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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

ÍNDICE

IGREJA LUTERANA
VOLUME 61 - JUNHO 2002 - NÚMERO 1

Editoriais
In Memoriam. ..................................................................................

Artigos
Como se Forma um Teólogo: Oratio, Meditatio, Tentatio
John W. Kleinig ..............................................................................

Sentido e Conteúdo na Proclamação Cristã:


Subsídios para uma Reflexão a partir
da Leitura em Lutero no Capítulo 1º do Evangelho de João
Paulo P. Weirich .............................................................................

A Tarefa do Homem de Fé ...E o Levou a Jesus


Vilson Scholz ..................................................................................

Auxílios Homiléticos ...................................................................

Devoções .......................................................................................

Recensão
Cristologia do Novo Testamento.
Por Oscar Cullmann
Gerson L. Linden ...........................................................................

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

IN MEMORIAM

REV. PROF. ARNALDO JOÃO SCHMIDT


Foi no Domingo da Páscoa, 31 de março! Enquanto os cristãos da Igreja
Evangélica Luterana do Brasil e os funcionários, alunos e professores do
Seminário Concórdia celebravam com alegria e gratidão a ressurreição de
Jesus Cristo, partia para a eternidade, na esperança de sua própria ressur-
reição, o Pastor e Professor Arnaldo João Schmidt. Da ressurreição de
Jesus, tantas vezes por ele lembrada e anunciada, o Prof. Schmidt trouxe
para si a esperança do seu próprio ressuscitar glorioso.

Aqui, na igreja militante, Arnaldo João Schmidt serviu seu Senhor como
pastor, na Comunidade Evangélica Luterana “Cristo”, de Schroeder, SC
(1943-1950), Comunidade Ev. Luterana “Sião”, de Santo Ângelo, RS (1950-
1961). Atuou também na Diretoria da Igreja, como Primeiro Vice-Presiden-
te (1960-1962) e como presidente (1963-1965). Foi professor do Seminário
Concórdia de Porto Alegre, RS (1962 - até tornar-se emérito), tendo sido
seu Diretor, de 1972 a 1976. Nesta função o Prof. Schmidt procurou ampli-
ar os horizontes do Seminário no cenário brasileiro, especialmente promo-
vendo-o junto à Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE),
entidade da qual foi também vice-presidente. Prof. Arnaldo J. Schmidt inte-
grou várias comissões dentro da igreja, destacando-se sua participação no
Departamento de Missão e no Departamento de Educação Média e Supe-
rior. Seu interesse pela educação especial manifestou-se relevante na dedi-
cação pela Escola Especial Concórdia, integrando por vários anos o Conse-
lho Diretor e a Diretoria Executiva dessa instituição.

O Prof. Arnaldo foi casado com Gertrudes Martha Rehfeldt Schmidt,


que o precedeu na morte. Seu matrimônio foi abençoado com três filhas:
Sônia, Marlene e Arlete.

Agora, embora já na igreja triunfante, o Prof. Arnaldo consegue manter


entre aqueles que o conheceram e tiveram o privilégio de tê-lo como pastor
ou professor, uma admiração, respeito e carinho muito grandes, coisas que a
distância não apaga. Tais sentimentos nasceram espontaneamente em grande
número de membros da igreja, em alunos que passaram pelo Seminário
Concórdia e naqueles agora pastores da IELB, também alunos que foram
do Prof. Arnaldo. São sentimentos provocados pela maneira de ser e agir do
saudoso Pastor e Mestre.
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O Seminário Concórdia agradece ao Senhor pela bênção de ter tido o
Pastor Schmidt como seu Professor e Diretor. Ao mesmo tempo, estende
aos seus familiares a gratidão por terem alcançado a ele o apoio e carinho
durante sua trajetória de servo de Cristo na Igreja e no Seminário. Sem
dúvida que tais coisas em muito contribuíram para que fôssemos beneficia-
dos pelo trabalho zeloso e pela amizade sempre presente daquele que, leva-
do pelo Senhor no Domingo da Ressurreição, aguarda o cumprimento da
palavra do apóstolo Paulo: Porque, assim como, em Adão, todos morrem,
assim também todos serão vivificados em Cristo (1 Co 15.22).

Prof. Paulo Moisés Nerbas


Diretor do Seminário Concórdia

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ARTIGOS

COMO SE FORMA UM TEÓLOGO:


ORATIO, MEDITATIO, TENTATIO
John W. Kleinig *

INTRODUÇÃO
Como se forma um teólogo? Dificilmente nós, professores de teologia,
poderemos ouvir pergunta mais desconcertante do que esta. Não importa
o lugar donde viemos, o fato é que os membros de nossas igrejas estão
cada vez mais críticos em relação ao sistema de treinamento teológico que
tradicionalmente temos usado na Igreja Luterana. Conhecemos bem esse
sistema, pois somos todos, de certa forma, produtos do mesmo. Os currí-
culos diferem de uma igreja para a outra, mas o padrão básico é sempre o
mesmo. As disciplinas acadêmicas das áreas de teologia bíblica, teologia
histórica e teologia sistemática levam às disciplinas da área prática. Pri-
meiramente cuidamos da teoria; depois é que vem a prática da teologia.

Nós que lecionamos teologia podemos estar felizes com esse sistema de
estudos, mas muitos membros de nossas igrejas não estão satisfeitos com
ele e com os pastores que o mesmo produz. Vocês sabem o que eles
dizem. Nossos formandos não sabem atender as necessidades espirituais
das pessoas. Estão fora de sintonia com o mundo moderno e não conse-
guem se relacionar com ele de forma positiva. São teóricos sem noções de
prática que não sabem lidar com gente de carne e osso e suas reais neces-
sidades. Não sabem trabalhar com outros, em equipe. Pior, faltam-lhes
habilidades básicas para liderar uma congregação, seja na área de adminis-
tração ou organização, liderança ou comunicação, aconselhamento ou re-
solução de conflitos, evangelização ou expansão da igreja.

Essas críticas se tornam mais insistentes em tempos difíceis, como os


que hoje vivemos, quando o dinheiro é pouco e os recursos são limitados.
Podemos nos dar o luxo de investir tanto dinheiro assim num sistema de

*
Dr. John Kleinig é professor no Luther Seminary, Adelaide, Austrália. Este artigo é resul-
tado da conferência que foi apresentada na Conferência Mundial de Seminários Teológi-
cos Luteranos, dia 5 de abril de 2001, em Canoas, RS. A tradução do inglês foi feita pelo
Dr. Vilson Scholz e está sendo publicada com permissão do autor.

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treinamento de pastores que não forma os pastores que realmente necessi-
tamos? Será que, de fato, precisamos de pastores com formação acadê-
mica? Se os necessitamos, não deveríamos remodelar todo o currículo,
fazendo-o girar em torno de teologia pastoral como a disciplina chave, ou
algo assim? Seria inadequada a nossa maneira de fazer teologia neste
contexto pós-modernista?

Existe, sem dúvida, algum fundo de verdade nessas críticas, bem como
algum valor nas contrapropostas apresentadas. Penso, no entanto, que o pro-
blema é bem mais agudo do que isto. Tanto nós quanto nossos críticos partimos
do pressuposto de que somos nós, seres humanos, que produzimos teólogos.
Segue daí que, se conseguirmos ajustar o sistema de treinamento, invariavel-
mente produziremos bons pastores. Agora, será que isto é de fato assim?
Como se forma um teólogo? Todos sabemos que um sujeito muito bem treina-
do, que domina perfeitamente todos os assuntos da teologia e que tem todas as
habilidades pastorais necessárias, pode vir a ser um pastor medíocre, e um mau
teólogo. O inverso também é verdadeiro! Como se forma um pastor?

Lutero foi daqueles professores de teologia que refletiu muito e


longamente a respeito dessa questão de aprender teologia. Em diferentes
ocasiões ele tratou do assunto, sob diferentes ângulos. Embora Lutero,
para surpresa nossa, tenha reconhecido a importância das artes liberais
como fundamento de uma boa educação teológica1, sabia também que
mesmo o melhor currículo, lecionado pelos melhores teólogos, não poderia,
por si só, produzir um bom pastor. Algo mais era necessário. Aprender
teologia era uma questão de experiência e sabedoria derivada da experiên-
cia. Em linguagem contemporânea, o que forma um teólogo é a correta
prática da espiritualidade evangélica na igreja, a prática da vita passiva2, a
dimensão receptiva da fé.3 Em teologia, assim como na vida, não temos
nada que não tenhamos recebido e continuamente recebemos (1 Co 4.7).

Lutero desenvolveu esta percepção de diferentes formas. Por volta de


1520, numa preleção sobre o Salmo 5.11, afirmou, de modo um tanto quanto
categórico, que um teólogo não é formado mediante “compreensão, leitura
e especulação”, mas por meio do “viver, ou melhor, o morrer e ser conde-

1
Na WA TR 3, 312, 11-13, por exemplo, Lutero diz: “O que é que forma um teólogo? 1. A graça do Espírito; 2.
Tentação; 3. Experiência; 4. Ocasião; 5. Aplicação à leitura; 6. Conhecimento das belas artes”.
2
Lutero aqui emprega o termo “passiva” no seu sentido gramatical, como o ato de receber uma ação, e não num
sentido físico, designando um estado de inércia ou inação.
3
O uso que Lutero faz desse termo bem como suas implicações foram investigadas por Christian Link, “Vita
Passiva”, Evangelische Theologie 44 (1984): 315-351; Oswald Bayer, Theologie (Eerdmans: Guetersloher
Verlagshaus: Guetersloh, 1994), 42-49; e, de modo mais abrangente, Reinhard Huetter, Suffering Divine Things.
Theology as Church Practice ( Grand Rapids: Eerdmans, 1997).

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nado” (WA 5, 163,28-29). Mais tarde, nas suas Conversas à Mesa
(Tischreden) de 1532, Lutero acrescentou que, a exemplo do que acontece
na medicina, a teologia é uma arte que se aprende apenas da experiência
que se adquire ao longo da vida. Ele se considera pastor e afirma:

Eu não aprendi a minha teologia toda de uma só vez, mas tive


que buscá-la sempre de novo, indo cada vez mais fundo. Quem
fez isso para mim foram as minhas tentações, pois ninguém
consegue entender as Escrituras sem prática e tentações. Isto
é o que falta aos entusiastas e às seitas. Eles não têm o crítico
certo, o diabo, que é o melhor professor de teologia. Se não
tivermos esse tipo de diabo, seremos apenas teólogos
especulativos, que só ficam perambulando em seus próprios
pensamentos e especulando com a própria razão se as coisas
devem ser assim ou assado (TWA I, 147, 3-14).

Aí está, dito de forma rude e ofensiva, como só Lutero sabia fazer: “o


diabo é o melhor professor de teologia”. O diabo faz do pastor um verda-
deiro professor de teologia na escola da vida, a universidade das pancadas.
Não, isto não está totalmente correto e precisa ser corrigido. O diabo
transforma estudantes de teologia em teólogos ao complicar a vida deles
dentro da igreja. Portanto, treinamento em teologia envolve luta espiritual,
a luta entre Cristo e Satanás dentro da igreja. Conflito na igreja, este é o
contexto em que se aprende teologia.

Em 1539, Lutero desenvolveu estes conceitos, com mais intensidade e


vigor, no famoso Prefácio à Edição de Wittenberg de seus escritos em
alemão (WA 50, 657-661; LW 34, 283-288). Neste prefácio Lutero deli-
neia “o modo correto de estudar teologia”, um modo que ele tinha apren-
dido a partir de muita prática, “o modo que o santo rei Davi ensina no
Salmo 119”. Apesar da linguagem empregada, Lutero não propõe, como
se poderia esperar, um currículo teológico, ou, ao menos, um método para
o estudo acadêmico da teologia. Ao contrário, Lutero descreve a prática
pessoal da espiritualidade que ele tinha aprendido de cantar, recitar e orar
o Saltério. Mas até isto pode ser mal entendido. Lutero não defende um
método específico de meditação, mas esboça a efetiva dinâmica de for-
mação espiritual para estudantes de teologia. Isto envolve a interação de
três poderes: o Espírito Santo, a palavra de Deus, e Satanás. Lutero
assevera que a interação dinâmica entre essas três forças é tão poderosa
e eficaz que aqueles que se submetem a ela “poderiam (se necessário
fosse) escrever livros tão bons quanto aqueles dos Pais e dos concílios”
(LW 34,285).
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Como Martin Nicol deixou claro, Lutero fez uma diferença entre sua
prática pessoal de espiritualidade e a tradição de fundamentação espiritual
que ele tinha vivenciado como monge.4 A tradição monástica seguia um
antigo padrão de meditação e oração bem estruturado em termos de tem-
po. Seu alvo era a “contemplação”, a experiência de êxtase, bem-
aventurança, arrebatamento e iluminação mediante a união com o Senhor
Jesus glorificado. Para atingir este alvo, o monge ascendia da terra ao céu,
da humanidade de Jesus à sua divindade, em três etapas, como se fora por
uma escada, a escada da devoção. A elevação começava com a leitura
pessoal, em voz alta, de uma passagem das Escrituras, para despertar os
afetos; prosseguia com oração intensa, e culminava com a meditação men-
tal de realidades celestiais, enquanto se aguardava a experiência da con-
templação, a infusão de graças divinas, a concessão de iluminação espiritu-
al. Quatro termos eram usados para descrever esta prática de espiritualidade:
leitura, meditação, oração, e contemplação.

Em contraste com este método um tanto quanto manipulável, Lutero


propôs um modelo evangélico de espiritualidade em termos de recepção, e
não de autopromoção. Isto inclui três coisas: oração (oratio), meditação
(meditatio), e tentação (tentatio).5 Estas três giram em torno de uma
contínua e cuidadosa atenção à palavra de Deus. A ordem da lista é signi-
ficativa, pois, ao contrário do modelo tradicional de devoção, esta forma de
estudar teologia começa e termina aqui na terra. Os três termos descre-
vem a vida de fé como um ciclo que começa com oração pelo dom do
Espírito Santo, concentra-se na recepção do Espírito Santo mediante a
meditação da palavra de Deus, e redunda em ataque espiritual. Isto, por
sua vez, leva a pessoa a mais oração e meditação mais intensa. Logo,
Lutero não encarava a vida espiritual de forma ativa como um processo de
autodesenvolvimento, mas em termos passivos como um processo de re-
cepção da parte do Deus trino. Nele, pessoas auto-suficientes aprendem a
ser mendigos na presença de Deus.

Nesta conferência, quero valer-me do prefácio de Lutero à edição de


Wittenberg para investigar um pouco mais a fundo o que ele tem a dizer
sobre como se forma um teólogo. Penso que temos muito a aprender dele
quanto à formação espiritual de pastores. O que ele nos propõe nesta área
de estudo da teologia bem pode nos libertar da camisa de força que nos é

4
Martin Nicol, Meditation bei Luther (Vandenhoeck & Ruprecht, 1984), 19, 91.
5
Minha compreensão destes termos e de seu significado deriva do estudo cuidadoso dos mesmos feito por Martin
Nicol em Meditatio bei Luther (Vandenhoeck & Ruprecht, 1984), 91-101; Oswald Bayer em Theologie
(Gueterslohe: Verlagshaus, 1994), 55-105, e Reinhard Huetter em Suffering Divine Things (Grand Rapids:
Eerdmans, 1997), 72-76.

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imposta por algumas antíteses pouco proveitosas e até, quem sabe, falsas.
Dessas resulta a separação entre teologia pastoral e teologia acadêmica,
teologia sistemática e teologia litúrgica, espiritualidade individual e culto
comunitário, vivência espiritual subjetiva e revelação objetiva, bem como a
separação entre a vida particular do pastor de sua função pública. Espero
que o ensino de Lutero a respeito do estudo de teologia ajude a clarear qual
é nosso papel como educadores na área da teologia.

COMO SE FORMA UM TEÓLOGO


a. Oração pelo dom do Espírito Santo
Lutero assevera que o estudo de teologia tem a ver com o dom da vida
eterna. Nenhum professor deste mundo pode nos ensinar a respeito disso,
pois nenhum professor terreno pode nos dar vida eterna. Tampouco pode-
mos alcançar a vida eterna para nós mesmos fazendo uso da razão para
refletir sobre nossa experiência de Deus ou até mesmo para interpretar as
Escrituras à luz de nossa experiência pessoal. Na verdade, estaremos co-
metendo suicídio espiritual, se tentarmos alcançar a vida eterna com Deus
por meio de especulação racional e autodesenvolvimento espiritual. Quem
se vale da razão e do intelecto para construir uma escada que o leve ao céu
estará, ao contrário, e a exemplo de Lúcifer, precipitando a si mesmo e a
outros no inferno.

A verdade é que não precisamos subir ao céu por conta própria. O


Deus Trino desceu à terra por nós. Deus se encarnou a nosso favor. Ele
se fez acessível externamente em nossos sentidos. No ministério da pala-
vra, ele se tornou concreto para nós, criaturas de carne e osso. As Escritu-
ras Sagradas não apenas nos ensinam a respeito da vida eterna; elas de
fato nos dão a vida eterna à medida que nos ensinam. Também temos ‘o
verdadeiro mestre das Escrituras’, o Espírito Santo, que se vale das Escri-
turas para nos ensinar as coisas de Deus. Assim, Lutero recomenda ao
estudante de teologia que desista de tentar elaborar um sistema teológico
baseado na razão e na experiência humanas. Ao invés disso, ele deveria
aprender teologia orando pelo dom do Espírito Santo como seu instrutor.
Diz Lutero:

Ajoelha-te em teu quarto e ora a Deus com verdadeira humil-


dade e seriedade, para que, por meio de seu Filho amado, ele
te dê seu Espírito Santo, para que te ilumine, guie, e dê enten-
dimento.

Duas coisas se destacam neste conselho de Lutero: a dinâmica trinitária


desta oração pelo Espírito Santo, e o reiterado pedido pela dádiva do Espí-
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rito Santo. Como mendigos que se ajoelham de mãos vazias perante nosso
grande benfeitor, somos levados para dentro do Deus Trino e participamos
de sua ação aqui no mundo.

Seria muito fácil fazer uma aplicação errada dessas palavras de Lutero,
a exemplo do que fazem alguns pietistas e carismáticos, e defender um
método de exegese espiritual. O fato é que Lutero não está aqui despre-
zando a leitura atenta da Escritura, com análise gramatical e exegese literá-
ria, para propor a dependência da orientação mental direta do Espírito San-
to. Lutero não diz que, por meio de oração e pela inspiração do Espírito
Santo, o leitor recebe um entendimento especial do texto das Escrituras,
isto é, seu verdadeiro sentido. Ao contrário, Lutero pressupõe que, por
meio de sua palavra, o Pai nos dá seu Espírito Santo que ilumina e vivifica.
Assim sendo, o estudante de teologia pode orar pela iluminação, orientação
e compreensão que só o Espírito Santo pode dar por meio das Escrituras.6
Ele ora para que o Espírito Santo se valha das Escrituras para interpretar a
ele, o intérprete, e sua experiência, de tal sorte que ele veja a si mesmo e a
outros sob a ótica de Deus. Neste sentido ele confia na palavra de Deus
como meio da graça, o canal do Espírito Santo.

Fica claro que o estudo de teologia está baseado na oração pelo dom do
Espírito Santo. O Espírito Santo faz com que pretensos mestres de teolo-
gia, gente que quer se autopromover no âmbito espiritual, se tornem humil-
des e vitalícios estudantes das Escrituras. Sem o Espírito e a capacitação
que ele dá, ninguém sabe nada a respeito da vida eterna. Sem a iluminação
do Espírito, o ensino das Escrituras fica sendo mera teoria sem nenhuma
realidade. Um teólogo é formado por meio da súplica junto a Deus pela
contínua dádiva do Espírito Santo por meio de Jesus e pela constante re-
cepção do Espírito Santo. Em suma, o Espírito Santo forma o teólogo. E
este é um projeto que dura a vida toda.

Se Lutero está certo, então nós, professores de teologia, precisamos


promover a obra do Espírito Santo e o papel da súplica pelo dom do Espírito
Santo no estudo da teologia. Ninguém deveria ousar diminuir a importância
da oração apenas por não ser ela um meio da graça, tampouco deveríamos
descartar a súplica pelo dom do Espírito Santo como sendo uma aberração
neopentecostal. A exemplo dos apóstolos em Atos 6.4, precisamos nos
dedicar à oração e ao ministério da palavra, pois o estudo de teologia de-
pende da contínua recepção do Espírito Santo por meio desses dois.

6
Ver Gunnar Wertelius, Oratio Continua (Lund: CWK Gleerup, 1970, para uma discussão do relacionamento entre
a obra do Espírito Santo e a prática da oração, 285-298.

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b. Meditação da Palavra escrita
Lutero afirma que, no estudo de teologia, a oração pelo dom do Espírito
Santo precisa vir acompanhada de contínua meditação das Escrituras.7 O
motivo desta conexão é que ‘Deus não lhe dará o seu Espírito sem a pala-
vra externa’. As Escrituras são a palavra inspirada de Deus. O mesmo
Deus que as inspirou com seu Espírito vivificador se vale delas para nos
inspirar e potencializar com seu Espírito. A palavra de Deus é o meio da
graça através do qual Deus Pai concede seu Espírito Santo por meio de seu
amado Filho. Portanto, o Espírito Santo é recebido por meio da meditação
da palavra. O Espírito vem a nós por meio da palavra para que ele, o
Espírito, possa fazer sua obra em nós por meio da palavra. Sem a palavra,
não se tem o Espírito. Do mesmo modo, sem oração, não se tem o Espírito.

Ao falar da “palavra externa”8, Lutero critica dois outros tipos de meditação


que, na prática, negam a encarnação. Por um lado, ele critica o método de
meditação que tinha aprendido como monge. Este se valia das Escrituras como
uma espécie de trampolim para a oração do coração e a apropriação mental ou
visionária de realidades celestiais. Por outro, Lutero igualmente se mostra crítico
em relação à prática entusiasta de meditação na palavra interior do Espírito San-
to, falada diretamente aos corações do povo de Deus. Em contraste com esses
dois métodos de aprender teologia, Lutero defende a meditação na “palavra ex-
terna”. É a palavra concreta, falada por lábios humanos, escrita com mãos hu-
manas, e ouvida com ouvidos humanos. A exemplo da luz do sol, a palavra está
fora de nós, é dirigida a nós por um pastor, escrita num livro, encenada no culto
divino.9 Assim, uma vez que o foco da meditação é a palavra externa, o que está
envolvido é basicamente extroversão espiritual e não introversão espiritual. É um
assunto que envolve o coração, mas não apenas o coração. O acesso ao coração
é de fora para dentro, através dos ouvidos. Na meditação, ouvimos interiormente
o que nos é falado exteriormente.

Esta noção da palavra de Deus como o meio físico para a concessão do


Espírito Santo trouxe duas profundas mudanças na forma como Lutero
praticava a meditação em sua vida pessoal. Em primeiro lugar, como mon-
ge ele tinha aprendido a ver a meditação como um ato mental, um estado
em que se é marcado por uma reflexão interior, silenciosa. Agora ele en-
tendeu que meditação cristã era antes de tudo uma atividade verbal. A

7
Ver John W. Kleinig, “The Kindled Heart. Luther on Meditation”, Lutheran Theological Journal 20/2&3 (1986)
142-154.
8
Lutero emprega a expressão ‘a palavra concreta’ (das leiblich Wort) como sinônimo de palavra externa. Oswald
Bayer explora o significado dessas expressões em Leibliches Wort (Lund: J. C. B. Mohr, 1992), 57-72.
9
O estudo de Norman Nagel, “Externum Verbum: Testing Augustana 5 on the Doctrine of the Holy Ministry”,
Lutheran Theological Journal 30/3 (1996): 101-110, examina a íntima conexão entre a palavra externa e o
ministério da palavra.

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pessoa que medita fala a palavra de Deus para si mesma e a ouve com
atenção, de todo o coração, “para descobrir o que o Espírito Santo quer
dizer nela”. Nisto Lutero foi influenciado por seu estudo dos Salmos em
hebraico, ao invés do latim.10 Ele descobriu que todas as palavras hebraicas
que, nos Salmos, falam da prática da meditação tinham a ver com diferen-
tes formas de vocalização e subvocalização, que iam de falar a murmurar,
conversar a suspirar, cantar a entoar, balbuciar a gemer. Portanto, aquele
que medita ouve a palavra de Deus com atenção ao ser esta falada pesso-
almente a ele. Ele se concentra exclusivamente na palavra. Fala essa
palavra para si mesmo sempre de novo. Lê e relê a palavra. Compara o
que ela diz com o que é dito em outras partes de Bíblia. Ele a rumina, assim
como a vaca rumina seu alimento. Ele a esfrega, a exemplo de uma erva
aromática que libera sua fragrância e seus poderes terapêuticos ao ser
amassada. Ele se concentra nela, física, mental e emocionalmente, para
que a mesma chegue a seu coração, seu interior, o cerne de sua existência.
Ali ele recebe o que Deus diz a ele e lhe dá em sua palavra.

Em segundo lugar, ao ensinar sobre meditação, Lutero deriva a vida


devocional particular do estudante do envolvimento que este tem no culto
público. Diz Lutero:

Assim, percebes como Davi constantemente se orgulha no


Salmo 119, dizendo que, de dia e de noite e sempre, ele não
falaria, comporia, diria, cantaria, ouviria e leria nada que não
fosse a palavra e os mandamentos de Deus. Pois Deus não te
dará o seu Espírito sem a palavra externa. Portanto, deixa
que isso te oriente, porque não é por nada que ele ordenou que
a palavra fosse escrita, pregada, lida, ouvida, cantada e falada
externamente.

Lutero não vê a prática da meditação como uma atividade mental, inter-


na, e sim como uma encenação ritual, externa. Em si, este método foi
inspirado pela liturgia e derivado da encenação da palavra de Deus em
público, no culto divino. Deus ordena à igreja que pregue, leia, ouça, cante
e fale sua palavra, para que assim ele possa transmitir e dar o seu Espírito
Santo a seu povo. Esta proclamação externa e esta encenação da palavra
de Deus determina como o estudante de teologia medita.11 Do mesmo

10
Ver Siegfried Raeder, Grammatica Theologica (Tuebingen: J. C. B. Mohr, 1977), 262-268.
11
Enquanto Oswald Bayer, na obra Theologie (Guetersloher Verlagshaus, 1994), 88-92, destaca o caráter público
da meditação e de sua prática em Lutero, Reinhard Huetter, em Suffering Divine Things (Grand Rapids: Eerdmans,
1997), 73, corretamente enfatiza sua conexão com práticas eclesiásticas tradicionais. Ambos reconhecem que a
prática da meditação em Lutero estava intimamente relacionada com o cantar e orar dos salmos na escola, na igreja,
e no mosteiro.

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modo como as Escrituras são lidas no culto divino, aquele que medita lê
essas Escrituras para si mesmo em voz alta, ao meditar sobre um trecho
delas. Assim como os salmos são cantados no culto, ele os canta em par-
ticular. Assim como a palavra de Deus é pregada no culto, ele a prega para
si mesmo. Assim como a congregação ouve a palavra de Deus falada no
culto, ele a ouve endereçada a si próprio de forma bem pessoal. Portanto,
Lutero defende a prática de uma meditação litúrgica da palavra de Deus,
ou seja, o exercício de uma piedade litúrgica.

Penso que tudo isso tem importantes implicações para a maneira como
aprendemos teologia em nossos seminários. Toda a vida de um seminário
deveria girar em torno do culto diário, o centro e alvo da vida receptiva da
fé. Tanto professores quanto alunos precisam ser discípulos da palavra de
Deus quando esta é falada e encenada no culto. Como é possível um
seminário luterano onde o currículo não deriva do culto divino e leva alunos
e professores de volta a ele? Como podemos ser modelos e ensinar a
nossos alunos a arte da meditação a não ser no culto corporativo? Com
certeza eles não se tornarão bons pregadores da palavra de Deus a menos
que primeiro tenham se tornado ouvintes dela em atitude de meditação. O
fruto da meditação, como Lutero reconheceu (LW 14,296, 302-303), é a
pregação e o ensino da palavra de Deus.

c. Tentação da parte de Satanás


Lutero afirma que o correto estudo da teologia culmina na experiência.
Tanto ele quanto seus mestres concordavam nisto. Agora, discordavam
quanto ao que experimentavam, e como. A tradição monástica de medita-
ção entendia que a prática adequada da meditação levava à experiência da
contemplação, isto é, a experiência de união com o Senhor Jesus glorifica-
do. Em contrapartida, Lutero ensinava que o estudo receptivo da Escritura
em oração e meditação levava à experiência da palavra de Deus, isto é, a
experiência de sua eficácia, sua criatividade, e sua produtividade. Por es-
tranho que possa parecer, é na tentação que se encontra e experimenta de
forma bem nítida o poder da palavra de Deus, o poder do Espírito Santo
operante em e através da palavra.12 Assim diz Lutero:

Em terceiro lugar, existe a tentação, ‘Anfechtung’. Este é o


teste que te ensina, não apenas a conhecer e entender, mas
também a experimentar quão justa e verdadeira, quão doce e
amável, quão poderosa e consoladora é a palavra de Deus,
sabedoria que excede toda sabedoria.
12
Confira Andrew Pfeiffer, “The Place of Tentatio in the Formation of Church Servants”, Lutheran Theological
Journal 30/3 (1996): 111-119, e Steven A. Hein, “Tentatio”, Lutheran Theological Review 10 (1997-98): 29-47.

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A experiência que Lutero descreve difere radicalmente daquilo que nós
normalmente chamaríamos de experiência espiritual. É a experiência do
impacto da palavra de Deus sobre nós, seu efeito em nós. Experimenta-
mos o poder da palavra de Deus. Mesmo que esta experiência comece na
consciência, ela afeta todas as partes de nosso ser e permeia a pessoa em
seu todo, mental, emocional e fisicamente. A palavra cheia do Espírito nos
coloca em sintonia com Deus o Pai ao conformar-nos ao seu Filho amado.
Não somos nós que a internalizamos e assimilamos a nosso modo de ser.
Ao contrário, é ela que nos assimila e torna piedosos. Não somos nós que
nos valemos da palavra para nos tornarmos algo; é a palavra que nos faz
teólogos.

Na tentação, o estudante de teologia experimenta pessoalmente a justi-


ça e a verdade da palavra de Deus em todo o seu ser, e não apenas em seu
intelecto. Ele tem experiência da doçura e beleza da palavra de Deus com
todo o seu ser, e não apenas com suas emoções. Ele experimenta o poder
e a força da palavra de Deus com todo o seu ser, e não apenas com seu
corpo. A tentação é, portanto, o teste para avaliar qualquer teólogo; ela
revela o que, sem ela, não se vê e não se conhece. Assim como o penhorista
faz um teste para detectar a presença e pureza do ouro numa moeda ou
jóia, também a tentação testa e prova a realidade da espiritualidade de
alguém.

Ao falar da tentação no prefácio da edição de Wittenberg, Lutero em-


prega a palavra num sentido especial. Ele não se refere aos convites que o
diabo nos faz a que pequemos, nem mesmo ao fato de o diabo condenar o
pecador. A palavra alemã que Lutero usa, ‘Anfechtung’, mostra que está
envolvido algum tipo de ataque à pessoa. Lutero deixa claro que isto se
passa no âmbito público. Envolve antagonismo e oposição pública àqueles
que são pastores ou estão se preparando para sê-lo. Trata-se de um ataque
ao ministério da palavra. O diabo não ataca o ofício do ministério em si,
pois este pode estar a seu serviço, se atuar sem a palavra de Deus e o
Espírito Santo. Ele ataca o instrumento através do qual o ofício do ministé-
rio recebe poder espiritual, a saber, a atuação do pastor em fé na palavra de
Deus e no poder do Espírito Santo. Isto o diabo não pode permitir de jeito
nenhum, pois será seu fim.

Enquanto um pastor ou um estudante de teologia atua baseado em seu


próprio poder, com seu próprio intelecto e idéias humanas, o diabo o deixa
em paz. Mas tão logo ele medita na palavra de Deus e depende do poder
do Espírito Santo, o diabo o ataca, promovendo falta de compreensão, con-
tradição, oposição, e perseguição. Ele ataca através dos inimigos do evan-
14
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
gelho na igreja e no mundo. Deste modo tenta impedir a ação da palavra de
Deus no estudante de teologia. Assim sendo, tão logo a palavra de Deus é
plantada no coração dele o diabo procura tirá-la de lá, para que o teólogo
não possa atuar pelo poder do Espírito Santo. As muitas lamentações nos
Salmos indicam que esta situação é bastante comum. Mostram como o
ministério da palavra suscita inimizade e oposição. O ministério provoca a
ira do inimigo.

Mas paradoxalmente esses ataques são contraproducentes. Lutero


explica:

Pois tão logo a palavra de Deus cresce e se espalha através


de ti, o diabo te persegue. Ele faz de ti um verdadeiro mestre
(de teologia). Por meio de seus ataques (tentações) ele te
ensina a buscar e amar a palavra de Deus.

Assim, o ataque que o diabo lança contra o estudante de teologia ajuda


a fortalecer a fé deste, pois o impulsiona a voltar à palavra de Deus como o
único fundamento para seu trabalho na igreja. Diante do ataque do diabo,
ele não pode depender de seus próprios recursos. Ele não pode depender
da confirmação de sua teologia por parte do mundo e nem mesmo por
parte da igreja. Sua própria fraqueza espiritual e sua falta de sabedoria
levam-no a depender do poder do Espírito Santo e da sabedoria da palavra
de Deus, que é ‘sabedoria que excede toda sabedoria’. Por meio da tenta-
ção o estudante de teologia se torna teólogo; ele aprende a teologia da cruz;
para ser mais exato, a espiritualidade da cruz.13 Ele não experimenta a
glória da união com seu Senhor glorificado, mas conhece a dor da união
com o Cristo crucificado. Ele carrega a cruz juntamente com seu Senhor,
sofrendo com ele na igreja.

Se atentarmos no que Lutero diz a respeito do papel do diabo na forma-


ção espiritual dos teólogos, compreenderemos que nossos seminários são
campos de batalha espiritual, um lugar de luta, e não um oásis espiritual
onde se encontra refúgio da tentação. Também poderemos ajudar nossos
alunos a entender por que eles e suas famílias sofrem um ataque tão cerra-
do em certos momentos ao longo do programa de estudos. Poderemos até
considerar esses ataques bem-vindos, pois mostram que Deus de fato está
atuando entre nós, fazendo de nós e de nossos alunos verdadeiros teólogos.

13
Ver Gene Edward Veith, Jr., The Spirituality of Cross (St. Louis: Concordia, 1999).

15
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
CONCLUSÃO
A vida de fé é a vita passiva, a vida receptiva, onde não somos nós que
nos tornamos algo, mas Deus nos molda e desenvolve. Isto também se
aplica a pastores. Nós, professores de teologia, não formamos teólogos;
isto é obra de Deus. Ele os forma, chamando-os para serem ministros da
palavra, assim como chamou os apóstolos. Ele os treina em sua igreja por
meio daquilo que ele faz com eles ou por meio do que eles sofrem na igreja.
Deus forma teólogos por meio do dom do Espírito Santo, do poder de sua
palavra, e da oposição do diabo.

Se isto de certo modo facilita a nossa vida de professores de teologia,


por outro lado também torna as coisas muito mais complicadas, pois nunca
seremos capazes de desenvolver um sistema de treinamento infalível para
a produção de bons pastores. No entanto, é isto que se espera de nós. E é
muito fácil querer corresponder a tal expectativa. O melhor que podemos
fazer é organizar um currículo que condiz com a dinâmica de formação
espiritual instituída por Deus, fomentar uma comunidade que promova sua
operacionalização, e servir de modelo em como continuar a aprender vi-
vendo a vida receptiva da fé.

Que podemos fazer para promover a vida receptiva entre estudantes de


teologia? Apresento sete breves propostas, à guisa de conclusão.

1. Todo o currículo da educação teológica precisa girar em torno do culto


da comunidade. Isto precisa estar no centro de tudo que é feito no
seminário, pois no culto a palavra de Deus que concede o Espírito
Santo é proclamada e encenada ao ser lida e cantada, pregada e orada,
falada e confessada. No culto deveríamos cantar e orar todos os Sal-
mos, pois é o manual de espiritualidade cristã inspirado por Deus no
qual o próprio Deus nos ensina a orar, meditar e resistir ao inimigo.
2. Seria aconselhável começar todas as nossas aulas com uma leitura da
palavra de Deus e oração pelo dom do Espírito Santo.
3. Precisamos ser diligentes em nossa própria vida espiritual e ajudar os
alunos a desenvolver o hábito de devoções diárias, com ênfase na me-
ditação da palavra de Deus, oração e vigilância espiritual.
4. Uma disciplina sobre espiritualidade luterana como a vida receptiva de
fé poderia fazer parte do currículo. A ênfase aqui deveria recair, não
sobre a teoria, mas sobre a experiência concreta e a prática pessoal.
Um curso desses deveria abordar a conexão entre a piedade pessoal e
o culto público, a prática da oração, meditação evangélica da palavra
de Deus, envolvimento em luta espiritual, e o papel do Espírito Santo na
vida de fé.
16
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
5. O estudo de teologia precisa ser visto como parte da luta entre Cristo e
Satanás na igreja. Quanto melhor nosso desempenho como estudan-
tes da palavra de Deus, maior será a oposição. E isto não é mau,
desde que encaremos os conflitos em nossa comunidade e na vida de
nossos estudantes numa perspectiva espiritual, como ataques do diabo
e não simplesmente como problemas pessoais, doutrinários ou psicoló-
gicos.
6. A mesma ênfase que se dá ao desenvolvimento acadêmico deveria ser
dada à fundamentação espiritual dos alunos. Isto se dá por meio de
seu envolvimento na comunidade e sua aceitação de autoridade, a par-
ticipação no culto público e a interação dos alunos entre si, nosso cui-
dado pastoral deles e o cuidado pastoral que eles têm um pelo outro,
nossa provisão de liderança espiritual14 e a prática de auto-avaliação
espiritual da parte deles, nossa prontidão em pedir desculpas e a dispo-
sição deles em perdoar.
7. Todo o currículo deve estar centrado no uso da palavra de Deus no
culto, na vida e no ministério como o meio pelo qual o Espírito Santo
atua. Pois, como diz Lutero, “Deus não nos dará ... seu Espírito sem a
palavra externa”. Sem a palavra de Deus ninguém nunca poderia
aprender teologia. É assim que se forma um teólogo.

ANEXO
PREFÁCIO À EDIÇÃO DE WITTENBERG
MARTINHO LUTERO

Mais do que isso, quero mostrar-te o modo correto de estudar teologia,


pois eu mesmo o pus em prática ... Este é o modo que o santo rei Davi ...
ensina no Salmo 119. Nele encontrarás três princípios, detalhadamente
explicados ao longo de todo o Salmo. São estes: oração (oratio), medita-
ção (meditatio), tentação (tentatio).

Primeiramente, precisas entender que as Escrituras Sagradas são aque-


le tipo de livro que transforma a sabedoria de todos os outros livros em
loucura, porque nenhum deles pode ensinar a respeito da vida eterna, a não

14
Ver a discussão sobre liderança espiritual em Eugene H. Peterson, Working the Angles (Grand Rapids: Eerdmans,
1987), 103-131.

17
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
ser somente as Escrituras. Assim, deverias imediatamente perder as espe-
ranças em relação a tua própria razão e entendimento. Com estes, não
alcançarás a vida eterna. Ao contrário, com uma arrogância dessas, tu, a
exemplo de Lúcifer, precipitarás a ti mesmo, e a outros junto contigo, do
céu ao abismo do inferno. Em vez disso, ajoelha-te em teu quarto e ora a
Deus com verdadeira humildade e sinceridade, para que, por meio de seu
Filho amado, ele te dê seu Espírito Santo, para que te ilumine, guie, e dê
entendimento.

Podes notar como Davi continua a orar no Salmo 119: “Ensina-me,


Senhor, instrui-me, guia-me, mostra-me”, e assim por diante. Embora co-
nhecesse muito bem o texto do Pentateuco e de muitos outros livros; por
mais que ouvisse e lesse os mesmos diariamente, Davi queria ter também
para si o verdadeiro professor (mestre) das Escrituras, para que não lidasse
com elas a partir de seu próprio entendimento e se tornasse seu próprio
professor (mestre). Isso produz agitadores espirituais que imaginam que as
Escrituras estão sujeitas a eles e são facilmente compreendidas com o pró-
prio entendimento que eles têm, sem o Espírito Santo e a oração, como se
faz com as lendas de Markolf ou as fábulas de Esopo.

Em segundo lugar, precisas meditar, não apenas com o coração, mas


também externamente, sempre de novo trabalhando e esfregando, lendo e
relendo a palavra falada e o texto escrito na Bíblia, diligentemente prestan-
do atenção e refletindo no que o Espírito Santo está dizendo nela. Cuida
para não perder o interesse e pensar que, se leste, ouviste e falaste essa
palavra uma ou duas vezes, isto basta para que a entendas perfeitamente.
Desse jeito nunca te tornarás um bom teólogo, mas serás como uma fruta
imatura que cai da árvore antes mesmo de ter amadurecido pela metade.

Assim, percebes como Davi constantemente se orgulha no Salmo 119,


dizendo que, de dia e de noite e sempre, ele não falaria, comporia, diria,
cantaria, ouviria e leria nada que não fosse a palavra e os mandamentos de
Deus. Pois Deus não te dará seu Espírito sem a palavra externa. Portanto,
deixa que isso te oriente, porque não é por nada que ele ordenou que a
palavra fosse escrita, pregada, lida, ouvida, cantada e falada, e isso exter-
namente.

Em terceiro lugar, existe a tentação (tentatio), ‘Anfechtung’. Este é o


teste que te ensina não apenas a conhecer e entender, mas também a expe-
rimentar quão justa e verdadeira, quão doce a amável, quão poderosa e
consoladora é a palavra de Deus, sabedoria que excede toda sabedoria.
Assim vês como, no Salmo 119, Davi a toda hora lamenta a respeito de

18
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
todos os diferentes inimigos, príncipes arrogantes e tiranos, e acima de tudo
a respeito dos falsos espíritos e bandos que ele tem que enfrentar precisa-
mente porque ele está meditando, isto é, porque ele se ocupa, como disse-
mos, com a palavra de Deus de muitas maneiras diferentes. Porque tão
logo a palavra de Deus cresce e se espalha através de ti, o diabo te perse-
gue. Ele faz de ti um verdadeiro doutor (em teologia); por meio de suas
tentações, ele te ensina a buscar e amar a palavra de Deus.15

BIBLIOGRAFIA
BAYER, Oswald. Leibliches Wort. Reformation und Neuzeit im
Konflict. J.C.B. Mohr: Tuebingen, 1992.
BAYER, Oswald. Theologie. Guetersloh: Guetersloher Verlagshaus,
1994.
HUETTER, Reinhard. Suffering Divine Things. Theology as Church
Practice. Grand Rapids: Eerdamans, 1997.
HEIN, Steven A. “Tentatio”, Lutheran Theological Review 10 (1997-
98), 22-27.
KLEINIG, John W. “The Kindled Heart. Luther on Meditation”,
Lutheran Theological Journal 20 (1986), 142-154.
LINK, Christian. “Vita Passiva. Rechtfertigung als Lebensvorgang”,
Evangelische Theologie 44 (1984), 315-357.
NAGEL, Norman. “Externum Verbum: Testing Augustana 5 on the
Doctrine of the Ministry”, Lutheran Theological Journal 30 (1996),
101-110.
NICOL, Martin. Meditatio bei Luther. Goettingen: Vandenhoeck &
Ruprecht, 1984.
PETERSON, Eugene H. Working the Angles. The Shape of Pasto-
ral Integrity. Grand Rapids: Eerdmans, 1987.
PFEIFFER, Andrew K. “The Place of Tentatio in the Formation of
Church Servants”, Lutheran Theological Journal 30 (1996), 111-119.
RAEDER, Siegfried. Grammatica Theologia. Tuebingen: J. C. B.
Mohr, 1977.
VEITH Jr., Gene Elmer. The Spirituality of the Cross. The Way of
the First Evangelicals. St. Louis: Concordia, 1999.
WERTELIUS, Gunnar. Oratio Continua. Das Verhaeltnis zwischen
Glaube und Gebet in der Theologie Martin Luthers. Lund: CWK
Gleerup, 1970.

15
Tradução revisada por John W. Kleinig, baseada em LW 34, 285-287

19
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

A TAREFA DO HOMEM DE FÉ:


... E O LEVOU A JESUS
REFLEXÕES A PARTIR DE 1 PEDRO
Vilson Scholz*

INTRODUÇÃO
Um dossiê de testemunhos
“E o levou a Jesus” (Jo 1.42) é o lema deste congresso *. Um lema
tirado daquele Evangelho que, apesar da simplicidade da linguagem, é o
mais profundo de todos. Em razão disso, pode ser estudado e descrito de
várias maneiras. Uma destas, e que nos interessa no momento, é a descri-
ção de João como um dossiê de testemunhos, tanto contra quanto a favor
de Jesus Cristo. O objetivo deste dossiê é que o leitor e ouvinte aceite os
testemunhos a favor de Jesus e creia que ele é o Cristo, o Filho de Deus, e
para que, crendo, tenha vida (Jo 20.31).

A primeira testemunha é um homem enviado por Deus (1.6) cujo nome


era João. Este veio para testemunhar da luz (1.6-8), daquele que tem a
primazia (1.15), daquele que batiza com o Espírito Santo (1.32-33), daquele
que é o Filho de Deus (1.34). João testemunhou para André (1.40), apon-
tando para o Cordeiro de Deus (1.36). André testemunhou a seu irmão,
Simão Pedro, e o levou a Jesus (1.41-42).

Outros testemunham ao longo do Evangelho de João: a mulher samaritana


(4.39), o Pai (5.32,37), as obras de Jesus (5.36), e as Escrituras (5.39). O
próprio Jesus testemunha (8.14). E para o futuro havia a promessa de que
o Espírito da verdade testemunharia de Jesus (15.26) e que também os
apóstolos testemunhariam (15.27).

O apóstolo João dá testemunho no relato que chamamos de Evangelho


de João (19.35; 20.31). E Pedro, que dizer de Pedro? Também ele teste-
munha, como personagem do Evangelho de João. Afirma que Jesus é o

*
Dr. Vilson Scholz é Professor de Teologia Exegética no Seminário Concórdia e na Universida-
de Luterana do Brasil. No Seminário exerce também as funções de coordenador de Registro.
Este artigo, com devidas adaptações, resulta de palestra proferida no 150 Congresso de
Leigos Luteranos do Brasil em Termas do Gravatal, em 24 de agosto de 2001.

20
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Santo de Deus (6.68). Mas a nuvem negra da traição se aproxima em João
13.36-38: Pedro é avisado. A negação se confirma em João 18. No entan-
to, existe restauração e, no final, Pedro confessa: “Senhor, tu sabes todas
as coisas, tu sabes que eu te amo” (21.17).

Não termina aí o testemunho de Pedro. Além do testemunho dele em Atos,


sem falar do tropeço em Gl 2, Pedro testemunha em suas cartas, no Novo
Testamento, em especial a primeira delas. Ele mesmo declara, em 1 Pe 5.12:
“Quero animá-los e dar o meu testemunho de que as bênçãos que vocês têm
recebido são uma prova verdadeira da graça de Deus. Continuem firmes, pois,
nessa graça” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje - NTLH).

É assim que chegamos a 1 Pedro, que é o testemunho de Pedro. Leva-


do a Jesus por seu irmão André, Pedro testifica da genuína graça de Deus.
Ele nos leva a Jesus. Vale a pena examinar seu testemunho.

O TESTEMUNHO DE SIMÃO PEDRO


A Primeira Epístola de Pedro
1 Pedro é um daqueles textos do Novo Testamento que Martinho Lutero
colocou entre os mais nobres e importantes de toda a Bíblia. Afinal, o
mandato do sacerdócio real, para não dizer do laicato, emana desta carta (1
Pe 2.9). No entanto, em tempos recentes, a carta recebeu pouca atenção
em círculos acadêmicos. Alguém chegou a caracterizá-la como um “filho
adotivo” do Novo Testamento. Mas vale a pena estudar esta carta!

Conhecida como a “carta da esperança” (ver 1 Pe 1.3,21; 3.15), 1 Pedro


é, antes, a “carta da graça”. O termo “graça” aparece oito vezes: 1 Pe 1.2
(“graça e paz vos sejam multiplicadas”); 1.10 (“profetizaram acerca da
graça a vós destinada”); 1.13 (“esperai ... na graça que vos está sendo
trazida na revelação”); 3.7 (“herdeiros da mesma graça da vida”); 4.10
(“despenseiros da multiforme graça de Deus”); 5.5 (“aos humildes [Deus]
concede a sua graça”); 5.10 (“o Deus de toda graça ... vos há de aperfei-
çoar”); 5.12 (“testificando, de novo, que esta é a genuína graça de Deus”).
Mas, afora isso, a carta como um todo é uma exposição da graça de Deus.

1 Pedro é uma carta encíclica enviada a igrejas de cinco províncias do


Império Romano (1 Pe 1.1), na região onde hoje fica a Turquia. É um texto
breve: 105 versículos, três páginas na NTLH. Mas é um texto profundo.
Isto já pode ser visto num simples cálculo matemático: no original grego, a
carta tem 1675 palavras (o que é pouco), mas o número de termos chega a
547 (o que é muito)! A riqueza do texto é evidenciada pelo grande número
de vocábulos diferentes que aparecem. Há pouca redundância ou repeti-

21
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
ção. (Cada palavra, incluindo as mais comuns, aparece em média apenas
três vezes!)

1 Pedro é um resumo da fé e da vida cristã. Seria possível dar-lhe o


seguinte título: “Como ser cristão num mundo não-cristão”. Outra possibi-
lidade: “Não ser do mundo, mesmo estando no mundo”.

A carta apresenta um interessante entrelaçado de doutrina (Deus, e o


que ele faz por nós) e ética (como vivemos). A ética está profundamente
enraizada na doutrina, tanto que aparece lado a lado com a doutrina. (Em
outras cartas, Efésios, por exemplo, existe uma seqüência “doutrina - éti-
ca”.) Tema de destaque é “fazer o bem”, uma noção que aparece em 1
Pedro tantas vezes quanto aparece em todos os outros livros do NT juntos.

A palavra “igreja” não aparece em 1 Pedro. Mas ele tem muito a dizer
sobre ela. A linguagem é comunitária do começo ao fim. (Pedro usa a
segunda pessoa do singular apenas quando exemplifica ou especifica algo,
como em 1 Pe 4.11,16. Tal quebra do padrão não deixa de ser enfática.)

Os cristãos aos quais Pedro se dirige são pessoas “contristadas por


várias provações” (1.6). São injuriados ou insultados por serem cristãos
(4.14-16). Em meio a isso, Pedro, contra as expectativas, recomenda mais
santidade, não menos.

De acordo com Pedro, a igreja tem um propósito missionário. Ele tem


em vista pagãos na sociedade (2.12), descrentes em casa (3.1-2), e tam-
bém perseguidores (3.15-16). Pedro não advoga uma cristianização da
sociedade. Também não defende uma saída do mundo, pois isto seria ne-
gar o senso de missão da igreja.

São Pedro conhece e leva a sério três esferas, ou ordens, ou âmbitos,


em que os cristãos vivem: a ordem familiar, a ordem econômica, e a ordem
estatal. É nesses contextos que os cristãos dão seu testemunho e levam
pessoas a Jesus, assim como ele foi levado por seu irmão André.

No entanto, antes de tratar disso, convém examinar um pouco mais de


perto o que Pedro tem a dizer de nossa identidade. Só então daremos
atenção à nossa agenda: para com Deus, na igreja, na família, nas relações
econômicas e na ordem estado, em geral.

NOSSA IDENTIDADE, SEGUNDO 1 PEDRO


Quem somos, afinal? É uma pergunta que os cristãos do tempo de
Pedro devem ter feito. É uma pergunta que hoje ainda temos de responder.
22
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Isto porque a crise da igreja é, em grande parte, crise de identidade. Não é
assim que muitos se vêem apenas como “clientes” da igreja e não como
igreja propriamente? Outros, em especial os leigos, são tentados a pensar
que são eles os que “sustentam” a igreja, esquecendo-se que eles são a
igreja. Pedro nos ajuda a reafirmarmos nossa identidade.

O apóstolo Pedro quer que seus leitores entendam quem eles são diante
de Deus, para que possam ser o que são no meio da sociedade em que
vivem. Ele nos descreve de diferentes maneiras, algumas um pouco estra-
nhas a nossos ouvidos, mas todas muito significativas.

1. Estrangeiros de passagem. Dois textos falam disso: 1 Pe 1.1 (“Pedro


... aos eleitos que são forasteiros”) e 1 Pe 2.11 (“como peregrinos e
forasteiros que sois”). Esta noção de ser peregrino e estrangeiro de
passagem vem do Antigo Testamento. Lá o povo foi, por muito tempo,
peregrino no deserto. Era algo bem concreto. No caso dos leitores de
Pedro, também é algo concreto, só que num outro sentido. Não quer
dizer que se trata de gente que não tem onde morar, mas de pessoas
que, embora cidadãos deste mundo, sabem que sua pátria não é aqui
(ver Fp 3.20). Como gente que faz parte do Reino de Deus, somos uma
colônia do céu em território estrangeiro. Somos estrangeiros de passa-
gem por este mundo.
2. Eleitos. Pedro fala disso bem no início da carta (1.2): “eleitos, segun-
do a presciência de Deus Pai”. Não há povo de Deus por acaso.
Somos o seu povo porque ele nos escolheu segundo o seu propósito.
Não por sermos especiais, mas porque ele nos ama. E o amor de Deus
nos torna especiais. Escolhidos também para um propósito? Com cer-
teza, mas isto vem mais tarde (ver 1 Pe 2.9).
3. Pedras vivas, templo, sacerdócio santo. O grande texto aqui é 1
Pe 2.5: “como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual (“tem-
plo espiritual”, segundo a NTLH) para serdes sacerdócio santo (“dedi-
cado a Deus”), a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a
Deus por intermédio de Jesus Cristo”.

Aqui Pedro junta, por assim dizer, duas metáforas: a do templo, feito de
pedras vivas, e a do sacerdócio, que atua dentro dele. Somos pedras vivas
que Deus usa na construção de um templo espiritual. Somos pedras vivas
porque nos achegamos à pedra que vive, Cristo (1 Pe 2.4). Somos também
sacerdócio santo, um grupo de sacerdotes dedicado a Deus. Somos um
grupo de sacerdotes que pertence ao Rei (2.9). O sacerdote é um media-
dor, alguém que representa outros junto a Deus. Na igreja a rigor não
existem sacerdotes, porque a igreja como um todo é sacerdotal. Esta foi e
23
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
continua sendo a grande descoberta da Reforma. A igreja é sacerdotal
antes de tudo em relação ao mundo, assim como o antigo Israel foi um reino
de sacerdotes num mundo que no seu todo pertence a Deus (Êx 19.5-6).

4. Raça eleita, nação santa, povo de Deus. Este é um dos grandes textos
de 1 Pedro: “Vós, porém, sois raça eleita, ....nação santa (“nação comple-
tamente dedicada a Deus”), povo de propriedade exclusiva de Deus (“povo
que pertence a ele”) (1 Pe 2.9). Este texto nos é tão familiar que nem nos
damos conta que “raça eleita”, “nação santa” e “povo de propriedade ex-
clusiva” são epítetos aplicados, no Antigo Testamento, a Israel (Is 43.20;
Êx 19.6; Dt 7.6). Temos agora um novo Israel, um novo povo de Deus.
Novo em Cristo, mas tão povo quanto o antigo Israel.
5. Família de Deus, irmandade. A igreja é, no seu todo, família de
Deus. Não é tanto a família que é igreja, mas a igreja é descrita como
família. Deus é o Pai. Ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (1.3),
mas é nosso Pai também (1.17). Ele nos deu novo nascimento, median-
te a ressurreição de Jesus (1.3). Agora existe uma irmandade (2.17,
“os irmãos”; 5.9). (Aliás, em todo o NT o termo “irmandade” aparece
apenas nestas duas passagens de 1 Pedro.) O que caracteriza a irman-
dade é o amor fraternal (1.22; 3.8).
6. “Ninho” do Espírito. Esta designação é derivada de 1 Pe 4.14: “Sobre
vós repousa o Espírito da glória e de Deus”. Ou, como diz a NTLH, “o
glorioso Espírito de Deus veio sobre vocês”. O Espírito repousou sobre o
Messias (Is 11.2) e agora repousa sobre o povo do Messias. Fomos
ungidos com o Espírito no batismo e agora somos morada de Deus.
7. Cristãos. O termo “cristão” aparece três vezes no Novo Testamento:
At 11.26; 26.28; 1 Pe 4.16. Ao que tudo indica, foram pessoas de fora
da igreja, e não os próprios cristãos, que começaram a usar essa pala-
vra. (O mesmo aconteceu com “luterano”.) “Esses são aqueles que
seguem a Cristo, são cristãos ...” Era usado em tom de deboche, assim
como hoje muitas vezes se fala dos “crentes” e “evangélicos”. Cha-
mar alguém de “cristão” era uma tentativa de ferir alguém, de fazê-lo
sofrer. Ser cristão era o suficiente para alguém ser submetido a sofri-
mento. (O irônico é que, depois disso, já houve tempos em que pessoas
sofreram por não serem cristãos ...) Pedro diz: “Se sofrer como cris-
tão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome”
(4.16). Sou cristão. Este nome é uma honra.

NOSSA AGENDA: PARA COM DEUS


Agenda diz respeito a nossa atitude ou ação. Inicialmente veremos
nossa agenda para com Deus. Depois, nossa agenda na igreja, na família,
e no mundo em geral.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
1. Amor. Em 1 Pe 1. 8 diz: “... Jesus Cristo; a quem, não havendo visto,
amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indi-
zível e cheia de glória ...” É a única vez que Pedro fala do amor a
Deus, neste caso do amor a Jesus. Quem não lembra o famoso “Si-
mão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21) Pedro tinha visto Jesus Cris-
to. Os cristãos aos quais se dirige, não. Mesmo assim eles o amam, e
Pedro faz questão de sublinhar este fato. E o amor aparece em primei-
ro lugar, antes mesmo de mencionar a fé, que leva a exultação, agora, e
salvação, no final.
2. Temor. Duas vezes Pedro menciona o temor a Deus: “Portai-vos com
temor durante o tempo da vossa peregrinação” (1.17) e “temei a Deus”
(2.17). Em 1.17, o contexto deixa claro que se trata de temor diante de
Deus, o juiz imparcial. A pergunta que fica é se este temor é temor
mesmo (uma atitude ou emoção) ou apenas respeito (no sentido de
honra dada a um superior). Interessante é que a NTLH prefere “res-
peito” no primeiro caso (“durante o resto da vida de vocês aqui na terra
tenham respeito a ele”), e opta por temor em 1 Pe 2.17 (“temam a
Deus”). Nossa tendência é suavizar esse “temor”, também na explica-
ção que Lutero dá aos mandamentos (“Devemos temer e amar a Deus
...”). Falamos em temor filial. De fato, em Cristo temos acesso ao Pai
e, como consta numa liturgia antiga, “ousamos dizer: “Pai nosso”. Por
trás deste “Pai nosso” pode estar o “Abbá”, que alguém já sugeriu
fosse traduzido por “Paizinho”. Se isto parece afetivo demais, imagine
o que dirá um muçulmano, para quem a forma como os cristãos se
dirigem a Deus é familiar demais ou até desrespeitosa. Independente-
mente do que pensam aqueles que não conhecem o evangelho, fica a
reflexão se não deveríamos tentar recuperar um pouco o senso de te-
mor ou medo diante de Deus. Em outras palavras: Será que esse
abrandamento do temor não é uma forma de dizer que não levamos
Deus a sério? Será que levamos a sério a realidade do juízo? Estudio-
sos de Lutero em todo caso afirmam que, quando o Reformador escre-
ve “temer e amar a Deus”, na explicação dos mandamentos, aquele
“temer” deve ser tomado no sentido de “ter medo”. Esse temor, quem
o cria em nós é o próprio Deus, através de sua lei.
3. Fome espiritual. Em relação a Deus, esta é nossa agenda fundamen-
tal. Pedro escreve: “Desejai ardentemente, como crianças (“crian-
cinhas”) recém-nascidas, o genuíno (“puro”) leite espiritual, para que,
por ele, vos seja dado crescimento para salvação” (2.2). Já houve
quem lesse este texto como indicação de que Pedro estava se dirigindo
a cristãos recém-batizados, concluindo que 1 Pedro era uma espécie de
sermão batismal. Isto é pouco provável. As crianças ou criancinhas,
como prefere a NTLH, apenas entram como comparativo. Desejar o
25
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
leite espiritual da palavra de Deus deve ser algo tão intenso quanto uma
criancinha reclamar o leite materno. Por outro lado, espichando um
pouco a metáfora das criancinhas, é oportuno perguntar como se chega
à maturidade espiritual. Talvez seja ousado dizê-lo, mas não se chega
lá se não se estiver todo dia no começo do processo, reclamando o leite
espiritual, a exemplo de crianças recém-nascidas. Um Lutero que medita
e ora o Catecismo é um belo exemplo disso.
4. Sacrifícios espirituais. Como grupo de sacerdotes dedicado a Deus,
nossa missão é oferecer “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por
intermédio de Jesus Cristo” (2.5). Trata-se de sacrifícios agradáveis a
Deus em Cristo. Integram, por assim dizer, o ofício sacerdotal de Je-
sus. São espirituais, não porque lhes falte o aspecto concreto ou mate-
rial, mas porque são parte da era do Espírito Santo: são fruto da ação
do Espírito. Não são mais bois e ovelhas queimadas sobre um altar em
Jerusalém, mas são, entre outros, sacrifícios de louvor pela confissão
do nome de Jesus (Hb 13.15) e sacrifícios de intercessão e ação de
graças (1 Tm 2.1-4).
5. Serviço. O texto aqui é 1 Pe 2.16: “Como livres que sois, não usando,
todavia, a liberdade por pretexto da malícia (“para encobrir o mal”),
mas vivendo como servos de Deus”. Livres, mas ao mesmo tempo
servos: este é o paradoxo da vida cristã. São Paulo diz o mesmo em
Romanos 6 (ver os versículos 18 e 22).

Servos de Deus. Não seria melhor, “escravos de Deus” (NTLH)? Aqui


parece que temos dificuldade com ambas as opções. Se “servos” parece
muito brando ou honroso demais, “escravos” parece muito duro ou desres-
peitoso. O que somos, afinal? Verdade é que, à luz de nossa história de
escravatura, nas Américas, o termo “escravo” traz consigo um sentido de
“pessoa que pertence a alguém e lhe presta serviços forçados pelo resto da
vida”, que não está necessariamente associado ao termo grego doulos.
Um doulos também pertencia a alguém e prestava serviços, mas esta não
era uma situação irreversível. Um em cada três moradores do Império
Romano era um “liberto”, isto é, alguém que tinha sido “escravo”. Havia
pessoas que voluntariamente assumiam essa condição de doulos. Isto ser-
ve para mostrar que “servo” é também um título de honra. Nas parábolas
de Jesus, as pessoas que trabalham com e para um rei são os seus “servos”
(douloi). No Antigo Testamento, há vários “servos” de Deus. O próprio
Israel é servo de Deus. Jesus é o Servo do Senhor. Nós somos servos de
Deus: a ele pertencemos, a ele servimos. É uma honra ser servo de Deus.

NOSSA AGENDA: NA IGREJA


1. Amor cristão mútuo, intenso e sincero. Três textos merecem des-
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
taque: “amai os irmãos (na fé)” (1 Pe 2.17); “tendo em vista o amor
fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardente-
mente (com todas as forças)” (1.22); “acima de tudo ... tende amor
intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de peca-
dos” (4.8).

Pedro recomenda o amor. O amor é a receita para uma igreja que tem
problemas, muito mais do que para uma igreja que supostamente vai bem.
O melhor exemplo disso é 1 Co 13, o grande salmo do amor no Novo
Testamento. Seria de esperar que aparecesse talvez na carta aos Filipenses,
mas está mesmo numa das cartas dirigidas à problemática igreja de Corinto.
Se Pedro fala em amor, isto não quer dizer que aquelas igrejas às quais se
dirige tivessem os mesmos problemas que a igreja de Corinto. Se Pedro
lembra o amor, isto se deve ao fato de ser ele um remédio para todas as
horas. Por sermos justos e pecadores ao mesmo tempo, nenhuma igreja é
melhor que a dos coríntios.

Também a nós não faltam problemas. Nunca faltam atritos dentro da


igreja, em parte, talvez, porque nosso alvo é equivocado. Voltamos nossas
“armas” contra nós mesmos, quando o campo de ação é lá fora. É claro,
quem causa o problema, assim pensamos, equivocadamente, são sempre
os outros. Se é verdade que o amor cobre multidão de pecados, pensamos
que isto se aplica aos nossos pecados, não aos dos outros. Na igreja, no
convívio dos irmãos da fé (sim, porque é fácil amar o irmão distante), o
amor, que é paciente, que não anda em ciúmes, que tudo sofre, tudo supor-
ta, nunca sai de moda.

2. Concórdia, compaixão, amizade, humildade. O texto base é 1 Pe 3.


8-9: “Sede todos de igual ânimo (“tenham o mesmo modo de pensar e
de sentir”), compadecidos, fraternalmente amigos, misericordiosos, hu-
mildes, não pagando mal por mal”. Todas estas atitudes e ações, que
são fruto da fé, são uma outra maneira de expressar o amor. Cada qual
merece destaque. De momento, no entanto, queremos sublinhar ape-
nas uma, que nos é tão conhecida: a concórdia.

A rigor, o termo “concórdia” não aparece no texto. Pedro fala em “ser de


igual ânimo”. Expressa isto, no original grego, com uma só palavra, que,
diga-se de passagem, aparece apenas aqui em todo o Novo Testamento:
homóphrones (“tendo o mesmo pensamento”). É um tema que aparece, em
linguagem cognata, em outros lugares do Novo Testamento (ver Rm 15.5; 2
Co 13.11; Fp 2.2; 4.2). Não significa, assim nos parece, que todos pensem e
sintam exatamente as mesmas coisas (o que seria impossível), mas que haja

27
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
uma mesma mentalidade, um mesmo modo de pensar. Em outras palavras,
harmonia ou, então, concórdia. Não necessariamente um uníssono, mas com
certeza um acorde harmônico. Em Cristo, a igreja é una. Esta unidade é um
dom. O que falta, muitas vezes, é concórdia. Formas diferentes de pensar,
doutrinas diversas, e outras coisas constantemente ameaçam a concórdia.
Por isso, vale o lembrete: Sede todos de igual ânimo! Concórdia!

3. Serviço em palavra e ação. O texto é 1 Pe 4.10-11: “Servi uns aos


outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros
(“administradores”) da multiforme graça de Deus (“dos diferentes dons
que receberam de Deus”). Se alguém fala, fale de acordo com os
oráculos de Deus (“quem prega, pregue a palavra de Deus”); se al-
guém serve, faça-o na força que Deus supre (“sirva com a força que
Deus dá”), para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por
meio de Jesus Cristo...”

Os dons de Deus são diferentes, porque sua graça, como diz Pedro, é
“multiforme”. Isto significa que ela é variada ou tem diferentes formas. Pedro
exemplifica com o dom da palavra e o dom do serviço, sem ser necessariamen-
te exaustivo. Quem prega, que pregue a palavra de Deus. Quem serve, que
sirva com a força que Deus dá. Fica implícito que não deve parar de servir,
pois Deus há de suprir forças. Cada qual é despenseiro, mordomo, administra-
dor dos dons que recebeu. E os dons foram recebidos para serviço.

As palavras de 1 Pe 4.10-11 são um princípio operacional de grande


importância para a igreja cristã. Aplica-se à igreja local (que é, ao mesmo
tempo, a una sancta, pois, na medida que tem as marcas da igreja —
palavra e sacramentos — nada lhe falta como igreja) e vale também, com
certeza, para o trabalho de várias congregações num nível paroquial, distrital
e sinodal. É possível que nem todas as congregações de uma área geográ-
fica tenham uma representação de todos os dons. O mesmo vale para a
igreja em âmbito nacional. Uma congregação precisa da outra e o serviço
é mútuo. Congregações, paróquias ou distritos que se isolam, impedem que
esse princípio operacional do serviço mútuo seja colocado em prática. Quem
se fecha em si mesmo, tanto impede a saída dos dons da multiforme graça
de Deus para o serviço a outros quanto impede que os dons que outros
receberam possam ser colocados a serviço em seu meio.

Deus quer promover e de fato promove entre nós uma boa administra-
ção dos dons. Exemplo disso são os dons do ministério, ou seja, pessoas
que se preparam para o ministério. Há congregações ou distritos que rara-
mente são agraciados com um dom neste sentido. Já outras congregações

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
têm sido agraciadas com tantas vocações que, se quisessem reter todos
esses dons, teriam, quem sabe, mais de 20 ou 30 pastores! Louvemos a
Deus pelos dons de sua multiforme graça!

NOSSA AGENDA: NA FAMÍLIA


A agenda na família se resume à atuação de esposas e maridos, ou seja,
não há, em 1 Pedro, uma palavra dirigida aos filhos e aos pais. E a agenda
de esposas e maridos aparece no contexto da assim-chamada “tábua dos
deveres domésticos” (que ainda hoje é conhecida pelo termo técnico
Haustafel, que foi cunhado por Lutero) ou “regra do lar”. Em 1 Pedro,
essa “tábua dos deveres” começa com uma palavra dirigida a todos, em
2.17: “Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei”.
A partir daí, há uma palavra específica para os servos (2.18-25), as mulhe-
res (3.1-6), os maridos (3.7), e uma conclusão em 3.8: “Finalmente, sede
todos de igual ânimo ...” Não se tem em vista, aqui, “relações de escolha”
como, por exemplo, a amizade (ou seja, não há uma palavra dirigida aos
amigos), mas apenas “estruturas” ou “instituições da sociedade”, também
conhecidas como “ordens de preservação” do mundo. Queremos desta-
car o que é dito às esposas, e o que é dito aos maridos.

1. Esposas: submissão, conduta, beleza interior. “Mulheres, sede


vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido, para que, se ele
ainda não obedece à palavra (“se ele não crê na mensagem de Deus”),
seja ganho (“levado a crer”), sem palavra alguma, por meio do procedi-
mento de sua esposa, ao observar o vosso honesto comportamento cheio
de temor. Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado
de cabelos (“penteados exagerados”), adereços de ouro, aparato de
vestuário (“jóias ou vestidos caros”); seja, porém, o homem interior do
coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranqüilo,
que é de grande valor diante de Deus”. (3.1-4)

Muito se poderia dizer a partir deste texto, mas como este é um con-
gresso de leigos, embora tenhamos aqui bom número de servas também,
quero limitar-me a apenas algumas observações.

Antes de tudo, uma palavra a respeito de submissão. É um tema que


muitos evitam, por ser considerado herança dos tempos patriarcais que já
se foram! Mas é um tema que está aí, bem à nossa frente, no texto. Não
podemos ignorá-lo.

Para quem pensa que o Novo Testamento simplesmente reflete o


patriarcalismo daquele tempo, onde as mulheres não tinham voz nem vez,

29
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
lamento dizer que não é bem este o quadro que os historiadores da época
nos pintam. O próprio Novo Testamento permite um quadro diferente. Não é
assim que hoje as mulheres se emanciparam e que, naquele tempo, o mundo
era só dos homens. Naquele tempo também havia mulheres, e mulheres. As
mulheres gregas tendiam a ser mais apagadas ou confinadas ao lar; as mulhe-
res romanas, por outro, eram ativas na sociedade. Exemplo disso é Lídia (At
16), que morava ou, ao menos, estava em Filipos, uma colônia romana. Era
uma empresária! Além disso, as palavras de Jesus em Mc 10.12 têm em vista
o contexto romano: a mulher é vista repudiando seu marido!

E que dizer da submissão? Nosso problema é que ouvimos a palavra


“submissão” a partir do prefixo “sub”, que imediatamente lembra, por as-
sim dizer, um pé colocado sobre o pescoço de alguém (neste caso, a mu-
lher). No original grego, onde o verbo é hypotássein, a ênfase está no
radical tássein (“ordenar-se”), presente em palavras como taxionomia e
outras. O que Deus quer quando fala em “subordinação” é simplesmente
que as pessoas adaptem-se às instituições existentes, sem querer criar uma
nova. Se isto não soa convincente, pois acaba de qualquer forma, como se
diz, “sobrando para as mulheres”, é bom lembrar que o mesmo verbo é
usado para falar de Cristo, na passagem de 1 Co 15.28. No maior dia da
história, o dia final, Cristo se sujeitará, isto é, subordinará ao Pai, para que
Deus seja tudo em todos.

Uma segunda palavra a respeito do testemunho silencioso. Tudo indica


que havia mais mulheres nas igrejas a que Pedro se dirige, ao menos muitas
mulheres cujos maridos não eram cristãos. Pedro as estimula a dar um
testemunho silencioso de sua fé. Por que isto? Porque pouco ou de nada
adianta falar muito, se as atitudes falam tão alto que os outros não conse-
guem ouvir o que estamos dizendo! Como alguém observou, este “sem
palavra alguma” não significa que seja “sem a Palavra”.

Mais um comentário, desta vez a respeito da questão dos enfeites (v.3).


É preciso notar o contexto em que isto é dito. Está no mesmo contexto do
“ganhar o marido sem palavra alguma”. Parece que Pedro está dizendo:
Também os enfeites e as jóias não vão dar conta do recado, se não houver
“honesto comportamento cheio de temor” (v.2). O versículo 4 confirma
isto ao apontar para a beleza interior, que é de grande valor diante de Deus
e, por certo, também aos olhos do marido. Afinal, beleza exterior é algo
relativo e passageiro.

2. Maridos: discernimento e respeito. “Maridos, vós, igualmente, vivei


a vida comum do lar (“a vida em comum com a esposa”), com

30
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como
parte mais frágil (“o sexo mais fraco”), tratai-a com dignidade (“deve
ser tratada com respeito”), porque sois, juntamente, herdeiros da mes-
ma graça de vida (“a esposa também vai receber, junto com você, o
dom da vida, que é dado por Deus”), para que não se interrompam as
vossas orações”. (3.7)

Pedro se dirige aos maridos, e subentende-se que sejam cristãos. Não


fala de direitos; ao contrário, pede discernimento e consideração. Fala da
mulher como “parte mais frágil”, mais fraca, ou, “o sexo mais fraco” (NTLH).
Também isto provoca reações de toda ordem. Fala-se do “sexo frágil”, ao
que uma canção gravada por Erasmo Carlos responde, dizendo tratar-se de
uma “mentira absurda”. Acontece que o texto não diz bem isso. Fala em
parte “mais frágil” ou sexo “mais fraco”. Ora, este é um fato biológico,
comprovado, por exemplo, em todas as modalidades esportivas. Além dis-
to, o “mais frágil” dá a entender que também o sexo masculino é frágil. E
é, de fato. Uma reportagem publicada na revista Veja, na semana do 15º
Congresso Nacional da LLLB (22 de agosto de 2001), sob o título “Ho-
mens também choram”, dá conta que “o sexo masculino lidera as estatísti-
cas mundiais de suicídio, de mortes violentas, de envolvimento com álcool.
De cada quadro dependentes de drogas em todo o mundo, três são homens.
Eles vivem, em média, dez anos menos que as mulheres. E também são
mais acometidos por doenças cardiovasculares, crises de hipertensão, dia-
betes e obesidade”. (p. 118)

Ter consideração pela mulher como parte mais frágil é outra forma de
falar de amor (ver Ef 5.25). Pedro justifica esse respeito à esposa com o
fato de tanto o esposo cristão quanto sua mulher serem, juntamente, herdei-
ros da mesma graça de vida. Isto lembra Gl 3.26-28. Se a gente leva em
conta que, naquele tempo, em muitos lugares a mulher não era considerada
herdeira, esta afirmação de que a mulher também é “herdeira da mesma
graça de vida” deve ter calado fundo na alma daquela gente.

Pedro tem ainda, ou, melhor, começou sua Haustafel com uma palavra
dirigida aos servos (2.18-25). Estes eram, pelo que o termo grego oikétes
dá a entender, escravos ou servos domésticos. Faziam parte da grande
família, isto é, moravam e trabalhavam na casa de seu senhor. Já explica-
mos, acima, que ser escravo naquele tempo não era exatamente a mesma
coisa que ser escravo nas Américas. Interessante nesta palavra aos ser-
vos é que o apóstolo prevê a possibilidade de alguém sofrer injustamente,
por motivo de sua consciência para com Deus (v.19). Este é um eco da
famosa clausula Petri ou o “princípio petrino” de At 5.29: Há momentos
31
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
em que obedecer a Deus é mais importante do que obedecer a homens,
mesmo que isto custe sofrimento.

Não há menção de senhores, aqui em 1 Pedro. Será que isto quer dizer
que a igreja era feita só de escravos? Embora muitos pensem que o cristi-
anismo era um movimento das classes pobres e que apenas “vingou” no
Império Romano porque era a chance de ascensão social dos escravos, o
Novo Testamento não permite esta leitura rasante ou superficial da situa-
ção. Aqui em 1 Pedro, no entanto, este parece ser o caso: Não há senho-
res, só escravos. Agora, é preciso ter cautela. Argumentar com o silêncio
é perigoso. Afinal, o texto também não cita os filhos, o que não significa
que a igreja só tinha pais ou gente adulta!

NOSSA AGENDA: NO MUNDO EM QUE VIVEMOS


Além de destacar a importância da santidade (1.14-14), do viver para a
justiça (2.24), e da prática do bem (2.20; 3.13,17; 4.19), Pedro enfatiza o
testemunho diante daqueles que não são cristãos.

1. Testemunho por atitude. O testemunho, como disse alguém certa


vez, é como um avião que, para voar, precisa de duas asas. Existe o
testemunho da vida, das atitudes, e também o testemunho em palavra.
Do testemunho da vida Pedro trata ao longo de toda sua epístola (ver
também 1 Pe 2.11-12).
2. Testemunho em palavra. Existe também o testemunho em palavra, e
é para este que nos voltaremos agora. Pedro trata disso em 2.9: “a fim
de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a
sua maravilhosa luz”. Este “proclamar” com certeza envolve palavras.
Mas a passagem que está mais diretamente relacionada com a
evangelização é 1 Pe 3.14b-16: “Não vos amedronteis, portanto, com
as suas ameaças, nem fiqueis alarmados (“preocupados”); antes,
santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre
preparados (“prontos”) para responder a todo aquele que vos pedir
razão da esperança que há em vós (“que expliquem a esperança que
vocês têm), fazendo-o, todavia, com mansidão e temor (“com educa-
ção e respeito”), com boa consciência (“consciência limpa”).

O grande destaque deste texto, que se relaciona diretamente com o


lema deste Congresso, “E o levou a Jesus”, é aquele “estando sempre pre-
parados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança
que há em vós”. Em que sentido deveríamos entender este “estar prepara-
do”? Seria apenas um estar disposto ou ter vontade de fazer algo? Certa-
mente que não. Estar preparado subentende que se tenha tido preparação
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
para responder ou fazer uma defesa (o termo grego é apologia) da razão
da esperança que se tem. Como aquele era um ambiente hostil, Pedro
encoraja os cristãos: “Não vos amedronteis!”

Neste ponto, cabem algumas reflexões sobre o “dar razão da esperança


que há em nós”. Em primeiro lugar, é bom notar que esta palavra não se
dirige direta ou exclusivamente aos pastores (estes só entram em cena no
capítulo 5). Nossa tendência é olhar para os apóstolos de Jesus e pensar
que foram grandes heróis solitários. Isto é um equívoco. Paulo tinha uma
equipe de colaboradores. Pedro escreveu esta carta (1 Pedro) com a ajuda
de Silas (5.12). Os grandes missionários da igreja antiga foram aqueles
cristãos que nós hoje chamamos de leigos. Naquele tempo, como ainda
hoje, há momentos em que o testemunho destes, em casa, no trabalho, etc.,
é bem mais eficaz do que o sermão do pastor na igreja.

Talvez alguém pergunte: Por que nos é tão difícil testemunhar? É pos-
sível que tenhamos um problema de auto-imagem. Achamos que não so-
mos o tipo de pessoa talhada para isso. Nos sentimos “verdes”, ainda não
prontos para falar.

É possível que tenhamos idéias errôneas a respeito dos outros. Nossa


tendência é colocar as pessoas em categorias e generalizar. Talvez pense-
mos assim: “Todos aqueles que não fazem parte da igreja ou não freqüentam
uma igreja já foram confrontados com o evangelho e o rejeitaram”. Outro
preconceito: “Gente rica ou em posição de destaque tem menos chance de
responder ao evangelho do que gente pobre e mal de vida”. Mais um: “Gente
idosa está mais aberta ao evangelho do que pessoas recém-casadas”.

Outro fator é o medo. Existe o medo de passar vergonha. Nossa tendên-


cia natural é fugir de situações em que somos rejeitados ou ridicularizados.
Existe também o medo de perder a discussão e o medo de fracassar. O
sucesso de grandes evangelistas, muitas vezes usado para nos entusiasmar, é
o modelo que vira lei, pois nos acusa em nosso fracasso. Neste ponto é bom
lembrar que não podemos assumir o papel de Deus (querendo provocar a
conversão), nem a responsabilidade do outro (caso ele rejeite o evangelho).

Se temos tido nossos fracassos, se negamos conhecer o Salvador, é


bom lembrar que Pedro não foi diferente. Também ele teve altos e baixos.
A grande comissão de Cristo (Mt 28.16-20) foi dada, não num contexto de
fé heróica, mas num contexto onde “alguns tiveram suas dúvidas” (Mt 28.17).
Como disse alguém, este pequeno detalhe ajuda a humanizar a grande co-
missão. Além disso, não se pode perder de vista a graça de Deus, que é
para nós também.
33
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Talvez nos perguntemos quanto ao conteúdo de nosso testemunho. Sem
dúvida, é importante saber verbalizar a mensagem. Além disso, convém
ater-se ao essencial, isto é, de fato dar razão da esperança que há em nós.
Para falar do que cremos, não existe um só roteiro, perfeito e imutável. O
roteiro do Credo, que confessamos no culto, é, talvez, o melhor que pode-
mos usar.

Para estarmos preparados, ou, então, melhor preparados, podemos nos


treinar mutuamente. A congregação pode, neste sentido, ser a nossa esco-
la. Temos ali um “ambiente protegido”, uma área fechada semelhante a
um terreno baldio onde se aprende a dirigir um automóvel. Ali, através de
estudos, dramatizações, etc. podemos nos preparar melhor para “dar razão
da esperança que há em nós”. Tudo para que possamos viver à altura do
lema “E o levou a Jesus!”

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

SENTIDO E CONTEÚDO NA PROCLAMAÇÃO CRISTÃ:


SUBSÍDIOS PARA UMA REFLEXÃO A PARTIR DA
LEITURA EM LUTERO NO 1º CAPÍTULO
DO EVANGELHO DE JOÃO
Paulo P. Weirich*

INTRODUÇÃO
1. A palavra proclamada tem sido essencial à vida da igreja
Não é possível imaginar a fé cristã, tal como aconteceu na história, sem o
concurso da palavra proclamada. O anúncio da palavra é considerado entre
o povo como o aspecto que dá conteúdo e caráter ao culto da igreja. Entre-
tanto é também nesse aspecto da centralidade da palavra que a fé cristã
parece ter sido mais vulnerável e atacada. As tentações de Jesus no deserto
demonstram isso. Cada tentação, na verdade, implicava o pressuposto bási-
co: Qual é o verdadeiro conteúdo ou sentido do que se diz? É verdade que a
palavra tem mesmo um sentido claro e irreformável? O que se diz e se acre-
dita é realmente fiel ao que foi dito? As palavras não poderiam significar algo
mais do que isso que se supõe? A relação entre palavra e conteúdo pode ou
não ser questionada? O que dá conteúdo ao texto bíblico?

A constatação da dubiedade de sentido nas palavras foi realmente a


questão central em qualquer debate diante da infiltração de desvios e here-
sias. Entre os luteranos, talvez seja possível apontar para a Fórmula de
Concórdia como o testemunho mais vivo do debate sobre a possibilidade de
uma palavra trazer em si sentido que seja real, verdadeiro e confiável.

O século XX, de cujos pressupostos somos herdeiros, foi testemunha,


talvez, do ataque mais contundente e radical na tentativa de afirmar que a
palavra não é instrumento confiável para a transmissão e comunicação de
conteúdos válidos.

Entretanto, na virada do século XXI a igreja luterana insiste em dizer o


contrário, isto é, a palavra não somente é instrumento válido como é o
instrumento que Deus preparou para o anúncio da palavra de salvação até
*
Rev. Prof. Paulo P. Weirich, S.T.M., é professor de Teologia Prática no Seminário Concórdia e
na Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). No Seminário, Prof. Paulo Weirich exerce
também as funções de Coordenador de Pré-estágio. Este artigo é resultado da aula inaugural
apresentada à comunidade acadêmica do Seminário em 26 de fevereiro de 2002.
35
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
a revelação final da palavra. A palavra que a igreja anuncia é a palavra que
devolve ao ser humano o seu lugar na criação e o acompanha na direção da
sua nova criação. Para tanto, a igreja depende da palavra.

Lutero, que foi instrumento de Deus na preparação da caminhada da


igreja nos últimos quase cinco séculos em direção à modernidade, ainda
continua sendo o referencial para aquele que se apresenta como mensagei-
ro ou candidato a mensageiro dessa palavra no relativismo da pós-
modernidade.

Ebeling inclusive define Lutero como um acontecimento lingüístico e se


refere a ele como gênio lingüístico.1 Mais adiante afirma: “A obra de Lutero
visava a palavra”.2

Esse estudo procura, a partir de uma breve leitura de Lutero na sua


exposição do Evangelho de João, capítulo 1, alguns indicativos que demons-
tram a necessidade de uma permanente releitura em Lutero e também o
estímulo de saber que a partir do seu labor teológico na palavra para uma
permanente renovação na proclamação da Palavra. Ao mesmo tempo fica
o desafio a que em momento nenhum a igreja e aqueles nela responsáveis,
relaxem a vigilância e até luta para que seja instrumento fiel da proclama-
ção que Deus tem para o mundo.

A PERGUNTA PELO SENTIDO NA PALAVRA


2. A linguagem como veículo de conteúdo
Em 1973, Joseph A. de Vito, publicou Language: Concepts and Pro-
cesses, reunindo artigos de autores como Noam Chomski, Bertrand Russel,
Hayakawa, George Orwell e outros, representativos de diversas áreas do
conhecimento mas que em algum momento da sua trajetória fizeram a si
próprios a mesma pergunta, uma pergunta que, para muitos, poderia pare-
cer ociosa e supérflua. Para eles, entretanto, tornou-se um dos questio-
namentos essenciais na caminhada do ser humano em busca da auto-com-
preensão definitiva. A pergunta se desdobra: Qual a relação da linguagem
com o pensar? Qual a função da linguagem na comunicação? Até que
ponto podemos comunicar sentido naquilo que dizemos?

Na virada para o século XX o mundo ocidental se questionava sobre se a


humanidade realmente poderia encontrar sentido para a existência humana. As
certezas de um certo cristianismo dependente dos ditames da autoridade eclesi-

1
Gerhard Ebeling, O Pensamento de Lutero (São Leopoldo: Sinodal, 1988), 20.
2
Idem, p. 33.

36
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
ástica, a convicção implícita na filosofia de que o homem é a medida de si próprio
e que a resposta de tudo era somente uma questão de tempo, a certeza de que a
ciência e a razão humana trariam a cura e o novo caminho para o ser humano,
essas e outras certezas semelhantes estavam sendo questionadas. A crescente
intensidade da comunicação, se a princípio dá esperanças de apressar o advento
de uma revelação final de libertação da sociedade humana, começava a ser ques-
tionada nas suas raízes pondo em dúvida o nascente pressuposto da modernidade
de que a linguagem da ciência seria a linguagem última e definitiva.

Os cristãos, por sua vez, que na virada para o século XX intensificaram


o esforço missionário para a conversão dos que eram chamados de pagãos
e até ignorantes, também começavam a questionar-se sobre as estratégias,
o progresso e os pressupostos ocidentais que, vistos como sinal de sobera-
nia cristã sobre o mundo, entretanto começavam a esbarrar naquilo que se
conhece como as barreiras transculturais em que muitos pressupostos vis-
tos como óbvios e até bíblicos passaram a ser questionados.

Em 1977, a Universidade de São Paulo publica um livro que reúne tex-


tos de Jean Ladriere, filósofo e lingüista francês, intitulado A Articulação
do Sentido, ou como Ladriere preferiria tê-lo chamado: “Discurso Cientí-
fico e Palavra da Fé”. O autor parte da pergunta fundamental: Como
pode a linguagem significar? Que é, portanto, a significação? Até que pon-
to conteúdos podem ser realmente traduzidos em linguagem mutuamente
compreensível? A linguagem da fé, vista por cristãos como a linguagem do
significado absoluto é vista como “a formulação de uma ingênua represen-
tação da realidade”3 que necessita ser explicada ”no quadro de uma teoria
científica adequada”.4

Em 1978, David Hasselgrave, teólogo e missionário protestante, enve-


redava por esse campo de pesquisa com a 1ª edição de Communicating
Christ Cross Culturally. Após 15 tiragens, em 1991, este trabalho recebeu
uma segunda edição ampliada. Este material foi traduzido no Brasil e publi-
cado em três volumes em 1996. A presente leitura tanto se reporta à 1ª
edição original como à 2ª edição em sua tradução brasileira.

A questão do sentido no conteúdo da proclamação cristã entretanto não


é novo. A linguagem é representativa de um sentido absoluto? Existe uma
linguagem apropriada da fé? A fé e o divino podem ser expressos em
linguagem humana ou naquilo que Lutero chama a linguagem da razão? Em

3
Jean Ladriere, A Articulação do Sentido (São Paulo: EDUSP, 1977), 6.
4
Ibid.

37
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
que sentido a linguagem da fé depende do respaldo científico da lingüística
ou linguagem científica para revelar conteúdos e fazer sentido?

A fé cristã é fé proclamada para ser ouvida (Rm 10). “Bem-aventura-


dos são os pés daquele que anuncia boas novas” (Is 52.7) é uma das
palavras bíblicas que aponta para a nobreza e a sublimidade da função dos
porta-vozes da palavra. Nas palavras conhecidas de Lutero, “o ofício mais
nobre sobre a face da terra”.

A porção rural brasileiro-germânica da Igreja Evangélica Luterana do


Brasil (IELB) já não é a comunidade fechada de códigos implícitos de
alguns anos atrás. Anunciar a palavra hoje, em qualquer região do Brasil,
modificou-se tremendamente. Qual o sentido da palavra família nas perife-
rias das metrópoles, nas pequenas cidades e no interior? O que significa
justificação pela fé, conceito tão caro para luteranos? Qual é a dimensão e
quais são os limites da tarefa de anunciar a palavra de Deus que faz sentido
para o ser humano agora?

Se realmente a proclamação da palavra é a tarefa mais sublime e elevada


sobre a terra, a ela também se agrega a dificuldade que identificamos. Essa
dificuldade não pode ser sublinhada suficientemente. Entretanto, a perplexi-
dade de quem vê as dificuldades como intransponíveis no estágio em que
estamos e que leva muitos a questionar o sermão tradicional como forma de
comunicação, estão mais nos pressupostos de quem não vê na linguagem da
fé uma parceira na articulação do sentido. Esse breve ensaio se vale do
tratamento dado por Lutero ao conceito Palavra de Deus especialmente na
sua exposição do primeiro capítulo do evangelho de João, onde Lutero con-
fronta a linguagem da razão e a linguagem da fé, denunciando os pressupos-
tos e afirmando a sublimidade da tarefa do pregador da Palavra.

3. Palavra e conteúdo: a palavra é Deus.


Jaroslav Pelikan, um dos editores das obras de Lutero em língua inglesa,
Luther’s Works, acrescenta-lhe um volume do editor, que ele denominou
Luther the Expositor. Em definindo a natureza desse volume, Pelikan
justifica a necessidade desse trabalho ao dizer que as introduções a cada
texto de Lutero na coleção, especialmente os textos de interpretação bíbli-
ca, estão limitados ao momento histórico do texto. Estas introduções histó-
ricas não esgotam a informação a que o leitor tem direito caso queira ler as
obras de interpretação (bíblica) de Lutero de maneira inteligente.”5

5
PELIKAN, Jaroslav. Luther the Expositor. In: Luther´s Works: Companion Volume, Jaroslav Pelikan, ed.(Saint
Louis: Concordia Publishing House, 1959), ix. Doravante Luther´s Works será abreviada por LW. As tradu-
ções, nesse ensaio, se não indicado de outra maneira, são traduções livres do autor a partir das obras citadas.

38
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
No capítulo 3 desse volume, Pelikan se debruça sobre a expressão Pa-
lavra de Deus para sublinhar o esforço interpretativo de Lutero. Pelikan, a
partir de Lutero, propõe que a história da teologia é a história da manifesta-
ção pública de Deus através da pregação da palavra. Lutero é alguém que
faz teologia quase contra a vontade porque vê no seu trabalho acadêmico a
responsabilidade de levar a igreja a pregar a palavra com clareza e
pureza.Todo o esforço teológico é validado enquanto esforço que visa cla-
rificar essa manifestação pública:

A História da teologia é, evidentemente, o aspecto mais em evidência da


história do Cristianismo na qual a interpretação das Escrituras exerceu pa-
pel proeminente – especialmente se a história da teologia, como é de espe-
rar, inclui a história da pregação cristã.6 Em O Pensamento de Lutero7
Ebeling afirma que a docência acadêmica ...intimamente ligada à prega-
ção, foi o ponto de partida e o rumo da Reforma. Althaus abre o capítulo
Die Heilige Schrift dizendo: A Palavra é, para Lutero, acima e além de
tudo, palavra oral, isto é, a viva proclamação para a atualidade. Mas é
palavra comprometida (gebunden) com a palavra apostólica. 8 Com essa
nota de abertura, Pelikan procura mostrar como é difícil e ao mesmo tempo
fascinante o esforço de classificar Lutero como teólogo. Será ele um siste-
mático? um exegeta? historiador? Um pregador circunstancial? De que
escola? Todo esforço esbarra no próprio Lutero, que insiste em negar e
impedir qualquer sucesso a quem se aventura nessa empreitada.

Pelikan parece indicar em Lutero uma dimensão teológica que se recu-


sa a ser limitada por um sistema ou sistematização que transformasse a
revelação divina em axiomas que pudessem ser repetidos em todos os tem-
pos. Lutero parece ter se deixado levar para além da tentativa comum a
qualquer ser humano de cativar para si e dominar a revelação divina a
partir da sua compreensão pessoal. A revelação de Deus foge ao controle
de Lutero e Lutero não se ressente de ser dominado pela revelação.

Lutero também não limita o ser humano. Ele contempla e segue o ser humano
sem tentar reduzi-lo a um estereótipo teológico ou filosófico. O ser humano
também está para além do domínio imediato de Lutero. Cada ser humano está em
conexão imediata com Deus a partir da criação, conexão essa que é única e
individual. Essa conexão entre Deus e o ser humano está na palavra.

6
Idem, p. 5.
7
Gerhard Ebeling, O Pensamento de Lutero (São Leopoldo: Sinodal, 1986), 20 e 33.
8
Paul Althaus Die Theologie Martin Luther’s (Gütersloher Verlagshaus, 5. Auflage, 1980), 71 ss.

39
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Werner Elert aponta para o fato de Lutero dizer que escrever livros a
respeito da fé não é próprio. O evangelho é por si só um fenômeno da procla-
mação e essa, oral. Como, entretanto, escrever tornou-se necessário, muito se
perdeu da proclamação original e nos questionamos sobre o seu sentido9.

Por essa razão a revelação de Deus, a Palavra de Deus, é para Lutero


mais do que um texto a ser dissecado. A Palavra é o próprio Deus em
manifestação pessoal. A Palavra não é meramente uma opção de Deus
diante da necessidade de comunicar-se, tal como nós optamos entre escre-
ver ou falar, ou gesticular. Em sua explanação de João, Lutero diz: “Temos
de compreender que a Palavra de Deus é totalmente diferente da minha ou
da vossa palavra”.10

Mais adiante Lutero acrescenta que a Palavra estava em Deus mesmo antes da
criação e esta palavra era Deus. Assim como as fortes emoções de um homem se
traduzem em sons e são inseparáveis dessa mesma emoção, assim Deus estava
grávido da Palavra A palavra da boca somente tem substância quando é a palavra
do coração. Caso contrário ela não tem sentido.11 Lutero afirma:

Deus, em sua majestade e natureza, está grávido de uma pala-


vra ou assunto que ele tem consigo mesmo na sua essência
divina e que reflete os pensamentos do seu coração. Isto é tão
completo, excelente e perfeito como o próprio Deus. Ninguém,
além de Deus mesmo, vê, ouve ou compreende esta conver-
sação. Essa palavra, esta conversa do coração de Deus é o
seu filho que Deus carregou no ‘seu seio ou coração’.12

Ao ver na Palavra o próprio Deus como gerado de Deus, como uma


gravidez divina (sic), Lutero confere uma dimensão diferente à própria dou-
trina da Trindade.13 E assim faz da Bíblia algo mais do que um registro das
idéias ou atos de Deus. A Bíblia, no seu conteúdo, está para além da lingua-
gem que a ciência humana possa abarcar. Em conseqüência, a pregação do
evangelho, ao trazer Deus para a realidade “escapa à compreensão huma-
na”. Não podemos compreender o que se passa no coração de Deus.14

Quando Deus fala e se manifesta, rompendo o silêncio, a Palavra falada é o


próprio Deus manifestando a sua natureza e o seu mais íntimo ser. A Palavra e

9
Werner Elert, The Structure Of Lutheranism (St. Louis: Concordia, 1962), 188.
10
LW 22, 8.
11
Ibidem.
12
LW 22.
13
LW 22, 15.
14
LW 22, 8 e 9.

40
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
ação estão inseparáveis de Deus. A história estava em Deus antes de ser
desencadeada pela Palavra. Os acontecimentos que a história registra são por
isso o sinal e registro da presença de Deus como gerada e sendo gerada dele. O
pecado não somente mudou o homem e o mundo. O pecado mudava por isso o
próprio Deus, na medida em que alterava a sua palavra. A palavra era Deus.
Razão porque Deus intervém. E a intervenção que se mostra na pergunta “Onde
estás?” (Gn 1.9) é Deus presente revelando que a sua natureza não sofreu a
mudança e também não pode ficar alheio ao que se passou. Ele permanece o
mesmo. Esse “novo mundo” que Adão e Eva desencadearam ainda é o mundo
que nasceu da Sua palavra, nasceu do Seu coração, numa extensão de Si próprio.
Essa fidelidade de Deus ao seu mundo também é fidelidade a Si próprio, fidelida-
de essa manifestada no Verbo que vem ao mundo e nele revela quem é Deus e
qual a sua relação com o mundo e com o Verbo gerado.

Lutero afirma: “João mostra que havia em Deus um Discurso ou Palavra


que ocupava Deus na sua totalidade, que era o próprio Deus, uma palavra tão
grande quanto o próprio Deus. Realmente a palavra é o próprio Deus.”15

4. A Palavra é ação de Deus.


Em Lutero Deus não é apático, ausente ou indiferente. Deus está per-
manentemente ocupado com pensamentos e palavra. E como estes são o
próprio Deus, tudo que Deus pensa ou fala é conseqüente. O discurso de
Deus não especula nem vagueia a esmo. Isto é contra a sua natureza. Sua
palavra é, portanto, a sua ação, porque na palavra ele está e atua.

A ação de Deus é desencadeada pela palavra, e somente essa desenca-


deia a ação criadora e, por isso, revela a sua natureza. E esta se manifesta
no ato da encarnação da palavra. Tudo que Deus quis mostrar do seu ínti-
mo, da conversa que mantinha intensa consigo mesmo desde a eternidade,
o discurso eterno de Deus, a sua natureza própria, sua vida interior, está
manifesto na sua palavra encarnada. Lutero resume dizendo:

O que aprendemos até agora dos versículos de abertura da


carta de S. João é que o evangelista definiu nosso querido
Senhor e Salvador Jesus Cristo como a palavra do eterno Pai
e, com ele, como verdadeiro Deus desde a eternidade. . . .
Além disso, essa Palavra é também a luz e a Vida do homem.
E desde o princípio essa palavra sempre falou pela boca dos
patriarcas e profetas até o tempo de João Batista. Essa pala-
vra não tem princípio nem fim.16
15
LW 22, 12, 13, 15
16
LW 22, 37

41
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Dessa forma, a Escritura Sagrada é vista por Lutero sob dois aspectos.
Ela é registro ou imagem fiel de Deus e, no dizer de Lutero, o próprio Deus
e proclamação fiel a Deus. Não são os profetas que testificam de Cristo
como se alguma coisa dependesse deles ou que fossem eles detentores de
algo. A revelação não é revelação dos profetas. Inversamente, os profetas
são os instrumentos que a revelação, a palavra de Deus, utiliza para estar
presente pessoalmente no mundo e no seu povo. Ouvir profetas, portanto,
significa não se deixar conduzir e levar por pessoas, porque no profeta e
através do profeta fala Deus. Esse Deus é Palavra. Essa palavra é Cristo.

Em Lutero esse conceito é fundamental para a pregação Quando se diz


que Deus é o autor da Escritura, não se entenda autor como alguém que
redige uma mensagem ou pinta um quadro. Tanto Cristo como a palavra
são gerados por Deus e por isso ambos espelham fielmente Deus, como um
filho reflete qualidades e atributos característicos do pai (Jo 16.15).17

Em um artigo intitulado Christus, der Herr der Schrift, Gottfried


Hoffmann18 encontra em uma das edições do comentário de Lutero aos Gálatas
aquilo que, no seu entender, era o pressuposto mais presente e representativo
da teologia da palavra em Lutero. Lutero argumenta a partir da hipótese
impossível. Mesmo que os adversários pudessem trazer argumentos
irrefutáveis da Escritura Sagrada a favor da sua teologia das obras e que
Lutero não mais tivesse argumentos da Escritura a contrapor, mesmo então

... escolho dar a honra somente a Cristo e crer nele em vez de


ceder a todas as passagens bíblicas que eles pudessem alinhar
contra a doutrina da fé para estabelecer a justificação pelas
obras. Nesse caso deve-se responder-lhes simplesmente isto:
Aqui está Cristo e lá estão os testemunhos da Escritura sobre
leis e sobre as obras. Entretanto Cristo é Senhor sobre a Escri-
tura e todas as obras, bem como ele é o Senhor sobre céus e
terra, sobre o sábado, o templo, a justificação, a vida, a ira, pe-
cado, morte e tudo o mais, e é disso que Paulo, seu apóstolo,
prega, de que ele se tornou pecado e maldição por mim.19

Com isso Lutero não está contrapondo Cristo e Escritura, mas está mos-
trando sua coerência diante do fato de que a Escritura é a manifestação que
Deus decidiu fazer de si próprio. A Escritura acaba sendo para Lutero dessa
maneira o próprio Deus. Uma vez que aquilo de que Deus estava grávido

17
LW 22, 14, 19-20.
18
Gottfried Hoffmann, “Christus, der Herr der Schrift” . Lutherische Theologie und Kirche, 12 (Dez. 1988): 122.
19
Ibidem.

42
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
desde a eternidade (para permanecermos na figura de Lutero) se manifestou
por voz dos profetas, nada na Escritura pode ser visto sob outra luz e nada
pode contradizer, ferir ou diminuir o sentido dessa manifestação.

5. Cristo é o sentido da ação de Deus


Nenhuma passagem da Escritura pode ter luz própria. Somente Cristo
é luz que ilumina e revela o sentido de cada parte da Escritura. O pressu-
posto, se queremos utilizar essa linguagem, é sempre Cristo, sua palavra e
sua obra, seus próprios pressupostos e fins. Cristo, dessa maneira, é não
somente o objeto da Escritura, mas também o seu autor, seu princípio e seu
fim (Jo 5.39; Rm 10.4; Ap 22. 9-10,13).

Por isso as Escrituras não podem se contradizer. Elas não são o resulta-
do de muitos autores, mesmo que muitos a tenham escrito. Os textos não
têm autoridade própria porque sua autoridade depende do seu autor. E o
autor único é Deus numa dimensão que foge à razão natural: Deus gerou a
palavra, a sua única palavra. Deus não tem outra palavra. Desta palavra
parte e para ela converge toda a Escritura. Ter a fé em Cristo resulta em
compreensão final da Escritura. Em Lutero, a fé abre o entendimento para
o conteúdo da escritura permitindo ver o universo sob uma nova perspecti-
va. Nada além da fé pode compreender isso”.20

Como Deus não registrou de outra maneira a sua Palavra, a Escritura


tem as qualidades, atributos e autoridade que lhe conferem o seu autor.
Dessa maneira, para que Cristo não seja destruído, a unidade de toda a
Escritura não pode ser ferida. Romper a Escritura, levando a contradizer-
se, ou admitir que ela não traz a unidade da pessoa de Cristo em alguma de
suas partes, significa tirar dela a pessoa de Cristo, o próprio Deus, reduzin-
do-a a um texto qualquer.

Lutero reconhece que o texto das Escrituras está sujeito à leitura que
dele se faz. O texto, nesse sentido, é um servo, que depende da orientação
que se lhe quer dar ou se lhe quer negar. Se sabemos que seu autor e fim
é Cristo (Jo 5.39), essa intenção não é oculta mas sempre esteve claramen-
te expressa, resta, então, concluir que as contradições e enganos a ela
atribuídos estão dependentes dos pressupostos e enganos com que as pes-
soas dela se aproximam. Enquanto o ser humano se fecha para o sentido
que a Escritura traz em si mesma, esta lhe permanece um livro fechado e
cheio de contradições. Por essa razão Lutero vê a Escritura como um ser-
vo a serviço de Cristo, cuja autoridade está na relação direta de sua fideli-

20
LW 22, 8.

43
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
dade a Cristo. Quando então Lutero infere que é palavra de Deus aquilo
que na Escritura promove Cristo, da mesma forma Lutero entende que
nada na Escritura tem outra intenção a não ser promover Cristo, sua pes-
soa e sua obra com vistas à fé.

Elert cita Lutero, argumentando sobre o objeto da fé nessa relação de


transcendência: “A Palavra apreendo com o meu intelecto; mas a adesão
a essa palavra é a obra do Espírito Santo.” 21

A PERGUNTA PELO CONTEÚDO DA PROCLAMAÇÃO DA IGREJA


6. A presença real de Deus na proclamação fiel da Sua Palavra
Robert Kolb, em Confessing the Faith, lembra que em Erasmo já se
percebia uma leitura da Escritura numa perspectiva descritiva, mais narra-
tiva do que reveladora de Deus, permitindo ao intérprete manter-se em
controle sobre o texto e protegendo-se da reação da fé. 22 Essa
“domesticação acadêmica” do texto teve o contraponto dinâmico de Lutero,
como se os filósofos gregos e os profetas do AT estivessem em batalha.
Lutero não aceitava que a Palavra de Deus pudesse ser analisada e dissecada
da mesma forma em que a razão pode analisar objetos da criação. Ele cria
que a Palavra de Deus deve simplesmente ser proclamada. “A reação da
fé é diferente da reação da razão.”23

Uma diferença fundamental entre um enfoque e outro está na procla-


mação. Herrmann Sasse abre o livro Sacra Scriptura com a declaração:
“Os deuses são mudos, mas o Senhor fala. O Deus da Bíblia é o Deus que
fala... Ninguém pode compreender a doutrina do falar de Deus se não
estiver claro para ele que o falar é um marco que divide o único e verdadei-
ro Deus dos demais cuja adoração é condenada no Primeiro Mandamen-
to.”24 Afirma também que a Igreja Luterana fez da doutrina da justificação
a doutrina central da Escritura, não como uma teoria doutrinária, mas “ao
contrário, toda a vida do antigo luteranismo, a mensagem da sua pregação
e ensino, sua liturgia e sua hinódia clássica oferecem uma compreensão
unificada dessa compreensão do evangelho” porque foi isto que Deus fa-
lou.25

A Escritura Sagrada adquire para o luteranismo essa dimensão de iden-


tificação com Deus na mensagem que ela proclama. Deus é inseparável

21
Elert, 84.
22
Robert Kolb, Confessing the Faith (St. Louis: Concordia, 1991), 26.
23
Idem, p. 26-27.
24
Herrmann Sasse, Sacra Scriptura (Erlangen: Verlag der Ev. Luth. Mission, 1981), 11.
25
Ibidem.

44
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
da Escritura. A própria personalidade de Deus, a sua natureza, se fundem
no texto sagrado, porque esse texto, no dizer de Lutero, é Deus. Será isso
um exagero? Terá Lutero, no seu esforço de estabelecer a autoridade na
igreja, ido longe demais na sua compreensão de autoridade bíblica?

A ortodoxia luterana teve de lidar com essa postura luterana diante da


Palavra, na medida em que alguns teólogos procuraram acomodar uma
visão racional, mais Erasmiana, no dizer de Kolb,26 da revelação de Deus.
Em The Theology of Post-Reformation Lutheranism, Robert Preus, quan-
do aborda a questão da unidade da Palavra, cita Quenstedt: “O ato de
escrever, tal como o ato de pregar, é incidental à Palavra de Deus e nada
mais é do que um aspecto externo (patós) da Palavra, um modo auxiliar de
proclamar e comunicar a Palavra, que não altera a essência da Palavra
divina.”27 E Preus conclui: “A assim chamada palavra profética e a pala-
vra que está em Deus jamais podem ser dissociadas ou separadas do logos
upostatikos, o filho eterno através do qual Deus fala e age.”28

Para manter esse trabalho direcionado para os objetivos propostos inici-


almente, e dado o espaço dessa apresentação, não será possível acompa-
nhar os questionamentos que essa posição de Lutero levantou e nem as
diferentes seqüências de pensamento que trouxe. Se por um lado repôs a
Escritura como única fonte e norma de doutrina, por outro lado, no seu
esforço de ver Cristo em toda a Escritura e em nome desse esforço, tam-
bém teve liberdade de crítica em relação a textos e livros da Escritura que
tinha em mãos.

Sasse, por exemplo, aborda o questionamento se Lutero, com a sua


abordagem crítica de passagens e livros da Escritura, talvez não mais tives-
se espaço dentro da própria igreja luterana 50 anos mais tarde. 29

Entretanto, como Fagerberg observa, o esforço da ortodoxia em definir uma


inspiração verbal, se por sua vez serviu para manter a revelação de Deus como
centro do fazer teológico, também ofereceu o risco da anulação da revelação
como palavra de Deus na proclamação.30 A crítica que a ortodoxia recebeu foi
direcionada contra a posição anti-reformatória de identificar Bíblia e Palavra de
Deus. Isso fica exemplificado no tratamento que é dado à expressão palavra
26 ,
Kolb, 26.
27
Robert Preus, The Theology of Post Reformation Lutheranism, (St. Louis, Concordia, 1970), 268.
28
Ao identificar essa relação Deus-Palavra, os luteranos da ortodoxia estão cientes de que essa identificação está
em Cristo. Essa palavra é uma e única. Não se anula o fato de Deus ter mais para ser conhecido e de que Deus
se comunica de outras formas. Mas a palavra que Deus dirige ao ser humano é Cristo, seja ela a palavra em Deus,
ou a palavra no profeta, ou essa mesma palavra no coração de quem crê. Cf. Preus, 269.
29
Sasse, 319.
30
Holsten Fagerberg, A New Look at the Lutheran Confessions (St. Louis: Concordia), 30.

45
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
de Deus que, nas Confissões, é utilizada intercambiadamente para designar
tanto a palavra escrita quanto a palavra proclamada.

A ortodoxia luterana, ao se precaver de possíveis erros e ataques à revelação,


talvez não se tenha dado conta da impossibilidade de encontrar e oferecer formu-
lações definitivas da palavra que pudessem resistir ao tempo. Ou talvez foram
leitores da ortodoxia que, reconhecendo nesse trabalho teológico um bem sucedi-
do esforço de afirmação da palavra, talvez tenham tomado como definitivo esse
esforço. A Apologia aponta para esse risco de o trabalho teológico parar no
tempo e perder-se tanto da sua origem quanto da sua finalidade. 31

Nesse sentido também C.F.W. Walther afirma sob a 3ª Tese em suas


palestras sobre a correta distinção de lei e evangelho: “Uma pessoa pode
ter compreendido a doutrina pura e, mesmo assim, estar em situação irre-
gular ante Deus”.32 Sob a 2ª Tese: “Apesar de alguém de fato poder
afirmar ‘Meu sermão não continha nenhuma heresia’, é possível que todo o
seu sermão tenha sido falso. ...Teólogo ortodoxo somente é aquele que,
entre outros requisitos, sabe diferenciar corretamente lei e evangelho”.33

A revelação de Deus não é estática. Ela é encarnada, vital e dinâmica.


Cada tempo e cada lugar requerem um testemunho, nesse sentido, novo,
atual, encarnado. Teologia que pensa ter resolvido a tensão lei e evangelho,
fica a dever à Palavra. Da mesma forma em que, cada teologia que pensa
ter resolvido o mistério da revelação, fica a dever à Palavra. Porque a
Palavra é Deus que fala a palavra da fé.

7. A palavra é a história de Deus agora


O profeta de Deus tem sempre a mensagem de Deus para esse momento
da história. Ele é a palavra de Deus agora. Quando Jesus em Nazaré termina
a leitura, ele diz que isso se cumpriu agora. A história é a palavra de Deus para
esse momento e nesse momento. Assim ele foi entendido. E assim, rejeitado.

Essa é a dificuldade que acompanha a teologia luterana e que ao mesmo


tempo a desafia ao permanente refazer teológico vital e encarnado. Lutero
cresceu num mundo teológico em que de cada lado o agrediam teologias com
a solução definitiva, a solução que acabava com a tensão e a dúvida, até a
angústia que aguarda o pensar teológico. A dificuldade de enquadrar Lutero

31
Ap IV, 211. Ao comentar a discussão que teólogos ortodoxos mantiveram sobre os sinais vogais do Hebraico,
Preus conclui: “Este é um dos capítulos estéreis da história da teologia”. Elert, 195 ss., parece ver na ênfase
da ortodoxia posterior sobre a palavra externa o fator que desencadeou a crítica sobre o texto na sua fragilidade
como fonte segura do conteúdo da pregação apostólica.
32
C. F. W. Walther, Lei e Evangelho, 2 ed., trad. Vilson Scholz (Porto Alegre: Concórdia, 1998), 27.
33
Idem, 23.

46
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
em uma teologia tem sido vista como resultado da dedicação de Lutero de
apontar a presença viva de Cristo e nele Deus com o seu povo. Lutero vive
para convencer todos da sua libertadora certeza de que Deus está com o seu
povo. Como perceber isso? Na palavra de Cristo, a viva voz do Evangelho.
Nesse sentido, os organizadores da Concórdia mantiveram coerência com
Lutero identificando a palavra pregada com a palavra que desde a eternidade
esteve em Deus e que a palavra escrita preserva e proclama como Palavra
de Deus, fazendo com que tanto a palavra escrita quanto a palavra que está
sendo proclamada sejam realmente a Palavra de Deus.34

À pergunta de como se pode traduzir conceitos tão vastos e abrangentes


como a própria divindade de Cristo e todos os mistérios da fé cristã que
insistem em fugir ao domínio da razão, os ortodoxos fizeram o esforço de
mostrar a viabilidade de tal empreendimento.

É possível escrever claramente a respeito de coisas obscuras, es-


crever de maneira humilde sobre coisas sublimes, escrever de ma-
neira simples sobre assuntos difíceis e escrever publicamente de
coisas ocultas. ...A tocar os mistérios temos de distinguir entre o
que (a coisa em si) e o como (o modo). Leio na Escritura que
Deus é um em três pessoas, leio que o filho de Deus foi concebido
do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria. Ora, se uma pessoa
não se contenta com isso e de maneira atrevida pesquisa o como e
porque disso, não tem o direito de atribuir obscuridade à Escritura,
mas terá todas as razões para condenar a sua própria insolência. 35

A focalização na coisa em si, o objeto do qual a Escritura trata, divide o


território da razão e da fé. Somente dessa maneira pode a Escritura ser
fonte e norma auto-reveladora. Quando a razão mergulha no como e no
por que é necessário que se saiba que a própria Escritura afirma que a
razão se confunde. Entretanto, enquanto a razão se concentrar no objeto
da revelação, no seu sentido próprio e literal, “a Escritura é clara para
qualquer pessoa, mesmo para o não regenerado. Um descrente é capaz de
apropriar-se do sentido literal e histórico da Escritura.” 36

Uma vez que a Escritura é respeitada na sua autoridade própria, deixan-


do para ela o direito de ser clara ou obscura conforme as suas próprias
intenções, somente assim ela realiza a sua obra de ser a palavra de Deus e
levar à fé nessa palavra, que é Cristo, o filho de Deus.

34
Fagerberg, 31.
35
Preus, 313, citando Quenstedt.
36
Idem, 313.

47
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Por essa razão a Bíblia, quando é lida ou proclamada, é uma entidade
com caminhada autônoma, própria. Ela fala de maneira a ser a sua própria
intérprete. Ela define e distingue o significado direto e o oculto, o histórico
e o teológico, e cada uma das outras formas. Para Fagerberg o fato de as
Confissões Luteranas não oferecerem uma doutrina sobre a inspiração deve
ser acatado seriamente como uma decisão teológica.37 Talvez possamos
identificar aí o cuidado de não estabelecer novamente uma autoridade ex-
terna sobre a Escritura, pois, até aí, cada vez que isso aconteceu, a Escritu-
ra foi limitada e obscurecida. Entenderam então e foi evidente que a Escri-
tura tem autoridade própria que sempre tem em vista Cristo e não o que
dele possam pensar pessoas, por melhor intencionadas que sejam.

Os entusiastas se louvavam da sua fidelidade à Palavra. Entretanto,


desprezavam a palavra externa da absolvição. Lutero identifica nessa ati-
tude a atitude de quem despreza a própria revelação de Deus, o próprio
Deus porque Deus está absolvendo. Ele é a Palavra. A igreja e o indivíduo
estão na presença de Deus. Instituições e pessoas são instrumentos de
Deus, que não substituem Deus. E nessas partes, que dizem respeito à
palavra falada, externa, é preciso permanecer com firmeza nisso que Deus
a ninguém dá o seu Espírito ou a graça a não ser por intermédio da palavra
exterior precedente ou com ela.38

Ora, se a palavra é a ação de Deus, suas intenções, atos e objetivos, a


palavra escrita é palavra instrumental para que o ser humano encontre
Deus e diante dele se confronte com suas próprias ações. Por essa razão
Lutero entende que a Escritura somente pode ser lida teologicamente. Na
sua exegese a carta aos Gálatas, distingue entre o fazer moral, fruto da
filosofia humana, e o fazer que ele define como teológico. Essa definição
para Lutero está na própria natureza da revelação de Deus.

Assim isso adquire um sentido totalmente novo. Certamente


requer argumentação correta e boa vontade, mas num sentido
teológico, não em um sentido moral, o que significa que pela
palavra do Evangelho eu sei e creio que Deus enviou seu Filho
ao mundo para nos redimir de pecado e morte.Nesse caso, fa-
zer tem um sentido novo, desconhecido da razão, dos filósofos,
legalistas e todos os homens, pois aqui se trata de sabedoria
oculta no mistério. . . Estes são termos teológicos, não naturais,
nem morais (1Co 2.7).39

37
Fagerberg, 30.
38
AE VIII, 3 ss.
39
LW 26, 262.

48
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Dessa revelação dinâmica de Deus (Rm 1.16) nasce a fé que abre a
compreensão de Deus. Em Lutero isso é tão absoluto que a própria narrativa
da criação é objeto de fé tão-somente. Uma vez que a fé o aceita, a razão
pode elaborar a verdade revelada “Essas palavras do Espírito Santo, tiradas
de Moisés no primeiro capítulo de Gênesis (1.3): ‘Haja luz’ são incompreen-
síveis a qualquer razão ou sabedoria humanas, independente da capacidade
de compreensão.”40 Da mesma forma, ao tratar as parábolas, que até então
eram vistas como ilustrações de uma moralidade geralmente aceita, “Lutero
levou a sério a fórmula de introdução: ‘O reino de Deus é semelhante a...’
Ele as interpretou como descrições de como Deus age no seu reino.” 41

8. A dimensão divina da palavra proclamada


Essa força dinâmica da palavra de Deus revelada na Escritura Sagrada
levou posteriormente os luteranos a tentar sistematizar e tornar compreensí-
vel esse fenômeno, ao qual nem a Bíblia, nem as Confissões mostram inte-
resse em definir quanto ao como. Mesmo que se diga que os teólogos da
ortodoxia levaram esse esforço para além das intenções dessa mesma reve-
lação, permanece o fato de que a revelação de Deus é inseparável da Escri-
tura. E por isso mesmo a Escritura Sagrada mais quer ser do que o veículo.
Mas permanece o veículo que Deus materializou. Isso nos traz de volta à
questão da dinâmica da revelação. Se ela revela e revela com o objetivo de
ser proclamada e proclamada para ser crida, ela deve ser vista, segundo
autores como Schlink e então Fagerberg a partir dessa sua função. Mesmo
não concordando com Schlink em todos as suas conclusões, entretanto a
reflexão é posta por Fagerberg. Em Schlink, o peso da autoridade da Escritu-
ra e seu uso teológico pende para a sua função. A Bíblia, o texto, não é, por
si só, um meio da graça, mas ela é um meio da graça somente em conexão
com a sua proclamação. Com isso não se pode anular o fato de que fora da
Escritura Deus não se revela salvador, ou na sua natureza própria. Enfatiza-
se, entretanto, o compromisso teológico da proclamação como o verdadeiro
fazer teológico, pois mesmo a palavra escrita é proclamação.

Fagerberg se vale da argumentação de Schlink para abordar o aspecto


mais dinâmico da revelação de Deus conforme percebido em Lutero e nas
Confissões, quando esse afirma que a autoridade da Bíblia não está na
palavra enquanto texto escrito mas na palavra falada, o evangelho, endere-
çado e pregado aos homens.42 Entretanto, a função não pode ser divorcia-
da da palavra que lhe dá origem e confirmação: a palavra escrita.43

40
LW 22, 10.
41
Pelikan, 60, 61.
42
Fagerberg, 30.
43
Idem, p. 31.

49
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
A proclamação tem esse caráter no entender da teologia luterana de ser
ato divino. A Apologia44 afirma que a palavra da absolvição já não é nossa
palavra, mas é a voz do evangelho. Na edição alemã: “a própria voz do
Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador”. Essa convicção levou Lutero a
confrontar-se com a dimensão do que aí se afirma: “Se é verdade que não
sou capaz de expressar completamente os pensamentos do meu coração,
quantas mil vezes menos será possível a mim o compreender ou expressar
a palavra ou a conversa que Deus tem no seu ser divino.45 A pesquisa
lingüística moderna torna a questão mais aguda, talvez porque afirma para
o nosso tempo o colapso da linguagem enquanto meio de comunicação
mesmo que minimamente confiável. Se estamos convencidos da dificulda-
de de efetivamente transmitir conteúdos e fazermo-nos entendidos, quantas
mil vezes maior é o desafio de compreender e transmitir o conteúdo do
coração de Deus, sua Palavra, o próprio Cristo?

O apóstolo Paulo, em uma de suas marcantes frases sobre a ação de


Deus na pessoa, declara que “a fé vem pelo ouvir, e ouvir da Palavra de
Deus”. A ênfase do argumento de Paulo não está tanto na forma em que
Deus converte, mas no ato da proclamação, pelo qual Deus se faz presente
neste momento da história..

Ainda no primeiro capítulo de João, Lutero reconhece essa realidade a


partir da afirmação da divindade de Jesus. Decisivo é o fato de que essa
Palavra é a palavra criadora de Deus. Não meramente uma criação na
visão Tomista de Primeira Causa, mas de Deus que cria continuamente
pela palavra. Ela, a palavra, é vida. Sem ela não há vida. Somente ela pode
iluminar e dar sentido à vida. Essa palavra foi ouvida na voz dos profetas.
Ela própria, encarnada, fez-se ouvir. E continuou sendo ouvida através dos
apóstolos e agora é ouvida na voz daqueles que crêem no evangelho.46

Entretanto e citando Jesus (Jo 3.19) e o apóstolo Paulo em 2 Ts 2.10-11,


Lutero lamenta que tanto pregadores, como a própria igreja, preferem andar
numa luz própria e não na luz que é a palavra, a mesma, a própria que fala
desde a criação. Em Lutero a fidelidade à palavra está para além de uma
discussão acadêmica em estilo “erasmiano” de busca da verdade que enge-
nho humano reconhece. Diante da Palavra, Lutero está na presença viva do
Senhor Jesus Cristo. Ele fala. A palavra é a palavra que continua criadora na
proclamação. Por essa razão, todo encontro com a Escritura é um encontro
com a luz que cria e mantém a vida, a única vida que se pode ter.

44
Ap XII, 2.
45
LW 22, 11.
46
LW 22, 34-35.

50
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
A presença real de Cristo não está, em Lutero, circunscrita ao Sacra-
mento. Em Lutero, onde está a Palavra, aí está o próprio Senhor. O modo
como Deus está presente ficou evidenciado pela encarnação. Ele está tão
presente como esteve então junto dos seus discípulos. A sua pessoa e
palavra acalmaram o mar, curaram doentes, alimentaram o povo e desper-
taram fé. Sua presença é real e viva.

A teologia luterana sempre manteve clareza quanto à diferença entre


palavra humana e divina. Fala-se em palavra de Deus indireta. Entretanto,
em Lutero, a palavra humana recebe a encarnação da palavra divina, assim
como no pão se oculta o corpo e na carne se oculta Deus. A palavra, que
é Deus, está oculta na palavra que hoje anuncia e proclama a palavra de
Deus. Essa identificação torna tanto mais sério o compromisso de fé e
fidelidade à palavra revelada.

Até que ponto em nosso fazer teológico nos damos conta desse com-
promisso, desafio ou até dificuldade? Com que espírito nos aproximamos
do encontro diário com a Palavra enquanto objeto de nosso estudo?

O estudo teológico começa pela fé na palavra como a própria palavra de


Deus. Se isso poderia parecer ingenuamente óbvio, não o foi para Lutero. A
presença da graça de Deus em Cristo, ligada intimamente ao sola Scriptura e
sola fide foram o fundamento que Lutero identificou para seu fazer teológico.
Pois quando a palavra humana, o saber do ser humano, encontram a Palavra,
renova-se permanentemente a tentação de reduzir o divino ao humano.

9. A linguagem da razão e a linguagem da fé


Aí a pergunta é: O que é comunicável na comunicação humana? Pode-
mos ilustrar esse tema com a experiência narrada por um pastor. Diz ele
que durante anos esforçou-se em realizar cultos e sermões significativos
voltados para a família por ocasião do Dia das Mães e do Dia dos Pais.
Questionou-se, entretanto, certo domingo sobre a sua prática quando uma
senhora, ao final do culto, disse:”Pastor, acho que não virei mais ao culto
nesses dias festivos da família. O senhor, quando fala, tem em mente e
transmite que a família que Deus aprova é aquela que tem papai, mamãe e
filhos. Nunca o senhor considerou a minha família como família da qual
Deus se agrada ou cuida.” O pastor nunca se dera conta de que ao promo-
ver a família como objeto do amor de Deus, ao mesmo tempo deixava
entendido para aquela mulher de que ela, sendo separada e com filhos,
pertencia a uma categoria não contemplada na palavra de Deus.

Bertrand Russel diz que a linguagem pode ser usada para expressar
emoções ou para influenciar o comportamento de outros. Ela não pode ser
51
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
limitada como mero instrumento de afirmação de fatos ou meio de passar
informações. Quando constatamos que um certo conjunto de circunstâncias
causa uma certa emoção, e certo tipo de emoção causa um certo tipo de ruído,
e que certo tipo de ruído permite a um observador ter informação sobre o
sentimento e as circunstâncias ligadas a esse sentimento, sabemos que o ruído
é mais do que simples ruído. É comunicação. Linguagem, por isso, é meio de
externar e publicar nossa experiência pessoal.47 Esse compartilhar experiência,
se por um lado permite a aproximação, também acaba por denunciar a distân-
cia que separa as pessoas. E Russel conclui: “A linguagem, apesar de ser um
instrumento útil e mesmo indispensável, é um instrumento perigoso, pois sugere
um caráter definitivo, esclarecedor e de quase permanência nos objetos que a
física parece mostrar que não possuem”.48

Diante disso, resta ao filósofo a tarefa de buscar a verdade não como o


faz a mente matemática que constrói o belo a partir de resultados previs-
tos. Esta tentação de elaborar a partir de certezas previstas deve ceder
lugar à busca muito limitada da verdade.

Ashley Montague defendeu a teoria de que as palavras que usamos


servem como condicionadores que influenciam os nossos pensamentos,
sentimentos e comportamento. Parte do princípio de que o significado da
palavra está na ação que ela produz.49

William Moulton lembra que, em geral, as pessoas partem do pressupos-


to de que a linguagem compõe-se essencialmente de dois ingredientes: som
e significado. Entretanto som e significado não são a linguagem, mas ma-
nifestações do que chamamos linguagem. Isoladamente pouco significam.
O sentido está na correlação entre ambos e isso não obedece necessaria-
mente ao mesmo padrão para diferentes pessoas e épocas. O significado
de algo depende completamente do som que lhe é agregado e vice-versa.50

Noam Chomsky é taxativo em dizer que existe no ser humano uma


estrutura de compreensão e produção de linguagem que é comum a todas
as línguas e inata ao ser humano. Entretanto, essa absoluta variedade de
resultados não permite ao estudioso encontrar essa estrutura que determi-
na os universais lingüísticos.51

A ciência lingüística hoje parece concordar com o pressuposto de Lutero

47
Apud Joseph A. de Vito, ed. , Language – Concepts and Processes (New Jersey: Prentie Hall, 1973), 40 ss.
48
Idem, p. 45.
49
Apud Joseph A. de Vito, 146.
50
Apud Joseph A. de Vito, 112 ss.
51
Apud Joseph A. de Vito, 108.

52
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
de que a linguagem humana é incapaz como instrumento para dar sentido à
existência humana. A razão como instrumento do fazer teológico se sobre-
pusera à fé. A razão, como controlador externo da Escritura, capturara um
sentido que julgava suficiente e definitivo para a Escritura.

Para Lutero, qualquer certeza que não partisse da fé, e esta submetida à
revelação de Deus, era vista como ameaça à palavra. “Eck acreditava que
era inconcebível que alguma passagem da Escritura pudesse contradizer a fé
católica. Por isso, cada passagem, em certo sentido, seria sempre uma ilus-
tração da fé católica, que era uma interpretação a priori da Bíblia”.52

Lutero permanentemente se impôs a qualquer tentativa de fugir ao sen-


tido da palavra como ação permanente de Deus. Lutero se antecipa no
tempo ao entender que o sentido da palavra está no efeito que ela produz. A
ênfase de Walther em Lei e Evangelho também é a ênfase que liga o sen-
tido ao efeito. O sentido em si nada é sem o efeito produzido que a ele
adere tanto em Lei quanto em Evangelho.53 E a ligação entre o efeito e seu
significado também para Lutero estava no som, a palavra, que é fiel à reve-
lação, o evangelho, que desperta pensamento, sentimento e ação. A corre-
lação está estabelecida na Escritura.

CONCLUSÃO
10. A palavra é palavra encarnada na linguagem
Razão porque o ministério da palavra em Lutero e nas confissões é um
ministério do som, ministério da palavra oral,54 falada com clareza e pureza,
fiel à função e efeito que ela pressupõe: comunicar salvação salvando, o
que ultrapassa o conhecimento natural, humano e somente pode ser assu-
mido pela fé.

Essa fidelidade, portanto, se manifesta na proclamação da palavra quando


o sentido que está no texto se torna, por sua vez, sentido para quem fala e
para quem ouve. A pergunta: ‘O que significa esse texto’ sempre é feita no
presente, pressupondo pelo menos uma pessoa com quem o texto/Cristo
fala agora. Cristo, entretanto, não procura meramente informar alguém.
Ele é salvação que busca ser proclamada agora.

A linguagem da fé é a linguagem da revelação. Esta está oculta e encar-


nada (enverbada) na linguagem da razão. Com a diferença de que a lingua-
gem da razão é serva absoluta da linguagem da fé, como o crente é servo

52
Pelikan, 113.
53
Walther, 27, 33, 37, 55, 93.
54
Pelikan, 65.

53
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
de Cristo, o Senhor. Uma vez feita essa inversão de postura, que exige
permanente esmurrar a carne, na linguagem do apóstolo Paulo, todos os
resultados da melhor pesquisa lingüística e recursos da comunicação são
divinizados para a melhor proclamação da palavra que é Deus

Para Lutero essa é única e derradeira proteção contra toda a inteligên-


cia e esperteza argumentativa dos adversários e toda a autoridade daqueles
que racionalizam para obterem controle pessoal, externo sobre a revelação
de Deus, anulando assim a palavra, esvaziando-a do seu conteúdo e sentido
próprios da sua dinamicidade e atualidade.

54
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Deuteronômio 4.32-34, 39-40
26 de maio de 2002

CONTEXTO
O livro de Deuteronômio é como um testamento de Deus para o seu
povo, pronunciado pelo servo Moisés. Através de uma série de discursos
(sermões), Moisés, o grande líder, exorta-o a permanecer fiel ao Deus que
se revelou graciosamente ao povo que era totalmente escravo.

O texto em destaque para este domingo está inserido no primeiro gran-


de discurso (1.1-4.43) e é a parte final deste discurso. Por isso, como con-
clusão retoma aspectos importantes do discurso, encerrando com o mais
puro evangelho vindo da parte de Deus. Sugiro a leitura deste discurso para
acompanhar a conclusio de Moisés.

Outro aspecto importante a lembrar, especialmente quando enfatizamos


a ação da igreja durante o período do Pentecostes, é de partirmos da ação
da Trindade de Deus em nosso favor, como base para qualquer ação e
reação como seu povo. Nada melhor para nossa vida de cristãos do que de
percebermos Deus agindo em e através de nós.

TEXTO E NOTAÇÕES HOMILÉTICAS


Vv. 32-34 - “Para que eu lhe pertença e viva submisso a ele em seu reino” são
as palavras chaves de Lutero para o seu catecismo. Também, podemos
aplicá-las a esta passagem bíblica. Assim como nós olhamos para um mo-
mento crucial na história da nossa salvação, a obra de Cristo vicária, tão
bem resumida por Lutero no segundo artigo do Credo, Moisés faz o povo de
Israel olhar para o êxodo de Israel do Egito. O interessante em nosso texto
é que Moisés faz a presente geração olhar para um passado anterior e
recente. O êxodo proporcionou libertação, mas aquela geração que saiu
não poderia viver plenamente sua liberdade; ela teve o deserto pela frente e
esta “peneira”, infelizmente pela incredulidade do próprio povo, fez com que
poucos que saíram do Egito pudessem realmente entrar na Terra Prometi-
da. Moisés foi um dos que não aproveitou. Observando um passado anteri-

55
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
or, “desde a criação” como diz Moisés, nada se viu tão gracioso em relação
ao homem: a mão poderosa de Deus e seu braço estendido sempre trazem
lei e condenação e agora “provas, sinais, milagres e peleja” são o mais puro
evangelho para o povo de Israel. Ao observarmos como a mão poderosa de
Deus e seu braço estendido agiram quando da saída do Egito, percebemos
lei para os egípcios e evangelho para os israelitas.

Vv. 39-40 - Nós cremos e confessamos na ação trinitária de Deus em


nosso favor. O Credo é o centro de nossa fé e vida. Nesta passagem
precisamos observar que a universalidade de Deus passa pelo reconhe-
cimento de fé de sua obra em nosso favor. A proposta de Lutero na
explicação do Primeiro Mandamento nos remete diretamente ao Deus
do Credo e não a qualquer Deus; e esta identificação requer, além do
temer e amar, fé e confiança como Lutero explica no Primeiro Manda-
mento. No v.40 temos algo semelhante ao que Lutero faz no Quarto
Mandamento – o mandamento com promessa. Na relação pai-filho, há
promessa para quem vive sob a direção do pai: vida longa está relacio-
nada diretamente ao cumprimento da vontade do pai. Enquanto no cum-
prir do Quarto Mandamento a nossa vida longa restringe-se a esta vida,
em nosso texto Moisés nos diz que teremos vida para sempre.

Que caminhada temos pela frente como cristãos que crêem no Deus Triúno?
Qual nosso futuro? Assim como Moisés está diante de um povo prestes a
entrar na Terra Prometida, assim, como pregadores, estamos diante de um
povo que precisa caminhar para um novo céu e nova terra providos por Deus,
mas que ainda está a caminho. Lembramos que Moisés não entrou na Terra
Prometida; ele foi enterrado na terra de Moabe – o final de Deuteronômio
nos diz isto. Mas, Moisés esteve ao lado de Elias no Monte da Transfiguração
e isto nos sugere a glória de Deus. Moisés já está lá; estejamos conscientes
de que as promessas de Deus não falham pois ele agiu com seu braço esten-
dido em nosso favor para vivermos para ele eternamente.

TEMA HOMILÉTICO
A proposta é de explorar o que Lutero nos diz no Credo: “Para que eu
lhe pertença e viva submisso a ele em seu reino”. Isto nos remete à justifi-
cação e santificação, tema apropriado, penso eu, para este culto, pois a
mensagem do Pentecostes nada mais é do que a ação do Espírito de Deus
que creiamos em Cristo como Salvador e, a partir daí, sejamos submissos à
vontade do Pai em seu reino aqui e eternamente.

Clóvis Jair Prunzel


São Leopoldo, RS

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SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Deuteronômio 11. 18-21, 26-28
2 de junho de 2002

LEITURA DO TEXTO E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES


Após relembrar sua oração (Dt 3.23-29) pedindo a Deus o direito de
entrar na terra de Canaã (vale lembrar que Moisés havia perdido esse direi-
to pela sua própria desobediência), Moisés inicia (cap.4.1ss) seus discursos
e exortações ao povo para a obediência. Esses discursos seguem ao longo
de todos os capítulos até o nosso texto, com o guia do povo de Israel cha-
mando para a obediência e alertando contra a infidelidade.

No capítulo 11, nos primeiros sete versículos, continua com sua exorta-
ção à obediência e, a partir do versículo oitavo, começa a mostrar os bene-
fícios dessa obediência.

Nos versículos da presente perícope, o texto chega a um gran finale,


enfatizando como essa obediência poderia ser buscada, ou seja, colocando
a palavra de Deus, todo o ensinamento do próprio Javé, via Moisés, em
primeiro lugar.

Moisés enfatiza para que estas palavras sejam colocadas no coração, na


alma, e atadas na mão, de tal forma que não sejam esquecidas (v. 18).
(Séculos após, o profeta Isaías nos consola dizendo que Deus havia de es-
crever, gravar, nosso nome em sua mão, para jamais esquecer-se dele e,
conseqüentemente, de seu servo). Na cultura popular brasileira, talvez até
retirada deste texto, temos a idéia de amarrar um cordão no dedo para não
se esquecer de um recado, ou algo importante que se tem a fazer.

A palavra deveria ser ensinada aos filhos a todo o momento, sentado em


casa, andando pelo caminho (v.19). Isso nos faz lembrar que a palavra de
Deus não deve ser deixada para ser ensinada na igreja, na escola dominical,
ou na instrução de confirmandos. Essa é a função de cada pai/responsável
ao longo da vida. Lutero bem lembra no Catecismo Menor que o pai de
família deveria ensinar a doutrina cristã para sua casa, toda a casa, inclusive
aos servos.
57
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Moisés continua exortando para que a palavra esteja presente no cotidi-
ano da vida do povo, escrito nos umbrais e nas próprias portas (v. 20), locais,
naturalmente, de destaque do dia-a-dia, por onde haveriam de passar a cada
momento.

A conseqüência da observância da palavra seria a longevidade, as bên-


çãos sobre toda a descendência (v 21). O Senhor o havia jurado e estava
pronto para cumprir seu juramento.

Assim como Deus havia colocado a árvore do conhecimento do bem e


do mal no jardim e exortado a Adão e Eva que não a comessem, bênção e
maldição estavam diante do povo de Israel neste momento (v. 26).

O desafio estava lançado e a recompensa, bênção pela obediência, esta-


va posta, bem como maldição pela desobediência (vv. 26-27).

Se Adão e Eva haviam desobedecido e Deus mesmo assim enviou seu


Filho, mesmo na desobediência, também havia a possibilidade do perdão.
Contudo, por que deixar passar a bênção?

TEMA
A presença cotidiana da palavra de Deus é o princípio de toda sorte de
bênção.

Agenor Berger
Resplendor, MG

58
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TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Oséias 5.15 - 6.6
9 de junho de 2002

CONTEXTO HISTÓRICO
Amós, aquele que era pastor de ovelhas em Tecoa, anunciou a mensa-
gem do Senhor a Israel pelo ano 750 AC. Depois veio Oséias. E, na se-
qüência, aconteceu a conquista de Samaria, pelos assírios, em 721 AC.
Oséias, pois, realiza seu serviço numa época em que Israel já havia sido
advertido quanto ao seu desvio dos caminhos do Senhor, mas continuava
insistindo em neles permanecer; e mais, procurava, até, iludir-se com atos
de piedade, por meio dos quais o Senhor pudesse ser levado a querer-lhes
bem. Os capítulos 1 a 5 demonstram a infidelidade do povo e as acusações
de Deus, chamando-os ao arrependimento. O versículo de 5.15 faz uma
ponte que continua em 6.

EXEGESE DO TEXTO
V.15 – “Irei e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados
e busquem a minha face; estando eles angustiados, cedo me buscarão
...” O Senhor, aplicada a correção, assume postura de observador –
observador em expectativa. A esperança é de que tenham aprendido a
lição e voltem a buscá-lo.

O Senhor está sempre “no seu lugar”, lugar de amor, santidade e justiça.
Quando os faltosos se arrependerem e desejarem retornar à presença do
Senhor, o caminho estará aberto. Com Israel a predominância foi que nos
períodos de prosperidade, especialmente sob o governo de Salomão e
Jeroboão II, o povo depositava sua confiança em seus próprios recursos,
seguia após deuses estranhos e afastava-se do Senhor.

Vv. 1-3 – “Vinde e tornemos para o Senhor, ... que rega a terra.” Após
muito sofrimento, sem receber qualquer socorro dos deuses estranhos,
Israel se lembra do Senhor Javé. O profeta representa os pensamentos
e as palavras dos próprios israelitas no seu desespero. As alianças
políticas não alimentam mais qualquer esperança; agora desejam o so-

59
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
corro do Senhor, seu Deus. “Vinde e tornemos” – expressa que a
decisão de voltar precisava partir do próprio povo; uma decisão de de-
sapegar-se de tudo o mais, para apegar-se unicamente ao Senhor. Nos
vv. 1 e 2, porém, revela-se a falta de verdadeiro arrependimento; a idéia
ainda é que Deus pode ser comprado facilmente; Deus deve estar de
braços abertos, aguardando-os. “Ele nos sarará”, “nos levantará, e
viveremos diante dele” são expressões que indicam a superficialidade
do sentimento religioso do povo. Quando o reconhecimento de que era
necessário conhecer melhor ao Senhor surge, já é tarde demais; de
nada adianta citar belos conceitos e grandes doutrinas teológicas se não
se entende seu significado e não se pretende viver de acordo com eles.
Vv. 4-5 – “Que te farei ... sairão como a luz.” A nuvem da manhã (nebli-
na) e o orvalho da madrugada são elementos de passagem rápida; a
eles é assemelhado o amor deste povo. Diante desta instabilidade, o
Senhor vai agir, vai abater (cortar) por meio dos profetas – é anúncio do
julgamento de Israel por causa de sua apostasia.
V. 6 – “Pois misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento de
Deus, mais do que holocaustos.” Pois eu quero Dsh - é o termo
traduzido como “misericórdia”, significando algo como amor firme, fiel,
constante. É palavra que tem íntima relação com a revelação de Deus
em suas providências na história de Israel, acentuando o amor fiel do
Senhor. Assim como Oséias, também outros profetas concordam quanto
à influência negativa dos sistemas de sacrifícios na vida religiosa de
Israel (Am 5.21-24; Is 1.11, 14-17; Mq 6.6-8; Jr 7.21-22). A mera
manutenção dos rituais de sacrifícios era entendida como suficiente
para que o agrado de Deus os acompanhasse. Sacrifícios e holocaustos
não são em si práticas detestáveis; quando, porém, estão
desacompanhados do exercício de misericórdia e do conhecimento de
Deus, tornam-se objeto de rejeição por parte do Senhor. Também Je-
sus, em seu ensino a respeito da religião do amor na vida, oposto ao
formalismo dos fariseus, cita a passagem de Oséias (Mt 9.13).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1 - Quando a pessoa se afasta dos caminhos do Senhor, ele a busca, por
meio de eventos, sinais (chamadas que precisam ser percebidas), e
aguarda “no seu lugar”, na expectativa de que ocorra arrependimento
sincero e volta.
2 - Idéias piedosas não são a mesma coisa que arrependimento verdadei-
ro; podem enganar as pessoas, mas jamais enganam o Senhor.
3 - A busca pelo conhecimento do Senhor precisa acontecer enquanto há tempo.
4 - Usar de misericórdia e conhecer o Senhor são quesitos primeiros para
a vida cristã; sacrifícios e holocaustos são conseqüências.
60
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
ALGUMAS IDÉIAS HOMILÉTICAS
Introdução
O contexto histórico que hospeda a perícope.

- A teimosia de Israel em não atender à voz do Senhor por intermédio dos


profetas.
- Diante do aperto, a volta superficial (erramos, mas não somos tão maus
assim...).
- A postura reta, justa e insubornável do Senhor (castigo para o transgressor
impenitente).
- O desejo do Senhor: compartilhamento do amor e vivência por caminhos
retos e úteis aos semelhantes.

Conclusão
Diante da conscientização de nossos desvios e omissões, o recurso só
pode ser encontrado na misericórdia, no amor e perdão de nosso Deus, por
meio de arrependimento sincero.

Nelson Lautert
Curitiba, PR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Êxodo 19.2-8a
16 de junho de 2002

Estamos no início da segunda metade do ano eclesiástico, também cha-


mada de semestre da igreja; a ênfase está no crescimento espiritual do
povo de Deus. A cor litúrgica verde expressa essa verdade. A leitura do
Antigo Testamento para o quarto domingo após Pentecostes vem do se-
gundo livro de Moisés, chamado Êxodo.

Quanto ao contexto litúrgico e o relacionamento desta leitura com as


outras leituras podemos observar o seguinte:

O Salmo do dia, Salmo 100, fala no versículo 3 que o Senhor é Deus e nós
somos o seu povo, e nos chama para servir o Senhor com alegria (v.2). A
leitura da Epístola, Romanos 5.6-11, faz parte da lectio continua desta carta
do apóstolo Paulo, que começou no segundo domingo após Pentecostes (3.21)
e se estende até o décimo sétimo domingo após Pentecostes (14.9). Não há
relacionamento direto com o Antigo Testamento, mas convém ressaltar a
reconciliação através de Cristo, que forma a base para alguém pertencer ao
povo de Deus. O Evangelho de Mateus, 9.35-10.8, também faz parte de uma
lectio continua, e de fato determina o caráter e o tema dos domingos após
Pentecostes. O Antigo Testamento foi escolhido em função do Evangelho.
Ouvimos a respeito da escolha e do envio dos discípulos de Jesus.

Quanto ao contexto histórico, somos trazidos aos tempos em que o povo


de Israel tinha sido recentemente libertado da escravidão no Egito. Com
sua poderosa mão o Senhor Deus libertou o seu povo e o leva para a terra
prometida. Mas não antes de renovar a sua aliança com o povo. No versículo
anterior ao nosso texto somos informados que era no terceiro mês da saída
dos filhos de Israel da terra do Egito. Sob a liderança do seu servo escolhi-
do, Moisés, Deus tinha feito o povo passar de forma milagrosa o Mar Ver-
melho, da mesma forma transformou águas amargas em boas para beber
em Mara, deu ao povo o maná e codornizes, fez sair água da rocha em
Refidim, deu a vitória ao seu povo na luta contra os amalequitas. Após o
encontro de Moisés com o seu sogro Jetro, o povo chega ao Sinai.
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V.2 – “deserto do Sinai” – Lugar que fica na península do Sinai. O
marco principal sem dúvida é o monte Sinai, também identificado com o
monte Horebe (cf. entre outros Êx 33.6, Dt. 1.2, 1Rs 8.9, At 7.30-34).
Lugar da teofania, Deus se revela gracioso com o seu povo e renova a
aliança anteriormente feita com Abraão, Isaque e Jacó.
V.3 – Vemos no texto um ciclo: Deus fala com Moisés (v.3), Moisés fala
com o povo (v.7), o povo responde e fala com ou para Deus (v.8).
V.4 – O Senhor lembra a Moisés o que fez pelo seu povo. Usando a
ilustração da águia ele lembra o êxodo e ao mesmo tempo a eleição e
adoção do seu povo. Deus salva o seu povo e o leva a ele (“vos che-
guei a mim”).
Vv.5,6 – Uma aliança envolve duas partes. Renovação da aliança signifi-
ca não somente a ação de Deus, mas também em ouvir a voz de Deus
e guardar a aliança por parte do povo. Aí sim, o povo é realmente povo
de Deus. Toda a terra e tudo o que nela há é de Deus, mas o seu povo
escolhido será uma propriedade peculiar dele. E mais ainda: também
um reino de sacerdotes e uma nação santa. Nos vem à mente a expli-
cação do segundo artigo no Catecismo Menor: “... me resgatou e sal-
vou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo ... para
que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva
...”. Também as palavras do Salmo 100 e da primeira carta de Pedro
2.9 cabem perfeitamente aqui. Menção particular para “nação san-
ta”. No original lemos goi qadosh, sendo goyim normalmente usado
para os povos gentios. Mas agora o povo se torna propriedade de Deus
e, portanto, se torna uma nação santa. O mesmo acontece com as
pessoas que são levadas à fé em Cristo. Sendo o povo de Deus, em
outras palavras a igreja, um reino de sacerdotes, significa que a igreja
não está aí para reinar sobre outras pessoas, mas para servi-las, levan-
do-lhes o Evangelho da salvação em Cristo Jesus.
Vv.7,8 – O ciclo continua e se completa: Moisés fala ao povo as palavras do
Senhor, o povo responde positivamente às palavras. Tudo fará o que o
Senhor falou. Essa também deve ser a resposta de cada cristão em sua
vida. Ouvir a voz, a palavra, de Deus, guardar a sua aliança, que Deus fez
com cada cristão no batismo, ser um sacerdote do reino vivendo uma fé
ativa no amor, testemunhando a ação de Deus em sua vida.

Vemos que assim no Sinai Deus executa mais um passo no seu plano
para a salvação do mundo, que se concretizará com a nova aliança pelo
sangue de Cristo.

No sermão podemos mostrar o que Deus fez para nos tornar os seus
filhos. Tanto a explicação do segundo como do terceiro Artigo se aplicam
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
aqui. Após isto, o que significa pertencer ao povo de Deus? O lema da
IELB: Missão de Deus – Desafio da Igreja pode ser maravilhosamente
aplicado aqui. Apesar de que melhor seria dizer “tarefa” da igreja, em vez
de “desafio” da igreja.

DISPOSIÇÕES:
O povo de Deus
1. Deus chama o seu povo (justificação)
2. santifica o seu povo (santificação)
3. envia o seu povo (missão)

A igreja é propriedade peculiar de Deus


1. Deus leva o seu povo sob asas de águia (graça, salvação)
2. A obra de Cristo pela ação do Espírito Santo faz a igreja santa e
peculiar
3. Deus dá o privilégio de trabalharmos como sacerdotes em seu reino,
fazendo a sua missão.

Gijsbertus van Hattem


Antuérpia, Bélgica

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QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jeremias 20.7-13
23 de junho de 2002

CONTEXTO
Jeremias relutou em aceitar o chamado profético, mas aceitou-o diante da
promessa de Javé: Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te
livrar (1.8). Sua pregação, no entanto, começa pela denúncia do pecado de
Judá e o castigo inevitável. Já no final do capítulo 11 ele descobre planos para
eliminá-lo, e queixa-se perante Deus. Mas após a cruel e humilhante punição
imposta por Pasur (20.1-6), diretor do templo, Jeremias desabafa. É provável
que os vv. 14-18 antecedam 7-13, caso tenham sido proferidos em seqüência.
Após amaldiçoar o seu nascimento, Jeremias protesta contra Javé, até recobrar
a confiança na justiça de Deus e conclamar a comunidade ao louvor. A partir
de então, Jeremias passaria a nomear os culpados: os reis de Judá, os falsos
pastores e profetas; o cativeiro viria através de Nabucodonosor.

TEXTO
tP’a,w” hw”hy> ynIt;yTiPi (v.7) – htp expressa idéia mais forte do que a tradu-
ção de Almeida deixa transparecer. Antes cauteloso (15:18), Jeremias ago-
ra desabafa sem meias palavras: Tu me enganaste, Javé, e enganado fui!
Javé prometera e não cumprira. Jeremias protesta por causa dos sofrimen-
tos a que se encontra sujeito em virtude da mensagem que lhe cabe procla-
mar, especialmente o relatado nos vv. 1-6.

Como Jó, Jeremias define Javé como o seu inimigo (“foste mais forte e
prevaleceste”), a causa da sua perseguição. Embora soe ofensivo e mes-
mo como blasfêmia, trata-se do grito de desespero de quem se entregou de
corpo e alma à proclamação profética e depara-se com orgulho e ódio ao
invés de arrependimento. O próprio Lutero teria dito:

Às vezes é preciso acordar a Deus com palavras deste tipo.


Doutra forma Ele não ouve. Este é um caso em que Jeremias
está realmente murmurando. Cristo falou assim: “até quando
estarei convosco?” (Mc 9.19). Moisés chegou ao ponto de

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lançar as chaves aos pés de Deus quando perguntou: “Conce-
bi eu, porventura, todo este povo?” (Nm 11.12). Não pode ser
de outra forma. É irritante quando se tem a melhor das inten-
ções mas as coisas não saem bem. Isto é certamente murmú-
rio. Eu faço o mesmo, e não consigo me livrar da idéia de que
eu jamais deveria ter iniciado (a pregação da Palavra?). As-
sim, só os teólogos especulativos é que condenam essa impa-
ciência e recomendam paciência. Se eles colocarem os pés no
chão, eles se darão conta disso. (Luther’s Works 54:30-1)

q[‘z>a, (v.8) – q[z, usado quase como termo técnico para o clamor do
oprimido (cf. Êx 2.23; Jz 6.6-7; Sl 107.13,19; Jn 1.5; Hc 1.2 etc.), indica
que Jeremias não se refere ao conteúdo da sua pregação, mas à sua pró-
pria angústia. Sugere, no entanto, que Israel deveria juntamente com ele
clamar por misericórdia, ao invés de permanecer surdo e perseguir os pro-
fetas que anunciam o juízo merecido, cf. os Salmos 44 e 79, onde o par slq/
/hprx é igualmente usado (44.13; 79.4), provavelmente já durante o exílio.

tr,[,Bo vaeK. yBilib. (v.9) – Apesar de sua situação, o profeta não pode calar.
A palavra de Deus não é menos poderosa no Antigo Testamento: Jeremias
testemunha o mesmo poder que os discípulos de Emaús, Pedro, João e
Paulo experimentaram (Lc 24.32-33; At 4.20; 2Co 5.14; cf. ainda Am 3.8).
Os verdadeiros mensageiros da Palavra de Deus são impulsionados pelo
Espírito, não por sua própria decisão. E não se abatem pela surdez ou per-
seguição dos seus opositores.

bybiS’mi rAgm’ ~yBir; tB;DI yTi[.m;v’ yKi (v.10) – Exatamente a mesma frase
ocorre no Sl 31 (v.13), que bem poderia ter Jeremias como autor. A expres-
são “terror por todos os lados,” é – à exceção da passagem acima – exclu-
siva e típica de Jeremias (6.25; 46.5; 49.29). Aparentemente, os muitos que
repetem a frase parecem acusar Jeremias de rogar pragas contra a nação,
identificando seu uso freqüente, mas especialmente em 20.3, como a causa
do perigo que o crescente poderio Babilônio representa. Vê-se que, já na-
quela época, atacar alguém do status de Pasur implicava ser rotulado como
conspirador. Note-se que a crítica de Jeremias é dirigida contra os próprios
guardiões do templo (7.4-11). Como seria Jeremias recebido na IELB? Em
minha congregação?

#yrI[‘ rABgIK. ytiAa hw”hyw: (v.11) – O vav adversativo rompe com o lamento
e subitamente apresenta um Jeremias confiante, liberto da angústia. Agora
ele afirma que Javé não o esquecera, nem era seu real inimigo. Pelo con-
trário, Javé está ao seu lado como um guerreiro valente cuja mera presença

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já inspira terror (#yr[, que em 15.21 descreve os inimigos de Jeremias) nos
adversários. A mão invisível de Javé não deixa de revelar a sua graça ao
profeta, e mesmo que o curto período em que o profeta se vê desamparado
exerce sobre ele um efeito devastador, ela é suficiente para erguê-lo da
vergonha para a glória, do lamento para o louvor. O castigo aos perversos,
ao contrário, dura para sempre (~l’A[ tM;liK.) e não é esquecido. Esta trans-
formação conduz o profeta ao ápice da passagem: ao invés do lamento, o
canto; ao invés da maldição ao dia do seu nascimento, o louvor ao Deus que
livra o pobre das mãos dos perversos (v.13).

PROPOSTA HOMILÉTICA
I. Deus nos chama a testemunhar
II. O mundo e nosso velho homem rejeitam este testemunho
III. Mas Deus está conosco

Ele fará a sua palavra arder nos corações


Ele nos erguerá da aflição para o júbilo

Gerson L. Flor
Windsor, ON, Canadá

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SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jeremias 28.5-9
30 de junho de 2002

CONTEXTO LITÚRGICO/HISTÓRICO
Israel já estava no cativeiro da Babilônia. Um profeta, Hananias, prega-
va que logo o povo voltaria do cativeiro e traria os objetos do templo que
haviam sido levados junto por ocasião da invasão dos babilônios.

Outro profeta, Jeremias, dizia em sua pregação que o povo ficaria sete décadas,
70 anos, e só depois voltaria. Estava sozinho. Era contestado. Odiado, também.

Afinal, quem teria razão? Tratava-se de saber: quem estava falando a


verdade? Jeremias propõe uma prova. Valeria ela ainda hoje? Qual era a
prova?

O texto é atual. O Seminário Concórdia está formando pregadores há


quase 100 anos.

Pregação é sempre prato do dia. Afinal, pregamos ou vamos ouvir a


pregação todas as semanas. E há muitos pregadores. E nem todos dizem a
mesma coisa. E igrejas e pregadores estão surgindo em muitas esquinas.
Há uma verdadeira indústria. E mais: quem tem razão? Quais são os prega-
dores que falam a verdade? Jeremias ou Hananias? Que prova podemos
sugerir para vermos a verdade?

Antes de olhar o texto propriamente dito, olhemos as outras leituras do dia:

O Salmo - é 119.153-160.
O resumo do salmo é fidelidade à Palavra de Deus.

A 2ª leitura é Rm 6.1-11.
O resumo é: pela fé em Jesus somos filhos de Deus.

A 3ª leitura é Mt 10.34-42.
O resumo desta leitura é: a Palavra de Deus divide a humanidade em
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crentes e descrentes. Por isso, Jesus divide. Une todos os que crêem n’Ele
e separa todos os que não crêem n’Ele.

O TEXTO
Vv. 5,6 – Hananias, o profeta, tinha dito: “... Deus me disse ... quebrei o
jugo do rei de Babilônia ... dentro de dois anos trarei de volta todos os
exilados e também os objetos sagrados...” (vv. 2-4).

Jeremias disse: Que bom seria se assim fosse! Humanamente falando:


Que bom seria isso!

É como hoje falam os pregadores curandeiros e milagreiros. Que bom seria


se tudo isso se cumprisse! Não haveria mais hospitais, nem cemitérios, nem ...

Há pregadores que pregam o que o povo quer ouvir.

Vv. 7,8 – Jeremias tem outra mensagem. Ela aponta para aquilo que os
profetas de Deus tinham sempre dito. Eles tinham dito duas coisas:

a) Deus usaria Babilônia e seu rei Nabucodonosor como instrumento nas


suas mãos. Mesmo sendo rei e país idólatras, Deus os usaria. Ele é
Senhor. Depois, sim, viria também a ruína desta e de outras nações
ímpias.
b) Israel seria levado cativo para Babilônia. A causa: seu pecado e a falta
de arrependimento (Jr 21.12; Jr 22.8,). O exílio: 70 anos.

Conseqüentemente, se isto o que Jeremias pregava era verdadeiro, en-


tão a pregação de Hananias era mentira (v. 15). Não existem duas prega-
ções diferentes certas. Deus é um só.

V. 9 – A prova – quem é o profeta verdadeiro e qual mensagem verdadeira.

Jeremias propõe no versículo 9 como saber se a mensagem do profeta é


de Deus: se ela se cumprir. No nosso texto: a prova seria a volta do
cativeiro e a paz. E em vez de volta e paz, continuava o cativeiro do povo.
Logo, a mensagem de Jeremias era a verdadeira.

Qual a prova hoje?

Toda a Bíblia e toda a pregação verdadeira tem seu centro em


Jesus. Se esta não for a pregação, tudo é falso e confuso.

Mas, qual a prova?

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
a) Estamos com a verdade se ensinamos e pregamos o que a Bíblia diz e
exposto nas Confissões a respeito de Jesus Cristo no 2º Artigo do Cre-
do Apostólico. Ou, como diz o apóstolo João em 1 Jo 4.1-6: “ ... Nisto
reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus
Cristo veio em carne é de Deus e todo o espírito que não confessa a
Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do
anticristo...”
b) Estamos com a verdade quando vemos a fé como resultado da prega-
ção – Rm 10.17 – “.. a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra
de Cristo”.
c) Estamos com a verdade quando cremos que os feitos poderosos de
Deus se confirmam na vida dos crentes – 2 Co 13.3.

ILUSTRAÇÃO
Certo pastor, recém chegado à sua paróquia, fez uma enquete. Propôs
que cada membro, à saída do culto, pudesse dizer sobre que assunto gosta-
ria de receber uma mensagem. À saída, muitos expressaram seu gosto.
Uns queriam uma mensagem sobre divórcio; outros, sobre pena de morte;
uns, sobre casamento e muitos outros temas. Por fim chegou um senhor
idoso. Chegou-se ao ouvido do pastor e também queria dizer seu gosto. Ele
disse ao pastor: “Fale-nos sempre de Jesus”. Este acertou na mosca o que
deve ser nossa pregação. Os jovens de hoje diriam: A resposta deste velhi-
nho “matou a pau.”

Alinhavando tema e partes, podemos sugerir:

PREGA A PALAVRA:
1 – quer seja oportuno, quer não;
2 – mas que fale de Jesus.

Benjamim Jandt
Cachoeira do Sul, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Zacarias 9.9-12
7 de julho de 2002

LEITURAS BÍBLICAS DO DIA


Sl 119.137-144: A palavra de Deus é reta (v.137), pura (v.140), a
própria verdade (v.142) e o meu prazer (v.143), diz o salmista, mostrando
seu desejo sincero de viver na sabedoria de Deus e sua preocupação com
os que rejeitam o SENHOR. O SENHOR em sua Justiça ama o seu povo e
o quer auxiliar e fortalecer.

Rm 7.15-25a: O apóstolo reconhece: a) que a lei é boa (v.16); b) a incapa-


cidade humana para cumprir a lei (vv.15,18); c) o peso da condenação (v.24b);
d) a necessidade de salvação (v.24a); e e) a solução está em Jesus (v. 25a).

Mt 11.25-30: Jesus agradece a Deus por ter revelado a salvação não


através da sabedoria humana, o que poderia levar as pessoas a se gloria-
rem, mas na humildade dos que confiam e se refugiam na graça de Deus
(cf. Ef 2.8-9). Jesus convida os cansados e sobrecarregados a buscarem
nele o alívio, pois ele é o único que pode dar descanso à nossa alma.

CONTEXTO HISTÓRICO
Zacarias estava entre os israelitas que voltaram para Jerusalém do cati-
veiro da Babilônia. Os temas de suas mensagens, anunciadas entre 520 e
518 a.C., são uma série de visões em que Deus iria preservar o que restou
do seu povo, contra todas as nações poderosas que queriam a sua destrui-
ção. Os povos gentios seriam destruídos enquanto Israel suportará todas as
provações, pois trata-se do povo através do qual Deus enviaria o Messias.
Suas mensagens tratam da reconstrução de Jerusalém e do templo, do per-
dão dos pecados do povo e aspectos da vinda do Messias.

Os capítulos 9 a 14 são uma coleção de mensagens a respeito do Messi-


as e do juízo final. Na presente perícope o profeta anuncia a vinda do Se-
nhor da Igreja, o Salvador Prometido. A profecia se cumpriu, segundo Mt
21.5 e Jo 12.15, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.
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A profecia de Zacarias, numa forma mais abrangente, atinge a Igreja do
NT. As portas do inferno não irão prevalecer contra ela (Mt 16.18 e Ef 6.11-
13). Cumpre-se o que diz o salmista: “o anjo do SENHOR acampa-se ao
redor dos que o temem, e os livra” (Sl 34.7 e Zc 9.8). Nem as sangrentas
perseguições do império romano, nem os falsos ensinamentos e dificuldades
puderam destruir a Igreja, pois o SENHOR permanece a cuidar dela.

TEXTO E COMENTÁRIOS
V. 9 – “Sião” e “Jerusalém” são símbolos que representam o povo de
Deus, que aguardava ansioso pela vinda de um Libertador, que agora se
aproxima segundo a visão de Zacarias.

O “Rei”, descendente de Davi (conquistador do monte Sião e de Jerusa-


lém), virá para cuidar do seu povo, conforme expressam as palavras “eis aí te
vem o teu Rei” (cf. Is 9.6). Nenhum súdito, de qualquer país ou época, pode ser
tão beneficiado pelo governante como os cristãos o são da parte de Jesus.

Ele é “justo” e “salvador”. Não apenas agirá corretamente em todas


as ocasiões, pois Pilatos não achou nele crime algum (Jo 18.38), nem al-
guém o pôde convencer de algum pecado (Jo 8.46), como iria promover a
justiça de Deus tornando justos os pecadores, em lugar dos quais ele iria se
sacrificar (Jo 1.29; 2Co 5.21; Gl 3.13) a fim de que se pudesse proclamar o
evangelho, a boa notícia. Através da qual os pecadores estão absolvidos da
culpa de seus pecados (Is 53.11; Lc 24.47).

Por tudo isso Sião, a Igreja, pode “alegrar-se muito”, “exultar”, regojizar-
se, gritar de alegria, pois o nosso Rei lutou e venceu por nós.

Jesus veio fisicamente de maneira “humilde”, mas espiritualmente é


vencedor sobre todos os poderes que possam ameaçar a Igreja.

V. 10 – O profeta fala agora do domínio do Messias. “Efraim” e “Jerusa-


lém” estavam sempre separados e em pé de guerra (1Rs 12.16-20;
14.30; 15.7), mas estariam unidos quando o Messias chegasse (Os 1.11).
Ele não teria necessidade de carros de guerra, de cavalos, de armas,
nem para defesa, nem para ataque (Zc 4.6), pois ele “anunciará”, isto
é, ele iria dominar com a sua palavra (Jo 8.47,51; 18.37). Não anuncia-
rá condenação, porém “paz” (Mq 5.5; Lc 2.14) e isto não apenas para
Israel, mas também para toda a humanidade: “Ele anunciará paz às
nações”. A sua arma é a Palavra, o evangelho. Ainda que esta seja
loucura e escândalo para os descrentes (1Co 1.23), ela é espírito e vida
(Jo 6.63) e poder para salvação (Rm 1.16). Por meio da Palavra o seu

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
reino, a Igreja, se estenderá “de mar a mar, e desde o Eufrates até às
extremidades da terra”, isto é, a todo o mundo. É o que acontece com
a Igreja em nossos dias. Em toda parte há cristãos, pois o evangelho é
anunciado em todo o mundo.
Vv.11,12 – Ao estender o seu domínio sobre toda a terra, o Messias não
deixará de manter a aliança que fez com Israel no Sinai (Êx 19.5,6), ratificada
com sangue (Êx 24.5-8) que prefigura o sangue purificador de Jesus (Hb
9.14-26; 1 Jo 1.7). O sangue que Jesus iria derramar foi o motivo pelo qual
Deus preservou e libertou o seu povo “da cova em que não havia água”,
a prisão na qual o pecado e Satanás os mantinham. O cativeiro babilônico
havia sido para o povo uma cova assim. Foi o castigo pela apostasia (Jr
25.1-11). Desta cova haviam sido libertados. Agora estavam para caírem
na cova do desapontamento, do desencorajamento e da incredulidade. Deus
assegura pelo profeta que ele está pronto para libertá-los desta cova tam-
bém. Tão-somente deveriam voltar-se para Deus, “voltai à fortaleza, ó
presos de esperança”.

“Também hoje vos anuncio”. Ainda que a situação pareça ser muito
difícil, como era na ocasião em que Zacarias se dirigiu à Judá, Deus declara
que tudo lhes seria restituído em dobro. As dificuldades deles não iriam
durar para sempre (1Co 10.13; 2Co 1.3-10; 4.8-18). Há um futuro glorioso
que aguarda o povo de Deus. Deus prometeu restituição “em dobro” (Is
40.2; 61.7). A referência é feita à herança em dobro que cabia ao primogênito
em relação aos demais irmãos (Dt 21.17; cf. Hb 12.22,23).

SUGESTÃO DE TEMA E PROPOSTA HOMILÉTICA

O POVO DE DEUS PODE SE ALEGRAR


pois:

I. Deus nos traz para junto de si


II. Deus está conosco e sabe da nossa situação
III. Ele é Justo e Salvador
IV. Traz a verdadeira paz
V. Promete um futuro glorioso

Elvio Bender
Capitão Leônidas Marques, PR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 55.10,11
14 de julho de 2002

O DOMINGO NO ANO ECLESIÁSTICO


A partir de modificações propostas por igrejas da América do Norte,
congregações luteranas da América do Sul e Austrália adotam a nomen-
clatura de domingos após Pentecostes para todos os domingos que suce-
dem a celebração da vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos reunidos
em Jerusalém. Como é do conhecimento geral, as igrejas luteranas da Eu-
ropa prosseguem denominando esses domingos de após Trindade. O do-
mingo que contemplamos hoje leva conseqüentemente o nome de 8º Do-
mingo após Pentecostes e 7º Domingo após Trindade, nas Américas e Eu-
ropa respectivamente. Diga-se de passagem que tal nomenclatura restrin-
ge-se às Igrejas Luteranas, uma vez que a Igreja Católica Romana chama
esse domingo de “Tempo Comum”.

A cor litúrgica verde adotada para essa época do ano eclesiástico bem
indica a característica desses domingos que se sucedem, sem que maiores
celebrações chamem nossa atenção. Há um crescimento que se assemelha
ao crescimento das plantas, lento e até invisível aos olhos, mas constante.

A igreja avança no tempo, os fiéis são alimentados pela palavra de Deus


e os sacramentos. Quem há de estar no culto quando a palavra de Deus for
pregada nesse 14 de julho de 2002? Um domingo comum, igual a tantos
outros, que trará à igreja um público diferente daquele que costuma estar nos
cultos em dias especiais como Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa. Certamente
aqueles que habitualmente vêm aos cultos. Talvez, dado o período de férias
escolares, algum visitante a acompanhar familiares ou amigos. Ao pregador
cabe anunciar a palavra de Deus, Lei e Evangelho. Palavra que é poderosa
para gerar vida porquanto meio pelo qual o Espírito Santo cria a fé e a alimen-
ta, como também o faz através dos Santos Sacramentos.

O TEXTO
Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam
brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será
a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas
fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.

Isaías tem intimidade com a palavra e com o Senhor que a revela. Seus
ouvintes não são muito diferentes dos ouvintes de hoje: pecadores perdidos
os quais só podem ser salvos se a graça divina lhes for oferecida. Os
versículos objeto de nossa atenção apresentam o contraste: o desalento do
coração humano e o poder de criação da palavra de Deus. Somente Deus
cria. Pelo poder de Sua Palavra Ele o faz.

POSSIBILIDADES HOMILÉTICAS
A Palavra é a presença de Deus entre os homens!

1 - Cristo é o Verbo, nEle Deus se faz compreensível.


2 - Ele (o Verbo) se manifesta continuamente nos meios da graça (Pala-
vra e Sacramento).
3 - O poder transformador da palavra de Deus na vida das pessoas (hoje
e sempre); no Universo novo a ser revelado.

Gilvan L. C. de Azevedo
Windsor, ON, Canadá

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

NONO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 44. 6-8
21 de julho de 2002

CONTEXTO
Estamos vivendo agora o período pós-Pentecoste. Um bom período para
a Igreja refletir sobre o seu crescimento e desenvolvimento. Tratar da ex-
pansão , da divulgação de uma mensagem clara são itens imperiosos para
que ela não permaneça confinada às paredes dos templos, mas saia, supere
barreiras e “não volte vazia”.

Os capítulos 44 e 45 de Isaías são uma previsão da volta de Israel do cativeiro,


sob Ciro, com ênfase especial sobre o poder exclusivo de Deus de predizer o futuro.
Ciro, rei da Pérsia, reinou em 539-530 a. C., consentiu que os israelitas voltassem
para Jerusalém e expediu um decreto autorizando a reedificação do templo. Isaías
profetizou cerca de 150 anos antes de Ciro. Todavia, chama-o pelo nome e prediz
que ele reconstruirá o templo o qual, nos dias de Isaías, ainda não tinha caído.

O ponto a destacar no texto é a superioridade de Deus sobre os ídolos. Sua


capacidade de predizer o futuro, profetizar, enfatizam a sua condição de Deus
soberano.

Isaías ridiculariza os ídolos e seus adoradores, pois tais ídolos são pro-
dutos da imaginação humana: não falam, não vêem, não ouvem! Mas, “o
nosso Deus”, diz Isaías, não só pode fazer o que os homens fazem, como é
capaz (poder) de fazer coisas que os homens não podem executar. Isaías
convida os povos para uma conferência de deuses; questiona se alguma
nação tem em sua literatura predições de fatos que aconteceram depois.

Há uma identificação bem clara de quem é o nosso Deus, o que ele é


capaz de fazer em contraposição aos ídolos e falsos deuses cuja existência
deve-se exclusivamente à imaginação do homem e à tradição humana.

Este Deus formou e escolheu uma nação para si. E, mesmo em flagran-
te desobediência e rebeldia, ainda era a nação de Deus. Deus não abando-
na o seu povo. Não deixa de investir nele, apesar de constante afastamento
e rejeição. Continuamente procura dar demonstrações de seu poder para
que todo o mundo veja que somente Ele é Deus.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
É preciso salientar que um elemento muito importante na aliança de Deus
com seu povo é a obediência. Deus a espera, a deseja de seu povo. Um dos
maiores pecados do povo é justamente abandonar o seu Deus e Senhor, que
se identifica como Rei e Salvador, e trocá-lo por outros. Ele se apresenta
como “primeiro e último” para determinar a amplitude de seu poder e confir-
mar a condição de “Todo-Poderoso”. Este Deus pode anunciar juízo iminen-
te ao povo rebelde. Há uma clara determinação de Deus para reafirmar a
unicidade deste Deus. Ele é único, soberano, não existe outro igual.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
O povo, distante de sua terra natal, vivendo o exílio na Babilônia, está muito
abatido. Deus então leva a todos eles uma palavra de esperança. Deus prome-
teu libertação ao povo. Quer que o povo confie nesta palavra. Por isso apre-
sentou-se como Senhor. Este Deus garante que não existem outros deuses, por
isso ele mesmo se apresenta “como único Senhor e Deus”.

Sem dúvida, conhecendo o histórico rebelde de seu povo, Deus procura


demonstrar-lhes, num contexto maior, que a multidão dos deuses, feiticeiros e
encantadores da Babilônia não teriam nenhuma chance contra os exércitos de
Ciro. Reitera-se mais uma vez o poder único de Deus, de vaticinar e de dirigir
o curso da história. De um lado, Deus protege o seu povo e depois desafia os
deuses das nações a mostrarem capacidade de predizer o futuro. Tão clara são
as visões do profeta Isaías que ele fala do futuro como se já estivesse no passa-
do, o que é também uma característica da visão profética.

COMENTÁRIOS HOMILÉTICOS
O pregador poderá escrever uma mensagem ou estudo enfocando a
esperança do povo de Deus. Pois o povo de Deus necessitou muito de
esperança. Vivendo longe de sua terra natal, com saudades do templo e
das cerimônias e do contato com as coisas sagradas do templo, o povo é
incentivado a esperar. Deus prometeu libertação ao povo e queria que o
povo realmente confiasse nas suas promessas, pois ele é o primeiro e o
último. Além dele não existe outra divindade, outro deus que possa estar
credenciado a prometer e garantir a execução da promessa.

SUGESTÃO DE TEMA E PARTES


Tema: Deus é a esperança do seu povo

I. Mostrando-nos que ele é Rei e Salvador


II. Garantindo-nos que não existe outro igual a ele.

Walter José Mormello


Esteio, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


1 Reis 3.5-15
28 de julho de 2002

CONTEXTO
O texto nos situa nas páginas áureas e gloriosas da história de Israel, o
reinado de Davi que passa a Salomão, o anúncio da nova fase, o reinado de
paz em Israel. Davi, morrendo, lega suas palavra de pai ao filho e sucessor
(2.2-9). Salomão, por assim dizer numa aliança política, casa-se com a filha
do Faraó do Egito, e está diante de sua tarefa de líder nacional. Logo após
o acontecimento relatado na perícope, vê-se confrontado a questões soci-
ais e religiosas em seu reinado e a decisões importantes a serem tomadas,
desde a disputa de prostitutas pela sua prole até o estabelecimento de alian-
ças internacionais (3.16-28;5.1ss) e a centralização do culto no novo tem-
plo. Responsabilidades pedem capacidade. Capacidade pressupõe prudên-
cia (2.9). Prudência implica não só ações certas (2.9) mas coração com-
preensivo (3.9). Coração compreensivo é antes de mais nada um cora-
ção que ouve (2.3;3.16-22).

TEXTO - CONSIDERAÇÕES GERAIS


A expressão nir’ah não significa que Deus apareceu a Salomão em algu-
ma forma corporal, mas que revelou-se a ele, que o inspirou, que lhe falou de
alguma forma específica de sonho. Podemos entendê-lo como Salomão rece-
bendo comunicações divinas, pensamentos divinos num sonho. Salomão funda-
mentou seu pedido na certeza de que Deus o atenderia para ajudá-lo em seu
reinado, assim como fora misericordioso para com seu pai Davi.

O pedido de Salomão revela sua prudência: se na vida comum somos


chamados a tomar muitas decisões, a julgar, a fazer escolhas, quanto mais
na função política de dirigir uma sociedade ou nação. O coração compre-
ensivo é antes de mais nada um coração que ouve. Saber ouvir é uma
virtude, requisito para uma ação sábia. Julgar bem pressupõe ouvir bem. A
natureza humana caracteriza-se pela precipitação e interesses particulares,
egocêntricos, de onde saem ações e decisões erradas e conflitos e injusti-
ça. A oração de Salomão é o modelo de uma oração de fé e confiança: não

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
pensa primeiramente em si, mas no seu serviço a outrem. Não fundamenta
o seu futuro fazer e o sucesso na sua capacidade, mas pede esta do alto.
Testemunha de uma fé confiante na bondade e graça de Deus. Deus se lhe
revela à noite porque ele o procurou e adorou durante o dia. O amor e a
adoração a Deus não permanecem vazios nem ficam sem resposta. Deus
atende, e acima da conta, o pedido de Salomão.

REFLEXÕES HOMILÉTICAS
Há, na cultura alemã, uma história antiga sobre desejos atendidos: “O
pescador e sua mulher” (Der Fischer und seine Frau) (que as crianças
gostavam de ouvir em LP nos anos 70, como o abaixo-assinado também).
Um pescador salva a vida de um peixe barbada, que se revela ser um peixe
mágico. O famoso e repetido grito do pescador à beira do mar, para chamar
o peixe, que lhe promete atender os desejos, era a fórmula mágica: “Manntje,
Manntje, Timpe Te, Barbada no mar, minha mulher Ilsebill não quer como eu
quero” (“Manntje, Manntje, Timpe Te, Butje Butje in der See, meine Frau die
Ilsebill will nicht so wie ich wohl will”). Na história vemos tanto questões
conjugais como questões de excessos, de constante insatisfação: Primeiro, a
mulher deseja, com a ajuda da barbada, sair de sua casa miserável de pesca-
dor e ter uma casa melhor. Depois não se contenta mais: sempre resmungan-
do, deseja um castelo. Quando o tem - sempre com a intercessão do cada vez
mais desesperado, mas inativo marido junto ao peixe -, quer tornar-se rainha.
Depois, imperatriz. O peixe sempre lhe dando estas coisas “de barbada”.
Quando ela enfim pede para tornar-se Deus e poder decidir sobre o sol, a
barbada os leva ambos de volta à sua pobre casinha de pescador, e desapare-
ce para sempre no mar. A lição é evidente: desejos e ambições irrefreados
não ajudam, mas podem destruir até aquilo que teria sido possível. Aqui no
texto também temos uma história de desejos a serem atendidos. Um homem
sucede ao outro em altíssima função. O segundo olha com gratidão para as
conquistas do primeiro. Mas está preocupado com a responsabilidade que o
espera. Prudente (2.9), Salomão não confia excessivamente em si: olha para
o alto, adora o criador e está atento àquele que é maior do que nossos desejos
e capacidades (3.3-4). À noite, Deus o inspira num sonho, e lhe proporciona
um desejo ilimitado: imaginem o que “amigos” e “assessores” lhe teriam su-
gerido! Mas eles não sabem, Deus fala a sós com Salomão, num pedido,
numa troca: atende meu pedido, e faz o teu pedido, porque quero ouvir-te.
Deus entra numa troca do ouvir e ser atendido: o pedido de Deus foi atendido,
ele atenderá o pedido de Salomão. Deus não é um Deus imóvel, inacessível,
mas é um Deus-conosco, um Deus que entra em relação conosco. E ele
procura não uma pessoa imóvel e estagnada, mas alguém que reage a Deus,
como Salomão: ele honra a Deus e lhe pede. Pedir e ser atendido, é assim
que funciona com Deus. No Novo Testamento o pedido de Deus foi demo-
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
cratizado: a todos Jesus pede: pedi, e dar-se-vos-á. E o novo rei pede um
coração sábio, que ouve. Ele sabe que só se enxerga bem com um bom
coração. O coração alimenta-se do ouvir e se exerce no distinguir e julgar.
Alimenta-se do ouvir a palavra de Deus, nas suas orientações e valiosas
promessas. E exerce-se no julgar e distinguir. O coração distingue entre o
bem e o mal, entre o que destrói e o que preserva a vida. Um coração que
ouve funciona como um aviso precoce, uma mente forte e crítica, que tem a
coragem de, se necessário, dizer não em tempo, e de dizer sim quando é
preciso avançar com coragem. Deus gosta do pedido de Salomão. Ele fica
feliz. Um Deus feliz gosta de atender pedidos. E por sua vez faz o rei feliz:
promete-lhe um coração sábio. E com ele, muitas outras bênçãos materiais.
Aqui fica claro que não se trata de substituir a competência pela piedade.
Não rezar ao invés de trabalhar e agir. Mas trabalhar e agir corajosamente
pedindo que Deus nos assista em nosso fazer e nos dê coração compreensi-
vo. Eis do que se trata. Um coração que ouve, um coração sábio não é uma
virtude nossa, é uma dádiva que se pede de Deus. Ao pescador e à sua
mulher faltaram corações que ouvem para tornar-se sábios. Nós nos predis-
pomos a pedidos de Deus quando o honramos e o adoramos, como Salomão.
Felizes somos, porque Deus quer nos fazer pedidos: deixemo-lo feliz, pedindo
também um coração que ouve, que é sábio e compreensivo. E poderemos
cumprir com as tarefas de nossa vida para o bem dos nossos semelhantes, e
conhecer bênçãos e felicidade.

ESTRUTURAS HOMILÉTICAS
Opção I: Disposição: Quando nossa oração agrada a Deus?

1) Quando oramos no sentimento de nossa pequenez e fraqueza, e na


confiança em sua misericórdia e suas promessas.
2) Quando antes de mais nada pedimos dons e bênçãos espirituais (Mt
6.33;Ef 1.3;Tg 1.5). (mas veja também Pv 3, 16-35 quanto a bens ma-
teriais).

Opção II: Tema: A verdadeira sabedoria que deveríamos pedir a Deus


(Tg 1.5) não consiste em grandes conhecimentos, mas na compreensão do
que é bom e mau (Jó 28.28; Tg 3.17; Ef 5.17), e é fruto da renovação de
nossa mente (Rm 12.2).

Pensamento importante, para finalizar: o que acontece neste texto, Je-


sus nos oferece no sermão do monte e no Pai Nosso (Mt 7.7-12; 6.9-13).

Manfred Zeuch
Canoas, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 55. 1-5
4 de agosto de 2002

CONTEXTO
Pela vivacidade do seu estilo, este convite tem sido comparado com os
gritos dos vendedores de água e outros vendedores, tão comuns no Oriente
Próximo. Este texto está entre os conceituados como um vibrante discurso
de consolo, dirigido aos israelitas exilados nas distantes terras da Babilônia.
A esperança de em breve retornar à Pátria é o anúncio com que o Senhor,
pela palavra do profeta, põe alegria no coração dos desterrados. Ciro, o rei
persa, foi o instrumento escolhido por Deus para levar a cabo a libertação e
a repatriação do povo, descritas com palavras que, às vezes, lembram o
êxodo do Egito. Este texto contém uma vibrante exortação para aceitar por
fé a salvação oferecida. É um dos maiores convites das Escrituras.

ESBOÇO
a. Os participantes – é apenas para os que têm sede.
b. O produto – leite e vinho à vontade.
c. O preço – é de graça.
d. A promessa – esta bebida gratuita salva a alma.
e. A súplica – os pecadores são solicitados a buscar o Senhor agora,
antes que seja tarde.

TEXTO
V. 1 – O Senhor está falando. A exortação começa de forma metafórica.
Uma figura familiar no dia-a-dia em Jerusalém é o vendedor de água,
que carrega um pote nas costas e oferece em voz alta o seu suprimento
à venda. O apelo para vir e comprar; ao mesmo tempo torna-se claro
que de fato a intenção é outra. O que fala aqui não é comerciante que
oferece sua mercadoria mediante pagamento; pelo contrário, Ele con-
vida as pessoas para um banquete de salvação, que pode ser obtido por
nada. Tudo o que é necessário é que as pessoas venham e tomem o que
o Senhor lhes oferece.
81
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
É interessante que o profeta não dirigiu as palavras ao povo de Israel
como era costume, mas a indivíduos: “vós que tendes sede, e que não
tendes dinheiro”. Aqui o que interessa é a decisão pessoal, ninguém é
excluído, visto que o convite aos que têm sede também pode despertar em
outras pessoas o desejo de vir.

Quando o autor usa as palavras “Vós que não tendes dinheiro”, ele
está descrevendo a miséria total em relação aos convidados. Transpondo
essas palavras para a obra redentora de Cristo, entenderemos o que Deus
está preparando, e concluiu na morte vicária de Cristo para nós, povo de
Israel. Nós que somos miseráveis, sem dinheiro, sem condições para nos
achegarmos até Deus, sendo totalmente dependentes da obra de Cristo. O
que Deus quer de nós imperfeitos é penitência, arrependimento, humilha-
ção (cf. Lc 18.9-14).

V.2 – O convite se torna mais urgente quando o profeta aponta para a


pobreza da vida sem a salvação oferecida pelo Senhor. A nossa vida é
uma bola girando no desperdício, em gastar dinheiro naquilo que não é
pão, e naquilo que não satisfaz. Essa expressão deve ser entendida
figuradamente, referindo a uma ilusão de suposta satisfação que opõe-
se aos prazeres reais oferecidos pelo Senhor. Tudo o que se ganha com
o suor, o trabalho é incapaz de satisfazer o coração em relação ao que
Deus oferece gratuitamente. O profeta está nos dando uma aula de
mordomia do tempo, dos bens, e ressaltando o 3º mandamento. Temos
o momento de trabalho para o sustento do lar, do lazer; mas também
devemos reservar tempo necessário para saciar a fome e sede da vida
espiritual, que aliás, é gratuita.

A 2ª parte do v. 2 “Ouvi-me atentamente” e “comei o que é bom” , no


hebraico podemos lê-la da seguinte maneira: “Se me ouvirdes, então
comereis o que é bom”. Essa pessoa insensata (surdo para Deus) podia
viver muito melhor nesse mundo em relação aos sacrifícios próprios que o
mundo exige. Ele apresenta o simples ato de escutar à voz do Senhor a
chamar; e logo receber aquilo que não é pão, mas que é bom para comer,
ou seja, uma experiência de verdadeira satisfação da alma. Isto é expresso
de maneira ainda mais vigorosa ao se dizer que sua alma se deliciará com
finos manjares, sendo a gordura considerada como manjar especial pelos
orientais, portanto uma figura da experiência da maior alegria.

Vv. 3, 4 – O convite para ouvir o Senhor e vir a Ele e, conseqüentemente,


para as bênçãos da redenção que Ele oferece é repetido aqui, acres-
centada a promessa de que então a sua alma ou pessoa viverá. Esta

82
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
vida, no seu plano mais alto pode ser experimentada apenas na obedi-
ência da fé. A salvação oferecida é descrita em linguagem clara como
uma aliança perpétua, uma aliança que Ele dará, que é descrita inteira-
mente como uma dádiva e graça de Deus, complementada em detalhes
como “fiéis misericórdias prometidas a Davi”. Esta profecia se refere à
promessa de que o Messias sairia da casa de Davi, sendo completa-
mente cumprida com a vinda de Cristo, o príncipe que Ele deu por
testemunho, prova, e governador dos povos.
V. 5 – Como fecho dessa perícope, o profeta mostra nesse v. as bênçãos
que obterão nEle e através dEle: “Eis que chamarás a uma nação
que não conheces”. Podemos contrapor esse v. com o lema vigente
na IELB: “Missão de Deus, desafio da Igreja”. O governo do Mes-
sias expresso no v. 4 é que esse chamado é um convite aos gentios para
que entrem em comunhão com o povo de Deus, os cristãos, e assim
gozem das bênçãos preparadas para o povo que teme ao Senhor, e ao
que Ele foi preparar aos que nEle confiam e guardam os seus manda-
mentos (cf. Jo 14.2,3).

O mesmo convite que Deus faz ao povo através do profeta é feito a nós,
povo de Deus. Somos chamados e convidados a cada dia para o banquete,
sem dinheiro e sem preço. Nós, que somos conhecedores das bênçãos de
Deus e da obra vicária de Cristo, temos o desafio de fazer esse convite a
todos, sem distinção de raça, nível cultural e social, pois todos carecem da
graça de Deus, e a recompensa será extraordinária: a vida eterna.

SUGESTÃO DE TEMA
Vinde e fartem-se:

a) Com o alimento que Deus nos oferece (palavra e sacramentos)


b) É inteiramente gratuito.
c) A recompensa é inevitável.

Donário Borchardt
Amambaí, MS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


1 Reis 19. 9-18
11 de agosto de 2002

TEXTO E CONSIDERAÇÕES HOMILÉTICAS


“Que fazes aqui, Elias?” Deus encontra o seu profeta com medo, decep-
cionado, recluso, acuado, “revoltado”, desanimado e escondido numa ca-
verna. Elias poderia tomar tal atitude extrema? Ele possuía razão para fugir
e abandonar a sua missão? Havia ele esquecido rapidamente a parceria
divina em sua vida? Quantos milagres foram realizados em nome de Deus
por seu intermédio! Em nome de Deus ele anunciara a seca, fez reviver
pessoas, amparara moribundos, enfrentara e dizimara inimigos, experimen-
tara o poder e a inseparável assistência divina. Em tudo o que fizera fora
um vencedor. Por que então a fuga e o refúgio numa caverna?

Elias viveu uma contradição, em que a vitória lhe trouxe um sabor amar-
go de derrota. Elias, na verdade, estava decepcionado com a rebeldia e
incredulidade do povo. Ele não conseguia relacionar o seu compromisso
com Deus e a reação negativa do povo. O povo, juntamente com os seus
líderes, não reagiu positivamente à ação de Deus. Deus, diante da rebeldia,
aplicava corretivos extremos como a morte, mas não houve arrependimen-
to. Além da rebeldia, a sua vida estava correndo perigo novamente. Os seus
e os inimigos de Deus eram muitos. Elias cansou. Ele deu um basta. Não
queria ser mais o carrasco de um povo rebelde e surdo ao chamado de
Deus. Encontrou a saída. Atravessou o deserto, encontrou a caverna para
refugiar-se. Ali não veria mais pessoas. Desconheceria os problemas, não
envolveria o povo com o juízo divino e resguardaria a sua vida.

“Que fazes aqui, Elias?” É a voz de Deus. Talvez a caverna, para o


stress de Elias, era uma boa saída. Mas não para Deus. E a intervenção
divina revela o grande amor e a solidariedade que Deus possui para com os
seus profetas. Deus foi atrás de Elias. Apesar da revelada fragilidade do
seu profeta, Ele o chama de volta. Deus toca fundo na alma de Elias e
permite que despeje as suas queixas e decepções. Que paciência possui o
Deus de Elias. Conhecendo bem a sua alma, Deus permite que ele coloque
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
para fora tudo o que está armazenado. Com essa atitude, Deus revelou que
“perde tempo” para correr atrás de seus filhos e ouvir as suas lamúrias.
Muito nos consola a paciência e a atenção dedicada de Deus a Elias. Como
Deus é maravilhoso. E o seu amor excede, quando reintegra o profeta na
sua missão. Apesar da fuga, do medo, do “stress” e do momento negativo
de Elias, Deus renovou com ele a parceria de sua obra. Elias ignorava, mas
Deus desejava sua participação. Pois Deus precisava salvar mais sete mil
pessoas que eram fiéis a Ele. E Elias recebe a missão definitiva e ainda
mais nobre: ungir reis e o profeta Eliseu e confirmar o seu Reino perante o
seu povo.

Diante deste Deus de amor, Elias não se recusa servi-lo. Elias reconsi-
dera os seus planos, enfrenta novamente o deserto e se dispõe a cumprir a
vontade do SENHOR. Elias, grande profeta, também revelou fraqueza e
dificuldades para encarar a sua missão. Mas a grandeza do profeta reside
justamente na revelação de sua fraqueza, sujeitando-se à interventora pro-
messa divina.

Elias não se opôs à missão de Deus, apesar de ter vacilado. Apesar de


seus questionamentos e dúvidas, ele se submeteu à ordem divina e realizou
a obra. Elias aprendeu que não pode olhar para os frutos imediatos, pois a
ação é divina e é Ele quem monitora a sua obra. O fato de Elias ter se
refugiado na caverna aponta para uma prática comum: buscar o deserto
para fugir da missão e omitir-se na caverna da inatividade. Cabe-nos anali-
sar, para que identifiquemos como fugimos para o deserto e nos refugiamos
em nossas cavernas. Ou somos isentos desta prática? Quando nos recusa-
mos a participar de um programa ou trabalho no reino de Deus, devido a
fracassos e decepções anteriores, por acaso não estamos imitando Elias?
Quando recusamos a convocação da igreja para desempenharmos uma fun-
ção, não estamos deixando desassistidos os sete mil que Deus deseja aten-
der e fortalecer para o Seu reino?

Como é grande o amor de Deus! Compreensivo e restaurador com aqueles


que fraquejam. Protetor e vigilante de todos os seus filhos. Este é o Deus de
Elias. Este é o nosso Deus. Este é o Deus que assiste, fortalece, renova o
seis servo atemorizado e envia um Elias comprometido e zeloso. Este é o
nosso Deus, que não deixa um Elias sozinho na caverna, bem como vigia os
seus sete mil fiéis que precisam da sua assistência através do profeta. Por-
tanto, podemos ter a certeza, diante de problemas e desafios, podemos con-
fiar que Deus estará sempre diante da nossa caverna confirmando o seu
amor. Refugiar no seu amor é melhor do que refugiar-se numa caverna
escura e isolada do deserto.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
PROPOSTA HOMILÉTICA
No refúgio do fracasso, Deus compartilha o seu amor
1. Restaurando o seu servo
2. Confiando-lhe a Sua missão.

Danilo V. Fach
Canoas, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 56. 1,6-8
18 de agosto de 2002

LEITURAS DO DIA
O Salmo 67 é conhecido como o Salmo Missionário. Aqueles a quem
Deus se revelou, se tornou conhecido, são agora, embaixadores – têm uma
missão – tornar este Deus conhecido (vv. 1,2,6,7). No v.2, o salmista pede
que Deus capacite o seu povo para espalhar a boa notícia da salvação entre
todas as nações.

O povo escolhido de Deus (Igreja) deve ter como missão (objetivo)


levar “Cristo para todos”, para que, assim como faz o povo de Deus, todos
os povos da terra venham à presença do Todo-Poderoso para adorá-lo.

O texto de Rm 11. 13-15, 29-32 aponta para a universalidade da


graça de Deus (v.32). Por causa do pecado, por natureza, todos são cegos,
mortos e inimigos de Deus. Mas Deus, por sua imensa graça, contemplou a
todos com sua misericórdia. Deus graciosamente alcançou e alcançará a
todos pelo Evangelho – palavra e sacramentos.

O Santo Evangelho do dia mostra, claramente, que Cristo veio para


salvar todos. Josué havia expulsado os cananeus da terra prometida. Este
povo concentrou-se e se desenvolveu na terra de Tiro. Agora, Jesus leva a
este mesmo povo a esperança de uma terra melhor – a pátria celeste – e
Jesus é o Caminho – para todos.

CONTEXTO
Isaías foi um dos maiores profetas, não só pela extensão do seu livro, mas pela
riqueza do conteúdo de sua proclamação. Ele é conhecido como o “Evangelista
do Antigo Testamento”, visto que apresenta a mais completa e clara exposição do
Evangelho de Jesus Cristo que se pode encontrar em qualquer parte do Antigo
Testamento. O livro de Isaías serve de compêndio das grandes doutrinas da épo-
ca pré-cristã. O Novo Testamento diz que Isaías “viu a revelação da Natureza
Divina de Jesus e falou a respeito Dele” (Jo 12.41 – NTLH).
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Isaías, filho de Amoz, membro de uma respeitada família de Jerusalém,
viveu entre os anos 742 e 687 antes de Cristo. Recebeu de Deus a ordem
de pregar, sem qualquer transigência, uma mensagem de advertência e
denúncia contra o seu povo, por causa da vida ímpia e idólatra. Convocou
toda a nação para fazer uma reforma completa e entregar-se a um verda-
deiro arrependimento.

Isaías foi odiado e perseguido pelo rei Acaz, mas foi respeitado pelo
rei Ezequias (716-698 a.C.) que, apesar de considerá-lo, desconsiderou suas
advertências contra a aliança com o Egito. “Uma tradição talmúdica, aceita
como autêntica por muitos primitivos pais da Igreja, declara que ele resistiu
aos decretos idolátricos de Manassés, pelo que foi preso, prensado entre
duas pranchas de madeira e “serrado ao meio”, sofrendo assim morte
penosíssima e horrível. Pensa-se que a isto se refere Hb 11.37.” (Manual
Bíblico – H. H. Halley – página 256)

O TEXTO
O capítulo 54 de Isaías fala da bênção sobre Israel; o capítulo 55 enfatiza a
graça a todos os pecadores que confiam em Deus. Para ratificar esta verdade,
o capítulo 56. 1. 6-8 confirma a inclusão dos gentios na bem-aventurança de
Israel (não como nação, mas como o seu povo, na totalidade).

V.1 – O capítulo 56 inicia com as sempre importantes palavras: “Assim diz


o Senhor”. O Senhor Deus instrui, ensina – o Senhor relembra o que o
seu povo esqueceu: a sua lei, a sua santa vontade.

Quando o Senhor fala, ninguém mais tem uma palavra melhor, ninguém
tem proposta melhor, ninguém tem Salvação, pois ele é o único SENHOR.
Quando o Senhor diz, ele cumpre. A mensagem deste versículo pode ser
comparada à de João Batista em Mc 1.15. O Senhor diz que vem – ele
cumpre o que promete. Estar pronto, preparado, é a ordem.

Vv.6,7 – Estes vv. falam do destino (sorte) dos estrangeiros. O v.6 des-
creve o seu relacionamento com o Senhor, enquanto o v.7 fala das
promessas que lhe são asseguradas. V.6: “....e chegam ao Senhor para
o servirem”.... A palavra original para este “servirem” denota um ser-
vir voluntário, serviço honroso, não um serviço simples, uma obra qual-
quer, feita por um escravo. O Senhor é a causa de os estrangeiros
chegarem até a sua presença, para servirem... para amarem... para
serem servos (esta ascendência não pode ser ignorada). Isto caracteri-
za um apegar-se (pertencer) ao Senhor – sincero e de coração (Salmo
24. 3-4). Estes Deus receberá (fará com que cheguem e sejam recebi-

88
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
dos) no seu santo monte – no seu templo, sua casa de oração. Ali Deus
estará no meio deles (Êx 20.24 e 29.42ss) e todos serão família de
Deus (Ef 2.19).

A base destas promessas está na oração proferida por Salomão, na


dedicação do templo, em 1 Reis 8.41-43. Parece que os judeus do N.T.
haviam esquecido da universalidade do amor e da graça de Deus. Haviam
se esquecido de Dt 4.6-8, 32-35. O templo de Salomão havia sido construído
também para os estrangeiros. Ali todos tinham acesso à graça de Deus.
Na verdade, Israel foi chamado para ser o Servo de Deus e pregar aos
gentios a salvação de Deus (43.21), até o momento em que a parede que
separava Israel e os gentios seria derrubada (Ef 2.14) e a diferença entre
eles deixaria de existir (Rm 3.9-12; Ef 2 e Mc 11.17).

V.8 – Assim diz o Senhor Deus... São palavras introdutórias, justamente


para mostrar a grandeza da promessa que segue: “Congregarei os
dispersos de Israel: ainda congregarei outros.....” A força do reunir,
congregar, está no Senhor. Ele ajuntará, reunirá o Israel disperso. Ele
também ainda quer reunir, juntar aos filhos de Israel que estão dispersos
outros que “não são deste curral” (Jo 10.16). Para mostrar o quanto
Deus quer que “todos sejam salvos” (Jo. 3.16) ...AINDA vai em busca
dos... OUTROS.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Tema: O Senhor quer todos os povos

I – Ele criou – todos


II – Ele enviou o Salvador – para todos
III – Ele quer reunir – todos.

Wilmar Meister
São Leopoldo, RS

89
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Êxodo 6.2-8
25 de agosto de 2002

CONTEXTO
O nome divino Senhor (JAVÉ) já era conhecido antes de Moisés. Já há
referência na Escritura a esse nome bem no princípio (Gênesis 2.4;4.26).
Segundo os melhores comentaristas, essa passagem de Êxodo 6.2 se refere
ao momento em que Deus estabeleceu o nome SENHOR, com o qual man-
teria, dali para frente, o seu relacionamento especial com Israel.

Trata-se de resposta confortadora ao grito de desespero e ansiedade de


Moisés no confronto com o faraó egípcio nas tratativas com respeito à liber-
tação do povo de Israel da escravidão. O registro está em Êxodo 5.22,23:
“Ó Senhor, por que afligiste este povo? Por que me enviaste? Pois, desde
que me apresentei a Faraó, para falar-lhe em teu nome, ele tem maltratado
este povo; e tu, de nenhuma sorte, livraste o teu povo”.

Alguns exegetas consideram esse texto bíblico como um segundo relato


do primeiro chamado de Moisés, um reforço. Sem dúvida, pode ser também
entendido como uma nova motivação e uma confirmação do primeiro cha-
mado, num momento em que Moisés parecia estar desanimado com seu
visível fracasso.

TEXTO
Vv. 2-4 – É, sem dúvida, uma solene e definitiva declaração: “Eu sou o
SENHOR”. Para os patriarcas, o Senhor não se revelou na sua capaci-
dade específica como Jeová, embora o nome Senhor não fosse desco-
nhecido para eles. Agora, Deus queria dar uma evidência atual, uma
prova definitiva de si mesmo de que cumpriria plenamente suas promes-
sas, pondo em efeito e abrangendo as condições do pacto messiânico,
pelo menos, na forma que o tipificasse e caracterizasse.

“...como o Deus Todo-Poderoso...” não quer apontar um nome de Deus,


mas quer descrevê-lo como o “Deus que é poderoso”.
90
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

“... mas pelo meu nome, o Senhor...” Esta afirmação, a princípio, parece
ser um tanto incompreensível. Parece ser certo que o nome era conhecido,
mas o significado não. Jeová (SENHOR) é o nome próprio, nome pessoal de
Deus, significando o que vive, o que tem existência própria, e nesta conexão,
o Deus da Redenção, o Deus da Aliança. Não é somente o Deus que criou o
universo e o sustenta, o Deus que criou o homem e lhe dá proteção e pão, mas
o Deus que entra em contato pessoal com a criatura caída, perdida e quer
salvá-la. Neste dimensão, Jeová (O SENHOR) não tinha sido conhecido pe-
los antigos patriarcas. O Senhor agora se manifesta como se manifestaria
século depois entre os mesmos judeus, humanizando-se em Cristo para poder,
de maneira completa, resgatar, salvar o ser humano.

Esta aliança foi feita com Abraão, Isaque e Jacó como suas histórias
mostram abundantemente, enquanto permaneciam como estrangeiros na
Terra Prometida. Porém, o tempo de 04 gerações a que Deus se referiu a
Abraão (Gênesis 15.16) estava se completando e sua palavra precisava
agora ser cumprida.

V. 5 – “... e me lembrei da minha aliança”. Daqui para frente, todos os


atos redentores de Deus serão apresentados como “lembranças” des-
se compromisso obrigatório que Deus estabeleceu livremente. Lem-
brar não significa que Deus tenha esquecido Sua aliança. “Lembrar-
se da aliança” é agir de maneira tal que os homens possam ver e
perceber o cumprimento das promessas.
V. 6 – “... resgatarei com braços estendidos...”, sugere um relaciona-
mento pessoal, íntimo, entre Redentor e redimido.
V.7– “Tornar-vos-ei por meu povo...” uma das mais lindas declarações,
conseqüência da aliança.

“... que vos tiro de debaixo das cargas do Egito”. Este é o começo do
grande credo da fé israelita e aparece de forma mais distinta na introdução
aos 10 mandamentos ( Êxodo 20.2).

À medida que crescia a experiência de Israel com Deus, novos “artigos”


eram acrescentados ao credo, mas esse “artigo fundamental” permaneceu
o mesmo em toda a história da nação.

V. 8 – Assim o Senhor deixava estabelecida Sua tríplice promessa:

1) libertar o povo da escravidão do Egito;


2) adotar formalmente o povo de Israel como SEU povo;
3) e levá-los, conduzi-los para dentro de Canaã, a terra prometida. As-
91
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
sim, o Senhor conforta seus filhos e filhas em meio às suas aflições com a
promessa de perpétua libertação, por meio da Sua aliança, que permaneceu
viva em seus corações.

PROPOSTA HOMILÉTICA
O SENHOR “se lembra” sempre da Sua Aliança:

1) o fez maravilhosamente com o povo de Israel, livrando-os e adotando-


os como seu povo;
2) o faz maravilhosamente conosco, livrando-nos, por Cristo, dos
“escravizadores” e da escravidão eterna;
3) fará maravilhosamente conosco, adotando-nos, perpetuamente, como
seu povo, levando-nos para dentro de nossa verdadeira pátria, a pá-
tria celestial.

Norberto Ernesto Heine


São Leopoldo, RS

92
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jeremias 15. 15-21
1 de setembro de 2002

Há muitos paralelos entre a época de Jeremias e o nosso tempo, entre o


seu chamado e o chamado de cada cristão, entre a sua dor e o nosso desa-
fio de não só permanecer fiéis ao nosso Salvador, mas também anunciar
claramente a sua mensagem à nossa geração. Para entender a mensagem
desta perícope, é preciso passear pelo seu contexto e desenterrar as suas
raízes, numa tentativa de entender o que Deus está dizendo nela a esta
geração.

CONTEXTO
O próprio livro de Jeremias contém algumas coordenadas importantes
para traçar o seu mapa. De 1.1-3, (1) sabe-se que nasceu de uma família
sacerdotal e que, portanto, desde criança tinha intimidade com as escrituras e
conhecia bem as dificuldades do seu povo para ajustar-se à vontade de Deus
– “este povo é de coração rebelde e contumaz” (5.23). (2) Sabe-se que
nasceu em Anatote (moderna Anata), povoado levítico a uns 5 km a Nordes-
te de Jerusalém, e que durante o seu ministério viu o trono de Jerusalém ser
ocupado pelos reis Josias, Jeoaquim e Zedequias, até os dias em que os
babilônios vareram o reino de Judá para as margens dos rios da Babilônia
(Faça uma leitura rápida desses governos em 2 Rs e 2 Cr para obter mais
informações contextuais, especialmente porque Jeremias é mais temático do
que cronológico. (3) Sabe-se que Jeremias foi chamado durante o governo
de Josias. Se Jeremias nasceu, como estima-se, aproximadamente em 650
a.C., o décimo-terceiro ano de Josias corresponde aproximadamente a 625
a.C. Portanto, era jovem (1.6, “não passo de uma criança”), talvez em idade
de casar. O Senhor não lhe dá opção. Chama-o expressamente para ser
profeta. Proíbe que se case (16.2). O privilégio de anunciar a palavra de
Deus será muitas vezes obscurecido pela crescente solidão, pelo isolamento
e pela oposição que sofrerá por causa do anúncio da mensagem.

Longe atrás estão os dias de Isaías, Amós e os grandes profetas do


século VII a.C. Pela mesma atitude de insensibilidade à mensagem, de

93
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
infidelidade e rebelião a Deus, Samaria, coração do reino do Norte, foi
despedaçada pelos Assírios. Deus, em sua misericórdia, não quer que Judá
tenha o mesmo destino. A primeira divisão do livro (cap. 2-25) contém a
pregação profética dos primeiros 20 anos de ministério de Jeremias, dirigida
ao povo de Judá e Jerusalém. A leitura dos primeiros capítulos compõe o
clipe que estabelece o perfil: imagens de um povo que não tem mais jeito.
“Tornaram às maldades de seus primeiros pais, que recusaram ouvir as
minhas palavras; andaram eles atrás de outros deuses para os servir” (11.10).
“Tenho visto as tuas abominações sobre os outeiros e no campo, a saber, os
teus adultérios, os teus rinchos e a luxúria da tua prostituição. Ai de ti,
Jerusalém! Até quando ainda não te purificarás?” (13.27).

TRANSIÇÃO
Dentro deste contexto, o texto. É fácil perceber seus dois momentos: o
momento de desabafo do profeta (15.15-18) e o momento de puxão de
orelha e consolo de Deus (15.19-21). Este texto, bem como 11.18-20,21-
23; 17.12-18; 18.18-23; e 20.10-13, é classificado como “Poema de La-
mento”, onde a humanidade do profeta se manifesta num momento de crise
e onde Deus traz uma resposta ao conflito.

TEXTO
O texto parece refletir um momento do ministério de Jeremias posterior
à reforma de Josias e anterior à deportação final, talvez durante o reinado
de Jeoaquim. O lamento começa com um pedido de vingança contra os
inimigos. No v. 15, Jeremias diz: Tu, ó Senhor, o sabes. Um dos sentidos
do verbo hebraico é: “Tu estás consciente do que está acontecendo”. É
uma frase familiar para expressar inocência e protesto ao mesmo tempo.
Lembra-te de mim. O verbo não significa mera lembrança passiva, mas
seu sentido implica o seguinte: Jeremias pede que Deus lembre da sua
fidelidade e dedicação e, em base a estas ações do passado, atue em seu
favor no presente. Ampara-me significa literalmente “visita-me”, com a
implicação de que Deus deveria entrar em ação a seu favor, impedindo que
os seus inimigos continuassem maltratando-o. O vinga-me não vem sim-
plesmente de um pedido de favor pessoal. O sofrimento do profeta é gera-
do por atitudes que são contra um servo de Deus e, portanto, contra Deus
mesmo. É Deus mesmo quem está sendo desafiado. Há um certo atrevi-
mento nas palavras do profeta, que seguem esta lógica: “Olha, Senhor, dá
um jeito nesta gente, porque eles não só estão me incomodando, mas estão
impedindo que eu faça o trabalho que me pediste. Por conseguinte, faça
com que parem com isto.” Não me deixes ser arrebatado, por causa
da tua longanimidade, isto é, “não sejas tão paciente com os meus inimi-
gos que eles tenham tempo de destruir-me”.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
No v. 16, Jeremias continua desenvolvendo o tema do seu sofrimento
injusto, pois é inocente, e do seu clamor por justiça. Achadas as tuas pala-
vras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria… Pro-
vavelmente há aqui uma volta ao momento do seu chamado (1.9), à alegria
e satisfação ao deixar a palavra do Senhor tornar-se parte integral da sua
vida. Ler também Ez 2.8-3.3 (Onde ordena-se ao ‘filho do homem’ que
coma o rolo de um livro: “Eu o comi, e na boca me era doce como o mel”),
Ap 10.9-11, e Dt 8.3.

O tema da inocência do profeta volta no v. 17, ao fundamentá-la com


sua forma de vida. Roda dos que se alegram, segundo Kähler (459) “é o
círculo das pessoas de posição na comunidade que compartilham de uma
decisão comum, que discutem os negócios e as fofocas, que tomam as
decisões e que levam adiante as tradições.” No v. 16, a palavra do Senhor
é fonte de gozo e alegria. No entanto, o profeta está excluído da alegria do
v. 17, porque provém de escarnecimento, de zombaria, da qual o próprio
profeta é objeto (20.7). (Ler Sl 1.1). Oprimido por tua mão – esta é a
forma como o profeta vive a sua presente situação. Aqui aparece o conflito
– Jeremias sente o peso da sua missão. Ele não pode cumprir o seu minis-
tério profético e ser apenas um entre os seus pares. A sua tarefa o separa
dos demais (leia 16.1-17), há urgência no cumprimento da mesma, e ele
sente-se pressionado pelo Senhor, tendo que superar suas resistências in-
ternas (leia também Is 8.1; Ez 1.3; 3.14, 11; 8.1).

A lamentação chega ao seu auge no v. 18. O profeta tira a roupa e


expõe a sua alma. É um momento de desabafo que só pode ser entendido a
partir da extrema dedicação e fidelidade do profeta. Toda a sua humanida-
de fica exposta. Segundo Baumgartner (49), dor e ferida – símbolos de
sofrimento físico – são aqui usados metaforicamente para expressar an-
gústia mental, a ruptura da sua alma criada pela dicotomia entre a compulsão
divina e o desejo humano. Será Deus um ilusório ribeiro, como águas
que enganam? Em 2.13, Deus identifica-se como “o manancial de águas
vivas.” Jeremias é provocativo. Está levantando a hipótese de ser Deus o
que ele não pode ser por definição e essência – justamente o contrário do
que Deus mesmo afirma ser. Será Deus como um riacho que só corre na
estação de chuva? Será Deus mera ilusão? As últimas palavras do profeta
já não expressam sua indignação contra o povo endurecido, mas contra
Deus mesmo. São palavras de rebelião e de crise com o próprio Senhor que
o chamou.

Os vv.19-21 expressam o momento de puxão de orelha e consolo de


Deus. A resposta de Deus é surpreendente. O próprio profeta precisa ser
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
chamado ao arrependimento, à mudança de atitude. “Deixe de lado esta
atitude de autopiedade”. No v. 19 Deus não promete nada além de que, se
houver arrependimento, o profeta talvez possa continuar a exercer o seu
ofício profético. Com toda a tribulação implicada, seu ofício ainda é um
privilégio. É preciso trilhar o caminho da cruz para que se possa chegar à
glória. Jeremias precisa purificar-se da sua amargura – que quase fechou a
sua boca, que quase o fez perder de vista a sua missão, que quase abalou a
sua confiança naquele que o enviou. Não é o profeta quem precisa contem-
porizar com o povo, mas é o povo quem deve ser transformado pela mensa-
gem do profeta. A mensagem dos vv. 20-21 é puro evangelho, é promessa.
Aqui há um segundo chamado, que repete a promessa e o conteúdo do
primeiro (ler 1.5-10). “Seja qual for a situação que tenhas que enfrentar, eu
estarei lá”. A promessa de Deus é a garantia de Jeremias. Ele agora sabe
que a jornada do profeta implica abrir mão de muitas alegrias terrenas, e
que mesmo no sofrimento e dor, o Senhor não o abandonará, mas renovará
as suas forças.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. A leitura dos outros textos para o 15° dom. após Pentecostes (Sl 119.105-
112; Rm 12.1-8; Mt 16.21-26) imediatamente revelarão o tema comum
a todos: Amor à palavra de Deus; a consagração de todo o nosso ser ao
Senhor; a presença do sofrimento na trajetória dos servos de Deus,
que não deve obscurecer o seu alvo ou enfraquecer o seu testemunho.
2. Jeremias tornou-se presa de um duplo conflito: 1.Com o povo, por cau-
sa da mensagem de julgamento que pregava. 2. Com Deus, porque
achava injusto ter que sofrer por causa do anúncio da sua mensagem.
Teve que ser chamado ao arrependimento e à fé; ao abandono da auto-
compaixão e à certeza da presença de Deus, apesar da rejeição social
e do sofrimento.
3. Como pastores, líderes ou sacerdotes reais (o que inclui cada cristão),
somos permanentemente expostos ao mesmo conflito e tentação. So-
mos chamados, empregando uma metáfora conhecida, a ser luz do mundo.
É a luz da fé o que torna possível iluminar o caminho para vida abun-
dante aqui e na eternidade. Se nossa luz brilhar, as trevas, que sopram
forte, não sobreviverão. Ser luz gera oposição, reações negativas e
sofrimento. No entanto, é preciso lembrar sempre que o preço vale a
pena e que nosso Pai Celeste sempre estará lá para trazer conforto e
renovar forças. E se Jesus tivesse cedido à tentação? (Mt 16.23.) Se
não lidarmos com o conflito, ele vai enfraquecer nossa vontade, nosso
testemunho e, finalmente, nossa fé. Vida consagrada implica aceitar o
sofrimento como parte de nossa realidade, mas também implica saber
que Jesus está conosco cada dia até o final.
96
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
PROPOSTA HOMILÉTICA SUCINTA
1 - O conflito de Jeremias – conflito de cada cristão
1.1 - A tentação de fechar nossa boca e não anunciar lei e evangelho
plenamente – por medo das suas conseqüências.
1.2 - A tentação de culpar a Deus pelo que sai errado ou de não querer
ser diferente.

2 - Chamado ao arrependimento
2.1 - Retornando a Deus.
2.2 - Aprendendo a confiar nas suas promessas.

Cláudio Flor
Londres, Inglaterra

97
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Ezequiel 33.7-9
8 de setembro de 2001

CONTEXTO
Ezequiel, primeiramente sacerdote em Jerusalém, foi levado ao exílio
para a Babilônia junto à primeira leva de deportados em 597 a. C. No 5º
ano de sua deportação ele foi chamado para ser profeta, exercendo esse
papel por um pouco mais de 20 anos junto aos judeus que viviam no exílio.
Neste seu papel, como atalaia, ele exorta seus companheiros de sofrimento
no exílio, os adverte e consola. Recebe visões a respeito de Judá e Jerusa-
lém distantes, contra quem inicialmente dirige suas ameaças, alertando o
povo exilado contra a expectativa de um retorno à pátria, visto Deus ter
amaldiçoado Jerusalém por causa dos pecados do povo e da idolatria que
imperava no templo em Jerusalém (2 Cr 36.16). Em 586 a. C., no 11º ano
de exílio do profeta, Jerusalém foi tomada pelas tropas de Nabucodonosor
e o templo reduzido a ruínas.

Nesta primeira etapa, que se divide em duas partes: profecias antes da


tomada de Jerusalém contra o povo idólatra, e profecias sobre o juízo de
Deus contra as nações, o profeta prega lei, a dura lei, ameaçadora e corre-
tiva. Suas pregações, nesta fase, são um misto de ameaças, invectivas,
cânticos de lamentação e cânticos fúnebres. Têm o propósito de humilhar
o povo exilado, seu auditório, e levá-lo ao arrependimento. Ezequiel tinha
liberdade de exercer seu ofício profético no estrangeiro. À sua casa acor-
riam os anciãos do povo para o ouvir, ouvir por curiosidade, ouvir segundo
sentiam coceira nos ouvidos, mas não davam ouvidos às suas mensagens,
não queriam ouvir o que precisavam ouvir. Ele lhes era como atalaia, eles,
contudo, se negavam a atender o toque de seus alarmes.

Na segunda etapa, que engloba a terceira parte de suas profecias, a


partir do capítulo 33, iniciam suas profecias de restauração e livramento do
povo depois da tomada de Jerusalém. São mensagens emitidas após a
queda de Jerusalém. O povo santificado seria restituído à sua pátria e os
inimigos seriam duramente punidos. Em vez de um povo humilhado e puni-
98
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

do, depois de restaurado, profetizado pela restauração do templo e das águas


que corriam do templo para a banda do oriente, o que simboliza a igreja em
seus atos de culto a Jeová e de testemunho ao mundo, o povo de Jerusalém
seria uma bênção para o mundo.

Com sentido cristológico ou cristocêntrico aparece o termo “pastor”,


um novo profeta, o servo de Deus, Davi. Davi é o grande patriarca e pai
ancestral do Filho do homem, Jesus Cristo. Nele, no filho de Davi, é verda-
deiramente restaurada a Jerusalém, o povo santificado a Deus.

TEXTO
Como texto de apenas 3 vv, digno de nota é a palavra central “atalaia”,
vigia, pregador, mensageiro de Deus, a quem o povo deve ouvir para a sua
restauração espiritual. É uma repetição de 3.17-19, com a diferença de
que em 33.7-9 é seguido o convite à conversão e à doutrina da responsabi-
lidade pessoal, vv. 12-19. Ezequiel, como profeta, é uma espécie de avisador
de Deus a um povo a quem ele foi enviado. O inimigo a ser percebido e
denunciado eram os pecados do povo, também agora no exílio, a funesta
idolatria, ainda não renunciada.

A terrível responsabilidade de um atalaia em época de guerra sobre os


muros da cidade, não lhe sendo permitido dormir jamais enquanto está no
posto, a ela, com seriedade semelhante, é comparada a função do profeta
naquela crítica conjetura que a nação, o povo de Deus, atravessava.

Não deve ter sido fácil, apesar da liberdade de profetizar, a Ezequiel


denunciar os pecados do povo, especialmente o da idolatria, por cuja causa
e culpa Judá e a capital Jerusalém tinham sido entregues por Deus na mão
dos inimigos em 597 a.C., e que o templo seria, e foi, contra a expectativa
do povo, jogado abaixo. Na mente do povo esta “cumplicidade” de Deus
com os inimigos, permitindo que o seu ícone idolatrado, que era o templo,
fosse debulhado, seria um baque catastrófico em sua crença religiosa. E
de fato foi. O próprio Ezequiel, ao receber a notícia, através de boatos, de
que os caldeus tinham mesmo derrubado e queimado o templo, o levou ao
pânico e ele emudeceu, até que Deus, numa nova visão, o comissionou a
falar novamente ao povo (24.25-27).

A tarefa básica de Ezequiel é, então, tentar cortar o “cordão umbilical”


que amarrava a crença do povo no templo. Deveria anunciar e convencer
o povo que a “fé” em “paredes e construções”, repetida pelos próprios
apóstolos de Cristo (Mc 13.1), quando desvirtuada pela segurança em coi-
sas, objetos e mesmo monumentos, desviam a fé verdadeira no Deus Jeová
99
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
que quer ser adorado em espírito e em verdade, com um coração arrepen-
dido e fiel nas promessas divinas; que a “fé” em Deus por serem filhos de
Abraão não garante absolutamente nada a ninguém. Mas os judeus pensa-
vam que sim, e esta foi a grande “tranqueira” a impedir que os judeus
percebessem e reconhecessem seus pecados.

O profeta é chamado por Deus de “filho do homem”, revestido da


natureza mortal e pecaminosa, tal como o seu próprio povo. Mesmo exer-
cendo função especial, sendo “boca” de Deus, tal como Daniel (Dn 3.17),
Ezequiel não poderia procurar se sobrepor aos demais do povo, lembrar-se
sempre de sua pecaminosidade. Embora tenha sido distinto por Deus para
a função de profeta, jamais poderia se igualar ao profetizado Filho do ho-
mem, Jesus Cristo, a quem aponta em suas promessas de restauração: O
fim último da lei e dos profetas é Cristo.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Um profeta de Deus

a) Chamado por Deus: através de sonhos, visões, comissionamentos


- Moisés na sarça (Êx 3)
- Samuel pela voz noturna (1 Sm 3)
- Elias pela palavra direta de Deus (1 Rs 17)
- Ezequiel, chamado já sendo sacerdote, por visões à beira do rio (1.1-3)
- Um profeta sempre diz “assim diz o Senhor”, e não “assim digo eu”
- A IELB chama e ordena pastores e demais ministros: voz indireta
de Deus: nos seus 100 anos é atalaia divino: pregando, administran-
do os sacramentos, visitando, confortando, fazendo o bem
- Autodenominar-se ministro de Deus: cuidado = porta aberta para
muita heresia: muitos dos “profetas” de hoje são “lobos roubadores”,
que pularam o muro e estão enganando em nome de Deus

b) Sua mensagem
- Deve ser anúncio da aproximação do “inimigo” – pecado que está
sempre à porta
- Condena a idolatria – todo o pecado é idolatria: pregação da lei para
que “belas e grandes construções” (templo para os judeus, boas
obras, religiosidade popular e cheia de superstições, etc) sejam pos-
tos por terra e assim Deus seja buscado
- Dificuldades inerentes ao exercício da função: diz uma lenda judai-
ca que Ezequiel foi morto por ordem de um príncipe caldeu por
condenar os pecados do príncipe.
- Pode ser e é rejeitada: muita gente ouve o que quer ouvir, não o que deve ouvir.
100
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
- Há os que ouvem o profeta (Palavra) e voltam à Jerusalém celestial
(igreja), confiando em Cristo e se santificando, adorando a Deus
em espírito e em verdade. Estes são igreja.
- Reconstrução do reino de Deus, do povo santificado: função funda-
mental e última da vocação de profetas
- Sejamos gratos a Deus pela construção do reino de Deus entre nós
pela voz dos profetas.

Heldo E. Bredow
Curitiba, PR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Gênesis 50. 12-21
15 de setembro de 2002

LEITURAS DO DIA
- Salmo 103.1-13 – Este salmo mostra o Deus Eterno na sua graça em
perdoar. A confiança na misericórdia deste Deus, que perdoa e que
sara, não deixa dúvidas de sua bondade. Deus é paciente, bondoso e
amoroso. Esta é a atitude de Deus em favor da criatura, e Davi louva a
Deus, porque ele perdoa todas as iniqüidades e redime da maldade.
- Romanos 14.5-9 – Paulo coloca o resultado da ação de Deus na vida
de seus filhos. Se o peso da lei massacra, somos perdoados e restabe-
lecidos, não pela nossa justiça, mas pela graça perdoadora de Deus.
Esta graça é que cria o referencial de vida em relação ao irmão mais
fraco. Porque Cristo morreu e ressuscitou por nós, fomos libertados, e
é esta liberdade que nos leva para uma relação de amor e perdão para
com os irmãos, com paciência, em suas fraquezas.
- Mateus 18.21-35 – As palavras de Jesus sobre viver em comunhão
cristã terminam com a parábola do evangelho do dia – viver no perdão.
Pedro levanta uma pergunta sobre os limites do perdão – onde parar?
Jesus traz resposta típica contra o legalismo casuístico dos judeus –
“Setenta vezes sete” não sugere lista de 490 perdões, mas a alegria de
viver no perdão. Se apenas e tão-somente esperamos receber perdão,
e não queremos viver no perdão, a vida em comunhão cristã sempre
sucumbirá. É fácil pedir para nós mesmos o perdão de Deus; difícil é
estender este perdão para os outros. A comunhão cristã só tem subsis-
tência quando vive no perdão total de seu Senhor que deu sua vida pela
cristandade. Não só receber e possuir o perdão, mas viver.

CONTEXTO
O problema começa com a venda de José para o Egito. O sentimento de
culpa e apreensão deve ter permanecido no coração de seus irmãos. A vida da
família de Jacó não foi fácil e agradável após o episódio. José, em terra estra-
nha, também passou por muitas privações. Junto com as privações o sentimen-
to de abandono e solidão. Superou todos eles, sempre fiel ao seu Deus.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Os irmãos movidos pela fome vão em busca de alimento no Egito. Há o
encontro e reencontro. São reconhecidos por José. São perdoados porque
José vê a mão de Deus em todos os caminhos de sua vida. Jacó é trazido
para junto de seu filho e a família está novamente reunida. O elo de amor -
Jacó e José, pai e filho - traz para todos os outros irmãos a segurança
necessária de não vingança. Jacó morre e a segurança, tão importante, no
íntimo dos irmãos desaparece. Não conhecem a reação de José.

O texto está registrado logo após a morte de Jacó. A sobrevivência de


toda a família depende de José. A culpa pelo que haviam feito, há muitos
anos, vem à tona. José pode tomar uma atitude legal diante de seus irmãos,
mas, o que se passa no seu íntimo?

Diante deste questionamento somos levados ao tema central deste Domin-


go – “perdão pelo mal que nos é causado e paciência com os que são fracos”.

TEXTO
V. 15 – “Vendo... que...” – no sentido de ser visível, saber, observar, ter
conhecimento.

- “pai” – Como comandante – objeto de honra, obediência e amor. Este


pai constitui, controla, guia. A falta deste pai trouxe aos irmãos de José
o temor e a preocupação. José poderia agora agir de acordo com o que
eles lhe haviam feito no passado.
- “perseguir” – guardar rancor com animosidade.
- “retribuir” – retornar, trazer de volta. Pensamento normal dentro das rea-
ções e padrões humanos. O que “aqui se faz, aqui se paga” era regra
comum para muitos. O conhecimento desta lei eles perceberam, mas o
poder do perdão era preciso dizer-lhes pelas ações da vida de José.

Vv. 16-18 – Fundamentam seu pedido de perdão na memória do pai. É


verídica a mensagem, ou não? Não há registro. Pode ter sido invenção,
não sabemos. Primeiro são enviados mensageiros, depois vão pessoal-
mente. Reconhecem seu erro, buscam o perdão.
Vv. 19-21 – A resposta que José dá aos seus irmãos é sua grandeza, sua
humildade e exemplo:

1 - sabia seu lugar e não se colocou no lugar de Deus para julgar;


2 - reconheceu o mal que tinham feito contra ele, mas reconheceu que
Deus transformou este mal em bem para preservação do povo;
3 - tranqüilizou seus irmãos não se vingando, mas consolando-os, sus-
tentando-os.

103
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
A atitude de José em perdoar e sustentar seus irmãos demonstra a fé
que precisa mover cada cristão, que sabe perdoar e dar nova oportunidade
de vida de acordo com o amor de Deus.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Tema: Deus cuida dos que perdoam e os retribui quando:

I – deixam nas mãos de Deus o julgar os erros dos outros;


II – pagam o mal com o perdão;
III – agem na prática deste perdão com afeto e amor.

Egon Eidam
Dourados, MS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 55. 6-9
22 de setembro de 2002

CONTEXTO
No que se refere ao contexto litúrgico, é digno de nota o ponto de con-
tato entre a leitura do Antigo Testamento e aquela do Evangelho do dia -
Mateus 20.1-16 - a parábola dos trabalhadores na vinha. Se, por um lado, a
parábola acentua a graça de Deus, que chama o pecador para o seu reino
(assim como Is 55.6,7), por outro lado, o texto de Mateus exemplifica bem
(“São maus os teus olhos porque eu sou bom? Assim, os últimos serão
primeiros e os primeiros serão últimos”) o que Deus anuncia através do
profeta - “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos”. O Sal-
mo do dia, Sl 27.1-9, também acentua a necessidade de voltar-se para Deus,
como fonte de toda a graça; o tema de buscar a Deus também ali está
presente.

No contexto literário, é importante notar que o texto em estudo é conse-


qüência do que é anunciado no famoso texto sobre o Servo (Is 52.13-53.12).
O capítulo 54 mostra a misericórdia e a fidelidade de Deus para com seu
povo, a quem Ele - o esposo fiel - não abandonará. No início do capítulo 55,
temos o convite de Deus para que o seu povo participe do grande banquete
da graça. Algumas expressões se salientam: “Ouvi-me atentamente ... ouvi,
e a vossa alma viverá ....convosco farei uma aliança perpétua ...”. Deus se
apresenta como o gracioso doador da salvação. O texto em estudo mostra
o que isto implica para aqueles que ouvem estas palavras.

TEXTO
Onde colocar a ênfase nas palavras do versículo 6? Pode-se tender a
enfatizar o “enquanto”, para dizer que chegará a hora em que Deus não
poderá ser buscado, nem invocado. Daí a urgência no buscar a Deus. Por
mais que tal idéia tenha seus méritos, não é a maior ênfase do texto. Esta se
encontra nos verbos: buscai - Ele pode ser achado; clamai (invocai) - Ele
está perto. Os verbos que se referem a Deus (pode ser achado, está perto)
deixam claro que é de Deus a iniciativa de vir até Seu povo e chamá-lo ao
105
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
arrependimento. E a ação das pessoas (buscar, invocar) só é possível por-
que Deus se coloca diante do Seu povo “perto” (a palavra é usada tanto
para proximidade física, como para denotar um relacionamento pessoal e
amoroso).

O texto seria usado de maneira equivocada se fosse considerado como


uma declaração de que a pessoa deva tomar a iniciativa. Deus já tomou a
iniciativa - Ele se coloca onde pode ser achado; Ele está perto. Mas onde é
isto? Em sua aliança (v. 3), que se manifesta em Sua palavra (v. 11). A
ação de buscar/invocar só é possível porque se refere ao povo de Deus, o
povo da aliança, que foi chamado por Deus para ser Seu povo amado e ao
qual Deus continua se manifestando de maneira graciosa.

“Perverso”, “iníquo” (v. 7) - é a estes que Deus se reporta e busca, em


Sua graça. Eles não conseguem chegar a Deus, por suas forças e decisão.
O “convertei-vos” (Almeida RA) é uma referência ao chamado ao arre-
pendimento, tanto no sentido de deixar o modo ímpio de viver, como, princi-
palmente, retornar para o Deus de quem recebera a aliança.

A que se refere a afirmação de que os pensamentos e caminhos de


Deus são mais elevados que os do homem (visto que a afirmação inicia
com um “porque”)? Até certo ponto, o próprio texto responde a questão, de
maneira simples. O v. 7. se refere aos “pensamentos” e “caminho” dos
ímpios. É preciso que o pecador deixe os pensamentos e caminho de incre-
dulidade, visto que Deus pensa e age diferente.

No entanto, pode-se notar ainda outro contraste entre os pensamentos e


caminhos de Deus e aqueles das pessoas. Aí o texto do Evangelho do dia
ajuda na reflexão. Em sua graça e misericórdia, Deus manifesta um cami-
nho e pensamento que parecem loucura para o homem natural (cf. 1 Co
1.18ss). Em uma sociedade do “recebe-pelo-que-merece” e do “aqui se
faz e aqui se paga”, o pensamento e caminho de Deus através de Seu Filho
é, sim, novidade.

Note-se que o v. 10 também inicia com um “porque”, mostrando a cone-


xão que há em todo o texto. Deus anuncia o resultado da sua palavra (v.
11), que produz vida e alegria em seu povo (vv. 12,13). Assim, o “mais alto”
característico dos pensamentos e caminhos de Deus não é apenas um con-
traste entre pecaminosidade humana e santidade divina. O contraste é ain-
da mais profundo, entre a justiça de obras que caracteriza toda busca hu-
mana e a justiça atribuída por Deus ao pecador, por graça, por causa de
Cristo, mediante a fé. O Evangelho é a grande surpresa de Deus para o

106
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
mundo e também para o seu povo. Dois textos que também tratam do
mesmo assunto podem ser conferidos em Is 65.1-7 e Jr 29.11-14.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
- Vivemos em um tempo de oportunidade, o tempo da graça. Vale aqui o
ditado popular: “Enquanto há vida, há esperança”; mas tal esperança não é
a popular, mas a que vem do chamado gracioso de Deus no Evangelho.

- Deus tem critérios estranhos para agir conosco. Ao pecador, Ele se


coloca perto e de modo que possa ser achado; mas ao Seu Filho santo e
amado, Ele se colocou longe (“por que me desamparaste?” Mt 27.46). É o
caminho da cruz, dolorosa cruz para o Servo de Deus (Is 53), mas graciosa
cruz, para o pecador.

- Também os cristãos têm dificuldade de viver do Evangelho. É mais


fácil e cômodo (e bem mais natural) viver pela lei. É um desafio para nossa
vida diária deixar Deus ser Deus, reconhecendo-o como gracioso, tanto
para nós, como para aqueles que consideramos perversos.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Tema: Os pensamentos e caminhos de Deus - mais altos que os nossos.
- Por quê?

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

107
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DÉCIMO NONO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Ezequiel 18.1-4, 25-32
29 de setembro de 2002

INTRODUÇÃO
Não é segredo que o texto de Ezequiel 18 foi escolhido em função do
evangelho do domingo, que é a parábola dos dois filhos (Mt 21.28-32).
Trata-se de uma parábola que, até certo ponto, é paralela a Lc 15.11-32 (o
“filho pródigo”). Tanto Mt 21 quanto Lc 15 apresentam um pai e seus dois
filhos, com destaque para o tema do arrependimento, que, no caso da pará-
bola do filho pródigo (Lc 15), é mais descrito do que mencionado. De igual
modo, Ez 18 destaca o arrependimento, ou a conversão. O termo aparece
umas cinco vezes, o que estabelece o vínculo com Mt 21.

TEXTO
Ez 18 é um capítulo famoso na Bíblia. Notável é o provérbio ou ditado
das uvas verdes e dos dentes embotados (v.2), que tem paralelo em Jr
31.29. Aliás, Ezequiel gosta de provérbios populares (o termo é lv’M’,
traduzido, em outros contextos, por “parábola”). Ele tem outro provérbio
em 12.22: “Prolongue-se o tempo, e não se cumpra a profecia”. Igualmen-
te famoso é o v.4: “A alma que pecar, essa morrerá”. Lido fora do contex-
to, antecipa Rm 6.23. Só que no contexto a ênfase é a seguinte: A alma
que pecar, essa (e não outra em lugar dela) morrerá. Em outras palavras,
a responsabilidade não pode ser transferida.

Como um todo, Ez 18 trata do justo juízo de Deus. O povo se vale de um


provérbio para caracterizar os desígnios de Deus (v.2), insinuando que os
filhos estão pagando os pecados dos pais. A referência é ao exílio babilônico,
pois, ao tempo de Ezequiel, o povo está no exílio. Deus responde, jurando
pela sua própria vida, que esse provérbio não será mais repetido em Israel.
Surpreende uma resposta aparentemente tão branda. Como se não bastas-
se, Deus passa a argumentar com o povo. Mostra que cada um é respon-
sável por seus atos.

Entramos na discussão na altura do v.25. O povo questiona os cami-

108
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
nhos de Deus. Nada de provérbios (v.2) desta vez, mas ainda é a mesma
choradeira. “O caminho do Senhor não é direito”. “Deus é injusto”. A
resposta é, outra vez, bastante branda. Quando seria de esperar um “quem
és tu, ó homem, para discutires com Deus?!” (Rm 9.20), o Senhor respon-
de (v.25), em forma de pergunta, se tortuosos não são os caminhos do
povo?!

E novamente Deus passa a argumentar. Introduz o tema da conversão


(vv.26-28). Reitera a pergunta pela retidão dos caminhos da casa de Israel
(v.29). O que seria um “caminho tortuoso”, neste contexto? Caminho
tortuoso é jogar a culpa em Deus, especialmente quando há uma situação
difícil (naquele tempo, o exílio). Situação análoga foi apresentada a Jesus
em Lucas 13, com a notícia do massacre promovido por Pilatos, ao que
Jesus acrescenta o desastre da torre no bairro de Siloé. E a resposta aqui,
em Lc 13, é idêntica àquela em Ez 18: “Se não vos arrependerdes, todos
igualmente perecereis”. Traduzido: Mais do que tentar entender ou saber
de quem é a culpa, é preciso tirar uma lição para a própria vida. E esta
lição passa pelo arrependimento.

Na continuação (Ez 18.30), Deus mostra que a responsabilidade é indi-


vidual. Cada qual é responsável por seus atos. “Eu vos julgarei, a cada um
segundo os seus caminhos”. O bom nisso tudo é que, se os filhos, hoje, no
exílio, não estão pagando pelos crimes dos pais, cometidos no passado, na
terra de Israel, o caminho de volta está aberto a todos e cada um. E a
conversão passa a ser um tema marcante da perícope.

O verbo “converter-se” (bwv, shub) aparece cinco vezes em Ez 18.25-32.


(Por trás do “desviando-se”, no v.26, está o mesmo verbo hebraico.) Este
verbo ocupa o 12º lugar na lista dos mais freqüentes do AT, com mais de
1050 ocorrências. Em Ezequiel, ocorre 62 vezes, sendo superado apenas
por Jeremias (111 vezes), Salmos (71 vezes), e Gênesis (68 vezes). O
sentido literal é “voltar”, implicando um movimento físico. Em contextos
teológicos, onde se tem em vista a aliança, tem um sentido metafórico:
“voltar” como “conversão”, “volta a Deus”.

Na Bíblia, o arrependimento, visto da perspectiva do homem, é descrito


de diferentes formas. Pode ser um “inclinar o coração ao Senhor” (Js
24.23), “circuncidar-se para o Senhor” (Jr 4.4), “lavar o coração da malí-
cia” (Jr 4.14), “arar o campo de pousio”, isto é, arar a terra que ficou
improdutiva por algum tempo (Os 10.12). Todas essas descrições de arre-
pendimento poderiam ser resumidas, com grande perda de plasticidade, é
claro, pelo verbo bwv, shub.

109
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Em Ez 18 a conversão é apresentada, ainda, como um “desviar-se das
transgressões” (v.30), “lançar de si as transgressões” (v.31), e, como ponto
alto, “criar em si um coração novo e um espírito novo” (v.31). Tudo isto soa
bastante antropocêntrico, como se a conversão dependesse de nós. Por
isso é importante repetir que se trata de descrições a partir de uma pers-
pectiva humana. E para que não fique nenhuma dúvida quanto a quem, de
fato, é o “cirurgião” neste caso, é preciso recorrer a Ez 36.26, onde Deus
diz: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de
vós o coração de pedra e vos darei coração de carne”.

Ez 18 parece, de fato, colocar todo o peso sobre os nossos ombros. O


justo que se desvia da justiça, morre por causa da iniqüidade (v.26). O
perverso que se converte, conserva a vida (v.27). O texto parece ter pouco
ou quase nada a respeito da graça e do amor de Deus. No entanto, uma
janela se abre no v. 32: “Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz
o Senhor Deus”. Deus não é apenas um juiz que, embora imparcial e justo,
proclama um frio veredicto de culpado ou inocente. Ele é o Criador que
não tem prazer na morte de ninguém (ver Ez 18.23;33.11). Ao contrário,
ele quer conduzir à vida (cf. 1 Tm 2.4-6).

APLICAÇÃO
Existe a tendência, especialmente em tempos de crise, de dizer que a
culpa é dos outros (assim como os filhos de Israel, no exílio, achavam que
estavam pagando a conta dos pais). Outras opções são culpar Deus, ou,
então, perguntar o que Deus tem em vista com tal acontecimento, quando
não se tenta justificar os atos de Deus (teodicéia). Difícil é fazer um mea
culpa. Diante disso, sempre é oportuno direcionar nossos olhos para nos-
sos próprios caminhos tortuosos. Sempre é tempo de pregar arrependi-
mento, especialmente o arrependimento da fé, como o evangelho do dia
(Mt 21.32) deixa claro.

Assim, em qualquer período do ano, também no pós-Pentecostes, cabe


bem esse tema. Porque arrependimento e fé são tema de cada dia. Até
conta-se a história de um rabino que ensinava a seus discípulos a necessidade
de fazer penitência um dia antes da morte. Diante da perplexidade dos discí-
pulos, que responderam ser impossível saber o dia da morte, o rabino retru-
cou: Tanto mais necessário se faz que cada um se arrependa hoje!

Na base do arrependimento estão a ira e o amor de Deus. Antes de


tudo, sua ira precisa ser levada a sério. Romanos 1-3 deixa isto bem claro.
Por outro, ninguém deveria ter medo de ser achado pecador na presença
de um Deus que declara não ter prazer na morte de ninguém. E este é o
110
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Deus que chegou a ponto de não poupar o seu próprio Filho para que tivés-
semos vida.

Na pregação, sugere-se explorar imagens bíblicas de conversão e arre-


pendimento. “Criai em vós coração novo e espírito novo” poderia ser o tema.
Com tal ênfase, uma sugestão é colocar a pregação no início do culto (se-
guindo uma sugestão de Lutero), seguida de confissão e absolvição e – por
que não? – a celebração da Ceia. Ou, então, organizar o culto de tal forma
que, neste dia, culmine com confissão e absolvição, seguida de celebração da
Ceia. Por que não realizar neste dia, por mais que seja dia de São Miguel e
todos os Anjos, um Dia de Súplica e Oração. Neste caso, sugere-se tomar o
Salmo (Sl 6) e a Epístola (1 Jo 1.5-2.2) previstos para um Dia de Súplica e
Oração (ver Palavra e Oração, p. 188), juntamente com a leitura do AT (Ez
18) e o Evangelho do 19º Domingo após Pentecostes (Mt 21.28-32). Outra
opção é substituir o Evangelho do domingo pelo Evangelho do Dia de Súplica
e Oração (Lc 15.11-32) que, como vimos, é paralelo a Mt 21.

Vilson Scholz
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

VIGÉSIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 5. 1-7
6 de outubro de 2002

LEITURAS DO DIA
Sl 118.19-24. O título deste Salmo é: “A alegria dos justos pelo Salvador”
ou “Agradecimento pela vitória”. Aí se destaca o júbilo espiritual de um
povo. O salmista incentiva ao regozijo e à alegria no v. 24, certamente pen-
sando naquele que foi rejeitado, mas que veio a ser a principal pedra, angu-
lar, segundo profecia a respeito do Salvador Jesus.

Fp. 3.12-21. Paulo faz uma advertência contra o perfeccionismo. Ele


mostra que pela fé os crentes já alcançaram a plena aceitação de Deus.
Mas como continuamos sendo pecadores, neste mundo ninguém alcança a
perfeição. Mesmo estando plenamente confiantes acerca da nossa salva-
ção, devemos evitar o orgulho e a presunção que podem inibir o nosso
contínuo crescimento na graça. Com o auxílio de Deus, crescer na
santificação.

Mt 21.33-43. Deus espera bons e abundantes frutos do seu povo, por


causa do seu grande amor demonstrado, mas muitas vezes só recebe o que
não é bom, injustiças e ingratidão. Citando o texto do Sl 118. 22,23, Jesus
mostra que a rejeição ao Salvador traz castigo e condenação.

CONTEXTO
No cap. 4, vv.2-6 Isaías enfatiza a esperança de tempos futuros. Mesmo
castigando Jerusalém, Deus purificou o seu povo, reservando-o e separan-
do-o para a sua glória. Um pouco difícil é a interpretação do v. 4 : “quando
o Senhor lavar a imundícia das filhas de Sião.” É possível que Isaías quises-
se levá-las a perceber que já não podiam esconder suas responsabilidades
por trás dos respectivos maridos ou governantes.

A culpa do sangue a ser banida de Jerusalém talvez se refira aos sacri-


fícios insinceros (1.15), aos homicídios (1.21) ou mesmo aos sacrifícios de
crianças (57.5) - atos que contavam com a participação das mulheres.
112
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
V.5 –“pavilhão”. Possivelmente é um sentido figurado: a promessa da
proteção geral de Deus nos dias que se seguiram às aflições de Israel.

TEXTO
Do cap. 4 para o cap. 5 há uma mudança repentina de tema. Da espe-
rança de tempos futuros, Isaías passa para a realidade dolorosa do momen-
to imediato. Nessa mudança poética, as emoções de Deus são ressaltadas
de modo impressionante, sobretudo seus sentimentos de dor e anseio. Ape-
sar de todo o cuidado e amor dispensado ao seu povo, esperando que produ-
zisse bons frutos, ele produziu frutos maus.

Os primeiros dois versículos formam um pequeno cântico de amor que


revela o prazer que Deus tem em seu povo escolhido, e, no fim, mostra a
ingratidão daquele povo para com o Senhor (confira a parábola dos lavrado-
res maus - Mt 21.33-43).

V.1 - Israel como vinha (Sl 80.8; Jr 2.21)


V.2 - Proteção divina (2 Cr 16. 9a)
O cuidado de Deus para com seu povo. Proteção contra perigos.
Frutificação (Mt 3.8). Cristãos produzem frutos em qualquer idade (Sl 92.14
Fruto do pecado (Dt 32.32; Os 10.13).

“Abriu um lagar”. Na Palestina e no Líbano, os lagares geralmente eram


abertos na rocha, em dois níveis: o superior - mais largo e mais raso, no qual
as uvas eram pisadas (Is. 63.3), e o inferior - mais estreito e mais fundo -
para receber o líquido da parte superior, por intermédio de uma goteira.

Através do AT vemos sempre de novo o cuidado e a atenção de Deus ao


seu povo, pensando no seu bem-estar. A promessa de Deus se renova sem-
pre de novo, isto é, nas bênçãos que derramaria sobre o povo se ouvisse a
sua voz e seguisse seus conselhos e orientação (cf Is 48.18). Apesar do
apelo e das promessas do Senhor ao seu povo, este mostrava-se rebelde e
desobedecia, afastando-se do seu Deus.

Os vv.5 e 6 são bastante fortes, em que Deus ameaça castigar o povo


por não produzir frutos bons, mas “uvas bravas”.

A chuva é essencial para o crescimento da semente e do fruto. As nu-


vens, feitas para chover, recebem ordens de não fazê-lo; o próprio Deus,
com quem está a chave da chuva, deu ordens, ordenou que retivessem
totalmente suas chuvas refrescantes.

Hoje nós somos o povo escolhido de Deus. Somos a vinha do Senhor.


113
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Ele espera que produzamos bons frutos. Mas também nós somos pecado-
res. Merecemos castigo. Não produzimos os frutos que ele espera de nós.
Arrependendo-nos, ele se mostra gracioso e misericordioso. Concede per-
dão por causa de Cristo. Promete a salvação e nos dá certeza dela. Conhe-
cendo a graça de Deus, tendo certeza da salvação, ele também nos anima
e incentiva a produzirmos abundantes e bons frutos. Isto inclui o testemunho
e o empenho de levar “Cristo para todos”. É o desafio da igreja.

Lutero (Dr. Martin-Luthers Sammthliche Schriften, Vol.VI) diz o se-


guinte sobre o texto de Isaías:

A “vinha” é o povo de Israel, o qual Deus “cercou” com a sua


lei. As “vides escolhidas” são os juízes e reis, como Josué e
Davi. A torre é a Palavra do Senhor, que Deus concedeu para
o exercício e a preservação da fé. O “lagar” é o afogar do
velho homem, do qual Rm 12.1 fala. “Uvas bravas” são peca-
dos cometidos e que se manifestam de diferentes maneiras,
naquele tempo também na morte de profetas e depois do pró-
prio Cristo.

SUGESTÃO DE TEMA
Que tipos de frutos produz a vinha do Senhor (o povo de Deus)?

1 - Pela tendência natural são frutos maus.


2 - Com auxílio e a bênção do Senhor são frutos bons.

Fermino Bündchen
Cruz Alta, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 25. 6-9
13 de outubro de 2002

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A ênfase desta perícope está no cântico, no banquete, na festa. Os
vv.6-9 são empregados de forma bem adequada na leitura do AT para a
Páscoa (cf. Trienal B), ou seja, a festa da ressurreição de nosso SENHOR.

Os cap. 24 - 27 de Isaías formam o que comumente se denomina de


“Apocalipse isaiano” visto que seu foco centraliza-se no triunfo de Deus
sobre o anti-reino, representado no contexto pela cidade tirana. O cap. 25
antecipa a derrota dessa cidade, ocasião em que o Reino é estabelecido
para sempre. A derrota da cidade motiva o cântico de louvor em 25.1-5 e 9.
Este cântico reflete as ações de graças pela fidelidade divina em cuidar do
Seu povo e livrá-lo de forças humanamente imbatíveis.

TEXTO
“Neste monte... todos os povos”, no v. 6, combina particularidade com
universalidade. O monte, evidentemente, é Sião. Já no AT aplica-se a todos
os habitantes da “cidade santa”; no NT, como em nossa liturgia e hinos, o
termo é uma referência à igreja. Todos os que vêm à festa são convidados do
SENHOR (cf. o evangelho do Dia, Mt 22.1-10). É o próprio rei quem convi-
da. No Antigo Oriente Próximo a festa normalmente ocorria por ocasião da
festa de coroação do rei (cf. 1Rs 1.25). Nessa ocasião o rei presenteava os
convidados com honra, e até bens e favores. Este parece ser o pano de
fundo deste texto. “Banquete de cousas gordurosas” - para um povo que não
vê necessidade em se preocupar com o colesterol, as partes gordurosas da
carne eram as melhores partes (Sl 36.8; 63.6). Nos sacrifícios, estas partes
eram queimadas ao SENHOR, exclusivas Dele (Lv 3.3; 4.8-9). Mas aqui
Deus está presenteando Seu povo com o que Lhe é exclusivo. “Vinhos ve-
lhos” (~yrmv - de rmv -) é o vinho que permaneceu guardado, decantado para
tornar-se claro e puro: é o melhor vinho (cf. Jr 48.11; Sf 1.12).

Vv. 7 e 8 mostram que o povo vem para o grande banquete com o véu sobre

115
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
suas faces. Conectando-se este v. com o v. 8, vê-se que a referência provavel-
mente é ao véu ou mortalha da morte. Antes que os seres humanos possam
desfrutar a alegria da festa de Deus, algo deve ser feito com relação à maldição
universal, que cobre e entristece toda a humanidade. E esta ação apenas Deus
pode assumir. Tanto no v. 7 quanto no v. 8, o verbo é [lb, que significa “engolir”,
“tragar”. O verbo em outros lugares é usado como equivalente a fazer desapa-
recer, tomando para si mesmo. Após a expulsão edênica, a morte traga a tudo
e a todos e não pode ser tragada por ninguém das criaturas. Convive-se com a
morte a todo momento e em todos os lugares. Deus, entretanto, é o único que
pode tragar a Morte (no texto com artigo, personificada), no monte Sião. Que
outra relação há senão com a morte e ressurreição de Cristo, a razão última
pela qual se pode celebrar a festa? Nele a Morte foi tragada para sempre e
para todos os povos da terra (Rm 6.14; 1Co 15.12-57; 1Ts 4.14; Ap 1.17, 18;
21.4). Esta é a última libertação. Podemos ser libertados da escassez e opres-
são, mas até que sejamos libertados da morte as demais libertações são “café
pequeno” porque a Morte sempre ainda vence (Is 40.8).

“Deus enxugará as lágrimas” é uma figura que demonstra carinho e conso-


lo paternos à criança em aflição. Deus tirará a tristeza associada à inevitabilidade
da morte. “E tirará o opróbrio do seu povo” é o resultado da vitória de Deus
sobre a morte e o Seu oferecimento da celebração da vida. O pecado (nature-
za, inclinação, disposição) do povo trouxe vexame aos olhos das nações. Mas,
naquele dia, ao tornarem para o monte Sião, toda a vergonha, decepção, fracas-
so terão sido apagados das vistas dele e de todos os povos.

O v. 9 fala em esperança e salvação. “Esperar” (hwq) é um termo teolo-


gicamente importante no AT, especialmente no Saltério). Homileticamente,
o pastor deve lembrar que no vernáculo “esperar” nem sempre envolve
certeza; no contexto bíblico, entretanto, “esperança” é sinônimo de “certe-
za”. Cristãos também se lamentam, choram e se entristecem na presença
da morte, mas não como os que “não têm esperança” (1Ts 4.13).

A proximidade do final do ano eclesiástico lembra a “esperança” da


segunda vinda do Noivo na consumação dos séculos (Ap 21.4). Nesse
ínterim, a Morte continua a “ceifar” vidas, mas com seus dias contados.
Entretanto, o povo de Deus, a “cidade santa” continua cada domingo a
celebrar a festa do “dia do Senhor” (Ap. 1.10) e a “exultar e alegrar-se na
sua salvação” porque vive na esperança e no aguardo Daquele que na
história e na promessa é “o nosso Deus” (v. 9).

SUGESTÕES HOMILÉTICAS
1. O texto aborda a questão da universalidade-particularidade-universali-
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
dade. Todos os povos estão envoltos com a “coberta” e o “véu” da
morte. Sião, onde se materializa a salvação, é o único lugar onde todos
podem buscar guarida.
2. A morte, ao adentrar o universo da humanidade, mostra-se uma vence-
dora imbatível. Mas a morte, esse monstro que traga a tudo e a todos,
será tragada pelo “Monstro Maior” - o SENHOR dos Exércitos - que a
faz desaparecer engolindo-a na sepultura de Cristo que se abre, se
fecha e novamente se abre para trazer a vida e vida em abundância.
3. Liturgicamente, o uso de “véu” pode ser associado à Santa Ceia antes
de os elementos serem descobertos para a sua distribuição. Uma vez
esclarecido seu valor e consagrados, os elementos sacramentais con-
cedem o benefício da vida e a salvação.
4. Apenas a ação divina interferindo no processo “natural” da morte e
destruindo, aniquilando seu poder, desperta a esperança (certeza) da
participação de todos os que aceitam o convite no grande banquete
escatológico.

SUGESTÃO DE TEMA
Deus nos faz participantes do Seu divino banquete.

Acir Raymann
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 45. 1-7
20 de outubro de 2002

CONTEXTO
O texto se insere mais ou menos na metade do ciclo profético dos capí-
tulos 40-48, que contêm nove profecias, sendo a do nosso texto a sexta, em
que o profeta profetiza que Ciro, o rei da Pérsia, será o ungido do Senhor
para libertar o povo de Judá do cativeiro babilônico. A profecia toda se
resume nos seguintes termos: “O Senhor fez de Ciro o irresistível vencedor
dos príncipes e conquistadores da Babilônia por amor de seu servo Jacó,
para que todo o mundo saiba que ele somente é Deus.”

TEXTO
V. 1 – Ciro naturalmente não foi ungido exteriormente, num ritual de con-
sagração, em que se derramava óleo na cabeça dos israelitas que fo-
ram consagrados para seus cargos, como, por exemplo, os reis, sacer-
dotes e profetas. Mas Ciro, de um modo especial, recebeu poder do
Senhor, que o tomou pela mão direita para vencer todos os obstáculos
que se lhe antepunham nas suas conquistas gloriosas. Descingir os lom-
bos dos reis é o mesmo que tirar-lhes o poder, enquanto cingir os lom-
bos significava o contrário: armar-se ou preparar-se para o trabalho
(cf. Jr 1.17; Jó 40.7). As portas que se lhe abriram para não se fechar
mais é uma alusão às numerosas conquistas que realizou.
V. 2 – No entanto, Ciro nada poderia fazer sem o auxílio de Deus, que iria
adiante dele. Endireitar os caminhos tortuosos é uma expressão seme-
lhante à de Is 40.3,4 e parece referir-se especialmente à extensão do
reino messiânico, que as conquistas de Ciro iriam favorecer. Quebrar
as portas de bronze e despedaçar as trancas de ferro podem ser uma
alusão especial às 100 portas de bronze que guarneciam a cidade da
Babilônia e que, humanamente falando, a faziam inexpugnável, proble-
ma que Ciro contornou, desviando o rio Eufrates de seu curso normal.
V. 3 – Os antigos falam muito a respeito dos tesouros que Ciro conquistou,
principalmente com a conquista da Lídia e da Babilônia, calculados em
mais de 120 milhões de libras esterlinas. Eram tesouros escondidos e
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
encobertos em câmaras subterrâneas que contribuíram para a elimina-
ção dos babilônios (cf. Jr 51.39; Dn 5.1) e depois para o enfraqueci-
mento moral dos próprios persas. Os objetivos das conquistas de Ciro,
no entanto, tinham um fim tríplice, o primeiro mencionado neste versículo
e os outros dois nos vv. 4 e 6: 1) que o próprio Ciro conheça a Javé e
saiba que ele é o Deus verdadeiro; 2) que Israel seja libertada por ele;
3) que todas as nações saibam que Javé é o único Deus. A conjunção
final ![ml (para que) encabeça cada uma dessas três orações, indican-
do uma finalidade, objetivo ou propósito.
V. 4 – O v. 4 indica a segunda finalidade ou propósito do chamamento de
Ciro, que aconteceu por amor do servo de Deus, Jacó ou Israel. Pelo
seu chamado Deus intencionou libertar os judeus do cativeiro babilônico
e reconduzi-los a Sião, onde deveriam reedificar a cidade de Jerusalém
e o templo, permanecendo como nação até a chegada de Siló, o Salva-
dor das gentes, Jesus (Gn 49.10), que edificaria um reino para sempre
(2 Sm 7.13).

Deus chamou a Ciro pelo nome, isto é, o encara direta e pessoalmente.


O vocábulo empregado para o nome é ~v, no original, que indica seu nome
principal. Além de mencionar seu nome principal, Deus também lhe pôs o
sobrenome (hnk), um epíteto ou nome de honra adicional. Em Is 44.28,
Deus o chama de meu pastor e em 45.1 de seu ungido.

A frase: ainda que não me conheces é repetida no v. 5 e soa como um


estribilho. Deus chamou a Ciro pelo seu nome, ainda que este não o conhe-
cesse. Chamar a Ciro pelo nome era a maior honra que lhe poderia aconte-
cer. Somos informados que Ciro dava grande importância a conhecer as
pessoas pelo nome e que ele sabia o nome de todos os seus soldados. Deus
o chamara pelo nome muito antes de seu nascimento como o fez também
com algumas personalidades bíblicas (cf. Jr 1.5; Rm 9.11).

Não sabemos se Ciro se converteu. De acordo com uma inscrição ar-


queológica no Museu Britânico, ele era politeísta. Segundo as Escrituras,
sabemos que ele reconheceu ter sido chamado pelo Deus de Israel para a
tarefa de libertar os judeus e reconstruir o templo (cf. 2 Cr 36.22,23; Ed 1.1-
4). Mas com isto ainda não é confirmada a sua conversão. Veja os exem-
plos de Balaão, Faraó, Acabe e outros. Mas, de qualquer maneira, não dei-
xou de ser um instrumento de Deus para conduzir os destinos da História
Universal de acordo com a sua vontade.

V. 5 – Para Senhor, no original, Deus usa seu nome próprio Javé (hwhyy),
no sentido de Êx 3.14: EU SOU O QUE SOU. Ele é o Senhor absoluto e

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
além dele não há outro Deus, frase que é mais uma vez repetida no v. 6.
Essa menção de sua unicidade e singularidade reforça a frase seguinte: “Eu
te cingirei”, oposta à frase do v. 1: descingir os lombos dos reis. Só o único
Deus verdadeiro poderia cingir a Ciro, isto é, armá-lo a fim de desarmar
muitos reis poderosos.

Já vimos acima, no v. 4, que, de acordo com informações de passagens


bíblicas, Ciro reconheceu ser instrumento chamado pelo Deus verdadeiro
de Israel para a sua tarefa libertadora do povo dos judeus. O mesmo tam-
bém é atestado por Josefo em sua obra Antigüidades, XI, 2: “Quando Ciro
leu isso (Is 44.28) e admirou o poder divino, foi imbuído de um sério desejo
e ambição para cumprir o que estava escrito.”

V. 6 – O terceiro objetivo das conquistas e feitos de Ciro era que todas


as nações do mundo, desde o oriente ao ocidente, reconhecessem que, além
de Javé, não havia outro Deus. Assim o propósito final, nas palavras de J.
Ridderbos, vai além da redenção de Israel. Esse propósito é desvendar a
grandeza do Senhor diante das nações, a fim de que elas possam reconhecê-
lo como Deus (J. Ridderbos, Isaías, Edições Vida Nova, 1990, p. 374).
Segundo Walter Roehrs, Deus, ao mesmo tempo que despertou a Ciro para
libertar Israel da servidão física, armou o palco para o qual estava conduzin-
do os acontecimentos do mundo. Era seu propósito criar um Israel espiritu-
al, uma comunhão dos santos, da qual participariam nações incorporadas no
império persa. O Criador dos céus e da terra não deixaria fugir das suas
mãos a direção da História para deixar o mundo mergulhado num caos de
confusão (Walter R. Roehrs, Concordia Self-Study Commentary, CPH,
1979, p. 475). E Augusto Pieper conclui: “Ciro pertence às grandes perso-
nalidades da História Universal, através das quais Deus realiza algo especi-
al para a consumação do grande segredo que é Cristo e sua comunidade.
Ele não pertence à mesma galeria de um Moisés, Samuel, Davi, Isaías,
Paulo, Agostinho, Lutero. Ele não é um espiritualmente grande. Mas ele é
um dos grandes que deveria dar à marcha dos acontecimentos exteriores do
mundo uma especial mudança para a concretização do plano divino da re-
denção. Sem Ciro, nenhuma libertação de Israel da Babilônia, nenhuma
continuidade do povo judeu até Cristo, nenhum Cristo” ( Augusto Pieper,
Jesaias II, Nortwestern Publishing House, 1919, pp. 221-222). A vinda dos
magos a Belém, em Mateus 2, é uma prova dessa mudança histórica.

V. 7 – Esse versículo nos lembra que Deus é o autor de todas as coisas.


Ele é o autor da luz e das trevas, da paz e do mal. À primeira vista choca a
frase: e crio o mal. O contexto, porém, indica que a frase não quer dizer que
Deus deu origem ao mal, mas que ele, como um Deus justo, traz o mal sobre
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
os homens e nações por sua má conduta. Assim a vara, nas mãos da Assíria,
era o instrumento do furor de Deus (Is 10.5). Deus está pessoalmente atrás
de toda a desgraça, como também move toda folha nas árvores e as batidas
de nosso coração. Esta noção da presença de Deus em todos os grandes e
pequenos atos da vida dos homens o deísmo e o naturalismo quase que
extinguiram no mundo ocidental e até no meio da cristandade. Para Lutero
esta realidade era muito viva. Ele vê a ação imediata de Deus nos aconteci-
mentos mais insignifcantes de sua vida. Confira seu sermão contra o turco.
A Escritura está repleta desta visão. Confira o livro de Jó, especialmente os
cc. 40 e 41, os Salmos 104 e 139; Rm 11.36; Am 3.6 etc. É preciso lembrar
e frisar esta realidade muito mais em nossos sermões.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Se enfocarmos o texto do ponto de vista da marcha dos acontecimentos
do mundo, poderíamos estabelecer o seguinte tema com suas partes:

Deus sempre manteve o mundo sob controle no passado e no


presente

1. No tempo de Ciro controlou os acontecimentos da História a fim de


estabelecer o reino do futuro Messias.
2. Em nosso tempo mantém o controle dos acontecimentos do mundo para
consumar o seu reino eterno. Se quisermos dar ao texto um enfoque
mais pessoal, poderíamos formular tema e partes assim:

Deus chama a todos os seus filhos pelo nome

1. A Ciro chamou pelo nome a fim de realizar grandes feitos para o bem
de seu reino no Antigo Testamento.
2. A nós também ainda hoje chama pelo nome a fim de realizarmos seus
desígnios para o bem de sua igreja em o Novo Testamento.

Paulo F. Flor
Dois Irmãos, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Levítico 19.1-2, 15-18
27 de outubro de 2002

CONTEXTO
O texto encontra-se dentro do capítulo conhecido como o “sermão da mon-
tanha do Antigo Testamento”. Concentra-se na santidade de comportamento
para com Deus e o próximo. Prescreve atitudes que buscam atingir um propó-
sito muito claro, comum a todas, ou seja, cumprir o santo sereis, porque eu, o
Senhor, vosso Deus, sou santo (v.2). A nossa atenção de imediato é desper-
tada para o modo de cumprir o “santo sereis”. O texto não aponta para um
caminho de separação do mundo, de reclusão em lugares restritos para a prá-
tica de uma santidade por afastamento de tudo e de todos. Não é o que retira-
mos do texto. A perícope indica um outro caminho, pondo o filho de Deus em
contato diário e constante com o seu próximo. Os filhos do povo de Deus são
chamados a ser santos no convívio com os seus semelhantes.

Olhado dessa forma, o texto ganha novo sabor. Em vez de engoli-lo pura
e simplesmente como uma lei indigesta que exige algo em si impossível
para seres pecadores, passamos a perceber nele um tempero muito especi-
al. Por que não chamá-lo de tempero do sal? A santidade de vida não se
restringe somente a uma questão no sentido vertical, entre o homem e Deus.
Não, ela também se espalha no sentido horizontal. Nesse sentido ela favo-
rece homens e mulheres a partir de atitudes coerentes com a vontade divi-
na por parte daqueles que foram chamados para serem do povo de Deus.
Homens e mulheres, também amados pelo Senhor, serão beneficiados por
ações muito bem temperadas, pois a “receita” foi dada por Deus. Por de-
trás de tais ações há um duplo objetivo a ser atingido: que as criaturas
humanas sejam valorizadas e amadas como tais, pois assim o quer o Cria-
dor delas; que o testemunho deixado pelos filhos de Deus através do agir
deles aponte para o Senhor, a fim de que ele se torne conhecido, seja bus-
cado por muitos e aceito na vida daqueles que antes, ou não o conheciam,
ou não reconheciam nele a fonte de todas as bênçãos. A busca da prática
da santidade nessa perspectiva dá ânimo diferente para nossa vida, pois
nos coloca a oportunidade de servir de instrumentos pelos quais o amor de

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Deus chega graciosamente na vida de criaturas que, por criação, são ir-
mãos nossos.

TEXTO
Vv. 1 e 2 - As palavras são dirigidas a toda a congregação dos filhos de
Israel. Estão, portanto, identificados os destinatários. São os que com-
põem o povo de Deus. Ouvir como povo de Deus as palavras do Se-
nhor tem um significado muito especial. Israel não escolheu ser povo de
Deus. Foi o Senhor quem os elegeu. Foi tão-somente um ato gracioso
de Deus. Quem se dirigia à congregação naquele momento era o Deus
gracioso. Não se tratava de um tirano a ditar leis e prescrever obriga-
ções. Se assim fosse, o que viria a ser dito poderia receber uma reação
de repulsa. Não era o caso, pois provinha da boca de quem se mostrara
incompreensivelmente gracioso para com aquela raça. Unicamente por
graça era o SENHOR, vosso Deus. Poderá vir algo desagradável para
alguém da parte de quem se revelou gracioso? De forma alguma!

Santos sereis determina a característica principal da vida do povo da


aliança do santo Deus. Aparece como um alvo na direção do qual o povo
deve procurar seguir. Santidade de vida entende-se da seguinte maneira:
consagração a Deus e a conseqüente separação de tudo aquilo que provoca
desonra do santo nome do Senhor. Era necessário isso, visto que Israel havia
sido escolhido para ser luzeiro em meio às trevas, a fim de que outros povos
vissem o Senhor e passassem também a honrar o seu santo nome. A lem-
brança da santidade a ser buscada mostra-se presente repetidamente nos
versículos do capítulo 19, pois em vários deles aparece: Eu sou o Senhor,
vosso Deus. Parece-nos que Deus se mostra preocupado em lembrar sem-
pre de novo para os filhos de Israel que eles são o povo da aliança, justifican-
do com isso a razão para requerer deles um procedimento de consagração.

Temos diante de nós um texto de lei? Evidentemente que sim! Há que


se notar, todavia, que a vontade do Senhor é colocada diante de quem o
conheceu como Deus gracioso. Só o povo de Deus (fruto da ação gracio-
sa), poderá se sentir motivado corretamente a buscar a santidade de vida.
Não procurará ser santo para buscar a aprovação do Senhor a fim de se
tornar povo dele. Não; porque já é povo dele e dá graças por isso, buscará
honrar e servir o Senhor em santidade, em consagração, em renúncia da-
quilo que ofende o Senhor, pois não existe outra maneira de viver para
honra e glória de Deus.

V. 15 - deste, até o versículo 18, final da perícope, encontramos recomen-


dações quanto à maneira de exercitar a santidade no trato com o próxi-
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
mo. No Israel antigo, se alguém era conduzido a julgamento, os juízes
eram os anciãos do local. Naquele contexto, possíveis animosidades
internas da localidade poderiam comprometer a justiça nos julgamen-
tos. Por isso, a lembrança para o uso de justiça diante do próximo, não
importando quem fosse. Uma piedade não justificada para com o po-
bre, bem como um favorecimento sem fundamento para com o grande,
não espelharia a justiça de Deus, o que ocultaria a vontade do Senhor
dos olhos daqueles que tivessem conhecimento do fato.
V. 16 - Este versículo especifica um procedimento que visa a proteger a
integridade do próximo, tanto moral quanto física. Neste versículo apa-
rece a lembrança: Eu sou o Senhor. O povo de Israel conheceu muito
intimamente que o Senhor ama as suas criaturas. Logo, os do Senhor
não terão outra coisa diferente a fazer do que pôr em prática aquilo que
já receberam de Deus: seu amor. O mexeriqueiro, o caluniador, não
procede em amor. Sua atitude é agressão ao próximo, mesmo que este-
ja muito à distância dele. Ora, a agressão ao ser humano contraria os
propósitos Daquele que o criou. Por isso, nem a agressão por meio da
língua, em forma de calúnia, nem através de outro recurso, que põe em
risco a vida de alguém, encontram aprovação por parte do santo Se-
nhor.
V. 17 - Parece haver aqui, no início do versículo, uma recomendação que
conduz a uma atitude franca para com o próximo. Em lugar de armaze-
nar ódio contra o irmão, atitude que provocará um afastamento cada
vez maior entre ambos, além de levar ao sofrimento, pois o ódio não
traz felicidade, o versículo indica o caminho da aproximação em vez da
separação. Aproximar-se para repreender ... assim é a receita. Fácil
de aplicá-la? De forma alguma, e bem sabemos por que razão não é
fácil. Onde buscar forças para pôr em prática aquilo que não é fácil?
Resposta: na identidade de cada um. As palavras do Senhor não estão
sendo ditas para qualquer um, porém para aqueles que são seus filhos,
povo da aliança. Como filho de Deus, quem é do povo da aliança age na
confiança de que o caminho indicado pelo Senhor sempre é o melhor,
embora não pareça fácil. Nesta confiança também está presente a cer-
teza de que o Senhor irá capacitar para a tarefa proposta. A repreen-
são tem como alvo a recuperação do irmão e não sua condenação. É,
portanto, também uma demonstração de amor.

A parte final do versículo apresenta dificuldades para se obter clara-


mente seu significado. “... e, por causa dele, não levarás sobre ti peca-
do” pode nos levar a pensar que a repreensão ao irmão por seu pecado nos
livrará de compartilhar a sua culpa. Isso nos faz pensar em Ez 33.8,9. É
provável, portanto, que as palavras se dirijam contra a omissão culposa.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
V. 18 - A vingança e a ira serão substituídas por um dos dois grandes
mandamentos: mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nova-
mente aparece o Eu sou o Senhor, lembrando da identidade do povo
da aliança. O amor ao próximo não é uma possibilidade remota de se
concretizar. Não, o povo de Deus pode amar, está capacitado para
amar pelo próprio Senhor. O mandamento, portanto, não é uma ordem
para buscar algo impossível. É antes uma palavra para viver uma reali-
dade, pois do amor de Deus brota o poder para amar uns aos outros.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. Palavra de lei. Esta se volta contra um procedimento incorreto para
com o próximo. Tal modo de agir causa problemas. São problemas não
apenas no relacionamento com o próximo, mas, especialmente, com
Deus, porque fere criaturas que o Senhor ama com o mesmo amor que
dedica para nós. Em vez de sermos instrumentos de Deus para benefi-
ciar o semelhante, opomo-nos a tanto com nossas atitudes destrutivas.
Toda a influência que poderíamos e deveríamos ter como luz e sal na
presença de outras criaturas, não acontece. Conseqüentemente, não
haverá testemunho do amor de Deus e nem glorificação do seu nome.
2. Palavra de evangelho. O grande evangelho está presente na lem-
brança da aliança de Deus com o povo. A causa para a aliança foi tão-
somente a graça divina. A mesma graça manifestou-se abundantemen-
te na nossa vida. Em Cristo, principalmente, vemos como Deus age
com as criaturas. Por nós, ele, Cristo, intercede para garantir perdão
para nossos pecados contra o próximo. Para nós, ele, Cristo, age, capa-
citando-nos para viver o que somos pela fé nele: povo da aliança, tal
como o Israel antigo.

PROPOSTAS DE TEMAS
a) O sermão pode explorar um tema que aborde o relacionamento com o
próximo que nasce da nossa identidade. Quem somos? Somos do Se-
nhor; somos povo da aliança. Pelo Senhor e com o Senhor vivamos
aquilo que somos.
b) Lembrança e sugestão. 27 de outubro assinala mais um aniversário do
Seminário Concórdia de São Leopoldo. Completa 99 anos. Por que não
incluir menção à data, como, por exemplo, uma obra graciosa de Deus
para fazer chegar às pessoas a palavra que chama e atrai para dentro
da aliança com o Senhor?

Paulo Moisés Nerbas


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Amós 5.18-24
3 de novembro de 2002

CONTEXTO
O contexto histórico de Amós é paradoxal, estranho, chocante e merece
atenção especial para que a perícope de 5.18-24 possa ser bem entendida.
A pessoa do profeta Amós, a mensagem do Livro de Amós e a dramática
situação religiosa, política, econômica e social de Israel apontam para
momentos e atitudes que causam profunda perplexidade. Antes de elaborar
o sermão, é preciso ler todo o Livro de Amós.

O PROFETA
Há uma série de peculiaridades em Amós, muito diferentes dos outros
profetas do AT. Vejamos. Seu nome significa “aquele que suporta o jugo” ou
“aquele que levanta e carrega fardos”. O jugo ou o fardo é Israel em sua
impiedade. Nasceu em Tecoa, 16 Km de Jerusalém, no reino de Judá, bem no
Sul, mas foi chamado e enviado para o reino de Israel, bem no Norte do país.
Não é descendente de sacerdotes ou profetas (não era filho de pastor) nem
exercia o ministério sacerdotal ou profético quando foi convocado pelo Senhor.
Suas afirmações mostram que era um “líder leigo” em Judá, que conhecia a
palavra de Deus. Veio do interior. Era colono ou agricultor ou chacreiro ou
fazendeiro, um pastor de ovelhas e bois, e plantador de figos silvestres (7.14).
Profetizou no século VIII a.C., época em que Roma era fundada. Na Bíblia,
seu nome só aparece aqui no Livro de Amós. É classificado entre os “12 profetas
menores” – pela brevidade do livro em relação “aos maiores” (Isaías, Jeremias,
etc.). É também chamado de “o grande profeta menor” – pela profundidade e
propriedade de sua mensagem num momento histórico do povo de Deus.
Querendo pregar sobre a mensagem do Livro de Amós, é preciso falar-se
também sobre a pessoa do profeta Amós.

1 - O povo – O profeta dirige seu discurso a um auditório hostil, um público


rebelde, um povo de Deus obstinado e hipócrita. E era uma época de gran-
de progresso, prosperidade e riqueza – Israel crescia materialmente e fazia
novas conquistas militares. Mas o povo vivia em idolatrias e hipocrisia, em
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luxúria e imoralidade, em falsidade e corrupção, em injustiça, suborno e
massacre social – em pobreza espiritual. Eles viviam num grande engano:
acreditavam que sua riqueza material fosse bênção de Deus e que, assim,
podiam abusar de todos os bens e viver em extravagância e corrupção. A
grande tarefa de Amós era transmitir a mensagem que mostrava Deus
estar descontente e insatisfeito com esta terrível situação do “povo escolhi-
do”. Amós deveria tirar a máscara de todos, promovendo uma “campa-
nha” de limpeza e purificação espiritual e social em Israel e Judá.
2 - A mensagem – A longanimidade e a paciência de Deus com seu
povo estavam se esgotando. Era preciso repreender e punir, a não ser
que houvesse uma mudança radical e total. Deus, de fato, oferece uma
segunda chance de arrependimento e retorno, enviando Amós como
seu profeta, pregador e arauto. E Amós vai e prega. O Livro de Amós,
na verdade, é um grande e veemente discurso sobre o arrependimento
e juízo de Deus. O tema central é o chamado ao retorno e à mudança
de vida. É julgamento e castigo. É restabelecer a aliança ou o protocolo
que Deus havia feito. É pregação de lei! E Amós aponta, após o
desmascaramento, o que Deus quer, isto é, uma vida regenerada e nova.
Por isso as duas palavras: juízo e justiça ou justiça e honestidade
(v.24). Detalhe importante: Amós sempre repete: “Assim diz o Senhor”!

TEXTO
Com este quadro colorido do contexto de Amós, apenas alguns destaques
específicos da perícope.

1 - Ai – É uma exclamação que aponta para a importância e a gravidade


do que será dito. Exprime um sentimento de preocupação, de espanto,
de tristeza e de perplexidade. Também pode ser um gemido de dor, de
desastre, de juízo, de julgamento. Ainda pode ser um recurso retórico
para chamar a atenção do ouvinte/leitor, com o propósito de retorno, de
mudança, de melhoramento. Jesus usou muito a exclamação: “Ai de
vós...”. Amós repete o “ai de vós”, visando ao arrependimento e à sal-
vação do “povo escolhido”.
2 - O Dia do Senhor – A expressão “dia do Senhor”, com algumas
variantes, é muito comum no AT e NT. Amós é, provavelmente, o livro
profético mais antigo e ele, assim, seria o primeiro profeta a usar “Dia
do Senhor” no AT. Há diversas interpretações sobre seu significado. A
mais aceita é a que interpreta o “Dia do Senhor” com o que a Bíblia
também chama de “Grande Dia”, “O Dia”, “Dia do Juízo, “Naquele
Dia”, “Dia da Vinda”, “Consumação dos Séculos”, “Juízo Final”. Seria
o dia da consumação deste mundo, dia da ressurreição, do juízo final, e
do rompimento dos “novos céus e nova terra”. Conferir Is 2.12-22;
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13.6-10; Jr 46.10; Ez 7.19; Jl 1.15-20; 2.1-11; Zc 14.1; 2 Pe 3.10; Mt
24.3; 24.36. Israel interpretava, erroneamente, o “Dia do Senhor” como
um dia de vitória total de Israel e destruição total das nações dos genti-
os e pecadores – aqui e agora, em seu favor. Amós faz a correção,
mostrando que este “Dia do Senhor” será o dia do juízo, de julgamento,
de castigo, de tristeza, de trevas e de escuridão – e não de luz, de
triunfo, de libertação e vitória geral de Israel. Por isso, antes da vinda
do “Dia do Senhor”, o chamamento ao retorno e mudança espiritual.
3 - Desprezo – Deus, na verdade, não é contra nem condena as festas, as
alegrias, os cânticos, os sacrifícios, as ofertas do povo de Deus. Pelo con-
trário, tais eventos, momentos e manifestações são valorizadas e desejadas
pelo Senhor nosso Deus. Há centenas de textos bíblicos que falam sobre o
assunto. Logo, Amós diz que Deus aborrece, despreza, afasta, odeia, de-
testa a formalidade, a aparência, o abuso, a hipocrisia do povo nestas cele-
brações e eventos. Amós não deixa “pedra sobre pedra” (vv.21-23). Deus
perdeu o prazer, a alegria, a vibração com a religiosidade falsa de seu povo.
Era tudo da boca para fora, só aparência, só faz de conta. Por isso o “Se-
nhor estava cheio” de seu povo. É oportuno traçar um paralelo entre as
“festas de Israel” e as “festas da IELB” – e então refletir!

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
Como auxílios para a mensagem de púlpito, alguns lembretes.

1 - Texto - Embora o Livro de Amós seja um grande discurso de chama-


mento, de pregação da lei e de arrependimento, é possível sublinhar
algumas afirmações muito edificantes ao longo do livro. Exemplos:

- “Assim diz o Senhor” - “O Senhor não fará coisa alguma, sem


primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas” -
“Apregoai ofertas voluntárias, publicai-as” - “Prepara-te, ó Israel,
para te encontrares com o teu Deus” - “Buscai o Senhor, e vivei”
- “Aborrecei o mal e amai o bem” - “O Senhor me tirou de após
o gado” - “Mudarei a sorte do meu povo Israel”.

2 - Perícope – Algumas idéias e sugestões que poderiam ser exploradas


e aproveitadas na anunciação da mensagem:

- Os ais do Senhor sobre o seu povo


- O chamado, capacitação e envio do profeta – O pecado da hipocrisia
- Amós, um líder leigo que é transformado em profeta
- O que é e como será o Dia do Senhor
- O desprezo do Senhor pelas cerimônias religiosas e eclesiásticas apa-

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rentes e artificiais
- O Senhor olha o coração e não apenas o que é da boca para fora
- O arrependimento diário – Deus tira as máscaras
- A missão do profeta numa sociedade corrupta
- Mudar antes do juízo ou “Dia do Senhor”.

MENSAGEM
A retidão, a justiça, a honestidade, a moralidade são essenciais para
uma sociedade digna, humana e saudável. A verdadeira religião e o verda-
deiro culto são mais que observâncias exteriores de reuniões, assembléias,
cânticos, orações, sacrifícios e ofertas. Deus vê e conhece os corações. O
cristão ama a Deus e ao próximo. Cuidar dos pobres. Cuidado com a rique-
za material; ela pode sufocar a riqueza espiritual e levar à corrupção religi-
osa. Em tempo: é difícil o pregador explorar, num só sermão. todos os lados
e enfoques que Amós aborda. Seria um “balaio muito grande”. Muita cau-
tela com o equilíbrio entre a aplicação de Lei e Evangelho.

TEMA
Como sugestão, algumas opções:
COMO SERÁ O DIA DO SENHOR PARA OS IMPENITENTES
(Como? Adversativa)

I – Não será um dia de luz


- não de claridade, brilho, glória
- não de triunfo, libertação, salvação
II – Mas será um dia de trevas
- de escuridão, nuvens, negridão (Joel 2.2)
- de julgamento, justiça, condenação

AI DE VÓS
( Por quê?)
I – Porque a vossa religiosidade é pura hipocrisia
II – Porque desprezais a justiça e a honestidade
Ou:

PAREM COM ESTA OSTENTAÇÃO RELIGIOSA


(Por quê?)
I – Porque vocês estão mentindo para si mesmos
II – Porque vocês não conseguem me enganar
III – Porque no dia do Senhor a máscara de vocês vai cair.

Leopoldo Heimann
São Leopoldo, RS

129
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

ANTEPENÚLTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jó 14.1-6
10 de novembro de 2002

- Sl 90. 1-12 - Expressa o cansaço e a fragilidade do ser humano diante


da vida. Único atribuído a Moisés (Bíblia de Jerusalém). Parece ser a
oração de um Moisés que anseia por ver finalmente o alvorecer sobre
uma vida (vv.14,15) que experimentou angústias e contratempos. Um
dos recados que fica aponta para o absurdo de viver e agir como se
houvesse tempo para consertar erros e injustiças, fruto da inconsciên-
cia de quem faz por ignorar que cada instante da vida é definitivo aos
olhos de Deus.
- 1Ts 2.8-13 - Talvez um dos discursos mais “apelativos” do apóstolo.
Uma linguagem marcadamente emocional que não permite ao leitor/
ouvinte espaço a não ser para concordar com o apóstolo.

Entretanto, por isso mesmo, é um momento de grave reflexão para os


mensageiros de Deus em todos os tempos a respeito da seriedade do com-
promisso de quem escolheu ser mensageiro de Deus junto ao povo de Deus.
Se Paulo tivesse alguma dúvida sobre a seriedade dos seus motivos e pro-
cedimentos, ele próprio estaria se condenando.

Assim como a oração de Moisés, também estas palavras de Paulo po-


dem ser entendidas como palavras-testamento de um obreiro de Deus.

- Mt 23.1-12 - Em contraste com o testemunho de Moisés e de Paulo


recolhidos para esse domingo, Jesus mostra que Deus realmente está
atento e vigilante sobre a postura teológica dos que se dizem seus men-
sageiros.

Ensinar e fazer o que se ensina é a coerência que Jesus esperava. Não


basta ensinar corretamente a respeito do amor de Deus enquanto o povo é
atormentado com cargas de culpa e leis sem nenhum esforço de repartir as
cargas e ajudar a carregá-las com atitude de mensageiro do evangelho que
alivia, liberta e fortalece.
130
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
CONTEXTO (LITÚRGICO/HISTÓRICO)
Sendo o antepenúltimo domingo do ano, é tempo de preparo para o ad-
vento. Visualizando a segunda vinda de Jesus, é tempo de também o pastor
e a liderança da igreja mostrar o que é estar preparado.

Quando vemos um gigante de Deus como Moisés expor toda a sua


fragilidade, é de se perguntar até que ponto mensageiros da palavra e guias
do povo se identificam com Moisés enquanto buscam servir com a entrega
de Paulo e seus companheiros.

É tempo de líderes encararem a fragilidade da vida e a proximidade de


Deus e dirigirem-se ao povo não como mestres e pais (Mt 23.7-9), mas
como servos que prestam serviço a alguém: Deus, o Pai, que certamente
está no coração do povo esperando que este povo receba aquilo que ele, o
servo maior, preparou para ser distribuído na palavra (Mt 24.45-51).

TEXTO
O sofrimento físico de Jó é algo que por si só merece ser avaliado. Jó,
como qualquer ser humano, levanta a grande questão do por quê? Mesmo
que houvesse uma resposta para essa questão, como os amigos de Jó aca-
bavam de propor, resta ainda a pergunta mais crucial: Por que eu?

De modo muito simplório, muitos sermões entram nessa busca de explica-


ção apelando para o atalho implícito na verdade de que o sofrimento humano é
conseqüência do pecado. Não resta dúvida de que todo o sofrimento na criação
de Deus é resultante do pecado. Mas o ouvinte tem o direito de ver respeitada
e respondida a pergunta que lhe é mais própria e mais próxima: Por que eu?

No contexto, Jó desafia os seus amigos a provar que ele, Jó, havia peca-
do a ponto de fazer por merecer um castigo diferente do castigo ou punição
que está reservado a qualquer pessoa. Jó está perfeitamente consciente da
fragilidade humana e da sua insignificância diante de Deus. Entretanto, Jó
sabe que Deus não busca afirmar seu poder e glória sobre a sua criatura
por meio de punições. Jó desafia Deus a dar a conhecer a sua verdadeira e
própria natureza. Jó faz mais: ele apela a essa natureza de Deus: Sobre tal
homem (frágil, sombra), terá Deus que mostrar a sua força? (vers. 3).

Se é Deus que impõe limites ao ser humano (v. 5), se do ser humano
nada se pode esperar além de imundícia (v. 4), Jó pede que Deus ignore
essa criatura, pois não merece a sua atenção.

Ao confessar a absoluta perdição do ser humano, Jó está também can-


celando o raciocínio dos amigos. Se Jó realmente fosse especialmente
131
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
culpado, significaria que pessoas menos culpadas que ele estariam salvan-
do-se da perdição por esforços próprios, disputando e merecendo uma gra-
ça especial de Deus.

Quando Jó nega ao ser humano qualquer possibilidade de agradar a


Deus ou merecer algum tratamento especial, Jó, na verdade, está demons-
trando a fé mais profunda de que em havendo salvação para o ser humano,
esta somente pode vir de Deus, e não do ser humano. A frase do vers. 6 é
reveladora: se Deus desviar os olhos do ser humano, isto já é alívio suficien-
te para quem se defronta com o seu juízo. Assemelha-se essa postura à do
filho perdido da parábola a quem Jesus atribui as palavras de que ser jorna-
leiro na propriedade do pai era suficiente para quem sabia e tinha experi-
mentado o que é querer merecer a vida com o esforço próprio, longe do pai.

De uma maneira inesperada, essas palavras de Jó são, na verdade, um


hino de quem canta “Das profundezas” e se lança absolutamente indefeso
à mercê de Deus porque nada temos a oferecer a Deus, a não ser esperar
por ele entregues ao seu juízo. “Levantar-me-ei”, diz o filho perdido. “Das
profundezas clamo”, diz o salmista. “Volta-te Senhor”, canta Moisés no
salmo do dia. “Para que tenha repouso”, completa Jó. Jó crê que no con-
fronto, Deus pode desviar os olhos do pecado. E somente, se Deus desviar
os olhos, pode haver esperança de repouso para cada pecador.

E porque o pecado é tão grande e completo, Jó sabe que não será algo
simples que fará Deus desviar o olhar. Assim podemos avaliar também o
que terá significado para Jó exclamar: “O meu Redentor vive.”

TEMA
O repouso do ser humano está em Deus

1. O ser humano não encontra repouso para a inquietação que o consome.


a. A inquietação que nasce do pecado
b. A inquietação que nasce no seu confronto com Deus

2. Porque Deus “desvia dele os seus olhares” o ser humano


a. Encontra repouso para a inquietação
b. Encontra prazer para os seus dias de vida na terra.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

132
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

PENÚLTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jeremias 25. 30-32
17 de novembro de 2002

CONTEXTO
No início do capítulo temos uma descrição bem apurada do contexto
histórico no qual o texto está inserido, inclusive com datação. Provavelmen-
te 605 a.C. A citação de Nabucodonosor na datação da profecia conecta-
se à profecia do cativeiro (vv. 9 e 12). “É chamado o primeiro ano de
Nabucodonosor (v. 1), rei da Babilônia, porque sob o comando do seu velho
e decrépito pai Nabopolassar, Nabucodonosor tomara a condução da guer-
ra contra o Faraó Neco do Egito.”1 Nesse ano Nabucodonosor começa a
exigir tributos de Jeoaquim.

Dos vv. 3 a 14 há o anúncio de que as tribos do norte sob o comando de


Nabucodonosor trarão a ruína de Judá; depois de setenta anos, Babilônia
cairá. Dos vv. 15 a 29, o cálice da ira de Deus é dado a Jeremias para que
ele o distribua entre as nações. Dos vv. 30 a 38 o julgamento de Deus sobre
as nações é dado em discurso público e direto.

Jeremias claramente chama a atenção do povo para o fato de que du-


rante 23 anos ele anunciou a palavra (v. 3). E o lamento do profeta e de
Deus é: “vós não escutastes”. O texto dos vv.30 a 32 aponta para as conse-
qüências diante da recusa ao chamado de Deus ao arrependimento. E esse
julgamento atinge não somente Israel, mas toda a terra (v. 29).

Naturalmente haverá necessidade do uso dos textos do domingo e do


contexto litúrgico para a aplicação do Evangelho.

TEXTO
O cálice da ira de Deus é colocado em ação na profecia; e em forma
poética. Note a força das palavras do discurso: rugido, brados, estrondo,
juízo, contenda, espada, mal e tormenta. Palavras que denotam batalha,
embate, bem como violência (como a imagem das uvas sendo esmagadas).
1
KEIL, C. F., Commentary on The Old Testament in Ten Volumes. Eerdmans, Grand Rapids. V. III, pp. 370.

133
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
V. 30 - “lhes profetizará”; “todos os moradores da terra”: a profecia é
para todas as nações (cf. v. 29).
- “lá do alto rugirá”; “fará ouvir a sua voz”: uma imagem que apa-
rece em Jl 3.16 e Am 1.2 (cf. Os 11.10 e Am 3.8). Mas aqui a
origem está no alto, no céu. Ou seja, atinge também Jerusalém e
Sião, a teocracia.
- “contra a sua malhada”: ou “contra a sua pastagem” (algumas
traduções trazem “habitação”). O rugir como de leão atinge o
seu próprio povo.
- “pisar as uvas”: na tarefa de pisar as uvas, bradava-se um “eia”
para manter o ritmo do levantar e abaixar dos pés (cf. Is 63.3). A
raiz é “esmagar”. Duas imagens se intercalam: o brado e o ato
de pisar, de esmagar: a força conjunta do grito/palavra e a ação
de pisar.
V. 31 - “estrondo... terra”: (cf. Am 2.2). Esse estrondo é resultante da
ação do v. 30; o barulho de guerra (Is 66.6) contra toda “a carne”, onde
a “espada” é usada na batalha para trazer a justiça de Deus. Novamen-
te vemos a ênfase da universalidade da ação e do discurso de Deus em
seu julgamento.
V. 32 - O “Senhor dos Exércitos” comanda também uma “tormenta”, uma
tempestade (cf. 23.19) que se espalha por todo o mundo trazendo o
“mal” dos confins da terra, do horizonte (cf. Is 41.25).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
É impossível escapar do juízo do Deus dos Exércitos. Quando a ira de
Deus se derrama sobre a humanidade, sobre o ser humano, não há lugar
seguro debaixo do céu. A força do brado de Deus atinge a todos. A desobe-
diência diante da santa morada, do Deus perfeito, traz o juízo desse Deus. E
não há como escapar (Mt 25.41).

Com a mesma intensidade, em palavra e poder (1Ts 1.5), Deus brada


para todas as nações a sua salvação (1Ts 1.8,9), repercutindo no mundo a
ressurreição de Jesus (1Ts 1.10). Esse mesmo Jesus virá (Mt 25.31) para o
último julgamento e proclamará a salvação aos que creram e, conseqüente-
mente, frutificaram em ações de amor, que tornam a anunciar o amor do Pai
em Jesus.

Sugiro que o “meio” seja parte da mensagem usando-se algum recurso


para que a voz tenha um volume mais alto que o normal no anúncio de Lei e
Evangelho. Pode-se na introdução, por exemplo, usar uma narração drama-
tizada (gravada, de preferência) de Jr 25.30-32 e, no final da mensagem,
outra dramatização de Mt 25.34.
134
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
SUGESTÃO DE TEMA
Deus está gritando!

A. Para mostrar sua justa ira


1. diante da desobediência do ser humano (Judá e nações)
2. que trará a espada no julgamento.
a. Cativeiro Babilônico e ruína das nações
b. Cativeiro Eterno (Mt 25.46a)

B. Para anunciar a solução/salvação


1. Libertação do cativeiro e Nova Aliança (Jr 29.10, 13; 31.33c)
2. Libertação da condenação eterna (Mt 25.34)

Fernando Henrique Huf


Recife, PE

135
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

ÚLTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Ezequiel 34. 11-16, 23,24
24 de novembro de 2001

CONTEXTO
O profeta Ezequiel prega aos israelitas exilados na Babilônia. O conjunto
do capítulo 34 traz mensagens de juízo e graça. Juízo contra os pastores
infiéis de Israel (vv. 1-10). Graça da parte de Javé, que se dispõe a tomar o
lugar dos pastores infiéis para dedicar-se a seu povo em um pastoreio soli-
dário e misericordioso (vv. 11-31).

O exílio babilônico aconteceu de 597 a 538 a.C. Em diferentes levas,


foram deportados especialmente os integrantes da corte (militares, funcio-
nários de Estado e sacerdotes) de Jerusalém, num total de 15 mil pessoas.
Na Palestina permaneceu a maioria da população, cerca de 100 mil pesso-
as, representantes da parcela mais simples e pobre do povo.

Na Babilônia, os exilados foram assentados junto ao Rio Quebar e a Tel-


Abibe. Haviam sofrido terrivelmente durante as longas marchas, quando
muitos morreram. O sofrimento teve continuidade nos trabalhos forçados
exigidos pelo povo dominador. Trabalhavam no campo, produzindo cereais
para a própria subsistência e para o pagamento de tributos aos babilônios.
Assim, a liderança judaica passou de uma situação de elite para a de agri-
cultores primários. Tinham certas liberdades, por exemplo, para continuar
preservando sua língua, ritos, costumes e religião. Nesse sentido, a domina-
ção foi menos brutal do que a sofrida em outras situações. Ainda assim, os
exilados sentiam profunda depressão em razão de sua condição de dester-
rados, do trabalho diferente, do fracasso dos valores, do fim de seu centro
cultual e de Jerusalém e do fracasso do sistema monárquico, onde ocupa-
ram funções privilegiadas. São apresentados por Ezequiel, no texto, como
ovelhas dispersas, perdidas, desgarradas, alquebradas e enfermas.

Ezequiel é um dos exilados e foi vocacionado ao ministério profético na


Babilônia. Era sacerdote e provavelmente tinha atuado como tal no templo
antes da deportação. Sua profecia reflete bem a condição da gente no exí-

136
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
lio, suas dores, fracassos, culpas e esperanças. Esta recebe a pregação de
Ezequiel como mensagem do próprio Senhor.

TEXTO
Vv. 11-15 - O próprio Javé passa a ocupar-se com seu rebanho. A ênfase
está em sua intenção de acabar com sua dispersão (v. 12). No v. 13,
abre-se mão da linguagem figurada, pois deve ficar claro, retomando
20.34, que a referência fundamental é à dispersão de Israel entre os
povos e países e a Javé, que irá reuni-lo e levá-lo de volta. O v. 12
assegura que também incluem-se aqui aqueles que foram dispersos “no
dia de nuvens e de escuridão”, isto é, no dia do juízo de Javé sobre
Jerusalém (587 a.C.). A segunda parte do v. 13 e o v. 14 remetem a
33.28, pois anunciam o repovoamento dos montes de Israel e o fim de
sua devastação, com a garantia de fertilidade dada pelo próprio Javé.
Ao mesmo tempo, antecipando 35.12, assegura-se que a avaliação fei-
ta pelos profetas de Edom não se fará realidade. O v. 15 ressalta uma
vez mais que o próprio Javé é e permanece responsável por seu reba-
nho. É reforçada assim a idéia de que o Senhor quer efetivamente
redimir a parcela de Israel que se encontra na diáspora. A profecia de
Ezequiel quer animar os exilados com a esperança da libertação, do
retorno e da nova reunião na terra de origem, além de exortar aqueles
que permaneceram nela, a fim de que aceitem e promovam a integração
dos que retornam.
Vv. 16, 23, 24 - O v. 16 faz a transição a um trecho, o qual explicita que,
além da relação problemática entre pastores e seu rebanho, existe ain-
da uma dificuldade inerente a este último: sua desordem. As imagens
apresentadas a seguir (vv. 17-22) dão a entender que o povo de Javé se
apresenta dividido em dois grupos. Um, de fortes e poderosos, que vive
às custas de outro, formado pelos mais fracos e humildes. Ezequiel faz
referência a uma situação marcada por graves distorções sociais, que
Neemias procurou combater por volta de 445 a.C. A postura de Javé é
clara em relação a isso: ele apascentará suas ovelhas com justiça.

Javé demite os pastores irresponsáveis e assume o ministério de apas-


centar seu povo. Articula-se com isso a expectativa de uma teocracia ilimi-
tada a ser concretizada na terra no futuro. Nos vv. 23s., põe-se a esperança
na restauração da dinastia de Davi (cf. Jr 23.5s.; 30.8s.), antecipando o que
será exposto em 37.25-28. Interessante é que aqui Davi não recebe o título
de rei, mas uma função de pastor, igualmente de comando, como “príncipe
em meio” às ovelhas. Quais serão concretamente suas tarefas? Isso per-
manece em aberto. Certo é que o texto diferencia claramente entre o prín-
cipe, que assume um ministério em Israel, e o próprio Senhor de Israel.
137
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
APLICAÇÃO HOMILÉTICA
Na profecia de Ezequiel, Javé se apresenta como pastor. Nossas socie-
dades urbanizadas não têm pastores de ovelhas. Mesmo no campo, a pecu-
ária intensiva desenvolvida em espaços restritos não comporta mais a figura
do pastor. Ainda assim, a imagem é tão conhecida da literatura, de obras de
arte e de outras manifestações culturais, que a maior parte das pessoas não
terá dificuldade de perceber o que expressa. O texto também é muito claro
ao caracterizar o contraste entre as ações de pastores infiéis e o pastoreio
modelar de Javé.

O ponto alto do texto é a mensagem acerca do Senhor, que volta-se


amorosamente para seu povo e solidariza-se incondicionalmente com ele
em sua deprimente condição de povo exilado e oprimido, dispondo-se a agir
com decisão para reverter completamente esse quadro. Cabe ao pregador
explicitar essa mensagem à comunidade reunida.

Muitas pessoas de nossas comunidades sabem muito bem o que é ter de


viver em um lugar completamente diferente de onde nasceram e viveram os
primeiros anos de sua existência. São em boa parte migrantes, forçados
pelas circunstâncias a deixar as próprias raízes e desvincularem-se das re-
lações familiares, culturais, profissionais e de fé, a partir das quais constitu-
íram sua identidade. Facilmente podem existir aqui sentimentos e percep-
ções análogos aos de quem vive no exílio, no desterro.

Que consolo não trará, a essas pessoas, vivenciar o testemunho proféti-


co de que o Senhor, tal qual um pastor, vai ao seu encontro, amparando-as
em sua fragilidade, fortalecendo-as em sua enfermidade, conduzindo-as ao
lugar onde poderão sentir-se abrigadas e em casa?

Ricardo Willy Rieth


São Leopoldo, RS

Os Auxílios Homiléticos para a Série B serão elaborados a partir


da leitura do Antigo Testamento (ou 1a leitura).

138
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

DEVOÇÕES

A LOUCURA DO EVANGELHO
1 Coríntios 1. 22-25

Em nome de Jesus, poder de Deus e sabedoria de Deus. Amém.

Uma leitura descuidada e rápida do texto pode dar a impressão de que


cristãos se vangloriam de serem estúpidos e irracionais. Será a mensagem
cristã uma apologia ao relaxamento na elaboração de uma mensagem? Será
ela o esforço consciente dos pregadores cristãos em elaborarem um anún-
cio sem sentido?

Vale a pena observar que Paulo não diz que nós tornamos a mensagem
do evangelho em escândalo e loucura; mas que ela o é ... para os que se
perdem! É, porém, o que há de mais sábio e forte, mais do que qualquer
palavra dos sábios e vigor dos homens. Há algo no próprio evangelho que se
torna escandaloso e louco diante do mundo; mas que é recebido como a
mais sublime sabedoria e poder entre os que crêem.

A mensagem é “escândalo” - uma pedra na qual se tropeça e cai. Assim


o foi para os judeus, diz Paulo. E, convenhamos, eles tinham suas razões.
Afinal, quem tem o Antigo Testamento como base, vai lembrar das pragas
que assolam o inimigo, do mar que é aberto, da água que sai da pedra, do
alimento que cai do céu, enfim, sinais que apontam para o Deus Todo-Pode-
roso que está agindo. É de se perguntar, então: Será que Deus não vai
continuar agindo assim, com poder, com sinais? E foi isso que os judeus
exigiram de Jesus - “que sinal fazes para que o vejamos e creiamos em ti?”
(Jo 6.30). Vale lembrar que ao lhe serem pedidos sinais, Jesus falou do que
ele chamou de “sinal de Jonas”, ou seja, sua própria morte e ressurreição.
Um Messias crucificado? Não era o que se poderia esperar, na visão de
muitos judeus. Messias significa rei, significa glória, poder ... não cruz, ver-
gonha, sofrimento!

A mensagem é “loucura”. O estadista romano Cícero, que viveu no pri-


meiro século antes de Cristo, falou sobre o horror que a cruz causava aos
romanos, e que ela jamais deveria estar presente nem no corpo de qualquer
139
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
romano, nem em seu pensamento ou diante de seus olhos e ouvidos. Um
Deus crucificado? Só pode ser uma “superstição perniciosa”, como disse o
historiador romano Tácito. O evangelho do Cristo crucificado afronta os
padrões da sabedoria humana; e isto, para os gentios da época de Paulo,
cheirava à vulgaridade. Mais grave ainda, ela afronta o que há de mais
humano - a certeza, ou ao menos esperança, de que as pessoas podem
resolver os problemas através da reflexão, análise e tomada de decisão.

É importante lembrar que Paulo havia dito, pouco antes, no v. 18, que “a
palavra da cruz é loucura para os que se perdem”. Mas esta palavra é, de
fato, “poder de Deus e sabedoria de Deus” (v. 24). O próprio Deus já havia
alertado, pela boca de Isaías, que os seus caminhos e pensamentos são mais
altos do que os caminhos e pensamentos humanos (Is 55.9). É que o poder
e a sabedoria de Deus não se medem pelo seu impacto na razão e expecta-
tiva humanas, mas se caracterizam pelo amor de Deus, que traz salvação
de um modo contrário a toda expectativa humana.

Os judeus tinham seus motivos para desconfiar da mensagem da cruz


como sendo de Deus. Afinal, a cruz os lembrava das palavras de
Deuteronômio, “o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus” (Dt
21.23). Sim, o evangelho é loucura e escândalo porque mostra um Deus
santo e justo, diante de pecadores ímpios, que ao invés de castigo, propõe,
no Seu Filho crucificado, perdão e vida incondicionais, totalmente imereci-
dos. Ao justo ele condena na cruz; aos ímpios ele declara justos - que loucu-
ra, que escândalo - ou, nas palavras do Hino 75: “Quanto amor! Oh! Quanto
amor! Revelaste, ó meu Senhor!”

O Evangelho continua sendo e sempre será desafiador, não só para o mun-


do, mas para a Igreja e para os pastores! Há propostas de poder e de sabedoria
no caminho da Igreja neste mundo. Não faltam os planos, os projetos e progra-
mas que, na sua proposta, irão resolver os problemas da Igreja, seja na área das
finanças, seja no evangelismo, seja no envolvimento das pessoas no trabalho.
Fórmulas do tipo “Como ter sucesso no ministério”, “Como tornar sua Igreja
eficiente”, “Como aumentar os números”, podem refletir a preocupação since-
ra de pastores e congregações com o trabalho no reino de Deus. Mas a trajetó-
ria do Evangelho nem sempre é aquela dos grandes resultados.

Esta não é nenhuma defesa do relaxamento, do descuido, do desleixo ou


do despreparo com a obra de Deus. Paulo não anuncia que nós tornamos o
Evangelho loucura e escândalo, mas ele o é, pela sua própria natureza; que
confronta o desejo humano de salvar-se a si mesmo. É preciso que pastor e
Igreja deixem o evangelho ser escândalo e loucura.

140
Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Ou, não é um escândalo dizer que um bebê, nascido em pecado, nasce
novamente, como filho querido de Deus, nas águas do Batismo? E que nós,
até o fim de nossos dias, em nosso batismo teremos fonte de consolo e de
amparo - somos filhos de Deus! É ou não um escândalo, que um homem
pecador, parado diante de nós, diga, da parte do próprio Deus: “Eu vos
perdôo”? É ou não é um escândalo e loucura que no pão e no vinho Jesus
nos dê seu verdadeiro corpo e sangue, ao ponto de podermos sair daqui hoje
exultantes com o perdão e vida eterna dados a nós no sacramento? Que
“escândalo” e “loucura” benditos! Pois para nós, que fomos chamados por
Deus, em Seu evangelho, esta palavra é poder e sabedoria de Deus, pela
qual vale a pena, sim, dedicar nossa vida, nosso tempo, nosso estudo, nosso
trabalho. Amém.

Devoção proferida na Capela do Seminário Concórdia


no dia 6 de março de 2002, pelo Rev. Prof. Gerson Luis Linden

141
Igreja Luterana - nº 1 - 2002

O DEUS QUE CRIA COISAS NOVAS


Isaías 65.17-25

Perto das 10h de ontem eu aplicava a prova de Grau 2 para os alunos do


40 ano na ULBRA, estes mesmos que aqui estão à nossa frente. Numa das
vezes que saio da sala pelo corredor para buscar um copo d´água, vejo um
aluno que acabara a prova e saíra da sala. Ele levanta um dos braços, esmurra
o ar e esboça um grito que pelo esforço dele faria inveja a qualquer lobo das
pradarias americanas que se vê em filme de caubói. Era uma explosão de
alívio, de liberdade, de alegria, de regozijo; acabou, finalmente acabou. Como
o aluno saíra da minha classe, eu deveria ficar um pouco magoado; mas
pensei um pouco e entendi o seu gesto que interpretei com simpatia e com-
preensão.

Esta tarde fica na história como um dos momentos mais marcantes e


significativos para cada um de vocês formandos da ULBRA e do Seminá-
rio. É marcante porque a designação que recebem hoje é instrumento pelo
qual vocês dão um passo a mais em direção ao ofício do santo ministério
que Lutero chama de “o mais elevado ofício no Cristianismo”. É um mo-
mento significativo porque daqui a uns dias receberão um belo diploma, um
deles em latim, que provavelmente será emoldurado e pendurado na parede
do gabinete pastoral. Mas, além de ser marcante e significativo, este mo-
mento é, também, um momento de alegria e regozijo.

Alegria, regozijo. Que é alegria? Disse alguém que a alegria é uma jóia
de múltiplas facetas. E uma dessas facetas é o sentimento de ter o dever
cumprido, de ter completado uma tarefa, concluído um projeto. Alegria e
regozijo são o núcleo do texto de Isaías 65 porque ele fala de um passo
adiante, de uma realidade à frente, de uma nova criação. Ele fala de coisas
passadas sim, que não serão mais lembradas. E ele fala de bênçãos futuras,
ou seja, de momentos de Deus que ele antecipa para nós e se tornam imi-
nentes, imediatos. Deus cria coisas novas. Na palavra “novo” está o para-
doxo. “Novo”, especialmente em Isaías, significa “cumprimento” , cumpri-
mento das coisas antigas, cumprimento das coisas profetizadas. Isaías 65 é

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
um texto escolhido pela igreja para ser lido no último domingo do Ano Ecle-
siástico, antes do Advento. Com este texto celebramos o cumprimento de
outro ano do Senhor como um tipo ou profecia do cumprimento de todas as
coisas no Messias quem vem, no Emanuel, no Deus que está conosco.

O objetivo da profecia em nosso texto evidentemente é apontar para o


céu, para a eternidade, uma realidade que é difícil de ser descrita a não ser
em termos opostos ao que nós conhecemos e vivenciamos neste mundo.
Por isso também Deus neste texto fala de uma nova terra ao seu povo,
oposta, especificamente oposta, ao exílio babilônico que parece ser a antíte-
se imediata do novo céu e nova terra. O retorno do povo de Israel do exílio
é um tipo de garantia, penhor, entrada do grande cumprimento, da gloriosa
liberdade, da nova criação.

Numa realidade de antíteses não há espaço para a alegria e regozijo.


Nem o povo de Deus e nem Deus podiam alegrar-se quando Jerusalém
caíra na mão do babilônios. Deus não se alegra senão quando a sua igreja,
também está alegre e rejubila. Esta alegria mútua é impossível enquanto a
natureza do pecado não for tratada. Mas o SENHOR assume esse trata-
mento na pessoa do Messias que no cap. 61 vem para anunciar boas-novas
e trazer o ano da liberdade do SENHOR. E aí está o motivo da alegria e
regozijo. Aí está a faceta mais brilhante da jóia.

“Folgareis”, “exultareis” - na tradução os verbos estão no futuro. Mas,


no original os verbos são dois imperativos: “folgai, exultai” ou, como diz a
Nova Tradução na Linguagem de Hoje: “Alegrem-se”, “fiquem felizes para
sempre com o que estou criando”. Imperativos são ordens. Podem alegria,
regozijo, ser ordenados? É possível dar ordens a alguém para que seja ale-
gre e se regozije? Claro que não! Na verdade este é o imperativo evangéli-
co, o incentivo para que as novas criaturas, o povo de Deus, como nós,
sejam o que efetivamente são: parte da nova criação de Deus. O imperativo
conclama a que se comece logo a alegria porque a ação de Deus é imediata,
a nova criação de Deus já começou, e está prestes a ser profetizada a
outros por meio de nós - e de vocês.

Prezados estagiários e formandos: daqui a dois meses você pendurou na


parede do gabinete o seu diploma. A casa pastoral está em absoluto silên-
cio. A família pastoral dorme. São 4 horas da madrugada. Você se vira do
outro lado na cama, aliviado com o sentimento de que não precisa ir às aulas
no Seminário ou da ULBRA, não há hebraico para memorizar, nem
monografias a escrever - e você volta a dormir profundamente. Vinte minu-
tos depois o telefone soa. Você dá um pulo na cama mas fica deitado imagi-

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
nando que é um sonho. Telefones, campainhas, batidas à porta, perguntas
que esperam respostas, respostas que esperam perguntas. Do outro lado da
linha está uma voz, talvez familiar talvez não. As únicas palavra que você
consegue ouvir é: “Pastor, aconteceu uma coisa”.

Em cinco minutos você está atravessando a escuridão para falar uma


palavra de conforto, esperança, perdão, paz, alegria. E através de vocês o
SENHOR Deus terá começado uma “nova criação” para a “nova criação”.
Que Deus vos abençoe.

Devoção proferida no dia 21 de novembro de 2001 pelo Dr. Acir


Raymann por ocasião da cerimônia de habilitação e designação de
estágio aos alunos do Quarto Teológico e indicação de locais para o
ministério na IELB aos alunos do Sexto Teológico.

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RESCENSÃO

CRISTOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO


Por Oscar Cullmann. Traduzido por Daniel Costa e
Daniel de Oliveira. São Paulo: Líber, 2001. 427 páginas.

Oscar Cullmann (1902-1999) impressiona pelo conhecimento enciclopé-


dico sobre o assunto, evidenciado não apenas pelo conteúdo exposto, mas
pelas notas de rodapé e a ampla bibliografia ali referenciada. Obviamente o
leitor contemporâneo poderá ficar decepcionado, face à inexistência de bi-
bliografia posterior aos anos 50. Mas este é o ônus de trabalhar com uma
obra escrita há meio século e só agora traduzida para o Português. O con-
teúdo do texto, a profundidade da pesquisa e a relevância das conclusões de
Cullmann (mesmo onde não se possa concordar com o autor) porém, supe-
ram esta “deficiência”.

O livro está dividido em quatro partes, precedidas de uma Introdução,


onde Cullmann discute “O pensamento cristológico no cristianismo primiti-
vo”, e de uma Conclusão, com “Perspectivas da Cristologia do Novo Testa-
mento.” As partes são organizadas tendo o tempo/história como base para
a divisão. A primeira parte trata dos “títulos cristológicos referentes à obra
terrena de Jesus”: Jesus, o Profeta; Jesus, o Servo sofredor de Deus; Jesus,
o Sumo Sacerdote. A segunda parte traz os “títulos cristológicos referentes
à obra futura de Jesus”: Jesus, o Messias; Jesus, o Filho do Homem. A
terceira parte refere-se aos “títulos cristológicos referentes à obra presente
de Jesus”: Jesus o Senhor; Jesus o Salvador. A quarta parte, com os “títulos
referentes à preexistência de Jesus”: Jesus, o “Logos”; Jesus, o Filho de
Deus; Jesus chamado “Deus”.

Em cada um dos capítulos, Cullmann, após refletir sobre determinado


título de Jesus, a partir do contexto helenista, do Judaísmo, do próprio Jesus
e da Igreja primitiva, pergunta-se em que medida o título estudado soluciona
o problema cristológico. Quanto à importância dos títulos cristológicos,
Cullmann procura mostrar que era por meio deles que se dava resposta à
questão sobre quem era Jesus. Eles “buscam explicar o que há de único
nele.” (p. 23) “Se Jesus é designado no Novo Testamento de maneiras tão
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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
diversas, deve-se que a nenhum destes títulos pode, por si só, abranger a
totalidade de sua pessoa e de sua obra. Cada um deles indica só um aspecto
particular da pessoa de Cristo.” (p. 23)

Sobre seu método teológico, Cullmann mesmo afirma: “Renunciando a con-


siderações metodológicas profundas ... nos limitaremos a sublinhar aqui que não
reconhecemos outro método senão o histórico e filológico, este demonstrado
pela experiência; nem outra atitude com respeito ao texto além de uma inteira
disposição de escutá-lo honestamente, inclusive quando o que nos disser seja
estranho ou contradiga nossas, determinadas e muito queridas, concepções.
Para compreender e explicar o texto, faremos, pois, abstração de nossas “opini-
ões” filosóficas e teológicas pessoais e nos negaremos a desqualificar, como
agregados secundários, aquelas afirmações neotestamentárias que não se en-
quadrem com ditas opiniões.” (Prefácio do autor, p. 16)

O “ranço” do método histórico-crítico (particularmente com o instru-


mental da Crítica da Redação e da Crítica das Formas) está bem presente
em algumas discussões de Cullmann. Pode-se notar, por exemplo, na ques-
tão a respeito da “autenticidade” de determinados textos, se são palavras de
Jesus ou não (veja-se, por exemplo, pp. 88ss). Isso fica bastante evidente
também no método adotado por Cullmann. Ele considera separadamente
cada assunto, no pensamento de Jesus e no que o autor denomina “cristia-
nismo primitivo”, que se refere aos evangelistas (ou às comunidades que
estão por detrás deles!).

Cullmann se revela, por vezes, um ardoroso crítico às idéias da teologia


liberal; por exemplo, sobre a idéia de uma revelação geral, presente em
todas religiões, que se torna especial no cristianismo (p. 346). Ou então
quando designa de “dogmatismo” uma atitude que a priori negue a possibi-
lidade de Jesus e os primeiros cristãos terem dado aos termos conteúdo
completamente novo (p. 354). Tal observação se reveste de especial impor-
tância quando se percebe que Cullmann não deixa de dialogar com a pes-
quisa contemporânea (a ele).

Uma palavra interessante contra os críticos mais radicais: “Certamente


devemos evitar as tentações de harmonização que façam violência aos tex-
tos e devemos deixar subsistir as dificuldades que neles se encontrem de
maneira efetiva. Porém, como especialistas do Novo Testamento, não cor-
remos o risco de sucumbir a um tipo de deformação profissional que consis-
te em experimentar uma alegria quase insana ao constatar contradições e a
nos irritarmos contra toda tese que estabeleça um elo ou uma relação –
ainda que fosse entre Jesus e Paulo?” (96).

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002
Em conclusão, podemos chamar a atenção do leitor para algumas refle-
xões particularmente relevantes, feitas por Cullmann. Por exemplo, em con-
traste com a crítica liberal, sua afirmação de que “O fundamento de toda
cristologia é a vida de Jesus”, em outras palavras, a ação de Jesus no mun-
do, como Servo, Filho do Homem, etc. Outra questão interessante é a afir-
mação, diversas vezes repetida, de que o docetismo é a “heresia cristológica
fundamental” contra a qual o Novo Testamento se levanta. Além disso, a
insistência de Cullmann de que a idéia de “substituição” é uma das mais
fundamentais na cristologia do Novo Testamento.

Dedicar um livro inteiro, com tamanha profundidade de pesquisa, ao tema


da Cristologia já é, por si só, elogiável. Isso é especialmente relevante tendo
em vista que o lugar onde normalmente se estuda este tema na Teologia
Sistemática (Dogmática) reserva bastante tempo para as controvérsias
cristológicas e as questões envolvendo a pessoa de Cristo. Cullmann, po-
rém, está especialmente interessado na obra de Jesus. É, portanto, um estu-
do muito bem-vindo para todos quantos consideram Cristo e sua obra como
o centro da Teologia, sua fonte e seu conteúdo.

Gerson Luis Linden

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Igreja Luterana - nº 1 - 2002

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SEMINÁRIO CONCÓRDIA
Diretor
Paulo Moisés Nerbas
Professores
Acir Raymann, Clóvis Jair Prunzel, Ely Prieto, Gerson Luís Linden,
Leopoldo Heimann, Norberto Heine (CAAPP), Paulo Gerhard Pietzsch,
Paulo Moisés Nerbas, Paulo Proske Weirich, Vilson Scholz.
Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Martim C. Warth

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela
Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
Conselho Editorial
Acir Raymann (editor), Vilson Scholz
Assistência Administrativa
Janisse M. Schindler
A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica
Latino-Americana e Old Testament Abstracts.
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