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relato de experiência / report of an experience / relato de experimento

Abordagem terapêutica às famílias na reabilitação de pacientes


internados em hospitais psiquiátricos: relato de experiência
Therapeutic approach to families in the rehabilitation of patients interned in psychiatric
hospitals: report of an experience
El acercamiento terapéutico a las familias en la rehabilitación de pacientes internados en
hospitales psiquiátricos: informe de la experiencia

Jonia Lacerda Felício*


Daniella Valverde de Almeida**

Resumo: As práticas e políticas mais recentes em Saúde Mental têm tomado contato com as pesquisas que apontam que a abordagem às famílias dos pacien-
tes psiquiátricos é decisiva à resposta terapêutica desses casos. Mesmo a eficácia da medicação tem sido compreendida como sendo relacionada ao contexto
social e cognitivo no qual o tratamento farmacológico é realizado, e neste sentido é empreendida a capacitação à família quando o paciente tem que passar
por um período de internação. Neste trabalho, a partir de um levantamento bibliográfico, tem-se o histórico das principais abordagens em Terapia Familiar e
descreve-se o impacto das intervenções realizadas com uma única família e em grupos multifamiliares. A seguir, se discutem as condições institucionais que
garantem o estabelecimento de práticas de atendimento às famílias, as situações que exigem que este encaminhamento seja feito de maneira mais urgente
e a experiência das autoras com o atendimento a famílias de pacientes internados em um grande hospital-escola da cidade de São Paulo. Desta vivência, são
apontados os focos terapêuticos e enquadres clínicos mais freqüentes. Finalmente, discutem-se as características específicas de famílias que enfrentam o
adoecimento de um familiar que, a partir dos estudos com a Emoção Expressa, compreende-se serem diferentes conforme a patologia enfrentada. São descritos
os achados com famílias de pacientes com Esquizofrenia, Depressão, Transtorno Borderline e de crianças com transtornos psiquiátricos. Estes estudos verificam
que as intervenções familiares colaboram com a redução da sintomatologia psicótica residual e desenvolvem mais plenamente os recursos dos cuidadores,
considerando também que a duração da doença, o número de internações e o grau do desconforto emocional da família indicam qual o tipo de resposta que
se consegue com cada modalidade de intervenção familiar.
Palavras-chave: Assistência em saúde mental. Transtornos mentais-reabilitação. Pacientes internados-psicologia.
Abstract: More recent Mental Health practices and policies have been affected by research which points out that approaching families of psychiatric patients
is a decisive step for therapeutic response in these cases. Even the effectiveness of medication has been understood as being related to the social and cognitive
context in which pharmacological treatment is carried through, and in this sense the qualification of the family is undertaken when patients have to pass
through a period of internment. In this work, from a bibliographical survey, we present a historic description of the main approaches in Family Therapy and
the impact of interventions carried through with an isolated family and in multifamily groups. We then discuss the institutional conditions that guarantee the
establishment of a practice of assistance to families, the situations that demand that this guiding is done more urgently and the experience of the authors with
assisting families of patients interned in an important school-hospital of São Paulo city. From this experience, the more frequent therapeutic foci and clinical
settings are pointed out. Finally, we discuss the specific characteristics of families who face some relative becoming ill, characteristics which, from studies
with Expressed Emotion, is understood to be different according to the pathology faced. We describe findings about families of patients with Schizophrenia,
Depression, Borderline Disturbance and those of children with psychiatric disturbances. These studies show that family interventions collaborate with the
reduction of residual psychotic symptoms and more fully develop carers’ resources, also considering that the duration of the illness, the number of internments
and the degree of emotional discomfort the family presents indicate the type of response one obtains with each modality of familiar intervention.
Keywords: Assistance in mental health. Mental disturbances-rehabilitation. Interned patients-psychology.
Resumen: Prácticas y políticas mentales más recientes de salud han sido afectadas por investigaciones que precisan que acercar las familias de pacientes
psiquiátricos es un paso decisivo para la respuesta terapéutica en esos casos. Incluso la eficacia de la medicación se ha entendido como siendo relacionada
con el contexto social y cognoscitivo en el cual se hace el tratamiento farmacológico, y en este sentido la calificación de la familia se emprende cuando los
pacientes tienen que pasar con un período de internación. En este trabajo, a través un examen bibliográfico, presentamos una descripción histórica de los
acercamientos principales en terapia de la familia y el impacto de intervenciones hechas con una familia aislada y con grupos multifamiliares. En seguida
discutimos las condiciones institucionales que garantizan el establecimiento de una práctica de ayuda a las familias, las situaciones que exigen que se haga la
orientación más urgentemente y la experiencia de los autores con asistencia a familias de pacientes internados en un importante hospital-escuela de la ciudad
de São Paulo. De esta experiencia se precisan los focos y los ajustes clínicos terapéuticos más frecuentes. Finalmente, discutimos las características específicas
de las familias que hacen frente a algún pariente enfermo, características que, a partir de estudios con la Emoción Expresada, se entiende ser diferentes según
la patología con la que la familia se relaciona. Describimos resultados sobre las familias de pacientes con esquizofrenia, depresión, disturbio de frontera y de
niños con disturbios psiquiátricos. Estos estudios demuestran que las intervenciones en la familia colaboran con la reducción de síntomas sicopáticos residuales
y desarrollan más completamente los recursos de los cuidadores, también considerando que la duración de la enfermedad, el número de internaciones y el
grado de malestar emocional que la familia presenta indican el tipo de respuesta que se obtiene con cada modalidad de intervención familiar.
Palabras llave: Ayuda en salud mental. Disturbio mental-rehabilitación. Pacientes internados-psicología.

* Doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Coordenadora do Curso de Psicologia do Centro Universitário São Camilo.
Psicóloga Chefe no Serviço de Psicologia do Instituto de Psiquiatria (HCFMUSP).
** Especialista em Psicologia Hospitalar na Instituição Psiquiátrica (Instituto de Psiquiatria HCFMUSP). Psicóloga do Pólo de Atenção Intensiva em Saúde Mental da
Associação Congregação de Santa Catarina.

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Introdução ras, a esquizofrenia, já está determi- Características das


A internação psiquiátrica cons-
nado que as intervenções familiares intervenções familiares
são eficazes na prevenção ou adia-
titui um momento de intenso so- A abordagem terapêutica à fa-
mento das recaídas dos episódios de
frimento para os pacientes e suas mília tem seus marcos mais claros
surtos (Fadden, 1997). E um amplo
famílias. Ela decorre de um impas- a partir da sistematização do movi-
estudo inglês sobre a assistência em
se, uma ruptura nas condições e mento de Terapia Familiar no final
saúde à esquizofrenia, menciona-
recursos que paciente e familiares da década de 50 (Galano, 1998).
do por Kelly, Newstead (2004), o
dispunham para lidar com suas Desde aquele momento, compre-
vidas. A necessidade de isolar so- National Schizophrenia Fellowship
endeu-se que os indivíduos pode-
cialmente o paciente sob o abrigo de 1995, demonstra claramente o
riam ser ajudados no contexto de
do Hospital acontece quando não profundo impacto nos familiares
sua vida familiar e cotidiana para
há mais condições mínimas de se- e cuidadores mais próximos a um
além de sua realidade individual.
gurança para assegurar sua integri- paciente esquizofrênico: 71% de- Em certo ponto, também ficou cla-
dade física e psicológica e ter um senvolveram doenças neles mes- ro que o próprio conceito do que é
tratamento consistente. Trata-se mos em decorrência da dificuldade família tinha que estender-se, não
da necessidade de reavaliar muito deste cuidado; 81% tinham viven- levando em conta apenas o que é
proximamente o caso clínico no in- ciado crises neste familiar portador determinado pelos laços consan-
tuito de restaurar ou desenvolver de esquizofrenia que chegaram a güíneos. Trata-se fundamental-
recursos e capacidades humanas constituir perigos graves a ambos, mente de um grupo humano que,
essenciais que se encontram de- cuidador e doente; e os cuidadores estruturado por processos que lhe
sorganizados, disfuncionais. achavam-se pouco informados e são próprios, configura uma iden-
Neste sentido, a internação psi- orientados, manifestando o desejo tidade familiar a partir de regras,
quiátrica habilita melhor a equipe de envolverem-se até o ponto de rotinas e hierarquias de poder que
de saúde sobre a natureza daquele participarem inclusive das discus- traduzem tradições, valores, visão
caso clínico e de como lidar com sões sobre as políticas públicas acer- de mundo, mitos e crenças que lhe
ele. Entretanto, esta maior capa- ca deste problema. acompanham desde sua formação
citação do sistema de saúde pode Ou seja, voltando à colocação e história. Este grupo tem frontei-
dirigir-se a um vazio, se não for inicial deste texto, a não capacita- ras distinguindo-o do que lhe é
entendido que o paciente não é ção dos cuidadores primários dos externo e delineando dentro dele
cuidado primariamente pelo hos- pacientes internados, geralmen- mesmo subgrupos relacionados às
pital e seus clínicos, mas sim pelas te seus familiares, traz o risco de diferentes gerações, gêneros e fun-
pessoas com as quais ele convive e diminuir de forma importante o ções (parental, filial e fraterno).
que constituem seu grupo social. impacto e alcance das melhoras al- Uma psicanalista argentina,
Em outros termos, esta nova com- Raquel Soifer, lembrava que a fa-
cançadas na internação.
preensão sobre o que acontece com mília é a estrutura social básica,
Este trabalho visa então deli-
o paciente deve ser apropriada por pois é nela que a vida é primeiro
near as principais características
ele mesmo e pelas pessoas que par- acolhida e sustentada, funcionando
das intervenções familiares, as es-
tilham a vida com ele. na capacitação às relações sociais
tratégias terapêuticas possíveis de
Visto sob este ângulo, a orienta- e amorosas, assim como às ativi-
ção e terapia junto às famílias dos serem levadas a cabo no contexto
dades recreativas e produtivas. E
pacientes internados não é uma das hospitalar e as particulares José Bleger, outro destes autores
estratégia a mais dentre as que po- que estas intervenções encontram clássicos da psicanálise argentina,
dem ser oferecidas no contexto das quando lidam com familiares de enfatiza o quanto o funcionamento
instituições de Saúde Mental. Ela é portadores de diferentes tipos de social depende da estrutura fami-
central à meta de que aquela inter- doenças mentais. liar, por ser esta a instituição que é
nação tenha conseqüências dura- Será empreendido um levan- o reservatório de nossos aspectos
douras em termos de uma melhor tamento teórico no tema e o rela- mais íntimos e espontâneos, pos-
adaptação e manejo das dificulda- to de aspectos da experiência das sibilitando, mas também contro-
des que culminaram na crise pré- autoras com esta prática em um lando, um espaço de satisfação das
hospitalização. Serviço de Psicologia de um Hos- partes mais imaturas, primitivas
Lembrando neste ponto a mais pital-Escola Psiquiátrico da cidade ou narcísicas da personalidade.
comum das doenças mentais seve- de São Paulo. Ou seja, é na família que o sujeito

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é inserido nas relações humanas, 60 os estudos dos Terapeutas Fa- redução de recaídas psicóticas em
iniciando seu desenvolvimento nas miliares Sistêmicos, inicialmente um período de 12 meses, embora
capacidades de lidar com o amor e a reunidos em torno do antropólogo somente a intervenção familiar in-
solidariedade, a inveja e a agressivi- Gregory Bateson, que trabalhava dividual foi capaz de efetivamente
dade, e as distinções sexuais. com esquizofrênicos. São deste reduzir as recaídas e a readmissão
As abordagens em Terapia Fa- grupo terapeutas como Don Jack- hospitalar em período de um a dois
miliar podem ser descritas como son, Jay Haley e Virginia Satir. anos, quando comparada a outros
agrupadas em alguns ramos, todos Estes autores preocupavam-se tipos de intervenções (Pilling et al,
emergentes da necessidade de se mais com as estratégias deficientes 2002).
responder aos problemas levan- das famílias no manejo de proble- Na experiência das autoras
tados pelas famílias com pacientes mas que quase certamente acon- como psicólogas de um Serviço de
com transtornos mentais ou em si- teceriam ao longo do ciclo vital. Há Psicologia de um Hospital-Escola
tuação de grave desamparo social uma ênfase mais estrita no sistema Psiquiátrico que também presta
(Bloch, Harari, 2007). familiar como um todo, não no in- assistência terapêutica às famílias
O primeiro destes ramos é o divíduo. O é então comportamen- de alguns pacientes internados, se
Psicodinâmico, hoje largamente to abordado na análise do contexto observou que os atendimentos a
desenvolvido no que é nomea- onde ele ocorre. Os terapeutas sis- grupos de famílias são efetivamente
do Terapia Familiar das Relações têmicos dirigem-se à integração en- mais complexos quanto ao trabalho
Objetais, e produzido prioritaria- tre sentimento e ação necessária a que envolve desde a convocação
mente no ambiente acadêmico do uma clara mudança nas condições até a garantia de uma freqüência
nordeste dos Estados Unidos sob de vida do grupo familiar. razoável aos grupos. Neste sentido,
o amparo da teoria psicanalítica. Esta oposição entre a aborda- considerou-se que a convocação a
São de destaque nesta corrente gem sistêmica e a psicodinâmica um grupo de famílias propicia uma
nomes como Nathan Ackerman, é hoje mais atenuada, até pela re- certa diluição das responsabilidades
psiquiatria infantil que cunhou o cente ênfase do grupo sistêmico por parte do familiar.
termo “Terapia Familiar”, Murray nas características e funcionamen- Os atendimentos a apenas uma
Bowen, terapeuta de crianças psi- to do próprio terapeuta, o que é família de cada vez mostraram ter
cóticas e Salvador Minuchin, que, uma visão próxima à preocupação mais chances de obterem a adesão
já nos anos 70, trabalhava com da abordagem psicanalítica com a e a resposta terapêutica destas fa-
adolescentes delinqüentes e famí- relação terapêutica. mílias, até por conta do maior en-
lias com crianças anorexicas, asmá- volvimento dos clínicos da equipe
ticas e com diabete instável, e que que os encaminham. O referimen-
gradualmente ligou-se aos autores Estratégias e impacto to acontece quando estão em ação
sistêmicos. terapêutico das abordagens funcionamentos bastante difíceis
Nas abordagens psicodinâmicas, à família nas Instituições de que, via de regra, conduz a relação
mantém-se a ênfase na necessidade Saúde Mental profissional de saúde- paciente-
do indivíduo elaborar experiências familiares a um confronto aparen-
emocionais precoces para respon- As organizações de Saúde temente incontornável.
der de forma mais flexível às de- Mental têm experimentado duas Nestes trabalhos, as famílias
mandas dos vínculos humanos no estratégias básicas de intervenção elaboram conflitos relativos ao
presente. Os insights possibilitados familiar: a individual (quando so- desespero ou a esperança frente
por este trabalho promovem a ex- mente uma família é atendida) aos diagnósticos e experimentam
pressão e mudança dos sentimentos e a grupal (onde se assiste a mais novas soluções aos impasses na co-
e atitudes sobre a vida. Investigam- de uma família na mesma sessão). municação, delimitação de papéis e
se as fantasias internas incons- Ambas mostraram ter um impor- negociação de autonomia com este
cientes projetadas nos outros que tante papel no bem-estar familiar, familiar.
sustentam vínculos rígidos, como pois reduz o isolamento, a ansie- Há também o acolhimento de
aqueles dos funcionamentos sado- dade pela falta de informações e momentos mais catárticos, como
masoquistas, dominador-submisso, os efeitos do estigma de se ter um aqueles em que a família se au-
saudável-enfermo, independente- familiar doente mental. A inter- to-acusa severamente ou coloca
dependente. venção familiar grupal e individual pessoas e situações na posição de
Em Palo Alto, na costa oes- mostrou-se mais efetiva que qual- bodes expiatórios de suas dificulda-
te americana, emergem nos anos quer outro tipo de tratamento na des com o paciente. Em alguns mo-

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mentos, se vê que estas acusações riedade de técnicas terapêuticas, física, com pedidos de ajuda
são dirigidas à instituição de saúde que inclui a possibilidade de não à polícia.
e seus profissionais. Esta raiva se re- se trabalhar com o grupo familiar – pessoas que cuidam sozinhos
laciona à confusa vivência de culpa completo. As considerações teó- de um familiar com distúrbios
e perplexidade frente à decepção e ricas são sempre objeto de estudo psicóticos.
ressentimento com o desenvolvi- e reflexão, mas não ao ponto de
adiarem procedimentos que intui- – pessoas que estão em sua pri-
mento doentio do familiar, o que
claramente perturba a vivência tivamente os terapeutas vivenciam meira experiência com um
de uma distância emocional sadia como urgentes. Neste aspecto, a Te- surto psicótico.
frente ao familiar que tem doença rapia Familiar em instituição não
mental. O problema de se ter uma se descola da sombra da severidade Características diferenciais
distância e diferenciação emocio- das crises vitais que implicaram na
internação.
das famílias conforme a
nal razoável se expressa de muitas
formas: em uma mesma família é As experiências de outros auto- patologia do paciente
freqüente termos que trabalhar res com a intervenção familiar em Os estudos com atendimentos a
com o superenvolvimento de um instituição de Saúde Mental apon- familiares de pacientes que tem dis-
membro e com a completa desco- tam que estes serviços enfrentam
túrbios mentais deixam claro que
nexão de outro, sendo ambos os resistências organizacionais, como
a intervenção familiar não apenas
funcionamentos igualmente preju- o da fragmentação dos serviços e a
reduz recaídas psicóticas, hospita-
diciais do ponto de vista emocional, pobre comunicação entre os vários
lizações e aderência a medicações,
tanto para o paciente quanto para profissionais das equipes de Saúde.
mas também que o contexto social
o familiar. O atendimento às famílias deve
contar com espaços institucionais e cognitivo no qual o tratamento
Outro foco terapêutico muito
de Supervisão e Grupos de Discus- farmacológico é realizado influen-
explícito é o da promoção do en-
são pelos terapeutas, e com outras cia a efetividade das medicações
tendimento pela família de que ela
possibilidades de comunicação de (Pilling et al, 2002).
é um dos elementos do sistema de
seus estudos e experiências, que No intuito de investigar qual
suporte com o qual o paciente con-
também intentam a sensibilização seria o aspecto do funcionamento
ta, o que exige a ativa interação da
dos gerentes institucionais (Kelly, familiar que aumenta estas chances
família com os outros atores deste
Newstead, 2004). de recaída e de pobre adesão à tera-
sistema: a equipe multiprofissional,
Entretanto, este e outros estu- pêutica medicamentosa, observa-se
os amigos, a família estendida e a
comunidade. dos (Dixon et al, 2000; Linszen et que na verdade os funcionamen-
O enquadre clínico do atendi- al, 1996) rechaçam firmemente tos das famílias onde alguém tem
mento em instituição sublinha o que a intervenção familiar seja ul- um problema psiquiátrico diferem
limite temporal destes trabalhos, trapassada e custosa às instituições. conforme a patologia mental en-
e por isto é estabelecida uma fre- Como direcionamento a estes ser- frentada por este grupo humano.
qüência de uma a duas vezes por viços, são levantados os seguintes esquizofrenia, transtorno de per-
semana durante a internação, com critérios de encaminhamento ao sonalidade e outros.
o seguimento em sessões a princí- acompanhamento familiar: Colaboram para este entendi-
pio mensais, durante cerca de um – familiares e cuidadores que mento os estudos com o conceito
ano após a alta hospitalar. Como os vivem com pacientes que têm da Emoção Expressa, um dos mé-
trabalhos com grupos de famílias recaídas mais freqüentes do todos diagnósticos de famílias mais
têm tido uma maior dificuldade de que uma por ano, indepen- utilizados no âmbito da Psiquiatria.
adesão, o que reduz os recursos hu- dente de qual seja o diagnós- A Emoção Expressa é relativa à
manos disponíveis, não são atendi- tico e a medicação em uso. qualidade da narrativa dos familia-
dos todas as famílias de pacientes – familiares e cuidadores que res sobre o parente que tem a pa-
internados, mas sim as que a equi- procuram os clínicos envol- tologia psiquiátrica. Três aspectos
pe de Saúde aponta como sendo os vidos com o caso de forma das descrições dos familiares sobre
casos onde a intervenção familiar é excessivamente insistente e o paciente são analisados (Scazufca,
mais urgente. ansiosa. 1998):
Nesta experiência também foi – famílias onde existem brigas – número de comentários crí-
observado que os terapeutas de- muito constantes e que le- ticos, mordazes, amargos ou
vem dispor-se ao uso de uma va- vam à violência verbal e/ou depreciativos;

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– hostilidade, direta ou dissi- criança também altera a família, aos profissionais de toda a Equipe
mulada; que se torna mais rígida, menos co- que a terapêutica medicamentosa e
– nível de envolvimento emo- municativa e calorosa emocional- as outras intervenções psicossociais
cional estressante, também mente, como se, nesta situação, as não dão conta da pressão de uma
denominado superenvolvi- pessoas tentassem se mostrar mais condição ambiental tão estressora
mento emocional. “fortes”, temerosas de seu próprio que fatalmente traz a reinternação
Em familiares de esquizofrê- desamparo. Estas constatações como uma solução de vida, e não
nicos, há indicativos de um alto permitem a estes autores concluír como um impasse a ser transposto
nível de proximidade e estresse que as famílias causam problemas, e adiado o mais possível pelo pa-
relacional, dificultando a distinção mas muitos problemas familiares ciente.
emocional entre as pessoas e con- são uma resposta aos problemas da A clareza da eficácia destas
correndo para demonstrações mui- criança (Wamboldt, 2000). práticas não corresponde a sua im-
to explícitas de raiva. Seria este o Assim, os estudos sobre abor- plantação plena nos Hospitais Psi-
estressor ambiental que aumenta- dagens a famílias de pacientes psi- quiátricos. Vence aqui a percepção
ria o risco de recaídas sintomáticas quiátricos verificam de que estas generalizada dos profissionais e da
e de reinternação em pacientes es- intervenções colaboram com a instituição de Saúde de que “famí-
quizofrênicos (Kavanagh, 2002). redução da sintomatologia psicó- lia só complica” (uma expressão fa-
Em relação aos pacientes de- tica residual e desenvolvem mais cilmente encontrada neste meio), o
pressivos, observa-se que os cui- plenamente os recursos dos cuida- que justificaria a resistência a este
dadores vivenciam uma grande dores, considerando também que trabalho de capacitação dos fami-
sobrecarga e desconforto emocio- a duração da doença, o número de liares, que, entretanto, devem ser
nal, pois a depressão está associada internações e o grau do desconforto entendidos como os cuidadores pri-
a um alto nível de dependência nas emocional da família são preditivos mários emprestando seu familiar
tarefas diárias, positivamente asso- do tipo de resposta que se consegue à instituição hospitalar quando da
ciado com a severidade e duração com cada modalidade de interven- necessidade de uma internação. A
do episódio de depressão (Scazufca ção familiar. internação é indício não só de uma
et al, 2002). crise na estabilidade do quadro do
Já nas famílias onde um de seus Conclusão paciente, mas também aponta a ne-
membros tem um quadro de Trans- cessidade de reflexão e mudança de
torno Borderline de Personalida- Os estudos sobre a abordagem seus familiares.
de, há uma tendência a acontecer familiar a pacientes psiquiátricos Uma das tarefas terapêuticas
um ambiente familiar hostil como demonstram claramente a perti- mais relevantes nestes encaminha-
um todo, o que também está re- nência e o alcance destas práticas mentos é a da elaboração da culpa,
lacionado ao superenvolvimento na melhora da resposta terapêutica desamparo e desesperança frente a
(Kernberg, 1975; Gunderson, 1984 dos pacientes com distúrbios men- estes adoecimentos. São vivências
apud Hooley, Hoffman, 1999). tais. Na experiência das autoras que que sustentam indiferenciações
Quando a criança tem um trans- atendem a casos onde a Equipe de emocionais, proximidades exces-
torno psiquiátrico, considera-se que Saúde considera urgente o encami- sivas ou francas desconexões nos
o nível de pesada crítica interpessoal nhamento a estas intervenções, a vínculos entre pacientes e familia-
no qual suas famílias facilmente in- abordagem às famílias determina res. Por isto, o paciente da institui-
correm está associado a resultados inclusive o momento e todo o pla- ção psiquiátrica é não só o paciente
terapêuticos mais pobres. A vivên- nejamento de alta da internação identificado como tal, mas todo o
cia de adoecimentos crônicos pela hospitalar. Nestas situações, é claro seu grupo familiar.

referências

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Recebido em 20 de fevereiro de 2008


Aprovado em 27 de março de 2008

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