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IGREJA LUTERANA

Revista Semestral de Teologia

1
IGREJA LUTERANA

SEMINÁRIO
CONCÓRDIA

Diretor
Gerson Luis Linden

Professores
Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Gerson Luís Linden,
Leopoldo Heimann, Norberto Heine (CAAPP), Paulo Gerhard Pietzsch, Paulo
Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum, Vilson Scholz

Professores Eméritos
Donaldo Schüler, Paulo F. Flor

IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade
de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
(IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

Conselho Editorial
Paulo Wille Buss (Editor), Paulo Proske Weirich (Editor Homilético)

Assistência Administrativa
Nara Coelho

A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Ameri-


cana e Old Testament Abstracts.

Os originais dos artigos serão devolvidos quando acompanhados de envelope


com endereço e selado.

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CORRESPONDÊNCIA
Revista Igreja Luterana
Seminário Concórdia
Caixa Postal 202
93001-970 – São Leopoldo/RS
Telefone: (0xx)51 3592 9035
e-mail: seminarioconcordia@ulbranet.com.br
www.seminarioconcordia.com.br

2
ÍNDICE

FÓRUM
RELATÓRIO DO 11º CONGRESSO INTERNACIONAL
DE PESQUISA DE LUTERO 05
Clóvis Jair Prunzel

A IGREJA E O PASTOR À LUZ DO PRIMEIRO USO DA LEI 07


Vilson Scholz

ARTIGOS
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO 15
Anselmo Ernesto Graff

ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO


DO CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ 35
Vilson Scholz

ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA


É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ 55
Anselmo Ernesto Graff

PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMBATER O PECADO 87


Trad. Anselmo Ernesto Graff

PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA O SERVIÇO CRISTÃO 93


Trad. Anselmo Ernesto Graff

IGREJA LUTERANA
Volume 66 – Junho e Novembro de 2007 – Números 1 e 2

3
IGREJA LUTERANA

DEVOCIONAIS
DEUS NOS GUARDA EM TODOS OS NOSSOS CAMINHOS 101
Gerson L. Linden

MOMENTO PERFEITO 105


Paulo Proske Weirich

VER OU OUVIR? 109


Anselmo Ernesto Graff

JESUS, O CENTRO 115


Acir Raymann

OS HUMILDES SÃO ENGRANDECIDOS 117


Vilson Scholz

QUANTO CUSTA SER DISCÍPULO DE JESUS? 121


Acir Raymann

DÍVIDAS 125
Paulo Wille Buss

SANTIFICA-OS COM A TUA PALAVRA DA VERDADE 131


Vilson Scholz

MANTENDO O FOCO 135


Paulo Proske Weirich

HORA DE ACORDAR 139


Raul Blum

QUE HORA É ESSA? EM QUE TEMPO ESTAMOS VIVENDO? 143


Vilson Scholz

EXPECTATIVA E SURPRESA 147


Paulo Wille Buss

4
FÓRUM

RELATÓRIO DO 11º CONGRESSO


INTERNACIONAL DE PESQUISA DE LUTERO
Clóvis Jair Prunzel1

Durante os dias 22 a 27 de julho de 2007, na Universidade Luterana


do Brasil – ULBRA, realizou-se o 11º Congresso Internacional de Pes-
quisa de Lutero. Pela primeira vez ao longo de sua história, o Congres-
so foi sediado em um país do hemisfério Sul. Com base no tema A ética
de Lutero: vida cristã na igreja, família, economia e política, o Congresso
esteve organizado em três grandes momentos: palestras, seminários
e pequenas apresentações.
As palestras principais apresentaram o tema aos congressistas. A
missão de Lutero no Brasil de hoje foi a palestra de abertura apresenta-
da pelo Dr. Gottfried Brakemeier (EST-SL). Dr. Antti Raunio dirigiu a pa-
lestra Fé e vida cristã na Confissão de Lutero de 1828. A terceira palestra
teve o tema O uso por parte de Lutero da tradição legal de seu tempo. Dr.
Ricardo Rieth apresentou o tema A resposta de Lutero às mudanças
sociais e econômicas de seu tempo. Dr. Jane Strohl conduziu a reflexão
Uma nova apreciação de Lutero a respeito da sexualidade, casamento e
família. Dr. Carl Aurelius palestrou sobre Deus iustificans homo peccator:
culto como impulsionador para a vida cristã. As palestras foram encerra-
das com uma videoconferência conduzida pelo Dr. Robert Kolb direta-
mente de Saint Louis, EUA, sob o tema Modelos para a vida cristã nas
exegeses e sermões de Lutero.
Dos 14 seminários organizados, destacaram-se: A exposição de
Lutero a respeito do Sermão do Monte, Catecismos e catequistas, Lutero
sobre o trabalho e a vocação, Sexualidade e casamento na teologia de
Lutero, Recepção de Lutero em países do Terceiro Mundo, etc.
As pequenas apresentações oportunizaram pesquisadores e estu-
diosos a compartilhar suas pesquisas. Foram diversas apresentações.
A convivência com mais de 150 pesquisadores e especialistas em
Lutero é, sem dúvida, ímpar. Para nós, Seminário Concórdia e IELB,
conhecer pessoalmente pessoas que até pouco tempo atrás eram co-
nhecidas somente pela sua produção bibliográfica é um grande privilé-
gio. Também, receber este grupo de pessoas privilegiadas em sua pró-

1
O Rev. Prof. Clóvis Jair Prunzel é Professor de Teologia Sistemática no Seminário
Concórdia e na ULBRA.

5
IGREJA LUTERANA

pria casa é um belo estímulo para continuar a pesquisa em Lutero (o


Seminário Concórdia recepcionou os congressistas no dia 24 de ju-
lho). Pelo Seminário Concórdia, participaram os professores Paulo W.
Buss, Paulo Weirich e Clóvis Prunzel, além de três professores que
atuaram na organização do congresso: Gerson Linden, Leopoldo
Heimann e Paulo Pietzsch.
O próximo congresso está agendado para 2012 em Helsinki, na
Finlândia.
No endereço http://www.ulbra.br/luthercongress/ tem-se mais in-
formações sobre o Congresso.

6
A IGREJA E O PASTOR À LUZ DO
PRIMEIRO USO DA LEI1
Vilson Scholz2

Lembro muito bem que, em aula, o saudoso Dr. Otto A. Goerl certa
vez comentou a respeito de um diálogo que tivera com um teólogo nor-
te-americano a respeito do primeiro uso da lei. Ambos teriam chegado à
conclusão de que tinham dificuldade de “pregar” o primeiro uso da lei.
O primeiro uso da lei é comumente apresentado através da metá-
fora do freio.3 Essa noção de “freio” parece dar à lei uma função mera-
mente negativa: impedir que o mundo e a nossa vida assumam um
caráter caótico ou desordenado. (Seria como um freio que impede que
a viatura se estatele contra a parede ou caia no despenhadeiro; seria
como um meio-fio que mantém os automóveis afastados da calçada,
etc.) Mas a lei em seu primeiro uso tem, com certeza e antes de mais
nada, pelo menos à luz da ética, uma função positiva. O mundo em que
vivemos foi criado e, ao ser criado, foi ordenado. Como diz Isaías (45.18),
Deus não criou a terra para ser um caos.4 Dizemos que Deus colocou
em sua criação um princípio de ordem, uma lei. Esta é a lei em seu
primeiro uso.
Não sei se podemos “pregar” o primeiro uso da lei.5 Mas, com certe-
za, podemos e precisamos ensiná-lo. Podemos e devemos tirar as con-
seqüências do fato de que o primeiro uso da lei existe, mesmo que por
vezes não seja lembrado. Especialmente em épocas mais instáveis,
faz bem refletir sobre este uso da lei. Talvez tenha havido um tempo
em que as coisas eram mais estáveis, estavam mais ordenadas, e a
gente podia funcionar como que “no automático”. Hoje, no entanto, as
forças caóticas parecem mais em evidência, o que torna mais premen-
te uma recuperação do primeiro uso da lei. No que segue, quero fazer
uma reflexão dividida em dois tópicos ou momentos: a igreja e o pri-
meiro uso da lei; o pastor e o primeiro uso da lei.

1
Estas reflexões foram inspiradas por James Bachman, professor de Ética da Concordia
University de Irvine, Califórnia, uma escola do Sínodo de Missouri.
2
O Rev. Prof. Dr. Vilson Scholz é Professor de Teologia Exegética (Novo Testamento) no
Seminário Concórdia e na ULBRA e Consultor de Traduções da Sociedade Bíblica do
Brasil.
3
A lei, em seu primeiro uso, é freio; no segundo uso, espelho; e, no terceiro uso, norma.
4
No hebraico, é usada a palavra tohu, a mesma que ocorre em Gn 1.2 (“sem forma”).
5
A rigor, não temos controle absoluto sobre os diferentes usos da lei. A lei que se pretende
como de terceiro uso, facilmente se torna em espelho ou lei que acusa (segundo uso).

7
IGREJA LUTERANA

IGREJA

Por igreja quero entender, neste caso, a igreja local (congregação,


paróquia). Claro, quando se vê a igreja à luz do primeiro uso da lei,
não se está falando dela como “os santos crentes e ‘os cordeirinhos
que ouvem a voz de seu pastor’” (Artigos de Esmalcalde, 12). Trata-se
da igreja em sua configuração histórica, como organização inserida
neste mundo. À luz do esquema dos dois reinos, a igreja entra tanto
no reino da mão direita de Deus (evangelho) quanto no reino da mão
esquerda (lei). Aqui, interessa mais a perspectiva do reino da mão
esquerda.
A igreja, vista sob a ótica do primeiro uso da lei, é uma organização
como muitas outras deste mundo. Ela se organiza a exemplo de ou-
tros grupos sociais, estabelece horários de culto, faz registros, paga
salários, cumpre as leis, etc. Ela precisa – e tem – um conjunto de
suportes culturais que propiciam o contexto no qual se pode pregar o
evangelho. Dito de outra forma, Deus mantém o ‘microcosmo’ da co-
munidade cristã com a sua mão esquerda (lei) para poder, nele, fazer a
sua obra própria que é proclamar o seu evangelho.
Num contexto de igreja transplantada da Europa para a América,
esses suportes culturais incluíam – e em grande parte ainda incluem –
elementos como os clássicos corais luteranos, ênfase na educação dos
filhos (tanto assim que, em muitos casos, a escola era quase mais
importante do que a igreja), manutenção de um cemitério, confirmação
como rito de passagem da puberdade (e muitos são os conflitos em
torno deste assunto, com gente saindo da igreja porque o filho ainda
não foi confirmado), uso da língua alemã, realização de festas comuni-
tárias, etc.
Numa situação dessas, o que muitas vezes se imaginava (e ainda
se considera) como resultado direto da pregação do evangelho era e
é, na verdade, fruto daquilo que se pode chamar de “a mão oculta da
solidariedade étnica e social”, ou, então “a presença das mãos invisí-
veis dos patriarcas da comunidade”. Ou, se preferir, a presença da lei
em seu primeiro uso. Outra maneira de dizer isso – talvez de maneira
um pouco mais chocante – é afirmar que não é automático que a pre-
gação correta do evangelho resultará inevitavelmente na formação de
uma comunidade humana viável que consiga dar conta de todos os
seus compromissos (como pagar todas as contas e salários).6 O Novo
Testamento não permite que se faça tal afirmação precipitada. Tam-
bém naquele tempo havia “mãos invisíveis” que mantinham as comu-

6
Do contrário, todas as organizações heréticas teriam que ser, por definição, caóticas, o
que não é o caso.

8
A IGREJA E O PASTOR À LUZ DO PRIMEIRO USO DA LEI

nidades coesas. Os apóstolos começaram a pregar em comunidades


que já tinham uma estrutura, a saber, a sinagoga judaica e a casa
romana. Por vezes, essas comunidades podiam pagar as despesas do
pregador. Em outros casos, Paulo tinha de fazer tendas (At 18.3; 20.34;
1 Ts 2.9). Algumas delas, como a de Filipos, estavam plenamente en-
gajadas no projeto missionário do apóstolo. Outras, como a igrejas de
Corinto, tiveram que ser sacudidas com argumentos de todo tipo, in-
clusive alguns que temos que descrever como “motivações derivadas
do primeiro uso da lei”. É o que se percebe, por exemplo, no início de 2
Coríntios 9, onde aparece um argumento que nos parece pouco teoló-
gico (“mexam-se, para que eu e vocês não fiquemos desmoralizados
na presença de outros!”).
Cada igreja tem uma configuração social e cultural própria que in-
clui uma vida comunitária com a qual as pessoas se comprometem em
maior ou menor escala. Também se pode afirmar que cada igreja ou
comunidade tem a sua própria cultura, que não é necessariamente a
cultura da igreja vizinha. Deus embutiu uma grande diversidade em
sua criação, e isto se aplica também à organização social. As pessoas
se organizam em configurações sociais e culturais diferentes, algo que
pode, também, ser verificado nas igrejas (vistas sob a ótica do primei-
ro uso da lei). Podemos dizer que cada igreja e, por conseguinte, cada
denominação tem o seu etos, seu jeito próprio de ser.
O corpo de Cristo (que é a igreja sob o ponto de vista do evange-
lho) necessariamente será achado no meio de determinada estrutura
social humana. Sempre vai haver alguma estrutura, do lado de cá da
eternidade ou na realidade da igreja militante. Sempre vai haver uma
cultura. Sempre vai haver uma liturgia. Mas nenhuma estrutura em
particular é essencial à vida do corpo de Cristo. Não se pode fazer
confusão entre cultura e evangelho, que é uma forma de confusão
entre lei e evangelho. A cultura não é evangelho, por mais que, às
vezes, ela seja fundamental para que se possa pregar o evangelho.7
Será que existem contextos em que a manutenção da cultura (pri-
meiro uso da lei) pode vir em detrimento da pregação do evangelho?
Claro que sim. Neste caso, essas práticas culturais precisam ser criti-
cadas e revisadas à luz do evangelho. (Um exemplo que vem à mente
são as festas com seus exageros.) Mas existe também o outro lado, a
saber, a lei (em seu primeiro uso) se colocando a serviço do evangelho.
Numa comunidade social bem ajustada, os crentes tendem a ter

7
O evangelho não depende, por exemplo, da língua alemã, nem de qualquer outra língua.
Em outras palavras, não é necessário aprender alemão para ser luterano (apesar das
histórias de que determinados pregadores já tenham feito tal exigência!). Por outro lado,
há momentos e situações em que o evangelho só será compreendido se for proclamado
em língua alemã, em hunsrik, em pomerano, em kaingang, em iny-karajá, etc.

9
IGREJA LUTERANA

razões de natureza legal para participarem regularmente na congre-


gação, razões que suplementam a resposta espontânea da nova pes-
soa em Cristo. Alguns exemplos ajudam a esclarecer isso. Em congre-
gações de caráter mais familiar (uma mesma família ampliada perfa-
zendo uma igreja), o “estímulo” talvez seja (ou era) a cobrança dos
mais velhos: Onde você esteve ontem, na hora do culto? Em congre-
gações menores com boa freqüência, ou seja, grupos pequenos em
que raramente alguém falta, haverá, talvez, o estímulo a não faltar
para não ter que explicar o motivo da ausência na semana seguinte.
Nos velhos tempos do Seminário Concórdia, cada aluno tinha seu lu-
gar “marcado” nos bancos da capela. Neste caso, esperava-se uma
resposta espontânea do novo homem ou tratava-se de um estímulo
ligado ao primeiro uso da lei?8 Há pessoas que vão, talvez, a uma
reunião na igreja mais por causa do apreço pelos amigos, por causa
do chá e dos salgadinhos do que propriamente por amor à palavra de
Deus. A pessoa talvez vá à igreja por motivações de primeiro uso da lei
(está marcado um almoço; sou tesoureiro e preciso fazer o registro
das ofertas, etc.), mas, em estando lá, tem a oportunidade de ouvir o
evangelho. Podemos dizer que essas são formas de levar o velho ho-
mem à igreja, onde será afogado nas ‘águas’ do arrependimento. E o
velho homem é motivado por incentivos que são típicos do primeiro
uso da lei. Nem mesmo os pastores estão isentos disso.9 Ou será que
nós, pastores, vamos ao culto e oficiamos os cultos motivados apenas
pela graça de Deus? Não seria também porque estamos recebendo
um salário, porque nosso trabalho está sendo avaliado tanto formal
quanto informalmente pela congregação, etc.? Em outras palavras, é
bem provável que as motivações presentes na vida de santos que
continuam pecadores são uma mistura de resposta de velho homem
suscitada pela lei com vida de novo homem em Cristo.
Falamos, no início, das forças desagregadoras presentes no
mundo de hoje. Num contexto desses, um dos desafios da igreja é ser
um grupo social relativamente coeso. Outro desafio, relacionado com
este, é fortalecer a família.10 A igreja não depende da existência de
famílias fortes (pois ela poderia existir como um grupo de três, quinze,

8
Convém notar que uma coisa não invalida a outra e que nossas motivações raramente
são puras.
9
Bachman observa que, em tom de brincadeira, costuma dizer que muitas pessoas esco-
lhem a “carreira” eclesiástica ou se tornam obreiros como única forma de serem pagos
para irem ao culto!
10
A rigor, a família é uma ordem do reino da mão esquerda de Deus, não sendo reconhecida
no reino da mão direita. A única “família na igreja” que o NT conhece é “a igreja como
família”, ou seja, a igreja apresentada sob a metáfora da família de Deus. No NT, nunca se
faz um apelo a uma “família cristã” (por mais importante que a família tivesse sido no
contexto romano, por exemplo), mas somente a várias classes: pais, filhos, servos, etc.

10
A IGREJA E O PASTOR À LUZ DO PRIMEIRO USO DA LEI

ou trezentas pessoas solteiras), mas a presença de famílias fortes


com certeza resultará numa congregação mais sólida e estável. Por
isso, não está fora da alçada da igreja investir no fortalecimento des-
sas estruturas.
Isto é, com certeza, um grande desafio. Mas não somos a primeira
nem a única geração a se defrontar com esses desafios. O livro de
Atos, as cartas aos Coríntios e as cartas a Timóteo e Tito nos dão
vislumbres da dificuldade pela qual passou a igreja dos inícios nessa
questão da dinâmica social ligada ao reino da mão esquerda. Em mui-
tos momentos, não foi nada fácil organizar a igreja sob o ponto de
vista da dinâmica social ligada ao reino da mão esquerda de Deus (lei).
Pensando agora em termos de igreja num sentido mais amplo, como
sínodo, outra reflexão se faz necessária, à luz da realidade de frag-
mentação que caracteriza nosso tempo. Se é verdade que determina-
da organização ou cultura não é essencial ao corpo de Cristo, também
é verdade que essa organização e esses elementos culturais em co-
mum podem ser fator importante que facilite a obra própria da igreja. A
unidade da igreja não depende da unidade de cerimônias uniformes
instituídas pelos homens (Artigo 7 da Confissão de Augsburgo), mas,
num mundo em fragmentação, certa unidade cultural e ritual pode ser
um fator positivo e algo desejável. Houve um tempo em que toda a
igreja, de norte a sul, cantava os mesmos hinos do mesmo hinário. No
falar e cantar da liturgia mudava apenas o sotaque. Hoje a tendência
é centrífuga. E, neste momento, a questão nem chega a ser se deter-
minada música tem letra ortodoxa ou bíblica. Trata-se simplesmente
de refletir em torno dos ritos e estilos musicais que imperam. Porque,
do ponto de vista humano (lei), música e ritos são fortes expressões
culturais e meios de formar e moldar comunidades de pessoas. São
cultura, não evangelho. Agora, uma diversidade que beira o caos difi-
cilmente conseguirá formar uma comunidade sólida. O abandono de
uma norma litúrgica e o esquecimento do hinário oficial resulta num
estranhamento, num levar as pessoas que viajam a perguntar, como
de fato acontece: “Não existe aqui nenhuma igreja luterana”? (E essa
pergunta foi feita por uma pessoa que tivera a oportunidade de parti-
cipar do culto em várias igrejas luteranas daquela região...). Quem
quiser uma maior uniformidade visível (que não é essencial, mas que
pode ser importante), não poderá acomodar todas as opções que se
oferecem. Do contrário, o grupo (leia-se, a igreja) perde o seu caráter
distintivo. E uma estrutura humana sólida propiciará os contextos ne-
cessários nos quais o evangelho pode ser pregado e as pessoas po-
dem ser trazidas para dentro do corpo de Cristo.

11
IGREJA LUTERANA

PASTORES

Os artigos 5 e 14 da Confissão de Augsburgo mostram o que é cen-


tral e essencial no chamado do pastor. Os pastores são, em geral, atra-
ídos a este ofício por causa dessas tarefas essenciais: pregar o evange-
lho e administrar os sacramentos.11 Mas existem também tarefas que
podem ser descritas como “necessárias”, coisas que, embora não es-
sencialmente pastorais, também precisam, em muitos casos, serem fei-
tas pelo pastor. São tarefas que dizem respeito ao reino da mão es-
querda, tarefas ligadas à formação e administração da vida comunitária
da igreja. O essencial é pregar o evangelho e administrar os sacramen-
tos; o necessário é organizar pecadores, que são também santos em
Cristo, de tal forma que surjam contextos estáveis em que se possa
pregar o evangelho e administrar os sacramentos. Pode-se dizer que,
em muitos casos, o pastor, além do ofício das chaves, precisa dar conta
também das chaves da igreja ou do salão comunitário.
Por mais que não gostem da idéia, no mundo de hoje, marcado
pela instabilidade social e cultural, pastores estão sendo cada vez mais
forçados a ir além do serviço essencial do ministério de palavra e sa-
cramentos. Em alguns casos, precisam atuar de forma decisiva em áre-
as que, no passado e, em alguns contextos culturais, ainda no presen-
te, estavam entregues às “mãos invisíveis dos mais velhos” ou à “mão
oculta da coesão cultural”. Um exemplo bem concreto disso é a igreja
que coloca como prioridade número um do perfil do novo pastor a com-
petência musical (sem perguntar jamais – talvez por tomar por óbvio –
se o novo pastor prega bem, é evangélico, tem amor pelas pessoas,
etc.). Outro exemplo é a igreja que busca um pastor dinâmico que
saiba organizar os diferentes departamentos que funcionam em seu
meio. Estas são tarefas necessárias, que vão além das tarefas essen-
ciais.
Em outras épocas, talvez as igrejas podiam depender bem mais
das “mãos invisíveis” que mantinham o funcionamento da comunida-
de. Hoje, elas notam que dependem cada vez mais dos pastores para
prover essa liderança do reino da mão esquerda, que é necessária
para manter a comunidade humana em funcionamento. As igrejas não
estão, na verdade, chamando apenas um pastor; têm, também, a es-
perança de estarem contratando um líder que lhes possa ajudar a
construir uma vida congregacional sólida (sem mencionar a questão
do músico). Isso explica o crescente costume de entrevistar os candi-
datos ao pastorado (bem como a esposa) em determinada localidade.
As congregações não querem interferir na escolha de um verdadeiro
11
Raramente alguém vem ao Seminário porque já é um bom músico.

12
A IGREJA E O PASTOR À LUZ DO PRIMEIRO USO DA LEI

pastor (isto é algo que, com certeza, entendem ser da alçada de Deus),
mas sentem que precisam examinar e discernir os dons que o candida-
to tem para a liderança que pertence ao reino da mão esquerda.
Isso que a igreja espera de seu pastor faz parte ou é a cultura
daquela igreja. Todo bom líder precisa conhecer bem a cultura do gru-
po que lidera. Respeitá-la e estar à altura dela é, muitas vezes, de
importância fundamental.
E que acontece quando o candidato não tem essas habilidades
típicas do reino da mão esquerda? Que fazer quando não se está à
altura dessas coisas relacionadas com o primeiro uso da lei, como a
organização das atividades, a dinamização de um grupo, estabeleci-
mento de pequenos grupos, etc.? Em geral, se espera que o Seminário
propicie o treinamento nessas habilidades. A música, que é uma área
muito sensível, está sendo muito bem atendida, especialmente para
quem tem o dom e/ou força de vontade. Mas há outras áreas que não
podem ser cobertas. Reconhecemos que a formação no Seminário não
prepara integralmente os líderes da igreja para as tarefas “necessári-
as” no mundo de hoje. Em grande parte, confiamos em dons naturais
e esperamos um bocado (bem como incentivamos) a formação comple-
mentar e a educação continuada. Não se pode ensinar tudo no Semi-
nário. Dá-se uma ênfase maior naquilo que não se pode aprender fora
do Seminário e naquilo que faz parte da tarefa “essencial” do futuro
pastor. Ao mesmo tempo, pastores não podem mais viver com a velha
noção romântica de que basta ser um pastor fiel (no sentido da essên-
cia do chamado pastoral) para que se forme uma igreja que seja pu-
jante e que cresça. Se ruir a estrutura comunitária mantida por aquilo
que designamos de “primeiro uso da lei” ou “coisas necessárias”, não
haverá mais como fazer a obra própria ou a coisa essencial.
Diante disso, é importante reconhecer que hoje, especialmente num
contexto urbano, as tarefas necessárias para edificar uma comunida-
de humana precisam ser levadas a sério. E isso precisa acontecer de
forma intencional e planejada. Da parte do pastor, talvez ele possa
aprender algo de líderes empresariais, sociólogos, psicólogos, etc. Como
denominação, uma estratégia poderia ser (e já está sendo) conscien-
temente desobrigar os pastores da liderança no que diz respeito às
tarefas necessárias. Isto já acontece quando se trata, por exemplo,
da organização de atividades de confraternização, mas poderia ser
estendido a outras áreas. Seria uma “estratégia de Neemias”, isto é,
colocar um leigo (Neemias) ao lado do pastor (Esdras).12 Outra estra-

12
Exemplo disso é a igreja que, constatando uma lacuna, contrata um músico ou ministro
de música. Na grande maioria das vezes, essa iniciativa deve partir do próprio pastor que,
mais do que ninguém, conhece suas carências.

13
IGREJA LUTERANA

tégia é o caminho de Paulo (ministério de tendas), especialmente quan-


do a igreja não tem a estrutura administrativa ou os fundos necessá-
rios (coisas do primeiro uso da lei) para pagar salários.

CONCLUSÃO

Esta reflexão poderia e, com certeza, deve ser levada adiante, sendo
que a intenção do que acaba de ser apresentado é exatamente esta.
O que parece claro, em todo caso, é que o primeiro uso da lei existe.
Levá-lo a sério pode ser importante e fundamental – para a igreja e
para o pastor.

14
ARTIGOS

LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO


INSPIRADOR À MISSÃO1
Anselmo Ernesto Graff2

INTRODUÇÃO

Estamos a 10 anos de completar 500 anos de Reforma Luterana.


Herdamos e carregamos o pensamento teológico de Martinho Lutero e
de outros reformadores. Buscamos neles conselhos e direção em ques-
tões de doutrina e vida. A legitimidade para esta prática está no fun-
damento angular da sua fé, nossa e de toda a Igreja Cristã: a justifica-
ção pela fé em Jesus Cristo.
O título desse ensaio já diz muito, mas é preciso relacioná-lo
com pelo menos duas questões que esse trabalho tem a intenção de
abordar: Por que Lutero pode ser um conselheiro ou um inspirador à
missão? Como esses seus conselhos foram e podem ser absorvidos?
É importante notar que, embora o ponto de partida sejam as
críticas feitas a Lutero como missionário e inevitavelmente isso acon-
teça, essa pesquisa não tem finalidade apologética, mas o alvo é per-
mitir o reformador falar sobre o assunto, nós absorvermos seus ensi-
nos e tentarmos estabelecer uma relação com o período da Ortodoxia
Luterana, alvo também de críticas em relação à sua posição sobre mis-
são.

1. O PONTO DE PARTIDA: CRÍTICAS A LUTERO


COMO MISSIONÁRIO

O católico romano Roberto Belarmino e o professor universitário de


missões, Gustav Warneck, são os que não vêem Lutero como um con-
selheiro para a missão. Um critica os protestantes de forma geral por
não terem sido missionários, o outro, a Lutero em particular.
Roberto Belarmino (1542-1621) censurou os protestantes numa
época de grande empenho de missionários da Igreja Católica Romana.

1
Aula inaugural proferida no Seminário Concórdia de São Leopoldo, RS, no dia 02 de
março de 2007.
2
Professor de Teologia Prática no Seminário Concórdia e ULBRA.

15
IGREJA LUTERANA

A criação da Ordem dos Jesuítas, fundada em 1534 por Inácio de Loyo-


la e confirmada por Bula Papal em 1540, tinha como princípio básico a
conversão dos “hereges” e dos pagãos à fé católica. Na observação
do estudioso de missões Stephen Neill, “os jesuítas iriam deixar os
seus ossos em quase todos os recantos do mundo conhecido a nas
praias de quase todos os mares” (NEILL, 1989, p.151).
No final do século XVI, Belarmino incluiu a atividade missionária nos
18 pontos, ou talvez diríamos, marcas da Igreja verdadeira e criticou
os protestantes pela falta dela na Igreja Protestante.3 “Os heréticos
nunca converteram pagãos ou judeus à fé, mas apenas perverteram
cristãos. Neste mesmo século os católicos converteram muitos milha-
res de pagãos no novo mundo. Todos os anos, um certo número de
judeus são convertidos e batizados em Roma por católicos que ade-
rem em lealdade ao bispo de Roma. E há também alguns turcos que
são convertidos por católicos, tanto em Roma como em outros lugares.
Os luteranos comparam-se a si mesmos como os apóstolos e os evan-
gelistas. Contudo, embora entre eles existam muitos judeus e na Po-
lônia e na Hungria tenham os turcos por vizinhos, pouco mais conver-
teram que uma mão cheia deles” (BELARMINO apud NEILL, 1989,
pp.226-227).
Gustav Warneck, professor universitário de missiologia em Halle,
viveu no século XIX, num contexto de formação de agências missioná-
rias e envio de evangelistas para outros países. Ele difundiu a idéia de
que a Reforma não foi proveitosa em termos missionários e que no
próprio Lutero faltou, não só a ação missionária, mas a idéia de mis-
sões (ELERT, 1962, p. 385).
São justas essas críticas? Como se lida com elas? A tendência na-
tural parece ser muitas vezes a racionalização e a tentativa de explicar
essas alegadas deficiências. Não houve envolvimento missionário por-
que havia outras tarefas internas; falta de oportunidade para missões
no exterior ou simplesmente a crença de que o fim do mundo estava
tão próximo que tornaria qualquer esforço inútil (SHERER, 1994, p.17).
Além disso, havia a situação da igreja ser governada por autoridades
do Estado (ELERT, 1962, p. 385); Lutero havia sido absorvido por difi-
culdades em estabelecer os princípios da Reforma na própria Alema-
nha, a preocupação missionária inicial era com os judeus e os turcos e
a teologia do reformador ainda não havia sido estabelecida para moti-
var e prover os princípios para uma empreitada missionária (JI, 1996,
p.149).

3
O teólogo luterano Johan Gerhard argumentou na época que a marca necessária da fé
verdadeira é a aderência às Santas Escrituras como fonte de norma e ordem na igreja
(SHERER, 1994, p.67).

16
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

2. DEFINIÇÃO DE CONCEITOS DE MISSÃO

Creio que não é possível colocar juntos e na mesma arena para um


debate, Warneck e Belarmino de um lado e Lutero e seus defensores
como missionário do outro. Os conceitos de missão são divergentes.
Lutero e os reformadores são julgados no princípio de que missão é
essencialmente o envio de missionários a outro território e as ativida-
des empreendidas por eles. Ou então missão é vista como propaga-
ção da fé, expansão do reinado de Deus, conversão dos pagãos e a
fundação de novas igrejas (BOSCH, 2002, p.18).
O termo missão, na verdade, é relativamente recente. Até o século
XVI, a palavra era usada exclusivamente com referência à doutrina da
Trindade, ou seja, o Pai envia o Filho e que enviam o Espírito Santo
(BOSCH, 2002, p.18). Foram os jesuítas que primeiro usaram o termo
referindo-se à difusão da fé cristã entre pessoas que não eram mem-
bros da Igreja Católica (BOSCH, 2002, p. 18).
Hoje, em termos gerais, missão é entendida como a Missio Dei,
conceito adotado na Conferência do Conselho Missionário Internaci-
onal em Willingen, Alemanha, em 1952. Missão passou a ser entendi-
da como participação na missão do Deus triúno, nos cuidados da cri-
ação divina e estabelecimento do senhorio de Cristo sobre toda a
criação redimida (VICEDOM, 1996, p.15). É o envolvimento de Deus
no mundo e no qual a igreja tem o privilégio de participar. Missão é
olhar para o mundo com os mesmos olhos que Deus olhou e olha,
com amor e atenção.
Portanto, missão é a atividade geral de Deus no mundo e quando o
termo envolve a igreja, ela deve ser entendida como a sua ação global
em pregar, administrar os sacramentos, nutrir, testemunhar, promover
a comunhão e o serviço.
Já evangelização é entendida como tarefa específica de despertar
ou reanimar a fé no salvador Jesus onde ela não existe. Evangelizar
é chamar pessoas ao arrependimento e anunciar-lhes o perdão dos
pecados em Jesus Cristo. Assim, missão não pode ser identificada
com evangelização, porém, é decisivo e fundamental afirmar que a
evangelização é uma dimensão decisiva e essencial da missão e da
igreja.
Assim, missão, quando aplicada à igreja, pode ser entendida como
o agir dela com a intenção específica de testemunhar as boas novas
do evangelho do Senhor Jesus Cristo (SHERER, 1987, p.37).
Esse é o cerne da Missio Dei e é nesse sentido, acredito eu, que
Lutero pode ser lido, pode nos ensinar e inspirar ainda mais à missão.

17
IGREJA LUTERANA

3. LUTERO, UM MISSIONÁRIO DIFERENCIADO

No sentido atual e próprio do termo missão, não há argumentos


contrários em afirmar Lutero como um missionário e sua obra como
essencialmente missionária, pois:
A. Lutero foi um missionário iluminado para o seu tempo. Numa
época de inércia e apatia, ele estimulou sua geração a pensar e refletir
sobre questões mais profundas, como sua batalha espiritual e a anfe-
chtungen.
B. Lutero foi um missionário destemido para a igreja. A base da
Igreja Católica Medieval, que ele amava e respeitava, precisava ser
censurada e reformada teologicamente.
C. Lutero foi um missionário atento para seu próprio povo. Ele dis-
ponibilizou a Santa Escritura na língua alemã, catecismos e outros
materiais de ensino (JI, 1996, p.148). As palavras de 2 Ts 3.1, “Final-
mente irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propa-
gue e seja glorificada, como também está acontecendo entre vós”, se
tornaram uma realidade não somente na Alemanha, mas também em
linguagens européias que faziam referência à tradução de Lutero. O
reformador é considerado por muitos como o pai das traduções da
Bíblia para o vernáculo em todo o mundo. No tempo da Reforma havia
apenas 33 traduções de diferentes línguas e somente de parte das
Escrituras (BUNKOWSKI, 1985, p.168). A dimensão missionária do Ca-
tecismo Menor é mostrada pelo fato de que este rapidamente foi tra-
duzido para o latim, holandês, russo, polonês, lituano e prussiano.
Além disso, é possível acrescentar que o Catecismo era usado na Áus-
tria, Hungria, Boêmia, Morávia, Látvia, Estônia, Dinamarca, Noruega,
Suécia, Finlândia, Holanda, Bélgica, Inglaterra, França e mesmo na Es-
panha e Itália (BUNKOWSKI, 1985, p.169).
D. Lutero foi um missionário sensível para o ser humano. Ele recolo-
cou a natureza humana no seu devido lugar, impotente e incapaz da
conversão, em contraposição ao moralismo humanista que tinha o ser
humano em alta conta em termos éticos (JI, 1996, p.149).
E. Lutero tinha olhos missionários em seus escritos. Em seus co-
mentários sobre textos bíblicos, ensinos sobre oração e sermões, ele
manifestava interesse especial por aqueles que ainda não eram cris-
tãos e no envolvimento dos que já são cristãos na evangelização.
F. Lutero tinha visão missionária no trabalho congregacional e nas
escolas. Na discussão em torno da manutenção ou não da missa em
latim, Lutero diz que se houvesse familiaridade, não só se manteria o
latim, como também se faria cultos em alemão, grego e hebraico. Ele
não é favorável a se ater a uma só linguagem. Ele se manifesta a favor

18
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

de treinar jovens e pessoas em geral para torná-los capazes de con-


versar em diferentes línguas e em países estrangeiros. O Espírito San-
to não esperou para todo o mundo ir a Jerusalém e estudar hebraico,
mas deu várias línguas para o cumprimento do ministério da pregação
onde quer que os apóstolos fossem (LUTERO, OSel, Volume 7, 2000,
p.179).
G. Lutero foi um missionário com precisão pedagógica e sensibilida-
de no uso da liturgia. Para ele, a missa ou o culto em alemão deveriam
ser arranjados para atender às necessidades de todas as pessoas,
dos leigos sem instrução e também dos que ainda não crêem. Lutero
ressalta a idéia de que esses momentos também devem ser um convi-
te público à fé e ao cristianismo (LUTERO, OSel, Volume 7, 2000, p.179).
H. Lutero era missionário lá onde estava, na Universidade de Wit-
tenberg. Ele compartilhou suas descobertas e convicções, ganhando
apoio da comunidade acadêmica. Entre 1520 e 1560, passaram por
essa universidade alemã cerca de 16.000 estudantes, pelo menos 2/3
de fora da Alemanha (RUDNICK, 1984, p.81).
I. Lutero ainda soube explorar o recurso da imprensa. Embora sua
criação tenha sido no século anterior, poucos usaram esse recurso tão
efetivamente quanto Lutero (RUDNICK, 1984, p.82).

4. LUTERO, MISSIONÁRIO NA LEITURA E EXPOSIÇÃO DA BÍBLIA

Há pelo menos duas referências significativas sobre textos bíblicos


em que Lutero é apresentado fazendo alusões missionárias. Na com-
pilação de afirmações de Lutero de Ewald M. Plass4, o autor reúne 14
citações relevantes. A outra obra é a de Volker Stolle5, que em seu
índice remissivo aponta para 98 referências bíblicas.
Não é novidade que a Palavra e sua pregação é a maior bênção
para Lutero (LUTERO, LW, Volume 12, p.147). Em seu comentário sobre
o Salmo 23 em 1536, ele exalta o poder da Palavra e seu atributo de
guiar, instruir, reanimar, fortalecer e confortar. Além disso, os que se
aplicam à Palavra são mantidos no caminho certo, protegidos e capaci-
tados a vencer toda a espécie de tribulação (LUTERO, LW, Volume 12,
p.148). É em suas exposições sobre a Palavra que é possível detectar
todo o espírito missionário do reformador.

4
PLASS, Ewald M. What Luther Says. A Practical In-Home Anthology for the active Chris-
tian. St. Louis, USA: Concordia Publishing House, 1959.
5
STOLLE, Volker. The Church Comes from all Nations. Luther texts on Mission.
Klaus Detlev Schulz, trad. St. Louis, USA: Concordia Publishing House, 2003.

19
IGREJA LUTERANA

4.1 Uma oração missionária de Noé

Em Gn 9.27a está escrito parte da bênção pronunciada por Noé,


logo após o episódio da sua embriaguês. “Engrandeça Deus a Jafé e
habite ele nas tendas de Sem”. Para Lutero, esta oração de Noé trata
da proclamação do Evangelho em todo o mundo. Sem é como um tron-
co, de onde houve descendentes e dos quais Cristo nasceu. A igreja é
dos judeus. Eles tinham patriarcas, profetas e reis. Mas aqui Deus re-
vela a Noé que mesmo os pobres gentios irão compartilhar dos bene-
fícios que o Filho de Deus trouxe a este mundo, a saber, o perdão dos
pecados, o Espírito Santo e a vida eterna (LUTERO, LW, Volume 2, p.184).
O cumprimento desta profecia ocorreu com o apóstolo Paulo, como
está escrito em Rm 15.19: “por força de sinais e prodígios, pelo poder
do Espírito Santo; de maneira que desde Jerusalém e circunvizinhan-
ças, até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo”.
Para chegar a essa conclusão, Lutero explica que alguns derivam
Jafé do verbo hpy, que significa “ser bonito”, como no Salmo 45.3. Mas,
para Lutero, essa tradução é equivocada, pois a derivação deveria ser
de htp, cujo significado é “persuadir”, “seduzir”, “atrair”, como mostram
outros textos: Êx 22.16; Pv 1.10; Jr 20.7; Os 2.14. Assim, para Lutero,
essa passagem deveria ser entendida como Noé suplicando ao Se-
nhor persuadir a Jafé a aceitar que o privilégio de ser ancestral do
Salvador tenha sido transferido para seu irmão e que seus descen-
dentes sejam convencidos amavelmente pela voz do Evangelho. Esta
é uma persuasão divina, obra do Espírito Santo. Para o reformador,
algumas vezes essas discussões lingüísticas são de grande valor e
podem esclarecer o real sentido do texto (LUTERO, LW, Volume 2, p.182-
184).

4.2 Fidelidade leva à expansão missionária

Em seus comentários sobre Gn 12.8, Lutero afirma que Betel, por sig-
nificar “casa de Deus”, se torna um lugar propício ao culto idólatra, como
fez Jerobão (1 Rs 12.28-29). Porém, Abraão foi fiel à sua fé e não se
intimidou com o povo de Moré. Ele ergueu um altar e instruiu sua igreja
sobre a vontade de Deus, admoestou-os a uma vida santa, fortaleceu-os
em sua fé, manteve-os na esperança e orou com eles. É no verbo arq que
Lutero retira todas essas atividades (LUTERO, LW, Volume 2, p.286).
Em Gn 13.4, Lutero exalta Abraão porque ele realizou as tarefas de
um sacerdote, a saber, ensinar, orar e sacrificar, não em algum canto,
temendo as ameaças de violência dos pagãos, mas num lugar público,
para que pelo seu próprio exemplo e dos que estavam com ele, outros

20
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

pudessem ser conduzidos ao conhecimento de Deus e às verdadeiras


formas de culto (LUTERO, LW, Volume 2, pp. 332-333).
Também em Jacó Lutero vê essa fidelidade. Quando comenta Gn
35.2, ele menciona que, através do ensino dos patriarcas, muitos dos
pagãos se uniam a eles, pois estes viam neles pessoas do bem e que
Deus estava com eles. Foi por isso que os gentios ouviram e aceitaram
seu ensino. Foi assim mais tarde com José no Egito, Daniel na Babilô-
nia e Jonas em Nínive (LUTERO, LW, Volume 6, p. 227).
Numa pregação sobre Mt 2.13-23, Lutero diz que não há dúvida de
que Maria e José, enquanto no Egito, não ficaram em silêncio sobre o
grande milagre que aconteceu com seu filho. Eles pregaram e trouxe-
ram outros à fé e à salvação. Através da perseguição a cristãos fiéis o
Cristianismo cresce, mas quando há paz e tranqüilidade, os cristãos se
tornam preguiçosos e inativos (LUTERO apud STOLLE, 2003, p.18).
Também o Eunuco (At 8.39) foi um missionário fiel a partir de seu
batismo e fé. Ele com certeza ensinou a muitas outras pessoas a pala-
vra de Deus, pois lhe foi ordenado “proclamar as virtudes daquele que
o chamou das trevas para a luz” (1 Pe 2.9), especialmente porque não
havia outros lá designados para fazê-lo (LUTERO apud STOLLE, 2003,
p.19).

4.3 Um cristão não fica calado

Em sua exposição do Evangelho de João 14 e 15, Lutero afirma que


uma vez que o cristão conhece a Cristo como seu Senhor e Salvador,
seu coração é permeado por Deus. Por isso, agora ele está ansioso
para ajudar a cada um receber os mesmos benefícios, pois seu maior
prazer está neste tesouro, o conhecimento de Cristo. Assim ele dá um
passo à frente, ensina e admoesta outros, louva e confessa sua fé
diante de todos e ora, pois onde há o espírito da graça, deve-se come-
çar a orar, para que eles também obtenham essa misericórdia. Um cris-
tão não pode ficar calado ou preguiçoso. Ele peleja para disseminar a
honra e a glória de Deus entre as pessoas (LUTERO, LW, Volume 24,
pp. 87-88).
Sobre o diálogo de José com seus irmãos em Gn 45.9-11, Lutero
parafraseia a conversa dizendo que José logo pediu para seus irmãos
não ficarem calados depois de terem reconhecido a Deus e a ele. En-
tão ele afirma: “tão logo aprendemos a conhecer a Deus em seu Filho,
depois de apreender o perdão dos pecados e o Espírito Santo, que
veste nosso coração com alegria e com a libertação do pecado e mor-
te, o que resta fazer? Vai, não fica calado, para que o restante seja
salvo também, não somente você” (LUTERO, LW, volume 8, p.46).

21
IGREJA LUTERANA

Num sermão sobre Jo 20.19-31, no primeiro domingo após a Pás-


coa, em 1522, falando especificamente sobre o v. 20 “assim como o Pai
me enviou assim eu vos envio”, Lutero afirma, sem desconsiderar a
instituição do Ofício Ministerial, que a primeira e mais importante obra
de amor de alguém que se torna cristão é trazer outros para a mesma
fé (LUTERO, Complete Sermons, Volume 12, p. 359). Ainda que sobre
esse mesmo texto em 1531 ele fale mais da autoridade da igreja em
perdoar pecados (LUTERO, Complete Sermons, Volume 6, pp.60-72) e
em 1534 a ênfase esteja na voz de Deus que ecoa através do Ministé-
rio Eclesiástico (LUTERO, Complete Sermons, Volume 6, pp. 54-59), em
1538 ele repete pensamento similar, num sermão sobre Mt 23.15, di-
zendo que “a melhor de todas as obras é quando o pagão é conduzido
da idolatria para o conhecimento de Deus” (PLASS, 1959, p.957).
E é para isto que o cristão vive. Para Lutero, o cristão permanece
vivo só em função de ser uma ajuda para outras pessoas. Se assim
não fosse, tão logo alguém tenha sido batizado e começasse a crer,
Deus poderia tirar a sua vida. Mas ele o deixa viver para que outras
pessoas sejam trazidas à fé. Lutero pregou sobre isto em 1523, tendo
como base o texto de 1 Pe 2.9. Esta é uma parte do ser um sacerdote,
ser mensageiro de Deus, com a sua ordem de proclamar a sua Palavra.
O sacerdote deveria pregar a obra de Deus em tê-lo chamado das
trevas para a luz e instruir as pessoas em como elas poderiam vir a
essa luz. E isto deve ser em público e em particular. “Onde você vê
pessoas que não sabem disto, você deveria instruí-las e também ensi-
ná-las, como você próprio aprendeu, em como Deus o transferiu das
trevas para a luz” (LUTERO apud STOLLE, 2003, p.20).
Em outro escrito6 em 1523, Lutero ainda é mais enfático e claro
quanto à distinção entre o dever do testemunho da fé do cristão e do
chamado regular para a pregação pública. Amparado por Jo 6.45, Sl
44.7 e 1 Pe 2.9, Lutero diz que cada cristão tem a palavra de Deus e foi
instruído e ungido por Deus para ser sacerdote. Com isto ele tem o
dever de confessar, ensinar e difundir a palavra de Deus. Tomando
como exemplo Estêvão (At 6.8, 10; 7.2ss), Filipe, o diácono e Apolo,
Lutero coloca o cristão na responsabilidade de pregar, onde ninguém
foi convocado para isso. O simples fato de ser cristão o torna ungido
por Deus para essa tarefa e com o dever de fazê-lo, “sob pena de
perder sua alma e cair na desgraça de Deus” (LUTERO, OSel, Volume 7,
pp. 31-32).
É neste ponto que pode se encaixar o pensamento de Lutero em

6
Direito e autoridade de uma Assembléia ou Comunidade Cristã julgar sobre toda doutri-
na, chamar, nomear e demitir pregadores – Fundamento e Razão da Escritura (OSel,
Volume 7, pp.25-36).

22
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

sua pregação sobre Gn 12.14-16. Deus não deixa que seus filhos per-
maneçam tempo demais num lugar. Ele os conduz para diferentes lu-
gares para serem úteis a outras pessoas. Abraão não poderia ficar em
silêncio e deixar de pregar às pessoas sobre a misericórdia de Deus.
Por isso Deus o enviou para uma terra de grande fome (Gn 12.10). Lá
o pai dos que crêem poderia iluminar alguns com o verdadeiro conhe-
cimento de Deus, o que de fato ele fez: “seria intolerável para alguém
encontrar pessoas e não lhes revelar o que é útil para a salvação de
suas almas”. Esse é o jeito maravilhoso de Deus agir. Ele envia apósto-
los e pregadores antes mesmo deles perceberem ou pensarem sobre
o assunto (LUTERO apud STOLLE, 2003, p.16).
Aqui vale a referência de Lutero em Gn 12.8. Quando enaltece a
pregação de Abraão, ele não está pensando no Ministério Eclesiástico,
mas no Sacerdócio de todos os cristãos, pois sua pergunta é: “Agora vai
e pergunta para nossos papas e bispos: quem ungiu Abraão para cum-
prir seu ofício sacerdotal entre seu povo”? (LUTERO, LW, Volume 2, p.287).
Lutero admite que o testemunho cristão não é uma tarefa simples.
Em seus escritos sobre o Salmo 51, em 1532, o reformador lembra que
de fato não há outra alternativa para o cristão justificado dizer com
Davi: “Eu cri por isso falei” (Sl 116.10), ou “a meus irmãos declararei o
teu nome” (Sl 22.22), mas baseado no Sl 51.12, o salmista pede ao
Senhor que ele abra seus lábios a fim de que ele proclame destemida-
mente a misericórdia de Deus em público. Ao pedir isto ao Senhor, ele
revela como é difícil, no dizer de Lutero, o sacrifício do testemunho
público em nome do Senhor. Para ele há vários elementos que podem
fechar os lábios dos cristãos. O diabo pode utilizar do medo do perigo
e da interferência de amigos, por exemplo, para impedir a confissão de
fé publicamente. O próprio Lutero aponta para si como alguém a quem
Satanás tentou impedir o testemunho, “mas Deus estava presente e
abriu minha boca contra esses obstáculos”. Lutero encoraja ao teste-
munho cristão dizendo que através dele se aprende como é grandioso
falar do que se experimentou (LUTERO, LW, Volume 12, pp. 393-394).
Ainda algo sobre o testemunho cristão ou conversação evangelísti-
ca: Lutero prega em 1524 sobre Mt 4.1ss. para orientar seus ouvintes
sobre a melhor atitude para com os judeus. Primeiro, ele fala do con-
teúdo, Cristo é o Filho de Deus. Caso haja algum interesse maior, con-
duzi-lo à verdade que Cristo é Deus. Agora isso precisa ser feito de
uma forma amigável. Caso ele não queira ouvir, é preciso deixá-lo ir
(LUTERO apud STOLLE, 2003, p.60).
Também no escrito “Jesus Cristo nasceu judeu”, depois de criticar a
atitude arrogante de papas, que além de se interessarem mais pelas
propriedades dos judeus, não lhes ensinavam a doutrina cristã das

23
IGREJA LUTERANA

Escrituras, Lutero afirma sua esperança de que se alguém lidar com


eles de uma forma gentil e instruí-los cuidadosamente com a Santa
Escritura, muitos deles se tornarão cristãos como eram os profetas e
patriarcas. Ele lembra que os apóstolos, que eram judeus, fizeram isso
conosco, com os gentios. Eles nos trataram fraternalmente. Lutero
combate a atitude orgulhosa para com os judeus. Seu pedido é que se
pare simplesmente de condenar e que as atitudes dos cristãos sejam
guiadas pela lei cristã do amor. Assim eles poderão ouvir o ensino cris-
tão e testemunhar nossa vida cristã (LUTERO, LW, Volume 45, pp. 200-
201, 229).
Também os muçulmanos têm que ser abordados com armas espiri-
tuais (arrependimento, apologia e missão). Vale a referência de que
Lutero julga importante conhecer o Alcorão, para que os cristãos en-
tendam a fé e a vida islâmica e conheçam suas inverdades (HUHTINEN,
2001, p.28).
Aqui é interessante refletir sobre alguns detalhes sobre a impor-
tância do puro ensino e coerência no viver. Num sermão sobre Mt 23.15,
pregado em 1538, Lutero inicialmente condena a atitude missionária
do Judaísmo, que forçava os gentios a aderir às leis cerimoniais de
Moisés e os “prendiam” à cidade de Jerusalém. Em resumo, colocavam
sobre eles exigências da lei para serem salvos.
Quando um gentio se tornava um adepto do Judaísmo e fazia o que
lhe era ordenado praticar, o Senhor diz: “o tornais filho do inferno duas
vezes mais do que vós” (Mt 23.15b), ou seja, eles se tornam piores. O
que acontece é isso: sempre que alguém dos gentios adere ao Judaís-
mo e vê que seus integrantes praticam a usura, avareza, impurezas e
outros vícios, então ele acabará abandonando a fé judaica. A prega-
ção é “viva de maneira respeitável”, mas quando encontra esse qua-
dro perverso em quem lhe ensina, então ele vai pensar em seguir an-
tes os ensinos de Cícero e dos filósofos.
Lutero continua dizendo que foi exatamente assim na Igreja Cató-
lica no seu tempo. Pessoas eram batizadas, mas depois desencami-
nhadas pela própria igreja, especialmente porque tinham que crer nos
artigos da igreja em Roma. Um judeu, por exemplo, poderia pensar,
“oh, é melhor viver sob a lei de Moisés do que sob os decretos do
Papa”.
Lutero conta um fato ocorrido em Colônia, onde um judeu foi bati-
zado. Quando morreu, deixou em seu testamento a ordem de gravar
em sua lápide a figura de um rato e de um gato. Com isso ele queria
indicar que assim como tão pouco esses pequenos animais concor-
dam, tão pouco provável será um judeu permanecer cristão.
Outro judeu permaneceu fiel ao cristianismo. Depois de ter sido

24
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

instruído por mais de um ano por seu pastor, ele pediu para ir a Roma.
O pastor tentou dissuadi-lo disso, mas sem sucesso. Aí o pastor pen-
sou: “um ano de serviço perdido”. O judeu foi a Roma e lá viu toda a
vida desregrada do povo de lá. Quando retornou disse: “Se o teu Deus
não fosse o único e o verdadeiro Deus, então essas pessoas não fica-
riam vivas por um só momento”. Só a paciência, graça e misericórdia de
Deus para preservá-los (LUTERO apud STOLLE, 2003, pp. 34-40).
O ponto de Lutero é: a fé cristã já é complicada por si mesma, por
isso a interferência de uma vida e condição vergonhosa de cristãos é
inimaginável. Só o ensino da Palavra pode resolver isso. Por isso Lute-
ro lembra sobre a responsabilidade especial da família. Em outro ser-
mão pregado em 1532, sobre Mc 8.1-9, ele incentiva todos a se preo-
cuparem, providenciarem e promoverem o ensino da Palavra, pois não
há maior ou mais alta obra do que nutrir pessoas com a palavra de
Deus (LUTERO, Complete Sermons, Volume 6, pp.330-331).
Sem ser pessimista, mas com os pés no chão, Lutero diz que não
há tarefa mais difícil do que encaminhar pessoas jovens a aceitarem
os princípios escriturísticos, mas também não há maior serviço do que
este que se pode render a Deus (Lutero, Complete Sermons, Volume 6,
p. 331).

4.4 O princípio universal no pensamento missionário em Lutero

“Quando Deus fala, ele abre bem grande a sua boca. Suas pala-
vras não estão limitadas a alguns lugares, mas para o mundo todo. Ele
quer abençoar, com certeza, não apenas dois ou três povos, mas o
mundo inteiro” (LUTERO apud STOLLE, 2003, p. 28).
O princípio missionário universal em Lutero está presente numa
série de passagens bíblicas comentadas e pregadas por ele. Em Gn
22.17-18, ele contesta o pensamento exclusivista dos judeus e afirma
que todas as nações serão abençoadas na descendência de Abraão,
que é Cristo (LUTERO, LW, Volume 4, pp. 151-178).
Em Gn 6.9-10 Lutero exalta a fidelidade e coragem de Noé, que
informou outros sobre as promessas e os juízos de Deus e, para isso,
possivelmente viajou pelo mundo inteiro para pregar em todas as par-
tes, dando instrução a respeito do verdadeiro culto a Deus (LUTERO,
LW, Volume 2, pp. 56-57).
Em seus comentários sobre o Salmo 117, Lutero também exprime
essa preocupação missionária para com todos os povos. Se todas as
nações devem louvar a Deus, então ele deve tornar-se Deus delas.
Para isso acontecer, elas precisam conhecê-lo, crer nele e abandonar a
idolatria. Assim, elas precisam antes ouvir sua Palavra e por meio dela

25
IGREJA LUTERANA

receber o Espírito Santo, que através da fé purifica e ilumina seus co-


rações. Para tanto, Lutero defende o envio de pregadores para todos,
no lugar onde estão, visto que o salmista não diz: “Venham a Jerusa-
lém, todas as nações” (LUTERO, LW, Volume 14, p.9).
Lutero ainda menciona outras passagens que comprovam que a
palavra de Deus deveria ir aos pagãos, onde eles estiverem, como no
Salmo 19.5 e Sofonias 2.11 (LUTERO, LW, Volume 14, p.10).
É valioso observar que Lutero considera isso como um processo
contínuo até o dia do Juízo Final. A menção é oportuna, porque em
seus comentários sobre o Salmo 68.12, em 1521, ele interpreta os reis
como sendo os apóstolos, que aos olhos do mundo são pobres ser-
vos, mas que aos olhos de Deus são grandes reis, pois converteram o
mundo todo (LUTERO, LW, Volume 13, p.13).
Já num sermão de 1522, sobre Mc 16.14-20, Lutero ressalta que
os apóstolos não visitaram o mundo todo e muitas ilhas ainda não
foram descobertas e nem o Evangelho lá pregado. Para ele as pala-
vras de Paulo em Rm 10.18, “por toda a terra se fez ouvir a sua
voz”, devem ser entendidas como a pregação do Evangelho que já
começou, saiu para o mundo todo, mas que ainda não o alcançou
totalmente. É um processo que iniciou, continua, que ainda não aca-
bou e que vai durar até o dia do julgamento. É pertinente a compa-
ração de Lutero neste sermão. A pregação do Evangelho é como
uma pedra lançada na água e que produz contínuos círculos ao re-
dor dela. O centro se acalma, mas as ondas não param e se movem
até chegar à encosta (LUTERO, Complete Sermons, Volume 2.1, pp.
201-202).
Esse pensamento Lutero reitera mais tarde, em 1535, quando em
seus comentários sobre o Salmo 110.2, ele não limita a pregação do
Evangelho a uma determinada época, mas que começou com os após-
tolos e ainda permanece (LUTERO, LW, Volume 13, p.269).
Num sermão sobre Mt 22.9, Lutero diz que os cristãos de hoje fo-
ram convidados ao banquete através do Evangelho, mas isto ainda
não terminou. Continua o tempo em que os servos vão às ruas para
convidar. Só no último dia as mesas serão examinadas para que Jesus
veja quem está adornado com a veste nupcial (LUTERO apud STOLLE,
2003, p. 27).
A propósito, Lutero acreditava que o último dia estava próximo. Em
dois momentos de suas Tischreden, o segundo em 1542, ele trata do
assunto. No primeiro ele compara o Evangelho a uma pessoa pronta
para morrer. Os lábios se esforçam para o último movimento para dizer
“em tuas mãos entrego o meu espírito”. Nós também vivemos num
último momento do Evangelho e o último dia virá logo. No segundo

26
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

momento ele faz uma analogia parecida com uma candeia. Quando ela
está quase apagando, ela faz um último impulso, como se fosse ainda
queimar por um longo tempo, mas na verdade ela está se apagando.
Assim também é com o Evangelho. Ele está dando o último suspiro,
como se fosse pregado ainda em muitos lugares, assim como uma pes-
soa próxima à morte, mas depois virá o dia do julgamento (LUTERO
apud STOLLE, 2003, p. 84).
Sustenta-se que Lutero esperava que o último dia chegasse du-
rante o ano de 1558 (BOSCH, 2002, p. 301). Também se afirma que
Lutero esperava que a criação durasse 6.000 anos (OSel, Volume 5,
p.62, nota 57). O teólogo ortodoxo Philip Nicolai (1556-1608) espera-
va que a parusia ocorresse por volta de 1670 (BOSCH, 2002, p. 304).

5. O PENSAMENTO MISSIONÁRIO NO PERÍODO DA ORTODOXIA

Durante as últimas décadas do século XVI e por mais algumas no


século XVII, muito do luteranismo foi conhecido pelo movimento teoló-
gico denominado de Ortodoxia. Este contribuiu de modo significativo
para a articulação precisa das verdades escriturísticas (RUDNICK, 1984,
p. 114), inclusive a manutenção da ênfase teocêntrica da missão em
Lutero (SHERER, 1987, p.66).
A crítica de Gustav Warneck sobre a ação e pensamento missioná-
rios dessa época também é severa. Para ele foi um tempo de atitude
negativa de missão aos pagãos (Gregory Lockwood Bendigo, na intro-
dução ao artigo de Pekka Huhtinen, 2001, p. 15).
Ao contrário do que acontece com as críticas a Lutero, que não são
aceitas e o reformador tem sua defesa garantida, as contestações
feitas à Ortodoxia são tratadas de maneira diferente.
O professor Won Yong Ji diz que não há dificuldades em descobrir o
interesse missionário em Lutero, mesmo no sentido de missão atual,
mas isto já é mais difícil com os teólogos da Ortodoxia Luterana (JI,
1996, p.149). Thomas Coates, enquanto professor na Academia Teoló-
gica Luterana em Seul, Coréia, também começa enfatizando que Lute-
ro não pode ser associado com o pensamento da Ortodoxia Luterana,
de que a grande Comissão já havia sido cumprida pelos apóstolos
(COATES, 1969, p.601).
Outro exemplo dessa abordagem é James Sherer. Ele diz que War-
neck não soube ler em Lutero reflexões missionárias mais profundas
e apenas entendeu missão como o envio de mensageiros do Evange-
lho para pessoas não-cristãs. Por isso ele considera a crítica de War-
neck como prematura e parcial (SHERER, 1987, p.54). Porém, quando
o assunto é a missão no período da Ortodoxia, o título já revela outro

27
IGREJA LUTERANA

pensamento. “Ortodoxia Luterana: dizendo não para a missão” (SHE-


RER, 1987, p.66). Para ele, nesse período a convicção biblicamente
fundamentada de Lutero sobre o Evangelho sendo pregado a toda a
criação e o triunfo do Reino de Deus deu lugar a minúcias dogmáticas
e entrincheiramento eclesiástico. Na avaliação de Sherer, o Luteranis-
mo levantou barreiras dogmáticas para a missão das igrejas evangéli-
cas.
A Ortodoxia agora estava afirmando que missão não é tarefa de
agentes humanos, exceto nas circunstâncias em que os príncipes evan-
gélicos eram responsáveis por evangelizar os habitantes não-cristãos.
De acordo com o princípio conhecido como cuius rego, eius religio (Paz
de Westfália, 1648), cada governante tinha a incumbência de determi-
nar o compromisso religioso de seus habitantes.
Positivamente, embora de maneira limitada, príncipes luteranos da
Suécia e Dinamarca desenvolveram missões estrangeiras nos territóri-
os, cuja responsabilidade administrativa era deles, enviando capelães
para pregar o Evangelho tanto para não-cristãos como para os cris-
tãos. Contudo, seguindo aquele princípio, a responsabilidade missio-
nária expirava quando se ia além dos territórios governados por esse
príncipe evangélico (SHERER, 1987, p.67).
Segundo um parecer do corpo docente da Faculdade de Teologia
da Universidade de Wittenberg, de 1652, a responsabilidade missio-
nária cabia unicamente ao Estado. Com base no Antigo Testamento, o
Estado tinha que converter pagãos jure belli, pela lei da guerra, caso
outros meios não fossem eficazes (BOSCH, 2002, p.307).
David Bosch é outro crítico do período da Ortodoxia. Mas não sem
antes enaltecer a Lutero como um pensador missionário criativo e ori-
ginal (BOSCH, 2002, p.299) e enfatizar nele a idéia de que a missão é
obra exclusiva de Deus. Isso, todavia, não significava passividade e
inércia. “Fé é algo vivo e inquieto, algo que não podia permanecer
inativo”. Não somos salvos por obras, disse ele, porém acrescentou:
“Se não há obras, algo deve estar errado com a fé” (LUTERO apud
BOSCH, 2002, p. 303-304).
O tom muda quando o assunto é a Ortodoxia Luterana. Suas críti-
cas mais contundentes estão relacionadas à preocupação demasiada
com a manutenção da pureza doutrinária e o conceito de igreja, que é
vista em grande medida como um órgão passivo, onde tudo é feito
para os membros e não de um organismo vivo fazendo algo (BOSCH,
2002, pp.303-304).
David Bosch examina e apresenta alguns pontos do primeiro teólo-
go da Ortodoxia Luterana que se ocupou com o tema da missão. Foi
Philip Nicolai (1556-1608) e cujo estudo foi publicado em 1597. Os pontos

28
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

de vista de Nicolai que foram absorvidos, pelo menos em grande par-


te, pelo pensamento ortodoxo protestante posterior sobre a missão,
são os seguintes:
1. A “Grande Comissão” já foi cumprida pelos apóstolos e não é
mais compromisso da igreja. Porém, é importante notar que, diferente
da Ortodoxia posterior, sua intenção era preservar a singularidade da
obra fundadora dos apóstolos, a missio, da propagatio, a expansão
subseqüente da igreja (BOSCH, 2002, p.305). Somente a parte relaci-
onada ao Batismo e ao ofício do ensino permaneceriam válidos (SHE-
RER, 1987, p.68). Nicolai avaliou como positivos os esforços missionári-
os da Igreja Católica Romana e Ortodoxa Oriental em outros países.
Ele acreditava que devido à operação da palavra de Deus, essas igre-
jas serviriam ao luteranismo. Teólogos ortodoxos de gerações posteri-
ores já avaliam esse trabalho de forma bem negativa. Sobre seu pen-
samento da “Grande Comissão”, reteve-se apenas o elemento de que
não há necessidade de envolvimento dos cristãos entre os pagãos,
visto que os apóstolos tinham concluído a tarefa (BOSCH, 2002, p.305).
2. Em oposição à teologia horizontalizada de Roma, o pensamento
vertical da Reforma Luterana, a justificação somente pela fé, também
foi encaixado no trabalho missionário. A tensão foi abandonada e todo
o peso recaiu sobre a soberania e iniciativa de Deus. Na interpretação
de Bosch, a atitude era de completa passividade e qualquer iniciativa
missionária entregue à soberania de Deus. Vale lembrar que no pen-
samento de Nicolai, havia o motivo missionário através do chamado de
cada cristão a amar os outros, assim como Deus nos amou (BOSCH,
2002, p.306).
3. Um outro elemento inibidor da atividade missionária nesse perí-
odo foi a concepção escatológica de ortodoxos luteranos. Philip Nicolai
esperava o fim do mundo por volta do ano de 1670 (BOSCH, 2002,
p.306), o que tornou qualquer idéia de iniciativa missionária irrelevan-
te (COATES, 1969, p.609).
4. O parecer da Faculdade de Teologia de Wittenberg ainda apre-
sentou outro motivo para a abstinência missionária da igreja: Deus já
tinha se revelado a todas as pessoas pela natureza e pregação dos
apóstolos. Defendeu-se que todas as nações já haviam sido alcança-
das pelo Evangelho. Antigos mexicanos foram evangelizados pelos
etíopes, um desconhecido missionário foi ao Brasil e peruanos e brâ-
manes já deviam ter sido evangelizados, pois suas religiões revelam
elementos cristãos (BOSCH, 2002, p.307). Um nome proeminente nes-
se arranjo teológico foi Johan Gerhard. Para Thomas Coates, essas
“provas” desse teólogo ortodoxo são curiosas e pseudo-históricas
(COATES, 1969, p.607).

29
IGREJA LUTERANA

Foi um leigo luterano austríaco que se opôs a esse posicionamento


da Ortodoxia Luterana: Justian von Welz (1621-1666). Embora ope-
rando no conceito de que missão é envio de evangelistas para lugares
distantes, esse exemplo revela pelo menos algo dos traços da menta-
lidade missionária da época. Ele não só acreditava que a “Grande Co-
missão” continua tendo validade, como listou razões para esse seu
apelo missionário.
a. Deus deseja salvar a todos (1 Tm 2.4) e isto demanda o envio de
missionários para pregar o Evangelho a todas as pessoas.
b. O exemplo de missionários na história do cristianismo, que sofre-
ram e morreram para levar a Palavra de Deus aos pagãos.
c. As petições da liturgia da igreja pela conversão dos que estão
em trevas espirituais e erro. Para que esses pedidos não permaneçam
apenas como meras palavras, elas devem ser transformadas em ação
no envio de homens para trabalhar entre os pagãos.
d. O exemplo da Igreja Católica Romana, por seu programa missio-
nário sistematizado (COATES, 1969, p.608).
Justian von Welz ao mesmo tempo rejeita o pensamento de que
a “Grande Comissão” foi confinada apenas aos apóstolos, que o Evan-
gelho uma vez rejeitado não precisa ser pregado outra vez, que ne-
nhum pregador tem o direito de ir aos pagãos sem o chamado direto e
que era preciso olhar e consolidar a “casa” antes, para depois implan-
tar missões em terras estrangeiras (COATES, 1969, p.608).
Em termos mais práticos, von Welz esboçou um plano de ação
para a obra missionária em terras estrangeiras. Primeiro, a formação
de uma sociedade missionária, no estilo dos mosteiros, com voluntári-
os cristãos missionários que, após treinamento, deveriam ser envia-
dos para trabalhar entre os pagãos. Segundo, os missionários em po-
tencial deveriam receber bom treinamento na linguagem, cultura e re-
ligião das pessoas às quais seriam enviados a trabalhar para a forma-
ção de congregações. Terceiro, tal empreitada deveria ter o suporte
das colônias da Dinamarca, Suécia e Holanda, pois essas eram gover-
nadas por príncipes protestantes (COATES, 1969, p.608). Mas sua voz
foi abafada e ele considerado um herético e fanático (COATES, 1969,
p.608 – SHERER, 1987, p.69). Incapaz de sustentar sua posição, ele
partiu para o Suriname, na América do Sul, em 1666, onde provavel-
mente morreu no mesmo ano (BOSCH, 2002, p.308).
A refutação oficial a Justian von Welz foi elaborada por Johann
Heinrich Ursinos, que preservou a maioria dos elementos do pensa-
mento missionário da Ortodoxia Luterana. a) a conversão dos pagãos
é tão difícil, que pouquíssimos se candidatariam para essa tarefa; b)
os pagãos são tão depravados, que há pouca esperança de conver-

30
LUTERO: UM RICO, MAS INEXPLORADO INSPIRADOR À MISSÃO

são. “Coisas santas não podem ser atiradas aos porcos” (Mt 7.6); c)
há judeus e pagãos suficientes ao nosso redor a serem convertidos,
não é preciso ir a terras distantes; d) quase que invariavelmente, al-
guns cristãos são encontrados em territórios pagãos. É deles a res-
ponsabilidade, não nossa (COATES, 1969, p.609). Para a voz de Welz
clamando no deserto foi dito: “A missão pertence a Deus e Deus não
precisa de parceiros” (SHERER, 1987, p.69).
Uma última abordagem deste assunto vem do historiador Milton
Rudnick. Para ele, o que Lutero havia rejeitado com tanta veemência
no catolicismo medieval, a Ortodoxia de certa maneira ressuscitou: um
novo escolasticismo. O caráter estático e abstrato da teologia. O efei-
to desse excesso de intelectualização desencadeou pregações longas
e sofisticadas, longe da vida, como ela é, dos seus ouvintes. Pastores
estavam mais para guardiões da verdade do que cuidadores de al-
mas. Os leigos estavam mais para consumidores da doutrina do que
participantes na missão de Deus através da igreja (RUDNICK, 1984,
p.114). O desejo salutar da manutenção com a pura doutrina foi apa-
gando a preocupação com a vivência espiritual e santidade de vida.
Até a preocupação com a formação de pastores estava mais para o
intelectualismo e formalismo do que o cultivo de uma fé viva e fervoro-
sa (RUDNICK, 1984, p.114).

CONCLUSÃO - REFLEXÕES PROVISÓRIAS

1. Parece haver uma ambivalência no pensamento missionário em


Lutero e no período da Ortodoxia Luterana. Lutero mantinha de ma-
neira precisa a tensão entre a Missio Dei e a responsabilidade de cada
sacerdote ungido por Deus no batismo, para proclamar as obras de
Deus. A inclinação da Ortodoxia Luterana, principalmente no período
posterior, era quase que invariavelmente pelo exclusivismo vertical.
2. Martinho Lutero esboçou seu conceito de missão em termos te-
ocêntricos e bíblicos. É possível que isto não possa ser traduzido tão
facilmente em termos práticos e organizacionais, mas ele com certeza
é um inspirador e um desafio para a missiologia hoje.
3. Como inspirador à missão, Lutero nos revela que a vida congre-
gacional era permeada com a dimensão evangelística. Não se pressu-
punha conhecimento prévio dos participantes do culto. Liturgias deve-
riam ser organizadas visando também aos visitantes; missão era as-
sunto de púlpito, a fim de orientar e animar; o sacerdócio universal dos
cristãos era animado a exercer onde de fato e de direito foi chamado,
fora do templo, onde não há ninguém designado para proclamar o
Evangelho.

31
IGREJA LUTERANA

4. Lutero inspira, mas com os pés no chão. Ele admite que há mui-
tas coisas que atrapalham o testemunho. É preciso reaprender sem-
pre de novo que onde o Reino de Deus é pregado, há oposição e é
preciso perseverar.
5. Em seu escrito “Dos Concílios e da Igreja” (OSel, Volume 3, pp.300-
432), Lutero identifica e afirma que o santo povo cristão é reconhecido
exteriormente quando este possui a santa palavra de Deus, os santos
sacramentos do batismo e do altar, o ofício das chaves (absolvição e
disciplina), a ordenação e chamado de pastores, a prática da oração,
louvor a agradecimento a Deus e em sétimo lugar a cruz, as tentações
(LUTERO, OSel, Volume 3, pp.409-421). E a atividade evangelística não
poderia ser outra marca que identifique exteriormente o santo povo
cristão?

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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33
IGREJA LUTERANA

34
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM
ESTUDO DO CREDO APOSTÓLICO
COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ1
Vilson Scholz2

I. PALAVRA DE DEUS

Ele falou. E está falado.


Curto e sugestivo. Como um lema tem que ser. Deus falou e o as-
sunto está encerrado. Tem muita outra gente falando – e sendo ouvi-
da. Mas o que importa mesmo é o que Deus falou.
Quero, nesta palestra, falar um pouco sobre onde Deus fala para
deixar falado, e também sobre o que ele diz, para fechar a questão, no
que se refere àquilo que nós cremos.
Uma das primeiras coisas que ouvi em aula de Sistemática – que é
outro nome, mais pomposo, para Dogmática (ou Doutrina) – é que
Deus é e se revela. Deus existe e ele entra em contato com a gente.
Na época isto não me fez cair da cadeira, e ainda hoje não me faz
balançar. E acho que para todos os que estamos aqui, é coisa bem
normal dizer: Deus existe e Deus fala com a gente. Sim, tem alguém lá
fora, e nem precisamos de aparelhos sofisticados para tentar captar
os possíveis sinais que ele talvez queira mandar para nós. Ele é real, e
já nos mandou sua mensagem.
Talvez seja mais fácil dizer “Deus existe”. Até mesmo nosso glorio-
so real, com o seu “Deus seja louvado”, é um testemunho de que exis-
te um Deus. Agora, a segunda afirmação – Deus fala – é mais complica-
da. Talvez não tanto que Deus fala, mas, muito mais, a questão “onde”
ele fala.
Entre teólogos, ao menos, há certo consenso de que Deus fala.
Todos (ou quase todos) acreditam que existe uma Palavra de Deus. Só
que a pergunta é: onde se encontra essa Palavra? Muitos acham que
ela vem junto com o som do vento. Outros acham que ela é uma voz
que soa lá no fundo do coração. E aí temos, de imediato, um problema.
Como saber que é a voz de Deus? E se aquilo que eu escuto não é o
mesmo que você escuta? Em outras palavras: Essa Palavra de Deus é

1
Palestra proferida no 18º Congresso Nacional da Liga de Leigos Luteranos do Brasil, em
Piratuba, SC, em agosto de 2007.
2
O Rev. Prof. Dr. Vilson Scholz é professor de Teologia Exegética (Novo Testamento) no
Seminário Concórdia e na ULBRA e Consultor de Traduções da Sociedade Bíblica do
Brasil.

35
IGREJA LUTERANA

concreta? Ela pode ser repetida?


É por isso que nós insistimos no caráter objetivo da Palavra de
Deus. Ela existe de forma concreta fora de nós. Ela pode ser ouvida
sempre de novo. Ela foi posta no papel (ou, para ser mais exato, no
papiro ou no pergaminho). Ela virou livro. Aqui, nas Escrituras, Deus
falou e está falado. Em certa língua indígena, ao traduzirem a locução
“palavra de Deus”, optaram por dizer “tua fala no papel”.
Deus falou “muitas vezes e de muitas maneiras”. A gente vê isso
na Bíblia e o autor da carta aos Hebreus confessa que Deus falou “mui-
tas vezes e de muitas maneiras” (Hb 1.1). No final, nestes últimos
dias, ele falou pelo Filho. E esta é a palavra final e definitiva de Deus. A
Palavra de Deus é, a rigor, o Filho de Deus, a Palavra que se fez gente
e morou entre nós.
Ainda hoje Deus fala, no seu Filho, de várias maneiras. Ele nos fala
na Palavra. Esta Palavra é lida, ouvida, pregada. Esta palavra vem
junto com a água do batismo que foi derramada na nossa cabeça.
Essa Palavra soa bem clara e de forma concreta no “Eu te perdôo” da
Absolvição dos pecados. E essa Palavra é bem concreta no Filho que
nos dá seu corpo e seu sangue na Ceia que ele instituiu para nós.
Será que a pregação do pastor é Palavra de Deus? Isso é um as-
sunto que muita gente gosta de discutir. Tem gente que acha que não.
Palavra de Deus, só o que está escrito. Outros acham que sim, que
aquilo que o pastor prega é Palavra de Deus. Do contrário, por que
ficar prestando atenção?
Aqui tenho um trecho de Lutero que é bem interessante:
“No dia do Juízo, Deus vai me perguntar: Você pregou isso? E eu
vou responder: Sim, claro. Então Deus vai se virar para você e pergun-
tar: Você também ouviu o que ele falou? E você vai responder: Sim,
claro. Então Deus vai continuar: E, então, por que é que você não
levou isso a sério? Aí você vai dizer: Ah, eu achei que eram simples-
mente as palavras de um homem; afinal, não foi um simples capelão
ou um pastor lá da roça que falou? Assim, a mesma palavra que se
apega ao seu coração vai acusar você e ser o seu juiz no último dia.
Pois esta é a Palavra de Deus. Quem você ouve é o próprio Deus, como
diz Cristo: Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim”.
E já que estou em Lutero, vou acrescentar mais isto: Para Lutero, o
significado fundamental da Palavra de Deus era o sentido ou o signifi-
cado (Sinn) da comunicação que vem de Deus. Isto é muito importante
quando se trata de traduzir a Bíblia e também de pregar o evangelho.
Segundo Lutero, quando Deus fala, ele não apenas emite sons ou
coloca uns rabiscos no papel. Não; ele diz coisa com coisa. Ele fala
coisas que são verdadeiras e que têm conteúdo. (Os dogmáticos de-

36
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

pois falariam da matéria das Escrituras – as letras e as palavras – e da


forma – o significado divino, o sentido e conceito.)
Isso tornou possível, por exemplo, que os apóstolos e evangelis-
tas citassem os textos do Antigo Testamento de uma forma que nem
sempre é bem ao pé da letra. Eles estavam mais preocupados com o
conteúdo. Isso permitiu, também, que alguém como o apóstolo Paulo
formulasse a doutrina da justificação do pecador diante de Deus –
uma só e mesma doutrina – de formas diferentes. Isto permite que a
gente faça traduções diferentes, e até mesmo traduções como a Nova
Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), que quer reproduzir o signifi-
cado, e não necessariamente as mesmas palavras do original. Isto
permite que o evangelho seja pregado em línguas diferentes e que
novas aplicações sejam feitas a pessoas em diferentes contextos. No
entanto, é sempre a mesma palavra de Deus.
Dito tudo isso, temos que voltar ao começo e enfatizar que, se qui-
sermos e tivermos que apontar para algum lugar quando alguém nos
pergunta: Onde está a Palavra de Deus?, teremos que apontar para a
Sagrada Escritura. É sobre ela que quero falar um pouco, para, depois,
passar para o que ela define em termos daquilo que nós cremos.
Houve um tempo em que, talvez, não se precisasse discutir sobre a
Palavra de Deus, mas só falar a partir dela. A gente tem a impressão
de que no tempo de Lutero e dos Reformadores isso era mais ou me-
nos assim. No Catecismo de Lutero (aquilo que ele escreveu, e não a
explicação – a segunda parte – que vem de outros) não tem nada
específico sobre a Palavra de Deus. As Confissões Luteranas não têm
um artigo especial sobre as Escrituras. Não tem nada disso na Confis-
são de Augsburgo. Mas no Sumário da Doutrina Cristã e na Dogmática
tem. É que hoje isso se tornou necessário. Dizemos que “o que não é
bíblico não é teológico”. Em outras palavras, nossa teologia sai da Bí-
blia. E se a Bíblia não é mais levada a sério, aí nos puxaram o tapete e
não temos mais como fazer teologia. Por isso, a primeira coisa que os
teólogos têm que fazer, hoje, é discutir a própria Bíblia.
Nós, hoje, não vamos entrar nessa discussão. Vamos deixar isso
para os teólogos, quando eles se reúnem. Quero falar de coisas mais
leves e práticas. Mas, para que não tenham a impressão de que as
Confissões Luteranas não têm nada a dizer sobre a Bíblia, preciso logo
me corrigir e dizer que tem, sim, um parágrafo a respeito disso. Está
bem no comecinho da Fórmula de Concórdia, a última das Confissões
Luteranas (de 1580), num trecho conhecido como “Da Suma, Regra e
Norma [de Acordo com a Qual Deve Ser Julgada Toda Doutrina e De-
vem Ser Explicados e Decididos, de Maneira Cristã, os Erros Que Surgi-
ram]”.

37
IGREJA LUTERANA

1. Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos pro-


féticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única re-
gra e norma segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas igual-
mente todas as doutrinas e todos os mestres, conforme está escrito:
“Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus cami-
nhos” Sl 119. E São Paulo: “Ainda que um anjo vindo do céu vos pre-
gue diversamente, seja anátema”. Gl 1.
Outros escritos, entretanto, dos antigos e dos novos mestres, seja
qual for o nome deles, não devem ser equiparados à Escritura Sagra-
da, porém todos lhe devem ser completamente subordinados, não
devendo ser recebidos diversamente de ou como mais do que teste-
munhas da maneira como e quanto aos lugares onde essa doutrina
dos apóstolos e profetas foi preservada nos tempos pós-apostólicos
(Livro de Concórdia, p. 499).
O que se destaca nessa afirmação é que a Sagrada Escritura é
vista como uma régua que é usada para medir o que é ensinado e
quem ensina. Ela é o padrão usado em nosso controle de qualidade.
Claro, esta ênfase era necessária no contexto em que foi redigida a
Fórmula de Concórdia, a saber, um contexto de conflitos doutrinári-
os. Nós dizemos que a Bíblia é norma de fé e de vida. Fazemos isso
com base no que a própria Bíblia diz (2 Tm 3.16). Vou voltar a isso
um pouco adiante. De momento, preciso dizer (talvez para surpresa
de alguns ou da maioria) que as Confissões Luteranas (e, por ex-
tensão a teologia luterana e os pastores luteranos) nunca defini-
ram quais são “os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do
Novo Testamento”. Quantos livros são? Sessenta e seis! Como você
sabe? É só contar no Índice. Onde os luteranos se pronunciaram a
respeito? A rigor, em lugar nenhum. Neste caso, nossa prática mos-
tra o que cremos. (E o curioso é que a Igreja Católica Romana, que
depende mais do papa do que da Bíblia, definiu, no Concílio de Tren-
to, uma lista de livros; os luteranos nunca fizeram isso. Pastores
são perguntados, na Ordenação ao Ministério, se crêem que os li-
vros canônicos do Antigo e do Novo Testamento são a palavra inspi-
rada por Deus e única norma infalível de fé e vida [respondendo que
crêem], mas nunca ninguém dá uma lista de quais sejam esses li-
vros).
E já que ouvimos outra vez que os livros canônicos são norma de fé
e de vida, talvez seja o momento de perguntar: De onde nos vem essa
linguagem, isso de falar em “norma de fé e de vida”?
Essa forma de falar nos vem de uma conhecidíssima passagem bí-
blica: 2 Timóteo 3.16: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para
o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na

38
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

justiça”. Ou, como diz o texto da NTLH, “... útil para ensinar a verdade
(norma de fé), condenar o erro (isto aparece no texto da Fórmula de
Concórdia), corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver (norma
de vida)”. É assim que a Escritura é lâmpada para os pés, e luz para os
caminhos.

II. LIVRO DIVINO-HUMANO

Que livro é esse? Este é um livro ou, melhor, uma biblioteca de


livros, que tem uma longa história. Está pronto há quase 2000 anos. É,
hoje, disparado, o livro mais traduzido, mais vendido e mais lido em
todo o mundo. É o livro sobre o qual mais se escreve (diria alguém que,
logo depois, vêm os escritos de Shakespeare).
Mas, pela idade, é um livro bem antigo. As capas bonitas e as tra-
duções bem compreensíveis que temos hoje meio que escondem a
realidade de que se trata de um livro antigo. Escrito em línguas que,
mesmo sendo línguas ainda faladas hoje (hebraico e grego), eram lín-
guas bastante diferentes das que hoje conhecemos. Mas, mesmo as-
sim, língua de gente como a gente. Línguas que ainda hoje ensinamos
e que podem ser aprendidas. Aliás, por que não poderiam os leigos se
interessar pelas línguas bíblicas? Estudar hebraico e grego para poder
ler a Bíblia no original não deveria ser algo que interessa exclusiva-
mente a pastores.
Que livro é este? É um livro divino-humano, ou, se preferir, um livro
humano-divino. Verdadeiramente humano e verdadeiramente divino.
Como Cristo, a Palavra de Deus. A Bíblia não caiu pronta do céu. Como
diz um personagem do livro O Código da Vinci, ele não foi mandado por
fax do céu. Ou, como diríamos hoje, não veio como anexo de um e-
mail. A formação da coleção que é a Bíblia foi um longo processo. Nisso
estavam envolvidas pessoas, mas não se tratou de um processo pura-
mente humano. Assim eu acredito.
E aqui cabe um comentário sobre o famoso Código da Vinci. Esse
da Vinci é o Leonardo da Vinci, que pintou o quadro que é, talvez, o
quadro mais conhecido de toda a arte cristã. Para quem não leu o livro
– e é bem provável que poucos aqui o fizeram – explico que uma das
coisas que ele diz com a maior naturalidade é que o Novo Testamento
foi formado por uma decisão do imperador Constantino lá pelo ano
330 d.C., por razões políticas. Era preciso uma divindade e então es-
colheram Jesus e os livros que promoviam um Jesus divino (levando à
supressão dos livros em que Jesus aparece como homem). E, claro, a
Igreja aproveitou para escolher também os livros que promoviam um
ponto de vista patriarcal, eliminando, por exemplo, a memória de Maria

39
IGREJA LUTERANA

Madalena e outras mulheres. A história desmente Dan Brown. A espi-


nha dorsal do cânone do NT já estava pronta no ano 200 (se não
antes), ou seja, 130 anos antes da data que Dan Brown defende.
Quando as autoridades da Igreja se pronunciaram, já era, por assim
dizer, tarde: o povo da igreja já sabia que livros faziam parte da Bíblia
e que livros não deveriam ser incluídos. E o Jesus mais humano é
exatamente o que aparece nos Evangelhos que estão no Novo Tes-
tamento.
Na Bíblia, o livro de Deus, não temos tudo. Ou seja, a Bíblia não
explica tudo, não tem resposta para tudo. E os próprios escritores
confessam isso. Paulo diz, em 1 Coríntios 13.12, num contexto em que
fala de profecias e revelações, que conhecemos em parte, que vemos
como em espelho, obscuramente. E a NTLH, para que a gente entenda
o que Paulo disse no contexto dele (uma época em que espelhos fei-
tos de metal polido só permitiam ver mais ou menos o que se enxerga
quando se olha para dentro de uma poça d’água), usa a imagem de
um espelho embaçado.
Já que falamos disso, cabe um comentário sobre o mais recente
filme dos Simpsons. Segundo consta, a certa altura Homer folheia uma
Bíblia e resmunga: “Este livro não tem resposta nenhuma”. Alguém
talvez dirá: Não basta folhear; tem que ler. Seja como for, a questão
está posta e cabe uma resposta. Talvez o filme esteja reagindo contra
a visão de muitos de que a Bíblia tem todas as respostas. Existe, é
claro, uma grande diferença entre não ter resposta para tudo e não
ter resposta nenhuma. As questões mais importantes da vida (e da
morte) a Bíblia responde. Ela pode nos tornar sábios para a salvação
pela fé em Cristo Jesus (2 Tm 2.15; João 20.21). E em Rm 15.4 diz que
“tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim
de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos
esperança”.
A propósito de folhear, ler, e assim por diante, cabe um lembrete: a
gente poderia usar mais a Bíblia, ler mais a Bíblia. Nós luteranos, em
especial. Claro, sempre temos dado preferência ao usar bem. Isto não
impede que se leia mais. E o que é usar bem? É, em resumo, fazer
duas coisas: Primeiro, ler com cuidado o texto (o que está escrito).
Segundo, levar bem a sério o contexto, ou seja, aquilo que está ao
redor do que estamos lendo (e esse ao redor inclui o período histórico
e o lugar cultural em que o texto foi escrito).
Esses dois princípios são diariamente desrespeitados pelos nos-
sos ilustres profissionais da fé que gostam de pinçar versículos isola-
dos e colocá-los na tela da TV. Outro dia, ao mudar de canal, parei
quando vi um texto na tela. Era 2 Rs 6.30 – “Tendo o rei ouvido as

40
ELE FALOU E ESTÁ FALANDO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO NA NORMA DE FÉ

palavras da mulher, rasgou as suas vestes, quando passava pelo


muro; o povo olhou e viu que trazia pano de saco (roupa de pano
grosseiro) por dentro, sobre a pele”. O texto era, de fato, o texto que
aparece na Bíblia. Qual foi o problema? O texto foi isolado do contex-
to. Não se leu nada em volta. Por quê? Porque se queria tirar do
texto uma lição que ele não traz. E que lição foi essa? A seguinte:
Muita gente tem roupa bonita por cima, ou seja, tem aparente felici-
dade, mas por baixo está com pano de saco. Segundo o profissional
da fé, o rei teria que se desfazer do pano de saco. Só que o texto não
fala nada disso. Se havia alguma coisa errada com aquele rei, não
era o fato de que faltava a roupa bonita (prosperidade, que é o que
sempre se prega nesses programas). O que havia de errado, se é
que havia, é que o rei não quis mostrar publicamente que estava em
situação de penitência (algo que o pano grosseiro queria simbolizar).
O que o rei deveria ter tirado é aquela roupa bonita que dava a im-
pressão de que tudo ia às mil maravilhas numa situação de fome
aguda em que “duzentos gramas de esterco de pomba custavam cin-
co barras de prata” (2 Rs 6.25).
É interessante como esse pessoal chega nesses textos. Eles che-
gam lá porque querem provar alguma coisa. Usam a Bíblia como arma.
Nesse ponto nós luteranos temos uma visão da Bíblia que muitos, infe-
lizmente, não têm. Para muitos, tudo na Bíblia tem a mesma importân-
cia, especialmente quando a gente quer fundamentar os programas
da igreja da gente.
No outro lado, existem aqueles que reduzem tudo ao evangelho,
assim como eles o entendem e definem. Este “evangelho” muitas ve-
zes não passa de um “Deus tolera tudo”. Ficam com uma mensagem
central e descartam o resto. Esses tiram a Bíblia da jogada e acabam
entrando para uma ONG ecológica. Perdendo a Escritura, a gente per-
de o evangelho. Adaptando uma comparação usada por Lutero: quan-
to mais furos a gente fizer nos panos em que o menino está enrolado
(as Escrituras), maiores serão as chances de que o menino vai acabar
caindo fora.
Nós luteranos confessionais somos diferentes. Não abrimos mão
de nada, mas ao mesmo tempo reconhecemos que existe um centro
ou um núcleo evangélico que é mais importante (mesmo não sendo
mais Bíblia) do que o restante. Por exemplo: Em Gn 10.9 diz que
Ninrode foi valente caçador diante do Senhor (o patrono dos caça-
dores, diria alguém). Isto é muito verdadeiro. Só que não é tão im-
portante quanto “Deus amou o mundo ... que deu o seu Filho ...
para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida
eterna”.

41
IGREJA LUTERANA

III. NORMA DE FÉ

Que é que Deus falou e fala neste livro, sua Palavra? Ele nos diz o
que (ou em quem) devemos crer. Ele nos ensina a dizer “creio”. Ele nos
ensina em quem crer.
Creio. “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”. Pouca
gente diria que não tem fé. Mas fé em quê? Fé em quem? Aí a coisa fica
mais complicada. Poucos sabem ou saberiam dizer em que(m) crêem.
A propósito disso, tem aquela história do carvoeiro (sujeito rude e
simples que trabalhava em mina de carvão) que, verdadeira ou não,
ficou famosa e criou até um nome para certo tipo de fé, a fé do carvo-
eiro. Perguntaram ao carvoeiro: Em que(m) você crê? E ele respondeu:
Creio no que a igreja crê. Pergunta seguinte: E o que é que a igreja
crê? Resposta: A igreja crê o que eu creio. Fé de carvoeiro. Fé implícita.
Fé que não sabe em quem ela crê. Não são assim os homens bíblicos.
Paulo diz: Porque sei em quem tenho crido (2 Tm 1.12). Nós não somos
que nem aquele carvoeiro, porque, depois de dizer “creio”, nós sabe-
mos ir adiante. A saída do carvoeiro deveria ter sido esta: Creio em
Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra ...
Sim, os credos expressam o que nós cremos. E, mais importante,
eles são resumos da Bíblia, resumos daquilo que cremos, a partir da
Bíblia. Eles são regra de fé.
Credo quer dizer “creio”, em latim. Por isso, o Credo não é uma
oração. É nossa confissão de fé. É nosso testemunho. Você diz que
não sabe testemunhar? Como não? Você faz isso sempre de novo,
cada vez que diz o Credo. Claro, no contexto protegido do culto é mais
fácil. Mas aquele é o nosso momento de pregar. (Outro momento em
que os leigos pregam na igreja é quando participam da Ceia. Paulo
escreve que os participantes anunciam a morte do Senhor até que ele
venha. Por isso o Dr. Carl F.W. Walther chamou a santa ceia de “o púl-
pito dos leigos”).
Existem igrejas que não usam os credos. Dizem que, como não
estão na Bíblia, não teria como usá-los na igreja. Os luteranos nunca
rejeitaram os credos. Ouça o que eles dizem a respeito dos mesmos:

[“... confissões breves e categóricas [schlüssig, bündig], que


foram consideradas como a fé e confissão unânimes, univer-
sais, cristãs da igreja ortodoxa e verdadeira, a saber, o Sím-
bolo Apostólico, o Símbolo Niceno e o Símbolo Atanasiano”
(Epítome, Da Suma, 2, p. 499)]
“... antigamente a verdadeira doutrina cristã foi reunida, em
puro e são entendimento, da palavra de Deus, em breves

42
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

artigos ou capítulos contra a falsificação dos hereges, con-


fessamos ... os três Símbolos gerais ... como as gloriosas
confissões da fé, breves, cristãs e fundadas na palavra de
Deus ...” (Declaração Sólida, Da Suma, 2, p. 541).

Portanto, para falar sobre Bíblia como regra de fé, nada melhor do
que seguir o resumo dessa fé, conforme aparece no Credo (ou Símbolo)
Apostólico. Ele é nosso distintivo. É como o escudo e as cores que iden-
tificam um clube de futebol. Em nosso caso, nos identifica como Igreja.
Em primeiro lugar, preciso dizer que ninguém mais acredita que o
Credo Apostólico seja apostólico no sentido de ter sido escrito pelos
apóstolos. (Na Idade Média se pensava que cada apóstolo tinha con-
tribuído com um pedacinho ou uma frase do Credo.) Mas ele é, com
certeza, apostólico no sentido de estar em conformidade com a doutri-
na apostólica. Ou seja, o Credo Apostólico sai diretamente do teste-
munho apostólico do Novo Testamento. Em termos históricos, tudo in-
dica que ele surgiu (ou se popularizou) na igreja romana, sendo usado
como confissão de fé no batismo. (Ainda hoje é usado por nós nos
batismos; em culto com santa ceia, dizemos o Credo Niceno, que dá
maior destaque à pessoa de Cristo).
Antes de mais nada, está claro que o Credo tem estrutura trinitária.
Exemplos dessa estrutura trinitária, no Novo Testamento, aparecem em
2 Co 13.14; Mt 28.19; 1 Co 6.11; 12.4; 2 Co 1.21,22; 1 Ts 5.18,19; Gl
3.11-14. E isto é muito importante: impede que se tenha ou confesse
uma fé vaga em Deus, talvez um Deus que é simplesmente o arquiteto
do universo. Também impede que se tenha uma fé exclusiva em Jesus.
Por outro lado, o primeiro artigo e o segundo artigo protegem a fé cristã
de deslizar para o entusiasmo, no qual não se dá atenção suficiente ao
fato de que o ser humano é criatura e que ele vive neste mundo, num
contexto bem específico, com todos os seus dilemas e dificuldades.
Que texto usar? Ora, o texto que todo mundo conhece de cor. Sim,
eu poderia usar, nesta discussão, o texto do Credo que aparece em
nosso hinário. Mas, preferi usar o texto que se encontra no Livro de
Concórdia, que, pelo que parece, é o texto oficial:

CREIO EM DEUS, O PAI ONIPOTENTE, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA.


E EM JESUS CRISTO, SEU ÚNICO FILHO, NOSSO SENHOR, O QUAL
FOI CONCEBIDO DO ESPÍRITO SANTO, NASCEU DA VIRGEM MARIA, PA-
DECEU SOB PÔNCIO PILATOS, FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTA-
DO, DESCEU AOS INFERNOS, NO TERCEIRO DIA RESSUSCITOU DOS
MORTOS, SUBIU AOS CÉUS, ESTÁ SENTADO À DESTRA DE DEUS, O PAI
ONIPOTENTE, DONDE HÁ DE VIR PARA JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS.

43
IGREJA LUTERANA

CREIO NO ESPÍRITO SANTO, A SANTA IGREJA CATÓLICA A COMU-


NHÃO DOS SANTOS, A REMISSÃO DOS PECADOS, A RESSURREIÇÃO DA
CARNE E A VIDA ETERNA. AMÉM.

Não será possível, neste momento, entrar em todos os pormeno-


res do Credo. Mas vou falar um pouco a respeito de cada uma das
partes, aprofundando alguns pontos que ganharam importância em
tempos recentes.
Creio. Esta é a parte mais pessoal do Credo. Eu creio. Minha suspeita
era que, no Novo Testamento, é mais comum o “cremos” (plural comuni-
tário), mas essa suspeita não se confirmou. Encontrei cinco passagens
com “creio” ou “tenho crido” (Mc 9.24; Jo 9.38; 11.27; At 27.25; 2 Tm
1.12) e cinco passagens com “cremos” ou “temos crido” (Jo 6.69; 16.30;
At 15.11; Rm 6.8; 2Co 4.13). Na verdade, nunca cremos sozinhos. A mãe
Igreja nos ensinou a fé. Mas ninguém pode crer por mim; só eu posso
dizer “creio”. Mas digo esse “creio” no contexto do “cremos”.
Creio o quê? Que Deus existe? Pergunta errada, segundo o Credo.
Creio em quem? Esta é a pergunta certa. Crer que Deus existe é pres-
suposto (Sl 14.1). (Esse crer em aparece em textos como At 14.23; Rm
10.14; Ef 1.13.) Crer em Deus é lançar-se sobre Deus, confiar-se a ele,
entregar-se a ele.
Creio em Deus. Para muitos, muitos mesmo, o credo termina aqui.
Para nós, não. Esse Deus, que é um só, é o Pai onipotente. Deus é
Pai. Apenas em relação ao Filho ou na medida em que tem o Filho? Sim,
já no Primeiro Artigo se pode prever que virá um Segundo Artigo, que
fala do Filho. (Assim, no NT, sempre que se fala sobre o Pai, o Filho está
subentendido. E, quando se fala do Filho, o Pai fica subentendido.) No
NT, “Pai”, em referência a Deus, aparece 270 vezes. Isso não é pouco,
especialmente em comparação com o AT, onde raras vezes Deus é cha-
mado de Pai (Dt 32.6 (?), Is 63.16 [duas vezes], Jr 3.4,19; Ml 2.10). Há,
é claro, momentos em que Deus chama os seus de filhos. Mas também
isso é raro (Êx 4.22-23; Is 1.2; Os 11.1; em relação ao rei messiânico:
2 Sm 7.14; Sl 2.7; 89.27-28). Talvez a passagem mais significativa seja
Malaquias 2.10: “Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou o
mesmo Deus? Por que seremos desleais uns para com os outros, pro-
fanando a aliança de nossos pais?” Neste texto fica clara a ligação
entre Pai e Criador.
Em que sentido Deus é Pai? (Aliás, como Deus nunca se chama de
mãe e ninguém nunca se dirige a ele como mãe, a gente respeita o
que foi revelado e não chama Deus de mãe, embora aqui e ali Deus se
compare com as atitudes de uma mãe.) No dia dos pais, me chamou a
atenção um texto do escritor Moacyr Scliar:

44
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

O bastão da paternidade passa de mão em mão através de gera-


ções sem conta. ... Meu pai recebeu o bastão do meu avô e este
do meu bisavô (não os conheci) e assim numa sucessão que re-
gride no tempo até chegar ... a quem? Quem foi o primeiro pai?
Darwin nos remete a um primata qualquer, mas a Bíblia tem uma
resposta que corresponde muito mais às nossas fantasias e aspi-
rações. Deus foi o primeiro pai. E uma figura paterna. Ele é, ao
menos na visão dos pintores renascentistas: aquele homem de
face severa (Deus nunca sorri), de longas barbas brancas. ... a
Ele devemos a partida para a Grande Corrida do Revezamento
Humano (Donna ZH, 12 de agosto de 2007, p. 15).

O Scliar, como gosta de fazer, menciona a Bíblia. Só que ele está


errado quando diz que Deus deu início à grande corrida de reveza-
mento. Deus foi o primeiro pai, diz Scliar. Errado; Deus é Pai. Hoje.
Agora. Dizer que Deus é Pai é mais do que dizer simplesmente que
existe Alguém que, lá no começo, criou o mundo e o homem. Nesse
sentido, estava mais correta a propaganda do dia dos pais de um hi-
permercado: Pai é quem cuida, Pai é quem protege, Pai é quem educa.
Deus é Pai também na medida em que cuida.
E um Pai é sempre pessoal; é uma pessoa, um tu. Quem diz Pai não
pode mais falar de um destino que governa cegamente ou de uma
“força divina” que está por aí. O Pai é um Tu que se comunica com a
gente e que podemos invocar.
Pai onipotente. É assim que está no credo, e isso nos vem do latim.
Onipotente é quem tudo pode. Ele tem capacidade de fazer todas as
coisas. Ninguém, por mais inteligente que seja, pode dizer o que é
onipotência. E isso, apesar de encontrá-la sempre e em toda a parte,
pois o mundo não seria mundo sem ela.
Só que, no grego, a palavra usada pode dizer algo um pouco dife-
rente. É a palavra PANTOCRÁTOR. E esta aparece no NT em 2 Co 6.18;
Ap 1.8; 4.8; 11.17; 15.3; 16.7,14; 19.6,15; 22.22, sendo, em geral,
traduzida por “Todo-Poderoso”. Deus é pantocrata. Ele é todo-sobera-
no, todo-governante. Ele governa todos, ele sustenta o mundo. Em
vez de poder fazer tudo, como sugere “onipotente”, ele faz tudo.
Criador do céu e da terra. Isso vem meio que direto do primeiro
versículo da Bíblia (Gn 1.1). Em outras religiões, no tempo em que a
Bíblia foi escrita, não se afirmava isso. Pensavam que o mundo era
eterno, ou seja, sempre existiu. Outros, os gnósticos, achavam que
Deus não podia sujar as mãos, criando a matéria. Hoje se fala sobre
um “big bang”. Poucos, pelo que sei, na comunidade científica, diriam
hoje que o mundo sempre existiu. Houve um começo.

45
IGREJA LUTERANA

Deus criou céus e terra. Nada é dito do ser humano. Estamos inclu-
ídos na terra que Deus criou. Aliás, fomos feitos do barro. Lutero, na
explicação do Credo, fala que Deus me criou a mim. Claro que isso é
importante. Além de ser verdade, faz bem para nossa auto-estima. A
gente se sente bem com essa verdade. Não só criados por Deus, mas
criados à imagem de Deus.
E aqui preciso pausar para uma reflexão e uma ênfase. Sou criatu-
ra de Deus. Isto é bem diferente de uma visão ateísta da origem do
ser humano representada na teoria da evolução. Aliás, alguém já dis-
se, com razão, que, depois da propagada “morte de Deus” (que é mais
ou menos o mesmo que negar que Deus existe), veio a morte do ho-
mem. Historicamente, três figuras tiveram grande influência nesse pro-
cesso: Nicolau Copérnico, Charles Darwin e Sigmund Freud.
Copérnico tirou o homem, na Terra, do centro do Universo. Somos
uma partícula de pó nalgum canto remoto do Universo. Giramos em
torno do sol, e não o contrário. Que choque! Darwin, todo mundo sabe,
veio com essa estória de que não passamos de um animal mais evolu-
ído. E, quando ainda restava o recurso de dizer que temos uma alma
ou uma consciência que nos distingue dos animais, apareceu Freud
para dizer que nossas emoções e sentimentos íntimos são simples
produto de nossos instintos físicos.
Mas eu quero voltar a Darwin e a visão evolucionista, mais especi-
ficamente sobre a influência e os resultados da visão evolucionista.
Noutro dia foi publicado na revista Veja (agosto de 2007) uma matéria
intitulada “Só os vermes são fiéis”. Trata-se de uma resenha sobre um
livro que acabava de ser publicado no Brasil, chamado O Mito da Mono-
gamia. Ali se argumenta que o desejo de variedade sexual foi incutido
no homem (e, em grau pouco menor, na mulher) pela evolução. Seria
um fato incontestável à luz fria da ciência. Logo, a biologia não deixa
outra alternativa: trair é natural.
Mesmo que admitamos, para fins de exercício, que somos todos,
por natureza, polígamos, isto ainda não significa que isto é algo bom,
muito menos que é assim que as coisas deveriam ser. Por outro, este é
o caminho natural para onde nos leva o ateísmo. Já disse o escritor
russo Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Creio em Deus, o Pai onipotente, criador do céu e da terra. Para mui-
tos, o Credo termina aqui. Até crêem em Deus, mas não crêem em Jesus
Cristo, o Filho de Deus. Portanto, aqui existe um divisor de águas, uma
ilha no meio do rio fazendo com que o canoeiro tenha que decidir de que
lado vai passar. Só os cristãos passam do lado onde está Jesus Cristo.
E (creio) em Jesus Cristo. Creio em Cristo. Quem é ele? Seu único
Filho. Filho de Deus, o Deus de quem vínhamos falando até aqui. Cris-

46
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

to é Filho (Mt 3.16-17; João 3.16, etc.). Ele é único. Isto é interessante.
Seria de esperar “seu Filho unigênito” (No NT, em referência a Jesus,
só em João 1.14,18; 3.16; 1 Jo 4.9). Mas não é isso que dizemos;
dizemos “único”. Existem aqueles que acham que este “único” deveria
ser entendido no sentido de “unigênito”, mas eu já acho que o “unigê-
nito” (que aparece, por exemplo, em João 3.16) deve ser entendido no
sentido de “único”. Unigênito (palavra em que aparece o mesmo radi-
cal que nos dá a palavra “gênese”) leva a perguntar: ele foi gerado
como e quando? Único pode significar que “não existe outro”. E isto é
verdade no caso de Cristo. “Único” pode, também, significar que “não
existe outro igual, não existe outro tão importante” (mais ou menos
no sentido em que Isaque é o filho único de Abraão – Hb 11.17). E isso
também é verdade. Quando dizemos que Jesus é único, estamos di-
zendo que ninguém é Filho assim como ele é.
Seu Filho, nosso Senhor. Esta é outra parte bem pessoal. Dizemos
quem Jesus é em relação a nós. Poderia ser “meu Senhor”; mas ainda
é plural: nosso Senhor. Dizer que Jesus é Senhor é fazer a confissão
de fé original no NT (1 Co 16.22; 1 Co 12.3; Rm 10.9; Fp 2.11). Para
aqueles primeiros cristãos, dizer que Jesus é Senhor era o mesmo que
dizer que ele é Deus. Em 1 Co 8.5-6, Paulo reconhece que, para os
pagãos, havia muitos deuses e senhores. E continua: “para nós há um
só Deus, o Pai, ... e um só Senhor, Jesus Cristo”. Ele não é um super-
homem ou um semideus; ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
No que segue, fazemos um breve relato da vida de Jesus. O texto é
longo, mas poderia ser muito mais. O QUAL FOI CONCEBIDO DO ESPÍ-
RITO SANTO, NASCEU DA VIRGEM MARIA, PADECEU SOB PÔNCIO PILA-
TOS, FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTADO, DESCEU AOS INFERNOS,
NO TERCEIRO DIA RESSUSCITOU DOS MORTOS, SUBIU AOS CÉUS, ESTÁ
SENTADO À DESTRA DE DEUS, O PAI ONIPOTENTE, DONDE HÁ DE VIR
PARA JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS.
Longo ou não, o que dizemos é muito importante. Como disse al-
guém: “O relato da vida, morte, ressurreição e exaltação de Jesus ocu-
pa o centro da Bíblia” (Stanley Grenz).
Algumas coisas que dizemos se explicam ou somente são possíveis
à luz do fato de que ele é verdadeiro Deus. Outras são bem típicas de
sua natureza humana. Um rascunho dessa confissão já aparece em 1
Co 15. A gente poderia até esperar que se dissesse o que Jesus signi-
fica para mim ou para nós, mas isso não é feito no Credo. Ele conta a
história de Jesus de forma bem objetiva.
O qual foi concebido do Espírito Santo: Isto vem do primeiro capí-
tulo de Lucas (Lc 1.34-35). Nasceu da Virgem Maria: Isso é tirado de
Mt 1.18. Cresceu em Nazaré, começou a pregar quando tinha uns 30

47
IGREJA LUTERANA

anos, chamou discípulos, escolheu apóstolos, pregou o reino de Deus


... Tudo isso poderia estar aí, mas não está. Pulamos logo para o final
da história dos Evangelhos, para a Paixão de Cristo, como que confir-
mando a tese de que os Evangelhos são histórias da última semana
de Jesus em Jerusalém com uma longa introdução (Martin Kähler).
Padeceu sob Pôncio Pilatos. Padecer é sofrer. É raro dizer-se que
Jesus sofreu, mas isso também aparece na Bíblia (Mc 8.31; At 3.18).
Padeceu sob Pôncio Pilatos? Será? Claro! Não foi lá que ele foi espan-
cado e açoitado (Mc 15.15)?! E esse Pilatos, secretário da segurança
da província da Judéia, queria, como disse alguém, sair de fininho, sem
se comprometer, e acabou, em contrapartida, “embalsamado” no Cre-
do cristão. Lá está ele, como uma das pessoas do Credo. É menciona-
do junto com Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, a virgem Maria,
os vivos e os mortos, os santos – não porque ele mereça, mas porque
faz parte da história.
Foi crucificado. Duas palavras. Mas daria 20 ou mais minutos de
cinema. Um mundo de horror, mas o que está escrito é só isto, bem
como está nos Evangelhos (Mc 15.25). Para quem conhecia a prática,
isso bastava. Ele foi crucificado. E Paulo diz, em 1 Coríntios 1, que ele
prega Cristo crucificado. Na verdade, só a cruz de Jesus distingue o
cristianismo de outras religiões do mundo. As outras querem que você
se crucifique. Só o cristianismo diz que Jesus foi crucificado por nós.
Morto. Sim, morto. O atestado de óbito está em Jo 19.33-34: não
lhe quebraram as pernas, mas abriram o lado e logo saiu sangue e
água. Sepultado. Também isso os Evangelhos relatam (Lc 23.53). Mor-
to e sepultado. Verdadeiro homem.
Desceu aos infernos. Ou seria “desceu ao inferno”? Literalmente,
o latim, donde isso foi traduzido, traz “infernos”. Mas, então, teria mais
de um? Não chega um? Para nós, “inferno” virou sinônimo de lugar de
tormento. Para os cristãos do tempo em que o Credo foi formulado,
“infernos” eram as regiões subterrâneas onde, assim se acreditava,
ficavam as almas dos mortos. É por isso, por exemplo, que essa parte
do Credo, ao ser recitada na Igreja Católica Romana, reza assim: “des-
ceu à mansão dos mortos”. Na verdade, esta é uma interpretação pos-
sível. Cristo desceu ao(s) inferno(s).
Onde está isso, na Bíblia? Isso é um pouco mais difícil de mostrar e
tem gente que escreveu livro a respeito. Passagens que podem ser
mencionadas são Mt 12.39-40 (“o Filho do Homem estará três dias e
três noites no coração da terra”); At 2.31 (“nem foi deixado na morte/
no Hades”); Rm 10.7 (“quem descerá ao abismo?, isto é, para levantar
Cristo dentre os mortos”); Ef 4.9 (“havia descido até às regiões inferi-
ores da terra”).

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ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

Nada é dito a respeito do propósito dessa ida. Teólogos, é claro,


tratam de achar um motivo para essa ida. Em geral, se entende que
Cristo foi para se mostrar vitorioso, depois que subjugou o inimigo.
Outra possibilidade – e talvez era assim que os primeiros cristãos que
usaram o Credo entenderam isso – é que ele “desceu aos infernos”
apenas como conseqüência de sua morte. Ele não só morreu; ele foi
até onde estão os mortos. É uma possibilidade. A Fórmula de Concór-
dia, no entanto, entende que Cristo “destruiu o inferno para todos os
crentes, e os livrou do poder da morte, do diabo, e da condenação
eterna” (Artigo IX, Epítome 4). Ao mesmo tempo acrescenta: “quanto
à natureza como isso aconteceu, é coisa que devemos reservar ao
outro mundo”.
No terceiro dia ressuscitou dos mortos. No terceiro dia (ou, como
diz em alguns textos: Mc 8.31; 9.31; 10.34, “depois de três dias”) ele
ressuscitou. É páscoa. Ele ressuscitou. Difícil é dizer quantas vezes se
afirma isto no NT (1 Co 15.14, por exemplo). Em todo o caso, “a ressur-
reição, juntamente com a expiação, é o centro da mensagem do cristi-
anismo” (Kent Knutson). O teólogo C. F. Evans escreveu: “O Cristianis-
mo – pelo menos o do NT – é a religião da ressurreição”. O NT foi
escrito a partir da perspectiva da ressurreição. O livro de Atos dos
Apóstolos, para citar um exemplo, pode ser chamado de “Evangelho
da ressurreição”. Em todos os sermões deste livro (At 2, At 3, At 4, At
5, At 10, At 13, At 17), a ressurreição é o tema central. Em Atenas,
Paulo pregou a ressurreição. Há quem diga que Paulo não teve grande
sucesso com seu sermão em Atenas porque tentou falar aos filósofos
numa linguagem filosófica quando deveria ter pregado o Cristo crucifi-
cado (1 Co 2.2). Isto não é verdade. O problema para aqueles filósofos
foi a mensagem da ressurreição. Mas esta mensagem é o evangelho.
Como disse outro teólogo, “não haveria até hoje nenhum evangelho,
nenhuma carta do Novo Testamento, nenhuma fé, nenhuma Igreja,
nenhum culto, nenhuma oração, sem a mensagem da ressurreição de
Cristo” (Günther Bornkamm).
Subiu aos céus. Para esta afirmação do Credo não temos muitas
passagens bíblicas. A rigor, apenas o final do Evangelho de Lucas (Lc
24.51), o começo do livro de Atos (At 1.11) – e o relato deste aconteci-
mento é uma maneira de unir os dois volumes da obra de Lucas – e Ef
4.10. Mas são três passagens! (A forma plural, “céus”, aparece em Ef 4;
em Lucas e Atos se diz que ele subiu ao “céu”.) Como disse alguém, “a
ascensão assinala o fim do envolvimento de Deus na história daquela
maneira. A ascensão é o evento terminante. ... Jesus não vai aparecer a
nós assim como apareceu aos discípulos. Ele resolveu ir embora, isto é,
mudar a forma pela qual trabalha conosco” (Kent Knutson).

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IGREJA LUTERANA

Está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente. Esta afirmação,


que é bem mais freqüente no NT, subentende a anterior: que ele subiu
aos céus. E toda vez que se chama Jesus de Senhor está implícito esse
estar sentado à destra de Deus. Em nossa Bíblia de Almeida aparece
tanto a palavra “destra” como “direita”, o que dá no mesmo. (Algumas
passagens: At 2.33; Rm 8.34; Ef 1.20; Cl 3.1; Hb 8.1; 10.12; 12.2; 1 Pe
3.22.) Onde fica a destra de Deus? Lutero respondeu, e está no Livro
de Concórdia: “A destra de Deus está em toda a parte” (FC, Art. VII,
SD, 95). Cristo não ocupa nem desocupa espaço. E por estar à destra
de Deus, ele pode estar realmente presente na santa ceia, e isso em
todos os lugares em que a ceia estiver sendo celebrada, mesmo simul-
taneamente.
Donde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Afirmamos uma
série de coisas a respeito do que se passou com o Filho de Deus no
passado. Afirmamos também quem ele é hoje: Está à direita do Pai. E
dizemos algo a respeito do que esperamos: Ele há de vir, ele virá. E
dizemos bem, quando dizemos que ele há de vir. Nós, na verdade, gos-
tamos de dizer que Cristo vai voltar. Falamos de sua volta, ou, então, de
sua segunda vinda. O NT prefere falar de sua vinda, pura e simplesmen-
te. “Anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1 Co 11.26), não
“até que ele volte”. (É possível que aqueles primeiros cristãos estavam
mais voltados para o futuro do que para o passado. Para eles, Cristo
viria. Para nós, que estamos mais voltados para a sua vinda na encar-
nação, a sua outra vinda só pode ser a sua volta). Ele virá para quê?
Para julgar os vivos e os mortos. Essa expressão é tão bíblica que é
exatamente assim, nessa seqüência, que ela aparece no NT (só em
duas passagens: At 10.42; 2 Tm 4.1). Poderia ser “julgar os mortos e os
vivos”, mas não é. Os vivos são os que estiverem vivos no momento da
vinda de Cristo; os mortos, os que já tiverem morrido.
Creio no Espírito Santo. Na verdade, Lutero nos ensinou a dizer
que cremos que não podemos por nossa própria razão ou força crer,
mas que o Espírito Santo tornou isso possível. Aqui, confessamos que
cremos no Espírito Santo (Jo 14.26), assim como cremos no Pai e no
Filho. Crer nele é dizer, de forma indireta, que o Espírito Santo é Deus.
(Raramente se ora ao Espírito; em geral ele é objeto de nossa súplica.
Em outras palavras, pedimos o dom do Espírito).
Interessante é que não dizemos nada diretamente a respeito do
Espírito Santo. Nada como “Consolador” ou “Doador da Vida”, como
dizemos no Credo Niceno. A menos que estejamos dizendo algo neste
sentido quando continuamos com A SANTA IGREJA CATÓLICA A COMU-
NHÃO DOS SANTOS, A REMISSÃO DOS PECADOS, A RESSURREIÇÃO DA
CARNE E A VIDA ETERNA.

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ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

E aqui se estabelece um interessante debate. Nós dizemos, no cul-


to, Creio no Espírito Santo, na santa igreja cristã, etc. Agora, em que
sentido podemos dizer que cremos na igreja? Certamente não no mes-
mo sentido em que cremos no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Em que
sentido, então? Com certeza no sentido de “cremos que ela existe”. É
por isso que, na tradução do Credo que aparece no Livro de Concór-
dia, diz: Creio no Espírito Santo, a santa igreja ... Na verdade, o que
segue é uma lista de realidades que têm relação com o Espírito Santo,
mas não de forma direta ou exclusiva. Por exemplo, de que forma a
ressurreição da carne se relaciona com o Espírito Santo (e somente
com ele)? Por isso é que se diz que a Igreja antiga decidiu acrescentar
uma série de itens aqui ao Terceiro Artigo. Por que exatamente estes e
não outros? Não sabemos. Não se menciona, por exemplo, o batismo.
Nem a ceia. (A menos que isto fique subentendido numa outra afirma-
ção). Seja como for, tudo indica que a Igreja antiga, que começou a
usar o Credo Apostólico no contexto do batismo, entendeu que era
importante afirmar essas verdades em conexão com o batismo (su-
bentendendo-se que o Credo Apostólico era o credo usado por oca-
sião do batismo).
Polêmicas à parte, falamos da santa igreja católica a comunhão
dos santos.
Aqui, temos que ir por partes. Santa igreja. Isso sai diretamente de
Efésios 5.25-27: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por
ela ... para a apresentar a si mesmo gloriosa, sem mácula, nem ruga,
nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”.
Santa igreja. Só a palavra “igreja” aparece umas 110 vezes no NT.
A palavra quer dizer “assembléia”, “reunião”. (Portanto, que ninguém
se queixe que na igreja sempre tem reunião. Igreja é, por definição,
uma reunião! Não tem como ser diferente). Além de ser chamada de
igreja, ela é chamada de lavoura de Deus, edifício de Deus, os santos
(povo de Deus), raça eleita, filhos de Abraão, os eleitos, rebanho, sa-
cerdócio real, os fiéis, os justificados, seguidores, família de Deus, fi-
lhos de Deus, etc.
Para muita gente, é muito difícil de dizer o que é igreja. Não assim
para os luteranos. Nos Artigos de Esmalcalde, Lutero tem a coragem de
dizer que “... graças a Deus, uma criança de sete anos sabe o que é a
igreja, a saber, os santos crentes e ‘os cordeirinhos que ouvem a voz de
seu pastor’ ...” (AE XII, p. 338). E na Confissão de Augsburgo confessa-
mos, no Artigo VII, que “... sempre haverá e permanecerá uma única
santa igreja cristã, que é a congregação (Versammlung) de todos os
crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos
sacramentos são administrados de acordo com o evangelho”.

51
IGREJA LUTERANA

A santa igreja católica. Opa! Igreja católica?! Sim, no texto em la-


tim está católica. Isso foi escrito muito antes de existir uma igreja cató-
lica romana. Já no tempo antes de Lutero e especialmente a partir do
tempo de Lutero, quando passou a existir uma igreja católica romana,
começou-se a usar, na tradução, o termo “cristã”. Não é exatamente a
mesma coisa. Católica quer dizer geral, universal, que está em todo o
mundo. (Ainda bem que não traduzimos por “a santa igreja univer-
sal”!). Cristã quer dizer “de Cristo”. A rigor, tanto se pode dizer “cató-
lica” como “cristã”. No entanto, pelas razões citadas, fica difícil de dizer
“católica”, e fazemos bem em dizer “santa igreja cristã”.
E por falar em católica, em meados de 2007, uma nova declaração
do Vaticano, reafirmando coisas antigas, causou uma enxurrada de
reações em todo o mundo. O papa reafirmou que só a igreja católica
romana é igreja, as outras não. (No Concílio Vaticano II, no início da
década de 1960, até haviam dito que a verdadeira igreja subsiste na
Igreja Católica Romana, mas agora o papa tratou de explicar que “sub-
siste” significa “é”.) Foi mais um banho de água gelada nos protestan-
tes liberais que sempre acharam que Roma estava pensando em casa-
mento quando aceitava flertar com as outras igrejas. Agora ficou claro,
mais uma vez, que, para Roma, ecumenismo é uma via de mão única.
Todos os caminhos levam a Roma. Os “irmãos separados” que voltem.
De Roma ninguém sai nem vai a lugar nenhum.
A gente poderia falar longamente sobre isso, mas não é o momen-
to. Importa reafirmar que, também quando se trata de igreja, é preci-
so ficar com a regra de fé, ou seja, definir igreja assim como a Bíblia
define igreja, e não como o papa ou qualquer outra pessoa a define. O
corpo de Cristo não pode ser aprisionado dentro de uma instituição.
Na Bíblia, no NT, se fala da igreja tanto no singular (igreja) como no
plural (igrejas). E nunca se diz que a igreja é a soma das igrejas. To-
mando apenas o livro de Atos (que é onde a igreja “nasce”), pode-se
dizer que ali “... a igreja é uma só, em última análise, embora somente
apareça conforme se reúne em lugares específicos (cf. 14.27). Isto,
porém, sempre subentende a totalidade” (NDITNT, vol. 2, 404-405). O
que isto significa é o seguinte: o pequeno grupo de cristãos que se
reúne numa garagem – mas que se reúne em torno da Palavra e dos
Sacramentos – é igreja completa. Ela é uma das igrejas, mas ao mes-
mo tempo ela é a igreja. (E podem até chamar de “ponto de prega-
ção”). Ela não precisa de nada de fora, pois está completa, como igre-
ja. Claro, ela não vai querer ficar isolada. Ela sabe que existem outras
igrejas (locais) e vai se juntar a elas para projetos, missão, etc. É o
que fazemos como IELB.

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ELE FALOU E ESTÁ FALADO: UM ESTUDO DO
CREDO APOSTÓLICO COMO RESUMO DA NORMA DE FÉ

Emendando na frase anterior, dizemos a comunhão dos santos.


Aliás, como você diz isso? Seria “a santa igreja cristã; a comunhão dos
santos”? Ou seria “a santa igreja cristã – a comunhão dos santos”?
Tem diferença. Com Lutero, nós aprendemos a dizer isso como uma
coisa só. Há toda uma discussão em torno disso, com alguns teólogos
dizendo que essa comunhão dos santos seria comunhão ou participa-
ção nas coisas sagradas (em referência aos sacramentos). É possível,
mas menos provável. Aliás, as palavras “comunhão” e “santo” apare-
cem na Bíblia, isoladamente, mas o conjunto “comunhão dos santos”
não aparece, dessa forma, em lugar nenhum. Eu prefiro tomar isso
como algo que tem a ver com igreja. Só que não é um simples sinônimo
de igreja. Essa afirmação nos leva um pouco adiante. É, por assim
dizer, uma comunhão com os santos de todos os tempos. É como abrir
o foco: santa igreja cristã é o rebanho de Jesus aqui na terra; comu-
nhão dos santos é mais amplo, pois inclui toda a companhia celeste.
A propósito de santos, mais uma vez importa definir “santos” assim
como a Palavra da Verdade define esse termo. Especialmente numa
época em que, afinal, os católicos romanos do Brasil têm um santo
brasileiro. Quando os católicos romanos falam em santos, eles esque-
cem o uso de santos no Novo Testamento. Fizeram dos santos um
grupo especial de intermediários, um grupo do qual a Bíblia nunca ou-
viu falar. Há, como é sabido, todo um processo, em que o candidato
passa de servo de Deus a venerável, a beato e, finalmente, a santo. O
papa tem a palavra final. Só por curiosidade: A lista mais completa dos
santos da igreja católica romana, a Bibliotheca Sanctorum, é uma cole-
ção de 18 volumes e lista mais de 10.000 santos. Quem voltou a cano-
nizar para valer foi João Paulo II. Ele sozinho canonizou mais do que
todos os outros papas do século XX juntos. E se alguém que saber por
que, entre outras coisas, a Igreja Católica Romana é “romana”, basta
ver esta estatística: Dos 275 nomes que Roma incluiu na lista dos seus
santos, entre 1972 e 1983 (uma década mais ou menos), 86% são da
Europa (236), 45% são italianos (123), e apenas 3% (8) são da Ásia.
Ainda que bem que, para sermos santos, não dependemos do papa
romano!
A remissão dos pecados. A nova aliança, o novo testamento, foi
selado com o sangue “derramado ... para remissão de pecados” (Mt
26.28). Em Cristo temos a remissão dos pecados (Ef 1.7; Cl 1.14). O
que é remissão, pastor? Remissão é perdão. E o que é perdão? Per-
dão é perdão. Pois bem, “remissão” (e essa palavra aparece 17 vezes
no NT) é cancelamento de dívida. Remir pecados é cancelar pecados, é
levar os pecados embora. Pecados remidos são pecados que saem da
memória de Deus. São pecados jogados no fundo do mar, como apare-

53
IGREJA LUTERANA

ce na bela imagem de Miquéias 7.19.


Aqui, quase ao final do Credo, pela primeira vez se fala sobre o
pecado. E a doutrina do pecado é a única doutrina que não precisa de
confirmação da Bíblia, porque está nas páginas do jornal todos os dias.
Mas mais importante que falar do pecado é saber que existe solução
para ele. E se a gente imagina que no Credo não se fala de pregação,
batismo e santa ceia, aqui está a resposta. Cristo disse que está escri-
to que em seu nome se pregasse (proclamasse) arrependimento para
remissão de pecados a todas as nações (Lc 24.47). No dia do Pentecos-
tes, Pedro disse a cada um dos seus ouvintes que fosse batizado em
nome de Jesus Cristo para remissão dos pecados (At 2.38). E, como já
vimos, na ceia temos o sangue de Cristo que foi derramado para re-
missão dos pecados (Mt 26.28).
A ressurreição da carne. Opa! É a segunda vez que falamos da
ressurreição. (Também mencionamos duas vezes o Pai onipotente e o
Espírito Santo. Mas é de Cristo que se fala mais extensamente.) Isto
mostra ênfase. Agora estamos falando de nossa ressurreição.
A palavra carne nos surpreende. Especialmente porque Paulo diz
(1 Co 15.50) que “a carne e o sangue não podem herdar o reino de
Deus”. Claro, o mesmo apóstolo espera que a vida de Jesus se mani-
feste em sua carne mortal (2 Co 4.11). Seja como for, aqui provavel-
mente se entende carne no sentido de corpo, como é o caso em At
2.31, onde se fala do corpo de Davi usando a palavra “carne”.
E a vida eterna. Segundo Santo Agostinho, essa frase está no Cre-
do para deixar claro que a ressurreição de que se fala é como a de
Jesus, e não como a de Lázaro. É ressurreição e não simples reanima-
ção ou volta à vida como a conhecemos neste mundo. A gente enten-
de vida eterna como vida que não tem fim. De fato, como diz no Apoca-
lipse (21.4), “a morte já não existirá”. Mas a palavra “eterna” pode ser
lida também de outra maneira: não tanto em termos de quantidade
(vida sem fim), mas de qualidade (vida real, vida verdadeira, vida de
união com Deus). Vida eterna é estar para sempre com o Senhor (1 Ts
4.17). Jesus Cristo: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 Jo
5.20). E vida não se conquista, vida não se merece. O que se merece é
morte. O salário do pecado é a morte. Vida sempre é presente. O dom
gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm
6.23).

Amém. Isto é certamente verdade. Sim, assim seja. Esta é a nossa


norma de fé. Que seja sempre a minha e a tua norma e confissão.
Amém.

54
ELE FALOU E ESTÁ FALADO:
“A TUA PALAVRA É A VERDADE
PARA A VIDA CRISTÔ1
Anselmo Ernesto Graff2

INTRODUÇÃO

O contexto de onde se originou esse tema é um contexto de


anseio por andar nos caminhos do Senhor. Esse desejo, que também é
uma confissão, foi gerado em grande parte pelo contexto maior de
nossa sociedade, que discute e se posiciona muitas vezes, e de ma-
neira bem subjetiva, sobre assuntos polêmicos, como o casamento de
pessoas do mesmo sexo, a descriminalização do aborto e tantos ou-
tros temas que geram dúvidas nos corações dos cristãos e "revoltam"
o espírito cristão, como revoltaram o do apóstolo Paulo quando ele viu
a idolatria na cidade de Atenas (At 17.16).
Há também outros tópicos de impacto menor, mas não menos im-
portantes, como a educação dos filhos, o relacionamento familiar, a
administração do dinheiro, a vida diária como trabalhador, empregado
ou patrão e outros assuntos que se tornam em questões a serem
refletidas à luz da Palavra de Deus. O que a Palavra de Deus tem a nos
dizer sobre nossa vida diária?
O livro de Eclesiastes, o Senhor Jesus Cristo e Martinho Lutero pro-
videnciam três resumos para a vida cristã. O autor de Eclesiastes diz:
"De tudo o que se tem ouvido, a suma é: teme a Deus e guarda os
seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem" (Ec 12.13).
Quando perguntado sobre qual dos mandamentos seria o principal, o
Filho de Deus resumiu: "O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso
Deus é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a
tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mc
12.29-31). Para Lutero, o resumo da vida cristã é "o amor de coração
puro e de consciência boa e de fé não simulada" (LUTERO, OSel, Vol. 5,
Resumo da Vida Cristã, p.92).

1
Este artigo é resultado de palestra proferida no 18º. Congresso Nacional da Liga de
Leigos Luteranos do Brasil, em Piratuba, SC, em 25 de agosto de 2007.
2
O Rev. Prof. Anselmo Ernesto Graff é professor de Teologia Prática no Seminário Concór-
dia e na ULBRA, RS.

55
IGREJA LUTERANA

O PROBLEMA

Essa possibilidade de simplificar ou resumir os conselhos para a


vida cristã não impediu que questões referentes à Palavra de Deus
como orientação, gerassem muita controvérsia e nem sempre as res-
postas mais claras na história do luteranismo (KOLB, 2002, p.275). A
questão chegou a ser colocada num título de artigo em forma de per-
gunta: "Luteranos falam alto sobre a Justificação, mas sussurram so-
bre a Vida Santificada"? (LINDBERG, 1999, p.1).
Para começar, Lutero foi compreendido nos primeiros anos da Re-
forma como alguém despreocupado com a vida cristã. Alguns dos seus
opositores concluíram que com a pregação da justificação do pecador
somente pela graça de Deus, o reformador estaria abolindo as boas
obras (LUTERO, OSel, Vol. 2, Das Boas Obras, p.97), ou mostrando
pouca preocupação com a vida cristã. Lutero respondeu à essa crítica
dizendo que o conceito de "boas obras" para esses críticos é muito
estreito. Ao invés de considerar a oração na igreja, o jejum e as esmo-
las como obras que interessam a Deus, Lutero afirma que a boa obra
ou a vida cristã se faz no "trabalho, andando, parados de pé, comen-
do, bebendo, dormindo ou fazendo toda sorte de obra para o susten-
to do corpo ou para o bem comum". Para Lutero, a fonte disto está na
primeira, suprema e mais nobre boa obra, a fé em Cristo, a boa obra
que Deus opera primeiro em nossa vida (LUTERO, OSel, Vol. 2, Das
Boas Obras, pp.102-103). Nesse contexto, a referência bíblica que Lu-
tero usa é Eclesiastes 9.7-9: "Vai, pois come com alegria o teu pão e
bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agradou
das tuas obras. Em todo o tempo sejam alvas as tuas vestes e jamais
falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas,
todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol;
porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadi-
gaste debaixo do sol".
Depois houve um debate, conhecido como a "Controvérsia Antino-
mista" (1527). João Agrícola defendia a exclusão completa da Lei na
vida do cristão. Tudo seria operado pelo Evangelho, mesmo o conheci-
mento do pecado e a contrição. Esta foi uma das razões para o apare-
cimento do Catecismo Menor escrito por Lutero. Havia pelo menos ou-
tras duas razões. Quando aconteceu a visitação a congregações lute-
ranas, Lutero descobriu a extrema necessidade de elaborar um mate-
rial para a instrução cristã. "Querido Deus, quanta miséria eu vi! A
pessoa comum, especialmente nas vilas, não sabe coisa alguma da fé
cristã... não sabem o Pai Nosso, o Credo, os Dez Mandamentos! Como
resultado, eles vivem simplesmente como cabeças de gado ou porcos

56
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

irracionais" (ARAND, 2000, p.133). Além disso, houve abusos da liber-


dade cristã. A obra da Reforma libertou a igreja das exigências legalis-
tas para se obter um Deus favorável, mas Lutero descobriu que o povo
leigo foi para um outro extremo: a liberdade se tornou em libertina-
gem. Houve relaxamento na moral e disciplina religiosa. Alguns não
queriam mais pagar impostos ao governo, não ir aos cultos e nem
providenciar os recursos para manter os pastores (ARAND, 2000, p.133).
Mas não era só isso. Os registros das visitações revelam que na con-
gregação de Ducher, de 110 famílias que faziam parte dela, muitas
vezes apenas três pessoas participavam dos cultos. Havia também um
estado de ignorância entre leigos e entre pastores. Em Zinna, campo-
neses não queriam aprender a oração do Pai Nosso, porque é muito
longa, e um pastor em Elsnig mal e mal conseguia orar o Pai Nosso e
recitar o Credo (ARAND, 2000, p.73).
Mais tarde (1556), o assunto teve outra versão. Negou-se que a
Lei estivesse a serviço do cristão para lhe fornecer direções para a
prática das boas obras: bastaria pregar e ensinar o Evangelho, as
Boas Novas da salvação. A Fórmula de Concórdia, na época, resolveu
a situação afirmando a Lei em seu tríplice uso: freio, para manter a
ordem ou a disciplina externa; espelho, para revelar o pecado e con-
duzir o cristão a Cristo - o uso teológico da Lei; e norma, a Lei funcio-
nando para fornecer orientações para a vida cristã (Fórmula de Con-
córdia - Epítome VI, p.516.1).
Entre 1551 e 1574 houve mais uma controvérsia histórica relacio-
nada à prática da vida cristã. Alguns afirmavam que "boas obras são
necessárias para a salvação; sem obras é impossível salvar-se" (Fór-
mula de Concórdia, DS, IV, p.590.1). Isto evidentemente foi baseado
no princípio de que a fé sem amor é morta, ainda que não seja o amor
a causa da salvação. Já o outro lado afirmava que boas obras são
necessárias, mas não para a salvação e sim por outras razões. Essa
posição se mantinha para não colocar uma sombra sobre os méritos
de Cristo, nosso Redentor (Fórmula de Concórdia, DS, IV, p.591.2). Na
linguagem do apóstolo Paulo, poder-se-ia dizer que quaisquer tipos
de obras, visando à aquisição da salvação, anulariam a graça de Deus
e a morte de Cristo seria inútil: "Não anulo a graça de Deus; pois se a
justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão" (Gl 2.21).
Em meio a essa disputa, houve até quem dissesse que "boas obras
são prejudiciais para a salvação". Obviamente se tinha como referên-
cia aqueles que confiariam na sua vida cristã como meritória para a
salvação (Fórmula de Concórdia, DS, IV, p.591.3).
Nas décadas de 60 e 70 do século passado houve outra discussão
no Sínodo de Missouri em torno do uso da Lei como instrução. No de-

57
IGREJA LUTERANA

bate, alguns teólogos argumentavam que a Lei só poderia julgar e


condenar, e os Dez Mandamentos não podem servir de guia para a
moralidade cristã. Essa posição era assim defendida em razão de que
tudo deveria ser reduzido ao Evangelho. A Escritura deveria ser inter-
pretada à luz do Evangelho. Por exemplo: o homossexualismo poderia
ser aceito, uma vez que o Evangelho deve falar mais alto e o mais
importante é crer em Cristo. A Lei, nesse caso, não pode falar nada
sobre a ética cristã (MURRAY, 2001, pp. 134-135). Parece-me que, nes-
sa linha, o Evangelho estava mais para "panos quentes" colocados
sobre as transgressões do que o poder de Deus para salvação daque-
le que crê. Também, na avaliação desse pensamento, foi reafirmado
que a negação do uso da Lei revelada na Palavra de Deus é colocar em
risco toda a revelação de Deus, especialmente como palavra inspirada
de Deus, a doutrina e a vida cristã (MURRAY, 2001, p.155).

1. O PAPEL DA LEI NA VIDA DO CRISTÃO REGENERADO

Qual é o papel da Lei3 na vida do cristão habitado por Cristo e pelo


Espírito Santo? Como filho regenerado de Deus, ele precisa da orien-
tação para aprender a viver conforme a vontade santa de Deus? Ou
colocado de outra forma: é preciso exortar uma árvore boa a produzir
frutos? (RAABE/VOELZ, 1996, p.154).
Como já foi visto anteriormente, e isto parece ser histórico, há aque-
les que dizem não. O cristão não precisa de instrução para saber o que
agrada e o que não agrada a Deus. Essa operação é automática. Uma
vez regenerado e habitado pelo Espírito, o cristão só precisa da Lei
para denunciar o pecado que continua agindo nele, fazendo-o cair,
afastar-se de Deus e não andar corretamente em sua vida. A Lei não é
necessária para fornecer diretrizes para sua vida. A vontade de Deus
não precisa lhe ser informada e o cristão sabe o que fazer em sua vida
diária. Ele precisa da Lei em sua função de acusar e corrigir. A Lei o fará
reconhecer o pecado e combater as idéias, as noções e os desejos do
velho homem e assim viver uma vida cristã sadia.
Mas há também aqueles que afirmam que a Lei é necessária tam-
bém em sua função (uso) de fornecer conselhos aos cristãos em como
viver uma vida correta e agradável a Deus. Os que concordam com
esse conceito afirmam que é preciso lidar com o novo e o velho homem
presentes na vida do cristão. Como o cristão ainda não está plena-
mente renovado e nele habita a velha natureza pecaminosa, ele preci-
sa também aprender a servir a Deus segundo a sua boa vontade. É

3
Sempre que usada neste trabalho, a palavra Lei se refere aos Dez Mandamentos, às
instruções em Provérbios e às exortações do apóstolo Paulo em suas epístolas.

58
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

verdade que como cristão ele está comprometido em fazer o que é


certo, mas nem sempre ele sabe o que ou como fazer, ou ainda, o
cristão pode se equivocar em suas escolhas e opções, o que faz com
que ele necessite a Palavra da verdade para a vida cristã (VOELZ,
1995, p. 9-10).

2. O CARÁTER DIDÁTICO DA LEI DE DEUS


REVELADA EM SUA PALAVRA

A Lei nos Salmos

Na perspectiva do Antigo Testamento, os Salmos oferecem exem-


plos em que o povo de Deus solicita o ensino do Senhor para andar
nos seus caminhos. São orações de fé que expressam o desejo de
receber o ensino de Deus. Esta é uma atitude exclusiva do povo do
Senhor. Seguidores de Baal ou de outros deuses não teriam essa ati-
tude, pois eles querem seguir os seus próprios caminhos. Mas os sal-
mistas querem ser ensinados pelo verdadeiro Deus, nos caminhos ver-
dadeiros, porque são eles que são justos, bons, santos, salutares,
dignos de louvor e perfeitos (RAABE, 2004, p.1).
A palavra geralmente traduzida por Lei no Antigo Testamento se
origina da palavra hebraica "Torá" e que significa instrução. É importan-
te lembrar isto, pois as leis do Antigo Testamento são essencialmente
ensinos vindos do Senhor e possuem também esse caráter didático.
Nos Salmos, a instrução da Torá do Senhor é percebida em vários
momentos. Uma petição bastante comum é "ensina-me" (Sl 27.11;
86.11; 119.12; 143.10). Um desses exemplos é o Salmo 32. Este é um
salmo penitencial em que o salmista confessa seus pecados, recebe o
perdão de Deus (vv.1-5) e a promessa de ensino do próprio Senhor.
"Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir, e sob as
minhas vistas te darei conselho. Não sejas como o cavalo ou a mula,
sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados;
de outra sorte não te obedecem" (vv. 8-9). Deus lhes ensina porque
os seus filhos são ensináveis. Outro detalhe a observar é que clara-
mente não há qualquer indício da justiça das obras, o perdão e a ins-
trução vêm juntos, mas de forma distinta (Rm 4.6-8).
Outro exemplo de conexão entre a fé no Deus verdadeiro e o dese-
jo de andar no seu caminho é o Salmo 143. O autor apela pela justiça
do Senhor, implora pela sua imerecida misericórdia (vv. 1-2) e também
suspira por andar nos caminhos de Deus. "Faze-me ouvir pela manhã
da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo
andar, porque a ti elevo a minha alma; ensina-me a fazer a tua von-

59
IGREJA LUTERANA

tade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno
plano" (vv. 8,10).
É dominante esse tema também no Salmo 25. O salmista se dirige
ao Deus da sua salvação para rogar por direção em sua vida. "Faze-
me, Senhor, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas vere-
das. Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da
minha salvação, em quem eu espero todo o dia" (vv.4-5). Esse mes-
mo pedido está nos vv. 8-9, 12. Por quê? "Bom e reto é o Senhor, por
isso aponta o caminho aos pecadores" (v.8). É interessante notar
que esses pedidos por instrução não estão desconectados do reco-
nhecimento de sua pecaminosidade e pedido de perdão. "Não te lem-
bres dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgres-
sões. Lembra-te de mim segundo a tua misericórdia, por causa de
tua bondade, ó Senhor" (v.7). Isso se repete ainda nos vv. 11, 18. Ou
seja, não se pode operar no sistema de que o salmo esteja falando de
uma possível justiça das obras, mas de alguém que depende da mise-
ricórdia de Deus para receber a aceitação de Deus e passar a ser en-
sinado nos caminhos de Deus.
Há pelo menos três salmos que são dominados pelo louvor à Torá e
que são chamados de salmos da Torá. O Salmo 1 declara abençoado
aquele que se recusa a andar nos conselhos dos maus, mas medita na
Torá do Senhor. A Torá é conectada à água corrente, que nutre e fruti-
fica uma árvore.
O Salmo 19 exalta a Torá em seis frases. "A Torá do Senhor é
perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e faz sá-
bios os simples; os preceitos do Senhor são retos e fazem o coração
feliz; o Mandamento do Senhor é claro e ilumina os olhos; o temor
do Senhor é puro e ilumina os olhos; os juízos do Senhor são verda-
deiros e igualmente justos" (vv.7-9). A instrução do Senhor alegra a
alma e o coração, ilumina os olhos e nos faz sábios. Aqueles que amam
o Senhor consideram sua Torá mais desejável do que ouro e mais doce
que o mel (v.10).
O mais interessante salmo da Torá é o 119. Esse Salmo é estrutu-
rado em torno de oito termos funcionando como sinônimos para a Lei
do Senhor. Testemunhos (v.2), Mandamentos (v.4), Estatutos (v.5),
Juízos (v.7), Palavras (v.9), Promessas (v.11), Preceitos (v.15) e Torá
(v.18). O Salmo exalta a Palavra do Senhor. No Salmo é possível per-
ceber com freqüência expressões como "os teus testemunhos são o
meu prazer" (v.24), pedidos para ser ensinado pelo Senhor "ensina-
me, Senhor, o caminho dos teus decretos" (v.33) e declarações de
desejo em cumprir os seus mandamentos "Dá-me entendimento e
guardarei a tua lei; de todo coração a cumprirei" (v.34). Por quê?

60
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

Para andar nos caminhos bons (vv. 36-37; 53; 68; 104; 113; 128;
137;163).
É proveitoso notar que há apenas duas fontes, radicalmente opos-
tas, de onde se pode extrair a instrução. Esse Salmo é um encoraja-
mento para fixar os olhos na fonte oferecida pelo Senhor. Também é
preciso observar que o objetivo não é promover a justiça das obras
para adquirir a justificação ou uma atitude orgulhosa diante de Deus
ou dos homens, mas esses salmos foram escritos pelo próprio Deus
para informar ao povo de Deus a oração e o louvor que lhe agradam
(RAABE, 2001, pp.1-7).

A Lei em Provérbios

De todos os livros da Escritura Sagrada, talvez é o livro de Provér-


bios que mais oferece conselhos para a prática da vida cristã (Pv
25.17;18.13;11.30). Ele está destinado a ensinar sabedoria. O livro
opera com pelo menos três pressuposições básicas. A primeira é a
capacidade inata do ser humano em pensar e agir. O autor formula
princípios de conduta para seu interesse e da sociedade de maneira
mais ampla. Mesmo afetado individualmente pelo pecado dos primei-
ros pais, o Criador lhe dotou com capacidades racionais para produzir
o que é lógico, comprovado na prática, mas submetido acima de tudo à
vontade de Deus.
A segunda pressuposição é a de que o livro deixa claro que o ho-
mem é completamente dependente de Deus. Por mais esperto que
seja, ele não está apto a determinar o curso de sua vida. Por melhor
que seja seu refletir, os passos do homem estão ordenados por Deus.
"O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige
os passos" (Pv 16.9;20.24;19.21). A cada passo, Deus lhe "pesa" o
coração. "Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos,
mas o Senhor pesa o espírito" (Pv 16.2; 21.2) e o próprio livro reco-
menda reconhecê-lo em todos os caminhos. "Reconhece-o em todos
os teus caminhos e ele endireitará as tuas veredas" (Pv 3.6). Tam-
bém é preciso considerar que a prática errada é abominação ao Se-
nhor (Pv 3.32; 6.16; 15.8-9) e a quebra das leis morais não fica impune
(Pv 3.33;11.21).
Onde está a esperança para quem quebra essa lei? Nisso está
envolvida a terceira pressuposição. No livro de Provérbios, a Lei, em
termos de manter a disciplina externa e ensinar, predomina significati-
vamente. Com isto pode se pressupor que essas palavras são dirigi-
das a filhos perdoados por Deus e que existe uma relação positiva
entre ambos, com iniciativa do próprio Deus. "Confia no Senhor de

61
IGREJA LUTERANA

todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento"


(Pv 3.5; 10.3). Provérbios aplica os princípios gerais revelados a Moi-
sés (Sl 103.7) a questões mais complexas da vida diária.

A Lei nas cartas do Apóstolo Paulo

Aos gálatas Paulo começa afirmando nos primeiros capítulos que se é


aceito diante de Deus unicamente pela fé em Cristo Jesus (Gl 2.16) e que
o Espírito Santo nos é concedido e somos filhos dele pela fé (Gl
3.2;3.14;3.26). A esses filhos regenerados pelo Evangelho do Senhor
Jesus, o apóstolo agora diz como viver: "Andai no Espírito" (Gl 5.16).
Andai no Espírito na área da sexualidade, das relações pessoais e sociais
e na religiosidade (Gl 5.19-21). Se aproximarmos um pouco a imagem,
vamos perceber que Deus diz aos seus filhos em como agir e não agir nas
diferentes áreas da vida. Quais são as atitudes da velha natureza e o
que é fruto do Espírito, ou a ação de Deus através da vida dos cristãos.
Aos efésios esse procedimento do apóstolo é muito parecido. Ele
afirma a graça de Deus como causa da salvação e aceitação diante de
Deus, talvez como em nenhum outro lugar: "Porque pela graça sois
salvos mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de
obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados
em Cristo Jesus para boas obras, as quais de antemão preparou
para que andássemos nelas" (Ef 2.8-10). Nos capítulos 4 a 6, o após-
tolo descreve e ensina algo mais específico sobre essas boas obras.
Aos salvos pela graça de Deus, Paulo roga para que andem dignamen-
te na família de Deus (Ef 4.1) e revestidos do novo homem criado por
Deus (Ef 4.24), falem sempre a verdade, deixando a mentira, não fur-
tem, mas trabalhem para poder ajudar os necessitados, não usem de
palavras que façam mal às outras pessoas e outros ensinos para uma
vida cristã diária sadia nos diversos tipos de relacionamento pessoais
(Ef 4.25-6.9) e espirituais (Ef 6.10-20).
Essa mesma seqüência também pode ser vista na carta aos Colos-
senses. Depois de lhes dizer que pelo Batismo eles foram regenera-
dos e ressuscitados com Cristo (Cl 2.12;3.1), Paulo os exorta sobre
questões da sexualidade, o uso adequado do dinheiro, as virtudes
recomendadas na família de Deus e conselhos para as esposas, mari-
dos, filhos, pais, servos (empregados) e chefes (Cl 3-4.1).
Não é diferente a teologia de Paulo quando ele escreve para um
pastor. A Tito ele afirma a graça do Senhor Jesus (Tt 2.13-14; 3.4-7),
ensina sobre a conduta padrão de um pastor (Tt 2.7-9), bem como ori-
enta o que ensinar sobre o viver santo, justo e piedoso (Tt 2.12) de
diferentes grupos de pessoas. Homens e mulheres idosas (Tt 2.2-3),

62
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

jovens casadas (Tt 2.4-5), jovens (Tt 2.6), escravos (Tt 2.9-10) e aos
cidadãos em geral, especialmente em relação às autoridades (Tt 3.1-2).

A Lei nas Confissões Luteranas

Esse é o ensino das Confissões Luteranas. Como o velho homem


ainda age na vida dos crentes, faz-se necessária a Lei. "Porque a
carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, porque são
opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vos-
so querer" (Gl 5.17; Rm 7.18-19, 23). "Por isso, em virtude dessas
concupiscências da carne, os verdadeiramente crentes, eleitos e rege-
nerados filhos de Deus necessitam, na presente vida, não só o diário
ensino, admoestações, advertências e ameaça da Lei, mas também,
freqüentemente castigos, a fim de que sejam animados e sigam o Es-
pírito de Deus" (Fórmula de Concórdia, DS, p. 605.9).
Ainda, segundo as Confissões Luteranas, a Lei não é o poder ou a
capacidade para a vida cristã saudável; isto é obra do Evangelho. Mas
o Espírito Santo emprega a Lei de Deus para instruir aos renascidos
sobre qual é a vontade de Deus para a vida cristã (Fórmula de Concór-
dia, DS, p.606.11-15).
Parece certo e claro concluir que o cristão necessita da Lei. O que
às vezes parece ser mais difícil definir é como essa Lei vai chegar até o
seu coração. A Lei vai só acusar ou condenar? A Lei vai acusar, mas
não somente isso, e também vai ensinar? A Lei vai só ensinar? Que
impacto causam essas palavras de Deus na sua vida? "Não matarás"
(Êx 20.13); "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx
20.16); "A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura sus-
cita a ira" (Pv 15.1); "O que encobre a transgressão adquire amor,
mas o que traz o assunto à baila, separa os maiores amigos" (Pv
17.9); "Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo"
(Ef 6.1); "E vós pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os
na disciplina e na admoestação do Senhor" (Ef 6.4).
Parece que esse é o ponto nevrálgico da questão, e a falta de
clareza e compreensão desse item faz com que muitas vezes se procu-
re evitar o ensino da Lei, com um temor, justificável até certo ponto, de
ser legalista e obscurecer o que de fato não pode ser obscurecido, o
Evangelho do Senhor Jesus, mas que pode anular o também caráter
didático da revelação de Deus em forma de leis ou instruções.

3. AS DUAS JUSTIÇAS NA VIDA DO CRISTÃO

Como integrar a motivação para a vida cristã através do Evange-

63
IGREJA LUTERANA

lho, com as informações necessárias para tomar decisões corretas e


escolher entre o certo e o errado? Bem recentemente, dois teólogos
luteranos publicaram um artigo procurando refletir sobre um caminho
que se encaixa no pensamento de Lutero, nas Confissões Luteranas e
acima de tudo que seja segundo a Palavra de Deus (ARAND/BIERMANN,
2007, pp. 116-135).
O princípio adotado é ver a vida do
cristão em duas dimensões. Diante de
Justiça Diante de Deus
Deus e diante do mundo. Ou então, duas
justiças, justiça diante de Deus e dian-
te dos homens. Estar correto diante de
Deus e viver corretamente diante dos
homens. Simultaneamente vivemos com
responsabilidades a serem cumpridas
diante de Deus e diante das outras cri-
aturas de Deus. Nesses dois mundos
há exigências a serem preenchidas para
se estar na correta relação.
A justiça diante de Deus deriva do próprio Deus. É atividade exclusi-
va de Deus. Assim como ele cria a vida sem participação alguma de suas
criaturas, assim continuamos completamente dependentes de todas as
bênçãos. Diante de Deus somos apenas e tão-somente recebedores.
O ar que respiramos, a comida que comemos, a água que bebe-
mos, as estações, "em Deus nós vivemos, nos movemos e existi-
mos" (At 17.28). Passivamente recebemos tudo de nosso Criador. Nesta
mesma condição estamos ao receber as bênçãos espirituais. O cristão
recebe gratuitamente e passivamente pela fé os méritos da obra de
Cristo na cruz e que o restauram à comunhão com Deus Pai. Se tiver-
mos que nos gloriar em sermos filhos aceitos diante de Deus, temos
que nos gloriar no Senhor, pois Cristo é a nossa sabedoria, justiça,
santificação e redenção. "Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual
se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação e
redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-
se no Senhor" (1 Co 1. 30-31).
Qual é o papel da Lei nessa dimensão? Nessa dimensão a Lei con-
tinuará cumprindo sua função de denunciar e desmascarar o pecado,
mas quem governa é a graça de Deus. Diante de Deus o melhor que
tenho a fazer é deixar as minhas obras na terra e ir de mãos vazias,
apenas com a fé em Cristo, para receber o perdão, a vida e a salvação.
Diante de Deus a Lei não é instrumento para andar como um justo,
pois nunca cumpriríamos suas exigências e, com ela, as portas se fe-
cham para recebermos a justificação de Deus.

64
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

A função da Lei é aterrorizar nossa consciência, para dar lugar à


consolação e vivificação do Evangelho. Qualquer indício de que olha-
mos para nossa vida cristã com intenção de sermos avaliados por Deus,
tanto para nos orgulhar, como, especialmente, para causar em nós
desespero, deve ser cortado. A sugestão são as palavras de Lutero:
"Mas se a Lei quiser ir até minha consciência e governar com suas
exigências lá, veja para que seja feita a correta distinção. Não conce-
da mais a Lei do que é sua função e diga para ela: Lei, você quer
denunciar o pecado e tirar de mim a alegria do coração, que eu tenho
através da fé em Cristo. Você quer me empurrar para o desespero,
para que pereça. Você está ultrapassando seus limites... você não vai
tocar a minha consciência. Porque eu sou batizado" (LUTERO, apud
ARAND, 2007, p.121).
Por outro lado e ao mesmo tempo vivemos também diante do mun-
do. A justiça diante do mundo será preenchida quando Deus realizar
as tarefas indicadas por ele através de nós, para nosso bem e o res-
tante da criação.
Antes mesmo da queda em pecado,
Deus deu tarefas a serem cumpridas,
Justiça Diante do Mundo
como o de servir e guardar o seu jardim
(Gn 2.15). Tanto Lutero como as Confis-
sões Luteranas interpretam os Dez Man-
damentos como parte da criação de Deus
e da lei natural gravada nos corações
dos homens, o que significa que sua fun-
ção é servir também de instrução para o
uso apropriado do mundo criado por
Deus. Aqui o cristão já não será passivo,
mas ativo instrumento de Deus e a Lei funcionará como ensino para a
vida cristã (ARAND, 2000, p.137; Fórmula de Concórdia, Ep, p.517.2).

A distinção e a relação nas duas dimensões

O grande desafio é manter a distinção entre a justiça diante de


Deus, na qual o cristão não tem nada a contribuir ou ter alguma parti-
cipação, e a justiça diante dos homens, que é a responsabilidade de
agir segundo a vontade de Deus revelada em sua Palavra e que visa o
benefício de toda a sua criação.
Por um lado, diante de Deus somos completamente passivos. A Lei
nos faz reconhecer que nossa vida nunca estará nos padrões de Deus,
e antes que nossa consciência nos acuse, precisamos ouvir e lembrar
as boas novas do Evangelho: "Ainda que vossos pecados são como o

65
IGREJA LUTERANA

escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são


vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã" (Is 1.18).
Por outro lado, diante dos homens a Lei é usada por Deus para nos
informar sobre escolhas e procedimentos e ele próprio realizar as obras
através do cristão para que este tenha uma vida santa, justa e piedo-
sa. Nós não nos tornamos justos diante de Deus porque fazemos obras
justas, mas porque a justiça de Cristo nos é atribuída mediante a fé.
Justos diante de Deus, somos capacitados a viver uma vida cristã jus-
ta. A motivação não será o medo do castigo ou almejar recompensas,
mas de espírito disposto, voluntário (Fórmula de Concórdia, DS,
p.607.16-17) e tendo como alvo o bem da criação de Deus.
Ao mesmo tempo que é saudável manter essa distinção, não pode-
mos deixar de lembrar a relação existente entre as duas justiças. A
justiça da fé é relevante tanto para a realidade celestial, pois somos
justos diante de Deus, como para a terrena, onde vamos exercitar as
boas obras aconselhadas por Deus. "Quando eu tenho esta justiça
(passiva) dentro de mim, eu desço dos céus assim como a chuva desce
para tornar fértil o solo. Ou seja, eu apareço dentro do outro reino e
realizo as boas obras sempre que aparecer a oportunidade" (LUTERO,
apud ARAND, 2007, p.122). Nossa relação com Deus nos providencia a
capacidade e a base para nossa relação com a criação. Assim, sobre a
terra, na medida que crescemos em fé, ativamente vamos ter como
alvo uma vida de obras e virtudes de acordo com a vontade de Deus. A
recepção passiva da justiça de Deus pelos méritos de Cristo leva-nos
a abraçar o mundo e nele servir, como a boa criação de Deus (ARAND,
2007, p.122).

4. LUTERO E OS CATECISMOS

Dentre as razões que levaram Martinho Lutero a escrever um cate-


cismo, uma foi a ruína espiritual dos cristãos no início da Igreja Lutera-
na. É preciso lembrar que isto tinha a ver em grande parte pela crise
institucional inicial e pelo momento de transição da antiga estrutura de
igreja para um novo conceito de povo de Deus. Uma das conseqüênci-
as foi a dificuldade com os salários dos pastores e que pode ter sido
gerado por outro problema, a indiferença religiosa. "Os camponeses
não queriam aprender mais nada, não sabiam nada, não oravam, não
faziam nada senão abusar da liberdade religiosa e não iam mais à
confissão e à comunhão" (ARAND, 2000, p.72). Essa realidade não muito
agradável da igreja foi comprovada pela visitação feita às igrejas e de
que Lutero também tomou parte.
Lutero então escreveu os catecismos. Dois eram seus alvos. Lem-

66
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

brar aos próprios pastores das verdades elementares da fé evangéli-


ca e lhes proporcionar um manual de cuidado pastoral, caso eles não
fossem capazes de ensinar com suas próprias palavras os seus mem-
bros (ARAND, 2000, pp.94-95).
Embora a intenção original dos catecismos fosse atingir os pasto-
res, outro alvo de Lutero era a família. Ele tomou como princípio o con-
ceito do ensino doméstico da Idade Média e da Igreja Antiga. A impor-
tância dada por Lutero à família pode ser percebida, por exemplo, quan-
do ele designa o pai e a mãe como sacerdote e a sacerdotisa do lar. O
sonho do reformador era a família reunida ao redor da Palavra, para
ensiná-la e orar (ARAND, 2000, pp.95-96). Lutero reconhece que nin-
guém pode forçar alguém a crer em Jesus, isso é obra do Espírito, mas
horizontalmente a Lei deve ser ensinada, para moldar através da Pa-
lavra de Deus novas atitudes, pensamentos e ações (ARAND, 2000,
pp.99-100).
Lutero começa pelos Dez Mandamentos e não é sem motivos que
ele inicia assim. O papel principal dos mandamentos é funcionar em
primeiro lugar como um instrumento para diagnosticar a situação do
indivíduo e, em segundo lugar, adquirir um conhecimento e entendi-
mento da vontade de Deus. É significativo olhar um pouco mais para a
estrutura dos catecismos: Dez Mandamentos - Credo e Pai Nosso.
Para Lutero, um homem, para ser salvo, precisa saber três coisas:
primeira, o que ele deve fazer e o que não fazer. Segunda, quando ele
percebe que ele não tem poder para fazer o que dele é exigido, ele
precisa saber para onde olhar e receber esse poder. Terceira, ele pre-
cisa saber como olhar para esse poder e dele se apropriar. Assim, os
mandamentos ensinam ao homem a reconhecer sua doença, seu pe-
cado; o Credo mostra-lhe onde encontrar a medicina e o remédio que
ele precisa para se tornar alguém justo em Cristo e o Pai Nosso lhe
ensina como ele deveria desejar ir e se aproximar dessa graça salva-
dora, em espírito de humildade, para depois ser tornado apto a cum-
prir os mandamentos.
A própria experiência de Lutero lhe ensinou que a vida cristã come-
ça com o reconhecimento do pecado e a inabilidade para cumprir as
prescrições divinas. Porém, ele também concede aos mandamentos o
atributo de ser uma prescrição positiva para a nova vida em Cristo. O
objetivo do reformador é deixar claro que a vida cristã não pode ser
vivida sem os Dez Mandamentos. Ele tinha em mente a libertinagem e
as idéias antinomistas (ARAND, 2000, pp. 129-132). Todavia, é impor-
tante lembrar que é o Credo que traz o ensino gracioso de que Deus
nos encontra em todas as nossas necessidades, para assim nos tor-
nar íntegros e agradáveis a ele e também ter prazer, amor e respeito

67
IGREJA LUTERANA

pelos seus mandamentos. Deus se dá inteiramente para o cumprimen-


to dos Dez Mandamentos: o Pai, todas as criaturas; Cristo, todas as
suas obras; o Espírito Santo, todos os seus dons (LUTERO, CM4 , Pai
Nosso, p.457.69).

5. O CONTEXTO DOS DEZ MANDAMENTOS NA ESCRITURA SAGRADA

Na Bíblia, os Dez Mandamentos são designados de dez palavras.


"E ali esteve com o Senhor quarenta dias e quarenta noites; não
comeu pão nem bebeu água; e escreveu nas tábuas as palavras da
aliança, as dez palavras" (Êx 34.28; Dt 4.13; 5.22;10.4). Essas dez
palavras precisam ser mantidas e lidas no contexto maior do Penta-
teuco. A narrativa bíblica começa com a criação, queda em pecado, a
primeira promessa e a invasão do pecado e da morte em todo o mun-
do criado por Deus. Depois a narrativa foca de maneira mais fechada
em Abraão, que é chamado, recebe a promessa da descendência, da
terra de Canaã e que através dele todas as famílias da terra serão
abençoadas. Abraão tem muitos descendentes, mas eles não vivem
na terra prometida. Ao invés disso, eles são escravos no Egito. É uma
escravidão teológica, pois eles não podem prestar culto ao Senhor e
são forçados a servir ao Faraó. Sua situação é de completa incapacida-
de de se libertar. A iniciativa e a operação de libertá-los é do Senhor
(Êx 3.8).
Essa libertação não é somente da escravidão, mas também para
um futuro diferente. A promessa original feita a Abraão agora é reno-
vada e feita a toda a nação de Israel (Êx 6.2-8). Israel foi redimido da
escravidão e feito propriedade especial de Deus (Êx 19.5-6). Eles fo-
ram libertados de uma forma de vida para uma vida como sacerdotes a
serviço do Senhor. Agora, no Monte Sinai, Deus se apresenta a esse
povo e revela as dez palavras sobre a nova vida a ser vivida como
sacerdotes do Senhor na terra de Canaã. Deus não os libertou de uma
escravidão para uma nova escravidão, mas para a liberdade de servi-
ço a Deus entre outras nações. A conduta do povo de Deus agora
seria marcada pela forma distinta de vida e de testemunho. "Guardai-
vos, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso
entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes
estatutos, dirão: certamente este grande povo é gente sábia e en-
tendida" (Dt 4.6-8). Deus preventivamente exorta seu povo a não se
contaminar com práticas de outras nações, como o incesto, adultério,
sacrifícios humanos a Moloque, homossexualidade e bestialidades (Lv

4
CM – Catecismo Maior de Martinho Lutero.

68
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

18; Êx 23.23-24; Dt 18.9-14). O Senhor deve ser o seu ensinador e


não as nações idólatras.
É importante notar isso. Deus, cujo nome é Senhor, libertou miseri-
cordiosamente a Israel do Egito e fez dele seu próprio povo. Por isso,
é de fundamental importância olhar para as Dez Palavras de Deus em
conexão com o termo de abertura: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te
tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx 20.2; Dt 5.6). Nessas
palavras está revelada a identidade de quem está proclamando as
dez palavras. O Deus que criou e redimiu a Israel, o Deus que viu a
aflição do seu povo, que ouviu seu clamor, que conheceu seu sofrimen-
to e que toma a iniciativa de descer para resgatá-lo (Êx 3.7-8). Deso-
bedecer a Deus é desobedecer ao amado Salvador. Há freqüentes
advertências para quem não leva a sério os mandamentos, mas não
deveríamos pensar no Deus que deu essas palavras como alguém ira-
do e desejoso de punir (RAABE, 2001, pp 7-12), mas o Deus que des-
ceu para salvar. O Deus que desceu em seu filho Jesus Cristo para
libertar a humanidade da escravidão do pecado, da morte e do diabo.

As Dez Palavras de Deus para a Vida Cristã

O cristão quer amar o que o Senhor ama, ter prazer nos seus ensi-
nos e conselhos, porque os caminhos ensinados por ele são verdadei-
ros, bons, justos, santos, agradáveis e perfeitos. Para Lutero, as ori-
entações para a vida cristã começam nos Dez Mandamentos. Não há
boas obras senão as que Deus ordenou, nem pecado senão naquilo
que Deus proibiu. "Por esta razão, quem quer praticar boas obras não
precisa conhecer senão os Mandamentos de Deus" (LUTERO, OSel, Vol.
2, Das Boas Obras, p.102), que serão designados aqui como as Dez
palavras de Deus.

Primeira Palavra de Deus

"Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti ima-
gem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima,
nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da
terra"5 (Êx 20.3-4).
A idolatria dos tempos antigos possivelmente era diferente da dos
nossos dias. Enquanto na antigüidade havia mais imagens, às quais
muitas vezes eram atribuídos poderes miraculosos (2 Rs 18.4), a idola-
tria hoje parece ser mais secretamente guardada no coração. O povo

5
A opção de tradução das Dez Palavras foi a Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições
Paulinas, 1985.

69
IGREJA LUTERANA

de Deus no Antigo Testamento esqueceu muito cedo essa primeira


palavra de Deus e, materializando sua propensão para o mal (Êx 32.22),
fabricaram o bezerro de ouro. Freqüentemente Deus os lembrava des-
se primeiro conselho de Deus. "Não seguirás outros deuses, nenhum
dos deuses dos povos que houver à roda de ti" (Dt 6.14; 2 Rs 17.15;
Sl 81.9-10; Jr 1.16).
Na explicação desta primeira palavra, Lutero diz que ter um deus é
confiar nele de coração. O que Deus pede é que nossa confiança, es-
perança e fé sejam depositados inteiramente nele e em mais ninguém.
O contraponto é confiar nas riquezas materiais, no deus Mâmom, o
ídolo mais comum na terra, na inteligência, no poder, mesmo nas boas
obras e deles tirar segurança e alegria. Quem procura o favor em ou-
tras coisas e mesmo em si mesmo, pratica a idolatria. "O mesmo se dá
com todos os que, diante da adversidade, correm para aqui e acolá,
procurando conselho, ajuda e consolo por toda a parte, menos junto a
Deus, justamente onde mais lhes foi ordenado procurar" (LUTERO, OSel
Vol.2, Das Boas Obras, pp.107-108).
O sentido dessa palavra é a fé e confiança de coração e que vai
certeiramente ao único e verdadeiro Deus. "Toma cuidado no sentido
de apenas eu ser o teu Deus e de forma nenhuma procures outro. Isto
é: o que te falta em matéria de coisas boas, espera-o de mim e procu-
ra-o junto a mim, e se sofres desdita e angústia, arrasta-te para junto
de mim e apega-te comigo. EU, eu te quero dar o suficiente e livrar-te
de todo o aperto. Tão só não prendas a nenhum outro o coração, nem
o deixe em outro descansar" (Lutero, CM, p.395.4). "Pois é ele quem
nos dá corpo, vida, comida, bebida, nutrição, saúde, proteção, paz e
todo o necessário em bens temporais e eternos. Além do que nos pre-
serva de infortúnios e quando algo nos sobrevém, ele nos salva e
liberta" (LUTERO, CM, p.398.24).
Também é oportuno mencionar que Lutero tem em mente a fé em
Cristo quando trata da primeira palavra de Deus. Se alguém disser:
"Como posso ter certeza de que todas as minhas obras agradam a
Deus, se ocasionalmente caio, bebo e durmo em demasia, ou, no mais,
passo da medida de uma forma que não me é possível evitar?" A res-
posta é: se você pensar assim, você considera sua fé uma obra como as
outras e não a coloca acima de todas as obras. Pois ela é a obra supre-
ma por também apagar os pecados diários, sem duvidar que Deus lhe
seja favorável a ponto de fazer vistas grossas para quedas e fraquezas
do dia a dia (LUTERO, OSel Vol.2, Das Boas Obras, p.112).

70
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

Apêndice da Primeira Palavra

"Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás, por-


que eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a
iniqüidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração
dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima
geração para aqueles que me amam e guardam os meus manda-
mentos" (Êx 20.5-6).
Essas palavras são consideradas como um reforço à primeira pala-
vra. Elas se referem a todos os mandamentos, mas estão juntos à
primeira palavra, porque é de máxima importância que o homem tenha
a cabeça certa (LUTERO, CM, 399.31). A ira de Deus está sobre os que
confiam em algo fora dele, a bondade e sua misericórdia sobre os que
nele confiam de todo o coração. Essas são palavras em que Deus re-
vela que não é um Deus distante ou indiferente, nem do pecador deli-
berado e impenitente, nem dos que se apegam exclusivamente a ele e
dele esperam toda a espécie de bênçãos. Ele é um Deus que chama
pessoas ao arrependimento e mostra disposição em mostrar-se mise-
ricordioso e bondoso para os que prendem seu coração e esperam
nele a salvação (Js 24.19-20).

Segunda Palavra

"Não pronunciarás em vão o nome do Senhor teu Deus, porque o


Senhor não deixará impune aquele que pronunciar em vão o seu
nome" (Êx 20.7).
Alguns estudiosos consideram esta palavra como sendo apenas
uma proibição do falso juramento. Outros ainda dizem que se trata de
impedir a profanação do nome de Deus ou jurar em vão. Há de fato na
palavra de Deus vários textos advertindo sobre os juramentos lícitos e
os ilegítimos (Dt 6.13; 10.20; Êx 22.28; Lv 18.21; 19.12; 22.2; 24.11,16).
Mas para Lutero, um click nessa palavra abre um leque de aplicações e
um alcance bem maior. Se na primeira palavra a instrução foi para o
nosso coração confiar totalmente no Senhor, na segunda o ensino é
para colocar a língua e a boca na relação correta com Deus.
Se com a língua pode ser cometido um dos mais graves pecados
contra Deus, ao valer-se do nome dele para mentir ou enganar alguém
(LUTERO, CM, p.402.51-52), é com a língua também que podemos fa-
zer a segunda obra da vida cristã: honrar, invocar, enaltecer e louvar o
nome de Deus (LUTERO, OSel Vol.2, Das Boas Obras, p.117).

71
IGREJA LUTERANA

Por um lado, Lutero lembra que com esta palavra Deus nos aconse-
lha a nos guardar e a fugir do vício da honra e louvor em benefício
pessoal. Segundo ele, são poucas as pessoas que em meio à honra e
ao elogio permanecem modestos, serenos e imperturbáveis, não dei-
xando se envolver pela soberba e autocomplacência. "Como o crisol
prova a prata e o forno o ouro, assim o homem é provado pelos
louvores que recebe" (Pv 27.21). Espirituais são as pessoas que atri-
buem a honra e o prestígio a Deus e fazem uso deles, para a glória de
Deus e a promoção do próximo. Essa palavra também nos lembra que
Deus é louvado através do nosso bom nome e honra. Lutero ainda
complementa o pensamento sobre esse assunto afirmando que quan-
do as pessoas querem nos louvar, temos que fugir disso, "como se
fosse o mais grave pecado e roubo da glória de Deus" (LUTERO, OSel
Vol.2, Das Boas Obras, pp.117-119). Em resumo, orgulhar-se de algu-
ma realização é roubar a glória de Deus.
Por outro lado, essa palavra também é um estímulo para que nós
nos dediquemos à oração. O cumprimento dessa palavra é chamar o
nome de Deus nas tribulações e necessidades. Isto é santificar e hon-
rar seu nome. Para Lutero, Deus permite toda sorte de dificuldades em
nossas vidas para nos dar motivos e correr até ele, gritar e invocar o
seu santo nome. É assim que se experimenta o que é o nome de Deus
e como ele é poderoso para ajudar a todos os que o invocam (LUTERO,
OSel, Vol.2, Das Boas Obras, p.120).
Lutero vê pelo menos quatro razões "para viver continuamente nos
ouvidos de Deus" (LUTERO, CM, p. 457.2). O fundamento principal está
na primeira razão: a obediência a Deus (CM, p.459.19). Como em ou-
tros mandamentos, o cristão tem a obrigação de fazê-lo. É parte do
cumprimento do Segundo Mandamento (CM, 457.5-6). Não há como
terceirizar a prática da oração. "Não pensemos que isso não nos diz
respeito ou que está em nosso livre arbítrio" (LUTERO, OSel, Volume 9,
Mateus 5-7, p.222).
O segundo estímulo é a "consoladora promessa e rica oferta que
ele faz em relação à oração, para mostrar que ele se importa com isso"
(LUTERO, OSel, Volume 9, Mateus 5-7, p.222). Deus nos encoraja ami-
gavelmente e promete que isso não será em vão. A promessa amiga
do Senhor poderia ser motivo suficiente para nos incitar à oração (Ibid.,
p.222). "Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei e tu me glorifica-
rás (Salmo 50.15); "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e
abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca, encontra; e
a quem bate, abrir-se-lhe-á" (Mt 7.7-8) Para Lutero, "quem não crer
nessa(s) promessa(s), provoca a ira de Deus (LUTERO, CM, p. 459.21).
A terceira maneira pela qual deveríamos ser incitados a orar é ob-

72
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

servar as necessidades particulares e ao nosso redor. Ter a palavra de


Deus corretamente é um bom começo, tanto na doutrina quanto na
vida. Porém, há também tentações e resistências. "O velho saco po-
dre", a nossa carne é o primeiro inimigo. Este nos arrasta para o lado
da desatenção e falta de vontade para lidar com a palavra de Deus. O
segundo adversário é o mundo, que quer tirar-nos a palavra e a fé. O
terceiro antagonista é o adversário "mais poderoso, o miserável dia-
bo", que se usa da nossa maldade inata e da fraqueza de nossa fé e
espírito, para se instalar e lutar contra nós.
Trabalhando em parceria perfeita com nossa natureza pecaminosa
e o mundo, o alvo de Satanás é abafar a palavra de Deus colocada
dentro do cristão. Essas são desgraças opressoras, mas que são mo-
tivos permanentes para a oração.
Além disso, há ainda as necessidades corporais, tão comuns da
vida na terra. Nosso pedido deve ser de bênção da paz, bom governo,
proteção contra doenças, carências, violência e tantos outros males
temporais que podem nos assolar. É preciso ainda orar pela autorida-
de secular, para que esta aja com honestidade e não existam escân-
dalos. Se acrescente a isso que é preciso administrar a vida familiar
(LUTERO, OSel, Volume 9, Mateus 5-7, p.223-224).
O que fazer? "É preciso aprender a invocar (escuta bem isso!), e
não ficar por aí recolhido, sentado ou deitado em algum banco, an-
dar cabisbaixo e cambaleante, torturando e consumindo-te com teus
pensamentos, preocupado e pensando em encontrar alguma saída,
lamentando tão-somente tua má sorte, o quanto sofres, o quanto
és miserável. Pelo contrário, vamos lá seu preguiçoso, cai de joe-
lhos, ergue as mãos e os olhos ao céu, ora um Salmo ou um Pai
Nosso e apresenta os teus problemas a Deus com lágrimas, lamen-
ta, invoca, como ensina o presente versículo (Sl 118.5) e como diz o
Salmo 142.2: Derramo diante dele minha oração e apresento diante
dele a minha tribulação" (LUTERO, OSel, Volume 5, O Sublime Louvor,
p.37).
E o quarto motivo para se orar é a fé: "Devemos orar com fé genu-
ína, tendo certeza e nenhuma dúvida de que ele quer atender-nos e
ajudar-nos; e tudo isso em nome de Cristo, por intermédio do qual
nossa oração é agradável ao Pai, concedendo-nos, mercê dele, toda
graça e benefício" (LUTERO, OSel, Volume 9, Mateus 5-7, p. 144).

Terceira Palavra

"Lembra-te do dia do sábado [descanso] para santificá-lo. Tra-


balharás durante seis dias e farás toda a tua obra. O sétimo dia,

73
IGREJA LUTERANA

porém, é o sábado do Senhor teu Deus. Não farás nenhum trabalho,


nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua es-
crava, nem teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas.
Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que
eles contêm, mas repousou no sétimo dia; por isso o Senhor aben-
çoou o dia do sábado e o santificou" (Êx 20.8-11).
Essa palavra de Deus é uma orientação holística. Ela visa orientar o
povo de Deus a separar um dia para o descanso e a restauração física,
bem como atender às necessidades espirituais. É preciso interromper
o trabalho, a fim de que homens e animais possam se refazer. No en-
tanto, a ênfase é no santificar, ou conservar o dia santo, que é falar,
agir e viver de maneira santa. E isto acontece quando nos ocupamos
com a Palavra de Deus, trazendo-a no coração e nos lábios.
A crítica de Lutero em 1520 é sobre a superficialidade da prática
religiosa. A pregação é ouvida, mas não há qualquer melhora e as
orações são feitas sem fé. As pessoas prendem-se mais ao ato exteri-
or e ao fato de ir à igreja do que em querer receber algo do culto para
o coração, aprender e manter algo da pregação, desejar e esperar
algo com a oração. Aqui a crítica também alcança aos bispos e sacer-
dotes, os maiores culpados para essa situação. Lutero chega a afirmar
que seria melhor se houvesse menos feriados, pois nesses dias o que
se vê é comilança e bebedeira, jogos e outros vícios. Nos outros dias
há pelo menos o trabalho (LUTERO, Vol. 2, Das Boas Obras, p.126).
Lutero diz que é preciso reprimir tudo isto, para Cristo viver, atuar e
falar em nós (LUTERO, Vol. 2, Das Boas Obras, p.139).
Mas a grande ênfase de Lutero no escrito de 1520 é na oração. Ele
anima o povo de Deus a se encontrar para orar, pois antes das pala-
vras serem ditas, a oração já está anotada no céu. É difícil imaginar
alguém tão endurecido a ponto de não se deixar convencer pelas pro-
messas do Senhor Jesus (Mc 11.24). Sobre que tipos de pedidos fazer,
Lutero diz que deveríamos olhar justamente para os Dez Mandamen-
tos e encontrar o que falta em nosso relacionamento com Deus e com
o próximo. Diante de Deus, a fé fraca, falta de ânimo para ouvir a Pala-
vra e a preguiça para orar. Diante dos homens, a desobediência aos
pais e outras autoridades, a ira e ódio contra o próximo, a tribulação
de se manter a pureza sexual, dificuldades com a avareza e injustiça.
Para pedirmos tudo isso é preciso exatamente ter fé e confiança
que temos um Deus benevolente e não imaginar que o melhor é espe-
rar nos tornar puros antes e assim pedir algo a Deus. Lutero ainda
chama a atenção para que o pedido pela cura dos pecados, ou a cura
espiritual, seja feita com mais pressa, ou tenha prioridade sobre aque-
las necessidades físicas. Ainda em 1520, Lutero valoriza grandemente

74
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

a oração, de maneira especial aquela feita em conjunto com a cristan-


dade, pois o cumprimento desta palavra de Deus depende da oração
feita na comunhão com os irmãos. Esta é a mais valiosa e a mais pode-
rosa (LUTERO, Vol. 2, Das Boas Obras, pp.128-133).
Quando escreve sobre esta palavra alguns anos mais tarde, o
foco de Lutero é sobre a Palavra de Deus. Santificar o dia do descanso
é tratar a palavra de Deus e nela exercitar-se (LUTERO, CM, 408.88). É
ela que tudo santifica. Lutero a denomina de "a relíquia das relíquias",
no sentido de sua preciosidade. Lutero adverte aos que usam mal a
Palavra de Deus, que "vivem nas bodegas, embriagados e encharca-
dos que nem porcos" (LUTERO, CM, 409.96).
Em seus comentários sobre o Salmo 23 em 1536, Lutero expressa
bem a preciosidade e o tesouro que é a Palavra de Deus. "Neste sal-
mo, Davi, junto como todos os cristãos, louva e dá graças a Deus pela
maior bênção existente: a pregação da querida e santa Palavra" (LU-
TERO, Luther Works, Volume 12, Psalm 23 expounded One evening
after Grace at dinner Table, p.147). Segundo Lutero, as imagens utili-
zadas por Davi neste Salmo são nomes dados à Palavra de Deus. Pas-
tos verdejantes, águas de descanso, veredas da justiça, vara, cajado.
Sempre que a Palavra de Deus é pregada de maneira pura, ela cria
tantos resultados quantos o profeta atribui nesse salmo.
O aprendizado deste salmo é a valorização da Palavra de Deus.
Ouvi-la, estudá-la, amá-la e respeitá-la. "Onde esta abençoada luz
não alumiar, não pode haver nem alegria nem salvação. Também não
haverá força nem conforto para o corpo e alma, mas somente conflitos,
medo, temor e especialmente tristeza e ansiedade" (LUTERO, Psalm
23, p.149).
Porém, para todos aqueles que a ouvem cuidadosa e seriamente,
haverá pasto verdejante e águas de descanso, através dos quais as
ovelhas do Senhor são satisfeitas e refrescadas. É a Palavra que man-
tém os que nela se exercitam nos caminhos da justiça e os preserva
do sofrimento e do mal. Pela Palavra há instrução, renovação, fortale-
cimento e conforto. Também são mantidas no caminho direito, protegi-
dos no corpo e na alma de toda espécie de infortúnio e finalmente
capacitadas a superar tribulações e tristeza (LUTERO, LW, Volume 12,
Psalm 23, p. 148).

Resumo da Primeira Tábua

É interessante ainda se referir ao resumo dessas primeiras três


palavras de Deus e lembrar que quem fala é o Senhor que resgatou
compassivamente Israel da escravidão do Egito e que enviou o seu

75
IGREJA LUTERANA

Filho Jesus Cristo para nos resgatar de todas as forças do mal. Ele
expressa sua vontade a fim de que vivamos como ovelhas que têm um
supremo pastor, Jesus Cristo, e que nos concede todas as bênçãos
necessárias para nosso sustento espiritual, físico e material (Fp 4.19).
Se ele diz para confiarmos de todo o coração nele; se ele deseja que o
invoquemos em todas as horas e cantemos louvores ao seu nome e
dediquemos tempo para ele nos servir no banquete da sua Palavra, é
porque ele deseja o nosso bem-estar.
Nós fomos lembrados até aqui a confiar de todo o nosso coração
em Deus, a usar bem o seu nome, não apoiando mentiras, mas fazen-
do bom uso dele, orando e cantando e que nos ocupemos com o te-
souro dos tesouros, a Palavra de Deus.

Quarta Palavra

"Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias
na terra que o Senhor teu Deus te dá" (Êx 20.12).
Essa promessa acrescida nessa palavra pode nos fazer ver a sua
grandeza, seriedade e a importância dadas pelo próprio Deus. Deus
nos diz o que lhe agrada em nosso relacionamento com os pais e de-
mais autoridades e as recompensas que vamos obter se a guardarmos
e colocarmos em prática. É significativo observar o número de conselhos
dados no livro de Provérbios sobre esse assunto (Pv 4.1; 13.1; 19.26).
Os nossos relacionamentos têm o seu começo em nossos pais.
Honra lhes é devida. Essa valorização do estado paterno e materno
também é possível ver em outras culturas. No Egito, por exemplo, se
ensina que um filho desobediente perde o direito da alegria na vida
após a morte (RAWLINSON, 1954, p.262).
Lutero afirma que não há obra melhor do que a obediência às auto-
ridades e que a desobediência desta palavra pode ser até pecado
maior do que o homicídio, a incastidade ou o roubo (LUTERO, OSel,
Volume 2, Das Boas Obras, p.145). Lutero explica que honrar pais e
superiores demanda o temor, não no sentido do medo do castigo, mas
de ofendê-los (LUTERO, Das Boas Obras, p.146).
O fato é que o estado paterno e materno está abaixo somente de
Deus e eles são verdadeiramente os seus legítimos representantes.
No dar a vida, no cuidar e proteger. A valorização e o respeito aos pais
e autoridades, não em razão de sua pessoa, mas do ofício em que
foram colocados por Deus. É preciso notar que às vezes se instala na
sociedade, e na própria igreja, tanto a supervalorização como a des-
valorização da pessoa, em detrimento do ofício e da vontade de Deus
os colocando nessa posição.

76
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

Assim é com os membros em relação aos seus pastores (1 Ts 5.12-


13), os empregados em relação aos seus chefes (Ef 6.5-6), os cida-
dãos em relação às autoridades civis (Tt 3.1), que em alguns casos até
é contestável, mas que merece atenção uma observação de Lutero,
"pois sofrer injustiça não arruína a alma de ninguém, sim, melhora a
alma, mesmo que cause prejuízo ao corpo e aos bens materiais" (LU-
TERO, Das Boas Obras, p.154), os filhos em relação aos pais (Ef 6.1).
Essa honra é mútua. Dos pastores em relação às suas ovelhas (1 Pe
5.1-4), dos chefes em relação aos seus subordinados (Ef 6.9), das
autoridades em relação aos cidadãos (Ef 6.9) e dos pais para com
seus filhos (Ef 6.4).
Uma última reflexão sobre esta palavra também vem de Lutero: a
desonra sutil dos pais. Isso acontece quando o próprio pai e mãe edu-
cam seus filhos segundo a vontade do próprio filho. "Educam-nos para
o prestígio, gozo e bens mundanos, de sorte que agradam às pessoas
e subam na vida. Isto é do gosto das crianças e elas obedecem de
bom grado sem qualquer contradição" (LUTERO, Das Boas Obras, p.147).
O referencial na educação dos filhos é a Palavra de Deus. "O que ouvi-
mos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobrire-
mos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do Se-
nhor e o seu poder e as maravilhas que fez. Ele estabeleceu um teste-
munho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel e ordenou a nossos pais
que os transmitissem a seus filhos" (Sl 78.3-5).
Lutero diz que se queremos pessoas excelentes e hábeis na igreja
e na sociedade, não deveria se poupar empenho e gastos na tarefa
de ensinar e educar os filhos, a fim de que prestem serviços a Deus e
ao mundo e não pensar em apenas amontoar-lhes dinheiro e bens
(LUTERO, CM, p.421.172).
Reconhecendo todos os percalços nesse padrão de educação, Lu-
tero nos lembra que um coração que desespera diante dessa situa-
ção, também precisa aprender a entregar essa parte da sua vida aos
cuidados de Deus, como o próprio Pedro ensina: "Lancem sobre ele
todas as suas preocupações e tenham certeza de que ele cuida de
vocês" (1 Pe 5.7).

Quinta Palavra

"Não matarás" (Êx 20.13).


Deus é o doador da vida e ele quer protegê-la. Por isso, a sua
quinta palavra diz respeito ao direito recebido do Criador de viver a
vida que recebemos da sua mão. É possível que na grande maioria das
culturas e nações o homicídio seja qualificado como um dos piores cri-

77
IGREJA LUTERANA

mes. A revelação de Deus, no entanto, tem um caráter distintivo, pois


há possibilidades de se tratar de diferentes maneiras o mesmo crime.
"Se um ladrão foi achado arrombando uma casa e sendo ferido, mor-
rer, quem o feriu não será culpado do sangue" (Êx 22.2; 21.13; Nm
35.22-34).
Vou me valer de um exemplo de Lutero sobre o que um olhar
superficial de uma palavra e uma meditação mais cuidadosa pode
produzir. Se essas palavras "não matarás" são tomadas superficial-
mente, elas serão palavras frias e você vai simplesmente ouvir que
matar alguém é proibido. Mas dá um pause e observa melhor. Pri-
meiro Deus quer proteger a minha vida. Segundo, "Você não deve
matar", significa que o "eu" de cada um, que consiste em corpo e
alma, não pode matar. E esse "eu" tem muitos poderes: mãos, lín-
gua, olhos, mente e vontade. Será que quando você é proibido de
matar, você não está sendo ensinado de que é errado matar com as
mãos, ou com a língua, ou pelo desejo? Assim, uma reflexão mais
cuidadosa dessas palavras vai ensinar que é você que vai cometer
um crime agindo com ódio, vingança ou prejudicando alguém. Ao
invés disso, você deveria amar, abençoar e fazer o bem. Assim "não
matarás" significará que você não deveria agir com raiva, mas com
amizade para com o seu próximo (LUTERO, Luther Works, Volume
14, Selected Psalms, p. 296).
Aos atos de bater, ferir, matar, causar dano, estão os pensamen-
tos e as palavras de ira, igualmente condenados por Deus (1 Jo 3.15).
Se a fé não duvidar que temos um Deus gracioso, não lhe será difícil
ser gracioso e favorável também para com o próximo, ainda que este
seja culpado, pois nossa culpa é muito maior em relação a Deus (LUTE-
RO, OSel, Volume 2, Das Boas Obras, p.162). "Assim aprenda o homem
a serenar a cólera e a trazer no peito um coração paciente e manso,
especialmente para com aqueles que lhe dão motivo a se irar, isto é,
para com os inimigos" (LUTERO, CM, p.423.187).

Sexta Palavra

"Não cometerás adultério" (Êx 20.14).


Deus quer proteger a vida e também o lar. Adultério é um intruso
que pode destruir com certa facilidade vários lares ao mesmo tempo.
Ao fugir do adultério, José diz que este é um pecado contra o próprio
Deus (Gn 39.9). O profeta Malaquias prega a fidelidade no matrimônio
(Ml 2.14-16), assim como o autor de Hebreus (Hb 13.4). Lutero consi-
dera que a pureza e a castidade na vida sexual é a luta mais dura do
cristão, pois ela é diária e incessante. O refúgio é a oração e a Palavra

78
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

de Deus, mas é preciso também cuidar com o sono excessivo, comer e


beber demais, viver na preguiça e no ócio.
Baseado em 1 Pe 2.11, Lutero afirma que não se está livre dos
maus desejos e que enquanto vivermos não teremos descanso deles,
mas ainda que isto gere inquietação e contrariedade, é obra agradá-
vel a Deus lutar constantemente contra eles (LUTERO, OSel, Volume 2,
Das Boas Obras, pp.163-164).
Além de procurar viver de maneira casta e decente, o conselho tam-
bém é de que se ajude ao próximo a fazer o mesmo (LUTERO, CM,
p.426, 205). O estado matrimonial faz parte da criação de Deus. Foi o
próprio Deus que percebeu que era preciso uma parte, não cara-meta-
de, mas uma parte oposta e que as duas precisavam ser cimentadas e
formarem uma só carne. A sexta palavra de Deus visa proteger essa
união das infiltrações que podem colocar em risco seu fundamento e
fazê-la desmoronar, pois é estado criado, abençoado e agradável a
Deus.

Sétima Palavra

"Não roubarás" (Êx 20.15).


Deus quer proteger o direito de todos na preservação dos bens
materiais que vêm de suas mãos. Lutero diz que essa palavra não tem
a ver só com o roubo e furto, mas também com "avareza, agiotagem,
cobrar caro demais, passar para trás, fazer uso de mercadorias, medi-
das e pesos falsos" (LUTERO, OSel, Volume 2, Das Boas Obras, p.165).
O foco principal de Lutero é o cuidado com o uso do dinheiro e fazer
dele um deus em quem se confia (Jó 31.24, 28; Sl 62.10), além da
ansiedade e preocupação exagerada com o trabalho. Como poderia
ser avarento e preocupado, se pela fé o meu coração confia que conto
com o cuidado divino? "Por isso não se apega a dinheiro algum, faz
uso deste com alegre caridade em benefício do próximo e sabe muito
bem que terá o suficiente, por mais que der aos outros" (LUTERO, Das
Boas Obras, p.166). A razão desta certeza está na promessa de Deus
que não falha. "Fui moço e já agora sou velho, porém jamais vi o justo
desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão" (Salmo
37.25; Pv 10.3). Vale notar que essas boas ações começam pela fé e a
certeza de que sempre se terá o suficiente.
Também é interessante notar que o diferencial na vida dos cristãos
está em servir de socorro aos "não-merecedores", pois o ensino de
Cristo é de que o cristão irá mais longe (Lc 6.32-36).
Lutero expande ainda essa palavra e a aplica na atuação dos em-
pregados em relação aos seus patrões. O cumprimento se dá quando

79
IGREJA LUTERANA

estes utilizam bem o seu tempo, são fiéis e honestos trabalhadores


(LUTERO, CM, p.428.225).
Em resumo, nessa palavra Deus pede para que nada seja feito ao
próximo com a intenção de diminuir seus bens, mas auxiliar, comparti-
lhar e emprestar a quem necessita, com a abençoada promessa do
Senhor. "Quem se compadece do pobre ao Senhor empresta, e este
lhe paga o seu benefício" (Pv 19.17). E ainda, "o que oprime ao pobre
insulta aquele que o criou, mas a este honra o que se compadece do
necessitado" (Pv 14.31).

Oitava Palavra

"Não apresentarás um falso testemunho contra o teu próximo"


(Êx 20.16).
Deus também fala uma palavra para revelar sua preocupação e
cuidado com o nosso bom nome. Honra e boa reputação não podemos
dispensar (LUTERO, CM, p.434.255) e são mais valiosos do que bens
materiais. "Quem rouba minha carteira, rouba só lixo; mas quem rouba
de mim o bom nome, rouba-me do que não o enriquece; e com certeza
muito pobre me deixa" (RAWLINSON, 1954, p.263). "Mais vale o bom
nome do que as muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a
prata e o ouro" (Pv 22.1). A calúnia traz mais prejuízos que um roubo.
Além do que, honra e bom nome facilmente se perdem, mas não é fácil
restituí-los (LUTERO, CM, 437.273).
Essa palavra trata do testemunho em tribunais (Dt 19.16-20), mas
também se refere à prática de espalhar informações sobre outras pes-
soas. O apóstolo Tiago chega a dizer que alguém seria perfeito, se
não tropeçasse no falar (Tg 3.1), o que infelizmente é impossível, pois
ninguém é capaz de domar a língua, pois é veneno mortífero. Com ela
bendizemos ao Senhor, mas também com ela amaldiçoamos as pesso-
as (Tg 3.8-9).
Um olhar para o livro de Provérbios revela um pouco desse "proble-
ma" que decorre do nosso falar, mas também do valor das palavras
bem colocadas. "A morte e a vida estão no poder da língua, o que bem
a utiliza come do seu fruto" (Pv 18.21); "O Senhor abomina a língua
mentirosa... e a testemunha falsa que profere mentiras" (Pv 6.17,19);
"No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os seus
lábios é prudente" (Pv 10.19; 17.27); "O lábio veraz permanece para
sempre, mas a língua mentirosa, apenas um momento" (Pv 12.19); "A
resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira" (Pv
15.1); "Palavras agradáveis são como o mel, doces para a alma e me-
dicina para o corpo" (Pv 16.24).

80
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

Lutero considera a tendência de se falar e ouvir mais mal do que


bem do próximo como a praga mais danosa (LUTERO, CM, p.435.264).
O fato é que facilmente ultrapassamos a fronteira e, ao invés de apon-
tar falhas, já estamos julgando e sentenciando. Deus nos aconselha
nesta palavra a fazer uso da língua para falar o melhor a respeito de
todos, encobrir pecados e fragilidades, desculpá-los e a embelezar e
velar por sua honra (LUTERO, CM, p. 438.285).
Além de falar, o descumprimento dessa palavra pode ocorrer quan-
do silenciamos. O omitir ou o silenciar também não é recomendado,
principalmente quando visa preservar interesses ilegítimos (LUTERO,
OSel, Volume 2, Das Boas Obras, p.167), ou quando se está com medo
de ofender alguém (LUTERO, CM, p.434.258). Essa palavra, como as
outras, tem seu cumprimento a partir da fé. "Com efeito, onde há esta
confiança e esta fé, ali está um coração corajoso, obstinado e destemi-
do, que se arrisca e apóia a verdade, tanto faz se está em jogo o
próprio pescoço ou o manto" (LUTERO, OSel, Volume 2, Das Boas Obras,
p.169).

Nona e Décima Palavras6

"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a sua mu-


lher, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o
seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo" (Êx
20.17).
Essas palavras foram adicionadas para ensinar que pensamentos
também nos condenam diante de Deus. As nossas motivações mais
corruptas, guardadas em nosso coração, são como se fossem pratica-
das exteriormente. Na verdade, é na mente e em nosso coração onde
nascem as palavras e atos maus. Deus quer eliminar a causa e a raiz
de onde surge tudo aquilo que faz dano ao próximo (LUTERO, CM,
p.443.310). Lutero é bem objetivo ao afirmar que essas palavras fo-
ram dadas justamente àqueles que presumem ter cumprido exterior-
mente todas as outras palavras e dirigidas aos que querem ser reco-
nhecidos como pessoas honestas e sinceras, já que "não transgredi-
ram" os demais mandamentos (LUTERO, CM, p.440-441.293, 300).
Deus quer proteger o que ele nos concedeu, seja os bens materi-
ais ou em vida, também dos olhos e desejos alheios. Lutero também
combate os jeitinhos espertos para se obter algo em prejuízo do pró-
ximo e proveito para si. Quando há perdas para o próximo, esperteza

6
As dez palavras têm duas divisões básicas. Uma delas não divide esse versículo em dois
mandamentos.

81
IGREJA LUTERANA

também é pecado. "Suave é ao homem o pão ganho por fraude, mas


depois a sua boca se encherá de pedrinhas de areia" (Pv 20.17).
Se a raiz do problema está na mente, a solução está em submeter
também o pensamento ao senhorio de Cristo (2 Co 10.5) e "Finalmen-
te, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o
que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de
boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o
que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4.8).
Essa é a referência para a vida cristã. Fora dessas dez palavras
nenhuma conduta pode ser agradável a Deus, por maior que seja aos
olhos do mundo (LUTERO, CM, p. 443.311). Fundamental também é
recordar o que Deus quer que se faça com essas palavras. "Também
as atarás como sinal na tua mão e te serão por frontal entre os teus
olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas" (Dt
6.8-9); "Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na
vossa alma; atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por
frontal entre os vossos olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas
assentados em vossa casa e andando pelo caminho e deitando-vos e
levantando-vos" (Dt 11.18-19).

CONSIDERAÇÕES FINAIS E IMPLICAÇÕES PRÁTICAS

1. Ele falou. Está falado. Embora o conteúdo dessa frase não mude e
seu alvo é expressar a vontade imutável de Deus, ela pode ter um impac-
to diferente no coração dos cristãos, dependendo do tom de voz que
usamos. Para os que vivem em pecado e indiferentes com a vida cristã,
talvez a palavra tenha que ser em um tom que reflita a palavra de lei.
Para os que vivem em arrependimento e sofrimento, a palavra precisa
ser proclamada com a mesma firmeza, mas com suavidade suficiente para
expressar as doces promessas do Senhor Jesus. A maior arte do Ministé-
rio Eclesiástico e das funções que decorrem dele, é detectar a condição
espiritual do cristão para determinar se é conveniente aplicar a Lei na
função de revelar o pecado, ou as doces Boas Novas do Evangelho do
Senhor Jesus Cristo. Essa arte se estende também no testemunho diário
no lar e no trabalho e seu aprendizado depende da oração pelo Espírito
Santo e da escola da experiência. Em resumo, a missão da Igreja é de-
nunciar o pecado, mas com sensibilidade acolher o pecador.
2. Desde a Reforma Luterana, a doutrina da justificação pela fé foi
recolocada como o alicerce sobre o qual a Igreja Cristã permanece. A
doce nova do perdão somente por graça através da fé em Jesus Cris-
to, não pode sofrer erosão ou ser corrompida. Essa não é uma doutri-
na, mas a doutrina e base da religião cristã e da teologia. O núcleo

82
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

está na proclamação da salvação através do único nome dado para a


salvação e o qual as Escrituras revelam, Jesus Cristo (At 4.12). Essa é
a necessidade básica do ser humano, o perdão de Deus. A pergunta
principal ainda precisa ser: Como posso obter um Deus gracioso? E a
resposta "crê no Senhor Jesus e será salvo"!
3. Nós, porém, podemos e devemos ir um pouco mais longe. Como
eu vivo como um filho salvo de Deus? Ou qual é a vontade de Deus
para minha vida? A Lei de Deus não pode ser considerada como um
elemento estranho na vida do cristão ou irrelevante para ele. Se a
igreja se omitir na tarefa de usar as Escrituras para o ensino, repreen-
são, correção e educação na justiça (2 Tm 3.16), a sociedade em seu
contexto maior providenciará o treinamento moral do nosso povo. A
televisão, a internet e livretos de auto-ajuda serão as referências
morais para os cristãos e nelas será moldado o seu caráter. Essas
duas fontes são radicalmente opostas.
4. Além disso, vivemos numa sociedade essencialmente antinomis-
ta e nessa onda também na igreja se evita muitas vezes falar do certo
e do errado, do pecado e não pecado. Muitas vezes o refúgio é falar
nos pecados apenas como fraquezas pessoais, personalidade difícil,
ao invés da natureza pecaminosa e dos prejuízos que atitudes erra-
das podem causar à fé (Fórmula de Concórdia, DS, IV, p. 595.31-32),
ao próximo e ofender a Deus. A Lei faz parte da criação de Deus e os
seres humanos não funcionam sem ter preceitos para sua vida.
5. A Igreja Evangélica Luterana do Brasil tem seguido a prática de
lemas anuais para direcionar os estudos em toda a sua igreja e assim
vislumbrar uma unidade de alvo em seu ensino. Embora salutar, estou
convencido que há espaço para reavaliar a eficácia e rediscutir a acei-
tação dessa iniciativa e progredir nisso, no sentido de que as Escritu-
ras Sagradas forneçam o itinerário de estudos e se estou na condição
de fazê-lo, sugiro começar com os Dez Mandamentos, para diagnosti-
car a nossa saúde espiritual, o Credo, para saber que tudo procede da
mão de nosso Deus Triúno e o Pai Nosso, para com humildade as bên-
çãos pedir em oração. Lutero escreveu o Catecismo para ser um ma-
nual de cuidado pastoral, caso os pastores não sejam capazes de en-
sinar com suas próprias palavras os seus membros. A sugestão pare-
ce ser relevante ainda hoje.
6. Estou particularmente convencido de que a distinção e a relação
nas duas justiças, diante de Deus e diante do mundo, podem nos for-
necer uma matriz para proclamação da Lei e do Evangelho e estes
realizarem suas obras próprias. Diante de Deus, a Lei expõe o pecado
e nossa completa dependência da graça de Deus revelada no Evange-
lho do Senhor Jesus Cristo. Diante do mundo, o cristão responderá em

83
IGREJA LUTERANA

fé e confiança e o papel da Lei será fornecer informações para a sua


vida cristã em benefício do próximo e de toda a criação de Deus, sem
comprometer a doutrina da justificação pela fé. O ensino da Lei nessa
dimensão vai moldar novas atitudes, pensamentos e ações.
O cristão não é mono-dimensional. Vivemos diante de Deus e dian-
te do mundo. A justificação pela fé diante de Deus nos confere por
antecipação a pátria celeste, mas também torna importante e relevan-
te a vida cristã diária com toda a criação de Deus. Ser um ser humano
como Deus nos criou significa viver completamente passivos diante de
Deus e totalmente ativos no mundo, como vizinhos responsáveis por
outras pessoas e por toda a criação de Deus.
É preciso cautela quando se fala em obras ou vida cristã como
evidência da salvação ou presença da fé verdadeira. Esse tipo de
ênfase pode resultar num involuntário legalismo e gerar dúvidas so-
bre a certeza da salvação (ARAND, 2000, p.124). Ainda é preciso con-
siderar a Palavra de Deus como verdade para a vida cristã, quando o
sofrimento bate à nossa porta. Quando estamos sendo confrontados
com a doença, a morte prematura, problemas na educação de filhos,
problemas no relacionamento familiar, angústia, medo. Tua palavra é
a verdade para nos acalmar e nos devolver a confiança no Deus bon-
doso.
8. O que é conhecer a Cristo? Lutero responde que conhecer a
Cristo, em primeiro lugar, nada mais é do que reconhecê-lo como uma
dádiva, um presente dado por Deus. E em segundo lugar, como um
exemplo. Imitar a Cristo não é um caminho que precisa ser tomado
para a cidade eterna, mas seguir seus passos é ter fé no Salvador.
Libertados da escravidão da Lei, o cristão pode seguir espontanea-
mente o exemplo de Cristo, pela obediência e boas obras. Não vamos
obedecer por causa do medo do castigo, mas livremente, sabendo que
o Senhor bondoso nos redimiu e toma conta de nossas vidas. Nós
recebemos pela fé o Cristo presente e também como exemplo para o
nosso próximo. Lutero tem uma preocupação pastoral enorme sobre
esse assunto. Em tempos de aflição, prega-se tão-somente Cristo Dá-
diva, mas em tempos de comodismo, de alegria, quando faltam refe-
rências seguras para um amar desinteressado, paciência, sacrifício pelo
bem dos outros, pode ser anunciado Cristo Exemplo7. Ainda que nossa

7
Reflexões de Lutero sobre Cristo Dádiva e Cristo Exemplo, extraídas do livro de Ian D.
Siggins, pp. 156-164.

84
ELE FALOU E ESTÁ FALADO: “A TUA PALAVRA É A VERDADE PARA A VIDA CRISTÔ

imitação seja como uma palha queimando diante do sol que é Cristo, a
Palavra de Deus nos ensina a "ter o mesmo sentimento que houve
também em Cristo Jesus" (Fp 2.1-11), e se Deus falou, está falado.
Amém.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ARAND, Charles P. What is the Third Use of the Law? Part 2. Concordia
Seminary Publications -Symposium Papers, Numbers 5 and 6, 1995/1996,
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ARAND, Charles P. That I May Be His Own. St. Louis: Concordia Publishing
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ARAND, Charles P. e BIERMANN Joel. Why the Two Kinds of Righteous-
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BACHMANN, James. First Use of the Law in Congregational Life. Concor-
dia University Irvine.
KOLB, Robert. Preaching the Christian Life: Ethical Instruction in the
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KOLB, Robert. God and His Human Creatures in Luther's Sermons on
Genesis: The Reformer's Early Use of His Distinction of Two Kinds of
Righteousness. Concordia Journal, Volume 33, April 2007, Number 2,
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LINDBERG, Carter. Do Lutherans Shout Justification But Whisper Sanc-
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Leopoldo/Porto Alegre: Editoras Sinodal e Concórdia, 1989.
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MURRAY, Scott R. Law and Gospel and the Doctrine of God: Missouri in
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RAABE, Paul R. Delighting in the Good Law of Yahweh: An Old Testament
Perspective. Symposium Paper Presentation. Concordia Theological

85
IGREJA LUTERANA

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www.ctsfw.edu/events/symposia/papers/2001.php.
RAWLINSON, George. Commentary on the Whole Bible - Exodus. Ellicott`s
Commentary, Charles John Ellicott, editor. Grand Rapids: Zondervan
Publishing Company, 1954.
SIGGINS, Ian D. Martin Luther's Doctrine of Christ. Eugene, Oregon: Wipf
& Stock Publishers, 2003.
VOELZ, James W. What is the Third Use of the Law? Part 1. Concordia
Seminary Publications -Symposium Papers, Numbers 5 and 6, 1995/1996,
pp.9-16.

86
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA
PARA COMBATER O PECADO1

Nesta série de artigos, a pregação evangelística tem sido defi-


nida no sentido de aplicar o Evangelho para uma pessoa e situa-
ção específica. Ninguém pode evangelizar se não houver um pon-
to de contato entre uma pessoa e o Evangelho de Cristo.
Uma pregação evangelística por esta razão deve ser dirigida a
necessidades específicas. E isto é urgente porque só Cristo pode
preencher essas faltas. Ela também demanda uma resposta e está
baseada na autoridade de Cristo. O melhor lugar para a pregação
evangelística é a congregação local. O melhor pregador
evangelístico é o pastor de uma congregação.

A evangelização requer mapas para enviar missionários para ou-


tras nações e também encontrar endereços de pessoas para serem
visitadas em nossas congregações. Vamos fazer um mapa – um dia-
grama – para olhar para um indivíduo. Um mapa de uma pessoa pode
mostrar muitas coisas, mas este mostra algumas manifestações do
pecado.

vícios
(bebida em cobiça
excesso)

ódio
orgulho
(mentiras)

preconceito glutonaria
(racismo) (preguiça)

idolatria
(avareza)

1
“Evangelistic Preaching to Oppose Sin”. O quinto artigo de uma série de seis, sobre
Pregação Evangelística. Fonte: Concordia Pulpit Resources, Volume 2/Part 3, June 14,
1992 – September 20, 1992, pp.8-9. Saint Louis, USA: Concordia Publishing House.
Used with permission. All Rights Reserved. Traduzido por Anselmo Ernesto Graff, profes-
sor de Missiologia no Seminário Concórdia de São Leopoldo e ULBRA, Canoas, RS.

87
IGREJA LUTERANA

O pecado faz parte das nossas vidas. No diagrama acima, há algu-


mas das formas pelas quais o pecado se manifesta. Nós usaremos
este mapa para lidar com as partes pecaminosas de nossas vidas,
pelo poder que o Evangelho nos dá, fazendo-nos “vivos para Deus em
Cristo Jesus” (Rm 6.11b).

Como um santo lida com o pecado? Cristo pagou o preço por nossos
pecados. Deus nos declara perdoados e somos santos. Como povo
santo, como lidar com o pecado – nosso próprio e dos outros? Alguns
cristãos dizem que eles não pecam, embora a Escritura afirme que isto
é uma mentira (1 Jo 1.8). Outros aceitam o fato de que são pecadores,
mas deixam por isso mesmo. Alguns têm uma atitude (ainda que isto
possa não ser dito claramente) de não negar o pecado, mas de pensar
que como ele é inevitável, que eles podem muito bem escolher os pe-
cados que mais os atraem. Outra pessoa disse: “As coisas estão bem,
eu não me importo em pecar e Deus gosta de perdoar o meu pecado.
Assim cada um faz o que gosta”.
Esses pensamentos ignoram o perigo do pecado. O pecado preju-
dica nossa relação com as outras pessoas e com Deus. Pecados não
confessados ou não examinados, bem como a impenitência, podem
destruir a fé que recebe o perdão conquistado por Cristo na cruz.

Sim, mas: alguns respondem, “sim, nós somos perdoados, mas


qualquer pecado que cometemos ainda nos condena”. Eles reconhe-
cem o Evangelho, mas voltam atrás e olham para a Lei. A conjunção
“mas” é uma boa palavra para mostrar a mudança da Lei para o Evan-
gelho: “Eu sou um pecador, mas Cristo morreu por mim e assim estou
perdoado”. Todavia, usar o “mas” depois do Evangelho reverte o as-
sunto outra vez para a Lei. É proclamado que Jesus morreu para pagar
os nossos pecados e assim nosso passado foi perdoado, mas olhamos
para o futuro confiando em nós mesmos. Debaixo da Lei, sem o Evan-
gelho, nós dependemos de nossa habilidade. Sob o Evangelho, rece-
bemos o poder de Deus em Jesus Cristo. Pregar a Lei depois do Evan-
gelho é pedir às pessoas para deixar de lado o poder de Deus e retornar
às suas próprias capacidades.

Sim, e: Cristo morreu para perdoar os pecados do nosso passado e


seu poder também nos ajuda agora a lutar contra o pecado. Deus
perdoou você e ele nos ajuda em nossa batalha diária contra o peca-
do. Nós não resistimos a pecados individuais como um favor a Deus.
Antes, a habilidade para superar o pecado é um favor (graça) que vem
de Deus por nós.

88
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMBATER O PECADO

Vamos considerar o diagrama acima no contexto de sermos simul-


taneamente santos e pecadores. A pregação evangelística aplica o
Evangelho às áreas da vida onde nós, como santos, ainda batalhamos
contra o pecado que nos pressiona. Quando se fala de pecado a des-
crentes, o alvo é de que eles vejam o seu pecado, se arrependam e
creiam em Cristo como seu Salvador. Quando se fala sobre o pecado a
crentes ou santos, o alvo é para que eles vejam o seu pecado, se
arrependam e reconheçam o perdão que eles têm em Cristo. Eles de-
vem usar o mesmo poder de Deus para combater o pecado.

Sujeitos à Lei – sob o Evangelho: O ponto de referência dos cristãos


tem movido (por uma ação do Espírito Santo) da Lei para o Evangelho.
Seu jeito de agir com a questão é diferente daquele dos descrentes.
Vamos examinar três lugares na Bíblia onde os sujeitos da Lei estão
claramente definidos.
O Primeiro Mandamento identifica um relacionamento entre alguém
que deu e aqueles que receberam os mandamentos. Se as pessoas
ouviram os mandamentos como parte daquele relacionamento, eles
ouviram que Deus os libertou da escravidão e os libertaria da idolatria,
ódio, cobiça, avareza, etc. Se eles ouviram esses mandamentos fora
desse relacionamento, eles teriam um conjunto de ordens que deveri-
am obedecer.
À luz do Novo Testamento, o Primeiro Mandamento poderia ser es-
crito assim: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te enviei meu Filho Jesus
para morrer como pagamento pelos teus pecados e te ressuscitar da
morte e te dar a vida eterna”. Nesse relacionamento Deus também
nos dá a liberdade de não participar na batalha para cumprir os Dez
Mandamentos com nosso próprio esforço. Se nós ouvimos os manda-
mentos fora dessa relação, é nos dito a fazer o que nós somos incapa-
zes de praticar. Se nós os ouvimos naquela relação, nós ouvimos so-
bre as bênçãos que Deus nos concede através de Jesus Cristo e vive-
mos pelo seu poder.
No Sermão do Monte, Jesus diz: “Não penseis que vim revogar a lei
ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.1). Cris-
to, e somente ele, cumpriu o que os Dez Mandamentos ordenam. Para
aqueles que estão fora da relação com Jesus, os mandamentos conti-
nuarão como algo a ser cumprido por eles – e o restante do Sermão
mostra como isto nos é impossível. Para aqueles que estão no relacio-
namento com Jesus, os mandamentos se tornam verdadeiros porque
Cristo os obedeceu em nosso lugar e agora ele nos ajudará em nossa
batalha para também obedecê-los.
A exposição da Lei em Rm 1.18-32 é especialmente importante,

89
IGREJA LUTERANA

porque isto é pós-Pentecoste e por essa razão aplicada à igreja em


que nós estamos hoje. Sermões baseados somente no texto acima
seriam totalmente Lei e passariam a mensagem que todos merecem a
morte. Contudo, imediatamente um pouco antes, Paulo escreve: “[...]
visto que a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé” (Rm
1.17). O tema da seção da Lei é que o pecado nos priva de conhecer a
verdade completa a respeito de Deus (vv. 18,22,28). A Lei nos ensina
a verdade sobre nós próprios e sobre a ira de Deus. Somente o Evan-
gelho nos revela a verdade completa sobre Deus, a qual inclui seu
amor e misericórdia através de Jesus Cristo.

A vantagem de jogar em casa: No mundo, a Lei tem a sua vantagem


do jogo em casa, mas na Igreja prevalece o Evangelho. No mundo, o
Evangelho parece loucura (1 Co 1.21-25). A morte reina porque ela
tem dois ases na manga: a lei e o pecado (1 Co 15.56). Porém, na
igreja, a morte foi destruída. A dívida do nosso pecado foi paga e a
morte é um passo para a ressurreição. O problema é que ainda temos
a nossa velha natureza dentro de nós. Mas dentro da igreja nós en-
contramos o poder do Evangelho para controlar nosso lado pecador.
Mas muitas vezes a velha natureza vai querer jogar como se estivesse em
casa com o Evangelho enquanto está na igreja. Nosso pecado quer ter a
mesma liberdade que temos no Evangelho. Por isso nós temos que
identificar o pecado em nossas vidas e aplicar o Evangelho de Cristo
para aquela área.

Guerrilhas dentro de nós: Vamos pensar em nós como um país que


Cristo venceu e dominou. Ele estabeleceu um novo governo – uma
nova vida. Porém o antigo governo ainda tem algumas guerrilhas fiéis
e que continuam com seus ataques. As áreas do diagrama acima mos-
tram onde essas guerrilhas estão ainda em atividade. Elas não têm
controle, mas podem produzir uma série de prejuízos. Exemplos de
guerrilhas: alguém honesto pensa em alterar o valor de seu salário
por causa do imposto; um pai pensa em agredir seu filho que chora;
uma pessoa heterossexual tem desejos homossexuais; um cristão fiel
coloca em dúvida toda a história e obra de Jesus.
Muitos pensamentos são como guerrilhas atacando a nova nature-
za do cristão. Eles podem ser breves, desconsiderados e rejeitados –
mas eles são perigosos. Nós muitas vezes ficamos receosos em falar
sobre eles. A pregação evangelística deve identificar as guerrilhas e,
então, as armas espirituais do novo governo podem eliminar os inimi-
gos que permanecem.
Não se pode focar apenas numa guerrilha. Isto somente reforçará

90
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA COMBATER O PECADO

o encobrimento de tantas outras. Ao invés disso, é preciso identificar o


problema e listar um número de possíveis guerrilhas dispostas a ata-
car, sempre mencionando que essa lista nunca será completa. Obser-
ve como a Escritura quase sempre lida com pecados em grandes listas
(Gl 5.19-21; 1 Co 6.9-10), mostrando que cada um é igualmente mau.
Um sermão rigoroso contra o abuso do álcool e drogas eliminaria aqueles
que têm aquela culpa escondida, mas serviria também para que a jus-
tiça própria seja oferecida sobre uma bandeja de prata para o restan-
te das pessoas. Os itens que você inclui e não inclui nesta lista mostra-
rão o quanto o Evangelho vai alcançar.
Hoje talvez tenhamos dificuldades em falar sobre homossexualismo,
aborto e uso de drogas como parte de nossas listas. Falar contra eles
individualmente é mais aceitável porque faz com que pareçam seme-
lhantes a outros pecados que as pessoas cometem. Mas incluí-los numa
lista implica que nossa culpa escondida é tão má quanto a deles. E é
isto que precisamos fazer para alcançar o comando da guerrilha secre-
ta de cada pessoa. Qualquer pecado que não pode ser mencionado,
não pode a ele ser dirigida a mensagem do perdão. Somente quando
o pecado é perdoado nós podemos encontrar ajuda para superar sua
contínua força em nós.
As Boas Novas são de que Cristo nos ajudará em nossas lutas
contra o pecado. Enquanto vivermos, teremos guerrilhas da velha na-
tureza pecaminosa lutando contra nossa nova natureza. Mas nossa
pregação pode ajudar as pessoas a lutar a batalha na igreja, onde as
regras estão a nosso favor. Se não ajudarmos as pessoas a identificar
os seus inimigos, nós as forçamos a lutar contra os problemas sozi-
nhos e, muitas vezes, sem o poder do Evangelho.

Evangelizar-se a si mesmo: Aqueles que proclamam o Evangelho


para outros devem em primeiro lugar falá-lo para si mesmos. Na pre-
gação, um pecador está falando para pecadores em como vencer o
pecado. Em primeiro lugar, é preciso ser extremamente honesto em
identificar as guerrilhas em nossa própria vida. Todos nós que prega-
mos estamos sujeitos a dois perigos: nós podemos supor que cada
um tem a mesma culpa que nós temos e condená-los com a força que
nós sentimos contra nós mesmos; ou nós podemos defender nosso
próprio pecado e oferecer essa mesma defesa para os que nos ou-
vem. A nossa própria culpa não pode limitar a nossa habilidade para
evangelizar a culpa dos outros. Aplique o Evangelho em primeiro lugar
para si mesmo, depois o espalhe em abundância.
Jesus disse: “[...] porque eu não vim para julgar o mundo, e sim
para salvá-lo” (Jo 12.47b). Quando você proclama o sermão, você não

91
IGREJA LUTERANA

ajudará ninguém ao condenar ou fechar os olhos para o pecado. Você


ajudará quando faz as pessoas olhar para seu próprio pecado e apli-
car o Evangelho àquele pecado, primeiro para dar o perdão e depois
para auxiliá-las na contínua luta contra aquela transgressão.

92
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA
PARA O SERVIÇO CRISTÃO1
Pense no Evangelho de Cristo como sal – dentro de um saleiro. A
tarefa de um pregador é salgar, isto é, evangelizar pessoas. O traba-
lho não é somente sacudir o saleiro para que o sal seja espalhado,
mas é sacudir o sal sobre as pessoas. Pregação evangelística como
definida nesta série de artigos é:
- a aplicação do Evangelho para pessoas específicas em suas ne-
cessidades peculiares;
- pregar com senso de urgência, pois somente Cristo pode ser a
solução para tais problemas;
- uma mensagem que demanda uma resposta;
- uma dádiva que é dada pela autoridade de Cristo.
O melhor local para fazer evangelismo é na congregação local – e a
melhor oportunidade está no culto regular de cada congregação.

Muitos ouvem o Evangelho, o qual lhes fala que eles estão sal-
vos, mas nunca ouvem a mensagem que lhes fala que eles estão
salvos para servir. Eles podem ser como uma árvore regada pela
água – mas há pouco fruto.

Neste último artigo, o foco será sobre a pregação para o serviço


cristão. Em estudos de resultados na religião, as organizações
denominacionais geralmente definem o que eles pensam sobre como
deveriam ser os membros. Contudo, este estudo olha para as igrejas
na outra ponta. Através de uma série de entrevistas com uma grande
variedade de membros, o estudo descreve como os membros das igre-
jas realmente são. Mostra os resultados do ensino e pregação de cada
denominação. O estudo olha pelo fruto que o Espírito produz nas árvo-
res dos cristãos.
Depois de avaliar um sermão pelo critério do conteúdo da Lei e do
Evangelho, a medida mais importante para a avaliação de um sermão
não é seu estilo ou a utilização de habilidades homiléticas. A verdadei-
ra questão é: O que o sermão opera na vida dos ouvintes?

1
“Evangelistic Preaching for Christian Service”. O sexto artigo sobre Pregação Evange-
lística. Fonte: Concordia Pulpit Resources, Volume 2/Part 4, September 27- November
22, 1992, pp. 10-12. Saint Louis, USA: Concordia Publishing House. Used with permis-
sion. All Rights Reserved. Traduzido por Anselmo Ernesto Graff, professor de Missiologia
no Seminário Concórdia de São Leopoldo e ULBRA, Canoas, RS.

93
IGREJA LUTERANA

Nós, que pregamos, gostaríamos de pensar que se contarmos a


história de Jesus, aqueles que ouvem sobre ele vão segui-lo natural-
mente. Nossa lógica nos fala que aqueles que crêem em Cristo viverão
assim como pequenos cristos. Mas isto nem sempre funciona assim.
Muitos ouvem o Evangelho, o qual lhes fala que eles estão salvos, mas
nunca ouvem a mensagem que lhes fala que eles estão salvos para
servir. Eles podem ser como uma árvore regada pela água – mas há
pouco fruto.
Isto é um problema para a pregação evangelística. Não somente a
Lei e o Evangelho devem ser aplicados a fim de que uma pessoa che-
gue à fé, mas que cada vida cristã deve ser motivada pelo Evangelho a
servir. Para tanto, vamos fazer outro mapa. Nós podemos mapear cada
pessoa para identificar áreas que precisam estar sob o controle do
Evangelho.
No artigo anterior, desenhamos um mapa para identificar as áreas
de pecado na vida de um cristão. Este mapa mostra as coisas boas em
nossas vidas.

Este mapa inclui somente um iniciador de idéias. Obviamente o pe-


cado é uma parte de todos esses itens. Tudo o que vemos e fazemos
está manchado por nossa natureza pecaminosa que herdamos de
nossos pais. Mas o mapa do pecado foi considerado no artigo anterior
e não estamos tratando nem de pecado e nem de culpa aqui. Também,
pode haver problemas em cada uma dessas áreas, mas eles serão

94
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA O SERVIÇO CRISTÃO

tratados mais tarde neste artigo. Por agora olhe para os itens consi-
derados bons e que podem ser motivos para darmos graças a Deus.
A obra da igreja se torna visível quando ela alimenta os famintos,
ajuda os oprimidos e conforta os que choram. Mas será que a igreja
tem uma mensagem para aqueles que não têm tido problemas com
culpa e necessidades sociais? Os “brilhantes e lindos” também preci-
sam do Evangelho? Como aplicar o Evangelho para essas pessoas?
Estas questões não se aplicam somente àquelas pessoas “saudá-
veis” que vivem em áreas residenciais e que não sentem necessidade
de Deus, porque eles pensam ter uma vida boa. Isso se aplica a nós
também. Como cristãos, necessitamos saber como o Evangelho afeta
“nosso próprio bem” – as partes boas de nossas vidas.
Nós temos duas naturezas. Uma é a nossa natureza pecaminosa.
Nós a chamamos de velho adão, o velho homem, que nos faz pecado-
res desde a concepção. Nós também chamamos isso de pecado origi-
nal – o qual é, às vezes, mal compreendido. Uma pessoa entendeu
que o pecado é original, no sentido de que só ela tinha esse pecado,
ninguém mais.
A outra é a nossa nova natureza. É a nova vida, que nos foi dada
pelo Espírito Santo no batismo e é nutrida através da Palavra e da
Ceia do Senhor. É uma dádiva de vida baseada na morte e ressurrei-
ção de Cristo.
A nossa nova e a velha natureza estão em guerra constante (Gl
5.16-26). Nós percebemos o poder da nossa velha natureza em nossa
vida pecaminosa. Nós vemos o poder de nossa nova natureza pela
obra do Espírito em nós. O conhecimento natural de Deus pode produ-
zir um desejo a fazer o bem e que conduz a resultados positivos do
ponto de vista humanitário. Mas aquilo que é feito pela nossa nova
natureza não é produzido pela nossa vontade e energia, mas pelo
poder de Cristo em nós.
Nosso bem precisa o bem de Deus: Nós podemos abordar “nosso
próprio bem” de duas maneiras: a Lei nos mostrará que nosso bem
não é suficientemente bom. Se as culpas de pecados da ação não nos
incomodam, a consciência de pecados por omissão nos levará a ficar
de joelhos. Quando nosso próprio bem é visto da perspectiva da Lei,
pessoas serão convencidas de que suas próprias obras são boas o
bastante. Então o Evangelho do perdão de Cristo e o poder do Espírito
são aplicados. Aqueles que não conhecem a Cristo precisarão ver o
pecado em sua própria bondade, antes deles estarem aptos a desistir
disto e deixarem se cobrir pela bondade do Salvador.

95
IGREJA LUTERANA

...quando as pessoas se afastam da participação na igreja, existe


uma ordem na maneira que eles se amputaram do corpo de Cristo.

É preciso cautela quando a Lei é aplicada às boas obras que o


cristão faz. Muitas vezes as pessoas aceitam e se alegram na graça
de Deus que concede o perdão e percebem sua graça em outros tem-
pos de necessidade, mas não vêem a graça de Deus em tempos de
abundância. Podem sentir que foram elas que adquiriram sua saúde,
riquezas e sucesso, e ao mesmo tempo se sentem culpadas porque
outros não têm a mesma sorte. Se a Lei é aplicada nesse sentido de
culpa para motivá-las a produzir boas obras, o resultado será a tenta-
tiva de adquirir a justificação através das obras. A Lei precisa, em pri-
meiro lugar, promover o arrependimento. É fácil para os “brilhantes e
lindos” praticar boas obras a partir de um sentimento de culpa. A Lei
deve ser aplicada ao seu sucesso para preveni-las de não seguir esse
caminho. Então o Evangelho pode ser aplicado para conferir perdão e
nova vida.
A outra forma de abordagem, apropriada somente para os cris-
tãos, é aplicar o Evangelho ao nosso próprio bem. Cristãos batizados
em Cristo vivem o arrependimento como uma parte de sua vida diária.
Como eles retornam do pecado a Deus pela graça, eles continuam a
ver novas formas de servi-lo.
Um sermão para o dia de Ação de Graças é uma oportunidade para
pregar um sermão evangelístico para o serviço cristão. A moléstia é o
pecado da ingratidão contra Deus. As bênçãos nos distraem a ponto
de nos afastarmos de Deus, o doador das bênçãos? Nós enxergamos
as bênçãos como evidência de nossa bondade e não da graça de Deus?
Depois se aplica o Evangelho. Pode-se passar pela lista e ver que as
coisas boas em nossas vidas são evidências da bondade de Deus.
Assim o Evangelho dará um novo sentido às bênçãos já recebidas.
Nós podemos servir: as Boas Novas do Evangelho são de que so-
mos salvos – e salvos para servir. A questão não é de que agora que
somos salvos temos que trabalhar por isso. Ao invés disso, o Evange-
lho que perdoa nossos pecados e nos ajuda a lutar contra o pecado
também nos dá a vontade e a energia para servir a Deus.
O processo é simples: 1. Tome como exemplo uma bênção que pode
ser percebida como resultado do próprio esforço de um ouvinte; não
presuma que eles já não saibam que estas bênçãos são presentes de
Deus. 2. Aplique o Evangelho para aquela bênção. Para aqueles que
já vêem todas as bênçãos como evidências da graça de Deus, o ser-
mão reforçará sua fé. Para aqueles que vêem as bênçãos como resul-

96
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA O SERVIÇO CRISTÃO

tado de seu próprio esforço ou alguém de sorte, o sermão apresenta-


rá a Lei para levar ao arrependimento pelo pecado da ingratidão e o
Evangelho o perdão.
Aqui estão alguns exemplos de como fazer isto baseados no mapa
do começo deste artigo.
Atividades na Igreja: a vida de culto da congregação já é repleta de
Evangelho, que afinal de contas é o objetivo principal do culto. Mas, às
vezes, as atividades fora do santuário precisam uma aplicação direta do
Evangelho. Ouça as conversas em reuniões de diretoria nas congrega-
ções. Preste atenção para o que acontece nos eventos sociais e de
trabalhos na congregação. O Evangelho proclamado no culto ecoa em
outros eventos da congregação? Se os membros da igreja escutam as
Boas Novas no culto, mas não as aplicam na parte administrativa da
igreja, qual a chance deles as aplicarem para as suas vidas pessoais?
Aqueles que pregam esta mensagem podem segui-la e ver como
ela é vivida nas atividades da congregação. É fácil nos assuntos admi-
nistrativos da congregação deslizar de volta e ficar sob a Lei. Líderes
podem esquecer-se da importância do Evangelho e acabam não de-
pendendo do poder de Cristo para fazer a obra na igreja.
As atividades na igreja não estão limitadas àquelas coisas listadas
no boletim da igreja. Nós que pregamos precisamos ajudar àqueles
que ouvem a aplicar o Evangelho em sua vida devocional. Eu tenho
notado que quando as pessoas se afastam da participação da igreja,
há uma ordem na maneira que eles se amputaram do corpo de Cristo.
Primeiro, eles desistem aos poucos de participar do culto semanal, o
que significa que raramente eles recebem a Ceia do Senhor. Depois
eles vão cortando a comunhão com os membros da igreja. Nesse cami-
nho eles abandonam a leitura da Bíblia. Mas eles ainda oram. A oração
é geralmente a última parte da devoção que é abandonada.
Muitas pessoas oram motivadas pela Lei e não pelo Evangelho.
Compare uma oração a outros pedidos. Pedir por alguma coisa, o que
você deve saber é:1. a quem você está pedindo; 2. o que você deseja;
e 3. por que você espera recebê-lo. É nesta terceira parte da oração
que geralmente reside o problema. Para alguns, esta parte da oração
é: “se você me der o que eu quero, eu irei....” Para outros é: “lembre,
eu sempre tenho lhe servido”. Isto é barganhar com Deus usando a
Lei, ao invés da confiança na graça do Evangelho.
Sob o Evangelho, a expiação de Cristo é a base para nossa confi-
ança de que Deus ouvirá nossa oração. Orar em nome de Jesus não é
somente uma senha para entrar dentro do sistema de comunicação de
Deus. Nós não merecemos o que pedimos, mas Jesus nos concede o
que merece. Nós usamos seu cartão de crédito.

97
IGREJA LUTERANA

O Evangelho aplicado às nossas ocupações mostra que o propó-


sito do emprego não é somente fazer dinheiro ou providenciar o
sustento próprio e da família. Nosso trabalho nos dá uma oportuni-
dade de cuidar de uma parte da criação de Deus (Gn 1.28).

Dinheiro: Quando estava escrevendo este artigo, nossa congrega-


ção estava tratando do orçamento anual. Meu sermão começou: “Este
é um sermão evangelístico. Seu propósito é evangelizar seu talão de
cheques, cartão de crédito e seu dinheiro”. O sermão então coloca o
dinheiro sob o mesmo Evangelho quanto àqueles que pertence o di-
nheiro. A preocupação não foi apenas para o que o dinheiro deveria
ser, ou seria contribuído à igreja. O alvo não foi atingir os 10% das
finanças dos membros – mas 100% – ser considerado como fundo
para o serviço de Deus.
Um membro ativo da igreja que acabou de se transferir para a nos-
sa congregação disse: “Este foi o primeiro sermão que ouvi sobre mor-
domia em que eu não me ofendi”. A primeira coisa que fiz foi brincar
com a comissão de mordomia a respeito dessa observação. Talvez meu
sermão não tivesse alcançado seu alvo se não tivesse ofendido àque-
les que o ouviram. Mas aquela atitude presume que pessoas têm se
colocado sob a Lei (fazendo-os sentir-se culpados) a fim de que eles
vejam a necessidade de ofertar. Pessoas que vivem sob a graça de
Deus não precisam sentir culpa antes de eles sentirem o desejo de
fazer o bem. Paulo diz: “Cada um contribua segundo tiver proposto no
coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a
quem dá com alegria” (2 Co 9.7).
Vocações e famílias: pessoas que sentam nos bancos da igreja gas-
tam muito do seu tempo e energia em dois itens: família e trabalho (a
escola para alguns). Muitos sentem um grande conflito nas exigências
em ambos. O Evangelho deve alcançar aquelas partes de suas vidas.
Nós incluímos os pecados do trabalho e do lar no perdão de Cristo.
Nós também temos que aplicar o poder do Evangelho às alegrias em
ambos.
O Evangelho aplicado às nossas ocupações mostra que o propósi-
to do emprego não é somente fazer dinheiro ou providenciar o susten-
to próprio e da família. Nosso trabalho nos dá uma oportunidade de
cuidar de uma parte da criação de Deus (Gn 1.28). Nossos trabalhos
nos dão uma chance de sermos a resposta das orações de alguém
outro.
Há muito tempo atrás um membro da igreja me pediu para encon-
trar um novo termo para o trabalho na igreja, pois trabalho teria uma

98
PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA PARA O SERVIÇO CRISTÃO

conotação negativa. Eu pesquisei por um tempo e descobri que estava


olhando para o caminho errado. Ao invés de encontrar um outro ter-
mo, eu procurei dar à palavra trabalho um sentido mais positivo. Não
somente o trabalho na igreja, mas todo o trabalho é um presente de
Deus. São boas novas quando trabalhamos na equipe de Deus.
Habilidades: Todas as pessoas têm habilidades especiais. Algumas
vezes suas velhas naturezas usam essas habilidades para propósitos
ruins. Mas todas as habilidades que temos podem ser consagradas ao
uso cristão. “A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visan-
do a um fim proveitoso” (1 Co 12.7). Por exemplo, eu senti o desejo de
escrever porque eu aprendi a ler. Eu tenho aprendido a sacudir o sal
do Evangelho sobre o meu desejo de escrever. Deus concedeu-lhe
habilidades. Você é alguém redimido por Cristo. Esta redenção inclui o
uso de suas habilidades e talentos naturais sob a iluminação do Espí-
rito, como dons espirituais.
Pregação evangelística usa o Evangelho somente como fonte de
motivação. Aqueles que pregam o Evangelho não precisam ficar teme-
rosos em contar para os seus ouvintes o que eles deveriam fazer. Con-
tudo, eles precisam definir claramente de onde vem a urgência daque-
le deveria. Se vier do temor, é baseado na Lei. Se sua origem é do amor
de Deus em Cristo, é baseado no Evangelho. “Levai as cargas uns dos
outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2). Jesus disse: “O meu
mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu
vos amei” (Jo 15.12). Estas são mensagens do Evangelho.
Cristo é a única fonte de perdão e vida eterna, o único sacrifício que
expiou os nossos pecados e a única motivação para o correto serviço
cristão. O perigo é que poderíamos pensar em outra base para servir a
Deus. Mas se nós oferecemos um outro caminho para o serviço cristão
– ou falhamos em proclamar o Evangelho como o único poder para as
boas obras – nós falhamos na aplicação correta do Evangelho. “De
fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que
aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna
galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

99
IGREJA LUTERANA

100
DEVOCIONAIS

DEUS NOS GUARDA EM


TODOS OS NOSSOS CAMINHOS
Salmo 91.11

Em nome de Jesus, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mun-


do. Amém. “Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te
guardem em todos os teus caminhos” (Salmo 91.11). “Em todos os
teus caminhos”! De fato crês nisto? Como foram os teus caminhos neste
período de férias (ou recesso escolar)? Que fatos marcaram teus cami-
nhos? Quem acompanhou as notícias da IELB neste período sabe que
houve fatos no caminho de diversos irmãos nossos que mudaram de
forma definitiva o rumo de suas vidas.
Que promessa é esta que o texto nos traz? Que tipo de atenção
devemos dar a ela, tendo em vista que na única vez que esta palavra
é citada no Novo Testamento ela o é não por Jesus ou por um apósto-
lo, mas como vimos no evangelho, é citada pelo diabo (Mt 4.6,7)!? E
por que Jesus não aceitou a citação de Satanás deste Salmo?
Na verdade, o texto é consolador, como pudemos constatar ao ouvi-
lo dentro do seu contexto, o Salmo 91. O problema que aparece na
tentação de Jesus é que o diabo não é um bom professor de Bíblia,
apesar de conhecê-la intelectualmente muito bem. Nós diríamos: ele
citou o texto fora de contexto! Aliás, tanto no relato de Mateus como
de Lucas, faltam as palavras “em todos os teus caminhos”. Será que
elas incomodaram o diabo, a ponto de não citá-las? O fato é que, por
ocasião da tentação do Senhor, o diabo queria que Jesus “forçasse” o
caminho! E não é diferente do que acontece conosco!
“Atira-te abaixo”, diz o diabo desafiadoramente: o teu Deus é forte
ou não?! Parece que o diabo estava inventando uma forma de “teolo-
gia da prosperidade”. Para quem está com Deus, tudo vai bem; se as
coisas não vão bem, é porque você não está com Deus ... ou Deus não
está com você!
Mas a palavra de Deus no Salmo não é uma promessa do tipo “te-
ologia da prosperidade” – é uma promessa dentro da realidade! O
Salmo menciona a necessidade de refúgio, fala do mal, da praga; se
refere a pedras no caminho; lembra que há animais ferozes – o leão e
a serpente; e ainda diz que há tempos de angústia também na vida
dos filhos de Deus. Mas é bem aí que Deus guarda os seus!

101
IGREJA LUTERANA

Esta não é uma promessa que privilegia o “jeitinho”, a malandra-


gem, nem acena com vida fácil! Teólogos, pastores (e assim, todos os
cristãos) são tentados, assim como Jesus o foi, a forçarem o caminho!
Neste início de ano letivo desta Faculdade de Teologia, escola de
pastores, vale lembrar que seremos tentados em nossa busca por ir
além dos limites da revelação de Deus, da competência recebida de
Deus e da ética.
Somos tentados a forçar o caminho, indo além dos limites da reve-
lação. As polêmicas recentes em torno do fantasioso “Código da Vinci”,
a descoberta do “Evangelho de Judas”, que no exagero de uma revis-
ta de circulação nacional, estava vindo para mudar os rumos da fé; e
outras tentativas de tirar a autoridade do texto bíblico e inventar no-
vas revelações... tudo isto é uma tentação a deixar o caminho da clara
e completa revelação de Deus na sua palavra e embrenhar-se por ca-
minhos inventados pela razão humana e que levam as pessoas a um
destino triste e solitário. O orgulho e a vaidade tentam o teólogo a
buscar fontes alternativas de revelação, que não a Escritura.
Com Adão somos tentados a seguir por caminhos além dos limites
da competência (“poder”) – somos chamados a anunciar o Rei; so-
mos seu reino, mas não somos reis. Ao sermos chamados para procla-
mar o evangelho, nenhum poder humano pode nos dizer para não
fazê-lo. Nem mesmo uma Assembléia de membros votantes tem a au-
toridade de proibir que o ministro de Cristo anuncie de forma pura a
palavra de Deus. É Deus quem nos constitui, envia e ordena que anun-
ciemos. Esta é nossa competência. No entanto, pastores são hoje ten-
tados, como sempre foram, a esquecer que sua competência – poder –
é um chamado para servir a igreja e o mundo com a palavra de Deus e
não para dominar consciências, não para impor sua própria vontade.
Com Adão somos tentados a seguir por caminhos além dos limites
da ética! Ficamos chocados em ouvir notícias escandalosas a respeito
de pastores (ou pseudopastores), que se metem em problemas por
causa da ganância ou da imoralidade sexual. É preciso estar atentos!
Ou pensamos que apenas pastores de outras denominações são ten-
tados na busca do poder, da influência e até a ir além dos limites no
campo das finanças?! É uma triste verdade que escândalos sexuais
estejam manchando o ministério instituído por Cristo. Mas igualmente
triste é que tantas outras situações, que não se tornam escândalo,
estão acontecendo e trazendo prejuízo espiritual na vida de pessoas.
Por detrás disto, das tentações a seguirmos por caminhos que vão
além dos limites da revelação, da competência e da ética, está a pior
tentação: de ir além do caminho que Deus preparou para nós em Seu
Filho. A maior tentação é a de seguir o caminho da autoconfiança, da

102
DEUS NOS GUARDA EM TODOS OS NOSSOS CAMINHOS

autojustificação, que é a mais nociva forma de idolatria e mais comum,


como bem nos ensina o Dr. Martinho Lutero em sua explicação do 1º
mandamento (Catecismo Maior, p. 397).
Mas a promessa de Deus não se torna vazia por causa da má apli-
cação feita por Satanás ou por causa da infidelidade das pessoas.
Deus continua dizendo a ti, seu filho, que ele te guardará “em todos os
teus caminhos”.
A tentação de Jesus não nos ensina que há alguns caminhos por
onde Deus não anda! “Em todos os teus caminhos” é uma promessa
séria! O que o episódio da tentação nos ensina é que não podemos
forçar Deus a agir conforme nós pensamos que ele deveria fazer – isso
é colocar Deus à prova; é “forçar o caminho”.
A promessa de Deus não é para “super-homens”, mas para os que
em sua própria natureza são carentes, fracos, necessitados; como o
próprio Salmo diz, para aqueles que o invocam na angústia (v. 15),
que, reconhecendo sua fraqueza, dizem “o Senhor é o meu refúgio” (v.
9).
As páginas do Antigo Testamento são ricas em demonstrações de
como Deus guardou os seus queridos “em todos os seus caminhos”.
Jacó teve de sair de casa e da sua terra, teve de fugir e viver por um
bom tempo como peregrino; era perseguido pelo próprio irmão ... que
vida miserável! Será? Deus lhe vem em Betel e lhe garante: “Eu estou
contigo e te guardarei por onde quer que fores” (em todos os teus
caminhos!) (Gn 28.15). E guardou mesmo. E fez dele uma grande na-
ção, de onde nasceu o Salvador.
Vários séculos mais tarde, Deus diz ao povo de Israel, que há pou-
co havia sido tirado da escravidão no Egito: “Eis que eu envio um Anjo
diante de ti, para que te guarde pelo caminho e te leve ao lugar que
tenho preparado” (Êx 23.20). Foi uma caminhada longa, foi um cami-
nho por vezes difícil, um caminho com dor, sofrimento, morte! Mas Deus
cumpriu sua promessa. Algumas décadas mais tarde, após estar já na
terra de Canaã, sob a proteção de Deus, o líder Josué confessa: “o
SENHOR é o nosso Deus; ele é quem nos fez subir, a nós e a nossos
pais, da terra do Egito, da casa da servidão, quem fez estes grandes
sinais aos nossos olhos e nos guardou por todo o caminho que anda-
mos e entre todos os povos pelo meio dos quais passamos (Js 24.17).
Não é exagero dizer que a história do povo de Israel foi uma histó-
ria de Deus guardando este povo em todos os seus caminhos. Uma
das palavras significativas que estava sempre diante deste povo – e
nós hoje ainda a ouvimos – vem das palavras que Deus colocou na
boca dos sacerdotes, a fim de que o Seu nome fosse colocado sobre
seu povo, palavras que dizem: “O SENHOR te abençoe e te guarde...”

103
IGREJA LUTERANA

(Nm 6.24). Por isso o salmista diz com toda confiança: “Guarda-me, ó
Deus, porque em ti me refugio” (Sl 16.1); e anuncia esta mensagem de
esperança e força: “O Senhor te guardará de todo o mal” (Sl 121.8).
Guardados por Deus em todos os nossos caminhos, temos verda-
deira segurança. E isto nos dá ânimo, disposição, força e alegria para
a caminhada que está à nossa frente. Dias difíceis nos esperam; estu-
dar teologia é trabalho árduo, para aqueles que querem fazer um tra-
balho sério e comprometido com a verdade. Ensinar teologia é um de-
safio imenso num contexto pluralista e relativista. Só a proteção e o
guiar gracioso de Deus nos garantem segurança para a jornada.
É triste que estas palavras consoladoras de Deus sejam mais lem-
bradas na boca do diabo do que no seu sentido original! O diabo é
enganador e torce maliciosamente as palavras de Deus. Mas quero
arriscar dizer que me parece que havia um motivo para o diabo citar o
texto pela metade e deixar de fora “em todos os teus caminhos”. É
que, no caso de Jesus, seu caminho era necessariamente um caminho
de sofrimento, de abandono por parte de Deus, era um caminho que
levava à morte! Pois ele trilhou o caminho que deveria ser o nosso
caminho: aquele que é decorrente do pecado e que traz condenação.
Houve um momento deste caminho em que Jesus disse a mais terrível
verdade: “Deus meu, por que me desamparaste?” Sim, ele foi desam-
parado para sofrer a tua e a minha dor, por teu e meu pecado, a fim de
que para ti e para mim valessem as palavras completas: “para que te
guardem em todos os teus caminhos”.
Nosso desafio é não fazer violência às palavras de nosso Deus.
Nem diminuindo seu alcance, como se houvesse lugares, tempos e
situações em que Deus não nos poderia guardar; mas também não
ultrapassando limites e colocando Deus à prova. Nossa tarefa de edu-
cação teológica neste ano será, em boa parte, compreender, viver e
proclamar esta verdade: “Deus nos guarda em todos os nossos cami-
nhos”. Amém.

Mensagem proferida pelo Prof. Gerson L. Linden no


Culto de Abertura do ano letivo do Seminário Concórdia em
São Leopoldo, RS, no dia 1º de março de 2007.

104
MOMENTO PERFEITO
Prezados irmãos e irmãs em Cristo:
Já não lhe aconteceu em dado momento da sua vida que você pen-
sasse algo assim: “Ah! se o relógio parasse agora!” É o que eu gosta-
ria de chamar momento perfeito. Todos nós sentimos em certos mo-
mentos da vida que a felicidade não pode ser melhor do que este
momento. Nunca vou esquecer o momento em que o primeiro e raro
gole de Pepsi me fez cócegas no nariz quando eu era menino de 8
anos. Momento inesquecível, perfeito.
Ouvir o som da gargalhada feliz de um bebê. Segurar nos braços
um filho pela primeira vez na maternidade. Cantar com vigor um hino
da nossa preferência apoiado nas vozes e instrumentos vibrantes em
um culto. Aprovado num emprego sonhado. Lembra de momentos as-
sim?
Momentos perfeitos.
A Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém: momento perfeito e úni-
co. Quem lá esteve, jamais esqueceu.
Mesmo participando daquele momento, mesmo vibrando muito com
o canto da multidão, ainda assim, naquela ocasião, os discípulos não
entenderam isso.
Esta pequena observação de João a respeito dele e dos demais
discípulos é muito intrigante. Ora, se João declara que somente depois
de Jesus ter voltado para a presença gloriosa de Deus, eles fizeram a
conexão entre a profecia e o fato, o que podemos imaginar que passa-
va na mente da multidão?
Os discípulos não entenderam o quê? João responde: não enten-
deram que isso estava escrito a respeito dele e também que era isso o
quer tinha acontecido. Em outras palavras: Diante dos nossos olhos
estava se cumprindo a grande profecia, a grande e única promessa
que Deus alimentara pelos seus profetas ao longo de toda a história
da humanidade: o Messias vai entrar em Jerusalém. Diante dos nos-
sos olhos, o Messias entra em Jerusalém, com todas as devidas honras.
E nós não entendemos nada. Como se, muitos anos mais tarde, João
estivesse confessando que o momento perfeito passara diante dos
seus olhos e eles aproveitaram mal o momento perfeito.
Será que podemos especular sobre a causa, ou causas de eles
nada terem entendido?
E perguntamos:
1. por que não entenderam que isto estava escrito a respeito dele?

105
IGREJA LUTERANA

2. por que não entenderam que a profecia se cumpriu diante dos


seus olhos?

Os discípulos conheciam as profecias. Como qualquer israelita,


aguardavam a revelação do prometido libertador, o escolhido, o envia-
do de Deus. O problema que impedia os discípulos de verem com cla-
reza estava nele. O que eles não conseguiam alinhar era que “isso
estava escrito a respeito DELE”. O problema era ele. Ele não cabia nas
suas mais remotas especulações quanto ao Messias. Ele era um grande
profeta. Muitos o queriam para Rei. João descreve a natureza deste
ajuntamento de gente em torno de Jesus. O povo foi encontrar-se com
Jesus porque aqueles que tinham testemunhado a ressurreição de
Lázaro espalharam essa notícia, o que atraiu a multidão a ele. Tanto
isto era verdade que também os chefes dos sacerdotes resolveram
matar também o Lázaro, pois (v.11) por causa de Lázaro muitos judeus
estavam abandonando os seus líderes e crendo em Jesus.
Eles não entenderam o que estava escrito a respeito dele, mas, diz
João, estavam crendo nele.
Estranho. Não entenderam, mas creram. Não sabiam, mas queri-
am confiar.
Sim, podemos colocar ressalvas nesta fé por causa da expectativa
equivocada que o povo tinha do Messias. Mas Deus, através do
evangelista, usa uma palavra muito forte: “Eles estavam crendo em Je-
sus”.
Podemos até pensar: Mas, como?! Eles só queriam de Jesus os
benefícios materiais que lhes povoavam a imaginação. Eles não esta-
vam ali arrependidos, fazendo profissão de fé!
A diferença está em que a fé, a expectativa, o rumo dos seus anseios
se voltou para ele, para aquele Jesus. João deve ter escrito estas pa-
lavras com muita alegria e convicção, talvez quase setenta anos de-
pois. Corações confusos, hesitantes, mas que Deus reconheceu e atri-
buiu como fé, como seu povo. Agora redimido, porque seus corações se
inclinaram para Jesus. Isto fez toda a diferença. O foco da expectante
fé estava certo. Isto fez da fé a fé certa. O momento perfeito aconte-
ceu. Eles estiveram em comunhão com o próprio Deus. Deus lhes pro-
porcionou um momento perfeito. Uma ante-sala dos louvores eternos
nos céus. Que somente mais tarde puderam reconhecer. Mas nem por
isso menos perfeito.
Não foi esta mesma multidão que gritou crucifica-o? Nem por isso
Deus desqualifica esta multidão como descrente ou hipócrita. É uma
multidão perdida que olha para Jesus. E Deus lhes atribui fé.
Por que o evangelista é levado a ver esta multidão como multidão

106
MOMENTO PERFEITO

de crentes? João mesmo diz que eles, os discípulos, não tinham enten-
dido naquela ocasião a relação que estava estabelecida por Deus com
os pecadores na pessoa de Jesus. Setenta anos mais tarde, ao escre-
ver, João revela que a partir da ressurreição de Jesus aprendeu a ver a
presença de Jesus sobre uma nova e radicalmente transformada ótica.
Verdade é que a nossa perdição é tão absoluta e completa, o nos-
so pecado é tão devastador que nem mesmo o nosso louvor a Deus
deve receber qualquer mérito. Nem isto os discípulos tinham ainda re-
conhecido. O povo de Jerusalém canta em euforia pura, não tenha medo.
E Deus vê, Deus atribui a este canto já a fé que os deixa unidos a Deus.
A profecia estava nos lábios do povo. A profecia estava sendo cum-
prida. Deus estava visitando o seu povo com a salvação. Os discípulos
também não entenderam que o autor da vida estava cumprindo a pro-
messa de restaurar a vida para a humanidade. A vida começava ali, às
portas de Jerusalém. Um povo de lábios impuros, mas santificado pela
presença e pela obra de Jesus. Ao mesmo tempo justos aos olhos de
Deus, mas no coração ainda capazes de gritar: Crucifica-o!
Fica difícil dizer que Deus ama aqueles que gritam: Crucifica-o! Mas
a verdade é que fomos nós mesmos que crucificamos a Jesus. Não
somos menos culpados do que aqueles que gritaram naquele dia, ou
aqueles que pensaram estar fazendo um bem com a sua morte.
Mas o amor de Deus nos atrai com o seu perdão, porque ele quer
que o ímpio viva.
A vida que temos não é a vida que fizemos por merecer. Não mere-
cemos corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os sentidos. Não merece-
mos casa, lar, esposo/esposa, filhos e bens, nem o sustento. Entre-
tanto, por causa de Cristo e do perdão que temos nele, Deus nos faz
entender que nos ama assim mesmo, por absoluta bondade do seu
coração.
Mais tarde os discípulos entenderam que Deus considera seus fi-
lhos aqueles que estão na presença de Jesus e o saúdam. Mesmo que
não tenham clareza sobre o que estão dizendo com o seu canto. Mes-
mo que sejam capazes de negá-lo ou até desejar a sua morte. A
misericórdia de Deus não se afasta, nem diminui. Pelo contrário diz o
apóstolo Paulo: Onde aumentou o pecado, aumentou muito mais a graça
de Deus.
Este é o teu e o meu Deus. Ele nos dá uma vida para viver e nos
dá aquilo que pertence à vida. Ele nos livra do mal. Nos protege na
tentação. Nos dá honra e dignidade. E nos dá sentimentos que nos
permitem identificar a felicidade com que ele nos acompanha ao
direcionar a nossa vida dando-nos tarefas, objetivos e metas, e o
gozo do descanso.

107
IGREJA LUTERANA

Bendize, ó minha alma, bendize ao Senhor.


João diz: Depois da Ascensão, os discípulos entenderam quem re-
almente era Jesus.
Nós estamos aqui tentando entender, pois o mundo precisa saber
em Jesus quem é o seu Deus. Aprendamos a reconhecer os momentos
perfeitos na nossa vida. E vibrar intimamente por eles terem aconteci-
do desde o momento perfeito do nosso batismo. Amém.

Devoção proferida pelo Prof. Paulo P. Weirich


na Capela do Seminário Concórdia no dia
4 de abril de 2007.

108
VER OU OUVIR?
João 20.19-31

INTRODUÇÃO

Esse trecho do evangelho de João pode ser muito familiar aos nos-
sos ouvidos. Em muitas ocasiões, o personagem principal nas mensa-
gens é Tomé e sua descrença a respeito de Jesus Cristo ressuscitado,
bem como suas exigências para crer.

O FATO

Porém, nas três cenas descritas, bem como na conclusão desse


capítulo, existe uma variada e rica lista de verdades e lições para a
vida da igreja e dos cristãos individualmente. E é essa riqueza que
torna legítima a leitura deste texto a cada ano.

CENA I: Jo 20.19-23

A primeira parte mostra os discípulos trancados a fim de se prote-


gerem dos judeus.
Foi também uma oportunidade para mais um sinal de Jesus. É ver-
dade que para quem acabou de vencer a sepultura, foi apenas um
detalhe, mas foi mais um sinal.
A saudação de paz ao chegar, e repetida mais tarde, devolve a
alegria e acalma os discípulos. Embora paz seja uma palavra até co-
mum, ela não é nesse contexto. Na saudação de Cristo está a promes-
sa de paz cumprida (Jo 14.27; 16.33).
Mas também é o complemento para o “está consumado” da cruz
(Jo 19.30). A paz da reconciliação entre Deus e os homens está consu-
mada pela ressurreição (Rm 5.1; 1 Co 15.17).
Outro detalhe importante dessa primeira cena é que Jesus faz da
sua missão a missão da Igreja.
A centralidade da missão é o perdão, que é resultado da pregação
dos desígnios de Deus, Lei e Evangelho, que promovem o arrependi-
mento e a fé ou a rejeição e a incredulidade; o perdão ou a retenção
dos pecados.
A Igreja não substitui a Cristo, ele continua sendo o enviado, como
o próprio tempo verbal (perfeito) atesta e é também tarefa do Espírito

109
IGREJA LUTERANA

Santo apontar para o Salvador Jesus (Jo 15.26). Ele sempre será o
centro de nossas vidas e da pregação da Igreja.

CENA II: Jo 20.24-25

Tomé é bem exigente. Ele quer um sinal palpável e provas concretas.


É necessário contar com o fato de que os discípulos estavam sob o
impacto da tragédia da crucificação. Lucas fala que os discípulos esta-
vam assustados e com medo, em admiração e alegria, por isso nin-
guém deles parece ter crido num primeiro momento (Lc 24.36-43).

CENA III: Jo 20.26-29

Compassivamente, Jesus atende aos anseios de Tomé e remove


tudo o que pode atrapalhar o seu crer.
Jesus se apresenta como ele quer ser reconhecido, com as marcas
da cruz. Ele aponta para as marcas da cruz, pois lá ele esteve mais
próximo de cada um de nós, no pecado e no sofrimento. Ele veio como
ressuscitado, mas com as marcas e cicatrizes que proporcionaram a
paz e todas as bênçãos que dela decorrem.
“Senhor meu, Deus meu!” O mais cético dos discípulos fez uma con-
fissão pessoal, mas a mais significativa e profunda possível.
E Jesus antevê o tempo em que não haverá mais esse tipo de evi-
dências palpáveis e que a proclamação das boas novas é que vai gerar
confissões como a de Tomé, além de vida e fé no Cristo ressuscitado.
Cristo fala então que estes cristãos serão mais bem-aventurados,
porque não viram e creram. Pedro expande esse pensamento e fala
da preciosa fé de olhos que não viram, mas amam, não vêem, mas
crêem (1 Pe 1.7-9).
Isso poderia ser ilustrado por um texto de um rabino judaico que,
em 250 A.D., escreveu: “O prosélito é mais querido a Deus do que todos
os israelitas que estavam no Monte Sinai”, pois se os israelitas não
tivessem visto todas aquelas manifestações, eles não teriam aceitado a
lei; há, porém, aquele que não enxerga nada disto e é recebido no
Reino de Deus (D. A. Carson, The Gospel According to John, p.660).
Abençoado é Tomé, mas abençoados são os que não tiveram essa
experiência, que lêem e ouvem a seu respeito e chegam à confissão
que ele chegou: “Senhor meu e Deus meu!”

CONCLUSÃO DO CAPÍTULO: Jo 20.30-31

Para pessoas de todos os tempos chegarem a essa confissão é

110
VER OU OUVIR?

que esse evangelho foi escrito. Descreve os sinais de Jesus, desde a


água transformada em vinho (Jo 2.1-11), até o maior de todos os si-
nais, a cruz e a crucificação de Cristo e agora também a sua ressurrei-
ção.
O v. 31 é tanto o resumo do objetivo do livro bem como da verdade
cristã. Jesus Cristo é o Filho de Deus. Crer nele é receber a vida, o
sopro da vida espiritual através do Espírito Santo, e tudo foi escrito
para que se creia nessa verdade.
Uma discussão gira em torno da forma verbal do verbo crer. Pre-
sente do subjuntivo ou aoristo, para continuarem a crer ou que ve-
nham a crer. Parece que o detalhe é significativo, mas tão pequeno,
que é possível dizer também a partir disso que esse evangelho carre-
ga tanto o alvo evangelístico como o fortalecimento e o conforto da-
queles que já são cristãos.

ENSINO – REFLEXÃO PRINCIPAL

Dentre os vários ensinamentos deste evangelho, quero destacar


um em especial. O ver e/ou o ouvir para chegar-se à fé e também ser
fortalecido nela.
Isso me parece ser de grande valor, visto a grande importância que
se dá para o ver. É quase um instinto natural a preferência pelo ver
para se chegar e continuar na fé.
Mas parece que não é isso que o evangelho de João mostra. A
maioria das pessoas de fato passou a crer muito mais pelo que ouviu
do que pelo que viu.
João viu a Jesus, reconheceu-o como o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo, mas só o confessou como Filho de Deus quando ele
“lhe disse” (Jo 1.31,33).
João apontou o Cordeiro para dois indivíduos, mas eles, ouvindo,
seguiram a Jesus e se tornaram seus discípulos (Jo 1.36-37,40).
André levou seu irmão a Jesus, falando-lhe a respeito dele (Jo 1.40).
Filipe ouviu Jesus dizer: “Segue-me”! (Jo 1.43) e este, por sua vez,
chamou Natanael que não acreditou e mesmo com o pedido “vem e
vê”, ele passou a crer quando ouviu Jesus (Jo 1.47).
É verdade que o sinal de Caná de Galiléia foi um marco funda-
mental visível para a fé dos discípulos (Jo 2.11) e que o discípulo
amado, ao entrar no túmulo, viu e creu (Jo 20.8), mas a ênfase no
crer pelo ouvir aparece muito claramente ainda em outros tantos
exemplos.
Nos samaritanos (Jo 4.39-41-42); no oficial do rei (Jo 4.47,50); no
cego de nascença (9.7), que ouviu e confessou a Jesus enquanto con-

111
IGREJA LUTERANA

versava com ele (9.35-38). Marta, antes de ver seu irmão Lázaro res-
suscitado, confessou sua fé (Jo 11.25-27).
Em contraste a esses exemplos, houve complicações com aqueles
que colocavam o seu crer sob a condição de algum sinal visível.
Nicodemos (Jo 3.1-9); o paralítico que esperava pela água se mover,
que foi curado por Jesus, mas que não sabia quem era Jesus. As mul-
tidões que viram a multiplicação dos pães (Jo 6), também não compre-
enderam e Jesus as exortou e censurou.
Esse modelo de crer pelo ouvir também pode ser visto na própria
ressurreição de Jesus.
Quando Maria Madalena viu o túmulo aberto pela primeira vez, ela
simplesmente relatou que o corpo havia sumido (Jo 20.2). Mais tarde
viu dois anjos dentro do túmulo (Jo 20.11-13), mas não se impressio-
nou. Só quando Jesus falou com ela (Jo 20.16-18), ela saiu para anun-
ciar aos discípulos “vi o Senhor”.
Também poderíamos dizer que isto aconteceu com o próprio Tomé.
Sua confissão está, de certa forma, baseada no seu ver, mas muito
provavelmente pelo que havia ouvido dos discípulos um pouco antes,
“vimos o Senhor” (v.25).

APLICAÇÃO/CONCLUSÃO

Você e eu e a maioria dos cristãos de todos os tempos somos bem-


aventurados. Cremos sem ver. Nossa fé é preciosa, amamos a quem
não enxergamos, cremos em quem não vimos.
Jesus Cristo entrou e entra em nossas vidas pelas portas da
Palavra falada. No Batismo, pelo Evangelho proclamado, pela Ceia e
pela mútua consolação entre os irmãos, Jesus fala aos nossos ouvi-
dos.
E quando ele fala, recebemos o perdão, a paz com Deus e todos os
benefícios da cruz. Quando Jesus, o vencedor sobre a morte fala, ele
acalma, tira o medo, dá vida.
Creio que, em questões de fé, Jesus quer que fechemos os nossos
olhos para o que se vê. Como poderiam crer os seus discípulos vendo
seu mestre sendo crucificado e depois sepultado?
Como nós vamos ser consolados, confortados, vendo o sofrimento
em nossas vidas, ao nosso redor, em nossas famílias, na igreja, em
nosso país, no mundo?
Será que a nossa fé pode ser baseada em ver queridos cristãos
sofrendo intensamente no leito do hospital? Ver um mundo cheio de
contradições, violência e injustiças?
Quantas vezes você e eu tivemos que desistir de olhar, para ouvir

112
VER OU OUVIR?

Jesus em sua Palavra nos dizer: calma! “No mundo passais por várias
aflições, mas animem-se, eu venci o mundo” (Jo 16.33).
A missão de Jesus é continuar falando aos nossos ouvidos para
nos transmitir a paz, a calma e a segurança; e a missão da igreja é
continuar ecoando sua voz pelo Batismo, Evangelho e Ceia, para pro-
clamar a paz que só ele pode dar, tirar o medo, acalmar corações e
devolver a esperança às pessoas. E assim creio que sempre será.
Amém.

Mensagem proferida pelo professor Anselmo Graff


na devoção do Seminário Concórdia em 18 de abril de 2007.

113
IGREJA LUTERANA

114
JESUS, O CENTRO
Talvez nunca a espiritualidade esteve em tão alta evidência como
em nossos dias. As igrejas talvez não sejam as mais procuradas, mas
o impulso para buscar uma comunhão com Deus de alguma forma tem
crescido. Quantas vezes se ouve as pessoas dizerem: “Sou uma pes-
soa espiritual, mas não sou religiosa”. Um artigo recente na revista
americana Newsweek confirma esse fato. O autor do artigo comenta
que, conforme a pesquisa, os americanos estão buscando por uma
mais profunda e imediata experiência pessoal com Deus. Em outras
palavras, “se você sente Deus dentro de si, então o problema principal
está resolvido: o resto é detalhe”. Segundo ele, as pessoas procuram
por uma religião que lhes dê poder e que resolva seus problemas ime-
diatos.
No Brasil, neste mês de junho, a espiritualidade tem sido bastante
significativa. Junho é um mês de celebração de vários santos: Santo
Antônio, São José, São João Batista, São Pedro e São Paulo, para ficar
nos mais populares. Cada um deles atende a um setor da vida dos
seus devotos. Pode se notar que a espiritualidade hoje tende a ser
bastante fragmentada, direcionada, beirando o politeísmo. E todo
politeísmo é uma projeção do que nós imaginamos sobre Deus.
Será que nós também não corremos o risco de sermos idólatras?
Não é assim, por exemplo, que:
Quando estou triste, quero um Jesus que me faça feliz;
Quando perco meu emprego, quero um Jesus que me ajude a achar
outro;
Quando estou doente, quero um Jesus que me ajude a ficar bom;
Quando anseio ver o meu time campeão, quero um Jesus que faça
milagre, como escreveu Martha Medeiros na sua coluna no jornal de
hoje de manhã (Zero Hora, 20 de junho)?
Em cada uma dessas situações, Jesus parece que vem em segundo
lugar; em primeiro lugar venho eu com as minhas necessidades. Para
enquadrar Jesus nesse meu esquema, eu fragmento Jesus e escolho o
ângulo certo de Jesus para resolver o MEU problema. Lutero, no seu
Catecismo Maior, ousa afirmar que é a nossa fé que cria deuses falsos.
O que é essencial para a nossa espiritualidade? O menino estava
num barco a passeio em alto mar. Por um descuido, ele resvalou e caiu
ao mar. Vendo-o, um marinheiro se lança ao mar e o salva. Dois dias
depois a mãe do menino vai ao capitão do barco para saber qual o
marinheiro que havia salvado o seu filho. Ao encontrar o marinheiro
que resgatara o seu filho, ela lhe pergunta: “Onde está o boné do meu

115
IGREJA LUTERANA

filho?” Nós muitas vezes enfocamos o aspecto errado. Centramos as


coisas em nós mesmos, nos nossos bonés, não na nossa salvação.
Dos cinco santos antes mencionados, o mais popular é João Batis-
ta, cuja festa está sendo celebrada esta semana. A festa requer que
se pise descalço em brasas para se provar a fé (seja qual for) e rece-
ber alguma graça/proteção especial. Mas não é esta a mensagem de
João Batista, o bíblico. Ele mesmo não concede graça nenhuma. Ele é
santo como nós o somos pelo batismo. O que João Batista faz é anun-
ciar Aquele que é o Santo, mas que se apresenta como o Cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo.
Ao falar sobre o Cordeiro de Deus, João está apontando para Jesus
como aquele cujo sangue me perdoa os pecados, cujo sangue me con-
cede bênçãos as quais nenhuma mereço, cujo sangue me torna verda-
deiramente espiritual. Na verdade, o centro da nossa vida não sou eu,
não somos nós, mas Jesus Cristo – o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo. Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, é o centro tam-
bém da nossa espiritualidade. Essa é a essência. Isto resolvido – e
efetivamente o é pelo batismo -, todas as demais coisas nos serão
acrescentadas. Sem medo e sem temor. Digno é esse Cordeiro de todo
o louvor.

Devoção proferida pelo Prof. Dr. Acir Raymann


na capela da ULBRA no dia 20 de junho de 2007.

116
OS HUMILDES SÃO ENGRANDECIDOS
Lucas 14.1a, 7-11

Quando a gente vai a um lugar público, onde é que a gente senta?


Quem vai a um show, normalmente gosta de ficar perto do palco. Quem
vai a um estádio, gosta de ficar perto do centro do campo. Quem vai ao
cinema não gosta de ficar muito perto da tela. E quem vai à igreja,
gosta de sentar em que lugar?
Normalmente sentamos onde sempre sentamos. Alguns gostam de
sentar no meio, outros chegam cedo para não perder o lugar no último
banco. (Se os bancos da frente fossem estofados, quem sabe mais
gente sentaria bem aqui na frente ...) E quem vai a uma festa de casa-
mento, onde é que senta? A rigor, a gente cuida para não sentar à
mesa dos noivos. No mais, a gente escolhe um lugar e senta. Isto
quando os lugares não estão marcados, com um cartão ao lado do
prato indicando quem deve sentar ali, o que facilita as coisas, mas só
funciona quando se sabe que só aqueles convidados no papel vão
aparecer ...
Pois Jesus foi convidado para jantar na casa de um fariseu. Isto a
princípio nos surpreende. Não o fato em si, isto é, que Jesus estivesse
jantando na casa dos outros, pois isto era comum. Quem não lembra
que ele esteve no casamento em Caná da Galiléia? E no Evangelho de
Lucas existem nove histórias em que Jesus participa de uma refeição.
Três delas aconteceram na casa de fariseus (Lc 7, Lc 11, Lc 14). E aí
está a surpresa: Jesus na casa de fariseus. O amigo de pecadores e
publicanos é também o amigo de fariseus, por mais que Jesus tenha
palavras de severa advertência para eles (limpam o exterior do copo,
mas não notam o que tem dentro, etc.).
Na casa do fariseu, naquele sábado, depois do culto na sinagoga
(não diz em que cidade de Israel), Jesus observou o que normalmente
acontece quando as pessoas vão sentar em lugares públicos. Todos
procuram o melhor lugar. Naquela sala de jantar, os melhores lugares
eram perto do dono da casa. Seria mais ou menos como ficar do lado
ou atrás – feito papagaio de pirata – da pessoa que está sendo entre-
vistada ao vivo pela televisão. É a chance de aparecer! Todos procu-
ram o melhor lugar. Todos querem estar no palanque. Todos queremos
parecer importantes, todos queremos ficar perto dos famosos.
Até parece que Jesus ficou parado, enquanto todos os outros con-
vidados foram correndo e se atropelando para sentar perto do dono
da casa. Talvez até tenha acontecido que, sendo Jesus o convidado

117
IGREJA LUTERANA

mais ilustre (o Mestre, tendo sido, talvez, o pregador na sinagoga), o


dono da casa teve que pedir a alguém que tinha se instalado do seu
lado que cedesse o lugar para Jesus! Seja como for, Jesus aproveitou
a oportunidade para contar uma parábola:
- Quando alguém convidá-lo para uma festa de casamento, não
sente no melhor lugar. Porque pode ser que alguém mais importante
tenha sido convidado. Então quem convidou você e o outro poderá
dizer a você: “Dê esse lugar para este aqui”. Aí você ficará envergo-
nhado e terá de sentar-se no último lugar. Pelo contrário, quando você
for convidado, sente-se no último lugar. Assim quem o convidou vai
dizer a você: “Meu amigo, venha sentar-se aqui num lugar melhor”. E
isso será uma grande honra para você diante de todos os convidados.
Porque quem se engrandece será humilhado, mas quem se humilha
será engrandecido.
Isso parece uma simples lição de boas maneiras ou etiqueta de
jantar, semelhante a “não fale com a boca cheia”. Mas não é. Tam-
bém não é um texto que dá razão àqueles que gostam de sentar no
fundo da igreja (“olha, Jesus mandou sentar no último lugar”), por-
que, em nosso caso, dos luteranos, como ninguém gosta de sentar
aqui na frente, o último lugar seria, de fato, aqui na frente, e não lá
no fundo. Antes de tudo, o que Jesus disse é uma parábola. Ou
seja, tem uma lição mais profunda ou, se preferir, mais elevada. Isto
se confirma com a observação de que Jesus não fala de um jantar,
mas de uma festa de casamento (e muitas vezes o reino de Deus é
comparado a bodas ou a uma festa de casamento). E, por fim, as
palavras do v. 11 – quem se engrandece será humilhado, mas quem
se humilha será engrandecido – não têm nada a ver com etiqueta
social. (Jesus não está propondo uma falsa humildade, um bancar o
humilde porque se tem a certeza de que, um pouco adiante, a gente
vai ser honrado em público, tipo, talvez, o prefeito chegar para um
almoço no salão da igreja e ficar escondido lá na cozinha até que
alguém vá chamá-lo e o apresente em público com um longo discur-
so. No final ele poderia, talvez, dizer que se orgulha de sua humil-
dade ...).
Dito de outra forma, aqui Jesus tem uma lição a respeito do reino
de Deus. E se falamos do reino de Deus, de imediato temos que falar
de Jesus. Não existe reino de Deus sem ele. E como essa parábola se
aplica a Jesus?
Da seguinte forma: Na festa de casamento do reino de Deus, o
convidado mais importante é Jesus. Ele é o Filho. Ele é o Noivo. O lugar
de honra é dele. Ele poderia ter entrado na sala e dito alto e bom som:
“Eu sou o mais importante aqui. O lugar de honra é meu. Depois que

118
OS HUMILDES SÃO ENGRANDECIDOS

eu sentei, os lugares que sobrarem são de vocês. E não cheguem


muito perto. Eu posso até mandar todo mundo sair ...”
Mas ele não fez isto. Ele foi se colocar no último lugar. Mais do que
isso: ele foi expulso da sala! É isso que diz Filipenses 2: “Ele tinha a
natureza de Deus, mas ... abriu mão de tudo o que era seu e tomou a
natureza de servo ... ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte –
morte de cruz”. Que lugar poderia ser mais último lugar do que este?
Mas o Pai disse para ele: “Meu amigo, Filho, venha sentar-se aqui
num lugar melhor”. Deus não o deixou na morte. Deus o ressuscitou.
Ele “deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é o mais
importante de todos os nomes (o nome de SENHOR), para que, em
homenagem ao nome de Jesus, todas as criaturas no céu, na terra e
debaixo da terra caiam de joelhos e declarem abertamente que Jesus
Cristo é o Senhor, para a glória de Deus, o Pai”.
A parábola se aplica também a nós todos. Se achamos que esta-
mos com tudo e que o lugar de honra é nosso, podemos nos dar mal.
Com Deus, as coisas não são do jeito que são entre nós. Deus enche
de bens os famintos e despede vazios os ricos. Deus é livre para virar
a mesa ou começar a fila na outra ponta. Os últimos serão os primei-
ros, e os primeiros serão os últimos. Os que chegaram primeiro vão ser
atendidos por último e os que chegaram por fim vão ser atendidos
primeiro. (Não tente isso na fila de atendimento do SUS!). Quem se
engrandece será humilhado e quem se humilha será engrandecido.
Quem acha que está com a bola toda, fica no banco de reservas; pior,
nem é relacionado. Quem nem trouxe o fardamento, vai sair jogando.
Assim é o Reino. Quem quer entrar por esforço próprio, construir sua
própria escada, vai ver que não tem entrada por aquele lado. O único
caminho é o caminho da humilhação.
Como assim: o caminho da humilhação? Na verdade, nós já fomos
humilhados. No batismo, nós fomos crucificados com Cristo Jesus. Fo-
mos expulsos da sala. Mas Deus também nos deu nova vida, no batis-
mo, pela fé. Em Jesus, fomos exaltados. Esta é nossa honra, nossa
glória. A exaltação de Cristo é, também, a nossa exaltação.
Por isso, agora podemos ser humildes. A rigor, só uma pessoa grande
pode se fazer pequena. (Todos os demais são atrevidos e petulantes).
Sabendo que a gente nem merecia o convite de fazer parte da festa
do Reino de Deus, a gente nem pergunta “Onde é que eu sento?”, mas
confessa “Desventurado homem que sou!” (Rm 7.24). Tem gente que
pergunta, por exemplo, a respeito de graus de glória e discute o as-
sunto. É que a Bíblia, aqui e ali, dá a entender que haveria lugares
especiais no céu. Tenho para mim que isso é mais ou menos como ir a
um espetáculo muito concorrido: o que interessa não é onde você sen-

119
IGREJA LUTERANA

ta, mas que você conseguiu entrar! (Isso é como ter que viajar de
última hora: não interessa onde a gente senta; o que importa é que
conseguiu lugar para viajar...) Ou, como aprendemos de outra parábo-
la de Jesus (Mt 20), o que realmente importa é ter recebido o convite
para trabalhar na vinha; esta é a recompensa. O resto é orgulho ou
pensamentos de seres humanos, que não são os pensamentos de
Deus.
Recebemos um convite e um lugar para sentar à mesa do banquete
de Deus. Deus pediu que sentássemos num lugar melhor, perto dele.
Ele nos chama de amigos. O dono da casa nos exalta quando encon-
tramos exaltação em nosso Salvador. Honra não se conquista à força;
honra se recebe. Para nós, essa honra é dada em Cristo. Somos co-
nectados com a humilhação e a exaltação de Cristo. E esta é a verda-
deira humilhação, e a verdadeira exaltação.

Mensagem proferida pelo Prof. Dr. Vilson Scholz na congregação


Sião de Santo Ângelo, RS, em setembro de 2007.

120
QUANTO CUSTA SER
DISCÍPULO DE JESUS?
Lucas 14.25-33

Na quarta-feira tivemos uma reunião do DAMAL (Diretório Acadêmi-


co Martinho Lutero) e todos estávamos preocupados com o baixo nú-
mero de inscrições para este Encontro. E o argumento era de que o
valor da inscrição estava muito alto. Alguns sugeriram que a camiseta
incluída na pasta estava encarecendo. Outros argumentaram que há
um distrito da IELB que está por fazer também um encontro em que a
camiseta não está sendo parte da inscrição e mesmo assim ela é mais
cara do que a nossa. Por isso, que bom que vocês vieram. Até pode
ser um pouco caro, mas vale o preço.
Custos! Sempre pensamos em custos. Quanto custa ser discípulo
de Jesus?
Na verdade, o preço é chocante. Ser seguidor de Jesus, diz ele,
implica eventualmente aborrecer pai, mãe, filhos, filhas, irmãos, irmãs
e a si mesmo. E não há nada a indicar que Jesus esteja brincando de
sorte que possamos abrandar a dureza destas palavras.
E então ficamos confusos. Este não é o Jesus de quem ouvimos
falar na escola dominical e na instrução de confirmandos. Não é o Je-
sus que conhecemos e amamos - o meigo e doce Jesus de infinita
paciência, bondade, compaixão e amor. Normalmente Ele diz: “Vinde a
mim!”. Mas no evangelho de hoje Ele fala: “Se alguém vem a mim e não
aborrece a sua família e a si mesmo não pode ser meu discípulo”.
Com certeza alguns de nós se lembram de quando éramos criança
e a gente hesitava em contar para a mãe que estava sentindo um mal-
estar, com febre e dor de garganta. A gente sofria, mas não contava.
Não era porque não queríamos ser aliviados da dor. Não. Sabíamos
que a mãe iria fazer de tudo para nos trazer alívio. Não queríamos nos
queixar a ela porque havia o risco de na manhã seguinte ela nos pegar
pela mão e nos levar ao médico. E nós já sabíamos o que poderia
acontecer: ele mediria a nossa febre, olharia a garganta, examinaria
outras partes, faria algumas anotações e chamaria a sua assistente
para nos aplicar uma injeção. E antes de deixarmos o consultório ele
ainda nos faria algumas perguntas embaraçosas e nos recomendaria
que mudássemos nosso estilo de vida, que fôssemos dormir mais cedo,
que vestíssemos um moletom ao sair de casa e tomássemos banho
com mais freqüência porque a última vez foi há duas semanas. É assim

121
IGREJA LUTERANA

com os médicos: se a gente dá um dedo, eles querem a mão toda. O


ponto é este: a gente não recebia o que queria da mãe, que era alívio
para o nosso mal-estar, sem também receber o que não queríamos –
uma possível visita ao médico.
Mais ou menos assim é a nossa relação com Deus. Se lhe dermos
um dedo, ele quer a nossa mão toda. Se pedimos para que nos cure
de alguma enfermidade ou de um mau hábito qualquer, ele o fará. Mas
Deus não pára por aí. Ele nos fará um check-up geral e o tratamento
pode ser dolorido.
O nosso texto é uma daquelas passagens na Bíblia que parecem
fazer o cristianismo soar difícil. Jesus estava subindo para Jerusalém.
Ora, no evangelho de Lucas subir a Jerusalém quer dizer que ele esta-
va também subindo para a cruz. O que queria a multidão? Estava se-
guindo o caminho de Jesus, ou um caminho paralelo? A multidão havia
visto Jesus curar várias pessoas, ressuscitar a filha de Jairo, fazer a
multiplicação de pães e peixes e, como vimos no domingo passado,
curar um hidrópico. Não seria isso o que a multidão buscava? Um Jesus
que resolvesse os seus problemas imediatos? Talvez. Mas é possível
também que muitos deles quisessem ser discípulos de Jesus. Mais ou
menos como vir a este Encontrão, gostar e depois voltar aqui para
estudar teologia. Mas o que Jesus quer dizer quando afirma que deve-
mos aborrecer nossos pais, filhos, aborrecer nosso irmão ou irmã (às
vezes dá vontade!)? Será que Jesus está insinuando a desunião da
família, separação de casais, promoção da violência doméstica? É claro
que Jesus não está querendo isso. Mas ele quer dizer, sim, que se a
situação chegar a tal ponto em que eu precise tomar uma decisão
entre seguir a Ele ou seguir a minha família, devemos optar por Ele. É
evidente que isso não é fácil.
Aqui mesmo, neste auditório, há uns quatro anos atrás, estava um
homem que nos deu uma palestra e que teve de tomar essa decisão
em sua vida. Um dia ele ouviu falar de Jesus por meio de um pastor
luterano. E ele foi convertido. Ele era judeu. Mas a sua família não
queria que ele abraçasse o cristianismo. O relacionamento ficou com-
prometido. Hoje esse judeu-cristão chamado Steve Cohen lidera um
movimento missionário nos USA para levar o evangelho de Jesus Cris-
to também aos judeus, porque Cristo é para todos. Alguns que estão
nessa sala receberam dele um e-mail sobre essa missão na semana
passada.
Por graça divina, a maioria de nós que aqui está foi poupada desta
decisão. Mas o que é marcante nestas palavras de Jesus é que se não
permitimos que motivos sérios como laços familiares interfiram no nos-
so seguir a Jesus, é preciso também que não permitamos que outros

122
QUANTO CUSTA SER DISCÍPULO DE JESUS?

motivos como desejos, ganância ou sucesso também interfiram. E este


é um desafio que todos nós, no transcorrer da vida, estaremos enfren-
tando – não há como fugir.
Quanto custa ser discípulo de Jesus? Para entornar mais o caldo,
Jesus diz ainda mais uma coisa: “Qualquer que não tomar a sua cruz e
vier após mim não pode ser meu discípulo”. Num sentido popular, a
cruz é qualquer coisa que nos causa problema como uma enfermidade
ou doença. Mas tomar a cruz, no sentido específico, é seguir com Jesus
para Jerusalém, a caminho da cruz. Cruz é aquele tipo de problema ou
dificuldade que sofremos precisamente porque somos cristãos. Por
exemplo, quando somos ridicularizados por causa de um comporta-
mento cristão, perdemos o emprego porque seguimos princípios cris-
tãos, somos ameaçados porque falamos de Jesus onde é proibido fa-
lar. Cruz e cristianismo estão conectados como energia e juventude,
como pastor e culto, como amor e casamento.
Para concluir, Jesus conta duas histórias. Uma é sobre um homem
que pretende construir uma torre. Jesus adverte para que faça as con-
tas antes de começar a construção para que, se não conseguir termi-
ná-la, passe a ser objeto de gozação. A outra história é sobre um rei
que possui um exército de 10 mil soldados e que pretende guerrear
contra um rei que possui um exército duas vezes maior. Jesus adverte
para que ele primeiro se sente e faça as contas. O ponto nestas duas
histórias é avaliar o preço do discipulado e qual a sua implicação.
Você vai perguntar: será que com estas duas histórias Jesus não
está desencorajando o discipulado? Não. Se existe alguma verdade
bem clara na Escritura é o fato que Jesus quer que sejamos seus dis-
cípulos. Mais: ele quer que aquela torre seja construída e que aquele
inimigo seja vencido. É por isso que ele nasceu, morreu e ressuscitou.
Mas Jesus deixa claro que ser um discípulo dele significa muito mais do
que ser membro de um grupo chamado “comunidade”. Na verdade, ser
discípulo dele significa viver uma vida 100% sob a influência de Deus.
Deus não quer um dedo apenas, nem apenas a mão. Ele quer tudo de
nós. É o que Jesus diz no v. 33: “Aquele que não renuncia a tudo o que
tem ... não pode ser meu discípulo”.
Mas você vai dizer: tudo bem, mas este mundo é um lugar bom
para se viver. Certamente que é. A maioria de vocês que aqui está,
quem sabe, vai viver mais 60 ou 70 anos. E como aqueles que já pas-
saram por essa fase, vocês dirão que é possível desfrutar tudo o que
o mundo oferece e o céu também. Mas Jesus em nosso texto faz a
advertência. E, de repente, nos sentimos desencorajados e clamamos:
“Senhor, não posso construir aquela torre, porque descobrimos que
ela é o Reino de Deus e o Reino de Deus não pode ser construído por

123
IGREJA LUTERANA

mim. Não podemos vencer aquele inimigo, pois ele é duas vezes mais
forte do que nós e descobrimos que ele se chama Satanás. Não cons-
truímos o Reino de Deus nem podemos vencer Satanás. Por fim, temos
que admitir: “Senhor, eu não posso! Tu deves assumir!”. E é exata-
mente isso que Deus quer que façamos: que ele assuma por meio de
Jesus Cristo. Exatamente porque não podemos. Isso é discipulado.
Quanto custa ser discípulo de Jesus?
Na semana passada, o terrorista Osama Bin Laden apareceu na TV
de maneira ameaçadora. Mas ao mesmo tempo deixou um convite:
“Abracem o islamismo”, disse ele. Abraçar o islamismo é mudar de
Deus. Se a sua família o obrigasse a fazer isso, você teria de tomar
uma decisão. Ela não é uma decisão emocional, afetiva: você pode
continuar amando a sua família, mas haveria um rompimento de ordem
espiritual: nada há mais importante do que a família, mas há Alguém
mais importante: Jesus Cristo.
Irmãos e irmãs:
Juntar-se aos que seguem a Jesus é juntar-se a um grupo que tem
identidade própria, diferente e que, por assim dizer, usa um uniforme.
Não é uma camiseta. Mas é um manto, o manto branco da justiça de
Cristo e que custou muito caro. Foi lavado com o seu sangue. Mas para
nós não custa nada. É de graça pelo batismo. Vestidos com este man-
to, podemos continuar firmes seguindo a Jesus. Com este manto po-
demos comparecer diante de Deus para o grande Encontro, a maior
festa, a grande ceia e um luau que ele mesmo preparou. Tem preço?
Mas estar um dia com Jesus e desfrutar a sua presença eternamente -
bem, isto não tem preço.

Sermão proferido pelo Prof. Dr. Acir Raymann


no Encontro de Jovens Luteranos ocorrido
no Seminário Concórdia no dia 15 de setembro de 2007.

124
DÍVIDAS
Filemom 1.10-21

Caros irmãos e irmãs em Cristo Jesus!


A maioria das pessoas parece não gostar de ter dívidas. Alguns
até mesmo perdem o sono quando têm dívidas difíceis de serem pa-
gas. Outras pessoas, para não terem que se preocupar com dívidas,
as evitam a todo custo e só compram coisas quando têm dinheiro para
isso.
Será que é realmente possível escapar de dívidas? Você, por exem-
plo, tem dívidas? Nosso texto de hoje fala de dívidas. Na verdade, de
mais do que um tipo de dívida. Vamos recapitulá-lo um pouco e verifi-
car de que dívidas se fala ali.
O apóstolo Paulo estava preso em Roma. Na verdade, ele estava
em prisão domiciliar como lemos em Atos 28.30: “Por dois anos perma-
neceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia a todos
que o procuravam”. Um dia, ele foi procurado por uma figura, diríamos,
no mínimo suspeita: um escravo fugitivo chamado Onésimo. Ao que
tudo indica, além de fugir de seu senhor Filemom, ele também havia
forrado os bolsos para a viagem com bens pertencentes a seu patrão.
De alguma maneira ele chegou a Roma, e de alguma forma ele entrou
em contato com Paulo. Este deve tê-lo recebido muito bem porque
Onésimo acabou sendo convertido e Paulo ficou muito ligado a ele.
Onésimo passou a servir Paulo, ajudando-o de diversas maneiras.
Finalmente, agora que ele era uma nova criatura em Cristo, ele estava
fazendo jus a seu nome. Pois Onésimo significa “útil”, e ele estava
sendo muito útil a Paulo.
O apóstolo, então, escreve uma carta a Filemom. Ele envia Onési-
mo de volta ao seu antigo dono e o torna portador da carta ao mes-
mo. Nesta breve carta, encontramos um maravilhoso resumo da nova
vida que segue à conversão. Toda a vida do cristão adquire um novo
significado. Todo o seu relacionamento para com Deus e para com as
pessoas a sua volta se transforma. As coisas antigas passaram ...
tudo se fez novo. Ou, então, como o próprio apóstolo resume sua
nova vida: “para mim o viver é Cristo”.
Mas, comecemos do início. Toda esta história começa com uma gran-
de dívida. Paulo, Filemom, Onésimo, eu, você, todas as pessoas de
todos os tempos têm essa dívida. É essa dívida que reconhecemos
toda vez que oramos o Pai Nosso. Podemos tentar negar, esquecer,

125
IGREJA LUTERANA

disfarçar essa dívida. Mas, ela não nos deixa em paz. Nossa consciên-
cia sempre de novo volta a nos acusar: você está em dívida para com
Deus, você é culpado. E a lei é clara: “o pecado deve receber a punição
condizente com a sua culpa”. Só que esta mesma lei nos revela tam-
bém que nossa dívida é impagável. Nenhum esforço nosso, nenhuma
boa intenção, nem uma vida inteira de sofrimento e flagelação são
capazes de nos livrar de nossa culpa e pagar nossa dívida para com
Deus. O resultado disso só pode ser uma vida de desespero, de fuga e
negação de Deus, de fuga da própria realidade procurando ocupações
e distrações que permitam pelo menos o esquecimento temporário da
terrível verdade.
Mas, inesperadamente e contra todas as expectativas, o ser hu-
mano recebe uma boa notícia: “Você foi salvo! Sua dívida foi paga!”
Jesus Cristo pegou sua conta e a pagou inteiramente em seu lugar. O
preço que ele pagou pela sua dívida e a de todos os seres humanos foi
altíssimo — custou sua própria vida.
Você agora está livre, completamente livre. Não deve mais nada a
Deus. Não é mais escravo do diabo e do pecado. Não precisa mais
acreditar nas falsas acusações do diabo e de sua própria consciência.
Você recebeu, de graça, de presente, uma nova vida, cheia de novas
oportunidades. Você pode parar de fugir de Deus e pode voltar a ele
como um filho pródigo, sabendo que ele é o Pai amoroso que está
aguardando de braços abertos para recebê-lo de volta ao lar com uma
grande festa de boas-vindas.
Esta boa notícia chegou até um perseguidor implacável dos cris-
tãos chamado Saulo e o transformou no apóstolo Paulo. Este levou a
boa notícia a Filemom, que também a aceitou com alegria e, assim, se
tornou um companheiro e um irmão na fé do apóstolo. Agora, na pri-
são, Paulo teve a oportunidade de compartilhar a boa notícia com Oné-
simo, “gerando-o entre algemas”.
Sim, algemas materiais podem ainda prender seu corpo e cercear
seus movimentos. Mas, ele estava livre definitivamente da pior escra-
vidão — das algemas espirituais. Por isso, mesmo preso fisicamente,
ele estava verdadeiramente livre para servir a Cristo.
A carta de Paulo a Filemom permite que observemos de perto que
significado a nova vida em Cristo, que cada um deles recebeu, terá no
relacionamento entre esses três homens.
A primeira conseqüência bem evidente no texto é a grande consi-
deração que Paulo demonstra por ambos, Filemom e Onésimo. Ambos
são irmãos amados e caríssimos em Cristo. A condição social dos
envolvidos — o fato de um ser um rico senhor e o outro um pobre
escravo — não afeta esse relacionamento em Cristo. O que eles têm

126
DÍVIDAS

em comum é muito mais importante e significativo: eles foram alvos do


mesmo amor sacrificial e perdoador de Jesus Cristo. Eles receberam a
mesma graça e a mesma nova vida em Cristo. E, sim, eles têm mais
uma coisa em comum: todos eles têm uma dívida de amor para com
Cristo.
É por causa desta dívida de amor para com Cristo que Paulo está
preso em Roma. Foi por sentir que era seu dever anunciar o evange-
lho, ou que ele era “devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a
sábios como a ignorantes” que ele acabou sendo perseguido como
seu Mestre e finalmente preso. Essa nova dívida não muda sua rela-
ção para com Deus, ela não soma créditos para a salvação, mas ela é
fruto da salvação já recebida. A dívida de gratidão de Paulo é reflexo
da consciência do grande amor com o qual Deus o amou em Cristo. Ele
pode concordar inteiramente com seu colega apóstolo João de que
nós amamos a Deus porque ele nos amou primeiro.
A dívida de amor leva Paulo a se tornar um “pequeno Cristo” em
relação a Onésimo. Ele se empenha por ele, intercede por ele junto a
Filemom para que não seja mais tratado como escravo mas, agora,
como um irmão caríssimo, e Paulo assume, inclusive, a eventual dívida
de Onésimo para com Filemom: “E se algum dano te fez, ou se te deve
alguma cousa, lança tudo em minha conta. Eu, Paulo, de próprio pu-
nho, o escrevo: Eu pagarei” (vv. 18-19).
O apóstolo Paulo não se constrange em apontar a Filemom que ele
também tem essa mesma dívida de amor. Paulo diz a Filemom: “tu me
deves a ti mesmo”. Como assim? Uma vez que Filemom chegou à fé por
intermédio da pregação de Paulo, ele, por assim dizer, deve sua nova
existência cristã ao apóstolo. E Paulo vai além: ele dá indicações claras
de como ele gostaria que Filemom demonstrasse o fruto de gratidão.
Diz ele no v. 13 com respeito a Onésimo: “Eu queria conservá-lo comi-
go mesmo para, em teu lugar, me servir nas algemas que carrego por
causa do evangelho”. É desta forma que Onésimo, que antes era inútil
para Filemom, se pode agora tornar “útil” como seu nome diz, ou seja,
ele pode prestar a Paulo o serviço que o próprio Filemom gostaria de
lhe prestar, mas que não se vê em condições de lhe prestar pessoal-
mente. Mas, embora Paulo indique a Filemom o que espera dele no
serviço a Cristo, ele não lhe prescreve, nem impõe nada. O fruto da fé
deve brotar espontaneamente, por gratidão e amor e, por isso, Paulo
continua no v. 14: “nada, porém, quis fazer sem o teu consentimento,
para que a tua bondade não venha a ser como que por obrigação, mas
de livre vontade”.
E isso ainda pode e precisa ser assim na igreja hoje em dia. Se
esperamos que os cristãos se engajem com serviço e ofertas no traba-

127
IGREJA LUTERANA

lho do reino de Deus, precisamos informá-los das necessidades e opor-


tunidades de serviço e motivá-los com a graça de Deus, assim como
Paulo o faz aqui em relação a Filemom.
Eu e você também fomos trazidos de volta para a família do Pai
celeste. Por meio da palavra e do sacramento do Santo Batismo fomos
reintegrados nessa bendita família. Recebemos todas as bênçãos da
nova vida em Cristo. Como podemos retribuir um amor tão grande e
imerecido? É claro que jamais poderemos retribuir ou pagar a nossa
dívida para com Deus. Mas podemos reconhecer nossa dívida de grati-
dão e servir a Cristo na pessoa do nosso próximo da maneira como
nós próprios fomos servidos.
Em primeiro lugar, Deus nos serviu através de nossos “pais em Cris-
to”. Refiro-me às pessoas que foram instrumentos de Deus para nos
levar a Cristo e nos fazer participantes do seu Reino. O pastor que nos
batizou e nos instruiu na fé. Os pais e outras pessoas que nos ensina-
ram em casa. Temos uma dívida de gratidão para com essas pessoas.
Precisamos honrá-las e lhes demonstrar nosso amor concretamente.
Ao mesmo tempo, somos aqui lembrados da sublimidade do minis-
tério pastoral. Talvez vocês já tenham tido a oportunidade de ver, al-
guma vez, a satisfação estampada no rosto de um médico quando ele
ajudou a trazer uma criança ao mundo, ou quando participou de uma
cirurgia bem sucedida, ou conseguiu ajudar uma pessoa a se recupe-
rar de uma doença grave. Da mesma forma, ou até mais, o pastor tem
motivo para ficar feliz quando serve de instrumento para que alguém
renasça em Cristo, quando ensina, corrige e repreende, e quando con-
sola, conforta e cura feridas espirituais.
É bom que o pastor se lembre disso quando sente que não está
fazendo nada de importante no lugar onde está atuando. É importan-
te lembrar que as tarefas que parecem rotineiras, como pregar e en-
sinar o evangelho, batizar, administrar a Santa Ceia são, na verdade,
as coisas mais importantes que existem e que não é necessário e nem
correto procurar injetar vida na igreja por meio de outras coisas que
parecem mais empolgantes e interessantes aos olhos humanos. É no
serviço fiel de conduzir pessoas a Cristo e de ensiná-las a guardar
tudo o que ele nos ordenou que demonstramos nosso amor a Cristo e
que reconhecemos nossa dívida de gratidão para com ele.
Temos muitas outras áreas também, em nossa vida diária, em que
podemos demonstrar nossa gratidão a Cristo por meio do serviço ao
próximo. De uma delas somos lembrados na segunda parte da petição
do Pai Nosso já mencionada. Dizemos “Perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”. Filemom
foi convidado e incentivado por Paulo a perdoar a falta de Onésimo.

128
DÍVIDAS

Quantos Onésimos que precisam de nosso perdão temos em nossa


vida? E quantos Onésimos conhecemos que podemos defender e pe-
los quais podemos interceder junto a outros?
Em resumo: oportunidades para demonstrar nossa gratidão a Cris-
to não faltam na vida de nenhum cristão. Graças a Deus estamos livres
para servir com alegria. Amém.

Mensagem proferida pelo Prof. Dr. Paulo Wille Buss na devoção


do Seminário Concórdia do dia 18 de setembro de 2007.

129
IGREJA LUTERANA

130
SANTIFICA-OS COM
A TUA PALAVRA DA VERDADE
João 17.17

“Santifica-os na tua verdade. A tua palavra é a verdade”.


Sempre que ouço essas palavras de João 17.17, faço uma viagem
no tempo, para uns 40 e tantos anos atrás, quando éramos confir-
mandos, e, naquelas tardes quentes de domingo, estávamos na igre-
ja cantando a liturgia. Seguíamos a assim chamada Antiga Ordem do
Culto Principal, que hoje até já foi aposentada. Bem no começo do
culto vinha uma antífona (um confirmando não tinha a mínima idéia do
que poderia ser uma antífona, mas é uma parte responsiva). O pastor
cantava: “Santifica-nos, Senhor, na tua verdade. Aleluia.” E o povo res-
pondia lenta e pausadamente (em ritmo de domingo de verão): “A tu-
a pa-la-vra é a ver-da-de. Aleluia.”
Depois fiquei sabendo que essa antífona – como a maior parte do
que dizemos na Liturgia – foi tirada da Bíblia. Neste caso, de João 17.
E hoje ela aparece como texto dessa mensagem de confirmação. “San-
tifica-os na tua verdade. A tua palavra é a verdade”. “Que eles sejam
teus por meio da verdade; a tua mensagem é a verdade”.
Quem está dizendo isso? É Jesus. Ele está falando com alguém (um
“tu”). Ele fala com o Pai, ele fala com Deus. Ele está orando. Orando
pelos seus discípulos, orando pela Igreja. Ele ora por nós, ora por
vocês. (Na verdade, ele fez essa oração antes de ser preso e crucifica-
do. Mas, como está na Bíblia, a gente pode dizer que esta é a oração
que Jesus continua fazendo pelos seus discípulos).
Nem sempre a gente lembra que essa é uma coisa que Jesus tam-
bém faz: ele ora por nós. Em Hebreus 7.25 diz que “Jesus vive para
sempre a fim de pedir a Deus” em favor das pessoas.
Jesus orando – ainda hoje. E o que ele pede ao Pai? Ele faz vários
pedidos, que aparecem em João 17. Pede que sejam um e que sejam
guardados do maligno. E pede mais. A gente poderia esperar que ele
fosse pedir: “Pai, faze deles cristãos ativos, consagrados, sempre atu-
antes na igreja, etc.” Mas não. Jesus tem um pedido mais importante.
Santifica-os!
Santifica-os. Faze com que eles sejam santos. Nossa! Que pedido
bem grande! Ser santo. Que mais a gente poderia ser depois de ser
santo? (No Brasil, os católicos agora se orgulham de terem um – até

131
IGREJA LUTERANA

que enfim um – santo brasileiro.) Aliás, quem é santo? Santo é Deus. E


ele quer que a gente seja santo também. Acho que vocês aprenderam
este versículo: “Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou
santo” (Lv 19.2).
E, então, como é que a gente fica santo? Se o santo é Deus, acho
que a gente fica santo quando fica perto de Deus, quando a gente é
de Deus. E como a gente fica perto de Deus? Quando ele nos leva para
perto dele, quando ele nos santifica, quando ele faz que a gente seja
de Deus. A NTLH traduz o pedido de Jesus assim: “Que eles sejam
teus”.
Jesus pede que vocês (e nós) sejam de Deus. Na verdade, vocês são
dele, no batismo. Ele colocou a sua marca – marca de dono – em cada um
de vocês, no dia do batismo. E agora Jesus pede a Deus que nós sejamos
de Deus. Que continuemos sendo dele. Que sejamos santos.
E como isso acontece? Como é que se faz um santo? No Nordeste
do Brasil tem os santeiros, pessoal que faz imagem de santo. Isso é
mais ou menos fácil de fazer (desde que a pessoa seja do ramo). Na
Igreja Católica, quem faz um santo é o papa. Isso acontece lá de vez
em quando. Que pena. Mas é outra idéia de santo, que tem muito
pouco a ver com o que a Bíblia entende por santo e santidade.
Jesus ensina outro jeito de fazer santo, que é o jeito que Deus tem
de fazer santos. Jesus ensina isso na oração dele: Santifica-os na tua
verdade. Santifica-os com a tua verdade. Santifica-os por meio da tua
verdade. Que eles sejam teus por meio da verdade. Deus faz santos
por meio da verdade.
E assim chegamos à verdade. Faz deles santos usando como ferra-
menta a verdade. Agora complicou. O que é verdade? Pergunta famo-
sa. Feita por Pilatos. Jesus deixou sem resposta – para Pilatos. Não
era um pergunta séria. Mas para nós ele deixou a resposta. Ele disse:
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida (Jo 14.6). E aqui ele diz: A tua
palavra é a verdade.
Resumindo, o que nos faz santos é a palavra de Deus. Paulo diz em
1Tm 4.4-5: “Pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de
graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração,
é santificado”.
E esta palavra de Deus é a verdade. Isto vocês também aprende-
ram na instrução de confirmandos. Nós não dizemos apenas que a
palavra de Deus é verdadeira, que ela não mente, mas que ela é a
verdade. Não uma verdade, mas a verdade. Por quê? Porque ela é a
palavra de Deus. Ela é aquilo que de fato é. Ela é “a coisa”. Ela nos fala
de Deus; ela nos traz Deus.

132
SANTIFICA-OS COM A TUA PALAVRA DA VERDADE

Hoje está na moda dizer que verdade, ora, cada um tem a sua
verdade. O que é verdade para mim, não é necessariamente verdade
para ti. Cada um acredita no que quer acreditar, e ninguém deveria
forçar a sua verdade para cima dos outros. Só que, é claro, todo mun-
do e cada um procuram vender o seu peixe. Tem muitas idéias andan-
do por aí. Por isso é importante saber que Jesus continua orando pela
gente, pedindo que Deus nos guarde bem junto dele (santifica-os)
através da palavra da verdade. E que a gente não largue da verdade.
Quero dar três exemplos. Primeiro: Donde é que nós viemos, nós,
gente, pessoas, o bicho homem? Os livros da escola ensinam que so-
mos um animal evoluído. Isso é coisa de Charles Darwin. O que nunca
ninguém diz é que Darwin acreditava que os brancos eram mais evolu-
ídos que os negros. Isto é racismo, ou não é? Qual é a verdade? A
verdade é a palavra de Deus. E que diz ela? “De um só fez toda a raça
humana para habitar sobre a face da terra” (Atos 17.26). Negros, bran-
cos, índios, japoneses – todos da raça de Adão. Por baixo da pele,
todos têm o mesmo sangue. Verdade da palavra de Deus.
Segundo exemplo, tirado do segundo artigo do Credo: Quem é Je-
sus? Para muitos, um homem excepcional. O maior psicólogo que já
viveu. O maior líder (executivo) de todos os tempos, etc. Qual é a ver-
dade? A verdade é a palavra de Deus. Que diz ela? Ela chama Jesus de
Senhor (que é um título de divindade). Ela chama Jesus de Filho de
Deus. E ela diz mais. Ela chama Jesus de Deus (por mais que muitos
talvez até jurem de pés juntos que a Bíblia nunca faz isso). Em Tito
2.13 diz que vivemos “aguardando a bendita esperança e a manifes-
tação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”.
Terceiro exemplo: A santa igreja cristã. Onde está a igreja? Recen-
temente um líder de uma das igrejas chocou o mundo ao dizer: só
quem é membro da nossa igreja é que é, de fato, igreja. Em outras
palavras: quem não é membro da minha igreja não pode ser salvo.
Qual a verdade? A verdade é a palavra de Deus. Que diz a palavra de
Deus? Ela diz que a igreja é o pequeno rebanho de Jesus a quem o Pai
tem o prazer em dar o Reino (Lc 12.32). Ela diz que a igreja está onde
dois ou três estiverem reunidos em nome de Jesus, com Jesus no meio
deles (Mt 18.20). Ela diz que igreja (isto é, aqueles que vão herdar o
reino de Deus) são aqueles que foram santificados, justificados em o
nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.11).
Igreja são aqueles que foram alvo da resposta à oração de Jesus:
Santifica-os com a tua verdade. Que eles sejam completamente teus
por meio da verdade, que é a palavra de Deus.
Esta verdade vocês aprenderam. Esta verdade vocês confessam e

133
IGREJA LUTERANA

confirmam hoje. E nós oramos, com Jesus: Que vocês sejam completa-
mente de Deus – e continuem assim. Ele vai fazer isso na vida de
vocês – por meio da Palavra dele. Fiquem firmes. Amém.

Mensagem proferida pelo Prof. Dr. Vilson Scholz na


congregação São Mateus de Tenente Portela, RS,
em outubro de 2007, em culto de confirmação.

134
MANTENDO O FOCO
2 Coríntios 5.1-10

Prezados em Cristo, especialmente vocês que hoje recebem a au-


torização para pregar sob supervisão.
Mesmo que vocês, em sua modéstia, digam que nada alcança-
ram de especial, cabe aos seus professores receberem com alegria
este momento, dizendo que fizeram por merecê-lo e que merecem
festejá-lo.
Vocês experimentam algo de que o apóstolo diz aos Coríntios ao
falar do seu ministério. Cada passo que Deus nos apresenta é um
desafio para nós que não se dá sem tribulações, mas, e nas palavras
de Paulo: A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eter-
no peso de glória. Que isto continue a se confirmar ao longo de vossas
vidas.
Entretanto, Paulo também nos prepara para lidar com estas tribu-
lações no texto que lemos. Ele tem em vista que as pessoas não ten-
tem desviar dos desafios que a caminhada na fé impõe.
O Tim Maia que o Brasil conheceu foi um sujeito muito espirituoso.
Uma das suas frases foi reproduzida pela revista Veja há quinze dias.
Disse ele a respeito de uma dieta que lhe foi proposta: “Fiz uma dieta
rigorosa de duas semanas em que cortei álcool, gordura e açúcar. Re-
sultado da dieta? Em duas semanas perdi 14 dias”. Com esta piada
Tim Maia fez exatamente aquilo que milhões de pessoas costumam
fazer quando o assunto é a própria vida e seus obstáculos: Desviam o
foco. Fazem piada. E continuam no caminho da autodestruição.
O apóstolo Paulo não queria que as pessoas mudassem o foco,
fizessem piada, e continuassem no caminho da autodestruição. Paulo
queria que, quando as pessoas falassem de vida, na perspectiva da
morte, o grande e definitivo obstáculo, elas não mudassem o foco e
fizessem piadas do tipo: “Comamos e bebamos que amanhã morrere-
mos”. Paulo queria que as pessoas mantivessem o foco e finalmente
pudessem ver a VIDA com letras maiúsculas, a vida permanente.
Assim como o Tim Maia fez a opção de ganhar os dias de comida e
diversão e arriscar a vida, assim muitos querem ganhar dias correndo
atrás do transitório e passageiro.
Mas como dizer às pessoas que não pode ser assim? Como tirar
das pessoas o foco no passageiro, frágil e transitório? Como fazer
com que mirem a morte para não perderem a vida?
Neste texto aos Coríntios, Paulo não somente ensina a verdade,

135
IGREJA LUTERANA

mas também nos mostra a maneira de levar pessoas a refletir sobre a


verdade. Como ele faz isso?
Paulo é um fazedor de tendas. Em Corinto todos sabiam disso. Ele
sabe falar de tendas. Ora, tendas não são a melhor solução para
quem procura moradia. As crianças até gostam de barracas. Mas ...
dentro de casa, na garagem, no corredor. Barracas são boa idéia para
pescadores de fim-de-semana. Mas ... por poucas noites.
Paulo sabe que todos os que compram a sua tenda sonham em
morar numa casa mais sólida e permanente. Imagino quantas vezes
ele deve ter usado este raciocínio aqui registrado para engatilhar uma
conversa evangelística e então falar da morada permanente, da vida
que não morre, da existência gloriosa e eterna.
Imagino Paulo vendendo uma tenda para alguém:
- De que tamanho você precisa?
- Por que precisa dela? Só para viagem? Morada permanente?
- Lá, onde você vai armar a tenda, chove? Faz vento? Talvez haja
temporais?
Quando a conversa já ia se escoando nas generalidades, o tempo,
a colheita, etc., imagino Paulo perguntando, como quem não quer nada:
- Você pensa algum dia morar em uma casa, prédio, sólida e não tão
frágil?
E daí a pergunta inevitável: - Você sabe que você tem à sua dispo-
sição uma casa sólida e definitiva?
- Como assim?” pergunta a pessoa a Paulo.
Imagino Paulo continuando:
- Vamos falar da vida como se fosse uma tenda. Não é verdade que
nós, em nosso íntimo, quando chove ou faz temporal, gememos de
angústia porque a tenda é frágil? De que nos adianta a roupa no corpo
se a tenda se foi no temporal? Assim também não gememos por uma
vida maior, permanente, eterna? Não é verdade que gostaríamos de
ficar livres da decadência e da fragilidade que é esta vida e nos vestir-
mos de uma vida firme, sólida, eterna?

LEMBRANÇA DO DESERTO

Ao falar de tendas e tabernáculo, Paulo evoca em seus leitores


judeus a lembrança do passado de Israel que viveu em tendas no
deserto e que adorou num tabernáculo no deserto, um templo provi-
sório. A vida que tanto prezamos é transitória, seja de que ângulo a
observemos.
Idéia estranha: vestir a moradia porque somos nus.
Paulo acrescenta a esta lembrança uma idéia nova, mas interes-

136
MANTENDO O FOCO

sante. Ele diz que a moradia é algo que a gente veste e também des-
pe. À medida que temos a possibilidade, a grana, nós nos vestimos
sempre melhor. A casa é a vestimenta mais externa, na visão de Paulo.
Segundo ele, nós nos vestimos da casa quando entramos nela. Estar
sem casa é o mesmo que estar nu. Somente dentro da casa estamos
fortes para enfrentar chuvas e tempestades e outras ameaças e peri-
gos que nos rondam.
A nossa vida, diz Paulo, é uma tenda, uma barraca muito frágil. Essa
morada frágil está se desfazendo rapidamente. Os sinais disto são
claramente reconhecidos.

AS CÉLULAS EM NOSSO ORGANISMO

Uma imagem que podemos acrescentar é a imagem das células. Ao


que se diz, elas não vivem mais de sete anos em nós. Quer dizer que
a cada sete anos o nosso organismo todo morreu e se refez. Mas com
uma diferença: Assim como as células que substituem as que morre-
ram não surgem com o mesmo vigor, o que é denunciado pelos sinais
do envelhecimento, assim também a vida e a vontade de enfrentar
obstáculos começam a morrer também.
Este morrer precisa ser encarado. A tenda, a vida que estamos
usando, está se desfazendo rapidamente.
E Paulo concorda que não é sem gemidos que olhamos para ela ao
nos darmos conta disso. Ela nos faz gemer. E não é com piadas, ou
desviando o foco, que esta transitoriedade pode ser modificada. Não
importa onde e como tenhamos morado na vida que é transitória, a
última morada é a mesma, é igual para todos. Por mais que alguém
fuja dela, ela nos alcança e nos veste.
A morte nos faz gemer porque denuncia a nossa cegueira e impo-
tência, como também a nossa submissão total a ela. Gememos, por-
que ela revela a nossa nudez e total exposição ao mal que ela opera.
Diariamente lemos, vemos e ouvimos os testemunhos que revelam o
seu poder sobre a humanidade. As pessoas, como Tim Maia, caminham
cegos para ela porque reconhecem a inutilidade do esforço de adiá-la
ou dela fugir.
Vejam, não é tarefa simples levar pessoas a encarar a realidade do
morrer. E então Paulo, como já fizera na primeira carta, revela aquilo
que realmente está acontecendo nos cristãos pela fé: “O mortal está
sendo absorvido pela vida, o transitório está sendo revestido pelo
permanente, o pecaminoso está sendo vestido de justiça e perdão”.
Disso temos a garantia, o penhor: o Espírito de Deus, o sopro da
vida que dá vida à alma, que anima, que ressuscita o que é mortal.

137
IGREJA LUTERANA

Pela mesma palavra com que fomos criados, por esta mesma palavra
estamos sendo criados de novo.
Quem nos observa e quando nós próprios nos observamos com
clareza e sobriedade, vemos o mortal. Entretanto, algo que não ve-
mos está acontecendo em nós ao mesmo tempo. Tal como as células
que morrem denunciam a mortalidade, o Espírito gera em nós células
novas, células de vida eterna. Comer e beber o corpo e sangue de
Cristo é muito mais do que receber o perdão dos pecados. Comemos e
bebemos o que o Espírito de Deus dá: a vida se instala e absorve a
mortalidade.
Estes são os fatos, diz o apóstolo. O que nós vemos e sentimos, o
mortal, já não é a realidade. A realidade está oculta em Cristo e nós dela
nos apropriamos pela fé nele.
Paulo achou um jeito muito interessante e eficaz de ajudar as pes-
soas a olhar a morte o tempo suficiente para verem, além dela, a vida
que está preparada, a verdadeira vida. Nisto está o nosso ânimo de
continuarmos a servir a Cristo e ser-lhe agradáveis.
A motivação para isso é dupla:
A primeira é que nesta fé, os meios da graça vão implantando em
nós o organismo de Cristo. Estamos sendo transformados naquilo que
seremos na vida verdadeira.
A segunda é que, desde agora, experimentamos as delícias do céu.
A vida que vivemos não é mais a vida no passado. Sobrepõe-se a ela a
vida e as obras do futuro eterno. Amar a Deus e ao próximo não são
obrigações do presente. Para nós, já são as obras de quem tem em si
a vida eterna garantida pela presença do Espírito. Estas obras Cristo
vai julgar e aceitar como feitas em honra e louvor dele.
E aquilo que nós aqui não conseguimos ainda fazer por vocês, Deus
vai completar em vocês na experiência desta vida. Amém.

Mensagem proferida na Capela do Seminário Concórdia pelo


Prof. Paulo P. Weirich no dia da Autorização de Pregação da
Turma do 3º Ano de Teologia, Penúltima Semana do
Ano Eclesiástico, dia 20 de novembro de 2007.

138
HORA DE ACORDAR
Romanos 13.11-14

Texto de Romanos 13.11-14, destacando o v. 11: “E digo isto a vós


outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono;
porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no
princípio cremos”.

INTRODUÇÃO

Estamos em ritmo de fim de ano. Já começamos a pensar no que


será o ano que vem: novo ano escolar, novas tarefas a cumprir, novos
propósitos a alcançar. Quem sabe, finalmente, conseguiremos fazer
algo que sempre sonhávamos. Mas, ainda temos muitas tarefas a fa-
zer, e ainda tem o Natal, os presentes, as visitas, as festas ... Em meio
às muitas coisas que se acumulam no fim do ano, corremos o risco de
perder o foco do Advento, que nos quer preparar para o verdadeiro
Natal: a salvação que está naquela criança da manjedoura de Belém e
que é o verdadeiro e único sentido e fundamento do Natal.

HORA DE ACORDAR

Nosso texto nos alerta apropriadamente dizendo que é hora de


acordar. É hora de acordar porque a nossa salvação está cada vez
mais perto. Advento é tempo de relembrar a vinda do Senhor como
uma pessoa humana. Para a primeira vinda do Salvador, já no Antigo
Testamento, o profeta Isaías havia predito: “Porque um menino nos
nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e
o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eterni-
dade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). A concretização desta promessa o anjo
do Senhor pôde dizer aos pastores, nas campinas de Belém: “Não
temais; eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será
para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salva-
dor, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.10-11).
É hora de acordar e conscientizar-se de que Advento é também o
tempo de lembrar o dia da vinda do Senhor para o juízo final, quando
se dará o regresso de Cristo. Os sinais estão aí, diante de nossos
olhos para nos alertar para tanto: fome, guerra, falta de amor e sinais
na natureza. Todos estes sinais que o próprio Jesus nos deu estão

139
IGREJA LUTERANA

cada vez mais evidentes.


Conhecer este tempo é ser despertado do sono. Quem está dor-
mindo não tem conhecimento do que se passa durante o seu sono. Ele
pode até sonhar, mas não pode agir. A vida cristã é igual a uma pessoa
acordada: está consciente, está agindo. Quando Deus nos trouxe à fé,
ele fez despertar em nós a salvação. Mas é ainda uma salvação em
esperança. Mas esta salvação que Deus despertou em nós se tornará
plena naquele dia do Senhor, quando o último Advento de Cristo, o
Salvador, vier.
É tempo de acordar porque a noite está terminando. Está termi-
nando a noite do pecado e corrupção. O poder da noite ainda se mani-
festa poderosamente pelo mundo inteiro: inimizades, guerras, desa-
venças dentro das famílias, separações são características do período
da noite. As injustiças e a corrupção não têm fim e se revelam na natu-
reza humana tal qual ainda nos tempos antes do dilúvio quando “a
terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn 6.11).
Esta é a realidade do mundo no qual vivemos e no qual estamos inse-
ridos também com nossos pecados.
Mas, está terminando a noite da imperfeição de cada um de nós.
Vivemos este tempo de fim da noite. Ainda estamos expostos ao peca-
do, à falta de amor, à intriga, à morte. Somos afetados pela noite de tal
maneira que diariamente temos uma série de coisas para pedir perdão
e reconhecer a nossa situação de pecadores diante de Deus.
É hora de acordar porque o dia está chegando. Viver no dia envol-
ve luta constante. Viver o dia exige uma ação decisiva. Somos desafia-
dos a andar dignamente. Isto significa ter uma vida decente, não viver
brigando, não ter ciúmes, viver em amor. Para tanto, precisamos pegar
as armas espirituais: a Palavra de Deus, o Batismo e a Santa Ceia são
nossas armas para vivermos o dia que está raiando. Isto significa es-
tar acordado contra os perigos do pecado para viver segundo a luz de
Deus.
Viver o dia, no entanto, só é possível se estivermos revestidos do
Senhor Jesus Cristo. Enquanto este mundo existir, nós somos ao mes-
mo tempo justos e pecadores. Mas, Paulo nos assegura: “Todos quantos
fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes” (Gl 3.27). Com o
batismo recebemos uma capa protetora contra os ataques que Sata-
nás nos impõem para voltarmos a ser da noite. Ainda bem que Deus
nos torna justos em Cristo. Assim que, em Cristo, mesmo pecando
diariamente, somos qualificados para lutar contra o pecado para já
vivermos no dia, na luz de Deus.

140
HORA DE ACORDAR

CONCLUSÃO

É hora de acordar. Cada vez que pecamos, somos da noite. Mas o


dia está perto e Cristo nos faz acordar para o dia quando reconhece-
mos nosso pecado e confiamos no perdão de Deus em Cristo.
Advento é um período especial para acordarmos do sono do pe-
cado. O Advento de Cristo precisa estar também em nossos corações.
Em meio aos presentes que compramos para dar alegria aos que ama-
mos, em meio a toda esta vida agitada e apressada, podemos ter
aquela paz e tranqüilidade que só Jesus nos pode dar. O perdão dos
pecados que ele nos garantiu na cruz ecoa em nossos corações e so-
mos instigados a ver que o Advento não é um simples preparo de uma
festa de confraternização do Natal. Advento é o preparo de nosso co-
ração para receber a Cristo na certeza do canto dos anjos aos pasto-
res: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os ho-
mens a quem ele quer bem” (Lc 2.14).
É hora de acordar. A noite está terminando, o dia vem chegando
e a nossa salvação está cada vez mais perto. Amém.

Mensagem proferida pelo Prof. Raul Blum


no 1º Domingo de Advento, dia 2 de dezembro de 2007.

141
IGREJA LUTERANA

142
QUE HORA É ESSA?
EM QUE TEMPO ESTAMOS VIVENDO?
Romanos 13.11-14

Que hora é essa? Que horas são? Em que tempo estamos viven-
do? Bom, agora são 9h e ...
Claro, não posso estar fazendo uma pergunta tão simples assim.
Que hora é essa? Em que tempo estamos vivendo? É tempo de confir-
mação. Chegou o dia. Chegou a hora. Mas que hora é essa? É hora da
formatura ou hora do vestibular? Para muita gente, pela festa, confir-
mação tem mais um tom de formatura. Este é o fim de um período de
maior contato com o pastor, de maior presença na igreja, de estudo da
Bíblia, etc. Formatura, portanto. Depois de hoje, muita gente some ...
Infelizmente. Mas nós queremos que esta seja a hora do começo. Não
é o fim, mas o começo. Confirmar para reafirmar, para começar de novo
e continuar.
Que hora é essa? Em que tempo estamos vivendo? Alguém vai me
dizer: Mas, pastor, o senhor não sabe que é o adiantado da hora, o
período mais corrido do ano, fim de ano! Fim de ano ou começo de
ano? Hoje é primeiro domingo de Advento. É ano novo na igreja. Por-
tanto, não é fim de ano, mas começo. O ano novo está começando
hoje. E não é nem porque é tempo de Natal. A rigor, Natal só daqui a
algumas semanas. (Acontece que o Natal já está sendo antecipado
para novembro. Isto porque o Natal é uma festa que vende bem. Ad-
vento não vende. Advento nos lembra: Cristo veio, vem e virá. Imagine
um anúncio assim: “Cristo está voltando. Compre já!” Mas as luzes, a
mensagem de paz, o ambiente familiar do Natal é um clima bem dife-
rente. Por isso, o comércio tem que antecipar o Natal. Também isto é
uma pena).
Que hora é essa? É tempo de Advento. Vamos, pois, viver o Adven-
to e deixar o Natal para depois.
Que hora é essa? Em que tempo estamos vivendo? É hora e tempo
de considerar um texto bíblico. Afinal, que pregação seria esta se não
tivesse um texto bíblico?! E o texto para hoje é Rm 13.11-14, um texto
que é lido neste domingo desde mais ou menos o ano 600 d.C.: “Vocês
precisam fazer todas essas coisas porque sabem em que tempo nós
estamos vivendo; chegou a hora de vocês acordarem, pois o momen-
to de sermos salvos está mais perto agora do que quando começamos
a crer. A noite está terminando, e o dia vem chegando. Por isso pare-

143
IGREJA LUTERANA

mos de fazer o que pertence à escuridão e peguemos as armas espiri-


tuais para lutar na luz. Vivamos decentemente, como pessoas que vi-
vem na luz do dia. Nada de farras ou bebedeiras, nem imoralidade ou
indecência, nem brigas ou ciúmes. Mas tenham as qualidades que o
Senhor Jesus Cristo tem e não procurem satisfazer os maus desejos
da natureza humana de vocês”.
Que hora é essa? Em que tempo estamos vivendo? O texto de
Romanos 13 responde. Diz que estamos mais perto da salvação agora
do que quando começamos a crer. Isso foi dito faz 1950 anos, em 57
d.C., pelo apóstolo Paulo. E se eles já estavam mais próximos da sal-
vação, imaginem nós! Mas não é tanto que nós estamos chegando
mais perto – porque estamos ficando velhos, ou coisa que o valha –
mas é que a salvação, que vem ao nosso encontro, está mais perto.
Isto significa, pastor, se estou ouvindo bem, que o fim de tudo está
mais perto. É isso mesmo? Que hora é essa? Em que tempo estamos
vivendo? É tempo de fim ou tempo de começo? É o fim do mundo ou o
começo do mundo?
Se a gente for fazer essa pergunta, tenho quase certeza que as
pessoas da igreja, em geral, vão responder que é o fim; pessoas de
fora talvez sejam um pouco menos pessimistas. Em que tempo estamos
vivendo? Se formos pelas notícias que chegam até nós e por aquilo
que nos cerca, que tempo é o nosso? Tem gente que vai continuar
convencida que este é o período mais sombrio da história da humani-
dade. Quem tem lembrança da grande guerra mundial (que acabou faz
mais de 60 anos) vai dizer que é assim. E nos últimos 50 anos, em
meio a muito aparente progresso, os ricos dobraram, mas os pobres
triplicaram. 22% da população mundial (e isso dá mais de um bilhão de
pessoas) sobrevivem com menos de dois reais por dia. Está bem escu-
ro lá fora (e aqui dentro também). Mas, pensando em outras coisas
(como facilidade de locomoção, rapidez na transmissão de informa-
ções, comunicação pela internet, etc.) alguém poderia dizer que nunca
esteve tão claro como agora, e que nos encontramos em pleno sol do
meio-dia! É um tempo excepcional para a gente estar vivo!
Afinal, que hora é essa? Em que tempo estamos vivendo? É dia ou
é noite? Poderia ser que não é nem bem um nem bem outro ou as
duas coisas ao mesmo tempo? Vamos voltar a Romanos 13. A palavra
de Deus diz: “Vocês sabem em que tempo nós estamos vivendo”. Sa-
bemos?! Mas que tempo é esse, então? Resposta: “A noite está termi-
nando, e o dia vem chegando”.
Isto é estranho. A gente esperaria que Paulo, na Bíblia, dissesse:
“Estamos indo para o fim. Os sinais estão todos aí. Está ficando cada
vez mais escuro”. Mas Paulo não diz isso. Ele diz que o dia está che-

144
QUE HORA É ESSA? EM QUE TEMPO ESTAMOS VIVENDO?

gando; a noite é que está indo para o fim.


Na verdade, é hora do crepúsculo, hora do lusco-fusco. E esse cre-
púsculo ou lusco-fusco acontece tanto de manhã como no entardecer.
E tem uma diferença entre os dois. O lusco-fusco da tarde às vezes dá
uma tristeza na gente. Mais um dia que está se indo ... O lusco-fusco
da manhã (e penso só nas pessoas que passam uma noite em claro,
num hospital) é uma hora muito mais esperada e feliz. Pois o texto de
Rm 13 nos apresenta o lusco-fusco da manhã, a alvorada. A Bíblia nos
diz: O pior está passando; o melhor está por chegar. O dia vem che-
gando. Já dá pra ver a luz do sol. O Sol da justiça está nascendo sobre
nós.
Não, a noite não terminou completamente. Mas não estamos mais
no escuro. Não estamos sozinhos e abandonados numa remota galá-
xia do universo. Deus visitou o seu povo. Cristo nasceu. Cristo ressus-
citou. Temos Jesus, a luz do mundo. Não o vemos, mas o amamos
mesmo assim. Ele não está sobre nós em todo o seu resplendor, mas
já vemos os seus raios e já nos beneficiamos deles. Cristo está entre
nós, como que indiretamente, na sua Palavra, no seu Batismo e na sua
Ceia.
Que hora é essa? Em que tempo estamos vivendo? Estamos no
lusco-fusco, naquele momento entre o fim da noite e o começo do dia.
O mundo está nesse estado desde o nascimento de Jesus e vai ficar
nesse estado (de uma imagem congelada) até o dia da vinda dele
para o juízo. Nada de mais significativo ou novo vai acontecer até lá.
Vai ser sempre essa mistura de trevas e luz. Até que, com a chegada
gloriosa do Sol da justiça, o Dia nasça pra valer. (Mas é muito importan-
te saber que esse crepúsculo ou lusco-fusco é da manhã, e não do fim
do dia. A diferença é a diferença entre desespero [fim do dia] e espe-
rança [começo do dia]).
Que hora é essa, então? Em que tempo estamos vivendo? É tempo
de se preparar para ir dormir, ou tempo de acordar? Claro que é hora
de acordar. O texto bíblico diz: “chegou a hora de vocês acordarem”.
Não do sono reparador da noite, mas do sono destruidor da morte
espiritual. (Interessante que Paulo diga isso a cristãos. Mas o arre-
pendimento constante e diário é marca da vida cristã ...) Como é que
isso é possível? Tem gente que não acorda sem despertador. Tem gen-
te que tem um despertador embutido e, mesmo deixando o desperta-
dor preparado, acorda antes e “desperta” o despertador. No campo
espiritual, ninguém tem despertador embutido. Tanto assim que seria
até mais exato dizer que “chegou a hora de vocês serem acordados”.
Deus nos acorda com o barulho forte da sua santa lei e com a doce
melodia do rádio-relógio do evangelho. (A palavra de Deus nos acorda

145
IGREJA LUTERANA

para o dia que já vem chegando e para o Sol que em breve vai nascer.
Tem vezes que somos acordados por uma boa ducha de água e um
café bem reforçado. A gente poderia dizer que isto é o batismo e a
santa ceia).
Que hora é essa, então? Em que tempo estamos vivendo? É tempo
de se preparar para ir dormir, ou tempo de sair da cama? A resposta só
pode ser uma: É mais que hora de tirar o pijama! O texto de Romanos
13 fala de revestir-se das armas da luz, de revestir-se do Senhor Je-
sus Cristo. Isso significa que as roupas próprias da noite, aqueles pija-
mas mal-cheirosos de farras, imoralidade, brigas e ciúmes, etc. devem
ser postos de lado. Revestir-se do Senhor Jesus é ter as qualidades
que o Senhor Jesus tem. É perguntar, ao longo da vida: Que é que
Jesus faria numa situação dessas? Isto é especialmente importante
também para quem deixa o dia da confirmação para trás e ingressa a
passos firmes nos, por vezes, conflituosos dias da adolescência.
Que hora é essa, então? É hora de assumir a vida cristã.
Confirmandos fazem exatamente isto. Entram numa batalha. Isto por-
que viver no crepúsculo é viver uma vida de tensão e luta. Há uma
batalha que é travada no lusco-fusco da manhã. A obra de Jesus já
garantiu o resultado vitorioso para todos nós. Mas as escaramuças
ainda continuam. Há focos de resistência – inclusive em nós. Portanto,
que hora é essa? É hora de revestir-se das armas da luz. É hora de
viver como em plena luz.
Que hora é essa para mim? No relógio de Deus, é o tempo em
que o dia está nascendo e o Sol da graça, Jesus Cristo, logo vai apare-
cer. No calendário da igreja, é tempo de Advento, tempo de esperar e
vigiar. No relógio da minha vida, é tempo de ser acordado, tempo de
deixar que Deus sempre de novo nos acorde com sua palavra. Para
cada um dos confirmandos, é tempo de confessar a fé dada no batis-
mo e revestir-se das armas da luz para entrar na batalha e deixar para
trás as coisas que pertencem à noite. Para cada um dos confirmandos,
é hora de aproveitar o benfazejo Sol matinal de Cristo, particularmen-
te a presença de Cristo e os dons de Cristo na ceia do Senhor – privi-
légio ao qual vocês terão acesso a partir de hoje. Ela é instrumento de
Deus para nos manter acordados e fortes na batalha – até que ele
venha. Amém.

Mensagem proferida pelo Prof. Dr. Vilson Scholz na Congregação


da Cruz de São Lourenço do Sul, RS, em culto
de Advento e Confirmação, em dezembro de 2007.

146
EXPECTATIVA E SURPRESA
Mateus 11.2-11

Prezados irmãos e irmãs em Cristo, prezados amigos:


O texto base de nossa mensagem é o Evangelho deste 3º Domin-
go de Advento, Mt 11.2-11. Destacamos os versículos 2-6.
Advento é tempo de preparo e de expectativas. O que você espera
do Natal que está chegando? Suas expectativas são grandes ou pe-
quenas? Você espera alguma surpresa? Certamente todos nós já des-
cobrimos que existem expectativas que se realizam e outras que são
frustradas. Também sabemos que há surpresas boas e outras desa-
gradáveis.
Uma de minhas lembranças com relação a expectativas e surpre-
sas é de quando meu filho mais velho ainda era bem pequeno. Na
ocasião, passava um comercial na televisão sobre um carrinho que
fazia as mais diversas manobras, transpondo obstáculos, voando por
cima de precipícios, etc. Meu filho ficou encantado com a propaganda e
o que ele mais queria como presente de Natal era aquele carrinho. (E,
se vocês já tiveram ou conviveram de perto com um menino de 2 anos,
talvez saibam que não é tarefa simples convencê-lo a mudar de opi-
nião quando ele tem absoluta certeza do que ele quer). Chegou a
noite de Natal e, posso lhes garantir, a expectativa dele estava no
ponto máximo. Ele abriu seu pacotinho e ... lá estava o tão sonhado e
esperado carrinho! Seus olhos brilhavam! Mal podia esperar para tirar
o brinquedo do pacote e começar a brincar com ele. E aí, vocês já
sabem, veio a desagradável surpresa. O carrinho não fazia nenhuma
daquelas manobras e piruetas vistas na TV. Na verdade, ele não fazia
movimento nenhum. Era apenas mais um brinquedinho de plástico.
Que decepção!
Felizmente, nem sempre é assim com nossas expectativas e sur-
presas. Às vezes, nossa expectativa é pequena e a surpresa é gran-
de. Outra lembrança minha ilustra que também existe esse outro lado.
Há um certo tempo, fui convidado para dar uma palestra no interior do
Estado. Ficou combinado que eu, minha esposa e nosso filho mais novo
ficaríamos hospedados na casa de um jovem pastor recém-formado.
Era um dia de inverno muito frio. Já tínhamos bastante experiência em
viajar e ficar hospedados nos mais diferentes lugares e condições. Nesse
dia, nossa expectativa quanto à hospedagem não era lá muito anima-
dora. Sabíamos que o pastor morava num lugar muito simples. Será
que dormiríamos numa cama ou no chão? Haveria um cobertor sufici-

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IGREJA LUTERANA

entemente grosso para espantar o frio? Chegando ao local, no final de


uma tarde de sábado, veio a primeira surpresa: os planos haviam sido
alterados. Não iríamos mais ficar na casa do pastor, mas sim, na casa
de um congregado. Lá chegando, fomos recebidos de braços abertos
e logo conduzidos a uma sala aconchegante onde o fogo crepitava
numa lareira, deixando o ambiente todo agradavelmente aquecido.
Depois de uma bela janta, dormimos numa cama tão confortável e quen-
tinha que até esquecemos que fazia frio lá fora. Que surpresa agradá-
vel!
Tenho certeza de que poderíamos passar a manhã inteira recor-
dando expectativas e surpresas tanto agradáveis quanto desagradá-
veis que todos nos já experimentamos. Isso, sem dúvida, poderia ser
muito divertido. Mas, temos um texto bíblico à nossa frente e estou
certo de que poderemos ter muito proveito se dedicarmos os próximos
minutos ao exame deste texto verificando que, também ali, nos de-
frontamos com expectativa e surpresa.
Nosso texto inicia com a informação de que “João Batista estava
na cadeia e, quando ouviu falar do que Cristo fazia, mandou que al-
guns dos seus discípulos fossem perguntar a ele: O senhor é aquele
que ia chegar ou devemos esperar outro?”
Aí está: percebemos que havia uma expectativa no ar. Alguém es-
tava sendo esperado. Esse alguém era o Messias prometido e anunci-
ado em todo o Antigo Testamento. Durante séculos e séculos, o povo
de Deus havia aguardado e ansiado por sua chegada.
Mas, na época em que Jesus começou seu ministério, havia muita
confusão sobre como seria o Messias e qual seria sua tarefa. Muitos
imaginavam que ele viria como um rei poderoso, que ocuparia o trono
de Davi, que expulsaria os invasores romanos e que iria restaurar a
glória do reino de Israel.
Quando João Batista começou a pregar seu batismo de arrependi-
mento, a expectativa do povo aumentou e começaram a pensar que
talvez ele, João, fosse o Messias. Mas João imediatamente desfez
essa confusão e apontou para Jesus.
Jesus, um homem de aparência comum, filho de um carpinteiro po-
bre, rodeado de gente doente, fraca e – pior – de pecadores notórios,
seria este o Messias Prometido? Será? Alguma coisa não podia estar
certa.
Imaginem que eu tivesse entrado nesta capela hoje de manhã e
anunciado para vocês que o presidente dos Estados Unidos, a maior
potência mundial, estaria a caminho vindo para cá. Até aí, talvez tudo
bem. Muita gente importante e famosa já colocou os pés neste cam-
pus. Garanto que vocês iriam imaginar o presidente vindo com uma

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EXPECTATIVA E SURPRESA

grande comitiva, cercado de um amplo esquema de segurança. Mas,


imaginem que eu tivesse dito que quando eu estava saindo da BR lá
embaixo, eu vi o presidente Bush descendo sozinho de um ônibus da
Central ou da VICASA, e que, logo em seguida, ele ajudou um velhinho
a atravessar a rua, e, depois, já se abaixou para socorrer um moto-
queiro que tinha sofrido um acidente e etc. Vocês acreditariam nessa
história? Acho que não. Não é essa imagem que temos de como um
presidente de uma grande potência viaja e de como ele anda pelas
ruas.
Pois é, os judeus do tempo de Cristo também não conseguiam fa-
zer rimar a imagem que eles haviam formado do Messias que deveria
chegar com a daquele homem Jesus. Não deveria ele chegar com gran-
de estardalhaço, montado num cavalo fogoso, para ser recepcionado
pelas principais autoridades políticas e religiosas do povo? Não deve-
riam essas autoridades vir a seu encontro e lhe entregar o sacerdócio,
o templo e se declararem seus leais súditos e seguidores? Nada disso,
porém, estava acontecendo.
Tal como naquela época, existe também ainda hoje muita confusão
a respeito de quem é Jesus. Por um lado, há pessoas que tem ignorân-
cia total de quem ele é. Essas pessoas têm suas próprias idéias e
seus próprios conceitos sem jamais ouvir as palavras do próprio Jesus.
Tais pessoas não existem apenas em países distantes, elas estão em
grande quantidade ao nosso redor num país considerado cristão.
Por outro lado, continuam a existir pessoas que não se conformam
com um Jesus aparentemente pobre, fraco e sem poder. Estas ideali-
zam um Jesus de acordo com suas preferências e o vendem a grandes
clientelas: um Jesus que resolve todos os problemas mundiais e pes-
soais. Um solucionador de problemas, um exemplo de vida digna e
correta, alguém que oferece uma vida de sucesso e prosperidade, que
garante segurança e que traz solução para doenças incuráveis e ou-
tros males humanos.
Outros, ainda, chegam à conclusão de que hoje em dia não é con-
veniente falar muito de Jesus. Afinal de contas, ele pode causar divi-
são com aqueles que têm outras crenças. Ou então se pensa que ser
muito direto e explícito a respeito de Cristo pode chocar e afastar as
pessoas – esquecendo que o Evangelho de Cristo é o poder de Deus
que, pela ação do Espírito Santo, conduz as pessoas à salvação. Lute-
ro certa vez disse: “Onde Cristo está, ali o evangelho certamente será
pregado; mas onde o evangelho não é pregado, ali Cristo não está
presente”.
Será que o próprio João Batista, que já havia dado testemunhos
muito claros a respeito de Jesus como o Salvador do mundo, também

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estava começando a ter dúvidas, a vacilar e a questionar a identidade


de Jesus? Será que o fato de estar preso injustamente o estava dei-
xando confuso? O texto não nos diz se ele enviou seus discípulos a
Jesus porque ele próprio tinha dúvidas ou se ele o fez para que as
dúvidas de seus discípulos fossem desfeitas.

II

Quando os discípulos de João apresentam sua pergunta a Jesus:


“O Senhor é aquele que ia chegar ou devemos esperar outro?” – Jesus
não responde com um simples “sim” ou “não”. Sua resposta é: “Ide e
anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os co-
xos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos
são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E
bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço”.
Jesus aqui aponta para suas obras como prova e autenticação de
sua identidade como o Messias. Qual é a importância dessas obras
que Jesus menciona?
Em primeiro lugar, justamente estas obras são muito significativas
para os discípulos de João e para o povo em geral porque no Antigo
Testamento é dito que são estas as obras que o Messias irá fazer. Por
exemplo, Isaías 29.18,19: “Naquele dia os surdos ouvirão as palavras
do livro, e os cegos, livres já da escuridão e das trevas, as verão. Os
mansos terão regozijo sobre regozijo no Senhor, e os pobres entre os
homens se alegrarão no Santo de Israel”. De modo semelhante, em Is
35.5,6: “Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os
ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos
mudos cantará”. E, ainda, em Is 61.1: “O Espírito do Senhor Deus está
sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas novas aos
quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pro-
clamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados”.
Os discípulos de João certamente conheciam essas profecias e agora
podiam constatar com os próprios olhos e ouvidos que Jesus estava
realizando essas obras messiânicas.
Em segundo lugar, estas obras de Jesus são importantes porque
elas mostram sua graça e seu poder. Jesus estava realizando obras
que nenhum ser humano, por mais poderoso que fosse, jamais fizera.
Nenhum rei, nenhum general, nenhum sacerdote, nenhum médico ti-
nha feito cegos de nascença enxergar, coxos, ou paralíticos, andar,
nenhum deles tinha purificado leprosos, feito surdos ouvir e, muito
menos, alguém tinha feito um morto ressuscitar.

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EXPECTATIVA E SURPRESA

Então, apesar de sua aparente simplicidade e fraqueza, Jesus era


muito mais poderoso do que qualquer ser humano cercado de pompa
e glória. Com estas obras ele estava dando provas de quem ele de
fato era: o Messias, o próprio Filho de Deus, aquele que tem todo o
poder sobre a vida e a morte.
Jesus cita suas obras em ordem crescente. Fazer um cego enxer-
gar, ou fazer um paralítico andar certamente parece mais simples do
que ressuscitar mortos. Mas, Jesus não termina sua lista ali – com o
ressuscitar dos mortos – ele acrescenta mais uma obra. Ele diz: “e aos
pobres está sendo pregado o evangelho”.
Aí está: esta era sua obra principal: pregar o evangelho aos po-
bres. As demais obras apontam para esta obra principal e como que a
sublinham. Esta obra caracteriza o seu reino da graça: evangelizar os
pobres, trazer as boas notícias de perdão e vida aos pobres.
Não é estranho o que Jesus está dizendo? Sua pregação é só para
os pobres? Não ordenou ele mesmo que o Evangelho fosse pregado a
toda criatura em todo o mundo?
Sim, é verdade. Mas também é verdade que o Evangelho só é
aceito pelos pobres. E isso decorre da própria natureza do Evange-
lho. Pois Evangelho é a boa nova (notícia) de que por meio de Cristo
são oferecidos e presenteados perdão dos pecados, paz de consci-
ência e vida eterna. Agora: quem quer saber dessas coisas? Quem
considera isso o maior tesouro que existe sobre a face da terra?
Quem se dá conta de que este é um tesouro que não pode ser
encontrado, por preço algum, em nenhuma prateleira de shopping
center, de algum mercado, loja ou farmácia e em nenhum consultório
médico?
Somente alguém que na agonia de sua consciência sabe que em si
mesmo e no mundo inteiro não há recurso nem remédio que o livre da
ira de Deus, da morte e do inferno. Somente quem sabe que, na hora
da morte, quando comparecer diante do Juiz Supremo, suas próprias
obras não o salvarão. Sim, este é um verdadeiro pobre. Um pobre que
sabe que se Deus não o socorrer em e com Cristo, ele jamais encon-
trará paz e consolo.
Esta é, portanto, a maior obra de Jesus: pregar o evangelho aos
pobres. Obra muito maior do que curar doentes e ressuscitar mor-
tos. Não há no mundo inteiro outro conhecimento, ciência ou notícia
que nos faça conhecer o que este evangelho proclama e oferece:
que temos um Salvador que chama para junto de si e acolhe os que
nada têm além de pecado, culpa, doença e miséria. Um salvador
bondoso que garante: “não vim chamar justos, e sim, pecadores”
(Mt 9.13).

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III

Por ser este evangelho tão importante e vital, Jesus acrescenta a


advertência: “E bem-aventurado é aquele que não achar em mim mo-
tivo de tropeço”. Tropeçar em Jesus? Se escandalizar com ele? Não
aceitar seu convite gracioso para ir correndo ao seu encontro? Como é
possível que tantas pessoas não reconheçam a Jesus como seu Salva-
dor e virem as costas para ele? Como é possível que as pessoas não
larguem tudo o que estão fazendo e corram para as igrejas para ouvir
o doce evangelho?
Acontece que o mundo olha para as aparências. As pessoas que-
rem ver coisas novas, grandiosas, impressionantes, divertidas. Às ve-
zes, pensamos que isso é uma característica das pessoas de nossos
dias. Mas, o texto mostra que as pessoas do tempo de Jesus não eram
muito diferentes nisso. Elas pensavam: se Jesus é o Messias, o Rei, o
próprio Filho de Deus, então ele deveria vir com muita pompa e glória,
cercado de um poderoso exército, fazendo obras espetaculares que
chamassem a atenção do mundo inteiro.
Mas, para sua surpresa, Jesus contraria essas expectativas. Ele
parece tão fraco, humilde e incapaz até de se defender a si próprio.
Essa aparência impede as pessoas de enxergar os fatos que estão
diante de seus olhos: que Jesus faz o que ninguém jamais fez ou é
capaz de fazer – sim, que ele é muito maior e mais poderoso do que o
Messias de suas expectativas.
Muitos continuam a tropeçar em Jesus e no seu evangelho ainda
hoje. O evangelho parece ser uma coisa tão simples e pequena que,
para muitos, simplesmente não faz sentido vir à igreja para ouvi-lo, ou
então receber suas dádivas no sacramento.
Além disso, o evangelho se choca com uma das principais certezas
e convicções do nosso velho homem: de que temos que fazer alguma
coisa para expiar nossa culpa e para merecer o perdão de Deus. A
história mostra que o ser humano sempre acreditou que ele precisa
fazer por merecer em termos de sua salvação. Por isso ele inventou
mosteiros, procissões, flagelações, promessas, etc. Lutero certa vez
disse que se Deus nos dissesse que nossa salvação dependeria de
carregar pedras pesadas para o alto de uma montanha, então certa-
mente colocaríamos todo nosso empenho em fazer isso. Mas, agora
Deus diz: vem a Cristo como estás, carregado de pecados, e crê so-
mente – e nós nos escandalizamos e tropeçamos em Cristo e na sim-
plicidade de seu Evangelho.
No fundo, isso acontece porque não reconhecemos nossa pobreza
espiritual. Não reconhecemos nossa total corrupção e perdição por

152
EXPECTATIVA E SURPRESA

natureza. É verdade que todos nós vemos os resultados do pecado à


nossa volta: a corrupção, crimes de todo tipo, insegurança e medo.
Mas, muitas vezes, as pessoas não reconhecem que tudo isso é fruto
do pecado. Geralmente se imagina que algumas pessoas são más,
mas que a maioria é gente boa.
Não se reconhece que o pecado está presente em cada ser huma-
no desde o seu nascimento e que, como diz a Escritura: “é mau o
desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade” (Gn 8.21), e ainda:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperada-
mente corrupto” (Jr 17.9).
O mais difícil de tudo, porém, é reconhecer que eu e você somos
tão pecadores como os demais e que também nós temos que chegar
diante de Deus de mãos vazias, implorando sua graça – como verda-
deiros pobres.
Mas, quando reconhecemos que somos pobres pecadores, então
também podemos ter a certeza de que a Boa Nova de que o Salvador
nasceu é também para nós. Então também podemos ter a certeza de
que este nosso Salvador é muito maior do que todos os nossos medos
e angústias; e de que ele não apenas pode, mas também quer nos
socorrer.
O que você espera neste Natal? Qual é a sua expectativa? Tomara
que você tenha muitas surpresas boas! E que você possa se reunir
com os seus para se alegrar e celebrar!
Queira Deus que, ao mesmo tempo, o maior motivo de festa e ale-
gria, em nosso coração, seja a mensagem do perdão e da vida que
Cristo traz. E que o Menino nascido lá em Belém continue a vir até nós
continuamente, por meio de sua palavra e sacramentos, na expectati-
va do seu retorno definitivo, quando ele irá nos proporcionar a maior
de todas as surpresas ao nos transferir deste seu reino da graça para
o eterno reino da glória. Amém.

Sermão proferido pelo Prof. Dr. Paulo Wille Buss na


capela da ULBRA no 3º Domingo de Advento,
dia 16 de dezembro de 2007.

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