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A Paraíba nos 500 Anos do Brasil

ANAIS DO CICLO DE DEBATES DO IHGP


ABRIL - 2000
JOÃO PESSOA - PARAÍBA

ESTADO DA PARAÍBA

José Targino Maranhão


Governador

Roberto de Sousa Paulino


Vice-Governador

Carlos Alberto Pinto Mangueira


Secretário da Educação e Cultura

Francisco de Sales Gaudêncio


Secretário Adjunto da Educação

Francisco Pereira da Silva Júnior


Subsecretário de Cultura
Copyright © by Instituto Histórico e Geográfico Paraibano
ANAIS - CICLO DE DEBATES
A PARAÍBA NOS 500 ANOS DE BRASIL

Capa:
PONTES DA SILVA

Digitação e Editoração Eletrônica:


LUIZ HUGO GUIMARÃES

Coordenação Gráfica:
SANTINO GOMES FILHO

Diagramação Final:
NAUDIMILSON RICARTE

Impressão e Acabamento:
DEPARTAMENTO DE PRODUÇÃO GRÁFICA - SEC/DPG

I 99p IHGP. Anais do Ciclo de Debates sobre a Paraíba na Participação dos 500
anos de Brasil. João Pessoa. Secretaria de Educação e Cultura do Es-
tado. 433p

I - IHGP – História II - Debate - Anais

CDU 981.33 (093.2)


INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO PARAIBANO
Fundado em 07 de setembro de 1905
Considerado de Utilidade Pública pela Lei Estadual nº 317, de 22.10.1909
Rua Barão do Abiaí, nº 64 - João Pessoa - Paraíba

DIRETORIA
(1998/2001)

Presidente
Luiz Hugo Guimarães

Vice-Presidente
Dorgival Terceiro Neto

Secretário Geral
Adauto Ramos

1º Secretária
Waldice Mendonça Porto

2º Secretário
Domingos de Azevedo Ribeiro

Tesoureiro
Nivalson Fernandes de Miranda

Diretor de Atividades Culturais


Deusdedit de Vasconcelos Leitão
Apresentação

Há bastante tempo o Instituto Histórico não tinha assumido a responsabili-


dade de promover um evento cultural da envergadura deste Ciclo de Debates.
O primeiro ocorreu em maio de 1922, quando tivemos o ensejo de realizar,
em nossa sede, o VII Congresso Brasileiro de Geografia, com a participação de re-
presentantes de 11 Estados.
Nos anos de 1968 e 1969, com o apoio de outras instituições culturais, pro-
movemos um Curso de Geografia, um Curso de História da Paraíba e um Curso de
História Econômica, todos em menor dimensão que este. De lá pra cá, fizemos al-
guns seminários e simpósios de pequena duração.
Neste ano, aproveitamos o ensejo da passagem dos 500 anos da descoberta
do Brasil para reiniciar nossos grandes eventos culturais de participação coletiva.
Foi assim que, em julho último, esta Presidência propôs e o plenário do Ins-
tituto aprovou a realização deste Ciclo de Debates, iniciado no dia 15 de setembro e
encerrado a 12 de novembro de 1999.
O objetivo foi revisar os episódios da participação da Paraíba nos 500 anos
do Brasil, sendo incluído no temário algumas das principais ocorrências da história
brasileira em que a Paraíba se evidenciou.
O interesse demonstrado pelo Ciclo surpreendeu-nos pelo nível dos debates
e dos participantes, dos quais oitenta por cento eram de níveis pré-universitário e
superior.
Do temário constou: o exame da participação da Paraíba nos períodos Co-
lonial, Imperial e da Primeira República; a conquista da Paraíba; suas nações indí-
genas; os holandeses; as lutas nativistas; a escravatura; a Revolução de 1930; o mo-
vimento militar de 1964; a imprensa; a igreja; a inquisição; a maçonaria; a produção
literária; a historiografia e os historiadores paraibanos. Esses foram alguns dos te-
mas abordados pelos nossos consócios e professores de História da Universidade
Federal da Paraíba.
O êxito do certame não era de surpreender, pois novos subsídios foram a-
crescidos a nossa historiografia e muitos pontos ainda não bem examinados e in-
terpretados foram apontados para posterior estudo e pesquisa.
O esforço da Diretoria do Instituto, dos seus associados e servidores, dos
expositores e debatedores poderá ser avaliado na leitura dos presentes ANAIS, que
agora levamos ao público com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura do Es-
tado, dentro do programa do Governo do Estado de apoio à celebração da passa-
gem do V Centenário do Descobrimento do Brasil, através do Comitê especial cri-
ado com essa finalidade.
Registramos aqui um agradecimento especial aos expositores e debatedores
oficiais convidados pela Comissão Organizadora para participarem do evento, que
se houveram com bastante brilho.
Como expositores apresentaram excelentes trabalhos, pela ordem dos temas
apreciados, os seguintes participantes: professora Regina Célia Gonçalves, da
UFPB; professora Rosa Maria Godoy Silveira, chefe do Departamento de História
da UFPB; Luiz Hugo Guimarães, presidente do IHGP; historiadora Waldice Men-
donça Porto, 1a secretária do IHGP; historiador Wilson Nóbrega Seixas, do IHGP;
etnólogo José Elias Borges Barbosa, da UFPB e IHGP; historiador Aécio Vilar de
Aquino, do IHGP; historiador José Octávio de Arruda Mello, do IHGP, Unipê e
UEPB; historiadora Diana Soares de Galliza, da UFPB e IHGP; historiador Hum-
berto Cavalcanti de Mello, da UFPB e IHGP; Martha Falcão, da UFPB e IHGP;
Manuel Batista de Medeiros, da UNIPÊ, APL e IHGP; jornalista e historiadora Fá-
tima Araújo, do IHGP; historiador Carlos André Macedo Cavalcanti, da UFPB e
Diretor Cultural da FUNESC; jornalista e historiador Hélio Nóbrega Zenaide, do
IHGP; escritor e historiador Joacil de Britto Pereira, do IHGP e presidente da A-
PL; historiador Guilherme Gomes da Silveira d'Avila Lins, presidente do IPGH e
membro do IHGP; historiador Olavo de Medeiros Filho, do Instituto Histórico e
Geográfico do Rio Grande do Norte.
Entre os debatedores oficiais, contamos com o concurso das seguintes pes-
soas: historiador Wellington Aguiar, do IHGP e Diretor do Arquivo Público do Es-
tado; Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, do IHGP; Joacil Pereira, do IHGP; Waldi-
ce Mendonça Porto, do IHGP; professora Inês Caminha Lopes Rodrigues, da
UFPB e UEPB; Aécio Vilar de Aquino, do IHGP; historiador Dorgival Terceiro
Neto, da APL e vice-presidente do IHGP; Luiz Hugo Guimarães, do IHGP; Mon-
senhor Eurivaldo Caldas Tavares, do IHGP; Zilma Ferreira Pinto, do IPGH; Ed-
gard Bartolini Filho, grão mestre da Maçonaria; jornalista e escritor Luiz Gonzaga
Rodrigues, da APL.
João Pessoa, janeiro de 2000.
Luiz Hugo Guimarães
Presidente
SUMÁRIO

A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL ..................................................................12


1. Introdução ............................................................................................................12
2. Sobre as Comemorações dos 500 Anos do Brasil .........................................12
3. O Lugar do Colonial na Historiografia Brasileira ..........................................15
4. A História Colonial da Paraíba .........................................................................17
Considerações finais pela professora Regina Célia Gonçalves: .......................31
A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO ........................................................................34
Considerações finais pela professora Rosa Maria Godoy Silveira: .................52
A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA................................................................58
Considerações finais pelo expositor Luiz Hugo Guimarães: ...........................80
06-12-1989 a 31-12-1991: Venâncio Augusto de Magalhães Neiva ...............81
18-02-1892 a 1896: Álvaro Lopes Machado .......................................................81
22-10-1896 – 22-10-1900: Antônio Alfredo da Gama e Melo ........................81
22-10-1900 – 1904: José Peregrino de Araújo ....................................................82
22-10-1904 a 28-10-1905: Álvaro Lopes Machado (segundo governo) .........82
28-10-1905 a 28-11-1905: Francisco Seráfico da Nóbrega...............................82
28-11-1905 a 28-10-1908: Monsenhor Walfredo dos Santos Leal ..................82
28-10-1908 – 28-10-1912: João Lopes Machado ...............................................83
28-10-1912 a 24-07-1915: João Pereira de Castro Pinto...................................83
24-07-1915 a 24-07-1916: Antônio da Silva Pessoa ..........................................84
24-07-1916 a 22-10-1916: Solon Barbosa de Lucena ........................................84
22-10-1916 – 22-10-1920: Francisco Camilo de Holanda ................................84
28-10-1920 – 28-10-1924: Solon Barbosa de Lucena .......................................85
22-10-1924 – 22-10-1928: João Suassuna............................................................86
22-10-1928 - 26-07-1930: João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque ...............86
26-07-1930 a 04-10-1930: Álvaro Pereira de Carvalho .....................................87
04-10-1930 a 09-11-1930: José Américo de Almeida ........................................88
09-11-1930 – 26-04-1932: Anthenor de França Navarro .................................88
26.04.1932 - 12-1934: Gratuliano de Brito..........................................................89
A CONQUISTA DA PARAÍBA .....................................................................................90
Regime das Capitanias Hereditárias .....................................................................93
A Guerra dos 25 anos .............................................................................................95
Expedições Oficiais para a conquista da Paraíba ...............................................96
Conquista da Paraíba sob a égide da União Ibérica...........................................98
Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves, de Sua Majestade ...................98
Governo de Feliciano Coelho de Carvalho ........................................................99
A CONQUISTA DO SERTÃO PARAIBANO ........................................................ 108
A conquista do Sertão ......................................................................................... 109
Teodósio de Oliveira Ledo ................................................................................. 113
Os titulares das sesmarias ................................................................................... 126
Considerações finais pelo expositor Wilson Nóbrega Seixas: ...................... 133
AS NAÇÕES INDÍGENAS DA PARAÍBA ............................................................. 134
OS HOLANDESES NA PARAÍBA ............................................................................ 151
A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA ................................................................................ 167
A mão-de-obra escrava nos engenhos .............................................................. 167
O escravo negro no criatório ............................................................................. 170
O escravo negro nas propriedades algodoeira e cafeeira ............................... 172
AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA ................................................................. 182
A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA ................................................................... 207
O MOVIMENTO DE 64 E A PARAÍBA.................................................................. 237
Martha Falcão, para suas considerações finais: ............................................... 264
A IMPRENSA NA PARAÍBA ...................................................................................... 266
A IGREJA NA PARAÍBA ............................................................................................. 284
1. Introdução. ........................................................................................................ 285
2. Análise e não história. ..................................................................................... 286
3. A Igreja e o Padroado Luso-brasileiro. ........................................................ 286
I – A Igreja na Paraíba ......................................................................................... 295
II – Paraíba – Prelazia e Diocese ....................................................................... 296
III – O primeiro pastor – Vida e morte ........................................................... 297
IV – D. Moisés Coelho – Coadjutor e 2º arcebispo....................................... 299
V – 3º Arcebispo metropolitano – Breve pastoreio – Renúncia .................. 301
VI – 4º Arcebispo – D. José Maria Pires ......................................................... 302
VII – 5º Arcebispo – D. Marcelo Pinto Carvalheira ...................................... 303
VIII – Conclusão.................................................................................................. 304
Considerações finais do professor Manuel Batista de Medeiros: ................. 307
A INQUISIÇÃO NA PARAÍBA .................................................................................. 308
Carlos André Cavalcanti, para suas considerações finais:.............................. 335
A MAÇONARIA NA PARAÍBA ................................................................................. 338
Introdução ............................................................................................................. 339
1. A Maçonaria no Brasil ..................................................................................... 339
2. A maçonaria foi iniciada em Pernambuco e Paraíba através do paraibano
Manoel de Arruda Câmara e lutando por um ideário político de
Independência e República. ................................................................................ 342
3. Depois do Areópago de Itambé .................................................................... 343
4. As primeiras lojas maçônicas na Paraíba depois da Loja Maçônica
Pelicano .................................................................................................................. 343
5. A proclamação da República.......................................................................... 345
5. A mais antiga loja maçônica paraibana em funcionamento ...................... 345
6. Separação do Grande Oriente do Brasil e fundação da Grande Loja do
Estado da Paraíba ................................................................................................. 346
7. Academia Paraibana Maçônica de Letras, Artes e Ciências ...................... 347
8. A maçonaria da Paraíba nos tempos atuais ................................................. 347
9. Outros maçons paraibanos de projeção em nossa vida pública .............. 348
11 – O velho conflito Igreja Católica-Maçonaria............................................ 349
A PRODUÇÃO LITERÁRIA NA PARAÍBA .......................................................... 361
HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS ............................... 384
Historiografia da conquista e da colonização inicial da Paraíba ................... 388
Historiografia da Paraíba relativa ao período holandês no Nordeste do Brasil
................................................................................................................................. 398
A Paraíba na historiografia geral do Brasil a partir do século XVI até a
segunda metade do século XX ........................................................................... 403
Um pouco da historiografia geral e especial da Paraíba a partir do século
XVIII até o terceiro quartel do século XX ...................................................... 406
PRESENÇA PARAIBANA NA CONQUISTA DO RIO GRANDE ................. 417
1. A capitania de João de Barros da Costa dos potiguares ............................ 419
2. A Costa dos potiguares e a presença francesa............................................. 420
3. O Capitão-mor Manuel Mascarenhas Homem: de Olinda ao Rio Grande
................................................................................................................................. 422
4. O arraial da Barra do Rio Grande ................................................................. 424
5. A fortaleza dos Santos Reis da Barra do Rio Grande ................................ 426
6. A Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande ........... 427
7. A reação dos potiguares à presença portuguesa no Rio Grande ............. 427
8. A pacificação dos potiguares.......................................................................... 429
ENCERRAMENTO ........................................................................................... 432 
Abertura dos trabalhos do Ciclo de Debates promovido pelo Instituto Histó-
rico e Geográfico Paraibano sobre a participação da Paraíba nos 500 anos da
descoberta do Brasil.

A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães:

Nosso Instituto neste momento está dando início a um Ciclo de Debates


onde trocaremos idéias sobre os principais episódios ocorridos na Paraíba desde o
Descobrimento do Brasil.
Para compor a mesa dos trabalhos convido o professor Francisco Sales
Gaudêncio, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artística da Paraíba e
representando o Governo do Estado; convido o professor Jáder Nunes de Oliveira,
magnífico reitor da Universidade Federal da Paraíba; convido o professor Francisco
Pereira Júnior, Subsecretário de Cultura do Estado; convido a professora Regina
Célia Gonçalves, que será a expositora do tema A PARAÍBA NO PERÍODO CO-
LONIAL a ser hoje debatido; convido o historiador Wellington Aguiar, que será o
debatedor do referido tema; finalmente, convido o escritor e confrade Joacil de
Britto Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras.
O Instituto Histórico, dada sua importância na vida cultural da Paraíba, não
poderia deixar de organizar um ciclo de debates dessa natureza. Iremos aqui, a par-
tir deste 15 de setembro de 1999 até o dia 12 de novembro, duas vezes por semana,
debater assuntos de interesse da Paraíba sobre sua participação na formação da na-
cionalidade.
Hoje vamos iniciar abordando o período colonial da Paraíba.
Para expor esse tema de muita significação para nós, teremos a palestra da
professora Regina Célia Gonçalves, que é professora assistente do Departamento
de História da Universidade Federal da Paraíba na área de Teoria e Metodologia de
História; é mestra em Ciências Sociais, pela UFPB; é doutoranda em História Eco-
nômica, pela USP, cuja tese aborda o DOMÍNIO HOLANDÊS NA PARAÍBA
COLONIAL; ex-coordenadora do Núcleo de Documentação e Informação Histó-
rica Regional da UFPB; é pesquisadora do Projeto História Local da Paraíba, sendo
co-autora da História dos Municípios de Ingá, Pedras de Fogo, Conde, Cabedelo e
Areia.
Com esta apresentação, passamos a palavra à nossa primeira palestrante des-
te Ciclo de Debates, a professora Regina Célia Gonçalves.

11 

 
1º Tema:
A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL
Expositora: Regina Célia Gonçalves
Debatedor: Wellington Aguiar.
Expositora: Regina Célia Gonçalves
(Professora da UFPB, mestra pela UFPB, doutoranda em História pela USP)

1. Introdução

Tendo em vista a amplitude do tema que nos cabe abordar neste ciclo de
debates - A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL -, bem como a exiguidade do
tempo que nos foi destinado para esta apresentação, optamos por fazê-lo a partir
de um recorte específico. Pretendemos aproveitar esta oportunidade para discutir-
mos as perspectivas para a pesquisa histórica e para produção historiográfica sobre
a Paraíba neste período. A amplitude acima mencionada refere-se não apenas aos
mais de trezentos anos de domínio colonial europeu no Brasil mas, principalmente,
à sua importância para a construção da nossa identidade. Por este motivo, e consi-
derando que o público a quem nos dirigimos hoje, sem dúvida alguma, conhece as
linhas gerais (e muitos dos detalhes) da colonização portuguesa na Paraíba, acha-
mos por bem não fazer uma apresentação global (e superficial) do período, mas
lançar novas propostas de pesquisas. Por outro lado, consideramos que o melhor
caminho para discutir história é, sem dúvida, o adotado pela programação deste ci-
clo de debates: a verticalização/aprofundamento temático que, no caso da história
colonial paraibana, se estenderá, nos próximos meses, por pelo menos outras oito
sessões: 1) A conquista da Paraíba; 2) A conquista do sertão paraibano; 3) As na-
ções indígenas na Paraíba; 4) Os holandeses na Paraíba; 5) A Paraíba nas lutas nati-
vistas; 6) A Escravatura na Paraíba; 7) A Inquisição na Paraíba e 8) A Igreja na Pa-
raíba.

2. Sobre as Comemorações dos 500 Anos do Brasil

Em tempos de "comemoração" do V Centenário do Descobrimento do


Brasil, nada mais pertinente do que iniciar pela discussão sobre a noção mesmo de
"comemoração" que embasa a nossa fala e que, necessariamente, não é a mesma
presente em outras. Há muitas possibilidades de discursos sobre o tema.
Um deles, talvez o mais disseminado, trabalha com a ideia de um Brasil fun-

12 

 
dado em abril de 1500 por portugueses corajosos (e, de fato, o eram) que atravessa-
ram o "mar sem fim" à bordo de precárias caravelas (a tecnologia de navegação
mais avançada de que os europeus dispunham na época), trazendo a verdade da
cruz para as populações canibais e pagãs que aqui viviam (essa é a tônica, por e-
xemplo, de peça veiculada pela TV Globo em maio passado). Ou então, a de um
país que parece nascer pronto nas areias douradas das praias do sul do que hoje é a
Bahia. BAHIA, o Brasil nasceu aqui! Conforme campanha publicitária do governo
baiano que, aliás, demonstra uma extrema competência para aproveitar a memória
histórica como estratégia de marketing. Um outro exemplo dessa utilização é o slo-
gan da camiseta que os jogadores dos times de futebol da Bahia usam por baixo da
oficial: "Salvador, 450 Anos!", e que é exibida a cada gol marcado.
A força dessa perspectiva, também observada em outras ocasiões históricas,
a exemplo das comemorações dos centenários da Abolição da Escravidão (1888) ou
da Proclamação da República (1889) é inquestionável. Principalmente quando, as-
sociados a alguns eventos culturais (como seminários, congressos e ciclos de deba-
tes), realizam-se torneios esportivos, sorteios e shows artísticos, pois é preciso fes-
tejar! E haja festa!
Mas, além desse discurso, há outros. Afinal, do que tratamos quando fala-
mos em "comemoração"? Para iniciar tal discussão, partimos da definição apresen-
tada pelo mais conhecido dos dicionários de língua portuguesa em circulação no
Brasil, o de Aurélio Buarque de Hollanda: "Comemorar: Trazer à memória; fazer recordar;
lembrar". Certo. Mas a memória é um trabalho, é uma atividade humana que com-
porta a lembrança mas também o esquecimento. Não nos é possível viver só de
lembranças. Esquecer é imperativo para que possamos ter uma vida no presente,
caso contrário estaríamos imersos no poço sem fundo do passado. Somos nós,
homens do presente, que lembramos e que esquecemos.
Vivemos um momento em que a questão da memória emerge com extremo
vigor. Pode-se falar de um verdadeiro "boom" memorial a imiscuir-se nas socieda-
des ocidentais contemporâneas. E o eixo principal desse "boom" tem sido a preo-
cupação com a preservação de acervos e arquivos, com a conservação do patrimô-
nio histórico, cultural e ecológico da humanidade, com a multiplicação de lugares
da memória (galerias, bibliotecas, museus, entre outros) e com o resgate da história
dos excluídos. Revisita-se a história com novos olhares, buscando, como fazem
continuamente todas as gerações, re-escrever a história. Tal como já afirmava o
grande historiador francês Marc Bloch, ainda nos anos trinta.

13 

 
E, ocasiões como essa, dos 500 Anos do Brasil, são extremamente propícias
a essa revisita, principalmente porque se trata de um momento importante da me-
mória nacional. Somos herdeiros da tradição moderna de comemoração fundada
com a Revolução Francesa e com a criação do calendário civil que se tornou seu
marco emblemático. A comemoração laicizada, tornada festa cívica. (embora fun-
damentada nos rituais das comemorações religiosas) adquiriu contornos de patroci-
nadora de uma certa identidade: a identidade nacional. E, ao saber histórico coube,
a partir de então, um papel fundamental, pois passará a contribuir decisivamente
para a construção de uma nova identidade social, sustentada pela criação dos luga-
res da memória e pela transformação, em monumento comemorativo, dos fa-
tos/datas e personagens selecionados como significativos da história. O estado na-
cional, o nacionalismo, a identidade são os beneficiários diretos das comemorações
cívicas.1
Arruda, citando o historiador português Vitorino Magalhães Godinho, afir-
ma: "A História nada tem a ver com as comemorações, ela é somente esforço de compreensão. Por
isso, os centenários somente podem ser úteis desde que ensejem estudar problemas, meditar diretri-
zes, criticar certezas dogmáticas, caso contrário, mumificam os vivos, sem ressuscitar os mortos".2
Concordamos com ambos os autores, essa é a nossa perspectiva. Trata-se de enca-
rar mais este centenário como uma oportunidade de reflexão sobre o que somos
nós, quem somos nós, por que o somos e para onde vamos.
Ainda a propósito desta questão das comemorações, este mesmo autor, faz
um exame acurado sobre as perspectivas que animam a Comissão Nacional para as
Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (Portugal) e a Comissão Nacio-
nal para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil (Brasil).
Para ele, a Comissão Portuguesa opera uma relativização da ideia de "descobrimen-
to", entendendo-o como confronto intercultural, e acentua a dimensão científica
das comemorações, fugindo ao excessivo celebracionismo.

"Ao rigor da investigação científica é atribuída a responsabilidade pela distinção entre


propaganda e memória, daí a preferência pelas versões completas de fontes e investigações,
evitando-se as ações superficiais, os produtos fáceis, de rápida divulgação e consumo. Não
se exclui, evidentemente, a dimensão comunitária e cívica, mas a ênfase deveria ser carrea-
da para difundir o conhecimento do passado português. Exorta o rastreio, inventário, reco-
lha, conservação, edição, do patrimônio documental histórico e artístico dos portugueses ou
                                                            
1 Esta parte do texto está fundada na discussão apresentada pelo professor José Jobson de Arruda, em seu
trabalho recém-publicado. O TRÁGICO 5º CENTENÁRIO DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL. CO-
MEMORAR, CELEBRAR, REFLETIR. Bauru, SP: EDUSC, 1999
2 ARRUDA. Op.cit. (p.11).

14 

 
relativo aos portugueses".3

Em lugar da visão luso-cêntrica e eurocêntrica emerge a qualificação de Por-


tugal como parceiro e interlocutor privilegiado das nações que foram ex-colônias
em relação à União Europeia. A comemoração dos centenários (1498, 1500), em
Portugal, transforma-se em hino ao seu lugar no mundo da globalização.
Já a Comissão brasileira (criada em 1993, no MEC e, depois de recusada por
vários ministérios, encampada pelo Ministério das Relações Exteriores, começando
a funcionar em 1996) define o objeto das comemorações como sendo "a chegada da
esquadra de Pedro Álvares Cabral às costas brasileiras". Ou seja, assume a perspectiva de
que esse é o marco inicial da nossa história. Perspectiva, aliás, ultrapassada pelo
menos desde que Capistrano de Abreu, em 1907, fez publicar a sua obra CAPÍTU-
LOS DE HISTÓRIA COLONIAL, em que apresenta, nos dois primeiros capítu-
los, o quadro humano e ambiental que antecede a chegada dos europeus. No entan-
to, Arruda aponta, como o principal problema das "comemorações" patrocinadas
pela Comissão brasileira, justamente a falta de uma ênfase maior na abordagem ci-
entífica e, principalmente, na questão documental. Em nenhum momento se esta-
beleceu uma reflexão sobre ela, muito pelo contrário, a mesma foi encarada como
mais uma celebração, tal qual a construção de réplicas das naus da esquadra de Ca-
bral ou a realização de regata que observe a rota do navegador português e outros
torneios esportivos. Ou seja, perde-se uma excelente oportunidade de refletir sobre
a nossa história e as condições de produção do pensamento histórico no Brasil.
Neste quadro, o PROJETO RESGATE DA DOCUMENTAÇÃO HIS-
TÓRICA BARÃO DO RIO BRANCO, coordenado por Esther Bertoletti, do Mi-
nistério da Cultura, (conhecido como Projeto Resgate) é um exceção. O mesmo
tem o objetivo de "organizar, microfilmar e publicar em CD-ROM 250 mil peças documen-
tais brasileiras existentes no AHU, que correspondem a cerca de 80% dos documentos relativos à
história do Brasil, existentes no exterior..." 4 Voltaremos a falar sobre a Paraíba e o Proje-
to Resgate mais adiante.

3. O Lugar do Colonial na Historiografia Brasileira

O início dos estudos relativos ao período colonial da história do Brasil re-


monta ao ano de 1838 quando foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico Bra-
sileiro. A partir daí foram estabelecidas as primeiras tentativas de organização sis-
                                                            
3 ARRUDA, J.J. Op. cit. (pp.18/19)
4 Arruda. Op.cit. (p.37)
15 

 
temática da preservação da memória histórica no Brasil. Nos cem primeiros anos
de sua existência, cerca de 60% dos títulos publicados referiam-se ao período colo-
nial e os temas privilegiados, então, eram o Descobrimento e a Independência.5 Tal
produção expressava, sem dúvida alguma, a ação do IHGB que buscava o estabele-
cimento das origens/fundamentos da história nacional.
Após a fundação das primeiras universidades brasileiras, ainda nos anos 30, a
predileção pelo período colonial continuou. Indicador importante desta tendência é
a produção das primeiras teses universitárias, que começam a ser defendidas já nos
anos 40. A diferença, no entanto, em relação à produção do IHGB, é que o interes-
se pelos estudos coloniais já não se prende exclusivamente ao estabelecimento dos
marcos factuais importantes (ou assim considerados) do período e, sim, ao vínculo
entre o processo de colonização e do sistema colonial e a expansão marítima e co-
mercial europeia. Já para o período 1943-1973, José Roberto do Amaral Lapa cha-
ma a atenção para o fato de que, entre as teses de doutorado defendidas na Univer-
sidade de São Paulo, por exemplo, a preocupação com o período colonial ainda é
bastante grande, embora já se anuncie um deslocamento em direção aos estudos
sobre Império. Ou seja, ainda nos inícios dos anos 70, as origens da nossa forma-
ção histórica continuavam a ser a motivação principal dos estudos dos historiado-
res.6
No entanto, a partir da segunda metade da década de 70, a concentração dos
trabalhos por período histórico muda significativamente, deslocando-se fortemente
para a História do Brasil Republicano. Das 279 teses defendidas a partir de então,
140 referem-se a este período. O mesmo ocorre com os livros publicados.
Esse deslocamento pode ser explicado, de um lado, pelo interesse dos histo-
riadores (e da sociedade brasileira de então) em compreender não mais as origens
do Brasil simplesmente, mas as do Estado autoritário no país, expresso, naquele
momento, pela existência da ditadura militar. O início da "abertura política" permi-
tia aos estudiosos um debruçar-se sobre as questões do Brasil contemporâneo, o-
portunidade rara depois de quase duas décadas de repressão. Por outro lado, as i-
númeras dificuldades para pesquisa sobre o Brasil colônia não podiam e não podem

                                                            
5 Arruda, J.J. e J.M. Tengarrinha. HISTORIOGRAFIA LUSO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA. Bauru,
SP: EDUSC, 1999. (p.36).
6 Os dados levantados por Lapa HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA. A HISTÓRIA

EM QUESTÃO. Petrópolis: Vozes, 1976 (pp 47, 48 e 49). sobre a produção acadêmica no Curso de Pós-
Graduação da USP, período 1943-1973, são os seguintes: Período Colonial = 43,5%; Período Imperial =
32,6%; Período Republicano = 15,2%; Colônia/Império = 6,5% e Império/República = 2,2% dos trabalhos
defendidos.
16 

 
ser negadas. Trata-se, quase sempre, da tarefa de trabalhar com "documentos basica-
mente manuscritos, de leitura difícil, e que se encontram muitas vezes dispersos e com problemas de
conservação. (Esta dificuldade é expressa também no) ... montante de publicações sobre a
Colônia que, em sua maioria, referem-se ao final do período, ficando as épocas mais recuadas - sé-
culos XVI e XVII ainda não analisados".7

4. A História Colonial da Paraíba

Apesar dos avanços da pesquisa histórica e da produção historiográfica no


Brasil e na Paraíba persistem lacunas temáticas sobre o período colonial. Lacunas
8

essas, no caso da Paraíba, que se situam para além do arrolamento de fatos dispos-
tos cronologicamente. Lacunas que estão a exigir uma produção científica na pers-
pectiva da compreensão da sua importância para a construção da nossa identidade.
Por este motivo, e considerando que o público a quem nos dirigimos hoje, sem dú-
vida alguma, conhece as linhas gerais (e muitos dos detalhes) da colonização portu-
guesa na Paraíba, achamos por bem não tratar do assunto por ter sido um dos "lu-
gares" em que os historiadores têm se debruçado, com vigor, sobre diversas temáti-
cas relativas ao colonial. Entre estas pesquisas encontra-se o PROJETO QUES-
TÃO AGRÁRIA NA PARAÍBA, coordenado pela Profª Irene Fernandes (colabo-
radora do NDIHR e docente da UEPB) que tem, como um de seus objetivos fun-
damentais, compreender a conformação da estrutura fundiária na Paraíba, a partir
do estudo do sistema sesmarial. Outro projeto importante é o de RESGATE DO
PROCESSO HISTÓRICO E CULTURAL DOS MUNICÍPIOS PARAIBANOS
(mais conhecido como PROJETO HISTÓRIA LOCAL) que objetiva a produção
de materiais didáticos sobre os municípios da Paraíba e que, para tanto, tem feito
consulta sistemática em diversos arquivos (públicos e privados) coletando dados
sobre o período colonial (inclusive). Um outro importante projeto em desenvolvi-
mento é o FONTES PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA PARAÍBA, e-
xecutado por um grupo interinstitucional de pesquisadores da UEPB e da UFPB
(lotados no NDIHR e no Centro de Educação), que objetiva o levantamento siste-
mático de fontes, bem como a realização de análises sobre a história da educação na
Paraíba.
                                                            
7 Cf. SAMARA, Eni de Mesquita. A COLÔNIA NA BIBLIOGRAFIA RECENTE. São Paulo: Humani-
tas/FFLCH/USP e CEDHAL, 1999. (p.10).
8 Em recente levantamento realizado pela ANPUH Nacional sobre teses e dissertações em História produzi-

das no Brasil, chegou-se a um dado extremamente importante: apenas 10% daquilo que é produzido nos cur-
sos de pós-graduação acabam sendo publicados. Dado importante e preocupante porque revela que sequer a
comunidade de historiadores tem acesso sistemático à produção de seus pares. No caso da produção paraiba-
na, o índice deve ser ainda menor.
17 

 
Por outro lado, e paralelamente às atividades de pesquisa em desenvolvi-
mento, o PROGRAMA DE MEMÓRIA E DOCUMENTAÇÃO do NDIHR tem
se dedicado à organização de vários acervos de importância para a nossa história,
entre eles, o do próprio Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Esta ação é ur-
gente e indispensável uma vez que é de conhecimento público a situação de absolu-
to descaso em que os arquivos paraibanos vivem, especialmente os arquivos públi-
cos. A partir de nossa experiência no PROJETO HISTÓRIA LOCAL foi possível
constatar que as Prefeituras, as Câmaras Municipais, outros órgãos públicos, assim
como vários cartórios e mesmo paróquias não têm a preocupação com a preserva-
ção e conservação dos documentos. A maior parte dos "arquivos" ou está despeja-
da em locais absolutamente inadequados (como almoxarifados, banheiros desativa-
dos, salas de depósito de "coisas velhas") ou simplesmente desapareceu (documen-
tação inutilizada pela ação do tempo, das goteiras, do fogo ou da mão humana).
Talvez a expressão mais cabal dessa situação seja o desaparecimento dos documen-
tos dos séculos XVI e XVII do Arquivo Público do Estado da Paraíba. Desapare-
cimento que, já em 1908, Irineu Ferreira Pinto (o Patrono desta Casa) anunciava ao
chamar a atenção para a deterioração, o estado lamentável, desses documentos que
ainda, naquela época, encontravam-se depositados no Arquivo Público.
Em meio a essa situação caótica, no entanto, algumas ações têm sido reali-
zadas. Uma iniciativa pioneira foi o trabalho de equipe do NDIHR, nos anos
1976/1977, sob coordenação da Profª Diana Galliza, que desenvolveu pesquisa ex-
ploratória em cartórios de alguns municípios paraibanos, identificando documenta-
ção valiosíssima para o estudo do período colonial.9 Recentemente, um passo ainda
mais importante nesta direção foi dado com a inclusão da Paraíba no Projeto Res-
gate. Um antecedente do levantamento da documentação paraibana no Arquivo
Histórico Ultramarino de Portugal foi o trabalho realizado, entre 1967 e 1969, pela
Profª Elza Régis de Oliveira, que microfilmou cerca de 4.000 documentos daquele
arquivo. Microfilmes que, hoje, fazem parte do acervo do NDIHR. Este primeiro
levantamento foi atualizado pela equipe paraibana que participou do Projeto Resga-
te (MINC), entre setembro de 1998 e março de 1999. Os limites cronológicos da
documentação sobre a Paraíba remetem ao período 1593/1827. Trata-se de apro-
                                                            
9 Os municípios pesquisados e as datas-limite da documentação encontrada em cada um foram: Bananeiras
(1790), São João do Cariri (1816), Piancó, Pombal (1712), Guarabira (1806), João Pessoa, Mamanguape
(1795), Pilar (1809). A partir dos dados desses documentos a Profª Diana Galliza escreveu seu trabalho O
DECLÍNIO DA ESCRAVIDÃO NA PB, obra de fundamental importância para a historiografia paraibana.
Outro exemplo da vitalidade da documentação cartorial é o trabalho de Wilson Seixas, datado de 1962, sobre
O VELHO ARRAIAL DE PIRANHAS (Pombal).
18 

 
ximadamente 15.000 documentos de um total estimado de 250.000 sobre o Brasil.
(ofícios, cartas, cartas patentes, requerimentos, provisões, leis, decretos, alvarás, do-
ações e confirmações de sesmarias, mercês, mapas e iconografia), que demonstram
a eficiência da administração metropolitana no controle da colônia. É bom lembrar
que, certamente, há documentação importante sobre a Paraíba em outros acervos
localizados em Portugal e em outros países europeus (Espanha, Holanda, França),
ainda pouco conhecida e pouco disponibilizada entre nós.10
Entre as muitas áreas e temas da história da Paraíba ainda por investigar po-
demos arrolar as seguintes:

Paleontologia/Arqueologia (pré-histórica e histórica): Apesar dos esforços isolados


de alguns pesquisadores e de algumas iniciativas da Fundação Casa de José Américo
sabemos que praticamente tudo está por se realizar em termos da investigação pa-
leontológica e arqueológica da/na Paraíba. Tais estudos são fundamentais para
compreendermos o processo histórico local;

História militar: A documentação do Arquivo Histórico Ultramarino permite inves-


tigações importantes sobre as estratégias e táticas militares (a exemplo do que reali-
zou Evaldo Cabral de Mello em OLINDA RESTAURADA, sobre a guerra do açú-
car); a origem e a formação dos contingentes militares que atuaram na Capitania; a
vida cotidiana desses militares, marcada pela penúria, pela fome, pelos soldos atra-
sados; o problema da manutenção das tropas, entre outros;

História do meio-ambiente: Capítulo absolutamente fundamental da história da Pa-


raíba, ainda completamente desconhecido. Temas como a devastação das florestas,
a degradação das águas, as pragas, as cheias e as secas (de que a primeira notícia
remonta ao final do XVII) estão a exigir estudos;

História urbana: A formação e a evolução da rede urbana na Paraíba durante o pe-


ríodo colonial precisa ser melhor compreendida. É preciso realizar esforços no sen-
tido de buscar uma sistematização do que já há escrito para tentar compreender o
movimento geral. Muitas monografias já realizadas sobre cidades paraibanas. Na
plaqueta HISTORIOGRAFIA MUNICIPAL DA PARAÍBA recentemente publi-
cada pelo Dr. Luis Hugo Guimarães, presidente deste Instituto, relaciona as obras
existentes no acervo do IHGP (um dos mais importantes de que dispomos para es-
tudar a Paraíba) sobre cinquenta e quatro dos atuais municípios paraibanos. A exis-
                                                            
10Cf. indica José Antonio Gonsalves de Mello em vários dos seus trabalhos e, em especial, em A UNIVER-
SIDADE DO RECIFE E A PESQUISA HISTÓRICA, 1959.
19 

 
tência de tão poucos trabalhos indica a necessidade de aprofundarmos os estudos
sobre história local, em especial no que diz respeito à evolução urbana.

História Econômica: Vários temas sobre a história econômica paraibana ainda pre-
cisam ser desenvolvidos, por exemplo: a) a produção para o mercado interno (ali-
mentos, artesanato, tabaco, etc); b) história do comércio (nos moldes do trabalho
de Irene Fernandes Rodrigues sobre a Primeira República na PB, ou de Ruston
Lemos de Barros sobre as embarcações e frotas portuguesas no Nordeste até 1720).
A documentação do Arquivo Histórico Ultramarino aponta para a dinâmica interna
da colonização, tratando de questões como: fluxo dos portos, evolução dos preços,
questões do abastecimento, os diferentes interesses das frações de classe envolvi-
das, entre outros. Sobre esse tema, no período colonial, dispomos, para o século
XVIII, da obra de Elza Régis. A PARAÍBA NA CRISE DO SÉCULO XVIII: SU-
BORDINAÇÃO E AUTONOMIA. (originalmente, dissertação de mestrado em
História, junto a UFPE), e da tese de doutorado em História Econômica/USP, do
prof. Francisco Tadeu da Silva UMA COLÔNIA E DUAS METRÓPOLES, sobre
a Cia. de Comércio PE/PB e a sua presença na Paraíba.

História Administrativa: Tema praticamente inexplorado pelos historiadores da Pa-


raíba, encontra importantes elementos de análise na documentação do AHU. Há
inúmeros documentos que tratam da administração fazendária, militar, judiciária e
eclesiástica, com especial atenção para a história tributária (tema, aliás, extremamen-
te atual);

História Social: Esta documentação também permite inúmeros estudos demográfi-


cos; estudos da história da vida familiar, dos casamentos, das crianças; história da
criminalidade e da violência, história da saúde (a exemplo das teses de doutorado
em História dos professores Ariosvaldo Diniz/DCS/UFPB sobre o cólera e da
Profª Lenilde/Denfermagem/UFPB sobre a saúde pública na Paraíba, ambos ver-
sando sobre o século XIX); história do cotidiano tanto das elites quanto dos ho-
mens livres e pobres e dos escravos; história das ideias - imaginário da colonização,
por ex.; história da educação e da assistência social (para combate a doenças e a
fome).
Ou seja, nós, historiadores, estamos frente a um desafio de amplas propor-
ções. Trata-se, em primeiro lugar, de lutar pela localização das fontes documentais
que municiem novas pesquisas e pela preservação e conservação daquelas fontes de
que já dispomos e, trata-se, de debruçarmo-nos sobre tais acervos, em busca de

20 

 
respostas a tantas questões relevantes suscitadas pela história da Paraíba.

A fala do presidente dos trabalhos:

Iniciamos com chave de ouro nosso Ciclo de Debates sobre a participação


da Paraíba nos 500 anos da descoberta do Brasil. A professora Regina Célia Gon-
çalves colocou de forma nova, de forma diferente, um esquema para tratarmos das
comemorações dos 500 anos do Brasil.
Seu registro sobre fases do nosso período colonial incentiva-nos a ocupar os
vazios que estão por preencher no estudo e na análise de importantes ocorrências
na Paraíba dos primeiros tempos. E ela destaca, com bastante ênfase, a necessidade
de analisar em maior profundidade a história comercial da Província, diante das
numerosas fontes ainda pouco exploradas.
Seu trabalho é um desafio aos historiadores paraibanos.
O Instituto Histórico se congratula com a participação da professora Regina
Célia neste Ciclo de Debates que se inicia.
Dando sequencia aos nossos trabalhos, convoco o confrade Wellington A-
guiar para iniciar os debates sobre este tema.
O professor Wellington Aguiar, além de sócio deste Instituto, do qual já foi
vice-presidente, é membro da Academia Paraibana de Letras, onde exerceu a Presi-
dência recentemente. Ex-professor da Universidade Federal da Paraíba, atualmente
exerce o cargo de Diretor do Arquivo Público do Estado e é membro do Conselho
Estadual de Cultura.
Como historiador tem várias obras publicadas, dentre elas UM RADICAL
REPUBLICANO CONTRA AS OLIGARQUIAS; CIDADE DE JOÃO PES-
SOA - A MEMÓRIA DO TEMPO; UMA CIDADE DE QUATRO SÉCULOS e
CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DA PARAÍBA, estes dois últimos em parceria com
o professor José Octávio de Arruda Mello. Brevemente lançará A PARAÍBA NOS
RECORTES DE JORNAIS.
Com a palavra o historiador Wellington Aguiar.

Debatedor: Wellington Aguiar (Historiador, sócio do IHGP, ex-presidente da


Academia Paraibana de Letras, membro do Conselho Estadual de Cultura)

Eu acho que se pode celebrar ou mesmo comemorar os 500 anos do Brasil,


ou qualquer outro evento, de modo crítico, sem louvaminhas, sem confetes, sem
elogios.

21 

 
Nosso Instituto está celebrando os 500 anos de modo crítico, pois nesse de-
bate todo mundo vai poder falar e expor as suas ideias, a começar por este debate-
dor.
Farei um retrospecto da Paraíba Colonial, uma visão apenas dentro do tema
que foi proposto.
A fundação da Paraíba começou em 1574, quando o rei D. Sebastião natu-
ralmente antes de sua derrota e de sua volta de Alcácer Quibir. Ele desmembrou a
Capitania da Paraíba, tirando-a de Itamaracá. Por que isso? Porque tinha havido o
massacre de Tracunhaém, aqui perto de Goiana, um episódio meio lendário, um e-
pisódio que os cronistas antigos falaram. Mas, não há prova nenhuma que tenha
ocorrido como assim se conta. Havia o engenho de Diogo Dias, na rabeira do rio
Tracunhaém, onde hoje está a cidade de Goiana, que não existia na época. Diogo
Dias escondeu uma cunhã, uma formosa cunhã dos seus 15 ou 16 anos, que fora
casada com um mameluco; o seu pai, Inhinguaçu, chefe potiguara da Baía da Trai-
ção, mandou-a buscá-la em Olinda, para onde o mameluco tinha fugido com ela. O
governador do Brasil naquela época, Antônio Salema, estava de passagem por O-
linda e deu uma provisão a esses índios para que eles não fossem obstaculados no
seu caminho de retorno à taba. Chegou no engenho de Diogo Dias, eles ficaram
por lá, mas Diogo escondeu a cunhã. Ficou tergiversando com palavras vãs, enga-
nando os irmãos da moça. Eles foram embora e comunicaram a Inhinguaçu. Diz
Horácio de Almeida, o paraibano que escreveu, ao lado de José Octávio, as duas
melhores histórias da Paraíba, a meu ver, sem citar Irineu Pinto, porque Irineu Pin-
to é o bebedouro da nossa História. Diz Horácio de Almeida, em sua HISTORIA
DA PARAÍBA, que esse acontecimento teria passado despercebido se não estives-
sem os franceses com Inhinguaçu. Os franceses negociavam com os índios e insu-
flaram os índios contra o engenho de Diogo Dias. E os índios planejaram um ata-
que com a orientação dos franceses e, para encurtar a história, arrasaram e mataram
o que puderam. Era um engenho fortificado. Os índios atraíram o pessoal do enge-
nho pra o campo raso, para o campo aberto, porque eles não tinham condições de
tomar o engenho por que lá tinha paliçada, tinha um fortim, era todo bem defendi-
do. Mas eles deram a entender que havia poucos índios, saindo os defensores do
engenho para o campo aberto. Quando o pessoal do engenho avançou surgiram os
índios e dizimaram todos. Diante disso, como diz Horácio de Almeida, os índios fi-
caram soberbos e ameaçavam invadir até Igaraçu, cujo povo ficou com medo, as-
sim como o povo de Olinda. Então o rei D. Sebastião mandou estender a conquista

22 

 
para o Norte, iniciando com o desmembramento da Capitania. Houve cinco tenta-
tivas de conquista da Paraíba, a partir desse ano. A quinta, que foi a menor, com
apenas 20 homens, num caravelão, foi a que terminou dando certo. Os índios fo-
ram conversar com Martim Leitão para fazer as pazes, Piragibe à frente, prevale-
cendo a proposta já anteriormente feita durante as lutas entre tabajaras e potiguaras.
E eu aproveito para dizer que essa história de terra dos tabajaras, não é ver-
dadeira. A Paraíba não é a terra dos tabajaras. Já vi em vários livros, inclusive de
professores da Universidade, um até amigo meu. Dra. Eudésia Vieira publicou um
livro, TERRA DOS TABAJARAS. Não tem nada de tabajaras. Os tabajaras mora-
vam entre a Bahia e Pernambuco, nos limites do São Francisco, e vieram para cá.
Saíram de lá porque fizeram um massacre nos portugueses. Piragibe sempre cola-
borou com os portugueses, mas os portugueses quiseram atraiçoá-lo e eles vieram
para cá, entrando pelo rio Paraíba, em Monteiro. Muita gente boa chama terra dos
tabajaras. Como muita gente diz que Cajazeiras ensinou a Paraíba a ler. Não é pos-
sível. Cajazeiras começou em 1800. Os jesuítas davam aula aqui, em Latim, nos fi-
nais do século XVII e século XVIII, como é que Cajazeiras ensinou a Paraíba a ler?
Um dia desses uma pessoa respeitável intelectualmente escreveu isso numa revista
de Cajazeiras: "Cajazeiras ensinou a Paraíba a ler." Tudo por conta da comemora-
ção do Padre Rolim. Não é possível. Uma terra que nasceu em 1800, que antes dis-
so só tinha cobra, índio e carrascais. Quem ensinou a Paraíba a ler foi a capital. Não
é porque é melhor do que ninguém, é porque foi fundada primeiro.
Outra coisa que se diz é sobre Caramuru. Homem do fogo, filho do trovão.
Mentira, mentira histórica. A História está cheia de mentiras. Vi no Museu Nacio-
nal, há dois anos. Caramuru no Museu Nacional, um belo museu, lá no Rio de Ja-
neiro: homem do fogo, filho do trovão. Como a gente aprendeu. Mas, não é. Havia
lido Câmara Cascudo, o sábio do Rio Grande do Norte, ensinar: moreia, moreia,
aquela cobra escura. Passamos um fax para o Ministro da Cultura e o Ministro en-
caminhou o fax para a diretora do Museu, que informou que havia designado 10
PHD para estudarem o assunto. Se fosse um museu daqui estava a maior gozação.
Finalmente a comissão de PHD concluiu que era uma moreia. Quando voltei lá, vi
que o nome moreia estava lá. Mudaram o cartão. Outra coisa foi a data da morte de
Epitácio Pessoa, que fundou o Museu. A data que tinha era de 1947, debaixo do
busto de Epitácio, que tem lá no pátio do Museu. Foi em 42, não é? E eu botei isso
num fax. O de Epitácio apagaram, mas não botaram o ano. Depois vi dois outros
erros. Está lá no frontispício do Forte de Cabedelo, que diz assim: construído em

23 

 
1580; antes, portanto da fundação da Paraíba, quando se sabe que este forte foi
construído depois, em 1585. E outro: Aurélio de Figueiredo, tem um quadro dele
no Museu, e tem lá: nascido em Areias. A nossa Areia daqui ninguém sabe o nome.
Outro erro é quanto à data da fundação da cidade, que se considera 5 de a-
gosto. Esta data é o dia das pazes celebradas com os tabajaras, na pessoa de Piragi-
be e o escrivão da Câmara de Olinda, João Tavares, mandado pelo Ouvidor Geral
do Brasil, Martim Leitão, que foi o verdadeiro patrono da conquista. Essas pazes
dividiram os índios, ficando os tabajaras com os portugueses, e os potiguaras con-
tra. A paz com os potiguaras somente foi feita 14 anos depois. Não sou mudancis-
ta, mas sem essa paz com os tabajaras não teria sido possível Martin Leitão vir com
seus pedreiros e em 4 de novembro iniciar a construção da cidade.
A noite colonial foi longa, triste, horrorosa. Portugal não permitiu aqui o
funcionamento de indústrias, isto no Brasil de modo geral; não permitiu nada.
Houve a guerra holandesa. A guerra holandesa é o capítulo mais importante da His-
tória colonial do Brasil; não é do Nordeste e da Paraíba, é do Brasil; Não tem a fa-
ma toda porque é do Nordeste. Se isso tivesse ocorrido em Minas Gerais, São Pau-
lo, ou Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul, era o capítulo mais importante da His-
tória colonial do país. Nessa luta o nosso povo foi de uma bravura impressionante.
A Paraíba deu um dos comandantes da guerra contra os holandeses, que foi André
Vidal de Negreiros. Esse homem era tão importante que o padre Vieira, numa carta
ao rei de Portugal, disse que André Vidal era um homem de tanto valor que só ti-
nha um defeito, não sabia fazer versos, como disse um tempo desse um ministro de
Vossa Majestade. Está no livro DATAS E NOTAS DA PARAÍBA.
A Paraíba terminou anexada a Pernambuco na segunda metade do século
XVIII. Como a professora conferencista falou, há um livro da professora Elza Ré-
gis, que levou dez anos para fazer, com pesquisas.
Muito se conhece do que ocorria no Brasil Colônia nos livros dos visitantes
estrangeiros que estiveram por aqui. Henry Koster era um viajante, nascido em
Portugal, na verdade filho de inglês (o pai dele estava em Portugal nesse tempo),
andou visitando a Paraíba em 1810. Está no livro VIAGENS AO NORDESTE
DO BRASIL, traduzido pelo sábio Câmara Cascudo. E o que disse Koster sobre a
nossa cidade? Disse o seguinte: que a pobreza da Paraíba era grande.
Nós temos no Arquivo Histórico um documento de José Bonifácio, ele as-
sinando Jozê, com z e circunflexo no e, dizendo que representou a Paraíba, antes
da Independência. A Paraíba não tinha dinheiro para mandar nenhum representan-

24 

 
te e pediu a José Bonifácio para representar a Paraíba.
Vejamos o que Koster disse, para encerrar: Henry Koster (isso é um artigo
meu, publicado em 1991, no CORREIO DA PARAÍBA), o viajante inglês que visi-
tou a nossa capital em 1810, escreveu: "a principal rua é pavimentada com grandes
pedras (rua General Osório, hoje), mas deviam ser reparadas. As residências têm
geralmente um andar, servindo o térreo para loja. Algumas delas possuem janelas
com vidros, melhoramento há pouco introduzido no Recife. O convento dos jesuí-
tas é utilizado como o Palácio do Governador e o Ouvidor tem aí sua repartição e
residência. A igreja do convento fica no centro e tem duas alas. Os conventos das
ordens franciscanas, carmelitas e beneditinas são os únicos edifícios, quase desabi-
tados. (Como se vê, naquele tempo já tinha pouco frade, hoje não tem mais ne-
nhum). O primeiro tem quatro ou cinco frades, o segundo, dois e o terceiro, apenas
um. Além destes, a cidade possui seis igrejas; as fontes públicas na Paraíba foram as
únicas obras deste gênero que encontrei em toda a extensão da costa por mim visi-
tada (é porque ele não foi ao Maranhão). Uma foi construída, creio, por Amaro Jo-
aquim, governador recente; tem várias bicas e é muito bonita. A outra que se está
fazendo é bem maior. A fiscalização das obras públicas era a melhor ocupação do
governador Amaro Joaquim. Fomos visitar esse cavalheiro no dia seguinte à nossa
chegada. Meu companheiro o conhecia desde Lisboa, quando ele era aspirante.
Seus pais são de família respeitável em uma província ao Norte de Portugal. Com o
quisessem fazer padre, puseram-no no Seminário, de onde fugiu e se alistou simples
soldado em Lisboa. Um dos oficiais do regimento a que pertencia notou sua educa-
ção e conhecendo sua história fê-lo cadete, para agradar a família. (Esse Amaro Jo-
aquim deu o golpe do baú. Casou-se com uma moça da nobreza, uma portuguesa
que estava no Rio de Janeiro, por isso foi nomeado governador da Paraíba). Fomos
depois a outra ala do prédio a fim de pagar a visita do ouvidor, um velho muito
amável e bem humorado; seu capelão, um pequeno e jovial frade, era amigo do se-
nhor Joaquim (companheiro de Koster nessa viagem) e nos fez muitos obséquios
durante minha estada. A paisagem vista dos fundos do palácio é uma linda visão
peculiar ao Brasil. Vastos e verdes bosques, bordados por uma filha de colinas, irri-
gadas pelos vários canais que derivam do rio, com suas casinhas brancas semeadas
nas margens, outras nas eminências meio ocultas pelas árvores soberbas. O vetusto
convento dos frades jesuítas já era, desde a segunda metade do século XVIII, a sede
do governo da Paraíba. A igreja do dito convento foi derrubada no início de 1930,
quando se ampliou o palácio, chamou-se São Gonçalo e depois Nossa Senhora da

25 

 
Conceição." Henry Koster viu com simpatia a capital e bem o demonstra no seu
famoso livro VIAGENS AO NORDESTE DO BRASIL, traduzido por Câmara
Cascudo.

A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães:

O Instituto se congratula com a atuação do confrade Wellington Aguiar,


nosso ex-Vice-presidente, e historiador renomado e com vários livros publicados
sobre nossa história.
Sua participação valorosa trouxe à baila interessantes passagens da vida pa-
raibana no período colonial, mostrando alguns equívocos históricos que se perpe-
tuam na nossa historiografia por falta dum exame mais acurado sobre os fatos a-
contecidos.
Faço um destaque especial por sua contribuição apreciando o ponto de vista
de importantes visitantes estrangeiros à nossa província, um dos quais - Henry
Koster - mereceu destaque.
Daremos continuidade à sessão, concedendo a palavra aos participantes do Ciclo.

1º participante: Rosa Maria Godoy Silveira (chefe do Departamento de História


da UFPB):

Desejo fazer três observações. Na primeira, quero cumprimentar o Instituto


Histórico, em nome do Departamento de História da UFPB, por essa atividade,
que é co-irmã da que nós estamos realizando na Universidade, um Seminário exten-
sivo, como este, até dezembro, o que demonstra espaço para debate e reflexão crí-
tica sobre a História; que realizemos isso lá e cá, eu acho que mostra muito que a
sociedade paraibana, em particular a sociedade pessoense, é ávida da sua história,
inclusive é um trabalho, que lá como cá, é feito de parceria, com a presença de vá-
rias instituições presentes nesta Mesa. Mais uma vez os nossos cumprimentos.
E aproveitando essa presença interinstitucional na Mesa, o que eu tenho a
falar são duas reivindicações. Aliás, antes das reivindicações, um registro. Quando a
professora Regina Célia mencionou o PROJETO RESGATE, gostaria de dizer que
esse projeto está sendo feito pela Universidade e teve o financiamento do Ministé-
rio da Cultura e do Governo do Estado da Paraíba, com trabalho encetado quando
da gestão do professor Sales Gaudêncio ainda na presidência da FUNESC.
E a primeira reivindicação vai para o Magnífico Reitor Jáder Nunes de Oli-
veira, da UFPB, aqui presente. É exatamente sobre a volta dessa documentação que

26 

 
está sendo microfilmada neste momento em Portugal; uma parte já está aqui, e já
está sendo catalogada. A reivindicação é a publicação do catálogo. No ano que vem
nós vamos precisar que a Universidade acolha isso e publique esse catálogo, que vai
ser da mais alta importância sobre esses quinze mil documentos. A par disso, nós
temos pronto, e eu gostaria de colocar tanto para a Universidade quanto para o
IPHAEP e para a Subsecretaria de Cultura, um segundo catálogo elaborado pela
professora Irene Fernandes, decorrente do processo da questão da formação da ter-
ra na Paraíba. É um catálogo de 500 páginas. Naturalmente, os dois trabalhos não
são de feitio comercial. Eles vão ser mais um trabalho de importância histórica, his-
toriográfica e de importância institucional. Até a própria tiragem deles não é uma
coisa extremamente ampla, mas cuja distribuição deve ser, com certeza, primordi-
almente para as instituições culturais.
A terceira observação, aproveitando também a presença das instituições, é
para nós desenvolvermos um esforço no sentido da organização do Arquivo Públi-
co. Eu acho que têm dois arquivos que precisam de um esforço conjunto. Lamen-
tavelmente, em tempos anteriores, a Universidade tentou fazer esse trabalho. Há
três projetos de organização do Arquivo Público, mas encontramos barreiras em
governos anteriores. E eu gostaria de reiterar o esforço conjunto no sentido da gen-
te poder fazer isso e também organizar na Paraíba um sistema estadual de arquivos,
porque é um dos poucos Estados em que esse sistema não está organizado. Há
também um arquivo que nós vamos começar a examinar em conjunto com o De-
partamento de Enfermagem da Universidade: é o Arquivo da Santa Casa de Miseri-
córdia. Nós temos nesse momento a felicidade de ter uma pessoa lá que fez o curso
de especialização em Arquivo. Isso já é um ponto positivo em nosso favor. Já existe
um convênio nesse sentido e, neste momento aqui, eu acho que a comemoração é
isso; é a reflexão de que a gente também tem que olhar o futuro, quer dizer, o que
nós podemos fazer no presente para o futuro, para a gente não perder nosso passa-
do, não nos desmemoriarmos.

2º participante: Paula Frassinete (Bióloga, representante da Associação dos Ami-


gos da Natureza):

Estou mais ou menos encantada com o que vocês e o Departamento de His-


tória estão fazendo conosco. Estou encantada pela História; estou fazendo o curso
que a Universidade está promovendo e quando soube desse Ciclo de Debates, que
em boa hora o Instituto Histórico começa a nos oferecer, imediatamente me dispus

27 

 
a vir. É muito importante a gente ver dentro do Instituto o questionamento da au-
tofagia. Quando se fala que de toda a produção acadêmica apenas 10 porcento já
foram publicados e está à nossa disposição, então nós nos sentimos órfãos. Com
uma universidade que há tanto tempo está aí, notadamente a nossa Universidade
Federal da Paraíba, importante para o Brasil, com estudos muito interessantes que
vêm sendo feitos em todas as áreas e não tem havido o devido interesse do Minis-
tério da Educação. A educação no nosso país está cada vez mais sucatada exata-
mente para não se gestar uma sociedade crítica, porque é disto que nós estamos
precisando neste país, para transformá-lo. E eu acho que o papel dos historiadores
é fundamental, quando a gente vê que parece que os detratores do país, os destrui-
dores do país, do Império, da Colônia, parecem que se re-encarnaram em alguns
dos que estão à frente do país hoje. E as práticas deste momento são as mesmas,
inclusive num dos cursos de História se dizia que na época do Império o cidadão
bom, para aquela época, era o que tinha dinheiro. E hoje não é isto? Então a gente
parece que está revendo as práticas do império. E a história nos traz esta reflexão.
Eu parabenizo o Instituto Histórico e gostaria que a professora Regina informasse
se há uma luz no fim do túnel, o que a ANPUH, os historiadores, a universidade
estão fazendo no sentido de garantir recursos para que esta história venha para nós,
para que o cidadão brasileiro possa rever sua história e assim construir um novo pa-
ís.

3º participante: Guilherme d'Avila Lins (Sócio do IHGP e presidente do Instituto


Paraibano de Genealogia e Heráldica):

É com muita alegria que vejo o início deste Ciclo de Debates, que corre pa-
ralelo com o Curso de Extensão análogo que se processa também na Universidade
Federal da Paraíba, com o mesmo objetivo. Realmente estou me sentindo em esta-
do de graça por estarmos começando este Ciclo de Debates. Quero, em primeiro
lugar, parabenizar a professora Regina pela forma brilhante como enfocou um con-
ceito, do qual eu também comungo, de comemoração. Não se trata da comemora-
ção do festejo, do ribombar, mas da a comemoração da pesquisa e do resgate. Esta
é a verdadeira comemoração que nós devemos a estes 500 anos do Brasil. Quero
parabenizar também professor Wellington Aguiar pelo felicíssimo vol d'oiseaux em
que vai de Tracunhaém até 1817, que só fez enriquecer este primeiro encontro nos-
so.
Minha vinda a este microfone se prende a alguns fatos que dizem respeito

28 

 
àquele resgate histórico de documentos que a Universidade em tão boa hora tem
procurado fazer, e está fazendo, e que começou com a professora Elza Régis e que,
sem dúvida, vai permitir, quiçá, uma releitura da nossa história colonial. Entre ou-
tras coisas a gente diz, por exemplo, para pontuar um detalhe histórico, só um deta-
lhe. A gente fala do desmembramento da Capitania de Itamaracá, criando-se a Ca-
pitania da Paraíba. Tanto quanto eu saiba, esse documento ainda não foi encontra-
do. Este é o nosso primeiro documento. Não foi encontrado. E a gente fala com
uma intimidade deste documento, como se o tivéssemos visto. Ele não foi ainda
encontrado.
Com relação à história administrativa, eu sei quantas horas de sono perdi
tentando recuperar um pouquinho da história administrativa, dos primeiros anos da
Capitania da Paraíba, pinçando aqui e acolá retalhos de fatos e datas, nomes e situa-
ções e até certo ponto agradeço à ordem beneditina ser tão rica, porque graças a es-
sa riqueza que ela acumulou tantos dados no LIVRO DO TOMBO DO MOS-
TEIRO DE SÃO BENTO, o que me foi de grande ajuda para pinçar tantas infor-
mações sobre a Paraíba. Este livro foi publicado de forma esparsa na Revista do
Arquivo Público de Pernambuco, em quatro tomos distintos, entre 1946 e 1949, do
qual existe uma tiragem em separata, em volume único. Este livro trouxe algumas
das maiores lições que aprendi em fontes primárias da Paraíba. Agradeço, portanto,
aos beneditinos terem sido uma ordem rica.
Também gostaria de trazer para aqui um outro fato que diz respeito ao nos-
so período colonial e que é da mais alta importância. Já o Barão do Rio Branco fa-
lava da importância da grande batalha naval de 1640, no período holandês, como
sendo a mais importante batalha que houve em águas brasileiras. E ela se deu no
segundo e terceiro dia na frente do Cabo Branco e na frente do Cabedelo. E fico
pensando por que nós não vamos comemorar nossos 500 anos articulando um so-
nho grande, mas um sonho de verdade de fazer um grande projeto com empresas
competentes, para realizar uma pesquisa arqueológica submarina para resgatarmos
tudo o que deve existir desta batalha aqui na frente de Tambaú, a uma milha de dis-
tância do nosso litoral, segundo Barleus e segundo Franz Post. Eu acho que esse é
um projeto de grande alcance, dificílimo, mas que a dificuldade seja um desafio, não
um desencanto.
Gostaria de frisar, por último, um outro detalhe. Nós estamos de frente para
a margem esquerda do rio Paraíba, onde temos inúmeros itens do nosso acervo his-
tórico-arquelógico do período colonial da Paraíba. O lugar do Forte Velho, a Igreja

29 

 
da Guia, agora recuperada. Mas existem outros locais importantíssimos como a Ilha
da Restinga e o Forte do Gargaú, que jamais é citado na historiografia paraibana.
Ele foi feito pelos holandeses depois de 1634, e jamais foi citado por historiadores
da Paraíba. Ele só tem sido registrado no ato da rendição em que foi entregue aos
luso-brasileiros. Como o holandês não fazia forte de madeira, certamente, ruínas
dele devem existir dentro dos canaviais perdidos.
A Atalaia de Forte Velho, que é talvez a última que resta neste país, também
precisa ser examinada. Enfim, eu estou projetando a ideia de um sítio histórico-
arqueológico da Paraíba ao longo da foz do rio Paraíba. Acho que estes são desafi-
os que também temos de examinar.

4º participante: Célia Camará Ribeiro (do Instituto Histórico e Geográfico de Ni-


terói):

Quero dizer, para quem não me conhece, que nasci em João Pessoa, filha de
paraibanos, morando no Rio de Janeiro, mas de passagem neste momento por João
Pessoa. Quero parabenizar a ilustre conferencista; ela foi muito didática, mas sem
diminui-la, quero parabenizar também o debatedor, porque ele foi assim um histo-
riador profícuo. Quero cumprimentar o presidente do Instituto Histórico por esse
Ciclo de Debates.

5º participante: Francisco Sales Gaudêncio (representante do Governador do Es-


tado e presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado):

Inicialmente desejo cumprimentar Regina Célia Gonçalves e Wellington A-


guiar e aproveitando as reivindicações da chefe do Departamento de História da
UFPB, colega Rosa Godoy, e dizer que o passo inicial foi dado com o PROJETO
RESGATE. A Paraíba se inclui, com mais dez Estados da Federação no projeto em
nível nacional, na gestão do ano passado à frente do Arquivo Histórico do profes-
sor Wellington Aguiar, o debatedor desta tarde, e quando da minha estada à frente
da Fundação Espaço Cultural. Esse apoio foi dividido entre a Universidade, Minis-
tério da Cultura e o Governo do Estado; a Universidade pondo o seu material hu-
mano para trabalhar fora do país, por onde ficou lá por quase nove meses e os re-
cursos do Governo do Estado e do Ministério da Cultura. Esse foi o primeiro pas-
so.
Com relação às outras reivindicações da professora Rosa Godoy, o profes-
sor Carlos Pereira, Secretário da Educação e Cultura, que me pediu para vir aqui em
30 

 
nome dele, presente também Francisco Pereira, nosso subsecretário de Cultura, in-
formo que com Carlos Pereira tivemos uma reunião sobre a retomada da comissão
de celebração de uma revisão crítica da História do Brasil nos seus 500 anos. E, en-
tre outros assuntos da pauta desta comissão está exatamente o envolvimento de ór-
gãos como o Instituto Histórico, a Universidade Federal a Paraíba para que, através
dessas instituições, possamos ter uma comissão que venha apresentar à comissão
constituída junto ao Conselho Estadual de Cultura para um programa efetivo de
publicações e que venha marcar a celebração dos 500 anos do Brasil. Através do
Instituto, da Universidade, do IPHAEP, da própria Secretaria de Estado e de ou-
tros órgãos da Paraíba, como a Universidade Estadual da Paraíba, voltamos essas
ações para a interiorização, não só do trabalho que se está fazendo através do Con-
selho do Patrimônio, mas também através dessa comissão estará sendo publicado
em Decreto brevemente. Por isso quero antecipar o envolvimento do Conselho Es-
tadual de Cultura e do próprio Governo do Estado, através da Secretaria e da Sub-
secretaria de Cultura, de uma programação consistente, no que diz respeito a essas
celebrações, que vêm exatamente atender às reivindicações do historiador Guilher-
me d'Avila Lins, que ouvi atentamente, e como representante dessa comissão no
IPHAEP, certamente os assuntos ligados à política de preservação de patrimônio
caberão ao IPHAEP. É com satisfação que, em nome do Secretário Carlos Pereira,
dou em primeira mão essas notícias que estão sendo esboçadas pela Subsecretaria
de Cultura e pela Secretaria de Educação.
E, por último, eu ouvi aqui as cobranças - no bom sentido - da nossa colega
Regina quanto aos temas ligados à Colônia, ao Império, enfim, à história inicial do
Brasil, a partir da Paraíba. Eu digo ao professor Wellington Aguiar que fui relator
do seu trabalho no Conselho Estadual de Cultura, que possibilitou a recomendação
daquele colegiado para sua publicação. Wellington Aguiar, dentro de mais algum
tempo, estará lançando o livro também quilométrico, de 540 páginas, que trata de
assuntos da velha Paraíba através dos jornais, cujo título é A VELHA PARAÍBA
NAS PÁGINAS DE JORNAIS. É um levantamento, é uma pesquisa rigorosa, me-
todologicamente cuidada, no que diz respeito a determinados temas lembrados aqui
pela colega Regina Gonçalves. Portanto, este envolvimento institucional IPHAEP,
Universidade, Instituto Histórico, Departamento de História, Academia Paraibana
de Letras, certamente resultará que a Paraíba não fique à margem das celebrações
dos 500 anos do Brasil.
Considerações finais pela professora Regina Célia Gonçalves:

31 

 
Em atenção aos pontos de vista e pedidos de informação apresentados pelos
participantes Paula Frassinete, Guilherme d'Avila Lins e Rosa Godoy, esclareço o
seguinte:
Segundo me parece, nós temos que pensar grande. Rosa Godoy sempre diz
isso para o Departamento de História, do qual é Chefe. Temos que planejar a mé-
dio e longo prazo. Temos que pensar grandes projetos, grandes projetos não só no
seu conteúdo, no seu objetivo. Um tema é Arqueologia. Esse tema é muito bem
lembrado pelo professor Guilherme sobre a arqueologia submarina; o que isso nos
vai revelar sobre a importância desse território, do ponto de vista estratégico no sé-
culo XVI, no século XVII. É fundamental, e isso não foi realizado. É preciso pen-
sar grande nesse sentido, e pensar grande no sentido da operacionalização e aí eu
acho que o caminho, sem dúvida alguma, é a interdisciplinaridade e a inter-
institucionalização. É pensar mega-projetos reunindo diferentes organismos que
trabalham com a pesquisa histórica, arqueológica e ambiental na Paraíba e, se pos-
sível, de outros lugares, de outros Estados também. Se nós conseguirmos nos reu-
nir para pensar projetos de longo prazo, de largo fôlego, teremos mais e melhores
condições de superar as dificuldades que hoje são colocadas no dia-a-dia, dificulda-
des como, conforme estava conversando com o professor Luiz Hugo Guimarães, a
de dar apoio logístico, pois apoio financeiro a gente não pode, porque a gente tam-
bém não tem. Às vezes falta papel, falta cartucho para a impressora, às vezes falta
dinheiro para fazer uma viagem ao Conde, são coisas do dia-a-dia que os pesquisa-
dores têm que lutar com uma grande dificuldade para dar conta dos seus trabalhos.
Em tempos de globalização, ou a gente pensa institucionalmente ou a gente não vai
a lugar nenhum. O trabalho individual sentado num tema específico e com recorte
microscópico vai ter cada vez menos chance nesse mercado. Então eu penso que
essa é a única forma com que a gente tem para superar as dificuldades, mais do que
isso, de avançar com as nossas pesquisas para o conhecimento desta terra, pois
muitas questões ainda estão por serem colocadas. Há muitas questões importantes
a serem respondidas.
Com relação às publicações de 10 por cento dos trabalhos efetuados, o que
hoje nós podemos fazer é juntar um pedaço do salário para no fim do ano tentar a
publicação, a auto-publicação. Esse tem sido o caminho em geral encontrado por
nós que produzimos pesquisa histórica aqui no Nordeste. Infelizmente, nós esta-
mos também longe dos grandes centros e o mercado editorial é cada vez mais
complicado.

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Senhor Presidente:
Agradeço a esse seleto auditório pela atenção dada à minha palestra. Muito
obrigada.

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2º Tema
A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO
Expositora: Rosa Maria Godoy Silveira
Debatedor: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho

A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães:

Dando continuidade ao nosso Ciclo de Debates iniciado com grande apro-


veitamento com a palestra da professora Regina Célia Gonçalves, iniciaremos esta
segunda sessão com a apreciação do tema A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO,
que será enfocado pela professora da UFPB, doutora Rosa Maria Godoy Silveira,
que convido para participar da mesa dos trabalhos.
Para compor a mesa, convido o consócio Marcus Odilon Ribeiro Coutinho,
que será o debatedor designado para tratar do tema; convido também o acadêmico
e consócio Joacil de Britto Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras;
convido o vereador José Bernardino, da Câmara Municipal de Santa Rita, para fazer
parte da mesa; e, finalmente, convido o acadêmico Odilon Ribeiro Coutinho,
membro do Conselho Estadual de Cultura.
Temos a satisfação de apresentar aos presentes a professora Rosa Maria
Godoy Silveira, atual chefe do Departamento de História da UFPB; ex-pró-reitora
da graduação, da UFPB; ex-vice-presidente do Fórum Nacional de Pró-reitores de
Graduação; é mestra e doutora pela USP. Tem vários livros publicados e inúmeros
artigos em revistas especializadas.
Tenho a satisfação de passar a palavra à nossa ilustre palestrante de hoje.

Expositora: Rosa Maria Godoy Silveira (Mestra e Doutora em História, chefe


do Departamento de História da UFPB)

Mais uma vez, em nome do Departamento de História da UFPB e em meu


nome, agradeço minha participação nesse Ciclo de Debates, que reafirma nossa
parceria com o Instituto Histórico, cujos frutos têm sido bastante positivos durante
a administração do professor Joacil Pereira e do professor Luiz Hugo Guimarães,
quando concluímos a organização do acervo do IHGP.
Sobre o tema que me foi proposto – A PARAÍBA DURANTE O IMPÉ-
RIO – nós optamos para fazer um pequeno texto, uma breve síntese tentando en-
34 

 
tender algumas questões fundamentais do período imperial na Paraíba, questões es-
tas que se abrem ao debate. É vidente que não vou esgotá-las no limite do tempo
que me foi dado e no limite deste texto.
Em recente balanço sobre a produção historiográfica relativa à Paraíba im-
perial, que foi um balanço que nós próprios fizemos num curso que está sendo mi-
nistrado na Universidade constatou-se que este período tem sido um dos menos
pesquisados, senão o menos pesquisado da nossa história. O Império tem sido
sempre o pior período em matéria de pesquisa histórica. E é, com certeza, o pior
período da História do Brasil, em matéria de ensino de História.
Deste levantamento entre os cerca de 118 títulos levantados no Índice do
IHGP, sobre este recorte temporal, dois temas avultam em número de artigos: a
Revolução de 1817 (que está na fase da transição) e a Escravidão/Abolição, en-
quanto, no gênero biográfico predominam artigos sobre Pedro Américo.
Consideramos, no entanto, que a compreensão da História da Paraíba no
Império passa por alguns grandes temas basilares, sem desconsiderar a importância
da micro-História. Tais temas são: os movimentos liberais, a construção da ordem e
a crise agrária.
Por movimentos liberais, entende-se o largo espectro entre a Revolução de
1817, passando pela Confederação do Equador até a Revolução Praieira, em 1848,
embora o primeiro e os dois últimos movimentos se diferenciem pela própria mu-
dança no conteúdo do Estado no Brasil, decorrente do processo de nossa autono-
mia política. Mas, em comum, todos esses três movimentos significam a luta contra
um modelo político centralizador.
O espaço paraibano, tendo integrado o território mais rico da Colônia, tendo
vivenciado a experiência do invasor holandês, tendo sido subordinado politicamen-
te, durante 44 anos, a Pernambuco, já havia sido profundamente espoliado de suas
riquezas e de seus recursos financeiros. E a espoliação continuava, com a chegada
da Família Real, pois foi dos recursos desta área geográfica, do depois Nordeste O-
riental, que se pagava a indenização portuguesa aos holandeses na sua expulsão
dourada, que se sustentou a Corte do Rio de Janeiro e que se custeou até mesmo o
regresso de D. João VI a Portugal, após a eclosão da Revolução do Porto.
Todo esse conjunto de processos em sua formação histórica explica a men-
talidade libertária presente na Paraíba, em articulação com o Rio Grande do Norte,
sul do Ceará e, é claro, Pernambuco. A ascendência econômica historicamente
construída, da Capitania do Sul sobre as suas vizinhas, que se expressara político-

35 

 
administrativamente pela anexação, no século XVIII, fazia com que esse libertaris-
mo assumisse feições regionais. A crise açucareira posta desde o século XVII fazia
com que essa configuração regional, sem deixar de inserir-se no movimento mais
amplo de contestação ao poder metropolitano, buscasse um projeto político especí-
fico a suas necessidades e peculiaridades.
Ou seja: não era a fórmula política de transação com a Casa de Bragança que
expressaria a substância do liberalismo emergente no “Nordeste” Oriental. Se era
um liberalismo à brasileira, como bem o caracterizou a historiadora Emília Viotti da
Costa, escravista e católico, por contraste ao liberalismo burguês e anticlerical euro-
peu; se era, pois um liberalismo dos proprietários de terra, no projeto de 1817 já es-
tão postos elementos diferenciadores: o modelo republicano e a crítica à centraliza-
ção, fosse da metrópole, fosse da “metrópole interiorizada”, no Rio de Janeiro, para
usar a expressão da historiadora Maria Odila Silva Dias.
O período entre 1817 e 1822 não constituiu, no entanto, um processo pací-
fico na Paraíba. A instituição das Juntas governativas e a deposição das autoridades
metropolitanas, até então constituídas, custou confrontos entre autonomistas e co-
lonialistas, permeando os corpos militares e espraiando-se pelo interior, alternando-
se episódios favoráveis ora a um lado ora a outro.
Mas a memória da repressão de 17 era muito recente. Paraibanos haviam si-
do imolados de forma brutal. Famílias bem situadas na pirâmide social tinham so-
frido sequestro dos seus bens. E a conjuntura fazia pender a balança para a auto-
nomia seja pelos acontecimentos próximos, em Pernambuco, com a instalação
também da Junta de Goiana e da Junta do Recife, sejam os mais longínquos, na
Corte e em Portugal, com o movimento constitucionalista no Porto, que ajudava a
solapar uma monarquia absolutista já fissurada neste lado do Atlântico.
Há acontecimentos, no processo paraibano, a merecer rememoração, esque-
cidos pelo tempo, e o professor Aguiar se referiu a um deles, como a famosa dele-
gação de poderes, exarada pela Junta Governativa da Paraíba para que José Bonifá-
cio a representasse junto ao Conselho de Procuradores das Províncias do Brasil,
convocado pelo Regente D. Pedro, face às ameaças recolonizadoras de Lisboa;
mais do que a representação de José Bonifácio, o documento emanado da reunião
conjunta do Senado da Câmara da capital paraibana e da Junta Governativa, e co-
municado em discurso de José Bonifácio a D. Pedro, em que a Paraíba, em junho
de 1822, declara reconhecer no Regente a única soberania à qual prestar obediência.
Também estão a merecer reflexões e estudos mais acurados fatos como a adesão da

36 

 
área sertaneja, particularmente constelada em Sousa, adesão essa ao partido da au-
tonomia; e a participação de tropas paraibanas nas lutas contra as forças metropoli-
tanas do general Fidié, no Ceará e do general Madeira, na Bahia. Mas complexas
são as paixões políticas dos momentos históricos de rupturas, a produzirem, de um
lado um Manuel Clemente Cavalcanti de Albuquerque, representante eleito da Para-
íba ao Conselho de Procuradores, escolhido por D. Pedro para carregar sua espada,
luvas e bastão na cerimônia de sua coroação como imperador; e, de outro lado, um
Joaquim Manuel Carneiro da Cunha, republicano, que, já indicado à Assembleia
Constituinte de 1823, recusou-se, na mesma cerimônia, ao beija-mão a D. Pedro I.
Nem bem se separa o Brasil de Portugal e a conjuntura novamente eferves-
cia, com o confronto entre o imperador e a Constituinte, reveladora das dificulda-
des em formatar o novo Estado nacional brasileiro emergente de modo a conciliar
a soberania do rei e a soberania do povo, princípios de organização política confli-
tantes, inscritos em nossa autonomia transacionada.
Na Paraíba, como em outras províncias, as desconfianças diante de um qua-
dro político ainda indefinido, pairavam nos corações e nas mentes. Medo da reco-
lonização, que perduraria longo tempo, até a morte de D. Pedro I, em 1834, mesmo
tendo abdicado do trono brasileiro em 1831.
A Confederação do Equador reitera o espírito libertário regional, mas dá-lhe
novos contornos. A luta contra o autoritarismo, embora o personagem oponente
seja outro, retoma a chama de 1817; o modelo republicano subjaz em 1824, mas o
separatismo confederado é um novo ingrediente, atemorizando os artífices da mo-
narquia unitarista, para os quais a fragmentação territorial brasileira se lhes afigurava
como perigosa e ameaçadora à manutenção da autonomia recém-acontecida.
A derrota da Confederação do Equador talvez tenha sido o grande aborta-
mento da virtualidade de um outro país nessa parte do Brasil. Melhor ou pior? Não
sabemos.
Derrotaram os Confederados as forças políticas que, além do medo da divi-
são do Brasil, tiveram medo da democracia no país. Pois, consumada a autonomia,
a frente ampla anti-metropolitana, pré-22, composta de elementos díspares, se
fragmentara diante do grande desafio de construir o Estado nacional. A nossa Gi-
ronda escravocrata temeu a nossa Montanha cabocla, ou seja, os radicais de Frei
Caneca, que, no entanto, como os “montanheses” franceses, não iam a ponto de
incorporarem em seu projeto, o povo mais desvalido, em nosso caso, os escravos.
Na Paraíba, invadida territorialmente por todos os lados, pelos liberais per-

37 

 
nambucanos, norte-rio-grandenses e cearenses, o governo e o Conselho provincial
não extravasam a legalidade e enviam tropas para auxiliar Francisco de Lima e Silva
na repressão aos confederados pernambucanos. Os liberais da província fazem de
Areia um reduto, liberalismo esse que a derrota parece não ter extirpado, pois que
Areia se re-edita na Praieira.
A ordem monárquico-centralista, dirigida a Corte, vai-se instaurando.
A construção da ordem: eis o segundo grande tema da Paraíba imperial. Tal-
vez, o mais desconhecido na historiografia paraibana relativa ao Império.
Reprimido o inimigo fragmentário do momento, embora ainda não debelado
o perigo da fragmentação, o Estado nacional vai implantando a máquina político-
administrativa na província: A Presidência da Província, que significa a desconcen-
tração do poder e não a sua descentralização e era exercida em forma de rodízio; o
Conselho Provincial, que não terá poderes legislativos até o Ato Adicional de 1834,
quando se converte em Assembleia Legislativa; o aparato judiciário e policial. No-
vas vilas e cidades são criadas, nesse momento, para ampliar a presença do poder
público.
Através do voto censitário e indireto, instituído pela Carta outorgada de
1824, eram eleitos os representantes da província na Assembleia Geral do Império.
Apenas cinco deputados, abarcando dois distritos eleitorais bastante amplos territo-
rialmente: o da capital, incluindo a própria capital, Alhandra, Mamanguape, Inde-
pendência (Guarabira), Bananeiras, Areia, Alagoa Nova, Pilar, Pedras de Fogo e In-
gá, com três representantes; e o 2º Distrito, com dois deputados, incluindo Campi-
na Grande, Cabaceiras, São João do Cariri, Patos, Pombal, Catolé do Rocha, Piancó
e Sousa. Em nível de Império, uma representação modesta. Mais grave do que isso,
porém, era o conteúdo excludente do sistema eleitoral: apenas 6,4% da população
paraibana dele participavam; e menos ainda, somente 3,9% eram eleitores. Repre-
sentação estabelecida territorialmente diferenciada no Estado nacional e socialmen-
te hierarquizada, evidenciando que o Estado nacional brasileiro constituiu-se de
uma cidadania restrita.
Cidadãos ativos, ou seja, aqueles que podiam votar e ser votados, e era a ex-
pressão da época, eram, usualmente oriundos de elites agrárias estruturadas em
grupos familiares, as parentelas, que controlavam o poder local. Com a criação da
Guarda Nacional, em 1831, o localismo se reforça. Na Paraíba, contudo, esse pro-
cesso, apesar da documentação existente no Arquivo Público do Estado, pratica-
mente não foi analisado. A documentação existente sobre a Guarda Nacional é

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numerosa.
Mas, na década de 30, começam a evidenciar-se medidas de maior burocrati-
zação do Estado, significa dizer, a institucionalização do poder público, com o pre-
enchimento sistemático dos cargos de juizes de fora, juizes de paz e juizes de direi-
to. Criam-se corpos policiais. Multiplica-se o número de cadeias públicas. Instala-se
o Tribunal do Júri.
Se tais medidas podem ser interpretadas como tentativas de debelar a crimi-
nalidade, por vezes referida nos Relatórios dos Presidentes de Província, outras no-
tícias interessantes ainda não foram alvo de maior investigação, como aquelas refe-
rentes a confrontos entre as correntes políticas da primeira metade do período re-
gencial: os recolonizadores caramurus, os nacionalistas ou liberais moderados e os
chamados radicais federalistas. Sabe-se que existiu na capital paraibana uma Socie-
dade Federal da Parahyba do Norte, que iniciou proselitismo no interior. Sabe-se
que, neste início da Regência, Joaquim Pinto Madeira, na região do Crato, em Jar-
dim, liderava um levante de intuito restaurador, articulando-se com os “Colunas”
do Trono e do Altar, do Recife. Esse movimento teve ressonância nos sertões do
Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba: nesta província, atingiu Sousa, Pian-
có, Patos, Catolé do Rocha, Cabaceiras, Bananeiras, Independência, Mamanguape e
Ingá. São fatos a demonstrarem que a ordem não estava estabilizada. Mas, se havia
rusgas e pequenos motins, envolvendo tropas e mesmo povo, como tão bem carac-
terizou essa fase José Murilo de Carvalho, a historiografia paraibana praticamente
não fala de movimentos como os que aconteceram no Recife, tais quais a Setembri-
zada, Novembrada e Abrilada ou, depois, no sul pernambucano com os cabanos,
ou nem fala também de movimentos como movimentos regenciais em províncias
mais distantes, durante toda a década de trinta. O que teria acontecido nesta parte
do Brasil? A ausência de referências a tais movimentos é indício da sua não ocor-
rência? Parece ter sido. Mas, então, o que aconteceu com essas erupções políticas
da época, na província? É uma interrogação à pesquisa, visto que temos documen-
tação também não compulsada a respeito da Paraíba e existente no Arquivo Nacio-
nal do Rio de Janeiro.
Por outro lado, a Regência é um período em que se instalam várias cadeiras
de instrução pública na capital e em outras vilas; cria-se o Liceu Paraibano, em
1836, instituição que seria, daí em diante, a primeira formadora das elites dirigentes
provinciais; surgem tipografias, editando os primeiros jornais paraibanos, entre os
quais o de Borges da Fonseca, que chegou a ir ao Tribunal do Júri por crime de o-

39 

 
pinião.
Embora o II Reinado pareça ter transcorrido sem maiores transtornos, com
as famílias políticas se abrigando no bipartidarismo surgido do Regresso, não era
bem assim. Duas questões apontam que a historiografia paraibana precisa debruçar-
se muito mais sobre todo o período imperial. A primeira questão concerne à Lei de
Terras, a segunda, à Revolução Praieira.
Sobre a Lei de Terras e suas decorrências, de um lado, temos a manifestação
de um paraibano, Joaquim Manuel Carneiro da Cunha, durante o processo de dis-
cussão do projeto de lei na Câmara dos Deputados, dizendo-se representante da re-
gião e apontando as dificuldades de regularização do quadro fundiário, devido à
perda de títulos sesmariais ocorridos durante a luta contra os holandeses; ou devido
ao fato de que muitos proprietários ou grandes posseiros não terem recebido títulos
sesmariais; além de outros embaraços para regularizar a questão fundiária. Por con-
traste, pesquisa que vimos realizando a algum tempo, sobre os registros de terras
decorrentes da Lei de 1850 e de seu Regulamento de 1854, não parecem apontar os
graves problemas invocados por Carneiro da Cunha. Têm revelado que a província
era território de fronteira fechada, com poucas terras devolutas; apontam também a
presença, em certas localidades, de um número expressivo de mulheres proprietá-
rias e o recebimento da terra por herança com uma leve tendência de mercantiliza-
ção, o que é uma tendência bastante inversa ao que está ocorrendo na região cafeei-
ra nesse momento, no hoje Sudeste. Este nos parece ser um tema central para a
compreensão da História nordestina, se somado ao estudo das famílias políticas a-
través do recurso à genealogia.
Sobre a Praieira na província falarei pouco, mas chega a ser espantoso o si-
lêncio da historiografia. Tivemos o nosso Urbano Sabino, que é Maximiano Ma-
chado; falta-nos o nosso Figueira de Melo, como em Pernambuco, que seria o de-
poimento do lado conservador e vitorioso sobre o acontecimento. Foi o movimen-
to em Areia algo sem maior relevância ou a vitória dos conservadores apagou a
memória sobre esse acontecimento? Por que a cidade de Areia continuou a ser uma
força de políticos expressivos, ainda depois disso, alguns dos quais descendentes
dos liberais praieiros, como a família Santos Leal?
O terceiro tema significativo da Paraíba imperial é a sua crise agrária, em cu-
jo âmbito se pode compreender a eclosão de movimentos sociais como o Ronco da
Abelha e o Quebra Quilos bem como o processo de desagregação da ordem escra-
vista e porque, talvez, o abolicionismo não tenha sido tão forte como em outras

40 

 
províncias.
Por volta de 1860, a Paraíba tinha uma população de 300.000 pessoas, das
quais 50% eram elementos livres. Já no final do século XVIII, a população livre era
relevante, como apontam os quadros anexos ao trabalho da professora Elza Régis
sobre a Paraíba do século XVIII. Significa dizer que a situação crítica da agricultura
de exportação, herdada do período colonial, mesmo quando os escravos persistem
em número expressivo no sertão algodoeiro, como apontou o trabalho de Diana
Galliza, estava gestando relações de trabalho que constituiriam a “solução” das eli-
tes agrárias para o problema da mão-de-obra, quando o fim do tráfico negreiro co-
locou, junto com ele, a perspectiva de um fim relativamente próximo da escravidão.
A dificuldade de concorrência nos mercados internacionais, seja do açúcar seja do
algodão (salvo este produto em alguns momentos conjunturais breves, na década
de 60), a consequente descapitalização dessas lavouras, a dificuldade para uma mo-
dernização tecnológica, provocaram a segunda sangria de braços que a Paraíba e a
região, de um modo geral, sofreram – lembremo-nos da primeira sangria para as
Minas Gerais. Braços escravos são vendidos, muitas vezes burlando o fisco, para a
região cafeeira florescente nas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São
Paulo. Os homens pobres livres, cuja disponibilidade era grande, passam a ser enca-
rados como uma saída para a elite agrária, solução mais barata, dado que a crise a-
grária não permitia a adoção do sistema imigrantista. As massas errantes de homens
pobres livres começam a ser submetidas à disciplinarização para o trabalho nas
grandes propriedades. Na própria seca de 1877, já é visível esse processo assim co-
mo nos discursos dos representantes políticos da província, embora a participação
desta tenha sido modesta no Congresso Agrícola do Recife, em 1878, quando a
questão ficou mais explícita.
Para a população pobre livre, acontecimentos que se inserem no processo
mais abrangente de modernização no país, tais como a abolição do tráfico negreiro,
o recenseamento e a obrigatoriedade do registro civil, decretados pelo Governo sa-
quarema, no início dos anos 50, soavam como o seu próprio cativeiro. Camponeses
do Agreste do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco fazem eclodir o Ronco
da Abelha, que, na opinião de alguns historiadores como Hamilton Monteiro e
Marc Hoffnagel, este trabalhando sobre a Paraíba, guardaria articulações com os
remanescentes praieiros de Areia, somadas as motivações próprias dos revoltosos,
cuja exploração aumentara com a expansão algodoeira.
Pouco mais de duas décadas, novo movimento, basicamente na mesma área,

41 

 
como reação à nova medida modernizadora adotada pelo gabinete Rio Branco, a
instituição do sistema métrico decimal, agregada ao aumento de impostos dos go-
vernos provinciais do Norte. A “revolta dos matutos”, como disse Geraldo Joffily,
era uma explosão contra a carestia, os abusos dos governos e do que a massa cha-
mava de “vampiros”, ou seja, os arrematantes de impostos, coletores e atravessado-
res. Era revolta nas feiras do Agreste, irradiando-se por cerca de 30 a 40 localidades
paraibanas, igualmente nas duas províncias vizinhas, atingindo até Alagoas. Várias
outras motivações se imbricam neste movimento, tais como o envolvimento da I-
greja, então em confronto com o Governo imperial na chamada Questão Religiosa;
conflitos políticos locais no âmbito da elite, dívidas fiscais-financeiras e até mesmo
antilusitanismo, forte ainda neste momento. A dura repressão ao movimento, com
os “coletes de couro” do capitão Longuinho, não impediria que, um mês depois,
eclodissem novas manifestações populares, desta vez, contra o recrutamento, em
que a participação de bando mulheres era significativa e precisa ser pesquisada.
Também desta época data a maior visibilidade dos bandos de cangaceiros,
como o de Jesuíno Brilhante. Era uma área em convulsão, que a seca só fez acirrar,
despejando levas de retirantes na capital, onde as epidemias grassavam, depois de já
terem dizimado cerca de 30 mil pessoas na década de 50.
Era num quadro crítico que a Paraíba encerra o seu período imperial. Asfixi-
ada, ao longo do regime, como as demais províncias, pela centralização política,
empobrecida pela crise agrária e desassistida pelo Governo.

A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães:

Como era de se esperar, a brilhante exposição da professora Rosa Godoy


nos oferece um quadro expressivo da Paraíba durante o Império. Não obstante os
limites do tempo regulamentar estabelecido no Ciclo para os expositores (vinte mi-
nutos), a professora Rosa Godoy pôde cobrir aquele período imperial mostrando
suas principais fases, e mais do que isso, apontando inúmeras ocorrências de vulto
ainda pouco estudadas. O aprofundamento sobre a Revolução Praieira na Paraíba,
na interpretação dos conservadores vencedores; a crise agrária e a Lei de Terras; a
ausência de estudo aprofundado sobre a Paraíba e os movimentos insurrecionais
como a Abrilada, a Setembrizada, a Novembrada, que ocorreram aqui perto, em
Pernambuco; a importância da Guarda Nacional na Paraíba, cuja documentação é
copiosa no nosso Arquivo Público; foram temas levantados pela expositora como
itens importantes a desafiarem a curiosidade, estudo e análise dos nossos historia-
dores.
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Essa contribuição da professora é bastante valiosa para o futuro da nossa
historiografia, pelo que agradeço em nome dos organizadores deste evento.
Dando continuidade à sessão, teremos a participação, como debatedor, do
nosso consócio Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Historiador, pesquisador, jorna-
lista atuante, autor de vários trabalhos de cunho histórico, polemista conhecido,
Marcus Odilon ocupará a tribuna para se desincumbir de com brilho, tenho a certe-
za, de missão.
Com a palavra o historiador Marcus Odilon Ribeiro Coutinho.

Debatedor: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho (Escritor, historiador, membro do


Instituto Histórico e Geográfico Paraibano)

Todos estamos gratificados pela palestra da professora Rosa Godoy. Não foi
surpresa, porque todo o auditório esperava exatamente o que ocorreu. Uma verda-
deira aula, no melhor sentido da palavra.
A minha palavra é apenas para fazer-me intérprete de todos e colaborar e
exaltar, e talvez, no máximo, preencher alguns espaços vazios sobre o que disse a
expositora desse período da história pátria, da qual a Paraíba é uma parte, mas é to-
talmente integrada.
A nossa expositora afirma que o período do império foi um período curto e
um período também menos pesquisado. Realmente o período imperial não comple-
tou um século, enquanto que o período colonial excedeu a três séculos e o período
republicano já excede a um século.
Mas eu diria que foi um período muito brilhante, período brilhantíssimo, de
fatos positivos.. Há poucos dias conversando com vários confrades, nós todos re-
forçávamos a tese de Gilberto Freire, que dizia que o Brasil é um país que deu cer-
to. Rigorosamente deu certo.
Ora, o período imperial foi um período de muitos desafios, eu não digo de
crises, eu digo de desafios, e a maioria deles vencidos pelo nosso povo, pela nossa
civilização ibérica.
O primeiro dos desafios era a fragmentação; fragmentação que ocorreu em
todas as Américas, as três Américas, sem nenhuma exceção, inclusive na América
inglesa, porque o atual Estados Unidos não eram a única colônia inglesa. O Canadá
está aí, além de algumas outras possessões inglesas no Caribe, inclusive Jamaica. A
América inglesa não conseguiu ter esta unidade. Esta unidade nem sempre fora
conquistada como uma afirmação de cavalheirismo. Reconhecemos que houve exa-

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geros, houve repressões nesse período, como há em qualquer parte do mundo.
Até há pouco tempo eu ouvia um ilustre conferencista dizer que o Brasil não
tinha dado certo, que havia repressão e seria o Brasil um modelo a não se adotar,
um povo infelicitado por muitos períodos de ditadura. Mas, qual o país que não te-
ve isso? Essas nossas crises foram crises mundiais da espécie humana. A nossa evo-
lução também, afinal o homem é um só. Em qualquer continente a alma humana se
comporta de igual maneira, evidentemente com algumas variações, até motivada
pelo próprio clima onde ela habita.
O movimento de Quebra Quilos, por exemplo, que se apresentou na Paraí-
ba, foi um movimento liberal e foi um movimento que reafirma a disposição con-
testatória do povo paraibano. Eu discuto isso e na minha opinião é exatamente o
contrário. É rigorosamente em contrário. Estou aqui com um trabalho, uma biogra-
fia escrita por um maranhense sobre o também maranhense Gonçalves Dias, que é
um nome nacional conhecido de todos os presentes, e essa biografia diz que a idéia
de adotar o sistema decimal foi uma sugestão de Antônio Gonçalves Dias, que era
um homem formado em Coimbra, conhecia a Europa, e para lá fora enviado pela
família, com grande sacrifício, pois não havia esse dinheiro fácil. Quando Gonçal-
ves Dias ia embarcar para Lisboa para fazer o curso em Coimbra, o pai dele mor-
reu. E foi quase com a contribuição dos amigos que ele foi levado a prosseguir seus
estudos e fazer um curso superior. Ele esteve na Paraíba, o que realmente pouca
gente sabe. Antes de ler esse livro eu não sabia, e soube em conversa com o histori-
ador Deusdedit Leitão, que é desta Casa, pesquisador de todas as horas. Então, An-
tônio Gonçalves Dias esteve aqui na Paraíba, com uma missão do Barão de Capa-
nema; esteve em todo o Nordeste, esteve no Ceará e sugeriu ao imperador Pedro II
a adoção do sistema metodológico decimal, que era um avanço na época. Porque
aqui no Brasil, é preciso que se diga, no interior brasileiro mais ainda, cada região
tinha um sistema: era a vara, era a cuia, era o prato, era a lata nos mais diferentes
locais. Ficava difícil, professora Rosa Godoy, ficava extremamente difícil uma fisca-
lização por parte do governo imperial, por parte do governo da província e se não
fosse por parte do governo imperial, também por parte do governo republicano.
Afinal todos os sistemas políticos visam uma só coisa: melhorar a qualidade de vida
daqueles por que eles se responsabilizam. Então me parece que a revolução de
Quebra Quilos foi uma revolução muito clerical, fanática, contra a maçonaria.
Quando os revolucionários de Quebra Quilos estiveram em Areia danificaram o te-
atro (e veja, Areia, na época já tinha um teatro) porque parecia uma loja maçônica.

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Se houve reacionarismo, diga-se de passagem, o reacionarismo estava na parte dos
que promoviam o movimento do Quebra Quilos, que foi também um momento
antimaçônico, porque a maçonaria era muito mal vista pelo clero católico, pois há
pouco tempo tinha havido o grande conflito da questão religiosa, e dois dos bispos,
D. Vital, paraibano e bispo de Olinda e Recife e D. Antônio Macedo, um baiano
bispo de Belém, tinham sido reprimidos. É preciso que se diga, a Igreja era aliada
do Estado, pela Constituição. Os padres, os funcionários, os sacristões eram pagos
pelo governo imperial. Então a Igreja tinha também que prestar alguma solidarie-
dade e obediência ao Império. Estavam num acordo que veio até a República. A
República foi quem realmente separou a Igreja do Estado. Infelizmente esses dois
bispos se insubordinaram porque queriam excluir das lojas maçônicas padres que,
por sua livre e espontânea vontade, pertenciam a esse movimento. Eu não sou ma-
çom, mas reconheço o grande trabalho que foi feito pela maçonaria em prol da in-
dependência, da abolição da escravatura e depois em prol da proclamação da Repú-
blica, embora a maçonaria tenha perdido muito a sua força, neste século.
A expositora falou sobre a nossa atuação política, dizendo que a Paraíba ti-
nha apenas cinco deputados, situação que talvez fosse correta em face da nossa po-
pulação. Cinco deputados naquela época representavam muito mais do que 15 de
hoje, quando a população dobrou ou triplicou.
Uma coisa que a professora Rosa Godoy falou era que havia dois distritos
eleitorais, o da capital e o do sertão. Ótimo. No Império, naquele período, se ado-
tava o voto distrital. Isso é um avanço. Essa ideia do voto proporcional, que veio
com a República, é um verdadeiro horror. Hoje os formadores de opinião pública
são todos unânimes. Boris Casoy se esgoela e chega até à radicalização de dizer, que
uma das coisas que se precisa na reforma política brasileira é exatamente nós evolu-
irmos para o voto distrital, que já havia no Império. Acho que só nos temos de nos
orgulhar da época do Império.
Naquela época a população era pequena e as mulheres não votavam. A mu-
lher só veio votar em 1928, no Rio Grande do Norte, porque a legislação eleitoral
era estadual. Foi a cidade de Lages a ter a primeira prefeita, Dona Adalgisa, e em
1930 houve duas santa-ritenses; Dona Iracema Feijó requereu um mandado de se-
gurança para ter o direito de votar., conforme está no trabalho da confreira Martha
Falcão. Mas, salvo engano, no Império os analfabetos já votavam. Os analfabetos
tinham direito a votar, coisa que recentemente foi restabelecido. Agora, precisava
ter uma renda mínima. Era a chamada a lei da mandioca, isto é, quem tivesse uma

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renda equivalente a cinco alqueires, ou coisa que o valha, de mandioca, poderia vo-
tar.
É preciso lembrar que foi o Império que, na Paraíba, construiu a primeira
escola de nível médio, que foi o Liceu. Antes disso existia o Seminário dos Jesuítas,
mas tinha sido suprimido pelo Marquês de Pombal. O Marquês de Pombal para a
Paraíba foi um horror, porque não só proibiu uma escola superior, como o Seminá-
rio, como anexou a Paraíba a Pernambuco. E só depois que o Marquês de Pombal
caiu, foi expulso do Palácio Imperial pela princesa herdeira do trono, D. Maria I, é
que a Paraíba teve restituída sua autonomia. Infelizmente a Historia do Brasil vê
muito mal a Rainha D. Maria I; não se pode nem colocar uma rua com um nome
de Maria I, porque a primeira lembrança que se tem dela é que ela condenou a forca
o herói maior, o nosso Tiradentes. Assim ficamos como que proibidos de homena-
gear D. Maria I, que, por sinal, morreu no Brasil.
Quanto ainda ao movimento de Quebra Quilos, a sua repressão foi uma coi-
sa horrorosa. Houve o “colete de couro” e é preciso se lembrar que quem coman-
dou as forças federais que vieram do Rio de Janeiro contra o Quebra Quilos foi o
irmão de Deodoro da Fonseca. Era uma família horrorosa. E dizem que ele garga-
lhava, ria. José Severiano da Fonseca era coronel, chegou a general e depois foi a
Barão: Barão de Alagoas.
Uma coisa que eu quero ressaltar é atuação do maior pintor da Paraíba, que
foi Pedro Américo, que despontou exatamente nesse período. Parece-me que como
artista plástico ninguém superou Pedro Américo; pelo menos é a opinião de todos
os paraibanos.
Penso que já excedi o tempo que me cabia neste debate, agradecendo a aten-
ção de todos.

A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães:

Tivemos a satisfação de ouvir as palavras do nosso debatedor, historiador


Marcus Odilon, que, como sempre, se empolga com entusiasmo ao defender seus
pontos de vista. Ele pede desculpas por ter excedido seu tempo, mas a presidência
às vezes tem que ser tolerante nesse particular, sobretudo quando a exposição do
palestrante está agradando ao plenário. Foi o que aconteceu com o confrade Mar-
cus Odilon.
Coube a Marcus Odilon acrescentar à palestra da professora Rosa Godoy al-
guns episódios do nosso período imperial, não aprofundados pela expositora. Na
realidade, a função da professora Rosa Godoy era fazer uma exposição generaliza-
46 

 
da, ordenada, cabendo ao debatedor espicaçar, criar as condições para o debate
com o público assistente. Foi o que Marcus Odilon fez, abordando aspectos do
nosso Império com alguns pontos de vista pessoal.
Como ressaltou a professora Rosa Godoy, alguns aspectos do tema estão
consignados no programa do Ciclo de Debates para uma apreciação mais profunda.
Nem por isso, nosso debatedor, com muita propriedade, deixou de expor e
comentar alguns fatos ocorridos naquele período imperial.
Dando continuidade à sessão, concederei a palavra aos participantes do Ci-
clo de Debates, começando pelo consócio Guilherme d’Avila Lins, primeiro inscri-
to para ocupar a tribuna.
Com a palavra o historiador Guilherme d’Avila Lins.

1º participante: Guilherme d’Avila Lins (Sócio do IHGP e presidente do Instituto


Paraibano de Genealogia e Heráldica):

Gostaria de parabenizar a expositora, professora Rosa Godoy e o debatedor,


nosso confrade Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, pelas abordagens muito lúcidas a
propósito do tema hoje abordado.
Gostaria apenas de lembrar um detalhe, eu sou sob muitos aspectos um de-
talhista; com relação a este período e mais particularmente ao trabalho de Maximia-
no Lopes Machado, cujo trabalho já foi mencionado como o ponta-pé inicial de sua
vocação histórica, com o QUADRO DA REVOLTA PRAIEIRA NA PROVÍN-
CIA DA PARAHYBA, que constitui nada mais que um relato de um participante,
portando de parte interessada, num trabalho excepcional, cuja primeira edição só se
conhece hoje quatro ou cinco exemplares.
Esse trabalho precisaria de uma releitura com interpretação crítica porque
ele representa uma descrição de um ator da História e como descrição de ator ele
precisa de uma leitura crítica interpretativa e penso que seria uma contribuição im-
portante para este detalhe. Além deste trabalho Maximiano Lopes Machado tam-
bém tem A HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA e um outro sobre a Ca-
pitania de Itamaracá, além de outros trabalhos. Ele foi secretário do Instituto Ar-
queológico Pernambucano e fez parte da comissão que estudou arqueologicamente
o jazigo e a ossada de João Fernandes Vieira. Aquele trabalho de ator da História
precisa de uma leitura crítica. O trabalho de Ambrósio Hischoffer também precisa-
va de uma leitura crítica, que Alfredo de Carvalho já fez, muito bem feita, mas
(quem sabe?) precisa hoje de uma nova leitura. São trabalhos apaixonados de quem

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estava participando de um lado do movimento e tem, sem dúvida, a influência da
própria paixão e da própria cosmovisão do cenário histórico.
Era apenas isso que queria registrar.

2º participante: Professor Eduardo (Professor do Departamento de História da


UFPB):

Como um apaixonado pelo Império, seria impossível para mim não intervir.
O que eu gostaria muito de salientar, e que ficou claro no debate aqui, é que tratar
de Império significa tratar da construção do Estado Nacional Brasileiro, e, portan-
to, significa necessariamente a gente pôr a questão central da sociedade brasileira
hoje, que é a cidadania. E aí a gente vai ter que levantar estas questões que a profes-
sora Rosa levantou e o debatedor também tocou, que é essa articulação entre a po-
lítica, entre o Estado Nacional, entre a ideia de nacionalidade e os movimentos so-
ciais, a estrutura agrária e as proposições e projetos políticos que estiveram em jogo
durante o século XIX, no Brasil. E dentro disso, é claro, os movimentos liberais de
17, 24, 49, entrando também os movimentos sociais dos excluídos, como o Ronco
da Abelha, como o Quebra Quilos, além de outros.
É importante que a gente saliente que esse é um Império sobretudo elitista,
sempre baseado no voto censitário, cuja ideia é do esclarecimento, onde a elite sabe
para onde vai, o povo tem vergonha do povo que tem, e essa é uma marca que está
na construção deste país; realmente movimentos como o de 24 e 48 quiseram ques-
tionar um pouco isso, mas foram sufocados. A repressão não bateu à toa. Na ver-
dade isso faz parte de uma tradição violenta e autoritária que a gente tem; é bom
lembrar que esse é o período do cangaço, do uso da polícia privada (aliás não há
nem uma distinção muito clara entre o público e o privado); são os jagunços, são os
cabras dos grandes proprietários que funcionam como justiça e polícia, na prática.
Hoje estamos num país democrático, mas é esse passado, é essa memória que a
gente precisa remontar e que, no caso da Paraíba, existiram experiências que ques-
tionaram; acho que está mais que na hora pensar o que foi 48; a praieira foi um dos
episódios mais importantes da história desta região e que precisa ser revisto. E cla-
ro, os movimentos sociais como o Ronco da Abelha e está aí, até hoje, a questão
agrária, que a gente vive claramente, o êxodo rural. Nós vivemos um quadro estru-
tural que tem suas bases montadas no Império.

3º participante: Paula Frassinete (Conselheira do IPHAEP):

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Sou bióloga e a minha análise da História do Brasil vai mais como militante
do que como historiadora, porque a gente sabe muito bem como foi o ensino de
História. Tenho 56 anos e estudei História há bastante tempo. Parece-me que na
minha época a gente não tinha esse tipo de professora Rosa Godoy, que faz toda
essa discussão crítica da História. O professor Marcus Odilon coloca que a Repú-
blica já tem seis séculos, é o período que está se demorando mais e anteriormente
Rosa já coloca as crises do fim do Império. É a questão agrária, é a desassistência
do governo com o povo e eu perguntaria à professora Rosa: nós estaríamos no fim
da República também? Porque nós estamos com essa mesma crise. Ela está aí repe-
tida e acho que 64 pode até ser comparada com a praieira. Estaríamos terminando
este período, já começando, dando os primeiros passos para o próximo regime que
será o socialismo?

4º participante: Célia Camará Ribeiro (Sócia do IHG de Niterói):

Mais uma vez muito obrigada pela oportunidade, parabenizando o Sr. Presi-
dente do Instituto Histórico e componentes da Mesa, a professora Rosa Godoy e o
historiador Marcus Odilon. Aqui na Paraíba nós temos muitos pontos importantes
do Império. D. Pedro II era um mecenas, que se interessava pela cultura e prestigi-
ou não só Pedro Américo e Carlos Gomes, como outras figuras nacionais.

5º participante: Odilon Ribeiro Coutinho (Membro do Conselho Estadual de


Cultura e sócio da Academia Paraibana de Letras):

Quero felicitar a professora Rosa Godoy pela excelente palestra com que
nos brindou esta tarde. Realmente uma palestra de nível universitário, de bom nível
universitário, que é uma coisa que se faz hoje raramente neste país, não apenas na
Paraíba, mas neste país. Eu tenho contacto com outras cidades, cidades considera-
das mais importantes do que a Paraíba, com outras universidades, e posso dizer isso
com absoluta segurança. O que não é nenhuma novidade, pois todos nós que ou-
vimos uma vez Rosa Godoy passamos a admirá-la e a admiração cresce a cada nova
palestra que ela faz.
Sobre Marcus Odilon, eu sou suspeito para falar, é uma figura vibrante. Ele
põe realmente um fermento em tudo que diz e faz com que a coisa passe a apresen-
tar um aspecto ardente. O debate, a forma de comentar o trabalho de Rosa foi re-
almente uma forma, não apenas cavalheiresca, e não poderia ser de outra forma em
virtude do alto nível da palestra de Rosa; foi cavalheiresca por que concordou com
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a exposição de Rosa, apenas acrescentando alguns detalhes, segundo ele, para pre-
encher pequenas lacunas que teriam ocorrido. E num tema como esse, tão vasto,
essas lacunas seriam inevitáveis.
Mas o que me trouxe aqui a este microfone foi a forma pela qual o professor
Eduardo, da UFPB, se identificou. Ele começou dizendo que era um apaixonado
do Império e isso me animou a vir aqui fazer alguns comentários. Porque a gente
não tem, a gente que se dedica ao estudo da História, a gente não tem a ideia exata
da significação do Império para a nossa vida e para a formação da nação brasileira.
O Império costurou a nossa unidade. Rosa e Marcus chamaram a atenção
para a ameaça de fragmentação que pairou sobre o nosso país durante o Império. E
como isso foi conjurado, como isso foi exorcizado? Rosa teve a oportunidade de
referir-se a isso várias vezes, lembrando José Bonifácio. José Bonifácio foi o gênio
político de maior expressão que as Américas produziram. E eu estou dizendo isso
pensando exatamente nos pais fundadores da nação americana, grandes figuras de
estadistas. Washington era um homem de bom senso, um intuitivo que soube con-
duzir a nação com mão segura. Os intelectuais da revolução americana foram gran-
des figuras. Um Jefferson, que figura brilhante! Um Benjamin Franklin, um Madi-
son, um Webster, são figuras realmente extraordinárias, mas nenhum pelo menos
teve oportunidade de revelar a genialidade política de José Bonifácio. Rapidamente
eu queria chamar a atenção para o fato de que talvez nem todos nós aqui presentes
saibamos o que realizou José Bonifácio. Vou tentar isso rapidamente.
José Bonifácio saiu do Brasil com vinte anos e foi estudar em Coimbra; an-
tes de terminar os seus estudos já se tinha tornado professor. Aos trinta anos foi
comissionado pelo governo português para estudar onde quisesse com os professo-
res que escolhesse. Na França, estava lá exatamente por ocasião da Revolução
Francesa e foi discípulo de Lavoisier, que logo depois foi guilhotinado. Na Itália,
foi discípulo de Volta, o primeiro cientista que aplicou, de forma prática, a eletrici-
dade. Na Alemanha, conviveu com filósofos e convenceu Humboldt a vir estudar a
América do Sul. Na Suécia, ele que era geólogo (é uma coisa que pouca gente sabe,
e dentre os cento e tantos metais conhecidos ele identificou oito), foi convidado
para, com o status de ministro assumir a coordenação de todas as atividades de mi-
neração da Suécia, que já tinha uma indústria de aço muito desenvolvida. Volta para
Portugal, assiste à diluição, ao esgarçamento da Revolução Francesa, à ascensão de
Napoleão, à invasão de Portugal pelo General Junot, que fez com que a família real
de Portugal viesse para o Brasil. Nessa ocasião ele assumiu o comando do Batalhão

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Acadêmico e enfrentou as tropas francesas que invadiam Portugal. A família real
vem para cá com toda a corte; Portugal ficou sem quadros para a sua administração
e ele ocupou vários quadros da maior significação no plano administrativo de Por-
tugal. Ele supriu o grande vazio deixado pela fuga da corte portuguesa. Mas, sem-
pre com o pensamento voltado para o Brasil.
Há uma coisa muito interessante que nunca passa pela nossa cabeça porque
realmente o brasileiro aprende a história de modo errado. A Independência do Bra-
sil não ocorreu em 22, mas em 1908, quando D. João VI criou o Reino de Portugal,
Brasil e Algarves e aí nós atingimos o mesmo nível da Metrópole. José Bonifácio
está sempre atento ao desenrolar dos acontecimentos e acompanha o desdobra-
mento das lutas de emancipação da América Latina, o estraçalhamento da América
Latina. A América Espanhola estava fragmentada em não sei quantas republiquetas.
Em 1816, as cortes portuguesas começaram a reclamar e cobrar a volta de D. João
VI. Ele então achou que nessa ocasião devia voltar ao Brasil, para construir a nossa
independência. Chega aqui com 56 anos. D. João VI foi um rei de grande sensatez,
de muito bom senso. A biografia de Oliveira Lima sobre D. João VI, que acaba de
ser re-editada, segundo Gilberto Freyre, era a melhor biografia que se tinha escrito
no Brasil. Hoje talvez ele pudesse mudar de opinião, se fosse vivo. A biografia que
Nabuco escreveu a propósito do pai, o conselheiro Nabuco de Araújo, é a verda-
deira história do Império. A melhor história do Império é a biografia do conselhei-
ro Nabuco Araújo. Mas essa biografia revela o homem admirável, perspicaz, sagaz,
que foi D. João VI. Voltou para Portugal, mas deixou Pedro I aqui. José Bonifácio
vem e concebe essa coisa extraordinária. Mas ele concebeu isto porque ele era um
homem do mundo, com uma visão muito larga da história do seu tempo, da experi-
ência da história de um tempo tumultuado. Ele então teve essa saída genial. Perce-
beu que se o país se tornasse independente através do que eu chamei um dia de he-
róis equestres, aqueles generais a cavalo, espadagão desafiando o infinito, se o Brasil
tivesse realizado a sua independência dessa maneira, através de um herói equestre,
dificilmente, e acho que Rosa e Marcus Odilon concordarão comigo, ele teria evita-
do ou impedido a fragmentação. José Bonifácio partiu do princípio, e aí se revela a
genialidade do estadista, e sobretudo a sua falta de preconceito; não era o homem
rasteiro, que achava que amar o Brasil era arranjar um sargentão que fizesse a nossa
independência. Ele verificou que só havia uma maneira de impedir que o país se
fragmentasse. Era colocar à frente do país um homem, cuja autoridade não pudesse
ser contestada. A autoridade do rei não podia, porque era uma autoridade legítima.

51 

 
Ele então concebeu nossa independência e, mirem que prodígio de concepção ge-
nial, a nossa independência através de um príncipe português representante da Me-
trópole. E graças a isso ele conseguiu manter a unidade nacional, que é um milagre.
E tanto isso é verdadeiro que, ao deixar o Brasil, abdicando o trono brasileiro, vol-
tou para Portugal para disputar com o irmão D. Miguel o trono português, que D.
Miguel tinha usurpado de sua filha, D. Maria da Glória. Voltou, mas deixou o filho
no Brasil, Pedro II, com apenas cinco anos de idade. E o Brasil entrou numa terrí-
vel convulsão, convulsão que levaria o Brasil certamente à fragmentação se não ti-
vessem sido conjuradas e exorcizadas a cabanada, a balaiada, revolução aqui, revo-
lução acolá, revolução farroupilha. Apesar do Regente do Império, Diogo Antônio
Feijó, homem de pulso férreo, nada foi possível fazer para dominar o tumulto que
se alastrara pelo país inteiro. E aí o que é que se faz? Põe-se no trono um menino
que ainda não tinha completado 15 anos – Pedro II. O resultado é que a tempesta-
de serenou, porque estava no trono uma autoridade legítima. E tão bem costurada
ficou a unidade nacional pelo Império, que a própria República, nos seus desatinos,
não conseguiu destruir o tratado de construção de nossa unidade realizada pelo
Império. O Império é a moldura natural de José Bonifácio.

Considerações finais pela professora Rosa Maria Godoy Silveira:

Acho que tudo foi muito bom.


Em primeiro lugar, eu começo agradecendo a escuta atenta do Dr. Marcus
Odilon à minha fala, mas confesso, antes de tudo, que faço parte do time das pai-
xões pela História do Império. Eu sempre gostei, eu acho que o Dr. Odilon colo-
cou aí muitíssimo bem que no Império estão colocadas as nossas grandes questões
que estão abertas até hoje.
Sobre a questão da formação do nosso Estado Nacional, sobre como ocor-
reu a organização do Poder, como foi construída, sobretudo no Segundo Reinado
através dos conservadores saquaremas, a relação com a plebe, não com o povo, o
povo segundo entendemos era a elite hoje, mas com aquilo que eles chamavam de
plebe. Acho que são questões que permanecem abertas na nossa história, princi-
palmente no momento em que vivemos hoje.
A professora Paula, preocupada com o nosso futuro, pergunta para que lado
estamos indo, e eu acho que nós estamos passando por um momento bastante difí-
cil no país, onde várias dessas questões deveriam ser revisitadas, inclusive no Impé-
rio. Eu diria que a principal delas, hoje, é a do Estado. É complexa a questão do
Estado, a relação do Estado Federal com os Estados membros. A grande questão é
52 

 
que Modelo de Poder organizar. Acho que a Federação há muito se esgarçou. E
nós estamos assistindo aí uma tremenda crise dessa relação com os Estados mem-
bros.
Como sou apaixonada pela história do Império, vejo que ela é a mais con-
temporânea possível. Tem muito a ver uma coisa com a outra porque o Império
nos elucida as grandes questões do país. Nós temos que revisitá-la para ver essa
costura.
Sobre a questão da unidade nacional, colocada aqui pelo Dr. Marcus e Dr.
Odilon, eu acho que foi uma obra portentosa, uma política portentosa. Não há dú-
vida. Portentosa foi também a conquista portuguesa do Brasil e a manutenção des-
se território, porque foi uma obra difícil, de grande engenharia política, para usar os
termos da moda. E o Império fez isso. O que eu tentei evidenciar, também, é que
nesta parte do Brasil, que a gente é o Nordeste Oriental, houve a perspectiva ou
experiência de outros projetos políticos. Esses projetos foram vencidos. Tanto 17,
quanto 24, quanto 48. Mas, por outro lado, eu acho que seriam projetos fragmenta-
dores. Disso não tenho dúvida. O medo era tanto, em particular com o Norte, com
as províncias do Norte, como se dizia, e com o Rio Grande do Sul, por causa da
fronteira, mas no meio da Regência, num debate da Câmara dos Deputados, (a área
estava convulsionada com o movimento cabano no sul de Pernambuco, hoje terri-
tório alagoano) um deputado disse que a gente perca o Norte, mas conservemos o
resto; aqui era um foco de convulsão muito grande, pois havia a possibilidade de
um outro projeto. Esse é um lado da história. O outro lado é que houve evidências
(é uma história que acho que também é mal contada, mal pesquisada ainda para
nós) que é a história da recolonização. Nós precisamos estudar mais as tentativas
concretas de recolonização. Tanto a existência dessa sociedade dos colunas em
Pernambuco, no final da década de 20, aliada com Pinto Madeira na região do Cra-
to. Quando aquela famosa história que o povo diz que é fantasia, outros dizem que
não, a história do retorno de D. Pedro I, que desembarcaria exatamente por essa
área, exatamente em Aracati, para reconquistar o Brasil.
Acho que o Primeiro Reinado é outro buraco na História do Brasil, que a
gente precisa estudar muito. Nesse sentido acho que tem evidência da unidade e es-
se território teve outros projetos alternativos, embora derrotados. Acho que deve
ser revisitado, mas a gente precisa pensar num novo modelo de construção política
para este país. Estamos sofrendo um processo de reforma do Estado, mas uma das
maiores nebulosidades para nós, porque não está definido ainda o papel dos Esta-

53 

 
dos membros e dos municípios. A gente sabe que a concentração de recursos fi-
nanceiros na mão do Estado Federal tem causado depauperamento para os Estados
e municípios. Então a questão dessa descentralização hoje precisa ser repensada, ela
precisa ser construída pela sociedade brasileira.
O Dr. Marcus Odilon lançou também a questão do Quebra Quilos, como
movimento. O Quebra Quilos, depois da análise que o professor Hermano Souto
Maior fez com sua livre docência, onde a Paraíba está aí incluída, porque ele fez
uma análise global do Quebra Quilos em todas as províncias onde aconteceu, a
gente percebe a complexidade de motivações desse movimento. Eu não diria ser
um movimento reacionário progressista, acho que não é por aí. A gente tem que
entender as motivações dos atores da época e aí tem muita gente envolvida. Há os
camponeses, com seus motivos. Hoje há um novo ramo da historiografia, ou um
certo retorno sob nova metodologia, que é a história dos costumes. Acho que
Quebra Quilos dá um belo trabalho sobre o ângulo da história dos costumes, como
apontou o Dr. Marcus Odilon. Quer dizer, o confronto entre costumes tradicionais
de uma determinada sociedade com suas medidas das feiras, com litro, com a cuia,
enfim com as suas medidas usuais de origem portuguesa e o confronto com outro
sistema de medição que causou muito atrito, inclusive porque os comerciantes
também roubavam no peso. Essa era, no fundo, uma manifestação dessas camadas
espoliadas. Alguns falam que Quebra Quilos foi um movimento social; eu digo, foi;
não podemos esperar dele o grau de conscientização social dos camponeses, que
viviam nas condições em que viviam. Mas foi uma manifestação dessas camadas
que sofreram essas alterações nos seus costumes. Há outras coisas que se somam.
Soma-se a questão da Igreja, como Dr. Marcus Odilon apontou; o envolvimento
dos padres era muito grande nesse movimento, e mostra que a articulação deles ul-
trapassa o raio de ação desse território. Somam-se as motivações de proprietários
de terra endividados por causa da crise agrária, com hipotecas, com dívidas de em-
préstimos, que aproveitaram o embalo para queimar. Houve uma complexidade de
motivações.
A questão da Paraíba na Assembleia Geral. A Paraíba era mesmo uma pe-
quena província, mas a Paraíba sempre foi muito enxerida (Não esqueçam que hoje
sou cidadão paraibana, apesar do sotaque). Ela podia ter uma representação peque-
na, mas ela era altiva. Nós não fizemos ainda uma reconstituição da participação
dos parlamentares paraibanos lá no Império, sobre os pronunciamentos dos parla-
mentares. Quando eu citei a Lei de Terras, Carneiro da Cunha foi um deles que se

54 

 
manifestou. Lembrei que só teve um paraibano que se manifestou, dos 21 do con-
junto que falaram. Alguns deles falaram várias vezes, como Bernardo de Souza
Franco, da província do Pará. Quando disse representação pequena, não quis dizer
inexpressiva.
Eu estou até fazendo um estudo mostrando deputado a deputado, quem fa-
lou sobre a Lei de Terras e nós vamos divulgar brevemente esse trabalho. Acho que
a gente precisa recompor esse trabalho da Paraíba na Assembleia do Império, assim
como hoje está sendo feito um trabalho, em primeira etapa, na Assembleia Legisla-
tiva do Estado pela equipe do NDHIR. Isso vai revelar também uma coisa que é
lacunar na História do Império na Paraíba, que é exatamente o embate na Assem-
bleia Provincial. Quais eram as tendências, quais eram as correntes, quais eram os
grupos familiares. Já tem um trabalho do Celso Mariz, mas esses debates precisam
ser reconstituídos.
Sobre Pedro Américo, evidentemente a grande figura paraibana do Império,
eu comecei falando no primeiro parágrafo que ele é, no gênero biográfico, o que
tem seis artigos entre os 118 que levantei sobre o Império no índice da Revista do
Instituto Histórico. É o maior biografado desse conjunto. Os outros todos têm
uma ou duas biografias.
Sobre a Praieira, o professor Guilherme falou sobre a obra de Maximiano
mencionando sua posição como ator e eu também acho que precisamos ver o outro
lado. Eu disse que faltou o Figueira de Melo, que foi o chefe de polícia da praieira,
em Recife. A versão que ele contou da praieira é uma e Urbano Sabino, que era
praieiro, conta a outra. Mas esses dois trabalhos foram publicados pelo Senado e
são livros valiosíssimos, na Coleção Bernardo Pereira de Vasconcelos, no tempo do
Petrônio Portela. Falta um trabalho, a exemplo do que foi feita pela professora Isa-
bel Marçon, hoje na Unicamp, que ela devassou a praieira em Pernambuco, anali-
sando a imprensa, em seu trabalho de mestrado, depois confrontando realmente as
perspectivas dos vários envolvidos. Eu acho que a gente precisa um trabalho desse
aqui. Porque pouco depois tem a conciliação. Como é que foi a conciliação aqui na
Paraíba, entre os liberais e os conservadores? Como é que aconteceu? Também é
outro tema.
Quero agradecer as referências da Dra. Célia e os acréscimos e queria falar
do José Bonifácio, para encerrar.
Eu também sou admiradora do José Bonifácio, muito contraditoriamente da
minha parte, primeiro porque eu sou muito fã do federalismo. Eu acho que a gente

55 

 
construiu uma sociedade democrática, nós precisamos construir um modelo políti-
co que tenha um grau de descentralização e que tenha instâncias em escalas regio-
nais, estaduais, municipais, cada uma com suas atribuições políticas, como fizeram
os Estados Unidos. Eu concordo com Tavares Bastos, agora eu admiro esse mode-
lo federalista porque eu vejo na construção de um federalismo uma possibilidade de
um modelo democrático. No entanto, não foi isso que o Império fez. O Império
construiu um modelo unitarista e nisso o grande artífice foi José Bonifácio. Aí pen-
sando no papel dele, não há dúvida do grande papel que ele jogou. Foram editadas
recentemente pela Companhia das Letras as obras dele.
Dr. Odilon Ribeiro deu um banho de erudição sobre José Bonifácio, como
soe acontecer. Aliás, eu vou contar um segredo, que ele não sabe. A gente estava
fazendo um trabalho para o Centro de Referência Cultural da Prefeitura e entrevis-
tamos várias pessoas sobre a cidade de João Pessoa e o Dr. Odilon foi uma delas.
Ele contou como eram as praias de Tambaú na década de 20. Ele falou 75 minutos
e coube-me fazer a edição dessa fita. Eu não fiz a entrevista, mas me coube a edi-
ção. Pois bem, a ordem que a gente tinha era que as edições se reduziam a 15 minu-
tos. Eu fui escutar a fita do Dr. Odilon, e não obedeci a ordem. Ele precisa ir ver a
edição, porque eu, quando muito, deixei nos 45 minutos. Eu não vou cortar certas
belezas, o Sr. contando os namoros na praia de Tambaú, com lances até picantes.
Linda a entrevista; vale a pena ver na FUNJOPE, em vídeo.
Mas, Dr. Odilon com seu banho de erudição, mostra o papel de José Boni-
fácio. José Bonifácio foi o grande estadista da unidade do Império, com certeza. O
maior fascínio que eu mantenho por ele é porque ele costurou a unidade nacional
entre três províncias bases, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Costurou a-
través da região cafeeira, que estava emergindo e costurou numa coisa que estava
emergindo naquele momento e foi começando a ser construída mais fortemente a
partir da transferência da capital para o Rio de Janeiro. Foi exatamente o mercado
entre o sul de Minas Gerais e o Rio de Janeiro, que se acentuou quando a família
real chegou. Ali se criou até uma agricultura de subsistência e isso começou a vincu-
lar interesses entre essas províncias. E em torno delas foi que José Bonifácio arqui-
tetou essa unidade. Eu tenho uma grande questão, e estou até escrevendo um livro
sobre o Império, e já estou no oitavo. São Paulo mesmo tinha pouca importância.
Mas São Paulo contou José Bonifácio. É impressionante a gente pensar que grupo
ao qual se aliava José Bonifácio, aqueles comerciantes da cidade de Santos, era um
grupo que, de repente, vai controlar a política de São Paulo. O que mais me fascina

56 

 
em José Bonifácio, contraditoriamente, é que ele foi autoritário, porque ele levou
com mão de ferro esse projeto, percebendo que a centralização era a forma do Bra-
sil não se dividir, se fragmentar, e provavelmente ser recolonizado. De outro lado,
ele é mais fascinante, porque é ele mesmo que apresenta o projeto para a libertação
dos escravos, já em 1830. Ele tem um projeto de fazer uma reforma agrária neste
país e distribuir terras para os escravos. É uma fisionomia do José Bonifácio que
aparece em menor escala do que a fisionomia e a consagração dele na História do
Brasil, que é o artífice da Independência.
Tentei responder às perguntas e agradeço pelos comentários e questões co-
locadas pelo Dr. Marcus Odilon e demais participantes.

A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães:

Extrapolamos o horário, mas foi bastante positivo para os presentes poder-


mos ouvir esse debate esclarecedor sobre o período imperial, dando-nos uma visão
das principais ocorrências na Paraíba assim como no país.
Cumpre-me agradecer a participação de tanta gente e especialmente da ex-
positora, professora Rosa Maria Godoy Silveira e do debatedor designado, confrade
Marcus Odilon Ribeiro Coutinho.
Nós estamos realizando um evento de grande importância, por isso que es-
tamos filmando e gravando todas as sessões, cujas fitas vão ser arquivadas na nossa
Seção da Imagem e do Som. Com esse acervo, pretende o Instituto editar os A-
NAIS desse Ciclo de Debates, como nossa contribuição às celebrações do V Cen-
tenário da Descoberta do Brasil..
O Instituto está aproveitando esta oportunidade para oferecer aos interessa-
dos várias publicações do Instituto e de seus associados sobre assuntos históricos.
Trata-se de uma promoção especial, com preços módicos e acessíveis.
Renovo o convite para a próxima sessão, quando debatermos o tema A PA-
RAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA.

57 

 
3º Tema:
A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA
Expositor: Luiz Hugo Guimarães
Debatedor: Joacil de Britto Pereira

A fala do Presidente:

Estamos retornando para dar continuidade ao nosso Ciclo de Debates, hoje


apreciando o tema A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA e convido as se-
guintes pessoas para participarem da mesa dos trabalhos: acadêmico Joacil de Britto
Pereira, ex-presidente deste Instituto e atual presidente da Academia Paraibana de
Letras; Dr. Guilherme d’Avila Lins, presidente do Instituto Paraibano de Genealo-
gia e Heráldica; e o acadêmico Odilon Ribeiro Coutinho, membro do Conselho Es-
tadual de Cultura.
A Comissão Organizadora deste evento designou-me para apreciar o tema
de hoje, na qualidade de expositor.
Só para não quebrar a praxe estabelecida, farei uma auto-apresentação.
Sou o atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, tendo
ingressado aqui em 1991, por conta de um livro que lancei relatando alguns episó-
dios do movimento de 1964 na Paraíba. Trata-se do trabalho já esgotado intitulado
A ILHA MALDITA E OUTROS REGISTROS. Ex-professor da UFPB, jornalis-
ta, pesquisador, tenho outros trabalhos publicados. É o bastante.
Assim, podemos começar a exposição desta tarde.

Expositor: Luiz Hugo Guimarães (Historiador, atual presidente do Instituto


Histórico e Geográfico Paraibano)

O Império Brasileiro estava completando 67 anos quando foi atropelado por


uma nova forma de governo. Nesse longo período imperial aconteceram lentas
modificações políticas por conta das traumáticas sucessões e das alternâncias dos
Gabinetes Ministeriais, ora conservadores, ora liberais.
Muitas questões alimentaram as crises imperiais, dentre elas o problema da
escravatura, a ingerência da aristocracia, o aparecimento de novas oligarquias, a ur-
banização, o começo da industrialização e do trabalho livre. A situação agravou-se
com as chamadas Questão Religiosa e Questão Militar.
58 

 
Militares e civis uniram-se e trocaram ideias sobre os movimentos reforma-
dores de filósofos europeus, principalmente do positivista Augusto Comte. A influ-
ência dos Estados Unidos despertou o espírito de federalização.
A posição do Brasil na América Latina era uma exceção. Hélio Silva e Maria
Cecília Ribas Carneiro, na Introdução de sua História da República Brasileira, volume
1, Editora 3, 1998, p. 13, assinalam: “A República tinha de acontecer. Porque a Monarquia
era um regime artificial em nosso continente.” ( ...) “Era único Império nas Américas.”
Que era preciso mudar o regime, a elite intelectual da época bem o sabia. Foi
preciso cooptar os militares para que o assunto tivesse vez. Com a divulgação das
idéias republicanas foi possível conquistar o apoio de algumas camadas da classe
média, ainda muito rarefeita.
Quando se uniram definitivamente militares e republicanos, a queda do re-
gime era inevitável. Faltava o motivo, o qual surgiu com a formação do Gabinete
Ouro Preto, hostil ao Exército.
O famoso baile na Ilha Fiscal oferecido à oficialidade do couraçado chileno
“Almirante Cochrane”, demonstrativo da frivolidade da monarquia, também serviu
para o desencadeamento do movimento.
José Manoel Pereira Pacheco, sócio fundador do Instituto Histórico e Geo-
gráfico Paraibano, em 24 de fevereiro de 1906, fez uma conferência neste Instituto,
onde revela que o velho Ferreira Vianna assistiu aos festejos de uma janela defronte
do salão daquele baile, exclamando a frase que se tornou histórica: estou assistindo da-
qui as exéquias da monarquia.
E prossegue Pereira Pacheco em seu discurso: Nessa memorável noite, oh! Recor-
da-me bem! Sampaio Ferraz, Teixeira de Souza, Campos da Paz e outros trataram de preparar
a proclamação da república para a madrugada seguinte; tudo antes tinha sido combinado entre os
próceres republicanos de então Benjamin Constant, Deodoro e outros. 11
As lideranças civis e militares buscaram o Marechal Deodoro da Fonseca,
que, mesmo doente, se viu forçado a assumir o risco de encerrar o regime.
Está claro que a Proclamação da República foi um golpe, sem a participação
popular. A surpresa da proclamação alcançou a velha monarquia e os brasileiros, de
modo geral. O que houve foi a implantação dum governo provisório, Deodoro à
frente, na manhã de 15 de novembro de 1889, com o reforço da proclamação “pela
Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, da existência de uma nova forma de

                                                            
11 Revista do IHGP, n.º 1. João Pessoa, Editora Universitária/UFPB, reedição, 1980;58.
59 

 
Governo do Brasil (o grifo é nosso), a República.” 12
Só mais tarde o Marechal Deodoro assinou o Manifesto e o Decreto n.º 1,
publicado no dia 16, que depôs a dinastia imperial e instalou o Governo Provisório,
resultando no exílio de Pedro II, que embarcou para a Europa com a família, no dia
seguinte, no navio “Alagoas”.
Teve destaque no movimento a atuação dos militares Benjamin Constant,
considerado o ideólogo e principal articulador do movimento, major Francisco Só-
lon Sampaio Ribeiro, Floriano Peixoto, general José de Almeida Barreto (paraibano
de Sousa). Entre os civis, destacaram-se Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Francisco
Glicério, Maciel Pinheiro, Silva Jardim, Coelho Lisboa, Aristides Lobo, Manoel
Marques da Silva Acauã (estes cinco últimos eram paraibanos) e outros mais.
Como o País foi surpreendido com a mudança do regime é evidente que
muitos Estados não tomaram conhecimento dos planos e conspirações que resulta-
ram no golpe de 89. A maior participação era dos políticos residentes no Rio de Ja-
neiro e em São Paulo; algumas lideranças de Minas, Pernambuco e Rio Grande do
Sul, opinavam à longa distância, sem, porém, acreditarem num desenlace tão rápi-
do. Em muitos Estados a preocupação maior visava as próximas pugnas eleitorais
entre conservadores e liberais.
Sobre a Paraíba a maioria dos autores registra o total desconhecimento do
movimento. Edgard Carone, em sua obra citada, escreve: “As notícias sobre a procla-
mação da República chegam a Paraíba num clima de total indiferença, pois não existe no Estado
nenhum movimento republicano.”
Horácio de Almeida confirma: A República chegou à Paraíba sem ter quem a rece-
besse. 13
Sou de opinião que muitas figuras da nossa intelectualidade vivenciavam a
necessidade da mudança do regime, e a maioria dessas destacadas personalidades
fazia parte do Partido Liberal, o oponente natural dos monarquistas. A habilidade
do governante conservador da época, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha – o Barão
do Abiaí –, mantinha acomodados os numerosos adeptos da ideia republicana, que
advogavam a aglutinação das nossas províncias em uma federação. Isto não quer
dizer que na Paraíba não houvesse republicanos ou conterrâneos que difundissem a
idéia.
Os autores enaltecem a intensa participação de paraibanos no movimento

                                                            
12 Edgard Carone. A República Velha, volume II, Difel, 3ª edição, 1977;42.
13 Horácio de Almeida. História da Paraíba, vol. 2, João Pessoa, Editora Universitária/UFPB, 1978;207.
60 

 
republicano fora do Estado: Maciel Pinheiro e Albino Meira, no Recife; Aristides
Lobo e Coelho Lisboa, no Rio de Janeiro.
Nosso passado republicano vem do sonho de 1817 (precursor da Indepen-
dência), de 1824 (Confederação do Equador), de 1848/49 (Revolução Praieira), on-
de tantos paraibanos se envolveram. Nosso ilustre jornalista Antônio Borges da
Fonseca, no Recife, desenvolveu intensa propaganda através do jornal que fundou
sob o esclarecedor título O REPÚBLICO, em 1832.
Dizer simplesmente que “não existe no Estado nenhum movimento repu-
blicano” não é bem verdadeiro. O que faltou, naturalmente, foi um maior contato
com as lideranças do movimento no Sul, para acompanhar o desenvolvimento da
campanha.
Celso Mariz conta que em 20 de junho de 1889, quando a monarquia dava
sinais de decadência, o Conde d’Eu, genro de Pedro II, em viagem de propaganda
em favor do regime passou na Paraíba. Logo depois esteve entre nós Silva Jardim,
desfazendo toda a lengalenga do Conde d’Eu, que era um dos beneficiários diretos
da sucessão do imperador. 14
Se não houvesse um movimento republicano na Paraíba o Conde d’Eu não
teria vindo à província para defender a monarquia.
Cardoso Vieira, quando deputado representando a Paraíba (1878/80), foi
um dos grandes agitadores republicanos; Eugênio Toscano de Brito e Irineu Joffily,
em 1888, fundaram A GAZETA DA PARAÍBA e GAZETA DO SERTÃO, ór-
gãos onde o movimento republicano encontrou guarida. Celso Mariz revela a atua-
ção de Irineu Joffily: Naquele mesmo ano, Jófili, antecedendo um dos pontos do programa com
que em julho de 89 subiria o Gabinete Ouro Preto, requereu, como deputado, à Assembléia, que
esta considerasse urgente, perante o Parlamento Nacional, a Federação das províncias. 15
Em Mamanguape, por influência de Maciel Pinheiro, José Rodrigues de
Carvalho e o estudante Plácido Serrano difundiam a doutrina republicana; Albino
Meira veio à Paraíba fazer conferência republicana no teatro Santa Cruz, a 26 de ju-
lho de 1889; Artur Achiles dos Santos, Geminiano Franca, Cordeiro Júnior, Rodol-
fo Galvão e outros jornalistas, no jornal de Eugênio Toscano, escreviam sobre o
movimento no Sul.
Na obra citada de Celso Mariz estão arrolados numerosos paraibanos parti-
cipantes do movimento republicano: João Coelho Gonçalves Lisboa, meetingava no sul; Jo-

                                                            
14 Celso Mariz. Apanhados Históricos da Paraíba, João Pessoa, UFPB/Editora Universitária, 2ª edição, 1980;175.
15 Celso Mariz. Ob. cit., p. 177.
61 

 
ão Batista de Sá Andrade, estudante na Bahia, era ferido nas festas republicanas a Silva Jardim;
Francisco Alves de Lima Filho, apesar de amigo aqui dos conservadores, decidiu-se pela causa no-
va, filiou-se ao grêmio do Rio de Janeiro e fez propaganda pelo norte até o Pará. Depois das confe-
rências de Albino, alguns estudantes do Liceu, Antônio Lira, Eulálio de Aragão e Melo, Firmi-
no Vidal, João dos Santos Coelho, Miguel Machado, Manuel Lordão fundaram um clube, cen-
tralizando os adeptos da classe.
José Manoel Pereira Pacheco, sócio fundador do Instituto Histórico e Geo-
gráfico Paraibano, assistiu, como participante, o desenrolar do primeiro dia da Pro-
clamação da República. Em discurso pronunciado nas comemorações daquela data
pelo Instituto, a 15 de novembro de 1906, Pereira Pacheco, como orador oficial do
Instituto, na sessão que se realizou no salão da Assembleia Legislativa Estadual, re-
corda aquela data emocionado: Concidadãos, se nos fosse possível volver hoje, neste mesmo
momento e dia, aos 17 anos passados, se pudéssemos trazer para aqui as cenas que se desenrola-
ram aos nossos olhos naquele imortal 15 de novembro de 1889, vos diria: que justamente a uma
hora da tarde daquela época, em lugar de vos ocupar em vossa atenção agora, relembrando datas e
fatos da república, desfilávamos pela Rua do Ouvidor em ordem de marcha para o antigo Largo
do Paço, onde se achava o velho e decrépito Imperador Pedro II, chegado então às pressas de Petró-
polis com toda a sua família.
E prossegue nosso consócio: Dar-vos uma ideia perfeita e nítida daquelas cenas de
entusiasmo, patriotismo e esperanças de republicanos, é tarefa quase impossível. Basta que vos di-
ga: que o Batalhão Acadêmico do qual fazíamos parte então, (grifo nosso) marchava na retaguar-
da das tropas e na frente do da Escola Militar da Praia Vermelha, sendo nós comandados pelo
saudoso Dr. Campos da Paz e aquele pelo Major Marciano de Magalhães, irmão de Benjamin
Constant. O exército libertador compunha-se de pouco mais de 7 mil homens das 3 armas e era
guiado pelo General Deodoro da Fonseca com todo o seu luzido estado maior, tendo à sua esquer-
da, a cavalo, o grande jornalista de então, Quintino Bocaiúva. 16
Está aí um paraibano que participou diretamente do movimento; um repu-
blicano, sócio do Instituto, que em 1906 deu essa declaração, num discurso que está
transcrito na nossa Revista oficial. Isso quer dizer que não estávamos tão afastados
do movimento republicano como a maioria dos autores insiste em dizer.
Aliás, conta uma história com o padre Meira, conforme me revelou o con-
frade Deusdedit Leitão, nosso grande pesquisador que escava as velhas histórias
dos bastidores. Contava-me ele que o padre Meira morava onde hoje é a rua padre
Meira, ali na descida do Ponto de Cem Réis em direção da Lagoa. Dizia Deusdedit
                                                            
16 Revista n.º 1, do IHGP, p. 100.
62 

 
que logo quando se instalou a República na Paraíba houve uma passeata com muita
gente e quando essa multidão passou em frente da residência do padre Meira, ele
teria dito: e a Paraíba tem esses republicanos todos? Padre Meira se surpreendeu
com tanta gente.
Outro paraibano que atuou diretamente no movimento foi o General José
de Almeida Barreto, conforme registra Celso Mariz: Na hora da proclamação, um solda-
do paraibano foi elemento decisivo, o brigadeiro Almeida Barreto. Se a 15 de novembro esse gene-
ral obedecesse com seus 1096 soldados à ordem do Ministério contra Deodoro, talvez se não mu-
dara o regime naquele dia. Mas, ao ouvir do presidente do Conselho que cumprisse o general o seu
dever, “respondeu com singular expressão” disse o próprio Ouro Preto: “Seguramente, hei de cum-
prir o meu dever”. E cumpriu passando às ordens do fundador que vivava a República na praça,
aos ouvidos do gabinete deposto. 17
Como se sabe, a Proclamação da República surpreendeu todas as provín-
cias. A Paraíba tomou conhecimento do fato no mesmo dia, mas outras províncias
souberam da ocorrência com atraso, dificultando a total implantação do novo re-
gime. Basta dizer que no Mato Grosso a notícia só chegou no dia 9 de dezembro de
1889.
A designação dos novos dirigentes das províncias não foi pacífica. Na maio-
ria delas os militares interessaram-se em ocupar o governo, convictos de que ti-
nham preferência porque o episódio fora tutelado pelo Exército e pela Marinha.
Na Paraíba a dificuldade se centrava na ausência do Partido Republicano, re-
conhecendo-se apenas a existência de elementos republicanos infiltrados dispersa-
mente nos partidos existentes. O paraibano Aristides Lobo, que fazia parte da cú-
pula nacional como Ministro do Interior e da Justiça do Governo Provisório, che-
gou a indicar o nome do nosso conterrâneo Albino Meira para a presidência do Es-
tado. Albino era um declarado republicano, propagandista do movimento, que atu-
ava no Recife, onde era professor da Faculdade de Direito. Como os militares esta-
vam com mais força na cúpula, deu-se a intervenção dos conterrâneos generais Al-
meida Barreto, João e Tude Neiva. Saiu a nomeação de Venâncio Augusto de Ma-
galhães Neiva, então juiz de Direito de Catolé do Rocha, apesar dele ser considera-
do conservador. Explica-se: ele era irmão do general Tude Neiva.
Era presidente da província Francisco Luis da Gama Rosa, que, bastante o-
diado pela população, se amedrontou com a notícia, temendo sofrer um atentado;

                                                            
17 Celso Mariz. Ob. cit., p. 178.

63 

 
pediu garantias ao coronel Honorato Caldas, comandante do 27º Batalhão de In-
fantaria.
Conta o historiador Horácio de Almeida que os primeiros movimentos para
a instalação da República na Paraíba foram de iniciativa de Eugênio Toscano de
Brito, que promoveu reuniões no Paço Municipal e na sede do Clube Astréa. Eu-
gênio Toscano foi o primeiro presidente do Clube Astréa, clube social fundado em
30 de maio de 1886, localizado na rua Direita (hoje Duque de Caxias), próximo do
Paço Municipal (hoje praça Barão do Rio Branco). Aliás, essa antiga sede do Astréa
durante oito anos foi a sede deste Instituto. Ali sempre se reuniram os liberais de
tendência republicana, embora muitos conservadores pertencessem ao clube.
Dessas reuniões surgiu a primeira junta. Foram aclamados o coronel Hono-
rato Caldas, comandante do Batalhão do Exército, o 2º tenente da Armada Artur
José dos Reis Lisboa, o Barão do Abiaí – o primeiro adesista -, Dr. Lima Filho e
Eugênio Toscano. O coronel Caldas não participara das reuniões, pois tinha se
comprometido com o presidente Gama Rosa de dar-lhe garantias e aguardar o pro-
nunciamento da cúpula do movimento, conforme deliberação tomada com os seus
comandados no quartel. No fundo, era seu desejo assumir o governo da província,
posto que era o representante das forças armadas que lideraram o golpe.
No próprio quartel foi aclamada outra junta, constituída pelo próprio coro-
nel Caldas, capitão de engenheiros João Claudino de Oliveira Cruz, tenente Artur
Lisboa, capitão Manuel de Alcântara Couceiro, Drs. Manuel Carlos de Gouveia e
Cordeiro Sênior e o comendador Tomás Mindelo. Segundo consta, a aclamação
dessa nova junta foi feita pelo Dr. Antônio Massa de uma das salas do quartel do
27º.
O coronel Caldas não assimilou a indicação de Venâncio Neiva, tentando re-
sistir à designação do governo provisório. Não foi feliz no seu intento. Na tarde do
dia 1 de dezembro, o coronel Caldas programou um comício em praça pública, vi-
sando sua aclamação para governar Paraíba. O comício foi dissolvido pelo chefe de
polícia Dr. Pedro Velho. À noite, aproveitando-se o coronel Caldas de um espetá-
culo que se realizava no teatro Santa Roza, quis fazer-se aclamar governador, tendo
novamente falhado seu intento. Desesperado, foi para o quartel onde pretendia
conquistar o apoio da tropa. Não foi feliz, pois em 30 de novembro o Ministro da
Guerra, Benjamin Constant, ordenara que o coronel Caldas transferisse o comando
do 27º para o major João Domingos Ramos e entregasse o poder ao capitão Olivei-
ra Cruz, seu imediato na junta. O coronel Caldas quis resistir, mas não contou com

64 

 
o apoio dos seus comandados, sendo preso pelo capitão Oliveira Cruz, que, em se-
guida, cumprindo instruções, embarcou-o no primeiro navio com destino ao Rio de
Janeiro.
O capitão João Claudino de Oliveira Cruz assumiu o governo de ordem do
Ministro da Guerra, permanecendo no poder até o dia 6 de dezembro, quando Ve-
nâncio Neiva chegou de Catolé do Rocha para assumir o cargo.
Como em todas as províncias, a nomeação dos seus dirigentes não lhes dava
liberdade para escolher seus auxiliares. Assim, para os postos chaves da Paraíba, fo-
ram designados pelo governo central os nomes de Epitácio Pessoa, para Secretário
Geral, e João Coelho Gonçalves Lisboa, para Chefe de Polícia, o qual depois foi
substituído por Cunha Lima. Começou a aparecer aí Epitácio Pessoa.
Grande parte dos auxiliares de Venâncio Neiva era de origem conservadora,
o que era natural, posto que os quadros republicanos e liberais eram pequenos. O
jornal de oposição – JORNAL DA PARAÍBA – panfletava contra essa situação.
Tem sido assim em todas as mudanças de governo na Paraíba e no Brasil, quando
os novos governantes aproveitam seus correligionários e procuram cooptar alguns
adversários, visando uma pacificação política. No princípio, Venâncio Neiva pôde
manter certo equilíbrio político para evitar uma oposição ferrenha, que, de certo
modo, partia dos liberais, já que grande parte dos conservadores tinha se aproxima-
do do poder. Seu intuito era harmonizar a família paraibana.
Para o Congresso foram eleitos general José de Almeida Barreto, coronel Jo-
ão Neiva e Firmino Gomes da Silveira, como senadores. Para a Câmara dos Depu-
tados foram eleitos Antônio Joaquim do Couto Cartaxo, João Batista de Sá Andra-
de, Pedro Américo de Figueiredo, 1º tenente João da Silva Retumba e Epitácio Pes-
soa.
Celso Mariz justifica essa composição: Barreto, João Neiva e Retumba eram can-
didatos impostos pela situação militarista do momento, políticos feitos do dia para a noite de 15 de
novembro, por suas partes na grande jornada. Firmino da Silveira entra aí como antigo liberal,
fundador do jornal ESTADO e juiz íntegro e inteligente. E Pedro Américo, que desde 23 de no-
vembro telegrafara candidatando-se sob o compromisso de sustentar o governo da República é o gê-
nio da arte que a política premia. Cartaxo dos antigos dissidentes liberais de Cajazeiras, traz pa-
ra o grupo esse prestígio de família e representação sertaneja. Sá Andrade apresenta-se com as feri-
das que lhe abriram quando, ainda no domínio monárquico, festeja Silva Jardim. Epitácio é o se-
cretário competente, o espírito novo, corajoso e ilustrado em quem Venâncio parecia adivinhar a

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glória maior do nosso futuro republicano.18
A chapa oposicionista, organizada sob a orientação do Barão do Abiaí, esta-
va assim constituída: Anísio Salatiel, Irineu Joffily e conselheiro Tertuliano Henri-
que, para senadores; Apolônio Zenaide Peregrino de Albuquerque, Aprígio Carlos
Pessoa de Melo, Paula Cavalcante Pessoa de Lacerda, Diogo Velho Sobrinho e Fe-
lizardo Toscano Leite Ferreira. A votação dessa chapa no interior não foi a espera-
da pelos candidatos, uma vez que a maioria dos chefes eleitorais tinha aderido ao
novo governo. O candidato mais credenciado do governo era Epitácio Pessoa, que
obteve 9.975 votos, enquanto Apolônio Zenaide – o mais credenciado da oposição
– obtivera apenas 2.730 votos.
Na votação para a Assembleia Constituinte Estadual, logo após a promulga-
ção da Constituição Federal de 24 de fevereiro de 1891, a participação oposicionista
também foi pequena, embora o critério adotado na indicação de candidatos por
Venâncio Neiva tenha se cingido em prestigiar nomes de destaque no serviço pú-
blico e com méritos reconhecidos.
A Assembleia era constituída de 30 deputados, os quais votaram a Constitui-
ção Estadual que passou a vigorar a partir de 5 de agosto de 1891.
No início da sessão da constituinte de 25 de junho foi feita a eleição para
governador, sendo indicado Venâncio Neiva, que já era delegado do governo cen-
tral, e para 1º, 2º 3º vice-governadores foram eleitos Manoel da Fonseca Xavier de
Andrade, Amaro Beltrão e Inojosa Varejão.
Venâncio Neiva tomou posse no dia seguinte, mas seu governo constitucio-
nal teve pouca duração, posto que esteve na chefia do governo até 31 de dezembro
de 1891, quando se licenciou perante o Supremo Tribunal de Justiça, para viajar à
Capital Federal a fim de tratar de assuntos administrativos. Passou a chefia do go-
verno ao 1º vice-governador, desembargador Manoel da Fonseca Xavier de Andra-
de e, no dia 1º de janeiro de 1892 viajou para o Rio de Janeiro.
Como se sabe, Deodoro da Fonseca dissolveu o Congresso em 3 de novem-
bro de 91, onde a oposição estava muito atuante e o marechal não se entrosava
bem com seus ministros. O golpe de Deodoro teve o apoio da maioria dos gover-
nadores. Venâncio apoiara Deodoro discretamente. A dissolução do Congresso não
teve repercussão favorável e ele teve que renunciar o cargo, a 23 de novembro, ante
a pressão dos quartéis e dos congressistas, assumindo a chefia do governo seu vice-
presidente, Floriano Peixoto.
                                                            
18 Celso Mariz. Ob. cit., pp. 181-182.
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Floriano, já demonstrando sua tendência ditatorial, depôs todos os governa-
dores, exceto o de Santa Catarina, Lauro Sodré, que não apoiara Deodoro na disso-
lução do Congresso, e Júlio de Castilhos, do Rio Grande do Sul.
Na Paraíba, os acontecimentos foram precipitados pela iniciativa de Antônio
Ferreira Balthar, do coronel Alípio Ferreira Balthar (do Engenho Munguengue, de
Cruz do Espírito Santo) e do capitão Edmundo do Rêgo Barros (do Engenho Es-
pírito Santo).
No domingo de 27 de dezembro de 1891, cerca de 150 pessoas comandadas
por aqueles senhores-de-engenho, desembarcaram de trem na ponte Sanhauá e se-
guiram para a Intendência, aos gritos de que iam depor o governador Venâncio
Neiva. No largo do Palácio o grupo engrossou-se com a chegada de outro grupo
vindo do Conde, chefiado pelo tenente Manoel Paulino dos Santos Leal. Ali mes-
mo proclamaram a deposição do governador Venâncio Neiva, o qual se encontrava
na praia de Ponta de Mato, veraneando com a família. Foi aclamada uma Junta Go-
vernativa constituída do coronel Cláudio do Amaral Savaget, comandante do 27º
Batalhão de Infantaria, do Dr. Eugênio Toscano de Brito e do Dr. Joaquim Fer-
nandes de Carvalho. Tudo havia sido premeditado, pois ali mesmo fora lavrado em
livro um termo explicativo, segundo anunciou o jornal do governo ESTADO DA
PARAÍBA.
Pela manhã, ao retornar da praia de Ponta de Mato, o governador Venâncio
Neiva conferenciou com o comandante Savaget, que lhe sugeriu a renúncia para e-
vitar derramamento de sangue. Venâncio recusou-se e afirmou que tinha sido eleito
pelo povo e por isso pedia o apoio da força militar, ou que a mesma ficasse neutra,
pedido que também foi negado.
Saindo do quartel do 27º B. I., Venâncio se dirigiu ao Palácio, onde foi cer-
cado por um grupo armado comandado pelo capitão Alípio Balthar e seus parentes,
o qual apresentou ao governador um ofício da Junta.
O Governador, com energia, refugou o ofício, sendo ameaçado de morte.
Não se intimidou com as ameaças. Em seguida, o coronel Savaget esteve em Palá-
cio insistindo para que Venâncio resignasse o cargo; a recusa de Venâncio foi mais
veemente. Tranquilamente, à tarde, Venâncio Neiva retorna à praia de Ponta de
Mato, acompanhado por amigos.19
No dia 28 o coronel Savaget dirigiu-se, em carta, ao governador Venâncio

                                                            
19Adauto Ramos conta esse episódio, em detalhes, no seu trabalho Centenário da Queda do Primeiro Governo Re-
publicano da Paraíba, in Revista do IHGP n.º 25, João Pessoa, Editora Universitária/UFPB, 1991;28.
67 

 
Neiva, comunicando que o Presidente da Republica o mantinha à frente do Gover-
no, passando Venâncio a receber telegramas de apoio de vários municípios e de ou-
tros Estados.
No dia 30 de dezembro, Venâncio Neiva, deixou o cargo ao pedir licença
por três meses, sem vencimentos, ao Supremo Tribunal de Justiça, para tratar de in-
teresses administrativos do Estado no Rio de Janeiro, passando o cargo ao seu
substituto legal, o 1º vice-governador Manoel da Fonseca Xavier de Andrade, no
dia 31 de dezembro.
No dia 1º de janeiro de 1892, finalmente, com o apoio do governo central, a
Junta liderada pelo coronel Savaget depôs o governador em exercício, desembarga-
dor Manoel da Fonseca Xavier de Andrade.
Esta Junta governou a Paraíba até o dia 18 de fevereiro daquele ano, quando
foi empossado o engenheiro militar paraibano Dr. Álvaro Lopes Machado, que fora
designado pelo Presidente Floriano Peixoto.

A fala do Presidente:

Numa exposição bastante sucinta delineamos o quadro da Paraíba nos albo-


res da instalação da primeira República na Paraíba, registrando minuciosamente as
ocorrências dos primeiros momentos da Paraíba republicana.
Um breve retrospecto foi feito sobre a Proclamação da República, para pon-
tear a presença de vários paraibanos no movimento vitorioso.
A novidade da exposição é apenas a discordância sobre a tese de que na Pa-
raíba ninguém se apercebia do advento do novo regime. Essa tese é defendida pela
maioria dos historiadores que apreciaram o tema, mas dela minha discordância vai,
sem dúvida, espicaçar o pronunciamento do nosso debatedor designado bem como
dos participantes.
E para usar a palavra como debatedor convido o acadêmico Joacil de Britto
Pereira.
Figura intelectual bastante conhecida do plenário, o professor Joacil Pereira
foi presidente deste Instituto por dois mandatos consecutivos, tendo eu a honra de
tê-lo substituído. Escritor, historiador, publicista, Joacil Pereira é o atual presidente
da Academia Paraibana de Letras.

Debatedor: Joacil de Britto Pereira (Historiador, sócio do IHGP e atual presi-


dente da Academia Paraibana de Letras)

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O presidente no seu prudente arbítrio, extrapolou, sem nenhum protesto, o
tempo que lhe era reservado, e fez muito bem porque no final de contas ele disse
tudo o que tinha de dizer, tudo certo, tudo bem fundamentado nos historiadores
conterrâneos e nos historiadores nacionais. Em assim agindo ele me poupa de mai-
ores comentários. No entanto, para cumprimento do meu dever, eu tenho que agir
como um debatedor o faz.
Antes, me permitam uma nota emocional. Na minha retentiva espiritual,
quando Luiz Hugo começou a falar com tanto descortino, eu recuei no tempo aos
nossos debates, aos nossos trabalhos intelectivos no Grêmio Cultural Augusto dos
Anjos, que ele, comigo e outros liceanos, fundamos. E eu recordo muito bem que
um dos trabalhos elaborados por Luiz Hugo Guimarães, aquele estudante curioso
para os assuntos da História, desde aquela época, foi esse: a influência de Benja-
min Constant na Proclamação da República. O Grêmio se reunia nos fundos
da casa de Luiz Hugo Guimarães, situada à rua Irineu Joffily. E ele hoje projetou a
figura de Benjamin Constant como o homem que era apontado, ao tempo, nas for-
ças militares, dentro do Exército, como um verdadeiro ideólogo da República e
também adepto da filosofia positivista de Augusto Comte.
Feita essa reminiscência, essa evocação sentimental, que eu sei que também
emociona o caro Presidente, eu gostaria de dizer que os historiadores paraibanos
não cometeram excesso algum, quando disseram que não havia propriamente um
movimento republicano, na Paraíba, embora houvesse republicanos históricos con-
victos, pugnadores das grandes ideias de República entre os nossos conterrâneos
que moravam fora do Estado. O fato de Albino Meira, que era professor no Recife
da nossa tradicional Faculdade de Direito daquela cidade, centro intelectual do
Nordeste, ter vindo à Paraíba já nos momentos em que o Império haveria de expi-
rar, não significa que houvesse aqui um movimento, pois não tínhamos sequer um
clube nem um jornal republicano. Foi necessário que, às vésperas da proclamação
da República, Eugênio Toscano de Brito, que era um espírito vivo e tomava conhe-
cimento como homem bem informado, como soe acontecer com todo intelectual,
notadamente o jornalista, de que o eixo Rio - São Paulo agitava-se e o movimento
republicano se cingia apenas a dois Estados, ele reservou uma página do seu jornal
como se fosse uma premonição para ficar bem com republicanos, se porventura
triunfassem contra o Império, que todo mundo já sabia, desde a Abolição, que es-
tava prestes a ruir. Por isso Eugênio Toscano ofereceu seu matutino para a propa-
ganda da República. Não havia, porém, movimento republicano, na Paraíba. Havia,

69 

 
como o Presidente Luiz Hugo disse, - e nós não podemos contestar, certos pruri-
dos de estudantes, de alguns intelectuais, mas uma “atuação tímida”. Basta dizer
que Albino Meira candidatou-se pelo Partido Republicano e teve 24 votos para de-
putado federal, no último pleito da Monarquia. Só encontrou quem sufragasse o
seu nome essas duas dúzias de eleitores. Então tem razão, Horácio de Almeida
quando diz que a República chegou à Paraíba sem ter quem a recebesse. Como tem
razão Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo, no seu livro A PARAÍBA NA
PRIMEIRA REPÚBLICA, quando afirma que o novo regime chegou à Paraíba por
uma notícia telegráfica no final do dia; já à tardinha do dia 15 chegou à Paraíba esse
telegrama e a maioria dos que tomaram conhecimento do fato espalhou entre os e-
lementos mais importantes; a maioria não acreditava. Outros receberam a notícia
com indiferença. A tônica foi a incredulidade. Isso não significa que a Paraíba não
tenha através dos tempos, e muito mais recuada em época na história, pugnado pe-
los ideais republicanos. É preciso considerar como uma ideia base, uma ideia cen-
tral, que a República continha, nos seus anseios, uma vinculação muito estreita com
a liberdade e com a Democracia. Por isso mesmo, um dos nossos escritores, o ro-
mancista Eudes Barros, dissera no seu livro sobre 1817, um romance de fundo his-
tórico, essa frase magnífica: Eles sonharam com a liberdade. Esse era o velho sonho, in-
clusive de Borges da Fonseca, o Repúblico, e de todos os que fizeram a revolução
de 1817, e regaram o solo sagrado da Paraíba com o seu sangue, também em 1824 e
1848. Então, não foi a Paraíba, como já salientou o brilhante expositor, alheia aos
anseios de República, apesar do desejo, com o sonho republicano marchou pari pas-
su com as ideias de liberdade, com as aspirações libertárias.
No Brasil, a República chegou por um processo inteiramente errado, por
uma quartelada comandada por Deodoro, que foi ingrato, terrivelmente ingrato,
com o Imperador, de quem era amigo, e o Imperador foi seu benfeitor. Então ela
começou errada até eticamente. Foi um golpe terrível. E depois não se aperfeiçoou
no exercício do poder; continuou errada no processo de deposição dos presidentes
das províncias e na escolha dos chefes de executivo da nascente República. Vejam,
na Paraíba, como o expositor já citou, foi escolhido para presidente Venâncio Nei-
va, um homem que não era propriamente político, mas a sua simpatia era toda para
o Partido Conservador e amigo íntimo do governador Barão do Abiaí, que aderiu,
pressurosamente, à República, a ponto de ser incluído na primeira Junta Governati-
va, que não prosperou; organizada em reuniões havidas na redação do jornal de
Eugênio Toscano de Brito e, depois, na Câmara Municipal. Era um homem muito

70 

 
hábil e muito inteligente e queria conseguir de um colégio de expressão do poder
político, que era a Câmara Municipal, a aclamação daquela Junta Governativa.
Houve um militar ambicioso que “botou as unhas de fora”, o comandante
de tropa de linha e coronel Honorato Caldas, que achava que a vez era dos militares
porque na esfera federal a implantação da República fora um golpe dos militares.
Esse homem também não conseguiu investir-se no poder. Tentou de tudo. Apro-
veitou o ensejo de um espetáculo que se realizava no Teatro Santa Roza e para lá
foi com alguns cadetes, a fim de conseguir uma aclamação do povo. Saiu, porém,
apupado, vaiado, porque a Paraíba já começava a repelir, por algumas manifesta-
ções, esses processos rebarbativos. Finalmente veio Venâncio Neiva e, diga-se de
passagem, fez um governo praticamente nulo, mas, ressalve-se que procurou har-
monizar a família paraibana. E conseguiu com habilidade de juiz. Predominaram no
seu esquema os elementos conservadores, mas também aproveitou, na composição
da chapa que depois se fez para a Assembleia Legislativa, elementos da agremiação
liberal. Se foi errado o processo de proclamação da República, foi erradíssima a sua
instalação, na Paraíba.
Depois, então, golpe sobre golpe. Nasceu o regime republicano de um golpe
de Deodoro contra o Imperador, contra a monarquia. Depois ele, o Marechal, fe-
chou o Congresso Nacional e sofreu também as consequências disso com outro
golpe contra ele, chefiado pela Marinha; mas por trás disso tudo estava Floriano
Peixoto, o Vice-presidente. O grande autor, artífice e intelectual do crime foi Flori-
ano Peixoto. Homem terrível, que não respeitou a Constituição que jurara, homem
violento. Eu poderia até aqui contar uma história de um certo juiz da Paraíba, que
já morreu, muito inteligente, mas tinha prevenção terrível com os alagoanos porque
o pai dele foi assassinado por um alagoano. Então um filho das Alagoas cometeu
um crime. O processo foi instaurado na comarca de Guarabira e o juiz processante,
no julgamento, condenou o réu a uma pena muito alta de reclusão. E justificava na
sentença: “o acusado tem péssimos antecedentes; temperamento perigoso e além de
tudo alagoano.” Pois bem, eu digo agora: “Floriano, além de tudo, era alagoano.”
No final de contas, mandou muita gente para a ilha das Cobras, “pintou e bordou”,
como se diz na gíria; rasgou a Constituição e ficou à frente do Governo até o fim,
quando não podia fazê-lo se fosse um homem da legalidade.
Então a República começou mal. Ideias nobres, anseios maravilhosos, gran-
des aspirações as da República, porque a República surgiu para condenar o absolu-
tismo dos reis. Agora vejam os senhores, como são pragmáticas as ideias políticas e

71 

 
como elas pragmaticamente se fortalecem ou se executam na prática. Não podemos
dizer e concluir que todas as Repúblicas são democráticas. Há Repúblicas oligárqui-
cas, como não podemos dizer que todas as Monarquias são tirânicas. Não. Nós te-
mos o exemplo da Monarquia Inglesa, que é um exemplo magnífico de democracia,
de garantia dos direitos individuais. Então, na prática, nós temos Repúblicas e Re-
públicas. Temos Repúblicas oligárquicas, como foram as implantadas na Paraíba
após o advento do regime republicano. Eu terei que ser breve porque tudo que de-
veria ser dito, como afirmei, já Luiz Hugo Guimarães disse com proficiência.
Queria fazer apenas esses reparos e enaltecer, nesta hora em que estou fina-
lizando a minha participação, que houve alguns homens entre aqueles inúmeros a-
desistas, a multidão de trânsfugas, mas dois, pelo menos, que eu me lembre, foram
notáveis, neles lealdade e fidelidade aos seus princípios. Sobre o último Chefe de
Polícia Provincial, Sá e Benevides, disse Oswaldo Trigueiro que ele, com os olhos
rasos d'água, comunicou a Eugênio Toscano de Brito: “A queda da monarquia, Dr.
Eugênio, foi uma desgraça.” E não aderiu de forma alguma. Essa figura deve ser
lembrada, sobretudo numa época como esta, em que se muda de partido a todo
instante; os partidos são agremiações que não têm, absolutamente, com raras exce-
ções, uma ideologia a apresentar. E os homens públicos cada vez mais, a cada dia
que se passa, vão se tornando servos das suas ambições personalíssimas.
E o outro grande paraibano, que deve ser recordado, é Gama e Melo – An-
tônio Alfredo da Gama e Melo –, cujo sesquicentenário nós vamos comemorar a
partir do próximo dia 1º de outubro. Sou ocupante da cadeira de que ele é Patrono,
a cadeira nº 17, na Academia Paraibana de Letras. Conheço a sua vida e a sua obra.
Grande jornalista, grande filósofo, uma figura íntegra. Fez amizade com Floriano
Peixoto quando Floriano esteve aqui na Paraíba e quis fazê-lo Ministro da Justiça,
mas ele não aceitou. Respondeu em carta ao Presidente que se tivesse de ser Minis-
tro da Justiça num governo ilegal iria contrariar sua consciência, preferia ficar no
seu canto. Não aderiu, só voltou à política muito tempo depois para ser deputado
federal, quando a República já estava mais do que consumada. Foi senador eminen-
tíssimo, representando o nosso Estado; foi Vice-presidente do Estado e presidiu a
Paraíba duas vezes, inclusive por eleição. Foi um homem notável sob todos os títu-
los e um homem austero e leal. Eu bendigo essas duas figuras e as aponto, como
exemplo, na hora em que a lealdade cada vez mais vai rareando na vida pública na-
cional.

72 

 
A fala do presidente:

Nosso debatedor oficial, professor Joacil de Britto Pereira, cumpriu, com


brilhantismo, sua função de provocar o debate. Começou logo divergindo, com
muita lhaneza, de uma referência do expositor sobre a chegada da República à Para-
íba. Essa é a função do debatedor, apontar os senões.
Realmente, o expositor apresentou uma tese discutível sobre esse aspecto. E
parece ter feito de propósito, para levantar, talvez pela primeira vez, uma questão
que nunca foi examinada dentro desse ângulo. Pois bem, nosso debatedor, o ilustre
acadêmico Joacil Pereira, botou lenha na fogueira.
Assim, vamos dar oportunidade a que os presentes se manifestem sobre o
tema, e eu passo a palavra ao primeiro participante do debate, que previamente se
inscreveu, que é o consócio e historiador Humberto Cavalcanti de Mello.
Com a palavra o professor Humberto Mello.

1º participante: Humberto Cavalcanti Mello (Historiador, sócio do IHGP e da


APL, professor da UFPB):

Dr. Joacil Pereira, nos seus comentários, enfocou dois aspectos que eu tinha
anotado para falar aqui sobre a densidade do movimento republicano na Paraíba. O
que eu iria dizer, Joacil já disse melhor do que eu poderia ter feito. Quero lembrar,
apenas, em termos de observação que, quando o Conde d’Eu passou pela Paraíba,
em junho de 1889, não foi porque aqui localizasse um importante núcleo republi-
cano. Essa viagem do Conde d’Eu ele fez num navio de linha e foi parando em to-
das as províncias do Império; ele veio do Rio de Janeiro e parou no Espírito Santo,
parou na Bahia, Sergipe, Alagoas e por aí veio. Em cada uma das províncias ele veio
procurando levantar os ânimos monarquistas. E Silva Jardim compra passagem no
mesmo navio para vir fazer comícios paralelos, atanazando o que o Conde d’Eu di-
zia. Não era como atualmente em que os dirigentes requisitam o seu transporte
próprio. Era um navio comum, um navio de linha. Nessa passagem do Conde d’Eu
pela Paraíba registrou-se a famosa frase do Barão do Abiaí, que citarei de memória:
“Ainda que todo o Brasil se transforme em República a Paraíba permanecerá fiel à
monarquia”. E como já foi bem salientado pelo expositor e debatedor, o Barão do
Abiaí foi o primeiro a aderir ao novo regime.
Entre os poucos republicanos da Paraíba houve um que depois se desencan-
tou com a República, que foi Irineu Joffily, como bem demonstra o seu neto José
Joffily na biografia ENTRE A MONARQUIA E A REPÚBLICA. E Irineu Joffily
73 

 
nos últimos anos de sua vida se transformou num propagandista do regime monár-
quico.
Epitácio Pessoa, que, como bem salientou Luiz Hugo, começou a carreira
como Secretário Geral do Estado, Epitácio foi, antes de tudo, um homem de sorte
(é verdade que a pessoa tem que ter seus méritos, mas tem que ter sorte). Epitácio
era promotor público na Comarca do Cabo, em Pernambuco. Como disse José
Américo, não tendo mais com quem brigar, brigou com o juiz e foi forçado a se
exonerar. Não tendo mais o que fazer em Pernambuco, foi para o Rio. Chega no
Rio entre o dia 5 e 10 de novembro de 1889 e se hospeda na casa do seu irmão, o
então tenente José Pessoa. O tenente José Pessoa já estava envolvido com a conspi-
ração republicana. À noite, o irmão vai para uma reunião e Epitácio, não tendo para
onde ir, vai com ele. Foi aí que surgiu o republicanismo de Epitácio, quer dizer um
republicano de vésperas, da véspera do 15 de novembro.
A antiga revista O CRUZEIRO, ao tempo em que era a revista de maior cir-
culação do país, publicou uma série de artigos sobre a República e trouxe um depo-
imento do marechal Rondon, que era cadete, positivista e participou do movimento
de 15 de novembro, onde ele afirma que quando Deodoro sai a cavalo, com difi-
culdade, pois estava doente, Deodoro tira o quepe e grita: “Viva o Imperador”. E
os cadetes e tenentes positivistas abafaram o grito com “Viva a República”, depois
então Deodoro repetiu “Viva a República”. Ou seja, em cinco minutos mudou de
opinião.
Lembrou o debatedor Joacil Pereira que Eugênio Toscano de Brito, com sua
sensibilidade política, tentou conseguir uma legitimidade para a Junta que ele pre-
tendeu instalar, dando-lhe a posse na Câmara Municipal. Essa Junta não conseguiu
prosperar. Então eu me lembrei que foi a Câmara Municipal quem deu posse a Ál-
varo Machado. A Assembleia estava dissolvida e Álvaro procurou dar legitimidade
à sua posse, porque Álvaro Machado foi designado, como disse o expositor Dr. Lu-
iz Hugo, por um telegrama. Ele estava na Bahia e Floriano passou um telegrama
para ele dizendo que fosse assumir o governo da Paraíba. Uma coisa sem nenhuma
forma de legitimidade, e Álvaro Machado veio consegui-la tomando posse na Câ-
mara Municipal e daí partindo o seu domínio político no Estado pelo prazo de vin-
te anos.
O expositor Luiz Hugo fixou-se no início da República, mas, o que a Repú-
blica velha teve como seu grande marco político distintivo, período sobre o qual
escreveram Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo, Apolônio Nóbrega, Inês

74 

 
Caminha entre outros que publicaram livros específicos, foi o grande peso corone-
lista. No Império o coronelismo não pesava tanto por conta do chamado lápis fatí-
dico do imperador, como diziam os desgostosos. Pedro II tinha a visão de perceber
que se um partido demorasse muito no poder não seria bom. Então, quando o par-
tido passava um ou dois anos, ele mandava dissolver e fazia eleição, havendo, as-
sim, o revezamento dos partidos. Era a gangorra entre liberais e conservadores.
Quando a República foi proclamada quem estava no poder era o partido liberal,
pois o Visconde de Ouro Preto era liberal. Daí ter sido o governo constituído,
principalmente na Paraíba, de elementos conservadoras, porque estavam na oposi-
ção e viram no movimento republicano uma maneira de subir. Mas, depois que
veio a República, não havia mais como manter essa alternância. O partido que se
enquistava no poder de lá não queria mais sair. A ponto de 12 anos depois de Álva-
ro Machado assumir o governo, já havia uma série de desgostosos dentro do seu
partido, inclusive Gama e Melo, citado pelo debatedor Joacil Pereira, e José Pere-
grino, que tinha sido governador. Álvaro Machado percebendo essa dificuldade,
correu aos antigos oposicionistas, pessoal ligado a Venâncio Neiva, que a essa altu-
ra já eram praticamente comandados por Epitácio, e faz um acordo. Há até uma
carta de Epitácio a um seu correligionário (eu não me recordo bem o nome do des-
tinatário, mas essa carta está nas obras dele e na obra de historiador Glauco Ari So-
ares), dizendo que ele procure aderir ao governo, pois a única forma duma pessoa
sair da oposição para o governo é através da adesão, resguardadas, porém, as apa-
rências.
O expositor Luiz Hugo registrou o primeiro movimento duma representati-
vidade desse coronelismo, que foi a série de repetidas revoltas coronelistas. Nós tí-
nhamos tido na Paraíba um ciclo de revoltas que inicialmente guardava um certo
ideário, vindo de Pernambuco, 17, 24 e 48. Depois tivemos o segundo ciclo que e-
ram as revoltas populares tipo Quebra Quilos, o Ronco da Abelha, a Serra do Apo-
bá, que Geraldo Joffily, em livro e debate ocorrido nesta Casa, disse que eram mo-
vimentos pré-políticos. E depois nós vamos ter uma série de revoltas dos coronéis.
Quase todas elas ligadas a problemas estaduais. Tivemos esse movimento da família
Balthar para depor Venâncio Neiva, mas sabemos também que os amigos de Ve-
nâncio procuraram resistir e mandaram tropas que chegaram atrasadas; tivemos de-
pois, em 1900, quando houve aquela dualidade de governantes; Cunha Lima lá em
Areia procurou também levantar tropas para apoiar o candidato Antônio Massa, na
luta contra José Peregrino; em 1912 tivemos a revolta de Santa Cruz e Franklin

75 

 
Dantas, de Monteiro e Teixeira, tentando depor o governo de Álvaro Machado, que
culminou em 30 com o movimento de José Pereira.. Quer dizer, esse predomínio
coronelista com essas exibições periódicas de força foi um fenômeno tipicamente
republicano, que teve começo com o alvorecer da República.
Era apenas isso que eu queria expor.

2º participante: Célia Camará Ribeiro (Sócia do Instituto Histórico e Geográfico


de Niterói):

Mais uma vez estou aqui feliz em assistir essas aulas magníficas, onde foram
feitas referência a Venâncio Neiva e Albino Meira, meu parente. Sobre Floriano
Peixoto acho que não devia nem ter nome de rua, assim como de Moreira César,
que era um carniceiro naquela fase de Canudos. A única coisa que eu sei de Floria-
no que se pode aproveitar foi quando perguntaram a ele se um navio estrangeiro
viesse ao Brasil para invadir e ele disse que o receberia a bala.
Falando em republicano, não posso esquecer meu pai que, naquela revolta
do jornal O COMBATE, que foi empastelado, foi um dos revoltados com aquele
ato.
Pediria permissão para ler um soneto sobre 7 de setembro.
- O soneto foi lido, sob aplausos.

3º participante: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho (Sócio do IHGP):

Parece-me que não tenho nenhum reparo a fazer porque as pessoas que o-
cuparam o microfone o fizeram da melhor maneira possível, com o maior brilhan-
tismo.
Quero apenas fazer uma ligeira lembrança sobre a atuação do general Al-
meida Barreto, conterrâneo do consócio Deusdedit Leitão. O general Almeida Bar-
reto era comandante das tropas, era o chamado chefe de polícia do território neu-
tro, e na hora o general teve um ato de alta pusilanimidade. Tanto assim que não
cumpriu com a função de que era incumbido, que era manter a ordem pública, e
Almeida Barreto, que queria porque queria ser senador do Império (e não foi), vin-
gou-se aderindo a uma República da qual ele não fazia parte naquelas conversações
entre os positivistas. Assis Cintra teve um livro muito bom sobre esse episódio,
chamado-o “o general que vendeu o Império”. Almeida Barreto era um homem de
origem duvidosa, ninguém sabe, é um caso muito raro, ninguém sabe quem foi a
mãe desse insigne e ilustre general do Exército. E outra coisa, ele tinha uma cicatriz
76 

 
nos quadris, resultante da Guerra do Paraguai, quer dizer, possivelmente correndo,
numa posição muito pouco digna e muito pouco honrosa para um soldado brasilei-
ro. Posteriormente ele se desaveio com Floriano e, mesmo sendo senador, foi preso
e teve o justo castigo. Foi remetido para uma cadeia, salvo engano, nas margens do
Rio Amazonas, onde passou uma boa temporada.
Nosso presidente falou na primeira eleição da República na Paraíba, a pri-
meira eleição que elegeu três senadores e cinco deputados federais. Quero apenas
registrar que essa eleição não foi uma eleição digna, democrática, que tivesse uma
rotulação de avanço social ou ideológica, porque o voto não era secreto. O voto era
descoberto. A fraude campeava; justiça eleitoral não havia; os partidos eram estadu-
ais. Cada Estado tinha a sua legislação, tanto que alguns Estados permitiam a reelei-
ção do presidente. Era o caso do Pará, era o caso do Rio Grande do Sul. No Rio
Grande do Sul foi eleito várias vezes presidente do Estado o caudilho Borges de
Medeiros. E para Borges de Medeiros deixar de ser presidente houve a revolução
de 1923, comandada por Assis Brasil, Batista Luzardo e outros; e houve o acordo
de Pedras Altas. Mas o principal era a falta de legitimidade, porque o voto não era
secreto. Ninguém era eleito deputado e o eleitor votava cinco vezes. Existia a cha-
mada chapa cerrada.
Joacil de Brito Pereira, em aparte concedido:
A lei do tempo era uma lei iníqua. Se o partido obtivesse 51 por cento dos
votos, fazia a chapa toda. Então somente vencia a chapa do governo.
Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, continuando:
Agradeço a intervenção do confrade Joacil Pereira.
Pois é, essa foi a primeira eleição. Um presente de grego que a República
deu às nossas instituições políticas e cívicas.
O primeiro governador eleito na Paraíba pela oposição, em voto secreto, foi
o governador Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo, por sinal um homem mui-
to digno, muito honrado, democrata sincero. E a maioria dos presidentes não tinha
nem opositores. Aconteceu isso com o presidente João Pessoa, João Suassuna,
Camilo de Holanda, com Venâncio Neiva (que foi numa eleição indireta), Álvaro
Machado (também numa eleição sem definição) e como todos os outros presiden-
tes. Houve eleição com oposição de João Tavares contra José Peregrino, uma elei-
ção que foi tão difícil saber-se quem ganhava, que os dois se proclamaram eleitos. E
a posse foi reconhecida pelo Vice-presidente da República em exercício, Rosa e Sil-
va, que disse que se mantivesse na posse quem estivesse ocupando o Palácio do

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Governo. Não havia absolutamente Justiça Eleitoral. A República não trouxe Justi-
ça Eleitoral, não trouxe o voto feminino, é bom que se registre aqui; mulher nessa
primeira República foi tratada como cidadã de segunda ou terceira categoria, nem
cidadã era, como diz o Dr. Odilon Coutinho.
Eram as colocações que eu tinha a fazer nesta tarde de tanto brilho para
nossa querida instituição.

4º participante: Guilherme d’Avila Lins (Sócio do IHGP e do IPGH):

Em primeiro lugar quero parabenizar todos que aqui falaram, começando


pelo presidente Luiz Hugo Guimarães que, de uma forma muito detalhada, conca-
tenada, bem cuidada traçou o cenário do alvorecer da velha República; ao professor
Joacil de Britto Pereira, que de forma magnífica sintetizou alguns aspectos com os
quais eu comungo plenamente sobre o significado ético daquele movimento de
quartel que representou a Proclamação da República.
Acho que realmente faltou ética no movimento. O imperador estava preco-
cemente provecto, mas não decrépito e ele era uma figura profundamente respeita-
da, como pessoa. Conta-se que Benjamin Constant chamava o marechal Deodoro
de o “velho”, numa alusão à sua utilidade pela representatividade que ele tinha no
meio militar. Era apenas o velho útil, que com febre de 40 graus proclamou a Re-
pública. O major Sólon Ribeiro, sogro de Euclides da Cunha, pai de Ana de Assis,
quando foi entregar a notícia da deposição, conta-se, não sabia se se perfilava, se
juntava as botinas, se batia continência, se chamava Vossa Majestade ou se chama-
va Vossa Excelência. E queria-se que a família imperial partisse de madrugada para
que ninguém visse. Sem dúvida que a monarquia estava no final, mas seria bastante
magnânimo daqueles que a queriam que esperassem a morte do imperador, mesmo
porque o seu sucessor era um estrangeiro. Mas podia-se esperar a morte do impe-
rador. Seria muito mais digno e nasceria essa democracia de forma muito mais jus-
ta.
Ouso dizer que da mesma forma que os israelitas estão esperando o Messias,
eu estou ainda esperando uma República estável, respeitável e plena. Eu ainda estou
esperando. Se nós tivéssemos esperado mais um pouco ,esta República teria surgi-
do de uma forma muito mais respeitável. E um dos primeiros atos da República, no
dia seguinte, salvo engano, foi a extinção do nome Imperial Colégio D. Pedro II
para Ginásio Nacional e a extinção da cátedra de História do Brasil, porque estava
terminantemente proibido rememorar a nossa história. E então o Colégio Pedro II

78 

 
se encheu de cátedras das ciências matemáticas: de trigonometria, de geometria ana-
lítica, de tudo que o positivismo acreditava como o seu altar. Foi, então, um perío-
do que eu considero de obscurantismo para a instrução pública, em particular, para
a educação, em geral, no que diz respeito à cultura humanística.
Não tenho nenhum dado oficial, mas aqui foi citado o Clube Astréa pelo
expositor Luiz Hugo Guimarães, e eu quero registrar que cresci ouvindo a história
de que o Clube Astréa representou um dos focos das ideias republicanas na Paraí-
ba.

5º participante: Silvana Alves de Souza (Estudante, participante inscrita):

Primeiro gostaria de parabenizar o Instituto pela excelente iniciativa em


promover esse Ciclo de Debates. Debater sobre a História do Brasil nunca é de-
mais.
Quero direcionar minha colocação ao que falou o professor Joacil Pereira,
que disse que a República começou de forma errada, sobretudo por uma questão
que o professor Guilherme acabou de assegurar que houve uma falta de ética. Fal-
tou aquela ética adotada pelo senador Gama e Melo. Agora eu pergunto: essa Re-
pública que começou de forma errada e a gente está vendo hoje alguns resquícios,
sentindo o peso da consequência desse erro, o Sr. acha que há perspectivas de me-
lhoras? Ou a gente está caminhando para o caos? E outra pergunta: Se a República
tivesse começado de forma diferente, por exemplo, a partir de um movimento do
povo, da revolução, do anseio do povo, da luta do povo, será que a gente estaria vi-
vendo um tempo de República diferente?
Joacil de Britto Pereira, em resposta à pergunta formulada:
A indagação que me foi direcionada, não é tão fácil responder. Há um livro
de Sidney Rooth, grande sociólogo americano, que fala sobre esse tema o SE na
História. No entanto, eu me atrevo a informar que o meu pensamento é que se a
República tivesse sido feita com apoio popular, com os líderes autênticos do mo-
vimento republicano, nós teríamos tido um resultado diferente. Porque a República
foi um arranjo de militares, embora esposando boas ideias, belas ideias, os anseios
republicanos, mas uma quartelada na verdade, um golpe tramado às pressas e às
carreiras. Se tivesse procurado um apoio popular, através de uma pregação mais se-
gura, o povo brasileiro não tivesse sido afastado, como disse um grande republica-
no, que o povo assistiu bestificado a Proclamação da República, se não tivesse sido
assim, talvez (é o se na história), talvez fosse outra a situação deste país. No entan-

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to, o que é mais grave, daí por diante a República foi se corrompendo cada vez
mais. Todo o esforço, todo o sangue derramado pelos heróis nacionais em revolu-
ções, em lutas, todo o anseio da mocidade nas escolas, nas academias, desde o tem-
po de Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Castro Alves, nas Faculdades de Direito do
Recife e de São Paulo, desde essa época, a mocidade sempre romântica e revolu-
cionária não participou do movimento republicano. E de lá para cá temos sido um
povo sofrido, um povo escanteado; infiltrou-se no poder oligarquia após oligarquia
e aí está hoje o espetáculo mais triste de uma república de piratas, de uma república
de corrupção.

Considerações finais pelo expositor Luiz Hugo Guimarães:

Agradeço a contribuição do ilustre debatedor oficial, companheiro Joacil de


Britto Pereira, que foi bastante apreciada pela segurança dos seus conceitos e pelo
levantamento de alguns questionamentos sobre minha exposição, que as aceito,
embora sem me convencer de todo com sua argumentação.
Agradeço também aos participantes pelos pronunciamentos que fizeram, en-
riquecendo o tema hoje apreciado
Os assuntos debatidos neste Ciclo são, não raro, conflitantes, e por isso
mesmo esclarecedores das dúvidas dos participantes. Cada participante não tem que
ser, necessariamente, cooptado por um ou por outro para alinhar-se ao seu ponto
de vista. O importante do debate é que cada um apresente sua idéia para que ela
possa ser examinada, apreciada e melhor interpretada.
É importante para nós o levantamento dessas questões sobre a participação
da Paraíba nesses 500 anos da descoberta do Brasil.
O comentário dos participantes Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, Guilher-
me d’Avila Lins, Humberto Cavalcanti de Mello, Célia Camará Ribeiro e Silvana
Alves de Souza ilustraram o debate, permitindo uma melhor apreciação sobre as di-
ficuldades para implantação da República, sobre a participação das figuras que in-
fluíram na sua proclamação e na sua evolução.
Durante essa primeira República nós poderíamos ter debatido mais, falando
sobre alguns governos paraibanos, se o tempo do expositor pudesse ser mais elásti-
co.
De qualquer forma, com a permissão do plenário, gostaria de nessas consi-
derações finais destacar, sucintamente, a passagem dos governos paraibanos desde

80 

 
a sua instalação na Paraíba, com os seguintes breves comentários: 20

06-12-1989 a 31-12-1991: Venâncio Augusto de Magalhães Neiva

Designado pelo presidente Deodoro da Fonseca, Venâncio Neiva foi con-


firmado no cargo de Presidente da Paraíba pela Assembleia estadual constituinte,
para o período 91/94. Em consequência da renúncia de Deodoro da Fonseca, em
27 de novembro de 1991, Venâncio Neiva foi deposto, assumindo o poder uma
junta governativa. O governo central ordenou a volta de Venâncio Neiva, tendo o
mesmo pedido uma licença em 31.12.91, assumindo o cargo o 1º Vice-Presidente,
Manoel da Fonseca Xavier de Andrade, o qual foi deposto em 01.01.1992. Assumiu
o governo uma junta governativa, a qual permaneceu em exercício até 18 de feve-
reiro de 1892.
Não há grandes fatos a mencionar durante esse período de adaptação da
República na Paraíba, cujo governo foi de pouca expressão administrativa.

18-02-1892 a 1896: Álvaro Lopes Machado

Foi designado pelo presidente Floriano Peixoto, tendo sido eleito quando a
2ª Assembleia Constituinte se reuniu para votar a Constituição do Estado.
Álvaro Machado criou a Imprensa Oficial (a atual A UNIÃO); reformou o
ensino “em bases mais adiantadas”, equiparando o Liceu Paraibano ao Ginásio Na-
cional, para ambos os sexos; fundou o Partido Republicano da Paraíba; recuperou
as finanças do Estado, restaurando o crédito e atualizou os vencimentos dos fun-
cionários, que estavam bastante atrasados; restabeleceu a figura do Prefeito Munici-
pal.
Em 14 de abril de 1892 passou o governo ao seu Vice-presidente Walfredo
Leal, retornando ao governo em 27 de junho do mesmo na. Em 17 de maio de
1896, passou o governo ao seu Vice-presidente Monsenhor Walfredo Leal, por ter
sido eleito Senador.

22-10-1896 – 22-10-1900: Antônio Alfredo da Gama e Melo

Teve grandes dificuldades em seu governo, enfrentando a seca de 1898 e a


inundação de 1899. Sua oposição ao Governo Federal aumentou suas dificuldades.

                                                            
20Muitos dados do resumo da ação administrativa dos Presidentes e Governadores do Estado foram coligi-
dos nos trabalhos dos seguintes historiadores paraibanos: Carmen Coelho de Miranda Freire (HISTÓRIA
DA PARAÍBA – DO IMPÉRIO À REPÚLICA); Celso Mariz (APANHADOS HISTÓRICOS DA PARAÍ-
BA); José Octávio (HISTÓRIA DA PARAIBA – LUTAS E RESISTÊNCIA); Teresinha de Jesus Ramalho
Pordeus (HISTÓRIA DA PARAÍBA NA SALA DE AULA).
81 

 
Deixou de ser Ministro de Floriano Peixoto porque não poderia ficar em paz
com sua consciência, conforme declarou em carta àquele mandatário.
Culto e honesto, foi eleito Senador, falecendo no mandato em 10.04.1908.

22-10-1900 – 1904: José Peregrino de Araújo

Após sua eleição, houve por alguns momentos dualidade de governo, uma
vez que a chapa oposicionista, à frente Antônio Massa, também se considerava
vencedora. O Vice-presidente da República, Rosa e Silva, que se encontrava no e-
xercício da Presidência, declarou-o empossado.
Apesar das turbulências políticas, melhorou a situação financeira, baixando a
dívida pública do Estado em 50%. Restaurou o ensino e evitou que o Liceu Parai-
bano fosse fechado, com apenas dois alunos inscritos. Na sua administração o Li-
ceu chegou a ter 50 alunos.
O Governo do desembargador Peregrino teve grande oposição política, rea-
gindo com a ação truculenta do seu Chefe de Polícia, Antônio Semeão dos Santos
Leal, que empastelou os jornais O COMÉRCIO, dirigido por Artur Aquiles e O
COMBATE, pertencente a um grupo de jovens políticos.

22-10-1904 a 28-10-1905: Álvaro Lopes Machado (segundo governo)

Diante da crise política que grassou no seu partido, Álvaro Machado se viu
obrigado a candidatar-se a um novo mandato de Presidente. Tentou unificar o par-
tido. A 28-10-1905, Álvaro renunciou ao cargo, para ser eleito senador, assumindo
provisoriamente o Vice-presidente Francisco Seráfico da Nóbrega, que logo passou
o governo ao Monsenhor Walfredo Leal, que terminou o quatriênio.
Sua atuação é meritória, uma vez que levou a “pequena açudagem ao interior
e incentivou a companhia de ferro-carris” na capital. No seu governo houve a im-
plantação da fábrica de cimento em Tiriri e uma de tecidos em Santa Rita.
Incentivou e fundou o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano.

28-10-1905 a 28-11-1905: Francisco Seráfico da Nóbrega

Como 2º Vice-presidente assumiu a Presidência Francisco Seráfico da Nó-


brega, enquanto Monsenhor Walfredo Leal era eleito 1º Vice-presidente.

28-11-1905 a 28-10-1908: Monsenhor Walfredo dos Santos Leal

Como Vice-presidente recém-eleito, assumiu o mandato de Álvaro até seu


final. Sob seu governo foi criado o alistamento eleitoral, tendo revogado as incom-

82 

 
patibilidades para cargos eletivos e sancionado a Lei que concede habeas corpus.

28-10-1908 – 28-10-1912: João Lopes Machado

Irmão de Álvaro Machado, médico sanitarista, João Machado foi eleito com
apoio do presidente Walfredo Leal. Seu governo é considerado pelos historiadores
como o mais operoso da primeira República.
Criou uma carteira de Crédito Agrícola para empréstimos sob penhor agrí-
cola; fundou a Escola Agro-Pecuária de Puchi; ordenou a construção de açudes e
poços artesianos; reorganizou o Departamento de Saúde Pública, instalando a Dire-
toria Geral de Higiene; reconstruiu a Escola Normal; promulgou o Código de Pro-
cesso Criminal do Estado, de autoria de Dr. Pedro da Cunha Pedrosa; assegurou
água, luz e bondes elétricos na capital; abriu a grande avenida em direção ao leste,
que hoje tem o seu nome.
Seu governo também foi agitado politicamente, não contando com o apoio
do Presidente Hermes da Fonseca, que combatia a “política dos governadores” es-
tabelecida por Campos Sales. Para a sua sucessão foi proposto como candidato de
oposição o coronel do Exército José Joaquim do Rego Barros, que tinha o apoio do
governador Dantas Barreto, de Pernambuco. Dentre os inúmeros oposicionistas,
Augusto Santa Cruz e Franklin Dantas, de Monteiro e Teixeira, armaram uma
grande coluna municiada para invadir os sertões paraibanos, depredando e assal-
tando várias cidades sertanejas.
Com a interferência de Epitácio Pessoa foi decretada a intervenção federal,
facilitando a resistência do governo
Nesse clima, ainda com o apoio de Epitácio Pessoa, que era Ministro do Su-
premo Tribunal, João Machado fez seu sucessor João Pereira de Castro Pinto.

28-10-1912 a 24-07-1915: João Pereira de Castro Pinto

Iniciou o seu governo cercado de simpatia, graças ao seu prestígio intelectu-


al.
Deu total apoio à cultura, facilitando a publicação das obras de escritores pa-
raibanos através da Imprensa Oficial. Enviou representante ao 1º Congresso de
História Nacional (João de Lyra Tavares e Ascendino Cunha); fundou a primeira
Biblioteca da Paraíba; melhorou o ensino, instituindo concurso para professores;
fundou dois cursos profissionalizantes: Comércio e Agricultura; fundou uma escola
na Cadeia Pública; não permitiu que o jornal do governo fizesse política; combateu
o banditismo; retirou as eleições do interior das igrejas.

83 

 
Durante a sucessão ao assumir a posição de magistrado foi massacrado pelas
duas oligarquias: epitacistas e walfredistas. Magoou-se e renunciou, indo fixar resi-
dência no Rio de Janeiro.

24-07-1915 a 24-07-1916: Antônio da Silva Pessoa

Como 1º Vice-Presidente assumiu o governo, em substituição a Castro Pin-


to, que renunciara o mandato. Antônio Pessoa era irmão de Epitácio.
Encontrou o Estado com uma dívida de Rs. 1.379:404$550 e um saldo em
caixa de apenas Rs 6.828$222 e o funcionalismo com um atraso de cinco meses.
Em pouco tempo, pagou o funcionalismo, equilibrou as finanças, saldou as
dívidas existentes; amortizou 50% dos compromissos do Estado e reduziu despe-
sas, dispensando funcionários sem utilidade urgente. Cortou gratificações graciosas
e acumulações indevidas. Promoveu um Congresso de Algodão (com a Paraíba ob-
tendo o 1º lugar) e codificação das leis municipais de autoria do deputado Ascendi-
no da Cunha.
Doente, bastante abatido, passou o governo ao presidente da Assembleia
Legislativa, Dr. Solon de Lucena.

24-07-1916 a 22-10-1916: Solon Barbosa de Lucena

O deputado estadual Solon Barbosa de Lucena, como Presidente da Assem-


bleia Legislativa, assumiu o Governo, em face do estado de saúde de Antônio Pes-
soa.
Antônio Pessoa agrupara em torno de si uma mocidade nascente na vida po-
lítica do Estado. E Solon de Lucena, que liderava esse grupo constituído de João
Suassuna, Álvaro de Carvalho, Alcides Bezerra, Celso Mariz, Demócrito de Almei-
da, grupo esse conhecido pela denominação de JOVENS TURCOS, foi considera-
do o continuador de Antônio Pessoa. Seria, portanto, o candidato natural à suces-
são. Era o candidato de Antônio Pessoa.
Novamente, coube a Epitácio Pessoa decidir a parada. Com o apoio dos
convencionais do Partido, Epitácio indicou o deputado federal Dr. Francisco Cami-
lo de Holanda.

22-10-1916 – 22-10-1920: Francisco Camilo de Holanda

Camilo de Holanda era general-médico. Homem de larga visão, iniciou uma


série de reformas administrativas. Anexou a Carteira de Crédito Agrícola existente
ao Tesouro do Estado e adquiriu “máquinas, arados, sulcadores, pulverizadores, se-

84 

 
ringas para vendas, sem lucro e a pagamentos cômodos, aos agricultores menos a-
bastados”.
Foi um reformador eficiente. Remodelou a cidade abrindo avenidas, cons-
truindo praças e edifícios públicos. Também teve atuação idêntica no interior do
Estado. Construiu grupos escolares; criou o Serviço contra a lagarta rosada.
Não teve condições de indicar seu sucessor, pois batera de frente com os
Pessoa de Umbuzeiro e rompera com os filhos de Antônio Pessoa.
Eleito Epitácio Pessoa para a Presidência da República, este convidou Cami-
lo de Holanda para substitui-lo na sua vaga no Senado, mediante sua renúncia ao
Governo do Estado, quando seria substituído pelo Vice-presidente Antônio Massa.
Camilo de Holanda não aceitou a barganha, continuando no governo, deixando de
apresentar candidato.
Em reunião no Palácio do Catete, o presidente Epitácio Pessoa e o senador
Venâncio Neiva indicaram Solon Barbosa de Lucena. Era assim, n aquele tempo.

28-10-1920 – 28-10-1924: Solon Barbosa de Lucena

Com a posse de Solon de Lucena ascendeu ao cenário político seus compa-


nheiros do chamado grupo JOVENS TURCOS: Álvaro Pereira de Carvalho, Secre-
tário Geral; Demócrito de Almeida, Chefe de Polícia; João Suassuna, Inspetor do
Tesouro; Alcides Bezerra, Diretor Geral da Instrução, entre outros.
Tendo recebido o governo com recursos razoáveis deixados por Camilo de
Holanda, Solon também pôde fazer uma boa administração. Preocupou-se em me-
lhorar o abastecimento dágua e implantar eficiente rede de esgotos na capital, não
tendo concluído esse projeto apesar dos vultosos gastos despendidos.
Uma de suas metas importantes, que também o decepcionou, foi a constru-
ção do porto da capital, com o apoio total do presidente Epitácio Pessoa, que des-
tinou grandes quantias de dinheiro. São conhecidas, hoje, as famílias que se locuple-
taram dos desvios das verbas vultosas enviadas pelo Presidente da República. Ainda
hoje se vê no rio Sanhauá as estacas fincadas naquela época. Consta do anedotário
político que os encarregados da construção do porto chegaram a enviar a Epitácio
o retrato do porto em construção, só que o retrato era de um porto que estava sen-
do construído na Europa.. Dizem também que Epitácio Pessoa ficou tão chocado
com a roubalheira que assegurou que jamais voltaria à Paraíba. Quando suas cinzas
foram trasladadas do Rio de Janeiro para o Panteon do Tribunal de Justiça os co-
mentaristas do Ponto de Cem Réis imaginaram que “as cinzas tremiam dentro da
arca que as conduziram”.
85 

 
O café, cultura que estava tomando conta do Estado, sofreu grande revés
com a praga que dizimou os cafeeiros, abalando a economia do Estado apesar da
alta do algodão.
As obras do seu prefeito, Walfredo Guedes Pereira, deram brilho à sua ad-
ministração. Walfredo abriu avenidas, construiu as Praças da Independência e Vidal
de Negreiros, os Parques Solon de Lucena e Arruda Câmara; criou o Hospital do
Pronto Socorro e a Policlínica Infantil; arborizou a cidade de tal forma que passou
a ser denominada “Cidade Jardim”.
Deu expansão ao movimento cultural, liderado por seu filho Severino de
Lucena, que era seu oficial de gabinete e foi um dos fundadores da revista ERA
NOVA. Foram prestigiados os valores culturais como José Américo de Almeida,
Alcides Bezerra, Álvaro de Carvalho, Américo Falcão, Carlos Dias Fernandes, Cô-
nego Pedro Anísio, Coriolano de Medeiros, Celso Mariz e outros.
Houve um acontecimento trágico que enodoou o governo de Solon de Lu-
cena, que foi o crime praticado por um guarda-civil na pessoa do estudante do Li-
ceu Paraibano Sadi Castor Correia Lima.

22-10-1924 – 22-10-1928: João Suassuna

Eleito sem competidor, João Suassuna assume o governo enfrentando uma


peste de varíola e de febre amarela.. Os destaques de sua administração foram: a
conclusão do Hospital Juliano Moreira, de Psiquiatria; o combate à Coluna Prestes,
que atravessou a Paraíba e, em Piancó, o Padre Aristides foi morto; a continuidade
das obras de saneamento e esgoto do governo Solon de Lucena; o combate ao can-
gaceirismo; o planejamento do abastecimento d'água de Campina Grande.

22-10-1928 - 26-07-1930: João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque

Fora dos partidos políticos da terra, João Pessoa surgiu como Presidente do
Estado com o apoio de Epitácio Pessoa.
Iniciou seu governo dando atestado de austeridade e autoridade. Encontrou
o Estado com as finanças em caos, com dívidas e seu funcionalismo atrasado em
seis meses. Para sanear as finanças restabeleceu a escrita do Tesouro e criou um sis-
tema tributário independente dos outros Estados, principalmente de Pernambuco.
Demitiu muitos funcionários, desagradando correligionários e opositores. Deu vida
ao Banco do Estado da Paraíba, que já havia sido fundado, mas não funcionado;
criou o Banco Hipotecário, para operar com o comercio; organizou o Serviço de
Classificação do Algodão; fundou campos de demonstração de algodão nos muni-

86 

 
cípios de Campina Grande, Ingá, Umbuzeiro, Picuí e Monteiro; construiu as estra-
das de Pilar, Itabaiana e Surrão e as pontes de Mulungu, Gurinhém e Batalha.
Na capital melhorou o Jardim Público e a Praça Venâncio Neiva; iniciou a
reforma da Praça Pedro Américo; abriu a avenida Epitácio Pessoa e a estrada de
Gramame; retirou os bondes elétricos que passavam em frente do Palácio do Go-
verno e colocou eletrificação subterrânea na Rua Duque de Caxias; remodelou o
Liceu Paraibano e iniciou a reforma do Palácio do Governo; construiu o Palácio
das Secretarias e a Praça Antenor Navarro; alargou a antiga Estrada do Carro, atual
Rua Barão do Triunfo; reconstruiu o Quartel de Polícia; iniciou a construção do Pa-
raíba Hotel e do Pavilhão do Chá e as obras do Porto de Cabedelo; instalou o Cen-
tro Educativo de Pindobal para a recuperação de menores delinquentes.
Foi um governo profícuo, apesar do pouco tempo em que esteve na Presi-
dência do Estado (um ano e nove meses).
Sua ação política desgostou muitos correligionários por ocasião da indicação
dos nomes para a eleição da bancada federal, aumentando a onda oposicionista.
Discordou da indicação do candidato do presidente Washington Luiz à sua
sucessão (Júlio Prestes) e formou com o Rio Grande do Sul e Minas Gerais na opo-
sição ao governo central. Participou da chapa oposicionista na campanha para a
Presidência da República, formando a chapa Getúlio Vargas para Presidente e João
Pessoa para Vice-Presidente, tendo perdido a eleição.
Enfrentou graves problemas políticos com a atitude do deputado José Perei-
ra pondo seu município – Princesa – em pé de guerra, com o apoio de vários “co-
ronéis” das adjacências.
João Pessoa foi assassinado no dia 26 de julho de 1930, no Café Glória, no
Recife, pelo advogado João Dantas.

26-07-1930 a 04-10-1930: Álvaro Pereira de Carvalho

Como Vice-presidente do Estado, Álvaro de Carvalho assumiu o governo,


em substituição a João Pessoa, que fora assassinado no Recife, pelo advogado João
Duarte Dantas.
Durante o seu breve período de governo enfrentou grande turbulência polí-
tica. A morte de João Pessoa colocou o povo paraibano em ambiente de grande
comoção e exaltação. Houve incêndios, depredações e perseguições políticas aos
adversários de João Pessoa – os perrepistas.
No seu governo houve a mudança do nome da capital de Paraíba para João
Pessoa e a criação da Bandeira rubro-negra, com o nome NEGO.
87 

 
Com a eclosão da Revolução, a 3 de outubro, o panorama político modifi-
cou-se totalmente, sendo inevitável a saída de Álvaro de Carvalho

04-10-1930 a 09-11-1930: José Américo de Almeida

José Américo assumiu o governo em razão da vitória da Revolução de 1930,


com a autorização do capitão Juarez Távora, havendo uma deposição branca do
Vice-presidente Álvaro de Carvalho. A Paraíba, nesse momento, passou a ser a sede
do Governo Revolucionário do Norte.
Com a saída de José Américo para o Ministério da Viação e Obras Públicas,
foi nomeado interventor do Estado Anthenor de França Navarro, indicado por Ju-
arez Távora.

09-11-1930 – 26-04-1932: Anthenor de França Navarro

Antenor, que era engenheiro-geógrafo, foi empossado pelo então capitão Ju-
arez Távora, chefe militar do Norte do Brasil. Ele assumiu o governo como inter-
ventor, preocupado, inicialmente, em pacificar o Estado.
Seu intento foi concluir as obras iniciadas por João Pessoa: Palácio do Go-
verno, Palácio das Secretarias, Paraíba Palace Hotel, o Quartel da Polícia e o Hospi-
tal de Isolamento. Fundou a Estação de Sericultura do Estado, que funcionava na
Fazenda São Raphael.
Sua grande ação foi no setor educacional quando (...) “unificou o ensino pú-
blico primário do Estado, extinguiu as escolas municipais e passou para o Estado o
ônus e a responsabilidade do ensino. Assim, 220 escolas espalharam-se em toda a
Paraíba”. 21
Reformou a Escola Normal, incluindo no seu programa o ensino de ginásti-
ca e música; ampliou o grupo Thomaz Mindelo; reconheceu oficialmente os diplo-
mas de datilografia e taquigrafia conferidos pelos estabelecimentos particulares; ins-
tituiu fardamento para os estudantes do Liceu; concedeu subvenções anuais a al-
guns colégios particulares.
Anthenor iniciou efetivamente as obras do Porto de Cabedelo em 17.11.31,
quando fincou a primeira estaca da cortina externa do cais do porto, que só foi i-
naugurado em 1935. Passou a administração dos cemitérios para os municípios; deu
aumento aos serventuários da Justiça, prestigiando a magistratura do Estado.
Não obstante, houve um movimento armado contra o seu Governo, que ele
                                                            
21 Glauce Maria Navarro Burity. ANTHENOR NAVARRO: CENTENÁRIO DE SEU NASCIMENTO,
discurso no IHGP, em 31.08.99.
88 

 
combateu criando a Guarda Cívica e punindo militares da força policial.
Foi um governo de grandes realizações.
Faleceu tragicamente em 26 de abril de 1932 quando (...) “vinha do Rio de
Janeiro com o Ministro José Américo de Almeida no avião da marinha – o “Savoia
Marchetti n.º 3 – o qual, ao amerissar na Baía de Todos os Santos, na Bahia, capo-
tou, mergulhando na baía. No acidente o Interventor sofreu rutura do coração e do
fígado, falecendo.” 22

26.04.1932 - 12-1934: Gratuliano de Brito

Gratuliano assumiu o Governo em caráter provisório como interventor para


substituir Anthenor Navarro, e em junho foi efetivado nas funções.
Seu governo foi atingido pela famosa seca de 32 e pela Revolução de São
Paulo. Recebeu do Ministro José Américo apoio no combate à seca e, para debelar
o movimento de São Paulo, enviou soldados da Polícia Militar e voluntários.
Enfrentou com austeridade e rigidez as dificuldades financeiras por que pas-
sou o Estado nessa fase, conseguindo colocar o Tesouro em dia.
Continuou as obras do Porto de Cabedelo, as obras de saneamento da capi-
tal e a Fonte de Brejo das Freiras. Criou mais escolas; reorganizou a Polícia Militar,
a Saúde Pública e a Escola de Agronomia do Nordeste.
Sua equipe de governo era constituída, em grande parte, de jovens e soltei-
ros. Dela fez parte o então 2º Tenente Ernesto Geisel, que era Secretário da Fazen-
da, Agricultura e Obras Públicas.
Em 20 de julho de 1934, Getúlio Vargas é empossado pelo Congresso como
Presidente Constitucional do país.
Com a tolerância do plenário, fiz um breve resumo dos Governos paraiba-
nos da primeira República, estendendo-me até os interventores, pelo que peço des-
culpas aos presentes.

                                                            
22 Adauto Ramos. ANTHENOR NAVARRO (Centenário de Nascimento).
89 

 
4º Tema:
A CONQUISTA DA PARAÍBA
Expositora: Waldice Mendonça Porto
Debatedor: Guilherme d’Avila Lins

A fala do Presidente:

Hoje é a quarta sessão do programa do nosso Ciclo de Debates, quando será


abordado o tema A CONQUISTA DA PARAÍBA.
Comporei a mesa com as seguintes pessoas, que convido a tomar assento:
Waldice Mendonça Porto, que será a expositora do tema; Guilherme d’Avila Lins,
debatedor do tema; Joacil de Britto Pereira, presidente da Academia Paraibana de
Letras.
Waldice Mendonça Porto, nossa palestrante, é bacharel em Direito pela
UFPB; é formada em Contabilidade pela Escola de Comércio “Epitácio Pessoa”,
fez vários cursos de extensão universitária, inclusive sobre História Colonial da Pa-
raíba em nível de pós-graduação; foi expositora no Curso de Historia da Paraíba (a-
tualização Didática, História e Geografia) e no Curso de História Afro-Brasileira;
tem vários trabalhos publicados; é sócia do Instituto Paraibano de Genealogia e
Heráldica; é diplomada pela ADESG. É atual primeira Secretária do Instituto.
Passo a palavra à nossa expositora, Waldice Porto.

Expositora: Waldice Mendonça Porto (Historiadora, 1ª secretária do IHGP)

Inicialmente gostaria que desse Ciclo de Debates saísse alguma coisa de po-
sitivo. Por isso estou trazendo a seguinte proposta para o Instituto Histórico:
“Senhor Presidente:
Ao início deste Ciclo de Debates em torno das comemorações dos 500 anos
de Brasil, na condição de membro efetivo e ora primeira secretária, na gestão de
Vossa Senhoria, que tão bem tem administrado este Instituto Histórico e Geográfi-
co Paraibano, venho apresentar-lhe esta minha proposta. Faço-a cheia de zelo, mui
honrada de ser quem eu sou, uma filha deste pedaço de chão glorioso, infelizmente
ignorado pelas gerações presentes, onde ainda repercutem nos meus ouvidos e a-
través das fibras da minha sensibilidade o fragor das batalhas aqui travadas, os pas-
sos sorrateiros dos nossos maiores e daqueles que antes dos nossos aqui demora-
90 

 
vam em nossas aldeias, vivendo em liberdade na terra dos seus ancestrais. Os ini-
gualáveis valorosos potiguara, representados pelos seus remanescentes desacultura-
dos e espoliados que ali se encontram na Baía da Traição. Foi o que restou daquele
gentio guerreiro, que ninguém podia conquistar nem domar, senão por meio de in-
trigas. Eles, os esbulhados, nós os herdeiros à sua revelia, deste chão abençoado,
por força das armas.
Este é o teor da proposta, que esta Casa de Irineu Pinto, mais conhecida
como a Casa da Memória Paraibana e a Universidade da Paraíba, através do seu
Departamento de História e do NDIHR, repositório do mais rico documentário
sobre a História da Paraíba, assumam o compromisso de re-escrever a nossa Histó-
ria o mais verdadeiramente identificada com os fatos comprovados com prova do-
cumental, escoimando-a dos erros que se vêm cometendo, tomando como fonte fi-
dedigna os nossos autores, quando uma documentação abundante se encontra à
espera de ser manuseada.
Senhor Presidente:
Que seja uma moderna e aplicada História da Paraíba, nas palavras da minha
amiga e muito irmã, Rosilda Cartaxo, fiel aos fatos e acontecimentos, que a consti-
tuíram, acessível também às redes estadual e municipal da educação. Estamos às
vésperas do segundo milênio, o século XXI, contando já com mais de quatro sécu-
los de história sem que, até o momento, tenha sido preenchida esta inominável la-
cuna. O homem sem História é um homem sem memória e um homem sem me-
mória é conquistável facilmente.”

Presidente – Recebo a proposta apresentada pela expositora, e comunico que a


mesma será objeto de apreciação pela Diretoria do Instituto.

Waldice Mendonça Porto, dando início à sua exposição:

Um ponto na história que sempre me impressionou foi dizer-se que Portugal


não se incomodou com a sua colônia durante os trinta anos depois de conquistada.
Mas posso afirmar que sempre houve um trabalho da diplomacia portuguesa, que
exercia uma política de sigilo.
O Brasil é considerado por João Ribeiro, citado por Costa Porto, “uma dá-
diva de sua diplomacia” (de Portugal), primeiro, assegurando a pequena faixa lito-
rânea da conquista cabralina; segundo, garantindo-lhe o domínio do nosso atual ter-
ritório, em 1750, pelo Tratado de Madri.
Esse tratado legaliza a situação de fato, erigindo em princípio jurídico a ma-
91 

 
terialização ou materialidade do “uti possidetis”, donde poder João Ribeiro dizer
que o Brasil foi, para Portugal, “uma dádiva de sua diplomacia” (Costa Porto – Es-
tudo sobre o Sistema Sesmarial).
Apesar de afirmarem os historiadores de forma generalizada não haver Por-
tugal cuidado do seu “gigantesco latifúndio”, usando da linguagem fundiária, não é
verdade. A sua política de sigilo, adotada pela sua diplomacia eficiente, não deixan-
do “vazar” as “descobertas”, pode ter dado essa impressão. Mas, se vamos aos fa-
tos, seguindo-lhe os passos, vamos constatar ter estado el-Rei mui atento à sua
“dádiva”.
Em 30 anos de Brasil podemos constatar que desde 1501, havia expedições
de reconhecimento de suas costas; em 1502, havia arrendamentos de terra, tanto a
particulares, individualmente como a consórcios; o caso de Fernão de Loronha ou
Noronha, com contrato firmado e renovável de três em três anos, perdurando até
1515, com a obrigação de descobrir ou percorrer 300 quilômetros de costa, dando
de tudo conta a el-Rei, já agora declarado, o Venturoso, fora os frutos colhidos e a
licença concedida para o corte do pau-brasil em nome da Coroa portuguesa, torna-
do este, seu monopólio exclusivo.
Em 1516, a Ilha de São João, hoje Fernando de Noronha, foi oferecida a
Fernão de Noronha.
Para interessar aos seus súditos a aceitação das Capitanias, el-rei oferecia, a-
través de alvarás vantagens majestáticas, quase todas, a quem se dispusesse fundar
engenho de açúcar no Brasil, para isso fornecendo-lhe todo o material necessário e
instrumentos agrícolas; as chamadas capitanias avulsas a quem quisesse povoar o
Brasil e as capitanias a termo, a que estavam obrigados súditos da Coroa, por três
anos, terminados os quais era substituído por um outro, e assim sucessivamente;
construção de feitorias para armazenamento do pau-brasil, depois também as co-
nhecidas feitorias-fortins; posto abastecedor de seus navios em direitura da Índia;
lugar de Couto e homizio dos degredados, criminosos comuns ou de lesa-
majestade; logo em seguida, à “descoberta”, cartografando o Brasil em nome de
Portugal; expedições guarda-costas para expelir os contrabandistas de diversas na-
cionalidades e de piratas reunidos pelos seus respectivos soberanos de carta de cor-
so, em represália ao ato cometido pelo Papa Alexandre VI, à revelia das demais na-
ções, entre estes, principalmente os franceses. E, finalmente, a expedição coloniza-
dora de Martim Afonso de Sousa “nomeado capitão da esquadra e elevado a conse-
lheiro da Coroa. Seus poderes, até então nunca conferidos, eram extensos: além de

92 

 
capitão da armada, capitão de toda a terra que descobrisse, com plena jurisdição
sobre as pessoas que o acompanhassem, além das que encontrasse. Tinha o direito
de justiça, podendo, inclusive, a seu critério, aplicar a pena de morte.
Sua missão: colocar marcos indicativos de posse, doar as terras como melhor
lhe aprouvesse e nomear tabeliães e oficiais de justiça, instalando no Brasil a admi-
nistração portuguesa.”
As investidas dos povos fora da partilha do mundo, pelo Tratado de Torde-
silhas, como os franceses, ingleses, holandeses, infestaram os mares do Atlântico,
representando seriíssima ameaça à sua colônia brasileira.
O pau-brasil não permitia a fixação do homem à terra; o reino português en-
contrava-se parco de recursos e de elemento humano. Para solucionar o caso, veio-
lhe ao encontro a sugestão de D. Diogo de Gouveia, Reitor da Universidade de
Santa Bárbara, em Paris, que em carta aconselhou o rei de Portugal a dividir a terra
entre os seus súditos mais abastados. Assim não despenderia dinheiro e contaria
com o empenho dos mesmos na defesa e preservação da terra. Seria um senhorio
dentro do Senhorio da Coroa. Eles não teriam a propriedade da terra, mas tão so-
mente o poder político, “de imperium’.

Regime das Capitanias Hereditárias

D. João III, aceitando a sugestão do amigo D. Diogo de Gouveia, de dividir


o Brasil em Capitanias Hereditárias, decidiu, no entanto, antes de por em prática es-
te Regime, esperar a volta de Martim Afonso de Sousa, escrevendo-lhe porém co-
municando o fato e que, dentre os 15 lotes em que fora a sua colônia americana di-
vidida, distribuídos por 12 donatários, reservava para ele, Martim Afonso e seu ir-
mão Pero Lopes de Sousa, respectivamente um de 100 léguas e outro, de 80 léguas,
em porções separadas.
O que vai nos interessar de perto mesmo é a de Pero Lopes de Sousa, con-
cedida em 1º de setembro e o respectivo foral em 6 de outubro de 1534. Logo foi
aumentada a sua doação, em janeiro (1535), para 86 léguas.
Após cinco anos de fundada, a capitania de Itamaracá, de Pero Lopes de
Sousa, vizinha à de Pernambuco, perde o seu donatário, morto em naufrágio
(1539), em Madagascar, para uns, na ilha de São Lourenço, para outros. É bem ver-
dade que Pero Lopes de Sousa pôs à frente da sua capitania um loco-tenente João
Gonçalves, que tomou as providências necessárias, ocupando a ilha da Conceição,
aí fundando a vila Marial, defronte do continente, tendo em vista a impossibilidade
de ali se manter, acossado que seria pelas investidas belicosas constantes dos poti-
93 

 
guara e francesas aliados.
É a localização de Itamaracá, vizinha à de Duarte Coelho, que é muito privi-
legiada, que vai dar motivo ao desencadeamento de uma série de acontecimentos
que redundarão, na segunda metade do séc. XVI, numa das mais memoráveis epo-
peias vivenciadas pelos nossos maiores, nesta parte do Nordeste brasileiro.
Com a morte de Pero Lopes de Sousa e não havendo cumprido a cláusula
exigida pela Lei das Sesmarias, para a sua colonização, a parte do continente, por-
tanto, tornou-se devoluta, ou seja, voltou à Coroa.
Abandonada, Itamaracá passou a ser um território perigoso, uma ameaça à
segurança da sua vizinha. Pois, o seu donatário se via impotente diante dos assaltos
rotineiros e do vandalismo provocados pelo gentio potiguara e seus aliados france-
ses. Olinda e Igaraçu e, até mesmo Itamaracá, viviam em contínua intranquilidade,
pois este estado caótico dificultava a aproximação de quem ali pretendesse povoar a
terra e dinamizar a agricultura da cana-de-açúcar, atraído pela fertilidade e pelos
seus ares.
As cartas de Duarte Coelho a el-Rei são um testemunho irrefutável daquela
situação. Nelas ele demonstra a sua aflitiva preocupação com a segurança da sua
capitania, vendo-se impossibilitado de fazer alguma coisa, contra os importunos
que atrevidamente se vangloriavam de levarem a melhor e lhe fazerem ver se en-
contrarem em capitania de Couto e homizio, não adiantando, portando, Duarte
Coelho querer que fossem aceitas e cumpridas as suas cartas precatórias, pelo Ou-
vidor de Itamaracá.
A ilha de Itamaracá “podia então considerar-se a atalaia da civilização brasi-
leira avançando para o Norte, da mesma forma que mais tarde (e ainda agora), pela
bondade do seu porto, e a excelência e abundância das suas águas e provisões, se
considerou como posição de muita valia, para a defesa contra um inimigo comum,
o mar.
Itamaracá era porém, não só a atalaia, o posto avançado da civilização, mas
ao mesmo tempo, o seu abrigo em caso de algum desastre; e os empreendedores
que se estabeleciam pelos rios do continente vizinho, punham antes nela as espe-
ranças de refúgio do que em Igaraçu.” (Varnhagen).
As CARTAS DE DUARTE COELHO A EL-REY, publicação do historia-
dor pernambucano José Gonsalves de Mello e Cleonir Xavier de Albuquerque, en-
tre 1540 e 1550, dão conta dessa situação. É uma indicação que faço para os que se
interessarem aprofundar-se no assunto.

94 

 
Corria o ano de 1570 e os assaltos dos índios aos habitantes das capitanias
de Itamaracá e Olinda continuavam sem trégua. Providências foram tomadas em
Conselho, concordando que fossem as mesmas encampadas pela Coroa. El-Rei a-
tendeu o pedido de socorro, encarregando D. Luis de Vasconcelos, “governador e
capitão general para o Brasil, recomendando-lhe a expulsão dos franceses do rio
Paraíba; mas, este tornando a ilha da Madeira, ali deixou-se ficar com a esquadra de
sete naus e uma caravela, esperando monção a fim de evitar as calmarias da costa
de Guiné, ou ,mais realmente, de escapar dos famosos piratas Jacques de Soria e
João Capdeville, huguenotes, saídos de Rochella, os quais havia pressentido”.
Em 1574, apesar da instabilidade reinante e indo de encontro aos conselhos
dos amigos, Diogo Dias, um cristão-novo, de muitas posses, compra a D. Jerônima
de Albuquerque Sousa 10 mil braças de terra próximas a Goiana, aventurando-se a
“estabelecer engenho no Tracunhaém. Veio o gentio e deu cabo de tudo, e orgu-
lhoso de sua obra ameaçava o resto da Câmara”.
Este triste acontecimento entrou para a nossa História como a “Tragédia”
ou “Morticínio de Tracunhaém”.
A tragédia ali ocorrida tomou foros de internacionalidade, pois punha em
risco o que coubera à Sua Majestade, pelo Tratado de Tordesilhas.
D. Sebastião, tomando a si a conquista, desmembrou uma faixa de terra da
Capitania de Itamaracá, criando, ou melhor dizendo, dando nascimento à Capitania
Real do Paraíba do Norte, cujos limites se circunscreviam da Baía da Traição ao Rio
Popoca.
Horácio de Almeida, citando Varnhagen, declara: (...) a Paraíba era a passa-
gem onde se ia decidir se a civilização tinha de caminhar avante para o norte ou re-
tirar-se, corrida, como já começava a acontecer, do teatro fronteiro à ilha de Itama-
racá!” E continua Horácio: “Ou a metrópole conquistava a Paraíba ou desistia de
continuar para o norte a obra de colonização que empacara em Itamaracá.”
A capitania da Paraíba surgiu como “compensação do insucesso da Capita-
nia de Itamaracá e da necessidade de apoio ao povoamento já instalado na Capita-
nia de Pernambuco.

A Guerra dos 25 anos

Entre 1574 (1580) 1585 – Nesse ínterim, num espaço de seis anos, o velho
Portugal cai em poder da Espanha, por conta do processo sucessório. Tem início o
chamado período UNIÃO IBÉRICA, com duração de sessenta anos.
O período compreendido entre 1574 a 1599 pode ser divido em dois: o 1º -
95 

 
o da conquista do espaço físico para a implantação do núcleo populacional, abran-
gendo, de 1574 a 1585 – as tentativas da conquista e a sua consumação; o 2º - o da
consolidação definitiva daquela conquista.
Vale lembrar que, com o estabelecimento da União Ibérica, a Linha de Tor-
desilhas desapareceu, facilitando, no decorrer da saga gloriosa dos conquistadores, a
ampliação do nosso território pátrio.

Expedições Oficiais para a conquista da Paraíba

Foram cinco as expedições oficiais para a conquista da Paraíba:


1ª tentativa: 1574 – Ao Governador Geral do Brasil, D. Luis de Brito, foi
cometida a incumbência, por ordem régia de D. Sebastião de Portugal, de provi-
denciar, de imediato, uma expedição para a conquista da Paraíba. Porém, devido a
problemas administrativos da Bahia, o governador delegou tal encargo ao Ouvidor
Geral D. Fernão da Silva.
Este reuniu forças em Olinda, percorrendo, com homens a pé e a cavalo, o
caminho para a Paraíba, que estava infestado de índios. Na foz do rio Paraíba, onde
se encontra hoje o município de Cabedelo, sem ser incomodado pelos potiguares,
tomou posse da terra em nome do rei de Portugal, ordenando a lavratura oficial do
feito. Um ataque de surpresa dos índios obrigou-o, com a sua gente, a uma retirada
rápida e desordenada para Itamaracá, sem qualquer possibilidade de defesa da ex-
pedição.
2ª tentativa: 1575 – Com o malogro da primeira expedição, D. Luis de Brito
resolve cumprir pessoalmente as determinações emanadas da Coroa Portuguesa,
partindo da Bahia com uma frota numerosa e bem equipada. No entanto, as más
condições de navegação provocaram desvios de rota e de veleiros. Parte da expedi-
ção voltou ao porto de origem com o próprio Governador Geral e a outra parte
conseguiu ancorar em Pernambuco, regressando à Bahia após alguns dias de espera.
3ª tentativa: 1582 – Em 1579, Frutuoso Barbosa, comerciante português,
propõe ao então rei Cardeal D. Henrique, elevado em decorrência da morte de D.
Sebastião, em Alcácer-Kibir, África, conquistar e colonizar a Paraíba, na condição
de ser seu Governador por dez anos, rendendo um ordenado de duzentos mil réis
por ano. Posteriormente, foram-lhe concedidas mercês nesse sentido, confirmadas
por Felipe II da Espanha e I de Portugal.
Frutuoso Barbosa chega ao Brasil em 1581, aportando no Recife, porém um
temporal destroça-lhe a expedição, indo arribar na Ilha de Castela (Cuba), na Amé-
rica Central. Volta Frutuoso a Portugal, conseguindo que os seus direitos sejam sal-
96 

 
vaguardados pelo novo soberano. Retorna, pois, ao Brasil em 1582, como capitão
de mar e terra, porém sem a posse do referido título. Em Pernambuco conta com a
ajuda provincial do Capitão-mor de Olinda.
Frutuoso desloca-se para a Paraíba, com uma parte da expedição por mar
sob seu comando e outra por terra. Frutuoso chegou primeiro, sobe o rio Paraíba,
atacando naus francesas surtas próximas à Ilha da Camboa. Mas, de volta à foz do
rio Paraíba, é atacado por franco-indígenas, sofrendo séria derrota, até a chegada da
parte da expedição que veio por terra. Frutuoso pensou em construir um forte no
local, mas não foi possível em vista da assiduidade dos ataques pelos potiguara,
vendo-se obrigado a retornar a Pernambuco. É de ressaltar que nessas duas tentati-
vas, Frutuoso perdeu esposa e filho, muitas vidas humanas, além de recursos finan-
ceiros próprios.
4ª tentativa: 1584: - A partir de 1584, com a vinda do Ouvidor Geral do Bra-
sil, Martim Leitão, cognominado por Coriolano de Medeiros de “O César das Con-
quistas Paraibanas”, e a vinda da esquadra de D. Diogo Flores de Valdiz, é que a
conquista da Paraíba começa a se delinear. A conquista se intensifica quando a es-
quadra vai a socorro do forte S. Felipe e São Tiago (hoje Forte Velho).
Nos primeiros dias de fevereiro de 1585 chegam o cacique tabajara Braço de
Peixe e o seu irmão Assento de Pássaro com parte de sua gente, vindos das mar-
gens do rio São Francisco, em reforço aos potiguara. Este cacique haveria de deci-
dir os rumos da conquista.
Surge a oportunidade quando os dois chefes indígenas dos tabajara e poti-
guara se desentendem. Martim Leitão então ofereceu pazes aos tabajara, no mo-
mento em que o cacique já se dispunha voltar para sua aldeia no São Francisco.
5ª tentativa: 1585 – As pazes foram então firmadas entre o cacique tabajara e
o Juiz de Órfãos e Escrivão da Câmara de Olinda, João Tavares. Tal honra caberia
a Frutuoso Barbosa por direito, porém este desgastado e desiludido por tudo o que
aqui sofrera desde 1581 até aquele momento, declinou-a, sob protestos insistentes
do Ouvidor Geral Martim Leitão.
As pazes foram celebradas ali no Sanhauá, no dia 5 de agosto de 1585 e só
no si 31 de outubro de 1585 foi escolhido o local da nova povoação, onde hoje se
encontra a Basílica de Nossa Senhora das Neves, que sob esta invocação passou a
ser denominada Cidade de Nossa das Neves, de Sua Majestade – a 3ª cidade do
Brasil.

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Conquista da Paraíba sob a égide da União Ibérica

Governo de João Tavares: 1585 a 1588 – Após as pazes firmadas foram to-
madas as primeiras providências para a criação do núcleo populacional, tendo à
frente o dinâmico e incansável Ouvidor Geral Martim Leitão. Este, de imediato,
tratou da construção do forte da cidade, precavendo-se, então das ameaças e assal-
tos imprevisíveis dos naturais da terra, pondo em expectativa constante e em pol-
vorosa a população recém-chegada.
Martim Leitão neste mister chegou a empreender algumas surtidas sobre al-
deias potiguara com o objetivo de afastá-los das proximidades da cidade em cons-
trução.
De 1586 a 1587, este Ouvidor Geral do Brasil conseguiu se desdobrar entre
a nascente urbe e respectiva administração, organizando expedições de guerra con-
tra o gentio, constituídas pelo pessoal de governo, os “homens de qualidade” da
terra, além de mercenários, soldados e índios flecheiros, agora com o concurso dos
tabajara.
Foram três os assaltos belicosos feitos por Martim Leitão e sua gente na Ser-
ra da Copaoba, Mamanguape e Baía da Traição.
Volta Martim Leitão para Olinda nos primeiros dias de 1587. No ano anteri-
or, fundara ele o engenho real – o São Sebastião, em 20 de janeiro.
João Tavares é quem fica à frente do Governo da Cidade de Nossa Senhora
das Neves, de Sua Majestade, de 1585 a 1588, quando, no mês de setembro entrega
o cargo a Frutuoso Barbosa.

Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves, de Sua Majestade

1588 a 1591 – Frutuoso Barbosa é quem fica à frente do Governo da Paraí-


ba. Apesar de bastante tumultuado, Frutuoso conseguiu realizar algumas obras sig-
nificativas. Entre estas, a mudança do nome da cidade para Cidade Felipéia de Nos-
sa Senhora das Neves, de Sua Majestade; o forte de Santa Catarina, em Cabedelo,
como sempre fora a sua pretensão; o forte de Inhobim, na várzea do Paraíba. In-
crementou a agricultura da cana-de-açúcar, tendo neste mister provocado a vinda
de Duarte Gomes da Silveira de Pernambuco, com toda a sua família.
Duarte da Silveira, aqui se radicando, incentivou a construção de residências,
oferecendo prêmios: para a construção de casas térreas, dez mil réis; se assobrada-
da, vinte mil réis; também foi o responsável pela Igreja da Misericórdia com o
complexo constituído pelo Hospital e o Cemitério, além de instituir o Morgado do

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Salvador do Mundo.
As Ordens Religiosas, é bom que se diga, atenderam à solicitação para aqui
se estabelecerem. Primeiro chegaram os jesuítas e os franciscanos para a catequese
do gentio e educação dos filhos dos colonos. Entre o governador Frutuoso Barbo-
sa e as referidas Ordens aconteceram as primeiras rixas, pertinentes à questão de ju-
risdição. Depois chegaram os beneditinos e os carmelitas da Reforma. Durante to-
do esse período de quase três anos de governo, os naturais da terra não lhe deram
trégua, cometendo as suas estripulias, a tal ponto de se atreverem a vir até à nascen-
te cidade.

Governo de Feliciano Coelho de Carvalho

O período de Feliciano Coelho de Carvalho se estendeu de 1592 a 1600. No


seu governo houve a 1ª Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil – 15 dias de
graça na cidade de Paraíba – “Era a Visitação uma inspeção periódica que por de-
terminação do Conselho Geral do Santo Ofício realizava um delegado seu para in-
quirir sobre o estado das consciências em relação à pureza da fé e dos costumes”
(...) Oferecia misericórdia aos confidentes e, ao mesmo tempo, sob ameaças incita-
va os denunciantes. “Um levantamento geral do momento dos espíritos”. Aqui fo-
ram feitas 16 denunciações, sem prisões durante os 15 dias de graça, iniciados no
dia 8 de janeiro de 1595.
Em 1597 deu-se a expulsão definitiva dos franceses do nosso solo paraiba-
no, desassistindo, assim, os potiguara. Também houve a ajuda da Paraíba na con-
quista do Rio Grande do Norte, neste mesmo ano de 1597.
Todavia, o fato mais importante do Governo de Feliciano Coelho de Carva-
lho foi a Celebração das Pazes com os Potiguara, firmada na pessoa de Ibiratinin
(Pau Seco) com a autorização do seu irmão, o famoso Zorababé, em 11 de junho
de 1599.
A consolidação da conquista por Feliciano Coelho de Carvalho é uma das
páginas mais emocionantes da nossa História, por ter sido consertada com o nosso
colonizador, tendo em vista a situação em que ficaram os potiguara, quase extermi-
nados pelas guerras, pelas guerras bacteriológicas – sarampo, gripe, varíola, febre
amarela, tuberculose, etc., disseminadas essas epidemias pelos conquistadores; as
baixas constantes, em virtude mesmo de tais guerras, e perda do aliado francês, le-
vando consigo navios, armas, munições, além da estratégia de guerra e do seu in-
centivo permanente.
Ainda contribuiu a Paraíba – com a expedição de Pero Coelho de Sousa –
99 

 
para a conquista do Ceará – 1603-1607.
As pazes definitivas para a consolidação da conquista da Paraíba foram fir-
madas no Forte da Cidade de Nossa Senhora das Neves, bem ali no Varadouro.

Obras consultadas:
História da Conquista da Paraíba (Sumário das Armadas) – Col. Triênio do 4º Centenário da
Paraíba, FURNE/UFPB – Campus II, Campina Grande, 83
História Geral do Brasil – Francisco Adolfo de Varnhagen (Visconde de Porto Seguro),
vol 5
História da Paraíba – Horácio de Almeida, Ed. Universitária/UFPB (2 vols.)
Brasil/Açúcar – Coleção Canavieira, nº 8, Rio de Janeiro, 72
História do Brasil – 1 vol. Comemorativo do Sesquicentenário da Independência do Bra-
sil (em fascículos) – Bloch Editores (4 vols.)
Grandes Personagens da nossa História (em fascículos) – Abril Cultural
A Conquista da Paraíba – J. F. de Almeida Prado, Brasiliana, vol. 321
Raízes da Formação Administrativa do Brasil – Marcos Carneiro de Mendonça (Coletânea
de Leis)
História da Civilização Portuguesa (Curso) – A .Martins Afonso – Lisboa
Formação Territorial do Brasil – Costa Porto, Curso de Direito Agrário – Col Petrônio
Portela, Brasília
Estudo do Sistema Sesmarial – Idem, UFPE
História Geral da Igreja na América Latina – Ed. Paulinas – Vozes
Cartas de Duarte Coelho a El-Rei – José Gonsalves de Mello (neto), Recife (Pe)
História da Província da Paraíba – Maximiano Lopes Machado, UFPB
Coletânea de jornais – Comemorativa da fundação da cidade de João Pessoa e do seu IV
Centenário.

A fala do Presidente:

Nossa expositora fez um relato sucinto, dentro do espaço de tempo que lhe
foi destinado, sobre a conquista da Paraíba. Relembrou todas as cinco tentativas de
conquista da província, contando todas as peripécias e fracassos das várias tentati-
vas, numa das quais Frutuoso Barbosa perdeu a esposa e um filho nas lutas contra
os índio da tribo tabajara, até que Martin Afonso de Sousa logrou, com a pacifica-
ção com os índios, implantar a cidade.
A professora Waldice Porto considerou nossa conquista como tendo se rea-
lizado em duas fases: a primeira, aquela das primeiras tentativas, e a segunda só al-

100 

 
cançada quando foram feitas as pazes com a tribo potiguara, habitantes da parte di-
reita do rio Paraíba ao território do Rio Grande do Norte.
Congratulo-me com a expositora pelo poder de síntese demonstrado em sua
palestra, e passarei agora a palavra ao debatedor designado, professor Guilherme
d’Avila Lins.
Nosso debatedor é médico, professor da Universidade Federal da Paraíba na
área de Gastoenterologia, com um currículo bastante apreciado. Sócio do nosso
Instituto, ele é o atual presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica.
É também um historiador dedicado, pesquisador, e tem vários trabalhos sobre a
História da Paraíba.
Com a palavra o consócio Guilherme d’Avila Lins.

Debatedor: GUILHERME GOMES DA SILVEIRA D’AVILA LINS (Sócio


do IHGP e presidente do IPGH)

Agradeço ao Presidente por ter me convidado para substituir a professora


Rosilda Cartaxo, que era a debatedora designada, a qual não pôde comparecer hoje
a esta sessão, por motivo justificado.
Parabenizo a consocia Waldice Porto pela análise, desde os primórdios, dos
fatos que determinaram a conquista da Paraíba. É uma tarefa bastante árdua deba-
ter esse tema, mesmo porque sou de convicção que muitos pontos dessa conquista
precisam ser revistos. Alguns deles ainda estão inéditos.
A obra de base dessa fase é o opúsculo SUMÁRIO DAS ARMADAS, cuja
autoria transitou ao longo do tempo em torno de três nomes, mais particularmente
dois, entre os quais o padre Jerônimo Machado, inicialmente, e depois o padre Si-
mão Travaços, defendido, diante dessa dúvida, pelo padre Serafim Leite, um dos
mais importantes historiadores da língua portuguesa deste século, tanto para Portu-
gal como para o Brasil. A conclusão a que ele chegou então, segundo a qual o autor
daquela crônica seria o padre Simão Travaços, foi calcada na interpretação de uma
frase do texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS, a qual foi mal entendida pelo pa-
dre Serafim Leite. Hoje eu não tenho dúvida que o autor do SUMÁRIO DAS AR-
MADAS é o padre Jerônimo Machado.
Não resta dúvida, porém, que a obra principal sobre a conquista da Paraíba é
o SUMÁRIO DAS ARMADAS, embora ela não cubra toda a história da conquista,
mas os eventos, as situações factuais e marcantes do período decisivo da conquista
estão ali.

101 

 
Está fora do alcance cronológico da redação do SUMÁRIO DAS ARMA-
DAS o Forte de Cabedelo. Noutras palavras, o Forte de Cabedelo não existia na
época em que o autor escreveu o SUMÁRIO DAS ARMADAS. A data da redação
do SUMÁRIO DAS ARMADAS é outra incógnita muito importante porque ela
cobre um período, dependendo do autor pesquisado, que vai desde 1585 ou 87 até
1603, como quer Horácio de Almeida, embora equivocadamente. Está hoje esclare-
cida esta data de redação diante de elementos de crítica interna e externa, e esta crí-
tica fui eu que pude desenvolvê-la. Na parte referente à crítica externa, baseei-me
em frei Vicente do Salvador, que me levou a considerar a data da redação do SU-
MÁRIO DAS ARMADAS como sendo 1594.
Uma das frases mais lapidares que Varnhagen disse a respeito da Paraíba é
exatamente aquela que já foi lembrada aqui, acerca de quando Portugal teria que
decidir se parava, recuava ou avançava. A conquista da Paraíba teria que ser feita,
porque daí dependeria a conquista do Norte: Rio Grande, Ceará, Maranhão e toda
a marcha para o Norte.
Desde 1574 fora criado um clima de beligerância, forçando a criação da Ca-
pitania da Paraíba. Fala-se que foi D. Sebastião, quem produziu um documento
nesse sentido, o qual até agora não foi descoberto. Ninguém tem dúvida que houve
essa criação e certamente deve ter sido nesta mesma data (1574), como consequên-
cia do massacre de Tracunhaém – nossa Guerra de Tróia, Tróia tupiniquim que o-
correu no início de 1574. Aquele documento, entretanto, está ainda por se desco-
brir. A chance maior de se encontrar este documento, ao meu ver, é na Torre do
Tombo. Embora uma eficiente equipe de professores da Universidade Federal da
Paraíba tenha vasculhado, recentemente, o Arquivo Ultramarino, não acredito que
tenha encontrado por lá este documento.
Gostaria de prestar uma homenagem ao meu antecessor na cadeira que ora
ocupo no Instituto, o professor Octacílio Nóbrega de Queiroz. Foi ele quem levan-
tou pela primeira vez uma certa questão, com base em leitura paleográfica, argu-
mentando que não existe o chamado Porto da Casaria. Não havia razão para haver
casaria ou casario na altura do Varadouro das naus, no Sanhauá. É da Canária. É só
ler o texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS. O que está escrito é Canária, e não ca-
sario ou casaria, como escreveu mal Maximiano Lopes Machado, mas não é o autor
do erro, porque ele nunca viu o texto manuscrito do SUMÁRIO DAS ARMADAS.
Quem viu esse texto manuscrito foi José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha,
que trouxe uma cópia de Portugal para o Brasil e na revista ÍRIS, de 1848, publicou

102 

 
este texto e leu erradamente casario em vez de canária. E o nome de Porto da Ca-
nária se justifica porque era por lá que existiam umas canafístulas.
Estou trazendo para este Ciclo não realmente uma reconstituição do cenário
da conquista em si, mas trazendo fatos pertinentes ao momento da conquista e que
são objetos de investigação, os quais precisam ser submetidos à critica histórica pa-
ra se reconstituir a verdade histórica, sem o que não se pode interpretar o fenôme-
no histórico.
Diz-se, com frequência, que Frutuoso Barbosa trouxe, por sua conta, quatro
navios para a conquista da Paraíba. Afirmo que o aprestamento desses navios não
foi por sua conta. As despesas iniciais foram por conta de el-Rei. O grande proble-
ma a respeito de Frutuoso Barbosa é que ele se dispôs a fazer a conquista, como es-
tá muito claro no texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS, mas em nenhum mo-
mento o autor diz que foi às próprias custas dele. Este é um erro comum que se vê
nos livros de história. Basta lembrar que vinha com ele o vigário dessa conquista
com uma côngrua de 400 cruzados.
Também não foi no ano de 79, como diz o autor do SUMÁRIO DAS AR-
MADAS. Ele diz textualmente: creio no ano de 79. O ano de 79 é do alvará que pro-
mete o cargo de capitão da capitania a Frutuoso Barbosa, caso ele a conquistasse.
Aquele era um momento muito crítico para a História do Brasil e de Portugal, pois
era o momento em que estava se finando o cardeal rei naquela briga tremenda sem
lança e sem bala, pelo menos no início, para a sucessão do trono. O cardeal rei ti-
nha um ódio tremendo a Antônio Prior do Crato, não aceitando a Duquesa de Bra-
gança e os candidatos externos, particularmente Felipe de Espanha, que distribuía
prodigamente, à larga mano, as suas compras de adesão aos fidalgos que restavam
de Portugal, pois os que escaparam na tragédia de Alcácer-Kibir, porque quem não
morreu, ficou falido. Diante disto, a conquista da Paraíba por mais importante que
fosse, era um fato de somenos valor no cenário da política do Reino de Portugal.
Foi por isso que Frutuoso Barbosa ficou muito tempo esperando que sua frota de
quatro navios fosse aprestada, frota essa que se compunha de um galeão e três ca-
ravelas (uma das quais afundou na travessia).
Há outra questão a mencionar. Frutuoso Barbosa apesar de estar com o al-
vará desde 1579, só saiu de Portugal em 1581, conforme deixa muito claro Joaquim
Veríssimo Serrão; numa análise perfeita ele diz que a frota saiu de Portugal na pri-
mavera de 1581, e que Frutuoso Barbosa tinha ainda um encargo adicional além de
conquistar a Paraíba. Ele também vinha com o encargo de, de maneira persuasória,

103 

 
comunicar ao Governo Geral do Brasil que deveriam o Governador Geral, todos
os senhorios e todos os capitães da Coroa prestar juramento ao novo rei de Portu-
gal, Felipe de Espanha. Houve uma discussão muito grande naquela época, sobre se
a estratégia seria mandar uma pessoa de maior qualidade, se um nobre, para dizer
isto ao Governador Geral ou mandar uma pessoa de menor qualidade. Estima-se
que a qualidade de Frutuoso Barbosa seria sua abastança em dinheiro. Frutuoso
Barbosa nunca chegou a fazer isso por que arribou na barra do Recife e não quis
entrar no porto, ficando do lado de fora. Veio um vendaval e o levou às Índias de
Castela, ou seja à Cuba, onde, com um mastro quebrado aportou, e só não ficou
preso porque as Índias de Castela pertenciam à Espanha, assim como Portugal.
Consertado o navio, ele voltou a Portugal e no ano seguinte, 1982, veio pela segun-
da vez, e, pela primeira vez, entrou em solo paraibano para a sua conquista. Aí teve
uma grande decepção, com a perda de um filho, salvando-se com a ajuda do refor-
ço do contingente que veio por terra.
Outra questão importante é sobre o Forte do Varadouro, que é o marco ini-
cial e definitivo da nossa conquista. Diz-se que aquele forte é obra de um engenhei-
ro chamado Cristóvão Lins. Não é verdade. Quem fez o traçado do Forte foi o
mestre das obras del-Rei Manoel Fernandes. A expressão mestre das obras del-Rei
corresponde a um cargo que somente o Rei fazia a nomeação, geralmente dada a
uma pessoa nobre especialista em construção civil e militar; não se identificava,
pois, com o que hoje chamamos mestre-de-obras ou pedreiro. Este homem vinha
na expedição especialmente para a construção do Forte do Varadouro, no entanto
foi registrado apenas como pedreiro.
Quem chamou Cristóvão Lins de engenheiro foi Cândido Mendes de Al-
meida, dando-lhe uma conotação brasileira de dono de engenho. Cristóvão Lins foi
senhor de sete engenhos, do Cabo de Santo Agostinho até Porto Calvo, por isso
que era denominado engenheiro, e não porque fosse construtor de coisa nenhuma.
Em nenhum documento histórico está escrito que foi Cristóvão Lins que fez o tra-
çado do Forte do Varadouro ou do Forte de Cabedelo.
O que é mais grave é que a única vez que a palavra planta do forte é citada
no SUMÁRIO DAS ARMADAS o nome de Cristóvão Lins não está citado. Entre-
tanto, a esse respeito existe uma figura citada o tempo todo, que é chamado por
uma série de autores como pedreiro ou um mestre-de-obras: Manoel Fernandes. E
este homem vinha, como já disse, na expedição exclusivamente para a construção
do Forte do Varadouro, e, no entanto, é somente o “pedreiro”.

104 

 
Esse assunto eu esclareço devidamente numa das notas do meu livro ainda
inédito GRAVETOS DE HISTÓRIA.
Há um vazio colonial importante no ano de 1586. O ano de 1586 foi terrível
para a colonização da Paraíba porque houve a chegada de Francisco Morales que
vinha com carta de el-Rei no sentido de ele ocupar a praça forte que haveria de se
construir no lugar da que havia sido queimada, ou seja Forte Velho (São Felipe e
São Tiago). Quando ele chegou aqui com essas cartas, chegou tarde porque o Forte
do Varadouro já estava construído. Aliás a ordem para a construção desse Forte
deveria ser em Cabedelo, se as cartas tivessem chegado a tempo a cidade começaria
lá.
Morales, que era muito ganancioso, achando que seria o capitão do forte ser
construído, e como já havia um construído, resolveu ficar nele. E ficou, expulsando
João Tavares, que era capitão interino no Forte do Varadouro, nessa ocasião.
Examinemos essa situação: nenhum oficial espanhol, por conta própria e
risco, iria destituir, sob sua inteira responsabilidade, um capitão-mor e governador
de uma capitania provido pelo Rei. João Tavares estava ali posto por Martim Lei-
tão, em nome do Rei, mas não pelo Rei. Isso também aconteceu no Forte de Cabe-
delo, em 1597, quando morreu o capitão do forte, cujo nome durante muito tempo
ficou desconhecido. Eu consegui levantar esse nome: chama-se Antônio Gonçalves
Manaya. Descobri esse nome através de uma pista genealógica. Antônio Gonçalves
Manaya era um preador de índios, um aventureiro, plantava mandioca em Ipojuca.
Ele veio para a Paraíba na época em que Feliciano estava fazendo guerra aos poti-
guaras, a chamada Guerra Justa, e aqui ele ganhou um dinheirinho, caindo nas gra-
ças de Feliciano Coelho de Carvalho, sendo indicado como capitão do Forte de
Cabedelo, que só foi fundado em 1589, e não em 1585 como dizem por aí. 1585 foi
o Forte do Varadouro.
Antônio Gonçalves Manaya morreu em 1597 num ataque da frota francesa
com treze navios. Ele tinha para defender o Forte de Cabedelo 20 homens e cinco
canhões, conseguiu repelir o ataque mas morreu. Como prova de reconhecimento,
o governo português concedeu o cargo de capitão de jure e herdade (cargo hereditário)
à filha dele, D. Maria Manaya, que recebeu o título Como ela não podia ser capitão,
seu marido João de Matos Cardoso assumiu o cargo, ficando como administrador
do Forte de Cabedelo É o único caso que conheço na História do Brasil de alguém
passar tanto tempo (37 anos) no cargo de capitão de um forte. Não passou mais
tempo porque os holandeses entraram na Paraíba em 1634.

105 

 
Salientarei agora alguns aspectos de ganho da terra no processo da conquis-
ta. A margem esquerda do rio Paraíba era a grande meta de Frutuoso Barbosa. Fru-
tuoso tem sido tachado por alguns como um mal administrador. Não creio que ela
tenha sido mal administrador. Ele previu a necessidade de expugnar a margem es-
querda do rio Paraíba, que vivia infestada de potiguaras, para poder explorar aquele
lado com canaviais e com engenhos. Até então havia pouquíssimos engenhos à
margem direita do rio Paraíba. Os dois primeiros foram Engenho Tibiri e Santo
André. Entre os seus primeiros estão Tibiri de Cima e Engenho das Barreiras. Mas
o primeiro engenho que surgiu na margem esquerda só foi possível por causa da vi-
são de Frutuoso Barbosa em limpar a área da margem esquerda. Para isso ele teve
que construir um forte, em 1589. Era um forte de madeira, pequeno, no estilo por-
tuguês da época, chamado Forte de Santa Margarida, que ficou mais conhecido
como Forte de Inhobi. Quem fala sobre esse forte, sobre o ponto de vista docu-
mental, é Frei Manoel da Ilha, que cita o texto de uma provisão passada por Frutu-
oso Barbosa aos frades franciscanos, dirigindo-se ao superior dos franciscanos da
época, frei Antônio do Campo Maior, que foi quem ajudou na construção daquele
forte. Terminado este forte, Frutuoso foi para a Ponta do Cabedelo, fazer o Forte
do Cabedelo, que era o seu grande sonho. Ele desativou previamente a Ilha da Res-
tinga, que estava sendo ocupada e colonizada por Manoel de Azevedo, que por
conta disto perdeu a vida.
Para finalizar, quero dizer que nunca houve uma tentativa de colonização da
Paraíba em 1578/1579 na Ilha da Restinga, primeiro porque seria uma falta de vi-
são tremenda alguém tentar fazer uma colonização numa ilha que tem uma grande
parte de mangue, diminuta e sem água; em segundo lugar, em 1578/79 nunca hou-
ve uma fortificação sequer ali. O que aconteceu foi, quase dois séculos mais tarde,
em 1700 e tantos, frei Jaboatão leu um documento fidedigno dos franciscanos do
tempo do capitão João Tavares falando da Ilha da Restinga. Isso não significa obri-
gatoriamente a construção do tal forte. Quem colonizou a Ilha da Restinga foi Ma-
noel de Azevedo, que foi o primeiro ouvidor da capitania da Paraíba (e só se sabe
disso através das denunciações do Santo Ofício). Nesta ocasião ele já era falecido,
tendo morrido na Ilha da Restinga (por causa daquele desartilhamento) nas mãos
dos potiguaras. A Ilha da Restinga teve a princípio o nome de Ilha da Camboa,
nome devido por Manoel de Azevedo ter construído uma camboa ali, onde pescava
para abastecer a pequena Felipéia de Nossa Senhora das Neves. Quem povoou a
Ilha da Restinga foi Manoel de Azevedo e isto está muito claro na petição que sua

106 

 
viúva fez em 1596 a Feliciano Coelho de Carvalho, pedindo a Ilha da Restinga para
oferecer como dote de uma ou duas filhas, invocando os serviços prestados por seu
marido à Coroa de Portugal, tendo ele povoado a Ilha da Restinga. Ora, se foi ele
que a povoou, como é que houve uma povoação prévia? Aí fica claro um erro de
interpretação de frei Jaboatão.
Há vários aspectos desses tempos que precisam ser revistos, mas meu tempo
está esgotado. Era isto o que eu tinha a dizer.

A fala do Presidente:

Na sessão de hoje tivemos focalizado um o tema A CONQUISTA DA PA-


RAÍBA, onde a expositora Waldice Porto e o debatedor Guilherme d’Avila Lins
nos trouxeram algumas novidades esquecidas sobre a conquista e a fundação da
nossa cidade.
O historiador Guilherme d’Avila Lins demorou-se em considerações críticas
sobre alguns equívocos dos nossos historiadores a respeito de datas e fatos da so-
frida e demorada conquista da nossa província.
Ele alinhou cinco ou seis enganos históricos, muitos dos quais continuam se
perpetuando através da nossa historiografia, por falta de empenho dos estudiosos
em aprofundarem suas pesquisas em fontes primárias.
Reclamou ele não só a falta de interesse em aprofundar as pesquisas, como a
dar uma melhor interpretação aos fatos ocorridos durante nossa conquista.
Assim, considero bastante valiosa a contribuição dos participantes desta ses-
são, a qual dou por encerrada, agradecendo a presença de todos.

107 

 
5º Tema:
A CONQUISTA DO SERTÃO PARAIBANO
Expositor: Wilson Nóbrega Seixas

A fala do Presidente:

Estamos retornando para reiniciar nosso Ciclo de Debates, e hoje aprecia-


remos o tema A CONQUISTA DO SERTÃO PARAIBANO. Para compor a me-
sa convido o consócio historiador Wilson Nóbrega Seixas, nosso expositor de hoje;
historiador Guilherme d’Avila Lins, presidente do Instituto Paraibano de Genealo-
gia e Heráldica; acadêmico Joacil de Britto Pereira, presidente da Academia Parai-
bana de Letras.
A pessoa indicada para tratar do tema é, sem dúvida, nosso consócio Wilson
Seixas. Apesar dele ser formado em Odontologia, dedicou-se à pesquisa histórica. É
membro do Instituto de Genealogia e Heráldica, recebeu um título de Menção
Honrosa pelos relevantes serviços prestados à cultura paraibana e nós do Instituto
Histórico o consideramos o nosso mais importante pesquisador. Entre seus traba-
lhos importantes vale citar O VELHO ARRAIAL DE PIRANHAS, VIAGEM
ATRAVÉS DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA, OS PORDEUS DE SÃO JOÃO
DO RIO DO PEIXE, SANTA CASA DE MISERICÓRDIA, tudo isso elaborado
em cima de fontes primaríssimas.
Temos certeza que sua exposição de hoje nos trará novidades e a elucidação
de alguns pontos controvertidos da história da conquista do sertão paraibano.
Com a palavra o confrade Wilson Seixas.

Expositor: WILSON NÓBREGA SEIXAS (Historiador, sócio do IHGP do Ins-


tituto Paraibano de Genealogia e Heráldica, com importantes trabalhos publicados)

Aos 21 de julho de 1962, na oportunidade em que se comemorava a passa-


gem do centenário da fundação da cidade de Pombal, não podíamos absolutamente
deixar, na condição de filho nascido e criado naquele tradicional burgo sertanejo, de
levar a minha modesta e espontânea contribuição ao transcurso de tão importante e
significativo evento histórico. E o fizemos, sem qualquer vaidade ou veleidade pes-
soal, com o lançamento do livro O VELHO ARRAIAL DE PIRANHAS (POM-
BAL), no qual procuramos focalizar os principais acontecimentos da história da-
108 

 
quele legendário município e, aliás, o primeiro núcleo populacional que se formou
nos Sertões da Paraíba.
Para escrever aquele livro, tivemos naturalmente que nos louvar nos autores
que anteriormente trataram do assunto. Além disto, recorremos igualmente a outras
fontes primárias, inclusive aos livros de notas e do judicial, ainda existentes no Car-
tório “Coronel João Queiroga”, da velha e tradicional comarca pombalense, nos
quais colhemos os elementos necessários à elaboração do trabalho em apreço.
Principiante, ainda, àquela época, nos estudos e pesquisas históricas, não
podíamos apresentar um trabalho melhor e mais aprofundado sobre as origens da
comuna sertaneja, pelo menos no que tange ao problema da conquista e coloniza-
ção do interior da Paraíba, tema sobre o qual fomos convidados a expor neste Ciclo
de Debates, que, em tão boa hora, promove a Diretoria do Instituto Histórico e
Geográfico Paraibano, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Bra-
sil.

A conquista do Sertão
A história dos primitivos sertanistas baianos que devassaram e ocuparam os
ínvios sertões da Paraíba não está ainda convenientemente estudada. Talvez pela
escassez de fontes informativas, ou mesmo pela falta de um serviço de catalogação
através do qual pudéssemos estudar, discutir e decidir a respeito de alguns pontos
duvidosos ou desconhecidos para o estudo da historiografia regional, não possui
ainda hoje – forçoso é confessar – um trabalho completo no tocante às entradas
que, em sua expansão colonizadora, alargaram e fixaram as fronteiras de nosso Es-
tado, desde a Capital até o extremo oeste da Capitania da Paraíba.
Já dizia o eminente historiador cearense Capistrano de Abreu que “este fato
não foi ainda levado na devida consideração em nossa História e, entretanto, é um
dos mais interessantes de toda ela”. As entradas da Paraíba, não obstante os traba-
lhos de Maximiano Lopes Machado, Irineu Jóffily, Coriolano de Medeiros, João de
Lyra Tavares, Celso Mariz, Irineu Ferreira Pinto, Horácio de Almeida, Elpídio de
Almeida e tantos outros, precisam ter a sua História. Uma História com os requisi-
tos indispensáveis de autenticidade, vazada nos moldes de uma segura orientação,
com documentos próprios, que, embora realmente escassos durante o período que
medeia entre o final da guerra holandesa (1654) e a Guerra dos Mascates (1710),
não são todavia tão difíceis de encontrar quanto parece ao investigador interessado
na descoberta de novas documentações, com vistas ao preenchimento de tais lacu-
nas no conhecimento da nossa História colonial.
109 

 
Ocupado o vale do Paraíba, estreito e não muito extenso, era natural que a
cultura da cana-de-açúcar se desenvolvesse através de pequenos rios, às margens
dos quais se levantaram diversos engenhos. Ali, com efeito, se estabeleceram alguns
colonos, ricos e abastados, antes e depois das guerras holandesas.
A agricultura, aliás, começou pelo litoral, ninguém duvida, pela simples razão
de que foi nele que principiaram a conquista e o povoamento da Capitania da Para-
íba.
Segundo Elias Herckmans, em sua DESCRIÇÃO GERAL DA CAPITA-
NIA DA PARAÍBA, a ocupação do território paraibano, na época do domínio ho-
landês, iniciou-se no litoral e chegou apenas a Cupaoba, região então considerada a
mais afastada da zona litorânea. Ainda de acordo com o autor, “os limites da Capi-
tania, para o ocidente, estendia-se pelo sertão adentro, até onde os moradores a
quisessem povoar”.
Referindo-se ao assunto, Maximiano Lopes Machado, em sua HISTÓRIA
DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA, assim escreveu:

A conquista holandesa satisfez-se com o que os portugueses tinham antes explorado, não
se animando a dar um passo mais para o Interior. Ficou onde havíamos parado por força
das circunstâncias.

Com a restauração do domínio português, na segunda metade do século


XVII, é que, na verdade, começou a penetração para o interior paraibano. E a figu-
ra de sertanista que se impõe como o primeiro a pisar o semi-árido paraibano foi
Antônio de Oliveira Ledo, o qual, procedente da Bahia, atravessou o São Francisco
e, seguindo o curso do Moxotó, um dos principais afluentes desse rio da unidade
nacional, entrou na Paraíba através do rio Sucuru e prosseguiu pelo rio Paraíba até
atingir a região do Boqueirão. Ali fundou uma aldeia que recebeu este nome e se es-
tabeleceu, dando os primeiros passos para o povoamento da região do Cariri Velho.
Governava a Capitania da Paraíba Alexandre de Sousa Azevedo, que tomou
posse em 1678. Ao inteirar-se das atividades colonizadoras do intrépido sertanista
baiano, Azevedo convidou Antônio de Oliveira Ledo para fazer uma entrada no
sertão, em missão de reconhecimento.
Afirma Elpídio de Almeida em sua HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE
que

não se deixou Antônio de Oliveira Ledo estagnar-se na aldeia que acabara de fundar.

110 

 
Espírito aventuroso, saiu marginando o Paraíba, passou-se para o Taperoá, desceu a
Borborema, estacionou no lugar onde se expande a cidade de Patos.

Na verdade, foi essa a primeira entrada empreendida na Paraíba por inspira-


ção governamental. Fê-la o sertanista Antônio de Oliveira Ledo e, por isso, foi a-
graciado com o posto de capitão de infantaria da Ordenança do sertão da Paraíba.
A carta-patente foi assinada pelo então governador geral do Brasil, Roque da Costa
Barreto, a 6 de fevereiro de 1682. Informa ainda Elpídio de Almeida:

Não há certeza quanto ao ano em que faleceu Antônio de Oliveira Ledo. É de supor-se
tenha sido em 1688, pois, nesse ano, foi criado novo posto, de mais alta categoria, o de ca-
pitão-mor das fronteiras das Piranhas, Cariris e Piancós dos sertões da Capitania da Pa-
raíba, e nele provido Constantino de Oliveira Ledo. Assinou a patente o governador geral
do Brasil, Matias da Cunha. No ano da nomeação, já haviam os tapuias se revoltado
contra os invasores de seus domínios, irrompendo a sublevação na Capitania do Rio
Grande do Norte. Passou ela à História como Guerra dos Bárbaros ou Confederação dos
Cariris.

Continua ainda Elpídio de Almeida:

Cerca de dez anos permaneceu Antônio de Oliveira Ledo no posto de capitão das frontei-
ras de Piranhas e Piancó (sic). Em 1692, aparece investido no dito posto o seu sobrinho
Constantino de Oliveira Ledo.

No entanto, certidão datada de 20 de janeiro de 1710 e assinada pelo próprio


capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, irmão de Constantino, documento este e-
xistente no Arquivo Histórico e Ultramarino de Lisboa, e de cuja cópia dispomos,
mostra taxativamente o seguinte:

Certifico que, levantando-se o gentio em fevereiro de 87 (1687), em todos estes sertões da


Paraíba, e nos do Rio Grande do Norte e Ceará, matando muita gente, e destruindo mui-
tas fazendas de gados vacuns e cavalares, e mais criações, queimando muitas casas, ficando
senhor de todas as fazendas, e para atalhar e castigar a Capitania que então a governava,
Antônio da Silva Barbosa, ao capitão-mor André Pereira de Moura, com um troço de
soldados a este sertão, incorporando-se com meu irmão Constantino de Oliveira Ledo, que
então ocupava o posto de capitão-mor destes sertões, incorporados que foram, marcharam
com trezentos homens ao rio das Piranhas, onde, olhando o estrago que nas fazendas tinha
feito o gentio, se puseram a seguir uma grande trilha, e no fim de quatro dias lhe deram al-
cance entre umas grandes serras, e fechadas caatingas, e pendenciando com ele largo tempo
lhe mataram sessenta e tantos homens, com muitos feridos e algumas presas, e dos nossos
também houve bastantes feridos por cuja causa se resolveram os cabos a voltar para o po-
voado, onde na volta, ao cabo de alguns dias de jornada, nos assaltou o gentio com muito

111 

 
grande poder, e pendenciando com ele largo tempo nos matou onze homens e feriu muitos,
havendo nos seus também bastante estrago em toda esta jornada que será de cento e tantas
léguas; acompanhou esta tropa o licenciado Francisco Ferreira, sacerdote do hábito de São
Pedro, assistindo aos enfermos, e aos valentes com os sacramentos necessários, esforçando a
uns com valor e animando a outros com a boa doutrina, atalhando a muitas discórdias, o
que tudo fez de seu bom zelo sem ser obrigado de pessoa alguma, nem de interesse algum
que da Real Fazenda tivesse, com que o julgo digno de toda honra e mercê, que Sua Real
Majestade fosse servido fazer-lhe; faça todo o referido na verdade e o juro aos Santos E-
vangelhos e, por me ser pedida a presente, passei por mim assinada, e com o selo de minhas
armas, de que uso. Sertão dos Cariris, 20 de janeiro de 710 anos. Teodósio de Oli-
veira Ledo.

Como se vê, este importantíssimo documento coevo põe por terra, de uma
vez por todas, as afirmativas daqueles dois ilustres historiadores paraibanos, que, no
entanto, continuam a merecer todo o nosso respeito e consideração, pelos relevan-
tes serviços que prestaram à Historiografia paraibana.
Sabemos que Constantino de Oliveira Ledo teve destacada e decisiva atua-
ção na luta contra os índios tapuias de todos os sertões da Paraíba. Numa das pele-
jas ia perdendo a vida. Salvou-o do perigo o mestre de campo Domingos Jorge Ve-
lho, “que o achou metido numa cerca, atacado por uma infinidade de tapuias, ma-
tando muitos deles”.
Constantino de Oliveira Ledo faleceu em começos de 1694. Com sua morte,
não foi o posto de capitão-mor das fronteiras das Piranhas, Cariris e Piancó modifi-
cado ou abolido. Passou a exercê-lo um irmão de Constantino, Teodósio de Olivei-
ra Ledo, de cujos feitos e personalidade trataremos mais adiante.
A pesquisa que realizamos anos atrás, nos arquivos do Departamento de
História da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba, a que
tivemos acesso graças à gentileza e prestimosidade do ilustre professor José Pedro
Nicodemos, então chefe do Departamento de História daquela conceituada escola
do Ensino Superior da Paraíba, nos permitiu proceder à leitura paleográfica de uma
infinidade de documentos e cópias xerográficas extraídas dos manuscritos do Ar-
quivo Histórico Ultramarino, em Lisboa.
Nesses documentos, encontramos o registro de uma carta do capitão-mor
Teodósio de Oliveira Ledo, escrita de próprio punho, e datada de 06 de agosto de
1698, e dirigida ao governador da Capitania da Paraíba, Manuel Soares de Alberga-
ria. Nessa carta, Teodósio relatava a sua viagem ao sertão da Paraíba e a vitória (e o
bom sucesso) obtida na campanha contra os índios tapuias, que ainda remanesciam
no hinterland paraibano, e que não se conformavam em ver suas terras invadidas e

112 

 
ocupadas por elementos estranhos aos seus costumes e padrões de vida.
De quantos autores temos lido sobre o episódio da conquista e desbrava-
mento do território sertanejo paraibano, apenas em Irineu Jóffily, nas NOTAS
SOBRE A PARAÍBA, encontramos o registro de uma carta enviada ao rei de Por-
tugal e datada de 14 de maio de 1699, na qual o governador da Capitania da Paraí-
ba, Manuel Soares de Albergaria, informou a Sua Majestade ter mandado ao sertão
uma entrada, a fim de promover o povoamento dos sertões daquele distrito, “(...)
despovoados das invasoens e de estrago que os annos passados, fizerão nelles o
gentio Tapuya (...)”. Coube o comando dessa entrada ao capitão-mor Teodósio de
Oliveira Ledo, a quem o mesmo governador incumbiu inclusive de fundar no ser-
tão das Piranhas um arraial, que servisse de segurança e tranqüilidade aos morado-
res, em qualquer emergência.
Aquela carta a que se refere Irineu Jóffily, transcreveu-a Irineu Ferreira Pinto
em seu livro DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA, sem fazer
qualquer comentário a respeito, parecendo que o referido autor já tivesse conheci-
mento dessa carta a que acrescentou outro documento, que não era nem mais nem
menos do que a que escrevera Teodósio de Oliveira Ledo. Carta, aliás, que escapou
naturalmente na cópia de que se serviu o consagrado historiador campinense.
Uma análise interpretativa nos permite esclarecer algumas dúvidas que ainda
hoje pairam a respeito das nossas entradas a que seguiu a permanência do intrépido
sertanista, o descobridor de nossas terras, que também procurava, nas longínquas
paragens, estabelecer os seus currais de gado, visando ao aumento dos dízimos à
Fazenda Real, para fazer face às despesas decorrentes com os gastos aplicados nos
mais diversos pontos do território da Capitania da Paraíba.

Teodósio de Oliveira Ledo


Ao nosso ver, foi Teodósio de Oliveira Ledo o pioneiro do entradismo pa-
raibano e, sem dúvida alguma, também, o primeiro a estabelecer um elo de comu-
nicação territorial, ligando a nossa capital ao extremo oeste do nosso Estado.
Teodósio, procedente da Bahia ou das margens do São Francisco, não che-
gou sozinho aos sertões da Paraíba. Veio nas últimas décadas do século XVII na
companhia de Custódio de Oliveira Ledo, seu pai, e na de Constantino de Oliveira
Ledo, seu irmão, a quem viria substituir em 1694, no posto de capitão-mor das Pi-
ranhas, Cariris e Piancós, conforme carta-patente de 3 de novembro daquele ano,
assinada pelo governador geral do Brasil, dom João de Lencastre, que o fazia em
consideração a seus merecimentos e qualidades militares, além da experiência que
113 

 
tinha na guerra e nos sertões.
A carta-patente pela qual fora nomeado para o dito posto estava expressa
nos seguintes termos:

Porquanto pelo falecimento de Constantino de Oliveira (Ledo) ficou vago o posto de capi-
tão-mor das fronteiras das Piranhas, Cariris e Piancós, e convém ao serviço de Sua Majes-
tade a conservação dos moradores de todo aquele Sertão e seus distritos provê-lo em pessoas
de grande valor, prática militar e experiência da guerra dos bárbaros e sertões, concorreram
todas essas qualidades e suposições na de Teodósio de Oliveira Ledo, irmão do mesmo
Constantino de Oliveira Ledo (...) hei por bem de o eleger e nomear capitão-mor do dito
sertão e distritos das Piranhas, Cariris e Piancós, de que o hei por metido de posse e com
ele haverá as honras, graças, franquesas, privilégios e jurisdição que tinha o dito Constan-
tino de Oliveira, seu irmão, e costumam ter todos os capitães-mores fronteiros aos bárba-
ros. Pelo que ordeno ao capitão-mor da Capitania da Paraíba o tenha assim entendido e
lhe faça dar o juramento na Câmara da cidade.

Saindo da Bahia, após receber sua carta-patente, naquele mesmo ano de


1694, Teodósio de Oliveira Ledo dirigiu-se à cidade da Paraíba a fim de se apresen-
tar ao governador da Capitania e, ao mesmo tempo, registrar na Câmara a patente
de capitão-mor das Piranhas, Cariris e Piancós.
Depois de visitar o governador Manuel Nunes Leitão, a fim de apresentar e
registrar esses documentos, Teodósio foi aos sertões e regressou à Capital várias
vezes, sendo que, em 1695, voltou à cidade da Paraíba a fim de entregar a esse
mesmo governador as cartas de dom João de Lencastre, governador geral do Brasil.
De acordo com Maximiano Lopes Machado, em sua HISTÓRIA DA
PROVÍNCIA DA PARAÍBA, em 1697, quando apenas inaugurava seu governo,
Manuel Soares de Albergaria, apareceu-lhe Teodósio de Oliveira Ledo (no princípio
de dezembro daquele mesmo ano de 1697) e o informava sobre a situação precária
do sertão da Paraíba, principalmente na região do Piancó, pedindo-lhe então provi-
dências contra a devastação que faziam os índios tapuias nas propriedades e gados
dos moradores. “E sendo preciso garanti-los e fomentar a indústria pastoril já tão
desenvolvida, requeria em nome deles que os auxiliasse com alguma gente de guerra
e munições, lembrando-lhe a necessidade da fundação de um arraial em Piranhas,
que o servisse de ponto de apoio nos moradores em qualquer emergência”.
Podemos acrescentar que o governador Manuel Soares de Albergaria, aten-
dendo ao pedido de Teodósio, deu-lhe razoavelmente tudo aquilo de que necessita-
va para o empreendimento, consistindo em 40 índios cariris, 16 índios mansos reti-
rados das aldeias e 10 soldados. Além disto, o governador da Capitania lhe forneceu

114 

 
4 arrobas de pólvora e balas, 40 alqueires de farinha e carnes para a viagem.
Conforme divulgou o jornal O NORTE, em sua edição de 1º de outubro de
1997, através de entrevista por nós concedida ao ilustre pesquisador, jornalista e e-
ditor Evandro Nóbrega, o entradista Teodósio de Oliveira Ledo e seus comanda-
dos partiram da Capital rumo ao interior “nos primeiros dias de janeiro do ano de
1698”, indo com ele também um religioso de Santo Antônio, encarregado da con-
versão do gentio. Enfrentando muitas dificuldades, ele chegou ao arraial de Pau
Ferrado nos primeiros de abril daquele mesmo ano. Portanto, da Capital até chegar
ao arraial de Pau Ferrado, havia decorrido cerca de 90 dias. Após três dias de sua
chegada, veio-lhe um aviso de seus índios, no sentido de que, a três léguas do arrai-
al, encontravam-se 30 ou 40 tapuias bravos, os quais desejavam fazer as pazes, pe-
dindo-lhe também socorro contra outros inimigos.
Teodósio aceitou fazer as pazes com esses indígenas bravios, com a obriga-
ção de que deixassem conduzir suas mulheres para o arraial, debaixo de armas. E,
daí a 23 dias, chegaram esses índios, com todo o seu mulherio, ao arraial. Feito isto,
Teodósio marchou para novos combates, em companhia de todo o seu gentio e
mais os índios com os quais acabava de concertar a paz. Assim, depois de muitas
horas de viagem, a pé e a cavalo, de noite e de dia, alcançara essa aldeia de índios
Coremas, os quais lhe disseram, através de línguas, que queriam ser leais e amigos
del-rei. Isto, como vimos, lhes foi concedido pelo guerreiro branco.
Feitas as pazes com os Curemas, o incansável sertanista Teodósio seguiu
com seu gentio e alimárias, armas e tudo o mais, para novas investidas, contra os
indígenas inimigos. Ao cabo de 18 dias, chegou ele

a uma planta do inimigo, de onde se havia retirado, pondo-me em seu seguimento. Dali a
seis dias, me vieram novas dos descobridores (os sapadores), isto é, aqueles que iam adiante
para fazer o reconhecimento do terreno) em como o inimigo tinha voltado do rumo em que
ia a outro mais vizinho a mim. Marchei com todo cuidado e o outro dia pelas oito horas
da tarde, estando alojado no rio chamado Apodi, me vieram novas dos descobridores, tinha
chegado a um rancho donde se havia levantado o inimigo aquela manhã; na mesma hora,
me pus em marcha e cheguei pelas oito horas da noite ao dito rancho e dali, mandando des-
cobrir coisa de légua e meia, estando alojados, vizinhando mais a eles, deixei ficar as mu-
nições com dez homens de sua guarda, e ao romper do dia dei sobre eles com toda disposi-
ção possível, tendo-me ele o encontro com valor, porém quis Deus que desse V. S. o quanto
de alcançar a vitória, durando a peleja até as 9 horas do dia, e ela acabada se acharem, da
parte do inimigo, 32 mortos e 72 presas, e muita quantidade de feridos e, da nossa parte,
não perigou nenhum, e se me feriram seis homens; e das presas mandei matar muitas, por
serem incapazes; e só digo que, em o dia de Santa Justa e Rufina, em uma quinta-feira,
vencem V. S. duas batalhas, esta de presente referida e as pazes que aqui se confirmaram,

115 

 
pelos inimizar com as mais nações; e hoje não lhe fica lugar buscarem por amigos, mais
que aos brancos; e, ao depois de toda a batalha, vindo-me retirando, com três dias de via-
gem, me vieram seguindo os inimigos e andando o meu gentio à caça, pela necessidade em
que vinha apanhando, os fora do troféu me mataram quatro homens que quis me por em
seu seguimento, não foi possível por vir falto de mantimentos e somente lhe dei uma avan-
çada, em que lhe feri alguns homens. E a 27 de julho cheguei a este arraial (Pinhancó,
isto é, Piancó). Ao ajudante Manoel da Câmara, entreguei os quintos de El-Rei meu
Senhor e ele fará a entrega a V. S. E aqui fico nesta campanha para o que V. S. me or-
denar, a quem Deus guarde. Pinhancó (Piancó) de agosto 6 de 698 anos. Humilde sol-
dado de V. S. Teodósio de Oliveira.

Portanto, muitos dias e léguas depois de Teodósio ter alcançado o interior,


após deixar a capital, seus descobridores toparam-se com a indiada raivosa e Teo-
dósio deu sobre eles com todo vigor. A vitória, como disse, demorou cerca de nove
horas, tão renhido era o combate. Mas, acalmada as coisas, mandou executar alguns
dos 72 prisioneiros indígenas, por considerá-los “inválidos”.
Esses e outros sucessos foram relatados por Teodósio ao governador Alber-
garia, através de carta datada de 6 de agosto de 1698. E disto tudo o Conselho Ul-
tramarino de Lisboa, órgão político e administrativo da Coroa portuguesa, somente
tomou conhecimento através da carta que enviou ao rei de Portugal o governador
Albergaria, em data de 14 de maio de 1699. O Conselho Ultramarino, sob a presi-
dência do Conde Alvor, deu parecer, endereçado ao rei, em 3 de setembro de 1699,
sendo o despacho do rei no dia 11 de setembro do mesmo ano. O despacho do
Conselho inclusive censurou acerbamente o procedimento de Teodósio por haver
mandado executar os indígenas.
Ainda sobre tudo isto, pode-se dizer o seguinte. Não se limitara o governa-
dor Albergaria apenas ao envio de sua carta a el-rei. Juntou a esta a carta que rece-
bera do capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, na qual contava o bom sucesso
que ele tivera na guerra contra os tapuias que vinham hostilizando os moradores
dos sertões das Piranhas e que em nenhuma parte se davam seguros de seus ataques
e perseguições. O Conselho Ultramarino, na época, declarou que está Sua Majesta-
de “muito grato ao bom sucesso que teve na campanha contra os índios, nossos i-
nimigos”, estranhando entretanto o modo pelo qual o capitão-mor Teodósio de O-
liveira Ledo tratou “os infelizes tapuias que tomou na guerra, não tripudiando a ma-
tar muitos deles a sangue frio”, porque os julgara incapazes do serviço de Sua Ma-
jestade.
Acrescentava ainda o Conselho Ultramarino que o mau exemplo que se dava
na guerra podia comprometer o problema da paz para o qual estava empenhado el-

116 

 
rei, a fim de que os sertões se tornassem a povoar de moradores, no sentido de de-
senvolver a indústria pastoril e a lavoura. Entendia o Conselho, outrossim, através
da Carta Régia de 16 de dezembro de 1699, que outro deveria ser o tratamento dis-
pensado aos tapuias, de sorte que o procedimento do capitão-mor Teodósio era
digno de uma exemplar castigo. Com relação ao novo arraial a ser fundado, era o
Conselho de parecer que se deveria aprovar a iniciativa, “o que nesta parte assen-
tou, pois se entende que se escolheria o que tivesse por mais conveniente”.
Outra coisa que devemos ressaltar nesse documento histórico assinado por
Teodósio de Oliveira Ledo é que se pode comprovar definitivamente aquilo de que
já se desconfiava há muito: o Piancó histórico não corresponde nem de longe ao
município ou cidade de Piancó atual. Piancó era toda a área que logo depois seria
polarizada pela povoação que tinha o mesmo nome e que mais tarde viria a ser a vi-
la e, ainda depois, cidade de Pombal.
O topônimo Piancó, como se vê, não se refere apenas ao nome do rio. É
também o nome oficial da terra. Não se justifica a afirmativa do ilustre historiador
Coriolano de Medeiros, atribuindo ao coronel Manuel de Araújo Carvalho a funda-
ção do atual município do Piancó. No tempo da ocupação e povoamento do semi-
árido paraibano, não foi o município que tem hoje este nome o teatro das façanhas
do capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, bem como do coronel Araújo, mas o
antigo arraial cujo nome era Piancó, que depois se chamou povoação de Nossa Se-
nhora do Bom Sucesso de Piancó e, finalmente, vila e cidade de Pombal.
O Piancó foi, na verdade, a primeira localidade batizada oficialmente com a
categoria de povoação. A jurisdição desta povoação abrangia todo o sertão das Pi-
ranhas, cujos limites se estendiam desde o sertão do Cariri Velho, na Paraíba, até a
vila do Icó e o sertão do Jaguaribe, no Ceará; desde o sertão do Pajeú, em Pernam-
buco, até o vale do Jucurutu, no Rio Grande do Norte. Era muito vasto o território
da antiga povoação do Piancó, como se vê do documento que abaixo transcreve-
mos, extraído do acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, o qual traz a
divisão e limites da antiga povoação do Piancó, bem como seus distritos, extremas
e compreensão:

Esta povoação se divide, pela parte do nascente, com o sertão do Cariri, cuja divisão lhe
faz a serra chamada Borborema, e, da parte do poente, com o sertão do Jaguaribe e vila do
Icó, e tem de distância, de uma a outra extrema, pouco mais ou menos cinqüenta léguas;
ficando-lhe no meio, com pouca diferença, a dita Povoação de que se trata, por detrás da
qual, da parte do poente, corre o rio chamado Piancó, que tem seu nascimento na mesma
serra da Borborema, e em distância de meia légua, abaixo da povoação, se une com o rio

117 

 
Piranhas, o qual também nasce na serra da Borborema, e corre buscando quase o nascen-
te, e faz barra no mar, donde lhe chama Açu, distrito do Rio Grande, cidade do Natal,
cuja Capitania se divide do distrito dessa povoação em uma fazenda de gados, à beira do
rio Piranhas, chamada Jucurutu, da qual a esta Povoação distam vinte e cinco léguas, e da
mesma Povoação, buscando o sul, pelo rio Piancó acima, até o sertão do Pajeú, nessa
mesma ribeira, em distância de trinta léguas, extrema o distrito desta mesma Povoação,
capitania da cidade da Paraíba, com a capitania de Pernambuco. Na compreensão deste
distrito, correm vários riachos, abundantes de água pelo inverno, a saber: rio do Peixe,
Espinharas, Sabugi, Seridó e Riacho dos Porcos, que são os principais, e nenhum destes é
navegável, porque, pelo verão, secam tanto, que só conservam poços em alguns lugares, e em
outros apenas águas de cacimbas. Nenhum desses riachos tem nascimento porque só se fer-
tilizam, para correr, com águas de chuvas, e correndo, vão todos desaguar no rio acima di-
to, Piranhas.

Crescia consideravelmente a povoação do Piancó. Novos colonos aparece-


ram, vindos de todos os quadrantes, adquirindo terras para a criação de gado. E,
como sucede em tais ocasiões, à terra conquistada afluía grande porção de gente
desocupada e desordeira, avultando o número de crimes e a corrupção de costu-
mes, sendo por isto necessária a instituição de um Julgado, com jurisdição civil e
criminal em todo o território da povoação. O então governador da Paraíba, João da
Maia da Gama, em carta dirigida a Sua Majestade, em 1710, informava que os ser-
tões desta Capitania “achavão-se muito povoados de gente, fazendas de gado, e en-
tre muitos sítios se acha o das Piranhas, Pahó e Careris, com povoação, capela e ca-
pelão, que lhe administra os sacramentos; distão esses logares cincoenta, sessenta e
oitenta légoas desta praça (...)”.
Pedia o governador então a el-rei que fossem criados dois Julgados nos ser-
tões da Paraíba. Para o Julgado do Piancó foi nomeado juiz, pelo governador da
Paraíba já citado, João da Maia da Gama (que tomou posse em 1708), o coronel
Manuel de Araújo Carvalho, empossado no cargo em 1711. O Cartório do 1º Ofí-
cio da Comarca de Pombal não possui o primeiro Livro de Notas do Julgado de Pi-
ancó (1711). Tem o segundo, o de 1719, quando o juiz ordinário não era mais o co-
ronel Araújo.
O coronel Araújo era casado com a paraibana Ana da Fonseca Gondim.
Deste casal nasceram dois filhos, um dos quais, Manuel de Araújo de Carvalho
Gondim, formou-se em cânones pela Universidade de Coimbra, e, quando regres-
sou ao Brasil, foi nomeado deão da catedral de Olinda.
Não se sabe quanto tempo demorou o coronel Araújo nos sertões da Paraí-
ba. Certo é que, depois de concluída sua administração à frente do Julgado de Pian-
có, foi residir no rio do Peixe, onde possuía duas propriedades, denominadas Olho

118 

 
d’Água e Brejo, adquiridas por arrendamento à Casa da Torre da Bahia.
Como já tivemos oportunidade de comentar, noutro trabalho, podemos a-
firmar, sem medo de contestação, que, antes de uma entrada genuinamente parai-
bana, partindo do litoral e percorrendo a região que vai desde a foz do Paraíba aos
contrafortes de Santa Cantarina e Bongá (no extremo oeste do nosso território), os
campos dos jenipapos, coremas, panatis, pegas e icós pequenos já estavam devassa-
dos pela famosa Casa da Torre.
Foi ela sem dúvida quem primeiro abriu caminho nos descampados e aci-
dentes da terra ignorada e misteriosa. Foi ela a primeira também a ocupar as terras
do Piancó, Piranhas de Cima e Rio do Peixe, a partir de 1674, quando o coronel
Francisco Dias d’Ávila, transpondo o rio São Francisco, subiu o seu afluente Pajeú,
daí se comunicando com a bacia do Piranhas, na Paraíba.
Outra via de penetração da Casa da Torre teve como princípio a estrada de
comunicação ligando a Bahia à região do Piauí, e foi justamente aquela em que o
coronel d’Ávila, margeando o rio São Francisco, seguiu a direção norte até chegar
ao distrito de Jacobina, aliás uma das passagens mais frequentadas por antigos ser-
tanistas, que se comunicavam com aqueles dois Estados. Por ali é que se abria en-
trada para a descida do gado dos sertões piauienses para a Bahia, empresa que con-
tou, além da Casa da Torre, com a ajuda do sertanista Domingos Afonso Sertão,
missionários e índios de Juazeiro e Pontal.
Partindo dos sertões do Piauí, tomou a Casa da Torre rumo oposto às suas
primeiras expedições e, imprimindo outro roteiro, atravessou a chapada do Araripe,
descendo o rio Salgado até chegar ao Icó, daí se comunicando com as Piranhas de
Cima e Rio do Peixe. Foi certamente uma das rotas de penetração da Casa da Tor-
re, por onde, durante anos, importante parte do território paraibano começou a re-
ceber as primeiras sementes de gado com que se fundaram as primeiras fazendas e
currais.
Foi a fazenda de gado que realmente fixou o homem no sertão da Paraíba,
enquanto determinava a política de desbravamento e penetração do progresso “ao
coração da terra”, afastando o colonizador da beira do mar, deixando de arranhar as
praias feito caranguejo, na pitoresca comparação de frei Vicente de Salvador.
O novo homem paraibano, surgido dos escombros das guerras holandesas,
em 1654, sentia-se “um povo e um povo de heróis”, mas estava economicamente
acabado. Enquanto muitos recompunham, como antigos senhores de engenhos que
eram, as suas fábricas de açúcar e começaram a levantar os canaviais na várzea do

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Paraíba, outros, os mais modestos, porém mais afoitos, optaram pela pecuária, le-
vando o gado para o sertão, estabelecendo aí a criação, embora que tivessem daí
por diante de sustentar lutas terríveis com os índios tapuias, que se julgavam, e e-
ram de fato, os legítimos e possuidores das ricas terras do sertão paraibano.
Segundo Nelson Werneck Sodré, “foi a criação de gado que nos deu a se-
gunda dimensão da terra brasileira”. E Tereza Patrone acrescenta que foi a pecuária
que deu ao homem colonial a noção do valor econômico das áreas que não apre-
sentavam riquezas minerais e que não se prestavam para outras atividades comerci-
ais.
Havia no lado baiano do rio São Francisco a opulenta Casa da Torre, funda-
da por Garcia d’Ávila, e que se tornou com o tempo o maior feudo do Nordeste, e
tinha como principal objetivo a criação de gado, de que possuía extensíssimas fa-
zendas. A Casa da Torre, seu imenso Castelo, “único em tipo inteiramente feudal,
desde o espírito à construção, em terras brasileiras, até hoje deixa ainda ver as suas
ruínas, seus calabouços, suas ameias destroçadas, como símbolo de um passado que
ainda pesa”, no dizer de Pedro Calmon.
Capistrano de Abreu diz bem que as terras dos Dias d’Ávila cobriam mais de
70 léguas entre São Francisco e Parnaíba. Todavia, carece de fundamento a afirma-
tiva do grande mestre de CAMINHOS ANTIGOS E POVOAMENTO DO
BRASIL, quando assegurava que a Casa da Torre, “para adquirir as imensas propri-
edades, gastara apenas papel e tinta em requerimento de sesmarias”. Pedimos vênia
para discordar do eminente historiador brasileiro. Se realmente alguns dos repre-
sentantes da Casa da Torre preferiam viver perto de seus engenhos e no aconchego
e comodismo do Recôncavo, outros, os mais destemidos e afoitos, optaram pelo
trabalho da conquista, varando os sertões desconhecidos e misteriosos, com o obje-
tivo de aumentar cada vez mais seus domínios territoriais.
Sobre o assunto, cremos que melhor informado andou o autor de BAN-
DEIRANTES E SERTANISTAS BAIANOS, Borges de Barros, que, referindo-se
ao coronel Francisco Dias d’Ávila, o segundo deste nome, disse que não foi este,
como querem alguns historiadores, “um inerte, que vivia na capital, a auferir as
rendas dos bens deixados pelo avô”. E, ainda em abono da verdade, tomemos o
depoimento do padre Martim de Nantes, missionário capuchinho e evangelizador
dos índios cariris, quando, escrevendo sua preciosa obra RÉLATION SUCCINTE,
afirmou que o sertanista baiano Francisco Dias d’Ávila, durante um encontro que
com este mantivera no rio São Francisco, lhe declarou que se achava ausente da

120 

 
Casa da Torre há mais de quatro anos. Ou, no original francês:

J’ai éte absent de ma Maison de la Torre près de quatre ans, vivant sur le fleuve avec be-
aucoup d’incommodit.

O coronel Francisco Dias d’Ávila morrera em 1695, quando as suas terras,


com gadaria, se espalhavam até Jeremoabo, Inhanbupe, Itapicuru, Juazeiro, rio Sali-
tre e Jacobina, seguindo até as nascentes do rio Real. Um mundo que já começava
penetrando os sertões de Pernambuco, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraí-
ba. No tempo da conquista dos sertões paraibanos, era o coronel Francisco Dias
d’Ávila a maior figura representativa da Casa da Torre, não obstante o barão de
Studart lhe ter deformado um pouco a personalidade. Dele dizia Studart, preconcei-
tuosamente:

Era realmente pequeno de alma e de corpo. O interesse nele excedia ao físico, que era de
acanhadas proporções.

Era um homem riquíssimo para a época em que viveu. Com sua morte, sua
esposa, dona Leonor Pereira Marinho, é que assume a responsabilidade dos negó-
cios da Casa da Torre. Enquanto pôde, sustentou os ilimitados domínios territoriais
pertencentes à instituição. Foi ela quem obrigou, certa vez, ao governador geral do
Brasil, dom Rodrigo da Costa, a declarar ao cabo de guerra dos paulistas, Morais
Navarro, que lhe pertenciam “os distritos do Piancó, Piranhas, Rio do Peixe, Açu e
Jaguaribe e seus sertões varejados e descobertos à custa da Casa da Torre”.
A Casa da Torre, graças ao regime latifundiário que instituíra no Nordeste
brasileiro, detivera em suas mãos quase um terço das terras do sertão da Paraíba.
Era sesmeira no Piancó, Piranhas de Cima e Rio do Peixe. No Livro de Notas do
Cartório de Pombal, encontramos diversas escrituras públicas, relativas aos domí-
nios territoriais da Casa da Torre, também conhecida como Casa de Tatuapara. A
escritura de arrendamento que fizera, em 1702, o capitão-mor Teodósio de Oliveira
Ledo, de 16 propriedades situadas no rio do Peixe e pertencentes à Casa da Torre,
prova o marco de sua expansão povoadora no sertão da Paraíba.
Ainda a propósito do arrendamento de propriedades pertencentes à Casa da
Torre, propriedades espalhadas pelo rio do Peixe, somente Teodósio de Oliveira
Ledo, um dos primeiros colonos a pisar o solo da ribeira do Rio do Peixe, arren-
dou, de uma vez, em 1702, como se vê, cerca de 16 delas, como ele mesmo declara

121 

 
naquele documento transcrito no mesmo Cartório:

Digo eu, capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, que ocupo dezesseis propriedades da se-
nhora Leonor Pereira Marinho, no riacho do Peixe, vertente do rio das Piranhas; por as-
sim ser verdade e me ser pedido passei esta por mim feita e assinada, de junho 26 de
1702.

Quatro anos depois, arrendava mais 12 propriedades, conforme o documen-


to:

digo eu, capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, que arrendei à senhora Leonor Pereira
Marinho, doze sítios de terra, sitos no rio do Peixe, com todos seus logradouros e pertences,
para neles criar meus gados e demais colonos, dos quais sítios pagarei por cada um deles
todos os anos um frango; este arrendamento me concede a dita senhora, enquanto Deus me
fizer mercê da vida, e depois desta tornarão meus herdeiros a restituir à dita senhora ou a
seus herdeiros, sem contradição alguma.

Leonor Pereira Marinho, à época daqueles arrendamentos, já estava viúva do


coronel Francisco Dias d’Ávila, o segundo deste nome e o quarto senhor e morga-
do da Casa da Torre. Era ele o mais intrépido sertanista, dentre os descendentes do
velho Garcia d’Ávila, fundador da Casa de Tatuapara. Foi ele, ainda, quem aumen-
tou os imensos domínios da Casa da Torre, com as sesmarias no estremo oeste da
Paraíba.
Por outro lado, diz-se também que teria sido Teodósio o fundador de Cam-
pina Grande. A carta do governador Albergaria a el-rei, no entanto, trouxe infor-
mes mais precisos sobre o assunto. O governador, na missiva, refere-se ao pedido
de Teodósio de marchar novamente rumo ao interior, para criar um arraial mais se-
guro. Foi justamente nessa vinda à capital da Paraíba que Teodósio lhe trouxe in-
formes sobre o famoso troço ou ajuntamento que tapuias chamados de “ariús”, al-
deados, sob o chefe Cavalcanti, junto com os cariris, numa “campina grande” que
deu nome à atual cidade e município. Veja-se, a propósito, o trecho da carta do go-
vernador Albergaria sobre este ponto:

Trouxe consigo, Senhor, uma nação de Tapuias chamados Arius, que estão aldeados jun-
to aos cariris, aonde chamam campina grande, e querem viver como vassalos de V. Majde.
E reduzirem-se à nossa Santa Fé Católica, dos quais é principal um Tapuia de muito
boa traça e muito fiel, segundo o que até o presente tem mostrado, chamado Cavalcanti, os
quais foram com o dito capitão-mor e 40 cariris e 16 índios, que tirei das aldeias e dez
soldados desta praça.

122 

 
A carta de Teodósio a Albergaria analisada demonstra que Teodósio tinha
certos conhecimentos, a qual passo a ler:

Sr. Governador:
A minha vontade era aquela de dar a V. S. do sucedido mais breve, o que não tenho feito
pelo tempo mo não permitir, como também pelo longo desta Campanha, o que de presente
faço de todo sucedido.
Em primeiro lugar para dessa cidade com o adjutório de V. S. vindo rompendo esta
Campanha com muita moléstia por causa das grandes investidas, passando muitas neces-
sidades e misérias de fomes; porém com o favor de Deus cheguei contudo a salvo e em paz a
este arraial de pau ferrado, nos primeiros de abril e dali há 9 dias de minha chegada me
veio um aviso do meu gentio, que distante do arraial três léguas estavam em como com eles
se haviam encontrado trinta ou quarenta tapuias brabos, que me vinham a buscar de paz
e que em toda caso os socorresse pelo receio que tinham de que lhe sucedesse algum dano, o
que fiz logo com a maior parte da gente ficando o arraial guarnecido com dezesseis homens.
Com um cabo e com todo o cuidado me pus em viagem, pelas oito horas da noite e cheguei
aonde estava o meu gentio, e outro dia pelas dez horas do dia chegaram os brabos, que e-
ram de uma aldeia chamada corema a pedir-me pazes dizendo que queriam ser leais a El
Rei meu senhor; e lhas concedi com ditames de procederem contra os nossos inimigos e com
obrigação de conduzirem o seu mulherio para o arraial de baixo das armas; aceitaram o
partido e com este pressuposto se foram; e daí a 23 dias chegaram com todo o seu mulherio
ao dito arraial e daí a mais breve que pude dando tempo lugar me pus em marcha para a
guerra com todo nosso índio também os das pazes, rompendo a Campanha com muita mo-
léstia pelos mais convenientes de dar no inimigo sem ser sentido e acabo de 18 dias cheguei
a uma planta do inimigo, de onde se havia retirado pondo-me em seu segmento; daí há seis
dias me vieram novas dos descobridores em como o inimigo tinha voltado do rumo em que
ia a outro mais vizinho a mim. Marchei com todo cuidado e outro dia pelas cinco horas da
tarde estando alojado em o rio chamado Apodi me vieram novas dos descobridores, tinham
chegado a um rancho donde se havia levantado o inimigo naquela manhã. Na mesma hora
me pus em marcha e cheguei pelas 8 horas da noite ao dito rancho e daí mandando desco-
brir coisa de légua e meia, estavam alojados vizinhando-me mais a ele deixei ficar as mu-
nições com dez homens de sua guarda e ao romper do dia dei sobre ele, com toda a disposi-
ção possível tendo-me ele o encontro com valor porém quis Deus que dessa a V. S. o quan-
to de alcançar a vitória durante a peleja até às 9 horas do dia, e ela acabada se acharam
da parte do inimigo trinta e dois mortos e setenta e duas presas e muita quantidades de fe-
ridos e da nossa parte não perigou nenhum e só me feriram seis homens; e das presas man-
dei matar muitas por serem incapazes; e só digo que em o dia de Santa Justa e Rufina, em
uma quinta-feira, venceu V. S. duas batalhas. Esta de presente referida e as pazes que
aqui se confirmaram pelos inimizar com as mais nações; e hoje não lhe fica lugar a busca-
rem por amigos mais que aos brancos; e ao depois de toda a batalha vindo-me retirando
com três dias de viagem me vieram seguindo os inimigos e andando o meu gentio a caça pe-
la necessidade em que vinha apanhado-os fora do troféu me mataram quatro homens. Quis
me por em seu segmento, não foi possível por vir falto de mantimentos e somente lhe dei
uma avançada, em que lhe feri alguns homens e a 27 de julho cheguei a este arraial.
Ao ajudante Manoel da Câmara, entreguei os quintos de El Rei meu Senhor e ele fará a
entrega a V. S. E aqui fico nesta campanha para o que V. S. me ordenar, a quem Deus
guarde. Pinhancó (Piancó) de agosto 6 de 698 anos. Humilde soldado de V. S. Teodó-

123 

 
sio de Oliveira

Com o apoio nesta carta e noutros documentos, redigiu o autor de NOTAS


SOBRE A PARAÍBA uma curiosa narrativa, abordando o itinerário de Teodósio
em busca do sertão paraibano. Diz Elpídio de Almeida, mais recentemente, em sua
HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE, que a descrição de Irineu Joffily “não está
de acordo com a realidade histórica”.
A propósito, eis o trecho completo de Irineu Joffily, em suas NOTAS SO-
BRE A PARAÍBA, trecho este censurado por Elpídio de Almeida:

“Com o auxílio do governo, formaram-se duas fortes bandeiras e partiram à conquista do


sertão. O capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, comandante de uma delas, chegando à
missão do Pilar, teria seguido sua viagem acompanhando o rio Paraíba, até o boqueirão
da serra do Carnoíó, onde fez demorado acampamento, fundamento da atual povoação de
igual nome; se ela já não estivesse fundada, como faremos notar adiante. Continuando a
sua descoberta, o capitão-mor achou-se na junção do rio Paraíba com o Taperoá, e seguiu
pela vale deste, ao norte, até que entre o riachão Timbaúba e o de Santa Clara, encontrou
as hostes cariris (provavelmente os sucurus), embargando-lhe a passagem. A bandeira a-
vançou sempre, desceu a Borborema, ao poente, e chegou a Piranhas”.

Sobre isto, comenta Elpídio de Almeida que

“esse itinerário foi mais ou menos o que percorreu Antônio de Oliveira Ledo, quando cer-
tamente Teodósio não havia ainda chegado à Paraíba. E foi seguido várias vezes antes
que este sertanista o tivesse palmilhado em 1694. Antônio de Oliveira voltou a perlustrá-
lo em 1682, ao retornar da Capital, onde fora apresentar-se ao governador e registrar na
Câmara a patente de capitão de Infantaria da Ordenança. O mesmo fez Constantino de
Oliveira Ledo, com igual fim, em 1688, depois de nomeado capitão-mor das Piranhas,
Cariris e Piancós”.

Ainda a propósito desse episódio da conquista dos sertões da Paraíba e re-


forçando conceito emitido pelo historiador Capistrano de Abreu, outro autor, Ho-
rácio de Almeida, no segundo volume de sua HISTÓRIA DA PARAÍBA, diz tex-
tualmente:

Entra-se agora na fase mais interessante da história, a conquista do sertão. O obscuro pe-
ríodo das entradas alguns historiadores tentaram esclarecer à base de conjecturas, que do-
cumentos posteriores anularam. Irineu Jóffily, com a visão que teve do fato histórico, aca-
bou por considerar esse período um desafio ao investigador do futuro. De fato, para eluci-
dação de uma das quadras mais dramáticas, cheia de aventuras e lutas heróicas, escassei-
am informes. Alguns acontecimentos, entretanto, poderão ser restabelecidos para perenida-
de da verdade histórica.
124 

 
O autor da mesma HISTÓRIA DA PARAÍBA assegura ainda que o levan-
tamento para a História do Sertão da Paraíba somente seria possível “através dos
requerimentos e concessões de sesmarias”. Realmente, a conquista e povoamento
do interior paraibano processou-se através do sistema de sesmarias.
A sesmaria era uma graça especial pela qual o soberano de Portugal concedia
terras “devolutas e desapropriadas” às pessoas que as queriam adquirir e explorar
para as suas atividades agrícolas e pastoris. Esse sistema, ao que se sabe, não deu
bons resultados, embora considerado excelente para a época de nossa conquista e
colonização.
No entanto, tal experiência demonstrou, com o correr do tempo, que as
sesmarias ou datas de terras, como eram chamadas no interior do Nordeste, consti-
tuíram-se em verdadeiros germes de discórdias e conflitos, no princípio entre ses-
meiros e índios e, mais tarde, entre aqueles e os colonos, que eram realmente os
que trabalhavam e cultivavam as nossas terras, “que aqui vieram, viram, ficaram e
povoaram a terra, e estabeleceram cultura, e tiveram o sentimento de a eleger para
domicílio e trouxeram o seu rebanho”, como já expresso por um autor.
Diz Maximiano Lopes Machado, na sua HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DA
PARAÍBA, que o governador João da Maia da Gama tudo fez para desmascarar o
feudalismo da Casa da Torre. Ele, o governador, chegou até a denunciar a el-rei,
pedindo inclusive que a atenuasse, a tirania com que os representantes de tal institu-
ição empresarial, secular e administrativa afligiam os colonos que trabalhavam e
cultivavam as terras.
Parece que foi João da Maia da Gama a primeira autoridade governamental
de nossa região a se insurgir, em favor dos colonos, contra os poderosos titulares
das grandes sesmarias. Na representação que encaminhara ao soberano português,
dizia o então governador:

Confesso, Senhor, a Vossa Majestade, que, tendo eu corrido todos os domínios de Vossa
Majestade, em Portugal, Índia, Brasil, me parece que não achei alguma aonde os vassalos
de Vossa Majestade experimentassem de outro vassalo mais violências; em matéria mais
digna da real atenção de Vossa Majestade; e poder falar nesta matéria, confesso e tomo
Deus como testemunha (...).

Esta representação não teve uma solução imediata, e continuou a desafiar a


inteligência, a argúcia e o patriotismo dos governantes daquela época colonial, até
que, decorridos 36 anos daquela representação, foi em parte decidido o prélio, atra-
125 

 
vés da Carta Régia de 20 de outubro de 1753, que revogava as grandes sesmarias
concedidas na Paraíba à Casa da Torre e aos Oliveira Ledo, e ordenava que eles ti-
rassem novas sesmarias, e igualmente todos aqueles que possuíam terras daqueles
dois senhorios, por qualquer título que fosse.

Os titulares das sesmarias

Titular de sesmaria, segundo Barbosa Lima Sobrinho, em seu livro O DE-


VASSAMENTO DO PIAUÍ, afirma que “não era aquele que estava disposto a tra-
balhar e cultivar um pedaço de terra, mas o homem da cidade, o homem influente e
com prestígio bastante junto ao Governo, e que sabia requerer as cartas de sesmari-
as, e cuja concessão não demoraria muito a chegar, com a obtenção do deferimento
e da confirmação. Os governos, por sua vez, não conheciam a própria geografia do
País; opinavam e decidiam em face de alegações dos pleiteantes, que muitas vezes
tinham interesse em reivindicar limites imprecisos para as sesmarias, a fim de que
pudessem ampliá-las, na realidade, até onde chegasse a tolerância dos posseiros e
do governo”.
Toda vez que a conquista avançava em busca do interior choviam as cartas
de sesmarias. Raras vezes se inscreviam nesse páreo os que estavam decididos e in-
teressados a habitar as terras conquistadas. Era comum ver os mesmos nomes, qua-
se sempre de pessoas poderosas, como titulares de sesmarias em todas as zonas
desbravadas, por mais distantes que ficassem umas das outras.
As sesmarias doadas ou concedidas na Capitania da Paraíba, como igualmen-
te acontecia com outras Capitanias do Brasil, eram quase sempre atribuídas a gru-
pos ligados entre si por laços familiares e que se reuniam para requerer concessões
de terras, muitas vezes em porções excessivas, muitas das quais não pertenciam ao
grupo Oliveira Ledo, nem tampouco ao da Casa da Torre.
Tais sesmeiros obtiveram datas de terras nos sertões paraibanos e concedi-
dos pelo Governo Geral do Brasil, com sede na Bahia. Por isso mesmo é que fica-
ram esses à margem das sesmarias divulgadas por João de Lira Tavares e Irineu Jóf-
fily, autores, respectivamente, dos livros APONTAMENTOS PARA A HISTÓ-
RIA TERRITORIAL DA PARAÍBA e SINOPSIS DAS SESMARIAS DA PARA-
ÍBA.
Não vamos mais alongar a nossa conversa. Antes, porém, nos obriga a dizer
o seguinte: enquanto não contamos com todo o acervo documental espalhado por
vários pontos do nosso país e do estrangeiro não é possível qualquer tentativa para
se escrever a História da Paraíba. Uma história, aliás, que sintetize a sua realidade
126 

 
profunda, objetiva e institucional.
Muitos fatos importantes de nossa história estão ainda nos arquivos, onde
há muita luz escondida, aguardando a mão libertadora. Se antes era tarefa difícil a
realização de qualquer pesquisa tanto no nosso país como no estrangeiro, hoje, en-
tretanto, já não o é, principalmente se levarmos em consideração o progresso técni-
co, científico e cultural dos nossos dias.
Não procede o argumento do ilustre historiador Horácio de Almeida quan-
do afirmou que não era preciso ir a Portugal para obter informações acerca da His-
tória da Paraíba. Tudo quanto já se disse a respeito, foi inventariado por Eduardo
de Castro e Almeida e divulgado, em catálogo, de sete grossos volumes.
Discordamos, data vênia, do ilustre autor de HISTÓRIA DA PARAÍBA.
Podemos falar com autoridade, porque fomos nós um dos primeiros a divulgar o
acervo documental existente no arquivo da antiga Faculdade de Filosofia da Uni-
versidade Federal da Paraíba, onde estivemos pesquisando alguns anos atrás. Ali
encontramos uma infinidade de documentos e cópias xerográficas, que foram cedi-
dos, segundo estamos informados, pelo ilustre professor pernambucano José An-
tônio Gonsalves de Melo. Tratamos de ler toda aquela documentação extraída do
Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, cuja divulgação permitiram o conheci-
mento de determinados fatos e cousas do nosso passado, além de oferecer perspec-
tivas para novas interpretações da história paraibana.
Não podemos mais nos alongar nestas considerações. Aproveitamos, pois, o
ensejo para apresentarmos os nossos votos de aplauso e congratulações à Diretoria
do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, na pessoa do seu ilustre presidente,
Luiz Hugo Guimarães, pela feliz e oportuna iniciativa que teve, promovendo este
Ciclo de Debates, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil.

A fala do Presidente:

Conforme previ ao anunciar a palestra do confrade Wilson Seixas, tivemos


hoje o esclarecimento definitivo de como se processou a conquista do nosso interi-
or.
Baseado em documentos, em fontes de primeira qualidade, e escorado no
seu passado de atento pesquisador, frequentador de velhos cartórios, Wilson Seixas
nos traz a verdade sobre a interiorização paraibana.
Com a responsabilidade com que tem tratado todos os temas dos seus traba-
lhos, ele chega a contestar os mais destacados historiadores locais e nacionais. Dis-
corda do ponto de vista de historiadores do quilate de Capistrano de Abreu, de Ho-
127 

 
rácio de Almeida, Coriolano de Medeiros e Elpídio de Almeida. Mas, não discorda
por discordar. Corrige os enganos cometidos por eles, citando documentos incon-
testáveis. E esclarece, com segurança, a posição do desbravador Teodósio de Oli-
veira Ledo na conquista do sertão paraibano de par com os representantes da Casa
da Torre.
Acho que este capítulo da nossa História, agora está definitivamente esclare-
cido, bem como as dúvidas existentes sobre o Arraial do Piancó. Estamos de para-
béns por esta valiosa colaboração à nossa historiografia.
Não tendo a debatedora designada, confreira Terezinha de Jesus Ramalho
Pordeus, podido comparecer a esta sessão, por motivo justificado, concedo a pala-
vra ao primeiro participante inscrito, o consócio Guilherme d’Avila Lins.

1º participante: Guilherme d’Avila Lins (Sócio do IHGP e presidente do Instituto


Paraibano de Genealogia e Heráldica):

O que ouvi aqui hoje foi uma belíssima, rara e completa história da conquis-
ta do sertão, partindo de quem tem plena autoridade para fazê-lo, porque funda-
mentou o que disse em fontes primárias. Wilson Nóbrega Seixas é uma pessoa por
quem tenho o mais profundo respeito e amizade, e quero dizer de público que foi
em Wilson Nóbrega Seixas que eu me inspirei para tentar fazer um estudo autodi-
data de paleografia, já que ele é um dos grandes paleografistas deste Estado. Essa é
a grande vantagem metodológica que ele tem, pois escreve a partir das fontes que
ele lê.
Vi aqui uma belíssima lição do linguajar do século XVI nas transcrições do-
cumentais que ele fez, falando da ffé, com dois f, de Piancó, com nh e de trechos
de frases inusitadas. Uma lição de linguagem do final do século XVII e do início do
século XVIII. Foi realmente maravilhoso; fiquei transportado para essa época ao
ouvir aquelas transcrições seguras, em que Wilson fala do sistema sesmarial e reme-
te implicitamente à necessidade do conhecimento da história administrativa deste
país, tão pouco ressaltado e tão necessário para se fazer história. Wilson Seixas pas-
seia com uma intimidade em cima da história que causa a gente uma sensação de
estar vendo um belíssimo filme com imagens muito nítidas.
Fala de Garcia d’Avila, aquele antigo feitor da Alfândega do Governador
Tomé de Souza, que veio a construir um império e através dos séculos estendeu
terras desde Tatuapara, a 14 léguas de Salvador, até o Maranhão, e que tem uma
enorme importância nessa conquista do nosso sertão. Fala no clã dos Oliveira Le-

128 

 
do. Enfim, não deixa escapar nem Martim de Nantes com sua RÉLATION SUC-
CINTE que, se não fora uma tradução que foi feita pela Brasiliana em pequeno
formato, restaria apenas a raríssima edição primeira, da qual poucas pessoas já vi-
ram o texto. Contesta Capistrano, Horácio de Almeida, Coriolano, Barão de Stu-
dart, nem escapa frei Vicente do Salvador, com caranguejos que roçavam a beira da
praia. Eu estou embevecido, meu caro Wilson, com esta bela aula que ouvi aqui.
Humberto Cavalcanti de Mello (sócio do IHGP e membro da Academia Parai-
bana de Letras):
Não foi surpresa, absolutamente, para quem conhece as qualidades de pes-
quisador de Wilson Seixas, essa demonstração brilhante. Gostaria de fazer uma
pergunta a Wilson sobre um aspecto um tanto controvertido, porque temos histori-
adores paraibanos que afirmam uma coisa e historiadores norte-riograndenses que
afirmam o contrário. É sobre o problema dessa conquista do sertão no que diz res-
peito ao problema do Seridó do Rio Grande do Norte. Até que ponto ele esteve in-
tegrado na Paraíba, como foi que ele saiu. Se a Vila do Príncipe, hoje Caicó, se re-
almente pertenceu ao território paraibano e foi integrada por essas conquistas de
Oliveira Ledo.
Wilson Nóbrega Seixas: Esta questão a que Você se refere tem mais um sentido
religioso. É preciso esclarecer que antes toda aquela região pertencia à Paraíba;
principalmente a região do Piancó, que ia até o Apodi, ia até o Rio Grande do Nor-
te, tanto que nossos historiadores, como Elpídio de Almeida, falam em Domingos
Jorge Velho, achando que ele não esteve no Piancó, porque todos os historiadores
achavam que Piancó era a atual cidade, mas Domingos Jorge esteve lá no Piancó,
porque, na época, o Piancó compreendia todo o Rio Grande do Norte. Quando ele
disse que partiu de lá com mil e tantos homens para Palmares, partiu do Piancó,
porque o Piancó abrangia toda aquela região. De modo que ele estava certo, embo-
ra muita gente condene Rocha Pita, autor de AMÉRICA PORTUGUESA. Mas ele
estava absolutamente certo, porque quando ele disse que Domingos Jorge partiu do
Piancó, ele estava se referindo ao Piancó que se estendia até o Rio Grande do Nor-
te. Quando fiz pesquisa no Cartório de Pombal localizei parentes de Rocha Pita
morando em Catolé do Rocha e Brejo do Cruz, onde tinha uma fazenda lá deno-
minada “Pitas”, que pertencia à família de Rocha Pita. Quando ele fez aquele livro,
em 1732, o sertão todinho era Piancó. Depois veio o problema religioso, mas aí é
uma questão das freguesias. A freguesia de Pombal, por exemplo, pertencia exata-
mente àquela área civil. Tudo aquilo pertencia ao curato do Piancó, cuja sede era

129 

 
Pombal. Pombal era a principal freguesia, que tinha as capelas de Sousa, que era
Nossa Senhora dos Remédios, de Piancó, que era Santo Antônio, a capela de Patos
e a capela de Santana, que era Rio Grande do Norte. Tudo pertencia a Pombal.
Quando o ouvidor geral da Paraíba visitou o sertão todo passou em Pombal e de-
pois foi para o Rio Grande do Norte e esteve em Açu, criou a vila de Açu e insta-
lou a vila de Caicó, voltando, depois, para a Paraíba. D. Adelino falando sobre a-
quela região diz que foi questão religiosa. Havia uma fazenda perto de Santa Luzia e
Caicó, cujo proprietário queria ser devoto da igreja de Santana e não de Bom Su-
cesso, que era Pombal. Então foi feita a divisão, ficando aquela parte todinha para o
Rio Grande do Norte, quando na verdade pertencia à Paraíba.

2ª participante: Maria do Socorro Xavier:

Parabenizo os debatedores anteriores. Notei que o expositor em seu traba-


lho até se assemelha a Capistrano de Abreu em seu livro CAMINHOS ANTIGOS
E POVOAMENTOS, pois em sua exposição demonstra conhecer todos os cami-
nhos, os percursos do sertão.
Sabemos que foi muito importante a conquista do interior paraibano. Era
muito diferente essa sociedade do interior da sociedade litorânea, aristocrática do
açúcar, bastante elitista e europeizante, enquanto a cultura do interior foi mais libe-
ral, em que o vaqueiro – aquela figura típica e humana dos sertões, foi muito pecu-
liar, muito importante. A gente nele vê uma ascensão social dentro daquela socie-
dade. Havia aqueles grandes latifundiários e o vaqueiro, tirando a sorte do gado,
com suas parcas economias, tinha permissão para comprar pedaços de terras dentro
daquele latifúndio e se tornar um próximo fazendeiro e um próximo dono de cur-
rais. Ficou uma sociedade mais próxima, não tão estanque como a sociedade aristo-
crática do açúcar, em que aqueles subalternos do fazendeiro tinham mais acesso aos
fazendeiros, permitindo o vaqueiro ascender socialmente. Acho que a sociedade
verdadeira brasileira foi a sociedade do interior, foi a sociedade do gado, foi a soci-
edade do sertão.
Quanto aos primeiros desbravadores, foram registrados Teodósio de Olivei-
ra Ledo, na Paraíba; os Garcia d’Avila, da Casa da Torre, na Bahia; e os Manoel de
Araújo Carvalho, lá no Pajeú e também no vale do Rio do Peixe, como salientou
muito bem o palestrante, Wilson Seixas, profundo conhecedor do assunto.
Gostaria que fosse ressaltado nessas palestras o papel das mulheres na histó-
ria da Paraíba. Nós sabemos que nessa fase teve Adriana, filha de Teodósio de Oli-

130 

 
veira Ledo, cujo matriarcado exerceu em Barra de Santa Rosa. Gostaria de saber do
expositor se a cidade de Barra de Santa Rosa tem a ver com o matriarcado de Adri-
ana, filha de Teodósio. Outra também, Ana de Oliveira, filha de Custódio de Oli-
veira Ledo, irmão de Teodósio, pois consta que existe até uma fazenda chamada
“Ana de Oliveira”; gostaria de saber se ainda existe esta fazenda e se a mesma per-
tence a algum membro dessa família. Consta também uma Verônica, que foi uma
mulher muito brava, tendo desbravado as primeiras matas, subiu a ladeira da Serra
de Teixeira e fixou um povoamento na Serra de Teixeira. Certo que o nome de
Teixeira não tem nada a ver com isso, que se originou de uma pousada cujo propri-
etário se chamava Teixeira. Tem também a Mãe Aninha, de Cajazeiras, uma mulher
muito caridosa, muito carismática, corajosa, bondosa, que fez muito pela população
carente de Cajazeiras.
Parabenizo mais uma vez o Ciclo de Debates, que está cada dia cada vez me-
lhor com seus profundos conhecedores da História da Paraíba.

3º participante: Joacil de Britto Pereira (sócio do IHGP e presidente da Academia


Paraibana de Letras):

Sobre o assunto daquela parte do território paraibano que foi tomada pelo
Rio Grande do Norte, eu gostaria de acrescentar algo além do aspecto religioso, da
questão religiosa, que vem até o tempo de D. Adauto, nosso arcebispo. Essa parte
religiosa foi comandada pela Paraíba. A tomada desse território da Paraíba, foi um
abraço que o Rio Grande do Norte deu na cintura do nosso Estado, que quase tora
pelo meio, como se diz no baião. Pois bem, Caicó, Jardim de Piranhas, Jardim de
Seridó, Acari, até ali Santa Luzia, até São José de Sabugi, tudo aquilo era da Paraíba.
Não foi só a questão religiosa que levou a essa disputa, mas a vitória do Rio Grande
do Norte sobre a Paraíba, reduzindo o seu território. E eu digo isso com desgosto,
apesar de ser riograndense do norte de nascimento, mas sou paraibano por adoção
e de coração, se deveu ao prestígio político de um homem que era íntimo do Impe-
rador, um grande latinista, o senador Brito Guerra, por sinal meu parente pela an-
cestralidade. O senador Guerra era padre, homem de muita cultura, grande latinista
e fundou a primeira escola de Latim no Rio Grande do Norte, em Caicó. Mas ele
conseguiu aquilo graças à sua amizade com o Imperador, graças à sua obstinação
pela ideia de ampliar o território do Rio Grande do Norte e, principalmente ao seu
prestígio político. A bancada da Paraíba não tinha muito prestígio, embora repre-
sentada por 17 membros, que nada fizeram. Isso é contado em prosa e verso no

131 

 
Rio Grande do Norte.
Era apenas esse adendo que queria fazer, mas, com a permissão do Sr. Pre-
sidente, quero lembrar que hoje é a data do sesquicentenário do nascimento de um
dos maiores paraibanos de todos os tempos, que se chamou senador Gama e Melo.
Esse homem foi um exemplo de dignidade, de altivez, de cultura, pois era um filó-
sofo. Era um tradicional monarquista paraibano. Logo após o governo de Deodoro
da Fonseca, Floriano Peixoto o convidou para ser Ministro da Justiça, e ele recusou
o convite dizendo, em carta, que sempre foi monarquista e não podia aceitar aquele
cargo tão honroso porque iria ficar mal com sua consciência. E eu pergunto, então,
qual dos homens públicos que neste país, hoje, e no nosso Estado particularmente,
teria um gesto semelhante. Há realmente homens que possam ter gesto semelhante,
mas são raros. Quero, com a aquiescência de todos que aqui estão, render esse mi-
nuto de homenagem ao senador Gama e Melo, que foi desde vereador a deputado
geral, foi 25 vezes Vice-presidente do Estado, exercendo interinamente a titularida-
de e foi eleito Presidente do Estado, e depois foi senador duas vezes. Morreu no
exercício do seu segundo mandato de senador. Era a homenagem que queria pres-
tar ao senador Gama e Melo, dizendo que nós hoje estamos abrindo as comemora-
ções do sesquicentenário deste vulto notável da Paraíba.

4º participante: Humberto Cavalcanti de Mello (Sócio do IHGP e membro da


Academia Paraibana de Letras):

A professora Socorro Xavier formulou algumas perguntas e antes mesmo


que o expositor a responda, passo a informar sobre dois aspectos levantados.
Primeiro: a cidade de Barra de Santa Rosa, um topônimo, não tem nada que
ver com a Casa de Santa Rosa. O livro de Antônio Pereira de Almeida, que levanta
toda a genealogia, mostra bem que a Casa de Santa Rosa era onde hoje é o atual
município de Boa Vista.
Segundo: Ana de Oliveira, que realmente pertencia a essa família, não era
uma fazenda; era uma lagoa no município de Juazeirinho, uma lagoa antiga que foi
soterrada e foi escavada na década de 50, sob a supervisão do nosso saudoso con-
frade professor Clerot, um dos homens mais cultos da Paraíba. A lagoa estava ater-
rada milenarmente e Clerot, com muito cuidado, desenterrou ossos de fósseis ali e-
xistentes. Ainda hoje é conhecida como a Lagoa Ana de Oliveira.
5º participante: Aécio Villar de Aquino (Sócio do IHGP):

Esse problema da fazenda ou lagoa Ana de Oliveira, ao que parece ainda ho-
132 

 
je existem fósseis a serem desenterrados. No fim do seu livro, Irineu Joffily fala
nessa fazenda Ana de Oliveira, descrevendo até umas ruínas que havia lá. Essas ru-
ínas, porém, não existem mais, não havendo mais nenhum vestígio delas. Por falar
em vestígios antigos, em Olivedo, mesmo no meio da rua, tem uma casa mais ou
menos do século XVIII, começo do século XVIII, que a gente vê justamente pare-
cida com aquelas de Ouro Preto, que ainda está em estado muito bom, sendo até
habitada, embora deteriorada. Tudo parece que foi de uma fazenda de Oliveira Le-
do, sendo o nome do lugar, por conta disso. Consta que a casa pertence a um dos
descendentes dos Oliveira Ledo.

Considerações finais pelo expositor Wilson Nóbrega Seixas:

Teodósio de Oliveira Ledo casou-se duas vezes. Primeiro casou-se com Isa-
bel Paz, de cujo casamento nasceram Antônio, Francisco e Adriana. Antônio de O-
liveira Ledo, o filho dele, morou muito tempo em Rio do Peixe. Depois, já doente,
foi embora para Olinda, onde morreu. Francisco nasceu no Cariri. Foi ele quem
substituiu Teodósio de Oliveira Ledo como capitão-mor. Adriana casou-se com
Agostinho Pereira, e era dona de uma fazenda chamada Santa Rosa.
Do segundo casamento de Teodósio houve três filhos: Teodósio e dois me-
nores, que a história pouco registra porque eram doentes. Esse filho substituiu Te-
odósio lá no Cariri, onde tinha uma fazenda “Timbaúba”.
Ana de Oliveira Leite era casada com Antônio Porto Carreiro, morava em
Brejo do Cruz. Antônio Carreiro era sergipano. Desse casal nasceram vários filhos,
entre eles Manoel da Cunha Loureiro, Francisco da Cunha e outros, tendo todos
ido para o Cariri. Ana de Oliveira era dona de Juazeirinho, que conseguiu como
sesmaria.
É o que posso informar para atender a várias perguntas dos participantes.

133 

 
6º Tema:
AS NAÇÕES INDÍGENAS DA PARAÍBA
Expositor: José Elias Borges Barbosa
Debatedora: Waldice Mendonça Porto

A fala do Presidente:

Nesta sessão de hoje vamos debater um tema que sempre exerce muita curi-
osidade e fascínio. O tema programado é AS NAÇÕES INDÍGENAS DA PARA-
ÍBA. E como o assunto é índio, hoje não vamos compor a tradicional mesa dirigen-
te dos trabalhos. Nós dirigentes vamos, à moda indígena, nos sentar fora do estrado
e nos colocarmos em cadeiras, em roda, para trocarmos ideias sobre os nativos da
Paraíba, como se estivéssemos numa aldeia dos nossos antepassados.
Apenas quero convidar nosso palestrante, o professor José Elias Borges
Barbosa, para começar sua exposição. Antes, porém, cumpre-me fazer sua apresen-
tação, para aqueles que ainda não o conhecem.
O professor José Elias é sócio do Instituto Histórico. É nosso etnólogo. É
bacharel em letras anglo-germânicas, falando fluentemente inglês, francês, alemão e
até um pouco de russo. Professor da UFPB, ele é mestre em Letras e doutor em
Linguística. São inúmeros os trabalhos que tem publicado na matéria que hoje va-
mos abordar. Citemos os principais: OS ARIÚS E A FUNDAÇÃO DE CAMPI-
NA GRANDE; OS CARIRIS E A ORIGEM DO HOMEM AMERICANO;
ROTEIRO DRAMÁTICO DOS CARIRIS; O QUE RESTOU DA MITOLOGIA
CARIRI; O BODOCONGÓ – HISTÓRIA DE PALAVRA; O AFAMADO ÍN-
DIO PIRAGIBE: SUBSÍDIOS PARA UMA BIOGRAFIA; INDÍGENAS DA
PARAÍBA I – CLASSIFICAÇÃO PRELIMINAR; PADZU: OS CARIRIS NA
FELIPÉIA DE NOSSA SENHORA AS NEVES; INFLUÊNCIA DA LÍNGUA
CARIRI NO PORTUGUÊS DO BRASIL.
É, portanto, a pessoa indicada para tratar do tema. Com a palavra o confra-
de José Elias Borges Barbosa.

Expositor: José Elias Borges Barbosa (Sócio do IHGP e professor da UFPB):

É um prazer estar novamente no Instituto para apresentar a síntese de um


trabalho sobre os indígenas paraibanos. Na realidade, o meu interesse pelos indíge-
134 

 
nas começou em João Pessoa, quando era rapazinho e ia a Biblioteca do Estado,
que era excelente naquele tempo, onde passei a ser um visitante diário. Foi lá onde
despertei meus estudos pelos indígenas. Comecei a estudar O Tupy, publicado pela
Brasiliana. Em 1948 fui para Campina Grande e lá fiquei preocupado com o nome
Bodocongó. O nome era estranho, porque não parecia uma palavra tupi. Então fui
procurar alguma coisa a respeito de Bodocongó. Quanto mais procurava, não en-
contrava nada. Alguns diziam que era uma palavra cariri.
Resolvi fazer uma pesquisa profunda. Passei 30 anos juntando material so-
bre os indígenas e particularmente sobre os cariris, principalmente os cariris da Pa-
raíba. Pouquíssima coisa encontrava nos historiadores. Fui encontrar alguma coisa
em Irineu Joffily, que é o pai da História da Paraíba, juntamente com Maximiano
Lopes Machado. Irineu era mais sintético, Maximiano era complicado, citando mui-
to documento; apesar de sua seriedade, é considerado como dos primeiros historia-
dores da Paraíba.
Depois dos trabalhos de Irineu Joffily passei para os trabalhos dos holande-
ses e terminei chegando em Elias Herckmans. Foi aí que comecei a ver alguma coi-
sa. Lá é exatamente onde ele diz que a Paraíba é ocupada pelos índios tais e tais. I-
rineu Joffily tomou todos esses índios citados por Elias Herckmans e os colocou
como sendo cariris, fora os tupis do litoral. Todos do interior, para ele, eram cariris.
E isso vem sendo repetido desde o século passado até os dias de hoje. É um erro
gravíssimo que vem sendo cometido. Já tive ocasião de fazer várias palestras sobre
o assunto, mostrando esse engano.
Na Paraíba havia, no mínimo, três grupos indígenas diferentes. Os tupis, que
habitavam o litoral, e eram divididos em potiguaras, ao norte do Paraíba e os taba-
jaras, ao sul do Paraíba. Os tabajaras vieram do São Francisco, da região de Sergipe.
Mas havia um terceiro grupo, que era tido como cariri. Era o grupo dos tarairiús, e
como eles ficaram ao lado dos holandeses e participaram da guerra contra os por-
tugueses foram praticamente execrados, considerados selvagens e foram despreza-
dos. Esse grupo era muito pequeno.
Somente com a chegada dos holandeses é que vamos conhecer, com mais
detalhes, os tarairiús, que eram conhecidos pelo nome do principal, chamado Jan-
duí. Janduí era o cacique que, naquele tempo, comandava 22 grandes tribos no inte-
rior do Ceará, do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Janduí era tarairiú, conforme
o nome anotado pelos holandeses. Os tarairiús falavam uma língua diferente do tu-
pi e do cariri.

135 

 
Os índios cariris chegaram aqui oriundos do São Francisco, como já disse, se
bem que houvesse um pequeno grupo que estava junto com os tabajaras, os quais
foram trazidos da região pelo cacique tabajara Piragibe, mas esse grupo se disper-
sou. Isto está documentado naquela briga entre os franciscanos e os jesuítas. Está lá
a palavra padzu, que é o nome de pai que os índios chamavam com os padres que o
catequizavam.
Vejamos as fronteiras desses índios. Essas fronteiras são muito variáveis. As
migrações eram constantes, havendo um remanejamento muito grande. Na parte
do litoral, estavam os tupis: ao norte do rio Paraíba os potiguaras, e ao sul do rio
Paraíba os tabajaras. Os caetés, que foram os primeiros, já tinham sido extermina-
dos. Os caetés deviam ter chegado na parte de Itamaracá, tendo sido exterminados
desde a morte do padre Fernando Sardinha. A parte do interior era toda ocupada
pelos tarairiús. A parte sul ao longo do rio Paraíba era ocupada por poucas tribos
cariris. Eram cariris os bultrins de Alagoa Nova, os bultrins de Pilar, os fagundes,
perto de Campina Grande, os carnoiós da região próxima a Campina Grande. Es-
ses bultrins chegaram até Pilar, centro principal dos cariris e já tinham sido catequi-
zados no São Francisco, donde vieram, e ficaram ao lado dos portugueses.
Quando os portugueses começaram a entrar para o sertão começaram a lutar
contra os tarairiús, que tinham sido aliados dos holandeses. Mesmo depois da guer-
ra dos holandeses, quando foram feitas as pazes, o Tratado de Paz feito entre o
Brasil e a Holanda não citava o perdão aos índios tarairiús. E Janduí exigiu e os go-
vernos português e holandês tiveram que aceitar, dando perdão a Janduí, que era o
cacique tarairiú. O governador André Fernandes Vieira não tolerava esses índios,
que tinham sido combatidos por ele. Tanto que aprisionou alguns deles aqui e
mandou para Portugal e Portugal devolveu porque já tinha feito as pazes.
Para a conquista do sertão, os portugueses foram entrando e até certo ponto
foram invadindo as terras ocupadas pelos tarairiús. A guerra contra os tarairiús co-
meçou nos anos 1630 e se estendeu até 1730, uma guerra de cem anos. Foi a maior
guerra indígena do Brasil. A dos tamoios não chega nem perto. Foi uma guerra de
cem anos até quase dizimar praticamente quase toda a população tarairiú. Existe
apenas um remanescente tarairiú, que está em Pernambuco, na serra de Ararobá,
próximo a Pesqueira, com o nome de sucurus. Existem lá cerca de 3.000 índios. Já
perderam a língua e ainda têm algumas palavras; eu consegui coletar algumas pala-
vras e fazer uma comparação de termos, mostrando o parentesco da língua tarairiú
com o grupo jê. Por exemplo, em tarairiú água é caeté e nos dialetos jês é incoul, mas

136 

 
no cariri é tzu, uma palavra totalmente diferente. Cabeça é crecar em tarairiú, nos
dialetos jês é cran e no cariri é tsanbu. E assim por diante. Todas essas palavras fa-
zem com que a gente aproxime os tarairiús dos jês. Isso não somente já tinha sido
feito pelos traços culturais, etnográficos e físicos, como também pelos traços lin-
guísticos. Então não há dúvida, nossos cariris eram aparentados dos jês. Mas isso só
foi aceito recentemente, principalmente através dos trabalhos de Pompeu Sobrinho,
do Ceará, que estudou esse assunto e publicou um trabalho. Apesar disso, os parai-
banos insistiam em dizer: tupi no litoral e cariri no interior.
Vejamos as tribos tarairiús: os janduís (Janduí era o cacique principal); os ca-
nindés (Canindé foi o rei que substituiu Janduí, quando Janduí morreu e continuou
a guerra contra os portugueses); os sucurus, que é um caso interessante (eles esca-
param de ser dizimados porque Sacramento, o primeiro bispo de Pernambuco foi
catequizar esses índios logo depois da saída dos holandeses e trouxe esses índios
para Pernambuco, em Limoeiro, e depois conseguiu com João Fernandes Vieira e
outros as terras da serra de Ararobá, onde estão até hoje. São os remanescentes dos
sucurus da Paraíba e do Rio Grande do Norte).
Sobre esses índios já foram coletadas algumas palavras da língua deles por
alguns membros da Fundação do Índio; outras palavras já haviam sido coletadas
por Nimiendaju e eu pude coletar um vocabulário de mais ou menos 200 palavras
para comparar com os outros topônimos tarairiús das sesmarias, para verificar mais
alguma coisa sobre a língua.
A minha tese de doutorado é sobre a língua cariri. Eu já conhecia a língua
tupi, de modo que eu posso perceber perfeitamente quando a palavra é tarairiú ou é
cariri.
Eram tarairiús os ariús de Campina Grande, os sucurus, os canindés, os jan-
duís, os pegas, os ariús dos paiacús, os panatis, e alguns outros grupos menores.
Quanto aos cariris, havia os cariris do oeste da Paraíba porque eles tinham
vindo da região do São Francisco. O centro e o núcleo dos cariris é a Bahia e prin-
cipalmente aquela parte de Pernambuco que é exatamente a região de Cabrobó, da
Cachoeira de Paulo Afonso mais abaixo e a cidade de Petrolina. Os índios cariris ti-
nham a sua capital ali, chamada Aracapá, palavra tupi, que quer dizer “escudo re-
dondo” ou rodela. De modo que aquela parte do sertão de Pernambuco é conheci-
da por sertão de rodela. Isto tudo está relatado no livro que vocês conhecem de
Martim de Nantes, já traduzido para o português.
A vinda dos cariris é muito recente. Os cariris de Sergipe ficaram em João

137 

 
Pessoa e depois os cariris do São Francisco foram para a região do interior. Eles vi-
eram pelo rio Pajeú, cruzaram a serra do Jabitacá, pegaram as nascentes do Paraíba
e chegaram até aqui em João Pessoa. Ficaram mais na região de Campina Grande,
em Fagundes.
Elpídio de Almeida quando estava escrevendo a História de Campina Gran-
de me perguntou sobre os índios Fagundes, querendo saber porque os chamavam
de índios fagundes. Os índios fagundes estavam onde hoje é a cidade de Fagundes.
E ele perguntou como os índios podem ter um nome português. É que Fagundes
era um dos elementos da Casa da Torre, que tinha uma ilha no São Francisco. Essa
ilha foi denominada de Fagundes e esses índios vieram dessa ilha. Os cariris da Pa-
raíba vieram da ilha de Fagundes.
Os cariris foram privilegiados porque Martim de Nantes esteve na Bahia, lá
teve contato com esses zubucuá cariri, do qual descendem nossos cariris; Martim
de Nantes escreveu um catecismo (eu tenho a cópia desse catecismo, que foi publi-
cado em 1706) e noco Sergipe, outro grande dialeto dos cariris foi estudado exata-
mente por Mamiami, um missionário italiano, que chegou lá fez uma gramática e
outro catecismo do outro dialeto. São dois dialetos. O grande Martius, quando es-
teve aqui no século passado, fez um dos maiores trabalhos sobre o Brasil, pene-
trando todo o interior do Brasil, estudando todas as línguas indígenas. Ele publicou
um livro Glossarium Linguarum Brasiliense, com 88 dialetos indígenas que coletou no
sertão durante mais de 10 anos (e passou 30 anos até fazer a Botânica Brasiliense). O
Glossário é um dicionário onde tem essas línguas todas em latim, português e na
língua indígena. Martius era um grande cientista. Na Bahia, ele descobriu mais dois
dialetos: o sabuja e o pedra branca. Isso chegou na França, e no século passado foi
publicado por Lucien Adam um estudo comparativo dos dialetos da família cariri.
Tive muito trabalho, mas consegui também esse livro.
Nesse mapa que agora exibo a vocês tem a região do oeste com a fronteira
do Ceará, exatamente a região dos curemas e icós. Os icós eu não sabia que eram
cariris, mas pouco a pouco consegui verificar isso. Quanto aos curemas, ainda te-
nho dúvida, embora os curemas tenham sido transferidos para Pilar no período co-
lonial, acho porque eram da mesma língua. Mas, os icós foram transferidos para a
região de Missão Velha, em Juazeiro e em Crato, que é a região dos cariris novos do
Ceará. Essa parte daqui foi colonizada pelo pessoal dos cariris novos da Casa da
Torre, que já vinham do São Francisco. Então há topônimos na região de Sousa e
de Cajazeiras, como pataputé, que era uma palavra cariri e existe uma ilha e uma ci-

138 

 
dade Pataputé, lá na Bahia. Os índios cariris não são daqui. Os índios daqui eram os
tarairiús e os potiguaras. Os tabajaras também vieram de fora.
Na época do domínio holandês, o príncipe de Nassau trouxe cientistas, pin-
tores e muita gente para estudar a natureza das coisas do Brasil. Entre eles Max
Grave e Eckhout são os mais famosos. Zacarias Vagner também foi outro estudio-
so. Mas Nassau trouxe dois pintores importantes; um foi Albert Eckhout e o outro
foi Franz Post. Nos trabalhos de Franz Post sobre João Pessoa (já tive ocasião de
apresentar esses trabalhos) existem três quadros, três telas, de João Pessoa, da Para-
íba, que existem no Museu do Louvre, em Paris. Eu consegui uma reprodução de
uma. E há outras duas reproduções. Os quadros mais antigos sobre João Pessoa
são esses três. Os de Franz Post, Zacarias Vagner e Eckhout. Aqui estão dois qua-
dros de Eckhoutt, conhecidos internacionalmente. Eckhout era um detalhista exce-
lente para pintar coisas naturais. Ele era mais ligado à história natural, enquanto
Franz Post era mais paisagista. Eckhoutt mostra em seu quadro a dança dos tapui-
as, e durante muito tempo ninguém sabia que tapuia era esse. Na realidade é a dan-
ça dos tarairiús. Depois que foi publicado um trabalho sobre Eckhout, há cerca de
20 anos, foi possível tirar essa dúvida.
No quadro nota-se claramente de um lado os tarairiús e os tupis e os cariris.
Os tarairiús usavam o próprio propulsor de dardo. O que é propulsor de dardo? É
uma lança bem grande com uma taboca de bambu rachada, tirada os seus nós.
Quando eles iam lutar colocavam a taboca para facilitar o arremesso, alcançando a
flecha arremessada 200 metros. Os tarairiús e cariris só usavam arco e flecha. Tam-
bém usavam uma espécie de tacape. Um espécime desse tacape da Paraíba pode ser
encontrado no Museu de Munique. O tacape existente em Munique é cravejado
com pedras.
Mais recentemente foi publicado o maior trabalho de Eckhout, com 800
pranchas, onde ele desenhou os animais da Paraíba e Pernambuco. Eu consegui a-
gora uma cópia desse trabalho. A dificuldade em conseguir essa material se deveu à
Segunda Grande Guerra. Esse material estava no Museu de Berlim, que foi bom-
bardeado. Mas ele foi encontrado na Polônia, porque pouco antes da Alemanha ser
invadida, os alemães levaram todas as caixas de material para um convento de Cra-
cóvia, na Polônia. Esse material está lá ainda, tornando possível sua publicação com
todos os animais desta região que os holandeses anotaram, inclusive plantas, índios,
constituindo-se num tratado importantíssimo.
As aldeias principais dos tupis eram a de Urutagui, que é a cidade de Alhan-

139 

 
dra, cujo nome foi mudado por Miguel Pina Castelo Branco, juiz de fora de Olinda,
que só queria dar nomes portugueses; a aldeia de Jacoca, que é o Conde; a aldeia da
Preguiça e Montemor, que é Mamanguape; a de Acejutiberó, que é a Bahia da Trai-
ção; Piragibe e João Pessoa, Tibiri e Santa Rita, Pindauna e Gramame. Eram as
principais aldeias que haviam por aqui.
Localização principal das tribos cariris no interior, ao longo do rio do Peixe,
rio Paraíba e Piancó: chocós e paratiós, em Monteiro e Teixeira, na fronteira com
Pernambuco; carnoiós ou curinoóis, em Cabaceiras e Boqueirão; bodopitás ou fa-
gundes, perto de Campina Grande; bultrins, cariri de Pilar, em Alagoa Nova, e al-
guns próximos de Bananeiras. Bultrins, por que esse nome? Parece até nome fran-
cês. Na realidade, os cariris quando foram a Recife foram apresentados por Martim
de Nantes a um francês chamado Jean Boltrin, que era muito interessado pelos ín-
dios e tinha aderido aos portugueses na guerra dos holandeses. Daí essa tribo pas-
sou a se chamar bultrins.
Os cariris eram agricultores e se tornaram amigos de Teodósio de Oliveira,
pois faziam sua farinha de guerra para lutar contra os tarairiús.
Continuando a localização dos índios: os icós, no rio do Peixe, Sousa e Con-
ceição, possivelmente os curemas; localização principal: Sertão, Seridó (seridó é pa-
lavra cariri), Curimataú e parte da região dos Cariris Velhos, mais concentrados na
fronteira com o Rio Grande do Norte e o Ceará.
Tribos tarairiús: os janduís, localizados no Seridó, Piranhas, Sabugi, Santa
Luzia, Patos e Curimataú; os ariús, em rio Piranhas, Sabugi e Seridó (quase tudo na
mesma região, com pequenas separações); os panatis, em Pombal, rio Piranhas e
Espinharas; os sucurus, em Bananeiras, Cuité, rios do Curimataú e Trairi, posteri-
ormente, em 1662, na região de Monteiro; os paiacus, nas fronteiras do Rio Grande
do Norte com o Ceará, na região do Apodi e Ribeira do Patu; os canindés, nas
fronteiras do Rio Grande do Norte e Ceará, na região do Curimataú; os genipapis,
nas fronteiras com o Rio Grande do Norte e Ceará; os cavalcantis, em Campina
Grande (era uma facção dos ariús). Os ariús, que foram trazidos por Teodósio, já
eram índios catequizados e batizados e foram localizados Campina Grande pelo
próprio Teodósio – foi o começo de Campina Grande. O cacique dos ariús chama-
va-se Cavalcanti porque já era batizado, e os próprios índios de sua tribo passaram
a se denominar de cavalcantis. Os cavalcantis ficaram no centro de Campina Gran-
de, enquanto os cariris ficaram na região de Esperança.
Finalizando o assunto das primitivas localizações, temos os genipapis, na

140 

 
fronteira do Rio Grande do Norte e Ceará e os vidais, na fronteira do Rio Grande
do Norte com o Ceará.
Miguel Pina Castelo Branco, na época do Marquês de Pombal, começou a
mudar essas localizações, fazendo muitas transferências.
Para Alhandra, foram transferidos os paiacús do Apodi; para Bananeiras fo-
ram transferidos os canindés, onde já estavam os sucurus; para Campina Grande,
junto com os cariris, foram transportados os ariús, posteriormente denominados
cavalcantis; para Pilar, foram transferidos os bodopitás de Fagundes; para Limoeiro
e Simples; foram transportados os sucurus do Rio Grande do Norte; para o Pilar,
onde estavam os bultrins, foram transferidos os curemas de Piancó; para o litoral
do Rio Grande do Norte, foi transportado outro grupo de curemas do Piancó; para
o sertão foram transportados os cariris do Pilar e tupis de Mamanguape; para São
José de Mipibu, foram transportados os pegas, de Pombal e da serra de João do Va-
le.
Essa serra de João do Vale tem uma história muito interessante. Houve uma
briga lá e o filho de Teodósio, que cuidava dos índios, quis ficar com a terra deles,
então mandou os índios para o Rio Grande do Norte. Houve um grande conflito,
com processo e tudo, mas terminou sendo esses índios transferidos. O gado foi ar-
rematado. Os índios tinham o livro de registro do gado, mas o gado foi vendido e
foi com o dinheiro dos índios que foi construída a parte principal de São José de
Mipibu e da cidade Nísia Floresta (antiga Papari), vizinha de São José de Mipibu.
Foi instalada a Câmara com o dinheiro dos índios, conseguido com a venda do ga-
do que lhe pertencia.
Continuemos com as transferências indígenas: para o Crato, foram transpor-
tados os icós, do rio do Peixe; Herckmans levou os tarairiús para Valdíria, no Chile
(alguns tarairiús chegaram a combater os espanhóis e os índios mapuchos e arauca-
nos). Os índios da Paraíba ajudaram os holandeses exatamente em Valdíria, no Chi-
le, só que eles foram derrotados lá e depois voltaram. E chegaram aqui vestidos
com roupas dos araucanos.
Alguns comandantes holandeses levaram alguns tarairiús para combater os
portugueses nas colônias da África. Isso aconteceu em Angola. Os holandeses
quando estacionaram na Bahia da Traição, em 1625, levaram alguns tupis para a
Holanda, entre eles Pedro Poty e Gaspar Paraocaba. João Fernandes Vieira, quando
foi governador da Paraíba enviou alguns tarairiús para Portugal.
Estamos fazendo uma rápida síntese sobre os índios da Paraíba.

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Aqui no Nordeste nós temos os únicos remanescentes cariris que existem no
Brasil. Onde é que eles estão situados? Estão na aldeia de Mirandela, em Ribeira do
Pombal, lá na Bahia. Eu até colaborei numa tese de mestrado que foi publicada so-
bre o assunto. Trouxe, para mostrar aos senhores, algumas fotografias publicadas
na tese. Também um estudioso francês conseguiu coletar um vocabulário. Eu te-
nho um vocabulário do cariri atual falado por esses índios, evidentemente com in-
fluência de outras línguas. O francês conseguiu coletar um vocabulário de cerca de
300 palavras.
Pelas gravuras que agora exibo veem-se os traços físicos dos cariris, diferen-
tes dos tarairiús e dos tupis; os cariris são mais aproximados dos tupis. Os tarairiús
eram de estatura alta, os cariris e tupis eram de estatura baixa, porque eles eram
descendentes dos protopolinésios. As três grandes migrações vieram pelo Estreito
de Behring, mas as duas últimas grandes migrações vieram por via transpacífica, e-
ram protopolinésios. A América do Norte e do Sul fazem uma barreira de Norte a
Sul. Os índios da região da Polinésia conheciam navegação, eram excelentes nave-
gadores. Um polinésio é capaz de saber, apenas pelo movimento das ondas, se há
uma ilha a 40 quilômetros.
Vejamos agora o nosso índio desenhado por Eckhoult. Vemos na gravura o
uso do arco e da flecha e junto do índio a mandioca, que era o elemento principal.
Os índios do Brasil, principalmente os tupis, tinham conseguido extrair o ácido da
mandioca e conseguiram fazer a farinha. Era a farinha de guerra, como os portu-
gueses chamavam, às vezes com desprezo, porque eles já tinham a farinha do reino,
que era a farinha de trigo. No começo repudiavam essa farinha, mas depois viram
que para fazer guerra precisavam do beiju branco, que era a farinha de guerra.
Através dessas gravuras podemos verificar as diferenças entre as tribos indí-
genas da Paraíba.
Infelizmente o tempo para esta exposição não dá para um trabalho mais par-
ticularizado sobre cada nação indígena, o que ficará para outra ocasião.
Exibo agora, para vocês, a carta da fundação de Campina Grande. Esta carta
está publicada em artigo do nosso confrade Wilson Seixas, oferecendo uma exce-
lente contribuição sobre a posição dos tarairiús na formação de Campina Grande.
Esta carta é um documento muito importante porque ela mostra uma realidade. No
texto da carta a gente vê que Irineu Joffily cometeu um erro grande ao colocar os
tarairiús como sendo cariris. Todos historiadores paraibanos até 20 anos atrás se-
guiram essas pegadas.

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A carta do governador Albergaria já foi comentada pelo confrade Wilson
Seixas quando de sua exposição sobre a conquista do sertão paraibano, razão por
que deixo de comentá-la.
Gostaria de mostrar dois mapas importantes, um deles é de Kurt de Ni-
nhengaju, um dos grandes etnólogos alemães, que passou a vida todinha aqui no
Brasil e aqui morreu. Ele estudou todas essas tribos, as línguas indígenas. O nome
dele era Kurt e outro nome alemão, mas os índios lhe deram o sobrenome de Ni-
nhengaju, que é uma palavra guarani. Ele fez esse mapa procurando atender a dis-
tribuição geográfica das tribos e ao mesmo tempo os movimentos de migração des-
ses índios. Essa parte referente à Paraíba foi reproduzida no Atlas Geográfico da
Paraíba, publicado pelo Governo do Estado.
Tem também o mapa de Loukout, que é um dos grandes antropólogos do
mundo, que oferece excelente posição dos índios da Paraíba em suas localidades.
(O expositor mostra o mapa e faz comentários para o plenário)
Ponho-me agora à disposição dos participantes para qualquer informe.

Debatedora: Waldice Mendonça Porto (Sócia do IHGP e do Instituto Paraibano


de Genealogia e Heráldica):

Eventualmente, fui indicada como debatedora desse tema. Este, porém, não
é meu campo, mas como estamos fazendo um debate muito informal, eu gostaria
que o expositor desse uma informação sobre a guerra dos bárbaros. Quando foi
que começou na verdade? Porque no momento em que houve a penetração para
oeste já estava havendo aquela confusão toda com os índios, justamente no período
em que estava ocorrendo a guerra dos bárbaros.
José Elias Borges Barbosa:
Segundo Serafim Leite começa a guerra com os tarairiús em 1608. A guerra
dos bárbaros só atinge sua parte nevrálgica mais importante a partir de 1687 até o
primeiro tratado, em 1694, mas depois ela continuou; depois houve outro tratado,
em 1697; depois foi feito mais outro tratado, em 1730. Praticamente essa guerra
começou antes dos holandeses e se prolongou bastante. Foi uma guerra de cem a-
nos. E foi a maior guerra indígena do Brasil.
Waldice Mendonça Porto:
Eu tinha muito interesse nesse aspecto por eu estou fazendo um trabalho
sobre a ocupação do território paraibano.
Wilson Nóbrega Seixas:

143 

 
Para satisfazer à curiosidade da nossa colega Waldice Porto, eu tenho aqui
uma certidão extraída do Arquivo Ultramarino de Lisboa, de Teodósio de Oliveira
Ledo, datada de 20 de janeiro de 1710. Ela diz : “Certifico que levantando-se o gen-
tio em primeiro de fevereiro de 87 em todos esses sertões da Paraíba e nos do Rio
Grande do Norte e Ceará, matando muita gente e destruindo muitas fazendas de
gado vacum e cavalares e mais criações e muitas casas, ficando senhor de muitas fa-
zendas e para castigar maior parte de seu furor e estrago, mandou o governador
desta capitania, que a então governava, Antônio da Silva Barbosa, ao capitão mor
André Moreira de Moura com o meu irmão Constantino de Oliveira Ledo”.
Ele então sai contando a história todinha. Aí ele declara a data e o ano: pri-
meiro de fevereiro de 1687. Anteriormente havia outros movimentos dos índios.
José Elias Borges Barbosa:
É preciso notar que não havia uma luta coordenada com todas as tribos
marchando contra os portugueses. Nessa fase nevrálgica o que acontecia era que
cada dia as sesmarias iam tomando as terras dos índios. Era a invasão portuguesa
para a conquista dessa região. Os índios tinham que resistir, e resistiram bravamen-
te até o último homem. Escaparam poucos, mas os que escaparam ficaram na raça.
Podemos lembrar os cruzamentos, resultando nos cabeças chatas do sertão. Os ín-
dios tinham cabeça redonda, mas no cruzamento com o branco surgiram os cabe-
ças chatas. Também surgiram as chamadas manchas mongólicas no corpo dos des-
cendentes, mais conhecidas por jenipapo. Jenipapo, porque era da cor do jenipapo,
que os índios usavam para se pintar. As pessoas que eram descendentes de índio
com branco tinham jenipapo, essa mancha mongólica que os índios tinham, mas os
portugueses não tinham.
Humberto Cavalcanti de Mello:
Tenho algumas perguntas a fazer. Primeiro, você falou que os tarairiús eram
jês, e os potiguaras eram tupis. Os cariris eram o que?
José Elias Borges Barbosa:
Pompeu Sobrinho, grande antropólogo em quem me baseio nos meus estu-
dos, examinou essa matéria com muito mais detalhes. Ele verificou que os cariris
eram mais aparentados dos tupis. Linguisticamente, Batista Caetano e outros estu-
diosos do século passado, comparando a gramática, acham que os cariris são mais
aparentados dos tupis. Um grande estudioso, Arion Darinha Rodrigues, de São
Paulo, que agora está na Universidade de Brasília, publicou um dos primeiros traba-
lhos sobre a língua cariri, e acha que, comparando algumas palavras do grupo cariri,

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elas são semelhantes com algumas do grupo macro jê. Penso que isso pode ser do
contato passageiro entre algumas tribos vizinhas dos cariris. Acho que a base da
gramática e do vocabulário cariri é mais ligado ao grupo brasílico do tupi, do arua-
que, o caraíba, tucanos, que são da última leva dos que vieram pelo oceano Pacífi-
co.
Humberto Cavalcanti de Mello:
Há vários nomes que soam como tupis. Por exemplo, canindé parece um
nome tupi. Os tarairiús que foram para São José de Mipibu e Nísia Floresta (antiga
Papari) são nomes tupis?
José Elias:
Canindé é nome tupi.
Humberto Mello:
Por que esses nomes tupis em uma tribo tarairiú?
José Elias:
Os tupis eram quem mandavam e sua língua era uma língua de comunicação
geral.. Era o inglês daquele tempo. As diversas tribos tapuias usavam o tupi. O no-
me Canindé apareceu quando? Os documentos holandeses dizem que surgiu o rei
Canindé, que falava tupi, mas era rei tarairiú. E a maior parte dos nomes de pessoas
dos tarairiús era nomes do tupi.
Humberto Mello:
Antes que os tabajaras chegassem, quem ocupava essa região ao sul do rio
Paraíba? Eram os caetés?
José Elias:
Eram os caetés, que eram do grupo tupi, também.
Humberto Mello:
Existem registros, inscrições rupestres de índios muito antigos, inclusive
com uma certa diferenciação. Não sei se houve alguma datação dessas inscrições na
Paraíba. No Rio Grande do Norte houve e era entre 4.000 a 6.000 anos de antigui-
dade. Sobre cerâmica, disse-me Balduíno Lélis que a cerâmica encontrada na região
da serra do Teixeira até Princesa era uma cerâmica de nível de elaboração superior,
melhor do que a encontrada em outras regiões e, segundo ele, essa cerâmica lem-
brava um pouco a dos aruaques. Se havia esse povo muito antigo com esse conhe-
cimento superior, como é que esse povo desapareceu, como é que foi substituído
por um povo de cultura inferior?
José Elias Borges Barbosa:

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Essa cultura mais avançada de elementos de barro trabalhado, tipo marajoa-
ra, era das últimas correntes que vieram por via transpacífica (a última que veio deu
os Aztecas, Incas e Maias). Mas eles chegaram no máximo a uns 3.000 anos aqui na
Paraíba. O mais provável é 1.500 anos.
Humberto Mello:
O pessoal que fez essas cerâmicas não é o mesmo que fez as inscrições ru-
pestres?
José Elias:
Possivelmente, não. Há vários tipos de inscrições rupestres. Há inscrições
mais simples e há inscrições mais complicadas. Mas o homem deve estar aqui na
América latina há cerca de 30.000 anos, conforme os estudos mais recentes feitos
na cidade de São Raimundo Nonato, no Piauí. Os desenhos de lá e de cá são muito
semelhantes. Os desenhos da Pedra do Ingá não podem ter menos de 3.000 anos.
Deve ser uns 5.000 anos, pois é um documento mais antigo, que ainda não estão no
registro do domínio histórico.
Humberto Mello:
Com esses elementos sem escrita, realmente ficava difícil chegar a uma con-
clusão, e a tradução oral é falha.
Guilherme d’Avila Lins:
Em primeiro lugar, cumprimento o professor José Elias pela exposição que
aqui fez. Farei algumas observações. Uma delas diz respeito ao fato de se os caetés
eram fronteiros dos potiguara no início da nossa conquista. No começo da nossa
conquista os caetés já haviam sido dizimados ou escorraçados pelo filho de Duarte
Coelho de Albuquerque, indo esses indígenas do Porto do Calvo, os que sobrevive-
ram. De modo que, no alvorecer da nossa conquista, todo o território da Paraíba e
de Itamaracá estava nas mãos dos potiguara. Tanto é que quando houve a nossa
guerra de Troia índia o cacique Iniguaçu trilhava por Itamaracá e chegou a Tracu-
nhaém e ali quem dominava era a facção potiguara. Em janeiro de 1585 chegam
aqui os tabajaras. É hora de desfazer um equívoco, que já está sedimentado na nos-
sa historiografia, equívoco que foi criado, salvo engano, pelo nosso grande historia-
dor Horácio de Almeida, que, como ser humano, também pode se equivocar. Ho-
rácio fala de um grande êxodo que aconteceu desde as margens do rio São Francis-
co, quando os tabajara tiveram que vir pelo interior para chegarem aqui, depois de
muitos anos, em janeiro de 1585. Esse êxodo existiu, sem dúvida. O fato a que ele
se refere, ele colheu em Frei Vicente do Salvador, que não fala de data. Frei Vicente

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Salvador dificilmente fala de data, e quando fala é preciso ter cuidado, porque ele
fala muito de informação oral, como os cronistas daquela época. Por exemplo, ele
vai de boa fé em cima do autor do Sumário das Armadas e diz que Frutuoso Bar-
bosa chegou aqui a primeira vez em 1579, quando em 1579 ele conseguiu o alvará
de el-Rei, mas só saiu de Portugal em 81. E a segunda vez, foi em 1582.
Mas, segundo Horácio de Almeida, com base nas informações sem data de
Frei Vicente do Salvador, a campanha de preação de índio foi levada a cabo por
Gaspar Dias de Ataíde e por Francisco de Caldas, este que fora ouvidor da capita-
nia de Pernambuco (como está em Frei Vicente). Realmente ele fora, porque não
podia ser mais, pois como detentor de um cargo público da Coroa ele não podia
prear índio, mesmo que fosse em guerra justa. O grande equívoco de Horácio é que
ele diz que foi em 1573 e aqui chegaram em 1585, doze anos depois. Existe um do-
cumento transcrito em português da época, textual, em 1578, que dá Francisco de
Caldas vivo em Olinda, ocupando o cargo de provedor da capitania de Pernambu-
co. Isto em 1578. Portanto, esta campanha de preação de índio tem que ser, no mí-
nimo, contada a partir desta data. Supondo que tivesse sido ainda do ano de 1578
esta grande preação de índio nas margens do rio São Francisco, a grande odisseia
teria durado apenas de 1578 até 1585, e não de 1573 a 1585. Esta é uma retificação
que precisa ser feita. Vale lembrar que uma filha de Francisco de Caldas denunciou
no Santo Ofício, em Itamaracá, dizendo-se filha de Francisco de Caldas, que era
dos da governança da terra, já falecido. Isso em 1594.
Embora a gente tenha alguns estudos do tupi na geografia da Paraíba – um
tupi restrito geograficamente – porque eles só dominaram uma pequena faixa do
nosso território (a faixa litorânea), podemos verificar que o predomínio da toponí-
mia tupi é exatamente nessa faixa litorânea. Saindo dessa faixa, já se perde o conta-
to com o tupi, ou vai-se perdendo gradativamente o contato com as palavras de o-
rigem tupi. É tempo de se fazer um estudo da toponímia do tupi na geografia da
Paraíba.
José Elias:
É o que eu estou fazendo. Não somente do tupi, mas de todas as línguas in-
dígenas.
Guilherme d’Avila Lins:
Muito bem. Chegou até nós muito pouca coisa da cultura dos tarairiús, dos
cariris, da cultura dos “tapuias”. Elias Herckmans, se não me engano, foi o primeiro
que deu uma noção superficial, mas real desses índios. Os jesuítas deixaram muita

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coisa sobre a cultura do tupi. Existe alguma coisa na cultura dos tarairiú que os a-
proxime da dos tupi como, por exemplo, a saudação lacrimosa, a “couvade” ou
“choco”, a ceva do prisioneiro de guerra para poder ser ritualisticamente devorado?
Existem coisas desse tipo? Há notícias sobre esses costumes?
José Elias:
Sobre esses costumes com relação aos tupis e cariris, existe. Porque os cariris
também tinham o couvade, que é um costume mais tupi. No couvade o marido fi-
cava de choco enquanto a mulher dava a luz. Era o marido quem recebia as visitas,
deitado numa rede. Couvade é um nome francês
Waldice Porto:
O que Dra. Vilma dizia era que significava a certidão da criança e a prova de
paternidade.
Guilherme d’Avila Lins:
Coisas curiosos do costume tupi. O índio quando saia com a índia carregan-
do a carga, ele tinha que estar livre para guerrear se fosse o caso. Ele saía à frente,
quando saía da taba, porque ela podia correr de volta enquanto ele enfrentava o pe-
rigo. Quando eles voltavam era o contrário, o índio vinha atrás por ela poderia cor-
rer para a taba e ele cobriria a retaguarda. Existe coisas desse tipo?
José Elias:
Há uma coisa comum entre os grupos jês. Por exemplo, aquela corrida do
tronco, que era cortado e passava de um índio para outro, como nossa corrida de
revezamento. Isso é testemunhado em Uris Barbman, quando descreve a visita que
fez a Janduí. Eles tinham um costume que era típico deles e de algumas poucas tri-
bos do Brasil, que era o endocanibalismo. Que é o endocanibalismo? Quando mor-
ria um parente, na guerra ou por doença, os cariris assavam e comiam.
Guilherme d’Avila Lins:
Os tupis faziam isso com a criança defeituosa.
José Elias:
Dentro dos rituais, eles trituravam os ossos e cabelos e comiam tudo com
mel de abelha. Mel de abelha era uma coisa típica deles, o que vai diferenciar os ta-
rairiús dos tupis e dos cariris. Eles eram especialistas em mel de abelha. Eles eram
ictiófagos. Os holandeses descrevem a pesca na Lagoa de Piató. Esse conjunto de
costumes os aproxima de uma cultura mais antiga. Os tarairiús eram mais primiti-
vos que os tupis, cuja organização era mais valiosa. Eles tinham o sistema de len-
das. O ritual que os cariris tinham é o ritual do fumo, do tabaco. O fumo para eles

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era um deus, porque quando fumavam ficavam inebriados, era como se tivessem
contato com os deuses. Os cariris faziam a festa do fumo.
Jeová Mesquita:
A minha pergunta é a seguinte: Por que é que o mapa da Paraíba, no meio
do Estado, tem essa cintura?
José Elias:
Até o século passado o formato do mapa da Paraíba seguia a demarcação da
capitania e pouca gente conhecia a topografia. Irineu Joffily aborda esse assunto,
vinculando ao problema da influência dos rios e a zona do Seridó. Depois houve
outras discrepâncias. O Rio Grande do Norte e a Paraíba eram uma coisa só. O Rio
Grande do Norte se aproveitou e colocou a parte do Seridó como sendo dele. Esse
estrangulamento se deve à influencia dos rios. Ainda não temos um trabalho bem
detalhado sobre as fronteiras da Paraíba.
Marcus Odilon Ribeiro Coutinho:
Estou encantado com sua exposição. Eu gostaria de saber a tradução dos
topônimos gargaú, tibiri, acajutibiró e gurinhém.
José Elias:
Quanto aos primeiros, são inegavelmente tupis. Há muitas tentativas de de-
codificar. Houve uma época no Brasil que tudo era considerado de origem tupi. Era
uma tupimania. O livro básico para esclarecimentos dessa natureza é o livro de Te-
odósio Sampaio. Bodocongó tem várias interpretações, bodopitá, também. Sobre
Borborema, tenho a impressão que é uma palavra cariri. Tibiri é palavra de origem
tupi. Gurinhém, tenho dúvida se é uma palavra de origem cariri ou tarairiú. Há
muitas diversificações. Mas, há três grandes línguas: o tupi da Amazônia, o tupi da
costa e o guarani, e mais ou menos uns 300 dialetos, além das variações que existem
de tempo em tempo e de região para região. O tupi do Maranhão é bem diferente
do de cá. São três grandes grupos, divididos cada um de 40 a 50 dialetos.
Uma coisa é preciso salientar. Os índios não tinham essa idéia de Brasil, co-
mo nós temos hoje. Nem tinham idéia desse tamanho todo. Eles viviam em tribos
pequenas, agrupadas. Algumas tribos tupis estavam subindo. Eles vinham descendo
da região da Amazônia, descendo para o Paraguai, Argentina, pegaram a costa e fo-
ram subindo por aqui, quando chegaram os portugueses. As tribos não eram uma
organização nacional, tipo estatal, como se verifica hoje. Eram tribos isoladas, bri-
gando umas com as outras. Da mesma raça, mas brigando umas com as outras pelo
domínio das terras.

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Respondendo à pergunta de Marcus Odilon, eu afirmo que não existia índio
Bruxaxá. Na parte referente a índio constante do trabalho de Horácio de Almeida,
nada é confiável. Ele era muito teimoso e sobre isso cheguei a discutir com ele. A
parte indígena está totalmente errada., o que é lamentável, porque se trata de um li-
vro muito bom. Bruxaxá não era índio. Bru-há-há, em francês, significa confusão.
Pedro Bruhaha está na fundação de Areia e é possível que isso tenha gerado essa
denominação.
Agradeço a atenção de todos, na certeza de que minha exposição aclarou a
posição dos indígenas da Paraíba nesses 500 anos da descoberta do Brasil.

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7º Tema:
OS HOLANDESES NA PARAÍBA
Expositor: Aécio Villar de Aquino
Debatedor: Luiz de Barros Guimarães

A fala do Presidente:

Hoje vamos debater o tema OS HOLANDESES NA PARAÍBA. Por moti-


vos superiores tivemos que remanejar a palestra que estava programada para esta
tarde. Mas vamos em frente.
Para compor a mesa, convido o confrade Aécio Villar de Aquino, que será o
expositor; o acadêmico Joacil de Brito Pereira, presidente da Academia Paraibana
de Letras; Guilherme d’Ávila Lins, presidente do Instituto Paraibano de Genealogia
e Heráldica.
O professor Aécio Villar de Aquino, nosso expositor, é formado em Ciên-
cias Jurídicas e Sociais pela UFPB; possui diploma de Estudos Superiores em Eco-
nomia Política e Direito Internacional Público e de Espanhol, pela Universidade de
Madrid; concluiu o Curso de Reforma Agrária na OEA e Agricultural Marketing
(Departamento de Estado dos EUA) e tem outros cursos de extensão no Brasil e
no exterior. Ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e ex-professor de
Antropologia da UFPB. Publicou vários trabalhos sobre nossa história, valendo ci-
tar NORDESTE SÉCULO XIX; NORDESTE AGRÁRIO DO LITORAL NU-
MA VISÃO HISTÓRICA; FELIPÉIA, FREDERICA, PARAÍBA – OS CEM
PRIMEIROS ANOS DE VIDA SOCIAL DE UMA CIDADE; e outros mais.
Passo a palavra ao consócio Aécio Villar de Aquino.

Expositor: Aécio Villar de Aquino (Ex-sócio do IHGP e ex-professor da UFPB;


historiador, ensaísta, sociólogo, falecido recentemente):

A minha palestra sobre o tema OS HOLANDESES NA PARAÍBA foi an-


tecipada para substituir outro tema, em virtude da impossibilidade do expositor de-
signado comparecer a este Ciclo de Debates.
Somente ontem fui solicitado para fazer essa substituição, razão por que pe-
ço relevar o improviso desta palestra, uma vez que não houve tempo para preparar
um trabalho mais bem ordenado.
151 

 
Abordarei essa fase dos holandeses na Paraíba examinando seu aspecto his-
tórico e antropológico.
Há várias coisas que nos chamam a atenção quanto às invasões holandesas
na Paraíba. Sabemos que a Paraíba foi a última cidade a ser conquistada pelos ho-
landeses, três anos após a conquista do Recife. Foram três tentativas frustradas dos
holandeses para conquistar a Paraíba. Vale, portanto, registrar o heroísmo dos pa-
raibanos, do pessoal da cidade, o que seria lógico, na defesa da sua terra. Tem até
um ditado que diz que a defesa da casa é tão importante que, para sair-se dela, até
quando morto são precisas quatro pessoas para carregá-lo.
Além desse heroísmo houve uma série de circunstâncias que influíram nas
vitórias sucessivas dos paraibanos e na frustração dos holandeses durante essas in-
vasões. A posição da Paraíba, à época, era de uma verdadeira fortaleza, era um lugar
quase inexpugnável, de acesso muito difícil. Essa defesa foi reforçada desde os ata-
ques dos índios. A melhor entrada para a cidade era a embocadura do rio Sanhauá.
Naquela embocadura havia dois fortes e a ilha da Restinga, que era utilizada com
uma bateria, impediam o acesso dos navios. Do lado sul da cidade havia uma série
de alagados por conta dos rios Mumbaba e Gramame. Também em torno do rio
Sanhauá havia, como ainda hoje, uma série de mangues. O acesso ao rio só era pos-
sível no porto do Jacaré. A própria lagoa do centro da cidade também servia de
empecilho. Havia também um sistema sonoro no forte de Cabedelo. Em caso de
perigo, era usado um canhão especial que disparava, sendo ouvido na cidade. Por
outro lado, na cidade também havia outro canhão que disparava para ser ouvido
nas cercanias de Santa Rita. Com esse sistema era fácil convocar as chamadas milí-
cias locais para lutar contra qualquer invasor, sob o comando dos “coronéis”, que
eram os senhores dos engenhos.
A propósito, o povoador era obrigado a ter uma arma em casa, assim como
os suíços. Desde o tempo de D. Sebastião que havia esse procedimento. Quem não
tivesse uma arma em casa era penalizado, pois a qualquer momento poderiam ser
chamados para a defesa da cidade. Essas condições retardaram a posse da cidade
pelos holandeses.
Quando a cidade foi libertada o forte de Cabedelo ficou nas mãos dos ho-
landeses quase dez anos, pois eles recebiam abastecimento pelo mar.
Uma coisa interessante nos holandeses é que eles não assimilaram o sistema
de guerrilhas adotado pelos indígenas na defesa da cidade, o que contribuiu muito
para os seus insucessos. Como se sabe, os europeus combatiam em campo aberto.

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O uso da flecha muitas vezes era superior ao uso do arcabuz, que demorava a ser
recarregado. Enquanto a arma era recarregada um índio desfechava seis flechas.
Também durante o período de chuvas a pólvora molhada falhava.
Há um aspecto da presença dos holandeses no Nordeste, que não tem expli-
cação. Os holandeses dominaram o Nordeste durante 24 anos e não há o mínimo
vestígio da cultura holandesa, apesar do grande relacionamento que houve no tem-
po de Nassau. Na época chegou a existir a câmara de vereadores, funcionando com
brasileiros e holandeses - os escabinos, como eram chamados. Diz Câmara Cascu-
do, depois de uma pesquisa exaustiva, que único traço da cultura holandesa no
Nordeste era o brote, aquele pãozinho redondo, cujo nome era derivado de brute,
que era o pão holandês. É verdade que foi grande a contribuição holandesa sob o
ponto de vista artístico, com a presença de pintores como Franz Post e Eckoutt; do
ponto de vista científico, com o médico Dr. Piso. Até as construções dos holande-
ses foram destruídas com sua saída. Na Paraíba não ficou nada, em Recife parece
ter ficado apenas as fortalezas de Cinco Pontas, do Brum e do Buraco. Deixaram
poucos traços.
É preciso registrar que existia a Companhia das Índias Ocidentais, financiada
pela Holanda, que recrutou a escória do que existia na Europa naquele tempo. E-
ram desocupados, vagabundos e delinquentes de uma Europa que estava em difi-
culdades.
Um aspecto curioso está no livro de José Antônio Gonsalves de Mello –
NO TEMPO DOS FLAMENGOS -, que é um livro interessante, em forma de
romance, todo documentado. Folheando esse livro, vi um documento que ele
transcreve sobre o palácio de Nassau. A ideia de palácio é coisa de conto de fadas,
onde se tem de tudo e do melhor. Nesse documento encontrado no arquivo de
Haia, verifica-se que havia um racionamento de comida no palácio de Nassau. Nin-
guém comia o que tinha vontade no palácio do príncipe. Havia uma relação das
quantidades a serem usadas. Só o príncipe tinha liberdade de escolha. O Dr. Piso
tinha direito a um copo de vinho, tantas gramas de pão, tantas de carne; o pintor
Eckout tinha direito a isso e isso. Assim, os próprios comensais do príncipe tinham
sua ração reduzida.
Ainda hoje se discute se seria melhor a presença do holandês ou do portu-
guês na nossa colonização. Há muitos autores que examinaram o assunto. Eu me
lembro que Rocha Pombo se pronunciou contra os holandeses, registrando o esta-
do em que se encontrava naquele tempo as colônias da Indonésia e da Guiana Ho-

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landesa, o Suriname. Gilberto Freyre era muito favorável à colonização portuguesa,
dizendo que havia uma tendência do português para a miscigenização. Não consi-
dero importantes essas hipóteses, pois não sou contra nem a favor.
O que foi ruim foi propriamente foi o sistema colonialista adotado. Hoje é o
capitalismo, que foi iniciado pelos holandeses e ingleses com o chamado capitalis-
mo mercantilista.
Existem dois tipos de colonização: a colonização de povoamento e a coloni-
zação de exploração. Na colonização de povoamento são povos que vêm de outro
país para ocupar outras terras porque não têm mais espaço naquele país, em razão
de lutas religiosas ou políticas. Os Estados Unidos é um exemplo de colônia de po-
voamento, resultante das lutas religiosas da Inglaterra, que levaram os ingleses a e-
migrarem para a América do Norte e fundarem outro país. Da mesma maneira o-
correu com a Austrália, para onde foi gente inglesa da pior espécie. Na colonização
desse tipo o povoador vai com toda a família: a mulher, os filhos, os aderentes.
Fundamenta-se, pois, numa propriedade familiar, cultivando um pequeno pedaço
de terra e não tem interesse no trabalho escravo, mantendo afastamento dos nati-
vos, com tendência para o racismo. Na África do Sul os nativos foram até elimina-
dos. A produção é para eles próprios, e não para a metrópole nem para qualquer
outro país. Na colônia de exploração acontece tudo em contrário. No início da co-
lonização do Brasil o povoamento se deu sem a presença da família, pois os navios
aqui aportados traziam principalmente homens, deixando em Portugal e Holanda
os familiares. A propriedade tinha características de latifúndio e a produção era para
o consumo externo.
A colonização no Brasil e na maior parte da América Latina foi de explora-
ção. A Holanda, como Portugal, adotou, no Brasil, a colonização de exploração.
Assim, não há como discutir esse assunto, se um seria melhor do que outro para
colonizar. Aliás, como acentua Celso Furtado, o Nordeste na época do domínio
holandês era a região mais rica do mundo. O produto bruto do Nordeste brasileiro
era cinco vezes maior do que o da Inglaterra.
Para finalizar, lembro outro aspecto interessante sobre as colônias de povo-
amento, uma vez que todas, sem nenhuma exceção, são hoje países desenvolvidos.
Ao mesmo tempo, todas as colônias de exploração são países subdesenvolvidos.
Era o que tinha a expor.

A fala do Presidente:

O expositor acaba de registrar alguns aspectos da ocupação holandesa da


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Paraíba, examinando o tipo de colonização da época com as consequências do re-
gime adotado, destacando a colonização pelo povoamento.
Para debater o tema, convidamos o companheiro Luiz de Barros Guimarães,
historiador, membro do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica, e possui vá-
rios cursos de extensão de História. É de justiça destacar agora sua condição de
precursor na Paraíba, do debate sobre os 500 anos da descoberta do Brasil, quando,
em outubro de 1997, iniciou no jornal O NORTE uma seção domingueira sobre os
500 do Brasil. Foram 96 artigos sob sua coordenação e assina vários artigos.
Vamos ouvi-lo.

Debatedor: Luiz de Barros Guimarães (Historiador e membro do Instituto Pa-


raibano e de Genealogia e Heráldica):

Acabei de ouvir a explanação do historiador Aécio Villar de Aquino. Gostei


bastante.
A História é constituída de diversas versões. Não existe só uma linha reta; há
várias interpretações. Por esta razão é que estou aqui como debatedor. Tive o cui-
dado de anotar as observações que Aécio fez durante sua palestra.
A respeito da cultura que nós não absorvemos dos neerlandeses, e não ho-
landeses, que eu prefiro dizer assim porque os Países Baixos eram constituídos de
17 províncias. Conheço a notícia de que a aversão à cultura trazida por eles era uma
cultura de hereges, cultura de satanás. Havia um propósito religioso para evitar con-
tato com esse povo. Essa é uma das versões que conheço.
Só encontrei duas palavras de origem holandesa que se incorporaram ao vo-
cabulário brasileiro. Uma, foi escorbuto, que é uma palavra de origem holandesa; a
outra, como disse o professor Aquino, foi brote. Até o momento só encontrei essas
duas.
Os holandeses, provavelmente, não deixaram em todas as suas ocupações a
influência da arquitetura, mas o bairro do Recife atesta que houve grande influência
na arquitetura da vida pernambucana. Aqueles sobrados altos, estreitos, de escadas,
que nós vemos no bairro do Recife na rua Madre de Deus, que antigamente cha-
mava-se rua dos Judeus e pejorativamente era chamada rua de bode, é uma caracte-
rística da influência da arquitetura dos Países Baixos, como eu gosto de dizer. Ou-
tro ponto importante foi o número de pontes que os holandeses construíram. Não
foram poucas pontes, embora a mais conhecida seja a Ponte da Boa Vista, porque
ali tinha um palácio donde se avistava um grande panorama. Outras pontes foram

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construídas, como a de Afogados, a de Cinco Pontas (que liga os bairros de Recife
que atravessam os rios).
Outro ponto que gostaria de comentar é a respeito da comida controlada do
palácio de Nassau. A versão que tomei conhecimento foi a de que a Companhia das
Índias Ocidentais, querendo frear os gastos, querendo prejudicar Nassau e sua ad-
ministração, cortou verbas, inclusive na alimentação bem como no soldo que ele
recebia. Essa é uma justificativa dada por vários historiadores sobre porque havia
grande economia no governo de Nassau. Isso ocorreu durante toda a colonização
dos Países Baixos.
A respeito da pendência se seria melhor a colonização dos portugueses ou
dos holandeses, da Coroa portuguesa ou da Companhia das Índias Ocidentais, que-
ro dizer que é preciso analisar com muito cuidado, porque são coisas completamen-
te diferentes. A colonização dos Países Baixos não pode se comparar com a coloni-
zação da Companhia das Índias Ocidentais; uma só visava lucros imediatos, mer-
cantilistas; a outra queria uma exploração mais ampla.
Outro ponto de vista para o qual chamo a atenção é que muita gente fica
impressionada com o progresso do Recife, que Nassau conseguiu fazer somente em
sete anos – de 1637 a 1644 -; foi um progresso formidável. Isso não quer dizer que
esse progresso foi devido à colonização dos Países Baixos ou da Companhia das
Índias Ocidentais. Esse progresso se deve unicamente a Maurício de Nassau. Essa é
a minha versão, que pode não ser a verdadeira.
Não podem ser comparadas a colonização portuguesa, a colonização dos
Países Baixos, a colonização da Companhia das Índias Ocidentais e a administração
de Nassau, porque são coisas diferentes.
A respeito da monocultura, Nassau teve o máximo de cuidado. Tem alvará
de Nassau obrigando a plantar tantos pés de mandioca, ou tantas covas de mandio-
ca, conforme o número de escravos ou empregados existentes. Nassau proibiu a
derrubada de cajueiros e, mais importante, alertou para a derrubada de pau-brasil,
coisa talvez inédita na colonização portuguesa. Ele recomendou, em alvará, que se
tivesse o cuidado de só derrubar pau-brasil com mais de quatro anos de idade, que
dava maior rendimento do que estava sendo feito pelos estrangeiros, que derruba-
vam árvores com dois ou três anos. É preciso estudar tudo isso para se ver a dife-
rença da colonização sábia de Nassau e a dos demais colonizadores, inclusive dos
portugueses no Brasil. Nassau foi o único a abrir escolas para os escravos.
O tema em debate nesta tarde é um dos menos pesquisados, entretanto julgo

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ser um dos temas mais importantes para a nossa história.
Os fatos transcorridos somente nas duas décadas de 1624 a 1654 se situam
num período muito curto, mas muito importante para a nossa história. Com a ex-
pulsão dos holandeses, ou melhor dizendo, dos Países Baixos, começou a rivalidade
entre brasileiros e portugueses. Os da terra começaram a entender que se tiveram
forças para expulsar uma potência como os Países Baixos, a maior potência naval
da época, poderiam um dia caminhar para a sua independência.
Jamais, depois da derrota das tropas invasoras, o relacionamento entre brasi-
leiros e portugueses foi o mesmo. Começou aí uma série de revoluções. Os brasilei-
ros começaram a entender que iriam conseguir sua independência. A semente da
independência do Brasil talvez esteja na restauração pernambucana.
Faço questão de usar a expressão neerlandesa em vez de holandesa. Baseio-
me no historiador Evaldo Cabral de Mello, quando em seu livro NEGÓCIOS DO
BRASIL, procurou diferenciar o termo Holanda. Escreve ele que é necessário fazer
alguns esclarecimentos tecnológicos. Já era então costumeiro designar-se a Repúbli-
ca das Províncias Unidas dos Países Baixos por Holanda, o que era um erro. Isto é,
a designação era feita pela mais importante das seis províncias que formava a con-
federação. O ocorre é que a divergência entre a Holanda e seus parceiros eram fre-
quentes, inclusive em matéria de política exterior. Daí a opção, neste livro de Eval-
do Cabral de Melo, pelo vocábulo Holanda e holandeses na acepção das províncias
da Holanda e seus habitantes; salvo no tocante à expressão consagrada Brasil Ho-
landês, a nação será e sempre foi designada por Países Baixos e seu governo por
Estados Gerais, de modo a distinguir dos Estados da Holanda. Ficou mais conhe-
cido como período holandês porque a Holanda possuía quarenta porcento da po-
pulação em todos os Países Baixos e contribuía com 58% do orçamento. O que vi-
nha em segundo lugar era a Frigia com apenas um quinto, ou seja 25% porcento; os
demais pouco representavam. Por isso que se refere sempre e unicamente à Holan-
da, mas eram sete províncias, cuja descrição deixo de apresentar para não tomar o
tempo dos presentes.
Retrocederei um pouco para falar sobre a Companhia das Índias Ocidentais
para melhor se compreender o domínio dela na Paraíba. O capital de sete milhões
de florins para a formação da Companhia das Índias Ocidentais originou-se da par-
ticipação de investidores privados e estatal. Os Países Baixos, isto é, o Estado, além
de sua participação monetária, se comprometiam a fornecer militares e naus. À
Companhia caberia a manutenção e o pagamento dos soldos desses militares. Dessa

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maneira, os negócios privados da Companhia passaram a constituir, sobretudo, um
negócio de estado. Por essa razão é que veremos, mais adiante, a interferência dos
Países Baixos na paz definitiva com Portugal, e não com o Brasil. A batalha foi ga-
nha aqui, mas a paz foi resolvida em Haia e em Londres. E tivemos que pagar qua-
tro milhões de cruzados de indenização, isto é, ganhamos a guerra e ainda pagamos
aos invasores.
A administração da Companhia das Índias Ocidentais era formada por cinco
conselheiros regionais, proporcionais ao número de acionistas, sendo os mais im-
portantes zelandeses e os holandeses. Havia também um Conselho composto de 19
diretores, denominado Conselho dos XIX, representado por 18 conselheiros regio-
nais e um representante dos Estados Gerais, que se reuniam em Amsterdâ e Midel-
burg, alternativamente.
No Brasil holandês existia o Alto e Secreto Conselho (Hoog end Sevet Ra-
den), com sede em Recife, composto de três membros, cuja atribuição principal era
assessorar o governo do Brasil holandês, obrigado a apresentar, periodicamente, re-
latórios ao Conselho dos XIX, em Haia. (Era uma espécie um SNI).
Retrocedo às razões econômicas que contribuíram para a criação da Com-
panhia das Índias Ocidentais. Os Países Baixos mantinham um fluxo comercial re-
lativamente significativo com Portugal. Altos investimentos, inclusive financiamen-
tos, foram realizados no transporte marítimo, sobretudo, em instalações de refinari-
as de açúcar em Amsterdã. Instalaram refinarias de açúcar em Amsterdã, e não em
Pernambuco. Distribuíam açúcar refinado para todo o Norte da Europa, e por essa
razão alguém escreveu que o açúcar é mais holandês do que português. Tenho impressão
que foi Celso Furtado quem disse que o açúcar era mais holandês do que portu-
guês. Os investidores neerlandeses eram proprietários de engenhos, financiadores
da cultura da cana-de-açúcar, transportadores marítimos, refinadores e distribuido-
res. Pouca coisa restava aos portugueses. Portugal estava decadente. O capitalismo
português já não funcionava.
Além da indústria açucareira, os Países Baixos comercializavam com pau-
brasil, algodão, couro, peles e animais exóticos. Por volta de 1621, os armadores
neerlandeses transportavam grandes percentuais de cargas para a Europa, entretan-
to, com a União Ibérica, entre 1580 a 1640, quando Portugal foi incorporado à Es-
panha, passando a ser colônia da Espanha, o Brasil passou a ser uma sub-colônia.
Felipe II fechou os portos lisboenses aos navios dos Países Baixos, sendo talvez a
principal causa para a criação da Companhia das Índias Ocidentais. Motivos religio-

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sos também contribuíram para a formação da Companhia.
A derrota militar neerlandesa deve-se a vários fatores.
No livro OLINDA RESTAURADA – GUERRA DO AÇÚCAR NO
NORDESTE, 1630-1654, o historiador Evaldo Cabral de Mello apresenta a situa-
ção da Companhia, tomando por base os percentuais do valor das ações na Bolsa
de Valores. Em abril de 1644 as ações da Companhia caíram para 70%, logo 68% e 52%,
devido aos boatos de ajuda militar portuguesa a Angola. Com saída de Nassau as ações caí-
ram para quase um terço do seu valor. A Companhia das Índias Ocidentais estava
economicamente derrotada. Não havia mais condições de manter a resistência mili-
tar no Nordeste. Os soldados já não recebiam seus soldos.. A fome era grande. Ra-
tos e restos de passarinhos eram comidos pelos soldados. A corrupção predominou
nas tropas invasoras Sem capital, a Companhia não possuía condições de sustentar
suas possessões e manter altos investimentos na construção e manutenção dos en-
genhos. Os empréstimos feitos aos luso-brasileiros não tiveram retorno. A derroca-
da econômica refletiu diretamente na chamada insurreição pernambucana de 1645.
Os luso-brasileiros, que no início colaboraram, foram quinta-coluna com os holan-
deses, e, em vista da incapacidade de saldarem seus débitos, viraram a casaca, com-
batendo os holandeses unicamente por questão de interesse econômico. Comporta-
ram-se como se comportam os ruralistas de hoje.
Deixo, propositadamente, de me referir às batalhas militares.
Com a derrota militar neerlandesa foi assinado um tratado de paz condicio-
nal e provisório em 26 de janeiro de 1654, na Campina da Taborda, pois o definiti-
vo ficaria dependendo da homologação dos governos dos Países Baixos e não de
Portugal. O tratado de paz definitivo foi assinado em Haia, em 6 de agosto de 1651,
e foi lavrado em latim, com 16 artigos, que estabeleciam uma indenização de quatro
milhões de cruzados em ouro e restituição da artilharia que aqui se encontrasse a-
qui, além de favores comerciais, notadamente sobre o açúcar. Coube ao Brasil a co-
ta de pagamento de um milhão e novecentos mil cruzados em ouro, em 19 presta-
ções, durante 16 anos. O Brasil, ou melhor, o Nordeste, Pernambuco, ficava obri-
gado a pagar vinte mil cruzados de contribuição para o dote da infanta D. Catarina
de Bragança, filha de D. João IV, dada em casamento ao rei da Inglaterra. Era uma
operação de família para família. Por esta razão, afirmo que nós ganhamos a batalha
militar, mas perdemos a diplomata. Talvez seja um caso inédito na nossa história.
Ganhamos a batalha e tivemos que indenizar os invasores. Porque nova invasão vi-
ria não só para o Nordeste, como Portugal seria invadido imediatamente pelos ho-

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landeses. O assunto é palpitante.

A fala do Presidente:

Com muito brilho, o historiador Luiz de Barros Guimarães se desincumbiu


de sua missão como debatedor perspicaz. Referiu-se ao comportamento dos holan-
deses durante seu domínio na Paraíba, destacou a atuação de Maurício de Nassau e
profligou veementemente o leonino tratado de paz firmado com os holandeses,
mesmo depois de derrotados;
Sei que os apontamentos do nosso expositor Aécio Aquino e as provoca-
ções do ilustre debatedor Luiz Guimarães vão estimular os participantes na conti-
nuação do nosso debate.
Assim, passo a palavra ao consócio Joacil de Britto Pereira, primeiro debatedor ins-
crito.

1º participante: Joacil de Britto Pereira (Sócio do Instituto e presidente da Aca-


demia Paraibana de Letras):

Expositor e debatedor focalizaram aspectos interessantes sobre o tema. Mas,


gostaria de salientar que aqui no Nordeste, e de modo especial na nossa Paraíba,
heroica e gloriosa, surgiram as guerras holandesas.
Fala-se muito na guerra de restauração pernambucana, mas a maior figura da
reação contra os holandeses, contra os invasores, foi um paraibano: André Vidal de
Negreiros. Um homem extraordinário pela sua bravura, pela sua estratégia, tornan-
do-se um perito nas guerras de guerrilha. Os índios já a praticavam, mas ele deu um
sentido cada vez mais aperfeiçoado a esse tipo de batalhas. E nós conseguimos,
graças a ele, a Felipe Camarão, a Henrique Dias, juntando as três raças que entra-
ram na formação do Brasil, nós conseguimos vencer uma nação poderosíssima, que
tinha uma organização militar mais progressista e moderna: a Holanda. Pouco im-
porta dizer que vinha sob o disfarce da Companhia das Ilhas Ocidentais. Mas o que
ali estava era o predomínio militar dos Países Baixos, dentre os quais o mais impor-
tante era a Holanda.
Eu gostaria de suprir as omissões desses aspectos que não foram ventilados,
para que nós realcemos a bravura do paraibano, dos nordestinos, das três raças que
se irmanaram. Aqui no Nordeste é que é o berço da nacionalidade. A gente lê todo
dia e ouve na televisão que a Bahia é o berço do Brasil, apenas por uma questão de
ter sido a área descoberta, a área primeira tocada, onde aportaram os portugueses.

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Mas, o grande berço da nacionalidade são esses Estados de Pernambuco, Paraíba e
Rio Grande do Norte. E o brasileiro, que nasceu com o espírito de uma nação no-
va, dali surgiu com os seus anseios libertários. O grande sentido dessa situação his-
tórica foi o Brasil despertar para o seu valor próprio. A guerra holandesa nos deu o
sentimento de Pátria. Pela primeira vez na História do Brasil se falou, se usou a pa-
lavra Pátria. Isso está escrito pelos historiadores. Foi uma carta dirigida a André Vi-
dal de Negreiros, que registrou o sentimento de Pátria e a palavra Pátria no seu
conceito mais alto. Esse é um aspecto que eu queria suprir.
O expositor e debatedor fizeram enfoques interessantíssimos, mas nós deví-
amos sempre realçar a bravura do nosso povo, quando se falar sobre a guerra dos
holandeses. Sobre a Paraíba heroica, que reuniu essas três grandes figuras: André
Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Felipe Camarão. A junção dessas três raças é
que fizeram a Pátria brasileira. Foi numa hora em que Portugal queria se ajustar
com os invasores, celebrar uma paz bem anterior, e nós resistimos. Nós os brasilei-
ros, os índios, os negros e André Vidal de Negreiros, que foi um homem tão notá-
vel como estadista, que governou terras daqui e de além-mar. Como guerreiro, foi
de uma bravura excepcional, como estrategista e também como homem de espírito
humanitário. Morreu, deixando antes de morrer, um testamento que é uma precio-
sidade de humanismo. Distribuiu suas terras, seus engenhos com os seus próprios
escravos e moradores. Fez, portanto, a primeira manifestação de uma reforma agrá-
ria no nosso Nordeste, no nosso Brasil.

2º participante: Guilherme d’Avila Lins: (Membro do Instituto e presidente do


Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica)

Mais uma vez parabenizo a iniciativa deste Instituto pela realização destes
debates e particularmente pelas considerações que foram feitas pelo expositor, Dr.
Aécio de Aquino, pelo debatedor, historiador Luiz de Barros Guimarães e pelo
professor Joacil de Britto Pereira.
Ratificando o que já disse o debatedor Luiz de Barros Guimarães, eu digo
que os luso-brasileiros pagaram com sangue a vitória e a expugnação do solo pátrio
pelo invasor neerlandês. E concordo com sua observação: neerlandês e não holan-
dês. E tivemos de pagar de novo, como se já não tivéssemos pago com sangue, a
ousadia de termos expulsado os holandeses, mostrando, sem dúvida, os primeiros
laivos de nacionalidade deste país. O sentimento de brasilidade, como nação, nasce
no período holandês. E é por isso que ele é tão importante para a História do Brasil

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e, particularmente, para o Nordeste.
Sobre os vestígios dos holandeses na nossa cultura há uma linha interessante
de argumentação. O professor Aécio Aquino lembrou a palavra brote, originária de
bloudes, uma única palavra que se incorporou ao nosso vocabulário, entretanto há
cerca de 400 palavras portuguesas que se incorporaram ao vocabulário holandês. O
holandês estava aqui não para morar nem para colonizar. Estava aqui para extrair,
tanto é que ele não levantou um só engenho, fosse na Bahia, no primeiro período,
fosse em Pernambuco, fosse nas Alagoas, fosse na Paraíba. Os engenhos da Paraí-
ba, particularmente, continuaram existindo apesar do abandono dos seus proprietá-
rios, que escaparam quando os holandeses aqui se instalaram. Esses engenhos fo-
ram confiscados, e confiscados ficaram até 1637, quando somente a partir daí Nas-
sau ordenou a venda desses engenhos, que era um capital parado. Vários holande-
ses adquiriram esses engenhos, mudaram-lhes os nomes mas não tocaram neles.
Apenas aproveitaram a mão-de-obra existente nos engenhos. Às vezes o antigo fei-
tor era o mesmo. O próprio Yppo Eissens, considerado por muitos como dono do
engenho Santo André, não era dono, pois ele morreu em 1636, quando Nassau a-
inda não tinha chegado. Ele apenas usufruía indevidamente o engenho, com a aqui-
escência do governo holandês em Pernambuco, por ele ser o diretor da Capitania
da Paraíba. Contra Yppo Eissens consta a existência de um processo acusando-o de
sodomia, fato raríssimamente citado. Aliás este inquérito sobre sodomia foi movido
pelos próprios neerlandeses. Este é o mesmo Yppo Eissens que queria casar com
uma sobrinha-neta de Duarte Gomes da Silveira, pensando no tradicional dote,
como aconteceu com Luciano Brandão, em Itamaracá, senhor de engenho abasta-
do, cuja filha casou-se com um holandês.
Há muita linha de pesquisa a ser desenvolvida sobre o período holandês, a-
pesar de muita coisa já estar escrita. Mas há muita coisa ainda obscura, como, por
exemplo, aqueles dez anos em que os holandeses ficaram acuados no forte do Ca-
bedelo recebendo suprimentos por mar. Essa história está muito curta. Tem que
haver mais coisa sobre este episódio, porque dez anos dentro de um forte dá para
as pessoas morrerem de tédio. Estão faltando pesquisas nesse sentido. José Antô-
nio Gonsalves de Mello vasculhou de forma maravilhosa a documentação holande-
sa, particularmente as atas diárias do governo holandês, no que diz respeito especi-
almente a Pernambuco. Ele só citou a Paraíba en passant, a reboque de fatos de inte-
resse de Pernambuco. Mas toda a documentação das chamadas “Nótulas Diárias”
está para ser vasculhada no Instituto Arqueológico Pernambucano.

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Sobre a atuação dos holandeses, um fato interessante é que a primeira Câ-
mara de Escabinos que existiu no Brasil, no segundo ciclo, foi a da Paraíba, graças à
visão e clarividência administrativa de Elias Herckmans, que a estabeleceu dois ou
três meses antes da de Olinda. A participação dos luso-brasileiros era pequena e te-
oricamente os obrigariam a entender o holandês. Por sua vez, poucos holandeses
falavam português.
Se procurarmos as fontes principais do período temos do lado holandês e-
xemplos como Joannes de Laet, Barleus, entre outros; do lado luso-brasileiro temos
Duarte de Albuquerque Coelho, Manoel Calado Salvador, Diogo Lopes Santiago,
Francisco de Brito Freire, Frei Rafael de Jesus (este precisa ser lido com muito cui-
dado, pois ele consegue transcrever entre aspas discursos de até quatro páginas sem
nunca ter vindo ao Brasil). Apesar de tudo isso, está faltando quem vasculhe a do-
cumentação holandesa concernente à Paraíba. Para citar uma documentação portu-
guesa, que nunca foi vasculhada, e que interessa primacialmente à Paraíba, eu citaria
um opúsculo de Frei Paulo do Rosário, editada em 1632, obra raríssima da qual só
se conhecem quatro exemplares, sobre a qual estou fazendo um estudo para uma
re-edição crítica. Esta obra é importante porque ele foi testemunha presencial em
1631 da tentativa dos holandeses conquistarem a Paraíba. Ele relatou tudo o que
aconteceu e terminou colocando uma relação dos feridos e dos mortos naquela ten-
tativa. Brevemente eu apresentarei uma re-edição crítica desta obra que jamais foi
consultada na historiografia brasileira., embora tenha sido citada na bibliografia bra-
sileira.
Outro trabalho de extrema importância, para mostrar o clima que antecedeu
a entrada dos holandeses na Paraíba, é a DESCRIÇÃO DA CIDADE E BARRA
DA PARAHÍBA por Antônio Gonçalves Páscoa. A Revista do Instituto Histórico
tem duas publicações deste mesmo relatório, onde o autor mostra nas entrelinhas
como nós, na Paraíba, estávamos nos preparando para o ataque que ainda iria acon-
tecer fatalmente. A esta altura já existia o reforço do forte da cidade e existia um
reduto na ladeira de São Francisco. Ele também dá informações importantes sobre
a navegabilidade do rio Paraíba naquela ocasião, isso em 1630, documento este que
foi descoberto por Varnhagen. Do lado holandês existe muita coisa ainda para ser
vista, inclusive a documentação administrativa que está por ser vasculhada, analisa-
da e criticada. É um trabalho de equipe e de longa duração.

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3º participante: Maria do Socorro Xavier:

Parabenizo essa iniciativa deste Ciclo de Debates, fazendo com que o Insti-
tuto Histórico seja, não apenas um arquivo de livros, mas um centro ativo de deba-
tes com a presença de historiadores como Luiz Hugo Guimarães, Joacil de Britto
Pereira e outros nomes significativos da nossa cultura. Parabenizo também o nível
dos debates, os quais tenho assistido até agora, como o da professora Regina Célia
Gonçalves, na questão das fontes de pesquisa histórica; como a palestra da profes-
sora Rosa Godoy Silveira sobre o Império; como o de Dr. Luiz Hugo Guimarães e
Joacil de Britto Pereira, sobre a República na Paraíba. Todos foram maravilhosos,
oferecendo grandes subsídios para a cultura da história paraibana.
Quero parabenizar o expositor e debatedor de hoje pelos aspectos interes-
santes que foram colocados sobre o período holandês na Paraíba. Estava impacien-
te porque eles não tinham tocado nos grandes heróis da luta contra os holandeses,
brilhantemente mencionados pelo professor Joacil Pereira.
Volto ao tema sobre se seria melhor a colonização holandesa ou portuguesa.
Ainda lembrei pelo paralelo feito pelo escritor Vianna Moog no seu livro BAN-
DEIRANTES E PIONEIROS, onde ele mostra a colonização dos Estados Unidos
feita pelos ingleses e a das Américas, feita pelos portugueses e espanhóis. Sabemos
que ambos europeus estavam sob a influência do mercantilismo. Todos queriam lu-
cros, se fixar, povoar, explorar. Só que, se os holandeses tivessem procedido a co-
lonização da Paraíba talvez ela tivesse se assemelhado àquela colonização procedida
pelos ingleses nas colônias americanas. Eles foram com o intuito de se fixar, traba-
lhar, lucrar, com a maior racionalidade possível, uma racionalidade bem típica dos
povos anglo-saxões, teutões, como foram os holandeses. Eles trouxeram consigo
também uma ideologia religiosa. A ideologia religiosa dos portugueses foi o catoli-
cismo, um catolicismo um pouco fluido, um pouco frouxo, embora tenhamos tido
a Inquisição. A racionalidade esteve mais presente nas colonizações dos povos an-
glo-saxões. Já os portugueses eram mais flexíveis. Há uma análise muito boa feita
pelo sociólogo Max Weber abordando a ideologia influenciando a colonização por-
tuguesa e espanhola nas Américas e a colonização inglesa, à época protestante e
com o espírito do capitalismo. O que quis provar é que o protestantismo trouxe a
época do trabalho de racionalidade, de lucro, influenciando para que as colônias in-
glesas na América fossem mais prósperas do que a colonização portuguesa. A meu
ver, não importa muito se o Brasil fosse colonizado por holandeses com essa índole
capitalista, protestante, laica e lucrativa. Também os portugueses exploraram o Bra-

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sil, com a mineração, levando ouro para Portugal, pau-brasil, etc. Se tivéssemos si-
do colonizados pelos holandeses poderíamos ter uma colonização mais racional,
mais organizada.

4º participante: Célia Camará Ribeiro (Sócia do Instituto Histórico e Geográfico


de Niterói):

Sou de opinião que nossa querida Frederica teria sido melhor em cultura
com os holandeses, porque não só palavras edificam uma cidade, porém as obras. E
aqui eles deixaram várias obras, como asseveraram os debatedores.
Agora eu pergunto: será um mito ou verdade porque os holandeses não se
miscigenavam com índios nem africanos e a questão do gado holandês?

5º participante: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho (Sócio do IHGP):

Todos os participantes falaram com brilhantismo. Esse assunto, porém, é


um assunto que dá margem às mais diferentes avaliações. O problema da Compa-
nhia das Índias Ocidentais é que o capital era judeu. Isso não é nada de mais, e a-
cho até bom. Portugal ficou pobre quando botou os judeus para fora de Portugal,
com a Inquisição. Os judeus tinham que aceitar a religião católica ou emigrarem.
Eles foram embora e levaram o capital. Os que ficaram foram depois colhidos pela
Inquisição. Em Amsterdã tem uma sinagoga, sinagoga israelita-portuguesa. Quando
estive lá fui vê-la, mas estava fechada. Depois soube por pessoas que estiveram lá
que há nomes portugueses. Na verdade, os judeus expulsos de Portugal foram se
refugiar em Amsterdã, que é uma cidade que tem uma influência portuguesa enor-
me. Possivelmente, esses vocábulos portugueses que estão incorporados ao holan-
dês sejam uma consequência dessa emigração de Portugal. Nosso presidente poderá
se corresponder com essa sinagoga ou com a embaixada da Holanda aqui no Brasil
e examinar se podemos obter mais algumas informações.
É preciso lembrar que uma família holandesa ficou aqui no Brasil. Foi a fa-
mília Wanderley, nome que em holandês se escrevia Wan der ley, com três nomes
e com o tempo houve a junção. Parece-me que os holandeses, no primeiro acordo
firmado, tiveram somente três meses para deixarem o Brasil. Muitos deles deixaram
o Nordeste e foram para os Estados Unidos, onde fundaram a Nova Amsterdã, que
depois passou a ser Nova York. Uma observação importante a fazer é que havia
muita liberdade religiosa no tempo de Nassau, que, aliás, não era holandês: era ale-
mão. Fala-se que na luta dos pernambucanos pela liberdade, não era a liberdade que
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eles propunham. Na verdade, os nossos heróis não eram tão a favor das liberdades
porque eles não davam liberdade religiosa. No tempo de Nassau, a sinagoga era a-
berta, reconheceu-se aos judeus o direito de praticarem sua religião; os cultos pro-
testantes eram abertos e as igrejas católicas continuaram abertas também.. Havia
muito mais liberdade no Brasil holandês. Salvo engano, os protestantes só vieram a
ter liberdade de culto por pressão e influência da embaixada inglesa, quando D. Jo-
ão VI estava no Brasil.

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8º Tema:
A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA
Expositora: Diana Soares de Galliza
Debatedora: Waldice Mendonça Porto

A fala do Presidente:

O tema a ser debatido nesta sessão é A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA, e


está a cargo nossa confreira Diana Soares de Galliza, que é formada em História pe-
la Universidade Federal da Paraíba, onde lecionou por durante vários anos. É mes-
tra e doutora em História pela UFPE e doutora em Filosofia, Letras e Ciências
Humanas pela USP. Nas universidades da Paraíba, Pernambuco e Tocantins, a pro-
fessora Galliza já ministrou aulas em Cursos de Graduação, Pós-graduação, Especi-
alização e Mestrado e Doutorado, de cujas bancas tem sempre participado. Domina
os idiomas francês, inglês e espanhol. É uma grande pesquisadora.
Seus trabalhos, sempre exaltados pela crítica, são numerosos, destacando-se
HISTÓRIA REPUBLICANA NA PARAÍBA, 1965; O DECLÍNIO DA ESCRA-
VIDÃO NA PARAÍBA (1850-1888), 1979; PARAÍBA – 1890-1930 (modernização
ou independência?), 1988; e outros trabalhos.
Dentro do tema ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA, a professora Diana Galliza
falará sobre A PARTICIPAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA ESCRAVA EM VÁRIAS
ATIVIDADES ECONÔMICAS.
Passo a palavra à nossa expositora, professora Diana Soares de Galliza.

Expositora: Diana de Soares Galliza (Mestra em História pela Universidade Fe-


deral de Pernambuco, Doutora em História pela Universidade de São Paulo, Pro-
fessora aposentada de História da Universidade Federal da Paraíba, Membro do
Colegiado do Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal de
Pernambuco, Professora de História do UNIPÊ, sócia do Instituto Histórico e Ge-
ográfico Paraibano e pesquisadora da Escravidão na Paraíba)

A mão-de-obra escrava nos engenhos


A escravidão é um tema palpitante e abrangente pela multiplicidade de as-
pectos que apresenta. Embora nossas pesquisas se tenham concentrado no declínio

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da escravidão na Paraíba, vamos enfocar, hoje, a participação da mão-de-obra es-
crava nos vários ciclos da economia paraibana.
A colonização da Paraíba, nos seus primórdios, constituiu uma expansão da
agroindústria do açúcar de Pernambuco. João Tavares, Martim Leitão, Ambrósio
Fernandes Brandão, Duarte Gomes da Silveira, o incentivador e financiador da co-
lonização da Paraíba, fundaram engenhos na Capitania e recorreram a mão-de-obra
escrava. A escravidão tornou-se o sustentáculo da economia açucareira, principal-
mente, na época colonial.
Primeiramente, tentou-se escravizar o índio, mas não deu certo. O nativo
não era incapacitado ao trabalho, como argumentaram os historiadores, que abraça-
ram a tese da indolência do indígena. Fracassou a tentativa de escravizá-lo, porque
o colonizador não quis despender seu tempo preparando o índio para o trabalho
metódico, organizado, que a cultura da cana exigia, como o fizeram os jesuítas. No
afã de obter lucro imediato, o português procurou, de forma brusca, ceifar sua li-
berdade, tirá-lo do nomadismo em que vivia e fixá-lo à terra, como escravo. O nati-
vo revoltou-se. A solução encontrada foi a utilização da mão-de-obra africana, en-
contrada , cujo tráfico iria proporcionar elevados ganhos a Portugal.
O escravo nego foi imprescindível à expansão da atividade açucareira. Gil-
berto Freyre e padre Antônio Vieira enfatizaram que a cultura da cana de açúcar só
se tornou possível devido à utilização da mão-de-obra africana. Na medida em que
os engenhos proliferavam na Paraíba, o tráfico negreiro aumentava. Entre os pro-
prietários de engenho e detentores de escravos citamos as ordens religiosas, aqui es-
tabelecidas: os jesuítas, os franciscanos, os carmelitas, os beneditinos.
Podemos acompanhar a formação do patrimônio rural dos beneditinos e de
sua escravaria através de Irineu Ferreira Pinto, em DATAS E NOTAS PARA A
HISTÓRIA DA PARAÍBA. Aliás, esses religiosos têm chamado a atenção dos his-
toriadores, que estudam a escravidão no Brasil, pela sua capacidade de manter ou
de aumentar o número de crioulos em suas propriedades. Robert Slenes e Stuart
Schwartz pesquisaram a constituição da família escrava e desmitificaram arraigadas
concepções tradicionais, que haviam negado ao escravo o gozo de uma organização
familiar. Schwartz concentrou suas pesquisas na escravaria dos beneditinos e cons-
tatou a preocupação e a habilidade que esses frades tinham de incentivar o casa-
mento entre seus cativos.
Por que eles agiam dessa maneira? Porque o casamento conferia estabilidade
à família, mantinha o equilíbrio sexual e acabava com a mancebia, tão comum no

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seio do elemento servil. Além de elevar o nível moral dos cativos, havia razões para
tal procedimento. Enquanto os escravos se casavam e constituíam família, torna-
vam-se mais dóceis, mais vinculados ao engenho ou à propriedade, onde trabalha-
vam. Assim, as tentativas de fuga eram muito remotas. Comprovamos, na Paraíba,
a existência da família escrava e a proliferação de crioulos nos domínios benediti-
nos.
Antes da invasão holandesa, havia 20 engenhos de açúcar na Paraíba, sendo
18 em atividade e dois de fogo morto. Mas a luta com os batavos desestruturou a
economia açucareira. Os engenhos foram saqueados, as culturas de cana de açúcar,
queimadas e os escravos, aproveitando-se da confusão, fugiram. Alguns registros
mencionam que somente os velhos e crianças permaneceram nas unidades açuca-
reiras. Os engenhos ficaram despovoados de negros e os cativos infestavam as ruas.
A formação de quilombos remonta àquela época, sendo Palmares o mais importan-
te.
Não dispomos de dados sobre a formação de quilombos na Paraíba, durante
a ocupação holandesa. Não sabemos quantos redutos de escravos fugitivos surgi-
ram, nem onde se localizavam. Temos notícias de que, após a expulsão dos batavos,
havia três quilombos na Paraíba. Craúnas e Cumbe provocavam desordens e, se-
gundo Irineu Pinto e Irineu Joffily, os negros, que os integravam, invadiam e quei-
mavam as casas, aliciavam escravos para seu valhacouto.
Ainda, durante a dominação holandesa, ocorreram enchentes e epidemias,
como a varíola que, conforme Irineu Pinto, dizimou 1000 escravos na Paraíba. O
historiador mencionado informou que, posteriormente os beneditinos perderam
metade de sua escravaria vítima de epidemias. A crise afetou esses religiosos de tal
forma que, durante dez meses, seus cativos se alimentavam exclusivamente de er-
vas.
Os holandeses que, a princípio, fizeram sérias restrições a escravidão, muda-
ram de opinião em relação à instituição. Perceberam a importância da força de tra-
balho negra nos engenhos, adquiriram escravos e se envolveram com o tráfico ne-
greiro. Amealharam somas vultosas com o comércio de escravos a ponto dele se
tornar uma das maiores fontes de renda para a Companhia das Índias Ocidentais. E
como eles procederam com os escravos? Fica a questão em aberto.
Se por um lado permitiram que os senhores castigassem seus cativos com
açoites, chicotes e que eles fossem colocados no tronco, por outro lado proibiram
que os proprietários os mutilassem. Somente a Justiça podia decretar a ferradura

169 

 
dos negros, a mutilação de seus membros e puni-los com a pena de morte. No en-
tanto, os holandeses não se miscigenavam com os negros. Estabeleceram uma se-
paração quase que profilática entre o senhor e o escravo, diferentemente dos por-
tugueses que se misturaram com o homem de cor. Gilberto Freyre em CASA
GRANDE & SENZALA sustenta que uma das razões do sucesso da colonização
portuguesa nos trópicos foi a miscibilidade que a caracterizou.
Desde a dominação batava a Paraíba ficou imersa numa grande crise. Expul-
sos os invasores, houve tentativas de soerguimento da economia paraibana. Por e-
xemplo, João Fernandes Vieira, um dos governadores da Capitania, teria empresta-
do dinheiro de seu bolso para restaurar os engenhos. Matias de Albuquerque, seu
sucessor, também não poupou esforços no sentido de restaurar a economia açuca-
reira, assentada na mão-de-obra escrava. Muitos cativos foram importados da Áfri-
ca e, no século XIX o número de cativos existentes na Paraíba era significante. Os
dados estatísticos apresentados por Irineu Pinto revelam que 15% da população pa-
raibana eram de escravos negros. Todavia sua participação não foi, apenas, na ativi-
dade açucareira; colaborou, também na pecuária.

O escravo negro no criatório

Depois da entrada de Teodósio de Oliveira Ledo começou o povoamento


do sertão paraibano fundamentado na atividade criatória. Os sertanistas requereram
datas de terra e implantaram currais nas suas propriedades. Inicialmente, recrutaram
a mão-de-obra nativa, que se adequou muito bem ao nomadismo do pastoreio. Mas
o escravo negro não foi omisso no criatório. Nas nossas pesquisas nos cartórios de
Pombal, onde há farta documentação, constatamos que, nos primórdios do século
XVIII, quando a pecuária iniciava a sua expansão pelo sertão, já era expressiva a
participação do escravo negro na economia sertaneja.
Contudo, os historiadores que enfocaram a economia do criatório despreza-
ram o desempenho do cativo negro ou lhe atribuíram pouca importância. Capistra-
no de Abreu, que percorreu os sertões do Ceará e da Paraíba e foi testemunha ocu-
par da escravidão negra na área sertaneja, afirmou no seu livro CAPÍTULOS DE
HISTÓRIA COLONIAL que a presença do escravo negro no sertão representava
magnificência e fausto. Conferia, pois, status ao fazendeiro.
Irineu Joffily, cognominado o historiador do sertão pelos estudos que reali-
zou sobre a zona criatória, presenciou a escravidão. Mas não reconheceu sua im-
portância para a economia da região. Ponderou que para a atividade criatória a raça
americana, ou seja o nativo, se prestou melhor do que o africano. Entretanto, tendo
170 

 
em mãos os dados estatísticos populacionais da Paraíba, do século passado, ficou
surpreso com a quantidade de escravos existentes em municípios sertanejos, parti-
cularmente, em Piancó e São João do Cariri. À semelhança do historiador cearense
afirmou que a presença significativa dos cativos constituía uma ostentação do fa-
zendeiro.
José Américo de Almeida também se admirava com a numerosa escravaria
de Piancó e São João do Rio do Cariri. Em relação ao primeiro asseverou que “é o
município sertanejo onde o melanismo é mais acentuado”. Quanto ao segundo ten-
tou explicar o elevado número de escravos pela transferência temporária dos negros
dos engenhos do brejo para as fazendas criatórias do sertão. Acrescentou que mui-
tos senhores de engenho residentes em Alagoa Novos tinham propriedades em São
João do Cariri. Eles deslocavam os cativos das unidades açucareiras para suas fa-
zendas no sertão a fim de trabalharem durante o verão.
Clóvis Moura, ao fazer estudos étnico-cultural do nordestino, constatou in-
dício do negro. Todavia não o reconheceu engajado no trabalho produtivo, mas
como um elemento perturbador da ordem econômica, como quilombola.
Nossas pesquisas em documentação cartorial, mapas da população escrava,
recenseamento de 1872 e outros documentos comprovam estatisticamente que a
presença do escravo negro na área sertaneja não foi insignificante, nem apenas con-
feria status ao fazendeiro. Ele esteve engajado na economia do criatório, desempe-
nhando várias atividades relacionadas a ela.
Tivemos em mãos um documento muito esclarecedor – o Mapa da popula-
ção escrava de Piancó do ano de 1876, com um total de 1 079 escravos, dos quais
912 tinham profissão definida. A maior parte dos cativos era de cavouqueiros ou
agricultores. Portanto, realizavam trabalhos que possibilitavam a agricultura de sub-
sistência e serviam de sustentáculo à atividade criatória. Construíram cercas de pe-
dras, cujos remanescentes estão dispersos pelo sertão, cavaram poços e serviram de
suporte à agricultura e à pecuária. No manuscrito mencionado encontramos escra-
vos como: vaqueiro, sapateiro, alfaiate, ferreiro, cozinheiro, fiandeiro e executando
serviços que visavam a auto-sustentação das fazendas. Dado o isolamento em que o
sertão vivia, as propriedades tinham que se auto-abastecer.
A proposição de Irineo Joffily, que o indígena ou mameluco estava mais ap-
to às funções de vaqueiro, tem consistência. Todavia, o escravo negro não foi to-
talmente omisso nessa atividade. No mapa da população escrava de Piancó, cons-
tam 20 vaqueiros. A nosso ver o reduzido número de cativos negros no trato e

171 

 
condução de rebanhos se deveu mais a razões econômicas do que étnicas. O escra-
vo representava um investimento, que se tornou mais elevado após 1850. Entregar-
lhe uma boiada para cuidar constituía um risca de perdê-lo. As chances de fuga e-
ram bem maiores do que nos engenhos, onde os cativos eram constantemente vigi-
ados.
O fazendeiro entregava o rebanho a escravos nos quais depositava total con-
fiança. Para prendê-los à fazenda e evitar sua evasão concedia-lhes alguns benefí-
cios. Por exemplo, há evidências de que tenha estendido ao vaqueiro o sistema de
quarta, tão peculiar à pecuária, no período colonial e no século passado. Esse siste-
ma consistia em o vaqueiro receber um novilho em cada quatro que nascesse, após
cinco anos de trabalho na fazenda. Nas nossas pesquisas nos acervos cartoriais de
municípios criatórios, como Pombal, Piancó, São João do Cariri, encontramos al-
forrias compradas pelo escravo com cabeças de gado.
Não concordamos com o argumento de José Américo de Almeida ao expli-
car o elevado número de escravos de São João do Cariri: a transferência provisória
da mão-de-obra dos engenhos do Brejo para as fazendas sertanejas. Os documen-
tos cartoriais confirmam que donos de unidades açucareiras no Brejo, bem como
na zona da Mata tinham fazendas no Sertão, no século passado. Porém constata-
mos que os escravos residiam nos municípios criatórios. O fato de São João do Ca-
riri ter recebido a segunda maior quota do Fundo de Emancipação corrobora que
os escravos moravam naquele município. Além do mais, a lei de 28 de setembro de
1871, que obrigou os proprietários de escravos a registrá-los, estabeleceu que o re-
gistro teria que ser feito onde os cativos residiam.
A tese de Clovis Moura não se aplica à Paraíba, já que os livros e documen-
tos oficiais só mencionaram três quilombos que provocaram desordens: Craúnas,
Cumbe e o do Espírito Santo. Deve ter havido outros quilombos na Paraíba, toda-
via eles não causaram desassossego aos moradores das vizinhanças. Por exemplo, o
jornalista Ivaldo Falcone, quando esteve em Alagoa Grande, sugeriu que a comuni-
dade de Caiana, lá existente, seria remanescente de um quilombo. Talvez, devido ao
relevo, ao seu isolamento e porque os quilombolas viveram pacificamente, as tropas
policiais não foram solicitadas para desbaratá-los.

O escravo negro nas propriedades algodoeira e cafeeira

O algodão também contou com a colaboração do escravo negro. Funda-


mentada em inventários podemos dizer que a presença do cativo negro foi signifi-
cativa nas propriedades algodoeiras. Irineo Joffily asseverou que os escravos nas fa-
172 

 
zendas de algodão chegaram a rivalizar, em número, com os engenhos de açúcar.
Mas, a partir de 1850, quando cessou o tráfico negreiro, os inventários evidenciam
o declínio dessa mão-de-obra nas fazendas algodoeiras do Agreste. Percebemos que
nos inventários, onde houve registro de uma maior quantidade de escravos, o in-
ventariado, além do cultivo do algodão, dedicou-se a outras atividades econômicas,
como a criatória ou a açucareira.
Nas fazendas cafeeiras da Paraíba o cativo foi prescindível, porque quando
começou a expansão do café em Bananeiras, nas últimas décadas do século XIX a
escravidão estava em pleno declínio. Documentos do século passado atestam que
quando os cafeicultores detinham escravos, eles, também, possuíam engenhos ou
fazendas criatórias.
Concluindo, podemos afirmar que houve a participação do escravo negro
nas diversas atividades econômicas na Paraíba, até antes da segunda metade do sé-
culo XIX. Embora a escravaria estivesse concentrada nos engenhos, o negro foi
peça importante na economia do criatório. Foi, igualmente, significativo o número
de cativos nas propriedades algodoeiras até a cessação do tráfico africano.
A partir de 1850 teve início o declínio da escravidão na Paraíba.

A fala do Presidente:

Tivemos pela excelente exposição da historiadora Diana Galliza uma visão


global sobre a influência do escravo no desenvolvimento econômico da Paraíba,
desde o período colonial até a primeira metade do século XIX.
A professora Diana, com muita propriedade, nos deu o quadro da situação
do escravo na Paraíba e, corajosamente, porque baseada na sua pesquisa pessoal,
fez contestações sérias e importantes. Ela contestou Capistrano de Abreu, Irineu
Joffily, José Américo de Almeida. Na verdade, estamos alcançando os objetivos
deste Ciclo. Precisamos mudar os chavões consagrados estabelecidos por nossos
historiadores, que hoje se chocam com as fontes primárias a que eles não puderam
consultar. Muitos apontamentos de alguns dos nossos consagrados historiadores
merecem re-exame, por conta de suas interpretações apressadas. As advertências
que têm sido feitas pelos expositores e debatedores deste Ciclo, quanto a essas fa-
lhas de interpretação, servirão para uma revisita à nossa historiografia para uma re-
tificação imediata, a fim de evitarmos sua repetição rotineira, como vem acontecen-
do há anos.
A contribuição da professora Diana Galizza é da maior significação para o
êxito do nosso processo de debate que o Instituto Histórico está promovendo.
173 

 
Será debatedora oficial nossa confreira Waldice Mendonça Porto, 1ª Secretá-
ria do Instituto. Waldice é também expert em escravatura, sendo de ressaltar seu im-
portante trabalho bastante citado pelos estudiosos da matéria, que é A PARAÍBA
EM PRETO E BRANCO.
Com a palavra a confreira Waldice Porto.

Debatedora: WALDICE MENDONÇA PORTO (1ª Secretária do IHGP e só-


cia do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica)

É uma alegria muito grande poder estar aqui como debatedora, principal-
mente ao lado de Diana Galliza. Meu trabalho sobre a escravatura não diz respeito
à economia; enfoca a miscigenação. Baseei-me no comportamento do mestiço,
principalmente porque os escravos não puderam praticar a sua cultura, em face
mesmo da sua escravização.
Esse magistral trabalho de Diana me traz saudade das minhas pesquisas so-
bre escravidão, pois agora estou me dedicando mais à estrutura fundiária da Paraí-
ba.
Durante certo tempo me dediquei a examinar a questão do fundo de eman-
cipação dos escravos. Foi a partir da lei do ventre livre que se iniciou a manumissão
dos escravos e me interessei pelos critérios adotados. Esse tema dá um livro ou
mais.
O negro deu uma colaboração espetacular na música, na religião (que é o
sincretismo religioso), no mito, na culinária, na pecuária, na agricultura, na rebeldia
contra o sofrimento imposto pela escravidão. Aqueles que estavam bem na compa-
nhia dos seus senhores – e havia alguns maravilhosos – permaneceram na compa-
nhia deles, mesmo após a proclamação da abolição. E eram muito queridos pelos
de casa.
Nas senzalas a situação era lamentável, pela disseminação das moléstias, pelo
tratamento das sinhazinhas, etc. A vida dos negros nas senzalas era aviltante, onde
não constituíam família, não tinham privacidade. O tratamento que lhes era dado
era infame. O que é lamentável é que todo nosso esforço de estudo e pesquisa nes-
sa área fique sem publicação, fique engavetado. Em consequência, pouco conheci-
mento se tem da história paraibana, que é uma das mais belas. Por isso sou tão a-
paixonada pela História da Paraíba; ela cheia de filigranas imensas.
A história oficial é muita falha. Por isso temos que fazer como Diana Galiz-
za, que trabalha em cima de documentos, pesquisando fontes primárias. Eu traba-

174 

 
lhei muito sobre documentos, sobre as cartas de alforria, sobre inventários e por is-
so o trabalho fica mais sério, mais autêntico. O que lamento é que todo esse esfor-
ço nosso não chegue às escolas, que fiquem engavetados. A gente assiste a uma aula
dessas de Galizza com prazer, mas fico triste porque o pessoal do 1º e 2º grau não
sabe de coisa nenhuma. Não sabe nada sobre a História da Paraíba e acha que não
deve nem levar em consideração. Quando sabemos que nossa História é uma das
mais belas, mas permanecemos eternamente ignorantes porque não temos acesso a
esses documentos.
Num dos primeiros debates apresentei uma proposta ao presidente do Insti-
tuto no sentido de nos ligarmos com a Universidade para fazermos uma História da
Paraíba que seja acessível e que seja moderna. Essa coleção que saiu com o patrocí-
nio do Governo do Estado foi vendida semanalmente contém tantos erros elemen-
tares, que é de estarrecer. Temos o dever de passar uma história que seja verídica.
Fico muito grata por ter participado como debatedora por esse trabalho ex-
celente que foi apresentado por Diana Galizza.

A fala do Presidente:

Foi bom que nossa debatedora falasse nesses enganos, ou equívocos, que se
viu naqueles folhetins, naqueles fascículos. Aliás, encarreguei-a para anotar esses
equívocos a fim de que possamos esclarecer para evitar sua propagação para frente.
Outro aspecto importante o problema da divulgação. Nosso Instituto se
preocupa muito com a divulgação do acervo histórico paraibano. O Instituto não
tem recursos para divulgar os trabalhos que são feitos aqui, como também a Uni-
versidade não tem, resultando no engavetamento de importantes trabalhos de pes-
quisa, que ficam mofando nas prateleiras dos arquivos. As teses de mestrado e dou-
torado, confessou aqui a professora Regina Célia Gonçalves, em sua palestra de a-
bertura destes trabalhos, se apagam por falta de divulgação. Cerca de 10% apenas é
que são dados a lume. Àqueles que aqui fazem pesquisa sempre cobro para traze-
rem seus trabalhos após sua conclusão, pelo menos para que possamos expor ao in-
teresse dos usuários deste Instituto.
Passo agora a palavra aos participantes que se inscreveram previamente, em
primeiro lugar a professora Paula Frassinete Duarte.

1º participante: Paula Frassinete Duarte (Bióloga)

Quero fazer minhas as palavras da debatedora Waldice Porto. Já disse no

175 

 
curso que está ocorrendo na Universidade Federal da Paraíba sobre a enorme im-
portância desse tipo de debate e, infelizmente, há pouca presença e grande dificul-
dade na divulgação. Faço parte do Conselho do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico do Estado e nossa luta lá, no Conselho, é para que haja maior apoio do
Governo do Estado no sentido de que o IPHAEP possa imediatamente tombar e
registrar o patrimônio histórico do nosso Estado em cartórios. Não existe dinheiro
para isto. E isso tem sido uma das desculpas para nós perdermos verdadeiras péro-
las da arquitetura do nosso país, do nosso Estado, por conta da falta de dinheiro
para o registro em cartório. As pessoas vão à Justiça e a Justiça dá ganho de causa
para a demolição. É o mesmo caso daqui. Acho que a história que a gente aprende
não é a verdadeira história.
Sobre as importantes informações apresentadas pela expositora Diana Galli-
za, gostaria de um aprofundamento sobre a ação dos beneditinos que teriam esti-
mulado o casamento entre negros. Seria para poupar as mulheres brancas, uma es-
pécie de concubinato branco que, com certeza, acontecia, porque os negros sempre
foram tidos e havidos, tanto homens como mulheres, como muito fogosos, eroti-
camente muito quentes? Teria sido por isto?
Em segundo lugar, queria saber se a miscibilidade era consentida no sentido
de que os portugueses tiveram a miscibilidade, os holandeses não, mas esses frutos
desses coitos, desse amor, seriam reconhecidos de alguma forma, esses filhos teri-
am algum privilégio? Os pais deles dariam algum privilégio?
Por que os historiadores negaram essa parceria, essa presença engajada, efetiva dos
negros no criatório? Terá sido porque, como ainda hoje, não se dá o devido valor à
participação que o negro teve na formação da sociedade brasileira? Teria sido por
isso que Irineu Joffily teria diminuído tanto a participação nos negros no criatório
(que você viu que não era por aí)?
Também perguntaria qual a diferença entre cavouqueiro e agricultor; não en-
tendi muito bem, porque você disse que cavouqueiro estava com a enxada cavando,
e o agricultor fazia o que?
Por último, gostaria que aprofundasse mais sobre as perturbações econômi-
cas que os quilombos fizeram naquela sociedade. Que perturbações aconteceram
com a saída dos negros?
Diana Soares de Galliza:
Muitas questões foram levantadas. Vamos tentar respondê-las, observando a
sequência.

176 

 
1. Quanto ao incentivo de casamento entre escravos conferido pelos benedi-
tinos, nas suas propriedades, começamos a pesquisar, recentemente. Estamos ori-
entando a monografia de uma aluna, do UNIPÊ, cujo título é OS BENEDITINOS
E A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA. Sugerimos que ela localizasse os relatórios
semestrais da Ordem, na Paraíba, a fim de colher maiores informações nesse senti-
do.
Em princípio podemos assegurar-lhe que a família escrava nos domínios be-
neditinos tem sido estudada recentemente. Concepções tradicionais defendiam a
inexistência de elos familiares entre os cativos, no Brasil. Foram os brasilianistas
norte-americanos Robert Slenes e Stuart Schwartz que questionaram a ausência da
família escrava e, baseados em documentação cartorial, comprovaram que nas
grandes e médias propriedades os cativos constituíram famílias. Este último histori-
ador, à medida que intensificou suas pesquisas, surpreendeu-se com a grande quan-
tidade de crioulos nas propriedades desses religiosos. Concluiu, então, que eles não
somente os matinha, mas também a população cativa proliferava, através do incen-
tivo dado ao casamento pelos beneditinos.
A política de estímulo ao casamento moralizava a vida no seio do elemento
servil, uma vez que suprimia a mancebia entre eles. Por outro lado, razões econô-
micas existiam no bojo desse procedimento. O casamento daria mais estabilidade à
família e prenderia o escravo à propriedade, onde trabalhavam. Os elos sentimen-
tais se tornariam mais sólidos e, assim, as possibilidades de fuga seriam muito re-
motas.
2. Gilberto Freyre defendeu o caráter brando da escravidão no Brasil, por-
que ele não enfocou o trabalho no eito, mas na vida do escravo na casa grande. O
livro do sociólogo pernambucano influenciou historiadores americanos e alguns de-
les, seguindo o pensamento freyriano, sustentaram que, nas áreas de colonização
ibérica, a escravidão teria sido amena, enquanto que nos países de origem anglo-
saxônica – como os Estados Unidos – de formação protestante, ela teria sido rude,
estúpida e desumana.
No âmbito da casa grande, objeto de estudo de Gilberto Freyre, houve mis-
cigenação entre o senhor de engenho e a mulher escrava, e vários senhores assumi-
ram a paternidade dos filhos negros. Na Paraíba, por exemplo, através do arrola-
mento que fizemos nos Livros de Notas, constatamos que alguns senhores deram a
conhecer sua condição de pai, nas cartas de alforrias por eles passadas. Declararam
conceder a liberdade porque “ele é meu filho” ou porque “ele tem meu sangue”.

177 

 
3. No século passado, viajantes estrangeiros percorreram o Nordeste, parti-
cularmente, Pernambuco e Bahia. Visitaram alguns engenhos e suas impressões de
viagem foram generalizadas às demais unidades produtivas. Algo parecido deve ter
acontecido a Capistrano de Abreu e Irineo Joffily, que passaram por algumas fa-
zendas e, viram muitos escravos sem exercer atividades específicas. Eles não acom-
panharam a labuta do escravo no dia-a-dia. Sua observação superficial levou-os a
concluir que o expressivo número de negros em todas as propriedades criatórias
constituía ostentação, conferia status ao fazendeiro.
4. Clovis Moura, estudioso de rebeliões de escravos, detectou a presença do
negro na formação étnica e cultural do sertanejo. Mas, o escravo negro, segundo e-
le, não se engajou no trabalho produtivo do criatório, ele lá chegou como quilom-
bola, como perturbador da ordem.
A tese de Clovis Moura não se aplica à Paraíba, como comprovamos nas
nossas pesquisas. Alguns quilombos se formaram na Paraíba, todavia esses redutos
de escravos fugitivos não causaram embaraços à sociedade, nem à economia, exce-
to o de Craúnas, o de Cumbe e o do Espírito Santo. Somente nos anos de seca,
movidos pela fome, os escravos atacavam, buscando alimentos. Em conformidade
com documentos notariais, na seca de 1877, os cativos assaltavam comboios, que
transportavam farinha e feijão, para comer. Portanto, eventualmente, eles perturba-
ram a ordem estabelecida.
5. A última pergunta feita pelo ilustre participante, diz respeito a diferença
entre “cavouqueiro” e agricultor. No mapa da população escrava de Piancó encon-
tramos um acentuado número de escravos cavouqueiros e de escravos agricultores.
Ao nosso ver os primeiros cavavam a terra para realizar obras de sustentação à ati-
vidade criatória, enquanto que o segundo trabalhava a terra, plantando-a.

2º participante: Silvana de Souza (participante):

De certo modo, a professora Diana respondeu a pergunta que eu iria fazer


se esses três quilombos ofereciam perigo para a ordem estabelecida. A professora
falou que só ofereceram perigo apenas nas épocas em que eles estavam em dificul-
dade. Outra questão que gostaria de saber é por que os holandeses evitaram ter
contato com as nativas.
Diana Galliza:
Segundo Irineo Joffily e Irineu Pinto, os quilombolas de Craúnas e de Cum-
be não somente invadiam as propriedades, bem como incendiava-nas, aliciavam os

178 

 
escravos que encontravam e levavam-nos para seu reduto. Esses dois quilombos
foram constituídos por negros remanescentes de Palmares. Era, pois, escravos fugi-
tivos e revoltados que lutaram, contra as tropas policiais que foram destroçá-los e
exterminá-los. Dominava-os um sentimento de revolta e de vingança. Irineu Pinto
narra que a destruição de Cumbe se deveu à iniciativa particular. João Tavares de
Castro reuniu seus negros, contratou alguns soldados e conseguiu exterminar o qui-
lombo de Cumbe.
Talvez fatores cultural e religioso fossem responsáveis pela não miscigena-
ção dos holandeses. Os anglo-saxões e os batavos de formação protestante, angli-
cana ou calvinista não estavam predispostos a se cruzarem com os nativos ou os
negros. Enquanto que os colonizadores católicos eram menos preconceituosos e se
misturavam com os nativos e com os africanos. Ademais, a miscibilidade foi uma
das características da colonização portuguesa.

3º participante: Guilherme d’Avila Lins: (Sócio do IHGP e do IPGH)

Quero parabenizar a professora Diana Galliza por sua exposição e gostaria


de lhe fazer uma pergunta. O fenômeno da imigração italiana não ocorreu na Para-
íba, para substituir a mão escrava, como ocorreu em São Paulo. Como a confreira
vê essa diferença? Será que nós estávamos num processo mais deteriorado por cau-
sa da economia açucareira no Nordeste? Particularmente, a Paraíba estava sem for-
ça para tentar um resgate da hegemonia da produção econômica do açúcar, sem
força para fazer vir colonos estrangeiros para substituir a mão de obra escrava?
Como a expositora vê o processo que aconteceu em São Paulo e o que aconteceu
na Paraíba?
Quero fazer uma observação de minha parte. No período colonial o braço
escravo índio foi substituído pelo braço escravo negro, num processo gradativo.
Como e quando isso aconteceu? Na minha observação, quando a gente analisa as
denunciações do Santo Ofício, na primeira visitação, com as confissões a gente ve-
rifica que houve uma grande predominância da citação do elemento índio sobre o
elemento negro até aquela época de 1595. Existe o negro citado, mas com muito
menos frequência do que o negro brasil e a negra brasila. A partir do século XVII
há uma transformação gradativa e a população escrava negra começa a sobrepujar a
população índia, mesmo porque houve a determinação de que o índio não devia ser
feito escravo. O início da preponderância do escravo negro, na Paraíba, se dá a par-
tir do início do século XVII. Eu gostaria de ouvir sua opinião a esse respeito.

179 

 
Diana Galliza:
1. Uma das razões, pela qual não ocorreu a migração italiana para a Paraíba,
foi porque sua economia estava em crise, não atraindo esses europeus. Diferente-
mente do Sudeste, particularmente São Paulo, cuja economia estava em franca ex-
pansão. Além disso o Império subsidiou a vinda do colono italiano para São Paulo,
que estava necessitando de braços para a lavoura cafeeira. O Nordeste, inclusive a
Paraíba, com o açúcar em decadência, não oferecia um mercado de trabalho que
motivasse uma migração subsidiada pelo governo imperial. Também o clima quente
do Nordeste não era convidativo ao italiano, como o de São Paulo, semelhante ao
clima temperado europeu.
2. Quando começou a colonização da Paraíba nas últimas décadas do século
XVI, a população nativa predominava. Os índios não aceitaram ser escravizados e
os jesuítas se posicionaram a seu favor. O português colonizador não quis desper-
diçar seu tempo, preparando a mão-de-obra indígena para o trabalho agrícola, co-
mo o fizeram os jesuítas. Na ânsia pelo lucro imediato, o senhor de engenho recor-
reu à importação do africano que, além de constituir força de trabalho nas unidades
açucareiras, proporcionava elevados ganhos aos traficantes negreiros. Com a ex-
pansão da empresa agrícola açucareira, com a intensificação da importação de es-
cravos africanos e com o genocídio praticado pelo colonizador aos nativos a popu-
lação negra superou a indígena, gradativamente.

4º participante: Maria do Socorro Xavier (Escritora):

Quero registrar alguma coisa sobre os quilombos, por que a gente sempre
discutia, no Recife, com o professor Antônio Montenegro, que tem um livro sobre
escravidão, onde focaliza com persistência a questão da resistência. Os quilombos
eram formados desde o início quando os escravos chegaram aqui simplesmente por
questão de resistência e não como muita gente pensa que era porque estavam fu-
gindo de alguma coisa. Eles não aceitavam a escravidão.
Em contato com um amigo de Moçambique, que está nos visitando, houve
um questionamento sobre como os negros lá na África viram essa escravidão ocor-
rida no Brasil. É questão que até então não tinha sido despertada. Gostaria de saber
qual a impressão dos africanos sobre o problema do tráfico escravo para o Brasil?
Diana Galliza:
Não apenas o quilombo foi uma forma de resistência, bem como o suicídio,
tão comum entre os escravos. Houve vários tipos de resistência negra, tanto que os

180 

 
estudos recentes sobre a escravidão contestam que ela tivesse sido só coercitiva; fo-
ra, também, consensual. Se houve coerção, houve, igualmente, reação do cativo. O
senhor teve que ceder e chegou-se a um consenso. Os negros conseguiram preser-
var sua cultura, hábitos e religião.
Em relação a seu amigo africano, oriundo de Moçambique, interessado em
saber como a África vê o problema da escravidão no Brasil, isto é uma pesquisa que
deverá ser desenvolvida por ele, no continente africano. Concluído o trabalho, ele
poderá escrever um livro e dar uma grande contribuição ao estudo da escravidão no
Brasil. Sei que escravos, após obterem sua alforria, retornaram à África e alguns de-
les se tornaram prósperos empresários. Manuela Carneiro da Cunha, no livro de sua
autoria NEGROS, ESTRANGEIROS. OS ESCRAVOS LIBERTOS E SUA
VOLTA À ÁFRICA, aborda essa questão.

181 

 
9º Tema:
AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA
Expositor: José Octávio de Arruda Mello
Debatedora: Inês Caminha Lopes Rodrigues

A fala do Presidente:

Inicio a sessão compondo a mesa com o confrade José Octávio de Arruda


Mello, que será o expositor desta sessão; com a professora Inês Caminha Lopes
Rodrigues, que será a debatedora; com o professor Aécio Villar de Aquino. O tema
a ser debatido hoje é AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA.
Desnecessário fazer a apresentação do confrade José Octávio, que é figura
bastante conhecida de todos. Todavia, é bom recordar que ele é nosso sócio, é
membro da Academia Paraibana de Letras e do Conselho Estadual de Cultura.. Ex-
professor de História da Universidade Federal da Paraíba, atualmente ele leciona
essa disciplina na UNIPÊ e na Universidade Estadual da Paraíba. É formado em
Direito, pela UFPB e tem curso de especialização em Técnicas de Pesquisa História
pela Universidade de Pernambuco, onde se laureou como Mestre e é Doutor em
História pela USP. Ele sempre diz que dessas posições mencionadas, a que ele mais
se orgulha é ser o coordenador do chamado Grupo José Honório.
Feita esta apresentação, vamos ouvir o professor José Octávio, que exporá
sobre o tema AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA.

Expositor: José Octávio de Arruda Mello (Sócio do IHGP e da Academia Parai-


bana de Letras, professor de História na UNIPÊ e UEPB, Mestre e Doutor pela
USP)

Darei uma feição um pouco diferente no sentido de torná-la mais coloquial,


mais fraternal, mais amiga. Não tenho a pretensão de dar uma aula, de fazer exposi-
ção tradicional para pessoas como Wilson Seixas, que é o nosso Capistrano de A-
breu, como Aécio Aquino, Luiz Guimarães e tantas figuras que vejo aqui, todas da
melhor qualificação.
Vamos trocar algumas ideias em torno do tema e para início de conversa
quero chamar a atenção para essas publicações (exibe as publicações) que propõem
uma visão nova do tema aqui programado, que são AS LUTAS NATIVISTAS NA
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PARAÍBA. No paper que distribuí com os senhores aparece o título LIBERALIS-
MO E SÉCULO XIX NA PARAÍBA, que é a mesma coisa. Não importa a deno-
minação, porque já ultrapassamos o nominalismo, que foi uma característica da es-
colástica medieval na fase da sua decadência. Assim, tanto faz AS LUTAS NATI-
VISTAS NA PARAÍBA como LIBERALISMO E SÉCULO XIX NA PARAÍBA.
O liberalismo vai ser exatamente o instrumento ideológico, o instrumental, o fer-
ramental que move essas lutas nativistas no século XIX.
Lutas nativistas, por que? Porque elas são impregnadas de um espírito na-
cionalista. Aí quem realmente tematiza muito bem o assunto é Barbosa Lima So-
brinho num trabalho que foi recolhido das livrarias, mas eu tenho, que está na cole-
ção CADERNOS DO POVO, uma coleção muito inflamada, mas de trabalhos
muito bons. Barbosa Lima, no livro dele, DESDE QUANDO SOMOS NACIO-
NALISTAS, chama a atenção para o fato de que o nacionalismo resulta de uma
contradição entre os interesses estrangeiros, que se fixaram inicialmente nos portu-
gueses, depois nos ingleses, depois nos americanos, e os interesses nacionais.
No caso dos portugueses essas contradições afloraram dentro da Colônia,
por ocasião do domínio holandês, quando a gente tem aquela Guerra dos Mascates
(que, na interpretação de Caio Prado Jr., é uma luta de classes, é uma luta entre a
burguesia nativista rural de Olinda e a burguesia de interesses externos de origem
holandesa e vinculados ao comércio português). Depois temos aquele movimento
dos Emboabas, em Minas Gerais. À proporção em que a riqueza vai se adensando
os interesses em torno dessa riqueza vão se concentrando e vão surgindo, eviden-
temente, duas correntes: a dos interesses alienígenas e a dos interesses nativistas.
Daí Lutas Nativistas, as lutas que visam expressar os interesses nacionais para a
preservação daquelas riquezas que estavam sendo arrecadadas por grupos estrangei-
ros.
Isso teve um sentido anti-flamengo, mas no período colonial as lutas são
sempre contra os portugueses, e Recife é uma das expressões mais vivas disso,
quando surgiram os motins chamados “mata, mata marinheiro” (marinheiros eram
os comerciantes portugueses, pés-de-chumbo, também chamados). Essas lutas for-
necem o pano de fundo para o liberalismo no Nordeste. Eu procurei tratar desse
tema neste trabalho VIOLÊNCIA E REPRESSÃO NO NORDESTE, onde mos-
trei que Recife significou o eixo da luta no Nordeste. Esses assuntos também foram
abordados nos fascículos publicados pela A UNIÃO. Também na Coletânea do IV
Centenário, que abrange 102 trabalhos publicados no jornal O NORTE, o assunto

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é tratado.
Ao mostrar estes trabalhos eu estou seguindo uma linha do nosso grupo,
que pretende substituir os conceitos pelas indicações. Eu não tenho aqui a intenção
de dizer isso é aquilo. Acho tal uma visão autoritária da história. Precisamos dar ao
ensino um caráter democrático, um caráter aberto. O caráter aberto é esse, de for-
necer as indicações, quer dizer, as fontes, as leituras, os instrumentos para que os
educandos, e no caso a sociedade, componham a sua própria formulação. E é que
me ocorre aqui a respeito dessa questão do século XIX, sobre as rebeliões nativistas
ou dessas lutas liberais do século XIX.
A respeito desses movimentos há uma visão tradicional que procura exaltar
o heroísmo de Peregrino de Carvalho, que aparece como mártir do canibalismo ofi-
cial, onde a gente vê no quadro de Parreiras quando ele se rende ao pai e na igreja
de N. S. de Lourdes, onde o Instituto Histórico colocou uma placa no centenário
de 1817; por conta disso, outros aqui quiseram exaltar Felix Antônio, herói da Con-
federação do Equador; por conta disso foi aposto seu retrato na nossa galeria, um
barbudo que tem aqui, que ninguém sabe quem é. É um sargento-mor, um caudilho
de Areia, que proclamou a República por ocasião da Confederação do Equador, de
1824. Ele não é a grande figura da Confederação do Equador. A grande figura da
Confederação do Equador é Frei Caneca, que é um ideólogo, que é um pensador
que ficou; não é um sargento-mor que veio de Areia e ficou combatendo e guerre-
ando. Frei Caneca estava com ele, também.
Os movimentos nativistas são muito focalizados através da trindade 1817,
que é a chamada Revolução Pernambucana, 1824, que é a Confederação do Equa-
dor e 1848/49, que começou em 48 em Recife, final de novembro, com Nunes
Machado, que foi o Frei Caneca da Praia; Nunes Machado foi o grande líder da
Praieira, que leva o povo para rua e recebe um tiro na testa e cai ali mesmo. Por
conta disso, Areia procura monopolizar esse movimento. Uma coisa interessante é
que as pessoas mais conservadoras de Areia exaltam 1848 e até dizem terem parti-
cipado de 1817. Não participaram de 1817, mas, sim de 1824 e 1848, através de
seus ancestrais. É o chamado areísmo.
Essa é a visão tradicional das lutas nativistas, visão a que pretendo fugir aqui.
Eu não subscrevo, como de resto a maioria que faz o Instituto Histórico, não subs-
crevo esse conceito heroico, esse conceito tradicionalista, esse conceito apoteótico
dos movimentos de 1817, 1824 e 1848, até porque esses movimentos não se resu-
mem a essas três etapas. Há muitos outros, inclusive 1801, a chamada Conspiração

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dos Suassunas.
Para a gente substituir essa visão heroica, de ufanismo, de exaltação pessoal,
faz-se mister a gente substituir esse conceito por um entendimento do processo
histórico; o que a gente precisa é realmente inserir esses movimentos dentro do
processo histórico para extrair o seu significado, para alcançar a sua inserção dentro
da sequência, dentro do devenir da história.
Para isso, o que é necessário? Partir do século XVIII. Se esses movimentos
se verificam no século XIX, se eles começam pela Conspiração dos Suassunas (aí
não é uma revolução, é uma conspiração porque é um movimento abortado no
nascedouro). Essa conspiração é de 1801, aqui na fronteira, entre Goiana e Itambé,
nessa área (incluindo o Areópago de Itambé? - interfere um participante). Ai se toca
numa questão importante que é objeto de franco revisionismo. José Antônio Gon-
salves de Mello, que é um homem muito conservador, mas um pesquisador sério,
fulminou na introdução que fez à obra de ARRUDA CÂMARA – OBRAS REU-
NIDAS (1982) essa história do Areópago, que, aliás, foi inventada por um historia-
dor paraibano que é participante do movimento de 1848. Foi Maximiano Machado
que inventou isso. Maximiano gostava muito disso, um ótimo historiador; eu gosto
muito de Maximiano, combativo, radical, antiabsolutista, anticolonialista, mas desse
tipo que se deixa levar pela empolgação e então inventou essa história do Areópago
e todo mundo ficou repetindo isso. José Antônio foi verificar e primeiro verificou
que Arruda Câmara nunca morou em Itambé; depois que não havia loja com essa
denominação; depois verificou o principal, que Arruda Câmara, que é uma figura
avançada em termos de educação, naturalista, não era partidário do liberalismo, era
quando muito um representante do despotismo esclarecido. Aquela corrente entre
o velho absolutismo e o liberalismo.
Isso teve um impacto tão grande que eu estive num seminário em Pernam-
buco, com a presença do alto comando da historiografia brasileira, falou-se nessa
questão do Areópago e, quando lembrei a pesquisa de José Gonsalves, ficou todo
mundo calado. Até hoje não se ofereceu uma resposta adequada a essa colocação.
O fato é que José Gonsalves fulminou essa tese tradicional de que os movi-
mentos 1801, 1817, 1824 e 1848 eram produtos da ação do ideólogo do liberalismo
que foi o padre Arruda Câmara, naturalista, botânico, formado em Paris, que voltou
para cá e espalhou essas ideias pelo Nordeste, a partir de sua ação no Areópago.
Esse entendimento está sobrestado. Esse entendimento ninguém pode estar repe-
tindo. Porque José Antônio mostrou que não tem fundamentação. Ele analisou a

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obra de Arruda Câmara e não encontrou elementos liberais lá, não encontrou libe-
ralismo algum em Arruda Câmara. Arruda Câmara que era uma figura avançada a-
penas no plano da educação.
Para entender-se essas lutas nativistas, o substrato desse liberalismo, a gente
precisa realmente retroagir até a segunda metade do século XVIII, que é exatamen-
te o tema de um dos fascículos que apresentei no início da exposição.
Eu acho o século XVIII o século mais importante da Paraíba. Porque em
primeiro lugar é o século em que se cristaliza a penetração, a integração territorial.
A Paraíba não é o litoral. O Brasil não é o litoral. Essa é a tese de Capistrano de
Abreu. Pelo litoral a gente importa os elementos estrangeiros, sobretudo a cultura
estrangeira. O Brasil é um produto do sertanismo. O Brasil não é uma criação de
Portugal, como vão dizer agora durante o V Centenário. O Brasil é um produto da
sua gente, do seu povo. A miscigenização, a integração territorial, a unidade da lín-
gua, isso não foi doação portuguesa, isso foi um produto dos brasileiros. Isso foi
formulado por gente como Domingos Jorge Velho, que nem a nossa língua falava.
Ele passa por aqui e fala com o Bispo de Olinda, que expede uma carta para o rei
dizendo que esteve aqui um selvagem que nem a nossa língua fala e se encontra a-
partado de todos os princípios da civilização. O Brasil não é uma nação portuguesa,
bobagem que sempre se repete por aqui. Os Estados Unidos não vivem trombete-
ando que são um produto da Inglaterra. A Holanda não vive dizendo que é produ-
to da Espanha. Só o Brasil que vive com esse colonialismo de exaltar Portugal.
O nativismo vai constituir uma formulação contra isso. Mas o que foi que
aconteceu no século XVIII? Além da integração territorial, da expansão territorial
da Paraíba, que não é exclusivamente do século XVIII, ela vem de trás, ela vem de
depois das invasões holandesas entre 1860/70. Ela se cristaliza no século XVIII,
que é o século da expansão territorial, da integração interiorana paraibana. Como é
o século do sertanismo brasileiro. Capistrano mostrou nos livros dele. Inclusive os
municípios mais distantes da Paraíba vão ser ocupados no finalzinho do século
XVIII, já passando do século XVIII para o século XIX. Princesa, em 1803, Montei-
ro em 1805.
Este século, que teve esse aspecto positivo, também comportou elemento
negativo com o profundo declínio da nossa economia e marca a presença da Com-
panhia de Comércio de Pernambuco e da Paraíba, uma forte afirmação do mono-
pólio português, que organizou uma companhia para melhor explorar a Capitania.
Essa companhia é uma bomba de sucção, como todo mecanismo de exploração co-

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lonial. Vendia caro e comprava barato.
Essa companhia é estudada por um historiador de São Paulo, José Ribeiro
Júnior. Aqui, a professora Elza Régis, saiu-se muito bem, com o livro que foi publi-
cado durante o IV Centenário da Paraíba. Essa companhia teve tanto prestígio que
o beco onde estava localizada, na rua Duque de Caxias, onde hoje funciona a A-
DESG, ficou conhecido como Beco da Companhia. Sua atuação acarretou a perda
da autonomia da Paraíba. De 1753 a 1799 a Paraíba declinou tanto no plano eco-
nômico que se refletiu no plano político, deixando de ser uma capitania autônoma e
se vinculou a Pernambuco. Elza Régis acha que essa questão não teve nada a ver
com a Companhia de Comércio, mas, data vênia, não penso assim. Acho que uma
coisa é ligada à outra.
O fato é que a Paraíba entrou numa situação desastrosa, no século XIX. E
há um documento que reflete isso, e é um dos sete principais documentos da His-
tória da Paraíba. É o Relatório do governador da Paraíba Fernando Delgado Freire
de Castilho, que se tornou patrono de uma das cadeiras do Instituto por sugestão
minha.
Aqui, quando foram escolher os patronos das cadeiras, o ambiente não era
bom porque todo mundo queria botar os elementos da família. Teve um que botou
quatro, outro quis votar seis. A gente resistiu, eu, Aécio e outros.
Fernando Delgado tem uma ruazinha com o nome dele, onde morava o his-
toriador Archimedes Cavalcanti, que fica entre o Astréa e a Bica.
O rei de Portugal perguntou a Fernando Delgado se a Paraíba tinha condi-
ções de retomar sua autonomia. Tinha havido muitas pressões para acabar com essa
dependência interna. Ele não se limitou a responder sim ou não. Ele escreve um
Relatório magistral de 9 a 10 páginas, que está no livro de Irineu Pinto DATAS E
NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA, juntamente com outros três relató-
rios. Nesse relatório ele começa por descrever a situação geográfica da Paraíba, de-
pois as nossas costas, rios, as matas e depois entra na parte econômica, atacando vi-
rulentamente as Companhias de Comercio, dizendo que são as pestes que avara-
mente drenam a riqueza das capitanias. É uma linguagem assim.
O instrumento de luta contra essa decadência, contra essa submissão, contra
a exploração, é o liberalismo. O liberalismo estava em evidência a partir das grandes
revoluções. Primeiro as revoluções inglesas (1648 e 1688); depois vem a revolução
norte-americana (1776) e a francesa (1789). No conjunto formam o chamado libe-
ralismo, o iluminismo, o pensamento destinado a iluminar, pela razão, o mundo e

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desfazer as trevas do absolutismo.
É preciso distinguir uma coisa no liberalismo anglo-flanco-americano e ou-
tra no brasileiro. Jaurès, grande historiador da Revolução Francesa, viu isso muito
bem, dizendo que a Revolução Francesa é uma revolução amplamente burguesa e,
portanto, democrática, enquanto as outras são restritamente burguesas e, portanto,
conservadoras. Essa distinção Caio Prado Jr. fez muito bem, naquela EVOLUÇÃO
POLÍTICA DO BRASIL. Aliás, Alberto Torres já tinha visto isso, no início do sé-
culo.
É evidente que o liberalismo era o ferramental, era o geral, mas ele vai ga-
nhando particularidades. Uma coisa é o liberalismo francês, movido pelas massas
parisienses, da guarda nacional; a França tinha uma coisa que os Estados Unidos e a
Inglaterra não tinham, que era uma cidade com ares de metrópole, uma cidade pro-
fundamente revolucionária, que era Paris, empurrando o movimento para frente e
transmitindo esse élan. O liberalismo norte-americano é um liberalismo mais bem
comportado, é um liberalismo mais jurídico. O francês é mais social, devido à parti-
cipação das massas. O inglês vai se completar em 1830 com aquelas revoluções
chartristas. Ora, se na matriz do liberalismo havia essas divergências, essas diferen-
ças, imagine-se com relação à América Latina; imagine com relação ao Brasil; ima-
gine com relação à Paraíba.
Que liberalismo era o que nós tínhamos? Primeiramente o liberalismo dos
senhores de engenho. Um liberalismo excludente. É como outro mito que aparece.
Estou até fazendo um trabalho para apresentar em Recife sobre D. João VI e eu
vou para lá dizer que D. João VI era um rei covarde, inepto e fujão. Aparece uma
história aqui dizendo que o Exército brasileiro é um produto de três raças; é produ-
to da fusão do negro, do índio com o branco. Gerou-se uma democracia nas lutas
holandesas. Não é possível! Os negros ali eram negros forros; os índios eram índios
aculturados. E tinha quer ser. Os brancos iam entregar armas aos negros para se
voltarem contra eles? Iam entregar armas aos quilombos? Iam entregar armas aos
índios? Se a nação brasileira surge em Guararapes, na luta contra os holandeses, é
uma nação excludente, é uma nação em que não há igualdade, é uma nação de al-
guns, o que aliás permanece até hoje. A nação dos ricos, a nação dos poderosos, a
nação dos cidadãos e a massa inteiramente destituída de maiores possibilidades. Is-
so vai se cristalizar no século XIX.
O nosso liberalismo aqui é um liberalismo formal, não é um liberalismo que
pretenda mudanças no plano econômico, mas apenas no plano político. Não se tra-

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ta de mudar a estrutura econômica, muito menos a situação social. Esse liberalismo
que aparece aqui é um liberalismo postiço, formal. Esse liberalismo permanece
convivendo com a escravidão, que trata os desiguais. Joaquim Nabuco tem um dis-
curso forte contra isso. Isso vai se refletir na Constituinte de 1823. Há um livro
muito bom de José Honório Rodrigues sobre o assunto, que é A ASSEMBLEIA
CONSTITUINTE DE 1823. Ali ele mostra que os deputados perceberam que per-
tenciam à mesma nação, à mesma pátria, foi ali que se viram falando a mesma lín-
gua, mas eles se perguntam logo se os índios são cidadãos brasileiros, se os negros
são cidadãos brasileiros. A ideia deles é uma ideia excludente. Depois consagrando
isso vai surgir o voto censitário, o chamado voto da mandioca, onde as pessoas pa-
ra votar tinham de demonstrar a propriedade de alguns alqueires de mandioca, al-
guma renda. Esse é o nosso liberalismo, evidentemente distanciado do liberalismo
francês. É um liberalismo que cristaliza o poder da burguesia exportadora e dos
grandes proprietários em detrimento dos índios, dos negros e dos pobres, que fi-
cam inteiramente marginalizados no processo político, histórico e social.
Quem move esse liberalismo é a Maçonaria e a Igreja, aliás a Igreja não, o
baixo clero. Na Igreja há uma distinção muito clara, que começa a se verificar no
século XVII, século XVIII, entre suas camadas mais elevadas identificadas com o
colonialismo e as camadas mais ligadas ao povo. Padre Ibiapina, frei Martinho, são
missionários mais ligados ao povo. Aparece o Seminário de Olinda com a participa-
ção destacada do Bispo Azeredo Coutinho, apesar de reacionário e escravocrata,
como Cairu, que foi o responsável pela abertura dos portos.
Esse liberalismo é impulsionado pelo baixo clero, daí 1817 ser conhecido
como a revolução dos padres. Esse termo é de Oliveira Lima, porque houve uma
grande participação dos padres, não somente pelos mais destacados que conhece-
mos, mas por aqueles outros do Ceará, padre Mororó, padre Carapinima; na Bahia,
o padre Roma, que foi sacrificado em 1817 e o filho Abreu e Lima, o general das
massas, assistiu à agonia do pai.
Também a Maçonaria impulsionou esse liberalismo. Há uma distinção entre
a Maçonaria europeia, dos jacobinos, e a nossa Maçonaria. A Maçonaria francesa é
virulentamente anticlerical, porque lá o trono está unido ao altar. A Maçonaria é
uma força de transformação na Europa, representando a corrente mais avançada da
burguesia. Aqui a Maçonaria se compõe com os grandes proprietários, e se compõe
com a Igreja. Vão se separar em 1874, por ocasião da Questão Religiosa.
Realmente, as ideias estão fora do lugar, como diria Ecléa Bosi.. Não é a

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mesma coisa que o liberalismo europeu.
Aí começam a pipocar os movimentos liberais impregnados dessa dupla i-
deia: no plano nacional, de romper com a tutela colonial; no plano da Paraíba,
romper com a supremacia de Pernambuco, mais particularmente do Recife.
É quando surge a Conspiração dos Suassunas, um movimento que apareceu
nessa zona canavieira, a mais impregnada desse ardor nativista porque o açúcar era
a nossa principal riqueza (o algodão estava ainda aparecendo) e estava sendo explo-
rada pelas companhias de comercio. São os senhores de engenho que assumem es-
se movimento. Os irmãos Suassuna são senhores de engenho nessa zona de Goia-
na, Pedras de Fogo, Itambé. Há uma série de documentos que são fundamentais
para a compreensão desse movimento. É a série DOCUMENTOS BRASILEI-
ROS, que foi publicada pelo Arquivo Nacional na época de José Honório Rodri-
gues.
Mais recentemente, deslocando essa questão do plano econômico para o so-
cial, quem apareceu com um bom trabalho foi Maria do Socorro Ferraz – LIBE-
RAIS E LIBERAIS. Porque a questão que se põe em foco é a da independência. O
liberalismo, que na Europa significava a ascensão da burguesia, uma transformação
social, que nos Estados Unidos significava uma afirmação jurídica e que na Ingla-
terra possuía um dimensionamento institucional, aqui ganha uma feição nacional. O
liberalismo aqui é a doutrina da emancipação, é a doutrina da independência. Mas,
feita dentro dessas bases, uma independência controlada pela categoria exportado-
ra, colocando fora da cidadania os negros, os índios e os que não adquiriam um de-
terminado nível de renda.
Os constituintes de 1823 discutiram isso. Eles conheciam muito os autores
franceses, os autores norte-americanos, assim como os padres do movimento de
1817.
Socorro Ferraz, no trabalho dela, coloca que em termos da independência
havia três linhas, três fórmulas. Uma é a que vai prevalecer sob o comando do
grande chefe das forças nacionais, que é o maior estadista brasileiro de todos os
tempos que foi José Bonifácio. José Bonifácio articula a forma de independência
com monarquia através da agregação das províncias por meio do Conselho de Pro-
curadores. Mas havia duas outras. Havia a fórmula federalista, pela qual vai se bater
Frei Caneca, que era uma forma de descentralização, uma forma federativa ou con-
federada, em que as antigas capitanias não ficavam tão amarradas ao centro. E por
que essa preocupação?

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Quando D. João VI chegou aqui (não teve nada de preparar a independên-
cia) o fez com uma corriola para roubar o país, saquear o país, tirava dinheiro das
províncias para mandar para a Corte a fim de manter a corriola dele. As províncias
estavam com muito receio de que uma independência centralizada repetisse isso e
assim apelavam para o federalismo, cuja maior expressão era o Frei Caneca. Aliás,
sempre revelei interesse em saber o pensamento de Frei Caneca sobre a escravidão.
Um colega já me disse que ele não toca na questão da escravidão.
Havia uma terceira fórmula, que é de vincular o Brasil aos portugueses atra-
vés da união das coroas, fórmula que adotou Pedro I (Pedro I tem pouco a ver com
a nossa Independência).
Eu gosto muito do trabalho de Socorro Ferraz. Ela mostra que os movimen-
tos têm em vista a flutuação dessas formulações. Esse período aí, de 1801 até 1848,
não só ocorre em 1817, 1824 e 1848. Como se sabe houve muitos movimentos po-
pulares que ocorreram em Recife, que repercutem aqui na Paraíba e Itabaiana. Ita-
baiana é realmente a cidade que representa o elemento de ligação entre Pernambu-
co e a Paraíba. Os movimentos são intensos, havendo num período entre 1832 a
1838 os que ficam conhecidos como Abrilada, Setembrizada, Novembrada e ocor-
rem vários motins de escravos. E a historiografia fica somente em 1817, 24 e 48
porque são movimentos das camadas mais elevadas, o que levou José Honório Ro-
drigues a considerar ser uma historiografia dos poderosos para os poderosos. Esse
assunto eu coloco num dos fascículos publicados pela A UNIÃO, sob o título
TENSÃO SOCIAL E MOTINS NA REGÊNCIA.
Assim, fiquei fiel ao nosso princípio de substituir os conceitos pelas indica-
ções.. Por isso estou indicando as fontes, os lugares onde passamos encontrar uma
visão nova.
Para encerrar, eu pergunto: por que esses movimentos são tão glorificados
pela historiografia oficial? Em primeiro lugar, eles foram muito glorificados no iní-
cio da República porque se voltam contra a Casa de Bragança, que só sai do Brasil
em 1889, quando a República fica no lugar da Monarquia. Aí se começa uma in-
crementação ideológica da República, porque esses movimentos todos tiveram ten-
dências republicanas, tanto 1817, como 1824 e 1848. Quando a República se coloca
no lugar da Monarquia, começa-se a valorizar esses movimentos, o que explica a-
quela placa colocada na Igreja de Lourdes, por ocasião do centenário de 1817. Em
segundo lugar, porque são movimentos conservadores, não são movimentos soci-
ais. O que avançou um pouquinho foi 1817, aqui. Isso porque a situação da Paraíba

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era muito ruim, deficiente, então os revolucionários que formam o Governo – com
a participação de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada – elaboram a primeira consti-
tuição brasileira, a de 1817, cujo mentor foi Antônio Carlos, que foi aqui represen-
tante da Paraíba no Governo Provisório. Antônio Carlos era uma grande figura,
mas era muito soberbo, sobranceiro. Ele parece que tinha mais brilho que José Bo-
nifácio. Os três irmãos eram grandes. Martim Francisco era muito versátil em ques-
tões de finanças, inclusive ele é contra aqueles empréstimos da Independência. A-
queles empréstimos são contraídos depois que D. Pedro I afasta os Andradas. Isso
Socorro não percebeu. No seu trabalho ela procura mostrar essas três categorias: a
forma da Independência que prevalece, a Independência com a Monarquia, a se-
gunda forma, a federativa e a terceira, que é a portuguesa. Ela reclama muito da
primeira, dizendo que nela residiam as sementes do autoritarismo. Não é verdade
porque o centralismo de José Bonifácio não era de fins, era de meios. Ele queria se
dotar de poderes para realizar transformações. Transformações da situação agrária,
da situação social, da situação educacional, da potencialização das riquezas. Era isso
que José Bonifácio queria fazer com plenos poderes. Não era para fazer como Pe-
dro I. Pedro I, sem José Bonifácio, vai usar os plenos poderes para esmagar as pro-
víncias, como aconteceu em Pernambuco e depois no Ceará, em 1826. Acho o tra-
balho de Socorro Ferraz excelente, mas entendo que ela não compreendeu o pen-
samento do grande Andrada. Esse era um liberal. Era um liberal mais consequente,
como aquele pessoal que o cercava. Tinha até um paraibano, que era Manoel Car-
neiro da Cunha (que José Honório ressalta, na bravura e no radicalismo). Havia
Montezuma, o coronel Nóbrega. Esse era o grupo de José Bonifácio, que foi todo
preso na dissolução da assembleia constituinte.
1817 tem, portanto, a participação de Antônio Carlos aqui no Governo da
Paraíba (não sei se chegou a vir até aqui), celebra-se a primeira constituinte e o mo-
vimento avança um pouco porque pretende se voltar contra as taxas e impostos
que incidiam sobre comércio interprovincial. Pernambuco assustou-se com isso.
Assustou-se por que? A Paraíba era caudatária de Pernambuco, era satélite. Há uma
carta no livro de Irineu Pinto DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PA-
RAÍBA, onde os pernambucanos pedem aos paraibanos frearem um pouco o im-
pulso do movimento de 1817.
Em 1824, já falei sobre Felix Antônio, aquele caudilho areense que procla-
mou uma decantada república em Areia, e até botaram um retrato dele aqui no Ins-
tituto. A grande figura a ser estudada é Frei Caneca, que aliás percorreu a Paraíba,

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depois. É o ideólogo de 1824. José Honório tem um capítulo bonito sobre ele num
livro chamado HISTÓRIA CORPO DO TEMPO. José Honório diz assim: Frei
Caneca ou a luz gloriosa do martírio. Quem quiser pense que a repressão é besta. A
censura não permitiu que fosse publicado o artigo em 1972, porque José Honório
estaria usando Frei Caneca contra o autoritarismo da época. Era o General Médici.
O pensamento de Frei Caneca era muito identificado com o do abade francês
Sièyes, que tem um trabalho QUE É O TERCEIRO ESTADO, que foi a corrente
mais avançada da Revolução Francesa. Esse livrinho começa assim: “Que é o Ter-
ceiro Estado? Tudo. O que está sendo?. Nada. O que ambiciona ele? Todo o po-
der.” É a frase inicial desse fascículo forte.
Como vocês sabem, a Constituição de 1824 foi outorgada. Fecharam a cons-
tituinte e expulsaram os Andradas. Quando José Bonifácio volta vem muito pacifi-
cado. O exílio parece que amortece muito esse impulso radical das pessoas. Vejam
o exemplo de Brizola e do pessoal de 64.
Aécio Aquino está lembrando que quando ele voltou já estava bastante ido-
so, e eu relembro que Portugal quis matá-lo, em 1823. Portugal não o matou por
causa da interferência dos ingleses, que confiavam muito nele e o admiravam.
Em 1824, como sabem, Frei Caneca esteve preso no extremo Oeste da Para-
íba, voltou, esteve em Campina Grande; era um homem ascético, consta que ali se
contentou com umas bolachas e um pouco de vinho. Felix Antônio conseguiu fu-
gir. Felix Antônio era um homem corajoso, bravo, tinha méritos, mas não tinha a
dimensão ideológica de Frei Caneca. Frei Caneca era um pensador. Socorro Ferraz
diz no seu livro que Frei Caneca possuía um projeto para a independência do Bra-
sil, que era o projeto que o centralismo esmaga, a princípio com Pedro I, depois
com Feijó, depois com o regresso de 1840, sempre centralizando para abafar os
impulsos autonomistas das províncias.
Enfim, a Praieira torna-se muito importante para nós por causa de Maximi-
ano Machado, que se tornou na Paraíba uma figura de destaque. Ele era Delegado
Municipal e Juiz de Areia quando as tropas praieiras, derrotadas na Soledade, vie-
ram para cá, enquanto a outra coluna foi para Alagoas. Elas foram para Alagoa
Grande, subiram aquela serra e se fortificaram lá em cima. Maximiano, como Dele-
gado e Juiz, recebeu instruções para fechar a cidade aos praieiros. Mas ele era um
liberal radical.
Que é liberal radical? Radical é quem vai à raiz. Liberal radical é liberal de
esquerda, é liberal mesmo, um liberal avançado. O liberalismo radical está nas fron-

193 

 
teiras do socialismo. Abreu e Lima era um. Era o chamado socialismo utópico. Ma-
ximiano Machado era um liberal radical. Ele fez o contrário do que instruíram; a-
briu a cidade aos praieiros e fortificou-a contra o Exército imperial, contra as forças
da ordem. Os praieiros foram desbaratados na cidade de Areia. E fugiram tomando
diversos destinos. Maximiano Machado estava entre eles e Ireneu Joffily, menino,
presenciou esse episódio.
Refugiando-se em várias localidades, Maximiano escreveu um grande livro,
que é o QUADRO DA REVOLTA PRAIEIRA NA PROVÍNCIA DA PA-
RAHYBA. Maximiano era antiabsolutista, anticlerical, maçônico, avançado, tinha
idéias muito consequentes. Pois bem, escreveu esse livro, que foi re-editado nas ce-
lebrações do IV Centenário da Paraíba por Francisco Pontes da Silva, quando eu
era presidente da Comissão.
Com o Dr. Machado, que o nosso presidente Luiz Hugo acaba de biografar,
exprime-se um dos mais altos momentos das lutas nativistas da Paraíba que aqui
procurei sumariar.

A fala do Presidente:

A excelente exposição do confrade José Octávio oferece uma valiosa contri-


buição a este Ciclo de Debates promovido pelo Instituto Histórico. No seu estilo
próprio, José Octávio fixou a importância das nossas lutas nativistas, mostrando
sua forte vinculação com um liberalismo que era nacional.
Detalhista, como sempre, registrou alguns fatos pouco enunciados pelos his-
toriadores e fez algumas contestações, como é de seu feito.
Para complementar sua exposição, teremos a professora Inês Caminha Lo-
pes Rodrigues, que é professora de História, que já lecionou na Universidade Fede-
ral da Paraíba, donde já se aposentou, mas continua na ativa ensinando História na
UNIPÊ e na Universidade de Pernambuco. É doutora em História pela USP.
Passo a palavra à professora Inês Caminha.

Debatedora: Inês Caminha Lopes Rodrigues (Professora de História na UNI-


PÊ e UEPB, leciona na Universidade de Pernambuco na área de Pós-graduação; é
doutora em História pela USP, ex-professora de História da UFPB)

Congratulo-me com os componentes da Mesa e demais participantes, ao di-


zer para todos que esta não é minha área de estudo, mas um convite do professor e
colega José Octávio eu não poderia rejeitar. Então vou direto a algumas questões

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para deixar espaço para os participantes.
Eu me apoiei no fascículo nº 6 da Coleção de História da Paraíba – Inde-
pendência e Revoluções Liberais. O professor José Octávio já definiu com bastante
lucidez, com bastante critério, a diferenciação do liberalismo. Quando estudamos o
liberalismo na Europa, ele tem um significado; o liberalismo no Brasil tem outra ca-
racterística. Inclusive ele faz diferenças de formulações abstratas, exatamente por-
que em todos os projetos dos revolucionários existia o desejo da aplicabilidade do
liberalismo. Mas, na prática, ele vai tendo diferenciações. Uma das coisas que me
chamou a atenção, nesse seu fascículo é o movimento de 1848. Porque quando nós
estamos estudando a introdução ao liberalismo, sempre apoiados na professora
Emília Vioti – EMANCIPAÇÃO DA HISTÓRIA POLÍTICA DO BRASIL – ela
faz uma inferência e distingue bastante o liberalismo voltado para a proteção ao
trabalhador. Nesse fascículo, que o tomo como base, eu vejo o movimento de
1848, quando faz uma inferência que alguns historiadores já caracterizaram nesse
movimento; essa preocupação com o socialismo utópico.
Eu gostaria de saber do professor José Octávio onde nós poderíamos nos
apoiar nesse livro.
José Octávio:
Quero me referir a Amaro Quintas, uma figura a que Pernambuco não pres-
tou a homenagem que merecia. Era um grande historiador; foi formador de toda
essa geração de novos historiadores da Paraíba e Pernambuco – Manoel Correia,
Aécio, Armando, todo mundo aluno dele. Foi Diretor da Fundação Joaquim Nabu-
co, morreu e não prestaram uma homenagem digna a ele. Uma homenagem de ava-
liar a obra, de re-editar os trabalhos dele. Morreu e foi enterrado em campa rasa.
Ele tem um livro O SENTIDO SOCIAL DA REVOLUÇÃO PRAIEIRA, onde
sustenta a tese em que dentro da Praia havia duas correntes. Uma corrente mais
conservadora de senhores de engenho, que estavam identificados com aquele espí-
rito tradicional do liberalismo, que era um liberalismo formal do modelo exporta-
dor. Mas ele acha que dentro da Praia havia, sobretudo em Recife, um grupo avan-
çado, que ele chama o grupo dos 5000 e transcreve o hino desse grupo, o hino dos
praieiros. Ele diz que esse grupo era mais avançado porque queria transformações
principalmente pela nacionalização do comércio de retalhos, porque Recife era a
praça onde o comércio português anquilosava e dominava muito o comércio local.
Segundo Amaro Quintas, esse grupo já estava nas fronteiras do socialismo utópico.
E 1848, na Europa, é o ano do Manifesto do Partido Comunista, cujas idéias chega-

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ram aqui com atraso. Essas coisas repercutiam aqui. Primeiro, em Pernambuco ha-
via aquele caso de Vautier, que Gilberto Freyre estudou muito bem.. Era um enge-
nheiro francês que estava introduzindo aquelas ideias aqui. Aliás, há um autor que
diz que D. Pedro II estava no teatro quando chegaram os jornais dando notícias
dos acontecimentos de 1848. É um movimento que vai terminar nas mãos de Na-
poleão Pequeno. Um movimento que tinha Gambetta e tinha um caráter popular,
radical, que depois a Comuna de Paris vai aprofundar, em 1871. Pois bem, D. Pe-
dro não quis mais prestar a atenção à peça e dizem que a peça terminou e ele ficou
lendo os jornais. De certo modo a Casa de Bragança havia se fundido com os
Bourbons, então ele estava preocupado com os acontecimentos, que forçosamente
repercutiam aqui.
Então Amaro Quintas sustenta que havia um grupo na praia que queria
transformações sociais, mas isso não é pacífico. José Gláucio não se conformava
com isso. José Gláucio processava um marxismo muito esquemático. Parece que
ele é sócio daqui, o pai dele era. Parece que ele tinha uma rivalidade com Amaro.
Agora, Amaro como professor é historiador, coisa que José Gláucio não é. José
Gláucio é um camarada que se mete a falar sobre tudo, mas não é historiador. José
Gláucio diz assim: Eu não sei onde Amaro foi tirar essa ideia de socialismo utópico
na praia. Como é que pode haver movimento socialista num movimento dominado
por senhores de engenho?
Humberto Mello, aparteando:
A propósito dessa afirmação de Amaro Quintas eu queria lembrar que em
1978, quando houve aquele Seminário Paraibano de Cultura Brasileira, o tema João
Pessoa e a Revolução de 30, e Amaro foi um dos expositores, Amaro negou o cará-
ter revolucionário de 30, apesar de vitoriosa, enquanto a praieira foi derrotada, mas
essa sim foi revolução.
José Octávio:
O livro de Amaro Quintas foi prefaciado por Paulo Francis, que na época
estava na esquerda.
Inês Caminha:
A outra questão que levanto diz respeito ao movimento de 1817. Seria inte-
ressante que o professor José Octávio trouxesse não só para a mesa como para a
plateia mais algumas informações a respeito da Constituição de 1817, inclusive por-
que ele registra que é a primeira. Nós, professores de História, enfatizamos muito a
Constituição de 1823 e a de 1824, temos, portanto, poucos dados dessa primeira,

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que seria a partir da Revolução de 1817.
Outra questão da Revolução de 1817 é quando o expositor faz diferença nas
duas obras do professor Carlos Guilherme Mota NORDESTE – 1817 e IDÉIA
DA REVOLUÇÃO NO BRASIL, em que se faz inferência a respeito do caráter de
classe dessa chamada Revolução Pernambucana de 1817. Acho que nos reportarí-
amos para a questão anterior porque quando fala no caráter de classe, perguntaria
em que sentido seria. Se estaríamos voltados para a preocupação da revolução in-
dustrial, que é uma outra realidade, diferente da nossa. Nós estamos, nessa fase, em
plena efervescência do processo da revolução industrial na Europa.
A última questão, já citada aqui, que é sobre Joaquim Manoel Carneiro da
Cunha, quando no fascículo nº 6 da Coleção da Paraíba, você enfatizou a questão
levantada pelo professor José Honório Rodrigues de que ele foi uma figura de rele-
vo na bravura e no radicalismo. Gostaria que você declinasse como se constituía, na
prática, esse radicalismo de Joaquim Manoel Carneiro da Cunha.
José Octávio:
Essa questão da Constituição de 1817 foi levantada numa série de artigos
por José Honório na FOLHA DE SÃO PAULO, mais ou menos em 1983. Alguém
escreveu uma carta e falava na primeira constituição brasileira de 1824, procurando
ressaltar Pedro I, que outorgou a Carta de 1824. Então José Honório fez um artigo
mostrando que não. Que a primeira Constituição foi aqui, em 1817. Nunca vi essa
Constituição, mas eu sei onde ela está.. Eu tenho esse trabalho. Paulo Bonavides es-
tá publicando uma série de trabalhos que condensa uns textos fundamentais para a
História do Brasil. É um livro só, com cerca de 800 páginas. Agora virou 12 ou 15
volumes, publicados pelo Congresso. E lá tem a Constituição de 1817, que ainda
não tive tempo de ler.
Carlos Guilherme Mota quando esteve no Nordeste para pesquisar sobre
1817 e quando escreveu aquele trabalho, era muito marxista. Ele suavizou-se mais.
Mas sempre notei seu pensamento bastante ortodoxo, não diria sectário, mas me-
canicista. Aí ele entra um pouco nessa linha de José de Gláucio, de achar que o
movimento é um movimento de classe exatamente porque era impulsionado por
senhores de engenho. Carlos Guilherme avança consideravelmente sobre José de
Gláucio. Carlos Guilherme é historiador. Então ele usa a documentação do perío-
do, sobretudo os folhetos, os boletins. É preciso lembrar que estávamos ainda sob
o governo de Portugal, que impedia a liberdade de imprensa. Não tínhamos jornais
aqui. Então esses movimentos se valeram muito de folhetins, de panfletos. Esses

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panfletos são estudados, na Bahia, por Kátia Queiroz Matoso, que tem um trabalho
inteiramente sobre isso: PRESENÇA FRANCESA NA REVOLUÇÃO, de 1792.
Alguns desses panfletos foram escritos em francês. Kátia Matoso estuda a forma de
comunicação de todos esses movimentos. Carlos Guilherme Mota retoma isso com
relação a Pernambuco.
Com relação a Joaquim Manoel Carneiro da Cunha é bom lembrar que a
corrente de José Bonifácio estava tocando na questão da terra, na questão da escra-
vidão e na questão que mais inquietou Pedro e a camarilha dele, influenciada por
Domitila, a questão da disponibilidade dos bens portugueses. Porque os portugue-
ses estavam voltando e levando os capitais. José Bonifácio queria que esses capitais
se tornassem indisponíveis. José Honório acha que nisso aí é que reside a diferença
de José Bonifácio com o grupo português. Esses projetos todos têm o apoio de
Carneiro da Cunha.
Certa vez me perguntaram quais eram os documentos mais importantes da
História da Paraíba. Eu botei o de Fernando Delgado no meio. Cada um signifi-
cando um século. O primeiro, re-editado por iniciativa de Francisco Pontes nas
comemorações do IV Centenário, foi o SUMÁRIO DAS ARMADAS, do século
XVI. No século XVII, o documento que foi re-editado por Marcus Odilon e Wel-
lington Aguiar DESCRIÇÃO DA CAPITANIA DA PARAÍBA, de Elias Herck-
mans. O de Van der Dunsches é mais profundo porque é mais econômico, mas o
de Herckmans é melhor escrito e mais amplo. Para o século XVIII, é Fernando
Delgado, que é um documento do final do século, 1799, quando ele faz uma avalia-
ção da Paraíba naquele momento. No século XIX, acho que o grande documento é
o documento do engenheiro Retumba, que foi retomado por Irene Rodrigues Fer-
nandes. Retumba participava do grupo de Irineu Joffily e Albino Meira, onde tem
um relatório que fala na rede ferroviária que liga João Pessoa a Pilar. E comenta:
essa ferrovia liga o nada a coisa nenhuma. O século XX, para mim, tem três docu-
mentos: O último relatório de João Suassuna e o primeiro de João Pessoa. São rela-
tórios perfeitos pela maneira como estabelecem diferentes orientações e visão dum
mesmo fenômeno. Eles estão na raiz da transição da Paraíba ainda patriarcal, ainda
agropecuária, para a Paraíba urbana, pelo menos pré-urbana. O documento de Su-
assuna é muito bem escrito, Depois, Burity, que foi Secretário, conhecia pouco a
Paraíba, foi contemplado com uma capitania por influência de José Américo, quan-
do assumiu aqui juntou um grupo, um grupo quase todo economistas do melhor
nível, como Marcelo Lopes, Ronald de Queiroz, Inácio, José Costa e fez um docu-

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mento de primeira ordem. Agora tem um título muito anódino, chamado POLÍTI-
CAS. São dois fascículos. O primeiro tem a parte geral e o segundo é a parte de
demonstração de quadros. O primeiro é perfeito, cujo coordenador parece que foi
Queiroz. Não é um documento do Governo Burity, é um documento para o Go-
verno Burity. Burity que ia assumir.
Lembrei-me disso porque me pediram para colocar os cinco maiores parai-
banos de todos os tempos. Houve uma enquête de O NORTE nesse sentido. E eu
comecei por Manoel Carneiro da Cunha. Coloquei os nomes por áreas. Não botei
João Pessoa, coloquei Anthenor Navarro e Petrônio Castro Pinto fez um artigo di-
zendo que era minha nova mania. Botei José Siqueira, Thomaz Santa Rosa. Colo-
quei Manoel Carneiro da Cunha, como representante da Política, mas fiquei em dú-
vida entre ele e Diogo Velho, que também teve uma visão econômica extraordiná-
ria da Paraíba e do Nordeste do século passado e era um homem avançado para o
seu tempo.
Inês Caminha:
Quero agradecer esta oportunidade de ouvir José Octávio, que abrange to-
dos os aspectos da história e repassar o debate ao público.

1º participante: Humberto Mello: (Membro do IHGP e da APL)

Havia uma professora que estava fazendo um Mestrado de História na Uni-


versidade de Pernambuco, procurando levantar uma tese sobre a posição paraibana
em 1817.
José Octávio:
Foi Lourdinha Vasconcelos, que chegou a publicar um artigo naquela revista
verde, espécie de História da Paraíba do Departamento de História da UFPB, onde
cita muitos documentos brasileiros. Sua pesquisa estava em andamento, quando ela
morreu. Ela levantou muito material e eu pergunto: onde está esse material? É pre-
ciso procurar.
Humberto Mello:
Em Irineu Pinto nós vemos mensagens dos pernambucanos reclamando que
a Paraíba estava avançando muito e que em 1817 a Paraíba estava muito à frente de
Pernambuco, em termos de conquista. Esse é um ponto que seria desejável que
fosse aprofundado, estudado melhor.
Pelo que se vê na obra de Maximiano QUADRO DA REVOLTA PRAIEI-
RA NA PROVÍNCIA DA PARAÍBA e no prefácio que ele fez na História da Re-

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volução de 1817, do padre Muniz Tavares, tem-se a impressão que a adesão da Pa-
raíba à Praieira foi uma questão que inicialmente brotou de um desacordo com o
governo local, com o presidente da província, tendo Maximiano adotado suas ideias
para encaixar-se dentro do ideário da Praieira.
José Octávio:
A causa direta do que aconteceu em Pernambuco e que Maximiano levanta é
a destituição de Chichorro da Gama, como presidente liberal. Chichorro era baiano,
era senador e não tinha maiores vinculações com a oligarquia, entrando duro na o-
ligarquia chamada “gabiru”, botando a polícia nos engenhos, reprimiu grilagem de
terras, retirou os cargos das mãos dos conservadores. Quando ele é destituído os
praieiros então se inquietam. A causa imediata foi essa, lá, como a daqui foi a que
Humberto Melo falou.
Humberto Melo:
Não me parece que o movimento Pastorinha, que você falou aí, se enquadre
nesses movimentos sociais; foi só um movimento militar cingido dentro do quartel,
entre um tenente e um comandante, que aliás teve como vítima uma negra que
vendia quitutes.
José Octávio:
Esse período foi muito agitado. Pastorinha estava vinculado ao grupo mais
conservador. Havia três correntes, todas elas pegando em armas. Estavam pegando
em armas os liberais radicais, com Frei Caneca, os mais comportados, que derru-
bam Pedro I e estavam pegando em armas, também, os reacionários caramurus,
chamados “jurubas”. Estava todo mundo pegando em armas naquele momento,
que termina em 1849. De 1770/1780 a 1849 é raro o ano que não se verifica um
movimento armado no Brasil.

2º participante: João Batista Barbosa:

É uma indagação que quero fazer a José Octávio, que não tem muito a ver
com a tese debatida. É mais uma curiosidade histórica, mas que está ligada à Histó-
ria da Paraíba. Não sei se está ligada à repressão ao cangaceirismo na Paraíba, se es-
tá ligada às lutas políticas paroquiais. São três episódios da História da Paraíba que
eu não sei como estão situados no seu contexto.
Primeiro é sobre a Campanha de Princesa, que quase todo mundo conhece,
que é a mais nova. Segundo, a chamada revolta de Santa Cruz, em Monteiro e a ter-
ceira, que muito pouca gente conhece, é a revolta de Jesuíno Brilhante, essa no sé-

200 

 
culo passado, mas que foi um acontecimento histórico.
Gostaria que, se fosse possível, o expositor dissesse alguma coisa.
José Octávio:
Eu sugiro que sejam distribuídas essas respostas com os participantes da
Mesa. Temos aqui a doutora Inês Caminha, que é especialista em Princesa, a tese de
doutorado dela é sobre as oligarquias na República Velha e a tese de mestrado é um
livro publicado sobre Princesa. Então ela falaria sobre Princesa. E Humberto Mello
falaria sobre o movimento de Santa Cruz, que ele estudou. E poderia começar pelo
caso de Jesuíno, mais antigo.
Humberto Mello:
O caso de Jesuíno, não me parece que tenha sido exatamente uma revolta.
Havia uma implicação que havia uns presos que tinham sido detidos mais por se
opor à situação dominante do que por acusação de crimes. Imputaram algumas a-
cusações, que não foram comprovadas, e Jesuíno comandou uma invasão à cadeia
de Pombal e libertou um irmão dele e uma porção de gente que estava presa por
essa farsa. Não sei se poderíamos considerar isso como um movimento de revolta,
no mesmo pé do que, na mesma época, houve aqueles movimentos populares do
Ronco da Abelha, do Quebra-Quilos, da Serra do Lagomar, etc.
Agora, em 1912, aconteceu o seguinte. No tempo da Monarquia D. Pedro II
tinha a visão de quão perniciosa seria a perpetuação de uma facção no poder. Então
Pedro II promovia periodicamente uma mudança. Apeava o liberal, subia o conser-
vador, e vice-versa, ficando a gangorra do poder, para usar a expressão da professo-
ra Inês Caminha.
Quando chega na República, isso desapareceu. No tempo do Império havia
o que chamavam o lápis fatídico do Imperador, que fazia essa alternância. Mas isso
desapareceu.
Álvaro Machado assume o governo em 1892, passa 20 anos dominando a
política da Paraíba. Nesses 20 anos, em cinco quatriênios governamentais, ele foi
Presidente do Estado em dois, um dos irmãos – João Machado – foi Presidente no
terceiro, e um outro irmão Afonso, Vice-presidente. Quer dizer, era um domínio
completo.
Com vinte e poucos anos da República aquilo já estava enfarando. Tinha ha-
vido na Paraíba o grupo político de Venâncio Neiva e Epitácio Pessoa, que passou
somente dois anos no poder.
Apesar de Epitácio Pessoa ter tido um fôlego extra, quando foi ministro,

201 

 
não consegui o domínio do Estado. Há uma carta de Epitácio a um correligionário
quando Álvaro Machado começa a enfrentar cisões dentro do Partido e recorre aos
adversários. Essa carta de Epitácio a um correligionário cujo nome não me recordo,
essa carta está nas obras dele, mas eu li o trecho importante que citarei de memória.
Está no livro de Glauco Soares. Em 1904 houve um começo de semi-pacificação.
Álvaro Machado recorre a Epitácio, que estava como membro do Supremo Tribu-
nal, e negocia entregando vários municípios aos correligionários de Epitácio: Um-
buzeiro, Campina Grande, Taperoá, Catolé do Rocha, etc.
Na carta que Epitácio faz àquele correligionário ele diz que naquela situação
só há uma maneira de atingir o poder, que é aderir, mas preservando a dignidade,
etc., etc.
Mas, no começo da segunda década deste século, inicia-se o chamado mo-
vimento das salvações. As salvações, principalmente no Norte e no Nordeste, eram
patrocinadas por Hermes da Fonseca. Aí cai a situação de Rosa e Silva em Pernam-
buco e entra Dantas Barreto; caem os Malta em Alagoas e entra Clodoaldo da Fon-
seca, que era sobrinho de Deodoro (tudo militar); os Malta vieram ressurgir com
Fernando Color, cuja esposa é Malta. Os Acioli, do Ceará, a oligarquia dos Albu-
querque Maranhão, de Pedro Velho, no Rio Grande do Norte; na Bahia, caem os
Vianna; Antônio Lemos, no Pará. E assim por diante.
Então tentaram lançar aqui uma candidatura militar de oposição, que foi o
Coronel José Joaquim do Rêgo Barros. Rêgo Barros tinha sido político, tinha sido
integrante da primeira assembleia constituinte paraibana e teve seu nome lançado.
Nesse último livro de Dorgival Terceiro Neto aparece uma matéria sobre isso. Rê-
go Barros ia fardado aos comícios e levava a tropa fardada também. Ele não era
muito simpático, tinha pavio curto, explosivo, e chegou a ganhar um apelido de
“coronel caga-raiva”. Isso foi desgastando a campanha. Nessa época, como os par-
tidos eram estaduais, foi criado o Partido Democrata da Paraíba, comandado por
Afonso Campos, Lima Filho, Assis Vidal (pai de Adhemar Vidal) que cooptou os
opositores que tinham sido ligados originariamente ao grupo de Álvaro Machado e
foram defenestrados para a entrada dos epitacistas. Foi o caso dos Dantas, em Tei-
xeira; de Santa Cruz, em Monteiro, etc.
Quando Álvaro Machado se viu apertado com o exemplo dos Estados vizi-
nhos repercutindo aqui, falou com Epitácio Pessoa, que era muito amigo de Her-
mes da Fonseca. Havia mesmo ligações quase familiares, onde Epitácio era sobri-
nho do Barão de Lucena, compadre e amicíssimo de Deodoro. Então Epitácio

202 

 
consegue junto a Hermes da Fonseca que o coronel Rêgo Barros seja transferido
para o Rio de Janeiro.
A República coincide com os movimentos de autoritarismo local; a deposi-
ção de Venâncio Neiva, que foi um movimento de coronéis; articulou-se uma resis-
tência favorável a Venâncio, também com cabras que vieram lá do brejo; vem a re-
pública da Serra da Estrela, que, segundo José Octávio, foi uma revolução que ter-
minou com uma buchada de confraternização.
Em 1900, quando Epitácio Pessoa está no Ministério, surgem duas chapas.
Há uma disputa aqui na Paraíba entre José Peregrino, candidato de Álvaro Macha-
do, e João Tavares, que era o Vice. Os dois grupos consideraram eleitos seus candi-
datos. O vice de João Tavares, Antônio Massa, empossou-se no Teatro Santa Rosa
e José Peregrino assumiu no Palácio do Governo. A Paraíba estava com dois go-
vernos. Quem decidiu foi Rosa e Silva, oligarca de Pernambuco, que estava no e-
xercício da Presidência da República e reconheceu como titular o que estivesse no
Palácio do Governo. Quem estava lá era José Peregrino.
Então houve todos esses precedentes de movimentos de chefes políticos.
Esse movimento de 1912, em extensão territorial, foi o maior de todos. Maior
mesmo que o de 1930. O de Princesa ficou praticamente circunscrito a Princesa,
com incursões para Conceição, para Misericórdia. Mas foram só incursões.
O movimento que começou em Monteiro vai ao Cariri, Taperoá, Teixeira,
Patos, volta, passa em Soledade, São do Cariri; conflagrou aquela zona toda. Ocu-
pou Patos. Conta-se até que João Dantas, que era estudante ainda, furtou o chapéu
de Pedro Firmino, que era o pai do deputado José Gayoso. Isso são fuxicadas de
política publicadas por Cristino Pimentel, um jornalista campinense.
Recentemente foi lançado o livro O GUERREIRO TOGADO, de Pedro
Nunes, sobre esse movimento de Monteiro, onde ele faz uma biografia de Augusto
Santa Cruz, líder do movimento. Esse nome de Guerreiro Togado vem porque de-
pois Santa Cruz foi para Pernambuco, onde se tornou juiz.
João Batista Barbosa:
Quero apartear o ilustre debatedor, para dizer que a chamada Campanha de
Jesuíno Brilhante não foi tão efêmera como falou. Tem até um caso curioso. Foi
necessário que o Governo enviasse três expedições ao sertão para abafar o movi-
mento. A questão da cadeia foi apenas o que deu motivo à explosão. Jesuíno Bri-
lhante era um rico fazendeiro, possuía muitos cabras, os cangaceiros de então, e foi
preso o parente dele e ele foi lá, destruiu a cadeia e soltou o parente e daí revoltou-

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se contra uma volante que foi prendê-lo. Eu conto esta história porque o primeiro
marido de minha primeira sogra era o capitão da Polícia e foi comandante de uma
dessas expedições, não sei se a primeira ou a última, e morreu na campanha.
Humberto Mello:
Jesuíno era natural do Rio Grande. Ele transitava do Rio Grande do Norte
para cá, veio para Pombal, depois voltou e foi morto no Rio Grande do Norte. Re-
almente, como diz o aparteante, a luta começou na Paraíba e terminou no Rio
Grande do Norte.
Há vários livros sobre Jesuíno. Inclusive Jesuíno foi considerado um dos
primeiros chefes de cangaço, mas era extremamente popular, era como um Robin
Hood, que nos períodos de seca tomava recursos alimentícios que estavam tranca-
dos nos armazéns e distribuía com o povo.
Inês Caminha:
Em relação a Princesa, eu entendo o movimento de Princesa como o fim do
estado oligárquico. Porque nós estamos estudando a história da República e ela tem
didaticamente uma divisão em várias fases. De 1889 a 1930, chamamos República
Velha, Primeira República, República dos Coronéis e República Oligarca. De 1930
a 1945 é a chamada de Ditadura Varguista; de 1945 a 1964 ela é caracterizada como
a República Liberal e de 1964 em diante é o período autoritário, até 1985, e depois
temos o processo de abertura. Quando estamos estudando a Primeira República
para contextualizar Princesa, eu entendo o movimento de Princesa como um mo-
vimento armado, não uma revolução, no sentido de que vai quebrar toda aquela es-
trutura do estado oligárquico. Porque o estado oligárquico tem alguns fundamentos
que são considerados básicos. E o mais importante deles é o controle do processo
eleitoral pelos coronéis. Todos nós sabemos que a Justiça Eleitoral advém e é uma
conquista do processo revolucionário de 1930. Há uma expressão muito famosa na
história que é a “do posso, do quero e mando” dos coronéis.
Entre outros fundamentos do estado oligárquico nós temos, por exemplo, a
política profissional, com pessoas que fazem da política uma profissão. Uma outra
característica que também é trabalhada nesse período é a predominância da esfera
estadual em relação à esfera municipal e à esfera federal. É tanto que com o Estado
Novo, na Era Varguista, com a formação do Estado Nacional, nós vamos ter o for-
talecimento dos municípios. Outras características importantes desse período são a
submissão, a lealdade, a reciprocidade, o nepotismo, a malversação do dinheiro pú-
blico, todas essas questões envolvem os fundamentos do estado oligárquico.

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Há uma carta de Epitácio Pessoa cobrando de Camilo de Holanda até a lou-
ça que ele compra para o Palácio. Inclusive Camilo de Holanda diz: eu quero ser
ouvido e cheirado em tudo. E todos nós sabemos qual foi o fim de Camilo de Ho-
landa. Ele passou para a oposição. Se nós acompanharmos toda a correspondência
vamos ver que Epitácio dá quase como um ultimato. Há um envolvimento depois
da morte de Antônio Pessoa, que não vamos abordar agora nessa discussão, Camilo
de Holanda é forçado a deixar a política e é quando começa a fazer oposição.
Humberto Mello, em aparte:
A filha de Camilo de Holanda escreveu um livro onde conta que quando
Camilo rompeu com Epitácio pediu para passar para a reserva; ele era General-
médico, porque ele na ativa, se por acaso se encontrasse com Epitácio, teria que fa-
zer continência.
Inês Caminha:
Ainda vendo essa questão do movimento de Princesa, o que é que nós te-
mos? Temos que definir os tipos dos coronéis. Nós temos o pequeno coronel, que
é aquele que exerce liderança só no município; temos o médio coronel, que ultra-
passa a esfera municipal e a esfera estadual e temos o grande coronel, que é aquele
que abrange as três esferas: municipal, estadual e nacional.
Então podemos caracterizar Epitácio Pessoa como um grande coronel, por-
que ele preenche todas essas esferas. Voltando à questão dos fundamentos, que é
importante para a gente entender o processo revolucionário de 30, existe a solidari-
edade, que é chamada de solidariedade horizontal e solidariedade vertical. Nós sa-
bemos, por exemplo, que a força dos coronéis ela está no voto.
De certa forma, assumindo a presidência do Estado, João Pessoa irá subver-
ter essas solidariedades. Ele, de um lado, recusa-se a nomear os parentes dos coro-
néis para as funções públicas. Os que existiam foram transferidos para longe ou
postos em avulsão. Como muitos eram epitacistas, Pessoa estava minando as pró-
prias bases de sustentação.
Por outro lado, ao realizar eleições razoavelmente limpas para a época, o
presidente abria espaço para novas lideranças – as mais das vezes urbanas – e con-
fiscava a moeda de troca dos coronéis.
A reação destes não tem nada de extraordinário. Extraordinário é que a luta
de Princesa fundiu-se com outras questões da época e desembocou na Revolução
de 30.
Precedendo a esta, a Revolta de Princesa pode ser considerada o canto de

205 

 
sereia do coronelismo.
Este ainda não acabou. Mas experimentou um golpe muito grande, com a
Revolução de 30, que quebrou muitos de seus vínculos.
Em face do adiantado da hora, termino aqui minhas considerações finais.

206 

 
10º Tema:
A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA
Expositor: Humberto Cavalcanti de Mello
Debatedor: Dorgival Terceiro Neto

A fala do Presidente:

Estamos reiniciando nosso Ciclo de Debates e hoje vamos apreciar o tema


A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA, que será examinado pelo historiador
Humberto Cavalcanti de Mello, o qual convido para participar da Mesa; será deba-
tedor oficial o confrade Dorgival Terceiro Neto, que também convido para tomar
assento na mesa dos trabalhos; convido também o acadêmico Joacil de Britto Perei-
ra, presidente da Academia Paraibana de Letras.
Ninguém melhor do que os nossos associados Humberto e Dorgival do
nosso Instituto, convidados que já estão a postos, para apreciarem o tema de hoje.
Numa breve apresentação do expositor, posso lembrar que Humberto Ca-
valcante de Mello é ex-presidente deste Instituto e membro da Academia Paraibana
de Letras. Ex-professor de Direito da Universidade Federal da Paraíba, da UNIPÊ
e da Universidade Regional do Nordeste, exerceu também a magistratura como Juiz
de Direito.
Seus trabalhos justificam o convite que a Comissão Executiva do Instituto
fez para atuar neste Ciclo, citando entre eles A TRAJETÓRIA POLÍTICA DE
EPITÁCIO PESSOA; JOÃO PESSOA – PERFIL DE UM HOMEM; A ADMI-
NISTRAÇÃO DE JOÃO PESSOA; e A PARAÍBA E A REVOLUÇÃO DE 30,
cujo título inspirou o tema que vamos debater. Além dessas obras, escreveu INS-
TITUIÇÕES DA PARAÍBA COLONIAL. É um dos nossos historiadores mais
atualizados e atentos à realidade atual.
Passo a palavra ao confrade Humberto Mello.

Expositor: Humberto Cavalcanti de Mello (Sócio do Instituto e da Academia


Paraibana de Letras, professor da UFPB, URNE e UNIPÊ, com vários trabalhos
sobre o tema)

Para tratar desse tema A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA, devo co-


meçar citando uma intervenção aqui, há uma semana, da professora Inês Caminha.
207 

 
A Revolução de 30 significou o final da Primeira República no Brasil, também
chamada República Velha, República das oligarquias, República dos Coronéis, que
se iniciou com o golpe militar encabeçado por Deodoro da Fonseca, em 1889, e vai
até 1930, durando, portanto, pouco mais de 40 anos.
Essa chamada República Velha, em termos nacionais, apresentou um pre-
domínio muito grande das oligarquias. Começou a República com dois militares na
direção do país: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Um, que esteve à frente
do golpe de 1889 e o outro, que deu um golpe constitucional em 1891, quando,
como Vice-presidente, pela Constituição da época devia fazer a eleição para Presi-
dente, apossou-se do poder até o fim do mandato do seu antecessor. E depois veio
uma série de paulistas. O Partido Republicano tinha sido fundado em São Paulo,
quando houve a Convenção de Itu, em 1870, e por isso São Paulo se achava no di-
reito de comandar o Brasil. Então tivemos Prudente de Morais, Campos Sales, Ro-
drigues Alves. Quando se preparava um quarto presidente paulista, que seria Ber-
nardino de Campos, houve uma reação dos outros Estados, principalmente Minas
Gerais. Minas, a esse tempo, era o mais importante Estado brasileiro, no sentido de
ser o mais populoso e ter a maior representação política. Minas Gerais não aceitou.
Ainda no Governo de Rodrigues Alves foi firmado o pacto de Ouro Fino, uma ci-
dade mineira onde houve o encontro da cúpula governamental brasileira, onde se
iniciou o esquema que ficou conhecido como “política do café-com-leite”. Café-
com-leite porque São Paulo era o maior produtor de café e Minas Gerais se desta-
cava na criação do gado leiteiro. Essa política se inicia com o Presidente mineiro
Afonso Pena, que não chegou a concluir o mandato, pois veio a falecer. Na suces-
são de Afonso Pena começou a surgir uma série de disputas e terminou se impondo
a candidatura de Hermes da Fonseca, que era o Ministro da Guerra, sobrinho de
Deodoro da Fonseca, e contra a qual São Paulo se levantou, apoiando o nome civil
mais ilustre de então, que era Rui Barbosa. Veio a chamada “campanha civilista”.
No final de contas, Hermes da Fonseca venceu. Ainda hoje se discute se a eleição
foi limpa ou não, porque tudo indica que foi fraudada, e Hermes desempenhou o
seu período governamental.
Depois a política do café-com-leite voltou. Entra o presidente mineiro Ven-
ceslau Braz, em 1914, e depois veio o presidente paulista novamente, o ex-
presidente Rodrigues Alves, que deixou a fama de ter feito o melhor dos governos
da República Velha. Ocorre que Rodrigues Alves, eleito em 1918, não chegou a as-
sumir. Aconteceu com Rodrigues Alves o mesmo que viria acontecer, quase setenta

208 

 
anos depois, com Tancredo Neves. Eleito, adoeceu, não assumiu e morreu pouco
depois do dia em que deveria tomar posse. Rodrigues Alves foi vítima de uma pan-
demia, uma epidemia que cobriu o mundo todo, uma epidemia chamada “gripe es-
panhola”. Assumiu o Vice-presidente Delfim Moreira, que era mineiro. Deveria ha-
ver a eleição para o cargo de Presidente, a qual foi realizada e foi eleito o paraibano
Epitácio Pessoa, que estava chefiando a delegação brasileira à Conferência de Paz
de Versalhes, ao final da primeira guerra mundial. Antes da eleição de Epitácio Pes-
soa surgiram especulações sobre a indicação de mineiros ou paulistas. Epitácio sur-
giu como um tertius.
Afonso Arinos de Melo Franco, que escreveu uma biografia muito boa so-
bre Rodrigues Alves, conclui essa biografia dizendo que a morte de Rodrigues Al-
ves significou a morte da República, na sua primeira fase. O regime já estava se
mostrando cansativo, fatigado, aquele domínio de trinta anos seguidos e então A-
fonso Arinos disse que, como o regime se enfraquecia foram necessários presiden-
tes fortes.
E foram três, Epitácio Pessoa, depois o mineiro Artur Bernardes e depois o
paulista Washington Luís. Nessa sucessão significava que a sucessão coubesse a um
mineiro, e o mineiro mais indicado era o presidente do Estado de Minas Gerais,
Antônio Carlos, pertencente à família mais ilustre da política brasileira, descendente
direto de Martim Francisco, que era irmão de José Bonifácio – Patriarca da Inde-
pendência.
Mas Antônio Carlos tinha a fama de ser um político extremamente matreiro,
muito esperto, muito chegado a dar golpes e com isso criou um atrito forte, come-
çando a surgir uma certa resistência ao seu nome. O próprio Washington Luís não
queria.
Há indícios de que Washington Luís tinha um nome em vista, que nem seria
mineiro nem paulista. Era um gaúcho. O Rio Grande do Sul ocupava uma situação
interessante, era um Estado todo diferente. A Constituição do Rio Grande do Sul
permitia a re-eleição. O presidente do Estado tinha poderes absolutos, basta dizer
que a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, pela constituição do Estado, se
reunia apenas dois meses por ano, para aprovar o orçamento. Só. E o presidente
podia ser re-eleito. Antônio Borges de Medeiros era re-eleito continuadamente,
embora para ser re-eleito tivesse que ter 75 por cento dos votos. A fraude eleitoral
campeava.
Naquele tempo os Estados tinham um peso muito mais forte do que hoje. E

209 

 
a legislação federal determinava que cada Estado escolhesse a maneira de votar. En-
tão havia três opções: o voto secreto, o voto chamado semi-secreto e o voto aberto,
declarado. O voto secreto nenhum Estado adotou. Dos vinte Estados de então, de-
zenove adotaram o voto semi-secreto. Era chamado semi-secreto porque o eleitor
quando chegava na cabine dizia ao dirigente da mesa: quero votar em Fulano, ou
do partido tal. Recebia a cédula e punha na urna. Na apuração, as urnas eram mis-
turadas e assim não se identificava de quem era o voto. Mas no Rio Grande do Sul
o voto era aberto, declarado. Havia uma cédula onde o eleitor escrevia o nome do
candidato e assinava em baixo.
Em 1980, estive em Porto Alegre, quando houve uma comemoração da Re-
volução de 30 e vi um exemplar de uma dessas cédulas.
Mas as eleições de Borges de Medeiros foram cansando tanto que, em 1923,
terminou havendo uma guerra civil interna com a intervenção do Governo Federal,
havendo a modificação da Constituição Estadual, que estabeleceu que aquela seria a
última re-eleição. E no período seguinte foi escolhido para governar o Rio Grande
do Sul o ex-deputado federal, Ministro da Fazenda de Washington Luís, Getúlio
Vargas.
Há indícios de que Washington Luís via com bons olhos a candidatura de
Getúlio Vargas para evitar a de Antônio Carlos. Terminou Getúlio Vargas não sa-
indo como candidato de Washington Luís.
Washington Luís era um homem inteligente, culto, tinha várias obras impor-
tantes publicadas, mas era de uma obstinação política tremenda. Era duro, muito
autoritário. Então fez a pior de todas as indicações: indicou o governador de São
Paulo, um paulista sucedendo ao outro. Recaiu sua escolha no nome de Júlio Pres-
tes, que tinha a fama de ser homem sem grande QI, segundo o relato de jornalistas
da época.
Iniciou-se então um movimento muito sério, a oposição cresceu, Antônio
Carlos se articulou e lança Getúlio Vargas como candidato, em julho de 1929. A e-
leição seria realizada a 1º de março de 1930, de forma que a campanha foi deflagra-
da muito cedo.
Essa era, mais ou menos, a situação política do Brasil. A década de 1920 foi
uma década muito conturbada. No ano de 1922, que foi o centenário da Indepen-
dência, houve uma série de eventos. Houve um ciclo de estudos muito interessante
que deu lugar a um livro intitulado À MARGEM DA HISTÓRIA DA REPÚBLI-
CA, com estudos muito aprofundados, diagnósticos críticos sérios sobre a situação

210 

 
do Brasil.
Mas no ano de 22 houve alguns fatos importantes. Logo no começo do ano
houve uma revolução literária e artística com a Semana de Arte Moderna; logo de-
pois tivemos a fundação do Partido Comunista do Brasil; em julho desse mesmo
ano houve a primeira das revoltas do chamado movimento tenentista. Eram oficiais
jovens que não estavam aceitando mais aquela situação. Houve a revolta do Forte
de Copacabana, da qual um dos participantes veio a ter uma demorada influência
na política brasileira, o então tenente Eduardo Gomes. Em julho de 1924, exata-
mente dois anos depois, o general Isidoro Dias Lopes revoltou-se em São Paulo,
ocupou toda a capital paulista; houve conflito armado, violento, até que o Exército
reocupou São Paulo. Mas uma coluna de revoltosos comandada por Miguel Costa,
um argentino naturalizado brasileiro, que era o comandante da Polícia Militar de
São Paulo, fugiu e essa coluna mista de elementos da Polícia Militar de São Paulo e
do Exército dirigiu-se ao Sul do país. Lá no Sul houve um encontro com revoltosos
que tinham se revoltado no Rio Grande do Sul, comandados por um capitão, que
também veio a ser um dos nomes fortes da História do Brasil, Luiz Carlos Prestes.
Essa junção transformou-se numa coluna que percorreu todo o Brasil, chamada
Coluna Prestes. Ela era formada pelas colunas de Prestes e Miguel Costa, mas ficou
conhecida como Coluna Prestes. Passou por grande de parte do país, subiu, foi ao
Maranhão, desceu pelo Nordeste, travou um combate aqui na Paraíba, em Piancó,
voltou, passou pela Bahia, terminou se internando na Bolívia.
De modo que, em 1929, havia um clima especial. Primeiro o cansaço da po-
lítica oligárquica; segundo, a revolta de uma parte da oligarquia contra a quebra das
regras estabelecidas do café-com-leite; e, terceiro todo esse movimento militar. Tu-
do isso veio descambar em 1930.
E a Paraíba como é que estava? Algumas palestras realizadas neste Ciclo de
Debate já nos dão conta. Nós vivíamos também um ciclo oligárquico. Tivemos a
República proclamada aqui, como já foi frisado em debates anteriores, que não teve
quem a recebesse. Foi nomeado presidente do Estado, que depois tomou o nome
de governador, um cidadão que era juiz de direito de Catolé do Rocha: Venâncio
Neiva, indicado simplesmente porque era irmão de dois oficiais que tinham partici-
pado do golpe militar de 15 de novembro: João e Tude Neiva. E o governo parai-
bano veio montado. Para completar o governo de Venâncio, como governador do
Estado, veio Epitácio Pessoa, para ser Secretário Geral, que também tinha um con-
tra-parentesco com Venâncio (a mãe de Epitácio era irmã da esposa de um dos ir-

211 

 
mãos de Venâncio Neiva) e o outro foi Coelho Lisboa, que era um propagandista
republicano, o qual em pouco tempo rompeu.
Quando Deodoro saiu da Presidência, forçado a renunciar, houve uma der-
rubada quase geral nos governos estaduais O que aconteceu na Paraíba? Vem um
oficial do Exército que estava servindo na Bahia, o qual recebe um telegrama do
Presidente da República dizendo que viesse assumir o governo da Paraíba. Chama-
va-se Álvaro Machado. E para dar um cunho de legalidade ele tomou posse perante
a Câmara Municipal da capital do Estado. Instalou um domínio político de vinte
anos. Nesses vinte anos, cinco quatriênios, Álvaro foi presidente do Estado duas
vezes, um irmão – João Machado – exerceu outro quatriênio, um outro irmão –
Afonso – foi Vice-presidente do Estado em outro quatriênio.. Era um domínio fa-
miliar completo.
Aí já estava se concretizando um fenômeno tipicamente republicano na Pa-
raíba. Vez por outra nós tínhamos movimentos armados de chefes políticos, de
proprietários rurais, que se levantavam com jagunços, com cabras armados. Em
1912 houve um desses, cujo episódio já foi objeto de debate neste Ciclo. Em 1912
morre Álvaro Machado, terminando seu domínio. Houve uma tentativa de concili-
ação, que durou três anos; em 1915 há o rompimento e se instala o domínio de E-
pitácio Pessoa.
O partido de Epitácio era muito grande, e como em todo partido grande que
está no poder todo mundo quer participar e começam as cisões. Epitácio tentou
contemplar várias alas do partido e foi fortalecido quando chegou à Presidência da
República.
Em 1928, Epitácio Pessoa resolveu indicar um sobrinho para a sucessão pa-
raibana – João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, um dos possíveis herdeiros polí-
ticos de Epitácio. Epitácio Pessoa não tinha filhos, mas tinha três sobrinhos que e-
ram considerados possíveis herdeiros dele.
João Pessoa fez uma administração em que realmente modificou uma por-
ção de coisas.
Em 1978, quando se comemorou aqui o centenário de nascimento de João
Pessoa, foram feitos debates a respeito e em 1980, quando se comemorou os 50
anos da Revolução de 30, eu participei de alguns debates e, de fato, o que se levan-
tou mostrou que certas inovações administrativas de João Pessoa tinham prenunci-
ado aquilo que se instalou depois de 30. Essa administração de João Pessoa ganhou
um renome nacional.

212 

 
Quando foi lançado o nome de Getúlio Vargas, procurou-se um Vice-
presidente para equilibrar a disputa. Com Minas no Centro e Getúlio no Sul, os o-
posicionistas procuraram uma pessoa do Norte. Naquele tempo não havia Nordes-
te, da Bahia para cima tudo era o Norte. O primeiro nome em que se fixaram os
oposicionistas foi o governador de Pernambuco, Estácio Coimbra. Estácio sofreu
pressão, pois naquele tempo as pressões governamentais eram muito fortes. Quan-
do levantaram o nome de Estácio Coimbra o gerente do Banco do Brasil do Recife
chamou o presidente da Associação Comercial e disse que se o Estado de Pernam-
buco ficasse contra o Governo Federal o Banco do Brasil ia executar todos os de-
vedores que tinha lá. Então a Associação Comercial pressiona Estácio Coimbra,
que recusa o convite.
Assim, é escolhido João Pessoa como candidato.
Naquele tempo nós tínhamos dois partidos políticos. Como se sabe, àquela
época os partidos eram estaduais. Os partidos mais importantes eram o PRP – Par-
tido Republicano Paulista; PRM – Partido Republicano Mineiro; e o PRR – Partido
Republicano Riograndense. Eram os partidos mais fortes nos Estados.
Na Paraíba tínhamos o Partido Republicano, comandado por Epitácio Pes-
soa e o Partido Republicano Conservador, dirigido pelos adversários de Epitácio,
tendo à frente um cidadão que não exercia cargo político, mas que era um grande
chefe político, que era o desembargador Heráclito Cavalcanti. Em 1928 se funda
um outro partido, que tinha uma nova mensagem, que vinha de São Paulo com
uma tentativa de renovação, chamado Partido Democrático. Quando esse Partido
Democrático se fundou aqui na Paraíba, veio uma comitiva paulista; o partido re-
cebeu o apoio de um dissidente do grupo de Epitácio, o ex-deputado e ex-senador
Octacílio de Albuquerque e de uma turma nova que era da oposição e que achava
que a oposição comandada pelo desembargador Heráclito Cavalcanti estava cansa-
da. Essa turma nova queria uma oposição mais efetiva e aqui na capital contava
com o apoio de João da Matta Correia Lima, do médico José Maciel, Luiz de Oli-
veira e outros mais. Em Campina Grande, alguns deles se projetaram bastante na
política paraibana, como Argemiro de Figueiredo, Wergniaud Wanderley, Antônio
Pereira Diniz e outros.
João Pessoa assumiu o governo no dia 28 de outubro, que era o dia de posse
tradicional dos governantes paraibanos. No dia 31 de dezembro houve eleições
municipais. As eleições, apesar de viciadas, eram rotineiras. Elas eram constantes.
Não havia suplentes, quando um deputado assumia uma Secretaria, tinha que re-

213 

 
nunciar. De forma que havia sempre uma vaga para preencher.
Nessas eleições municipais esse Partido Democrático fez dois vereadores na
capital. Eram nove vereadores, a oposição fez dois vereadores.
Entre as medidas de caráter político que João Pessoa tomou resolveu reco-
nhecer os resultados das eleições: quem ganhar a eleição, leva.
É preciso lembrar que na Paraíba não havia eleição para prefeito, os prefei-
tos eram todos nomeados. Só havia eleição para os Conselhos Municipais, que hoje
são as Câmaras de Vereadores. Acontecia, muitas vezes, as Câmaras fraudarem as
eleições.
Mas, João Pessoa reconheceu a vitória da oposição. Pelo menos em dois
municípios, gente que era da oposição ficou com ele, como gratidão. Aconteceu em
Sousa com o grupo chefiado pelo advogado José Mariz, pai do ex-governador An-
tônio Mariz, e em Piancó, o domínio de uma família que tinha sido escorraçada por
Epitácio Pessoa – a família Leite.
Quando se começou a falar na campanha sucessória presidencial, o que se
esperava era que João Pessoa, como todo governo dos Estados, ficasse com o Pre-
sidente da República. E o pessoal da oposição já estava se preparando para apoiar
Getúlio Vargas. De repente João Pessoa sai Vice de Getúlio. Aí a turma da oposi-
ção passa a apoiar Júlio Prestes, com exceção do Partido Democrático, que se aliou
a João Pessoa.
Em termos políticos aqui na Paraíba, tivemos uma mistura. Ao lado de João
Pessoa ficou a maioria dos antigos correligionários de Epitácio, uma parte do parti-
do de oposição, comandada pelo ex-governador Walfredo Leal, uma parte mais re-
cente e um pessoal que era um tanto desligado de política e ficou empolgado pelo
movimento de renovação, destacando-se Anthenor Navarro.
Na oposição, tivemos gente que era da oposição tradicional do desembarga-
dor Heráclito Cavalcanti e um bocado de gente que tinha saído do partido de Epi-
tácio e estava com raiva de João Pessoa, inclusive Dr. Flávio Ribeiro, tio do nosso
confrade Marcus Odilon.
Naquela época não havia Justiça Eleitoral. As eleições eram presididas pelo
Juiz Federal da capital e em cada município havia três suplentes de Juiz Federal; no
Estado também havia os suplentes.
Em consequência, havia toda sorte de manipulação. Quando o cidadão era
eleito deputado federal ou senador, ainda tinha que passar pela Comissão de Reco-
nhecimento da Câmara de Deputados ou do Senado. Essa Comissão de Reconhe-

214 

 
cimento muitas vezes desprezava o resultado e proclamava eleito o vencido. Era o
costume. Há um trabalho do advogado Mário Bulhões Pedreiras de Carvalho que
mostra isso, ao fazer a defesa de alguns senadores. Na gíria política esse costume
era chamado de “degola”.
Em 1930 houve as eleições para Presidente da República, cujo mandato era
de quatro anos. Esta coincidiu com a eleição para Deputado Federal, cujo mandato
era de três anos e a eleição para um terço do Senado, com mandato para nove anos.
Assim, de três em três anos, havia eleições para deputados federais e um senador.
Em 30 houve essa coincidência.
Aqui na Paraíba, nós tínhamos mais ou menos 40 mil eleitores, em números
redondos. Pouco mais do que isso. A chapa presidencial teve cerca de 30 mil votos,
para Getúlio-João Pessoa; a chapa de oposição Júlio Prestes-Vital Soares teve 10
mil votos aproximadamente. O que fez a Junta Eleitoral? Anulou as eleições para
deputados e senador em vários municípios. Mantém válidas as eleições para Presi-
dente da República e anula as de deputados e senador, e com isso a chapa da oposi-
ção ganha.
Quando chegam os resultados de todo o Brasil ao Congresso, o que aconte-
ceu? Dizem que houve um acordo secreto entre Washington Luís e o comando da
política gaúcha – Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. Todos os deputados do Rio
Grande do Sul foram reconhecidos, mesmo eleitos pela oposição ao Governo Fe-
deral. Havia uma dissidência no Rio Grande do Sul. Havia um senador, Paim Filho,
que era de oposição. Em Minas Gerais também não havia união; a situação estadual
era forte, comandada inclusive pelo Vice-presidente da Republica, Mello Viana. Em
Minas Gerais fizeram uma composição: reconheceram dois terços dos candidatos
que tinha apoiado Getúlio e um terço do outro lado. Nos demais Estados havia
gente que apoiava Getúlio. Por exemplo, em Pernambuco, Agamenon Magalhães,
Carlos de Lima Cavalcanti; em Santa Catarina, Nereu Ramos; no Rio de Janeiro,
Maurício de Lacerda; no Ceará, a família Távora; na Bahia, o jovem estudante Nel-
son Carneiro. Só para citar algumas figuras que depois brilharam no cenário políti-
co brasileiro. Mas todo mundo da oposição foi “degolado”, a não ser, como já fri-
sei, a bancada do Rio Grande do Sul e dois terços da bancada de Minas Gerais.
Com esses acordos a idia de um movimento armado desaparece. Até que
surge um fato que teve origem pessoal, mas que teve uma consequência política
tremenda, que foi a morte de João Pessoa, assassinado por um desafeto político e
depois pessoal, que foi João Dantas.

215 

 
A morte de João Pessoa causou um impacto violento em todo o Brasil e foi
muito bem explorada politicamente. O corpo de João Pessoa embalsamado foi
transferido do Recife para aqui e daqui saiu num navio, que vai tocando todos os
Estados. Em cada um se levantava a oposição, até chegar ao Rio de Janeiro, onde
foi recebido com discursos inflamados de Maurício de Lacerda, de Pinheiro Cha-
gas, etc.
Então, a ideia do movimento armado, que já estava adormecida, retornou.
Siqueira Campos, um dos tenentes mais destacados, foi a Buenos Aires, onde estava
exilado o comandante da Coluna Prestes, e convidou Prestes para vir comandar o
movimento armado aqui. Prestes se recusou porque a esta altura já estava converti-
do ao marxismo e achou que aquele movimento não levaria a nenhuma renovação.
Então o comandante do movimento foi um coronel alagoano que servia no Rio
Grande do Sul e que depois se tornou um nome forte: Pedro Aurélio de Góes
Monteiro.
Como falei anteriormente, aquelas rebeliões coronelescas estouraram por
conta de movimentos políticos, como a rebelião de Princesa, comandada por José
Pereira. José Pereira Lima era um coronel, título dado a grandes proprietários; não
era um coronel propriamente dito. Havia os coronéis do tempo da Guarda Nacio-
nal, que fora extinta em 1915. Mas José Pereira era um coronel de alto destaque.
Inês Caminha falou, num dos debates deste ciclo de estudos, que havia coronéis
pequenos, que dominavam somente nos municípios e coronéis que tinham um
domínio regional. Na Paraíba nós tivemos alguns desses no curso da República. I-
nicialmente tivemos Valdevino Lobo, de Catolé do Rocha, que mandava no sertão
quase todo. Depois que Valdevino Lobo morreu, surgiu Felizardo Leite, que, ape-
sar de ser médico, também era tido como coronel, em Piancó. Quando Felizardo
Leite rompeu politicamente, em 1915, esse domínio no sertão passou para José Pe-
reira. Era o mais importante dos coronéis de 1930. Ele sustentou uma luta armada
em Princesa, que chegou a um impasse. Ele tentou expandir, mandou colunas ar-
madas, mas não conseguiu êxito e a Polícia também não conseguia entrar. Por essa
razão e por outras, havia uma presença militar muito grande na Paraíba; companhi-
as e batalhões do Exército de outros Estados vizinhos foram trazidos para Campi-
na Grande, Santa Luzia, Patos, Sousa, sendo a capital, praticamente, ocupada pelo o
comando da Região Militar.
Um pouco antes havia ocorrido um fato curioso. O comandante do 22º Ba-
talha de Caçadores, sediado em Cruz das Armas, era o coronel Estevão d’Avila

216 

 
Lins, nosso confrade e tio do consócio Guilherme d’Avila Lins; era também irmão
do prefeito da capital, José d’Avila Lins, que foi presidente do Instituto e do médi-
co Antônio d’Avila Lins, sócio do Instituto, e Diretor do Pronto Socorro. Quando
se soube dessas ligações, transferiram o coronel Estevão d’Avila Lins para o Rio de
Janeiro. E foi trazido para cá o coronel Maurício Cardoso. O coronel Cardoso avi-
sou que traria com ele gente de sua confiança. Trouxe quatro tenentes que ele su-
punha serem da mais absoluta confiança, mas todos quatro estavam comprometi-
dos com o movimento. Eram os chamados tenentes de Juarez Távora. Juarez tinha
sido um dos dirigentes da Coluna Prestes, estava preso no Rio de Janeiro na Forta-
leza de Santa Cruz, mas tinha uma influência muito grande. Esses quatro tenentes
tiveram projeção na vida política: o próprio Juarez Távora, Agildo Barata, Juracy
Magalhães e Jurandir Mamede. O outro era Paulo Cordeiro. Quando se pensava
que a situação militar daqui era tranquila estavam aqueles tenentes organizando o
movimento.
Houve troca de telegramas cifrados e a revolução foi marcada para 3 de ou-
tubro. Havia uma companhia que sempre ficava de prontidão. Foi organizado um
esquema em que a companhia de prontidão ficou sob o comando de Juracy Maga-
lhães e o oficial-de-dia era Agildo Barata.
O movimento começou à tarde do dia 3 em Belo Horizonte e Porto Alegre.
Vieram telegramas urgentes para o comando do 22º Batalhão de Caçadores (22 B.
C.) para que se tomassem todos os cuidados. Os telegramas eram dirigidos ao gene-
ral Lavanere Wanderley, comandante da Região Militar, que se encontrava em João
Pessoa. Agildo Barata interceptou todos os telegramas, não deixou que chegassem
ao comando. Quando deu meia noite, houve a invasão do quartel por civis fardados
de oficial do Exército, fardas fornecidas por esses tenentes aos civis Anthenor Na-
varro, Basileu Gomes, Borja Peregrino, Odon Bezerra, Artur Sobreira. Há depoi-
mentos informando que foram vinte e tantos que invadiram o quartel, mas houve
uma reação. Porque havia outros oficiais que o general havia trazido e quando eles
perceberam o movimento atiraram para cima. Uns quinze invasores correram. Teve
gente que desceu pela ladeira da Graça e foi bater perto do rio, na beira do mangue,
mas houve um grupo menor que Agildo Barata dá o nome de todos os que ficaram
e lutaram. Ao final, terminaram morrendo os tenentes Reis e Sílvio Lobo, e o gene-
ral Lavanere e outros ficaram feridos. Tomado o quartel, dirigiram-se para o Recife,
onde já se tinha iniciado o movimento revolucionário. No Recife ainda houve luta
durante algum tempo. Mas nos outros Estados do Nordeste aconteceram as cha-

217 

 
madas deposições por telegrama. O comandante da unidade militar do Rio Grande
do Norte, que era uma companhia, estava toda em Campina Grande e era coman-
dada pelo tenente Aluízio Moura. O governador do Rio Grande do Norte era um
homem inteligente, culto, escritor, mas era muito violento e garantiu segurar o mo-
vimento, o que não aconteceu, tendo o tenente Aluízio Moura voltado às pressas
para Natal, telegrafando que estava chegando, quando o governador abandonou o
Governo. Isso aconteceu no Ceará, no Piauí. Só houve alguma resistência no Ma-
ranhão e, principalmente, no Pará. No Pará, o governador Eurico Vale só se entre-
gou no fim, até que fosse deposto Washington Luís.
Em suma, esse foi o movimento militar. Do Rio Grande do Sul, após algu-
ma luta, seguiu uma coluna de trem, comandada pessoalmente por Getúlio Vargas,
dirigindo-se para São Paulo, onde estava previsto um encontro na cidade de Itararé,
que fica na fronteira de Santa Catarina com São Paulo. Previa-se que seria a maior
batalha da América do Sul. Depois se diz que a maior batalha da América do Sul
não houve, porque, antes disso, em 24 de outubro, alguns líderes militares, entre e-
les os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e o almirante Noronha estiveram
com Washington Luís para dizer que a situação estava insustentável (faltavam 20
dias para Washington Luís deixar o Governo), aconselhando sua renúncia. Ele se
recusou, houve um impasse, tendo o cardeal D. Sebastião Leme, afinal, convencido
Washington Luís a renunciar.
Quando Getúlio Vargas chegou ao Rio de Janeiro os militares não estavam
querendo entregar o Governo. Tentaram fazer uma manobra para ficar, até que
Getúlio Vargas assumiu o Governo Provisório no dia 4 de novembro. Assim ter-
minou a chamada República Velha.
Isso foi a Revolução de 30. E o que essa revolução fez?
Primeiro, a Revolução procurou moralizar as eleições, implantando a Justiça
Eleitoral, e estabeleceu o voto secreto obrigatório em todo o Brasil.
Atribui-se a Washington Luis uma frase: “A questão social é caso de polí-
cia”. Quer dizer, o problema do trabalhador era meter o pau.
Eu vi algum tempo uma proclamação da FIESP – Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo, na qual dizia que as férias para os operários eram extre-
mamente prejudiciais. Porque o operário de férias não tinha o que fazer, em lugar
de ir para o trabalho direitinho ele ia passar dez ou quinze dias em casa sem ter o
que fazer, ia beber, tomar cachaça, jogar, ia fazer o que não prestava. De modo que
era mais salutar para a moralidade do operário não ter férias, nem salário mínimo,

218 

 
jornada mínima de trabalho, etc. A previdência, cuja tentativa do deputado Eloy
Chaves, não lograva êxito, também não era necessária.
Isso tudo foi implantado pelo movimento de 30. Houve várias modificações
administrativas. Foram criados o Ministério da Educação, o Ministério do Trabalho
e várias outras coisas. 30 marcou não só os rompimentos em termos políticos como
houve uma renovação administrativa muito grande.
Quem dominou o Brasil? Os gaúchos, inicialmente. Vieram a cavalo e come-
teram a bravata de amarrarem seus cavalos no obelisco que havia no começo da a-
venida Rio Branco, no Rio de Janeiro. O Ministério Vargas era dominado por gaú-
chos. Eram Oswaldo Aranha, João Neves da Fontoura, Maurício Cardoso, Lindol-
fo Collor, Batista Luzardo e outros mais.
Mas a Paraíba conseguiu projeção. O jornal A UNIÃO tem um documentá-
rio precioso sobre essa fase da Paraíba. Quando João Pessoa foi assassinado, quem
assumiu a presidência do Estado foi seu Vice-presidente, Álvaro Pereira de Carva-
lho, que não participava em nada no movimento revolucionário. Ele nem sabia do
movimento, mas os seus secretários conspiravam ocultamente. Aí, com a saída de
Álvaro Pereira, quem assume o Governo é José Américo de Almeida, não apenas o
Governo do Estado, mas o Governo do Norte. Os senhores, se desejarem pesqui-
sar, nos exemplares de A UNIÃO da nossa Biblioteca, vão encontrar inúmeros atos
de José Américo nomeando gente para cargos federais. Aqui na Paraíba e no Rio
Grande do Norte. Assim, a Paraíba governou o Norte, tendo uma projeção grande,
indo José Américo para o Ministério.
Em termos de política paraibana, a reviravolta foi enorme. Nenhum dos par-
tidos estaduais sobreviveu. O Partido Republicano da Paraíba – partido de Epitácio
– simplesmente se acabou. Não foi dissolvido, oficialmente, mas desapareceu, não
se encontrando qualquer manifestação dele. O Partido Republicano Conservador
emitiu uma ou duas notas, e só. Quando das eleições para deputado constituinte,
em 1933, o Partido Democrático apresentou apenas um candidato, o advogado Se-
verino Alves Ayres, o qual teve uma votação irrisória. Nos outros Estados, os Par-
tidos Republicanos sobreviveram.
Fiz um levantamento dos personagens, dos atores políticos que atuaram até
antes de 1928, exercendo cargos eletivos como senadores, deputados federais e es-
taduais, ou que exerceram cargos políticos de nomeação como secretários de Esta-
do, prefeitos municipais, e verifiquei que não chegam a 20 os nomes daqueles que
tiveram militância política depois de 30.

219 

 
De Epitácio Pessoa, apontado como uma grande figura, nem foi tomado
conhecimento. José Américo conta no depoimento que deu à Fundação Getúlio
Vargas, que está transformado em livro, que foi receber Epitácio Pessoa no porto
do Recife, quando este estava voltando da Europa, e foi recriminado pelos tenentes
de 30.
Em 1934 houve eleição para senador, que era eleito pela Assembleia, e a o-
posição levantou dois nomes de vulto: Epitácio Pessoa e Castro Pinto. A situação
não tomou conhecimento. Como se vê, houve uma grande modificação.
Temos de reconhecer que a presença paraibana, apesar de se concretizar em
José Américo, foi grande. No começo da década de 70 a Fundação Getúlio Vargas
criou o Centro de Pesquisas e Documentação da História do Brasil – o CPDOC,
que tem uma produção interessante. O CPDOC foi criado a partir do arquivo de
Getúlio Vargas, que estava em poder da neta dele, Celina Vargas do Amaral Peixo-
to, uma mulher inteligente e culta. Ela verificou que para começar a história de 30
para cá tinha que começar desde 1922. Então o CPDOC cobriu de 22 para cá. Foi
criado um Núcleo de História Oral, onde se gravavam depoimentos de pessoas que
tiveram atuação. Às vezes, quando essas pessoas não estavam vivas, colhia-se depo-
imentos de filhos. Por exemplo, de Lindolfo Collor, que já tinha morrido, foram
colhidos depoimentos das filhas dele; do general Euclides Figueiredo, que já tinha
morrido, quem prestou depoimento foi o filho mais velho, Guilherme, que nesse
tempo estava brigado com o irmão João (que depois foi Presidente da República).
Eu li o depoimento de Guilherme Figueiredo; ele deu um depoimento de tal forma
que não fala no nome de João.
Em 1978, por articulação feita pelo nosso consócio Oswaldo Trigueiro do
Valle, a Fundação Getúlio Vargas fez um convênio com a Universidade Federal da
Paraíba, nesse tempo dirigida por Linaldo Cavalcanti, para implantar um setor de
História Oral aqui. Nós colheríamos entrevistas dos paraibanos daqui e as mandava
para o CPDOC e o CPDOC nos mandava os depoimentos que os paraibanos ti-
vessem dado lá. Eu fui trabalhar nesse setor e, em 1979, fiz um estágio na Funda-
ção Getúlio Vargas. Passei lá mais de um mês, e quando estava lá chegaram uns es-
tudantes, que foram recebidos pela encarregada do setor, que era Aspásia Camargo.
Fizeram muitas perguntas e constatei que lá já existiam 27 entrevistas com paraiba-
nos. Então uma estudante perguntou: por que essa preferência pela Paraíba? Aspá-
sia disse: você não pode desconhecer a participação que a Paraíba teve em 30. De
modo que a Paraíba teve esse papel relevante.

220 

 
Certa vez, em carta que fiz ao jornalista Gonzaga Rodrigues, registrei que em
1654 os holandeses foram expulsos do Brasil, num movimento cujo principal co-
mandante foi André Vidal de Negreiros. A Paraíba era uma Capitania destacada,
tanto que quando Maurício de Nassau teve que voltar para Holanda, em vez de
embarcar no Recife veio se despedir da Paraíba e embarcou no navio em Cabedelo.
Nos últimos dez anos, a partir de 1644, o domínio holandês ficou circunscrito ao
Forte de Cabedelo. A capital Frederica estava ocupada pelos rebeldes, eram os pa-
raibanos. Mas isso é conhecido como a Restauração Pernambucana.
Em 1817 – José Octávio falou nisso na última sessão do Ciclo de Debates –
naquela revolta nativista em que a Paraíba teve um papel destacado, a Paraíba em
termos ideológicos esteve muito mais avançada. O livro de Irineu Pinto transcreve
cartas trazidas do movimento de Pernambuco reclamando que o pessoal da Paraíba
estava querendo muita coisa em termos de progresso; mas isso tudo é somente a
Revolução Pernambucana. A Paraíba tem destaque na história nacional, mas ofici-
almente fica atrás.
Em 1930, não. Em 30 a Paraíba teve comando. Daqui partiram as decisões
para cobrir o Norte e Nordeste. As colunas saíram daqui para combater os centros
de resistência, que era maior na Bahia. Nosso saudoso confrade Octacílio de Quei-
roz já havia dito: “tire-se 1930 e a Paraíba fica sem nada”.
A Revolução de 30, que teve esse significado marcante na História do Brasil,
teve um significado muito maior em termos da Paraíba.

A fala do Presidente:

Pelos aplausos concedidos ao final da exposição do historiador Humberto


Mello, podemos aquilatar o valor de sua palestra, trazendo-nos um quadro comple-
to da Revolução de 30 na Paraíba, desde os primeiros passos daquele movimento
que derrubou a República Velha.
Em seguida vamos ouvir nosso consócio Dorgival Terceiro Neto, atual Vi-
ce-presidente deste Instituto. A carreira ascensional de Dorgival Terceiro Neto
mostra seu valor: Jornalista primoroso; professor qualificado da Universidade Fede-
ral da Paraíba, onde também exerceu importantes funções administrativas; em sua
carreira funcional exerceu os cargos de Secretário do Tribunal de Justiça, Procura-
dor do Estado prefeito da capital; Vice-Governador e Governador do Estado. Em
conversa, o cargo que ele dá mais importância é ter sido Redator do jornal A UNI-
ÃO. Sempre dedicado às letras e à história, Dorgival além de pertencer ao nosso
Instituto é membro da Academia Paraibana de Letras. Historiador nato, conferen-
221 

 
cista de primeira água, narrador de estilo agradável, tem vários trabalhos publica-
dos, entre eles GENTE DE ONTEM, HISTÓRIA DE SEMPRE e PARAÍBA
DE ONTEM, EVOCAÇÕES DE HOJE.
Está aí o perfil do nosso debatedor, a quem passo a palavra.

Debatedor: Dorgival Terceiro Neto (Atual Vice-presidente do Instituto, mem-


bro da Academia Paraibana de Letras, jornalista, ex-professor da UFPB, ex-prefeito
de João Pessoa e ex-governador do Estado)

O expositor Humberto de Mello praticamente esgotou a matéria. Ele é mui-


to proficiente, tem uma memória fantástica, além de ser um estudioso e pesquisa-
dor sério e só relata aquilo que ninguém tem condições de fazer contradita. Ele se
vale do privilégio que tem de muita cultura e memória muito boa. Praticamente es-
gotou a matéria sobre 1930. É como ele diz, citando Octacílio de Queiroz: “a Para-
íba é 30 e o resto é o resto.”
Mas ele falou no início na Coluna Prestes e há sempre uma indagação, prin-
cipalmente da juventude. A mim mesmo tenho perguntado muitas vezes: Qual era
o objetivo da Coluna Prestes? Que diabo a Coluna Prestes queria, nessa vilegiatura
que andou pelo país todo e terminou nas encostas da Bolívia? Estou aqui mais co-
mo indagador, e talvez essa indagação seja de todo o auditório: saber quais os obje-
tivos da Coluna Prestes. Era uma multidão, chegou à Paraíba com cerca de 3 mil
caminhantes provavelmente; passaram em Piancó e fizeram aquele destroço. Dizem
que tinha ainda muita gente em Curema enquanto vinha gente chegando em Pian-
có. Que é que essa gente fazia, Humberto, no seu entender? Não é nem debate, é
uma indagação.
Humberto Mello:
Quando a Coluna Prestes se iniciou quem estava no Governo era Arthur
Bernardes, que era um homem de temperamento complicado, extremamente auto-
ritário. Basta dizer que Bernardes tirou todo o seu período governamental, do pri-
meiro ao último dia, em estado de sítio. Então essa Coluna procurava fazer um le-
vantamento pelo Brasil e havia uns tenentes que procuravam ecoar. Aqui na capital
do Estado, por exemplo, dois tenentes – Aristóteles de Souza Dantas e Lourival Se-
roa da Mota – atuaram quando a Coluna Prestes desceu do Ceará, passou pelo Rio
Grande do Norte e entrou na Paraíba. O objetivo era sacudir o povo, ainda indife-
rente à situação do país.
Os dirigentes da Coluna Prestes, Luís Carlos Prestes à frente depois que Mi-

222 

 
guel Costa deixou, Juarez Távora, Cordeiro de Farias, João Alberto, cada uma to-
mou um rumo ideológico diferente. Juarez e Prestes chegaram a trocar cartas em 30
e romperam. Cordeiro de Farias até o fim sempre manteve o maior respeito a Pres-
tes, chamando-o meu comandante. Aqueles líderes da Coluna Prestes tornaram-se
figuras destacadas do país. Cordeiro de Farias foi quase tudo no Brasil, só não foi
Presidente, que era o sonho dele; Juarez foi candidato a Presidente da República;
João Alberto era um dos homens de confiança de Getúlio, exerceu funções no exe-
cutivo e no legislativo e foi interventor de São Paulo, e, diga-se de passagem, um
dos homens mais caluniados do Brasil.
Joacil Pereira, em aparte:
Foi tido como ladrão, sem ser.
Humberto Mello:
Morreu na miséria. João Alberto foi vereador no então Distrito Federal e se
a Câmara não pagasse o enterro, a família não tinha dinheiro para pagar. Felinto
Muller, segundo depoimentos, foi expulso da Coluna.
O que a Coluna queria? O objetivo era dar uma sacudidela na consciência
nacional e isso foi obtido a médio prazo.
Dorgival Terceiro Neto:
Na realidade eles percorreram o meio rural, e naquela época o grosso da po-
pulação era rural. Só que era uma população analfabeta, impermeável a uma mensa-
gem nova. Isso também digo a essa juventude que faz essas indagações.
No meu entender da Revolução de 30, acho que havia muito personalismo,
emulação política. No caso do Rio Grande do Sul, que você destacou, eles nunca
tiveram um Presidente da República e queriam ter de qualquer jeito. Deu Getúlio,
que foi o maior anticonstitucionalista que conheci. Em 1930 existiu muito persona-
lismo. Não sei se o expositor também participa desse entendimento. O Rio Grande
do Sul montou um artifício, aproveitando-se de um momento propício para poder
conquistar a Presidência da República. E chegou a isso com uma dosagem grande
de personalismo, de vontade própria ou de ambição mesmo do próprio Getúlio.
Humberto Mello:
Não há a menor dúvida. Getúlio era um homem que nunca houve, na Histó-
ria do Brasil, com tanta vontade de poder quanto ele. E a propaganda política da
Aliança Liberal, que foi a coligação que se formou para apoiar Getúlio e João Pes-
soa, era que iria restaurar a pureza dos ideais da Constituição de 1891. Quando Ge-
túlio assumiu o Governo baixou um Decreto em que suspende a Constituição de

223 

 
1891 e depois não tomou mais conhecimento dela. Foi a primeira que ele rasgou.
Esse Decreto de Getúlio é interessantíssimo porque tem muita coisa que vem a ser
reproduzida, 34 anos depois, no Ato Institucional nº 1. Há dispositivos que são re-
produzidos quase literalmente. Ele teve apoios para isso. A Paraíba apoiou inicial-
mente, com Anthenor Navarro.
Há dois episódios, nesse particular, que queria contar nesse. Um deles é o
seguinte: quando se verificou que Getúlio estava tomando conta do poder, em
1932, não se falava em eleição, não se falava em constituinte; diz ele: vamos obser-
var a Constituição, depois vamos elaborar outra, e o depois não vinha. Borges de
Medeiros, que então estava rompido com Getúlio, telegrafou para vários líderes, in-
clusive Anthenor Navarro, que era interventor da Paraíba, apelando para os ideais
da Aliança Liberal. E Anthenor Navarro deu uma resposta malcriada, dizendo que
a Aliança Liberal estava defunta desde junho de 1930. O junho foi a época da “de-
gola” dos eleitos.
Outro episódio do apoio da Paraíba a essa atitude ditatorial, em 1931, quan-
do Getúlio tinha convocado as eleições para a Constituinte: o Instituto dos Advo-
gados do Brasil dirigiu a todos os Institutos dos Advogados dos Estados pedindo
apoio para o movimento de reconstitucionalização do país. E todos apoiaram, me-
nos um: o Instituto dos Advogados da Paraíba. Disse que estava muito satisfeito do
jeito que estava.
Getúlio, como chefe do governo provisório, forçado, convoca a Constituin-
te. A Constituinte vota a Constituição de 34 e contam que, quando foram comuni-
car-lhe, ele teria dito que seria o primeiro a descumpri-la. Efetivamente essa Consti-
tuição durou três anos, pois em 1937 ele deu o golpe de Estado. Aí vem a Constitu-
ição elaborada por um cidadão que, sem dúvida alguma, foi um dos maiores juristas
do Brasil – Francisco Campos, chamado Chico Ciência. Essa Constituição, for-
malmente, é um espetáculo; ela é muito bem feita. Mas Getúlio, que promulgou a
Constituição, também não a cumpriu. Não há a menor dúvida que Getúlio se apro-
veitou da situação para dominar. Em termos de personalismo ele foi insuperável.
Dorgival Terceiro Neto:
Outro aspecto que é objeto de indagações refere-se às influências externas
sobre o movimento de 30. Naquela época existia até uns relatórios famosos sobre
nossas dívidas imensas em libras esterlinas; era a época do apogeu do café, da bor-
racha, tudo isso explorado por esses gringos. Então teve um relatório famoso antes
de detonar a Revolução de 30, em que eles apontavam todas as dificuldades eco-

224 

 
nômicas que o país estava atravessando. Os americanos, que policiavam tudo isso,
também tinham uns relatórios que chegaram a ser divulgados. Cheguei até a ler al-
guns deles, quando me interessava por essa parte de economia. Muita gente diz que
isso não foi objeto apenas dos brasileiros. A Revolução de 30 foi, na verdade, a-
companhada, como foi a de 64, de perto pelos grupos estrangeiros, pelos grupos
econômicos, pelos grandes bancos, que tinham capitais mutuados circulando no pa-
ís e que tinham interesse na recuperação desses capitais.
Acho que esse lado econômico tem sempre que ser levado em consideração
quando se tratam dos pressupostos para a detonação de 30.
Os historiadores levam em conta somente os fatos históricos, mas eu acho
que essa parte econômica deve ser sempre objeto de avaliação. Esses relatórios e-
xistiram. Eu me lembro que, no passado, li um deles, inclusive de um economista
importante da Inglaterra, em que dizia tudo o que estava acontecendo no Brasil e
providências que deveriam ser tomadas para evitar que eles perdessem o controle
nacional, que era exercida por eles. Eles emprestaram muito dinheiro aqui e queri-
am salvar esse dinheiro de qualquer forma. Esse receio existia, e da parte dos ame-
ricanos também existia. Creio que isso foi também levado em consideração na épo-
ca da preparação da revolução. Não se de forma muito ostensiva, mas talvez sorra-
teira pelos grupos econômicos que já atuavam aqui, como hoje se encontram no
país. Não sei se o expositor tem alguma coisa a acrescentar sobre isso.
Humberto Mello:
Na década de 30, Gustavo Barroso, um historiador de extrema direita, pu-
blicou um livro chamado BRASIL, COLÔNIA DE BANQUEIROS, em que mos-
tra a série de empréstimos do Brasil. Isso não é novidade. O Brasil tomava dinheiro
emprestado com spread e juros altos. Como não podia pagar, tomava outro emprés-
timo para pagar os juros anteriores. O Brasil era um país eminentemente agrícola, e
havia muita gente que achava que o Brasil não devia proceder a nenhuma industria-
lização. Que a vocação do Brasil era a agricultura e a exportação de matéria prima.
O Brasil depois que descobriu minérios, exportava minérios, café, cacau. Havia o
domínio da Inglaterra, que mandava no mundo econômico até a primeira guerra
mundial. O Brasil importava tudo, até a manteiga era importada. Importava agulha,
linha, sapato, tecidos, etc. Quando vem a guerra de 1914-18, de repente começam a
faltar as coisas no Brasil. Começam surgir as indústrias substitutivas das importa-
ções. Indústria incipiente que tinha de substituir o importado, que não vinha mais.
Apesar da Inglaterra sair vitoriosa da guerra de 18, saiu enfraquecida, começando

225 

 
então o domínio norte-americano. E começamos a sair da área da libra esterlina pa-
ra a do dólar. Mas o capitalismo norte-americano também não estava em boa situa-
ção. Em 1929 houve o famoso crack da Bolsa de Nova York, que acabou com a e-
conomia americana, e embora ainda não houvesse esse nome de globalização, a e-
conomia americana arrastou a economia mundial. Em consequência caiu o preço
do café no mercado internacional, que era o nosso principal produto de exportação.
E caiu a tal ponto que o governo brasileiro chegou a queimar sacas de café que es-
tavam no porto para exportar, visando diminuir a oferta, para tentar segurar o pre-
ço. Não foi mera coincidência a derrubada do governo argentino em 1930, que es-
tava na mesma situação do Brasil, quando a carne, seu produto principal de expor-
tação, caiu de preço.
Houve o problema econômico interno e externo, e é claro que tudo isso in-
fluiu na queda da República Velha Há estudos nesse sentido, mostrando que o que
enfraqueceu São Paulo, o que enfraqueceu a candidatura de Júlio Prestes e o pró-
prio presidente Washington Luiz foi o enfraquecimento econômico do café.
Dorgival Terceiro Neto:
Ninguém pode deixar de reconhecer que depois da Revolução de 30 o país
experimentou algum progresso A industrialização já surgiu praticamente naquele
período. Uma coisa que grassou largamente foi o empreguismo. Getúlio fez umas
coisas benéficas: criação da legislação trabalhista, que não existia, mas criou Institu-
to só para dar emprego ao povo. Instituto de toda qualidade. Institutos dos Bancá-
rios, dos Comerciários, dos Ferroviários, instituto não sei de quê, que terminou
num cabide de emprego terrível.
Humberto Mello:
Esses foram Institutos previdenciários, mas teve os institutos econômicos:
Instituto do Café, Instituto do Sal, Instituto da Borracha, Instituto do Açúcar e do
Álcool, etc.
Dorgival Terceiro Neto:
O que se diz é que ele para se perpetuar politicamente criou todo esse es-
quema de empreguismo para prestigiar líderes políticos e gente do interior do país.
Não tenho grande admiração por Getúlio. Acho-o um sujeito terrível, frio, calcula-
do, tudo que fazia era visando seu sucesso pessoal, para se perpetuar no poder,
como se perpetuou durante 15 anos. Podemos atribuir a ele algum avanço no cam-
po econômico, pois reagiu a essa subordinação ao exterior, mas foi um grande em-
preguista. Essas coisas todas têm que ser analisadas como resultado da Revolução

226 

 
de 30. As positivas e as negativas. Muita coisa no campo social aconteceu, e tam-
bém muita coisa negativa. Muitos vícios, os quais ainda hoje participamos deles.
Humberto Mello:
As reformas administrativas de Getúlio começaram com a criação de dois
ministérios, logo quando ele assumiu: o Ministério do Trabalho e o Ministério da
Educação e Saúde, que depois foram separados. Depois criou as autarquias; não
havia autarquias no Brasil. A figura jurídica da autarquia foi criada por ele. Confor-
me Luiz Hugo disse aqui ao meu lado, à meia voz, Getúlio criou a classe média no
Brasil. A classe média foi criada às custas do poder público. E isso tinha objetivo
político.
Mas, Getúlio exercia um certo fascínio. João Neves da Fontoura era Vice-
presidente de Getúlio Vargas no Rio Grande do Sul. Acontece que quando Getúlio
saiu para comandar o movimento militar não passou o governo para João Neves.
Passou para Oswaldo Aranha. João Neves foi logo ficando meio despeitado e em
1932 está João Neves envolvido com o movimento paulista e escreveu um livro
“Acuso”, metendo o pau em Getúlio. Foi exilado para Portugal. Em 1939, João
Neves começou a fazer umas sondagens para voltar ao Brasil. Aí se tornou possível
sua volta. Por intermediação de amigos, João Neves foi convidado a ir ao Palácio
do Catete. E aí contam a exclamação de Getúlio: Oh, João! Onde é que tu andavas,
nunca mais aparecestes? Estou aqui à tua disposição.
Veja o maquiavelismo de Getúlio. Lembremos o que aconteceu com Oswal-
do Aranha. Oswaldo havia sido embaixador do Brasil nos Estados Unidos, volta
para ser Ministro das Relações Exteriores e preside a Sociedade dos Amigos da
América, que tinha posição formada em favor dos aliados da II Guerra e era contra
as ditaduras inimigas (Alemanha e Itália) e que evidentemente repercutia contra a
ditadura doméstica. Getúlio estimula Oswaldo Aranha a ser o presidente da Socie-
dade dos Amigos da América e quando Oswaldo Aranha é eleito ele manda fechar
a sociedade. Oswaldo Aranha fica na oposição. Mas, quando Getúlio é eleito, em
1953 chama Oswaldo Aranha para Ministro, inclusive chamou José Américo. Re-
cordo-me de uma publicação na revista O CRUZEIRO, com a fotografia dos dois
com a seguinte legenda: A Revolução de 30 volta com cabelos brancos. Lembro-me
também de outra fotografia, na morte de Getúlio, Oswaldo Aranha chorando. Fi-
cou sendo getulista até o fim da vida.
Getúlio realmente fascinava essa gente. Mas tinha essa distribuição de be-
nesses, de empregos, de favores. Muita gente ficou rica.

227 

 
Dorgival Terceiro Neto:
Vou encerrar, que o horário está avançado. Mas, Joacil Pereira lembrou que
o ministro João Alberto morreu muito pobre e tinha a pecha de ladrão. A propósito
disso, aqui na Paraíba tinha umas figuras inteligentíssimas, como o violeiro Pinto
do Monteiro, que morava no Rio de Janeiro. Ele e Louro do Pageú tinham uns
programas na Rádio Tamoio em que o ouvinte, pelo telefone, dava um mote e eles
glosavam. Com isso criaram fama. Quando havia aquelas festas grandes eles eram
convidados como grande atração. Uma vez fizeram uma festa na casa do ministro
João Alberto e levaram os dois cantadores. João Alberto, que era pernambucano,
tinha passado em Monteiro na Coluna Prestes. Como se sabe, os membros da Co-
luna tomavam os animais nas cidades por onde passavam. Não tomavam propria-
mente, eles “requisitavam” os animais, e não traziam mais. Quando João Alberto
passou em Monteiro carregou uns burros de carga do cunhado de Pinto. Quando
ele chegou na casa do ministro, João Alberto disse: Ah, Pinto, eu conheço muito
você; conheço sua fama, também. Quando Pinto começou a cantoria, começou as-
sim:

Me desculpe seu ministro,


Me perdõe se eu estou errado,
Eu vim aqui para perguntar,
Não para ser perguntado.
Me diga o que é que fez
Dos burros do meu cunhado

Joacil de Britto Pereira:


Serei breve, devido ao adiantado da hora. Quero de início me congratular
com o expositor de hoje. Ele fez uma exposição isenta, como convém ao verdadei-
ro historiador, sem as paixões exacerbadas que alimentam o espírito de muitos ou-
tros. Só tenho que louvar a maneira como ele se conduziu. Não tenho nada a re-
criminar. Mas anotei uns pontos porque é natural que haja certas omissões. O tem-
po é curto e o expositor tem as suas limitações temporais e daí não pode abordar
tudo.
A oligarquia alvarista encontrou duas reações: a primeira foi a de Coelho
Lisboa, que veio para ser Chefe de Polícia do primeiro governo republicano, mas
começou a reagir contra Venâncio e continuou a sua reação depois, no segundo
governo republicano. Era um bravo parlamentar, um orador extraordinário e rom-
peu primeiramente com o governo a que servia e continuou lutando contra Álvaro

228 

 
Machado. Depois, ele também rompeu com Epitácio porque achava que Epitácio
estava dentro da mesma linha oligárquica e ele achava que a República havia sido
feita para regenerar os costumes políticos e instaurar uma verdadeira democracia no
Brasil. Era realmente um idealista.
Então, nós vemos que a Paraíba, desde a Proclamação da República até o
governo de João Pessoa, viveu sob uma oligarquia. E João Pessoa, que veio para
redimir esses costumes políticos, esses vícios da Velha República – e fez muita coi-
sa nesse sentido – também não escapou da proteção indecorosa à sua família. A
família Pessoa também foi oligárquica.
Por ocasião das eleições esperava-se que João Pessoa renovasse a chapa para
deputados federais, mas não renovou totalmente. Manteve o seu parente na chapa.
Quando João Pessoa visitou Princesa ainda se discutia sobre a possibilidade de bo-
tar João Suassuna na chapa. José Pereira já estava meio estremecido porque quando
João Pessoa, em Palácio, anunciou algumas providências ao líder José Pereira e fa-
lou nos cangaceiros que ele protegia, a resposta de José Pereira foi veemente: esses
cangaceiros a quem Vossa Excelência se refere ajudaram a eleger seu tio Epitácio
Pessoa a Presidente da República. É de se ver que também houve esse vício de oli-
garquia no governo de João Pessoa e antes, na liderança de Epitácio.
Dorgival Terceiro Neto, em aparte:
Para mostrar que Epitácio foi mais longe, quando chegou a vez para dispu-
tar a Presidência do Estado, e não tinha nenhum Pessoa desocupado, ele botou
Camilo de Holanda, que era o médico da família.
Joacil Pereira, continuando:
Então houve esse protecionismo. Por exemplo, o candidato de João Suassu-
na ao governo do Estado não seria João Pessoa, mas Epitácio impôs a retirada do
nome da predileção do Presidente, que era Júlio Lira. O nome de Júlio Lira foi reti-
rado para entrar o de João Pessoa. Esses são assuntos que estão dentro do tema da
Revolução de 30 e da República.
Cumpre-me dizer ainda que Álvaro Machado estava deixando de ser Presi-
dente do Estado colocava sempre Walfredo Leal ou uma pessoa de sua total confi-
ança (Walfredo era também seu parente, que também era de Areia). Além do mais,
ele fazia isso de sair da Presidência do Estado, porque ele preferia sempre estar nos
altos conselhos da República. Ele preferia o Senado; ele saía, não para hibernar, ele
saía para se eleger Senador e depois voltar.
Dorgival Terceiro Neto, em aparte:

229 

 
Em uma das vezes em que não havia um Machado desocupado, Álvaro co-
locou o desembargador José Peregrino e Afonso Machado como Vice, para ter gen-
te dele sempre de cima.
Joacil Pereira, retomando a palavra:
Essas oligarquias não davam chance a ninguém. Era uma panelinha familiar,
oligárquica. Determinadas famílias da Paraíba sempre viveram assim, como agora
outra quis se implantar, como os Cunha Lima. Não tenho nada contra eles, mas é
um fato histórico.
O governo de João Pessoa teve altos e baixos. Ele foi endeusado porque in-
felizmente, lamentavelmente, foi assassinado. Havia um parente de João Dantas,
seu primo, que dizia: por que meu primo fez isso? Por causa de ofensas pessoais a
ele e à família? Porque vão endeusar esse homem. Se ele queria mandar matar, por
que não me mandou, que não sou um homem de projeção?
Mas, João Dantas, levado pelos impulsos das suas emoções e dos seus sen-
timentos feridos, assassinou João Pessoa e João Pessoa se tornou, de repente, um
ídolo, por uma exploração terrível. Esse navio em que viajei muito depois, o navio
“Rodrigues Alves”, que levou o cadáver de João Pessoa daqui até o Rio, parando
em todo porto, era um palanque político da Revolução, que já tinha fracassado. Ge-
túlio já não queria mais a Revolução, estava, inclusive, acomodado. Quem fez a Re-
volução foi o maior homem que o Rio Grande do Sul deu à Revolução, que se
chamou Oswaldo Aranha. Ele quase que jogou à força Getúlio à frente do movi-
mento.
Quanto a Getúlio foi dito, também, o que ele fez. O seu espírito ditatorial,
sua desmedida ambição de poder, homem cerebrino e frio, que mandou entregar,
por Felinto Muller, a esposa de Luis Carlos Prestes. Esse foi um grande idealista no
país; podemos divergir das ideias que ele desposou, mas não podemos deixar de re-
conhecer que Luis Carlos Prestes foi um homem culto, sério e idealista. Nunca dei-
xou os seus amigos no caminho. Pois bem, Getúlio entregou a esposa desse ho-
mem, grávida, entregou um feto que estava no ventre dessa mulher ao nazismo e
ela deu a luz a Anita Leocádia Prestes num campo de concentração. Não posso
deixar de referir isso sobre esse ditador cruel, cerebrino, frio e iníquo. Pessoalmente
honesto, nunca furtou, mas deixava os outros furtarem.
Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Mello, ex-governador do Estado, con-
tou um fato autêntico. Ele era governador, quando estava no Rio de Janeiro e um
grande político do Pará, massacrado por Magalhães Barata, foi se queixar a Getúlio

230 

 
do que esse homem fazia lá. Que estaria dilapidando os cofres públicos, se locuple-
tando. Getúlio ouviu, pacientemente, a exposição de mais meia hora, fumando um
charuto e soltando fumaça no ar. E no final, disse: O do Maranhão é muito pior
(que era Vitorino Freire). Esse era o Getúlio Vargas, que tinha apenas a ambição
desmedida de poder, o espírito caudilhesco. Nós não podemos, nesta hora, deixar
passar sem essas observações.
Na verdade, há algumas coisas engraçadas na Revolução de 30. Pernambuco
tinha como Presidente Estácio Coimbra, uma figura de punhos de renda, de família
tradicional, rico, mas acovardou-se, abandonando os seus amigos e fugiu num re-
bocador, no qual já estava Juvenal Lamartine, fugido do Rio Grande do Norte, um
vestido de padre (que era Juvenal) e o outro vestido de freira. Juvenal era metido a
cavalo do cão, a conquistador e quando viu aquela freira tão bonita aproximou-se
com galanteios, e aí Estácio disse: deixe de besteira, Juvenal, eu sou Estácio. Todos
dois fugiram, abandonando o campo da luta.
Na Paraíba, houve realmente luta séria. Os paraibanos realmente se porta-
ram muito bem. Mas é preciso corrigir um ponto. A Paraíba não é só a Revolução
de 30. A Paraíba é a expulsão do holandês invasor, que Pernambuco procura puxar
para o seu bornal. A Paraíba é a Revolução irredenta e libertária de 1817, que deu
maior número de mártires do que Pernambuco
Eu estava na Câmara dos Deputados quando o escritor Vamireh Chacon,
meu amigo, que descende de família paraibana de Areia, estava fazendo uma confe-
rência sobre esse assunto e o aparteei com veemência: Guerra pernambucana, por
que? Restauração pernambucana, por que? Participaram desse movimento, em
1817, por exemplo, a Paraíba, o Rio Grande do Norte, até o Ceará.
Só enaltecem Pernambuco. Eu entendi, muito bem, o que quis dizer nosso
debatedor. Mas acho que devemos, toda vez em que se falar puxando a brasa para a
sardinha de Pernambuco, dizer que a revolução de 1817 foi nordestina.
São esses os adendos que gostaria de fazer, como faço, parabenizando, mais
uma vez, o Instituto e o expositor Humberto Mello e seu debatedor, pelo brilho
desta reunião. Ele fez, como disse de início, uma exposição isenta, como deve ser a
de qualquer historiador que se prese de não abusar das suas paixões exacerbadas. Já
é tempo da Paraíba refletir melhor sobre esses ódios que separaram a Paraíba, divi-
diram-na em dois campos de luta. Dividiram a família paraibana. Nós temos que
dar o seu ao seu dono, o valor que cada um tem, mas não com paixão e com ódio.
Guilherme d’Avila Lins:

231 

 
Hoje é uma tarde muito feliz. Hoje assistimos aqui uma belíssima lição de
História, protagonizada de forma magistral por Humberto Mello, Dorgival Terceiro
Neto e Joacil Pereira, que abordaram importantes aspectos da Revolução de 30,
dando uma significativa contribuição a este Ciclo de Debates.
Pegando o gancho das palavras de Joacil, de que é hora de se acabar com as
paixões, bem a propósito tenho aqui um artigo que achei a alguns dias na Revista
ERA NOVA, de 1925, durante o Governo de João Suassuna com o retrato de José
Pereira Lima. O artigo diz respeito à atuação de José Pereira Lima no combate aos
cangaceiros que assolavam o sertão na época. O mesmo José Pereira Lima que foi
chamado de cangaceiro depois, no governo seguinte.
Dorgival Terceiro Neto, em aparte:
José Pereira Lima foi quem enxotou Lampião, quando assaltou Sousa.
Guilherme d’Avila Lins, retomando a palavra:
Quis registrar o fato, porque, passado o tempo, é hora de sentarem as coisas.
A questão mais factual da revolução de 30, que é a participação dos elemen-
tos que aqui conspiraram e atuaram, deverá ser adicionada a este debate. Não vejo
esse registro em todas as vezes que se fala na Revolução de 30. Acho que se foram
citados esses registros, foram esquecidos. Assim é que vou citar alguns artigos que
o então interventor e conspirador da Revolução de 30, Anthenor Navarro, escreveu
na A UNIÃO a partir de maio de 1931, sob o título genérico de APONTAMEN-
TOS PARA A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO DE 30. Ele conta sua experiência
como participante e conspirador. Assinala que o primeiro civil no Estado da Paraí-
ba que entrou em contato com os elementos fora do Estado da Paraíba, para co-
meçar a Revolução de 1930, foi meu tio José d’Avila Lins, que recebeu os irmãos
Lima Cavalcanti no belvedere de Trincheiras. Este encontro se deu no dia no dia 3
de março de 1930, quando se deu o primeiro contato civil dos conspiradores de
Pernambuco. E quem os recebeu, não de forma oficial, mas até meio escondido, foi
meu tio José d’Avila Lins, que era o prefeito da capital, e não podia se expor, rece-
bendo-os oficialmente.
No dia 6 de março houve o primeiro encontro entre os civis da terra e os e-
lementos militares, em Tambaú, na casa de Juracy Magalhães, onde se encontravam
presentes os três tenentes Juracy, Jurandir Mamede e Agildo Barata, e estavam
também Anthenor Navarro, meu tio José, José Américo e mais um ou dois dos
conspiradores civis. Foi o primeiro dia da reunião entre civis e militares para a Re-
volução de 30.

232 

 
A partir daí as reuniões se davam em Tambaú e, para não despertar suspeita,
iam no carro do prefeito, que morava em Tambaú. Este é um depoimento de An-
thenor Navarro.
Humberto Mello, em resposta a Joacil Pereira:
Como falei, Álvaro Machado veio para cá como delegado de Floriano Peixo-
to e montou muito bem sua máquina; com muita competência, passou 20 anos
mandando, e saiu somente quando morreu. Há a informação de que Walfredo Leal
seria parente dele, mas isso não está bem confirmado; se for, vamos ter a família
que deu maior número de governantes à Paraíba. Porque nós tivemos os dois ir-
mãos Machado – Álvaro e João, Walfredo Leal, José Américo, sobrinho de Walfre-
do, Gratuliano Brito, também sobrinho de Walfredo, e Ivan Bichara, casado com
uma sobrinha de Walfredo. Seis governantes, portanto.
Saindo a oligarquia Machado, entra a oligarquia Pessoa. O domínio de Epi-
tácio era tão grande que havia até um ditado: Na Paraíba quem não é Pessoa é coi-
sa. Houve, é claro, oposições. Coelho Lisboa combateu essa oligarquia, embora
Coelho Lisboa só tenha começado a combater a oligarquia de Álvaro Machado de-
pois que se certificou que ele, Coelho Lisboa, não seria candidato a governador.
Coelho Lisboa, em 1908, queria ser o governador, mas terminou sendo João Ma-
chado. E ele levou para o túmulo essa grande mágoa de não sair governador da Pa-
raíba.
Luiz Hugo, intervindo:
Coelho Lisboa pleiteou ser candidato anteriormente, antes de Venâncio
Neiva, mas foi barrado pelo prestígio dos irmãos militares.
Humberto Melo, retomando a palavra:
Certa vez perguntei a alguns auxiliares próximos de João Pessoa, gente que
tinha convivido com ele, perguntei a José Américo, a Osias Gomes, a Adhemar Vi-
dal sobre leituras, livros, etc., ideias, que João Pessoa refletia; ninguém me soube
dizer nada. Mas encontramos no arquivo sobre João Pessoa, que existe aqui no Ins-
tituto Histórico, muitos recortes de jornais que mostram as ideias que o influencia-
ram, coisas que ele reproduziu na sua administração. Acho que João Pessoa sentia
que aquele esquema não dava mais para continuar. Daí começa a haver hostilidade
àquele sistema coronelista. O coronel mandava e representava porque não havia a
figura do chefe político; era uma figura oficial, equivalente hoje ao presidente do
Diretório de partido. O jornal publicava: Fulano de tal, chefe político. Esse chefe
político era quem nomeava, influía na nomeação do juiz, nomeava o promotor, o

233 

 
coletor, o delegado, geralmente influenciava a designação do padre, o professor, to-
do o funcionalismo. João Pessoa começou a desmantelar esse domínio, substituin-
do promotores, elementos do fisco. Em termos de promotor posso lembrar o se-
guinte: a família Dantas tinha uma propriedade, um latifúndio no município de
Mamanguape e havia uma briga entre os Lundgren como também havia umas re-
clamações dos índios da Bahia da Traição contra os Dantas, reclamações que ti-
nham sido enviadas a João Suassuna e que tinham sido engavetadas. Então João
Pessoa tira o promotor de Mamanguape e João Dantas escreve uma carta a familia-
res elogiando muito João Pessoa porque tinha tirado o promotor, porque tinha bo-
tado um elemento que não era vinculado ao poderio dos Lundgren. E quando foi
desengavetada a reclamação dos índios João Dantas não gostou. Diz Adhemar Vi-
dal que a partir daí que surgiu o ressentimento.
Joacil Pereira, em aparte:
Houve um processo contra Manoel Dantas Correia de Góes, conhecido na
intimidade por Zola, processo por crime de homicídio que ele tinha praticado em
legítima defesa. João da Matta Correia Lima, que era amigo íntimo e colega de João
Dantas, foi constituído advogado. Ao invés de levá-lo ao Júri e absolver ou conse-
guir antes a impronúncia, ele anulou, por um hábeas corpus perante o Tribunal –
naquele tempo se chamava Tribunal de Apelação – esse processo. Essa foi a causa
principal do primeiro estremecimento. Depois que João da Matta já tinha morrido,
num acidente de automóvel, foi quando houve aquelas medidas de João Pessoa
contra a família. Inclusive já tinha havido também a invasão da república de João
Dantas; então restauraram o processo. O processo tinha sido anulado, podia ser
restaurado. Foi restaurado para condenar, teleguiadamente, Manoel Dantas Correia
de Góes. E ele teve de fugir, só voltando para aqui no governo de Flávio Ribeiro.
Humberto Mello, retomando a palavra:
Ele voltou no governo de José Américo e conseguiu, através de Hermano
Almeida, ser nomeado para o Departamento de Estradas de Rodagem. É uma his-
tória mal contada. Ele me disse que era engenheiro, mas que na fuga dele tinha per-
dido o diploma. Seria fácil ir à Faculdade e conseguir uma segunda via ou uma de-
claração. Ele disse que não foi possível. A história é meio complicada. Mas ele não
conseguiu ser nomeado como engenheiro, e ficou como auxiliar.
A invasão da residência-escritório de João Dantas foi no dia 20 de julho de
30 e Manoel Dantas tinha saído da Paraíba em 1929. Ele me disse que tinha ido
embora – e disse a João Dantas – que não tinha temperamento para ficar. Isso

234 

 
consta de um depoimento no Núcleo Documental de Informação Histórico Regio-
nal – NDIHR, da Universidade Federal da Paraíba.
No meu entender, o que agravou mais o rompimento foi o seguinte: o pre-
sidente da Junta Eleitoral, que seria o juiz federal Gouveia da Nóbrega, se licenciou
e os suplentes também, que eram despreparados e João Dantas deu uma assessoria
jurídica e a Junta preparou toda aquela “degola”.
Joacil Pereira, solicitando aparte:
Quem fez todo o processo foi Eugênio Carneiro Monteiro. Eu ouvi várias
vezes ele contar isso no Clube Cabo Branco. Carneiro Monteiro estava no Rio
Grande do Sul e foi chamado para assumir a presidência da Junta.
Humberto Mello, voltando:
Também ouvi essa versão, de sorte que ele até ganhou o apelido de Eugênio
Monturo.
Quanto à manutenção de Carlos Pessoa na chapa, foi, de fato, uma situação
inexplicável. José Américo tenta uma explicação. Diz que João já se achava rompi-
do com um ramo da família, que era os Pessoas de Queiroz, e não queria um rom-
pimento com outro ramo que era o de Antônio Pessoa. Dizem inclusive que José
Pereira sugeriu, para homenagear a terra natal de João Pessoa, o nome de Assis
Chateaubriand no lugar de Carlos Pessoa na chapa.
Finalmente, o problema do cangaço é um problema meio complicado. Que
José Pereira era inimigo de Lampião, não há dúvida. Que ele sempre tenha sido i-
nimigo é algo um tanto questionável. Há um autor norte-americano que escreveu
um livro sobre o cangaço, especificamente sobre Lampião, e afirma que José Perei-
ra e Lampião eram amigos e depois se tornaram inimigos. Não diz porque, pois ha-
via várias versões sobre a origem da inimizade.
O fato é que José Pereira tinha um comando muito grande, e como Inês
Caminha falou aqui num debate anterior, o Estado era privatizado. A gestão de Su-
assuna, no período de 1924-28 coincidiu em que foi o maior predomínio de todos
os coronéis em todo o Nordeste.
Havia uma situação interessante. Havia o que chamavam a terceirização do
fisco. Pegava-se os impostos estaduais do município x e se fazia um leilão daquele
imposto. Chegava alguém, arrematava aqueles impostos (isso era das Ordenações
do Reino, disse um participante). Havia gente que pagava as folhas do Estado.
Quer dizer, o Estado era privatizado. Era uma terceirização das funções estaduais.
Joacil Pereira, explicando:

235 

 
Mas isso era permitido por lei federal e vem desde as Ordenações.
Humberto Mello, continuando:
Não havia uma permissão expressa e como se sabe, em Direito o que não é
proibido, é permitido.

A fala do Presidente:

Chegamos ao final deste debate, com uma vasta riqueza de novidades sobre
o tema.
Esta foi a forma que o nosso Instituto encontrou para renovar a preocupa-
ção pelos nossos desafios históricos. Cada vez mais estamos trazendo para um pú-
blico novo a posição do Instituto. O Instituto Histórico se reflete pelo conheci-
mento e pela qualificação dos seus associados, os quais constantemente estão tra-
zendo para vocês novos caminhos.
A contribuição do expositor Humberto Mello, do debatedor Dorgival Ter-
ceiro Neto, dos participantes Joacil de Britto Pereira e Guilherme d’Avila Lins en-
cheu o debate de informes pouco conhecidos. Foram depoimentos pessoais, inter-
pretações acertadas, pronunciamentos esclarecedores.
O que se podia falar sobre a Revolução de 30 e seu derredor foi feito, quase
esgotando o manancial de episódios oficiais e de bastidores daquela fase que proje-
tou, sem dúvida, a Paraíba na história nacional.
Renovo meus agradecimentos aos presentes, que não se afastaram da sessão,
apesar do adiantado da hora, numa demonstração de interesse pela história parai-
bana.
Obrigado.

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11º Tema:
O MOVIMENTO DE 64 E A PARAÍBA
Expositora: Martha Falcão
Debatedor: Luiz Hugo Guimarães

A fala do Presidente:

Abrindo os trabalhos, convido a professora Martha Falcão, expositora do


tema de hoje, para compor a mesa; o acadêmico Joacil Pereira, presidente da Aca-
demia Paraibana de Letras, confreira Waldice Mendonça Porto, 1ª Secretária do
Instituto.
O tema de hoje é O MOVIMENTO DE 64 E A PARAÍBA, e a escolha da
professora Martha Falcão se deve aos vários trabalhos de sua autoria sobre o assun-
to. Ela é professora de História na Universidade Federal da Paraíba, é Mestra em
História do Brasil e Doutora em História Social, além de graduada em Direito. Um
dos seus trabalhos bastante consultados é NORDESTE, AÇÚCAR E PODER.
É uma das mais recentes aquisições do nosso Instituto, posto que ela ingres-
sou neste silogeu em março último.
Passo a palavra à professora Martha Falcão.

Expositora: Martha Maria Falcão Carvalho de Moraes e Santana (Sócia do


Instituto, professora de História da UFPB, Mestra e Doutora em História, graduada
em Direito)

É para mim uma grande alegria ter meu nome incluído como uma das expo-
sitoras desses 500 anos de Paraíba em debate. O tema que nos coube é justamente
o Movimento de 64 e a Paraíba. Gostaria de ter a liberdade de tratar o tema como o
Golpe militar de 64 e a Paraíba. Logicamente nós não podemos nos referir ao golpe
sem pensarmos em termos de processo, porque o golpe foi muitas vezes tramado,
conspirado, adiado, e finalmente consumado. Para falar no golpe de 64, teríamos
que remontar, fazer uma retrospectiva ao panorama que se descortina no pós-
guerra.
Em 1945 o mundo sofre uma bipolarização e vive a divisão entre o Ociden-
te democrata, capitalista e a União Soviética, que se expande formando o bloco do
Este comunista. Surge aí a doutrina de sustentação ideológica chamada Guerra Fria.
237 

 
E é nesse panorama de pós-guerra que os países da América Latina sofrem uma
verdadeira renascença em termos de industrialização. Com o crescimento da indus-
trialização, do proletariado e das lutas sociais, logicamente surge a necessidade das
elites políticas procurarem legitimação e sustentação através daquilo que já vem
desde o Estado Novo, aqui no Brasil, onde nós temos como exemplo a CLT e uma
série de benesses; temos também o atrelamento dos sindicatos, com a desarticula-
ção do movimento dos trabalhadores e, sobretudo, temos a afirmação de uma lide-
rança, não somente em termos de Brasil, mas também em termos de América Lati-
na, que procura uma aproximação maior com a classe trabalhadora, não no sentido
de dar sustentação e mobilização a essa classe, mas no sentido de desarticulá-la. Es-
sa sustentação ideológica é aquilo que nós chamamos de populismo.
O movimento de 64 só pode ser compreendido como um colapso desse
movimento que surge no pós-guerra, em 1945. Temos a Guerra Fria, que vai ter
como sustentação a ideologia da segurança nacional tão bem estudada por Roger
Comblant, que hoje está sofrendo penalidade do Vaticano, fazendo um trabalho
muito bonito em Serra Talhada, Pernambuco. Ele procurou fundar ali um seminá-
rio dentro dos moldes da Teologia da Libertação, mas nestes tempos de igreja ro-
manizada o seminário foi para o brejo. Estamos assistindo nesse final de milênio a
desarticulação do movimento da Teologia da Libertação e o crescimento da Igreja
romanizada.
Para podermos pensar sobre o que é Guerra Fria não posso me deter, por-
que o tempo é muito pouco, pois desejaria trazer para aqui a Guerra Fria como a
bipolarização do mundo, num antagonismo, numa luta de disputas nucleares e,
dentro desse contexto, tivemos, aqui na América Latina, em 1959, a vitória da Re-
volução cubana, que vai contribuir muito para acirrar esse antagonismo, sobretudo
quando a União Soviética começa a fazer propostas de articulações sobre bases nu-
cleares em Cuba. É quando vemos toda uma preocupação do governo Kennedy no
sentido de criar mecanismos de injunções na América Latina para impedir o avanço
do movimento socialista.
É dentro desse contexto que a gente pode compreender o processo que
culminou com o golpe de 64. Dentro desse golpe de 64 vamos ver o avanço do po-
pulismo. Na esteira desse avanço vamos ter a abertura, o escancaramento da eco-
nomia brasileira às multinacionais. Vamos ver isso em termos de produção de mer-
cado, em termos de industrialização e crescimento de estradas; vamos ter também a
crise do petróleo, no governo de Juscelino Kubitschek, que é um expoente do Go-

238 

 
verno Populista. Não vamos nos deter no varguismo porque iríamos retroceder
muito, e o tempo não dá.
Dentro da esteira populista vemos também a eleição de Jânio Quadros, que
também é um dos expoentes do populismo. Com a renúncia de Jânio Quadros te-
mos a posse de João Goulart. Temos que compreender a que João Goulart está i-
deologicamente vinculado. João Goulart tinha sido Ministro do Trabalho na época
de Vargas; como Ministro do Trabalho deu um aumento de cem porcento aos tra-
balhadores. Procurou sempre ser uma bandeira de luta do centro-esquerda, dentro
do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. E justamente ele é eleito numa chapa que
tem o apoio da União Democrática Nacional – UDN, do Partido Democrático
Cristão – PDC, para apoiar Jânio Quadros. Aqui na Paraíba há um momento áureo
com a eleição de Pedro Gondim. Existe uma série de trabalhos excelentes que gos-
taríamos apenas de citá-los. Temos um trabalho que foi publicado em 98, que é
uma síntese desse período. É um dos melhores trabalhos, resultante de uma disser-
tação de Mestrado, mas que vale por um Doutorado, da professora Monique Cita-
dino, da qual tenho a honra de ser colega de Departamento na UFPB. Nesse traba-
lho ela remonta à fundação dos partidos políticos, com a redemocratização do país
em 1945; ela mostra a hegemonia da UDN e do PSD aqui, como partidos majoritá-
rios; mostra o racha da dissidência de Pedro Gondim quando do lançamento da sua
candidatura a vice-governador na chapa conciliatória ao lado de Flávio Ribeiro;
mostra o acidente vascular e as doenças que motivaram o afastamento de Flávio
Ribeiro; os compromissos do grupo da Várzea; mostra também o pequeno período
que Pedro Gondim governou como vice até se desincompatibilizar e durante esse
período ele utilizou a máquina estatal para mostrar a sua política populista e criar
suas bases de sustentação; depois ele volta e procura dentro do seu próprio partido,
o PSD, ser candidato ao Governo do Estado e não encontra sustentação porque se
mitifica muito Rui Carneiro para não permitir que outras lideranças não o sobrepu-
jassem. Isso ainda não foi estudado na historiografia.. Vê-se muito Rui Carneiro
com uma política do paternalismo, a política do coração, mas nunca se estudou Rui
Carneiro como aquele que deteve o comando, a ferro e a fogo, do PSD, sem permi-
tir que lideranças mais avançadas como Joffily, e como o próprio Pedro Gondim,
pudessem ganhar seu próprio espaço no partido. É por essa concepção que, na ho-
ra de escolhê-lo como governador, muito embora ele tivesse todo o apoio da classe
trabalhadora, como é o caso do próprio Sindicato dos Bancários, do qual Luiz Hu-
go Guimarães foi um dos presidentes mais atuantes e poderá dar um depoimento

239 

 
depois, tinha penetração na classe estudantil, mas ele não foi escolhido, porque já
havia uma aliança das forças mais conservadoras do PSD, no sentido de apoiar o
próprio irmão do chefe político Rui Carneiro, no caso Janduhy Carneiro. Havia
uma bipolarização entre a liderança do personalismo e a liderança do partido políti-
co. A Paraíba era um Estado de base exportadora, de relações ainda muito corone-
lísticas, em virtude das próprias forças econômicas que estavam muito voltadas pa-
ra a exportação e não para a industrialização; um Estado que não tinha ainda uma
base financeira que lhe desse sustentação; não havia um proletariado organizado em
termos de mobilização. Então nos anos 60 nós vamos ter no bojo da fundação da
SUDENE, da fundação dos Distritos Industriais, a própria expansão do capitalis-
mo e dentro dessa expansão do capitalismo motivada pelo processo de industriali-
zação criada pela SUDENE, nós vamos ter essa efervescência política do populis-
mo aqui na Paraíba. No momento áureo desse populismo, segundo os que estudam
esse período com mais afinco, que conhecem mais as bases desse movimento, e-
merge a figura populista de Pedro Gondim na campanha que empolgou toda a Pa-
raíba, de Cabedelo a Cajazeiras, com o slogan do HOMEM É PEDRO. “Eu estou
com Pedro porque não estou com medo”.
Pedro Gondim vai buscar o apoio do Partido Socialista Brasileiro – PSB e
logo depois se muda de malas e bagagem para o Partido Democrata Cristão – PDC.
Ele se candidata com todo o apoio da UDN. O grupo da Várzea lhe dá toda sus-
tentação e ele é eleito. Dentro dessa eleição nós vamos ver forças de várias nature-
zas. Vamos ver a frente nacionalista liderada por Joffily mantendo-se fiel ao PSD,
apoiando Janduhy, por conta do contexto nacional, que tinha como candidato a
Presidente da República o general Lott. Lott era o próprio símbolo nacionalista,
que tinha um passado de luta pela legalidade. Muitas e muitas vezes ele se insurgiu
contra as tropas e fez valer o princípio da constitucionalidade. Vamos ver isso na
posse de Juscelino Kubitschek, quando alguns grupos conservadores das Forças
Armadas procuram derrubar o próprio Juscelino Kubitschek, impedindo a sua pos-
se.
Dizem muitos historiadores, inclusive Thomas Skidmore, que a morte de
Getúlio Vargas adiou por dez anos o golpe de 64 e isso o professor José Octávio
repete num livro que escreveu e que é imprescindível para se entender esse mo-
mento em termos de Paraíba, intitulado A DIMENSÃO GLOBAL. É uma série de
artigos que ele publicou no livro O JOGO DA VERDADE, que registra os 30 a-
nos do golpe de 64 aqui na Paraíba, uma coletânea de vários autores, organizado

240 

 
por José Octávio, Nonato Guedes e outros, do qual participei com um trabalho so-
bre as Ligas Camponesas em Santa Rita.
No caso, nós temos uma ampla bibliografia. Talvez a Paraíba seja um dos
Estados que tenha uma bibliografia mais ampla sobre esse período. Temos um ex-
celente livro, que também é dissertação de Mestrado, defendido, se não me engano,
no Paraná, do paraibano Cezar Benevides. Nesse livro ele procura mostrar a mar-
cha da luta camponesa no Governo de Pedro Gondim.
Para a gente entender a bipolaridade em termos ideológicos do Governo
Pedro Gondim basta saber que, apesar dele ser um líder queridíssimo das classes
trabalhadoras, um homem que tinha uma penetração apaixonante junto aos estu-
dantes, às donas de casa, aos segmentos mais pobres e mais carentes da sociedade,
ele também tinha o apoio do grupo da Várzea. Ele foi lançado em primeira mão
por um dos líderes do Partido Socialista Brasileiro, o deputado Raimundo Asfora.
Nesse livro da professora Monique existem muitos pronunciamentos da época,
mostrando como o nome de Pedro Gondim ganhava uma penetração imensa no
seio dos trabalhadores e no seio das classes conservadoras; era como se fosse uma
bandeira de unanimidade. Temos também outros trabalhos que analisam muito
bem esse período. Não vamos fazer uma análise historiográfica, muito embora seja
uma professora de historiografia.
Vamos analisar os fatos e nos deter nas articulações, porque o tempo é mui-
to pouco. É tanto que não fiz uma retrospectiva da Era Vargas, pela qual sou apai-
xonada.
Dentro desse contexto, o Governo Pedro Gondim vai se caracterizar por
um homem de grande personalidade política no sentido de ter um porte físico bo-
nito, com todas as condições para empolgar o povo. Uma coisa muito importante
para o político é o porte físico. Para político e cantor, o porte físico ajuda muito.
Pedro Gondim era uma espécie de símbolo latino- americano de homem que em-
polgava. Também tinha muita capacidade de oratória, fazendo frases de efeito. Ele
disse que preferia sair do Partido por rebeldia a ser conivente, por covardia. Tem
cultura, tem formação jurídica. O trabalho dele HONRA E VERDADE, é um tra-
balho que merece ser analisado como uma fonte também para a história. Logica-
mente dentro desse contexto marcado pelo populismo, marcado pelo apoio dos
segmentos mais conservadores, ele procurou manter uma postura legalista. Isso
quem diz é a professora Monique. Mas o professor Cezar Benevides é muito con-
tundente e procura fazer o retrato de Pedro Gondim como que ele fosse uma figura

241 

 
indecisa, quando a gente sabe que ele era sobretudo um político.
A campanha dele caracterizou-se como a campanha do candidato pobre
contra o candidato rico, quando a gente sabe que o outro também não era um can-
didato rico. Seu adversário era um deputado federal de grande atuação – Janduhy
Carneiro – um excelente deputado federal, que muitas coisas que existem na Paraí-
ba, em termos de saúde, foram conseguidas por ele. Por mais conservador que ele
fosse, o historiador não pode, por questão ideológica, obscurecer que ele trouxe pa-
ra a Paraíba um dos hospitais mais bem equipados de combate ao câncer, que é o
Laureano. Janduhy Carneiro era um homem de atuação no parlamento, mas não ti-
nha o carisma e a beleza física, e também a oratória do outro candidato.
É dentro desse contexto que Pedro Gondim consegue ter uma eleição fabu-
losa. Mas o seu governo é marcado pelas lutas sociais, lutas que têm de ser entendi-
das dentro de um contexto maior.
Naquele momento, o governo João Goulart para poder tomar posse, como
vice do renunciante Jânio Quadros, teve de fazer um acordo para aceitar o parla-
mentarismo, parlamentarismo que pouco tempo depois é derrubado. Dentro de dez
pessoas que votaram, apenas um era parlamentarista, os outros eram presidencialis-
tas.
Com o resultado da votação contra o parlamentarismo no plebiscito realiza-
do, João Goulart julga que teve a sua candidatura como Presidente da República le-
gitimada. O sonho de qualquer político é a sua legitimação, e ele se considerou legi-
timado quando o povo disse NÃO ao parlamentarismo. Ele então começa a sofrer
uma série de pressões.
Os grupos conservadores fundam o Instituto de Pesquisas e Estudos Soci-
ais, é o famoso IPES. Esse IPES tinha verbas da CIA, do Fundo do Trigo, que era
uma conta movimentada escandalosamente pelos Estados Unidos, dos grupos mais
conservadores, de multinacionais como a Shell, a Texaco, a Coca-Cola e tantas ou-
tras. Elas financiavam esse IPES para que ele conseguisse barrar a marcha do socia-
lismo em termos de Brasil.
João Goulart recebeu muita pressão do Governo Kennedy, a ponto do Go-
verno Kennedy mandar para o Brasil o seu irmão Robert, que era Ministro da Justi-
ça, no sentido de negociar o apoio do Brasil no intervencionismo de Cuba, na OE-
A. Isso porque Cuba estava promovendo uma política nuclear em aliança com a
União Soviética.
João Goulart deu a seguinte resposta, conforme consta do melhor livro es-

242 

 
crito sobre João Goulart, de Moniz Bandeira: “O Brasil fiel à sua tradição pacifista
e ao espírito cristão do seu povo admite como legítimo o direito de defender-se de
possíveis ataques e agressões feitos à Cuba, repudiando e tentando impedir que o
direito de autodeterminação do povo cubano seja cumprido”. Diz também o se-
guinte: “Sempre nos manifestamos contra a intervenção militar em Cuba, porque
sempre reconhecemos a todos os países, sejam quais forem os seus regimes ou sis-
temas de governo, o direito de soberanamente se autodeterminarem.”
Essa foi a resposta de João Goulart quando foi procurado para ratificar com
os países latino-americanos o desejo dos Estados Unidos para que os países se vol-
tassem contra Cuba e que pedissem a intervenção em Cuba, porque Cuba estava
fazendo política nuclear aliada à China e à União Soviética. Kennedy queria tam-
bém que o Brasil cortasse relações com os países soviéticos, naquele tempo chama-
dos Países da Cortina de Ferro.
João Goulart disse que precisava desesperadamente do apoio do FMI, preci-
sava dos empréstimos, mas não ia com isso ferir a soberania do povo brasileiro,
sendo subserviente. O embaixador Lincoln Gordon pediu que o Brasil cortasse
qualquer comércio de petróleo com a União Soviética e que deixasse de comprar os
helicópteros à Polônia, que naquela época fazia parte do bloco soviético.
A resposta do Brasil foi uma resposta soberana, resposta de autodetermina-
ção. A partir daí começa o acirramento e o financiamento maciço dos Estados Uni-
dos através da CIA, do mesmo modo que a CIA financiou o golpe do Chile, procu-
rando primeiro impedir a posse de Allende, depois culminando com o assassinato
de Allende. Como se sabe, depois da morte de Allende as forças reacionárias toma-
ram o poder e hoje nós estamos vendo a figura maior sendo procurada para ser jul-
gada, pelo mundo todo, pelos crimes de tortura e matança que cometeu. É o caso
da figura de Pinochet.
Nós não poderíamos estudar a Paraíba fora desse contexto. O Governo Jo-
ão Goulart, até a metade do seu pequeno período, procura manter uma posição de
equilíbrio, inclusive ele se oferece (isto está bem documentado por Moniz Bandei-
ra) para servir de intermediário entre Cuba e os Estados Unidos no sentido de pôr
fim àquele impasse, impasse esse que a imprensa dizia que geraria a Terceira Guerra
Mundial. A imprensa conservadora diz que João Goulart estava servindo de joguete
na mão dos países socialistas, servindo de porta-voz.
A partir das imposições dos Estados Unidos a situação começa a se deterio-
rar. As relações entre o Brasil e os Estados Unidos começam a se deteriorar na me-

243 

 
dida em que a luta social cresce no Brasil, na medida em que a UNE e a Central dos
Trabalhadores começam a exigir as Reformas de Base. O Brasil vive nessa época
um processo de inflação. A saída de João Goulart foi partir para o chamado Plano
Trienal, que a CIA e o Birô dos Estados Unidos fizeram questão de desmantelar. O
Plano Trienal, para quem está esquecido, procurava fazer uma política de aproxi-
mação com os países do Ocidente, capitalistas, e com os países do Leste europeu,
da Cortina de Ferro, mas praticando, em nível interno, um controle das remessas de
lucros, porque as remessas de lucros estavam sendo escandalosamente denunciadas
pela esquerda brasileira como uma política contra o Brasil, uma política de escanca-
ramento ao capital internacional, uma política que ia de encontro àquela política do
segundo governo Vargas, que procurou desatrelar os interesses das classes mais fa-
vorecidas, culminando com o próprio suicídio de Vargas.
João Goulart se vê, igual a Pedro Gondim, pressionado, só que João Goulart
tem um compromisso muito maior com as esquerdas. Ele procura, do meio para o
fim, se aproximar cada vez mais. E o golpe começa a ser tramado. Não aqui, em ní-
vel de Forças Armadas, mas muito mais com sede em Washington. Porque Wa-
shington financia toda uma política de ideologia no sentido de se criar o IBAD –
Instituto Brasileiro de Ação Democrática. Esse Instituto promove palestras, finan-
cia jornais, faz toda uma propaganda ideológica contra o comunismo e também ao
lado do IBAD nós temos o IPES.
Voltando à Paraíba, vamos ver eclodir a questão agrária. Vamos ver os con-
flitos agrários; vamos a reação à vinda aqui de Carlos Lacerda; vamos ver o quebra-
quebra dos estudantes pela meia passagem de transporte; o governo tomando atitu-
des de agressão, demitindo vários estudantes que eram jornalistas do jornal oficial
A UNIÃO; a esquerda execrando Pedro Gondim; e vamos ver o distanciamento de
Pedro Gondim, a partir de 63; vamos ver também o choque entre as forças policiais
e os latifundiários, como o caso de Mari; vamos ver o filme CABRA MARCADO
PARA MORRER, de Eduardo Coutinho, que mostra os momentos de acirramento
social; surge um livro importante – EU MARCHAREI A TUA LUTA, que se en-
contra à venda no Departamento de História da UFPB e uma das autoras é a pro-
fessora Rosa Godoy (desculpem os comerciais). Esse livro mostra a vida de Eliza-
bete Teixeira, toda uma vida de lutas e perseguições, que depois se politiza e se tor-
na uma líder, uma militante política. Vamos ver a morte de funcionários da Usina;
vamos ver a própria morte de João Pedro Teixeira, em 62; vamos ver vários cho-
ques de lutas armadas aqui na Paraíba. E vamos ver também os latifundiários se or-

244 

 
ganizando. A professora Monique entrevistou muitos historiadores, inclusive o pro-
fessor Joacil de Britto Pereira. Joacil Pereira era deputado estadual e fez parte da-
quele grupo de deputados que pediram licença para permitir a convocação do su-
plente Agnaldo Veloso Borges a fim de que ele pudesse gozar da famosa imunidade
parlamentar. Aqui na Paraíba essa imunidade, em vez de se reduzir à atuação par-
lamentar, se esticou para abranger os crimes contra a pessoa.
Uma das pessoas que primeiro escreveu sobre essas lutas foi justamente o
professor José Octávio, que conta a história das Ligas Camponesas e das lutas soci-
ais nesse período, numa plaqueta que ainda hoje é muito consultada. Esse trabalho
foi depois aprofundado e transformado num excelente artigo para um dos cadernos
do NDIHR, do qual ele era pesquisador, na época.
Nós vamos ver que a questão das Ligas Camponeses despertou tanto aten-
ção nacional e internacional a ponto de Josué de Castro dizer que o Brasil foi des-
coberto em 1500 por Pedro Álvares Cabral e redescoberto a partir das Ligas Cam-
ponesas do Engenho Galiléia, quando as Ligas Camponesas trouxeram para a Amé-
rica Latina a famosa Aliança para o Progresso. É dentro desse contexto que vamos
ver que o Nordeste se transforma num barril de pólvora. Quem quiser estudar pro-
fundamente a economia do Nordeste e a crise da reeleição de 58, pode estudar isso
em Amélia Coin, no seu livro CRISE REGIONAL E PLANEJAMENTO.
Como sabem, o Partido Comunista começa a se voltar para o campo a partir
da redemocratização do país, só que com a cassação do Partido Comunista, esse
movimento arrefece dentro do partido, mas continua como um anseio do trabalha-
dor do campo. A Liga Camponesa de Sapé inscreveu sete mil camponeses, segundo
dizem. Era a maior Liga Camponesa do Nordeste.
Vamos ver também o pessoal da direita se organizando. Essa LILA, que era
a organização dos latifundiários destinada a se defender, também atacava os cam-
poneses.
Vimos a situação do Governador quando ele diz que os camponeses deve-
rão se limitar a fazer as suas associações dentro dos limites do Código Civil. Pedro
Gondim, no primeiro momento, procura desesperadamente, com sua formação ju-
rídica e conservadora, manter um equilíbrio entre o grupo da Várzea que lhe tinha
apoiado e o movimento popular de estudantes. Era uma situação difícil para ele.
Essa situação vai se acirrar a ponto de, totalmente acossado, tomar o partido do
mais forte.
Com o acirramento da questão agrária, vamos ter a movimentação de estu-

245 

 
dantes, através de suas associações, dos sindicatos e das facções voltando-se contra
o governo que anteriormente apoiaram.
Na véspera do golpe de 64 o Governo faz uma reunião com todo seu Secre-
tariado. Aliás, a partir de agosto 1963, o Governo muda todos os segmentos ligados
às esquerdas. E vamos ter a atuação de pessoas como o major Cordeiro, o coronel
Ednardo d’Avila Melo, do 15 RI; vamos ver a atuação do coronel da Polícia Militar
Luiz de Barros, como uma figura que comanda a repressão com todo aparato go-
vernamental; vamos ver muitas pessoas totalmente comprometidas com o anti-
comunismo fazendo parte do órgão repressor do Governo. Há mudanças no jornal
oficial e aqueles jornalistas que eram mais progressistas são demitidos, são substitu-
ídos por pessoas que têm uma linha ideológica totalmente conservadora. Há uma
metamorfose total. Mas o Governo precisa se definir. O país está em ebulição.
Trama-se uma conspiração, da qual os Estados pequenos não foram consultados, e
um desses Estados é a Paraíba.
Pela análise dos documentos, chega-se à conclusão que o governador Pedro
Gondim não teve participação naquilo que estava sendo tramado em nível nacional.
O golpe de 64 pegou de surpresa. No dia do golpe, à noite, houve uma reunião pa-
ra se tomar uma posição e as más línguas dizem que o governador ainda estava in-
deciso para qual lado iria. Então ele é pressionado pelos grupos conservadores a
tomar partido pelas forças vitoriosas, inclusive pelo segmento conservador da Igreja
(havia uma força progressista na Igreja). É quando chega o genro de Pedro Gon-
dim, o deputado Vital do Rêgo, sugerindo que ele tem de tomar uma posição, sen-
do, então, publicado um documento de apoio ao golpe de 64, documento que é
publicado no jornal A UNIÃO.
A eleição de 62 serviu também para acirrar esse momento. Nas eleições de
62 as Ligas Camponesas estão no auge. Antes disso o governo sabe que tem que
tomar o mesmo caminho das Reformas de Base de João Goulart. No dia 13 de
março João Goulart faz o famoso comício da Central do Brasil e faz a sua profissão
de fé ao lado das Reformas de Base. Com isso ele lavra sua própria sentença de de-
posição do Governo. Porque naquele momento todo processo de conspiração den-
tro do seio das Forças Armadas, dentro da classe média e dentro dos Estados mais
importantes do Brasil, que lideraram a Marcha com Deus, já está totalmente pron-
to, financiado e acabado, com o apoio da CIA. Na época havia até tanques de guer-
ra para garantir a vitória dos golpistas, é até um pleonasmo dizer isso. Não havia re-
cuo. O caminho era dos mais fortes.

246 

 
Apesar de toda uma luta social por reformas e apoio ao povo, Goulart não
teve o apoio do povo na hora em que precisou. Até mesmo a atuação de Leonel
Brizola, seu cunhado, que na época de sua posse liderou o famoso movimento pela
Legalidade, não foi suficiente no Rio Grande do Sul. E os seus ministros, um a um
vão abandonando o barco. Ou se definiam pelo golpe, ou ficavam em cima do mu-
ro. A verdade é que o Presidente da República se viu sozinho
Um dos documentários mais importantes que poderá ser analisado é o que
foi financiado pelos filhos de João Goulart. É o filme JANGO, feito em vídeo. Es-
se documentário é muito fiel à história porque não ouve só um lado. E como aque-
le trabalho que já mencionei – O JOGO DA VERDADE. Esse livro tem o depoi-
mento das pessoas que participaram do golpe, que acreditavam no golpe.
As eleições de 62 vão ter um acirramento muito grande nas lutas sociais da-
qui por que lança como candidata a própria Elizabete Teixeira. A morte de João
Pedro Teixeira é um marco de luta. Mobiliza centenas e centenas de trabalhadores
em protesto contra o assassinato de João Pedro Teixeira, na época atribuído ao
grupo da Várzea e que ficou impune também, como o assassinato de Margarida Al-
ves.
Apesar do nosso trabalho ter sido um trabalho sobre as oligarquias açucarei-
ras na Paraíba, é um trabalho pioneiro. Não trabalhamos com esse período, mas
procuramos denunciar que todos os assassinatos de camponeses que ocorreram a-
qui na Paraíba infelizmente, para vergonha nossa, que desejamos uma sociedade ci-
dadã, esses assassinatos ainda permanecem impunes.
É preciso que nós, que queremos um Brasil progressista e democrático no
terceiro milênio, lutemos contra esse estado de coisas e exerçamos com todas as
forças do nosso ser a nossa cidadania.
Elizabete Teixeira foi candidata, Antônio Teixeira foi candidato, Langstein
de Almeida foi candidato, tudo isso numa legenda que apoiava as Ligas Campone-
sas, e sobretudo o líder maior, que foi Francisco de Assis Lemos, o único que foi
eleito deputado.
Os jornais conservadores diziam que a campanha de Elizabete Teixeira esta-
va sendo amplamente financiada por Cuba, por dinheiro vindo de Cuba e da União
Soviética.
Langstein e Agassis de Almeida, que eram de fortes conotações de esquerda,
ficaram como suplentes.
Com o golpe de 64, a gente acredita, como Otávio Ianni, que escreveu CO-

247 

 
LAPSO DO POPULISMO NO BRASIL, acredita também como disse Francisco
Wefford, que nós vamos partir para uma nova fase do Estado. O Estado, que antes
era um Estado liberal e aberto para as multinacionais, não será agora tão liberal. Vai
ser um Estado tecnicamente burocrático e autoritário com a instalação do golpe. A
Constituição de 46, que é tida como uma Constituição liberal, é substituída, com o
golpe de 64, pela Constituição de 67, sofrendo emenda em 69. Ao longo do proces-
so, à medida que os aparelhos de tortura vão se organizando, tendo como base a
ideologia de Segurança Nacional, tendo como base de adestramento os Estados
Unidos, o Estado se torna autoritário e policial.
Tivemos o caso de Vladimir Herzog massacrado por esse sistema. Hoje ele é
o patrono do maior concurso da América Latina de Direitos Humanos. Tenho uma
cunhada que é fundadora e é dirigente, a jornalista Denise Santana Fom.
Essas coisas precisam ser denunciadas para que nunca mais aconteçam na
nossa vida nem na nossa nação.
Como professores temos esse compromisso. Apesar de não ser da minha
especialidade esse período, em termos de produção científica, muito embora tenha
como historiadora e cidadã a obrigação de conhecer, discutir e pedir a Deus, como
cristã que sou, de que esse período triste da nossa história jamais possa se repetir.
A partir do momento que houve o golpe de 64 todos os direitos e garantias
da nossa Constituição foram totalmente ultrajados e derrubados. Passamos a viver
um período de insegurança, de perseguição e de que não gosto de me lembrar desse
período da repressão, por uma questão pessoal e também em respeito aos presen-
tes, pedi a uma pessoa que é autoridade maior para falar sobre ele, que também so-
freu na própria pele. É um historiador, um escritor, tem um excelente livro RE-
CORDAÇÕES DA ILHA MALDITA E OUTROS REGISTROS, como também
a REPRESSÃO DOS QUARTÉIS, de Jório Machado, que é outro depoimento; as
próprias memórias do historiador Joacil de Britto Pereira, que é outro depoimento
altamente documentado. Temos a alegria de dizer que a Paraíba talvez seja um dos
Estados do Brasil que tem uma maior produção historiográfica sobre esse período,
quer seja de memórias, quer seja também de produção acadêmica.
Gostaríamos de dizer que o NDIHR tem todo o mapeamento da luta cam-
ponesa, da questão agrária, feita pela professora Cândida Rodrigues, quando fazia
parte do quadro de pesquisadores do NDIHR. O NDIHR está à disposição dos in-
teressados em fazer pesquisas documentais ou na hemeroteca, consultando fontes
sobre o período.

248 

 
Quero dizer que sempre peço a Deus que meus filhos, meus netos não vi-
vam o que a nossa geração dos anos 60 viveu, os anos duros da ditadura, onde a li-
berdade e a cidadania eram coisas que não se tinha conhecimento na prática.
Que Deus abençoe nosso país para que qualquer que seja a crise que atra-
vesse, ele preserve, como Jango queria, a sua soberania, e que jamais caia em sub-
serviência ao xerife maior, que é os Estados Unidos.
Muito obrigada.

A fala do Presidente:

Tivemos agora a oportunidade de ouvir um relato completo dos anteceden-


tes do movimento militar de 64 (anteriormente eu também chamava muito de gol-
pe, mas como faz uma coisa com a outra, cada um é que vai definir se foi golpe ou
não foi). Com muita propriedade a professora Martha Falcão fez esse levantamen-
to, de como foi possível chegarmos a uma fase, no Brasil, de acontecer uma trans-
formação violenta. Nós da Paraíba sofremos, como o país inteiro, essas dificulda-
des.
Agora, como debatedor designado para tratar deste tema, cabe-me apresen-
tar minhas considerações.

Debatedor: Luiz Hugo Guimarães (Escritor, historiador, ex-professor da UFPB,


atual presidente do Instituto Histórico)

Para os que não me conhecem, farei uma breve auto-apresentação. Sou ba-
charel em Direito, ex-professor da Universidade Federal da Paraíba, jornalista com
fé-de-ofício por ter trabalhado no jornal A UNIÃO – nossa mais importante Uni-
versidade de Comunicação –, ex-funcionário do Banco do Brasil, ex-militante sindi-
cal, e atualmente sou o presidente deste Instituto.
Na realidade, como a expositora realçou, esse golpe que esteve em marcha
durante muito tempo, foi interrompido quando Vargas deu um tiro no coração.
O golpe também foi ensaiado em 1955, para evitar a posse de Juscelino Ku-
bitschek porque o Vice-presidente era João Goulart, uma figura ligada às tradições
de Getúlio Vargas; era seu herdeiro político e ligado às classes populares. Quem ga-
rantiu a posse de Juscelino e Goulart foi o Exército, foram os militares, baseados
sempre em que a hierarquia era importante. E com a interferência do general Lott e
do general Denys foi possível dar-se posse a JK e Jango. Assim, o golpe foi evitado
nessa fase.

249 

 
Mas, na sucessão de Jânio Quadros, o mesmo time que queria modificar a
posição do Brasil no plano internacional, também não queria dar posse a João Gou-
lart, que era o sucessor legal do presidente renunciante. Oficiais das Forças Arma-
das, insuflados pelos mesmos civis conservadores e reacionários, tentaram evitar a
posse do presidente eleito. O golpe não aconteceu porque foi lançada a Campanha
da Legalidade pelo governador do Rio Grande do Sul, o combativo Leonel Brizola,
que era cunhado de João Goulart. A campanha teve o apoio popular da nação. As
Forças Armadas se dividiram. O general Denys, Ministro da Guerra, informou a
uma comissão de parlamentares do PTB, partido de João Goulart, que o Exército
vetava sua posse. O general Henrique Lott lançou um manifesto à nação favorável
à posse do Vice-presidente, dentro da solução constitucional. Seu pronunciamento
convocou a nação. O arcebispo D. Vicente Scherer, do Rio Grande do Sul também
se manifestou favorável. Brizola colocou o Rio Grande do Sul em pé de guerra e
contou com o apoio e pronunciamento do comandante do III Exército, general
Machado Lopes, que dirigiu um radiograma aos comandantes do I, II e IV Exérci-
tos. A divisão entre os líderes militares forçou a uma tomada de posição junto aos
oficiais.
No dia da renúncia do presidente Jânio Quadros eu participei das homena-
gens que o Exército prestou ao Duque de Caxias, patrono do Exército. É uma tra-
dição militar essa homenagem no dia 25 de agosto. E eu estava lá no palanque, ao
lado do general Augusto Fragoso, comandante do Grupamento, juntamente com o
coronel Macário, representando o governador Pedro Gondim, com comandante
Franco, capitão dos Portos, o comendador Renato Ribeiro e oficialidade. Tenho a
foto desse flagrante, que será publicada nas minhas memórias.
O general Fragoso foi chamado ao Rio de Janeiro com urgência. Ele era
compadre do general Lott, viajou para o Rio e assumiu o comando do Grupamento
o coronel Albuquerque Lima. Nesse meio termo foi feita uma consulta entre os o-
ficiais sobre a posição a tomar quanto à posse de João Goulart. O coronel Albu-
querque era contra, mas a maioria esmagadora da oficialidade ficou favorável à pos-
se do Vice-presidente João Goulart. Essa consulta feita em todas as unidades mili-
tares deve ter sofreado o ponto de vista do general Denys.
Enquanto isso os congressistas encontraram a solução parlamentarista para
dar posse a João Goulart. É necessário dizer que para tal houve o apoio dos Esta-
dos Unidos, segundo consta, pois antes de voltar para o Brasil, João Goulart passa-
ra pelos Estados Unidos, no dia 30 de agosto. Como se sabe, João Goulart estava

250 

 
na China em missão oficial do país, designado pelo próprio presidente Jânio Qua-
dros. Pergunta-se: teria sido premeditada essa representação? Pois bem, Jango saiu
da China para Paris, onde ficou aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Os
emissários políticos fizeram uma ponte aérea entre o Brasil e a França. Renato Ar-
cher, Tancredo Neves e outros iam e viam levando e trazendo mensagens. De lá
João Goulart voou para os Estados Unidos. Lá João Goulart confirmou que iria as-
sumir o Governo, e adiantou que seu Ministro da Fazenda seria Walter Moreira Sa-
les e o Ministro do Exterior San Tiago Dantas, figuras bastante conhecidas dos nor-
te-americanos. Esse pronunciamento de João Goulart facilitou a concordância dos
Estados Unidos. Isso, aliás, ficou comprovado com a farta documentação posteri-
ormente liberada pelo Departamento de Estado daquele país.
A professora Martha Falcão esclareceu bem as dificuldades que o Governo
encontrou em face da movimentação popular. Quando João Goulart retomou as
funções de Presidente, sem o guante do parlamentarismo, o movimento popular se
acelerou.
A luta de João Goulart para derrubar a emenda parlamentarista é conhecida
por todos, não cabendo aqui me estender sobre sua tramitação.
A movimentação popular cresceu com as constantes reuniões de estudantes,
trabalhadores, donas de casa. Os militares subalternos, as praças de pré, passaram a
reivindicar maior participação e mais direitos. Houve uma época em que os sargen-
tos não podiam casar. Eu tive um irmão que passou muito tempo “amigado” com a
mulher dele, porque não podia casar.
Com a liberdade existente, as reivindicações populares espocaram e passa-
ram a incomodar aqueles que se opuseram à posse de João Goulart.
Leonel Brizola, cunhado do Presidente, achava pouco e criava uma série de
problemas para o Governo. Podemos rememorar a posição tomada por Brizola, no
Rio Grande do Sul, com a incorporação da AMFORP, da ITT. São empresas ame-
ricanas de que participam os americanos comuns. Todo mundo lá é sócio da ITT.
É um regime capitalista em que o taxista, a dona de casa, o operário têm ações da-
quela telefônica. O investimento popular americano é feito nas grandes empresas
que têm seus papeis negociados na Bolsa de Valores.
Com a encampação daquelas empresas multinacionais por Brizola, criou
uma situação difícil para o governo brasileiro. Véspera de eleições nos Estados U-
nidos, o pessoal foi em cima de Kennedy. Com a desapropriação daquelas empre-
sas é evidente que os acionistas teriam prejuízo, com suas ações em queda na Bolsa.

251 

 
Quando morreu o Papa, Kennedy foi ao sepultamento em Roma, e João Goulart
também foi. Lá discutiram o problema e João Goulart comprometeu-se em criar
uma comissão especial de auditores independentes para levantar o acervo das com-
panhias e o que fosse apurado o governo brasileiro encamparia a indenização.
Quando chegou na fase da intervenção de Cuba, levantada pela professora
Martha Falcão, ficou difícil, porque o embaixador Lincoln Gordon foi pressionar o
Presidente Goulart. Tenho informações de pessoas que estiveram presentes nesse
encontro, revelando que João Goulart foi veemente na proposta de Lincoln Gor-
don, como tinha sido perante Robert Kennedy, irmão de John Kennedy, quando
esteve no Brasil. Disseram que João Goulart, diante da insistência, chegou a ser de-
seducado. E o embaixador Gordon ficou tão desorientado que, quando saiu do ga-
binete do presidente, errou a porta de saída. A partir daí Gordon tomou gosto em
participar do movimento anti-Jango.
Muitas coisas dos bastidores dão um quadro dos interesses contrariados, que
serviam para afastar os grupos do governo. O grupo da GLOBO, tinha alguns inte-
resses que dependiam do Governo. Vez por outra os editoriais do jornal de Rober-
to Marinho desancavam o Governo. Ouvi alguns auxiliares diretos de João Goulart
comentarem que estava em tempo do Presidente convidar Roberto Marinho para
um jantar. Depois desses jantares esporádicos os editoriais eram mais amenos.
O que Roberto Marinho queria (segundo se dizia) era que Jango autorizasse
um câmbio especial, privilegiado, para umas remessas que TIME/LIFE ia mandar
para reforçar seus jornais, que estavam em dificuldades, porque o jornal da época
era a ULTIMA HORA, de Samuel Wainer, além da cócega que fazia o jornal A
TRIBUNA, de Carlos Lacerda. Jango recusou-se a autorizar esse câmbio privilegia-
do.
Houve muitos problemas sérios que aceleraram o golpe.
Ainda durante o parlamentarismo chegou o momento das eleições para o
Congresso. Muitos parlamentares tinham que se desincompatibilizar para serem
candidatos. O Primeiro Ministro era Tancredo Neves. Ele tinha que deixar o cargo.
Quem seria o seu substituto? Criou-se um problema. Começaram as especulações.
João Goulart indicou San Tiago Dantas, uma das figuras mais expressivas da inte-
lectualidade brasileira, culto, benquisto nos Estados Unidos, advogado internacio-
nal. Pois bem, San Tiago Dantas foi derrotado na votação do Congresso. Perdeu
por cento e tantos votos porque antes havia feito um pronunciamento que afetou
os partidos políticos, sobretudo os partidos conservadores.

252 

 
Então o movimento sindical tomou parte. Começou a pressão no movimen-
to sindical para indicar um Primeiro Ministro nacionalista, independente, etc.
A cúpula sindical fez uma greve geral. Ela foi concertada na sede da Confe-
deração Nacional dos Trabalhadores – CNTI, procurando um nome dentro daque-
les parâmetros. Enquanto se estava decidindo a greve, João Goulart escolheu o
nome do professor Brochado da Rocha, que tinha sido Secretário do governador
Brizola. Um homem esclarecido, que tentara um princípio de reforma agrária no
Rio Grande do Sul, nacionalista. Era, portanto, um nome que o movimento sindical
poderia acolher. Mas o movimento sindical não concordou, a greve já estava mais
ou menos encaminhada, sendo então decretada, no dia 5 de julho.
João Goulart fez o possível junto a esse pessoal para evitar essa greve de 5
de julho. Enviou inúmeros emissários para dialogar com as lideranças sindicais.
Começou com Gilberto Crockat de Sá, que era o chefe da Assessoria Sindical de
Jango; Luiz da Costa Araújo, que fora Ministro do Trabalho; mandou Leocádio An-
tunes, mandou o próprio San Tiago Dantas, Abelardo Jurema esteve lá; o general
Osvino Alves também ponderou. A greve já estava em andamento. A greve era po-
lítica, nitidamente política. Nessa época eu estava no Rio de Janeiro, fazia parte do
Gabinete Sindical de Jango, que funcionava no Palácio do Catete, exatamente loca-
lizado nas salas onde, antes, esteve instalado o corpo de segurança de Getúlio, diri-
gido por Gregório Fortunato.
Em plena greve Jango mandou chamar a liderança sindical. Levei a Brasília
esse pessoal todo, num avião da Panair, especialmente preparado pelo comandante
Melo Bastos.. Jango conversou com os líderes lamentando com veemência o pro-
cedimento do movimento sindical contra a indicação feita para Primeiro Ministro.
Solicitou a imediata suspensão da greve ao retornarem os líderes ao Rio de Janeiro.
O que feito imediatamente.
Como vocês sabem, a cúpula do movimento sindical sofria uma influência
muito grande de alguns líderes comunistas que dirigiam umas duas ou três confede-
rações de trabalhadores, e eles pressionavam para adquirir posições de poder políti-
co. Mas, não tinham a noção de quando recuar. E Jango foi claro, esclarecendo que
essas posições precipitadas fortalecem a campanha dos adversários do Governo.
Foi quando ele disse: Voltem para o Rio, acabem com essa greve, senão não tere-
mos mais condições de diálogo.
Na realidade a posição assumida deu grande força política ao movimento
sindical, porque a partir daí passou a ser uma força respeitável. Mas endurecia o la-

253 

 
do adverso, que projetava o golpe.
São registros que faço aqui de episódios de que participei. Acho que minha
presença naquela reunião da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indús-
tria e ter assinado o manifesto pela greve geral foram responsáveis por minha cas-
sação política, pois como os senhores sabem, fui incluído no listão dos 100 primei-
ros cassados, do Ato Institucional nº 1.
Quando o golpe chegou à Paraíba, frisou a expositora Martha Falcão, Pedro
Gondim não tinha participação do movimento, porque ele era distanciado daquele
esquema. Vivia preocupado em manter o equilíbrio local entre camponeses e lati-
fundiários.
Assim, quando o movimento chegou à Paraíba a posição de Pedro Gondim
a favor ou contra, não teria a menor influência. Um Estado pequeno. Se ele dissesse
não ao golpe, seria liquidado, podendo até a Paraíba ter um interventor, talvez fosse
até o coronel Pitaluga, que era o homem de ligação do movimento aqui e um dos
mentores militares do golpe na Paraíba. Hoje até me dou bem com Pitaluga, que é
do Instituto Histórico do Mato Grosso, e seu irmão é nosso sócio correspondente,
proposto por mim. Pitaluga esteve aqui na Paraíba comandando a Circunscrição de
Recrutamento Militar - CRM – e foi um dos mentores do golpe aqui.
Então, consta até que Pedro Gondim tinha preparado dois pronunciamen-
tos, um a favor outro contra. Isso é discutível. Aliás, tem gente aqui que pode escla-
recer melhor essa questão.
Manoel Batista de Medeiros, em aparte concedido pelo debatedor:
Eu estava no gabinete de Pedro Gondim, meu amigo, com quem sempre
mantive boa amizade, e aí ele me mostrou um telegrama e disse: Batista é este o te-
legrama que estou passando sobre a revolução. O que é que você acha? O telegra-
ma começava “A Paraíba mais uma vez se encontra com Minas Gerais... etc. etc.,
mas no fim, era o antes pelo contrário, e a gente não sabia bem o que queria dizer.
Eu disse que estava meio confuso. Então ele disse que emendasse como deveria
ser. Ele pediu que desse uma redação ao meu jeito. Neste momento, entra no Ga-
binete um cidadão que estava vindo da ante-sala e o cidadão se anunciou como se-
cretário do governador Arraes. Eu guardo o nome: Fernando Mendonça. Ele não
pediu nem conveniência. Ai ele disse: o Governador Arraes quer saber qual a posi-
ção da Paraíba neste momento. Fica a favor ou contra? Pedro disse: diga ao gover-
nador Arraes que a resposta é esta, e mostrou o texto do telegrama. O próprio Pe-
dro Gondim, em entrevista posterior ao jornal A UNIÃO relata o fato e invoca o

254 

 
meu modesto testemunho. Era só isso que tinha a dizer.
Luiz Hugo Guimarães:
Vejam os senhores a importância de Ciclo de Debates. Estamos tendo aqui
depoimentos expressivos de episódios da nossa história. São testemunhos ao vivo
de uma fase que já está distante, que se registra como fonte histórica.
Agradeço ao nosso consócio Manuel Batista de Medeiros por sua contribui-
ção esclarecedora.
Essas dificuldades de Pedro Gondim, como governador, não foram somente
dele. Outros governantes passaram pelas mesmas dificuldades, ou dubiedades. Mui-
tos tiveram que sofrer pressão para tomar uma posição, porque nos primeiros dias
havia dúvida sobre o resultado do movimento. Minha impressão é que os golpistas
não estavam muitos seguros, tanto que logo no início a repressão foi violenta, natu-
ralmente com receio duma contra-revolução. Daí porque aquele estardalhaço. Cas-
saram e prenderam logo os principais líderes nacionais e estaduais. As entidades
que podiam, por suas lideranças, reagir ao golpe, essas foram liquidadas. Houve lo-
go a intervenção nos sindicatos. De pouco mais de 8 mil sindicatos, 7.200 sofreram
intervenção. Todos os diretórios estudantis, todas as universidades sofreram inter-
venção. Era natural. Em todas instalações de ditaduras os primeiros visados são os
trabalhadores, os estudantes e as universidades.
E a Paraíba sofreu muito com esse golpe.
Antes do início da sessão, só por curiosidade, distribuímos com os presentes
uma listagem de algumas pessoas que foram punidas pelo movimento de 64. É uma
lista incompleta, que solicito dos presentes agregarem novos nomes que são do seu
conhecimento. O pessoal da Universidade Federal da Paraíba foi coletado naquele
livro de Monique Cittadino A UFPB E O GOLPE DE 64. A lista dos estudantes
que foram proibidos de estudar é enorme. Nem era bem para proibir de estudar,
era evitar que eles se reunissem para fazerem onda. Lideranças políticas e sindicais
foram atingidas.
Sabemos que os primeiros paraibanos cassados foram quatro naquela lista
dos 100 mais. O primeiro Ato Institucional foi para eliminar a liderança mais quali-
ficada, envolvendo os militares ligados a João Goulart, os senadores e deputados
federais de tendência petebista ou socialista, as lideranças sindicais das confedera-
ções e federações nacionais. Da Paraíba foram incluídos quatro paraibanos: Abelar-
do de Araújo Jurema, que era Ministro da Justiça de João Goulart, e o porta-voz do
Presidente que estava sempre na TV contundindo o governador Carlos Lacerda;

255 

 
deputado José Joffily, que teve uma grande atuação no Congresso por ocasião da
posse de João Goulart como Vice-presidente substituto de Jânio Quadros; Celso
Furtado, também ministro de João Goulart, que foi o autor do Plano Trienal; e eu,
que não era nada. Aí se seguem as perseguições pelo Estado, pela Assembleia Le-
gislativa, etc.
Na nossa Universidade foi um massacre. O reitor Mário Moacyr Porto foi
afastado e substituído por um capitão-médico do Exército, que era professor da
Universidade, e tornou-se interventor. Na Faculdade de Ciências Econômicas, onde
eu lecionava, foi arrasador. Quem é professor da área de Ciências Econômicas tem
que estudar os fatos sociais e econômicos. Da maioria dos programas constava
Marx. Como estudar economia sem estudar Marx e o seu CAPITAL? Como deixar
de se referir ao Manifesto Comunista, de 1848? Houve até uma denúncia contra
Marcus Ubiratan Guedes Pereira, membro atual do Tribunal de Contas, porque dis-
tribuiu com os estudantes o Manifesto Comunista. Um professor tirou uma cópia
xerográfica do Manifesto e pediu para ele distribuísse com o pessoal. Era um mate-
rial didático para ser debatido. Pois bem, deu trabalho para explicar isso e ele foi ar-
rolado num inquérito.
Essa listagem que distribui com os presentes foi, também, para evitar sua lei-
tura neste debate, para ganharmos tempo com o tema que, por ser mais recente, é
de grande interesse.
Todas as repartições federais sofreram intervenção, a ponto de diariamente
seus chefes terem de comparecer ao quartel do 15º R. I. para prestar contas de seus
atos ao comandante Ednardo d’Avila Melo, e levar a lista do pessoal considerado
subversivo. Isso eu vi, quando estive lá antes de ser preso.
Foi muita gente punida. Quero lembrar que no Brasil foram punidos direta-
mente pelos atos institucionais 4.841 pessoas, sem levar em conta as demissões da
Universidade, de repartições, etc. Foram punições decorrentes de atos institucionais
propriamente ditos. Quem alcançou essas punições? A maioria da intelectualidade.
Quem não era intelectual era um líder em sua classe.
Mas deixemos de lado esses detalhes, que constarão das minhas MEMÓ-
RIAS, que decerto haverei de publicar.
Mas o fato é que o golpe veio. Para os militares, pelos mesmos motivos an-
teriores. Dessa vez os grupos mais retrógrados das lideranças civis apoiaram o gol-
pe, com os demais segmentos da sociedade batendo palmas. Da sociedade que foi
psicologicamente trabalhada pelo IPES/IBAD, como acentuou a expositora Mar-

256 

 
tha Falcão, e com o apoio deliberado dos Estados Unidos a partir da ação clara do
embaixador Lincoln Gordon e do coronel Walther Verner.
Era o combate às bases do Estado Populista, que foram destruídas assim
como as camadas populares foram excluídas do centro político nacional, como a-
centua a historiadora Monique Cittadino em seu trabalho A UFPB E O GOLPE
DE 64.
O resultado foi o longo tempo de uma ditadura militar, asfixiando as liber-
dades. Houve uma intervenção generalizada no campo econômico, educacional, so-
cial e sindical. A quase totalidade dos sindicatos sofreu intervenção, com violenta
perseguição às suas lideranças.; todos os diretórios estudantis foram esmagados; a
classe política sofreu forte golpe com a cassação dos principais líderes populares.
Instalou-se um clima de delação e um processo punitivo permanente, levando a so-
ciedade a um desassossego nunca visto.
Não foi sem razão que se comemorou, recentemente, a passagem dos 20
anos da promulgação da Lei de Anistia. A iniciativa do Presidente João Baptista Fi-
gueiredo, através de sua Mensagem de 27 de junho de 1979 ao Congresso Nacional,
que tomou o número 59, foi lida no dia seguinte.
O processo para se chegar até aquele ato presidencial foi longo. Esse proces-
so durou 15 anos. O Comitê Feminista pró-Anistia teve papel saliente no início da
campanha, comandada inicialmente pela esposa do general Jesus Zerbini. A partir
daí, todas as forças vivas da nação se empenharam na luta. Estudantes, membros da
oposição, operários, donas de casa, intelectuais, a nação inteira empenhou-se na
conquista da Anistia, sabendo que seu advento seria o início da derrocada do arbí-
trio.
O próprio presidente Figueiredo devia saber as consequências do seu gesto,
inspirado que foi, não só pelo clamor nacional, mas por ter ele sofrido na pele os
efeitos do arbítrio duma ditadura. Seu pai, o general Euclides, fora anistiado por ter
participado da revolução constitucionalista de São Paulo, em 1932, tendo sua famí-
lia sofrido as agruras do exílio.
Mas não foi fácil. Lembro-me que em agosto de 1977, o senador Petrônio
Portela, numa homenagem que recebeu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro,
disse que não se cogitava naquele momento da anistia. E alegava que os punidos do
movimento de 64 não estavam preparados para recebê-la. Lembro-me também que
naquela época fiz uma crônica comentando o fato, sugerindo até a necessidade de
iniciarmos um curso de preparação para os punidos pelos atos do arbítrio. Quem

257 

 
sabe, dizia eu, o Mobral poderia patrocinar esse curso para nós, que estávamos à
margem da cidadania.
Passaram-se 13 anos das punições, e o Ministro da Justiça vinha com essa de
preparar os beneficiários da anistia! Nunca se demorou tanto. Um fato inusitado na
história brasileira. Até no Império, as leis de anistia eram promulgadas em breve
espaço de tempo. Os punidos de 1824 foram anistiados por um decreto no ano se-
guinte, em 1825. Na República, também o esquecimento era breve. Os tenentes de
22 e 24, retornaram ao Exército, tornando-se muitos deles generais de grande atua-
ção pública; os punidos de 30 e 32, os comunistas de 35, os integralistas de 37 re-
tornaram rapidamente ao convívio da sociedade; com o grande democrata Juscelino
Kubitschek, foi mais rápido ainda para os participantes de Aragarças e Jacareacan-
ga.
Foram 15 anos de muita gente fora da lei dos vencedores. 4.841 pessoas fo-
ram atingidas pelos atos institucionais! Fora do Brasil estavam figuras de valor sem
poder oferecer sua inteligência à solução dos problemas nacionais. Congressistas,
professores universitários, lideranças populares, jornalistas, estavam todos lá fora, à
espreita de uma abertura para retornar ao país.
Internamente, os que ficaram segregados, sem poderem exercer sua ativida-
de útil consentânea com suas aptidões, eram os exilados dentro da própria Pátria.
Estudantes sem poderem estudar. E havia os que mofavam nas masmorras da dita-
dura, e os desaparecidos.
A insegurança era muito grande. Lembro-me que o Banco do Brasil me deu
uma punição interessante, transferindo-me para a agência de Porto Velho, capital
de Rondônia, em 1965. Lá era uma cidade subversiva por natureza. Cidade frontei-
riça e cheia de miséria. Que poderia acontecer? Havia estrada de ferro, quer dizer
Sindicato de Ferroviários; havia porto, quer dizer Sindicato de Portuários; os pou-
cos médicos eram todos socialistas, somente dois eram comunistas, mas os outros
eram socialistas, talvez por conta da pobreza com que eles lidavam. Estavam me
esperando, porque o pessoal do Banco do Brasil boatou que estava chegando um
funcionário que fora cassado. Não foi possível instaurar inquérito no Departamen-
to dos Correios e Telégrafos de Rondônia porque não havia em quem confiar para
organizar as Comissões de Inquéritos.
Conversando com o pai de Almino Afonso, que morava em Porto Velho,
ele me confiou sua preocupação porque Almino, que estava exilado na Iugoslávia,
saíra clandestinamente, por sua conta e risco, para o Uruguai, para juntar-se a Jan-

258 

 
go, Brizola e outros líderes políticos que ali estavam exilados. Almino tinha sido
ministro de João Goulart. Pois bem, até receber a notícia de sua chegada são e salvo
ao Uruguai, diariamente ele se angustiava e confiava em mim para desabafar.
Paula Frassinete, interrompendo:
Estou achando tudo maravilhoso, mas tenho que sair antes de terminar e
peço mil desculpas pela interrupção. Queria parabenizar Martha Falcão, mas queria
chamar a atenção de duas coisas. Primeiro sobre a TFP. Martha tratou da religião,
pedindo desculpas e dizendo “sou cristã e socialista”, o que é a mesma coisa, pois
ouvi Leonardo Boff dizendo isso em Cuba. Ele dizia que o socialista é um cristão
sem querer e o cristão é um socialista sem saber. Uma coisa que Silvio Frank Allen
me sugeriu a ler foi o livro OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE. Esse livro
encontrei no Sebo Cultural. Pedi a palavra apenas para sugerir a leitura desse livro,
porque ele trata do pentecostalismo que veio a mando do Pentágono exatamente
para ir solapando, como a TFP, que usa a imagem de Nossa Senhora de Fátima
também para fazer toda essa contestação ao socialismo que começa a se implantar.
Luiz Hugo Guimarães, retomando a palavra:
Para encerrar minha participação, como estava relatando, Almino Afonso
por conta própria resolveu sair da Iugoslávia clandestina para ir para o Uruguai. Os
caminhos que ele percorreu para chegar lá, eu não sei. Mas, todo dia, o velho che-
gava lá no Banco, e quando terminava o expediente ele saia comigo. Só faltava cho-
rar. Porque aqueles que estavam querendo voltar para o Brasil eram muito visados.
Grande parte deles foi liquidada ao tentar atravessar nossa fronteira. Afinal, depois
de uns 20 dias, ele chega animado e diz: Olhe, o menino chegou. E foi muito bom
para ele, que estava desajustado totalmente num país industrial, onde só técnico
tem vez.
No Uruguai, com seus velhos companheiros, Jango, Brizola e outros., era
bem melhor. Jango manteve um hotel que acolhia os refugiados que por lá chega-
vam. O gerente do hotel era Amauri Silva, que foi Ministro do Trabalho de Jango e
o subgerente foi um colega do Banco do Brasil, Gilberto Azevedo, que como depu-
tado estadual em Pernambuco foi líder de Arraes. Faço esses registros porque pou-
ca gente sabe das dificuldades dos bastidores.
Acho que dei meu recado, e com minhas desculpas por ter tomado algum
tempo, vamos dar continuidade aos debates.

259 

 
1º participante: João Batista Barbosa: (Escritor, jornalista)

Eu queria incluir na lista de perseguidos do golpe o nome de dois paraibanos


que foram Nego Fubá e Pedro Fazendeiro (palmas).
Luiz Hugo Guimarães:
Esses nomes estão registrados na lista que distribuí. Nego Fubá esteve preso
no quartel do 15, numa cela próxima da minha.
Transcrevemos, a seguir, a listagem que foi distribuída previamente com os
participantes do Ciclo de Debates:
Lista (incompleta) dos paraibanos alcançados pelo movimento de 64, que foi
distribuída com os participantes do Ciclo de Debates:
Os primeiros cassados:
Pelo Ato Institucional n.º 1, de 10.04.64:
Abelardo de Araújo Jurema (ex-Ministro de João Goulart)
Celso Furtado (ex-Ministro de Planejamento de João Goulart)
José Bezerra Joffily (ex-deputado federal, relator do Projeto de Reforma Agrária)
Luiz Hugo Guimarães (líder sindical, da Assessoria Sindical de João Goulart)
Cassados, posteriormente:
Pela Assembléia Legislativa do Estado:
Deputados Agassis de Almeida, Francisco de Assis Lemos, Figueiredo Agra e
Langstein de Almeida.
Pelos AI subseqüentes:
Deputados Federais: Pedro Moreno Gondim, Vital do Rego e Osmar de Aquino.
Deputados Estaduais: José Targino Maranhão, Mário Silveira, Romeu Gonçalves de
Abrantes, Sílvio Pelico Porto, Francisco Souto Neto, Robson Duarte Espínola; Se-
verino Cabral, ex-deputado e ex-prefeito de Campina Grande.
Prefeitos: Newton Rique, Orlando Almeida e Ronaldo Cunha Lima, de Campina
Grande; Antônio Mariz, de Sousa; Antônio Teixeira, de Santa Rita; Antônio Fer-
nandes de Andrade, de Rio Tinto; Domingos Mendonça Neto, de João Pessoa.
Vereadores: Antônio Augusto Arrouxelas Macedo; e José Gomes da Silva e Leo-
nardo Moreira Leal, como suplentes, de João Pessoa; Elias Pereira, de Alhandra;
Antônio Peba, de Campina Grande. Em Rio Tinto, foram cassados todos os verea-
dores do PTB.
Magistrados: Desembargadores Emílio de Farias e João Santa Cruz; Juizes Hermílio
Ximenes e Humberto Cavalcanti de Mello.
Compositor: Geraldo Wandré.

260 

 
Punidos por atos arbitrários:
Professores demitidos, sem renovação de contratos ou com vencimentos sustados:
Luiz Hugo Guimarães, Francisco de Assis Lemos, Langstein de Almeida, Pedro
Moreno Gondim, Laurindo Albuquerque, Nizi Marinheiro, Ronald de Queiroz,
Carlos Guerra, Adelmo Neves Machado, Antônio Geraldo de Figueiredo, Beatriz
Maria Soares Pordeus, Carlos Eduardo Pessoa Cunha, Célio Di Pace, Djair Aquino
Lima, Erson Neiva Monteiro, Enoque Gomes Cavalcanti, Gerard Camilo Prost,
Maria Thereza Ribeiro Prost, Nakay Hiershi, Hélio Correia Lima, Hércules Gomes
Pimentel, Heronides Dias de Barros, Hienal de Carvalho Ferreira, Joost Van Dame,
José Jackson de Carvalho, José Kehrle, Lindalvo Virgínio Franco, Manoel Martins
Paiva, Dermerval Trigueiro do Valle, Vanildo Brito. Marcelo Renato Arruda, Rai-
mundo Adolfo e outros (Vide o trabalho de Monique Cittadino A UFPB E O
GOLPES DE 64).
Vários foram destituídos de seus cargos, como o Reitor Mário Moacyr Porto
e Paulo Pires, como Coordenador da FAFI.
Jornalistas: João Manuel de Carvalho, Adalberto Barreto, Jório Machado, Severino
Ramos, Emilson Ribeiro, era revisor de A UNIÃO (preso em Itamacará, com José
Calistrato, últimos presos a serem soltos com a anistia)
Sindicalistas: João Ribeiro Filho, presidente da Federação dos Trabalhadores na In-
dústria da Paraíba; Luiz Bernardo da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgi-
cos; Otávio Fernandes Barbosa, secretário do Sindicato Rural de Camarazal; Eliza-
bete Teixeira, Sindicato Rural de Sapé; José Soares dos Santos, presidente do Sindi-
cato de Cimento, Cal e Gesso, de João Pessoa; Antônio Nazário, presidente do
Sindicato de Tecelagem de Santa Rita; Manoel Severino Ricardo, presidente do Sin-
dicato Rural de Camarazal; Rivaldo Cipriano da Costa, presidente do Sindicato dos
Trabalhadores na Indústria de Alimentação; Antônio Dantas, líder camponês.
Bancários: Antônio Aragão Filho (BNB), Idalvo Veloso Toscano de Brito (BNB),
João da Cruz Fragoso (BNB), Romero Cunha Lima (BNB), Francisco Ramalho
(BB), Carnot de Cavalcanti Villar (BB), Dirceu da Cunha Machado (BB), Sebastião
Borges Sobrinho (BB), Lúcio Villar Rabello (BB), Boanerges Timóteo (BB), Derly
Pereira (BNB). Paulo Ribeiro da Silva (BB) Jason Gonçalves de Lima (BB).
Padres: Os mais visados foram os Padres Juarez Benício e Everaldo Peixoto.
Ex-alunos, proibidos de estudarem: José Fernandes Neto (Face), Zenóbio Toscano
de Oliveira (Engenharia), Jader Carlos Coelho da França (Direito), Simão Almeida
(Engenharia), Jander Cunha Neves (Economia), Lenildo Correia da Silva (Econo-

261 

 
mia), Francisco de Paulo Barreto Filho (Direito), Nobel Vita (Direito), Rubens de
Pinto Lyra (Direito), Aderbal Villar de Carvalho (Face), Alzenir Rodrigues dos San-
tos (Face), Heloízio Jerônimo Leite (Face), José Ferreira da Silva (Face), Leda Reja-
ne Pereira do Amaral (Face), Maria Auxiliadora Rosas (Face), Edite Maria de Oli-
veira (Face), Jaerson Lucas Bezerra (Face), Jurandir Cardoso de Albuquerque (Fa-
ce), Maria de Fátima Mendes da Rocha (Fafi), Wilma Batista de Almeida (Fafi), Di-
nalva Navarro (Ciências sociais), Maria da Penha Ribeiro (Ciências sociais), Maria
Teixeira (Ciências Sociais), Terezinha do Vale (Ciências Sociais), Djamil de Holanda
Barbosa (Politécnica), Iêdo Martins Marcondes da Silveira (Politécnica), José Tadeu
Carneiro da Cunha (Engenharia), Luiz Carlos Soares (Engenharia), Paulo José de
Souto (Engenharia), Emilton Amaral (Direito), Germana Correia Lima (Direito),
Maria Neiva Gadê Negócio (Direito), João Roberto de Souza Borges (Medicina),
Maria Lívia Alves Coelho (Medicina), Saulo de Tarso Sá Pereira (Medicina), Eraldo
Fernandes dos Santos (Medicina), Everaldo Ferreira Soares (Medicina), Getúlio Be-
zerra de Castro (Medicina), Maristela Villar (Medicina), Francisco Trigueiro (Far-
mácia e Bioquímica), Maria do Socorro Morais (Serviço Social), Arnaldo José Del-
gado (Engenharia), Augusto Aécio Mendes (Engenharia), Everaldo Nóbrega de
Queiroz (Engenharia), Hélcio Lima de Oliveira (Engenharia), Norberto Lima Sa-
gratzi (Engenharia), Tibério Graco de Sá Pereira (Engenharia), Vicente Antônio da
Silva (Engenharia), Genuíno José Raimundo (Economia), José Leão Carneiro da
Cunha (Economia), Antônio Gomes da Silva (Economia), Hélio do Nascimento
Melo (Economia), Inácio de Loiola Monteiro Souza, Jorge de Aguiar Leite (Eco-
nomia), José Urânio das Neves (Economia), Maria do Socorro Ramos (Economia),
Maria Egilda Pereira Saraiva (Economia) Maria Gilda de Oliveira Pinto (Economi-
a), Risalva Bandeira Machado (Economia), Tercino Marcelino Filho (Economia),
Cláudio Américo Figueiredo Porto (Economia), Pe. João Batista Filho (Economia),
Raimundo das Neves Brito (Economia), Sebastião Borges Sobrinho (Economia),
Carlos Antônio de Aranha Macedo (Economia), José Cazuza de Lima (Direito),
Wladimir Martins de Souza (Direito), Antônio Sérgio Tavares de Melo (Filosofia),
Brígida Nóbrega (Filosofia), Eimar Fernandes (Filosofia), José Arimatéia Bezerra de
Lima (Filosofia), Maria de Lourdes Meira (Filosofia), Maria do Socorro Pessoa (Fi-
losofia), Maria Nazaré Coelho (Filosofia), Oriana Andrade Matos (Filosofia), Ken-
neth Talis Borjas Jaguaribe (Enfermagem), Luiz Sérgio Gomes de Matos Filgueiras
(Politécnica), Darlan Nóbrega de Farias (Politécnica), Williams Capim de Miranda
(Politécnica), Eduardo Ferreira de Lima (economia), José Iremar Alves Bronzeado

262 

 
(Economia), José Ferreira da Silva (Economia), Aderbal Villar Sobrinho (Economi-
a), Inocêncio Nóbrega Filho (Economia), Genival Veloso França (Medicina).
Pessoas que foram presas, responderam IPMs, estiveram asiladas, ou sofreram os
horrores do golpe: Estiveram com este Expositor, durante dois meses, na Ilha de
Fernando de Noronha: Jório Machado, jornalista; Bento da Gama, Procurador da
Superintendência de Reforma Agrária na Paraíba – SUPRA; Laurindo Marques de
Albuquerque Melo, professor universitário, Delegado do Tribunal de Contas no
Estado; Langstein de Almeida, deputado estadual.
Em xadrez especial, no 15º R.I., com este Expositor, estiveram: João Santa
Cruz, desembargador; Guilherme Rabay, empresário; Laurindo Albuquerque, Dele-
gado do Tribunal de Contas da União; e Manoel Patrício, inspetor do Trabalho.
Juntos, em xadrez comum, no 15º R. I, estiveram. Antônio Aurélio Teixeira
de Carvalho, prefeito de Santa Rita (pai da expositora); Antônio Fernandes de An-
drade (Bolinha), prefeito de Rio Tinto; Pedro Inácio de Araújo, conhecido por Pe-
dro Fazendeiro (desaparecido ao ser posto em liberdade); João Alfredo Dias, co-
nhecido por Nego Fubá, (ficou numa cela ao lado, isolado, tendo também desapa-
recido ao ser posto em liberdade); Nizi Marinheiro, advogado e suplente de verea-
dor; João Batista Barbosa (contador), Heloízio Gerônimo Leite (estudante); Yolan-
do Alves de Souza (chofer de Assis Lemos); Pedro Dantas das Chagas, João Manu-
el de Deus, José Alves de Lins, Miguel Penedo da Silva, Manoel Barreto Dias, A-
dalberto Cavalcante de Souza, Manoel Ferreira Gomes, estes de Mamanguape; Ben-
to da Gama, advogado; Jório Machado, jornalista; Laurindo Melo, professor uni-
versitário; Antônio Augusto de Arrouxelas Macedo, vereador.
Também estiveram presos em Fernando de Noronha os ex-deputados Assis
Lemos, Agassis de Almeida e Figueiredo Agra.
Outras pessoas que responderam IPM: Eduardo Ferreira Lima (Batata), estudante,
exilou-se no Chile, depois na Suécia, onde veio a falecer em 1993; Antônio Soares
de Lima Filho; Paulo Alves Conserva, que participou do movimento dos marinhei-
ros no Rio, ainda hoje não foi anistiado; Luiz Alberto de Andrade de Sá Benevides,
sobrinho de Humberto Lucena (militante do PCBR no Rio); Antônio Soares de
Lima Filho, militante do PCBR e ex-presidente da UPES; Antônio Viana de Olivei-
ra, comerciante; Agamenon Martins de Souza, tipógrafo; Francisco Lopes, comer-
ciário; Israel Elídio de Carvalho Pinto, de Itabaiana; Maria Amélia de Araújo, estu-
dante; Josué Silveira, escritor campinense; Elpídio Navarro, teatrólogo; Abdias Sá,
economista da SUDENE; Artur Nunes de Oliveira, estudante, Celso Matos Rolim,

263 

 
médico chefe do SAMDU; Vicente Rocco, médico do SAMDU em Sapé; Chico do
“Baita”, sapateiro em Guarabira; Antônio Augusto de Almeida, engenheiro; João
Batista de Melo, comerciante; José Batista Gondim, comerciante; Moisés Lopes da
Costa, dos Correios; Antônio Flaviano da Rocha, metalúrgico; Manoel Barreto Di-
niz, agricultor; Manoel Ferreira Gomes, de Mamanguape; Antônio Barbosa da Sil-
va, 1º Tenente da Reserva, da Marinha; Durval Domingos da Cruz, comerciante;
Francisco Barbosa Diniz, comerciante; Antônio Domingos, líder camponês; Antô-
nio Fábio Mariz Maia, estudante; Clemente Rosas, economista da SUDENE; Esta-
nislau Fragoso, sargento da Aeronáutica (irmão do bispo D. Fragoso); Flávio Tava-
res, estudante e artista plástico; Maria das Dores Paiva de Oliveira, Lígia Mercês
Macedo e Iveline Lucena Costa, da CEPLAR. Isa Guerra, Maria Limeira.
Responderam inquérito na Faculdade de Ciências Econômicas: Os professores
Cláudio Santa Cruz Costa, Luiz Hugo Guimarães, Juarez Macedo, Nizi Marinheiro,
Ronald de Queiroz, Francisco Assis Lemos, Otávio de Sá Leitão Filho e Laurindo
Albuquerque Melo.
Os alunos Heraldo Cavalcanti de Melo, Leda Rejane do Amaral, José Iremar
Alves Bronzeado, Marcus Ubiratan Guedes Pereira, José Ferreira da Silva, Pedro
Targino Moreira, Albano Nunes Nicodemi e Edvaldo de Góis.
Martha Falcão, para suas considerações finais:
Gostaria de dizer que o depoimento do professor Manuel Batista de Medei-
ros foi um depoimento muito importante porque por se tratar de uma pessoa que
participou do momento, quando o governador Pedro Gondim teve que tomar uma
posição. Pedro Gondim disse que tinha que estar ao lado da legalidade, como a Pa-
raíba esteve em 30, identifica-se com o povo paraibano. No dia seguinte a coluna
política do nosso saudoso José Madruga, uma das colunas mais lidas, diz o seguinte:
“Melhorou. A proclamação do Governo Pedro Gondim aos paraibanos deu a S.
Excia. um pouco da recuperação do seu prestígio. O Chefe do Executivo falou na
hora exata, sem titubear, como de outra vez, quando para a posse de Jango. E ati-
rou certo, ficou com o lado que venceu. Além de recuperar a confiança dos setores
representativos do latifúndio no Estado”.
A nota é bastante crítica, tem um fundo de ironia e mostra que ele acertou
porque ficou do lado dos vencedores. Esse documento se encontra no CORREIO
DA PARAÍBA, de 3 de abril de 64, e está aqui citado pela professora Monique.
Esse livro teve uma grande procura pelos alunos de História da Paraíba por-
que é uma das melhores fontes para se estudar de 45 a 64. É um trabalho bastante

264 

 
documentado, feito com depoimentos de pessoas que, como o professor Manuel
Batista, participaram. Hélio Zenaide, Deusdedit Leitão, inclusive Luiz Hugo Gui-
marães também foi entrevistado. O livro se baseia na história oral e fontes docu-
mentais, sobretudo nas fontes colhidas nos jornais da época.
Agradeço o espaço que me foi dado na participação desse evento, onde tive
oportunidade de aprender muito sobretudo com as considerações de alguém que,
além de historiador e teve o privilégio de ter sido testemunha da época, como é o
nosso presidente Luiz Hugo Guimarães.

265 

 
12º Tema:
A IMPRENSA NA PARAÍBA
Expositora: Fátima Araújo

A fala do Presidente:

Convido para participar da mesa a jornalista Fátima Araújo, nossa confreira;


deveria estar conosco o jornalista Antônio Costa, Redator-chefe de A UNIÃO, e
presidente da Associação Paraibana de Imprensa. Por motivo de saúde, aquele
companheiro comunicou-nos sua impossibilidade em comparecer, o que lamenta-
mos.
A expositora, jornalista Fátima Araújo, é sócia do nosso Instituto; é gradua-
da em Letras e Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba; possui
curso de especialização em Comunicação Educacional (URNE, Campina Grande);
tem vários cursos de extensão universitária, inclusive sobre Literatura Brasileira; é
portadora de curso de francês premier e deuxiéme degré, pela Aliança Francesa; fez ain-
da os cursos sobre Problemas do Desenvolvimento Brasileiro, em São Paulo e Ca-
ruaru; curso de Psicologia da Personalidade, pela Fundação Pe. Ibiapina e o curso
de Noções de Biblioteconomia, pela UFPB. Participou de vários Seminários.
Fátima é jornalista militante, tendo atuado na imprensa paraibana em todos
os jornais, e atualmente mantém uma coluna semanal no CORREIO DA PARAÍ-
BA. Historiadora, pesquisadora, tem vários livros publicados, cumprindo-me desta-
car os seguintes: HISTÓRIA E IDEOLOGIA DA IMPRENSA NA PARAÍBA,
1983; HISTÓRIA DA API, 1985; PARAÍBA, IMPRENSA E VIDA, (ensaio que
foi premiado no IV Centenário da Paraíba), 1986; PARAHYBA 400 ANOS, 1985;
SANTA ROZA – UM TEATRO CENTENÁRIO, 1989; ANTÔNIO MARIZ – A
TRAJETÓRIA DE UM IDEALISTA, 1996; e HUMBERTO LUCENA – O
VERBO E A LIDERANÇA, 1999.
Este é o perfil da nossa expositora de hoje, que há treze anos pertence ao
quadro de sócios efetivos deste Instituto.
Passo a palavra à jornalista Fátima Araújo, para falar sobre o tema de hoje,
que é A IMPRENSA NA PARAÍBA.

Expositora: Fátima Araújo (Sócia do IHGP, da União Brasileira de Escritores,

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seção da Paraíba, da Associação Paraibana de Imprensa, da Academia Feminina de
Cultura e da Academia de Letras Municipais do Brasil, seção da Paraíba).

Devo dizer que não vou discorrer sobre a História da Imprensa porque é
uma história imensa, pois o livro que escrevi sobre o assunto – PARAÍBA, IM-
PRENSA E VIDA - tem 407 páginas. Darei uma visão geral, uma visão panorâmi-
ca, falando mais em nível de conscientização e ideologia, que é um tema importan-
te. Aproveito o ensejo para mostrar a vocês o fac-símile do primeiro jornal do Bra-
sil e o primeiro da Paraíba.
Alcançando as condições essenciais para o seu amplo desenvolvimento atra-
vés da evolução dos processos tipográficos, como da especialização dos profissio-
nais em termos mais recentes, a imprensa brasileira hoje está capacitada para formar
e informar a comunidade, não obstante o analfabetismo ainda alto, as falhas do en-
sino e a falta de condições financeiras do nosso povo, causas que reduzem o acesso
aos jornais, infelizmente. Escamoteamento à parte, os filtros, a ideologia dominan-
te, que existe na imprensa, mesmo assim nosso povo ainda se interessa pelos jor-
nais.
Escamoteamento à parte, quer para driblar as amarras da censura, quer para
garantir os interesses das empresas jornalísticas, o fato é que, em princípio, a im-
prensa visa alcançar o fim ideal da promoção do bem comum. Quando falo aqui
em imprensa, me refiro aos jornalistas e não empresas. As empresas jornalísticas
têm outra ideologia; elas querem apenas dinheiro, querem apenas agradar os anun-
ciantes, não estão nem um pouco interessadas em informar a opinião pública.
Mesmo assim, alguns jornalistas passam por cima de tudo e forjam algum processo
nesse sentido.
Se este interesse pró-comunidade é desviado no limiar de sua intenção e os
profissionais de imprensa veem-se às voltas com a preservação dos interesses das
empresas jornalísticas, em prejuízo da comunidade, isto é realmente lamentável.
A liberdade de imprensa, como qualquer outro tipo de liberdade, sofre res-
trições e condicionamentos. Em alguns períodos estanques da nossa história foi a
censura aplicada com a maior severidade, como vocês sabem, durante as duas dita-
duras: a de Getúlio Vargas e a ditadura militarista de 64. Esses foram os períodos
piores da imprensa, intimidando os jornalistas, formadores da opinião pública. Isto
aconteceu várias vezes, não só no Brasil, mas noutros países da América do Sul,
como no Chile, na Argentina e no Uruguai. E não se vá pensar que o mundo de-
senvolvido das grandes potências esteja livre das amarras e dos condicionamentos.

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Basta que tomemos o exemplo dos Estados Unidos.
Há uma rivalidade entre leitores e anunciantes, cada qual querendo tomar
para si o jogo da imprensa. E quando essa imprensa deixa se escravizar de mais pe-
los interesses dos anunciantes os leitores a desprezam, numa maneira de forjar a sua
responsabilidade político-social.
Na verdade, não podemos comparar o caso dos Estados Unidos, onde mais
de 95% da população é alfabetizada, com o Brasil. O bom senso nos diz que o nível
de desenvolvimento de uma nação influi enormemente na conscientização do po-
vo. Principalmente se esse povo é amainado no processo de democratização. No
caso de países desenvolvidos, detentores de problemas sociais em bem menor esca-
la, geralmente as massas não só alfabetizadas, mas também politizadas, conscienti-
zadas, exigem, por sua vez, uma maior eficiência do sistema de informação. O que
infelizmente não acontece no Brasil. No Brasil, nós somos bem mais condiciona-
dos; devido ao poder econômico, nossa imprensa é muito amordaçada e muito li-
mitada em termos econômicos, políticos e ideológicos. Por que? Porque além de
não sermos conscientizados ainda, não temos os recursos que eles têm.
No Brasil, como noutras partes do mundo, onde a imprensa desenvolveu-se
na medida em que também se desenvolveu o capitalismo, as limitações econômicas
têm sido tão fortes quanto as políticas. E o percentual esclarecido da população não
está alienado, nesse sentido. Capta-se, condena-se, rechaça-se esses condicionamen-
tos políticos, econômicos e ideológicos a que se submete a imprensa, porque dela
depende, acima de tudo, o registro torpe ou verdadeiro da história e da nossa lín-
gua. Mas, infelizmente, não podemos fazer nada.
Imprimindo as aspirações coletivas, os jornais registram as mutações semân-
ticas, as ocorrências, daí que se exige uma imprensa livre, conscienciosa, que jogue
limpo com a opinião pública. Por isto lamenta-se a detectação, nessa mesma im-
prensa, de nuances ideológicas pouco animadoras. Isto porque estão pouco com-
prometidas com a verdade e com as mutações que o decurso da história exige.
A observação é válida para a imprensa de todo o Brasil, quase sempre aco-
plada ao aparelho político-jurídico do Estado, no sistema vigente. Em nível de Pa-
raíba, mais especificamente, a ideologia da imprensa continua sendo, de maneira ge-
ral, a dominante, circunstância que não vai mudar tão cedo. Ou, talvez, jamais, a
não ser que mude o curso da história política deste país, com o povo deixando es-
capar o grito de liberdade que há muito está preso em sua garganta.
Só um parêntese. É comum as pessoas condenarem os jornalistas, dizendo:

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esse jornal não é nem oficial, é oficialesco. Ouvi comentarem, outro dia, que num
dia só saíram dez fotos do governador Maranhão, dez fotos de Vilma Maranhão, e
assim por diante. É porque nossos jornais dependem economicamente, politica-
mente, ideologicamente. Não somos nós, os jornalistas. Como técnicos, às vezes
trabalhando em assessorias do governo, fazemos a imagem do governo. Como téc-
nicos nós escrevemos, redigimos as matérias e as lançamos; mostramos para a opi-
nião pública o que governador tal fez, o que o deputado fez, construiu aqui e ali.
Claro, como técnicos nós fazemos. Como o médico consulta seu paciente e passa o
remédio tal.
Nossa ideologia, a gente leva para onde vai. Não deixa em casa, nem dentro
da bolsa. A gente tem essa ideologia. Claro que a gente não vai poder usá-la toda
vida, porque nós dependemos. Nós não temos dinheiro para fazer uma empresa
jornalística e muitos que se lançaram nessa empreitada acabaram sucumbindo. No
passado, tivemos muitos jornais que foram empastelados, incendiados. Jornalistas
que levaram surras, foram presos, levaram tiros, e assim por diante.
Eu conto isso no meu livro. Naquela época as pessoas eram mais idealistas,
hoje, não; o consumismo tomou conta de tudo, invadiu todos os lares através da
imprensa falada e escrita, através da televisão, através da indústria cultural. Então as
pessoas estão mais consumistas e fica difícil sair desse esquema, desse sistema tec-
nológico. Mas, no passado, eram mais idealistas. E o que foi que aconteceu? Sofre-
ram, muitos foram até assassinados, como vocês sabem.
A partir de 1826, quando se fundou o primeiro jornal do nosso Estado –
GAZETA DO GOVERNO DA PARAÍBA DO NORTE – registrou-se na Paraí-
ba uma história bonita de periódicos ecléticos e ideológicos, quase sempre funda-
dos com garra e idealismo. Posso mostrar a vocês um fac-símile do primeiro jornal
da Paraíba, editado em 29 de agosto de 1826 e o primeiro jornal do Brasil, que é a
GAZETA DO RIO DE JANEIRO, de 10 de setembro de 1808, cujos fac-símiles
constam de meu livro citado. Verificando todo esse passado até os dias atuais; digo
até os dias atuais, mas já faz alguns anos que eu terminei meu trabalho, mas pesqui-
sei até cinco anos passados. Fiz pesquisas posteriores, que poderiam caber na sua
segunda edição.
Aliás já está numa terceira edição, só que as pessoas no nosso Estado não se
interessam. É mais fácil se interessarem por beleza, aniversários, festinhas, do que
fazer trabalho da re-edição de um livro. Infelizmente os estudantes de comunicação
precisam de mais do livro e vivem lá em casa me aperreando. Já criei uma sala de

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pesquisas só para os estudantes de comunicação. Ninguém se interessa em re-editar
o livro. Estou falando de todas as instituições, inclusive a Universidade. Mas eu
também não vou chorar lá nos pés deles. Eles façam se quiserem, venham a mim se
quiserem re-editar o livro, se puderem. Não vou me humilhar. Sinto muito, ajudo
como posso os estudantes, colocando parte de minha casa à disposição deles.
Como estava dizendo, verificando esse passado no estudo diacrônico e apu-
rado que fiz, senti, com certa tristeza, que da imprensa apaixonadamente opinativa
do princípio nós involuímos para um tipo de imprensa mais reservada e acanhada
de manifestação. Dentro desta seara controvertida enquadram-se os editoriais dos
nossos periódicos, quase sempre desfigurados, sem o sentido primeiro proposto
pela verdadeira comunicação. Nas opiniões que expressam, estas peças opinativas
deixam transparecer a ideologia dominante de acoplamento ao poder, seja ele polí-
tico ou econômico.
Como vocês sabem, estou apenas realçando os editoriais dos jornais, que é
uma peça importantíssima do jornal, é a opinião do jornal. Elas vêm sempre sem
assinatura, mas é do editor do jornal. É peça opinativa de grande valor, até para a
seriedade da empresa. Antigamente a gente verificava no jornal do século passado
A IMPRENSA, órgão da Diocese, editoriais belíssimos. Muitas vezes eles questio-
navam os atos políticos, o que se fez e o que se há de fazer nesta terra. Muitas vezes
até ajudavam os governantes. Os governantes precisam de críticas para melhorar. O
que acho mais triste é que os governantes procuram castrar a imprensa, pensando
que é bom para eles. Gostam daquele confete jogado o tempo todo em cima deles.
O interessante é deixar que a imprensa fosse como já foi, bem apaixonada, ideoló-
gica, questionando os atos públicos. O que se vê hoje são editoriais bem neutros.
Não obedecem ao critério da proximidade. Quando eles não podem questionar al-
go que está mau no Estado, eles se referem a um tema bem universal. É uma ma-
neira de fugir da proximidade, escapando de questionar ou criticar os governantes
próximos, para não serem atingidos.
Até certo ponto é compreensível a alegação do trauma causado pelo empas-
telamento das nossas folhas, como aconteceu no passado, que destruíram com re-
quintes de perversidade e da mais pura maldade, pelos poderes constituídos. As
pessoas sofreram muito e hoje não estão a fim de apanharem tanto. Mas, não devi-
am ir tão longe, deviam ter mais um pouco de coragem. Aliás, vez por outra a gente
vê um jornalista ou outro corajoso. Vez por outra sai um jornalzinho corajoso. Sai
uma pecinha corajosa dentro dos próprios jornais menos corajosos. E a gente a-

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plaude isso aí. É bom sempre a gente questionar, porque se a gente não questionar
vai ficar um doce só, um confete só, um negócio chato até de ler. A gente fica logo
enojado; tem jornal que não dá coragem nem de abrir.
É uma alienação total, falta de conscientização. Não queremos isso para o
nosso Estado. Queremos é sair desse analfabetismo, baixar o seu índice e melhorar
a nossa conscientização. Nós somos comunicadores para isso. Que é comunicador?
Comunicador é aquele que faz pensar, leva o outro a pensar, a crescer, a evoluir.
Mesmo a suspensão pacífica dessas folhas, com prejuízos morais e materiais
para seus dirigentes, repercutiu muito nos meios intelectuais, mas não justifica bai-
xar a cabeça e deixar de questionar. Não devemos nem olhar para esse passado. E
se olhar, olhar com coragem.
A perseguição aos jornalistas nos momentos ditatoriais ainda hoje repercute
no mundo pensante não só da Paraíba, mas de todo o país. É compreensível, sim,
tudo isto, mas que não se venha justificar nossa mudez, ou o temor ao questiona-
mento, que não se venha justificar o nosso esquecimento como comunicadores da
grande responsabilidade político-social que abraçamos.
Na capital, nós temos três jornais vivos, no momento. São eles: A UNIÃO,
que foi fundada em 3 de fevereiro de 1893, que é o mais antigo; O NORTE, que é
do dia 7 de maio de 1908, o segundo mais antigo; e o CORREIO DA PARAÍBA,
que é do dia 5 de agosto de 1953. São os três principais em circulação. Um oficial e
dois privados, mas que uma vez ou outra apresentam nuances que deixam a questi-
onar. Se eles não têm pedaços oficialescos, como acabei de mostrar, é por conta
dos condicionamentos políticos, ideológicos e econômicos.
Um jornal que seria interessante citar para vocês é o jornal da Diocese – A
IMPRENSA. Em 1897 surge esse jornal, quatro anos depois de A UNIÃO. Era um
jornal católico doutrinário, noticioso, que possui importância na imprensa paraiba-
na e merece um estudo mais apurado. Foi um órgão de projeção, que marcou épo-
ca. Foi fundado em 27 de maio de 1897 por D. Adauto Aurélio de Miranda Henri-
ques, 1º Bispo e 1º Arcebispo do nosso Estado. O primeiro redator-chefe foi o pa-
dre José Tomaz, que trabalhava em conjunto com outro religioso, Manoel Paiva.
Este jornal teve grande aceitação por parte da opinião pública. Era um jornal cora-
joso e trazia editoriais belíssimos, peças opinativas e também reportagens interpre-
tativas bastante recheadas, e para a época foi considerado um jornal maravilhoso.
Além da grande aceitação, ele teve um papel relevante para a nossa sociedade. Foi
despertando a ira de alguns políticos, aqui e acolá saía de circulação, entrava em e-

271 

 
clipse, por falta de recursos, por falta de apoio, tudo por conta de pressões. Até que
na década de 60 ele fechou para sempre. Estão lá somente as coleções arquivadas,
no arquivo da Diocese.
A maioria dos jornais foi efêmera. Houve jornal de sair apenas um número.
Alguns duravam mais, mas a grande maioria dos jornais teve vida efêmera. As cau-
sas principais eram falta de recursos e o baixo índice de analfabetismo, como já falei
aqui.
Não vou me deter sobre todos esses jornais porque seria enfadonho.

A fala do Presidente:

Ouvimos a exposição da confreira Fátima Araújo, que em pinceladas rápidas


referiu-se à importância da Imprensa, examinando seu conteúdo ideológico. O atre-
lamento do profissional ao condicionamento promovido pelas empresas jornalísti-
cas e a subserviência das próprias empresas submetidas às pressões do poder eco-
nômico e do Estado foram abordadas corajosamente pela expositora.
O quadro por ela apresentado na Paraíba, conforme confessou, é um quadro
nacional. Não somos os únicos a sofrer aquelas pressões. Mas, com entusiasmo, Fá-
tima Araújo profliga esse comportamento do comunicador profissional.
A ilustre expositora lembra, também, uma das coisas mais perversas que o-
correm na vida jornalística, que é a censura. Censura que se exerce das formas mais
aviltantes, como é o caso dos empastelamentos dos periódicos, por ela citados. Es-
se tipo de censura é o mais violento.
É realmente uma das piores coisas que podem acontecer com a imprensa. A
Paraíba nunca ficou isenta dessa mancha. No passado tivemos problemas sérios, até
durante o Império. A censura não dá chances à conscientização que a palestrante
questiona aqui com certa veemência.
Na minha vida profissional na imprensa, quando trabalhei no jornal A U-
NIÃO, entre 1941 e 1944, conheci a força do Departamento de Imprensa e Propa-
ganda do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Era o famoso DIP. Aqui na Paraíba era
DEIP – Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda.
Martha Falcão, em aparte:
Esse DEIP já existia no governo de Argemiro de Figueiredo. Ele foi criado
dois anos antes do criado por Getúlio.
Luiz Hugo Guimarães, retomando a palavra:
Essa eu não sabia e agradeço a informação da confreira, que sei expert sobre
o Governo de Argemiro de Figueiredo, sobre o qual tem um estudo completo.
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Mas o fato é que só me deparei com esse DEIP naquela oportunidade em
que era funcionário de A UNIÃO, entre 41 e 44. O interventor era Ruy Carneiro,
que assumira o Governo da Paraíba em 1940. O que Ruy conseguiu com seu pres-
tígio junto a Getúlio Vargas foi colocar em sua direção um civil, o Dr. João Gon-
çalves Toscano de Medeiros. E a Paraíba foi o único Estado que teve, naquela oca-
sião, um civil na direção daquele órgão. Nos outros Estados ele era chefiado por
um militar. O Diretor Geral do DIP era o capitão Amílcar Dutra. Apesar de Dr.
João Medeiros se tratar de um homem de bem, intelectual, médico renomado,
sempre houve atritos entre o órgão oficial e aquele Departamento. Era diretor de A
UNIÃO o jornalista Ascendino Leite e Secretário Geral o jornalista Octacílio Nó-
brega de Queiroz. O DEIP funcionava no prédio do atual Palácio da Justiça, na ala
esquerda do lado da rua da Palmeira, onde anteriormente esteve instalado o Tribu-
nal Regional Eleitoral. Toda a matéria elaborada tinha que ir para lá a fim de passar
pela censura. O que passava sem censura eram as notícias favoráveis ao Governo,
aos aliados da grande guerra. Mesmo assim havia uma fiscalização para não escapar
nada de mais, pois na redação havia alguns germanófilos. Ascendino Leite, apesar
de se dar bem com João Medeiros, se constrangia bastante com aquela situação. A
redação, portanto, sob censura, nos constrangia.
Lembro-me do acontecido com o jornalista Natanael Alves, grande jornalis-
ta, que era o editorialista de O NORTE, e certa vez redigiu um editorial que não
agradou a direção do jornal. Ele foi simplesmente substituído, foi dispensado do
jornal, o que foi lamentável.
Isso me fez lembrar que em certa época dos anos 70 fui o editor do JOR-
NAL DE AGÁ, na primeira fase daquele jornal de sociedade. O jornal de Heitor
Falcão era composto e impresso em a A UNIÃO, desde o governo de Ivan Bichara
e passou para o governo de Tarcísio Burity. Tínhamos um colunista de Campina
Grande – Wiliam Tejo – que escrevia sobre política. Na sua coluna ele vinha sol-
tando umas letrinhas que não agradara ao governador. Cheguei a ouvir uns comen-
tários falando para eu prestar mais atenção à coluna de Tejo. Já existiam pressões
sobre os “causos” que José Cavalcanti contava em sua festejada coluna PAPO FU-
RADO. O interessante é que as mulheres da sociedade, que hoje têm o apelido de
socialite, reclamavam das irreverências aos seus maridos, mas eram as primeiras a le-
rem a coluna de Zé Cavalcanti. Era uma censura velada.
Num sábado, estava acabando de fechar o jornal quando fui chamado à Di-
retoria de A UNIÃO. Fui lá e encontrei Natanael Alves, que era o Superintendente,

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e Gonzaga Rodrigues, que era o Diretor Técnico. Natan, como nós o chamávamos,
Natan disse: já vimos o artigo de Tejo que vai sair amanhã e sugiro que você tire o
artigo para não criar problemas, se não o jornal não vai mais poder sair aqui na A
UNIÃO. Foi claro. Mas notei que seu semblante era lívido. Não me contive. E dis-
se-lhe: estou impressionado com você e Gonzaga Rodrigues. Como é que vocês
vêm me pedir para fazer censura no jornal? Você não se lembra que saiu de O
NORTE por isso? E vinham as evasivas: você compreende, isto é um jornal oficial.
Também fui incisivo. – Quem mandou fazer essa censura foi Burity? Interessante é
que há poucos dias Burity dera uma entrevista elogiando a liberdade de imprensa.
Indignei-me, mas não censurei o jornal do qual era o editor. Também foi o último
número editado na A UNIÃO. Isto é a CENSURA
Há muitos casos de que fui testemunha ocular, mas que não cabe neste de-
bate relatar. Esses exemplos já são o bastante.
O jornalismo é uma das profissões mais difíceis de se exercer sem contrariar
os princípios do profissional, da sua formação. E há uma coisa pior que a CEN-
SURA. É a AUTOCENSURA. Trabalhando sobre a pressão do empresário que
controla a política do grupo empresarial do dono do jornal, política de interesses
econômicos e até partidários, com n + k recomendações, restrições, etc. o jornalista
começa a se marginalizar, a se indefinir, a se duvidar. Devo dizer isso, ou não? O
profissional mutila seu pensamento, sua vocação vai para o brejo.
Lembro-me também dum episódio ocorrido por ocasião da visita do presi-
dente Geisel à Paraíba. Era Secretário de Comunicação nosso confrade Hélio Ze-
naide, com quem sempre mantive excelente camaradagem, como ainda hoje. Hélio
até mantinha no JORNAL DE AGÁ uma seção intitulada RONDA DOS AR-
QUIVOS, uma excelente coluna onde ele liberava seus arquivos implacáveis e bem
cuidados. Hélio me chamou e disse que tinha incluído meu nome no rol dos jorna-
listas que participariam do evento. Conseguimos fotos do arco da velha do general
Geisel, no tempo em que ele era tenente e foi Secretário das Finanças no Governo
de Anthenor Navarro. Preparamos um caderninho especial. No Hotel Tambaú es-
tive com a equipe do Jornal do Brasil, que veio fazer a cobertura da visita. Forneci-
lhe até alguns subsídios e inclusive uma foto que iria sair no jornal e que também
saiu no Jornal do Brasil. Mas, isso não vem ao caso. Quando foi na véspera da che-
gada de Geisel, Hélio Zenaide chamou-me para dizer: seu nome foi vetado para a
visita de Geisel. Não fiz cara feia, era o esperado. É natural, eu era um cidadão cas-
sado pelo golpe de 64.

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Estou registrando esse fato só para complementar a força da censura.
A “fala do Presidente” hoje foi além do habitual, que se cinge sempre a um
pequeno comentário sobre os debates. Mas, aproveitei a ausência do debatedor ofi-
cial, para tecer algumas considerações objetivas, tentando complementar a oportu-
na exposição de Fátima Araújo sobre o valor da conscientização na imprensa.
Aliás, se vocês quiserem conhecer a evolução da nossa imprensa não há ou-
tra saída senão ler os trabalhos de Fátima Araújo. Se bem que sejam livros esgota-
dos, o Instituto os tem em sua biblioteca à disposição dos interessados.
Vamos ceder, agora, a palavra aos participantes.

1º participante: Guilherme d’Avila Lins:

Referindo-me à fase de censura da última ditadura, a de 1964, eu me lembro


que no ESTADO DE SÃO PAULO havia um movimento de resistência que na
primeira página, quando a notícia não podia ser dada, eram publicados receitas de
bolo, ou um poema de Camões. Era a resistência possível. O que eu queria saber é
se na Paraíba, naquela época, houve esse nível de resistência possível.
Fátima Araújo:
Houve, de mais, até. Muitas vezes o jornal estava quase todo pronto e du-
rante a madrugada os censores invadiam o jornal e obrigavam a tirar imediatamente
a tirar uma notícia., tapar o buraco com qualquer matéria. Luiz Hugo sabe disso.
Um censor lia a matéria e o outro ia dizendo: tire isso, tire esse pedacinho, tire toda.
Marcus Odilon, aparteando:
Em 1985, na campanha municipal, a censura era tão grande que o COR-
REIO DA PARAÍBA e O NORTE apareciam com espaços vazios. Tratava-se de
matéria eleitoral, com respostas necessárias.
Fátima Araújo:
Às vezes a censura era feita em cima da hora, não dando tempo para a colo-
cação de uma matéria no espaço, que assim ficara vazio.

2º Participante: Jeová Mesquita:

Minha mulher tem muita raiva quando vou fazer um curso. Mas eu adoro
fazer curso. Certa vez fui fazer um curso de tiro ao alvo no stand da Polícia Militar.
Meu companheiro de curso foi o jornalista Paulo Brandão. Na última aula, diante
do alvo, atiramos. Ele gostava de andar com o revólver na meia. Como vocês sa-
bem, Paulo Brandão era um empresário e um dos donos do jornal CORREIO DA
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PARAÍBA. Uma semana depois de terminado o curso, doutora Fátima, ele ia sain-
do da sua empresa, ali na estrada do Recife, quando foi metralhado dentro do carro.
Já estavam à espreita de Paulo Brandão. Dizem que foi uma consequência do que o
jornal CORREIO DA PARAÍBA vinha publicando contra o Governo do Estado.
Então eu queria perguntar à ilustre palestrante se ela tem alguma informação do
motivo porque esse diretor de imprensa foi metralhado assim, uma coisa tão absur-
da. Até hoje ninguém sabe porque essa violência contra esse moço. O primo dele é
hoje um próspero empresário, que era sócio dele.
Fátima Araújo:
Eu creio que essa dúvida jamais será esclarecida. É um problema de polícia e
até hoje fizeram mil investigações e como as pessoas envolvidas eram e continuam
sendo muito poderosas, então penso que não vão ser esclarecidas jamais. Acho
muito difícil, não que o crime seja perfeito. Deve haver quem saiba e acho que
houve até testemunha, mas não vai ter coragem de falar, jamais, mesmo porque se-
rão outras vidas que serão perdidas. Mas, houve também problema pessoal, não foi
somente de imprensa. Porque aquele jornalista frequentava a casa de alguns que es-
tariam possivelmente envolvidos. Houve também uma história que alguém deu um
tapa no rosto de alguém, segundo ouvi no nosso jornal. Não foi só motivo de im-
prensa, houve coisa pessoal, intrigas, picuinhas, antipatias. Só a polícia pode escla-
recer isso, um dia, ou nunca.

3º participante: Marcus Odilon:

A UNIÃO começou como órgão do Partido Republicano, depois passa para


o Estado. Como foi feita essa transação? Porque não foi bem explicado, ficou assim
como segredo de confessionário. O Partido Republicano, que à época pertencia a
Álvaro Machado, recebeu um gordo dinheiro de indenização ou se foi porque o
jornal estava falido e o Governo do Estado socorreu. Há alguma explicação para is-
to?
Fátima Araújo:
Não, apenas o Governo abraçou o ideal do jornal, ficou com o jornal. Di-
zem que Álvaro Machado recebeu essa gorda quantia que você está falando, mas
nunca ficou registrado. Conforme o participante registra, é um assunto questioná-
vel.

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4º participante: Martha Falcão:
Nossa história tem muitas lacunas e precisa ser trabalhada nesse assunto.
Um desses aspectos lacunosos é o período da imprensa durante as interventorias.
Esse período das interventorias é muito pouco trabalhado, mesmo nos cursos. Es-
tuda-se a República Velha, estuda-se a República Oligárquica e se dá um pulo para
depois do Estado Novo. Não é somente em relação à Imprensa. Mesmo o trabalho
sobre a imprensa, e um dos melhores trabalhos é o da expositora de hoje, é pouco
estudado entre 30 a 40 e aí vamos encontrar um censura muito forte na intervento-
ria de Anthenor Navarro. Existe um confronto entre a questão da reconstituciona-
lização do país e da não reconstitucionalização. No primeiro momento, quando os
tenentes estão no poder, eles julgam que se o Brasil se constitucionalizar as oligar-
quias vão voltar ao poder. Então lutam com todas as suas forças. Nesse momento
existe um jornal aqui de ex-epitacistas que vão fundar o Partido Republicano Liber-
tador, liderados pelo grande Boto de Menezes, juntamente com Joaquim Pessoa,
que também rompe com Anthenor Navarro, vamos ver que o próprio Tancredo de
Carvalho funda um jornal muito forte – BRASIL NOVO. Ele surge em Campina
Grande e depois vem ter sede em João Pessoa. Esse jornal prega a reconstituciona-
lização do país, e é invadido pela polícia da capital, cujo chefe era um dos nossos
consócios daqui, que foi um grande professor de Direito do Trabalho, que era Cló-
vis Lima. Manoel Moraes, que foi Chefe de Polícia também andou perseguindo jor-
nais. O jornal A LIBERDADE, dirigido por Aderbal Piragibe, também foi perse-
guido. Durante a interventoria de Anthenor Navarro, essa perseguição foi muito
forte. A partir do momento que Getúlio Vargas firmou um acordo com os derrota-
dos da Revolução Constitucionalista de 32, as antigas oligarquias derrubadas lidera-
das por São Paulo, vamos ver que a situação muda. A UNIÃO passa, não a comba-
ter a reconstitucionalização do país, mas passa a apoiá-la, porque agora o governo
provisório está apoiando. É o caso do conteúdo do jornal A UNIÃO. Até a entrada
do Brasil na guerra, A UNIÃO, como a A IMPRENSA, é um jornal totalmente an-
ticomunista. É um jornal que fala no perigo vermelho toda hora. Existiam colunas
de propaganda totalmente declarada pelo integralismo no jornal A IMPRENSA,
que era um órgão de propaganda clara pró-integralismo. Nós tínhamos vários mu-
nicípios onde foram fundados núcleos da AIB, inclusive Pirpirituba, Campina
Grande, Santa Rita. O núcleo de Santa Rita chegou a juntar 150 pessoas associadas,
inclusive o Presidente de Honra foi o Dr. Virgínio Veloso Borges, dono da fábrica;
Dr. Manoel Veloso Borges foi escolhido como orador. Houve um comício muito

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grande na praça de Santa Rita, acabando com os donos das usinas, porque era o
confronto entre os aliancistas e os perrepistas. E a imprensa publica trabalhos enal-
tecendo o bloco que está no poder. A UNIÃO, órgão do governo, segue a linha de
Getúlio Vargas. À medida que o Brasil entra na guerra, que vai se ombrear ao lado
da União Soviética, o jornal muda de posição.
De 1935 a 40 vamos ter o governo de Argemiro de Figueiredo e dentro des-
se período vamos ter a intentona comunista. Neste momento a imprensa publica os
relatórios do delegado de polícia da capital, no caso era Praxedes Pitanga. E aqui na
Paraíba há uma espécie de farsa para se fazer um movimento no sentido de que a-
qui também havia muitas células participativas do movimento. Depois a história
mostra que era mais uma farsa. Há um inquérito, as pessoas são presas, são tortura-
das, o livro SANTA CRUZ E O JORNAL DO POVO está aí. Mas isso precisa ser
muito trabalhado, em nível específico sobre o papel da Imprensa no Estado Novo.
É uma das lacunas existente na História da Paraíba. Há muita coisa rica tanto em A
UNIÃO como no jornal A IMPRENSA e jornais como BRASIL NOVO, de Tan-
credo de Carvalho. Há até um trabalho biográfico dele em que ele mostra toda a
trajetória e o trabalho MINHA TERRA, de Bôttto de Menezes, que também tem
muita coisa sobre a Imprensa.
Era só essa a contribuição que queria dar.

5º participante: Maria do Socorro Xavier:

Quero parabenizar a exposição de Fátima, não só sua palestra, mas o livro


dela, que resgata muito bem a Imprensa na Paraíba. Gostaria de perguntar a Fátima
Araújo se na Imprensa paraibana não houve um movimento no seio do próprio
jornalismo para que essa liberdade de imprensa se concretizasse ou pelo menos um
protesto contra a castração da liberdade de expressão plena nos periódicos paraiba-
nos.
Fátima Araújo:
Não. Um protesto organizado, algo formalizado, não houve. O protesto de
todos os jornalistas, desde o princípio, é perene. Os jornalistas vivem sempre for-
jando, tentando escrever mais, tentando falar mais. Uma vez ou outra eles são po-
dados, são ameaçados, Luiz Hugo deu mil exemplos aqui. Os jornalistas são cha-
mados a atenção, são demitidos. Tudo isso é uma maneira de protestar. Estão sen-
do podados, mas por trás estão protestando, vão tentando. Nós aqui que fazemos
as pesquisas vamos mostrando isso, mostrando a maneira de questionar, porque se

278 

 
não questionar será pior. O protesto existe, existirá sempre. Muitas vezes um pro-
testo aberto, não tão velado. Movimento, assim como uma passeata, isso não hou-
ve. Existe no dia-a-dia nas empresas jornalísticas. Existe ideologia, sim entre os jor-
nalistas, não entre as empresas jornalísticas. Protesto organizado não há. Uma gre-
ve, nem pensar. Estão atrelados ao poder, não podem nem falar, nem espernear.
Vão perder o emprego.
Luiz Hugo, tomando a palavra:
A Associação competente, que é a Associação Brasileira de Imprensa, tem
sua importância, no Brasil. Herbert Moses, que foi um dos presidentes que demo-
rou mais tempo no comando da ABI, era sempre ligado ou amigo dos governantes,
mas havia momentos em que ele resistia e dava pronunciamentos fortes, e brigava
como ele tinha acesso às autoridades, falava diretamente com os governantes. Há
posições interessantes dele, como de Barbosa Lima Sobrinho, também presidente
da Associação Brasileira de Imprensa.
Na Paraíba, quem dominou durante muito tempo a Associação Paraibana de
Imprensa – API, foi o jornalista José Leal, nosso consócio. Durante quatro anos fui
secretário da API, quando ele foi presidente, e sou testemunha de quanto ele de-
fendia o jornalista. Ele tinha certa independência, não uma independência total,
mas levava seus protestos aos governantes. José Leal deixou a direção de A UNI-
ÃO quando um erro de revisão envolveu o nome da mulher de Ruy Carneiro e re-
cebeu ordem para demitir todos os revisores do turno. Dispensou-os, mas pediu
demissão do cargo de Diretor. Foi justamente quando Samuel Duarte, que era Se-
cretário do Interior, nomeou Ascendino Leite para diretor de A UNIÃO.
As posições de José Leal eram de centro-direita, um liberal, e chegou a per-
tencer à Esquerda Democrática. Mas quando acontecia um caso com um jornalista,
mesmo que ele fosse comunista, ele defendia com unhas e dentes a situação do
companheiro. Era intransigente na defesa do jornalista.
Em 1964, quando Adalberto Barreto era presidente, a API andou convo-
cando reuniões, fazendo chamamentos, mas não tinha como, pois a metade já esta-
va presa e o resto estava no meio do mundo. Mas, não foi propriamente a posição
da Associação, foi de um grupo ideológico.

6º participante: Odilon Ribeiro Coutinho, membro do Conselho Estadual de Cul-


tura:

Como Cristo, eu vim para confundir. Vim para agitar um pouco. Até porque

279 

 
eu acho que esses Seminários só valem na medida em que provocam agitação, um
debate e até paixão.
Não tive a sorte de chegar aqui a tempo de ouvir a palestra de Fátima Araú-
jo. Tive um compromisso a que não pude faltar, prestou-se uma homenagem ao
Dr. Eurípedes Tavares, que foi mais de 30 anos Secretário do Tribunal de Justiça e
eu sou seu conterrâneo estrito, porque ele nasceu no Engenho Central, a poucos
metros da casa onde nasci. Dr. Eurípedes era pai do sócio deste Instituto, Monse-
nhor Eurivaldo Tavares. Perdi a oportunidade e me frustro por isso de deixar de
ouvir Fátima Araújo..
Mas gostaria de dar um pequeno depoimento a respeito da história da Im-
prensa na Paraíba. Dizem que o diabo é temível, não por ser diabo, mas por ser ve-
lho. Porque já viu muita coisa, aprendeu muita coisa, acumulou muita vivência,
muita experiência. E é isso que quero trazer aqui, nesta reunião, no o intuito de
contribuir um pouco para se ver o papel desenvolvido pela imprensa neste século,
já que estamos comemorando no programa deste Instituto Histórico os 500 anos
do Brasil.
A imprensa na Paraíba surgiu nos fins do século passado e teve uma grande
atuação no começo deste século. Na segunda metade do século, a partir do último
terço da segunda metade, tenho a impressão que o papel da imprensa foi um papel
dócil, subordinado, sem independência e sem personalidade.
A imprensa geralmente tem uma significação muito grande para o historia-
dor. Não apenas o historiador, mas o sociólogo, o antropólogo vão buscar na Im-
prensa elementos que atendem à sua pesquisa e permitem chegar a conclusões nas
suas respectivas áreas da maior expressão e da maior significação. Gilberto Freyre,
por exemplo, apoiou grande parte das suas conclusões sociológicas nos anúncios de
jornais, nos velhos jornais centenários, no Diário de Pernambuco, que é o mais an-
tigo jornal da América Latina e de outros jornais do Império. Anúncios de escravos
fugidos, anúncios de comportamentos políticos, anúncios de partidos que adota-
vam certas decisões e que refletiam nos jornais as decisões tomadas, tudo isso foi
um material muito importante usado por Gilberto Freyre.
Do ponto de vista histórico, José Antônio Gonçalves escreveu um trabalho
sobre o Diário de Pernambuco e a história pernambucana, que é um trabalho mo-
delar. E aqui está uma especialista que não me deixa mentir, que tem realizado um
trabalho notável, inclusive tem se arrimado em pesquisas feitas na imprensa.
No fim do século passado tivemos uma imprensa aguerrida. Logo depois da

280 

 
República, mas uma coisa muito incipiente. No começo do século nós tivemos jor-
nais de oposição que tinham um admirável espírito de independência. Mas o jornal
– a nau capitânia, como costumo chamar – que orientou a mídia na Paraíba, desde
os fins do século passado, foi A UNIÃO. A UNIÃO foi uma grande formadora de
jornalistas. Ainda hoje eu imagino que a verdadeira Faculdade de Jornalismo na Pa-
raíba é A UNIÃO. Mas a A UNIÃO é um jornal sectário. Do ponto de vista histó-
rico, o depoimento de A UNIÃO é um depoimento suspeito porque foi um jornal
sempre atrelado aos interesses do poder. Não foi um jornal imparcial. Mesmo que
não tivesse sido imparcial, se porventura acolhesse algumas opiniões ou movimen-
tos de oposição, ele expressaria a verdade histórica da época.
A UNIÃO ficava sempre a serviço dos governos, como até hoje. Uma coisa
interessante é que os governos estaduais tinham os seus jornais logo depois da Re-
pública. No Rio Grande do Norte houve um grande jornal em que Luís da Câmara
Cascudo colaborou intensamente, que foi A REPÚBLICA. A REPÚBLICA durou
até poucos anos atrás, depois foi fechada pelo próprio governo do Rio Grande do
Norte, que a manteve durante décadas.
A UNIÃO é o único jornal oficial que ainda sobrevive, um jornal a serviço
da propaganda do governo e que está sempre a serviço de interesses grupais. Por is-
so mesmo, é um jornal de significação histórica relativa porque apenas reflete o
ponto de vista de um dos lados.
A imprensa de oposição é que permite fazer o equilíbrio entre as opiniões
governamentais. Nas primeiras décadas deste século havia uma aguerrida imprensa
de oposição, que tinha coragem e bravura cívica admiráveis. Hoje, isso tudo está
completamente abafado. Temos A UNIÃO, que a meu ver não consegue a eficiên-
cia que tinha antigamente. No tempo, por exemplo, de um Carlos Dias Fernandes.
No seu tempo A UNIÃO teve um papel importantíssimo, inclusive na formação da
mentalidade jornalística da Paraíba, na formação de pessoal. Foi realmente o órgão
universitário de que nós dispúnhamos para a formação do pessoal dedicado ao jor-
nalismo. E era um tempo muito mais romântico, muito mais objetivo e muito mais
verdade do que o de hoje.
Eu duvido muito da formação universitária dos jornalistas e acho que é uma
forma de corporativismo. Hoje o homem que tem a vocação se não passar pela U-
niversidade não tem acesso às redações. É uma coisa que desfalca o jornalismo bra-
sileiro de talentos vigorosos.
Nas primeiras décadas do século havia um jornalismo de oposição que per-

281 

 
mitia estabelecer o equilíbrio entre as opiniões da situação e as da oposição. E aí o
historiador poderia navegar. Era uma navegação que se fazia através de escolhos.
Depois houve uma degradação. Hoje acho que a imprensa está totalmente degrada-
da. A UNIÃO não tem mais a significação, a expressão de antigamente e os jornais
existentes, todos eles, se portam como empresas; estão a serviço de quem pagar
mais. De modo que hoje é muito difícil você chegar a algum resultado histórico vá-
lido se você se submete à leitura dos jornais. Se pegarmos os jornais de dez anos a-
trás não vamos chegar a um resultado histórico válido, porque os jornais, já naquele
tempo se subordinavam aos interesses imediatistas e faziam o jogo empresarial de
quem pagasse mais. A UNIÃO sempre expressa o ponto de vista do Governo com
um sectarismo exemplar, o que retira de A UNIÃO e retira dos jornais atuais qual-
quer sentido de autenticidade histórica que permita ao historiador fazer a sua nave-
gação com segurança. De modo que se fizermos um balanço da imprensa neste sé-
culo o balanço terá de ser negativo. A imprensa está degradada. Não temos mais
aqueles românticos jornais do começo do século que se atiravam contra o chamado
poder constituído com uma valentia admirável e desinteressada, arrostando, os jor-
nalistas, todos os riscos, inclusive da prisão, das represálias violentas e até do em-
pastelamento do jornal. Isso tudo desapareceu. E vivemos hoje melancolicamente
um tempo de degradação.

7º participante: Joacil de Britto Pereira:

Também não tive a satisfação de ouvir a exposição, que creio tenha sido bri-
lhante, da ilustre confreira Fátima Araújo, pelo mesmo motivo já apresentado na
justificação de Odilon Ribeiro Coutinho. Como adendo, informo que representei o
Instituto Histórico na homenagem prestada ao pai do nosso caro confrade Monse-
nhor Eurivaldo Caldas Tavares.
Não vou debater propriamente, não vou contestar, mas gostaria de prestar
aqui uma homenagem muito significativa por si mesma, não por minhas palavras,
aos jornalistas corajosos de antanho. A Gama e Melo, que fundou A REPÚBLICA
para combater a oligarquia de Álvaro Machado, e com que bravura cívica, com que
patriotismo, com que coragem paraibana ele se portou. Também a Artur Aquiles,
que dirigia O COMÉRCIO, que pagou caro com o empastelamento do seu jornal
diante da intolerância do poder. Ainda a Antônio Bôtto de Menezes, diretor de O
COMBATE, o único político que se elegeu só pela capital, que era como um braço
de mar bravio na oposição que desencadeava contra o poder constituído de então e

282 

 
fazia a maré cheia e a maré vazante, levando as multidões ovacionando para aplau-
di-lo sempre, por sua coragem e pelo seu destemor. Ainda a José Leal, que também
teve uma atitude de coragem, embora sobranceira, mas sempre permanente. Foi ele
que aqui fundou a Esquerda Democrática e o Partido Socialista Brasileiro, arros-
tando contra o poder e contra seus próprios parentes, quando José Américo era o
nosso emblema maior de grande líder nacional, e parente bem próximo de José Le-
al. Esses homens devem merecer a nossa homenagem no dia em que, neste Institu-
to, se fala sobre a Imprensa na Paraíba. Foram grandes intérpretes das aspirações e
das inspirações populares de uma Paraíba brava e rebelde. Esta é a homenagem
quero prestar neste momento, pedindo a atenção e o apoio de todos os presentes.
(muitas palmas)

A fala do Presidente:

Vou confessar a vocês que estava protelando o encerramento do debate, jus-


tamente aguardando Joacil Pereira e Odilon Ribeiro Coutinho. E para coroar a pa-
lestra da nossa confreira Fátima Araújo, tudo isso que vocês disseram com tanta e-
loquência e com vibração, Fátima Araújo disse com a serenidade da jornalista, da
mulher que sabe dizer as coisas bem devagarzinho. Ela contou aqui, em linhas ge-
rais, esses problemas do jornalismo, do jornalista e das empresas jornalísticas.
O Instituto Histórico está cada vez mais agradecido pela presença de vocês,
quem vêm trazer seu contributo a este nosso debate que fará, não tenham dúvida,
na história deste Instituto um dos seus pontos marcantes.
Nós faremos, sem dúvida, os ANAIS destes debates e daremos, com isso,
uma contribuição à historiografia paraibana.
Agradeço a presença de todos. Está encerrada a sessão.

283 

 
13º Tema:
A IGREJA NA PARAÍBA
Expositor: Manuel Batista de Medeiros
Debatedor: Eurivaldo Caldas Tavares

A fala do Presidente:

Formarei a mesa dos trabalhos convidando o professor Manuel Batista de


Medeiros, nosso associado e expositor de hoje; convido nosso consócio Monse-
nhor Eurivaldo Caldas Tavares, que será o debatedor; o acadêmico Joacil de Britto
Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras.
O tema de hoje é A IGREJA NA PARAÍBA. O Instituto tem a felicidade de
possuir no seu quadro duas figuras destacadas, uma que pertence ao clero atuante e
outra que pertenceu, mas continua vinculado, que são altamente qualificadas para
nos trazer informes sobre a importância da Igreja na Paraíba, o que quer dizer a
importância da Igreja na História do Brasil.
Será expositor do tema nosso companheiro Manuel Batista de Medeiros, que
é uma pessoa bastante qualificada para este mister.
Nosso expositor é bacharel em muitas coisas. Pertenceu ao Seminário Dio-
cesano da Paraíba, onde foi ordenado padre em 1950; é bacharel em Línguas Lati-
nas, em Ciências Jurídicas e Sociais, em Filosofia; tem mestrado em Educação; foi
professor de Latim no Liceu Paraibano e de Literatura Portuguesa na Universidade
Federal da Paraíba e é professor de Direito Civil na UNIPÊ; também foi professor
de Latim, Português, História Eclesiástica Primitiva, Direito Canônico no Seminá-
rio Maior da nossa Arquidiocese; fundador e primeiro reitor da UNIPÊ; foi mem-
bro do Conselho Universitário da UFPB; é jornalista, escritor, membro da Acade-
mia Paraibana de Letras, da qual foi presidente por dois mandatos; foi diretor do
jornal católico A IMPRENSA. Seu currículo é imenso. Diante dessa apresentação,
sinto que o plenário está ansioso para ouvi-lo.
Passo a palavra ao professor Manuel Batista de Medeiros.

Expositor: Manuel Batista de Medeiros (Sócio do Instituto, ex-presidente da


Academia Paraibana de Letras, bacharel em Línguas Latinas e Direito, Mestre em
Educação e Filosofia, fundador e professor da UNIPÊ, ex-sacerdote, jornalista).

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1. Introdução.

Inicialmente, agradeço as palavras do nosso Presidente e se eu fosse a meta-


de do que ele disse, eu estaria muito satisfeito.
Antes de fazer a minha falação, gostaria de ler um trecho da bula Sublimes
Deus, do Papa Paulo III, endereçada aos índios da América.
Diz o Papa: “Pelas presentes letras decretamos e declaramos, com nossa autoridade apos-
tólica, que os referidos índios e todos os demais povos que daqui por diante venham ao conhecimen-
to dos cristãos, embora se encontrem fora da fé de Cristo, são dotados de liberdade e não devem ser
privados dela nem do domínio de suas coisas e ainda mais que podem usar, possuir e gozar livre-
mente esta liberdade e não devem ser reduzidos à escravidão, e que é irrito, nulo e de nenhum valor
tudo quando se fizer, em qualquer tempo, de outra forma. Papa Paulo III, Bula Sublimes Deus,
1537”. Bula dirigida aos cristãos das Índias Ocidentais.
Tem aqui, também, uma frase do jesuíta padre Manoel da Nóbrega: “Essa
terra é a nossa empresa”.
Louvo a feliz iniciativa da nossa Casa em promover comemorações da pas-
sagem da Paraíba nos 500 anos de Brasil, enquanto da parte do Estado e da Prefei-
tura da capital o que se ouvem são discussões sobre quem realizará o pior reveillon
do ano 2000, que muitos confundem com o início do terceiro milênio, nenhum ór-
gão oficial, que eu saiba, se souberem me digam para não fazer acusação indevida,
se propôs ainda celebrar o meio milênio da História do Brasil.
Em Portugal já faz dez anos que se estudam os eventos históricos do 500º
aniversário do descobrimento, da posse, e eu chamo também da invasão, da terra
brasílica, também chamada de Santa Cruz. Comissão para efetuar as comemorações
do próximo reveillon, com muita austeridade, já se criou, enquanto que se o Conse-
lho Estadual de Cultura sabe que o Brasil está a poucos meses de fazer seus 500
anos, eu ignoro se ele sabe. Entretanto, esta é magnífica oportunidade, Sr. Presiden-
te, de a pátria, debruçando-se sobre si mesma, fazer oportuna análise sobre o que
foi, o que é e sobre o que pretende ser. Este é um precioso momento de reflexão
antropológica, histórica, política, cultural e religiosa sobre nossas raízes e o nosso
caminhar nestes 500 anos de História do Brasil.
Quando vejo que só esta Casa realiza aquilo que outros deviam cumprir, eu
parabenizo nosso Presidente pela iniciativa de realizar essas comemorações. Para-
béns, Sr. Presidente. (palmas)

285 

 
2. Análise e não história.

No meu discurso de posse na cadeira que aqui tem como patrono um gran-
de historiador eclesiástico da Paraíba e do Rio Grande do Norte, Monsenhor Fran-
cisco Severiano, oração que leva o título HISTÓRIA DESNUDA, espécie de en-
saio que enfocou a Filosofia da História, levantei ali a tese de que o historiador não
pode e não deve reduzir o fenômeno social ou os fatos históricos sobre que traba-
lha, à sua própria conceituação ideológica, filosófica ou mesmo religiosa. Por outras
palavras, quero afirmar claramente que quem tratar de um fato histórico de nature-
za sociológica católica não deve, necessariamente, ficar coactado ao dogmatismo de
sua religião. É o que agora não faço.
Assim, no que diz respeito aos 400 anos de história religiosa da Paraíba, fujo,
de caso pensado, ao reducionismo ideológico. Como, de outra parte, evito, neste
momento, tentar repetir aqui datas, fatos, nomes, frases de Bispos, de Abades, etc.,
etc. que outros, com muito mais competência do que eu, já fizeram e podem fazer.
Poderia me comparar com Wilson Seixas, com Maximiano Machado, Monsenhor
Eurivaldo, com Francisco Lima, com Francisco Severiano e outros, só para citar os
mais aproximados de nós? Tudo que vou afirmar sobre a história da eclesiologia ca-
tólica brasileira deve ser aplicado ao ângulo da História da Igreja na Paraíba. A Pa-
raíba, meus senhores, é um pedaço deste Brasil, sem a qual não se escreve a Histó-
ria do Brasil e nem da política e nem da cultura e nem da arte. Paraíba é Paraíba e é
muito mais do que 1930. (palmas)
Entendo ser muito mais lucrativo, desde o ponto de vista científico, que em
lugar de meros exercícios repetitivos de datas, nomes e fatos, se tente, aqui, uma li-
vre análise antropológica, por mais singela que seja, do que a Igreja fez desde aquele
século que Taine chamou de o maior século da História. Eu pensava até que era o
século de Péricles, o século V antes de Cristo, mas Taine acha que o maior século
da História foi o 1500.
Creio que a nossa pequena Paraíba é muito rica culturalmente falando e que
tal riqueza precisa ser explorada sobre todos os ângulos. Até acho ingenuidade se
afirmar que a História da Paraíba se reduz ao evento policialesco de 1930.

3. A Igreja e o Padroado Luso-brasileiro.

O rei português D. João III escreveu ao Governador Geral do Brasil: a prin-


cipal causa que me levou a povoar o Brasil foi que a gente do Brasil se convertesse
à nossa Santa Fé Católica.

286 

 
É o rei quem está dizendo, não é o Papa, nem o Bispo de Lisboa.
Na carta de Caminha (essa carta de Caminha é muito curiosa. Aliás, há duas
cartas. Uma carta dos médicos, os médicos gostam muito de história e fazem uma
referência curiosa dizendo que a ilha do Brasil está lá... como se não houvesse des-
coberta nenhuma, conforme Marcus Odilon. Vieram tomar posse daquilo que já
sabiam que existia. E tanto é verdade que a carta de Caminha diz: “Olhe, el-rei é tão
bom que se plantando qualquer coisa dá” (com três dias não dava para saber que plan-
tando dava). Essa carta, que é muito curiosa, merece um estudo nosso. Há duas
coisas que quero chamar a atenção sobre a safadezinha do português, porque ele
descreve os índios, nus, e tal e tal, mas quando é para descrever as índias ele faz
uma descrição que nem a Revista PLAYBOY. Demora e fica explicando. Então a
carta oficial ao rei vem com isso. E no final, veja o “arrumadinho” do serviço pú-
blico, que começa desde aquele tempo, termina: “Vossa Alteza fará mercê se mandar
buscar Osório, meu genro, que está na Ilha de S. Tomé”. Desde ali que o serviço público
começa a fazer os “arrumadinhos”.
Na carta de Caminha, depois de descrever a primeira missa cantada (e nesta
missa não estava só o frei Henrique, havia uns oito padres e frades, inclusive um
que ia ser vigário em Calicut e mais uns seis ou oito seculares, padres de São Pe-
dro), depois de descrever a primeira missa cantada sob o pálio da Ordem de Cristo
e à sombra da cruz sobre a qual estavam as armas do rei, o escrivão oficial da arma-
da afirma sobre a terra brasileira e seus índios: “contudo o melhor fruto que dela se pode ti-
rar parece-me que será salvar esta gente.” (Será que salvaram?). Esta deve ser a principal se-
mente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
Estamos vendo que o enfoque da missão era político. Dilatar o império reli-
gioso, aumentar a fé salvando as almas. Deus sabe como e quantas almas foram
salvas.
Camões, o imortal poeta de OS LUSÍADAS, faz pequena referência ao Bra-
sil lá na frente do cântico X e noutro lugar parece que fala em Terra de Santa Cruz.
Veja que importância Portugal deu ao Brasil. Quando Camões escreveu a grande
obra o Brasil já estava descoberto e ele não ia cantar a epopeia da América e sim os
feitos de Gama, daquele pessoal que foi para a África, dobrou o Cabo, etc. Mas,
percebe-se o pouco caso que se dava à descoberta recente.
Mas Camões começa aquelas duas primeiras estrofes, que vou repetir aqui,
dizendo que a meta dos feitos portugueses tinha por objetivo dilatar o império.
Camões começa imitando Virgílio, com as mesmas palavras.

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Ele diz: As armas e barões (barões é varão) assinalados. Aquilo mesmo que
Virgílio já tinha dito, e não sei se imitando também um pouquinho Homero.
Mas, o que interessa aqui é comentar o texto da estrofe:

As armas e os barões assinalados


Que da praia ocidental lusitana
Por mares nunca navegados
Passaram ainda além da Probana
E em perigos de guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
Entre gente remota edificaram
Novos reinos que tanto sublimaram

E também as memórias gloriosas


Daqueles reis que foram dilatando
A fé e o império e as terras viciosas
De África e Ásia andaram devastando
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte se libertando
Cantando espalharei por toda parte
Se tanto me ajudarem engenho e arte.

O que chamo a atenção é que o poeta situa a grande empresa como dilatar
as fronteiras do império, que era tão grande, e sobretudo as fronteiras da fé. Con-
clusão: a Fé e o Império andam casados.
Percebe-se dos textos citados que a conquista da terra da gente brasileira o-
bedeceu a um desígnio político da corte lusa, que almejava, ao mesmo tempo, dila-
tar as fronteiras do grande império sobretudo na África, na Ásia e na Oceania. O
Cristianismo era um apoio político para alargar o império. A história registra, mes-
mo na epopeia da conquista da Paraíba, como a Igreja, através das grandes Ordens
Religiosas (os jesuítas, os carmelitas, franciscano e beneditinos), aqui chegara e na
primeira hora. Com a catequese do aldeamento ajudou a dilatar o império na Paraí-
ba. Basta lembrar que os primeiros carmelitas e beneditinos que vieram para o Bra-
sil se destinavam à Paraíba. Há mesmo quem afirme que Piragibe salvou a conquis-
ta da nossa terra (e a gente sabe que Portugal e Espanha lutaram quase dez anos e
não passaram de Goiana, ou quando passavam voltavam correndo) só botaram o
pé aqui depois que Piragibe, o guerreiro e o estadista, cujo nome acho que devia ser
dado a essa cidade e não outro, Piragibe. Está dito que Piragibe teria sido batizado
antes de se apresentar a Olinda; para fazer a intermediação diplomática, já era bati-
zado por um jesuíta. Se é verdade, vale a pena fazer a pesquisa.

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É bom, porém, não esquecer que esse interesse da coroa portuguesa em
propagar a fé nas plagas brasileiras tinha um suporte logístico no chamado Instituto
do Padroado, que certamente foi uma herança maldita que caiu sobre a cátedra de
Pedro, que se esquecera da severa advertência de Cristo de que não se deve con-
fundir o Reino de Deus com o Reino de César. Lá no drama da paixão Pedro puxa
uma peixeira (no Evangelho fala em espada, mas Pedro era pescador, decerto era
uma peixeira) e Cristo pede para Pedro guardá-la, dizendo: “meu Reino não é deste
mundo, Pedro”. Sem deixar de dizer que era rei, mas ele confirma que era rei diante
de Pilatos. Pilatos fez duas perguntas a Cristo, uma de ordem política e outra de or-
dem filosófica. – Que é a verdade? Cristo não deu resposta. Mas, quando perguntou:
– “Você é rei?” Cristo respondeu: “Sim, só que meu reino não é deste mundo”.
Pois bem, Jesus recomenda a Pedro que não confunda o Reino de Deus
com o Reino do Mundo. Com o tempo se conquista o mundo, vem a diáspora,
Paulo conquista a Ásia, o mundo grego e lá vai para Roma. Lá vai para Bizâncio. E
aí a Igreja se mistura com o poder secular, com o poder temporal. Foi um grande
erro, porque a Igreja mundanizou-se, laicizou-se, escravizou-se, paganizou-se. Até
pouco tempo a gente via o Papa com três coroas de rei na cabeça, andava em cima
de uma sede gestatória, que durou até o Vaticano II.
O reino não é deste mundo, mas se transformou no reino de César.
A igreja católica no Brasil, portanto, na Paraíba, tinha dois governos. Um
canônico, com o Papa e os Bispos à frente, e outro imperial, com os reis de Portu-
gal e depois do Brasil, que também era o Grão Mestre da Ordem Militar de Cristo,
no seu comando. Quem comandava a Igreja era o rei de Portugal, era o rei do Bra-
sil (Reino Unido) e era o Imperador do Brasil. Isso durou até a República, quando
houve a separação da Igreja do Estado. Foi um Deus nos acuda, mas foi um grande
benefício para a Igreja, por que ela se sentiu livre. Aí era a Igreja de Cristo.
Essa Ordem Militar de Cristo é um resquício das Ordens da Idade Média,
dos Templários e não sei se a Maçonaria não passa por aí. Pelo nome de Grão Mes-
tre é dado ao rei.
Por que essa referência? Por que enquanto rei era Grão Mestre? Porque en-
quanto rei Grão Mestre ele era uma espécie de Ministro das Finanças de tudo que
se arrecadava em nome da Igreja, com a denominação de dízimo, para a proteção,
propagação, defesa das pias obras. Havia esses dois governos, simultâneos. Isso foi
bom ou mau?
O Edito de Milão, em 313, dá a vitória da Igreja sobre o paganismo. Cons-

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tantino se diz o primeiro imperador cristão, mas reza a história paralela que só se
batizou velho, porque que o batismo apaga todos os pecados e ele queria pecar a
vida toda para se batizar no fim. A mãe era uma santa, Santa Helena, a quem a Igre-
ja deve lhe muito, na Terra Santa.
Então Constantino se fez cristão e permitiu que os cristãos professassem a
sua fé. Constantino decreta um Edito, em Milão, dando liberdade aos cristãos.
Para mim o maior benfeitor do cristianismo não foi Constantino, foi Teodó-
sio, o Grande, porque este, além de dar proteção à Igreja, proibiu o paganismo. Um
permitiu o cristianismo, o outro proibiu o paganismo.
Constantino tinha tanto poder diante da Igreja é era chamado o 13º apósto-
lo, chamado também o Bispo de fora, porque havia os Bispos de dentro da Igreja.
Mas ele era quem convocava e presidia os Concílios, nomeava os Patriarcas, Bispos,
etc.
Mas em que consiste o padroado? Padroado é como se fosse um instituto
jurídico das fundações. Eu tenho dinheiro e dou uma importância para que se erija
uma capelinha e se nomeie um cura e eu fico mantendo; isso alguém fez. O primei-
ro colégio jesuíta aqui na Paraíba foi dado por uma família, um casal. Deu o primei-
ro dinheiro e aí começou a se fazer.
Havia essa maneira de se doar algo para que o benefício fosse criado. Isso
em nível de Igreja Universal e de Império. Logo depois o Sacro Império, com Car-
los Magno, toma conta da cristandade e o Papa sagra o Imperador e o Imperador
renomeia o Papa. Há até um caso curioso numa eleição de Papa. O Imperador
mandou os cardeais elegerem o Papa, num convento perto de Roma. Passaram-se
três anos sem sair o Papa. O Imperador zangou-se e mandou destelhar o convento.
No outro dia saiu o Papa.
O padroado, da palavra latina patronatus, que oficialmente entra em vigor em
1270, consiste na outorga a certas pessoas do direito de apresentar e nomear plebes
ou bispos para cargos eclesiásticos, concorrendo materialmente para a manutenção
desses benefícios. No início a intenção do padroado era piedosa. Entre os séculos
XIV e XV a Igreja concedeu aos reis o direito de exercer o padroado nas terras
descobertas e a descobrir. Pelo Papa espanhol Alexandre VI foi dado o tal direito
aos reis espanhóis sobre a América. Esses monarcas tinham o poder de proibir a
criação de igrejas e conventos. Por isso a gente vê a expulsão de jesuítas. Por que
eles faziam isso? Porque eles tinham o poder de fazer. Por que eles prendem os
bispos da Paraíba, D. Vital e Macedo Costa? Porque eles tinham poder. O Bispo es-

290 

 
tava desobedecendo a uma lei civil que existia e à qual ele estava submetido. Dog-
maticamente ele estava correto, mas civilmente estava errado.
O padroado foi a grande fonte de malefícios para o Brasil e a Paraíba; embo-
ra se tenha estendido do Brasil Colonial ao Brasil Império, desapareceu com a Re-
pública através do decreto de 7 de janeiro de 1890. Cabia aos reis do Brasil conser-
var e propagar a fé. O padroado tinha sido conferido ao Imperador do Brasil em 27
pela Bula Preclara Portugalia, que concedeu este título ao chefe do governo imperial.
Graves problemas surgiram entre a Igreja e o Império, sendo os mais sérios
aqueles citados na Regência de Feijó, que queria criar uma Igreja Nacional e sobre-
tudo na chamada Questão Religiosa, depois da qual desapareceu o trono e sobrou o
altar.
Diante desses fatos que permeiam a catequese dos índios e nada se fez pelos
escravos (é curioso como os jesuítas brigaram e fizeram muito bem pelos índios,
mas não se vê nada feito com respeito aos negros, os escravos). A catequese dos
índios foi feita. Não sabemos o que teria sido do Brasil sem as Ordens Religiosas
dos jesuítas. Capistrano disse que não se pode escrever a História do Brasil sem se
escrever a História dos Jesuítas. Não só os jesuítas. Porque tivemos cinco grandes
conventos e até geograficamente a gente vê. É curioso como uma cidade tão pe-
quena, a cidade tinha 10 mil almas, com cinco conventos. Todos localizados um
perto do outro.
Vocês já foram à igreja da Nossa Senhora da Guia, depois da recuperação?
Vale a pena como passeio e visita cultural. É admirável como dentro daquela mata,
onde só havia maloca de índio, aldeamento, os carmelitas criaram uma obra de arte
como aquela.
Aí a gente pergunta: sem as Ordens Religiosas na Paraíba teríamos o acervo
cultural que temos? Sem a assistência médica das Santas Casas, o que teria sido das
populações? Era o rei? O rei nada fez. A educação, quem fez foram os jesuítas nos
colégios.
Nós podemos criticar a metodologia da catequese aqui na Paraíba, e no Bra-
sil, porque havia culturas que deviam ser respeitadas. Mas o aculturamento que se
fez para se cristianizar estas massas, por todas as nossas nobres Ordens Religiosas,
a meu ver, deformaram muita coisa. Essa cristianização tinha que respeitar as carac-
terísticas da cultura. Sei que melhor fazer isso do que não ter feito nada.
Na Paraíba há uma coisa curiosa. Dois chefes de poderes desmancharam i-
grejas para fazerem palácios. D. Adauto e outro, em 30. Quando entrei no Seminá-

291 

 
rio para estudar, vi uma escadaria que subia do claustro para o primeiro andar feita
com taboas do forro da igreja. Quanto se perdeu? Não foi só uma igreja ou duas. E
as outras estão caindo aí sem nenhuma proteção. Houve quem construísse de uma
maneira que a gente lamenta, mas se fez alguma coisa.
Quero concluir fazendo algumas indagações, cuja resposta deixo a critério
de cada um.
A verdadeira semente do Reino de Deus foi plantada no Reino de Portugal,
ou o Evangelho serviu mais à corte do que à conquista das almas? Os frades traba-
lhavam pela conquista das almas, estavam a serviço da autêntica cristandade, ou
porque eles eram remunerados pelo dízimo do padroado? A cultura dos índios e
dos negros foi preservada pelo projeto da pedagogia da conquista? Sem a presença
da Igreja, o Reino de Portugal e depois o Império do Brasil teriam cuidado da edu-
cação, da saúde e da organização social dos índios, dos escravos e dos proletários
dos campos e das cidades? Quem saiu ganhando nas lutas da conquista do interior
paraibano, quando as fazendas eram fundadas com frades? Quem saiu ganhando
nessas lutas, a Igreja ou o Reino? Quem teve razão na questão religiosa? O Bispo
paraibano ou o Império? (o Império era o padroado).
Qual o lado positivo do Quebra-Quilos? Foi uma revolução política ou reli-
giosa? Como se comportou a Igreja na Inquisição da Paraíba? Por que a Igreja não
cuidou dos negros como cuidou dos índios, e hoje cuida dos sem terra? Para a cul-
tura e as artes da Paraíba teria sido melhor a ausência da Igreja?
A respeito conheço a opinião de Roger Bastide: O mais puro barroco do
Brasil se chama a Igreja de S. Francisco.
Quem saiu ganhando na República com a separação da Igreja do poder civil?
Qual a contribuição da Igreja na formação dos homens de Estado da Paraíba?
Quantas personalidades passaram por uma formação religiosa específica? Governa-
dores, presidentes, senadores, reitores, etc.
O que seria melhor? Haver padroado, ou não ter havido padroado? Quem
ajudou mais a Paraíba? Foi o índio catequizado nos aldeamentos ou os negros, que
segundo um Bispo, deviam ser sempre escravos dos brancos? O que se deveu aos
jesuítas e ao Marquês de Pombal na formação do homo paraibenses? Deve-se alguma
coisa ao Marquês de Pombal ou se deve às Ordens Religiosas? A igreja católica do
século XX tem um saldo positivo ou negativo em favor do povo de Deus?
É só.

292 

 
A fala do Presidente:

Como prevíamos, a exposição do professor Manuel Batista de Medeiros


trouxe-nos muita luz sobre a participação da Igreja na Paraíba, e não só na Paraíba
e no Brasil, mas, também, deu-nos uma visão da ação da Igreja no mundo, com o
que nos facilitou entendê-la na sua atuação nestas plagas.
O expositor criou as condições para podermos conhecer a Igreja, para en-
tender a Igreja na sua atuação secular.
Ficamos esclarecidos sobre o papel do padroado, um instituto que se, por
um lado, permitiu a expansão da Igreja, por outro trouxe alguns malefícios para sua
própria organização, conforme confessa o expositor.
A importância da catequese dos nossos tabajara e potiguara foi ressaltada
nos seus limites. A exposição do professor Manuel Batista de Medeiros teve, além
das novidades que trouxe a público, a análise crítica isenta sobre a Igreja, mostran-
do aspectos de sua evolução até os nossos dias.
Agora, vamos ter uma noção da parte propriamente ligada à Paraíba, através
da palavra do nosso consócio Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares.
Monsenhor Eurivaldo, na minha classificação particular, faz parte da velha
guarda da Igreja. São 50 anos de sacerdócio, passando por várias paróquias do inte-
rior do Estado e terminando na Igreja da Misericórdia, donde se afastou, mas con-
tinua firme em uma capela que a Arquidiocese autorizou funcionar em sua própria
residência, onde diariamente celebra a Santa Missa.
Na sua atividade religiosa foi capelão de várias instituições tais como o Co-
légio Diocesano Pio XI, de Campina Grande; Hospital Regional de Sapé; Hospital
Napoleão Laureano; Penitenciária Modelo; Externato Santa Dorotéia. Foi também
capelão interino do I Grupamento de Engenharia e Construção e da Polícia Militar
da Paraíba, por onde se reformou como Major-Capelão.
Monsenhor Eurivaldo exerceu o magistério nas nossas universidades e em
vários colégios. Pertence à Academia Paraibana de Letras e no Instituto ocupa a ca-
deira nº 26, cujo patrono é Diógenes Caldas.
Publicou várias obras de valor histórico sobre a Igreja e perfis biográficos
sobre as figuras mais importantes da nossa Igreja, tais como D. Moisés Coelho, Jo-
ão de Deus, Monsenhor Tibúrcio, Monsenhor Anísio, Mathias Freire e outros, ra-
zão por que o convidamos para participar deste Ciclo de Debates.
Assim, é com satisfação que passo a palavra ao Monsenhor Eurivaldo Caldas
Tavares.

293 

 
Debatedor: Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares (Sócio do Instituto e da A-
cademia Paraibana de Letras, major-capelão reformado da Polícia Militar, ex-
professor da UFPB)

O Dr. Manuel Batista de Medeiros, expositor do tema, já deu a lição verda-


deira abordando o assunto que está sendo hoje estudado neste Ciclo de Debates
dedicado aos 500 anos do Brasil. Ele próprio disse que ia seguir uma linha diferente
da que comumente fazem os historiadores, que enfadonhamente citam datas, luga-
res e fazem muitos detalhes e deixam a sequência de acontecimentos sem o estudo
crítico, tal como ele fez. O professor Batista demonstrou que não é apenas um his-
toriador no sentido de colecionar datas históricas, mas é um homem que interpreta
não só a História da Igreja, a História do Brasil, mas a história mundial.
Fiz um trabalho pequeno, com certo esforço, porque os companheiros sa-
bem que minha saúde, de algum tempo para cá, me tem dificultado escrever e pes-
quisar. Isto é um pretexto para pedir perdão pelo modesto trabalho, que não está à
altura da aula de sapiência do professor Batista.
O que nós temos de bom aqui é o nosso Presidente, com a sua verve sempre
atual e que, de vez em quando faz a gente desopilar, quando a sessão está cansativa
e ele diz uma das boas e a turma acorda. Então, Presidente, quando notar que o
trabalho estiver muito pesadão solte uma das suas para ver se o plenário aguenta.
Lerei para os senhores o trabalho que preparei para este ciclo, dando início à
minha participação.
Em pronunciamento, há algum tempo, da tribuna desta Casa, tivemos opor-
tunidade de, referindo-nos ao nosso Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, as-
sim nos expressar: “Fiel a si próprio como intérprete do existir e do viver da terra e
do povo tabajarinos, tornou-se, na verdade, o relicário vivo de suas mais puras e
genuínas tradições. No cumprimento de tão nobres e elevadas tarefas, remove a
poeira dos arquivos, confere datas, revive acontecimentos e neles situa, depois de
pacientes e criteriosas pesquisas, a vida e os feitos de quantos, filhos, ou não da Pa-
raíba estejam de uma forma, ou de outra, a ela ligados, para apontar seus nomes à
veneração e ao reconhecimento da posteridade”.
Nosso sodalício, justificadamente chamado “Casa da Memória da Paraíba”,
cada vez mais se desdobra em variadas atividades culturais. Não se restringe, apenas
às regulamentares sessões ordinárias de cada mês, mas se expande em múltiplas rea-
lizações, divulgadas através nossos “Boletins Informativos”, ou nos Relatórios da
Presidência.

294 

 
Não resta tempo para se deterem passivos nossos associados, ou estudiosos
aficionados de temas específicos, convidados que são para reuniões extraordinárias,
ou assembleias gerais, bastante concorridas e aplaudidas. Confirmação do que afir-
mamos, é, por exemplo, este movimentado Ciclo de Estudos, cujo programa a-
brange 18 sessões de debates e que se estende de 15 de setembro a 12 de novembro
do corrente ano, e que gira em torno da temática geral – A PARAÍBA NOS 500
ANOS DE BRASIL.

I – A Igreja na Paraíba

Este é o tema que tão brilhantemente expôs nosso eminente consócio pro-
fessor Dr. Manuel Batista de Medeiros, cabendo-me adicionar algumas modestas
achegas, como tarefa que devo irrecusavelmente cumprir.
Em carta aos seus diocesanos, escrita da Fortaleza de São João, onde se en-
contrava preso, nosso conterrâneo D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, que
se tornou conhecido por sua participação na célebre “Questão Religiosa”, destemi-
damente comentou: “A igreja nasceu, cresceu e vigorou no seio das perseguições, e, por isso,
nada há de recear. Mas o Estado?”
O futuro, dizemos nós, respondeu com profundas transformações operadas
com a abolição da escravatura, o progresso dos ideais republicanos, os quais mais se
intensificaram depois da guerra do Paraguai (1870), até a Proclamação do Marechal
Deodoro, a 15 de novembro de 1889.
A primeira Constituição Republicana preconizava completa separação entre
a Igreja e o Estado por estar impregnada dos princípios positivistas e contistas; a
República impõe a liberdade dos cultos, a secularização dos cemitérios, a laicização
do ensino, o casamento civil, negação dos direitos políticos aos religiosos, a con-
firmação da Lei Pombalina que expulsava os Jesuítas, a vedação de novas ordens
Religiosas e seus conventos. Dessa forma, a República nascente não era menos hos-
til à Igreja, que o Império.
A reação, porém de nosso Episcopado, através da Célebre Pastoral Coletiva
(1890) soou como solene protesto contra o governo, e sobre as condições de tra-
tamento. Daí, como consequência melhorou a liberdade religiosa, foi abolida a Lei
Pombalina, sentindo-se o revigoramento da vida cristã em todo o País.
Digno de nota foi a nova política de reconciliação diplomática adotada pela
Internunciatura Apostólica inspirada pelo Papa Leão XIII, o qual decidiu reestrutu-
rar a Hierarquia Católica em nosso País. Assim sendo, o Brasil foi dividido em duas
Províncias Eclesiásticas, a da Bahia e a do Rio de Janeiro, de tal sorte que o territó-
295 

 
rio que antes abrangia 12 Bispados, ficou com 16, sendo que cada Província consta-
ria de uma sede Metropolitana e sete Bispados sufragâneos. Dentro desse quadro,
chegou a vez da Paraíba que ficou incluída na Província Setentrional, juntamente
com o Amazonas, enquanto que Vitória e Cuiabá, na Província Meridional.

II – Paraíba – Prelazia e Diocese

ITINERÁRIO DA PARAÍBA CATÓLICA, estudo por nós publicado,


quando da ocorrência do IV Centenário da Fundação de nosso Estado (1985), re-
gistra que o crescimento da Religião na Paraíba, valeu-lhe, de preferência a Per-
nambuco ser escolhida sede de uma Prelazia, criada em 1614. Tal Prelazia, sediada,
como foi dito, na Paraíba abrangia, além de seu próprio território, os das Capitanias
de Pernambuco, Itamaracá e Rio Grande do Norte. Seu primeiro Prelado, nomeado
por alvará régio foi o Padre Antônio Teixeira Cabral, cuja atuação foi considerada
regular, pois, apesar das grandes distâncias para percorrer toda a extensão da Prela-
zia, criou o prelado diversos Curatos e Paróquias, aumentou o número de padres,
alguns vindos de Portugal e outros, ordenados pelo Bispo da Bahia. O campo era
fértil, o que propiciou ao Papa a criação da Diocese de Olinda, em Pernambuco,
abrangendo por terra e mar o Rio São Francisco aonde se limitava com a da Bahia,
as Capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte, até o Ceará, inclusive.
Como viram, a Prelazia não era uma Diocese. O Prelado era um quase Bis-
po, apenas não era sagrado Bispo, mas tinha poderes quase iguais aos Bispos.
Finalmente, a Bula Ad universos orbis Eclesias, de 27 de abril de 1892, de Leão
XIII diz textualmente: “Para formar a outra Diocese da Paraíba separamos igualmente para
sempre e lhe designamos o território do mesmo nome e do Estado do Rio Grande do Norte, que
constituem presentemente parte da Diocese de Pernambuco: na cidade da Paraíba fundamos a sede
da Igreja chamada da Santíssima Virgem das Neves a Catedral do Bispado e elevamos por isso
dita Igreja à dignidade de Catedral.
Desta Diocese da Paraíba os limites orientais e setentrionais serão fixados
pelo Oceano Atlântico até a barra do Rio Mossoró. Para o Ocidente os limites se-
rão a cadeia dos Montes Apodi e Pageú, dos quais será separado da Diocese de
Fortaleza. Para o Sul, finalmente, a Diocese de Olinda pela cadeia “Imburanas” à
foz do Rio Goiana serão os seus confins...
Dado em Roma, junto a São Pedro, no ano de 1892, da Encarnação do Se-
nhor, a 27 de abril, décimo quinto do nosso Pontificado.

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III – O primeiro pastor – Vida e morte

Criada que fora a Diocese, os paraibanos esperavam ansiosos seu 1º Pastor.


A escolha recaiu na pessoa do Revmo. Monsenhor Dr. José Basílio Pereira, virtuo-
so sacerdote do clero baiano, o qual, por motivo de saúde, renunciou o honroso
encargo. Em vista disso, o Santo Padre Leão XIII elegeu o não menos idôneo Cô-
nego Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Cônego da sede de Olinda e professor
catedrático do Seminário Diocesano local. Seu biógrafo, o ilustrado historiador
conterrâneo, Cônego Francisco Lima registra: o Bispo eleito era natural de Areia.
Sentindo-se chamado ao Sacerdócio e ajudado financeiramente por pessoas amigas
e de posses, viajou a Europa, onde cursou em Paris, o Seminário São Sulpício, o
Colégio Pio Americano e a Universidade Gregoriana em Roma, onde se ordenou
Padre aos 18 de setembro de 1870 e onde também foi sagrado Bispo, em 7 de ja-
neiro de 1894 pela imposição das mãos do Eminentíssimo Sr. Cardeal Lúcio Maria
Parochi.
A carta saudando seus Diocesanos é da mesma data, constituindo o primeiro
elo de uma cadeia de 41 escritos pastorais que somente terminaria no último, aos 6
de fevereiro de 1914; o Papa Pio X pela Bula “Magis Catholicae Religionis”, ao tempo
em que criou a Diocese de Cajazeiras, elevou a Paraíba à condição de Província E-
clesiástica, elevou igualmente D. Adauto a seu 1º Arcebispo Metropolitano. Em 29
de junho de 1932 o Papa Pio XI concedeu-lhe como Arcebispo Coadjutor, com di-
reito à sucessão, D. Moisés Coelho, até então Bispo de Cajazeiras. Alquebrado pelo
peso da idade, D. Adauto não renunciou e permaneceu no Governo Diocesano até
a hora de Deus. Contava já então quase 80 anos de idade; 55 de Sacerdote; 41 de
Bispo; e 21 de Arcebispo.
Acometido de infecção pulmonar, recolheu-se ao leito nos últimos instantes
cercado por D. Moisés e diversos Padres que foram sempre seu amparo e sua coroa
de glória. Tendo recebido os sacramento das mãos do seu sucessor e discípulo, D.
Adauto entregou sua bela alma a Deus, ao meio dia da Festa de Nossa Senhora de
Assunção, aos 15 de agosto de 1935. Os presentes repetiam em coro o versículo do
hino sacro que constituía a legenda de seu brasão episcopal Iter para tutum – prepara
caminho seguro.
Este lema de D. Adauto ainda hoje está inscrito no Palácio do Carmo e no
prédio onde até pouco funcionou A IMPRENSA. Iter para tutum – prepara caminho
seguro.
As pessoas que não tinham muitas letras e não conheciam o Latim, sobretu-

297 

 
do os pobres e ignorantes, a quem D. Adauto dava muita atenção e acolhida em sua
casa, viam inscrito na fachada do palácio Iter para tutum e liam Iter para tutúm, e
traduziam “entrada para todos”. Aí todo mundo entrava no Palácio. D. Adauto não
tinha porteiro, não tinha segurança, não tinha nada, nem tinha campainha para
chamar. A porta aberta, eles encontravam D. Adauto sentado numa rede e ao lado
uma sacola cheia de medalhinhas de santos e um depósito com diversas moedas. Aí
chegavam os visitantes para tomar a bênção: “a bênção, seu bispo”. Ele já meio
surdo, perguntava o que queria. – A bênção, seu bispo. – Ah! Está abençoado. Da-
va uma medalhinha e uma moeda. Era a vida dele, nos últimos dias em que o co-
nheci. Entrei no Seminário em 1933 e ele morreu em 1935, foram apenas dois anos
de convivência com D. Adauto. Mesmo naquele estado, ele estava presente em to-
das as solenidades e presidiu a Semana Santa, até o último ano em que morreu. A-
penas se cansava muito e quando a Mitra estava incomodando sua cabeça ele cha-
mava Monsenhor José Tibúrcio, que era nosso Reitor e cerimoniário, e dizia: “tira
isso da minha cabeça que não aguento mais. Está muito pesado”. Fiz esse parêntese
para abrandar a leitura do texto.
Continuemos. Velado na Igreja do Carmo, o esquife foi conduzido em pro-
cissão por avultado número de fiéis que assistiram consternados o sepultamento de
seu Pai Espiritual, aos pés da Santíssima Virgem das Neves.
O primeiro local onde D. Adauto foi sepultado foi exatamente aos pés do al-
tar de Nossa Senhora, lá abriram a sepultura para ele. Eu me recordo de um inci-
dente que ia tendo certa gravidade se não fosse a presteza de quem o acudiu na ho-
ra. O interventor da Paraíba que está presente estava bem próximo ao local do en-
terro, distraidamente, ia caindo na sepultura aberta para o Bispo e foi agarrado a
tempo de evitar o acidente. Posteriormente, tiraram, inexplicavelmente, o corpo de
D. Adauto. Sou de opinião que não deviam ter tirado. Lá estava D. Adauto enter-
rado sob uma lápide de mármore com os dísticos em Latim: “Aqui repousa aos pés da
Virgem das Neves D. Adauto Aurélio de Miranda Henriques, 1º Bispo e Arcebispo 1º da Ar-
quidiocese da Paraíba”. São lembranças que guardo, porque fui testemunha ocular.
Discorrer sobre D. Adauto, 1º Bispo e 1º Arcebispo da Paraíba e o que re-
presenta sua obra evangelizadora que vai de 4 de março de 1894 a 15 de agosto de
1935 é tarefa que abrange quase metade de um século, que encerra a história de
nossa centenária Igreja Diocesana. Amante das letras e das ciências, nosso Bispo a-
lém de abrir colégios na Capital e no interior, da Paraíba e do Rio Grande do Norte
para a educação da mocidade, estabeleceu um Instituto Superior para a formação

298 

 
do Clero, com sede na Cidade Episcopal.
Concedeu-lhe o Senhor que ele próprio viesse a colher através dos anos, os
sazonados frutos do zelo apostólico de mais de duas centenas de Padres e de meia
dúzia de Bispos que ele ordenara, espalhados pela Paraíba, Rio Grande do Norte e
o Brasil afora. Tudo a atestar e justificar os títulos de glória do nosso Seminário Ar-
quidiocesano, genuína Escola do Saber e da Virtude. Não é de omitir-se, seu cuida-
do pela criação e funcionamento do Jornal Católico que, por anos, circulou – A
IMPRENSA.

IV – D. Moisés Coelho – Coadjutor e 2º arcebispo

D. Moisés Coelho, Padre ordenado por D. Adauto, que o fez Cônego do


Cabido e Diretor Espiritual do Seminário, apontado por ele para o Episcopado,
como 1º Bispo de Cajazeiras em 16 de novembro de 1914, foi o mesmo virtuoso
Prelado indicado ao Papa, para tornar-se seu Coadjutor com direito à sucessão,
empossado em 29 de junho de 1932.
Segundo afirma o Cônego Francisco Lima em sua obra SUBSÍDIOS BIO-
GRÁFICOS (Vol. III): “Era de mister um Coadjutor que aliasse ao espírito de fé, o zelo da
caridade, isto muito acima das raias comuns. Exigia-se do Coadjutor que conhecesse o terreno,
praticamente, que estivesse familiarizado com todos os seus elementos positivos e negativos, que
houvesse testemunhado as lutas, as reações, as iniciativas, os empreendimentos que ponteavam a
história daquela conquista. Eis a gênese da escolha de D. Moisés Sizenando Coelho, para Arce-
bispo Coadjutor de D. Adauto, para 2º Arcebispo da Paraíba”.
D. Moisés percorreu toda a Arquidiocese em visitas pastorais. Dedicou-se à
pregação de Retiros Espirituais, palestras e conferências, Páscoas coletivas e admi-
nistração do Sacramento do Crisma. Esteve presente ao Congresso Eucarístico, em
Salvador, na Bahia, em 1933, como ao Congresso Eucarístico Internacional, reali-
zado em Buenos Aires em 1934. Dominus illuminatio mea era o dístico de seu lema e-
piscopal – O Senhor é a minha luz. Guiado por essa luz divina, D. Moisés continu-
ou o longo e fecundo apostolado de seu antecessor. Durante seu período como
metropolita, foram criadas mais duas Dioceses na área: Caicó/Rio Grande do Nor-
te, em 1939 e Campina Grande (em nosso Estado), em 1949 e a elevação de Natal à
dignidade de Arcebispado (1952).
Sua visão do futuro e sua preocupação por novos padres levaram-no a insta-
lar pessoalmente em todas as Paróquias da Arquidiocese a Obra das Vocações Sa-
cerdotais. Mesmo apegado pessoalmente às velhas paredes do Seminário de São
Francisco, em que se formara e em que exercera por tempos sua função de orienta-
299 

 
dor de consciência dos futuros padres, não hesitou em empenhar-se pela edificação
de novas e modernas instalações do Seminário no Bairro do Miramar, e que se tor-
nara sublime aspiração de seu futuro Bispo Auxiliar, D. Manoel Pereira da Costa.
Um sonho que D. Moisés sempre acalentou, prova dos cuidados paternais
que votava por seus auxiliares, foi edificar para os padres idosos e os que na capital
não possuíam casa própria, ou mesmo local digno onde se hospedassem, quando
tivessem de vir a negócios à cidade, foi organizar a Casa do Padre, à imagem de
uma Casa Grande que abrigasse a família sacerdotal. Foi de veras comovedor, até às
lágrimas, o momento em que o pastor solícito, velho e alquebrado, em uma cadeira
de rodas, ser conduzido para benzer, pessoalmente, sua última realização. Era o le-
gado que deixava em testamento e que teve a ventura de ver funcionando, antes de
morrer. Pena, muita pena mesmo, que, pouco tempo depois de seu desaparecimen-
to, desaparecesse, por igual, sua obra, alienando-se o prédio, a que foi dada outra
destinação. Seu interesse pela defesa da fé e a difusão da boa imprensa levou-o a
promover intensa campanha por um melhor reaparelhamento do nosso diário cató-
lico A IMPRENSA, que D. Adauto criara. Círculos Operários multiplicavam-se na
capital, bem como receberam novos incentivos as Congregações Marianas e Cruza-
das Eucarísticas Infantis. Organizou a Ação Católica Oficial com a instalação de
sua Junta Arquidiocesana. Já antes, em 1936, promoveu, na impossibilidade de um
Congresso Nacional, uma Semana Eucarística, na capital, com excelentes frutos de
fé e devoção dos fiéis. Para sua administração, além da dedicação de seu Clero, es-
pecialmente o Paroquial, contou D. Moisés com a lealdade e eficiente ajuda de seus
vigários gerais, Mons. Odilon Coutinho e D. Manoel Pereira, que também foi Bispo
Auxiliar.
D. Moisés Sizenando Coelho nasceu em Cajazeiras, a 8 de abril de 1877.
Ordenou-se a 1º de novembro de 1901. Serviu no Rio Grande do Norte, em Natal,
como Capelão das Irmãs Dorotéias, Vice-Diretor do Colégio Santo Antônio, Coad-
jutor da Matriz, ao lado do vigário Pe. João Maria Cavalcanti de Albuquerque, o
qual morreu em odor de santidade e cuja memória ainda permanecerá na consciên-
cia do povo cristão natalense. Na Capital paraibana, foi Diretor Espiritual do Semi-
nário, Cônego do Cabido, Vice-Diretor Diocesano do Apostolado da Oração, Dire-
tor da Liga Eucarística Sacerdotal e Redator do jornal A IMPRENSA. Em 16 de
novembro de 1911 foi eleito pelo Papa Bento XV 1º Bispo de Cajazeiras. Em 22 de
fevereiro de 1932, tomando posse no dia 29 de junho do mesmo ano, foi nomeado
Arcebispo Coadjutor, com direito à sucessão. A 15 de agosto de 1935, com a morte

300 

 
de D. Adauto tornou-se o 2º Arcebispo Metropolitano da Paraíba. A 18 de abril de
1969 expirou placidamente ao Senhor, contando 82 anos de idade; 58, de Padre; 44,
de Bispo; 27 de Arcebispo Coadjutor e 24 de Metropolita.

V – 3º Arcebispo metropolitano – Breve pastoreio – Renúncia

O sucessor de D. Moisés, como 3º Arcebispo Metropolitano da Paraíba foi


D. Mário de Miranda Vilas-Boas. Nasceu a 4 de agosto de 1903, na cidade do Rio
Grande, Estado do Rio Grande do Sul. Fez seus primeiros estudos em São Cristó-
vão, antiga capital de Sergipe. Sentindo-se chamado à vida sacerdotal, matriculou-se
no Seminário da mesma cidade. Concluídos os estudos eclesiásticos foi ordenado
Padre, a 5 de dezembro de 1925 pelo Bispo D. José Thomaz Gomes da Silva. Foi
Cônego do Cabido, Secretário do Bispado e ainda agraciado com a dignidade ponti-
fícia de Monsenhor. Exerceu o magistério no Colégio Estadual e no Colégio Nossa
Senhora de Lourdes, sendo também sócio fundador da Academia Sergipana de Le-
tras.
Escolhido para o Episcopado, foi sagrado Bispo de Garanhuns em Pernam-
buco aos 30 de outubro de 1938. Seu lema episcopal foi Sentir cum Ecclesia – Sentir
com a Igreja, enquanto, sua 1ª Carta Pastoral saudando os diocesanos foi considerada
documento básico para o movimento litúrgico e o apostolado leigo no Brasil. Do-
tado de voz atraente a serviço de um verbo inflamado, D. Mário empolgou nos
Congressos Eucarísticos Nacionais do Recife, São Paulo, Belo Horizonte, Porto
Alegre, Curitiba e na Consagração do Brasil à Nossa Senhora e em outras ocasiões
religiosas e civis de relevante importância, merecendo ser incluído entre os maiores
oradores sacros de nossa Pátria. A 5 de janeiro de 1945 foi elevado a Arcebispo
Metropolitano de Belém do Pará, quando desenvolveu fecundo apostolado que o
projetou mais no cenário brasileiro.
Imortalizou-se, no entanto, na realização do VI Congresso Eucarístico Na-
cional, no ano de 1953, na capital paraense. Após 12 anos de intenso trabalho apos-
tólico no Norte do Brasil, começou a sentir abalo em sua saúde, motivado prova-
velmente pelos rigores do clima abrasador da região. Foi então transferido para a
Bahia como Arcebispo Coadjutor do Eminentíssimo Sr. Cardeal de Salvador e Pri-
maz do Brasil, com direito à sucessão, em maio de 1957.
Demorou-se por pouco tempo na Bahia, sendo, a pedido, transferido para a
Arquidiocese da Paraíba, empossando-se a 27 de setembro de 1959. Persistindo os
males que lhe afetavam a saúde, não lhe foi possível exercer os planos e metas que
traçou. D. Mário passou por profundo golpe, que foi o passamento de sua venerada
301 

 
e, para ele, idolatrada genitora, D. Ritinha. Abatido e triste, encaminhou à Santa Sé
novo pedido de renúncia, que foi aceito em 18 de maio de 1965. Retirou-se, então,
de volta a Aracaju, onde foi residir em casa, que lhe foi generosamente ofertada por
um grupo de fiéis amigos e admiradores. Lá, veio a falecer a 23 de fevereiro de
1968, aos 65 anos de idade, 43 de Padre, 30 de Bispo e 23 de Arcebispo.

VI – 4º Arcebispo – D. José Maria Pires

Após a renúncia de D. Mário, do Governo Arquidiocesano da Paraíba, em


18 de maio de 1965, seguiu-se longa vacância, em que o mesmo Governo foi exer-
cido pelo Vigário Capitular eleito, Mons. Pedro Anísio Bezerra Dantas.
Nomeado pelo Papa Paulo VI, no dia 2 de dezembro de 1965 tomou posse
em 27 de março de 1966, o 4º Arcebispo Metropolitano, D. José Maria Pires, nas-
cido em Córregos, Minas Gerais, aos 15 de março de 1919. Estudou no Seminário
de Diamantina, onde se ordenou Padre em 20 de dezembro de 1941. Exerceu o
magistério como Diretor do Colégio em Governador Valadares. Foi Pároco em
Açucena e Curvelo. Escolhido para o Episcopado, em 22 de setembro de 1957,
tornou-se Bispo de Araçuaí, escolhendo o lema Scientiam Salutis – Ciência da Salva-
ção. Ali permaneceu durante oito anos, até a sua elevação ao Arcebispado da Paraí-
ba.
Sua caminhada em nosso meio se notabilizou pela ação pastoral que, como
Padre Conciliar que foi, do Concílio Ecumênico Vaticano II, fez-se responsável pe-
las profundas modificações que a Igreja tem sofrido em sua atuação no mundo
contemporâneo, em nível de documentos de ordem doutrinária, ou de atitudes prá-
ticas no âmbito pastoral. Foram 30 anos de convivência em que o Arcebispo D. Jo-
sé deu testemunho de vida, com a força irresistível de franqueza e coragem de lutar.
Pela justiça, pela posse da terra, pela não violência, pela paz social. Foi um trabalho
insano, liderando movimentos que visavam conduzir nossa Igreja do remanso das
elites para a conturbada periferia dos pobres e excluídos, ou como ele próprio dis-
sera e escrevera: “Do centro para a margem”.
Estimulou, através de Assembleias diocesanas, encontros, visitas pastorais e
inter-eclesiais, as Comunidades Eclesiais de Base, campanhas de fraternidade, co-
missão pastoral da terra, pastorais especializadas: do negro, do índio, e do movi-
mento de promoção da mulher e da proteção ao menor abandonado. Criou o Cen-
tro Cultural São Francisco, incluindo o Museu Sacro, o Arquivo Eclesiástico, rea-
briu o Seminário Arquidiocesano. Instalou, em terreno doado pelas Religiosas de
Santa Catarina a nova Casa dos Padres, com ajuda vinda do exterior, e celebrou o
302 

 
Centenário da Diocese – 1984-1994, com dístico: “Cem anos de coragem e fé”.
Em 1975, teve seu Bispo Auxiliar, na pessoa do Sr. D. Marcelo Pinto Carva-
lheira, o qual, mais tarde, tornou-se o 1º Bispo de Guarabira, cidade paraibana que
se tornando Diocese, ficou fazendo parte da Província Eclesiástica da Paraíba.
Cumprindo disposições emanadas da Santa Sé Apostólica, por motivo de haver a-
tingido a idade de 75 anos, apresentou ao Santo Padre, o Papa, o seu pedido de re-
núncia do ônus episcopal, que aceito, em 29 de novembro de 1995, tornou-o Arce-
bispo emérito da Paraíba e Administrador Apostólico Arquidiocesano até a posse
de seu substituto.

VII – 5º Arcebispo – D. Marcelo Pinto Carvalheira

Nasceu em Recife a 1º de maio de 1928. Cursou o Seminário de Olinda, on-


de concluiu o 1º e 2º graus. Filosofia e Teologia cursou na Pontifícia Universidade
Gregoriana, em Roma. Ordenou-se Sacerdote na Cidade Eterna, aos 28 de feverei-
ro de 1953. De volta a capital pernambucana, foi Professor de Teologia no Seminá-
rio de Olinda e mais tarde, Diretor Espiritual do Seminário Arquidiocesano do Re-
cife, na Várzea e ainda Reitor do Seminário Regional do Nordeste, Olinda e Cama-
ragibe. Ainda como Padre, foi Vigário Episcopal para o setor de leigos. Já no ano
de 1975 foi eleito Bispo, sendo sagrado em João Pessoa, aos 27 de fevereiro, como
Auxiliar do Sr. Arcebispo da Paraíba.
Em 1981 foi transferido para a recém-criada Diocese de Guarabira, como
Bispo Diocesano, atuando sempre dentro do seu lema escolhido Evangelizare – E-
vangelizar, tornou-se verdadeiro missionário, difundindo o Evangelho entre todas
as camadas da sociedade, de modo mais intenso entre os humildes e os sem vez e
sem voz. Durante o período, teve sempre marcante atuação na C. N. B. B. – Con-
ferência Nacional dos Bispos do Brasil, participando pelo Episcopado Brasileiro no
Sínodo Universal dos Leigos, em Roma, e na Conferência Geral do Episcopado La-
tino-americano.
A 29 de novembro de 1995 foi elevado a Arcebispo, tornando-se o 5º Arce-
bispo Metropolitano da Paraíba. Sua posse canônica foi efetuada no dia 14 de janei-
ro de 1996.
O novo pastor tem procurado dar execução ao Projeto de Evangelização da
Igreja no Brasil, em preparação ao grande Jubileu do Ano 2000, rumo ao 3º Milê-
nio, proposta pela Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, dentro das reais
circunstâncias do nosso meio. Assim, levando em conta o constante crescimento
populacional das regiões suburbanas da sede episcopal, criou e instalou mais sete
303 

 
Paróquias: No Jardim Planalto, a da Virgem dos Pobres; no Jardim 13 de Maio, a
de Nossa Senhora Aparecida; no Brisamar, a de São Pedro e São Paulo; na Penha, a
de Nossa Senhora de Guadalupe; no Bessa, a da Virgem do Auxílio dos Cristãos;
no Conjunto Castelo Branco, a de São Rafael; no Rangel, a de São Francisco das
Chagas. No interior, foi ainda criada na cidade de Itapororoca a Paróquia de São
João Batista.
Além disso, na Capital, a antiga igreja do secular Mosteiro de São Bento foi
reaberta ao culto público, depois de restaurada, o mesmo acontecendo com o Con-
vento e a Igreja da Guia, na praia de Lucena. Na praça São Francisco, no centro da
cidade, foi instalado o Convento para as Irmãs do Carmelo, Nossa Senhora Mãe de
Deus. A Arquidiocese, com ajuda financeira do Movimento Internacional “Adveni-
at”, adquiriu uma casa, bem próxima à Igreja Catedral, para servir como Residência
Episcopal. É de referir-se aqui, o empenho pessoal do Sr. Arcebispo D. Marcelo,
junto à Congregação Romana do Culto Divino no Vaticano, e até junto ao próprio
Papa no sentido de que fosse benignamente aceita sua súplica de elevar nossa Cate-
dral à dignidade de Basílica Menor, o que, felizmente se tornou realidade com a as-
sinatura pelo Papa João Paulo II, do Breve Pontifício, datado de 5 de novembro de
1997. Igualmente não é de ocultar-se que essa honrosa conquista dos católicos pa-
raibanos, principalmente se deve ao nosso Instituto Histórico e Geográfico Parai-
bano, que, por ocasião das comemorações do IV Centenário da criação da Paraíba,
em 1985, através de proposta nossa, aprovada na oportunidade, enviou correspon-
dência ao Vaticano pedindo tal privilégio que é ser, hoje, o nosso mais antigo san-
tuário mariano da Paraíba a igreja Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves.
Além de altas missões delegadas pela CNBB, nosso Arcebispo foi recente-
mente em Assembleia Geral eleito Vice-presidente desse Órgão representativo da
Igreja no Brasil, o que sendo para ele uma honra, lhe acarreta muitos encargos que
o obrigam, inclusive, a deslocar-se frequentes vezes, viajar a Brasília, São Paulo e
até Roma. Em decorrência ainda desses novos encargos tornou-se responsável pelo
acompanhamento à vida religiosa do Brasil.

VIII – Conclusão

À guisa de conclusão deste nosso estudo sobre A IGREJA NA PARAÍBA,


gostaria de apresentar interessantes e judiciosas considerações sobre o tema deixado
escrito, ao ensejo da ocorrência do centenário da instalação da nossa Diocese
(1894-1994) pelo nosso Arcebispo Emérito D. José Maria Pires, o qual distingue
duas fases na Igreja da Paraíba:
304 

 
1ª fase: Igreja – Poder Religioso ao lado do Estado – Poder civil, compreen-
dendo os períodos de D. Adauto e D. Moisés. Quer dizer, a predominância era do
poder civil sobre a Igreja, segundo D. José Maria.
2ª fase: Igreja – Progressismo e conservadorismo, que engloba os últimos
pastores D. Mário Vilas-Boas, D. José Maria Pires e, acrescentaríamos, D. Marcelo
Carvalheira.
Indaga D. José Maria: Estaríamos iniciando, agora, uma nova fase de Igreja?
Estaríamos saindo da contestação, em que ainda se destaca a imagem da Igreja-
Poder e partindo para um outro modelo, o da Igreja-formadora de consciência, de-
fensiva dos direitos, inspiradora de esperança e promotora da paz?
É a pergunta de D. José colocada para nossa reflexão.
E assim agradeço e peço mil perdões pela maçada aos presentes. O que vale
é minha intenção de prestar minha colaboração a este Ciclo. Deus lê dentro cora-
ção e dentro do meu coração está, sem dúvida, a minha Igreja da Paraíba, os Bispos
com os quais eu servi, de modo particular, D. Adauto, em cujo período entrei no
Seminário; D. Moisés, que me ordenou padre; D. Mário, que apenas lamento a sua
fraqueza física por não ter podido seguir o seu programa; D. José, com os piparotes
que me deu e que eu retribui à altura, e que hoje é meu amigo (em certo tempo não
foi, não; foi meu padrasto e até disse a ele, porque no meu tempo a gente tinha o
Bispo como pai, mas ele foi um padrasto); e D. Marcelo, que é aquele coração i-
menso, a quem nós queremos muito bem.

A fala do Presidente:

Nosso debatedor mostrou-nos a direção da Igreja na Paraíba, nesses 500 a-


nos de Brasil, desde quando a Paraíba se transformou na Diocese que abrangia
Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte, em 1614.
O registro da atuação dos nossos Bispos e Arcebispos ficará nos nossos a-
nais. Um trabalho dessa natureza é necessário para nossa história eclesiástica.
Por outro lado, temos que acentuar o trabalho apresentado pelo professor
Manuel Batista de Medeiros, que deu uma coloração sociológica e política sobre a
participação da Igreja na Paraíba..
Apesar do adiantado da hora, passamos a palavra aos que desejarem oferecer
algumas considerações.

1º Participante: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho:


305 

 
Gostaria de saber se a Igreja, que foi tão preocupada com os índios do Bra-
sil, se ordenou algum índio padre?
Manuel Batista:
Foi ordenado um índio, mameluco. Serafim Leite conta uma designação.
Guilherme d’Avila Lins:
Quero parabenizar o professor Manuel Batista de Medeiros e o Monsenhor
Eurivaldo Caldas Tavares por suas exposições tão oportunas. Quando o professor
Manuel Batista falou sobre Capistrano de Abreu refleti o seguinte: a um historiador
que tenha um razoável embasamento informativo ele sequer precisa ser católico pa-
ra perceber a importância da Igreja católica na formação cultural, artística, social,
educacional da nossa sociedade. E uma prova evidente deste fato é que o próprio
Capistrano era ateu. Completamente ateu, e que sofreu como um condenado quan-
do a filha Honorina resolveu ser freira.. Mas ele disse que não se poderia escrever a
História do Brasil sem primeiro escrever-se a história dos jesuítas, melhor dizendo,
de todas as ordens religiosas. Na Paraíba, por exemplo, a Ordem da Companhia de
Jesus teve um uma influência importante, mas efêmera, porque em dois segmentos.
Desde a campanha da fundação até 1593 e, posteriormente, já no século XVII. Isso
em consequência da política pombalina, que pode ter sido de grande renovação e
modernização para Portugal, mas foi um desastre educacional para o Brasil. Porque,
até serem expulsos os jesuítas do Brasil, já se formavam mestres nos colégios da
Bahia e Rio de Janeiro, com toda a pompa semelhante à da universidade de Lisboa.
Por isso entramos num obscurantismo durante um bom período, até que viesse o
Seminário de Olinda e se renovasse todo o processo educacional brasileira. Mas,
aqui na Paraíba, posso dar meu testemunho pessoal de que as coisas vão melhorar,
pois, até o momento, minha melhor ferramenta de fontes primárias para a História
da Paraíba é o livro do tombo do Mosteiro de São Bento, o qual muito pouco tem
sido consultado, principalmente para a elaboração da nossa história colonial. Ainda
não foi escrita a história da Ordem de São Bento, na Paraíba. A Ordem dos Carme-
litas também foi importante, mas, lamentavelmente, no zelo que tiveram em escon-
der seus livros e fontes com a chegada dos holandeses, resolveram enterrá-los, fi-
cando totalmente perdidos vinte anos mais tarde. Devemos ressaltar o trabalho da
nossa confreira Glauce Burity, que em sua tese de mestrado falou sobre os Francis-
canos, trabalho esse de grande importância para a nossa historiografia. Quando os
holandeses tomaram conta Paraíba escolheram para sediar o governo o Convento
de São Francisco. E que patrimônio artístico nós temos senão o Convento de São

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Francisco, a Igreja de São Bento, a Igreja do Carmo. É a Igreja da Guia, um patri-
mônio sensacional. Passou por um processo de recuperação, mas agora precisa en-
trar num processo de utilização cultural, ou seja, escrever sobre esses monumentos.
Acho que sem a história das Ordens Religiosas na Paraíba, não temos história, ou
temos uma história muito pálida.

Considerações finais do professor Manuel Batista de Medeiros:

Sobre as colocações aqui feitas, posso dizer que ninguém pode calcular o
prejuízo da obra de Pombal em cima da cultura. Para se ter uma amostra, o Brasil
para agraciar o rei da Bélgica teve que fazer um faz de conta que criava a Universi-
dade do Brasil, que na realidade foi criada neste século. E aí a Universidade podia
dar uma comenda ao rei. Enquanto o Peru, já no século XVII, tinha universidade.
Eles não tiveram Pombal.
Quanto a historiadores sem fé, se houver sinceridade na cultura, prescinde-
se da fé. No século passado o Vaticano abriu seus arquivos. E aí, Pastor, um histo-
riador alemão, protestante, escreveu a história dos Papas em 70 volumes. Então
não é preciso ser católico para escrever sobre eclesiologia católica.

307 

 
14º Tema:
A INQUISIÇÃO NA PARAÍBA
Expositor: Carlos André Macêdo Cavalcanti
Debatedora: Zilma Ferreira Pinto

A fala do Presidente:

Reiniciamos nosso Ciclo de Debates, cujo êxito já está assegurado, segundo


os comentários nos círculos culturais da nossa terra.
O tema de hoje será sobre a INQUISIÇÃO NA PARAÍBA, cujo expositor
é o professor Carlos André Macedo Cavalcanti, que convido para vir participar da
mesa dos trabalhos; como debatedora, teremos nossa confreira Zilma Ferreira Pin-
to, que também convido para a mesa.
Tornou-se tradicional fazer a apresentação do expositor, e é com satisfação
que apresento o professor Carlos André Macedo Cavalcanti, que é graduado em
História pela Universidade Federal de Pernambuco; é Mestre e Doutorando em
História; é professor de História Moderna na Universidade Federal da Paraíba; e
atualmente está como Diretor de Arte e Cultura da Fundação Espaço Cultural.
Há dois anos contamos com o concurso de Carlos André quando fizemos
um Seminário de quatro dias sobre a Inquisição, cujo título foi O IMAGINÁRIO
DA INQUISIÇÃO. Foi um evento de grande profundidade, que contou também
com o concurso do professor Severino Silva, da Universidade Federal de Pernam-
buco.
Por considerarmos o professor Carlos André um dos credenciados estudio-
sos dessa área, convidamo-lo novamente para, agora, oferecer aos participantes des-
te Ciclo seus conhecimentos e experiência.
Com a palavra o professor Carlos André.

Expositor: Carlos André Macêdo Cavalcanti (Professor de História Moderna na


UFPB, Mestre e doutorando em História pela UFPE; Diretor de Arte e Cultura da
Fundação Espaço Cultural)

Sempre que venho a esta Casa tenho a enorme alegria de encontrá-la na


guarda e na plena atenção aos nossos valores históricos e no culto à memória pa-
raibana e nacional. Sempre afirmo que o Instituto Histórico e Geográfico Paraiba-
308 

 
no é, sem dúvida nenhuma, não só vocacionado, como gabaritado para ser a insti-
tuição essencial do trabalho, da pesquisa histórica no Estado da Paraíba. Assim, re-
afirmo minha proposta anterior de tornar realidade, por meu intermédio, se for in-
teresse do Instituto a realização de convênio entre o Departamento de História e o
Instituto, que nos parece ser da vocação de ambas as instituições. Reafirmo, mais
uma vez, que as pontes, os vínculos entre estes dois grupamentos humanos que a-
nalisam a história devem se aprofundar, devem se consolidar e avançar no sentido
de termos um trabalho de maior vulto em conjunto.
Hoje nós teremos duas apresentações sobre o tema. Farei minha exposição
com a temática conceitual e a debatedora oficial, professora Zilma Ferreira Pinto,
vai apresentar um trabalho dela sobre a origem dos cristãos novos e sua importân-
cia na História da Paraíba.
Antes de entrar na exposição em si, quero saudar a publicação da Revista nº
31 do Instituto Histórico.. A Revista permanece presente no debate historiográfico
com trabalhos essenciais, importantes, trabalhos que mostram a meticulosidade e a
busca da memória na pesquisa documental e, em especial, menciono o trabalho so-
bre a Inquisição na Paraíba, do professor Luiz Mott, nela publicado. É importante
que surjam foros no sentido de pesquisar e debater a Inquisição. É indispensável
que esse debate se aprofunde e se amplie. Durante muito tempo o tema Inquisição
esteve esquecido na historiografia brasileira. Quase tido como não existente.
Na verdade, entre nós brasileiros, já houve a crença de que a Inquisição não
existiu em nossa História. Oliveira Lima, célebre historiador pernambucano, afir-
mou “estar livre nossa história” da ação do Tribunal do Santo Ofício.
A descoberta dos documentos inquisitoriais referentes ao Brasil, no acervo
do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, mudou esta convicção ante-
rior. Sabe-se hoje que algumas centenas de brasileiros foram processados pelo San-
to Ofício, que marcou nossa cultura com um certo tipo de prática autoritária. A
memória atual do ficcional caso de Branca Dias, na Paraíba, demonstra a força des-
te passado.
Ainda há pouco pensava no Congresso sobre Inquisição que houve em Lis-
boa e São Paulo como algo que deveria ter continuidade. Estive muito tempo na
expectativa de receber uma carta da historiadora Anita Novinsky convidando para
o II Congresso sobre a Inquisição. São 12 anos sem haver a continuidade daquele
congresso. Sabemos a dificuldade para a programação dum congresso como aquele,
que durou trinta dias entre Lisboa e São Paulo, com a participação de pesquisadores

309 

 
do mundo todo, inclusive da Rússia. E os custos foram enormes. Talvez por essa
dificuldade não tenha se realizado o II Congresso.
Sempre que a gente fala sobre o tema Inquisição, lembro sua semântica, co-
mo se referiu um historiador norte-americano chamado Eduard Peters. No livro
dele sobre a tortura, ele inicia dizendo: “a palavra tortura. uma vez pronunciada, realiza,
tanto para quem pronuncia como para quem ouve, um imenso caldo de emoções”. E, em função
disso, a pesquisa sobre tortura acaba ocorrendo dentro daquilo que chamamos “en-
tropia semântica”. Entropia é uma palavra da Química: ocorre quando dois elemen-
tos químicos se fundem. Há um momento em que eles não são mais nem um e
nem outro, e ainda não são o terceiro. No caso, a tortura geraria, segundo Peters,
essa entropia semântica.
Da mesma maneira ocorre com a Inquisição. A palavra Inquisição, por si
própria, já é suficiente para fazer lembrar uma série de atrocidades, e principalmen-
te a intolerância religiosa, que durou tão longamente na história do Cristianismo.
Vamos tentar desenvolver nossa análise dentro de uma tendência da histori-
ográfica contemporânea, cujo porta-voz mais importante, atualmente, é o Dr. Fran-
cisco Bittencourt, da Universidade Nova de Lisboa.
De uns tempos para cá, após a década de 80, que foi um período de uma
produção historiográfica longa sobre a Inquisição, nós começamos a nos questionar
a respeito do uso das fontes documentais.
Já em 1992, sem querer ser precursor desse processo, aqui na Paraíba, no
encontro chamado América 92, que se realizou no Espaço Cultural, nós estivemos
numa mesa de debate em que a professora Anita Novinsky era a debatedora princi-
pal, e nós já colocávamos ali algumas ideias sobre isso que está se tornando o nosso
trabalho mais recente.
Nós dizíamos, por exemplo, que dentro do estudo da Inquisição existe um
problema de fontes. Existe uma imensa dificuldade de fazer uma análise crítica do
documento. E existe, principalmente, uma unicidade de fontes. Raros são os inqui-
sitoriados, raras são as vítimas da Inquisição sobre as quais nós temos informações
sólidas quanto à sua posição religiosa, quanto à sua possível heresia, fora do proces-
so. Então ficamos restritos ao documento que a Inquisição nos legou. Eu chamei
isso de ditadura do processo. A professora Anita Novinsky respondeu dizendo que
só havia realmente uma fonte para estudar o Tribunal do Santo Ofício, que é o
processo.
Hoje estamos assistindo exatamente a ascensão deste questionamento. Já

310 

 
naquele mesmo ano o professor Ronaldo Vainfas, professor fluminense, publicou
um artigo num desses livros-compêndios que Anita organizou, em que ele questio-
nava as fontes e o significado da análise básica sobre o Tribunal como uma mons-
truosidade.
Hoje, no limiar do novo milênio que se iniciará em 2001, estamos vendo os
estudos sobre o Tribunal do Santo Ofício mudarem amplamente de significado. O
maior desafio diante desta mudança é retornar o olhar sobre as fontes. Procurei
trazer para vocês um exemplo de uma dessas fontes, que é uma tentativa de conhe-
cermos essa ambiguidade e essa duplicidade sobre o Tribunal do Santo Ofício.
Antes farei duas observações sobre o artigo do professor Luiz Mott, há pou-
co citado.
Caro presidente Luiz Hugo: o excelente artigo do professor Luiz Mott pode
receber duas pequenas observações para complementar o trabalho dele. Ele cita
dois personagens históricos que pedem uma análise mais aprofundada. Na página
83, da Revista do Instituto Histórico, ele fala de Manuel Dias Carvalho, que hospe-
dou o padre Gregório Martins Ferreira em 1654. Nos Apontamentos Biográficos
do Clero Pernambucano consta Manuel Dias Carvalho em 1654 já como primeiro
vigário da igreja de São Pedro Mártir, de Olinda. Isso permite uma análise aproxi-
mada. São Pedro Mártir, por quê? Mártir, porque era inquisidor. Ele foi assassinado
pelos hereges que perseguia, no século XIII. Para a igreja de São Pedro Mártir, em
princípio, segundo o próprio Bittencourt, colocavam-se pessoas que tinham muita
aproximação com o Tribunal e que fossem bastante afinadas com os princípios da
Inquisição. Então, este personagem ao mesmo tempo recebe em casa alguém que
está sendo perseguido pelo Tribunal e, no entanto, está nomeado para a igreja de
São Pedro Mártir. Vale então uma pesquisa mais aprofundada a respeito dele. Um
outro é Francisco Pereira, cristão novo que aparece nas listagens de Mott nas pági-
nas 86 e 87 e que tem um homônimo, ou ele mesmo também nos Apontamentos
do Clero Pernambucano, que é um padre jesuíta expulso de Pernambuco em 1760,
na leva de expulsão dos jesuítas por Pombal, e que poderia ser a mesma pessoa.
Para essas colocações eu me ponho à disposição do Instituto no sentido de
encaminhá-las ao professor, sugerindo uma continuidade.
Retornando à nossa exposição, quero registrar que a Inquisição sempre apa-
rece nos jornais, nas revistas, na televisão, na mídia, citada no meio de alguma notí-
cia ou ela mesma como a notícia mais importante. E ela sempre aparece referida
como um escárnio ou monstruosidade. O Tribunal da Inquisição tem os seus sinô-

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nimos que foram referidos recentemente numa matéria publicada no CORREIO
DA PARAÍBA, dia 24 de outubro de 99, intitulada “Bruxas expressam a magia e a
força interior femininas”. Lá para as tantas, fazendo uma observação, a repórter diz:
“Ao pensar em uma bruxa, a imagem que se tem é daquela senhora voando em uma vassoura.
Seria engraçado se não fosse tão sério. As pessoas não lembram da velha Inquisição, onde inúme-
ras vidas foram tiradas, muitas vezes sem se provar a culpa da vítima. Tempos longínquos de pro-
ibição em que a mulher deveria casar virgem, servir ao homem sempre com a disposição que lhe fos-
se possível”.
Essa afirmativa mostra uma expectativa que se tem sobre o estudo do Tri-
bunal do Santo Ofício. Muitas vezes estuda-se o Tribunal em torno do seu sentido,
como uma instituição que representa um anátema histórico e uma negação do seu
próprio tempo. Vamos buscar a recolocação desse Tribunal através das suas origens
mais distantes, mais longínquas. E aí nós buscamos fazer uma divisão do tempo,
que serve para reformular essa visão um tanto maniqueista.
Nós dividimos o tempo inquisitorial em duas fases. Uma fase vai da sua
fundação ou das atividades inquisitoriais que se formam na Península Ibérica no fi-
nal do século XV – a sua fundação oficial é na década de 30 do século XVI – até
1640 e uma segunda fase vai de 1640 até a sua extinção em 1821. As duas fases nós
buscamos dividir segundo conceitos. A primeira nós conceituamos como a fase da
Pedagogia do Medo e a segunda nós conceituamos como a fase da Pedagogia
do Desprezo.
Durante toda a primeira fase, que ocorre no século XVI e primeira metade
do século XVII, a característica central, principal, que carrega o Tribunal do Santo
Ofício é aquilo que Jean Dulumo chamou de “medo obsidional”. É um período,
em toda a Europa, não só na Colônia brasileira, e não é exclusivo de nenhuma das
nações, é um período – repito – que se desenvolve a ideia de que a qualquer mo-
mento poderia haver uma degeneração da civilização. Acreditava-se, por exemplo,
no medo que se tinha do mouro invasor, que era um medo real, porque o mouro
muitas vezes tentou chegar ao centro da Europa; acreditava-se no medo de bruxa,
que era um medo muito viável nas expressões mágicas da cultura naquele momen-
to; acreditava-se no medo do cristão novo, uma figura imponderável (o cristão no-
vo é imponderável porque nunca se sabe o que ele será, ele não é só indefinido,
mas é também inexorável, ele pode a qualquer momento judaizar alguém); então se
acreditava também no medo do cristão novo; acreditava-se no medo das magias o-
riginais, anteriores à cultura da cristianização. Nesse período de medo obsidional,

312 

 
de sentimento de cerco, de uma civilização que se sente posta contra a parede e
quase esmagada, nesse período o Tribunal do Santo Ofício foi o realizador, o efeti-
vador de toda uma cultura de expectativas de que a modificação e a transformação
do mundo ocorreriam com a regeneração da ortodoxia católica. Esse é o primeiro
momento. Momento da Pedagogia do Medo.
O segundo momento nós chamamos de Pedagogia do Desprezo e nele
vamos procurar esmiuçar mais o tema. Ele vai de 1640, na realização de um novo
regimento, até 1821, após o período de reforma do Tribunal do Santo Ofício. Essa
é a fase de reconstrução e de reformulação da intolerância do Tribunal. O que o-
corre nessa fase nos interessa mais de perto porque é nela que se dá a transforma-
ção das expectativas que a sociedade tinha sobre o Tribunal. E é nessa fase que te-
ria ocorrido, na Paraíba, ou pelo menos ocorre na tradição oral paraibana, o caso de
Branca Dias, tão decantado.
Por três séculos os judeus não tiveram sossego em Portugal. O Tribunal do
Santo Ofício da Santa Inquisição processou aproximadamente 52.000 infelizes.
Destes, algo em torno de 41.000 devem ter sido judeus e cristãos-novos. Uma das
bases de sustentação deste ato de intolerância está em trechos do próprio Livro
Santo, interpretados pelos inquisidores como sendo uma ordem divina de persegui-
ção aos infiéis judeus. Textos de Isaías e do Deuteronômio abasteciam os inquisi-
dores.
Essa intolerância chegou ao Brasil. Aqui, fez vítimas e criou um ambiente de
medo e denúncias. O estudo desse período passa pela análise da personagem Bran-
ca Dias. Há três Brancas. Uma delas já tem a existência histórica comprovada: viveu
em Pernambuco e foi processada pela Inquisição como judaizante no século XVI.
Há uma outra que teria vivido em Apipucos (hoje município do Recife), mas sem
documentação comprobatória de sua existência. A Branca que nos interessa teria
vivido em Gramame, Paraíba, no século XVIII.
Se Branca Dias não é comprovada historicamente, se ela não existiu histori-
camente e realmente ela não tem comprovação de existência ou qualquer documen-
tação, nos interessa, no entanto, como um objeto básico de memória e como uma
exposição essencial daquilo que a sociedade imagina como tendo sido o Tribunal
do Santo Ofício. É memória no sentido aristotélico.
O momento é muito propício para debatê-la, pois a “nossa” Branca vai para
nas telas de cinema em breve. No novo ciclo de crescimento do cinema brasileiro
aparece o projeto do cineasta Davi Kulock e da roteirista Sílvia Lonh para um filme

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ficcional sobre Branca Dias. O filme deverá ser rodado no próximo ano.
Branca Dias é a “personagem” histórica – ainda que ficcional – mais contro-
vertida da Paraíba. A biografia dela é repleta de fatos contundentes. Sua própria e-
xistência é posta em dúvida. Branca foi, segundo o “Livro de Branca”, de J. Abreu,
uma judia vitimada pela Inquisição. Naquela época – século XVIII – os judeus vivi-
am sob o terror da conversão forçada decretada desde o século XV, obrigando os
“filhos de Israel” a se tornarem cristãos na marra. Até o Papa chegou a questionar
tal obrigatoriedade, mas acabou se deixando levar pelas pressões do Império Portu-
guês. Com a conversão, o judeu – que pensava se livrar da perseguição após ter se
convertido – passava a ser tido como cristão-novo ou criptojudeu, ou seja, cristão
nas aparências públicas, mas ainda judeu nos hábitos e no coração.
A história de Branca é paradigmática. Teria sido vítima da paixão anormal de
um padre que desejava a judia a qualquer preço. Em nome do amor que tinha pelo
noivo, também judeu, Branca resistiu a todas as pressões. A história é marcada pe-
los mitos que formam o imaginário da nossa gente. Tendo ou não ocorrido, sob a
narrativa heroica está o mitologema mais caro da alma luso-brasileira: a “saudade
do impossível”. Esta saudade conduz Branca ao embate suicida contra os inquisi-
dores. Ela sabe que não poderá ter uma vida normal ao lado do seu amado. Sabe
que poderá perder tudo para o confisco inquisitorial. Sabe que só lhe restará “lem-
brança do que TERIA SIDO a vida sem a Inquisição”. Mesmo assim, Branca não se
entrega às pressões do padre... e morre queimada por causa de seu destemor.
Nós, brasileiros, buscamos este paradigma heroico em nós mesmos, nos
nossos políticos, nos nossos artistas e até nos jogadores que representam o “país do
futebol” na Copa do Mundo. Branca, tendo ou não existido, leva em si um pouco
da nossa alma. Ou, para usar o termo científico forjado por Arnold Toynbee (um
dos maiores historiadores deste século), Branca Dias diz muito do “espírito de uma
época e de um povo”.
Branca teria sido a realização de uma das características do imaginário colo-
nial brasileiro muito bem definidas pelo antropólogo francês Gilbert Durand. Ele
diz que o nosso imaginário é composto de vários mitologemas e dois desses mito-
logemas vão nos interessar especificamente para o estudo da Inquisição.
Num deles ele coloca que a nossa cultura é caracterizada pela saudade do
impossível; isso é realmente a nossa cara. Nesse mitologema haveria uma constante
expectativa de retorno ou de realização daquilo que se sabe impossível. Ele vai no
exemplo de S. Sebastião – sebastianismo – (não vou me alongar sobre ele, o rei que

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desapareceu e que deveria retornar) e tenta conhecer a alma brasileira e alma lusita-
na afirmando essa saudade do impossível como uma formulação essencial do Tri-
bunal do Santo Ofício. O Tribunal é a realização do oposto essencial da noção de
saudade do impossível. Não se tem saudade daquilo que é impossível se não houver
a realização da impossibilidade. Nossa sociedade teria, no Tribunal do Santo Ofício,
o realizador desta impossibilidade naquele período (século XVII/XVIII).
O Tribunal do Santo Ofício comporia então uma forma essencial de conhe-
cimento da própria maneira de ser do brasileiro e do português e dos povos ibero-
americanos, já que ele teria forjado na nossa cultura um dos seus pontos civilizado-
res essenciais.
E aí a gente entra por outra discussão, que é difícil de admitir e difícil de
contextualizar. Porque como disse no começo da exposição, a ideia de Inquisição
surge sempre para o debate e sempre que estou diante de um plenário, falando so-
bre Inquisição, eu imagino que expectativa o plenário tem sobre o tema. Que con-
ceito anterior nós carregamos e sempre que foi possível captar. Aqui, naquele curso
já mencionado, nós fizemos por escrito. As pessoas chegaram a escrever. Eu distri-
bui um pequeno formulário perguntando às pessoas o que elas acreditavam o que
fosse a Inquisição. Depois dos formulários prontos concluímos que, mesmo para
aquelas pessoas, algumas alunos de história, o Tribunal não tinha uma explicação
histórica essencial, não tinha uma explicação histórica factual, não tinha uma expli-
cação histórica cabível. Por que? Porque aconteceria como uma imposição de um
grupo diante do resto da sociedade.
Então, a visão durandiana de análise do imaginário permite que a gente co-
mece a compreender aquilo que talvez nos seja difícil compreender. Que este Tri-
bunal, sendo o que foi, intolerante, arrogante, engendrando o terror, como engen-
drou, foi parte da nossa civilização, foi parte daquilo que nós somos hoje; foi parte
dos valores que geraram a nossa sociedade. Ao contextualizá-lo historicamente, ao
trazê-lo de volta àquilo que é factível, nós fazemos o que Max Weber esclarece mui-
to bem: não é possível analisar um objeto histórico, a não ser pela suposição de que
ele, no momento que ocorreu foi valor ativamente aceitável, no momento foi valor
ativamente bom ou tido como correto. Isso é que é duro no Tribunal da Inquisição
e na análise da Inquisição.
Aí é preciso fazer outras separações ou distinções: como membro dessa cul-
tura herdeira do Tribunal, dentre outras tantas variáveis, mas também herdeira da
Inquisição, e enquanto membros da fé cristã. Trata-se outro movimento difícil de

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realizar para poder chegar à análise do Tribunal, ele mesmo. Eu mesmo, como ca-
tólico, desde o início foi difícil de manter-me na fé, que é de mim e da minha famí-
lia, e ao mesmo tempo analisá-la no seu momento mais difícil, no seu momento de
arrogância, no seu momento de imposição. Essa é outra distinção essencial de se
fazer. É necessário que nós façamos, não que procuremos a neutralidade em rela-
ção ao objeto estudado, mas que procuremos a objetividade. Conhecê-lo objetiva-
mente e de nada adiantaria, como coloca Petters, aumentá-lo na sua monstruosida-
de apenas para denegri-lo, porque, ao fazê-lo, estamos criando algo que não existiu.
Graças a essa análise durandiana, da “saudade do impossível”, poderemos
fazer algo que torne, para vocês, uma exposição mais interessante.
Deixamos de lado a análise de casos pontuais e buscamos a análise do do-
cumento histórico como base da mentalidade inquisitorial. Os processos deixam de
ser o processo de João, o processo de José, o processo de Maria, mas o processo
organizado e estruturado por determinado inquisidor ou por determinada mesa in-
quisitória.
De modo geral, a análise se limita a apanhar o livro falando de uma visão ge-
ral do Tribunal do Santo Ofício, depois faz alguns conceitos e em seguida faz estu-
dos de casos. Francisco Bittencourt, autor desta obra essencial para o estudo do
Tribunal do Santo Ofício, que ainda está um pouco desconhecida no Brasil, que a-
caba de chegar por importação – HISTÓRIA DA INQUISIÇÃO – PORTUGAL,
ESPANHA E ITÁLIA – fez toda a sua pesquisa com um grupo de 45 pesquisado-
res espalhados nos três países durante um período que soma dez anos de trabalho
e, neste livro, realizou a análise do Tribunal sem analisar um único caso. Nós não
chegamos a esse ponto, nós não radicalizamos tanto, mas vamos tentar passar para
vocês o que seria uma análise simbólica do Tribunal, o que seria uma análise do i-
maginário do Tribunal, dele mesmo, não para aqueles que foram inquisitoriados.
Essa é uma ideia essencial. É muito fácil quando nós vamos falar do Tribunal do
Santo Ofício, como faz, por exemplo, o próprio professor Mott, ir à análise dos
números. Encontramos, facilmente, na reação da plateia, aquela decepção com os
números. Quantos foram inquisitoriados? 40, 50, na história do Tribunal na Paraí-
ba? Quantos foram para a fogueira? (Um aluno da minha disciplina de Inquisição
dizia que estava sentindo falta do churrasco, depois de ler o trabalho). Quem afinal
foi queimado? Quantos foram para a fogueira? Um? Talvez dois, se a gente levar
em conta as informações da documentação que chega nesse Projeto Resgate. Será?
Nos números, nas estatísticas, no valor dado ao que nós chamamos “estatística do

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sofrimento”, o Tribunal resume-se a um punhado de gente. Nós buscamos evitar
esse reducionismo e partimos para a compreensão da sua simbologia e do seu signi-
ficado.
O Tribunal era essencialmente um tribunal moderno, um tribunal do regime
absoluto e da monarquia absoluta. A essência da mentalidade de um inquisidor era
a soma entre a hierarquização da fé e a utilização hierárquica da fé, ou seja, o seu
prestígio enquanto inquisidor, a política que rodeava esse jogo de prestígio e a efe-
tivação dos mitos de pureza presentes no imaginário da cristandade muito antes da
formação do próprio Tribunal.
Buscando, daqui e dacolá, nós chegamos, por exemplo, a algumas citações
bíblicas, que eu vou reproduzir para vocês. E que eram utilizadas pelos inquisido-
res. Nem tudo que encontramos poderemos utilizar aqui hoje, porque consultando
a co-orientadora da minha tese sobre as citações que gostaria de fazer, ela não con-
cordou, informando que era contra o regulamento da feitura de teses. Mas concor-
dou com as citações da Bíblia. Essas citações bíblicas eram feitas pelos inquisidores.
Eram feitas nos processos? Não. Eram feitas nas correspondências dos inquisido-
res, pouco estudadas; eram feitas na documentação relatorial da Inquisição, essa
muito menos estudada; eram feitas na visita que autoridades de outra instituição fa-
ziam. Por exemplo, alguém do Vice-reinado presente em Goa anotou a justificativa
teológica apresentada por um inquisidor, isso também nunca foi levado em conta.
O que ocorreu, realmente, nós devemos admitir, é que no momento em que se a-
briram os arquivos inquisitoriais no século passado e neste século, e agora na aber-
tura dos arquivos do Vaticano, os historiadores se fixaram em casos.
Ainda um dia desse vi na ISTO É ou na VEJA alguém dizendo que os ar-
quivos não tinham sido abertos. Mas na verdade, eles foram, só que a fila é muito
grande e as exigências também. A fila está para o ano 2001. Se você chegar hoje no
Vaticano e buscar uma pesquisa no arquivo a resposta que eles dão, pelo menos me
deram por Internet, é para maio ou junho de 2001, e ainda exigem uma série de a-
petrechos técnicos e intelectuais de quem vai visitar. Por exemplo, o domínio abso-
luto do latim e do latim arcaico na pesquisa do documento. Mas eles têm razão, se-
não vai alguém para lá que não sabe, e fica tomando o lugar de quem sabe. E além
disso, eles aconselham (eu fui aconselhado) a ter uma carta de apresentação de al-
guém da Igreja. Melhor que antes, que nem uma carta de apresentação do Papa a-
bria o arquivo. Houve uma evolução muito grande.
Qual a expectativa dos historiadores que estão indo ao arquivo do Vaticano,

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agora? Mais uma vez o estudo de casos. Bittencourt teria anunciado que vai com
sua equipe para lá e deverá fazer a análise desses documentos, cujos códices nós
vamos ter para revelar e que são documentos de ação do Tribunal fora dos proces-
sos.
Citarei, a seguir, alguns trechos bíblicos como origem do mitologema dessa
hierarquização da fé. São trechos interpretados pelos inquisidores como facilitado-
res e justificadores da ação inquisitorial. Não estou dizendo que eles são; foram in-
terpretados assim. O desejo de interpretar é de cada um.
Vejamos um desses trechos:

“(...) o Senhor espera o momento em que terá misericórdia de vós (filhos de Israel), e ele
exaltará a sua glória, perdoando-vos, porque o Senhor é um Deus de equidade; ditosos to-
dos os que esperam nele. (...) E (antes desse tempo feliz) o Senhor vos dará o
pão da angústia e a água da tribulação; porém, (depois) fará com que nunca se
afaste de ti o teu doutor; e os teus olhos estarão vendo sempre o teu mestre. E os teus ouvi-
dos ouvirão a sua palavra, quando clamar atrás de ti (dizendo): Este é o caminho, andai
por ele; e não declineis nem para a direita nem para a esquerda.” (Isaías, 30, 18 e 20 –
21)

Essa observação, feita por um inquisidor em sua correspondência, seria a


justificativa da perseguição aos cristãos-novos, perseguição aos judeus e ele chega
até a dizer, com mais ênfase, com mais determinação do que o próprio Tribunal,
principalmente no século XVII que a Inquisição não deveria ficar restrita apenas
aos que já se converteram. Porque vocês sabem que o Tribunal apenas agia sobre
quem se convertia. Em teoria, o Tribunal tinha como princípio agir sobre cristãos.
Aquele que é judeu, que não tem obrigação de respeitar as normas da cristandade
ou do catolicismo, não teria, em teoria, a ação do Tribunal. Uma vez que ele se
converteu, à força, por decreto, em poucos dias, então ele pode ser perseguido pelo
Tribunal da Inquisição e a sua ortodoxia pode ser testada pela Inquisição. Esse in-
quisidor vai além e chega a dizer que o Tribunal fez pouco ao restringir-se a isso.
Numa outra dessas correspondências não se encontra o trecho, como se en-
controu na anterior, apesar dos erros, mas se encontra a referência, e na referência
modernizada, nessa nova tradução que os exegetas realizam da Bíblia, com uma e-
dição já existente no Brasil, desde 1992/93, o outro trecho refere-se assim a um ou-
tro assunto semelhante. Vejamos o trecho:

“Se o teu irmão, filho de tua mãe ou teu filho ou tua filha, ou tua mulher que repousa so-
bre o teu seio, ou o amigo a quem amas como à tua alma, te quiser persuadir, dizendo-te

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em segredo: Vamos, e sirvamos a deuses estranhos (...), não cedas ao que te diz, nem o ou-
ças, nem teus olhos lhe perdoem (...), mas logo o matarás; seja a tua mão a primeira sobre
ele, e depois todo o povo lhe ponha a mão. (...)”. “Se ouvires alguns que dizem: Alguns fi-
lhos de Belial saírem do meio de ti, e perverteram os habitantes da sua cidade, e disseram:
Vamos e sirvamos aos deuses estranhos, que vós não conheceis; informa-te com solicitude e
diligência, e, averiguada a verdade do fato, se achares ser certo o que se disse, e que, efeti-
vamente se cometeu tal abominação, imediatamente farás passar à espada os habitantes
daquela cidade; e destruí-la-ás com tudo que há nela, até aos gados. Juntarás também
no meio das suas praças todos os móveis que nela se acharem, e
queimá-los-ás juntamente com a cidade, de maneira que consumas
tudo em honra do Senhor teu Deus, e que seja um túmulo perpétuo, e não seja
mais re-edificada, e não se te pegará às mãos nada deste anátema, para que o Senhor a-
plaque a ira do seu furor, e se compadeça de ti (...).” (Deuteronômio, 13, 6-9 e 12-27.
Grifos nossos.)

Essa busca de fundamentação dentro da Bíblia só não foi maior do que uma
outra busca, da qual nós poderíamos falar mais detidamente se tivéssemos mais
tempo, que é a busca de fundamentação em São Tomás de Aquino. Há outras fon-
tes que demonstram esta influência até nos seminários da época.
Essas cartas entre inquisidores de tribunais paralelos, que trabalham no
mesmo império, tinham que ter autorização dos superiores e teriam que ter uma au-
torização permanente para que elas fossem escritas e, possivelmente, elas fossem
censuradas. Mas o fato é que maior do que a busca de embasamento bíblico para a
intolerância religiosa foi a busca do embasamento em São Tomás de Aquino.
Quando Tomás refere-se à mística, no sentido em que ela se origina dos místicos,
não a mística cristã, ele, quando defende, fala de constrição em torno do Espírito
Santo, da ligação do fiel cristão com as regras específicas da cristandade.
Vejamos uma outra citação da Bíblia, que é uma citação que vale uma inter-
pretação:

“E Balac, rei dos Moabitas, disse-lhe: Vem, e levar-te-ei a outro lugar, a ver se é do a-
grado de Deus que tu de lá amaldiçoes o povo de Israel. E, depois de o ter levado ao cimo
do monte Fogor, que olha para o deserto, Balaão, o adivinho, disse-lhe: Levanta-me aqui
sete alares, e prepara outros tantos novilhos, e igual número de carneiros. Balac fez o que
Balaão lhe dissera, e pôs um novilho e um carneiro sobre cada altar.” (Números, 23, 27-
30)

Quando vi essa citação pela primeira vez fiquei bastante pensativo em torno
dela, sobre o que ela podia significar. No meio de um processo similar surge a justi-
ficativa e a contextualização dessa citação na cabeça dos inquisidores. Talvez só na
cabeça deles mesmos. O que é que eles buscam aqui? Eles pensam que os judeus,
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que o povo de Israel, só poderia ser vencido pela intervenção dos adivinhos, dos
feiticeiros, dos mágicos, ou pela anuência de Deus. Então, num processo ocorreria
que uma feiticeira havia sido acusada de realizar o seu feitiço contra um judeu. En-
tão o inquisidor interpretaria que contra um judeu podia. Esse é o significado da ci-
tação. Ele admite, cascavilha até encontrar algo que justificasse que contra um ju-
deu, com a permissão de Deus, pode. Ela fez o que fez porque Deus permitiu. Ela
fez o famoso feitiço que impede a realização do ato sexual. O homem fica incapaci-
tado sexualmente, e que era um processo muito comum nos processos inquisitori-
ais e esse impedimento acusatório sobre ela teria sido fruto de uma paixão dela por
ele, incontida, publicizada por ela mesma e não correspondida.
Uma vez que o Tribunal buscava, constantemente e com firmeza permanen-
te. a base teológica e simbólica da sua ação, devemos concluir, de imediato, que ele
não era aquele monstro que a gente imaginava. Porque a ideia de monstruosidade é
a ideia que ocorre de uma forma absolutamente sem precedentes, sem contexto his-
tórico. O monstro não se explica. Explica-se a intolerância, porque a gente começa
a tentar conceituar cientificamente. Explica-se o autoritarismo, tentando conceituá-
lo. Mas, o monstro, não. Quando você diz “monstro”, fazemos escapar do seu
meio, do seu tempo, da sua época e entregamos ele de volta ao seu passado.
Os processos subsequentes que a gente analisa são processos com os quais a
gente faz um paralelo e para os quais a gente está começando agora um projeto de
pesquisa na universidade, chamado o “legado da inquisição”.
Esse projeto tenta comprovar o que estou afirmando. Não foi o monstro
que deixou o legado e o legado está presente. E está presente onde? Então fomos
atrás de processos que já estão conosco, que são da República Brasileira, em que
delegados, juizes, promotores, falam frases que, quando são retiradas do seu con-
texto e comparadas com outras frases, dos inquisidores do século XVII, a similitu-
de é grande. Perguntar-se-á: qual dos dois é o inquisidor? Contra negros, contra ín-
dios, contra a religiosidade de origem africana, principalmente, no Brasil da década
de 90 do século passado, das primeiras décadas deste século e até muito recente-
mente, realizou-se o retorno, realizou-se a busca no fundo do baú dos mesmos
princípios inquisitoriais. É o que acontece, por exemplo, com os negros da praça
Sinimbu, em Maceió, cujo processo está nos chegando. Em 1928 foram mortos na
rua, porque era coisa de negro, diz o delegado. É o que aconteceu com um indiví-
duo que se dizia Zé Pilintra, na década de 40. É o mito interior, a religiosidade afro-
brasileira. Ele diz, eu sou o próprio Zé Pilintra. Foi preso, passou alguns anos pre-

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so, no Rio de Janeiro. Estas nuances de legado que permanecem, fazem com que a
gente tenha muito cuidado ao admitir essa ideia de monstruosidade.
Na realidade, a Inquisição deixou marcas. Seu legado está até hoje nos valo-
res da sociedade brasileira. Por exemplo: a recente queda do artigo que condenava a
quiromancia no Código Penal Brasileiro é parte de uma longa história de persegui-
ção e sofrimento.
Ao contrário do