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IGREJA LUTERANA

Revista Semestral de Teologia

1
IGREJA LUTERANA

SEMINÁRIO
CONCÓRDIA

Diretor
Gerson Luis Linden

Professores
Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Gerson Luís Linden,
Leopoldo Heimann, Norberto Heine (CAAPP), Paulo Gerhard Pietzsch, Paulo
Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum, Vilson Scholz

Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Paulo F. Flor

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade
de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
(IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

Conselho Editorial
Paulo Wille Buss (Editor), Paulo Proske Weirich (Editor Homilético)

Assistência Administrativa
Nara Coelho

A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Ameri-


cana e Old Testament Abstracts.

Os originais dos artigos serão devolvidos quando acompanhados de envelope


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Revista Igreja Luterana
Seminário Concórdia
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Telefone: (0xx)51 3592 9035
e-mail: seminarioconcordia@ulbranet.com.br
www.seminarioconcordia.com.br

2
ÍNDICE

ARTIGOS
DONDE VEM E O QUE FICA DO BEST-SELLER DE DAN BROWN? 5
Vilson Scholz

RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE Jó 19.23-27 13


Lademir Renato Petrich e Acir Raymann

O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ: EXPOSIÇÃO 31


DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS
Charles Arand. Trad. Fábio Werner e Clóvis Prunzel

PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMPARTILHAR O EVANGELHO 57


Trad. Anselmo Ernesto Graff

PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL 63


Trad. Anselmo Ernesto Graff

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS 73
LIVROS 181

IGREJA LUTERANA
Volume 65 – Novembro de 2006 – Número 2

3
IGREJA LUTERANA

4
ARTIGOS

DONDE VEM E O QUE FICA


DO BEST-SELLER DE DAN BROWN?
Vilson Scholz*

Quanto a O Código da Vinci, de Dan Brown, lançado em 2003,


existem vários grupos de leitores e espectadores:
1. Aqueles que leram o livro e, depois, em 2006, viram o filme.
Provavelmente gostaram de ambos.
2. Aqueles que, por um motivo ou outro, leram o livro e não
viram o filme. É o meu caso. Se, como se diz, errar é humano,
repetir o erro seria falta de inteligência ou, neste caso, incentivo
àquilo que, talvez, não mereça tanto destaque.
3. Existem aqueles que não leram o livro, mas viram o filme. São
os filhos da “segunda oralidade”, que preferem ver e ouvir, mas não
têm muita paciência para ler.
4. Dentre todos esses, muitos foram arrastados pelo fluxo da
narrativa e não ligaram nem um pouco para uma possível agenda
teológica oculta na obra.
5. Outros concordam que o autor pode dizer o que bem lhe der
na telha, mas que o grande problema do livro é que o mesmo “não
tem nenhum significado”.1
6. Muitos, especialmente teólogos, “sofreram” a leitura, saben-
do que, cedo ou tarde, chegariam naquela parte em que, avisados
por terceiros, teriam que discordar e protestar.
7. Por fim, existem aqueles que não leram o livro nem viram o
filme. Alguns gostaram; outros, nem tanto.
Qualquer que seja o seu caso – e não houve intenção de des-
crever todas as possibilidades – acho que, passada, em parte2, a
coqueluche do livro e do filme, talvez seja o momento oportuno

*O Rev. Dr. Vilson Scholz é professor de Teologia Exegética (Novo Testamento) no Semi-
nário Concórdia e na Ulbra e Consultor de Traduções da Sociedade Bíblica do Brasil.

1
Assim se expressou o eminente Dr. Donaldo Schüler.
2
Ao final de 2006, segundo a Revista Veja (Edição 1988, de 27 de dezembro de 2006),
o livro continuava em terceiro lugar entre os mais vendidos na categoria de ficção. Estava
havia 130 semanas, ainda que não consecutivas, na lista dos mais vendidos!

5
IGREJA LUTERANA

para refletir sobre o entorno do livro: donde ele vem e aonde quer
chegar, e, em especial, o que ele ajudou a revelar.

DONDE VEM E AONDE QUER CHEGAR

O livro de Dan Brown não surgiu num vácuo. A rigor, toda e qual-
quer obra revela certo grau de intertextualidade. No caso de O Código
da Vinci, vários analistas apontaram para a influência da obra O Santo
Graal e a Linhagem Sagrada, em que Dan Brown, supostamente, se
inspirou. Mas existe uma atmosfera ou um ambiente cultural mais
amplo, que inclui um componente teológico. Dan Brown é caudatário,
também, dos efeitos da assim chamada teologia moderna. Esta nos
trouxe, entre outras coisas, a obliteração dos limites do cânone e a
busca do Jesus histórico. Desde que se passou a postular, no século
18, uma leitura da Bíblia igual à de qualquer outro livro (ou seja, o fim
da hermenêutica especial), todos os documentos antigos entraram
na fila. Hoje, quando se trata de “reconstruir” uma imagem de Jesus,
os Evangelhos gnósticos (alguns mais, outros menos) são vistos como
tendo o mesmo valor dos Evangelhos canônicos. Ao mesmo tempo,
obras como a de Dan Brown devem muito à assim chamada busca do
Jesus histórico, que sempre resulta num Jesus diferente e “menos
divino” do que o Jesus dos Evangelhos canônicos.3
Brown entende, equivocadamente, que os Evangelhos canônicos
foram promovidos na Igreja e até canonizados porque vendem a
imagem de um Jesus divino. Em contrapartida, os Evangelhos
gnósticos teriam sido suprimidos porque trazem a imagem de um
Jesus humano, que até teria sido casado com Maria Madalena.
Parece evidente que Brown pouco sabe a respeito dos Evangelhos
canônicos e, pelo que parece, nunca leu um evangelho gnóstico.
Tivesse lido os textos gnósticos, teria notado suas propensões ao
docetismo – que é tudo menos promoção da humanidade de Jesus!
Afora uma pletora de erros históricos, seria possível afirmar que
o texto de Brown é totalmente inocente ou neutro? Ou seria, tam-

3
No dia em que escrevo isto, no início de 2007, a mídia veicula uma matéria intitulada
“Papa adverte contra um ‘Jesus modernizado’”. Trata-se de uma reação contra a “apresen-
tação de um Jesus moderno, ou melhor, pós-moderno. Um Jesus homem, reduzido a
simples mestre de sabedoria e privado de sua divindade”. Para quem não lembra, esse
Jesus “mestre de sabedoria” foi a grande “redescoberta” do Jesus Seminar, famoso na
década de 1990. Na visão dos representantes desse grupo de pesquisa, Jesus estava
mais para filósofo cínico, pregando uma vida despreocupada (“não vos preocupeis com o
dia de amanhã”) e o amor ao próximo (o bom samaritano passou pelo crivo e consta entre
as “palavras autênticas” de Jesus), do que para Filho de Deus.

6
DONDE VEM E O QUE FICA DO BEST-SELLER DE DAN BROWN?

bém, um texto teológico? Aparentemente o texto não é teológico.


No entanto, é uma obra de teologia popular.4 Sua teologia, ou
interpretação teológica da história da Igreja, é elemento funda-
mental que ajuda a explicar seu sucesso. Defende a visão de que a
história da Igreja é, de fato, a história de uma conspiração, na qual
os líderes conseguiram esconder a revelação original, colocando
em lugar dela o seu próprio projeto de poder. Dito de forma direta:
a história da Igreja, como tradicionalmente vem sendo ensinada, é
uma mentira.
Embora não diga isso com todas as letras, o livro de Dan
Brown defende a tese de que é nossa tarefa, hoje, desmascarar
essa conspiração e recuperar o santo graal da revelação origi-
nal. Isso não é nada fácil, segundo se argumenta, pois tudo foi
muito bem camuflado e quase todos tomam o simulacro pelo
original. Quase todos, pois sempre houve, e ainda há, algumas
almas iluminadas que conseguiram e conseguem passar a verda-
de adiante. Entre eles, o renascentista Leonardo da Vinci. Como
ele fez isso? Através do quadro da Última Ceia. No cerne do livro
se encontra, portanto, uma interpretação do quadro da Última
Ceia.
Segundo Brown, a genialidade de da Vinci está em conseguir
retratar a repressão da verdade de tal forma que a verdade repri-
mida fica patente a todos os que têm olhos para ver. Que verdade
seria essa?
É a suposta verdade de que o santo graal é uma mulher e que
ele (ou ela) aparece no quadro da Última Ceia. Leonardo o (ou,
melhor, “a”) teria incluído com destaque. Trata-se da figura logo à
direita de Jesus, tradicionalmente identificada com o discípulo ama-
do. “Aquela pessoa tinha longos cabelos ruivos ondulados, delica-
das mãos entrelaçadas e o peito era levemente arredondado, su-
gerindo a presença de seios. Era sem dúvida ... feminina” (O
Código da Vinci, capítulo 58, p. 230). Aquela é, pois, a figura de
Maria Madalena. “A Última Ceia praticamente proclama àqueles
que a contemplam que Jesus e Maria Madalena eram um casal”
(Ibid., p. 231). Afastando-se um do outro, criam um espaço em
forma de V que forma um símbolo representativo do cálice e do
útero feminino (p. 232).

4
Francis Watson, “Are There Still Four Gospels?: A Study in Theological Hermeneutics”,
in Reading Scripture with the Church: Toward a Hermeneutic for Theological Interpretation
(Grand Rapids: Baker Academic, 2006), p. 98.

7
IGREJA LUTERANA

Há outro detalhe que Brown julga significativo. Pedro inclina-se


ameaçadoramente na direção de Maria Madalena e passa a mão,
como se empunhasse uma faca, diante do pescoço dela (p.235).
Portanto, no quadro estariam todos os protagonistas: Jesus, Maria
Madalena, e o repressor Pedro, símbolo daqueles que eliminaram o
feminino da vida da Igreja. Afinal, como explica um dos persona-
gens de Dan Brown, “Jesus foi o feminista original. Pretendia que o
futuro de sua Igreja ficasse nas mãos de Maria Madalena”. (Brown,
capítulo 58, p. 235). Se isto não aconteceu, é porque o suposto
projeto original de Jesus foi seqüestrado pela Igreja antiga, repre-
sentada, simbolicamente, no quadro da Última Ceia pelo apóstolo
Pedro. Com o passar do tempo, a Madalena foi até transformada
em prostituta.5
Tudo isso parece novo, mas ao mesmo tempo não é. Quem
conhece leituras feministas dos textos bíblicos sabe que está pi-
sando em terreno familiar. Quem já não ouviu dizer que a história é
escrita pelos vencedores e que os perdedores foram suprimidos e
perderam o direito de falar? Diante disso, os modernos, que reco-
nhecem e deploram essa situação, precisam reescrever a história,
resgatando aqueles e, principalmente, aquelas que não tiveram
chance de se manifestar ao longo dos séculos.
Só que afirmar que Jesus era um feminista é impor um padrão do
século 21 às evidências do primeiro século.6 E ler aqueles docu-
mentos gnósticos como se estivessem preocupados com uma guerra
de sexos, é lê-los de forma equivocada. O que está em jogo na-
queles textos gnósticos não é tanto quem tem o poder, o homem
ou a mulher, mas quem recebeu a revelação de Deus e quem pode-
ria falar em nome do cristianismo.7
Quem acompanhou esse relato até aqui pode até pensar que
tudo que Brown tem em vista é desconstruir. Não é o caso. Ele
tem, também, algo a propor. Dito de forma direta, ele propõe a
pauta do paganismo e do hedonismo. Ou, se preferirmos um termo
mais brando, naturalismo. Numa época “liberada”, a permissividade
que o paganismo oferece é um prato cheio. Num tempo em que
muito se preza a “independência”, ninguém gosta de ouvir que

5
Essa associação de Maria Madalena com prostituição só viria a acontecer em 591,
com o papa Gregório, o Grande. Bock, Darrell L. Quebrando o Código da Vinci: Respostas
às perguntas que todos estão fazendo. Osasco: Novo Século Editora, 2004, p. 154.
6
Bock, p. 153. Isto não anula o fato de que, em muitos aspectos, a atitude de Jesus para
com as mulheres foi contracultural e antecipou parte daquilo que, na
modernidade, se aceita como ponto pacífico.
7
Bock, p. 160.

8
DONDE VEM E O QUE FICA DO BEST-SELLER DE DAN BROWN?

alguém lhe diga em que deva crer. E, como disse G. K. Chesterton,


“quando as pessoas deixam de acreditar em Deus, elas não passam
a acreditar em nada: elas acreditam em tudo”.8 Segundo Michael
Green, o livro será esquecido, mas a visão naturalista que incorpo-
ra é perene.9

O QUE O LIVRO DE BROWN AJUDOU A REVELAR

Certamente, não é porque propõe essas idéias que o livro de


Dan Brown vende tanto. É, sem dúvida, uma narrativa que cativa o
leitor e se desenvolve num ritmo quase alucinante, recheada de
surpresas. Ao mesmo tempo, ajuda a mostrar uma série de coisas,
especialmente se levarmos em conta a recepção da obra.
Mostrou que uma teoria de conspiração, especialmente quando
envolve a Igreja Católica Romana, sempre se mostra plausível ou
verossímil. Há quem diga que isto é assim, especialmente, desde o
século 16.
Mostrou como uma geração que se opõe a tudo que é auto-
ritário simpatiza com “rebeldes” gnósticos que se colocam contra o
establishment eclesiástico.
Mostrou que, aparentemente, Nietzsche tinha razão: Não há
fatos, apenas interpretações.10 O papel aceita tudo, e cada um diz
o que quer dizer.
Mostrou o índice de “sucesso” das autoridades acadêmicas
no campo da interpretação bíblica para desfazer propostas
interpretativas distorcidas: zero. Quanto mais os biblistas protes-
tavam, mais o livro vendia. E os protestos soavam, por vezes,
como tentativas tardias de ainda tentar conter o dique que se
ajudou a romper.
Revelou também o poder criativo do leitor ou espectador. A
leitura inusitada do quadro de da Vinci é o melhor exemplo disso. A
verdade está expressa, literalmente, na margem, não no centro. As
pessoas são levadas a olhar para o espaço vazio que fica entre Jesus
e o discípulo amado, retratado à sua direita, e se esquecem de verifi-
car o que Leonardo da Vinci de fato conseguiu colocar no seu quadro.

8
Citado por Michael Green, The Books the Church Suppressed: Fiction and Truth in The Da
Vinci Code (Oxford: Monarch Books, 2006), p. 162.
9
Green, p. 177.
10
Kevin J. Vanhoozer, “Imprisoned or Free?”, in Reading Scripture with the Church: Toward a
Hermeneutic for Theological Interpretation (Grand Rapids: Baker Academic, 2006), p.
57.

9
IGREJA LUTERANA

O QUE DAN BROWN NÃO CONSEGUIU ENXERGAR

É raro encontrar análises do quadro da Última Ceia sob a pers-


pectiva da exegese do Novo Testamento. Normalmente, o que se
destaca é o caráter renascentista do quadro, que é evidente a
todos. Ali aparece uma anacrônica mesa, sem falar que o pintor
pediu que todos fizessem pose para a fotografia, ou seja, que
todos se colocassem atrás da mesa, para que ninguém ficasse de
costas!11
O quadro retrata o momento em que os discípulos reagem ao
anúncio da traição. Em Mateus e Marcos, os discípulos, um após o
outro, se dirigem a Jesus, perguntando: “Porventura, sou eu, Se-
nhor?” (Mt 26.22; Mc 14.19). Esses evangelistas também chamam
a atenção para a tristeza dos discípulos. Em Lucas e João, por
outro lado, os discípulos conversam entre si ou olham uns para os
outros, perguntando quem seria o traidor (Lc 22.23; Jo 13.22). E
em João, embora não em Lucas, o discípulo amado, instigado por
Pedro, pergunta: “Senhor, quem é?” (Jo 13.25).
Da Vinci harmoniza essas divergências entre os Evangelhos
canônicos, dividindo os apóstolos em quatro grupos de três.12 No
primeiro grupo, bem à esquerda no quadro, e no terceiro grupo, imedi-
atamente à esquerda de Jesus, os apóstolos aparecem olhando para
Jesus e perguntando: “Porventura, sou eu”? (Eles são Bartolomeu,
Tiago, filho de Alfeu e André, no grupo 1; Tomé, Tiago, filho de
Zebedeu e Filipe, no grupo 3.) Sua atitude é de tristeza e incredulida-
de. Esses discípulos correspondem ao relato de Mateus e Marcos.
Bem à direita da pintura aparecem os três apóstolos que for-
mam o grupo 4 (Mateus, Tadeu e Simão). Estes olham, não para
Jesus, mas uns para os outros. Isso está de acordo com o relato
de Lucas e João.
Imediatamente à direita de Jesus, Pedro conversa com o discí-
pulo amado, ao passo que Judas aparece solitário e em silêncio.
Esses três formam o segundo grupo. João se inclina na direção de
Pedro, que colocou sua mão sobre o ombro de João, puxando-o em
sua direção, para perguntar, baixinho, a respeito de quem Jesus
estaria falando. Esse detalhe da pintura é a contribuição exclusiva
do Evangelho de João.

11
Filmes que recriam o contexto do primeiro século, como Jesus de Nazaré, de Franco
Zefirelli, mostram Jesus e os apóstolos reclinados sobre almofadões - nada, portanto,
de mesa e cadeiras – colocados no chão e dispostos ao redor de uma pequena mesa de
centro.
12
A interpretação que segue é de Francis Watson, op. cit., p. 99-100.

10
DONDE VEM E O QUE FICA DO BEST-SELLER DE DAN BROWN?

Portanto, num golpe de mestre, Leonardo da Vinci, dividindo os


Doze em quatro grupos de três, conseguiu harmonizar os relatos
dos quatro Evangelhos. Da Vinci é, pois, uma testemunha do Evan-
gelho quadriforme. Sua pintura é uma reprodução teologicamente
ortodoxa do texto canônico quadriforme! Isto está ali para todos
verem. No entanto, pouca gente sabe por que isso é assim. E, é
claro, nada disso interessa a Dan Brown.

11
IGREJA LUTERANA

12
RÉSTIA NA ESCURIDÃO:
UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27
Lademir Renato Petrich*
Acir Raymann*

Biografias de grandes personagens fascinam e muitas vezes ser-


vem como protótipos e modelos a serem seguidos. A biografia de Jó
é fascinante, mas dificilmente será escolhida como modelo a ser
imitado. Imitamos o diferente, o inusitado, o exótico. Jó é um ho-
mem reto e íntegro; não obstante, é um homem que sofre e sofre
muito. E sofrimento não é padrão humano a ser imitado.
Na terra de Uz onde está, Jó é conduzido por Satanás de uma
situação privilegiada de abundância e bem-estar, para uma situa-
ção de total miséria e abandono. Em meio a tamanho desespero,
ele expressa uma confissão de conteúdo instigante: “quanto a
mim, eu sei que o meu Redentor está vivo e por fim se levantará
sobre o pó” (19.25). Essa réstia de esperança, num contexto ines-
perado e adverso, tem gerado variadas interpretações entre os
estudiosos. O que Jó pretende com tais palavras? Quem é este seu
Redentor? Quando ele irá agir - antes ou depois da morte de Jó?
Tais questões serão os pontos norteadores deste estudo. Para
tanto, a pesquisa tratará brevemente do contexto histórico, da
análise da estrutura do livro e as devidas considerações herme-
nêuticas. Num segundo momento, faremos um estudo exegético da
perícope com ênfase especial no versículo 25.

I. ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

Contexto
“Tendes ouvido da perseverança (u`pomonh,) de Jó e vistes que
fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericór-
dia e compassivo.” Essas são palavras de Tiago (5.11), onde ele
aponta para o exemplo que Jó representa para os cristãos. Sem
dúvida, poucas histórias que constam na literatura da experiência

*Rev. Lademir Renato Petrich é pastor em Juiz de Fora, MG.


*Dr. Acir Raymann é professor de Teologia Exegética do Antigo Testamento no Seminário
Concórdia, São Leopoldo, RS e na Universidade Luterana do Brasil, Canoas, RS.

13
IGREJA LUTERANA

humana têm tamanho poder de alargar a mente, cobrar a consci-


ência e expandir a visão como Jó.1 O livro esmiúça o problema
milenar do sofrimento; mas não se restringe a isso, caracteriza-se
também por direcionar a esperança humana e desocultar a miseri-
córdia divina.
Jó, como se disse, é apresentado como um homem justo a quem
Deus permite ser tentado por Satanás. Três de seus amigos, Elifaz,
Bildade e Zofar se esforçam em convencê-lo de que ele sofre por
ter cometido pecado aviltante – uma compreensão da relação do
homem com Deus como religião de retribuição. Como ocorre em
várias tendências sectárias hoje, “o problema da concepção dos
amigos de Jó é que eles argumentam do efeito para a causa”.2 A
reação dos amigos à situação despadronizada é um exemplo clássi-
co da aplicação equivocada entre Lei e Evangelho. A Escritura
mostra com clareza que Deus castiga o pecado no ser humano,
mas este castigo acontece nos descrentes. Os sofrimentos que
afligem os filhos de Deus não são decorrentes de punição pelos
pecados deles porque tais pecados já foram punidos. Jó não é um
descrente, mas um homem de fé.3 Por isso, Jó, com veemência,
rejeita as invectivas de seus interlocutores. Eliú, um quarto perso-
nagem, pretende resolver o enigma aludindo ao poder pedagógico
do sofrimento. Enfim, o SENHOR aparece e convence a Jó de pos-
suir uma visão obtusa de Deus, apontando para as maravilhas da
criação. O livro se fecha com a recriminação de Deus aos três
amigos de Jó e o restabelecimento da sorte do justo, provado e
abençoado.

1
William S. Lasor; David A. Hubbard e Frederic W. Bush, Introdução ao Antigo Testamento.
Trad. por Lucy Yamakami (São Paulo: Vida Nova, 1999), p.513.
2
Paul R. Raabe, “Human Suffering in Biblical Context,” Concordia Journal 15 (April 1989):
144.
3
L. Fuerbringer, The Book of Job: Significance to Ministers and Church-members (St. Louis:
Concordia Publishing House, 1927), p. 54-55 afirma: “É precisamente este o nosso
pensamento natural: doença, miséria, desgraça e aflição são punições por pecados e
aflições específicas são indicações de pecados específicos. Isto é verdadeiro no caso
dos filhos deste mundo, os descrentes. A Escritura diz: ‘A tua malícia te castigará, e as
tuas infidelidades te repreenderão; sabe, pois, e vê quão mau e quão amargo é deixares o
SENHOR, teu Deus, e não teres temor de mim, diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos’ (Jr
2.19). No que respeita a cristãos, entretanto, a situação é diferente. Cristo carregou toda
a punição pelo pecado. ‘O castigo da nossa paz estava sobre ele’ (Is 53.5). ‘Ele mesmo
tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.’ (Mt 8.17); e Deus
não pune duas vezes. Os sofrimentos com os quais Deus aflige os cristãos – esta é a
doutrina clara das Escrituras – não são enviadas como punição divina. Mas, embora nós
cristãos saibamos disso muito bem e em dias de saúde e prosperidade saibamos falar de
maneira bonita sobre esta verdade tão confortadora, contudo, quando nós próprios temos
de carregar a cruz ou temos de administrar a situação quando afligidos, então já não é tão
fácil crer e confessar.”

14
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

Lutero diz que Jó é magnífico e sublime como nenhum outro livro


da Bíblia. Devido à estilística e dramaticidade profética, o autor
tem sido considerado por alguns como o “Shakespeare da Bíblia”.4
Clarke lembra que, apesar de Jó ter sido escrito sob a mesma
inspiração e com a mesma finalidade - a salvação dos homens - é
tão distinto de qualquer outro livro da Escritura que parece não ter
nada em comum com eles.5

Estrutura do Livro
O livro tem uma estrutura onde, excetuando-se a prosa do
prólogo e epílogo, todo o resto é poesia. Assim, a forma geral é A-
B-A, ou seja, “prosa-poesia-prosa”. A maioria dos críticos aceita a
unidade literária da narração em prosa, mas está dividida na ques-
tão da relação com a parte poética.6 O livro apresenta cinco par-
tes desproporcionais, que se dividem da seguinte maneira: 7

I Prólogo 1-2
II Diálogo 3-31
III Discursos de Eliú 32-37
IV Teofania 38-42.6
V Epílogo 42.7-17

O diálogo de Jó com seus três amigos acontece em três ciclos.


Embora Jó fale alternadamente com cada um dos amigos, os três
ciclos não são idênticos e apresentam a seguinte distribuição:8

Ciclo I Ciclo II Ciclo III


Elifaz 4-5 15 22
Jó 6-7 16-17 23-24
Bildade 8 18 25
Jó 9-10 19 26
Zofar 11 20
Jó 12-14 21 27

4
Samuel Terrien, Jó. Trad. por Benôni Lemos (São Paulo: Paulus, 1994), p. 38. Cf. Ward S.
Miller, “The Structure and Meaning of Job,” Concordia Journal, 15 (April 1989): 103 que,
ao citar E. Goodheart por empregar a mesma expressão, questiona os motivos pelos quais
o livro bíblico recebe tal designação.
5
Adam Clarke, Comentario de la Santa Bíblia. Vol II. Version Castelhana por Lúcia C. G. de
Costa e Adam Sosa. (Kansas City, Missouri: Casa Nazerena de Publicaciones, 1980), 1.
6
Terrien, op. cit., p. 170.
7
Marvin H. Pope. Job. In The Anchor Bible. (Garden City, New York: Doubleday Company,
Inc., 1965), p.XIII - XIV.
8
Francis I. Andersen, Jó: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica (São Paulo:
Edições Vida Nova e Mundo Cristão, 1989), p. 20.

15
IGREJA LUTERANA

A perícope a ser estudada encontra-se no segundo ciclo de


diálogo de Jó com seus três amigos, fazendo parte da segunda
resposta dada a Bildade. Neste segundo ciclo os amigos suspeitam
que Jó, por estar sofrendo de tal maneira, cometera grave pecado.
A tentativa deles é incitar Jó a uma confissão de pecado específico
estimulada pela narrativa detalhada sobre o destino dos perversos.
A posição deles reflete-se em seus discursos com a presença de
dois elementos: acusações (15.2-6; 18.2-4; 20.2-3) e ameaças
implícitas na descrição do destino dos perversos (15.17-35; 18.5-
21; 20.4-29). Apenas Elifaz acrescenta uma instrução de sabedo-
ria. Jó termina este segundo ciclo discordando das conclusões bá-
sicas de seus amigos, pois muitos ímpios prosperam, gozam a vida
de forma plena, recebem sepultamento honroso e são respeitados
em face do seu sucesso.

Considerações hermenêuticas
Utilizando a imagem proposta por Honsey, a Bíblia pode ser com-
parada a um oceano. Em determinados lugares as águas são tão
rasas que até uma criança pode sentar-se e brincar sem medo de
afundar; mas em outros lugares as águas são tão profundas que
até mesmo um grande navio pode submergir. Nesses casos, para se
buscar a correta interpretação, é preciso um cuidadoso estudo da
ocasião, contexto e o texto em si, incluindo vocabulário e sintaxe.9
Jó, muito apropriadamente, pode ser comparado a águas profun-
das. Tradutores concordam que o livro apresenta mais problemas
no texto hebraico do que a maioria das demais partes do Antigo
Testamento.10 Nele freqüentemente ocorrem palavras raras e sen-
tenças curtas; a sintaxe constantemente se caracteriza pela omissão
de preposições.11
Tornam-se, pois, inevitáveis as dificuldades de tradução em Jó
19.23-27. No entanto, apesar disso, a perícope tem o seu sentido
teológico, na tradução, bastante ligado à hermenêutica, ou seja,
aos pressupostos teológicos do tradutor. Neste sentido, Stalde-
mann diz que as divergentes traduções do texto bíblico em ques-
tão são decorrentes de uma diversidade que provém não de um
problema literário, inerente ao texto hebraico, mas do modo de
interpretação do seu teor.12

9
Rudolph E. Honsey, “Exegetical Paper on Job 19:23-27" Wisconsin Lutheran Quarterly 67
(July 1970): 153.
10
Andersen, op.cit., p. 20.
11
Honsey, op.cit., p. 154.
12
Luís I. J. Staldemann, Itinerário Espiritual de Jó (São Paulo: Loyola, 1997), p. 99, n. 2.

16
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

Se os pressupostos teológicos são indispensáveis na tradução


da perícope, quanto mais o são no seu corolário, a saber, na análi-
se exegética. Em virtude disto precisamos lembrar de Agostinho,
que diz: “Novum Testamentum in vetere latet; Vetus Testamen-
tum in novum patet”, ou seja, “O Novo Testamento no Antigo é
camuflado; o Antigo Testamento no Novo é revelado”. Portanto, a
porta de entrada para o Antigo Testamento deve ser o Novo, e o
conteúdo central de ambos é a justificação pela fé. Scholz lembra
que a chave da Escritura não é algo que a abre de fora para
dentro, mas a chave é o próprio centro da Escritura, ou seja, Jesus
Cristo se irradiando por ela toda.13
Faz-se necessária a consideração das ênfases dadas por Lutero
quanto ao processo de interpretação da Bíblia. Segundo ele, na
Escritura há um só sentido (sensus literalis). A Escritura deve ser
mantida em seu significado mais simples possível e compreendida
de acordo com seu sentido gramatical e literal, a menos que o
contexto claramente o impeça. Passagens obscuras devem ser en-
tendidas com base nas de sentido nítido; assim o texto bíblico
interpreta a si próprio (Scriptura Scripturam interpretatur). Esse
método de interpretação compara passagem bíblica com passagem
bíblica. Lutero deixa claro que a abordagem gramatical e histórica
não tem um fim em si mesma, mas seu objetivo é apontar para
Cristo.14
Jó 19.23-27 deve ser visto, primeiramente, com relação ao con-
texto do livro como um todo. Mas não há como negligenciar o
propósito geral para o qual Deus concedeu a Sua palavra à huma-
nidade, que é a salvação do ser humano. Assim, o contexto de
toda a Escritura deve ser observado, o que necessariamente colo-
ca Cristo no centro.

II. ASPECTOS EXEGÉTICOS

A perícope 19.23-27 faz parte da segunda resposta de Jó a


Bildade. No capítulo 18 vê-se a incisiva e constante tentativa de
Bildade em convencer Jó de que o destino dos perversos é a cala-

13
Vilson Scholz, “A Teologia como Empreendimento Hermenêutico” Igreja Luterana 49
(1990): 144. Cf. também Princípios de Interpretação Bíblica: Introdução à Hermenêutica
com Ênfase em Gêneros Literários (Canoas: Editora da ULBRA, 2006), p. 78-80.
14
Para uma breve síntese sobre tais ênfases, cf. Roy B. Zuck, A Interpretação Bíblica: Meios
de Descobrir a Verdade Bíblica. Trad. por César de F. A. Bueno Vieira (São Paulo: Edições
Vida nova, 1994), p. 50-54.

17
IGREJA LUTERANA

midade e o sofrimento. Torna-se evidente a intenção de relacionar


o sofrimento de Jó com o fato de ser pecador. Jó responde à altura
das acusações de Bildade. À primeira vista parece que o discurso
de Jó não difere muito do pronunciado por Bildade, pois ele confir-
ma o seu estado deplorável. No entanto, com o clímax do capítulo
19 no versículo 25, Jó difere o seu destino do destino dos perver-
sos, apontando para vindicação que provém de algo externo a ele.
Mas a quem Jó está se referindo? Quem é este laeGO e quando ele vai
agir? Como lembra Leveque, toda a interpretação da perícope é
orientada por estas perguntas.15

V. 23: “Quem me dera fossem agora escritas as minhas pala-


vras! Quem me dera fossem gravadas em pergaminho! Que, com
estilete de ferro e com bronze para sempre fossem esculpidas na
rocha”.
A expressão !Tey-I ymi pode ser tanto um imperfeito como uma for-
ma imperativa da terceira pessoa, ou seja, o jussivo. Honsey diz
que ela é uma expressão idiomática, representando um desejo e,
portanto, um jussivo.16 Uma dificuldade inicial se apresenta com
yL;mi “minhas falas”, “meus discursos”. É uma palavra incomum. Deri-
va-se de ll;m que significa “falar”, “pronunciar”. Encontra-se 38
vezes no Antigo Testamento, das quais 34 em Jó, todas no ciclo
poético.17 Mas a que Jó está se referindo: às palavras que pronun-
ciou em sua defesa contra a acusação dos seus amigos? Às pala-
vras que ele estaria para pronunciar, sobre a esperança em seu
Redentor? Ou faz menção a todas as palavras que tem dito?
Entre os defensores da primeira posição encontra-se Delitzsch,
que liga o desejo de Jó ao contexto anterior, no qual ele procura
demonstrar sua inocência em oposição à opinião de seus amigos.
Como seus amigos não ouviram as suas palavras, ele deseja que
elas sejam gravadas em pergaminho para a posteridade.18 Driver e
Gray compartilham desta posição. Afirmam que o desejo de Jó é
não passar para a posteridade como um pecador, e esse desejo é
expresso no versículo 23a, e alcança seu clímax com detalhes em

15
Jean Leveque, Jó: O Livro e a Mensagem (São Paulo: Paulinas, 1987), p. 47.
16
Honsey, op.cit., p. 156.
17
Cf. Abraham Eben-Shoshan, hvdx] hyc.n>D:r>wOqn>wOq (Jerusalém: Sivan Press, 1981), p. 660.
18
Apesar de Delitzsch conectar “minhas falas” ao contexto anterior, ele não desconecta o
sentido dos versículos que seguem. Isso porque o testemunho da inocência não passará
para a posteridade sem Jó ser justificado pelo Deus vivo. F. Delitzsch. Biblical Commen-
tary on the Book of Job. Vol I. (Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing
Company, 1949), p. 351.

18
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

23b e 24. Assim, mesmo depois da morte, Jó continuará a defender


sua integridade. Consideram que as palavras não podem se referir
ao versículo 25 e seguintes porque ficaria estranho a conjunção
vav no início do versículo 25.19 Sommer, por sua vez, entende que
o desejo de Jó se deve ao fato de estar consciente do grau de
importância das palavras que iria pronunciar. São palavras que ex-
pressam verdades infalíveis. Jó sabe que as palavras que iria pro-
nunciar não provêm de si próprio, mas de Deus.20 A terceira posi-
ção parece ser a preferida, por exemplo, de John Wesley. Ele diz
que as palavras que Jó desejou estarem gravadas, estão escritas
no livro de Deus. Assim que em qualquer lugar onde este livro for
lido, lá estas palavras devem ser declaradas para o seu memorial.21
Outro desafio que o texto oferece é rp,se. Pope, com razão,
comenta que essa palavra usualmente significa “livro” ou “rolo de
pergaminho”. O verbo qq;x entretanto, significa “gravar, esculpir”.
Desta maneira, dificilmente o material deste livro pode ser couro ou
papiro. Isso possibilitaria tomar a palavra rp,se num sentido geral de
“registro” ou “documento”, sem considerar o material em que se
faz a inscrição.22 Andersen considera que o emprego da palavra
“gravar” sugere a entalhadura nalguma substância durável, talvez
num monumento. Sendo assim, a rocha esculpida do versículo 24
faz parte da mesma figura de linguagem.23 Clarke considera que
nos versículos 23 e 24 Jó faz referência aos três recursos de escri-
ta praticadas na sua época: 1) Escrever em pergaminho; 2) Gravar
com estilete de ferro em lâminas de chumbo; e 3) Esculpir sobre
grandes pedras ou rochas, muitas das quais ainda se encontram
em partes distintas na Arábia.24 Pope diz que pode haver relação
da palavra rp,se com o Acadiano siparru, que significa “cobre”. O uso
de bronze e cobre como material de escrita não é incomum na
antiguidade.25
A primeira palavra do versículo 24, j[e, ocorre somente quatro
vezes no Antigo Testamento.26 Significa ponteiro ou estilete para

19
Samuel Rolles Driver e George Buchanan Gray. Job. In The International Critical Commen-
tary. S.R. Driver; A. Plummer; e G.A. Briggs, ed. (Edinburgh T.& T. Clark, 1964), p. 170.
20
Martim S. Sommer , “Job 19:23-27" Concordia Theological Monthly XIV (1943): 282.
21
John Wesley. John Wesley’s Explanatory Notes on the Whole Bible (Bible Study Tools,
1754), p .2. Pode ser encontrado no site: http://bible.crosswalk.com/commentaries/wes-
leysexplatorynotes/ wes.cgi?book=job&chapter=019
22
Pope, op. cit., p. 133.
23
Andersen, op. cit., p. 193.
24
Clarke, op. cit., p. 19.
25
Pope, op. cit., p. 133.
26
O termo aparece também no Sl 45.2, em Jr 8.8, e Jr 17.1.

19
IGREJA LUTERANA

escrever. Em conexão com a palavra seguinte vemos que o estilete


> ;. É intrigante o uso de tr<p[o “chumbo”.27
era feito de ferro, lz<rB
Seria a caneta, ou ponteira, feita de ferro e chumbo? Uma ponteira
de chumbo não poderia ser usada para esculpir na rocha; logo, o
chumbo seria usado para preencher as incisões das letras.28 Ape-
sar de não haver comprovações sobre o uso desta técnica na
antiguidade, a imagem é plausível. Como se sabe, Uz se localiza
provavelmente no lado oriental da Palestina, entre Damasco e Edom,
local relacionado ao horreus.29 Pesquisas arqueológicas recentes
têm demonstrado que nessa região, em Edom especialmente, a
produção de cobre tem sido muito rica desde o período do Bronze
Anterior (ca. de 3600-2000 a.C.).30 O emprego de técnica tão
avançada para celebrar um evento tão significativo só encontra
paralelo no Antigo Testamento no “outdoor” que o SENHOR solicita
a Habacuque para anunciar a “justificação pela fé” (Hc 2.2-4).
Jó deseja que as suas palavras sejam gravadas para sempre,
d[;l Essa é uma palavra que surge da combinação da preposição l,
“para”, e d[e, “eternidade, futuro, perpetuidade”. O desejo de que
“fossem esculpidos na rocha”, mostra a intenção de se estabelecer
um monumento, algo durável que possa ser visto e lido pela poste-
ridade. Tal desejo ajuda a clarear o sentido dos versículos seguin-
tes. Andersen lembra que não haveria necessidade de Jó depositar
um testemunho escrito, se ele esperasse ser vindicado antes da
morte.31 Jó parece estar dizendo que perdeu a esperança na vida
terrena, por isso a necessidade de um memorial para as gerações
futuras.

V. 25: Quanto a mim, eu sei que o meu Redentor está vivo e


por fim se levantará sobre o pó.
O pronome ynIa] está em posição enfática. ARA traduz “porque eu
sei”, enquanto a NTLH apresenta “pois eu sei”. Vê-se que ambas
são similares à proposta da LXX, que traduz ga.r, por “pois”, “por-

27
Embora os editores da BHS criativamente sugiram !r<Pociw>, “ponta com diamante”, não há
apoio de versões para sustentar a sugestão.
28
Pope, op.cit., p. 134. Bem antes, Lange já defendia que as letras eram esculpidas na
pedra por meio de uma ponteira de ferro, ou cinzel, e então preenchidas com chumbo, de
forma que se tornassem imperecíveis.
Cf. John Peter Lange. Job. In Commentary on the Holy Scriptures (Grand Rapids 2, Michi-
gan: Zondervan Publishing House, 1874), p. 455.
29
B. D. Napier. Uz. In Interpreter’s Dictionary of the Bible. George Arthur Buttrick, ed.
(Nashville: Abingdon Press, 1963), p. 741.
30
Thomas E. Levy e Mohammad Najjar. “Edom and Copper: The Emergence of Ancient
Israel’s Rival” Biblical Archaeology Review 32 (July-August 2006): 35.
31
Andersen, op. cit., p. 193.

20
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

que”. Sintaticamente, o vav pode ser traduzido pela simples con-


junção, por uma opção adversativa ou como um vav disjuntivo,
que indica “uma ruptura na seqüência narrativa”.32 Com esta última
alternativa, fica estabelecido um contraste com o contexto anteri-
or. Com isso, Jó quer dizer que é ele, que se encontra em uma
situação de miséria, que sofre dores angustiantes, que está priva-
do dos filhos e dos meios de vida, que está em situação de aban-
dono - é este Jó que faz uma inesperada e paradoxal confissão.33
Por isso, a nossa opção de tradução destaca este contraste: “Quan-
to a mim, eu sei que o meu Redentor está vivo”.
O termo laeGO aparece oitenta vezes no Antigo Testamento. É
particípio do Qal de la;G, “resgatar”. “redimir”. A forma participial do
verbo tornou-se praticamente um substantivo comum e freqüente
no texto bíblico.34 A raiz la;G” é usada em dois sentidos no Antigo
Testamento: de um lado, em conexão com a vida social e legal e,
de outro, com respeito a atos redentores de Deus.35 Harris diz que
há quatro situações onde a raiz é usada, no sentido do que um
homem bom e veraz faria por seu parente: (1) Resgate de um
campo que fora vendido em tempos de necessidade (Lv 25.25ss);
libertação de um escravo israelita que se vendera em tempos de
miséria (Lv 25.48ss), tarefas estas de responsabilidade do parente
mais próximo. (2) “Redenção” da propriedade ou de animais não
sacrificáveis dedicados ao Senhor, ou ainda do primogênito dos
animais imundos (Lv 27.11ss) - nestes casos o redentor é o dono
da propriedade. (3) O parente mais próximo torna-se um “vingador
de sangue” em caso de um ser humano assassinado; (4) O uso
mais comum, bastante proeminente nos Salmos e nos profetas, é o
de Deus como o Redentor de Israel, que se levantará em favor do
seu povo para o vindicar.36
O verbo la;G e a figura do laeGO têm no seu aspecto “secular” o
locus classicus no livro de Rute. A moabita acompanha sua nora
Noemi para a cidade natal desta, Belém. Ambas estão destituídas

32
Andrew H. Bartelt. Gramática do Hebraico Bíblico: Fundamentos. Trad. por Acir Raymann
(Canoas: Editora da ULBRA, 2006), p. 204-205.
33
Th. Reuter, “Jó 19.25-27”. Igreja Luterana VI (Janeiro - Fevereiro1945): 9.
34
R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr. e Bruce K. Waltke, “laeegO” In Dicionário Internacional
de Teologia do Antigo Testamento. Tradução de Márcio Loureiro Redondo, Luís Alberto T.
Saião, Carlos Osvaldo C. Pinto (São Paulo: Vida, 1998), p. 235.
35
Helmer Ringgren. “la;G ga’al; laeG go’el; hLauG> ge’ullah”. G. Johannes Botterweck e Helmer
Ringgren, ed. In Theological Dictionary of the Old Testament. Vol. II (Grand Rapids, MI:
William B. Eerdmans Publishing Company, 1975), p. 35.
36
Harris, op.cit., p. 235-236.

21
IGREJA LUTERANA

de tudo, o que leva Rute a respigar no campo de Boaz, um parente


seu (Rt 3.3). Seguindo o conselho de Noemi, Rute vai até Boaz. Boaz
não resgata Rute imediatamente porque há um parente ainda mais
próximo. Quando o resgatador se recusa diante dos anciãos a tomar
Rute, Boaz a toma, comprando um campo da mão de Noemi (Rt 4.5).
Nos demais livros do Antigo Testamento a imagem do go’el é aplica-
da num sentido mais amplo da redenção de Deus a seu povo, parti-
cularmente no livro de Êxodo. Não resta dúvida de que no caso de
Jó, a perspectiva do go’el, embora em literatura sapiencial, está
mais próxima deste último conceito.
Como chama a atenção Honsey, laeGO apresenta a maior dificul-
dade da perícope; não de tradução, mas de interpretação. 37 Essa
forma da palavra, ou seja, como adjetivo ou um verbo substantiva-
do, aparece 44 vezes no Antigo Testamento.38 O termo é seguido
por yx que, apesar de na maioria das versões, ser traduzido por
verbo, pode também ser traduzido por uma frase nominal, ou seja,
“o meu Redentor [está] vivo”.
Quem é este laeGO e quando ele vai agir? Antes ou depois da
morte de Jó? Storniolo acredita que Jó está dizendo que nada
mais lhe interessa. Não lhe importa mais a vida nem a morte, o
que ele quer é a justiça ou, em outras palavras, a vingança de
sua honra. Nesse caso, Jó de maneira alguma está pensando em
vida após a morte, o que ele espera é para esta vida mesmo.39
Seguindo esta linha de pensamento, devemos concluir que Jó de-
sejava ver a Deus ainda em sua vida terrena, de forma visionária
ou teofânica. Nesse caso, a visão seria ante-mortem, e não post-
mortem. No entanto, essa interpretação é contrária à seqüência
simples de elementos do versículo 26. O texto sugere que, primei-
ramente, haveria a destruição da carne; então Jó teria a visão
beatífica. Podemos adicionar o fato de que Jó espera que suas
palavras permaneçam como um monumento para a posteridade.
Isso demonstra que a sua inocência e justiça não serão estabele-
cidas enquanto ainda vive.
Teólogos que defendem a intervenção divina ante-mortem li-

37
Honsey, op. cit., p. 163.
38
Além desta única vez em Jó, ela aparece 13 vezes em Isaías, 9 em Rute, 8 em Neemias,
3 em Josué, 2 em Levítico, Deuteronômio e Salmos, e 1 vez em 2 Samuel, 1 Reis, Jeremias
e Provérbios.
39
Ivo Storniolo. Como Ler o livro de Jó: O desafio da Verdadeira Religião (São Paulo:
Paulinas, 1992), p.34. Esta também é a opinião de outros críticos como Leveque, que diz
estar plenamente de acordo com os dados do Antigo Testamento, e com os do livro de Jó,
a esperança na intervenção de Deus enquanto Jó ainda vive. Cf. Leveque, op. cit., p.47.

22
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

gam o laegO diretamente ao próprio Deus.40 Porém ao se conectar


esta passagem ao contexto de todo o livro, problemas aparecem.
Pixlei afirma que o próprio contexto exclui esta possibilidade. No
mesmo discurso Jó apresenta Deus como seu inimigo (v. 11). A
expressão está numa série de textos que falam de seu Mediador. Já
antes, Jó se lamenta por não haver um árbitro que pusesse a mão
sobre ambos e os trouxesse ao juízo (9.33).41 Hummel lembra que
Jó pinta Deus como um grande tirano, diante do qual nenhum dos
seus esforços tem qualquer valor. Assim, mesmo podendo ir à corte
com Deus, nada lhe adiantaria. Tudo o que Jó espera é realmente
por um “árbitro”. No capítulo 14, pela primeira vez, a solução além
do túmulo parece entrar no pensamento de Jó. A idéia aparece
novamente em 16.18-22 onde Jó afirma que “minha testemunha
está no céu” (v.19). Essa “testemunha”, assim como o “árbitro”,
seria uma terceira parte, um mediador, que atuaria junto a Deus. A
conjunção de “árbitro-testemunha-mediador” reaparece, mais uma
vez, nos discursos de Eliú (33.23).42 Mitchell concorda com este
movimento ondulante e diz que 19.25 não apresenta uma esperan-
ça isolada do restante do livro, mas ela é semelhante a um pico
numa cadeia de montanhas.43
Neste movimento do livro pode-se ver 19.25 como o ponto cli-
mático do processo. A função do “redentor” é, portanto, seme-
lhante à função do árbitro, x;ykiwOm. Ele advoga a justiça de Jó diante
de Deus. Jó afirma nesta passagem que está convicto na sua vida
post-mortem, sabendo que na sua morte o Redentor pleiteará sua
causa diante do próprio Deus - e o justificará.44 É oportuno lem-
brar que goel, no contexto da perícope, não pode designar um ser
humano porque os filhos de Jó estão mortos e todos os seus pa-
rentes e amigos o abominam e abandonam (cf. vv. 13-19). Em
razão disso, Jó “rompe os limites de seu isolamento e passa do
desejo estéril à convicção. Seu redentor sobreviverá à sua mor-
te”.45 Sommer lembra um fato que muitos teólogos parecem negli-
genciar: o conhecimento que Jó tinha da promessa messiânica fei-

40
W. Visher, “God’s Truth and Man’s Lie,” Interpretation 15 (1961): 138.
41
Jorge Pixlei. El Libro de Job. In Comentário Bíblico Latinoamericano (San José, Costa Rica:
Ediciones Sibila, 1982), p.105.
42
Horace D. Hummel, The Word Becoming Flesh: An Introduction to the Origin, Purpose, and
Meaning of the Old Testament (St. Louis: Concordia Publishing House, 1979), p.476-478.
43
Christopher Mitchell, “Job and the Theology of the Cross” Concordia Journal 15 (April 1989):
p. 163.
44
Acir Raymann, “Jó: tensão entre Justiça e Sofrimento” Igreja Luterana 18 (I Trimestre 1978),
p.15.
45
Terrien, op. cit., p. 170.

23
IGREJA LUTERANA

ta aos primeiros pais (Gn 3.15). Jó não vê o cumprimento das


profecias como nós as vemos; mas ele tem a Palavra de Deus, e
nela espera. Esta Palavra declara que este Redentor vive, e Jó
confessa o que a Palavra de Deus lhe assegura.46 Habel, na sua
opus magnum, argumenta que “não há razão teológica válida por-
que Jó, que considera Deus como seu inimigo, não poderia pensar
numa figura que se levante na corte e persuada Deus a realizar sua
opus proprium de vindicação de Jó”.47 Assim sendo, Hummel con-
clui que, olhando para o texto no seu contexto canônico amplo, a
implicação só poderá cair na pessoa de Cristo.48
A segunda parte do versículo apresenta !wOrx]a;w> cuja tradução
não encontra unanimidade entre os estudiosos. A Vulgata traz “in
novissimo”, que pode ser traduzido por “no último” ou “no derradei-
ro”. A LXX traduz por me,llwn, que carrega a idéia do futuro, do que
“está por vir”. Levando em conta a linguagem poética do livro,
Reuter considera que a palavra deve ser traduzida como conecta-
da diretamente a “redentor”. O hebreu tem o modo de apresentar o
vencedor como o “derradeiro”, o “remanescente”, aquele que fica
só no campo de batalha.49 Pope chama a atenção para o uso que
Isaías faz do termo: “Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Reden-
tor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último,
e além de mim não há Deus” (Is 44.6). O termo “último” é usado de
forma paralela com “Redentor”. Por essa via, a palavra pode ser
tomada como um substantivo paralelo a laeg.O E mesmo que o termo
seja traduzido por um advérbio (“finalmente”, como algumas ver-
sões propõem) ou um substantivo, não faz grande diferença visto
que o vindicador não é Deus, mas antes um mediador, um árbitro,
que intercederá por Jó diante de Deus.50
O termo rp[, “pó”, refere-se ao inimigo que será derrotado pelo
Redentor de Jó. É claro que “pó” é a matéria da qual Deus fez o ser
humano (Gn 2.7); mas designa também a imagem da corrupção
humana (Gn 3.19) bem como o destino dessa corrupção (Is 26.19).
Jó vê que o “pó” vencerá sobre o seu corpo. Mas haverá aquele
que será o “derradeiro”, o “último” sobre o “pó” - Aquele que esma-
gará a cabeça da Serpente (Gn 3.15).51
A Vulgata liga à pessoa de Jó o verbo ~Wqy. Ela afirma: “e que no

46
Sommer, op. cit., p. 283.
47
Norman C. Habel, The Book of Job (Philadelphia: Westminster, 1985), p. 306.
48
Hummel, op. cit., p. 478.
49
Reuter, op. cit., p. 10.
50
Pope, op. cit., p. 1 35.
51
Reuter, op. cit., p. 10

24
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

último dia eu surgirei da terra”.52 Contudo o texto hebraico não


corrobora esta versão. Honsey lembra que para que tal tradução
fosse possível, seria necessário que o verbo estivesse no hiphil,
~yqiy , com yod no lugar do vav. Mas não há nenhuma indicação
para tal no aparato crítico. Há, sim, uma forte relação deste verbo
à ressurreição, porém não diretamente à ressurreição de Jó. Esta
relação acontece em conseqüência do “Redentor” que “se levan-
tará” – uma menção clara à dimensão escatológica.53

V. 26: E depois, minha pele circundará isto e em minha carne


verei a Deus.
O versículo 26 é considerado por alguns como uma crux inter-
pretum.54 Realmente, aqui há uma gama de tradução e interpreta-
ção. A palavra rx;aw; > não pode ser traduzida por “e depois de”, visto
que ela tem relação direta com o futuro do verbo WpQ.n.I A tradução
mais adequada seria “e depois”.55 A LXX não traz correspondente
para esta palavra, e a Vulgata traduz por rursum, “novamente”. A
forma WpQ.nI encontra-se no Piel, o que exprime uma intensidade,
podendo-se traduzir a forma por “circundar”. O pronome demons-
trativo tazO não pode estar ligado a ydIw[
O , que é uma palavra mascu-
lina, por ser tazO feminina. tazO não precisa ter seu correlato, poden-
do ser subentendido, como em Juízes 13.23. A tradução proposta
pela Vulgata nesta parte do versículo é: “E novamente circundado
com minha pele...”.56 Assim, a tradução seria: “minha pele circun-
dará isto”, supondo que Jó aponta para seu corpo ao pronunciar
estas palavras.
A palavra yrIfB.mi é interpretada de maneira distinta pelos teólo-
gos. Ela tem a combinação da preposição, “de”, e rfB “carne”. A
decisão está atrelada ao sentido de !mi, ou seja, se é privativo ou
indica origem. Lange sugere que a tradução deva ser “e livre da
minha carne”.57 Honsey sugere algo semelhante: “e fora da minha

52
No original: “et in novissimo de terra surrecturus sim”.
53
Honsey, op. cit., p. 173-74. Sommer, op.,cit., p. 283 liga o verbo ~Wqy;( à ressurreição de
Jesus. David C. Devel, “Job 19.25 and Job 23.10 – Revisited an Exegetical Note” The
Master’s Seminary Journal l5 (1994): 97-100 observa que é interessante notar que, no
Oratório “O Messias”, de Georg Friedrich Haendel, os sopranos cantam Jó 19.25,26
juntamente com 1Co 15.20. O texto de Coríntios fala de Cristo como “as primícias dos
que dormem”. Isso deixa claro que Haendel também ligou Jó 19.25b à ressurreição de
Jesus.
54
George V. Schick “The RSV and the Small Catechism” Concordia Theological Monthly
XXVII (March 1956): 178.
55
Reuter, op. cit., p.10.
56
No original: “et rursum circumdabor pelle mea”. A NTLH traz um sentido diferente:
“Mesmo que a minha pele seja toda comida pela doença...”.
57
Lange, op. cit., p. 457.

25
IGREJA LUTERANA

carne”.58 Mas, como argumenta Reuter, a preposição !mi tem como


sentido principal “de”, “de dentro” (cf. 1.21). Neste caso, a herme-
nêutica requer que se mantenha o sentido primário da palavra,
visto que o “todo” da Escritura apóia tal posicionamento. Logo, “eu
O a>, hz<xa/ significa ver de dentro da carne.59 Concor-
verei a Deus” H;wl
da-se, assim, com Lutero, que traduz: “na minha carne verei a
Deus”.60 A Vulgata se assemelha: “et in carne mea videbo Deum
meum”. Assim sendo, entende-se que Jó estava pensando em sua
vindicação como acontecendo numa realidade corpórea.
Apesar das dificuldades que se apresentam na tradução do ver-
sículo 26, torna-se clara a esperança que Jó tem na ressurreição.
Alguns estudiosos como Leveque,61 Stornido,62 entre outros, afir-
mam que Jó de maneira alguma está pensando em ressurreição e a
razão para isso é que descartam a possibilidade de que na época
patriarcal em que Jó teria vivido tal conceito não havia sido desen-
volvido. A narrativa bíblica, no entanto, recorda que o sacrifício de
Isaque (Gn 22) é um episódio que o autor de Hebreus enaltece
relacionando-o à ressurreição (Hb 11.17-19).
Aos cristãos as palavras de Jó ganham uma profundidade ini-
gualável quando evidencia-se que a ressurreição expressa está
intimamente ligada ao laegO. É Cristo, o Mediador de Jó, que torna
possível “ver a Deus” depois da morte dentro da “própria carne”.
Segundo Reuter, Jó indica ao mesmo tempo a bem-aventurança
deste novo estado do seu corpo e de sua alma. Um ser humano
não pode contemplar o esplendor da glória da majestade divina
enquanto se encontra nesta vida (Êx 33.2). Olhos humanos só
podem suportar o reflexo da glória divina quando transformados por
Deus na eternidade, de modo que possam olhar sem cegar como
era no contexto pré-lapsariano.63

V. 27: Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não


outros; de saudade me desfalecem os rins dentro de mim.
No versículo 27 novamente Jó demonstra ênfase ao utilizar o
pronome pessoal yniai >.; Andersen explica que Jó emprega “eu” três
vezes no versículo, ou seja, uma vez oculto no verbo, segunda vez
como sujeito pronominal enfático, “mim mesmo”, e depois como o

58
Honsey, op.cit., p. 184.
59
Reuter, op. cit., p. 11.
60
No iriginal: “Und werde in meinem Fleisch Gott sehen”.
61
Leveque, op. cit., p. 48.
62
Storniolo, op. cit., p. 34.
63
Reuter, op. cit., p. 11, 12.

26
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

“dativo ético”: “Vê-lo-ei por mim mesmo”.64 A forma War, depois do


>, ,, é o perfeito de certeza, ou de futuridade. Ambos os
futuro hz<xa
verbos significam “ver”, com a diferença de que hzx é uma forma
mais poética.65
A palavra rz significa “estranho”, “estrangeiro”. ARA traduz: “os
meus olhos o verão, e não outros”. Driver e Gray comentam uma
alternativa de tradução: “e meus olhos e não (estes de) um es-
trangeiro, verão”. Mas, no contexto esta possibilidade parece pou-
co provável.66 Uma das versões que mais difere é a da Bíblia de
Jerusalém, que traz: “Aquele que meus olhos contemplarem não
será um estranho”.
A seqüência do versículo significa, literalmente: “meus rins [são]
consumidos dentro de meu seio”. Honsey diz que Jó está usando
palavras concretas para expressar suas emoções.67 A Bíblia de Je-
rusalém traz algo parecido: “Dentro de mim consomem-se os meus
rins”. A Vulgata sugere: “Esta minha esperança está depositada no
meu peito”.68 O que se evidencia no texto é a alegria hiperbólica de
Jó pela materialização das suas palavras. Quando o Redentor o
ressuscitar e Jó puder ver a Deus com os próprios olhos, em sua
carne, a sua alegria será indescritível, a ponto de “se consumirem
os rins”.
De fato, a grande questão dos versículos 26 e 27 é a ressurrei-
ção. Não há como negligenciar o contexto anterior, quando Jó em
uma situação de miséria total apóia-se em seu Mediador. É neces-
sário ligar a ressurreição ao seu Redentor. Como afirma Honsey,
não há como considerar esta porção da Escritura de outra maneira,
a não ser como evidência de que aqui se fala em ressurreição dos
mortos.69 Assim também pensa Hummel, argumentando que a vida
após a morte é inegável nestes versículos. A menção de “pele”,
“olhos” e “rins” mostra que Jó pensa na ressurreição em termos
corporais.70 Jó fala de uma imortalidade individual e pessoal. O
homem, após a ressurreição, continua com identidade pessoal e
arguta consciência.
Schökel, por outro lado, diz que a doutrina da ressurreição não
se lê no texto nem no sentido do livro, mas é fruto de uma teologia

64
Andersen, op. cit., p. 192.
65
Reuter, op. cit., p. 12.
66
Driver, op. cit.., p.175.
67
Honsey, op. cit., p. 193.
68
No Original: “Reposita est haec spes mea in sinu meo”.
69
Honsey, op. cit., p. 193.
70
Hummel, op. cit., p. 479.

27
IGREJA LUTERANA

posterior.71 Nesta linha seguem vários teólogos, como Leveque,


Storniolo, Pixlei e outros. Porém quando se dá a devida atenção às
palavras de Jó, só se pode negar a ressurreição caso se desconsi-
derar o sentido primeiro destas palavras.
Reuter considera que esta passagem é uma sedes doctrinae da
doutrina da ressurreição da carne e de que a fé dos crentes do
Antigo Testamento tinha o mesmo objetivo que a dos crentes do
Novo Testamento.72 Honsey conclui que Jó faz uma confissão de
fé, de forma confiante, esperando que o seu laeGO o ressuscite no
último dia, quando esse Redentor, que também ressuscitou dentre
os mortos, o restaure em vida perpétua.73 De fato, Jó reflete as
palavras de Jesus, o próprio laeG:O “porque vem a hora em que todos
os que se acham nos túmulos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os
que a ouvirem viverão” (Jo 5.28).

CONCLUSÃO

Helmut Thielicke, num contexto de dizimação que só uma guerra


pode proporcionar, afirmou que “uma biografia não deveria iniciar
com o nascimento da pessoa, mas com sua morte. Deveria ser
escrita à luz do fim porque apenas a partir deste ponto podemos
contemplar a vida na sua plenitude”.74 A biografia de Jó fascina
pela fé, pela persistência e pela convicção da presença de Deus.
Certamente por esta via ela precisa ser imitada (Hb 13.7). Como
leitores oniscientes, conhecemos detalhes e razões da história de
Jó que ele não conhecia e talvez jamais conheceu. Sabemos que
na sua vida, como na nossa, parece que “por um pouco” Deus se
oculta e “mais um pouco” a sua misericórdia se revela. Contudo
permanece a certeza e a fé de que Deus sempre está presente e
no controle da situação por mais adversa que ela possa ser. Disso
Jó nunca duvidou, mesmo que por vezes não quisesse deixar Deus
ser Deus.
A confissão cristológica: “quanto a mim, eu sei que o meu Re-
dentor está vivo e por fim se levantará sobre o pó” soaria natural
caso saísse dos lábios de um cristão do Novo Testamento. Pode

71
Luis Alonso Schökel. Libros Sagrados: Job (Madrid: Ediciones Cristandad, 1971), p. 93.
72
Reuter, op. cit., p.12,13.
73
Honsey, op. cit., p. 195.
74
Helmut Thielicke, Out of the Depths. Trad. por G. W. Bromiley (Grand Rapids, MI: William
B. Eerdmans Publishing Company, 1962), p. 78.

28
RÉSTIA NA ESCURIDÃO: UMA ANÁLISE DE JÓ 19.23-27

causar estranheza, entretanto, o fato que um cristão vivendo an-


tes de Cristo expresse igual confissão. Será isso realmente um
problema? Talvez este texto nos leve a refletir sobre a questão da
cristocentricidade e mais especificamente sobre a pré-encarnação
do Filho no Antigo Testamento e bem assim na própria fides qua (e
fides quae) do povo de Deus de então. Mas este é assunto para
outro momento.75
Diante do estudo feito pode-se chegar a algumas conclusões: (1)
O livro de Jó apresenta um crescendo na perspectiva cristocêntrica.
O clamor por um “árbitro” (9.33), um “Mediador” (16.19) chega a seu
ponto culminante em 19.25. Esta perícope não é um cume isolado,
mas o monte mais alto numa cadeia de montanhas; (2) O movimento
que há no livro indica que o “Redentor” esperado por Jó não pode ser
Deus, o Pai. Jó imagina uma disputa entre ele e Deus, apontando para
a necessidade de uma terceira parte, um “mediador”, que pleiteará a
sua causa e o justificará; (3) O desejo de Jó em ter as suas palavras
gravadas para a posteridade demonstra que sua esperança vai além
de sua vida terrena. Também se torna evidente este fato com a
seqüência dos elementos apresentados pela perícope. Está implícita
nas suas palavras a iminente destruição de sua carne antes da sua
vindicação final; (4) O “mediador” de Jó será o “Derradeiro”, o “Últi-
mo”, o “Vencedor”. Ele será vitorioso sobre o “pó”, ou seja, sobre a
morte. Por isso este Redentor também o ressuscitará; (5) A ressurrei-
ção acontece em termos corporais. As palavras “olhos”, “rins” e “eu
mesmo” indicam uma restauração post-mortem do seu ser e sua
identidade; (6) Jó tem conhecimento das profecias messiânicas. Ele
está ciente de que Deus prometera o “descendente da mulher” que
feriria a “cabeça da serpente”. Este conhecimento permite a Jó, em
meio a aflições, confessar que o seu “Redentor está vivo”. A expres-
são “vivo”, e não “viverá”, mostra que Jó sabe da dupla natureza do
“Redentor”. O descendente da mulher que viria já existe. Nas palavras
do próprio Jesus: “antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8.58).
É inevitável, pois, no estudo de Jó 19.23-27 que se coloque a
centralidade na pessoa de Jesus Cristo. Ele é o Redentor: o único
capaz de vencer a morte e dar a Jó a restauração do seu corpo,
que esmaga a “cabeça da serpente” e o “pó”. Este é o testemunho
que Jó deseja ver gravado em bronze, na rocha. E o que se grava
em bronze, se eterniza.

75
Para uma retomada histórica e reveladora sobre a presença real de Cristo no Antigo
Testamento, cf. Charles A. Gieschen “The Real Presence of the Son Before Christ: Revi-
siting an Old Approach to Old Testament Christology” Concordia Theological Quarterly 68
(April 2004): 105-26.

29
IGREJA LUTERANA

30
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ:
EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO
NOS CATECISMOS1
Charles Arand

O Pai Nosso é, sem dúvida alguma, a oração mais freqüentemente


falada na Cristandade. É uma das primeiras orações que os cristãos
aprendem de cor e pode muito bem ser a última oração que eles
pronunciarão antes de fecharem os olhos no que se refere ao fin-
dar a vida. E exatamente aqui reside um problema potencial. Mui-
tos de nós o pronunciamos com tanta freqüência de forma que ela
não mais nos conforte ou console. Para alguns o Pai Nosso perdeu
o fio da meada, por assim dizer. Isto não é nada novo. Em seu
tempo, Lutero lamentou que foi uma grandíssima pena que a ora-
ção dada a nós pelo Senhor “seja tagarelada e falada a esmo tão
irreverentemente pelo mundo! Quantos oram o Pai Nosso milhares
de vezes no curso de um ano, e se fosse para manterem desta
forma por milhares de anos eles não teriam provado de nem orado
um iota! Em uma palavra, o Pai Nosso é o maior mártir na terra
(como o são o nome e a palavra de Deus). Todos torturam e abu-
sam dele; pouquíssimos tomam do conforto e da alegria que o seu
bom uso proporciona” (LW 42: 200).2
Certamente ninguém quer orar desta forma. Parte do problema
é que nós sabemos o Pai Nosso de tal forma que podemos pronun-
ciar as palavras automaticamente, sem pensar naquilo que estamos
pedindo a Deus. Orar suas petições pode se tornar pouco mais do
que um reflexo instintivo ou hábito cultivado. Ao mesmo tempo, tal
orar irrefletido pode ocorrer devido ao que conhecemos do Pai
Nosso, o que é muito pouco! Suas palavras têm se tornado tão
familiares que nós falhamos ao perceber como cada petição pode
abrir um mundo inteiro de significado e providenciar uma ordem
tanto para o orar quanto para o viver.

1
Publicado originalmente em inglês sob o título The Batle Cry of Faith: The Catechism’s
Exposition of the Lords Prayer. In Concordia Journal, January 1995, pp. 42-65. Tradução
Fábio Werner e Clóvis Prunzel.
2
Referências às Obras de Lutero se fazem a partir das obras em inglês, Edição Americana,
daqui por diante sob a abreviatura LW (Luthers Works).

31
IGREJA LUTERANA

No intuito de remediar esta situação, Lutero sondou a pro-


fundidade do Pai Nosso como poucos o fizeram antes dele. De
fato, onde muitos hoje encontram uma teologia da oração em
slogans e frases feitas como “a oração modifica as coisas” e “o
poder da oração”, Lutero em seus dias voltou-se para o Pai
Nosso como sendo o melhor ponto de partida para a reflexão
quanto à natureza e propósito da oração. Sempre de novo, quando
ele trata do Pai Nosso, Lutero discute a teologia da oração.
Quando quer que ele faça um discurso sobre a natureza da ora-
ção, ele invariavelmente retorna ao Pai Nosso. Não só faz do Pai
Nosso o papel central em sua teologia da oração, mas sob várias
nuances essa oração nos leva ao cerne da teologia de Lutero.
De fato, Albrecht Peters afirmara, “a oração do Pai Nosso é o
ponto no qual os insights espirituais de Lutero são cristaliza-
dos”.3
A apreciação de Lutero pelo Pai Nosso não terminou com uma
reflexão quanto ao pensar; ela se estende para a própria vida de
oração. Para ele, a fé não tem interesse em uma teologia da
oração à parte da prática da oração.4 E ao relacionar o Pai Nos-
so como sendo o melhor mestre do orar, Lutero se dirige a ele
como o modelo ideal com relação a todas as nossas outras ora-
ções. Onde muitos hoje insistem em usar um acróstico como Ad/
C/Ag/S (adoração, confissão, agradecimento e súplicas) como
esboço para orar, Lutero em seus dias ensinava a prática da
oração à base daquilo que o Senhor deu aos Seus discípulos.5 A
esperança de Lutero era a de que o Pai Nosso guiasse o povo
cristão numa vida toda de oração6 e provesse “uma ocasião para
modelar como os crentes deviam orar à parte do Pai Nosso”.7
Lutero praticava o que pregava. Muitas de suas próprias ora-
ções foram formuladas à base das petições do Pai Nosso, como

3
Albrecht Peters, “Die Vaterunser-Auslegung in Luthers Katechismen,” Lutherische Theo-
logie und Kirche 3 (1979): 69.
4
Friedemann Hebart, “The Role of the Lord’s Prayer in Luther’s Theology of Prayer,” Luthe-
ran Theological Journal 10 (1984): 10.
5
Isto parece ter importantes implicações para o ensino do Pai Nosso na confirmação. O
catequista não apenas ensinaria a teologia da oração e estaria expondo as petições do
Pai Nosso, mas ensinaria as crianças a como orar ao utilizar o Pai Nosso como modelo.
6
Friedemann Hebart, Luther’s Large Catechism: Anniversary Translation and Introductory
Essay (Adelaide: Lutheran Publishing House, 1983), p. 6.
7
Robert Kolb, Teaching God’s Children God’s Teaching, (Hutchinson, MN: Crown
Publishing, 1992), p. 54.

32
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ: EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

pode ser visto em Um Guia Pessoal de Oração, de 1522, e Uma


Maneira Simples de Orar, de 1538.8

O PAI NOSSO NOS CATECISMOS

A teologia e prática do Pai Nosso vêm aglutinado nos Catecis-


mos como em nenhum outro lugar. Pondo à parte a obra de Albrecht
Peters, as exposições catequéticas de Lutero quanto ao Pai Nosso
têm recebido escassa atenção. Mas a pouca atenção que tem sido
prestada é inteiramente favorável. Johann Michael Reu, por exem-
plo, manteve que o Pai Nosso foi a parte menos original da explica-
ção de Lutero.9 Outros, contudo, tomaram, mais recentemente,
uma visão oposta. James Nestingen se refere a ela como a “obra
prima” de todo o Catecismo.10 De um viés similar, James Voelz su-
geriu que ela é “o trecho mais importante” do Catecismo Menor e
talvez a parte “mais querida aos leitores”.11
Servindo como a porta pela qual a teologia penetra na vida, o
Catecismo abastece o pastor com uma ponte natural do seminário
para a congregação. Os textos do Catecismo não valem apenas
para serem aprendidos e relembrados; eles valem para ser ponde-
rados e para a prática da oração. Isto não está querendo sugerir
que os Catecismos ofereçam uma exaustiva e compreensiva teolo-
gia da oração. Os Catecismos foram escritos, acima de tudo, para
pastores e paroquianos que tinham pouco entendimento de ora-
ção, e menos ainda prática quanto a ela. E, contudo e ao mesmo
tempo, nisto reside sua força. Ao se concentrar sobre a base da
oração, o ABC da oração, os Catecismos nos levam ao âmago
central de uma compreensão cristã da oração. Eles munem os con-

8
Este é, em poucas palavras, o modo que eu uso o Pai Nosso quando o oro. Para este dia
[1538] eu me amamentei do Pai Nosso como uma criança, e como um homem velho comi
e bebi a partir dele e nunca fiquei tão preenchido. É a melhor oração, até mesmo acima do
Saltério, que me é tão querido. Está claro e evidente que um verdadeiro mestre o compôs
e ensinou (LW 34: 200).
9
Johann Michael Reu, Dr. Martin Luthers Small Catechism: A History of lts Origin, Its
Distribution and Its Use. A Jubilee Offering (Chicago: Wartburg Publishing House,
1929), p. 145.
10
James Arne Nestingen, “Preaching the Catechism,” Word and World 10.1 (1990): 33-41.
11
James W. Voelz, “Luther’s Use of Scripture in the Small Catechism,”
Luthers Catechisms-450 Years: Essays Commemorating the Small and Large Catechisms
of Dr. Martin Luther, ed. David P. Scaer and Robert D. Preus (Fort Wayne, IN: Concordia
Theological Seminary Press, 1979), p. 61.

33
IGREJA LUTERANA

tornos básicos da oração e mostram como a oração se relaciona


com o todo do ensino e vida cristã.
A importância do Pai Nosso é refletida nos Catecismos primeiro
pela sua localização, e segundo, por sua exposição. Se Lutero
coloca o Primeiro Mandamento como a pedra angular dos Catecis-
mos, ele também coloca o Pai Nosso como sendo o auge, por assim
dizer, das três primeiras partes principais. A fé, requerida nos Dez
Mandamentos e outorgada no Credo, vem à expressão no Pai Nos-
so. No Primeiro Mandamento, Deus requer que olhemos para Ele
somente, com relação a cada dádiva; no Pai Nosso oramos, “Pai
Nosso” e procuramos tudo o que é bom a partir de Deus apenas. O
Credo provê a ponte entre os Dez Mandamentos e o Pai Nosso ao
nos mostrar que espécie de Deus nós temos de forma que na
oração ecoe “a prioridade de Deus é nos falar em sua graça”.12 A
oração, portanto, é a reação às promessas de Deus ao expressar a
atitude receptiva da fé se apropriando da generosidade e bondade
divina. De fato, “a fé não pode auxiliar, exceto que expressar a si
mesma na oração ao Senhor, em quem nossas vidas descansam – e
devem encontrar descanso”.13
A oração não somente expressa a atividade da fé, ela incorpo-
ra o clamor de batalha da fé. Lutero apresenta o Pai Nosso dentro
de um contexto de conflito entre descrença e fé. A oração coloca
o cristão na linha de batalha entre Deus e Satã. Os parágrafos
iniciais na discussão da oração no Catecismo Maior jogam luzes
na oposição de Satã com relação à fé. Junto com sua coorte,
Satã continuamente importuna e assalta o crente a fim de impos-
sibilitar a recepção das dádivas de Deus. A luta da oração torna-
se a luta da própria fé. Nós oramos, apesar do mal e do mundo.
Por esta razão, Martin Marty se referiu ao Pai Nosso como o hino
de combate na vida cristã.14 Enquanto expressão de fé, o Pai
Nosso declara guerra à descrença e declara automaticamente a
sua independência do poder do pecado e de Satã. Desta forma
Lutero coloca, “nossa segurança e proteção residem unicamente
na oração” (Catecismo Maior III 30). Tudo isto quer significar
invariavelmente que a teologia da cruz em Lutero encontra ex-
pressão aqui no Pai Nosso.
Um exame da introdução e conclusão da exposição de Lutero
sobre o Pai Nosso assim como sua explicação das petições de-

12
Hebart, “Role,” p. 7.
13
Kolb, p. 53.
14
Martin E. Marty, The Hidden Discipline, (St. Louis: Concordia, 1962), p. 108.

34
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ: EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

monstrarão que os Catecismos consideram o Pai Nosso enquanto


ambos, isto é, o clamor da fé e, ao mesmo tempo, o clamor pela
fé. Em ambos os casos, a oração é centralizada completamente na
Palavra de Deus do início ao fim.15

INTRODUÇÃO E CONCLUSÃO: “PAI NOSSO...” E “AMÉM”

Lutero identifica o comando e a promessa de Deus como o


ponto de partida básico para todas as orações. Ambos estão en-
cerrados dentro da abertura, “Pai Nosso que estás nos céus”. Em
sua exposição do Sermão do Monte (1532), Lutero explica que com
as palavras “Pai Nosso”, Deus “nos previne ao lembrar tanto de seu
comando quando de sua promessa” (LW 21: 146). No Catecismo
Maior, bem como nos assim chamados Dez Sermões (1528), Lutero
discute o mandamento e a promessa profundamente em benefício
de uma exposição explícita da introdução. Em sua explanação da
introdução, que ele inserira no Catecismo Menor em 1531, o man-
damento para orar não é aparente a menos que se olhe para o
sollen (dever-se-ia pedir). A promessa, contudo, está clara como
um cristal: “Deus, carinhosamente, nos convida a crermos...”. Am-
bos, mandamento e promessa, são encontrados na explicação de
Lutero sobre o “Amém” para o Pai Nosso. Lá ele afirma que nosso
Pai “mesmo nos mandou orar desta forma e prometeu nos escutar”.
Como podemos ver, a concentração de Lutero no mandamento e
promessa como a base para a oração integra o Pai Nosso de forma
extrínseca com as duas primeiras partes principais do Catecismo,
os Dez Mandamentos e o Credo, respectivamente.
Por que são o mandamento e a promessa tão importantes? Para
Lutero, Satã e o pecado ativamente procuram nos distrair e desfocar
ao buscarmos toda nossa ajuda e bem em Deus. Lutero encontra,
no mandamento e na promessa, muito mais uma base teocêntrica
(orientação da fé) do que uma perspectiva egocêntrica (sem fé)
para a oração. Ao invés de considerar a oração como pedido lan-
çado aos céus na esperança de que a resposta cairá de lá, a
oração se origina e reside na iniciativa de Deus, que busca nossas
petições suscetíveis. Se localizássemos as bases para a oração
dentro de nós mesmos, nossas orações estariam tanto além quan-
to aquém. Mas o mandamento e a promessa de Deus permanecem

15
John Kleinig, “The Kindled Heart: Luther on Meditation,” Lutheran Theological Journal 19-
20 (1985-86): 142-154.

35
IGREJA LUTERANA

firmes. Considere-os não de si mesmo. Elas sozinhas podem subju-


gar a oposição, a reserva e a incapacidade para orar (Catecismo
Maior III 2). E desta forma, para Lutero, a oração cristã começa,
não conosco, mas com Deus. “Assim como Deus estava em Cristo
reconciliando o mundo consigo mesmo, assim na oração Deus con-
descende no mundo do homem pedindo e agradecendo e atrai o
homem ao seu próprio mundo”.16

A ORAÇÃO É BASEADA NO MANDAMENTO DE DEUS

Segundo o Catecismo Maior, os obstáculos para orar provêm de


duas direções. Por outro lado, há as objeções levantadas por aqueles
que são “vulgares” ou “ignorantes” (Catecismo Maior III 6). Elas
titubeiam ao relacionar a oração enquanto um assunto de escolha
pessoal. De um modo um tanto quanto pio, elas acabam asseve-
rando que se elas não podem orar com significado (propósito),
caso elas estiverem apenas sendo levadas pelas emoções, então
seria melhor não orar, em absoluto. Seria melhor evitar a oração de
todo do que orar de forma hipócrita. Em tais casos, a oração é
oração apenas se ela emergir como o clamor espontâneo do cora-
ção ou enquanto a efusão de um coração pesado. A oração é
iniciada pelo nosso impulso. Oramos, portanto, quando temos opor-
tunidade, tempo, necessidade ou se as circunstâncias externas
nos forçam a considerar nossa necessidade pela oração. E então
nossas orações são escassas. Por outro lado, há aqueles a quem
Lutero chama de “pecadores”. Eles parecem ter consciência sensi-
tiva que, quando caem por terra pela lei, não são dignos de orar.
Eles mantêm que apenas aqueles que são santos, ou o povo espe-
cial de Deus, ou então os pastores é que podem verdadeiramente
orar de uma forma que Deus escute.
Em ambas as objeções, Lutero detecta uma compreensão
antropocêntrica atuando. Em cada uma das circunstâncias, a ora-
ção origina e tem como ponto de partida em nós mesmos. Lutero
dirigiria ambos, o “ignorante” e o “pecador” para fora de uma con-
sideração de si mesmos, ou seja, de procurarem em si mesmos uma
base ou razão no orar, e os aconselharia a “considerarem o manda-
mento de Deus”! Deus não “sugere” que quando nós tivermos um
momento, ele nos escutaria. Tampouco Deus convida à oração
quando estivermos preparados por nós mesmos e estivermos, por-

16
Marty, pp. 65-66.

36
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ: EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

tanto, prontos para orar propriamente. A oração acarreta um “de-


veria”. Aqui Lutero avança com vigor. “Considere o mandamento de
Deus (Catecismo Maior III 17)! Somos como que limitados ao dever
de orar (Catecismo Maior III. 5). Não é opcional (Catecismo Maior
III 6).17 A oração tem valor e validade não porque oramos ou somos
dignos de orar, mas porque Deus nos mandou assim fazer (Catecis-
mo Maior III 13). É sobre esta base, em obediência ao mandamento
que todos os santos têm constantemente orado.
Lutero encontra o dever de orar, de forma proeminente, no
Segundo Mandamento, que nos conclama a “invocá-lo em todas as
necessidades, orar, louvar e agradecer”. Ao basear a oração na
obediência aos Dez Mandamentos, Lutero visualiza o dever de orar
à mesma luz enquanto deveres que nós temos em honrar nossos
pais, amar o cônjuge, pagar nossos impostos e ajudar o nosso
próximo quando em necessidade. É um dever da criatura motivado
em nossa natureza como criaturas humanas. E então, o Primeiro
Artigo conclui, “pelo qual é minha tarefa agradecer e louvar...”. A
atividade criativa de Deus procura as reações apropriadas de ora-
ção e louvor.18 Assim como todos os mandamentos, o Segundo
Mandamento, em última análise, nos leva de volta ao Primeiro Man-
damento. E assim o faz de duas formas: primeiro, as ameaças e
promessas do Segundo Mandamento revelam a determinação de
Deus em permanecer nosso Deus (Primeiro Mandamento); e segun-
do, a oração expressa a fé requerida pelo Primeiro Mandamento.

A ORAÇÃO E AS DUAS OBRAS DE DEUS

Não passa despercebido que Lutero aplica o mandamento fa-


zendo com que ele tome um caráter diferente quando é dirigido a
pessoas diferentes.19 Em determinado momento, o mandamento
toma a força de uma ameaça: “o mandamento está lá, deves orar”!
Ele continua, “eu deveria orar ou me expor à raiva e o desfavor de
Deus”. Em outro lugar, no entanto, o mandamento toma a força de
um insistente encorajamento: “por este mandamento, ele torna
claro o suficiente que ele não quer nos afastar ou afugentar, mes-

17
Primeiro, no mandamento, Deus “demanda esta glória de nós para que possamos elevar
nossas petições a ele, como uma criança o faz com relação ao seu pai” (LW 21: 146).
18
Gunnar Wertelius, Oratio Continua: Das Verhältnis zwischen Glaube und Gebet in der
Theologie Martin Luthers, Studia Tlieologica Lundensia (Lund: CWK Gleerup, 1970), p. 67.
19
Cf. a discussão de Wertelius sobre a tese de Prenter, segundo a qual aqui a Lei é
transformada em Evangelho, pp. 107-112.

37
IGREJA LUTERANA

mo que sejamos pecadores. Ao invés disto, Ele deseja aproximar-


nos de Si mesmo de forma que venhamos a nos submeter à sua
presença, contando a Ele todos os nossos percalços e problemas,
e pedir a Ele por Seu favor e ajuda” (Catecismo Maior III 11). Neste
caso, o mandamento mostra que Deus é verdadeiramente sério o
bastante no intuito de querer nos amparar. O mandamento é
visualizado enquanto um chamariz ou encorajamento. Em outras
palavras, Deus não concederia um mandamento para orar se Ele
não se propusesse a ajudar.
Em cada um destes casos, o mandamento para orar parece ser
usado por Lutero como sendo uma forma de estenografia para
incluir não apenas a palavra rudimentar do mandamento, mas as
bases para o mandamento assim como o propósito do mandamen-
to. Em outras palavras, Lutero mostra que a Lei nunca pode ser
despersonalizada ou abstraída de seu autor. Como ela não pode ser
separada de Deus, ela não pode ser separada tanto de seu caráter
quanto de sua obra, tanto de Sua ira quanto de Sua graça. Colo-
cada positivamente, a Lei deve ser compreendida pessoalmente.
Deve ser vista com relação a Deus mesmo e, conseqüentemente,
em relação tanto à sua obra própria quanto à sua obra estranha. E
desta forma, assim como ele faz em sua exposição dos Dez Manda-
mentos, Lutero coloca o mandamento de Deus no contexto de
Suas promessas e ameaças.
Deus não terá seu mandamento tratado como pilhéria sem que
fique irado e nos puna se não pedirmos a Ele o que necessitamos,
assim como Ele pune todas as outras espécies de desobediência.
Tampouco Ele deixará nossas orações ser algo vazio ou ser apenas
palavras desperdiçadas. Pois se Ele não quisesse responder nossas
orações, Ele não pediria ao ser humano que orasse, e não tornaria
tal assunto em um estrito mandamento (Catecismo Maior III 18).
Estas duas palavras diferentes são causadas pelos modos dife-
rentes nos quais o mandamento é ouvido. Como um mandamento
não pode ser abstraído do doador da Lei, então ele não pode ser
abstraído do Sitz im Leben do ouvinte. Para a pessoa piedosa que
não ora a menos que ela possa orar com sentido, Lutero declara,
orar ou arriscar-se no desfavor de Deus. Mas ao “pecador” que foi
jogado ao chão pela Lei, Lutero usa a Lei contra a Lei. ‘Por este
mandamento, ele deixa claro o suficiente que ele não quer nos
afastar ou afugentar, mesmo que sejamos pecadores” (Catecismo
Maior III 11). O “mandamento” nesta sentença é estenografado
pelo “Deus quer auxiliar e portanto insiste que peçamos a ele por
amparo”.

38
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ: EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

Em ambos os casos, o mandamento prende nossa atenção no


zelo de Deus em ser nosso Deus. Por um lado, Ele adverte contra o
buscar auxílio em algo ou alguém mais senão que Ele mesmo. Por
outro lado, Ele encoraja e insiste que venhamos a Ele em toda e
qualquer necessidade.

A ORAÇÃO E O PRIMEIRO MANDAMENTO

O mandamento para orar (Segundo Mandamento) em última ins-


tância reside no mandamento pela fé (Primeiro Mandamento). O
mandamento de pedir a Deus por todas as coisas contém dentro de
si mesmo a demanda por uma fé que não espera nada senão que as
boas coisas a partir de Deus. “A oração, para Lutero, não é uma
oração dos lábios, mas a oração interna do coração. É esta oração
do coração, mediante a qual pode-se esperar todas as boas coisas
de Deus”.20 Do mesmo modo que o coração e a boca estão relacio-
nados, assim o estão a fé e a oração atreladas.21 Como Lutero
denota, as primeiras coisas a transbordarem do coração e chega-
rem à borda são as palavras. O coração que se apega a Deus
então identifica Deus com um nome. Esta mesma seqüência de fé –
oração/nome se aplica à ordenação do Terceiro Artigo – Pai Nosso
assim como à explanação de Lutero na Introdução: Deus nos con-
vida a crermos de forma que possamos pedir. Do contrário, a falta
de oração resulta de um olhar para algo mais, para outras “divinda-
des”.
A oração, desta forma, coloca o Primeiro Mandamento em práti-
ca. É o modo prático pelo qual vivemos do Primeiro Mandamento. A
vida de oração cultiva o hábito de “colocar a nós mesmos, nosso
corpo e alma, esposa, filhos, servos, e tudo que nós temos, nas
mãos de Deus cada dia, e pedir a Ele para proteger-nos quando
alguma dificuldade nos atacar” (Catecismo Maior I 73). Lutero su-
gere que isto se encontra nas orações à mesa, assim como nas
orações da manhã e noite, uma vez iniciado e tendo continuidade
no dia. As orações da manhã e noite refletem este pensamento
quando a criança ou o adulto ora, “em suas mãos eu recomendo a
mim mesmo, meu corpo e alma, e todas as coisas”. E então Lutero
admoesta que nós ensinemos as crianças a relacionar Deus como

20
Wertelius, p. 27. Cf. LW 42: 24-26.
21
Desta forma, onde “o coração dá a Deus sua honra mediante a fé, a boca concede sua
honra através da confissão” (BKS 578, 1-3; Peters, p. 156).

39
IGREJA LUTERANA

sendo Deus, como o único que provê e protege em cada necessi-


dade. Para este fim, ele encoraja os pais a ensinarem as crianças a
pronunciar orações curtas e diretas, tais como “Senhor Deus, pro-
tege-me”! Desta forma, o Primeiro e o Segundo Mandamentos tor-
nam-se rotinas constantes e práticas para com as crianças. Em
parte alguma isto é mais verdade do que no Pai Nosso. Nota-se sua
proeminente localização nas orações de Lutero quanto à manhã e
noite, bem como as à mesa.
A conexão entre o Primeiro e Segundo Mandamentos, em última
análise, mostra que na oração, a hegemonia de Deus está em risco
em nossas vidas. Seu lugar e permanência enquanto Deus em nos-
sas vidas é exposto aos quatro ventos pela oração. Se Deus é
Deus, nós oramos. Caso contrário, “aquele que não chamar por
Deus ou orar a Ele quando em dificuldades certamente não O con-
sidera Deus”.22 No mandamento, Deus insiste em Seu senhorio so-
bre toda a criação. Suas ameaças e promessas carregam a deter-
minação de Deus em permanecer o Deus a quem procura-se todo o
bem e chama-se em toda necessidade.

A ORAÇÃO É EVOCADA PELA PROMESSA


DE DEUS E RESIDE NELAS

A ênfase de Lutero numa perspectiva teocêntrica na oração,


em conjunto à sua conexão entre fé e oração, continua quando
ele volta sua atenção para a promessa de que Deus escuta a
oração. Se o fato de que a hegemonia de Deus esteve em risco
no mandamento, a natureza da hegemonia de Deus, a saber, sua
bondade paternal, persiste em disputa aqui. Se a oração não é
um assunto de escolha pessoal, também não é um ato de desespero
ou o resultado de uma resignação fatalista: já tentei de tudo, por
que não isto? No que poderia piorar? Lutero denomina tal orar de
oração “na possibilidade de”. Tal oração considera Deus
inconstante, digno de desconfiança, também incapaz de manter
Suas promessas. Novamente, é orar sem fé. Na oração verdadeira,
contudo, Deus “quer que tenhamos a confiança de que Ele nos
concederá amavelmente o que necessitamos (LW 21: 146). Ele
deseja que nos aproximemos dele em alegria e confiança. “Apenas
tal orar é aceitável, é a oração que exala uma firme confiança de

22
“Comentário sobre o Salmo 118” (1530), LW 14: 61.

40
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

que será ouvida”.23 Mesmo se Deus não responder sua oração da


maneira precisa que esperavas, não duvide de que Ele não tenha
ouvido ela.
Uma vez mais, Lutero nos pede que consideremos a palavra
externa de Deus, neste caso, Sua promessa de que Ele será
atencioso para com as nossas necessidades. Com as palavras,
“Pai Nosso que estás nos céus”, “Deus quer nos atrair de forma
carinhosa para crermos que ele é o nosso verdadeiro Pai e nós,
os seus verdadeiros filhos, para que lhe roguemos sem temor,
com toda a confiança, como filhos amados ao querido pai”. Ao
falar-se de Deus enquanto nosso Pai celestial, isto quer signifi-
car que Ele é nosso verdadeiro Pai. Em seu Um Guia Pessoal de
Oração Lutero orava: “Visto que Tu não és um pai físico aqui na
terra, mas um Pai espiritual no céu, não semelhante a um pai
mortal e terreno, que nem sempre é digno de confiança e não
pode ser prestativo por si mesmo, Tu nos mostras quão
imensuravelmente melhor Pai tu és e nos ensinas a relacionar a
paternidade terrena, a pátria, amigos, possessões, corpo e san-
gue tão menores em valor se comparados a ti” (LW 43: 30). E
então, “com esta espécie de Pai nos é dado o privilégio da peti-
ção, e não devemos ser temerosos no exercitar deste privilé-
gio”. 24 Onde o mandamento quanto a orar se volta para o
Decálogo, a promessa de que Deus ouve a oração e é, de fato,
“nosso querido Pai”, tal mandamento encontra sua base no Cre-
do. Em seus três artigos, “Deus tem se mostrado e aberto pro-
fundamente seu coração paternal e seu incrível e absoluto amor”.
Isto enfatiza a “extravagância e generosidade” de Deus. Mostra
que “Deus é mais ávido no conceder; ele não precisa ser impor-
tunado: não há necessidade de você persuadi-lo com suas pala-
vras ou entrar em instruções detalhadas...” (ou de barganhar
com ele: “vamos fazer um trato”). O que quer que ele nos con-
ceda, será em excesso com relação a nossa compreensão e
esperança (LW 21: 144; Catecismo Maior III 56). De forma simi-
lar, em suas Conversas à mesa (Table Talks, Tischreden), Lutero
expressa, “Nosso Senhor Deus sempre nos concede além do que
pedimos: se pedirmos verdadeiramente por um pedaço de pão
ele nos concederá um campo inteiro”.25 Em adição a toda a cria-

23
Hebart, “Role,” p. 10.
24
Voelz, p. 62.
25
WATR 4: 568 = No. 4885; cf. Vier trostliche Psalmen an die Konigen zu Ungarn, 1526,
WA 19: 578, 13-24.

41
IGREJA LUTERANA

ção, Deus nos concede dons inexpressivelmente eternos, Seu


Filho e Espírito. E então isto nos ensina o que receber e esperar,
em suma, conhecer Deus perfeitamente (LC 11.68-9).
O Segundo Artigo nos dá o direito e privilégio de orar. E este é um
ponto vital. Deus pode requerer a oração nos mandamentos, mas
como uma criatura perdida e condenada se atreve aproximar-se dele?
Em sua Exposição do Pai Nosso ao Homem Simples, 1519, Lutero
indicou em termos vívidos que a confiança que nós podemos colocar
somente em Deus enquanto nosso Pai está baseada no Filho do Ho-
mem: “em sua pele e sobre suas costas devemos nos apoiar” (LW
42:23). E então Lutero poderia orar, “Ó Poderoso Deus, em sua imere-
cida bondade para conosco e mediante os méritos e mediação de seu
único e amado Filho, Jesus Cristo, tu tens permitido, e até mesmo
mandado e nos ensinado a nos relacionarmos contigo e a clamar a ti
enquanto Pai de todos nós. Tens feito tanto embora e ao invés disto
poderias com justiça e propriamente ser um severo juiz sobre os
pecadores visto que temos agido tão freqüentemente contra sua
divina e boa vontade e temos também despertado sua ira” (LW 43:29).
No Catecismo Maior, Lutero descreve Cristo enquanto o espelho
do coração do Pai, sem ele, não vemos nada exceto que um terrí-
vel e irado juiz. A promessa da graça e vitória em Cristo torna a
oração possível. Que “nosso Pai” é nosso “querido Pai” encontra
suas bases na morte e ressurreição de Cristo. Orar “Pai Nosso” é,
portanto, orar em nome de Jesus Cristo.
Se o Segundo Artigo nos concede o direito e privilégio de orar, o
Terceiro Artigo nos abastece com a força e confiança no orar. Além
do mais, se eu não posso por minha própria razão ou força crer em
Jesus Cristo, tampouco posso por minha própria razão ou força me
aproximar de Deus em oração. Enquanto conhecemos o Pai do
Primeiro Artigo mediante o Cristo do Segundo Artigo, não podemos
conhecer o Cristo exceto que pelo Espírito Santo do Terceiro Arti-
go. Quando Deus nos convida no Evangelho a crermos que Ele é
nosso verdadeiro e amado Pai, o Espírito Santo adentra em nossos
corações e clama “Abba Pai”. E desta forma nós nos movemos do
Terceiro Artigo para o Pai Nosso. Esta seqüência ecoa na explana-
ção de Lutero quanto à Introdução ao Pai Nosso. No Catecismo
Menor, Deus nos convida a crermos de forma que com “toda ousa-
dia e confiança” nós podemos pedir a Deus como filhos amados
pedem ao seu querido Pai. Em outra parte Lutero ora, “agora,
mediante sua misericórdia implanta em nossos corações uma confi-
ança confortadora em seu paternal amor, e deixe-nos experimentar
o doce e agradável sabor da certeza (qual a de criança) de que

42
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

podemos alegremente pedir a ti, Pai, te conhecendo e amando e


clamando a ti em toda tribulação. Guarda-nos para que possamos
permanecer seus filhos e nunca tornarmo-nos culpados de fazer de
ti, queridíssimo Pai, nosso temeroso juiz, quando passaríamos en-
tão de seus filhos para seus inimigos” (LW 43:29).
O cristão então corre para o Pai como as crianças correm e
saltam para os braços do pai, sabendo que ele cessa de fazer
qualquer coisa para pegá-las e ouvi-las.
Lutero acentua a importância do aproximar-se de Deus em confi-
ança e ousadia em sua exposição a respeito do “Amém” bem como em
sua introdução. Lá ele enfatiza “que deveríamos estar certos que tais
petições são aceitáveis e ouvidas por nosso Pai nos céus...”. “Esta
palavra [amém] não é nada mais que uma afirmação inquestionável
de fé da parte daquele que não ora como uma forma de casualidade e
possibilidade, mas sabe que Deus não mente visto ter prometido con-
ceder às súplicas” (LC III 120). De forma similar, após a oração da
manhã, Lutero encoraja, “portanto vá para o trabalho alegremen-
te...”. E depois da oração noturna: “podes dormir de uma e em bom
ânimo”. Em outras palavras, não fique acordado, agitando-se e viran-
do-se no travesseiro, temendo pelos eventos do amanhã.

AS PETIÇÕES DO PAI NOSSO: ORAR É PEDIR

Quando nos voltamos para as petições do Pai Nosso chegamos na


natureza, forma e conteúdo da oração em si. Para Lutero, a oração
que flui da fé vem de um coração peticionário. Este tema já emerge
na introdução: “Deus carinhosamente nos convida a crermos que Ele
é nosso verdadeiro Pai e nós, os seus verdadeiros filhos de forma que
com ousadia e confiança possamos pedir a ele enquanto filhos ama-
dos ao querido Pai”. Orar (beten) é pedir (bitten). O Catecismo Maior
o coloca desta forma, “uma pessoa que deseja orar deve apresentar
uma petição, nomeando e pedindo por algo que ela deseja” (Catecis-
mo Maior III 24).26 À primeira vista, isto pode parecer como uma
aproximação notavelmente autocentrada de orar. Nossa concen-
tração está mais propriamente voltada no conseguir do que no dar.
Parece aumentar o perigo “de que critérios egoístas tornar-se-ão
determinantes e a questão primordial será: O que tudo isto contri-

26
Isto não quer dizer que Lutero não veja outras espécies de oração como inválidas, tais
como confissão, agradecimento e louvor. Porém, estas também devem ser orientadas
para a recepção das dádivas divinas. De “A Simple Way to Pray”.

43
IGREJA LUTERANA

buirá a mim e a nós”?27 Porém a oração para Lutero não é


eudemonista (ética a qual tem por fim supremo a felicidade), mas
teocêntrica. Numa reflexão mais profunda será visto que sua com-
preensão de oração de fato corresponde à nossa relação atual
com Deus: Ele concede, nós recebemos. Ou seja, assim como vi-
mos no Credo, a natureza de Deus em conceder. Quando não bus-
camos de Deus tudo aquilo que Ele prometeu, estamos negando
que Ele é Deus. Quando a fé recebe, assim na oração, devemos
desejar receber algo de Deus (Catecismo Maior III 25). A oração
deve ser primeiramente petição visto que neste éon ela não pode
ser nada além disto. Nossa situação sempre será de “alçar ao Pai
nossas necessidades interiores e exteriores”.28 Quer permaneça-
mos diante de Deus como criaturas no Primeiro Artigo ou como
pecadores ante Deus no Segundo e Terceiro Artigos, “sempre so-
mos os receptores”!29
Então, pelo que deveríamos orar? Oramos por aquilo de que
necessitamos. O que precisamos? Novamente, Lutero dá início a
partir da palavra de Deus. O Pai Nosso mostra que Deus está tão
interessado pelas nossas necessidades que Ele não apenas prome-
te ouvir nossa oração, mas Ele toma a iniciativa de colocar as
palavras certas em nossas bocas com as quais oraremos (Catecis-
mo Maior III 22). Isto por si só faz do Pai Nosso, de longe, a oração
superior com relação a qualquer oração que possamos idealizar por
nós mesmos (Catecismo Maior III 23). Onde e quando os Dez Man-
damentos ensinam o que Deus requer, o Credo o que Deus conce-
de, assim o Pai Nosso ensina pelo que pedir. O Pai Nosso primeiro se
torna a Palavra de Deus para mim e então se torna minha palavra
em direção a Deus. Isto torna a oração certeira e nos dá confiança
de que é aceitável. Aquilo pelo que orarmos (no Pai Nosso, obvia-
mente) é precisamente aquilo que Deus quer que oremos e deseja
nos conceder.
Através deste ponto, Lutero desenvolve a excepcional idéia de
que o Pai Nosso é o ideal em oração “não somente porque articula
nossas necessidades conhecidas ou ‘sentidas’, mas porque na ver-
dade abre nossos olhos para nossas reais carências” ou situação
atual.30 Em seu comentário sobre o Sermão do Monte, 1530-1532,

27
Kolb, p. 255.
28
Robert Jenson, A Large Catechism (Delhi, NY: ALPB), p. 39.
29
Herbert Girgensohn, Teaching Luther’s Catechism (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1959),
pp. 52-53.
30
Hebart, “Role,” p. 9.

44
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

Lutero louvava o Pai Nosso visto que “inclui toda sorte de necessi-
dades que devem nos impelir a orar e das quais podemos diaria-
mente nos lembrar com estas breves palavras” (LW 21: 145; Cate-
cismo Maior III 34, 119).31
Oratio dominica, o Pai Nosso, é uma oratio orationum, uma
oração acima de todas as orações; a mais excelente oração ensi-
nada pelo mais excelso Mestre. Nela contém todo amparo físico e
espiritual; e é o conforto mais excelente nas tribulações e angústi-
as, assim como na hora derradeira (WATR 5: 582, No. 6288; cf.
WATR 1: 34, No. 88).
Pelos idos de 1519, em sua Exposição do Pai Nosso ao Leigo,
Lutero falava das petições como “sete lembretes de nossa miséria
e pobreza pelo meio das quais, levados ao conhecimento de nós
mesmos, possamos ver que vida miserável e perigosa levamos na
terra” (LW 42: 27; Catecismo Maior 111. 24, 27; cf. Catecismo
Maior 111. 119).
Dada a função reveladora do Pai Nosso, pode-se perguntar se a
oração não é um pouco mais do que uma auto-reflexão e uma
auto-introspecção.32 O Catecismo, contudo, não tem interesse na
oração enquanto terapia ou catarse. Focaliza-se em nossa relação
com Deus. O Pai Nosso nos instrui quanto às nossas necessidades
de forma que aprendamos o que esperar e receber de Deus. Ao nos
ensinar sobre nossas necessidades, o Pai Nosso nos mostra como
abrir nossos recipientes a fim de recebermos Seus dons: “Esta
oração é, portanto, uma expressão de clamor ao Pai, buscando
Sua misericórdia em todos os tempos. Por conseqüência, as ne-
cessidades ‘mencionadas com freqüência o suficiente no Pai Nosso’
nos levam a dirigir nossas inquietações a Deus, “não porque ele
não sabia nada sobre elas, mas porque assim tu serás inspirado a
pedires por coisas maiores e mais altas, e abrires seu sobretudo e
envergá-lo para receber muitos dons” (Catecismo Maior 111. 27,
144). Aqui novamente é a convicção do reformador quanto à pro-
messa graciosa de Deus que determina sua mudança de “foco na
oração de uma apresentação de nossas necessidades a Deus, para
a oração como o lembrete a nós de nossas necessidades e bên-
çãos que Deus concede”.33 O Pai Nosso torna-se um instrumento
do Evangelho e mostra que a oração vem a ser centrada nos meios
da graça.

31
Wertelius, pp. 94-95.
32
Hebart, “Role,” p. 9.
33
Ibid.

45
IGREJA LUTERANA

Então, por quais necessidades e dons temos orado no Pai Nos-


so? Com respeito à forma, a ordenação e agrupamento das peti-
ções há algo significante. Elas se adaptam em dois grupos, cada
um deles “muito bem amarrados”.34 Com a tradição cristã ocidental
ante ele, Lutero juntou as petições em torno das assim chamadas
TUAS petições35 (as três primeiras) e NOSSAS petições36 (as últi-
mas quatro). As três primeiras diferem das últimas quatro em dois
modos. Em termos de forma, elas não são colocadas enquanto
súplicas diretas ou como imperativos. Ao invés disto, elas tomam a
forma de uma oração desejável e, portanto, uma “forma reservada
de petição, mais indireta”.37 Oramos, “santificado seja o teu nome”.
As quatro últimas petições são construídas enquanto mandatos ou
imperativos diretos. Por exemplo, “o pão nosso de cada dia nos dá
hoje”. Com respeito às suas explanações, Lutero distinguiu as três
primeiras das quatro restantes mediante o uso de duas questões,
“o que isto significa”? seguida por “como isto é feito”?
Quanto ao conteúdo, as três “TUAS petições” centram-se em
Deus. Em certo sentido, pode-se dizer que primeiramente oramos
por Deus: por seu nome, por seu reino, e por sua vontade. Ou como
Lutero o coloca, estas petições estão relacionadas não com nossos
assuntos, mas com os de Deus, com seus grandiosos atos, com sua
obra.38 Como resultado, “a primeira, segunda e terceira petições
tratam dos mais altos benefícios que recebemos dele” (LW 21: 146).
Todas as três das TUAS petições desenvolvem a intervenção do
governo espiritual de Deus neste mundo de morte que está passando
de forma efêmera.39 A partir delas buscamos a intervenção e
interferência de Deus em nossas vidas, tanto no tempo quanto na
eternidade. Após termos orado pelos tesouros eternos indizíveis,
então oramos por aquelas que tratam de nossa vida aqui na terra. O
conteúdo das quatro “NOSSAS petições” se concentram em nossas
necessidades do “por enquanto”: nosso alimento, nossos erros, nosso
mal etc... Enquanto as “TUAS petições” se focalizam na intervenção
de Deus em nossas vidas, as NOSSAS petições se estendem em
direção ao futuro escatológico de Deus”.40
Quando Lutero expõe estas sete petições, dois interesses do-

34
Jenson, p. 57.
35
Numa tradução literal, “suas petições”.
36
“Nossas petições”.
37
Girgensohn, p. 232.
38
Ibid.
39
Albrecht Peters, Die Zuordnung der drei zentralen Hauptsücke, vol. 1: Die Zehn Gebote,
(Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1991), p. 47.
40
Ibid., p. 48.

46
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

minantes ocupam sua atenção, os quais por sua vez se tornam os


temas implícitos em cada petição: 1) o preeminente dom pelo qual
se ora é a fé, ou seja, Deus. O cristão ora por fé para receber
todas as dádivas de Deus enquanto dádivas, como realidades na
vida; e 2) ele ora contra a descrença, isto é, descrença enquanto
o poder de Satã que nos afasta de Cristo. De fato, segundo o
Catecismo Maior, todas as nossas orações são essencialmente
dirigidas contra o diabo e nosso velho Adão. Em certo sentido,
oramos por nós mesmos e contra nós mesmos. Lutero dirige nossa
atenção para as forças espirituais que estão ataviadas em oposi-
ção a nós e que tentam frustrar o senhorio de Deus; também
tentam impedir que a sua vontade seja feita: o diabo, o mundo e
nossa carne juntos resistem.41 Como uma atitude de fé, a oração
então declara guerra contra a descrença, razão pela qual ela bus-
ca a fé contra os ataques de Satã. Ao orar, uma pessoa coloca a si
mesma do lado de Deus na batalha contra o diabo e, por conse-
guinte, vence as investidas do diabo.42 Em última instância, a fé
olha para a vitória final e o regozijo livre do reino de Deus.

ORAR POR FÉ: APROPRIAR-SE


DAS DÁDIVAS DE DEUS PRO NOBIS

Quando Lutero procede a partir de cada lição, ele denota que


oramos para nos apropriar dos dons prometidos por Deus como
realmente nossos. Isto é evidente a partir de várias considera-
ções. Primeiro, em cada petição no Catecismo Menor, Lutero res-
ponde a questão, “o que isto significa?” ao admitir que aquelas
coisas virão, quer oremos ou não. “O nome de Deus é certamente
santo em si mesmo; o reino de Deus vem seguramente por si mes-
mo, sem nossa oração; a boa e graciosa vontade de Deus é feita
sem a nossa prece; e Deus seguramente concede o pão de cada
dia a cada um sem as nossas orações, até mesmo às pessoas
más...”. No Catecismo Maior, Lutero continua este tema até a Quinta
Petição, “não que Deus não perdoe o pecado até mesmo sem ou
antes de nosso orar; ele nos dá o Evangelho, no qual não há nada
exceto perdão, antes mesmo que venhamos a orar ou pensar a
respeito” (Catecismo Maior III. 89). Estas coisas não são depen-
dentes de nossa oração. De acordo com a exposição de Lutero

41
Catecismo Maior III. 2, 51.
42
Wertelius, p. 76.

47
IGREJA LUTERANA

sobre o Pai Nosso nos Catecismos, a oração não cria, em primeira


instância, a santidade do nome de Deus, nossas orações não efe-
tuam a vinda do seu reino ou traz o cumprimento de sua vontade,
etc... O mesmo também se aplica ao pão de cada dia. Estas coisas
Deus prometeu fazer e continuará a realizar.
Então, por que orar? Lutero toca no ponto da questão em sua
exposição de Mateus 6.8, “nosso Pai celestial sabe do que precisa-
mos antes mesmo de pedirmos”; visto que ele conhece e vê todas
as nossas necessidades muito melhor do que nós mesmos as ve-
mos e conhecemos, por que ele faz com que venhamos a trazer
nossas petições e apresentar nossas necessidades, ao invés de
dá-las a nós sem o nosso pedir? Afinal de contas, ele concede
livremente ao mundo inteiro todo o bem necessário a cada dia,
como o sol, chuva, colheita e dinheiro, corpo e vida, coisas as
quais ninguém pede ou agradece. Ele sabe que ninguém vai muito
longe, ou mesmo por um dia, vive sem luz, alimento e bebida.
Então, por que ele nos diz para pedir por tais coisas (LW 21: 144)?
Duas razões permanecem no pensamento de Lutero – e ambas
continuam sob o prisma do Primeiro Mandamento. Primeiro, a ora-
ção busca tornar seu mesmo tudo aquilo que Deus prometera.
Segundo, somos incapazes de realizar isto por nós mesmos.
Oramos para que isto possa ser “feito entre nós também”, Visto
que a oração busca receber enquanto dádivas tudo aquilo que Deus
concede até mesmo sem o nosso pedir. Deus nos quer orando por fé
para recebermos suas dádivas. Este é justamente o caso na segunda
metade da resposta de Lutero à questão, “o que isto significa”? Na
oração, a fé busca ter Deus e suas dádivas como realmente nossas,
pro nobis. Por fim, a oração vem a ser algo que nos conscientiza de
nossas necessidades de forma que “pedimos aquilo que podemos ter
em Deus, e todas as coisas boas que ele tem, enquanto nossas de
fato” (Catecismo Maior 111. 60). Então oramos para que o nome de
Deus possa ser mantido santo entre nós; que o Reino de Deus possa
vir também a nós; que sua vontade possa ser feita entre nós; e mais
importante e evidente, “que Deus nos encaminhe a percebermos isto
e recebermos o pão nosso de cada dia com gratidão”. E desta forma,
a Quarta Petição não é uma oração por alimento; Deus já fez todo o
necessário para a provisão de alimento. Lutero responde que Deus
nos convida a orar “a fim de que tenhamos o conhecimento e confes-
semos que ele já está concedendo muitas bênçãos sobre nós e que
ele pode e nos dará ainda mais” (LW 21: 144).
De fato, diz Lutero, podemos orar apenas por coisas que já são
concedidas! “A fé não ora no escuro. A oração não procura uma

48
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

dádiva desconhecida”.43 E isto ocorre precisamente porque Lutero


pressupõe a bondade e generosidade de Deus de forma que ele vê
no orar uma radical expressão de fé que tem conhecimento das
dádivas que recebe até mesmo sem oração”.44 No orar, a fé avança
para uma consciência crescente e para uma apropriação das dádi-
vas de Deus. A oração faz em mim uma reviravolta, afastando-me
de mim mesmo, e reconhecendo Deus como Deus:
“Quando meu coração é voltado a Ele e é despertado neste
caminho, então eu O louvo, agradeço-lhe, tenho refúgio nele em
minhas necessidades, e espero ajuda dele. Como conseqüência
disto tudo, aprendo mais e mais a reconhecer que espécie de Deus
Ele é” (LW 21: 144).
O ser humano não cria as condições da existência humana e do
mundo, ele os descobre já ali – antes que ele ore. Mas mediante
nosso orar esta realidade, existente antes enquanto “sem o nosso
orar” nos concede uma dádiva, entrando em nossa própria existên-
cia. Através da oração podemos perceber o que já está ali.45
Vilmos Vajta percebe o fato de que na compreensão em Lutero,
“a oração individual é em si mesma levada à realidade de Deus
enquanto uma realidade aceita por aquele que ora com fé”.46
Então a oração, para Lutero, torna-se “a expressão mais pro-
funda da fé, visto que visualiza em Deus cada uma das coisas
boas”.47 A oração busca tudo somente em Deus ao reagir ao seu
mandamento – uma expressão prática de obediência ao Primeiro
Mandamento (Catecismo Maior III. 117 e 1.1-3, 15, 26) – e à base
de Sua promessa. Alguém que pede genuinamente sabe que o que
ele tem é uma dádiva de Deus, e a partir do seu coração ele diz:
“Senhor, eu sei que por mim mesmo não posso produzir ou preser-
var nem mesmo um pedaço do pão de cada dia; tampouco posso
me defender contra qualquer espécie de dificuldade ou desgraça.
Portanto, volto-me para ti e suplico com relação a elas, visto que
tu mandas assim fazer ao prometeres concedê-los a mim, podendo
antecipares a mim mesmo em cada pensamento e simpatizares
como cada uma das minhas necessidades” (LW 21: 145).
Esta oração encontra sua base no Primeiro Artigo da Fé que

43
Hebart, “Role,” p. 11.
44
Ibid., p. 10.
45
Vilmos Vajta, “Luther als Beter,” Leben und Werk Martin Luthers von 1526 bis 1546.
Festgabe zu seinem 500. Geburtstag, ed. Helmar Junghans. (Gottingen: Vandenhoeck &
Ruprecht, 1983) 1: 85.
Citado em: Hebart, “Role,” p. 10
46
Vajta, p. 285. Citado em: Hebart, “Role,” p. 11.
47
Hebart, “Role,” p. 9.

49
IGREJA LUTERANA

trata da generosidade de Deus e de nossa reação (Catecismo Mai-


or 11.19, 23, 24). Não ter outras divindades é buscar somente em
Deus cada uma das coisas boas. E é exatamente isto que a oração
faz! (LW 21: 145). A oração é o ato decisivo de ser um cristão, de
obedecer o Primeiro bem como o Segundo Mandamento.48
Buscar aquilo que necessito em Deus significa que não busco a
coisa em mim mesmo. A oração, conseqüentemente, reconhece
nossa necessidade e desamparo. Isto se vincula ao Terceiro Artigo
do Credo. Enquanto não puder por minha própria razão ou força
crer em Jesus Cristo, assim também não posso por minha própria
razão ou força santificar o nome de Deus, receber seu reino, cum-
prir sua vontade, receber o pão de cada dia com gratidão, que ele
nos concede sem a nossa oração, i.e, mediante o trabalho (note
que tudo isto tem a ver com a perspectiva coram deo), e portanto
oro e clamo em minha NECESSIDADE! Ainda que clamar em minha
necessidade seja para morrer, ou para confessar minha incapacida-
de e buscar ajuda em Deus. Veja que em todas estas petições,
oramos por aquilo que não podemos cumprir por nós mesmos, ou
através de nosso agir. E então assim como o Espírito Santo me
chama pelo Evangelho, assim Deus santifica o seu nome, traz o seu
reino e cumpre sua vontade.
Com a segunda questão, “como isto é feito?”, Lutero rompe
com a tradição e suplica por uma interpretação distintivamente a
partir do Evangelho. Onde muitos na alta Idade Média iriam apelar
na primeira questão com exortações a respeito de como realizar a
vontade de Deus, etc..., Lutero se focaliza em Deus santificando
Seu nome, Deus anunciando Seu reino, Deus realizando Sua vonta-
de entre nós. Então, a Primeira Petição: “concede-nos isto querido
Pai do céu... guarda-nos disso, ó Pai celeste!”; Segunda Petição:
“quando nosso Pai celeste nos dá o seu Espírito Santo...” Terceira
Petição: “quando Deus desfaz e impede...” As Thy Petitions (TUAS
petições), portanto, mais provavelmente querem significar que a
Deus está sendo pedido que santifique seu nome no mundo e rea-
lize a sua vontade, assim como é requerido que traga o seu Reino.
Se esta interpretação estiver correta, isto quer dizer que este
trecho da oração se refere mais propriamente à graça de Deus do
que qualquer atividade humana.49

48
Martin E. Schild, “Praying the Catechism and Defrocking the Devil: Aspects of Luther’s
Spirituality,” Lutheran Theological Journal 10 (1976): 55. Cf. nota de rodapé 15.
49
Bonnie Bowman Thurston, “Matthew...” Interpretation 41 (April 1987): 177.

50
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

ORAÇÃO POR FÉ CONTRA AS INVESTIDAS DE SATÃ

Como uma expressão de fé que busca a intervenção de Deus e


um envolvimento ativo em nossas vidas, a oração declara guerra
contra cada forma de descrença onde quer que possa ser encon-
trada. E então em adição a orarmos por nós mesmos, simultanea-
mente oramos contra nós mesmos. Descrença e o velho Adão são
despertados a fazerem oposição à fé e oração. Como resultado, a
vida aqui é “vivida sob a cruz, sob as investidas de Satã e suas
tentações”.50 O cristão está constantemente sujeito a ataques,
provas e tentações. A oração do cristão sempre expressa este
conflito. O cristão ora apesar de toda a oposição. Apesar de é uma
expressão chave. Pois quando quer que um cristão ore, ‘Pai
celestial, seja feita tua vontade’, Deus replica lá do alto, ‘Sim,
querido filho, de fato será feita apesar do diabo e de todo o
mundo’, e poderíamos adicionar, apesar de todas as aparências.
Satã não pode se opor à palavra de Deus que funciona na fé (LW
43: 232). O cristão vive neste combate entre fé e descrença,
entre Deus e Satã. A compreensão do Catecismo sobre a luta do
cristão se opõe em agudo contraste à compreensão usual do
tempo e locus da batalha por fé. “Em nosso próprio tempo, a
batalha da fé é vista primariamente como a luta com o mal antes
da conversão. Para Lutero, é mais decididamente a batalha da fé
em si mesma na vida que segue do cristão”.51 Como resultado, o
conflito da batalha domina enquanto o tema da exposição de
Lutero quanto ao Pai Nosso no Catecismo Maior quase que desde
o princípio (Catecismo Maior III. 2)”.52
Do início ao fim, o diabo nos acusa “não dos pecados insignifi-
cantes, nem de óbvios, mas precisamente de idolatria” - o rompi-
mento com o Primeiro Mandamento!53 Como o Catecismo Maior o
coloca, “a humanidade está em tal situação que ninguém pode
cumprir os Dez Mandamentos perfeitamente, ainda que tenha co-
meçado a CRER”. Além disto, “somos tão fracos no que tange a
estarmos à altura do diabo, de todo seu poder e toda sua força
que se ergue contra nós, tentando nos pisotear sob seus pés

50
Kolb, p. 54.
51
Hebart, Large Catechism, p. 32.
52
Albrecht Peters, “Die Vaterunser-Auslegung in Luthers Katechismen,”
Lutherische Theologic und Kirche 3 (1979): 76-78. Veja Anfecthung. Olhe também Cate-
cismo Maior III. 30.
53
Hebart, “Role,” p. 12.

51
IGREJA LUTERANA

(Catecismo Maior III. 30)”. O diabo nos faz sentirmos culpados (LW
16: 310). Ele clama vir em nome de Deus e procura nos levar ao
desespero. Selecione suas armas com cuidado. O que tem suprimi-
do os conselhos e conspirações de nossos inimigos e refreado seu
desígnio assassino e sedicioso pelo qual o diabo esperava nos des-
truir e também ao Evangelho como também espera que as orações
de poucos... (Catecismo Maior III. 31). Pela oração somente pode-
remos diligentemente desafiar ao diabo (Catecismo Maior III. 32).
Aqui, “devemos nos refugiar na Oração do Senhor para que Satã
não nos tente além de nossas forças” (LW 16: 311; 21: 139, 149,
cf. p. 229 em Mt 7.7).
Deixe-me primeiro dar uma olhada através das TUAS petições
para trazer à tona esta dimensão da batalha. Na Primeira Petição,
Lutero adverte contra a maléfica doutrina e a perseguição do Evan-
gelho (Catecismo Maior III. 47). Na Segunda Petição, ele ora que o
reino de Cristo possa “prevalecer entre nós mediante a Palavra e o
Espírito, e o reino do diabo seja derrotado de forma que ele não
tenha mais poder sobre nós, e que o reino do diabo possa ser
destruído em companhia do pecado, morte e inferno, todos exter-
minados (Catecismo Maior III. 54). Na Terceira Petição, ele alerta
como o diabo se opõe e obstrui o cumprimento das duas primeiras
petições (Catecismo Maior III. 62). “Como um inimigo furioso, ele
ruge e fica encolerizado com todo seu poder e força, ordenando
todos os sujeitos a ele e até mesmo recrutando o mundo e nossa
própria carne como seus aliados (Catecismo Maior III. 62).
Em termos de NOSSAS petições, primeiro oramos contra tudo
que interfere em saborearmos o pão nosso de cada dia (Catecismo
Maior III. 72). A Quarta Petição “é especialmente dirigida contra
nosso principal inimigo, o diabo, cuja proposta e desejo total é
impedir ou interferir em tudo que temos recebido de Deus. Dói-lhe
que alguém receba um bocado de pão de Deus e coma em paz”
(Catecismo Maior III. 81). Na Quinta Petição, Lutero adverte: “Satã
está ao nosso encalço, assediando-nos de todos os lados e, con-
forme ouvimos, dirigindo seus ataques contra todas as petições
anteriores, de forma que nem sempre é possível permanecer firme
em tal conflito incessante” (Catecismo Maior III. 87). A Sexta Peti-
ção, uma vez mais encontra os assaltos de Satã, do pecado e
morte, mas de uma perspectiva diferente. Lutero devota um amplo
espaço descrevendo detalhadamente as três espécies de tenta-
ções ou investidas que os cristãos encontram, ou seja, nossa car-
ne (Catecismo Maior III. 102), o mundo que nos intenta (Catecis-
mo Maior III. 103) e o diabo que nos persegue e importuna de

52
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

todos os lados (Catecismo Maior III. 104). Deve-se esperar ata-


ques e suprimi-los.
Então, cada uma das explanações do Pai Nosso reconhece o
conflito enquanto busca a ajuda de Deus. Ainda que o tema da
batalha seja evidente em todas as petições, ele alcança o apogeu
nas assim chamadas NOSSAS petições. Em particular, a última peti-
ção destoa das seis primeiras no que a oração por proteção contra
o mal é seu tema explícito. Ela é a conditio sine qua non para o
cumprimento de todas as outras. É o diabo que frustra e nos ata-
ca. Ele “luta contra estas petições e resiste a elas” (Catecismo
Maior III. 62, 62-67). Portanto, para Lutero, a oração contra o mal
é a oração decisiva; pois o diabo é aquele que pode causar a nossa
queda na descrença (Catecismo Maior III. 105) impossibilitando-
nos de apropriarmo-nos das dádivas de Deus enquanto nossas de
fato. A última petição condensa “tudo na idéia de que o sumo total
de todas nossas orações deveria ser no intuito de afugentar este
nosso inimigo”. Esta petição é dirigida contra todo infortúnio – todo
mal que recai sobre nós a partir do reino do diabo, toda miséria
trágica e dor no coração... “Nada há para se fazer na terra exceto
que orar constantemente contra este arquiinimigo” (Catecismo Maior
III. 116). E então o Pai Nosso vai ao coração de nossas necessida-
des mais profundas. Esta petição vem por último porque se é para
sermos protegidos e livres de todo o mal, o nome de Deus deve
primeiro ser santificado... (Catecismo Maior III. 118). Aqui todas as
aflições podem nos cercar a fim de que nunca tenhamos nós uma
desculpa ao negligenciar a oração (Catecismo Maior III. 119).
Na compreensão de Lutero a respeito do Pai Nosso, o cristão
tem se tornado, através da fé em Cristo, o motivo da batalha para
a luta entre vida e morte.54 Agora, tudo na vida dele ou dela é
dirigida à batalha – espiritual e física, a externa e interna. Isto é
particularmente evidenciado na Terceira e Sexta petições. Na Ter-
ceira, os ataques sobre o cristão na tríade de Satã, pecado e
morte vêm de fora. Provém dos governantes ou pessoas que per-
seguem o Evangelho. Na Sexta Petição, os ataques têm origem
dentro do cristão. Peters vê a Terceira Petição em linhas de um
entendimento mais tradicional de Anfechtungen do cristão e o Sex-
to como um aprofundamento dele ao mostrar uma vez mais que a
batalha, em última análise, é inserida como tópico do Primeiro Man-
damento. Relaciona-se a si mesmo com assuntos de descrença e
desespero. O Catecismo vê a batalha empregada por Satã como

54
Regin Prenter, Creation and Redemption, (Philadelphia: Fortress, 1967), p. 210.

53
IGREJA LUTERANA

fúria a partir de aliciamento e sedução a investidas e ataques


manifestos. Em ambos os casos, não se pode pensar deles como
algo de fácil identificação. “E, contudo, este combate continua e é
decidido em um sentido bem real entre Cristo e Deus. Em Cristo
ocorre o encontro e interseção crucial de todas estas forças que
afetam o pecador”.55
Nisto reside uma resposta para uma das questões com as quais
o catequista pode lutar, a saber, como ensinar as petições do Pai
Nosso distintivamente dos Dez Mandamentos. Afinal de contas,
eles tratam de tópicos muito semelhantes (Segundo Mandamento
= Primeira Petição). Mas onde Lutero acena para as ameaças e
promessas de Deus mediante os Dez Mandamentos e o Primeiro
Artigo do Credo (cf. Catecismo Maior), no Segundo Artigo a dialética
das ameaças e promessas retrocedem a um patamar com uma
ênfase maior. Neste lugar, Lutero introduz e realça as Anfechtungen,
as investidas de Satã, pecado e morte. Tendo sido libertos de Satã
para Deus, Satã agora empreende uma batalha implacável para nos
reaver para si. O Terceiro Artigo continua este tema, a tensão
entre descrença e fé: Creio que não posso “viver no contexto da
lei [Dez Mandamentos], mas sob o poder do evangelho [Credo], o
crente é simultaneamente descrente”.56 Deste modo a exposição
do Pai Nosso aprofunda o significado dos Dez Mandamentos.57

EXCURSUS: PERSUADINDO A DEUS

Como mencionado anteriormente, as exposições do Pai Nosso


no Catecismo não providenciam uma exaustiva teologia da oração
bem como não fornecem respostas para todas as questões que
possam ser levantadas. Elas, no entanto, providenciam um ponto
de partida para o pensar mediante algumas questões que possam
surgir. Por exemplo, há lugar na exposição de Lutero para a idéia de
que “a oração modifica as coisas”? Sua concepção de oração en-
quanto súplica de que reconhecemos e nos apropriamos daquilo
que Deus promete exclui o prevalecer sobre Deus de um tal modo
que altere nossa situação ou modifique Sua mente? Não. Mas quando
Lutero ora, ele o faz de acordo com os temas do Pai Nosso. Dois
pontos podem ser ressaltados. Primeiro, Deus limita-se ao que pro-

55
Schild, p. 51.
56
Nestingen, Preaching, p. 38.
57
Peters, “Zuordnung,” p. 47.

54
O CLAMOR DE BATALHA DA FÉ. EXPOSIÇÃO DO PAI NOSSO NOS CATECISMOS

metera. Segundo, “a oração cristã não faz referência ou apelo à


abscondicidade de Deus ou vontade secreta fora de Sua Palavra
em promessa”.58 Ao mesmo tempo, dentro do plano e propósito de
Deus há, para Lutero, “uma elasticidade de acordo com a qual, em
certas ocasiões, ele responde nossas orações importunas até mesmo
quando ele mantém em prosseguir com sua vontade”.59 Dentro destes
parâmetros, Deus faz a vontade daqueles que o temem e, portan-
to, escuta suas orações (LW 31: 355).
Lutero aponta que foi um assunto de relato bíblico “que Deus
faz a vontade daqueles que temem a ele e subordina sua vontade
às nossas, com a condição de que continuemos a temê-lo”. Por
exemplo, Ló orou para que pudesse ser permitido fugir para Zoar ao
invés de ir às montanhas onde Deus o tinha ordenado. Como Lutero
denota, “tal relato serve para despertar e incentivar-nos a orar em
todos os perigos, uma vez que Deus quer fazer o que queremos,
contanto que nos prostremos humildemente ante ele e oremos...”
Deus permite-se ser persuadido (LW 3: 289).
Lutero também experimentou isto pessoalmente. Em suas con-
versas à mesa, ele relatava quando sua esposa se encontrava
no leito de morte, “eu implorei a Deus para que deixasse minha
Katie viver, e restaurando ela, ele concedeu um bom ano ainda
por cima” (WATR 4: 568 no. 4885). Melanchthon, abatido com a
bigamia do Landgrave Filipe de Hesse, ficou seriamente doente
em Weimar nos idos de junho de 1540. Lutero conta, “naquela
circunstância, Deus tinha de me ouvir, pois eu lancei todo o
fardo a seus pés e me mantive martelando em seus ouvidos
todas as suas promessas as quais eu era capaz de enumerar a
partir da Escritura”.60 Finalmente, em 1537, sofrendo de um se-
vero ataque na bílis em Esmalcalde, Lutero atribuíra sua subse-
qüente melhora às intercessões de crentes que oraram com re-
lação ao seu problema.
É importante reconhecer como Lutero orava quando persuadia
a Deus. Ele assim o fazia de um modo harmônico com a exposição
das três primeiras petições do Pai Nosso e contra o poder de Satã.
Por exemplo, em seu Apelo para que se ore contra os Turcos,
1540, ele orou: “Portanto levanta, ó Senhor Deus, e santifica teu
nome mesmo que eles o profanem. Fortaleça em nós o teu reino
ainda que eles tentem destruir ele. Deixa tua vontade ser feita

58
Lehmann, p. 144.
59
lbid., p. 145.
60
Ibid., p. 131.

55
IGREJA LUTERANA

mesmo que eles queiram suprimi-la. Conceda que teu nome não
seja pisoteado por causa de nossos pecados que desejam apenas
destruir em nós o conhecimento da tua santa Palavra, do teu nome,
e de tua obra, a fim de que eles possam destronar e roubar de ti
um povo que proclama, confessa e acredita em ti. Amém” (LW 43:
233).
Lutero comenta que isto demonstra como o Pai Nosso, correta-
mente compreendido, dá elevação a tais pensamentos. Ele con-
clui: “Desta forma, tu deves incluir tais pensamentos quando ora-
res o Pai Nosso” (LW 43: 233).
Lutero reconhece que os turcos poderiam ser o cálice da ira de
Deus contra o povo alemão. Por esta razão, ele inicialmente parece
como que relutar em orar por auxílio: “Tu não podes e não deves
usá-los contra nós como o cálice da tua ira, nós que temos pecado
contra ti e merecido toda esta tribulação” (LW 43: 232). Mas na
oração, o cristão coloca a si mesmo ao lado de Deus. Qualquer
ataque ao cristão pelos turcos equivale a um ataque de Deus mes-
mo. E então Lutero argumenta que os turcos vêm para punir não
porque temos pecado contra eles, mas porque cremos e confessa-
mos a palavra de Deus. Pois certamente não cometemos pecado
contra eles para que eles nos punissem (e fossem justificados). De
qualquer modo, eles desejam a oposição. Nosso único pecado con-
tra eles é a proclamação da Palavra. Como resultado, são mais
inimigos de si mesmos do que nossos” (LW 43: 232). E desta forma
Lutero leva o caso ante Deus.

CONCLUSÃO

A teologia da oração em Lutero inicia, é centrada e finaliza


com a palavra de Deus. Nos Catecismos, a oração é primeiro e
acima de tudo palavra de Deus a nós. Vem em forma de manda-
mento e promessa contendo as próprias palavras para orarmos.
Segundo, a teologia da oração exposta nos Catecismos realça a
correlação com a palavra de Deus, a saber, a fé. E então a oração
se torna a reação da fé quando busca todas as boas coisas em
Deus somente. Fé que tem recebido as dádivas de Deus pela fé, e
para que possa receber durante toda a vida como reais dádivas
divinas! Posto que a oração vem a ser um brado da fé, ela não
ocorre sem uma batalha. E então, em adição à oração pela perse-
verança da fé, também oramos contra a descrença.

56
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA
COMPARTILHAR O EVANGELHO1

UMA ATITUDE EVANGELÍSTICA

Esta série é dirigida especificamente para pastores que pregam


nos cultos regulares de uma congregação. Duas clarificações são
necessárias.
Primeira, o alvo do sermão não é o pastor falar e a congregação
escutar. Isso é o que acontece quando oradores falam em auditó-
rios. No culto quem fala e os que ouvem estão unidos em torno da
Palavra. Aqueles que falam e aqueles que escutam devem todos
ouvir a Palavra.
A segunda clarificação é que o sermão é uma parte do culto e
este está relacionado a todas as atividades da congregação. O
que acontece no culto vai proporcionar a energia, definir metas e
recrutar cooperadores para todas as atividades congregacionais.
Há uma relação direta entre o que acontece no culto e o que
acontece nas reuniões de diretoria, programas de ensino, ativida-
des sociais e outras áreas do Ministério na congregação.

NÓS PRECISAMOS UNS DOS OUTROS

Evangelização no seu melhor sentido é por esta razão uma par-


te da vida de todas as pessoas e de todas as atividades da con-
gregação. Tanto as pessoas especiais como os programas especi-
ais devem ajudar a congregação inteira a evangelizar e não fazer
evangelização pela congregação.
Isto significa que o culto, incluindo o sermão, deve ser pla-
nejado para fazer evangelização. O argumento não está entre pla-
nejar um culto para suprir as necessidades dos membros e atender
aos interesses dos visitantes. Antes, a idéia deve ser em desen-

1
“Evangelistic Preaching to Share the Gospel”.
O terceiro artigo de uma série de seis, sobre Pregação Evangelística.
Fonte: Concordia Pulpit Resources, Volume 2/Part 1, December 1, 1991 – March 1, 1992,
pp.7-8. Saint Louis, USA: Concordia Publishing House. Used with permission. All Rights
Reserved. Traduzido por Anselmo Ernesto Graff, professor de Missiologia no Seminário
Concórdia de São Leopoldo e ULBRA, Canoas/RS

57
IGREJA LUTERANA

volver nos membros o desejo de compartilhar o evangelho com


pessoas que ainda não freqüentam a igreja. Quando isso aconte-
cer, então eles desejarão que o culto seja formatado para ajudá-
los a fazer isto.

UMA OFERTA PACÍFICA

Sermões podem ir ao encontro das necessidades das pessoas e


também ajudá-las a se preocupar com as necessidades de outros.
Uma maneira é ensinar as pessoas uma versão neo-testamentária
da oferta pacífica do Antigo Testamento.
O Antigo Testamento tem uma variedade de sacrifícios – cada
um com seu propósito. Um deles é o sacrifício pacífico ou as ofer-
tas de paz e que afirmam a comunhão do ofertante com Deus e
com o sacerdote (Lv 3). Este sacrifício é designado para ajudar a
criar e manter a comunidade. Alguém não poderia oferecer sacrifí-
cios pacíficos sozinho ou somente por si mesmo. Seu objetivo era
desfrutar da comunhão com Deus e das outras pessoas. Uma ofer-
ta pacífica ou de comunhão no Novo Testamento poderia funcionar
assim:
1. Peça às pessoas para identificar partes do culto que elas não
apreciam tanto;
2. Peça-lhes para identificar no culto aquilo que atende a seus
gostos pessoais;
3. Peça para se pensar sobre aquilo que elas não admiram tan-
to, como sendo oferta pacífica por outros. Ao invés de se tornar
chateados com aquilo que elas não gostam e acabar destruindo o
que lhes é estimável, considere essa ação que o ofende, como uma
dádiva a Deus para o benefício de outros. Ao invés disso, alegre-se
com a alegria de alguém outro por aquilo que você não olha tanto.
Esta atitude ajuda as pessoas a crescer em sua apreciação do
culto e ter uma melhor visão de outras pessoas.

QUEM ASSINA PELOS SERMÕES?

Quando uma encomenda importante é registrada e enviada pelo


correio, alguém deve assinar por ela. A assinatura é exigida para
mostrar que a pessoa que a está recebendo aceita a responsabili-
dade de recebê-la. O sermão contém uma mensagem importante.
Ela deve ser entregue e alguém deve assinar por ela.

58
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMPARTILHAR O EVANGELHO

O SERMÃO ÀS PESSOAS

Aqueles que ouvem o sermão devem saber que este foi endere-
çado a eles. Eles não são como carteiros que recebem uma carta e
simplesmente a entregam para o endereçado. Elas são pessoas
que recebem a mensagem, se alegram com ela e reagem dizendo,
“eu não vejo a hora de falar isso para alguém”.
Para isto acontecer, a mensagem deve ser dirigida para indiví-
duos. Eles devem saber que Deus está falando com eles através do
texto. A mensagem não está baseada na autoridade, habilidade,
treinamento ou personalidade do pregador. Ela é uma mensagem de
Cristo, dada através de quem proclama a mensagem.
Depois de um sermão realmente bom, seus ouvintes deveriam
estar aptos a dizer o que os samaritanos disseram para a mulher
que havia lhes falado de Jesus: “e diziam à mulher: já agora não é
pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos
ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mun-
do” (Jo 4.42). Aquelas pessoas haviam assinado pela mensagem.

O SERMÃO PARA PESSOAS

A fim de falar para as pessoas, você deve conhecer a agenda


delas. Conhecer suas famílias, trabalho, vida social, sentimentos
políticos, medos, alegrias e todas as outras coisas que fazem parte
de suas vidas. Elas devem sentir que você as entende, da mesma
forma como um membro que certa vez cumprimentou o pastor pela
mensagem dizendo: “Você esteve na minha casa de novo”.
Quando uma mensagem fala para e às pessoas, elas se sentem
animadas a trazer seus amigos à igreja. Elas até podem dizer para
alguém: “eu nem sempre estou apto a dizer o que sinto, mas vem
para a igreja comigo e você vai entender”.

O SERMÃO ATRAVÉS DAS PESSOAS

O alvo final da pregação evangelística – para compartilhar Cris-


to com outros – vem da habilidade de pregar através das pessoas.
Se 100 indivíduos ouvem seu sermão e cada um compartilha a
mensagem com outros três, você alcançou 400 pessoas.
Pessoas precisam ser treinadas a ouvir a um sermão do mesmo

59
IGREJA LUTERANA

jeito que o pastor o prepara. Como um pastor, primeiro eu o aplico


a mim mesmo, depois para os outros. Como um membro da igreja,
primeiro eu ouço e aplico a mensagem para mim, depois eu vou
passar a mensagem adiante. Um sermão não está no fim quando o
pastor termina de falar, também não termina quando a congrega-
ção diz amém. Ele está completo quando aquele que o pregou e
aqueles que o ouviram o compartilham com outros.
Não há como oferecer suficiente graça àqueles que ouvem o
Evangelho pela primeira vez. Graça vem do abundante amor e mi-
sericórdia de Deus em Jesus Cristo. Essa abundância pode encher
os corações dos ouvintes e dar-lhes um grande excedente para
compartilhar com outros. É parecido com o milagre da multiplicação
dos pães. Jesus alimentou 5.000 pessoas e ainda sobraram 12
cestos de pães.
Quando aqueles que ouvem o sermão assinam por ele, eles es-
tão dizendo que o ouviram e vão passá-lo adiante. Quando eles
assinam, eles aceitam a responsabilidade de ter alguém outro re-
cebendo e também assinando pela mensagem.

PREGAR UM VOCABULÁRIO QUE AS PESSOAS USAM

Muitas vezes os membros de igrejas não conseguem articular


sua fé ou orar em público porque os exemplos que eles ouvem são
em palavras que, até podem fazer parte do seu vocabulário, mas
não fazem parte da sua linguagem diária de comunicação com os
outros. É mais fácil entender do que falar uma linguagem.
É necessário entender certos conceitos para apreender a fé
cristã. Graça, fé, expiação, arrependimento, justificação, santifi-
cação, Lei, Evangelho, bem como outras palavras que devem ser
usadas, definidas e reusadas. Contudo, elas devem ser usadas
com ilustrações e explicações, que mostram como elas fazem parte
da vida dos ouvintes – e da vida daqueles com os quais eles convi-
vem.
Falar às pessoas de um modo compreensível, a fim de que elas
possam passar a mensagem adiante, não significa usar gíria, portu-
guês pobre ou vocabulário infantil. O ponto é você entender sufici-
entemente bem o que você está falando, para que você esteja
apto a expressar a mensagem numa variedade de formas. Pensa-
mentos valiosos e profundos podem ser expressos através de ma-
neiras, que podem ser facilmente entendidos. Somente um pensa-
mento vazio deve ser escondido por palavras obscuras.

60
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMPARTILHAR O EVANGELHO

PREGAR PENSAMENTOS QUE OS OUVINTES PODEM SEGUIR

Pastores vivem, trabalham, lêem, falam e vivem num mundo


eclesial. Nosso jeito de pensar, falar e agir pode tornar-se macro-
eclesial a ponto de não nos fazermos entender, tanto para os que
não são da igreja, e até para os que fazem parte dela. Aqui há
algumas maneiras para expandir seus modelos ou padrões de pen-
samento:
1. Ler autores de fora do círculo da igreja. Prestar atenção
naqueles que têm grande habilidade de falar para você. Também
observar os maus exemplos e aprender a não cometer os mesmos
erros.
2. Ouvir oradores de fora da igreja. Aprender a ouvir atenta-
mente a fim de repetir a mensagem depois de ouvi-los uma vez.
3. Ouvir as conversações com um ouvido para detectar padrões
de pensamento. A habilidade para falar a outras pessoas está dire-
tamente ligada à habilidade de ouvir as pessoas. Prestar atenção
especialmente naqueles que ouvem seus sermões.
4. Observar reações em seus sermões. Os ouvintes estão en-
tendendo? Eles podem absorver suas idéias o suficiente para que
eles recebam mais do que você está lhes oferecendo?
5. Quando você planeja seu sermão, pense em você próprio
sentado ao redor da mesa com seus membros. Fale para eles como
você falaria num grupo maior de conversação.
6. Entender a diferença entre uma comunicação escrita e fala-
da. Um sermão é oral, mas muitas vezes é elaborado como se fosse
entregue impresso. Assim como o tom de púlpito destrói a voz
natural, uma atitude de púlpito pode destruir a habilidade natural
de comunicação de alguém.

DAR AOS SEUS OUVINTES UM RECIPIENTE EXTRA

Quando pessoas se dão conta que elas colocaram mais comida


do que estão aptas a consumir, elas pedem por um recipiente extra
para levar para casa o que sobrou. Os ouvintes no banco da igreja
precisam se dar conta que eles recebem mais graça, amor e perdão
de Cristo do que eles necessitam.
O recipiente espiritual extra é algo que ajuda os ouvintes a
reunir os pensamentos do sermão a fim de que eles possam levá-lo
para casa e repetir a mensagem para outras pessoas. O recipiente
extra pode ser uma boa introdução, que vez por outra surge du-

61
IGREJA LUTERANA

rante o sermão e que aparece outra vez no final. Pode ser uma
ilustração, um fato ou um auxílio visual.
O Evangelho de Jesus Cristo é o poder de Deus para a nossa
salvação – e o poder que proporciona crescimento espiritual. Apren-
der a compartilhar o Evangelho com outros é uma parte importante
do crescimento espiritual. Mas isto não é tudo. O próximo artigo
sobre pregação evangelística irá oferecer meios para lidar com o
pecado, que ainda faz parte da vida do santo, usando, para tanto,
o Evangelho.

62
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA
PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL1
Os primeiros três artigos desta série podem ser assim resumi-
dos:
1. PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA E O CULTO
Pregação evangelística é a aplicação do Evangelho a indivíduos
e grupos específicos. Um sermão evangelístico tem um sentido de
urgência porque ele oferece o único poder para salvar. Isto inclui a
verificação de que o convite do Evangelho foi aceito. Um sermão
evangelístico está baseado sobre a autoridade de Jesus Cristo.

2. PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA A CONVERSÃO


Um sermão evangelístico com o propósito de conversão é preci-
so numa congregação de crentes. [A]: Para relembrar os cristãos
de sua conversão a fim de que eles louvem a Deus por sua fé – e o
uso desta fé. [B]: Oferecer Cristo o Salvador àqueles que ainda
não crêem, mas podem estar na igreja por uma série de razões.
[C]: E finalmente, dar aos cristãos um modelo de como comparti-
lhar o Evangelho com aqueles que ainda não estão na fé salvadora.
Para os descrentes a mensagem de conversão seria o fim do ser-
mão; para os cristãos deve ser o começo.

3. PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMPARTILHAR O EVANGE-


LHO COM OUTROS
O sermão é dirigido a pessoas na congregação, mas também é
pregado para elas. O pastor fala para aqueles que o chamaram. O
alvo da pregação evangelística – para compartilhar o Evangelho
com outros – vem da pregação através das pessoas. Aqueles que
ouvem o Evangelho o compartilham com outros. Eles o passam
adiante.

PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL


A quarta parte desta série sobre pregação evangelística focali-
za sobre a pregação visando crescimento espiritual. Quando a pre-

1
“Evangelistic Preaching for Spiritual Growth”. O quarto artigo de uma série de seis, sobre
pregação Evangelística. Fonte: Concordia Pulpit Resources, Volume 2/Part 2, March 4,
1992 – June 7, 1992, pp.2-5. Saint Louis, USA: Concordia Publishing House. Used with
permission. All Rights Reserved. Traduzido por Anselmo Ernesto Graff, professor de Mis-
siologia no Seminário Concórdia de São Leopoldo e ULBRA, Canoas/RS.

63
IGREJA LUTERANA

gação evangelística tem a conversão como seu único alvo, o


renascimento espiritual é ponto alto na vida cristã. Na realidade,
nascimento espiritual é um grande e importante evento não so-
mente porque aconteceu, mas pelo que segue depois, o cresci-
mento espiritual. São acontecimentos conectados. “Se vivemos no
Espírito, andemos também no Espírito” (Gl 5.25).

NASCIMENTO É SÓ O COMEÇO

Quando Jesus diz às pessoas que é preciso nascer de novo (Jo


3), ele nos fala que a nossa vida espiritual não é uma parte do
nascimento físico. Nós precisamos algo novo – a vida que Jesus
Cristo nos dá em nosso Batismo.
O nascimento espiritual é o começo da vida cristã. Alguns cris-
tãos não entendem bem o conceito de nascimento e pensam que
eles têm participação na decisão de nascer de novo. Eles enfatizam
o batismo de adultos depois de uma pessoa ter tomado uma deci-
são para aceitar a Cristo ou tenha sido convertido. Sua tendência
é basear sua esperança na experiência da conversão e não no
Batismo e na Palavra. Nós, entretanto, vemos o Batismo como a
obra de Deus e no qual ele cria a nova vida, um “nascer de novo”
como Jesus contou a Nicodemos (Jo 3.5). No Batismo Deus conce-
de o Espírito Santo, que proporciona a nova vida e que continua
nutrir aquela vida através da Palavra e da Ceia do Senhor. Assim o
Batismo não é o fim, mas o começo. Nós não estamos contentes
por ter somente um nascimento espiritual – nós também necessita-
mos uma contínua vida espiritual.

EXISTE MORTE ESPIRITUAL?

A conversão é garantia de salvação? Se a resposta for sim,


crescimento espiritual é luxúria, não uma necessidade e nós caímos
na idéia daqueles que afirmam “uma vez na graça, sempre na gra-
ça”. Para alguns isto é uma doutrina; para outros isto é um sonho.
Esta doutrina diz que renascimento garante a salvação. Ela fala às
pessoas olhar para trás e depender de sua experiência no passado
e não continuar a confiar na graça de Jesus Cristo oferecida na
Palavra e Sacramentos.
A Bíblia dá exemplos daqueles que caíram da salvação – desde
os anjos que se rebelaram a Judas, que traiu a Jesus. Na parábola
do semeador, Jesus diz que a semente que caiu sobre a pedra são
os que “crêem apenas por um algum tempo, e na hora da provação

64
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL

se desviam” (Lc 8.13). Uma passagem um pouco mais complicada


diz: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados
e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito
Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo
vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para
arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mes-
mos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6).
Mas a Escritura diz que nós podemos ter a garantia da salva-
ção. Isto mantém a responsabilidade desta garantia sobre Deus e
não sobre nós. Deus começa uma relação salvadora conosco no
Batismo e mantém essa relação por continuamente nos dar o amor
e a graça de Cristo através da Palavra e Sacramentos. O fato que
alguns têm – e todos podem – deixado a Deus, é um aviso de que a
nossa fé necessita de cuidado e crescimento diário. Para aqueles
que pregam, esta é uma lembrança de que nós temos que nutrir as
pessoas com o mesmo Evangelho que as trouxe à fé. Os alvos de
trazer Cristo às pessoas e mantê-las em Cristo não podem ser
separados.
O pregador evangelístico prega Lei e Evangelho. O seu objetivo
é primeiro advertir com a Lei, avisando do julgamento contra o
pecado. Então ele fala do Evangelho – a libertação através de
Cristo – e encaminha o cristão aos meios da graça que o mantém e
desenvolvem sua vida espiritual. Cada sermão deve comunicar o
poder do Evangelho para aqueles que o ouvem.

CRESCIMENTO ATROFIADO

Um segundo perigo em ver a conversão como algo completo da


vida cristã é o que poderíamos chamar de “crescimento espiritual
atrofiado”. Uma pessoa não cresce, matura e vive diariamente pela
fé. Em certo sentido todos os cristãos são espiritualmente imatu-
ros. Nós nunca alcançaremos maturação completa nesta vida, sempre
estaremos “prosseguindo para o alvo”. Nós estamos diariamente
em necessidade do julgamento da Lei, que nos conduz ao arrepen-
dimento e diariamente em necessidade da Palavra da Graça de
Deus no Evangelho, a fim de que o novo homem ressurja e viva
diante de Deus em justiça (Catecismo Menor, Batismo, Parte IV).
Não importa o quanto somos maduros, há sempre espaço para mais
crescimento. Nós nunca podemos pensar que chegamos à maturi-
dade a não ser quando chegarmos ao céu. Não deveríamos pensar
que existem duas categorias de cristãos – os imaturos e os madu-
ros – mas de todos os cristãos necessitando crescer e lutar contra

65
IGREJA LUTERANA

o Diabo, o mundo e a nossa carne, os quais atrofiam nosso cresci-


mento.
Por causa da natureza pecaminosa – o velho homem em nós –
que trabalha para limitar o crescimento espiritual, nós precisamos
dos meios da graça, bem como o amor e o cuidado de irmãos
cristãos. Nós fazemos tudo que é possível para ajudar nossos ir-
mãos e irmãs em Cristo a crescer e contribuir para a vida de ou-
tros. O quanto mais maduro formos, melhor capacitados estaremos
para cuidar de outros. Nosso cuidado por outros não os deve en-
corajar a depender deles mesmos ou de nós, mas do amor de
Cristo. Paulo escreve, “e o Senhor vos faça crescer e aumentar no
amor uns para com os outros e para com todos”(1 Ts 3.12).
Pode haver pessoas que estão na lista de membros de sua
congregação que estão tão atrofiados espiritualmente que sua fé
parece estar morta. Existem aqueles que não freqüentam a igreja
nem participam da Santa Ceia e por isso não dão evidência de sua
vida cristã. Eles podem estar além da possibilidade de serem alcan-
çados por um sermão evangelístico, porque eles nunca ouvem dire-
tamente. Mas o culto pode despertar nos que estão presentes a
consciência de que estas pessoas precisam do Evangelho.
Primeiro, aqueles que são inativos agora podem ter sido uma
vez ativos na igreja. Isto significa que aqueles que agora são ati-
vos podem se juntar à lista daqueles que estão sendo referidos
tristemente como inertes. O Evangelho não é só uma cura para o
pecado e a morte, mas também é medicina preventiva. Pode até
soar mais dramático dizer que nossa missão é resgatar o descren-
te, mas é igualmente necessário ajudar o crente a ser mantido na
fé. Aqueles que estão nos bancos da igreja precisam ouvir sermões
que exigem deles um check-up de seus pulsos espirituais a ver se
eles ainda estão vivos, checar se eles estão crescendo espiritual-
mente e que nutrem esse crescimento. Isto é pregação evangelística
para crescimento.
Segundo, os sermões dos cultos do fim de semana influenciam
as atitudes daqueles que estão lá sobre aqueles que não estão.
Um sermão evangelístico não reprova as pessoas por não estarem
na igreja, já que eles estão ausentes e não ouvirão o sermão. E
para aqueles que estão presentes não está sendo oferecida justiça
própria sobre uma bandeja de prata. Ao invés disso, o sermão deve
ajudar aqueles que estão presentes a se alegrar na graça de Deus
e serem conscientizados que eles compartilham da responsabilida-
de de ajudar aqueles que estão atrofiados ou mortos espiritual-
mente em sua congregação. O sermão evangelístico dos cultos do

66
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL

fim de semana não somente ajuda àqueles que crêem a crescer em


sua fé, mas também lhes dá uma mensagem de crescimento espiri-
tual a ser compartilhada com outros. Aqueles que são bem alimen-
tados poderão alimentar melhor os outros.

O COMEÇO É O COMPROMETIMENTO

Talvez você já tenha visto documentários sobre a natureza e,


mais especificamente, como os gansinhos seguem à sua mãe. De-
pois de serem chocados, vêem a mãe ganso, se identificam com
ela e a seguem por onde quer que ela ande. Esse processo é
chamado de comprometimento. Contudo, se os gansinhos são cho-
cados em uma casa, eles vão se identificar com uma pessoa e
segui-la como se ela fosse sua mãe.
Quando cristãos “são chocados” - quando eles nascem de novo
através do Batismo – eles ficam comprometidos com Jesus Cristo,
porque ele é a fonte de sua nova vida. Porém, cristãos também
estão compromissados a outras pessoas e aspectos da igreja. Mui-
tos crescem pensando que todas as igrejas são – ou deveriam ser
– idênticas ao seu próprio estilo. Esse tipo de união pode atrofiar o
crescimento, se cristãos estão centrados em outras coisas e não
nos meios da graça. O pregador evangelístico deve estar consci-
ente da experiência do comprometimento espiritual por duas ra-
zões: primeiro, ajudar cristãos a seguir seu Salvador e nele perma-
necer por toda a sua vida e, segundo, ajudar a mudar as ligações
daqueles que estão compromissados com guias errados.

COMPROMETIDOS COM A LEI

Muitos cristãos são orientados pela Lei ao invés do Evangelho.


Eles estão comprometidos com a mensagem da Lei. Isto não signi-
fica que eles não são crentes. Isto significa que seu desenvolvi-
mento espiritual está algemado e sua habilidade de ajudar outros
está limitada, caso eles exclusivamente aplicam a Lei para eles
próprios e outros, ao invés de aplicar corretamente a Lei e o Evan-
gelho.
Aqueles que estão comprometidos com a Lei ouvem o Evange-
lho e dizem: “Sim, mas...” e voltam à Lei. Eles sempre lembram
pregadores e professores que nós precisamos de mais Lei, e rara-
mente falam do Evangelho para as outras pessoas. Para eles, a Lei
se tornou um fim em si mesmo e não a mensagem de Deus que
mostra nossos pecados e nos prepara para nosso Salvador. Eles

67
IGREJA LUTERANA

não podem crescer no Evangelho até que os compromissos com a


Lei são quebrados e eles sejam libertados e vivam pela graça. Uma
das maiores razões para pregar evangelisticamente é quebrar esse
comprometimento com a Lei que limita o crescimento espiritual.

COMPROMETIDOS COM A INSTITUIÇÃO

Alguns cristãos se tornam comprometidos a aspectos institucionais


da igreja. Eles se cimentam a uma particular congregação, à pessoa
do pastor, à forma do culto ou ao estilo da música. Este tipo de
comprometimento pode atrofiar o crescimento se a ênfase está na
forma exterior e não no propósito e mensagem do culto cristão.
Aqueles que têm esse tipo de comprometimento podem limitar sua
própria vida espiritual numa pequena caixa – e compartilhar sua fé
somente com aqueles que vão se juntar com eles nessa caixa.
O sermão evangelístico não contesta as funções institucionais
da igreja. Antes, ele as identifica como instrumentos e não como
metas. Nós precisamos da instituição. Nós precisamos forma e or-
ganização. Nós precisamos de programas. Mas não estamos com-
prometidos com eles. Nós estamos comprometidos a Cristo e os
meios pelos quais ele vem até nós. Nós necessitamos reconhecer
que pessoas podem pertencer à organização e se submeter a ritu-
ais sem serem cristãos. Quando nós seguimos a Cristo nós usare-
mos a organização, programas e rituais que nos ajudam a crescer
na fé e compartilhá-la com outros.

COMPROMETIDOS COM UMA EXPERIÊNCIA

Alguns cristãos se tornam comprometidos com uma experiência


espiritual. Isto pode acontecer especialmente com aqueles que
são convertidos mais tarde em suas vidas, ou com aqueles que têm
um repente no crescimento espiritual. Muitas experiências são gran-
des bênçãos de Deus: uma cura física, a descoberta de um dom
espiritual, uma oportunidade para servir a Cristo ou a restauração
de uma relação entre irmãos. Todas são respostas às orações.
Cada experiência pode ser uma evidência da presença de Deus na
vida das pessoas.
Contudo, se essas experiências se tornam o agente de compro-
metimento principal entre o crente e Deus, elas limitam e atrofiam
o crescimento adicional da pessoa – e sua habilidade de comparti-
lhar a fé com outros. Pessoas que estão comprometidas com tais
experiências sentem que todos os outros cristãos devem ter as

68
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL

mesmas experiências. Se eu for curado, você deve ser curado do


mesmo jeito.
O sermão evangelístico expande e não limita nossa visão do
poder de Cristo. As grandes bênçãos na minha vida me auxiliam a
ajudar outros. As grandes bênçãos dadas aos outros auxiliam-nos
a nos socorrer.

COMPROMETIDOS COM CRISTO

Como sempre, as possibilidades de maus exemplos são ilimita-


das. Esses equivocados comprometimentos sugeridos acima são
dados para ilustrar o problema. Pode haver muitos outros jeitos
pelos quais cristãos estão comprometidos com coisas erradas. Po-
rém, há somente um comprometimento que conduz ao crescimento
espiritual: comprometer-se com Cristo. Cristo deu sua vida em sa-
crifício pelo pecado do mundo inteiro. Através de nosso Batismo
nós estamos em união com Cristo – ligados a ele e somos recipien-
tes do perdão de Deus. Nosso Batismo em Cristo não é só um
acontecimento passado. Ele é uma parte do que somos agora e o
fundamento de nosso futuro.

O CRESCIMENTO NÃO PÁRA

O corpo físico necessita reproduzir constantemente novas cé-


lulas, caso contrário ele morre. Nossa vida espiritual também ne-
cessita constante crescimento. A Escritura diz: “Por isso, pondo
de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-
nos levar para o que é perfeito, não lançando de novo a base do
arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, e o ensino de
batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do
juízo eterno. Isso fa-
remos, se Deus permi-
tir” (Hb 6.1-3). O san-
to escritor nos dá uma
declaração concisa da
fé cristã. Ele não nos
fala em abandonar ou
esquecer o fundamen-
to, mas construir so-
bre esta base.

69
IGREJA LUTERANA

CRESCENDO EM DIFERENTES ÁREAS

É muito fácil para pastores tratar os membros da congregação


mais como membros do que como pessoas. Este é o seu ponto de
contato. É assim que cada um se apresenta ao outro. Na verdade, o
fato de ser membro em uma congregação é apenas uma parte muito
pequena da vida – mesmo para os membros mais ativos e mesmo para
alguns que têm dedicação exclusiva na igreja. Olhe para um gráfico
que tenta expor em termos visuais o uso do tempo por uma pessoa
[isso evidentemente pode variar muito de pessoa para pessoa].
Algumas pessoas consideram a parte marcada como igreja como
sagrada e o restante da vida como secular. O tempo que elas usam
para a igreja, o dinheiro que elas ofertam e os amigos que elas têm
na igreja fazem parte de uma fatia estreita. Sermões, publicações
da igreja e materiais de estudo muitas vezes são preocupações
somente daquela parte da vida.
Porém, o Evangelho de Cristo derrubou as paredes que separam
o sagrado do secular. Cristo veio como um carpinteiro, não como
um sacerdote, e numa manjedoura, não no templo. Mais tarde ele
serviu como um sacerdote e foi ao templo, mas ele é o Salvador de
todo o mundo e de todos os nossos mundos, não apenas uma parte
deles. Ele salva nossa vida inteira, não somente as nossas almas.
Um sermão evangelístico aplica o Evangelho de Cristo para cada
fatia da pizza acima. A grande mensagem da igreja é que o pecado
está perdoado. A morte está destruída. Cristo fez isto. Aquela
ação de Deus venceu a batalha espiritual. E nós continuamos com
a operação quando nós aplicamos aquela vitória a todas as áreas
da vida. Nós precisamos proclamar o Evangelho como o poder de
Deus que é aplicado às relações familiares, à escola, vocação,
hobbies, lazer e a cada uma das áreas da vida.
Administração é uma questão de evangelismo. Nossos talões de
cheque e cartões de crédito devem ser tocados pelo Evangelho.
Nós não podemos olhar para o dinheiro que ofertamos na igreja
como pertencente a Deus e o restante como nosso. Ao invés dis-
so, tudo isto é uma parte de nossas vidas em Cristo.
Educação é uma questão de evangelismo. Nós estamos
evangelizando crianças ao dar-lhes os recursos do Evangelho para
seu futuro em todas as áreas de suas vidas. Nós evangelizamos
adultos para crescerem na certeza ou segurança da presença de
Cristo em tudo o que eles fazem. Eles aprendem a se ver nas
histórias bíblicas – e a ver a Cristo nos acontecimentos de suas
próprias vidas.

70
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA CRESCIMENTO ESPIRITUAL

Faça seu próprio gráfico da vida das pessoas a quem você


prega. Peça-lhes que elas façam o mesmo e o compartilhem com
você. Reconheça as áreas de suas vidas que necessitam ser
evangelizadas. Faça uma lista de suas mágoas e dores e aplique o
Evangelho a estas áreas. Lembre também que suas virtudes e ta-
lentos precisam ser “evangelizados”. Esta lista das mágoas, dores
e frutos da fé servem como iniciadores: saúde, dinheiro, família,
sexualidade, intelecto, temperamento, competição, ambição, status,
relacionamentos, comprometimento, depressão, insegurança, víci-
os, dependência, sucesso, falhas, celebração.
A necessidade para o evangelismo é muitas vezes ilustrada por
um mapa do mundo. Jesus enviou-nos para todas as nações com o
Evangelho. Nós podemos continuar trabalhando em conjunto para
pregar o Evangelho para todo o mundo. Mas nós precisamos tam-
bém ver uma outra espécie de mapa. Nós precisamos pregar o
Evangelho a todo o mundo dentro de nossas próprias congrega-
ções.

CRESCENDO NO COMPROMETIMENTO

O crescimento continua, não somente em novas áreas de nos-


sas vidas, mas também de maneira mais profunda em todas as
partes de nosso viver. Paulo escreve: “Finalmente irmãos, nós vos
rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes,
quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus e efetiva-
mente estais fazendo, continueis, progredindo cada vez mais” (1
Ts 4.1).
Notem que Paulo diz que aqueles cristãos tinham aprendido a
viver e a agradar a Deus. Eles já o estavam praticando. Ele lhes
pede a fazer mais “no Senhor Jesus”, que os converteu e os cha-
mou para lhe servir. Eles precisam saber que Deus tem mais cresci-
mento para dar e para eles é possível mais crescimento.

71
IGREJA LUTERANA

72
AUXÍLIO HOMILÉTICO

DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE


(PRIMEIRO DOMINGO DE PENTECOSTES)
DEUTERONÔMIO 27.1-10

Hoje vieste a ser povo do Senhor teu Deus

INTRODUÇÃO

Moisés antecipa o momento da entrada do povo na terra pro-


metida. A euforia do momento poderia fazer o povo esquecer o
significado do acontecimento. Era preciso parar um pouco para
refletir sobre o passado com vistas ao planejamento do futuro. Era
preciso que, naquele momento, o povo tivesse uma clara percep-
ção e consciência de sua identidade como povo do único Deus
verdadeiro. Os israelitas deveriam saber que, se haviam chegado
até ali, isso se devia exclusivamente à ação graciosa de Deus a
seu favor. Tudo isso deveria ficar assinalado não apenas em suas
mentes, mas também por meio de ações (rituais) e objetos exter-
nos. Eles deveriam erguer grandes pedras, caiá-las e inscrever
nelas as estipulações da lei de Deus.
Erguer pedras com inscrições para serem lembradas era uma
prática comum no Antigo Oriente Próximo. Por exemplo, no século
18 a.C., todo o código legal de Hamurábi, com quase trezentos
parágrafos, foi gravado numa tábua de pedra. As pedras que o
povo de Israel deveria erguer não deveriam ser apenas um monu-
mento histórico qualquer para servir de recordação de uma faça-
nha épica do povo. Elas seriam erguidas num contexto cúltico e
inscritas com a lei de Deus. No livro de Josué, há registros da
execução desta ordem dada ao povo por Moisés: Js 4; 8. 24-35.

TEXTO

Quando a aliança entre Deus e seu povo é concluída, ela preci-


sa ser registrada (como em uma ata). O que Deus estabelece (e
oferece) em sua aliança não está sujeito a flutuações de humor de
Deus, mas é permanente. Por isso ela deve ser escrita. O fato de
ser escrita mostra que Deus leva a aliança a sério, e que, por outro

73
IGREJA LUTERANA

lado, a obediência do povo deve ser igualmente levada a sério.


As pedras deveriam ser caiadas para que a escrita ficasse bem
nítida (v. 8). Nelas deveriam ser escritas “todas as palavras desta
lei”. Isso seria, no mínimo, o conteúdo dos capítulos 5-26 (veja
4.44 e Js 8.32). Outros pensam que se trata de um resumo do
Deuteronômio. É interessante lembrar que Deus já fizera a primeira
inscrição de sua lei em tábuas de pedra (Êx 31.18; 34).
Além da colocação das pedras, deveria, também, ser erguido
um altar. Holocaustos e sacrifícios deveriam ser oferecidos sobre o
altar num ambiente alegre e festivo pelo povo que acabara de
celebrar aliança com Deus. Tudo isso sublinha que a aliança é
bênção para o povo. É feita a seu favor.
A aliança é estabelecida por Deus. Israel reunido precisa tomar
conhecimento disso em silêncio (v. 9). “Hoje vieste a ser povo do
Senhor teu Deus”, a linguagem é de renovação da aliança cujos
termos são: Eu sou o teu Deus; Tu és o meu povo.

SUGESTÕES HOMILÉTICAS

Temos a tendência de esquecer. Esquecemos, até mesmo, de


coisas muito importantes. Para não esquecermos e, sim, lembrar-
mos sempre de novo os eventos importantes da história de nossa
salvação, a igreja organizou o calendário eclesiástico. Uma das
datas mais importantes deste calendário é o Dia da Santíssima
Trindade. Este dia tem a finalidade de nos revelar sempre de novo
a identidade de nosso Deus. Temos um Deus maravilhoso — um
Deus que se preocupa conosco e que quer relacionar-se conosco,
mesmo depois de termos voltado as costas para ele. Portanto,
refletir sobre este Deus é também refletir sobre a nossa própria
identidade de filhos de Deus.
O povo do Antigo Testamento recebeu diversas instruções, em
várias ocasiões, para observar datas especiais e para erguer mar-
cos ou monumentos para recordar as grandes ações libertadoras
de Deus a seu favor. Em nosso texto, o povo é orientado a erguer
grandes pedras com a inscrição das estipulações da aliança que
Deus fizera com eles. Essas pedras deveriam servir para lembrar
constantemente ao povo que eles eram povo do único Deus verda-
deiro. O seu Deus era aquele que os havia libertado da escravidão
do Egito e os havia presenteado com uma pátria maravilhosa.
Nós, povo de Deus do Novo Testamento, podemos fazer uso
de um dia como o da Santíssima Trindade para refletirmos sobre a

74
DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

nossa identidade cristã. Fomos libertados por Deus de uma escra-


vidão muito pior do que a escravidão egípcia. Cristo derramou seu
próprio sangue para nos resgatar do diabo, do pecado, da morte.
Fomos conduzidos a uma nova vida e estamos a caminho da futura
e eterna pátria que é a nossa herança graciosa. Somos o povo de
uma nova aliança, muito superior, muito mais gloriosa do que a
aliança do Antigo Testamento (veja: Jr 31.33; 2 Co 3.1-3; 1 Pe
2.9).
Temos muito a lembrar e comemorar neste dia. Com o objetivo
de lembrar e explicar a ação de cada pessoa da Trindade a nosso
favor, podemos fazer uso dos três artigos do Credo cristão. Um
bom auxílio para isso são as explicações de Lutero nos seus dois
catecismos.

Tema: O Domingo da Santíssima Trindade nos conduz a uma


reflexão sobre identidades
I. Quem somos nós?
- Por natureza: Escravos do pecado e do diabo, sob a ira de
Deus, sem esperança
- Por graça: Libertados pelo sangue de Cristo, filhos amados,
aguardando, alegres, a vida eterna com Deus
II. Quem é nosso Deus?
- O único Deus verdadeiro: Pai, Filho e Espírito Santo
- O Deus que fez, faz e fará grandes coisas por nós.

Paulo Wille Buss


São Leopoldo, RS

75
IGREJA LUTERANA

SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


DEUTERONÔMIO 29

“Não é somente convosco que faço esta aliança” (29.14).

Quando Jesus foi contestado pelos teólogos do seu tempo, um


dos argumentos usados era o da exclusividade da aliança entre
Deus e Abraão, da qual eles se julgavam os únicos e legítimos
herdeiros.
Ao lermos o discurso de Moisés confirmando a aliança sobre
todo o povo em detalhes, só se pode dizer: Deus está fechado com
eles. Moisés cita todas as classes e categorias de pessoas, desde
os cabeças de tribo até os servos de mais simples e rudimentares
tarefas, “os vossos rachadores de lenha até o vosso tirador de
água, para que entres na aliança do Senhor, teu Deus, e no jura-
mento que, hoje, o Senhor, teu Deus, faz contigo”.
Baseado em que, o povo deveria prestar atenção nesta alian-
ça? Normalmente a resposta a esta pergunta seria: “Ora, mas não
é palavra de Deus? Não é Deus que está afirmando a aliança? Ao
povo somente resta crer quando Deus fala!” Mas não. Moisés,
antes de reafirmar a aliança, reconta toda a bondade de Deus que
o povo tinha como sua experiência pessoal. Que experiência era
esta? “Tendes visto tudo quanto o Senhor fez na terra do Egito,
perante vós, a Faraó”. O que o povo de Israel fizera para merecer
que Deus desse novo rumo à história do mundo no reino do Egito?
Nada. A aliança é uma ação unilateral e radical e definitiva de Deus
que decidiu salvar Israel.
O povo está plenamente assegurado da vontade de Deus favo-
rável a eles. Mas, esta aliança, sendo de salvação, é ainda mais
do que isto: ela é o sinal da presença de Deus no mundo. E Moisés
pronuncia as palavras que tornam o povo de Deus o sinal de Deus
para o mundo: “Não é somente com vocês que faço esta aliança e
este juramento. Porém com aquele que, hoje, aqui, está conosco
perante o Senhor, nosso Deus, e também com aquele que não
está aqui, hoje, conosco”.
Hoje, aqui. Tempo e espaço. Deus não é Deus vago e impreciso.
É Deus cuja presença é perceptível de infinitas maneiras, mas es-
pecialmente quando Moisés pode dizer: aqui, hoje e no futuro,
onde o povo de Deus manifestar seu louvor e fidelidade a este
Deus.
Mas esta moeda tem duas faces. A aliança precisa ser contada

76
SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

e recontada. As ações de Deus ontem, aqui e hoje, precisam ser


reconhecidas e apontadas como obras de Deus. Para quê? Para
que os povos apontem Israel e nele reconheçam o Deus que ama,
que salva e que protege.
Jesus vai repetir este compromisso de testemunhas do amor de
Deus pelo perdido em tantas parábolas e pronunciamentos. É de
lembrar o que disse: “Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um
destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe
pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afo-
gado na profundeza do mar” (Mt 18.6).
Se Israel se afastar da aliança, o vazio de testemunho que se
formar, emudecerá a palavra de Deus. E isto Deus não pode permi-
tir. O que então terá de acontecer? Deus terá de chamar a aten-
ção do mundo sobre a perdição que paira no juízo sobre a idolatria.
E o povo de Israel servirá de sinal do juízo de Deus: “Todas as
nações dirão: Por que fez o Senhor assim com esta terra? Qual foi
a causa do furor de tamanha ira?”
O mundo de hoje, e especialmente muitos púlpitos, pouco falam
das maravilhas de Deus que se vêem diariamente na vida das pes-
soas, aqui e hoje. Desaprendeu-se, ou pouco foi ensinado e vivido,
de viver em permanente ação de graças e êxtase diante da mara-
vilha de termos sido chamados à existência e de sermos chamados
filhos de Deus.
Mas isto não é fenômeno exclusivo do nosso tempo. Moisés
aponta: “para que, entre vós, não haja ... ninguém que, ouvindo
as palavras desta maldição, se abençoe no seu íntimo, dizendo:
Terei paz ...” A falsa e perigosa segurança de quem pensa que
seja natural a vida, a criação, ter família, estar em comunhão,
considerar-se salvo. O cristianismo morno de quem parece já enjo-
ado de tanta Bíblia e culto, ou vive como quem tem tudo de Deus
por direito adquirido no batismo.
Deus nos cobre de suas bênçãos exatamente para que, em
louvando a Deus, sirvamos de testemunho vivo das obras que Deus
realizou e realiza por nós aqui e hoje. Não é somente convosco
que faço esta aliança e este juramento (v. 14). Deus está dizendo
aos crentes que, através deles, a aliança e o juramento de Deus se
estendem ao mundo como notícia e testemunho.
Infelizmente a natureza humana quer chamar a atenção sobre
si própria. O fariseu no templo aparentemente faz a oração corre-
ta. Ele rende graças a Deus por não ser como os demais, que são
pecadores visíveis e escandalosos. Este, provavelmente, seria um
representante da auto-ajuda de hoje que recomenda: “Ponha-se

77
IGREJA LUTERANA

diante do espelho e diga: Eu estou de bem com a vida. Tenho o


que preciso” e outras frases semelhantes.
Faltou ao fariseu o que faltou ao povo de Israel e também a
nós, de não esquecermos e sermos lembrados constantemente de
que somos sempre pecadores em tudo que fazemos. Lutero abre
as teses afixadas afirmando que a vida cristã consiste de diário e
constante arrependimento. Isto nada mais é do que reconhecer
que se preservamos alguma honra e dignidade diante do próximo e
diante de nós próprios, se não pecamos “como os demais”, isto é
ação de Deus que nos protege e livra do mal e da tentação, impe-
dindo-nos de pecar, tal como nossa natureza gostaria de fazer.
A arrogância do fariseu no templo é a arrogância de quem se
põe a si próprio em posição de julgar o próximo ao invés de se
aproximar dele na condição de um pecador que reconhece que
toda sua dignidade pessoal é resultado da ação graciosa de Deus
em sua vida desde a infância.
Neste sentido precisamos constantemente ser lembrados da
nossa verdadeira condição pessoal que nunca se esgota em nós.
Precisamos ser lembrados de que o pecado em nós, mesmo que
não seja manifesto em palavras e ações, é pecado que condena
diante de Deus.
Também precisamos abrir os olhos da fé para a obra estranha de
Deus, a sua disciplina, ira e castigo, pelos quais abate a arrogância
humana e leva ao necessário arrependimento diário. Assim como
Deus agiu sobre Faraó e o Egito em defesa do seu povo e por
afirmação da sua aliança e juramento feito a Abraão, assim tam-
bém Deus retém bênçãos, pune e castiga o seu povo que se torna
arrogante e indiferente, presumido, ostentando como sua virtude
aquilo que veio como bênção de Deus.
Os sinais do juízo de Deus que se manifestam aqui e hoje ne-
cessitam ser identificados pela igreja e assim anunciados ao mundo
como tais. As desgraças, os acidentes, guerras, crimes e catás-
trofes não podem ser ignorados nem atribuídos ao acaso, ou às
forças da natureza, ou à má gestão dos homens. Eles também não
podem ser revertidos simplesmente pela vontade humana. É de se
perguntar com a determinação de quem sabe que Deus é o Senhor
que governa, salva e disciplina tal como anunciou.
Portanto, a ascensão e a queda das instituições humanas, as
enchentes e destruições vistas na natureza, desastres e mortes, não
são meras decorrências da natureza. A natureza também obedece a
Deus. Através dela e com ela Deus dá sinais da sua presença no
mundo aqui e hoje, apontando para a interpretação que ele dá às

78
SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

suas ações na Escritura.E quando Deus permite que nações se levan-


tem contra nações, que a criminalidade avance sobre uma sociedade,
é necessário ler na Escritura o que Deus disse para Adão e Eva, pelos
seus servos e profetas ao longo da história a respeito da maldade
humana e da perdição humana, para que hoje, aqui, as pessoas bus-
quem a salvação que vem de Deus segundo o evangelho.
A insistência de Moisés em sublinhar que a aliança e o juramen-
to de Deus acontecem hoje pode nos dar indicativos de que a
urgência missionária, especialmente da coerência entre doutrina e
práxis, seja sublinhada a cada dia como se nunca antes se houves-
se falado disto. A palavra de Deus é nova todos os dias. Ela não
pode ter o gosto do pão de ontem ou de café requentado. O horror
diante da dimensão do pecado e do juízo não podem ser diminuídos
por metáforas de efeito suavizado nem empacotados como notíci-
as e histórias de um passado que já nada nos diga. Deus deve ser
visto atuando hoje, aqui, como por várias vezes Moisés sublinha.
Somente assim o evangelho pode ser sentido com o deslumbra-
mento de que é acolhido sem mérito ou dignidade próprios.

SUGESTÃO HOMILÉTICA

Introdução: Sorte. Acaso. Faz parte. São expressões pelas quais


as pessoas se habituaram a passar adiante e não pensar no por
que das coisas e dos fatos do dia-a-dia. No texto de hoje Moisés
elimina estas expressões do nosso vocabulário ao dizer:

Tema: Hoje e aqui estamos perante o Senhor (vv. 10, 15).


1. Reconhecemos as grandes provas que os nossos olhos viram
2. Pedimos a Deus que não nos permita desviar dos seus cami-
nhos
3. Testemunhamos esta aliança para que seja vista e amada
pelos que não estão conosco hoje e aqui.
Conclusão: Deus é o mesmo hoje e sempre. A aliança que fez
conosco no batismo permanece: somos os seus filhos. A cada
novo dia estes filhos e filhas erguem os seus olhos para dizer ao
mundo: Hoje e aqui estamos perante o Senhor.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

79
IGREJA LUTERANA

TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


DEUTERONÔMIO 30

“A palavra está mui perto de ti” (v. 14)

CONTEXTO

No livro de Deuteronômio estão os discursos que Moisés fez no


final de sua vida. O povo de Israel estava na terra de Moabe,
diante do rio Jordão, esperando entrar na Terra Prometida. Nos
seus discursos, Moisés faz o povo se lembrar de que Deus os livrara
da escravidão egípcia.
Quarenta anos haviam se passado no deserto. Uma geração
toda viveu no deserto e nenhum dos que havia saído do Egito
entraria na Terra Prometida. Somente os filhos, a nova geração,
estava, agora, diante da Terra Prometida. Agora Deus faz uma
nova aliança com esta nova geração. Deuteronômio significa, em
grego, “segunda lei”, ou seja, é a repetição da lei que Deus já havia
dado ao povo, através de Moisés, no monte Horebe (Sinai).
A espinha dorsal de todos os discursos de Moisés é: “Amarás,
pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua
alma e de toda a tua força” (Dt 6.5). Jesus mesmo ressaltou que o
amor a Deus é o que de mais importante havia para o povo fazer
perante Deus (Mc 12.30).
O SENHOR é o criador de tudo e escolhera o povo de Israel para
ser o seu povo. Antes disso já escolhera os patriarcas Abraão,
Isaque e Jacó para deles formar este povo. A libertação do povo
de Israel da escravidão egípcia mostra que Deus não esquecera
seu povo e, agora, o traz para junto da Terra Prometida.
Mas o povo precisaria corresponder a este amor de Deus e
mostrar-se como povo de Deus através de uma vida que expres-
sasse o amor a Deus. Eles deveriam seguir, obedecer e amar so-
mente a Deus o SENHOR, sem se prostituir com a adoração de
deuses falsos.

TEXTO

O capítulo 30 de Deuteronômio faz parte do quarto discurso de


Moisés. Enfatiza as promessas de Deus para um futuro promissor
caso os israelitas se arrependam de seus pecados. Deus pede que

80
TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

o seu povo se converta a ele e lhe assegura que este mandamento


não é demasiado difícil para ser cumprido (v. 11), pois não está
longe, senão bem perto, no coração e na boca (v. 14).
Deus mesmo garante que o seu mandamento não é difícil de
obedecer, porque ele mesmo, o SENHOR, daria corações dispostos
ao seu povo para que o amassem e o obedecessem e assim conti-
nuassem a viver naquela terra (v. 6). Por isso, o povo, agora,
deveria escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. Vida
significaria seguir o SENHOR Deus; morte significaria servir outros
deuses. Mas pede enfaticamente que se decidam pela vida para
que pudessem viver muito tempo na terra que o próprio SENHOR
Deus havia jurado dar aos seus antepassados Abraão, Isaque e
Jacó.

APLICAÇÕES

Durante quarenta anos Deus conduziu um povo pelo deserto


a fim de preparar uma nova geração que confiasse nele e que
pudesse ser luz para o mundo descrente no Deus verdadeiro. Uma
geração toda teve que peregrinar no deserto para sentir e se con-
vencer de que Deus estava no comando da História.
Deus prometeu bênçãos ao povo se este o obedecesse e cum-
prisse seus mandamentos. Os mandamentos não seriam difíceis de
cumprir porque não dependia deles a força para cumpri-los, mas “o
SENHOR, nosso Deus, dará a vocês e aos seus descendentes cora-
ções dispostos a obedecer, a fim de que o amem com todo o
coração e com toda a alma e assim continuem a viver naquela
terra” (v. 6 – NTLH).
Não é difícil de entender os mandamentos de Deus e nem de
cumpri-los, uma vez que Deus mesmo nos dá disposição para cum-
pri-los. Eles não estão longe de nós. Não estão lá longe no céu
nem do outro lado do mar. Os mandamentos de Deus estão em
nosso coração e podemos até recitá-los e, por isso, devemos cum-
pri-los. Deus colocou sua lei em nossos corações (v. 14).
Estamos constantemente diante de escolhas. Moisés, no final
do seu terceiro discurso, solicita ao povo que faça escolhas. Deve-
riam escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. Em
nossa vida diária constantemente precisamos decidir entre o bem e
o mal quando estamos entre a turma da escola, do trabalho ou de
outras companhias. Talvez até precisemos sair da turma para es-
colhermos o bem, correndo o risco de até sermos desprezados pela

81
IGREJA LUTERANA

turma. Ou precisamos escolher entre a vida e a morte se certas


decisões nos levarem ao afastamento da vontade de Deus.

PROPOSTA HOMILÉTICA

A palavra de Deus está muito perto de nós

I. Deus colocou sua lei em nossos corações


1. Ele nos conduz a fazermos a sua vontade
2. Ele tem pena de nós quando nos arrependemos.

II. Deus nos orienta a escolhermos entre o bem e o mal, entre a


vida e a morte
1. Ele nos deu sua palavra para esclarecer a sua vontade
2. Ele nos orienta para escolhermos a vida para que vivamos
para sempre com sua bênção.

Raul Blum
São Leopoldo, RS

82
QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES
DEUTERONÔMIO 32. 1-43

Goteje a minha doutrina como a chuva

As palavras revelam o toque suave, confortador e refrescante


da palavra de Deus: “Goteje como chuva, destile como o orvalho,
chuvisco sobre a relva, gotas de água sobre a relva” (v. 2). Este é
o sentido da comunicação de Deus ao ser humano e é também a
postura do seu mensageiro, Moisés.
O povo está no deserto. Sentem o calor do sol, os ventos
abafados e, à noite, o vento que resseca o chão. A metáfora que
Moisés foi buscar é de extrema sensibilidade e mostra o efeito da
palavra de Deus sobre a humanidade.
Por quê? Porque Deus é fidelidade, suas obras, que resultam da
sua presença e da sua palavra, são obras perfeitas. O ponto de
comparação para tudo é Deus. Ele é o prumo e a régua pelo que
tudo é medido e classificado. O bem e o mal são assim determina-
dos a partir da presença de Deus.
Tendo este Deus, cuja presença e palavra são consolo e alento
para o sedento, Moisés agora olha para o povo de Israel. O que ele
vê? Moisés vê a vida da humanidade como resultado do desvelo e
cuidado diário e permanente de Deus. “Lembra-te dos dias da
antigüidade, pergunta aos antigos” (v. 7). A marcha de Israel,
desde o tempo dos patriarcas, é a marcha que só existiu e foi
possível porque Deus cuidou de cada israelita “como a águia des-
perta a sua ninhada ... estende as sua asas e ... os leva sobre
elas”. Deste cuidado resultou que Israel teve colheitas, mel, azei-
te, leite, gorduras, pão e vinho (11-14).
Israel fez algo para merecer este tratamento? A resposta é
óbvia. Deus achou Israel numa terra árida, sem condições de so-
brevivência. A condição natural de Israel é de mendicância e es-
cravidão. Sem as asas de Deus para levá-lo aos lugares em que há
comida e abrigo, sem a providência de Deus preparando comida e
abrigo, Israel é um povo morto que não tem retorno da morte.
Talvez seja esta a palavra que esteja faltando ser ouvida em
tempos de relativismo moral e esfriamento espiritual. É necessário
ver com clareza que aqui se fala em esfriamento em relação a
Deus. Porque Israel estava “espiritualmente ativo” atrás de deuses
que não lhe lembrassem a sua natureza verdadeira, a morta. Deu-

83
IGREJA LUTERANA

ses que lhe prometessem tudo e que lhes alimentassem a sua


hipocrisia em relação a Deus.
O povo não quer ser lembrado da sua condição original. Rapida-
mente esquecem que todos os bens e a própria vida são um pre-
sente que Deus renova a cada segundo da nossa existência. Rapi-
damente o ser humano se convence que a vida lhe pertence e tudo
que a ela está agregado. Age como se fosse merecedor do que tem
e corre atrás de qualquer deus que lhe diga que ele, ser humano,
ainda é merecedor de bens maiores, os quais deus tem a obrigação
de lhe dar como resposta à sua oração/reivindicação. (D)euses
que se espalham em templos suntuosos e em pequenas capelas
que gritam que se a fé for boa a bênção material é certa. Tais
deuses entram nos lares pelas janelas da mídia. E o povo espera
que também nos templos luteranos estes deuses e suas pregações
estejam presentes.
Israel estava gordo e dava coices em quem lhe lembrasse de
que a nada tinha direito. Deus tanto pode visitar o crente como o
não crente com limitações e chamados ao arrependimento. Moisés
afirma que cada vez que Israel foi confrontado com a ira de Deus e
sofreu, tempos em que Deus escondeu o seu rosto, isto é, reteve
as suas bênçãos e permitiu o sofrimento em Israel, este estava na
verdade sendo levado por Deus a encarar a sua verdadeira e pró-
pria identidade sobre a qual Deus é Juiz e Salvador.
Sem o juízo de Deus sobre a terra, a palavra do amor, o evange-
lho, deixa de fazer sentido e o ser humano se julga merecedor de
Deus. Israel se apropria da graça e da proteção de Deus como se
tivesse direito próprio a isso. Hoje, é comum ouvir em pregações
ditas evangélicas de que o crente em Cristo adquiriu direitos sobre
os benefícios de Deus. Ao cumprir o que dele se exige (ofertar,
jejuar) prova-se a fé e se passa a pertencer aos que seguramente
vão receber de Deus o que pedem. Estes são os deuses denuncia-
dos por Moisés. Eles existem no coração humano desde que Adão e
Eva prestaram atenção a Satanás, que lhes insuflava esta conver-
sa de que teriam direito a mais do que aquilo que já usufruíam. Esta
tentação é aquela que ruge ao redor dos pregadores e seus reba-
nhos procurando alguém para devorar.
Mas ainda que visitados pelo furor de Deus e tendo descoberto
que era a seus próprios deuses que serviam daquela maneira, ainda
então, derrotados e sem rumo, Deus ainda procura Israel e, em
Israel, os seus servos (v.36). Sim, porque nem todos que seguiram
a proposta satânica o fizeram com o desejo e a intenção de não
mais servirem a Deus. Entre o povo, muitos foram enganados pelos

84
QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

seus guias e líderes. No versículo 43 parece haver indicativo de


que Deus saberá, ao final, distinguir entre os que abusaram da sua
graça e aqueles que foram induzidos por falsos pregadores ou pre-
gadores que não souberam ou não quiseram ser testemunhas da
verdade.
Moisés começou a sua pregação dizendo que a palavra de Deus
é refresco no deserto. À primeira vista ele parece ter enganado as
pessoas ao afirmar isto. Entretanto, esta é exatamente a função
do pregador. A lei não se limita ao moralismo, senão os fariseus
seriam mestres de Deus na lei. A pregação somente pode refrescar
a consciência que é lembrada da real condição em que estamos
diante de Deus em nossa natureza humana. “Nada merecemos,
senão castigo” é o que aprendemos a dizer com Lutero. Esta frase
não foi escrita para não ter efeito. Ela é a única verdade que
aprendemos diante da morte, que é o castigo mais visível ao olho
humano. A morte, e mesmo a morte temporal, é sinal de que não
podemos ter nenhuma ilusão a respeito da nossa humanidade. Tudo
que fazemos tem a marca do egoísmo, da autopreservação, da
vida centrada em nós próprios, na qual Deus e o próximo só encon-
tram espaço na medida em que satisfazem necessidades nossas. E
isto nos condena diante de um e de outro.
A vida funciona, as relações se estabelecem, vivemos em famí-
lia e comunidade somente e enquanto as asas de Deus nos carre-
gam, subsidiando o que pensamos e fazemos com o seu perdão
sobre o que somos realmente, sua graça, que faz com que pesso-
as nos amem e respeitem, e sua proteção contra o mal que ele
sufoca dentro de nós para que possamos tentar ser úteis nesta
vida de alguma forma. O que merecemos além disto? Nada. Razão
porque tudo que fizermos em nada compensa o que Deus faz por
nós. Por mais que fizermos, por mais que quisermos provar a Deus
o nosso valor pessoal, “somos servos inúteis, porque nunca pode-
mos fazer mais do que aquilo que de nós se esperava”. Entretanto,
se o reconhecemos e buscamos viver em gratidão a Deus por tudo
que vamos aprendendo a respeito do seu amor infinito, ele vai
carregar a nossa vida sobre as suas asas e se alegrar com a confi-
ança com que agimos em seu nome neste mundo, buscando apon-
tar com nossa vida e palavras para ele, doador de todas as coisas
boas.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

85
IGREJA LUTERANA

QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


DEUTERONÔMIO 32.44-52

Esta Palavra é a nossa vida (v. 47)

CONTEXTO

Deuteronômio relata os três últimos discursos de Moisés, nas


Campinas de Moabe, proferidos ao povo de Israel. É um resumo das
principais orientações que norteariam Israel na nova terra. As pa-
lavras do texto em estudo fazem parte da conclusão do livro, quando
ele estava prestes a subir ao monte Nebo, onde morreu. Ele estava
com 120 anos de idade, porém com perfeito vigor físico e mental
(34.7). Havia liderado Israel pelo deserto ao longo de 40 anos.
Sabia que seu encontro definitivo e eterno com Deus era iminente.
Seu sucessor, que deveria liderar Israel na entrada e tomada da
Terra Prometida, já havia sido indicado – Josué, filho de Num.

TEXTO

V. 44: “... todas as palavras deste cântico”. Refere-se ao cântico


do capítulo 33, no qual são exaltados o poder, o amor e as bênçãos
do Deus de Israel; mas se refere também a tudo que Moisés havia
proferido nos três discursos ao longo de todo o Deuteronômio. “...
aos ouvidos do povo”. Aqui Moisés deixa um pouco o caráter
sermônico evidenciado em seus discursos ao longo do livro de
Deuteronômio e passa a aconselhar pastoralmente. Poderíamos di-
zer que ele desce do púlpito e vai aos israelitas para lhes falar no
ouvido uma mensagem de fundamental importância para seu futu-
ro. “...ele e Josué, filho de Num”. Moisés sabia que deixaria o povo.
Sabia também o quanto era importe que o povo tivesse um líder
que o conduzisse pelo caminho do Senhor. Por isso, fez questão de
que Josué, seu sucessor, estivesse ao seu lado ao proferir estas
últimas palavras. Podemos perceber aqui o quanto Moisés conside-
rava importante o Ofício Sacerdotal e Profético na vida futura do
povo. Igualmente importante é o Ofício Pastoral, o Ministério, para
o povo de nossos dias, pois é através dele que Deus nos visita e,
em Cristo, nos oferece suas bênçãos.

V. 46: “... aplicai o coração a todas as palavras que, hoje,

86
QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

testifico entre vós”. Embora ditas “aos ouvidos do povo”, estas


palavras deveriam ser guardadas no coração e, sobretudo, ser
praticadas por cada israelita no seu dia a dia. É uma reafirmação
de Dt 6.6: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu
coração”. “... para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de
cumprir todas as palavras desta lei”. Além de guardar e praticar
esta palavra, cada israelita tinha o sagrado dever de passá-la
adiante, especialmente aos seus filhos, conforme Moisés já havia
dito em Dt 6.7ss: “... tu as inculcarás a teus filhos, e delas fala-
rás...”.

V. 47: “Porque esta palavra não é para vós outros coisa vã”. A
palavra que estava sendo anunciada por Moisés não era uma coisa
inútil, sem valor. Era a palavra de Deus, que não volta vazia (Is
55.10,11). Ela oferece a salvação ao que nela crê e anuncia a
condenação ao que a rejeita. “... antes, é a vossa vida”. Esta
afirmação não pode ser interpretada de forma sinergista. Moisés
não está afirmando que o ser humano promove a sua própria vida
através da obediência. Aqui precisa ser levado em consideração
que, ao longo do livro de Deuteronômio, Moisés menciona noventa
vezes o Messias Prometido, o Cristo. Moisés tinha, portanto, uma
visão essencialmente cristocêntrica, na qual não há possibilidade
de vida sem Cristo. Por outro lado, convém lembrar aqui a promes-
sa feita por Deus na conclusão dos mandamentos: “... e faço mise-
ricórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os
meus mandamentos” (Êx 20.6). Aqui, e em outros textos, Deus
promete bênçãos para aqueles que guardam e cumprem seus man-
damentos. No entanto, é preciso frisar que a obediência é conse-
qüência da fé, que é obra do Espírito Santo, e a vida provém de
Cristo, a quem estamos unidos pela fé, e a quem seguimos em
obediência. “... e, por esta mesma palavra, prolongareis os dias
na terra à qual, passando o Jordão, ides para possuir”. Isto pode
ser facilmente comprovado no livro de Juízes. Sempre que o povo
confiou nas promessas de Deus, e nesta fé o obedeceu, teve vida
tranqüila, experimentou longos momentos de paz e de prosperida-
de. Por outro lado, sempre que agiu de forma contrária, depositan-
do sua confiança nos deuses dos povos vizinhos e, conseqüente-
mente, desobedecendo a Deus, viveu dias de dificuldades e escas-
sez, tendo seu território invadido por outros povos, pagando tribu-
tos a estes povos, sofrendo as conseqüências das pestes e das
estiagens, etc. Aqui também precisamos ter um cuidado muito
grande para não pregarmos, inconscientemente, a tão badalada

87
IGREJA LUTERANA

teologia da prosperidade. Moisés não atribui o prolongar da vida ou


as bênçãos a algum ato humano, mas à palavra de Deus, que ele
estava anunciando aos israelitas (e, por esta palavra, prolongareis
os dias na terra). Se é pela palavra que se obtêm as bênçãos de
Deus, então elas não são meritórias, mas são manifestações da
graça e da misericórdia de Deus, pois a palavra não é de homens e
sim de Deus. As bênçãos aqui prometidas não são para aqueles que
fazem barganha com Deus, mas para aqueles que, na fé, dizem:
“se for da tua vontade, Senhor!”. “... terra”. Evidentemente que se
refere à terra de Canaã. Mas ela sempre tipifica a Nova Canaã, o
céu. O que dá a este texto a correta perspectiva escatológica,
sem a qual o povo de Deus fica sem rumo na sua marcha. “...
passando o Jordão”. A passagem do povo pelo rio Jordão tem um
significado diferente da passagem pelo mar Vermelho. A passagem
pelo mar Vermelho tipifica nossa justificação, quando Deus nos
libertou do pecado, do diabo e da morte. Já a passagem pelo Jordão
tipifica a nossa entrada no céu, quando desta vida formos chama-
dos por Deus.

Vv. 49 e 52: “... e vê a terra de Canaã, que aos filhos de Israel


dou em possessão”. Deus concede a Moisés o privilégio de ver com
os seus próprios olhos a terra que ele havia prometido a Abraão,
Isaque e Jacó; promessa que havia sido reafirmada a Moisés e ao
povo de Israel, através de Moisés.

V. 50: “Morrerás no monte”. Está aí a conseqüência do pecado


de Moisés. “E te recolherás ao teu povo”. Numa leitura superficial
poderíamos entender que Moisés seria sepultado junto aos seus
antepassados, na caverna de Macpela (Gn 23). Mas não foi isso
que ocorreu, Moisés não foi sepultado naquela caverna. Portanto,
aqui nós temos uma referência clara do reencontro ou do encontro
que Moisés teve com os do seu povo no céu. Assim, poderíamos
afirmar a partir deste texto que a morte dos filhos de Deus não
significa uma separação, mas um reencontro definitivo e eterno.

V. 51: “... porquanto prevaricastes contra mim no meio dos


filhos de Israel, nas águas de Meribá de Cades...”. Mostra que
Deus perdoa os nossos pecados, mas há determinadas conseqüên-
cias pelas quais ele nos responsabiliza e nos cobra no momento do
acerto de contas. O que, no entanto, não nos fecha as portas do
céu, pois, como diz Paulo, onde abundou o pecado, superabundou
a graça de Deus (Rm 5.20).

88
QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

PROPOSTA HOMILÉTICA

Esta Palavra é Nossa Vida (Por quê?)

Introdução
Prolongar a vida. Viver por muito tempo e com qualidade. Com
esta finalidade os cientistas têm pesquisado há muitos séculos.
Muito dinheiro tem sido investido e os resultados nem sempre têm
sido satisfatórios. Em Dt 32.46 e 47, Deus nos apresenta uma
maneira pela qual ele quer nos dar uma vida longa e feliz. Ele diz:
“Aplicai ...”. Fundamentados nesta passagem bíblica, meditaremos
hoje sobre o tema: ESTA PALAVRA É NOSSA VIDA!

I. Porque através dela Deus nos abençoa:


- “Prolongareis os dias na terra...” Dt 32.47;
- Conclusão dos Mandamentos: “... e faço misericórdia até mil
gerações daqueles que amam e guardam os meus mandamentos”.
Êx 20.6;
- Quarto Mandamento: “Para que te vá bem, e sejas de longa
vida sobre a terra” Ef 6.2,3.
Moléstia (Lei): O desprezo à palavra de Deus tem conseqüênci-
as que podem abreviar a vida, tirar a qualidade da vida, impossibi-
litar a vida eterna.
Meio (Evangelho): Jesus cumpriu integralmente a Lei de Deus
em nosso lugar. Pela fé nele somos perdoados e capacitados a
gostar de ouvir, estudar e praticar a santa Palavra de Deus e,
assim, Deus, graciosamente, nos abençoará nesta vida e na eter-
nidade. Jesus nos garante que veio nos dar vida, e vida em abun-
dância.

II. Porque através dela é o próprio Cristo que nos visita:


Moléstia (Lei): A prática de transformar a palavra de Deus numa
espécie de manual que nos ensine a promover a nossa própria vida.
- Frustração de não poder cumpri-la integralmente;
- Hipocrisia, muito presente nas religiões que transformam a
palavra de Deus em manual de “boa conduta”;
- Religião das obras que aos olhos de Deus não passam de
trapos de imundícias;
- O caminho das obras é semelhante a uma estrada interrompi-
da: não leva ao céu, e sim, à condenação eterna.
Meio (Evangelho): Jesus é o caminho, a verdade e a vida (Jo
14.6). Ele é a Palavra encarnada (Jo 1.14). Através da Palavra ele

89
IGREJA LUTERANA

nos visita e compartilha conosco o perdão e a vida eterna con-


quistados por ele na cruz do Calvário
- Através da sua santa Palavra, Jesus nos visita assim como
visitou Zaqueu: “Hoje, houve salvação nesta casa... Porque o Filho
do Homem veio buscar e salvar o perdido” Lc 19.9,10.

Conclusão
Portanto, Deus nos apresenta uma maneira pela qual ele quer
nos dar uma vida longa e feliz. Em Cristo ele quer estar conosco,
nos acompanhando em nossa jornada e nos dando vida em abun-
dância. E ele nos visita e nos abençoa através da sua santa Pala-
vra. Por isto, ESTA PALAVRA É NOSSA VIDA. Permaneçamos nesta
Palavra! Amém.

Geraldo Walmir Schüler


Cacoal, RO

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SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES
DEUTERONÔMIO 33. 1-29

APONTAMENTOS EXEGÉTICOS (GRAMATICAIS E LÓGICOS)

Vv. 1-5: “O homem de Deus”. Moisés segue a linhagem de seus


ancestrais. Assim como Abraão, Isaque e Jacó abençoaram seus
filhos, agora Moisés, ao se despedir, dá sua bênção. Posteriormen-
te, o “homem de Deus” será chamado de profeta, como podemos
ver em 1 Sm 2.27, 9.6-10. A bênção descreve a santidade de
Deus, a qual Israel conhecera ao longo de sua estada no deserto.
A santidade de Deus está relacionada com seu poder, sua nature-
za, o que faz dele – e somente dele – Deus. Deus não é igual a
Israel. Ele é “fogo consumidor” (Hb 12.29) e Israel aprendeu. Um
dos incidentes que mostra isso é quando os filhos de Arão foram
destruídos (Lv 10.1-3), pois violaram a santidade de Deus. Por
causa da santidade de Deus, Israel aprendeu a necessidade de um
Mediador, que sem pecado cobre todos os pecados com seu san-
gue, por meio do qual se pode ter acesso ao trono de Deus (Hb 8 e
9). Se por um lado Israel aprendeu o que significa a santidade de
Deus, Israel também sabe que Deus “ama o seu povo e protege os
que são dele” (v.3). Deus é como um Leão não domesticado. Ele é
soberano, ele é livre e sua liberdade não tem limite. Ele faz o que
bem entende. Não se pode entender seus caminhos (Rm 11.33,34).
Seu Espírito Santo é como o vento que “sopra onde quer” (Jo 3.8).
Essa é a fera não domada que Israel aprendeu a conhecer.
Vv. 6-25: As tribos são distribuídas de acordo com sua voca-
ção/chamado. Interessante observar que o chamado não tem ori-
gem nas tribos, mas sempre na ação de Deus por elas.
Vv. 26-29: O discurso tem seu desfecho retomando as palavras
iniciais. Moisés é um bom retórico porque sabe que tudo tem origem
na ação de Deus. A descrição da ação trinitária de Deus. Os vv. 26-
28 descrevem o Primeiro Artigo do Credo: Deus tem controle sobre
tudo e todos; sua providência não deixa escapar nada. Quando
Lutero conclui sua explicação dos Mandamentos, ele nos lembra
como Deus está conosco com sua bênção até mil gerações. Viver
seguro e em paz é o que Deus propõe para Israel ao entrar na Terra
Prometida, onde não faltará o necessário para a vida, que está nas
mãos do próprio Deus. Ver Mt 6.24-34 e os desafios para nossa vida
no dia a dia. Mas não é só o dia a dia que é abençoado por Deus.
“Israel... é feliz” porque Deus o salvou; Deus é o escudo e a espada

91
IGREJA LUTERANA

para proteger e dar vitória a Israel. O dia a dia é abençoado, mas


também é acompanhado por Deus. A vitória se dá na pessoa e obra
de Cristo; a proteção vem da ação do Espírito de Deus, que coloca
todos os inimigos aos pés de Israel. Esta passagem nos remete às
palavras de Paulo em Ef 6.10-20, que nos mostra um quadro seme-
lhante a este que Moisés está pré-anunciando a Israel.

APONTAMENTOS HOMILÉTICOS (RETÓRICOS)

Quando começa a semana para o cristão? Segunda-feira? Não,


no domingo. Isto Israel aprendeu muito bem na sua caminhada pelo
deserto, onde Deus preparou de forma litúrgica o povo para entrar
na terra prometida. Algo semelhante aconteceu conosco quando o
domingo nos prepara para a segunda, ou melhor, quando somos
convidados a viver a nossa vocação.
A sugestão retórica é a correlação entre o domingo e a segun-
da-feira, entre a liturgia do culto, a ação de Deus, e a interação de
Deus conosco na segunda-feira. A vocação cristã é fruto da liturgia
do Culto. Lutero tinha isto em mente quando construiu sua liturgia
e colocou na oração pós-comunhão a responsabilidade cristã do
amor, da caridade, da vocação.
Para ampliar e ajudar na reflexão homilética, transcrevo alguns
trechos da obra de Gustav Wingren, “A vocação segundo Lutero”
(Canoas: Editora da ULBRA, 2006). O número ao final da citação
indica a página.
Lutero usa Beruf na maioria das vezes como posição ou ocupa-
ção externa. Este uso é novo com Lutero (p.9). Todos os seres
humanos têm posição (Stand), mas só o cristão tem Beruf. Este
“chamado” não é particular, mas sempre se estende ao próximo.
“Se eu me vejo como ocupando algumas dessas categorias de vida
que sirva para o bem-estar dos outros, não devo alimentar a míni-
ma dúvida no que respeita ao agrado de Deus, mas crer no evan-
gelho. O ponto significativo não é se entro em tal posição como
alguém pecador e indigno. A questão é se o “estado” em si é
pecaminoso, ou não. O pecado da pessoa é julgado e perdoado no
céu, onde não há nenhum questionamento quanto à vocação, es-
tado ou ofício, mas tão somente ao coração. Na terra, por outro
lado, é necessário dar atenção ao ofício e estado, não ao pecado
do coração” (p.20).
Para Lutero, as vocações se estendem desde as ordens biológi-
cas pessoais (ser pai, mãe, filho, filha) até as ordens impessoais

92
SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

(ser patrão, empregado, governante, professor, aluno). “Em tudo o


que envolve ação, em tudo o que diz respeito ao mundo ou ao meu
relacionamento com o próximo, em tudo isso, portanto, Lutero sus-
tenta, não há nada que caia numa esfera puramente privada fican-
do fora do estado, ofício ou vocação. É tão-só perante Deus, isso
é, no céu, que o indivíduo está só. No reino terreno, o homem está
sempre in relatione, sempre vinculado ao outro. Disso é claro que
todo cristão ocupa uma grande variedade de ofícios ou estados ao
mesmo tempo e não apenas um: um mesmo homem, por exemplo, é
pai de seus filhos, marido de sua mulher, senhor de seus servos e
conselheiro da câmara municipal” (p.21).
As vocações não produzem qualquer alteração no coração do
homem. O coração só é mudado diante de Deus, no céu, quando o
ser humano está individualmente perante Deus; esta mudança ocorre
através do evangelho de Cristo. “Ali o ser humano é uma pessoa
sozinha”. “Na terra e em relação ao próximo, ele despenha um
“ofício”; aí, o ponto principal é ser mantida a criação, ou seja, que
os filhos recebam alimentação, vestes, cuidados. A obra do amor,
Deus a efetua na terra através das “ordens” – a ordem do casa-
mento, do professor e dos alunos, do governo, etc. Até as pessoas
que não tomaram o evangelho em seus corações servem à missão
de Deus mesmo sendo ignorantes quanto a isso, pela própria razão
de estarem desempenhando as funções exteriores dos seus res-
pectivos estados” (p.23).
“A idéia de Lutero quanto ao ofício constitui um elemento impor-
tante no seu farto conceito de criação, que é peculiarmente con-
creto e vital. Os pássaros a cantar, embora não saibam o que irão
comer, são para nós um exemplo. Deus espalha seus dons, semen-
tes, ervas e criaturas comestíveis. Nosso cuidado único deveria
ser, então, o que devemos fazer com todo esse bem que Deus
produziu de modo que ele possa beneficiar nosso próximo. Em lugar
disso, porém, nos preocupamos em como pegar o máximo possível
para nós mesmos; e assim nos colocamos de modo contrário à
generosa corrente da criação” (p.24).
Há uma direta conexão entre a obra de Deus na criação e a sua
obra nesses ofícios ... Deus cria os bebês no corpo da mãe – sendo
o homem apenas um instrumento na mão de Deus – e então ele os
sustenta com seus dons, entregues aos filhos mediante o labor de
pai e mãe no seu ofício paternal (p.25).
“Deus mesmo vai ordenhar as vacas através daquele cuja vo-
cação é essa. Quem se engaja na humildade do seu trabalho reali-
za a obra de Deus, seja ele um jovem ou um rei. Dar a atenção

93
IGREJA LUTERANA

devida ao ofício não é egoísmo. Devoção ao ofício é devoção ao


amor porque é pelo próprio ordenamento de Deus que seja sempre
a obra do ofício dedicada ao bem-estar do próximo. O cuidado pelo
ofício de alguém é, no seu próprio quadro de referência na terra,
participação no próprio cuidado de Deus pelos seres humanos” (p.26).
Portanto, a vocação pertence à esfera terrena e não celestial.
“Na sua vocação, o homem não está se elevando para Deus, mas,
ao contrário, abaixando-se em direção ao mundo. Quando alguém
faz isso, a obra criativa de Deus é levada adiante. A obra do amor
de Deus toma forma sobre a terra, constituindo-se nos testemu-
nhos externos do seu amor. Se notarmos com atenção quanto bem
Deus nos outorga tanto pela sua criação direta quanto pelas suas
ordens criadas, conheceremos a verdade de que ele nos perdoa os
pecados” (p.26).
Na vocação, as obras são constrangidas a moverem-se em di-
reção ao próximo, em direção à terra; e a fé somente, a confiança,
a oração, todas sem obras, sobem em direitura ao céu. Em tudo
isso, a pessoa é incorporada a Cristo; a cruz na vocação é a sua
cruz; e a fé, que rompe dessa cruz na vocação, é a ressurreição
(p.48).
Mas como nas ordens, além de Deus, Satanás também está
ativo, Lutero observa que pode acontecer que o homem se desvie
do próximo, sentindo-se tão confortável nesta posição que nem
mais perceba a necessidade da fé em Deus. Observações como
essa levaram Lutero a fazer propostas concretas para reformas da
vida em sociedade, na qual, por exemplo, certas formas de comér-
cio são condenadas (p.49).
Quando uma pessoa dedica alegremente os seus esforços para
as suas tarefas preenchendo as necessidades do seu próximo e
atendendo a sua vocação, então o amor de Deus e de Cristo se
torna ativo, então o Espírito se faz presente. Descobrir o amor é,
assim, a mesma coisa que descobrir serem o próximo e a vocação
uma circunstância na qual alguém pode viver com alegria. Nosso
interesse não está em nosso amor; é para o nosso próximo e voca-
ção para os quais o nosso interesse está voltado (p.58).
“É na fé que todos são iguais face a Deus ou no céu, onde não
se encontra o homem na dependência de nenhuma obra de sua
própria feitura. Mas há enormes diferenças nas obras voltadas para
o próximo na terra”. [...] “As diferenças entre as pessoas acham-se
todas nas coisas que elas podem fazer em suas múltiplas formas,
na capacidade ou no trabalho” (p.186).
“Quando o objetivo dos esforços humanos é servir os outros,

94
SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

servir a todas as pessoas, seguem-se naturalmente que suas obras


diferirão em larga escala. São as diferenciações desejadas pelo
próprio Deus, como a riqueza dos dons, que são espalhados mundo
afora através do sistema das vocações terrenas. Para expressar
isso, tem Lutero uma especial predileção pela figura paulina do
corpo e seus membros (Rm 12 e 1 Co 12)” (p.190).
“[...] é de particular importância que nenhum membro do corpo
dirija seu esforço no senso de se tornar um membro ou de partici-
par do corpo. Eu já sou um membro! Isso é feito mediante a obra
de Cristo; conseqüentemente, meu esforço pode agora ser dirigido
na sua totalidade para servir o corpo e seus membros” (p.191).
“A ação do homem é instrumento para o amor de Deus atingir as
outras pessoas. A vida do corpo como um todo está envolvida na
atuação de cada membro. No exercício da sua vocação, o homem
se torna uma máscara para Deus. É digno de nota que o juízo de
Lutero sobre a imitatio é negativo; ninguém deve colocar a sua
confiança em algo externo, mas agir imparcialmente face a todas
as aparências humanas” (p.192).
“À medida que seu trabalho se dirige para fora, é ele uma más-
cara de Deus; mas, ao mesmo tempo, nenhum valor é atribuído a
esse trabalho devido à confiança da consciência no evangelho, e o
servidor se recusa a confiar em qualquer das suas boas obras. Não
parece ao cristão que devam todos os outros cristãos fazer exata-
mente como ele faz, dar exatamente como ele dá, sofrer como ele
sofre. Cada qual tem de prestar o seu próprio serviço” (p.193).
“Deus é Criador e ele sempre traz à luz novas criações dando
formas novas ao exercício das vocações dos homens. Por isso,
deve o homem sempre deixar a porta aberta para Deus à medida
que, na hesitação e desespero, procura conselho de Deus median-
te a prece” (p.196).

Clóvis Jair Prunzel


São Leopoldo, RS

95
IGREJA LUTERANA

SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


DEUTERONÔMIO 34

“Nunca mais se levantou em Israel profeta como Moisés” (v.10).

O TEXTO E SUAS SURPRESAS

Deuteronômio 34 encerra o Pentateuco. Não é, a rigor, um final


bem apoteótico, pois fala da morte de Moisés, seu sepultamento e
do luto do povo de Israel. No entanto, mesmo assim traz uma
avaliação da figura de Moisés (vv. 10-12), que cabe muito bem na
conclusão dessa divisão bíblica conhecida como os Livros de Moisés.
Alguns detalhes do texto passam por óbvias, mas deveriam nos
surpreender. E nem é tanto o fato de no Quinto Livro de Moisés
aparecer um relato da morte de Moisés (fato este, aliás, que levou
muitos antigos a dizer que também nisto se confirma o caráter
profético de Moisés: escreveu antecipadamente a respeito de seu
próprio funeral!). Também não é o fato de Moisés enxergar a terra
prometida, com os limites e as divisões territoriais que só se confi-
gurariam mais tarde. Tampouco o fato de se afirmar que ele ainda
enxergava bem (afinal, viu a terra prometida) e que seu vigor não
se lhe abateu (afinal, com 120 anos de idade conseguiu escalar o
monte Nebo!).
O que surpreende, em parte, é que se confirma o “interdito”
anterior: “Também tu lá não entrarás” (Dt 1.37; cf. Nm 20.12;
27.12-14). Surpreende porque, no momento em que a terra prome-
tida é mostrada a Moisés, é apresentada como a terra que Deus
prometeu, em juramento, a Abraão, Isaque e Jacó. Essa terra seria
dada aos descendentes dos patriarcas. Moisés, porém, ficou no
limiar daquela terra. E a explicitação da promessa apenas acentua
o fato de que Moisés ficou do lado de fora.
Surpreende que Deus sepultou Moisés; surpreende que ninguém
sabe onde fica a sepultura dele (um lugar de peregrinação a me-
nos!), mas surpreende mais ainda que Moisés morreu na terra de
Moabe (v.5). Não seria de esperar que ele ao menos fosse sepulta-
do na terra santa?! (Esses “editores deuteronomistas” poderiam
ter dado uma caprichada e melhorado a ‘sorte’ de Moisés ... Não
teria sido tão difícil ‘maquiar’ a história ... Claro, trata-se de uma
ironia).
Terminado o tempo de luto, entra em cena Josué, filho de Num.
Foi o “sucessor” escolhido por Moisés. Mas quem era Josué? Verifi-

96
SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

car o que se diz dele no texto ajuda a ressaltar a singularidade de


Moisés. Josué foi um líder a quem o povo de Israel deu ouvidos. Ele
estava cheio do espírito de sabedoria (ruah hokma). Poderíamos
dizer que Josué foi um sábio líder e bom administrador. Não estava
entre os profetas. Também não foi legislador. Ele apenas transmitiu
as leis de Moisés.
Moisés é “servo do SENHOR”. (Essa expressão “Moisés, servo
do SENHOR” aparece, aqui, a primeira vez em toda a Bíblia. Ao
todo, são 18 ocorrências, a grande maioria delas no livro de Josué).
E embora esse termo (no hebraico, ebed) possa, também, ser tra-
duzido por “escravo”, certamente não é este o sentido da palavra
nesse contexto. (O mesmo vale para muitos outros contextos,
incluindo os do NT.) Os súditos de um rei são os seus “servos” (Êx
7.28), assim como seus oficiais (2Rs 22.12) e seus embaixadores
(Nm 22.18).
Entretanto, o que mais bem caracteriza Moisés é que “nunca
mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem
o SENHOR houvesse tratado face a face” (v.10). Moisés foi, por-
tanto, profeta. Em que sentido? No sentido de que ele foi o porta-
voz do SENHOR. (Esse sentido de porta-voz fica claro em Êx 7.1,
onde Arão é o “profeta” [nabi] de Moisés). Detalhando um pouco
mais, pode-se dizer que Moisés foi profeta porque Deus o chamou
(Êx 2-3) e lhe deu do seu Espírito (Nm 11.17) para falar a sua
palavra.
Moisés foi um profeta sem igual. Certamente, dirá alguém, por-
que ele teve um acesso a Deus que ninguém outro teve ou, então,
percebeu o que ninguém outro foi capaz de perceber. Em outras
palavras, um “sensitivo” sem igual. Mas o texto diz exatamente o
contrário. A perspectiva é teocêntrica, não antropocêntrica. Não
foi Moisés quem tratou com o SENHOR face a face, mas o SENHOR
tratava com ele face a face (ver Êx 33.11; Nm 12.6-8). Não foi
Moisés quem descobriu o SENHOR; foi o SENHOR que se valeu de
Moisés, seu servo, e se revelou a ele. Na verdade, o texto hebraico
diz que o SENHOR “conhecia” (verbo yada) Moisés face a face. É
claro, esse conhecer conota, por assim dizer, intimidade, algo que
fica claramente expresso no “face a face” ou “cara a cara”.
O destaque final, em Dt 34, fica para aquilo que Moisés, por
mando do SENHOR, fez na terra do Egito à vista de todo o Israel.
Em outras palavras, os sinais e maravilhas, os grandes e terríveis
feitos que operou (v.12) são mais importantes do que, por exem-
plo, o fato de ter entregue aquilo que veio a ser conhecido como “a
legislação mosaica”.

97
IGREJA LUTERANA

O TEXTO E SUA RECEPÇÃO POSTERIOR

Moisés morreu, mas aquele não foi o fim de sua trajetória. Claro,
alguém vai imediatamente lembrar o incidente da Transfiguração (Mt
17). Mas não podemos restringir o “legado” de Moisés àquele inci-
dente. Moisés teve uma “sobrevida”. Valeria a pena examinar o im-
pacto de Moisés no restante do AT. Limitamo-nos, porém, a registrar
que ele é mencionado 767 vezes na Bíblia Hebraica. Afora o
Pentateuco, seu nome aparece em Js, Jz, 1Sm, 2Sm, 1Rs, 2Rs, 1Cr,
2Cr, Ed, Ne, Sl, Is, Jr, Dn, Mq, Ml. Em Os 12.13, o nome de Moisés
não aparece, mas ele é chamado de profeta. Além disso, haveria um
farto campo de pesquisa em escritos judaicos não-canônicos. No
entanto, vamos nos ater mais de perto à figura de Moisés no NT.
Para o judaísmo, Moisés é antes de mais nada o legislador, como
também o confirma João 1.17. E, embora se possa argumentar que,
no Evangelho de Mateus, Moisés aparece como um tipo de Cristo,
o que faria de Jesus uma espécie de “segundo Moisés”, o fato é
que, no NT, não se dá grande destaque a Moisés como legislador.
Em Jo 7.19, Jesus reconhece que Moisés deu a lei. E, em Gl 3.19,
se fala a respeito de um mediador, mas o nome de Moisés não
aparece.
O NT confirma o papel profético de Moisés. No Evangelho de
João, dois acontecimentos da vida de Moisés prefiguram aspectos
da vida e obra de Jesus: a serpente de bronze (Nm 21.8-9) e o
maná no deserto (Jo 6). Em Jo 1.45, os discípulos confessam que
Moisés anunciou a vinda do Messias. Além disso, Jesus afirma que
Moisés escreveu a respeito dele (Jo 5.45-46). Em Jo 9.28-29, os
fariseus atestam que Deus falou a Moisés.
Passando aos Sinópticos, o relato da transfiguração apresenta
Jesus, ainda que de forma indireta, como aquele profeta semelhan-
te a Moisés prometido em Dt 18.14-19. Moisés aparece também
como profeta em Lucas 24.25,27. O que chama a atenção é que,
no Pentateuco, não existe nenhuma profecia explícita a respeito
do sofrimento do Cristo. Entretanto, é possível que a rejeição de
Moisés (At 7.35-39) tipifique a rejeição que Jesus teve que suportar.
No mais, o livro de Atos dos Apóstolos atesta que a promessa de
Dt 18 se cumpre na pessoa de Jesus (At 3.22-23 e At 7.37).
Paulo confirma que Deus falou a Moisés (Rm 9.15). No entanto,
mais comum é que Moisés apareça como exemplo (2Tm 3.1-9; 1Co
10.1-22; 2Co 3.15-17). No caso de 2Co 3, trata-se de um exemplo
antitético, num contexto em que aparecem algumas das afirma-
ções mais contundentes a respeito da ruptura fundamental entre

98
SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

cristianismo e judaísmo. No geral, Paulo jamais apresenta Moisés


como tipo de Cristo. (Em Hebreus, este papel está reservado a
Josué). No entanto, a geração do deserto é um tipo da igreja (1Co
10.6).
Detalhes da vida de Moisés aparecem em Atos 7 e Hb 11.23-28.
Nesta última passagem, Moisés é um exemplo de fé e discipulado.
A passagem de Judas 8-10 é importante porque pressupõe a
morte de Moisés. Isto contrasta com uma tradição judaica, segun-
do a qual Moisés nunca teria morrido.
Embora, no NT, nunca se afirme com todas as letras que, em
Jesus, havia chegado alguém maior do que Moisés, isto fica claro
ao longo de suas páginas. O fato de Jesus ser superior a Moisés
fica claro em João (1.17-18 e 6.32-33) e em Hebreus (3.1-6).
Enquanto Moisés é servo, Cristo é Filho. O interessante é que, em
Hebreus, se defende a superioridade de Jesus em relação a Moisés
depois que já se provou a superioridade de Jesus em relação aos
anjos. Parece estar implícito que alguém poderia ser maior do que
os anjos e, ainda assim, não ser superior a Moisés. Claro, o autor
aos Hebreus afirma que Jesus é superior tanto a uns quanto a
outro.

PISTAS PARA A APLICAÇÃO

Outro dia apareceu na seção de curiosidades de um jornal a


seguinte observação a respeito dos cinco judeus mais influentes
do mundo: “Moisés – tudo é lei; Jesus – tudo é amor; Marx – tudo
é matéria; Freud – tudo é eros; Einstein – tudo é relativo”. De fato,
tudo é relativo, especialmente em se tratando de simplificações. E,
assim sendo, em Moisés nem tudo é lei. Segundo o NT, Moisés tem
muito de profeta. Confirma-se Dt 34: Nunca mais se levantou em
Israel profeta como Moisés. Mas, com certeza, maior do que Moisés
é aquele que cumpriu o que Moisés profetizou.
Em todos os tempos, o povo de Deus se encaminha para o
eschaton com um olhar voltado para o seu passado. Especialmente
o povo de Deus do Novo Testamento se define em relação à nuvem
de testemunhas (Hb 12.1) que o cerca. Uma dessas testemunhas
é Moisés. Facilmente formulamos estereótipos e rotulamos Moisés
como legislador. Dt 34.10 nos surpreende e desestrutura ao apre-
sentar Moisés como o maior de todos os profetas. Mas o NT confir-
ma esse veredicto. Moisés foi servo do SENHOR (e, à luz do NT,
SENHOR é também um título cristológico). Moisés foi servo acima

99
IGREJA LUTERANA

de tudo na medida em que profetizou a respeito de Jesus. E ao


vermos Moisés como maior dos profetas poderemos melhor apreciar
quem é e também o que fez, faz e fará o Senhor e Salvador Jesus
Cristo.

Vilson Scholz
São Leopoldo, RS

100
OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 1.5

JOSUÉ 1 - CONTEXTUALIZAÇÃO

O texto específico para a meditação vem do primeiro capítulo


de Josué, no versículo cinco, nas palavras: “não te deixarei, nem
te desampararei”. Sendo este o primeiro de dez domingos em que o
livro de Josué será utilizado, oferecemos uma breve exposição ge-
ral a respeito do sexto livro do Antigo Testamento (baseada em
Horace Hummel, The Word Becoming Flesh. St. Louis: Concordia
Publishing House, p. 103,4).
O título do livro é muito próprio, pois do começo ao fim Josué,
“ajudante de Moisés” (1.1 - NTLH), é o personagem central. Na
pessoa e atuação de Josué, porém, encontramos mais do que a
biografia de um personagem do povo de Deus. Trata-se de um livro
que apresenta um cumprimento imediato da promessa
freqüentemente feita no Pentateuco, a respeito da terra que Deus
daria ao seu povo. E neste cumprimento a atuação de Josué, como
instrumento de Deus, é decisiva. No entanto, olhando a questão
de um ponto de vista mais amplo, levando em conta todo o cânone
bíblico, observa-se que este cumprimento ainda não é o último,
que virá somente em Cristo.
O livro de Josué oferece duas fortes referências tipológicas para
a Igreja do Novo Testamento. A primeira trata-se da própria pes-
soa de Josué (na Septuaginta - Iv hsou/j. que é um tipo de Jesus.
Também a atuação de Josué, como o guia do povo de Israel rumo à
terra prometida por Deus, tipifica a obra futura de Cristo, que
conduz seu povo, por meio do sacrifício da cruz, à glória do Pai. A
segunda referência tipológica do livro é a própria terra prometida,
que tipifica os benefícios da obra de Cristo. Trata-se do lugar do
descanso do povo de Deus, tema que repetidamente aparece no
Antigo e Novo Testamentos (Dt 3.20; Js 1.15; Sl 95.11; Mt 11.28-
30; Hb 3.11-4.11). Pelo batismo temos o descanso de Deus, vivendo
em seu reino, sob sua graça. Ainda assim, aguardamos a
concretização deste repouso (Ap 14.13) na glória do Pai.
O livro de Josué é um belo referencial para a vida da Igreja
neste mundo, pois mesmo após o cumprimento em Cristo, nós
estamos em um tempo de aguardar a plena realização do reino de
Deus, já inaugurado na obra do Salvador. O cumprimento das pro-
messas aconteceu na morte e ressurreição de Cristo. Ainda assim,

101
IGREJA LUTERANA

estamos na expectativa. Percorremos este mundo como nosso pe-


núltimo lar, assim como Israel o fazia “no outro lado do Jordão”.
Temos uma “cidade” que nos está preparada!
O primeiro capítulo do livro prepara o caminho para a conquista
da terra por Israel, sob a liderança de Josué. Trata-se de um pre-
paro, antes de tudo, do próprio Josué. Por três vezes ele ouve, da
parte de Deus e do próprio povo, as palavras: “Sê forte e corajoso”
(1.6,9,18). São palavras que o próprio Moisés havia dirigido a Josué
(Dt 31.7). Em cada uma destas ocasiões, há uma correlação entre
o imperativo e a garantia dada pelo próprio Deus e testemunhada
por Moisés e pelo povo: “Eu [o Senhor] serei contigo” (Dt 31.8; Js
1.5,9,17). A presença graciosa de Deus com o líder do seu povo é
a base única para o trabalho que está à frente.

JOSUÉ 1.5

O versículo cinco, base específica para a mensagem, traz uma


afirmação: “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida”;
e a promessa: “como fui com Moisés, assim serei contigo: não te
deixarei nem te desampararei”.
Ambas as palavras ditas a Josué repetem o que Deus já havia
anunciado a todo o povo. Ao dizer a Israel que a conquista futura
da terra era certa, Moisés afirmou: “Ninguém vos poderá resistir”
(Dt 11.25). A promessa da presença de Deus e do seu amparo,
dirigida a Josué, foi feita com as mesmas palavras também ao povo
(Dt 31.6).
“Não te deixarei” (^P.ra . : aOl) O verbo (raiz: hpr) usado no Hifil
evoca a figura de alguém retirar-se, por exemplo na situação em
que outra pessoa depende de sua presença (Js 10.6); ou então a
ação de “retirar a mão” no sentido de deixar de fazer algo que
estava previsto (1 Cr 21.15; cf. Ne 6.3). Tendo Deus como sujeito,
o mesmo verbo também é encontrado em Dt 4.31; 31.6,8; 1 Cr
28.20; Sl 138.8. “Deixar”, por isso, traz à mente a idéia de abster-
se de agir conforme originalmente planejado. Deus garante a Josué
que não o deixará, ou seja, não voltará atrás na ação que estava
prevista. Deus não se retira do palco de ação dos seus escolhidos.
Positivamente significa: Deus irá manter-se ao lado de Josué, para
protegê-lo de seus inimigos e abençoá-lo na obra que virá. A
presença de Deus é dinâmica; ele não apenas vê a história acontecer,
mas está por detrás dela, seja para castigar em sua justa ira, seja
para amparar e dirigir os seus amados (que é sua vontade principal).

102
OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

“Nem te desampararei” (&b,z[ . a, , aOl) – o verbo (raiz bz[) tem larga


ocorrência no Antigo Testamento, significando “deixar, abandonar”,
sendo que um dos sentidos é “desamparar” (por exemplo, deixar
alguém para trás, à própria sorte – 1 Cr 10.7; 1 Sm 30.13). Deus
havia alertado Israel que se Ele os desamparasse, todo mal lhes
sobreviria (Dt 31.17). Na fraqueza de fé do povo, por vezes lhes
parece que Deus os desamparou, mas firmado em sua aliança Deus
não se esquece deles (Is 49.14). Em alguns textos (por ex., Ed
9.9; Is 54.7,8) fica expresso que a misericórdia de Deus é a causa
dele não os abandonar. A firme confiança do povo de Deus é que
Ele jamais desampara aos que confiam no seu nome e o buscam (Sl
9.10). Talvez uma das ocorrências mais desafiadoras do verbo no
Antigo Testamento está no Sl 22.1, especialmente porque são
palavras usadas por Jesus, na crucificação (Mt 27.46; Mc 15.34).
A promessa de Deus de não desamparar a Josué (vIhsou/j na LXX) se
torna assim ainda mais significativa, pelo fato do mesmo Deus mais
tarde desamparar a um outro Iv hsou/j , Seu próprio e único Filho. Os
fatos estão conectados. A razão de Deus ter desamparado o Filho
na cruz, para sofrer o castigo eterno, é não ter de desamparar
seus filhos adotivos, mas garantir-lhes sua presença graciosa nes-
te mundo e na eternidade.
Há quem sugira que as palavras seguintes – “Sê forte e corajo-
so” (v. 6) – seriam as condições sob as quais a promessa poderia
ser cumprida. No contexto, porém, elas são uma conseqüência do
que foi prometido: “eu estou contigo e não te deixarei nem aban-
donarei; portanto, tu podes ser forte e corajoso!”.

APLICAÇÃO HOMILÉTICA

Como observado acima, o primeiro capítulo de Josué acentua a


preparação do líder que conduzirá o povo de Deus. Esta prepara-
ção (de fato já iniciada bem antes, sob a liderança de Moisés) é
constituída, resumidamente, de promessa e desafio. Assim como
Josué, o próprio povo de Deus é desafiado a seguir em frente, a
cumprir com a obra designada por Deus. Mas nisto não está sozi-
nho: “Eu serei contigo”.
A Igreja de Deus no Novo Testamento está em jornada. Sua
“conquista” da terra se dá pela fé no Salvador. A terra futura foi
conquistada; o reino é herança e, portanto, dádiva (Mt 25.34).
Mas a vida do povo com Deus não começará apenas no retorno
glorioso do Senhor. Ela começa no batismo, na caminhada neste

103
IGREJA LUTERANA

mundo. Esta terra pertence a Deus (não ao diabo, como sugerem


alguns). Cristo é o herdeiro de toda a criação e, com Ele, todos os
que crêem. A Igreja está no mundo como peregrina, pois não tem
aqui pátria permanente. Mas nem por isso despreza esta vida e as
oportunidades de seguir em frente, com a bandeira de Cristo, es-
perança única para o mundo. A “conquista” da terra hoje, portan-
to, não se dá com armas que trazem morte, mas com o testemu-
nho e proclamação do evangelho, que gera vida onde há morte.
Como evitar uma abordagem que sugira uma teologia da pros-
peridade a partir do paradigma de Josué e do povo de Israel? É
preciso continuar acompanhando a jornada do povo (como será
feito nos próximos estudos homiléticos). Será uma caminhada sob
a graciosa direção de Deus, mas será a caminhada de um povo
cujo pecado e fragilidade se farão presentes em todos os momen-
tos. É preciso sempre lembrar que a ênfase não está na terra como
propriedade permanente, mas como dádiva da graça de Deus. E
esta pode ser perdida através da infidelidade. A história futura
(com o clímax no exílio babilônico) comprovará tristemente isto.
Por isso a jornada do povo de Deus, seja no Antigo Testamento,
seja nos tempos de hoje, é uma jornada de fé, não de orgulho. O
desfrutar pleno virá quando do retorno de Cristo. Até lá o pecado
continuará sendo uma realidade. E a caminhada será sempre a
partir do perdão e da presença graciosa de Deus com seu povo.

Gerson Luis Linden


São Leopoldo, RS

104
NONO DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 2

“O Senhor, vosso Deus, é Deus


em cima nos céus e embaixo na terra” (v.11).

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

É muito importante, fundamental até, que de vez em quando


nos recordemos de que Deus é o começo e o fim de tudo. Também
e principalmente de nossa conversão e conseqüente salvação. E
que, nesse processo, estão completamente excluídos esforços pes-
soais, moralistas ou posicionamentos preconceituosos e farisaicos.
O apóstolo Paulo é singelo, simples e claro quando lembra que:
“Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e
aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que
ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1 Coríntios 1.28,29).
O texto em foco é atualíssimo nesse sentido e testemunha a
esse respeito. A prostituta Raabe abandona seu negócio pecami-
noso, é apontada como exemplo de fé (Hebreus 11.31) e participa
na genealogia de Jesus (Mateus 1.5). É dela a segura confissão:
“O Senhor, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na
terra (v.11).

TEXTO

Vv. 1-8: “De Sitim enviou Josué, filho de Num, dois homens,
secretamente, como espias, dizendo: Andai e observai a terra e
Jericó. Foram, pois, e entraram na casa de uma mulher prostitu-
ta, cujo nome era Raabe, e pousaram ali[...]. Foram-se aqueles
homens [...] e, havendo saído os que iam após eles, fechou-se a
porta”.
De Sitim, terra moabita, onde instalara o quartel general, Josué
estrategicamente envia dois homens para observar a cidade de
Jericó e sua circunvizinhança. Jericó estava localizada num vale
bonito e fértil distante umas seis a oito milhas do rio Jordão, numa
região densamente povoada. Tentaram não chamar atenção e não
provocar suspeitas, ao hospedarem-se na casa de uma mulher
prostituta de nome Raabe. Provavelmente sentinelas relataram ao
rei esse fato e a conclusão natural era de que eram espias da parte

105
IGREJA LUTERANA

de Israel e que deveriam ser expulsos o mais depressa possível.


Após um bem sucedido plano de proteção dos dois enviados de
Josué, ela os esconde com segurança no eirado de sua casa e,
antes que se deitassem para descansar, ela foi ter com eles um
interessante e profundo diálogo existencial.

Vv. 9-11: “ e lhes disse: Bem sei que o Senhor vos deu essa
terra... secou as águas do mar Vermelho diante de vós ... e
também o que fizestes aos dois reis dos amorreus [...] os quais
destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém
há mais ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o
Senhor, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na
terra”.
A princípio Raabe revela um medo reverencial ao Senhor, a sa-
ber, o medo de que ela e todos os demais poderiam ser extermina-
dos por Israel. Esse medo desencorajava qualquer reação por
causa dos fatos e acontecimentos que ela ouviu e recorda com
perplexidade. Raabe e seus concidadãos estão desanimados e com
o coração desmaiado, sem ânimo para reagir, pensar, elaborar um
plano de ação ou reação. Dessa forma ela conclui confessando sua
fé no Senhor, o verdadeiro Deus. Chama a atenção que os milagres
do poder todo-poderoso de Deus que forjaram a fé no coração
dessa grande pecadora não foram suficientes para quebrar os
endurecidos corações infiéis dos outros cananitas que foram con-
denados à morte e ao extermínio.

Vv. 12-22: “Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo Senhor que
[...]. Então lhe disseram os homens [...], se tu denunciares esta
nossa missão, seremos desobrigados do juramento que nos fizes-
te jurar. E ela disse: Segundo as vossas palavras, assim seja.
Então os despediu; e eles se foram[...]”.
Raabe e os homens de Israel estabeleceram um contrato que,
em síntese, desejava preservar a vida de todos os envolvidos.
Raabe exige um solene juramento de que “conservareis a vida a
meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas
irmãs, com tudo o que tem, e de que livrareis a nossa vida da
morte”. E os homens garantiram que se ela “não denunciar esta
nossa missão[...], dando-nos o Senhor essa terra, usaremos con-
tigo de misericórdia e fidelidade”. As promessas e juramentos fo-
ram reafirmados, os planos e estratégias foram rememorados e
tudo foi colocado em prática. “E foram-se, pois, e chegaram [...]”.

106
NONO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Vv. 23,24: “Assim, os dois homens voltaram, e desceram do


monte, e passaram, e vieram a Josué [...], e lhe contaram tudo
quanto lhes acontecera; e disseram a Josué: Certamente, o Se-
nhor nos deu toda esta terra nas nossas mãos, e todos seus
moradores estão desmaiados diante de nós”.
Depois de três dias e após atravessarem o rio Jordão, os dois
homens estão de volta. A missão fora cumprida e agora eles pres-
tam minucioso relatório a Josué.

PENSAMENTOS HOMILÉTICOS

- Até hoje, Deus, segundo seus inescrutáveis e insondáveis


caminhos e sabedoria, pode usar as coisas consideradas fracas e
desprezíveis para realizar seus propósitos e planos.

- A prostituta Raabe é um exemplo de fé (Hebreus 11.31). Foi


um ato de fé de sua parte proteger os representantes do povo de
Israel, o povo de Deus. Chama a atenção que o Senhor a elegeu
em meio a uma nação completamente descrente, fazendo-a, inclu-
sive, ancestral na genealogia de Jesus (Mateus 1.5).

- Fé verdadeira sempre é ativa e se manifesta em direção ao


próximo e suas necessidades.

Norberto Ernesto Heine


Porto Alegre, RS

107
IGREJA LUTERANA

DÉCIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES


JOSUÉ 3

CONTEXTO

O capítulo 3 de Josué sintetiza o tema introduzido pelas pala-


vras do SENHOR em 1.2: “Dispõe-te, passa este Jordão”. Todo o
capítulo fala sobre a preparação para esta passagem. Israel per-
manecera em Sitim, nas campinas de Moabe, desde a narrativa de
Números 22 e 25. Nosso texto demarca o último estágio da longa
jornada de 40 anos pelo deserto (Nm 33.49). Daqui por diante, não
tem retorno. Tem que acreditar, tem que confiar. Isso implica le-
vantar acampamento. Embrulhar as barracas, empacotar os per-
tences, reunir os rebanhos de gado e ovelhas. Sacerdotes têm de
aprontar a arca da Aliança para viagem (Nm 4.5-6) e levitas têm
de desarmar o tabernáculo (Nm 4.24-28). O trecho de Sitim às
margens do rio Jordão é de cerca de 12 quilômetros. Ali Israel
permanece por mais 3 dias (3.2). A cena relembra a história de
Jacó junto ao rio Jaboque, um tributário do Jordão, mais ao norte.
Ali Jacó lutara com Deus por uma bênção depois de obter a liberda-
de de Labão em Padã-Arã e antes do seu reencontro esperado mas
tenso com seu irmão Esaú, em Canaã (Gn 31). Alguns séculos
depois, “os filhos de Israel (Jacó)” (3.1) estão para receber bên-
çãos do SENHOR junto ao Jordão depois de obterem liberdade da
escravidão no Egito e antes de se defrontarem com a atraente mas
destrutiva idolatria dos cananeus. Poderíamos dizer que o povo de
Israel, como povo de Deus, está num ponto crucial da sua viagem
e da sua história.
Como se aparelhar para essa nova vida? Deus vai atravessar o
Jordão como atravessara o mar Vermelho; e como fez lá, também
aqui convida Israel a segui-lo. Israel fora “batizado” no Egito, tor-
nando-se filho de Deus pela aliança de Deus. No Sinai o povo fora
“confirmado” no seu batismo. Agora é um povo “adulto”, “maduro”
para viver seu cristianismo num mundo hostil, agressivo e
persecutório à mensagem e povo divinos. Mesmo assim, Israel não
deve odiar esse povo. Cristianismo sobrevive em meio a contextos
de hostilidade. Para conquistar pessoas inamistosas para o Reino é
preciso que o povo de Deus, antes de tudo, as ame. O inimigo deve
ser amado; e só hostilizado quando este se propõe a destruir o
Reino e, mesmo assim, com a expressa ordem de Deus. Atravessar
o Jordão é preciso. Penetrar no mundo com a missão de Deus é

108
DÉCIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

vital. É em meio à hostilidade, perseguição e questionamento que


Israel se revela como povo de Deus. O estudo abaixo é uma mescla
da análise do texto com idéias e sugestões que podem ser amplia-
das para a elaboração do sermão.

SUGESTÃO DE TEMA

“Santifica-nos, SENHOR, para que possamos te ver, seguir e


fazer a tua missão.”

TEXTO E SUGESTÕES DE APLICAÇÃO

William Faulkner, prêmio Nobel da Literatura, em certa ocasião


afirmou: “Um monumento diz: Até aqui eu cheguei!”; uma pegada
diz: “Até aqui eu cheguei, quando segui em frente”. Para Faulkner,
um monumento é uma história parada, concluída e marcada por
uma pedra, seja uma escultura, uma estátua, uma sepultura. Uma
pegada, por outro lado, é um sinal, uma prova, um vestígio que
mostra que eu estive neste lugar, mas estou seguindo adiante.

I. Monumento ou pegada? Que decisão Israel deve tomar? Cons-


truir um monumento ou deixar uma pegada? Deus dá a orientação
para o povo. Os oficiais ordenam ao povo que observem o movi-
mento da arca carregada pelos sacerdotes. A arca é a referência.
Mencionada cerca, de 195 vezes no AT, a arca da Aliança é o
ponto focal das maravilhas que acontecem nos capítulos 3 e 4. A
arca determina a presença invisível de Deus, visível no meio do Seu
povo. A arca é a presença “sacramental” de Deus. Em, com e sob a
arca Deus está visível e sacramentalmente presente no meio do
Seu povo. A arca acompanha o povo de Deus como referencial
desde o estabelecimento da aliança. No deserto, Deus empregara
a arca para orientar os movimentos do povo durante a peregrina-
ção. Quando a arca iniciava a cada jornada, Moisés, num ato
litúrgico, conclamava: “Levanta-te, SENHOR, e dissipados sejam
os teus inimigos, e fujam diante de ti os que te odeiam”. Ao repou-
sar a arca no final da jornada, Moisés, de novo, cantava o refrão:
“Volta, ó SENHOR, para os milhares de milhares de Israel” (Nm
10.35,36). O SENHOR escolhe a arca, apropria-se dela e nela se
encarna. Logo, o movimento da arca indicava o movimento do
próprio SENHOR. Como foi com Moisés, assim com Josué: o SENHOR

109
IGREJA LUTERANA

orienta Seu povo por meio da arca. Seguir a arca é seguir o SE-
NHOR. Ele mesmo clareia o caminho para Israel como “fogo
devorador” (Dt 9.3). Pela sua presença à frente do povo, os inimi-
gos são fragorosamente derrotados. Israel deve reconhecer e se-
guir a sua presença manifestada pela arca em termos de Lei e
Evangelho: juízo para os inimigos, mas para Israel promessa e sal-
vação. Enquanto “vêem a arca da Aliança” (3.3), seus corações
estarão inclinados para Aquele que os libertou e agora os conduz
ao cumprimento da promessa.
A arca da Aliança tipifica, antecipa, prefigura a encarnação de
Jesus Cristo: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14).
Jesus é a manifestação visível de Deus. “Nele habita corporalmente
toda a plenitude da divindade” (Gl 2.9). Embora morto, ressusci-
tou, subiu aos céus e está presente com o Seu povo no Pentecos-
tes para que este povo continue a obra do Seu Reino neste mundo.
A arca da Aliança nos relaciona com o Cristo humanado e a Sua
presença contínua entre nós na Palavra e Sacramentos. Da mesma
forma como a arca não é mágica com relação à presença de Deus,
também os sacramentos não são mágicos, mas eficazes porque
atrelados à palavra, presença e poder de Deus. É verdade que mais
tarde Israel olhará para a arca como um talismã e os resultados
serão desastrosos (1Sm 4-6). Da mesma forma, os sacramentos
não podem ser usufruídos ex opere operato, mas devem ser admi-
nistrados com reverência e ao serem recebidos com fé, outorgam
vida e bênção. A presença de Deus afasta o povo de Deus, nós
inclusive. No acampamento no Sinai, Deus, ao entregar o Decálogo
para o Seu povo, manda Moisés construir uma cerca ao redor do
monte para que ninguém do povo Dele se aproxime (Êx 19.21-24).
Deus é santo, nós pecadores. Se alguém quiser de aproximar de
Deus a seu modo, aproxima-se da morte. Por isso Deus providencia
meios de proteger o povo do próprio Deus. Deus continua santo, os
homens continuam pecadores. Não há como aproximar-se de Deus
senão pelos meios que o próprio Deus determina.
Voltemos ao texto. Por que os oficiais devem manter o povo a
um quilômetro da arca? Ao contrário de certas procissões hoje,
onde a imagem é tocada, beijada e venerada, a arca da Aliança era
um elemento santo exatamente por causa da presença divina. De-
veria ser carregada pelos varais nas argolas sobre os ombros dos
levitas. A arca não podia ser tocada por ninguém, nem mesmo por
levitas ou sacerdotes (Êx 25. 12-15; Nm 4.5-6, 15). Fosse ou não
levita, Uzá não poderia tê-la tocado. Errado era também a arca ser
carregada em carro puxado por bois. Depois do incidente, Davi

110
DÉCIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

parece que voltou a reler o manual bíblico sobre o assunto (2Sm


6.13; 1Cr 15.2; 13-15).

II. No nosso texto há uma razão específica para que o povo


olhe para a arca. O povo de Deus deve manter os olhos na arca à
distância “para que conheçais o caminho pelo qual haveis de pas-
sar” (3.4). Os olhos na arca determinavam a direção para o povo
no meio do deserto. Sem a arca, ou seja, sem a confiança na
presença visível de Deus, o povo certamente iria se desgarrar por
outro que não “o caminho” - com artigo (3.4). Por isso também
convida o autor de Hebreus a que corramos “olhando firmemente
para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (12.2). Ele é o caminho.
Neste período de Pentecostes é oportuno lembrar que Cristo se
identifica com a Igreja. Perseguir a Igreja é perseguir a Cristo.
O v. 5 claramente mostra que a espera junto ao rio Jordão tinha
como propósito uma preparação Espiritual. Josué diz ao povo:
“Santificai-vos”. A forma é Hithpael de vdq. Antigamente se dizia
que o verbo significava “separar” mas não se pode comprovar este
uso secular no texto bíblico. Dicionários modernos mostram que no
cognato ugarítico o verbo relaciona-se a “santo”. O Hithpael pode
ter um sentido reflexivo, como também passivo: “sede santificados”.
Atos de santificação fluem dum coração que foi purificado pelo
Espírito de Deus e que, portanto, separam-se do profano para fixar
seus olhos nas coisas santas e buscar nelas a correta direção para
a vida. No monte Sinai, Deus dera orientação específica quanto à
santificação do povo (Êx 19.10, 14, 15). Aqui, às margens do Jordão,
nenhuma ação externa é determinada. O evento que requer a
santificação deve acontecer “amanhã”. Porque “amanhã” o SENHOR
“fará maravilhas”. Quais são elas? O verbo está ligado a al,P,, um
“milagre” feito por Deus. Em Êxodo 3.20, p. ex., Deus chama as 10
pragas do Egito de “minhas maravilhas” porque libertarão Israel da
escravidão. É também um dos títulos reais dados ao Messias (cf. Is
9.5). A encarnação de Jesus Cristo, o Messias, se constitui no
maravilhoso milagre da salvação. Os maravilhosos milagres do SE-
NHOR no AT eram ações que manifestavam seu poder e graça de
forma proléptica.
Que maravilhas serão estas no texto? Curiosamente, nem Josué,
nem a narrativa como tal antecipam muito. Mas este cenário lem-
bra outro cenário tantas vezes repetido a esta nova geração por
Moisés. Após a saída do Egito, Israel está com o mar à frente e o
inimigo na retaguarda. Deus ordena Moisés que faça com que o
povo se acampe junto ao mar. Ali o povo está perplexo e aterrori-

111
IGREJA LUTERANA

zado. Moisés, porém, acalma o povo: “Não temais; aquietai-vos e


vede o livramento do SENHOR [...] O SENHOR pelejará por vós e
vós vos calareis” (Êx 14.13,14).
Por 3 dias o povo de Israel se prepara para ver as maravilhas de
Deus. Quanto tempo nós hoje nos preparamos antes de encontrar-
mos o SENHOR e receber Seus milagres no culto? Se experimentar
um dos milagres do AT requer 3 dias, quantos dias serão precisos
para que nós nos preparemos para receber o corpo e sangue de
Cristo na Ceia? (A propósito, um estudo mais amplo da expressão
“três dias” no texto bíblico mostra que ela é uma expressão que se
relaciona diretamente a Cristo e sua obra - cf. Êx 19,10-11, 16; Jn
1.17; Mt 12.40; Mc 9.31; 15.58.) Dias que antecipam grandes mara-
vilhas de Deus são dias de grande benefício para o povo de Deus.
Onde está o povo de Israel fixando os olhos ao atravessar o
Jordão? Nas águas turbulentas à sua frente? Nas muralhas
intransponíveis? Nos inimigos gigantes? Onde nós fixamos os olhos
na jornada para Terra Prometida e no exercício da missão salvadora
de Deus? Frank Dicksee foi um grande pintor inglês do séc. 19. Uma
de suas pinturas a óleo denomina-se “Duas Coroas”. A pintura está
numa Galeria em Londres, mas você pode acessá-la pela Internet
(www.allposters.com/-sp/The-Two-Crowns-Posters_i371755_.htm).
No centro da pintura está um rei medieval num processional triun-
fante montado em seu garboso cavalo branco. Donzelas lançam
pétalas de flores diante dele. Estandartes são desfraldados. Trom-
betas são tocadas. Sobre a sua cabeça está uma coroa de pedras
preciosas. Quando você observa a pintura pela primeira vez parece
que tudo está centrado na figura do rei. Mas é aqui que se nota a
maestria do pintor Dicksee. Muitos vão olhar a pintura, mas não
irão realmente vê-la. Se você observar com mais cuidado você vai
olhar para o rosto do rei e verá que seu olhar está fixado num outro
lugar. Seu olhar está leve e humildemente virado para o seu lado
esquerdo. Ali, em tons escuros, à direita da pintura, está um cruci-
fixo. E naquela cruz, pregado nela, está um outro rei, que usa uma
coroa de espinhos. Cristo é o referencial do rei, de Israel, nosso.
Na nossa vida e na missão de Deus.

Acir Raymann
São Leopoldo, RS

112
DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO
APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 4

OS LIVROS HISTÓRICOS NO ANTIGO TESTAMENTO

O papel principal dos livros históricos do Antigo Testamento é


descrever a história do povo da aliança e do Reino de Deus à luz do
plano divino da salvação.
Deus afirma na história de Israel uma dupla verdade. Primeiro,
que ele é o Deus Todo-Poderoso e Senhor sobre toda a terra.
Segundo, que ele é o Rei de Israel e sua ação visa consumar a
aliança da graça feita com Abraão, Isaque e Jacó. Ao guiar o povo
que ele elegeu unicamente por amor (Dt 7.6-8), para a sua posse,
não obstante sua natureza pecaminosa, o alvo de Deus era prepa-
rar o caminho para a salvação do mundo inteiro e que foi manifes-
tada mais tarde e na plenitude dos tempos a todas as nações (Gl
4.4).

O LIVRO DE JOSUÉ

O livro de Josué é uma página significativa nas páginas que se


seguem na história do povo de Deus e cujo cerne é a manifestação
da graça de Deus com a humanidade pecadora. O livro é uma ponte
entre o Pentateuco e a posterior história do povo da aliança, o
período dos juízes, dos reis, o exílio, o retorno e finalmente o ponto
culminante no advento de Jesus Cristo.
O Pentateuco termina com o povo de Israel colocado na fronteira
da terra prometida. Sem esse livro não saberíamos como a promessa
dessa posse se cumpriu e tornaria limitado nosso entendimento sobre
a fidelidade de Deus no cumprimento de suas promessas.
Há grandes relatos no livro de Josué. Os espias e Raabe (Js 2);
a passagem pelo Jordão (Js 3 e 4); a celebração da Páscoa (Js
5.10-12); a queda dos muros de Jericó (Js 6); o Senhor interferindo
de maneira sobrenatural no curso da natureza em favor do seu
povo (Js 10.12-15); a confissão e o testemunho de Josué (Js 24.15).
Porém, o núcleo é a fidelidade de Deus e isto coloca em relevo a
importância deste livro no contexto maior da história da salvação e
que encontra seu cumprimento na morte e ressurreição de Cristo,
mas que ainda espera pela consumação final, quando o povo de

113
IGREJA LUTERANA

Deus do Antigo e do Novo Testamento herdarão os novos céus e a


nova terra.
Os cristãos de todas as gerações podem se maravilhar e ser
renovados em sua fé e serviço no Reino de Deus, meditando nessa
fértil porção das Escrituras, que retrata acima de tudo a fidelidade
do Senhor. “Nenhuma promessa falhou de todas as boas palavras
que o SENHOR falara à casa de Israel: tudo se cumpriu” (Js 21.45).

JOSUÉ 4

Deus se fez conhecer ao seu povo e às nações na passagem


pelo rio Jordão. Ao abrir as suas águas, o Senhor revelou a todos
que ele é o Senhor sobre as águas, e não os deuses cananitas.
Assim foi na passagem do Mar Vermelho, no dilúvio e na própria
criação. Somente ele é capaz de estabelecer a ordem no mundo.

Vv. 1-3: O Senhor dá uma ordem a Josué. É ele que inicia o que
vai ocorrer. Tudo o que é necessário para a salvação provém dele e
Josué é o líder escolhido pelo Senhor (Js 3.7;4.14).
A ordem está centralizada no ato de pegar pedras no exato
lugar onde estão a arca e os sacerdotes e levá-las para onde o
povo de Deus passará a noite. Cada tribo é envolvida. Israel é um
corpo de crentes.
A presença do Senhor na arca reforça a verdade que ele está
diretamente envolvido na passagem, segurando as águas e prote-
gendo seu povo dos perigos. Deus não está distante (Js 3.10) e o
seu povo pode ver com os seus próprios olhos o efeito de sua
presença entre eles.
O memorial de pedras encontrado em outras partes do Antigo
Testamento (Gn 28.18; 35.14,20) é lembrança visível das ordens,
promessas e atos de Deus para um povo com tendência a esquecer
(Nm 15.37-41).

Vv. 4-7: Josué transmite a ordem do Senhor para o povo. Há


repetições dos versículos anteriores, mas há detalhes novos. Aqui
as pedras têm a sua função ou intenção de Deus claramente defi-
nida. Serão como um sinal-memorial. Elas serão como um sólido
trampolim para os pais ensinarem seus filhos sobre a maravilhosa
obra do Senhor no Jordão. É um instrumento didático que ensinará
perpetuamente a graça divina. O Senhor prevê a curiosidade dos
filhos, assim como foi na Páscoa (Êx 12.26-13.14).

114
DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Porém mais do que o fascínio pelo fato histórico, os filhos pode-


rão saber que o Senhor da Aliança fez isto para a salvação e
crescimento na fé e lealdade ao Senhor fiel.
A intenção do milagre da passagem do Rio Jordão é múltipla:
- Exaltar a Josué diante dos israelitas para que eles o respeitem
como líder (Js 3.7; 4.14);
- Mostrar que Deus está com Josué, assim como ele esteve com
Moisés (Js 3.10);
- Demonstrar seu propósito de eliminar os povos inimigos, o que
representa o julgamento divino sobre o pecado (Js 3.10);
- Providenciar uma ferramenta didática para nutrir a fé das
futuras gerações (Js 4.6, 21);
- Possibilitar a que todos os povos da terra conheçam o poder
salvador de Deus, a fim de que todos o temam e o sirvam (Js 4.24).
As pedras e a responsabilidade dos pais também lembram aos
cristãos as palavras de Jesus no domingo de Ramos (Lc 19.40).
Sua escolha inicial é pelo louvor e testemunho nos lábios do seu
povo, mas se ele calar, as pedras cumprirão essa missão.
Para o povo de Deus na era do Novo Testamento, é a Palavra e
os Sacramentos que relembram os atos salvadores de Deus, crian-
do e inculcando a fé no Deus fiel e salvador nas gerações mais
jovens. É responsabilidade dos pais ensinar seus filhos (2 Tm 3.15).
A cada batismo surge uma oportunidade de ouro para os pais e a
igreja ensinar sobre seu significado e relembrar as bênçãos de ser
um filho batizado de Deus.

Vv.8-13: Israel executa a ordem do Senhor. O povo de Deus age


exatamente do jeito que foi orientado. Aqui Josué levanta um se-
gundo memorial de pedras, no meio do Rio Jordão, onde os sacer-
dotes estiveram parados. A iniciativa de Josué pode estar relacio-
nada ao seu sentimento de gratidão pelo fato do Senhor tê-lo
exaltado através do milagre (Js 3.7;4.14). Se bem que ele pode ter
recebido instruções do Senhor para assim fazê-lo.
No v. 10 está repetida a localização exata dos sacerdotes. Eles
foram os primeiros a entrar na água e os últimos a sair. Eles são os
pastores que lideraram do início ao fim a travessia do rio. O que é
importante notar é que o desejo de Deus e as bênçãos acompa-
nham o povo em sua ação obediente em fé.
Se, por um lado, a terra de Canaã é um presente gratuito do
Senhor, ele escolheu empregar o exército armado da sua nação
como agente visível de vitória. A questão ética destas guerras não
é abordada no livro, mas isto só pode ser entendido no contexto da

115
IGREJA LUTERANA

história da salvação, na perspectiva da graça divina e do julga-


mento.

V. 14: O alvo é alcançado. Josué é exaltado através do milagre


do Senhor. Em sua graça o Senhor exalta a Josué como líder e
servo dele para realizar a salvação do seu povo, segundo a vonta-
de e poder do Senhor. Josué desfruta a mesma honra que o servo
Moisés desfrutara. E aos servos de Deus se deve o respeito, ou
mesmo o temor, significado original do verbo (Pv 1.7;8.13).

Vv.15-17: O Senhor mostra que a arca da Aliança, aqui denomi-


nada de “arca do testemunho”, continua no centro dos eventos da
salvação, como foi até agora. Embora a repetição nesses versículos
possa ter a conotação de redundância, ela sublinha a pronta leal-
dade de Josué às instruções do Senhor.

Vv. 18,19: Aqui está a consumação do grande milagre iniciado,


operado e consumado pelo Senhor. O detalhe, nessa parte, atesta
para a exclusão de interpretações naturais do fenômeno, pois tão
logo os pés dos sacerdotes deixaram o rio, o curso de suas águas
voltou ao normal.

Vv. 20-24: Enquanto no v. 8 os 12 israelitas trouxeram as pe-


dras, aqui o memorial é levantado pelo próprio Josué. Também é
ratificado o objetivo deste memorial, a contínua necessidade de
ensino dos atos salvadores do Senhor. As pedras estarão em silên-
cio, mas funcionarão como uma ferramenta de ensino visível. No v.
24 o milagre do Rio Jordão flui para dentro da vida de cada leitor do
livro de Josué. O milagre relatado pelo “Jesus” do Antigo Testa-
mento tem como propósito fazer conhecido o nome do Senhor, que
é fiel nas promessas, a todas as nações. O Deus de Israel deseja
que cada um e em todos os tempos sobre a terra conheça, tema,
ame e confie no Senhor e seu poder salvador.
Os israelitas receberam sua Canaã, mas ainda não o Éden
Celestial. Eles foram os beneficiários e portadores do milagre da
graça de Deus. A Palavra e os Sacramentos também nos colocam
na fronteira da nossa verdadeira pátria. Porém, um pouco mais,
pois eles criam e nutrem a fé no Salvador Jesus, a qual nos faz ter
o que esperamos e conhecer o que não vemos (Hb 11.1,2).

Anselmo Graff
São Leopoldo, RS

116
DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO
APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 5

A circuncisão em Gilgal

CONTEXTO HISTÓRICO

Assim como a passagem pelo mar Vermelho caracterizou um


batismo de libertação, tirando o povo da escravidão no Egito, a
passagem pelo rio Jordão caracteriza um batismo de conquista,
introduzindo o povo na terra prometida, em Canaã, o local da bên-
ção. A passagem pelo mar Vermelho fala da ação de sair, e a
passagem pelo rio Jordão fala da ação de entrar. Por meio de
Moisés o povo sai da terra da escravidão; por meio de Josué o
povo entra e conquista a terra da promessa. Com Moisés estava a
geração do deserto, com Josué a geração da conquista.
Hoje o Senhor quer lhe dar um tremendo batismo de conquista,
mudando a mentalidade de errante no deserto para a mentalidade
da conquista da promessa!

GILGAL: LOCAL DE SELOS PROFÉTICOS DA NOVA IDENTIDADE

Logo após atravessar o Jordão, o povo de Deus chega a Gilgal,


cidade importante porque nela são estabelecidos três selos memo-
riais e proféticos da nova identidade, que devem preceder as ações
de conquista: as doze pedras, a circuncisão e a Páscoa.

As doze pedras
As doze pedras lavradas, polidas pelo rio e arrumadas organiza-
damente, são um memorial de unidade e organização de um povo,
cuja mensagem é: nosso Deus tem mão forte e vai à nossa frente,
preparando nosso caminho na terra da conquista. Ao responderem
às gerações futuras o significado daquelas doze pedras, dirão que
há um povo em unidade com o seu Deus e um Deus comprometido
com o Seu povo. Do mesmo modo, precisamos ter a revelação de
que nosso Deus tem mão forte a nosso favor, não só para nos tirar
da “escravidão do Egito”, mas também para nos introduzir na terra
da promessa, e que a unidade e organização do nosso povo devem
preceder nossas conquistas. Nossas famílias e células precisam

117
IGREJA LUTERANA

celebrar tal memorial, denunciando e recusando todo trauma de


desunião, desgoverno e rebelião.

A circuncisão (Js 5.2-9)


Era um selo externo, na carne, de que aquele povo era proprie-
dade de Deus. Foi instituído como o sinal do pacto ou concerto de
Deus com Abraão e seus descendentes (Gn 17.23-27). Moisés a
praticou (Êx 4.24-26), de forma que a geração que foi consumida
no deserto havia sido circuncidada. Mas a nova geração, nascida
nos 40 anos de peregrinação no deserto, ainda não havia entrado
no pacto da circuncisão. Como nenhum incircunciso está em alian-
ça com Deus, também não tem herança no Senhor. Aquela geração
estava debaixo de uma promessa, mas precisava entrar no pacto
de ser propriedade do Senhor antes de entrar na conquista da
promessa. Hoje a verdadeira circuncisão não se faz no prepúcio
dos homens, mas no coração dos homens e mulheres que têm fé no
Senhor Jesus e o têm como Salvador e Senhor de suas vidas. Só os
que são do Senhor são contemplados pelas promessas do Senhor.

A Páscoa (Js 5.10-12)


É a festa da libertação, dos novos começos; fala de esperança
e vida. Marca o início da nova vida de Israel como povo de Deus.
Páscoa é um selo de mudança da identidade de escravo para a
identidade de livre no Senhor. Significa isenção e vem de uma raiz
que quer dizer pular, saltar, poupar.
Hoje, Cristo é a nossa Páscoa, o Cordeiro de Deus que foi en-
tregue à cruz e à morte pelos pecados da humanidade. Cristo é a
nossa libertação. Só entraremos no território da conquista, como
conquistadores de verdade, se Cristo nos libertar da escravidão do
passado. Muitos não conseguem desatar nos níveis mais elevados
de conquista porque não têm experimentado Cristo, a nossa Pás-
coa, em profundidade.

A CONQUISTA DE JERICÓ: TOTALMENTE


DEPENDENTE DO PODER DO SENHOR

Jericó foi a primeira cidade a ser conquistada, depois que pas-


saram por Gilgal. Era uma cidade de grandes fortalezas e muros
muito altos que escondiam tudo o que havia em seu interior. Tinha
uma característica: quando era ameaçada e o medo surgia, seus
habitantes se recolhiam dentro dos seus muros, fechando-se. Con-

118
DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

quistar aquela cidade era estratégico por duas razões: primeiro,


porque nada do que nela havia agradava a Deus e, segundo, por-
que aquela fortaleza deveria exercer certa influência de inseguran-
ça e medo no povo de Deus (parece-me que Josué olhava para ela
com certo temor – Js 5.13-14). Conquistá-la e destruí-la liberaria o
povo de Deus da contaminação de Jericó e da insegurança que ela
trazia. Jericó é para nós uma figura da nossa alma. Assim como
Jericó que se fechou por causa dos filhos de Israel, nossa alma se
fecha por causa da nossa nova identidade. A alma que não for
conquistada pelo Senhor, ela se oporá a toda conquista na terra da
promessa. As muralhas e fortalezas da nossa alma precisam ser
derrubadas e os inimigos escondidos atrás das muralhas precisam
ser identificados e derrotados. O Espírito Santo, mediante a Pala-
vra da Promessa, o faz em nome de Jesus.

PROPOSTA DE ESTRUTURA DE SERMÃO

Tema: O SENHOR liberta seu povo


1- Josué JESUS SALVADOR
2- Circuncisão BATISMO PURIFICAÇÃO, PERTENÇA
3- Terra prometida CÉU LIBERTAÇÃO, BEM-AVENTURANÇA

Aplicação: No Senhor, por meio de Jesus, temos salvação, fo-


mos circuncidados em nosso coração mediante o Batismo e temos
a promessa de libertação plena, bem-aventurança, que já come-
çou, pela fé.

Paulo Gerhard Pietzsch


São Leopoldo, RS

119
IGREJA LUTERANA

DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 7

Todos sofrem por causa do pecado de um só

INTRODUÇÃO

A COBIÇA - É um apetite desorganizado pelas coisas materiais;


é um desejo veemente de ter coisas, possessões e poder alheio.
Este ato se origina de uma idéia fixa de satisfação própria em todas
as coisas. Nasce do egoísmo. É um mal que se desenvolve gradual-
mente até que se torne um hábito e prende-se com cadeias quase
impossíveis de serem tiradas. Este mal passou para todos nós. Hoje
o maior problema de conflitos de pessoas, governos, lares e outros,
são inspirados na cobiça. A Bíblia ilustra esta atitude humana,
através do personagem triste (Acã) e da célebre ação de Deus
contra o pecado da cobiça.

1. CONTEXTO E INFORMAÇÕES HISTÓRICAS

A. Jericó - uma das maiores fortalezas da terra (daquele tem-


po), a grande e rica cidade de Jericó, a pouca distância de Gilgal,
onde o povo de Deus acampava. Esta cidade era a sede principal da
idolatria e se dedicavam ao culto de Astarté, deusa da lua. Tinha os
ritos e cultos mais degradantes da religião cananéia. Josué vê que a
tomada de Jericó deveria ser o primeiro passo na conquista de Canaã.
B. Deus tomou a iniciativa e começou o trabalho de libertação
dos cananeus.
1. Josué pediu a direção divina e esta lhe foi concedida (Js 6.2).
2. Deus agora desejava que eles compreendessem o seguinte:
a) Que a vitória contra os habitantes de Jericó não seria
deles, mas do Senhor;
b) Que eles não deveriam lutar por si mesmos, mas que
seriam instrumentos nas mãos de Deus para executar Sua
vontade. Portanto, não deveriam procurar riquezas ou exal-
tação própria, mas com toda a glória de Deus.
3. Deus, então, deu-lhes uma advertência muito séria: (Js
6.17, 18).

120
DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

a) A cidade será anátema (será destinada à destruição);


b) Guardai-vos do anátema!
- Não toqueis, não toqueis delas cousa alguma.
c) Não torneis maldito o arraial de Israel e não vos
perturbeis.
4. Deus esperava que seu povo tivesse confiança e obediência
total à Sua Palavra.

A queda de Acã
Depois da destruição de Jericó, veio a tentação e:
A. Acã prevaricou, caindo em pecado secreto. Sua atitude foi
desleal. A força da cobiça era mais forte que a sua vontade de
servir a Deus. Ele tornou-se um anátema - (Js 7.21).
B. O povo não conhecia o pecado de Acã. Só Deus sabia de
tudo. Por isso fez a denúncia (Js 711): “Israel pecou, e violaram a
minha aliança, [...] tomaram das cousas condenadas, e furtaram e
dissimularam [...]”
C. Acã: Tomou para si duas coisas:
1. A capa babilônica - (estava destinada à destruição).
2. Os 200 ciclos de prata e uma barra de ouro de 50 ciclos
(destinados ao Senhor e colocados no seu tesouro). Este pecado
de um só homem tornou-se um desastre para toda a nação. Porque
a Igreja de Deus é um corpo. O que um membro faz, afeta todo o
corpo. Este pecado teve um efeito cooperativo.

Deus voltaria para o seu povo se este eliminasse o anátema


A. Josué 7.12: O pecado da cobiça não seria consentido nem
tolerado. Sem a presença de Deus, o povo de Israel não teria
ganho a luta, pois eles ocultaram o pecado. “[...] Já não serei
convosco, se não eliminardes do vosso meio a coisa roubada”.
B. Deus ordena a Josué (7.13): “Dispõe-te, santifica o
povo[...]”. Depois, ordena para julgar tribo por tribo. Um trabalho
muito delicado no qual participaram Deus e Josué. Mas o primeiro
seria o trabalho espiritual de santificar a todos.
C. Julgamento - (Josué 7. 14-18, 19):
1. Deus e Josué. Chegareis por indicação de Deus:
a) Tribo de Judá;
b) Família dos Zeraítas;
c) Casa de Zabdi;
d) Foi tomado Acã.
2. Deus esperou algum tempo para que Acã se arrependesse, e
julgava as tribos e as famílias antes que ele chegasse. Mas ele não

121
IGREJA LUTERANA

se arrependeu.
D. Confissão tardia de Acã - Josué 7.20, 21.
E. Acã e sua família participaram do pecado da cobiça. Portan-
to, todos estavam sujeitos à condenação - (Js 7.25, 26).
F. As coisas escondidas foram devolvidas - Josué 7.22, 23.
G. Assim foi tirado o anátema. Deus voltou para seu povo.

2. TEXTO

Para compreender estes dois capítulos, precisamos conhecer


pelo menos o significado de algumas palavras que correspondem à
destruição de Jericó.
A. Josué 7.1,13: a palavra ANÁTEMA.
1. Esta palavra vem do substantivo hebreu jérem, que tem dois
significados:
a) Coisas ou pessoas destinadas ou condenadas sob mal-
dição à destruição (Lv 27.28, 29; Dt 7.2);
b) Coisas ou pessoas destinadas ao uso sagrado;
2. Em caso da destruição de Jericó, aconteceram as duas coi-
sas dos dois significados:
a) As cidades foram destruídas com todas as pessoas e
coisas, por causa da maldição que pesava sobre eles (ci-
dade, pessoas, outros) - (Js 6.21).
b) Mas também havia coisas destinadas ao uso sagrado.
Raabe, a família de seu pai e tudo o que tinham, foi pre-
servado (Js 6.23). Também a prata, o ouro, os vasos de
bronze e de ferro, deram para o tesouro da casa do Se-
nhor.
B. Josué 6.19 - A pessoa de Acã, que quer dizer alvoroçador e
perturbador.
C. Prevaricação = quer dizer “atuar secretamente”, “às es-
condidas”, “deslealmente”. Equivale a trair, roubar, idolatria.

3. CONCLUSÃO

A. O pecado hoje parece estar ainda mais arraigado do que


antes no meio do povo de Deus. A cobiça é totalmente contrária à
lei de amor de Jesus, que é baseada em partilhar e no altruísmo.
B. Deus continua advertindo e chamando a toda humanidade
para viver plenamente em sua companhia. Deus quer que sejamos

122
DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

livres e nos mostra que a verdadeira liberdade consiste em termos


o Senhor certo sobre nossas vidas.
C. Não somos em nada melhores do que Acã ou os demais
pecadores. Deus espera verdadeiro arrependimento de seus filhos
e concede perdão, vida plena e salvação a todos os que crêem em
seu nome.
D. Apesar de nossas fraquezas e limitações, vivemos o tempo
da graça de Deus, revelada em Cristo. O perdão de Deus está ao
nosso alcance mediante a obra de Jesus Cristo, nosso Salvador.

4. SUGESTÕES HOMILÉTICAS

TEMA: O Deus da justiça é o mesmo Deus de amor


I. Todos sofrem por causa do pecado de um homem só (Israel
por causa do pecado de Acã)
II. O mundo todo sofre as conseqüências do pecado de um
homem só (Adão – “Maldita é a terra por tua causa”)
III. Ao mundo todo é restituído o caminho de volta a Deus por
meio da justiça de um homem só (Jesus Cristo – O Justo).

Paulo Gerhard Pietzsch


São Leopoldo, RS

123
IGREJA LUTERANA

DÉCIMO QUARTO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 11.23

“... e a terra repousou da guerra” (Js 11.23)

CONTEXTO HISTÓRICO

Em sua lenta e difícil “caminhada” (entenda-se aqui “batalhas”)


rumo à terra prometida, o povo de Israel, sob a liderança de Josué,
inicialmente concentrara suas forças em investidas na parte sul e
meridional de Canaã. Chegando em Josué 11.1-15, vemos o relato
conciso da conquista e da ocupação da porção norte de Canaã.
Israel encontrou resistência numerosa, organizada e liderada por
Jabim, rei de Hazor. O texto é claro em mostrar que a vitória de
Israel se deu pela mão do Senhor, pela sua providência. Já a parte
seguinte (vv. 16-24 e ainda o capítulo 12) relata a conquista da
terra de Canaã de forma geral. Porém, “ainda muitíssima terra ficou
para se possuir” (Js 13.1), como o território filisteu e alguma terra
no norte da Palestina. E, de fato, boa parte da terra permaneceu
sem ser conquistada, especialmente nos interiores cananeus, onde
mais tarde a idolatria seduziu os israelitas, levando-os a desobede-
cer ao Deus da aliança amorosa.

TEXTO – MEDITAÇÃO PRÁTICA

As vitórias de Josué na parte sul e depois na parte meridional da


Palestina chegaram aos ouvidos de Jabim, rei de Hazor. Hazor era
uma importante e poderosa cidade cananéia (Js 11.10), com cerca
de 40.000 habitantes, e estrategicamente situada ao norte do lago
da Galiléia. Portanto, não era de se estranhar que Jabim também
fosse o responsável por convocar outros reis para lutar contra
Josué. Assim, Jabim enviou mensageiros para diversos reis: a Joa-
be, rei de Madom, aos reis de Sinrom e Acsafe, aos reis da região
montanhosa do norte, aos do vale do Jordão e aos da planície e do
litoral. Amorreus, heteus, perizeus, jebuseus, heveus e cananeus
(dos dois lados do rio Jordão) também foram alertados por Jabim.
A referência a esses últimos povos é importante, pois se trata
do cumprimento de uma promessa feita pelo SENHOR. Em Deutero-
nômio 7.1ss, Moisés confirma ao povo que Deus os acompanharia à

124
DÉCIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

medida que fossem avançando, e que a sua vitória seria dada por
Deus. Essa vitória viria pela derrota de povos mais numerosos e
mais poderosos que Israel. Que povos? Justamente os amorreus,
heteus, perizeus, jebuseus, heveus e cananeus (Dt 7.1), que saí-
ram com seus exércitos para lutar contra Israel. Exércitos esses
muito numerosos (“muito povo, em multidão como a areia que está
na praia do mar, e muitíssimos cavalos e carros” – Js 11.4).
O clímax da batalha está nos versos 6 a 9, não pela riqueza de
detalhes, mas pela evidência de que Deus estava no comando da
batalha, protegendo e animando Josué e seu povo. A vitória já
estava garantida, da parte do SENHOR, e Josué seria apenas seu
instrumento. A NTLH enfatiza esse monergismo divino: “Não fique
com medo deles. Amanhã, a esta mesma hora, eu matarei toda
essa gente para Israel” (v. 6). A ordem divina a Josué era “jarretar
os cavalos e queimar seus carros” (v. 6). Jarretar significava cortar
os tendões das pernas dos cavalos, o que os inutilizaria para a
guerra. Queimar os carros de guerra faria com que os inimigos não
pudessem sobressair-se na luta, nem fugir com rapidez caso ne-
cessário.
A batalha teve lugar perto das águas de Merom, provavelmente
uma cidade localizada a uns 15 quilômetros a oeste de Hazor, e
cujas águas abasteciam as cidades vizinhas. O ataque de Josué e
seu exército deu-se de surpresa. Apesar de numeroso e fortemen-
te equipado, o exército organizado por Jabim não resistiu ao exér-
cito israelita. “O SENHOR os entregou nas mãos de Israel” (v. 8). A
batalha resultou em perseguição até a região noroeste (Misrefote-
Maim) e nordeste (Mispa). Josué obedeceu à ordem do Senhor,
aleijando os cavalos e queimando os carros de guerra dos inimigos.
O desfecho se deu com a tomada de Hazor, que foi inteiramente
queimada, e seu rei e moradores mortos, assim como todos os
exércitos e povos inimigos. O extermínio completo desses povos
era uma ordem do SENHOR, anteriormente dada a Moisés (Dt 20.16-
18) e posteriormente repassada a Josué, como líder do povo, su-
cessor de Moisés. Josué foi obediente e “nem uma só palavra dei-
xou de cumprir de tudo o que o SENHOR ordenara a Moisés” (v.
15).
Os versículos 16 a 24 contam outras vitórias de Josué e o povo
de Deus, e as novas terras que foram sendo incorporadas às já
conquistadas: desde o monte Halaque (o limite das conquistas, ao
sul) até Baal-Gade (o limite das conquistas, ao norte). Essas bata-
lhas duraram muito tempo. Estima-se em torno de cinco anos o
período dessas lutas.1 Um detalhe interessante desse texto mostra

125
IGREJA LUTERANA

que era Deus mesmo que fazia com que os povos inimigos “teimas-
sem em lutar contra o povo de Israel, para que, assim, fossem
completamente destruídos e mortos sem dó nem piedade” (v. 20 –
NTLH). Em outras palavras, isso implica dizer que o SENHOR ia
adiante de seu povo, tomando todas as iniciativas, antes mesmo
da batalha acontecer, para manifestar assim seu amor e seu poder
salvador.
Depois de destruir os gigantes anaquins,2 conforme a ordem do
SENHOR a Moisés, “Josué tomou a terra e a deu aos israelitas para
ser propriedade deles. Josué dividiu a terra e deu uma parte a cada
tribo. E assim a guerra acabou” (v. 23 – NTLH).

POSSIBILIDADES DE USO HOMILÉTICO

Alguns aspectos de toda essa narrativa merecem ser melhor


analisados. As alternativas abaixo não esgotam o texto. Antes,
querem ser apenas ponto de partida para reflexões.

a) Josué, um grande líder, mas sempre dependente


do SENHOR Deus
É bastante provável, até mesmo pelos detalhes biográficos ínti-
mos que o livro contêm, que o próprio Josué tenha sido o escritor e
compilador do livro. Apesar de toda a sua liderança, não é o prota-
gonista do livro. Mesmo assim, merece nossa atenção. Josué, filho
de Num, era um israelita da tribo de José. Nasceu no Egito e foi
escolhido por Moisés para ser seu sucessor na tarefa de liderar o
povo de Israel rumo à terra de Canaã. Josué vivenciara a liberta-
ção do Egito, a entrega da lei no Sinai, os terríveis sofrimentos e
frustrações no deserto e a liderança tremenda de Moisés. A figura
de Josué, portanto, torna-se indissociável da história de Israel.
Sua tática como general de exército foi dividir a terra em duas
partes, tomando primeiro o sul e depois o norte. Entretanto, o
sucesso da conquista não deve ser atribuído simplesmente à sua

1
Segundo comentário na Bíblia Shedd, este tempo se baseia na idade de Calebe, que tinha
85 anos quando recebeu sua herança (14.6-10) e tinha 40 anos quando saiu do Egito e
gastou mais 40 anos no deserto. Assim, tinha cerca de 80 anos quando entrou na Pales-
tina. Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, concordou que a conquista custou cinco
anos.
2
Os anaquins (ou enaquins) eram uma raça de gigantes, descendentes de Arba, um dos
filhos de Hete (Js 15.13; Gn 23.3). Um exemplo desses gigantes era Golias, de Gate, que
foi morto por Davi.

126
DÉCIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

habilidade militar. Foi o SENHOR quem lutou nas batalhas por Josué
travadas. Foi o SENHOR quem deu a vitória ao seu povo. Josué
apenas foi seu servo, reconheceu isto, confiou no SENHOR e obe-
deceu a Ele. Isso é o que chama a atenção! “O caráter de Josué
faz parte da mensagem teológica do livro. Ele é retratado como um
segundo Moisés conduzindo o povo à vitória em nome e no poder
de Javé. [...] Em justiça, sabedoria e lealdade ao Senhor, ele pare-
ce encarnar as características necessárias a todos os líderes ser-
vos. Ele é o único no Antigo Testamento a se levantar como herói
político e militar de história imaculada”.3
O papel dos líderes hoje não está divorciado do exemplo de
Josué. Hoje, a exemplo de outrora, também precisamos de líderes
dispostos a servir ao Senhor. Mais do que sua lealdade e obediên-
cia ao SENHOR, o que fica claro no comportamento de Josué é sua
dependência do Deus Todo-Poderoso. Em outras palavras, a fé
de Josué é inspiradora e nos serve de modelo, também quando
tudo parece difícil e improvável. Foi pela fé que ele aceitou e aco-
lheu as ordens de Deus, foi obediente e alcançou êxito. Tudo co-
meçou com o SENHOR, desde o seu chamamento até a sua obedi-
ência. Era um dom divino, não um prêmio pelo esforço! Os líderes
verdadeiros da igreja hoje também reconhecem sua dependência
de Deus e compreendem que todas as vitórias não são fruto de seu
esforço, mas graça, graça pura!

b) A fidelidade de Deus tornada visível com Canaã


Muito tempo antes, o SENHOR havia firmado uma aliança com
Abraão, prometendo dar a terra de Canaã a seus descendentes.
Essa promessa também foi dada a Isaque e Jacó, renovada para
Moisés e repetida para o povo de Israel quando estava no deserto,
e mais uma vez repetida quando Josué foi chamado para ser o líder
do povo. O SENHOR lutou pelo seu povo, indo até adiante dele (Js
11.20), e lhe deu a vitória.
Quando Josué descreve os limites territoriais das tribos e as
vitórias diante de povos mais numerosos e poderosos do que Isra-
el, aí está o cumprimento, mesmo parcial, da promessa do SENHOR.
Mesmo que uma parte da terra ainda não havia sido conquistada, o
SENHOR orientou o povo a distribuir a terra herdada (Js 13.7).
Deus cumpre a sua promessa (Js 21.45) e mostra sua fidelidade,
libertando o povo da escravidão no Egito, sustentando o povo no

3
William S. Lasor, David A. Hubbard e Frederic W. Bush, Introdução ao Antigo Testamento,
1999, p. 153.

127
IGREJA LUTERANA

deserto, dando-lhes a vitória batalha a batalha e agora dando-lhes


a terra de Canaã. A fidelidade de Deus é a causa de tantas vezes
os profetas conclamarem o povo a voltar para o seu Deus.
Especificamente aqui, Canaã é o sinal visível de fidelidade de
Deus à sua palavra, de uma lealdade cujo reflexo tinha de ser a
conduta fiel do povo eleito. Então, o estabelecimento do povo em
Canaã não é uma mera conquista humana, mas um dom que Israel
recebe do Senhor. Cumpria ao povo enxergar isso, crer no seu Deus
e ser fiel a Ele, pois, de outra parte, o SENHOR já dera provas de
sua incansável fidelidade.
Recebendo tamanha graça, o povo pôde, enfim, descansar. “E a
terra repousou da guerra” quer justamente lembrar que Deus havia
cumprido sua promessa. Agora não seria mais preciso lutar – ape-
nas desfrutar! Por quê? Porque Deus havia sido fiel! Nós, um dia,
também vamos poder “repousar da guerra”, quando nossa peregri-
nação e luta até chegarmos na Canaã celeste cessar. Então pode-
remos descansar e não mais lutar. Por quê? Porque Deus é fiel e
cumpre suas promessas! Descansemos, hoje já, em suas promes-
sas e certezas.

c) O porquê do extermínio dos cananeus e outros povos


Nas conquistas de Jericó, Ai, Hazor e outras, Josué registra que
os israelitas exterminaram completamente os habitantes, conforme
o mandamento do próprio SENHOR. Precisa ser enfatizado aqui que
a responsabilidade desta medida extrema ficava com Deus mais do
que com os israelitas. Freqüentemente se ouve que os israelitas
eram primitivos, quase selvagens, e que praticaram “tais atrocida-
des” por causa do atraso no seu desenvolvimento religioso. O tex-
to revela claramente que Josué estava simplesmente cumprindo
ordens divinas quando os habitantes foram exterminados. Para nós,
hoje, tal ordem divina pode parecer ofensiva e até ultrajante. Mas
qual o porquê dessa ordem de exterminar tais povos? Há basica-
mente duas razões:4
1) Aos olhos do SENHOR, os cananeus e os outros povos, com
sua cultura e religião, eram pecadores extremamente maus, come-
tendo não apenas abominações contra Deus, mas também tentado
seduzir Israel para que os acompanhassem nesses atos “religio-
sos”. Politeísmo, prostituição religiosa, sacrifício de crianças e ou-
tros aspectos dessa religião não eram tolerados pelo Santo Deus.
Por isso, esses povos mereciam punição.

4
Extraídas de Lasor, Hubbard e Bush, op. cit., p. 159.

128
DÉCIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

2) Além disso, a pureza da religião israelita tinha de ser preser-


vada. Aqui, Deus estava, na verdade, prestando um serviço, um
favor, ao seu povo. Os atrativos sensuais da religião cananéia im-
punham uma séria ameaça ao povo de Deus. Assim como um médi-
co não pensa duas vezes em remover um braço ou uma perna
quando a vida está em jogo, assim a própria existência de Israel (e,
em última análise, a salvação do mundo) dependia desse ato enér-
gico (“bênção”) de Deus.
Em todo o caso, esse massacre em nome do SENHOR (herem)
não é um princípio permanente. Foi apenas designado por Deus
para uma situação imediata e específica, em Israel ocupar a terra
que Deus havia prometido a seus pais. Portanto, não é justo aludir
a esses extermínios para justificar uma possível “guerra santa”, por
exemplo, entre EUA e Iraque. Os israelitas não tinham, como nós
hoje temos, o Sermão do Monte (“amai vossos inimigos”). Essa
compreensão do amor precisava aguardar que o Novo Josué (Je-
sus) a tornasse conhecida em sua vida e morte.
Fica, ainda, o princípio de tudo isso: não se deixar contaminar
com práticas pagãs, nem introduzi-las no seio da igreja. Boa parte
do declínio em coisas espirituais e da apostasia que marcava a
história de Israel (no tempo dos juízes – Jz 2.20–3.4) é atribuída à
tolerância à religião depravada dos cananitas. Treva e luz não
podem andar juntas (2 Co 6.14). Por isso, manter a pureza da
palavra de Deus e práticas subordinadas a essa mesma Palavra é
um constante desafio a todos nós, que somos o Israel de Deus.

PROPOSTA DE ESTRUTURA DE SERMÃO

Tema: Uma questão de fidelidade


a) de Deus para o seu povo (a conquista de Canaã e demais
provas do Seu amor);
b) conosco para Deus (pela fé e depois em obediência à Sua
vontade).

Júlio Jandt
Barra do Garças, MT

129
IGREJA LUTERANA

DÉCIMO QUINTO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 22
Havia um só altar em Israel

Uma enorme celeuma em torno de um altar? Uma guerra civil,


fratricida, por causa de um altar? Era exatamente isto que estava
na iminência de acontecer.
O momento é muito especial na história de Israel. Coubera a
Josué assumir, em lugar de Moisés, a liderança na marcha de Israel
na ocupação da terra que Deus designara ao povo. Muito foi exigi-
do de todos. Aprenderam ao longo de muitas lutas, conflitos e
dificuldades a depender de Deus e do seu porta-voz. Tem-se a
impressão, pelas palavras de encerramento do capítulo 21, que
Israel não somente aprendera a confiar em Deus, mas, além disto,
aprenderam a se respeitar mutuamente e prezar grandemente a
unidade como povo servidor do mesmo Deus.
Tanto assim é que as tribos, cujas terras ficavam além do Jor-
dão, mesmo já tendo as suas terras asseguradas, não as ocuparam
enquanto as demais ainda não tivessem posse das suas terras em
Canaã, a oeste do Jordão. Tratava-se das tribos de Ruben, de
Gade e a meia tribo de Manassés.
Josué, então, publicamente reconhece a fidelidade destas tri-
bos como sendo fidelidade a Deus e seu porta-voz Moisés. É um
momento de profunda gratidão que Josué marca como sinal para
todos. Ao continuarem ao lado dos demais, que ainda precisavam
lutar e correr riscos de perdas de vidas, estas tribos ficaram ao
lado do seu Deus que se identifica com todas as tribos como sendo
o seu povo, um só povo. As lutas de um eram as lutas de todos. O
Deus de um era o Deus de todos. Ninguém tem vida própria sepa-
rada do seu povo e do seu Deus.
Este momento também testemunha que dificuldades não são
castigo nem esquecimento da parte de Deus. Dificuldades são es-
cola de Deus para todos e para cada um. O Apóstolo Paulo refere-
se a este fato em diferentes ocasiões. Aos romanos ele atesta:
“[...] sabendo que a tribulação produz perseverança; a perseve-
rança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm 5.3b e 4).
É verdade que Deus quer nos dar coisas boas e nos estimula a
pedirmos por elas. Entretanto o “sim” de Deus pode vir oculto e
disfarçado nas tribulações. Ou então, em dar algo inesperado. Ou

130
DÉCIMO QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

então, como no caso de Israel, o benefício recai sobre as próximas


gerações. Esta é a geração que descansou dos seus inimigos, que
viu o “outro lado” das promessas e que pode olhar para trás e
agradecer às gerações precedentes pelas grandes lições aprendi-
das e das quais agora podem viver como quem aprendeu na expe-
riência de vida.
Entretanto, as lições ainda não acabaram. É necessário ainda
aprender outra lição. Uma lição que Jesus, por várias vezes, repe-
tiu também com os seus discípulos: “Nada julgueis antes do tem-
po”.
Corre um rumor pelas cidades, “ouviram dizer” que exatamente
estas tribos da Transjordânia, tão recomendadas por Josué e pelo
sacerdote Eleazar, tinham construído um outro altar. Ora, isto para
todos só podia ter um significado: aquelas tribos estavam se sepa-
rando do povo e constituindo uma nova identidade de povo. E,
quem sabe, não estavam construindo uma nova identidade religio-
sa, ou adorando um outro deus. E o povo todo foi tirar satisfações.
Quem sabe, as tribos da Transjordânia estavam chateadas por-
que ficaram separadas das demais pelo rio Jordão, sentido-se des-
prezadas ou “dispensáveis”? Quem sabe, ao construírem um altar
para si estariam revelando que fora a contragosto que ficaram
lutando ao lado das demais tribos?
“Que infidelidade é esta?” são as palavras duras de saudação
que ouvem dos representantes de cada clã em cada tribo (v.16).
Deixaram de seguir o Senhor! São rebeldes contra Deus! Se hoje
se revoltam contra Deus, amanhã estarão revoltados contra nós!
Vocês são como Acã (Js 7.1-26) que, com a sua infidelidade, trou-
xe a desgraça sobre todos. Querem nos desgraçar junto com vo-
cês? Vocês não são melhores do que aqueles que se prostituíram
com as seguidoras de Baal que trouxeram desgraça sobre nós que
ainda sentimos hoje! (Nm 25).
As lições tinham sido aprendidas. Queriam ser fiéis a Deus. Não
tolerariam infidelidades. Infelizmente, julgaram pelo que tinham “ou-
vido dizer” e condenaram sem ouvir aqueles a quem condenavam.
O apóstolo Paulo também identifica este zelo nos judaizantes. Em
Rm 10 ele afirma: “Eles têm zelo por Deus, porém não com entendi-
mento” (2b). Zelo necessita de entendimento. Paulo aprendeu esta
mesma lição às portas de Damasco. O zelo é bonito, tem boa
aparência de piedade. Mas necessita de entendimento. Este en-
tendimento aprendemos de Jesus sempre que ele encara o zelo dos
fariseus pelo próprio cumprimento da lei e a ânsia de condenarem
os “outros”, esquecendo que “não há homem justo sobre a terra

131
IGREJA LUTERANA

que faça o bem e que não peque”. Paulo atesta com sinceridade
única: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de
agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto [...] Porque
eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem ne-
nhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo”
(Rm 7.15,18).
O zelo de querer corrigir o que se vê como errado em muitos
casos é zelo humano que esquece ou não quer pensar nas próprias
faltas. Lutero, a respeito disto, tem algumas afirmações chocan-
tes. Para deixar claro ao eleitor Frederico de que somos todos
pecadores, ele afirma que o não sentirmos a maldade, a capaci-
dade de fazer mal que existe dentro de nós, é uma das grandes
bênçãos de Deus. O “pior mal é aquele que mora dentro da pessoa.
Os males que há dentro dela são muito mais numerosos e maiores
do que aqueles que ela sente. Porque se sentisse seu mal, sentiria
o inferno”. É consolo poder dizer a si mesmo: “Ó ser humano, por
enquanto ainda não sentes teu mal (maldade). Alegra-te e sê
grato porque não és obrigado a senti-lo” (in Catorze Consolações,
Obras Selecionadas 2,17). A seriedade com que Lutero olha para
a lei fica mais evidente quando diz: “Quantas pessoas são
enforcadas, afogadas ou mortas à espada (isto é, sentenciadas
pela justiça) que talvez tenham cometido pecados muito menores
do que nós! Sua morte e miséria são colocadas diante de nós por
Cristo também como espelho no qual podemos ver o que nós
merecemos [...] Quantos milhares estão no inferno e na conde-
nação eterna que não têm a milésima parte de nossos pecados
(Id. OS, 2, 23).
Quando, em vez de julgar, tentamos ouvir o que “ouvimos di-
zer”, ou até presenciamos, com a humildade que Lutero aponta,
certamente estaremos no caminho da construção e solidificação
da unidade no corpo de Cristo e na congregação cristã.
Os representantes do povo acharam que o “outro” altar que se
podia ver era prova irrefutável para tudo que queriam julgar os
seus, até então, irmãos. Um outro altar somente poderia significar
a repetição dos grandes pecados a eles ligados, com todas as
conseqüentes infidelidades de culto e de adoração, junto com a
promiscuidade com outros povos e outros deuses.
Entretanto nada disso se comprovou. Havia outro altar? Sim,
havia. Mas não havia infidelidade, não havia idolatria, não havia
promiscuidade cúltica. Havia, pelo contrário, um ato de devoção e
de fidelidade pública para dizer que o Jordão que os separava não
fazia deles uma outra nação. Pelo contrário, queriam lembrar mais

132
DÉCIMO QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

e melhor o altar de Siló, sinal da fidelidade de culto e adoração a


Deus e de unidade como povo deste mesmo Deus.
Andar em humildade diante de Deus e do próximo também se
aprende tropeçando na própria língua quando o “ouvir dizer” vem
acompanhado de cócegas em julgar. É mais fácil ter opinião sobre
os outros do que seguir no exercício que Paulo e depois Lutero nos
propõem. Para nos ajudar, às vezes Deus permite que tropecemos
e descubramos a nossa enorme fragilidade. Esta é a estranha
pedagogia de Deus, segundo Lutero: Permitir que sejamos afligidos
em tempo pelos males, quando Deus às vezes até é visto como
tendo se esquecido de nós. Mas é exatamente aí que Deus nos faz
tomar vias nas encruzilhadas da vida que nos levem à maior felici-
dade.
E quando, então, Deus permite que o outro caia, Deus olha para
nós e espera que tenhamos aprendido sua lição de amor.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

133
IGREJA LUTERANA

DÉCIMO SEXTO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 23

Um só homem entre vós perseguirá mil (deles),


pois o Senhor, vosso Deus, é quem peleja por vós,
como já vos prometeu (v.10)

“Já sou velho e entrado em dias”. Custa muito ao ser humano


aceitar o fato de que o seu tempo tem limitadores. Há sinais exter-
nos e internos que levam a dizer: O meu tempo já passou. Tempo
de quê?
Josué deve ter parecido ingênuo quando contrariou toda a gri-
taria do povo de Israel que se apavorara com o relatório dos de-
mais espias, impressionados com o poderio aparente dos habitan-
tes de Canaã. “Não temais o povo desta terra, porque como pão
os podemos devorar” (Nm 14.9) opõe-se Josué ao clamor geral.
Pode ter parecido ingênuo aos olhos de todos. Entretanto, Isra-
el estava fazendo o que a humanidade repete, no geral e no parti-
cular, freqüentemente. O perigo próximo sempre parece maior e
mais temível do que o perigo distante. De um lado, o Egito, distan-
te. De outro, Canaã, próxima. Enquanto o ser humano pensa e
decide com a sua cabeça e com os seus próprios sentimentos, a
reação é nunca enfrentar nada. Fugir sempre para as promessas
que parecem soluções, mas que nada mais são do que fuga da
palavra de Deus.
Mas quando o desespero começa a falar mais alto do que o bom
senso, ou quando o bom senso parece não deixar alternativa ao
desespero, então é tempo de crer. Quem disse que o caminho é
Canaã? Quem disse que o caminho é o Egito? Fé e desespero estão
intimamente ligados. “Quando sou fraco, então é que sou forte”,
registra o apóstolo Paulo. Pessoas que nada mais têm para mostrar
do que uma promessa. Agarrados à promessa peregrinam neste
mundo como quem nada mais espera do que a promessa ao final da
jornada. Pelo autor aos Hebreus, Deus confirma: “Foram apedre-
jados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada;
andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras,
necessitados, afligidos, maltratados, errantes pelos desertos, pe-
los montes, pelas covas, pelos antros da terra” (11. 37,38).
Meu tempo de apontar para cima e para a palavra da promessa,

134
DÉCIMO SEXTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

o meu tempo de vos dizer: “Confiem”, este tempo está chegando


ao fim, constata Josué. Mas o povo continua. Josué lembra como o
povo prefere fazer opções. Nós não merecemos este destino. Nós
não podemos ser atingidos por nenhuma desgraça. Não somos nós
o povo de Deus? Esta visão unilateral, míope, da relação que Deus
estabelece com o povo que ele chama de seu tem sido a tentação
mais permanente ao longo da existência da igreja de Deus. Estar
com Deus é estar livre de todo e qualquer sofrimento e ameaça, é
o que se propaga também hoje como sendo evangelho.
Uma palavra de Deus capenga esta que vê somente a promes-
sa. Ela ignora o que diz a Lei de Deus. “Visto nada merecermos
senão castigo” é o que Lutero ensina ao pai de família que ensine
em sua casa sobre aquilo que somos aos olhos de Deus. O que livra
o crente no desespero da sua condição humana é somente uma
promessa e a possibilidade de que Deus realmente está disposto
favoravelmente a acolher o pecador.
Josué nada mais tinha para mostrar do que a sua palavra, o seu
testemunho de confiança na promessa. E o que leva a isto é a
absoluta consciência de que pessoalmente e como povo, nada
merecemos. Deus dá e Deus tira. Deus não necessita dar motivos
para dar ou parar tirar. No caso de Israel, Deus até explica didati-
camente: “Por dez vezes me puseram à prova” ( isto é, duvidaram
de mim com atos de revolta), “nenhum deles verá a terra que, com
juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles que me
desprezaram a verá” (Nm 14.22,23).
Tudo o que somos ou deixamos de ser, tudo que se ganha ou
perde, pertence a Deus dar ou tirar, “visto nada merecermos”.
Persistir na promessa quando tudo e todos gritam que é hora de
revisar os conceitos da fé, é disto que fala o autor de Hebreus.
Esta dimensão de fé somente é revelada na experiência dos gran-
des traumas da vida.
De uma forma ou de outra, todos, em momentos especiais da
vida, fazem a experiência da fé em meio ao desespero. Lutero
chama isto de a bênção de Deus em disfarce. Ao permitir que males
nos atinjam, Deus atinge o nosso orgulho e soberba e impede que
eles queiram ser a nossa fé, ocupando o lugar dela com orações
como a do fariseu no templo. Se não é Jesus a dizer que o fariseu
não desceu justificado para casa, dificilmente detectamos naquela
oração algo além de uma ação de graças pelas bênçãos recebidas.
O que lhe faltava era a experiência da rejeição e do sofrimento.
Destes ele fugia na medida em que se afastava dos pecadores e
dos perdidos como aquele publicano.

135
IGREJA LUTERANA

Enfrentar mil inimigos não é expressão de uma teologia da gló-


ria. É encarar uma multidão raivosa e irada, pronta a matar, que se
atreve a contrariá-la e dizer um absurdo como este: “Cada um de
nós pode encarar mil daqueles homens de Canaã”.
Este Josué agora se despede: “Já sou velho e entrado em dias”.
Para Josué nada mudou desde o dia em que enfrentara a multidão
com palavras de uma fé que se mostrava ingênua, irreal, quem
sabe, no dizer de Paulo, “louca”. “O Senhor expulsou de diante de
vós grandes e fortes nações [...] ninguém vos resistiu até hoje”.
Na sua fé Josué aprendeu a ver a vida pelo avesso. Tendo em
vista que “nada merecemos de Deus, senão castigo” (Lutero), como
explicar que a cada dia acordamos cercados de coisas boas? Apren-
damos a olhar ao nosso redor com esta perspectiva. Nada merece-
mos. Então, quais coisas que me cercam, desde os bens até as
pessoas, que são minhas de direito? Tenho feito por merecer o
carinho e atenção, a fidelidade com que sou tratado?
Não devo agradecer a Deus também pelos sofrimentos e pelas
limitações que se interpõem entre os meus sonhos e a minha reali-
dade? Não servem eles ao propósito de me manter ocupado exa-
tamente com aquilo que Deus me dá para estar ocupado?
Porque Deus, segundo Josué, cumpriu em nossas vidas e conti-
nua cumprindo cada uma de suas promessas. Daí nasce o sincero
desejo e convite: Permaneçam na aliança e recebam com gratidão
tudo o que o Senhor designar para a vossa vida. Tenham olhos da
fé para ver que nada acontece por acaso ou sorte. A mão de Deus
conduz os nossos caminhos, mesmo que a nossa razão e nossos
sentimentos queiram e, por vezes, gritem de revolta.
“Já sou velho e entrado em dias”, diz Josué. Uma geração inteira
sucumbiu porque não quis confiar no Senhor. Que a nova geração
tenha aprendido a distinguir a mão do Senhor em cada
acontecimento, por menor e de menos importância que possa pa-
recer.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

136
DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO
APÓS PENTECOSTES
JOSUÉ 24

O testemunho final de um líder do povo de Deus

CONTEXTO HISTÓRICO

Josué, filho de Num (um israelita da tribo de José, a meia-tribo de


Efraim), nasceu no Egito e era jovem na época do Êxodo (Êx 33.11).
Seu nome era Oséias, mas Moisés o chamou de Jesua ou Josué (Javé
é a salvação) quando o mandou com outros a reconhecer a terra de
Canaã. As referências bíblicas apontam sua entrada no cenário bíbli-
co na primeira menção de Josué em Êxodo 17.9 como chefe do
exército israelita e íntimo colaborador de Moisés. Aliás, pouco depois
é chamado de “servidor [auxiliar] de Moisés” (Êx 24.13; Nm 11.28;
Dt 1.38), com quem subiu o Monte Sinai. Sabemos também que,
quando o grande profeta entrava no tabernáculo para falar com
Deus “face a face, como qualquer fala a seu amigo; então, voltava
Moisés para o arraial, porém o moço Josué, seu servidor, filho de
Num, não se apartava da tenda” (Êx 33.11).
Valente na guerra, penetrante e sábio no conselho, também
utilizava a palavra com eloqüência, e por isso ele tinha fixado a
atenção de Moisés. Foi eleito para continuar a obra deste outro
grande homem e líder, e sustentou a honra de tal escolha pela
firmeza de seu caráter e heroísmo de sua fidelidade.
Auxiliar e, depois, sucessor de Moisés (Êx 17.8-13; Dt 31.1-8),
Josué comandou a travessia do rio Jordão (Js 3) e tomou Jericó (Js
6). Conquistou a terra de Canaã e a dividiu entre as tribos de Israel
(Js 8-21).
No capítulo 24, Josué se despede do povo. Aqui temos o regis-
tro da despedida e da morte deste líder do povo de Deus. A narra-
tiva relata a história de Israel desde a travessia do Rio Jordão feita
pelo exército de Josué, até que ele se retira do cenário, proferindo
um discurso de despedida cuja estrutura traz um resumo histórico
com as seguintes etapas: a eleição dos patriarcas (vv. 2-4); a
saída do Egito (vv. 5-7) e a entrada do povo de Israel em Canaã, a
Terra Prometida (vv. 8-13). Desta maneira, Josué relembra as ações
de Deus em favor do seu povo com vistas a despertar neles uma
fidelidade sem igual ao seu único e verdadeiro Senhor Deus. Um
compromisso público foi feito no qual os líderes asseguravam a

137
IGREJA LUTERANA

Josué de que serviriam ao Senhor. Após abençoar o povo e renovar


a aliança com Deus, Josué morreu com a idade de 110 anos (Js
24). Após sua morte, Israel cumpriu de fato a promessa de servir a
Deus somente enquanto vivia a geração mais antiga.
Os eventos registrados em Juízes estão intimamente ligados
aos acontecimentos ocorridos durante a vida de Josué. Os cana-
neus ainda não haviam sido desalojados e a ocupação por Israel
também não havia se completado, por isso prosseguiram as guer-
ras, enquanto áreas ou cidades locais eram reocupadas no decor-
rer do tempo. Os livros bíblicos de Josué e Juízes estão bem relaci-
onados cronologicamente, sendo assim, é possível que sejam até
simultâneos.

TEXTO: MEDITAÇÃO PRÁTICA

O exemplo de Josué marcou profundamente o povo de Israel,


mesmo depois de sua morte. A geração posterior de líderes, que
também participou das experiências de vida com o serviço a Deus,
continuou o trabalho iniciado por Josué e o povo permaneceu ser-
vindo ao Senhor, ao menos em seu tempo. Josué deixou-lhes uma
herança “incorruptível”. Além de um belo exemplo de vida e lideran-
ça, fez com que o povo permanecesse fiel ao Senhor. No seu dis-
curso final em Siquém1 relembrou os grandes feitos de Deus pelos
que lhe pertencem pela fé. O livro Introdução ao Antigo Testamen-
to de William S. Lasor et alii, apropriadamente destaca:

O caráter de Josué faz parte da mensagem teológica do


livro. Ele é retratado como um segundo Moisés conduzindo
o povo à vitória em nome e no poder de Javé, como um
protótipo de um reinado ideal em Israel. Em justiça, sabe-
doria e lealdade ao Senhor, ele parece encarnar as
características necessárias a todos os líderes servos. Ele é
o único no Antigo Testamento a se levantar como herói
político e militar de história imaculada.2

A Carta aos Hebreus 13.7 diz: “Lembrai-vos dos vossos guias,

1
[Ombro] Cidade, hoje chamada de Nablus, situada na Samaria, entre os montes Gerizim
e Ebal, 64 km ao norte de Jerusalém, onde havia um santuário ligado à história dos
patriarcas (Gn 12.6-7; 33.18-20; Js 24.32; Jz 9; 1Rs 12.25)
2
LASOR, William et alii. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999. p.
153

138
DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando aten-


tamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram”. Exemplos de
vida e liderança como o de Josué precisam ser constantemente
lembrados e considerados, pois são referenciais para a igreja do
Senhor hoje. Além de Josué, o capítulo 24.29-33 também faz
referências ao fim de José, filho e sucessor de Jacó, e de Eleazar,
filho e sucessor de Arão, homens (guias espirituais) que pregaram
fielmente a palavra Deus. Assim, o autor de Hebreus nos convida
“a [1] considerar atentamente o fim da sua vida” e a [2] imitar “a
fé que tiveram”.
Neste intuito, vale lembrar e destacar detalhes acerca do fim
da vida de Josué, especialmente nas palavras finais de exortação
ao povo de Deus. A motivação de Josué para as suas grandes
conquistas consistia na memória dos grandes feitos de Deus pelo
povo de Israel. Ele destaca as diversas intervenções de Deus na
história por ele próprio experimentado e vivenciado. Assim, Israel é
enviado ao mundo para testemunhar. Na primeira exortação apela à
lembrança de como Deus cumpriu a sua palavra e os conduziu à
Terra Prometida. Javé sempre esteve com eles, mesmo nas bata-
lhas. Assim, a resposta do povo era traduzida em obediência, su-
jeição e fidelidade. Eram sempre encorajados a enfrentar o futuro.
Na segunda exortação, Josué lembra a fidelidade de Deus no cha-
mado de Abraão, na libertação do Egito, a vitória dos amorreus, o
plano frustrado de Balaão, a travessia do Jordão, a tomada de
Jericó e, não obstante, o fim dos cananeus. A intervenção divina é
“bênção sobre bênção”!
Imitar a fé destes gloriosos antepassados significa obedecer,
servir e se manter fiel a Deus. É reconhecer que Deus intervém
hoje na nossa história com seus atos poderosos. Assim, ao con-
templar tais feitos, como povo que pertence ao Senhor hoje, po-
demos dizer que “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre”
(Hb 13.8). Vivenciar esta fé é testemunhar a luz que se revelou
para a glória povo de Israel e aos não-judeus. Imitar a fé dos pais
é perseverar na confiança em Deus mesmo em meio às batalhas
sempre com vistas à conquista da vitória. Sejamos, assim, bons
imitadores.
A meditação prática se resume nisto: em lembrar os grandes
feitos (intervenções) de Deus na história do seu povo e, conse-
qüentemente, também na nossa história.

139
IGREJA LUTERANA

POSSIBILIDADES DE USO HOMILÉTICO


Precisamos despertar em nossos líderes da igreja que hoje
podemos descortinar novos horizontes maiores do que os avista-
dos pelos gigantes do passado se nos colocarmos em pé sobre
seus ombros. Temos uma série de exemplos bíblicos, dentre as
quais o exemplo de Josué, para uma liderança eficaz, atuante e
determinada. Líderes inspiram líderes. A própria história de Josué
e o seu fim glorioso nos inspiram a conduzirmos o trabalho da
igreja com esmero, obediência, dedicação e fidelidade. Foi-nos
outorgado um legado precioso que precisamos administrar fielmente
a fim de que muitas pessoas conheçam Jesus Cristo, seu amor e
salvação.
As sugestões abaixo precisam levar em consideração como fio
condutor a intervenção de Deus na história, pessoas que se
destacaram como líderes – instrumentos na mão de Deus – como
Josué e o envio do povo de Deus ao mundo para testemunho.
A primeira sugestão de possibilidade homilética seria de relem-
brar, resumidamente, destacando os principais feitos de Deus na
Bíblia (a história da salvação), na história, na trajetória de uma
paróquia ou congregação, ou mesmo na vida de uma ou mais pes-
soas através de testemunhos, relacionando-os, assim, ao discurso
de Josué.
A segunda sugestão de possibilidade homilética é a de trabalhar
diretamente a partir do discurso final de Josué, a partir da estrutu-
ra do mesmo.
A terceira sugestão é a de levar junto de si ao púlpito e mostrar
uma lápide3, placa ou epígrafe que relembre/resgate parte da his-
tória de alguma igreja ou de algum líder referencial (ver Js 24.26-
28).
Dentro desta última idéia mesmo, confeccionar uma espécie de
“epígrafe” (computador ajuda) de Josué conforme descrita em Js
24.31:

“Serviu, pois, Israel ao SENHOR todos os dias de Josué


e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por
muito tempo depois de Josué e que sabiam todas as obras
feitas pelo SENHOR a Israel.”

3
(cf. Dicionário Houaiss) 1) pedra com inscrição que comemora um fato ou que celebra a
memória de alguém; 2) laje que cobre o túmulo.

140
DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

O exemplo de Josué marcou profundamente o povo de Israel,


mesmo após a sua morte. A geração posterior de líderes, que tam-
bém participou das experiências de vida com o serviço a Deus,
continuou o trabalho iniciado por Josué e o povo permaneceu ser-
vindo ao Senhor. A reflexão seria em torno da temática: “Qual seria
a escrita da epígrafe da nossa vida?” ou ainda: “Qual a ‘herança’
deixada ao nosso povo e sucessores?”

PROPOSTA DE ESTRUTURA DE SERMÃO (cf. Bíblia Ed. Revista e


Atualizada)
Josué 24.14: “A exemplo de Josué e do povo de Israel: sirvamos
a Javé”:
1. Com temor (Js 24.14a);
2. Com integridade (Js 24.14b);
3. Com fidelidade (Js 24.17c).
Josué 24.15b: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor!”
1. “Porque o Senhor é o nosso Deus” (Js 24.17a);
2. Porque Ele fez “grandes sinais aos nossos olhos” (Js 24.17b);
3. Porque Ele “nos guardou por todo o caminho que andamos”
(Js 24.17c).
Josué 24: “Miremo-nos nos exemplos de Josué e do povo de
Israel”
1. “Que serviram ao Senhor todos os dias” (Js 24.31a);
2. Que deixaram bons exemplos aos sucessores (Js 24.31b);
3. “Que sabiam todas as obras feitas pelo Senhor” (Js 24.31c).

Wanderley Maycon Lange


Balneário Camboriú, SC

141
IGREJA LUTERANA

DÉCIMO OITAVO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JUÍZES 2

“Outra geração se levantou [...] que não conhecia


o Senhor” (v. 10).

CONTEXTO

As tribos de Israel, sob a liderança de Josué, ocuparam a terra


que Javé prometera a Abraão (Gn 12.1ss). Mas o processo de
ocupação foi doloroso. Esse período em que as tribos de Israel
aprendem a conviver e precisam lidar com vizinhos indiferentes e
até mesmo hostis é conhecido como “Período dos Juízes”. Durou
cerca de 200 anos. A história é contada no livro de Juízes.
Depois de descrever a situação política e religiosa da época
(1.1-2,5), narra-se a história dos seis Juízes Maiores e dos seis
Juízes Menores. Originariamente o verbo safat significava “resolver
uma contenda entre dois oponentes”. Já que tal decisão indicava
quem estava certo e quem estava errado, safat significa “defender
o direito de alguém”, “condenar alguém”. Vale lembrar que o termo
“juiz” não se trata do mesmo juiz das nossas sociedades modernas.
Não era uma magistratura fixa, nem uma função permanente. Sob
a pressão das circunstâncias, os juízes eram indicados por Javé
por um determinado tempo.

“OUTRA GERAÇÃO SE LEVANTOU [...] QUE NÃO CONHECIA


O SENHOR” (V. 10)

O texto de Juízes, capítulo 2, manifesta a problemática central


dessa época: os israelitas se esqueceram das obras grandiosas de
Javé em favor do seu povo. Trocaram Javé pelas divindades
cananéias. Quando da ocupação da terra, a ordem do anjo ao povo
era clara: “Não fareis aliança com os moradores desta terra; an-
tes, derribareis os seus altares” (Jz 2.2). Mas o povo não obede-
ceu: “Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e
outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor,
nem tampouco as obras que fizera a Israel” (Jz 2.10).
É interessante que o texto fala em “geração que não conhecia
o Senhor”. Será que podemos também falar assim hoje? Nossa

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DÉCIMO OITAVO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

geração não conhece o Senhor? Richard Dawkins, considerado o


papa do ateísmo, lançou um livro com o título The God Delusion
(Uma ilusão chamada Deus). O autor da obra afirma categorica-
mente que Deus é uma grande ilusão. Este livro é apenas um entre
os muitos que compõem os novos armamentos da guerrilha ateísta
que visa acabar definitivamente com a idéia de Deus. O assunto
virou até capa da revista Época e da revista americana Times.
Outro dia li uma pesquisa sobre comportamento religioso. Eis aí
uma das conclusões da pesquisa: “O número de jovens brasileiros
na faixa etária entre 15 a 24 anos sem religião está aumentando
cada vez mais. Hoje, eles são 10% da população jovem”.
Nossa geração se esqueceu de Deus? A resposta não é tão
simples, mas uma coisa é certa: as sociedades técnico-científicas
do nosso tempo baniram Deus de seus pensamentos e possibilida-
des. Contudo, uma pergunta mais urgente se faz: Onde está o
povo de Deus que vive nas sociedades contemporâneas? Onde
está a geração que conhece a Deus? Onde estão os cristãos de
hoje? Mais do que culpar nossa sociedade técnico-científica, é
preciso olhar para nós mesmos, cristãos: Que testemunhas estamos
sendo de Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da Histó-
ria?
É engraçado que a palavrinha “testemunha” vem do grego
martyria. Daí vem mártir, martírio. Ser testemunha de Jesus hoje
significa ser mártir em meio a uma geração perversa. Estamos no
mundo, mas não somos do mundo (1 Jo 2.15-17). Estamos no
mundo para interferir positivamente, contudo o mundo tem influen-
ciado as igrejas negativamente. Temos nos colocado em pé de
igualdade com o mundo. Barateamos o ser cristão no Ocidente.
Barateamos a prática do Batismo e da Ceia. Barateamos a prática
do ensino confirmatório. E o resultado? Igrejas amorfas, letárgicas
de um lado. E do outro, Igrejas que apelam para um discurso
emocionalista e curandeirista que passa bem longe da teologia cris-
tã. Assim fica difícil impactar o mundo como acontecia com a igreja
primitiva (At 8.4).
Precisamos fazer o retorno fundamental à Bíblia e nela seu con-
teúdo essencial: Jesus. E sobre este Jesus, a nossa geração cristã
do século XXI deve lembrar das palavras de Pedro e João no livro
de Atos: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e
ouvimos” (At 4.20). E lá está ele convocando-nos ao discipulado:
“Vem e segue-me”. “Vai andando atrás de mim! Eis tudo. Segui-lo,
eis uma coisa sem conteúdo. Isso de fato não constitui um progra-
ma de vida cuja realização fizesse sentido; não é um objetivo, um

143
IGREJA LUTERANA

ideal pelo qual se deva lutar; nem é algo que, pelos padrões huma-
nos, mereça o sacrifício de qualquer coisa ou de nós próprios. E
que acontece? O homem que foi chamado, larga tudo quanto tem,
não para fazer algo que se revista de valor especial, mas simples-
mente por causa daquele chamado, por, de outro modo, não poder
seguir os passos de Jesus... O discípulo é arrancado de sua relativa
segurança de vida e lançado à incerteza (isto é, na verdade, para
a absoluta segurança e proteção da comunhão com Jesus); de
uma situação previsível e calculável (isto é, de uma situação total-
mente imprevisível) para dentro do imprevisível e fortuito (na ver-
dade, para dentro do que é unicamente necessário e previsível);
do domínio das possibilidades finitas (isto é, na realidade as possi-
bilidades infinitas) para o domínio das possibilidade infinitas (isto é,
para a única realidade libertadora)” (Dietrich Bonhoeffer).
Por outro lado, o cristão que experimenta servir melhor a Jesus,
seu Salvador, está sempre consciente - sem arranjar nisso descul-
pa ou escusa – de ser aquele que falha, aquele que fica atrás em
relação aos dez mandamentos e ao resumo da lei: Ama a Deus
acima de todas as coisas e o próximo com a ti mesmo (Rm 13.8-9).
Assim, ser testemunha, discípulo de Jesus hoje, ser a geração que
conhece a Deus também implica naquele reconhecimento de que
estamos sempre envolvidos pelo amor de Deus que nos amou sem
limites em Seu Filho Jesus. Implica ter sempre consciência de ser
pecador, mas que sempre de novo “sai sempre de sua própria falha
e se volta para o que lhe está adiante” (Fp 3.12-16). Envolvido
pela graça de Deus, o cristão sabe-se escravo e liberto que sem-
pre se deve refugiar na graça de Deus. É sempre aquele que jamais
faz cálculos perante Deus, mas, pelo contrário, entrega a Deus e à
sua graça todo cálculo, todo esforço, toda provação que se lhe
imponha. É sempre aquele simul justus et peccator, como diziam
Agostinho e Lutero.

Gelson Neri Bourckhardt


Uberlândia, MG

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DÉCIMO NONO DOMINGO
APÓS PENTECOSTES
JUÍZES 5

APONTAMENTOS EXEGÉTICOS (GRAMATICAIS E LÓGICOS)

Juízes é o texto por excelência da Teocracia, isto é, a forma


como Deus quer que seu povo seja conduzido depois de liberto do
Egito. A forma de Deus “governar” e “conduzir” o seu povo é ca-
racterizada por líderes que surgem para situações específicas de
seu povo e para libertá-lo da opressão sofrida.
Os grandes temas do livro estão circunscritos a um aparente
ciclo em Israel: fidelidade, infidelidade, ira divina e arrependimento
do povo. Dentro desta perspectiva cíclica, Deus tem falado ao seu
povo, utilizando-se de seus “guias”, os juízes.
O cântico de Débora é a parte final deste ciclo em mais um
momento da história de Israel. A descrição do que acontece com
Israel começa no capítulo 4. A opressão sobre Israel já dura 20
anos (v.3). Débora “julgava o povo naquela época” (v.4). Ela con-
voca Baraque para que conduza a libertação do povo (v. 6).
O poema cântico de Débora pode ser dividido nas seguintes
partes: a introdução, vv. 2-5, na qual são dadas glórias a Deus
pela salvação; nos vv. 6-8 temos a descrição da situação de opressão
do povo; o poema segue convidando a todos para glorificar o nome
de Deus porque o mal já deixou de existir, nos vv. 9-11; a forma
como ocorreu a vitória e quem são os vitoriosos é narrado nos vv.
12-23; o destino final dos inimigos e o reinado de Deus em meio ao
seu povo é descrito nos vv. 24-31.

APONTAMENTOS HOMILÉTICOS (RETÓRICOS)

Uma das situações mais constrangedoras para o pregador é


anunciar a obra de Deus no domingo e na segunda perceber que
aquilo não parece fazer sentido na vida de seu povo. É nesta linha
que conduzo as reflexões homiléticas para esta perícope.
Diferente do período dos Reis, os Juízes como anunciadores da
obra de Deus foram circunstanciais na vida de Israel. Assim tam-
bém é o ministério pastoral. Ele precisa estar presente na vida das
pessoas quando há necessidade. A institucionalização do ministé-
rio pode ser mais fácil na administração, mas não se pode perder

145
IGREJA LUTERANA

de vista as circunstâncias da vida que exigem do ministério proxi-


midade de seu povo.
A poesia como manifestação artística (aliás, há muitos exem-
plos desta atividade no texto bíblico: Êx 15; Nm 21; Dt 32) é uma
das belas formas de glorificar a Deus e dizer como Débora disse:
“os que te amam brilham como o sol quando se levanta no seu
esplendor” (v.31).
A teologia luterana tem seu proprium nesta dimensão circuns-
tancial (e não institucional). O povo de Deus é identificado na sua
caminhada rumo à eternidade e não tanto num determinismo naci-
onal (uma vez cristão, sempre cristão). A dimensão do simultanea-
mente justo e pecador transparece no poema e que precisa ser
ampliado para que no final possa se dar glórias a Deus como Débora
o fez.
O ministério, a forma de Deus comunicar sua vontade para o
povo oprimido pelo pecado, tempera e ilumina (Sermão do Monte).
Assim são os Juízes – eles se levantam para proclamar a mão
vitoriosa de Deus sobre seus inimigos. Portanto, temos diante de
nós um belo texto para refletirmos sobre o papel do ministério, o
conteúdo do seu anúncio, os resultados esperados (mesmo que
circunstanciais) e o desafio de repetidamente retomar o anúncio.

Clóvis Jair Prunzel


São Leopoldo, RS

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VIGÉSIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES
JUÍZES 6

O que é feito de todas as suas maravilhas


que os pais nos contaram?

Israel foi estabelecido em Canaã no ministério de Josué. Juízes


descreve a vida de Israel na terra prometida, desde a morte de
Josué até o início da monarquia. Muitas promessas que Deus fez
aos patriarcas, aos pais, no deserto, se cumpriram. Agora Israel
podia descansar na terra que Deus providenciou. Deus havia dado
muitas maravilhas ao seu povo. Talvez por estar inseguro religiosa
e politicamente sobre questões na formação da nação, Israel se
esquecia dos atos de Deus em seu favor. Isso fazia a nação cair em
constante idolatria e nas mãos das nações vizinhas. O círculo vici-
oso em Juízes - desobediência e apostasia, opressão estrangeira
como meio de chamar a atenção de Israel, o sofrimento e a agonia,
a salvação e o livramento gracioso de Deus – contrasta a infideli-
dade de Israel com a fidelidade e misericórdia de Deus à sua alian-
ça, renovada a cada patriarca e nos momentos históricos impor-
tantes de Israel. Estes dias são descritos assim: “Naqueles dias
[...] cada qual fazia o que achava mais reto” (Jz 17.6). Adorava-
se Baal por um lado e, por outro, Deus governava o povo de sua
aliança com sua graça.
Israel fez novamente escolhas ruins. Deus o entrega nas mãos
dos midianitas por sete anos (1). Neste momento, até o sustento
de Israel precisa ser escondido em covas nos montes dos midianistas.
Israel, novamente debilitado, pede a Deus o livramento. Deus cha-
ma Gideão (11) que, na dúvida, diz: “Ai, senhor meu! Se o SENHOR
é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas
as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não
nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém, agora, o SENHOR nos
desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas” (13,14).
Gideão, com receio, argumenta ser o mais pobre da tribo (15), tem
seu chamado atestado por um milagre (21-24), destrói o altar de
Baal e constrói um dedicado a Deus (25-27). Ainda temeroso antes
da guerra, conversa com Deus, recebendo duas confirmações de
que foi chamado por Deus (36-40); por fim, lidera o exército e
vence os midianitas. Deus tem muita paciência e, em sua miseri-
córdia, sempre confirma suas promessas em meio ao caos e à
descrença.

147
IGREJA LUTERANA

Nos acontecimentos envolvendo Gideão, a graça de Deus é


evidente da seguinte forma: foi por meio da misericórdia de Deus
que Israel não foi absorvido pelas nações pagãs. O mesmo vale
para nós: não fomos consumidos porque Jesus nos resgatou. Os
juízes, como libertadores políticos e religiosos, prefiguram Jesus
como Salvador e Conselheiro do seu povo. Jesus como “juiz” aqui é
o Libertador e Salvador na primeira vinda, ao mesmo tempo, o Juiz
que julga os vivos e os mortos da segunda vinda. É importante
observar que “maravilhas” pode ser entendido também como “ação
sacramental” de Deus em favor do seu povo (cf. Mt 21.15) e não
só do ponto de vista “teofânico”, pois o termo em hebraico e em
grego na Septuaginta nos fornece essa possibilidade.

NO DESESPERO, AGONIA E QUASE ABANDONANDO TUDO ...

I. Não perca de vista a Palavra e o Espírito Santo...


A. Concedido
1. no Santo Batismo que nos tornou filhos de Deus;
2. na pregação da Palavra do doce Evangelho concedido em
Cristo, que nos recebeu e perdoa tudo que incomoda nossa cons-
ciência;
3. na Ceia que nos fortalece a fé, renova santidade, concede
vida e antecipa a comunhão celestial.
B. Quando conversamos sobre as coisas terrenas da igreja,
pois nossa pecaminosidade
1. gosta de julgar a “igreja”, irmãos, líderes, pastores e etc.
a. e depois esperar que nossos filhos, amigos, e os que estão
na dúvida permaneçam na igreja;
b. que consigam ver as maravilhas de Deus que os pais contaram.
2. Deseja uma igreja e estrutura
a. que concorde com nossas obras e pensamentos - que nos dê
o que pensamos ser melhor para nossas vidas;
b. que não nos comprometa.
3. Gosta de pensar que estamos prontos e não temos mais o
que aprender, assim,
a. nos encontramos com corações frios, fechados, sem nenhu-
ma necessidade de aprender;
b. sobrando muito pouco espaço para Deus agir com seu mara-
vilhoso Evangelho – esse mesmo que os pais nos contaram.
II. Não se precipite, pensando que não somos abençoados
em nossa igreja

148
VIGÉSIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

A. Faça o caminho de volta,


1. até a escola bíblica – lembram dos momentos com Jesus,
outras crianças e professor (a);
2. até a instrução e juventude – lembra desses dias?
3. até as leituras bíblicas nos cultos, estudos e vida devocional.
B. Retorne às maravilhas que os pais - mesmo que com suas
limitações - lhe contaram e ensinaram
1. encarar a realidade e ver as coisas como elas são nos desa-
fios da vida adulta;
2. Relacionar nossa fé com o mundo, com os dons, com os
talentos e com os papéis que Jesus nos chamou e nos concedeu.

O QUE É FEITO DAS MARAVILHAS – O EVANGELHO – QUE OS


PAIS NOS CONTARAM?

III. Na dúvida, converse com Deus, seu amigo misericor-


dioso – lembra quem morreu por você e não leva seus peca-
dos em conta?
A. Deus não é impassível, indiferente e distante aos seus sofri-
mentos e dúvidas
1. muita aflição nossa resulta do erro de julgarmos o poder de
Deus e valorizar as humanas;
2. muito de nossa esterilidade vem do “calar” a voz de Cristo –
o seu gracioso Evangelho.
B. Deus sempre confirma suas promessas em meio a nossas
incertezas e dúvidas
1. como fez com Gideão (6.21-24; 36-40);
2. como tem feito conosco, que apesar de nós e nossa dureza,
sempre mostra que não fomos consumidos porque Jesus nos resga-
tou.

José Aragão da Silva


Guará II - Brasília, DF

149
IGREJA LUTERANA

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JUÍZES 8

Gideão, de herói escolhido por Deus a vilão (7.2,9 e 8.27)

CONTEXTO

O povo de Israel, afastado de Deus, estava dominado pelos


midianitas. O Anjo do Senhor apresenta-se a Gideão convocando-o
para lutar por Israel. Gideão derruba um altar a Baal em Ofra e
passa a ser chamado “Jerubaal” (6.32).
Vê-se novamente o constante cuidado de Deus em tirar seu
povo da idolatria e a vitória militar mostraria ao povo o poder do
verdadeiro e único Deus.
Gideão é citado como herói da fé (Hb 11.32) e a derrota dos
midianitas é citada no Sl 83.9 e em Is 10.26.

TEXTO

A. A Ascensão
Jz 7.2 – RA traz “gloriar contra mim” e a NTLH prefere “poderiam
pensar que venceram sem a minha ajuda”. Temos aqui uma ação
preventiva de Deus para que o povo fosse convencido de sua
dependência dele e não se orgulhasse em sua própria força. Veja Jr
9.23.
Jz 7.9 – O próprio Deus ordena o ataque militar contra os midianitas
e garante a vitória. Desde o início Deus se revela o condutor da
história do povo. Veja Jz 6.16.

B. A Armadilha
8.27 – Após negar a ascensão política pessoal (8.22-23), Gideão
usa ouro para fazer um dApae. O mesmo termo aparece em Êx 28.4ss
na descrição das vestes sacerdotais.

Gesenius traz como:


1. “uma vestimenta do sumo sacerdote, vestida sobre a túnica
[...] Além dos sumo sacerdotes, outros usaram tal vestimenta;
Davi, por exemplo, quando liderou a dança sagrada,

150
VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

2Sm 6.14 (dB dApïae rWgàx dwId


¨ w); e Samuel, servo do sumo sacerdo-
te, 1Sm 2.18,28; e também sacerdotes de ordem inferior.
2. “estátua, imagem de um ídolo, Jz 8.27; aparentemente tam-
bém Jz 17.5; 18/17-20; Os 3.3.
Almeida (RA) opta pelo primeiro significado e traduz como
“estola sacerdotal”; já a NTLH (SBB) prefere “ídolo”.
O dApa era especialmente usado pelo sumo sacerdote quando
Deus era consultado usando-se o Urim e o Tumim (1Sm 23.9; 30.7).
O profeta Oséias refere-se a ele em Os 3.4 (numa aparente relação
com idolatria, como em Jz 17.5). Vários autores divergem sobre o
significado em Jz 8.27.
Qual o objetivo de Gideão com o dApa? Provavelmente usá-lo
como instrumento de consulta ao Senhor. Também não é dito quem
fez uso do objeto, se um sacerdote local ou se um sumo sacerdote
enviado a Ofra, ou se o próprio Gideão investiu-se de autoridade
sacerdotal. Aliás, Keil e Delitzsch vêem nesta última suposição a
provável “armadilha”: “Seu pecado, portanto, consistiu principal-
mente na transgressão da prerrogativa do sacerdócio araônico, afas-
tando o povo do santuário legítimo, e assim não apenas minando a
união teocrática de Israel, mas também dando, após sua morte, um
impulso para a reincidência da nação ao culto a Baal”.
Mas a conseqüência é que todo o “Israel se prostitui ali após ela
(a estola)” (8.27b), sendo o dApa um laço, armadilha, para Gideão e
sua gente. O que nos leva a inferir que, mesmo com boas inten-
ções de culto e testemunho por parte de Gideão, a tendência de
Israel à idolatria tornou o objeto (ídolo de ouro ou estola, não
importa) um desvio da verdadeira adoração.
Um laço, uma armadilha vqEA) m – 1. literalmente usado quando se
fala em pegar pássaros, por exemplo; e 2. metaforicamente usado
como causa de injúria (Gesenius) como em Êx 10.7: “Até quando
nos será por cilada este homem?”, ou seja, nos trará mal, desgraça.
Veja também Êx 23.33; 34.12; Dt 7.16; Jo 23.13; Is 8.15 e Jz 2.3
Assim, mesmo não sendo possível concluir sobre o objeto em si
(dApa) e sua utilização em Ofra, nos é feito saber as conseqüências
do ato de Gideão: desvio do culto verdadeiro a Deus.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Uma maneira de aplicar o texto é fazer um contraponto entre o


culto verdadeiro a Deus e a tendência humana à idolatria, mesmo
diante dos feitos miraculosos de Deus. O papel do líder/autoridade

151
IGREJA LUTERANA

pode ser destacado e é necessário sublinhar a maravilhosa com-


paixão e paciência de Deus que, mesmo traído, abençoa e envia
um líder perfeito, seu próprio filho Jesus, para garantir salvação a
nós.

A vitória de Deus por nós


A. Deus guia para a vitória
1. Na história do povo de Israel
1.1 Escolhendo líderes (Jz 6.14) – Heróis da fé (Hb 11)
1.2 Intervindo na história (Jz 7) com feitos miraculosos.

B. O líder humano falha


1. Usando mal a autoridade conferida (Jz 8.27)
1.1 Mesmo com boas intenções (Jz 8.22-23), pode haver
desvio para a idolatria.
1.2 Há necessidade da avaliação constante sob a Pala-
vra de Deus para evitar as quedas e o sofrimento de todo
o povo (Jz 7.2).

C. Deus dá a vitória por amor

D. Na nossa história
1. Ele ama seu povo e intervém, mesmo com as falhas humanas.
2. Ele envia o Salvador, que é o líder perfeito até no sofrimento
(1Co 15.57).
3. Mostra o verdadeiro culto (Jo 4.23-24) ao Deus da vitória.

Fernando H. Huf
São Paulo, SP

152
VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO
APÓS PENTECOSTES
JUÍZES 15 e 16

Sansão: o poder de Deus na fragilidade humana

CONTEXTO

O autor de Juízes (provavelmente o profeta Samuel) relata com


maiores detalhes a história de Sansão (Jz 13-16) em relação aos
demais juízes de Israel. A história do nascimento de Sansão é
semelhante à de Isaque, Samuel e João Batista. Ao nascer, é dedi-
cado como nazireu (Nm 6.1-21), devendo se abster de bebida
alcoólica e de tudo que se possa fazer da uva, jamais cortaria o
cabelo e nem se aproximaria de um cadáver. Mas durante sua vida
estas leis nem sempre foram seguidas, participava de banquetes
(Jz 14.10), teve contato com cadáveres (Jz 14.8,9 e 15.15) e até
deixou cortar o seu cabelo (Jz 16.19).
A vida de Sansão foi marcada por altos e baixos. O Espírito do
SENHOR estava presente em diversos momentos de sua vida (Jz
13.25; 14.6; 14.19 e 15.14). É mencionado como um dos grandes
heróis da fé (Hb 12.33). Também é marcada por façanhas como:
matar um leão com suas próprias mãos (Jz 14.5ss.), matar trinta
homens para ter suas túnicas (Jz 14.19), caçar trezentas raposas
para incendiar a plantação de trigo dos filisteus como também
matando muitos deles (Jz 15.4-8), com a queixada de um jumento
matar mil homens (Jz 15.15), arrancar o portão da cidade de Gaza
e carregá-lo em torno de sessenta e cinco quilômetros (Jz 16.3),
derrubar o templo do deus Dagom com três mil filisteus (Jz 16.27),
matando mais gente em sua morte do que durante a sua vida (Jz
16.30). Este foi Sansão, um grande herói nacional individualista,
incapaz de libertar Israel do poder dos filisteus como uma nação
(Jz 15.11ss.).
Por outro lado, Sansão não teve (ou não quis ter) sorte com as
mulheres. Durante a festa de seu casamento, lança um enigma
baseado num fato que vivenciou, porém sua esposa insiste tanto
que ele acaba dando a resposta e perdendo a aposta (Jz 14.17).
Em Gaza, relaciona-se com uma prostituta (Jz 16.1-3) e, por fim,
conhece Dalila (Jz 16.4-22), que insistia em saber o segredo de
sua força excepcional até tê-lo conseguido. Além disso, é rejeitado

153
IGREJA LUTERANA

e entregue pelos próprios compatriotas aos filisteus (Jz 15.11-12),


e o orgulho e a confiança em si tomaram conta (Jz 16.20).
Sansão é filho do seu tempo, de um lado, pouco controlava
seus instintos; por outro lado, confiava em Deus. Uma figura tanto
positiva como negativa, ou seja, justo e pecador.

TEXTO

Jz 15.1-8: Após a colheita do trigo (fim de maio e início de junho),


coincidentemente com a festa de Pentecostes, Sansão já mais sere-
no, foi visitar a sua mulher levando um cabrito, talvez para acalmá-la.
Mas seu sogro, descontente com sua atitude, já a tinha oferecido ao
seu padrinho. Para remediar, lhe oferece a filha mais nova. Para San-
são, isso se torna uma justificativa para agir e se vingar. Caçou tre-
zentas raposas (mas é de se admitir que fossem chacais, por serem
mais fáceis de se capturar e por viverem em bandos, enquanto que as
raposas viviam solitariamente) e queima não só todo o trigo, como
também as oliveiras. Os filisteus se vingam queimando a sua mulher e
seu sogro, pois era mais fácil se vingar contra eles do que capturar
Sansão. A esposa de Sansão teria sido sábia se logo tivesse informa-
do dessa ameaça, durante a festa do casamento. Como uma vingan-
ça atrai outra vingança, depois de queimar o trigo e as oliveiras, ter a
esposa e o sogro queimados, Sansão atacou e matou muitos filisteus
(ARA: grande carnificina).

Jz 15.9-20: Em resposta, um batalhão de mil homens foi até Leí.


O que causa estranheza é a passividade dos israelitas que se jun-
tam em três mil homens para entregar Sansão e não para ficar do
seu lado e defendê-lo! Com a certeza de que não seria morto pelos
israelitas, deixa-se amarrar e ser levado aos filisteus, que em gran-
de alegria vieram ao seu encontro. Contudo Sansão é fortalecido
pelo Espírito do SENHOR e com uma queixada (mandíbula) de ju-
mento úmida matou mil homens, visto que se fosse mais velha,
seria mais seca e frágil. O cântico de Sansão foi um trocadilho com
as palavras “jumento” e “montão”, que no hebraico ambas as pala-
vras são parecidas, mas que na tradução ao português se perde a
graça (como por exemplo, “esganar” e “enganar”). Depois da ex-
traordinária batalha e vitória, o homem que se entregou sem medo,
agora teme a morte pela sede e pelo retorno dos filisteus. Mas
Deus, em graça, amor e misericórdia, deixa de punir pela sua petu-
lância e desesperança, e atende suas necessidades corporais.

154
VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Jz 16.1-3: Sansão vai para Gaza, a cidade mais ao sul das cinco
cidades filistéias, e lá tem relações com uma prostituta. Homem
cuja força física é monumental tem fraquezas que o levariam à
queda final com Dalila. Assim como Sansão, outros personagens
bíblicos tiveram, bem como nós também temos. Sobre a questão
da dupla referência de “toda a noite” (v. 2), Kittel substitui o
primeiro “toda a noite” para “todo o dia” de forma a compreender-
mos assim: embora os soldados de Gaza estivessem de vigia à
cidade durante todo o dia, à noite diminuía essa vigilância, confia-
dos na segurança do portão.1 Mas Sansão os surpreende durante a
noite, arranca e carrega o portão por volta de sessenta e cinco
quilômetros.

Jz 16.4-22: A sua primeira esposa lhe roubara a resposta do


enigma (Jz 14.12-17), agora, a sua segunda paixão, Dalila (nome
semítico que significa “dedicada”) irá descobrir o maior segredo de
sua vida, pois Sansão não era muito prudente e responsável, não
guardava as leis do nazireado e se apaixonava por mulheres es-
trangeiras. De certa forma, os filisteus respeitavam e temiam San-
são, mas a sua figura tornara-se numa ameaça nacional, por isso
era preciso eliminá-lo. Para tal fim, os cinco príncipes filisteus con-
trataram Dalila para descobrir o segredo de sua força, e por causa
do grande risco que ela iria correr, um grande suborno lhe seria
pago (cada siclo era equivalente a uma de medida de 11,424g).
Valendo-se da paixão cega que Sansão sentia por ela, por três
vezes Dalila tenta descobrir o segredo, mas ele encara isso numa
brincadeira. A primeira com “sete tendões frescos” (v. 7 - ARA), a
segunda com “cordas novas” (v. 11 - ARA) e a terceira (e mais
perigosa por envolver seus cabelos) com “sete tranças e um pino
de tear” (v. 13 - ARA). Apelando a um sentimentalismo hipócrita e
falso, Dalila insistiu até conseguir a verdade, fazendo com que
Sansão perdesse a paciência e lhe revelasse o mistério, custando-
lhe muito caro. Não somente por que foi traído e teve seus cabelos
cortados (não que o cabelo era a fonte de sua força, a fonte
estava em Deus, mas o cabelo não cortado simbolizava a força e a
presença de Deus), mas a autoconfiança subira à sua cabeça (v.
20: “Sairei ainda esta vez como dantes e me livrarei” - ARA).
Tendo a força de um homem normal, não pôde resistir e teve seus

1
Conforme BRUCE, F. F. Juízes. In: DAVIDSON, F. (ed.) O novo comentário da Bíblia. 3. ed.
São Paulo: Vida Nova, 2002, p. 291; e CUNDAL, Arthur E. Juízes: introdução e comen-
tário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1986, pp. 166-7.

155
IGREJA LUTERANA

olhos furados e o colocaram a trabalhar no moinho da prisão. Mas a


graça de Deus se faz presente em todas as situações. Agora o
grande Sansão estava cego, preso e sendo a força motriz de um
moinho. Tanto os filisteus, e talvez o próprio Sansão, esqueceram
de um pequeno detalhe que fez toda a diferença: o cabelo come-
çou a crescer de novo (v. 22).

Jz 16.23-31: Os filisteus se reuniram para um culto nacional de


agradecimento ao deus Dagom (deus semita da vegetação e dos
cereais). Geralmente, nestas celebrações, o vinho corria livre e,
naquela ocasião, o terrível inimigo da nação estava preso e não
apresentava nenhum risco, logo, porque não se divertir com San-
são e humilhá-lo mais ainda?
Agarrado a uma coluna, Sansão chamou a Deus (arq). Esse
verbo tem a conotação de chamar alguém para uma tarefa especí-
fica e o uso mais destacado diz respeito a invocar o nome de
Deus.2 Sua última oração é marcada pela invocação de Adonai,
Yahweh e Elohim, para que desse força a fim de se vingar pela
perda de seus olhos, a sua confiança estava depositada em Deus e
não mais em si mesmo. Seu cadáver foi respeitado devido a suas
façanhas e sua família o buscou para ser sepultado no túmulo de
Manoá, seu pai, no vale de Soreque, cenário de suas façanhas e
também de fracassos. Sua vida não foi em vão, mas retardou o
domínio filisteu.

PROPOSTA HOMILÉTICA

Como estamos em Pentecostes, período marcado pelo cresci-


mento da igreja através da ação de Deus, a história da vida de
Sansão também reafirma e demonstra que seu êxito e sucesso
foram devido à ação de Deus em sua vida. Sem o poder de Deus,
Sansão era frágil e incapaz.
Devido à sua irresponsabilidade, orgulho e confiança em si (ou
nos seus cabelos), Sansão foi abandonado por Deus porque pensa-
va que a sua força vinha de seus cabelos (v. 17). Segundo Keil e
Delitzsch, a sua força sobre-humana não residia no cabelo dele
como cabelo, mas no fato de que Yahweh era com ou perto dele.

2
Para maiores explicações, veja: HARRIS, R. Laird (org.). Dicionário internacional de teolo-
gia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, pp.1364-5, verbete: arq.

156
VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Mas Yahweh estava com ele tão logo como manteve sua condição
de nazireu.3 Este “abandono” de Deus fez com que Sansão refletis-
se que ele também necessita viver a partir da graça e da misericór-
dia divina. Como Sansão, nós também somos vulneráveis e sujeitos
a nossa fragilidade.
Mas Deus foi fiel e continuou com ele. Fez com que o cabelo
logo crescesse (v. 22) e que os filisteus nem se dessem conta
deste fato. Algo tão simples, pequeno e sem importância, que, no
entanto, fizesse Sansão pensar na misericórdia e graça de Deus,
visto que o cabelo simbolizava a presença e o poder de Deus.

Tema: O poder de Deus na fragilidade humana

I - Fragilidade humana
Sansão: confiança em si e nos seus cabelos como fatores de-
terminantes para suas vitórias.
Nós: a confiança em si e o desperceber detalhes que mostram a
fragilidade humana.

II - Poder de Deus
Sansão: crescimento do cabelo
Nós: pequenos detalhes em nossa vida que fazem toda a dife-
rença, onde o poder de Deus se demonstra indiretamente (Primeiro
Artigo).

Marcos Jair Fester


São Leopoldo, RS

3
KEIL, C. F. e DELITZSCH, F. Commentary on the Old Testament.
Grand Rapids: Eerdmans, [s. d.], vol. 2, p. 423.

157
IGREJA LUTERANA

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO


APÓS PENTECOSTES
JUÍZES 20 e 21

Juízo e perdão entre o povo de Deus

CONTEXTO

O livro de Juízes, com suas particularidades, é o livro onde Deus


apresenta os líderes militares e civis que Ele escolheu para livrar
Israel de seus opressores. Esses juízes, no entanto, não tinham as
classificações e formações para julgar que encontramos hoje em
um juiz. Porém, foram escolhidos por Deus para tal e capacitados
por Ele.
No livro de Juízes encontramos o povo de Israel em uma grande
desobediência espiritual (1.1-3.6), numa destruição política da terra
(3.7-16.31) e em uma depravação moral na terra (17.1-21.25), e
esta última é a que nos interessa por hora.
O capítulo 19 de Juízes relata a depravação moral que o povo
vivia. Um levita havia tomado sua concubina e viajavam juntos
para Efraim. No caminho procuraram abrigo em Gibeá, onde habita-
vam muitos israelitas. Lá o levita imaginava encontrar abrigo segu-
ro. Na verdade, com grande dificuldade alguém lhe ofereceu lugar.
Um velho de Efraim que migrara para Gibeá lhe concedeu descanso
em sua casa.
O que aconteceu daí em diante revela como vivia o povo de
Israel. Alguns homens vieram à casa do velho para ter relações
sexuais com o levita. O velho ofereceu a sua filha virgem e a
concubina do levita. Os homens não aceitaram e o velho entregou
a concubina do levita a eles. Os homens a estupraram e a deixaram
à morte. Depois de tamanha atrocidade, o levita repartiu o corpo
dela em doze pedaços e enviou às tribos de Israel.
Essa era a cena de pano de fundo do final do livro de Juízes. O
povo que vivia em pecado e já não sabia mais o que era certo e o
que era errado. Um ato que ficou caracterizado por muito tempo
como símbolo do caráter pecaminoso de Israel (cf. Os 9.9 e 10.9).

TEXTO

Juízes 20 e 21 relatam o resultado dessa tragédia em Gibeá. No


capítulo 20 vemos a punição para os culpados. A lei da aliança

158
exigia isso, que as tribos punissem todos os culpados em seu meio
para que não se tornassem eles próprios objetos da ira de Deus.
Seria simples a história, como em outros momentos, se a tribo
de Benjamin não estivesse a favor dos culpados (20.1-17). Como o
concerto com Deus era de que as pessoas culpadas deveriam ser
punidas, a tribo de Benjamin, concordando com os estupradores,
estava assinando sua carta de culpa, a sua sentença.
O Senhor então instruiu os homens de Israel à batalha contra
seus irmãos de sangue, a tribo de Benjamin. Mas nas duas primei-
ras tentativas os israelitas tiveram numerosas baixas, talvez uma
forma de mostrar a Israel que Deus está no comando, e então na
terceira Deus promete a vitória a eles. De fato, isso acontece.
Israel vence e destrói, com a exceção de seiscentos sobreviven-
tes, toda a tribo de Benjamin (20.18-48). Esse foi o julgamento
justo diante do povo: a morte dos culpados.
Já o capítulo 21 mostra um povo aos prantos pela tribo destruída.
Eles precisavam manter a tribo viva com os seiscentos homens que
ficaram vivos. Mas nenhuma das onze tribos poderia dar suas mulhe-
res a eles, pois haviam jurado em Mispa. Mas também decidiram que
quem não viesse a essa assembléia seria morto (v.5). Eles chegaram
à conclusão de que ninguém de Jades-Gileade esteve na assembléia.
Doze mil homens atacaram Jades-Gileade e arrumaram em torno de
quatrocentas mulheres para os seiscentos homens (21.1-18).
A busca pelas duzentas que faltavam foi “encerrada” pelos
anciãos da congregação (v.16). Eles disseram que em Siló, de ano
em ano, acontecia uma festa. Nesta festa, a festa da vindima, as
mulheres que não tinham maridos procuravam por um. Uma ótima
chance para eles. Os homens roubaram mais duzentas mulheres
(21.19-24) e assim os seiscentos homens poderiam continuar a
tribo de Benjamin.
O texto de Juízes 21 e o livro como um todo termina com a
verdade e o espírito da época: “Naqueles dias, não havia rei em
Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (v. 25).

SUGESTÕES HOMILÉTICAS

O texto tem como grande tema “O juízo e o perdão entre o povo


de Deus”. Não é difícil separar o juízo entre o povo (capítulo 20) e
o perdão (capítulo 21). O povo que vivia uma grande imoralidade
foi punido por Deus pelas mãos de seus próprios irmãos. Mas este
mesmo povo que foi punido recebeu o perdão de seus irmãos.

159
IGREJA LUTERANA

Notem que o povo ficou, talvez pela primeira vez, unido “como se
fora um só homem” (20.1).
Nesse período que estamos, logo após a Reforma, não podemos
deixar de lembrar o que o reformador Martinho Lutero passou por
causa da justiça de Deus. Lutero não entendia como Deus poderia
ser justo em relação ao homem. Tudo acabaria como no texto de
Juízes, onde, por causa de alguns que pecaram, a tribo toda foi
morta! Essa é a justiça de Deus. Como dizia nosso mestre Dr.
Deomar Roos (in memoriam): “No Antigo Testamento Deus mostra
que com Ele não se brinca, mas o perdão sempre é oferecido”. Foi
isso que Lutero também percebeu. Sempre há perdão para aquele
que vê a justiça de Deus em Jesus. No texto, os culpados são
entregues à morte. Hoje os culpados também são entregues à
morte, mas a morte de Jesus. Essa é justiça de Deus.
O fato é que Benjamin acobertou os culpados. Foi cúmplice da
morte da concubina do levita. E o crime precisava de castigo. Não
reconhecer, acobertar, esconder e até lutar contra aquele que nos
acusa (lei de Deus) é normal. Por isso a tribo de Benjamin foi
castigada, por não reconhecer o seu erro.
Sem forçar, podemos ainda encontrar no versículo final de Juízes
uma ponte para Cristo e os dias de hoje: “Naqueles dias, não havia
rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto”. Após este
período, Deus instituiu reis na terra, para governar aqui, neste
mundo. Mas podemos ter uma visão proléptica de Jesus aqui. Jesus
é Rei. Não deste mundo, mas sendo Rei, pode afirmar, como o fez
em João 14.6 que é o “caminho, a verdade e a vida”, e também
afirmar em Mateus 22.34-40 (Marcos 12.28-34 e Lucas 10.25-28)
que “amar a Deus e ao próximo” são os dois maiores mandamentos.
Portanto, hoje, em meio ao caos que vivemos, temos um Rei que
mostra aos seus súditos como fazer. O povo já não precisa fazer o
que acha mais reto, basta olhar para a cruz.

Sugestão de tema: A justiça de Deus


1. Destrói o pecado – velho homem, diabo e mundo.
2. Ama o pecador – em Cristo.

Paulo Sérgio Kühl


Novo Hamburgo, RS

160
VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO
APÓS PENTECOSTES
1 REIS 18.20-40

Só o Senhor é Deus

Elias não entendeu mal que Deus, na sua justiça final, pode
mandar o fogo destruir as maldades humanas. Deus pode mostrar
que há limites que não podem jamais ser ultrapassados sem as
conseqüências que lhes estão apegadas. Em vários momentos isto
aconteceu.
Para buscarmos um contraponto, lembremos da cena em que
Abraão intercede a favor de Sodoma e Gomorra. Enquanto que um
crente parece querer fazer com que Deus mude de idéia, Deus está
determinado a fazer destas cidades um marco para a memória da
humanidade.
Em tempos de pós-modernidade, que alguns já chamam de pós-
humanidade, é importante que a igreja afine a sua visão de mundo
e de história com a perspectiva correta do que significa humani-
dade. Pode-se dizer que nunca antes a sociedade tomou tanta
consciência do poder destruidor do ser humano. Nunca antes se
levantaram vozes tão proeminentes para denunciar a corrida de
autodestruição da humanidade. Mas também nunca tivemos tanto
medo de que este processo não tenha mais reversão.
Deus não tem mais necessidade de anunciar o juízo sobre a
humanidade mandando fogo dos céus, nem Elias necessita mais
levantar a sua espada para demarcar o território entre o culto
ao mal e o culto a Deus. A humanidade clama pelo bem e pela
paz, mas nada efetivamente faz contra a corrupção, a explora-
ção do homem pelo homem, do aviltamento dos valores morais e
familiares, a não ser o discurso hipócrita de quem somente vê
mal no outro e nunca reconhece o mal em si e nas próprias
atitudes. O culto ao Ego, ao meu, ao consumo, ao meu direito e
meu prazer é a nova roupagem e do culto a Baal. Templos não
lhe faltam.
Onde estão os profetas que, a exemplo de Elias, podem orar
para que Deus dê sinais da sua presença para que o povo reconhe-
ça que “só o SENHOR é Deus!”? Onde estão homens como Abraão,
que reconhecem que Deus não pode estender sua paciência para
sempre, mas que, ainda assim, buscam a sua misericórdia?
Jesus ensinou os seus discípulos a fazerem a leitura dos sinais

161
IGREJA LUTERANA

da presença de Deus e do seu juízo nas guerras e rumores de


guerras, nos terremotos e cataclismos, nos sinais de mudança na
natureza, “sol, lua e estrelas”.
A idolatria a Baal não é diferente da idolatria dos tempos
atuais. Quando Lutero afirma que “àquilo a que apegas o teu
coração, aquele é o teu Deus” (CM, 1º Mandamento) nada mais
está dizendo do que Elias e cada profeta em todos os tempos
denunciaram: o ídolo real não é a estátua ou a coisa em si. O
ídolo está dentro de cada um que somente aceita o que lhe
agrada. O ídolo é aquilo a que nos apegamos. Exteriormente lhe
chamamos “deus”. Mas somente o adoramos naquilo em que
estamos satisfeitos em como nossos desejos e ideais se reali-
zam. O homem é o seu próprio deus, mascarando isto com sím-
bolos externos que se chamam Baal, ou mais modernamente, “o
meu direito de ser feliz”.
Anunciar o juízo de Deus, ou mesmo pedir o juízo de Deus
sobre esta idolatria, não é somente um desejo de Elias, mas per-
tence à própria natureza da pregação de cada profeta e discípu-
lo. Pois as conseqüências que acompanham esta idolatria inevi-
tavelmente manifestam a cegueira humana sobre tudo que se
quer como justo. A destruição da criação de Deus, o aviltamento
das condições de vida das pessoas, o estado corrupto e corruptor,
a mentira e hipocrisia dos governantes, as filas vergonhosas do
SUS, revelam que nada mudou desde o tempo em que os profetas
como Elias denunciavam o abandono dos pobres e das viúvas, e
todas as demais injustiças que a igreja e o estado de Israel pro-
moviam.
E não vamos deixar de lado tudo que se faz de mal sob o
disfarce do próprio nome de Deus, utilizando a sua palavra e trans-
formando o Deus das Escrituras em deboche.
E quando no Antigo Testamento vemos Deus assumir para si por
boca dos profetas o envio de pestilência, as guerras, os exílios, a
estiagem, as forças brutais e destruidoras na natureza destruindo
as plantações e os gados, distinguimos com clareza a função do
profeta. Onde estão estes profetas hoje?
Talvez porque em muitos casos os profetas não mais distingam
este Deus como Senhor ainda agora do Universo e, as pessoas, e
mesmo cristãos, vivam neste mundo sem se perguntarem mais mui-
to por Deus. “Quem é o Senhor?” e “Onde está o Senhor” são
perguntas que Elias tinha muito claras para si. Tanto que Deus lhe
deu evidência daquilo que Ele pode fazer na sua fúria sobre o
pecado e a maldade idólatra mandando o fogo consumir o altar.

162
VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Não está Deus demonstrando ainda hoje, neste momento, a


resposta a tais perguntas? Ou somos nós que desaprendemos a ler
os sinais da sua ira contra aqueles que enganam e não falam a
verdade a respeito do juízo de Deus sobre tudo o que é maldade,
mentira e engano com que os homens acumulam privilégios à custa
e em prejuízo do mais fraco?
Os sinais que revelam da ira de Deus sobre toda a maldade
humana estão hoje diante de nós como estiveram diante do povo
no tempo de Elias. Mas era o papel de Elias revelar que a estiagem
e o fogo do céu não eram meros distúrbios do tempo, ou fenôme-
nos naturais à busca de uma explicação, como o cientificismo de
hoje nos quer fazer crer. Elias aponta para Deus, o Senhor dos
céus e da terra, e chama o povo ao arrependimento e a buscar o
Deus da aliança, o Deus da salvação.
Talvez a salvação eterna e o perdão dos pecados já não signifi-
quem muito exatamente porque a maldade humana, e a ira de Deus
sobre ela, estejam desaparecidas da consciência da pregação da
igreja. Para uns, o diabo serve de explicação para todo o mal, num
discurso perigosamente dualista. Para outros, políticas governa-
mentais equivocadas são a explicação para o mal que se abate
sobre a sociedade. Para outros, o mau uso dos recursos naturais é
o fenômeno que carrega a culpa de grande parte da fome e da
miséria.
Os 40.000 mortos no trânsito das ruas e estradas no Brasil, o
número de assassinatos que crescem, a insegurança de quem
voluntariamente e premido pela necessidade se tranca atrás de
muros e alarmes, a selvageria de torcidas dentro e fora dos está-
dios de futebol, o culto ao sexo sem freios (a lista da crescente
maldade não pára por aí), em tudo se buscam explicações super-
ficiais como se algum lugar do futuro tudo isto venha a ter um fim
e a ordem se restabeleça graças ao novo ser humano que está
surgindo.
Elias diria: Sim, tudo isto é verdade. Mas a maldade humana
impregnada em tudo exige que se aponte para Deus que em tudo
isto nos chama ao arrependimento e à fé. A maldade humana não
tem freio nem forças que a possam conter. Ela carrega em si mes-
ma a própria punição de Deus. E desta situação somente Deus
mesmo pode salvar o ser humano.
É sintomático que é mais simples aceitar as denúncias que os
profetas lançaram diante de Israel, seus líderes políticos e religio-
sos, do que reconhecer e apontar com clareza esta situação em
nosso próprio contexto atual.

163
IGREJA LUTERANA

Tema: O SENHOR é Deus


Portanto:
1. A falsidade de Baal deve ser apontada
2. A presença do Senhor tem de ser afirmada
3. O culto ao Senhor, restabelecido.

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

164
PENÚLTIMO DOMINGO
DO ANO ECLESIÁSTICO
1 REIS 19

CONTEXTO

Israel acabara de ter três anos de seca e fome, conforme a profe-


cia de Elias. Isto foi um castigo de Deus pela idolatria do rei Acabe e
de sua esposa Jezabel e do povo em geral. Estavam seguindo a Baal.
Além disso, Jezabel havia matado os profetas de Deus.
Ao final dos três anos de fome, ainda acontece o dramático
encontro entre os profetas de Baal e Elias, provando-se que o
SENHOR é Deus, pois mandara fogo para o altar de Elias.
Elias ora pedindo chuva e é atendido por Deus. Terminara a seca.
Mas quando Acabe contou a Jezabel tudo o que Elias fizera,
esta enviou um recado a Elias, prometendo matá-lo. Elias foge
para o deserto e, finalmente, chega até o monte Horebe ou Sinai.
Lá Deus lhe aparece.

TEXTO

Elias é ameaçado de morte por Jezabel, esposa do rei Acabe.


Elias fica com medo e foge para o deserto. No deserto, queixa-se
diante de Deus por se sentir só e fracassado. Depois, deita-se
debaixo de uma árvore e adormece. Acorda-se tocado por um anjo
que lhe pede que coma. Ele vê um pão assado e água; come e
bebe, e dorme novamente. A cena se repete e Elias come nova-
mente. Ele tem uma longa jornada pela frente.
Chega ao Monte Sinai. Lá Deus lhe pergunta: “Que fazes aqui,
Elias?” (v. 9). Elias faz a sua queixa, de que ele é o único profeta
que sobrou, pois o povo de Israel havia matado todos os profetas.
Deus manda que Elias suba ao alto do monte para ficar diante
dele. E Deus mandou primeiramente um vento forte, mas ele não
estava no vento; depois, envia um terremoto, mas Deus não esta-
va no terremoto; depois veio um fogo, mas Deus também não
estava no fogo. Finalmente Deus se faz aparecer num “cicio tran-
qüilo e suave” (num “sussurro calmo e suave” – NTLH). Novamente
Elias ouve a voz: “Que fazes aqui, Elias?” Elias mais uma vez lhe
responde a mesma coisa.
Deus manda Elias voltar e ungir um rei para a Síria e outro para

165
IGREJA LUTERANA

Israel. Também manda ungir a Eliseu como profeta. E Deus lhe dá um


consolo: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que
não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou” (v. 18).

APLICAÇÕES HOMILÉTICAS

- Deus está conosco mesmo que não estejamos percebendo isso.


- Elias fugiu do seu lugar de trabalho e Deus lhe pergunta: “Que
fazes aqui, Elias?”
- Mesmo que não estejamos fugindo para outro local, Deus pode
estar nos perguntando a cada um de nós: “Que fazes aqui?” Que
fazes aqui, professor? Estás realmente interessado no teu aluno, ou
passou-se mais um dia e apenas fizeste a tua obrigação, cumprindo
formalmente tua tarefa de ensino? Que fazes aqui, estudante? Pas-
sou-se mais um dia e apenas estiveste de corpo presente nas tuas
aulas, mas não puseste o teu coração e a tua dedicação nas tare-
fas que querem preparar-te para seres um instrumento eficiente no
meu reino? Que fazes aqui, pai, mãe, filho, filha, patrão, empregado?
Que fazes aqui, pastor, líder de congregação, membro da igreja?
Estás cumprindo tua função de luz deste mundo?
- Deus não apareceu a Elias no vento forte, nem no terremoto e
nem no fogo. Isto lembra o julgamento de Deus conforme a sua lei
dada no Sinai. Naquela vez, vários séculos antes, Deus havia esta-
belecido sua aliança com Israel (Êx 19) no furacão, no terremoto e
no fogo. Mas, agora, estes fenômenos precederam um cicio tran-
qüilo e suave. É assim que Deus aparece agora: no sussurro calmo
e suave. Deus vem a nós com seu evangelho e as pessoas são
convertidas a ele, não pela força da lei, mas pela suavidade do
evangelho. Nesta suavidade Deus lembra a Elias que é preciso
voltar e continuar sua missão. Esta nova maneira de Deus se reve-
lar também acentua a diferença entre o SENHOR e Baal, que era
conhecido como o deus das tormentas, do raio e dos fenômenos
meteorológicos (Bíblia de Estudo Almeida).

PROPOSTA HOMILÉTICA

O que você está fazendo aqui?


I. Foi o que Deus perguntou a Elias.
II. É o que nós precisamos saber responder.

Raul Blum
São Leopoldo, RS

166
ÚLTIMO DOMINGO
DO ANO ECLESIÁSTICO
1 REIS 21.17-29

CONTEXTO LITÚRGICO

O último domingo do ano da Igreja traz tradicionalmente leituras


que dirigem a atenção do povo de Deus às coisas do fim. O retorno
de Cristo, o grande julgamento, os novos céus e a nova terra,
condenação e salvação eternas são fatos que a Escritura considera
decisivos para a vida dos crentes. Estes eventos futuros não ape-
nas designam o que ainda está por vir e que por isso devem ser
aguardados. São fatos que colocam numa perspectiva eterna a vida
diária do povo de Deus. Os eventos cósmicos (que envolvem toda a
criação) levam para uma perspectiva global o fato de que para cada
indivíduo já a morte estabelece uma definição. Na verdade, a vida
diária, confrontada pela palavra de Deus, em Cristo, coloca diante
de cada pessoa os dois caminhos definitivos (Jo 3.18).
Tendo em vista esta proclamação escatológica, tanto cósmica
como individual, é próprio que neste período do ano a mensagem
do arrependimento seja proclamada, sobretudo da graça de Deus,
que em Cristo anuncia um futuro bendito para o povo de Deus. O
texto bíblico escolhido para o dia retrata uma situação na vida de
um homem ligado ao povo de Deus. Sua situação vivencial de certa
forma exemplifica o tratamento de Deus para com o pecador em
todos os tempos e coloca este pecador na sua vida diária sob a luz
da mensagem escatológica.

TEXTO

O contexto mostra uma história muito triste relatada pelo Anti-


go Testamento. Acabe, rei de Israel, cobiça a vinha de seu vizinho.
Não a podendo comprar, deixa o caminho aberto para a malignidade
da esposa Jezabel. Ela, com subterfúgios, consegue obter a vinha
e agradar o esposo. Sob aparência de direito, Acabe toma posse
da tão desejada propriedade. Tudo parece estar na normalidade,
não fosse pela interferência do profeta de Deus. A situação descri-
ta pelo texto tem diversas semelhanças com outra, talvez mais
conhecida, aquela envolvendo o rei Davi, Bate-Seba e a morte de

167
IGREJA LUTERANA

Urias (1 Sm 11; 12): pecado – denúncia – arrependimento – perdão


– conseqüências do ato.
O caráter de Acabe fica claramente exposto no texto, assim
como no que o antecede o no que o segue. Ele não somente
sucumbiu a uma tentação específica, fazendo o que era mau. Por
duas vezes o texto denuncia seu caráter malévolo dizendo: “Já te
vendeste para fazeres o que é mau perante o Senhor” (vv. 20,25;
cf. 2 Rs 17.17). Em outras palavras, tornou-se um escravo do
pecado, fez dele seu modo normal de viver. O pecado teve livre
curso sobre este homem, que dele se fez escravo. O apóstolo
Paulo aplicou a si uma afirmação semelhante (“sou carnal, vendido
à escravidão do pecado” – Rm 7.14). No entanto, o apóstolo,
iluminado pelo Espírito Santo, lamenta esta condição, que é a con-
dição natural de todo ser humano. Em Acabe, porém, viver em
franca oposição a Deus, seja pela sua idolatria, seja pela ganância,
pela vida ímpia, torna-se uma maneira “tranqüila” de viver. Até que
venha o profeta!
Esta não é a primeira vez que Elias anuncia juízo diante do rei
(cf. 18.18). Não é para menos que o rei o saúde de forma tão
hostil: “Já me achaste, inimigo meu?” (21.20). Quão desesperadora
é a condição de alguém quando vê no ministro de Deus seu inimigo,
simplesmente porque este lhe anuncia a verdade! Neste caso é a
própria palavra do Senhor, transmitida pelo profeta, que se torna
sua inimiga!
“Mataste e ainda por cima tomaste a herança?” (v. 19). De
nada adianta a Acabe recorrer a explicações: “Foi minha mulher,
Jezabel”, “eu não sabia o que estava acontecendo”. Ao tomar pos-
se e deleitar-se com o fruto de um julgamento ímpio (21.13) ele se
torna tão culpado quanto a esposa. O juízo de Deus não olha
apenas as circunstâncias exteriores; é juízo sobre o coração ímpio.
Ele desvenda os mais íntimos desejos e projetos, por vezes enco-
bertos e protegidos dos olhos humanos. Acabe é indesculpável.
Seu pecado, assim como qualquer pecado, visto à luz do exame
perfeito de Deus, não tem explicação.
O julgamento pronunciado por Elias é feito nos termos mais
graves (vv. 19,21-24): morte violenta, sangue acompanhando até
a sepultura e desgraça para sua posteridade ... uma dura realidade
para um homem orgulhoso e cheio de planos. As punições anuncia-
das mesmo para após a morte (“cães lamberão o teu sangue”)
podem ser vistas, em um contexto bíblico mais amplo, como anún-
cio de uma miséria ainda maior que aguarda este homem após a
morte.

168
ÚLTIMO DOMINGO APÓS PENTECOSTES

A atitude de Acabe em resposta ao anúncio profético é, de


certa forma, perturbadora. E mais ainda é perturbadora a reação
de Deus. Quem poderia acreditar que os gestos exteriores daquele
ímpio (v. 27) seriam a expressão honesta de um arrependimento
verdadeiro? Quem lida com pessoas, talvez já calejado pelas de-
cepções de falsas contrições, irá possivelmente dizer: isso está
mais para teatro do que para uma manifestação autêntica. Mas
Deus não pensa assim. Ele diz ao profeta, como que deliciando-se
com o que vê: “Não viste que Acabe se humilha perante mim?
Portanto, visto que se humilha perante mim, não trarei este mal
nos seus dias” (v. 29). As conseqüências virão no futuro, na família
de Acabe (v. 29). O pecado tem conseqüências – assim também o
foi no caso de Davi (2 Sm 12.14). Mas isto não invalida o fato do
perdão!
A atitude de Deus parece retratar a mais pura ingenuidade! Mas
ela tem nome: misericórdia! Deus se agrada em ter misericórdia do
pecador. A proclamação de sua lei não tem outra finalidade senão a
de abrir portas à proclamação da graça. Se isto se revela por
ocasião do arrependimento daquele que era segundo o coração de
Deus, Davi (2 Sm 12.13), também se manifesta para Acabe, cujo
coração já demonstrou tantas vezes estar longe do Senhor. Isto é
graça, que não encontra na pessoa a razão de existir, mas está no
coração de Deus. E se regozija com o arrependimento do pecador e
com a perspectiva de uma vida deste pecador perdoado sob a
bênção da comunhão com Deus.
O restante da história de Acabe, infelizmente, volta ao que já
se sabia dele. Mas isto não invalida a verdade central expressa
pelo texto bíblico: Deus é rico em perdoar, ao ponto de parecer
ingênuo no seu amor pelo pecador.

PROPOSTA HOMILÉTICA

O texto bíblico traz para o pregador três elementos importantes


que o ajudam na proclamação ao povo: 1) a clara articulação de lei
e evangelho; 2) um paralelo à temática do dia, último domingo do
ano da Igreja; 3) uma história – situação vivencial – que aproxima
naturalmente os ouvintes à mensagem. Estes elementos sinalizam
que uma aplicação do texto bíblico aos ouvintes poderá ser feita
de maneira dinâmica (lei e evangelho) e criativa (a história de Elias
e Acabe e a nossa história, como indivíduos e como humanidade).
Uma questão crítica a respeito da aplicação tem a ver com a

169
IGREJA LUTERANA

identificação entre os ouvintes do sermão e os personagens da


história relatada. Uma tentação pode se colocar para o pregador. E
esta é a de identificar seus ouvintes com Elias. E a partir disso
fazer do sermão uma mensagem de incentivo para que cada cristão
seja um anunciador do juízo e da misericórdia de Deus. Sem negar
que tal tema poderá ter seu lugar em algum momento na vida da
pregação à Igreja, não nos parece ser o mais apropriado para o
texto em estudo. Vale a pena o pregador explorar a situação das
pessoas à luz de Acabe, como recipiente da proclamação de lei e
evangelho. Afinal, todos precisamos ouvir a palavra de juízo, que
denuncia e condena mesmo o pecado mais enrustido e escondido.
Sobretudo, é fundamental aos ouvintes receberem a palavra da
graça divina, que consola e vivifica cada pecador.
O texto é um grande incentivo para o povo de Deus se regozijar
na misericórdia de Deus. Se Deus assim agiu com aquele pecador,
por que eu não confiaria que sua misericórdia também se aplica a
mim?! E o mesmo vale, dentro de uma perspectiva da escatologia
cósmica, para o mundo todo. Deus é gracioso não para um grupinho
apenas, mas para toda a humanidade. É preciso ouvir seu chamado
ao arrependimento e sua manifestação de misericórdia.

Gerson L. Linden
São Leopoldo, RS

170
DIA DA REFORMA
JUÍZES 10.6-18

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

Desde a Escola Dominical se aprende que o “juiz” bíblico não


tem nada a ver com o juiz de um processo jurídico hoje ou um juiz
de futebol. O conceito é antigo, mesmo fora do contexto bíblico.
Desde Ugarite, Mari e Ebla há evidência do emprego do termo como
significando “rei” ou, no mínimo, “governante”. No relato bíblico
pode-se dizer que há uma correspondência com um sentido socio-
lógico na medida em que eram “líderes carismáticos” que chegavam
na hora “H” e obtinham sucesso e notoriedade. A atribuição bíblica
do seu chamado como vindo do “Espírito” não é uma contradição
ao conceito sociológico, embora não seja também uma equivalên-
cia. O termo hebraico jPv.mi, muitas vezes traduzido por “justiça”,
“julgamento” e também “salvação” deriva da mesma raiz de ~yjipv . ,o
“juízes”. O uso bíblico do termo designa também um sentido mais
específico de “juiz”, especialmente nos Salmos, onde o verbo ad-
quire o significado teológico de “salvar, libertar”. Tanto reis como
juízes determinam “julgamentos” que podem resultar em absolvição
ou condenação. No AT, quando Deus é o sujeito do verbo, o resul-
tado do Seu “julgamento” será absolvição ou condenação, na me-
dida da fé ou desfé, fidelidade ou idolatria por parte do Seu povo.
Os dois juízes menores, Tola e Jair, representam a transição na
era dos juízes em Israel assim como o fazem os juízes maiores,
Gideão e Abimeleque. Ao analisar o livro dos Juízes como um todo,
incluindo o caos e as tragédias dos capítulos finais (Jz 17-21), é
que se nota esta transição. Os acontecimentos de 6.1-10.5 de-
marcam uma grande reviravolta e um momento preciso de transi-
ção e declínio. A primeira fase de transição (3.7-5.31) focou juízes
fiéis e vitoriosos (Otniel, Eúde, Débora/Baraque). A segunda fase
(6.1-10.5) narra sobre Gideão e seu filho Abimeleque, que repre-
sentam o começo da queda dos juízes. Gideão teve sucesso ao
vencer os inimigos de Israel, dando-lhe paz por 40 anos. Entretan-
to, a liderança de Gideão e Abimeleque degenera em idolatria religi-
osa e atos particulares de violência endereçados não apenas a
inimigos externos como a irmãos israelitas. A terceira fase (10.6-
16.31) apresenta dois grandes juízes, a saber, Jefté e Sansão.
Ambos continuam na linha descendente da desvinculação com Deus

171
IGREJA LUTERANA

e numa crescente inabilidade de unir e defender Israel contra os


inimigos. Tanto Jefté quanto Sansão experimentam trágicas turbu-
lências em suas vidas. Um voto impensado força Jefté a sacrificar
a vida da sua única filha e uma revelação ingênua a Dalila leva
Sansão à desgraça e à morte. As histórias individuais de tragédia
se tornam precursoras da tragédia coletiva de Israel e da desinte-
gração na parte final do livro. O nosso texto para esse Dia da
Reforma faz parte do texto de transição, que inicia a terceira fase
dos juízes.

TEXTO E MENSAGEM

A idolatria de 7 facetas no v. 6 corresponde à opressão de 7


facetas nos vv. 11-12. A listagem dos deuses a que Israel serve é
precedida pela fatídica e reiterada expressão no tempo dos juízes:
“tornaram os filhos de Israel a fazer o que era mau perante o
SENHOR e serviram aos...”. Além dos Baalins e Astarotes, que Isra-
el já adorava anteriormente (cf. 2.11,13), surgem os deuses da
Síria (Hadade = Baal, Mot, Anate e Rimom); de Sidom (a deusa
fenícia Astarte – cf. 1Rs 11.5); de Moabe (Camos, a principal – cf.
1Rs 11.33 – e que se relacionava a Moloque – cf. Nm 21.19); de
Amom (Milcom – 1Rs ou Moloque – este era muitas vezes adorado
por meio do sacrifício de crianças - cf. Lv 18.21; 20.2-5; 1Rs 23.10);
e dos filisteus (Dagom – cf. 16.23 e Baal-Zebube, que era adorado
em Ecrom – 2Rs 1.2-3, 6, 16; originalmente o nome era Baal-Zebul
“Baal é príncipe” mas os adoradores de Yahweh deliberadamente
alteraram o nome para Baal-Zebube, “senhor das moscas [leia-se
“varejeiras”]” – cf. Mt 10.25, 12.24).
Se compararmos a lista destes 7 deuses com os vv. 11 e 12,
onde 7 nações são mencionadas de cujas mãos o SENHOR libertara
Israel, a combinação do número 7 nestes dois casos são marcantes.
Israel equilibrou o número de libertações divinas pelo mesmo núme-
ro de ídolos que serviu, de maneira que a iniqüidade do povo en-
cheu-se na mesma proporção da graciosa libertação de Deus. Esta
relação 7 por 7 insinua uma barganha da parte do povo. Israel não
aprendera a lição que Deus vem demonstrando na história, desde a
saída do Egito. Deus não tolera a idolatria nem mesmo das nações
e por isso as destrói. A idolatria é inimiga de Deus. Sendo idólatra,
Israel provoca e desafia a ira do SENHOR. Mas a ira de Deus para
com Israel ainda é penúltima. Ele açoita, mas ainda não mata.
Em nosso texto, o açoite de Deus sobre o Israel apóstata vem

172
DIA DA REFORMA

de direções contrárias: os filisteus pelo oeste e sudoeste e os


amonitas pelo leste, do outro lado do Jordão. Israel fica
ensanduichado. Como no episódio dos demais juízes, Israel clama
ao SENHOR por ajuda (v.10, cf. 3.9, 15; 4.3; 6.7). Desta vez os
israelitas acrescentam elemento novo ao seu “clamor”. Falam pala-
vra de arrependimento e remorso pelos seus pecados cometidos:
“Contra ti havemos pecado” (v.10). Nunca Israel havia confessado
seu pecado desta forma na história dos juízes. Infelizmente a con-
dição do povo havia deteriorado de tal forma que tais palavras
diante de Yahweh são palavras ocas que visam manipular Deus. O
verbo q[z significa “gritar”, “reclamar” quando se está em situação
de desespero. Por exemplo, no cap. 12.2, Jefté emprega esse ver-
bo ao “reclamar” dos efraimitas por não tê-lo ajudado contra os
amonitas. O verbo também pode significar um chamado de protes-
to simplesmente (Jó 31.38). No v. 12 Deus historia a sua ação
salvífica em prol de Israel. Neste versículo, quando o povo clama a
Deus, o verbo q[c é empregado. ARA o traduz acertadamente por
“clamar”, que envolve, não reclamação mas busca de socorro de
alguém que se vê dependente de Deus. Em nosso texto, Israel não
está “clamando”, mas “reclamando”, “exigindo” (q[z) de Deus. Os
termos são homófonos, mas com sentido diferençado. Israel está
clamando num tom desafinado que só Deus pode perceber. Signifi-
ca que, com o passar do tempo, Israel perdeu a maneira e o jeito
(a oração?) de buscar a ajuda de Deus. O culto ganhou contornos
estranhos com adoração e louvor a outros deuses (conhecidos há
tempo) e a deuses estranhos. Israel adotara uma liturgia, um culto
e divindades pluralistas. Bem ao jeito do que hoje se propõe quan-
do se fala em religião, ou seja, Israel transita numa realidade con-
siderada politicamente correta, mas religiosamente compromete-
dora. Acertar politicamente nem sempre equivale a acertar religio-
samente.
Na Idade Média as coisas não eram muito diferentes. Havia uma
multiplicidade de santos cuja ajuda poderia ser buscada para apla-
car a ira de Deus. Não é sem razão que a proposta da Reforma se
fixa na história no dia 31 de outubro, um dia antes do Dia de Todos
os Santos. A igreja da época possuía um dia designado para cada
santo. Mas como havia mais santos do que dias disponíveis, os
santos menos populares foram todos despejados nesse único dia.
No dia 1 de novembro de 1517 milhares de peregrinos se acotove-
lavam em Wittenberg para apreciar e venerar a invejável coleção
de relíquias de Frederico, o Sábio e, em razão disso, receber indul-

173
IGREJA LUTERANA

gências. O historiador Harold Grimm afirma que esta coleção com-


punha-se de um acervo de relíquias sagradas tal que poderia con-
ceder um total de 127.799 anos e 116 dias no purgatório. A Refor-
ma surge para dar um novo viés à teologia e à vida das pessoas. A
salvação vem pela graça exclusiva de Deus e não de outras fontes,
sejam elas deuses ou santos.
No tempo dos juízes, o povo de Deus enveredou por outros
caminhos. Falharam os líderes, os sacerdotes, os profetas. “Cada
um faz o que é reto aos seus próprios olhos”. O clamor de Israel
tem outro endereço que não o verdadeiro Deus. É necessário que
haja uma Reforma. Enquanto isso, o SENHOR vem com uma terrível
e assustadora conclusão: “não vos livrarei mais”. O decreto divino
implica a sentença de morte de Israel. Sem a presença de Deus,
Israel está condenado. O SENHOR sugere que Israel busque socor-
ro entre os deuses que por longo tempo tem adorado: “eles que
vos livrem” (v. 14).
Israel é persistente, entretanto, e implora a Deus com uma
segunda palavra de arrependimento (v.15). Materializam suas pa-
lavras, ou seja, “tiraram os deuses alheios do meio de si”. Anterior-
mente Israel servia a “outros deuses” (~yrIxa] ; ~yhilao )/ ; no momento
o )/ . Israel
Israel está servindo também a “deuses alheios” (rkNEh; yhela
livra-se dos “deuses alheios”, mas não se livra dos “outros deuses”,
a quem se havia apegado. A linha seguinte é crucial, mas polêmica.
O SENHOR “já não pôde reter a sua compaixão por causa da des-
graça de Israel” (v. 16). O verbo rcq freqüentemente tem a
conotação de frustração, perda de paciência e exaspero (Nm 21.4-
5; Zc 11.8-9). É verbo empregado quando Sansão se torna tão
exasperado com a constante importunação de Dalila que ele lhe
revela o segredo da sua força (16.16). Assim, é possível ler a
resposta do SENHOR no v. 16 não como uma alegre aquiescência
dele para libertar a Israel motivado por genuíno arrependimento da
parte do povo. Não. Não é uma ação ou reação do povo de Israel
ou nossa que fará com que o SENHOR se volte para ele e para nós
de maneira misericordiosa e salvífica.
Além do mais, o SENHOR sabe que tal suposto arrependimento é
de novo vazio e passageiro. Ou seja, o velho padrão já costumeiro
haveria de repetir-se muitas vezes. Não é o arrependimento de
Israel que motiva Deus a não mais reter a sua compaixão. O que
faz Deus intervir na vida desesperada do seu povo de antes e de
hoje é unicamente a Sua misericórdia. Não será uma força interna
no povo que levará o SENHOR a ser compassivo. Não é uma mu-

174
DIA DA REFORMA

dança interna ou externa, ex opere operato, que fará com que


Deus seja gracioso com Israel, com a igreja da Idade Média, ou
conosco. Talvez nós mesmos, antes de condenarmos Israel por sua
lerdeza de coração, faríamos bem em reconhecer nossa própria
dependência da misericórdia de Deus.
O SENHOR torna claro a Israel, sem dúvida por meio de um
profeta (cf. 6.8), que a graça divina não é um artigo barato que
está disponível aos caprichos do ser humano. Deus não tem obri-
gação nenhuma de perdoar abusos da sua bondade toda vez que o
pecador choraminga sob o cetro da ira de Deus. Ao mesmo tempo
como misteriosamente diabólico é o poder da iniqüidade sobre o
coração do ser humano, assim é também a misteriosa vitória da
misericórdia sobre a justiça no coração de Deus. Ela está acima de
toda a compreensão (Os 11.8ss.).
Deus se utiliza de várias e surpreendentes pessoas para atingir
Seus propósitos através do livro de Juízes. Como Seus instrumen-
tos, Deus inclui um assassino canhoto de nome Eúde; uma mulher –
juíza e profetisa – chamada Débora; outra mulher - não israelita -
chamada Jael; e um tímido Gideão, o mais frágil dos frágeis. Jefté,
entretanto, parece ser a maior surpresa de Deus dentre todos os
juízes. Ele é filho de uma prostituta, desprezado pela família e líder
de um bando de foras-da-lei. É também um barganhador na medida
em que obtém para si a posição de líder sobre todo Gileade em
troca da sua disposição em lutar contra os moabitas. Para os nos-
sos padrões, Jefté talvez jamais estivesse qualificado para integrar
o quadro dos juízes que iriam julgar e salvar o povo de Deus.
Contudo, Deus o escolhe para que julgue Israel por 6 anos (12.7),
e Jefté será listado na carta aos Hebreus como um dos heróis da fé
(Hb 11.32). Deus não se utiliza de santos de plástico, de pedra ou
de relíquias mas de seres humanos de carne e sangue, ao mesmo
tempo pecadores e santos, para efetivar a Sua vontade no mundo.
Como Deus age com sua graça e misericórdia na história do seu
povo no Antigo Testamento, assim Ele o faz na Idade Média com a
Sua igreja.
Martinho Lutero era filho de camponês. Martinho nasceu e logo
no dia seguinte foi batizado para homenagear o santo do dia: São
Martinho. Contrariando seu pai, Martinho se torna monge, pois bus-
cava aplacar a ira de Deus sobre os seus pecados. Por mais arre-
pendido que estivesse, e a consciência a atormentá-lo, Lutero não
encontra paz, perdão e salvação porque faz a procura nos santos,
na idolatria, em si mesmo, na justiça própria, nas suas próprias
obras. Deus não chama pessoas qualificadas; Ele qualifica as que

175
IGREJA LUTERANA

chama. Deus coloca pessoas, profetas no caminho de Lutero como


um Staupitz que lhe mostrará que o caminho para a paz com Deus
está na obra salvadora de Jesus Cristo. O justo viverá pela fé, por
causa da fidelidade de Jesus. Mais tarde o Reformador dirá: “Qual-
quer pessoa que busca Deus fora de Cristo, jamais o encontrará”.
Lutero se torna profeta e um libertador do seu tempo. Fomos agra-
ciados por Deus por meio dele; somos profetas e profetisas de
Deus para o nosso tempo.

Acir Raymann
São Leopoldo, RS

176
AÇÃO DE GRAÇAS
RUTE 2.19
Bendito aquele que te acolheu favoravelmente

Rute, ao perder marido e filhos em terra estrangeira, está redu-


zida à pobreza extrema. Ela vive da bondade das pessoas para
tudo. Levítico 19.9,10 registra uma provisão que Deus havia feito
para a sobrevivência dos pobres. Aí diz: “Quando também segares
a messe da tua terra, o canto do teu campo não segarás total-
mente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. Não rebus-
carás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha.
Deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o Senhor, vosso
Deus”. Noemi está pobre. Rute, a nora que decidiu acompanhá-la
no seu retorno à pátria e à sua família, é estrangeira. É tempo da
colheita da cevada. Rute se oferece para repassar os campos em
colheita para trazer alguma coisa na volta. Talvez lhe custa depen-
der em tudo da bondade alheia.
É importante conhecermos a vida de Noemi. Por que ela decidiu
voltar? Não fazia idéia daquilo que a aguardava no seu retorno? Ou
a opção de ficar na terra dos moabitas lhe parecia pessoalmente
ainda mais traumática? Verdade é que, ao sair com o marido Elime-
leque de Belém para a terra de Moabe (Rt 1.1), Noemi já estava
fugindo da fome e da miséria. Agora está de volta. Não há mais o
flagelo da fome em Belém. Mas Noemi está à margem, na miséria,
em sua própria terra. Ela diz: “Não me chameis de Noemi; chamai-
me Mara (amarga), porque grande amargura me tem dado o
Todo-Poderoso. Ditosa eu parti, porém o Senhor me fez voltar
pobre” (1. 20,21).
Noemi não fala de sorte, azar, problemas, dificuldades. A sua
linguagem e visão dos fatos é outra. “Grande amargura me tem
dado o Todo-Poderoso [...] Ele me fez retornar pobre.” Claramen-
te Noemi pensa como Jó, numa fé simples e singela: “Temos rece-
bido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó
1.10). Ou aquela que Jesus indica aos seus seguidores: “Olhai os
lírios do campo, olhai as aves do céu ...” (Mt 6) Ou quando diz:
“Se não vos tornardes como crianças” (Mt 18.3). Noemi se coloca
diante da vida como quem sabe apenas que nada se move nos
céus ou na terra sem o consentimento e a ação de Deus.
Talvez para Noemi estivesse claro algo que as pessoas de todas
as épocas sempre tiveram dificuldade de admitir para viver de acordo.
Penso na noção que Lutero e os Reformadores de Wittenberg tão

177
IGREJA LUTERANA

bem recapturaram e que permite “deixar Deus ser Deus”. Isto é,


fazer valer o que Isaías e o apóstolo Paulo, por exemplo, expressa-
ram ao dizer: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que
não quero, este eu faço” (Rm 7.19). Ou: “Mas todos nós somos
como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo de imun-
dícia” (Is. 64.6).
Debaixo da lei e sob a nossa condição humana, nada de bom
podemos esperar, pedir ou reivindicar de Deus. “Nada merecemos,
senão castigo” ensinamos aos confirmandos, conforme palavra de
Lutero. Contrário a isso, o ser humano expressa em tudo que diz e
faz a convicção de que nasceu com o direito a uma vida longa,
plena de coisas boas. Planeja e pensa como se a vida estivesse em
dívida com ele. Para o ser humano a regra acima de todas as regras
é o seu direito ao bem-estar. Em momento nenhum passa-lhe pela
cabeça a idéia de que os seus planos e aspirações são menos
consistentes do que uma fumaça que se dissipa logo.
O que acrescenta ainda outro ato falho do ser humano. Quando
pensa em Deus, pensa em alguém que cedo ou tarde deverá ajudá-
lo a obter o que ele, ser humano, julga como seu de direito. Ele
pode até pedir e agradecer a Deus. Mas pede e agradece como
alguém cujas vontades e desejos devam ser satisfeitos. Razão
porque, uma vez que seus sonhos não se realizam e experimenta
frustrações, queixa-se da vida, das pessoas, do governo, da reali-
dade econômica. E em nenhum momento se pergunta: o que Deus
está dizendo a mim nestas frustrações e necessidades que me
atingem?
Noemi não deixou de lamentar o seu estado de miséria. Para
marcar a sua tristeza, pedia que a não mais chamassem de Noemi
(minha doçura), mas de Mara (amarga). Ao mesmo tempo, sabe
que sua vida, agora como antes, está nas mãos de Deus: “O Se-
nhor me fez voltar pobre” (1.21). E por isso a vida continua.
Noemi não espera por uma reviravolta. A sua vida agora é uma vida
de pobre. Mas Deus, que a fez voltar pobre, é o seu Deus.
Ao pensarmos que Rute, a estrangeira, é da linhagem de Jesus,
podemos ver nisto um sinal do reino do Messias, nascido em pobre-
za e em busca dos perdidos. Ao mesmo tempo, sublinha a palavra
de Jesus: “Os pobres sempre os tendes convosco”. É assim que
Deus se revela e quer ser conhecido: O Deus daqueles que o mun-
do não conhece. O que Jesus também coloca nos lábios de Abraão
quando diz ao rico, que estava no inferno: “Filho, lembra-te que
recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro, igualmente, os
males” (Lc 16.25).

178
AÇÃO DE GRAÇAS

Submeter-se à vontade de Deus significou algo especial para


Noemi e Rute, como mais tarde à mãe do Salvador: “Uma espada
traspassará a tua alma” (Lc 2.35). Esta experiência da fé não está
reservada a todos da mesma maneira. Mas o sofrimento na alma é
uma experiência por que todos passam em sua vida.
Rute, predecessora do Messias (Mt 1.5), está entre os pobres,
colhendo espigas. O autor deste relato não menciona em que esta-
do de espírito Rute se dispõe a viver como pobre entre os pobres.
Como também não existe da parte de Deus um “jeito” de compen-
sar no futuro os que sofrem hoje. Fato é que a nossa realidade
humana a nada mais pode aspirar por natureza do que sofrimento e
morte. O natural para a natureza humana é sofrer as conseqüênci-
as do seu estranhamento com Deus.
Entretanto, Deus quer que aprendamos a reconhecer-nos na
imagem que a lei apresenta de nós. Admitindo que a nada temos
direito, nos perguntamos: E então? De onde vem o bem?

Paulo P. Weirich
São Leopoldo, RS

179
IGREJA LUTERANA

LIVROS

Recensão de EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que


Jesus não disse?: Quem mudou a Bíblia e por quê. Trad. Mar-
cos Marcionilo. São Paulo: Prestígio, 2006.

Haveria vários motivos para levar a sério este livro do biblista


norte-americano Bart Ehrman: 1. É um livro que vendeu muito bem
nos Estados Unidos e foi escrito por alguém que, na capa da tradu-
ção brasileira, é apresentado como “A maior autoridade em Bíblia
do mundo”. 2. Populariza um assunto técnico, que é a crítica tex-
tual do Novo Testamento (NT), com todos os riscos envolvidos
num processo de popularização. 3. Aproveita a onda das “teorias
de conspiração” que ajudaram a alavancar as vendas de O Código
da Vinci. Isto fica claro na informação – discutível, diga-se de
passagem – que se encontra na quarta capa: “Este livro mostra a
história que está por trás das alterações que eclesiásticos políticos
e copistas ignaros fizeram no NT, causando um impacto enorme
(sic) na compreensão e interpretação da Bíblia que temos hoje”.
Bart Ehrman não é, com certeza, a maior autoridade em Bíblia
do mundo. Dizer isso é simples estratégia de marketing. (Na edição
original inglesa, o atrativo parece estar no título: Misquoting Jesus,
ou seja, citando Jesus de forma errada! Na verdade, poucas das
variantes textuais discutidas têm algo a ver, diretamente, com
palavras de Jesus. Neste sentido, em inglês, o título do livro é
enganoso). Ehrman é uma autoridade, um especialista de renome,
que escreveu uma série de livros sobre o NT. Atualmente leciona na
universidade de Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ajudou a
produzir edições revisadas de livros do renomado crítico de texto
Bruce M. Metzger, de quem foi aluno. (Maior autoridade do que
Ehrman é, sem dúvida, Bruce Metzger!) Escreveu, na década de
1990, uma obra intitulada The Orthodox Corruption of Scripture (A
Corrupção das Escrituras promovida pelos Ortodoxos), que é, a
rigor, a obra que ele está popularizando em O que Jesus disse? O
que Jesus não disse?
Uma das surpresas do livro é a Introdução. Nela, Ehrman des-
creve a sua trajetória teológica, ou seja, como de fundamentalista
de direita passou a uma postura liberal. Embora Ehrman esteja
convencido de que passou de fundamentalista de direita a pesqui-
sador neutro, a impressão que se tem é que ele apenas mudou de
lado, ou seja, continua sendo fundamentalista, só que de esquer-

180
LIVROS

da. Isto, é claro, tomando o termo fundamentalista no sentido de


pessoa radical que não consegue perceber nenhum tom cinza en-
tre o preto e o branco.
O livro se tornou um best-seller nos Estados Unidos. Isto até
surpreende, pois aborda um tema bastante técnico ou especializa-
do. Populariza a crítica textual do NT, um assunto que até teólogos
profissionais tendem a deixar de lado, em grande parte por sua
complexidade e, em muitos casos, por entenderem que não faz
diferença nenhuma. Neste sentido, é um bom livro que promove um
assunto que deve interessar, sempre, especialmente a teólogos.
Em especial, os quatro primeiros capítulos formam uma introdução
bastante acessível ao assunto da crítica textual do NT.
Não é nenhuma novidade afirmar que o texto grego do NT foi
preservado através de um processo de cópia manuscrita e que,
nesse processo, o texto foi, quase que inevitavelmente, alterado.
Essas diferenças que aparecem na comparação entre manuscritos
são chamadas de variantes textuais. Elas são milhares, no caso do
NT. Num certo sentido, quanto mais cópias manuscritas (e, neste
caso, cada nova cópia é uma nova edição) se tiver à disposição,
maior será o número de variantes textuais. E, no caso do NT,
temos mais de cinco mil manuscritos gregos, desde pequenos frag-
mentos até cópias completas, isto é, cópias que trazem o texto do
NT na íntegra. Isto ajuda a multiplicar o número de variantes.
Essas variantes, como é sabido, são de dois tipos: involuntárias,
ou seja, modificações que entraram sem que os copistas se des-
sem conta (saltar uma linha, trocar uma letra, etc.), e intencionais
(corrigir a gramática do grego, eliminar uma frase que parecia ofen-
siva, etc.). Nisto o livro de Ehrman não traz nenhuma novidade. Já
temos algo parecido, em português, no livro de Wilson Paroschi,
Crítica Textual do NT (Edições Vida Nova).
Há, no entanto, alguns problemas no livro de Ehrman, para os
quais é necessário chamar a atenção. A rigor, é um problema só: o
radicalismo ou a forma contundente como ele coloca as coisas.
Portanto, o problema não é o que ele diz, mas a forma como diz e o
que deixa de dizer.
Ehrman não sabe ou, provavelmente, não quer colocar a ques-
tão textual do NT em perspectiva. Que se quer dizer com isso? O
seguinte: esse problema de erros no processo de cópia não se
limita ao texto do NT. Todos os livros antigos que foram preserva-
dos em processo de cópia manuscrita sofrem do mesmo problema.
Ehrman dá a entender que só o NT foi vítima de “eclesiásticos
políticos e copistas ignaros”, o que não é verdade. Também não

181
IGREJA LUTERANA

informa que, no caso do NT, temos uma riqueza de material (núme-


ro de manuscritos ou cópias) que não temos para nenhum outro
livro antigo (textos de autores clássicos, por exemplo). Além disso,
no caso do NT, as cópias mais antigas estão bem próximas do
tempo em que viveram os escritores (o mais antigo fragmento de
João é datado do ano 130, o que dá um intervalo de uns 40 anos
entre o tempo em que se acredita que João tenha escrito seu
Evangelho e o mais antigo fragmento subsistente). No caso de
autores clássicos, as cópias mais antigas estão, em alguns casos,
mais de mil anos afastadas do tempo em que viveram esses escri-
tores!
Outro detalhe sobre o qual Ehrman não informa é este: essas
alterações, que são milhares, são, em sua grande maioria, total-
mente irrelevantes. Ou seja, são inocentes, não mudam nada. Quan-
do a gente lê o livro de Ehrman tem a impressão de que o NT está
cheio de problemas cabeludos como aqueles que ele cita, em espe-
cial a perícope da mulher adúltera (João 8) e o final de Marcos. Ele
próprio afirma, no segundo parágrafo da Conclusão (p. 217), que
“seria um equívoco dizer – como as pessoas fazem às vezes – que
as mudanças em nosso texto não têm peso real sobre aquilo que os
textos significam ou sobre as conclusões teológicas que se
depreendem deles”. Só que, neste caso, as pessoas que Ehrman
cita, de forma genérica, são a absoluta maioria dos críticos de
texto do NT. Ehrman tratou os assim chamados problemas clássi-
cos. Tirante esses casos, a maioria das demais variantes são mais
interessantes do que importantes. Em outras palavras, esses pro-
blemas textuais (variantes) afetam, no máximo, uns três por cento
do texto do NT. Portanto, a situação não é tão séria quanto Ehrman,
um alarmista, nos quer levar a crer. Temos quase certeza absoluta
de que o texto grego impresso hoje é o texto grego que saiu da
mão dos evangelistas e apóstolos. Kurt Aland morreu convicto de
que o Nestle-Aland, vigésima sétima edição, é o texto original do
Novo Testamento.
Ao contrário do que afirma Ehrman, as variantes textuais afe-
tam em pouco ou nada “as conclusões teológicas que se depreendem
deles”, isto é, dos textos do NT. Nenhuma doutrina cristã é posta
em dúvida ou poderia ser mudada a partir de (ou com base em)
variantes textuais. Em outras palavras, essas variantes têm a ver
com questões menos importantes, se comparadas com as grandes
verdades afirmadas no NT (a ressurreição de Jesus, o amor de
Deus em Cristo, etc.).
Um exemplo é a história da mulher adúltera em João 8. Ali temos

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LIVROS

um problema textual, pois muitos manuscritos antigos não trazem


essa história. Outros a colocam no Evangelho de Lucas. A maioria
dos eruditos entende que, ainda que pareça estar fora do lugar, é
uma história autêntica e, mais importante ainda, uma história que é
parte do cânone bíblico. Agora, mesmo que não fizesse parte do
NT (no que particularmente não acredito), em nada diminuiria a
mensagem de que Cristo aceita o pecador! Afinal, existem muitas
outras passagens que mostram isso também.
Outro exemplo é 1Jo 5.7-8, o famoso “parêntese joanino” que
fala dos três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e
Espírito Santo. Ehrman nunca informa que este exemplo é único, ou
seja, que não existe nenhum outro exemplo conhecido em toda a
história da crítica textual em que algo tenha sido inserido no texto
do NT, no século 16, com base em apenas um manuscrito copiado
ao final da Idade Média. Além disso, Ehrman dá a entender que a
doutrina da Trindade depende desse acréscimo espúrio. Diz ele: “é
a única passagem na Bíblia inteira que delineia explicitamente a
doutrina da Trindade” (p. 91). Diz mais: “Sem esse versículo, a
doutrina da Trindade deve ser inferida de uma série de passagens
combinadas para mostrar que Cristo é Deus, assim como o Espírito
e o Pai, e que há, não obstante, um só Deus” (p. 91-92). Ehrman
faz questão de ignorar as numerosas referências trinitárias do NT,
a começar por Mt 28.19. Pensar que a doutrina da Trindade depen-
de dessa passagem espúria mais uma vez aproxima Ehrman dos
fundamentalistas de direita. Também estes temem que, se abrirmos
mão do “parêntese joanino” (aceitando, por exemplo, os colchetes
que aparecem na Almeida Revista e Atualizada), teremos negado a
doutrina da Trindade, o que, a rigor, não é verdade.
Ehrman trabalha, também, com a hipótese de que os copistas
cristãos dos primeiros três séculos eram todos amadores e mal
preparados para a tarefa. Em outras palavras, como diz na quarta
capa, “copistas ignaros”. Segundo ele, apenas ao tempo de
Constantino a tarefa de copiar os textos do NT teria passado ao
cuidado de profissionais. Embora verossímil, não há como provar
essa tese. A evidência textual do segundo e terceiro séculos, em-
bora menos numerosa do que a de séculos posteriores, não revela
uma maior fluidez na tradição textual que pudesse fundamentar a
tese de Ehrman. Em outras palavras, tudo indica que os copistas
do período anterior a Constantino não eram mais nem menos des-
cuidados do que os copistas de períodos posteriores.
Ao final do livro, Ehrman volta a falar de sua peregrinação teo-
lógica, com destaque para a doutrina da inspiração da Bíblia. Afir-

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ma que as variantes textuais levaram-no a abrir mão da doutrina


da inspiração da Bíblia. Sua argumentação é a seguinte: “a única
razão (pensava eu) de Deus inspirar a Bíblia seria para seu povo ter
as suas palavras reais; mas se ele realmente queria que as pessoas
tivessem suas palavras reais, certamente poderia ter preservado
miraculosamente essas palavras, assim como primeiramente as ins-
pirara milagrosamente. Dadas as circunstâncias de que não preser-
vou as palavras, a conclusão me pareceu inevitável: ele não se
deu ao trabalho de inspirá-las” (p. 221).
Em resposta, pode-se dizer que Ehrman não fundamenta ou
justifica o pressuposto de que, se os textos fossem inspirados,
Deus poderia e deveria ter preservado, sem erros, todas as cópias
feitas em épocas posteriores. (Notar que este argumento se apro-
xima, ainda que por via inversa, da tese dos defensores do texto
majoritário: Deus não teria permitido que esse texto se espalhasse
tão amplamente caso não fosse, de fato, o texto original!) E mani-
festa-se outra vez o radicalismo de Ehrman: ou tudo, ou nada. Ao
mesmo tempo, percebe-se que Ehrman opta pelo método indutivo
de fazer teologia: pela soma de dados é que se chega (ou não) à
conclusão de que as Escrituras são inspiradas por Deus. A posição
evangélica clássica opera por dedução. Nunca ninguém afirmou
que inspiração e inerrância são doutrinas que resultam de um exa-
me dos fatos ligados aos textos bíblicos existentes. (Franz Pieper
afirma que isto é algo que se sabe a priori.) Ao contrário, são
decorrências ou conclusões que emanam da convicção, baseada
na própria Escritura (2Tm 3.16; João 10.35; João 14.26), de que
Deus é o autor desses textos – apesar das variantes textuais que
os homens não tiveram como evitar.

Vilson Scholz

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