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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

ÍNDICE

IGREJA LUTERANA
VOLUME 62 - JUNHO 2003 - NÚMERO 1

Palavra ao Leitor
Paulo Wille Buss, Editor

Artigo
Os Paradigmas de Lutero para a Música Sacra
Raul Blum

Auxílios Homiléticos

Recensão
Paulo Moisés Nerbas

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PALAVRA AO LEITOR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

ARTIGOS

OS PARADIGMAS DE LUTERO PARA


A MÚSICA SACRA
Raul Blum*

INTRODUÇÃO
“Cantai ao Senhor um cântico novo” (Sl 98.1), diz o salmista. Esta e
muitas outras passagens da Escritura Sagrada nos incentivam a escrevermos
uma nova canção ao Senhor. De saída é bom lembrar o porquê de escrever
um cântico novo ao Senhor. No próprio Salmo 98 lemos o motivo: “porque
ele tem feito maravilhas” (Sl 98.1). Quais são as maravilhas do Senhor?
Além de ter criado tudo e manter a criação, a grande maravilha do Senhor
é esta: “O Senhor fez notória a sua salvação; manifestou a sua justiça
perante os olhos das nações” (Sl 92.2).
A Igreja Luterana, desde os seus primórdios, cantou uma nova canção
ao Senhor. Lutero é exemplo de composição de um cântico novo ao Senhor.
Ele fez o povo cantar novamente nos cultos; ele estimulou o coral a continuar
cantando música mais elaborada ao Senhor. Ele sugeriu uma diversidade
de músicas e cânticos para o culto.
Lutero não tem escritos específicos sobre os paradigmas de música e
louvor. Mas Carl F. Schalk fez uma criteriosa busca nos escritos de Lutero
e reuniu seus conceitos a respeito da música sacra e elaborou cinco
paradigmas de louvor segundo o pensamento de Lutero.1 Nós vamos fazer
uso desta pesquisa de Schalk para este nosso trabalho.

*
Raul Blum é professor de Música Sacra na Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia
de São Leopoldo, RS
1
Carl F. Schalk, Luther on Music; paradigms of praise.

5
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
1. A MÚSICA NA VIDA DE LUTERO

O papel de Lutero para a música e o culto do século XVI foi importante.


Lutero está no centro de um novo movimento musical que iria influenciar
profundamente a nova igreja a se formar: a Igreja Luterana. Lutero não era
apenas um apreciador de música. Ele mesmo era músico e compositor. Ele abriu
o caminho para uma nova música que iria desenvolver-se na Igreja Protestante.
Dentre os reformadores do século XVI, Lutero é o único a enfatizar e
usar a música como um dom excelente de Deus para ser usado com a
proclamação da palavra bem como para o nutrimento da vida cristã e para
o louvor de Deus.
Eu certamente gostaria de louvar a música com todo o meu coração
como um excelente dom de Deus que é e recomendá-la a todos.
Mas eu estou tão maravilhado pela diversidade e magnitude de suas
virtudes e benefícios que ... quanto mais eu quero recomendá-la,
meu louvor está limitado a ser deficiente e inadequado ... Pois se
você deseja confortar os tristes, aterrorizar os contentes, encorajar
os desesperados, humilhar os orgulhosos, acalmar os violentos, ou
apaziguar aqueles cheios de ódio ... que meios mais efetivos que a
música você pode achar?2
Calvino permitiu a música na igreja com relutância e Zuínglio baniu a música
do culto. No entanto, para Lutero a música vinha logo após a teologia em
importância: “logo depois da Palavra de Deus a música merece o mais alto louvor”.3
Lutero tinha grande apreço pela liturgia histórica. Ele teve música em
casa e nos seus estudos antes e durante sua vida monástica. Aprendeu a
cultivar a música. Por isso estimulava o ensino do canto gregoriano bem
como de músicas polifônicas tradicionais, além dos hinos congregacionais.
Portanto, tanto a arte sofisticada quanto o canto congregacional simples
estavam presentes no culto de Lutero. Disto resultou, com o passar do
tempo, uma tradição musical de grande profundidade e riqueza.
Lutero tinha preocupação de tornar a música uma arte prática que
transmitisse a palavra. Afirma Carl Schalk:
Concentrando-se na estreita associação da música com a palavra,
Lutero trouxe profundos novos discernimentos para a música na
vida cristã, livrou-a de uma variedade de idéias que restringiam e
confiavam seu uso no louvor de Deus e fez dela uma atividade viva
como viva vox evangelii, a “viva voz do evangelho”.4

2
Prefácio ao Symphoniae iucundae de George Rhaus (1538), Luther’s Works 53:321-323.
Daqui em diante esta obra será citada abreviadamente LW.
3
LW, 53:323.
4
Carl Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, pp. 10-11.

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LUTERO EM CASA E NA ESCOLA EM MANSFELD
Lutero cresceu numa família pobre e piedosa de camponeses. A única
evidência do uso da música em sua casa é uma pequena canção cantada
por sua mãe. O conteúdo desta canção é o seguinte:
Se o povo não gosta de você e de mim,
A responsabilidade deve estar conosco.5
Na escola elementar em Mansfeld um aluno aprendia “somente quatro
coisas: ler, escrever, canto e latim”.6 O canto era uma ênfase porque “pela
tradição os estudantes tinham que tomar parte como cantores em todos os
ofícios eclesiásticos”.7 Carl Schalk faz uma sinopse dos estudos musicais
nas escolas da época:
A música naturalmente desempenhava uma parte importante no
treinamento dos estudantes. Ensinava-se a eles a liturgia católica
bem como a participação nas procissões coloridas e eram dados os
treinamentos para todos os ofícios regulares e especiais celebrados
durante o ano eclesiástico. Além disso, os estudantes também
aprendiam os rudimentos da teoria musical, aprendendo os tons dos
salmos junto com os elementos iniciais da música. Em algumas
escolas também eram praticados o contraponto e o canto em
diversas vozes. Grande parte da instrução musical era também
naturalmente de natureza religiosa, conduzida pelo chantre, que
entendia a liturgia latina e era bem versado em música.8

MAGDEBURGO, EISENACH E ERFURT


Em 1497, com 14 anos, Lutero estudou em Magdeburgo. Desta época
não sabemos nada sobre o conteúdo específico de suas aulas. No entanto,
sabe-se que na época o currículo era semelhante em todas as escolas e que
a música sempre estava presente.
Em 1498 Lutero é enviado para a escola em Eisenach. Neste local,
além das disciplinas da época, Lutero se junta a um dos coros da escola, o
Kurrende, a maior parte jovens sob a liderança de um monitor. Iam de
casa em casa cantando e pedindo donativos; cantavam também em
casamentos e funerais de burgueses ricos recebendo uma pequena
remuneração. Em Eisenach Lutero é recebido por Ursulla Cotta, o que lhe
dá mais tempo para os estudos. Também nesta cidade ele tem a influência
de João Braun, vigário da Igreja de Santa Maria, “cujo amor por poesia e

5
Roland Baiton, Here I Stand: A Life of Martin Luther, p. 24.
6
Heinrich Boehmer, The Road to Reformation. Citado por Carl F. Schalk in Luther on Music:
paradigms of praise, p. 12.
7
Ibid.
8
Carl Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, p. 13.

7
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música representou interesses culturais mais amplos do que Lutero tinha
anteriormente experimentado”.9
Na primavera de 1501, antes de completar 18 anos, Lutero matricula-se na
Universidade de Erfurt, entrando para o departamento de artes liberais. Do
curso faziam parte as obras de Aristóteles em filosofia natural, metafísica, filosofia
moral e as ciências do antigo quadrivium – geometria de acordo com Euclides,
aritmética, música de acordo com João de Merus e Tinctoris e astronomia.
Crotus, relembrando o colega Lutero neste período, escreveu alguns anos mais
tarde: “Você era o músico e o filósofo erudito de nosso círculo”.10

O “MOSTEIRO NEGRO”
Uma vez no convento, Lutero tinha que se submeter aos exercícios
religiosos regulares diariamente. Eram as Horas de Oração, sete vezes ao
dia, nas quais o canto sempre estava presente.
No dia 2 de maio de 1507, no Domingo Cantate, Lutero relembra: “Eu
cantei minha primeira missa”.11 O convento onde Lutero estava era dos
agostinianos e eles se orgulhavam e eram famosos pela sua Salmodia.
Coincidência ou não, quando Lutero passou a ser professor, suas primeiras
preleções foram baseadas nos salmos. Em 1524, no seu último ano como
membro dos agostinianos na ordem dos eremitas, ele escreveu:
Se eu tivesse filhos e tivesse condições, não deveriam aprender
apenas as línguas e história, mas também deveriam aprender a cantar
e estudar música com toda a matemática.12 Pois que é tudo isso
senão brincadeiras de criança nas quais os gregos outrora educaram
suas crianças e do que resultaram pessoas excelentes, preparadas
para toda sorte de atividades?13
Schalk complementa:
A experiência de Lutero com música em casa, durante sua
escolaridade e durante sua vida no mosteiro, constituiu uma parte
importante da base e contexto dos quais desenvolveu sua visão
particular da música na vida da igreja. Destas experiências, junto
com seu conhecimento progressivo e conhecimento das Escrituras,
no entanto, cresceram discernimentos e compreensões teológicas
particulares que ajudaram a moldar sua visão do papel da música

9
Harold J. Grimm, The Reformation Era 1500-1600. Citado por Carl F. Schalk in Luther on
Music: paradigms of praise, p. 14.
10
Julius Köstlin, The Theology of Luther. Citado por Carl F. Schalk in Luther on Music:
paradigms of praise, p. 15.
11
LW 54:234.
12
No currículo escolar da Idade Média, a música integrava a matemática.
13
“Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que Criem e Mantenham Escolas
Cristãs” (1524), Martinho Lutero; obras selecionadas, 5.319.

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na vida e culto do povo de Deus num caminho cada vez mais
significativo.14

2. A CAMINHO DE UMA TRADIÇÃO MAIS PRÁTICA

DA MÚSICA ESPECULATIVA À MÚSICA PRÁTICA


A educação de Lutero dentro do conjunto do quadrivium dava ênfase à
música como uma ciência especulativa (musica speculativa). A
compreensão da música estava baseada nos ensinamentos de filósofos gregos
como Platão, Aristóteles e Boethius. Estes filósofos entendiam a música
real, executada pelos músicos, como algo inferior, uma mera sombra da
música celestial das esferas. A tendência era ver a música como um reflexo
da estabilidade e continuidade de um universo ordenado.
Especialmente em seus primeiros escritos Lutero se deixa influenciar
por estes pensamentos, mas também em escritos posteriores eles aparecem,
como em suas preleções sobre Gênesis da década de 1530:
Assim não nos maravilhamos com a maravilhosa luz do sol porque é
um fenômeno diário. Não nos maravilhamos com os outros incontáveis
dons da criação, pois nos tornamos surdos àquilo que Pitágoras
apropriadamente denomina esta maravilhosa e mais querida música
vinda da harmonia dos movimentos que estão nas esferas celestes.15
Em seus escritos mais antigos Lutero teve também influência dos pais
apostólicos e exegetas medievais antigos, interpretando passagens
relacionadas à música em sentido espiritual ou místico, vendo, muitas vezes,
alegorias, além da interpretação literal. Lutero comenta em suas preleções
sobre o Salmo 81:
Eu disse que alegoricamente a lira é Cristo e o salmo suas obras e
palavras, enquanto que a harpa é a igreja unida a ele. E estas duas
combinadas em conjunto são agradáveis. Ou, o mesmo Cristo é a
harpa por causa do sofrimento e a lira por causa da ação, mas
ambas agradáveis ao mesmo tempo. Ou, ele é a doce lira e tem que
ser recebido com a harpa (isto é, ele com a igreja), ou é ele
trabalhando consigo mesmo enquanto sofre.16
Com referência a instrumentos, no Salmo 33 Lutero diz:
Deus é para ser louvado pelos cristãos e ele é louvado hoje com
ambos [saltério e harpa] e com muitos outros instrumentos. Todavia
é mais apropriado tomar os instrumentos num sentido místico, assim
que somente Deus, e não o homem, possa ser louvado por eles...

14
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, pp. 16-17.
15
LW 1:26.
16
“Primeiras Preleções sobre os Salmos” (1513-15), LW 11:103.

9
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Em primeiro lugar a harpa é o próprio Cristo de acordo com a
natureza humana, que foi estendido na cruz por nós qual uma corda
numa harpa. Portanto confessar com a harpa significa pensar sobre
os atos e sofrimentos de Cristo de acordo com a carne, pois tal
meditação tem sua ressonância proveniente de baixo, da humanidade
para a divindade.17
No entanto, para Lutero como teólogo, a música não tinha primariamente
um sentido alegórico ou místico, mas era antes de tudo uma arte prática,
estreitamente ligada à teologia e proclamação da Palavra, servindo também
ao ensino. O uso que o próprio Lutero fez da música comprova isto. Ele
mesmo compunha e tocava flauta e alaúde, conhecia a produção musical
histórica e de sua época e insistia que pastores e professores fossem treinados
na música. Achava também que as crianças deveriam aprender música.
Especialmente lembrava que a música deveria servir ao louvor na igreja.

A PARTICIPAÇÃO PESSOAL DE LUTERO NO FAZER MÚSICA


Lutero tinha um conhecimento variado de musica practica (tocava flauta
e alaúde) e tinha boa fundamentação teórica. João Matthesius, amigo e
companheiro de Lutero, anotou em 1540: “durante a refeição e após, o
doutor [Lutero] algumas vezes cantava e tocava o alaúde. Eu cantei com
ele”.18 Noutra anotação Matthesius diz:
Quando o doutor trabalhava até que estivesse cansado e exausto,
ele brincava à mesa e algumas vezes começava a cantar um pouco.
Na presença de pessoas congeniais cantávamos as últimas palavras
de Dido do Dulces exuviae (“Doces espólios”) de Virgilio. E
Melanchthon também fazia coro... 19
Em sua casa Lutero cultivava o canto polifônico e cantava, como ele dizia,
com sua “pequena, insignificante voz de tenor”.20 Anthony Lauterbach, um
dos que anotaram as conversas de mesa de Lutero, anotou no dia de Natal
em 1538: “Esta noite ele [Martinho Lutero] estava muito alegre. Sua conversa,
seu canto e seus pensamentos foram sobre a encarnação de Cristo, o nosso
Salvador”.21 Tais cantos informais em companhia de seus amigos traziam
alegria e gratificação a todos os participantes, como Lutero mesmo disse:
“Nós muitas vezes cantamos mais uma vez uma boa canção desde o início,
especialmente uma que tenhamos cantado com prazer e alegria”.22

17
LW 10:152-53.
18
Paul Nettl, Luther and Music, p. 13.
19
Ibid, p. 15.
20
Friedrich Blume, Protestant Church Music: a history. Citado por Carl F. Schalk in Luther on
Music: paradigms of praise, p. 20.
21
LW 54:326.
22
“Commentary on Psalm 118” (1530), LW 14:105.

10
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A MÚSICA E OS MÚSICOS NO TEMPO DE LUTERO
Lutero estava familiarizado com a música de sua época. Parece que seu
compositor predileto era Josquin des Prez (falecido em 1521), de quem disse:
“Josquin é um mestre das notas, as quais devem expressar o que ele deseja;
por outro lado, outros compositores de corais têm que fazer o que as notas
ditam”.23 Noutra ocasião Lutero escreveu sobre a música de Josquin:
O que é lei não faz progresso, mas o que é evangelho faz. Deus tem
pregado o evangelho através da música também, como pode ser
visto em Josquin, de quem todas as composições fluem livremente,
tranqüilamente e alegremente, não são forçadas ou limitadas por
regras e são quais o canto do tentilhão.24
Outro compositor que Lutero admirava era Ludovico Senfl, também
músico católico como Josquin. Para o compositor Ludovico Senfl Lutero
enviou uma carta solicitando um arranjo coral de uma antífona gregoriana.
Nesta carta Lutero expressa algumas idéias sobre o valor espiritual da
música. Eis alguns trechos da carta:
Não há dúvida de que há muitas sementes de boas qualidades nas
mentes daqueles que são movidos por música. Aqueles, porém, que
não são movidos [por música] eu creio que definitivamente são quais
tocos [de madeira] e blocos de pedra. Pois sabemos que música também
é odiosa25 e insuportável aos demônios. Na verdade julgo francamente,
e não hesito em afirmar que, excetuando a teologia, nenhuma arte poderia
ser colocada no mesmo nível com a música, uma vez que excetuando
a teologia [a música] sozinha produz o que de outra maneira somente a
teologia pode fazer, a saber, uma disposição calma e alegre ... Esta é a
razão por que os profetas não fizeram uso de outra arte exceto música;
quando expuseram sua teologia eles não a fizeram como geometria,
nem como aritmética, nem como astronomia, mas como música, de
maneira que eles seguraram teologia e música firmemente conectadas
e proclamaram a verdade através de salmos e canções.26
João Walter foi o primeiro chantre luterano. Era colaborador de Lutero
na área da música. Em 1524 Walter publicou uma coleção de 32 hinos
alemães e cinco latinos; eram músicas corais polifônicas para as quais Lutero
escreveu o prefácio.27 Em 1525 Lutero solicitou a ajuda de Walter no preparo
da música para a Missa Alemã.
23
Walter E. Buzin, Luther on Music. Citado por Carl F. Schalk in Luther on Music: paradigms
of praise, p. 21.
24
LW 54:129-30.
25
Além da teologia sadia.
26
LW 49:427-28.
27
O Geistliches Gesängbüchlein (“Pequeno Hinário Espiritual”) ou Wittenberger Gesangbuches
von 1524 (“Hinário Wittenberguense de 1524”). Martinho Lutero; obras selecionadas,
7:479-80.

11
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Jorge Rhau era o chantre na Igreja de São Tomás em Leipzig quando
houve o famoso debate (1519) de Leipzig entre Lutero e João Eck. Tornou-
se o mais importante editor de música para o movimento da Reforma.
Lutero tinha grande apreço pelos bons compositores de sua época.
Muitos ele conhecia pessoalmente, correspondia-se com eles, considerava-
os seus amigos e colaboradores. Via nas suas obras um louvor a Deus
pelas suas maravilhosas composições e dons.

O SUPORTE PARA A MÚSICA SACRA


Lutero insistia que príncipes, reis e senhores investissem na música em
benefício do povo. Também estava preocupado no amparo à música na igreja.
Lutero escreveu ao eleitor João, o Constante, em 20 de junho de 1526:
Finalmente, meu mais gracioso Senhor, eu solicito novamente que
Sua Graça Eleitoral não vá permitir que os Kantorei deixem de
existir, especialmente depois daqueles que, no presente são seus
membros, foram treinados para tal trabalho; além disso, a arte é
digna de ser suportada e mantida por Príncipes e Senhores, muito
mais que outros esforços ou empreendimentos para os quais não há
de perto tanta necessidade... Os bens e possessões dos mosteiros
poderiam bem ser utilizados para tomar cuidado deste povo. Deus
obteria satisfação de uma tal transferência.28
Lutero considerava o suporte à música, aos músicos e organizações
musicais, uma glorificação a Deus.

ESCREVENDO HINOS E MÚSICA LITÚRGICA


Lutero tinha interesse na música como uma arte prática e ele mesmo
escreveu hinos, cânticos e até música polifônica. Tinha também sugestões
específicas a dar para cada tipo de música. Em carta a Jorge Espalatino29
Lutero pede ajuda para criar textos para cantos congregacionais:
[Nosso] plano é seguir o exemplo dos profetas e antigos pais da igreja e
compor salmos para o povo [no] vernáculo, isto é, canções espirituais, de
maneira que a Palavra de Deus possa estar entre o povo e também em
forma de música. Por isso estamos procurando poetas ... Mas eu gostaria

28
Walter E. Buzin, Luther on Music. Citado por Carl F. Schalk in Luther on Music: paradigms
of praise, p. 24.
29
“Seu nome verdadeiro é Jorge Burckhardt (1484), nasceu em Spalt, perto de Nürnberg. Daí
seu cognome Spaltin, Espalatino ... Secretário, conselheiro e pregador de Frederico, Espalatino
goza de posição ímpar junto ao príncipe-eleitor, o que lhe permite assegurar uma proteção
deste para Lutero. Como humanista e tradutor das obras de Lutero e Melanchthon, procurou,
por muito tempo, intermediar entre Lutero e Erasmo ... Teologicamente depende de Lutero,
diverge deste na doutrina eucarística. Martin N. Dreher, in Martinho Lutero; obras
selecionadas, 7:478, nota 40.

12
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de evitar quaisquer novas palavras ou a linguagem usada nas cortes. A
fim de ser entendido pelo povo, somente as palavras mais simples e mais
comuns deveriam ser usadas para o canto; ao mesmo tempo, no entanto,
elas devem ser genuínas e apropriadas; e ademais, o sentido deve ser
claro e o quanto mais próximo possível do salmo. Você necessita uma
carta branca aqui: mantenha o sentido, mas não se apegue às palavras;
[antes] traduza-as com outras palavras apropriadas.30
Schalk conclui sobre as afirmações de Lutero:
Em tais sugestões podemos ver a preocupação de Lutero que
canções populares no vernáculo para o povo sejam o resultado não
somente de um uso habilitado da linguagem, mas, também, uma
verdadeira arte poética cristã, para a qual a piedade somente não é
um equipamento suficiente.31
Lutero confirma esta idéia em sua “Instrução dos Visitadores aos
Párocos” (1528):
Nas grandes festas, como Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes ou
semelhantes, seria bom usar na missa alguns hinos latinos que estejam
de acordo com a Escritura. Pois é uma monstruosidade cantar sempre
a mesma coisa. Embora exista o desejo de compor hinos alemães,
que não o faça qualquer um, sem ter o dom para isso.32
O próprio Lutero também escreveu hinos originais, revisou textos antigos,
usou melodias existentes e até compôs melodias originais. Admite-se que
pelo menos três melodias de hinos sejam de sua autoria: Wir glauben all
an einem Gott, Ein feste Burg, Isaiah dem Propheten das geschah.33
Levando em conta a formação da época e suas habilidades particulares na
música, até seria estranho se ele não tivesse dado expressão musical aos
seus próprios textos.34
A experiência musical de Lutero ajudou-o na organização da Missa Alemã.
Ao se preparar para tanto, modestamente disse: “Não estou qualificado
para esta tarefa, que requer tanto um talento na música quanto o dom do
Espírito”.35 Suas idéias mais específicas sobre a relação entre canto e
palavras estão expressas em “Contra os Profetas Celestiais na questão de
Imagens e Sacramentos” (1525), no qual escreveu:

30
“A Jorge Espalatino” (Wittenberg, final de 1523), LW 49:68-69.
31
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, p.26.
32
Martinho Lutero; obras selecionadas, 7:294.
33
Respectivamente “Nós cremos todos num só Deus” (Hinário Luterano nº 233), “Castelo
Forte” (Hinário Luterano nº 165), “No templo, a Isaías sucedeu” (Hinário Luterano nº 234).
34
Para mais detalhes veja Martinho Lutero; obras selecionadas, Vol. 7, seção “Hinos”.
35
“A Nicolau Haussmann” (Wittenberg, 17 de novembro de 1524), LW 49:90. Martin N.
Dreher, na introdução à “Missa Alemã e Ordem de Culto” faz referência a esta afirmação de
Lutero in Martinho Lutero; obras selecionadas, 7:173.

13
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Gostaria hoje de ter uma Missa Alemã. Também estou ocupado
com ela. Mas eu gostaria muito de ter um verdadeiro caráter alemão.
Pois para traduzir o texto latino e manter o tom ou notas latinas tem
a minha sanção, embora não soe polido ou bem feito. Tanto o texto
e as notas, acento, melodia, como a maneira de execução deve
originar-se da verdadeira língua materna e suas inflexões, de outra
maneira tudo torna-se uma imitação, à maneira de macacos.36
Lutero convidou os músicos João Walter e Conrado Rupsch de Torgau
para assisti-lo na música para a Missa Alemã. João Walter fala da sua
visita a Lutero, conforme editada na Syntagma musicum (1615-1620) de
Michael Praetorius:
... Naquele momento ele discutiu conosco os cantos gregorianos e a
natureza dos oito modos, e finalmente ele próprio aplicou o modo oitavo
à Epístola e o sexto modo ao Evangelho, dizendo: “Cristo é um rei
Senhor, e suas palavras são doces; portanto queremos tomar o sexto
modo para o Evangelho; e por que Paulo é um apóstolo sério queremos
arranjar o oitavo modo para a Epístola”. O Próprio Lutero escreveu a
música para as leituras e para as palavras da instituição do verdadeiro
corpo e verdadeiro sangue de Cristo, cantou-as para mim e queria
ouvir minha opinião sobre isto... E a gente vê, ouve e entende
imediatamente como o Espírito Santo tem sido ativo não somente nos
autores que compuseram os hinos latinos e os fixaram em música, mas
no próprio Senhor Lutero, que agora forjou a maior parte da poesia e
melodia dos cantos alemães. E pode ser notado do Sanctus alemão
como ele arranjou todas as notas ao texto com o acento e concento
corretos em forma magistral. Eu, naquela vez, fui tentado a perguntar
Sua Reverência de onde ele tinha aquelas peças e seu conhecimento;
do que o estimado homem riu da minha simplicidade. Ele disse-me que
o poeta Virgilio lhe ensinara tal coisa, ele, que é capaz de, dessa maneira
artística, ajustar sua métrica e palavras à história que ele está narrando.
Toda música deve ser arranjada de tal maneira que suas notas estejam
em harmonia com o texto.37

O EMPENHO DE LUTERO COMO COMPOSITOR


Já mencionamos a habilidade de Lutero em escrever melodias de hinos.
Mas ele também tinha alguma habilidade em escrever música polifônica.
Lutero tinha um grande apreço pela passagem do Salmo 118.17: “Não
morrerei; antes viverei e contarei as obras do Senhor”. Ele havia escrito
este versículo com as notas do canto gregoriano na parede de seu quarto de

36
LW 40:141.
37
Paul Nettl, Luther and Music, pp. 75-76.

14
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estudo em Coburgo. Pois parece que ele fez uma composição polifônica
deste versículo, sendo que a parte do tenor é uma versão levemente florida
do oitavo tom. Foi publicado um pequeno moteto com este texto em latim
(Non moriar sed vivam) com o nome de Lutero (1545) num drama chamado
Lazarus, por Joaquim Greff.38 Uma outra composição também pode ser
de Lutero: “Höre Gott mein Stimm’in meiner Klage”.39

A EDUCAÇÃO MUSICAL DE CRIANÇAS NAS ESCOLAS


Lutero tinha em alta consideração a educação de crianças. No seu escrito
“Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que Criem e
Mantenham Escolas Cristãs” (1524), Lutero enfatizou, “Falo por mim
mesmo: se eu tivesse filhos e tivesse condições, não deveriam aprender
apenas as línguas e história, mas também deviam aprender a cantar e estudar
Música com toda a Matemática.”40 Alguns anos mais tarde, quando Lutero
enviou seu próprio filho à escola, ele escreveu a Marcus Crodel:
Estou enviando meu filho João a você a fim de que você possa juntá-
lo aos meninos que devem ser treinados na gramática e música... E
diga a João Walter que eu oro pelo seu bem-estar, e que eu confio
meu filho a ele para aprender música. Por que eu, é evidente, crio
teólogos, mas eu gostaria também de criar gramáticos e músicos.41
Lutero deu instruções práticas de como aplicar a música nas escolas
através da participação das crianças no culto, o que serviria de ensino para
mostrar ao povo comum seu papel no culto:
Portanto, o que, quando e como os alunos cantam ou oram na Igreja,
assim também o aprende todo o povo posteriormente, e o que cantam no
velório junto ao túmulo, assim também o aprendem os demais. Quando
se ajoelham e juntam as mãos para a oração, quando o professor bate
com a vara enquanto cantam: “Et homo factus est”,42 o povo imita.43
Em outro escrito Lutero dá sugestões para os jovens cantarem a litania
na missa ou nas vésperas após o sermão, para dar-lhes algo útil em lugar de
procissões e invocações aos santos: “Isso, no entanto, poderia trazer algum
resultado se durante as missas, vésperas ou depois da prédica se deixasse
em especial a juventude cantar ou ler a litania.”44

38
LW 53:339-41.
39
Veja H. J. Moser, “Der Zerbster Lutherfund”, in Archiv für Musikwissenschaft 2 (1520):337;
anotado em Reese, in Music in the Renaissance, p. 673. O moteto Non moriar sed vivam
está também impresso em LW 53:339-341 com texto traduzido para o inglês.
40
Martinho Lutero; obras selecionadas, 5: 319
41
“Para Marcos Crodel” (Wittenberg, 26 de Agosto de 1542), LW 50: 231-33
42
“E ele se tornou homem”- frase do Credo Niceno
43
“Dos Concílios e da Igreja” (1539), Martinho Lutero: obras selecionadas, 3: 400
44
“Guerra contra os Turcos”(1529) Martinho Lutero: obras selecionadas, 6: 419-420

15
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Na “Exortação à Oração Contra os Turcos” dá outras sugestões
detalhadas de participação dos meninos nos cultos. Sugere que após a prédica
se cantasse, responsivamente, com o coro o salmo 79.
Depois disso, que um menino de voz bem afinada se apresente diante
do púlpito em seu coro e cante em solo a antífona ou súplica: Domine,
non secundum.45 Após o mesmo, um outro menino cante a outra
súplica: Domine, ne memineris.46 Em seguida, todo o coro cante de
joelhos: Adiuva nos, Deus,47 exatamente como se cantava durante a
Quaresma nos tempos do papado. Tudo isso soa e aparenta ser bastante
devoto, etc. E o texto combina bem com o assunto da resistência contra
os turcos, se for conduzido de coração nesse sentido.48
Schalk considera:
Para Lutero, a música era uma parte indispensável para uma boa
educação não somente para seu próprio bem, mas também para o
papel que isto poderia desempenhar nas vidas dos jovens enquanto
participavam do culto comum; ele falava abertamente por ela e
promovia sua inclusão no currículo sempre que tinha oportunidade.49

O TREINAMENTO MUSICAL DE PASTORES E PROFESSORES


Lutero achava que pastores e professores precisariam saber música:
“A necessidade exige que a música seja mantida nas escolas. Um mestre-
escola precisa saber cantar; de outra maneira nem olho para ele. E antes
que um jovem seja ordenado ao ministério, ele deve praticar música na
escola”.50 Lutero zombava daqueles que “queriam ser teólogos embora
não possam nem mesmo cantar”.51 Mas ele tinha em alta consideração
aqueles que ensinavam os jovens a cantar e a praticar a palavra de Deus.
“Quando o mestre-escola é temente a Deus e ensina os meninos a
entenderem a palavra de Deus e a verdadeira fé, a cantar e praticá-la, e os
exercita na disciplina cristã, ali as escolas são, como dito acima, concílios
jovens e eternos, que certamente trazem mais proveito do que muitos outros
concílios grandes”.52
O conhecimento e envolvimento de Lutero com a música refletem seu
entendimento da música como uma arte prática que tinha grande potencial

45
Provavelmente de acordo com as palavras do Salmo 102. 10: “Senhor, não nos trates
segundo os nossos pecados...”
46
Palavras do Salmo 79. 8: “Senhor, não te lembres contra nós dos pecados de nossos pais...”
47
“Assiste-nos, ó Deus salvador nosso...” (Salmo 79. 9).
48
“Exortação à Oração Contra os Turcos” Martinho Lutero: obras selecionadas, 6: 456- 57.
49
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, p. 29.
50
Ewald M. Plass, What Luther Says, p. 980.
51
“Preleção em Tito”, LW 41:176.
52
“Dos Concílios e da Igreja” (1539), Martinho Lutero: obras selecionadas, 3:430.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
na vida e no culto de cada cristão. Schalk resume o trabalho de Lutero com
a música da seguinte maneira:
Quer fosse sua participação pessoal em várias atividades em fazer-
música, seu conhecimento pessoal com a música e muitos músicos
de seu tempo, sua insistência de que a música sacra e seus músicos
fossem mantidos adequadamente, seu próprio envolvimento na
preparação da música para a liturgia, sua arte de escrever hinos e
inexperientes esforços na composição polifônica, sua ênfase na
importância da educação musical, quer sua exigência que pastores
e professores fossem adequadamente preparados e exercitados na
música, ele havia ido muito além de ver a música como uma ciência
especulativa. Para Lutero a música era uma arte que alguém
praticava e executava, que deleitava a alma e trazia vida à palavra
do evangelho. Para Lutero, música era sempre a viva vox evangelii,
a viva voz do evangelho, um dom de Deus para ser usado em sua
plenitude em louvor e oração cristãos.53

3. PARADIGMAS DE LOUVOR SEGUNDO LUTERO

Nos escritos de Lutero há certos paradigmas de louvor aos quais ele


volta constantemente. Em si não há nada de novo nestes paradigmas, pois
eles podem ser achados no transcorrer da história do louvor antes de Lutero.
No entanto, alguns paradigmas às vezes foram obscurecidos ou distorcidos.
Na opinião de Schalk:
A contribuição de Lutero foi focalizar um grupo de paradigmas e
elevá-los a uma posição de importância decisiva. Em fazendo assim
ele iniciou um movimento que iria transformar o caminho como a
igreja entendia e praticava a arte da música em sua vida e culto.
Para Lutero havia cinco discernimentos principais, cinco “paradigmas
de louvor”: (1) música como criação e dom de Deus; (2) música
como proclamação e louvor; (3) música como canto litúrgico; (4)
música como o canto dos sacerdotes reais e (5) música como um
sinal de continuidade de toda a igreja.54

MÚSICA COMO CRIAÇÃO E DOM DE DEUS


Desde os tempos da igreja antiga e através da igreja medieval
prevaleceram dois paradigmas para o papel da música na vida da igreja.
Shalk resume:

53
Carl F. Shalk, Luther on Music: paradigms of praise, p. 30.
54
Ibid., pp. 31-32.

17
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
... música como instrutora e música como guardiã da moralidade. O
primeiro refletia a necessidade contínua da igreja por doutrinação,
não só pela necessidade de edificação dos fiéis mas também diante
dos pontos de vista heréticos de fora e apostasia de dentro. O
segundo refletia a influência e importância contínuas do pensamento
de tais filósofos como Platão, Aristóteles e Boethius moldando a
atitude da igreja para com a música.55
Já antes do quarto século, São Basílio, refletindo o primeiro destes paradigmas,
dizia em sua Homilia no Salmo Primeiro: “Oh, sábia invenção do mestre que
planejava como poderíamos ao mesmo tempo cantar e aprender coisas
benéficas”.56 Basílio ainda diz que o Espírito Santo “mesclou o prazer da melodia
com doutrinas a fim de que através da agradabilidade e suavidade do som
possamos inconscientemente receber o que era proveitoso nas palavras.”57
Por outro lado, Basílio também se preocupou com os perigos da música
dizendo que “os cristãos não sejam arrastados pelo prazer da melodia às paixões
da carne.”58 Nas suas Confissões, Agostinho disse: “As diferentes afeições de
nosso espírito têm suas próprias disposições de ânimo correspondentes à sua
variedade na voz e canto e por alguma associação secreta elas podem ser
instigadas.”59 Por isso advertiu sobre o perigo da música associada ao texto:
“Cada vez que acontece comigo de ser mais movido com a voz do que com o
poema, confesso a mim mesmo que tenho ofendido gravemente; neste momento
eu desejaria de preferência não ter ouvido a música.”60
No século XVI Calvino seguiu os passos de Agostinho e advertiu a
respeito da música como guardiã e moldadora da moralidade:
Dificilmente há no mundo alguma coisa com mais poder de mudar ou
submeter, dessa maneira, a moralidade dos homens ... Ela tem um
poder secreto de mover nossos corações de uma maneira ou outra.
Portanto temos que ser mais diligentes em regulamentá-la de tal maneira
que ela possa ser proveitosa a nós e de nenhuma maneira perniciosa.61
Lutero não via grande perigo em se utilizar melodias para os textos
sacros. No “Prefácio ao Hinário Wittenberguense de 1524” ele escreve:
No meu entender, nenhum cristão ignora que o canto de hinos sacros seja
bom e agradável a Deus, uma vez que todo mundo tem não apenas o
exemplo dos profetas e reis no Antigo Testamento (que louvaram a Deus

55
Ibid., p. 32.
56
Oliver Strunk, Source Readings in Music History. Citado por Carl. F. Schalk, Luther on
Music: paradigms of praise, p. 32.
57
Ibid.
58
Ibid.
59
Ibid.
60
Ibid.
61
Ibid., p. 33.

18
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
cantando e tocando, com versos e toda a espécie de música de corda), mas
este costume, particularmente no tocante aos salmos, é conhecido da
cristandade em geral desde o começo. O próprio S. Paulo o institui em 1Co
14[.26] e ordena aos colossenses que cantem com vontade ao Senhor hinos
sacros e salmos, para que desta maneira a Palavra de Deus e a doutrina
cristã sejam propagadas e exercitadas das mais diversas maneiras.62
Lutero enfatiza que os hinos
foram arranjados a quatro vozes por nenhuma outra razão senão o
meu desejo de que a juventude, a qual afinal de contas deve e precisa
ser educada na música e em outras artes dignas, tenha algo com
que se livre das canções de amor e dos cantos carnais para, em
lugar destes, aprender algo sadio, de modo que o bem seja assimilado
com vontade pelos jovens, como lhes compete.63
Para Lutero, o mais importante concernente à música para a vida e
culto do povo de Deus era música como criação e dom de Deus. Discorda
dos entusiastas que condenam e até destroem arte sacra de qualquer tipo.
No prefácio do mesmo hinário ele ainda escreve:
Também não sou da opinião de que, pelo Evangelho, todas as artes
devam ser massacradas e desaparecer, como pretendem alguns
pseudo-espirituais. Na verdade, eu gostaria que todas as artes,
particularmente a música, estivessem a serviço daquele que as
concedeu e criou.64 Por isso eu peço que todo cristão de valor
receba isto de bom grado e ajude a promovê-lo, caso Deus lho
tenha concedido igualmente ou até mais.65
No seu escrito Symphoniae iucundae, dirigido a Jorge Rhau, Lutero diz:
Eu certamente gostaria de exaltar a música de todo o meu coração
como o dom excelente de Deus que é e recomendá-la a todos...
E você, meu jovem amigo, deixe que esta nobre, salutar e alegre criação
de Deus seja recomendada a você ... Ao mesmo tempo você passa por
habituar-se a reconhecer e louvar o Criador.66
Em seu “Tratado nas Últimas Palavras de Davi” (1543), Lutero observa
que esta “maravilhosa criação e dom de Deus” ajuda consideravelmente a
entender e proclamar o Messias, além do mero ler e falar.
O livro dos Salmos é uma doce e agradável canção porque ele
canta e proclama o Messias mesmo quando uma pessoa não canta
62
“Prefácio ao Hinário Wittenberguense de 1524”, Martinho Lutero; obras selecionadas,
7:480.
63
Ibid., p. 481.
64
O grifo é meu.
65
“Prefácio ao Hinário Wittenberguense de 1524”, Martinho Lutero; obras selecionadas,
7:481.
66LW 53:321, 324.
66
LW 15:273-74.

19
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
as notas mas meramente recita e pronuncia as palavras. Contudo a
música, ou as notas, que são uma maravilhosa criação e dom de
Deus, ajudam consideravelmente nisto, especialmente quando o povo
canta junto e participa reverentemente.67
Nas suas “Conversas de Mesa” Lutero enfatiza a música como dom de
Deus que precisa ser ensinado à juventude em contraste como os fanáticos
que pensam diferentemente.
A música é um dom destacado de Deus o mais próximo da teologia.
Eu não gostaria de desistir do meu superficial conhecimento de
música nem por um grande motivo. E à juventude deveria ser
ensinada esta arte; pois ela faz pessoas excelentes e habilitadas.68
Não fico satisfeito com aquele que despreza a música, como todo
os fanáticos o fazem; a música é uma qualidade e dom de Deus,
não um dom dos homens ... Eu coloco a música após a teologia e
lhe dou o maior louvor. 69
O dom da música também estimulava Lutero à pregação: “A música é
maior dom de Deus. Tantas vezes ela tem-me estimulado e incitado que eu
senti o desejo de pregar”.70
Lutero cita Pitágoras para enfatizar a música como dom de Deus, pois ela
estaria inserida na “harmonia das esferas” estabelecida dentro da criação em
si. “Não nos maravilhamos diante dos outros dons incontáveis da criação por
que ficamos surdos àquilo que Pitágoras com aptidão denomina esta
maravilhosa e mais amável música vinda da harmonia do movimento que
existe nas esferas celestes”.71 A razão humana não vê a criação divina, mas
os cristãos, através do Espírito, vêem tudo como beneficio de Deus. “A razão
vê o mundo como extremamente perverso e por isso ela murmura. O Espírito
nada vê senão os benéficos de Deus no mundo e por isso começa a cantar”.72
Schalk concluiu: “Os resultados práticos de uma tal visão eram, para Lutero,
perfeitamente óbvios. Quando a música é vista primeiramente como dom de
Deus, ela é estabelecida como a mais próxima da teologia, e isto dá à igreja a
liberdade de usar toda a música sem medo”.73 Lutero complementa: “Quando
o ensino [musical] e música artística que corrige, desenvolve e refina a música
natural é acrescentado a tudo isso, então finalmente é possível experimentar
com admiração (ainda que não compreendendo) a visão absoluta e perfeita
de Deus em seu maravilhoso trabalho de música”.74
67
Ewald M. Plass, What LutherSays, p. 979.
68
Ibid., p. 980.
69
Ibid., p.982.
70
“Preleções em Gênesis” (1553-36), LW 1:126.
71
“Preleções em Isaías, Capítulos 40-66” (1527-30), LW 17:356.
72
Carl F. Schak, Luther on Music: Paradigms of praise, p. 35.
73
“Prefácio à Synphoniae iucundae de Georg Rhau” (1538), LW 53:324.
74
“Prefácio a Todos os Bons Hinários” (1538), Martinho Lutero; obras selecionadas, 7:483-84.

20
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Podemos destacar que Lutero tem uma visão ampla sobre a música
adequada para a igreja. Desde o tempo do canto gregoriano até a reforma
desenvolveu-se uma música sofisticada da qual o povo não tinha condições
de participar. A tradição calvinista expurgou da igreja esta música sofisticada
e permitiu apenas o canto de salmos metrificados a capela. Lutero, no entanto,
procurou deixar uma forma diversificada de música. O canto congregacional
era para o povo participar; e o canto polifônico para o povo ouvir.
Em 1538 Lutero escreveu o “Prefácio a Todos os Bons Hinários” para
o texto de João Walter “Louvor e Exaltação da Louvável Arte da Música”.
Este texto também foi publicado no hinário de Klug, em 1543. É um louvor
à “Dona Música”, onde Lutero exprime seu apreço à música, fundamentado
na doutrina da justificação. Eis o texto:
Dona Música.
Dentre todos os prazeres sobre a terra
não há maior que seja dada a alguém
do que aquela que eu proporciono com meu canto
e com certas doces sonoridades.
Não pode haver má intenção
onde houver companheiros cantando bem,
ali não fica zanga, briga, ódio nem inveja,
toda mágoa tem que ceder,
mesquinhez, preocupação e o que mais atribular
se vai com todas as tristezas.
Além disso, cada qual tem o direito
desse prazer não ser pecado,
mas, ao invés, agrada a Deus muito mais
do que todos os prazeres do mundo inteiro.
Ela destrói a obra do diabo
e impede que muitos malvados matem.
Isto demonstra o ato do rei Davi
que muitas vezes, com doce toque da harpa,
impediu que Saul praticasse grande matança.
Para a palavra e verdade divina
ela silencia e prepara o coração.
Isto Eliseu declarou,
ao encontrar o espírito pela execução da harpa.
A melhor época do ano é para mim
quando cantam todos os passarinhos,
enchendo os céus e a terra
com canto agradável e abundante.
Puxa a frente o rouxinol querido
alegrando tudo em toda parte
21
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
com seu canto maravilhoso;
por isso, devemos ser-lhe sempre agradecidos
mais ainda ao amado Deus Senhor
que assim a criou
de modo a ser uma grande cantora
maestrina da música.
Para ele ela canta e dança noite e dia;
ela por nada se cansa do seu louvor,
e ele glorifica e louva também o meu canto
e lhe expressa um agradecimento eterno.75
Schalk conclui:
Ao enfatizar a música como criação de Deus, não do povo, e como dom
de Deus ao povo para usar em seu louvor e adoração, Lutero fixou o
palco para a liberdade dos compositores, congregações, coros e
instrumentistas desenvolveram seus talentos e habilidades ao mais alto
grau possível. A música que se desenvolveu na tradição luterana é um
eloqüente testemunho de que a igreja, junto com seus músicos, achou o
paradigma de Lutero, da música como criação e dom de Deus, ser um
elemento construtivo preeminente no desenvolvimento de uma rica cultura
musical na qual se possa viver, trabalhar, tocar música e louvar seu Deus.76

MÚSICA COMO PROCLAMAÇÃO E LOUVOR


Lutero via, antes de tudo, a música como um dom de Deus. Mas este
dom não tinha um fim em si mesmo. Ele deveria servir para o louvor e a
glória do criador, de modo especial para a proclamação de sua Palavra.
Portanto, para Lutero a música tinha um fim doxológico: louvar a Deus, o
Criador, do qual todas as coisas provêm, e proclamar a redenção da
humanidade através da obra expiatória de Jesus Cristo.
Falando da propriedade em unir texto e música para a glória de Deus,
Lutero afirma:
Assim não era sem razão que os pais e os profetas não queriam nada mais
a ser associado mais estritamente com a palavra de Deus do que a música.
Por isso, temos tantos hinos e Salmos onde a mensagem e a música [Sermo
et vox] juntam-se para mover a alma do ouvinte ... Afinal o dom da
linguagem combinada com o dom do canto somente foi dado ao homem
para deixá-lo saber que ele deveria louvar a Deus não só com palavras,
mas também com música, a saber, pela proclamação [da palavra de Deus]
através da música e pelo providenciar de doces melodias com palavras.77

75
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, pp. 36-37.
76
LW 53.323-24
77
LW 49:428

22
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Em sua carta a Ludovico Senfel, Lutero enfatiza o ponto de vista de que
a música é singular entre as artes para a proclamação do evangelho.
Esta é a razão por que os profetas não fizeram uso de uma arte
exceto música; quando expuseram sua teologia eles não a fizeram
como geometria, nem como aritmética, nem como astronomia, mas
como música, de maneira que eles seguraram teologia e música o
mais firmemente conectados, e proclamaram a verdade através de
Salmos e canções.78
Lutero achava que a palavra, pregada poderosamente pelos apóstolos,
continua a ser “pregada” de diversas maneiras, incluindo a música. “[O
evangelho] tem sido pregado rica e claramente; ele foi enfatizado
magistralmente e poderosamente pelos apóstolos: agora é anunciado em
toda parte pela palavra da boca e com a pena; ele é escrito, cantado, pintado,
etc.”.79 As artes enfatizam a veracidade da palavra: “A palavra de Deus é
apresentada tão poderosa, lúcida e claramente na pregação, no canto, na
fala, na escrita e na pintura80 que eles [reis príncipes e senhores nas terras
germânicas] têm que reconhecer que ela é a verdadeira palavra de Deus”.81
Josquim, um dos compositores favoritos de Lutero, serve como meio de
proclamação do evangelho: “Deus tem pregado o evangelho através da
música também, com pode ser visto em Josquin, de quem todas as
composições fluem livremente, tranqüilamente e alegremente, não são
forçadas ou limitadas por regras e são quais o canto do tentilhão”.82
Em seu ”Tratado das Boas Obras” (1520), Lutero acha que “depois da fé não
podemos fazer obra maior do que louvar, pregar, cantar e sobre todos os aspectos
enaltecer e magnificar a glória honra e nome de Deus”.83 No comentário sobre o
Salmo 147, Lutero sumariza: “Deus não exige grandes sacrifícios ou preciosos
tesouros de grande valor para sua bênção. Não, ele solicita a obra mais fácil de
todas, a saber, cantar e louvar”.84 E em suas “preleções sobre Isaías, Capítulos
40-60”, ele diz que o culto do Novo Testamento “não é nada mais que canto,
louvor e agradecimento. Esta é uma canção singular. Deus não se preocupa por
nossos sacrifícios e obras. Ele está satisfeito com o sacrifício de louvor”.85
Lutero adverte sobre a importância do conteúdo: “A ninguém tenho sobre
quem cantar e entoar senão somente a Cristo, em quem tenho tudo. Ele

78
“Sermão sobre o evangelho de São João”(1537), LW 24:404
79
Ao que parece, Lutero está aqui se referindo a artistas como Albrecht Dürer (1471-1528) e a
Lucas Cranach, o ancião (1472-1553).
80
“Comentário Sobre o Salmo 101” (1534), LW13:168
81
LW 54: 129-30.
82
LW 44:39
83
LW 14:111
84
LW 17:72
85
“Preleções em Isaías, Capítulos 1-39” (1527/29), LW 16:129.

23
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
somente eu proclamo, nele somente me glorio, por que ele se tornou minha
Salvação, isto é, minha vitória”.86 O canto cristão não se caracteriza por
ênfase em virtudes humanas mas tão-somente na graça de Deus revelada
em Cristo. “Eles [os justificados] louvam somente a graça, as obras, as
palavras e o poder de Deus como lhes são revelados em Cristo. Este é seu
sermão e canto, seu hino de louvor”.87
Não é possível ficar quieto diante da graça de Deus; a proclamação
através do canto faz parte da vida cristã.
Pois Deus alegrou nosso coração e ânimo por meio do seu Filho
amado, o qual ele nos deu para a redenção de pecados, morte e
diabo. Quem nisso crer seriamente, não pode deixar de ficar contente
e decantá-lo e anunciá-lo com vontade, que também outros o ouçam
e se acheguem. Mas quem não quer decantá-lo e anunciá-lo, isto é
sinal de que não o crê e não faz parte do novo e alegre testamento,
mas do antigo, preguiçoso e indisposto testamento.88
Concluindo seu comentário sobre 1 Coríntios 15, Lutero enfatiza o
imperativo para os cristãos cantarem sua fé:
E agora São Paulo apropriadamente conclui com uma canção que
ele canta: “Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de
nosso Senhor Jesus Cristo”. Nós podemos nos juntar a esta canção
e desta maneira sempre celebrar a Páscoa, louvando e exaltando
Deus pela vitória que não foi conquistada ou adquirida em batalha
por nós ... mas nos foi presenteada e dada pela graça de Deus ...
Precisamos guardar isto em nosso coração em fé firme e confirmar-
nos nisto e sempre ser absorvidos em tal mensagem de
agradecimento e cantar desta vitória de Cristo.89
Lutero não se preocupava em fazer diferença entre “cantar e dizer”;
ambos são resultados de uma canção alegre no coração dos redimidos,
como ilustra o seu hino de Natal:
Dos altos céus eu venho,
trago-vos boa novidade,
tanta novidade trago,
dela quero falar e cantar.90
A respeito da visão de Lutero sobre o paradigma da música como
proclamação e louvor, Schalk conclui:

86
“Comentário Sobre o Salmo 118” (1530), LW 14:81.
87
“Prefácio ao Hinário de Babst de 1545” in Martinho Lutero; obras selecionadas, 7:482.
88
“Comentário Sobre 1 Coríntios 15” (1533), LW 28:213 (o grifo é meu).
89
Martinho Lutero; obras selecionadas, 7:552. Tradução literal da primeira estrofe do hino
“Vom Himmel hoch da komm ich her”.
90
Carl F. Schalk, Luher on Music: paradigms of praise p. 39.

24
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Música como louvor e proclamação doxológicas era um segundo
poderoso paradigma no pensamento de Lutero sobre a música na
vida do povo de Deus. Era num sentido, um segundo passo lógico
do entendimento da música como criação de Deus e boa dádiva de
Deus ao povo. Em contraste com alguns outros reformadores, que
viam a música como potencialmente sempre problemática e em
necessidade de cuidadoso controle e direção, Lutero, na liberdade
do evangelho, podia exultar neste dom de Deus, regozijando em seu
[da música] poder de louvar seu criador e gloriar-se em sua [da
música] habilidade de tocar o coração e mente do povo enquanto
proclamava o evangelho.91

A MÚSICA COMO CANTO LITÚRGICO


Lutero tinha como princípio conservar as tradições da igreja, uma vez que
não conflitassem com os ensinamentos bíblicos. A música a ser utilizada deveria
servir aos propósitos da liturgia histórica. Num comentário sobre a Missa
Latina de 1523 ele afirma: “...nem agora nem jamais foi nossa intenção abolir
totalmente todo o culto a Deus, mas apenas purificar novamente esse que
está em uso, mas que está viciado pelos piores acréscimos, e mostrar o uso
evangélico”.92 A Igreja Luterana continuou neste princípio de Lutero afirmando
na Confissão de Augsburgo: “Nossas igrejas são acusadas falsamente de
abolirem a missa. Pois a missa é retida entre nós e celebrada com a máxima
reverência. Também são conservadas quase todas as costumeiras cerimônias.
Apenas são intercalados, aqui e acolá, entre os hinos latinos, hinos alemães,
adicionados para ensinar o povo”.93
Uma tal atitude indica claramente a conversão da música que
tradicionalmente fazia parte da missa. “Que a velha prática continue. Que
a missa seja celebrada com vestimentas consagradas, com cantos e todas
as cerimônias usuais, em latim, reconhecendo o fato que estas são meras
questões externas que não põe em perigo as consciências dos homens”.94
No escrito “Concernente à ordem de Culto Público” de 1523, Lutero afirma:
“Que os cânticos nas missas dominicais e Vésperas sejam mantidos; eles
são bastante bons e são tirados da Escritura”.95 Em relação à introdução

91
“Formulário da Missa e da Comunhão para a Igreja de Wittenberg” (1523), Martinho Lutero;
obras selecionadas, 7:155.
92
CA XXIV, 1-2, in Livro de Concórdia, p. 78.
93
Recebendo Ambas as Espécies no Sacramento (1522), LW 36:254 (ênfase de Schalk).
94
LW 53:13.
95
LW 54:360-61 (o grifo é meu). O cânon refere-se ao canon missae, a parte central da missa
católica que contem as palavras da Santa Ceia.

25
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
das reformas em Leipzig, esta visão é retirada numa conversa entre Lutero
e Melanchthon, registrada nas “Conversas de Mesa” em 1539.
Em razão disso houve consultas sobre cerimônias, como a comunhão
deveria ser observada. . . . Então Filipe declarou que ele tinha ouvido
dizer por muitos que nossas cerimônias são arranjadas de tal maneira
que o povo pensa que nenhuma mudança tem sido feita em
comparação com o uso anterior ... Em razão disso Martinho Lutero
disse: “Seria bom manter a Liturgia completa com sua música,
omitindo somente o cânon”.96
As missas de Lutero confirmam sua intenção de não abolir a música
tradicional. A Missa Latina (Formula missae et Communionis pro Ecclecia
Vuittembergensi, 1523) é intencionada para ser mais formal com música
mais elaborada; é bastante conservadora. A Missa Alemã (Deutsche Messe,
1526) é mais modesta, com música também mais simples, mas pressupõe a
participação do coro. Ambos os ofícios provêem partes cantadas como as
leituras, as coletas, e os ordinários. Lutero pressupunha que a liturgia fosse
cantada, mesmo que fosse simples. Mas mesmo na Missa Alemã Lutero
não queria que a música fosse composta sem preocupação de qualidade.
Solicitou a ajuda dos Músicos Conrado Rupsch e João Walter para que o
assistissem na preparação da música da Missa Alemã.
Enfatiza-se muito que Lutero restaurou o canto congregacional. Mas é
preciso lembrar também que o canto congregacional na verdade é um reflexo
da insistência de Lutero de que o povo participasse ativamente do canto da
liturgia. É bem diferente do fato que se constata no protestantismo hoje,
verificando-se que muitas vezes os hinos têm pouca relação com o canto
da liturgia. Não foi acidental o fato que muitos hinos populares no período
do início da Reforma eram os relacionados ao ordinário da Missa (Kyrie,
Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei). Schalk explica:
Assim, na visão de Lutero, quando luteranos do século XVI cantavam
seu hino do Credo (“Nós Cremos todos num só Deus”97), eles não
estavam cantando uma alternativa estéril e empobrecida, uma pobre
segunda escolha para o texto em prosa do Credo. Na verdade eles
estavam cantando o Credo com um texto e veículo musical adaptado
especialmente às necessidades do canto congregacional.98
Quando se olha para a vasta hinódia do início do luteranismo pode-se
verificar seu estreito relacionamento com a liturgia. Sejam os hinos de Lutero
relacionados com os ordinários da missa, bem como hinos de outros autores

96
Wir glauben all na einen Gott, in Martinho Lutero; obras selecionadas 7:530-32.
97
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise p. 40.
98
CA XIV 1 in Livro de Concórdia, p.78.

26
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
relacionados com os próprios do Dia, hinos relacionados com o ano litúrgico,
hinos compostos para as Matinas e Vésperas, e os hinos relacionados com
a prática luterana chamada hinos de tempore (o Hino do Dia). Todos estes
hinos são veículos para capacitar a congregação a participar da liturgia
histórica, mas agora de forma a tornar possível a participação de todos.
Lutero não pensava em utilizar seus hinos apenas para uma participação no
culto de um modo geral. Os hinos estavam inseridos dentro da Liturgia
Católica tradicional da Igreja Ocidental, uma tradição que ele queria continuar
a afirmar. No artigo 24 da Confissão de Augsburgo é confirmado que a
liturgia histórica “é retida entre nós e celebrada com a máxima reverência”.99

MÚSICA COMO O CANTO DOS SACERDOTES REAIS


Lutero entendeu o canto congregacional como conseqüência lógica do
sacerdócio real de todos os crentes. No Antigo Testamento o sacerdócio de
todos os crentes já havia sido estabelecido por Deus: “Agora, pois, se
diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então,
sereis minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a
terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas
as palavras que falarás aos filhos de Israel”.100 No Novo Testamento este
ensino recebe confirmação clássica: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio
real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de
proclamardes as virtudes daqueles que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz”.101 Para Lutero, esta doutrina deveria ser expressa na
vida cristã incluindo o culto e a música como louvor e proclamação.
Era especialmente em relação aos abusos da celebração da Missa e ao
conseqüente mal entendido sacerdócio na Igreja Romana que Lutero
enfatizava o assunto. No seu escrito “O Cativeiro Babilônico da Igreja”
Lutero deixa claro: “Esteja, pois, certo e reconheça qualquer um que se
considere cristão: todos somos igualmente sacerdotes, isto é, temos o mesmo
poder na Palavra e em qualquer sacramento”.102 Sobre 1 Pedro 2.2,5, Lutero
afirma: “Pois as palavras de Pedro aplicam-se a todos os cristãos de quaisquer
sacerdócio”.103 E em “Um Sermão a Respeito do Novo Testamento, Isto É,
a Respeito da Santa Missa”, ele escreve:
Pois todos aqueles que têm a fé de que Cristo é um sacerdote em
favor deles diante de Deus, no céu, deitando sobre ele, apresentando
por intermédio dele sua oração, louvor, necessidade e a si mesmos,

99
Êx 19.5-6.
100
1 Pe 2.9.
101
Martinho Lutero; obras selecionadas, 2:417.
102
LW 36:141
103
Martinho Lutero: obras selecionadas, 2:268-69.

27
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
não duvidando que ele o faça e que se ofereça a si mesmo como
sacrifício por eles... Todos estes, onde quer que estejam, são
verdadeiros sacerdotes e celebram em verdade corretamente a
missa, obtendo com ela também o que buscam. Pois a fé tudo deve
fazer. Somente ela é o mistério sacerdotal verdadeiro e não permite
que ninguém mais o seja. Por isso todos os homens cristãos são
sacerdotes e todas as mulheres são sacerdotisas, sejam jovens ou
velhos, senhor ou servo, senhora ou serva, douto ou leigo. Aqui não
há diferença, a não ser que a fé seja diversa.104
A visão do “sacerdócio real” de todos os crentes tem implicações claras
no culto. Os crentes não só estão presentes no culto, mas também têm uma
participação ativa na ação litúrgica. Em seu sermão da dedicação da Igreja
de Torgau em 1544 Lutero disse que a assembléia reunida dos sacerdotes
reais é o foco da palavra pregada, do louvor e da oração.
Vocês [assembléia reunida], também, devem segurar o aspersório
e o incensório, de modo que o propósito desta nova casa possa ser
tal que nada mais possa jamais acontecer nela exceto que nosso
próprio querido Senhor possa falar a nós através de sua santa palavra
e nós lho respondamos através de oração e louvor.105
Pois quando eu prego, quando nós nos reunimos como uma
congregação, isto não é minha palavra ou meu fazer; mas é feito
em favor de todos vocês e em favor de toda a igreja ... Assim
também todos eles oram e cantam e dão graças em conjunto; aqui
não há nada que alguém tenha ou faça por si mesmo somente; mas
o que cada um tem também pertence ao outro.106
Esta compreensão que coloca a congregação no centro da ação musical
e litúrgica enfatizou o canto congregacional, o coral, característica do canto
congregacional da Reforma. Todos são encorajados a participar do louvor
comum. “Ele quer ouvir as multidões e não você e eu sozinho ou um simples
fariseu isolado. Por isso cante com a congregação e você cantará bem.
Mesmo que seu cantar não seja melodioso, ele será absorvido pela multidão.
Mas se você cantar sozinho, você terá suas críticas”.107 Schalk pondera:
“Pois toda a música do culto, fosse ela cantada pela congregação, coro ou
ministros ou tocada por instrumentos, era na realidade e verdade o canto
dos sacerdotes reais confessando e proclamando ao mundo as boas novas
de Deus em Cristo.”108

104
“Sermão na Dedicação da Igreja do Castelo de Torgau” (1544), LW 51:333
105
Ibid., p. 343.
106
Uma Exposição do Pai Nosso para os Leigos Simples (1519). LW 42:60.
107
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise, p.44.
108
Ibid.,pp. 44 – 45.

28
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
As conseqüências do exercício do sacerdócio universal no tempo da Reforma
foram notáveis. A Escritura e a Liturgia foram dadas ao povo. As adaptações de
Lutero de cantos gregorianos para serem cantados pelo povo facilitaram o canto
congregacional. O coro da congregação foi considerado como parte da assembléia
reunida oferecendo com a congregação o louvor a Deus. Schalk conclui:
O culto não mais poderia ser visto como alguma coisa feita por
outros em benefício do povo. Culto era visto, antes, como o povo de
Deus, a assembléia dos sacerdotes reais, exercitando seu sacerdócio
comum em louvor, proclamação e oração não só em seu próprio
benefício, mas também em benefício de todo o mundo.109

A MÚSICA COMO UM SINAL DE CONTINUIDADE COM TODA A IGREJA


Lutero não descartou a herança musical sacra. Considerava a herança
musical como um sinal de continuidade do louvor do povo de Deus. Zuínglio
e Calvino foram mais radicais e queriam enfatizar sua diferença com a
Igreja Católica evitando tudo o que pudesse lembrar algo relacionado ao
catolicismo. Radicalizaram tanto sua reforma que “limparam” as igrejas de
seus afrescos, estátuas, vestimentas e órgãos. Zuínglio baniu qualquer espécie
de música do culto e Calvino permitiu apenas o canto de salmos versificados.
Lutero, ao contrário, tentou usar tudo o que a tradição tivesse deixado e que
não conflitasse com a continuidade da obra da reforma; nesta linha conservou
música e liturgia até onde fosse possível.
A ênfase na continuidade da Reforma Luterana com toda a igreja está
refletida na Confissão de Augsburgo, um documento que procurou restaurar
a unidade. A intenção da Confissão de Augsburgo era que houvesse “retorno
a uma só verdadeira e concorde religião”.110 O Livro de Concórdia re-
enfatiza tal unidade afirmando que está fundamentado no “antigo consenso
que a igreja de Cristo universal e ortodoxa tem crido, lutado contra muitas
heresias e erros e repetidamente afirmado”.111 É importante lembrar ainda
que no início do Livro de Concórdia estão os três Credos Ecumênicos,
confessados e aceitos por toda a igreja.
Lutero não quis recomeçar a igreja do início. Tudo que estivesse em
conformidade com a obra da Reforma seria mantido; isto incluía o culto.
Nada de radicalismo. Em seu “Formulário da Missa e da Comunhão para a
Igreja de Wittenberg” (1523) ele afirmou: “Por isso confessamos em primeiro
lugar que nem agora nem jamais foi nossa intenção abolir totalmente o culto
a Deus, mas apenas purificar novamente esse que está em uso, mas que

109
CA Prefácio 10 in Livro de Concórdia, p.26.
110
“Prefácio ao Livro de Concórdia”, Tappert, p.3.
111
Martinho Lutero; obras selecionadas, 7:157.

29
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
está viciado pelos piores acréscimos, e mostrar o uso evangélico”.112
Para Lutero, dois elementos da Missa estavam primordialmente
corrompidos: O Cânon da Missa e o Ofertório. Na sua Missa Latina ele
também afirma:
No presente livro, porém, não queremos analisar se a missa é um
sacrifício ou uma boa obra. A respeito disso ensinamos o suficiente
em outra parte. Nós a compreendemos como sacramento,
testamento, ação de graças, como se diz em latim, ou eucaristia em
grego, mesa do Senhor, Ceia do Senhor, memória do Senhor,
comunhão, ou qualquer nome evangélico que agrade, desde que a
designação não esteja poluída pela idéia de sacrifício ou obra.113
Lutero percebeu que a Missa e sua música, bem como diversas
cerimônias, muitas vezes foram pervertidas em boa obra.
Aí, a palavra “ofício divino” tem tomado hoje em dia um sentido e
uso tão estranho que todo aquele que a ouve não pensa nestas obras
de Deus, mas antes no badalar de sinos, na madeira e pedra das
igrejas, no recipiente de incenso, no bruxuleio das velas, no murmúrio
nas igrejas, no ouro, prata e pedras preciosas nas vestimentas dos
meninos do coro e dos celebrantes, no cálice e custódias, nos órgãos
e imagens, nas procissões e devotos, e, acima de tudo, no balbuciar
dos lábios e no chocalhar dos rosários. 114
A ira de Lutero se dirigia àqueles que viam no culto um meio para
receberem justiça ou para se tornarem piedosos através de boas obras.
Analisando 1 Coríntios 2.15, Lutero comenta que o homem espiritual
percebe com grande claridade que grandes tolos são aqueles que
desejam tornar-se piedosos através de obras, e ele não dará nenhum
centavo para todas as tonsuras de sacerdotes, monges, bispos e
papas nem por capelos, incenso, badalo de sinos, queima de velas,
canto, barulho ao órgão ou recitar de orações com toda sua
representação externa. Ele vê agora como tudo isto é nada senão
idolatria e falsificação insensata.115
Lutero tinha certeza que os “cristãos não se tornam justos fazendo obras
justas; mas uma vez que eles foram justificados pela fé em Cristo, eles fazem
boas obras”.116 Isto não quer dizer que Lutero quisesse abolir as cerimônias.
Além desses sinais exteriores [os sacramentos] e meios de salvação,
a Igreja tem ainda outros meios, igualmente exteriores, pelos quais

112
Ibid., p.159.
113
“Comentário sobre o Magnificat‘’ (1521), LW 21:350.
114
“Sermão sobre o Evangelho para o Ofício Principal de Natal”(1522), LW 52:79-80.
115
“Preleções sobre Gálatas” (1535), LW 41:173.
116
“Dos Concílios e da Igreja (1539), Martinho Lutero: obras selecionadas, 3:428.

30
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
ela não é santificada, nem no corpo nem na alma, e que também
não são instituídos por ele. Mas acontece ... que se torna necessário
ou útil por questões externas e que é convenientemente e de bom
costume ... que se usem igrejas ou construções eclesiásticas, altar,
púlpito, pia batismal, lustres, velas, sinos, vestes sacerdotais e coisas
semelhantes.117
Na Tese 55 das suas Noventa e Cinco Teses, Lutero também enfatiza a
necessidade de cerimônias: “Se indulgências, que são uma coisa muito
insignificante, são celebradas com um sino, uma procissão, então o evangelho,
que é a verdadeira maior coisa, deveria ser celebrado com cem sinos, cem
procissões, cem cerimônias.118
Aceitar a herança da tradição era, para Lutero, estar ligado com os cristãos
de outros tempos e lugares e estar lembrado que a igreja de seu tempo era
também parte da única, santa, católica e apostólica, a comunhão dos santos.
O resultado disso era que as revisões da liturgia da tradição católica ocidental
relembravam a tradição mais antiga. No seu artigo “Recebendo Ambas as
Espécies no Sacramento”, Lutero comentou: “Que a antiga prática continue.
Que a missa seja celebrada com vestimentas consagradas, com cantos e
todas as cerimônias usuais, em latim, reconhecendo o fato que estes são
meros fatores externos que não prejudicam as consciências dos homens”.119
No “Prefácio ao Saltério”(1528) Lutero afirmou que o canto dos salmos
significa juntar-se a todos os que já cantaram os salmos antes de nós:
“Quando estas palavras [o Saltério] agradam ao homem e se ajustam ao
seu caso, ele torna-se convicto de que ele está na comunhão dos santos e
que isto surtiu efeito com todos os santos como surte efeito para ele, uma
vez que todos eles cantam com ele uma pequena canção”.120 No seu escrito
“Tratado sobre as Últimas Palavras de Davi”, perto do final de sua vida,
Lutero disse:
Santo Ambrósio compôs muitos hinos da igreja. Eles são chamados
hinos da igreja por que a igreja os aceitou e os canta simplesmente
como se a igreja os tivesse escrito e como se eles fossem os cantos
da igreja. Por isso não é costume dizer “Assim canta Ambrósio,
Gregório, Prudêncio, Sedúlio” mas “Assim canta a Igreja Cristã”.
Porque estes são agora os cantos da igreja, que Ambrósio, Sedúlio,

117
“As Noventa e Cinco Teses ou Debates Sobre o Poder e Eficácia da Indulgência” (1517), LW
31:30.
118
LW 36:254.
120
Ibid., 35: 256.
121
LW 15: 274.
119
Carl Schalk, Luther on Music: paradigmas of praise, p. 51
120
Carl F. Schalk, Luther on Music: paradigms of praise p. 51.

31
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
etc., cantam com a igreja e a igreja com eles. Quando eles morrem,
a igreja sobrevive a eles e prossegue em cantar suas canções.121
Schalk conclui:
Aqui não havia exclusividade paroquial, nenhuma auto-suficiência
provincial, mas uma posição de solidariedade e continuidade com a
igreja católica. Esta atitude iria informar as práticas cúlticas e
musicais até que as posteriores práticas de individualismo,
privatização e personalismo tanto do pietismo como do racionalismo
iriam invadir o luteranismo e causariam dano tanto para sua liturgia
como para a música.122

4. APLICAÇÕES DOS PARADIGMAS DE LUTERO PARA HOJE

Se o pensamento de Lutero é para permanecer somente como um


interesse histórico, então qualquer consideração sobre seus pensamentos
aplicáveis aos dias de hoje será supérflua. Mas se os pensamentos de Lutero
têm algo a nos dizer para a música sacra de hoje, então eles nos poderão
ajudar a delinear os caminhos da música na igreja de hoje.

PARADIGMA FUNDAMENTAL: A MÚSICA COMO CRIAÇÃO E DOM DE DEUS


Uma vez que Lutero coloca como paradigma principal que a música
é a criação e dom de Deus, qualquer discussão em torno da música na
perspectiva de Lutero tem que começar com esta idéia central. Portanto, a
música não tem como prioridade o ensino ou propósitos psicológicos. É fato
que a música tem servido a propósitos educacionais na história e
particularmente dentro da igreja da Reforma. Mas este não é seu propósito
principal. Sendo um dom de Deus, antes do propósito de ensino, a música
sacra serve como meio em que a comunidade cristã expressa seu louvor,
proclamação, adoração e agradecimento por aquilo que Deus fez e ainda
continua fazendo entre nós.
Colocar a música na igreja com a função primordial de entretenimento é
outro grande equívoco. Isto coloca os membros na perspectiva de
espectadores. Mas, infelizmente, vemos muitas igrejas agirem assim em
nossos dias: a música é utilizada basicamente para entretenimento, para
divertir o povo e mantê-lo psicologicamente satisfeito.

MÚSICA COMO PROCLAMAÇÃO E LOUVOR


Na perspectiva de Lutero, a música na igreja funciona como viva vox

121
Ibid., p 52.
122
Ibid., p. 52.

32
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
evangelii, como “a viva voz do evangelho”, louvando a Deus e proclamando
sua palavra ao mundo. Um hino ou música sacra de qualquer caráter é o
anúncio de lei e evangelho, de pecado e salvação. As funções de
entretenimento, arte e mesmo de ensino são secundárias. Os textos das músicas
sacras são, portanto, essenciais; eles devem proclamar corretamente lei e
evangelho a fim de anunciarem corretamente a própria palavra de Deus.
Como ocorre a participação da música na proclamação da palavra?
Talvez seja hora de deixarmos de lado concepções que falam da música
como “embelezamento” do culto ou como “invólucro” que envolve o dom
do evangelho, um invólucro que pode ser jogado fora quando a mensagem
já foi apresentada. A música na igreja é tanto proclamação quanto ministério.
O que é dito do púlpito, cantado pelo coro ou tocado pelo órgão e outros
instrumentos precisa ser a mesma palavra de Deus que deve atingir os
ouvintes. Portanto, o conteúdo do que se canta é de suma importância.
Ter como paradigma principal da música sacra de que ela é um dom e
criação de Deus tem implicações para com a arte musical. Schalk considera:
Ver a música como um dom e criação de Deus também tem implicações
para com a arte e integridade da composição musical. Falar da música
como arte significa estar preocupado com sua adequação como música
para o propósito para a qual ela foi intencionada, sua adequabilidade
como música para sua função, seu “bom andamento” como música.
Para a igreja, estar preocupada sobre a arte da música que ela usa em
seu louvor e oração é uma reflexão direta de seu cuidado no uso deste
grande e agradável dom de Deus.123
Schalk acha que a música para a proclamação do evangelho não pode
ser superficial: “se a música é de fato criação e dom de Deus ao povo,
então proclamar o evangelho em música que reflete vulgaridade,
superficialidade, banalidade, falsificação e – talvez o pior de tudo – pretensão,
é contradizer em nossa arte a verdade, honestidade e integridade do próprio
evangelho”.124
Schalk é da opinião que muitas das músicas que ouvimos atualmente
nas igrejas podem ser caracterizadas “pela melodia banal, pelo ritmo vulgar,
pela harmonia melada e por um empenho de efeito fácil”.125 Ele acha que
tal “desonestidade, falta de integridade e desprezo por arte num lidar com
materiais de música, muitas vezes revestida de uma pátina de atrativo
superficial, faz um desserviço ao evangelho a serviço de que tal música
pretende estar”. 126 Schalk adverte que prontamente depreciamos tais

123
Ibid., p. 52.
124
Donald J. Grout e Claude V. Palisca, A Hystory of Western Music, p. 106.
125
José da Veiga Oliveira, Johann Sebastian Bach; a plenitude de um gênio, p. 21.
126
Carl F. Schalk, Luther on Music; paradigms of praise, p. 53.

33
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
abordagens na arquitetura de igreja nos nossos automóveis e refrigeradores.
Estaria na hora de que aqueles que trabalham com as canções de fé ouvissem
seriamente tais críticas sobre o culto e a música sacra.
Acho que as preocupações de Schalk para com a qualidade da música
sacra servem de reflexão para nós. No entanto, é difícil qualificar o que
seria uma música “banal”, um ritmo “vulgar” ou uma melodia “melada”.
Na arte dos sons, e, mesmo na arte em geral, não se lida sempre com
parâmetros concretos. Em arte, lidamos muito com expressão e sentimento;
e estes são, muitas vezes, de gosto diversificado. É oportuno que lembremos,
por exemplo, que a ars nova surgida na música no século XIV foi considerada
por Jacques de Liège como música na qual a “imperfeição é exaltada e o
compasso é confundido”, 127 referindo-se a mudanças de divisão de tempos
dentro da mesma música, o que para nós, hoje, é perfeitamente “natural”.
O gênio Johann Sebastian Bach, quando foi examinado para ver se era apto
para tomar o cargo de “Cantor” na escola de Leipzig, foi considerado
“compositor de médio de porte!”128 para preencher o cargo.
Outro julgamento difícil de fazer com a música sacra é considerar que,
para uma música ser digna de culto, ela precisa ser “erudita”. Tudo o que
for “popular” não seria digno porque é simples, superficial e passageiro. O
emaranhado de discussões se tornará sempre maior à medida que fizermos
mais restrições sobre os tipos de música adequados ao culto.
Realmente acho que a questão sobre a música adequada ao culto não é
difícil. Eu me arriscaria a dizer o seguinte: toda a música que favorece a
proclamação do texto e que é aceita dentro da comunidade em que está
sendo apresentada, é adequada ao culto. Quanto à música instrumental,
diria o seguinte: todos os instrumentos que podem nos ajudar a cantar hinos
ou podem acompanhar uma música coral são adequados ao culto. A música
instrumental sem acompanhamento de texto (prelúdios e outras peças de
órgão, instrumentos, orquestra) também pode ser utilizada no culto se ela
servir de meio para a reflexão e para elevar nossos ânimos, proporcionando-
nos alegria em louvarmos a Deus.

A MÚSICA COMO CANTO LITÚRGICO


Nas igrejas litúrgicas a música sacra mais apropriada é aquela que está
em sintonia com o contexto da liturgia. O Ano Litúrgico e o Lecionário
expõem todo o desígnio de Deus, apresentando-nos uma visão “completa”
da Bíblia. Portanto, esta tradição litúrgica é que melhor vai nos determinar
a música apropriada para cada ocasião.

127
Ibid., p. 53.
128
Ibid., p. 54.

34
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Atenção especial deve ser dada àqueles textos que têm um significado
litúrgico particular, para uma celebração específica. As congregações talvez
precisem ser acostumadas a não verem a música como “anexas ao ofício”,
mas como integradas à liturgia. Schalk opina:
Colocar-se sob a disciplina da liturgia é tornar disponível para a
comunidade cultuante a riqueza e experiência da igreja no culto
através dos séculos, ao invés de colocá-la sob a mercê da experiência
individual mais limitada e menos satisfatória ou a mercê de uma
moda passageira disfarçada como relevante.129
Isto talvez signifique começar de um novo lugar. Mas disciplinar-se e
disciplinar uma congregação a crescer debaixo da disciplina da liturgia é
chegar a resultados de uma riqueza e profundidade de culto que não serão
possíveis de outra maneira.
Colocar-se sob a disciplina da liturgia significa voltar a uma radical
simplicidade. Isto implica entender o que é realmente o culto, suas prioridades
e o uso da música como uma proclamação doxológica. Tal música sublinha
a ação litúrgica em questão e não a diminui. Tal música não é pretensiosa e
não pensa em “grandes efeitos” com materiais musicais que não a justifiquem
e a tornem em atração superficial. Às vezes o músico de igreja tem a visão
de que foi chamado para um engrandecimento pessoal ou congregacional.
Mas colocar-nos sob a disciplina de uma simplicidade radical significa deixar
de lado a música pretensiosa e bombástica que explora o efeito fácil e que
procura agradar a todo custo. Eis o que Schalk sugere como música
despretensiosa:
Isto significará aplicar à música sacra os princípios da arquitetura
de que a forma segue a função e nada mais. Sugerir um retorno a
uma simplicidade mais radical não implica necessariamente um
espartanismo musical austero. Mas sugere que muito da música de
culto pode refletir uma ostentação que, ou é irrelevante para, ou
injustificada pelas circunstâncias litúrgicas.130

A MÚSICA COMO CANTO DOS SACERDOTES REAIS


Schalk argumenta: “Se a música do culto é parte do exercício do
sacerdócio real do povo, então a música sacra não é primariamente alguma
coisa que alguém ouve, mas alguma coisa na qual o fiel participa.”131 O
Senhor que nós ouvimos na música sacra e a quem cantamos hinos é o

129
Carl F. Schalk, Music and the Liturgy: The Lutheran tradition, in Lutheran Worship: history
and practice, p. 247.
130
Salmo 100.1.
131
Ibid., p. 54.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
mesmo que ouvimos nas leituras, na pregação, que confessamos no Credo
e que recebemos no Sacramento do Altar. Não vamos ao culto como meros
expectadores de um drama, mas como participantes, no caso da música, de
um cântico congregacional. E isto inclui a liturgia também; os sacerdotes
reais têm o direito de se envolverem num efetivo canto da liturgia. “É
importante salientar que desde o início Lutero, luteranos e congregações
luteranas claramente viram a hinódia como um caminho de participação na
liturgia.”132
Isto também nos leva à reflexão de que temos que levar em conta os
costumes de cada região ou mesmo de uma congregação. Se o culto é do
povo, se o cântico é congregacional, a congregação tem o direito de ter
expressões peculiares suas. Pode cantar hinos em estilo que condigam com
sua maneira de expressão. Pode manifestar-se em ritmos que estimulem
movimentos de seu corpo, expressando sua alegria. O povo brasileiro, bem
como os povos africanos, gostam de expressar muitas vezes sua alegria de
maneira mais ruidosa do que povos europeus. Não podemos limitar as
expressões de louvor, pois na própria Bíblia podemos ler passagens como
“Celebrai com júbilo ao Senhor todas as terras”133 e “Louvai-o com adufes
e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.”134
Música inclui instrumentos. Com o passar da história, o órgão de tubos
se tornou o instrumento “oficial” para o culto. Para as congregações que
não podiam arcar com as despesas de um instrumento de tubos, o harmônio
veio para ser o seu substituto. Com o advento da eletrônica, o órgão eletrônico
substituiu cada vez mais o órgão de tubos e até o harmônio para aquelas
congregações que não podiam arcar com o preço de um órgão de tubos.
Mas em meados do século XX, com a popularização do violão, este
instrumento começou a entrar pela porta dos fundos da igreja. Começou a
ganhar o status de “digno” e abriu as portas para as bandas modernas
atuarem na igreja. O que vamos fazer com esta explosão de instrumentos
para o culto?
No passado, nas capelas das cortes, era comum o uso de instrumentos e
orquestras para acompanhar os cantos da liturgia e outras obras sacras. No
entanto, o “usual” era o órgão, depois também o harmônio, e mais adiante o
órgão eletrônico. Agora o “usual” talvez inclua o violão, a guitarra, o
contrabaixo, o teclado e a bateria. Que faremos? Nada de pânico. Qualificar
instrumentos como “dignos” ou “indignos” para o nosso culto será uma

132
Carl F. Schalk, Music and the Liturgy: The Lutheran tradition, in Lutheran Worship: history
and practice, p. 247.
133
Salmo 100.1.
134
Salmo 150.4.

36
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
catástrofe, pois nem na Bíblia encontraremos suporte para nossas
qualificações.
Se concordarmos que o culto é para a congregação e se estamos
convictos de que o canto congregacional é o principal canto do culto, então
deixemos que os membros, com seus instrumentos e com suas habilidades
musicais prestem culto a Deus. Isto exclui aquele organista profissional,
dedicado e habilidoso do culto? De maneira nenhuma. Tudo tem seu lugar
no culto, especialmente considerando, agora, a aplicação do último paradigma
de Lutero para a música sacra que segue.

A MÚSICA COMO SINAL DE CONTINUIDADE COM TODA A IGREJA


Lutero via continuidade com toda a Igreja na questão da música utilizando
música do passado e do presente. As práticas já estabelecidas deveriam
ser mantidas. Schalk estabelece cinco tentativas de aplicação para a igreja
de hoje, seguindo os princípios de continuidade com a igreja do passado e
continuidade com a igreja do presente, segundo Lutero.135
1 o Lutero expressou seu agradecimento à tradição musical sacra
utilizando a herança musical nos cultos.
o
2 A ênfase de Lutero na continuidade nos sugere evitarmos seguir nosso
próprio caminho em questões de culto e música sacra. Somos parte
da igreja universal e aceitar a herança musical nos liga aos cristãos
de outros tempos e lugares.
3° À medida que caminhamos para o futuro, enfatizamos aqueles aspectos
de nosso culto e vida musical que mantemos em comum com os cristãos
por toda parte. Schalk acha que o fato de nós, luteranos, termos
trabalhado com cristãos de diversas denominações em anos recentes,
no desenvolvimento de um lecionário, formas de culto e num corpo de
hinódia comuns, tem enfatizado os benefícios de tal continuidade com
irmãos cristãos em outras comunhões. No passado estas formas de
culto e hinódia não eram tão comuns assim entre as denominações.
4° A ênfase na continuidade com o passado não despreza o novo. Schalk
explica: “Enraizados firmemente numa única tradição, não evitamos
o novo, mas somos cuidadosos para evitar novidade, excentricidade,
ou quixotescas tentativas às novidades por si só.”136
5° A continuidade com a totalidade da igreja cristã em questões de culto
e música sacra será um fator importante para os anos seguintes. Já
há muitas liturgias que não seguem o padrão do século XVI. Há também
liturgias que perpassam diferentes denominações. Não estamos certos

135
Carl F. Schalk, Luther on music: paradigms of praise pp.54-55.
136
Ibid., p. 55.

37
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
que caminho tomará tudo isto. Mas está claro que não podemos
permanecer apenas em nosso provincialismo paroquial ou visão
particular.
É preciso lembrar que “a história cristã é uma história escatológica. A
presença do reino de Deus em meio ao mundo em Jesus Cristo é o mesmo
ontem, hoje e amanhã”.137

SUGESTÕES PRÁTICAS
Finalmente, gostaria de sugerir alguns princípios práticos para a música
sacra de hoje, tomando por base os paradigmas de Lutero:
- Quando formos trabalhar com música na igreja (novas composições,
ensaios, apresentações) não há outro caminho por começar senão
reconhecer que a música é um dom de Deus e que é meio para a
proclamação de sua Palavra a para o seu louvor.
- Sejam quais os instrumentos que utilizarmos, eles deverão ser meios
para suportar a mensagem; o alvo é apresentar a mensagem e não os
instrumentos ou o som dos instrumentos. Isto, sem dúvida, deve ser
considerado quando se ouvem queixas de que o som esteve tão forte
que a mensagem não foi entendida.
- Por vezes programas impressos com o texto dos cantos (especialmente
se for cantado por um grande coral, o que dificulta a clara enunciação
do texto) podem ajudar sensivelmente para uma boa propagação da
mensagem.
- Cuidado com as classificações de cultos: “cultos jovens”, “cultos
contemporâneos” ou “cultos tradicionais”. Ocasiões especiais até podem
justificar algumas exceções. Mas o culto habitual da congregação não
é “jovem”, “contemporâneo”, “antigo” ou “tradicional”. O culto da
congregação é culto de Deus para nós e de nós para Deus
(Gottesdienst). Não vejo problema em se usar num mesmo culto hinos
tradicionais e novos hinos; usar num mesmo culto diversos instrumentos
como órgão, violão, bateria, flauta e violino, alternadamente ou em
conjunto. O antigo e o novo podem e devem se encontrar no culto, pois
isto expressa a continuidade de toda a igreja cristã na terra e mostra
também que a Igreja de Cristo é uma só, inclui todo o povo de Deus
que é conduzido pelo Bom Pastor e que no fim “haverá um rebanho e
um pastor”.138

137
Artur A. Just, Liturgical Renewal in the Parish, in Lutheran Worship: history and Practice,
pp. 27-28.
138
João 10.16.

38
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
- Em novas composições, cuidado com o texto. Este é o ponto crucial:
o texto precisa ser bíblico, cristocêntrico e transmitir corretamente lei e
evangelho. Um texto assim, aliado com música que todos cantem,
exaltará o Criador e inculcará a mensagem nas mentes e corações dos
que estão cantando.

BIBLIOGRAFIA
BÍBLIA SAGRADA. 2 ª Edição Revista e Atualizada. Traduzido ao
Português por João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica
do Brasil, 1993
BAINTON, Roland. Here I Stand: a life of Martin Luther. New York:
Nashwille, Abingdon Press, 1950.
BOOK OF CONCORD, THE. Tradução de Theodore G. Tappert.
Philadelphia: Fortress Press, 1959
GROUT, Donald Jay e PALISCA, Claude V. A Hystory of Western Music,
5ª edição. Nova York e Londres: W. W. Norton & Company, 1996.
HINÁRIO LUTERANO: Igreja Evangélica Luterana do Brasil, Porto
Alegre: Concórdia Editora Ltda, 3ª edição, 1990.
JUST, Arthur A. Liturgical Renewal in the Parish, in Lutheran Worship:
History and Practice. Saint Louis: Concordia Publishing House, 1993.
LIVRO DE CONCÓRDIA. Tradução e Notas de Arnaldo Schüler. São
Leopoldo: Editora Sinodal e Porto Alegre: Concórdia Editora, 1980.
LUTHER’S WORKS. Editores Gerais: Jaroslav Pelikan (vls. 1-30) e
Helmuth T. Lehmann (vls. 31-35). Filadélfia: Fortress Press, 1958-1986.
MARTINHO LUTERO: obras selecionadas. Editor Geral, vols. 1- 6 Ilson
Kayser; editor geral vol. 7 Darci Drehner. São Leopoldo: Editora Sinodal
e Porto Alegre: Concórdia Editora, 1987- 2000.
NETTL, Paul. Luther and Music. Traduzido por Frida Best e Rolph Wood.
Philadelphia: The Muhlenberg Press, 1948.
OLIVEIRA, José da Veiga. Johan Sebastian Bach: a plenitude do gênio.
São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1986
PLASS, Ewald M. What Luther Says. Saint Louis: Concordia Publishing
House, 1959.
SCHALK, Carl F. Luther on Music: paradigms of praise. Saint Louis:
Concordia Publishing House, 1988.
SCHALK, Carl F. Music and Liturgy: The Lutheran Tradition, in Lutheran
Worship: history and practice. Saint Louis: Concordia Publishing House,
1993.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jó 38.1-11
13 de julho de 2003

1. CONTEXTO E TEXTO
É sabido que o Deus gracioso só pode ser encontrado em Jesus Cristo.
Lutero afirma que se alguém procurar Deus fora de Cristo não o encontra.
Jó, no transcorrer do livro, quer saber de apenas uma coisa: encontrar-se
com Deus. Depois do discurso empático de Eliú, no capítulo 38 Deus
finalmente responde a Jó. Mas o que aconteceu com Eliú? Não há nenhuma
cláusula que diga: “fim das palavras de Eliú”. Será que Eliú continua a
falar? Muitos argumentam que o simples fato do aparecimento de Yahweh
a Jó é a maior revelação da graça de Deus no livro. Outros contrapõem
afirmando que a teofania é um episódio de lei visto que ocorre por meio de
um redemoinho. Mas, a manifestação de Deus no redemoinho é uma
continuação do caminho para onde Eliú estava conduzindo Jó. A verdade é
que agora Jó está ouvindo o próprio Yahweh. Eliú é mais ou menos o que o
pastor é para a sua congregação às vezes, especialmente em momentos de
aflição e sofrimento. À medida que Deus aparece, o pastor sai de cena. O
encontro que Jó tanto esperava chegou, mas é Deus quem estabelece a
agenda da reunião.
Como se sabe, Jó quer um encontro com Deus para lhe pedir explicações
quanto ao sofrimento por que passa. A origem do sofrimento humano pode
ser estruturada em três grupos: sofrimento em razão da punição divina por
pecados específicos; sofrimento em razão de causa desconhecida; e
sofrimento em razão de perseguição por causa da fé. O problema havido
com os três amigos de Jó é que eles argumentaram do efeito para a causa.
Jó está sofrendo; por isso ele deve ter cometido um pecado específico,
dogmatizam. Eles defendem o “ortodoxo dogma da retribuição” (Hummel,
H. D. The Word Becoming Flesh, p. 475). Eles negam a possibilidade de
que alguém possa ser um sofredor justo e temente a Deus.
A aparição de Deus no redemoinho é, enfim, lei ou evangelho? Com o
redemoinho e o discurso, Deus mostra que Ele está atento ao pedido de Jó.
Mas a teofania não é toda a resposta. É no conteúdo do discurso de Yahweh
que o evangelho está explícito. A perícope precisa ser ampliada um pouco

41
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
para que o evangelho possa ser entendido. As figuras “Beemote” ( twmhb –
40.15 na NVI) e “Leviatã” (!tywl 41.1 na NVI; TM 40.25), devem ser
entendidas em sentido tipológico como personificações do mal ao invés de
apenas como animais (ARA: “hipopótamo” e “crocodilo”). Beemote, que
ocorre apenas aqui como nome próprio, é um plural intensivo que resume
as forças que se opõem a Deus. Ele é a besta por excelência. Em Jó 40.19
ele é considerado a “obra-prima dos feitos de Deus”. Ele deve ter sido um
dos “filhos de Deus” mencionados em 38.7 que caiu, tornando-se em Satanás
e suas legiões.
Leviatã, por sua vez, é descrito em termos sobrenaturais. (cf. 41.20; Ap
12.3). Ele habita o mar, que em Jó e todo o Antigo Testamento é uma
“encarnação” do mal. Em 41.33-34 é dito que Leviatã reina sobre todos os
“orgulhosos” e “na terra não tem ele igual”. Leviatã é uma designação para
Satanás.
As perguntas de Yahweh, nesse contexto, são para lembrar a Jó de que
ele, Jó, não tem poder para vencer estas forças do mal. Entretanto, por um
lado, tais forças estão sob o controle de Deus e, por outro, estão sendo
usadas por Deus para propósitos salvíficos. Embora Jó não saiba qual é a
função de Satanás em seu sofrimento, Deus aqui está dizendo que todas as
coisas, até mesmo as forças do mal, cooperam para o bem daqueles que
são Seus (Rm 8.28). Embora o justo (o batizado) sofra, é importante o
pastor afirmar que Deus já venceu a batalha escatológica. E esse mesmo
Deus diz a Jó e a nós, justos que estão sofrendo, que pela fé somos
participantes da vitória de Deus.
O motivo porque o autor do livro de Jó nos diz a nós leitores no prólogo
que Satanás incitou Deus contra Jó – embora Jó nunca saiba do papel de
Satanás em seu episódio – pode ter sido para enfatizar esse paradoxo de
que Deus está agindo sob a instrumentalização de Satanás. Nós leitores (e
a congregação) podemos tranqüilamente observar como é fácil para o
homem ou mulher de fé interpretar o sofrimento como lei ao invés de
evangelho. Embora Jó considere os atos de Deus como atos de um
adversário, nós sabemos que os ataques de Satanás são autorizados por
Deus e sob a vigilância Dele. Em outras palavras, Jó, em seus momentos
de dúvida, pensa que Deus é Satanás, enquanto nós, os leitores, sabemos
que Satanás está a serviço de Deus.. Essa é a tensão entre lei e evangelho.
Essa é teologia da cruz. Deus permite que vivamos na tensão e conflito da
vida sob a cruz para que a nossa fé seja exercitada e fortalecida diariamente.
A teofania no redemoinho revela que esse mesmo Deus que criou todas as
coisas é também o Deus que é vencedor sobre todo o mal.
A teofania revela que Jó também faz parte da criação do universo de
Deus. A teofania é, pois, um momento de graça e de evangelho. Deus entra
na experiência de Jó e confirma o que Jó havia visto pela fé. Deus afasta as
42
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
dúvidas de Jó ao dissolver a tensão entre a fé e a experiência (cf. o evangelho
do Dia).
Deus que vence o mal é o Deus que cria todas as coisas. E o Deus que
cria todas as coisas é o Deus que tem o controle sobre elas. O discurso de
Yahweh revela a teologia da cruz. A razão para o sofrimento de Jó é o
sofrimento de Deus em Jesus Cristo. A cruz de Cristo e a cruz do cristão
caminham de mãos dadas.

2. SUGESTÕES HOMILÉTICAS
1) Ao pregar sobre o texto de Jó 38, o pastor deve estar consciente de que
está pregando a uma congregação cristã, que foi batizada e que eventu-
almente passa por sofrimentos.
2) A tendência do ser humano, por ser simul iustus et peccator, é olhar
para o sofrimento como lei e não como evangelho.
3) Embora Jó não saiba, a congregação, diferente dele, deve ser levada a
saber que Satanás (Beemote e Leviatã) é criatura, que já foi vencida e
que está sob o controle de Deus e a quem Deus pode fazer uso para
fins salvíficos.
4) Se tudo coopera para o bem – e esta é uma verdade – então o sofri-
mento tem o seu propósito divino: o de exercitar e fortalecer a fé. Deus
aplica um teste, não para nos reprovar mas para nos aprovar.

3. SUGESTÃO DE TEMA
No sofrimento Deus também está perto.

Dr. Acir Raymann


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Lamentações 3.22-33
20 de julho de 2003

1. CONTEXTO
As séries Histórica Revisada e Trienal prevêem apenas uma leitura de
Lamentações, justamente no sexto domingo após Pentecostes. A histórica
revisada coloca Lm 3.22-26 em contraponto com Lc 5.1-11, e a série trienal
B selecionou Lm 3.22-33 para formar um paralelo temático com Mc 5.21-
24a,35-43 ou Mc 5.24b-34 (sugere-se ler o texto todo, do v. 21 ao 43).
Em traduções modernas da Bíblia, por influência da Septuaginta e da
Vulgata, Lamentações aparece logo após Jeremias (sendo também atribuído
ao profeta). Na Bíblia Hebraica aparece entre os Cinco Rolos e leva o
nome de hkyae (Ekah, “Como!”), que é a primeira palavra do original hebraico
(confira também 2.1 e 4.1).

2. TEXTO
O livro de Lamentações é uma longa poesia em que basicamente se
lamenta a destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C. Cada um
dos cinco lamentos ou capítulos contém 22 versículos (com exceção do
terceiro que tem 66, ou seja, 3 x 22), refletindo o número de letras do alfabeto
hebraico. Na verdade, os quatro primeiros capítulos têm estrutura acróstica.
São poemas alfabéticos, em que a primeira letra de cada versículo ou grupo
de versículos é uma das 22 letras do alfabeto hebraico, que aparecem em
ordem alfabética (ver a Bíblia de Almeida Revista e Corrigida). (A Bíblia
da CNBB reproduz este arranjo, adotando as letras do alfabeto português.
Lm 3.22-24 diz assim: Há bondade no SENHOR, sem fim, misericórdia
que não acaba! Hoje e sempre está se renovando, sua grande fidelidade.
“Herança minha é o SENHOR – eu digo – por isso, nele espero”.)
Nos dois primeiros capítulos, cada versículo tem três linhas (exceção
feita a 1.7, que tem quatro linhas). No capítulo três, há três versículos para
cada letra. O capítulo quatro, que é mais breve, tem duas linhas por versículo.
O quinto capítulo, que não é acróstico, embora tenha também 22 versículos,
é ainda mais breve: uma linha por versículo. A estrutura ensina duas coisas:
44
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
a) Por mais emotivos que sejam esses lamentos, foram escritos com muito
cuidado.
b) O capítulo três, que fala da esperança, é mais longo que os capítulos
que trazem os lamentos. Assim, a estrutura do livro parece sugerir que
o amor de Deus triunfa sobre a sua ira.
Uma análise mais teológica revela que um sentimento de tristeza e
desesperança perpassa o livro. O poeta está consciente da ira de Deus
(1.12; 2.1,4,6,21,22; 3.43; 5.22). Também confessa que a culpa é toda do
povo (1.5,8,14,18,20; 3.39-42; 5.16), com especial destaque para profetas
e sacerdotes (2.14; 4.13). No meio disso tudo, porém, renasce a esperança
(3.21-23, 31-32).
O capítulo três, que é o centro do livro, consiste em três partes:
a) Desolação e desesperança (1-20);
b) Lembrança e esperança (21-39);
c) Confissão e renovação (40-66).
A perícope assinalada para este domingo é o ponto alto do livro de
Lamentações e por certo o trecho mais bem conhecido. Lm 3.22-33 engloba
quatro grupos de três versículos: os iniciados por HET (vs.22-24), por TET
(vs.25-27), YOD (vs. 28-30), e KAF (vs.31-33). Nada impede que se leia
a partir do v.19, pois isto ajuda a compor o contexto do conhecido texto de
3.22-23.
No v. 22, “misericórdias do SENHOR” traduz literalmente o hebraico
hwhy> ydes.x; (chesdey Yahweh). Em outras palavras, temos aqui a palavra
que conota o amor de Deus no contexto da aliança com seu povo. O plural
sugere que Deus foi fiel às suas promessas em mais de uma ocasião, o que
fundamenta a esperança presente. O final do v. 23 (“grande é a tua
fidelidade”) reforça esta noção.
O fato de as misericórdias do SENHOR se renovarem “cada manhã”
tem paralelo em Êx 34.6-7, Is 33.2, e de modo todo especial no Salmo 136.
No v. 24, o poeta confessa que o SENHOR é a porção de sua alma.
Ou, conforme a Bíblia na Linguagem de Hoje, Deus é tudo que ele tem.
Este é um tema comum nos Salmos (ver Sl 16.5; 73.26; 119.57; 142.5).
Reflete o fato de a tribo de Levi não ter recebido nenhuma porção de terra,
em Israel (Nm 18.20). Os dons podem ter desaparecido, mas o Doador
não se foi. Mesmo que só tenham restado escombros, Deus continua sendo
Deus.
Lm 3.24b (“portanto, esperarei nele”) é um eco quase perfeito de Lm
3.21, que, numa tradução literal, diz assim: “isto trarei de volta a meu coração;
portanto, esperarei”. A diferença é que agora, no v. 24, o poeta já sabe por
quem ou em quem ele espera.
Esperar pelo SENHOR (v.25a), buscá-lo (v.25b), aguardar a salvação
do SENHOR em silêncio (v.26) é um dos grandes temas deste texto.
45
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Aguardar a salvação é esperar por Deus. Esperar com fidelidade é aguardar
em silêncio, sem queixumes e lamentações.
Parece irônico o poeta propor que se suporte o jugo em silêncio (v.28)
quando ele próprio irrompe numa longa lamentação! No entanto, é uma
lamentação marcada pela esperança. Aqui não existe resignação e fatalismo,
mas a certeza de que, no tempo certo, Deus vai socorrer (v.58).
Mais adiante, em Lm 3.37-38, fica excluída qualquer visão dualista ou
maniqueísta, pois Deus está no controle de tudo. O grande consolo está no
v.33: “Não é com prazer que ele nos causa sofrimento ou dor” (NTLH).

3. REFLEXÕES HOMILÉTICAS
Lamentar faz parte de nossa natureza. Só que em geral nos falta a
dimensão teológica: nossa infidelidade, a ira de Deus, a fonte de esperança
em meio a tudo isso. A mensagem de Lamentações nos ajuda a pôr isto na
perspectiva correta. Igualmente nos incita à confissão, que, no livro de
Lamentações (ver Lm 3.40-42), interessantemente ocorre após a recordação
das misericórdias de Deus. Mais uma vez se sublinha o fato de que toda
confissão de pecado é, no fundo, uma confissão de fé.
Sugere-se explorar os detalhes deste texto, indo além das conhecidas
palavras dos vv. 22-23. É uma ótima oportunidade para abordar aspectos
da providência de Deus, especialmente num contexto altamente dualista ou
até maniqueísta como o nosso. É um grande paradoxo afirmar que a fonte
de esperança (v.24) é o Deus que põe o jugo sobre nós (v.28; ver o v. 38).
Outra sugestão é pregar o texto no contexto maior de Lamentações,
que é um livro relativamente curto. Por que não deixar o lamento do poeta
(espalhado pelo livro) soar através de nós, para só então apresentar sua
esperança (aqui no capítulo 3)? Uma opção é dar ao sermão a forma de
um monólogo, em que se seleciona textos de Lm e se deixa o poeta/profeta
falar, concluindo com a perícope escolhida para este domingo.
Nunca é demais lembrar que o texto está aí, gostemos ou não, por causa
de sua conexão com Mc 5.21-43. São duas histórias que mostram como,
num contexto de grande aflição, as misericórdias do SENHOR se renovam.

Dr. Vilson Scholz


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Ezequiel 2.1-5
27 de julho de 2003

1. CONTEXTO HISTÓRICO
Ezequiel é um dos profetas do exílio. Foi colocado pelo Senhor como um
atalaia sobre o povo de Israel no exílio. Sua missão foi pregar aos seus
contemporâneos o julgamento e a salvação de Deus, a fim de convertê-los
ao Senhor seu Deus.
Antes de tomar posse da terra prometida, Deus havia anunciado através
de Moisés que o povo correria riscos caso incorresse em transgressão
permanente dos mandamentos que o Senhor havia dado. Estariam sujeitos
a pesados castigos bem como à perda da terra prometida e conseqüente
dispersão entre outras nações (Lv 26.14-45; Dt 28. 15-68). Tal ameaça já
tinha se concretizado sobre as dez tribos, por meio da ação dos assírios e
estava em processo de cumprimento também sobre o reino de Judá, por
parte dos caldeus.
O chamado de Ezequiel ao ofício profético aconteceu no quinto ano do
reinado de Zedequias, no quarto mês daquele ano. Naquele momento estava
presente, entre aqueles que tinham permanecido na terra, bem como entre
os que haviam sido levados para a Babilônia, a esperança da proximidade
da queda da monarquia babilônica e o retorno dos exilados para a terra
natal. Coube a Ezequiel o anúncio de uma mensagem que contrariava a
esperança então presente. Profetizou a queda de Jerusalém e Judá. Ao
mesmo tempo, todavia, profetizou que o Senhor iria agir a favor do seu
povo contra as nações pagãs opressoras, caso o povo se arrependesse e
retornasse a ele.

2. TEXTO
V. 1 : No versículo anterior (1.28), há o relato da reação de Ezequiel diante
da glória do Senhor: caiu com o rosto em terra. A fraqueza humana não
permitiu que Ezequiel permanecesse de pé diante da glória do Senhor.
Sua fraqueza, todavia, não impediu que o Senhor o escolhesse para ser
seu profeta. O poder divino levanta o homem fraco. A palavra do Se-
nhor age poderosamente em homens fracos.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
V. 2 : Com a palavra do Senhor veio o Espírito ao profeta. Destaca-se a
presença do Espírito na palavra. O Espírito pôs Ezequiel de pé e o fez
ouvir o que lhe falava. Ezequiel tornava-se profeta por ação direta do
Espírito do Senhor, aquele que o levantara do pó.
V. 3 : Neste versículo há duas coisas muito importantes para Ezequiel: o
envio a ser profeta, pois o Espírito diz: eu te envio e o início da descri-
ção do povo ao qual ele seria enviado a profetizar. Quem envia é o
Senhor por meio do seu Espírito. Isto deu autoridade à missão de
Ezequiel, pois iria em nome do Senhor. Da mesma forma, daria amparo
a ele, porque não partiria sozinho para uma obra, mas, enviado pelo
Senhor, teria também a companhia dele. Importante tal certeza para o
profeta, pois Ezequiel começa a perceber as dificuldades que teria pela
frente para cumprir sua missão, ao ouvir de Deus que seria enviado às
nações rebeldes que se insurgiram contra mim.
V. 4 : Os filhos seguiram o exemplo dos pais, que já tinham se levantado
contra o Senhor, conforme consta no versículo anterior. Continuaram
os filhos na rebeldia contra Deus. Até eles deveria ir Ezequiel a fim de
lhes transmitir aquilo que o Senhor Deus tinha a dizer. As palavras do
profeta seriam precedidas pela declaração assim diz o Senhor Deus.
Qualquer reação diante da mensagem de Ezequiel não seria menos do
que reação diante da palavra de Deus.
V. 5 : Ouvindo ou deixando de ouvir o que seria transmitido por Ezequiel, o
povo saberia que um profeta havia estado no meio deles. De que ma-
neira chegariam a tal conhecimento? Pelo resultado da pregação da
palavra no meio deles. A palavra do Senhor sempre se cumpre, ou em
forma de lei ou em forma de evangelho, mas sempre faz surgir o que
anuncia. A presença do profeta é reconhecida pelo resultado da palavra
que ele anuncia.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1 – O envio de Ezequiel para profetizar ao povo parte de Deus é iniciativa
unicamente divina. O que importa destacar é o seguinte: é iniciativa que
Deus toma movido por sua graça, pois o que vê da parte do povo é tão
somente maldade. No entanto, como Deus não quer que a maldade
domine entre o seu povo, pois o resultado dela é destruição, Deus cha-
ma Ezequiel e o envia a falar em nome do Senhor. Por meio de sua
Palavra, Deus se faz presente entre o povo, com o objetivo último de
salvar Israel. O texto permite explorar bem essa verdade. Não é um
povo “bonzinho” que está sendo procurado por Deus, mas é um Senhor
gracioso que parte em ação para salvar aqueles que são de duro sem-
blante e obstinados de coração (v. 4).

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
2 – Deus não se encontra indiferente à situação do povo. Vê-a e age.
Enquanto que sua lei nos revela que ele percebe nossas ofensas e deso-
bediências, seu evangelho nos consola com a mensagem do socorro por
ele trazido em sua graça.
3 – O povo de Israel está longe de Deus. Não há temor ao Senhor. E o
resultado é inevitável: perdição, destruição. A verdade que se impõe:
longe do Senhor há apenas um caminho: o que leva à destruição.
4 – A obra do profeta é tão-somente falar em nome do Senhor: Assim diz
o Senhor Deus está no início da sua pregação. Lembrar esta verdade
é útil para o pregador e os ouvintes de hoje. Quem prega, o faz não em
seu nome ou em sua autoridade; quem ouve, escuta o que Deus tem a
dizer, tanto em forma de lei quanto de evangelho.
5 – Se um profeta está em nosso meio, sua presença sempre afetará
nossa vida. Ele traz a Palavra de Deus nós. Ela permanecerá sendo
Palavra de Deus, quer a ouçamos ou não. Sempre fará junto de nós a
obra de Deus, ou sua obra estranha, por intermédio da lei, ou sua obra
própria, por meio do evangelho.

4. SUGESTÃO DE TEMA
A ênfase do texto não se encontra na figura de Ezequiel, nem tampouco
no povo de Israel. Centraliza-se na iniciativa divina a favor do povo mau, a
fim de livrá-lo da destruição à qual se encaminha na sua maldade. O que o
Senhor faz é chamar Ezequiel e enviá-lo como profeta. Fazendo a ponte
com o evangelho do dia, Marcos 6. 1 a 6, percebemos a mesma ação divina,
só que na pessoa do seu próprio Filho Jesus Cristo, que, na qualidade de
profeta, prega em Nazaré. É uma ação que não cessa, porque o amor de
Deus pelos seus não acaba. Ela está presente entre nós, os que hoje são
visitados pelos profetas de Deus. Por isso, sugiro a elaboração de um tema
que em si concentre e ponha em destaque a ênfase trazida pelo texto e aqui
destacada.

Paulo Moisés Nerbas


São Leopoldo, RS

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OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Amós 7.10-15
3 de agosto de 2003

Embaixadores devem ter pinta de embaixadores. O governo de Portugal


está indisposto com o governo brasileiro porque a embaixada brasileira de
Lisboa tem servido de prêmio que o governante brasileiro oferece para
aliados fiéis de campanhas eleitorais que no entanto não podem fazer parte
do governo como tal. Lisboa reclama que Portugal é suficientemente
importante para ser servida por diplomatas de carreira. Embaixadores
devem ser embaixadores. Parece óbvio, mas não é.
Que jeito deve ter um mensageiro de Deus? Que discurso é discurso de
profeta? Perguntas que sempre foram feitas a cada um que resolve levantar
a voz no meio de grupo e falar como quem merece o respeito que se deve
a um mensageiro.
Qual é, afinal, a credencial?
Amós dizia coisas que soavam desagradáveis a Jeroboão, o rei. O rei é
a personificação da história e das aspirações de todo um povo. O destino
do rei é o destino do seu povo. Como pode haver alguém que anuncie
desgraças sobre o rei e seu povo?
Parece simples, mas não é. O rei está cercado de estruturas e instituições.
Estas se fazem sustentar por leis e regras que envolvem e atingem pessoas.
“Somos governo. Fazemos cumprir leis que foram estabelecidas de forma legítima.
O direito está na lei.” Esta postura em Israel bem parece manchete de jornal do
Brasil de hoje. Reforma da previdência, reforma tributária, taxas de juros, são leis
e direitos que engessam cada vez mais o assalariado entre os quais os filhos de
Deus também sofrem, crescendo o nível da pobreza. Revoltar-se?
“Afligis o justo, tomais suborno e rejeitais o necessitado à porta.”
Amós não tem jeito de profeta. É um sujeito que grita, cria celeuma e
agitação. As pessoas começam a questionar a situação. Amós é acusado
de conspiração contra o rei.
É fácil para os que estão nos corredores do poder de desqualificar a
pessoa para que a mensagem perca o impacto. É simples: basta escolher
um rótulo. É um conspirador. É um sujeito inconveniente. Não se deve
prestar atenção ao que diz.

50
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Finalmente, o argumento final: Você não é, nem parece, profeta. É
melhor desaparecer daqui. Aqui é terreno do rei e das instituições, das leis
e regulamentos que governam. Faltam-te as credenciais.
“O Senhor me tirou e o Senhor me disse: Vai. . .” é, não somente uma
resposta, mas a credencial, o direito, o privilégio e o dever de não calar. O
rei Jeroboão escolhia os seus porta-vozes e seus sacerdotes por critérios
que governavam o país e todas as instituições. Amazias, o sacerdote,
representante oficial e Amós, o tocador de gado, estão frente a frente.
Cada um com a mensagem que tem para oferecer.
Para os ouvintes resta perguntar: Em quem vamos crer? Quem merece
credibilidade?
É sempre uma pergunta difícil. Amazias estava convencido que as
acusações de Amós contra a instituição estado - igreja eram questões que
nem ele gostava de ver mencionado. Mas o que fazer? Por mais que
Amós gritasse contra os que “tem gana contra o necessitado e que destroem
os miseráveis na terra”, (8.1), o que fazer? Gritar também, como Amós?
Ou continuar administrando a sociedade com sua inevitável tendência de
produzir sucata humana? E, por isso, livrar-se de Amós?
A pregação de Amós é uma pregação que atravessa a história e se ouve
até agora. Ele sabe que é mensageiro de Deus e por isso não se cala. A
maldade humana, a sucata e a miséria humanas que estão no rastro da
administração pública e espiritual de Israel exigem o clamor de Amós porque
Deus não se cala diante destas injustiças e maldades. Deus está intervindo
ainda hoje. Onde estão os que avisam: “Prepara-te, estado – igreja, para te
encontrares com o teu Deus”? (4.12)
“Deus está vindo” é a palavra de esperança e estímulo para que o profeta
e os miseráveis encontrem ânimo para viver e esperar. A esperança de que
Deus vê e age é a palavra que hoje faz com que as pessoas não aceitem
viver das promessas e enganos que a sociedade injusta apregoa. Importa
que os miseráveis que esperam no Senhor encontrem nesta esperança a
motivação para viverem de acordo com aquilo que recebem: a presença de
Deus e do seu profeta para viverem entre si de modo diferente e contrário
ao que experimentaram nas estruturas injustas e perversas.
Assim como Amós, é necessário dizer e mostrar ao mundo que uma
outra vida é possível, a vida que recebemos de Deus na aliança que
estabeleceu com os miseráveis. Amós não está anunciando uma falsa
promessa, nem incitando a revolta. Ele está apontando para Deus, o Deus
que busca o miserável, o desgraçado material e/ou espiritualmente, porque
é Deus Salvador.
A pregação visa fé no pregador e sua pregação.
A pregação de Amós não visa a construção de uma nova estrutura tendo
em vista a falência moral e espiritual da estrutura que a palavra tinha criado
51
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
e os homens tinham tirado do seu curso. Amós é voz de Deus. A única
estrutura que ele conhece é o chamado para ser o mensageiro da palavra
que estava à espera dele, a palavra de Deus.
Talvez este seja um aspecto que valesse a pena examinar também hoje
quando a palavra é utilizada por pessoas para fortalecer pessoas e instituições
que mais se confundem com a postura de Amazias do que com o chamado
de Amós.

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: Mensageiro de Deus com jeito de mensageiro de Deus


1. Não se submete às instituições que são injustas
2. Está ao lado e a favor dos miseráveis, dos periféricos, dos afastados
3. É fiel à palavra que recebeu para anunciar

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

52
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

NONO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jeremias 23.1-6
10 de agosto de 2003

LEITURA DO DIA
Tanto Jr 23.1-6 quanto o Sl 23 e Mc 6.30-34 enfatizam um ponto comum:
a necessidade de um bom pastor para as ovelhas. O Sl 23 em sua linguagem
poética - e por essa razão admirado e amado - coloca a Deus como o
próprio pastor do crente, sobretudo nos momentos mais cheios de angústia
e dor (o vale da sombra da morte, v.4). Mc 6.30-34 mostra pessoas seguindo a
Jesus sem atinarem, contudo, para a real importância do mestre, o que o
leva em autêntico espírito de compaixão a ensinar-lhes muitas coisas, pois
elas eram “como ovelhas que não têm pastor”. Por esse aspecto, Jr 23.1-6
apresenta mais semelhança com Mc 6.30-34 do que propriamente com o Sl
23 já que mostra ovelhas dispersas e promete pastores que deverão
apascentá-las com todo amor e sinceridade. Em relação a Mc 6.30-34 há,
porém, duas diferenças:
a) “pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pastor”;
b) o Renovo da Justiça, o “Senhor Justiça Nossa”.
Ef 2.13-22, a epístola que faz parte das leituras do dia, embora revele
semelhança de pensamento com as demais no sentido soteriológico, do
ponto de vista literário, no entanto, traz-nos imagens diferentes, pois ao
invés das metáforas do pastor, das ovelhas e do pastoreio, fala de fundamento,
pedra angular, edificar, habitação e santuário.

CONTEXTO
Jeremias (jeová estabelece), filho do sacerdote Hilquias, nasceu em
Anatote, lugarejo a 7km de Jeruslém, em 650 aC, e morreu provavelmente
no Egito, em data igualmente incerta, mas, de qualquer forma, após 586 aC,
ano em que Jerusalém foi tomada pelos babilônios, tendo exercido seu
ministério por um período não inferior a 41 anos.
Apesar de ter começado a sua tarefa bem cedo, no contexto favorável
das reformas religiosas promovidas pelo rei Josias, sua missão, olhada no
conjunto, foi uma das mais ásperas: é ameaçado de morte, amaldiçoa o dia
do seu nascimento, é preso várias vezes, numa dessas vezes é colocado
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
num poço e é levado ao Egito contra a vontade, onde profere seus oráculos
e morre.
O problema de Jeremias foi ter vivido num momento crucial - e final - do
reino de Judá. A decadência religiosa era palpável, vindo já desde muito
antes do reino de Josias, rei que tentou colocar um paradeiro nela através
de reformas, que, todavia, de muito pouco adiantaram, e prosseguindo como
num grande finale com os últimos reis. A decadência política, por seu turno,
era enfatizada pela injustiça de cunho social, em cujo bojo se salientava a já
citada decadência religiosa, e pela fraqueza nacional, avultada pela
supremacia das grandes potências da época, Egito e Babilônia, entre as
quais se sobressaía a última, que terminou conquistando Jerusalém e levando
cativos os sobreviventes - fato conhecido como o Cativeiro Babilônico.

EXEGESE
V.1 : A função do pastor é ajuntar, congregar, defender e alimentar as
ovelhas. Dispersar é a antítese, a negação de todo o trabalho pastoral.
Nada mais justo, portanto, que os antipastores sejam amaldiçoados.
V.2 : No tempo de Jeremias, as ovelhas não estavam sendo cuidadas,
muito pelo contrário, estavam sendo tosquiadas (Jr 22.13-23; 23.9-27).
E hoje? Falsas curas estão sendo apregoadas em todos os cantos, den-
tes de ouro (sic) aparecem na boca “milagrosamente” como sinal da
bênção de Deus, falsas doutrinas se espalham como o pó em vendaval
- e tudo em nome de Cristo! E o que dizer de igrejas, que se esmeram
na doutrina pura cujos pastores, no entanto, expõe como suprema rea-
lização o fato de, após sérios desentendimentos na vida da comunidade
local haverem mostrado “quem é que mandava ali”? Ou cujo sistema
organizacional faz com que vários professores de seminários, assesso-
res e executivos - todos com formação teológica e ordenação para o
ministério, sem falar de pastores licenciados ou temporareamente sem
chamado - acabem não realizando nenhuma atividade estritamente pas-
toral tão-somente porque a compreensão do chamado divino está
centrada mais no cargo e na pessoa que vai exercer esse cargo do que
propriamente na função e nas pessoas que poderão ser beneficiadas
com essa função? Um pastoreio mal feito com ou sem doutrina pura,
não merece um castigo justo?
V.3 : Se os pastores falham, aquele de quem Davi declarou: “O Senhor é o
meu pastor” - tomará as providências cabíveis, recolhendo as ovelhas.
Isso aconteceu no Antigo Testamento e sem dúvida acontece no Novo.
V.4 : Os maus pastores serão afastados, e bons estabelecidos, de modo
que as ovelhas não ficarão desprotegidas. Deus assim o garante.
V.5 : O Renovo justo é uma clara referência ao Messias, o legítimo Bom

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Pastor de Jo 10. Digno de nota: o termo hebraico para Renovo não
significa apenas um galho que sai da árvore, mas um broto que sai do
chão, da própria raiz, vindo a ser na prática uma nova árvore. Nesse
sentido, como observa Laetsch, está implícita “não sua humildade”, mas
o fato de que nele (o Messias) a dinastia real de Davi estava para
alcançar a sua mais elevada glória.

Esse renovo, sendo rei, haveria de reinar plenamente, executando o juízo


e fazendo a justiça.
V.6 : “Senhor Justiça Nossa” expressa claramente qual o tipo de justiça
que ele fará para seu povo: não a mera justiça da lei, distributiva, mas a
do amor, atributiva, ou seja, ele não distribuirá justiça apenas a quem
possui mérito, mas a atribuirá àquele que não o tem.

Justamente aí reside o centro de toda a mensagem bíblica. No Novo


Testamento, com a plena manifestação do Messias, que é o próprio Cristo
Jesus, essa mensagem fica bem mais clara em todos os seus contornos, o
que, no entanto, não significa não ter havido clareza quanto a ela antes de
Cristo. Ainda que Jeremias não tivesse proferido essa profecia, o cuidado
paternal de Deus com seu povo e o seu persistente perdão não nos deixariam
alternativa alguma a não ser o reconhecimento de um Deus que abre mão
da pena para abrir a mão em favor.

DISPOSIÇÕES

O falso pastor.

I - Dispersa as ovelhas.
a. Pregando falsa doutrina.
b. Demonstrando interesses mercenários.
c. Entregando-se a exploradores.

II - Será castigado por Deus.

Deus escolhe pastores que apascentam as ovelhas.


I. Dando-lhes segurança.
II. Não permitindo que elas fujam.

O Renovo da Justiça.
I. Executará o juízo
II. Trará salvação

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
O Senhor Justiça Nossa.
I. Não levará em conta nossa própria justiça.
II. Mas nos concederá sua própria justiça.

Em que consiste a justiça renovo?


I. Em ser ele próprio justo.
II. Em compartilhar conosco sua justiça.

Martinho L. Hoffmann
Porto Alegre, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Êxodo 24.3-11
17 de agosto de 2003

CONTEXTO
A aliança no monte Sinai é uma das duas grandes alianças de Deus com
Israel no Antigo Testamento. (A outra é a prometida “nova aliança”, em
Jeremias 31.31-34). O cap. 24 é o que se poderia chamar de sedes da
antiga aliança. A cerimônia que aqui se desenvolve é da mais alta relevância
para o povo de Deus e sua história pois, pela primeira vez, este povo está
em relação peculiar com Yahweh, uma relação vivenciada por nenhuma
outra nação (Êx 19.5-6).
O episódio, temporariamente interrompido pelo conteúdo do Livro da
Aliança (20.22-23.33), é retomado de 20.21, com a expressão “sobe ao
SENHOR” (24.1). O grupo que escala o monte é numeroso: Moisés e
Arão, Nadabe e Abiú (filhos de Arão e, como o pai, depois consagrados
sumo sacerdotes) e os 70 anciãos - provavelmente representando os 70
descendentes de Jacó (cf. 1.5; Gn 46.27). Estes subiram ao monte após os
acontecimentos relatados nos vv. 3-8.
A cerimônia (cúltica, pode-se dizer) descrita nos vv. 3-11 inicia-se com
Moisés lendo ao povo “todas as palavras do SENHOR” (cf. 20.22-16) e
“todos os estatutos” (cf. cap. 21-13) O povo, em responso, promete: “tudo
o que falou o SENHOR faremos”. Na empolgação, a resposta é dada em
uníssono (v. 3). É fácil responder em grande grupo porque aí as deficiências
ficam camufladas. Com o tempo, entretanto, elas se revelam e inibem de
sorte que a empolgação diminui (v. 7) e o resultado anticlimático pode se
generalizar em total descompasso (cap. 32). Em razão disso, antes de confiar
em nossas próprias promessas e votos, é melhor confiar no poder e eficácia
do “sangue da aliança que o SENHOR fez conosco” (v.8).

TEXTO
Na manhã seguinte Moisés constrói um altar ao pé do monte. O altar é
erigido segundo especificações dadas pelo próprio Deus e os sacrifícios ali
realizados lembram que “Deus lhes falou dos céus... virá a eles... e os
abençoará” (20.22-24). Bíblica e liturgicamente, o altar representa a
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
presença de Yahweh no meio do Seu povo (cf. 20.24). As 12 colunas
representam as 12 tribos de Israel, ou seja, a congregação. Preparado o
ambiente de culto e o local de sacrifícios para a comunhão que Yahweh
estabelece com Seu povo, Moisés envia “jovens” dos filhos de Israel a
preparar estes holocaustos. O sacerdócio oficial ainda não havia sido
estruturado. Quem eram estes jovens? Não eram, necessariamente, os filhos
primogênitos do povo, em antecipação ao ofício levítico, como sugere o
Targum de Onkelos. Tampouco seriam os filhos de Arão, como quer
Agostinho. Na verdade, é mais indicado tomar estes jovens como eles o
são hoje nas congregações: um grupo juvenil que auxiliam nas atividades da
congregação. Curiosamente, R. Alan Cole (p. 179) considera a escolha
como uma alternativa puramente prática visto que lidar com gado é tarefa
que exige força e agilidade juvenis. Já o ritual que envolve a aspersão do
sangue é feito por Moisés, como mediador da aliança.
Como se pode verificar mais tarde, o centro do culto no Antigo Testamento
(e também na igreja cristã hoje) é o altar. O altar é tão importante que a
Escritura quase o pressupõe. A palavra hebraica xbzm é puramente funcional
no seu sentido, significando simplesmente um local para o sacrifício. Talvez
estejam certos os que afirmam que o altar fosse pensado como “a montanha
de Deus em miniatura” , ou seja, um local mais próximo dos céus e, por isso
mesmo, um local natural para a comunhão com Deus. Não se pode falar em
altar sem se falar em sacrifícios. No texto, dois sacrifícios são mencionados
neste momento cúltico: o holocausto e os sacrifícios pacíficos. No holocausto
todo o animal - depois de lavadas as partes internas e esfolado – era consumido
pelo fogo sobre o altar. Os pacíficos, como o próprio nome indica, não visavam
obter paz mas sim prestar o reconhecimento da paz, ou seja, da salvação
recebida de Yahweh. A fumaça que sobe do sacrifício é uma oração
“sacramental” materializada. Freqüentemente é descrita como de “aroma
agradável” a Deus – linguagem que poderia ser mal entendida com a noção
pagã de se procurar aplacar ou propiciar a ira divina mas que, no contexto
bíblico, deve ser vista na perspectiva da intenção eucarística, ou seja, uma
forma agradável a Deus de se expressar ação de graças.
Os vv. 6-8 apresentam o ritual envolvendo o derramamento e aspersão
do sangue. O sangue era dividido em duas partes. Uma era aspergida (qrz)
sobre o altar e a outra colocada em bacias. Após a leitura do Livro da
Aliança ao povo e a promessa deste de que seguiria as palavras do
SENHOR, esta outra parte do sangue era aspergida sobre o povo e o próprio
livro (Hb 9.19). Esta dupla separação do sangue tinha conexão com as
duas partes envolvidas na aliança, levando-as a uma unidade. Sem qualquer
resquício mágico, esta separação do único sangue sacrificial, onde a vida
de animais estava envolvida em lugar de vidas humanas, antecipa
prolepticamente a união de Deus com Seu povo por meio do sangue do
58
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Cordeiro de Deus. O sangue, pois, não apenas estabelece a comunhão
entre Yahweh e Seu povo como também ratifica Israel como reino de
sacerdotes, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus. Por isso
também Deus não “estende sua mão” sobre eles (v. 11) A ira de Deus não
os consome porque ao aceitar a misericordiosa aliança de Deus, os pecados
do povo – causa de sua morte – foram removidos das vistas de Deus (Gn
15.6). Este aspecto particular lembra ao povo de Israel que o Deus que
estava pronto a recebê-los era o Santo de Israel,o Rei dos reis cujo trono é
o céu, e a terra o estrado de seus pés (Is 66.1).
Após a purificação com o sangue da aliança o povo está habilitado a
subir ao monte de Deus, ver a Deus e com Ele celebrar o banquete da
aliança. Ali o povo, representado pelos 70 anciãos e os filhos de Arão, viu
(hzx) a Deus. Este verbo é normalmente empregado para descrever uma
visão no contexto profético. É um ver além do enxergar natural. Pode-se
ver a Deus porque Deus se deixa ver. Apesar de não se saber qual a forma
pela qual Deus se revela no monte, ela é uma manifestação que o próprio
Deus determina de sorte que Ele possa ser discernido pelos olhos humanos.
Embora Moisés tenha visto uma forma (hnmt) de Yahweh (Nm 12.8), sem
contradizer Dt 4.12, 15 podemos afirmar que aquele grupo no alto do monte
Sinai viu uma forma de Deus. Talvez a descrição não seja fornecida para
que o povo não seja estimulado a tentar reproduzi-la plasticamente.
O ver a Deus era uma antecipação da visão plena de Deus na eternidade.
O banquete providenciado por Deus no alto do monte, num ambiente
representativo da mansão celeste, e na presença visível de Deus, tipifica a
ceia do Cordeiro a quem o SENHOR apresentará a sai Igreja na
manifestação plena da Sua glória (Ap 19.7-9).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. A pregação deve reforçar o fato que esse povo que está ao pé do monte
já é povo de Deus, escolhido por Ele, e de Quem recebe o Decálogo em
cujos limites vive, de forma espontânea e natural, uma vida a Ele consa-
grada. Da mesma forma a congregação que está diante do pastor do-
minicalmente já é povo de Deus. É o momento de evitar a inclinação
fácil e legalista do “tudo faremos” e focar a ação de Deus pelos meios
que Ele mesmo dispensou ao seu povo de hoje.
2. A construção do altar aqui como em todo o Antigo Testamento, não é
uma iniciativa de Israel no sentido de aproximar-se de Deus. Antes, o
altar é uma instituição de Deus que, como hoje, revela a presença Dele
no meio do Seu povo. Altar está relacionado a sacrifício e, portanto, ao
próprio sacrifício de Cristo. Resultando desse fato, nossos sacrifícios
hoje são sacrifícios eucarísticos, ações de graças materializadas, que
sobem ao céu como aroma agradável ao nosso Deus.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
3. Não são métodos humanos que prescrevem a forma de como se dá a
aproximação com Deus. A comunhão com Ele é estabelecida nos mol-
des que o próprio Deus, em sua misericórdia, estabelece.
4. Só podemos “subir” até Deus porque Ele mesmo “desce” e se humaniza,
se encarna, torna-se visível em Cristo, o Cordeiro de Deus. Pelo san-
gue aspergido desse Cordeiro sobre nós, Ele nos santifica e nos aproxi-
ma de Si.
5. O comer sacramental na Santa Ceia, desfrutado pelo povo de Deus
dominicalmente diante do altar, é uma antecipação da participação real
e escatológica no banquete celeste que Ele nos preparou.

Sugestão de tema:
Deus antecipa o banquete celeste.

Dr. Acir Raymann


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Êxodo 16.2-15
24 de agosto de 2003

Ranço. Murmuração. Descontentamento. Rebeldia. Quem já não teve


a sua dose disto? Não é simpático, não é agradável. Incomodam as ranças.
O sonho do povo de Israel estava derretendo naquele deserto como se
fossem blocos de gelo ao sol daquele deserto. Escravizados por 400 anos.
Já ninguém sabia dizer o que era ser livre. Era um povo que funcionava ao
som e ao ritmo dos chicotes e comandos dos feitores egípcios. Não sabiam
mais o que era tomar uma decisão própria. Viviam das permissões e favores
que algum egípcio condescendia em dar.
Meio assustados fogem no meio da noite, aproveitando o momentâneo
pavor dos egípcios diante da última praga – a matança dos primogênitos
egípcios. Fogem com pouca coisa. Somente o que podem carregar. Não
há suprimentos. Ninguém tem reservas de comida, roupa. Nem previsão de
conseguir alguma coisa.
A promessa que finalmente os mobilizara era a de estarem em marcha
para uma terra que mana leite e mel. Infelizmente, não há leite nem mel
para além do Mar Vermelho. Atravessado o mar, estão no deserto.
Então o povo reclama. Reclama de Moisés e de Arão. Reclamam seus
direitos mínimos: que, pelo menos, os benefícios que tinham na escravidão
não lhes fossem tirados. E, claro, na hora de reivindicar, há os exageros
normais: panelas de carne e pão a fartar.
Sentiam-se traídos. E, por isto, reclamavam. Como reclamam ainda
agora as pessoas que vêem-se injustiçadas. Talvez possamos dizer que
faltou ao povo de Israel uma melhor avaliação da sua situação. Mas,
escravos estavam condicionados a receber pronto, a não ter iniciativa própria.
Querem comida. Fizeram a sua parte: fugiram. Agora, reclamam.
O povo de Israel não é diferente, nem mais frágil ou reclamão do que,
admitamos, qualquer um de nós. O que Israel e muitos esquecem é
exatamente aquilo que Moisés lhes faz lembrar de várias maneiras: Foi o
Senhor que vos tirou da terra do Egito. (v. 6) Quem somos nós, eu e Arão,
para que reclamem de nós? (vv.7 e 8b). Foi Deus que chamou Israel para
fora do Egito. O mesmo Deus nos chamou à existência e nos chamou seu

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
povo no batismo. Desde então, Deus está duplamente ligado a tudo que nos
acontece. O Primeiro Artigo do Credo é tão real, verdadeiro e concreto
quanto os artigos que descrevem a sua obra de salvação. O mundo em
que vivemos, e as circunstâncias em que nele vivemos, é também chamado
de Deus para cada um.
Isto não é lei. Deus quer que vejamos este chamado, por mais estranho
que possa nos parecer, como um chamado de amor, especialmente quando
nos faz andar no deserto. E mesmo que a nossa reação ou de alguém ao
nosso lado seja de murmuração, incompreensão, e até revolta, qual é a
resposta de Deus? Talvez não a sonhada panela de carne, mas certamente
maná e codornizes, enquanto não se chega à terra que mana leite e mel.
A resposta de Deus revela o seu comprometimento com o povo que ele
escolheu para chamá-lo de “meu povo”. V. 3 descreve a reclamação e o v.
4 relata a reação de Deus a Moisés: Eis que vos farei chover pão do céu.
“E vou saber se andam na minha lei.” Isto é, vou saber se continuam a
confiar em mim. Há da parte de Deus aí uma lição que Moisés, Arão e
todo o povo talvez aprenderam. A dificuldade é se a lição ficou. Deus faz
de tudo para que o povo de Israel confie nele. E Deus nunca mudou. A
história de Israel atravessa séculos até a vinda do Messias, que finalmente
mostra até que ponto Deus está comprometido em fazer com que a sua
criatura seja feliz.
O centro e foco da história é Deus que escolhe e acolhe. “Ouvi as
murmurações.” Como Deus ouve? Ouve comprometido com a sua promessa
e seu pacto de conduzir o seu povo através de todas as dificuldades. Inclusive
a dificuldade que o próprio povo representava. Pois cabia-lhe ainda
conhecer este Deus que escolhera este povo desde Abraão e continuava
fiel a si próprio e sua promessa.
A palavra de Deus o comprometeu com os cristãos desde o batismo do
seu Filho. Pedro exclama: “Vós sois . . . povo de propriedade exclusiva de
Deus, a fim de proclamardes”. O mundo precisa urgentemente saber que
Deus é Deus que se comprometeu a salvar o mundo, como salvou Israel do
Egito, da servidão.
Deus faz chover pão no deserto

- em resposta à rebeldia do seu povo


- em sinal vivo da presença e proteção de quem os libertou

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


1 Reis 19.4-8
31 de agosto de 2003

1. O CONTEXTO
Temos, diante de nós, para reflexão, este tremendo contraste entre o
Elias poderoso, cheio de confiança e arrasador do Monte Carmelo, e este
Elias, desanimado, deprimido e só do deserto de Berseba.
O que poderá ter afetado Elias tão completamente? O que estará na
origem de tanto desânimo? O que Deus deve pensar deste Elias, do Monte
Carmelo até o deserto de Berseba?
Precisamos antes responder a nós próprios se estamos prontos e
dispostos a encarar as respostar a que tais questionamentos mais profundos
nos possam fazer.
Os discípulos de Jesus, os irmãos Tiago e João, tal como muitos outros
dedicados leitores da Escritura, talvez tivessem desde pequeninos lembrado
com entusiasmo o momento de glória e triunfo na vida de um grande profeta
de Deus na pessoa de Elias. Um profeta zeloso da pureza do culto de seu
povo, disposto a desafiar céus e terra numa confiança incontida e absoluta
da justeza da sua causa.
Elias, bem como depois Tiago e João, tinham aquela certeza reta e linear
de que a sua era a causa de Deus. E, nesta certeza, a defesa da causa de
Deus diante daqueles que desprezavam o seu Deus, o seu culto, o seu
profeta, não podia ser pálida, fraca ou assustada. Deus, no entender de
Elias, só podia existir reinando absoluto diante de todos. Quando Tiago e
João, ou Elias, sentem o zelo consumindo o seu ser e passam a buscar
castigo do céu sobre os infiéis, Deus faz o quê?
Deus não condena os seus zelosos defensores e vingadores da sua causa.
Mas as palavras de Deus e a seqüência da história demonstram que nem
Jesus, nem Deus Pai se identificam com zelos desta ordem. Esta não é a
natureza própria de Deus.
Por isso, quando Elias espera que em chegando ao palácio teria a
felicidade de constatar, ou até de realizar a reforma do culto, e que finalmente
do palácio sairia o culto verdadeiro a se espalhar sobre todo o povo, a sua
decepção não poderia ser maior do que a triste realidade. Do palácio sai a
63
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
ordem sem que uma voz se erga em sua defesa. Era como se o episódio do
Carmelo nunca tivesse acontecido. Ninguém o segue na marcha obstinada
sobre o palácio. O povo, minimamente interessado, não passa de observador
distanciado. Tanto assim que o profeta, diante da indiferença do povo está
condenado, por ordem da rainha infiel, ao mesmo castigo que ele, profeta,
impusera aos falsos profetas. E aos olhos do povo, força contra força, Jezabel
ainda é a mais forte. O culto a Baal continua. Elias está proscrito.
Onde está Deus, do qual sou tão zeloso? Elias desiste de tentar entender
e de confiar na sabedoria dos caminhos de Deus. Até aquele dia, entretanto,
Elias não tivera muitas hesitações. O mundo até aí, aos seus olhos, se dividira
entre fiéis e infiéis. E, para provar a supremacia do fiel, o reino dos fiéis
deveria poder reinar absoluto, porque o Deus dos fiéis é único e absoluto.
Deus precisa conversar com este profeta. Esta não é a maneira pela
qual um profeta torna conhecida ao mundo a verdadeira e própria natureza
de Deus. A tarefa própria do profeta se define a partir da natureza própria
de Deus. O punir, castigar e matar são tarefas para as quais Deus não
precisa de profetas. Basta deixar que o mundo siga o seu curso. Basta que
os homens tenham os seus reis e autoridades e em nome de sua própria
justiça obscura, endurecida e obstinada exerça punições e castigos. Para
isto Deus não precisa de profetas. Para isto Deus só precisa de reis e
governantes (v.17,18).
Deus tem necessidade de homens que pela fé incorporem a sua natureza
própria que é misericórdia e perdão. Sem atalhos curtos, como o que Elias
e os Filhos do Trovão invocaram. Nem atalhos mais sofisticados como os
do legalismo invocado pelos fariseus do tempo de Jesus, ou do Concílio de
Trento. Nem ainda alguns mais sofisticados que se escondiam na Reforma
na mente humana que não consegue admitir que o Evangelho puro é eficaz.
Deus precisa de profetas da salvação que creiam e incorporem a sua
natureza própria para a qual se requerem virtudes que somente a fé pode
acrescentar. A presença de Deus que o profeta, e somente ele, pode trazer
ao mundo, a presença pela qual Deus quer ser conhecido e identificado à
primeira vista, esta presença não se identifica pela espada, ou pela punição,
pelo terremoto, fogo ou vento destruidor. Deus se revela no afago suave e
tranqüilo do evangelho que envolve o coração como a brisa que envolveu
suavemente Elias. Nela Deus fala ao coração.

2. O TEXTO
Elias foi um profeta consumido pelo zelo da causa do Senhor. A sua
palavra de abertura no texto em estudo permite entrever o raciocínio e a
motivação que o levaram a puxar a espada. Elias queria mudar o presente
corrigindo os erros do passado. Sentindo-se derrotado, diz: Não sou melhor

64
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
do que meus pais.
Decerto Elias, na medida em que tomava consciência do atraso espiritual
do seu povo, deve ter, ao natural, identificado as falhas no ensino e na
prática do passado. Meus pais aí tem o sentido de a geração passada, meus
antecessores. Elias então seguiu uma linha de conduta, desenvolveu uma
atitude que ele julgava capaz de corrigir o rumo e renovar a espiritualidade
do povo.
Errado? Não!
Melhorar, corrigir, crescer, etc. são palavras que pertencem ao dia-a-dia
da igreja. Atrasos, estagnação, atitudes carnais, indiferença em relação ao
Evangelho são atitudes e posturas para as quais os atalaias não podem ficar
devendo a palavra de advertência e orientação.
Mas não basta os de Baal estarem errados para que logo tudo o que o
seu opositor Elias faça esteja certo. Deus tem de chamar este zeloso Elias
de volta do caminho pelo qual envereda com tanta convicção. Elias não
fora chamado por Deus para ser juiz, nem julgador, nem executor. Entretanto,
ele foi tudo isto em nome de Deus. Ele descera ao nível daqueles que
julgam e castigam. Coisas que qualquer rei apanhado ao acaso poderia ter
feito. Em vez de um profeta, Deus tinha em suas mãos um inquisitor.
Também não somos, tantos milênios depois, os juízes de Elias. Como
pode alguém conviver com a idolatria impenitente dos profetas de Baal?
Mas Deus faz ver a Elias que o joio e o trigo crescem juntos enquanto o
Evangelho promove o crescimento. O joio se torna forte na presunção de
que a suavidade do Evangelho signifique fraqueza da parte de Deus, de um
Deus cuja natureza própria e inarredável é de perdão e misericórdia.
Enquanto que o trigo cresce impulsionado pela mesma pregação que como
sol, brilha sobre ele.
Como seríamos, no lugar de Elias, ao nos darmos conta que o joio ocupou
o campo e sufocou o trigo? Restaria outra alternativa para alguém
comprometido e zeloso do seu Deus? A resposta cada geração e cada
púlpito tem de dar por si. A resposta está para ser encontrada nesta sabedoria
incompreensível de Deus, sem excluir a sua misericórdia, permite que os
profetas de Baal sejam trucidados pelo seu profeta.
Entretanto, Elias precisa acordar deste seu zelo que para crer que o
evangelho, sem glórias e poderes palacianos, funciona. E que o exercício
da misericórdia vale infinitamente mais do que redundantes vitórias, grandes
sacrifícios e espetaculares holocaustos.E, se ali, na solidão daquele deserto,
Elias viu-se a si mesmo humilhado e quem sabe injustiçado, não terá ele ali
descoberto a verdadeira causa pela qual ardia em zelo?

65
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
3. CONTEXTUALIZAÇÃO
A igreja em geral no mundo, e a IELB em especial, vive momento de
profunda autocrítica. Pesquisamos as gerações passadas, analisamos o
presente e projetamos o futuro. Buscamos respostas. Cada congregação
quer crescer, melhorar, corrigir. Atitudes são tomadas, simpáticas e
antipáticas. Necessárias, no entender de alguns. Legalistas, no entender de
outros. Frouxas para alguns. Evangélicas, para outros. Elias no deserto
torna-se assim um ponto de partida para uma profunda avaliação da
motivação e da natureza do nosso comprometimento profético e bem assim
dos objetivos e resultados inevitáveis que se agregam às atitudes assumidas
enquanto igreja e família de Deus.

4. TEMA
Somos levados a avaliar o nosso ministério.
Como Elias, sentimos que precisamos “ser melhores”.
Como Elias, vimos Deus do nosso lado em muitas iniciativas.
Como Elias, constatamos que a marcha triunfal chegou a um deserto.
Como com Elias, Deus está conosco no deserto.
Como Elias, precisamos que Deus nos renove no Evangelho.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Provérbios 9.1-6
7 de setembro de 2003

1. CONTEXTO E TEXTO
Tanto a Sabedoria como a Insensatez têm uma casa para a qual as
pessoas são convidadas (cf. v.14; 7.8; 8.34). A diferença está em que a
Sabedoria construiu a sua própria casa. Ela tem endereço certo. Mas, quem
é a Sabedoria? O termo está no plural: twmkx. É um plural de excelência, ou
majestático, como acontece com “Deus” (~yhla), permanecendo o verbo
no singular. No cap. 8 de Pv a Sabedoria identifica-se como estando no
início da obra de Deus “antes de suas obras mais antigas” (8.22). Portanto,
ela é pré-existente à criação do universo; ela era a delícia diária de Deus e
o arquiteto da sua criação. Podemos caracterizar a Sabedoria como uma
hipóstase divina, ou seja, uma manifestação semi-independente de Deus, o
mesmo termo empregado na teologia grega para descrever a “pessoa” da
Trindade. Como em português, a Sabedoria é um substantivo feminino em
hebraico e, por isso, é apresentada aqui como “Senhora Sabedoria”. É
possível, como sugerem alguns, identificá-la como “Rainha Sabedoria”.
Como já se viu, a Sabedoria contrasta com a “mulher estranha” dos capítulos
anteriores.
A Sabedoria em nosso texto se apresenta, pois, como uma pessoa. Há
uma profunda semelhança na descrição da Sabedoria no AT com o logos
em João 1. Não é sem razão que o apóstolo Paulo chama Jesus Cristo de “a
sabedoria de Deus” (1Co 1.24) e “em quem todos os tesouros da sabedoria
e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.3). Cristo é o que prepara a festa e
o que envia os convites.
Antes do convite a Sabedoria constrói a sua casa. O edifício está
fundamentado em sete colunas. Uma antiga interpretação da igreja sugere
que as sete colunas são os sete dons do Espírito Santo. A septiforme
manifestação do Espírito, provavelmente já representada nas sete lâmpadas
do candelabro (Êx 25.37), é revelada plenamente em Is 11.2, dons estes
litúrgica e festivamente lembrados no dia da nossa Confirmação.
No v.2, a Sabedoria convida para a festa. Reino de Deus e banquete são
binômios freqüentes no texto bíblico. No evangelho de hoje (Jo 6.51-58)

67
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Jesus convida para uma festa onde Ele é “o pão vivo que desceu do céu; se
alguém dele comer, viverá eternamente.” João em parte alguma do seu
evangelho traz a narrativa da instituição da Santa Ceia; contudo este texto
tem sido entendido como uma referência ao sacramento. A figura fala da
necessidade de se comer e beber Seu corpo e sangue para que se ganhe a
vida plena. O santo sacramento sem dúvida é um posto de reabastecimento,
um restaurante, um momento de festa que nos reanima a continuar na grande
jornada.
No v. 3, o verbo arq, quando relacionado a uma festa, significa “convidar”.
Logo, os ~yarq (v. 18) são os “convidados” (cf. 1Sm 9.13). O convite é feito
pelas servas da Sabedoria, a pedido desta. Aplicando-se o texto, estas servas
são os discípulos, os apóstolos, os filhos de Deus. São aqueles que aceitaram
o convite e o passam adiante com o poder e autoridade da Sabedoria. Para
que o convite tenha alcance amplo e universal, ele é feito “desde o ponto
mais alto da cidade” (NVI). Enfim, o banquete da Sabedoria é para todos;
como Cristo é para todos.

2. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
a) A busca pela Sabedoria por parte do ser humano faz com que ele pulule
em todas as direções. Há muitos que estão em constante e ansiosa
busca pela sabedoria ideal. A Sabedoria de que fala o nosso texto tem
endereço certo desde antes da fundação do mundo. É a única Sabedo-
ria que se deixa achar.
b) A Sabedoria não é filosófica ou abstrata. Ela é uma pessoa que se
relaciona pessoal e individualmente, oferecendo-se a si mesma no sa-
cramento da eucaristia.
c) Na Santa Ceia, como na Confirmação e no batismo, a septiforme mani-
festação da Sabedoria é renovada em nós, fortalecendo-nos para a
jornada da vida, até a vida eterna.
d) Todos estão sendo convidados gratuitamente para o banquete no Reino
eterno de Cristo, a Sabedoria de Deus.

3. SUGESTÃO DE TEMA
Jesus, o endereço certo da verdadeira sabedoria.

Dr. Acir Raymann


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Josué 24.1-2a. 14-18
14 de setembro de 2003

Josué 24 é um dos capítulos marcantes da Bíblia, pois relata a despedida


de Josué e a renovação da aliança em Siquém. Como leitura do Antigo
Testamento para este domingo, faz um contraponto tipológico com João
6.60-69, a leitura do Evangelho. Nos dois textos temos um momento de
crise, um convite à decisão, e uma vibrante confissão de fé.

1. DETALHES DO TEXTO
1.1. O ponto alto da perícope é, sem dúvida, a parte final (vv. 14-18). Os
versículos 1 e 2a formam a moldura histórica, importante para situar o
que é dito nos vv.14-18. (Sugere-se ler apenas a primeira parte do v.2,
continuando na metade do v.14: “Então, Josué disse a todo o povo: ...
Temei ao SENHOR e servi-o com integridade ...”)
1.2. O texto pode ser estruturado como segue: a) convite a temer e
servir ao SENHOR com integridade e fidelidade (14a); b) explicação
das implicações disso: deitar fora os outros deuses (14b); c) proposição
de uma escolha, seguida de confissão (v.15); d) rejeição da possibilida-
de de abandonar o SENHOR (v.16); e) explicação do motivo da deci-
são: ele é o nosso Deus, seguido do que significa isto (v.17-18); f) con-
clusão: nós também serviremos ao SENHOR (v.18b).
1.3. Chama a atenção as opções que os israelitas tinham diante de si.
Por um lado, os deuses que os antepassados tinham servido do outro
lado do rio (o termo “Eufrates” não aparece no texto hebraico, mas fica
implícito; a NTLH traduz por “na terra da Mesopotâmia”); por outro, os
deuses do contexto local. Em algumas situações no Brasil o equivalen-
te seria, de um lado, as superstições que os imigrantes trouxeram da
Europa; de outro, as pajelanças típicas do contexto local.
1.4. A decisão/confissão é feita em cima de uma consciente recitação
dos atos salvíficos de Deus. Uma fé ancorada firmemente na ação de
Deus na história, e não num vago sentimento de dependência ou, quiçá,
até mesmo o temor de punição.
1.5. O texto tem uma dinâmica que precisa ser respeitada, mas, a rigor,
69
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
os elementos essenciais aparecem concentrados na conclamação inici-
al (v.14): “temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelida-
de” (ARA). (Almeida Revista e Corrigida tem: “temei ao SENHOR, e
servi-o com sinceridade e com verdade”. A NTLH traduz: “temam a
Deus, o SENHOR. Sejam seus servos sinceros e fiéis”. Bíblia da
CNBB diz: “temei ao SENHOR e servi-o de coração íntegro e since-
ro”. Na Bíblia de Jerusalém se lê: “temei a Iahweh e servi-o na perfei-
ção e na fidelidade”).
1.6. Temei ao SENHOR – Todas as traduções consultadas têm, nesta
passagem, a mesma palavra: temer. O que é temer a Deus? Alguns
apontamentos podem ajudar a formular uma resposta. “A Bíblia fala
muito mais do temor de Iavé que do temor de Deus...” (D.Lys, “Te-
mer”, in Vocabulário Bíblico, p.315). “O AT carece do termo religião.
Para indicar a atitude do homem perante Deus ... a Escritura usa a
palavra ‘temor de Deus’” (Lyns, p.313). Textos onde temer aparece
claramente no sentido de “prestar culto” são 2Rs 17.32-34; Dt 14.22-
23; e Js 22.15 (comparar ARA e NTLH).
O específico deste “temor do Senhor” aparece numa comparação com
a religiosidade no mundo helênico. “[No helenismo existe] um santo medo,
espanto ou admiração evocada pela majestade revelada em objetos, homens
ou deidades. (...) [A] base da piedade vétero-testamentária é bem diferente
daquela do helenismo. Deus, o Criador, reivindica o serviço do homem, no
pensamento, na palavra e nos atos; requer a obediência ativa, e não o medo
devoto pelo qual se presta homenagem somente de boca, e isto em ocasiões
estabelecidas para se prestar culto, ou na esfera da retórica intelectual.
Esta obediência ativa, juntamente com o culto, é o aspecto característico do
temor a Deus, que é essencialmente a idéia vétero-testamentária (em
contraste com a grega) da piedade”. (W. Günther, “Piedade, Religiosidade”,
in DITNT, vol. III:544-545.)
1.7. SERVIR com integridade e fidelidade
A palavra que mais se destaca nesta perícope é o verbo servir. Faz
parte da famosa confissão de Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao
SENHOR” (em hebraico: weanochí ubetí na’abôd et-Yahweh). De fato,
a raiz hebraica “servir” aparece nada menos do que dez vezes neste texto
(incluindo a palavra “servidão”, no v.17).
O v.14 parece indicar que servir ao SENHOR é mais ou menos
equivalente a temer ao SENHOR. (Textos que interessam, neste particular,
são Êx 3.12; 4.23; 7.16; 10.26; Jó 21.15; Sl 22.30; Jr 2.20; Ml 3.14). De
fato, como mostram as citações abaixo, este serviço tem a ver com a vida
do culto e com o culto da vida.
“É ... característica do AT que não é o ritual meticulosamente cumprido

70
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
que é a adoração verdadeira a Deus, mas sim, a obediência à voz do Senhor,
que brota da gratidão aos seus atos divinos da salvação na história, embora
tal obediência incluísse o ritual externo da adoração. (Dt 10.12-13) (K.Hess,
“Servir”, DITNT IV:454)
“O ‘serviço de Deus’ contém, antes de mais nada uma significação
cultual e litúrgica, que até hoje em dia vigora entre nós .... Entretanto, seria
inexato restringir este sentido exclusivamente ao campo ritual e litúrgico: o
serviço de Deus é em primeiro lugar uma atitude moral do povo ou do
indivíduo perante Deus, na fidelidade aos seus mandamentos ...” (F. Michaeli,
“Servo”, in Vocabulário Bíblico, p. 210)
O serviço ao SENHOR para o qual Josué conclama o povo é qualificado
como sendo com integridade e fidelidade. Integridade, aqui, tem a ver com
totalidade, ou seja, aquilo que é integral. (Neste sentido, é muito feliz a
tradução da Bíblia de Jerusalém: “servi-o na perfeição”.) O termo hebraico
é tamim que, no contexto dos sacrifícios (Lv 22.21), designa um animal
“sem defeito”, isto é, completo, íntegro. Já o termo “fidelidade” (no hebraico,
a conhecida palavra ´emet, que alguns traduzem por “verdade”) reforça
essa noção de integridade. Se o culto ou serviço ao SENHOR é prestado
na totalidade, isto é, com um coração íntegro ou não dividido, segue-se
naturalmente que tal serviço será marcado pela fidelidade. Isto implica em
deitar fora todos os outros deuses. “Senhor, para quem iremos? ... Tu és o
Santo de Deus” (Jo 6.68-69).

2. SUGESTÃO HOMILÉTICA
Nós também temeremos e serviremos ao SENHOR
1. Por quê? Porque ele, o nosso Deus, fez grandes coisas por nós (v.17).
2. Como? Com integridade e fidelidade.

Dr. Vilson Scholz


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Deuteronômio 4.1-2. 6-8
21 de setembro de 2003

CONTEXTO
O texto da perícope está dentro do primeiro discurso de Moisés. O povo
de Israel está nas terras de Moabe, praticamente no final de sua jornada de
quarenta anos pelo deserto. A geração que ainda tinha sido escrava no
Egito já estava no fim. Uma nova geração iria tomar posse da terra. Também
Moisés sabia que seu fim se aproximava e, por isso, dá instruções ao povo
em forma de discursos. Diz a Bíblia de Estudo Almeida:
Nas campinas de Moabe, em frente a Jericó, compreendendo que o
fim da sua vida estava próximo, “encarregou-se Moisés de explicar
esta lei” ao povo (1.5). Reuniu, pois, pela última vez, o povo, para
entregar-lhe o que se poderia chamar de o seu “testamento espiritual”.
Diante de “todo o Israel” (1.1), Moisés evoca os anos vividos em
comum, instrui os israelitas acerca da conduta que deviam observar
para serem realmente o povo de Deus e lhes recorda que a sua
permanência na Terra Prometida depende da fidelidade com que
observem os mandamentos e preceitos divinos (8.11-20).

TEXTO
No versículo 1 nos é mostrado que o povo deveria observar
cuidadosamente tanto os preceitos morais que fixavam sua relação de aliança
para com o SENHOR quanto seus compromissos com respeito ao próximo,
pois eles viviam numa teocracia. Isto era um pré-requisito para viver e
possuir a terra prometida. “Agora, pois”, remete ao que vem antes. Moisés
lembra ao povo a oração que havia feito a Deus, na qual pede a Deus que
anime e fortaleça Josué que deve conduzir o povo daqui para frente.
No versículo 2 Moisés quer deixar claro que ele está falando em nome
de Deus e, por isso, qualquer acréscimo ou diminuição certamente
enfraqueceria esta palavra. A revelação que Deus dá é suficiente. A totalidade
da revelação de Deus precisa ser aceita e nada do que venha a alterar esta
revelação pode ser tolerada. Isto não somente significa conservar a palavra
intacta e transmiti-la à geração seguinte, mas também observar esta palavra
72
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
vivendo de acordo com ela. Temos aí um paralelo com as palavras de
Apocalipse 22. 18-19: “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia
deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe
acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer
coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore
da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro”.
O versículo 6 mostra uma faceta da missão de Deus que o povo do
Antigo Testamento deveria realizar: mostrar com suas atitudes a presença
de Deus em suas vidas. Os povos vizinhos, vendo que Deus havia confiado
suas leis ao seu povo reconheceriam que Israel teria qualidades especiais
de sabedoria e conhecimento.Um paralelo desta atitude missionária
encontramos em Mateus 5.16: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai
que está nos céus”.
No versículo 7 está assegurado ao povo de Israel a assistência direta de
Deus que fizera uma aliança com seu povo escolhido. Este relacionamento
com Deus não havia com nenhum outro povo. Mas os israelitas tinham
sempre acesso a Deus em oração. Esta sua presença estava simbolizada
no tabernáculo que estava no meio do acampamento e pela nuvem que
estava sobre o tabernáculo (Êx 40.34-38).
O versículo 8 lembra que a integridade de vida tem sua raiz em Deus e,
que, quanto mais o conhecimento do verdadeiro Deus é obscurecido, mais
o fundamento de toda verdadeira lei sucumbe. A lei do SENHOR supera
todas as outras leis em justiça, e, por isso, deveria ser orgulho de Israel. “A
lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel
e dá sabedoria aos símplices” (Sl 19.7). “A superioridade da lei israelita
poderia ser demonstrada com base numa comparação com outros códigos
legais no mundo antigo, e também no fato de que qualquer lei vinda de Javé
se apoiava na justiça do próprio Deus, de quem a lei era apenas um reflexo”
(Thompson).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. Deus não precisa de opiniões, sugestões ou mudanças em sua palavra.
Ele sabe o que nos convém e não tolera falsas interpretações de sua
palavra.
2. Por outro lado, uma correta aplicação e interpretação da palavra de Deus
não é uma coisa puramente intelectual; é acompanhada de uma vivência
diária que mostra o poder que a palavra de Deus tem para modificar e
orientar vidas. O exemplo pode levar pessoas a glorificarem a Deus.
3. Deus esteve de uma maneira bem concreta entre o povo de Israel:
tabernáculo, nuvem. Continua conosco hoje concretamente com sua
palavra e sacramentos.
73
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
4. A vivência da palavra de Deus traz justiça ao mundo. Se os descrentes
não fazem aquela justiça da qual todos precisamos, com nossa justiça
podemos colaborar para um mundo melhor.

SUGESTÕES DE TEMAS
• A imutável palavra de Deus nos conduz a uma vida de constantes
transformações.
• A aplicação de justiça de Deus precisa começar comigo.
• A grande sabedoria é observar a lei de Deus.

Raul Blum
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 35.4-7a
28 de setembro de 2003

CONTEXTO
O Livro de Isaías é também chamado de “hazon”, que significa “visão”
e, neste caso, “revelação”. Os hebreus também falavam a respeito de uma
“visão de PALAVRA” (hazah dhabhar). “Visão” ou “revelação” inclui
ao mesmo tempo o aspecto da sua inspiração. Portanto, o que neste livro
foi escrito, Deus o revelou e inspirou. Por isso as profecias de Isaías são
antes e acima de tudo PALAVRA DE DEUS.
Pouco se sabe sobre a pessoa do Profeta e suas experiências. Filho de
Amoz, outro desconhecido. De acordo com 7.3 e 8.3 ele era casado e tinha
filhos. Nunca o encontramos fora de Jerusalém.
O chamado para o ofício de Profeta “no ano da morte do Rei Uzias”
(758 A. C.) estendeu-se até o fim do reinado de Ezequias († 698 AC), um
período de aproximadamente 60 anos. Há em 2 Cr 26.22 referências ao
seu nome (também em 2 Cr 32. 32).
Isaías profetizou durante o reinado de quatro reis de Judá: Uzias (810 –
758); Jotão (758 – 43); Acaz (743 – 727) e Ezequias (727 – 698). Estas
datas são questionadas por intérpretes liberais, o que traz dificuldades quanto
à autoria do próprio texto de Isaías.

A quem foi dirigida ?


“A Judá e Jerusalém”. Sua atividade concentrou-se em Jerusalém. Sua
profecia, portanto, dirige-se à totalidade do povo de Judá. Ele recebeu a
incumbência de chamar “o povo rebelde” ao arrependimento de seus
pecados. Ele ofereceu a esse povo a Graça de Deus. Havia nesse tempo
um pequeno grupo remanescente de fiéis servos de Deus. A esse grupo de
remanescentes Isaías conclama a que sejam persistentes em meio às
tribulações. Na verdade essa palavra é dirigida ao povo de Deus de todos
os tempos, à Verdadeira Igreja. A todos pecadores de todos os tempos
pregou arrependimento dos pecados e a universalidade do Evangelho.
O nome do Profeta indica a sua principal missão: “IHWH tem
providenciado salvação” – e verdadeiramente Ele é Deus da salvação.

75
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
A santidade de IHWH está no centro de sua mensagem, desde a sua
visão de vocação até os últimos tempos de sua atuação. A santidade de
JAVÉ encerra em si a sua inacessibilidade, sua incompatibilidade com
qualquer pecado, sua superioridade e majestade, sua real soberania que se
estende por todo o mundo sendo, por isso, também o soberano da história. A
caracterização de IHWH como o “Santo de Israel” remonta a Isaías e
exprime que esse santo e poderoso Deus voltou-se com sua presença para
Israel e intervirá em favor do seu povo.
Numa época de decadência espiritual e política, Isaías colocou toda a sua
esperança no Santo de Israel, pois somente ele, além de juízo, ainda oferecerá
possibilidades de sobrevivência. Isaías o proclamou como Deus cujo raio de
ação abrangerá toda a terra, que com tranqüilidade assistia nos feitos dos
povos, e que, não obstante reinou toda essa confusão de acontecimentos,
ainda se evidenciava como sendo ele o “Senhor do Acontecimento”.
A voz do profeta continua sendo necessária para o mundo moderno, em
que os pecados não são menos graves do que nos tempos de Isaías e tempo
em que Deus continua voltando-se graciosamente aos desalentados de
coração e anunciando que ele é Salvação.

TEXTO
O capítulo 35 é o contraponto positivo do capítulo 34, já antecipado em
34. 16-17. Depois do inferno descrito no cap. 34, apresenta-se agora o
paraíso. Trata-se de um oráculo destinado a reanimar o povo de Deus que
estava no exílio, prometendo que os fiéis (os resgatados no Senhor) voltarão
a Jerusalém jubilando.
V. 4 : Os v. 3 e 4 interrompem o discurso na terceira pessoa para, agora,
exortar os destinatários à firmeza e à confiança. O motivo para tal confiança
é a iminente chegada de “Vosso Deus”. Esse Deus que era apresentado
como Vingador, para os “resgatados do Senhor” ele é apresentado como
“O Salvador”.
Nestes versículos exorta-se a que os fiéis fortaleçam e consolem os
desamparados, os que com “mãos frouxas e joelhos vacilantes” andam
assustados e os “desalentados de coração” são os que desesperam com
facilidade, os que perderam a esperança. A estes vem a mensagem do
profeta de Deus: “Não tenham medo, Deus está vindo e os salvará”. Salvará
dos inimigos tanto deste mundo, como do universo espiritual.
Vv. 5-7 : O efeito imediato da presença de Deus é descrito nestes
versículos: “os cegos, os surdos, os coxos, os mudos” serão beneficiados
diretos na ação de Deus e serão também presença de vida para as outras
pessoas, cabendo a eles a manifestação da alegria pela salvação. Em se
considerando Mt 11.5 como cumprimento dessa passagem de Isaías e o
exemplo de Mc 7.31-37 como mais uma evidência desse fato, vale lembrar
76
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
que Is 35.4 diz que “Vosso Deus vem (está vindo)” e, no Novo Testamento,
quando João Batista manda perguntar se “És tu aquele que estava para vir
ou havemos de esperar outro?”, a resposta de Jesus é : “os cegos vêem, os
coxos andam...”, denotando que não é apenas um enviado de Deus que
está ali, mas que é “o próprio Deus que veio na pessoa de Jesus”.
Deus traz a vida para onde ela não existia. Aceitando-se estas palavras
como messiânicas no seu aspecto, temos que tratá-las como a descrição da
mais abençoada transformação provocada na pessoa individualmente e na
ação, pelo Evangelho. Quando a verdade de Cristo torna-se eficaz pelo
Espírito de Deus, e opera seus verdadeiros resultados, então a pessoa terá
encontrado iluminação do entendimento, gratidão no coração, conforto para
a alma, vida cheia de amor e frutos e a alegria prevalecerá.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1- Deus não tem prazer na morte das pessoas, ao contrário, aos de
coração quebrantado sempre está disposto a recebê-los em sua graça.
2- A salvação só pode vir da parte de Deus.
3- Em conexão com o Evangelho do dia, afirmamos que aquele que faz
os cegos verem e os coxos andarem, etc., é o próprio Deus misericordioso.
4- A transformação da morte em vida é outra maravilha do poder e
misericórdia de Deus.
5- O Deus de misericórdia e poder é também aquele que guarda e
abençoa o seu povo.

SUGESTÕES DE TEMA
DEUS VEM PARA SALVAR
1- Fortalecendo aos desalentados e dando coragem aos que têm medo.
2- Manifestando visivelmente o seu amor.
3- Transformando o trauma da morte em júbilo e vida.

BIBLIOGRAFIA
STOECKARDT, George. ISAIAH: The first Twelve Chapters. Fort
Wayne.: Concordia Th. Seminary Press.
METZGER, Martin. História de Israel. São Leopoldo: Sinodal, 1978.
KAMP, Peter W. Vande. O Profeta Isaías. Sinodal, 1987
CROATO, I. Severino. Isaías: O Profeta da Justiça e da Fidelidade. 1990
RAWLINSON, George. Isaiah. IN: The Pulpit Commentary. Michigan:
Eerdmans,,1950, v. 10.
RIDDERBOS, J. Isaías. São Paulo : Vida Nova, 1986.

Paulo Gerhard Pietzsch


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Isaías 50.4-10
5 de outubro de 2003

1. APONTAMENTOS SOBRE IS 50.4-10


1.1. Neste texto, alguém está falando, num tom autobiográfico, em pri-
meira pessoa. O fato de “dizer boa palavra ao cansado” (v.4) lembra
um profeta. Agora, para falar, antes de tudo ele precisa ouvir (v.4b,5).
1.2. Ele fala daquilo que o SENHOR faz com ele. No v.6, ele fala de seu
sofrimento. Isto mostra que há, ao todo, três personagens: ele próprio,
o SENHOR Deus, e aqueles que o perseguem e maltratam. Estes
ferem as costas, arrancam a barba, afrontam e cospem.
1.3. O v. 10 indica que se trata de um texto que fala do Servo do SE-
NHOR. De fato, é um dos assim chamados Cânticos do Servo Sofre-
dor, juntamente com Is 42, Is 49, e Is 53. São quatro poemas ou cânticos
que foram isolados pela primeira vez em 1892, por Bernhard Duhm.
No primeiro (Is 42) e no último cântico (Is 53), fala-se dele. No segun-
do (Is 49) e no terceiro (que é este aqui de Is 50), o próprio Servo fala.
1.4. Quem é este Servo? Isto lembra a pergunta do oficial etíope em
Atos 8, a respeito do referente em Isaías 53: “De quem o profeta está
falando”? (Lá o texto está em terceira pessoa.) Aqui, como o texto
está em primeira pessoa (“eu”), a pergunta passa a ser: “Quem é este
Servo que está falando”? A evidência textual de Isaías mostra que o
Servo oscila entre Israel como um todo e um indivíduo (o Messias). A
melhor solução ainda é a pirâmide de Franz Delitzsch: Israel como um
todo forma a base da pirâmide (Is 42.19); no meio está Israel segundo
o Espírito, isto é, o Israel da fé (Is 41.8-10); e, no topo aparece Israel
reduzido a um, na pessoa do Messias (os cânticos do Servo).
1.5. Trata-se de um texto messiânico, uma profecia a respeito do Cristo,
que é Jesus de Nazaré. Profecia não é história escrita antecipadamen-
te, tanto assim que nem sempre todos os detalhes se cumprem e, muitas
vezes, o cumprimento é muito mais detalhado do que a profecia deixava
entrever. Alguém poderá dizer que essa história de ter a barba arran-
cada não se cumpriu literalmente no caso de Jesus (quanto aos outros
elementos, ver Mt 26.67; 27.30; Jo 19.1-3). No entanto, é preciso lem-
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
brar que arrancar a barba era uma maneira de insultar e desonrar a
pessoa. E uma das coisas que a profecia de Is 50 nos coloca diante
dos olhos é esta questão do ser envergonhado ou não ser envergonha-
do (v.7). Quanto dói um tapa no rosto? (“Um tapinha não dói...”?)
Pode até não doer tanto no rosto, mas dói na alma. É a dor da vergo-
nha. E as pessoas do Oriente Médio eram (e são) bem mais sensíveis
à questão da vergonha (e seu lado positivo, que é a honra) do que à
questão da culpa. Será que podemos dizer que o sofrimento de Cristo
foi antes de tudo a dor da vergonha (sem eliminar a dor física, é claro)?
Naquele contexto, segundo os próprios romanos, a morte de cruz era a
morte mais vergonhosa (mors turpissima) que se poderia imaginar.
1.7. Outra dimensão do texto que se destaca é o aspecto forense ou
judicial (vv.8,9). Deus ajuda (vv. 7 e 9) e justifica ou declara justo
(v.8). Isto é importante, pois, na medida em que o Servo “oferece as
costas” (v.6), ele parece reconhecer que o sofrimento é merecido. Mas
Deus o justifica e declara vitorioso. Aliás, neste terceiro cântico do
Servo, que é o primeiro deles em que se fala do sofrimento dele (algo
que é muito mais detalhado no quarto cântico, Is 53), já fica bem claro
que o Servo sai vitorioso. Isaías 53 não é diferente: abre e fecha, qual
uma moldura gloriosa, com referências ao triunfo do Servo (52.13-15 e
53.10-12). No ministério de Jesus, a caminhada pelo vale do sofrimen-
to se dá entre o monte glorioso da transfiguração e a luz fulgurante da
Páscoa.
1.8. A leitura inclui o v.10: “Quem há entre vós que tema ao SENHOR e
que ouça a voz do seu Servo? Aquele que andou em trevas, sem nenhu-
ma luz, confie em o nome do SENHOR e se firme sobre o seu Deus”.
Isto é significativo e, diríamos até, “exigido” pela leitura do Evangelho
deste domingo (Mc 8.27-35). Também esta termina com as implica-
ções da Paixão de Cristo para a multidão e para os discípulos. O tercei-
ro cântico do Servo tem uma mensagem para aquele que anda em
trevas, sem nenhuma luz: confie no SENHOR e firme-se sobre o seu
Deus! (Num típico paralelismo da poesia hebraica, o apelo a confiar no
SENHOR e a firmar-se sobre Deus são uma só e a mesma coisa, isto
é, são afirmações sinônimas.) Em outras palavras, a história do Servo
é também uma fonte de inspiração para os seguidores do Servo.

2. REFLEXÕES HOMILÉTICAS
O texto de Isaías 50 é lido neste domingo em função do Evangelho,
extraído de Marcos 8. O texto de Marcos 8 é lido no período pós-
Pentecostes, não apenas para novamente colocar diante de nossos olhos a
Paixão de Cristo, mas especialmente para lembrar à Igreja que a cruz faz
parte do seguimento.
79
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
A cruz do cristão é a vergonha e o desprezo por ser ele seguidor de um
Deus crucificado. Ela é tão natural na vida da Igreja (embora não deva
nem precise ser procurada!) quanto o fato de que Cristo foi crucificado.
No Evangelho, Cristo diz: “Quem perder a vida por minha causa (e isto é
cruz) vai salvá-la”. Em Isaías, o profeta reflete sobre a trajetória do Servo
e anima a todos a que confiem no SENHOR e se firmem sobre Deus.
O Servo do SENHOR foi vindicado, declarado justo. Ele é vitorioso na
ressurreição. E ele ressuscitou para a nossa justificação (Rm 4.25). E esta
justificação só é possível pela confiança em Deus.
Esta é a grande mensagem para aqueles que andam em trevas, sem
nenhuma luz. É uma mensagem oportuna para uma Igreja que não gosta
da cruz, que estranha as dificuldades pelas quais está passando, que anela
por dias mais fáceis, sem nenhuma cruz. “Se alguém quer vir após mim, ...
tome a sua cruz”. “Confie em o nome do SENHOR e se firme sobre o seu
Deus”!

Dr. Vilson Scholz


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Jeremias 11.18-20
12 de outubro de 2003

1. CONTEXTO
No período do Pentecostes, a igreja cristã tem se concentrado na sua
tarefa e na ação do ministério do Senhor Jesus através de seus cooperadores,
os pastores chamados para a tarefa. Mas, este ministério não é obra própria
deste mundo. É algo revelado e que está fora do alcance do mundo, vindo
a este mundo para trazer a salvação. A salvação vem através da obra
vicária de Jesus Cristo, a qual proclamamos e para tal Cristo estabelece
seu ministério.
Minha sugestão para hoje é meditarmos sobre o ministério pastoral a
partir do texto de Jeremias. Vejamos algumas pistas.

2. TEXTO
V.18 : O texto tem seu ponto inicial na situação anterior. Não sabemos
como, mas a onisciência de Deus fez com que Jeremias soubesse das
maquinações dos seus próprios (os de Anatote, terra natal do profeta).
V.19 : A situação de Jeremias aproxima-se à descrita em Isaias 53.7, uma
profecia a respeito da obra vicária de Cristo. Nada de Jeremias deve
sobrar (esta é a intenção dos seus inimigos). “Semente e fruto” preci-
sam ser destruídos. Na situação de Jeremias, como possivelmente não
tinha filhos, a sua morte resolveria o problema. Mas, a intenção vai
além da vida de Jeremias – ela chega até o ministério de Jeremias.
Jeremias é apenas porta-voz de Deus; a obra do Deus Vivo é que
querem destruir. O juízo de Deus trouxe revolta (a lei trouxe juízo) e
não houve consolação.
V.20 : A linguagem é judicial: haverá o dia do juízo (v.23) e neste dia será
anunciada a sentença. Qual é a sentença? Como cristãos, reconhece-
mos a obra vicária de Cristo na cruz como sendo a declaração da sen-
tença. Este é o dia da vingança e Jesus já se mostrou vitorioso sobre
Satanás e seus aliados. Já há derrota e a sentença foi proclamada –
Jesus já venceu Satanás, destruindo o seu reinado.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
V. 21: Aqui sabemos quem não quer o ministério de Jeremias: seus própri-
os concidadãos de Anatote.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
O ministério de Jeremias não foi um ministério feliz. A lei parece
prevalecer e o evangelho parece distante dos conterrâneos de Jeremias.
Sabemos que quem, em última análise, aplica lei e evangelho e é Senhor
absoluto sobre esta aplicação é o próprio Deus. Mas, no momento em que
transfere esta aplicação aos ministros, estes precisam estar conscientes
tanto da necessidade de anunciar como das conseqüências deste anunciar.

4. SUGESTÃO DE TEMA/PROPOSTA HOMILÉTICA


O ministério pastoral é o ministério de Deus quando lei e evangelho são
anunciados aos ouvintes de forma apropriada para que Deus possa fazer o
seu papel entre os cristãos e não-cristãos.

Clóvis J. Prunzel
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DÉCIMO NONO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Números 11.1-6, 10-16, 27-29
19 de outubro de 2003

Equipe de Líderes
1. CONTEXTO
- Os filhos de Israel estavam acampados em pleno deserto. Junto ao Mon-
te Sinai. Acabavam de sair do Egito. A viagem já durava dois anos. E
ainda havia muito chão pela frente e mais 38 anos para chegar à “terra
que manava leite e mel”.
- Os 430 anos (Ex 12.40) de deportação, de jugo e da escravidão nas
mãos dos faraós do Egito foram séculos de trabalho forçado, de sofri-
mento, de angústia e de muito castigo físico, moral e espiritual.
- Após o envio de terríveis pragas para punir o faraó e o povo egípcio, e o
repetido brado “deixa ir o meu povo”, Moisés, o valente, inteligente e
corajoso líder-maior, sob a orientação do Senhor Deus, liberta o povo de
Deus da escravatura, passa pelo Mar Vermelho e enfrenta o imenso e
difícil deserto em direção à “terra prometida”!
- O caminho do deserto é perigoso, difícil e cansativo. Após dois anos
(1.1) de viagem, acontece uma parada maior ao pé do Monte Sinai. É
neste acampamento do Sinai que acontecem cinco fatos históricos com
“os forasteiros e peregrinos” de Israel: Moisés conversa com Deus no
alto do Monte; Deus entrega seus Dez Mandamentos; Arão fabrica um
bezerro de ouro e todos o adoram como se fosse Deus; todo o arraial
promove a primeira grande revolta contra Moisés e contra o próprio
Deus; Deus pede a Moisés para formar uma equipe de 70 líderes
para auxiliá-lo na condução de seu povo.
- Este é o fundo histórico que facilita a compreensão do texto de nossa
perícope, especialmente sobre a formação de uma equipe de líderes.

2. TEXTO
Importante destacar alguns verbetes do texto.

- Queixa (V.1): Houve um tumulto no arraial de Israel! Descontentes


com o Senhor que acabava de os libertar da escravatura egípcia e com
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Moisés, o líder-maior, que os guiava no árido caminho do deserto, os
filhos de Israel promovem uma conspiração, uma rebelião, uma traição,
um levante de discórdia e perturbação, reclamando contra tudo e con-
tra todos. – A fidelidade de Deus é respondida pelo motim da ingrati-
dão. Esqueceram-se dos favores de Deus.
- Populacho (V. 4): Quem são eles? Entende-se como sendo estrangei-
ros, isto é, povo não da descendência dos filhos de Israel. Misturaram-
se com o povo de Deus. Também pode ser entendido como um misto de
gente, fruto de casamentos mistos, entre israelitas e egípcios. Com ou-
tra cultura e outra confessionalidade, o populacho iniciou as reclama-
ções e envolveram todos os peregrinos das barracas na rebelião contra
o Senhor e contra Moisés. – “Não te esqueças de nem um só de seus
benefícios”; “e sede agradecidos”; “um só Senhor, uma só fé...”.
- Comidas (Vv. 4,5): Não há nada de mal desejar um prato de comida
gostosa e especial. O pecado do populacho e de Israel foi a crítica, a
revolta, a acusação e a maneira como exigiram pratos especiais, que
não existiam no deserto. Era a insatisfação com o alimento providenci-
ado e recomendado por Deus. Queriam filé, picanha, peixes e muitos
temperos e verduras. Logo após, Deus fornece carne com as codorni-
zes. E como, novamente, não souberam valorizar a benevolência do
Doador, são castigados pelo próprio Deus. Pensavam: “Comamos e
bebamos porque amanhã...” – “O pão nosso de cada dia”; “tendo o que
comer e beber, estejamos satisfeitos”; “em tudo daí graças a Deus”;
“buscai o alimento que não perece”.
- Ira do Senhor (Vv. 1-3, 33 e 34): Diante de sua murmuração, ingratidão
e pecados, o povo foi punido pelo Senhor Deus. O primeiro castigo veio
bem no início e o segundo depois do envio das codornizes. O primeiro
lugar onde se manifestou a ira de Deus foi chamado de Taberá (V.3)
que significa “incêndio, queima, fogo”. Foi uma maneira de Deus mos-
trar sua justiça, poder e majestade. O segundo lugar foi chamado de
Quibote-Ataavá (V.34), que significa “túmulos do apetite ou da gula”,
ou “os sepulcros da concupiscência”, porque haviam perdido a moral, a
consciência de povo de Deus. Foi uma praga muito grande, uma terrível
epidemia, que matou muita gente. –“Não vos enganeis, de Deus não se
zomba”.
- Oração (Vv.2,11): Diante das desgraças, da justiça e do castigo de Deus,
Moisés buscou o amor, a bondade, a misericórdia, o perdão de Deus.
As suas orações em favor do povo foram tão convictas, fortes e confi-
antes que o Senhor as ouviu e atendeu. Foram verdadeiros diálogos,
debates e discussões com Deus. Lutero foi um imitador de Moisés. –
“Invoca-me no dia da angústia...”; “muito pode a oração do justo”;
“tudo que pedirdes em meu nome...”.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
- Pesado (Vv. 11,14): Como homem temente a Deus, forte, inteligente,
corajoso, Moisés mostrou, em muitas oportunidades (cf. biografia), que
ele pensava ser capaz de “carregar e salvar o mundo sozinho”. E assu-
mia todos os trabalhos, tarefas e missões de seu povo. Repentinamente,
“caindo em si”, descobriu que ele não era capaz de guiar, orientar e
conduzir 600.000 pessoas através do deserto. O peso, as responsabili-
dades e a missão de conduzir este povo rebelde não era tarefa para um
homem só. E apresentou este problema ao Senhor. Pede socorro. – Há
pastores, professores e líderes que também pensam e agem assim. Tudo
sozinho. Só eles sabem. Só eles podem. Até “cair em si” e “sentiu-se
estressado”, porque o trabalho é pesado demais.
- Anciãos (Vv. 16,24,29): Deus poderia ter feito um milagre, modificando
o coração dos murmuradores e dar mais discernimento e força a Moisés,
o líder-maior. Mas não o faz. Deus quer envolver e responsabilizar o
seu próprio povo. E por isso pede a Moisés para escolher 70 anciãos,
que são os cabeças, os guias, os líderes do povo. Quando Moisés lutava
contra os povos inimigos, seu sogro o recomendou que escolhesse líde-
res para formar uma grande equipe de auxiliares (Êx. 17 e 18). Aqui,
agora, quando havia conspiração entre o próprio povo de Israel, Deus
manda formar uma equipe de 70 líderes. E, ao descer sobre eles “o
Espírito”, eles profetizaram e auxiliaram o líder-maior, Moisés, a gerenciar
e guiar este povo que buscava “a terra que mana leite e mel”, a “terra
prometida”. Sobre os atributos do líder e dos liderados, conferir Hb 11 e
At 6. – Deus gosta de ver na Igreja um trabalho corporativo. Sínodo é
“caminhar juntos”. O trabalho na escola, na congregação, na igreja
precisa ser feito em equipe. “Ajuntai o povo”. Deus espera mudanças,
nesta direção.

3. DISPOSIÇÃO

Introdução
· 603.500 filhos de Israel (sem contar mulheres e crianças) estão fugindo
da escravatura do Egito, acampados ao pé do Monte-Sinai.
· Esta multidão se revolta e murmura contra Deus e contra Moisés.
· Deus recomenda a escolha de 70 líderes para auxiliar na condução deste
povo até à terra prometida.

ESCOLHE UMA EQUIPE DE LÍDERES

Por quê? Quais são as razões, motivos ou justificativas?

85
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
I – Porque o povo é muito numeroso
1 – Contexto histórico do povo de Israel (cf. “contexto”).
2 – Importância de escolher líderes e formar uma equipe no trabalho
do reino
3 – No acampamento havia 603.550 (1.46). Muita gente
4 – Aplicação ao exercício ministerial: equipes

II – Porque o povo é muito rebelde


1 – Necessidade de liderança: líder e liderado. Preparar
2 – O povo/congregados com o “simultaneamente justos e pecadores”
têm o velho homem, rebeldes, pecado
3 – É preciso doutrinar, exortar e aconselhar os fiéis. Pregação de lei
e evangelho

III – Porque a tarefa de conduzir o povo é muito grande


1 – Deus sugere uma equipe de 70 líderes a Moisés.
2 – O grande segredo do sucesso é repartir tarefas com o grupo e
delegar missões
3 – É preciso dividir e repartir as múltiplas atividades na igreja/
congregações

CONCLUSÃO
1 – A relação do contexto histórico no acampamento do Sinai e o
povo de Deus hoje
2 – Ter a humildade e a coragem para formar e envolvê-los na missão
da igreja/congregações
3 – Deus pune os transgressores, mas ouve as orações de seus servos
e líderes
4 – A IELB clama por equipes de líderes para anunciar o evangelho
e conduzir o povo no caminho estreito do Salvador Jesus, que
termina na porta dos céus.

Dr. Leopoldo Heimann


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

VIGÉSIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Gênesis 2.18-24
26 de outubro de 2003

TEXTO
V. 18 : “Não é bom” (bAj-al{) - Se no relato inicial da criação o texto bíblico
afirma que Deus viu que tudo era ‘bom’ e ‘muito bom’, quando o texto
da criação do homem e da mulher é retomado e recontado em maiores
detalhes, no momento em que Deus estava criando Adão, Ele percebeu
que havia algo que não estava bom. Deus queria o bem-estar pleno de
suas criaturas. Adão não deveria ficar só. Isso, no entanto, não deve
servir de base para afirmações sociológicas mais abrangentes para nor-
mas de convívio social da humanidade. O texto é muito específico para
o relacionamento homem-mulher.
“Esteja só” (ADb;l.) – Trata-se de um advérbio, cuja raiz vem do verbo
badad , e que tem por significado fundamental algo que foi cortado, separado
de alguma coisa maior. Daí a idéia de que Adão estava solitário. Havia algo
que lhe faltava, ou trata-se de algo de uma idéia maior da qual ele estava
separado. Ele não estava completo. Essa noção de “completo” Adão mesmo
descreve quando, depois de despertado afirma: “Esta, afinal, é osso dos
meus ossos e carne da minha carne” (v. 23).
“Far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (ADg>n<K. rz<[e AL-Hf,[/a,) -
Deus toma uma decisão criadora: dar a Adão uma auxiliadora (rz<[e - com a
idéia original de cercar, envolver, proteger, ajudar, defender) e esse socorro
tem um modelo expresso na proposição (K.). O auxílio que Deus dará a
Adão será conforme a sua parte frontal, oposto a sua parte frontal, ou que
seja a altura do que é Adão. O texto da Septuaginta traz kat v auvto,n (de
acordo com ele) e o[mioj auvtw/| (a sua semelhança). Isso tanto pode sugerir
uma correspondência da sexualidade como também pode sugerir que a
mulher que Deus vai criar seja adequada, própria, necessária a Adão.
Vv.19-20 : Deus fez passar diante de Adão todos os animais que ele havia
criado para que o ‘homem’ lhe desse seus nomes. E Adão percebeu
que entre todas as criaturas não se encontrou uma que tivesse corres-
pondência ao que ele era.
Vv. 21-22 : Estes versos descrevem como Deus criou a mulher de uma

87
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
das costelas de Adão. Deus a constituiu a partir da costela e Deus
mesmo a conduziu até Adão.
V. 23 : Agora Adão pode dizer ‘Afinal’ esta é osso dos meus ossos e carne
da minha carne. As duas expressões não dizem apenas osso e carne,
mas dão a idéia da totalidade, pois eram expressões comuns para re-
presentar a essência e até a aparência externa. E Adão reconheceu
que ali estava uma parte diferente dele, a parte feminina e lhe deu o
nome de ’ishah (hVai) porque foi feita do ’ish (vyai). O uso dos nomes já
nos dá uma idéia muito clara de que se trata de seres de mesma essên-
cia, mas com sexualidade distinta.
V. 24 : Este versículo final é algo estranho, na perspectiva literária, no
meio da narrativa. Adão e Eva eram os primeiros seres humanos cria-
dos por Deus. Adão nunca pôde deixar pai e mãe para se unir a Eva.
Essa reflexão é uma interpretação teológica (feita por Moisés??) acer-
ca do comportamento social do casamento. Mas mesmo assim ela con-
tém três afirmações muito importantes, as quais são postas como con-
seqüência do que veio antes: “é por causa disso que”( !Ke-l[;): (qual seria
a causa? Adão ter encontrado alguém especial? Parece que as causas
seriam a solidão, carne da mesma carne.)
1) o homem deixa (vyai-bz[]y:) seu pai e sua mãe. A análise do verbo é muito
importante aqui. Trata-se de um imperfeito Qal ativo. Ele descreve
uma ação rotineira “é por esta razão (constatação) que geração após
geração as pessoas deixam pai e mãe para se unirem a outra pessoa, ou
seja, Deus fez para o homem alguém que vai lhe completar o ser, a
essência, o significado. Isso é naturalmente aplicado a ambos, homem e
mulher. Isso pode nos deixar inferir que há uma tendência ou necessi-
dade natural de o homem buscar significado e plenitude para a existên-
cia, que se cumpre em grande medida no casamento (o mesmo também
vale para elas!?)
2) Ele “se une à sua mulher” (ATv.aiB. qb;dw>). Aqui vale de novo uma análise
do verbo: 3ª pessoa do singular, masculino, perfeito do Qal. O perfeito
descreve uma ação completa, plena, concluída: “unir pessoas assim
como coisas são unidas com cola”. Embora as uniões humanas possam
ser marcadas mais acentuadamente por respeito, por obediência, por
gratidão, por amor, por interesse, aqui, no entanto, fala-se da união en-
tre um homem e uma mulher, que assim o fizeram, tendo deixado pai e
mãe, para serem física e afetivamente um só. Enquanto abandonar foi
descrito como um costume, o unir-se é descrito como um ato único e
definitivo. Se houve a união, unido está! E isso é completo, pleno, con-
cluído. Daí a afirmação neo-testamentária de Jesus: “O que Deus uniu,
não o separe o homem” (Mc 10.9). Aqui está registrada a afirmação da

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
indissolubilidade do matrimônio, a não ser por meio da morte. No evan-
gelho, no entanto, Jesus relembra do direito de divórcio, que assiste a
pessoa ofendida por adultério. A parte inocente foi desobrigada de per-
manecer em um estado que foi maculado pela outra parte. Qualquer
dissolução dessa união, que não por meio da morte será de alguma
forma pecaminosa.
3) E “eles se tornam uma só carne”( dxa, rfbl. Wyhw>) . De novo o verbo é
um perfeito Qal. Eles se tornam e assim permanecem! O texto não
permite interpretar que a cada relação sexual há uma nova união. Se
eles são uma só carne, uma só essência, (um só ser?), se isso for des-
feito, haverá, naturalmente, muita dor.

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: É bom que o homem (e a mulher) viva em boa companhia!


Parte I – Deus viu que o ser humano precisa de companhia
a) não é bom que o homem viva só
b) Deus agiu em benefício do ser humano

Parte II – Deus deu a Adão uma companheira


a) igual em essência
b) diferente na sexualidade (‘ish - ‘ishah)

Parte III – Homem e mulher tomam uma decisão de se unirem


a) eles deixam pai e mãe
b) eles constituem uma nova essência (um só)

CONCLUSÃO
Por isso é digno e justo que o matrimônio seja honrado entre nós.

Rui Staats
Porto Alegre, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Amós 5.6-7, 10-15
2 de novembro de 2003

1. CONTEXTO HISTÓRICO
Amós foi profeta para Israel. Na ocasião, Jeroboão II era rei de Israel e
Uzias, rei de Judá. Amós profetizou em Betel, o principal centro israelita de
adoração de imagens. No reinado daqueles dois reis, os dois reinos estavam
no auge de sua prosperidade. Por isso, a menção, naquele momento, de
uma possível queda ou destruição do reino de Israel, era totalmente
improvável e quase absurda do ponto de vista humano. Caberia, portanto,
ao povo, se dobrar diante da palavra enviada pelo Senhor, ou se fazer surdo
a ela e continuar agindo a partir do que via, em vez de pôr atenção naquilo
que ouvia.

2. TEXTO
V. 6 : Vivei ... não meramente permanecer vivos, não perecer, porém
obter a posse da verdadeira vida. Deus pode ser buscado somente na
sua revelação, da maneira que ele deseja e determina. Isso explica o
não busqueis a Betel do versículo 5. A visita aos lugares sagrados do
passado não trazia o bem, pois os próprios lugares não escapariam da
destruição. Não buscar ao Senhor traz como conseqüência a manifes-
tação de sua ira. Betel, como o principal lugar de adoração, é citada em
lugar do reino em si, o qual é chamado casa de José, a partir de José,
pai de Efraim, a tribo mais poderosa naquele reino.
V. 7 : Este versículo retrata a iniqüidade do povo. O juízo convertido em
alosna, planta amarga, com líquido amargo para ser bebido. Trata-se de
um juízo amargo, maldoso, acompanhado do desdém pela justiça, deita-
da por terra. Parcialidade nos julgamentos e prática da injustiça de-
põem contra o povo de Deus, que, mesmo assim, pensa estar buscando
o Senhor.
V. 10 : O que repreende é aquele que levanta a voz contra a prática da
injustiça. O que fala sinceramente é aquele que apresenta o que é
certo e verdadeiro. Ambos sofrem por fazer isso. Não são aceitos pelo
povo. Quando se manifestam na porta são perseguidos e abominados.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
A expressão na porta descreve o local onde aconteciam as sessões
dos tribunais. Também lá, no portão da cidade, eram discutidas as coi-
sas públicas da comunidade.
Vv. 11 e 12 : Descrevem as ameaças de punição para a opressão e a injus-
tiça postas em prática. A exigência de tributo de trigo caracteriza a práti-
ca de extorsão por parte de quem julga. Como punição, vem a sentença
decretando que não haverá o desfrute das vantagens obtidas por meio do
proceder injusto. Além da aceitação de suborno, o necessitado é rejeitado
na porta. Desapareceu o amor ao próximo e o egoísmo tomou conta de
todos. É o fruto da separação de Deus. Não há, portanto, vida. Eis por
que a voz do profeta anuncia buscai ao Senhor e vivei (v. 6).
V. 13 : O prudente guardará silêncio. Em tempos maus o prudente se cala.
Todo o falar e o advertir são em vão. Mesmo assim, o amor pelo seu
povo e o zelo pela libertação da cegueira em que se encontra, levam o
Senhor a enviar seu profeta para falar.
V. 14 : Apenas em comunhão com Deus o homem tem vida. Israel esque-
ce isso. Pensa ser suficiente uma comunhão exterior tão somente, na
qualidade de povo da aliança e filhos de Abraão. Tem buscado o mal e
não encontrará a vida. Por isso é convidado a buscar o bem e este é
fruto da comunhão interior com o Senhor.
V. 15 : Descreve a ação que segue à comunhão com o Senhor. Intriga-nos
um pouco o talvez do texto. Ele não está pondo em dúvida a manifesta-
ção da misericórdia divina diante do arrependimento do povo. É verda-
de que a medida dos pecados de Israel está cheia e nenhum livramento
pode ser esperado se Deus agir de acordo com sua justiça. Por isso, o
talvez pode ser uma confissão de espera tão-somente na misericórdia
divina. Não é uma confiança que brote das boas ações do povo, contu-
do unicamente da manifestação graciosa do Senhor, graça essa que
não é desconhecida do povo.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1) O pensamento principal do texto parece não deixar dúvidas. Aponta
para a fonte da verdadeira vida: está no Senhor. É possível assim fazer
a ponte com o evangelho do dia, Mc 10.17-27 (28-30), o relato do en-
contro de Jesus com o jovem rico. Também para aquele jovem foi mos-
trada a fonte da verdadeira vida. Até o encontro com Jesus, julgava ele
que nas suas riquezas encontraria sempre a vida. Não sabemos o que
aconteceu com ele após ter se encontrado com o Salvador. Sua primei-
ra reação, todavia, foi de rejeição à vida, a qual já não lhe era mais
desconhecida, pois lhe havia sido revelada pelo Mestre.
2) Amós também fez ecoar a voz de Deus junto ao povo. Era um povo cujos
corações estavam afastados do Senhor. As evidências de tal afastamento
91
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
são descritas durante o texto. Ora, corações afastados do Senhor bus-
cam outras coisas. Por isso soou a voz de Deus, dizendo: Buscai ao
Senhor e vivei.
3) Deus, portanto, conhecia a situação em que o povo se encontrava.
Mesmo assim, contudo, foi oferecer socorro a eles. Há o chamado ao
arrependimento (vv. 6 e 14) e a mensagem revelando que as maldades
do povo não impedem o Senhor de procurá-los com a oferta de vida.
Fazendo a ponte para a nossa situação, os nossos pecados, embora
muitos, também não impedem a chegada do socorro de Deus para nós.
Isso é fantástico!
4) No Senhor está a vida, pois ele é a fonte da verdadeira vida. Quando os
corações estão unidos à vida, por meio da fé, os resultados aparecem,
como buscar o bem e não o mal (v. 14). É importante sempre lembrar
que a vida junto do Senhor produz os resultados e não o contrário, ou
seja, os resultados provocam vida com o Senhor. Recordando ainda o
episódio do jovem rico, o tesouro no céu que lhe foi oferecido não viria
em conseqüência de suas obras caridosas, mas por meio da confiança
em Jesus e sua palavra. A caridade seria prova, fruto, do coração unido
a Jesus.

4. SUGESTÃO DE TEMA
A revelação da verdadeira vida parece sugerir o desenvolvimento de
um bom tema para a mensagem. A ação desastrosa do povo de Deus, pois
na cegueira deles haviam perdido de vista a fonte da verdadeira vida, bem
como a ação misericordiosa do Senhor para libertá-los da escravidão da
cegueira, são os pontos de destaque emergentes do texto.
Estar materialmente em boa situação não significa necessariamente vida
em comunhão com o Senhor. Também o povo de Deus pode cair na
armadilha de achar que tudo que se busca na vida é uma situação material
razoável ou boa. Buscai ao Senhor e vivei continua sendo a mensagem
segura. E o Senhor não está longe, pelo contrário, toma a iniciativa de vir ao
povo, como o fez através do profeta Amós e o faz hoje pelos profetas
atuais.
Para concluir, um lembrete: embora seja necessário apontar para a ação
desastrosa do povo de Deus, que prevaleça na mensagem, com muita clareza,
a ação misericordiosa do Senhor, pois é ele quem liberta e dá a vida. Esta é
a verdade que ampara, conforta e enche de esperança todos os corações,
também os de hoje.

Paulo Moisés Nerbas


São Leopoldo, RS

92
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

ANTEPENÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO


Daniel 12.1-3
9 de novembro de 2003

1. CONTEXTO LITÚRGICO E HISTÓRICO


O ensino da escatologia (a doutrina das últimas coisas) está bem presente
nas leituras bíblicas e, conseqüentemente, na temática dos três últimos domingos
do ano eclesiástico. Sabendo que a fé cristã como um todo tem uma direção
escatológica, este período do ano é muito propício para a reflexão sobre a vida
cristã à luz das últimas coisas.
Neste antepenúltimo domingo do ano da Igreja, as leituras nos levam a
refletir a respeito dos tempos do fim. O Evangelho do dia, Marcos 13.1-13, traz
as palavras de Jesus acerca dos sinais dos tempos. É tempo de tribulação, diz
Jesus, mas igualmente tempo de salvação, pois é tempo da proclamação do
evangelho. No texto de Daniel também fica evidenciada a mensagem dinâmica
relacionada aos tempos do fim. Por um lado, é anúncio da lei de Deus, que
chama o mundo ao arrependimento. Por outro lado, a supremacia do evangelho
se manifesta na promessa da ressurreição e salvação.
O texto para a mensagem faz parte de uma unidade maior, iniciando em
10.1. Especialmente no capítulo 11, o texto traz profecias preditivas de Daniel
(na verdade, palavras do anjo a Daniel). Estas tratam do domínio dos persas
(11.2), de Alexandre o Grande (11.3) e dos reinos que vieram após sua morte,
especialmente aqueles mais diretamente relacionados à história do povo de
Deus, ou seja, Ptolomeus e Selêucidas (reino do sul e do norte – 11.5,6). O
ápice chega com Antíoco Epifânio IV (11.21), que invadiu Jerusalém e profanou
o templo (11.31). Este veio a tipificar o verdadeiro inimigo do povo de Deus, o
anticristo (11.36). A partir de 11.40 tem-se uma perspectiva inteiramente
escatológica, que fica evidenciada no texto do sermão. (Horace Hummel, The
Word Becoming Flesh, St Louis: Concordia, 1979, p. 594)

2. TEXTO
Mencionamos a seguir apenas alguns destaques do texto, um em cada
versículo. Antes disto, porém, vale observar que o texto em estudo é aludido por
Jesus em mais de uma ocasião: v. 1 – Mt 24.21,22; v. 2 – Jo 5.28,29; v. 3 – Mt
13.43.
93
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
No v. 1, a referência é feita a uma batalha. Esta é uma das formas que a
Escritura utiliza para retratar a redenção, como uma batalha cósmica. Nela Cristo,
o vencedor, derrota Satanás, o inimigo, em favor da humanidade (este quadro fica
especialmente evidente no livro de Apocalipse – nos capítulos 12 e 20, por exemplo).
A menção do “livro da vida” ressalta a salvação como obra de Deus, como algo
seguro e firme, que não se baseia em nossos atos e fidelidade, mas na graça de
Deus. Em meio às dificuldades dos tempos do fim, os crentes estão bem seguros.
Apesar de sofrerem perseguição, não estão desamparados (conforme o Senhor
deixa muito claro no texto que serve como Evangelho do dia).
O v. 2 traz uma das mais belas descrições do Antigo Testamento a respeito
da ressurreição dos mortos. Os “muitos” referem-se a “todos”, como mostra
Jesus em Jo 5.28. A ressurreição é geral e só dois destinos são colocados – vida
eterna, por um lado, e vergonha e horror eterno, por outro. A volta de Cristo
para o juízo não é apenas significativa para os que estiverem vivos na ocasião,
mas será o evento que precederá a ressurreição dos mortos. Estes, na verdade,
terão até uma certa precedência em relação aos que estiverem vivos, como
mostra Paulo (1 Ts 4.13-18).
No v. 3 a vida eterna é pintada de maneira especial. Os “sábios” são aqueles
que temem ao Senhor (cf. Pv 1.7), ou seja, que nele crêem e com Ele vivem já
neste mundo. Algo nestes sábios é característico – eles conduzem outros à
justiça. Por seu testemunho, em palavras e vida, levam outros a conhecer a
fonte da verdadeira justiça, Cristo.

3. SUGESTÃO HOMILÉTICA
O próprio texto é o melhor esboço para o sermão. Os três aspectos ressaltados
acima (tempo de angústia, mas de salvação e vitória – ressurreição – vida
eterna) podem servir como espinha dorsal da mensagem, e oportunizam ao
pregador utilizar também o texto do evangelho do dia nesta mensagem.
Especialmente a primeira parte encontra paralelo direto com as palavras de
Jesus em Mc 13.
Uma dica para o pregador é preparar o culto deste dia tendo em vista já os
dois próximos cultos. Como a temática destes três últimos domingos do ano
eclesiástico tem semelhanças – escatologia – é importante ter em mente, já no
primeiro deles, o enfoque que será dado em cada culto, a partir das leituras, e
que se refletirá na mensagem, hinos e orações. Com o risco de poder estar
simplificando demais, parece-nos que a ênfase neste domingo poderia ser os
tempos do fim, tribulação e promessa do amparo e salvação de Deus. Nos
domingos seguintes, a temática parece estar mais direcionada para a vinda de
Cristo com o conseqüente juízo final e o reinado de Cristo, que se manifesta de
maneira plena na sua vinda.
Gerson Luis Linden
São Leopoldo, RS

94
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PENÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO


Daniel 7.9-10
16 de novembro de 2003

1. CONTEXTO LITÚRGICO E HISTÓRICO


A época do ano eclesiástico proporciona a reflexão sobre temas da
escatologia (ver auxílio homilético do domingo anterior). Neste domingo, a
leitura do Evangelho nos convida a refletirmos sobre o fim do mundo, com
a volta de Cristo e os sinais que apontam para aqueles fatos.
O capítulo sete de Daniel inicia a segunda grande parte do livro, que traz
consigo um tom escatológico, com visões em lugar de narrativas. Neste
capítulo encontra-se a significativa apresentação do “Filho do homem”.
Deve-se ter em vista que esta era a autodesignação favorita de Jesus.
O texto do sermão faz parte de uma das visões de Daniel, a respeito de
quatro reinos, representados simbolicamente por quatro animais. Ao que
parece, o primeiro deles (v. 4) representa o reino da Babilônia; o segundo
(v. 5), a Medo-Pérsia; o terceiro (v. 6), a Grécia, com Alexandre o Grande;
o quarto e mais misterioso dos reinos (vv. 7,8), Roma, sendo que o chifre
que se sobressai no animal (vv. 8, 20, 21,24,25) pode ser uma representação
do anticristo, ou ao menos um poder humano associado ao anticristo. Notem-
se as semelhanças entre este último animal e o monstro que vem do mar,
em Ap 13 (o mar também é a origem dos quatro animais, na visão de Daniel
- Dn 7.3).

2. TEXTO
O texto em estudo mostra que apesar dos reinos poderosos e ímpios se
mostrarem em toda sua arrogância, o “Ancião de dias” é o Senhor dos
acontecimentos. A cena o mostra como rei e juiz. Nenhum reino da terra
pode afrontá-lo. A cena lembra Ap 4, onde Deus está no seu trono de
julgamento, sendo adorado por todos que o cercam.
Os tronos (v. 9) podem ser uma referência àqueles que estão ao lado de
Deus, como assessores no julgamento (cf. Ap 4.4; 20.4; 1 Co 6.3). Ainda
assim, o texto não fala de quem se sentaria neles, nem mesmo diz que há os
que nele se sentam. Afinal, a cena claramente chama a atenção para Aquele
que está no trono principal, em meio a chamas de fogo e que é o único Juiz.
95
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
O fogo, por sinal, manifesta a obra de juízo, tanto de condenar, mas também
de purificar.
Deus é retratado como “Ancião de dias”, uma designação usada somente
aqui neste capítulo. O juiz é eterno e tem acompanhado a história da
humanidade desde seu início. Seu julgamento não é feito de “ouvir falar”;
por isso é justo e absolutamente perfeito. A aparência da descrição de Deus
evoca santidade e glória. Curiosamente em Ap 1.14 é Cristo quem é descrito
de uma forma muito semelhante a esta, o que vem ressaltar a natureza
divina de Cristo, uma das ênfases da Cristologia no último livro da Bíblia.
As palavras finais do v. 10 vividamente trazem diante de nós a cena do
início do julgamento (como expresso na Nova Tradução na Linguagem
de Hoje). E então livros são abertos. O Antigo Testamento fala de um
livro do Senhor, no qual estão escritos os nomes daqueles que lhe pertencem
(cf. Êx 32.32; Sl 69.28; 139.16; Ml 3.16; cf. Ap 20.12 – livros abertos no
julgamento e o livro da vida). É importante ressaltar que o juízo final não é
diferente do juízo que já acontece na vida das pessoas. Assim, há uma
continuidade entre o que ocorre em nossa vida e o que acontecerá no juízo
definitivo. Estando em Cristo, pela fé, somos salvos da condenação (cf. Jo
3.18 – onde “ser julgado” é sinônimo de ser condenado; daí que o que crê
não é julgado!); o julgamento final passa a ser uma declaração pública de
nossa absolvição. Esta, porém, já nos é anunciada no evangelho e desfrutada
em nossa vida, ainda que em meio ao pecado e tribulações.
Uma das perguntas chave que poderiam ser feitas é: a que exatamente
a visão de Daniel se refere? A resposta parece, à primeira vista, bastante
simples: ao juízo final, com certeza. Não há como negar. No entanto, a
visão profética no Antigo Testamento muitas vezes trata dos eventos futuros
sob uma mesma perspectiva, mesmo quando há dois eventos distintos pela
frente (um exemplo é o que se vê em Jl 2.28-32, que numa mesma visão
fala tanto do que viria a acontecer no Dia de Pentecostes como o que há de
ocorrer no dia do juízo). Parece-nos, então, que é próprio dizer que também
o profeta Daniel, nesta visão, trata do evento futuro do juízo final, mas não
exclusivamente dele. O v. 12 mostra a continuidade do tempo, também
para os reinos do mundo, ainda que limitados no seu poder. Com o que vem
adiante, nos vv. 13,14, a cena se amplia para abranger também o fato ocorrido
no tempo, mas que mudou toda a situação da história da humanidade.
Referimo-nos à obra de Cristo, em sua encarnação e no redimir da
humanidade pela cruz. Incluída aqui está sua exaltação, com a ressurreição
e ascensão gloriosa para dominar sobre céus e terra, como Deus e homem,
em favor do seu povo, a Igreja (vv. 18,27; cf. Ap 20.1-6 – o tempo da
graça). A vitória de Cristo em sua obra da salvação antecipa o grande juízo
de Deus sobre a humanidade e redenção final dos crentes.

96
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Com base nisto, o texto de Daniel, ainda que se referindo ao fim dos
tempos, com o juízo final, é relevante para o tempo em que a Igreja está
vivendo hoje. Ainda que haja reinos que se julguem detentores do poder
sobre o mundo, o Deus Triúno é Senhor sobre o destino da humanidade. E
em Cristo, em sua obra da salvação, este destino é promissor para todos
quantos ouvem e crêem no evangelho.

3. SUGESTÃO HOMILÉTICA
A mensagem do julgamento, conforme descrita por Daniel, não pode ser
dissociada da palavra de Jesus, registrada no Evangelho do dia, de que na
sua vinda, “reunirá os seus escolhidos” (Mc 13.27). O julgamento final,
portanto, é mensagem de lei, que condena desde já o pecado e chama ao
arrependimento. Mas é evangelho, pois significa para os crentes a reunião
com o seu amado Senhor.

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

97
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

ÚLTIMO DOMINGO DO ANO ECLESIÁSTICO


Daniel 7.13-14
23 de novembro de 2003

1. CONTEXTO LITÚRGICO E HISTÓRICO


O texto da mensagem é parte da visão de Daniel sobre os quatro animais
(ver o auxílio homilético para o domingo anterior).
No que se refere ao contexto litúrgico, observa-se que há dois textos
sugeridos como Evangelho do dia. O primeiro deles, Mc 13.32-37, continua
o relato feito nos dois domingos anteriores, com o “sermão escatológico”
de Jesus. Sua ênfase está na imprevisibilidade do tempo da vinda de Cristo
para o julgamento e da necessidade de constante vigilância de nossa parte.
O outro texto é parte do diálogo entre Jesus e Pilatos (Jo 18.33-37). À
primeira vista parece não ter muito a dizer para este período do ano. No
entanto, ele evoca um dos nomes aplicados a este último domingo do ano
eclesiástico – “Cristo Rei”! A afirmação de que Jesus é rei, não um rei
deste mundo, encontra um paralelo em Dn 7.13,14 (que, por sinal, também
é texto alternativo para leitura do Antigo Testamento neste dia).

2. TEXTO
A exegese do texto em questão pode ser vista como um teste para a
visão hermenêutica do leitor (no caso, do pregador!). Considerado à luz do
Novo Testamento, o texto nos leva a perceber que a referência é feita a
Jesus, como ele próprio o declara (Mc 13.26; Mc 24.30; 26.64; cf.Ap 1.7).
A vinda nas nuvens, conforme descrita no texto e nas passagens do Novo
Testamento citadas, enfatiza sua glória e majestade divinas.
O texto traz uma imagem muito semelhante àquela descrita em Ap 5,
sobre o Cordeiro que se chega diante de Deus (que está no trono) e dele
recebe o livro do destino da humanidade e é aclamado como Senhor, digno
de receber honra e louvor, exatamente porque redimiu a humanidade com
seu sacrifício. A cena em Daniel pode ser vista como uma referência ao
retorno de Cristo para o juízo final. No entanto, à luz de Apocalipse 5, o
texto também se aplica à exaltação de Cristo, quando da consumação de
sua obra redentora. Não apenas no dia do juízo, mas desde sua ressurreição
e ascensão, Cristo tem o “domínio, glória e o reino”. Certamente isso ficará
98
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
demonstrado de maneira visível e completa no juízo final. Desde já, porém,
a Igreja celebra o reino de Cristo, que se manifesta de maneira graciosa no
evangelho, proclamado oralmente e através do batismo e da santa ceia.
Cristo será o Rei manifestado no dia do juízo (Mt 25.31,34). Não apenas lá,
mas já agora, celebrado no culto da igreja militante.
O texto é cristológico e acentua a glória do reino de Jesus exaltado. No
entanto, a Igreja tem participação neste reino, como mostra o texto mais
adiante (vv. 18,22,27). Isso se manifestará no dia do juízo, com a presença
dos crentes ao lado do Juiz (cf. Mt 19.28; 1 Co 6.2,3). Mas isto também se
aplica à vida do povo de Deus neste mundo. Tendo sido redimidos por
Cristo, somos chamados a viver em seu reino, em comunhão com Ele e
proclamando que Ele é Rei e Salvador (Ap 1.6; 1 Pe 2.9). O reino de Cristo
não se resume a um domínio geográfico. Ele se refere, sobretudo, a sua
ação de reinar, em sua graça, guiando e protegendo a Igreja, e movendo-a
a uma vida de serviço a Ele neste mundo.
O texto em estudo é significativo na forma como apresenta Cristo, em sua
vinda para assumir o reino sobre todo o mundo. Primeiro, ele é identificado
como “Filho do homem”. Esta designação, muito usada pelo próprio Jesus,
acentua sua verdadeira humanidade. E assim mostra que é o mesmo homem
Jesus, que morreu e ressuscitou, que virá para julgar os vivos e mortos. Além
disso, é uma forma de mostrar que ele é o Homem ou, como Paulo o diria, o
“segundo Adão” (1 Co 15.45). Nele a humanidade encontra seu destino
glorioso, através da redenção que Ele realiza. Segundo, Seu reino (domínio)
abrange a todos os homens. Sobre os crentes, seu reinado é reconhecido e
celebrado. No entanto, também os ímpios terão de reconhecer sua majestade
(cf. Fp 2.11; Ap 1.7). Terceiro, seu reino é eterno. Isto não apenas tem uma
dimensão de amplitude – este reino nunca acabará. As palavras do texto,
“jamais será destruído” lembra-nos que é reino perfeito, onde as coisas
acontecem em conformidade com a santidade e justiça de Deus.

3. SUGESTÃO HOMILÉTICA
Há diversos elementos que podem ser utilizados no sermão sobre a
pessoa e obra de Jesus, na sua vinda para assumir o reino: a vinda do reino
na encarnação e obra de redenção (pois ele é o “Filho do homem”) – um
reino de graça, perdão e vida; a vinda definitiva do reino, na segunda vinda
de Cristo, para a manifestação definitiva do seu reino; o privilégio que temos
de aguardar com alegre expectativa a vinda definitiva do reino, enquanto
usufruímos os seus sinais – palavra e sacramentos.

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

99
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PRIMEIRO DOMINGO NO ADVENTO


Romamos 13.10-14a
30 de novembro de 2003

1. CONTEXTO HISTÓRICO
Ao escrever Romanos, Paulo deve estar perto do final de sua terceira
viagem missionária, por volta do ano 57 d.C.. Corinto é o local mais provável
onde a carta foi escrita. Conforme informa Paulo em seu prólogo, ele está
dirigindo-se “a todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados
(justificação) para serdes santos (santificação)” (1.7 e 1.15). Estima-se
que, à época, viviam em Roma cerca de um milhão de pessoas, dos quais
30 a 60 mil eram judeus. Na igreja de Roma tinham surgido dificuldades de
natureza doutrinária e prática. Um dos propósitos de Paulo foi o de fazer
oposição aos judaizantes que atuavam na cidade de Roma, os quais sentiam
obrigação ante as leis cerimoniais, bem como ao conceito de salvação através
das obras. Embora contenha algum tom apologético, o que predomina na
carta é seu caráter didático, visando instruir os cristãos nas doutrinas básicas
da fé e sobre a prática da vida cristã piedosa (conduta moral dos cristãos
na sociedade).

2. CONTEXTO LITERÁRIO
A carta, em uma esquematização mais ampla, pode ser dividida em duas
partes: do cap. 1 ao 11, onde Paulo elabora a doutrina da salvação, mediante
a justificação pela fé em Cristo Jesus (F.F. Bruce dá a esta parte o título de
“o evangelho segundo Paulo”), e do cap. 12 ao 16, que trata do “modus
vivendi” do cristão, decorrente de sua fé em Cristo, prescrevendo diversos
deveres implícitos neste modo de vida. Nosso texto, portanto, encontra-se
dentro desta segunda parte, contendo uma exortação sobre os cuidados
que devemos ter em nosso viver, em vista da “crise escatológica”, ou seja,
da proximidade cada vez maior do juízo (visto, positivamente, como o “tempo
da salvação”).

3. ANÁLISE TEXTUAL
V. 10 : Plh,rwma ou=n no,mou = “cumprimento / plenitude da lei”.
Conforme Lutero, “cumprir a lei significa fazer suas obras amável e
100
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
espontaneamente... significa viver bem e de maneira que agrada a Deus...
É o Espírito Santo, entretanto, quem põe tal desejo ardente de amor dentro
do coração... Mas o Espírito é somente dado, com, e através da fé em
Jesus Cristo... A fé sozinha faz alguém justo e cumpre a lei... O Espírito,
oferece um coração alegre e espontâneo, como a lei demanda. Então as
boas obras procedem da fé em si mesma... nós a cumprimos (a lei) através
da fé.“ (Prefácio à Carta aos Romanos). Mesmo Paulo ressalta que “a lei
é espiritual” (7.14), e que o amor – avga,ph – que é o cumprimento da lei, é
obra da fé, pois “a fé atua pelo amor” (Gl 5.6).
V. 11: eivdo,tej to.n kairo,n = “conheceis o tempo”. Paulo pressupõe que
o cristão deva conhecer os dias em que está vivendo, estando apercebido
de que este tempo, pelos seus sinais, evidencia a proximidade do juízo final.
Em vista disto o cristão age no mundo, “remindo o tempo por que os dias
são maus” (Ef 5.16), isto é, aproveitando bem este tempo para consagrar
sua vida a Deus no exercício da sua missão: salvar almas.
V. 11 : o[ti w[ra h;dh = “(de modo que) agora/já é a hora / ocasião”. O
tempo presente em que estamos vivendo é uma “ocasião oportuna”, um
”momento que não pode ser desperdiçado”.
V. 11 : u[pnou = “sono”. Paulo está falando aqui do “sono espiritual”,
que, segundo Lutero, é “o sono no qual está sumido o espírito quando anda
em pecado e se entrega ao ócio” (Comentário à Carta de Romanos). Lutero
também diz que a necessidade de despertar deste sono se aplica aqui “aos
cristãos que são fracos em seu atuar, e que sentindo-se seguros, passam a
vida dormindo placidamente, quando o que Deus quer é que sigamos seu
caminho com muito cuidado.”(cf. Mq 6.8). Os que não manifestam
“vigilância espiritual”, são os que “começam, mas não avançam; tem
aparência de piedade, mas não a demonstram de fato; com o corpo saem
do Egito, mas com o coração regressam a ele”.
V. 11: swthri,a = “salvação”. O sentido aqui é o da consumação
futura. O cristão vive a expectativa do “dia da vinda de Cristo” com alegria
e não com medo, pois para ele este é “dia de redenção” (Cf. Lc 21.28).
V. 12: ta. e;rga tou/ sko,touj ... ta. o[pla tou/ fwto,j = “obras das
trevas... armas da luz”. O uso de antíteses é comum em Paulo: noite... dia,
trevas...luz, despir-se... vestir (revestir-se). As obras das trevas, os pecados,
que não devem ser praticados, dentre outros, são descritos no v.13: orgias
(kw,moij = banquetes, comilanças; o sentido é o de festas e reuniões que
vão até altas horas da noite em que se pratica a licenciosidade e o mau
comportamento), bebedices (me,qaij = embriaguez, bebedeiras), impudicícias
(koi,taij = relações sexuais, no caso, ilícitas), dissoluções (avselgei,aij =
sensualidade, libertinagens; viver entregue aos prazeres carnais), contendas
(e;ridi = brigas, que causam divisões, separações), ciúmes (zh,lw| = inveja).
Deixando de lado tudo isso, o cristão é convidado a “vestir-se” com as
101
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
“armas da luz”, que são descritas em Ef 6.13-18 como sendo defensivas (a
verdade, a justiça e a fé) e ofensiva (a palavra de Deus).

4. CONTEXTO LITÚRGICO
Estamos iniciando o período de advento, um novo ano da igreja. A ocasião
é oportuna para lembrar que cada novo ano é um sinal de que a parusia está
cada vez mais próxima. Será que chegaremos ao fim deste ano? Como
estamos vivendo nossa fé? Assim, o tempo de advento é um convite para
pensarmos na missão inadiável da igreja e de como estamos pessoalmente
envolvidos nela. As leituras deste domingo, neste contexto ressaltam: Sl
25 – A VIGILÂNCIA ESPIRITUAL: devemos “esperar (no SENHOR)
todo dia” (v.5), o que implica “conhecer seus caminhos (v.4) e guiar-se na
sua verdade”(v.5); Is 62 – A PROXIMIDADE DA SALVAÇÃO: “Eis
que vem o teu Salvador; vem com ele a sua recompensa” (v.11), o que nos
lembra da nossa missão de, à semelhança de João Batista, “preparar o
caminho ao povo” (v.10); Lc 19 – A ALEGRIA DA SALVAÇÃO: à
semelhança da entrada triunfal em Jerusalém, na parusia haveremos de
juntar nossas vozes com a multidão de discípulos e louvar o Rei pelos seus
“milagres”, por sua salvação. (v.37s)

5. SUGESTÃO HOMILÉTICA

Tema: É CHEGADA A HORA...


I – De acordarmos para Deus (v.11)
II – De aproveitar esta chance de salvação (v.11)
III – De deixar de lado as obras das trevas (v.12)
IV – De viver um novo estilo de vida (v.13)

Outra sugestão seria:

Tema: A NOSSA SALVAÇÃO SE APROXIMA (por isso)


I – Sejamos vigilantes (modus vivendi)
1) despertando do sono espiritual (11)
2) abandonando as obras das trevas (12)

II – Sejamos atuantes (modus faciendi)


1) revestindo-nos das armas da luz (12)
2) praticando as obras da fé - amor (10)

Egomar Edílson Scheffler


Tupãssi, PR
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEGUNDO DOMINGO NO ADVENTO


Hebreus 12.25-29
7 de dezembro de 2003

NOTAS INTRODUTÓRIAS
A ênfase em Hebreus é a absoluta supremacia da pessoa e obra de
Jesus Cristo. Se existe um livro que expõe claramente que as pessoas e
cerimônias do Antigo Testamento eram apenas sombra de algo definitivo, a
pessoa e obra de Cristo, esse livro é Hebreus.
Os capítulos 11 e 12 constituem um apelo para se preservar na fé e na
confissão dessa nova aliança. Esse estímulo pode ser dividido em quatro
partes: os exemplos de fé do passado (Hb 11), o encorajamento (Hb 12.1-
11), as exortações (Hb 12.12-17) e finalmente a motivação para ficar firme
na fé e no temor a Deus (Hb 12.18-29).

O TEXTO
V. 25: O autor de Hebreus motiva seus leitores a permanecerem fiéis a
Cristo com um imperativo presente. “Abram o olho” e continuem a
abri-lo! Não sejam cegos nem surdos às palavras de Cristo. Ele á últi-
ma palavra de Deus (Hb 1.1-2) e ultrapassa a manifestação do Sinai,
pois essa é do céu. Revelação superior, responsabilidade maior (Hb
2.2-4). Aí está o amargo desse versículo. O doce é que nós somos os
privilegiados recipientes da mais alta revelação de Deus em seu Filho
Jesus, quem agora nos dirige o Evangelho.
V. 26: Essa é uma referência a Ag 2.6, 21. Originalmente as palavras
proféticas de Ageu foram proclamadas em meio a perturbações e ins-
tabilidades políticas e religiosas, logo após o retorno do cativeiro
babilônico. Seu conteúdo visava despertar a comunidade a permanecer
firme e animada diante das adversidades na reconstrução do templo.
Além disso, essas palavras sinalizavam para a aproximação da realiza-
ção messiânica. Assim, a idéia é encorajar à firmeza de fé em meio às
incertezas contemporâneas e apontar para a teofania final com a volta
de Cristo (Mc 13.19-27).
V. 27: Aqui fica claro o significado da composição “ainda uma vez”. Essa
será a intervenção final de Deus e que resultará num novo regime. A
103
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
instabilidade atual é passageira e dará lugar ao que é eterno e inabalá-
vel (O Reino, v. 28).
V. 28: Agora vem a conclusão e a aplicação prática dessa realidade. O
favor gracioso de Deus torna possível a presença antecipada do que não
se abala. Isto faz Deus insistir no estímulo a guardar e a reter essa graça.
Como não há forma de imperativo para a 1.ª pessoa, ele o faz usando o
subjuntivo presente, de modo que todos os cristãos, recebendo o Reino
(particípio presente ativo), sejam animados a viver sua vida como uma
liturgia que agrade a Deus (Rm 12.1), com reverência e temor.
V. 29: Tudo indica que o autor “copiou” Dt 4.24, a fim de encaixá-lo como
conclusão desse assunto. No contexto original essas palavras serviram
de ânimo para que o povo permaneça fiel a Deus. Justamente o grande
objetivo dessa parte de Hebreus. O fogo que consome é para os apóstatas.
Deus exerce seu juízo para com aqueles que, desmotivados, não se fir-
mam na fé, com a revelação superior de Deus: o Evangelho de Cristo.

CONSIDERAÇÕES HOMILÉTICAS
É natural que nesse período litúrgico, junto com Mc 13.19-27, acabe se
enfatizando o juízo final como foco principal de nossa pregação. Isto é
próprio e necessário.
Porém, a minha consideração é que não precisamos necessariamente
empurrar só para o final de nossa vida a poderosa ação de Deus, tanto o
juízo como a salvação. Podemos explorar isto em nosso dia a dia. Assim
como estamos recebendo, mas ainda não completamente, o Reino de Deus,
também já somos recipientes tanto de sua ação disciplinadora como de
afago. É verdade que estar vigilante para o final significa estar preparado
para qualquer hora, mas nunca é demais alertar em nossas pregações que
o doce e o amargo do final já vêm em pequenas doses no decorrer de nossa
vida. Vigiar para permanecer firme e motivado na fé é preciso sempre,
para o já e para o ainda não (Ap 3.3).

SUGESTÃO PARA A PREGAÇÃO


Na esfera humana a base do sucesso e que diferencia os vitoriosos dos
fracassados pode ser a motivação. Gilcler Regina diz que a motivação dá a
consistência necessária para a construção de nossos propósitos,
transformando nossos sonhos em realidade.1 O grande objetivo do autor de
Hebreus me parece que foi fazer o povo de Deus ser vitorioso na esfera
espiritual. E seu expediente foi motivá-los a continuarem firmes na fé, apesar
das adversidades. Esse é o nosso desafio agora: que o Espírito de Deus
motive a nós e nossos ouvintes através de nosso estudo e palavras a
permanecermos fiéis a Cristo.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
A PREGAÇÃO DA LEI E DO EVANGELHO
Desde a Reforma, a nossa igreja tem se notabilizado pelo cuidado em
manejar bem a Palavra de Deus. Separar atenciosamente a Lei do
Evangelho. Nesse pressuposto me parece que há algumas coisas que podem
ser aperfeiçoadas, especialmente em relação ao produto final, os sermões.
Primeiro, distinguir Lei do Evangelho não significa tornar a Lei como um
inimigo do cristão, como se sua pregação se configure automaticamente
em legalismo. A Lei é Palavra de Deus e assim ela é boa e necessária para
todos. Eu penso que a proclamação da Lei também possui um salutar caráter
preventivo, no sentido de treinar o povo de Deus a assimilar e discernir o
certo do errado.
Segundo, distinguir Lei do Evangelho não significa necessariamente pregar
Lei então Evangelho, um costume enraizado em grande parte de nossos
pastores, fruto, talvez, da própria formação homilética de nossos seminários.
Nesse aspecto quero me valer de um artigo2 de David Schmitt. Ele busca
provar que o modelo “Lei então Evangelho” não reflete a tradição homilética
luterana. Para ele Walther e Caemmerer focalizavam a centralidade e a
força persuasiva do sermão na Palavra de Deus e não na distinção da Lei
do Evangelho. É óbvio que ambos defendem a correta distinção entre Lei e
Evangelho, mas não colocam o efeito do sermão nesse expediente. Segundo
Schmitt, tanto para Walther como para Caemmerer, a marca de um sermão
adequado é alternar constantemente Lei e Evangelho. Contudo, é interessante
observar que nessa alternância é o Evangelho que deve predominar.

Anselmo Graff
Barra do Garças, MT

1 Gilcler Regina, A Arte de saber Viver, Editora Gente, 2000, p. 137.


2 David Schmitt, Freedom of Form: Law/Gospel and Sermon Structure in Contemporary
Lutheran Proclamation. Concordia Journal, 1999, pp.42-55.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO


Romanos 15.4-13
14 de dezembro de 2003

CONTEXTO
A carta aos Romanos é o olhar de Paulo para o ocidente, já que sua
pretensão é a de fazer de Roma a sua base para sua incursão à Espanha. Sua
ambição como apóstolo é anunciar o evangelho, não onde Cristo já fora
anunciado, “para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15.20). A carta
aos Romanos dá a entender que a Igreja da capital do império já existia por
algum tempo. At 2.10 dá a entender que muitos romanos presenciaram o
Pentecostes, podendo, portanto, ter sido os fundadores daquela congregação.
Outros defendem que a maioria era composta de judeus, o que faz Paulo
argumentar tão veementemente em favor da graça universal (Rm 2 e 3). A
fé dos cristãos já é divulgada “em todo o mundo”(1.8); sua obediência é
conhecida de todos (16.19); por muito tempo Paulo deseja ir ter com eles
(15.23). Mesmo que Paulo não tenha desenvolvido esse tema diretamente
na carta, podemos dizer que a carta surgiu da ansiosa preocupação de Paulo
pela urgência na pregação do evangelho, diante da iminente vinda de Cristo
(16.20). Poderíamos concluir daí que, para que Roma pudesse ser uma boa
congregação base para o trabalho a ser desenvolvido mais ao ocidente, ela
precisava conhecer bem a doutrina da salvação (ensino bem detalhado em
Rm), a universalidade da graça de Deus e as promessas de Deus, cumpridas
em Cristo e as que ainda serão ( ou seriam) cumpridas por Cristo. Conhecer
bem significa viver essa fé na prática.
Martin H. Franzmann, em seu livro Carta aos Romanos, coloca a
perícope dentro do trecho que vai de 12.1 a 15.13, sob o título: O Evangelho
cria, para o novo povo de Deus, um novo culto.
O Novo comentário da Bíblia insere o texto na parte que vai de 12.1-
15.13 sob o tópico: o cristianismo na prática. A Bíblia de Estudo Almeida
dá a essa mesma seção o título: Exortações: A justificação pela fé aplicada
à nova vida.

TEXTO
V.4: “Tudo quanto” (o[sa) - Paulo alude aqui às Escrituras do AT, assim
106
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
como ele argumenta com as mesmas em 1 Co 10.11. Junte-se a estes
argumentos ainda Jo 5.39 e vemos que, para os cristãos do NT, toda a
Escritura Sagrada é fonte do Espírito Santo para ensino, paciência e
consolação (4.13).
“Paciência” (u`pomonh/j) - Constância, perseverança, fortaleza. “Paciência”
não é pálida virtude negativa, mas a estabilidade positiva de um Atlas que
tanto suporta como carrega seu peso com responsabilidade. Segundo Thayer,
paciência é “o característico de um homem que é inabalável no seu propósito
deliberado e de sua lealdade à fé e piedade, não sendo desviado pelas maiores
provações e sofrimentos”. Em Paulo é uma qualidade que se requer dos
homens, para que suas vidas sejam agradáveis a Deus (Rm 2.7). É interessante
a ligação que Paulo faz entre paciência e esperança (ver Rm 5.3-5, onde
Almeida traduz por perseverança; também 8.25). O propósito das Escrituras
é promover u`pomonnh,, que reflete o próprio caráter de Deus (“ora o Deus da
paciência...” v.5). Em 1 Co, Paulo a liga ao amor, que “tudo suporta” (1 Co
13.7). As epístolas pastorais requerem a paciência dos obreiros cristãos e,
em Hebreus, ela é contraposta à apostasia (DITNT). Paciência, poderíamos
assim dizer, é a maturidade que se adquire no estudo das Escrituras e que nos
ajuda a entender as vicissitudes desta vida e a suportá-las.
“Consolação” (paraklh, s ewj) - Exortação, consolação, “discurso
persuasivo e animado – instrutivo, admoestador, consolador, poderosamente
instrutivo” (Thayer). O próprio vocábulo nos lembra do “Parácleto”, o
Consolador. Pela Escritura temos contato com o Deus que é paciente e
consolador e que nos transmite o que lhe é próprio, a saber, paciência e
consolação.
Vv.5 e 6 : Ter “o mesmo sentir” e pensar “concordemente” não significa
simplesmente uma unanimidade em todas as opiniões, mas ter um obje-
tivo comum, ter o mesmo Deus, a mesma esperança, o mesmo amor,
cujo exemplo temos em Cristo (kata. Cristo.n VIhsou/n). Isto nos leva a
um culto agradável a Deus, não fragmentado, dividido, mas uníssono.
V. 7: Se inserimos nosso texto no contexto anterior, vemos que Paulo,
desde 14.1, está falando de fortes e débeis na fé. Aos fortes ele reco-
menda, primeiro que suportem os fracos e, segundo, que os acolham.
Acolhimento aqui nos dá a idéia de não-discriminação. Se levarmos em
conta que Paulo queria preparar Roma como sua base de missão para
a Espanha, provavelmente temia que houvesse rejeição desse propósi-
to, especialmente entre judeus cristãos. Por isso, cita, em primeiro
lugar o exemplo de Cristo, que acolheu a todos, para em seguida tam-
bém citar as Escrituras ( vv. 9-12), onde os gentios também se alegram
na esperança e na misericórdia de Deus. Ele diz aos Romanos que,
assim como eles receberam e se alegram com a graça de Deus, assim
também Deus reservou essa alegria aos não judeus.
107
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
APLICAÇÕES HOMILÉTICAS

Fonte Meios Finalidade

Ensino Esperança
Escrituras Paciência Concórdia
Consolação Acolhimento
Espírito Santo Culto
Alegria
Poder do Espírito Santo

Paz

A unidade, característica de uma congregação bem ensinada, não é fruto


de mero esforço humano, nem de mero planejamento de trabalho
congregacional, mas de um profundo respeito pela Palavra e o seu estudo.
Quando o Deus da paciência e da consolação toma conta da vida das pessoas,
o resultado é esperança (v.4), unidade (v.5), louvor (v.6), acolhimento (v.7),
alegria, paz, fé e poder do Espírito Santo (v.13).
Os versículos 9-13 mostram que não estamos desvinculados da
humanidade, mas somos chamados a ser os meios pelos quais a Palavra de
Deus ( as Escrituras, “tudo o que foi escrito”) seja levada aos “gentios”.
O Evangelho para este Domingo mostra João Batista preparando as
pessoas para o advento do Cristo, “a Palavra encarnada”. João Batista,
considerado por Jesus o maior dos profetas entre os nascidos de mulher,
não somente se alegrou com a vinda de Cristo, mas preparou o povo, para
que também se alegrassem com a sua vinda. Nós também somos chamados
para sermos “voz que clama no deserto”, anunciando a Palavra de Deus
que se tornou carne a habitou entre nós.
Nesta época somos confrontados com a preocupação exagerada pelo
preparo para os festejos natalinos. Preocupações gentias, mundanas e sem
sentido, se olharmos para o sentido cristão do Natal. Os presentes não
representam o Natal, nem a “festa” em si. Precisamos voltar para a Palavra.
Nela encontramos a fonte do ensino, da paciência, da consolação de Deus
para um verdadeiro sentido da vinda de Cristo a nós.

SUGESTÃO DE TEMA E/OU PROPOSTA HOMILÉTICA


O texto em si é um arranjo bem colocado para uma mensagem que
precisa enfatizar a permanência do cristão na Palavra de Deus e os seus
efeitos na vida prática. Se quiser enfatizar algum ponto em particular, poderá

108
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
ser a unidade, o acolhimento, a preocupação com todos ou, mais relacionado
com o advento, a esperança.

Duas sugestões de tema e partes:

A Palavra de Deus é perfeita


I: Ela nos ensina
II: Ela nos consola
III: Ela nos dá paciência

Deus vem a nós pela sua Palavra


I: Para nos dar esperança
II: para repartirmos esperança

A primeira sugestão enfatiza mais os efeitos da Palavra de Deus em


nós. Parece que dá a idéia da Palavra para consumo próprio, interno. Mas
é importante ressaltar que o aprender significa aplicar. A segunda sugestão
nos traz a dimensão evangelística de sermos portadores das boas novas de
Deus. As duas sugestões levam em conta que, no Natal, Deus vem a nós,
em Palavra (promessa) e ação. Também nos mostra a universalidade da
graça divina, cuja mensagem é “para todo o povo”. Esperança é uma Palavra
que nos liga à eternidade e nos mostra não só a vinda de Cristo no Natal,
mas a sua vinda diária pela Palavra e também traz o seu sentido escatológico.
Nesse sentido podemos explorar o sentido também da palavra “paciência”
(Rm 8.24,25).

Albino A. Nerling
Medianeira, PR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUARTO DOMINGO NO ADVENTO


Filipenses 4.4-7 (8-9)
21 de dezembro de 2003

CONTEXTO
Alegria é uma das marcas da carta do apóstolo Paulo aos filipenses.
Mesmo num mundo hostil e diante de adversidades e provações, o povo de
Deus é alegre. Os problemas, as perseguições e tentações não podem
destruir a alegria.
O apóstolo encontra-se na prisão (1.7,13). As ameaças de morte são
reais, mas ele não desespera. Entende que sua situação contribui para o
progresso do evangelho (1.12). A certeza da vitória, em Cristo, tanto na
vida como na morte, traz alegria ao seu coração. A expectativa da pátria
celestial (3.20-21) o consola e encoraja. Ele é um homem experiente na
vida em comunhão com Cristo, o que lhe dá condições de afirmar: “aprendi
a viver contente em toda e qualquer situação” (4.11).
Paulo fala em “alegria no Senhor” (3.1 e 4.4); mas também da alegria
com os irmãos e por causa dos irmãos (1.4, 2.2 e 4.1) e, finalmente, estimula
os irmãos a serem alegres no Senhor.
“Alegrai-vos no Senhor” aparece pela primeira vez em 3.1. Na seqüência
do capítulo 3, o apóstolo mostra que o “alegra-se no Senhor” está
intimamente ligado com a “sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus”
(3.8). Conhecer Cristo e seu grande amor, confiar nele e não nos próprios
méritos, traz alegria. Viver unido com Cristo proporciona alegria.
O desejo de Paulo é que os filipenses tenham esta alegria no Senhor,
mesmo perseguidos ou hostilizados pelo mundo. Ele quer ajudá-los a progredir
e a ter alegria na fé (1.25).
Mas a epístola também destaca a alegria do apóstolo com os irmãos e
por causa dos irmãos. Ter irmãos na fé, estar com eles, ser confortado e
socorrido por eles, é motivo de grande alegria. Podemos ver isto em 1.3-5;
2.2; 2.28; 4.1; 4.10.
Finalmente, Paulo estimula estes irmãos a se alegrarem sempre no
Senhor. Ele ora que Deus lhes dê muita alegria. Que eles andem na
companhia do Senhor. Que não se deixem amedrontar pelos inimigos e
adversários, lembrando que a pátria do povo de Deus está nos céus (Fp

110
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
3.20). Afinal, alegria também é uma marca na vida do povo de Deus, que
serve a Deus.
Especificamente no cap. 4, onde estão as palavras do texto base, Paulo
pede que Evódia e Sínteque façam as pazes. O desentendimento, a briga e
a inveja espantam a alegria e prejudicam o serviço do povo de Deus (v.2).
É momento de todos, unidos, cooperarem no serviço a favor do evangelho.
Seus outros dois pedidos são: “seja a vossa moderação conhecida de todos
os homens”(v.5) e “não andeis ansiosos” (v.6).

TEXTO
V.4 : “estar alegre”, “alegrar-se” ocorre 74 vezes no NT e “alegria” apa-
rece 59 vezes. No livro de filipenses, aparece 14 vezes. A chave para
entendermos a exortação do apóstolo está na palavra “no Senhor”. A fé
dos filipenses “no Senhor” torna a alegria real, mesmo em tempo de
dificuldades e perseguições. Bonnard, em seu comentário, afirma que
“os apelos de Paulo à alegria nunca são meros encorajamentos; eles
atiram as igrejas desanimadas de volta ao seu Senhor; estes apelos são,
acima de tudo, apelos à fé”.
V.5 : “moderação” é uma disposição amável e honesta para com outras
pessoas. A capacidade de suportar injustiças sem ódio ou maldade, con-
fiando em Deus. É como se o apóstolo dissesse: sejam benignos, não
fiquem irritados ou ansiosos demais. O Senhor vai defender vossa cau-
sa – perto está o Senhor. Em 1.29 Paulo lembra que aos cristãos tam-
bém “foi concedida a graça de padecer por Cristo, e não somente de
crer nele”.
V. 6 : A palavra principal deste versículo é “ansiedade, cuidado” ou “pre-
ocupar-se, ser ansioso”. Pode significar “cuidado” no sentido de medo
ansioso, como também “cuidar de”, de algo ou alguém. Em 2 Co 1.28,
por exemplo, Paulo diz que é sua tarefa cuidar da igreja. Aqui, no v.6, o
apóstolo exorta os filipenses a que não andem ansiosos. Que não fi-
quem sobrecarregados de preocupações por causa das provações e
das ameaças do mundo, porque “perto está o Senhor” (v.5).
O inverso de andar ansioso é viver em comunhão com Cristo, viver
unido com Cristo, podendo apresentar diante dele todas as orações e súplicas,
porque “perto está o Senhor” (v.5). Esta certeza da presença e companhia
de Cristo aqui no mundo, bem como a certeza da pátria celestial, alegram e
encorajam a vida do povo de Deus e dissipam a ansiedade.
E as súplicas sempre subirão ao trono celestial acompanhadas de ações
de graça. Na ação de graças lembramos das misericórdias de Deus no
passado, algo bem distinto da preocupação ansiosa pelo futuro. Quem olha
para o passado e dá graças a Deus, também olhará mais confiante para o
futuro.
111
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
V.7 : tenho a impressão de que “a paz de Deus” contrasta com a “ansieda-
de humana”. A paz de Deus pode mais do que a ansiedade humana,
pode mais do que todo o esforço humano. A paz de Deus tem uma
implicação do poder salvador e preservador de Deus. O verbo “guarda-
rá” é um termo militar, representando os soldados em guarda. O verbo
demonstra que o apóstolo está pensando na segurança da igreja e de
seus membros, num ambiente hostil, cercada de inimigos. Portanto, a
paz de Deus é de tal ordem que ela faz mais do que os pensamentos
humanos podem planejar ou executar.
E esta guarda, esta defesa estão “em Cristo”. No corpo de Cristo, unidos
com Cristo, estamos seguros, aqui no mundo, bem como na pátria celestial.
Nesta certeza o apóstolo pode dizer: “porquanto, para mim o viver é Cristo
e o morrer é lucro” (1.21). E se a perseguição levar à morte, o Senhor
Jesus “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo
de sua glória” (3.21).
Sem dúvida, a alegria do povo de Deus se renova neste período de
Advento. A vinda de Cristo no Natal também faz os cristãos olhar para a
volta do Salvador no último e glorioso dia, quando todos os inimigos e
adversários serão colocados debaixo dos seus pés e os salvos reinarão
eternamente com Ele.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Alegrai-vos sempre no Senhor

1. Não fiquem sobrecarregados de preocupações e ansiedades


2. Peçam a ajuda do Senhor
3. A paz de Deus é maior do que a ansiedade e esforço humano.

Reinaldo Lüdke
Porto Alegre, RS

112
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DIA DE NATAL
Hebreus 1.1-6
25 de dezembro de 2003

CONTEXTO
Hebreus não menciona as pessoas às quais se dirige. Pelo teor e
conteúdo da carta, certamente dirige-se aos judeus, pois o livro discute a
relação entre Cristo e o sacerdócio levítico e os sacrifícios do templo. Cita
continuamente o Antigo Testamento em abono para suas afirmações. A
opinião tradicional é que foi dirigida aos cristãos judeus da Palestina,
especialmente em Jerusalém.
Nos manuscritos mais antigos não aparece o autor da carta. Apesar de
uma série de autores serem invocados ao longo da história, a opinião
tradicional largamente admitida ainda é da autoria Paulina. Escrita da Itália,
antes da destruição de Jerusalém, no ano 70.d. C, conta com presença de
Timóteo, amigo e aluno de Paulo, que aparece ao lado do autor.
O propósito da carta é preparar os cristãos judeus para a queda de
Jerusalém e conseqüentes efeitos no culto e sacrifícios do templo. Também
explica que os sacrifícios de animais não têm mais utilidade, pois nunca
tiveram o objetivo de ser perpétuos, pois o plano era fazê-los como figura,
tipo do sacrifício vindouro de Cristo, e agora que Cristo já viera estava
cumprida a finalidade deles e haviam passado para sempre.

TEXTO
Hb 1.1-6 é uma das mais magníficas passagens da Bíblia, comparada às
sentenças iniciais de Gênesis e do Evangelho de João. Jesus é apresentado
em sua divindade, sua glória, exaltado acima de todas as ordens de seres
criados. Por um ato misericordioso e eterno de Deus, Jesus, uma vez para
sempre, fez a purificação do pecado do homem e lhe trouxe salvação eterna.
O ensinamento principal é que Cristo é o cumprimento de todo o ritual
do Antigo Testamento. A revelação do Filho é vista não apenas como
superior, mas também definitiva. O autor se refere a algo do passado que
tem aplicação no presente. Chama a atenção como Deus tem falado: muitas
vezes e de muitas maneiras!
E antes de identificar o Filho como sendo Jesus Cristo, o autor dá
113
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
descrição profunda do Filho, porque nos conta aquilo que ele é, não sua
aparência. Deus constituiu seu Filho, o que é um ato de iniciativa pessoal
de Deus, herdeiro de todas as coisas. E quando o autor fala das coisas
criadas, note-se que não usa a palavra “kosmos” , mas sim “aiones”, porque
essa palavra inclui períodos de tempo através dos quais a ordem criada
existe.
Em seguida, o autor mergulha no relacionamento entre Cristo e Deus.
Em resumo, três coisas nos são ditas: 1) que Ele é o resplendor da glória de
Deus; 2) Ele é a expressão exata do seu ser, isto é, aquele que reflete a
glória de Deus, compartilha da sua natureza. Notar que a palavra grega
para “expressão exata” (charakter) é a palavra para um carimbo ou
gravação. Aqui se reflete semelhança do Filho com o Pai, como um carimbo
que expressa na folha exatamente a figura que ele representa. E 3) nos é
dito que ele sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder. Da
mesma maneira que a Palavra criou, ela também nos sustenta.
Após o cumprimento de sua missão, a purificação dos pecados, o Filho
sobe ao trono. Vai assentar-se à direita do Pai, o Todo-Poderoso. Isto
reflete uma prática corrente entre os reis orientais, cuja direita ficava
reservada para o herdeiro no exercício do poder. Mesmo assim, é relevante
recordar que a idéia do Messias à direita de Deus tem sua origem no salmo
110.1.
Depois de mencionar todos os atos de Deus através de seu Filho, o
autor ainda reforça a verdade de que o Filho é superior aos anjos. É
compreensível, num período que os anjos eram tidos em alta estima pelo
povo, que o autor desejou demonstrar que Deus agora falou através de
seu Filho de uma maneira muito mais eficaz do que através deles. Os anjos
são considerados seres sobrenaturais e reais, os evangelistas constantemente
mencionam a presença deles, a atuação e as mensagens que transmitem
aos homens. Mas aqui no texto, o autor procura demonstrar a superioridade
de Cristo diante destes mensageiros celestiais. Pois na verdade o autor
quer demonstrar que o Filho deveria tornar-se homem verdadeiro, a fim de
ser eficaz como sumo sacerdote em benefício da humanidade, função esta
que nenhum anjo poderia cumprir.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
O pregador poderá preparar diversas mensagens, com enfoques
diferentes e sem ferir a essência da mensagem, tendo alternativas para se
evitar que em todos os Natais ele venha a pregar o mesmo sermão.
Questões como o papel dos anjos na vida do cristão, como mensageiros
de Deus; a centralidade da obra de Deus em Cristo; a superioridade de
Cristo sobre os anjos e sobre os seres criados; a questão de Jesus estar

114
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
assentado à direita do Pai; o papel dos sacrifícios que apontam para Cristo
mas que já passaram são assuntos que podem ser abordados, tendo em
vista o interesse das pessoas hoje em conhecer os anjos e pelo interesse
cada vez maior das pessoas em investir no espiritual(!).

SUGESTÕES DE TEMA E PARTES


Tendo como pano de fundo o Evangelho de Lucas, capítulo 2, pode-se
elencar uma série de sugestões com tema e partes para sermões de Natal,
que serão altamente proveitosos para este período tão singelo e bonito do
calendário da igreja:

1. Tema: Natal - Mensagem de Salvação


I. Anunciada pelos anjos
II. Cumprida pelo Filho de Deus

2. O verdadeiro Natal
I. Não é para os anjos - que anunciam o Salvador
II. Não é para o Filho - que vem para salvar
III. É para os seres humanos - que ouvem e aceitam

3. Jesus nasceu
I. Para nos purificar de nossos pecados
II. Para cumprir a obra da salvação

4. O Salvador deste Natal


I. Brilha com o brilho da glória de Deus
II. É perfeita semelhança de Deus
III. Purifica os homens de seus pecados
IV. Sobe ao trono e assenta-se à direita de Deus

5. Em quem temos a salvação?


I. Não nos anjos de Deus - pois são mensageiros de Deus
II. Apenas em Cristo - Ele é superior aos anjos, Ele é o Filho de Deus

6. O que é o Natal com Jesus?


I. É o Natal da purificação dos nossos pecados
II. É o Natal do Filho que brilha com a glória do Pai
III. É o Natal das pessoas que ouvem e aceitam a salvação de Jesus

Walter José Mormello


Esteio, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PRIMEIRO DOMINGO APÓS O NATAL


1 Coríntios 1.18-25
4 de janeiro de 2004

1. TEXTO

V.18 - ~O lo,goj )))tou/ staurou/ ð= to. euvagge,lion (Rm 1.16).ð NTLH traduz:
“A mensagem da morte de Cristo na cruz”.
toi/j me.n avpollume,noij = particípio presente passivo de avpo,llumi =
“destruir, arruinar, matar, perecer”. Na voz méd. e pass., é “ser perdido,
perecer, morrer, ser arruinado”. (Léxico do NT Grego/Português. Ed.
Vida Nova, 1984) O tempo presente exprime uma ação em andamento, um
fato que está se realizando. No contexto, dá idéia de algo que pode tomar
um outro rumo. NTLH : ”os que estão se perdendo”. Seu destino é “a
perdição” (Fp 3.19), caso não haja arrependimento!
Há um agudo contraste com toi/j de. sw|zome,noij = particípio presente
passivo de sw|zw = no modo passivo = ser salvo. NTLH: “que estamos
sendo salvos”. Exprime, do mesmo modo, uma ação que está ocorrendo e
é sofrida pelo sujeito. Infelizmente, pode mudar, caso o indivíduo caia da
fé. Razão para o alerta está em 1Co 10.12; 1Pe 5.8.
Os que estão se perdendo sofrem esse destino devido à sua reação
contra a “palavra da cruz”. Um Messias morto numa cruz lhes parece
escândalo (ska,ndalon), no caso dos judeus, e loucura (mwri,a), no caso dos
defensores da cultura grega, conhecida pela sua desenvolvida sabedoria
(sofi,a).

V. 19 : Paulo cita Is 29.14, conforme a Septuaginta. A perdição daqueles


que são contra a cruz de Cristo se deve ao fato de que, no Dia do
Senhor, a sabedoria em que se fundamentam será destruída. Tanto a
inteligência mental (sofi,a) como o hábil discernimento crítico (su,nesij),
por mais que sejam dons do Criador, não são aceitos por Deus como
meios de se obter uma elevação ao nível do Divino.
V.20 : Paulo pergunta onde estão o sábio (sofo,j; erudito, perito), o escriba
(grammateu,j; perito na Lei) e o inquiridor ou debatedor deste século
(suzhthth.j tou/ aivw/noj tou,tou). Sua linguagem é retórica, ou seja, ele
116
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
espera uma resposta negativa. Aquilo que é valorizado pelos homens,
não conta para a salvação. Nem o legalismo judeu, nem a cultura
grega; somente a palavra da cruz.
Em contraste com a era por vir a ser revelada em Cristo, no Dia do
Senhor, “este século” descreve o estado de coisas sem Deus, isto é, pessoas
que são escravizadas por diabo, mundo e a própria carne, mortas em delitos
e pecados ( Ef 2.1,2). A locução “este século” qualifica o debatedor ou
inquiridor, destacando a sua natureza transitória ou passageira. Assim é a
sabedoria humana: ela passa com este século, com o ko,smoj.€ Pois, Deus
a tornou louca (evmw,ranen).

V.21 : Há, no entanto, uma sofi,a que salva. Ela é absoluta e também é
poder de Deus. Sobrepuja e aniquila toda sabedoria humana. Ela se
revela na loucura da cruz. Então, salva ao que crê. A confiança na
mensagem do Evangelho, centralizado na obra de Cristo na cruz, é o
que salva.
Paulo usa aqui o termo kh,rugma, proclamação, pregação. O destaque,
pelo contexto, não é apenas o anúncio público, mas o que é anunciado, o
conteúdo da mensagem evangélica - a palavra da cruz. Esta é a “loucura”
que salva ao que nela confia (crê).

Vv.22,23 : Aqui aparece a palavra shmei/on = sinal, ou marca distintiva


pela qual alguma coisa é reconhecida, um milagre ou maravilha; neste
caso, esperava-se, de origem divina. Os judeus queriam provas, fatos
concretos que os levassem a aceitar a mensagem (cf. Mt 12.28; 16.1;
Mc 8.11,12; Jo 6.30). Somente alguém que manifestasse poder e ma-
jestade de forma extraordinária poderia ser o Messias de Deus. A cruz,
portanto, para eles, desqualifica Jesus. Ela se torna um ska,ndalon -
aquilo que ofende ou causa repulsa. (Conferir 1Pe 2.8, onde Jesus é
considerado “pedra de escândalo” para os judeus, a pedra que os faz
cair. O ceticismo impede de chegar a Deus.
Para os gregos, as especulações filosóficas do saber natural, alheias a
Deus, são motivo de jactância. Algo inferior à sua supremacia do saber,
como o Cristo da cruz, nada mais pode ser do que loucura. O orgulho do
intelectualismo é empecilho ao Evangelho da graça de Deus em Cristo.

Vv. 24,25 : “Os que foram chamados” - Ver Rm 1.6: “chamados para
pertencer a Jesus Cristo”; 1Co 1.1: “chamados para serdes santos”. A
conversão do incrédulo pecador para ser de Cristo e nele confiar como
Salvador é um ato do chamamento de Deus. Deus converte. O ser
humano apenas pode resistir. Dizer sim ao Evangelho pressupõe a
ação anterior do poder de Deus presente no próprio Evangelho (a men-
117
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
sagem da morte de Cristo na cruz). Paulo, por isso, faz um trocadilho
mostrando que a “loucura” de Deus é “mais sábia” que a sabedoria dos
homens. Pois aquilo que eles não alcançam, nem podem alcançar, pelo
exercício da sua própria sabedoria, por considerarem loucura as coisas
de Deus. Deus opera neles, mediante a fé, “pela loucura de Deus”
Assim, “os judeus, que buscavam sinais, estavam cegos para o signifi-
cado do maior sinal de todos, quando ele esteve diante deles. Os
gregos, amantes da sabedoria, não puderam discernir a mais profunda
sabedoria de todas, quando foram confrontados com ela.” (MORRIS,
Leon. I Coríntios: Introdução e Comentário. SP, Mundo Cristão.
1981. p.38).

2. DICA HOMILÉTICA
Em contraponto com o Evangelho do dia: Simeão é exemplo daquele a
quem Deus “chamou”, isto é, guiou pelo Espírito Santo a compreender as
Escrituras e saudar o menino Jesus como o Messias. Seria menor escândalo
ou loucura uma criança nos braços de um carpinteiro, do que um adulto na
cruz, ser o Salvador de judeus e gentios, portanto, da humanidade? Simeão,
mesmo sendo judeu, não pediu nenhum sinal para crer. Somente a ação
poderosa do Evangelho pelo qual Deus age com o Espírito Santo, pode
levar alguém a confessar sua fé em Jesus Cristo criança, ou morto na cruz,
como o Salvador. O enfoque é importante: Natal sem a Sexta-feira da
Paixão não tem sentido algum!
Contrapondo a epístola e o Evangelho do dia, temos o Evangelho, a boa-
nova no seu todo. A criança levada ao templo, saudada por Simeão como
“luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel” (Lc
2.32), cumpre sua missão quando se torna o “sabedoria”, “poder”, “loucura”
e “escândalo” de Deus na cruz. Assim, Deus continua chamando a muitos
pela ação do Espírito, mediante a “loucura” da pregação do Evangelho, da
mensagem da morte de Cristo na cruz, para salvar ao que crê. Ali está o
poder de Deus.

TEMA
Cristo na cruz – a loucura que salva

O pregador tem oportunidade de questionar as meditações


transcendentais e os programas de auto-ajuda fundamentados no esforço
mental e intelectual do indivíduo, como meios de atingir o “nível divino”.
Pode, inclusive, citar como exemplo as “manifestações de poder e
maravilhas” (sinais) propagados por grupos ou indivíduos neo-pentecostais

118
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
na TV ou em templo para “provar” que o poder de Deus está presente.
Da mesma forma, combater quaisquer resquícios de sinergismo, visto que
Deus é quem chama à fé pelo Evangelho de Cristo na cruz.
Por outro lado, observamos a universalidade do Evangelho, pelo fato
que ele é para o judeu e o gentio, isto é, para todos os que estão sendo
salvos mediante a fé em Jesus Cristo. Esta universalidade se percebe tanto
na epístola como em Lc 2.25-38. Cristo para todos!

Rudi Thoma
São Bernardo do Campo, SP

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA


1 Coríntios 1.26-31
11 de janeiro de 2004

1. CONTEXTO
A Epifania nos leva a ver que Jesus é Salvador de todos, também dos gentios,
como lembramos na Festa dos Magos. Estamos no primeiro domingo de Epifania
e a perícope sugerida enfatiza bem essa idéia do Cristo para Todos.
Ao mesmo tempo lembramos o Batismo de Jesus nesse dia, conforme o
evangelho de Mt 3. 13-17. Ao submeter-se ao Batismo, Jesus também mostra
a sua importância e necessidade. O nosso Batismo é o momento em que
Deus opera o que diz a perícope em estudo: nos chama, nos escolhe para si.
Deus, através do apóstolo Paulo, querendo afirmar a unidade da igreja
(objetivo dos capítulos 1 a 4 ), acrescenta esta perícope mostrando que a
unidade vem por causa de Cristo e de sua escolha a cada um de nós. A
escolha não é feita pela própria pessoa, nem pela sua sabedoria, poder,
riqueza, etc.
É importante também mencionarmos a estrutura social de Corinto, para
compreendermos o texto. Todos os níveis sociais podiam ser percebidos lá,
desde os mais inferiores – que eram maioria, até os mais superiores.

2. TEXTO
V.26: klh/sij = chamada, convocação, convite. Esse termo refere-se a ação
de Deus que nos chama para sermos seus seguidores. Ele nos escolhe,
não por sermos sábios de acordo com a carne, isto é, por causa da sabe-
doria adquirida conforme a habilidade humana. Também não por sermos
nobres (ou “bem-nascidos”). Este versículo vai contra o pensamento hu-
mano, que coloca como padrão para as diferentes escolhas o ter e não
mais o ser. Já na estrutura social de Corinto isso era perceptível.
V. 27 : Deus escolhe para si as coisas que os padrões do mundo consideram
coisas loucas. Deus escolhe as coisas inexpressivas do mundo. Deus age
assim para envergonhar. Deus “reduz a nada, os sábios e poderosos, ao
passo que escolhe para si aquilo que é estulto e fraco no mundo, i.é, dá-lhe
categoria e valor. Por meio da cruz de Cristo, a glória e a vergonha passa-
ram por um intercâmbio de valores” ( DITNT, Vol. 4, p. 739).
120
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
V.28 : Este versículo reforça a idéia que vem sendo abordada, com outros
termos. Deus escolhe os não de nobre nascimento, isto é, humildes,
insignificantes. Ele escolhe os desprezados, considerados como nada.
O particípio perfeito passivo (evxouqenhme,na) indica a continuidade ou o
estado do ser desprezado. Continua sendo desprezado aos olhos do
mundo, mas é escolhido de Deus. Tudo o que parece ser grande aos
olhos do mundo, Deus reduz a nada em seu plano de salvação. Sua
ação dá novo sentido a tudo. Indica a “remoção e substituição, da parte
de Deus, daquilo que é passageiro, para deixar lugar para as coisas
melhores e permanentes” ( DITNT, Vol. 1, p. 81).
V. 30 : Somos dele, de Deus, em Cristo Jesus, o qual se tornou, para nós,
sabedoria: A união com Cristo torna sábio. Alguns autores afirmam que
as três expressões que seguem são explicação da verdadeira sabedoria.

Dikaiosu,nh – justiça, justificação. O estado de estar inocente perante


Deus. Aqui está claro mais uma vez a mensagem da justificação pela fé:
“Cristo Jesus se tornou para nós a justiça”.
a giasmo,j - Santificação. Aparece também em Rm. 6.19 e 1Tm. 2.15.
av p olu, t rwsij - Redenção, libertação, graças ao pagamento de um
resgate.

3. APLICAÇÃO HOMILÉTICA
a) Mostrar aos ouvintes que a escolha de Deus para que as pessoas lhe
pertençam é muito diferente dos padrões humanos de escolha;
b) Uma vez que é Deus quem escolhe, chama e transforma, todos são
tornados iguais. Nenhum é mais ou melhor que o outro.

4. PROPOSTA HOMILÉTICA
Tema: A verdadeira sabedoria.
A . Procede de Deus
a) Deus chama, não pelos padrões humanos de escolha: sabedoria,
riqueza e nobreza.
b) Deus chama todos os inexpressivos ( por causa do pecado), os
loucos, os desprezados.
B. É ser tornado
a) Justo
b) Santo
c) Redimido

Aurélio Leandro Dall’Onder


Cerro Branco, RS

121
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Tiago 1. 17-18
18 de janeiro de 2004

1. CONTEXTO
Tiago escreve uma carta geral, não se dirigindo a uma igreja específica,
porém a um público específico - cristãos judeus, que se encontram na
diáspora.
À primeira vista, o tema desta epístola, comparado com a carta aos
Romanos, parece contradizer o que a Escritura tem a dizer em sua mensagem
de reconciliação cristocêntrica. Entretanto, convém lembrar que “quando
somos confrontados pelo legalismo é preciso ouvir Paulo. Mas, quando
confrontados com o quietismo é preciso ouvir Tiago.” (Carson, D. A.
Introdução ao Novo Testamento, p.465) E isto precisa ser uma constante
na vida dos cristãos.
Os versículos 17 e 18 são a porta de entrada para que haja uma correta
interpretação de Tiago. Assim podemos perceber a perfeita harmonia entre
a carta de Tiago e a salvação pela graça mediante a fé. Uma fé viva que
vem de Deus, e por isso fé ativa no amor.
Lemos este texto no 2º Domingo após Epifania. Nesta época do ano
eclesiástico lembramos a revelação de Deus às nações. No texto em estudo,
Deus revela-se a fonte de toda a boa dádiva.

2. ALGUMAS REFLEXÕES
Uma vez que Tiago enfatiza as obras, os versículos 16-18 são de extrema
importância para mostrar a fonte de toda a boa obra, para que não caiamos
na armadilha da auto justiça.

V.16 : O apóstolo inicia sua exposição sobre a origem do bem dizendo:


“não vos enganeis”. Plana/sqe (pres. imperat. méd. ou pass. de plana,w)
pode também ser traduzido por “não se deixem enganar, iludir, ou des-
viar”. Não se deixem desviar por pressões externas (falsos profetas,
perseguição, ensinos de ilusão, cf. Tg 1.12), nem por desejo interno
(religião natural, cf. Tg 1.13-15; Rm 7.18). O apóstolo admoesta a
todos a não se desviarem da verdade, a qual conduz à vida; a não
122
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
seguirem o seu caminho errado, que dá origem ao pecado e conduz à
morte (cf. 5.19).
V.17 : pa/sa do,sij avgaqh, – “Toda dádiva boa”. A afirmação é que 100%
(pa/sa), e não apenas parte, das boas dádivas vêm do alto. As dádivas
são boas (avgaqh,), não falhas, capengas, mas completas, plenas. São
dádivas em seu todo, 100% dádivas. Livres de barganha. E por isso,
em sua essência, efetivamente dádivas, vindas de Deus. É o contraste
com os versículos 12-15. Jesus afirma isto ao jovem rico: “Bom só
existe um, que é Deus.” (Mt 19.18, Lc 18.19).

Isto nos leva a afirmar que Tiago está se referindo a algo mais sublime
do que uma simples generosidade ou caridade que possa brotar de um coração
humano sem Jesus, sem o Espírito Santo (Lc 11.13). Muita caridade e
generosidade em nosso mundo pode ser, diante de Deus, apenas egoísmo
em ação. O pecado gerando a morte (v.15). As tragédias e problemas de
nossa vida não são obra de Deus, mas conseqüência da nossa natureza
pecaminosa (12-15). Também nestas circunstâncias, Deus age com boas
dádivas: dá paciência, humildade, esperança, sabedoria, o suportar da
tentação/provação.
Dw,rhma (te,leioj) – “dom, presente (perfeito)”. Este termo aparece
apenas aqui e em Rm 5.16. No contexto de Rm 5, o dom é a ação compassiva
e misericordiosa de Deus, uma vez que as obras se apresentam sem valor
para a justificação do morto espiritualmente. É a abundância da graça de
Deus, uma vez que a condenação derivou de uma só ofensa, mas a obra
salvífica transcorre de muitas ofensas. Desta forma, dôrema está
intimamente relacionado com o xárisma (Rm 5.15), o xáritos (Rm 5.17) de
Deus, que faz nascer de novo, frutificando abundantemente (cf. Tiago
apresenta em sua Epístola como um todo).
O texto de Rm 9.11 nos lembra que os juízos da religião natural são a partir
de ergon (de obras, feitos), um balanço entre agatos (“bem”) e phaulos (“mal”).
Como se Deus fosse aceitar a justiça do “saldo positivo” conquistado por nós
próprios. Mas a Escritura Sagrada diz que se tropeçamos em um só ponto, nos
tornamos culpado de todos. E assim, o texto de Romanos nos apresenta que
não é por ergon que possamos realizar, mas por meio do que chama, do que faz
nascer de novo (Deus), que temos justiça. (Isto vemos no v.18.)
“Descendo do Pai das luzes” – Deus é o Pai cósmico, criador de tudo.
Por exemplo, até o sol, indispensável para que haja vida na terra, é criado e
mantido por Deus, doador de toda boa dádiva.
“Em quem não pode existir variação ou sobra de mudança.” – Deus é
imutável. Ontem, hoje e sempre é o mesmo (lema da IELB para o biênio
de 2003/2004 - Hb 13.8). Não somente o fato é negado, mas toda e qualquer
possibilidade de mudança.
123
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Aqui temos uma ponte com a leitura do Evangelho. Nas bodas de Caná,
Jesus revela-se o Messias de todas as nações, o Deus de todas as boas
dádivas, a fim de levar as pessoas à fé salvadora. É o primeiro “sinal” de
muitos que apontam para a obra redentora, através do qual Deus oferece o
novo nascimento a todo pecador. São os sinais que revelam o Messias.
A origem do bem acontece através da ação de Deus. Sejam bênçãos
vindas diretamente das mãos de Deus, ou realizadas através do cristão,
numa fé ativa no amor. A maior dádiva está expressa no v. 18.

V.18 : boulhqei,j – (Part. aor. pass. de bou,lomai; querer, estar disposto) A


tradução pode ser: “porque quis” (causal) ou “querendo” (temporal).
Deus, porque quis, nos gerou pela Palavra da verdade. Assim é a von-
tade divina, soberana e sujeita a nada.

Avpeku,hsen – (Aor. Ind. at. de avpokue,w) “dar à luz, gerar, fazer nascer”.
Este termo aparece somente no v.18 e v.15. No v.15 o pecado é o que faz
nascer a morte. No v.18, temos Deus, porque quis, fazendo nascer vida,
fazendo nascer de novo. Não há nada em nós que possa nos dar a vida.
Deus precisa fazer nascer de novo. O personagem bíblico Nicodemos, diante
desta realidade apresentada pelo próprio Cristo, pergunta: “Como posso
nascer de novo?” A resposta de Jesus vem: “quem não nascer da água e do
Espírito não pode entrar no reino dos céus... E do modo por que Moisés
levantou a serpente no deserto, assim também importa que o Filho do homem
seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” Este é o
nascer, é a maior dádiva perfeita que Deus tem para nos dar.
“Nos gerou pela Palavra da verdade” – Este nascer que Deus faz
acontecer é por meio da Palavra da verdade. Por isto o apóstolo inicia o
texto em estudo dizendo: “não se deixem desviar” “não se deixem enganar”,
seja por pressões externas ou internas. A Palavra da verdade é o Evangelho
da salvação (1 Pe 1.23), uma Palavra viva e eficaz (Hb 4.12). É o único
nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (At
4.12). A Palavra encarnada, que age entre as nações. A Palavra que limpa
e faz produzir (Jo 15), e este é o contexto da Epístola de Tiago, uma fé viva
e atuante, porém recebida, não conquistada.
“Para que fôssemos primícias das suas criaturas.” – São eles os
seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos
dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro (Ap 14.4). Estes
são o sal da terra, a luz do mundo. Os mensageiros de Deus, que não
podem deixar de falar do que têm visto e ouvido (At 4.20). Um falar a
exemplo do Salvador. Um falar que é sinônimo de ação, uma vez que fé
sem obras é morta.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
3. MENSAGEM
Objetivo: Mostrar aos ouvintes que necessitamos e temos um Deus que
nos faz nascer de novo, pela Palavra da Verdade, para a vida frutífera, uma
vez que o pecado nos gera para a morte.
Moléstia: Nossa religiosidade natural insiste em nos fazer nascer para a
autojustiça que nos leva à morte. Por outro lado, insistimos em vivermos
uma graça barata, como se fé salvadora não devesse frutificar.
Meio: Deus, compassivo e porque quer, nos fez, faz e fará nascer pela
Palavra da Verdade.
Tema: Deus quer nos fazer nascer para a vida!

Jonas N. Glienke
Lajeado, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA


1 Coríntios 9.19-27
24 de janeiro de 2004

1. CONTEXTO LITÚRGICO/IISTÓRICO
Estamos no tempo da manifestação ou apresentação (epifania) de Jesus.
A epístola deste domingo mostra como o apóstolo Paulo agia para apresentar
Jesus ao maior número possível de pessoas (v. 22b). Em 1Co, Paulo trata
de vários assuntos e problemas na igreja de Corinto, como divisões,
imoralidade e abusos na Santa Ceia, revelando seu coração de pastor e
aplicando-lhes o evangelho da graça de Deus. Entre dois capítulos (8 e 10)
que tratam da adoração a ídolos e a liberdade cristã, Paulo escreve sobre
seus direitos e deveres como apóstolo; é aqui que está inserido nosso texto.

2. TEXTO (EXEGESE):
V. 19 : kerdéso: vencer, conquistar = levar ou trazer a Cristo (NTLH – a
fim de ganhar para Cristo).
V. 21 : ánomos: sem lei, i.é, não sujeito à lei do AT (= gentios). Paulo se
adaptava à cultura não-judia até onde podia sem violar a lei de Deus e
os ensinos de Cristo.
V. 22 : astenésin: fracos na fé, de consciência fraca. Paulo não usava sua
liberdade cristã em coisas como comer carne sacrificada a ídolos (cf.
cap. 8).
V. 23 : synkoinovós: co-participante, aquele que compartilha. Almeida
Revista e Atualizada traz “me tornar cooperador com ele”; NTLH e
NIV trazem “tomar parte nas suas bênçãos”, i.é, a bênção de pregar o
evangelho fielmente e de ver outros vir a Cristo pela fé.
V. 24 : Brabeion: prêmio (coroa de flores + fama) terrenal e passageiro.
V. 25 : enkrateuetai: dominar-se, ter autocontrole (esporte = treinar com
disciplina). Ftartós e aftartós stéfanon: a coroa humana passa e pe-
rece, a divina permanece e é esta que buscamos. Por isso Paulo se
esforça para cumprir a tarefa de pregar o evangelho – para que muitos
sejam salvos.
V. 26: ouk adélos: não sem rumo – “eu corro para um alvo certo”. Ouk
aéra déron: não golpeio o ar – “eu luto com golpes certeiros”.
126
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
V. 27 : ypopiázo: bater duramente; doulagogõ: escravizar. Os dois ver-
bos enfatizam a disciplina de Paulo e sua luta para ser fiel ao chamado
de Deus para pregar o evangelho.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
O texto pode ser dividido em duas partes:

Vv. 19-23: Aqui se destaca a flexibilidade e adaptabilidade do apóstolo a


grupos diferentes de pessoas para pregar-lhes o evangelho no seu con-
texto e ao seu “nível”, sem no entanto ferir os princípios cristãos. É o
uso responsável da liberdade cristã a fim de levar a Cristo o máximo
possível de pessoas (ex. de adaptação de Paulo – At 17, Paulo em
Atenas).
Vv. 24-27: Usando exemplos do esporte (corrida e boxe), Paulo muda o
foco para a disciplina da vida cristã. O cristão, a exemplo de Paulo,
deve ter constante vigilância sobre seu corpo (com seus desejos e incli-
nações impuras = velho homem), para que este não abuse da liberdade
cristã e não o faça desviar-se do alvo – a vida eterna. A disciplina nos
faz andar no caminho correto e ser fiéis ao chamado particular do Se-
nhor a cada cristão. Tudo isso motivados pelo prêmio imperecível con-
quistado por Cristo para nós – a salvação.
Ligando o texto ao evangelho do dia (Mt 20.1-16), vemos que com a
parábola dos trabalhadores na vinha Jesus deixa claro que o “salário” ou
prêmio oferecido por Deus é para todos, independendo do momento da vida
em que a pessoa é chamada à fé e ao reino de Cristo. Deus está sempre
chamando todos para sua vinha através de servos como Paulo, que fazia
“de tudo para com todos a fim de salvar alguns”. Assim a epístola e o
evangelho nos mostram que o amor de Deus é para todos – ontem, hoje e
sempre, independente de idade, raça ou cultura. Lembrando também que
no esporte apenas um vence, mas em Seu reino, Deus quer que todos
ganhem o prêmio da salvação.
Analisando também a atual situação da Igreja Evangélica Luterana do
Brasil (IELB), com seus 100 anos e ainda “crescendo” no mesmo nível da
população brasileira, perguntamos: quantos cristãos da IELB têm essa
consciência que Paulo nos mostra nos v. 24-27, e em que nível? Não é a
falta de disciplina e compromisso de milhares de luteranos com o evangelho
a causa de sermos uma igreja que quer levar Cristo para todos, mas na
prática o faz muito pouco (mais de 40 membros são necessários para
conseguir um novo membro!)? Infelizmente se vê que o lema de muitos
luteranos é diferente do de Paulo: “faço de tudo para salvar a mim mesmo
de compromissos, trabalho e ofertas”. É um contraste com o ensino de
Paulo no texto, que podemos explorar na pregação como lei – quão longe
127
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
estamos, muitas vezes, como pastores, membros e igreja, do ideal de vida
cristã que Paulo nos propõe!

4. TEMA E PROPOSTA HOMILÉTICA


Dentre muitas possibilidades, sugerimos 4 temas para mensagens sobre
o texto.

I. O cristão faz tudo por causa do evangelho. (para quê?)


a. Para, de todas as formas possíveis, ganhar pessoas para Cristo.
b. Para, cooperando com o evangelho, ter a bênção de ver pessoas
recebendo a salvação.

II. O cristão corre firme em direção ao prêmio eterno. (como?)


a. Vivendo com dedicação a Cristo, sob sua lei de amor.
b. Chamando outros a entrarem na corrida que dá a coroa da vida.

III. Vivemos motivados pelo prêmio da salvação de Cristo.


a. Levando Cristo a todos que podemos.
b. Tendo vida consagrada no compromisso com o evangelho.

IV. Corremos firmes em direção à meta.


a. Mostrando a todos que o prêmio é para eles também.
b. Sendo fiéis ao chamado de Deus a nós.

Leandro D. Hübner
Dionísio Cerqueira, SC

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUARTO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Hebreus 4.12-13
1 de fevereiro de 2004

1. BREVE ANÁLISE DO TEXTO


V.12: Zw/n : Este particípio presente ativo lembra que a palavra permanece
ativa. Ela não foi ou será; ela é ativa, viva, produtiva.
tou/ qeou/ : Genitivo ou ablativo? Ambas particularizam a Palavra
tornando-a única: a palavra que vem (tem sua origem em) de Deus e/ou a
palavra que pertence a Deus. Ver 1Pe 1.23
tomw,teroj )))) ma,cairan di,stomon - A espada de dois gumes aparece
também saindo da boca de Jesus, a Palavra (Jo 1), em Ap 1.16, e carrega a
característica de ser muito afiada. Cf. Ap 2.12; 19.15.
merismou/ yuch/j kai. pneu,matoj - A preocupação não é com a dicotomia
ou tricotomia (ou uma análise antropológica do ser humano). A força está
no ato de dividir; a ênfase está no poder da Palavra, apontando para o
contexto anterior da desobediência (falta de fé) à essa Palavra (4.2). O
juramento de Deus (4.3) (sua Palavra) é vivo, produtivo, e produz descanso
aos crentes ou ira aos descrentes. Não há maneiras de esconder a
desobediência, a queda (4.13) diante desse poder tão agudo, cortante, que
chega aos lugares mais difíceis e é capaz/hábil de julgar (kritiko,j) o
pensamento, a atitude, e o sentimento.
V. 13 : avfanh/j evnw,pion auvtou/ - Diante da palavra de Deus tudo está
descoberto, nu, às claras. Novamente há o reforço da idéia do poder
perscrutador da palavra que é eficaz, denotando a onisciência de Deus.
pro.j o]n h mi/n o lo,goj - Há a possibilidade de várias traduções como
‘com quem temos de tratar’ (RC), ‘com quem temos um assunto’. Mas ‘a
quem temos de prestar conta’ é a mais usada nas versões em português
(RA, BJ, NTLH, Edição Pastoral Paulinas), bem como nas seguintes versões
em língua inglesa: NIV e KJV; e ainda nas versões em espanhol Reina-
Valera e Dios Habla Hoy.

2. APLICAÇÃO HOMILÉTICA – LEI E EVANGELHO


É preciso o exame dos versículos imediatamente antecedentes bem como
os posteriores para uma saudável aplicação de lei e evangelho. A relação
129
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
proposta é entre a palavra anunciada aos israelitas no deserto (e sua falta de
fé – v. 2) e o repouso oferecido por Deus. Essa mesma palavra que revela
boas novas, também tem poder de julgar o íntimo do coração (Jo 8.48). A
falta de fé de parte do povo de Israel no deserto resultou em perda do descanso
(vv.5,6). A palavra não lhes trouxe proveito (v.2 – cf. Lc 8.12-14).
Diante da palavra não há como alguém se esconder. Cada pessoa ‘prestará
contas’ diante de Deus. Como permanecer firme na confissão de fé se essa
palavra sonda todas as nossas intenções e conhece todas as nossas fraquezas?
Hoje (cf. v.7) ‘resta um repouso para o povo de Deus’ (v.1,9); o contexto
imediatamente posterior (vv.14-16) traz a resposta, o evangelho: através do
Sumo Sacerdote Jesus. “Tendo” Jesus, “achegando-nos ao trono da graça”.
A resposta é a misericórdia (v.16), o socorro advindo da própria Palavra
Viva, Jesus, que conhece as tentações pelas quais passamos pois as venceu
todas. Por isso a importância de retê-la (Lc 8.15).

3. SUGESTÃO DE TEMA

Nus diante da Palavra

1. Em uma situação de vergonha


A. Pois todas as intenções pecaminosas são reveladas, expostas.
B. Diante da prestação de contas do que recebemos.

2. Para sermos vestidos


A. Pela justiça do sumo sacerdote Jesus.
B. Cobertos pela graça e socorridos.

Fernando Henrique Huff


Recife, PE

130
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Romanos 1.16-17
8 de fevereiro de 2004

CONTEXTO
Epifania – manifestação de Cristo ao mundo como verdadeiro Deus.
Paulo escreve para cristãos dentre judeus e gentios, manifestando Cristo
no Evangelho. – Cristo para Todos (judeus, gentios, mundo… nós), ontem,
hoje e sempre (por meio da palavra – do Evangelho).
O texto apresenta o tema da carta e introduz à primeira sessão (1.18-
4.25): o evangelho como revelação da justiça de Deus, vivenciada mediante
a fé.

TEXTO
O objetivo de Paulo é deixar claro que a justiça de Deus se revela no
Evangelho, o qual é o poder de Deus para salvação mediante a fé. Logo,
este também deve ser o nosso objetivo aqui.
“Evangelho” – está sendo usado no sentido restrito, o que não abrange
a Lei. É o Evangelho que salva o que crê. Paulo está falando da dádiva de
Deus ao mundo e da fé.
Paulo declara que tanto ao judeu quanto ao grego é necessário o
Evangelho do poder de Deus, para que, crendo, sejam salvos. Ele apresenta
os judeus, zelosos em praticar a justiça, detentores da lei, que se empenham
dia e noite para chegar à salvação, que vivem de maneira irrepreensível,
como necessitados do poder de Deus para serem salvos. Isso demonstra
que também eles estão sob ira e condenação. O mesmo é aplicado aos
gregos, chamados de “sábios” entre os homens. Paulo fala dos mais notáveis
do mundo – judeus e gregos – os melhores no tocante ao cumprimento da
lei, da justiça, da sabedoria e todas as virtudes, e os coloca debaixo da ira
de Deus, declarando que não há – nem entre os melhores, nem entre “o que
há de mais excelente” nos seres humanos – alguém não sujeito à ira de
Deus.
Lembremos ainda que o versículo 16 e 17 são o tema da carta, introdução
para o que segue. No versículo 18, no desenvolvimento do assunto, Paulo
declara que todos os seres humanos são dignos do castigo e da ira por
131
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
fazerem somente o que é digno de castigo e ira. Sobre isso Lutero diz:
“Todos os seres humanos são ímpios e injustos e detêm a verdade na injustiça,
por isso todos são dignos da ira. Além disso, em grego não se põe a forma
relativa ‘daqueles que’, mas sim um artigo, da seguinte maneira: ‘A ira de
Deus se revela sobre a impiedade e injustiça dos seres humanos detentores
da verdade na injustiça’, de modo que ‘detêm a verdade na injustiça’ vem a
ser como que uma qualificação de todos os seres humanos”.1
Indistintamente de povo, raça, ou dedicação, Paulo distribui a salvação
aos que crêem no Evangelho, e a ira de Deus aos que não crêem; torna
justos os que crêem, e injustos e sujeitos à ira os que não crêem. O que ele
diz é: a justiça de Deus se revela no Evangelho, isto é, a partir da fé – aí há
Salvação. Fora disto, todos os seres humanos são ímpios e injustos. Os
únicos excetuados da ira de Deus são os que crêem: “mas para nós, que
somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18).

CONSIDERAÇÕES SOBRE O EVANGELHO


É o poder de Deus, é o que aconteceu no coração de Deus quando
Jesus pagou o preço do pecado na cruz, está enraizado no que aconteceu,
não dentro, mas fora dos corações de todos os pecadores. [Por isso é
Evangelho!]

Portanto, para a vida é preciso o Evangelho: Jo 8.36: Se, pois, o Filho


vos libertar, verdadeiramente sereis livres; Mt 4.4: Não só de pão viverá
o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. Que
Evangelho ou Palavra é esta? Que o Filho de Deus se fez carne, sofreu,
ressuscitou e foi glorificado pelo Espírito santificador. Rm 10.9: Se, com a
tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres
que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.
Vale lembrar que além de ser poder para salvar, ler, falar e meditar, a
Palavra “é auxílio poderoso contra o diabo, o mundo, a carne e todos os
maus pensamentos. …Isso, com certeza, é a água benta e o sinal da cruz
verdadeiro de que o diabo foge e porque se pode espantá-lo. …Porque a
Palavra de Deus não a pode ouvir nem suportar o diabo. …‘poder de Deus’.
Efetivamente, poder de Deus, que aflige dores severas ao diabo, ao passo
que a nós fortalece, conforta a ajuda sobremodo”.2 Pois a Palavra de Deus
é santa e santifica tudo o que toca. É o poder de Deus… 1Tm 4.5: Tudo é
santificado por meio da Palavra e da oração. O próprio Espírito Santo a usa
como seu instrumento e com ela santifica a Igreja.
“Justiça de Deus” – não é de nenhuma forma adquirida por nós, mas se
revela a si mesma, pelo Evangelho, sendo concedida pela fé. Assim Cristo
passa a ser nossa justiça, sabedoria…

132
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
“O justo viverá por fé” – Quem não crê já está julgado, sob condenação,
pois a justiça e a vida do justo são sua fé, a qual crê no que Deus diz. Isto
Deus revela no Evangelho, e oferece e dá, graças a Cristo, a todo aquele
que crê no Evangelho. Assim, “o justo viverá por fé” – ao reconhecer que
Deus o absolve e aceita por causa de Cristo. Pela fé, Cristo se torna justiça
para o crente, e tudo o que é dele passa a ser do crente, inclusive ele
próprio. (Exemplo: Mt 8.5-17)

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. O Evangelho do dia – Mt 8.5-17 – destaca: o poder do Cristo, por meio
das curas; e a Fé na Palavra do Cristo, o qual se revela no cumprimento
de sua palavra. Notemos que a fé na palavra de Jesus é que fez e faz a
coisa acontecer. Esta é a fé do centurião. Esta é a prática do que Paulo
fala. Na epístola, é como se Paulo estivesse expondo o conteúdo deste
acontecimento e colocando isso em uma frase. Pode-se dizer que o
Evangelho do dia e as palavras de Paulo se complementam.
2. Se Paulo inclui todos na mesma condição (merecedores da ira revelada de
Deus) e diz que o Evangelho é o poder de Deus pelo qual Ele nos coloca
sob a salvação, vale refletir sobre o uso prático disso. Por exemplo: as
atitudes tomadas dentro da Igreja (congregações em particular) e da vida
pessoal, que desprivilegiam, desmerecem, prejudicam ou escondem o Evan-
gelho, pois este é o poder de Deus para salvação. Algumas atitudes podem
ser “avaliadas” e redirecionadas (por exemplo: divisões, desentendimentos,
a não participação / a idéia de que pastores tem de pregar mais Lei por já
terem pregado demais Evangelho!). Em nosso dia-a-dia é preciso usar a
Palavra: ler, orar, meditar, usar do perdão, da compreensão, do amor, da
união (que, aliás, já são frutos do uso do Evangelho!) para promover a
Palavra e seu constante uso, o que trará fortalecimento e crescimento. Isto
é a justiça de Deus sendo revelada no Evangelho – através de mim e ti –
“de fé em fé”, pois fé é o ponto de partida e o objetivo.

SUGESTÕES DE TEMA
1. Da Palavra à Fé, e de fé em fé.
2. De pecadores condenados a filhos abençoados.

Cézar Claudenir Kaiser


Taió, Sc

1 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. V.4. Da Vontade Cativa, quarta parte. Porto
Alegre, São Leopoldo : Concórdia, Sinodal, 1987, p.182.
2 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. V.7. Catecismo Maior.. Porto Alegre, São Leopoldo
: Concórdia, Sinodal, 2000, p.327.

133
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEXTO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Efésios 1.15-23
15 de fevereiro de 2004

1. CONTEXTO
Paulo escreve aos cristãos de Éfeso, capital da província romana na
Ásia, lugar em que a idolatria estava bem presente, onde devotos de lugares
distantes vinham em peregrinação ao templo da deusa Diana. No entanto,
ali Cristo estava sendo anunciado, uma vez que muitos gentios entraram e
estavam entrando na igreja.
Para que a igreja conserve a sua pureza e compreenda ainda melhor a
grandeza da graça de Deus, o apóstolo, através da oração, leva toda a
igreja a refletir sinceramente, o que é “ser igreja”. Este é também o
motivo que percebemos de a carta não ser endereçada diretamente apenas
à igreja de Éfeso.
Nesta carta temos fundamentação para continuarmos confessando que
a verdadeira igreja é a “Santa igreja cristã – a comunhão dos santos”.
O texto é bem apropriado para o período de Epifania, pois o Cristo é
revelado através da igreja, pelo testemunho da fé de todos os cristãos. E
por isso, nesta perícope, o apóstolo está dando graças a Deus, que por seu
poder abençoou e quer abençoar ainda mais a sua Igreja.

2. TEXTO
V.15 : Dia. tou/to (por isso) – Por causa do que o apóstolo afirmou anterior-
mente, a saber, a revelação do propósito de Deus (3-14). O versículo
mostra o que a fé no Cristo revelado tem causado na vida do povo de
Deus. A saber, que a fé dos cristãos chegou aos ouvidos de Paulo por
causa dos frutos que produziu - th.n avga,phn th.n eivj pa,ntaj tou.j a gi,ouj
(o amor para com todos os santos). Há uma notável semelhança entre
este v. e Cl 1.4. Isto nos mostra que o conteúdo essencial para todas as
congregações cristãs é o mesmo, mas não quer dizer que o contexto seja
o mesmo. Em outras situações Paulo tem ressaltado os frutos da fé dos
cristãos. ( Rm 1.8; 1 Ts 5.13; Fm 5 …). A fé é ativa no amor.
V.16 : euvcaristw/n - part. pres.at.- não cesso de dar graças. Gratidão a
Deus era uma constante na vida do apóstolo, especialmente pelas bên-
134
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
çãos concedidas à Igreja. O agradecimento é feito em primeiro lugar a
Deus através das orações. Em várias ocasiões se recomenda à igreja
que ore mais ( 1 Ts 5.17; Ef 6.18; Rm 12.12; Cl 4.2). Ao colocarmos o
trabalho da Igreja em oração, estamos colocando Deus à frente, para
que Ele dirija e promova o crescimento.
V.17 : Deus concede bênçãos a sua igreja. Percebemos aqui uma clara
menção da Trindade. É unicamente o Deus Triúno que, através do seu
Espírito Santo, concede sofi,a (sabedoria; cf. Lc 12.2; Lc 21.15; Jo
14.17,26; At 6.10) avpoka,luyij ( revelação; cf. Ef. 3.5; Dn 2.28-30;
10.1; Mt 11.25; 16.17; 1Co 2.10; 2Co 12.1) e evpi,gnwsij ( conhecimen-
to; cf. Jo 8.54-55; 16.3;17.3,25,26; Cl 1.10. Este texto nos lembra as
palavras pronunciadas com imposição de mãos por ocasião da confir-
mação, quando é feita a promessa de continuar fiel a Deus e permane-
cer na graça batismal. Paulo quer o crescimento da fé de todos os
cristãos e é isto que Deus quer, concedendo estes dons especiais atra-
vés do Espírito Santo.
Vv. 18 e 19 : É uma conseqüência natural do versículo anterior.
pefwtisme,nouj tou.j ovfqalmou.j th/j kardi,aj Îu mw/nÐ (iluminados os
olhos do vosso coração). Destaca-se aqui o chamado à graça Divina.
Saber qual a esperança do seu chamamento é reconhecer que fomos
chamados para uma só esperança pelo próprio Deus. Assim como em
outras épocas Deus já chamou a muitos, Ele continua chamando a nós
também. O chamado à esperança em Deus é justamente o necessário
para o ser humano sem esperança. A expressão a “riqueza da glória
da sua herança”, é também aqui, nesta vida, já desfrutar em parte do
maior tesouro que Deus tem preparado para a sua igreja. Através da
ação do Espírito Santo sabemos claramente, pelos olhos da nossa fé,
qual é a nossa esperança e também a glória que nos está sendo prepa-
rada como herança. Vivemos na certeza do “já e ainda não”. Vivemos
na certeza que Deus cumpriu e continua cumprindo as suas promessas.
A Onipotência de Deus se manifesta de maneira ativa nos cristãos. A
suprema grandeza de Deus, se demonstra aqui através destas palavras
importantes: du,namij (poder), evne,rgeia (eficácia, energia), kra,toj (for-
ça), ivscu,j (vigor, habilidade). Com esta força incalculável aos olhos
humanos, Deus age na vida dos cristãos. Nesta epístola, o apóstolo
expressa esta certeza várias vezes (2.10;3.7; 3.20; cf. também Rm
1.16 e 2 Co 4.7).
Vv. 20 e 21 : O poder que Deus exerce sobre os que crêem é semelhante
ao que Ele exerceu em Cristo. Assim como Cristo ressuscitou, venceu
a morte e está em lugar de honra, junto ao Pai, também os crentes em
Cristo terão lugar de honra no céu. Grande é a ação do poder de Deus
na obra da Redenção e grande também é o poder que Ele usa para a
135
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
nossa salvação. A ação do poder de Deus na igreja se mostra desde o
seu princípio, como vemos no discurso de Pedro ( At 2.24 ). A Supre-
macia de Deus expressa no v.21 nos liga ao texto de Rm. 8.38-39, o
qual nos dá a certeza de que não há nada acima do poder e do amor
de Deus. De tal maneira Deus quer abençoar a todos os que Nele
confiam. E tudo é colocado sob o Cristo exaltado. Sem Cristo, nada do
que o apóstolo escreveu seria possível. Somente através de Cristo a
humanidade alcança a glória eterna.
Vv.22 e 23 : todas as coisas estão subordinadas a Cristo. Chegará o dia
em que todo joelho vai se dobrar e reconhecer que Jesus Cristo é o
Senhor que tem o Domínio sobre tudo ( Fp 2.10). O Sl 8.5-6 enfatiza o
destino do homem e Hb 2.6-9 mostra que a plenitude está no Filho do
Homem, que está acima de todas as coisa. Cristo é o Cabeça sobre
todas as coisas. Este trecho de Efésios também deixa claro que a igreja
é o corpo de Cristo. Cristo é kefalh, (Cabeça) e a igreja sw/ma (corpo).
O Corpo é comandado, direcionado, convocado à ação através da or-
dem da Cabeça. Necessariamente a igreja está ligada a Cristo e subor-
dinada a Ele. E Tudo o que a igreja tem, recebe de Cristo.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
- A igreja necessita estar constantemente em oração. Qualquer projeto ou
desafio precisa primeiramente ser colocado diante de Deus.
- Precisamos levantar as mãos para o céu e dar graças porque Deus
também hoje tem abençoado a sua igreja, e através da ação do Espírito
Santo efetuou o seu crescimento. Deus sempre fez e sempre fará a sua
parte diante do desafio de crescimento que temos como igreja.
- Nada pode destruir a Igreja pois está edificada sobre Cristo e é dirigida
e mantida por Ele.
- Como igreja devemos lembrar sempre que estamos sujeitos a Ele e,
também, que Ele colocou diante de nós uma grande responsabilidade de
servirmos a Ele em fé e amor, conforme o v.15.

4. SUGESTÃO DE TEMA

A IGREJA ORA
A - Para render graças.
B - Para exaltar a Cristo.
C - Para fazer a sua missão de Corpo de Cristo.

Erno Kufeld
Sta. Rita do Oeste - Terra Roxa, PR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA


Coríntios 4.6-10
22 de fevereiro de 2004

CONTEXTO
O último domingo após a Epifania do Senhor é o domingo da
Transfiguração. O Evangelho do dia - Lucas 9.28-36 - narra este fascinante
episódio que, liturgicamente, divide a Epifania da Quaresma. O Salvador
subiu o monte e abriu uma fresta do céu diante dos discípulos mais próximos.
Ali falou com Moisés e Elias, dois expoentes do AT, cujo final de vida neste
mundo aconteceu fora da rotina (Dt 34; 2Rs 2.11), sobre sua iminente
morte e ressurreição em favor dos pecadores.
Jesus abriu-nos o céu. Podemos olhar para ele e sermos revigorados
para a tarefa de compartilhar o seu amor com os outros. Estando com a
palavra de Cristo, podemos crescer numa vida de fé, dedicação, testemunho
e gratidão a Deus.
Na segunda carta aos coríntios Paulo manifesta sua alegria pelas boas
notícias da congregação e, num tom muito pessoal e emotivo, defende sua
autoridade de pregador do Evangelho. Este é o assunto que o verso
imediatamente anterior ao texto em questão registra: “Porque não nos
pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos
como vossos servos, por amor de Jesus” (2Co 4.5).

O TEXTO
O texto explica por que se deve pregar a Cristo e não a si mesmo. Na
seqüência da explicação aparece um contraste bem marcante: tesouro em
vasos de barro! A conjunção “porém” marca bem este contraste.

O Tesouro
O tesouro do qual o apóstolo Paulo fala refere-se ao texto: “Porque
Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu
em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na
face de Cristo” (v.6). Portanto, o tesouro é a iluminação do conhecimento
da glória de Deus na face de Cristo.
Na Criação, Deus falou “haja luz” e das trevas resplandeceu a luz. Agora,
137
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
diz Paulo, ele mesmo resplandeceu em nossos corações através de Cristo.
Ele é a “verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (Jo
1.8). Em Jesus, o Verbo que se fez carne, “vimos a sua glória, glória como
do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Este resplandecer “para iluminação do
conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” é o mesmo que Lutero,
na explicação do Terceiro Artigo, chama de iluminação do Espírito Santo:
“o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, me iluminou com os seus
dons...”. Resumindo numa palavra, este tesouro é o Evangelho, que é “o
poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).
Lutero, ao descobrir a riqueza deste tesouro na sua vida, fez acontecer
a Reforma. Pelo menos em três das 95 teses ele se refere a este tesouro.
Na tese 62 ele escreve: “ O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo
Evangelho da glória e da graça de Deus”. Portanto, os meios da graça são
o precioso tesouro da Igreja, pois eles nos comunicam o evangelho da salvação
pela graça em Cristo.

Os Vasos de Barro
Agora vem o contraste: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro.
Paulo usa um termo muito conhecido pelos coríntios (ostrákinos = cerâmica).
A cerâmica coríntia era famosa no mundo antigo. As pequenas lâmpadas de
barro e os vasos eram baratos e frágeis, mas muito procurados. Este é o
contraste que Paulo acentua: Deus, em vez de colocar o tesouro em vasos
finíssimos, coloca-o em vasos de barro. Ele confia o Evangelho a um Paulo
que, ao falar de sua vida pessoal, nos surpreende: “Nem mesmo compreendo
o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim o que detesto...
Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne não habita bem nenhum,
pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Como sou infeliz!
Quem me livrará deste corpo que está me levando para a morte?” (Rm 7.
15,18, 24). O que nós podemos falar dos porões de nosso íntimo?
Deus, porém, tem um objetivo em confiar o tesouro do Evangelho a
vasos de barro. Ele transforma homens fracos em vasos de sua graça para
que, de fato, o poder de Deus se manifeste em sua origem, e não seja
confundido como força humana, como diz o texto: “para que a excelência
do poder seja de Deus e não de nós” (v.7).

APLICAÇÃO HOMILÉTICA
Sempre que me defronto com este texto, me vem à lembrança uma
mensagem que o Dr. Rudi Zimmer proferiu durante uma das primeiras
convenções nacionais da Igreja Luterana (IELB) da qual participei, em
1978. Foi uma mensagem que me marcou. Ela está na Igreja Luterana,
Edição verão/outono 1978, p. 82. Ele faz uma aplicação de alerta e consolo
tanto para os pastores como para os leigos. Vale a pena conferir.
138
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Destacar o contraste “tesouro em vasos de barro” é uma boa pedida
num contexto em que “a imagem é tudo” e muitos pregadores cuidam de
enfeitar vasos de barro que sequer tesouro tem.
Paulo, na primeira carta aos coríntios, escreve: “Irmãos, reparai, pois,
na vossa vocação... Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as
desprezadas, e aqueles que não são, para reduzir a nada as que são; a fim
de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1 Co 1.26-29). Mas
aos efésios, ele afirma: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer
como o realizar, segundo a sua boa vontade”(Ef 2.13). A vontade primordial
de Deus é salvar as pessoas em Cristo Jesus. Para isso põe seu tesouro em
vasos de barro. Portanto, nós, seus filhos, somos desafiados a fazê-lo, com
a mesma confiança de Paulo.
Então, mãos à obra. Esse tesouro não é para ser guardado, mas usado.
Se Deus fez de vasos de barro, no passado, uma obra muito bonita, o que
mais fará através de nós?

Tesouro em vasos de barro


1. O Tesouro
2. Os vasos de barro

Edgar Lemke
Porto Alegre, RS

139
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA


Hebreus 4.14-16
29 de fevereiro de 2004

ENFOQUE HOMILÉTICO
Os céus. Não há cristão que não tenha parado por algum momento
para imaginar o que serão “os céus”. Deus quer que nos concentremos
mais e mais nos céus.
A dificuldade maior está no fato de que colocamos os céus como algo
que pertence ao longínquo futuro. Sim, porque céus é algo que reservamos
para depois da morte e ainda assim ficamos à espera da ressurreição. Parece
então que das prioridades e verdades importantes que devemos meditar, os
céus acabam sendo empurrados para momento mais oportuno, lá adiante,
bem distante, se possível, porque ainda não pensamos em morrer.
Deus coloca as coisas em outros termos. “Tendo, pois, a Jesus, o Filho
de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus . . .” Note-se
o tempo do verbo: penetrou. É um tempo no passado realizado. Um fato
para ser levado em conta agora porque faz parte do nosso presente. O
nosso presente sofreu modificações em função de um fato passado. Os
céus não são o futuro imponderável, mesmo que esteja certo.
A humanidade já penetrou os céus em Cristo. Paulo utiliza uma linguagem
semelhante ao dizer que nós “já ressuscitamos com Cristo” e “a nossa vida
está agora oculta em Cristo”. O que nós somos nós já sabemos. Somos
habitantes dos céus porque estamos em Cristo já agora. Efésios 1 e 2
também emprega esta mesma linguagem.
Os apóstolos não têm receio ou restrição alguma em afirmar isto, não
como metáfora ou figura de linguagem, mas como fato de bens já realizados.
A Ascensão de Cristo não é somente importante como ato da glorificação
de Cristo. É mais importante como sinal de que o novo Adão, de quem
somos todos co-herdeiros e co-participantes, antecipou a nossa própria
trajetória. A jornada, o caminho que resta aos crentes em Cristo é ascender
com Cristo todos os dias.
A palavra do perdão dos pecados, a pregação do evangelho são sinais
que confirmam o que o batismo realizou: “Fomos sepultados com Cristo ...
para que, como ele ressuscitou . . . vivamos a nova vida.” Participar da
140
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Santa Ceia é mais do que receber perdão. O perdão já temos. Ao confirmar
o perdão a Santa Ceia é já a antecipação da Ceia que Cristo preparou na
eternidade para todos os que vêm dos becos e atalhos.
Esta é a diferença para quem confessa Cristo como seu sumo sacerdote.
Quem precisa saber disto?
Os apóstolos, a exemplo do próprio sumo sacerdote Jesus, foram procurar
todas as pessoas com a palavra dos bens já realizados, a palavra da salvação
já realizada. Em geral, as pessoas, incrivelmente, preferiam adiar a adesão
pessoal a esta oferta. Gostavam de pensar que o importante é cada um
abrir o seu próprio caminho e provar a Deus sua capacidade pessoal de
buscar um caminho até melhor e mais brilhante. Contavam-se entre eles
os fariseus, os escribas, os cristãos judaizantes. Aliás, estes últimos foram
os que mais trabalho deram aos apóstolos. Houve apóstolos que
pessoalmente hesitaram a respeito desta realidade.
Mas havia outras pessoas que, pelos critérios seletivos dos judaizantes,
jamais poderiam aspirar o acesso aos céus. Com suas vidas desregradas,
seus pecados evidentes, não havia como afirmá-los herdeiros. Levavam
sua mágoa, suas dúvidas, sim, até suas revoltas contra a insensibilidade dos
guardiões da pureza para muitas portas mas todas se fechavam.
Para quem é o descanso de Deus?
O sumo sacerdote dos fracos, dos que foram tentados e caíram (v. 15)
penetrou os céus, ocupou o descanso, preparou o lugar daqueles que como
ele experimentaram a fraqueza. Deus está convidando os que não fazem
por merecer o convite e que sem este convite já estão rejeitados.
Guardemos firme a confissão ou a declaração desta esperança.
Declaremos, confessemos ao mundo e uns aos outros quem realmente somos
e a quem pertence esta esperança por direito: todos os que buscam uma
palavra de alento, de perdão e esperança. A palavra é simples: acheguemo-
nos confiadamente.

Organização do texto para sermão

Esta é uma palavra para fracos

Vocês têm um sumo sacerdote


Conservem a confissão
Se acheguem confiadamente

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

141
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA


Romanos 5.6-11
7 de março de 2004

CONTEXTO LITÚRGICO
Na Quaresma admiramos a “prova de amor” (Rm 5.8) dada por Deus,
através de Jesus, que entregou-se por nós, seguindo seu caminho rumo à
cruz. Este período lembra-nos a comissão do Pai que envia seu Filho aos
“lavradores desobedientes”(Mc 12.1-12). O objetivo do pregador de Rm
5.6-11 e Mc 12.1-12, no segundo domingo na Quaresma, deve ser: - Levar
o ouvinte a assumir a culpa pela morte do Filho (Jesus). - Levar o ouvinte
a admirar o grandioso amor do Pai (Deus). - Levar à confiança de que
neste Filho sofredor “somos reconciliados” (Rm 5.10-11). – Levar o ouvinte
à alegria do perdão e da vida em amizade com Cristo Jesus.
Contexto amplo do texto: O grande assunto de Romanos é a justificação
pela fé. A intenção de Paulo é confirmar os destinatários na fé verdadeira
(Rm 1.11). Paulo apresenta a ira de Deus sobre todos (judeus e gentios),
pois todos pecaram (Rm 3.23), mas apresenta igualmente o plano de salvação
(Rm 3.21-31) destinado igualmente a todos (Rm 5.18).
Contexto específico: No capítulo 5 o tema também é justificação. A
intenção igualmente é manter os ouvintes firmes na fé (Rm 1.11). Paulo é
explícito ao dizer que em Cristo “estamos firmes” (Rm 5.2). Esta aparente
linguagem de santificação (vv. 3-4) é acompanhada da boa nova: se Deus
nos amou quando estávamos brigados com ele, em pecado, muito mais
agora irá ajudar-nos a continuarmos em Cristo, em paz, longe da ira (v.9),
em reconciliação (vv.10-11). Nesta reconciliação temos paz (v.1) e alegria
(v.11). Portanto a ação continua no ato justificador e reconciliador de Deus.

TEXTO
V.6 : eti gar demonstra ligação com os versículos anteriores. O apóstolo
reafirma que, em Cristo, estamos justificados, reconciliados e em paz
com Deus. Tudo isso porque Deus, em seu kairon (“tempo”), agiu.
Tempo e história estão sempre relacionados. Quando Deus AGE no
seu “tempo”, Ele MUDA a história. Esta mudança é de inimizade para
amizade (RECONCILIAÇÃO).
142
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
V.8 : sunisthsin . agaphn (“prova o seu próprio amor”). É interessante
que o verbo está no tempo presente. Ele não somente provou no passa-
do, pois ainda hoje ele nos chama da inimizade, das trevas para a mara-
vilhosa luz. Esta prova de amor é igualmente registrada pela
longanimidade do dono da vinha em Mc 12.1-12.
V.9 : orghj – ira. Salvos da ira (ver 1 Ts 1.10). Que ira é esta? (ver Mc
12.9). Esta ira de Deus é uma ira santa. Em sua “santidade e justiça de
Deus”, Ele exige perfeição (Mt 5.48) e punição aos imperfeitos. Entra
aqui a obra de Cristo, explícita nos vv.10 e 11. Lembramos aqui a obe-
diência ativa (cumprimento da Lei) e passiva (sofrendo em lugar dos
que quebraram a Lei).
Vv.10 e 11 : RECONCILIAÇÃO (assunto da perícope) envolve duas
partes, assim como uma aliança. Creio ser prudente destacar que Cris-
to “fez” a nossa parte, visto sermos fracos ou mortos espiritualmente
(vv.8 e 10). É neste sentido que entendemos a Nova Aliança estabelecida.
A parte que cabia ao ser humano no processo de reconciliação (cum-
primento da Lei) Cristo a realizou com sua obediência ativa. Os
versículos 8-11 revelam que foi necessário uma punição para que a
justificação – reconciliação fosse realizada. Esta punição foi posta so-
bre Jesus (obediência passiva). Assim Cristo foi perfeito por nós e
anulou o ato ofensivo. No Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento, vol. 4, p 54-55, se lê: “Ao discutir RECONCILIAÇÃO e
expiação, tem sido costume fazer uma distinção entre propiciação e
expiação. Na propiciação, a ação se dirige para Deus ou a alguma
pessoa ofendida e a expiação se ocupa com a anulação do ato ofensivo.
Ver Êx 32.30, Rm 3.25, 1 Jo 4.10. Sei que o nosso texto não expande-se
a estes termos, mas o ato reconciliador de Cristo os inclui.
Tanto o verbo reconciliar como o substantivo reconciliação (katallassw,
v.10) são compostos de allassw: alterar, trocar, “mudar”. Fazemos aqui
uma conexão com o comentário do v.6 – quando Deus em seu tempo age,
ele “muda” a história. Conforme a NTLH, Deus nos mudou, ou seja, de
inimigos “nos tornou amigos”.

APLICAÇÃO HOMILÉTICA
O objetivo exposto no contexto litúrgico pode ser alcançado apresentando
como moléstia a inimizade natural existente entre os homens e Deus, bem
demonstrada pela atitude do lavradores no texto do evangelho. Mostrar
exemplos práticos das terríveis conseqüências do pecado, principalmente
no que se refere a intrigas que causam separação. O meio para se alcançar
o objetivo é apresentar a prova de Amor que Deus nos fez através da obra
reconciliadora de Cristo.

143
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
SUGESTÕES HOMILÉTICAS
1 - Relação entre tempo e história baseado no v.6. Ação de Deus em seu
tempo (v.6), mudando a história, tornando-nos seus amigos (v.10). Dis-
tantes de Deus, devido ao pecado, a nossa história possuía um final
triste - condenação e ira (v.9). Deus mudou a história. Ele colocou mais
um personagem (Jesus). Este personagem mudou o rumo da história
através da sua obra de reconciliação. Tanto que mesmo os incrédulos
dividem a história em “antes” e “depois” de Cristo.
2 - Entrelaçar os termos “reconciliação” (vv.10-11) com a expressão “prova
de amor” (v.8) fazendo uso destes termos nos relacionamentos huma-
nos, para então apresentá-los no que se refere ao nosso relacionamento
com Deus; apresentando a “prova de amor” de Deus em Jesus e o seu
perdão que “reconcilia”.
3 - Apresentar o plano da salvação utilizando a linguagem da reconciliação
de Rm 5 e 2 Co 5; ou seja, apresentar o pecado que desligou o ser
humano de Deus, apresentar a incapacidade do ser humano religar-se,
reconciliar-se novamente com o seu Criador, destacando a necessidade
de um Salvador, de um Reconciliador (Jesus).
Pode-se fazer uma comparação utilizando um ímã como se fosse Deus,
e clipe (ou clipes) como se fossem as pessoas. Os clipes, ou as pessoas,
inicialmente estavam perfeitamente unidas a Deus (Adão e Eva - mostrar
os clipes niquelados ligados ao ímã), mas o pecado separou-os do Senhor
(separar os clipes e largá-los no chão). Além disso perderam a imagem
de Deus, e por sua própria razão ou força já não conseguem permanecer
com Deus (para identificar esta realidade do homem pecador troque
os clipes niquelados por clipes de plástico que não podem imantar-
se). Deus, a seu tempo, se fez homem, mas homem sem pecado, logo ele
não era um clipes de plástico. Jesus veio como “clipes niquelado”. Ele
podia imantar-se. Logo nós, clipes de plástico, conectados a Cristo em fé
(neste instante entrelace os clipes de plásticos ao niquelado e ligue-o
ao ímã) conseguimos, apesar de ainda sermos pecadores (de plástico),
sermos religados ou RECONCILIADOS ao ímã (Deus).

Ismar L. Pinz
Capão do Leão, RS

144
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

TERCEIRO DOMINGO NA QUARESMA


Romanos 12.1-2
14 de março de 2004

CONTEXTO
O tema principal de Romanos é “O justo viverá por fé” (vv. 1.16-17). O
Apóstolo, ao longo dos onze capítulos iniciais, apresenta a justiça de Deus em
Cristo e suas conseqüências no viver diário do pecador. A justificação acontece
pela graça de Deus, recebida unicamente pela fé em Jesus Cristo (v. 3.22). O
resultado da justificação é o favor de Deus, o pecador está livre da ira de
Deus (Cap. 5), livre da escravidão do pecado (cap. 6), livre da condenação
da lei (cap. 7) e da morte eterna (cap. 8). Dos capítulos 9 a 11, Paulo enfatiza
que judeus e gentios, em Cristo, são um novo Israel, “o Israel de Deus” (cf.
Gl 6.16). O capítulo 12 inaugura um novo momento no desenvolvimento da
carta. O Israel de Deus agora passa a responder à justificação, ao amor de
Deus, à graça e misericórdia de Deus, vivendo uma vida santificada (caps.
12-14). Os vv. 1-2 são “um apelo para que os leitores respondam de acordo
com a sua fé em Cristo” ( Concordia Self-Study Bible), para que os cristãos
tenham uma conduta coerente com a sua nova condição, com sua nova vida
em Cristo. (Anders Nygren – “La Epistola a los Romanos”).

TEXTO E APLICAÇÕES HOMILÉTICAS


V.1: “Rogo-vos”- Paulo está encorajando, incentivando. O cristão não deve
ser forçado, mas admoestado a fazer voluntariamente aquilo que preci-
sa ser feito (Lenski, citando Lutero). Paulo passa a aplicar na prática
tudo o que ele havia dito anteriormente (caps. 1-11). Cf. Ef 4.1 e 1 Pe
2.11,12.
“Dediqueis”- Paulo apela para que eles dediquem/ofertem/ofereçam seus
corpos a Deus. Antes estavam entregues ao pecado (Rm 6.6), à morte
(7.24), mas agora são consagrados a Deus, resultado da “misericórdia de
Deus”. Este entregar-se, para o Apóstolo, implica viver por causa de Cristo,
em Cristo e para Cristo (Gl 2.20). “Dedicar-se a Deus é reconhecimento
de gratidão por tudo o que Ele tem feito e que a pessoa jamais poderá fazer
por Ele” (C. H. Dodd – The Epistle of Paul to the Romans).
145
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
“Sacrifício vivo”- O sacrifício é vivo e seu culto é real porque o seu
Deus é vivo e real. Ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O Deus que se
revelou concretamente na pessoa de Cristo. É o Deus que cumpre as Suas
promessas.
O cristão é desafiado a utilizar o seu corpo (em todas as suas esferas)
em concordância com tudo o que ele recebeu de Deus, de acordo com a
sua nova realidade. Antes: Rm 6.13,19; Agora: Rm 12.1,2. “Deus tem nos
desafiado com tarefas concretas, nas quais o nosso corpo deve ser posto
ao Seu serviço” (Nygren). É preciso enfatizar que tudo depende da
misericórdia de Deus (9.16). Ele nos capacita a agir segundo a Sua vontade
pelo evangelho (1.16). Cf. Gl 5.25, 1 Ts 2.12, Ef 4.1 e Cl 2.6.
“culto racional”- (logikh.n latrei,an). No sentido de ser verdadeiro, a
natureza essencial de algo. Portanto, “este é o vosso verdadeiro culto” cf.
1 Pe 2.2. (Dicionário de Louw-Nida). Jesus chama este culto de “adorar
em Espírito e em verdade” (Jo 4.23). É um culto Espiritual porque é realizado
por pessoas redimidas por Cristo, nas quais o Espírito habita.

V. 2: “Conformeis”- (suschmati,zesqe) “moldar o comportamento de acordo


com um padrão, um conjunto de regras” cf. 1 Pe 1.14. (Louw-Nida). É
importante lembrar que “este século” inclui toda a maldade e corrupção
(Gl 1.4). Não se moldar ao modo de agir e pensar dos incrédulos é a
maneira pela qual a LIBERDADE do cristão se realiza. Ele não é ES-
CRAVO de convenções da sociedade, mas tem, em Cristo, uma nova e
independente maneira de agir. Ele é livre para servir a Deus e ao próxi-
mo. Cada crente precisa estar consciente de que pertence a Cristo.
São confortadoras as palavras do Hino 251 HL – “Sou crente, batizado
em nome de meu Deus; aos santos fui juntado, ao povo que herda os
céus” (estrofe 1). O Batismo nos lembra que fomos e somos dedicados
a Deus. (A liturgia do Batismo [não tradicional] traz a afirmação:
“Recebe o sinal da cruz, tanto na fronte como no peito, para indicar que
você foi redimido por Cristo, o Crucificado. Você é de Cristo para sem-
pre”). Nossa nova vida é um sacrifício vivo, permanente, “àquele que
nos tirou das trevas para Sua maravilhosa luz”. Viver o Batismo na vida
diária, esta é a nova realidade do cristão. Ele está no mundo, mas não é
do mundo (Fp 3.20 + HL 389). Ele não deve moldar-se aos ditames do
mundo, mas ser guiado pelo Espírito de Deus (Rm 12).
Não se pode negar que a vida do cristão é uma vida sob a cruz. Ele é
continuamente tentado a acomodar-se ao modo de pensar e agir do mundo
(Ef. 5.7,8). No evangelho do dia, Lc 9.51-62, Jesus desafia aqueles que
querem segui-lo, lembrando-lhes que ser Seu discípulo implica consagração
total, não apenas em momentos de conveniência.
O cristão é desafiado a viver em um mundo alienado e hostil. É desafiado
146
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
a assumir aquilo que ele é. Conseqüentemente, seu culto é um constante
não-conformar-se com este mundo mau (Gl 1.4), cujo deus é Satã (2 Co
4.4). O evangelho é o seu único poder (1 Ts 2.1). Isto não é utopia, mas
vida responsável e fiel na presença de Deus e no Seu serviço.
A admoestação de Paulo foi dirigida aos cristãos de uma grande cidade
da época, Roma. Esta oferecia muitas opções (tentações). A realidade de
muitas congregações da IELB não é muito diferente. Cada vez mais, o
cristão é bombardeado com alternativas, opções que, infelizmente, acabam
afastando muitos da vida e do trabalho do Reino de Deus.
“transformai-vos pela renovação”- metamorfou/ s qe – “Tornai-vos
completamente diferentes daquilo que vocês são”. Cf. Mt 17.2. Anakainwsei
– “Causar algo a tornar-se novo e diferente, com a implicação de tornar-se
superior” Cf. Cl 3.10, Ef 4.23 e Tt 3.5 : “Ele nos salvou mediante o lavar
regenerador e renovador do Espírito Santo” !!! É viver o Batismo! É
andar em novidade de vida (Rm 6.4)!!! É um processo contínuo, não um
ato isolado. É vida santificada.
“Experimenteis”- Somente podemos saber/conhecer a vontade de Deus
pela Sua palavra. “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os
meus caminhos” (Sl 119.105). cf. 2 Tm 3.16,17.

SUGESTÃO DE TEMA PARA A PREGAÇÃO

SOU CRENTE BATIZADO


1. Sou o que sou pela misericórdia de Deus;
2. Minha vida é um culto a Deus;
3. Não sou bitolado pelo mundo, mas sou uma testemunha do evangelho,
que transforma mentes e corações.
4. Por Cristo e em Cristo, ando em novidade de vida!

Gustavo Henrique Schmidt


Estância Velha, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUARTO DOMINGO NA QUARESMA


Atos 2.41-47
21 de março de 2004

O salmo deste domingo, Sl 146, destaca a fidelidade de Deus e sua graça.


Ele é o Deus justo que dá pão aos que têm fome. Criou e mantém sua criação.
O texto do Antigo Testamento (Is 55.1-7) destaca o convite gracioso que
Deus faz a todos para receberem seu perdão, “porque (Deus) é rico em
perdoar” (Is 55.7). Também nos mostra que o Senhor é aquele que providencia
o alimento material e isto parece estar de acordo com o evangelho do dia (Jo
6.1-14), onde Jesus se compadece da multidão e sacia também a fome do
povo. É claro que o pregador precisa lembrar que Jesus não somente deseja
dar o pão material, mas principalmente o que nos leva à vida eterna.

O TEXTO E SEU CONTEXTO


V. 41: O “então”, a exemplo do que acontece em At 1.6, liga o texto direta-
mente ao seu contexto, ou seja, aceitaram a palavra e foram batizados.
“Muitos”, não todos que estavam ouvindo, foram batizados. Este “aceitar”
da palavra é um resultado da pregação de Pedro (vv. 37-40), mensagem
de perdão dos pecados oferecido por Deus no sacramento do Santo Batis-
mo para os verdadeiramente arrependidos. O Espírito Santo age na prega-
ção da Palavra e atinge o coração do homem guiando-o a Cristo, o Pão da
Vida, para que sacie sua fome e ele passe a ter novidade de vida.
“...foram batizados” - por imersão ou aspersão? O que se sabe é que naquela
região não havia água corrente. A não ser que alguém prove onde três mil
pessoas poderiam ser imersas em mais ou menos meio dia em Jerusalém (Lenski,
The Acts of the Apostles, p.112), é mais prudente aceitar que o mais provável
é que tenha sido por aspersão, o que invalida a afirmação daqueles que
reconhecem apenas o batismo por imersão. Aqui cabe outra pergunta: será que
naquela multidão havia somente homens? Não, se considerarmos Atos 4.4 onde
Lucas usa o termo avndrw/n e omite mulheres e crianças. O yucai, são almas no
sentido de pessoas e não exclui crianças. Lucas também fala de “seus filhos”
(toi/j te,knoij u`mw/n), no vs.39, para os quais também era o batismo.
“...houve um acréscimo” - Deus acresceu à sua Igreja (já existente) quase
três mil almas naquele dia. Lucas deixa claro com essa expressão que Deus

148
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
acrescentou quase três mil à sua igreja, e não que a iniciou com aquele
número de pessoas, como pensam alguns. O v. 42 encerra, por assim dizer, o
primeiro Pentecostes. Mostra o resultado desse maravilhoso evento na vida
daquelas quase três mil pessoas, as quais perseveraram em: 1. Uma só doutrina
(a do Cristo ressurreto, pois essa era a doutrina dos apóstolos); 2. Uma só
comunhão (a dos santos, como confessamos em nosso culto público, no Credo);
3. Um só partir do pão (conforme a Ceia do Senhor também era chamada)
para perdão, vida e salvação. (O pregador pode reafirmar a importância de
perseverarmos neste partir do pão e não em outro(s) criados pela razão
humana); 4. Uma pluralidade de orações (que procedem do coração, e que a
igreja eleva humilde e sinceramente a Deus, em nome de Jesus, e são recebidas
pelo Pai gracioso).
Lucas descreve (nos versículos seguintes) a vida comunal que tinha aquela
igreja depois que recebeu tão grandiosa bênção do Deus Altíssimo. Prodígios e
sinais eram realizados “através” (diáá) dos apóstolos. Lembrar que eles não
eram a origem, mas instrumentos nas mãos de Deus.
A “assistência social” estava (ou passa a estar) presente no seio da
comunidade e era compromisso (privilégio) de todos, pois “todos os que creram
estavam juntos e tinham tudo em comum”. Eram de diferentes países, mas a fé
em Cristo fez com que vivessem como um só corpo. Lembremos que no
evangelho do dia o Senhor Jesus também nos ensina a olharmos e agirmos em
favor do próximo. Ele mesmo ( Jesus) providencia o alimento para a multidão.
A ação social dentro da igreja é continuada, pois é fruto da fé. Eles vendiam os
bens e distribuíam (à medida que alguém tinha necessidade, v. 45). O verbo
“vender” está no imperfeito, o que indica uma ação continuada, voluntária e
individual. Não havia comunismo ali, mas sim um compartilhar dos bens com
alegria, de acordo com a necessidade. Quando a vida diária condiz com o que
se afirma crer, certamente causará mais impacto na vida dos de fora, pois
darão mais crédito à mensagem da salvação. Jesus alimentou a multidão
(conforme evangelho) mas o seu intuito era que o povo cresse e o reconhecesse
como o Pão da vida, o Salvador. Quando o evangelho é pregado com palavras
seguidas do exemplo de vida, certamente o Espírito Santo de Deus vai acrescentar
dia a dia os que irão sendo salvos.
O v. 47 não deixa dúvida: o homem precisa viver sua fé, ser um colaborador
de Deus; no entanto deve estar ciente de que é do Senhor que vem o crescimento.
Isto lembra o que Paulo diz: o homem planta e rega, porém o crescimento vem
do Senhor (1 Co 3.6,7).

DISPOSIÇÃO HOMILÉTICA
Sugestão de Tema: O povo de Deus é um povo comprometido com
Deus

149
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
I. Pois Ele o chamou à fé em Cristo e o salvou
1.1 Pela pregação da Palavra
1.2 Pelo Santo Batismo

II. Pois Ele dá força, pelo Espírito Santo, para seu povo perseverar:
2.1 Na doutrina dos apóstolos
2.2 Na comunhão
2.3 No partir do pão
2.4 Nas orações

III. Pois Ele faz com que olhemos para o próximo com amor
3.1 Ajudando-o de acordo com sua necessidade
3.2 Sendo simpáticos aos irmãos na fé e aos de fora
3.3 Cientes que o Senhor continuará fazendo crescer o número
dos que vão sendo salvos.

Luís Claudio Viana da Silva


Chapada Gaúcha, MG

150
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUINTO DOMINGO NA QUARESMA


Romanos 5.1-5
28 de março de 2004

CONTEXTO LITÚRGICO
Liturgicamente o 5º Domingo na Quaresma é chamado “judica”. Esta
palavra latina foi extraída do Sl 43.1 “Faz-me justiça, ó Deus, e pleiteia a
minha causa contra a nação contenciosa, livra-me do homem fraudulento e
injusto”. Como fazer justiça ao pedido de Abraão se não havia justos? (Gn
18.20-21, 225-33). Como fazer justiça ao pedido de Davi se não há ninguém
inocente diante de ti? (NTLH – Sl 143.1-10). Como fazer justiça a um
pedido egoísta de Tiago e João? (Mc 10.32-45). A justiça de Deus é
claramente expressa na epístola aos Romanos, isto é, justiça atributiva, Deus
declara o pecador justo.
De certa forma oramos: “judica-me, ó Deus”. Faze-me justiça, ó Deus,
isto é, julga a minha causa, defende-a, pois ela é tua. Embora seja pecador
(Sl 143.2), que tu me justifique (Rm 5.12).

NOTAS TEXTUAIS
V.1: “Tendo sido justificados...” Dikaioqe,ntej é um part. aos. pass, isto é,
fomos declarados justos. Nós sofremos a ação. A ação toda foi de
“Jesus nosso SENHOR” (Rm 4.24).
Nessa pequena perícope aparece a tão conhecida tríade de 1Co 13.13:
Fé (pi,stewj, v.1), Esperança (e,lpi,di, v.2) , e Amor (avga,ph, v.5). Ela também
aparece em Gl 5.5,6.
No que se refere à relação entre Deus e o homem, “paz” significa que
tudo está como Deus quer que esteja. A paz com Deus é tudo o que a fé
quer. E “que Deus te dê a paz” lembra que assim saímos do culto com a paz
do SENHOR. Rejeitar a Jesus (Lc 19.42) é rejeitar esta paz com Deus.

V.2: “Por meio do qual tivemos acesso...” evsch,kamen é um perf.ind.at. O


perfeito indica um ato passado que tem conseqüências ainda hoje. Um
ato passado deixou esse acesso aberto hoje. Nas cortes só os mais
capazes tinham acesso à presença do rei. Sua privacidade era guarda-
da. Neste caso, o homem tem o privilégio de aproximar-se ou de ser
151
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
introduzido à presença de Deus. Aqui é Cristo quem introduz, não
como escravo ou servo, mas como filho. Esta é a graça de Deus. M.
Franzmann lembra aqui a Parábola do Filho Pródigo.
“Para esta graça na qual estamos firmados”. evsth,kamen é perfeito.
Isto demonstra que uma vez firmados continuamos firmes. Quando isso
aconteceu em nossa vida? No batismo.
e.p e.lpi,di th/j do,xhj tou/ Qeou/, a glória de Deus é o fim para o qual ele
criou o homem. E é por meio da obra redentora de Cristo que este fim é
atingido. A esperança em certeza de cumprimento por ser promessa de
Deus.

V.3 : Depois de Paulo falar em paz, agora apresenta a tribulação. Isso não
põe em xeque a paz?
“nos gloriamos nas tribulações” (Qli,yij) - Um cristão pode se alegrar
em meio ao sofrimento? Lembramo-nos de que no NT as aflições são
vistas como experiência normal aos cristãos (At 14.22). As aflições são
características de que ele é cristão. Um sinal de que Deus considera os que
as suportam como dignos de seu reino (2Ts 1.5). Mais tarde o apóstolo dirá
“que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória
a vir a ser revelada em nós” (Rm 8.18). A verdade que Deus tem domínio
sobre nossas tribulações (Rm 8.28) e através destas Deus age para nos
aproximar dele.

V.4 : ev.lpi,da: esperança não é mero desejo ansioso por dias melhores, mas
é refugiar-se em Deus a cada passo do caminho.

V.5 : “o amor de Deus é derramado em nossos corações por meio do


Espírito Santo que foi dado a nós”. Derramado (e.kke,cutai Perf. pass.):
a ação é de Deus. A justificação do pecador é “extra nós”.

APLICAÇÃO
Onde a ira de Deus foi anulada, reina a paz (V.1). “Paz com Deus” é o
nosso lema de vida. Para Paulo não é só condição interior, mas implica
uma relação correta com Deus. Antes de vir Cristo reinava a discórdia,
Deus e homem estavam desunidos e eram inimigos. Estar em Cristo significa
estar livre da ira de Deus. Graça e paz formam para o apóstolo uma unidade,
indissolúvel (Rm 1.7). Estar sob a graça de Deus é o contrário que estar
sob sua ira. Anders Nygren comenta: “No antigo eón dizíamos todos pecaram
e carecem da glória de Deus, agora dizemos no novo eón, nos gloriamos na
glória de Deus. Temos esperança. Agora já existe, mas que espera a
perfeição futura”. Fomos salvos, agora esperamos o cumprimento por
ocasião da vinda de Cristo. Quando Deus coloca o homem sob o sofrimento,
152
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
quer exercitá-lo na paciência. O sofrimento não é algo para desesperarmos,
mas a esperança o torna em algo positivo. Se não existisse o sofrimento, a
esperança não teria lugar. A função do sofrimento é produzir paciência e
confiança unicamente em Deus. Em Cristo Deus nos coloca em uma nova
relação. Qual a causa dessa atitude de Deus? O seu amor (v.5). E qual a
causa desse amor divino? Não temos resposta. O amor divino tem sua
causa única em Deus mesmo. Isso é graça (v. 2).
Na Quaresma a atenção dos cristãos está voltada para o sofrimento de
Cristo que caminha em direção da cruz. Se Deus fizesse justiça (Lei)
estaríamos perdidos. Mas por causa de Cristo (Ev), Deus se volta ao homem
pecador arrependido e o declara justo.

TEMA
A paz com Deus produz:
I – Fé: Fé é algo passageiro, mas é profunda e de coração.

II – Esperança: Para o cristão a esperança é real e a realidade é cheia


de esperanças, que tem seu cumprimento em Jesus.
1) No que concerne às tribulações, o cristão não leva vantagem sobre
os não-cristãos, contudo, apóia-se na esperança de que tem fim e
conta com Deus.

III – Amor: Em Cristo, o amor de Deus se derramou sobre nós.


1) Ali na cruz está o amor de Deus em seu sentido mais profundo
(Quaresma).
2) Do coração de Deus ao nosso coração (1Jo 4.19).
Ele nos declara justos.

Jair F. Souza
Gravataí, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DOMINGO DE RAMOS
Filipenses 2.5-11
4 de abril de 2004

1. CONTEXTO
1.1 – Contexto imediato: As exortações anteriores (1.27-30; 2.1-4) só po-
dem ser seguidas se estamos “em Cristo”, unidos a ele pela fé, tendo o
mesmo sentimento que ele teve. Aqui não está apenas em jogo o “Cris-
to exemplo”, enfatizado erradamente por muitos como sendo a solução
(isto é lei!), mas o “Cristo por nós” (v.8) (Evangelho). O que nos motiva
e modifica é o Evangelho! A santificação não existe sem a justificação,
sendo fruto desta, e ambas são obra de Deus em nós (v.13). Com base
na obra redentora de Cristo (descrita de forma poética neste texto),
temos vida e condições de viver a vontade de Deus. Olhando para a
pessoa e obra de Jesus na sua humilhação, ninguém pode se vangloriar
ou se considerar superior aos outros (v.3), mas vai procurar viver em
humildade, na certeza da graça e da glória de Deus.
1.2 – Contexto litúrgico: Esta é a clássica epístola para o Domingo de
Ramos e não pode ser dissociada do Evangelho (Jo 12.12-24) e da
leitura do AT (Zc 9.9-12). Apesar da aparente exaltação de Jesus por
parte do povo celebrante à entrada de Jerusalém, o Rei “vem humilde,
montado em jumento” e vai a caminho da cruz. Daí a ênfase desta
epístola na humildade de Jesus, que o conduz à glória como nosso Se-
nhor! Veja algumas relações do texto com o Evangelho do Domingo:

Fp 2.5-11 Jo 12.12-24
vv.5-7 - humildade vv.14,15 - montado em jumento
v.8 - morte v.24 - morte
v.9 - exaltou vv.13,23 - Bendito...
o Rei... glorificado
vv.10,11 - todos confessam Jesus é Senhor
vv.12,13 - Numerosa multidão
vv.17,18 - a multidão
v.19 - “o mundo vai após ele”
v.21 - gregos querem ver a Jesus

154
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
2. TEXTO
V.5 : fronei/te – tende o mesmo sentimento, o mesmo pensamento. Apon-
ta para a unidade da igreja, moldada em Cristo, já destacada no v. 2:
“penseis a mesma coisa”.
- evn u mi/n – em vós = na vossa comunidade (cf. vv.1-5) e não apenas
individualmente. A comunidade é a soma dos indivíduos. A nossa
responsabilidade pela unidade da igreja é pessoal e coletiva.

Vv.6,7 : morfh/| qeou/ – forma de Deus


forma de servo (em contraste com o ku,rioj do v. 11)
- a rpagmo,n – algo em que se agarra ferrenhamente, não querendo
abrir mão do direito!
- evke,nwsen / keno,w – esvaziar: Não deixou de ser Deus, mas deixou de
lado sua glória divina (cf. Dogmática)

V.8 : u ph,kooj – obediente: o conceito de humildade está ligado à obediên-


cia.
- qana,tou( qana,tou de. staurou/ – morte, e morte de cruz! Há um
crescendo na intensidade da descrição, reforçando que não foi uma
morte qualquer, mas foi a pior de todas as mortes: a cruz, a condenação
infame, a maldição.

Vv.9,10 : to. o;noma ))))) pa/n o;noma )))) tw/| ovno,mati – o nome de Jesus (cf.
2o. mandamento e a 1a. petição do Pai Nosso). O nome de Deus é Deus
mesmo (Êx 3.13,14).

V.11 : KURIOS – é o nome usado para “traduzir” Javé do AT

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
3.1 : O que está escrito, não está escrito por causa de Cristo, mas por
nossa causa.
Veja o contexto em que é colocado este hino cristológico: a vida cristã
na comunidade! (vv. anteriores e posteriores). Não basta descrevermos a
obra de Cristo, sabermos toda a dogmática de cor, se isto não se refletir em
nossa vida. E o motivo pelo qual Paulo escreve este texto é para reforçar o
seu ensino sobre a humildade e a unidade da igreja, tantas vezes ameaçadas
pela arrogância e pelo partidarismo. Cristo fez tudo por nós humildemente
para que nós pudéssemos ter tudo nele! Por que, então, orgulhar-nos? por
que nos digladiarmos? por que desprezarmos o irmão? Nossas vaidades e
lutas internas menosprezam o sacrifício redentor de Jesus na cruz e sua
extrema humildade. Vamos olhar mais para o Cristo humilde crucificado
por nós e vitorioso Senhor, e não tanto para nós.
155
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
3.2 – Gostamos de lutar por nossos direitos e fazemos exigências. Aliás, esta
é uma das maiores causas de atritos na igreja. Cristo não usa os direitos
que tinha, apesar de inocente, mas sofreu calado, em benefício da humani-
dade (cf. 1 Co 6.7). Muitas vezes pretendemos ganhar todos os nossos
argumentos e receber todos os nossos direitos; mas perdemos amigos, es-
candalizamos outros e perdemos o ambiente de convivência fraterna.

3.3 - Todos querem mandar, ninguém quer obedecer, principalmente se é


em prejuízo próprio! o quanto isto tem causado prejuízo à unidade da
igreja ... Jesus foi obediente; poderia ter exigido seus direitos; mas cum-
priu seus deveres. Que lição para nós! Foi na humildade e na obediên-
cia que ele foi exaltado!

4. SUGESTÃO DE TEMA E PROPOSTA HOMILÉTICA


Tema: Vale a pena ser humilde? (Por quê?)
Objetivo: Com base na humildade de Cristo, analisar situações e atitudes
da comunidade (e da igreja), apontando para o Salvador/Senhor, que morreu
por nós e a quem servimos com humildade amando o próximo.
Problemas para atingir o objetivo: A falta de humildade, a arrogância
inata, o egoísmo, a falta de unidade (cf. vv. anteriores ao texto).
A solução: O Cristo, humilde sofredor por nós e vitorioso Senhor, nos
torna novas criaturas para servi-lo humildemente (cf. 2º artigo do Credo
Ap., explicação de M. Lutero)

Introdução: Humildade não é palavra corrente no mundo; ambição sim!


Inúmeros títulos nas livrarias propõem fórmulas infalíveis para subir na vida
e fazer sucesso ... mas nunca à base da humildade; muito pelo contrário,
não são poucas as “dicas” para subir às custas dos outros!
Os conceitos da sociedade influenciam fortemente a igreja e às vezes
somos arrastados pela corrente. Como está o conceito e a prática da
humildade entre nós?... na igreja em geral?... Ainda dá para ser humilde no
mundo competitivo em que vivemos?... Vale a pena ser humilde?

I – Cristo humilhou-se – por nós!

A – Apesar de ser Deus (v. 6, Jo 1.1),


apesar de seus poderes e milagres (ressurreição de Lázaro, Jo 12.17,18),
apesar do aparente sucesso na entrada triunfal (Jo 12.12,13),
Cristo esvaziou-se por nós, assumindo a forma de servo.
- Como servo:
apresentou-se como Rei humilde, montado em um jumento (Jo 12.14),
lavou os pés dos discípulos (Jo 13),
156
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
carregou a própria cruz (Jo 19.17),
morreu na cruz (Jo 19.30); e tudo por nós!

B – “Tende o mesmo sentimento”:


- Apesar de nossa posição social (ou não),
apesar de nossa personalidade (forte ou fraca),
somos “servos inúteis”(Lc 17.10),
não temos nada de que nos orgulhar (1 Co 4.7).
- Dependemos exclusivamente da graça de Deus em Cristo.
- Oportunidades de exercer humildade:
na família (cônjuge, filhos, pais, irmãos),
na igreja (diretorias, departamentos, comissões, culto),
no trabalho (colegas, sociedade em geral).

II – Cristo foi exaltado – por nós

A – Por ele, Cristo não precisava ter se humilhado e morrido na cruz;


tudo foi por nós!
Sua exaltação na sua ressurreição e ascensão só confirma o plano salvador
de Deus por nós: “Está consumado!”
Sua exaltação é a nossa exaltação: Ef 1.20 = Ef 2.6

B – Apesar de nossa indignidade – Deus nos promete a glória com


Cristo!
apesar da humilhação pela qual precisamos passar como cristãos, a glória
nos está reservada!
Nós olhamos para o Cristo entrando em Jerusalém a caminho da cruz e
também ali confessamos que ele é o nosso Senhor!
Nesta fé seguimos os seus passos: pela cruz à glória!
(Cf. as recomendações dos vv. seguintes)

CONCLUSÃO
A vida cristã em humildade é resultado da nossa união com Cristo pela
fé. Quanto mais a nossa fé olhar para o Cristo humilde e sofredor por nós,
tanto mais teremos condições de exercitar a humildade no relacionamento
com o nosso próximo. Vale a pena ser humilde como Cristo foi; no tempo
oportuno Deus saberá nos exaltar.

Dr. Carlos Walter Winterle


Porto Alegre, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEXTA-FEIRA SANTA
2 Coríntios 5.14-21
9 de abril de 2004

A DATA
A Sexta-Feira Santa é uma das quatro datas importantes na vida terrena
de Cristo (Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa e Ascensão). Os eventos deste
dia são destacados pelos quatro evangelistas, o que demonstra a importância
dada aos mesmos.
Tradicionalmente é um dia de casa cheia, o que significa uma excelente
oportunidade para levar a mensagem de Lei e Evangelho a todos,
especialmente aos que aparecem neste tempo de Páscoa.

AS LEITURAS DO DIA
Sl 22.1-11: Um clamor por socorro. Cristo usou as palavras do v. 1
antes de entregar seu espírito.
Is 53.4-12: Isaías fala do Servo Sofredor e descreve o sofrimento de Jesus.
Jo 18.1-19.42: A leitura abrange as últimas horas da vida de Jesus,
desde a sua prisão até o momento em que é sepultado. João faz uma
descrição completa dos acontecimentos.

O TEXTO NO CONTEXTO
Paulo escreveu pelo menos quatro cartas aos coríntios. Duas delas são
conhecidas e fazem parte do Novo Testamento, enquanto que as outras
não chegaram a nós. Em 1 Co 5.9-13 Paulo faz referência a uma carta que
havia escrito antes. Já em 2 Co 2.3 e 7.8 ele faz referência a uma outra
carta cujo conteúdo teria feito os leitores ficarem muito tristes.
Ao que parece, o relacionamento entre Paulo e os cristãos de Corinto
ficou bastante prejudicado com a carta que receberam. Alguns dos membros
da Igreja diziam que Paulo não era realmente apóstolo e, em conseqüência,
não tinha autoridade para resolver os problemas da Igreja. Paulo reage
com firmeza e demonstra o poder transformador de Cristo, que leva inimigos
de Deus a se tornarem amigos de Deus (5.18). O nosso texto é, portanto,
parte da argumentação de Paulo em seu próprio favor e na defesa do seu
apostolado.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
O TEXTO
V. 14 : sune,cei = constranger. O verbo indica uma pressão que confina e
restringe além de controlar. O tempo presente indica a continuidade da
ação; oi pa,ntej = todos; com o artigo a palavra denota a classe nome-
ada como um todo, ou seja a soma total.
V. 17 : kti,sij = criação. O cristão experimenta um novo nascimento, uma
nova criação. A referência não é individual, mas refere-se a toda a
Igreja. Não há aqui a idéia de mudança do passado, mas sim mudança
de posição em relação a Deus e ao mundo.
V. 18 : tou/ katalla,xantoj = reconciliação, trocar um estado de inimizade
por um de amizade. A preposição prefixada é perfectiva, indicando uma
mudança perfeita, completa.
V. 19 : logizo,menoj (logi,zomai) = reconhecer, colocar na conta. Fórmula
comum nos papiros em sentido comercial de colocar uma soma na con-
ta de alguém.
V. 21 : a marti,an evpoi,hsen = ele foi feito pecado. Deus colocou nossos
pecados sobre Jesus como nosso substituto; en autw = nele. É por
estarmos em Cristo que somos justos. A justiça está em Cristo e não em
nós. A justiça não é uma virtude que adquirimos, mas um estado de
relacionamento com Deus através de Cristo. Estar em Cristo é a condi-
ção única e definitiva para o julgamento da pessoa.

MEDITAÇÃO
É preciso levar em conta que, por ser Sexta-Feira Santa, entre os ouvintes
estarão muitos que não freqüentam os cultos em outras oportunidades.
Infelizmente, para muitos que vivem na periferia das congregações, ainda é
tradição participar da Santa Ceia nesta data. Por quê? Talvez por um sentimento
vago de que neste dia tem permissão para participar de um evento central (uma
espécie de perdão de pecados anual ou de reconciliação com Deus, ainda que
deturpada), ou simplesmente porque cresceram vendo seus pais fazerem isso e
continuam no mesmo ritmo, ou ainda por considerarem este um dia muito santo
e com algum poder especial (isso talvez por força da influência católica). Estes
periféricos possivelmente trarão consigo um Cristo moldado às suas exigências
e não estarão dispostos a modificar suas vidas, como reza o texto.
Por outro lado, não apenas aqueles que vêm aos cultos em ocasiões
especiais podem ser encaixados na situação descrita. Infelizmente são muitos
aqueles que, quase que, semanalmente, estão apenas cumprindo um ato
tradicional. Participam do culto, mas no dia-a-dia suas vidas continuam sem
refletir seu cristianismo. Têm no culto um momento de pagar seus pecados
e cumprir sua obrigação para com Deus. Mas seu contato com Deus
começa e termina no serviço litúrgico semanal. Fora da igreja nem sempre
estão dispostos a deixar que Deus faça parte da sua vida.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Se isso nos leva a concluir que a tarefa de pregar a este povo é difícil,
precisamos lembrar que Paulo enfrentou uma situação idêntica. Precisou
dar seu recado a cristãos que haviam moldado uma imagem de Cristo (e
também uma doutrina de salvação e reconciliação) deturpados, que não
apenas precisava ser corrigida, mas antes, desalojada dos seus corações.
A idéia é aproveitar a oportunidade para pregar sobre a santificação da vida
do cristão. Do texto temos o convite: Deixem que Deus os transforme (v. 20
– BLH). De Cristo temos o alerta: A glória do meu Pai é conhecida por meio
dos frutos que vocês produzem, e assim vocês se tornam meus seguidores
(Jo 15.8) e Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o lavrador. Ele corta
todos os galhos que não dão uvas, embora eles estejam em mim...Eu sou
a videira, e vocês são os galhos. Quem está em mim e eu nele, esse dá
muito fruto, porque sem mim vocês não podem fazer nada (Jo 15.1-2,5).
Também é preciso aproveitar a oportunidade que Paulo nos dá no v. 15
para destacar a ligação entre a morte e a ressurreição. O fato de que no
Domingo de Páscoa o número de participantes do culto é, quase sempre,
bem menor que a Sexta-Feira Santa, deve nos deixar alertas. É verdade
que não podemos pregar apenas a ressurreição, esvaziando a cruz. Mas
também pode acontecer o contrário, enfatizando a morte e deixando de
lado a ressurreição. Os ouvintes precisam estar acordados para o fato de
que a Sexta-Feira Santa é o início da Páscoa, não apenas no calendário da
Igreja, mas principalmente na vida cristã. E que esta Páscoa (da Sexta-
Feira Santa ao Domingo), deve marcar minha vida também nos outros dias
da semana, do mês e do ano, pelo não excluir Cristo da minha vida diária,
mas pelo permitir que Deus transforme o meu viver.

A IDÉIA
O texto permite várias e excelentes opções de prédica. Aproveitando a
meditação acima, vamos seguir com a idéia de pregar santificação.

Tema: Deixem que Deus os transforme


I. Deus já nos transformou.
a) Cristo morreu por nós.
b) Nós morremos com Cristo.

II. Deus continua nos transformando


a) Somos dominados pelo amor de Deus
b) O amor de Cristo por nós nos leva a uma nova vida.

160
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
III. Deus transforma outros através de nós.
a) Pelo anunciar de Cristo para todos.
b) Pelo viver uma vida santificada no dia-a-dia.

A morte e a ressurreição de Cristo não podem ser apenas um evento


histórico comemorado anualmente pelos cristãos. Ao contrário, o cristão
precisa celebrar a Páscoa todos os dias, lembrando que com Cristo morreu
para o pecado e com este mesmo Cristo ressuscitou para uma nova vida.
Não para uma vida egoísta, mas para uma vida transformada por, e para
com, Cristo.

Éder Carlos Wehrholdt


Campo Largo,PR

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DOMINGO DE PÁSCOA
1 Coríntios 15.55-58
11 de abril de 2004

CONTEXTO
Pode-se dizer que o capítulo 15 da primeira carta do apóstolo Paulo aos
Coríntios é a gloriosa coroa da epístola, uma afirmação inequívoca de
confiança numa futura e certa ressurreição dos mortos.
O apóstolo traz provas históricas e lógicas da ressureição do corpo,
concluindo com um triunfante hino de vitória que é especificamente o texto
da epístola indicada para a celebração da Páscoa no presente ano.
Realmente, Cristo morreu, não porque foi vencido pela morte, mas por
espontânea entrega a ela, para cumprir assim o plano da salvação de Deus,
dirigido para benefício do ser humano. Por outro lado, não adiantaram a
grande pedra fechando e selando a entrada da sepultura, nem a escolta de
guardas. No terceiro dia, conforme fora profetizado, a sepultura estava
aberta (a pedra removida) e vazia. Jesus ressuscitara. Jesus vencera,
submetera a morte. Jesus é Senhor da morte e da vida (Mateus 28. 1 – 10).

TEXTO
Vv. 55 – 57: Que gloriosa visão se abre aos nossos olhos com a triunfante
descrição da vitória: (v 54) “E, quando este corpo corruptível se revestir
de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então
se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada... (Isaías 25.8)”. A mor-
te foi engolida pela vitória. A voraz e insaciável inimiga foi forçada a
sucumbir e foi devorada.O último inimigo foi destruído: a morte (v 26).
Em triunfante alegria a mudança, a transformação é festejada e saudada:
V. 55: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu agui-
lhão (ferrão)?
A morte que, à semelhança de serpente venenosa usou sua picada para
matar, perdeu seu ferrão. A morte que estava acostumada a ser vitoriosa
foi definitivamente derrotada, conquistada.
V. 56: “O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei”. O
aguilhão da morte é o pecado, através do qual ela entrou no mundo (Ro-
manos 5.12). Jesus suportou sobre si todos os pecados, de toda humani-
162
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
dade, pagando toda culpa, todas as dívidas, toda conta, todos nossos
débitos...”Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por
amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43.25).
Toda força do pecado é a Lei (Romanos 8.2). A Lei promete salvação
ao ser humano em condições e exigências que são impossíveis de cumprir,
tornando assim o pecado algo abundante na vida de todos e, por conseqüência,
a salvação inatingível.
V 57: “Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Se-
nhor Jesus Cristo”. Jesus cumpriu todas as condições e exigências da
Lei, removendo assim a força, o poder, o domínio do pecado. Portanto,
nós dirigimos a Deus, o Triúno Deus, autor e realizador da nossa salva-
ção, toda nossa gratidão por nos ter dado a vitória por intermédio de
nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.
Tudo isso se torna nosso, se completa em nós, pela fé.
Como cristãos tomamos posse da vida eterna desde agora. Morte e sepultura
perderam seu poder sobre áqueles que estão em Cristo. A morte transformou-
se para os que crêem, confiam, em eterna felicidade e bem-aventurança.
V.58:Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre
abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso traba-
lho não é vão”.
A congregação de Corinto, seus membros, tornaram-se negligentes e
desanimados em virtude de, entre outros, muitas dúvidas aos poucos
começarem a se instalar em seus corações.
Por isso, o apóstolo aproveita a ocasião e termina sua maravilhosa
exposição teórica a respeito da salvação e ressurreição dos mortos, com
uma muito apropriada aplicação prática: Sede firmes e inabaláveis na vossa
fé. Eles já sabiam que não tinham crido em vão (v 2). Por isso podem
agora, igualmente, estar certos de que seu trabalho, inabalável e abundante
na obra do Senhor, também não será em vão.
Fé e certeza da ressurreição desmontam qualquer sensação de incerteza
e/ou instabilidade e o maior incentivo e estímulo para o serviço, o trabalho
na obra do Senhor.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Um fim de semana extraordinário:
esclarece,
define,
recupera e
garante a VIDA ETERNA, desde agora, para todos os que crêem.

Norberto Ernesto Heine


Porto Alegre, RS

163
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA


1 Pedro 1.3-9
18 de abril de 2004

Nisto exultais
Há tempos em que é difícil para o cristão exultar, expandir-se em
manifestações de alegria. É importante que não se perca de vista o caráter
primeiro desta carta: aos eleitos que são forasteiros da Dispersão.
Nisto exultais. Pedro não está minimizando, nem sendo paternalista ou
sugerindo que a insegurança e a instabilidade da vida dos cristãos na
Dispersão fosse algo que um cristão devesse superar com um apelo à fé.
Jesus não tinha agido assim com eles. Ele estivera ao lado deles nas suas
fraquezas e quedas. Ele não os condenara quando caíram. Por assim
dizer, Jesus caiu junto com eles. Quanto mais fundo caíam, mais próximo
ele parecia estar deles. Pedro nunca esquece os momentos que mais
gostaria de varrer da sua memória. Mas Jesus ficara do seu lado e o
procurou com palavras que eram misto de compreensão, compaixão, perdão
e companheirismo.
Nisto exultais. Porque fomos regenerados. Isto é, literalmente, nascemos
outra vez. Pedro conhecia bem demais este sentimento. “Pedro, tu me
amas?” Que dimensão de amor havia naquele Jesus, para, depois de tudo,
acreditar e buscar por uma afirmação de amor neste homem miserável e
arrasado pela vergonha e indignidade? Ser pecador e amado: Isto, para
Pedro, era nascer de novo para uma viva esperança.
Nisto exultais. A leitura do testamento já estava no passado. Pedro
carregava em si a euforia do herdeiro que sabia que lhe fora destinada toda
a herança. Toda a riqueza do Criador dos céus e da terra era sua como
posse de herança já confirmada.
Nisto exultais. Pedro não fala mais de si. Ele é a testemunha viva a
proclamar um fato. Isto tem de ser proclamado desta maneira e nenhuma
outra. É incrível? Contraria toda a lógica humana de pecado e recompensa?
Bem por isso mesmo necessita ser proclamado por alguém que é um sinal
vivo de que Deus, o Deus dos Pais, o Deus revelado pelo qual os profetas
inquiriram e indagaram, este Deus é o Único e Verdadeiro.
Nisto exultais. Porque estais sendo cuidados e preservados por Deus na

164
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
fé que se apropria desta realidade que somente a fé pode receber. Ou
poderia haver algum modo racional de perceber que Deus, pelo seu poder,
decidiu cuidar de cada um de nós, pessoas que não têm credenciais que as
instituições do mundo costumam exigir e respeitar? Pessoas sem credenciais
diante do mundo. Entretanto, atribuídas de uma credencial que nenhuma
razão humana se atreve a imaginar possível.
Embora, no presente, por breve tempo – se necessário, provações.
Geografia, tempo e espaço são vistos na perspectiva de um tempo novo
que foi inaugurado pela ressurreição de Cristo. Não nos é suficiente saber
que já somos cidadãos do reino de Deus, com todos os privilégios e garantias
afirmadas por Deus. É confortador saber que é por pouco tempo e
contingencial. O sofrimento, a provação mesmo, não são sinais de
estranhamento de Deus por quem quer que seja. É oportunidade para
experimentar a confirmação da promessa de que Deus está ao lado do seu
povo, daqueles que esperam nele. É tempo de esperar em Deus, com Deus
e por Deus. É tempo de participar da vida de Deus que sofre pelo mundo
que se perde. É tempo de estar com Deus na sua missão.
Nisto exultais. Para que, quando estivermos no final da caminhada,
possamos ver em tudo que a revelação de Cristo, mesmo que por muitas
vezes não tenhamos compreendido o sentido de tantas coisas, seja
confirmada na vida de cada um. Enquanto isto, antecipadamente, exultais
com alegria indizível e cheia de glória. Esta antecipação da glória faz vibrar
a emoção que nasce da fé que recebe tudo incondicionalmente por graça.

Organização do material:

Tema: Motivos que cristãos têm para se alegrarem

Nisto exultais, nos assegura o apóstolo:

Em Jesus temos esperança viva


Temos herança assegurada desde agora
Vivemos cada dia na perspectiva da eternidade

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA


1 João 5.1-13
25 de abril de 2004

1. CONTEXTO
A luta da Igreja contra as heresias dos “gnósticos primitivos” deve ter
alcançado seu ponto culminante no final do século I. A primeira carta de
João desempenha um papel de destaque nesta luta, estabelecendo de maneira
nova a linha que divide o cristianismo e o gnosticismo, criando possivelmente
um impacto até para nós cristãos. Ao acentuar que Jesus veio “na carne”,
ele o faz contra as tendências que pretendiam separar o “Jesus Celeste” do
“Jesus Crucificado”. Já no prólogo de sua carta (Cap. 1), João diz que o
“Verbo” que era desde o princípio, é o mesmo “que vimos com os próprios
olhos, o contemplamos e as nossas mãos apalparam”. O que apresenta,
então, de especial a carta? “Algo” poderia ser o que aparece em 1 Jo 5.6,
“veio por meio de água e sangue”, sobretudo se percebemos que o tema da
fé em Cristo está vinculado ao tema do amor de Deus. Na formulação
apresentada em 1 Jo 5.4: “ e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa
fé”, aparece o impacto das verdades cristãs. Esta epístola de João foi
fundamental para que a Igreja se mantivesse fiel à sua essência e ao seu
espírito.
No terceiro Domingo de Páscoa é oportuno um texto que dê ênfase
tanto na divindade quanto na humanidade de Cristo. A verdade de que o
Deus-homem Jesus Cristo morreu e ressuscitou é artigo vital da fé cristã.
Em um mundo em que cada vez mais se afirma que “religiões são máscaras
de Deus”, nunca é demais reforçar a mensagem de que “quem tem o Filho
tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida.”

2. TEXTO
Vv. 1-2: Parece que João passa do tema amor para um novo tema: a fé e
o ser nascido de Deus. Isto poderia ser reforçado pelo fato de ser
mencionado este tema nos versículos seguintes. Não se pode esquecer
que a segunda metade do versículo 1 até o versículo 3 voltam a falar de
amor. Poderíamos supor que a primeira parte do versículo 1 estaria
introduzindo um novo pensamento sobre o amor. Poder-se-ia dizer que
166
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
ambos, fé e amor são sinais de que a pessoa é nascida de Deus. E o
conteúdo desta fé é crer que Jesus é Cristo. O fazer as obras da vonta-
de de Deus, igualmente, são sinais de que se é nascido de Deus. João
não está tratando de mostrar como uma pessoa pode experimentar o
novo nascimento, mas apontar para as evidências que comprovam que
uma pessoa está em relação permanente de um filho com Deus, seu
Pai. O conteúdo do amar a Deus e guardar seus mandamentos é amar
aos filhos de Deus, já que amor a Deus implica amar a seus filhos.
Vv. 3-5: Amor a Deus consiste não em sentimentos, mas em ações concre-
tas. E os mandamentos de Deus não são difíceis porque tudo o que foi
gerado de (por) Deus vence o mundo. Mundo deve ser encarado neste
contexto como área do poder do maligno. E a vitória que vence o mundo
é a fé em Jesus. A VITÓRIA da qual João fala não é apenas lembrança
de uma vitória, mas é a própria vitória. Esta fé foi produzida pela força
criadora de Deus, e ela é a própria força que permite ao amor vitorioso
continuar jorrando dentro do mundo em que impera o desamor e o ódio.
O conteúdo da fé que vence o mundo: crer que Jesus é o Filho de Deus.
V. 6a: Poder-se-ia afirmar que esta passagem refere-se à água do batis-
mo de Jesus e ao sangue de sua morte. O texto afirma que Jesus Cristo
foi batizado verdadeiramente e morreu verdadeiramente sobre a cruz.
Esta afirmação de João é tão enfática por causa daqueles adversários
que sustentavam que o Cristo celestial desceu sobre Jesus em seu ba-
tismo, mas que se retirou dele antes de sua morte. Afirmavam, assim,
que só o Jesus terreno teria morrido, mas não o Cristo celestial. Por
isso, João enfatiza que foi Jesus Cristo, e não simplesmente um Jesus
terreno que experimentou batismo e morte.
Vv. 6b-8: Em seu batismo o Espírito desceu sobre Jesus e foi isto que
convenceu João Batista de que aquele que ali foi batizado era o Filho de
Deus (Jo 1.32-34). No relato dos outros evangelhos (Marcos e Lucas),
o batismo de Jesus foi acompanhado por uma voz que declarou que ele
era o Filho de Deus. Aquele que foi batizado não foi feito Filho de Deus,
mas era Filho desde a eternidade. Tanto o testemunho do Espírito, quanto
do batismo e da morte na cruz, testificam ser Cristo o Filho de Deus.
Vv. 9-13: O testemunho do Espírito é o testemunho de Deus a respeito de
Jesus. O testemunho de Deus é maior do que o dos homens. Se o
testemunho de Deus se refere a Jesus como seu Filho, segue-se que
todo o que crê no Filho de Deus aceita com ele o testemunho de Deus,
e tem a vida verdadeira.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
a- Ênfase em Cristo, como o Deus-homem, que é o centro e conteúdo da
fé cristã.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
b- Tal fé, de que este Cristo que morreu é nascido de Deus e é verdadeiro
Deus, fará com que os que nele crêem também façam a sua vontade,
que é concreta.
c- O testemunho de Deus a respeito de seu Filho é sempre mais importan-
te do que as opiniões e especulações humanas.
d- Em Cristo há vida eterna e fora de Cristo não há salvação e vida verda-
deira.

4. SUGESTÃO DE TEMA
Em Cristo, o Deus-homem, temos a vitória.

BIBLIOGRAFIA
MARSHAL, I. Howard. The Epistles of John. Michigan: Eerdmans
Publishing Co., 1990.
RIENECKER, Fritz. Sprachlicher Schlüssel zum Griechischen Neuen
Testament. Göttinhg: Brunnen Verlang, 1952
THÜSING, Wilhelm. As Epístolas de João. Petrópolis: Vozes, 1983.
WESTCOTT, B. Foss. The Epistles of St. John. Michigan: Eerdmans
Publishing Co., 1960

Paulo Gerhard Pietzsch


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA


1 Pedro 2.21b-25
2 de maio de 2004

SEGUIR OS PASSOS DE CRISTO

1. CONTEXTO
- Pedro é autor de nossa perícope. Depois de ter abandonado seus cani-
ços e redes no mar da Galiléia e ter aceito o convite de Cristo “vinde
após a mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4.19), Pedro
integra a equipe dos 12 apóstolos e, ao longo de seu ministério, em
muitos momentos, chama a atenção sobre si, e suas atividades recebem
repreensões ou elogios dos colegas e do próprio Cristo. É uma pessoa
muito dinâmica e investe tudo que tem, sabe e pode em favor de sua
atividade missionária. Não gosta de meio termo. Tornou-se um verda-
deiro “pescador de homens”, especialmente entre seu povo, os judeus
(como Paulo, foi o missionário entre os gentios).
- Além de suas viagens missionárias, Pedro também escreveu duas Epís-
tolas. Fazem parte das sete chamadas “Epístolas Católicas ou Univer-
sais” (1 Pe, 2 Pe, Tg, Jd, 1 Jo, 2 Jo, 3 Jo), e foram dirigidas às congre-
gações cristãs nas cinco províncias romanas localizadas onde hoje está
a Turquia. Provavelmente foram escritas em Roma (5.13), na década
de 60, auge das perseguições aos cristãos.
- Conforme a tradição cristã, Pedro morreu crucificado, de cabeça para
baixo, entre os anos 60 e 70, em Roma (Babilônia), sob as perseguições
atrozes do imperador Nero.
- A linguagem, a teologia, as doutrinas e as recomendações de ordem
prática de Pedro, são assombrosas e admiravelmente profundas, claras
e diretas. Certamente Silvano (5.12) auxiliou muito este extraordinário
“pescador de peixes”, transformado em “pescador de homens”. Silvano
deve ter sido excelente lingüista. O Espírito Santo trabalhou muito em
Pedro.
- A Epístola de Pedro é um documento doutrinário, através do qual procu-
ra advertir, consolar, fortalecer e animar o povo de Deus a suportar as
perseguições por causa de sua fé em Cristo, e perseverar firmes até o
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
fim. É uma carta de consolação, num período de grande provação da fé
em Cristo.
- Nossa perícope é um exemplo expressivo desta “mensagem de consolo
e esperança”. 1 Pe 2. 21-25 prova que Pedro conhecia muito bem o
A.T. Faz teologia e apresenta a cristologia baseado em Is 53. Há um
equilíbrio entre as colocações sistemáticas e as recomendações práti-
cas nesta perícope. Neste contexto, o texto será melhor compreendido.
O paralelo entre o ontem e o hoje, o pregador saberá fazer. – “Tudo que
foi escrito, para o nosso ensino...”.

2. TEXTO
Para o enriquecimento da mensagem sobre a perícope, é importante
destacar e analisar alguns verbetes.
- Servos (oikétees – v. 18): Não é escravo (doulos), os quais eram
maltratados, comprados, vendidos e tratados como “animais de carga”.
Mas Pedro fala em oikétees, que são servos domésticos (Hausdiener),
empregados, mordomos que trabalhavam em casas de famílias pagãs.
O apóstolo recomenda educação, respeito e obediência – dando, assim,
no meio da idolatria e perseguição, um claro testemunho de sua fé no
kúrios, o Senhor e Salvador Jesus. É uma confissão de fé através da
atitude, postura, comportamento. A partir do v.21, Pedro retoma a idéia
de servo e mostra como Jesus, o Servo Sofredor (Is 53), enfrentou e
viveu no meio das adversidades, zombarias e sofrimentos – e recomen-
da que todos “os servos de Cristo” procurem imitar o Senhor Jesus.
- Chamar (kaléu – v.21): Indica que é Deus quem chama. Não nos
chamamos a nós mesmos. Somos chamados. Deus é o agente que
toma a iniciativa. É uma ação divina. Somos chamados “das trevas
para...” (2.9), para “sua eterna glória” (5.10). Mas também somos cha-
mados para o exercício da paciência e da perseverança no meio das
aflições e perseguições. – Fidelidade, em todos os momentos, até o fim.
Quem chama também dá as forças. A atitude fala muito alto.
- Sofrimentos (pásxu – v.21): São agressões físicas (corpo), psicológi-
cas (consciência) e espirituais (alma). Cristo sofreu toda a ordem de
angústias, ultrajes, traições, zombarias, deboches, batidas, ferimentos,
ameaças e humilhações (v. 21, 23; Is 53; Mt 26 e 27, e paralelas). E, por
amor ao Pai e aos pecadores, Cristo suportou tudo sem reclamações,
“sem abrir a boca” (Fp 2.5-11). Pedro analisa este “modus vivendi” do
Redentor Jesus e recomenda que seja imitado pelos cristãos. – É difícil,
mas “por meio de muitas tribulações...”; “sê fiel até à morte...”; “ao
vencedor, a vitória”.
- Exemplo (hypogrammós – v.21): Na verdade, significa a “escrita que
o professor escreve no quadro para o aluno copiar”. A cópia precisa ser
170
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
a reprodução exata do original. Algo como cópia, xerox, 2ª via, decal-
que. Sentido mais lato: modelo, forma, atitude para imitação, paradigma
(Vorschrift, Vorbild), algo como espelho. Cristo, o “Servo Sofredor” é
o exemplo, o modelo, o paradigma em que os “servos de Cristo” se
devem espelhar e imitar.
- Passos (íxnos – v. 21): São os sinais deixados pelos pés de alguém. São
os rastros, as pegadas, as marcas que ficam atrás da pessoa que cami-
nha (Fussspur, Fusstaphen). O líder abre o caminho e mostra o cami-
nho através dos rastros. Cristo mostrou o caminho como viver e como
caminhar no meio dos sofrimentos. E chegou ao “Pai, nas tuas mãos
entrego...”. – Os cristãos precisam pisar nas pegadas de Cristo, nos
mesmos rastros para alcançar a meta final: a vitória, a vida eterna.
- Seguir (epakolouthéu – v.21): Não parar, não voltar, não desviar. Mas
ir para frente, atrás dos passos do outro (Nachfolgen). É andar na
mesma direção, na mesma rota, na busca da mesma meta. É seguir
bem de perto, bem junto. Acompanhar até alcançar e conquistar o prê-
mio. Cristo vai na frente e nós o seguimos até chegar “na casa do Pai,
onde há muitas moradas”.
- Pecado (amartía - v. 22, 24): Significa “errar o alvo” estabelecido por
Deus. É todo o desvio do caminho que leva ao céu. É transgressão da
vontade do Senhor. É a quebra dos mandamentos de Deus. Após a
queda de Adão e Eva, todas as pessoas nascem em pecado (pecado
original) e cometem pecados (pecados atuais). E o salário do pecado é
a condenação e morte eterna. Para aniquilar o pecado e vencer o diabo,
Cristo veio ao mundo: nasceu, morreu e ressuscitou. E Cristo, mesmo,
sendo verdadeiro homem (e verdadeiro Deus – as duas naturezas), foi
diferente de todos os homens: sem pecado! “Não cometeu pecado”
(v.22). Como o Sumo Sacerdote, Cristo foi “santo, inculpável, sem má-
cula, separado dos pecados...” (Hb 7.26). “E nele não existe pecado”
(1Jo 3.5). Neste estado de impecabilidade (Sündlosikeit), de pureza e
santidade, Jesus Cristo, o Remidor, o Cordeiro de Deus, o Salvador, o
Servo Sofredor levou (anaféru – v.24 – ajuntar, pôr nos ombros e
carregar para cima, para outro lugar – a cruz) sobre si mesmo o pecado
e os pecados todos e de todos os seres humanos de ontem, hoje e
amanhã (v. 23, 24: examinar bem Is 53. 1-12 e detalhar). Este sofrer,
pagar, carregar e “levar sobre si” os “nossos pecados” para “curar ou
sarar” e nos dar saúde espiritual foi de livre vontade, “sem mérito ou
dignidade de nossa parte”. Esta obra da reconciliação (Erlösungswerk),
foi voluntária (Freinwilligkeit) e feita em nosso lugar (Stellvertretung).
Nossa salvação custou muito caro: os sofrimentos, as dores, as angús-
tias e a morte horrível “no madeiro”, na cruz do Calvário. Cristo supor-
tou tudo por nós até chegar ao “está consumado” e ao “Pai, nas tuas
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
mãos entrego...”. – O caminho está aberto e foi mostrado. Nossos
pecados foram pagos. O exemplo está diante dos olhos. As marcas dos
passos e rastros de Cristo estão aí. Esperam imitação, até ao fim.
· Pastor (poimén – v. 25) e Bispo (epískopos – v. 25): Tendo carrega-
do e descarregado o pecado e os pecados daqueles que estavam des-
garrados (planáu – v.25 – desviados, separados, transviados, enga-
nados e separados), os seus seguidores, fiéis, discípulos, cristãos, que
foram reunidos e ajuntados, formam um rebanho de ovelhas (próbaton
– v. 25) que vivem em harmonia “no mesmo aprisco”, tendo Cristo
como Bom Pastor. (Não esquecer de relacionar aqui o Salmo 23 e Jo
10. 1-29). Além de Pastor – que apascenta, alimenta, cuida, protege e
guia suas ovelhas-cristãos, Cristo recebe outro título: Bispo! Como
supervisor (Aufseher), Guardião, Visitador, Conselheiro, Cristo vê,
aconselha e “cuida das almas dos fiéis”, “cuida da vida espiritual de
vocês”.

3. DISPOSIÇÃO
Introdução
- Quando Armstrong pisou no solo da lua, deixou ali as marcas de seus
pés, de seus passos, de sua caminhada. A TV mostrou em todo mundo
suas pegadas. Pisar nos mesmos passos de Armstrong é o sonho maior
de todo astronauta.
- Querendo ou não, todos nós deixamos nossos rastros (físicos, psicológi-
cos, educacionais, teológicos) atrás de nós. Que passos são os nossos?
Que pegadas são as nossas? Onde terminam? Merecem imitação?
- Em nossa perícope, Pedro apresenta Jesus Cristo como exemplo e
modelo de passos certos que merecem ser seguidos. É o que veremos
agora. (Aproveitar bem a análise dos verbetes com seus significa-
dos).

SIGAMOS OS PASSOS DE CRISTO

Por quê? Quais são as razões, os motivos, as justificações?

I – Porque Cristo é nosso exemplo


1. Ver o contexto do autor e da época em que foi escrito o texto (cf.
1. Contexto).
2. Explicar o significado dos passos e pegadas de Cristo (tema).
3. Por que Cristo pode ser nosso exemplo e modelo.
4. Importa, com fidelidade, seguir os passos de Jesus, especialmente
nos momentos de dores.

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
II – Porque Cristo não cometeu pecado
1. Transição: “Quem está sem pecado, atire a 1ª pedra”
2. As duas naturezas de Cristo: humana (mas sem pecado) e divina,
a pureza e santidade do Salvador.
3. Após a queda, e hoje, para a reconciliação, precisamos do Justo e
Santo Jesus.

III – Porque Cristo sarou nossas enfermidades


1. Como médico, Cristo cura, sara e dá saúde espiritual.
2. O mundo está enfermo - física, psicológica, social, espiritualmente.
3. Só Cristo pode purificar, curar e “justificar” o pecador para entrar
na “casa do Pai”.

IV – Porque Cristo é nosso Pastor e Bispo


1. Traçar um paralelo entre o mundo enfermo, gentílico e zombador
de Pedro e hoje. O cristão, como servo diante de patrões incrédulos
2. Só os passos e rastros de Cristo (que passam pela cruz e o túmulo
aberto) levam ao trono de Deus.
3. Louvar a Deus que, em Cristo, “veio buscar e salvar”, e quer nos
pastorear e aconselhar, e como “Supremo Pastor” (cf. 19) e Bispo-
Conselheiro cuidar de nossas almas.

CONCLUSÃO
- Cristo abriu o caminho da reconciliação, deixou seus passos e pegadas
para o seguir.
- Podemos imitar os rastros de Cristo porque ele é nosso exemplo, ele é
Santo, ele nos cura de todos pecados, é nosso Pastor e Bispo.
- Cada um de nós deixa rastros (positivos ou negativos) atrás de si.
- Seguindo os passos de Cristo, chegaremos à porta dos céus, para ouvir-
mos: “Entra no reino do teu Senhor”.

Dr. Leopoldo Heimann


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA


Colossenses 3.12-17
9 de maio de 2004

CONTEXTO
O período da Páscoa é central no calendário cristão. O Ano da Igreja surgiu
a partir da Páscoa. Cada domingo é uma lembrança da Páscoa. E o texto da
epístola para o quinto domingo de Páscoa está fundamentado no Cristo glorificado
como o motivador para uma vida de virtudes que caracterizam uma pessoa
atingida pela mensagem da ressurreição.
Note-se que a perícope inicia com a recomendação “revesti-vos, pois”.
Este pois mostra a conseqüência da ressurreição de Cristo como motivadora
para a nossa ressurreição para uma vida cheia de virtudes cristãs.

TEXTO
O versículo 12 coloca toda a motivação para as virtudes cristãs em Deus. Deus
nos elegeu, portanto é ele que nos conduz à vida cristã. Deus já havia elegido um
povo no Antigo Testamento (Dt 4.37) e continua fazendo isto com a comunidade
cristã (1Pe 2.9). E nós, eleitos, ainda somos “amados” por Deus. O particípio perfeito
“aponta para uma ação completa com um estado ou condição resultante” (Chave
Lingüística). Mas isto não significa que a ação que parte de Deus impede a nossa
ação de resposta. Pelo contrário, é precisamente porque o cristão foi eleito para ser
salvo eternamente que ele vai fazer todos os esforços e para viver uma vida correta
recheada de bondade, humildade, delicadeza e paciência.
O versículo 13 aponta para um fato para o qual a vida moderna costuma
colocar barreiras: “suportai-vos uns aos outros”. Não é verdade que nos irritamos
rapidamente uns com os outros, mas temos pouco tempo em realmente
suportarmos, ou seja, ajudarmos, colaborarmos uns com os outros em nossas
necessidades e ansiedades? Estamos sempre com pressa e não temos tempo
para as necessidades e aflições dos irmãos ao nosso redor. A grande lição de
Cristo é a fonte certa para vivermos em comunhão e paz: “Assim como o
Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós”.
O versículo 14 aponta para a maior de todas as virtudes: o amor. Aí podemos
lembrar 1Coríntios 13, o grande capítulo sobre o amor. De novo Cristo é o
exemplo e a motivação: só podemos amar porque Cristo nos amou primeiro. E
onde há amor tudo se une perfeitamente: marido e mulher, pais e filhos, os
irmãos de uma congregação.
174
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
O versículo 15 aponta para a conseqüência do amor: a paz. De novo, a
verdadeira paz é a que Cristo nos conseguiu. Se esta paz arbitrar nossas
dificuldades ou desavenças, encontraremos logo uma solução. Somos todos
membros do corpo de Cristo, e isto nos conduz à paz; somos uma unidade em
Cristo. Conseqüentemente isto nos leva a sermos também agradecidos.
O versículo 16 mostra a fonte que Deus nos deu através da qual Deus
continua vindo a nós para nos encher de vontade para praticarmos as virtudes
cristãs: “a palavra de Cristo”. E, se precisamos mostrar nossas virtudes cristãs
para com o nosso próximo, sem dúvida precisamos também mostrar nossa
dedicação a Deus que brota também da motivação do Cristo ressuscitado: o
nosso louvor a Deus. “Salmos, hinos e cânticos espirituais” são nossas maneiras
de demonstrarmos nossa gratidão a Deus. É interessante que estas expressões
de louvor também são meios da palavra de Cristo habitar em nós. Nossos
cânticos, sejam eles na forma de salmos, hinos ou cânticos espirituais, trazem
junto a mensagem de salvação e são, portanto, meios da palavra de Cristo
habitar também ricamente em nós. Mesmo que não tenhamos uma clara
distinção entre estes diversos tipos de cânticos, o que podemos deduzir é que
Paulo aqui sugere uma diversidade de tipos de cânticos. Diz-se que um bom
hinário é também um bom livro de doutrina. Se atentarmos para as mensagens
de nossos hinos e liturgias veremos a concretização desta verdade. Exploremos
bem nosso hinário e liturgias; eles expressam com clareza a mensagem cristã.
O versículo 17 encerra esta perícope e nos remete mais uma vez à fonte de
toda a nossa motivação para as virtudes e ao louvor: o Senhor Jesus. Ele é
nosso Advogado junto ao Pai e, por intermédio dele também levamos nosso
louvor ao trono do Pai.

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
1. Nossa eleição nos induz a uma vida de relacionamento em paz entre os
irmãos.
2. O perdão de Cristo nos motiva à prática de perdão entre os irmãos e ao
desejo de nos suportarmos ajudando uns aos outros nas suas necessidades.
3. O amor é a virtude de Deus que nos motiva a fazermos tudo em união.
4. O louvor brota da palavra de Deus que nos instrui e nos motiva à gratidão.

PROPOSTA HOMILÉTICA
“SUPORTAI-VOS UNS AOS OUTROS”
1. Pelo perdão mútuo
2. Pela paz de Cristo
3. Pela instrução e aconselhamento.

Raul Blum
São Leopoldo, RS
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA


1 Timóteo 2.1-8
16 de maio de 2004

1. CONTEXTO
Não se sabe bem ao certo quando é que Paulo escreveu as chamadas
“cartas pastorais”, destinadas a Timóteo e Tito. A primeira a Timóteo tem o
objetivo único de prepará-lo a fim de que possa combater a filosofia que
estava entrando nas congregações e que modificava o pensamento a respeito
de Deus e do mundo, que veio a se chamar gnosticismo.
Após a saudação a Timóteo (1,2), Paulo alerta para o surgimento desta
filosofia contrária ao cristianismo (3-7). Para isso, destaca a importância do
ensino da lei como boa (8-11), do evangelho como a boa nova da parte de
Deus para a salvação de todo homem (12-17) e encerra colocando a
importância do ministério de Timóteo frente à necessidade de pregar a lei e
o evangelho contra os falsos ensinadores (18-20). Paulo também aconselha
a Timóteo a prestar atenção às formas de culto e oração (2.1-15) e também
em relação aos diáconos, que tenham as devidas qualificações para o
desempenho do seu ministério (3.1-16).
A heresia não só corrói o ensino, mas também a vida prática da igreja.
Os ensinos contrários desfazem a criação de Deus e suas relações: a vida
familiar, o ministério da igreja, a vida das viúvas. Ao mesmo tempo, faz os
crentes viverem longe dos propósitos de Deus, vivendo em pecado.
A preocupação maior de Paulo é referente ao ensino dos falsos mestres,
que levam mais gente ao erro do que outros meios. Paulo aconselha a
Timóteo a ser um verdadeiro “homem de Deus”, não se apegando às coisas
terrenas, mas ensinando com zelo e poder a Palavra de Deus.

2. TEXTO
V.1 : A importância da “exortação” de Paulo pode ser lida de duas formas:
como sendo primeiro em seqüência (Paulo começa suas cartas com
orações e ações de graças) ou como sendo primeiro por motivo de
importância (na argumentação da carta). O que é importante é que
Timóteo pratique “súplicas, orações, intercessões e ações de graças em
favor de todos os homens”. Estas quatro palavras [súplicas, orações,
176
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
intercessões e ações de graças] são sinônimos. “Súplicas” pode ser
usado para um benefício ou necessidade específica; “orações” dá ên-
fase às petições que se chegam até os ouvidos de Deus, solicitando
bênção e cuidado específicos da parte de Deus; “petição” nos traz a
imagem de alguém fazendo um apelo a um reino por algum benefício;
“ações de graças” é agradecimento ou gratidão de forma consciente
pela atenção da parte de Deus. E estas ações precisam atingir todos os
homens – a universalidade da graça de Deus (ver At 22.15).
V.2 : Para que todos possam ser beneficiados pelas bênçãos, importante é
que reis e autoridades tenham condições de proporcionar “vida tranqüi-
la e mansa, com toda piedade e respeito”. Este texto nos faz lembrar do
quarto mandamento, mandamento com promessa de se viver muito tempo
sobre a terra desde que pais e autoridades sejam obedecidos.
Vv.3,4 : Nestes versículos parece que temos um motivo ainda maior para
orarmos por todos – há necessidade de salvação e pleno conhecimento
da verdade. Aqui as ações verbais passivas nos dão a entender a pers-
pectiva de Paulo em que o Império Romano com toda sua estrutura e
suas pessoas precisavam ouvir da Boa Nova da parte de Deus para
que Deus pudesse agir em meio a este povo.
Vv.5,6 : Aqui a ação ativa de Deus é caracteriza pela obra de Cristo em
nosso favor. O resgate de Cristo como único caminho à Salvação é a
vitória necessária que precisamos ter e que o mundo precisa conhecer.
Jesus (no evangelho do dia) já havia proclamado sua vitória sobre o
mundo. Agora, “em momento oportuno”, esta certeza precisa ser leva-
da ao mundo. Este “momento oportuno” diz respeito à revelação do
plano de Deus em Cristo Jesus, mas também pode ser entendido como
relacionado ao ministério de Paulo e ao testemunho da igreja.
V.7 : Paulo caracteriza o seu ministério com o “momento oportuno” da
revelação. Ele foi “pregador, apóstolo e mestre” da revelação de Deus.
Estas três funções qualificam o apostolado de Paulo e não descrevem
ofícios distintos. Pregar enfatiza evangelismo e exortação e ensinar
enfatizam instrução. Mas, mais do que isto: Paulo é autoridade apostó-
lica (testemunha ocular e anunciador do próprio Cristo). Aqui o ministé-
rio apostólico assume caráter de autoridade para se conhecer a vonta-
de de Deus através de Jesus Cristo.
V.8 : A universalidade e a santidade da ação caracterizam a vida que se
coloca diante de Deus em oração. Quem deve fazer isto são homens
(contrastando com mulheres), pois são eles responsáveis pelo ministé-
rio público (as instruções às mulheres seguem a partir do v. 9). À uni-
versalidade da oração vincula-se a postura ou gesto apropriado para tal:
mãos levantadas aos céus como forma de dizer – Deus, nas tuas mãos
está a nossa vida ou algo semelhante. Bom é perceber que Paulo não
177
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
está preocupado com o que fazer com as mãos – mas sim de apontar
para quem tudo pode. Judeus e cristãos levantam mãos em suas ora-
ções, mas não é interessante destacar isto.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
A leitura do evangelho [Jo 16.23b-33] nos ajuda a direcionar a reflexão
e aplicação homilética. Se seguir Jesus causa aflições, Jesus nos conforta
com sua paz, pois ele já “venceu o mundo”. Penso apropriado retirar do
texto acima esta certeza que Paulo está passando para Timóteo, a qual
gera uma ação coerente de certeza e de vida cristã a serviço da causa do
Senhor. A ética cristã e o testemunho cristão são frutos de uma fé que já
venceu os inimigos; talvez a maior dificuldades é percebermos e lutarmos
contra as tentações que nos querem afastar desta certeza. A oração como
“arma” pode ser entendida como toda a vida cristã na constante certeza da
salvação, mas que luta contra inimigos que querem que esta verdade não
seja preservada. Mas é justamente nesta luta que temos aprendido a fazer
teologia. Como Lutero sugere, é na tentação de Satanás que aprendemos
quem é Cristo. De fato, Satanás é nosso melhor professor para que saibamos
levantar mãos aos céus para orarmos (vivermos nossa identidade).

Clóvis J. Prunzel
São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SÉTIMO DOMINGO DE PÁSCOA


Efésios 3.14-21
23 de maio de 2004

CONTEXTO
Epístola aos Efésios é uma das cartas de Paulo escritas da prisão,
provavelmente em Roma. A razão principal de escrevê-la foi encorajar os
membros da congregação de Éfeso e congregações vizinhas, se de fato era
uma carta circular, com a convicção de que a sua prisão não significava o fim
da igreja, como muitos lamentavam, mas que a igreja estava bem edificada
sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Jesus Cristo a sua pedra
angular (2.20). Desvendou-lhes a glória desta única e santa igreja cristã e o
que este sublime privilégio de ser membro desta igreja significava. Imedia-
tamente anterior ao nosso texto, ele fala do mistério desta igreja que é a união
de judeus e gentios, antes inimigos, numa só igreja gloriosa e que, portanto,
não desfalecessem nas tribulações de Paulo, pois justamente nelas consistia
a glória deles. Procede então à oração do nosso texto em que pede que sejam
fortalecidos com poder e tomados de toda a plenitude de Deus.

TEXTO E APLICAÇÕES HOMILÉTICAS


Vv. 14 –15: Paulo se põe de joelhos. Pode-se orar em qualquer posição e
emitir apenas gemidos ou orar em silêncio, em pé, andando ou corren-
do. No entanto, a postura do corpo é importante, quando, por meio dela,
se quer enfatizar uma atitude de respeito, de humildade ou reverência,
que o ajoelhar expressa. Enquanto os judeus costumavam orar em pé,
ajoelhar-se tornou-se um costume entre os cristãos, segundo o historia-
dor eclesiástico Eusébio.
O apóstolo se põe de joelhos diante do Pai de quem toma o nome toda a
família tanto no céu como sobre a terra. Infelizmente perdeu-se na tradução a
paranomásia path,r ))) pa/sa patria,) No grego patria, deriva de path,r) O
termo path,r, é usado 250 vezes em o Novo Testamente e em Efésios 10 vezes.
Podemos aqui conscientizar os ouvintes do grande privilégio de podermos
chamar a Deus de Pai, que, mediante nosso Salvador Jesus Cristo, se tornou
para nós um pai amoroso, contrastando com o conceito de um Deus vingativo
que precisa ser aplacado com sacrifícios ou outras obras inventadas pelos gentios
179
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
e descrentes. Alguns intérpretes consideram aqui o termo família como um
conceito pluralístico, no sentido de grupos humanos que têm o mesmo Deus
criador. Mas devemos entendê-lo aqui no sentido soteriológico. Esta família é a
igreja universal, a Una Sancta, da qual uma parte já está no céu, na igreja
triunfante, e a outra ainda na terra, na igreja militante. Isso o contexto da Epístola
supõe, onde Paulo enfatiza a unidade da igreja, cuja cabeça é Cristo.
V. 16: O apóstolo expõe agora o conteúdo de sua oração. Pede que Deus
fortaleça seus leitores com poder. Este poder consiste na doação das
riquezas da glória de Deus, como sua graça, amor, sabedoria etc. (cf. Jo
1.16). Essas dádivas gloriosas são dadas mediante o seu Espírito. Este,
conforme o evangelho deste domingo, é o Consolador que Jesus prome-
teu enviar da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dá o testemunho de
Jesus (Jo 15.26). A parte de nossa personalidade que deve ser fortalecida
é o nosso homem interior, em outras palavras, o novo homem que foi
regenerado pela fé em Jesus Cristo. É conveniente lembrar aqui que o
Espírito Santo sempre opera em nós através da palavra e dos sacramen-
tos, que, portanto, devem ser usados diligentemente por nós.
Entre as dádivas mais preciosas com que Deus fortalece os seus com poder
é a habitação de Cristo no seu coração pela fé. A fé em Cristo é um dom do
Espírito Santo pela qual Cristo entra no coração dos seus não apenas com suas
dádivas e virtudes, mas em pessoa, como o apóstolo também o afirma em Gl
2.20. Com a habitação de Cristo, pela fé, os crentes são arraigados e alicerçados
no amor. Trata-se aqui do amor a Deus e ao próximo, que é um fruto da fé em
que os crentes, com o crescimento na fé, criam cada vez raízes mais profundas
e, conforme o Sl 1.3, vicejam como uma árvore frutífera. Ou, na outra figura,
são comparados com um edifício bem fundamentado, que, conforme as palavras
de Jesus em Mt 7.23-24, é edificado sobre uma rocha.
Vv. 18-19: Assim, arraigados e alicerçados em amor, os leitores da Epísto-
la, juntamente com todos os santos, poderão compreender qual é a lar-
gura, e o comprimento, e a altura e profundidade de quê? O apóstolo
não menciona o adjunto adnominal e, por isso, os intérpretes de todos os
tempos deram as mais diferentes respostas. Alguns atribuem essas di-
mensões à igreja, aludindo a Ef 2.21; outros, à sabedoria de Deus, alu-
dindo a Jó 11.8-9; ainda outros ao mistério de Cristo, mencionado em Ef
3.4. Mas, com Lenski e outros intérpretes, parece mais viável identificá-
lo com o amor de Cristo, mencionado no v. 19. As quatro dimensões
referidas não seriam assim tomadas literalmente, mas expressariam
apenas a imensidão deste amor. O emprego do artigo apenas uma vez
combina as quatro dimensões num conceito de unidade. Como disse
alguém, no ato de sua mensurabilidade, descobrimos a sua
imensurabilidade. Na filosofia estóica essa enumeração das quatro di-
mensões designava a totalidade do universo.
180
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Em outras palavras, poderíamos, com a inclusão dos dois particípios, no
final do v.17, formular a oração final, contida nos vv. 18 e 19 a, desta maneira:
“a fim de, arraigados e alicerçados em amor, poderdes compreender, com
todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura e a profundidade
do amor de Cristo e conhecer este amor, que excede todo o entendimento.”
Segundo Lenski, é possível colocar os dois particípios depois da conjunção
i[na, pois temos um bom número de exemplos em que tais modificadores
são antecipados à conjunção.
O que impressiona nesta oração final é a frase: conhecer o amor de Cristo
que excede todo entendimento. Isso nos mostra que o amor de Cristo está acima
de todo o conhecimento. Os gregos se destacavam pelo conhecimento, mas era
um conhecimento sem amor. Os gnósticos também insistiam no conhecimento,
de que se vangloriavam, mas também era sem amor. Para Paulo um conhecimento
sem amor é como o bronze que soa ou como o címbalo que retine (1 Co 13.1).
Podemos fazer aqui uma porção de aplicações em relação ao perigo de uma
ortodoxia morta, dum conhecer sem o amor produzido pela fé. Podemos citar os
fariseus do tempo de Jesus, e dar outros exemplos dos nossos dias. Machado de
Assis, por exemplo, é o romancista brasileiro que mais vezes citou em suas obras
passagens da Escritura, que apenas lhe serviam de verniz de sua cultura geral,
pois morreu descrente. Podemos até ser doutores em Teologia, mas se este
conhecimento não é permeado pelo amor, nada seremos.
Quanto mais os cristãos crescem na fé tanto mais crescem também no
conhecimento do amor de Cristo. E esse crescimento contribui para que sejam
tomados de toda a plenitude de Deus. Essa plenitude de Deus compreende a
medida completa de suas dádivas das quais já foram mencionadas algumas
no decorrer da oração. Essas dádivas Deus quer dispensar em rica medida e,
por isso, devemos encorajar-nos uns aos outros de pedi-las em abundância.
Deus quer que lhe peçamos como a um rei. Peçamos, portanto, seus tesouros
espirituais em rica medida e ele no-los concederá copiosamente. Embora
jamais possamos ser tomados de toda a plenitude de Deus, durante esta vida,
poderemos aproximar-nos dela cada vez mais como ponto de referência de
um ideal elevado, tal qual o fez o apóstolo Paulo, que, não tendo obtido ainda
a perfeição, prosseguiu para conquistar aquilo para o que também foi
conquistado por Cristo Jesus (Fp 3.12).
Vv. 20-21: A doxologia, que o apóstolo acrescenta à sua oração, é pareci-
da com suas doxologias em outras epístolas. O que nos chama a aten-
ção aqui é a sua inteira confiança no poder de Deus que nos pode dar
infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, ressaltan-
do assim a supergenerosidade de um pai amoroso que quer o bem de
seus filhos, a fim de que também eles experimentem a ventura de se-
rem ricos para com Deus (Lc 12.21) e qual seja a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus (Rm 12.2).
181
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Outro detalhe, que só encontramos nesta doxologia, por ser a Epístola
que trata da igreja por excelência, é a inclusão das palavras na igreja com
que quer lembrar-nos do poder da oração coletiva e do conforto dos cristãos
que se sentem amparados pela intercessão mútua em que repartem as suas
cargas uns com os outros.

PROPOSTA HOMILÉTICA
Para incluir todo o texto num tema mais abrangente, com as devidas
aplicações ao nosso tempo e ambiente, propomos o seguinte tema e partes:

TEMA
A Oração de Paulo
1. Suas razões
2. Seu conteúdo

Na primeira parte, depois de termos exposto as razões de Paulo, podemos


alinhar as nossas razões para uma oração semelhante, entre as quais
mencionamos: a oposição de hoje contra os ensinamentos da Bíblia; a
negação dos milagres e outros relatos históricos; a negação da origem divina
do universo; as teorias psicológicas que negam o pecado; as diversões de
nossos dias abaixo dos mínimos padrões morais; a promiscuidade sexual; a
falta de honestidade nos negócios; a falta de convicção religiosa,
especialmente a falta de certeza da salvação; a credulidade, como, por
exemplo, a daquela moça que consultava todos os dias o horóscopo. Quando
sua amiga lhe disse que não sabia que ela cria na astrologia, ela respondeu:
“Creio em tudo um pouquinho.” Para enfrentarmos tantos perigos, nada
melhor do que orarmos nos termos da oração de nosso texto, cujo conteúdo
podemos expor, na segunda parte, na ordem dos versículos comentados.
Na conclusão podemos frisar mais uma vez a importância do
fortalecimento do nosso homem interior, para estarmos aparelhados a resistir
às tentações no dia mau, com ilustrações de heróis da Bíblia, da História
Eclesiástica e do nosso tempo, como, por exemplo, a verificação de Dorotéia
Thompson que constatou que as pessoas que demonstraram a maior
coragem nos campos de concentração nazistas, durante a Segunda Guerra
Mundial, não foram os homens de negócios, ou intelectuais, ou da política,
ou de uma raça particular, mas sacerdotes, ministros da Palavra e outras
pessoas de fé. Deus quer fazer de todos nós justos que florescerão como a
palmeira e que crescerão como o cedro no Líbano (Sl 92.12-15).

Dr. Paulo F. Flor


Dois Irmãos, RS

182
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

DOMINGO DE PENTECOSTES
Atos 2.1-8. 12-18
30 de maio de 2004

1. CONTEXTO
O Pentecostes, historicamente, era a Festa das Semanas, ou das
Primícias. Era celebrada 50 dias depois da Páscoa. Era uma festa muito
importante para os judeus, pois era a festa da colheita, quando as primícias
da ceifa de trigo eram trazidas ao Senhor. Agradecimento e esperança de
boas colheitas para o futuro era o que estava na mente daqueles que dela
participavam. Mas não somente isso, também era uma ocasião de
comemoração, renovação da Aliança feita por Deus com o povo de Israel.
Para nós cristãos, o Pentecostes se tornou a confirmação da Nova
Aliança, onde a base é a Graça de Deus, revelada no nascimento, vida,
morte e ressurreição de Cristo Jesus, em favor e em lugar da humanidade
afastada de Deus. Porque o Consolador prometido por Jesus veio e que
estará sempre com a Igreja (Jo 14.16), temos a certeza de que haverá
boas colheitas até o final dos tempos.
Olhando para o livro de Atos, vemos que Lucas tem por objetivo nos
mostrar o triunfo do cristianismo. O livro é ponte entre o que Cristo
“começou a fazer e ensinar” (1.1) e o que ele continuou, pelo Espírito Santo,
através dos apóstolos e da igreja. Portanto, o Pentecostes é extremamente
cristocêntrico.

2. TEXTO
V.1: reunidos no mesmo lugar: Os discípulos estavam reunidos em Jeru-
salém, num cenáculo (At 1.13), uma sala grande de jantar, no segundo
piso, provavelmente a mesma onde fora realizada a Última Ceia. Eles
estavam esperando o cumprimento da promessa de Jesus de serem
batizados com o Espírito Santo (1.5) o que lhes daria poder para teste-
munhar (1.8).
Vv. 2-3: onde estavam assentados. O estar assentado é importante por-
que nos dá a idéia de que estavam fazendo alguma coisa. Um pouco
antes, vemos que “eles perseveravam unânimes na oração” (1.14).
Portanto, é de se esperar que também agora estavam perseverando na
183
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
oração. Assim, o clima é de culto; agora, os discípulos ouvem um som
vindo do céu como um vento impetuoso, violento, forte. A ênfase está
no “ som” e não no vento. Não diz que era vento, mas sim “ som como
de um vento impetuoso”. Também Deus já aparecera com som forte
(Êx 19.16). É claro que também a referência ao vento nos lembra de
que este simboliza o Espírito de Deus (Ez 37.9). O que importa é que
algo sobrenatural, divino, está acontecendo. Apareceram “línguas, como
de fogo”. O vento simboliza o Espírito Santo. Já as línguas de fogo, o
seu poder (At 1.8).
V.4: Ficaram cheios do Espírito Santo. O que poderia significar isso?
Como estamos falando de Deus Espírito Santo, sempre ficamos com a
sensação de que apesar de todos os esforços, nossa mente finita não
consegue captar o infinito, que é Deus. Neste caso, além de sua pre-
sença sobrenatural, é claro, o “estar cheio do Espírito Santo” está
intimamente conectado com a fé e testemunho. Lucas nos relata mais
casos parecidos: João Batista (Lc 1.15), Maria (Lc 1.41), Zacarias (Lc
1.67). O estar cheio do Espírito Santo é estar cheio de fé. Acima de
tudo, o Espírito Santo encheu os discípulos de fé. E como vemos a
seguir, essa fé transformou-se em testemunho, feito, é claro, de uma
forma milagrosa: passaram a falar em outras línguas.
Vv. 5-8: Por ser dia de Pentecostes, a cidade estava repleta de visitantes
de todas as partes. O falar em línguas dos discípulos chamou a atenção
das pessoas que afluíram para o local para ver essa coisa espantosa.
Ficaram atônitos: como poderiam galileus (que geralmente tinham pou-
co estudo) estar falando tão fluentemente línguas diferentes? Espanto
era a reação que as pessoas tinham quando Jesus realizava seus mila-
gres (Mt 12.23; Mc 2.12). Mas o objetivo do falar em línguas é o de
chamar a atenção de todos para ouvirem a respeito de Cristo. Também,
ao conceder o dom de falar em línguas, o Espírito Santo estava indican-
do claramente o caráter universal e multicultural da Missão. A mensa-
gem precisa estar ao alcance daquele ao quem se quer atingir.
V. 14 : Advertiu-os: Aqui não tem o sentido de uma advertência, um
xingão de Pedro, mas sim de um discurso, um pronunciamento. O
mesmo verbo é usado em At 26.25, quando Paulo fala diante do rei
Agripa. O objetivo de Pedro não é de retrucar àqueles que os chama-
ram de bêbados (apesar de o tê-lo feito), mas sim de pregar o Evange-
lho a eles.
Vv :15-18: Pedro deixa claro que àquela hora (9 da manhã) dificilmente
alguém estaria embriagado e em seguida fala que o acontecido é o
cumprimento da profecia de Joel 2.28-29. Nos últimos tempos, o Espí-
rito Santo seria derramado sobre toda a carne. A chegada do Espírito

184
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
tem uma dimensão escatológica. Quando ele fosse derramado estaría-
mos vivendo os últimos dias, o tempo da graça entre a Ascensão e a
volta de Cristo, o “grande e terrível Dia do Senhor” ( Jl 2.31). O
sentido é de que todos aqueles que receberem o Espírito Santo irão
profetizar. Isso se refere ao dia do Pentecostes que estava acontecen-
do naquele momento, mas também para o futuro. Os que fossem con-
vertidos se tornariam profetas, ou seja, testemunhas a respeito da Sal-
vação, sejam elas crianças, jovens, velhos, servos homens ou mulheres.

Conexão com o evangelho do dia


O evangelho do dia é João 14.23-27. Há uma ligação muito forte entre
esse evangelho e o pentecostes. Tanto que o texto do capítulo 20.22 é
chamado de o “Pentecostes de João”. Ele quer ressaltar que a obra do
Espírito Santo não deve ser separado da obra de Cristo: sua vida, morte e
ressurreição. O Consolador iria lembrar aos discípulos tudo o que Jesus
tinha ensinado (v. 26). Jesus e o Pai, pela Palavra, na ação do Espírito
Santo, fariam morada com os cristãos (v.23). Hoje, não temos mais a
promessa de que vai ocorrer a glossolalia. Mas o Pentecostes acontece
quando a Palavra de Deus é pregada e os Sacramentos são administrados.
Comemorar o Pentecostes é antes de tudo proclamar o Evangelho.

3. APLICAÇÕES HOMILÉTICAS
Lei
1- Está na dureza de alguns que, zombando, disseram: “estão bêbados”
(v.13). Todo ser humano, por natureza não aceita as coisas de Deus.
Na explicação do Terceiro Artigo Lutero diz: “Creio que por minha
própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo... mas o Espírito
Santo me chamou pelo Evangelho.”
2- Com o derramamento do Espírito, está próximo o fim dos tempos (Ez
30.3). O tempo é de arrependimento. É dura lei. Vai chegar o tempo do
Julgamento (At 2.21, Jl 2.32). Devemos seguir cada vez mais aquilo
que o autor de Hebreus (12.1) quer nos dizer: Nós, como cristãos, pre-
cisamos nos desvencilhar de todas as coisas que nos atrapalham, do
pecado e correr a carreira, ou seja, vivermos a nossa fé e principalmen-
te sermos profetas, testemunhas de Jesus.
3- O trabalho foi do Espírito Santo. Os discípulos foram instrumentos.
Pela palavra deles (externa) o Espírito falou (palavra interna) pela Lei e
Evangelho e converteu os 3000. É necessário humildade da parte da-
quele que testemunha. A glória é de Deus.
4- A variedade de línguas nos indica que a Igreja deve levar Cristo às
diversas culturas, respeitando suas peculiaridades. Cultura germânica,
185
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
hinódia germânica, jeito de ser germânico são adiáforos. O importante
mesmo é a proclamação das Boas Novas. Se a liturgia tiver de ser
acompanhada com cavaquinho ou berimbau, que seja.

Evangelho
1- Porque o Espírito Santo veio a nós no Batismo, ele nos chamou pelo
Evangelho. Somos agora filhos e filhas de Deus. Jesus cumpriu a sua
promessa.
2- O fim dos tempos não precisa nos causar medo. Pela obra de Cristo na
cruz, que o Espírito Santo nos ensina através do evangelho, podemos
ter a certeza da salvação. Para nós não é tempo de medo, mas de
espera, expectativa.
3- Enquanto esperamos, somos também profetas, anunciadores do que
aconteceu, do que acontece e do que há de vir. Se temos medo, nos
sentimos fracos e incapacitados; pela palavra e Sacramentos o Espírito
Santo nos fortalece, dá coragem, capacidade. E que também não preci-
samos ser mais do que instrumentos. Nós falamos e Ele age. Podem
ser 3000, 300, 30, 3, ou apenas 1 durante toda a nossa vida. Mas já vale
a pena. Pois só uma alma vale o mundo inteiro.

4. SUGESTÃO HOMILÉTICA
O lema da Igreja fala de Cristo para Todos. Mas precisamos confessar
de que nós temos, muitas vezes, medo, nos sentimos incapazes, sem “ poder”
para fazer o que Jesus nos pede. Penso que o sermão deveria se direcionar
para a questão do poder que o Espírito Santo dá aos cristãos, através da
Palavra e Santa Ceia para esse trabalho. E esse poder é fé. E fé só se
consegue com lei e evangelho. A lei que me aponta o que eu não faço e o
evangelho que me mostra o que Cristo fez por mim e o que o Espírito Santo
me ajuda a fazer em seguida.

TEMA
Cheios do Espírito Santo, cheios de fé, cheios de testemunho!

Guilherme Augusto Schmidt


Catanduvas, SC

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Efésios 1.3-14
6 de junho de 2004

Se a teologia se ocupa com Deus, então o domingo da Santíssima Trindade


é o domingo teológico por excelência. E se teologia é muito mais um “louvor
de Deus” do que propriamente um estudo de Deus, então não poderia haver
texto mais apropriado para tal louvor do que Efésios 1.3-14. E se o único
Deus verdadeiro é, de fato, o Deus trino, então esta dimensão também não
poderá ser omitida, pois o texto de Ef 1.3-14 é essencialmente trinitário.
O domingo da SS. Trindade convida a uma reflexão sobre Deus. Se
estamos interessados na essência de Deus ou, quem sabe, no inter-
relacionamento das três pessoas, o texto não nos deixará ir muito longe.
Agora, se queremos focalizar as opera ad extra, ou seja, a ação da Trindade
para fora de si mesma e em relação ao mundo e a nós em particular, teremos
muito que meditar em Efésios 1. Afinal, a ênfase neste texto recai sobre o
que Deus fez, faz e ainda fará. O texto trata das bênçãos de Deus sobre
nós, em Cristo.

1. ALGUNS DESTAQUES DO TEXTO


1.1. O texto é um só período, do v. 3 ao 14. A tradução de Almeida
reproduz esta estrutura do original grego. Parece que, ao se falar de
Deus e dos seus feitos, é impossível parar. Deus aparece no texto do
começo ao fim. A pessoa do Pai aparece no v.3. Cristo é destaque nos
vv. 4-13a. O Espírito Santo entra em cena nos vv. 13b-14.
1.2. Uma expressão que se destaca é “nas regiões celestiais”: aparece
cinco vezes em Efésios (1.3,20; 2.6; 3.10; 6.12). As bênçãos que rece-
bemos são espirituais e celestiais, isto é, são totalmente dependentes de
Deus. Também recebe destaque a expressão “em Cristo” (ou “nele”,
“no qual”, “no Amado”), que aparece 12 vezes ao todo. Fala da incor-
poração em Cristo, e aponta para o corpo de Cristo, no qual estamos
pela fé, no batismo.
1.3. Num primeiro momento o texto destaca o que Deus fez antes da
criação do mundo: ele nos elegeu e predestinou. Escolher é predestinar
e predestinar é eleger. Neste sentido, os vv. 4 e 5 são rigorosamente
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
paralelos. Deus nos escolheu para sermos santos, não porque éramos
ou seríamos santos. E o que nos faz santos e irrepreensíveis (v.4) é o
fato de Deus nos adotar como filhos (v.5).
1.4. Num segundo momento, Efésios 1 ressalta o que Deus fez e fará em
Cristo: ele nos redimiu (v.7) e vai recapitular tudo em Cristo (v.10). Em
Cristo, temos a redenção (v.7). Redenção, redimir (ou remir) e Reden-
tor são termos que usamos com tanta facilidade, mas que nem sempre
entendemos bem. Eles nos remetem ao mercado de escravos, onde
alguém é solto mediante o pagamento de resgate. No âmbito espiritual,
o preço pago (não se diz a quem foi pago) é o sangue de Cristo, isto é,
a morte dele na cruz (ver Mt 20.28 e Mc 10.45; 1Tm 2.6). No futuro,
Deus vai recapitular tudo em Cristo (v.10). Paulo usa o verbo grego
avnakefalaio,w (anakefalaióo). Denota um “reunir tudo sob o contro-
le de uma pessoa”. Almeida traduz: “fazer convergir nele todas as
coisas”. A Linguagem de Hoje tem: “unir debaixo da autoridade de
Cristo”. Outra tradução possível é “recapitular”, no sentido de sinteti-
zar de novo. O mistério que Deus nos revelou é que tudo converge em
Cristo. O alvo da história do mundo é Cristo.
1.5. Na parte final, o texto fala do que Deus faz conosco ao nos dar o
Espírito Santo: ele nos sela (v.13) e nos dá um penhor (v.14; ver Ef 4.30;
2Co 1.22). Ele põe em nós sua marca de proprietário. Ele nos adota
como filhos ao nos dar do seu Espírito. Este Espírito é o penhor, a garan-
tia da nossa herança. A imagem vem do mundo dos negócios e
corresponde à entrada que se dá como garantia de que, no devido tempo,
o saldo será quitado. Neste sentido, a herança que temos como filhos de
Deus se restringe, neste momento (o tempo do “já”), ao penhor ou à
garantia, que é o Espírito Santo. É tudo que temos, no momento. A
herança completa receberemos no “ainda não” da eternidade.

2. SUGESTÃO HOMILÉTICA
Uma das ênfases mais recentes da hermenêutica bíblica, que aparece,
por exemplo, no livro Entendes o que lês? (Gordon Fee e Douglas Stuart),
é o destaque dado aos diferentes gêneros literários (narrativas, epístolas,
poesia, parábola, etc.). Este mesmo interesse pelo gênero do texto bíblico
está sendo transferido para a homilética, em especial a assim chamada
“nova homilética”, que acolhe uma variedade de enfoques, técnicas, etc.
Na prática, isto significa que um salmo deveria ser pregado como salmo,
quem sabe até num estilo poético ou laudatório, e um texto de epístola
deveria ser pregado como epístola, num tom mais argumentativo.
Aplicando isto a Ef 1.3-14, fica a sugestão de pregar o texto nos termos
do próprio texto, respeitando o gênero e o tom do mesmo. Embora seja um

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
trecho de epístola, seu tom é doxológico. O apóstolo se dirige aos cristãos,
falando de Deus e convidando seus ouvintes a bendizerem a Deus por uma
longa lista de benefícios. O estilo poderia ser semelhante ao início do texto
na Bíblia na Linguagem de Hoje: “Agradeçamos ao Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, pois ele nos tem abençoado ...” Cada parágrafo poderia
começar com a mesma frase, desenvolvendo, então, um novo tópico ou
mais uma bênção que Deus nos dá (eleição, adoção de filhos, redenção e
perdão, revelação do seu mistério, “recapitulação”, herança, evangelho, selo
e penhor do Espírito, resgate da propriedade [v.14], o louvor da sua glória).
Desta forma, ao mesmo tempo em que se convida o povo a louvar a Deus,
o próprio sermão já será este louvor. Afinal, dizer, “vamos louvar a Deus”,
já é louvor. E recitar (com música ou sem música) o que Deus tem feito –
assim como o fazemos no Credo e como é feito em Ef 1.3-14 – é o louvor
supremo.

Dr. Vilson Scholz


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


1 João 3.11-18
13 de junho de 2004

CONTEXTO LITÚRGICO
O evangelho (Lc 16.19-31) nos traz claramente a falta de amor ao
próximo demonstrada pelo rico, como também a suficiência da Palavra de
Deus para nos tornar sábios para salvação pela fé em Cristo. O AT (Êx
20.1-17) são as palavras que Deus dá como orientação para que o povo
tenha uma vida feliz na terra em que ingressarão. Das quais, 7 se referem
ao relacionamento entre as pessoas e o restante entre a pessoa e Deus. O
intróito (Sl 62.5-12) nos fala de colocar nossa confiança em Deus (v. 5-8,
11-12), e não em pessoas (v.9 ), nem nas riquezas, violência e roubo (v.10).
Os textos nos conclamam a confiar unicamente em Deus e repartir suas
bênçãos com as demais pessoas em amor.

CONTEXTO HISTÓRICO
Não sabemos exatamente em que ano foi escrita a carta, mas o que está
em questão são os falsos mestres. Estes, tudo indica que sejam de cunho gnóstico
(dualismo neoplatônico, que acreditava numa dicotomia entre a matéria [má] e
o espírito [bom]) que especialmente negavam o fato de Cristo tornar-se carne.
Em resposta João procura mostrar qual é o verdadeiro conhecimento
(conhecer, saber aparecem aprox. 34 vezes, oida: 13 vezes e ginw,skw: 21
vezes). Dá dicas de como reconhecer falsos mestres: vivem em pecado
(3.8), negam Jesus como Messias (2.22) e Filho de Deus (4.15;5.1,2); não
amam a seu irmão (4.20). João está conclamando a igreja a que coloque
sua confiança unicamente no Deus verdadeiro, que é conhecido pelo fato
de se ter feito pessoa humana em Jesus Cristo (1Jo 1.1-4).

LOCAL DA PERÍCOPE NA EPÍSTOLA


A epístola pode ser dividida em 3 grandes sessões (1.5 - 2.29; 3.1 - 4.6;
4.7 - 5.12) que trabalham basicamente os mesmos temas (amor a Deus e
ao próximo, vitória sobre o pecado e o mundo, comunhão com Deus, o
anticristo e a declaração de fé sobre Jesus); com prólogo (1.1-4) e um
epílogo (5.13-21).
190
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
O tema da perícope é o amor ao próximo. Vem precedido da introdução
de uma nova sessão que convida os fiéis a viverem como filhos de Deus
(3.1-10). Viver como filho de Deus inclui a esperança da libertação e glória
(3.1,2); praticar a justiça (3.8); não viver em pecado (3.8-10) pois isto é
sinal de domínio do diabo (3.9). E o v.10 faz a ligação deste tema com a
nossa perícope. Viver como filho de Deus inclui amar o irmão, pois “não
procede de Deus, ... aquele que não ama a seu irmão” (3.10).

TEXTO
O v. 11 é o título da perícope: “amemos uns aos outros”. É uma longa
sessão dedicada a este tema. Inclui: exemplos negativos (v. 12,17 - Caim);
instrução prática de como manifestá-lo (v. 16,17,18 – ajuda concreta, de
fato); do que é um sintoma de falta de amor (12,15 - ódio); o que significa a
presença do amor e a ausência do mesmo em nós (14 – vida e morte);
origem da falta de amor (12 - Maligno); onde não há amor (v. 13 – mundo
= não crentes em Cristo); a fonte e o exemplo de amor (16 - Cristo).
Amemos uns aos outros: No capítulo 4 de forma especial temos a fonte
que nos conduz a amarmos uns aos outros: o amor vem de Deus (4.7);
Deus é amor (4.8); Deus nos amou e enviou seu Filho como propiciação
pelos nossos pecados (4.10)... Este é um dos grandes temas de João, é o
que identifica os discípulos de Jesus (v. 14; Jo 13.34) e é ordenado por
Cristo (Jo 15.12,17). O tema aparece várias vezes na epístola (2.7-11; 3.23;
4.7; 4.11; 4.12). Aqui, pelo contexto, é característica dos filhos de Deus. É
o que diferencia os filhos de Deus dos filhos do diabo (10,14).
Não segundo Caim (v.12): Destaque ao personagem; de certa forma
quer evocar à memória todo o relato de Gênesis. É o primeiro assassino da
história, que teve por motivação o ódio que tomou conta do seu coração (cf.
Gn 4.5-7). É um exemplo claro de falta de amor que jamais deve ser seguido
sfa,zw : é matar cruelmente, impiedosamente cf. Ap 5.6; Lc 19.27). A
(sfa,
fonte propulsora é indicada pela preposição ek, que também indica a quem
pertencia Caim: o Maligno (3.8). Na seqüência há um paralelismo antitético:
faz obras más (o que pertence ao maligno) x faz obras boas e justas (o que
pertence a Deus). O que faz alguém ser filho de (pertencer a) Deus é a fé
(Jo 1.12), e foi pela fé que o sacrifício de Abel foi aceito por Deus (Hb
11.4) e pela falta de fé o de Caim rejeitado. Portanto, é em quem faz a obra
que está a diferença, no que a qualifica, não tanto na obra em si. O fato de
Caim pertencer ao Maligno faz com que todas as suas obras sejam más, e
já as obras de Abel são boas por ele ser filho de Deus.
avnqrwpokto,noj
oj: assassino (v. 15): Na Bíblia só aparece aqui e em Jo
8.44: “Vós sois do diabo, que é vosso pai... Ele foi homicida desde o princípio
e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade...” (ARA).
Mostra a íntima relação deste adjetivo com o diabo, como lhe sendo próprio
191
Igreja Luterana - nº 1 - 2003
(quase um pronome). Assassinato é obra do diabo, pois é pecado, e o pecado
é obra do diabo (v. 8). O assassino pertence ao Diabo (v. 9,14), e não tem
a vida eterna. No entanto, se refere a alguém que mata ou odeia e não se
arrepende, pois no cap.1 mostra que todos somos pecadores e precisamos
reconhecê-lo e confessá-lo (arrepender-se) e assim receberemos perdão
(1.8,9). No texto a presença de ódio indica a falta de arrependimento (v.15).
Pode-se dizer que o uso da palavra “assassino” está em paralelo ao uso de
“nem ladrões, nem bêbados... herdarão o reino de Deus” em 1Co 6.10.
Contudo o texto continua e diz “Tais fostes alguns de vós....mas fostes
justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”
(1Co 6.11 ARA). Quando estamos em Cristo todos os nossos pecados são
removidos, e isto nos torna aptos a amar (cf. Jo 15.2,3).
o mundo vos odeia (v. 13): o mundo é regido pelo Maligno (5.19) por
isto o ódio é uma característica do mundo, que odeia os que não são seus
(Jo 15.18-23). Ódio é sinal de afastamento de Deus (v. 15). É necessário
“não estranhar”, antes lutar para não se deixar enredar pelo mundo. É
preciso vencer o mundo com o amor. Foi assim que Deus fez (v.16). Deus
enviou seu Filho ao mundo para salvar aos que lhe odeiam, seus inimigos
(Rm 5.6-11).
zwh,):(v.14) Zwh está em oposição a qa,natoj (morte).
Morte para vida (zwh,
Morte é ausência da vida que Deus dá. Um sintoma da ausência de vida e
morte é a ausência de amor e a presença do ódio (v.14,15). Um sintoma da
presença de vida é o amor. Pois amor mostra que Deus está presente, pois
é ele quem o derrama no nosso coração (Rm 5.5). Em João zwh, = vida
(eterna, plena, gloriosa) é distinta da yuch. = vida (presente, terrena). É a
vida no lugar que Jesus nos foi preparar (Jo 14), recebida pelos vencedores
sobre o Diabo (Ap 2.10). O que nos espera para esta vida (eterna) somente
saberemos plenamente quando Cristo se manifestar (v.2). Esta só têm os
filhos de Deus (v.1); enquanto que os que pertencem ao diabo permanecem
na morte (v. 14)
Conhecemos o amor (v.16:). Conhecer em João sempre está numa
relação. Não é um conteúdo simplesmente, mas muito mais uma experiência.
Esta não é só intelectual, mas engloba todo ser. Portanto conhecer a Deus
não é simplesmente saber que é onipotente, onipresente... é preciso saber o
sentido, significado disto para a realidade da vida diária. Conhecemos a
Deus quando nosso coração nos acusa e nós temos certeza de que Deus é
maior que nós (v. 20). Isto é “experimentar” a Deus. Por isto, conhecer a
Deus envolve também o amor mútuo. É impossível estar tendo um
relacionamento, uma íntima comunhão (v. 1.6; 2.28) com Deus e não amar
seu irmão (4.8; 5.1,2).
Conhecer (experimentar) o amor de Deus não deixa a pessoa insensível
às necessidades do próximo. Por isto João logo em seguida dá um exemplo
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
do que é conhecer o amor: ajudar os irmãos em todas as necessidades,
também materiais (v.17).
Pois amor não é uma idéia, amor é ação. Amor é Cristo morrendo na
cruz, amor é Deus nos cuidando diariamente, amor é dar pão ao que tem
fome, amor é cuidar do doente... (v. 18). Conhecer o amor de Deus é uma
experiência íntima que se manifesta de forma visível e concreta, não é só
da “boca para fora”, mas está arraigado no coração e por isto não é fingido,
antes é real e realmente visa o bem do próximo.

APLICAÇÃO
Estamos no 2o domingo após Pentecostes. Lembramos o crescimento
da igreja. Para a igreja crescer é necessário que seja conhecida. Como? A
epístola nos lembra que o amor aos irmãos nos identifica, aponta para o
amor de Cristo. É um amor que não se resume a uma idéia, mas é real
como o de Cristo. É um amor que se revela na relação com as pessoas.
Conhecemos a Deus e seu amor contínuo que é experimentado por nós
no consolo que traz em sua Palavra. Amor que conhecemos (experimentamos)
de uma forma toda especial e verificável na Santa Ceia, onde Deus vem a
nós em corpo e sangue. Este conhecimento (experiência) nos deve conduzir
a amar uns aos outros também de fato e de verdade (v.18).
A partir disto vários enfoques podem ser abordados de acordo com a
necessidade. Isto é característico das perícopes epistolares. Abaixo
sugerimos tema e esboço, procurando respeitar a temática do texto e da
epístola em si.

SUGESTÃO DE TEMA
Quando se conhece a Deus é impossível ficar sem amar! (v.11)
INTRODUÇÃO: (Citar necessidades concretas do cotidiano das
pessoas)
I - (Re) conhecendo (experimentando) o amor de Deus por nós
revelado em Cristo v.16 (Concreto: palavra feita carne)
II - Havendo ódio (ausência de amor) – age segundo o Maligno
(pertence ao Maligno) v.12,13 = morte vv.14,15
III - Havendo amor (exclui ódio)– age segundo amor de Deus (Filho
de Deus v.1) = vida vv. 14,16,18.
Amor identifica filho de Deus - v.14.
Conclusão: Porque conhecemos a Deus agimos em amor “Não só da
boca pra fora”, mas de fato e de verdade (vv.17,18).

Joelson R. Drehmer
Nova Petrópolis, RS
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


Apocalipse 3.14-22
24 de junho de 2004

1. CONTEXTO
O Evangelho para o Domingo trata da “grande ceia” (Lc 14.15-24). O
ponto de contato entre as duas leituras é exatamente a ceia, que no texto de
Apocalipse se refere à ceia escatológica, em que Cristo vem para estar
com sua Igreja, na vida eterna. É importante ressaltar que, apesar de ser a
mesma figura – uma ceia – cada um dos textos ressalta um aspecto diferente
do encontro do Senhor com as pessoas. No Evangelho, o convite para a
ceia, com a rejeição de alguns e a extensão do convite para os que nada
têm de digno, refere-se à proclamação do evangelho neste mundo e a reunião
dos que crêem. No texto de Apocalipse, a referência é feita ao encontro
escatológico entre Cristo e sua Igreja.
Considerando agora o contexto literário, vale observar que a carta à
Igreja em Laodicéia segue o modelo das seis anteriores: endereçamento
(3.14a); apresentação de Cristo (normalmente com algum aspecto que se
relaciona ao caráter da Igreja endereçada – 3.14b); uma palavra sobre o
que há de positivo naquela igreja (esta parte falta nesta carta; nisto Laodicéia
é diferente!); anúncio da lei, que condena algum aspecto específico daquela
igreja (3.15-17); uma advertência, com chamado ao arrependimento
(3.18,19); uma promessa = evangelho (3.20,21); uma exortação final igual
para todas as sete igrejas (3.22).
A cidade de Laodicéia foi fundada no séc. III a.C. por Antíoco II. Era
um centro comercial importante, por se localizar na confluência de duas
estradas de intenso movimento. Como não houvesse suprimento de água
na cidade, esta era trazida por tubulações (pedras cúbicas furadas colocadas
lado a lado) de fontes termais, chegando à cidade ainda morna. Tão rica
era a cidade que seus habitantes declinaram de receber auxílio do governo
quando houve um grande terremoto.

2. TEXTO
V. 14 : “Amém” - cf. 2 Co 1.20, Ele é o cumprimento perfeito de todas as
promessas de Deus. Nele Deus tem o Seu “Sim”! Seu caráter e natu-
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
reza são, em si mesmos, uma garantia para a verdade do Seu testemu-
nho. A apresentação de Jesus marca um contraste entre ele e o caráter
mentiroso dos laodicenses.
“Princípio da criação de Deus” - não a primeira criatura, mas “Aquele
por meio de quem Deus criou todas as coisas” (Nova Tradução na
Linguagem de Hoje). No AT, a Sabedoria personificada, em Pv 8.22, que
estava com Deus antes de toda a criação. No NT, em Jo 1.3 é dito que
tudo veio a existir por meio dele. Em Cl 1.15 Ele é chamado de “primogênito
de toda a criação”, e isto é explicado no v. 16 no sentido que nele tudo foi
criado.
V. 15 : A metáfora da temperatura é popularmente entendida da seguinte
forma: o frio se refere àqueles que ainda não ouviram o evangelho, o
quente, aos verdadeiros crentes; e o morno seria uma referência aos
indiferentes, aos que conhecem o evangelho, mas tratam-no com des-
dém. Outra explicação, que considera mais seriamente questão da água
da cidade, pode ser verdadeira: tanto a água fria como a quente tem
uso benéfico e agradável. Mas a água morna causa mal-estar. “Apesar
de toda a sua riqueza, a cidade não podia produzir nem o poder curativo
da água quente, como a sua vizinha Hierápolis, nem o poder refrescan-
te da água em Colossos; mas podia produzir apenas água morna, útil
apenas como vomitório” (Novo Dicionário da Bíblia, II: 908).
V. 16 : Ao dizer “estou para” e não “vomitar-te-ei” Cristo deixa aberta a
possibilidade de arrependimento.
V. 17 : Está aí caracterizada a “temperatura morna” dos cristãos de
Laodicéia: eram cheios de si, orgulhosos, distantes de qualquer sombra
de arrependimento. “Miserável” - Rm 7.24 (“desventurado” - por cau-
sa do pecado que habita em mim). “Digno de pena” - 1 Co 15.19 (é o
que seríamos se Cristo não tivesse ressuscitado).
V. 18 : “De mim” - a ênfase da expressão toda parece residir aí - a
verdadeira riqueza está em Cristo. Fora da comunhão com Ele, só há
miséria. Cristo, como “Princípio da criação de Deus”, chama-os a se-
rem novas criaturas, por arrependimento e fé nele. “Colírio” - possivel-
mente uma referência à Escola de Medicina que havia na cidade e ao
medicamento usado pelos médicos para problemas oculares. O signifi-
cado das figuras parece ser: ouro: a fé genuína, acompanhada das suas
obras (Tg 2.5; 1 Tm 6.18); vestes brancas - a vida purificada em Cristo,
sem a mácula do mundo (Gl 3.27; Tg 1.27); colírio - a ação do Espírito
Santo, que convence do pecado, justiça e juízo (Jo 16.8ss), restaurando
a visão espiritual.
V. 19 : A manifestação da graça de Cristo para com Sua Igreja - a maneira
dura como Ele se refere à Igreja em Laodicéia não é demonstração de
ódio ou aversão, mas de amor! “Corrijo” - Mt 18.15; 2 Tm 4.2; Hb 12.5.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
É o desejo de corrigir, pelo uso da palavra. “Disciplino” - com o uso de
punição - Hb 12.6. É a correção com o uso de meios externos (atos de
correção). “Sê zeloso” - por Cristo, pelo Seu evangelho, pela Sua cau-
sa.
V. 20 : Este texto é por vezes usado para falar da urgência do pecador
“aceitar Jesus”. É preciso cuidar para não “ir na onda” e endossar a
idéia sinergista contida nesta explicação. O contexto em que esta pala-
vra é dita é fundamental. Ao final de cada carta às igrejas, há uma
referência, mais ou menos explícita, ao retorno de Jesus, no fim dos
tempos. O “estar à porta” é escatológico: Mt 24.33; Tg 5.9. O abrir da
porta é a resposta jubilante da Igreja ao chamado final do Senhor (cf.
Lc 12.36). Assim, não é um “decidir” por Jesus que está sendo referi-
do. A Igreja foi levada à fé e nela conservada por ação do Espírito
Santo, através do evangelho. Agora, ao chegar o fim dos tempos, se
regozijará na vinda de Cristo.
V. 21 : Uma extensão da promessa feita aos Doze (Mt 19.28). Sinal de
autoridade e glória. Os cristãos compartilharão da glória de Cristo.

3. SUGESTÃO HOMILÉTICA
Uma das formas que pode ser empregada para proclamar este texto é o
que se poderia chamar de “tradução expandida”, ou uma paráfrase detalhada.
Consiste em apresentar o texto, expandindo o que está nele, na ordem em
que está o argumento, sem a preocupação de uma divisão em partes e sub-
partes (o modelo tradicional). Apesar de sempre ser um risco aplicar um
texto a uma situação diferente daquela para o qual foi escrito, o pregador
certamente perceberá aspectos do texto que se aplicam a sua situação e de
seus ouvintes. Além do mais, pelo fato de trazer lei e evangelho, o texto
certamente tem muito a dizer também a uma congregação com
características diferentes das de Laodicéia.

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

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Igreja Luterana - nº 1 - 2003

RESCENSÃO

A ÉTICA DE CADA DIA


Por Martim Carlos Warth
Editora da ULBRA

A leitura de A ética de cada dia produz a sensação de tempo bem


aproveitado. Há razões para afirmar isto. Primeiramente, o conhecimento
do autor sobre o assunto proporciona-nos aprofundar e relembrar princípios
bíblicos e teológicos muito claros para se firmar posição frente às questões
éticas do nosso dia-a-dia. Firmado em considerável bibliografia, bem como
na sua experiência adquirida como professor da disciplina de Ética, o autor
conduz os leitores à reflexão, valendo-se para tanto de uma exposição simples
mas ao mesmo tempo não superficial, o que coloca à nossa disposição um
conteúdo de qualidade.

Em segundo lugar, a simplicidade na forma de escrever evita que se


faça grande ginástica mental para compreender o sentido do que está escrito.
Escrever bem e de forma simples é uma arte que o Dr. Warth domina com
maestria. Por essa razão, A ética de cada dia recomenda-se não apenas a
teólogos, porém a todas as pessoas interessadas em recolher subsídios para
saber responder às questões que surgem diariamente. É, portanto, obra
destinada a pastores, estudantes de teologia e cristãos em geral, o que
saudamos com alegria, pois é muito bom ver coisa boa chegando às mãos
do povo de Deus em sua totalidade, não apenas a parte ou partes dele.

O livro divide-se em dois grandes capítulos: Fundamentos da ética e


Aplicação prática. No segundo capítulo, ao expor os Dez Mandamentos,
pois “... a lei de Deus não é um código civil com ordens desencontradas,
mas é um conjunto harmônico de diretrizes que orientam a liberdade de
viver feliz com amor” (p. 61), o autor aplica os Dez Mandamentos à vida
nas diferentes ordens da criação onde Deus nos colocou. A aplicação dos
mandamentos vem acompanhada de referências às diferentes partes da
oração do Pai Nosso, o que nos permite perceber a relação existente entre
mandamentos e a oração que o Senhor Jesus ensinou.
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Igreja Luterana - nº 1 - 2003
Fica aqui a sugestão aos pastores de nossa igreja: recomendem a leitura
do livro aos seus congregados e, por que não, promovam diálogos e reflexões
sobre seu conteúdo. Como sua leitura é acessível, tal objetivo não é difícil
de ser atingido. O livro é ferramenta de grande utilidade para ajudar o povo
de Deus a adquirir postura ética adequada diante dos muitas vezes
complicados desafios para se viver de modo justo, piedoso e sensato.

Paulo Moisés Nerbas

198
Igreja Luterana - nº 1 - 2003

FICHA DE ASSINATURA
SIM! DESEJO FAZER UMA ASSINATURA DA REVISTA IGREJA LUTERANA.
PARA ISSO, ESTOU ASSINALANDO UMA DAS SEGUINTES OPÇÕES:

• UMA ASSINATURA DE IGREJA LUTERANA POR UM ANO, POR R$ 17,00


• UMA ASSINATURA DE IGREJA LUTERANA POR DOIS ANOS, POR R$ 30,00.

NOME

RUA OU CAIXA POSTAL

CEP CIDADE ESTADO

Após preenchida, coloque num envelope esta folha acompanhada de che-


que nominal ao Seminário Concórdia no valor correspondente e remeta-o para:

REVISTA IGREJA LUTERANA


CAIXA POSTAL, 202 - 93.001-970 SÃO LEOPOLDO, RS


ASSINATURA DE PRESENTE:
SIM! DESEJO PRESENTEAR COM UMA ASSINATURA DA REVISTA
IGREJA LUTERANA A PESSOA INDICADA NO ENDEREÇO ABAIXO.
PARA ISSO, ESTOU ASSINALANDO UMA DAS SEGUINTES OPÇÕES:

• UMA ASSINATURA DE IGREJA LUTERANA POR UM ANO, POR R$ 17,00


• UMA ASSINATURA DE IGREJA LUTERANA POR DOIS ANOS, POR R$ 30,00.

NOME

RUA OU CAIXA POSTAL

CEP CIDADE ESTADO

Após preenchida, coloque num envelope esta folha acompanhada de che-


que nominal ao Seminário Concórdia no valor correspondente e remeta-o para:

REVISTA IGREJA LUTERANA


CAIXA POSTAL, 202 - 93.001-970 SÃO LEOPOLDO, RS
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SEMINÁRIO CONCÓRDIA
Diretor
Paulo Moisés Nerbas
Professores
Acir Raymann, Clóvis Jair Prunzel, Ely Prieto, Gerson Luís Linden,
Leopoldo Heimann, Norberto Heine (CAAPP), Paulo Gerhard Pietzsch,
Paulo Moisés Nerbas, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum , Vilson Scholz.
Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Martim C. Warth

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela
Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
Conselho Editorial
Paulo Wille Buss (editor), Vilson Scholz (editor homilético)
Assistência Administrativa
Janisse M. Schindler
A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica
Latino-Americana e Old Testament Abstracts.
Os originais dos artigos serão devolvidos
quando acompanhados de envelope com endereço e selado.

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Correspondência
Revista IGREJA LUTERANA
Seminário Concórdia
Caixa Postal 202
93.001-970 – São Leopoldo, RS

200