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C. T. H.

COMPANHIA TEATRAL HELVETIA

FESTIVAL DE LADRÕES

JOÃO BETHENCOURT

Personagens atores
1. TOM TYRRELL CARLOS
2. MARY TYRRELL KIKI
3. MACDOUGALL VALDEILTON
4. RAFAELLO BUONMODI ANDRÉ TAVARES

COMÉDIA EM 2 ATOS

DIREÇÃO GERAL / ADAPTAÇÃO

Marcelo Rivani

DATA VERSÃO: (1) JANEIRO/2008 (TEXTO ORIGINAL)

1
ATO I

Entra Tom Tyrrell diante da cortina e espera que os espectadores acabem de sentar-se
e de tossir.

TOM 1

Eu sou Tom Tyrrell, protagonista desta história. Quando nasci minha mãe
morreu. Não sei se foi de susto ao olhar para a minha cara ou por alguma
barbeiragem de médico de Instituto. Meu pai estava longe. Embora fosse
homem de recursos, mamãe achou que devia ter-me num hospital de
Instituto. Foi meu tio que convenceu mamãe disso. Meu pai morreu nove
anos depois. Meu tio estava presente de novo, apressando meu pai um
pouco. Meu tio era tão convincente, que papai morreu mais depressa.
Meu tio era meio irmão de meu pai e meu pai tinha herdado da mãe deles
uma fortuna que ficou pra mim, com um tutor para administrá-la.
Portanto eu era pequeno e com muito dinheiro. Depois fiquei grande e
sem dinheiro nenhum. O dinheiro tinha passado todo pro meu tio. O tutor
era meu tio. Fui trabalhar num banco. Ia indo bem – até que o banco foi
comprado por uma rede bancária enorme, dessas que transformam o
funcionário graduado num parafuso de engrenagem. Eu era a fenda na
cabeça do parafuso. E eis a chave de fenda.

Luzes subiram num canto de palco revelando elementos que sugerem um escritório de
luxo. Escrivaninha, tapeçaria atrás da escrivaninha, relógio de parede. Um homem
sentado, atrás da escrivaninha. Tom encaminhou-se para este cenário. Encontra-se de
pé, na frente da escrivaninha.

MACDOUGALL 2

(Sentado atrás da escrivaninha) Tyrrell, eu chamei você para lhe dar uma boa
notícia.

TOM 3

Ah, que bom, Sr. MacDougall.

MCDOUGALL 4

Como você sabe, a nossa rede bancária adquiriu o Borough Bank e todas
as suas filiais.

TOM 5

1
Sim senhor.

2
MACDOUGALL 6

Na filial de Holborn você era um dos subgerentes.

TOM 7

Sim senhor.

MACDOUGALL 8

Nós examinamos as fichas de todos os subgerentes a fim de escolhermos


entre eles o novo gerente.

TOM 9

Sim senhor.

MACDOUGALL 10
Pois bem, eu tenho a grata satisfação de comunicar a você que o novo
gerente é... O seu colega Peter Morgan!

TOM 11
Peter Morgan?

MACDOUGALL 12
Sim senhor. Um rapaz muito talentoso, inteligente, ambicioso. A filial de
Holborn progredirá bastante sob sua administração.

TOM 13
Sim senhor.

MACDOUGALL 14
Eu sabia que você ia ficar satisfeito, especialmente porque existe uma
amigável competição entre vocês. Ele ganhou dessa vez. O que não quer
dizer que da próxima ele não possa ganhar de novo.

TOM 15
Sim senhor.

MACDOUGALL 16
Outra boa notícia: você não será despedido.

TOM 17
Ah, que ótimo, Senhor MacDougall.

3
MACDOUGALL 18
Você continuará sendo um dos nossos subgerentes.

TOM 19
Eu lhe agradeço a confiança.

MACDOUGALL 20
Você é um bom funcionário. Um homem muito honesto. Você herdou a
honestidade e a sinceridade de seu pai. Nós temos a maior confiança em
você.

TOM 21
O senhor me desvanece.

MACDOUGALL 22
A você falta apenas um pouco mais de ambição, imaginação, iniciativa e
talento.

TOM 23
Sim senhor.

MACDOUGALL 24
Você também não é muito inteligente. É uma pena.

TOM 25
Ninguém o lamenta mais do que eu, Senhor.

MACDOUGALL 26
Não digo apenas no sentido geral, mas sim, especialmente, no sentido
contábil. Falta a você uma certa inteligência financeira. Você é – não
ofenda, eu digo isso para o seu próprio bem – você é uma espécie de
idiota bancário.

TOM 27
Muito obrigado.

MACDOUGALL 28
Aliás, foi por isso que indicamos você aquele programa mensal de
televisão sobre bancos. Na televisão é importante ser meio obtuso para
poder dizer com grande convicção e sinceridade as asneiras que o público
adora ouvir. E você tem se saído muito bem.

4
TOM 29
Agradecido.

MACDOUGALL 30
Resumindo: Você chegou a ser considerado para a gerência. Mas o
Morgan é mais brilhante, mais criativo – pelo menos segundo o veredicto
do comitê de seleção. O comitê de seleção sou eu.

TOM 31
Sim senhor. Eu sei.

MACDOUGALL 32
É justo, portanto, que a vitória caiba a Morgan. Ele é um vencedor.

TOM 33
Com o devido respeito, Senhor MacDougall, é uma pena que a vitória
caiba sempre a um vencedor.

MACDOUGALL 34
Como?

TOM 35
É porque todo mundo precisa de vitórias, não apenas os vencedores.
Seria tão bom se a vitória coubesse, de vez em quando, a um perdedor só
para variar.

MACDOUGALL 36
Eu espero que você não esteja tentando fazer humor comigo. Você sabe
como eu tenho horror ao humor.

TOM 37
Absolutamente, Senhor MacDougall. Eu quis apenas dizer que a vitória
não deveria caber sempre aos melhores, mas sim, às vezes, aos mais
necessitados.

MACDOUGALL 38
Os necessitados são atendidos pelos Institutos de Previdência.

TOM 39
Muito mal, aliás.

5
MACDOUGALL 40
(Levantando-se e recolhendo os papéis espalhados sobre sua mesa) Você sabe que
detesto gente com mania de fazer graça, Tyrrell.

TOM 41
Mas fazer graça ajuda a evitar a úlcera, Senhor MacDougall.

MACDOUGALL 42
Há úlceras que é preferível não evitar. Há úlceras que são construtivas.

TOM 43
Eu não conheço nenhuma úlcera construtiva, Senhor MacDougall.

MACDOUGALL 44
Úlceras que alertam o portador de que está se tornando preguiçoso ou
irresponsável, ou inconveniente e impertinente. Úlceras que lembram que
o dever vem antes do prazer. Estas são úlceras construtivas, Senhor
Tyrrell. Eu tive uma úlcera construtiva na minha mocidade que me foi
muito útil. Eu sou muito grato a esta úlcera. Ela volta de vez em quando,
e é muito bem-vinda. (Passando por Tom e em vias de sair) Quero lembrar-lhe
que o nosso relacionamento fora deste banco não tem nada a ver com o
seu trabalho aqui.

TOM 45
Sim Senhor.

MACDOUGALL 46
E que na nossa organização quem não sobe de posto depois de algum
tempo, já está descendo. Passar bem.

TOM 47
Passar bem, Senhor. (MacDougall sai, Tom volta-se para o público) E agora
podemos começar a nossa história. Ah! Sim, ainda uma coisinha.
Lembram-se daquele meu tio de quem lhes falei? É o Senhor MacDougall.
Até já.

Entra pelo pano adentro. Música. Black out. O pano abrirá no escuro.
Durante o black out ouvimos a seguinte locução:

6
LOCUTOR 48
O assalto ao Borough Bank, ocorrido há cinco dias, continua sem uma
pista. O assaltante ou assaltantes aproveitaram-se do fim de semana para
penetrar pelos esgotos e daí furar o chão do subsolo onde se localiza a
velha caixa forte. Quinhentas mil libras esterlinas em dinheiro foram
roubadas. Um detalhe interessante: encontrou-se num canto da caixa
forte, numa sacola, mil notas de um peso argentino: dinheiro fora de
circulação, notas sem valor. Significará isto que o assaltante é argentino?

Música. Luzes sobem revelando a sala de estar da casa de Tom Tyrrell: confortável,
de bom gosto, estilo ligeiramente antigo, com algumas peças interessantes, como se
o dono fosse um pouco colecionador. Uma escada levando para o andar de cima.
Passagens que dão para a entrada da frente e de fundos. Um cofre num canto da
sala. Em cima do cofre objetos diversos, colocados a esmo, até algumas latas de
bolas de tênis.
É noite. Mary, bonitinha, bem-humorada, esposa de Tom.

MARY 49
É... Febre alta... Cinco dias... Desde o sábado da outra
(Ao telefone)
semana... Já voltou com febre do banco, coitado, ainda foi pegar aquele
frio... Também pra que é que ele tem que ir ao banco num sábado?...
Acho que quer provar ao patrão que é bom... O tio dele... Um azarão na
vida do Tom: depois de afanar a herança atazana-lhe o emprego... Acho
que o Tom vai acabar é trabalhando com você...

TOM 50
(Voz de Tom em off) Já estou indo...

MARY 51
(para dentro, para Tom) Eu levo o telefone.

TOM 52
(Voz de Tom mais perto) Não precisa.

MARY 53
Não devia sair da cama mais sai... Faz questão de mostrar que
(Ao telefone)
está bom... Leva sim, Jô, vai fazer um bem danado a ele. (Surgiu Tom de
pijama e robe)

TOM 54
O que é que vai me fazer um bem danado?

MARY 55

7
Passear no iate do Jô.

TOM 56
Meu Deus, ele já está de iate? Mas esse negócio de fabricar dinheiro dá
tanto dinheiro assim... (atendendo) Oi, Jô, o imposto de renda está sabendo
de teu iate?... Incrível... Acho que vou me tornar teu vendedor
permanente... Caxumba... Palavra... Nunca tinha tido!... Caxumba com
complicações... Que desceu o que... Complicações respiratórias... No
plexo... Que sexo, plexo... Chegou sim: a mulher da limpeza é quem
recebeu; ficou estatelada, pensando que eu tinha tirado a loteria
esportiva... Cuidado, este teu dinheiro está cada vez mais igual ao
verdadeiro... (N.T.) Pois é, rapaz, roubaram... Sábado passado...
Quinhentas mil libras... Com certeza voltou a úlcera construtiva do
MacDougall... Tá... Tá... Beijos na Daisy... Pra você também. (Durante o
telefonema, Mary foi lá dentro e voltou com uma pílula e um copo d’água. Durante o diálogo
Já imaginou? Iate.
seguinte Tom engolirá a pílula com um pouco de água. Desligando)
Fabricando besteira: material para jogos, mágicas, baralho de cartas,
dinheiro de papel pintado...

MARY 57
Mas ele está ficando craque mesmo. Esse monte de dinheiro que ele
mandou agora parece de verdade mesmo.

TOM 58
Você já viu?

MARY 59
Está tudo entulhado aí no cofre. Muito bem feito. Quer ver? (Mary foi abrir o
cofre) Cuidado pra não dizerem que você está vendendo, nas horas vagas,
dinheiro falsificado. Olha. (recolheu algumas notas que passou ao Tom).

TOM 60
Mary, isso aí não é imitação não.

MARY 61
Não?

TOM 62
Isso é dinheiro mesmo, sua boba.

8
MARY 63
(Examinando espantada) De verdade?

TOM 64
Claro.

MARY 65
Mas como? Tudo isso que está aí no cofre é de verdade?

TOM 66
É.

MARY 67
E como é que apareceu aí?

TOM 68
Eu trouxe do banco. É o dinheiro do assalto.

MARY 69
Ahn?

TOM 70
Eu assaltei o banco. Trouxe duzentas mil libras. O resto ficou pros
colegas.

MARY 71
Vá, Tom, sem brincadeira. De onde é esse dinheiro?

TOM 72
Ué, do banco, estou te dizendo.

MARY 73
E como é que veio parar aqui?

TOM 74
Eu não tinha que levar duzentas mil libras para Birmingham na segunda-
feira? E não caí doente?

MARY 75
Sim, mas...

9
TOM 76
No sábado eu trabalhei no banco até tarde, lembra-se? Então pra não ter
que voltar ao banco na segunda, pra apanhar o dinheiro, enfrentar aquele
trânsito, eu apanhei e enfiei o dinheiro aí no nosso cofre.

MARY 77
Tom, esse dinheiro está aí há cinco dias? Mas ele pode ficar parado assim
sem render juros?

TOM 78
Bem, a rigor não pode.

MARY 79
Mas então porque não veio alguém do banco apanhar o dinheiro?

TOM 80
Porque não sabem que está aqui.

MARY 81
Como não sabem? Você, quando apanhou o dinheiro, não assinou a ficha,
registrando o saque?

TOM 82
Não, porque as fichas tinham acabado. E com os elevadores parados para
economizar energia eu teria que subir três andares a pé, morrendo de
febre. Eu mal consegui arrastar-me até o meu carro.

MARY 83
Mas eles devem ter dado pela falta do dinheiro na segunda-feira.

TOM 84
Deram. Deram pela falta de quinhentas mil libras.

MARY 85
Não estou entendendo.

TOM 86
Minha filha, o banco não foi assaltado na noite de sábado pra domingo? E
os ladrões não levaram tudo que havia na caixa forte? Quinhentas mil
libras?

10
MARY 87
Mas não havia quinhentas mil libras. Havia só trezentas mil porque
duzentas você já tinha levado.

TOM 88
Mas o banco não sabe disso. Pro banco havia quinhentas. Só duas
pessoas no mundo sabem que naquele cofre havia duzentas mil libras a
menos: o ladrão e eu. Aliás, agora com você, três.

MARY 89
Tom, o que você quer dizer com isso?

TOM 90
Que o ladrão dever estar chateadíssimo. Porque pelo jornal ele carregou
quinhentas mil libras quando na verdade embolsou trezentas mil. Isto é
que se chama levar a fama sem proveito.

MARY 91
Tom, você precisa devolver esse dinheiro imediatamente.

TOM 92
Preciso?

MARY 93
Mas claro que precisa. Tom, o que é que você está pensando?

TOM 94
Exatamente no que você pensa que eu estou pensando.

MARY 95
Tom, você não falou nada anteontem. O pessoal da
(Alarmada de repente)
companhia de seguros esteve aqui... E você não disse nada!

TOM 96
É porque eu ainda estava pensando.

MARY 97
Tom, você não pensa em ficar com todo esse dinheiro!...

TOM 98
Pra ser franco, Mary, eu não penso em outra coisa.

11
MARY 99
Mas você... Não é um ladrão!...

TOM 100
Eu não era um ladrão. Conhece aquele provérbio: a ocasião faz o ladrão?

MARY 101
Tom, você tem a fama de um homem honestíssimo!... Você não pode ser
chamado de ladrão.

TOM 102
Do que é que vão me chamar então se eu ficar com esse dinheiro?
Gatuno?

MARY 103
Mas você não pode ficar com esse dinheiro!

TOM 104
Realmente, eu não posso ficar com esse dinheiro. Por outro lado, eu vou
ter muita dificuldade se eu quiser ficar sem ele.

MARY 105
Como?

TOM 106
Veja: eu apanhei o dinheiro sem nenhum comprovante, eu fiquei com ele
quase seis dias sem notificar ninguém; anteontem eu estive com uma
comissão de sindicância e não lhe disse nada; ninguém duvida que o
ladrão apanhou quinhentas mil libras... Agora imagina se de repente eu
entro neste circuito com um cacife de duzentas mil libras.

MARY 107
O que é que tem? Vão dizer que você é um homem sério, honesto, que
faz jus a fama que tem!

12
TOM 108
Não será fácil convencer disso a polícia. Vão suspeitar que eu briguei com
meus cúmplices e devolvi o dinheiro porque fiquei com medo. Vão querer
saber quem fez o trabalho comigo. Vão me oferecer uma redução da pena
se eu denunciar o resto da gangue. Vão me interrogar durante uma
semana sob luzes fortes. E no mínimo levarei um pontapé no rabo do meu
querido tio, que terá o duplo prazer de chutar-me deste emprego e de
sujar o meu nome e o meu crédito em todos os bancos.

MARY 109
Mas porque você não avisou o banco logo ou falou comigo pra eu avisar?

TOM 110
Se no primeiro dia eu não estivesse com febre alta eu teria avisado. Mas
eu fiquei fora do ar três dias. E no quarto dia, quando voltei a mim e
percebi o que tinha acontecido... Eu não quis mais.

MARY 111
Você não quis mais?!

TOM 112
Mary, eu podia justificar-me de mil maneiras: pelo MacDougall, que me
roubou muito mais que isto na herança, pelo imposto de renda já que
duzentas mil libras não representam nem trinta por cento do que a cadeia
de bancos do MacDougall sonega, pela gente mesmo que sem problemas
financeiros vai se amar muito melhor... Mas nenhuma destas razões diz
de verdade o porquê de eu me apossar de um dinheiro que não era meu.

MARY 113
Mas então me diz de verdade: porque você se apossou de um dinheiro
que não era seu?

TOM 114
Porque não havia risco de ser pego!... Porque a chance de me
descobrirem é praticamente zero!

MARY 115
Tom, que horror!

13
TOM 116
Pois é, eu também estou horrorizado comigo mesmo. Será que eu sou um
ladrão nato, que descobriu tardiamente sua vocação – como acontece às
vezes com certas bichas? Ou será que eu estou apenas ficando sincero
comigo mesmo? Aquele casaco de pele que eu vi na Selfdriges no ano
passado... Você sabe que eu só não o roubei para você porque seria preso
na hora?... Vontade não me faltou; nem a mim, nem às pessoas que
olhavam o casaco se babando de cobiça.

MARY 117
Mas se todos pensassem assim, as lojas, os supermercados, os
magazines, seriam assaltados por multidões, diariamente.

TOM 118
E porque você acha que foi inventada a polícia?

MARY 119
Quer dizer que se você pudesse arrancar o colar de perolas de uma
velhinha no meio da Oxford Street você arrancava!...

TOM 120
Olhe, pra início de conversa, velhinha hoje em dia não tem nada que
passear de colar de pérolas na Oxford Street. Além do mais eu não sou
um assaltante premeditado: esse dinheiro ficou comigo sem a menor
intenção inicial de minha parte. Por um acaso absolutamente raro, quase
como se gostasse de mim... Como um cão que você encontra na rua e
que simpatiza com você. Peguei-o no colo, fiz-lhe alguns carinhos, botei-o
sentado aí no nosso cofre e ele não quer me largar mais. Seria uma
crueldade enxotá-lo.

MARY 121
Mas o que é que a gente faz com esse dinheiro, Tom?

TOM 122
Agora sim, agora você está fazendo a pergunta certa. Por enquanto eu
não tenho a menor idéia. A coluna do Financial Times sugere que se
compre ouro; o Wall Street Journal recomenda ações de companhias de
petróleo...

14
MARY 123
Tom, não brinque, pelo amor de Deus.

TOM 124
Talvez eu entre pra sócio do Jô. Será que ele está precisando de sócio?

MARY 125
Tom, eu não consigo aceitar esta idéia de ficarmos com um dinheiro que
não é nosso.

TOM 126
Você quer dizer: um dinheiro que não era nosso. Porque se não for nosso
eu já não sei de quem é mais. Do banco não é, que o banco já foi
indenizado pela companhia de seguros; da companhia de seguros não é
mais porque ela já descontou o prejuízo do imposto de renda e do
imposto de renda nunca foi porque o MacDougall sonega mais do que isso
em metade dum ano. (Pegando em Mary, alegre, animado.) Mulher, tira essas
caraminholas da cabeça! Ganhamos na loteria esportiva! Estamos ricos!
Este é o começo de nossa fortuna! Você vai ver! Este é o capital inicial
que vai nos trazer milhões! E quando nossos netos perguntarem como
vovô iniciou a fortuna da família, você poderá responder com o maior
orgulho: ”Meus netinhos, vovô iniciou a fortuna da família da mesma
forma que muita gente boa por aí: roubando!” (toca a campainha da porta da
frente.).

MARY 127
Ué, quem será a esta hora?

TOM 128
Quer saber duma coisa que não me sai da cabeça o tempo todo? Mês
passado, na festa do clube, havia uma mulher lendo cartas. Sabe o que
ela me profetizou? “Muito dinheiro... o senhor vai ganhar muito dinheiro
com um golpe de sorte... e vai ter muita gente querendo tirar este
dinheiro do senhor... mas o senhor não larga não, ouviu? O senhor se
agarra a ele com unhas e dentes, que ele acaba é ficando com o senhor!”
Pois não é que... (a campainha toca de novo, Mary vai atender.).

MARY 129
Pois eu acho melhor a gente devolver esse dinheiro por bem, antes
(saindo)
que nos seja arrancado por mal.

TOM 130

15
Ninguém vai tirar esse dinheiro da
(falando na direção em que ela está saindo)
gente, Mary. Esse dinheiro está adorando ficar aqui em casa! Eu não vou
deixar ninguém levá-lo daqui! (durante o diálogo que ocorreu, Tom guardou os maços
de dinheiro que Mary tinha tirado do cofre e trancou o cofre. Pode até dirigir-se ao dinheiro, em
certo momento, depois de trancá-lo no cofre, dizendo:) Fica aí.

MARY 131
(voltando; um pouco perplexa) Tem uma pessoa aí fora querendo falar com
você.

TOM 132
Quem é?

MARY 133
Um senhor já passando da meia idade. Não conheço.

TOM 134
Posso recebê-lo assim? (referindo-se ao pijama e robe)

MARY 135
Não me parece de cerimônia.

TOM 136
O que é que ele quer a essa hora?

MARY 137
Parece coisa do banco. Talvez algum recado do MacDougall. Há dois dias
que o MacDougall anda telefonando todo meloso, querendo saber como
vai você, dizendo que quer te visitar...

TOM 138
(encaminha-se) Vou receber o cara no hall.

MARY 139
Não, não, o hall está frio pra você. Melhor ele entrar. Vou chamá-lo. (Sai.
Tom se ajeita um pouco diante do espelho, passando um pente no cabelo. Mary em off.) Por
aqui… cuidado com o degrau… (entra um senhor de meia idade, um tipo levemente
humilde, simpático.).

RAFAELLO 140
Ah... Doutor Tom Tyrrel...

16
TOM 141
Sim senhor.

RAFAELLO 142
Conheço o senhor da televisão. Molto obrigado por me receber a esta
hora. Sono Rafaello Buonmodi, um admirador do senhor. Tenho negócios
com o seu banco. Estive lá hoje à tarde, disseram-me que o senhor
estava doente...

TOM 143
Estive sim, com caxumba.

RAFAELLO 144
(alarmado.) Caxumba?... (faz um gesto para baixo, com um ar interrogativo).

TOM 145
Não, não desceu.

RAFAELLO 146
Graccia a Dio.

MARY 147
Aceita um chá, senhor Rafaello?

RAFAELLO 148
Molto obrigado, senhora...

TOM 149
Mary, minha mulher.

RAFAELLO 150
Molto obrigado, Dona Mary.

MARY 151
(saindo) Com licença.

RAFAELLO 152
(passando os olhos pela sala) Bela decoração... Objetos de arte... (com ar de
entendido, pegando em um objeto) Chinês? Século VIII?

TOM 153
Japonês, século XX.

RAFAELLO 154
Ahn... Casa bonita.

17
TOM 155
Alugada.

RAFAELLO 156
(ar de quem sabe que o aluguel não deve ser barato) Ahn!...

TOM 157
Pelo meu sogro, que é diplomata e que nos permite morar aqui quando
viaja... E o que é que eu posso fazer pelo senhor. Senhor Rafaello?

RAFAELLO 158
É um assunto delicado. Nem sei bem como começar. Acho que vou
começar falando da minha profissão.

TOM 159
Pois não. E qual é a sua profissão?

RAFAELLO 160
Ladrão. Ladrão profissional. Trabalho por conta própria. Às vezes por
empreitada na base de percentagem. Fui eu quem fez o serviço no
Borough Bank há seis dias.

TOM 161
(estupefato) O senhor... Está brincando...

18
RAFAELLO 162
Eu avisei que era um assunto delicado... Má, o pior vem agora. Porque
este serviço foi empreitado por Dom Russo Capoletti, um homem, moito
buono capo chefe da família Capoletti, que me forneceu tudo,
ferramentas, os horários, a planta baixa, tudo. “É só ir pelo esgoto,
Rafaello”, disse ele – “abrir o buraco no chão da caixa forte e recolher as
quinhentas mil libras. Você fica com cinqüenta mil e me traz quatrocentos
e cinqüenta mil”. E eu cheguei lá e não tinha as quinhentas mil libras... Só
tinha trezentas mil... Fiquei procurando até as seis da manhã e nada...
Acabei levando trezentas mil libras e expliquei: “Dom Russo, eu só
embolsei trezentas mil libras, juro por Santa Matilda e San Gennaro!” E
Dom Russo me diz naquele tom de voz dele, molto suave, molto educada:
“Ma Rafaello, perche voglio fare il cretino, sei pazzo, Rafaello? Tá
querendo me enganar dopo tanti anni? Perche no vai al médico, Rafaello,
você deve estar com esclerose na cabeça”. E eu digo: “Dom Russo, eu
quero morrer aqui e agora, junto cos mio filhos e a minha Carminha, se
não tinha apenas trezentas mil libras naquela caixa forte!” E aí Dom
Russo me põe a mão no ombro, num gesto de amigo e me diz: “Rafaello,
eu sei que você, na sua idade, já não usa muito, mas mesmo assim eles
ainda devem servir para alguma coisa... Pois vou ter que mandar cortar
os dois se você não trouxer as minhas duzentas mil libras, que é de onde
vou te dá cinqüenta mil conforme nosso trato”. Então, Doutor Tom... Per
favore... Não me leve a mal... Mas eu preciso dar esse dinheiro a Dom
Russo porque Dom Russo corta mesmo... Ele é excelente pessoa
enquanto não é contrariado... As minhas cinqüenta mil libras, nem faço
tanta questão, mas as cento e cinqüenta mil libras de Dom Russo eu vou
ter que pagar mesmo.

TOM 163
(cada vez mais estarrecido) O senhor está louco?! Do que é que o senhor está
falando?

RAFAELLO 164
Das duzentas mil libras que o senhor tirou da caixa forte do Borough Bank
sábado passado.

TOM 165
Eu?!

19
RAFAELLO 166
Um excelente serviço, per sinale. O senhor nunca pensou em se dedicar a
isso profissionalmente? Eu vi por acaso: tinha acabado de abrir um
buraquinho no chão para espiar, ainda tava lá, no esgoto, coberto de
merda. Aí percebi um vulto colocando maços de mil libras, numa sacola
de supermercado... Não deu para perceber com nitidez... Depois que eu,
perguntando discretamente, deduzi que a única pessoa que podia estar
naquele sábado, na caixa forte era o senhor... O senhor não teve
dificuldade de fechar a porta quanto saiu? Aquela porta, precisa ser
lubrificada.

TOM 167
Se eu não achasse que o senhor é louco eu chamava a polícia...

RAFAELLO 168
Doutor Tom, o senhor não precisa ter medo de mim, siamo colegas. Eu
nunca ia denunciar o senhor (N.T.). Onde está o dinheiro? O senhor
guardou na sua casa?

TOM 169
(completando a idéia)... Mas se o senhor não me deixar em paz eu vou chamar
a polícia!

RAFAELLO 170
Como quer que eu deixe o senhor em paz, se Dom Russo não me deixa io
em paz?

MARY 171
(entrando com o chá) Então, como está o papo?

TOM 172
(irritado) Cada vez melhor.

MARY 173
Não se impressione com o Tom Senhor Rafaello.
(notando a irritação de Tom)
Ele é um ferrabrás por fora, mas por dentro é muito bonzinho.

RAFAELLO 174
Deus queira, Dona Mary. Dio voglie!

20
TOM 175
Você sabe a que veio o nosso bom Rafaello Buonmodi?

MARY 176
Não sei, mas ele tem uma cara simpática, deve ter sido por
(servindo o chá)
uma coisa boa.

RAFAELLO 177
Molto obrigado, Dona Mary, está se vendo que a senhora é uma profunda
conhecedora da natureza humana.

TOM 178
Como você sabe, o Borough Bank foi roubado em quinhentas mil libras há
seis dias atrás. Pois bem, apresento aqui o ladrão!

MARY 179
(abre a boca de espanto) Como?! Foi o senhor?!

RAFAELLO 180
Sim, Dona Mary, mas eu não fiz o serviço sozinho, eu tenho um sócio:-
ele! (apontou para Tom. Mary solta um gritinho e deixa cair o prato com biscoitos). Oh!
Mamma mia, deixa que eu ajudo a senhora. (põe-se a catar os biscoitos, depois de
oferecer uma cadeira a Mary) Por favor, acalme-se, Dona Mary, eu não estaria
aqui se não fossem meus patrões.

MARY 181
(que não entende mais nada) Patrões?!

TOM 182
Rafaello aqui diz que trabalha para a Máfia.

MARY 183
(cada vez mais aterrada) Máfia?!

TOM 184
Ele diz que só encontrou trezentas mil libras no cofre em vez de
quinhentas mil e os patrões não querem acreditar nele. Acham que ele
embolsou duzentas mil.

MARY 185
(lívida) Nossa senhora.

21
RAFAELLO 186
Dom Russo é um homem molto rigoroso nos seus negócios. Ele diz que
quer a parte dele senão ele vai fazer em mim uma operação que vai
afetar seriamente a minha virilidade.

TOM 187
Querem castrá-lo.

MARY 188
(dando um pulo) O quê?!

RAFAELLO 189
Eu só quero pagar o que eu devo a Dom Russo, a minha parte nem faço
questão. Me ajuda a convencer suo marido, Dona Mary...

TOM 190
Ele cismou que eu fiquei com duzentas mil libras... (Mary, abre e fecha a boca
como um peixe, mas não consegue emitir nenhum som.) Minha senhora está tão
estarrecida que não consegue nem falar. Mas eu sei o que ela está
pensando. Ela está se perguntando como é que ela foi abrir a porta a um
louco como o senhor.

RAFAELLO 191
Doutor Tom, tenha pena de mim: me dá as duzentas mil libras para eu
levar pra Dom Russo. Eu prometo, eu dou ao senhor minha comissão logo
que ele me pague!

TOM 192
Homem, eu não tenho duzentas mil libras!

RAFAELLO 193
Tem sim, tem sim. O senhor tirou e guardou! Deve ter guardado aqui na
sua casa. Naquele cofre! Ta naquele cofre! (ruma para o cofre)

TOM 194
(segurando-o) Sai daí!

RAFAELLO 195
Olhe aí. Está no cofre! Abre o cofre! Pelo amore di Dio! Me dá as duzentas
mil libras de Dom Russo!

22
TOM 196
Afasta! Vai embora!

RAFAELLO 197
O senhor está me mandando para minha morte! Na minha idade eu não
vou sobreviver a uma castração!

TOM 198
Problema seu! Vai embora! (para Mary) Mania de abrir a porta para qualquer
um às dez horas da noite!

MARY 199
Tom...

TOM 200
Eu ainda estou convalescendo. Eu posso ter uma recaída. A caxumba
ainda pode descer. Você tem seu Dom Russo, eu tenho minha caxumba!

RAFAELLO 201
No! No! O senhor também tem Dom Russo além da caxumba, porque
doppo que ele me liquidar a me ele vai cobrar do senhor!

TOM 202
Como? Agora você me ameaça?!

RAFAELLO 203
Eu não ameaço, eu só to falando como vai ser!

TOM 204
Eu é que te digo como é que vai ser se você não se retirar daqui
imediatamente! (o telefone toca ao lado de Mary)

MARY 205
(atendendo e estranhando um pouco) Alô... Está sim. (para Rafaello) É para o senhor.

RAFAELLO 206
Molto obrigado. (atendendo) Alô... Dom Russo, como vai o Senhor?! (reação do
casal) Estou sim... Está sim... Bem, está um pouco reticente... Falei...
Falei... Pois não. (para Tom) Dom Russo quer falar com o senhor...

TOM 207
Ta maluco? Eu não quero falar com ninguém não!

RAFAELLO 208

23
Alô... Ele diz que não quer falar com o senhor não...

TOM 209
O senhor tem dez segundos para retirar-se!

RAFAELLO 210
Vá benne, Dom Russo... Tante grazie, Dom Russo...
(ainda no telefone)
Recomendações à família, Dom Russo. (desligando) Doutor Tom o senhor
não devia ter-se recusado a falar com Dom Russo, ele ficou molto
magoado.

TOM 211
Eu quero que se dane o teu Dom Russo ou Dom Chinês ou Polonês ou lá o
que seja. Vá embora e vê se não aparece mais!

RAFAELLO 212
Eu pensei que ia encontrar um colega mais compreensivo.

TOM 213
Eu não sou seu colega.

RAFAELLO 214
O senhor é muito orgulhoso.

TOM 215
Mas veja você!... Rafaello, quer dar o fora, por favor?!

RAFAELLO 216
Dona Mary...

TOM 217
Deixa a minha mulher em paz, não vê que ela ainda não recuperou a
fala?!...

RAFAELLO 218
Va benne! (rumando para a porta)

TOM 219
E vê se não aparece mais aqui.

RAFAELLO 220
Isso eu não prometo.

TOM 221
Se aparecer chamo a polícia.

24
RAFAELLO 222
Passar bem, Dona Mary. Desculpe não ter saboreado seu chá, mas não
vai faltar oportunidade. Doutor Tom (olhando o cofre) prepare o pagamento
em espécie, Dom Russo não gosta de cheque. (um pouco desolado) Então
passar bem. (sai. Ouve-se bater lá fora.).

MARY 223
(apavorada) Olha aí! Olha aí com quem a gente foi se meter!

TOM 224
Eu não fui me meter com ninguém.

MARY 225
Com ladrões e assassinos. Eu ouvi a voz desse Dom Russo. Parecia uma
lâmina de aço!

TOM 226
Isto é para impressionar!

MARY 227
Pois então já conseguiu. Eu estou impressionadíssima! Pelo amor de
Deus, devolve esse dinheiro! Devolve esse dinheiro!

TOM 228
Para com isso! Eu preciso pensar! Preciso descobrir qual é a jogada desse
cara!

MARY 229
Jogada?! Não tem jogada nenhuma! Você pensou que deu sorte, mas na
verdade deu azar! Como é que ele soube que foi você?!

TOM 230
Não soube. Nem tem certeza. Viu um vulto na caixa forte. Há no mínimo
dez funcionários que tem acesso ao cofre!

MARY 231
Mas só você esteve lá no sábado.

25
TOM 232
Oficialmente. Não oficialmente, com o velho Sam de vigia, qualquer um
deles podia ter entrado sem ser visto. Ele está jogando o verde para
colher maduro. (Tom já está no telefone, discando).

MARY 233
Pra quem você está telefonando?

TOM 234
Pro meu primo, que é da polícia. Você acha que se ele fosse ladrão
mesmo ele ia abrir o jogo assim?... Se expor assim?! Esse cara está
representando um papel... Alô, quer ligar com o arquivo, por favor...
Espero... Alô, eu queria falar com o Roger... Ainda não voltou do jantar?...
Tom Tyrrell, primo dele... Estou em casa, sim... Muito obrigado. (desliga)

MARY 235
Eu tenho que ir ao banheiro! (sai correndo. Tom fica andando pela sala, inquieto e
pensativo; pára diante do cofre. Toca a campainha da frente. Tom ouve, hesita. Depois vai
atender, ele sai e a sala fica vazia um instante. Ruído de descarga. Mary sai do banheiro. Olha e
não vê Tom.) Tom!... Tom!... (some pelo corredor que leva aos quartos) Tom!... (volta e
começa a ficar alarmada) Tom!... (chama escada acima com medo crescente) Tom!...
Tom!... (sobe as escadas) Tom!... Tom!... (descendo em pânico) Socorro!... Meu
marido foi seqüestrado!... Tom!...

TOM 236
(voltando, fumando um charutão) Ficou louca?

MARY 237
Meu Deus, onde você esteve?

TOM 238
Fui atender uma pessoa na porta.

MARY 239
Eu não agüento mais... Olha o meu estado de nervos... Devolve esse
dinheiro, Tom.

TOM 240
Pára com isso.

26
MARY 241
Vou tomar um tranqüilizante. (servindo-se de chá) Quem você foi atender na
porta?

TOM 242
Dom Russo Capoletti. (Mary engasga no chá e começa a tossir. Tom batendo-lhe nas
costas) Segura a respiração... Assim...

MARY 243
Não faz isso comigo... Eu não estou com humor
(finalmente conseguindo falar)
para esse tipo de brincadeira... Quem estava na porta?

TOM 244
Estou te dizendo: Dom Russo Capoletti. Cara muito simpático, aliás, boa
pinta, coroa enxuto, bem vestido. Saltou de um Rolls Royce. Me deu este
charuto. Não quis entrar porque estava com pressa: ia a um banquete da
rainha Elizabeth.

MARY 245
Mas o que é que ele queria, meu Deus?

TOM 246
Veio me perguntar se eu tinha realmente ficado com as duzentas mil
libras que o Rafaello insiste que fui eu. Mas que ele já ouviu falar de mim
e que eu tenho a reputação de um homem muito honesto.

MARY 247
E aí?

TOM 248
Aí eu disse que não tinha tirado coisa nenhuma. Aí ele me disse que tinha
certeza de noventa e nove por cento de que havia quinhentas mil libras
no cofre e não trezentas mil, como afirma Rafaello, mas que ia dar uma
chance ao Rafaello. Depois disse que iam aguardar a comunicação oficial
do banco. E perguntou se eu sabia por que essa comunicação estava
demorando tanto.

MARY 249
E depois?

27
TOM 250
Foi embora.

MARY 251
Você sabe que acaba de castrar o Rafaello?

TOM 252
Eu?!

MARY 253
Dom Russo acreditou em você porque você é um homem honesto: e você
mentiu.

TOM 254
Oh! Mary, você queria que eu contasse a verdade?! (Toca a campainha dos
fundos. É um toque diferente.).

MARY 255
(assustada) Meu Deus, é o Dom Russo de novo!

TOM 256
(que foi ao telefone discar) É nada. Vai lá atender.

MARY 257
Estou com medo!

TOM 258
Pelo amor de Deus. Veio dos fundos. Deve ser o rapaz da injeção.

MARY 259
(saindo) Se for alguém com cara de máfia eu não abro a porta.

28
TOM 260
(ao telefone) Alô, quer ligar com o arquivo?... (anda um pouco com o telefone na
Alô, o Roger já voltou do
direção da porta dos fundos, para ver quem chegou)
jantar?... É o primo dele... Oi, Doris, tudo bem... É, precisava... Uma
informação por causa daquele roubo no Borough Bank... Eu trabalho lá...
(rindo) Não, não fui eu não, mas bem que o dinheiro ia me ajudar... É
sobre um tal de Rafaello Buonmodi... Cinqüenta e tantos... Castanhos...
Setenta quilos... Um metro e setenta... Ladrão profissional... Exato...
Estou em casa sim... Pode me telefonar a qualquer hora... Muito
obrigado... Um abraço. (desliga)

MARY 261
(voltando) Tom, eu não agüento este ritmo. Juro que não agüento.

TOM 262
O que é que há?

MARY 263
Tom, eu sou uma dona de casa. Não nasci para viver perigosamente. Eu
não roubaria sequer um alfinete, quanto mais duzentas mil libras. Não é
nem por uma questão de honestidade, é por uma questão de
tranqüilidade.

TOM 264
Mas quem era, pombas.

MARY 265
A mulher do Rafaello. Desesperada. O Dom Russo lhe telefonou. Disse
que falou com você, que você era um cara honesto, que quem roubou foi
o Rafaello mesmo, e que eles iam aguardar a comunicação do banco, mas
por via das dúvidas, já iam começar com o castigo do Rafaello. Tom, a
mulher caiu de joelhos, chorou, descabelou-se, beijou meus pés, sujou
meus sapatos com lágrimas, aí ficou limpando meus sapatos com os
cabelos...

TOM 266
(olhando) Podia ter limpado melhor...

MARY 267
Você não tem coração, não? Você tem que devolver esse dinheiro, Tom!

TOM 268

29
Agora?! Se eu devolver esse dinheiro agora quem vai ser castrado pelo
Dom Russo, sou eu por ter mentido!

MARY 269
Vai nada. Eles querem é o dinheiro. Tom, devolve o dinheiro. Eu não vou
agüentar essa sarna em cima da gente. (abrupta) Olha lá!

TOM 270
(levando um grande susto) O quê?!

MARY 271
(apontando para a platéia) O Rafaello! Do outro lado da rua! Aquela figura
encostada no poste!... Que ar desolado, coitado... (chamando pela “janela”)
Rafaello!... Tudo bem?!... (para o Tom) Olha o pobrezinho. Olha o gesto que
ele fez. (e mostra o gesto: polegar para baixo) Coitadinho! Olha, está chorando...
Tom! Ajoelhou-se na calçada... De mãos postas pra nós... Já sabe que a
máfia vai castigá-lo... Tom, o que é que você pode fazer por ele?

TOM 272
Tenho uma excelente idéia.

MARY 273
O quê?

TOM 274
Vou matá-lo.

MARY 275
Como?!

TOM 276
(apanhou um revólver numa gaveta) A mulher não disse que o Dom Russo ia
matá-lo? Então, é uma oportunidade maravilhosa. Vão pensar que foi a
máfia. (chegou na “janela” de revólver na mão, grita para o Rafaello, para o outro lado da
rua) Rafaello, tá me ouvindo?!... Vou te matar, ta bem?... Chega um pouco
mais perto do poste... Pra ficar mais embaixo da luz... (aponta o revólver)
Assim ta bem!...

30
MARY 277
Ta louco! Me dá isso! A caxumba
(depois do primeiro impacto se agarra com Tom)
em vez de descer subiu?! Afetou o teu cérebro?!

TOM 278
Deixa eu matar esse filho da puta, esse sacana que está botando pedra
na minha chuteira, que não deixa eu gozar as minhas libras
tranqüilamente...

MARY 279
(agarrada com ele) Não, não, me dá isso...

TOM 280
Porra, tanta gente lesando o fisco, subornando políticos, corrompendo,
aliciando, roubando, traficando, contrabandeando, só eu não posso
ganhar duzentas mil libras com uma desonestidadezinha normal?!... (Mary,
bufando, consegue ficar com a arma. Tom, da “janela”, para Rafaello aos berros) Olha aí,
não adianta ficar aí não! Eu não vou te dar nada não! Eu quero que você
morra!

MARY 281
Tom, pelo amor de Deus.

TOM 282
Não adianta querer que eu me sinta culpado, não! Não
(debruçado, na mesma)
adianta ficar com esse ar de vítima, não! Você não vai receber porra
nenhuma, não!

MARY 283
M

Olha a vizinha, Tom!

TOM 284
Vai embora! Vai pro inferno! Vá à merda de barquinho! (dando uma banana)
Aqui pra você! (toca a campainha da frente)

MARY 285
(torcendo as mãos, aflita) Olhe aí. E a vizinha, a velha Trudi, a chata!

31
TOM 286
Porque é que você não se enforca aí nesse poste mesmo? Quer
(aos berros)
uma corda? (apanhou uma corda que estava à mão) Ta aqui! Ta aqui a corda!
Mary, leva pra ele esta corda! Olha, Mary vai te levar a corda!

MARY 287
Oh! Meu Deus, que vergonha, que escândalo! (a campainha toca de novo. Mary
saindo para atender) Pára, pára! Que horror, que vexame! (sai)

TOM 288
(no mesmo) Enfia a cabeça no vaso e puxa a descarga! Mergulha nessa lata
de lixo e fecha a tampa! Aposto que o lixo vai querer sair na hora, não vai
querer ficar com um lixo pior que ele, na mesma lata! Bestalhão! Se
plantando aí pra eu me sentir culpado! Eu não sou culpado de você ser
otário, imbecil, burro! (o telefone toca) Camelo velho! Beócio! Espera que eu
vou atender ao telefone e já volto! Não vai embora. A não ser que você
queira se atirar no Tâmisa!... (atende ao telefone) Alô... (N.T.) Oi Alfred...
Notícia?!... Não, não soube de nada... Como? (vai ficando espantado e alegre)
Não brinca... Verdade?... Mas isto é maravilhoso!... Sensacional!... Muito
obrigado, hein?... Muito obrigado... Você foi um amigão! (desliga
contentíssimo. Mary vai entrando. Tom na maior euforia, para Mary) Sabe quem me
telefonou? O Alfred, do banco. Pra me dar os parabéns. Não é boato não,
é certo! Eu vou ser o novo gerente do Press Bank, aquele banco que o
MacDougall acabou de comprar! Já imaginou?! Uma promoção incrível!
Esse MacDougall é um louco, eu crente que ele me odeia... Será por isso
que ele queria tanto falar comigo?!

MARY 289
Tom...

TOM 290
Vou ficar rico, vou acabar na vice-presidência, com participação nos
lucros! (corre para a janela) Vai embora, besta velho! Não adianta que eu sinta
culpa porque eu não vou sentir culpa nenhuma! (batendo no peito) Roubei e
ainda fui promovido! Sou como um bocado de gente boa por aí! Fui
promovido!

MARY 291
Tom...

TOM 292

32
Você não está contente, Mary? Você tem noção de como este cargo era
disputado? Sabe o que está acontecendo? Esse negócio está é dando
sorte para nós!

MARY 293
Tom, você sabe quem era?

TOM 294
Era o Alfred, o meu colega, outro subgerente. (à janela) Ta ouvindo isso,
fundilhos remendados, cheiro de mofo?! Fui promovido! Gerente do Press
Bank! Eu!

MARY 295
Era a mãe dele.

TOM 296
Mãe? Mãe de quem?

MARY 297
Mãe do Rafaello. Com os dois netinhos. Mais a mulher. Chorando de dar
dó. Me implorando que eu não deixasse o Rafaello morrer, que eu não
deixasse o pranteado pai, filho, marido e sogro, tornar-se pranteado
prematuramente. Beijaram os meus pés. Fizeram as criancinhas beijar os
meus pés. Aquelas criancinhas, chorando, beijando os meus pés.

TOM 298
Isso é papo! Isso é conversa! Isto é ópera!

MARY 299
Era de cortar o coração. Aquela gente sufocada, comida pelo medo.
Aquelas crianças tiritando de frio, porque nem agasalho direito elas
tinham... Eu não agüentei, Tom... Eu disse sim.

TOM 300
Como?

MARY 301
Eu concordei.

TOM 302
Concordou com que?

MARY 303
Em devolver as duzentas mil libras.

33
TOM 304
Como é?

MARY 305
Eu prometi que nós íamos devolver as duzentas mil libras.

TOM 306
Não acredito.

MARY 307
Palavra.

TOM 308
Você prometeu devolver as duzentas mil libras? As minhas duzentas mil
libras?

MARY 309
As nossas. Somos casados em comunhão de bens.

TOM 310
Não acredito. Não acredito.

MARY 311
Tom, eu não agüentava mais. Aquela gente uivando, rasgando as vestes,
jogando cinza na cabeça, a velha caída no chão e a mãe batendo a cabeça
na parede e dizendo que não devia ter gerado os filhos, pegando cada
filho e dizendo: “Eu não devia ter gerado você, oh! – porque é que eu fui
gerar você?” Eu hein?! Eu não tenho estrutura para isso não! (toca a
campainha) Eu não atendo mais.

TOM 312
Nem eu. (a campainha toca de novo).

MARY 313
Olhe aí. Agora devem ser os tios, os primos, netos, genros, sobrinhos...
(pausa) Parou. Tom, porque você não vai ver quem é?

34
TOM 314
Porque o meu já lotou. (Rafaello, já dentro da sala, vindo da direção da entrada da
frente. Tom, estarrecido) O que?!... Mas... Como você entrou aqui?!

RAFAELLO 315
(animadíssimo)É uma fechadura molto simplice, doutor Tom... Desculpe...
Não resisti... Eu estava louco pra lhes dizer: muito obrigado!

TOM 316
Como?

RAFAELLO 317
Molto! Molto obrigado, doutor Tom... E dona Mary, moltíssimo obrigado.
Que San Genaro encha esta casa de bênçãos. O senhor é formidável,
doutor Tom e sua senhora... Dona Mary... É uma santa! Nós vamos
passar o resto de nossas vidas rezando pela vossa saúde e felicidade!
TOM 318
Olhe aqui seu pilantra...

RAFAELLO 319
Eu sei, eu sei, o senhor está cansado, eu só vim agradecer, não precisa
dar o dinheiro agora...

TOM 320
Como é que é?!

RAFAELLO 321
O senhor me dando amanhã de manhã tudo bem, eu vou falar com Dom
Russo e eu sei que até amanhã de manhã ele espera...

TOM 322
Nem amanhã de manhã nem nunca, seu sacana! E da próxima vez que
você ousar aparecer aqui quem vai te matar sou eu, não é a máfia não!

RAFAELLO 323
Mas doutor Tom...

TOM 324
Não tem nem Tom nem semitom...

RAFAELLO 325
Mas a sua senhora disse pra minha senhora... Dona Mary...

TOM 326
Não interessa!

35
RAFAELLO 327
Minha senhora ficou tão feliz! E minha mama também! Estão chorando
até agora. Me receberam aos gritos: doutor Tom vai devolver o dinheiro!
Rafaello, o doutor Tom vai devolver o dinheiro! A senhora dele prometeu!

TOM 328
Eu não tenho dinheiro nenhum pra devolver pra ninguém.

RAFAELLO 329
Mas dona Mary prometeu. A senhora não prometeu?

TOM 330
Não envolva a minha mulher nisso! Não envolva a minha mulher nisso!
Mary vai dormir.

RAFAELLO 331
Dona Mary disse e dona Mary é uma santa, incapacce de mentir!

TOM 332
Vai embora, vai embora!

RAFAELLO 333
O senhor está me condenando à morte, doutor Tom o senhor está me
vendendo por duzentas mil libras. Como Judas vendeu Jesus Cristo por
trinta dinheiros. Trinta dinheiros, que hoje, com juros e correção
monetária ia dar mais ou menos duzentas mil libras!

TOM 334
Não me venha com chantagem sentimental! Não me venha com
chantagem sentimental!

RAFAELLO 335
(de joelhos) Não me mate, doutor Tom... Não me mate, doutor Tom...

TOM 336
Chega, porra!

MARY 337
Você ta vendo agora? Ta vendo o que eu quis dizer?

36
RAFAELLO 338
(no mesmo)Meus filhos são novinhos ainda... Eu me casei velho... Eu tenho
que criar meus filhos...

MARY 339
Era isso multiplicado por uma velha e duas crianças e todo mundo
beijando meus pés...

RAFAELLO 340
Piedade! Piedade! Um bambino de seis anni... E uma
(beijando os pés de Tom)
ragazzina de quatro...

TOM 341
Vá pro inferno! Pára de morder meus chinelos!

RAFAELLO 342
Doutor Tom, eles vão morrer de desgosto... Doutor Tom, não extermine a
minha família... Não seja a câmara de gás da minha prole!

TOM 343
Cala a boca. Vai embora. Sai daqui.

RAFAELLO 344
Matou meus entes queridos por causa de duzentas mil libras!... Duzentas
mil libras valem cinco vidas humanas, doutor Tom? Para o senhor que foi
socialista aos vinte anos, doutor Tom?!...

TOM 345
Como sabe disso?

RAFAELLO 346
Porque todo mundo foi socialista aos vinte anos... Só que alguns mudam.
(apontando para Tom) É isso o capitalismo? É isso que faz com as pessoas? É
assim que as pessoas ficam no regime capitalista?

TOM 347
Porra, eu não agüento mais!...

MARY 348
(correndo para o cofre) Dá o dinheiro pra ele! Dá o dinheiro pra ele!

37
RAFAELLO 349
Dá o dinheiro pra mim! Dá o dinheiro pra mim!

TOM 350
(se agarrando à Mary) Mary, vai dormir! Mary, vai pra cama!

RAFAELLO 351
A imagem de Cristo na parede! É uma família católica! Eu estou
(apontando)
na casa de uma família católica! (caiu de joelhos) Graças a Deus! Agora eu sei
que Deus vai me ajudar!

MARY 352
Me larga! Eu vou dar o dinheiro pra ele! Se você me impedir hoje eu dou
amanhã! Mas eu vou dar o dinheiro pra ele!

RAFAELLO 353
Hoje. Preferivelmente hoje.

TOM 354
Nunca! Você não vai dar esse dinheiro nunca!

MARY 355
Eu juro solenemente: amanhã você tem esse dinheiro!...

RAFAELLO 356
Muito obrigado. Meu Jesus! Muito obrigado, San Gennaro!
(pondo as mãos)
Muito obrigado, Santa dona Mary. (beija-lhe as mãos.) Meu agradecimento
antecipado pelas duzentas mil libras que vou receber amanhã.

TOM 357
Vai é receber uma bala nos cornos!

RAFAELLO 358
O senhor é um homem bom. Não adianta fingir. O senhor é um homem
bom e humano. Eu sinto uma grande paz dentro de mim. Deus está me
protegendo. Nada de mal pode me acontecer. Arrivederchi! (sai)

TOM 359
Eu vou tirar esse dinheiro daí! Eu vou esconder esse dinheiro!

MARY 360
Ele vai receber esse dinheiro, eu vou devolver-lhe esse dinheiro!

38
TOM 361
Ô Mary, se eu tiver que devolver esse dinheiro, eu vou devolver ao banco!
Você parece que perdeu a noção de tudo. Você quer devolver o dinheiro
ao ladrão?!

MARY 362
Tem toda razão! Eu vou devolver o dinheiro ao banco! Assim o banco dirá
oficialmente que só perdeu trezentas mil libras. E Dom Russo perdoará
Rafaello. (Ruído de freiada brusca. Mary e Tom correm para a janela. O ruído se prolonga
desembocando num choque de um carro em algo. Depois o carro arranca. Mary apavorada.)
Rafaello!... Meu Deus!... Deu uma cambalhota no ar!... Está caído!...
Rafaello!... Não se mexe! Que horror! Que desgraça! Telefona para o
pronto-socorro! (Mary sai correndo pela frente).

TOM 363
(que continua na janela.)Mexe sim! Mexeu um braço! Hei! Está se levantando!
(o telefone toca. Atendendo ao telefone.) Alô... Sim... É a casa dele, sim... É ele
mesmo que está falando... Que? A senhora é quem?... A mulher do
Rafaello?... Se ele pode atender?... Bem... Ele acabou de ser atropelado,
em todo caso vou ver... (caminha com o telefone até a janela e procura Rafaello pela
janela.) Hei, Rafaello... Onde está você? Tua mulher quer falar contigo!...

RAFAELLO 364
(já vem entrando, amparado por Mary. Está bastante amarrotado e com um braço pendente e
muito apavorado. Fica de pé no meio da sala.) Vocês viram? Vocês viram? Isso já é
o Dom Russo!

TOM 365
Porra, mas você aqui de novo?!

RAFAELLO 366
Ai! Ai! Ele começa sempre assim: atropelando. Ai! Depois dá uma surra
no cara... Ai! Cimenta o cara e joga a laje no Tâmisa. Atropelamento,
espancamento, afogamento! Ai! Dio!

TOM 367
(estendendo-lhe o fone) Tua mulher quer falar contigo, vê se não demora!...

MARY 368
(doce reprovação) Tom...

39
RAFAELLO 369
Alô... Sou eu... Ai! Me atropelaram sem querer de propósito...
(já ao fone)
Acho que quebrei o braço. Ai! Ai! Fraturei o úmero... Que útero! Úmero!...
Carminha, desde quando eu tenho útero?! Ai! Aiii! Não chora, Carminha,
eles vão dar o dinheiro, sim...

TOM 370
Porra, mas esse cara é demais! Vai embora! Vai pro pronto-socorro!

MARY 371
Não fala assim com ele, não vê que está sofrendo?

RAFAELLO 372
Ele é bom, sim! É ladrão, mas é bom... Oi!... É um bom ladrão, feito eu...
É que ele teve uma infância difícil, foi órfão, teve que lutar muito... Uma
luta difícil... Uma luta difícil contra o tio...

TOM 373
Como ele sabe disso?

RAFAELLO 374
É... Ele é o filho dessa luta... Filho da luta... Ui! Ai!... Não, Carminha, eu
disse luta... É... Dona Mary me leva (para Mary) não leva?

MARY 375
Levo sim.

TOM 376
Mas vê se leva logo! Pelo amor de Deus!

RAFAELLO 377
Estou sofrendo sim. Ai! Ai! Ai! Amore mio, mas Nosso Senhor Jesus Cristo
sofreu molto mais.

TOM 378
E eu posso com um cara desses?

RAFAELLO 379
Não se preócupe... Eu telefono do pronto-socorro... Ai! Até já... Um beijo.
(desliga) Carminha é um anjo. Ser casado, assim, compensa tudo.

40
MARY 380
(que já apanhou suas coisas para sair: casaco, bolsa.) Vamos seu Rafaello, o senhor
não pode ficar com este braço assim.

RAFAELLO 381
Eu nem sinto este braço.
(saindo apoiado em Mary enquanto Tom olha desgostoso)
Naturalmente vai ficar paralítico, mas não faz mal. Para isso é que o bom
Deus nos dá dois braços: se paralisar um a gente tem outro... Se
paralisar os dois tem a família, os amigos... A vida é boa demais...

TOM 382
Você improvisa isso, Rafaello, ou você traz isto decorado?

RAFAELLO 383
Hein, dona Mary, será que eu posso contar com esse dinheiro cedinho, se
eu ainda estiver vivo?

MARY 384
Pode sim, Rafaello. Amanhã de manhã, você terá o dinheiro.

TOM 385
Pois sim.

MARY 386
E não adianta ele esconder que ele sabe que acho tudo.

RAFAELLO 387
(os dois estão na saída) Será, dona Mary?... O doutor Tom parece
determinado... (saíram. Ouve-se o ruído da porta batendo lá fora.).

41
TOM 388
Alô, telefonista, aqui é 331-
(corre para o telefone e disca três números. Espera.)
0576. Eu acabei de receber um telefonema e precisava saber de onde
veio. 331-0576... Espero... Quer dizer que ela pensa que acha tudo... Ta
bem... Alô... (anota) 261-7744... Obrigado. (desliga. Levanta o fone, espera o sinal,
volta a discar) Alô... Aí é da residência do senhor Rafaello Buonmodi?...
Como? Agência de modelos?... 261-7744 é agência de modelos? Muito
engraçado... Não, eu queria falar com uma senhora Carmem Buonmodi...
Trabalha aí alguém com esse nome?... É porque eu acabei de receber um
telefonema daí... Há dois minutos... Escuta, quem é que estava usando o
telefone de vocês há dois minutos?... Kay Harrison?... Eu podia falar com
ela?... Saiu logo depois do telefonema?... E ela é o que?... Modelo e
atriz?... Ótimo. Muito obrigado (desliga. Reflete. Acende um cigarro. O fone toca. Tom
atende) Alô... Oi Roger, até que enfim... Pode falar... (espantado) É?... Mas...
Você só tem este arquivo?... Pelo computador central... Entendo... Ta...
Ta... Maravilhoso! Muito obrigado! Um abraço! (desliga, ruma pro cofre,
monologando) Ótimo... Ótimo... Isto vai de bom pra melhor... (está abrindo o
cofre) Quer dizer que ela acha tudo... E vai devolver o meu dinheirinho ao
banco ou para aquele charlatão... Pois é, mas o meu não vai não... Vai
devolver é o dinheirinho de brinquedo do Jô, que é igualzinho ao outro...
Você só descobre lendo no cantinho: “Fabricado para jogos, mágicas e
brincadeiras por Jô Kramer”. (durante o monólogo acima realizou a seguinte operação:
retirou do cofre o dinheiro guardado numa sacola; trouxe de um móvel do corredor o dinheiro
de brinquedo do Jô, em outra sacola; troca o dinheiro das sacolas: o dinheiro real passa para a
sacola do Jô; o dinheiro do Jô para a sacola de supermercado, onde se encontrava o dinheiro
real. E é esta sacola de supermercado, com o dinheiro de brinquedo, que ele tranca no cofre.
Com a sacola do Jô, que contém o dinheiro real, na mão, hesita onde deve escondê-la.
Finalmente, tranca a sacola no armário do relógio de pendulo num canto da sala. Termina a
operação e ruma para o bar, servindo-se de um drink.).

MARY 389
Que noite. Nossa senhora... Sugiro que desliguemos o telefone e
(voltando)
a campainha ata amanhã de manhã.

TOM 390
Quer um drink?

MARY 391
Quero. Você sabe que o Rafaello é um homem muito bom, um homem
generoso, de bons sentimentos... Conversei muito com ele... Coitado.

42
TOM 392
(bebericando) Ahn!

MARY 393
(tirando o casaco, bolsa) Alguém telefonou?

TOM 394
Primeiro eu liguei para a telefonista, depois o Roger ligou para mim.

MARY 395
E porque este ar de suspense?

TOM 396
Porque a mulher do Rafaello não telefonou da casa dela, conforme ela
disse e sim de uma agência de modelos. Também o nome dela não é
Carmen Buonmodi e sim Kay Harrison. E de dona de casa ela não tem é
nada: é modelo e atriz.

MARY 397
Não me diga.

TOM 398
Você não acredita.

MARY 399
Que outras notícias você tem no gênero?

TOM 400
Em seguida me telefonou o Roger para informar que não existe ficha de
Rafaello Buonmodi nenhum, nos arquivos da polícia. Nem como ladrão
nem como nada.

MARY 401
(irônica) Não é possível.

TOM 402
E é para ajudar um charlatão desses que você pretende devolver o nosso
dinheiro.

MARY 403
(terminando o drink.) Vamos dormir?

43
TOM 404
Porque este ar de superioridade como quem já soubesse de tudo?

MARY 405
Porque eu já sabia de tudo.

TOM 406
Como é?

MARY 407
Carminha quando trabalha muda de nome pra esconder de Rafaello, que
trabalha. Rafaello não gosta que ela trabalhe. Então finge que não sabe
que ela trabalha.

TOM 408
Como você sabe?

MARY 409
Rafaello me contou. Me contou sobre a vida dele. Seu verdadeiro nome é
Pietro Primi. Foi expulso daqui a sete anos por delito de contrabando. Pra
voltar arranjou papéis falsos e um outro nome: Rafaello Buonmodi. Por
isso, é que Rafaello Buonmodi não tem ficha na polícia. Vamos dormir?
(sobe)

TOM 410
(gritando pra cima, danado) Eu vou investigar sobre este Pietro Primi.

MARY 411
(off) Investiga mesmo.

TOM 412
(no mesmo) De repente você deu pra saber tudo.

MARY 413
(off, de sacanagem) Eu sei tudo. E o que eu não sei eu adivinho.

TOM 414
(olhando para o cofre) Vamos ver. Vamos ver. (apaga as luzes e vai subir. Pára de
repente ao ouvir barulho nos fundos. Acende a luz de novo.).

MARY 415
(off) O que foi? (Tom não responde. Sai pelos fundos. Mary surge descendo as escadas.).

44
TOM 416
(voltando) Pensei ter ouvido um barulho.

MARY 417
Pelo amor de Deus, não me diga que vamos ser assaltados. Era só o que
faltava.

TOM 418
Espero que não. (Mary sobe. Tom apaga as luzes de novo. Sobe um pouco preocupado.).

O palco permanece vazio um instante, com focos de luz incidindo sobre o armário, o
relógio e o cofre. Curta pausa. O pano desce devagar.

FIM DO PRIMEIRO ATO

ATO II

45
Meio dia do dia seguinte. Restos de breakfast na mesa. Gravata, paletó e pasta, em
cima de uma cadeira.

TOM 419
É... Vazio... Vazio... Mary é fogo. O que
(de calça e camisa social, abrindo o cofre)
ela promete, ela cumpre. Ainda bem que eu fiz a troca... (junto ao armário do
relógio; recolhendo a sacola com o dinheiro; verifica o conteúdo, prosseguindo o monólogo.)
Será que ela devolveu o dinheiro ao banco... Ou ao Rafaello?... (falando com
o dinheiro que está recolocando no cofre) Venham cá, meus filhos, meus ricos
filhos... O bom filho a casa torna... (toque de campainha da porta da frente. Tom
sobressaltado) Já... (olha as horas) Meu Deus, já passa do meio dia... (apressa-se
em trancar o cofre e enfiar a gravata. A campainha toca mais uma vez. Tom falando alto) Já
vai, senhor MacDougall. (ruma pra fora apressado para abrir a porta da frente de onde
se ouve sua voz um tanto desapontada) Mas é você?

RAFAELLO 420
(entrando, com o braço engessado, mas muito animado) É só uma passadinha rápida,
apenas para dar uma boa notícia. (triunfante) Dom Russo acaba de fazer as
pazes comigo! Estamos de bem de novo!

TOM 421
Ora viva! Ainda bem!

RAFAELLO 422
E o senhor não ficou zangado?

TOM 423
Eu?... Absolutamente.

RAFAELLO 424
Puxa, mas o senhor é bom mesmo! Pessoa formidável! Muito obrigado,
doutor Tom. Deus lhe pague. E queria agradecer a dona Mary, também.

TOM 425
Saiu cedíssimo. Eu ainda estava dormindo. Hoje é dia de dar aula. Ela só
volta na hora do jantar. Mas o senhor não esteve com ela hoje?

RAFAELLO 426
Nó, non estive.

46
TOM 427
Ah! Bom! Então ela resolveu pelo banco.

RAFAELLO 428
(estranhando) Qualcosa disse, doutor Tom? (Toca a campainha dos fundos)

TOM 429
Ah, é a minha visita. Eu estou esperando alguém. Ué, veio dos fundos?
Meu saco... (sai e volta no mesmo instante examinando um monte de cartas)

RAFAELLO 430
Eu também já vou correndo. Ainda tenho que passar no altar de San
Gennaro para agradecer.

TOM 431
Agradeça em meu nome também.

RAFAELLO 432
O senhor está brincando! Mas depois que eu passei a deixar o óbolo de
San Gennaro nunca mais fui preso e tudo na minha vida deu certo.

TOM 433
Então você precisa me ensinar esse negócio de óbolo um dia.

RAFAELLO 434
É uma oferenda que a gente deixa no local do serviço mesmo. Depois de
completado. Eu espalho para San Gennaro muitas notas, sem valor, para
não ofender o santo, assim o dinheiro fora de circulação, dinheiro de
imitação... No Borough Bank, no sábado, eu deixei mil notas de um peso.

TOM 435
Por isso é que a polícia pensa até hoje que o ladrão é argentino. (toque da
campainha da frente) Agora é o MacDougall, você me dá licença...

RAFAELLO 436
(rumando para os fundos) Claro, claro. Depois eu volto para agradecer a dona
Mary. (sai)

47
TOM 437
Vão durar pouco estas pazes
(terminando de dar o laço na gravata e vestindo o paletó)
de Rafaello com Dom Russo. No que perceberem que o dinheiro devolvido
por Mary, não foi fabricado pelo Banco da Inglaterra e sim por Jô Kramer
Mágicas e Jogos Limitada. Bum! Explode a guerra. Aí é que eu quero ver o
óbolo de San Gennaro dando certo. (a campainha toca de novo) Já vai! (Tom some
para atender a porta da frente. Tom off) MacDougall...

MACDOUGALL 438
(off) Meu caro Tom...

TOM 439
(surgindo, fazendo as honras da casa) Entre, esteja à vontade senhor
MacDougall...

MACDOUGALL 440
Pelo amor de Deus, para de me chamar de senhor MacDougall. Afinal
somos tio e sobrinho...

TOM 441
Meio tio e sobrinho.

MACDOUGALL 442
Meu tio. Chame-me de meu tio, pronto. Mas como vai você? Você já está
melhor, podendo sair...

TOM 443
Tenho hora marcada no médico.

MACDOUGALL 444
Mas afinal, o que é que você teve?

TOM 445
Caxumba.

MACDOUGALL 446
(alarmado) Caxumba? Na sua idade? E não...? (faz o gesto de descer para as partes
óbvias)

TOM 447
Não, não. Graças a Deus.

48
MACDOUGALL 448
Ainda bem. Antes assim. Você vai precisar muito de sexo, ainda. (batendo-
lhe uma preocupação de repente) Será que eu já tive caxumba?

TOM 449
Deve ter tido. O senhor tem cara de quem já teve.

MACDOUGALL 450
Espero que sim. Porque na minha idade... Mas meu sobrinho, em primeiro
lugar, estamos muito satisfeitos com o seu serviço no banco. Você é uma
pessoa séria e muito honesta. Isso, hoje em dia, é raro.

TOM 451
Mas que bom, meu tio. Quer dizer que eu não sou mais um idiota
bancário.

MACDOUGALL 452
Você nunca foi um idiota bancário. Você “parecia” um idiota bancário. Mas
não era. Faltava a você uma certa experiência, uma certa intuição, que a
experiência apura. Mas também quando eu te chamei de idiota bancário...
Lá se vão já o que?... Uns...

TOM 453
Sessenta dias. Quando o senhor nomeou Peter Morgan para gerente
geral.

MACDOUGALL 454
Então. Tempo pra chuchu. Você desde então cresceu muito. Por outro
lado, o Peter Morgan, tem me desapontado um pouco. Não é que está
errado a gente gostar de dinheiro, mas o Peter Morgan “só” gosta de
dinheiro. Por exemplo, ele fica tão deslumbrado com o movimento de
caixa que aumentou sem dúvida em parte pelos esforços dele, que não se
refreia de declarar todas as operações, mesmo as que não são para serem
declaradas.

TOM 455
Como assim?!

MACDOUGALL 456
Bem, você sabe que certas operações cambiais com países onde o fisco é
menos rigoroso, nós evitamos declarar, para reduzir os impostos.

TOM 457

49
O senhor fala de negócios clandestinos, debaixo do pano.

MACDOUGALL 458
Exato. Pois imagina que o Peter Morgan, na sua empolgação de fazer
média, declarou na semana passada, uns três destes desvios debaixo do
pano, como sendo em cima do pano, registrando-os como operações
normais. Resultado: a caixa ficou cheia de dinheiro ilícito que não podia
estar lá.

TOM 459
Mas se a outra parte não declarou nada ainda, é só refazer os papéis,
enfiando as operações do Peter de volta para debaixo do pano e
desinchando o caixa. Como os fiscais só vêm no fim do mês não há
problema.

MACDOUGALL 460
Acontece que os fiscais vêm amanhã por causa do assalto. Mas isso não é
problema. Já refizemos os papéis e reduzimos a caixa de quinhentas mil
libras para trezentas mil libras, desde sexta-feira.

TOM 461
Desde sexta-feira? Mas no sábado havia ainda quinhentas mil libras no
cofre, tanto que foram roubadas.

MACDOUGALL 462
O ladrão levou quinhentas mil libras, mas nós só fomos roubados em
trezentas mil.

TOM 463
Ahn?

MACDOUGALL 464
Pela contabilidade oficial nós só tínhamos trezentas mil libras em caixa,
portanto, nós fomos roubados em apenas trezentas mil libras, senão o
fisco nos multa em um milhão.

TOM 465
Meu Deus.

MACDOUGALL 466
E correríamos o risco de pegar uma pena de prisão superior a do ladrão.

50
TOM 467
Meu Deus.

MACDOUGALL 468
Legalmente não podíamos ter mais de trezentas mil libras em caixa.
Portanto, o máximo que a lei permite que sejamos roubados é em
trezentas mil libras. Se fôssemos roubados em mais de trezentas mil
libras os ladrões seríamos nós. Aliás, eu mandei a comunicação oficial
para os jornais hoje de manhã. Deve sair nos vespertinos (olha as horas)
daqui a uma hora.

TOM 469
E as duzentas mil libras que sobraram?

MACDOUGALL 470
O seguro nos paga por fora.

TOM 471
E quem paga o seguro?

MACDOUGALL 472
Alguma empresa que tenha o problema contrário. Veja: o nosso caso é de
declarar menos do que fomos roubados para não sermos multados.
Outras companhias assaltadas preferem declarar mais para aumentar o
prejuízo e diminuir o imposto de renda. O seguro lucra em uns, perde em
outros, no fim do ano em geral empata.

TOM 473
Meu Deus.

MACDOUGALL 474
Porque você tanto diz: meu Deus?

TOM 475
Meu Deus, eu estou pensando em duzentas mil libras voando por aí, das
quais ninguém quer ser o pai.

MACDOUGALL 476
Nós, infelizmente, não podemos assumi-las. Terão que encontrar pais
adotivos.

51
TOM 477
E o ladrão, hein meu tio? Quem sabe o desgraçado está por aí todo
estofado, escondendo o dinheiro... Sem saber que ninguém quer mais o
dinheiro dele.

MACDOUGALL 478
Este cara tirou a loteria esportiva e não sabe. A polícia não irá atrás deste
dinheiro porque ele não existe oficialmente. O seguro ainda poderá fazer
algumas sindicâncias, mas a polícia, nada. (tirando uma papelada de sua pasta)
Assina, por favor.

TOM 479
O que é isto?

MACDOUGALL 480
O mesmo balancete que você assinou no sábado... Desta vez sem as
operações do Morgan. Pelo livro de presenças você é quem deu plantão
no sábado, portanto é você quem tem que assinar.

TOM 481
Quedê o velho balancete?

MACDOUGALL 482
(tirando outro maço) Aqui... É bom rasgá-lo. (Tom examina; depois, MacDougall rasga).

TOM 483
Quer dizer que com esta assinatura duzentas mil libras
(pegando uma caneta)
passam a não ter dono.

MACDOUGALL 484
O dono é quem estiver com elas.

TOM 485
(começando a assinar) Meu Deus.

MACDOUGALL 486
Muito obrigado, Tom. Eu sei o que significa este gesto,
(enquanto Tom assina)
vindo de uma pessoa visceralmente honesta como você. Você está
fazendo isso... Porque no fundo sou o seu tio, e apesar de nossas
divergências você não despreza de todo os laços que nos unem.

52
TOM 487
(acabou de assinar) Nunca mais vou duvidar de cartomantes.

MACDOUGALL 488
Como?

TOM 489
Estou mastigando um pensamento de Confúcio.

MACDOUGALL 490
Tom, quem você acha que é
(muito satisfeito, recolhendo os papéis que Tom assinou.)
o candidato a gerente do Press Bank, o banco que acabamos de adquirir?

TOM 491
Bem... Eu.

MACDOUGALL 492
Não, não. Peter Morgan.

TOM 493
Peter Morgan?

MACDOUGALL 494
No Press Bank nós podemos controlá-lo melhor. E quem ocupará o cargo
de Peter Morgan no Borough Bank?

TOM 495
Não sei... Já fico com medo de opinar...

MACDOUGALL 496
(triunfante) Você!

TOM 497
(contente) Meu tio!

MACDOUGALL 498
Meu sobrinho! Um abraço. (abraçam-se) Vou correndo. Como está Mary?

TOM 499
Dando aulas até a noite.

MACDOUGALL 500
Não será preciso mais se preocupar. Adeus!

53
TOM 501
Eu lhe acompanho.
(saem conversando) (voltando à cena e vendo-se sozinho)
Eeeeeeeeeeee! É isso aí! (põe-se a encher a pasta, em cima de uma mesinha. Coloca
papéis, scripts de TV, lápis, etc. num ritmo rápido e alegre enquanto dá vazão à sua euforia)
Tudo resolvido! Meu Deus! Nem o Rafaello precisa mais se preocupar.
Oficialmente o banco só perdeu trezentas mil libras. Dom Russo não pode
cobrar mais! Esse negócio de óbolo de San Gennaro funciona mesmo!
(preparando para sair) Duzentas mil libras! Só para mim! Não acredito! Vou
dar um show de banco hoje na tevê... Que vai parecer show musical!
(entra música alegre. Tom sai carregando a pasta numa dancinha. Black out. Ouve-se um
noticiário.).

LOCUTOR 502
Notícia de última hora! O cidadão Rafaello Buonmodi acaba de ser
espancado por assaltantes desconhecidos, que o deixaram estirado numa
sarjeta da Brompton Road. Rafaello Buonmodi, recolhido ao Hospital de
São Patrício, declarou que anda meio sem sorte ultimamente. Ontem foi
atropelado quando saia da casa de uns amigos e hoje espancado. Não
sabe nem porque, pois acabava de pagar uma dívida e rumava para pagar
uma promessa a San Gennaro.

TOM 503
(vestido como na cena anterior, aproximando-se de Mary, para beijá-la.) Oi.

MARY 504
Tom, você está louco?

TOM 505
Era isso ou não se gravava o programa.

MARY 506
Você esteve com o doutor Foster? O que disse ele?

TOM 507
Que eu ainda preciso de repouso.

MARY 508
E você fica na tevê até uma e meia da manhã?

TOM 509
(olhando o relógio) Duas.

54
MARY 510
Pelo amor de Deus.

TOM 511
Não precisa reclamar eu já me sinto culpado sem a sua colaboração.
(prostrou-se ao lado de Mary no sofá)

MARY 512
Está bem. Vou te servir uma sopa bem gostosa.

TOM 513
Você é um amor. Você não tem que acordar cedo amanhã?

MARY 514
Não. O encontro com os pais foi adiado. (ruma para a cozinha.).

TOM 515
(falando mais alto) Ainda bem.

MARY 516
(off) Tenho novidades.

TOM 517
Eu também. (Mary vem entrando com a sopa numa bandeja. Mais pãozinho, manteiga e
guardanapo. Tom indo sentar-se a mesa) Sabe quem esteve aqui pouco antes do
almoço? MacDougall.

MARY 518
O quê?

TOM 519
Palavra.

MARY 520
O que é que ele queria?

TOM 521
(servindo-se) Hum, que delícia! Deixa eu comer isso e já te conto tudo.

MARY 522
Você ouviu a notícia a respeito do Rafaello.

TOM 523
Ouvi e não entendi nada.

MARY 524
Ele ficou abaladíssimo, coitado. Falei com a enfermeira.

55
TOM 525
Você foi ao hospital?

MARY 526
Telefonei.

TOM 527
Ahn.

MARY 528
Tentei falar com ele, mas estava de repouso.

TOM 529
Aquilo deve ter sido um equívoco. Eu tenho certeza que a partir de agora
ele repousará em paz.

MARY 530
(alarmada) O que? Ele morreu?

TOM 531
Digo, em tranqüilidade, sem ser incomodado.

MARY 532
Porque você diz isso?

TOM 533
Porque o banco declarou que o seu prejuízo foi de trezentas mil libras.
Não quinhentas mil. Essa declaração livra definitivamente a cara do
Rafaello com Dom Russo.

MARY 534
Onde é que o banco declarou isso?

TOM 535
No jornal que você está lendo.

MARY 536
(olhando o jornal) É?... (procura).

56
TOM 537
Veja na página cinco, embaixo. Deve ter saído nos outros vespertinos
também e na tevê.

MARY 538
(descobre a notícia - admirada) é mesmo... (pensativa) É estranho isso.

TOM 539
Por quê?

MARY 540
Que horas saem os vespertinos?

TOM 541
Lá pelas três horas.

MARY 542
Mas esta era da comunicação é miraculosa mesmo. Como é que uma
notícia que ocorre às cinco da tarde é publicada no jornal às três. Ou seja,
duas horas antes. Isto não é mais comunicado é telepatia.

TOM 543
Que fato é esse que ocorreu às cinco da tarde?

MARY 544
O banco perceber que só perdeu trezentas mil libras.

TOM 545
O banco só percebeu isso às cinco da tarde?

MARY 546
Sim, porque as duzentas mil libras que estavam comigo, eu só pude
devolver às cinco da tarde ao banco. (Tom ri.) Por que você está rindo?

TOM 547
Nada, meu amor. Você acha então que essa notícia foi dada porque você
devolveu duzentas mil libras ao banco às cinco da tarde.

MARY 548
Acho.

TOM 549
E como é que então a notícia é publicada duas horas antes do advento?

MARY 550
Só existe uma explicação: parapsicologia.

57
TOM 551
A quem você devolveu esse dinheiro no banco?

MARY 552
Ao senhor Smith que toma conta da caixa forte, meu amigo, com quem
fui tomar chá. Aproveitei uma hora lá que ele não estava olhando, tirei da
sacola aquele monte de notas, e enfiei no meio de uma porção de outras,
em duas gavetas. Deve ter ficado espantado quando viu de repente um
excesso de duzentas mil libras na caixa. (ri. Tom rindo muito mais. Mary um tanto
desconfiada.) Nós estamos rindo da mesma coisa?

TOM 553
(rindo) Eu acho que não.

MARY 554
Você está rindo de que?

TOM 555
(dando-lhe um Da tua ingenuidade,
beijo) meu amor. Você é tão
inocentezinha, minha querida.

MARY 556
Por quê?

TOM 557
Sabe que notas você meteu no meio de outras enquanto o Smith tomava
o chá? As notas de brinquedo do Jô.

MARY 558
Ahn?

TOM 559
Você não tirou o dinheiro daqui do cofre?

MARY 560
Tirei.

TOM 561
Ontem à noite eu troquei os pacotes, tirei o dinheiro verdadeiro do cofre e
botei o dinheiro de imitação.

58
MARY 562
O que? Mas é um bom filho daquela senhora!

TOM 563
Meu amor, eu não podia perder as minhas duzentas mil libras!

MARY 564
Você também... Não vale nada!

TOM 565
Foi por nós, minha querida, afinal, nós somos casados em comunhão de
bens. (Tom embora procurando apaziguar Mary, está no fundo, contente consigo mesmo.).

MARY 566
Mas, é o fim! O fim!

TOM 567
Não fica assim, querida. Nosso amor vale mais que duzentas mil libras.

MARY 568
Fica me gozando, seu mau caráter. Fica! Mas, como que o jornal publicou
que...

TOM 569
Porque aconteceu um milagre. Incrível! Um negócio que faz a gente
acreditar em destino!

MARY 570
O quê?

TOM 571
Parte daquelas quinhentas mil libras, do dinheiro que foi roubado, era
dinheiro de operações ilícitas, que o banco não pode declarar. Então, essa
parte não pode constar oficialmente dos prejuízos do banco. Duzentas mil
libras para ser exato.

MARY 572
Mas, como entrou no cofre se era ilícito?

59
TOM 573
Por vaidade do Peter Morgan, que queria mostrar serviço. Eles tiveram
que refazer a contabilidade toda. Por isso, que o banco demorou a
declarar oficialmente o seu prejuízo, que afinal foi feito hoje de manhã e
saiu nos vespertinos depois do almoço. É por isso que o MacDougall
queria tanto falar comigo. Faltava minha assinatura em alguns
documentos.

MARY 574
E você assinou?

TOM 575
Assinei.

MARY 576
Tornou-se conivente.

TOM 577
Meu amor, eu me tornei conivente a partir do momento que me apossei
do dinheiro. Com minha assinatura eu me tornei disconivente. Encerrei o
assunto. Nem a polícia vai mais procurar estas duzentas mil libras. Elas
não têm dono, não são de ninguém, ou melhor, são de quem estiver com
elas. É como um cheque ao portador, pertence ao portador!

MARY 578
Êta dinheirinho mais roubado: o MacDougall roubou nas operações ilícitas,
o Rafaello roubou o MacDougall, você roubou do Rafaello... Que festival
de ladrões!

TOM 579
Mary, quer ir a uma boate?

MARY 580
Hein?

TOM 581
Vamos a uma boate, mulher! Festejar! Tomar um pileque!

MARY 582
Você não pode beber.

60
TOM 583
Só uma taça de champanhe. São duas horas. As três, a gente está de
volta.

MARY 584
Eu tenho que mudar de roupa. Tô com uma preguiça...

TOM 585
Põe um vestido qualquer, esse mesmo tá ótimo.

MARY 586
Tom, isso não é vestido, é robe.

TOM 587
Pois está ótimo.

MARY 588
Mas, nós estamos sem dinheiro. Eu, pelo menos, não tenho um tostão.

TOM 589
Mas, eu tenho! Uma fortuna! Duzentas mil libras!

MARY 590
Vai torrar tudo hoje?

TOM 591
Tudo. O todo de cem libras!

MARY 592
(horrorizada) Cem libras, numa noite?

TOM 593
Mary, sua bobona, você tem um marido rico! Rico! Riiiico!

MARY 594
Boto aquele meu vestido verde?

TOM 595
Verde, vermelho, azul, lilás, o que você quiser!... Amanhã, passo o dia
dormindo. Bote o vestido enquanto eu apanho a grana. (Mary sai, Tom abre o
cofre. Não vê a sacola que guardou na hora do almoço. Procura. Afasta os papéis) Ué!

61
MARY 596
(off) O que?

TOM 597
Quedê o dinheiro?

MARY 598
(off) Que dinheiro?

TOM 599
Minhas duzentas mil libras.

MARY 600
(off) Eu não disse que tinha devolvido ao banco?

TOM 601
(vai atirando fora todo o conteúdo do cofre: papéis, cadernos, bagulhos de modo geral, numa
Você devolveu o dinheiro de brincadeira! Quedê o dinheiro
agitação crescente)
de verdade?! Quedê o dinheiro que eu botei aqui no cofre?

MARY 602
(que surgiu abotoando um vestido bonito) Sei lá, ué!

TOM 603
Mas, estava aqui! Tinha que estar aqui! Eu botei aqui!

MARY 604
Calma! Calma!

TOM 605
Roubaram! Me roubaram duzentas mil libras! Chama a polícia!

MARY 606
Nem pense nisso. Essas duzentas mil libras eram roubadas. Quem vai
preso é você!

TOM 607
(cada vez mais exaltado) Quedê o meu dinheiro? Quedê o meu dinheiro?

MARY 608
Sossega.

TOM 609
Que sossega nada!

MARY 610

62
Mas, onde você botou?

TOM 611
Botei aqui no cofre!

MARY 612
Quando?

TOM 613
Quando? Na hora do almoço. Quando fui ao médico!

MARY 614
Que horas foi isso?

TOM 615
Meio dia e meia, uma hora!

MARY 616
Você botou esse dinheiro a uma hora?

TOM 617
Há uma hora, sim! Há uma hora, sim! Porra! Quantas vezes quer que eu
diga? Foi o Rafaello, aquele ladrão safado! Foi ele! Não sei como, mas
sinto que foi!

MARY 618
Ele ta no hospital! O cara ta todo engessado!

TOM 619
Mas, então quem foi? Quem foi? Ele não foi porque está no hospital! Você
não foi porque você tirou o dinheiro falso hoje de manhã! Então...

MARY 620
Hoje de manhã?

TOM 621
Então me diz quem foi! Quem foi!

MARY 622
Tom, eu não tirei o dinheiro hoje de manhã!

TOM 623
Como não?

63
MARY 624
Estou te dizendo... Eu não tirei o dinheiro hoje de manhã... Eu saí cedo...
Vi você dormindo... Deu-me remorso de tirar o dinheiro sem falar com
você...

TOM 625
Mas eu... Hoje, na hora do almoço... Quando saí... O cofre estava vazio...
Eu coloquei o dinheiro de verdade no cofre porque o cofre estava vazio...
Porque você tinha tirado a outra sacola hoje de manhã...

MARY 626
Eu não tirei nada hoje de manhã!

TOM 627
Mas, o cofre estava vazio! Como é que o cofre estava vazio se você não
tirou o dinheiro?... (volta a colocar as coisas que tirou do cofre)

MARY 628
Espera... Você se lembra... Meu Deus, é isso... A notícia do rádio... Você
se lembra da notícia do rádio?... O Rafaello dizendo que levou uma surra
depois de pagar uma dívida... Se lembra das passadas, do ruído que você
ouviu ontem à noite... Você até acendeu de novo a luz e foi ver se havia
alguém...

TOM 629
Não me lembro de nada! Não me lembro de nada! Quero saber onde está
o meu dinheiro!

MARY 630
Era Rafaello assaltando o nosso cofre... O Rafaello assaltou o nosso cofre
ontem a noite... Ele é que levou o dinheiro falso sem perceber que era
falso. E pagou a Dom Russo com o dinheiro falso. Por isso foi surrado.

TOM 631
Isto é ridículo. Como é que ele podia com o braço quebrado... O que é
isso?

MARY 632
Uma sacola...

TOM 633
(sacode-a extraindo seu conteúdo) Com dinheiro dentro... Que dinheiro é esse...

MARY 634

64
Bolívares... Dinheiro da Venezuela... Bem velho... Ou vale muito ou não
tem valor nenhum...

TOM 635
Meu Deus do céu! O óbolo de San Gennaro! O óbolo de San Gennaro!
Filho da puta! Filho da puta! Tomara que não seja verdade! San Gennaro
não permita que seja verdade...

MARY 636
O que? O que você está falando?

TOM 637
Às cinco da tarde? Nossa senhora...

MARY 638
Voltei da escola mais cedo... Ouvi a notícia... Telefonei pro hospital... O
Rafaello estava todo ruim, não consegui nem falar com ele... Você não
estava... Eu disse: isso tem que parar, a gente tem que se livrar desse
dinheiro!

TOM 639
Não... Não...

MARY 640
Então eu... Levei o dinheiro... Ao banco!

TOM 641
O meu dinheiro?... O meu dinheirinho?... Você devolveu?!

MARY 642
Devolvi, Tom...

TOM 643
Não pode ser... Duzentas mil libras sem dono... Duzentas mil libras sem
pai... Que eu ia perfilhar... Você devolveu?

MARY 644
Era... Pra ajudar você. Tom... Ajudar a gente...

TOM 645
Mas eu não preciso de ajuda, porra! Eu não preciso de ajuda!

65
MARY 646
Meu bem, eu fiz pelo teu bem!...

TOM 647
Mas, eu não quero que ninguém faça nada pelo meu bem! Porque é que
vocês insistem em fazer coisas pelo bem de quem não quer que façam
coisas pelo seu bem? Porra! A próxima vez que alguém quiser fazer coisas
pelo meu bem, eu mato! Mato! Eu não preciso de ajuda! Eu te pedi ajuda?
Quem ajuda precisa muito mais se ajudar do que ajudar quem precisa de
ajuda! Eu não preciso de ajuda, eu preciso é de minhas duzentas mil
libras!...

MARY 648
Eu só queria... Que a gente... Vivesse em paz...

TOM 649
Porra, eu me comprometi de graça... Eu assinei aquela papelada de graça.
Eu ia ficar com duzentas mil libras... Eu ia ser cúmplice de meu tio por
duzentas mil libras... Agora sou cúmplice dele sem as duzentas mil
libras... De graça... Ó, meu Deus, como o MacDougall tem razão. Como o
MacDougall tem carradas de razão! Como eu sou burro! Burro! Burro,
burro, burro! É o que ele dizia que eu era e é o que eu sou! (batendo com a
cabeça na parede) Burro! Burro ao quadrado! Burro ao cubo! Burro elevado a
potência "n"!

MARY 650
Para com isso, Tom!

TOM 651
Toma burro! Agacha burro. (fica de quatro) Quem é burro precisa andar de
quatro!

MARY 652
Ó meu Deus!... Meu Deus!

TOM 653
Iauuuh! Iauuuh! Eu quero um feixe de capim!
(andando de quatro e zurrando)
Burro velho quer capim! Dá capim pra burro véio!

MARY 654
Para com isso!

TOM 655

66
(sentado no chão) Mas porque você não me esperou?... Porque você não falou
comigo?

MARY 656
Porque eu estava muito aflita... O homem lá no hospital sofrendo... De
repente podiam seqüestrá-lo... Matá-lo...

TOM 657
E eu virei delinqüente de graça... Operador de operações debaixo do pano
de graça... Eu vou me matar! Não tem nenhum revólver nessa gaveta?

MARY 658
Não faz isso! Pare com isso!

TOM 659
Mary! Eu te amo! Eu te amo muito! Como é que você faz isso com um
cara que te ama muito?

MARY 660
Eu não sabia! Foi sem querer!

TOM 661
Estamos na merda, de novo, Mary! Estou com quarenta anos e estou na
merda de novo, Mary!

MARY 662
Chega Tom, por favor, Tom.

TOM 663
Porra, como é difícil sair da merda! Você não sabe como é difícil sair da
merda! Eu já estava saindo da merda, aí eu escorreguei e caí na merda
de novo!

MARY 664
Mas você não pode dar um jeito? Você não pode fazer nada?

TOM 665
Claro que posso. Eu posso assaltar o banco de novo. Eu posso telefonar
pro Rafaello e pedir pra ele assaltar o banco de novo! Eu posso perguntar
a ele se ele não conhece alguém pra assaltar o banco por nós.

67
MARY 666
Não fala assim. Não fique tão nervoso... A tua caxumba pode voltar, pode
descer...

TOM 667
Tomara que desça! Tomara que me castre! Tomara que eu vire brocha,
bicha, bosta! Bom, bosta eu já sou! (de repente percebe) Espera!... Espera!

MARY 668
O que?

TOM 669
Esse dinheiro não pode ficar lá.

MARY 670
Como?

TOM 671
Os fiscais estão entrando no banco amanhã na primeira hora. Os livros
estão todos certinhos, de repente aparece no caixa uma sobra de
duzentas mil libras, sem que haja uma documentação explicando a
origem deste dinheiro? Eu preciso avisar o MacDougall. (rumou para o telefone)
Ele tem que tirar esse dinheiro de lá.

MARY 672
Mas como você vai explicar ao MacDougall o porquê deste dinheiro lá?

TOM 673
(discando) Sei lá. Vou dizer que o ladrão devolveu.

MARY 674
E quem é o ladrão?

TOM 675
Ué, sou eu.

MARY 676
E você vai dizer isso ao MacDougall?

TOM 677
Não. Claro que não.

68
MARY 678
Então você vai dizer o que ao MacDougall?

TOM 679
Não sei. (desligando). Por enquanto não consigo nem completar a ligação.

MARY 680
Pois eu sei. Você vai dizer que recebeu uma carta anônima do ladrão.
(levanta-se e apanha lápis, papel, tesoura, cola e um monte de jornais).

TOM 681
Não entendi.

MARY 682
O ladrão se denunciou. Se arrependeu e se denunciou. Por meio de uma
carta anônima.

TOM 683
O ladrão se arrependeu e se denunciou? Devolveu e ainda mandou uma
carta anônima? Entrou no banco com uma sacola contendo duzentas mil
libras chegou ao cofre não se sabe como, depositou o dinheiro, voltou pra
casa e em vez de ficar quieto ainda escreveu uma carta anônima que ele
mandou... Logo pra mim?!

MARY 684
E porque não pra você? Você não é de televisão? Você não é um cara
simpático, que fala de bancos e economia toda semana, que está
agradando, que tem até carisma? E que trabalha, justamente, no banco
que foi roubado?

TOM 685
Sei lá, não sei. Não sei mais nada.

69
MARY 686
O ladrão te escreveu porque te conhece. Te admira. Te vê toda semana. É
teu fã. Ele se deu ao trabalho de devolver o dinheiro com a maior
dificuldade, como você mesmo diz. Ele se orgulha deste feito: pra
devolver o dinheiro arriscou-se tanto quanto para roubá-lo. Ele está
orgulhoso de sua recém-reconquistada honestidade. Ele quer comunicar
isso, mas tem medo de ser preso. O que ele faz? Ele manda uma carta
anônima pra alguém que ele admira, que ele sente que vai compreendê-
lo, que é bancário, que é amigo dele, que entra na casa dele toda
semana: você!

TOM 687
Esse cara me admira? Então é um imbecil!

MARY 688
Vamos escrever a carta anônima já. (começa a escrever) Prezado Senhor...

TOM 689
O MacDougall vai desconfiar de mim! Eu entrei pelo cano! O MacDougall
vai desconfiar de mim!

MARY 690
Vai nada, Tom. O MacDougall te acha burro, mas honesto. O MacDougall
te acha o cara mais honesto do banco. Se você confessasse a ele, agora,
neste momento, que você roubou o banco, ele não acreditaria.

TOM 691
Prefiro não fazer a prova. (começa a discar)

MARY 692
(voltando a escrever) Prezado senhor: Venho por meio desta...

TOM 693
É carta anônima comercial?...

MARY 694
O que é que eu ponho então?

TOM 695
Eu que sei?!

70
MARY 696
O crime não compensa. Infelizmente, eu só descobri isto depois
(inspirada)
de cometê-los. Mas, nunca é tarde para o arrependimento. Devolvo o
dinheiro...

TOM 697
(emendando)E aproveito a oportunidade para saudar o amigo pelo seu
excelente programa de televisão...

MARY 698
Ahn?

TOM 699
Atenderam! Alô... Eu queria falar com o senhor
(de repente, animado)
MacDougall... Eu sei que são três da manhã, mas é superurgente...
Como?... Pra onde?... (desliga) MacDougall foi para Madri.

MARY 700
Madri?

TOM 701
Ele costuma ir duas vezes por mês. Nós temos uma filial lá.

MARY 702
Telefona.

TOM 703
Pra filial? Mesmo em Madri às três da manhã os bancos estão fechados.

MARY 704
Pro hotel. Não tem um hotel que ele costuma ficar?

TOM 705
O Ritz.

MARY 706
Telefona pro Ritz. (Mary abre o catálogo e procura o código) Qual é o código de
Madri?... Espanha...

TOM 707
Mas falar o que com MacDougall? O que ele pode fazer de Madri?

71
MARY 708
Mandar alguém abrir o banco pra retirar o dinheiro! (discando) Alô, eu
queria o número do hotel Ritz em Madri... Espero...

TOM 709
Avisar o MacDougall. Meu Deus. Com isso eu estou dando adeus às
duzentas mil libras.

MARY 710
Alô...

TOM 711
O Peter Morgan tem uma chave... Eu podia ir à casa do Peter Morgan e
roubar-lhe a chave... Ou então seduzi-lo, fingir que o amo e na hora "H"
dar-lhe uma porrada na nuca e roubar a chave...

MARY 712
Fingir que o ama? Peter Morgan é bicha?

TOM 713
Ele já foi bicha. Agora é tricha. Só é difícil encontrá-lo de noite em casa.
Peter passa as noites nos bares de bicha de Londres. Felizmente, tem
poucos desses bares: se eu começar a fazer a ronda agora, lá para o ano
dois mil eu já terei terminado.

MARY 714
Alô, sim... 37443189992... Muito obrigada. (escreveu e começa a discar).

TOM 715
Eu podia perguntar ao Rafaello como se chega àquele esgoto... Pra quem
já está na merda deve ser fácil... O banco ainda não consertou o chão da
caixa forte, puseram apenas uma tábua... Deve ser moleza abrir aquilo...
Se o Rafaello conseguiu, ele, que não tem nem mestrado em economia,
que diria eu que escrevi uma tese sobre: "As chaves do sistema
bancário".

MARY 716
Alô... Hotel Ritz... Quien habla?... Momentito...

72
TOM 717
Por favor llamar el señor MacDougall... ei... no llegó...
(pegando o telefone).
como no llegó... que?... fué secuestrado?!...

MARY 718
Hein?

TOM 719
MacDougall foi seqüestrado!

MARY 720
(horrorizada) O que?!

TOM 721
Alô!... El avion en que viña el señor MacDougall fue secuestrado?... el
avion da British Airways?!...

MARY 722
Não é possível.

TOM 723
Para onde?... Cuba?... Marrocos!... Está em Marrocos?... Si... sí... gracias.

MARY 724
Não acredito.

TOM 725
Liga pro aeroporto de Marrocos. Diz que precisamos falar com um dos
seqüestrados do Boeing da British Airways. Eu agora falo com este cara,
nem que ele esteja no inferno!

MARY 726
Calma.

TOM 727
O que você está procurando?

MARY 728
O telefone da British Airways.

73
TOM 729
Eu podia assaltar o vigia do banco. Só que eu não tenho a chave do cofre.
Eu podia explodir o cofre. Mas, não tenho dinamite. Há uma obra aí na
esquina. Será que eles têm dinamite? Eu podia assaltar o vigia do banco e
explodir o cofre com a dinamite... Será que eu faço tudo isso em quatro
horas? Sem prática, mas com muito entusiasmo e determinação?

MARY 730
Por favor... Eu queria uma informação sobre a nave que foi seqüestrada...
Isso mesmo... Marrocos?... Sabe se tem um senhor MacDougall a
bordo?... Mas é muito importante...

TOM 731
(pegando o fone) Alô, minha senhora... Eu preciso falar com meu filho
urgente... Eu sou a mãe do senhor MacDougall... É porque eu estou
doente... Caxumba... 33142135166... (Mary anota) muito obrigada, querida.
(desliga) É o aeroporto de Marrocos. Anotou?

MARY 732
Não é mais fácil tentar o Peter Morgan?

TOM 733
Não tenho o telefone dele.

MARY 734
Tem sim. Naquele caderninho que tem o número de todos os funcionários.

TOM 735
(discando) Tá no banco.

MARY 736
Eu vi esse caderno aqui em casa. Pra onde você está discando?

TOM 737
Marrocos. Nunca na minha vida eu pensei que eu ia ligar para o aeroporto
de Marrocos. Qual a probabilidade disso acontecer a alguém num período
de quarenta anos. Zero! Porque é que eu fui premiado com um
telefonema pra Marrocos em vez de ser premiado com a loteria esportiva?
Quer me explicar?

74
MARY 738
(que deu uma busca enquanto isso) Olha o caderno.

TOM 739
Agora vou falar com Marrocos nem que morra. Alô. É do aeroporto de
Marrocos?... Porra, não entendo nada... alô, s'il vous plait... parle vous
français?... Esse cara tá falando japonês... alô, usted habla español...
pero en Marrocos, pora, não se habla español?... usdesds hablan o que aí
en Marrocos?... Quero hablar com el señor MacDougall... passajero
secuestrado en el Boeing de la British Airways... No soy loco no señor: yo
soy la madre del señor MacDougall, después de la caxumba... caxumba...
como é caxumba em espanhol?... Yo soy la madrecita, porra!... alô...
alô... (desliga, mergulha a cabeça entre as mãos) Duzentas mil libras...

MARY 740
Tom.

TOM 741
Duzentas mil libras... aqui no cofre... Praticamente com uma certidão de
propriedade...

MARY 742
Tom... Meu amor... Desculpe...

TOM 743
Fiquei sem as duzentas mil libras... E vou ser processado como cúmplice
do MacDougall... (Mary começa a discar) Pra quem você está telefonando?

MARY 744
Pro Morgan.

TOM 745
Não está.

MARY 746
Espera. Calma.

TOM 747
Esse cara não dorme em casa, nunca. (apanha o paletó)

MARY 748
Onde você vai?

TOM 749

75
Correr os bares de bicha. Se voltar com duas bichas penduradas no
pescoço você finge que não me conhece.

MARY 750
Tom, vai dormir.

TOM 751
Eu hoje não dormiria nem com um galão de soníferos.

MARY 752
(de repente) Alô... Peter Morgan?... Momento (emocionada) É ele!

TOM 753
(correu pro Alô. Peter? É o Tom... Tom Tyrrell... Peter, é
telefone)
superimportante... Desculpe, cara, eu sei que horas são, mas se trata
duma emergência... Não estou bêbado nada... Peter, presta atenção: há
duzentas mil libras a mais na caixa forte do banco! O homem que assaltou
o banco na semana passada, o ladrão, um dos ladrões, arrependeu-se e
devolveu o dinheiro... E recebi uma carta anônima... Ô cara, você não
está compreendendo? Os fiscais vão encontrar duzentas mil libras a mais
que não estão apoiados em documentação nenhuma. E vão partir para
um inquérito que não interessa a ninguém!... Eu quero que você venha
agora ao banco pra gente transferir este dinheiro para um outro cofre
qualquer!... Estou te dizendo depositou!... Não verifiquei, mas não
precisa!... Você não pode verificar as oito da manhã. Cara, às oito da
manhã os fiscais já estão lá!... Porra, eu te juro por tudo que é mais
sagrado que o dinheiro está lá!... Mas que sujeito mais teimoso, você
dorme depois, porra! Você dorme amanhã, você falta ao trabalho
amanhã... Ô Morgan, você não brinca comigo não, sua bicha malcriada,
eu conheço teus negócios, eu te denuncio, cara!... Você faz câmbio negro,
você compra e vende ouro sem o banco saber! Se eu afundar por causa
da tua preguiça nós afundamos juntos!... (N.T.) Sim, oficialmente, foram
roubadas trezentas mil libras, o que tem isso?... Sim, o ladrão está
devolvendo duzentas mil libras e daí?... Que conclusão, não chego a
conclusão nenhuma!... Ahn?... (meio perplexo) Tenho a carta do ladrão sim...
(mais perplexo, ainda) Bem... Eu não tinha pensado nisso...

MARY 754
(aflita) O que é que ele está dizendo?

76
TOM 755
Momento. (para Mary) Que os ladrões podem devolver até trezentas mil
libras que não tem problema. Porque até trezentas mil libras o roubo está
documentado. Só teria problema se devolvessem mais de trezentas mil
libras. Portanto, devolvendo duzentas mil libras tá tudo bem, desde que a
gente tenha a carta do ladrão como comprovante...

MARY 756
Bem, ele não deixa de ter uma certa razão...

TOM 757
Oh, Morgan, você não deixa de ter uma certa razão, mas se a gente
tirasse esse dinheiro daí eu me sentiria mais tranqüilo... O quê?!... (para
Mary) Tá dizendo que ele não vai sair da cama as cinco da manhã para eu
me sentir mais tranqüilo... Escuta aqui!... Alô... (desligando) O filho da mãe
desligou.

MARY 758
Tom, escuta aqui. Aonde você vai?

TOM 759
Vou tirar da cama essa bicha
(que tinha se levantado e apanhado de novo o paletó)
sem-vergonha! Vou arrastá-la ao banco! Vou tirar o dinheiro da caixa
forte e colocar numa gaveta até os fiscais saírem!

MARY 760
Não adianta, ele não vai te atender. Vai desligar a campainha e pronto.

TOM 761
(rumando para a porta da frente) Isso nós vamos ver!

MARY 762
Tom, você precisa descansar, pelo amor de Deus!

TOM 763
Sabe que tem qualquer coisa de errado
(parado no vão do corredor, prestes a sair)
nisso tudo?... A cartomante me garantiu que se eu fizesse força o dinheiro
ficava pra mim. E olha, mais força que estou fazendo... E o dinheiro cada
vez mais longe...

77
MARY 764
Quem sabe ainda volta.

TOM 765
Não to vendo jeito. E olha, some com essa carta, isso não resiste ao
primeiro exame da polícia.

MARY 766
Leva um casaco. Ta fazendo frio. (Tom já saiu. Mary suspira. Passa os olhos pela
desordem da sala e começa a arrumar os jornais) Meu Deus, quanto jornal. (Toca a
campainha dos fundos. Mary tem um sobressalto. Hesita. Depois caminha até os fundos)
Quem é?

VOZ 767
(off) Jornal.

MARY 768
(sai e volta um segundo depois com o jornal na mão) Ta aqui. Seqüestro do Boeing.
(senta e começa a ler. Toca a campainha da frente. Mary tem uma reação de espanto e olha na
direção da porta da frente. A campainha toca de novo. Mary levanta-se e ruma para o vestíbulo.
Em off).

VOZ DA MAIOR
769
BICHA
Peter Morgan... Mudei de idéia. Vou passar no banco antes dos fiscais!
(off)
Abre meu bem, ta um frio danado aqui fora! Estou gelando todo!... Você
tem a carta do ladrão, aí?!

MÚSICA. BLACK OUT


LOCUTOR DE RÁDIO – BLACK OUT

LOCUTOR I 770
Previsão do tempo para hoje. Hoje o tempo será horrível. Se puder não
saia de casa. Economize feijão, arroz, mandioca e açúcar. Não coma
nada. Procure divertir-se, mas sem gastar dinheiro. Hoje a coisa anda
preta, mas amanhã será pior.

78
LOCUTOR II 771
Informações úteis: em mil setecentos e noventa e três foram cortadas na
França doze mil cabeças. Isto corresponde a uma média de trinta e três
cabeças por dia, uma vírgula trinta e três avos de cabeça por hora ou
vinte e cinco milésimos de cabeça por minuto.

LOCUTOR I 772
Notícias exóticas de última hora: o cidadão Rafaello Buonmodi internado
desde ontem no hospital de São Patrício, recebeu alta esta manhã, ou
pelo menos, saiu do hospital, a convite de três homens altos e fortes.
Rafaello foi visto pela última vez entrando num grande carro preto.
Rafaello deverá ser visto de novo dentro de alguns dias possivelmente no
fundo do Tâmisa, preso a um bloco de cimento, já que seus
acompanhantes são funcionários efetivos do sindicato do crime de Dom
Russo Capoletti. (Luzes voltam. É manhã. A claridade penetra pela janela e bate em Mary
dormindo numa poltrona. O telefone toca estridente. O som e a luz acordam Mary com um
sobressalto. Mary atende.).

MARY 773
Alô... Oi, doutor Foster... Estava, mas não faz mal... O Tom?... Não sei.
Acho que ainda não voltou!... Se ele está repousando bastante? Olhe, eu
acho que não está repousando nada. Esta noite, por exemplo, ele não
dormiu... Problemas, doutor Foster... Vai ter problemas piores se não
dormir?... A caxumba ainda pode descer?... Pelo amor de Deus, doutor
Foster, vira essa boca pra lá... Eu falo com ele... (forte ruído de chuveiro vindo
do banheiro) Ué... Parece que ele está sim... (sem desligar vai até a porta do banheiro
e bate) É você, Tom?

TOM 774
(do banheiro) O que?

MARY 775
Você está aí?

TOM 776
Não.

79
MARY 777
(voltando ao fone) Parece que ele estava em casa... Eu dou o recado... Muito
obrigada. (desliga. Tom já vem saindo do banheiro. Toalha enrolada, chinelos, vem se
enxugando. Há uma calça, camisa, paletó, meias, sapatos, preparados sobre uma cadeira. Irá
vestindo-se apressado enquanto dialoga. Mary, espantada) Quando você chegou?

TOM 778
Há quinze minutos. Você estava dormindo. Preferi não te acordar. Você
não ia gostar muito de minha aparência.

MARY 779
Onde você estava?

TOM 780
Fui assaltar o banco.

MARY 781
Como?

TOM 782
Fui assaltar o banco pelo esgoto. Aí caí no esgoto e desisti. Vim pra casa
tomar banho. Vamos ter que mudar o estofamento do carro. Aliás, eu
tenho a impressão de que vamos ter que mudar o carro todo. Quando ele
anda é como se fosse uma nuvem de merda se deslocando.

MARY 783
Mas porque você caiu no esgoto?

TOM 784
Porque levei um susto. Numa curva do esgoto me aparece de repente um
inspetor de esgoto. O cara quando me viu começou a gritar. Aí eu corri.
Como há muito tempo eu não faço Cooper em esgoto, eu caí. Vamos
mudar de assunto?

MARY 785
O Morgan esteve aqui.

TOM 786
Como?

MARY 787
Logo depois que você saiu.

80
TOM 788
Porra, por isso que este sacana não abriu a porta; eu crente que ele
estava em casa, fingindo que não estava. Quase quebro a campainha de
tanto tocar. O que ele queria?

MARY 789
A carta.

TOM 790
A carta? Pra que?

MARY 791
Sei lá. Acho que ele não acreditou, quis ver se havia mesmo uma carta.

TOM 792
Mas você não deu a carta a ele.

MARY 793
Dei.

TOM 794
Mary, aquela carta anônima é a mais amadora do ano. Não convence
ninguém. Eu preciso chegar ao banco antes dos fiscais. São sete e meia,
já.

MARY 795
São oito e meia.

TOM 796
Não pode ser, porra. Até o relógio parou porque caiu na merda! Telefone
pro banco! Vê se os fiscais já chegaram. (rumou para o banheiro)

MARY 797
Tom, a mulher do Rafaello telefonou pedindo ajuda. O Rafaello foi
seqüestrado do hospital com gesso e tudo.

TOM 798
Eu sei, eu já ouvi. O que é que você quer que eu faça, não posso resolver
cinco problemas ao mesmo tempo. Telefona pro banco! (entrou no banheiro)

MARY 799
(falando pela porta fechada) O que é que você acha que vão fazer com ele? (ruído
de água correndo de dentro do banheiro)

TOM 800

81
Afogá-lo. Você não conhece a Santíssima Trindade de Dom Russo:
atropelamento, espancamento, afogamento? Liga pro banco! (toca a
campainha da frente. Mary precipita-se para a porta da frente.).

MARY 801
(off, espantadíssima.) Senhor MacDougall?... Mas o seu avião não foi
seqüestrado?

MACDOUGALL 802
(off) O meu avião foi! Eu não! Quedê o Tom? (MacDougall vem entrando seguido de
Mary. No mesmo instante ouvimos ruído de descarga e Tom sai do banheiro.).

TOM 803
(espantado) MacDougall?

MACDOUGALL 804
Tom!...

TOM 805
O seu avião não foi seqüestrado?!

MARY 806
O avião dele foi, ele não!

MACDOUGALL 807
Eu não estava no avião. (Tom estranhando) Escuta, o que é
(cortando o assunto)
que está acontecendo? Que recados malucos você anda semeando?

TOM 808
O senhor não esteve no banco ainda? O ladrão devolveu parte do
dinheiro. Duzentas mil libras. Há um excesso de duzentas mil libras no
caixa.

MACDOUGALL 809
Não há excesso nenhum.

TOM 810
Como não há excesso nenhum?

MACDOUGALL 811
Estou vindo do banco. Os fiscais acabam de contar o dinheiro. Não há
uma libra a mais em caixa!

82
MARY 812
O que?

TOM 813
Não pode ser.

MACDOUGALL 814
De modo que eu estou esperando explicações!...

TOM 815
Espera... Espera... Quem abriu o banco para os fiscais?

MACDOUGALL 816
O Morgan.

TOM 817
Você estava lá quando ele abriu?

MACDOUGALL 818
Não.

TOM 819
O Morgan chegou antes dos fiscais ou junto com os fiscais?

MACDOUGALL 820
Não sei.

TOM 821
MacDougall, o Morgan embolsou esse dinheiro.

MACDOUGALL 822
Você ta louco.

TOM 823
Essa bicha sem-vergonha embolsou este dinheiro.

MACDOUGALL 824
Não seja idiota.

TOM 825
Por isso é que ele esperou eu sair. Por isso é que ele esperou eu sair pra
passar aqui e apanhar o bilhete.

83
MACDOUGALL 826
Que bilhete?

TOM 827
Ele não te mostrou o bilhete do ladrão?

MACDOUGALL 828
Mostrou. Aquilo é trote.

TOM 829
(para Mary) Não te disse?

MARY 830
Não é trote não.

MACDOUGALL 831
Um bilhete malfeito, improvisado, amador. Trote.

TOM 832
MacDougall, havia duzentas mil libras a mais naquele cofre! Duzentas mil
libras sem dono, sem pai, que o Morgan perfilhou! Por isso é que ele
discutiu comigo pelo telefone, esperou eu sair pra conferir o bilhete e
passar no banco.

MACDOUGALL 833
Ele abriu o banco e o caixa forte na presença dos fiscais! Agora
(intervindo)
me lembro! O porteiro falou!

TOM 834
Não seja ingênuo, homem! Ele passou aqui às cinco da manhã, apanhou o
dinheiro, saiu e depois voltou na hora dos fiscais, fingindo que ainda não
tinha estado lá.

MACDOUGALL 835
E o vigia? O vigia não o teria visto, ô Tom?!

TOM 836
O velho Sam dorme a noite toda. É facílimo passar por ele! Eu já entrei de
manhã cedo naquele banco e acordei o velho Sam, na saída, duas horas
depois!

84
MARY 837
Senhor MacDougall, o dinheiro estava lá! Eu tenho
(que estava louca pra falar)
certeza que dinheiro estava lá! Fui eu quem botou o dinheiro lá!

MACDOUGALL 838
O que?!

TOM 839
Mary, pelo amor de Deus, não diga besteira!
(botando as mãos na cabeça)
MacDougall, por esta luz que alumia, tinha duzentas mil libras a mais
naquele cofre e o sacana do Morgan passou a mão!

MACDOUGALL 840
Mary, você botou o dinheiro no cofre? Duzentas mil libras? (Mary faz sim com
a cabeça e Tom leva a mão à testa e vira para o outro lado ou para a parede) Como?!

TOM 841
MacDougall, não pergunte a Mary nem como, nem porque! Apenas
acredite no que estou te dizendo; é a verdade!

MACDOUGALL 842
E porque é que eu não vou perguntar à Mary nem como, nem porque, ora
esta?

TOM 843
Sei lá, onde é que eu vou arranjar resposta pra isso? É porque se trata
dum puta drama de consciência! Ô MacDougall, é o seguinte... Nós
conhecemos o ladrão! É isso. Nós conhecemos o ladrão! Mary, nós não
conhecemos o ladrão?

MARY 844
Claro que conhecemos.

TOM 845
(Para MacDougall) Ta vendo? Nós conhecemos o ladrão.

MACDOUGALL 846
E daí?

TOM 847
E daí o ladrão confiou na gente e nos deu o dinheiro. Pra gente devolver
ao banco. Mas nós não podemos dizer quem é o ladrão!

MACDOUGALL 848

85
Porra, mas que história mal contada! Vá bolar história mal assim, no
inferno!

TOM 849
Pode ser mal contada, mas é a verdade. A verdade muitas vezes parece
incrível, mal contada, mal bolada, no entanto, é a verdade! (diante da cara
cética do MacDougall) MacDougall, a verdade dos santos, não parece mal
contada? No entanto é a verdade!

MACDOUGALL 850
Só que essa história não é de santos, é de ladrões.

TOM 851
As histórias de ladrões muitas vezes são histórias de futuros santos.

MACDOUGALL 852
Que embromação é essa? Porque é que o ladrão ia pedir a vocês pra
devolver o dinheiro em nome dele?

TOM 853
Porque ele não queria se expor, não é, Mary?

MARY 854
É isso mesmo!

TOM 855
Porque é nosso amigo. Porque confia na gente.

MARY 856
Conhece o Tom da TV. É fã do Tom. Confia no Tom.

TOM 857
E me admira.

MARY 858
E o dinheiro apareceu aqui em casa sem a gente esperar... Sem eu
esperar assim... De repente...

TOM 859
Com um bilhete pra nós explicando tudo...

MACDOUGALL 860
O bilhete que estava com o Morgan?

TOM 861
Não, um outro, pedindo pra gente devolver o dinheiro.

86
MACDOUGALL 862
Mostre o bilhete, Tom.

TOM 863
Mostra o bilhete, Mary.

MARY 864
Eu... Não sei onde está. Sumiu... Nessa aflição. Eu... Muitas vezes não sei
onde ponho as coisas... Não sou muito boa dona de casa.

MACDOUGALL 865
Você não é boa mentirosa, isso sim. Pessoal, não dá. Arranjem outra que
essa não dá.

TOM 866
MacDougall, meta isso na tua cabeça: Mary colocou ontem, às cinco da
tarde, na hora de fechar o banco, duzentas mil libras no cofre forte!

MARY 867
Enquanto o velho Smith tomava o seu chá, senhor MacDougall, eu enfiei
rapidamente aquele monte de notas no meio do dinheiro do caixa, que se
espalhava em duas gavetas abertas...

MACDOUGALL 868
Cinco da tarde? Você devolveu o dinheiro depois da conversa que eu tive
com Tom? Depois que eu disse que duzentas mil libras do roubo não
tinham dono?

MARY 869
Eu... Eu não sabia de sua conversa com o Tom.

TOM 870
MacDougall, isto é irrelevante! O fato é que esse dinheiro foi devolvido e
tem um cara nos passando pra trás!

MACDOUGALL 871
Tom... Você está perdendo seu tempo. O Morgan é um
(mão no ombro do Tom)
cara de uma honestidade a toda prova. (Tom dá uma risada) Ele pode às vezes
desrespeitar certas regras, é um cara criativo, impaciente com
regulamentos, mas nunca ia passar a mão nesse dinheiro.

TOM 872
Mas alguém passou.

MACDOUGALL 873

87
Será?!...

TOM 874
MacDougall... Você não acredita que Mary colocou este dinheiro
(estarrecido)
ontem no cofre?

MACDOUGALL 875
Para ser franco... Não.

MARY 876
(chocada) Não?!

TOM 877
Mas porque é que a gente estaria inventando essa história?!

MACDOUGALL 878
Não sei. Ainda vou pensar. Mas você não gosta do Morgan e talvez queira
se desforrar um pouco das vezes que foi preterido por ele. O Morgan é um
rapaz mais talentoso que você.

MARY 879
Senhor MacDougall, o senhor me acha com cara de mentirosa?

MACDOUGALL 880
Mary, você não é mentirosa, mas seria capaz de fazer pelo Tom coisas
que você não faria por você mesma.

TOM 881
MacDougall, você merece ser roubado! Para deixar de ser burro!

MACDOUGALL 882
(preparando-se para sair) Passar bem, Tom. Mary, eu volto outro dia pra
saborear o seu chá.

88
TOM 883
(no desespero)MacDougall, sua mula teimosa! Sabe quem é o ladrão? Sabe
quem roubou as duzentas mil libras do teu banco?! Eu! Eu mesmo! Teu
sobrinho! Tom Tyrrel!... Não assim de propósito, é claro. Eu trouxe o
dinheiro pra casa pra levá-lo para Birmingham direto na segunda-feira. E
o dinheiro ficou por aqui nos dias da minha doença. Foi Mary que o
descobriu neste cofre. Eu podia ter ficado com ele: eu tinha o álibi do
roubo das quinhentas mil libras. Mas, não quis, ou melhor: eu quis, mas
Mary não deixou. Ela devolveu o dinheiro ontem à tarde! Às cinco da
tarde! (pausa curta)

MACDOUGALL 884
Taí. Bem bolado. Esse foi muito bem bolado. Um crédito para a sua
capacidade de invenção. Tom, você é um cara extremamente imaginativo.

TOM 885
Porra! Você não me acredita?

MACDOUGALL 886
Olhe, Tom, você pode ser tudo que você quiser, contador medíocre,
bancário distraído, economista de televisão, mas ladrão você não é! Só
tem um cara mais honesto naquele banco do que o Morgan: você! Tchau.

MARY 887
Eu lhe acompanho. (MacDougall rumou para a saída, Mary foi atrás.).

TOM 888
(só e desesperado)Porra, mas esse cara não acredita em mim nem quando eu
confesso ser ladrão?! E o Morgan vai ficar com tudo? Com a fama e o
proveito? Com o meu cargo e as minhas duzentas mil libras? (toca o telefone.
Atendendo.) Alô!... Sim (chamando) MacDougall!... MacDougall!... Telefone!

MARY 889
(off, chamando) Senhor MacDougall!... Senhor MacDougall!... Telefone! (surge
MacDougall esbaforido)

TOM 890
É do banco. Urgente.

89
MACDOUGALL 891
(atendendo) Alô... MacDougall falando... O quê?... O quê? Vou já pra aí!
(desliga) Acharam as duzentas mil libras!

TOM 892
O que?!

MACDOUGALL 893
Com os fiscais lá! (e se precipita para fora)

TOM 894
(depois do primeiro impacto) Eu vou com você!

MACDOUGALL 895
(off) Não, não. Eu chamo se precisar de você. (no que Tom parou indeciso no
corredor da entrada da frente, aparece na passagem da entrada dos fundos, a cabeça de
Rafaello).

RAFAELLO 896
Scusi! Com licença.

TOM E MARY 897


(que vinham voltando olham estarrecidos) Rafaello?!

RAFAELLO 898
(entrando, está um pouco mais engessado que antes) Esperei o patrão sair...

TOM E MARY 899


(trocando exclamações de alegria) Você não foi seqüestrado? Você não foi
afogado? Você está vivo?

MARY 900
(dando em Rafaello um abração e um beijão) Que bom que você está vivo,
Rafaello! Que maravilha!

RAFAELLO 901
Que piaccere ver a senhora dona Mary...

MARY 902
Rafaello, sua mulher está preocupadíssima! Você precisa telefonar pra
ela!

90
TOM 903
Mas afinal você foi raptado ou não?!

RAFAELLO 904
Pois é, talvez vocês possam me explicar, peché io não entendo mais nada.
Os caras me arrancam da cama, me jogam dentro dum carrão, me
arrastam até Dom Russo, aí o velho me abre os braços e diz: ”Rafaello,
você tem gentileza bastante dentro de seu coração para perdoar um
vecchio malfatore, um vecchio mascalzone?! Io no acreditei in você,
mandei atropelar você, espancar você... e você era inocente! Cometer
injustiça é pior que ser a vítima da injustiça! Toma, per favore, e me
perdona!” Me deu cinqüenta mil libras e me mandou embora!...

MARY 905
Maravilha!

TOM 906
Fantástico!

MARY 907
Sensacional! Rafaello! Você ganhou cinqüenta mil libras!

RAFAELLO 908
Mas peché? Peché? Doutor Tom, eu não entendo nada!

TOM 909
É que os jornais publicaram ontem a declaração oficial do banco: só
perdeu trezentas mil libras.

RAFAELLO 910
Trezentas mil libras? Mas o banco perdeu quinhentas mil libras!

TOM 911
Eles não podiam declarar quinhentas mil libras por causa do imposto de
renda! No máximo trezentas mil.

RAFAELLO 912
Quer dizer que io roubei deles, o que eles roubaram do imposto de renda?
Não. Não, doutor Tom. Foi milagre, miráculo de San Gennaro. Por causa
do óbolo.

91
TOM 913
Que San Gennaro: é o sistema tributário mesmo, Rafaello.

MARY 914
Digamos que San Gennaro usou o sistema tributário para
(conciliadora)
operar seu milagre!

RAFAELLO 915
Bem, já que está tudo esclarecido, eu preciso ir andando. Vou avisar
Carminha que felizmente tudo acabou bem. Escuta, vocês não querem
jantar com a gente amanhã... No Savoy?

MARY 916
No Savoy? Mas, que delícia, Rafaello!

TOM 917
Ta gastando, hein, Rafaello?

RAFAELLO 918
To com a nota, senhor Tom. (beija a mão de Mary) Dona Mary... Molto! Molto
obrigado pelo seu gesto de devolver duzentas mil libras, só para me
ajudar... Um gesto molto bacana... Não é sempre que a gente vê isso nos
tempos de hoje... Quem sabe, um dia Deus me permite retribuir este
favor pra senhora.

MARY 919
Como você soube que eu devolvi as duzentas mil libras?

RAFAELLO 920
Ouvi um pouco a conversa de vocês com o patrão. Olhe! Eu estava ontem
no hospital, sabendo que eles iam me afogar no dia seguinte... quebrando
a cabeça: onde eu podia conseguir o dinheiro para pagar Dom Russo...
Fazendo promessa a San Gennaro de retribuir qualquer ajuda a quem me
ajudasse. Pensei até em assaltar o banco de novo, mas eu tava passando
mal. Felizmente lá pras duas da manhã eu melhorei. Consegui um pouco
de forças pra me vestir... Sair do hospital... Pegar um táxi... E enfrentar
aquele maledeto esgoto de novo. Falar nisso, o que é que o senhor estava
fazendo lá as quatro da manhã?

TOM 921
Como?!

RAFAELLO 922

92
Eu chamei o senhor, mas o senhor saiu correndo, apavorado, escorregou
e caiu, coitado, doutor Tom. Cair ali não é nada bom.

TOM 923
Era você?! Você?!... O que é que você estava fazendo lá?

RAFAELLO 924
Eu vinha voltando do banco... Felizmente ainda não tinham consertado o
chão. Por isso, é que eu digo que San Gennaro está comigo. Deixei a
sacolinha com o meu óbolo de San Gennaro. Apanhei as duzentas mil
libras para pagar Dom Russo. Como eu não preciso mais pagar Dom
Russo eu aproveito para devolver à dona Mary o dinheiro que ela
devolveu por minha causa. (estende à Mary, a sacola que trazia escondida debaixo da
capa. Mary e Tom petrificados sem fala).

MARY 925
O que?...

RAFAELLO 926
Aceite... Per favore... São da senhora.

MARY 927
Mas... é dinheiro...

RAFAELLO 928
Roubado? Não. É dinheiro órfão: o banco mesmo declarou. E quem deve
tratar de órfão, dona Mary? É gente que tem bom coração.

MARY 929
Rafaello... Não posso aceitar...

TOM 930
Pode sim, Mary.

MARY 931
O dinheiro agora é seu, Rafaello.

RAFAELLO 932
Não, não, o meu eu já tenho. Dona Mary, pelo amor di Dio, não me faça
devolver este dinheiro mais uma vez. Eu prometi a San Gennaro retribuir
qualquer ajuda... Olha, eu deixo ele aqui... (colocou a sacola em cima de um
móvel) Vocês depois fazem dele o que quiserem... E molto obrigado.

MARY 933
(dando um beijo em Rafaello) Rafaello, você é sensacional. (Telefone toca)

93
TOM 934
(atendendo) Alô... MacDougall?!... (apavorado) O que?!... O que?!... O que?!...

MARY 935
(assustadíssima) O que é que aconteceu?

TOM 936
(tampando o fone para falar com Mary) Está morrendo de raiva... (de novo ao fone)
Não... Claro que não...

MARY 937
O que é que há, meu Deus?

TOM 938
(tampando novamente o fone para falar com Mary) As duzentas mil libras que eles
acharam... Estavam com o Morgan!

MARY 939
Não é possível!

TOM 940
Mas não podem prender o Morgan apesar do flagrante...

MARY 941
Porque?

TOM 942
Porque nem o Morgan percebeu o que... (ao fone) Alô... Sim MacDougall...
Conte comigo. (desliga) MacDougall quer saber quem foi o filho da puta que
deixou no caixa forte duzentas mil libras de dinheiro de brincadeira numa
sacola escrita: óbolo de San Gennaro.

MARY 943
O que? Rafaello...

TOM 944
O senhor deixou... (Tom e Mary explodem na gargalhada e abraçam Rafaello)

RAFAELLO 945
E o senhor ainda não acredita em San Gennaro... Ciau pessoal. Oito e
meia amanhã, no Savoy. (sai)

TOM 946
(ainda olhando a saída) Ciau Rafaello...

MARY 947

94
Não te disse que ele era um cara bacana... Não te disse que ele era um
cara legal...

TOM 948
Disse, meu amor... Disse... Você tinha
(feliz abraçando Mary no auge da alegria)
toda razão, meu bem... E a cartomante também... Graças a Deus...
(endurece de repente) Mary... Mary... por favor...

MARY 949
(apavorada) O que há, Tom? Tom, o que há?

TOM 950
Mary... Telefona... Estou achando que ele também estava com a razão...

MARY 951
Quem?!

TOM 952
Doutor Foster... (Mary corre horrorizada para o telefone. Tom com as mãos embaixo,
discretamente). Ai... Ai... Ai...

ENTRA MÚSICA ANIMADA E CAI O PANO.

FIM

VOCABULÁRIO
Ferrabrás Valentão, fanfarrão (plural: ferrabrases)
beócio Ignorante, estúpido, boçal.
óbolo Pequena moeda grega; pequeno donativo, esmola.
perfilhar Receber legalmente como filho; filiar; reconhecer voluntariamente filho ilegítimo; adotar; defender.

95
FESTIVAL DE LADRÕES
NÚMERO DE FALAS
ATO I ATO II TOTAL
PERSONAGENS %
total % total % GERAL
TOM 195 46,7 250 46,7 445 46,7

MARY 132 31,6 186 34,8 318 33,4

RAFAELLO 67 16,0 25 4,7 92 9,7

MACDOUGALL 23 5,5 69 12,9 92 9,7

LOCUTOR I 1 0,2 2 0,4 3 0,3

LOCUTOR II 0 0,0 1 0,2 1 0,1

VOZ 0 0,0 1 0,2 1 0,1

VOZ DA MAIOR BICHA 0 0,0 1 0,2 1 0,1


TOTAL 418 100,0 535 100,0 953 100,0

% por ato 43,9 56,1 100,0

Bethencourt, João (1924 - 2006)


Biografia
João Estevão Weiner Bethencourt (Budapeste, Hungria 1924 - Rio de Janeiro RJ 2006). Autor e diretor. A dramaturgia
de João Bethencourt explora a comédia de costumes - filão clássico do teatro brasileiro - aliada a uma visão crítica da
temática abordada. A ação e diálogos que desenvolve em seus textos são de grande comunicabilidade e aceitação popular.
Autor profícuo do teatro brasileiro tem mais de 30 peças escritas e encenadas.

Depois de formar-se em agronomia no Rio de Janeiro, faz, no início dos anos 50, mestrado em teatro na Universidade de
Yale, Estados Unidos, onde adquire domínio da técnica de playwriting, que constitui um dos traços fortes do seu perfil
como autor. Na volta ao Rio de Janeiro, dirige em 1954, para o grupo amador O Tablado, Nossa Cidade, de Thornton
Wilder, que o projeta como um dos mais promissores encenadores da sua geração. Em 1956, dirige para o Teatro
Nacional de Comédia, TNC, uma adaptação de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.
Em 1957 volta a dirigir no TNC, desta vez uma peça de sua autoria, Jogo de Crianças; e, no mesmo ano, Provas de Amor
é montada no Teatro Brasileiro de Comédia, TBC, em São Paulo, com direção de Maurice Vaneau.

Desde então, João Bethencourt transforma-se no mais prolífico autor teatral brasileiro, lançando cerca de 30 comédias de
sua autoria, praticamente todas com sua própria direção. Destacam-se: Dois Fragas e um Destino, Como Matar um
Playboy, Frank Sinatra 4815, O Crime Roubado, Mister Sexo, O Dia em que Raptaram o Papa, Bonifácio Bilhões, A
Cinderela do Petróleo, Tem um Psicanalista na Nossa Cama, A Venerável Mme. Goneau, Brejnev Janta Seu Alfaiate, O
Padre Assaltante, última vencedora do Concurso de Dramaturgia do Instituto Nacional de Artes Cênicas em 1987. Além
da sua impressionante penetração no mercado brasileiro, ele torna-se também um dos autores mais montados no exterior,
sendo que O Dia em que Raptaram o Papa, com cerca de 30 encenações estrangeiras, ocupa o primeiro lugar, seguida de
Bonifácio Bilhões, Como Matar um Playboy, O Dia em que Alfredo Virou a Mão e A Sina do Barão (adaptação de um
conto de Arthur Schnitzler).

Bethencourt assina também montagens de outros dramaturgos. A sua encenação de Um Elefante no Caos, de Millôr
Fernandes, lhe vale o Prêmio Associação Nacional de Críticos Teatrais, APCT, de melhor diretor de 1960. Dirige
também, entre outros textos, As Feiticeiras de Salém, de Arthur Miller, 1965; e Os Pais Abstratos, de Pedro Bloch, 1966,
e, ainda, uma ópera, La Bohéme, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em Lisboa dirige, para o Teatro Villaret, Verão

96
e Fumo, de Tennessee Williams, e Assassinos Associados, de Robert Thomas, também em 1966; em Amsterdã, para a
Companhia Karl Guttmann, Bonifácio Bilhões, de sua autoria; em Londres, é assistente de George Devine, no Royal
Court, na montagem de Exit the King, de Eugène Ionesco. Por sua encenação de O Doente Imaginário, de Molière, ganha
o Prêmio Governador do Estado, em 1978.

É também um ativo tradutor de teatro, tendo no seu acervo traduções de autores que variam de Molière, Bernard Shaw e
Arthur Miller a Georges Feydeau, Neil Simon, Jean Poiret e Pierre Barillet e J. P. Grédy.

Outra faceta da sua atividade é a de professor. Já em 1954 é o primeiro ocupante da cadeira de Direção no Conservatório
Nacional de Teatro. No governo de Carlos Lacerda é diretor do Departamento de Cultura do Estado da Guanabara.
Também participa da Diretoria, ocupando inclusive a Presidência, da Associação Carioca de Empresários Teatrais.

Realiza ainda trabalhos jornalísticos, sobretudo com textos de humor, redige roteiros para televisão, escreve um livro de
humor, A Mãe que Entrou em Órbita, e um romance, Vidas de El Justicero, filmado por Nelson Pereira dos Santos.
Algumas de suas peças são também adaptadas para cinema.

Com agudo senso de observação, João Bethencourt pinça do cotidiano carioca, brasileiro ou até mesmo universal um
pequeno episódio e o transforma numa história que comporta um comunicativo potencial humorístico. Esse humor é tão
autenticamente brasileiro que lança mão de recursos farsescos clássicos do nosso teatro popular. Suas peças mostram
domínio dos mecanismos do teatro e, por meio da história, das cenas, das personagens e dos diálogos, agradam o público.
O autor escreve, dirige e também produz ou co-produz os resultados do seu trabalho, ocupando espaços significativos no
mercado teatral, chegando a ter, no Rio de Janeiro, três peças simultaneamente em cartaz.

O crítico Yan Michalski, ensaiando uma apreciação sobre o autor, reconhece que a crítica especializada muitas vezes fez
restrições ao seu trabalho, por não se aprofundar nos assuntos que aborda e, como diretor, se manter em uma criação
rotineira. Mas, segundo Michalski, "... ninguém pode negar-lhe o mérito de ter delimitado com nitidez e explorado com
eficiência um espaço específico de criação teatral: o de um entertainment ameno, mas nos seus momentos mais felizes
dotado de uma real visão crítica, de uma incontestável competência técnica, e de uma rara identificação com o gosto de
amplas faixas de consumidores do seu trabalho". 1

Notas
1. MICHALSKI, Yan. João Bethencourt. In: _________. PEQUENA Enciclopédia do Teatro Brasileiro Contemporâneo.
Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq. Rio de Janeiro, 1989.
Atualizado em 11/10/2007
OBRAS:
Adaptação
1952 - New Haven (Estados Unidos) - A Sina do Barão
1971 - Rio de Janeiro RJ - Chicago 1930
1973 - Rio de Janeiro RJ - Freud Explica, Explica
1974 - Rio de Janeiro RJ - A Gaiola das Loucas
1982 - São Paulo SP - Viva Sem Medo Suas Fantasias Sexuais
1986 - Rio de Janeiro RJ - Mulher, o Melhor Investimento
1994 - Rio de Janeiro RJ - A Gaiola das Loucas
1994 - São Paulo SP - Enfim Sós
2005 - Rio de Janeiro RJ - O Doente Imaginário

Autoria
1949 - Rio de Janeiro RJ - Os Coerentes
1957 - Rio de Janeiro RJ - Jogo de Crianças
1957 - São Paulo SP - As Provas de Amor
1959 - Rio de Janeiro RJ - Provas de Amor
1961 - Rio de Janeiro RJ - O Tesouro de Pedro Malazarte
1964 - Rio de Janeiro RJ - Mister Sexo
1965 - Rio de Janeiro RJ - Como Matar um Playboy
1965 - Rio de Janeiro RJ - Dois Fragas e um Destino
1969 - Rio de Janeiro RJ - Frank Sinatra 4815
1970 - São Paulo SP - Onde Não Houver Inimigo Urge Criar Um
1971 - Rio de Janeiro RJ - Fica Combinado Assim
1972 - Rio de Janeiro RJ - O Dia em que Raptaram o Papa
1974 - Rio de Janeiro RJ - A Venerável Madame Goneau
1974 - Rio de Janeiro RJ - O Crime Roubado
1975 - Rio de Janeiro RJ - A Feira do Adultério
1975 - Rio de Janeiro RJ - Bonifácio Bilhões

97
1976 - São Paulo SP - A Feira do Adultério
1976 - Rio de Janeiro RJ - A Cinderela do Petróleo
1977 - Rio de Janeiro RJ - Sodoma e Gomorra
1978 - Rio de Janeiro RJ - Dolores Três Vezes por Semana
1978 - Rio de Janeiro RJ - Lá em Casa É Tudo Doido
1978 - Rio de Janeiro RJ - Sodoma, o Último a Sair Apague a Luz
1979 - Rio de Janeiro RJ - Tem Um Psicanalista na Nossa Cama
1979 - Rio de Janeiro RJ - A Infidelidade das Mulheres
1979 - Rio de Janeiro RJ - Festival de Ladrões
1980 - São Paulo SP - Tem Um Psicanalista na Nossa Cama
1980 - Rio de Janeiro RJ - O Senhor É Quem?
1981 - São Paulo SP - A Venerável Madame Goneau
1981 - São Paulo SP - O Dia em que Raptaram o Papa
1981 - Rio de Janeiro RJ - O Sr. É Quem?
1983 - Rio de Janeiro RJ - O Dia em que Alfredo Virou a Mão
1984 - Rio de Janeiro RJ - Brejnev Janta Seu Alfaiate
1985 - Rio de Janeiro RJ - Frank Sinatra 4815
1986 - São Paulo SP - Bonifácio Bilhões
1987 - Rio de Janeiro RJ - O Padre Assaltante
1989 - São Paulo SP - Sigilo Bancário
1992 - Rio de Janeiro RJ - Astro por Um Dia
1993 - Rio de Janeiro RJ - O Último Mambo
1993 - Rio de Janeiro RJ - O Senhor É Quem?
1995 - Rio de Janeiro RJ - Papo de Anjo
1998 - Rio de Janeiro RJ - O Santo e o Bicheiro
2007 - São Paulo SP - O Dia que Raptaram o Papa

Direção
1954 - Rio de Janeiro RJ - Nossa Cidade
1956 - Rio de Janeiro RJ - Memórias de um Sargento de Milícias
1957 - Rio de Janeiro RJ - Jogo de Crianças
1959 - Rio de Janeiro RJ - Provas de Amor
1960 - Rio de Janeiro RJ - Um Elefante no Caos
1961 - Rio de Janeiro RJ - O Milagre de Annie Sullivan
1964 - Rio de Janeiro RJ - Mister Sexo
1965 - Rio de Janeiro RJ - As Feiticeiras de Salém
1965 - Rio de Janeiro RJ - Como Matar um Playboy
1966 - Rio de Janeiro RJ - Os Pais Abstratos
1966 - Lisboa (Portugal) - Assassinos Associados
1966 - Lisboa (Portugal) - Verão e Fumo
1968 - São Paulo SP - Quarenta Quilates
1969 - Rio de Janeiro RJ - Frank Sinatra 4815
1970 - Rio de Janeiro RJ - Plaza Suíte
1971 - Rio de Janeiro RJ - Fica Combinado Assim
1971 - Rio de Janeiro RJ - Chicago 1930
1971 - Rio de Janeiro RJ - O Estranho
1972 - Rio de Janeiro RJ - O Jogo do Crime
1972 - Rio de Janeiro RJ - O Dia em que Raptaram o Papa
1973 - Rio de Janeiro RJ - Freud Explica, Explica
1974 - Rio de Janeiro RJ - A Gaiola das Loucas
1974 - Rio de Janeiro RJ - A Venerável Madame Goneau
1974 - Rio de Janeiro RJ - O Crime Roubado
1975 - Rio de Janeiro RJ - A Cantada Infalível
1975 - Rio de Janeiro RJ - Bonifácio Bilhões
1977 - Rio de Janeiro RJ - Sodoma e Gomorra
1978 - Rio de Janeiro RJ - O Doente Imaginário
1978 - Rio de Janeiro RJ - Dolores Três Vezes por Semana
1978 - Rio de Janeiro RJ - Lá em Casa É Tudo Doido
1979 - Rio de Janeiro RJ - Tem Um Psicanalista na Nossa Cama
1979 - Rio de Janeiro RJ - A Infidelidade das Mulheres
1979 - Rio de Janeiro RJ - Festival de Ladrões
1981 - São Paulo SP - O Dia em que Raptaram o Papa
1981 - Rio de Janeiro RJ - Quem Gosta Demais de Sexo Morre Fazendo Amor

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1982 - Rio de Janeiro RJ - Plaza Suíte
1982 - Rio de Janeiro RJ - Mentiras Alucinantes de um Casal Feliz
1983 - Rio de Janeiro RJ - O Dia em que Alfredo Virou a Mão
1984 - Rio de Janeiro RJ - A Divina Sarah
1987 - - O Amante Descartável
1989 - Rio de Janeiro RJ - Lily, Lily
1992 - Rio de Janeiro RJ - Astro por Um Dia
1993 - Rio de Janeiro RJ - O Senhor É Quem?
1995 - Rio de Janeiro RJ - Papo de Anjo
1996 - Rio de Janeiro RJ - As Malandragens de Scapino
1997 - São Paulo SP - Prometeu Engaiolado
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Avarento
1999 - Rio de Janeiro RJ - Um Maridão na Contramão

Tradução
1972 - São Paulo SP - O Estranho Caso de Mr. Morgan
1974 - Rio de Janeiro RJ - A Gaiola das Loucas
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Avarento
2005 - Rio de Janeiro RJ - O Doente Imaginário

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