou para que a solução que iremos pre-
cisar – talvez anos depois – nos alcance no momento exato. Recursos fi-
nanceiros que chegam quando mais precisamos deles, ou a venda efetuada
quando mais precisávamos, não são atos de acaso ou mera coincidência.
Fique atento ao que o Deus de Logística faz todo o dia por você. “Antes
mesmo do meu corpo tomar forma humana Tu já havias planejado
todos os dias da minha vida; cada um deles estava registrado no Teu
livro” (Salmo 139.16). “Estou lhes dizendo antes que aconteça, a fim de
que, quando acontecer, vocês creiam que EU SOU” (João 13.19).

Christian Hoffmann
Montevidéu - Uruguai

293
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SÉTIMO DOMINGO DE PÁSCOA


Atos 1.15-26
01 de junho de 2003

CONTEXTO
1. No pós-Páscoa, toda a Igreja vive a alegria da ressurreição e louva um
Deus/Salvador vivo, que não foi e que não podia ser vencido pela mor-
te. É uma ótima oportunidade para compartilhar a esperança que anima
cada filho de Deus e que nos sustenta, ou seja, a fé e a esperança na
ressurreição e na vida eterna, como diz o apóstolo: “Se a nossa espe-
rança em Cristo se limita apenas a esta vida, então somos os mais
infelizes de todos os homens.” (1 Co 15.19) Para os cristãos, é o mo-
mento de dizer e reafirmar esta verdade.
2. Vemos uma Igreja em formação, que ainda não viveu o Pentecostes,
mas que já tem consciência da sua missão de ser testemunha e da
importância de compartilhar a mensagem da salvação. “É necessário
que dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor
Jesus andou entre nós, começando no Batismo de João, até o dia em
que foi elevado às alturas...um destes se torne testemunha conosco da
ressurreição ...” (At 1.21).
3. Vemos os discípulos vivendo um momento espiritual e psicológico muito
importante. Após a ressurreição eles tomam consciência da dimensão do
que significa ser Jesus “o Cristo” e do que significa a ressurreição. Deus,
o Filho de Deus andou entre eles e este fato teve sobre eles um impacto
violento, mudou toda a sua atitude em relação ao tipo de missão que eles
deveriam assumir. Antes da ressurreição vemos discípulos preocupados
com lugares e colocações no Reino, vemos discípulos fugindo na noite
em que Jesus foi preso e negando conhecê-lo. No sábado e domingo
vemos que estes discípulos estão escondidos, acovardados e com medo,
e nos perguntamos: que tipo de visão do Reino eles tinham? Após a res-
surreição e ascensão eles tomam consciência de que o Reino foi inaugu-
rado, que este não é um “reino deste mundo”, que não vai ser estabeleci-
do com lutas e com espadas, mas sim com a Palavra e com o Espírito.
Com Jesus ausente fisicamente, eles têm a missão de testemunhar, e pela
pregação continuar estabelecendo este Reino.

294
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
4. No texto de hoje encontramos os discípulos entre dois momentos, As-
censão e Pentecostes, se preparando para receber o que Jesus tinha
prometido “...mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito
Santo...”(At. 1.8). Naqueles dez dias de oração e meditação vemos a
preocupação de Pedro em que mais alguém tome parte no ministério de
ser testemunha de tudo o que aconteceu desde o princípio.

TEXTO
1. “Naqueles dias” (v.15) entre a Ascensão e Pentecostes, quando esta-
vam reunidos em comunhão, aqueles primeiros cristãos lá em Jerusa-
lém, “levantou-se Pedro” (v. 15). As palavras de Pedro revelam uma
expectativa, uma preparação para aquilo que viria, bem como uma pre-
ocupação com aquilo que estava sobre eles. Pedro tomou a palavra e
nas suas palavras vemos reflexão teológica. “Convinha que se cum-
prisse a Escritura” (v.16). Pedro vê nas palavras dos Salmos revela-
ções proféticas do que tinha acontecido com Judas, não como um fata-
lismo, ou algo premeditado, mas algo que já estava previsto. Mas havia
um agravante: Judas era contado junto com eles, e tinha parte naquele
ministério. Pedro via na escolha de Judas uma necessidade, não que ele
foi escolhido para ser o traidor, mas sim que ele tinha sido escolhido
para tomar parte naquele ministério (“serviço”, Tradução Ecumênica
da Bíblia; “trabalho”, NTLH). Judas tinha um chamado do Senhor. Pedro
via que esta tinha sido a vontade original do Senhor, e agora faltava um,
o grupo estava incompleto. Logo, era necessário escolher outra teste-
munha, para que a missão que eles tinham pudesse ser assumida con-
forme os planos do Senhor.
2. Os versículos 18 e 19 são uma explicação do que aconteceu a Judas e
uma introdução à justificativa teológica de escolher um outro para assu-
mir aquele ministério, fato que não foi contestado. É bom lembrar que
“os irmãos” estavam em oração e meditação, e Pedro pode ter refletido
uma opinião que já era de todo o grupo.
3. Dentro da resolução de escolher mais um estavam previstas também
condições para preencher aquele “ministério e apostolado” (v.25). A
primeira delas é de que fosse alguém que tivesse acompanhado o gru-
po desde o começo, “todo o tempo” (v.21). Certamente alguém que
havia convivido de perto com Jesus, e que tinha ouvido as suas palavras
e seus ensinamentos, que tinha visto seus sinais e milagres, que podia
ser “testemunha” (v.22). O testemunho era algo extremamente impor-
tante, pois com base nos testemunhos se estabelecia a verdade. O
tempo deste testemunho se estendia do Batismo de João até a Ascen-
são, período que compreende todo o ministério terreno de Cristo.

295
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
4. Foram então apresentados dois nomes, José chamado Barsabás, que
tinha o apelido de “Justo”, e Matias. Para este Ministério e Apostolado,
não foi sugerido qualquer um. Ser testemunha envolve idoneidade, fide-
lidade, amor a Cristo e convicção da missão. O fato de estarem juntos
naquele seleto e pequeno grupo de cristãos já revela muita coisa. Cha-
ma a atenção o apelido de José, o “Justo”. Não deve ter tido este
apelido à toa, pois sem dúvida mostra algo da sua pessoa. Os dois,
segundo aquela Assembléia, poderiam cumprir a missão de ser teste-
munha. Mas o povo de Deus não se apóia apenas na sua sabedoria.
Em coisas espirituais sempre preferimos que Deus nos dê a última pa-
lavra, e foi esta a oração da Igreja: “Tu, Senhor, que conheces os cora-
ções de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido...” (v.24).
Sortearam os nomes, para ver quem seria o escolhido. “O método
empregado pelos judeus era o de colocar os nomes escritos em pedras,
dentro de um vaso, e sacudi-lo até que uma pedra caísse” (Chave Lin-
güística, p.195). Este foi o método usado para entregar a decisão nas
mãos do Senhor, e o escolhido por este método foi Matias.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. Podemos explorar a questão do chamado, lembrando aos cristãos que
todos são chamados para serem testemunhas, como Sacerdócio Uni-
versal.
2. Podemos lembrar a fidelidade, amor, idoneidade da testemunha em fa-
lar e agir de modo que possa honrar o nome do Senhor com a sua vida.
3. Podemos falar que todos somos responsáveis por testemunhar aquilo
que vimos e ouvimos pela fé no Senhor.
4. Podemos aplicar diretamente à vida de cada filho de Deus o consolo do
Evangelho, e a firme esperança que todos nós temos na ressurreição,
de que não vivemos apenas para esta vida, mas para uma vida eterna
com Deus.
5. Podemos consolar enlutados e a nós próprios com a preocupação que a
Igreja teve desde o princípio em ser fiel, em procurar testemunhas fiéis
para testemunhar todo o ministério de Cristo, até a sua Ascensão, por
ser esta a mais pura expressão da verdade, pela qual estavam dispostos
a dar a sua própria vida.
6. Podemos lembrar as qualificações que a Igreja pediu aos candidatos
que assumiriam aquele ministério. Serem testemunhas da verdade, con-
fiarem em Cristo, serem firmes em suas convicções, homens dos quais
Deus conhece o coração, fazerem parte da Igreja de Jesus.
7. Podemos lembrar estas mesmas qualificações (acima) a quem almeja o
Ministério.

296
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
8. Podemos aconselhar cristãos e a Igreja a colocarem nas mãos do Se-
nhor, em oração e meditação na Palavra, todas as suas decisões.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Tema: “Todos somos chamados por Deus para testemunhar o que ve-
mos e ouvimos pela fé”:
1) Jesus: O Deus que andou entre nós.
2) Jesus: O Deus que ressuscitou.
3) Jesus: O Deus que alimenta nossa esperança na ressurreição.

Rubens José Ogg


São Lourenço do Sul, RS

297
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

O DIA DE PENTECOSTES
Ezequiel 37.1-14
8 de junho de 2003

TEXTO
A visão dos “ossos secos”, interpretada nos vv.11-14, tem a ver com a
restauração da casa de Israel depois do exílio babilônico. O texto fala do
poder de Deus que pode dar vida até mesmo aos ossos secos de um cadá-
ver e do “espírito” por meio do qual ele “assopra” a vida.
V. 1: Através da metáfora da “mão” (= poder) do Senhor (ver Ez 3.22), o
“espírito de Javé” é apresentado como o agente que “inspira” e capaci-
ta o profeta com uma revelação divina.
V. 2: Ezequiel passa ao redor dos (ou sobre os) ossos. O verbo hebraico
em “fez andar” está no hifil, enfatizando que o poder vem de fora.
Duas vezes se usa o advérbio “muito”(daom): mui numerosos; mui secos
(“sequíssimos”).
V. 3: Diante de uma pergunta retórica, uma resposta retórica: “Senhor
Deus, tu o sabes”. Assim como Jesus fez diante de Pilatos, a resposta
é um tanto enigmática, mas mesmo assim positiva. Só Deus pode res-
ponder essa questão a respeito da vida.
Vv. 4-5: Pede-se que o profeta profetize aos ossos secos. Por mais ridí-
culo que seja falar a palavra de Deus a ossos secos, o fato é que a
palavra de Deus é poderosa para realizar o que ela anuncia. A chave
de tudo está no v.5: “farei entrar o espírito em vós, e vivereis”.
Vv. 6-8: No v. 7, Ezequiel faz o que lhe fora pedido, mas o processo
anunciado no v.6 é dividido em duas fases. Os corpos vão tomando
forma, mas “não havia neles o espírito”. Fica clara a alusão a Gn 2.
V. 9: Pela primeira vez se pede ao profeta que se dirija ao espírito (pela
primeira vez com o artigo, x;Wrh’). Num jogo de palavras que é possível
em hebraico (e também no grego), pois a palavra para “vento” e “espí-
rito” é a mesma, pede-se ao profeta que faça o “espírito” vir dos “qua-
tro ventos”. É claro que, num dado momento, o vento só pode vir de
uma direção, o que mostra que não se trata de simples vento ou de um
vento qualquer. O imperativo “assopra” estabelece mais um vínculo
com o Gênesis (ver 2.7).

298
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
V. 10: O profeta faz o que lhe fora pedido, e a promessa de Deus se cumpre.
Os ossos, que eram mui numerosos e mui secos (v.2), agora estão de pé
como uma força ou um exército muito muito (daom-. daom). grande.

Os vv. 11-14 interpretam a visão à luz do juízo de Deus na forma do


exílio. Por mais que se queira argumentar que se está falando apenas de
pessoas vivas, a referência a “exterminados” (v.11) e “sepultura” (v.12)
claramente aponta para o poder de Deus em criar vida onde a mesma não
se encontra.
O objetivo maior do poder desse espírito não é simplesmente dar vida, e
sim que se saiba que “eu sou o Senhor” (v.14; ver v.6). No v. 14 o “espírito”
é identificado como “meu Espírito”.

APLICAÇÃO HOMILÉTICA
É desnecessário dizer quão apropriado é este texto para o dia de Pente-
costes. Pedro poderia muito bem ter escolhido Ez 37 para seu sermão em
At 2. O texto reúne os temas de juízo e morte, ressurreição, e o poder do
Espírito para dar vida, que propiciam uma bela conclusão ao semester domini
(semestre do Senhor) e abrem o semester ecclesiae (semestre da igreja)
em grande estilo.
Vento e espírito interagem no evento do Pentecostes (At 2), que teve
lugar quando o povo disperso de Israel tinha-se reunido na terra para a
Festa das Semanas. Embora a “sequidão” do exílio babilônico fosse já
coisa do passado, a posse da terra prometida no AT era apenas uma espe-
rança. Como foi no tempo dos discípulos de Jesus e no tempo de Ezequiel,
assim também é hoje: ossos sem vida, ossos secos são uma boa descrição
da vida sem Deus, da vida marcada por dúvidas e desespero diante das
promessas de Deus que aparentemente não se cumprem, do que significa
estar “morto” em pecados e transgressões.
Assim como, na criação, Deus falou e a vida passou a existir, assim a
palavra de Deus, falada pelo profeta, dá vida aos ossos secos. O Espírito
que revelou a verdade de Deus a Ezequiel (v.1) é também o poder que dá
vida aos ossos. Com o som de um vento impetuoso que vem dos quatro
cantos da terra, Deus “assopra” vida em seu povo, para que eles saibam
que ele é o Deus que cumpre o que prometeu.
Este Espírito é também o “espírito” ou “sopro” de vida que possibilita e
capacita a vida de fé, criada pela palavra de Deus em Cristo. O Espírito
Santo é a “conexão” divina entre a Palavra e o cristão, pela qual somos
renascidos no batismo e recebemos novidade de vida.
No entanto, ao invés de reunir seu povo na “terra”, o poder do Espírito
do Pentecostes no Novo Testamento amplia a promessa para incluir “todas
as nações”, ou seja, impele a passar de Jerusalém, da Judéia e Samaria, aos
299
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
confins da terra. A “terra prometida” em que o povo de Deus se estabelece
é todo aquele lugar onde Deus faz habitar seu nome, aquele lugar onde ele
está presente em palavra e sacramento, por meio do ofício do ministério, os
meios da graça que ele escolheu para fazer com que o sopro do Espírito dê
vida a ossos secos.

Andrew H. Bartelt
St. Louis, MO

300
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Deuteronômio 6.4-9
15 de junho de 2003

CONTEXTO HISTÓRICO
O contexto é de um Israel quase ou totalmente paganizado, que viveu
quatro séculos sob a influência da fortíssima idolatria egípcia, como se pode
ver na rapidez com que o povo se volta aos ídolos do Egito (bezerro de ouro,
lembrando o boi Ápis). No Egito, era um povo sem assistência espiritual, a
não ser a religião de pai para filho. Precisa ser doutrinado do zero por Moisés
e sacerdotes e pelos chefes de família. Este povo vai rumo a outro contexto
totalmente pagão (cananeus, com suas novas roupagens idólatras: divindades
da fertilidade). Esta era a situação espiritual deste povo em marcha para a
terra prometida, com muita carência espiritual e necessidade de doutrinação.

TEXTO E COMENTÁRIOS
No texto Deus recomenda o ensino e o aprendizado constante de sua
palavra, nesta época ainda restrita apenas à lei de Moisés (Pentateuco).
Qual a estratégia deste ensino e aprendizado, fundamental para Israel em
seu novo habitat?
a) repetição por parte do pai (chefe da família). Podemos dizer que a
cada verbo corresponde uma situação especifica, na qual a palavra
estaria disponível pela repetição da mesma aos ouvidos da família:
– Deitar e levantar lembra a vida de oração em particular e em família;
– Andar pelo caminho lembra o testemunho, o falar da fé aos outros,
principalmente aos da família;
– Assentado em casa lembra a devoção em família, o repetir constante
das doutrinas e dos atos maravilhosos de Deus, liderado pelo pai da
família, a quem cabe esta tarefa em especial;
– Atar lembra distintivos cristãos;
– Escrever nos umbrais aponta para quadros bíblicos ao invés de repre-
sentações idólatras.
b) repetição também nos eventos festivos – 3 grandes festas com duração de
7 dias cada. Um dos objetivos de Deus ter instituído estas festas (Páscoa,
Tabernáculos, Pentecoste/ colheita: Ex 34.18ss) era promover um intensi-
vo ensino da Lei aos israelitas, por isso a obrigatoriedade de todo o povo
301
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
acorrer 3 vezes ao ano ao local das festas. Como não tinha material escrito
disponível, a necessidade de um constante “soar nos ouvidos” (Lutero) da
palavra lida, pregada, explicada e aplicada por intermédio dos sacerdotes.
c) Os encontros semanais nos locais de culto, para adoração e para o
ouvir permanente da vontade divina, no local onde a arca pousasse
(Silo, p.ex.).
Seria esta a disciplina permanente, à qual Israel deveria se submeter para
que, como Moisés escreve em Dt 28, o povo fosse abençoado devido à obe-
diência e fidelidade à palavra (Lei), representante legal de Deus no mundo.
A palavra de Deus se torna viva pela presença do Espírito Santo. É o que
o Senhor Jesus dá a entender a Nicodemos no evangelho do dia (Jo 3.1-17).
Assim, a palavra remete a Cristo. O Messias está profeticamente presente na
palavra (Lei). Sendo repetida no tempo e no espaço no meio de Israel, cons-
tantemente o povo estaria lembrado de que só o Senhor é Deus em meio a um
contexto outra vez totalmente pagão em que Israel seria introduzido (Canaã).
Só a palavra (Lei) poderia guardar Israel de descambar para novas formas de
idolatria. A palavra “amarraria” Israel a seu Deus. Verificando o comporta-
mento de Israel depois de introduzido por Josué, sucessor de Moisés, na terra
de Canaã, o que é flagrante são de fato as duas situações que se alternam:
Israel é obediente à palavra e vive em paz; ou Israel é rebelde e descamba
para a idolatria e é oprimido por estrangeiros e pelos vizinhos.
Precisamos lembrar que o grande e até único motivo por que Deus des-
tacou esta pequena nação e povo, que foi Israel, e o tirou do meio de outros
grandes povos, foi preparar um “berço” para Cristo, o descendente de Abraão
e prometido a Israel e ao mundo.

SUGESTÃO DE TEMA E PROPOSTA HOMILÉTICA

Deus vem na Palavra


A. Na sua lei vindicatória
Decálogo: condena o pecado da idolatria de todo o tipo: grosseira e
disfarçada.
Remete constantemente ao arrependimento, à renúncia dos ídolos, dos
mais crassos aos mais sutis.
Mostra qual é a santa vontade de Deus na vida do cristão.
B. No seu doce evangelho
Traz Cristo e sua presença viva.
Aponta para um Deus real, vivo e compassivo.
Guia à vida eterna, simbolizada pelo “descanso” que Deus prometeu a
Israel em Canaã.

Heldo E. Bredow
302 Curitiba, PR
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Deuteronômio 5.12-15
22 de junho de 2003

CONTEXTO HISTÓRICO
Teologicamente falando, os capítulos 5-11 são os capítulos centrais do
livro de Deuteronômio. Não é sem razão que o tema da contemporaneidade
homilética da aliança soa imediatamente no v. 3 “Não foi com os nossos
pais, mas sim conosco...”. Por esse motivo o cap. 5 reitera o Decálogo,
epítome da aliança, seguido por um comentário onde se enfatiza que Deus
delegara a tarefa de comunicar Sua revelação a Moisés, atendendo ao pe-
dido do povo que se mostrara medroso.
A observação do sábado no Antigo Testamento era fundamentada na
alegria e no júbilo. Com esse objetivo fora instituído por Deus. Originalmen-
te, o sábado oportuniza a igreja do Antigo Testamento a refletir sobre e
viver a liberdade que Deus lhes havia dado, livrando-os da escravidão do
Egito. Ao tempo do Novo Testamento, o conceito de alegria e liberdade deu
lugar à tristeza e ao fardo. O evangelho de hoje (Mc 2.23-28) recupera essa
alegria e liberdade, contrastando-as com a falsa interpretação e o legalismo
patrulhador dos fariseus.
O enfoque do sermão poderá ser o de enfatizar a alegria que o povo de
Deus manifesta ao celebrar o sábado quando, descansando de suas obras,
ouve o que Deus lhes tem a dizer.

ASPECTOS HISTÓRICOS E TEXTUAIS


O motivo dado para a guarda do sábado no v. 15 difere do fornecido em
Êx 20.11. Aqui em Dt o Êxodo do Egito é o referencial para o sábado. Deus
tira o Seu povo da casa da servidão “com mão poderosa e braço estendido,
pelo que o SENHOR, teu Deus, te orientou (hwc) que guardasses o dia do
sábado”. Em Êxodo o referencial é a obra criadora de Deus efetivada em
seis dias, depois do que Yahweh descansa no sétimo dia. Os dois referenciais/
motivos não se opõem, mas se relacionam e se complementam.
Como evento, o Êxodo é uma realidade histórica mais próxima dessa
nova geração do povo de Deus que peregrina no deserto e que, nas planíci-
303
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
es de Moabe, se prepara para adentrar a terra prometida e viver sua vida
cristã num contexto socialmente distinto e religiosamente hostil.
Tipologicamente, o Êxodo é uma criação (uma nova criação!) e, por isso
mesmo, forma uma analogia com a narrativa de Gênesis. Enquanto no Egi-
to, o povo de Deus estava sob o domínio da escravidão tanto física (não
havia dia de descanso) quanto espiritual (não lhes era permitido celebrar
festa ao SENHOR – cf. Êx 5.1). A liberdade, como dádiva de Deus, tem
desdobramentos físicos, espirituais e escatológicos.
No v. 12 a forma verbal, “guardar/observar” é um infinitivo absoluto,
aqui empregado com força imperativa. Entretanto, essa “ordem” não pode
nem deve ser entendida como mandamento legalista cujo cumprimento
merece ou produz libertação. Ao contrário, esta palavra indica a instituição
graciosa de um meio que Deus estabeleceu para conceder alegria, bênção e
vida ao Seu povo. “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o
homem por causa do sábado”, diz Jesus no evangelho de hoje.
A palavra “sábado” relaciona-se ao verbo tbv, que significa “descan-
sar”. Embora formas cognatas desse verbo se encontrem em outras línguas
semíticas, não há entre as demais nações a evidência clara de um Dia de
sábado. Logo, o sábado é uma peculiaridade da religião do povo de Deus
no Antigo Testamento.
A pergunta é: como se “guarda” ou se “observa” o sábado para o santi-
ficar? A resposta é uma só, ou seja, “descansando” na obra dos grandes
feitos de libertação de Deus. “Santificar” implica separar para ser abenço-
ado por Deus para uma função específica. Em última análise, este é um ato
do próprio Deus assim como também Ele é o agente único da santificação.
Lutero, no Catecismo Maior, diz que “santificar o dia de descanso quer
dizer tanto como conservá-lo santo.” E continua: “O dia em si não precisa
de santificação, pois já foi criado santo. Mas Deus quer que ele seja santo
para a tua pessoa. De sorte que se torna santo ou profano por causa de ti,
dependendo das atividades a que nele te entregares: se santas, ou profanas”
(CM, I, 87).
O v. 13 mostra que a seqüência dos dias de trabalho não são um fim em
si. Na verdade são um meio cujo foco central é o sétimo dia. É o sétimo dia
que dá sentido para todos os demais dias e momentos da existência huma-
na. Trabalho e alimento não são o que dão valor, significado e sustentação à
vida. Assim como simples descanso, ócio e recreação não são os objetivos
últimos da vida.
No v. 14 a preposição l diante de hwhy indica propriedade, ou seja, “per-
tencente a”. O sábado pertence ao SENHOR desde o momento em que Ele
“descansou” da Sua atividade criadora em Gênesis. O que pertence ao
SENHOR Ele o dá ao Seu povo. Todos são beneficiados com esse dom de
Deus: homens, mulheres, filhos, filhas, servo, serva, estrangeiro, boi, jumen-
304
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
to e qualquer outro animal doméstico. A bênção é abrangente e deve ser
compartilhada.
O v. 15 dá o motivo para a observação do sábado. Israel não precisa
trabalhar no sábado porque é momento de celebrar a libertação real e histó-
rica ocorrida pela intervenção da mão poderosa e do braço estendido de
Yahweh em favor do Seu povo. Os benefícios dessa libertação o povo ago-
ra, dentro de sua vivência e ética cristãs no mundo heterogêneo em que
está, estende aos seus “servos”, ou seja, a seus empregados. O sábado é
uma “re-atualização” dos atos salvíficos de Deus. No culto divino que a
igreja cristã celebra no Dia do Senhor, essa igreja “ouve” a “re-atualização”
da vitória que Deus dá a Seu povo pela ressurreição de Cristo.

ANOTAÇÕES HOMILÉTICAS
a) A relação expressa entre o sábado e o Êxodo é análoga à relação
entre o Dia do Senhor (Ap 1.10; o primeiro dia da semana) e a ressurreição
de Jesus Cristo.
b) Assim como o Êxodo demarca a libertação e a “nova criação” do
povo de Deus pela celebração do sábado, da mesma forma os atos salvíficos
pela ressurreição de Cristo são “re-atualizados” no Dia do Senhor.
c) Observando o “sábado”, nós descansamos de nossas tarefas e
assentamo-nos aos pés de Jesus para “ouvir o evangelho” da boa-nova da
redenção de Deus em Cristo – a única que dá sentido às nossas vidas e traz
descanso às nossas almas.

Acir Raymann
São Leopoldo, RS

305
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Gênesis 3.9-15
29 de junho de 2002

INTRODUÇÃO
Por mais estranho que seja, esta é a única vez que a série trienal possi-
bilita pregar o proto-evangelho, Gn 3.15. (A série tradicional ou histórica
reformulada, que é anual, marca Gn 3.1-19 para o primeiro domingo na
Quaresma.) Como de costume na Série Trienal, o texto foi selecionado em
função da leitura do evangelho do dia, Mc 3.20-35. No entanto, Gn 3.9-15
tem sua autonomia querigmática, que vale a pena explorar.

O CONTEXTO
A edição de Almeida apresenta os vv. 8-19 como um parágrafo. Diante
disto, chama a atenção o início da perícope no v.9. A rigor, a inclusão do v.
8 não melhora o quadro. Como se trata da parte final de uma narrativa, será
necessário, especialmente na leitura pública, inserir um pequeno texto-pon-
te, situando a perícope. Quanto ao final no v.15, trata-se, sem dúvida, de um
recurso para fazer do proto-evangelho o clímax da perícope. No entanto,
atenção ao que segue (vv. 16-19) ajuda a perceber que mesmo o proto-
evangelho é apenas um lampejo de esperança num contexto cheio de ame-
aças e juízo. Em outras palavras, o proto-evangelho (v.15) é, na verdade,
uma sentença de juízo sobre a serpente.

DETALHES DO TEXTO
A primeira parte da perícope é marcada pelo diálogo entre o SENHOR
Deus e o homem e a mulher. Logo de saída aparece a clássica pergunta,
“(Adão), onde estás”? É a primeira de quatro perguntas. (Notar que ne-
nhuma pergunta é dirigida à serpente.) São, a rigor, perguntas retóricas,
porque aquele que pergunta já sabe a resposta. Aliás, as respostas do ho-
mem e da mulher nunca tratam daquilo que se perguntou. Ao “onde es-
tás?”, o homem talvez devesse responder, “estou aqui”. No entanto, na
resposta ele explica por que se escondeu. À pergunta se comeu da árvore
proibida, o homem talvez deveria ter respondido “sim”. No entanto, ele já
vai além e põe a culpa na mulher. Além de retóricas, as perguntas são
306
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
perguntas de lei (como, aliás, costuma acontecer em pregações: sempre
que se faz perguntas, está-se pregando lei, pois o evangelho não pergunta
nada.)
Também não é nada novo apontar para a transferência de responsabili-
dade no diálogo entre Deus e o primeiro casal: foi a mulher, foi a serpente.
(A serpente não tem a quem transferir responsabilidade, em parte, talvez,
porque Deus não pergunta nada a ela. Num sentido, porém, a serpente
“transfere a responsabilidade” ao ferir o calcanhar do descendente da mu-
lher, em meio àquele conflito de que fala o v.15.) Um detalhe nem sempre
percebido é que o anúncio do juízo vem em ordem inversa à do diálogo:
homem (vv.9-12) – mulher (v.13) – serpente (vv.14-15) – mulher (v. 16) –
Adão (vv.17-19). Isto ajuda a mostrar que o centro ou ponto alto do texto
está no meio, ou seja, nos vv. 14-15.
Nos vv. 14-15 há uma referência dupla, ou seja, Deus se dirige tanto ao
animal (a serpente) quanto a quem fala por meio dele (Satanás). “Comer
pó” (v.14) aponta para total derrota e humilhação (Sl 72.9; Is 49.23; 65.25;
Mq 7.17).
O v. 15 é o “primeiro evangelho”, na forma de uma maldição sobre a
serpente/Satanás. O texto tem um certo tom enigmático, em parte, talvez,
por vir revestido da imagística do jardim (ferir a cabeça, ferir o calcanhar).
No entanto, é, de fato, o primeiro anúncio do evangelho, e anuncia que a
obra da salvação será um conflito (o tema do Christus Victor). Embora
nenhum outro descendente da mulher tivesse sido capaz de vencer o tenta-
dor, um, “nascido de mulher” (Gl 4.4), viria para “destruir as obras do diabo”
(1 Jo 3.8). Neste conflito, o Descendente da mulher sofreu e morreu (Is
53.12; Lc 24.26,46; 1 Pe 1.11), vencendo o poder satânico. Jesus Cristo,
executor da maldição de Deus sobre Satanás e herói da raça humana, pos-
sibilita ao ser humano um final vitorioso em sua luta com o inimigo, pois “o
Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás” (Rm
16.20). Outros textos que direta ou indiretamente repercutem Gn 3.15 são
Jo 12.31; At 26.18; Rm 5.18-19; Hb 2.14; Ap 12.1-9.

O TEXTO NUM CONTRAPONTO COM MC 3


Mc 3.20-35 é lido no 3º domingo após Pentecostes em parte porque, pela
série trienal, se está fazendo uma leitura contínua de Marcos (recheada,
diga-se de passagem, com textos de João). Existe, é claro, a referência à
blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc 3.28-30), mas dificilmente seria esta
a razão por que o texto foi escolhido para integrar a série trienal num domin-
go tão próximo ao Pentecostes. Mas o que importa mesmo é que Gn 3 foi
escolhido por causa de seu paralelo temático com Mc 3. Logo, vale a pena
explorar este paralelismo. Seguem algumas pistas:

307
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Mc 3.20-35 é uma cena daquele conflito anunciado em Gn 3.
A oposição satânica a Jesus é mediada (Satanás é mestre em disfar-
ces!) através dos parentes de Jesus, que dizem que ele está louco (Mc
3.21), e dos escribas, que dizem estar ele possesso de Belzebu (v.22).
Jesus entra na batalha, falando por meio de parábolas. Parábolas não
são meras ilustrações; são petardos usados num conflito.
Jesus mostra que Satanás não seria tão tolo a ponto de promover uma
guerra civil. Em outras palavras, está dizendo que alguém de fora veio para
amarrar o valente (v.27). Ele é este “alguém de fora”. Mais uma vez, é o
conflito anunciado em Gn 3.
Dizer que “é tudo a mesma coisa”, que Jesus está coligado com Satanás
é blasfêmia. É blasfêmia, pois implica negar sua condição de Descendente
da mulher que veio para esmagar a cabeça da Serpente.
O Descendente da mulher tem também a sua “descendência”, que é
estabelecida, não por laços sangüíneos, mas pela vivência da vontade de
Deus (Mc 3.35). Também este conflito entre fazer a vontade de Deus e
deixar de fazê-la (dando ouvidos a Satanás) é tão antigo quanto o episódio
no jardim do Éden (Gn 3).

Vilson Scholz
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Ezequiel 17.22-24
6 de julho de 2003

AS OUTRAS LEITURAS
Salmo 92 – Título na Almeida: “Hino de gratidão a Deus”. Por quê?
Porque as obras do SENHOR são grandes e os seus pensamentos profun-
dos. Ele está contra os ímpios. Ainda que estes cresçam, o justo florescerá
como a palmeira e crescerá como o cedro.
2 Coríntios 5.1-10 – Os crentes, por causa do pecado, gemem. Porém
não devemos desanimar, visto que “andamos por fé” e nossos olhos diri-
gem-se ao grande alvo – habitar com o Senhor.
Marcos 4.26-34 – Todas as coisas estão absolutamente sob o domínio
de Deus. O que ao homem parece impossível, para Deus não é. Nas pará-
bolas, Jesus nos ensina o mistério do crescimento do reino, bem como do
seu alcance sobre todos os povos, raças e nações.

CONTEXTO
Para compreender a perícope, recomenda-se a leitura de todo o capítulo
17. O profeta propõe a parábola das duas águias e da videira (1-10), e ele
mesmo a explica (11-21). Nabucodonosor, a grande águia, havia deportado
o rei Joaquim para a Babilônia e em seu lugar estabelecera Zedequias. Este
traiu a Nabucodonosor e, buscando favores do Faraó, a outra águia, que-
brou a aliança feita. O profeta decreta o juízo sobre Zedequias.
Depois, de forma maravilhosa, em apenas três versos, o profeta aponta
o consolo, a esperança e a vitória: isto vem do SENHOR, e chegará o dia
em que ele derrubará a árvore alta e fará florescer o renovo. “Esta simbó-
lica promessa se tornou uma realidade quando Deus deu a Jesus de Nazaré
‘o trono do seu pai Davi’ e estabeleceu o seu universal e eterno reino
messiânico - Lc 1.32; Ap 11.15” (Roehrs – Concordia Self-study
Commentary).
Liturgicamente, o crescimento e a expansão da igreja são temas
enfocados. A profecia de Ezequiel é referência e base sólida para este
crescimento. No evangelho, a parábola de Jesus tem esta profecia como
pano de fundo.
309
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
O TEXTO
V. 22: “assim diz o SENHOR” é enfático. O renovo é o Messias.
V. 23: A Babilônia era a grande árvore, e as diversas nações estavam à
sua sombra. Diante deste domínio secular, o contraste e a surpresa:
Deus fará o “renovo de Israel” crescer e florescer, e será refúgio para
todas as nações. A grandiosidade desta profecia só é captada quando
vista no sentido espiritual. Nisto residiu muitas vezes a dificuldade do
povo de Israel e até dos discípulos de Jesus.
V. 24: A salvação do SENHOR será testemunhada por todos. O normal é as
árvores altas continuarem crescendo e “sufocando” as baixas, bem como
as verdes crescerem, ao passo que as secas apodrecem. A sublimidade e
o impacto da ação divina são destacados aqui. O SENHOR faz o anor-
mal e o sobrenatural, invertendo a situação. Isto é notável, é divino!

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: Deus faz sua igreja crescer

1. Porque ele quer


- No plano da salvação Deus incluiu a sua igreja – a igreja universal.
- Ele fez promessas. Escolheu um povo, “plantou uma árvore”.
- Desta árvore fez brotar o renovo, o Messias.
- Enxertou os gentios na árvore que plantou.
- Deus faz sua igreja crescer porque é portadora do evangelho.
- Somos árvore. Não nos compete questionar o meio salvador escolhido
por Deus, mas temos o privilégio de crermos e, como igreja, abrigar-
mos outros, chamando-os à fé no Salvador.

2. Quando ele quer


- No plano da salvação o tempo de Deus nem sempre é o nosso tempo.
- Por que se passaram tantos séculos até a vinda do Messias? Por que
é demorada a vinda do Senhor? (2 Pe 3.4).
- Tanto no AT como no NT, Deus concede tempo para arrependimento
(2 Pe 3.9) e mantém a sua árvore a fim de “dar abrigo” a muitos,
mesmo que esta árvore, às vezes, pareça seca e morta.

3. Como ele quer


- Para que o plano da salvação se cumpra, Deus dirige todas as coisas
e faz tudo cooperar para sua execução.
- Às vezes, os ímpios brotam e crescem esplendorosamente, enquanto
os justos parecem esquecidos.

310
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
- Deus não revoga a justiça. Mesmo que sua árvore estivesse “sufocada”
pela erva daninha (opressão da Babilônia), o SENHOR reprovou a
traição e falsidade de Zedequias ao quebrar um juramento.
- Tempos de aflição sobre a igreja são tempos úteis sob os sábios propó-
sitos de Deus e sempre redundarão em bênção.
- Os feitos maravilhosos do SENHOR, bem como as suas promessas,
que sempre se cumprem, são a fonte de confiança e esperança da
igreja. Deus e seu povo sempre são vitoriosos, pois Deus derruba a
árvore alta e faz crescer a baixa – para que todos saibam que ele é o
SENHOR.

Elton R. Luithardt
Concórdia, SC

311
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

DEVOÇÕES

A MELHOR COISA DA VIDA


Amós 5.6-15

De vez em quando, Amós se levanta na Igreja, uns 2700 anos depois,


para uma mensagem de impacto. Acontece só de vez em quando, três
vezes ao longo de três anos, segundo a previsão da Série Trienal. Apenas o
suficiente, não mais e não menos, assim nos parece, porque a mensagem de
Amós é perigosa, explosiva. Muita lei. Por isso é preciso manter Amós sob
controle, preso entre as capas do Livro. Uma das últimas vezes que ele
mexeu comigo – e, talvez, com alguns outros aqui presentes — foi uns 15
anos atrás [será que já faz tanto tempo?], quando o lema da Igreja Luterana
era exatamente o texto de hoje: “Buscai ao SENHOR, e vivei” (Am 5.6).

Buscai ao SENHOR e vivei. Responda rápido: Qual a melhor coisa da


vida? Cuidado, é uma pergunta traiçoeira. (É como aquela pergunta: O
que você quer ser quando crescer? Resposta: Quero ser eu.) Qual a
melhor coisa da vida? Pois a melhor coisa da vida ainda é viver. Pura e
simplesmente viver. Vida é aquilo que a gente considera coisa normal e
natural. Até que comece a ser ameaçada. Aí tudo muda. Em geral, valo-
rizamos os dons de Deus quando nos são tirados ou ameaçados. Também a
vida.

Nos dias de Amós, a vida de Israel estava começando a ser ameaçada.


A nuvem negra da morte se aproximava, vinda do norte. O grande sufoco
final só viria mesmo uns 25 anos mais tarde. Agora, na pregação de Amós
a morte já é uma realidade. Sua pregação é lei severa, sombria. “Prepara-
te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus” (4.12). As metáforas são
lindas, mas a mensagem é terrível. A linguagem é poética, mas o cheiro é
de morte. Talvez a mais sensacional seja aquela de Am 5.18-20, aquela do
“se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. (Ver também 2.13; 8.11,12)

No meio de tanta escuridão e golpe de lei em cima de golpe de lei, há um


só lampejo de esperança e de evangelho: Buscai ao SENHOR, e vivei
(vivereis). Ah, tem também a grande promessa de restauração, no final

312
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
(9.11-15). Mas isto é no final, um final feliz, diria alguém. Antes disto, o
evangelho vem só na forma do “Buscai ao SENHOR, e vivei”. É mais um
imperativo evangélico do que evangelho propriamente, mas merece nossa
reflexão.

Se queremos vida, a saída é buscar o SENHOR, com ênfase em SE-


NHOR, Javé. Amós não podia mais partir do pressuposto que todos enten-
deriam de quem ele estava falando ao pronunciar o nome sagrado. Por isso,
parte de sua mensagem é esclarecer a teologia naquilo que ela tem de mais
central, que é a visão que se tem de Deus. Foi preciso amplificar ou ampliar
o conceito de Deus. Não que Deus tivesse ficado maior; ao contrário, o
conceito do povo é que tinha encolhido. “Deus é brasileiro” – isto nos
parece tão verdadeiro, especialmente quando a Argentina é eliminada pre-
cocemente da Copa do Mundo. Mas, se levado a sério, parece dizer que
não existe Deus nas margens direitas do rio Uruguai. Israel tinha domesti-
cado Javé, transformando-o numa espécie de ídolo nacional. Amós, como
porta-voz de Deus, se volta contra essas idéias. Além de preferir a expres-
são “Deus dos Exércitos”, que a Linguagem de Hoje coloca como “Deus
Todo-poderoso” (ver 5.14), e além de nunca falar em “Deus de Israel”,
Amós lembra, em Am 9.7: “Povo de Israel, eu amo o povo da Etiópia tanto
quanto amo vocês. Assim como eu trouxe vocês do Egito, eu também
trouxe os filisteus da ilha de Creta e os arameus da terra de Quir”. Parece
que se diluiu o “escândalo da particularidade”. Mas não é isto que Amós
quer. Ele quer mesmo é tirar as viseiras do povo, mostrando que Deus não
cabe em nossos esquemas limitados. É o que Amós faz também em 5.8-9,
aquele poema que a perícope omite: “O SENHOR Deus criou as estrelas,
as Sete-Cabrinhas e as Três Marias. Ele faz a noite virar dia e o dia virar
noite. Etc.” É este SENHOR que Amós manda buscar. É claro, isto nos
parece paradoxal, pois quanto maior é este Deus que nos é apresentado, e
mais “contraditório”, parece que mais difícil fica poder buscá-lo. Aqui é
preciso lembrar que a própria mensagem que convida é ela própria a proxi-
midade de Deus. Além disso, o SENHOR que se busca é, acima e antes de
tudo, o Deus da aliança, o Deus que se compromete com a salvação de seu
povo. Hoje, talvez, tenhamos que fazer o contrário do que Amós tinha que
fazer. Há uma noção da grandeza de Deus, da sua onipresença, mas perde-
se de vista o específico da revelação de Deus, o assim chamado escândalo
da particularidade, o fato de Deus se revelar apenas na face de Cristo.
Buscai o SENHOR significa, em nosso contexto: Buscai a Jesus. Fora dele
não há salvação.

Se quereis viver, buscai ao SENHOR. Agora que sabemos quem ele é,


basta buscá-lo. Mas nem tudo é tão simples. Onde podemos encontrá-lo?
313
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Os israelitas tinham certeza de que não precisavam ser instruídos a respeito
disto. A solução era ir a Betel ou Gilgal, santuários do reino do Norte. A
resposta deles, bastante afoita, talvez fosse: “Que tu achas, vaqueiro feito
profeta, que estamos fazendo?! Estamos buscando o SENHOR, indo aos
santuários”. Amós choca todo mundo, ao anunciar: “Povo de Israel, vocês
querem pecar? Pois vão aos santuários de Betel e de Gilgal e ali pequem à
vontade!” (Am 4.4) “O SENHOR diz ao seu povo: - Eu odeio, eu detesto as
suas festas religiosas; não tolero as suas reuniões solenes. Não aceito ani-
mais que são queimados em sacrifício ... Parem com o barulho de suas
canções religiosas; não quero mais ouvir a música de harpas. Em vez disso,
quero que haja tanta justiça como as águas de uma enchente ...” (Am 5.21-
24). Não se trata de bairrismo, pois Amós não diz: É preciso ir a Jerusalém!
Parece que, na mensagem de Amós, a religião foi secularizada. Parece. O
que acontece é que Amós lembra a dimensão da assim chamada segunda
tábua da Lei (Am 5.14 – “buscai o bem e não o mal”). Será, então, que
temos aqui uma contestação da religião, especialmente do sistema sacrificial,
em nome da ética? Na verdade, o que profetas como Amós contestam é
uma religiosidade exterior apenas, uma religião sem arrependimento, um
ritual sem conseqüências práticas, um culto sem lei e evangelho. Aqui é
preciso lembrar que, no caso dos ouvintes de Amós, buscar o SENHOR era
nada mais nada menos que ouvir a mensagem do profeta, crer nela, e colocá-
la em prática. E o mesmo vale para nós hoje.

Amós redivivo. Amós fala ainda hoje. Ele é o profeta da justiça social,
mas, acima de tudo, é o profeta do “Buscai ao SENHOR e vivei”. Esta
frase é só dele, na Bíblia. Que significa para nós hoje? Significa o que
significou para os ouvintes de Amós, só que 2700 anos depois, no depois de
Cristo. No hoje de 2002 significa buscar o Deus verdadeiro, Pai, Filho e
Espírito Santo. Significa buscá-lo sempre, na vida de culto e no culto da
vida. Significa buscá-lo na revelação em Cristo. Significa buscá-lo ali onde
ele prometeu se fazer presente, e presente de forma que nos seja conveni-
ente, por ser presença salvífica: na mensagem de lei e evangelho, que nos
leva de volta ao batismo; na palavra visível do sacramento do altar, que
volve nosso olhar ao “até que ele venha”. Buscai ao SENHOR Jesus, e
vivereis. Amém.

Mensagem proferida na Capela do Seminário Concórdia


pelo Dr. Vilson Scholz, no dia 23 de outubro de 2002.

314
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

CAMINHO, VERDADE E VIDA

Corria o ano de 1517. Os portugueses já tinham chegado ao nosso Bra-


sil, mas os alemães parece que não ficaram sabendo, ou, se sabiam, não
ligaram muito. Mais um dia de todos os santos estava chegando e tudo
parecia “igual ao que era dantes no quartel de Abrantes”. Ao menos em
Wittenberg, nos grotões do Império da época. Até que um monge e profes-
sor universitário aparece com um pedaço de papel na mão. Ele afixa o
papel na porta lateral da Igreja do Castelo da cidade. Aquela porta era o
quadro de anúncios ou quadro mural daquele tempo. No papel estão 95
teses ou afirmações. É um desafio para um debate. Quem desafia é Lutero.
Os desafiados são os teólogos, por isso o texto está em latim. O assunto do
debate é a venda de indulgências, um tipo de perdão enlatado que se com-
prava mais ou menos como hoje se faz um seguro: pra garantir, ou, para
evitar o pior. Fé em Cristo e novidade de vida não eram lá tão importantes
assim.

Pois, “as marteladas de Lutero afixando aquelas 95 teses” – como disse


um eloqüente pregador do passado — “ribombaram na igreja do Castelo de
Wittenberg”. E estão ribombando ainda hoje, fazendo com que a gente se
reúna aqui para refletir sobre a Reforma.

Todo mundo sabe que “reforma” não é o mesmo que “construção”.


Reforma é limpeza, é restauração. Não foi intenção dos reformadores fun-
dar uma nova igreja. O objetivo também não é reformar prédios, costumes
e tradições, se bem que esses também podem e às vezes precisam ser
reformados. O objetivo é reformar o ensino da igreja, aquilo que se anuncia
dos púlpitos e ensina em casa e em público.

A Reforma quis e ainda quer lutar pela verdade do evangelho. A Refor-


ma foi e ainda é acima de tudo um movimento religioso. Ela tem a ver com
religião e espiritualidade. Trata de como a gente chega a Deus, ou, melhor,
como Deus chega até nós.

315
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
E quando se fala em religião, existem três, ou, melhor, existem quatro
grandes possibilidades ou formas de ser religioso.

A primeira opção é a do moralista. Muita gente acha que religião é isso


aí mesmo: só moral. Tem aquilo que é certo e aquilo que é errado. Gente
boa vai pro céu, gente ruim vai pro inferno. Tem regra pra tudo, e tudo
precisa ser seguido à risca. A gente precisa ter o máximo cuidado para não
errar nunca. Quem não está cansado de ouvir a pergunta: E o que é que a
tua igreja proíbe? Esta é a pergunta do moralista, ou, ao menos uma per-
gunta feita por causa dos moralistas.

A segunda opção é a do sábio. É preciso pensar, investigar, entender. É


preciso descobrir a verdade, os fatos. De tanto filosofar, quem sabe a gente
chega a Deus. Ou, então, de tanto reunir provas a gente acaba se conven-
cendo. Um dia aparece uma descoberta arqueológica, mais uma urna
mortuária, e a gente se convence ou convence alguém. Como escreve o Sr.
Sergio Jockymann, a propósito daquela inscrição “Tiago, filho de José, irmão
de Jesus”: “Como os senhores sabem, não existem provas históricas da exis-
tência de Jesus”. E no final da coluna: “Sinto muito, mas ainda não foi desta
vez que me convenceram. Mas, por favor, já que vocês estão aí, continuem
tentando”. (Crônica publicada no Jornal Vale do Sinos, 25/10/2002)

A terceira opção é a do místico. Se a gente quer, a gente pode alçar vôo


e ter um contato direto com o sobrenatural. Hinduísmo, nova era, técnicas
de meditação, revelações diretas do Espírito Santo, tudo entra na mesma
categoria.

Eu disse que existem três, ou, melhor, que existem quatro maneiras de
ser religioso. A quarta maneira é aquela que a Reforma ensina. Ela é a
opção bíblica. É tirada de Romanos, livro de enorme importância para a
Reforma. Começa com um tríplice “não”. Eu leio Romanos 3.10-11: “Está
escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem
busque a Deus”.

Não há justo – este é o beco sem saída do moralista.


Não há quem entenda – esta é a grande verdade para o sábio.
Não há quem busque a Deus – este é o golpe de misericórdia no místico.

Mas o tríplice “não” é seguido de uma sonora afirmação. Quero ler um


texto de João, que, segundo Lutero, é mestre em justificação, a grande
redescoberta da Reforma. Leio João 14.6: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou
o caminho, a verdade e a vida”.
316
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
O moralista quer um caminho. Jesus responde: Eu sou o caminho.
O sábio busca a verdade: Jesus responde: Eu sou a verdade.
O místico busca a vida. Jesus responde: Eu sou a vida.

Esta é a opção cristã, enfatizada e sublinhada pela Reforma: não sou eu


que vou a Deus, pois acabo sempre dando com a porta na cara. É que ele
já veio a mim em Jesus Cristo, caminho, verdade e vida.

É isso que a Reforma prega. Não só hoje e não apenas com palavras
faladas. O musical “Libertação” fala disso também, do seu jeito musicado,
com palavras que vêm direto do texto bíblico. E, pelo que consta, o ponto
alto é justamente este: Jesus dizendo: Sou o caminho, a verdade, e a vida!
Nada é mais central para a Reforma do que isto. Deus vos abençoe. Amém.

Mensagem proferida pelo Dr. Vilson Scholz na Celebração Conjunta


(IELB-IECLB) dos 485 anos da Reforma, na Igreja da Reconciliação,
Porto Alegre, no dia 31 de outubro de 2002.

317
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

CORREI DE TAL MANEIRA...


1 Coríntios 9.24-10.5

Há duas semanas os meios de comunicação se reportaram a um aconte-


cimento que marcou a vida dos brasileiros há 40 anos. Era o que se chama-
va de Cadeia da Legalidade. Ela surgiu quando o presidente Jânio Quadros
renunciou e as forças militares impediram que o vice-presidente João Goulart
assumisse. Uma resistência a essa medida dos militares começou no Rio
Grande do Sul. A situação foi-se escalonando até a iminência de o exército
bombardear o palácio Piratini, em Porto Alegre. Era o meu segundo ano no
Seminário, no segundo ginasial, guri de 14 anos. A tensão foi crescendo no
estado e na cidade: as escolas fecharam, o Seminário cancelou as aulas.
Lembro-me que não havia clima para estudar e o que restava fazer era
praticar esporte. O esporte aliviava a tensão, fazia-nos esquecer as amea-
ças – o esporte era um símbolo de tranqüilidade e paz, até que tivemos de
evacuar o Seminário.

Esta semana o mundo foi surpreendido por essa tragédia que assola e
assombra a vida do povo americano. Desde terça estamos envolvidos num
clima de tensão, perplexidade, consternação de amplitude mundial. Milha-
res de pessoas estão mortas – entre elas cristãos e, sem dúvida, inúmeros
irmãos luteranos. A julgar pelos desdobramentos, estamos na iminência de
uma nova guerra: escolas fechadas, cidades sendo evacuadas e a tempora-
da de esporte, que poderia aliviar a tensão, foi cancelada - até mesmo a
temporada de baseball que nunca fora interrompida desde a primeira guerra
mundial.

Se muitas vezes o esporte foi ameaçado pela guerra, olimpíadas foram


suspensas por causa de conflitos, é possível e necessário relacionar o es-
porte com a paz. Cenas marcantes nesse sentido ocorreram em competi-
ções internacionais recentes quando, por exemplo, a comitiva da Coréia do
Norte e do Sul entraram no estádio empunhando juntas a mesma bandeira.
Mais marcante ainda quando Estados Unidos e Irã, inimigos políticos, se
abraçam e se dão flores antes de um jogo de futebol. Só por esporte, entrei

318
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
na Internet esta semana para efetuar a busca do binômio “esporte + paz”.
O resultado apareceu: mais de 914.000 mil entradas. Confesso que na quar-
ta de manhã eu estava pronto a sugerir que nós, por solidariedade e respeito,
cancelássemos os jogos “Azul e Branco”. Desisti da idéia quando pensei
que também uma festa esportiva pode ser um meio de se abdicar da violên-
cia e acima de tudo exercitar a promoção da paz, da verdadeira paz.

Paz não é bem o que se vê na congregação de Corinto. Nela há divisões


e intrigas com muitos minimizando Paulo como apóstolo e o seu evangelho
simplista do Cristo crucificado. Os cristãos de Corinto defendem as coisas
que consideram do seu direito. Divergem num assunto que é estranho para
nós. Alguns deles teimam que se pode comer a carne comprada no açougue
para o churrasco, mesmo que antes tenha sido oferecida a ídolos. E apre-
sentam três argumentos: (1) eles têm o direito de comer aquela carne por-
que existe apenas um Deus; (2) porque eles são mais sábios e mais fortes
do que aqueles irmãos que têm escrúpulos em comer essa carne e (3) e que
estando no seu direito, não há razão para deixar de exercê-lo. Paulo concor-
da que eles até têm esse direito. Mas insistir no exercício desse direito em
detrimento do seus irmãos mais fracos é sinal de intolerância e falta de
amor.

Nos primeiros 23 versículos do cap. 9, Paulo contrasta a atitude daque-


les que insistem em alimentar-se dessa carne com a atitude que ele Paulo
tem em relação a uma outra questão. Paulo afirma, por exemplo, que ele
tem o direito de comer e beber às expensas dos irmãos a quem ele ministra
o evangelho. Para isso ele cita o AT, a vida dos seus colegas apóstolos e o
ensino de Jesus. Apesar do seu inegável direito de comer e beber às expensas
deles, Paulo deixa de lado esse direito para que, como diz ele, o ministério do
evangelho e da paz possa ser fortalecido.

Os cristãos de Corinto que se sentiam livres para comer a carne


sacrificada aos ídolos pensavam que eles eram mais sábios, mais fortes e
mais espirituais do que os seus irmãos. É no seu suposto conhecimento
superior que o seu direito se fundamenta. As palavras do apóstolo no início
do vers. “Não sabeis vós ...” se equivalem às palavras de Jesus quando
perguntava: “Não tendes lido...?” Estes cristãos orgulhavam-se do seu co-
nhecimento, mas, na verdade, estavam despreparados, ou seja, a sua
espiritualidade estava fora de forma.

A festa esportiva perto de Corinto realizava-se a cada dois anos. Era um


grande evento que se caracterizava por extravagantes festivais de religião,
competições, atletismo e arte, atraindo milhares de atletas e visitantes de
319
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
todo o império. Segundo alguns, Paulo esteve em Corinto durante os jogos
da primavera do ano 51. Visto que não havia acomodações suficientes, to-
dos tinham de alojar-se em tendas. Imagina-se que Paulo teria tido grandes
oportunidades de vender tendas visto que ele era fazedor de tendas, e par-
tilhar o evangelho da paz com a multidão que comparecera aos jogos.

Muitos são os que participam de uma corrida, mas apenas um é o vence-


dor. Vimos isso ontem no campus e o veremos daqui a pouco. Cada compe-
tidor busca apenas vencer a corrida ou o jogo. Mas apenas um leva o
prêmio. Os coríntios e nós somos convidados a fazer o mesmo que se faz
nos jogos – correr “de tal maneira” que alcancemos o prêmio.

É oportuno lembrar que o apóstolo aqui não está se referindo à salvação.


Ele não está conclamando o perdedor a que se empenhe mais para alcançar
o alvo da salvação. Eles já são santos! Paulo está desafiando os santos de
Corinto e torcendo por eles a que lutem para cumprir a sua vocação de
santos. As palavras do apóstolo aqui devem ser entendidas à luz do que ele
diz em 2 Tm 2: “participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cris-
to Jesus. Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida,
porque o seu objetivo é satisfazer aquele que o arregimentou. Igualmente o
atleta não é coroado se não lutar segundo as normas.”

Corridas e jogos não são ganhos automaticamente. Há normas e cuida-


dos a serem seguidos. Dentre os 914.000 daqueles sites na Internet, abri um
que orienta como tornar-se um excelente atleta. Embora já não seja mais
tanto do meu interesse pessoal, chamou-me a atenção naquele artigo que as
duas características de um excelente atleta são competitividade e vigilân-
cia. Competitividade não no sentido de querer ganhar a qualquer custo, mas
de procurar sempre fazer o melhor que se pode. Vigilância no sentido de ter
sempre em mente o alvo e nele se concentrar evitando provocações, rivali-
dade e ameaças ao seu redor. A partir do nosso texto, além dessas duas eu
acrescentaria a tolerância: ou seja, não se sobrepor ao mais fraco no sen-
tido de abusar dele e minimizá-lo. Talvez fossem estes os cuidados que
tinham os atletas de Corinto e, sem dúvida, são estes os cuidados que tam-
bém vocês estão tendo neste “Azul e Branco”. Se isso é verdade no campo
de esportes, tanto mais como cristãos estamos dispostos a exercitar a
competitividade, a vigilância e a tolerância para vencer a corrida que nos
está proposta. No segundo século a coroa dada ao vencedor era feita de
galho de pinheiro ou folhas murchas de aipo. Nós corremos para ganhar
uma coroa eterna, imarcescível, que nos foi conquistada por meio de uma
coroa de espinhos.

320
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Das corridas que aconteciam perto de Corinto, o apóstolo volta-se para
uma outra corrida, uma corrida na história há 1400 anos - a corrida da
primeira geração de israelitas ao deixar o Egito em direção à Terra Prome-
tida. Paulo refere-se a eles como “nossos pais” – pois quer que aprendamos
com eles.

Os israelitas tiveram a bênção de sair correndo do Egito, mas quando


atravessaram o mar em seco e cruzaram a linha na praia do outro lado do
mar Vermelho, olharam para trás e pensaram: “Nós vencemos! Nós ganha-
mos!” Essa autoconfiança, como muitas vezes se viu na história de Israel,
começa a substituir a confiança deles no SENHOR.

“Correi de tal maneira que o alcanceis”, diz o texto. A ênfase está no


“de tal maneira”. Só há uma maneira de nos mantermos em forma espiri-
tualmente e de fortalecermos o ministério do evangelho e da paz. Claro,
Deus não se agradou da maioria dos do povo de Israel, mas agradou-se de
pelos menos dois. Foram os que entenderam que a corrida espiritual envol-
ve competitividade, vigilância e tolerância sim, mas acima de tudo confiança
nAquele que tem o poder de os livrar da escravidão, dAquele que se entre-
ga no Batismo e Santa Ceia, e dAquele que é a pedra viva que não quer ser
batida com vara como fez Moisés no deserto, mas que quer o diálogo conosco
para nos aliviar de tensões e incertezas e trazer paz à nossa alma. Se em
grande parte de textos ouvimos Jesus dizer “segue-me”, aqui neste texto há
uma inversão: Ele nos segue nessa corrida – porque Ele já a correu por nós,
já chegou ao fim da linha, e já voltou para estar junto, atrás de nós e ao
nosso lado para nos fortalecer e, quando exaustos, nos carregar.

Nesta corrida a vitória é de um só: do cristão. Mas ele não é apenas um


nem dois, são milhares e milhões, bilhões. Estamos em meio a uma festa
esportiva no campus. Que o espírito da alegria, da vitória, da tolerância e
amor continuem. Que de todas as formas ela simbolize a promoção da paz
– acima de tudo da verdadeira paz.

Sermão proferido pelo Dr. Acir Raymann na capela do


Seminário Concórdia no culto especial da Festa Esportiva,
no dia 16 de setembro de 2001.

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Igreja Luterana - nº 2 - 2002

VERDADES E VERSÕES
Isaías 53.10-12

Prezados irmãos e irmãs em Cristo.

Há algumas semanas a revista VEJA estampou como matéria de capa a


mentira. Não que as pessoas sejam descaradamente mentirosas. Mostrou em
um artigo bastante amplo o fato de as pessoas em campanha política promete-
rem coisas, afirmarem coisas que acreditam ser verdades, promessas que acre-
ditam poder realizar, mas que se revelam totalmente inconseqüentes.

É verdade. Existem pessoas que mentem ou manipulam fatos para che-


gar a certos fins. Existem outros que, por ingenuidade ou ignorância, são
sinceramente crentes das suas próprias meias-verdades e inverdades. As
pessoas não vivem a vida. Vivem versões da sua vida.

Há pessoas que passam a vida acreditando piamente que a verdade


consiste na versão que elas dão dos fatos, como se não existisse outra ver-
são possível.

A pergunta é: qual é a versão dos fatos que governa a minha vida? É


possível que eu seja vítima da versão que tenho dos fatos?

Isaías 53 apresenta uma versão dos fatos que foi intragável para Israel e
que tem sido difícil, senão impossível, para muitos.

Especialmente a verdade exposta nesse texto, 10-12. O texto opõe dois fatos.
De um lado, iniqüidade, transgressão e pecado que, do outro lado
se opõe a vida em oferta, trabalho, intercessão e justificação.

Essa revelação é a que é sobre-humana de aceitar: que haja pecado/


culpa digna de tão imenso castigo e punição. Não é esta a imagem que
o ser humano quer de si próprio. As suas mentiras e versões que dá de si
próprio parecem ainda ser o seu mal menor. O texto mostra a vida humana
necessitando de um trabalho indescritível de resgate.
322
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
O Senhor, então, preferiu, planejou, decidiu, diz o texto. Ao Senhor
agradou moê-lo, fazendo-o enfermar. De todas as opções que Deus pode-
ria levantar, de todas as hipóteses que Deus poderia imaginar, Deus, o SE-
NHOR, optou e decidiu ser moído, ser triturado, ser esmagado, supor-
tar sozinho toda a carga de castigo e retaliação que o pecado exigiu.

Essas palavras de Isaías estiveram sempre presentes diante do povo de


Israel, no seu culto, na sua devoção, através dos tempos. Mas o povo leu e
recitou essas palavras olhando para as suas próprias feridas e sofrimentos.
Era odioso ao povo reconhecer no servo transfigurado pelo sofrimento o
contraponto da sua própria iniqüidade.

Entretanto, ao mesmo tempo, o profeta anuncia que o SERVO verá a


posteridade e que haverá prosperidade na seqüência de seu trabalho: a von-
tade do Senhor prosperará nas suas mãos. Finalmente, com os poderosos
repartirá os despojos.

O ser humano não consegue olhar tempo suficiente para esse quadro. O
SERVO SOFREDOR é uma figura subumana. As pessoas desviam rapida-
mente o rosto. O quadro é insuportável. Quando Jesus se identifica com
esse quadro e diz aos discípulos que é necessário sofrer, Pedro exclama:
Não, Senhor. Isso jamais. Pedro, como todo o Israel, tem a sua própria
versão para explicar os fatos. Pedro sente que o fato de que Deus decidiu
moer e fazer sofrer o seu servo, esse fato tem de ser interpretado.

Essa é também a dificuldade que cristãos experimentam. Apresentam


uma versão de si próprios. Como se aquele quadro não fosse o seu. O ser
humano, dizem os fatos em Isaías, exigiu que o SERVO fosse moído. A
iniqüidade do ser humano é irremediável. Todas as suas justiças são como
pano de limpar imundícies.

O ser humano prefere a sua própria versão. Como se fazer certas obras,
mostrar certos esforços, acolher certas obras, pudesse criar uma nova versão
para o fato de que somos iníquos em tudo que fazemos e pensamos. Como é
patético ver alguém que interpreta a Escritura fazer cara e pose de quem tem
uma versão própria da Escritura, como se tivesse vencido em si a iniqüidade.

Isaías apresenta duas realidades: a decisão e conseqüente ação de Deus


de moer o SERVO por causa do pecado. E do outro lado em cada ser
humano está o pecado, a transgressão, a iniqüidade em função do que aque-
le fato acontece. Esses são os fatos. Não há nenhuma versão que amenize o
horror.
323
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
Mas o surpreendente é que, mantidos esses fatos, sem outra versão, o
conhecimento destes fatos, sem outra versão, isso é que justifica. E nada
mais existe. A vida do crente não é uma versão nova. A vida do crente
consiste em nada mais do que em ser iníquo e saber-se justificado por Deus.

Assim estamos diante de Deus. Não apresentando uma versão nova


da nossa vida como se dependêssemos disso para sentir-nos povo de
Deus. Assim, dessa maneira indigna, unicamente pela fé, somos o des-
pojo e a prosperidade do SERVO sofredor. Exatamente apresentando-
nos com a nossa renovada iniqüidade, com a nossa iniqüidade pela qual
ele derramou sua vida. Se queremos parecer menos iníquos do que
somos, desvalorizamos a vida que foi entregue e derramada por nós.
Deus quer a nossa verdade. Não a versão que nós preferimos dar da
nossa vida. Deus não quer nossas promessas. Deus quer a verdade.

E lá está o SERVO ainda intercedendo por cada um de nós, para que


não caiamos em tentação de apresentarmos nossa vida como uma nova
versão da raça humana.

Essa verdade foi intragável a Pedro, ao povo de Israel e creio que cada
um de nós tem sérias dificuldades com ela. Esse mistério do simul justus et
peccator recusa qualquer versão que alguém queira apresentar a Deus.

A verdade. Nada mais que a verdade. Versões são mentiras. Entretanto, que
grande consolo e alívio isso tem sido para muitos e para nós. Não dependemos de
versões santificadas de nós próprios para sabermos que Deus nos aceitou.

E bem por isso Deus aceita a vida de cada um com a sua própria versão.
Ao mesmo tempo essa é a única possibilidade de andarmos juntos, em co-
munhão, como povo redimido de Deus. Eu não posso impor a minha versão
de vida cristã como verdade para ti. Nem tu podes impor a tua versão de
vida cristã, de cristão, sobre mim.

Deus me deu conhecimento da realidade: Ele me diz: tu és pecador. Eu sou


teu Salvador. Vive esta versão que não é versão. Estes são os fatos. Vive
estes fatos ali, como e onde Deus te chamou. Tu és povo de Deus. Pessoa
de Deus. Somos uma comunhão de crentes. Não precisamos analisar ou
julgar a versão de cada um. Cada um pela fé subsiste diante de Deus com a
sua própria identidade, a sua versão mais autêntica e verdadeira.

Devoção proferida pelo Prof. Paulo P. Weirich na capela


do Seminário Concórdia em 16 de outubro de 2002.
324
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

RESCENSÃO

SUMÁRIO DA DOUTRINA CRISTÃ


Por Edward W. A. Koehler. 3.ed. revista e atualizada.
Porto Alegre: Concórdia, 2002. 224 p.

O Sumário é bem familiar à maioria dos pastores da IELB, bem como a


muitos que, mesmo não tendo concluído o Curso de Teologia, foram alunos
dos nossos Seminários. É uma obra querida, pois apresenta, de forma resu-
mida, as principais doutrinas bíblicas. Foi lançado em terceira edição, cha-
mada de “revista e atualizada” com o desejo, por parte da Igreja, de que ele
se torne também querido ao povo, a fim de que este cresça no conhecimen-
to daquilo que cremos e confessamos. É uma edição, por isso, aprimorada,
apresentando, entre outros aspectos, correção ortográfica e gramatical, subs-
tituição de termos cujo sentido foi enfraquecido com o passar do tempo e
indicações de fonte das Confissões Luteranas na edição em língua portu-
guesa do Livro de Concórdia.

O autor (1875-1951) foi pastor e professor da Lutheran Church Missouri


Synod nos Estados Unidos. Ao preparar o Sumário, pretendeu oferecer ao
povo cristão o acesso aos ensinos bíblicos a todos aqueles que buscam algo
mais além do conhecimento trazido pelo Catecismo Menor. Por essa razão,
quem tem contato com o seu conteúdo pela primeira vez, poderá interromper
a leitura diante de termos teológicos até então desconhecidos (gênero
apotelesmático, por exemplo). Tais expressões, além de necessárias dentro
da linguagem teológica, funcionam como um tempero a dar sabor diferente a
um prato já conhecido. Apesar da sua presença inesperada, contribuirá para
melhor saborearmos aquilo que nos é oferecido. A propósito, procure sabore-
ar a comunicação dos atributos na pessoa de Jesus Cristo com uma pitada de
gênero apotelesmático, mas não esqueça de acrescentar também uma porção
do idiomático e do majestático e depois passe a receita adiante!

O Sumário é obra antiga, sem dúvida, contudo continua sendo parte


daquilo que de melhor temos na língua portuguesa em exposição resumida
das doutrinas de nossa fé cristã. Sua reedição, portanto, se justifica, pois
permanece com a qualidade de ferramenta útil para aqueles que desejam
ter às mãos instrumentos que ajudam a construir maior e mais sólido conhe-
325
Igreja Luterana - nº 2 - 2002
cimento das coisas que Deus nos revelou. A IELB reconhece esse valor do
Sumário, razão pela qual não somente o reeditou, mas também o incluiu na
literatura que acompanhará o PEM (Programa de Evangelização e Mordo-
mia) daqui em diante.

Paulo Moisés Nerbas

326
Igreja Luterana - nº 2 - 2002

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SIM! DESEJO FAZER UMA ASSINATURA DA REVISTA IGREJA LUTERANA.
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Após preenchida, coloque num envelope esta folha acompanhada de che-


que nominal ao Seminário Concórdia no valor correspondente e remeta-o para:

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SEMINÁRIO CONCÓRDIA
Diretor
Paulo Moisés Nerbas
Professores
Acir Raymann, Clóvis Jair Prunzel, Ely Prieto, Gerson Luís Linden,
Leopoldo Heimann, Norberto Heine (CAAPP), Paulo Gerhard Pietzsch,
Paulo Moisés Nerbas, Paulo Proske Weirich, Vilson Scholz.
Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Martim C. Warth

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela
Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
Conselho Editorial
Acir Raymann (editor), Vilson Scholz (editor homilético)
Assistência Administrativa
Janisse M. Schindler
A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica
Latino-Americana e Old Testament Abstracts.
Os originais dos artigos serão devolvidos
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Seminário Concórdia
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