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IÁR
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I CONC~RDIA
Diretor
Paulo Moisés Nerbas
Professores
Acir Raymann, Ely Prieto, Gersoil Luís Linden, Leopoldo Heirnaim,
Norberto Heine (CAAPP), Orlando N. Ott, Paulo Gerhard Pietzsch,
Paulo Moisés Nerbas, Vilson Scholz.
Professores eméritos
Arnaldo J. Schrnidt, Donaldo Schueler,
Johannes H. Rottrnann, Martim C. Warth

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e r-iovembropela
Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
Conselho Editorial
Acir Raymaiu~(editor),Vilson Scholz
AssistênciaAdministrativa
Janisse M. Scliindler
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Os originais dos artigos serão devolvidos
quando acompanhados de envelope com endereço e selado.
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Correspondência
Revista 1 G ~ J A L U T E R A . A
Seminário Coricórdia
Caixa Postal 202
93.001-970 - São Leopoldo, RS
Pastor, Equipador dos Santos?
O Ministério Pastoral à Luz de Efésios 4.12.
Gustavo Henrique Schnzidt e Paulo Moisés Nerbas .................. 03

Fundamentos da Práxis Pedagógica


na Universidade Confessional
Martinz Carlos Wczrth ..................................................................... 26

A Pesquisa em Teologia Sistemática numa


Perspectiva Transdisciplinar:
Reflexões a partir de uma Experiência
Manfred Zeuch ............................................................................... 29
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Gustavo Henrique Schnziclt e P a ~ ~ Moisés


lo Nerhcis..'

Fiéis às Sagradas Escrituras, os luteranos sustentam a instituiçáo divina


do ofício do ministério pastoral, desempenhado por pessoas devidamente
instruídas e chamadas para tal fim. A função do pastor é pregar a palavra
de Deus, administrar os sacramentos e o ofício das chaves publicamente.
Existem, porém, outras maneiras de se ver o ministério, entre as quais a do
movimento Church Growth, que enfatiza a existência de nziniste'rios na
igreja exercidos por leigos. Segundo esta tendência, a função do pastor 6
equipar os santos para que eles desempenhem os ministérios na igreja.
cada um conforme os seus dons espirituais. Um dos textos bíblicos usados
para sustentação desta teologia dos ininistérios é Efésios 4.1 2.

A partir destas considerações, constatamos a importância e a necessi-


dade de estudarmos a doutrina do ministério pastoral e, conseqüentemente,
a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, para termos clareza
quanto ao ensino bíblico sobre o assunto, tendo como base o texto de Efésios
4.12. A falta de clareza pode gerar confusão nas congregações luteranas
quanto à atuação de pastores e leigos no trabalho da igreja. A confusáo
ocorre entre o que é o ofício do ministério e quais as suas funções. Em
outras palavras, onde e como pastores e leigos desempenham o seu cha-
mado, a sua função própria.

* Rev. Gustavo Henrique Schtnidt i pastor em Dois Irrnãos, RS. Rei? Paulo Moisés Nerba~
i Diretor do Setninário Concórdia e professor de Teologia Sistetnútica nessa itistirui(-ãoe
nu Universidade Luterana do Brasil. O presente artigo é uma síntese da ttzonngrafia rlc
conclusão do curso de bacharelado etn Teologia no Setninário Concórdia escrita pelo Rei
Schtnidt em 1998 e orientada pelo Prof: Nerhas.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

ESTUDO DE EFÉSIOS 4.12


Para melhor entendermos o texto, queremos examiná-lo a partir do v. 1 1 :

E ele rnesmo concedeu alguns para apóstolos, outros para profe-


tas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres.

"E ele mesmo concedeu" ( K a i abrÒs >~ÓuKEv):O sujeito desta ação é o


próprio Cristo. Uma marca da graça e do amor de Deus pelos homens. Há
uma ênfase - a b t ò ~- apontando para o fundador e mantenedor do ministério,
Cristo. Ele é o supremo Pastor e Bispo de nossas almas (1 Pe 2.25; 5.1-4).

O termo "Apóstolos" é uma referência aos Doze. Paulo inclui-se entre


eles, com Matias e Barnabé.' Cristo tinha muitos discípulos, mas preferiu
escolher doze deles para serem seus apóstolos (cf. Ap 2 1.14).' É importan-
te notar que doutrina, eucaristia, batismo e poder das chaves estão intima-
mente ligados aos apóstolos, os líderes do povo de Deus (Mt 28.1 6ss; Mc
16.14; Lc 24.30; Jo 20.23; Lc 24.44s~)."

"Profetas" IIpo$$zas: Conforme Ef 2.20 e 3.5, são homens que rece-


bem revelação de Deus (o evangelho) e anunciam o mistério do plano de
Deus com poder. Lançam o fundamento que é Cristo.

"Evangelistas" E b a y y ~ h t a z á ~Assim
: como o diácono Filipe (At 21.8 e
8.4-12). Podem ser itinerantes ou restritos a determinada congregação local.

"Pastores e mestres" I I o t p í v a ~ ai Ót6aa~áhouç:Há discussão se é


uma ou são duas classes. Lenski entende que roùs ó í indica que se trata de
uma ~ l a s s e São. ~ os comumente chamados ~ r p ~ a p u r í p o u(At
< 20.17) e
h i a ~ Ó T r o u(At
~ 20.28), sendo estes dois termos sinônimos. Conforme 1

' LANCE, J. P.. A comrnentar.~on the Holy Scriptures: Cal, Eph, Phil and Col. Grand
Rapids: Zondervan, S. d., p. 149.
MOELLERING, H. Armin. "Somc New Testament Aspects of the Ministry Idcntified
and Applied". Concordia Journal, 14 (julho 1988): 234.
' CARTNER, Bertil. "Didaskolos: Thc Office, Man and woman in the New Testament".
Concordia Journal, 8 ( 1982): 54.
'LENSKI, R. C. H. The interpretation of St. Paul S Epistles to lhe Galatians, Ephesians
and to the Filippians. Coluinbus : Lutheran Book Concern, 1937, p. 528.
SASSE, Herman. We Confess the Church. We Confess Series, vol. 3. Norman Nagel.
trad.. Saint Louis : Concordia, 1986, p.75.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Tm 5.17 e Mt 28.20, o ensino fazia parte de sua f u i ~ ç ã oA. ~ênfase está em


que eles foram constituídos e capacitados por Cristo para serem bênçãos
para a Una Sancta.' O propósito de Deus ter concedido dons à Igreja é o
de restaurar e unir todas as coisas, para que os ministros de Deus conjbr-
tem o seu povo, o seu rebanho (1s 40.1).

Para a restauração dos santos, para a obra do ministério, para n


edificaçüo do corpo de Cristo (v.12).

Um substancial estudo exegético de Efésios 4.12, feito pelo Dr. Henry


P. Hamann, nos mostra que a tradução mais conhecida, sem a vírgula após
"santos", não reflete o texto grego e nem o pensamento do apóstolo Paulo:
"Eu devo dizer que o verdadeiro suporte linguístico para a quase universal
tradução de Efésios 4:11,12 (especialmente v. 12) em nossos dias chega
perto do zero".x

Há diferença de opinião quanto à relação das cláusulas neste versículo.


Westcotty afirma que elas (npót c i ~ não
) são coordenadas. Lange
entende que a primeira cláusula (rpóç) visa um fim mais imediato, enquanto
que as outras duas ( c i ~e i ~ são
) coordenadas e têm um objetivo decisivo e
final, sendo dependentes de ~ 6 0 ~ c i , "Hamann,
'. porém, apoiado em exaus-
tivo estudo, afirma que estas são frases preposicionais coordenadas.'' Por-
tanto, a inclusão no texto de uma vírgula após "santos", separando a pri-
meira e a segunda frases preposicionais, faz-se necessária, pois há dois
diferentes objetivo^'^. Hamann observa que o uso de ~cxsaprtapói;com o
substantivo no genitivo, sempre visa um fim completo, não precisando de
~omplernento.'~

A inclusão da vírgula após "santos" não é algo novo. Encontramo-la nas

" LENSKI, op. cit., p. 529.


' Id. Ibid.,p. 526.
HAMANN, Henry P.. "The Translation of Ephesians 4: 12 - A Necessary Revision"
Concordici Journal, 14 (January 1988), 43.
' WESTCOTT, Brooke Foss. Saini Paul's Episile t o ihr Ephesians. Grand Rapids .
Eerdmans, p. 63.
LANCE, op. cit., p. 151.
' I HAMANN, op. cit., p. 44.

I Z DONFRIED, Karl Paul. "Ministry: Rethinking the term diakonia". Concordia


Theological Quarterly, 56 (January 1992): 9.
'' HAMANN, op. cit., p. 44.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

edições das Sagradas Escrituras anteriores a 1940, independentemente da


língua. Conforme Hamann, a vírgula foi suprimida mais por considerações
dogmáticas leigas do que gramaticais. A supressão da vírgula está embasada
num comentário de Marcus Barth sobre Efésios, e foi defendida e popula-
rizada pelo Conselho Mundial das Igrejas, no intuito de enfatizar a partici-
pação leiga no trabalho da Igreja. l4

"Restauração" K a r a p t ~ a p ò v :Palavra comum na literatura extra-


canônica. Usada para indicar a correção de ossos partidos, a restauração
de algo ao seu estado primitivo. No Novo Testamento este termo é um
hapax legômenon, só ocorre em Efésios 4.1 2. O seu primeiro sentido é
restauração, reconciliação. A união com Cristo nos restaura e nos aperfei-
çoa (C1 2.9-10).Is

O verbo ~ a r a p r i r wtem o sentido de ajustar, pôr em ordem, restaurar.


Podemos tomá-lo em sentido literal em Mt 4.21 consertar: Em sentido fi-
gurado, tem como paralelo G1 6.1, onde Paulo exorta os gálatas para que,
em situação de pecado, o faltos0 seja corrigido com espírito de brandura.
O uso do verbo e seus derivados pelo apóstolo Paulo em todas as suas
cartas, mostra-nos basicamente estes sentidos: união entre os santos (1
Co 1.10); aperfeiçoamento, instrução na Palavra, restauração (2 Co 13.9;
Ef 4.12); corrigir alguém que está em pecado (G16.1); reparar as deficiên-
cias ( 1 Ts 3.10); tornar-se perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra pelo ensino, repreensão, correção e educação na justiça, com o uso da
Palavra de Deus (2 Tm 3.16,17). Katapr~apóíportanto, pressupõe a pre-
gação da Palavra de Deus, na correta distinção de lei e evangelho, pois
apenas esta é capaz de a p e ~ e i ç o a ros santos, o povo de Deus.

Merece destaque neste contexto o termo Gta~ovia(Ministério). Seu


correto entendimento dentro do texto está subordinado a existência ou não
da vírgula após "santos". A eliminação da vírgula é a causa fundamental da
distorção da correta compreensão deste versículo.16 A ausência da vírgula
deixa os "santos" como sujeito de ~ L C ~ K eO não
V ~ ~"pastores e mestres",
como o texto grego indica. Há, portanto, em conseqüência, uma percepção

IJId. Ibid., p. 45-46.


l5CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado. Vol. IV. Guaratinguetá:
A Voz Bíblica, S . d., p. 602.
''DONFRIED, op. cit., p. 5.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

errônea do referente do termo em questão. Com a vírgula, entendemos


~ L C L K O U ~ Ucomo ofício do ministério, ao passo que, sem a vírgula, percebe-
mos b t a ~ o v i acomo algum serviço que cada santo desempenha.

A t a ~ o v i asignifica um trabalho especial, denotando um uso técnico. É o


desempenhar de funções do ofício do ministério na igreja: .rrpò< ròv
~ a ~ a p r t a p òr vo v ayiwi; E i< épyov d t a ~ o v í a <E( i< oi~060pfivr06 O ~ ~ C L - O C
r06 X p ~ a z o u(Ef 4.12). Paulo considera a proclamação do evangelho
(diaconia) como sua f~indamentale central atividade (Rm 1 1 . I 3; 2 Co 3.3:
4.1 ; 5.18; 6.3; 11.8). Em Efésios e Colossenses G t o í ~ o ~ oé<encontrado
sempre em conexão com a proclamação do evangelho."

O usus loquendi de b t a ~ o v í anas Sagradas Escrituras aponta para um


serviço especial, um ofício, o ofício do ministério.lxÉ preferível entender-
mos b t a ~ o v i aantes como missão, em lugar de vê-ia simplesmente como
assistência. O primeiro objetivo do apóstolo Paulo era a comunicação do
evangelho. I y

Paulo usa o termo 6 t a ~ o v i anum contexto de pregação da Palavra de


Deus. É função a ser exercida por alguém que foi escolhido para o ministé-
rio, existindo para isso um chamado (Rm 11.13; 12.7; 15.25, 1 Co 3.5; 12.5;
16.15;2Co3.3,6,9;4.1;5.18;6.4;8.19;9.1;Ef3.7;4.12;6.2l;F 1.l:Cl
1.7, 23; 4.7; 1 Tm 1.12; 4.6; 2 Tm 4.5, 1 1 ; Fm 13). Quando ele se refere à
assistência, usa ~ o t v o v i a(1 Co 1.9; 2 Co 8.4 Fp 1.5, 7; 4.15).

Lenski diz que G t a ~ o v i aem Efésios 4.12 não se refere ao ofício do


ministério pastoral, mas à ministração mútua de todos os santo^.^" O con-
texto, porém, não favorece a este entendimento, pelo contrário, parece apoiar
a posição sustentada por Hamann, de que o termo é restrito a um serviço
especial, (Lc 10.40; At I .25; 6.1 ; 20.24; 2 Co 1 1.8; Hb 1 . 1 4).21

Bauer relaciona passagens bíblicas em que o termo 6 t a ~ o v i asignifica,


assim como Efésios 4.12, ministério da Palavra, ou ofício do santo minis-

" WEISER, A. In: Exegetical Llictionan of the New Testarnerzt. Vol. I . BALZ e
SCHNEIDER, editores. Grand Rapids : Eerdmans, 1990, p. 304.
MOELLERING, op. cit., p. 237.
I " DONFRIED, op. cit., p. 8.

'"LENSKI, op. cit., p. 531.


HAMANN, op. cit., p. 45.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

tério ( Hb 1.14; At 6.4; 2 Co 11.8; 2 Tm 4.1 1). 22 Portanto, 6 l a ~ o v i atem


como sujeito pastores e mestres.23Em Ef 3.7 Paulo é exemplo de alguém
exercendo esta 6 l a ~ o v í a .

Outro termo importante para a compreensão do texto é o i ~ 0 6 0 p ~ j


(edificação). No Antigo Testamento, na Septuaginta, a restauração de Is-
rael como povo independente é comparada com a reedificação de suas
muralhas (Jr 31.4). Vale ressaltar que o SENHOR é o edificador (1s
5.1 ss). Ele edifica o seu povo, colocando a sua palavra na boca do profeta
( Jr 1.9-10), e edifica as nações vizinhas trazendo-as para junto do povo de
Israel ( Jr 12.14-16).24

O uso de 0 i ~ 0 6 0 p em
~ j todos os escritos pauiinos nos fornece uma inte-
ressante conclusão. Quando o referente do termo é a igreja, então o sujeito
da edificação é o próprio Deus ou alguém designado para tal fim, mediante
um chamado (Rm 14.19; 15.20; 1 Co 3.10; 2 Co 10.8; 13.10; G1 2.1 8; Ef
2.20,22; 4.12; C1 2.7). Quem edifica a igreja é o próprio Deus, que se utiliza
do ministério para alcançar seu propósito, pois confere a este a autoridade
para pregar a Palavra e administrar os Sacramentos. Assim, o sujeito da
edificação em Efésios 4.12 são pastores e mestres, concedidos pelo próprio
Cristo, para exercerem o ofício do ministério na igreja (v. 11). O texto de
Efésios 4.1 1 - 12 ensina que o próprio Cristo escolheu, capacitou e concedeu
pessoas à igreja, para a obra do santo ministério. Através deste, os santos
são instruídos e restaurados pela palavra de Deus, a fim de que cheguem a
unidade da fé e do conhecimento verdadeiro do Filho de Deus, vivendo uma
vida santificada, em amor.

O significado do ministério
A grande questão em debate repousa sobre o significado exato de mi-
nistério. É um ofício instituído por Deus ou apenas uma atividade envolven-
do a pregação da palavra e administração dos Sacramentos? A base de

'' BAUER. W. diakoniva In: Worterh14chZurn Neuen Tesrumenr. Bcrlin : TOPELMANN,


A,. 1952.
" DONFRIED, op. cit., p. 9.
'' HOERBER, Robert C.."Oikodomeo". Concordia Journal, 6, (June 1980): 133.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

estudos é comum a todos: as Confissões da Igreja, contidas no Livro de


Concórdia. Entretanto, os resultados são variados e conflitante~.~"

A necessidade do ofício do ministério está baseada, conforme a Confis-


são de Augsburgo VZh,diretamente na doutrina da J u s t i f i ~ a ç ã oEla
~ ~ . nos
sugere o entendimento do ministério a partir do conhecimento de Deus,
pecado original, Cristo e justificação pela fé.''

Lutero considera o ofício do ministério como uma das marcas da igreja


cristã. Sua existência deve-se à instituição de Cristo. Conforme Efésios
4.1 1, Cristo concedeu dons aos homens: apóstolos, profetas, evangelistas,
pastores e mestres. A tarefa de pregar a palavra e administrar os sacra-
mentos publicamente deve ser deixada para pessoas escolhidas, chamadas
e ordenadas2'. Lutero afirma: "Essa tarefa deve ser delegada a uma só
pessoa, e somente ela deve pregar, batizar, absolver e administrar o Sacra-
mento, sendo que todos os demais devem aceitá-lo e c~ncordar".~" Esta
instituição (Ef 4.1 1) não se refere apenas à primeira geração de cristãos,
mas persistirá até o fim dos tempo^,^'

É certo que o ofício não se destina a todos os santos na igreja. Lutero


lembra que em 1 Co 14, Paulo ordena à congregação o ouvir e aperfeiçoar-
se, mas não o ensinar ou exercer o ofício da pregação. Há uma distinção,
não em hierarquia, mas em função, pois apesar de todos serem sacerdotes,
nem todos são pastores.32Pieper enfatiza: "Não há lugar na igreja para lei

" FAGERBERG, Holsten. A New Look at the Lutheran Confessions (1529-1537).Gcne


J. Lund, trad.. Saint Louis: Concordia Publishing House, 1972, p. 226.
Confissao de Augsburgo. Doravante designada por CA.
" BOLTMAN, H. .i. A,. A Doutrina do Ministério segundo Lurero e as Confissóes
Luteranas. Gastão Thomé, trad.. Porto Alegre: Concórdia, p.29-30. Ele também apon-
ta para esta idéia quando fala sobre a conexão do Artigo V da CA com o Artigo IV.
lX SCAER, David. "O Caráter Cristológico do Ministério", Igreja Luteranu 57 (Novem-
bro 1988): 153-60.
?Y BOUMAN, op. cit., p.33 É por meio, unicamente, deste Ofício, que são concedidos

justiça eterna, Espírito Santo e vida bem-aventurada (CA XXVIII).


LUTERO, Martinho. Dos Concílios e da Igreja. Ilson Kayser, trad. In: Obras
Selecionadas. Vol. 111. São Leopoldo/Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1992, p. 41 3.
" ALTHAUS, Paul. The Theology of Martin Luther. Robert Schultz, trad. 4 ed.
Philadelphia : Fortress Press, 1979, p. 324.
" ELERT, Werner. The Structure of Lutheranism. Saint Louis: Concordia, 1962, p.346.
Fagerberg, op. cit., p. 247, também ressalta este aspecto da igualdade entre pastores e
leigos, exceto quanto à função que cada um exerce.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

do homem, sob qualquer nome ou pretexto ela não pode ser exercida, por-
que somente Cristo governa a igreja com sua palavra".33

FUNÇÕES DO MINISTÉRIO
Cristo estabeleceu o ofício do ministério porque ele quer oferecer per-
dão dos pecados através da palavra. Pois a igreja é o reino do p e r d ã ~ . ' ~
Neste sentido podemos dizer que fora da igreja não há salvação, pois não
há evangelho e, conseqüentemente, perdão dos pecado^.'^ As Confissões
Luteranas aceitam que o pastor tem potestas ordiizis e p0tesra.s
iurisdictionis. Aquele, referindo-se ao poder de pregar a palavra de Deus
e administrar os sacramentos (Art. V). Este, ao poder de perdoar pecados,
rejeitar doutrina contrária ao evangelho e excluir impenitentes, cuja malda-
de é conhecida, fazendo tudo isto sem nenhum poder ou mérito humanos,
mas exclusivamente pela palavra de D e u ~ . ~ % s s i mreza o Artigo XXVIII.
21, da Confissão de Augsburgo.

O ofício do pastor é o ofício de pregar a palavra, a qual alimenta o


rebanho. Apenas a palavra conforta, defende e edifica o rebanho do Bom
Pastor, Cristo. Lutero confiava na onipotência do evangelho." No ministé-
rio, o pastor é um instrumento nas mãos do S e n h ~ r .Quando
'~ a palavra de
Deus é proclamada, quem a ouve, ouve a própria" voz do Bom Pastor,
Cristo (Lc 10.16). Fagerberg afirma que a ação de Deus através do ofício
do ministério não pode ser melhor ilustrada do que nas palavras de Lc
10.16, "quem ouve vocês, ouve a mim".40

Martin Chemnitz sintetiza as funções dos ministros de Deus, ressaltan-


do que eles estão incumbidos de alirnentar o rebanho com a pura palavra
do Senhor (At 20.28; Ef 4.1 1; 1 Pe 5.2); administrar os sacramentos con-

" PIEPER, Francis. Ckristian Dogr~zatics.Vol. 111. Saint Louis: Concordia, 1953, p. 361
" FAGERBERG, op. cit., p. 345.
" SCHLINK, E.. Theology o j the L ~ t h e r a nCot$e.tsions. Philadelphia : Muhleriherg
Press, 1961, p.201.
"' FAGERBERG, op. cit., p. 239-40. Ressaltamos que as Confissões entendem poteJtaJ
orditzis eporesrns iurisdictionis de forma diferente da concepção católica romana. Rejei-
tarn o aspecto sacrificial da primeira, e limilam o poder da segunda à palavra de Deus.
A autoridade na igreja é a palavra de Deus.
" ELERT, op. cit., p. 366-67.
SCHLINK, op. cit., p.245.
'VOUMAN. op. cit., p. 31. "Agir segundo a ordem de Deus, é agir em lugar de Deus e de
Cristo".
'"FAGERBERG, op. cit., p.245.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

forme instituição de Cristo (Mt 28.19; 1 Co 1 1.23); administrar correta-


mente o poder das chaves (Mt 16.19; Jo 20.23) e cumprir todo o ministério
conforme o supremo Pastor, Cristo, prescreveu através de suas instruções
(2 Tm 4.5; Mt 28.20).4'

NATUREZA DO MINISTÉRIO
Lutero, quando defendeu a doutrina do ministério, estava combatendo dois
ensinos contraditórios entre si e, ao mesmo tempo, alheios à palavra de Deus.
O primeiro ensino parece ser puramente prático. A pregação do evangelho é
matéria pública e para haver ordem, é preciso que alguém seja escolhido para
desempenhar tal função. Pois se todos pregarem, não restará ninguém para
ouvir. O segundo ensino sustentava que o ministério estabelecia uma distin-
ção qualitativa entre leigos e o clero. Entretanto, Lutero e os confessores não
tiveram dúvidas de que o ministério é de origem divina, rejeitando a concep-
ção de ordem e negaram de forma veemente a concepção de hierarquia
dentro da igreja cristã.42Para entendermos Lutero, não tendo conclusões
precipitadas, precisamos tomar estes dois aspectos em consideração.

Chemnitz aponta para a origem divina do ministério, ressaltando a sua


funcionalidade: "para cumprir e desempenhar funções necessárias da igre-
ja, pastores, ou pregadores, são e devem ser ministros de Deus e da igreja
no reino de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus, 1 Co 4.1 ; C1 1.25;
2 Co 4.5".43 Isto concorda com o sentido técnico do termo b ~ a ~ o v i que
a,
diz respeito a um serviço especial (instituído por Deus), com ênfase na
atividade.44Neste aspecto, Fagerberg comenta:

O ofício especial, o ministério da igreja, é visto a partir de um


ponto de vista funcional, em anologia com o conceito de pala-
vra e sacramentos, como atividades divinas. O único ministério
legítimo é o que age de maneira consistente com as intenções de
Deus. 45

" CHEMNITZ, Martin. Ministry, Word, and Sacraments: An Enchiridion. Luther Poellot,
trad.. Saint Louis : Concordia, 1981, p.26.
'' ELERT, op. cit., pp.341.43. Lembramos que Lutero chegou a usar o argumento de
ordem (1 Co 14 - Elert, op. cit., p. 346), entretanto, em referência i prática, não a
origem do ministério (cf. CA XIV).
-" CHEMNITZ, op. cit., p. 26.
" SCHLINK, op. cit., p.235. "All of these statemcnts show clcarly that the concept of
office on the Confessions is a decidedly functional one".
FAGERBERG, op. cit., p.234.
-
Igreja Luterana N 1 - 2000

As Confissões Luteranas baseiam no Novo Testamento o direito e obri-


gação da igreja em chamar, eleger e ordenar pessoas para o ministério.
Melanchton via no texto de Efésios 4.11 a origem divina para o ofício do
ministério e a necessidade da igreja por pa~tores.~"chlink apresenta a
instituição do ofício espiritual como sendo de origem divina, no chamado
dos apóstolos através de Jesus Cristo (Jo 20.21). Este chamado é um fato
histórico e vale para todas as é p o ~ a s . ~ '

Paul Althaus entende, em Lutero, que o ofício do ministério deriva de


duas fontes. Por um lado, o ofício provém do sacerdócio universal de todos
os crentes. Por outro, o ofício deriva diretamente de Cristo. Althaus inter-
preta que o pastor administra seu ofício em lugar de toda a c o m ~ n i d a d e . ~ ~
Entretanto, rejeitamos esta interpretação, pois não concorda com as pala-
vras do apóstolo Paulo que diz ser embaixador em nome4' de Cristo, não
da comunidade (Ef 6.20; 2 Co 5.20). Bouman enfatiza: "o ministério se
fundamenta sobre uma instituição e ordenação especiais de Deus. ... os
ofícios e sacramentos não são nossos, mas de Cristo, pois foi ele quem
instituiu tudo isto e delegou à sua igreja".s0

QUEM ATUA NO OFICIO DO MN


IS
I TÉRO
I
Para entendermos melhor este aspecto, precisamos fazer diferenciaçáo
entre ordenação e consagração. Através do batismo todos os cristãos es-
tão consagrados como sacerdotes do Rei. No entanto, ordenar (chamar)
significa selecionar um indivíduo dentre os sacerdotes e conferir-lhe o direi-
to de pregar e administrar os sacramentos." No Novo Testamento, o termo
sacerdote nunca é utilizado para pessoas no exercício do ofício ministerial,
apenas para os cristãos em O contrário também ocorre: termos
como pastor, bispo, são aplicados a Jesus e ao clero. Também ancião ou

'"Id. Ibid., p.234-35.


'' SCHLINK, op. cit., p. 241.
" ALTHAUS, op. cit., p. 324-25.
"PIEPER, op. cit., p. 449, assinala que o pastor recebe o chamado para o ofício de Cristo
através da congregação. Por isso que o chamado é divino. O pastor age em nome de
Cristo.
"' BOUMAN, op. cit., p. 14,15.
" ELERT, op. cit., p. 347.
5 2 Id. Ibid., p. 354. Paul Althaus, op. cit., p. 328, também assinalaeste Fato: "Accordingly,

the New Teslament does not attribute the name of priest to any apostlc or to any other
office of the church but only to a11 christians in common".
Igreja Luterana - N 1 - 2000

presbítero são aplicados aos apóstolos, nunca aos cristãos em geral." 30-
demos concluir que o ofício do ministério e o sacerdócio universal não eram
confundidos pelos escritores do Novo Testamento.

A eficiência, o sucesso do pastor, repousa sobre o poder da palavra de


Deus. "A palavra perdoa, e a palavra julga".s4 Quem ocupa o ministério
precisa ser uma pessoa preparada, instruída na palavra de Deus, que con-
tinue a estudar e preparar-se para melhor desempenhar as funções do mi-
nistérioss. Pressupõem-se conhecimento, entendimento e confissão da ver-
dade evangélica. O apóstolo Paulo prescreve a Timóteo que ele maneje
bem a palavra da verdade (2 Tm 2.1 5). Manejar bem a palavra é fazer a
correta distinção entre lei e evangelho.

A igreja recebe o direito e dever de escolher pessoas aptas para exer-


cer o ofício do ministério. E apenas ela pode estabelecer o ministério públi-
co, pois onde não há congregações não há ministros públicos da palavra (At
14.23; Tt 1 . 5 ) . s W a s , no sentido próprio, restrito do termo, o direito de
chamar é do próprio Deus, do Deus Triúno (Mt 9.38; Ef 4.8,11- 12; At 13.2,4;
20.28). O Senhor chama trabalhadores para a sua obra, de forma mediata
(Paulo e os profetas) e imediata m ti mó te^).^' Chemnitz enfatiza que: "Pau-
lo declara que Deus dá e estabelece na igreja não somente apóstolos, que
são chamados imediatamente, mas também professores e pastores, cha-
mados mediatamente. Ef 4: 1 1 ; 1 Co 12:28.".sx

O apóstolo Paulo testifica aos efésios que o direito de chamar, eleger e


ordenar ministros é um dom concedido exclusivamente à igreja: Quando
ele subiu as alturas, concedeu dons aos homens (Ef 4.8). "Ele enumera
pastores e mestres entre as bênçãos pertencentes exclusivamente à igreja,
e acrescenta que elas são dadas para a obra do ministério e para a edificação
do corpo de C r i ~ t o ' ' . ~ ~

'?SCAER, op. cit., p. 155-56.


54 ELERT, op. cit., p. 361.
" BOLTMAN, op. cit., p.21. Lutero diversas vezes enfatizou que os ocupantes de cargos
na igreja são, antes de tudo, servos da palavra. Ao mesmo tcmpo, trata-se do "cargo
mais sublime na cristandade" (p. 25).
'VIEPER, op. cit., p. 439.
" Cf. Pieper, op. cit., p. 451, não há graus de importância entre um chamado mediato e
um imediato.
CHEMNITZ, op. cit., p. 32.
Cotnmission on Theology and Church Relations of the Lutherun Church - Missouri
Synod, p.8.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

SACERD~CIO UNIVERSAL DE TODOS OS SANTOS


Deus escolheu um povo para si, o povo de Israel (Êx 19.5,6). Todos os
filhos de Israel eram sacerdotes perante Deus. Israel era um reino de sa-
cerdotes, mas nem todos serviam como sacerdotes. Apenas um grupo es-
colhido desempenhava funções sacerdotais.

O Senhor separou ArãoN' e seus filhos para um sacerdócio oficial, dis-


tinto do sacerdócio do povo de Israel. Spitz diz: " Esta Antiga Aliança Sa-
cerdotal (...) era sombra de coisas futuras, de Cristo, o verdadeiro Sumo
Sacerdote, e de seu perfeito sacrifício expiatório na Cruz, o qual deu eficá-
cia expiatória para os sacrifícios do Antigo Testamento (Hb 10.1)"h'

Os da descendência de Arão recebiam uma educação primorosa quan-


do crianças, para exercerem, quando adultos, funções sacerdotais. Tinham
como função principal, manter Israel fiel à Aliança com o SENHOR.h2

No Novo Testamento vemos o cumprimento das profecias (SI 11 0.3; 1s


61.6; M1 1.1l), as quais prediziam que todos os crentes em Cristo seriam
sacerdotes reais, povo escolhido (1 Pe 2.7-9; Ap 1.5,6).63Todos aqueles
que são batizados para o nome de Cristo estão consagrados como sacerdo-
tes reais (G13.27; Ef 1.13; Tt 3.5). Conforme 1 Pe 2.9, a igreja de Cristo é
reino de sacerdotes paaik~~ov~cpkrcupci,nação santa, povo de exclusiva
propriedade de Deus, cumprindo, assim, as palavras de Êx 19.6.

Podemos perceber que sacerdócio universal é uma outra expressão


para a igreja, como o verdadeiro povo de D e ~ sA. igreja
~ cristã é sacerdo-
tal porque Cristo é o Sumo-Sacerdote (Hb 5.8,9; 1 Pe 2.4-5). Ele cumpriu
as funções de sacerdote, sacrificando-se a si mesmo; orando por nós na
cruz e proclamando o evangelho, ensinando os homens a conhecerem a
Deus e a ele mesmo. Portanto, os santos podem ser sacerdotes e desempe-
nhar funções do sacerdócio porque Cristo concedeu este privilégio a eles.
Lutero conclui:

SCHRIEBER, Paul L. "Priests Among Priests: the Office of the Ministry in light of
the Old Testament Priesthood." Concordia Journal, 14 (1988): 217. É mais correto
pensar em termos de sacerdócio araônico do que levítico, pois o sacerdócio iniciou com
Aráo (Ex 28). Lembramos que "all priests are levites, but not all levites are priests" íp.
217).
' SPITZ, L. W.. The Abiding Word. Vol. 1. T. Laetsch, ed.. Saint Louis : Concordia, 1955,p. 324.
" SCHRIEBER, op. cit., p. 21 7.
" SPITZ, op. cit., p. 329.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Ele é o Sacerdote e nós somos seus irmãos, todos os cristüos têm


a autoridade, o mandamento e a obrigaçáo de pregar, vir pe-
rante Deus, para orar pelos outros e oferecer a si mesmos como
um sacrifício a Deus.65

A igreja tem o direito e o poder de pregar e professar a palavra de Deus,


cada sacerdote real conforme o seu ~hamado.~"endo o cristão um sacer-
dote, ele tem o privilégio de proclamar a palavra de Deus, de desfrutar dos
meios da graça e ser responsável por eles e, também, aproximar-se do
Senhor sem intermediários, através da oração.67 Constata-se, portanto,
que não há diferença na igreja entre os cristãos, entre os sacerdotes reais e
os ministros, exceto pela função, pelo chamado que cada um exerce."

Sacerdócio (~~pdzcupu) é um conceito corporativo, coletivohy.Isto sig-


nifica que todo o povo cristão constitui, forma uma corporação sacerdotal,
excluindo-se a idéia de individualismo. É uma categoria de serviço que existe
para oferecer sacrifícios espirituais ( 1 Pe 2.5) e proclamar ao mundo as
virtudes de Deus, seus atos de graça e poder (1 Pe 2.9).'" B a a i h e ~ o vex-
pressa a idéia de possessão. Podemos parafrasear sacerdócio real desta
maneira: "Um sacerdócio a serviço de um rei, C r i ~ t o " . ~ '

ONDEE COMO O CRISTÃO EXERCE O SEU SACERDÓCIO UNIVERSAL?


É preciso enfatizar qual é a razão para Cristo nos ter feito sacerdotes
reais: "Ele nos amou e nos fez sacerdotes" (Ap 1.5,6; G1 1.4; 2.20; Ef 5.2).'*

Ser sacerdote do Rei é um grande privilégio e uma grande responsabi-

" FAGERBERG, op. cit., p. 248. É admissível que o motivo da escassez, no Livro de
Concórdia, de referências ao sacerrlócio universal, deva-se ao fato de os conkssorcs o
entenderem como igreja.
"'LUTHER, Martin. The Catholic Epistles: Sermons on lhe First Epistle ofSt. Peter. In:
Luther Works. Vol. 30. Jaroslav Pelikan, ed. Saint Louis: Concordia, 1967, p. 53.
PIEPER, op. cit., p. 441.
" SEIBERT, Erni Walter. Congregação Cristá. São Paulo: EST, 1988, p. 22.
DANIEL, David P. "A Spiritual Condominium: Luther's Views on Priesthood and
Ministry With some Structural Implications," Concordia Journal, 14, (July 1988):
268.
" ARNDT, W.. "A Royal Priesthood, 1 Pet. 2:9," Concordia Theological Monthly 19
( 1948): 244.
7" SCHOLZ, Vilson. "A Igreja como Sacerdócio Real " Igreja Luterana 47 (1988): 7 .

7 1 ARNDT, op. eit., p. 244.

72 DALLMANN, Wm. "Ye Are a Royal Priesthood", Lutheran Witness 15 (fevereiro

1921): 50.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

lidade para o cristão. Tudo pode ser resumido em oferecer sacrifícios


(Rm 12.1; 1 Pe2.5; 1 Jo3.16;Fp2.17;Ef5.19-20;Fp4.18;2Co9.10-15
Hb 13.15; 1 Tm 2.1) e proclamar os grandes feitos daquele que nos
chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. É indispensável que
cada membro do sacerdócio real conheça sua missão, tenha consciência de
sua nova vida em Cristo. Para tanto, os sacerdotes reais têm a sua tarefa
resumida em 1 Pe 2.9: proclamar os grandes feitos do Senhor ao mundo!"
Eles atuam em três áreas: na igreja, na família e na sociedade.

Na igreja, pelo chamar pessoas para exercerem o ofício do ministério:


proclamar a palavra, administrar os sacramentos e ensinar. São também
responsáveis pela correta pregação da palavra por parte de seus ministros
(Jo 4.1 ; Rm 16.17; At 17.1 1,12). Conforme Preus, Lutero via nos textos de
Jo 10.4,5 e Mt 7.15 o direito e o dever da congregação em julgar doutrinas:

A congregação tem a responsabilidade de cuidar se a pulavra


de Deus é pregada e os sacramentos administrados. Mas Lutero
dá um passo além. Como sacerdotes, eles têm o direito e o dever
de observar que a palavra é pregada em verdade e p u r e z ~ . ' ~

Os cristãos também desempenham o seu sacerdócio admoestando e


consolando fraternalmente os irmãos na fé (Gn 4.9; 1 Ts 5. 1 1-1 5; C1 3.16;
Hb 10.24,25; Mt 18).'"

Os cristãos vivem o seu sacerdócio, de forma especial, na família, quan-


do criam seus filhos no temor e admoestação do Senhor (Ef 6.4). Os pais
são sacerdotes e sacerdotisas do lar. Eles exercem autoridade, alimentam
os filhos com a palavra de Deus, administrando a lei e o evangelho, confor-
me a ne~essidade.'~ Temos alguns exemplos bíblicos deste sacerdócio na
família: assim agiram os patriarcas (Gn 1 8.17- 19) no Antigo Testamento e
assim agiram a mãe e avó de Timóteo, Lóide e Eunice, no Novo Testamen-
to, mulheres cristãs que foram sacerdotisas do lar. Elas educaram Timóteo,
o qual mais tarde veio a ser ordenado pastor, sendo um dos grandes colabo-
radores do apóstolo Paulo (2 Tm 1.5).

'' LUTHER, op. cit., p. 64, 65.


74PREUS, Herman A,. "Luther on the Universal Priesthood and the Ofice of the Ministry,"
Concordia Journal5 (Março 1979): 61.
'' SPITZ. op. cit., p. 334-35.
'"Id. Ibid., p. 338.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Ao examinarmos os textos de Êx 19.6 e 1 Pe 2.9, percebemos claramente


que o povo escolhido de Deus é chamado a desempenhar o seu sacerdócio
também perante o mundo, junto aos gentios. O cristão não é sacerdote ape-
nas para os outros cristãos, mas antes, para o mundo, "sendo um Cristo para
o seu Ele, em Cristo, está livre para oferecer a si mesmo, volun-
tariamente, como servo do próximo. Esta é a responsabilidade e privilégio
sacrificial de todo sacerdote real. de todo sacerdote cristão.7x

Aos santos cabe proclamar a palavra de Deus aos descrentes, orar


pelas autoridades e por todo o povo (1 Tm 2.1-4; 1 Pe 2. I 1,12; 3.15). Ao
proclamar os grandiosos feitos de Deus ao mundo, através de palavras e
pelo exemplo de vida (At 2.47), os santos promovem a santa propugunda
do Senhor!'"

RELAÇÃO ENTRE OFICIO DO MN


IS
I TÉRO
I E SACERD~CIO UNIVERSAL
Martinho Lutero combateu a idéia de uma suposta superioridade do cle-
ro em relação aos leigos, idéia esta sustentada pela Igreja Católica Romana
de sua época. Curiosamente, ele também precisou combater a idéia oposta,
de que o sacerdócio universal era a única instituição divina, sendo o minis-
tério apenas uma organização humana. Este engano era defendido pelos
entusiasta^.^^)

Assim, precisamos deixar bem claro que estamos falando de duas dou-
trinas diferentes. Elas não podem ser conf~~ndidas, dando a entender que
uma é dependente ou resultado da outra. Podemos, erroneamente, pensar
que o ministério representa o grupo dos sacerdotes reais, ou que ele seja
uma organização humana. Pensar assim é um grande e q u í v o c ~ . Neste
~'
sentido, condenamos o ensino daqueles que querem fazer de todo cristão
um ministro e, assim, abolir o ofício do santo rnini~tério.~'

O ministério existe em, com e sob a igreja, mas não pode nunca ser
confundido com a igreja. O próprio Senhor escolheu alguns para serem

" PREUS, op. cit., p.58.


7XDANIEL, op. cit., p. 270.
" ARNDT, op. cit., p. 247.
PREUS, op. cit., p. 55.
SCHLINK, op. cit., p. 245.
NAGEL, Norman. "The Office of the Holy Ministry in the Confessions," Concordiu
Journal 14 (Julho 1988): 289.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

pastores sobre o seu rebanho (Jo 21.15-19). Paulo entendia o pastorado


dos presbíteros de Éfeso da mesma forma (At 20.28).X3

O ministério não deriva do sacerdócio universal, mas de Cristo. Portan-


to, tem um caráter cristológico. Está fundamentado na ordem de Cristo
dada aos seus discípulos em Jo 20.21-23 e Mt 28. 16-20.X4Estes se tomam
os representantes autorizados de Cristo. Estão em nome dele, sendo seus
embaixadore~.~~

Ninguém decide ser ministro na igreja por sua própria vontade. Walther,
em um sermão sobre Ef 4.11 ss, afirma:

A distinção entre clero e leigo não é uma opção humana. Elu é


untes uma instituição do próprio Filho Deus, e por esta ruzüo k
claramente uma quebra da divina ordenança, nada menos do
que uma rebeliüo no reino de Cristo, quando cristãos que nüo
são regularmente chamados e ordenados neste santo ofício ar-
rogam para si mesmos o exercício deste ofiCi~.~'

Cremos e confessamos que é Deus quem chama, através da congregação,


os seus servos. O chamado vem de Deus, quem escolhe é o Senhor da seara,
o Senhor da igreja. E a igreja de Cristo é governada pela sua palavra. Quando
a congregação ouve a palavra sendo proclamada pelo pastor, ela o segue (Hb
13.7),pois ouve a voz do próprio Cristo (2 Co 5.20; Lc 10.16).X7É maravilhoso
e surpreendente constatar que o Senhor se utiliza de homens para a proclama-
$20 do seu reino entre nós. Apesar de todas as fraquezas e limitações, pessoas
são chamadas e capacitadas a desempenharem o ofício do ministério.

Percebe-se uma grande dificuldade em estabelecer uma nítida diferen-


ciação entre o ministério e o sacerdócio universal. A favor da clareza dou-
trinária, é preferível vê-los a partir da relação de ambos com o Senhor

" SCAER, op. cit., p. 3.


" Jd. "Matrhew as Theological Trainiiig Document," Evangelium - Euaggelion - G'ospel
21 (Outubro 1993): 134. Scaer prova exegeticamente que Mateus mostra que a audién-
cia de Jesus neste episódio (a Grande Comissão) estava restrita aos Onze.
Id. "O Caráter Cristológico do Mitzistério, " p. 156. Esta posição também é tomada
pela CTCR - Missouri Synod, p.25: "The office of the public ministry in the church is
distinct from the universal priesthood of believers and has its origin in the divine
institution of thc office".
MOELLERING, op. cit., p. 239.
" PREUS, op. cit., pp. 59,61.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

Jesus Cristo, que através da palavra, administrada pelo ministério, governa


a sua igreja: o reino de sacerdote^.^^ Portanto, ao estudarmos os assuntos
em questão, precisamos abordá-los no contexto da cristologia, mais especi-
ficamente. no ofício sumo sacerdotal de C r i ~ t o . ~ "

Esta abordagem do ministério e do sacerdócio universal, estudando-os a


partir da cristologia, não é novidade. Scaer nos lembra:

Nossa atenção está continuamente focalizada em como um en-


tendimento correto do ministério deve estar relacionado ao sa-
cerdócio universal, um procedimento que é raro nas Confissões
Luteranas e que é desconhecido para a Confissão de Augsburgo,
Apologia, Artigos de Esmalcalde e Fórmula de Concórdia. A.r
Confissões simplesmente não têm uma delongada discussüo so-
bre o assunto, mas nós estamos sempre procurando ajustar os
assuntos do ministério e do sacerdócio universal. O Novo Testa-
mento não coloca os dois assuntos juntos.Y"

A relação do ministério pastoral e do sacerdócio universal de todos os cren-


tes a partir da pessoa e obra de Cristo se torna evidente quando examinamos
algumas passagens bíblicas. Em Mt 28.18 e Jo 20.21 o próprio Jesus instituiu o
ministério. Portanto, a origem do ministério está em Cristo. É uma realidade
que vem de Deus. O ministério é determinado por Jesus e pelo Novo Testa-
mento. Scaer comenta: "Pertencemos ao ministério que se origina em Cristo e
que foi executado por ele e pelos apóstolos. Temos uma sucessão cristológica,
(...) Ele só é o Bispo de nossas almas e que deu a vida pelas ovelhas"."

Os crentes são chamados povo de Deus, sacerdócio real, porque Cristo,


com sua obra redentora, tornou isto possível. Cristo é o Sumo Sacerdote
que ofereceu a si mesmo como sacrifício pelos pecados do mundo (Jo 1.29;
17.19; 1 Jo 2.2). No batismo morremos com Cristo e, juntamente com ele,
renascemos para uma nova vida (Rm 6.3,4; G1 3.27; Ef 1 . I 3; Tt 3.5 ).
Então não somos mais servos do pecado, mas povo de Deus. Portanto, o
sacerdócio universal está fundamentado na obra e pessoa de Cristo (Hb
5.8,9; 1 Pe 2.4,5).

sX SCHLINK, op. cit., p. 247.


" SCHOLZ, op. cit., p.7.
SCAER, op. cit., p. 1 .
"' Id. Ibid.,p.2.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

No relacionamento entre o ofício do ministério e o sacerdócio real não


há competição. Uma bênção não diminui ou exclui a outra, mas ambas se
c~mplementam.'~O ministro precisa ser fiel a sua ordenação, enquanto
isso, a congregação o honra e segue. Portanto, pastores ou leigos, precisam
"juntar as mãos em oração e desempenhar suas funções sacerdotais de
ensinar, confessar e pregar a palavra de vida em Cristo, ser constantes em
orar pelos outros, e oferecer a si mesmos como um sacrifício vivo pelo seu
próximo. Assim como Cristo amou a igreja e deu a si mesmo por ela"."
Hermann Sasse também reforça esta maneira de ver o relacionamento
entre ministério e sacerdócio universal. Ele lembra que o ministério não é
senhor sobre a congregação (2 Co 1.24). Da mesma forma, a congregação
não é senhora sobre o ministério (Gl 1). Ambos estão sob o Senhor Jesus
Cristo, o único Senhor. Sob este Senhor a congregação e o ministério for-
mam uma ~ n i d a d e . ' ~

PASTOR, EQUIPADOR DOS SANTOS PARA O MINISTÉRIO?


Função do pastor, segundo Efésios 4.12
O ministério existe para servir, desempenhar funções: pregar a palavra
de Deus, administrar os sacramentos e o ofício das chaves p~blicamente.'~
Sua existência não é opcional, mas instituição divina. O próprio Cristo con-
cedeu a sua igreja este dom, o ministério (Ef 4.1 1).

Três conceitos são importantes e esclarecedores em nosso texto, Efésios


4.12: ~ a r a p r ~ o p ò i6; , ~ a ~ o vei 0i~06opfiv.
a~ Estes termos são restritos ao
ministério, pois o apóstolo Paulo está se referindo ao ministério pastoral
( 6 ~ a ~ o v i ea ~suas
) funções ( ~ a r a p z ~ o p ò voi~060pfiv).
,

Conforme constatamos na exegese do texto de Efésios 4.1 2 (capítulo


I), ~ L U K O significa
V ~ ~ ministério pastoral e não ministérios. O referente de
ministério, Efésios 4.12, é pastores e mestres do v. 1 I e não os santos.
Certamente, se tomarmos a raiz do termo em seu significado latino
(ministerium) como servir, então teremos uma extensa aplicação, poderá
referir-se a muitos tipos de serviços. Porém, conforme já mencionado, o
usus loquendi de 6 ~ a ~ o v nas
i a Sagradas Escrituras, ao referir-se a um
obreiro na igreja como ministro, é basicamente o ofício de pastor, ou seja,

"'NAGEL, op. cit., p. 295.


"'PREUS, op. cit., p. 62.
'"ASSE, op. cit., p. 83.
"'KOLB, Robert. The Christiart Faith. Saint Louis: Concordia, 1993, p. 278.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

ministério pa~toral.'~ Hamann toma esta mesma posição quanto ao signifi-


cado de G t a ~ o v i apois
, ele considera o entendimento popular serviço cris-
tão como equivocado. Ele pondera sobre o assunto: "o entendimento popu-
lar pode até ser possível, mas o uso normal da palavra é contra este enten-
diment~".~'

O ministério pastoral não é exercido pelos leigos, ou seja, pelos sacerdo-


tes reais. Este ofício é exercido por pessoas escolhidas, devidamente cha-
madas e aptas para desempenharem as funções do ministério. As Escritu-
ras nos exemplificam tal procedimento: No Antigo Testamento, os filhos de
Arão recebiam instrução adequada para assumirem o ofício sacerdotal. No
Novo Testamento, temos o exemplo de Jesus, o qual instruiu seus discípulos
por aproximadamente três anos e então comissionou alguns deles para se-
rem pastores sobre o seu povo (Jo 21.15-1 9; Mt 28. 16-20).YXO apóstolo
Paulo orienta Timóteo para que ele instrua algumas pessoas capazes, idô-
neas, a fim de que elas também sejam pastores sobre o povo, para instruí-
rem a outras (2 Tm 2.2). Exorta para que o jovem pastor Timóteo não
impusesse precipitadamente as mãos sobre alguém (1 Tm 5.22). Está sufi-
cientemente comprovada a necessidade de preparação para aqueles que
almejam exercer o ofício do ministério. Sua atividade fundamental é pregar
o evangelho (Rm 11.13).

A função do pastor é ~ a z a p t ~ u p òz6v v ay i o v ! "A restauração dos


santos". O uso de ~ a t a p r i a p ò vdenota um fim em si mesmo, ou seja, nrio
precisa de complemento. Portanto, contrário ao entendimento do movimen-
to Church Growthyy,o qual lê a frase como: equipar os santos pura o
desempenho do ministério. Tal interpretação implica em uma visão de

'' MOELLERING, op. cit., p. 237.


'' HAMANN, op. cit., p. 45.
'' SCAER, David. "Matthew as Theological Trainiilg Document", p. 132. Scacr argu-
menta que o evangelho de Mateus tem como objetivo ser um livro-texto na preparação
de ministros para o exercício d o ofício pastoral. A sua tese é esta: "The first Evangelist
understands his Gospel as an authentic record oí' the lull doctrinal content of the
teaching of Jesus especially for those who like the apostles are entrustcd with the
pastoral care of congregation".
yy HUNTER, Kent R.. Fundamentos para o crescimento da igreja. Rudi Zimmer, trad..

São Paulo: EST, 1993, p. 25.


Igreja Luterana - N" 1 - 2000

ministérios, quando cada cristão tem um ministério a exercer na igreja.


O pastor desempenha o ofício do ministério pastoral pelo uso da palavra
de Deus. Ele aperfeiçoa os santos (Ef 4.12); restaura (2 Co 13.9); une ( 1
Co 1.10); repara as deficiências (1 Ts 3.10); ensina, repreende, corrige e
educa na justiça (2 Tm 3.16,17). Ele guia e alimenta o rebanho com a
palavra, na correta distinção de lei e evangelho. Em outras palavras, como
enfatiza Caemmerer, o pastor guia o povo de Deus quando o alimenta,
quando o coloca em contato com a palavra de Deus (At 20.28).""

O termo oi~oÕopT]vimplica em crescimento espiritual (Ef 2.20; 4.12; C1


2.7). O pastor lança o fundamento, Cristo, e, sobre este, a igreja é edificada,
por palavra e sacramentos (1 Co 3.10). Em última análise, quem edifica é o
próprio Deus, que se utiliza do ministério pastoral para alcançar o seu pro-
pósito: edificar o corpo de Cristo! (Ef 4.12).

FUNÇÃO DOS SANTOS, SEGUNDO EFÉSIOS 4.12


Efésios 4.12 não apresenta os santos como sujeito da ação, mas como
objeto. Ou seja, neste versículo os santos são aperfeiçoados e edificados
por pastores e mestres. Portanto, os santos não edificam, mas são edificados.

A idéia de que os santos são apenas beneficiários causa muita polêmi-


ca e indignação entre algumas igrejas cristãs. Esta polêmica não é algo
novo, já foi levantada por Corá, Datã e Abirão em Nm 16.1-3. Aqueles
rebeldes questionaram a autoridade e exclusividade de Arão e Moisés.""
Eles são imitados quando háum equivocado entendimento do texto de Efésios
4.1 2 e das doutrinas do ministério pastoral e do sacerdócio universal de
todos os crentes. Hamann lembra que todo o Evangelho implica em sermos
beneficiários. Fazer parte da igreja de Cristo é um presente de Deus (Mt
5.3).""

O apóstolo Paulo em Efésios 4.12 não está pensando no sacerdócio


universal dos crentes, porém no ministério pastoral. Não está descrevendo
a atuação da igreja no mundo, mas o seu pensamento está concentrado na
igre-ia, somente na igreja."" A atividade dos santos aparece em Efésios

CAEMMERER, Richard R. Feeding and Leading. The Witnessing Church Scrics.


Williain Danker, ed. Saint Louis : Concordia, 1962, p. 13- 14.
" SCHRIEBER, op. cit., p. 227. Cf. Nm I6 e 17.
"'? H A M A N N , op. cit., p. 47.
I"' Id. Ibid., p. 47.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

4.1 6,'04 onde as diferentes partes do corpo, depois de serem aperfeiçoadas


(Ef 4.12), ajustadas e unidas (Ef 4.16), vivem a consolatio fratrum, ou
seja, edificam-se mutuamente, compartilhando uns com os outros o amor e
perdão originados em Cristo, levados a efeito pela ação do Espírito Santo.

O apóstolo Paulo começa a falar da atuação dos santos no mundo a


partir do v. 17 de Efésios. Os cristãos irão refletir a sua nova vida em Cristo
tendo um comportamento honesto, sem inveja, ódio e rancores, testemu-
nhando ao mundo uma vida caracterizada por um espírito perdoador (Ef
4.17-5.20). Esta nova vida também atinge a família cristã, afetando as rela-
ções entre marido e esposa, filhos e pais, senhores e servo^."'^ Temos,
pois, a partir de Efésios 4.17, conselhos práticos do apóstolo para que os
santos vivam o seu sacerdócio universal, atuando em relação ao mundo.
Esta linha de raciocínio é coerente com o que segue após 1 Pe 2.9,10, onde
o público alvo da atuação dos sacerdotes reais não é a igreja, mas são
aqueles que estão fora dela, os gentios (1 Pe 2.12). Os sacerdotes reais,
com sua vida cristã exemplar, testemunharão ao mundo os grandes feitos
do Senhor.

Paulo, na carta aos Efésios, preocupa-se primeiro em enfatizar aos cris-


tãos a salvação gratuita em Cristo Jesus (1.7), estendida tanto a judeus
quanto a gentios (1 .I 1-18). Os santos fazem parte de um só corpo, a igreja.
Esta unidade é dom de Deus (4.1-6). Para manter esta unidade da fé, Cris-
to concede o ministério para aperfeiçoar os santos, para edificar o corpo de
Cristo (4.7-16). A partir disso, os santos passam a viver a sua fé, o seu
sacerdócio perante o mundo: na família e na sociedade, revestidos pela
armadura de Deus (4.1 7-6-20).

PASTOR, EQUIPADOR DOS SANTOS PARA O MINISTÉRIO?


Pelo texto de Efésios 4.12 e seu contexto, concluímos que a função do
pastor não é equipar os santos para o ministério. Primeiramente, porque
Paulo não está falando do serviço dos santos na igreja, de ministérios,
contudo se refere ao ofício do ministério pastoral, exercido por pastores e
mestres (Ef 4.1 I ). Em segundo lugar, a idéia de que o pastor é um equipador
dos santos para o ministério é estranha ao Novo Testamento. Antes, é uma
visão empresarial, quando todos os funcionários são treinados para desem-
penharem suas funções dentro da empresa, sendo que o sucesso do empre-

I'' SCHOLZ, Vilson. "Pastor: equipador dos santos para o ministério?," Igreja Luteruna
52 (1 993): 125.
I'" HOERBER, Robert . Leu y Comprenda. E. Sexauer, trad.. Buenos Aires: IELA, I987 p. 154.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

endimento depende do bom desempenho de cada um. O pastor aparece


como o cérebro da congregação, comandando os congregados na execu-
ção de suas tarefas dentro da igreja.''"

A igreja não é uma empresa, assim como o pastor não é um gerenciador


dos negócios da mesma. A igreja são pessoas que se reúnem em torno da
palavra de Deus para adorar o Senhor, orar e edificar-se mutuamente na
fé. Conforme Hamann, cristãos, no seu dia a. dia, vivem o seu sacerdócio
perante o mundo, fazendo a vontade do seu Senhor. Oportunidades surgem
para que os santos testemunhem a sua fé aos outros (Mt 5.16).""

Portanto, a função mais importante dos ministros de Deus não é equipar,


organizar os cristãos para que eles exerçam o ministério na igreja, mas é
servi-los fielmente com a pregação do evangelho e a administração dos
santos sacramentos, para que eles sejam sacerdotes reais perante o mun-
do.

CONCLUSÃO
O evangelho governa a igreja! Os santos e os pastores têm diferen-
tes direitos e funções. Quem governa a igreja é o Senhor Jesus, através do
evangelho."'W relacionamento correto entre congregação e ofício pasto-
ral resume-se em que o pastor sirva fielmente aos santos com a palavra e
que estes o honrem como um embaixador de Cristo.llo Neste relaciona-
mento não cabe a pergunta: quem tem a primazia, pastor ou congregação?
' ' I A resposta é negativa para ambas as possibilidades. A palavra de Deus

tem a primazia.'12

Efésios 4.12 não fala de ministérios leigos, mas do oficio do minis-


tério pastoral! A nomenclatura que utilizamos para designar funções e
cargos na igreja precisa ser cuidadosamente avaliada, pois a definição ina-
dequada de termos tende a induzir a congregação a práticas que criam
confusão na igreja, contradizendo a sã doutrina. Pastores e leigos ficam

HAMANN, op. cit., p.48.


Io7 Id. Ibid.
I OX
CTRE - Igreja Luterana - Sínodo de Missúri. Evungelização e Crescimento du Igrrju,
p. 16.
I'" SASSE, op. cit., p.80.
"" WALTHER, C. F. W.. "Poder e Autoridade na Igreja," Vox Concordiuna 10 (1985): 1 1 .
"I SASSE, op. cit., p.76.
I'' KOLB, op. cit., p. 286.
'I' CTCR - Missouri Synod, op. cit., p.5.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

confundidos, não sabendo exatamente quais são suas funções própria^."^


Cabe aos pastores a dedicação ao ofício do ministério (At 6.2,4), enquanto
que aos leigos, devidamente instruídos e capazes, o exercício de serviqos
auxiliares ao ministério pastoral (At 6.1,3,5). Falar de ministério leigo é
um grande equívoco, pois é um contradictio in adjecto. Pois se alguém é
um leigo, logicamente ele não é um ministro. Se alguém é um ministro,
logicamente ele não é um leigo.'I4 O pastor age no ministério - quando
fortalece os santos pelo poder da palavra de Deus, para que adorem o
Senhor em todas as áreas da vida e testemunhem a palavra onde e quando
eles tiverem oportunidade de fazê-lo (Ef 4.1 1- 12), enquanto os santos agem
pelo ministério - quando auxiliam os seus pastores no trabalho pastoral,
encorajando-os, cooperando com eles, se necessário, também admoestan-
do-os. (Ef 4.16; 1 Pe 2.5,9).Il5

Onde o ofício do ministério é exercido fielmente a instituiçúo de


Cristo, ali está uma congregação viva, e vice-versa! Não podemos se-
parar o ofício pastoral da congregação dos santos e, ao mesmo tempo, é
imprescindível que nós não os confundamos. São duas instituições de Cris-
to, distintas, realidades que vêm do alto, não são arranjos feitos por mãos
humanas. Há uma relação muito estreita entre o ministério e a congrega-
ção. Ambos são instrumentos nas mãos do Senhor para fazer a sua obra.""

Nós cremos que os cristãos, a igreja, são resultado da atividade de Deus


pela administração dos meios da graça. A palavra aperfeiçoa e edifica o
corpo de Cristo. O sucesso, a eficácia consiste no agir de Deus atravéh
do ministério. Portanto, rejeitamos qualquer tentativa de alguém atribuir
eficiência ou sucesso a algum método de administração eclesiástica, trans-
formando-o em meio da graça, como se fosse uma fórmula mágica. Assim,
precisamos enfatizar a pregação da palavra de Deus e a administração dos
sacramentos, para que os santos cheguem à unidade da fé e ao pleno co-
nhecimento do Filho de Deus (Ef 4.13). Se a base da nossa igreja estiver
sobre a palavra de Deus, não precisamos nos preocupar com o sucesso do
nosso trabalho, do nosso ministério."'

'I4 MOELLERING, op. cit., p.238.


'li KOLB, op. cit., p.280.
' I h SASSE, op. cit., p.78: "Only where there is a vital ministerial office, working with the

full authority of having been sent, only there is a living congregation. And only where
there is a living congregation is there a living ministerial office".
' I 7 WALTHER, op. cit., p.12.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Murtim Curlos Wurth *

1 . A práxis pedagógica, que inclui a teoria e ciência da educac;ão e do


ensino, engloba um conjunto de doutrinas, princípios e métodos, que
apontam para os ideais da educação e propõem meios mais eficien-
tes para alcançar estes ideais.
2. Esta práxis pedagógica busca os propósitos segundo uma determina-
da concepção de vida, uma específica visão do mundo e do ser hu-
mano, que gera uma proposta de sociedade e de um fazer pedagógico
correspondente.
3. A Universidade Confessional adota uma visão de mundo bem deter-
minada. No caso da Ulbra trata-se de uma postura cristã. Por ser
cristã ela é luterana, como ficou determinado pelos escritos
confessionais reunidos no Livro de Concórdia de 1580. Sua diretriz
única é a revelação de Deus na Bíblia Sagrada.
4. Desta forma a práxis pedagógica na Ulbra terá a concepção de vida
determinada por esta postura confessional ecumênica. Ela primeiro
precisa ser ecumênica no sentido vertical, isto é, ela deve estar em
consonância com a revelação de Deus, como confessada nos Credos
Ecumênicos e defendida no Livro de Concórdia. Só depois ela pode
começar a ser ecumênica no sentido horizontal, onde se encontra com
outros cristãos.

Dr: Martirn Carios Warth &professoremérito do Seminário Concórdia. Atualtnente i


c-oordenador do progranta rle pós-gruduaçüo da Universirlude Luterana do Brcc.ri1,
em Crinoas, RS. Esta corlferênciafoi apresentada no programa " Uibra Avalio 1999 e
Projeta 2000", no dia 3 de janeiro e, posteriormente, no "Curso de A~ualizaçüorin
Metodologia do Ensino Juridico", no dia 29 de abril de 2000, ambos na Ulbru.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

5. Um dos conceitos fundamentais no cristianismo é o conceito de Rei-


no de Deus. Nele se afirma que Deus reina no mundo que criou.
Embora haja oposição ao seu reino, Deus não desistiu de nada, mas
tudo faz para trazer a paz ao seu mundo.
6. Lutero reconhece dois regimes no Reino de Deus. O primeiro é o da
mão direita de Deus, o segundo é da esquerda.
7. No regime da direita o Reino de Deus é perfeito. Esta é a área de
certeza, de conforto, de paz, em que Deus age na sua graça. Pela
fé em Cristo, através do Evangelho, somos aceitos como filhos ama-
dos de Deus, santos pelo perdão, e herdeiros da vida eterna. É a men-
sagem central da Bíblia, anunciada pela Igreja. A revelação plena
será na outra dimensão da eternidade.
8. No regime da esquerda o Reino de Deus é um constante desafio,
porque nos coloca numa área de risco em que a perfeição é uma
tarefa. Trata-se da área da vida cristã no seu dia a dia, inclusive na
educação e na pesquisa, na ciência humana que a universidade busca,
promove e respeita. A maior perfeição que o cristão atinge é que ele
recebeu de Deus um "espírito voluntário" (Salmo 5 1.12) para não er-
rar, mas para ser perfeito em tudo que empreender. Sempre viverá do
perdão em Cristo. Assim os dois regimes se interrelacionam no Reino
de Deus.
9. Um outro princípio importante é a distinção entre pessoa e função.
Podemos ter críticas à função da pessoa, que deverá ser corrigida.
Mas a pessoa deve ser intocável, porque tem uma dignidade incompa-
rável: é criatura de Deus e foi redimida por Cristo. Isto faz com que o
cristão possa amar até o seu adversário.
10. A função da pessoa é determinada pelo chamado. O chamado nos
coloca no lugar em que devemos exercer as nossas funções. Pode ser
um contrato, uma designação, um convite, uma eleição. O chamado
não determina somente as tarefas a cumprir, mas delimita também o
alcance da responsabilidade. Além deste limite vem a responsabilida-
de de alguém outro.
11. Na escola e universidade confessional as pessoas têm funções deter-
minadas. O chamado dos formadores de opinião e de decisão, como
os professores e administradores, inclui o conhecimento, a aceitação,
a promoção e a defesa da postura confessional.
12. Assim toda a práxis pedagógica da escola e universidade confessional
se envolve com os conteúdos confessionais da entidade e tem o "espí-
rito voluntário7'para aplicar todas as linhas desta postura. Desta for-
ma todo ensino, atitude ou publicação atenderão a esta concepção de
vida. A comissão da Nasa, que esteve em visita à universidade, afir-
mou que não é científico aceitar a teoria da evolução das espécies e
Igreja Luterana - N 1 - 2000

não aceitar a afirmação da criação de um mundo adulto por Deus.


Isto mostra que a nossa realidade é multidimensional: ela é imanente
e transcendente ao mesmo tempo. Assim a ciência, que precisa usar
os recursos imanentes e demonstráveis, confia nas leis da natureza,
que, na sua origem são transcendentes, pois nada mais são do que
formas concretas do pensamento de Deus. Deus criou e garante es-
tas leis, mas pode interferir nelas quando assim o entender, como acon-
teceu no nascimento e na ressurreição de Cristo e acontecerá com
nossa ressurreição. Assim é necessário reconhecer dois tipos de ver-
dade: aquela que a filosofia e a ciência na sua imanência sempre
buscam sem poder alcançá-la totalmente, e a verdade revelada que
na sua transcendência só pode ser recebida e aceita na fé. Assim o
cientista cristão aceita a vida como criação de Deus e se propõe de-
fender, preservar e promovê-la. Por essa razão respeita a ética que
protege a natureza, bem como o ser humano, sua vida, sua proprieda-
de, seu sexo, sua dignidade e sua honra.
13. Quando confrontado com a questão da vontade de Deus no seu
Reino da esquerda, Lutero entendeu que ela se exerce fundamental-
mente na família, onde os pais são considerados os representantes
mais importantes d e Deus para os filhos. Os pais zelam pela
confessionalidade, mas engajam professores para auxiliar na tarefa.
Os pais autorizam também os guias espirituais e os governantes do
país. Aceitam o conceito de hierarquia quando recebem o chamado
para um trabalho remunerado. Daí Max Weber deduziu sua postura
do respeito à hierarquia, que entende como estrutura básica da socie-
dade.
14. A confessionalidade não é natural, mas dada por Deus através da fé.
Por essa razão Lutero entendeu que a criança precisa não somente
ser batizada, mas deve receber instrução contínua no evangelho.
Assim a escola confessional oferece um ensino religioso diário, ou no
mínimo semanal, tanto na educação infantil, como no ensino funda-
mental e médio, com devoções envolventes que fazem a criança e os
professores viver a sua confessionalidade. O terceiro grau continua
com esta vivência cristã através de estudos da confessionalidade e de
devoções. Esta é a justificativa da capela no campus universitário
confessional.
15. O fazer pedagógico na universidade confessional precisa ser coe-
rente. Como o aluno ou cliente não tem toda a teoria confessional ele
só pode ler esta confessionalidade na vida prática de professores, ad-
ministradores e funcionários. A vida no campus precisa ser coerente
com esta postura confessional.
Igreja Luterana - Nu 1 - 2000

Marfred Zeuch *

I
Para falar um pouco sobre este tema, permitam-me fazer referência a
minha experiência de pesquisa na Universidade de Estrasburgo na França,
quando preparei minha tese doutoral a partir de 1993. O trabalho no qual
nos lançamos quando estudamos e pesquisamos um assunto em teologia
sistemática, assim como nas outras áreas, é de certa forma um trabalho de
pesquisa científica.

A dificuldade que reside nesta consciência e nessa certeza é a compre-


ensão da própria teologia com sendo ciência, bem como a delimitação e a
natureza de seus métodos. Estas dificuldades, que não começaram antes
do Iluminismo, devem-se ao fato de nós termos, em teologia, a ver com
categorias que transcendem o campo de investigação das outras ciências
humanas e das ciências naturais. Não obstante, alguns teólogos estão pro-
pondo que se reexamine de perto e se reconsidere a velha reivindicação da
teologia de ser não somente ciência mas a ciência global, a "rainha das
ciências". Nesse esforço também a vontade de reabilitar de certa maneira
a teologia no seio da universidade desempenha um papel importante. Em
nosso caso o desafio é semelhante: estamos introduzindo a teologia protes-
tante, e especificamente a luterana, na universidade. Pela primeira vez da
história de nosso país a teologia é reconhecida pelo Ministério da Educação
e Cultura como uma disciplina universitária. Cursos estão sendo avaliados

*Dr: Marfred Zei~clié professor e coorderiridor dr pesquisa rzo Centro dr Teologia da


Uriivrrsidade Lirterana do Brasil, e professor corzi~idudo110 programa de ~ne~trziclo
rlo
Seminário Concórdia. Este texto é a publicação da aula inaugural proferida nesta irlsti-
tuição 110 dia 28 de fevereiro de 2000.
29
Igreja Luterana - N 1 - 2000

pelo MEC, e estão obtendo autorização e reconhecimento, como foi o caso


recente do bacharelado em teologia da ULBRA. Sem dúvida, abrem-se
novos horizontes ao fazer teologia no Brasil, e nós precisamos aproveitar o
momento histórico com o esforço de fazer com que a teologia tenha a
função salina de contribuir no diálogo dos saberes, e não de ser uma mera
repetidora de métodos e resultados de outras disciplinas, como a sociologia
ou a economia ou psicologia, por ter perdido de vista ou temerosamente
abandonado a sua especificidade para não parecer deslocada. Além de
incorporar em sua reflexão elementos importantes destas disciplinas, a teo-
logia cristã tem uma contribuição fundamental e sui generis a dar, para
ajudar a sociedade na compreensão da realidade, do homem, do mundo e
da história. A teologia pode ajudar na compreensão da realidade como um
todo em seu significado. Para o teólogo americano Carl Braaten a teologia
I
universitária seria aquele tipo de "teologia natural" que incluiria a questão
de Deus numa teoria abrangente sobre o sentido de todas as coisas, teoria
subjacente a todo empreendimento intelectual em uma universidade.

Um dos critérios atuais para a definição de teologia enquanto ciência,


critério abrangente e fundamental, é a questão de saber se ela tem algum
objeto, um objeto de estudo e de "observação", e se as proposições sobre
este objeto são verificáveis. Reconhecendo que o objeto de estudo é Deus
e as coisas divinas, a verificação não pode mais ser totalmente realizada
nos termos da ciência ordinária, pois tanto a metodologia de uma ciência
quanto a sua verificação dependem da natureza do objeto de investigação.
Ora, o objeto da teologia é singular, e não há nada mais controverso, entre
os teólogos, do que saber o que é cientificamente verificável. O teólogo
contemporâneo Wolfhart Pannenberg estimula o debate afirmando que há
duas grandes realidades da fé cristã que podem ser verificáveis pelas ou-
tras ciências, a saber, a historicidade da ressurreição de Jesus e a realidade
do conceito cristão do pecado original (através de estudos psicológicos,
biológicos e sociológicos). O desafio será para a teologia do novo milênio
de medir e refletir sobre estas propostas em relação com a compreensão
corriqueira segundo a qual a barreira epistemológica para os cristãos é o
fato de que as proposições teológicas estão finalmente sujeitas a verifica-
ção da fé pelo testemunho do Espírito Santo.

Sempre compreendemos que para a ciência teológica existe este ele-

' Conforme Carl Braaten: The Contectual Factor in Theological Education. Dialog.A
Journal of Theology, vol. 21, n03, summer 1982, p. 172.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

mento único, ligado à singularidade do objeto de sua pesquisa - que é Deus:


a fé. Esta é um pressuposto, uma premissa do teólogo. Mesmo tentando
tornar cientificamente relevante algum dado da fé cristã diante do homem
contemporâneo, o teólogo já de saída se comprometeu com a sua verdade
através da fé. Este é um elemento inegável, e o contrário só acontece por
questões de metodologia e estratégia acadêmica. Mas a relação entre esta
fé e a razão, que determina o trabalho científico, também é estreita e
singular. Para teólogos c o m o Pannenberg, a f é é este âmbito de
verificabilidade na ciência teológica, mas que ao mesmo tempo não permite
outro conhecimento do que aquele que é dado - na revelação - e que tam-
bém está aberto à razão para todos aqueles que "têm olhos para ver". As
afirmações teológicas não são supra-racionais, elas não pedem neste senti-
do um sacr~iciurnintellecturn (um sacrifício do intelecto).

Para que a reivindicação da teologia de ser não somente uma ciência mas
a "rainha das ciências" - não no sentido medieval de uma hierarquia e domí-
nio da teologia sobre as outras ciências, mas no sentido de ela auxiliar as
outras ciências a compreenderem melhor o mundo e as realidades que elas
investigam, estando o criador por detrás destas realidades - para que esta
reivindicaçáo e autocompreensão tenha algum sentido hoje, ela deve
corresponder a dois critérios: ser uma ciência única e ser uma ciência univer-
sal - porque o criador de todos os outros "objetos" da ciência é universal.

A teologia é uma ciência única porque Deus, o criador dos outros objetos
estudados pelas ciências, não é um objeto passivo de pesquisa científica, mas
é o ser ativo que se auto-revela às suas criaturas. Nós não podemos saber de
Deus mais do que ele próprio quer que saibamos na revelação através de
suas obras criadas e pela sua ação na história que culmina na encarnaçáo de
seu filho. São estas as duas fontes primárias de informação sobre Deus.
Todas as outras "fontes" só desempenham um papel metodológico secundá-
rio em suporte a nossas formulações sobre Deus. A teologia é uma ciência
única não por causa de nossas capacidades científicas, mas porque Deus é
único enquanto fonte e objeto de nosso conhecimento.

Quanto à universalidade da teologia, esta reivindicação se baseia na


universalidade do próprio Deus enquanto criador e redentor. Existe na teo-
logia urna "totalidade", uma unidade que engloba todas as realidades, visto
que ela é o discurso sobre Deus. Se o teólogo católico Karl Rahner diz por
exemplo que haverá uma integração escatológica de toda a realidade em
Deus, é porque toda a realidade tem sua origem em Deus. Pannenberg,
desafiando as ciências naturais, com razão afirma que se o Deus da Bíblia
é o criador do universo, então não é possível compreender inteiramente, ou
31
Igreja Luterana - No 1 - 2000

apropriadamente o processo da natureza sem uma referência ao Deus da


Bíblia.

Considerando os critérios da unicidade e da universalidade da teologia


enquanto ciência, o estudo da teologia de Pannenberg leva ao questionamento
central sobre a sua metodologia teológica: a tensão entre a particularidade
de Cristo, sua pessoa e sua obra, por um lado, e por outro lado o significado
universal de Cristo, seu caráter absoluto. Porque a multidisciplinaridade da
teologia a um só tempo está profundamente ancorada no evento da
encarnação da revelação de Deus, o verbum incarnatum Jesus Cristo, e
está direcionada para a realidade escatológica, que também tem seu centro
em Jesus Cristo.

A tarefa que realizei e continuo realizando em minha investigação teoló-


gica está inscrita na teologia sistemática, título que engloba a dogmática, a
ética, e a filosofia. Neste título existe um certo programa. Não concebo a
teologia sistemática como aquilo que o teólogo dinamarquês Regin Prenter
chama de desdobramento lógico interno de um sistema ou de uma visão de
mundo atemporal, fechada, mas antes como uma exposição estruturada da
reflexão sobre o conteúdo de uma mensagem que é pregada e anunciada
hoje, no tempo. Concebo a teologia sistemática como mera utilizadora do
método sistemático como tal, sendo este muito mais antigo que o próprio
conceito de "teologia sistemática."

Esta tarefa, que essencialmente é a da teologia dogmática, não é


autônoma, mas inscreve-se num conjunto de matérias que se deve hoje
imperativamente distinguir, mas não separar. A tarefa sistemática se faz
com precisão científica, e dentro das suas coerências e elos com as outras
áreas da teologia. A tarefa sistemática não visa deduzir logicamente um
conhecimento de um princípio fundamental, mas visa inter-relacionar conti-
nuamente os resultados de uma pesquisa multidisciplinar, para evitar con-
clusões arbitrárias e precipitadas.

Num segundo momento, a teologia terá sempre uma função ou tarefa


dialoga1 no sentido mais largo. Ela não poderá prescindir do diálogo com as
outras áreas do conhecimento humano, sob pena de curvar-se e fechar-se
sobre si mesma, num mundo hermético, e de errar assim o alvo de sua
essência e o alvo da Igreja, a cujo serviço ela está neste mundo. No tocante
ao teólogo que investiguei e continuo investigando, é amplamente sabido, na
comunidade acadêmica internacional, que o engajamento metodológico de
Pannenberg com os outros saberes humanos é uma das suas maiores con-
tribuições para a teologia.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Para estudar a teologia pannenbergiana da Igreja e dos Sacramentos,


numa aproximação com a teologia da Reforma e de outros teólogos moder-
nos, procurei não esquecer, portanto, este caráter distinto mas orgânico, e
não separado, das diferentes áreas teológicas. Situando-me, então, por as-
sim dizer no "centro" do labor teológico - a sistemática também é conside-
rada como uma área centralizadora entre as áreas da teologia - volto a
minha atenção tanto para a origem quanto para o alvo de uma teologia que
está a serviço da Igreja, e através dela, a serviço do mundo. A origem, a
raiz, é a Palavra encarnada e o processo de revelação na história, testemu-
nhada na Escritura; o alvo é a missão kerigmática confiada pelo Senhor a
Igreja com vistas à vinda do Reino de Deus. A dogmática, particularmente
no estudo da eclesiologia e sacramentologia também, situa-se entre a exegese
das fontes, a história desta exegese através dos séculos, e o anúncio deste
kérigma enraizado em Jesus Cristo na proclamação e na vida da Igreja em
prol do mundo, ou seja, a teologia prática.

Nessas diferentes áreas, bíblica, sistemática, histórica e prática, não se


trata portanto de áreas autônomas, mas de saberes organicamente ligados,
que devem formar uma só e mesma teologia. Apesar das dificuldades liga-
das à formação teológica na quase separação entre as áreas e na muitas
vezes isolada especialização, temos de enfatizar e resgatar esta verdade
necessária. Nós somos tributários do esforço e dos resultados trazidos ao
longo dos séculos pelos especialistas de cada área, tentando por nossa vez
aprofundar mais a pesquisa no âmbito de nossa própria especialização. A
unicidade deste labor interdisciplinar e transdisciplinar sempre será dado no
caráter kerigmático da teologia, essencial a toda teologia. A teologia en-
contra sua unidade na tarefa kerigmática, enraizada no verbo encarnado
(origem), e orientada de maneira escatológica (alvo).

Tomando em consideração o caráter exegético da teologia, sobre o qual


a sistemática está alicerçada, consideramos a Escritura, testemunha da re-
velação divina em Jesus Cristo, como a fonte e a norma de nosso conheci-
mento de Deus, do ser humano - no sentido ontológico - e da história co-
mum de ambos, Deus e o ser humano. No estudo da Escritura, em
eclesiologia, aprendemos a conhecer a natureza da relação de Deus com o
seu povo enquanto aliança (no Antigo Testamento por exemplo "kahal",
"hedah", e no Novo Testamento "ekklesia", "0x10s" ou "synagogué"); apren-
demos a conhecer a natureza dos meios que Deus deu para a salvação dos
homens (os meios da graça no Antigo e Novo Testamentos). Tanto nesse
estudo bíblico quanto nas outras áreas, estudei prioritariamente as fontes
teológicas que o próprio Pannenberg cita em sua obra Teologia Sistemáti-
ca (da qual falarei mais adiante). As verdades atestadas na Escritura são
Igreja Luterana - No 1 - 2000

sempre o fundamento essencial das afirmações dogmáticas. O esforço


exegético toma em consideração a forma da Escritura, conformada ao seu
Senhor: uma forma humilde e frágil na qual a majestade de Deus se revela
sub contrario (através do oposto) a quem escuta. O trabalho exegético
desta Escritura compreende alguns elementos de base:
a) estabelecer ou confirmar a forma do texto pela crítica textual;
b) traduzir o texto;
c) situá-lo no seu contexto histórico;
d) interpretar seu conteúdo e seu sentido;
e) interpretá-lo em seu kérigma.

No seu caráter dogmático, a teologia procura questionar a verdade do


kérigma na sua totalidade e na sua relação com o conjunto da revelação
divina. A dogmática tem a tarefa de trazer à luz este contexto, estes elos
nos quais a mensagem cristã se encontra, e de fazê-lo de maneira mais
intensa e global do que o trabalho exegético, que se concentra mais nos
detalhes.

A compreensão do kérigma é dada, então, na revelação de Deus,


mediatizada pelo testemunho das Escrituras, e formulada para a confissão
litúrgica da Igreja. O dogma tem assim uma natureza essencialmente
escritura1 e eclesial. O trabalho sistemático é a reflexão crítica que deve
ser considerada como trabalho preliminar e preparatório para a proclama-
ção atual da mensagem de salvação, um trabalho que visa analisar e expli-
car constantemente o dogma por meio de uma volta constante às fontes
escriturísticas, na atenção para a situação atual da pregação. Portanto é
uma tarefa contínua, nunca terminada. A teologia é theologia viutorum, é
teologia de quem está a caminho, teologia é o conhecimento da Igreja que
existe entre a ascensão e a parusia, e neste sentido ela é chamada a rever
criticamente seu conhecimento e sua proclamação, sempre a luz da fonte
que é fundamento permanente. Nessa perspectiva a teologia sistemática
terá a função de investigação, de crítica, de ensino, de proclamação e de
doxologia.

Trabalhando em teologia sistemática, faremos igualmente incursões na


teologia histórica, indispensável para ela. Já na exegese, o caráter histórico
é evidente pela própria natureza da revelação de Deus na história de seu
povo e em Jesus Cristo. No fundo a história da Igreja é, como disse Gerhard
Ebeling, a história da exegese da Escritura, fonte da revelação à qual nós
temos acesso. Não podemos identificar, confundir ou misturar essas duas
realidades, a história da Igreja e a história da revelação. A história da Igreja
e a história do dogma não são uma continuação da história da revelação. A
Igreja Luterana - N 1 - 2000

história do dogma servirá como indicador de caminho ao teólogo e a Igreja


de hoje, e os grandes momentos de exegese e de afirmações dogmáticas
conciliares servem de balisagem que mostram o caminho a ser seguido e
que indicam a fonte permanente tanto da proclamação quanto da vida da
Igreja. A história do dogma é a história da experiência do povo de Deus
com a Palavra de Deus neste mundo. Por isso, a teologia histórica tem um
caráter duplo, ligado ao passado e ao futuro, a saber, a memória e a espe-
rança. A memória da graça de Deus que manteve a Igreja através de sua
peregrinação marcada pela humilhação e pela culpa, e a esperança que
olha o futuro na confiança naquele que guiou esta história e de quem vêm
todas as promessas. No tocante ao tema da minha investigação, concen-
trei-me no conceito luterano de Igreja e sacramentos, tanto do próprio Lutero,
quanto do luteranismo contemporâneo como representado por Pannenberg.
Segundo ele, uma maneira apropriada de tratar do tema Igreja e sacramen-
tos hoje, no contexto eclesial em que vivemos, é a integração dos princípios
da Reforma com as formas de vida eclesial que surgiram ao longo da histó-
ria da Igreja após a Reforma, e que se tornaram uma parte integrante da
tradição cristã.

O alvo da eclesiologia, inserida na teologia sistemática será, segundo


Pannenberg, o de ajudar o melhor possível a Igreja a se compreender a si
mesma e a sua missão que consiste em "anunciar ao mundo a verdade do
Evangelho", sendo a própria Igrejaum sinal precursor do destino último do
homem, que é a comunhão na liberdade, na justiça e na paz no reino futuro
de Deus2 . Assim, a função prática da teologia, expressa na proclamação,
na cura d'almas, na liturgia e na diaconia, é o fio dourado que passa através
de todas as áreas e disciplinas, e lhes dá a sua unidade e seu sentido último.

I1
Permitam-me apresentar-lhes agora um panorama biográfico-curricular
do teólogo que foi objeto de minha pesquisa em Strasbourg. Enfatizo aqui
mais o caráter inter- e transdisciplinar deste pensador e sua obra.

Ver quanto a este tema meu artigo: Elementos de uma eclesiologia luterana contemporânea:
Igreja e sacramentos em Wolkart Pannenberg. Igreja Luterana, São Leopoldo, v.58, n.2,
p. 18 1-20 1, 1999. Anteriormente publicado em Caesura, Canoas, n.8, p.77-90, 1997
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Wolfhart Pannenberg nasceu em 1928 na Pomerânea, em Stettin, onde


viveu os primeiros seis anos de sua vida', mudando-se para Aachen em
1936, depois para Berlim em 1942. Suas primeiras paixões culturais serão a
leitura de novelas históricas e a música. Esta paixão pela música levará o
jovem Wolfhart à descoberta involuntária da filosofia de Nietzsche, através
de um livro cujo título evocava uma obra sinfônica clássica. Sendo educado
em família não praticante da religião, Pannenberg chegará à fé e a teologia
cristã por caminhos intelectuais e filosóficos. Depois dos anos dramáticos
da guerra, ele retoma sua leitura filosófica, e começa a dirigir sua atenção
sobre Kant. Paralelamente desperta nele um interesse crescente pelo cris-
tianismo. Esta descoberta, ligada à uma experiência pessoal mística ele que
havia tido no inverno de 1945 no caminho de volta da escola4 , levaram-no a
iniciar estudos em filosofia e teologia em Berlim em 1947, fascinado pela
descoberta de um cristianismo diferente daquele que Nietzsche havia descri-
to. Mas é também nesta época que, influenciado por professores e por uma
pessoa de sua família, Pannenberg passa por uma fase de profunda admira-
ção pelo humanismo marxista, até se dar conta dos pontos mais críticos deste
sistema. Mais tarde, Pannenberg vai considerar essa experiência frutífera,
em seus confrontos com os movimentos de revolta dos estudantes nos anos
sessenta, e com a emergência das teologias da libertação.

Os dados biográficos indicados aqui provêm das seguintes fontes: W. PANNENBERC;. An


Autobiographical Sketch, in Carl BRA~f%N/Philip CLAYTON, eds. The Tl~eologyc$WolJl7urr
Pannenberg. Twelve arnericnn critiques, with an autohiogrupl~icalessay and resl~otzse.
Minneapolis, 1988, pp.9-18, bem como Denis MULI.ER.Parole et Hisloire. Dialogue
avec Woljharr Panneizberg, Genève, 1983, pp. 1 4 s . e James ROBINSON, Offenbarung ais
Wort und als Geschichte, in J.Robinson et J. COBB,Jr., eds., Theologie als Gescliichte -
Nculand in der Theologie - Zurich, Stuttgart, 1967, pp. l Iss e Kurt KOCH,Der Cort der
Gesclzichte. Theologie der Geschichte bei Wolfhart Pannenberg als Paradigma einer
philosophischen Theologie in okumenischer Perspektive. Tubinger theologische Studien,
M. SECKLEK, W. KASPER, G. HUNOLD, P. HUBNERMANN, eds., vol. 32, Mainz, 1988.
Pannenberg conta: "On the sixth of January, while I was walking back home from school
(instead ofusing the train)- a somewhat lenghty walk of.:everal hours - an extraordiriary
event occurred in which I found myself absorbed into the light surrounding mc. Whcn
I became aware again of my finitc cxistence, I did not know what had happened but
certainly kncw that it was the most important event of my life; I spent many years
afterwards to find out what it ineant to me", W. PANNENBERG, AAS-TTW, p. 12. Seguno
KOCH,este acontecimento teria sido um dos dois "Urerlebnisse" (experiência funda-
mental), scndo que a outra foi um ataquc de bomba americano sofrido por ele e sua
família em Berlim. Esta experiência descrita acima teria rompido repentinamentc "os
limites d e sua consciência", teria liberado o seu horizonte espiritual, sendo assim a
"virada" principal na vida de Pannenberg, comparada a experiência de Agostinho, cf K .
KOCH,op. cit., p. 41s.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Depois de um período curto na universidade de Gottingen, onde será


introduzido naquilo que se tomará o campo de seu doutorado e sua tese de
"habilitação" (pós-doutorado), - a escolástica medieval, - ele sofrerá uma
certa influência da parte do teólogo Karl Barth e do filósofo Karl Jaspers
em Basiléia, na Suíça, onde estará em 1950; mas é em Heidelberg, a partir
de 195 1 , que ele vai descobrir verdadeiramente o que se tomará uma ca-
racterística pronunciada de seu labor teológico: a interdisciplinaridade. Es-
tará lá em contato com o especialista em história da Igreja Hans von
Campenhausen, com os exegetas Gunther Bornkamm e Gerhard von Rad,
e com os dogmáticos Peter Brunner e Edmund Schlink. Às disciplinas
sistemática, filosofia e história da Igreja agregar-se-ão a exegese bíblica e
o estudo das tradições e da história de Israel, que lhe serão tomadas atra-
entes especialmente por Gerhard von Rad. Esta interdisciplinaridade en-
contrava-se, naqueles anos, inscrita sob o signo do conceito-chave "histó-
ria", e se constituía numa inovação que se opunha à tendência da delimita-
ção e da especialização disciplinar5 . Havia, no entanto, uma exceção: ape-
sar da eminência dos mestres sistemáticos P. Brunner et E. Schlink, um
certo grupo de estudantes, chamado mais tarde de "círculo de Heidelberg",
estava frustrado de não encontrar na sistemática esta dimensiio histórica
descoberta com von Rad. Este grupo inicia, então, seu trabalho de reflexão
que resultará, dez anos depois, na obra programática Offenbarung als
Geschichte6. Ela havia sido precedida pelo artigo "Heilsgeschehen und
Geschichte", publicado por Pannenberg em 1959.7 A tese central de

"sta novidade foi provocada por um grupo de cstudantcs descontentes com a situaqâo
teológica do após-guerra, formando o assim chamado "círculo de Heidclbcrg", no qual
participavam, inicialmente, Ulrich Wilckens, Dietrich Roessler, Klaus Koch et Rolf
Rendtorff, aos quais se agregaram posteriormente Martin Elze e Tmtz Rendtorff com W.
Pannenberg. Este grupo estava essencialmente preocupado com questões hermenêuticas,
sob o ângulo da história, cf. R. L. WILKEN, Who is Wolfhart Panneriberg? Dialog 4 (1965),
pp. 140-142 (140). Veja-se também as explicações de J. ROBINSON, op.cit., p. 24, nota 37.
ri Wolfhart, PANNENBERC, Rolf RENDTORFF, Tmtz RENDTORFF, Ulrich WILKENS. Offetzbarimg
uls Geschichte. (Kerygma und IJogma Beiheft), Gottingen, 196 1 I, l963*.1 Y6S1, 197P.
1 C ) ~ P I U N I M , tii,voprcl *""'.Para todas as traduções das obras de Pannenberg, veja-sc minha tese
Sigtzes du Royaume de Dieu. L'Eglise et les sacrements duns lu ThGologie cle Woljhurt
Pat~tzenberg.Tese doutoral, Universidade de Strasbourg França, 1997 [microficha Lille-
Thèses].Membros da banca: Dr. Risto Saarinen (luterano, Univ. Helsinki, Finlândia), Dr.
Denis Muller (reformado, Univ. Lausanne, Suíça), Dr. Joseph Hoffmann (católico, Univ.
Strasbourg), Dr. Jean-François Collange (luterano, Univ. Strasbourg), Dr. André Birmelé
(luterano, Univ. Strasbourg - orientador).
7 Wolfhart PANNENBERG, Heilsgeschehen und Geschichte, Kerygma und Dogrnu, 5 ( 19593,
pp. 21 8-237; 259-288.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Pannenberg, o qual sistematizou os resultados dos erforços conjuntos, - e o


qual, por conseguinte, ocupará o lugar central neste movimento8 , apóia-se
particularmente sobre as análises exegéticas de Rolf Rendtorff, quanto ao Antigo
Testamento e de Ulrich Wilckens, quanto ao Novo Testamento9 . Podemos
resumi-la na afirmação de que a história é um processo de revelação divina,
reconhecível pelos homens como tal, e que encontra seu fim último em Jesus
Cristo ressuscitado, antecipadamente. Mas, para bem compreender Pannenberg,
é preciso não esquecer que ele rejeita a distinção geralmente aceita entre uma
história sacra, ou da salvação, e uma história profana. Pannenberg não terá
somente redescoberto a dimensão da história, mas também uma "concepção
bem específica da história e do método históri~o"'~.

Entrementes Pannenberg terminara seus estudos, coroados por um dou-


torado sobre a predestinação em Duns Scotus, em 1954" , e uma habilita-
ção ao professorado em 1955 sobre a doutrina da analogia12 . Segundo o
teólogo suíço Denis Muller, já se encontram nesta obra os elementos maio-
res de sua teologia: o lugar primordial da "revelação em sua historicidade e
sua contingênciaw" , e por conseguinte a conviccção de que nenhum prin-
cípio transcendental, nem mesmo a analogia, podem substituir-se à revela-

8 O que confirma mais uma vez o caráter central da teologia sistemática entre as disciplinas
teológicas -
Ibid. Cf.também D. MULLER, op. cit., pp.33-34. Para se ter um apanhado da produção
científica - teses e pós-doutorados - de cada um dos participantes do "círculo de Heidelberg"
cntrc 1954 e 1960, veja-se J. ROBINSON, op.cit., pp. 23-24. bem como Lothar STEIGEK,
Ollènbarungsgeschichte und theologischc Vcmunft. Zur Theologie W. Pannenbergs, ZThK
59 ( 1 962), pp. 88-1 13 (88-91).
' 0 C(. William HAMILTON, Die Eigcnart der Theologie Pannenbergs, in James M. ROBINSON,
c John B COBBJr., eds., Theologie als Geschichte, [Neuland der Theologie], vol. 3, Zurich
- Stuttgart, 1967, pp. 225-251 (225). Pannenberg opõe-se a uma "teologia da história da
salvação" (Heilsgeschichtliche Theologie), que é compreendida como estando anteposta
ii "Historie" (gegen die Historie abgegrenzt). Ele abstrai da teologia tanto o conceito da
Ceschichtlichkeit da existência - como compreendido especialmente na filosofia c tcologia
existencialistas-, quanto o próprio conceito de Heilsgeschichte. Cf. HuC, p. 22.
'
I Wolfhart PANNENBERG, Die Prüdestinatiorzslehre des Duns Scotus, Cottingen, 1954.
I' Wolthart P A N N E N B E R G ,und A ~Offenbarung,
~ ~ O ~ ~ ~ (tese não publicada) Heidelberg, 1955.
'"f. D. MULLER, op. cit., p. 15. A maior dificuldade que Pannenberg encontra no cstudo do
princípio da analogia E a relação entre ela e a história - que é revelação, cf. Elizabeth A.
JOHNSON, The right way to speak about God? Pannenberg on Analogy, Theological
Studies 43 (1982), pp. 673-692 (688), ou seja, o fato de que o conhecimento de e o
discurso sobre Deus fundamentados sobre a analogia contradizem a liberdade de Deus, o
qual "encontra os seres humanos na história, que ainda não terminou". A analogia com-
promete a liberdade e a transcendência de Deus, sua "habilidade para fazer coisas auten-
ticamente novas e surpreendentes", logo, a contingência da história (ibid).
Igreja Luterana - N 1 - 2000

ção de Deus em sua natureza histórica14 .

Nesse mesmo ano de 1955, Pannenberg é ordenado no ministério pasto-


ral em Heidelberg, tendo se casado, no ano anterior" . Segundo o seu pró-
prio testemunho, sua esposa contribuiu admiravelmente para que seu per-
curso teológico fosse possível, através de uma disciplina e de um trabalho
rigoroso.

Ele torna-se professor adjunto em história da teologia medieval e mo-


derna, em Heidelberg, e em seguida professor catedrático de teologia siste-
mática em Wuppertal, a partir de 1958, juntamente com seu colega Jurgen
Moltmann, - autor da "Teologia da Esperança" - por três anos. Durante
estes anos ele começa a trabalhar em seus primeiros projetos sistemáticos,
estimulado pelo seu venerável mestre Edmund Schlink, sistemático luterano:
a antropologia e a cristologia. Em 1961 será nomeado professor titular em
Mainz. Suas reflexões e a publicação de Offenharung uls Geschichte
colocaram-no rapidamente no ranking dos teólogos alemães mais notáveis.

Nesses primeiros anos de atividade acadêmica e professora1 em


Heidelberg, Pannenberg descobrirá a importância do pensamento de Hegel
e sua influência sobre o desenvolvimento da teologia moderna. Mas cle
rejeita a opinião de muitos, segundo a qual ele teria se tomado um hegelianoI6
e diz apreciar Hegel enquanto desafio lançado à teologia, procurando apli-
car à teologia o grau de sofisticação do sistema filosófico de Hegel. Não
obstante ele reconhece dever a este filósofo as raízes filosóficas mais pro-
fundas de seu pensamentoI7 . F.W. Katzenbach estima haver uma lacuna

l4 Cf. K. KOCH,op. cit., p. 43.


Iqannenberg casou-se com a secretária do conhecido teólogo luterano Edmund Schlink. Ele
dirá em sua biografia que casou-se com "uma estudante de língua e literalura inglesa e
francesa" quc ele havia "encontrado em Heidelberg", cf. An Autobiographical Sketcll, op.
cit., p. 15.
16 Entre os que assim pensam citamos por exemplo F. FLUCKIGER, Tl~eologieder Geschichie.
Die biblische Rede von Cott und die rzei~ereCeschichtstheologie. Wuppcrtal, 1970, pp.
93-103, c Lothar S.I.EIGEK, art. cit., p. 93.
17 AI?Autobiographical Sketch, p. 16. Veja-se também Wilhelm ANDERSEN, "Aukrstehung
und Wirklichkcit. Überlegungen zu W. Pannenbergs 'Gmndzuge der Christologie"'.
Lutherische Monatshefre 5 (1966), p.141s, bem como Peter EICHER, "Geschichtc und
Wort Gottes: Ein Protokoll der Pannenbergdiskussion von 1961-1972". Carholica 32
( 1978),especialmente pp. 321,335-336,344-345(onde Eicher critica a análise de Fluckiger,
cf. a note anterior), 352-354.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

na análise da adesão pannenbergiana a Hegel e à filosofia idealistaI8 . Note-


se também que, mais tarde, Pannenberg entrará num diálogo intenso com a
filosofia do processo do matemático e filósofo inglês Alfred North
Whitehead, de quem sofrerá uma certa influência19, sem no entanto a ela
aderir integralmentez0 . Mas segundo John Cobb, Pannenberg foi o primei-
ro teólogo alemão a interessar-se seriamente pela teologia do processo2' .
Ele será professor convidado na Universidade de Chicago, dando confe-
rências nos mais importantes centros de formação teológica nos Estados
Unidos. no início dos anos 6 0 . ~ ~

Em 1964 Pannenberg publica a obra Grundzuge der C h r i s t ~ l o ~ i e ~ ~


(Fundamentos da Cristologia), uma obra que será considerada a principal
de sua produção por muito tempo. Nesta obra, Pannenberg procura de-
monstrar, contrariamente ao movimento da investigação do Jesus histórico,
que o Cristo da pregação e o Jesus histórico são o mesmo personagem
realz4 . Fiel ao seu interesse fundamental pela história, ele procurará cons-
truir uma cristologia que opera por assim dizer "de baixo para cima", que
consiste em se partir da história de Jesus de Nazaré para então dela deduzir
sua importância para nós enquanto Cristo (ungido) de ~ e u essalvador.~ ~
Diferencia-se aqui dos procedimentos clássicos que começavam pela
encarnação da segunda pessoa da Trindade para dela deduzir a divindade
de ~ e s u s Pannenberg
~ ~ . rejeita então também o ponto d e partida

l8 F.W. KATZENBACH, Progrutnme der Theologie. Denker, Sc/~uletz,Wirkungen. Votz


Sclileiertnacher bis Moltmuntl 1978, p. 290 citado por K. Kocij, op. cit., p. 49.
lwPannenberg [bezieht] seine Position immer wiedcr auf Whitehead", C. H. R ~ ~ s c i i o art. w,
"Eschatologie VIII", in Theologische Realenzyklopadie (TRE), vol. 10, p. 344.
l0 Ver por cxemplo W. PANNENBERG: Thealogie und Reich Gottes. Gutersloh, 197 1, pp. 20ss,
bern como Metaphysik und Gonesgedanke. Gottingen, 1988, p. 78ss., e AAS-TTW, op.
cit., p. 17.
'1 Cf. John B. COBB Jr. Pannenberg and process Theology, in C. BRAATEN, Ph. CLAYTON, eds.,
op. cit., p. 54. Cobb é o autor deA christian Natural Tlieology, Rased on Tlle Thought of
Avred North Whiteltead. Philadelphia, 1965. Para um panorama geral do assunto, veja-se
Hclga REITZ,Was ist ProzelJtheologie? KuD 16 (1 970), pp. 78- 103.
E Cf. Christoph SCHWOBEL: Wolfhart Pannenberg, in David F. FORD,ed. The Modrrtz
Theologians. An Introduction to Christian Theology in theTwentieth Century. Cambridge,
Massachussets, 1997l, p. 181.
23 Wolfhart PANNENBERG, Grundzuge der Christolagie. Gutersloh, 1964', 19662'cd'~'"mxli'iia-
'14 19693, 19724, 197651uwnlwld u,m um p'slfk~d, ] 9826 , 1990'.

24 Cf. também W. Pannenberg. Systematische Theologie 3, Gottingen, 1993, p. 182.


2s Cf. Ch. SCHWOBEL, art. cit., p. 182. No entanto, a história de Jesus está centralizada no
evento da ressurreição, cf. idem p. 183.
'"bid.
-
Igreja Luterana No 1 - 2000

soteriológico na cristologia, visto que, para ele, esta seria uma abordagem
subjetivista, repousando sobre o desejo humano por salvação, opinião que
não deixará de causar c o n t r ~ v é r s i a. ~É~assim que, como o destacou
Christoph S c h ~ o b e l ,a~metodologia,
~ confirmada ulteriormente em
Systematische Theologie 2 2 9 , se constitui na marca mais característica
da cristologia de Pannenberg, suscitando o debate.

Seus trabalhos publicados depois" mostram que sua reflexão teológica


estender-se-á em várias direções, como a teologia fundamental3' , a doutri-
na de Deus, a relação da teologia para com a filosofia e as ciências natu-
.
rais, a antropologia, a ética, e a ecle~iologia'~

A partir de 1968, ele atua na nova faculdade de teologia da Universida-


de de Munique como co-fundador, ao lado de L. Goppelt e G. Kretschmar.
Nesta instituição ficará - mais tarde como diretor do Instituto de Teologia
Ecumênica e Fundamental - até aposentar-se em 1995. Pela "valorização
da historicidade da revelação" e pela "racionalidade global da reflexão teo-
lógica-~3 , Pannenberg obtém uma grande audiência tanto no mundo cató-

27 Confira por exemplo a crítica a ele endereçada por Alister E. MCGRATH: Christology and
Soteriology. A response to Wolfhart Pannenberg's Critique of the Soteriological Approach
to Christology. Theologische Zeitschrift 42 (1986), pp. 222-236, o qual, referindo-se a
Melanchthon, afirma que "se pode conhecer quem é Jesus através de suas ações de
salvação", sendo a "separação entre cristologia e soteriologia [...I impossível", p. 222,
qualificando a abordagem de Pannenberg de especulativa, visto que ninguém seria capaz
de penetrar por detrás do kérigma e de analisar a história de Jesus, cf. pp. 234s., o que
estaria bem na linha de R. Bultmann.
28 Art. cit., p. 182. Ver por exemplo Wilhelm ANDERSEN: Auferstehung und Wirklichkeit.
Uberlegungen zu W. Pannenbergs Grundzuge der Christologie. Lutherische Monutshejie
5 (1966), pp. 141-151.
29 STh2, Gottingen, 1991, capítulo 9: Anthropologie und Christologie, sendo o primeiro
ponto: "Die Methode der Christologie", tratada em 20 páginas, pp. 3 16-336.
Boa parte deste trabalhos foi reunida nas obras entituladas Grundfragen S.y.sternatischer
Theologie. Gesammelte Aufsatze, v01 1 ., Gottingen, 1967', 1971*, 1979', c Ethik und
Ekklesiologie, Gesammelte Aufsatze, Gottingen, 1977. Deve-se igualmente citar sua
segunda grande obra, Wissenschafstheorie und Theologie, publicada em 1973, bem como
sua terceira obra principal, Anthropologie in theologischer Perspektive, publicada em
1983.
31 Cf. Heinrich PETRI:Die Entdeckung der Fundamentaltheologie in der evangelischen
Theologie, Catholica 33 ( 1 979), pp. 241 -26 1.
3 Cf. D. MULLER, op. cit., p.15.
33 Ibid., p.16.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

lico romano34 quanto, como indicado, no protestantismo norte-ameri~ano'~.


Seu renome hoje é indiscutível, e muitos estudos lhe foram consagrado^'^ .

Stanley Grenz, comentando a literatura consagrada a Pannenberg dizia,


em 1988, que "Pannenberg, em suas publicações, concentrou seus esfor-
ços especialmente em questões de metodologia teológica", e não tanto "numa
explicação de sua própria teologia sistemática"" . Mas isso somente até
aquele ano. Pois Pannenberg apresentará ao público, neste mesmo ano, o
primeiro de três volumes de sua Systematische ~ h e o l o ~ i eque ' ~ ,trata as
doutrinas de Deus e da revelação. Este volume será seguido, em 1991, pelo
volume 2, que trata os temas criação, antropologia, cristologia e soteriologia
e, em 1993,pelo volume 3 no qual o sistemático alemão aborda a eclesiologia,
a sacramentologia, e a escatologia. A Systematische Theologie de
Pannenberg é fruto de quase quarenta anos de atividade profissional. Como
é reconhecida pelo público internacional, o projeto de Pannenberg é
"ultrajosamente arquitetônico" em sua aspiração sistemática, muito organi-
zado e metodologicamente coerente" manifestando a originalidade de um
pensador preocupado em achar soluções para situações novas. Mesmo se
há pouco tempo atrás ainda se ouvia dizer que a era das grandes sínteses

34 Cf. K. KOCH,op. cit., p. 49


35 Cf. D. M ~ L L Eop. C., Ph. CLAYTON,
R , cit., p.16. A obra coletiva de C. BKAATEN, eds. The
Theology oJ Wolfhart Pannenberg é um exemplo. Pannenberg teve sucesso relativamente
grande entre os teólogos fundamentalistas americanos, entusiasmados por sua teologia da
ressurreição, pela defesa da historicidade da ressurreição de Jesus. Este sucesso foi um
tanto amenizado, mais tarde, quando esta mesma audiência se conscientizou da protunda
divergência entre a sua abordagem bíblicae a d e Pannenberg, cf. Richard John NEIJHACS,
"Thcology for Church and Polis", in C. BRAATENIC.CLAYTON, cds. op. cit., 226-238 (228)
e K. Kocii, op. cit., p. 48. Christoph SCHWOBEL, art. cit., p. 181, considera que a teologia
norte-americana teve uma influência clara sobre a "estrutura sistemática de seu pensa-
mento".
36 Tanto é vasta a bibliografia de Pannenberg, tanto o é também aquela dos estudos que lhe
foram consagrados, contando várias centenas de títulos, que não citamos todos neste
trabalho. Para um panorama temático em tomo da discussão sobre Pannenberg veja-se
por exemplo K. KOCH,op. cit., pp. 45-49.
'' Stanley J. GRENZ:Thc appraisal of Pannenberg: a Survey of the Literature, in C. BRAA.IE.S
et Ph. CLAYTON, op. cit., p. 19.
38 Wolthart PANNENBERG. Systematische Theologie. Gottingen, vol. I : 1988, vol. 2: 199 1 ,
vol. 3: 1993.
39 Cf. J. NBUHAUS, op. cit., p. 229, Fulvio FERRARIO:
L'ecclesiologia in Pannenberg [rescensão],
Protestantesimo 50 (199.5). p. 138, e Juan A. M. CAMINO: La "Teologia Sistcmatica" de
W. Pannenberg, Estudios Eclesiasticos 65, (1 990), p. 21 6.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

dogmáticas da fé cristã havia passado40, Carl Braaten já pressentia em


1965: "De todos os teólogos do após-guerra, Pannenberg revelou ter folga-
damente a maior envergadura, e a maior potência construtiva de pensa-
mento. O esboço de uma nova teologia sistemática de grande amplitude já
se faz discretamente ~ i s í v e l " ~. '

A proposição em torno da qual se unifica e se organiza a obra de


Pannenberg, no primeiro volume de sua Teologia Sistemática tem uma
dupla motivação: o fato de que Deus, o qual ele descreve como "o verda-
deiramente infinito", se manifesta em Jesus Cristo como Deus trinitário,
salvador, pressupõe de uma lado a afirmação de que o ser humano é "reli-
gioso por natureza", no sentido de que os diversos aspectos que o constitu-
em o "colocam no horizonte do infinito", e de outro lado a afirmação de que,
para conceber-se corretamente a relação Deuslser humano, não se pode
prescindir da noção de revelação42.

Para que haja uma relação entre Deus e o mundo, entre o infinito" e o
ser humano que está à espera do infinito, é preciso que o próprio infinito se
manifeste através de sua verdade. Mesmo se, para Pannenberg, toda teo-
logia cristã parte fundamentalmente do princípio axiomático de que Deus é
e se revela, o interesse particular de Pannenberg é especialmente sua defi-
nição de revelação. Partindo do princípio histórico-universal de Deus e sua

" Cf. Christoph SCHWOBEL:Rational Theology in Trinitarian Perspective: Wolfhart


Pannenberg's Systernatic Theology. Jourrzal of Theological Studies, NS, vol. 47, Pt.2
(October 1996), p. 498.
J1 Carl BRAATEN: The Current Controversy on Revelation. Pannenberg and his Critics, T l ~ e
Journal of Religiorz 45 ( 1 965), p. 234.
42 Cf. J. CAMINO, art. cit., p. 216.
J3 Ch. SCHWOBEL afirma: "The leading concept for Pannenberg's account of the nietaphysical
attributes of God ist the notion of God as the Infinite [...I The truly infinite muat
transcend [the] opposition [to thc finitc] and coinprchcnd tlic finite within itself so that
i t can be truly limitless. [...I", ibid, p. 506. Isto é importante para a noção pannenbergiana
de retroaçáo na noção dc Deus: "This interpretation is particularly appropriate to the
understanding of divine eternity which is not only opposed to time but also transcends
this opposition by being the source and aim of a11 time", ibid.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

revelação, Pannenberg não admitirá qualquer conhecimento humano de Deus


que não emanasse do próprio Deus44.

Segundo J. Camino, um dos maiores trunfos do primeiro volume da


Svstematische Theologie de Pannenberg - e isto se aplicará também aos
dois volumes seguintes - é a grande profundidade com a qual ele responde
aos questionamentos que uma cultura ateísta dirige à teologia. E Pannenberg
não se contenta em responder com curtas "réplicas apologéticas", mas o
seu discurso é um "desdobramento das potencialidades em que implica a
rica tradição cristã no tocante a ~ e u s " ~ Como
? se notará também na
leitura do terceiro volume, Pannenberg torna fecunda a pesquisa e a expo-
sição detalhadas e rigorosas da história dos dogmas, bem como das idéias
teológicas e filosóficas na busca de soluções para as perguntas que sáo
dirigidas hoje à fé ,

No que diz respeito ao segundo volume, Pannenberg lembra de início de


que em teologia sistemática, como em toda a exposição da fé cristã, trata-

44 "Eine solche Annahme [wurde] den Gottesgedanken selber aufheben", Sj~stenzatische


Theologie 1, p. 83. "Human knowledge of God has its origin and foundation on God's
self-disclosure", résume Ch. S C H W ~ Bem:E LWolfhart Panncnberg, op. cit., p. 190. Existe
a esse respeito uma discussão entre Pannenberg e Jüngel, cf. STh I, p. 83, nota 24. Veja-
se a crítica de Eberhard JUNCEL a Sys~ematischeTheologie 1 em: Nihil divinitatis, ubi non
fides. 1st christliche Dogmatik in rein theoretischer Perspektive moglich'! Hemerkungen
zu einem theologischen Entwurf von Rang. ZThK (1989), pp. 204-235, a resposta de
Panncnberg em: Den Glauben an ihm selbst fassen und verstehen. Eine Antwort an E.
Jungel. ZThK (1 989), 355-370, e quanto à discussão entre Pannenberg et Jungel, Michael
KAPPES: "Natürlichc Theologie" als innerprotestantisches und okumenisches Problem?
Die Kontroverse zwischen Eberhard Jungel und Wolthart Pannenbcrg und ihr okumenischer
Ertrag. Catholica, 4 (1995), pp. 276-309. A controvérsia entre eles parece no entanto
repousar em grande parte sobre "preconceitos" e "mal-entendidos", cf. E. JUNGELp. 2 19
e M. KAPPES p. 309.
4"J. CAMINO, p. 224.
46 CCf. ibid. Quanto à sacramentologia do volume 3, Pannenberg fundamenta-se sobre certos
conceitos patrísticos, que, aliás, expõe detalhadamente. Para uma aprsentação sumária do
terceiro volume, veja-se Stanley J. GRENZ, Reasonlor Hoj~e.The Sys~ematicTheologg of
Wolfiart Partnenberg. (New York - Oxford, 1990), p p . 1 4 9 ~ Grenz
~. teve o privilégio
raro de poder apresentar a um público dc outro idioma (na ocorrência, o inglês) a obra
sistemática de um teólogo antes mesmo da sua publicação na língua original. Ele apresen-
ta, aqui, os três volumes em seus temas globais: a abordagem dogmática de Pannenberg, a
doutrina de Deus, criação e antropologia, eclesiologia e escatologia.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

se de uma reivindicação de veracidade, de verdade que interessa a todos os


homens. Seu alvo é legitimar esta verdade no diálogo interdisciplinard7.
Porque a questão da verdade do cristianismo é uma questão que procura a
verdade global, e não somente uma verdade particular qualquer. Desde o
surgimento do iluminismo a fé cristã vem sendo atacada criticamente e
interrogada sobre sua real capacidade de explicar o todo da realidade em
que vivemos, como ele o fazia nos primeiros séculos, quando o cristianismo
triunfou em todo o mundo mediterrâneo. Para o cristianismo, então, a ques-
tão da verdade diz respeito à verdade global, simplesmente, e não a uma
determinada verdade parcial e particular48. Ted Peters lembrava, neste
espírito, que se a teologia se fundamenta no testemunho da Escritura do
Deus criador em Jesus Cristo como aquele que determina toda a realidade,
então é necessário que ela tenha uma envergadura universal para tentar
descrever e explicar esta mesma realidade. A teologia não será exclusiva-
mente defensiva na sua intenção apologética, mas será também ofensiva
na constatação de toda cosmovisão "inadequada" à realidade, ou seja, ques-
tionará criticamente toda cosmovisão ou experiência de realidade que igno-

J7Pannenberg não entra nuin diálogo inter-religioso, mesmo estando constantemente cons-
ciente da "situação de pluralidade e de querelas [Strittigkeit] entre as diferentes rcivindi-
caçóes religiosas da verdade", STh 2, p. 10. James Buckley criticou Pannenberg por não
ter entrado em tal diálogo, manifestando curiosidade sobre a natureza que teria esta
discussão "comparativa" de Pannenberg com o judaísmo c as diferentes religiões, J.
BUCKLEY: Review Essay- W. Pannenberg Sjwtematic Theology, vol. 2, Crand Rapid.
1993. Pro Ecclesia, vol. IV, n03 (1995), pp.364-369 (p. 364s). Pannenberg prefere deixar
esta tarefa & filosofia da religião, afirmando que a teologia cristã precisa tão somente
demonstrar que se pode desenvolver, a partir do evento da revelação, uina interpretação
global e coerente de Deus, do homem e do mundo. Segundo ele, esta interpretação pode-
se harmonizar de certa maneira com o saber filosófico, e por conseguinte pode ser afirina-
da como verdadeira diante de interpretações alternativas do mundo como expressas em
pensamentos religiosos ou náo religiosos. A tcologia demonstra que isto é possível. e
como o é. Já a discussão comparativa e a formação de juízo sobre a questão de divergentes
interpretações do mundo que reivindicam veracidade, deve pressupor tal exposição sistc-
mática das interpretaçóes de inundo que ela pretende comparar. Isto seria, segundo ele. a
tarefa da filosofia da religião. Veja-se STIi 2 p. I 1 .
d8 Estc foi seu plndoyer desde o princípio de sua atividade teológica, como se nota em Was i t
Wahrheit? in Kurt SCHARF, ed. Von~Herrengeheiinnis der Wakrl~eil[Festschrift H . Vogel],
1962, pp. 214-239, reeditado em GSTIi, p. 202. Se a proclamaqáo cristã não dissesse
respeito i totalidade da realidade do homem, ela pecaria contra o quc Paiiiicnberg chania
com H. Vogel de a "solidariedade cristã com os dcscrcntcs" [Gortlosen],e não poderia
pretender legitimamente ser um discurso sobre a verdade, idem, p. 202 + notas 2-3.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

re a presença de ~ e u . sPannenberg
~ ~ está disposto a falar de Deus em
público" , e a expor, diante do pensamento do mundo secularizado e diante
de concepções "conc~rrentes"~'de verdade, a universalidade e a globalidade
que a verdade cristã apregoa, e isto numa abordagem bipolar: a teológica e
a antropológica, constituindo elas a arquitetura de sua teologia sistemática.

A interdisciplinaridade de Pannenberg, que se reflete em toda a sua


obra, e que se manifesta na Teologia Sistemática como um "saber enci-
c l ~ p é d i c o ", ~é ~mais do que uma opção intelectual, é fruto de um conceito
global da teologia como a "ciência do sentido de todas as coisa^"'^, da
história como totalidade da realidade. Sua atitude teológica tem um lado
profundamente "dialogal" no sentido de que segundo ele a teologia deve
aventurar-se em outras áreas do conhecimento humanos4 ou outros logoi,
os quais Pannenberg vê inscritos, com a teologia patrística, na universalida-
de do Logos" , visto que o Logos é o princípio originador e organizador da
diversidade e distinção individual, não somente das criaturas e das diferen-
tes formas de existências6 , mas também dos conceitos de existência e de
realidade dos homens . A diversidade dos logoi deve encontrar sua unida-
de no Logos. O Logos encarnado em Jesus Cristo é o eixo e o princípio de
conhecimento da verdade universal. Nota-se, então, que Pannenberg dialo-
ga, também neste volume, com a filosofia, a física e outros cientistas.

Obra amadurecida, fruto de uma vida a serviço da teologia, a


Svstematische Theologie terá, sem dúvida, a vocação de ser um ponto de
referência para a teologia das próximas décadas, sendo, na opinião de John
Cobb Jr., "a maior teologia sistemática de sua geração"".

49 Cf. Ted PETERS:


Truth in History: Gadamer's Hermeneutics and Pannenberg's Apologetic
Method, The Journal of Religion 55 (1975). p. 37.
s0 Cf. J. NEUHAUS, art. cit. p. 238.
9 STh2, p. 10. Pannenberg refere-se aqui a diferentes conceitos religiosos de Deus e da realidade.
" J. BUCKLEY, art. cit. p. 365.
fl J. NEUHAUS, op. cit., p. 228.
s4 Segundo Whitehead, a justificação de todo o pensar é que ele ilumine nossas experiências
mais imediatas, cf. H. REITZ,op. cit., p. 92: "Diese [Einsehbarkeit des
Wahrheitsanspruches] ist nur dann erreicht, wenn die fur den Glauben spezifischen und
die christliche Gemeinde konstituierenden Erfahrungen im Zusammenhang der ubrigen
menschlichen Erfahrungen erhellt werden, denn darin liegt ja nach Whitehead allein die
Rechtfertigung jedes Denkens, da8 es unsere unmittelbaren Erfahrungen erhellt".
ss STh ,2, p. 80, cf. também J. NEUHAUS, ibid., bem como J. BUCKLEY, art. cit. p. 366 e D.
MULLER, op. cit., pp.14-15, e a documentação trazida por este nas notas.
s6 Cf. seu conceito de criação, STh 2, especialmente pp. 36ss, 79ss, 132ss, 331ss, 415ss.
John B. COBB,Jr., na quarta capa da edição em capa mole do vol. 3 da Systematische
Theologie.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE


18 de junho de 2000
João 3.1-17

CONTEXTO
Festa da Páscoa. Jerusalém está agitada. É a primeira vez durante seu
ministério que Jesus e seus discípulos participam da festa. Jesus entra no
templo e expulsa os vendilhões, afirmando: ". . . não façais da casa de
meu Pai casa de negócio" (2.16). Os judeus pedem um sinal que provasse
sua autoridade. Em vez de um sinal, segundo a ótica dos principais do povo,
Jesus refere-se aos acontecimentos próximos, sua morte e ressurreição (
2.19-2 1 ). Sinal que seus discípulos só vieram a entender e crer quando de
sua ressurreição ( 2.22). Neste cenário de contestação do status quo
religioso de exploração da fé, reinante em Jerusalém, uma alma angustiada
procura por segurança. Para tanto, dirige-se pessoalmente ao Mestre.

TEXTO
Vv. 1-2: Nicodemos é adepto da seita mais rígida e exemplar no
cumprimento da lei, os fariseus. É " u m dos principais ", isto é,
integrava o Sinédrio, órgão supremo e deliberativo, tanto em
questões civis como religiosas. Este procura Jesus à noite. A
escuridão podia esconder a insegurança, com respeito às suas
convicções, da censura dos fariseus, de seus colegas de Sinédrio
e dos demais do povo. Nicodemos é sincero ao dirigir-se a Jesus,
chamando-o de "Mestre vindo da parte de Deus" e justifica
afirmando que os feitos de Jesus provavam sua procedência.

Vv. 3-5: Antes de Nicodemos expor o motivo de sua presença, Jesus em


sua onisciência (Jo 2.25) responde de forma pessoal: "Eln verdade,
em verdade te digo". A mesma expressão enfática é utilizada
no v. 5. O que se segue a ela, expressa uma das verdades principais
do "reino de Deus". Jesus revela ao seu interlocutor ser
necessário um novo nascimento, de cima, do alto, ser nascido de
-
Igreja Luterana - N" 1 2000

Deus. No texto "reino de Deus" significa a salvação oferecida


por Deus aos homens. Para "ver o "... para "entrar" no reino
de Deus é necessário uma ação graciosa e salvífica de Deus. O
mestre versado na "Torah" não podia entender o significado deste
nascer de novo, pois entendia o estar no reino de Deus apenas na
ótica do cumprimento dos preceitos da lei.

". . . nascer de novo. . . nascer da água e do Espírito. . . " Por quê?


Como nascer de novo? Perguntas que perturbam Nicodemos. Ele não
pode compreender de que nascimento Jesus fala. Afinal, ele levava a sério
a prática da religião recomendada. Ele se considerava um homem
qualificado para ver o e entrar no reino de Deus. Aquela alma que dormitava
segura no labutar de sua salvação, agora vê ruir toda a tradição de sua
crença.

" E m verdade, em verdade te digo". O Salvador Jesus faz ver nesta


afirmação que o novo nascer vem de Deus. E Ele tem os Seus meios próprios
e singulares para tomar real esta regeneração. Nenhum homem por mais
qualificado que possa ser, pode assegurar por suas ações este novo
nascimento. O homem não pode operar seu próprio renascimento. Sem a
regeneração efetivada por Deus, através de seus meios "Quem não nascer
da úgua e do Espírito. . . " ninguém pode entrar no reino de Deus.

". . . da água e do Espírito . . . " Fica claro que aqui Jesus está se
referindo ao Batismo. O Batismo é o meio pelo qual o Espírito Santo efetua
este novo nascimento, tornando-nos herdeiros do reino de Deus (G13.26,27;
Tt 3. 4-7).

Vv. 6-8: O homem em sua própria natureza é corrompido, e mau. A


natureza humana desde seu nascimento está inclinada para o mal,
e, portanto, contrária à vontade de Deus. O Espírito divino opera
uma total mudança, transformando a natureza má em uma nova
vida.

No nascimento natural somos membros de uma família terrena. Para


ser membro da família de Deus, para receber a natureza espiritual que é o
único meio de ser admitido em seu reino, faz-se necessário um nascimento
"do alto". Aqui temos uma antítese entre o nascimento natural possível ao
homem e o nascimento espiritual que só Deus leva a efeito. A consecução
deste segundo nascimento se dá pelo Verbo divino Jesus Cristo, que se fez
carne, para regenerar a humanidade. Isto vale para toda humanidade, por
Igreja Luterana - N 1 - 2000

isso, Cristo muda o pronome pessoal usando a 2' pessoa do plural: "lmporta-
vos nascer de novo "( 2 Co 5.17).

Na nova criatura não desaparece sua natureza humana corrompida e


má, mas nela habita agora o Espírito de Deus, que aplica a este novo ser os
méritos adquiridos por Cristo em sua paixão, morte e ressurreição. O ser
nascido e regenerado por Deus é ao mesmo tempo justo e pecador. A
natureza corrompida nos é inata desde Adão e Eva. A nova natureza ou
novo nascimento nos é outorgada na obra vicária d e Cristo e nos
beneficiamos dela pela ação do Santo Espírito. Por causa de Cristo e seus
méritos Deus nos declara justos (Rm 6 . 4 , 6, 7,ll-14; Ef 4.24).

Quanto ao processo da ação de Deus Espírito Santo, citado por Jesus no


v. 8, Lutero assim o descreve: "Embora ouças o sussurar do vento, mesmo
assim não poderás conhecer ou perceber nem seu começo nem o seu
fim, a que distância de ti nasceu e onde morrerá atrás de ti; da mesma
forma e muito menos compreenderás com tua razüo como se processa
o renascimento. " (Citado por Otto A. Goerl. Púlpito. Vol. 5. Porto Alegre:
Concórdia, 1971, p. 17).

Vv. 9-1 3: Nicodemos tem dificuldade para entender este novo nascimento.
Justamente por não entender que em Cristo se concretiza toda a
promessa de redenção contida na antiga aliança. Pela terceira
vez, em seu diálogo, Jesus valoriza o que afirma com o "E171
verdade, em verdade " ou "Verdadeiramente ". Simplesmente
Jesus remete seu interlocutor, preso à opinio legi, a reconhecer
a impossibilidade humana de por sua força e capacidade amar a
Deus (Dt 6.5). Deus mesmo o fez e fará conforme a sua justiça,
"consoante a suaj?delidade " (SI 96.13). Deus em Cristo sempre
vem ao encontro do pecador (Rm 8. 3,4). A adoção como filho
de Deus e herdeiro de seu reino, quem opera é o Espírito de Deus
(Rm 8. 14-17). Nicodemos tem o testemunho de todo o Antigo
Testamento, da pregação de arrependimento de João Batista,
ambos apontando para Jesus Cristo, como o Deus unigênito,
revelado pelo Pai. Ponha um fim no apegar-se a sua autojustiça,
Nicodemos! Creia no testemunho daquele que veio do céu, o Filho
do homem que desceu do céu e revelou todo o amor redentor de
Deus !

Vv. 14-17: Até aqui Jesus havia mencionado a necessidade e os meios


para a regeneração. Agora declara ao seu interlocutor o fator
essencial da regeneração. Tomando o exemplo da serpente
Igreja Luterana - N 1 - 2000

salvadora no deserto, aponta como Deus pretende levar a efeito a


redenção de toda a humanidade. Jesus mostra para Nicodemos
não uma visão heróica de um rei e seu reino neste mundo, mas
um Rei Eterno, verdadeiro Deus que, vindo ao mundo, se submete,
por amor, à morte por crucificação. Para quê? Para que todo o
que conhece e confia que a morte vicária de Jesus resultou na
remissão de seus pecados, tenha a vida eterna.

Nenhum outro texto traz a lume tantas doutrinas esclarecedoras sobre a


redenção do pecador como este, senão vejamos: Pecado original, conversão,
meios da graça, satisfação vicária e somente por fé (solafide).

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: Como ver o Reino de Deus e nele entrar
I - O que é nascido da carne é carne (nossa condição de pecador)
I1 - O que é nascido do Espírito é espírito (Ele opera em nós a
regeneração)
I11 - Esta nova condição foi alcançada pelo amor redentor do Filho de
Deus.

Orlando Nestor Ott


-
Igreja Luterana N 1 - 2000

25 de junho de 2000
Marcos 2.23-28

A questão do sábado era atual entre os judeus-cristãos, havendo, talvez,


alguns conflitos na jovem comunidade cristã ao tempo em que o evangelho
de Marcos foi escrito. A palavra e a conduta de Jesus, relatados nesta
perícope, traz-lhes uma solução condizente.

O costume de mastigar grãos de trigo é tradicional no Oriente e sempre


tolerado quando alguém o faz para matar a fome. Os fariseus se escanda-
lizam porque vêem os discípulos praticá-lo em dia de sábado. Colher espi-
gas fazia parte das 39 atividades proibidas ao sábado, pois era considera-
do "trabalho de colheita".

O que realmente importa tratar nesta perícope não é o incidente em si,


mas a posição assumida por Jesus face à pretensa quebra dum preceito
sabático.

O exemplo de Davi, citado por Jesus, não pode ser relacionado a questão
do sábado, pois não consta que o gesto de Davi fosse num sábado. O inciden-
te, narrado em 1 Sm 21.1-7, é usado por Jesus para ilustrar o fato de que Davi
transgrediu uma severa lei cúltica, pois os pães da proposição ficavam re-
servados exclusivamente aos sacerdotes. (O Evangelho segundo Marcos,
Rudolf Schackenburg, Ed. Vozes, 1983, p.78)

A perícope nos permite algumas conclusões e uma delas é a de que um


dever mais urgente e superior, como a conservação ou a defesa da vida,
suspende todo o preceito cúltico (v. 27). Até o boi que caiu no poço e está
se afogando tem prioridade aos preceitos cúlticos. Porque o culto, a reli-
gião, ou os próprios mandamentos existem para o homem, e não o contrá-
rio. O atender às necessidades básicas, vitais, imediatas do próximo, é tão
culto e agradável a Deus, como o é qualquer outra "obrigação" religiosa. A
exagerada preocupação com o cumprimento de preceitos religiosos foi a
causa do desamor do levita e do sacerdote para com o homem ferido, so-
-
Igreja Luterana - No 1 2000

corrido depois pelo samaritano. O amor que procede de Deus é que deve
ser a norma superior e definitiva em nossas vidas.

A identificação e obediência à vontade de Deus, - que se resume, se


define e se realiza no amor, - deve nortear nossos atos, nosso viver, nossa
adoração e compromissos eclesiásticos e nos libertar do temor dos juízos
temerários e, muitas das vezes, egoístas, invejosos e preconceituosos por
parte até mesmo de pessoas ditas e tidas por "piedosas."

v. 28 - "O Filho do homem é senhor do sábado".


A expressão "Filho do homem" é conhecida dos judeus. Designa
Aquele que vem dos céus, em toda a sua glória, para julgar a humanidade.
Designa o Messias esperado.

Pois o Filho do homem - aquele que há de julgar a todos por causa do


pecado, é ao mesmo tempo o Advogado, que nos defende diante do Pai.

Esta perícope amplia o conceito de salvação: - o Filho do homem é


aquele que veio para perdoar pecados (cf Mc 2.10 - contexto anterior) e
para libertar nossas consciências de toda escravidão proveniente da estrei-
teza do espírito humano que, a pretexto de servir a Deus, muitas vezes
impõe ao crente uma carga nada evangélica, disfarçada como "doutrina".

Essa perícope joga luz sobre o convite evangélico do Salvador: "Vinde a


mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei".

Segundo nossa natureza humana pecaminosa somos tentados a colocar


"fardos espirituais" sobre nós mesmos, para dar aparência de "piedosos". Não
bastasse isso, ainda gostamos de "sobrecarregar" o irmão, cobrando dele con-
duta religiosa, participação e atuação eclesiástica, não segundo o espírito do
evangelho, mas segundo o nosso modo de "interpretar" evangelho.

Acho que essa perícope pode trazer luz à nossa vida comunitária, no
que tange a questões de consciência. É lícito à igreja (congregação, distrito,
denominação) colocar sobre seus membros uma carga de "compromissos"
religiosos (ativismo), em detrimento de outros deveres e direitos pessoais,
profissionais, familiares, dos membros?

Os próprios mandamentos de Deus foram dados "por causa dos ho-


mens", e não podem e não devem ser usados arbitrariamente para julgar a
consciência alheia, sem a interpretação orientadora do "Filho do homem",
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

que os resume e encerra na palavra "amor". O amor liberta.

A perícope, portanto, aponta para a "LIBERDADE CRISTÃ", segun-


do a qual o cristão não é escravo de nada e de ninguém, porém, em amor, é
livremente servo de tudo e de todos.

E poderíamos aproveitá-la para uma reflexão com nossos congregados


sobre a própria estrutura congregacional. Está ela de fato a serviço do
amor ou ela se tornou uma tradição cuja manutenção é um peso na consci-
ência e tolhe a liberdade de ação de cada um segundo seus dons'?

Poderíamos aproveitar para refletir sobre as muitas "imposições" defi-


nidas no regimento interno, e outras provindas do pastor ou da diretoria.
Imposições a respeito das ofertas; da participação aos cultos e demais ati-
vidades congregacionais; imposições sobre a participação na Santa Ceia;
imposições para novos membros ou quem pretenda ser: imposições sobre
os que se transferem e só têm a transferência concedida se ....; imposições
sobre os que se apresentam para batizar, casar, sepultar e são constrangi-
dos a primeiro quitar... ou prometer...

Eis aí uma oportunidade preciosa para avaliar, à luz do senhorio amoro-


so, gentil, delicado de Cristo, algumas destas imposições e tradições, que
estão mais para preceitos farisaicos do que para orientações evangélicas.
E, então, com humildade, ficar com o que é bom e edifica as pessoas, e
descartar tudo o que escraviza, tiraniza, restringe a liberdade cristâ e reduz
ou adultera o amor cristão.

Se a lei do sábado foi feita para o homem, então esta lei "fica suspensa
toda vez que possa causar algum prejuízo ou impedir um certo bem do
homem". (Comentúrio a o Evangelho de São Marcos, Battaglia Uicchio
Lancellotti, Vozes, 1978, p. 40)

Tema: O amor de Cristo nos constrange a praticarmos uma religião


sensível às necessidades do ser humano.

João Carlos Tomm


São Leopoldo, RS
Igreja Luterana - No 1 - 2000

2 de julho de 2000
Marcos 3.20-35

CONTEXTO
A geografia é específica: de Cafarnaum ao Mar da Galiléia e vice-ver-
sa. O púlpito de Jesus é revezado entre o tradicional e formal na sinagoga e
o inovado e informal no barquinho da praia (1.21; 3.9). Além do ensino,
Jesus realiza muitos milagres, curas e expulsão de espíritos imundos. Após
a escolha dos Doze, Jesus se retira para a casa (de Pedro certamente), para
descansar.

TEXTO
Uma das estratégias de Jesus para dispensar as multidões que constan-
temente o seguiam, era subir ao monte. Nesta ocasião, entretanto, quando
desceu, a multidão novamente aglomera-se ao Seu redor. Não há tempo
nem ( l~76Z)para comer quanto menos para descansar ou instruir Seus dis-
cípulos (v.20). A verdade é que o ministério de cura promovido por Jesus
desperta nos espectadores várias hipóteses a respeito. Herodes tinha a sua
estimulada por sua consciência (Mt 14.1-2); os parentes de Jesus forma-
vam a sua e bem assim os fariseus: João redivivo, homem de mente pertur-
bada, possessão satânica. Para despertar tantas hipóteses, o que Jesus fize-
ra deve ter sido impactante.

V. 22 - Mostra os escribas descendo de Jerusalém. Ir a Jerusalém signi-


fica sempre "subir" a Jerusalém e ao se deixar a cidade sempre
se "desce" de Jerusalém. Este "subir" sempre é ético, em razão
do templo e do santuário de Deus. Embora no contexto
~arapcivr~çtivesse sido literal, o sentido metafórico de uma trans-
formação interior nos escribas aqui não acontece. Eles desce-
ram, ao que parece, espiritualmente piores do que quando havi-
am subido.

Marcos não registra a reação da multidão ao milagre da cura do


endemoninhado cego e mudo. Mateus ofaz. Visto que Marcos foi provavel-
mente o último e não o primeiro evangelho a ser escrito, este evangelista
54
Igreja Luterana - N 1 - 2000

pressupõe aquele episódio. De Mt 12.22-23 sabemos que o povo começa a


cismar que, após tudo o que vira, este homem poderia ser mesmo o "Filho
de Davi", ou seja, o Messias. Diante dessa reação, os escribas decidem que
está na hora de sugerirem uma explicação plausível para esses fenômenos
de expulsão de espíritos imundos realizados por Jesus.

Os escribas estavam em maus lençóis. Se dissessem que Jesus curara


com a ajuda divina, teriam de crer Nele e mudar de vida - mas não estavam
dispostos a tanto. Assim, diziam que Jesus realizava milagres com o auxílio
ou, mais precisamente, pela possessão ( ~ X Ede L ) Belzebu (ou Belzebul =
'Baal das Moscas' ou, por extensão, 'Baal do Esterco', um dos vários epítetos
de Satanás). Note-se que embora o criticassem, eles claramente admitiam
que Jesus havia realizado milagres. Aqueles que hoje desmitificam os mila-
gres bíblicos devem atentar a esse detalhe.

O argumento dos escribas é absurdo. Se Jesus expele demônios pelo


poder de Satanás, o reino de Satanás está em processo de implosão. É um
ato suicida para Satanás. A ação é contraditória em si. Atitude impensada
dessa natureza não poderia ser assumida por nenhum reino (v. 24), ou casa
(V.25) e, por isso, nem mesmo por Satanás (v. 26).

O v. 27 demonstra o contrário. Jesus não é instrumento do demônio, nem


estaria em aliança com ele. Jesus apresenta Satanás como "o valente", "o
) precisa ser atado. Só Cristo pode atar Satanás. É o
forte" ( ~ o x u p ó ~que
Reino contra o anti-reino. Atado Satanás, os bens, ou seja as criaturas hu-
manas, podem ser recuperados e salvos.

Nos vv. 28 e 29 Jesus faz uma advertência. A palavra &pSv é uma


transliteração do hebraico (7%) para "verdade" ou "verdadeiro". No AT ela
aparece apenas no fim de uma afirmação, algo similar ao nosso "Amém"
litúrgico. Nos discursos de Jesus o "amém" é sempre solene e introduz
afirmações de grande envergadura. Com esta palavra Jesus adverte os
escribas de que a blasfêmia contra o Espírito Santo jamais será perdoada.
Ao atribuírem a Satanás as obras de Jesus que eram claramente matetiali-
zadas pelo poder do Espírito Santo (TÓ nvc8pol rò 6y~ov)os escribas esta-
vam bem próximos de nivelarem o Espírito Santo a um Espírito imundo
(IIvc6pol &~á€laprov)(v.30). Se o Espírito Santo fosse um demônio, o arre-
pendimento não existiria e a salvação eterna estaria fora de cogitação.

O v. 30 fecha o parêntesis aberto no v. 22 e retomamos aos parentes


retardatários. Liderados pela mãe de Jesus (aparentemente), seus irmãos
chegam com um espírito autoritário e exigente. Entretanto, não se deve
Igreja Luterana - N 1 - 2000

entender a reação de Jesus como reprimenda ao comportamento nervoso e


obtuso da sua constelação familiar. A ênfase de Jesus, nesse momento, está
no fato que há uma relação maior, mais elevada, que se resume em fazer a
vontade graciosa de Deus, ou seja, crer no Seu evangelho redentor.

APLICAÇOES
HOMILÉTICAS
1 . Os parentes de Jesus não entendem com clareza Sua missão. Alguns
amigos do cristão hoje muitas vezes tentam persuadi-lo a fugir das
dificuldades e das tarefas perigosas no Reino de Deus. Excesso de
zelo na religião, dizem, pode ser sinal de insanidade. Entretanto, o
cristão tem a força dada por Deus e tentará coisas que vão além das
suas próprias forças.

2. Há 3 prismas pelos quais podemos visualizar Jesus: a) como os Seus


parentes, considerando-o fora de Si (neste caso não mais atentare-
mos para o Seu ensino, cura e pregação); b) como os escribas, acu-
sando-o de enganador (neste caso abrimos mão da Sua obra reden-
tora); c) como a simples multidão, considerando-o como o Filho de
Deus (neste caso nós O adoramos e servimos, sendo por Ele conso-
lados).

3 . Satanás é valente e forte, mas Jesus Cristo o amarrou e o submeteu


ao Seu controle. Há apenas um Senhor. O dualismo não existe na
Escritura Sagrada. Satanás foi novamente vencido e expulso dos
corações e das vidas dos que crêem.

4. Neste tempo de Pentecostes, e no resto do nosso viver, o Espírito


Santo, por Palavra e Sacramentos, vem a nós e em nós habita, tor-
nando-nos Seu santuário. Pelo seu poder recebemos o arrependi-
mento e o perdão, e passamos a integrar a grande constelação da
família de Deus.

Dr. Acir Raymann


Igreja Luterana - N 1 - 2000

9 de julho de 2000
Marcos 4.26-34

CONTEXTO
O capítulo quatro do evangelista Marcos introduz um "pacote" de
parábolas na narrativa do Evangelho. Exegetas montam, inclusive, um breve
esquema a esse respeito. Mostram que essas parábolas estão inseridas entre
as controvérsias (capítulos 2. 1 - 3.6), e os milagres (capítulos 4.35 - 5.43).

Sobre as parábolas ("parábola: exemplos, comparações ou alegorias em


que, partindo de uma realidade sensível, se comunica uma mensagem ao
ouvinte, ou leitor, e o convida a uma decisão pessoal. Aplica-se esse termo
especialmente às que têm a forma de uma pequena narrativa" - IN:
Concordância Temática, p.27, Bíblia de Estudo Almeida, 19991,
propriamente ditas (capítulo 4.1 - 34) o seguinte:

- notícias sobre elas: versículos 1,2 - 33,34.


- ditos ou sentenças parabólicas: versículos 22,24,25.
- duas comparações parabólicas: versículos 26 - 29,30 - 32.
- uma parábola propriamente dita, versículos 3 - 9, sua explicação:
versículos 13 - 20.
- finalidade das parábolas: versículos 10 - 12.

TEXTO
Vv. 26 - 29 - (A Parábola da Semente): Somente o evangelista Marcos
registra esta parábola. Trata do reino de Deus. O homem
espalha, lança a semente da palavra de Deus. Essa é a tarefa que
Jesus entregou aos homens, primeiramente aos seus discípulos
e, na seqüência, a todos os pregadores cristãos e aos cristãos em
geral: proclamar, publicar, anunciar a palavra de Deus. O
efeito, o resultado, o êxito desse procedimento não está na mão
e no poder humanos. A Palavra, semeada no coração das
pessoas, cresce e tem resultados por si, sem a participação do
pregador. É semente viva, cheia de poder e espírito. Ela produz
a fé e o "novo nascimento". Desse processo espiritual que surge
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

da palavra, o homem não participa. É segredo, está oculto aos


seus olhos. O homem "não sabe como" (v.27). A semente,
porém, genuína, cresce, devagar às vezes, porém, com certeza.
E, então, frutifica, na forma das mais diversas boas obras, obras
que surgem da fé e do amor. Por isso, os que semeiam,
pregadores e cristãos em geral, devem crer no processo e não
desanimar ou desesperar se não enxergam logo os frutos da
pregação e se a semeadura espiritual cresce devagar. No final
haverá colheita com muita alegria. Jesus, assim, pretendeu
fortalecer a confiança na obra de Deus: semeadura, crescimento
e colheita são inseparáveis, porém, não resultado de um ativismo
impaciente, mas obra de Deus.

Vv. 30-32 - (A Parábola do Grão de Mostarda): Agora, Jesus compara


o reino de Deus ao grão de mostarda. É a menor de todas as
sementes, porém, quando cresce, torna-se a maior de todas
hortaliças, com grandes ramos, onde as aves do céu descansam.
Assim, o reino de Deus se espalha e se expande. De um início
pequeno, vai na direção do mundo todo, para tornar-se refúgio e
descanso para todos os povos. O pequeno grupo dos discípulos
em torno de Jesus foi o começo da Igreja de Cristo no mundo.
E, a partir deles, passando por nós, o evangelho será pregado por
todo mundo antes de chegar "o fim". A palavra de Deus não
volta vazia. Mesmo que muitos, ao ouvirem a palavra, a rejeitem,
e se escandalizem, muitos também encontraram e encontram
nela e na igreja de Cristo paz e sossego para suas almas.

"Aves do céu": conforme Ezequiel 17.23 e Daniel 4.12

Vv. 33-34: "... conforme o permitia a capacidade dos ouvintes". Esses


estavam impregnados de idéias errôneas sobre o Messias e
cheios de prevenção com o Mestre. Era muito difícil assimilar
ensinamento claro sobre o "reino de Deus" e o Messias. Por isso,
Jesus Ihes falava pelo "filtro" das parábolas, tentando fazê-los
entender mais facilmente.

" ... explicava em particular aos seus próprios discípulos". Esses, mais
juntos e ligados ao Mestre, chamados e submissos, podiam
receber, a sós, as instruções e ensino em linguagem mais
profunda e clara.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

A Evangelização,
o estabelecimento do Reino de Deus

- é tarefa humana, nossa, porém, obra de Deus.

- não cabe "ativismo impaciente", mas alegre espera da colheita.

- Reino de Deus: refúgio, descanso, paz e sossego para todos os povos.

Norberto Ernesto Heine


Igreja Luterana - N 1 - 2000

16 de julho de 2000
Marcos 4.35-41

ISAG~GICOS
ASPECTOS
No episódio da tempestade e sua pacificação, a humanidade e deidade
de Jesus se destacam lado a lado. Por causa de cansaço físico, Ele dormia
durante o temporal. Não obstante, pelo Seu poder divino, Ele acalmou a
tempestade mediante mera palavra de comando.

A mesma passagem se conta em Mateus 8.23-27 e Lucas 8.22-25. No


barco agitado, os discípulos ficaram excitados e com medo, porém Jesus
dormia tranqüilo.

Quando o texto menciona a outra margem, está fazendo referência,


provavelmente, à margem leste do mar da Galiléia. Tempestades tremen-
das, às vezes, descem ainda hoje dos altos montes das redondezas, especi-
almente do Monte Hermon, atingindo com violência o lago de Quinerete
(OUde Tiberíades, como também é conhecido), 200 m abaixo do nível do
mar Mediterrâneo.

Dormindo - Jesus não era imune ao cansaço (Jo 4.6). Nüo te inzporta
- Contrasta-se a impetuosidade dos discípulos com a calma de Jesus (Lc

8.23). Seria natural que a Igreja primitiva, oprimida por fortes persegui-
ções, visse, nesta experiência, um paralelo com sua situação (muito cedo
um barco servia de símbolo da igreja na arte cristã). No meio de toda a
provação, Jesus está, realmente, com Sua Igreja, não havendo, portanto,
nenhuma razão para o temor, ainda que, aparentemente, Seu auxílio demo-
re chegar.

Acalrnu-te, emudece! - São as mesmas palavras pronunciadas por Je-


sus em 1.25 contra os demônios. Um dia, todo mal espiritual e material
serão afastados dos fiéis em Cristo (Ap 21.3,4).
Igreja Luterana - N 1 - 2000

TEXTUAIS
ASPECTOS
1 . A perícope está assim dividida: Nestle-Aland (4.35-41);TGNT (4.35-
41); ARA (4.35-41); BLH (4.35-41) e BJ (4.35-41).
2. Crítica Textual - Nestle-Aland, no versículo 36, apoiado pelos papiro5
Rul, possui uma variante, a saber, ploikría. O texto da TGNT, no
entanto, não possui nenhum registro de variação significativa.
3. Palavras e expressões - (v. 35) ofías (5 - 14) o entardecer, o fim
da tarde. genoménes, part. aor. de gínomai, tornar; gen.abs.
diéltomen subj. aor. diérxomai (2 - 42) passar por, atravessar.
Subj exortativo. (v.36) - qféntes, part. aor. afíemi, despedir, man-
dar embora. Paralamháno, levar junto. (v.37) - lailaps ( 1 - 3 )
uma tempestade furiosa, um furacão, rajada de vento. kurilu ( 1 -
4) onda. epéballen, impf. epibállo (4 - 18) jogar sobre, intr. Bater
sobre. "As ondas se jogavam dentro do barco". oste usado com
infinitivo para expressar resultado. éde, já. gemítzestai, inf. pres.
pass. gernítzo (2 - 9 ) encher, pass. Ficar cheio. (v.38) prúmerz (4 -
18) popa de um navio. kefálaion, travesseiro, almofada. Presumi-
damente um assento de remador, de madeira ou de couro, usado
como apoio para a cabeça; ou pode ter sido o travesseiro usual-
mente guardado para aqueles que não estavam envolvidos na na-
vegação ou pescaria. rnélei zoi: "Não é importante para ti?"
apollúmeta, "estamos perecendo". (v.39) diegerteis, part. aor.
pass. diegeíro (1 - 6 ) despertar, despertar completamente.
epetímesen, aor. epitirnáo, repreender, advertir severamente (ver
Mt 17.18). eípen, aor. légo. siôpa, pres. imp. siopdo ( 5 - 10)
estar em silêncio. pefímoso, imp. pass. perf. firnôo (2 - 7 ) amor-
daçar, silenciar. O perf. indica "colocar a mordaça e mantê-la ali".
ekópasen, aor. kopátzo (2 -3) ficar cansado, cessar. Usado na
LXX a respeito da água em repouso depois de uma tempestade ou
de uma inundação. galéne (1 - 3) calma. (v.40) dei1ó.s ( 1 - 3)
covarde, tímido. (v.41) efobétesan, aor. fobéomai, ter medo.
fóbos, ( 1 - 47) medo. upakoúei (2 - 21 ) escutar, obedecer.

TEOL~GICOS
ASPECTOS
Esquema do texto:
V. 35 - Tudo o que Marcos diz, nesta perícope, é que Jesus fez esta
proposta no final do dia quando ele havia pregado as parábolas
do barco. Depois a multidão que estava na praia foi despedida,
e Jesus foi primeiro para casa e explicou o significado das pará-
bolas privativamente (Mt 13.36). Quando uma nova multidão
se reuniu, Jesus deu a ordem para cruzarem o lago (Mt 8.18).
Igreja Luterana - No 1 - 2000

V. 36 - A despedida à multidão referida por Marcos é aquela que


aconteceu imediatamente após a pregação das parábolas.
Marcos omite o fato do retomo à casa em Cafamaum onde
Jesus explica o exato significado das parábolas aos discípulos;
o evangelista faz, apenas, uma modesta referência ao fato no
v.34. Mateus, em 8.23, conta-nos que Jesus entrou no barco e
seus discípulos o seguiram. Foi um dia duro de trabalho, e em
sua natureza humana, Jesus estava cansado. O detalhe de que
outros barcos os acompanharam é um detalhe encontrado ape-
nas neste evangelho, o que infere a idéia de que estes barcos
também foram assolados pela perigosa tempestade.

V. 37 - Um estudo sinótico das três narrativas do episódio da tempes-


tade é altamente interessante, pois mostra-nos a independência
de cada narrativa. A tempestade foi motivada pela providência
divina, em cujas mãos estão todas as forças da natureza. O
sono tranqüilo de Jesus é perfeitamente compreensível à partir
da certeza, em seu coração, e sua absoluta confiança no cuida-
do que teria Seu Pai para com Ele e para com todos.

V. 38 - Lucas menciona o fato de Jesus estar dormindo depois da


narrativa da tempestade; Mateus e Marcos fazem ao contrário,
inclusive eles são enfáticos que Jesus continuava dormindo en-
quanto transcorria a terrível tempestade. O alvoroço e o tumul-
to dos discípulos e o perigo das ondas não molestavam a Jesus
ou o acordavam. Este fato é insistentemente enfatizado pelo
texto. Os discípulos estavam agitados, mas Jesus dormia tran-
qüilo. Marcos recebeu os detalhes de Pedro de que Jesus esta-
va posicionado adormecido na popa do barco sobre o travessei-
ro, literalmente, "a coisa que tocava a cabeça"; o artigo indica
que este travesseiro sempre estava ali colocado.

Vv. 39 e 40 - Nestes versículos Jesus revela, simultaneamente, sua


essência divina, na qual até a natureza se curva diante de seu
poder; visto que, mesmo homem, não deixou de ser o próprio
Deus criador dos céus, da terra, das águas, etc.; e, por outro
lado, revela também seu "desapontamento" com o fato de que
os seus mais íntimos "companheiros" e alunos não conseguem
enxergar que estavam diante do Messias, Filho de Deus pro-
metido, e, em se tratando de Deus, estando na sua proteção,
nada deviam temer. Esta asserção fica evidente na repreensão:
"Por que sois assim tímidos? Como é que não tendes fé?"
Igreja Luterana - No 1 - 2000

V.41 - Mateus enfatiza o "surpreendente", Marcos o "medo" e Lucas


ambos "o medo e o surpreendente" neste fantástico milagre. A
pergunta que os discípulos deixaram no ar continua ecoando
nas lembranças de crentes e cépticos. Hoje, num período
racionalista, a resposta não se encontra na "gnose" teológica,
mas sim, na dica do próprio Jesus: " ... não tendes fé?"

Jonas Osmar Dietrich


Canoas. RS
Igreja Luterana - No 1 - 2000

23 de julho de 2000
Marcos 5.21-24a. 35-43

LEITURAS
DO DIA
O Salmo 121 apresenta palavras de confiança no Senhor, o qual está
sempre pronto a vir em socorro dos seus fiéis (v.4). O socorro, em tempo
de aflição, vem do Senhor todo-poderoso (v.2). O Senhor guarda e guarda
de todo o mal, tanto o corpo como a alma (v.7). Jeremias (Lm 3.22-33) fala
que as aflições são reais, mas Deus não se ausenta em situações assim. O
Senhor olha para a aflição de seu povo com misericórdia, trazendo espe-
rança, conforto e promessa (vv.22-24,29,32). Esperar com paciência e si-
lêncio é esperar em fé (vv.24-26). E mesmo entristecido, o fiel não será
desamparado, ainda há esperança. O Senhor vem com seu auxílio e usa de
compaixão para com o aflito e abatido (vv.29,32-33). O senhor vem em
socorro dos seus de forma surpreendente, seja por meio de irmãos na fé (2
Co 8.1-9,13-14), ou na pessoa de seu próprio Filho (Mc 5.21-24a,35-43). O
Senhor não desampara os seus e de forma misericordiosa, concede graça
sobre graça.

CONTEXTO
Marcos é um evangelho simples, sucinto e sem muito adornos. Todavia,
é um relato vívido do ministério de Jesus. Enfatiza muito mais os feitos de
Jesus do que as suas palavras. Marcos se move rapidamente de um episó-
dio a outro, quando narra a vida e o ministério de Jesus. Os advérbios
I I á h ~ ve ~ 6 8 =
6de
~ novo, outra vez, imediatamente, são uma característi-
ca deste evangelho. A ênfase de Marcos está em responder à pergunta:
"quem é Jesus?" E logo de início ele responde "Jesus Cristo (é) Filho de
Deus" (Mc 1.1). Jesus é apresentado na qualidade do poderoso e autoriza-
do Filho de Deus. Jesus está constantemente em movimento, basta obser-
varmos o nosso contexto: ensinando os discípulos (Mc 4.1-34.); fazendo
milagres (Mc 4.35-41, Mc 5.21-43); expulsando demônios (Mc 5.1-20) e
confrontando adversúrios (Mc 6.1-6).
Igreja Luterana - N 1 - 2000

O pregador atento logo irá perceber que a perícope proposta para este
Domingo é um crescendo em relação a do Domingo anterior (Mc 4.35-41 ).
Na primeira vemos um Jesus manifestando seu poder sobre a natureza;
agora, vemos um Jesus que tem autoridade sobre a morte. O ponto central
do texto é a pessoa e a obra de Cristo e o poder de sua palavra vivificadora.
Esta é a atividade redentora de Jesus, a qual culmina com sua paixão, mor-
te e ressurreição.

TEXTO
Vv. 21-23: Jairo, um cZpx~auvayWywv = oficial, proeminente líder da
sinagoga em Cafamaum - certamente alguém muito conhecido
na cidade. Pois este homem importante e influente, agora tenta
a sua última cartada, já que todos os outros recursos e remédios
não haviam surtido efeito. Humildemente se coloca aos pés de
Jesus e intercede por sua filha que está à beira da morte. Aqui
seria interessante fazer uma comparação entre Jairo e o
centurião - também de Cafarnaum. O centurião, um gentio,
apenas pede um palavra de Jesus, pois ele cria que seria sufici-
ente para que o seu rapaz fosse curado (Mt.8.5-13). Jairo, ape-
sar de ser judeu, e líder da sinagoga, crê que seja necessária a
presença de Cristo, e que, se possível, que ele coloque suas
mãos sobre sua filha.

Vv.24 e 35-36: A fé, mesmo que débil, estava presente. Muitos líderes
judeus haviam rejeitado a Cristo, mas Jairo veio ao seu encon-
tro. Sua esperança - aumenta, quando vê Jesus ir coni ele, logo
em seguida - é testada, quando Jesus é interrompido pela mu-
lher enferma e, finalmente - cai por terra, quando, após o atra-
so, chega a notícia de que a menina já havia morrido. A cura
parecia tão próxima, mas a morte extinguiu totalmente a espe-
rança.

Então Jesus fala - suas primeiras palavras registradas em nosso texto:


pfi Qopo8 , póvov ~ r í o t ~ uJesus
~ . se dirige apenas a Jairo e não aos
mensageiros. Há uma proibição e uma ordem nas palavras de Jesus, e
ambas são dadas no presente - pára de temer e continua crendo. Jesus
põe fim ao medo e encoraja Jairo a continuar crendo. A fé precisa estar
fundamentada em Cristo e não simplesmente em seus feitos. Em seu
coração, Jairo certamente se recorda das palavras que Jesus dissera à
mulher a respeito da fé (v.34), e então, conclui que precisa crer assim
como ela creu.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Quando tudo parece perdido, o crente coloca a sua confiança em Deus


e é atendido. Assim foi com Abraão (Gn 22.2), Moisés (Êx 14.1Os, Davi (1
Sm 17.44-47) e Josafá (2 Cr 20.1 -2,12).

V.37: A dupla negação o ú ~oú6~vatorna a negação mais enfática: abso-


lutamente ninguém. Levando consigo Pedro, Tiago e João, não
apenas por serem mais íntimos de Jesus (o mesmo grupo presen-
te na transfiguração - Mc 9.2 e no jardim do Getsêmani - Mc
14.33), mas certamente para testemunharem (prática comum a
época) o que estava para acontecer.

Vv.38-40: A morte reinava na casa de Jairo. O burburinho era grande: o


choro dos familiares, o pranto "pago" das carpideiras e a música
dos flautistas (cf. Mt 9.23) completavam o lúgubre quadro. Hu-
manamente falando, era o fim; da perspectiva de Jesus, não! A
segunda fala de Jesus no texto é cheia de poder e promessa. Ele
afirma que quem está dormindo pode ser acordado! Longe de ser
o fim, Jesus acena com a continuidade da vida - a ressurreição!

O "dormir" era uma realidade para Cristo, no caso dos parentes e os


discípulos era algo ainda vago, que ficaria evidente apenas pela fé. Cristo
iria confirmar essa verdade - "a criança apenas dorme".

Os profissionais do luto - carpideiras e tocadores de flauta, riram diante


das palavras de Jesus. Para eles, a morte era algo do seu dia a dia. Esta-
vam acostumados a chorar e a tocar nos funerais, mas sem nenhuma sin-
ceridade ou sentimento. Eles riem, e o seu riso é causado pela descrença.
A esperança dos crentes é objeto de zombaria dos descrentes.

Nada detém Jesus. Ele manda que os pranteadores saiam da casa, de-
monstrando assim que o seu serviço já não era mais necessário.

Vv.4 1-42: O choro e o barulho da música não conseguiram abafar o silên-


cio da morte. É preciso a intervenção de Jesus para que ocorra
uma mudança radical. Jesus toca a menina, mas não é o seu toque
que a vivifica. O seu toque é apenas para ajudá-la a se levantar. A
vida para aquele corpo inerte vem das palavras - r a h ~ 8 a~ 0 u k . A
terceira palavra de Jesus em nosso texto. A palavra poderosa de
Jesus alcança até mesmo os mortos. E aqui não é uma questão de
volume; se fosse assim, as carpideiras e os tocadores de flauta
teriam dado conta do recado. Aqui se trata de autoridade - reforça-
da pela expressão ao1 híyw. O Filho de Deus (Mc I .I), o Senhor
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

da morte e da vida é quem está ordenando! Assim foi com Lázaro


(Jo 1 1.43) e com o filho da viúva da Naim (Lc 7.14).

V.43: Cristo - Gt~atcihatoa ú r o i ~dá uma ordem explícita as testemunhas


do milagre (v.40), especialmente aos pais (cf. Lc 8.56), que guar-
dem silêncio a respeito do ocorrido. Por que Jesus deu tal ordem?
As pessoas não iriam descobrir de qualquer forma? Jesus não que-
ria nenhum entusiasmo fanático ou extravagante, o que certamente
seria um elemento perturbador no progresso da fé. Ele não queria
levantar falsas esperanças messiânicas a seu respeito, mas certa-
mente queria que as testemunhas do milagre refletissem sobre sua
autoridade, sua divindade e o poder de sua palavra.

A menina se levanta e começa a andar (v.42) então Jesus pede que


dêem de comer à menina. Qual a razão? Podemos apontar algumas:

1) uma prova que a menina realmente estava viva;


2) também demonstra que a sua enfermidade, seja ela qual fosse, havia
terminado; e ainda,
3) em sua grande alegria, os pais e familiares poderiam esquecer de fazê-lo.

A perícope nos ensina que precisamos nos aproximar de Cristo em fé e


pacientemente esperar até que ele aja a seu tempo e a seu modo. Jairo
precisou aprender essa lição também. Jesus não é um mero curandeiro,
mas o poderoso Deus, que tem poder sobre a morte. A vida surge de sua
palavra infalível e poderosa. A palavra de Cristo, que oferece vida no texto
de hoje, é a mesma palavra que nos assegura que também viveremos. Ele
promete que dará uma gloriosa ressurreição e a vida eterna a todo aquele
que nele crer (Jo 5.28-29; 6.40). Os mortos, de fato, ouvem a voz de Cristo,
afinal, Ele é o Verbo da vida.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Devido à característica do texto, sugiro que o pregador aproveite o pró-
prio enredo do texto para desenvolver o seu sermão. O sermão necessari-
amente não precisa ser dividido em tema e partes, mas basta seguir a pró-
pria seqüência que o Espírito Santo propõe no texto. Um pensamento que
poderia orientar essa reflexão seria o contraste entre: pecado - morte -
silêncio e, Cristo - Verbo (Palavra) - vida.

E l y Prieto
Igreja Luterana - No1 - 2000

30 de julho de 2000
Marcos 6.1-6

CONTEXTO
Há consenso na teologia bíblica de que não é possível classificar o tre-
cho que começa com esta narrativa até 8.26 numa sequência lógica de
relatos históricos. Esta sequência firme só volta a partir de 8.27. O nosso
texto, portanto, não tem um contexto literário ou histórico fixo em Marcos.
Contrariamente a Lucas no texto paralelo (4.1 6ss), que situa o relato logo
após a tentação d e Jesus no deserto, fazendo-o encabeçar
progran~aticamenteo evangelho e a atividade de Jesus com a mensagem
clara de que a oferta do Reino de Deus dirigiu-se em primeiro lugar aos
judeus, mais especificamente aos da sua terra e casa, a narrativa de Mar-
cos é isolada, e tem uma função e importância independentes: nela se inten-
sifica a convicção geral e popular - que já "justificou" mais de um "fracas-
so", seja de que natureza for - de que "santo de casa não faz milagre". Mas
Jesus, faz ou não faz? A verdade do dito popular é absoluta? Vamos expor
isso a comunidade, que vive muito de ditos e de sabedoria popular.

TEXTO:
EXEGESE E MEDITAÇÁO
V. 1 - "...foi para a sua terra". Nazaré (cf. Lc 4.16) da Galiléia, povoado
galileu ao norte da planície de Esdrelon, tornou-se renomada
por ter sido a residência da família de Jesus até o seu batismo.
Nela se encontra hoje a Basílica da Anunciação e o Santuário
da Nutrição - simbolizando respectivamente as casas de Maria
e José, - edificados sucessivamente do 4" século em diante.
Era apatrís (pátria) de Jesus. Ali aprendeu a profissão de José,
ali, já moço feito, chorou, com Maria, a morte de José. Dali saiu
para a intensa atividade que chamamos o seu "ministério" (1.9).
Agora volta para lá.

V. 2 - Indo à sinagoga, e lá participando ativamente da assembléia (cf. o


paralelo de Lc 4.1 8 e 19), força os seus compatriotas a toma-
rem posição frente a ele de uma maneira especial. Na homilia,
Igreja Luterana - N 1 - 2000

o convidado relaciona o texto messiânico de Isaías 61 à sua


própria pessoa. Por Lucas sabemos que a homilia de Jesus,
precedida pela lectio continua da Torú, e que faculta a livre
escolha de um texto dos livros históricos ou proféticos para es-
clarecer a Lei, começa por sémeron. Numa curta mas pene-
trante explicação ele mostra que agora, "hoje" e nele está
irrompendo, advindo o tempo da salvação e do consolo divinos,
o tempo do Reinado de Deus, o tempo da libertação de todo
cativeiro do pecado, do egoísmo, da morte e da rejeição. Com-
preenda-se este texto, e especialmente a reação dos ouvintes
na sinagoga, na complementaridade de Lucas 4. Primeiro, exci-
tam-se em em ardente admiração. Estão maravilhados. O que
temos aqui? A pequena burguesia nazarena explodindo de ad-
miração e orgulho diante de um conterrâneo tão especial; o que
ainda acontece hoje com candidatos às eleições que se fortale-
cem para a campanha no banho da admiração, da recepção
calorosa e do apoio do seu reduto familiar e de sua cidade natal.

Mas logo o "tempo" mudou. Sim, virou. Por quê? Como compreender
isso? São vários fatores que trazem ao céu radiante da admiração dos nazarenos
as negras nuvens do escândalo e da rejeição. É um sentimento misto de
inferioridade e de superioridade. A mensagem de Jesus dirije-se aos nazarenos,
onde os qualifica de pobres cativos oprimidos. De necessitados da salvação.
E Jesus omite o juízo sobre as nações pagãs. Quem é visado são os nazarenos,
não os pagãos. Disto se dando conta, sua admiração se transforma em des-
gosto, ira e rejeiçáo. Porque aqui há um sentimento geral de conforto e supe-
rioridade: os materialmente mais abastados galileus não escapam da convic-
ção de serem ricos e sãos, e, como descendentes de Abraão, não necessitan-
do de mais nada em sua realidade religiosa. Por isso a mensagem de quem
lhes diz serem eles os infelizes, miseráveis, pobres cegos e nus (veja Ap 3.17)
não pode ser recebida. A admiração inicial deles era uma auto-admiração
coletiva. Eles estavam orgulhosos de si mesmos. Jesus lhes servira, por algu-
mas horas, de agente que os suprisse com a vaidade e o orgulho étnico e
regional. Mas a sua palavra faz deles mendigos e doentes que precisam da
salvação. A resistência deles é justamente esta: contra o reconhecimento de
seu próprio fracasso e de sua situação miserável diante de Deus. Este profe-
ta não se enquadrava na sua compreensão idílica da religião. Sua mensagem
não "deixava tudo como está", mas provocava uma reação profunda no inte-
rior dos ouvintes. E aqui se fundamenta o "quem comigo não ajunta, espa-
lha": ou se aceita a sua mensagem deixando-se cair as mãos e jogando-se a
toalha, ou rejeita-se a mensagem armando-se de paus e pedras. Mas onde a
palavra do Reino de Deus é aceita, termina o aconchego da religiosidade
Igreja Luterana - N 1 - 2000

superficial baseada em méritos próprios adquiridos, que faz de Deus o pró-


prio guardião desta religiosidade institucional. Ali a nudez é desvendada, a
miserabilidade trazida à luz do dia. Ali o ser humano é levado a dizer a Deus,
sedento de verdadeira comunhão restauradora: eu creio, ajuda-me na minha
falta de fé!

Mas isto os nazarenos não fizeram. Ao orgulho mescla-se uma certa


"inferioridade": um de nós nos dizendo isso? Quem és tu, filho de José?
Quem achas que és? Não passas de um de nós!

V. 3 - "[ ...I não vivem aqui entre nós [...I?". O Reino de Deus não pode
estar tão perto. Por ser de tão perto e tão humano e tão banal (o
filho do carpinteiro e o filho de Maria) o que traz a mensagem, por
isso a estranhez da própria mensagem justifica-se como não legí-
tima. Por isso é tão chocante o que ele diz, porque ele está entre
nós. Adelfós, adelfai, ele nos é tão próximo que é quase um
irmão. Póten? Tis? De onde lhe vem isso? Que sabedoria é essa?
"E escandalizavam-se nele." Neste não pode estar a voz de Deus.
Tudo isso só pode ser - assim se conclui - uma esquizofrenia ou
loucura extática, ou obra de Belzebu (confira Mc 3,31+22).

V. 4 - "Não há profeta sem honra senão [...I entre os seus parentes".


Nesta declaração fica claro que Jesus de Nazaré compreende a
si mesmo como profeta; ele o expressa publicamente, e assume o
destino dos profetas, que começa com a rejeição pelos seus e que
culminará com sua morte em Jerusalém, "que mata os profetas".
O pregador não deixe de introduzir nesta reflexão Jo 1 . 1 1 : "veio
para o que era seu, mas os seus não o receberam". Interessante
notar que no Evangelho copta de São Tomas, apócrifo judeu-cris-
tão, consta: "Jesus disse: nenhum profeta é agradável em sua
própria cidade, e nenhum médico cura os que o conhecem" (cf.
Grundmann p. 122; confira o paralelo de Lc 4).

V. 5 - "não pôde [...I ali [...I". Não há necessidade de especulação sobre


a modalidade da força que opera através de e em Jesus os sinais
(semeion) e milagres (dymnamis, neste caso) na relação com os
outros. Compreendemos que Deus não impõe seu Reino ao ho-
mem. Ele só advém para aqueles que o recebem "como uma
criança". Se Nazaré rejeita a vinda dinâmica (e daí, salvífica) de
Deus em seu Reino, o Reino se dirigirá a outros. Jesus se dirige
às aldeias circunvizinhas. Segundo Lucas, ele vai ao distante
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Cafarnaum, e lá encontra terra fértil. Nazaré, como Jerusalém, é


rejeitada. Deus nada impõe. Deixa-os correr. Só que escolhem
correr para longe daquele que é a vida. Aqui creio oportuno tra-
zer o estudo de Schuler: "Investido de poder (dymnamis),Deus é
o fundamento da vida e da ordem. Para os olhos iluminados dos
que crêem, toda manifestação de vida repousa sobre Deus. Pesa
uma sentença de morte sobre a criatura humana desde a primeira
desobediência. Para os que têm ciência disto, a vida se desloca
na esfera do excepcional, já que o normal é a morte; excepcional
é a ordem, já que o normal é o processo de desorganizaçiío. A
dymnamis investida na criação do mundo volta a se manifestar na
preservação e redenção do mundoW(p.77).

Os nazarenos rechaçam esta dymnamis. A verdade é que o caminho


para o conhecimento da vida que Jesus traz não contorna a capitulação do
pecador diante de sua doxa, mas passa bem no meio desta capitulação. Só
quando o pecador jogou a toalha, pode receber o que Deus tem para dar.
Para a meditação homilética, creio oportuno ainda trazer aqui, no final, as
reflexões de Maillot:

"É a humanidade de Cristo que os impede de crer e de reconhecer


Jesus. Eles se chocam nela, e assim aquilo que deveria ajudá-los a aproxi-
mar-se do Reino (Deus que nos fala através de um homem) os distancia, os
faz cair, os escandaliza. Se você custa a compreender isso, pense nos mo-
mentos em que você ouviu um ministro do evangelho, um homem banal,
dizer a você coisas que o admiravam, mas onde você pensou: não é possí-
vel, sabemos como ele é feito, é um pobre coitado! Vocês também, leitores
(e ouvintes), vocês se escandalizaram às vezes por Deus aproximar-se de
vocês por meio de alguém que era como vocês. Não disqualifiquem, pois, a
palavra que vocês ouvem por meio da banalidade dos homens que vocês
enxergam. Isto é a incredulidade! (do v. 5). E Jesus está paralizado por esta
incredulidade. Jesus está paralizado porque sua humanidade, prova do amor
de Deus, toma-se um álibi para se não crer. Ele está mesmo admirado
(etaumuzen),v. 6 , enquanto que normalmente são as pessoas que se admi-
ram das suas obras de misericórdia. Aqui Jesus se admira pelo fato de se
poder aqui transformar as provas do amor de Deus em provas dos feitos do
diabo. Um só vez mais ele se admirará no evangelho: será diante da fé de
um pagão (Mt 8.10). Mas a incredulidade humana finalmente é mais estu-
penda do que o maior dos milagres. Que a humanidade tão visível da Igreja,
ao invés de nos servir de álibi para nos desafiar, seja para nós a ocasião de
melhor crer que Deus realmente quis se servir de homens verdadeiros (por-
tanto, de todos nós) para construir o seu Reino!" (p. 14s)
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Na verdade não tanta distância entre a cidade natal de Jesus e nossa


cidade, entre aquele povo e nós. Nós somos pessoas que conhecemos Je-
sus e ouvimos seu chamado a fé. Que possamos responder, não com ceti-
cismo ou ares de superioridade, mas com alegria e receptividade, fazendo
dele um profeta honrado entre nós, e um salvador amado entre os seus
irmãos e irmãs.

SUGESTÃO DE TEMA
"Emanu-el demais?" Talvez se explore aqui a idéia da revelação da
vida de Deus através da humanidade de "um dos nossos". Os dynama e
sinais estão aí. Que tenhamos olhos para vê-los, e mãos estendidas para
receber o Cristo que vem nos trazer o Reino de Deus! "Hoje", Cf. Lucas 4!

LITERATURA
- Danieli, Giuseppe. São José na Bíblia. A. e H. Dall' Alba, trads. Caxias

do Sul: Paulinas, 1969.


- Grundmann, Walter. Das Evangelium nach Lukus. Theologischer
Handkommentar zum Neuen Testament, vol. 3. Berlin: Evangelische
Verlagsanstalt, 1984").
- Maillot, Alphonse. Reposez-vous. Notes Homilétiques. Quelques
dimanches de I'été. Paris: Mission Intérieure de I'Eglise Evangélique
Luthérienne, s.d.
- Schabert, Amold. Das Markus-Evangelium. Eine Auslegung fur die
Gemeinde. Munchen: Claidiu Verlag, 1964.
- Schniewind, Julius. Das Evangelium nach Markus. In: Das Neue
Testament Deutsch. Vol 1. Gottingen: Vandenhoek&Ruprecht, 1958.
- Schuler, Donaldo. Jesus faz milagres? Uma análise de João 2.1 -22.
Estudos Teológicos, 1983, n O l ,73-78.
- Theologisches Begriffslexikon Zum Neuen Testament. Lothar Coenen
et al., ed. Wuppertal - Munchen - Thun: R. Brockhaus, 1993" (Artigos:
Dynumis, Tauma, Semeion, Teras, pp. 922ss, 1443s~).
- Wismar, Gregory J. Amazing! CPR, vo1.4, 1994,31-32.

Dr. Munfred Zeuch


Canoas, RS
-
Igreja Luterana No 1 - 2000

6 de agosto de 2000
Marcos 6.7-13

CONTEXTO
No início do capítulo 6 Jesus prega em Nazaré e lá a sua mensagem não
é aceita. Jesus é rejeitado pelos seus. Eles se escandalizaram nele. Mas
tudo isto não o desencorajou e nem o levou a abandonar a sua obra em
favor dos outros - fato que deve ter a sua relevância para nós e para o nosso
trabalho na obra do Senhor. E enquanto continuava a sua jornada pelas
aldeias circunvizinhas, continuava ensinando os seus discípulos.

0 TEXTO
V. 7: Jesus chama os 12 e os envia para a missão. É desejo de Jesus
que o seu reino se estenda através da proclamação de seus
discípulos. Jesus os envia de dois em dois. Como parte de seu
equipamento recebem autoridade sobre espíritos imundos, so-
bre demônios que estavam atormentando a vida das pessoas.
Este poder, acima de sua natureza humana, daria a devida
credibilidade para as suas palavras.

Vv. 8-9: A sua bagagem para a viagem deveria ficar no mínimo possível.
Ele, literalmente, lhes deu instruções para que não levassem nada
na sua viagem, nem pão, nem alforje (sacola ou saco de viagem),
somente deviam ter suas sandálias e nem duas túnicas deveriam
levar. Jesus deixa claro para eles que todas estas coisas não são
necessárias para o seu trabalho de pregação. Eles não estavam se
preparando para fazer um passeio, mas estavam se preparando
para um ministério: o ministério da Palavra. Aqueles que servem o
evangelho não podem ficar pesados com bagagens deste mundo,
para não prejudicar a sua agilidade e eficiência com a Palavra de
Deus. Lutero diz que os ministros da Palavra não deveriam fazer
ou falar nada por interesse em dinheiro, honra ou bens. Ele diz que
o ministério da Palavra procura algo diferente, tem um objetivo di-
ferente, ou seja, a salvação eterna e a honra de Deus.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Vv.10-11: E Jesus lhes dá mais algumas recomendações: na primeira


casa que os abrigasse, nesta casa deveriam permanecer todo o
tempo de sua estada. Eles não deveriam perder tempo procu-
rando um bom lugar para ficar, para não serem acusados de
parcialidade, preferindo um lugar em detrimento de outro. Se,
no entanto, não fossem recebidos e a sua palavra não fosse
acolhida em algum lugar, cidade ou vila, deveriam deixar aquele
lugar. E ao fazerem isto deveriam sacudir o pó, não somente de
suas sandálias, mas também de sua roupa. Isto significava que
aquelas pessoas eram colocadas no mesmo nível dos gentios e
era também um testemunho de que sobre aquelas pessoas pe-
sava a condenação e o juízo de Deus. Assim como foram con-
denados os habitantes das cidades de Sodoma e Gomorra, que
desprezaram a Palavra de Deus, do mesmo modo pesava sobre
aquelas cidades o juízo de Deus.

Vv. 12-13: E os doze seguiram as instruções do Mestre. Eles pregaram


para as pessoas e as curaram. A grande ênfase de sua prega-
ção era a necessidade de arrependimento, para que a doce men-
sagem do Evangelho encontrasse pronta acolhida. O evangelista
Marcos ainda relata que eles expeliram muitos demônios e cu-
raram muitos doentes aplicando-lhes ungüentos. O poder do
Senhor estava com eles, conforme a Sua promessa.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: Evangelizar: a ordem e o modelo de Jesus

I - Jesus chama e envia


I1 - Jesus dá instruções precisas
I11 - A mensagem que vai ao encontro da necessidade do povo

Murio Lehenhaiier
Porto Alegre, RS
Igreja Luterana - No 1 - 2000

I3 de agosto de 2000
Marcos 6.30-34

Era o ano 32 d.C. Jesus se tomara uma figura popular. Seu prestígio
estava no auge. Suas pregações atraíam multidões. Crescia o número que
o reconheciam como o Messias. Por outro, a oposição, liderada pelos fariseus
e estribas, começara a inquietar-se. Não o reconhecia como Messias. Ti-
nha-lhe inveja do sucesso (Mt 7.28,29). O próprio rei Herodes Antipas, que
mandara decapitar João Batista (Mc 6.14-28) inquietou-se. Sua consciên-
cia o fez tremer de medo. Para ele Jesus era João Batista ressuscitado.
Assim temia uma possível vingança.

Entrementes, Jesus preparara seus discípulos para a futura tarefa de


apóstolos. De dois a dois ( Mc 6.7 ss) os enviara a anunciar o "reino de
Deusf'(Lc 9.2), - o "evangelho" (Lc 9.6). De regresso da missão, os discí-
pulos apresentaram a Jesus um relatório, de "tudo quanto haviam feito e
ensinado" (Mc 6.30). Jesus reconhece-lhes o esforço, a dedicação, o amor,
destes dias em que foram à procura das "ovelhas perdidas da casa de
Israel" (Mt 10.6).

E como ali onde se encontravam não havia condições para um diálogo


maior em compartilhar experiências (Mc 6.31), Jesus os convida a um "re-
tiro espiritual" : "Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto"
(Mc 6.31). O objetivo de Jesus era ficar a sós com seus discípulos. Ouvi-
10s livre de interferências. Aconselhá-los pessoalmente. Instruí-10s mais
acuradamente. Prepará-los para a futura "Grande Comissão" do IDE (Mt
28.19,20. Como se encontravam numa localidade junto ao Lago de Genezaré,
resolveram embarcar a sós num barco, talvez de propriedade de um dos
discípulos, e navegar para o noroeste, para um lugar solitário, onde pudes-
sem descansar e dialogar tranqüilamente (Mc 6.32).

Acontece, porém, que o plano vazou. Espalhou-se a notícia entre o povo:


Jesus e seus discípulos estão navegando para Betsaida (Lc 9.10). Assim,
enquanto o Mestre e seus discípulos estavam navegando tranqüilamente
-
Igreja Luterana - No 1 2000

através do Lago de Genezaré, o povo fez o trajeto de c. de 8 km a pé,


margeando o lago. E na medida em que estas pessoas atravessavam vilas e
povoados que margeavam o lago, convidavam a população a acompanhá-
10s ao grande encontro com Jesus. Assim, quando Jesus desembarcou em
Betsaida, viu surpreso diante de si uma grande multidão de pessoas, ávida
em ouvir sua palavra, ansiosa pela cura dos seus enfermos (Mc 6.33).

Qual foi a reação de Jesus? Sentiu-se frustrado por não poder repousar
com seus discípulos? Mandou que voltassem outro dia?

Não !

Pelo contrário: "compadeceu-se deles" (Mc 6.34).

Por quê? "porque eram ovelhas que não têm pastor" (Mc 6.34)

Como assim? Não tinham eles os sacerdotes, os escribas, responsáveis


pela instrução espiritual? Certamente que sim! Mas estes na sua grande
maioria não cumpriam com suas obrigações pastorais. Não lhes transmiti-
am e nem lhes ensinavam a palavra de Deus. Não tinham autoridade para
ensinar a lei do SENHOR, uma vez que a vida pessoal não condizia com o
que pretendiam ensinar (Mt 7.28,29). Eram hipócritas (Mt 15.7s; Mt 22.18;
Mt 23.1 3). Mercenários (Jo 10.12). Faziam da religião um ato comercial
(Mt 21.12-17; Mc 11.15-19). E principalmente não lhes tinham amor (Jo
10.12,13). Podemos assim compreender esta grande multidão que se aglo-
merou junto ao porto de Betsaida, antes do desembarque de Jesus (Mc
6.33). Todos queriam ser os primeiros em recepcionar a Jesus. Ninguém
queria perder nenhuma palavra do Mestre. Tinham fome e sede da palavra
de Deus. Daí o compadecer-se de Jesus. Transferiu o seu "repouso" (Mc
6.3 1 ) com seus discípulos. O apascentar as ovelhas sempre tem preferên-
cia. Por isso mesmo Jesus é o Bom Pastor (Jo 10.11). E como Bom Pastor
"passou a ensinar-lhes muitas cousas" (Mc 6.34).

Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão!


1 . Compadeceu-se deles.
2. Por que eram como ovelhas que não têm pastor.
3. E passou a ensinar-lhes muitas cousas.

Walter O. Steyer
Sáo Leopoldo, RS
Igreja Luterana - No 1 - 2000

20 de agosto de 2000
João 61-15

INTRODUÇÃO
O capítulo 6 de João é uma "cunha" nas leituras Bíblicas desta série -
trienal B, que se ocupa com o evangelho de Marcos. São 5 domingos (10"
ao 14") que se ocupam com o capítulo 6 do Evangelho de João. Neste
capítulo, Jesus se apresenta: "Eu sou o Pão da vida" João 6.35b.

CONTEXTO
A história da multiplicação dos pães é o único milagre de Jesus que se
narra em todos os 4 evangelhos: Mateus 14.13-33; Marcos 6.32-52 e Lucas
9. 10-17.

Esta história tem lugar perto da praia do mar da Galiléia. Um lugar que
existe a 3 km ao sudoeste da foz do Jordão.(H.H.Harley). Aconteceu um
ano antes da morte de Jesus, quando as pessoas que passavam, se dirigiam
a Jerusalém. Esta páscoa Jesus não passou em Jerusalém, por causa de
haverem conspirado matá-lo em sua visita anterior - Jo 5.1- 18. Talvez foi a
única Páscoa que deixou de estar presente, em Jerusalém, desde seus 12
anos de idade. Mas celebrou-a, fazendo um de seus mais belos milagres,
para as multidões que se dirigiam àquela festa.

"Jesus realizou tal milagre durante a estação primaveril da Páscoa, exa-


tamente o tempo do ano em que os judeus esperavam que o Messias se
manifestasse. Outrossim, os judeus esperavam que o Messias repetisse o
milagre veterotestamentário do maná, alimentando-os qual um segundo
Moisés, por ocasião do grande banquete apocalíptico. Os Papiros do Mar
Morto contêm instruções sobre o arranjo das mesas, por ocasião desse
banquete. Conseqüentemente, quando Jesus alimentou miraculosamente a
multidão (precisamente o que os judeus esperavam que o Messias fizesse),
quando do período da Páscoa (exatamente quando esperavam que o Mes-
sias se manifestasse abertamente como o Messias) as turbas se adianta-
Igreja Luterana - No 1 - 2000

ram no intuito de declararem-no rei." R.H.Grundy- Panorama do N.7:


pg. 166-167.

CONSIDERAÇ~ES
SOBRE O TEXTO
Vv. 1-4 - A fama de Jesus já havia atravessado fronteiras. Um povo
carente, em todos os sentidos, busca auxílio, ajuda e alívio para
o seu sofrimento. Mas também ".....o seguia porque tinham vis-
to seus milagres ......"
V.2 - Deve-se ter cuidado para não apresentar um Cristo milagreiro. A
tentação do pão fácil está sempre presente. Cristo não quer ser
reconhecido como aquele que resolve apenas os problemas
materiais. Mas sim, como o Senhor e Salvador.

Vv. 5-6 - Jesus conhece a doença e também o remédio. Ele conhece o


problema, mas também tem a solução. Jesus quer ver até onde
vai a confiança daqueles que o seguem. Quais os planos e ca-
minhos que os homens tomam. Onde e em quem está, (segundo
os homens) a solução.

Jesus quer que confiemos nele - pois ele pode e quer nos ajudar. Jesus
também quer atuar através dos cristãos, que, confiando nele, têm condi-
ções de ajudar as multidões necessitadas.

Vv. 6-9 - O objetivo de Jesus, ao final desta história, é fortalecer a fé


dos seus discípulos, e mostrar que eles estavam querendo bus-
car solução em outros, e em lugares distantes. Mas a solução
estava ali - em Jesus. No v. 9 os discípulos se sentem inúteis,
diante de um tão grande problema. O desafio que têm diante de
si é maior do que a capacidade de enfrentá-lo e vencê-lo. Os
discípulos não enxergavam a solução, mas esta estava bem di-
ante deles.(Lembrar os ouvintes de quantas vezes buscaram
ajuda, até onde Deus proibia, para terem seus problemas resol-
vidos: doenças, problemas financeiros (feiticeiros, magia negra,
benzedores, crendices populares, etc..).

Vv. 10- 13 - Conforme Marcos 6.39-40 - Podemos notar que Jesus gos-
tava de ordem: "Fez o povo sentar em grupos de 50 e 100.
Provavelmente dispostos ao redor dele, num círculo ou senlicír-
culo. Agora, com a situação organizada e tudo em ordem, fica-
va mais fácil o atendimento, evitava exclusões e consequente-
mente - reclamação e insatisfação. "...deu graças a Deus e os
Igreja Luterana - N 1 - 2000

distribuiu a todos". Aqui vale a pergunta: Damos graças a Deus


pelo pão nosso de cada dia? (Cfe. Explicação de Lutero so-
bre a 4" Petição - tudo o que pertence ao sustento e as neces-
sidades da vida). Muitas vezes, apesar de termos o suficiente,
não reclamamos - sendo assim, ingratos? O apóstolo Paulo es-
creve aos Filipenses (4.1 1) dizendo: " Aprendi a viver contente,
em toda e qualquer situação". E a Timóteo (1 Tm 6.8) ele diz: "
Tendo sustento, e com que nos vestir, estejamos contentes". E
em Hb 13.5 diz: "Contentai-vos com as coisas que tendes".
Ainda em 1 Ts 5.1 8 diz: " Em tudo dai graças...".

"...para não se perder nada,...". Depois que todos estavam fartos, vem
uma aula de "boa administração". A administração cristã condena o des-
perdício, o esbanjamento, o gasto desnecessário. Há tanta pobreza no mun-
do, vamos jogar no lixo o que poderia estar na mesa de um necessitado
faminto? (Aqui pode-se refletir sobre a ação social, realizada pela congre-
gação. O que a congregação está fazendo em prol dos: pedintes, pobres,
sem teto, sem saúde, sem emprego e pelos "sem-ninguém"). As nossas
congregação praticam a verdadeira ação social? Ou só distribuem alimen-
to, roupa e remédios?

Vv. 14-15 "Bucho cheio", sem o menor esforço. "Existe coisa melhor?
É de um governador, de um rei assim que precisamos ...e que-
remos. Com ele teremos o paraíso aqui na terra. Liberdade
política, saúde permanente, fartura sem trabalho e sem esfor-
ço". Assim pensava o povo.

Jesus se decepciona. Apesar de todas as profecias do Antigo Testa-


mento, o povo não via com clareza a figura do Messias e sua obra redento-
ra. A multidão não reconhece que a vinda do Messias ao mundo era para
"salvar o seu povo dos pecados deles".

"...então voltou outra vez sozinho para o monte". Mateus (14.23) diz: "a
fim de orar sozinho". Ele vai falar com o Pai sobre a sua missão no mundo.
Vai compartilhar a tristeza de lidar com um povo espiritualmente cego.

A sua retirada de entre a multidão é um sinal de Juízo Divino sobre os


pecadores que não reconhecem Jesus como o "Autor da Salvação
Eternam(Hb5.9). Mas por outro lado - Jesus vai interceder junto ao Pai por
estas pobres criaturas, como o fez um ano mais tarde - num outro monte,
pendurado numa cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"
(Lc 23.34).
-
Igreja Luterana - N" 1 2000

PROPOSTA HOMILÉTICA
Tema: Jesus é a solução sempre presente

I - Pois nos dá graciosamente o pão de cada dia


I1 - É o pão que sacia a nossa fome espiritual
111 - Nos dá a Vida Eterna.

Wilmar Meister
São Leopoldo, RS
Igreja Luterana - N 1 - 2000

27 de agosto de 2000
João 6.24-35

CONTEXTO
DA PERÍCOPE
É compreensível que um povo dominado pelos romanos tenha o anseio
por liberdade e o desejo de proclamar rei alguém que possa devolver a eles
os áureos tempos do reinado de Davi. Não é para menos que, diante da
multiplicação dos pães (6.1-15 ) , "estavam dispostos a arrebatá-lo para o
proclamarem rei...". Por esse motivo Jesus retirou-se deles. Vendo que o
barco continuava à beira-mar e que Jesus não estava mais ali, o povo (
multidão ) saiu à sua procura. Atravessaram o mar de Tiberíades e foram
para Cafamaum. Ao encontrá-lo ... , segue-se o diálogo registrado em nos-
sa perícope.

EXEGESE
DO TEXTO
Os versículos 22 e 23 poderiam fazer parte da perícope, mas, por algum
motivo são omitidos. Seria porque trazem algumas dificuldades ao intérpre-
te? Por exemplo, o número de embarcações para levar uma multidão ao
outro lado do lago, a referência a "pão" ( v. 23 ) no singular e a referência
"tendo o Senhor dado graças", em contraposição aos "pães" ( v. 1 1 ) no
plural, que ". .. Jesus tomou.. .". Segundo os críticos liberais a contraposição
"pão" e "pães" pressupõe duas situações diferentes e a referência a Jesus
seria algo anterior à sua morte, enquanto que a expressão Senhor refere-se
ao Cristo Ressuscitado. Os críticos entendem os versículos 22 e 23 como
um acréscimo posterior. Há os que pensam que o texto em questão está no
contexto eucarístico.

Não vemos o texto sob essa ótica, pois o uso do singular também pode
dar a idéia de totalidade e a palavra Senhor é também usada como referên-
cia a Jesus, mesmo antes da sua morte e ressurreição. Entendemos, pois,
que o texto segue uma seqüência lógica dos fatos.

Vv. 24, 25- A multidão sabe que o lugar mais provável para encontrar
Jesus é Cafarnaum. A graça de Cristo manifesta-se ao permitir
- -
Igreja Luterana N 1 2000

que o povo o encontre, pois dá-se a grande oportunidade de


falar a respeito de algo que não é perecível, mas duradouro. A
pergunta "quando chegaste aqui?" manifesta a curiosidade e
surpresa naturais diante de outro milagre, ou seja, como, em tão
curto espaço de tempo, Jesus chegou ao outro lado do mar.

V. 26- Como a pergunta a respeito deste novo milagre de Jesus partiu de


corações que estavam mais preocupados em "rechear seus es-
tômagos" e levar uma vantagem especial em estar na presença
deste "milagreiro", Jesus não responde à pergunta feita, mas dá
outra resposta: "Amém, amém ... não me procurais porque vistes
sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes". As pes-
soas que o procuravam questionavam a respeito de Jesus; ele,
porém, responde a respeito delas. Ver e apreciar os sinais de
Deus não é o ponto que é questionado por Jesus, mas a busca
interesseira e egoísta por milagres. Não entra em cogitação a
necessidade ou não do pão para saciar a fome. Jesus questiona
a motivação para a sua busca.

V. 27 - O v. 27 vem confirmar o que foi dito acima sobre a motivaçáo.


Poderíamos supor que Jesus tivesse em mente a expressão "não
apenas pela comida que perece" , reservando uma ênfase maior
para a "comida espiritual" . Ele, Cristo, é esta "comida espiritu-
al". Não se trata de uma referência específica à Eucaristia,
mas à totalidade da Palavra da Salvação. O selo referido no
texto é o próprio Cristo, que é a garantia da Salvação.

Vv. 28,29- Diante da pergunta a respeito do que deveriam fazer para


realizar as obras de Deus, Jesus dá a mesma resposta dada a
Nicodemos e também à mulher samaritana: Crer naquele que
foi por Deus enviado.

Vv. 30,3 1 - Estes versículos apontam para a grande fraqueza humana, a


necessidade de ver para acreditar. Fazem referência a um sinal
do passado para dar autoridade a Moisés. "Também queremos
um sinal, e, então acreditaremos em ti."

V. 32 - Jesus mostra que a interpretação daquelas pessoas a respeito


dos sinais nos tempos de Moisés foi completamente equivoca-
da. O doador não é Moisés, como os galileus haviam interpreta-
do (opondo o dom do maná ao sinal que Jesus agora deveria
Igreja Luterana - N 1 - 2000

fazer), mas Deus, designado aqui pela expressão "meu Pai". A


retificação a propósito do Doador não é feita apenas em função
do passado: ela conceme ao presente dos ouvintes. Não é aos
pais, mas a vós que o Dom de Deus se destina. Este Dom é
atual: o pão que meu Pai vos dá é o verdadeiro, que é o cumpri-
mento do maná e das promessas da Torá.

V. 33 - Cristo é o Pão de Deus que desce do céu e que dá vida ao


mundo. Ele não apenas alimenta fisicamente a Israel, mas dá a
vida eterna ao mundo. Ele aponta para o efeito de sua vinda ao
mundo, ou seja, vida eterna, e, ao mesmo tempo, aponta para o
Doador da Vida, a causa.

V. 34 - A súplica do povo aponta para o mesmo pedido da mulher


samaritana: Dá-me sempre de beber, para que não precise mais
tirar água deste poço; o povo parecia pedir: Dá-nos sempre do
pão que nos farta, para que não precisemos trabalhar.

V. 35- Aqui está um dos grandes "EU SOU" de Jesus. Ele é esse Pão.
Por que o povo não consegue ver mais longe do que meramen-
te o pão para o corpo? Repetimos: Jesus não quer dizer que
este último não seja necessário, porém que ele quer nos dar
algo ainda mais precioso e duradouro. Com Jesus os tempos se
cumpriram. Quem nele crê tem a vida eterna A dimensão
escatológica manifesta-se ainda pelo fato de o apelo de Jesus
ser formulado de maneira impessoal: ele dirige-se não somente
aos galileus, mas a todo o ouvinte da Palavra, o que denota que
a vontade de Deus é que todos sejam salvos.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
A fome e a sede atingem uma multidão de pessoas no mundo inteiro. As
desigualdades sociais nos inquietam e são constante desafio para a cristanda-
de. Porém, ainda mais assustador é o fato de que dois terços da humanidade
padece de fome e sede espirituais, por não conhecerem o Evangelho da Sal-
vação. Cresce ainda mais o desafio para nós cristãos: levar o Pão da Vida a
toda a criatura.

Tema: Jesus é o pão que veio do céu.


I- É fonte de todas as bênçãos
11- É o cumprimento das profecias
111- Dá a vida ao mundo
IV- Promete saciar a fome e sede espirituais
Igreja Luterana - No 1 - 2000

CONCLUSAO
Jesus, como Filho de Deus, é a fonte de todo o bem e dá o sustento para
a vida; nele cumprem-se as profecias do Antigo Testamento, pois com sua
morte e ressurreição trouxe novamente esperança de vida plena. Todo o
que nele crê é saciado da fome e sede espirituais, pois ele é o Pão vivo que
desceu do céu.

BIBLIOGRAFIA
- DUFOUR, Xavier Léon. Leitura do Evangelho Segundo João 11.
São Paulo, Loyola, 1996.
- HENDRIKSEN, William. Exposition of the Gospel According to
John. Michigan, Grand Rapids, 1961.
- LANGE, John Peter. Commentary on the Holy Scriptures: John.
Michigan, Zondervan, 1955.
- NESTLE, Eberhard. Novum Testamentum Graece. Stuttgart,
Bibelanstalt, 1948.
- RIENECKER, Fritz. Sprachlicher Schlussel zum Griechischen
Neuen Testament. Stuttgart, Giessen-Basel, 1952.

Paulo Gerhard Pietzsch


Igreja Luterana - No 1 - 2000

3 de setembro de 2000
João 6.41-51

CONTEXTO
Nesse domingo, somos desafiados a pregar o terceiro de uma série de
cinco sermões sobre João 6. É um desafio, pois requer do pregador que
determine com antecedência qual a ênfase de cada domingo. Não será
preciso (nem possível) dizer tudo num só sermão, pois, como disse alguém,
"É preciso deixar algumas batatas para o almoço de amanhã". Mas pregar
o evangelho é preciso, e será necessário planejar a distribuição do pão da
vida em, pelo menos, cinco mensagens. E se houver alguma repetição?
Não haverá maiores problemas, pois o evangelho de João tem muito disso.
Fala-se até numa "espiral ascendente" em João, que é o uso, neste Evan-
gelho, de uns poucos temas (como vida, luz, fé, etc.) que v20 sendo
reinseridos no texto e, com isso, ampliados e aprofundados. Cinco sermões
sobre o discurso de Jesus sobre o pão da vida, na sinagoga de Cafarnaum,
permitem um efeito semelhante. A temática maior poderia ser: Cinco
Semanas Com Jesus na Sinagoga de Cafarnaum.

Um pequeno comentário sobre o contexto. João traz um número limitado


de milagres de Jesus (sete ou oito), chamados por ele de "sinais" (aqpcirx).
Estes sinais têm um sentido espiritual, explicitado via de regra por um dis-
curso (que pode ou não envolver diálogo). O discurso de Jesus em João 6
se destina a revelar o verdadeiro sentido do milagre da multiplicação dos
pães (Jo 6.1-15), que, por sinal, é o único relatado nos quatro Evangelhos.

No contexto anterior, o versículo chave é o 35. Jesus declara que ele é


o pão da vida. Os vv. 36-40 tratam de fé e incredulidade, e preparam para
o que vem na perícope seguinte (v. 41 em diante). A fé é iniciativa do Pai,
como fica claro no v.37a (cf. vv. 44-45). A vontade salvífica de Deus se
estende a todos, como diz Jesus no v. 40, que é um eco de Jo 3.16. (Ver
também o v. 45). A falta de fé mostra que o ser humano pode resistir à
vontade salvífica de Deus (ver Jo 5.40). Deus não força o homem a crer.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

k T 0
O texto inicia com a murmuração dos judeus (termo que aqui designa a
liderança do povo que se opõe a Jesus). O que os escandaliza é a afirrna-
ção de Jesus no v. 35. E como a incredulidade sempre encontra razões ou
justificativas, os judeus perguntam se aquele não é Jesus, o filho de José.
As duas primeiras perguntas do v.42 são, na verdade, uma pergunta só, que
pode ser assim traduzida: "Não é este Jesus, o filho de José, de quem
conhecemos o pai e a mãe?" Por ser uma pergunta iniciada com OÚK, fica
claro que se espera uma resposta afirmativa: É claro que este é Jesus, o
filho de José! (A alternativa é uma pergunta iniciada com p$, sinalizando
que se espera uma resposta negativa. Exemplo disso temos em Jo 4.33.)

Como responder a tal objeção? Jesus não responde, talvez indicando


que a certas objeções não vale à pena responder, face a necessidades mais
urgentes. Assim, Jesus pede que parem com a murmuração (v.43), pois
vital mesmo (v.47) é ouvir o testemunho do Pai, dado nas palavras e nos
feitos de Jesus (cf. Jo 5.32,36-37). Com este testemunho Deus se dirige a
consciência de todos (v. 45a), para atraí-10s a Jesus (vv. 44,45b).

Os vv. 48-51 retomam e enfatizam os vv. 32.35, contribuindo para o


efeito da "espiral joanina". A novidade fica por conta do v. 5 1: O pão que
Jesus dará pela vida do mundo é a carne dele. Esta carne (aápt) é a
mesma que o Verbo assumiu quando veio habitar entre nós (Jo 1.14). Em
outras palavras, aqui Jesus aponta para a cruz. Sua carne é sua existência
no tempo e no espaço que ele oferta, na morte, pela vida do mundo. É
morrendo que Jesus se torna o pão da vida para todos (cf. Jo 1.29; 3.14- 16;
7.39; 12.32; 19.37).

Em conclusão, convém lembrar alguns dos temas centrais do Evangelho


de João que aparecem nesta perícope. Os temas que aqui aparecem são: o
Pai que enviou o Filho, o Filho que revela o Pai, crer e não crer, ter vida
eterna. O que contraria um pouco as expectativas é a ênfase na salvação
futura. Sempre se diz que João enfatiza o que se convencionou chamar de
"escatologia realizada" ou "escatologia presente". A afirmação do v. 47, "quem
crê em mim tem (e não terá) a vida eterna", se inscreve nesta categoria.
Agora, mais importante (em termos de corretivo para a ênfase exagerada na
"escatologia realizada") é a ênfase na escatologia futura. Várias vezes Je-
sus aponta para o "último dia" (Jo 6. 39,40,44,54; ver também Jo 5.28-29).

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Este é o Ano B da Série Trienal. o ano de Marcos. Visto Marcos ser
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mais breve do que Mateus e Lucas, aproveita-se também textos joaninos.


É, pois, o ano de Marcos e João. Sendo este sermão parte duma série de
sermões sobre Jo 6, sugere-se explorar ao máximo aquilo que o texto tem
de singular, aquilo que não aparece nas demais perícopes de Jo 6. Neste
sentido, o melhor candidato a texto mais específico do sermão é o v. 51,
que, por sinal, aponta para cruz e permite pregar o mais puro evangelho.
Jesus dá o pão da vida. Pão é aquilo de que inevitavelmente precisamos
para viver. O pão é dado. Quem dá é Jesus. E este pão dá vida. Esta vida
é eterna. "Eterno" não é apenas algo quantitativo ("sem fim, começando
com a morte"), pois tem também uma dimensão qualitativa ("a vida
escatológica, a vida no ai&, vida na presença de Deus já agora"). Esta
vida é para todos. É para o mundo, um mundo que não conheceu o Verbo
(Jo 1.10) e que odeia Jesus (Jo 7.7), mas que é amado de Deus apesar de
tudo (Jo 3.16). O pão que dá vida é, não algo que nós mesmos podemos
amassar, mas a própria carne do Filho de Deus, seu corpo sacrificado sobre
a cruz. Se isto não é evangelho, que mais poderia ser?

Para "fazer este bolo crescer, com vistas ao sermão", podemos procu-
rar mais passagens bíblicas. Uma alternativa é, via concordância, procurar
onde os temas de nossa perícope reaparecem em João. Outra opção é
aproveitar as outras leituras do dia. A leitura do AT (I Rs 19.4-8), escolhi-
da a dedo para "rimar tematicamente" com nosso evangelho, parece não
ter conexão nenhuma. No entanto, se formos insistentes, de tanto olhar e
reler o texto passaremos a enxergar uma ou outra conexão. Exemplo: Elias
quer morrer no deserto, como os seus pais (1 Rs 19.4), mas Deus o susten-
ta, como fizera com Israel. Deus deu o pão. Aquele pão cozido (v.6) pode
não ter sido maná, mas também não foi pão amassado e assado por Elias.
Em outras palavras, é figura do "pão do céu". Tudo isso reverbera e ecoa
em João 6.

A epístola, não escolhida a dedo para este domingo, pois segue o princípio
da lectura continua, apresenta uma feliz coincidência, isto é, um texto que,
também ele ponto alto da perícope, sublinha e realça Jo 6.5 1 , que é nosso
tema de sermão. "Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como
oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave." (Ef 5.2) Isto é, em linguagem
paulina, o que significa Jesus dar a sua carne pela vida do mundo.
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10 de setembro de 2000
João 6.51-58

CONTEXTO
O texto em estudo é a conclusão do "discurso" sobre o pão da vida, proferido
por Jesus, em conexão com a multiplicação dos pães (Jo 6.1- 15). Em reação às
palavras de Cristo houve abandono (v. 66) e confissão de fé (vv. 68,69).

O texto, especificamente a reação das pessoas de Cafarnaum ("Como


pode este dar-nos a comer a sua própria carne?" v. 52b), levou os luteranos
a usarem o termo "cafamaítico" para uma interpretação equivocada do
que se afirma por presença real na Santa Ceia: "Cremos, ensinamos e
confessamos que o corpo e o sangue de Cristo são recebidos, em virtude da
união sacramental, com o pão e o vinho não só espiritualmente, pela fé, mas
também oralmente, não, porém, de modo cafarnaítico, mas de maneira so-
brenatural, celeste, segundo mostram claramente as palavras de Cristo,
quando ordena tomar, comer e beber ..." (FC Ep VI1 15). Na nota referen-
te a este texto, lemos: "A interpretação dos judeus em Cafamaum deu
origem à expressão 'comer cafarnaítico'. Os sacramentários afirmavam
que a doutrina luterana da presença real implicava um comer grosseira-
mente físico do corpo de Cristo. Alguns chegaram a falar em canibalismo."
(Livro de Concórdia, tradução e notas de Amaldo Schuler, 520, n. 93)

m o
Nos versículos em estudo, há temas repetidos do que Jesus já dissera:
"Eu sou o pão" (cf. vv. 35, 48), "eu o ressuscitarei no último dia" (cf. vv.
39,40,44). Há, também, expressões que trazem algo de novo. "Comer a
carne" e "beber o sangue" são novidade e têm gerado discussão na história
da Igreja: há neste texto referência à Ceia do Senhor? Mesmo antes de ter
sido ela instituída?

Trazemos aqui algumas reflexões de James W. Voelz, em seu artigo "O


Discurso sobre o Pão da Vida em João 6: É Ele Eucarístico?" (Concordia
Journal 1511 [Jan 19891: 29-37).
-
Igreja Luterana Nn 1 - 2000

Voelz lembra que, tradicionalmente, os luteranos têm interpretado o dis-


curso sobre o pão da vida como se referindo a um comer espiritual (que
pode ocorrer em conexão à Palavra, ao Batismo e à Ceia do Senhor). (cf.
FC DS VI1 61,63). O autor sugere uma solução do ponto de vista linguístico.
Jesus fala de sustento celestial. Mas em que consiste tal sustento? Por um
lado, ele pode ser referido em termos eucarísticos (v. 54), mas não apenas
em termos eucarísticos (v. 47). O Sacramento é um dos meios - na verdade
o único em que há um comer e beber orais - para a Igreja ser alimentada
com o alimento de Cristo. Assim, "este discurso é expresso em palavras
que levam os ouvintes cristãos a pensarem sobre o comer oral do Sacra-
mento ..., mas que também apontam além do comer oral para um comer
espiritual" (pg. 34). "As palavras que Jesus fala incluem o comer oral do
Sacramento do Altar, mas não se limitam a ele. ... algumas partes do dis-
curso se aplicam mais fortemente ao comer espiritual (o texto antes do v.
5 1, por exemplo), e outras partes se aplicam mais fortemente ao comer oral
eucarístico (os versículos 5 1 e seguintes)." (pg. 35)

Dentro deste raciocínio, a segunda parte do v. 53 ("Se não comerdes a


carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em
vós mesmos"), que parece depor fortemente contra uma interpretação
eucarística, poderia ser entendida de forma análoga a Jo 3.5, aplicado ao
Batismo (este texto, por sinal, é normalmente aplicado no ambiente luterano
ao Batismo, ainda que este não é explicitamente mencionado).

Respondendo à questão cronológica (de que o sacramento ainda não


fora instituído), Voelz mostra que este não seria a única situação em João
de uma palavra de Jesus que só viria a ser entendida tempos depois de ser
proferida. Outro exemplo é Jo 2.19 - a referência de Jesus à Sua morte e
ressurreição - que só veio a ser entendida pelos discípulos após a ressurrei-
ção de Jesus (cf. 2.22). Jo 14.26 ("o Consolador, o Espírito Santo ... vos
fará lembrar de tudo o que vos tenho dito") se aplicaria aqui. (pg. 35)

A leitura proposta por Voelz é desafiadora, mas qual sua ajuda concreta
para o trabalho do pregador, diante de quem o texto permanece como fonte
para o sermão? Por certo, o púlpito não será lugar para se tratar da polêmi-
ca hermenêutica e exegética. Mas o pregador poderá levar em conta a
discussão, mantendo no sermão a dupla referência, à fé em Cristo, como
comer e beber espirituais, e a Santa Ceia, como meio especial dado por
Cristo para alimentar a fé, situação na qual há um comer e beber concre-
tos. Afinal, para os cristãos diversas das expressões contidas no texto res-
saltam as bênçãos advindas do Sacramento e, portanto, o caráter evangéli-
co da Ceia do Senhor ("viverá eternamente" - v. 51,58; "tem a vida eter-
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

na"- v. 54; "eu o ressuscitarei no último dia" - v. 54; 'permanece em mim


e eu nele" - v. 56; "por mim viverá" - v. 57).

A importância da referência à Santa Ceia (como aplicação, no sermiio)


parece indiscutível, ao menos para luteranos. Não somos nós que precisa-
mos ir até a cruz, mentalmente, para nos alimentarmos com o Pão da vida.
Ele vem até nós no Evangelho proclamado, no Batismo, na Absolvição e no
corpo e sangue, recebidos com o pão e o vinho sacramentais.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Cristo, o pão da vida, nos traz ricas bênçãos
I. Nossa natureza levanta questões contra o evangelho, o alimento espi-
ritual (cf. v. 52).
11. Ele é o alimento espiritual, que nos abençoa com: Sua presença per-
manente, vida (hoje - "tem a vida eterna"; e no futuro - "viverá eter-
namente") e ressurreição.
111. Não dependemos de recursos próprios para ter o alimento - Cristo
vem a nós concretamente (por exemplo e especialmente, no Sacra-
mento do Altar).

Gerson Luis Linden


Igreja Luterana - N" 1 - 2000

17 de setembro de 2000
João 6.60-69

CONTEXTO
"Os versículos restantes do capítulo 6 formam um apêndice ao discurso,
que descreve ouvintes de Jesus, mesmo os que até então simpatizavam
com ele e eram contados entre seus adeptos, estavam escandalizados com
seu ensino. Mesmo sabendo que ele devia estar usando termos figurados
ao falar de comer sua carne e beber seu sangue, esta linguagem era insu-
portável para eles. Isto não acontecia somente porque eles consideravam a
metáfora injuriosa, mas porque todo o tom do seu argumento trazia embuti-
da a alegação de que ele era maior do que Moisés - era, na verdade, ligado
de maneira especial a Deus." (BRUCE, F.F. João - introdução e comen-
tário. Série Cultura Bíblica. São Paulo, Vida Nova e Mundo Cristão, 1987,
p. 146.)

Nós que estamos lendo o capítulo 6 de João já há quatro cultos, chegamos


agora ao resultado desta leitura. É hora de separar as ovelhas dos cabritos,
chegou o momento do julgamento de Deus, onde os verdadeiros discípulos
permanecem e os falsos desistem devido à loucura do amor de Deus.

- APONTAMENTOSOS EXEGÉTICOS
TEXTO
Vv. 60-62 - ek ton mateton autou são os mesmos que o abandonarão
no v. 66. São apenas "seguidores" como nos sugere a Bíblia nu
Linguagem de Hoje (BLH). E o que os diferencia dos verda-
deiros discípulos (os doze no v. 67) é o discurso de Jesus. As
palavras duras de Jesus podem ser tanto as anteriores como as
subseqüentes, nos vv. 62-65. O "escândalo" está na vinda do
Filho do Homem do céu (v.38) bem como na conseqüente volta
(v. 62). É importante perceber que Jesus reconhece a falsidade
de seus seguidores devido a sua natureza divina - E U ~ a u OT ~ Lo
y o y y u ~ o u a i vdenota sua natureza divina, testemunho de suas
palavras. Tanto a humilhação como a exaltação do Filho do
Homem são escândalo para o mundo.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

V. 63 - A BLH nos ajuda quando diz quem é t o n w u p a - o "Espírito


de Deus". E este está em contraste a carne, que nada aprovei-
ta, mas as palavras de Cristo trazem vida porque carregam con-
sigo o Espírito. Este v. nos remete a Jeremias (Jr 15.16), que
literalmente comeu as palavras que lhe "foram gozo e alegria
para o coração". ra pqpara a c y o haho U ~ L VT I V C U ~ C CI O T L V
K E L Coq EarLv - aqui Jesus aplica a eficácia de suas palavras à
ação do Espírito que carrega consigo a vida. Não vida que ter-
mina um dia - mas vida eterna. O evangelho de João está cheio
destes contrastes. Para ampliar melhor este contraste entre es-
pírito que traz vida e carne que leva à morte, revisar a conversa
de Jesus com Nicodemos em Jo 3.5- 12.

Vv. 64-66 - Assim como era duro ouvir Jesus, deve ter sido duro para
Jesus saber e reconhecer que muitos de seus seguidores não
criam nele e mais: que um dos seus seria o traidor. Judas é o
símbolo do maior afastamento, aquele que é chamado de diabo
no v.70. A tensão entre crer e não crer ou crer por um interesse
que não é o de Cristo recebe um xeque-mate nos vv. 65,66 a -

capacidade de ouvir e crer em Jesus é dom do Pai - é o próprio


Espírito de Deus presente na vida daquele que reconhece a
Cristo como o único caminho. E é óbvio para aquele que não
tem o Espírito de Deus escandalizar-se com as palavras de
Cristo, abandonando-o. Interessante observar o uso do verbo
ncpLnasco - com ele João está nos dizendo que os discípulos
náo apenas deixaram de caminhar com Jesus, mas também que
não creram mais nele, não tinham o Espírito de Deus que os
habilitava ouvir Jesus e crer nele. A escola aristotélica é cha-
mada de peripatética, visto ele ensinar seus alunos enquanto
caminhavam.

Vv. 67-69 - Finalmente evangelho na leitura de hoje - A confissão de


Pedro - em nome dos doze - é sem dúvida um grande alívio para
nós cristãos. Mesmo tendo apontado o caminho para se crer nas
suas palavras -pelo Espírito de Deus Jesus interpela seus dis-
-

cípulos - talvez como um teste ou como ratificação daquilo que


ele Ihes ensinava: "Vocês não querem ir embora também, não é
mesmo?" é uma tradução possível para a pergunta de Jesus. E o
Espírito de Deus se manifesta na confissão de Pedro, (.TU ei o
chrisros o u i o ~tou teou tou ~ o n t o s-) esta expressão náo apa-
rece na versão de Almeida: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus
Vivo7'- mas algumas versões optam por esta leitura, talvez por
92
-
Igreja Luterana N" 1 - 2000

influência de Mt 16.16. Jesus tem identificado sua missão neste


título - conferir também Mc 1.24. Ele é o ungido de Deus para
dar vida eterna aos seus. E a pergunta de Pedro: "para quem
iremos, se tu tens as palavras da vida eterna?" tem no título con-
ferido a Jesus sua resposta pronta e completa. Testemunho de fé,
da ação do Espírito de Deus.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
No mercado religioso no qual nos encontramos hoje, pregar este texto é
criar um divisor de águas nestas opções religiosas. Ainda bem que não
podemos julgar alguém, mas sabemos pela palavra de Deus que são poucos
os que de fato ouvem as palavras da Vida Eterna (ver Lc 13.23,24).Qual é
o verdadeiro interesse das pessoas na sua relação com Deus?
Baseado em 1 Jo 5.12: "Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que
não tem o Filho de Deus não tem a vida", podemos caminhar na seguinte
direção:

Moléstia: Muitos oferecem Cristo de formas as mais diversas possí-


veis - parece-me de acordo com seus próprios interesses. Esta iniciativa
descaracteriza o verdadeiro papel de Cristo na nossa vida.

Meio: Só pelo Espírito de Deus podemos afirmar como Pedro o fez:


"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo".

Objetivo de Fé: Cristo não veio para resolver nossos problemas mera-
mente humanos - Ele nos deu a Vida Eterna.

Para trabalhar este assunto, a exposição do texto pode ser feita, apli-
cando as duas situações conflitantes transparentes no texto com a nossa
realidade.

Clóvis Jair Prunzel


Súo Josd dos Pinhais. PR
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

24 de setembro de 2000
Marcos 7.1-8,14-15,21-23

CONTEXTO
Texto e contexto trazem esclarecimentos quanto às diferenças entre
Jesus e os intérpretes da lei. O ensino de Jesus difere fundamentalmente
daquele que provém dos fariseus, especialmente em questões relacionadas
com a piedade pessoal. Tal fato já aparece anteriormente no evangelho de
Marcos: quando Jesus come com os pecadores (2.15-17); no discurso a
respeito do jejum (2.15-18) e na questão sobre a guarda do sábado (2.23-
28). As diferenças existentes não significavam apenas opiniões divergen-
tes sobre rituais de purificação ou comidas puras e impuras. A referência
aos fariseus e escribas vindos de Jerusalém (Mc 7.1), recorda-nos o confli-
to armado pela acusação a Jesus registrada em Marcos 3.22-30, quando o
Filho de Deus foi acusado de agir pelo poder de Belzebu e de ser ele pró-
prio um possesso do maioral dos demônios. Jesus era visto como alguém
que colidia frontalmente com toda a estrutura da tradição oral dos judeus.
Esta procurava se pronunciar sobre praticamente cada aspecto da vida
pessoal e corporativa, buscando ajustá-los à lei, porém sob condições com-
pletamente diferentes daquelas em que a lei fora inicialmente transmitida.

A delegação proveniente de Jerusalém viera, portanto, com um propósi-


to bem definido. A atenção de todos voltava-se para Jesus e buscavam
encontrar nele razões para desacreditá-lo perante o povo, além de usá-las a
fim de mover uma ação legal contra ele.

O cenário dentro do qual se desenrola a ação documentada pela perícope


está montado. Acompanhar a seqüência de fatos ali retratados nos permi-
tirá chegar à resposta da pergunta: o que mais importa, lavar as mãos ou
purificar o coração?

TEXTO
Vv. 1-5 - Os fariseus e alguns escribas viram uma flagrante violação da
tradição dos anciãos. Tentaram usá-la como instrumento a fa-
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

vor do descrédito de Jesus junto ao povo. Afinal, que espécie


de mestre era aquele que permitia que os discípulos comessem
com as mãos sem lavar? Lavar as mãos antes de uma refeição
não era em si uma preocupação com a higiene individual, mas
sim uma prática observada por quem cria ser do povo escolhido
de Deus. No tempo que precedia as refeições havia sempre o
risco de tocar algo impuro com as mãos, o que poderia, na opi-
nião deles, contaminar o alimento ingerido. Conseqüentemente,
tornar-se-iam impuros aos olhos de Deus.

Pelos versículos 3 e 4 percebemos que o evangelista Marcos esmera-se


em explicar aos seus leitores a razão da indignação dos escribas e fariseus
frente aos comer com mãos não lavadas, o que faziam os discípulos de
Jesus.

No versículo 5, Jesus é desafiado a dar uma resposta convincente dian-


te da "transgressão" cometida pelos seus discípulos. Por que não andavam
eles de conformidade com a tradição dos anciãos? interrogavam os fariseus
e escribas. O alvo, todavia, não eram os discípulos e, sim, o próprio Jesus.
Ele tinha a obrigação de dar explicações sobre o procedimento daqueles
que seguiam os ensinamentos dele e agiam contrariamente a tradição dos
anciãos.

Vv. 6-8 - A pergunta dos escribas recebe uma resposta dupla. A primei-
ra delas concentra-se nos três versículos agora examinados. A
segunda aparecerá nos versículos 14 e seguintes, revelando a
causa da impureza que não é eliminada pela limpeza cúltica.

Referindo-se a Isaías 29.13, Jesus faz ver aos seus interlocutores que
estão repetindo a mesma atitude hipócrita da antiga geração do povo. As
palavras do profeta naquela ocasião atingiam também aqueles que, no pre-
sente, faziam a mesma coisa que então fora condenada. Eram hipócritas.
Cultivavam a pior espécie de hipocrisia, ou seja, aquela que conduz ao auto-
engano, quando as pessoas pensam que realmente são aquilo que preten-
dem ser. Queriam ser pessoas que honravam a Deus e ensinavam os man-
damentos de Deus. Engano! Não faziam nem uma nem outra coisa. O
louvor dos lábios não era acompanhado pelo louvor do coração; as doutri-
nas que ensinavam não passavam de tradição dos homens, enquanto que o
verdadeiro mandamento de Deus era negligenciado. Não tinham autorida-
de, portanto, para se apresentarem como defensores da verdade. Quão
importante é examinar hoje ainda que autoridade possuem aqueles que se
apresentam como qualificados para ensinar a verdade!
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

Vv. 14- 15 - Aqui encontramos a segunda parte da resposta de Jesus. Ela


não se dirige apenas aos que o questionavam, porém é endereçada
também à multidão, novamente convocada. Jesus preocupava-
se com aqueles que, à mercê de ensinos falsos, corriam o risco
de andar por caminhos errados.

"Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar." É


referência clara ao comer com as mãos não lavadas. A contaminaçiio a
que as pessoas estão sujeitas não é física, não vem por aquilo que nelas
entra pela boca. É, isto sim, moral e espiritual. Dá-se por meio daquilo que
sai. Trata-se de uma atitude do coração e não simplesmente de órgãos
externos do corpo. Mas em que sentido aquilo que sai do homem pode
contaminá-lo?

Vv. 2 1-23 - A lista de males nomeados nos versículos 21 e 22 impressi-


ona-nos. Parece que ela reúne tudo aquilo que pode ser incluído
nas ações malignas do ser humano. Pois toda aquela maldade
não sobrevém ao homem através de mãos não lavadas, contudo
já se encontra no seu coração antes mesmo de contaminar as
mãos. Em lugar de se preocupar com mãos impuras, a multidão
junto a Jesus deveria prestar atenção nos seus corações. A afir-
mação de que a impureza vem de dentro do ser humano funda-
menta-se na compreensão bíblica do coração como fonte de toda
conduta espiritual e moral.

As palavras de Jesus no texto não ab-rogaram as leis mosaicas sobre


purificação, nem tampouco as distinções entre o que era puro e impuro. Elas,
na verdade, atacaram o engano cometido, quando homens pecadores julga-
vam alcançar a pureza diante de Deus por meio da escrupulosa observância
da pureza cúltica. Esta, na verdade, é incapaz de purificar os corações.

O coração impuro é aquele que se encontra privado da comunhão com


Deus. Sem o Espírito de Deus a movê-lo, tal coração sucumbe diante da
força dos "maus desígnios". No caso específico dos judeus acusadores de
Jesus, a comunhão com Deus fora perdida no momento em que passaram a
confiar na religiosidade por eles criada, em vez de permanecerem no temor
aos mandamentos de Javé. Não havendo comunhão com Deus, os frutos
podres da separação do Senhor tornam-se abundantes e contaminam toda a
existência de quem os colhe. Jesus deixou claro, portanto, que o zelo pela
pureza diante de Deus não passava pelo caminho apontado pelos mestres
judeus. Antes de mãos lavadas é necessário que haja corações lavados!
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PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema - Corações lavados valem mais do que mãos lavadas.

INTRODUÇÃO
O valor das mãos lavadas para a higiene e saúde pessoal é incontestá-
vel. Escribas e fariseus, contudo, julgavam existir um outro valor no ato de
lavar as mãos: servia para se apresentarem puros diante de Deus.
I - O engano deles, segundo Jesus.
I1 - A causa do engano: confiança na religiosidade criada por eles e
abandono dos mandamentos de Deus. Conseqüência: os corações
perderam a comunhão com Deus e ficaram a mercê da força dos
maus desígnios, frutos do pecado.
I11 - No que depositamos nossa confiança para comparecer diante de
Deus? A palavra de lei pode apresentar alguns dos falsos fundamen-
tos para a confiança humana. A palavra de evangelho ressaltará o
convite de Jesus para que se estabeleça a comunhão com Deus. A
ela o Salvador nos leva e nela nos mantém.

CONCLUSÃO
Se fosse uma aula sobre higiene pessoal, o lavar as mãos teria recebido
muito destaque. O que o texto destaca, todavia, é a necessidade de cora-
ções puros. Por isso, a mensagem traz um convite para confiar na comu-
nhão com Deus por meio de Jesus. Corações puros são obtidos somente
por meio da confiança no perdão trazido por Jesus. E eles valem muito mais
do que mãos lavadas!

Paulo Moisés Nerbas


Igreja Luterana - No 1 - 2000

I de outubro de 2000
Marcos 7.31-37

INTRODUÇÃO
No final do evangelho temos a frase: "Tudo ele tem feito esplendida-
mente bem." Uma pessoa disse certa vez: Como vou entender isto? Jesus
não está hoje à direita de Deus e governa céu e terra? Pois olhe bem em
seu derredor. O que vemos? Viemos do mês de setembro, mês da pátria.
Entramos no mês de outubro, mês da Igreja Cristã, com a festa da Reforma
Luterana. Olhe para a pátria e a Igreja. Na pátria, quanta miséria,
roubalheiras, injustiças e na Igreja, quantas divisões, fraquezas,
incompreensão e brigas nas comunidades. Como alguém ainda pode dizer
que ele fez tudo esplendidamente bem?

É verdade! Há problemas por toda a parte. Mesmo assim, em meio a


esta grande confusão, aos sofrimentos e às muitas injustiças, há um povo
que jubila, louva e continua cantando: Ele fez tudo esplendidamente bem.

Vejamos o texto.

HISTÓRIA
O ministério de Jesus na terra estava chegando ao fim. A inimizade dos
fariseus contra Jesus crescia.

Muitos dos discípulos de Jesus o abandonaram, porque não encontra-


ram nele o que desejavam.

Jesus retirou-se para o norte da Galiléia, para as regiões de Tiro e Sidom.


Ali encontrou pessoas com fé exemplar, como a mulher Cananéia.

No caminho de volta a Israel, Jesus foi para a região de Decápolis (dez


cidades). Ali lhe trouxeram um surdo e mudo. O profeta Isaías havia dito
que o Messias iria curar os surdos e fazer falar os mudos (1s 29.1 8).
Igreja Luterana - N 1 - 2000

Jesus se compadeceu dele, e tomou o surdo e mudo à parte (v.32),


tirando-o da multidão. Ele não queria simplesmente curá-lo, mas salvá-lo.
O surdo e mudo deveria olhar somente para Jesus e dar a ele toda a aten-
ção. Feliz o doente cuja enfermidade o leva a dar atenção a Cristo.

Por sinais Jesus mostrou ao doente que ele sabe onde estava o mal. Tenha
também você a certeza de que Jesus conhece sua aflição e seus problemas.
Jesus colocou seus dedos nos ouvidos do surdo e, molhando seu dedo com
saliva, tocou-lhe a língua. Assim Jesus lhe falou por sinais. O doente deveria ver
e sentir a ação de Jesus. Então Jesus levantou seus olhos aos céus e suspirou.
No suspiro de Jesus vai toda a tristeza que ele sentiu diante da miséria que o
diabo trouxe ao mundo. Deus criou os homens parauma vida feliz e alegre, mas
o pecado arruinou tudo e trouxe ao mundo tanta desgraça. A maioria não vê
isto assim. Eles vêem na doença somente um acidente terreno. Então Jesus
disse: Efatá, que quer dizer: Abre-te! Seus ouvidos se abriram e sua língua se
soltou. A primeira coisa que ele deveria ouvir, seriam as palavras de Jesus; e a
primeira coisa para o que ele deveria usar sua língua, seria para louvar e agra-
decer a Deus. Assim também nossos ouvidos deveriam estar abertos para
ouvir a palavra de Deus e nossa língua pronta para louvar a Deus.

0 MILAGRE
O que este milagre significou para o surdo e mudo? para a época de
Jesus? e o que isto significa para nós hoje?

O que este milagre significou para o doente curado? O surdo e mudo


recuperou sua audição e fala. Isto foi uma grande bênção. Ele pôde ouvir e
falar novamente. Será que nós agradecemos a Deus, diariamente, pelo dom
da audição e da fala? Mas houve mais uma bênção. Deus lhe abriu a mente
para ver a Jesus. Ele chegou à fé. Ele reconheceu em Jesus o seu Salva-
dor. Isto lhe deu paz, comunhão com Deus e a esperança da vida eterna.
Ele pôde cantar e dizer: Ele fez tudo bem.

O que significou este milagre para a época de Jesus? A cura, em si, foi
como uma gota de água no oceano, uma vez que havia milhares de doentes
e mendigos pelas ruas. As muitas guerras e opressões geraram muita misé-
ria. Nos evangelhos temos registrados mais ou menos 70 milagres que Je-
sus fez durante seus três anos de ministério. Isto não significa que ele só
fez estes milagres. Ele fez muito mais. Só o essencial foi registrado (João
20.30). Jesus não veio para tirar a miséria do mundo. Ele não veio para
trazer felicidade terrena. Ele veio para salvar a humanidade. Os milagres
tinham o propósito de mostrar que Jesus era o Filho de Deus, o Messias
Igreja Luterana - No 1 - 2000

prometido, o Salvador da humanidade. Ele veio para destruir as obras do


diabo. E mostrar assim que um dia, sim, todos os males serão vencidos. Há
esperança para os aflitos que ouvem a Jesus e confiam nele. Por isso deve-
riam dar ouvidos a ele.

Que sentido tem este milagre para nós hoje? Ele é uma antecipaçãodaquilo que
será. Uma antecipação da restauração total, da eliminação de todos os males.

Toda a doença, todo o sofrimento tem sua origem no pecado. Jesus veio
para destruir as obras do maligno (1 Jo 3.8). Quando Jesus morreu na cruz,
venceu o pecado, a morte e a Satanás. Reconciliou a humanidade com
Deus. Agora, ele oferece, pelo evangelho e os sacramentos, perdão e paz.
E o que crê, tem o que as palavras oferecem, dão e selam.

Mas, dizem muitos, onde está a anunciada paz na terra? Os próprios


cristãos estão expostos a tantas injustiças e tantos sofrimentos! A carta aos
Hebreus relata a respeito do sofrimento dos cristãos: apedrejados, serrados
ao meio, etc. (Hb 13). Os cristãos sofrem, envelhecem, morrem. Não com-
preendemos os caminhos de Deus, mas sabemos que tudo coopera para o
bem dos que temem e amam a Deus (Rm 8). Mesmo os cristãos estão
ainda na carne sujeitos a muitas fraquezas e precisam de disciplina.

De momento temos esta grande libertação e vitória em fé. (1 Jo 3.2).E "Se


u nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infe-
lizes de todos os homens" (1 Coríntios 15.19RA). "Por isso, não desanimamos;
pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o
nosso homem interior se renova de dia em dia" (2 Coríntios 4.16 RA). Sim, "e
não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igual-
mente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção
do nosso corpo. Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se
vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos
o que não vemos, com paciência o aguardamos" (Romanos 8.23-25 RA). E ele
"lhes enxugará dos olhos toda lágrima" (Apocalipse 21.4 RA).

Portanto, o milagre da cura do surdo e mudo nos mostra que Jesus é o


Filho de Deus, nosso Salvador, que veio ao mundo para fazer tudo bem. Por
sua palavra ele, ainda hoje, abre nossos ouvidos para o reconhecermos
como nosso Salvador, enche nossa alma de paz e esperança. Abre nossa
boca para o louvor, na esperança do novo céu e da nova terra, onde vere-
mos e sentiremos que ele fez tudo bem.
Hnrst Kuchenhecker
Porto Alegre, RS
Igreja Luterana - N 1 - 2000

8 de outubro de 2000
Marcos 8.27-35

CONTEXTO
Os milagres operados por Jesus deram-lhe notoriedade, mas produzi-
ram desordem na cabeça de muita gente. Seu nome estava sendo confun-
dido com os de outros profetas (Mc 8.28). Além disso, os fariseus discuti-
ram com Jesus pedindo um sinal que autenticasse o seu ministério (Mc
8.1 1-13). A instrução de Jesus visa dirimir as dúvidas sobre pelo menos
quatro questões essenciais: Quem ele é, por que veio, o que vai ter que lhe
acontecer e o que significa ser um seguidor seu.

TEXTO
Esta perícope é delimitada em três porções, cada qual com um cnfoque
diferente. Na primeira, Jesus joga verde para arrancar uma confissão ma-
dura de seus discípulos, certificando-se que eles estão professando seu
nome de modo adequado. Na segunda parte, Jesus amplia esta imagem e
abre um novo horizonte, revelando resumidamente o roteiro de sua missão.
E por fim Cristo diz para todos que segui-lo é, sobretudo, entrar em comu-
nhão com o Cristo sofredor e o Cristo vitorioso (Rm 6.4-6).

V. 27: Afastado das multidões, dos céticos e dos confusos, Jesus con-
centrou alguns instantes a sós com seus discípulos para dialo-
gar sobre a notícia do momento: quem ele é. Ele Ihes deu a
oportunidade para considerarem as opiniões populares a seu
respeito e assim prepará-los para um novo ensino.

V. 28: O enigma da pessoa e obra de Jesus originou concepções varia-


das, mas deficientes sobre sua pessoa e atividade. Alguns o
identificaram com João Batista, Elias ou algum outro profeta
(Mc 6.14-15 ) . Estes julgamentos são falhos porque atribuem a
Jesus somente um papel preparatório ou transitório na história
da salvação, negando o caráter definitivo da sua obra.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

V. 29: A pergunta dirigida por Jesus aos seus discípulos é de importância


eterna. Ele não quer mais ouvir idéias populares, mas deseja um
auto exame de cada um deles, desafiando-os a perceber quem
realmente ele é. Pedro faz a confissão em nome do grupo. Não há
desacordo algum. Jesus é o Cristo. O fato de Jesus ter conduzido
seus discípulos a esta reflexão e afirmação de fé é significante,
pois ela estabelece a grande diferença entre apreciar a Jesus, ape-
nas como um grande profeta ou líder e crer nele como o Cristo.

Christos é um título atribuído a Jesus e que significa o Ungido, o Messi-


as. Nele está envolvida a divina eleição e a ordenação para uma tarefa
particular. A confissão de Pedro reconhece a Jesus como este agente apon-
tado por Deus para o cumprimento da promessa messiânica.

V. 30: Este pedido de Jesus pode até soar como uma surpresa. Por que
Jesus não quer a publicidade? Por que a relutância em divulgar
sua verdadeira identidade? Podem ser quatro as razões que
expliquem este seu procedimento: I O: Ele não deseja ser reco-
nhecido como um milagreiro; 2": Ele não quer que seu ministé-
rio seja vinculado tanto a seus milagres de cura; 3": Ele não
quer que sua morte aconteça prematuramente, antes de com-
pletar seu ministério; 4": Nem os discípulos, nem as multidões
estariam aptos a assimilar o que Cristo veio fazer. Só depois da
cruz e do túmulo se chegaria à real compreensão desta missão.
Vale acrescentar, seu destino estava traçado para ser cumprido
por linhas contrárias às expectativas populares e projeções hu-
manas para uma figura real.

O SEGREDO
MESSIÂNICO
Os repetidos pedidos de silêncio feitos por Jesus a seu respeito e de sua
obra são uma expressão de sua fidelidade ao plano de salvação (Lane, p.296).
"O segredo messiinico expressa em Marcos a irrevogável e livre deci-
são de Jesus em adotar sua paixúo, porque esta é a vontade divina. Isto
está declarado pelo dei, é necessário. Se Jesus tivesse permitido sua
glória como Filho de Deus brilhar em todo o lugar; se ele tivesse permi-
tido as multidões o entusiasmo delirante; se ele tivesse permitido os de-
mônios confessar seu nome aos gritos; se ele tivesse permitido aos apás-
tolos divulgar em todo o lugar sua sensacional descoberta, a paixão
poderia se tornar impossível, e o destino de Jesus poderia ser em triun-
fo, mas em triunfo humano e ncio teria se consumado o divino plano da
salvação " (Lane, apud Minette de Tillesse, p.296).
-
Igreja Luterana N 1 - 2000

V. 3 1 : Num pronunciamento solene, Jesus começa a desvendar a miste-


riosa trajetória do seu ministério. Ainda na fase da profecia, Ele
antecipa que seu padecimento e morte não são falhas no roteiro
pré ordenado por Deus, mas isto é absolutamente necessário
no plano do Pai Eterno. Não há como adaptar ou improvisar.
Jesus sabia que teria que ser assim e era aconselhável que os
discípulos o soubessem também, para lhes dar segurança e a
certeza de que os eventos relacionados com ele coincidem com
o comissionamento divino. A submissão de Jesus à vontade
divina é a perfeita resposta humana às exigências de Deus. A
sua previsão do Calvário volta para a profecia do Servo Sofre-
dor de 1s 53.4, 11 e aponta para o Servo Servidor de Mc 10.45.
Mas Jesus não fala somente em sofrimento e morte, nem num
aparente insucesso de sua missão; ele faz referência também
ao triunfo, à manifestação da futura glória do Filho do Homem
através de sua ressurreição.

V. 32: A franqueza de Jesus pode ter baqueado seus discípulos. Mesmo


em suas conversas privadas, Jesus nunca tinha pregado com
tanta clareza sobre sua missão e destino como agora. A reaçáo
impetuosa de Pedro é humana e equivocada. Para ele a previ-
são do Filho de Deus é inconcebível e inconciliável. Ele vê uma
discrepância neste discurso e que ele quer corrigir. Esta oposi-
ção dos discípulos expõe o seu despreparo para aceitar uma
verdade tão complexa, e por conseguinte, dá sentido ao segre-
do messiânico.

V.33: Jesus pensa os pensamentos de Deus e não está inclinado a justificá-


los, mas simplesmente afirmá-los. A obra messiânica não segue
modelos humanos. Cristo conhece a fonte da sugestão de Pedro
em querer detê-lo. É um ensaio do próprio Satanás em seu desejo
de frustrar o divino plano de salvação. Neste "quebra-cabeça",
esta peça parece ter se encaixado definitivamente na cabeça de
Pedro, logo após o Pentecostes (At 2.22-24).

V. 34: Com esta declaração, Jesus deixa claro que a cruz se estende a
todos os que confessam seu nome como o Messias. Sua inten-
ção agora é despertar aqueles que o seguem, para que náo se-
jam meros observadores desligados da sua paixão, mas cristãos
comprometidos e que crescem na fé e no entendimento, como
co-participantes (1 Pe 4.13) dos sofrimentos de Cristo, na auto-
Igreja Luterana - No1 - 2000
negação, na renúncia e na obediência. "Somente seguindo o
caminho da cruz é possível entender, tanto a humilhação de
Jesus, como o próprio Jesus" (Lane, p.306). Negativamente, a
cruz envolve boicotar e combater qualquer indício de viver a
vida cristã de acordo com os desejos e ditames pessoais, en-
quanto positivamente, é ter em mente exclusivamente as coisas
lá do alto (C1 3.2). O cristão não pode viver em pé de igualdade
com o mundo, ele precisa fazer o sacrifício de viver uma vida
que se distinga da do mundo e adotar a cidadania cristã
(Bonhoeffer, no livro Discipulado).

V.35: Este trecho é uma conclusão, gar. Ele aponta para o abençoado
resultado da cruz, mas adverte àquele que a nega. Este é um
chamado à lealdade a Jesus e ao evangelho. Nesta sentença
está exposta de maneira realista que, se alguém procura garan-
tir a sua vida física agora, negando a Jesus, o resultado será a
perda da vida eterna no futuro. Por outro lado, se alguém sacri-
fica sua vida física aqui, por amor a Jesus e à sua mensagem,
qualquer perda será insignificante, comparada com o lucro da
vida eterna depois.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Este texto dá ao pregador a oportunidade de falar sobre verdades bási-
cas a respeito de Jesus e dos cristãos e das quais todos deveriam ser lem-
brados.
1 . VERDADES SOBRE JESUS, O CRISTO (27-29). Para confessar
seu nome corretamente!
2. VERDADES SOBRE SUA VIDA (31-33). Para crermos em sua
missão!
3. VERDADES SOBRE A NOSSA VIDA (34-35). Para tomarmos a
nossa cruz e seguir a Jesus.

É verdade que em meio a uma variedade de ensinos, pode ser complica-


do encontrar a unidade do texto para que todo ele possa ser pregado. No
entanto, vale a pena um esforço nesta direção e pregá-lo na íntegra, pare-
ce-me ser muito sábio.

Tema sugerido: "Quanto mais conhecermos a Jesus, tanto mais o


seguiremos em amor9'.

Anselmo Ernesto Grug


Barra do Garças, MT
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

15 de outubro de 2000
Marcos 9.30-37

CONTEXTO
1. O assunto daperícope de Mc 9.30-37 aparece nos evangelhos sinóticos
(Mt 17.22;18.1-5; Lc 9.43-48). Um complementa o outro. João omite o
relato. Lucas (9.43 e 22.24), porém, mostra que os apóstolos discutiram
a questão: "Quem é o maior?'em duas oportunidades diferentes.

2. Cristo encontra-se no auge de seu ministério público. Sua "fama


corria célere em todas as direções". Operava sinais e milagres. Acaba-
va de acontecer sua transfiguração. E neste momento de aclamação
pelas multidões, Cristo olha para a cruz do Calvário e novamente aponta
para o propósito último de sua vinda ao mundo: A necessidade de mor-
rer e de ressuscitar para "buscar e salvar o que estava perdido".

3. Neste contexto, o grande paradoxo entre a preocupação de Cristo e


a preocupação de seus discípulos: Cristo está se consagrando ao exer-
cício de seu ministério, sendo aclamado pelas multidões, lutando pela
edificação do "reino de Deus" e do "reino dos céus" e da "igreja", se
angustiando com a lembrança profética e a aproximação do drama do
gólgota, e, enquanto isso, os disc@ulos, seus escolhidos e líderes,
estão pensando em outras coisas, preocupados com cargos, nomes e
honras pessoais e debatendo um assunto impróprio e vergonhoso:
"Quem de nós será o maior no reino ou na Igreja? Que paradoxo!
Que atitude estranha! Inacreditável! E hoje? Aconteceu?

Como a perícope apresenta dois blocos (Cristo: sua morte e ressurrei-


ção; apóstolos: disputa por cargos, promoções e honras), optamos por de-
talhar um pouco mais o assunto que compreende a pergunta: "Quem é o
maior na igreja?"

TEXTO
Segue breve análise de alguns termos que poderão enriquecer o anúncio
Igreja Luterana - No 1 - 2000

do sermão sobre o tema: "Quem é o maior?", incluindo textos paralelos da


perícope.

1 . Discussão/dialogismós - No mínimo, três significados importantes:


o pensamento, a idéia, o raciocínio; a dúvida, os cálculos, os negócios;
o debate, a discussão, a disputa, o conflito, a briga para conquistar algo
para si mesmo. - Observar bem a seqüência lógica da intenção polí-
tica dos discípulos: cada um estava pensando, matutando e negocian-
do, fazendo cálculos e promessas, disputando e brigando com os ou-
tros para ser o escolhido, ser o nomeado, ser o eleito como o primeiro,
o grande, o superior - o maior! Que vergonha! E , em que momento!
Cristo não poderia gostar, aprovar e abençoar esta tola e doentia am-
bição e politicagem.

2. Maior1 meízon /mégas - significa: grande; aqui, porém, no superla-


tivo : o "acima de tudo e de todos", o "mais", isto é, "o mais grande ...
mais importante, mais alto" - o maior, o superior, o mandante. Isto
aconteceu na igreja de ontem. Ambições similares, infelizmente, ainda
existem na igreja de hoje: a volúpia pelo poder, a ansiedade pelo ser
grande, o desejo tonto pelo ser o mais brilhante, a vontade desequili-
brada pelo ser o maior. O "velho homem" no coraçáo do líder da
igreja (também na escola, na comunidade, na política) quer massacrar
"O novo homem", e apresentar-se, com aparência de direito, de humil-
dade e de legitimidade como: o maioral, o sabe-tudo, o faz-tudo, o
pode-tudo, o comandante, o poderoso, o dono da verdade e dono do
mundo - o maior! O que pretende ser o maior não espera que os
outros o considerem grande, ou o maior entre os outros, mas ele se
considera e se dá o título a si mesmo: "Eu sou melhor que o outro, eu
sou o maior". É falso líder. É pseudo-guia. É a absolutização de si
mesmo. É o cúmulo da autodivinizução! O egoísta, o vaidoso, o or-
gulhoso - que tem capacidade de mentir, persuadir e conquistar - con-
segue enganar a si mesmo e aos outros, mas nunca a Deus. A queda
e a ruína é apenas uma questão de tempo. A máscara vai cair!

3. Criançah~umildadelpaidíon / tapeinôo - Cristo "bate de frente"


com os discípulos. Quer colocá-los no lugar certo e no caminho cer-
to, desviando-os das ambições fugazes que levam à corrupção. Cristo
analisa a volúpia pelo poder, a ansiedade pelo ser o maior, a enfermi-
dade do orgulho e da vaidade de seus apóstolos e, então, procura
chamá-los à realidade do momento, invertendo totalmente a ordem
dos valores morais e espirituais: diante dos que querem ser os maio-
Igreja Luterana - N 1 - 2000

res e todo-poderosos, coloca uma criança como exemplo, modelo e


espelho; na testa dos que vivem em orgulho e vaidade, coloca a sim-
plicidade e humildade. Cristo derruba as muralhas; muda os concei-
tos políticos e sociais; tira a máscara e mostra que nele e com ele
(Cristo) tudo passa a ser novo, contrário e diferente - o "reino deste
século" não é "reino de Deus", a "sinagoga de Satanás" não é "igreja
do Deus Vivo", a "vontade deste século" não é "mente de Cristo"! E,
neste ambiente de ansiedade e negociatas, Cristo inverte a ordem
dos valores: troca maior por menor, troca grande por pequeno, troca
primeiro por último, troca senhor por servo, troca orgulho por humilda-
de, troca ser servido por servir. Parece o caos. É um choque. É que
Cristo traz uma mudança, uma transformação, uma nova realidade,
nova atitude dos filhos de Deus no reino de Deus. "O homem cheio de
si sempre é vazio". Humilhar1 tapeinôo (Lc 18.4): É o oposto de
exaltar-se, de vaidade, de orgulho, de soberba, de pomposo, de "o
mais" em tudo; é uma atitude que reconhece seus defeitos, erros e
limitações. É esvaziar-se. É baixar a cabeça. É inclinar-se diante de
Deus. É saber que tudo o que o filho de Deus é e tem, ele o é e o tem
por dádivas exclusivas de Deus. Cristo deu o maior exemplo de humil-
dade: Fp 2.5-1 1 . Só o humilde é bem-aventurado e pode aparecer
diante de Deus. - Criançalpaidíon : Como em muitas outras ocasi-
ões, "Jesus apresenta as crianças como modelo, pois estas têm uma
atitude de absoluta confiança e humilde dependência" (Nota da Bíblia
para Estudos-SBB).

4. Converter1 stréfoo (Mt 18.3) - Para crescer e ser grande no "reino


de Deus", "reino dos céus", "reino de Israel", "igreja de Deus" (ex-
pressões que aparecem no texto e contexto), precisa acontecer uma
conversão radical na pessoa. Aqui Jesus não usa o termo metánoiu,
mas stréfoo, que significa: converter, dar um giro de meia volta,
retomar, voltar, olhar e caminhar em direção contrária, mudar o modo
de pensar, de ser, de fazer e de viver-sempre com a intenção de deixar
o errado e buscar o certo! É a nova vida em Cristo. É "ter a mente de
Cristo". É, após a justificação, viver em alto grau de sant@cação.

5. Receberlservirl dexomai/douleúo - É o oposto de ignorar, despre-


zar, descansar, ser preguiçoso. Receber, aqui, quer dizer dar atençáo,
dar boas-vindas, cuidar, abraçar, defender e tomar nos braços e carre-
gar! Servir quer dizer ser praticante, agir, fazer, trabalhar, acontecer.
Só discurso sobre infância, sociedade, igreja e reino de Deus não bas-
ta. Cristo é exemplo do fazedor. Não vale: "Faça o que digo e..."
Cristo quer atos. "Eu vim para servir".
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

DISPOSIÇÃO
Introdução: A ansiedade pelo ser o maior
1. Torre de Babel: "Tomemos célebre o nosso nome" (Gn 11).
2. Hitler: Pretendia construir um monumento seu, o qual deveria ser
visto de qualquer um dos oito países que fazem divisas com a Alema-
nha.
3. Salomé: Pede os melhores postos no reino para seus filhos Tiago e
João (Mt 20.20).

Na perícope, Cristo está angustiado com o drama do Calvário, morren-


do pelos outros, e os apóstolos estão preocupados com promoções pesso-
ais,discutindo e brigando pela questão:

Tema: QUEM É O MAIOR NA IGREJA?

I. Aquele que passa por uma transformação total


- Contexto: Cristo, auge do ministério, drama do Calvário, angustiado
com a salvação dos outros; apóstolos, discutindo sobre promoções,
cargos e funções pessoais. Paradoxo.
- Tema: Explicar "reino de Israel", "reino de Deus", "reino dos céus" e
"igreja" (aparece no texto e contexto); definir o que significa "maior";
importância e atualidade do tema, na congregação e igreja.
- Texto: Definir o que significa conversão (Mt 18.3),regeneração, nas-
cer de novo, transformação moral e espiritual ser radical e total.
- Mini-aplicação: "Quem não nascer de novo ..." (Jo3); "Vontade de
Deus ... vossa santificação" (1Ts 4.3).

11. Aquele que vive em espírito de humildade


- Transposição: Provérbio: "O homem cheio (orgulhoso, grande, mai-
or) sempre é vazio". Balão é vento, esvazia com ponta de agulha.
"Quem se faz de grande, é pequeno", não se vê a si mesmo.
- Texto: Explicar o que é humildade (há muitos textos bíblicos); o exemplo
da criança.
- Mini-aplicação: Cristo tem outros lembretes: "Quem se exaltar...".
"Bem-aventurados os humildes ..."

111. Aquele que pratica sua fé


- Transposição: Não doutrinalfé teórica e morta, mas viva e ativa (Tg
1.22,2.17); Cristo: "...vim para servir..."; lava-pés: "eu vos dei exemplo".
- Texto: Explorar o que é dito com: receber, cuidar, praticar, agir, traba-
lhar, edificar; servir como servo; Cristo é modelo.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

- Mini-aplicação: "Vai ter com a formiga ...tu me deste trabalho (1s


43.24) "... meu Pai trabalha até agora".

CONCLUSÃO
Retomar introdução, tema e partes. É difícil ser grande ou o maior na
igreja. Quem se faz a si mesmo de grande, é pequeno. Só Cristo pode fazer
de uma pessoa pequena e humilde uma pessoa grande e brilhante. Cristo é
modelo do ser humilhado e depois ser exaltado: "Tende em vós o mesmo
sentimento que houve também em Cristo Jesus" (Fp 2.5-1 1).

Dr: Leopoldo Heimunn


Igreja Luterana - No 1 - 2000

22 de outubro de 2000
Marcos 9.38-50

CONTEXTO
Esta passagem relata parte do trabalho de Jesus realizado na Galiléia.
Num contexto maior ele mostra seu poder, ensina, consola, orienta tanto os
discípulos como as multidões e prepara seus discípulos para enfrentar este
mundo sem a sua presença em forma de homem neste mundo. Mesmo
contando com a certeza da salvação e com o poder de Deus é preciso manter
a humildade, a tolerância e procurar a paz e harmonia entre os crentes (Mc
8). Num contexto imediato temos Jesus com seus discípulos em Cafarnaum,
na casa de Simão Pedro (Mc 1.21,29), ou na casa do próprio Senhor Jesus
(Mc 2.1). Aqui Jesus ensina sobre a tolerância, sobre o perigo dos escândalos
e orienta-os a viver em paz uns com os outros.

EXEGESE
Vv.38-40 - A divulgação da Boa Nova de Cristo por palavras e obras é
privilégio de todos os crentes, não pode haver monopólio. Jesus
quer que haja outros discípulos e, de alguma forma, eles precisam
praticar o dom que receberam. Os que já estão práticos podem
ser tolerantes com os aprendizes sem medo de perder o "trono",
pois a seara é grande e sempre faltam trabalhadores (Mt 9.37).

O servo de Cristo, naturalmente, produz frutos da sua fé. Ele fala bem,
e não mal, do seu Senhor. O servo de Cristo recebepoder, isto é, habilidades
como um ser divino ou como um anjo. Recebe força e vontade para
desenvolver sua missão conforme seus dons (At 8.1).

V.41 - A força espiritual de um servo de Cristo é demonstrada quando


ele ajudaum outro servo, não importando o tamanho desta ajuda.
Quando irmãos na fé entendem e ajudam uns aos outros, os que
não são da fé irão simpatizar-se com os cristãos e a Igreja
cresce (At 2.47).

V. 42 - Levar uma criança ou alguém com fé de criança a tropeçar ou


Igreja Luterana - N" 1 - 2000

mesmo destruir essa sua fé, significa provocar a grande ira de


Deus. Seria mais vantajoso para o causador do escândalo que ele
morresse antes de escandalizar o pequenino. Por outro lado, o
"forte" na fé olha com amor o mais "fraco" e procura fortalecê-lo.

Vv. 43-48 - Cortar a mão, o pé, arrancar o olho. Neste contexto trata-
se de uma hipérbole, isto é, um exagero intencional.

Quando não vivemos o Evangelho de Cristo, escandalizamos os mais


fracos. Também é verdade que nossas más atitudes são tropeço para nós
próprios. Assim como Jesus foi radical ao falar sobre o escandalizar o
pequenino, ele também radicalizou ao falar do escândalo para si próprio:
Corta ou arranca o membro que faz você tropeçar. Isto aponta para o imenso
cuidado que precisamos ter com esta questão: " Aquele, pois, que pensa estar
em pé, veja que não caia." (I Co 10.12).

O causador do escândalo, quer seja para o próximo ou para si mesmo,


tem diante de si a dura sentença: Se ou mal não for cortado pela raiz, você
irá para o inferno, onde o verme não se acaba, isto é, onde a decadência e
a destruição são perpétuas.

Vv.49-50 - No Antigo Testamento os sacrifícios eram purificados com


sal (Dn 2.1 3). Aqui temos a idéia que o servo de Cristo é
purificado com o "sal que queima" o verme da corrupção. Este
sal é o Evangelho de Cristo (Palavra e Sacramentos), que tem
o poder de livrar-nos dos maus desejos que poderiam levar a nós
e o próximo ao fogo de tormento eterno.

O sal (Evangelho) por si mesmo é excelente. Mas ele perde seu efeito
quando o aplicamos a nós mesmos de forma indevida ou imprópria, ou
quando nos fechamos para o seu efeito santificador. Neste caso não somos
libertos de nossa corrupção. Por outro lado, podemos ter paz uns com os
outros quando estamos de posse deste Evangelho que purifica.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: Purificados pelo Evangelho.
a. Exercemos a tolerância e o amor.
b. Evitamos os tropeços.
c. Vivemos em paz.

O sal "queima". Coloque-o sobre um ferimento e você sentirá. Sendo


assim, ele também serve para tirar impurezas e toxinas. No Antigo Testamento
Igreja Luterana - h'" 1 - 2000

o sal era usado para purificar os sacrifícios trazidos ao altar do Senhor (Dn
2.13).

Pela graça e amor de Deus, dispomos de um "sal" que tem o poder de tirar
de nós toda a impureza do pecado. Este sal tem poder purificador e
santificador: o Evangelho de Cristo.

Sérgio Luiz Neivert


Alta Floresta, M T
Igreja Luterana - No 1 - 2000

29 de outubro de 2000
Marcos 10.2-16

CONTEXTO
A cena que este capítulo do evangelho de Marcos nos mostra é já co-
nhecida: Nosso Senhor rodeado pelos seus discípulos, pela multidão ávida
para ouvir as suas palavras e pelos fariseus, também atentos ao que Ele
dizia pois queriam encontrar algo para condená-lo.

Os fariseus decidem experimentá-lo e lhe lançam uma pergunta capci-


osa acerca do divórcio. Para entender o lado ardiloso da questáo é neces-
sário lembrar que, à época de Jesus, o adultério era um "pecado feminino".
Explicando: segundo a deturpada concepção farisaica, unicamente a mu-
lher casada podia ser acusada de adultério em caso de infidelidade conju-
gal. Se a infidelidade fosse praticada pelo marido, eles não consideravam
tal ato como adultério!

A lei acerca do divórcio a qual se referiram está no capítulo 24 (vv. 1 -


4) do quinto livro de Moisés. Fazendo-se uma leitura cuidadosa desse texto
se percebe que o mesmo havia sofrido uma má interpretação por parte dos
fariseus. Estes estavam divididos neste assunto: havia os que eram adeptos
da escola do rabino Hillel que apregoava o divórcio por qualquer motivo,
enquanto os adeptos do rabino Shammai estabeleciam o adultério como
razáo para a ruptura do laço matrimonial.

O texto evangélico desta perícope pode ser entendido em três momen-


tos: primeiro, quando os fariseus se aproximam de Jesus e seus discípulos
para questioná-lo sobre o repúdio; segundo, quando os discípulos, em parti-
cular (v.10 "Em casa"), interrogam-no sobre o mesmo assunto, pois não
ficara claro para eles; o terceiro momento é quando as crianqas são trazidas
ao Mestre e os discípulos tentam impedir tal situação.

TEXTO
V. 2: Os fariseus mais uma vez aproximam-se de Jesus, não para ouvi-
Igreja Luterana - N 1 - 2000

rem os seus ensinamentos, mas para lhe fazerem um


questionamento acerca duma prática comum na época: o repúdio
de uma mulher por parte do seu marido.

V. 3: Jesus, conhecedor perfeito da Lei, remete-se à autoridade das


Sagradas Escrituras e interpela-os sobre o assunto que eles lhe
propõem.

V. 4: A resposta imediata dos fariseus mostra que eles sabiam muito


bem o conteúdo dessa parte da legislação mosaica.

V. 5 : As palavras de Jesus sobre a razão pela qual a lei contempla a


possibilidade de divórcio: a dureza do coração ( C ~ h q p o ~ a p G t r r-v )
colocan~em evidência a pecaminosidade da prática que os fariseus
não acusavam ao tratarem do divórcio. O termo usado por Jesus
para descrever a situação deles refere-se a uma teimosia em não
aceitar a vontade de Deus (endurecimento do mais íntimo do ser
humano).

V. 6: Jesus traz à atualidade a intenção divina ao criar o ser humano: o


casal.

V. 7: "Por isso" reporta-nos à vontade de Deus mencionada no versículo


anterior: Porque Deus quer a formação do casal deve o homem
desligar-se dos seus genitores e dedicar-se à sua mulher e ao
estabelècimento da sua família com esta.

V. 8: "...Serão os dois uma só carne" é uma referência direta de Gênesis


2. 24 onde pela primeira vez encontramos o termo -tnx (ehad)
que mostra claramente a pluralidade da unidade - este é o mes-
mo termo usado em Deuteronômio 6 . 4 para referir-se à existên-
cia do único Deus (indicativo da Trindade), diferente de -tr;*
(yahid) que aponta para a unidade sem admitir composição.

Neste versículo Jesus deixa claro que a união do homem e a mulher no


casamento transcende a nossa compreensão lógica ao reforçar com "De
modo que já não são dois, mas uma só carne".

V. 9: A vontade de Deus ao estabelecer a união matrimonial é que o


casal permaneça unido. Qualquer outra ação volitiva é portanto
pecaminosa por ser contrária à divina, pois inclui uma postura de
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

um ou dos dois cônjuges após a sua união. Separar o que Deus


uniu é pecado.

V. 10: Aparentemente os discípulos ainda não tinham compreendido aquilo


que Jesus havia tentado corrigir na visão farisaica sobre o divór-
cio. Em particular, interrogam-no mais uma vez a respeito.

V. 1 1 : O Nosso Senhor afirma aqui algo contrário a deturpada interpreta-


$20 rabínica da época, pois diz aos discípulos que o homem que se
divorciar da sua mulher "comete adultério contra aquela" (neste
caso alguém argumentará que o adultério seria cometido contra a
mulher com a qual tal homem se casa. Esse argumento falha na
interpretação, pois pelo contexto se percebe que Jesus referia-se
à esposa repudiada).

V. 12: A interpretação feita por Jesus acerca da questão do divórcio não


admite a opção de um novo casamento para os cônjuges que sim-
plesmente decidem repudiar-se. Ele deixa claro que quem casar
novamente comete adultério.

V. 13: Aparentemente há uma interrupção neste ponto do relato evangéli-


co. O foco deixa de ser o assunto do divórcio e se transfere para a
presença de crianças no local onde Jesus encontrava-se com os
seus discípulos. Estes manifestaram-se contrários a presença in-
fantil nesse lugar, repreendendo os que os haviam trazido.

V.14: A indignação expressada por Jesus é compreendida quando Ele


diz que o reino de Deus é das crianças e, portanto, não devem ser
impedidas de aproximarem-se d'Ele.

V.15: Jesus aqui explica que o reino de Deus deve ser recebido como
uma criança [o faz]. Esta explanação deve nos levar a compre-
ensão de que pertencer ao reino de Deus não é algo que depende
da "decisão" do ser humano (sinergismo), também devemos per-
ceber que é condição sine qua non a atitude infantil para receber
a graciosa dádiva que Deus concede ao homem: receber o reino
de Deus e fazer parte dele (entrar nele).

V.16: Jesus abençoa as crianças trazidas até Ele; o fato de tomá-las


nos braços e impor as mãos sobre elas nos mostra uma atitude
paternal e amorosa do Salvador.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

PROPOSTA
HOMII,I?TICA
Destacar por um lado a religiosidade dos homens, tanto fora da Igreja
(OS fariseus do texto) como dentro dela (os discípulos barrando as crian-
ças) como sendo passível de erro e de reprovação, e por outro lado, o
ensino de Jesus como sendo a interpretação correta da vontade de Deus.

I - A presença do erro nos conceitos humanos


1 . Fora da Igreja
- Os fariseus e sua deturpada interpretação da lei
2. Dentro da Igreja
- 0 s discípulos no seu zelo por cercar o seu Senhor impedindo o seu
contato com as crianças.

I1 - Jesus corrige as concepções errôneas


1 . Aos de fora da Igreja
- Jesus esclarece qual é a vontade de Deus
2. Aos de dentro da Igreja
- Jesus mostra aos seus discípulos a necessidade dar atenção a todos.

enfatizando as crianças.

Conclusão
É no ensino de Jesus que todos podemos conhecer a vontade de Deus.
O ser humano se perde por caminhos e interpretações que o afastam mais
de Deus. Exemplo disso é o divórcio que hoje é um verdadeiro flagelo
epidêmico em muitas sociedades. Nunca foi da vontade de Deus que esse
mal fosse aceito. Também o Mestre nos mostra a necessidade de aceitar a
todos os que Dele se aproximam e ser como muitos deles: simples, pois é a
simplicidade, a ausência de vaidade, o reconhecimento da própria incapaci-
dade o que Deus vê com beneplácito no seu povo.

Gusravo Pereira Roniero


Nova Hartc, KS
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

5 de novembro de 2000
Marcos 10.1 7-27 (28-30)

CONTEXTO
As palavras do nosso texto encontram-se no contexto do final do
ministério de Jesus. Já ocorrera a transfiguração de Jesus ( 9 . 2 ~ ~Jesus
) . já
havia insistido com seus discípulos revelando a necessidade da sua morte
(8.3 1,9.3). Dentre os diversos ensinamentos, Jesus falou da oração (9.29),
falou do serviruns aos outros (9.35ss), falou do bomexemplo (9.42s).Jesus
criticou a leviandade em relação ao matrimônio e abençoou as crianqas.
Tudo isso ocorreu nas proximidades do mar da Galiléia (9.30), Cafarnaum
(9.33) e no caminho para o território da Judéia (Mc 10.I ) , indo em direção
de Jerusalém (Mc 10.32). Em meio a tudo isso, aparece um jovem, querendo
saber o que ele deveria fazer para herdar a vida eterna (Mc 10.17).

TEXTO
V. 17 - Jesus estava retomando a sua caminhada rumo a Jerusalém. Um
homem jovem, de certa projeção, prestígio, quer saber de Jesus o
que ele deveria fazer para herdar a vida eterna. Esse jovem
representa humildade. Ele ajoelha-se diante de Jesus. Só que a sua
pergunta está invertida. Ele pergunta: o que farei para herdar a vida
eterna? A pergunta mais acertada seria: como eu posso herdar a
vida eterna?

A pergunta desse homem revela a orientaçáo religiosa que vivia: a


salvação por esforço próprio.

" ... herdar ..." - participar das riquezas do Pai como filho.

" ... vida eterna ..." - é o tipo de vida de Deus, não só uma vida sem fim.

V. 18 - "só Deus é bom". Isso não quer dizer que Jesus não é Deus, como
afirma o racionalismo. Com sua resposta, Jesus quer ser visto
como Filho de Deus e não como um "bom mestre".
Igreja 1,uterana - N" 1 - 2000

V. 19 - Jesus responde de acordo com a orientação religiosa desse


homem jovem, citando os mandamentos, dizendo que ele tinha
conheci-mento deles. Interessante que Jesus menciona apenas a
segunda tábua. Talvez porque muitas pessoas imaginam que
podem cumpri-los. Com isso, Jesus estava projetando seu
ensinamento principal nesse episódio.

V. 20 - a resposta do homem jovem foi automática, segura e treinada.


A convicção do homem era visível. Desde os 12 anos, ele assumira
a responsabilidade de cumprir a lei como era exigido pela
comunidade dos judeus.

V. 2 1 -" ... Jesus, fitando-o, o amou ..." - esse amor engloba tudo que tem

de mais significativo no intuito de ajudar esse homem em sua


deplorável condição espiritual. Não é um amor-afeição, mas é
amor-salvação (Jo 3.16).

"... só uma coisa te falta ..." Jesus aponta para o homem que ele realmente
precisava da coisa essencial e vital para herdar o Reino de Deus. Faltava-
lhe a metánoia (conversão). (Nicodemos = nascer de novo, Jo 3.3).

"... vai, vende tudo que tens ..." - Jesus colocou o dedo no problema
central desse homem: o seu amor às posses e bens terrenos. Não que o
cristão não possa ser rico. (Zaqueu, José de Arimatéia, Ananias, etc. -
Lutero e o 1" Artigo).

" ... tesouro no céu ..." - não pela atitude de desfazer-se dos bens terrenos,
mas pela "metánoia", sendo o coração ocupado por Deus. O tesouro no céu
é de validade permanente e eterna.

V. 22 - O homem jovem retirou-se da presença de Jesus, mas a palavra de


Jesus foi com ele. Não é nenhuma surpresa esse procedimento. Ele
revela a realidade humana. Mas apalavrade Deus não voltará vazia.

V. 23 - O homem partiu e deixou Jesus. Jesus acentua que dificilmente


entrarão no reino de Deus os que possuem riquezas. Jesus coloca o
ponto decisivo no final: para Deus é possível o que é impossível para
os homens. A herança da vida eterna é graça e dádiva de Deus.

Vv. 24-25 - A ilustração do camelo e fundo da agulha ressalta a


impossibilidade do homem salvar-se. A salvação é purae somente
graça de Deus.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

Vv. 26-27 - "... quem pode ser salvo?" Esta pergunta reflete a idéia dos
discípulos de que o homem teria alguma chance de salvar-se. Por
outro lado, ela também revela que todo homem tem um secreto
desejo de riquezas.

"... para Deus tudo é possível." Absolutamente verdade. Para o homem


é impossível entrar no reino de Deus. Aqui anula-se todo o pelagianismo, o
moralismo e o sinergismo.

Em sua graça e amor, Deus salva o pecador. É o que aprendemos no 2"


e 3" Artigos do Credo Apostólico.

PROPOSTA
HOMILÉTICA
Tema: A salvação do pecador

I - Impossível para o homem.


I1 - Possível para Deus.

Introdução
- Representar coisas impossíveis: passar um corpo maior por um
orifício
menor (uma bola de vôlei pela abertura da aliança; um caminhão por um
portão de pedestre, etc).

A salvação do homem.

I - É impossível para o homem.


- Com base no texto, relatar idéias e esperanças do homem com respeito
à sua salvação. "Que farei para herdar a vida eterna?" Prestígio, boa
conduta, submissão a leis, etc.

I1 - Possível para Deus.


- Em sua graça e amor, Deus perdoa, dá a fé e salva o pecador. (Dá para
explorar o 2" e 3" Artigos do Credo Apostólico).

Conclusão
- Contrapor a perguntado homem jovem do texto: "Que farei para herdar
a vida eterna?"com a pergunta mais apropriada: "Como poderei herdar
o reino de Deus?" (Acentuar a fé em Jesus).

Leorzurclo Kaasch
Novo Hamburgo, RS
Igreja Luterana - No 1 - 2000

12 de novembro de 2000
Marcos 13.1-13

CONTEXTO
1 - O autor: Não foi apóstolo, mas companheiro de Pedro e Paulo e
primo de Barnabé. Provavelmente, convertido por Pedro ao cristi-
anismo (C1 4.10) acompanhou Paulo e Bamabé na primeira via-
gem missionária (At 13.5,13). Foi protagonista da separação de
Paulo e Barnabé na segunda viagem (At 15.36-40). Esteve, nova-
mente, ao lado de Paulo durante seu aprisionamento em Roma (C1
4.10 e 11; 2 Tm 4.11). Acompanhou, igualmente, a Pedro (1 Pe
5.13). Segundo a tradição, é o fundador da igreja em Alexandria,
no Egito.

2 - A data: Com certeza o evangelho de Marcos pode ser datado


antes da destruição de Jerusalém em 70 AD.

3 - Endereçamento: A não-judeus, provavelmente romanos conver-


tidos ao cristianismo. Confira-se: a) explica palavras judaicas (3.17;
5.41; 7.1 1 ; 7.34; 14.36); b) explica costumes judaicos (7.2 e 3;
14.12; 15.6,42); c) descreve a doutrina dos saduceus ( 1 2.1 8) e d)
utiliza palavras latinas como "legião", "centurião" e "quadrante"
( 12.42).

4 - O propósito: Marcos é o evangelho dos feitos de Cristo. É uma


narrativa histórica, afeita ao imanente, apontando para a boa nova
de Deus, em e por Jesus Cristo. Portanto, transcendente. É como
se Marcos ao desvendar Cristo no mundo estivesse apontando para
o futuro. Desta forma, o agora e o depois se confundem. A per-
cepção gira em torno da temática do tempo (xrónos e kairós). O
movimento dado ao tempo por Marcos é no sentido de trazer o
distante (o escatológico) para o perto (o histórico) a partir, justa-
mente, do perto. A narrativa não é apenas mais uma história, mas
a história escatológica. O reino de Deus não virá. Está vindo!
-
Igreja Luterana - N" 1 2000

Tanto é assim que Marcos em mais de 150 oportunidades utiliza os


verbos no presente para relatar os eventos que descreve, como se
eles estivessem justamente ocorrendo naquele momento. Além disso,
os eventos escolhidos em seu relato apontam o Jesus histórico como
sendo o Cristo, ou seja, a ação escatológica de Deus preparada
por João Batista, inaugurada no batismo e tentação de Jesus.
conduzida pelas diversas batalhas com várias formas de mal e, até
mesmo, em sua morte Jesus experiencia o ultimato do envolvimento
histórico e do antagonismo diabólico. Na ressurreição, no entanto,
a força do mal é histórica e conclusivamente quebrada e o poder
do reino de Deus, no Cristo e através de Cristo, é estabelecido na
história. Daípor diante, a história, individual ou coletiva, do agora
encontra seu sentido na expectativa do depois que está vindo.
Marcos demonstra, assim, que os cristãos, em e por Cristo, podem
restaurar suas histórias, desconstruindo-as de sua perspectiva do
agora e reconstruindo-as na perspectiva do depois.

Tmo
Denominado de "o apocalipse de Marcos", o capítulo 13 tem como ce-
nário a cidade de Jerufalém: à saída do templo (vv. 1 e 2) e, após, no monte
das Oliveiras (vv. 3-37).

A fala de Jesus é forte! Impressiona e assusta! O templo será destruído


a ponto de não sobrar pedra sobre pedra (v. 2). Destruir o templo era per-
der o referencial simbólico da presença de Deus entre o povo e o ponto de
aproximação de uma nação a Deus. Era um bem muito valioso, material e
simbolicamente, para terminar num monte de entulho! No entanto, é justa-
mente assim: por mais que se estime um bem material, ainda que seja o
templo, e por maior valor simbólico que se atribua a esse bem, ainda que
seja o templo, ele perde seu valor histórico do imanente, do agora. Uma
nova história está vindo, a do depois, para dar ressignificação escatológica
a tudo o que ainda é.

A narrativa de Marcos do discurso de Jesus continua dramática. Não é


só o templo que será desconstruído. Os vv. 7 e 8 apontam para a
desconstrução das sociedades, seguida da desconstrução das pessoas (vv.9-
1 1 ) e da família (v. 12). A medida que o reino está vindo tudo irá se
desconstruindo: os valores históricos, a sociedade, a família e as pessoas. É
possível, no entanto, não temer nada disso e aguardar firme até o fim a
chegada definitiva do reino de Deus quando todas as coisas se farão novas.
É a reconstmção!
-
Igreja Luterana No 1 - 2000

A partir do todo do evangelho de Marcos, é como se o autor enfatizasse


que o fim virá. Se hoje ou amanhã não é relevante. O fato marcante é que
o reino de Deus está vindo e esta vinda é marcada pelo fim das coisas.
Durante a expectativa da chegada pode-se permanecer firme, na perspec-
tiva da parousia, resignificando nossas histórias, bens, valores sociais, fa-
miliares e pessoais. Esta possibilidade torna-se concreta porque Jesus é o
Cristo, o alfa e o ômega, o histórico e o escatológico.

1 - Jesus, o Cristo, que reconstruiu a história, está nos trazendo Seu


reino.

2 - A expectativa do reino de Deus nos move, em e por Cristo, a


ressignificar nossas histórias.

3 - O reino de Deus está vindo: desconstruindo a velha carne e cons-


truindo um novo homem.

4 - Com a vitória de Jesus Cristo sobre a história do agora, é possível


perceber o sentido escatológico do viver do novo homem.

5 - Ficar firme até o fim é perceber que a história do agora e do


depois se confundem.

6 - O fim está vindo! Em que acreditamos e para que vivemos?

Ronaldo Steffen
Süo Leopoldo, RS
Igreja Luterana - No 1 - 2000

19 de novembro de 2000
Marcos 13.24-31

CONTEXTO
O ano da Igreja está novamente chegando ao fim. Novamente nossos
sermões voltam-se para o tema da Escatologia - as últimas coisas, os últi-
mos dias. É natural que concentremos nossa meditação nos sinais dos tem-
pos, nas coisas que hão de acontecer antes que o fim venha. Antes de dar
moldes finais à nossa meditação, porém, é boa praxe olhar para o contexto
maior do nosso texto no Evangelho de Marcos e perguntar pela função do
texto no programa narrativo do evangelista.

Em primeiro lugar, deveria estar claro que Jesus não está dando uma
aula sobre o fim dos tempos. Ele está respondendo a uma pergunta - per-
gunta que surge em um contexto pré-paixão, onde o conflito com as autori-
dades religiosas atinge o seu ápice.

Tudo inicia às portas de Jerusalém. Mc 1 1 . Em sua entrada triunfal em


Jerusalém, Jesus vai até o templo, apenas observa a cena e retira-se. O
evento da purificação do templo, cercado pelos dois encontros com a fi-
gueira estéril, é um claro julgamento sobre a religião de Israel, a qual torna-
ra-se estéril, incapaz de dar os frutos esperados. Se isto não estivesse claro
suficiente, a parábola dos lavradores maus sozinha seria suficiente para
esclarecer o ponto. Na seqüência, fariseus, herodianos e saduceus são cen-
surados pelo Mestre.

Passamos então à seção positiva. Jesus reafirma os dois grandes man-


damentos que excedem qualquer lei ou sacrifício - o amor e devoção ao
único Senhor e o amor ao próximo como a si mesmo. Nada pode estar
acima destes dois mandamentos. No incidente da viúva pobre, Jesus mos-
tra o que é o verdadeiro culto, aquele em que a pessoa coloca sua esperan-
ça e confiança irrestrita em Deus, na certeza de que é dele que vem o
amparo e sustento diários.
Igreja Luterana - No 1 - 2000

Neste momento Jesus e seus discípulos saem do templo. Diante da ad-


miração dos discípulos pela grandeza arquitetônica do templo, Jesus decla-
ra: "não ficará pedra sobre pedra". Nesta frase está o julgamento final de
Jesus sobre tudo o que ele e seus discípulos viram e ouviram naquele dia:
todo o magnífico edifício religioso de Israel, com sua aparência externa,
fora rejeitado por Deus.

TEXTO
O "pequeno apocalipse" que encontramos em Mc 13 é, em sua maior
parte, uma descrição da destruição do templo e da tribulação que estava para
ocorrer em 70 d.C. Tudo o que Jesus fala aqui é uma resposta a pergunta:
"quando estas coisas irão acontecer?" Interessante que a linguagem que
Jesus usa no final do discurso - a que nos interessa para este Domingo -
reflete profecias do AT em que se anuncia juízo contra nações estrangeiras:
Babilônia em 1s 13, Egito em Ez 32, todas as nações em J12-3. Israel perdeu
seu status. Quando o Filho do Homem vier nas nuvens com seus anjos, ele
não recolherá os filhos de Israel, e sim os seus escolhidos. Se Jesus não entra
em detalhes aqui, Joel nos ajuda a identificar esses escolhidos: Todo aquele
que invocar o nome do Senhor será salvo (J1 2.32).

Neste ponto, deve estar claro que o discurso de Jesus é um discurso


consolador. Tribulações virão, mas os escolhidos de Deus estarão em segu-
rança. Como Paulo em Rm 8, Jesus quer que seus discípulos saibam que
nada poderá separá-los do seu amor. Essa certeza é importante para o
momento, já que à espera dos discípulos está a paixão do Mestre.

Interessante notar que Jesus retorna ao tema da figueira. Por um lado,


essa figura mostra que não há necessidade de pânico atrás de sinais da
proximidade da volta de Cristo. Nenhum conhecimento especial, nenhuma
iluminação, nenhuma revelação particular é necessária. Nem deve tal pre-
ocupação ocupar a mente dos discípulos. Assim como a proximidade do
verão é evidente a qualquer pessoa, assim tambem será a volta do Filho do
Homem. Quem quiser estar preparado para aquele dia, o melhor que faz é
evitar o exemplo de Israel, que, preocupado consigo mesmo, tornou-se fi-
gueira estéril, inútil, rejeitada. O bom discípulo guarda o que Jesus disse no
templo: há duas coisas que excedem todas as outras juntas. O amor ao
Senhor, único Deus que guarda o seu povo, e o conseqüente amor ao próxi-
mo como a si mesmo. É uma atitude comunitária, e não individualista, que
está sendo incentivada.

Em resumo, nosso texto aponta para o futuro como algo certo, algo que
- -
Igreja Luterana N" 1 2000

nosso Salvador prometeu e não deixará passar (v. 31). Mas o texto quer
que os discípulos, certos de seu futuro, vivam o presente, onde o louvor a
Deus e o amor ao próximo são frutos constantes e abundantes. Avançar
com gratidão a Deus significa antes de mais nada viver em gratidão. E é
esta vida de gratidão repartida e multiplicada em comunidade que o texto
do evangelho deste Domingo quer despertar. Em nosso contexto brasileiro,
certamente temos muito a agradecer, e muito mais a repartir. Que a certeza
do nosso futuro abençoado nos permita avançar com gratidão no presente,
fazendo também deste uma bênção para muitos.

TEMA
Vivendo com gratidão a Deus - por nosso futuro.

Gerson L. Flor
Pieterrnaritzburg, África do Sul
- -
Igreja Luterana N" 1 2000

26 de novembro de 2000
Marcos 13.32-37

CONTEXTO
a) Bíblico: Em Marcos, é o final do sermão profético. O "vigiai" apare-
ce quatro vezes neste texto após todas as demais exortações. O as-
sunto não é brincadeira e não pode deixar de ser pregado pela igreja.
Após o sermão profético, começa o relato da semana-santa: o sacri-
fício de Cristo por nós.

b) Litúrgico: Este é o último domingo do Ano Eclesiástico. No próximo


Domingo é Advento, quando lembramos tanto a primeira como a se-
gunda vinda de Jesus. As demais leituras do dia fecham com o tema
da volta de Cristo. Salmo 130: "Aguardo o Senhor ... a minha alma
anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã"
(VV.5 e 6). 1s 5 1.4-6: Apesar do fim do mundo, a salvação e a justiça
de Deus durarão para sempre! Jd 20-25: "Deus é poderoso para nos
guardar fiéis para aquele dia! A doce mensagem do Evangelho pode
ser destacada destas leituras, especialmente de Judas.

c) Contexto social: A correria de final de ano já começou. Parece que


o Natal já será amanhã. É tempo de parar e refletir. Estou me prepa-
rando para a primeira vinda de Jesus no Natal e para a segunda vinda
no final dos tempos? Não podemos deixar o povo apavorado diante
da volta de Cristo; isto já é o natural de cada pessoa quando ouve
falar do fim do mundo; mas é nosso dever ajudá-lo a se preparar pela
fé em Jesus, consolando os ouvintes em Cristo e dando-lhes a verda-
deira esperança cristã.

Texto:
V.33: blépete - Este verbo blépo aparece também nos versículos 2, 5 e
9 do mesmo capítulo. Significa: vejo, olho; acautelo-me de; discirno,
percebo, compreendo; considero, contemplo, examino. Cf. v.2 "Vês
-
Igreja Luterana N 1 - 2000

estas grandes construções?" v.5: "Vede que ninguém vos engane"


v.9: "Estai vós de sobreaviso". É o contrário de: estar de olhos fecha-
dos, desatento.

- agrupneíte - de agrupnéo: vigio, estou acordado, estou com insônia.

V.34: gregore-gregoréo, de vigio (é o 3" termo para dizer a mesma


coisa)

- a ilustração: o senhor se assenta; somos mordomos, administradores.

v.35: gregoreíte, de gregoréo, vigiar

-as quatro horas da vigília, quando trocava a guarda, segundo o costu-


me romano: 21 h, 24h, 3h, 6h.

v.36: - "dormindo" não é o sono físico. Podemos e devemos dormir em


paz (S14.8). Devemos tranqüilizar o ouvinte de que estamos na graça
de Deus, diante do medo de alguns de que Cristo venha enquanto
estiverem dormindo em sua cama.

v. 37: gregoreíte, de gregoréo: vigiar (igual ao v. 35)

PROPOSTA
HOMILÉTICA
- Tema: Vigiai! (Como?)
- Objetivo: Animar os fiéis a estarem alertas para a volta de Cristo,
com trabalho, alegria e confiança.
- Empecilhos na busca do objetivo: sonolência espiritual; descaso com
as coisas de Deus; medo diante do fim de todas as coisas; falta de
conhecimento dos planos finais de Deus para com seus filhos; acomo-
dação diante da demora.
- A solução de Deus: Jesus nos despertou do sono da morte (Ef 2.1),
nos mantém vivos pela Palavra e Sacramentos, nos garante sua graça
até o fim (Jd 20-25).
- Introdução: A própria ilustração de Jesus no v. 34 ou do SI 130.6. Há
diversas versões: jardineiro cuidando do castelo durante a ausência do
proprietário; gerente de firma cuidando dos negócios durante a via-
gem do dono; ou uma empregada cuidando da casa durante as férias
da patroa ....

I - Trabalhando:
Não como os tessalonicenses (2 Ts 3.1 1). Cf. contexto da volta de Cristo 2 Ts 2,
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

Mas:
- na família
- na sociedade
- na igreja

I1 - Confiando:
- Não descrendo, não desconfiando
- Ele voltará para buscar os seus
- Ele é gracioso

Conclusão
Ano 2000: previsões 2 Pe 3.9,13.

D K Carlos Walter Winterle


Porto Alegre, RS
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

Covardes! Medrosos! Nove covardes foram trazidos em solene pro-


cissão para dentro deste auditório na noite de hoje. Nove medrosos. Nove
seminaristas que sairão daqui pastores formados. Nove medrosos. Agora,
será que foram só nove? Acho que não. Foram trazidos por gente medro-
sa e recebidos por gente medrosa. Dez, quinze, vinte, cinqüenta, cem,
duzentos, centenas de medrosos. Todos nós, gente que, com o pai Adão,
precisamos confessar: Tive medo, e me escondi (Gênesis 3.10).

Muitos medrosos. Mas hoje queremos falar de modo especial de nove


rapazes. Nove medrosos, nove covardes. Medrosos e covardes por natu-
reza. Fracos e incapazes para qualquer missão que Ihes pudesse ser con-
fiada. Nove medrosos que não precisam que ninguém Ihes dê um espírito
de covardia, porque já são covardes do jeito que nasceram.

Nove covardes?! Nove medrosos?! Será possível?!

Num plano puramente humano, é preciso afirmar que fica difícil dizer
que aí está um grupo de covardes. Aqui chegaram em 1994, faz seis anos.
Eram doze. Sobraram 9: Alex, Alexandre, Edson, Gerson, Ildo, Lairton,
Nazareno, Nerlinho, e o Luis Cláudio, que por assim dizer entrou no lugar
do Nestor, em função do intercâmbio de alunos com o seminário irmão de
St. Louis, Estados Unidos.

São a turma do Manifesto da IELB, como foram chamados naquele nâo


tão distante ano de 94. Lembram, naquele ano não era para ter ingresso de
alunos no Seminário? Mas, em função do Convênio IELB-ULBRA, pude-
-
Igreja Luterana - No 1 2000

ram ser aceitos - com subterfúgio ou não, que importa? - como alunos
da ULBRA. E aqui chegaram eles, com a cara e a coragem. Foi um ano
difícil (ou teria sido mais de um ano?). Por força do Manifesto do Conselho
Diretor da IELB (1 993), não podiam ser abertamente considerados alunos
do Seminário, embora aqui estivessem morando e fosse aqui que queriam
estudar. Discutiu-se se podiam ser membros do Diretório Acadêmico e a
decisão dos colegas, pelo que parece, foi negativa a princípio. Situação
difícil. [Hoje, ironicamente, se formam no Seminário Concórdia - onde
não podiam ser aceitos - enquanto, por pendência de legislação, ainda
aguardam pela formatura na ULBRA - onde eram alunos de fato num
primeiro momento - no ano que vem.] Não foi fácil ser uma turma "pio-
neira", como era chamada. Mas estes meninos, numa coesão de gmpo
sustentada talvez pela percepção de que "para sair dessa só se ficarmos
juntos"; acompanhados pelos professores; e, acima de tudo, amparados
naquelas horas iniciais pela "mãe adotiva", Prof" Silvana Lehenbauer, fo-
ram, como se diz, "tocando o petiço". Com a cara e a coragem. Com
coragem, sim senhor.

Que vieram fazer aqui? Desfilar covardia? Não. Vieram responder ao


amor do Deus que colocou no coração deles, no batismo, a fé sem fingi-
mento de que Paulo fala, e que, no caso de talvez a maioria deles, habitou
também no coração da avó e do avô, da mãe e do pai. Vieram colocar-se
à disposição de Deus para a obra da pregação da boa notícia do evangelho,
evangelho este resumido magistralmente por Paulo no versículo que segue
ao lema dos formandos: "Deus nos salvou .... não segundo as nossas obras,
mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em
Cristo Jesus".

Que vieram fazer aqui? Vieram desenvolver ou reavivar o dom de


Deus que há neles. Afinal, os dons de Deus geralmente não são dados em
sua maturidade, como plantas em flor. Deus os dá e então permite que
sejam desenvo!vidos. Assim é o dom do ministério.

Hoje eles confessam, com Paulo e Timóteo e tantos e tantos outros:


Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de
moderação. Não, eles não são mais (apenas) covardes e medrosos (algo
que todos somos por natureza). São também corajosos. Não porque talvez
tenham comprado um quilo de coragem (no armazém do Salim), mas por-
que receberam, como dom de Deus, um espírito do poder, do amor e da
moderação.

Espírito de poder. Poder é aptidão para fazer algo. É capacidade de


Igreja Luterana - N 1 - 2000

preparar-se para o ministério e também de exercer o ofício pastoral. Este


ofício, o mais sublime sobre a face da terra, é por vezes descrito como "o
jugo do ministério". É um manto pesado. [Professores, por vezes ficamos
impressionados em ver com que determinação alguns de nossos alunos se
dispõem a colocar sobre seus frágeis ombros um fardo - o exercício do
santo ministério - que é muito mais pesado do que eles acham que são
capazes de suportar. Em alguns casos precisamos comunicar: "Lamenta-
mos, mas em nossa opinião o ministério é um jugo demasiadamente pesado
para você. Não é o seu dom". ] Afinal, vivemos num mundo cada vez
mais sofisticado. Certa vez um teólogo ligado às Sociedades Bíblicas, sa-
bendo que estávamos envolvidos em formação pastoral, fez o seguinte co-
mentário: "Admiro quem hoje se disponha e aceite o desafio de ser pastor,
num mundo em que são tantas as exigências". Na verdade, é relativamen-
te fácil ser um teólogo dentro das quatro paredes de um gabinete e até
mesmo dentro dos muros de um Seminário. Difícil é enfrentar os pequenos
(e grandes) desafios do ministsrio pastoral lá fora. Mas Deus dá poder1
força àqueles que escolheu com o seu dom.

Agora, poderlforça por si só não é tudo. Por isso, os formandos confes-


sam também que Deus lhes deu um espírito de amor. Espírito de amor é
fazer o que se faz pelo bem dos outros, da igreja. Sei, eles foram ampara-
dos, uns mais, outros menos. (Nem todas as igrejas apoiam seus estudan-
tes de teologia assim como muitas congregações e paróquias da IELB exem-
plarmente o fazem. É claro, pode-se fazer mais!) Mas não foi sem sacri-
fício pessoal que chegaram aqui. Foram aquelas manhãs sacrificadas de
sábado, com latim e grego depois de uma semana cheia, porque disso de-
pendia a continuação do programa de formação ministerial .... Foram aque-
las sessões de educação física e aquelas aulas de filosofia que foram até
descritas por alguns como "pura perca de tempo", mas que foram enfren-
tadas não sem um espírito de entrega, abnegação e amor.

E para manter em equilíbrio esse poder e esse amor, a força e a fraque-


za, vem a moderação, o domínio de si. Nenhum covarde tem domínio de si.
Apenas quando se tem a coragem da moderação é que se pode manter a
força e o amor em equilíbrio. Força para fazer. Amor para aceitar. Mode-
ração para saber o ponto de equilíbrio. Soa parecido com a famosa oração
da serenidade (força para mudar o que pode ser mudado, aceitação do que
não pode ser mudado, e sabedoria para notar a diferença), e a semelhança
pode ser mais do que mera coincidência.

Ao mesmo tempo em que confessam o que Deus lhes deu, penso que o
lema dos formandos também pode se transformar numa prece para o que
-
Igreja Luterana No 1 - 2000

vem por aí. Baseado nas palavras apostólicas, "te admoesto que reavives
o dom de Deus que há em ti", é possível fazer do lema uma oração. "Ó
Deus, tu que concedes o espírito de poder, de amor e de moderação, dá-me
a cada novo dia exatamente isto: um espírito de poder, de amor e de mode-
ração. Reaviva em mim o espírito de poder, de amor e de moderação."

Poder no ministério?! Sim, poder. Mas não seria a busca do poder algo
perigoso na vida dum pastor? Ah, é claro que é. A busca do poder é uma
tentação impressionante. Pode ser poder de liderança autoritária ou
prepotência (para citar a carta pastoral do Presidente Winterle). Pode ser
o poder de um salário mais expressivo que resulta dum programa de mor-
domia montado sobre ênfases legalistas. Mas, não é desse poder que fala
o lema. O espírito de poder de que fala o lema é, como também pode ser
traduzido, um espírito de força. É a capacidade de realizar o que precisa
ser realizado. Aqui, no contexto, fica claro que se trata da força para
enfrentar os sofrimentos a favor do evangelho, a força para não se enver-
gonhar do testemunho de nosso Senhor. Esse poder, essa força é essenci-
almente coragem.

Senhor, dá-me também um espírito de amor. Amor? Sim, amor. Amor


sacrifício, amor entrega. "Ah, eu não vou levar essa gente na bandeja!"
Tem pastor que reage assim, especialmente quando os membros o confun-
dem com taxista ou algo parecido ... Aí é preciso mais do que nunca orar
pelo espírito de amor. Esse amor, essa entrega, requer coragem.

Senhor, dá-me também um espírito de moderação. Que eu possa ter


domínio de mim mesmo. Que eu saiba me disciplinar, praticar ecologia
pessoal, ser sensível com os outros, conhecer limites. Nada mais patético
do que um pastor que não sabe se controlar. Esta corajosa moderação é
dom.

Covardes ou corajosos? Covardia ou espírito de poder, de amor e de


moderação? Pois, muita gente acha que ser cristão é ser, por definição, um
covarde. Há mais ou menos dois meses, quando os times gaúchos estavam
afundando no Campeonato Brasileiro de futebol, discutia-se nas rádios a hi-
pótese de responsabilizar os Atletas de Cristo. Um jogador Atleta de Cristo,
diziam alguns, faria corpo mole, voltaria a outra face, permitiria o gol ao ad-
versário, baseado, talvez, no princípio do amor ao próximo, que inclui até
mesmo o inimigo. Foi interessante acompanhar o debate. Alguém disse que
dependeria de que parte da Bíblia os jogadores estariam lendo na concentra-
ção. Afinal, tem também guerra no Antigo Testamento. Um colunista con-
cluiu que a hipótese era "de um ridículo atroz". Lembrou Marcelinho Cario-
Igreja Luterana - N I - 2000

ca, um declarado Atleta de Cristo, cuja fé não impede que passe uma rasteira
nos adversários. Passar rasteiras é um exagero e fere as regras do esporte,
mas revela também determinação, coragem. Hoje a polêmica passou, mas
penso que ficou bem caracterizado que a fé cristã não é sinônimo de fraque-
za e covardia. É o que o lema diz: Deus não nos dá um espírito de covardia
[desse não precisamos, porque já somos medrosos por natureza], e sim de
poder, de amor e de moderação.

Amigos e amigas, nove covardes e medrosos entraram por aquela porta


hoje à noite. Com eles, dezenas, centenas de outros medrosos e covardes,
todos nós. Gente que sabe que não está à altura da tarefa que está pela
frente. Nove rapazes que hoje tremem e suam frio (apesar do calor), mas
que por certo sentirão isso com maior intensidade ainda no dia de sua orde-
nação ao santo ministério e instalação no trabalho paroquial. Medrosos e
covardes por natureza. Mas acima de tudo dotados por Deus com um
espírito de poderlforça, de amorlsacrifício, e de moderaçãoldomínio de si,
para realizar a tarefa para a qual estão sendo chamados: proclamar que
Deus nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas
obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada
em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo apa-
recimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte,
como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho.

Sermão proferido pelo D K Vilson Scholz no culto de fornzatura realizado no


Seminário no dia 4 de dezembro de 1999.
Igreja Luterana - N 1 - 2000

O SENHOR
NOS ALEGROU
Salmo 92 - paralelos Zacarias 9.9-10 e Marcos 11.1-11

Em nome de Jesus - o Rei humilde que muito nos alegra, prezadas irmãs
e irmãos.

Lá vem Ele ...é um Rei - vem triunfante e vitorioso, mas é humilde. Por
isso, ele não vem cavalgando um fogoso cavalo branco, mas vem montado
em um jumento. (Zc 9.9).

- A multidão eufórica grita: "Hosana - louvado seja Deus! Bendito


aquele que vem em nome do Senhor! ... "Louvado seja Deus nas altu-
ras!" (Mc 11.9-10).

- "Alegre-se muito, povo de Siao! Moradores de Jerusalém, ... nações


das extremidades da terra... cantem de alegria, pois o seu Rei está che-
gando ". (Zc 9.9- 1 1 )

Mas que Rei é este? ... Que merece ser louvado? Por acaso n2o é aque-
le mesmo Rei, que poucos dias depois ouviu desta mesma multidão o fatí-
dico: "crucifica-o! crucifica-o!" ... e então, vestido de púrpura ... é co-
roado com uma coroa de espinhos? (Mc 15.1 3-14,17). Sim! É esse
mesmo!

Como um Rei derrotado como esse pode ter a pretensão de causar


alegria ... e causar alegria não só ao povo de Sião... aos moradores de Jem-
salém, mas às nações das extremidades da terra?

Todavia, o Salmo 92 reafirma esse pensamento! E todos nós - aqui


presentes, acabamos de dizê-lo responsivamente: "pois me alegraste Se-
nhor; com os teus feitos" (v.4).

Que feitos, Senhor? ...Que feitos, Senhor? Os FEITOS do Senhor são


grandiosos e são muitos - e todos eles sempre em favor dos homens. Co-
-
Igreja Luterana N 1 - 2000

meça com a criação e preservação da humanidade e culmina com a reden-


ção do mundo lá no Gólgota - com o Cristo crucificado!

Cristo crucificado?! - mas que alegria pode haver num Rei crucificado?
Num Rei morto e derrotado? A visão de um quadro assim, o máximo que
pode causar é um "menear de cabeça" (Mt 27.39), o desejo de se "es-
conder o rosto" (1s 53.3). Mas - "render graças e cantar louvores"
(SI 92.1) ... certamente que não!

Você entende? Compreende? Creio que não. Confesso a vocês ... eu


também não! Nada de novo até aqui, afinal o salmista já havia constatado
essa verdade muito antes de nós, pois ele diz no v.6: "Aqui está uma coisa
que o tolo não entende, e o ignorante não pode compreender."

Em nossa pequenez e limitação humana é impossível entender ou com-


preender os grandes feitos de Deus por nós! Em matéria de "coisas espi-
rituais" - temos que admitir - somos tolos e ignorantes. "Sabemos... que
não sabemos! "

Se alegrar com um Rei derrotado e morto é uma LOUCURA! Não dá


para entender! É como diz Paulo: "verdades espirituais só podem ser
entendidas espiritualmente" ( 1 Co 2.14). Se não houver a mão de Deus e
a ação do Seu Espírito em nós, continuamos tolos e ignorantes. É Ele quem
abre o nosso entendimento para as coisas espirituais - e nos "torna SÁBI-
OS para a salvação pela fé e m Cristo Jesus" (cf. 1 Co 2.13 e 2 Tm
3.15)... e nos alegra com os feitos do Senhor (SI 92.4).

A vinda do Rei -justo e salvador - é uma mensagem de vida e esperan-


ça. O Jesus montado num jumentinho é a prova concreta de que as pro-
messas de Deus se cumprem. Lá está alguém que encarna a misericórdia
de Deus, alguém que não só anuncia Paz, mas que efetivamente ... confere
PAZ aos homens! (Lc 2.14).

Essa é a "boa nova de grande alegria - alegria para todo o povo"


(Lc 2.1 O ) . Esse Rei que aí vem é Bendito! Bendito porque vem em NOME
DO SENHOR! Bendito porque vem para reconciliar Deus com os homens
- vem para anunciar PAZ para os que estão perto, e para aqueles que
estão longe - por intermédio da cruz. (Ef 2.16-1 7). E é do alto da cruz que
o Rei vitorioso brada a plenos pulmões: "ESTÁ CONSUMADO!" (Jo 19.30).

E na manhã de Páscoa já não mais se vê um Rei humilde - aparente-


mente derrotado e morto, mas sim, um REI VITORIOSO e GLORIOSO.
135
Igreja Luterana - No1 - 2000
As palavras dos anjos à beira do sepulcro aberto é uma afirmação da in-
contestável vitória do Rei Jesus: "ele não está aqui, mas RESSUSCI-
TOU!" ( Lc 24.6). Então se pode dizer com Paulo: "Onde está, ó morte, u
tua vitória? Onde está, ó morte, o teu poder de ferir? ...Graças a Deus,
que nos dú a vitória por meio do nosso Senhor Jesus Cristo!" ( 1 Co
15.55-57).

Um feito deste quilate só pode produzir alegria. Uma obra que da morte
traz à vida é algo extremamente contagiante. Eis por que o Salmista afirma:
"bom é render graças ao Senhor, e cantar louvores ao teu nome, ó
Altíssimo" (SI 92.1).

É da boca de pessoas redimidas por Cristo que brota o verdadeiro lou-


vor. Somente quem está sob o reinado do Rei vitorioso é que pode cantar e
louvar. Os redimidos do Senhor se reúnem "com instrumentos de cordas,
com saltério, com harpa e então - CANTAM e TOCAM (S1 92.3).

"Cuntamos ao Senhor um cântico novo porque sabemos que ele


tem feito maravilhas" (SI 98.1). O nosso canto - a nossa música já não é
mais um resmungo, cheio de lamúrias, desafinado. NÃO! Tocamos agora
uma nova melodia. Cantamos uma nova canção. Fruto da nossa relação
harmônica com Deus, por meio do Rei Jesus.

Essa música sempre será nova e vai permear toda a nossa vida. Seja na
infância, na juventude, na meia idade ou mesmo na velhice - o nosso cântico
estará cheio de frescor e energia, pois brotará de um coração embebido no
amor e na misericórdia de Deus! (S192.12- 15).

Não sei o quanto cada um de nós está inteirado sobre a vida e a obra de
Franz Schubert (1797-1 8 18). Ao preparar a mensagem para este culto,
dediquei um certo tempo para ler um pouco de sua biografia. Algumas
coisas me chamaram a atenção e gostaria de partilhar as mesmas com
vocês.

Schubert foi um gênio da música, e apesar de ter falecido ainda jovem


(3 1 anos), deixou um legado musical impressionante. Não descobri muitos
detalhes sobre a sua vida pessoal, especialmente sobre a sua vida de fé.
Um autor diz que Schubert "não era uma natureza profundamente reli-
giosa ". .. mas afirma que "seu catolicismo era sincero ".

Tendo vivido em um Seminário para Coristas em Viena, certamente foi


influenciado pelas coisas que lá viu e ouviu. Essa experiência religiosa
136
Igreja Luterana - No 1 - 2000
transparece e muito em suas obras. Além da Missa em Sol Maior (18 15) -
apresentada no dia de hoje, Schubert compôs outras quatro. A religiosidade
sincera e humilde dessa música simples e melodiosa tornou a missa alemã
extremamente popular na Áustria e na Alemanha do sul.

A música de Schubert era caracteristicamente alegre. Há quem afirme


que em seus últimos dias -devido à sua enfermidade, o pensamento sobre a
morte deve ter dominado sua mente. Mas uma coisa que chama a atenção é
que se escutarmos cuidadosamente essas peças, quase sempre encontrare-
mos algo positivo no fim das mesmas. Apesar de a enfermidade ter tirado
muito de sua força, Schubert, segundo um de seus biógrafos, "cria que iriu
encontrar algo melhor após a sua morte."

E com certeza o Oratório de Páscoa - Lázarus, possa endossar essa


afirmação. Foi para Lázaro, um moi-to já de quatro dias, que Jesus clamou à
beira da sepultura: "Lázaro, vem para fora!" (Jo 11.43). E foi para Marta,
uma das irmãs de Lázaro, que Jesus afirmou: "eu sou a ressurreição e a
vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê
e m mim, não morrerá eternamente. " (Jo 11.25-26).

Hoje é Domingo de Ramos - estamos a mirar um Rei humilde, que vem


montado em um burrinho. Ele caminha resoluto em direção à cruz! Nada o
detém. Ele sabe porque veio.

Agora já não é apenas a multidão reunida em Jerusalém que canta:


"Hosana! Bendito o que vem e m nome d o Senhor!" A essa multidão,
unimos também nossas vozes - e instrumentos, e aqui - "na casa do Se-
nhor" (SI 92.13) - também dizemos - BENEDICTUS. Bendito - "porque
o Senhor é bom, e a sua misericórdia dura para sempre, e de geração
em geraçáo a sua fidelidade. " (SI 100.5).

O Rei vitorioso está aí. O Senhor nos alegra com seus feitos. Olhemos
para a cruz com gratidão e louvor, mas não deixemos de olhar para a sepul-
tura aberta e então cantar mil aleluias sem cessar. Cantemos! Pois cantar
l o u v ~ r e sao Altíssimo - é muito bom! (SI 92.1). Amém!

Sermão proferido pelo Profi Ely Prieto no dia 16 de abril de 2000, na


Comunidade Cristo de Porto Alegre, RS. Neste dia foi celebrado um Culto
Especial de Música Sacra, onde foi apresentada, com coral e orquestra, a
Missa em Sol Maior; de Franz Schubert.
Igreja Luterana - N" 1 - 2000

Revelation. Concordia Commentary


- A Theological Exposition of Sacred Scripture.
Por Louis A. Brighton.Saint Louis:
Concordia Publishing House, 1999.674 pp.

Este Comentário do livro de Apocalipse faz parte da coleção Concordia


Commentary, que pretende trazer a exposição de todos os livros do Antigo
e Novo Testamentos. A proposta da coleção é oferecer comentários con-
temporâneos, a partir de uma hermenêutica luterana, que reconhece "a
inspiração, inerrância e autoridade da Escritura, assim como enfatiza 'aqui-
lo que promove Cristo' em cada perícope" (Contracapa).

O Dr. Louis A. Brighton é professor emérito do Seminário Concórdia,


em Saint Louis, EUA. Atuou como pastor paroquial por vinte e dois anos
(1 952- 1974) e como professor de teologia exegética do Novo Testamento
por vinte e cinco anos (1974-1999). Por muitos anos vem se dedicando ao
estudo do livro de Apocalipse, tendo-o ensinado no Seminário em St. Louis,
bem como em outros lugares do mundo (inclusive no Brasil, em curso para
pastores).

O livro inicia com uma Introdução relativamente breve (29 páginas)


dentro da extensão total. De forma concisa, o autor mostra que há duas
formas básicas de interpretar o livro de Apocalipse. A primeira delas con-
sidera o livro como um relato onde os eventos estariam sendo relatados em
sua ordem cronológica. Este é o método milenarista. O outro, adotado por
Brighton, é o que considera o livro por uma abordagem recapitulativa (ou
cíclica). A profecia do livro é vista como repetitiva - os mesmos eventos
são descritos mais de uma vez, sendo que cada descrição cobre o mesmo
período de tempo (desde a 1 a até a 2a vinda de Cristo). O autor opta pela
segunda alternativa.
A exposição do texto de Apocalipse é dividida em unidades, que con-
Igreja Luterana - N 1 - 2000

templam três aspectos: 1 ) tradução do texto; 2) Notas textuais - com um


exame mais detalhado de determinados termos, com base no seu uso no
Novo Testamento e na LXX; 3) Comentário. De tempos em tempos o leitor
encontra um "excursus", onde o autor trata mais aprofundadamente sobre
alguma questão específica do texto (por exemplo: "A Missiologia de
Apocalipse", "Os 144.000", "O Milênio", etc.).

O autor opta por uma exposição ampla e aprofundada do livro, sem, no


entanto, ocupar demasiado espaço com as miríades de interpretações para
determinados textos polêmicos. Prefere apontar para algumas possibilida-
des, indo mais diretamente a sua própria sugestão (por exemplo, na aborda-
gem ao controvertido 666, em Ap 13.18). Brighton considera Apocalipse
sob uma ótica claramente evangélica. Acentua a vitória de Cristo, obtida na
cruz e ressurreição, que são a vitória do povo de Deus já neste mundo.
Enfatiza também o papel da Igreja, como portadora da mensagem salvadora
e que traz consolo nos tempos da adversidade.

Ao tratar do "milênio" (cf. Ap 20.lss), Brighton oferece, além de uma


sadia interpretação, uma pérola no campo da hermenêutica, que auxilia o
intérprete no estudo de textos mais difíceis da Escritura: "Uma consideração
abrangente final que pode ser mencionada é a hermenêutica de interpretar a
Escritura com a Escritura. Embora muitos grupos cristãos, incluindo tanto
luteranos como fundamentalistas que sustentam posições rnilenistas diversas,
concordam com este princípio hermenêutico, a questão decisiva é quais pas-
sagens da Escritura devem ser usadas para interpretar que outras passagens.
A posição deste comentário é que a visão escatológica fornecida pelos Evan-
gelhos e Epístolas é clara e serve como princípio guia para a interpretação
das visões em Apocalipse, e não o oposto." (541)

Recomendo a leitura e utilização do Comentário do Dr. Brighton como


uma exposição sadia, evangélica, profunda e pastoral do livro de Apocalipse.

Gerson Luis Linden