Você está na página 1de 112

Editorial editorial

Ó mar salgado, quanto do teu sal em tecnologias da informação e comunicação deve-


São lágrimas de Portugal! ria ser preservado e aproveitado.
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Voltando ao poeta, “tem que passar além da
Quantas noivas ficaram por casar dor”, e assim permanecem alguns senões, frutos dos
Para que fosses nosso, ó mar! recortes da sociedade, onde uns poucos fazem mau
uso das redes de computadores, malfeitores que
Valeu a pena? Tudo vale a pena
todo ano, utilizando-se do anonimato, levam para
Se a alma não é pequena.
as nossas redes de comunicação uma série de atos
Quem quer passar além do Bojador ilícitos. Neste mês de junho, de 11 a 14, realizou-se
Tem que passar além da dor. em Estrasburgo, França, a segunda Reunião da Con-
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, venção sobre o Cibercrime, assinada em Budapeste,
Mas nele é que se espelhou o céu.
Hungria, em 2001, sobre os crimes praticados com
“Mar português”, Fernando Pessoa o uso da informática, e lá estava o Brasil. Falou-
se do Projeto de Lei em tramitação no Congresso
Nacional e das leis do Software e dos Direitos de
Lembram-se dos primórdios do Escritório Autor, da lei contra a Pirataria de Vídeos e Música,
Técnico de Racionalização Administrativa? Em Mi- do Estatuto da Criança e do Adolescente.
nas, tudo começou com o Etra, que depois virou Ce- Em recentes matérias da imprensa e em dis-
pro, depois Prodemge, a empresa de Tecnologia da cussões técnicas, o novo desafio se apresenta à me-
Informação do Estado. E aí somos levados por Fer- dida que os profissionais de TIC evoluem, criando
nando Pessoa. “Valeu a pena?”, pergunta o poeta. cada vez mais serviços de valor agregado usando a
A resposta é muito positiva, um SIM maiús- maravilha da crescente capilaridade das redes e a
culo, muito apropriado para esta edição da Fonte, convergência digital. Os telefones celulares no Brasil
falando especialmente de redes, suas diversas apre- alcançam a maioria da população, mesmo a de me-
sentações, seus impactos, abrangência, e dos desa- nor poder aquisitivo, com mais de 100 milhões de
fios que se apresentam, particularmente quando se unidades conectando famílias, desangustiando pais,
discute, ou se começa a discutir, o peso dos serviços mães e filhos, namoradas e namorados. Por trás de
de valor agregado que elas proporcionam e podem tudo isso, estão as redes, dando suporte ao entreteni-
proporcionar cada vez mais. mento com música, notícia, foto, vídeo, cinema, ser-
No início, e não muito tempo atrás, quando viços públicos e privados, correio eletrônico, servi-
se falava de redes falava-se apenas das redes de co- ços bancários, comerciais, de engenharia, medicina,
municações, usando cabos metálicos, mais moder- advocacia e tudo o mais que se possa agregar a uma
namente radiofreqüência, transmissão por satélite, estrutura tão versátil. E não se trata mais de Internet
fibra óptica e o mix proporcionado pela conexão nem de redes corporativas, mas das velhas redes de
dessas tecnologias. Eram redes proprietárias, gover- telecomunicações de que falava no início, só que com
nadas por protocolos exclusivos, não interconectá- grau de sofisticação impensável naqueles tempos.
veis, não interoperáveis e assim “perfeitamente” in- Sim, vamos usar cada vez mais as redes,
compatíveis, mas perfeitas no seu funcionamento. aprendendo, formulando, propondo, sempre com o
O advento da Internet no Brasil em 1995, por necessário equilíbrio entre segurança e liberdade.
meio dos seus vários protocolos, cheios de senões Mas lembrando que o mar espelha o céu,
que faziam a maioria dos profissionais torcerem o quando não está revolto. Assim também são nossas
nariz, seus múltiplos envelopamentos dos pacotes redes, estáveis, eficientes, produtivas, até que apare-
de dados, veio propor a possibilidade da compatibi- ça a interferência para o mal.
lidade entre as diversas redes e desta adveio a inte-
roperabilidade e naturalmente a interconectividade. Raul Fulgêncio
Afinal, o valor do investimento pelas organizações Diretor de Tecnologia e Produção da Prodemge

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 
sumário
Sumário
Ano 04 - Janeiro/Junho de 2007 Tecnologia de Minas Gerais

7 Interação
Comentários e sugestões dos leitores.

9 Diálogo
Entrevista com o diretor de Inovação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Michael Anthony Stanton, que analisa a evolução das
redes, os reflexos que a consolidação da Internet representa para a sociedade e fala dos principais projetos em andamento na RNP.

16 Dossiê
As redes de computadores e seus impactos na vida de indivíduos e organizações, na economia e cultura. Tendências tecnológicas para acesso
à Internet em redes de banda larga sem fio, serviços e aplicações.
37 Redes de comunicação: a vida social da informação
Uma reflexão sobre a influência das redes em questões sociais nas esferas local, nacional e global, por Mário Flecha, Enterprise Architecture
Director for Alberta Justice and Attorney General Ministry (Alberta, Canadá).
39 Uso indevido dos sistemas é responsabilidade do empregador?
Os advogados Renato Opice Blum e Camilla do Vale Jimene discutem a responsabilidade por conteúdos veiculados na rede mundial de
computadores nas organizações brasileiras.

41 Benchmarking
A tecnologia de redes apoiando a administração pública: cidadania na criação da rede integralmente sem fio instalada na Amazônia; e segurança
nos bastidores tecnológicos das maiores eleições informatizadas do mundo.
47 A maior rede do mundo cumprindo seu papel colaborativo
O presidente da Assespro-MG, Túlio Ornelas Iannini, descreve a trajetória da colaboração em rede, mostrando um panorama dos serviços,
aplicações e tendências sociais na Internet.

49 A verdade sobre o diagnóstico nas redes corporativas


O coordenador de P&D da Microcity Computadores, Paulo Eustáquio Coelho, discorre sobre as soluções no gerenciamento de redes de alta
complexidade.
52 Universidade Corporativa Prodemge
Seleção de artigos acadêmicos inéditos, abordando aspectos tecnológicos e sociais das redes de computadores: a computação em grade, redes
de alto desempenho, educação a distância e experiências na área pública.

54 Grades computacionais: uma tecnologia para compartilhamento de recursos em rede


Lilian Noronha Nassif, pesquisadora da Prodabel e colaboradora em pesquisa da UFMG; e José Marcos Nogueira, professor do
Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

63 Rede Saci – tecendo cidadania


Sergio Muniz Oliva Filho, professor associado do Departamento de Matemática Aplicada do Instituto de Matemática e Estatística da
USP; e Ana Maria Estela Caetano Barbosa, educadora, coordenadora executiva da Rede Saci.
69 Weblabs sobre redes de alto desempenho
Eleri Cardozo, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp; e Eliane Gomes Guimarães, pesquisa-
dora da Divisão de Robótica e Visão Computacional do Centro de Pesquisas Renato Archer (Cenpra).
75 Redes sociais e discursivas na contemporaneidade: conversações cotidianas, mídia e processos deliberativos
Ângela Cristina Salgueiro Marques, doutoranda em Comunicação Social pela UFMG, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Mídia
e Espaço Público (EME) do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG.
85 A Universidade Aberta do Brasil: estratégia para a formação superior na modalidade de EAD
Hélio Chaves Filho, diretor do Departamento de Políticas em Educação a Distância da Secretaria de Educação a Distância do Minis-
tério da Educação.
93 Rede privada de comunicação de dados do Estado de Minas Gerais e acesso à Internet
Evandro Nicomedes, analista de suporte a redes de comunicação de dados da Prodemge.
103 Rede Metropolitana para Belém: MetroBel
Antonio Jorge Gomes Abelém, professor da Universidade Federal do Pará; e Michael Anthony Stanton, diretor de Inovação da RNP.
110 Fim de Papo – Falta a devassa
As ferramentas de busca e Os autos da devassa da Inconfidência Mineira

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 
Inter@ção
Uma publicação da:

Ano 4 - nº 06 - Janeiro/Junho de 2007 A revista Fonte agradece as mensagens


enviadas à redação, entre as quais algu-
mas foram selecionadas para publicação
Filiada à Aberje neste espaço destinado a acolher as
Governador do Estado de Minas Gerais
Aécio Neves da Cunha
opiniões e sugestões dos leitores. Con-
Vice-Governador do Estado de Minas Gerais tinuem participando: o retorno de vocês é
Antonio Augusto Junho Anastasia
Secretária de Estado de Planejamento e Gestão
fundamental para que a revista evolua a
Renata Maria Paes de Vilhena cada edição.
Diretora-Presidente
Isabel Pereira de Souza e-mail: revistafonte@prodemge.gov.br
Vice-Presidente
Cássio Drummond de Paula Lemos
Revista Fonte - Companhia de Tecnolo-
Diretora Administrativa e Financeira
Maria Celeste Cardoso Pires gia da Informação do Estado de Minas
Diretor de Projetos e Negócios
Sérgio Augusto Gazzola Gerais
Diretor de Tecnologia e Produção Rua da Bahia, 2.277, Lourdes,
Raul Monteiro de Barros Fulgêncio
Diretor de Desenvolvimento de Sistemas Belo Horizonte, MG - CEP: 30160-012
Nathan Lerman
Assessor de Comunicação
Dênis Kleber Gomide Leite SOLICITAÇÕES DE ASSINATURA
CONSELHO EDITORIAL
Antonio Augusto Junho Anastasia Sou Sarah Barroso, estudante da de Tecnologia da Informação aqui pres-
Paulo Kléber Duarte Pereira
Isabel Pereira de Souza
PUC-Minas no curso de Ciência da In- tado. Gostaria de saber qual o custo da
Maurício Azeredo Dias Costa formação. Trabalho na empresa Montreal assinatura e a disponibilidade de entrega
Amílcar Vianna Martins Filho
Marcio Luiz Bunte de Carvalho Informática. Gostaria de saber como faço a esta instituição. Desde já agradeço.
Marcos Brafman Maria de Jesus de Sousa Rodrigues
Gustavo da Gama Torres para adquirir os exemplares da revista
EDIÇÃO EXECUTIVA
Fonte, uma vez que estudo e trabalho na Universidade Estadual do Maranhão
área, e a revista me mostra novos hori- Barra do Corda/MA
zontes, novas fontes de pesquisa e no-
vos métodos de simplificação de tarefas. Li a revista Fonte deste semestre e
Universidade Corporativa Prodemge Possuo somente o exemplar número 5, e achei bastante interessante! Sou aluno
Rachel Barreto Lobo
Luiz Cláudio Silva Caldas gostaria de possuir os anteriores também. do Uni-BH, formando em Tecnologia em
Marta Beatriz Brandão P. e Albuquerque
Edição, Reportagem e Redação Leio pela Internet, mas o exemplar seria Sistemas para Internet e gostaria de rece-
Isabela Moreira de Abreu – MG 02378 JP muito melhor. Obrigada. bê-la como assinante.
Artigos Universidade Corporativa Prodemge
Renata Moutinho Vilella Sarah Barroso Luciano Cenci Hila Busch
Coordenação da Produção Gráfica Equipe de Atendimento Montreal Informática Belo Horizonte/MG
Gustavo Rodrigues Pereira
Consultoria Técnica Belo Horizonte/MG
Sérgio de Melo Daher
Rafael Fonseca de Freitas Li uma das edições da revista Fonte,
Revisão Sou funcionária da Universidade de um amigo, e gostei muito. Gostaria de
Beto Arreguy
Diagramação Estadual do Maranhão, no Centro de receber as próximas edições da revista.
Carlos Weyne Estudos Superiores de Barra do Corda Seria possível?
Capa
Guydo Rossi – Cesbac, em Barra do Corda – MA. Vi Philemon Mattos
Impressão
Editora Gráfica Daliana
a publicação da revista Fonte através de Product Development Manager da Takenet
Tiragem um aluno, e achei que seria útil ao curso Empresa do Grupo Faith Inc./Japão
Quatro mil exemplares
Periodicidade
Semestral
Patrocínio/Apoio Institucional AGRADECIMENTOS
Gustavo Rodrigues Pereira
(31) 3339-1133 / revistafonte@prodemge.gov.br
Agradecendo pela gentileza do envio da revista Fonte, aproveito para dar os para-
Esta edição contou com o apoio:
béns a toda equipe pelo alto nível da edição. O assunto “Tecnologia da Informação na
Gestão Pública” foi desenvolvido com qualidade impecável. Registro meu interesse em
continuar recebendo as novas edições.
Vereadora Luzia Ferreira
Agradecimento especial:
Mauro Pinheiro – Equipe de Redes da Prodemge Câmara Municipal de Belo Horizonte
A revista Fonte visa à abertura de espaço para a
divulgação técnica, a reflexão e a promoção do de-
bate plural no âmbito da tecnologia da informação e
Recebemos com muita satisfação o número 5 da publicação revista Fonte, pelo qual
comunicação, sendo que o conteúdo dos artigos publi- muito agradecemos. O fascículo foi imediatamente incorporado ao acervo e encontra-se
cados nesta edição, assim como as respectivas imagens,
são de responsabilidade exclusiva de seus autores. disponível para todos os usuários de nossa Biblioteca. Reafirmamos o nosso interesse em
Prodemge - Rua da Bahia, 2.277 - Bairro Lourdes continuar recebendo os próximos fascículos publicados. Antecipadamente, agradecemos.
CEP 30160-012 - Belo Horizonte - MG - Brasil Marcelo Pivatti
www.prodemge.mg.gov.br Biblioteca do UNIFIEO - Centro Universitário Fundação Instituto de Ensino para Osasco
prodemge@prodemge.gov.br Osasco/SP

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 
OPINIÕES DOS LEITORES

Tomei conhecimento da revista Fon-


te através de uma aluna e gostaria de pa-
rabenizá-los pela excelente publicação.
Meu nome é Célia, sou doutoranda em
Ciência da Informação pela ECI/UFMG
e quero verificar a possibilidade de rece-
ber a edição número 5, pois vou trabalhar
com os meus alunos o tema inteligência
a serviço das organizações. Além disso,
aproveito para demonstrar o meu interes-
se em receber regularmente um exemplar
da publicação.
Sou aluna do curso de Ciência da
Informação na Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais, e navegando
através do site da Prodemge me interessei
bastante pelo conteúdo abordado sobre os
assuntos na área de tecnologia; gostaria
de receber esse periódico em casa a partir
dessa edição, porque já observei que as
edições antigas são disponibilizadas em
formato .pdf.
Roberta Kelly Guedes Fortes
Belo Horizonte/MG
acredito que seriam uma grande fonte de
conhecimento.
Profª. Silvana Alves de Oliveira
Pró-Reitoria de Graduação - Uni-BH
Belo Horizonte/MG

Ganhei a revista Fonte de presente


da minha irmã. Não tinha noção da aju-
da que ela me forneceria, já que estou na
faculdade de Engenharia da Computação
da Universidade Estadual do Maranhão,
e quando li as matérias percebi a alta
D
Célia da Consolação Dias qualidade do conteúdo. Gostaria de ser
Belo Horizonte/MG Considero a revista Fonte uma das assinante da revista, já que tenho certe-
melhores revistas da área. Parabenizo a za de que irá contribuir muito para meus
Tive a oportunidade de ler a revista Prodemge e desejo atualizar meu ende- estudos.
Fonte número 5 e fiquei impressionada reço para as próximas edições. Gostaria Alexandre Nélio Silva
com a qualidade da produção. O conteú- de pedir um exemplar da edição número São Luís/MA
do é rico, bem elaborado e de grande 1 (dezembro de 2004), pois estou desen-
valia para os profissionais da área de in- volvendo uma monografia sobre certifi- Realmente um material de altíssimo
formática. Inscrevo-me para receber os cação digital e desejo usar a revista como nível, com reportagens realmente inte-
próximos números. referencial teórico. Desde já agradeço a ressantes e com conteúdo de primeira li-
Valéria Rossi de Carvalho atenção. nha. Saliento a relação das referências ao
Cemig Distribuição Flávio Henrique Alves Gonçalves final das reportagens, fantástico. Estou
Belo Horizonte/MG Desenvolvedor de Sistemas num processo ainda inicial de atuação
Manutenção Hardware e Software no mercado de informação, especifica-
Gostaria de elogiar a qualidade da Sete Lagoas/MG mente inteligência competitiva e gestão
revista Fonte, tanto no aspecto gráfico do conhecimento, onde já possuo projeto
como no conteúdo. O conteúdo é muito Primeiramente gostaria de parabeni- elaborado e em plena execução aqui no
interessante, pois apresenta assuntos im- zar pelo excelente trabalho. A revista é Sebrae. A idéia é estar expandindo a atua-
portantes para organizações que buscam fora de série! Trabalhava na Loteria Mi- ção. Gostaria de saber se posso receber as
soluções de TI. Nossa instituição está neira e recebíamos no setor de TI a revis- edições futuras da revista, que com certe-
investindo em processos de TI e gosta- ta Fonte; porém, agora mudei de empre- za me auxiliarão nesse intento. Aguardo
ríamos de receber periodicamente outros go – vim para o serviço público federal um retorno com a possível confirmação
exemplares, se possível cinco exempla- – Serpro – e gostaria muito de continuar do recebimento das próximas edições e
res por edição. recebendo a revista. Agradeço e parabéns novamente reitero meus parabéns por
Wellington Guilherme da Silva pelo trabalho. essa iniciativa fabulosa e agradeço a
1° Ten. Esp. Com. Rodrigo Lima atenção.
Chefe da Subdivisão de Telemática - Centro Serpro Brenner Lopes
de Instrução e Adaptação da Aeronáutica Belo Horizonte/MG Sebrae-MG
Belo Horizonte/MG Belo Horizonte/MG
Em primeiro lugar, gostaria de para-
Parabéns pelo excelente meio de in- benizá-los pelo brilhante trabalho reali-
formações variadas que é a revista Fonte. zado na revista Fonte. Sou professora do O interessado em assinar
A publicação chegou a minhas mãos na Centro Universitário de Belo Horizonte a revista Fonte deve enviar seu
hora mais propícia, quando precisava e uma de minhas alunas me emprestou
nome e endereço completo
elaborar um trabalho de clima organiza- o exemplar do primeiro semestre 2006,
para o e-mail
cional no curso Tecnólogo de Nível Su- cujo título “Aplicações em TI” muito me
perior de Gestão de Recursos Humanos/ interessa. Fiquei surpresa com a quali- revistafonte@prodemge.gov.br,
Uni-BH. Elaborei um ótimo trabalho, dade das matérias da revista; a aluna me informando, quando for o caso,
dentro da realidade empresarial. Gostaria informou, ainda, que todos os semes- a empresa ou instituição
muitíssimo de poder receber os números tres são publicados exemplares abor- a que é vinculado.
1, 2 e 3, na certeza de poder continuar dando um tema específico. Bem, tendo As revistas seguirão via Correios,
realizando ótimos trabalhos acadêmicos. em vista o exposto, gostaria de verifi- de acordo com a
Dalva Leila Costa car se existe a possibilidade de receber disponibilidade de exemplares.
Belo Horizonte/MG os exemplares. Ficaria muito feliz e

 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Diálogo Diálogo
A evolução das comunicações:
das redes acadêmicas à Internet 2
Michael Stanton, professor titular de Comunicação de Dados

Divulgação
do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense
(UFF), em Niterói (RJ), e diretor de Inovação da Rede Nacional de
Ensino e Pesquisa (RNP), onde coordena, entre outros, os projetos
Giga e MetroBel. Na UFF contribui com o projeto de modernização
da infra-estrutura de comunicação da universidade. Em 2002, foi
cedido pela UFF para chefiar a Diretoria de Inovação da RNP.

Michael Stanton nasceu e viveu na Inglaterra até os 23 anos.


Depois de dois anos nos Estados Unidos, radicou-se no Brasil, e
desde 1973 mora no Rio de Janeiro. É doutor em Matemática pela
Universidade de Cambridge. Desde 1972 dedica-se, já no Brasil,
ao estudo, ensino e prática da informática e suas aplicações. Seu
grande interesse pelas redes de comunicação começou em 1986.
Michael atuou ativamente na montagem, no país, das redes Bitnet e Internet, tendo participado da
coordenação da Rede-Rio e da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), nas suas fases formativas. Man-
teve uma coluna quinzenal no Estadão, entre 2000 e 2005, sobre a interação entre as tecnologias de
informação e comunicação e a sociedade.

H istoricamente, a proposta de compartilhamento do conhecimento por instituições de pes-


quisa e ensino tem incentivado a criação e desenvolvimento das redes comerciais de
computadores. No Brasil, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa – RNP – cumpriu esse papel,
a exemplo de outras instituições em várias partes do mundo. A integração das redes acadêmi-
cas brasileiras a redes de outros países inaugurou o acesso à Internet, que se estendeu de forma
rápida e efetiva à sociedade em geral.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 
A primeira rede de acesso à Internet no Brasil, a RNP, integra hoje mais de 300 institui-
ções de ensino e pesquisa no país e tem presença em todos os estados brasileiros, buscando
melhorar a infra-estrutura de redes de abrangência nacional, metropolitana e local, além de
atender demandas de comunidades específicas, apoiando iniciativas nas áreas de telemedicina,
biodiversidade, astronomia, entre outras. A entidade promove ainda a capacitação de recursos
humanos em tecnologias da informação e comunicação.
Nesta edição, o Diálogo com o professor Michael Stanton revela detalhes da história das
redes no Brasil e dos principais projetos em andamento na RNP. O diretor de Inovação da
entidade fala sobre a evolução das tecnologias e dos reflexos que a consolidação da Internet
representa para a sociedade. Como participante ativo da criação da RNP e da Internet no Bra-
sil, ele analisa a evolução das redes e mostra as perspectivas para a disseminação de novos
serviços e aplicações. Stanton fala ainda do projeto Internet 2, posicionando o Brasil no con-
texto mundial.

Fonte: Na sua opinião, diante de tantas novas Fonte: Como um dos coordenadores do proje-
tecnologias, o que pode ser considerado de fato novo, to que criou a Rede Nacional de Pesquisa, fale sobre a
especialmente nos últimos 20 anos? idéia que originou o projeto e o que ela é hoje.

Vou me restringir ao mundo das comunicações, Até 1987, já havia sido reconhecida, em várias ins-
evidentemente. No final dos anos 60, foi demonstrada tituições, a importância para a comunidade acadêmica da
pela primeira vez a interligação em rede de computa- utilização de redes de computadores, e estavam sendo
dores pela rede Arpanet. Isso permitiu o uso flexível de preparados diversos projetos independentes, que iriam
computadores remotos, além de aplicações de comuni- prover soluções parciais, especialmente no LNCC, na
cação pessoal, como correio eletrônico. Nos dez anos Fapesp e na UFRJ (ver abaixo). Foi dentro desse con-
seguintes, foram experimentadas diversas soluções de texto que foi realizada na USP, em outubro daquele ano,
rede de computadores, sendo as mais interessantes as so- a primeira reunião para discutir o estabelecimento de
luções abertas, que permitiam juntar computadores dos uma rede nacional para pesquisadores, com o compar-
mais diferentes tipos. Foi uma solução dessas, o TCP/IP, tilhamento de acesso a redes internacionais. Além dos
que possibilitou construir a Internet que hoje tem tanta participantes de instituições de pesquisa e de órgãos de
importância mundial. fomento, também estavam presentes representantes da
Além disso, devemos mencionar duas outras inven- Embratel, e foi levantada, embora não resolvida, a ques-
ções de conseqüências gigantescas: a invenção da tele- tão legal de comutação de tráfego de terceiros. Nesse en-
fonia móvel (celular), que permite que a comunicação contro, os diferentes atores do futuro das redes brasileiras
seja com a pessoa, em vez de com um local físico; e as estiveram juntos pela primeira vez, e o clima franco e
tecnologias ópticas de comunicação, que tornam eficaz a aberto das discussões foi importante para ajudar a evitar
transmissão, a curtas e longas distâncias, de vastos volu- a adoção de soluções que tornassem mais difícil a futu-
mes de informação a custos razoáveis. ra integração das diferentes iniciativas. Como resultado
Finalmente, como todas essas tecnologias são digi- direto da reunião, foi plantada a semente do que seria
tais, precisamos reconhecer a contribuição fundamental uma rede nacional para pesquisa, feita sob encomenda
do desenvolvimento da microeletrônica, que possibilita (http://www.rnp.br/newsgen/9806/inter-br.html).
hoje construir computadores portáteis mais poderosos do A partir de 1988, começou a integração do Brasil
que os maiores computadores de poucos anos atrás. no mundo das redes acadêmicas, inicialmente através

10 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
da rede Bitnet. Apenas em 1992 estabeleceu-se o aces- Fonte: Quais os principais projetos desenvolvi-
so à Internet, com ramificação a boa parte do país (11 dos atualmente pela RNP?
capitais inicialmente) por meio da RNP, que começou
suas operações nesse ano. Desde 1992 vem crescendo Alice (América Latina Interconectada com Eu-
continuamente a capacidade e abrangência da rede da ropa) (2003-2008) – Financiado 80% pela EU, objetiva
RNP. criar conexões entre redes nacionais de P&E na América
Latina e as redes européias de P&E. Foi montada a par-
Fonte: Qual a abrangência da RNP e como é tir de 2004 a rede Clara, que hoje interliga 12 países da
estruturada sua rede? América Latina (www.dante.net/alice e www.redclara.
net).
O objetivo principal da RNP é oferecer serviço de WHREN/LILA (Western Hemosphere Research
rede (Internet) às instituições de pesquisa e educação and Education Network/Links Interconnecting Latin
no país – hoje serve a mais de 300 dessas. Desde o final América) (2005-2009) – Financiado pela National Scien-
dos anos 90, a RNP tem presença em todos os estados ce Foundation (EUA) e Fapesp, visa a estabelecer en-
brasileiros, por intermédio laces entre as redes de P&E
de um PoP (ponto de pre- dos EUA e da América Lati-
sença), geralmente localiza-
“...é obrigação de uma rede de na. Essas conexões saem do
do na universidade federal México e EUA, e conectam
da capital do estado. As ins- P&E usar uma tecnologia de as redes Cudi (MX), ANSP
tituições de P&E têm cone- ‘alto desempenho’ para e RNP (BR) e Clara (AL)
xões ao PoP estadual. Esses (http://whren.ampath.net).
PoPs estão interligados pela distinguir-se da alternativa Giga (2002-2007) – Fi-
rede Ipê, uma infra-estrutu- comercial. Isso também é salutar, nanciado pela Finep com re-
ra própria da RNP, com ta- cursos Funttel para montar e
xas de transmissão entre 4
pois demonstra a viabilidade operar uma rede óptica ex-
Mbps e 10 Gbps. O núcleo dessas novas tecnologias para o perimental entre Campinas e
dessa rede é uma malha que
uso da sociedade em geral.” a área metropolitana do Rio
interliga dez capitais a ta- de Janeiro, para desenvolver
xas multigigabit. As demais P&D em redes ópticas e suas
capitais possuem conexões aplicações (www.redegiga.
dedicadas a uma das capitais localizadas nesse núcleo. org.br e http://www.rnp.br/pd/giga/).
Maiores detalhes sobre a rede Ipê estão disponíveis no Redecomep (Redes Comunitárias de Ensino e Pes-
sítio da RNP: http://www.rnp.br/backbone/index.php. quisa) (2005-2008) – Financiado pela Finep com recur-
Adicionalmente, a RNP está construindo suas pró- sos setoriais (e transversais, no caso de Belém) para rea-
prias redes de acesso metropolitanas nas cidades onde lizar a implantação de redes ópticas próprias nas cidades
existem PoPs da rede Ipê. A primeira dessas redes, a Me- onde a rede Ipê tem seus PoPs (http://www.redecomep.
troBel, na cidade de Belém do Pará, foi inaugurada no rnp.br/).
dia 28 de maio, e todas as demais estarão funcionando GTs (Grupos de Trabalho) (desde 2002) – Finan-
até o primeiro semestre de 2008. Através delas, os campi ciado com recursos do Contrato de Gestão (MCT), esse
das universidades localizadas nas capitais de estado se- programa suporta anualmente até sete projetos de desen-
rão ligados ao PoP em 1 Gbps. Veja o sítio http://www. volvimento de protótipos e pilotos de serviços novos para
redecomep.rnp.br. os usuários da rede Ipê. Alguns serviços já disponíveis
Finalmente, a RNP também serve a instituições do ou em fase piloto incluem telefonia IP, vídeo a demanda,
MEC e do MCT em cidades do interior dos estados, e infra-estrutura de chave pública para educação (http://
opera conexões próprias entre elas e o PoP estadual. www.rnp.br/pd/gt.html).

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 11
Ritu (Rede de Intercâmbio das TVs Universitá- países veio depois da Internet acadêmica, e copiou sua
rias) (2006-2007) – Financiado com recursos do Contrato arquitetura e tecnologia.
de Gestão (MCT), prevê o desenvolvimento e implanta-
ção de um sistema que possibilita construir uma grade Fonte: O que é exatamente a Internet 2? Ela
de programação nacional baseada em conteúdos, provida substitui a atual rede?
pelo conjunto das TVUs no país.
Rute (Rede Universitária de Telemedicina) (desde Em 1995, o governo dos EUA, que havia finan-
2006) – Financiado pela Finep, visa a apoiar o aprimo- ciado grande crescimento da rede de P&E no país desde
ramento da infra-estrutura para telemedicina já existente 1985, abandonou esse papel, deixando a tarefa de prover
em hospitais universitários, bem como promover a in- serviços Internet para as instituições de P&E aos prove-
tegração de projetos entre as instituições participantes dores comerciais. A reação da comunidade de P&E dos
(http://rute.rnp.br/). EUA foi criar o projeto Internet 2, uma associação de
EELA (E-Infraestructure shared between Euro- instituições de P&E, que resolveu criar uma rede de alto
pe and Latin América) (2006-2007) – Financiado pela desempenho para uso próprio (chama-se Abilene) (ver
UE, visa a implantar infra- www.internet2.edu).
estrutura de grade compu- Hoje em dia, Internet 2
tacional do padrão europeu
“Hoje em dia, Internet 2 é praticamente um sinônimo
(middleware gLite) e pro- da rede (nacional e/ou inter-
mover seu uso para novas é praticamente um sinônimo nacional) de P&E.
aplicações em várias áreas da rede (nacional e/ou
científicas, por meio de pro- Fonte: Como o Bra-
grama de capacitação (www. internacional) de P&E.” sil se posiciona no contexto
eu-eela.org). da nova rede? O que há de
RINGrid (Remote Ins- concreto?
trumentation in Next-generation Grids) (2006-2008)
– Financiado pela UE, visa a investigar propostas para A partir de 1994, a RNP participou ativamente da
integrar instrumentos em tecnologias de grades, vali- criação, no país, da Internet comercial, fornecendo uma
dando essas propostas contra implementações atuais alternativa de conectividade à então estatal Embratel.
(www.ringrid.eu). A partir de 1999, abandonou esse papel e procurou se
firmar como uma rede dedicada à comunidade de P&E,
Fonte: Qual o potencial das redes de alto de- implantando o que era conhecido como a rede RNP2.
sempenho? Que ganhos sociais elas viabilizam? Hoje, continua essa linha, mas desde 2005 foi rebatizada
de rede Ipê.
Usa-se o termo “alto desempenho” para falar de
capacidade normalmente ausente nas redes acessíveis Fonte: Quais as perspectivas para que a Inter-
comercialmente ao grande público. Como têm sido con- net 2 se torne tão popular quanto a rede original?
tínuos os avanços em tecnologias de comunicação, sem-
pre tem uma nova opção de rede de alto desempenho, e Se você se limitar à comunidade de P&E, vai per-
o que era ontem “alto desempenho” se torna hoje a rede ceber que é mais popular do que a rede original, porque o
“normal”. Na prática, é obrigação de uma rede de P&E número de usuários e seu tráfego aumentou muitas vezes.
usar uma tecnologia de “alto desempenho” para distin- Os enlaces principais usados na rede Ipê têm um milhão
guir-se da alternativa comercial. Isso também é salutar, de vezes mais capacidade que os enlaces usados em 1992.
pois demonstra a viabilidade dessas novas tecnologias Boa parte desse aumento é resultado do uso de aplicações
para o uso da sociedade em geral. Não se deve esquecer muito mais exigentes do que era possível antes, incluindo
que a Internet comercial no Brasil e em muitos outros especialmente a transmissão de vídeo e de grandes fluxos

12 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
de informações usadas em computação e armazenamento A camada de enlace depende da tecnologia de
distribuídos de larga escala. rede usada, e sofrerá mudanças para cada nova tec-
nologia de enlace criada, seja ela baseada em cabo
Fonte: O que será necessário para que um usu- metálico, fibra óptica, rádio etc. Entretanto, o pro-
ário doméstico possa acessar a Internet 2? A partir de tocolo IP precisa funcionar com todas essas alter-
quando? nativas, sem depender das suas características es-
pecíficas.
Se entendermos que Internet 2 é o nome dado ao A camada de aplicações também sofre alterações
atual estágio da rede avançada da comunidade de P&E, constantes, com a criação de novas aplicações. A opor-
a resposta é nunca, porque o usuário doméstico sem- tunidade de fazer isso é uma das grandes características
pre terá acesso a uma geração anterior de tecnologia, da arquitetura Internet e explica seu sucesso. Para imple-
depois de provada por usuários mais restritos. Porém, mentar uma nova aplicação, é necessário apenas instalar
o progresso é contínuo e espera-se que os benefícios software no computador da ponta – a infra-estrutura da
das atuais redes de P&E cheguem à Internet comercial rede não á afetada.
em poucos anos. Já vi no-
tícia de que começa a im- Fonte: Há uma re-
plantação de FTTH (fiber
“... meu pai, que aprendeu a usar lação direta da computa-
to the home) na cidade de ção em grade e das comu-
São Paulo, com promessa a Internet com 85 anos, foi adepto nidades de colaboração na
de acesso doméstico de 30 diário até o ano da sua morte. Internet com a necessidade
Mbps. Mas na universidade de compartilhamento de in-
já há alguns usuários com Eu diria que somos capazes de formações identificada na
acesso a 1 Gbps. A meta é criar círculos de relacionamentos origem das redes de compu-
sempre móvel. tadores?
de nossa escolha usando
Fonte: A Internet esses novos meios...” Mais ou menos. A idéia
2 prevê o uso de protocolos das grades é a possibilidade
distintos dos utilizados na de usar recursos remotos
Internet atualmente? (computação, armazenamento, instrumentos, informa-
ção) para alcançar os objetivos da nossa aplicação. Por
Em redes, trabalhamos com as chamadas pilhas exemplo, tenho um problema para resolver que reque-
de protocolos, onde cada protocolo implementa apenas reria dois meses de uso dedicado do meu computador.
uma parte do serviço de comunicação, e a funcionalida- Se conseguir acesso a 240 computadores como o meu,
de de cada camada independe das outras. De baixo para poderei terminar o trabalho em seis horas, se eu tiver
cima as camadas são chamadas de enlace, rede, trans- uma maneira de subdividir o trabalho em pedaços de ta-
porte e aplicação. A arquitetura básica da Internet utiliza manho adequado. Estaremos fazendo o processamento
um conjunto restrito de protocolos nas camadas rede e paralelo e distribuído do trabalho inicial, por meio de
transporte: IP (Internet Protocol), TCP (Transmission uma chamada grade computacional. Para tanto, preciso
Control Protocol) e UDP (User Datagram Protocol). compartilhar computadores alheios, não apenas infor-
Por motivos de compatibilidade com tudo que já exis- mação.
te, não se pode alterar seriamente estes protocolos. No Também temos grades de dados, onde os dados es-
caso específico de TCP, novas implementações foram tão distribuídos em múltiplos repositórios na rede, e gra-
desenvolvidas para cuidar da transmissão confiável de des de instrumentos, onde há instrumentos científicos ou
enormes fluxos de informação, mas o protocolo em si sensores que estão acessíveis pela rede e disponíveis para
é o mesmo. nossa utilização.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 13
Fonte: Qual o impacto e perspectivas das redes Um outro problema associado é a identificação
wireless, especialmente o Wimax, para serviços e apli- mais rigorosa de usuários Internet em suas transações,
cações? comerciais ou não. Existem tecnologias digitais eficazes
de certificação de usuários, baseadas em criptografia, que
Os impactos das redes sem fio, até o momento, fo- são usadas para autenticar usuários remotamente. Entre-
ram maiores nas redes Wi-Fi e de telefonia celular. Essas tanto, nenhum sistema é 100% seguro, porque depende
são importantes porque permitem mobilidade aos usuá- das práticas dos usuários também. Quantas pessoas, es-
rios, e é inimaginável hoje fabricar um computador portá- pecialmente de maior idade, já dão conhecimento das
til que não tenha acesso Wi-Fi. Wi-Fi serve para acesso a suas senhas para amigos, parentes, colegas. Fundamen-
curtas distâncias e é muito usado em ambientes coletivos talmente é um problema social.
(escritórios, conferências, aeroportos, restaurantes e ba- A questão da privacidade merece atenção, especial-
res). Essa tecnologia também permite cobrir largas áreas mente nos dias de hoje. Certamente temos como tornar
através de redes em malha, que poderá ser usada como e manter sigilosas as informações e as comunicações do
meio de acesso doméstico (ver http://mesh.ic.uff.br). Em indivíduo. A pergunta básica é se existem situações em
algumas cidades, essas ma- que interesses da sociedade
lhas se tornaram o meio prin- prevalecem sobre os do in-
cipal de acesso à Internet.
“... ainda há muito a fazer e isso divíduo, por exemplo, em
As operadoras de te- investigação de crimes. Infe-
lefonia celular também ofe- dependerá da modernização da lizmente, a definição do que
recem serviços de acesso à administração de serviços é crime pode depender da
Internet via suas redes, usan- situação política, como evi-
do as tecnologias GPRS e do governo e a possibilidade do denciado nos EUA depois de
EVDO. cidadão comum ter acesso à 11 de setembro.
Wimax objetiva outro
usuário, de acesso fixo à In-
Internet para fazer acesso Fonte: Quais os
ternet, com enlaces a partir a esses serviços.” principais diferenciais das
de 2 Mbps até algumas de- tecnologias ópticas? Fale um
zenas de Mbps. Por enquan- pouco sobre o projeto Giga.
to, somente foram realizados alguns experimentos com
Wimax no país. A fibra óptica, inventada nos anos 1970, hoje é o
principal meio de transmissão usado nas telecomunica-
Fonte: Com relação à segurança de dados e ções de longa distância, como também em ambientes
privacidade de usuários, as novas tecnologias prometem metropolitanos, por causa do seu custo e eficácia. Sua
inovações? principal vantagem é permitir transmissão em distâncias
acima de 100 km sem a necessidade de nenhum equipa-
Esses são problemas muito sérios no mundo comer- mento intermediário de repetição ou retransmissão. Para
cial, onde já se tornou corriqueiro o crime de roubo de distâncias maiores, já foram desenvolvidas técnicas
identidade, a partir do conhecimento dos dados pessoais de multiplexação (DWDM), que, quando combinadas
dos outros. A lei européia é muito mais estrita do que nos com amplificadores de banda larga, permitem enlaces
EUA ou Brasil a esse respeito, obrigando os donos de de centenas ou milhares de quilômetros entre as pontas
bases de dados pessoais a tomarem muito cuidado com em comunicação. Essas técnicas também possibilitam
a correção e com a divulgação dos conteúdos dessas ba- operar cabos submarinos de enorme capacidade. Foi
ses. Infelizmente o acesso a esse tipo de informação aqui gigantesca a contribuição dessas tecnologias ao cres-
no Brasil é relativamente simples, pelo pouco cuidado cimento vertiginoso das telecomunicações nos últimos
tomado. 10 anos.

14 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
O projeto Giga, realizado pela RNP e a Fundação nistração pública? O que poderia ser feito para poten-
CPqD de Campinas, construiu em 2004 uma rede expe- cializar esse uso?
rimental de mais de 750 km de extensão entre Campinas,
São Paulo, São José dos Campos, Cachoeira Paulista, Como se sabe, alguns serviços de governo são pres-
Rio de Janeiro, Niterói e Petrópolis, interligando os la- tados prioritariamente por meio da Internet. Penso na de-
boratórios de mais de 20 instituições de P&E nessas ci- claração anual do imposto de renda, e no licenciamento
dades. Essa rede é baseada inteiramente em fibra óptica, anual de automóveis. Mas ainda há muito a fazer e isso
cedida pelas operadoras Embratel, Intelig, Oi e Telefôni- dependerá da modernização da administração de servi-
ca, e os sistemas ópticos usados fornecidos pela Padtec, ços do governo e a possibilidade do cidadão comum ter
também de Campinas. Cada laboratório possui acesso de acesso à Internet para fazer acesso a esses serviços. Está
1 Gbps à rede experimental. O projeto, que é financiado havendo avanços nessas frentes, com a informatização
pela Finep, usando recursos Funttel, suporta atividades dos governos estaduais e municipais, e a criação de te-
de P&D realizadas em mais de 50 universidades em todo lecentros para atender a população sem acesso à Internet
o Brasil, objetivando desenvolvimento de tecnologias e em casa. Ambos poderão ser ajudados pela participação
aplicações de rede, que deverão ser transferidas para o ativa dos governos em projetos de implantação de redes
setor produtivo. municipais ou metropolitanas, inicialmente dirigidas ao
uso das instituições de P&E, mas que poderão também
Fonte: A consolidação das grandes redes, es- servir a essas outras necessidades.
pecialmente a Internet, já definiu em todo o mundo no-
vas relações sociais e econômicas. O que mais podemos Fonte: Com relação à democratização de servi-
esperar em relação a comportamentos, hábitos e valo- ços e informações, como as novas tecnologias poderão
res? trazer reflexos positivos na inclusão digital?

Creio que vai continuar a crescer a importância de Como mencionei na resposta anterior, o uso dessas
comunicação usando a Internet para nossa vida. Quando tecnologias para montagem de redes de comunicação nas
estiver ao alcance acesso doméstico adequado para dar cidades, para permitir integração ampla de unidades dos
suporte fácil para comunicação, hoje disponível apenas governos municipais e estaduais, bem como dar suporte
no escritório (dezenas de Mbps ao computador individu- a telecentros, ajudará bastante o processo de inclusão di-
al), já terá desaparecido o principal motivo para se deslo- gital. Uma possível solução seria criar na escola local o
car diariamente ao trabalho, o qual poderá ser realizado centro de comunicações públicas do bairro.
sem que o usuário precise sair de casa. Da mesma forma,
muitos serviços de entretenimento vão poder ser realiza- Fonte: Qual a situação das empresas brasileiras
dos em ambiente doméstico. de tecnologia no cenário mundial?
É difícil generalizar sobre relações sociais. Como
usuário da Internet há quase 20 anos, mantenho estreita Isso é complicado responder, porque não tenho tan-
relação com amigos e parentes em outras cidades e em to conhecimento especializado. O Brasil tende a ser país
outros países por esse meio. Meus filhos são usuários ain- importador de tecnologias de informação e de comuni-
da mais intensivos que eu sou, e meu pai, que aprendeu a cação, embora possua empresas nacionais de hardware
usar a Internet com 85 anos, foi adepto diário até o ano da e, principalmente, de software. Creio que as indústrias
sua morte. Eu diria que somos capazes de criar círculos nacionais poderão ocupar certos espaços no mercado
de relacionamentos de nossa escolha usando esses novos nacional, onde características específicas do país sejam
meios – é só querer. importantes, por exemplo, em atendimento a peculiari-
dades da legislação nacional. Exportação de software e
Fonte: Como os governos, de forma geral, têm equipamentos é mais complicado, exceto para nichos do
utilizado a capacidade das redes para melhorar a admi- mercado, onde é relevante a experiência nacional.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 15
Dossiê

Redes de comunicação
Tecnologia elimina distâncias e cria realidades e
relacionamentos que desafiam o tempo e o espaço

Guydo Rossi
“Uma das mais importantes considerações da compreensão
sistêmica da vida é a do reconhecimento de que redes constituem o
padrão básico de organização de todo e qualquer sistema vivente.”
A constatação do físico e teórico de sistemas Fritjof Capra resume o
conceito histórico da idéia de redes, presente já na Antigüidade, na
medicina de Hipócrates, associado ao sistema circulatório. Ao mes-
mo tempo, remete à atualidade, em um novo formato de organização
econômica e social vigente em todo o mundo, especialmente a partir
da década de 1970, capitalizado principalmente pelas tecnologias da
informação e comunicação.
A necessidade de descentralização de dados e informações residentes em grandes
computadores, os chamados mainframes, foi a mola propulsora do desenvolvimento das
redes. Dos computadores a válvulas, passando pelos transistores, posteriormente pelos
circuitos integrados e finalmente os microprocessadores, as distâncias que separavam usu-
ários e informações foram drasticamente reduzidas.
Já na década de 1960, o recurso de teleprocessamento permitiu o trabalho remoto a
pequenas distâncias, por meio dos chamados terminais burros, que se limitavam a acessar
dados e aplicações do mainframe. A partir do acesso aos dados do computador central e o
surgimento dos primeiros computadores pessoais, em 1977, o próximo passo foi o compar-
tilhamento de informações entre vários computadores. Na verdade, a rapidez de desenvol-
vimento de novas tecnologias para conexão dos computadores surpreendeu a humanidade
e superou o ritmo tradicional da evolução, dando origem às redes locais, que evoluíram
rapidamente para as grandes redes, chegando à Internet.
A evolução de tecnologias de comunicação consolidou, portanto, a interação entre
computadores e usuários em abrangência global, através da Internet, envolvendo o mundo
em uma nova estrutura de relações sociais, econômicas e culturais, marcada pela comple-
xidade de um sistema intrincado de redes que se comunicam.
O sociólogo Manuel Castells afirma que “o surgimento de um novo sistema tecnoló-
gico na década de 1970 deve ser atribuído à dinâmica autônoma da descoberta e difusão
tecnológica, inclusive aos efeitos sinérgicos entre todas as várias principais tecnologias”.
Segundo o estudioso, o microprocessador possibilitou a criação do microcomputador, e
os avanços das telecomunicações possibilitaram que os microcomputadores funcionassem
em rede, aumentando assim seu poder e flexibilidade.

16 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Essa evolução configurou uma realidade que cativa de pessoas promove discussões públicas num pe-
desafia o entendimento de estudiosos das mais diversas ríodo de tempo suficiente, com emoções suficientes, para
áreas e abre uma infinidade de novas possibilidades, vol- formar teias de relações pessoais no ciberespaço”.
tadas para o entretenimento, prestação de serviços por or- Castells acrescenta que “até certo ponto, a disponi-
ganizações públicas e privadas e, principalmente, para a bilidade de novas tecnologias constituídas como um sis-
produção e disseminação do conhecimento, em pesquisas tema na década de 1970 foi uma base fundamental para
que envolvem cientistas de todo o mundo, trabalhando o processo de reestruturação socioeconômica dos anos
como se estivessem num mesmo ambiente geográfico. 80. E a utilização dessas tecnologias na década de 1980
O desenvolvimento das tecnologias de telecomuni- condicionou, em grande parte, seus usos e trajetórias na
cações impulsionou ainda a existência de mundos virtuais, década de 1990”. Para o autor, o surgimento da sociedade
que movimentam, em uma realidade paralela, a economia em rede não pode ser entendido sem a interação entre
real; e um novo tipo de organização social, as comunida- duas tendências relativamente autônomas: “o desenvol-
des virtuais, definidas por Howard Rheingold, autor do vimento de novas tecnologias da informação e a tentativa
livro The virtual community, como “agregações sociais da antiga sociedade de reaparelhar-se com o uso do poder
que emergem na Internet quando uma quantidade signifi- da tecnologia para servir a tecnologia do poder”.

Rete, réseau, rede


A genealogia do termo é descrita no ensaio do fi- XIX, que o termo deixa de ser usado na dimensão do cor-
lósofo e cientista político Pierre Musso, “A filosofia da po humano: “a rede não é mais apenas observada sobre
rede”. Segundo o autor, desde a idéia registrada na mi- o corpo ou dentro dele, ela pode ser construída”, explica
tologia, “associada à tecelagem e ao labirinto”, passando Musso. “De natural, a rede vira artificial. De dada, ela se
pela medicina de Hipócrates, a palavra rede na verdade torna construída. O engenheiro a concebe e a constrói,
só aparece na língua francesa – réseau – no século XII, enquanto o médico se contentava em observá-la.” Con-
designando, então, “redes de caça ou pesca e tecidos, cluindo, o filósofo propõe um conceito para rede como
uma malha têxtil que envolve o corpo”. A partir daí, o “uma estrutura de interconexão instável, composta de
termo é utilizado para descrever a superfície do cérebro, elementos em interação, e cuja variabilidade obedece a
por Descartes; a trama de fibras têxteis, por tecelões, no alguma regra de funcionamento”.
século XVII, e por médicos, “para descrever o aparelho No contexto de ciberespaço, o estudioso de comuni-
sangüíneo e as fibras que compõem o corpo humano”. cação e filosofia Paulo Vaz acrescenta que “a rede é nossa
Segundo Pierre Musso, “é especialmente o natura- forma de infinito, só que não como extensão desmedida
lista e médico italiano Marcello Malpighi (1628–1694) que explode o lugar, mas como possibilidade de conexões
quem primeiro traz para a ciência o vocábulo rede, até e caminhos. A propriamente dizer, trata-se do ilimitado: a
então reservado à renda, para descrever o corpo reticular ausência de limites remete não só à ausência de centro, nas
da pele”. Mas é no fim do século XVIII, início do século também à simultaneidade e multiplicidade de conexões”.

Topologia e conexões
A grande mudança social que abarca hoje todo o São elas a topologia em estrela, na qual uma unida-
planeta, viabilizada pelo desenvolvimento das redes, nas- de centraliza as conexões com as demais máquinas; em
ceu da idéia de interligar máquinas, algo quase simpló- anel, em que, como o próprio nome indica, os computa-
rio diante dos avanços obtidos com o passar do tempo. dores são ligados um ao outro formando um anel; e o bar-
As formas de fazer as conexões entre os computadores ramento, em que os computadores são todos eles ligados
– chamadas topologias de rede – experimentaram três à barra de transporte.
modelos considerados básicos e a partir dos quais podem Para a conexão de redes entre si, formando novas
ser criadas variações. redes de maior amplitude, são utilizadas tecnologias

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 17
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

diversas, indicadas de acordo com a natureza das redes O desenvolvimento de inovações tecnológicas re-
em questão e principalmente com a distância em que vela uma nova forma de aplicação das redes de compu-
se encontram umas das outras. Para isso são utilizados tadores, especialmente para suprir necessidades de altas
sinais de radiofreqüência nas redes sem fio (Wi-Fi, taxas de processamento. Trata-se da grid computing, ou
Wimax); e cabos (par trançado, coaxiais e fibra óptica) computação em grade, obtida por meio do compartilha-
nas demais conexões. As peculiaridades da rede e de mento da capacidade ociosa de várias máquinas, que po-
suas aplicações determinarão a melhor solução para cada dem estar instaladas a grandes distâncias umas das outras
situação. Mas a grande tendência, no momento, é a mobi- e conectadas em rede. Sobre o assunto, veja nesta edição
lidade, viabilizada pelo desenvolvimento e crescimento artigo dos professores José Marcos Nogueira e Lilian
da tecnologia das redes wireless. Noronha Nassif.

O mundo wireless
Se o advento das redes, especialmente da Internet, Já a pervasividade, palavra ainda sem uma corres-
representou um grande impacto nas relações sociais, eco- pondente precisa no português, remete à idéia de perme-
nômicas e culturais, suportando de forma decisiva o fe- abilidade, penetração: as redes estão cada vez mais em-
nômeno da globalização, o que esperar da disseminação, butidas em ambientes, sistemas e serviços.
não menos acelerada, das tecnologias de comunicação Há pouco mais de duas décadas, o homem se en-
sem fio, capazes de oferecer as mesmas funcionalidades cantou com a possibilidade da comunicação de voz a
das redes tradicionais? distância, sem a necessidade de estar conectado por fios,
Especialistas de todo o mundo apostam na mobi- com o lançamento da telefonia celular; essa possibilida-
lidade como o grande avanço tecnológico dos próximos de se estende, através das redes wireless, à comunicação
anos, seja através das redes Wi-Fi e Wimax, seja com a entre equipamentos mais sofisticados, como notebooks,
geração 3G dos celulares. PDAs e celulares, transportando não só voz, mas também
A possibilidade de uma comunicação cada vez mais imagens, vídeos, sinais de TV digital e qualquer material
personalizada e feita a distância, em altas velocidades e digitalizado.
com segurança, sem necessidade de cabeamentos, sig- As redes sem fio utilizam, para transmissão
nifica, na verdade, romper definitivamente as barreiras de dados entre pontos, sinais de radiofreqüência ou
do tempo e do espaço: a qualquer momento, transpondo infravermelho, por meio de ondas eletromagnéti-
montanhas e quaisquer acidentes geográficos, as novas cas.
tecnologias wireless têm impulsionado um mercado efer- Há vários tipos de redes sem fio, definidas de
vescente de novas tecnologias, componentes e possibili- acordo com seu tamanho e abrangência: Redes Locais
dades de novos serviços e aplicações. sem Fio ou WLAN (Wireless Local Area Network);
Essas tecnologias, consideradas de fácil instalação Redes Metropolitanas sem Fio ou WMAN (Wireless
e operação, trazem ainda a vantagem de conectar locais Metropolitan Area Network); Redes de Longa Dis-
onde há limitações físicas, como cidades tombadas pelo tância sem Fio ou WWAN (Wireless Wide Area Ne-
patrimônio histórico, como é o caso de Ouro Preto (MG), twork); redes WLL (Wireless Local Loop); e Redes
patrimônio cultural da humanidade, que já conta com Pessoais Sem Fio ou WPAN (Wireless Personal Area
uma rede Wimax. Network).
Interligando redes locais ou conectando-as à In- Há, da mesma forma, tecnologias diferenciadas
ternet, as tecnologias sem fio trazem em sua concepção dentro de cada uma dessas categorias, como o Bluetooth,
dois importantes conceitos, destacados pelo professor do um serviço WPAN (redes pessoais sem fio) que pode
DCC/UFMG, José Marcos Nogueira: ubiqüidade e “per- simplesmente substituir o uso de cabos em ambientes
vasividade”, dois atributos que permitem vislumbrar o domésticos ou permitir acesso à Internet; e as redes Wi-
potencial dessas novas tecnologias. Ubiqüidade, do latim Fi, que se classificam como WLANs – redes locais sem
ubiquitäte, refere-se à condição de estar em toda parte ao fio – em função das reduzidas distâncias que são capa-
mesmo tempo, de ser onipresente. zes de cobrir.

18 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Redes Wi-Fi
Uma rede local sem fio (WLAN), concebida para disponíveis no mercado, capazes de adaptar o equipa-
acesso à Internet, recebe o nome de Wi-Fi, abreviatura mento para sua utilização.
de “wireless fidelity”, usa o protocolo IEEE 802.11 e é Para acesso não comercial, não há sequer necessidade
marca registrada pertencente à Wireless Ethernet Com- de autorização da Anatel (Agência Nacional de Telecomu-
patibility Alliance. Trata-se de um padrão definido pelo nicações) para instalação e uso de uma rede dessa natureza,
IEEE (Institute of Electrical and Electronics Engineers uma vez que elas utilizam faixas de freqüência específicas
ou Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos), que não obrigam sua formalização; a exigência se limita à
entidade internacional que trata de padronizações de for- exploração comercial do serviço por operadoras.
matos de computadores e componentes. Com o computador dotado de dispositivo para co-
O Wi-Fi é uma solução simples, de fácil insta- nexão, basta então ao usuário estar na faixa de alcance
lação e cobre áreas de menor abrangência – cerca de de uma antena, chamada de hotspot, para se conectar. O
100 metros, sendo utilizada em aeroportos, cibercafés alcance do sinal desse ponto é de cerca de 100 metros.
(hotspots), escritórios, hotéis ou residências, com velo- Especialistas recomendam, no entanto, atenção à segu-
cidades médias de transmissão de dados na faixa de 11 a rança na instalação de uma rede dessa natureza. Como
54 Mbps, podendo, no entanto, ter sua potência ampliada o acesso está “no ar”, permitindo que qualquer usuário
por meio de outros recursos. Atualmente, a maioria dos que tenha um equipamento apto possa acessá-la, caso
equipamentos – microcomputadores, notebooks ou ou- não haja dispositivos de segurança no roteador podem
tros computadores portáteis – saem de fábrica com dispo- ocorrer acessos indesejados. O padrão de segurança cer-
sitivos próprios para acesso a esse tipo de rede. Mas há tificado pelo IEEE (Institute of Electrical and Electronics
também a opção de pacotes de acesso a essa tecnologia Engineers) é o 802.11i.

Wimax – World Interoperability for Microwave Access


Trata-se de uma tecnologia nova, ainda em fase

Divulgação
de amadurecimento, mas as perspectivas que repre-
senta têm incentivado de forma categórica as pes-
quisas e as iniciativas do mercado de tecnologia da
informação e comunicações. Fabricantes de compo-
nentes para Internet banda larga sem fio preparam-
se para o lançamento de produtos que deverão sair
de fábrica já com o suporte necessário para acesso
às redes Wimax. A tecnologia permite velocidades
que podem chegar a 80 Mbps, com abrangência de
até 50 km.
Segundo a gerente de desenvolvimento de mer-
cado Wimax para a América Latina da Intel, Elai-
ne Nucci, a tecnologia não necessita de visada – ou
seja, que as antenas estejam visíveis mutuamente
para ligação de dois pontos. “Com visada, o serviço
permite uma propagação maior; zonas rurais planas,
por exemplo, são o ambiente ideal para melhor de-
sempenho dessas redes. Em situações urbanas, mais
densas, onde há muitos prédios, a visada não é ne-
cessária, mas a distância de alcance é menor. O de- Elaine Nucci, da Intel

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 19
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê
Isabela Abreu
O Wimax trabalha em duas modalidades: uma
delas, chamada fixa, nômade ou nomádica, permite
ao usuário a conexão sem fio, mas com o seu equipa-
mento fixo em determinado local; já o Wimax móvel,
que inclui também o modelo fixo ou nomádico, asse-
melha-se a um celular: mesmo em trânsito, o usuário
não perde a conexão.
Segundo a gerente da Intel, Elaine Nucci, o pa-
drão fixo foi certificado pelo IEEE em 2004 e pelo
Wimax Fórum em 2005. Portanto, para esse padrão,
há aparelhos certificados já disponíveis no mercado.
A evolução desse padrão é o Wimax móvel, cuja situ-
ação é a seguinte: seus padrões foram especificados
pelo IEEE em 2005, tendo início em 2006 os testes
Rafael Fonseca, da Prodemge da tecnologia para certificação pelo Wimax Fórum.
“Este ano já teremos aparelhos certificados para Wi-
sempenho depende, portanto, da geografia e da den- max móvel”, prevê Elaine Nucci. “Essa modalidade
sidade.” abrangerá os modelos fixo, nômade e móvel.”
Estudo patrocinado pelo instituto norte-ameri- O Wimax nomádico já é, portanto, realidade e
cano de pesquisa de mercado e análises de negócios permite ao usuário o acesso à Internet em banda larga
em telecom Maravedis, realizado em 2006 (Broad- dentro de áreas bem mais abrangentes de cobertura,
band Wireless and Wimax Brazilian Market Analysis a partir de equipamentos que suportam a tecnologia:
2005-2010), prevê que o Brasil terá 768 mil assinan- trata-se de um modem portátil, embutido no equipa-
tes Wimax em 2010 e movimentará, no mercado for- mento, que possibilita transportá-lo para diferentes
necedor de equipamentos da tecnologia, US$ 300 mi- locais, com acesso garantido a partir da mesma assi-
lhões no país, contra os US$6 milhões contabilizados natura de provedor de acesso do usuário.
em 2005. O trabalho foi desenvolvido envolvendo O serviço nomádico nem bem se torna realidade
operadoras, fornecedores, órgãos reguladores e pro- e já encontra no Wimax móvel um poderoso rival: é a
vedores, com o objetivo de analisar as perspectivas grande expectativa do mercado, que permitirá acesso
para a adoção da tecnologia de acesso à banda larga à rede banda larga sem fio inclusive em movimento,
sem fio Wimax no Brasil. a partir de equipamentos em trânsito – dentro de car-
A tecnologia Wimax baseia-se em um padrão ros, por exemplo, sem interrupções nas conexões ou
aberto, o que quer dizer que não há uma empresa pro- perda do sinal.
prietária ou detentora de direitos de uso desse serviço. Entre os grandes benefícios do Wimax desta-
Para regulamentar e organizar a evolução dessa tec- cam-se a facilidade e baixo custo de instalação de
nologia ainda nova, empresas fabricantes de compu- redes, para acesso em banda larga, uma vez que não
tadores e componentes, interessadas em desenvolver necessita do lançamento de cabos. O Wimax apresen-
produtos relacionados ao seu uso, criaram o Wimax ta-se como solução para integrar regiões afastadas
Fórum, de abrangência internacional e responsável dos grandes centros, onde se evidencia a dificuldade
pela padronização de equipamentos de conexão; são de implantação de infra-estrutura de cabos.
mais de 420 empresas participantes. O assessor da Conselho Diretor da Anatel, Ivo
O Fórum trabalha para a certificação, compa- Prado, explica tratar-se de uma tecnologia nova, que
tibilidade e interoperabilidade dos produtos de ban- depende de escala para se tornar comercialmente vi-
da larga sem fio baseados no padrão IEEE 802.16. ável. “Espera-se que se torne uma tecnologia barata,
Segundo o site da entidade (www.wimaxforum.org), mas ainda não chegamos a esse nível. Hoje, os pre-
um dos objetivos do Fórum é acelerar a introdução ços de equipamentos ainda são altos, especialmente
desses sistemas no mercado. se pensarmos na aquisição de unidades isoladas. Em

20 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

maior escala, certamente haverá uma diferença signi- tecnologia Wimax. Dessa forma, é provável que os
ficativa nos preços. Mas ainda há dificuldade para se provedores (fornecedores de serviços) de acesso em
ter essa escala; temos duas tecnologias concorrentes banda larga sem fio passem a investir de forma mais
– o Wimax e telefonia móvel 3G – e uma corrida por agressiva em regiões pouco exploradas, especialmen-
preços competitivos.” te aquelas em que o investimento em redes tradicio-
Ele lembra que, para o usuário, a tecnologia 3G nais não representa uma relação positiva de custo e
exige apenas um aparelho de telefone. “Quem tiver benefício.
maior escala, ganha. São dois produtos similares dis- Para Rafael Freitas, a tendência dirige-se espe-
putando um mesmo mercado.” cialmente a prédios residenciais e empresas, que po-
Na opinião de Iran Lima Gonçalves, da diretoria de derão ter suas próprias redes. Ele acrescenta ainda o
negócios e soluções de mercado do CPqD, o mercado de aspecto da segurança da tecnologia: o padrão 802.16,
serviços de telefonia fixa e móvel – as operadoras – “está o Wimax, foi homologado pelo IEEE tendo incorpo-
cheio de dúvidas com relação à evolução de suas redes, rados ao seu protocolo dispositivos de privacidade,
considerando as diversas alternativas tecnológicas, como QoS (qualidade de serviços) e criptografia, utilizando
Wimax e 3G”. AES, que atualmente é o método de criptografia mais
A situação se deve à convergência das tecno- seguro do mercado. Essas condições viabilizam co-
logias: hoje o serviço de telefonia fixa está disponí- municações mais seguras, incluindo procedimentos
vel em todos os municípios brasileiros; já as redes de autenticação.
wireless viabilizam acesso à Internet em banda larga, A tecnologia é identificada como uma alter-
provocando preços mais competitivos inclusive na nativa indicada principalmente para as adminis-
comunicação de voz, que ganha um concorrente nos trações públicas, como forma de levar acesso sem
serviços de voz sobre IP. fio em banda larga para escolas e centros comuni-
Ivo Prado conclui que “enquanto o ponto forte tários, ou interligar prédios públicos. Isso porque
da tecnologia 3G é a mobilidade, o do Wimax é a a tecnologia promove a cobertura em áreas mais
velocidade. Isso porque, em termos de mobilidade, abrangentes, viabilizando a instalação de redes
o Wimax está apenas começando. Há aparelhos para capazes de atender até cidades inteiras. A experi-
o Wimax fixo ou nomádico; para o Wimax móvel, os ência é realidade em várias cidades no Brasil e no
primeiros equipamentos provavelemente estarão dis- mundo, como Ouro Preto, Parintins e Belo Hori-
poníveis no mercado em 2008. Numa fase inicial, o zonte, onde governo e cidadãos empreendem mais
Wimax terá maiores velocidades, e o 3G, mobilidade um passo na direção da inclusão digital. (Veja de-
mais consolidada. Na Europa, já há uma grande uti- talhes sobre a experiência de Parintins na seção
lização de aparelhos de telefones de terceira geração, Benchmarking.)
embora o maior uso seja ainda para voz”. A Anatel já Para Elaine Nucci, um impacto importante
está estudando a licitação da tecnologia 3G. O edital dessa solução na administração pública diz res-
deve ser submetido a Consulta Pública nos próximos peito à cidadania: “inicialmente a auto-estima dos
meses. cidadãos; a comunidade se desenvolve, passando
Segundo o especialista em redes da Prodemge, a ter acesso à tecnologia e ao conhecimento que
Rafael Fonseca de Freitas, a disseminação de uso já ela traz; melhora o nível de empregabilidade das
provoca uma tendência de queda no custo dos com- pessoas, que se tornam digitalmente e socialmente
ponentes utilizados para comunicação usando-se a incluídas”.

Licitação das faixas 3,5 e 10,5 GHz


No mercado brasileiro, a grande expectativa é pela 2006, visando à outorga de autorização de uso de blocos
licitação, pela Anatel, das faixas de freqüência 3,5 GHz e de radiofreqüência nas faixas de 3,5 e 10,5 GHz, associada
10,5 GHz, que deverão se destinar ao serviço Wimax. O à autorização para os serviços SCM (Comunicação Multi-
Edital de Licitação nº 002/2006 foi publicado em julho de mídia) e STFC (Serviço Telefônico Fixo Comutado).

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 21
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê
Divulgação
No entanto, questionamentos das empresas con-
cessionárias de STFC, que se sentiram prejudicadas pe-
las regras do edital, resultaram no atraso do processo.
Depois de muita polêmica, a licitação acabou suspensa
pelo Tribunal de Contas da União, que alegou defasagem
no valor do euro utilizado na determinação dos preços
mínimos estipulados no edital. Segundo o assessor do
Conselho Diretor da Anatel, Ivo Prado, “quem realmen-
te suspendeu a licitação foi o Tribunal de Contas, que
desejou fazer uma análise mais cuidadosa do preço mí-
nimo colocado na licitação. Mas pudemos constatar que
houve grande interesse das empresas na licitação, que
chegou até a fase de entrega das propostas. As operado-
ras poderão aumentar a cobertura de banda larga e con-
seqüentemente as possibilidades de oferta de serviços,
além do tradicional serviço de voz”. Até o final do mês
de junho não havia ainda uma previsão de retomada da
Ivo Prado, da Anatel licitação.

As gerações dos celulares


Os primeiros aparelhos analógicos, ou de primei- muito altas, cerca de 300 Kbps. A terceira geração – tec-
ra geração, destinavam-se exclusivamente à transmis- nologias 1xEV-DO e WCDMA – permite o acesso em
são de voz. A segunda geração, já digital, adota as tec- banda larga a uma velocidade de cerca de 2 Mbps, para
nologias EDGE, GSM, CDMA e TDMA, permitindo, comunicação de voz e dados; é, de fato, o acesso em alta
além da voz, a comunicação de dados a velocidades não velocidade.

Segurança no ar
Divulgação
O investimento em segurança pública, em Minas
Gerais, contempla, entre outras tecnologias, a de redes
sem fio. A solução está sendo adotada em um dos pro-
jetos estruturadores previstos pelo governo estadual, a
cargo da Subsecretaria de Administração Prisional da Se-
cretaria de Estado de Defesa Social, que visa à reforma e
melhoria do sistema penitenciário.
Segundo o líder do projeto na Prodemge, Heber
Cavalcanti, as redes compõem a infra-estrutura necessá-
ria para desenvolvimento de outras iniciativas previstas
no projeto, relacionadas à saúde, controle de acesso com
uso de biometria, enfim, uma rede de multisserviços, de
dados, voz e vídeo. Para isso, está sendo adotada a tec-
nologia Wireless Indoor, padrão 802.11a, na interligação
Penitenciária feminina Estêvão Pinto, em Belo Ho-
dos prédios internos da Penitenciária Industrial Estê- rizonte. Consta de pavilhão principal, albergue, blo-
vão Pinto, em Belo Horizonte. Estão em fase de levan- cos de oficinas, posto médico/creche, posto militar
tamento e elaboração projetos para equipar também as e guaritas

22 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê
Isabela Abreu
prédios foram construídos há mais tempo, e fazer obras
para implantação de redes torna-se quase inviável, no
caso de uso de outras tecnologias tradicionais que usam
cabeamento”.
Ele acrescenta que a tecnologia Wi-Fi é uma alter-
nativa excelente às redes convencionais, “uma vez que
oferece as mesmas funcionalidades, como por exemplo a
questão da conectividade; é uma tecnologia fantástica”.
Entre os benefícios da tecnologia adotada na cons-
trução da rede, Heber Cavalcanti destaca ainda as ques-
tões de rapidez na implementação, escalabilidade e o
sistema de segurança, em camadas, utilizando a tecno-
logia WPA2-AES e VPN-AES: “foram adotadas todas as
tecnologias disponíveis para segurança em rede wireless,
como o método de criptografia, que utiliza chaves dinâ-
micas, o WPA-PSK e o Modelo Avançado de Encriptação
(AES), além de outros recursos, como firewall central, de
borda e switchs gerenciáveis, que garantem a integridade
das informações veiculadas na rede. Entre esses cuida-
dos, está a limitação de alcance do sinal à área da Peni-
Sérgio Aguilar Silva, da SEDS
tenciária, por meio de ajustes na potência dos rádios e nas
penitenciárias Nelson Hungria, em Contagem; Dutra La- antenas grade e repetidora”, explica.
deira, José Abranches Gonçalves e José Maria Alkmin, No Complexo Penitenciário Feminino Estêvão Pin-
em Ribeirão das Neves, todas na Região Metropolitana to (Piep), a rede Wi-Fi utiliza o padrão 802.11a e já está
de Belo Horizonte. funcionando, após as fases de montagem da infra-estru-
O projeto pode ser estendido ainda a cidades do in- tura, instalação de equipamentos e implantação.
terior do estado: a Prodemge já efetuou o levantamento

Júlia Magalhães
de informações (Site Survey) e elaborou projetos tecno-
lógicos para as cidades de Divinópolis, Ipaba, Governa-
dor Valadares, Teófilo Otoni e Unaí.
Segundo Heber Cavalcanti, a solução adotada foi
uma Rede Local sem Fio (WLAN) configurada para tra-
balhar em ambiente fechado – uma rede Wi-Fi indoor.
“Criamos uma rede sem fio ligando todos os prédios da
penitenciária. Trata-se de uma solução de custo médio,
uma vez que dispensa a realização de obras de engenha-
ria. Não há necessidade de intervenções no asfalto, piso
ou paredes, proporcionando economia de mão-de-obra,
materiais e serviços de alvenaria e recomposição.”
O diretor de Modernização e Recursos Tecnológi-
cos da Secretaria de Defesa Social, Sérgio Aguilar Silva,
destaca a importância da mobilidade proporcionada pela
rede: “o fato de permitir a comunicação sem fio provê
grande mobilidade à equipe, especialmente nos casos de
complexos maiores, em que as distâncias entre as uni-
dades internas podem ser consideradas grandes. É im-
portante enfatizar também o fato de que muitos desses Heber Cavalcanti, da Prodemge

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 23
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê
Isabela Abreu

Saúde em rede
Em Minas Gerais, a Secretaria de Saúde encontrou,
na sua rede de comunicação de dados, uma aplicação que
tem representado uma nova realidade na qualidade de
atendimento para cerca de 55 mil pacientes usuários dos
medicamentos chamados excepcionais. Trata-se do Siste-
ma de Informações de Gestão em Saúde (Sigs), aplicado
ao controle da entrega, aos usuários, de medicamentos de
alto custo, destinados especialmente a doenças raras ou
crônicas, como hepatite e Aids, e a pacientes transplan-
tados. Esses medicamentos – cerca de 150 substâncias
padronizadas pelo Ministério da Saúde – na maioria das
vezes não são vendidos em farmácias, restringindo-se à
entrega pelo SUS.
O sistema, que gerencia a prescrição e dispensação
de medicamentos excepcionais, foi implantado em ou- Central de Dispensação de Medicamentos em
tubro de 2005. Das 28 gerências regionais de saúde do Belo Horizonte
Estado, integradas à rede, 26 já utilizam um link priva-
tivo de 1 Mbps destinado exclusivamente ao serviço de dispensação, foi reduzido de forma drástica. Ao mesmo
gestão dos medicamentos. tempo, o controle mais preciso das doses, aliado à pos-
Segundo a gestora da implantação do projeto nas sibilidade de um agendamento das datas de compareci-
regionais da Secretaria de Saúde de Minas, Haydeé mento do paciente ao posto, oferece conforto e seguran-
Sant’Anna, com cerca de um ano e meio de uso do siste- ça a essas pessoas, além de um controle mais eficaz dos
ma é possível contabilizar uma série de benefícios, não estoques e conseqüente diminuição do risco de falta de
só para a administração do serviço, mas principalmente determinado produto.”
para os pacientes que utilizam medicamentos excepcio- A nova forma de atendimento aumentou ainda a
nais. “O tempo de atendimento ao paciente, nos locais de segurança quanto à posologia, melhorou a qualidade
da assistência farmacêutica, ao liberar o profissional
Isabela Abreu
especializado das rotinas administrativas, e beneficiou
a qualidade da assistência farmacêutica ambulatorial,
aumentando a adesão do paciente ao tratamento medi-
camentoso. Outro ganho é a possibilidade de obtenção
de informações estatísticas para tomada de decisão e
definição de novas políticas e implementações, como o
perfil farmacoterapêutico da população atendida, dados
para estudos farmacoeconômicos e histórico farmacoló-
gico dos pacientes.
Haydeé enumera as etapas do sistema, que contempla
o cadastro do paciente; cadastro dos profissionais (médicos
e farmacêuticos); cadastro da receita médica do paciente e
transcrição e dispensação do medicamento; faturamento
dos medicamentos dispensados; finalização do fluxo men-
sal. Ela explica que, dentro de prerrogativas definidas pelo
Ministério da Saúde, é possível garantir a segurança da
Parte da equipe do sistema: Ricardo Esteves, prescrição, usando para isso parâmetros de posologia dos
Haydeé Sant’Anna, Marcos Milagres e Hélio Hamilton medicamentos, atualizada por farmacêuticos. O sistema

24 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

prevê ainda controle de níveis de acesso, garantindo Ele menciona também aspectos como a redução do
maior segurança para o paciente e para o serviço. número de falhas na estocagem e a eficiência para a ges-
Entre as funcionalidades do sistema, Haydeé apon- tão, convertidas para o paciente na forma de melhor aten-
ta ainda a possibilidade de substituição automática de dimento. “Tudo é muito bem planejado. Não há nenhum
medicamento eventualmente em falta, por outro equiva- estado no Brasil onde esse serviço funcione como o nos-
lente, previamente definido; cálculo da quantidade exata so, nas dimensões do nosso estado e com as funcionalida-
de medicamento, considerando a data da próxima visita des adotadas aqui, como, por exemplo o agendamento.”
do paciente ao local de entrega; e agendamento automá- A equipe da Secretaria de Saúde planeja novas imple-
tico do próximo atendimento. mentações para melhorar ainda mais o serviço. Segundo o
Para o superintendente de Assistência Farmacêuti- superintendente da instituição, pretende-se “oferecer ao pa-
ca da Secretaria de Saúde, Augusto Guerra, seria impos- ciente a possibilidade de acompanhar, via Internet, o agenda-
sível pensar no programa de dispensação de medicamen- mento de seus comparecimentos e o status de sua situação,
tos excepcionais sem o uso da TI. “Na realidade, trata-se por exemplo, a aprovação de novos processos. Outra meta
do gerenciamento de uma logística que atende um estado é o credenciamento de médicos no sistema por meio de cer-
de grandes dimensões, com centenas de quilômetros qua- tificação digital, para que o profissional possa prescrever de
drados, onde a distância entre duas regionais pode chegar forma eletrônica, agilizando ainda mais o atendimento”.
a mais de 1.000 km.” A Secretaria de Saúde utiliza para o serviço uma
Augusto Guerra acrescenta que o serviço aos pa- rede exclusiva que interliga, por intermédio da Prodem-
cientes, em Minas Gerais, envolve em torno de R$180 ge, as regionais instaladas em todo o estado. São dois ou
milhões, dos quais cerca de R$60 milhões são prove- três computadores e uma impressora em cada local de
nientes de recursos do Estado. “A informatização oferece entrega dos medicamentos. Em Belo Horizonte, onde se
uma gestão melhor do programa e da distribuição dos concentra o maior volume de atendimentos, a central de
medicamentos para os pacientes”, explica. dispensação opera com 18 guichês.

Redes de sensores sem fio


Uma novidade na evolução das redes agrega todas em áreas de cultura, fornecendo informações sobre umi-
as peculiaridades da ficção, consolida-se como tendên- dade do solo, temperatura, nível de insolação. Os dados
cia e já mostra algumas experiências reais. Trata-se da são transmitidos para uma central, permitindo ao gestor
chamada rede de sensores sem fio, viabilizada pela evo- uma atuação mais fundamentada e dirigida.
lução da microeletrônica, reunindo características como Entre as aplicações possíveis da rede de sensores
comunicação de baixo custo por ondas de rádio (baixa está também a monitoração de áreas urbanas na medição
freqüência), grandes capacidades de processamento em de níveis de poluição atmosférica, por um determinado
dispositivos de tamanho reduzido e baixo consumo de período. Os sensores, espalhados pela área objeto de es-
energia. Os sensores podem fazer medições das mais tudo, vão colher e encaminhar as informações desejadas,
diversas grandezas, comunicando-se uns com os outros, permitindo uma análise e adoção de medidas necessárias.
formando uma rede de informações. Segundo o professor, “a monitoração de ambientes exter-
Segundo o professor do DCC/UFMG José Mar- nos e internos é possível com a tecnologia existente já há
cos Nogueira, que desenvolve pesquisas com sensores, algum tempo, mas sua viabilidade de realização com efi-
o funcionamento dessas redes sem fio representa uma ciência e economia para áreas amplas, utilizando medi-
enorme possibilidade de aplicações. “Podem ser usadas, dores em alta densidade espacial, ainda é baixa. Um dos
por exemplo, para medir valores da natureza, processá- maiores problemas é fazer com que os dados coletados
los e transportá-los, com baixo custo e baixo consumo pelos medidores cheguem a um local onde possam ser
de energia.” Ele fala da agricultura de precisão, em que processados e transformados em informação útil para que
a coleta dos dados pode ser feita por sensores colocados ações de controle da poluição possam ser efetivadas”.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 25
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Ele explica que a tecnologia de construção de dis- posições conhecidas. A possibilidade de cada nó se co-
positivos eletrônicos de tamanhos muito reduzidos, para municar com outros, sendo desejável pelo menos com
sensoriamento, processamento, armazenamento e co- um, define a conectividade da rede. Um nó sem comuni-
municação com baixo consumo de energia, tem experi- cação não tem como participar da rede.”
mentado um notável progresso nos últimos anos. “Essa No entanto, a aplicação das redes de sensores sem
evolução tem permitido o surgimento de elementos com- fio é, segundo o professor, uma área nova de pesquisa
putacionais chamados nós sensores, de pequenas dimen- e desenvolvimento tecnológico que traz muitos proble-
sões, mas com uma considerável capacidade de processa- mas e desafios: “talvez o aspecto mais evidente seja o
mento, armazenamento e comunicação utilizando rádios da energia dos nós sensores. Os nós devem ser de baixo
transmissores. Esses nós sensores, quando dotados de um custo e de dimensões reduzidas e operam sem acesso a
ou mais elementos de sensoriamento e de uma fonte de uma rede de fornecimento de energia, utilizando baterias
energia independente, tal como uma bateria, podem ser que não são normalmente substituídas ou recarregadas.
colocados na natureza para coletar dados conforme as Para muitas aplicações, é operacional ou economica-
capacidades dos elementos sensores. Os dados coletados mente inviável aproximar-se fisicamente dos nós para,
podem ser processados localmente e transmitidos via rá- por exemplo, trocar suas baterias. Por isso, a concepção
dio para algum receptor. Casos comuns são a coleta de das redes de sensores e dos seus elementos, tanto no
dados de temperatura ambiente (aplicações em detecção aspecto de hardware como no de software, deve bus-
de incêndio e previsão de geadas), de movimentação do car soluções econômicas em consumo de energia. Os
ambiente (sensores sísmicos), de umidade do ar (agricul- protocolos de comunicação têm de ser projetados para
tura) e indicação de substâncias químicas, bem como a consumir o mínimo na comunicação e o tratamento dos
captura de imagens e sons (detecção de presença), entre dados coletados, executado para gastar pouco proces-
vários outros.” samento”.
Outras aplicações dessas redes seriam no monito- Para ele, outro aspecto importante é o dinamismo
ramento de movimentos sísmicos, dispositivos de segu- existente nas redes: nós sensores podem passar do estado
rança e rastreamento, observação de animais sem inter- operacional para não operacional, a comunicação sem fio
ferência humana e no acompanhamento de movimentos de um nó pode ser interrompida por causa de obstáculos
estruturais em obras civis, colocados durante a obra. ou das condições ambientais, um nó pode sair completa-
José Marcos Nogueira destaca um aspecto novo mente da rede por esgotamento da sua bateria ou ser pos-
e interessante dessa tecnologia, a comunicação dos nós to em estado de espera por mecanismos de controle de
sensores. “Com o intuito de fazer os dados coletados che- densidade ou concentração de nós. “Esse dinamismo tem
garem a algum lugar de interesse, os nós sensores são reflexos diretos na conectividade dos nós e na topologia
organizados em uma estrutura de rede de computadores, da rede e os algoritmos de disseminação ou roteamento
uns se comunicando com os outros por meio de seus rá- de dados precisam levar isso em consideração e se tor-
dios.” Usualmente, na maioria das aplicações, os dados nam, assim, mais complexos.”
coletados são enviados para um ponto único da rede que, Com relação à viabilidade econômica de adoção
por sua vez, está conectado a um computador maior ou dessas redes em aplicações práticas, José Marcos expli-
mesmo a uma outra rede, como a Internet. “Esse ponto ca que o custo dos nós ainda precisa cair muito. “Ainda
central de coleta é chamado de nó sorvedouro. Os nós é caro fabricar nós sensores para serem utilizados em
sensores comunicando-se uns com os outros e com o nó larga escala, em aplicações onde não serão recuperados
sorvedouro, através de enlaces de rádio, definem o que é depois de lançados na área de operação. Suas dimensões
chamado uma rede de sensores sem fio.” são ainda consideradas grandes, mas se espera que haja
O pesquisador acrescenta que existem várias pos- no futuro nós do tamanho de um grão de areia.” Já com
sibilidades organizacionais e funcionais para as redes de relação à localização dos nós, há técnicas para descobri-
sensores sem fio. Os nós sensores são espalhados em uma la, que utilizam, por exemplo comunicação com satélite
área segundo algum critério de distribuição, que pode ser (GPS) ou cooperação entre os nós. “Entretanto, soluções
inclusive o aleatório. “Por exemplo, os nós podem ser efetivas e de baixo custo, que não são triviais, ainda estão
jogados de um avião ou depositados manualmente em por ser descobertas”, conclui.

26 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Entrevista

Divulgação
Vinton
Gray Cerf
Vinton Gray Cerf

N
esta entrevista, a história da Internet e as perspectivas para a rede mundial
de computadores são contadas por um dos maiores responsáveis por sua
existência. Considerado o “pai da Internet”, o pesquisador norte-ameri-
cano Vinton Cerf criou, na década de 1970, junto com Robert Khan, a arquitetura
fundamental da grande rede e o protocolo que permitiu a comunicação entre com-
putadores, o TCP/IP, viabilizando, enfim, o desenvolvimento da Internet.
O atual vice-presidente do Google, Vint Cerf, falou para a Revista Fonte sobre o
futuro tecnológico e social da Internet, sobre a Internet 2 e os impactos das tecno-
logias wireless no desenvolvimento de novas aplicações, e como as administrações
públicas utilizam a web para oferecer serviços e informações de maior qualidade
aos cidadãos.
Entre 1976 e 1982, durante seu mandato na Agência de Projetos de Pesquisa
Avançada do Departamento de Defesa dos EUA (Darpa), Vint teve papel-chave na
liderança do desenvolvimento da Internet e de tecnologias de segurança relacio-
nadas a pacotes de dados. No Google, é atualmente responsável pela identifica-
ção de novas tecnologias e aplicativos na Internet e em outras plataformas para a
empresa.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 27
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Desde 2000 atua como presidente do conselho da Internet Corporation para


Assigned Names and Numbers (Icann), e como cientista visitante no Jet
Propulsion Laboratory desde 1998. Foi presidente fundador da Internet Soci-
ety (Isoc), de 1992 a 1995, e esteve no conselho do Isoc até 2000. É Fellow da
IEEE, ACM, AAAS, da American Academy of Arts and Sciences, do International
Engineering Consortium, do Computer History Museum e da National Academy of
Engineering. É PhD em Ciência da Computação pela Ucla.

Na sua opinião, quais são as perspectivas para a dos carros ou em nosso próprio corpo. A eliminação de
Internet nos próximos dois anos? E como ela deverá fios permite o posicionamento flexível e facilita a recone-
estar daqui a dez anos? xão, à medida que os aparelhos são mudados de lugar. A
Existe, aproximadamente, 1 bilhão de usuários de instalação será apenas uma questão de ligar os aparelhos
Internet hoje e eu calculo que poderia haver até 3 bilhões e deixar que eles se tornem parte da rede local sem fio.
até o fim de 2010, se incluirmos nessa conta os usuários
de Internet que a acessam pelo celular. No longo prazo, eu A consolidação das grandes redes, especialmente
considero razoável estimar que três quartos da população a Internet, já definiu em todo o mundo novas relações
mundial estarão on-line por volta de 2017, se incluirmos sociais e econômicas. O que mais podemos esperar em
nesse número os usuários de celular. Eu espero ver uma relação a comportamentos, hábitos e valores?
capacidade muito maior em instalações avançadas – tal- Já estamos vendo um crescimento substancial
vez, uma evolução de 100 Mbps para 1 Gbps em alguns nas redes sociais e em grupos sociais com interesses co-
locais, daqui a 10 anos. Haverá um uso muito maior de muns. Essas ligações sociais são, em geral, de caráter
meios de transmissão broadcast (satélite, cabo) para dis- não-nacional, cruzando facilmente as fronteiras dos paí-
ponibilizar conteúdo de Internet para um grande número ses, apesar de, tipicamente, exigirem que os participantes
de usuários interessados em conteúdos comentados. Não tenham, ao menos, uma língua em comum. Estamos ven-
usamos broadcast para dados da Internet hoje, e isso seria do também um crescimento substancial nos ambientes
muito mais eficiente para conteúdos muito populares. virtuais (considerando Second Life, World of Warcraft,
Everquest e muitos outros jogos para vários jogadores).
Em que medida a disseminação das redes sem fio Esses ambientes irão evoluir até se tornarem úteis como
trará reflexos aos destinos da Internet? experiências educacionais, laboratórios virtuais, sistemas
Já existe um impacto substancial com os telefones para o desenvolvimento e pesquisa colaborativa. Tam-
celulares que se conectam à Internet. Eu considero que bém veremos muito mais bases de dados compartilhadas
esse será um importante meio de acesso aos serviços e (dados de imagens, científicos e econômicos, informa-
conteúdos da Internet nos próximos anos. O acesso à in- ções sobre saúde e similares).
formação via celular aumenta o valor das informações
georreferenciadas, de tal forma que, seja a pé, de carro Com relação à economia, quais os reflexos dessa
ou em outro veículo, a rede sem fio permite esse tipo de nova dinâmica e tendências para os negócios on-line?
acesso. Eu também espero que muitos aparelhos venham Fale das perspectivas de inovação.
a ser conectados à Internet por esse meio, em vez de usar A Internet criou um ambiente no qual a inovação
cabos. São aparelhos domésticos ou de escritório, dentro virtual é realmente sem fronteiras. Somos livres para

28 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

inventar novos ambientes à medida que aprendemos Freqüentemente, governos municipais ou estaduais tam-
como programá-los. Vamos também nos descobrir co- bém são bastante criativos no uso da Internet para ofere-
nectando o mundo real a esses ambientes, de forma que cer serviços às suas populações.
ações no mundo virtual terão conseqüências no mun-
do real (tais como controle de instrumentos científi- Diante da globalização e da convergência de tec-
cos, aparelhos domésticos, etc.). Na medida em que as nologias, pode-se falar de novos padrões éticos (ou de
pessoas se tornarem acostumadas a realizar negócios um novo conceito de ética)?
a qualquer hora do dia ou da noite, essas experiências Penso que nós realmente apenas precisamos enfati-
virtuais irão se tornar tão populares quanto os shopping zar os tipos de ética que sempre entendemos como apro-
centers de hoje. Já existem experimentos com propa- priados para a interação humana. Os abusos na Internet
gandas em mundos virtuais – uma coisa que tende a ser não são, na verdade, muito diferentes dos que ocorrem em
mais profundamente explorada nos anos que virão. Eu outras infra-estruturas. Os usuários precisam ser relem-
não vejo fim para a inovação no espaço virtualmente brados de que suas responsabilidades não param na tela
ilimitado da Internet. de seus monitores, que existem pessoas reais na Internet
com as quais eles estão interagindo e que são afetadas por
Como o Google trata a customização de seus ser- suas ações. Podemos ter que aplicar o pensamento ético
viços em função de exigências e peculiaridades legais e preexistente a novos ambientes tecnológicos e a noção do
culturais dos diversos países onde atua? que é aceitável pode mudar à medida que os modelos de
O Google possui equipes em muitas cidades de negócios forem adaptados ao ambiente digital on-line.
muitos países do mundo, cujo propósito é, em parte,
adaptar nossos produtos, serviços e estilos de condu- Sobre as comunidades virtuais: onde está a tênue
ta de negócios aos costumes e leis locais. Nós esta- linha divisória entre privacidade e impunidade?
mos bem conscientes de que a linguagem, cultura e O anonimato é importante em algumas circunstân-
os costumes variam e que os serviços on-line devem cias, como ao reclamar de um problema em uma empresa
ser adaptáveis para atender às necessidades locais dos ou no governo, sem o risco de retaliação, mas, como em
usuários. todas as coisas, o anonimato pode também ser usado para
lançar ataques traiçoeiros, para perseguir ou assediar os
Como os governos, de forma geral, têm utilizado a outros. É preciso encontrar um equilíbrio razoável entre
capacidade da Internet para melhorar a administração anonimato e a necessidade de identificar os que desrespei-
pública? Que países têm se destacado em infra-estrutu- tam a leis. Uma idéia é que, ao mesmo tempo em que as
ra e conteúdos? identidades não precisam ser públicas, um acesso especial
Fico impressionado com o fato de que muitos go- possa ser concedido aos órgãos reguladores, com devida
vernos estão usando a Internet como ferramenta para autorização, para identificar os participantes anônimos dos
oferecer serviços à população em geral, especialmente ambientes virtuais. Como já vimos ao longo da história,
para resolver dúvidas on-line, 24 horas por dia, usando mesmo esse equilíbrio pode ser distorcido para prejudicar
tabelas de perguntas freqüentes e sistemas para permitir a sociedade, através do abuso desse acesso especial e o
a realização on-line de transações, tais como registro e tratamento injusto de alguns membros da sociedade.
licenciamento de automóveis, pagamento de impostos,
solução de problemas, etc. Já vi inovações significativas Como eliminar/minimizar os crimes digitais, uma
na Nova Zelândia, Irlanda, Austrália e Romênia, para vez que os serviços gratuitos, de forma geral, não guar-
citar alguns países onde tive oportunidade de interagir dam a identidade de seus usuários?
diretamente com serviços governamentais on-line. Es- Deve-se insistir na identificação para aqueles servi-
sas inovações não estão confinadas ao âmbito nacional. ços onde pode haver abusos significativos.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 29
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Comente a “desnacionalização” da Icann. Como mundo está acessível igualmente para todos, na Internet,
se dá esse processo? e é importante manter esse acesso aberto como uma for-
A Icann está caminhando firmemente em direção ma de estimular as perspectivas de negócios internacio-
ao seu objetivo esperado de se tornar uma agência inde- nais para todos.
pendente, internacional e com interesses múltiplos. Ela
realmente foi pioneira no conceito de criação de políticas Ao conceber o embrião do que se tornou a Internet,
de múltiplos interesses que incluem não somente o go- o senhor tinha consciência da dimensão dessa criação?
verno, mas também o setor privado, a sociedade civil e Sabíamos que estávamos lidando com um podero-
a comunidade técnica. Seu relacionamento atual com o so conceito inovador e isso foi parte da motivação para
governo dos EUA evoluiu a ponto de deixar os diretores o desenvolvimento da tecnologia da Internet. Entretanto,
mais diretamente encarregados de cumprir as responsabi- eu não acho que tenhamos enxergado o que aconteceria
lidades assumidas pela Icann e haverá uma oportunidade, se um bilhão de pessoas estivesse on-line!!
em 2008 e 2009, para avaliar se já está na hora de liberar
a Icann de continuar com suas obrigações diretas com o Fale sobre o projeto da Internet interplanetária,
governo norte-americano e permitir que ela opere como em andamento no Laboratório de Propulsão a Jato da
uma entidade igualitariamente responsável por todos os Nasa. Quais as aplicações reais dessa rede?
que a entidade atende. Temos a intenção de usar esse novo conjunto de pro-
tocolos para dar suporte à exploração espacial humana e
Como as aplicações P2P têm influenciado na con- robótica. À medida que exploramos o Sistema Solar e seus
cretização de negócios relacionados ao entretenimento na arredores, vamos precisar de redes no espaço profundo
rede? Qual a dimensão desse tráfego hoje na Internet? cada vez mais poderosas para gerenciar todos os dispositi-
As transferências P2P podem consumir na ordem vos que irão sustentar essa exploração. Para superar o alto
de 50 a 70% de todo o tráfego da Internet. Cada vez mais, atraso e a queda freqüente nas comunicações no espaço
são transmissões de cópias legais de vídeo e áudio de en- profundo, nós desenvolvemos o que chamamos de Delay
tretenimento, à medida que a indústria da música e do ci- and Disruption Tolerant Networking Protocols (Protocolos
nema tira vantagem da economia do transporte e armaze- de Rede Tolerantes a Atrasos e Quedas) para permitir essa
namento digitais para distribuir seus produtos de maneira aplicação. Para surpresa nossa, esses mesmos protocolos
on-line. Novos modelos de negócio estão evoluindo para estão mostrando seu valor aqui na Terra, para comunica-
se adaptar a essa nova realidade econômica e aos padrões ções táticas em instalações militares e civis.
de comportamento dos usuários on-line.
Sobre a Internet 2: na sua opinião trata-se de uma
Como o senhor vê a posição das empresas brasi- tendência natural de evolução da web, um “golpe de
leiras de tecnologia no cenário mundial e suas perspec- marketing”, como dizem algumas pessoas, ou algo re-
tivas? O que fazer para melhorar essa participação? almente novo?
Apesar de ter tido interação apenas esporádica com Eu acho que o termo é mais ou menos uma expres-
as empresas brasileiras de tecnologia, eu considero que são de marketing, mas existe algo de concreto na idéia
suas perspectivas sejam tão boas quanto as de outros de que nossos processos de negócio ao redor do mundo
países. Na verdade, o Google adquiriu pelo menos uma deveriam ser capazes de interagir diretamente para gerar
empresa brasileira nos últimos anos e isso é uma amostra eficiência nas transações comerciais intercorporativas.
da qualidade e inovação que ela demostrou no espaço on- Assim, eu espero que realmente venhamos a assistir a
line. O Brasil tem uma economia doméstica forte e isso uma evolução significativa da comunicação comercial
deve propiciar a ele uma sólida plataforma para formatar como conseqüência da implementação dos protocolos
negócios internacionais no campo da alta tecnologia. O mais comumente associados a esse termo.

30 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Redecomep
Conhecimento em rede

A
Divulgação

té o final de 2008, 27 redes comunitárias metropolitanas esta-


rão operando em todo o país, visando à melhoria da qualidade
de interconexão entre instituições de pesquisa e educação. Trata-se do
projeto Redecomep (Redes Comunitárias de Educação e Pesquisa), que
conta com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (FNDCT), administrados pela Financiadora de Estudos
e Projetos (Finep). Cabe à RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) a
promoção da iniciativa junto às instituições de educação e pesquisa em
cada região metropolitana participante e a execução do projeto. José Luiz Ribeiro Filho

A integração das comunidades de pesquisa e educação superior,


por meio de infra-estrutura de comunicação de dados dedicada, adota tecnologias ópticas e prioriza
as cidades onde há facilidade para sua interconexão a um dos pontos de presença da rede Ipê, a rede
nacional acadêmica operada pela RNP.
O projeto foi inaugurado no dia 28 de maio de 2007, com o lançamento da Rede Metropolitana
de Belém – MetroBel, a primeira rede óptica metropolitana do país para a comunidade acadêmica.
Nesta entrevista, o coordenador nacional do Redecomep, José Luiz Ribeiro Filho, fala do pro-
jeto e dos benefícios que ele trará para as instituições participantes e pesquisadores.

José Luiz Ribeiro Filho é PhD em Ciência da Computação pela Universidade de Londres,
mestre pela Coppe Sistemas e engenheiro eletrônico pela UFRJ. Tendo iniciado sua carreira de
pesquisador no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ no início da década de 80, integrou e
liderou diversos projetos nas áreas de arquitetura de computadores e redes eletrônicas. Entre 1996 e
2000 esteve à frente da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), onde articulou, junto ao MCT e ao MEC,
a consolidação da instituição na gestão e operação da infra-estrutura nacional da rede acadêmica.
Posteriormente trabalhou na iniciativa privada.
Atualmente atua como consultor e está de volta à RNP, sendo responsável pela coordenação
nacional de projetos, entre eles o Redecomep (Redes Comunitárias Metropolitanas de Educação e
Pesquisa) e Rute (Rede Universitária de Telemedicina). José Luiz já participou também do Comitê
Gestor da Internet do Brasil (CGI.br) e representou o país e a RNP em diversos fóruns e entidades
internacionais, como a Internet Society (Isoc), Internet 2, Icann, Lacnic, entre outros.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 31
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

A implantação
das Redecomep
“Há duas linhas claramente distintas nesse traba- constituição do consórcio, que é formalizado com a cria-
lho. Uma de gestão e outra técnica. O primeiro passo visa ção de um Comitê Gestor. A partir daí, inicia-se o trabalho
a articular a formação de consórcios entre as instituições de caráter proeminentemente técnico, que inclui a elabo-
participantes, de forma que elas assegurem a gestão auto- ração dos projetos necessários para a implementação das
sustentada das redes após a implementação. A primeira redes, especificação e aquisição de equipamentos, execu-
fase do trabalho inclui atividades para reunir as institui- ção de obras, instalação, configuração e início de opera-
ções interessadas, apresentar o projeto e orientá-las na ção das redes. São ao todo sete as etapas de execução.”

Vantagens da infra-estrutura dedicada baseada em fibras ópticas


“Além de ser um meio físico pouco sujeito a pro- útil da fibra, prevista para exceder 20 anos. Além disso,
blemas de funcionamento, a capacidade de transmissão, os custos de instalação, manutenção e operação também
inicialmente ativada em 1 Gbps, é praticamente ilimitada, são comparativamente mais baixos do que a contratação
utilizando equipamentos relativamente baratos para ilu- de uma mesma capacidade (1 Gbps) das operadoras de
minação do cabo óptico. Outra vantagem é a longa vida telecomunicações atualmente.”

Atributos
“Uma Redecomep apresenta diversas vantagens custos com a infra-estrutura de acesso à Internet.
em relação às formas convencionais de interconexão das A Redecomep permite, ainda, a interconexão de
instituições de pesquisa e educação. A utilização de uma unidades de uma mesma instituição que se encontrem
rede de fibras ópticas dedicadas proporciona a possibili- localizadas em pontos distantes, mas dentro da área me-
dade de ampliação da capacidade de transferência de in- tropolitana, com qualidade e baixo custo. Ela facilitará a
formações virtualmente sem limites. Atualmente, as ins- integração dos diversos campi de instituições de ensino,
tituições utilizam conexão com capacidades de tráfego como acontece em geral com as universidades.
de dados na faixa de Mbps – usualmente entre 2 Mbps, 4 Além dos benefícios locais, a interconexão dessas re-
Mbps até 155 Mbps. Na Redecomep, a taxa inicial é de 1 des por meio da infra-estrutura acadêmica nacional de alto
Gbps. Para aumentar no futuro a taxa de transmissão de desempenho amplia a capacidade de cooperação e troca de
dados, as instituições terão apenas que trocar as interfa- informações para além dos limites do estado e do país.
ces de conexão, ao invés de negociar novos contratos de Na perspectiva da instituição é, portanto, a oportuni-
prestação de serviço. Essas condições vão permitir uma dade de se inserir, em termos de acesso à infra-estrutura de
grande melhoria na qualidade em relação aos serviços rede, no que de mais avançado existe no país, em nível de
atualmente contratados e uma economia significativa nos igualdade com as principais redes acadêmicas do mundo.”

A estrutura da rede Ipê


“A rede Ipê, inaugurada no final de 2005, é a quinta des de interconexão de 2,5 Gbps (RS, PR, SC, BA, PE,
geração da rede da RNP, que criou a rede acadêmica brasi- CE) e 10 Gbps (RJ, SP, MG, DF). Essa rede atende a mais
leira em 1992. Atualmente, entre os 27 pontos de presença, de 350 instituições brasileiras: todas as universidades fe-
10 estão operando com tecnologia óptica, com capacida- derais, centros federais de ensino técnico, escolas fede-

32 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

rais agrotécnicas, unidades federais de pesquisa e outras Education Networks/Links Interconecting Latin América
instituições de educação superior e de pesquisa públicas e (Whren/Lila).
privadas. Quanto ao que chamamos de Internet commodity, a
Além disso, a RNP possui conexões com redes rede Ipê participa de pontos de troca de tráfego no país
acadêmicas estrangeiras. São 155 Mbps para as redes da (SP e DF), estabelecendo acordos de peering com dezenas
América Latina, por meio da Cooperação Latino-Ame- de backbones comerciais. E, em março deste ano, a RNP
ricana de Redes Avançadas (Clara), e 1,24 Gbps para ampliou sua capacidade de comunicação com a Internet
a rede avançada dos Estados Unidos, Internet 2, por comercial, ultrapassando o limite de 1 Gbps de conexão
meio do projeto Western Hemisphere Research and com provedor nos Estados Unidos.”

Adesões
“As Redecomep estão na fase final de implanta- SC). No segundo semestre, teremos MetroPoa (Porto
ção em seis cidades. A primeira inauguração foi da rede Alegre, RS) e a GigaNatal (Natal, RN). Trabalhamos
MetroBel (Belém, PA). Em seguida, teremos MetroMao com uma estimativa de cobertura total de 1.200 km
(Manaus, AM), Rede Metropolitana de Brasília (DF), de fibras a serem lançadas para implementar todas as
MetroVix (Vitória, ES) e Remep-FLN (Florianópolis, redes.”

Tecnologia e
equipamentos
“A premissa básica para o desenvolvimento do atingir 1 Gbps em um par de fibras ópticas, com alcance
projeto da infra-estrutura de rede consiste na utilização de até 100 km sem repetidor. Serão utilizados comuta-
de fibras ópticas. Eventualmente, em situações espe- dores IP (switches ópticos) com capacidade para rotea-
cíficas, poderão ser utilizados enlaces de rádio de alta mento/filtragem de pacotes. Os switches deverão conter
capacidade. A tecnologia escolhida para ‘iluminação’ adaptadores ópticos (GBIC) para fibra monomodo, bem
da fibra é a Gigabit Ethernet, que permite atualmente como portas RJ45.”

Os benefícios para
a comunidade usuária
“Desde 2005, a atuação da RNP em termos de de recursos de rede que ainda não são adequadamente
infra-estrutura vem sendo ampliada para garantir que atendidas.
a evolução da rede nacional chegue até os laborató- Com o Redecomep, a RNP está levando a tecno-
rios, que a alta capacidade da rede esteja disponível logia de redes ópticas, implementada na rede Ipê desde
nos equipamentos de pesquisadores, docentes e alu- 2005, à última milha, permitindo que as instituições te-
nos. No Brasil, existem pesquisadores em áreas como nham acesso a condições de conectividade que podem
telemedicina, astronomia, física de altas energias, mudar o paradigma da forma de trabalho colaborativo
computação em grade, entre outras, que têm demandas de vários projetos.”

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 33
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Iniciativas viabilizadas
“Por exemplo, o novo acelerador de partículas país participante tenha à sua disposição uma determinada
do laboratório suíço Cern vai permitir a criação de quantia de horas por ano de acesso ao telescópio para
eventos de colisão de partículas que vão gerar uma captura de imagens que vão ser usadas em suas pesqui-
imensa ‘montanha’ de dados, da ordem de terabytes sas. Já há tecnologia para manipulação a distância do te-
por ano. Esses dados serão distribuídos para armaze- lescópio, mas a captura das imagens de alta qualidade
nagem e processamento em diversos equipamentos no geradas requer condições de conectividade de rede cuja
mundo inteiro, compartilhados por grupos de pesqui- relação custo/benefício ainda é proibitiva para as institui-
sa multidisciplinares que vão usá-los como base para ções de pesquisa.
seus projetos de pesquisa. Temos no Brasil pesquisa- Em telemedicina, os projetos para desenvolvi-
dores que participam de alguns desses projetos cola- mento de ferramentas para telediagnóstico e educação
borativos internacionais e que poderão participar mais a distância requerem a transferência e a manipulação
ativamente das atividades a partir do momento em que compartilhada de imagens de alta resolução e o uso
tiverem suas conexões ampliadas do patamar de Mbps de aplicações de comunicação e colaboração interati-
para Gbps. va que demandam conexões de rede de grande capa-
Outro exemplo é na área de astronomia. O Brasil cidade. O projeto Rede Universitária de Telemedicina
lidera um projeto internacional, chamado Soar, que man- (Rute) está equipando diversos Hospitais Universitá-
tém um telescópio instalado a 2.700 metros acima do ní- rios para incrementar os projetos de desenvolvimento
vel do mar na Cordilheira dos Andes, no Chile, onde as de aplicações e ferramentas que poderão ser usadas,
condições atmosféricas favorecem a observação celeste. posteriormente, no atendimento a pacientes das redes
O uso desse telescópio é organizado de forma que cada pública e privada.”

TV digital
“Há um outro impacto das redes de grande capa- os grupos de pesquisa que têm necessidades especiais,
cidade, que é mais amplo do que o que atinge labora- que lidam com grandes quantidades de dados. No médio
tórios de alguns institutos. A TV digital abre um novo prazo, ela viabilizará o compartilhamento mais intenso
capítulo na forma de empacotar o conteúdo audiovisual de conteúdo audiovisual, permitindo que a rede seja uma
para transmissão ao público. E as redes ópticas abrem um alternativa real para promoção da cultura por meio da
novo capítulo na forma de transmissão desse conteúdo. profusão de filmes, documentários e programas educati-
A alta capacidade que está sendo entregue às instituições vos, por exemplo, com o diferencial de oferecer recursos
participantes das Redecomep, de imediato, irá beneficiar de interatividade inexistente na TV convencional.”

34 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Comunidades virtuais

Comunidades agregam
milhões de pessoas em todo o mundo

A transposição das barreiras geográficas e tempo- de 50 milhões de usuários interessados em criar novas
rais, ocasionada pela capilaridade da rede mundial de amizades e desenvolver relacionamentos, revelando-se
computadores, revela claramente seus reflexos numa for- um fenômeno no Brasil, onde está o maior número de
ma inédita de organização social: a sociedade em rede, membros da comunidade: cerca de 55%. Já o Linkedln
na qual a facilidade e a velocidade de transmissão de (http://www.linkedin.com/), reúne mais de 11 milhões
informações criam uma nova dinâmica de comunicação de pessoas em todo o mundo cujo interesse se concentra
e relacionamento entre pessoas e organizações, com im- nas relações profissionais, desenvolvimento e oportuni-
pactos significativos nas relações econômicas e sociais. dades de carreira. Há ainda centenas de outros exemplos
Essa estrutura social conectada predispõe à forma- de sucesso, como o Facebook (www.facebook.com) e
ção de comunidades virtuais, que agregam indivíduos MySpace (www.myspace.com).
não pela sua proximidade geográfica, como nos moldes Não só usuários pessoas físicas se deixam levar
tradicionais, mas com base na identificação de interes- pela onda do relacionamento virtual; grandes corpora-
ses comuns. As redes de relacionamento, em especial, ções já descobriram no serviço uma mídia alternativa
encontram novos adeptos em todo o mundo e crescem de relacionamento com seus clientes e com o mercado,
a uma velocidade que ultrapassa a da própria tecnologia. e mantêm na linha de frente altos executivos para manu-
São sites como Orkut, Friendster, MySpace e LinkedIn. tenção de seus diários na Internet. Além de um veículo
A especialista em cultura e midiologia das socieda- de divulgação de produtos e serviços, a consulta a blogs
des contemporâneas, jornalista Cynthia Watanabe Cor- é considerada uma fonte interessante de dados e informa-
rêa, afirma que “o ciberespaço potencializa o surgimento ções para compor sistemas de inteligência de mercado e
de comunidades virtuais e de agregações eletrônicas em CRMs, agregando dados retirados dos sites de seus di-
geral, que estão delineadas em torno de interesses co- versos públicos de relacionamento.
muns, de traços de identificação, pois ele é capaz de apro- Segundo o presidente da Assespro-MG, Túlio Orne-
ximar, de conectar indivíduos que talvez nunca tivessem las Iannini, a Internet chegou nesse momento a seu ponto
oportunidade de se encontrar pessoalmente. Ambiente principal, em que a colaboração e a interatividade de fato
que ignora definitivamente a noção de tempo e espaço se consolidam e passam a configurar novas relações na
como barreiras”. grande rede. “Num primeiro momento, sua utilização se
Essas comunidades se estruturam sobre idéias, va- restringia à circulação de informações e enquetes. De-
lores e emoções comuns, num leque tão variado de te- pois, foram surgindo as comunidades virtuais, com maior
mas quanto a mente humana é capaz de pensar. Entre interação entre os usuários. Os blogs introduziram uma
as maiores comunidades virtuais destacam-se o Orkut forma mais efetiva de interação, que foi a colaboração e
(www.orkut.com), filiado ao Google, que reúne mais o compartilhamento de conteúdos.”

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 35
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Realidade em mundo paralelo


De fato, o cresci- Trata-se de um ambiente em que o usuário tem li-
mento das tecnologias berdade para definir até mesmo sua aparência física, e
de rede tem viabilizado transformá-la sempre que quiser. Os brasileiros são os
maior interação entre primeiros a possuir uma entrada própria para o Second
computadores de todo Life, em português: as empresas Kaizen Games e IG
o mundo, colaborando lançaram a edição brasileira desse universo virtual
efetivamente para a sustentação do fenômeno da globali- (www.secondlifebrasil.com.br), que facilita o acesso
zação. Uma nova “moda” na Internet, no entanto, extra- em idioma português e permite a compra, em reais, de
pola a dimensão das redes virtuais e propõe a construção Kaizen Dollars, moeda intermediária para aquisição de
de um mundo paralelo, que já conta com uma população Linden Dollars. Podem usar também cartão de crédito
de mais de 7,5 milhões de habitantes e que adota, até mes- nacional ou boleto bancário.
mo, moeda própria, que pode ser adquirida em dólares. Para o segmento empresarial, Second Life é mais
Trata-se do Second Life – segunda vida, ou vida paralela que um espaço de interação, um novo canal de divulga-
– um território aberto a qualquer internauta, criado em ção de marcas, serviços e produtos. Grandes empresas
2003 pela empresa norte-americana Linden Lab. multinacionais apostam no retorno de investimentos para
O Second Life é definido como um mundo tridi- seus negócios em lojas virtuais e utilizam o ambiente pa-
mensional, em ambiente virtual, onde tudo acontece a ralelo para testar lançamentos antes de se arriscarem no
partir da criatividade e interesse de seus próprios habitan- mundo real. E a mania já chega também às organizações
tes, os avatares, que são, por sua vez, criações personali- brasileiras. Termos como residente, que descreve o ha-
zadas de seus correspondentes humanos. Essas criaturas bitante do Second Life; avatar e metaverso compõem o
costumam referir-se ao mundo que as criou como real vocabulário do idioma desse novo mundo.
life, vida real.
No entanto, a linha que separa esses dois mundos
que coexistem em dimensões vizinhas apresenta interse-
ções que criam um contato comum às duas realidades: a
moeda local de lá, o Linden Dólar, é pura vida real, e deve
ser comprada com dólares do mundo de cá. Os valores
apurados em negócios realizados no Second Life têm cor-
respondência direta e lucrativa com o dinheiro do mundo
real, movimentando milhões de dólares.

36 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
Redes de comunicação:
a vida social da informação
Mário Flecha*

P ara refletir sobre a vida social da informação


na era das redes de comunicação é importante
ter em mente o uso do conceito de redes como um
fator de instabilidade para governos e trabalhado-
res também em países desenvolvidos, uma vez que
reduzem a arrecadação de impostos, geram desem-
dos pivôs das múltiplas transformações de que so- prego e enfraquecem a economia interna.
mos agentes e pacientes na interseção do local com Embora seja questionável enquanto benefício
o global. econômico a longo prazo, offshoring gera empre-
Tal interseção tem gerado termos tais como gos em regiões menos favorecidas e pode fortalecer
“glocalização” e “glocalismo”, que se referem ao economias nacionais, criando novas oportunidades
aspecto de como a globalização se instala localmen- de inserção no mercado global.
te, modificando relações sociais e identidades, as- A mão-de-obra canadense é uma opção de
sim como conceitos de proximidade, tempo e con- offshoring que envolve trabalho altamente especia-
vivência, entre outros. lizado a custos mais reduzidos. Isso ocorre princi-
O uso da Internet permite articular movimen- palmente entre as economias canadense e estaduni-
tos sociais em nível local, mas sincronizados em es- dense, porque a moeda canadense é em geral mais
cala nacional ou global. Exemplos notórios são os barata que a dos EUA.
protestos internacionais simultâneos contra a guerra No Canadá, os governos provinciais e muni-
do Iraque, as ações ecológicas em diferentes pontos cipais se esforçam no sentido de competir e oferecer
do planeta e os protestos contra decisões de cúpula a os melhores serviços públicos possíveis. Uma socie-
portas fechadas em termos de comércio mundial. dade menos violenta e com menos excluídos, o país
A dimensão local do nacionalismo, por exem- exibe uma renda individual média alta o suficiente
plo, nos dias de hoje é diferente daquela de antes das para gerar uma renovação constante de bens eletrô-
redes, porque requer também ser internacionalista nicos e um efeito cascata que possibilita aos cana-
para se inserir na rede da economia e sociedade glo- denses com poder aquisitivo mais baixo usufruir de
bais (isto vale tanto para indivíduos quanto para so- equipamentos bastante atualizados. A competição
ciedades inteiras, aqui no Canadá ou aí no Brasil). por mercado também favorece o controle de preços
As grandes corporações transnacionais, por no setor de tecnologias de informação e comunica-
sua vez, se beneficiam de condições locais de riqueza ção, principalmente para uso doméstico.
enquanto são favoráveis. Não se prendem ao limite Em função da grande disponibilidade de in-
geográfico e temporal e exercem uma influência so- fra-estrutura de redes de comunicação, os governos
bre os governos que muitos têm considerado como canadenses buscam diversificar os meios de oferta
uma das razões da erosão do ideal democrático. de serviços públicos. Naturalmente a Internet é um
O uso de offshoring para reduzir o custo do dos canais mais utilizados, mas também a telefonia
trabalho e evitar legislações mais exigentes é um e os correios, entre outros. Telefonia fixa a custo

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 37
fixo e baixo e um mercado competitivo permitem As redes estão por toda parte em um intenso e
oferecer chamadas gratuitas entre Canadá e Estados dinâmico mercado de bens de consumo. Entretanto,
Unidos. o sistema bancário brasileiro oferece mais produtos
Em Alberta, uma rede provincial de fibras e facilidades, pelo que pude verificar. O mesmo se
ópticas – a SuperNet – está estendida aos pontos aplica ao sistema de votação, que por aqui ainda é
mais remotos da província, cuja área é pouco maior manual. Entretanto, um lado positivo que demons-
que a de Minas Gerais. A SuperNet possibilita um tra uma cultura da confiança no Canadá é o fato de
sem-número de novos usos e serviços públicos e que só no ano passado é que se começou a exigir
privados, incluindo videoconferência, aprendizado, a apresentação de algum documento com foto que
comércio e aplicações robóticas tais como atos ci- identifique o eleitor (o voto não é obrigatório).
rúrgicos a distância. A rede está em seus primórdios, No Canadá, assim como no Brasil, os setores
mas as possibilidades são muitas e já começam a ser mais organizados, informados e críticos da socieda-
exploradas. A SuperNet insere a economia de Alber- de operam em redes de suporte e estão em conexão
ta na economia global de forma efetiva e definitiva. com seus pares em outros países. O poder do cida-
A dissemina- dão consciente e instruído para a vida em sociedade
“A disseminação de ção de redes de al- é ainda a força motriz da democracia canadense. Há
tíssima velocidade mecanismos de consulta direta ao público, incluindo
redes de altíssima
cria também um de- a Internet, mas não creio que algum tenha atingido
velocidade cria também safio positivo para o nível de sofisticação e democratização oferecido
um desafio positivo para a expansão de ini- pelo orçamento participativo da Prefeitura de Belo
a expansão de ciativas voltadas ao Horizonte, que é referência internacional.
iniciativas voltadas ao governo eletrônico Seria benéfica a promoção de parcerias e
governo eletrônico centrado no cida- trocas de experiência mais intensas entre Canadá e
centrado no cidadão...” dão, a consolidação Brasil, entre províncias e estados tais como Alberta
de serviços pres- e Minas, que a meu ver têm surpreendentes seme-
tados por diversos lhanças e saudáveis diferenças. As redes de conhe-
órgãos públicos em um ponto integrado de acesso cimento são o recurso mais valioso potencializado
e a expansão do comércio eletrônico, entre outras pelas redes de comunicação, pois é com elas que
atividades tais como aprendizado e pesquisa. podemos acompanhar a dinâmica destes tempos.
O aprendizado a distância está bastante disse- Winston Churchill cantou a pedra do que hoje
minado e maduro em praticamente todos os níveis é ainda mais evidente: “We are shaping the world
de escolaridade. É comum, por exemplo, famílias faster than we can change ourselves, and we are
residentes no exterior por um período prolongado de applying to the present the habits of the past”.
tempo manterem seus filhos estudando e cumprindo
o currículo de suas escolas através da Internet.
O aprendizado de adultos oferece um número
variado de opções, incluindo graduação em nível de
mestrado. A Universidade de Athabasca é líder em
ensino superior a distância e tem alunos de diver-
sos pontos do planeta participando de atividades de * Mário Flecha
aprendizado em grupo ou individualizado. Mestre em Administração Pública com ênfase em
Bibliotecas públicas existem em grande nú- Informática (Escola de Governo da FJP e UFMG/
DCC - 1ª turma). Director Enterprise Architecture
mero, em rede, disponíveis pela Internet, com servi-
for Alberta Justice and Attorney General Ministry,
ços automáticos de mensagens telefônicas de aviso Edmonton, capital de Alberta, Canadá
de disponibilidade de itens requisitados. 2003 Premier’s Award of Excellence.

38 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
Uso indevido
dos sistemas
Renato Opice Blum*

Divulgação
é responsabilidade
do empregador?
Camilla do Vale Jimene*

S erá que um e-mail de conteúdo ilícito, envia-


do por empregado, através da conta de e-mail
corporativa, durante a jornada de trabalho e através
de trabalho, agilizando todos os seus procedimentos
internos e externos, haja vista a rapidez e agilidade
que o mercado exi-
dos sistemas de informação disponibilizados pelo ge nos dias atuais. “O nosso Código
empregador, pode gerar responsabilidades a este Concomitantemen- Civil adota o
último? te, a corporação sistema da
No Brasil, a questão é polêmica. O nosso Có- está fornecendo ao responsabilidade
digo Civil adota o sistema da responsabilidade ob- empregado um ins-
objetiva, ou seja, há
jetiva, ou seja, há responsabilidade do empregador, trumento que pode
independentemente de culpa, pelos atos praticados ser utilizado para a
responsabilidade do
por seus empregados, serviçais e prepostos, no exer- prática de inúme- empregador,
cício que lhes competir ou em razão dele, existindo ros ilícitos, que vão independentemente de
obrigação de reparação do dano. desde um simples culpa, pelos atos
Imagine só o problema: a empresa precisa e-mail que gere res- praticados por
fornecer ao empregado o acesso à Internet e o en- ponsabilidade em seus empregados...”
dereço de e-mail, para que sirva como ferramenta indenizar por danos

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 39
morais, até mesmo a prática de concorrência desle- é responsável pela indenização dos danos morais
al, com a divulgação de informações confidenciais sofridos por este.
da companhia. Desse modo, não obstante todos os riscos
Nesse sentido, a Corte de Recursos da Ca- jurídicos inerentes à atividade empresarial, os ad-
lifórnia, em recentíssima decisão, entendeu o con- ministradores deparam-se com uma nova realida-
trário. O posicionamento foi consubstanciado no de, na qual os meios eletrônicos disponibilizados
entendimento de que o empregador não pode ser a seus empregados como ferramentas de traba-
responsabilizado por e-mails de conteúdo ilícito lho podem gerar responsabilidades trabalhistas,
que não se relacionam com a atividade da empresa, cíveis e criminais às corporações, pelo uso indis-
ainda que diante da utilização indevida de seus sis- criminado.
temas durante a jornada de trabalho. Sem legislação específica que regulamente o
Nesse caso, o autor da ação recebeu mensa- tema e diante dessa nova situação de extremo risco
gens eletrônicas ameaçadoras, advindas da conta de jurídico, resta às empresas, como estratégia de defe-
e-mail corporativa sa, a adoção de medidas jurídicas para proteção do
“... os meios eletrônicos da empresa Agilent patrimônio pela segurança da informação, resguar-
disponibilizados a seus Technologies Inc. dando as corporações quanto aos delitos praticados
e, sentindo-se le- por meios digitais, gerando maior conforto jurídico
empregados como
sado, moveu ação em casos de demandas semelhantes à que tramitou
ferramentas de trabalho em face da mesma, na Corte Californiana.
podem gerar utilizando como Além do objetivo principal de proteção da
responsabilidades argumento a teoria empresa, os instrumentos jurídicos certamente re-
trabalhistas, cíveis e da responsabilida- fletirão na produtividade e qualidade do trabalho
criminais às de do empregador desenvolvido, pois através deles é possível adotar a
corporações...” pela negligência na monitoração de e-mails e limitar o uso das máqui-
supervisão de seus nas para fins estritamente profissionais, criando fa-
empregados, teoria tores inibidores para a navegação imprópria durante
essa também adotada pelo ordenamento jurídico a jornada de trabalho, ou, como no caso norte-ame-
brasileiro. ricano, evitar que a empresa seja responsabilizada
Os e-mails objeto da demanda foram envia- pelo uso indevido de seus sistemas.
dos pelo empregado da sua estação de trabalho, a
partir do computador instalado no escritório da
Companhia. Porém, de forma muito coerente, a
Corte decidiu que a conduta indevida praticada pelo
empregado foge por completo do escopo da empre-
sa, devendo a mesma ser imunizada em relação à
má utilização de seus sistemas informáticos, com
base na interpretação do Communications Decency
Act (Ato da Decência das Comunicações), afastan-
do-se assim a responsabilidade pelo ilícito. * Renato Opice Blum
No Brasil o cenário jurídico não é conclu- Advogado e economista; professor da FGV, PUC,
sivo. Inclusive, em recente julgado, o Tribunal Ibmec/IBTA (convidado) e outras instituições;
árbitro da Câmara de Mediação e
Regional do Trabalho da 4ª Região (Rio Grande
Arbitragem de São Paulo (Fiesp).
do Sul) entendeu que o empregador, ao deixar de
tomar providências para apuração de envio de e- * Camilla do Vale Jimene
mails de conteúdo ofensivo à honra do empregado, Advogada e professora de Direito Eletrônico.

40 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Arte digital sobre foto de Nelson Jr./ASICS/TSE e da Intel

A evolução das tecnologias de rede e de


telecomunicações aplicadas à ampliação e evolução
Internet
consolidação de serviços públicos tem encontrado eco
em inúmeras iniciativas em todo o mundo. O emprego,
pelas administrações públicas, de redes metropolitanas,
por exemplo, possibilita o tráfego de várias aplicações
e serviços como acesso à Internet, videoconferência,
VoIP e dados. Nesta edição, duas experiências reais videoconferência
comprovam a eficácia dessas soluções em propostas de
melhoria de atendimento, inclusão digital e cidadania. tecnologias
Wi-Fi
Em Parintins, na ilha fluvial de Tupinambarana,
no rio Amazonas, convivem a tradição de um dos
eventos mais conhecidos do país, a festa do Boi-
Bumbá, e uma iniciativa tecnológica inovadora

telecomunicações
e pioneira: uma rede sem fio que utiliza sinais de

tráfego
satélite e as tecnologias Wi-Fi e Wimax para integrar
escolas, comunidade e um posto de saúde e conectá-
los ao mundo por meio da Internet.

Wimax
Em outra experiência, esta conhecida da
grande maioria dos brasileiros, a Justiça Eleitoral

digital
reúne pessoas, processos e tecnologia para realizar a
maior eleição informatizada do mundo, que tem sido
referência para vários países, possibilitando o mesmo
padrão de atendimento no ato da votação a todos os
eleitores, em qualquer ponto do país.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 41
1
1 Satélite
2 Antena de transmissão da Embratel
3 Wimax 4
Estação Rádio Base – é a estação fixa do Serviço Móvel Espe-
5
cializado usada na radiocomunicação com estações móveis
4 Customer Premises Equipament – roteadores para rede sem fio 6
10
5 Access point – ponto de acesso sem fios
6 Os computadores têm acesso à Internet por meio de rede 7 9
sem fio
8
7 Switch 4
Os switchs criam uma espécie de canal de comunicação ex-
5
clusivo entre origem e destino. Dessa forma, a rede não fica
“presa” a um único computador no envio de informações 6
8 Servidor de Vídeo: onde serão armazenados os vídeos das 2
3

Imagem: infograma da rede


conferências
9 Gerenciador de Access Point: computador que coordena a dis-
tribuição do sinal
10 Polycom – equipamento utilizado para realizar as videoconfe-
rências

Divulgação
Na Amazônia,
comunidade se conecta ao mundo
por rede sem fio
No interior do estado do Amazonas, a 369 km Nucci, o projeto de implantação da rede wireless
de Manaus, a cidade de Parintins, famosa pela rea- em Parintins tem um caráter inovador e baseia-se no
lização da Festa do Boi, detém agora a posição de conceito de uso da tecnologia a serviço de benefí-
primeira cidade do mundo a utilizar uma rede de cios consideráveis para a comunidade. A escolha da
comunicação de alta velocidade integralmente sem cidade, de 113 mil habitantes, considerou uma série
fio. A tecnologia wireless, implantada em setembro de peculiaridades: “o fato de ser um local bastante
de 2006, suporta uma rede de 80 computadores e remoto, com uma população significativa que pode-
interliga duas escolas, um posto de saúde e um cen- ria se beneficiar da iniciativa, além dos obstáculos
tro comunitário. Num dos locais mais remotos do relevantes do ponto de vista tecnológico e de trans-
Brasil, na margem direita do rio Amazonas, a ilha porte. Afinal a cidade está no meio da floresta”.
fluvial de Tupinambarana está conectada com o A rede foi inaugurada em setembro de 2006,
mundo através de uma rede que utiliza sinais de sa- após apenas seis semanas de trabalho das equipes
télite, Wi-Fi e Wimax, num projeto sustentado pela técnicas na construção de toda a infra-estrutura e
parceria de empresas públicas e privadas. instalação dos equipamentos. Segundo Elaine Nuc-
A iniciativa faz parte do Programa World ci, esse período compreendeu desde a fase de iden-
Ahead, da Intel, que prevê investimentos de mais de tificação das características do local até a inaugu-
US$1 bilhão em todo o mundo, ao longo dos próxi- ração da rede. “Um grande desafio, especialmente
mos cinco anos, para acelerar o acesso à Internet e à pela característica inovadora do projeto, que conju-
tecnologia para as pessoas de comunidades em de- ga satélite, Wimax e Wi-Fi, algo muito complexo.
senvolvimento. Dessa forma, no caso de Parintins, É a primeira vez, no mundo, que uma rede opera
foram envolvidas no projeto as Universidades Fe- totalmente sem fio”, afirma.
deral e Estadual do Amazonas, a Faculdade de Me-
dicina da Universidade de São Paulo, Cisco, CPqD, Sustentabilidade
Embratel, Proxim e Fundação Bradesco.
Segundo a gerente de desenvolvimento de ne- O backbone da rede de Parintins é estrutura-
gócios Wimax para América Latina da Intel, Elaine do a partir do uma conexão via satélite de 1 Mbps.

42 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Trata-se de uma conexão satélite full duplex – do- que coordena a distribuição do sinal; e equipamen-
tada de um dispositivo transmissor e outro receptor to específico para a realização de videoconferências
– que pode transportar dados simultaneamente em (Polycom). Além dos computadores, no posto de saú-
ambos os sentidos, viabilizando o tráfego de volu- de são utilizados dois notebooks, que permitem maior
mes maiores de informações. mobilidade à equipe médica em seus atendimentos.
A partir da antena de transmissão da Embratel A Intel doou as estações instaladas nas escolas,
instalada na cidade, o sinal é direcionado para a Es- no posto médico e centro de saúde, totalizando 80
tação Rádio Base (ERB), uma antena fixa a partir da equipamentos, uma média de 25 computadores em
qual o sinal de radiocomunicação Wimax é propaga- cada local. Coube ao CPqD o planejamento e projeto
do para duas escolas, um posto de saúde e um centro das redes Wi-Fi e Wimax, as especificações, instala-
comunitário, conectando um total de 80 computado- ções e configurações dos equipamentos, além da inte-
res entre si e à Internet. “Utilizamos uma freqüência gração de todos os parceiros envolvidos no projeto.
licenciada pela Anatel, a 3,5 GHz, por intermédio Segundo a gerente da Intel, a conexão “ilu-
de parceria com a Embratel, que tem autorização mina” toda a ilha, permitindo, inclusive, expansões
para operar nessa freqüência”, explica Elaine Nucci. futuras. “No momento estamos avaliando a estrutura
Nos locais ligados à rede, foram instalados rotea- atual, analisando resultados, mas há possibilidade
dores para rede sem fio que permitem que os com- de expansão. Nosso foco, agora, é o aprendizado
putadores possam ser usados sem a necessidade de com essa experiência.” Até a implantação do proje-
cabeamento. Localmente, a velocidade de transmis- to wireless, a cidade contava apenas com uma cone-
são pode chegar a 75 Mbps. “Com uma antena, foi xão de 64 Kbps.
possível cobrir a ilha inteira – 7.000 km2.”
Os equipamentos utilizados são todos cer- Conteúdos
tificados pelo Wimax Fórum. “Embora não esteja
sendo explorada comercialmente, é um modelo real, A implantação da rede de Parintins trouxe à
que poderia ser comercial, e está no ar com susten- comunidade local novas perspectivas, especialmen-
tabilidade, a partir de uma iniciativa de parceria pú- te nas áreas médica e educacional. O equipamento
blico–privada.” para videoconferência tem viabilizado uma série
Compõem a estrutura da rede switches, um de capacitações e treinamentos dirigidos às equi-
servidor de vídeo, que armazena vídeos de capaci- pes médicas, técnicas e professores, com apoio das
tação; gerenciador de access point, um computador Universidades Federal e Estadual do Amazonas e
Divulgação

Chairman da Intel,
Craig Barrett, na
inauguração da rede
Janeiro/Junho de 2007
F onte
Fonte
em escola de Parintins 43
da Faculdade de Medicina da Universidade de São da iniciativa, especialmente ao considerar os obstá-
Paulo. Segundo a assessoria de imprensa da Intel, a culos geográficos que dificultam que a cidade rece-
Universidade da Amazônia está iniciando um pro- ba o cabeamento necessário para acesso à Internet
grama de telemedicina em conjunto com a Facul- por meio de redes tradicionais. “A partir de agora,
dade de Medicina da Universidade de São Paulo. A recebemos acesso sem fio, por meio de antenas e
tecnologia prevê interação por vídeo em tempo real de satélites, o que representa uma grande conquista
entre especialistas e pacientes separados por milha- para a região. Esse projeto preparará essa nova ge-
res de quilômetros, permitindo que os 32 médicos ração para o futuro.”
da cidade tenham acesso rápido aos últimos dados Com relação ao custo do projeto, Elaine Nucci
médicos ou opiniões de especialistas. compara a implantação da rede wireless de Parintins
O posto de saúde da cidade tem agora, com com uma solução similar, construída em tecnologia
a conexão em banda larga, a perspectiva de contar tradicional, com cabeamento. Segundo ela, o fato
com atendimento de especialistas em diversas áreas de dispensar o lançamento de cabos e eventuais rea-
médicas. Além da capacitação sistemática e recicla- lizações de obras reduz significativamente o tempo
gens, os profissionais de saúde contam com o recur- necessário para instalação da estrutura e também o
so da segunda opinião médica. Uma das ferramentas custo, tornando a tecnologia Wimax até dez vezes
para procedimentos dessa natureza é a utilização de mais barata que a tradicional.
uma câmara que amplia as imagens em até 50 vezes.
“Quando não é possível fazer diagnósticos em casos Programa
mais específicos, por falta de especialistas, há o re-
curso de produção de vídeos e fotos”, explica Elaine O Programa World Ahead existe desde abril
Nucci. O programa já tem pelo menos 40 pessoas de 2006 e prevê investimentos de US$ 1 bilhão nos
com acompanhamento a distância. próximos cinco anos, a fim de viabilizar acesso à
Na área educacional, um total de 1.500 alunos Internet e à tecnologia em geral a comunidades me-
da rede pública utiliza os laboratórios montados nas nos privilegiadas. Elaine Nucci enfatiza que o prin-
duas escolas, funcionando em três turnos: manhã, tar- cipal objetivo do programa é prover oportunidades
de e noite. Eles aprendem conteúdos relacionados ao para que essas pessoas participem da comunidade
uso da informática e ampliam seu universo de pes- global, “um progresso substancial para pessoas que
quisa através da Internet. Em Parintins, o programa estão se beneficiando dessas redes”. A meta é esten-
treinou 24 professores em técnicas de ensino para uso der o acesso sem fio por banda larga a mais usuários
da tecnologia, a fim de melhorar a maneira como os e treinar professores no uso da tecnologia na edu-
alunos aprendem e envolve ainda monitores, que atu- cação.
am em salas de aula apoiando os alunos. Ela explica que são quatro os pilares que
Além dos benefícios para a saúde da popu- sustentam o programa: acessibilidade, na forma
lação e para a educação, os recursos do acesso em de acesso a computadores a preços competiti-
banda larga atendem os mais variados públicos e vos; conectividade, em banda larga; educação,
interesses. O centro comunitário recebe pessoas treinando professores e usuários; e conteúdo,
de faixas etárias e interesses variados. O serviço permitindo que um número maior de comunida-
é utilizado, por exemplo, para cursos de inglês e des se prepare melhor para a sociedade da infor-
espanhol. “A cidade tem um grande apelo turísti- mação.
co; os motoristas de táxi estão aperfeiçoando seu Os resultados, segundo Nucci, são excelen-
trabalho, aprendendo outros idiomas”, acrescenta tes: “o objetivo era construir um projeto que com-
Nucci. provasse o modelo de PPP, a fim de que governos se
Na inauguração da rede wireless, o prefeito de motivem e se sensibilizem para essa tecnologia; o
Parintins, Frank Bi Garcia, ressaltou a importância objetivo é replicar a experiência”.

44 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Tecnologia viabiliza
as maiores eleições eletrônicas do mundo
Nelson Jr./ASICS/TSE

Periodicamente uma estrutura ampla e de


grande complexidade é acionada para a realização
das eleições eletrônicas no Brasil. Uma rede de pro-
fissionais especializados gerencia uma rede de com-
putadores que adota as mais variadas tecnologias de
comunicação e trabalha de forma permanente para
garantir a maior eleição informatizada do mundo.
No último pleito, em 2006, quando houve eleições
gerais, foram envolvidos no processo cerca de 126
milhões de eleitores, que utilizaram 430 mil urnas
eletrônicas em 380 mil seções eleitorais. Esse pleito
é considerado o mais célebre da história das elei-
ções informatizadas: o resultado do segundo turno
pôde ser divulgado apenas três horas após o encer- Giuseppe Janino
ramento da votação.
Segundo o secretário de Tecnologia da Infor-
mação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Giu- transmitidos então para os respectivos TREs, que
seppe Janino, todo o processo é amparado por uma fazem a totalização das regionais e enviam as in-
rede que interliga todos os TREs (Tribunais Regio- formações para o TSE.
nais Eleitorais), com grande capilaridade para os Giuseppe Janino explica que “os cerca de 8,5
cartórios eleitorais, utilizando a topologia em estrela milhões de km2 do território brasileiro naturalmente
– conexão feita a partir de um nó central, que exer- têm locais sem qualquer infra-estrutura, onde não
ce controle sobre a comunicação. “Há um backbone há sequer energia elétrica. É justamente nesses lo-
principal contratado, ligando o TSE aos TREs”, ex- cais onde se evidencia maior necessidade de uso
plica. “E um backbone secundário, ligando os TREs da tecnologia”, constata. Ele cita como exemplo o
aos cartórios eleitorais. São 27 pontos ligados pelo no-break e notebooks para fazer o encerramento das
backbone principal e 3.000 pelo secundário. Trata- urnas. E ainda a transmissão das informações via
se de uma rede privativa, fechada e dotada dos mais satélite. “Só a tecnologia pode garantir a participa-
modernos dispositivos de segurança.” ção dessas regiões mais remotas nos mesmos mol-
A rede é permanente e utiliza opções varia- des adotados nas cidades maiores”, acrescenta.
das de tecnologias de transmissão, como satélite e Com esses recursos, a realização de eleições
fibra óptica. Trata-se de uma rede exclusiva, não informatizadas já é realidade em 100% dos locais
compartilhada por outros usuários. As urnas não de votação. A história teve início em 1996, primeira
são conectadas a essa estrutura, funcionando de eleição que adotou as urnas eletrônicas e contem-
forma autônoma. Encerrada a votação, cada urna plou 34% dos eleitores. “O projeto foi desenvolvido
gera um disquete criptografado, contendo os da- pelos técnicos da Justiça Eleitoral”, explica Janino.
dos relativos àquela seção, que é encaminhado ao A partir de processo licitatório, foi contratado um
cartório eleitoral. Essa unidade – o cartório – está parceiro para fabricação dos equipamentos confor-
ligado à rede, o que permite que os dados sejam me as especificações determinadas pelo Tribunal.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 45
Nelson Jr./ASICS/TSE
Urnas eletrônicas

O sistema operacional foi utilizado até as eleições de software e cadastramento das digitais”, garante
de 2000: o VirtuOS, da Microbase. Janino. “Pretendemos em 2008 adotar a identifica-
A partir de 2002 e ainda em 2004 e 2006, o ção biométrica, que dará ainda mais credibilidade
sistema operacional instalado foi o Windows CE, da ao processo, uma vez que comprovará, por meio da
Microsoft. O sistema utilizado nas eleições foi de- digital, que aquele eleitor é, de fato, a pessoa que se
senvolvido pelo TSE, que trabalha com uma equipe apresenta.”
de cerca de 200 pessoas da área de TI. “Há também Para medidas como essa, ele explica, “a
equipes de TI dos TREs; podemos estimar nossa orientação da equipe é para a melhoria contínua: a
equipe em torno de 2 mil profissionais na Justiça cada eleição há necessidade de introdução de novas
Eleitoral”, explica o secretário de TI do TSE. urnas, devido ao crescimento demográfico. Dentro
Além da equipe dedicada do TSE e dos tribu- dessa premissa, nossa preocupação não se dirige
nais regionais, são envolvidos em torno de 11 mil apenas aos processos, mas também aos equipamen-
técnicos, contratados para logística de apoio às elei- tos: novas tecnologias são pesquisadas e agrega-
ções, com formação na área de informática. Essas das”.
pessoas são responsáveis pelo suporte a equipamen- Além dos aspectos tecnológicos, ele enfati-
tos e substituição e verificação de urnas. “Além de za a importância de “processos bem definidos, bem
cerca de 2 milhões de voluntários – lembra Janino estruturados, com foco também na logística e segu-
– os mesários, que também são capacitados pela rança”. O secretário do TSE acrescenta que, embora
Justiça Eleitoral.” a urna eletrônica seja muito importante, ela é ape-
O trabalho das equipes de TI dos tribunais não nas parte um grande processo que garante o suces-
pára. “A atividade é permanente”, explica Giuseppe so das eleições brasileiras. “É algo complexo, que
Janino. “Tão logo termina uma eleição, a equipe contempla aspectos como a atualização tecnológi-
se prepara para a próxima. No pleito de 2006, logo ca, segurança, transparência e confiabilidade. Essas
após o término das eleições, foi realizada a reunião preocupações estão na cultura da instituição. O TSE
de avaliação, com discussão dos pontos positivos e é certificado com o ISO 9001, estamos investindo
negativos para acertos e adequações que serão im- no nosso planejamento estratégico, implementan-
plementados no próximo pleito, em 2008.” do a filosofia de gerência de projetos nos moldes
Entre as novidades previstas para as eleições do PMI. A meta é tornar o processo cada vez mais
do ano que vem está a adoção de scanners para consistente, dotado de maior confiabilidade. Nosso
leitura da impressão digital para identificação do compromisso é com os nossos clientes, que são os
eleitor. Um total de 25 mil urnas já usará essa tec- eleitores, no sentido de garantir que a vontade deles
nologia. “A inovação depende da implementação seja respeitada”, conclui.

46 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
A maior rede do mundo
cumprindo seu papel
colaborativo
Túlio Ornelas Iannini*

As redes de computadores surgiram e evolu- cada um de nós, encontram seu espaço e obtêm di-
íram com a crescente necessidade de compartilha- vulgação adequada. O simples fato de navegar pelo
mento de recursos e informação. Registra-se que um universo web e consulta dos serviços disponibiliza-
dos primeiros sistemas integrados de computadores dos pode realimentar a plataforma, oferecendo indi-
começou a funcionar em 1964 nos EUA, para utili- cadores de popularidade que poderão se destacar ou
zação de serviços de reserva de passagens aéreas. classificar melhor a informação.
Sem dúvida, os sistemas de redes compu- Um serviço deixou de ser algo meramente
tacionais evoluíram muito de lá pra cá, principal- monolítico, residente em um único site, atualizado
mente com o advento da Internet. Com a Internet, o por uma única pessoa. Além do conteúdo próprio,
mundo dos negócios e o estilo de vida das pessoas o site pode incluir
mudaram. Passaram a compartilhar informações e conteúdos externos, “Enquanto a Web 1.0
agir de forma mais rápida. como agências de interligava diversas pla-
No campo pessoal, surgiram comunidades notícias, calendá- taformas, cada uma com
virtuais que evoluíram para mundos virtuais, chats rios, estatísticas, fo- suas particularidades,
que evoluíram para sistemas de mensagens instan- tografias, etc. Tudo a Web 2.0 é uma
tâneas, sites pessoais que evoluíram para blogs e isso de forma com- gigantesca plataforma
fotologs. pletamente dinâmi-
que comunica e partilha
Nos negócios, as concorrências aumentaram, ca e descentraliza-
conteúdos e serviços.”
surgindo grandes empresas sem instalações físicas, da. A fronteira da
fruto de idéias inovadoras. Grandes empresas que incompatibilidade
também deixaram de existir no mesmo tempo que de conteúdos é ultrapassada com o uso de novos pa-
levaram para crescer. As intranets e extranets evo- drões que permitem a normalização e organização
luíram para portal corporativo e os ambientes de da informação produzida.
redes locais estão se tornando redes globais em um As interfaces gráficas também tiveram grande
ambiente chamado de grid. atualização, com o surgimento de tecnologias que
Entramos no mundo da Web 2. Enquanto a permitem levar a expe­riência de utilização a níveis
Web 1.0 interligava diversas plataformas, cada uma nunca adotados. Com a tecnologia Ajax essas inter-
com suas particularidades, a Web 2.0 é uma gigan- faces deixaram de possuir caixas de textos ou ima-
tesca plataforma que comunica e partilha conteúdos gens estáticas. Agora são componentes utilizados
e serviços, potencializando uma arquitetura partici- em vários cenários, de acordo com a preferência do
pativa, onde os conteúdos pessoais, produzidos por usuário.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 47
Muitos resumiriam a Web 2.0 em uma única site se encarrega em convertê-lo para PDF, Power-
palavra, que seria informação. Prefiro resumir em Point e MP3.
colaboração. Nada funciona sozinho no universo Os recursos de colaboração não param de sur-
Web 2.0. Tudo possui influência do meio em que a gir e junto com o Scribd, YouTube, podemos contar
informação circula, onde todos participam da cons- também com o http://www.netvibes.com, onde o
trução de um fato ou informação. usuário pode criar seu próprio canal de notícias atu-
São criados softwares por centenas e milha- alizadas instantaneamente, reunindo todas as fontes
res de pessoas sem que elas se conheçam e isso tudo que desejar.
em um ambiente democrático e livre, porém com Em seu livro A empresa na velocidade do
regras bem definidas. pensamento, lançado em 1999, Bill Gates cita que
O futuro nos reserva trabalhar cada vez mais nesta década os negócios vão mudar mais do que
com menos espaço em disco físico, pois os arquivos nos últimos 50 anos. E realmente estão mudando.
poderão ficar em servidores virtuais seguros, com As empresas que não estiverem atualizadas
baixo custo ou em muitos casos sem custo. Os ar- com essas novas possibilidades e tecnologias po-
quivos poderão ser compartilhados com permissões dem se perder nesse novo cenário, ficando pra trás
de acessos, poden- no novo mundo dinâmico, interativo, colaborativo
“A fronteira da do ser acessados si- e, digamos, imprevisível.
incompatibilidade de multaneamente por
conteúdos é diversos usuários.
ultrapassada com Diversas fer-
o uso de novos padrões ramentas colabora-
tivas já estão dispo-
que permitem a
níveis na Internet.
normalização e
O site http://www.
organização da
thinkfree.com dipo-
informação produzida.”
nibiliza ferramentas
on-line similares
aos softwares do Microsoft Office (Word, Excell e
PowerPoint) e com espaço em disco de 1 GB para
armazenar os documentos, sem custo. O Google
também disponibiliza o serviço em um ambiente
grid, onde diversos serviços podem ser integrados a
uma única conta de usuário – serviços como agenda
on-line, documentos, blogs, álbum de fotos, entre
outros. Todas as ferramentas podem ser compar-
tilhadas com diversos usuários, definindo ainda o
nível de participação de cada um. O mundo inteiro * Túlio Ornelas Iannini
agora também pode compartilhar seus documen- Presidente da Assespro-MG
tos com diversos formatos em um único local por (Associação das Empresas Brasileiras de
meio do site http://www.scribd.com. A proposta Tecnologia da Informação, Software e Internet).
Analista de sistemas, diretor da Nextware –
do site é fantástica. O usuário cria uma conta, faz Agência de Internet e da Orientar – Recursos
o upload do arquivo em um formato “.doc” e o Humanos Especializado em TI.

48 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Daniel Rubens Prado
A verdade
sobre o diagnóstico
nas redes corporativas
Paulo Eustáquio Coelho*

Os sistemas que compõem o ambiente de TI trário de anos atrás, quando as pesquisas do Infone-
de qualquer empresa atual consistem em uma com- tics começaram, somos hoje totalmente dependen-
binação de tecnologias de diversos fornecedores tes desses ambientes conectados.
que incorporam redes, aplicações, diferentes siste- Quais são os desafios encontrados para ge-
mas operacionais, inúmeros dispositivos ativos, alta renciar e entender ambientes tão complexos? Que
mobilidade e links de conexões LAN e WAN com ferramentas utilizar para se ter uma visão integrada
redes públicas e privadas de alta velocidade, geran- de todos os componentes dessa complexa infra-es-
do ambientes tecnológicos muito complexos. trutura? Como alinhar os custos das soluções técni-
Para apimentar ainda mais essa salada tecno- cas de gerenciamento e monitoramento às necessi-
lógica, a convergência traz para a mesma infra-estru- dades do negócio?
tura de hardware e software o encaminhamento de
voz, dados e vídeo. Dessa forma, o fornecimento de Modelos de gerenciamento
serviços nessas redes empresariais típicas é imenso,
exigindo alto desempenho e tempos mínimos para a Em meados dos anos 80, as empresas viram
identificação e resolução de problemas. Caso con- as reais vantagens de se utilizar uma estrutura de re-
trário, o prejuízo gerado aos negócios é certo. des locais em seus
O Instituto Infonetics Research realiza, há ambientes, tendo “...o fornecimento
anos, pesquisas para verificar quais as principais como função bási- de serviços nessas
causas para o downtime de uma rede. Os resultados ca o compartilha-
redes empresariais
das primeiras pesquisas apontavam que o vilão era mento de recursos
a infra-estrutura física, como os cabos e conecto- caros para a época
típicas é imenso,
res. Com o passar dos anos, outros culpados foram (como impressora exigindo alto desempe-
sendo encontrados, como capacidades dos servido- e discos rígidos). À nho e tempos mínimos
res, dispositivos ativos e maiores necessidades de medida que os am- para a identificação e
banda. O crescimento da complexidade e mais for- bientes das redes resolução de problemas.
necimentos de serviços dentro das redes mostraram locais aumentavam Caso contrário,
que as aplicações passaram a ser responsáveis por sua utilização e a o prejuízo gerado aos
18% das paradas em 2004, 31% em 2005 e 41% complexidade, a
negócios é certo.”
em 2006. ISO (International
Os resultados do Infonetics demonstram que Organization for
estamos migrando de ambientes de troubleshooting Standardization) e o IETF (Internet Engineering
simples para outros em que o diagnóstico exigirá Task Force) resolveram criar modelos de gerência
mais ferramentas, mais conhecimentos e menos para os ambientes de rede, conhecidos como NMS
tempo para que a solução seja encontrada. Ao con- (Network Management System).

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 49
Os modelos de gerenciamento OSI e IETF de Desempenho, Gerência de Falhas, Gerência de
adotam uma abordagem gerente/agente, na qual os Contabilidade e Gerência de Segurança. Tais fun-
agentes mantêm informações sobre recursos e os ções são também chamadas FCAPS (Fault, Confi-
gerentes requisitam essas informações aos agentes. guration, Account, Performance e Security).
O padrão IETF especifica uma metodologia
para definição da informação de gerenciamento con- Problemas no gerenciamento
tida em uma base de dados chamada MIB (Manage-
ment Information Base). A MIB define os elementos A abordagem tradicional dos sistemas de ge-
de gerenciamento de informação como variáveis e renciamento como o NMS tem se mostrado inefi-
tabelas de variáveis. ciente em ambientes como os que hoje trabalhamos,
O gerenciamento no modelo OSI baseia-se em que o perfil multisserviços fornecido pelas apli-
na teoria da orientação a objetos. Com isso, o sis- cações e convergência tem exigido gerenciamento
tema representa os recursos gerenciados por meio distribuído e independente dos agentes de monito-
de entidades lógicas, que recebem a denominação ramento.
de objetos geren- Os sistemas de gerência comerciais, como
...“não se pode hoje ciados. Além disso, o HP Open View e IBM Tivoli, fornecem a gerên-
gerenciar ambientes permite a delega- cia das falhas e dos problemas. Além disso, desco-
ção das funções de brem os componentes da rede e sua topologia, bem
multisserviços sem um
monitoração aos como o status dos dispositivos. Ou seja, suportam a
alinhamento da agentes. Contudo, administração no dia-a-dia fornecendo a gerência
tecnologia aos negócios. as funções de con- das falhas e dos problemas. Tais sistemas compre-
Não interessa mais trole ainda ficam re- endem os relacionamentos entre componentes mul-
somente saber qual legadas ao gerente, tivendors da rede e são chamados freqüentemente
equipamento ou link está pois o conhecimen- framewoks ou MoMs (manager of managers), pois
com problemas, mas to relativo à tomada consolidam dados de diferentes sistemas de gerên-
qual área do negócio de decisões não se cia de dispositivo, fornecendo uma estrutura de ge-
adapta para ser co- renciamento heterogêneo, ou multivendor.
está sendo afetada.”
dificado em classes Entretanto, esses sistemas oferecem pouca
de objeto. Já o co- (ou quase nenhuma) informação sobre o desempe-
nhecimento referente à monitoração é mais simples, nho da rede, baseado no seu tráfego. Além disso,
geralmente estático e periódico. os clientes estão se tornando mais proativos, pres-
Um dos aspectos a serem considerados no ge- sionando por soluções que integrem as informações
renciamento OSI é que tal modelo gera agentes mais das fontes de gerência de falhas com a gerência de
complexos de serem desenvolvidos, consumindo desempenho.
mais recursos dos elementos de rede, enquanto eco- Vários inconvenientes surgem nesse tipo de
nomiza o uso da rede. Isso ocorre devido à minimi- abordagem tradicional dos sistemas de gerencia-
zação dos pedidos de informações (pollings) neces- mento, pois eles analisam cada área isoladamente.
sários para obter dados sobre objetos gerenciados, Um sistema de gerência de falhas pode identificar,
livrando o gerente para tarefas mais “inteligentes”. por exemplo, que um disco em um servidor está
De uma maneira geral, essas soluções de com problemas, enquanto a gerência de desempe-
gerenciamento empregam o protocolo de gerencia- nho pode indicar que a latência na rede está aumen-
mento SNMP (Simple Network Management Pro- tando. Como essas métricas são analisadas separa-
tocol) e RMON (Remote Monitoring), e suportam damente, não é simples inferir que o disco pode ser
funções que englobam cinco áreas funcionais no ge- o culpado pela latência da rede aumentar em um
renciamento: Gerência de Configuração, Gerência ambiente complexo.

50 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Outro inconveniente é que protocolos de ge- soluções de gerenciamento que enxerguem esse
renciamento como o SNMP e o RMON apresentam ambiente de maneira holística e completa, pois sem
algumas limitações, como uma base de dados de ge- essa abordagem quem sofre é a empresa, perdendo
renciamento predefinida e estática, e ausência de pa- em desempenho, eficiência e recursos.
dronização dos dispositivos gerenciados. Além disso,
pelo número de aplicações utilizadas hoje nas redes,
informações como desempenho e utilização dos * Paulo Eustáquio Coelho
clientes devem, necessariamente, ser apresentadas. Certificado pela Cisco, Microsoft, Novell,
Compaq, 3M, CompTIA e Network General.
Para completar, não se pode hoje gerenciar Atua há mais de 15 anos em tecnologia de redes,
ambientes multisserviços sem um alinhamento da desenvolvendo projetos e treinamentos em análise
tecnologia aos negócios. Não interessa mais somen- de redes LAN/WAN, TCP/IP, segurança de redes
te saber qual equipamento ou link está com proble- de comunicação de dados. Autor do livro Projetos
de redes locais com cabeamento estruturado.
mas, mas qual área do negócio está sendo afetada. É coordenador de P&D e analista sênior do
Além disso, dada a natureza simbiótica entre a re- NAC (Network Analyser Center) da
lação das aplicações e da rede, são necessárias hoje Microcity Computadores e Sistemas.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 51
Artigos inéditos, abordando aspectos tecnológicos e
sociais das redes de computadores: a computação em
grade, redes de alto desempenho e a educação a distância.
Divulgação

Grades computacionais:
uma tecnologia para compartilhamento
de recursos em rede
Lilian Noronha Nassif
Pesquisadora da Prodabel (superintendente de redes) e colaboradora em
pesquisa da UFMG. Doutora em Ciência da Computação/UFMG (2006),

Isabela Abreu
mestre em Administração Pública/Fundação João Pinheiro (1997) e
bacharel em Ciência da Computação/PUC-MG (1990). Atua em sistemas
multiagentes, grid computing, redes, Wimax e redes ópticas metropolitanas.

José Marcos Nogueira


Professor do Departamento de Ciência da Computação da UFMG,
doutor em Computação/Automação pela Unicamp (1985) e engenheiro
eletricista pela UFMG (1975). Tem interesse nas áreas de grades
computacionais, redes de computadores, redes de sensores sem fio e
gerenciamento de redes, nas quais formou vários alunos de doutorado e mestrado.

RESUMO
Apresentamos uma tecnologia chamada grades computacionais, que visa ao apro-
veitamento de recursos computacionais diversos, potencialmente disponíveis,
acessíveis via uma rede de computadores e pertencentes a organizações distintas.
A idéia é o uso organizado e compartilhado de recursos, tais como capacidade de
processamento e armazenamento, para a resolução de problemas computacional-
mente intensivos ou complexos, cuja solução se beneficia da cooperação entre as
partes. O artigo apresenta a motivação da tecnologia, introduz os conceitos básicos
e descreve o modelo de arquitetura de protocolos das grades computacionais, bem
como alguns desafios da área.

1. Introdução
Considere a existência no mundo ou de baixa utilização ao longo do que esses recursos podem de algu-
de uma vasta quantidade de recursos dia ou da semana. Considere que é ma forma cooperar entre si para a
computacionais com proprietários dis- possível o acesso a esses recursos execução de tarefas comuns. Imagine
tintos e que muitos desses recursos utilizando as redes de computadores agora que alguém tem um problema
passam por períodos de ociosidade de escala global, como a Internet, e computacional a resolver, mas que

54 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
não consegue fazê-lo com os recur- rios petabytes de dados foram pro- recursos, bem como das organizações
sos disponíveis localmente. Imagine duzidos por ano, uma quantidade responsáveis pelos mesmos; a quarta
então a possibilidade de se utilizar da ordem de um milhão de vezes a dimensão é definida pela possibilida-
um ou mais desses recursos compu- capacidade de armazenamento de um de de multiplicidade de perfis de uso
tacionais remotos para executar tare- microcomputador pessoal com capa- para diferentes comunidades de usuá-
fas que não são possíveis de serem cidade de 100 GB de armazenamento rios (Johnston et al, 1999).
executadas localmente, seja por falta em disco. Junte-se a esses requisitos A associação de clusters e grades
de capacidade de processamento, de de armazenamento a necessidade de computacionais pode resolver proble-
armazenamento ou de algum recur- análise desses dados que irá requerer mas de demanda computacional muito
so específico. Uma nova tecnologia cerca de 20 teraflops (operações de alta. Um exemplo disso é o ambiente
chamada de computação em grade ponto flutuante por segundo) de po- TeraGrid, que agrupa 40 teraflops de
surge para tratar todos os recursos der computacional, conforme descri- poder computacional e aproximada-
disponíveis como sendo parte de to por Foster (2002). mente 2 petabytes de armazenamento.
uma mesma infra-estrutura computa- Uma das formas de resolver es- Os elementos do TeraGrid se interco-
cional, possibilitando a execução de sas limitações de armazenamento nectam através de uma rede dedicada
tarefas muitas vezes complexas e que e processamento é utilizando gru- de 10 a 30 Gbps que interliga oito en-
requerem alto poder computacional. pos ou clusters de computadores, tidades diferentes em uma organiza-
Grades computacionais carac- algumas vezes com centenas deles, ção virtual (TeraGrid, 2005).
terizam uma infra-estrutura que en- interconectados por uma rede de Uma organização virtual (Virtual
volve o uso colaborativo e integrado comunicação de alta velocidade. Os Organization – VO) consiste na asso-
de computadores, redes, bases de computadores individuais podem ter ciação de indivíduos, grupos ou ins-
dados e instrumentos científicos per- um ou mais processadores (mono ou tituições independentes que definem
tencentes a diferentes organizações, multiprocessados). Uma das aplica- regras e condições para compartilha-
visando à resolução de problemas ções de clusters é o provimento de mento de recursos ou habilidades. O
pelo compartilhamento de recursos recursos computacionais com alta conceito de VO é chave na compu-
em organizações multiinstitucionais. disponibilidade e de serviços escalá- tação em grade, na qual os recursos
Grade computacional é uma tecnolo- veis – tais como mecanismos de bus- compartilhados são computadores,
gia emergente que promete mudar a ca providos para usuários da Internet dados, software e instrumentos cien-
forma como abordamos problemas – pela replicação ou particionamento tíficos (Foster et al, 2001). Os mem-
computacionais complexos. Assim do processamento pelos processado- bros de uma VO negociam o compar-
como a Internet revolucionou a for- res do cluster (Coulouris et al, 2005). tilhamento dos recursos baseando-se
ma do compartilhamento de infor- Os clusters, embora ofereçam alto nas regras e condições definidas pela
mações, a tecnologia de grades com- poder computacional, diferem das mesma VO e então compartilham os
putacionais tende a revolucionar o grades computacionais, porque não recursos de um pool deles.
compartilhamento de poder compu- ultrapassam os limites entre organi- Tanto o mundo acadêmico como
tacional e de armazenamento. zações, o que restringe suas capaci- o industrial apresentam hoje deman-
De 1986 a 2000, a velocidade dades de crescer muito (escalabilida- das que conduzem para um mode-
dos computadores foi multiplicada de). lo de grade computacional. Para a
por 500, enquanto a velocidade das A escalabilidade em grades com- comunidade científica, tais neces-
redes nesse mesmo período aumen- putacionais tem várias dimensões: a sidades são exemplificadas pelo se-
tou 340 mil vezes (Stix, 2001). No primeira pelo aumento do poder com- guinte cenário: para muitos cientistas
entanto, ainda permanecem desafios putacional e da capacidade de armaze- a colaboração em pesquisas cientí-
para computações científicas avança- namento, obtidos pela agregação de re- ficas é muito importante, como, por
das e um exemplo disso são os da- cursos; a segunda dimensão é definida exemplo, aqueles que conduzem ex-
dos produzidos pelos detectores de pela possibilidade de agregar recursos perimentos de partículas físicas, uma
partículas físicas do Laboratório Eu- heterogêneos, independentemente da vez que os seus experimentos geram
ropeu de Partículas Físicas do Cern capacidade de cada um; a terceira dados na ordem de petabytes por ano
(Organisation Européenne pour la dimensão caracteriza-se pela possibi- e os poucos laboratórios no mundo
Recherche Nucléaire): até 2005, vá- lidade de distribuição geográfica dos que possuem detectores de partículas

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 55
estão geograficamente distribuídos recurso virtualizado, assim como o (Globus, 2005) e o Unicore (Rom-
pelo globo. Assim, o uso de dados são outros serviços que a humanida- berg, 2000); ambos seguem padrões
gerados para estudos só é possível de hoje tem à sua disposição, quais e são de código aberto.
dentro de um esquema de coopera- sejam, o fornecimento de energia No atual modelo das grades com-
ção e acesso aos mesmos. elétrica, de água e de informação. A putacionais, onde computadores estão
A demanda pela tecnologia de rápida e ampla disponibilização des- interligados em rede, um usuário é ca-
grades computacionais para a indús- ses recursos exemplifica o conceito paz de utilizar qualquer equipamento
tria tem várias causas, entre elas: a de virtualização. Não virtualizar o da malha de conexões, desde que ele
necessidade de realizar investimentos poder computacional passa a ser tão possua uma conta que lhe permita se
constantes em equipamentos para se estranho quanto pensar que cada re- autenticar no equipamento. Nesse mo-
obter poder computacional compatí- sidência opera sua própria planta de delo, o usuário escolhe uma máquina
vel com a necessidade das aplicações energia elétrica, reservatório de água específica, conecta-se a ela e depois
emergentes; a necessidade de se ob- e biblioteca. Por que seria diferente utiliza o recurso. Dessa forma, não há
ter infra-estruturas de tecnologia da para a computação (Foster, 2003)? virtualização do poder computacio-
informação (TI) que sejam escaláveis Para tornar realidade a virtuali- nal, pois o usuário sabe exatamente
e flexíveis. Existe o ambiente de rede zação da capacidade computacional onde está sendo feito o processamen-
interligado, mas ainda não preparado disponível, é necessário compartilhar to. Para cada equipamento, a cada vez
para aplicações distribuídas; é preci- as infra-estruturas já existentes, pre- que o usuário deseja utilizá-lo, é feita
so reduzir as despesas operacionais, servando os sistemas participantes de uma nova autenticação. Numa grade
um objetivo constante de qualquer um compartilhamento e agrupando- computacional virtualizada, o con-
organização empresarial; deve-se os em uma estrutura de organização junto de computadores é visto como
acelerar o desenvolvimento de pro- virtual. Para isso é necessário um um só computador, de forma que não
dutos (por exemplo, a descoberta de software especial que também ofere- é necessária a autenticação do usuário
novos remédios) e reduzir o tempo ça serviços básicos de autenticação, para cada máquina em que ele deseja
para colocá-los no mercado, uma vez autorização, descoberta de recursos executar um aplicativo. Para que a es-
que computações de duração muito e controle do movimento dos dados colha de um recurso que vai atender
alta poderiam executar mais rapida- (Foster 2003). Tais requisitos consti- as necessidades de um usuário seja
mente quando em ambientes distri- tuem a base para o desenvolvimento transparente, é preciso que haja um
buídos; é imperioso ter segurança nas de um middleware para grades com- mecanismo de seleção automática
transações e no compartilhamento de putacionais. Entende-se aqui por de recursos. A entrada de dados para
informações e recursos na interação middleware uma camada de software tal mecanismo de seleção consiste na
de negócios entre empresas. de serviços da arquitetura de proto- descrição das necessidades computa-
Virtualização de um serviço colos de grades computacionais (ver cionais, tais como capacidade de pro-
ou recurso é o seu provimento ou abaixo), posicionada entre os recur- cessamento, memória e quantidade
oferecimento sem mostrar como sos computacionais e as aplicações de processadores e na descrição dos
são implementados ou estruturados e interface com o usuário. Esse comandos e argumentos da aplica-
internamente, por mais complexos middleware provê segurança, acesso ção que se deseja executar. Logo, a
que sejam. No mundo da computa- e troca de informações consistentes seleção de recursos em grades com-
ção, interfaces têm a função de isolar entre recursos gerenciados localmen- putacionais é uma das atividades
os detalhes de implementação de um te por diferentes métodos. Existem iniciais do processo de execução de
sistema de seus usuários. A idéia da várias implementações de middleware aplicativos. É onde se pode prover a
computação em grade é fazer com para grades computacionais, e entre transparência de uso do conjunto dos
que a computação passe a ser um as principais destacam-se o Globus recursos compartilhados.

2. Conceitos de grade computacional


Grade computacional é defini- cursos distribuídos usando interfaces serviços de qualidade não trivial. Os
da em Foster & Kesselman (2004) e protocolos padronizados, abertos elementos principais dessa definição
como um sistema que coordena re- e de propósito geral para entregar são assim analisados:

56 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
a) Coordena recursos distribuí- vários tipos de recursos que grid? A three point checklist (Fos-
dos – Uma grade computacio- atendam a demandas comple- ter, 2002), é apresentada uma lista
nal integra e coordena recur- xas do usuário de forma que a de verificação das características de
sos e usuários que estão sob utilidade combinada do siste- um ambiente de grade computacio-
diferentes domínios e aborda ma é significativamente maior nal.
temas de segurança, política, que a soma das partes. Diversas organizações estão
faturamento, afiliação, entre Os fundamentos da tecnologia utilizando a computação em grade
outros. de grades computacionais são des- para resolver problemas complexos,
b) Usando interfaces e protoco- critos em três artigos clássicos sobre de alto custo computacional ou que
los padronizados, abertos e de o tema: a) No primeiro, Anatomy of demandam muita interação em ativi-
propósito geral – Uma grade the grid: enabling scalable virtual dades, tais como a pesquisa científica
computacional é construída organizations (Foster et al, 2001), colaborativa, a descoberta de novos
a partir de protocolos e inter- os autores definem grade computa- medicamentos, a análise de risco fi-
faces padronizados e abertos cional propondo um conceito inicial nanceiro e a definição de produtos. A
de propósitos múltiplos, rela- sobre a arquitetura em grade, além tecnologia de grades computacionais
cionados com autenticação, de discutir a tecnologia de grade e permite a interação entre organiza-
autorização, descoberta de outras tecnologias contemporâne- ções ao superar as restrições de in-
recursos e acesso a recursos. as; b) no segundo, The physiology tegração de dados e de computação,
c) Entregar serviços de quali- of the grid: an open grid services além de reduzir custos pela otimiza-
dade não trivial – Uma grade architecture for distributed systems ção da utilização dos recursos. A co-
computacional pode ser cons- integration (Foster et al, 2002), eles laboração entre entidades utilizando
tituída de recursos para serem descrevem a arquitetura e a infra- grade computacional permite a reso-
usados de forma coordenada estrutura de grades computacionais. lução de problemas de computação e
para prover serviços com qua- Esses conceitos foram desenvolvidos dados intensivos que estão além da
lidades variadas. Uma grade no Global Grid Forum (GGF 2005); capacidade individual de uma única
computacional pode co-alocar c) no terceiro artigo, What is the organização.

3. Modelo de arquitetura da computação em grade


A arquitetura das grades com-
putacionais define os componentes
fundamentais da tecnologia e espe-
cifica as funções e as interações en-
tre os componentes. Essa arquitetura
é apresentada em uma estrutura em
camadas, conforme mostra a Figura
1 (Foster & Kesselman, 2003). O
foco principal da arquitetura é na in-
teroperabilidade entre provedores de
recursos e usuários, visando a esta-
belecer relacionamentos de compar-
tilhamento. Essa interoperabilidade,
por sua vez, necessita de protocolos
comuns em cada camada do modelo
de arquitetura, levando à definição
de uma arquitetura de protocolos de
grade, como mostrado na referida fi- Figura 1: Arquitetura de grades computacionais
gura. Fonte: Foster & Kesselman, 2004.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 57
A arquitetura de grades com- número reduzido de protocolos e muitas e diferentes tecnologias
putacionais é bem representada serviços. Um conjunto de compor- (parte abaixo do gargalo). As ca-
na forma de uma ampulheta, que tamentos de alto nível (parte acima madas da arquitetura são descritas
tem no gargalo “espaço” para um do gargalo) pode ser mapeado para a seguir.

Camada de fábrica

A camada de fábrica compreende cursos, que permitam, por um lado, a - Recursos de armazenamento:
os recursos para os quais os acessos descoberta de sua estrutura, estado e é necessário o desenvolvi-
compartilhados são mediados pelos capacidades, e, por outro lado, o con- mento de novos mecanismos
protocolos da grade computacional. trole da qualidade de serviço, como para enviar e recuperar arqui-
Exemplos dos elementos dessa ca- mostram os exemplos a seguir: vos. Geralmente são mecanis-
mada são os diversos recursos que - Recursos computacionais: é mos para leitura e escrita em
podem ser físicos ou lógicos, tais necessária a definição de no- arquivos e execução remota
como sistemas de armazenamento, vos mecanismos para iniciar, de dados selecionados.
recursos de rede, sensores, compu- monitorar e controlar a exe- - Recursos de rede: é impor-
tadores e clusters. Os componentes cução de processos. Funções tante o desenvolvimento de
de fábrica executam as operações lo- internas são necessárias para mecanismos de gerencia-
cais que são específicas dos recursos determinar as características mento que forneçam controle
como resultado das solicitações de de hardware e software, assim sobre os recursos alocados
compartilhamento das operações de como informações de estado para as transferências na rede.
mais alto nível. relevantes, tais como carga de Funções internas devem ser
Os desafios nessa camada estão trabalho corrente e estado de providas para determinar as
relacionados com a implementação filas, no caso de recursos ge- características e a carga na
de mecanismos internos nesses re- renciados por escalonadores. rede.

Camada de conectividade

A camada de conectividade de- tem), o OSPF (Open Shortest Path nios administrativos diferentes.
fine os protocolos de comunicação First) e o RSVP (Resource Reser- b) Delegação – um usuário deve
e de autenticação para transações Vation Protocol). Desafios futuros poder delegar a execução de
específicas de grades computacio- devem abordar o projeto de novos um programa para os recursos
nais. Os protocolos de comunicação protocolos de comunicação específi- onde ele tem autorização de
permitem a troca de dados entre os cos para grades computacionais que uso. O programa deve poder
recursos da camada de fábrica e os atendam demandas da dinâmica de opcionalmente ser capaz de
protocolos de autenticação fornecem redes específicas, por exemplo, redes delegar seus direitos para ou-
mecanismos de segurança e cripto- ópticas ou redes sem fio. tro programa.
grafia para verificar a identidade de Os protocolos de segurança tam- c) Integração com soluções de
usuários e recursos. bém estão sendo baseados em padrões segurança local – as soluções
Os protocolos de comunicação dentro do contexto da suíte de proto- de grades computacionais de-
de grades computacionais incluem colos Internet. Os aspectos de segu- vem interoperar com soluções
transporte, roteamento e nomeação. rança para grades computacionais que de segurança local.
Tais protocolos são atualmente pro- são mais importantes atualmente são: d) Relacionamento de confiança
jetados a partir da pilha de protoco- a) Autenticação única – um usuá- baseada no usuário – caso o
los TCP/IP, tais como o IP, o ICMP rio deve poder se autenticar usuário tenha permissão para
(Internet Control Message Protocol), somente uma vez, dispensando executar programas nos recur-
o TCP, o UDP (User Datagram Pro- autenticações repetidas para fa- sos A e B, não deve ser obriga-
tocol), o DNS (Domain Name Sys- zer acessos a recursos ou domí- tório que A e B se interajam.

58 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Camada de recursos

A camada de recursos é construí- classes principais de protocolos da ponto de aplicação de políticas asse-
da sobre os protocolos de comunica- camada de recursos: a primeira con- gurando que as operações solicitadas
ção e de autenticação da camada de siste nos protocolos de informação, sejam consistentes com as políti-
conectividade e seu papel é definir que são usados para obter informa- cas do recurso a ser compartilhado.
protocolos para negociação, iniciali- ções sobre a estrutura e o estado de Temas que precisam ser considera-
zação, monitoração, controle, conta- um recurso, como sua configuração, dos incluem contabilização e fatura-
bilização e faturamento de operações carga corrente e política de uso e mento.
compartilhadas em recursos indi- custo; a segunda classe consiste nos Embora muitos desses pro-
viduais. As implementações desses protocolos de gerenciamento, que tocolos possam ser imaginados,
protocolos da camada de recursos são usados para negociar acesso a a camada de recursos e a camada
são baseadas nas funções da camada recursos compartilhados, especifi- de conectividade formam o gargalo
de fábrica para acessar e controlar cando, por exemplo, os requisitos do do modelo de grade computacional
os recursos locais. Os protocolos da recurso e as operações a serem exe- representado por meio de uma am-
camada de recursos concentram-se cutadas, tais como criação de pro- pulheta e, portanto, devem ser li-
nos recursos individuais e ignoram cesso e acesso a dados. No projeto mitados a um conjunto pequeno de
o estado global. São definidas duas desses protocolos é preciso ter um protocolos.

Camada de serviços coletivos

A camada de serviços coletivos uma camada mais larga do modelo, permitem aos participantes de uma
endereça problemas de descoberta, a camada de serviços coletivos pode organização virtual requisitar a alo-
seleção e alocação de recursos, segu- implementar uma grande variedade cação de um ou mais recursos para
rança, política e contabilização. Ela de serviços sem adicionar novos re- uma proposta específica e escalona-
contém protocolos e serviços que não quisitos aos recursos que estão sendo rem as tarefas nos recursos apropria-
são associados a um recurso especí- compartilhados. Como exemplo de dos; c) os serviços de monitoração e
fico e pode implementar soluções serviços temos: a) os serviços de dire- diagnóstico, que monitoram recursos
para uma coleção de recursos. Pelo tório, que permitem aos participantes para detectar falhas, intrusões e so-
fato de os componentes coletivos se- de uma organização virtual descobrir brecargas; e d) os serviços de réplica
rem construídos acima da camada de a existência de recursos comparti- de dados, que gerenciam o armaze-
recurso (o gargalo do modelo ampu- lhados; b) os serviços de co-aloca- namento de recursos para maximizar
lheta) e, portanto, por representarem ção, escalonamento e brokering, que o desempenho no acesso a dados.

Camada de aplicações

A camada de aplicações na ar- rios consigam escrever e rodar suas evitar a desconexão entre a grade
quitetura de grades computacionais aplicações nos ambientes de grades computacional e a comunidade de
compreende as aplicações do usuá- computacionais. Isso porque os usu- usuários.
rio que operam dentro de um am- ários não dispõem de habilidade, O modelo de arquitetura de gra-
biente de uma VO. As aplicações tempo e motivação para aprender os des computacionais, que consiste de
são construídas nos termos dos ser- detalhes dos serviços de informação serviços e protocolos, tem um rela-
viços oferecidos por cada camada da grade e fazer desses serviços a cionamento com as arquiteturas das
da arquitetura. As ferramentas da base para a tomada de decisão so- redes de computadores, em particular
camada de aplicação devem ofere- bre a seleção de recurso. As ferra- a arquitetura da Internet, como mos-
cer mecanismos para que os usuá- mentas no nível da aplicação devem trado na Figura 2.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 59
Figura 2: As camadas da arquitetura de grades e seu relacionamento com a arquitetura da Internet (Joseph
et al, 2004)

Alguns desafios

Ainda existem muitos desafios de de conectividade destacam-se os pro- carga de trabalho e política) (Raman
pesquisa para que a computação em blemas para a definição de protocolos et al, 2003) e consigam gerenciá-los
grade alcance um estágio de amadu- de comunicação para grades compu- (incluindo aplicação da política, con-
recimento satisfatório. A maioria dos tacionais (Czajkowski et al, 2002) tabilização e pagamento) (Cao et al,
desafios estão relacionados com os e as necessidades de provimento de 2002). Na camada coletiva destacam-
problemas advindos do compartilha- mecanismos eficazes para provimen- se os problemas que implementam
mento de recursos entre organizações to de segurança (incluindo autentica- soluções para uma coleção de recur-
diferentes. Destacam-se, na camada ção única do usuário no ambiente, de- sos, tais como serviços de diretório,
de fábrica, os problemas de descober- legação de execução entre processos serviços de co-alocação, escalona-
ta de recursos (incluindo descoberta distribuídos e relacionamento de con- mento, seleção, monitoração e répli-
da estrutura, estado e capacidade do fiança entre recursos que autorizam o ca de dados (Castellano et al, 2004).
recurso), a monitoração da execução mesmo usuário a utilizar o recurso) Na camada de aplicação destacam-se
de processos nos recursos (incluindo (Bertino et al, 2004). Na camada de os problemas de definição de padrões
carga de trabalho e estado da fila) e a recursos, destacam-se os problemas e ferramentas para o desenvolvimen-
movimentação de dados entre recur- para a definição de novos protoco- to de aplicações distribuídas e os pro-
sos (incluindo mecanismos de leitura, los que interajam com a camada de blemas de interface facilitadora de
escrita, transferência e execução re- fábrica para obter informações dos uso das grades computacionais pelos
mota) (Nishandar, 2004). Na camada recursos (incluindo sua configuração, usuários (García et al, 2005).

4. Iniciativas e projetos de grades no exterior e no país


Existem atualmente muitos pro- ção em grade. Apresentamos a seguir res, buscando dar uma visão sobre as
jetos de pesquisa, desenvolvimento de alguns exemplos de fóruns abertos atividades da pesquisa na área. Obser-
plataformas de suporte e fóruns que sobre grades computacionais e uma vamos que existem duas iniciativas
tratam dos problemas da computa- relação de middlewares mais popula- nacionais, descritas a seguir.

60 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Fóruns sobre grades computacionais

Global Grid Forum (GGF): é formado por uma co- de 600 organizações em aproximadamente 100 países. O
munidade de desenvolvedores, vendedores e usuários para sítio web do Oasis é http://www.oasis-open.org.
definir padrões globais para a comunidade de grade com- Enterprise Grid Alliance (EGA): é uma organi-
putacional. O GGF engloba cerca de 400 organizações atu- zação aberta, sem fins lucrativos, formada para desen-
antes em aproximadamente 50 países. O sítio web do GGF volver soluções de grades computacionais, acelerando o
é http://www.ggf.org. desenvolvimento da computação em grade nas empre-
Organization for the Advancement of Structured sas. O EGA está definindo requisitos para o desenvolvi-
Information Standards (Oasis): é um consórcio sem fins mento de aplicações comerciais nos ambientes de gra-
lucrativos para o desenvolvimento, convergência e adoção des computacionais. O sítio web do EGA é http://www.
de padrões e-business. O Oasis tem representações de mais gridalliance.org.

Middlewares para grades computacionais

Globus: a aliança Globus é uma colaboração interna- to de recursos e dados. O sítio web do NorduGrid é http://
cional que conduz pesquisa e desenvolvimento para criar www.nordugrid.org.
tecnologias fundamentais de grades computacionais. O Uniform Interface to Computing Resources (Uni-
Globus é um software de código aberto usado para cons- core): é um sistema de grades computacionais que inclui
truir sistemas e aplicações de grade computacional. O sítio software, cliente e servidor. O Unicore faz a distribuição
web do Globus é http://www.globus.org. da computação e de recursos de dados disponíveis de for-
Alchemi: é um arcabouço para grades computacionais ma segura na Internet e em intranets. Os sítios web do
que permite agregar facilmente o poder computacional de Unicore são http://unicore.sourceforge.net/ e http://www.
máquinas conectadas à Internet e a intranets em um super- kfa-juelich.de/unicore/.
computador virtual e desenvolver aplicações para executar InteGrade: é projeto nacional, consistindo de um
nas grades. O sítio web do Alchemi é http://www.alchemi.net/. middleware para grades computacionais que permite usar
Legion: é um meta-sistema de software orientado a o poder de computação ocioso das estações de trabalho,
objetos, projetado para um sistema de milhões de servi- sendo estruturado pelo agrupamento de clusters. O Projeto
dores e trilhões de objetos conectados com circuitos de InteGrade é uma iniciativa de várias universidades com o
comunicação de alta velocidade. O Legion funciona como objetivo de construir um novo middleware de grade com-
um middleware que inclui diferentes arquiteturas, siste- putacional orientado a objetos. O InteGrade provê suporte
mas operacionais e localizações físicas. Paraleliza proble- para aplicações paralelas, segurança e ambiente de desen-
mas complexos e roda-os mais eficientemente, superando volvimento integrado. O sítio web do InteGrade é http://
problemas de conflito de plataformas, linguagens e falhas integrade.incubadora.fapesp.br/.
de hardware. O Legion escalona e distribui processos em OurGrid: também projeto nacional, consiste de um
servidores apropriados e disponíveis e retorna resultados, middleware para grades computacionais que está em
dando a ilusão de que o trabalho está sendo feito em uma funcionamento desde dezembro de 2004. O poder com-
única máquina virtual. O sítio web do Legion é http:// putacional é fornecido por recursos ociosos de todos os
legion.virginia.edu/. participantes e é compartilhado de forma que aqueles que
NorduGrid: o middleware NorduGrid, também Ad- contribuem mais obtêm mais poder computacional, quan-
vanced Resource Connector – ARC, é uma solução de do dele necessitam. Atualmente a plataforma executa apli-
código aberto que permite a construção de grades com- cações que não se comunicam durante a execução, como
putacionais de qualidade. O ARC implementa os serviços simuladores, mineração e busca de dados. O testbed do
fundamentais de grades computacionais, tais como serviço OurGrid conta atualmente com mais de 300 máquinas em
de informação, descoberta de serviços, monitoração, sub- cerca de 20 diferentes locais. O sítio web do OurGrid é
missão e gerenciamento de jobs, brokering e gerenciamen- http://www.ourgrid.org/.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 61
5. Conclusão
A tecnologia de grades compu- computacionais, tais como o Globus e abordamos problemas computacio-
tacionais é caracterizada por uma o Unicore. No Brasil, destacam-se os nais complexos.
infra-estrutura que propicia o uso middlewares OurGrid e InteGrade. Entre os desafios principais de
colaborativo de recursos computa- Os principais grupos de aplica- pesquisa em grade computacional
cionais pertencentes a uma orga- ções que fazem uso da tecnologia destacam-se aqueles relacionados ao
nização virtual composta de dife- de grades são demandadores de alto compartilhamento de recursos entre
rentes entidades institucionais. Os poder computacional e de integra- organizações diferentes, a definição
padrões relacionados à tecnologia ção de resultados gerados, tais como de protocolos de comunicação espe-
de grade são orientados por fóruns os grupos de pesquisa do campo da cíficos para grades computacionais, a
específicos, tais como o GGF, o Oasis biotecnologia, da física e da meteo- definição de uma única autenticação
e o EGA. Um grande conjunto de rologia. Pelo compartilhamento de do usuário no ambiente e a imple-
pesquisadores desenvolve avanços processamento e armazenamento, mentação de serviços coletivos para
na tecnologia e o mercado tem con- a tecnologia de grades computacio- co-alocação de recursos e o escalo-
solidado middlewares para grades nais promete mudar a forma de como namento de jobs.

Referências
BERTINO, E.; MAZZOLENI, P.; CRISPO, B.; SIVASUBRAMANIAN, S.; FERRARI, E. “Towards Supporting Fine-Grained Access
Control for Grid Resources”. In: Proceedings of 10th IEEE International Workshop on Future Trends of Distributed Computing
Systems (FTDCS’04). Suzhou, China, 2004.
CAO, J.; JARVIS, S.; SAINI, S.; KERBYSON, D.; NUDD, G. Arms: An Agent-based Resource Management System for Grid Computing.
Scientific Programming, Special issue on Grid Computing. IOS Press. 2002, 10(2): 135-148.
CASTELLANO, M.; COVIELLO, T.; PISCITELLI, G. “An Intelligent Resource Selection System Based on Neural Network for Opti-
mal Application Performance in a Grid Environment in Proceedings of Computing”. In: High Energy and Nuclear Physics (CHEP).
Interlaken, Switzerland, 2004.
COULOURIS, G.; DOLLIMORE, J.; KINDBERG, T. Distributed Systems – Concepts and Design. Addison Wesley. 4th edition, 2005.
CZAJKOWSKI, K.; FOSTER, I.; KESSELMAN, C.; SANDER, V.; TUECKE, S. “SNAP: A Protocol for negotiation of Service Level
Agreements and Coodinated Resource Management”. In: Proceedings of Workshop on Job Scheduling Strategies for Parallel
Processing (JSSPP’02). Edinburgh, Scotland, 2002.
FOSTER, I.; KELSSELMAN, C. The Grid2: Blueprint for a New Computing Infrastructure. Morgan Kaufmann Publishers, 2004.
FOSTER, I. What is the Grid? A Three Point Checklist. GridToday, July 20, 2002.
FOSTER, I.; KESSELMAN, C.; TUECKE, S. “The anatomy of the grid: Enabling scalable virtual organizations”. In: International
Journal of Supercomputer Applications 15, 2001.
FOSTER, I.; KESSELMAN, C.; NICK, J.; TUECKE, S. “The physiology of the grid: An Open Grid Services Architecture for Distribu-
ted Systems Integration. Open Grid Service Infrastructure WG”. Global Grid Forum, 2002.
FOSTER, I. “The Grid: Computing without bounds. Scientific American”, p.79-85. April 2003.
GARCÍA, J.; MÉNDEZ, P.; VALVERDE, J. “GROCK: High-Throughput Docking using LCG Grid Tools”. In: Proceedings of The 6th
IEEE/ACM International Workshop on Grid Computing (Grid 2005). Seattle, Washington, USA, 2005.
GLOBAL GRID FORUM. http://www.gridforum.org/. Acesso em janeiro/2005.
GLOBUS. http://www.globus.org. Acesso em janeiro/2005.
JOHNSTON, W.; GANNON, D.; NITBERG, B. “Grids as Production Computing Environments: The Engineering Aspects of NASA’s
Information Power Grid”. In: Proceedings of the Eighth IEEE International Symposium on High Performance Distributed
Computing (HPDC). Redondo Beach, California, USA, 1999.
JOSEPH, J.; ERNEST, M.; FELLENSTEIN, C. “Evolution of grid computing architecture and grid adoption models”. In: IBM Systems
Journal, vol. 43, n. 4, 2004.
NISHANDAR, A. “Grid-fabric interface for job management”. In: SAM_Grid, a distributed data handling and job management system
for high energy physics experiments. Master’s thesis. The University of Texas at Arlington, 2004.
RAMAN, R.; LIVNY, M.; SOLOMON, M. “Policy Driven Heterogenenous Resource Co-Allocation with Gangmatching”. In: Proceedings
of the 12th IEEE International Symposium on High Performance Distributed Computing. Seattle, USA, 2003.
ROMBERT, M. “The Unicore Grid Infrastructure. Scientific programming”, 10 (2002), 2, p.149. In: Special Issue on Grid Computing, 2000.
STIX, G. (2001). “The Triumph of the Light”. In: American Scientific. Jan. 2001, 284(1): 80-86.

62 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
Rede Saci – tecendo cidadania
Sergio Muniz Oliva Filho
Professor associado do Departamento de Matemática Aplicada do Instituto
de Matemática e Estatística da USP. Pesquisador com PhD pelo Georgia
Institute of Technology, em Atlanta, EUA. Foi titular da Coordenadoria de
Cooperação Universitária da USP por seis anos, onde coordenou projetos
de extensão universitária na área de inclusão da pessoa portadora de
necessidades especiais, projetos de atenção a crianças em situação de
risco, de meio ambiente, setor de patentes e inovação tecnológica, projeto
de incubadora de empresas e cooperativas da USP. É membro ativo
de conselhos consultivos e científicos, como o Conselho da Uniemp, a
Associação de Amigos da Estação Especial da Lapa, Estação Ciência. É
consultor ad-hoc da Fapesp e CNPq, sendo avaliador credenciado do MEC.
Divulgação

Ana Maria Estela Caetano Barbosa


Educadora. Coordenadora executiva da Rede Saci e da Comissão Permanente
para Assuntos Relativos às Pessoas Portadoras de Deficiência Vinculadas à
Universidade de São Paulo – Programa USP Legal. Coordenou a elaboração
do Manual de Acessibilidade Web – conjunto de recomendações aos
desenvolvedores de produtos web do Estado de São Paulo. Coordenadora
técnica do Projeto Telecentro para tod@s – portal que capacita monitores no
atendimento a usuários com deficiência através da Internet. Coordenadora do
projeto Agenda Deficiência, parceria com a Fundação Banco do Brasil.

RESUMO
O artigo expõe a concepção de organização em rede que norteou a criação da Rede Saci,
uma rede eletrônica para difusão de informações sobre deficiência em âmbito nacional.
Seus usuários são pessoas com todos os tipos de deficiência (intelectual, física, visual,
auditiva e múltipla), familiares, profissionais especializados, membros do poder público,
formadores de opinião, além de centros de ensino e pesquisa. Seus focos temáticos prio-
ritários são educação e trabalho. Os produtos e serviços da Rede Saci são gratuitos. Sua
atuação se dá no site www.saci.org.br e nos CICs, Centros de Informação e Convivência,
locais com computadores, softwares adaptados e monitores especializados em ministrar
cursos de informática para pessoas com deficiência.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 63
Várias são as imagens que nos Fazemos parte de redes e muito cedo reunir indivíduos e instituições, de
vêm à cabeça, quando pensamos na começamos a tecer a nossa própria, à forma democrática e participativa,
palavra rede. Entre tantas, e de dife- medida que ampliamos nossas rela- em torno de objetivos e/ou temáticas
rentes significados e naturezas, estão ções e experiências sociais. Podemos comuns.
a rede de pescar, a rede de telecomu- reconhecer exemplos de articulação Estruturas flexíveis e caden-
nicações, rede ferroviária, artérias e solidária ou organização em rede nas ciadas, as redes se estabelecem por
veias do corpo humano, a teia de ara- favelas, em comunidades virtuais como relações horizontais, interconexas e
nha. Esta, talvez a mais significativa o Orkut, e instituições do terceiro setor. em dinâmicas que supõem o trabalho
e que, certamente, tem ilustrado de Na prática, redes são comunida- colaborativo e participativo. As redes
forma eficaz o projeto Saci e muitos des presencialmente ou virtualmente se sustentam pela vontade e afinidade
outros que utilizam a rede como sis- constituídas, em torno de um objeti- de seus integrantes, caracterizando-se
tema de funcionamento. vo comum. como um significativo recurso organi-
Redes sempre existiram. São Podemos então definir rede como zacional, tanto para as relações pesso-
inerentes à natureza do ser humano. sistemas organizacionais capazes de ais quanto para a estruturação social1.

Tipos de redes
As redes podem apresentar uma divíduos participantes. A temática bioma, uma cidade, um conjunto
multiplicidade de formas, muitas ve- abordada é o fundamento desse tipo de bairros, etc.
zes híbridas, a partir de determinados de rede, seja ela genérica (ex.: meio
tipos que se desdobram e modificam ambiente, infância, deficiência) ou Redes organizacionais
em graus diferenciados de multipli- específica (ex.: reciclagem, desnutri- São, em geral, aquelas vincula-
cação e especialização. Inicialmente, ção infantil). das a uma entidade supra-institucio-
identificam-se três categorias de re- nal – isto é, que congrega instituições
des no terceiro setor 2: Redes regionais autônomas filiadas (federações, con-
As redes regionais têm em federações, associações de entida-
Redes temáticas uma determinada região ou sub- des, fóruns, etc.) – ou a organizações
São aquelas que se organizam região o ponto comum de agluti- complexas, compostas, por exemplo,
em torno de um tema, segmento ou nação dos parceiros: um estado, de várias unidades autônomas e/ou
área de atuação das entidades e in- um conjunto de municípios, um dispersas territorialmente.

Os princípios da rede
Para podermos identificar uma Valores e objetivos compartilha- Conectividade: a rede é a cos-
rede é necessário que algumas ca- dos: um mesmo conjunto de valores tura dinâmica de múltiplos pontos,
racterísticas inerentes a esse sistema e objetivos estabelecidos é o que ou nós. É essa ligação que a mantém
ou tipo de organização estejam pre- une seus diferentes e independentes como rede.
sentes3: membros. Participação: é a cooperação en-
Autonomia: cada integrante man­ Vontade: é o alicerce da rede. tre os membros de uma rede que a
tém-se independente em relação à A permanência ou entrada dos faz operante e significante.
rede. Não há relação de subordina- membros é espontânea e o desejo, Multiliderança: não há hierarquia
ção, mas de compromisso. comum. nem chefe. A liderança é múltipla

1 O que são redes? http://www.rits.org.br/


2 O que são redes? http://www.rits.org.br/
3 Fundamentos e paradigmas das redes – http://www.rits.org.br/redes_teste/rd_conceitos.cfm

64 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
e vem de várias fontes. A decisão é minhada de forma não linear a tantos Os princípios de uma rede, como
compartilhada. outros pontos, que também são emis- vemos, são simples: ausência de hie-
Descentralização: a rede não tem sores de informação. rarquia; liberdade para entrar, sair e
centro. Cada nó ou ponto é um centro Múltiplos níveis: a rede pode se participar da rede; troca constante de
em potencial. desdobrar em vários níveis, criando sub- informações; espontaneidade; con-
Informação: circula livremente, redes capazes de operar independente fiança e cooperação entre os partici-
emitida de pontos diversos e enca- da rede original, mas a ela vinculada. pantes.

A tecnologia da informação como aliada poderosa das redes


Segundo Castells (1999), a tec- A expansão das tecnologias de zada desse processo, quer seja por
nologia das redes de informação teve informação e comunicação (TICs) 5 limitações socioeconômicas ou cul-
um grande progresso no início dos se evidencia também fora do ambien- turais, quer seja por questões relati-
anos 90, devido à convergência de te acadêmico. A Internet fica acessí- vas à deficiência 6.
quatro tendências: digitalização da vel à população em geral, tornando- Com o objetivo de reduzir es-
rede de telecomunicações; desenvol- se um local não só de circulação ágil sas limitações, algumas iniciativas
vimento da transmissão em banda de informação, mas também onde as começam a despontar. Essas inicia-
larga; uma grande melhoria no de- pessoas se “encontram”. Contudo, tivas, que se vinculam ao conceito
sempenho de computadores conecta- inaugura-se com ela um novo con- da universalização dos serviços de
dos pela rede; e avanços tecnológi- ceito de exclusão: o de infoexclu- informação e comunicação, passam
cos em microeletrônica e software. são ou de exclusão digital – em que a buscar soluções para inclusão das
A convergência entre as exigências todos aqueles que não têm acesso populações com baixo poder aquisi-
organizacionais e a transformação ao mundo virtual se tornam infoex- tivo e das pessoas com deficiência,
tecnológica estabeleceu a integração cluídos, com graves repercussões em entre outros segmentos, nas redes di-
em redes como a forma dominante de suas oportunidades de educação, de gitais. Como exemplo de iniciativa,
concorrência nos setores mais avan- profissionalização, de cultura e de podemos citar a criação do Sicorde 7,
çados da economia, com tendência lazer. em 1993, e, em 2000, pelo governo
de capilarizar para todos os tipos de Passa a ser infoexcluída em po- federal, do programa Sociedade da
organizações 4. tencial toda a população marginali- Informação 8.

4 Cf. o artigo “O reflexo da sociedade em rede nas organizações: a tecnologia da informação, a flexibilização e a descentralização concentradora (de
poder e riqueza)”, de Volnei Krause Kohls, doutorando em Administração – PPGA/UFRGS; mestre em Desenvolvimento Agrícola – CPDA/UFRRJ;
professor da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL.
5 Todas as tecnologias utilizadas na captação, transformação e disseminação de dados, informações e conhecimentos voltados para a tomadas de
decisões pelos dirigentes de organizações públicas e/ou privadas. O termo é bastante amplo. Um livro pode ser uma tecnologia de armazenagem e
transporte de informações. Obviamente, nosso foco aqui são as tecnologias dependentes de redes de dispositivos microprocessados .
6 Cf. o artigo “Inclusão digital e deficiência: a experiência da Rede Saci – Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação, de Maria Cristina de
Lourdes Guarnieri, socióloga, coordenadora do Programa de Cooperação Universidade–Comunidade/Cecae/USP.
Marta Esteves de Almeida Gil, socióloga, gerente executiva da Rede Saci.
7 O Sicorde, sistema de informações da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), foi criado em 1993 com
o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e da Agência Brasileira de Cooperação. O sistema funciona como um disseminador
de informações sobre políticas e ações relativas à inclusão de pessoas com deficiência.
8 No ano 2000 o governo brasileiro lançou as bases para a criação de uma sociedade digital, ao criar um Grupo de Trabalho Interministerial com a fina-
lidade de examinar e propor políticas, diretrizes e normas relacionadas com as novas formas eletrônicas de interação, a partir do Decreto Presidencial
de 3 de abril de 2000. As ações desse Grupo de Trabalho em Tecnologia da Informação, formalizado pela Portaria da Casa Civil nº 23, de 12 de maio
de 2000, coadunaram-se com as metas do programa Sociedade da Informação, coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 65
Um pouco da história da rede Saci
Em 1990, a Rede de Informações Nessa mesma época (entre 1993 A rede que nascia também re-
Integradas sobre Deficiências (Rein- e 1994), o NCE-UFRJ desenvolveu solveu pegar carona no meio de
tegra), uma iniciativa da Universi- o Dosvox, um sistema de síntese de transporte utilizado pelo levado Saci
dade de São Paulo/Cecae – Coor- voz, formado por 60 programas, que Pererê e, como ele, que viaja num
denadoria Executiva de Cooperação viabiliza a operação do computador redemoinho, alterando a paisagem
Universitária e de Atividades Espe- por deficientes visuais. de onde passa, a Saci viaja por uma
ciais e da organização não-governa- Em 1997, surgiu um novo pro- rede, a Internet, e, com isso, pretende
mental Amankay Instituto de Estu- jeto desenvolvido pela RNP e o ajudar a mudar o cenário da deficiên-
dos e Pesquisas, dava os primeiros NCE-UFRJ: o InterVox – iniciativa cia de nosso país. Além disso, esse
passos na troca de informações sobre pioneira que permitiu acesso amplo projeto reuniu novamente antigos co-
a questão da deficiência. Desde seu à Internet aos deficientes visuais de laboradores: a USP/Cecae, o NCE-
início, a Reintegra atendeu aproxi- todo o Brasil, por meio de servi- UFRJ, a RNP e o Amankay e contou,
madamente 30 mil usuários, diretos ço Renpac, dedicado, conectado ao nos três primeiros anos, com o apoio
e indiretos, em 21 estados do Brasil. computador da RNP, que contou com institucional de Vitae e da Fundação
Na época, os meios de comunicação centros de apoio no Rio de Janeiro, Telefônica.
utilizados eram o correio, fax, tele- São Paulo, Brasília (DF), Recife e A rede, que atua como facilita-
fone e atendimentos presenciais. To- Porto Alegre. O InterVox oferecia, dora da comunicação e da difusão de
das as informações coletadas contri- como serviços de aplicação, acesso informações e conhecimentos sobre a
buíam para a criação de bases de a jornais, correio eletrônico, FTP e temática da deficiência, estimulando
dados e de um acervo bibliográfico www em forma de texto. Atendeu a inclusão social e digital e o exercí-
de acordo com as necessidades dos aproximadamente 500 pessoas com cio da cidadania da pessoa com defi-
usuários da rede. deficiência visual. ciência, tem como público-alvo pre-
Paralelamente, em 1992, a RNP Na medida em que os computa- ferencial a pessoa com deficiência,
– Rede Nacional de Pesquisa, proje- dores tornavam-se mais acessíveis à abrangendo a deficiência intelectual,
to especial do Ministério da Ciência população e a Internet começava a visual, auditiva, física e múltipla. No
e Tecnologia, iniciava esforços para ganhar espaço no Brasil, criavam-se entanto, como seu conteúdo infor-
ampliar o acesso à Internet para ou- as condições necessárias para o sur- macional disponibilizado refere-se
tros setores da sociedade, além da gimento de um novo projeto que, in- à questão da deficiência, ela passa a
comunidade acadêmica. Como re- tegrado a essas iniciativas pioneiras, envolver em sua malha diversos seg-
sultado dessa iniciativa, em 1994 uniria informação e tecnologia a ser- mentos interessados nessa temática:
nasceu a Rende – Rede Nacional de viço das pessoas com deficiência. familiares, profissionais atuantes na
Comunicação entre Portadores de É nesse cenário que surge, em área, formuladores de políticas pú-
Deficiência, em parceria com a Uni- 1999, a rede Saci – Solidariedade, blicas, empresários, pesquisadores e
versidade de São Paulo/Cecae e com Apoio, Comunicação e Informação outros.
o apoio fundamental de Vitae, con- – www.saci.org.br – com a missão Algumas características da rede
tando ainda com a colaboração do de incentivar a atuação e a inclusão são marcantes e inovadoras quando
Núcleo de Computação Eletrônica social e digital da pessoa com defici- de seu surgimento:
da Universidade Federal do Rio de ência, por meio do estímulo à criação • Atua, principalmente, no am-
Janeiro (NCE-UFRJ). Tratava-se de de condições de acessibilidade, do biente virtual.
um projeto ousado. Com a Rende, as compartilhamento de informações • As informações são sobre to-
pessoas com deficiência visual tive- sobre deficiência e da disponibiliza- dos os tipos de deficiência.
ram serviços de correio, jornal e mu- ção de ferramentas em meio digital, • Oferta de produtos e serviços
ral eletrônicos. Com nós locais em e que toma emprestado o nome do gratuitos.
São Paulo, Campinas e Santo André, famoso personagem do folclore bra- • Interatividade.
a Rende atendeu aproximadamente sileiro, por admirar suas qualidades: • Acessibilidade digital.
150 usuários cadastrados em 11 es- mesmo tendo deficiência física, leva • Atendimento a demandas pes-
tados do país. uma vida agitada e com bom humor. soais.

66 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
• Utilização de diversos meios do Hospital das Clínicas da Faculda- que possibilitam a interação entre
de comunicação. de de Medicina da USP e no Cadevi pessoas com e sem deficiência, já
• Conecta pessoas e entidades. – Centro de Apoio ao Deficiente Vi- que foram construídas sobre crité-
Hoje, a rede conta com mais de sual) e na cidade de Ribeirão Preto rios de acessibilidade digital que
10 mil participantes cadastrados, (no Fundo Social de Solidariedade as tornaram totalmente inclusivas,
sendo mais da metade de pessoas da Prefeitura e na Faculdade de Fi- independentemente de quem as uti-
com deficiência e espalhadas por losofia, Ciências e Letras da USP). E liza e do browser escolhido. São
todo o território nacional, América ainda em Uberlândia (MG), junto ao elas:
Latina, Portugal, Espanha e alguns Instituto Integrar. • Bate-Papo Saci.
países da África. Ela se realiza em A rede Saci, como incentivado- • Fórum de Discussão.
dois espaços: virtualmente na In- ra da criação de condições de aces- • Listas de Discussão.
ternet e presencialmente nos CICs sibilidade, do compartilhamento de • Webmail.
– Centros de Informação e Con- informações sobre deficiência e da Conclui-se, então, que o desen-
vivência –, locais equipados com disponibilização de ferramentas em volvimento de tecnologias assistivas
computadores e monitores especia- meio digital, atua na interseção das nas áreas de informação e comuni-
lizados, onde a pessoa com defici- seguintes áreas temáticas: cação são formas absolutamente efi-
ência aprende a usar a ferramenta • Conteúdo. cazes de se reduzir e até neutralizar
adaptada, a utilizar a informática e a • Ferramentas computacionais as barreiras de interação, já que elas
navegar na Internet. e tecnologia assistiva. contribuem para o processo de inclu-
São cinco CICs em funciona- • Acessibilidade digital. são social da pessoa com deficiência,
mento: na cidade de São Paulo (na Disponibiliza, também, algu- facilitando sua aprendizagem e com-
Divisão de Medicina de Reabilitação mas ferramentas de comunicação batendo preconceitos.

Alguns espaços ocupados pela rede Saci


A rede Saci buscou ocupar es- • dispersão da escassa produção trajeto de oito anos, a rede Saci vem
paços no campo da informação e da intelectual existente no Brasil sendo moldada e transformada pelas
comunicação sobre a temática da de- sobre essa questão; pessoas e entidades que dela parti-
ficiência, no Brasil, partindo das se- • falta de articulação entre cipam: não se trata apenas de tornar
guintes constatações: acervos e serviços prestados disponíveis os meios de acesso e de
• ausência de centros de do- pelas bibliotecas e centros de capacitar os indivíduos para serem
cumentação temáticos, res- documentação existentes, que usuários dos serviços da Internet.
ponsáveis por um processo acabam sendo subutilizados. Trata-se, sim, de permitir que as pes-
estruturado e articulado de O investimento feito reverte soas atuem como provedoras ativas
captação, sistematização e cir- apenas em favor de um grupo dos conteúdos que circulam na rede,
culação de informações sobre restrito de usuários. com responsabilidade e senso de ci-
a problemática da deficiência; É importante ressaltar que, nesse dadania.

Uma rede em ação


Geração e divulgação de no- essa rede de colaboração, ter um pai- – transmite a opinião da rede Saci ou
tícias atualizadas e confiáveis – a nel de eventos bastante variado. de colaboradores sobre fatos divul-
rede é alimentada diariamente com Comentário Saci (editorial) gados no site.
a colaboração dos usuários, que en- Canais de comunicação com o usuário.
viam notícias, artigos, comentários, t
Formação de opinião.
denúncias. Com isso, notícias de di- t
ferentes localidades são divulgadas Formação de uma comunidade virtual, que funciona em rede.
t
e ganham destaque. É possível, com Interação com formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 67
Provedores ativos de conteúdo, • Repórter Saci Voluntário. • acessibilidade digital > tecno-
com responsabilidade e senso de ci- • “Pilotos de prova” do site. logias.
dadania, alimentando seções diver- A rede é movimento... A rede Saci é como a teia de aranha:
sas, que vão sendo criadas a partir • Reflete o momento. modelo orgânico, vivo, flexível, em
das necessidades da comunidade: • Reflete os temas que estão no constante crescimento e mutação, que
• Depoimento. foco. funciona em mão dupla e que constrói
• Denúncia. • Reflete as necessidades do sua identidade traçando um caminho e
• Opinião. usuário: mantendo a tensão entre os pólos da li-
• Listas de discussão. • emprego > currículos > vagas; berdade e da possibilidade, do respeito
• Bate-papo. • educação > inclusão > produ- à individualidade e da preservação dos
• Envio de notícias. ção de conhecimento; valores comuns, uma rede exemplar.

Os problemas de reconhecimento e institucionalização


Como toda rede aberta, a rede Com isso, a rede Saci passa hoje A figura da teia se enquadra
Saci padece da dificuldade de por sérias dificuldades para se esta- como nunca nesse contexto, já que
reconhecimento institucional e, belecer permanentemente, pois aos se não for cuidada e mantida com
conseqüentemente, está sempre poucos perdeu esse caráter de inde- carinho e afinco, seus habitantes po-
em risco de desaparecer por fal- pendência, tornando-se mais e mais dem morrer por inanição. Esperamos
ta de apoio. Como apontado, no dependente de um dos parceiros, que esse quadro se reverta e a rede
caso da Rede Saci, esse risco au- mais precisamente da Universidade Saci volte ao seu esplendor máximo,
menta por ter sido originalmente de São Paulo. A Universidade ainda tendo novamente a oportunidade de
desenhada para que sua gestão colocou a rede como prioritária até crescer e atender seu público. Se
fosse construída a partir de um a gestão passada, porém, nesse mo- depender das pessoas envolvidas na
consórcio de instituições, sendo mento, parece que a rede deixou de rede Saci hoje, essa será mais uma
a Amankay a única que tinha a ser prioridade e, conseqüentemente, luta entre tantas outras que já bata-
pessoa portadora de deficiência está de lado, sem o devido apoio e re- lhamos; e, como nas outras, sua dedi-
como tema principal de sua mis- conhecimento, podendo desaparecer cação e afeto vencerão a indiferença
são. por inanição. institucional.

68 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
Weblabs sobre
redes de alto desempenho
Eliane Gomes Guimarães
Pesquisadora da Divisão de Robótica e Visão Computacional do
Centro de Pesquisas Renato Archer (CenPRA),
graduada em Ciência da Computação pela Unicamp, mestre
e doutora em Engenharia Elétrica na área de Engenharia de
Divulgação

Computação, também pela Unicamp. Suas áreas de interesse são


weblabs, sistemas distribuídos e telerrobótica.

Eleri Cardozo
Professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação
pela Unicamp, graduado em Engenharia Elétrica pela Poli/USP,
mestre em Engenharia Eletrônica pelo ITA e PhD em Engenharia
Elétrica pela Carnegie Mellon University. Suas áreas de interesse
são redes de computadores, sistemas distribuídos e weblabs.

RESUMO
As redes e a computação de alto desempenho vêm propiciando uma revolução na ciência e na tecnologia. Os limites
impostos por laboratórios, instituições e nações são rompidos pela possibilidade de compartilhamento em tempo real
de grandes volumes de informação, equipamentos científicos sofisticados e vastos recursos computacionais. O emprego
massivo de tecnologias de computação e comunicação no ensino e na pesquisa é uma tendência comumente referida
como e-Science. Laboratórios de acesso remoto, ou weblabs, são infra-estruturas importantes no contexto de e-Science,
por possibilitarem experimentação a distância. Este artigo descreve um weblab no domínio da robótica móvel que opera
sobre uma rede de alto desempenho, a rede RNP/Giga.

Palavras-chave: e-Science, weblabs, redes de alto desempenho.

1. Introdução
As redes e a computação de alto vem alterando os métodos utilizados compartilhamento em tempo real de
desempenho vêm propiciando uma tanto na pesquisa quanto no ensino. um grande número de recursos hete-
revolução em diversos setores da ci- e-Science possibilita uma intera- rogêneos e geograficamente distribu-
ência e da tecnologia. Essa revolução, ção e colaboração mais rica entre ídos, tais como telescópios, redes de
comumente referida como e-Science, pesquisadores por meio do acesso e sensores e equipamentos robóticos.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 69
Os laboratórios de acesso remoto, ou do robô, bem como interfaces para Engenharia Elétrica e de Computação
weblabs, suportam a realização de ati- programar o robô e monitorar sua (Feec) da Unicamp vêm desenvol-
vidades experimentais a distância, ou operação (por exemplo, visualizar vendo, no âmbito do Projeto REAL
seja, sem a necessidade da presença dados de telemetria, como sinais de (Remotely Accessible Laboratories),
física do pesquisador no laboratório. sonares, carga de bateria, imagens de infra-estruturas para a construção de
A presença física é substituída pela câmera de bordo e alarmes). Weblabs weblabs desde 1996. Ao longo des-
telepresença viabilizada por um rico geram um grande volume de infor- ses anos, diversas tecnologias foram
ambiente interativo capaz de propi- mação que deve ser transferido entre empregadas para a construção de
ciar a “imersão” do pesquisador no o weblab, o computador do usuário weblabs, tais como objetos distribu-
laboratório. Por exemplo, um weblab e, eventualmente, outras localidades ídos1, componentes de software2 e,
no domínio da robótica móvel dis- que disponibilizam recursos de pro- mais recentemente, arquiteturas orien-
ponibiliza robôs para a realização de cessamento de alto desempenho, a tadas a serviço 3, 4. Este artigo apresen-
experimentos remotos como progra- exemplo de grades computacionais. ta, na seqüência, uma infra-estrutura
mar o robô para mapear (identificar Em função dos grandes volumes de para a construção de weblabs e a uti-
obstáculos) o ambiente ou navegar informação gerados por weblabs, lização dessa infra-estrutura em um
o robô autonomamente em um am- redes e computação de alto desem- domínio específico. GigaBOT é um
biente não mapeado. A teleimersão é penho são necessárias a essas apli- weblab no domínio da robótica móvel
propiciada por câmeras e microfones cações. que opera sobre uma rede de alto de-
panorâmicos que permitem ao usu- O Centro de Pesquisas Renato sempenho, a rede Giga da Rede Na-
ário acompanhar a movimentação Archer (CenPRA) e a Faculdade de cional de Ensino e Pesquisa (RNP) 5.

2. Construção de weblabs
Um modelo suficientemente ge- ca que weblabs podem ser federados recursos, tanto físicos quanto lógicos
ral e independente de domínio para para aumentar a gama de experimen- (por exemplo, software de simulação,
weblabs é apresentado na Figura 1. Os tos oferecidos e/ou para beneficiar de visualização, etc.).
elementos que compõem um weblab, um número maior de usuários. Cada participante possui um
bem como as relações entre esses ele- Experimentos são atividades exe- conjunto de credenciais para utilizar
mentos, são apresentados segundo cutadas a distância que utilizam ser- um weblab. Credenciais comumen-
a notação UML (Unified Modeling viços como elementos de construção. te estabelecem, além da identidade
Language) 6. Um participante pode se Serviços disponibilizam tanto fun- do usuário, um conjunto de papéis e
constituir de um usuário individual, cionalidades específicas como mani- permissões. São exemplos de papéis:
um grupo de usuários, ou, recursiva- pulação de robôs e câmeras, quanto pesquisador, aluno e administra-
mente, de participantes. Um weblab funcionalidades de propósito geral dor. Permissões definem atribuições,
oferece experimentos e a relação de como controle de acesso e comunica- usual­mente associadas a papéis,
um weblab para com si próprio indi- ção interpessoal. Serviços manipulam tais como permissão para cadastrar

1. Guimarães, E. G.; MAFFEIS, A. T.; PEREIRA, J. L.; RUSSO, B. G.; CARDOZO, E.; BERGERMAN, M.; MAGALHÃES, M. F. REAL: “A
virtual laboratory for mobile robot experiments. In: IEEE Transactions on Education, vol. 46, nº 1, fev. 2003.
2. GUIMARÃES, E. G.; MAFFEIS, A. T.; PINTO, R. P.; MIGLINSKI, C. A.; CARDOZO, E.; BERGERMAN, M.; MAGALHÃES, M. F. “A virtual
laboratory built from software components”. In: Proceedings of the IEEE, vol. 91, nº 3, mar. 2003.
3. COELHO, P. R. S. L.; SASSI, R. F.; CARDOZO, E.; GUIMARÃES, E. G.; FAINA, L. F.; PINTO, R. P.; LIMA, A. Z. “A weblab for mobile robotic
education”. In: IEEE International Conference on Robotics and Education (ICRA). Roma, Itália, abr. 2007.
4. COELHO, P. R. S. L.; SASSI, R. F.; CARDOZO, E.; GUIMARÃES, E. G.; FAINA, L. F.; LIMA, A. Z. “Arquitetura e requisitos de rede para
weblabs.” In: Simpósio Brasileiro de Redes de Computadores (SBRC). Belém, maio 2007.
5. RNP. Disponível em: http://www.rnp.br/newsgen/0211/giga.html.
6. PILONE, Dan. UML 2.0 in a Nutshell. O’Reilly, 2005.

70 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
usuários, para disponibilizar e exe- 1. Sessão de Acesso: gerencia de experimentos tais como ro-
cutar experimentos. A interação do o acesso do participante ao bôs, telescópios e simuladores.
participante com o weblab é regida weblab de acordo com suas 3. Sessão de Comunicação: ge-
por uma ou mais sessões. Uma ses- credenciais e, dependendo do rencia o uso de recursos que
são armazena o estado da interação experimento, reserva prévia suportam a telepresença do
do participante com o weblab. Servi- de horário. participante no weblab, como
ços interativos como weblabs neces- 2. Sessão de Interação: gerencia câmeras, microfones e siste-
sitam de pelo menos três classes de o uso dos recursos oferecidos mas de comunicação inter-
sessões: pelo weblab para a execução pessoal.

Figura 1 – Modelo conceitual para weblabs

Uma arquitetura orientada a ser- de organizações virtuais. tem a seleção de formas de interação,
viço 7 é candidata natural para imple- Serviços de acesso são respon- a configuração e manipulação remota
mentar esse modelo conceitual para sáveis pelo gerenciamento de usuá- de equipamentos, a submissão remo-
weblabs. Essa arquitetura utiliza rios, grupos, credenciais, recursos, ta de tarefas (scripts, código execu-
serviços web classificados em três experimentos e do próprio weblab. tável), a aquisição remota de dados e
categorias: serviços de acesso, de O controle de acesso, a autenticação o acompanhamento e registro da in-
interação e de comunicação. Esses de usuários e a reserva de horários teração. Os serviços de interação são
serviços suportam o estabelecimen- para acesso exclusivo também é de específicos para cada weblab.
to das três sessões descritas acima. responsabilidade desses serviços. A Serviços de comunicação su-
Em weblabs construídos segundo concepção dos serviços de acesso os portam os diversos estilos de comu-
uma arquitetura orientada a serviço, tornam gerais para serem empregados nicação um-para-muitos, tais como
experimentos são construídos a par- em qualquer aplicação de weblab, in- comunicação multimídia em tempo
tir da composição dos serviços ofe- dependentemente de seu domínio. real, notificação assíncrona de even-
recidos. Novos serviços podem ser Serviços de interação suportam tos, comunicação em grupo e difusão
adicionados sem qualquer interfe- a execução remota de experimentos, de mensagens. De forma semelhante
rência naqueles já disponíveis. Mais oferecendo interfaces de manipula- aos serviços de acesso, os serviços de
importante, a composição pode fazer ção de recursos e ferramentas neces- comunicação são gerais e podem ser
uso de serviços oferecidos por outros sárias aos experimentos oferecidos reusados para a construção de qual-
weblabs em um ambiente federado pelo weblab. Essas interfaces permi- quer weblab.

7. ERL, Thomas. Service-Oriented Architecture (SOA): Concepts, Technology, and Design. Prentice Hall PTR, 2005.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 71
3. GigaBOT Weblab
GigaBOT é uma implementação gerenciar usuários, grupos, creden- ações pré-programadas (como movi-
do modelo de weblabs descrito ante- ciais, recursos, reservas de horários, mentação com desvio de obstáculos) e
riormente para o domínio da robóti- experimentos e o próprio weblab. submissão de código do usuário para
ca móvel. GigaBOT utiliza serviços A Figura 2 ilustra uma interface do execução no processador de bordo do
web8 para a implementação das ses- serviço de acesso para reserva de ho- robô também estão disponíveis.
sões de acesso, interação e comuni- rários de utilização. A sessão de co- Vários experimentos remotos fo-
cação. No GigaBOT, experimentos municação oferece serviços web para ram desenvolvidos por meio da com-
são construídos por meio da compo- controle de câmeras panorâmicas e posição dos serviços de acesso, inte-
sição de serviços web. embarcadas, por exemplo mover e ração e comunicação, por exemplo,
A sessão de acesso do GigaBOT focar a câmera. A sessão de intera- navegação autônoma com desvio de
weblab é uma aplicação web cons- ção oferece serviços web referentes a obstáculos (Figura 3), mapeamento do
truída com tecnologia J2EE9. A in- telemetria e movimentação do robô. ambiente por meio de sonar (Figura 4)
terface da sessão de acesso permite Serviços web para a instalação de e navegação por visão (Figura 5).

Figura 2 – Interface do serviço de acesso do Gigabot weblab

O GigaBOT weblab opera tan- em que altas taxas de informação mento, notadamente quando o con-
to sobre a Internet convencional são trocadas entre o weblab e o trole do experimento executa no
quanto sobre a rede Giga mantida usuário remoto. O usuário recebe computador do usuário. A fim de
pela RNP. Essa rede interliga ins- do weblab fluxos de vídeo, áudio, avaliar a interatividade do weblab
tituições de ensino e pesquisa no imagens e telemetria. O weblab re- apresentado acima, um experimen-
eixo São Paulo–Rio de Janeiro, e cebe do usuário fluxos de controle to foi instrumentado e avaliado em
deve se estender por todo o terri- e, em certos casos, fluxos de vídeo redes convencionais (Internet pú-
tório nacional em futuro próximo. e áudio. O atraso imposto pela rede blica e rede de campus) e rede de
Weblabs são aplicações interativas tem influência marcante no experi- alto desempenho (Rede Giga)10.

8. SUN. “The Java Web Services Tutorial”. Disponível em: http://java.sun.com/webservices.


9. SUN. “J2EE”. Disponível em: http://java.sun.com/javaee/.
10. Ver nota 4.

72 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
O experimento de navegação da fita (situação em que o robô “per- Como terminal de acesso foi utiliza-
por visão foi instrumentado para de” a fita). Essa velocidade máxima do em todos os cenários um compu-
monitorar a banda de rede utilizada depende da freqüência do ciclo de tador portátil com processador Intel
pelo experimento e o limite de de- controle, que por sua vez depende Centrino Duo de 1.8 MHz e 2 GB de
sempenho do mesmo. Esse limite é da vazão e do atraso da rede, bem memória RAM. A Tabela 1 ilustra o
dado pela velocidade máxima com como da capacidade de processa- desempenho do experimento para as
que o robô consegue seguir uma fita mento no terminal do usuário. A diferentes redes de acesso. Observa-
com dois segmentos retos dispos- vazão determina o fluxo máximo de se que, apesar de oferecerem bandas
tos em ângulo de 45o. Acima dessa telemetria que se consegue obter do similares, a rede de campus foi mui-
velocidade, o controle do robô não robô. O atraso da rede combinado to superior à Internet pública, graças
consegue adquirir imagens com fre- com a capacidade de processamento ao menor atraso. A rede Giga teve
qüência suficiente para corrigir a do terminal do usuário determinam comportamento notadamente supe-
rota na junção dos dois segmentos o atraso na atuação do controle. rior às demais.

Figura 3 – Interface do experimento de navegação autônoma. No quadro à esquerda são fornecidos os parâme-
tros de navegação. No quadro à direita, vêem-se as imagens obtidas pela câmera de bordo (acima) e panorâmica
(abaixo), o mapa de navegação com sinais de sonares (acima, à direita) e os comandos de teleoperação (abaixo,
à direita)

Tabela 1 – Desempenho do experimento de navegação por visão para diferentes redes de acesso

Rede de Acesso Velocidade Máxima Banda Consumida pelo


do Robô (cm/s) Experimento (Kbps)
Internet Pública (ADSL) 3 1.050

Campus (Ethernet) 9 1.350

Rede RNP/Giga 20 23.700

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 73
Figura 4 – Interface do experimento de mapeamento do ambiente. O mapa do ambiente (posição dos obstáculos) é
apresentado no canto superior direito

Figura 5 – Interface do experimento de navegação por visão. A seqüência de figuras ilustra as fases de processa-
mento da imagem obtida pela câmera de bordo do robô

4. Conclusões
e-Science, um movimento pro- boratórios, organizações, domínios dades de experimentação prática
piciado pelas redes e computação de nacionais e envolvem um grande realizadas a distância. Para ilustrar
alto desempenho, vem alterando sig- número de recursos heterogêneos e o emprego de e-Science, este artigo
nificativamente as metodologias de geograficamente distribuídos, capa- apresentou um weblab em robótica
pesquisa e ensino. A pesquisa cien- zes de serem operados a distância. móvel que opera sobre uma rede de
tífica possui hoje conotação colabo- Laboratórios de acesso remoto, ou alto desempenho, a rede RNP/Giga.
rativa e global, sendo desenvolvida weblabs, possibilitam a criação e Uma outra rede de alto desempenho,
por comunidades multidisciplinares a gerência da infra-estrutura com- a rede Kyatera operada pela Funda-
de pesquisadores que compartilham putacional sobre redes de alto de- ção de Amparo à Pesquisa do Esta-
em tempo real grandes volumes de sempenho para facilitar a utilização do de São Paulo (Fapesp), também
informação gerados por sofistica- remota de equipamentos científicos. incentiva ambientes de trabalho
dos equipamentos científicos. Es- No ensino e na pesquisa, weblabs colaborativo a distância, incluindo
sas comunidades transcendem la- permitem a incorporação de ativi- weblabs 11.

11. Portal Kyatera. Disponível em: http://www.kyatera.fapesp.br/portal.

74 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
Redes sociais e discursivas na
contemporaneidade: conversações
cotidianas, mídia e processos deliberativos
Ângela Cristina Salgueiro Marques
Mestre em Comunicação Social pela UFMG. Doutoranda em
Comunicação Social pela mesma instituição e pesquisadora
do Grupo de Pesquisa em Mídia e Espaço Público (EME) do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG.
angelasalgueiro@gmail.com

RESUMO
O objetivo deste trabalho é revelar as imbricadas relações entre três redes comuni-
cacionais distintas: redes informais de conversação cotidiana, redes informacionais
e redes deliberativas. Nosso interesse consiste em investigar as interseções entre
essas redes, de modo a revelar as contribuições que suas dinâmicas específicas po-
dem oferecer à construção de esferas públicas capazes de criar uma relação de pro-
ximidade entre diferentes atores sociais e políticos. Partimos da premissa de que a
interação entre tais atores requer a formação de redes de diálogo e de cooperação
mútua, nas quais o reconhecimento social e as dinâmicas discursivas conflitivas
desempenham um importante papel na renovação dos espaços institucionais e de
convivência rotineira. Argumentamos que a mídia pode trazer contribuições va-
liosas para a ampliação de nosso entendimento sobre os conceitos de movimentos
sociais, cidadania e deliberação.

Palavras-chave: redes, conversação cotidiana, mídia, deliberação.

Diversos pesquisadores têm sentem prejudicados, constrangidos desfocado das conversações cotidia-
apontado que a discussão sobre ques- ou injustiçados com relação a alguma nas necessita de mecanismos capazes
tões políticas entre cidadãos comuns decisão ou ação de seus governantes, de conectar modos de comunicação
se processa com maior freqüência em e mesmo com sua inação. Tal apro- informais a redes de discussão mais
redes cotidianas de convivência liga- ximação de agentes, facilitada pela institucionalizadas, a fim de marcar,
das à família, amigos, parentes, vizi- similitude de experiências por eles en- de modo explícito, posicionamentos,
nhos, colegas de trabalho, etc. (Gam- frentadas, dá origem a uma rede de co- demandas e questões problemáticas.
son, 1992; Conover et al., 2002; Mutz municação informal que é responsável O entrelaçamento de redes informais
e Mondak, 2006; Eliasoph, 1997). por captar problemas, caracterizando- de conversação, que se originam e
É nos domínios da vida cotidia- os como questões coletivas, e não mais se fortalecem no cotidiano vivido,
na que fluxos comunicativos infor- particulares (Mansbridge, 1999). com as redes formais de discussão
mais ganham corpo, associando uma Acreditamos que o fluxo relativa­ e debate, são essenciais para a cria-
variedade de atores cívicos que se mente homogêneo, desorganizado e ção de modos mais complexos de

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 75
entendimento de situações, políti- um grande potencial para promover e deliberativas, o que implica novos
cas públicas e problemas coletivos essa aproximação, se considerarmos modos de pensar a cidadania, amplia-
(Scherer-Warren, 2006). Nas socie- os seguintes fatores: a) os recepto- da pelas noções de justiça, eqüidade
dades contemporâneas, a relevância res da produção simbólica midiática e reconhecimento recíproco.
das redes de comunicação informais não são mais entendidos como me- Partimos da hipótese de que a
está, sobretudo, no seu potencial ros consumidores dos discursos da mídia – composta pelos atores midi-
de influência sobre os processos de mídia, mas como atores que inter- áticos (jornalistas, repórteres, atores,
discussão de normas e de tomada de pretam criticamente tais mensagens, empresários, etc.), pelos suportes
decisão. Como afirma Sérgio Costa, reelaborando-as e trazendo-as para materiais das mensagens (jornais
“quando os fluxos comunicativos ge- seu contexto cotidiano de luta contra impressos, revistas, redes de rádio e
rados nos microdomínios da prática o desrespeito e a injustiça, seja ela TV, etc.) e, principalmente, pela vas-
cotidiana extrapolam as fronteiras econômica ou simbólica; b) as redes ta produção simbólica e discursiva
das esferas públicas autônomas, eles informacionais, constituídas sobretu- que se constitui em recursos cultu-
podem ter acesso às instâncias deli- do pelos discursos disponibilizados rais – pode auxiliar nos processos de
berativas previstas na ordem demo- pela mídia 1, perpassam as redes in- articulação entre a sociedade civil e o
crática e, finalmente, influir nas deci- formais e deliberativas (o movimen- Estado, levando ao fortalecimento da
sões aí tomadas” (1997, p.182). to oposto também é verdadeiro), pro- cidadania e à conseqüente ampliação
Este artigo se propõe a apontar movendo um entrecruzamento das do conceito de deliberação pública.
as tensões e possibilidades resul- perspectivas que conformam a tessi- Consideramos que a noção de
tantes de uma aproximação entre os tura de cada uma delas, estreitando “redes” apresenta grande utilidade
fluxos comunicativos produzidos nas conexões e relações, e c) o processo para compreendermos a dinâmica
redes informais de conversação coti- de construção da cidadania, aliado à de fóruns plurais ampliados de dis-
diana e os fluxos argumentativos que valorização moral dos cidadãos, não cussão de problemas coletivos. Tor-
dão corpo às redes deliberativas. Ar- se dá fora do entrelaçamento dessas na-se, então, relevante nos determos
gumentamos que a mídia apresenta três redes: informais, informacionais brevemente sobre esse conceito.

As redes: seus vários sentidos e atribuições


Para Claude Raffestin (1993), grupos. Assim, para ele, as redes im- caráter social e político determinado
uma rede é um sistema de linhas que põem limites, pois se estruturam em uma “pelas pessoas, mensagens e valores
desenham tramas capazes de asse- base relacional, que coloca atores em que a freqüentam” (1997, p.209).
gurar a comunicação entre os indiví- contato, evidenciando tensões e con- Ele também ressalta o fato de que
duos e grupos que dela fazem parte. flitos. Ao mesmo tempo, as redes per- os suportes das redes encontram-se,
Mas, ao mesmo tempo em que criam mitem que os cidadãos teçam laços de agora, parcialmente no território e
aproximações, vizinhanças, acessos e solidariedade a partir dos pontos ou parcialmente nas articulações pos-
convergências, elas também podem nós que marcam suas posições. sibilitadas pelas novas tecnologias
proporcionar rupturas e distanciamen­ Por sua vez, Milton Santos afir­ de informação e de comunicação.
tos entre esses mesmos indivíduos e ma que as redes apresentam um Segundo ele, as redes somente se

Gostaria de agradecer aos professores do Departamento de Pós-Graduação em Sociologia e Política da UFMG, Maria de Lourdes Dolabela e José
Eustáquio Machado, pelas observações feitas acerca da primeira versão deste artigo.
1 Atualmente o conceito de redes informacionais tem sido muito utilizado para caracterizar as redes virtuais de troca de informações criadas pela In-
ternet. Neste trabalho, embora não nos dediquemos a explorar as redes virtuais de comunicação, não podemos deixar de mencionar as possibilidades
oferecidas pela Internet para o estabelecimento de pontos de confluência entre as redes institucionais e cotidianas. Os atores da sociedade civil muito
se beneficiam da comunicação mais horizontal e interativa garantida pelas novas tecnologias. Como aponta Rousiley Maia, “os participantes de redes
cívicas podem beneficiar-se da redução de custos propiciada pela Internet para se auto-organizarem, coordenarem a ação coletiva e recrutar novos
membros, bem como para produzir e distribuir material informativo de maneira autônoma” (2002, p.65). Consideramos, contudo, as redes informa-
cionais não como meramente um suporte virtual para um fluxo ilimitado de troca de informações, mas, sim, como um espaço de encontro e interseção
de múltiplos discursos e pontos de vista oriundos da pluralidade de atores que interagem nas sociedades complexas.

76 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
tornam concretas, isto é, reais, efeti- sempre agentes institucionais levam proximidade dos sujeitos. Nessas re-
vas e historicamente válidas, quando em conta as redes de conversação co- des predominam as relações de socia-
utilizadas no processo da ação. Por tidiana criadas por tais atores quando bilidade marcadas por valores e sig-
isso, são os atores cívicos e políticos, colocam em prática políticas sociais nificados compartilhados3. As social
em suas trocas de argumentos, em que visam a minimizar os efeitos de networks apresentam uma “realidade
seus diálogos, aproximações e con- injustiças sociais e econômicas. Con- movente”, pois acolhem agentes com
flitos, que dão vida às redes. siderá-las deveria ser tarefa primor- múltiplos pertencimentos, os quais
Nesse sentido, as redes só fun- dial, pois essas redes são capazes de permitem a um indivíduo “utilizar
cionam, ou só se realizam, se conti- redimensionar, questionar e mesmo vários grupos de mobilização social
verem, em seus nós, sujeitos capazes promover mudanças no roteiro de como apoio em uma coalizão, evi-
de agir de maneira integrada e coo- atuação de atores políticos e institu- tar os conflitos entre esses diferentes
perativa, porém conflitiva, com os cionais (Marques, 2006). grupos, ou, ao menos, minimizá-los e
outros. Essa compreensão nos permi- Cabe salientarmos, então, que a criar uma participação crescente entre
te perceber a importância do modelo concepção de redes desenvolvida por esses grupos” (Dubois, 1997, p.146)4.
das redes para a ampliação do “jogo Jerôme Dubois é definida na “inter- Os dois outros tipos de redes, as
político” para além da arena institu- seção entre os múltiplos lugares de redes de políticas públicas (policy
cional. Ou seja, as redes permitem pertencimento e relacionamento de networks) e as redes de questões te-
que atores com papéis e status bem um indivíduo – os mundos sociais, máticas (issue networks) mantêm en-
diferentes possam opinar e/ou parti- culturais, políticos, religiosos, etc. tre si um certo equilíbrio tenso, mas
cipar da formulação de “um projeto –, os quais definem seu sistema de indispensável para a compreensão
ou de uma política em função das re- ação, ou seja, o conjunto de normas das dinâmicas de negociação que en-
lações interpessoais tecidas de modo de ação às quais ele poderá apelar volvem as políticas públicas. O inte-
desvinculado das regras que regem de acordo com as circunstâncias” resse pelo estudo das policy networks
as relações entre atores institucio- (1997, p.148). Nessa perspectiva, o surge na década de 60 (intensifican-
nais” (Dubois, 1997, p.143). ponto de partida metodológico de do-se na década de 80), quando estu-
Há aqui duas ressalvas a serem uma análise que envolve o conceito diosos deixaram de centrar seu foco
feitas. A primeira diz respeito às de redes é a primazia das relações so- de observação nos vínculos de afini-
assimetrias de poder existentes na bre as características individuais, em dade entre grupos e atores sociais e
sociedade. É sabido que nem todos que o contexto das relações interpes- passaram a se preocupar com as con-
os atores possuem habilidades, co- soais intervém sobre os indivíduos, figurações relacionais de negociação
nhecimentos e influência necessários transformando-os 2. e decisão acerca de políticas públi-
para participar de processos de dis- Autores como Dubois (1997) cas. Tais redes congregam atores
cussão pública. Atores marginaliza- e Jean-Pierre Gaudin (1999, 2004) coletivos ou instituições específicas,
dos sofrem também com um tipo de distinguem três principais tipos de geralmente “técnicos, pesquisado-
pobreza política que impõe obstácu- redes na contemporaneidade. O pri- res, especialistas, analistas políticos,
los à sua participação nesses proces- meiro deles é composto pelas redes agentes da mídia e jornalistas” (Gau-
sos. Por sua vez, a segunda ressalva sociais (social networks), volta- din, 1999, p.161), os quais se consti-
relaciona-se ao fato de que nem das para as relações cotidianas de tuem como atores “privilegiados” e

2 Por isso, de acordo com Dubois, o que importa na análise das redes não é ação guiada por normas fixas e pré-definidas, mas o fato de que “a sociolo-
gia das redes toma como ponto de partida as relações sociais interindividuais com a finalidade de determinar as normas construídas na troca entre os
atores” (1997, p.145).
3 A análise das redes sociais foi inicialmente elaborada para caracterizar fenômenos de amizade ou hostilidade em pequenos grupos (famílias, associa-
ções, colegas de classe, etc.). Nos anos 30 e 40, psicólogos norte-americanos se voltam também para a dinâmica de afetos instauradas nesses grupos
de modo a melhor conhecer o “lugar dos indivíduos em seu espaço relacional imediato, medindo a intensidade de seus contatos, sua diversidade,
estabilidade e hierarquização” (Gaudin, 2004, p.205).
4 Ilse Scherer-Warren (2006) identifica dois tipos principais de redes sociais na contemporaneidade: a) as redes de relações interindividuais, voltadas
para a análise dos vínculos entre sujeitos não necessariamente organizados e orientados politicamente para ações coletivas; e b) redes formadoras de
ações coletivas, voltadas para a implicação de grupos e atores politicamente intencionados em movimentos sociais articulados ou não em rede.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 77
“institucionalizados” da negociação. networks precisam, cada vez mais, sociabilidade representadas pela fa-
Portanto, essas redes abrangem par- buscar formas de influir no curso das mília, bairro, vizinhança, etc.) e es-
ceiros institucionais, ou seja, aqueles deliberações por meio de um engaja- condidas pelos interstícios da vida
que conformam redes políticas está- mento responsável, capaz de assegu- cotidiana, “estabelecem processos
veis e integradas (Dubois, 1997). rar que as decisões sejam tomadas de mais ou menos espontâneos e autô-
Já as issue networks são redes maneira coletiva e pública (Bohman, nomos de formação da opinião, uma
pontuais e temáticas de negociação 1996). vez que a comunicação realiza-se aí
que articulam atores muito diferen- Nessa perspectiva, uma rede de- discursivamente, conforme a iniciati-
tes, oriundos de múltiplos referen- liberativa tem como missão funda- va de seus membros e sobre as bases
ciais culturais e político-sociais. Per- mental articular poderes desiguais, de suas próprias premissas” (Maia,
cebidos em oposição aos membros ou seja, estabilizar as assimetrias 1998, p.140). As redes informais es-
das policy networks, esses atores se de status entre os “públicos fortes” tão também ligadas ao “mundo da
engajam nas issue networks, porque que compõem as policy networks e vida” (Habermas, 1987) e à diversi-
possuem um objetivo mais geral, que os “públicos fracos” pertencentes às dade de saberes constantemente em
só pode ser atendido num contexto de issues networks 5. É preciso que haja contato com as mensagens providas
informalidade e ampliação das trocas cooperação e compromisso entre ato- pelas redes informacionais. Como
de informação. Essas redes têm a res de natureza diferente para que as dito anteriormente, é nos contextos
função de ampliar a possibilidade da duas redes se interpenetrem de modo informais de conversação cotidiana
diversidade de opiniões em jogo nas a originar uma rede cooperativa de que “as mensagens veiculadas pelos
negociações, constituindo um “fórum debates, cuja novidade reside no fato media são ressignificadas, vindo à
de discussão no qual é relativamen- de que os participantes dessa rede tona novas interpretações e represen-
te fácil de entrar, mas que encontra “não são mais percebidos prioritaria- tações da realidade” (Costa, 1997). A
muitas dificuldades de influir sobre a mente em razão de seu pertencimen- forma de poder que perpassa as redes
orientação de uma decisão política” to institucional, mas de acordo com informais é o poder comunicativo,
(Dubois, 1997, p.157). as relações estáveis que podem criar, isto é, um poder gerado por meio de
É importante deixarmos claro baseados no compromisso e na nego- uma comunicação não-institucionali-
que nem as policy networks, nem ciação” (Dubois, 1997, p.152). zada e não-tirânica que visa a buscar
as issue networks, permitem, por si Após esse breve levantamento o mútuo entendimento entre parcei-
mesmas e isoladamente, a efetivação da noção de “redes”, podemos então ros igualmente dignos de terem suas
do processo de tomada de decisões especificar melhor os três tipos de perspectivas consideradas por todos
coletivas. Seus integrantes precisam redes com os quais estamos lidando (Habermas, 1997).
trabalhar juntos, em parceria, ou seja, neste trabalho: as redes informais, As redes informacionais são re-
tanto especialistas quanto um públi- as redes informacionais e as redes des abstratas de fluxos de mensagens
co mais geral de concernidos preci- deli­berativas. As redes informais através das quais grupos ou indiví-
sam empreender uma ação capaz de caracterizam-se por serem pré-po- duos entram em contato por inter-
trazer ganhos de aprendizagem para líticas, ou como afirma Habermas, médio do partilhamento das mesmas
todos. Como as relações entre essas “redes periféricas da esfera públi- mensagens ou informações. Nesse
duas redes não são definidas a priori, ca política” (1997, p.21). Essas re- sentido, as redes informacionais são
as policy networks precisam desen- des não institucionalizadas, tecidas capazes de dar origem a comunida-
volver fronteiras mais porosas e, por em espaços comunicativos primá- des virtuais locais ou globais, não
sua vez, os componentes das issue rios (locais de moradia, esferas de mais necessariamente atreladas ao

5 As noções de “públicos fortes e fracos”, originalmente empregadas por Nancy Fraser (1997), são retomadas por Rousiley Maia (2004) de modo a
identificar, de um lado, atores institucionalizados, os quais raramente têm seus discursos contestados, devido à reverência e à legitimidade intrínseca
de seus argumentos, e, de outro, atores da sociedade civil que, apesar de captarem melhor os problemas e desarranjos sociais, têm dificuldades em lidar
com suas assimetrias de poder e de comunicação ao tentarem influir em debates coletivos sobre questões que lhes concernem diretamente.

78 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
território e ao tempo. Essas redes são informacionais é representada pela processos de partilhamento do po-
formadas pelo entrecruzamento de visibilidade e pela publicidade, ou der6. A deliberação é aqui entendida
discursos advindos tanto dos atores seja, o ato de tornar público que inibe como “uma atividade conjunta, an-
presentes nas redes informais, quanto ações ilegais dos participantes, bem corada na ação social do diálogo vi-
de especialistas, agentes do governo, como exige que todos justifiquem sando a uma solução para problemas
empresários, etc. Sob esse ponto de reciprocamente seus argumentos ou coletivos baseada na troca de razões
vista, as redes informacionais se ca- atitudes perante os outros (Bohman, em público” (Bohman, 1996). Para
racterizam por conferir visibilidade 1996). Amy Gutmann e Denis Thompson, a
aos diversos discursos sociais que se Não podemos desconsiderar que atividade deliberativa apresenta uma
articulam não só com o discurso mi- também as redes informacionais per- dimensão de justificação política na
diático, mas com os outros discursos mitem o diálogo entre os diferentes qual “cidadãos e seus representantes
presentes nesse espaço de mediação. pontos de vista traçados por especia- testam continuamente suas perspecti-
As redes informacionais encampam listas e detentores do poder político vas políticas procurando fóruns onde
os discursos oriundos das policy de um lado, e por um público mais elas podem ser desafiadas, deixando
networks a partir do momento que amplo e diversificado, de outro lado. aberta a possibilidade de sua revisão
os agentes midiáticos são agentes Essas mediações são preciosas para ou mesmo de sua rejeição” (2002,
especializados em produzir e “for- o florescimento de situações de de- p.165). Acreditamos, contudo, que a
matar” as mensagens e informações cisão multipolares e mais abertas formação de redes deliberativas não
e, além disso, esses agentes possuem institucionalmente (Dubois, 1997). visa somente à busca e obtenção rá-
privilégios de acesso às informa- A importância da criação de vín- pida de soluções, mas principalmen-
ções, ameaçando e constrangendo os culos de interdependência entre as te as negociações e embates discursi-
públicos fracos. Assim sendo, elas policy networks e as issue networks vos entre os cidadãos de maneira a: i)
recodificam esses discursos, proces- diz respeito também ao processo de possibilitar um melhor entendimen-
sando-os de modo intertextual, ou esclarecimento mútuo dos parceiros to de questões que afetem todos; ii)
seja, relacionando cada discurso com de diálogo. Nesse processo, a pró- contribuir para que cada participante
o outro, e todos eles com o discurso pria produção de informações e de articule melhor e revise seus próprios
da mídia, contribuindo, ao mesmo justificação recíproca entre os par- interesses e necessidades; e iii) pro-
tempo, para a produção de sentidos ceiros do diálogo é objeto de práticas mover uma variedade de alternativas
e para um embate discursivo trava- cooperativas, uma vez que ninguém de solução para essas questões.
do no próprio espaço de visibilidade detém a priori as alternativas ou so- Interessa-nos mais diretamente
midiática. luções mais adequadas para a resolu- neste trabalho identificar a imbrica-
As redes informacionais também ção de problemas coletivos (Avritzer, ção que as redes informacionais es-
contribuem para o fortalecimento das 2000a, p.44). tabelecem com as redes informais de
issue networks ao ampliarem a quan- Por fim, mas não menos impor- conversação cotidiana e com as redes
tidade de “vozes” possíveis de inte- tantes, as redes deliberativas com- deliberativas de troca de razões. Por
grarem uma discussão pública, origi- portam processos de troca pública isso, torna-se necessário examinar-
nando, assim, um fórum cívico para de argumentos que são responsáveis mos o papel da mídia nos processos
o debate pluralista (Maia, 2004). A pela aproximação entre atores so- atuais de debate e atuação política
forma de poder associada às redes ciais e políticos por meio dos novos dos atores cívicos.

6 Destacamos aqui a criação dos Conselhos de Políticas Públicas, institucionalizados pela Constituição de 1988, a qual incorpora o princípio da parti-
cipação comunitária gerando várias leis nesse sentido. Os Conselhos surgiram em um contexto de ampliação de espaços deliberativos híbridos, con-
gregando agentes do Estado e da sociedade civil, o que preconiza uma tentativa de partilha do poder decisório, levando os cidadãos a exercerem sua
autonomia política e suas capacidades de participação (Avritzer e Pereira, 2002; Teixeira, 2000). Atualmente, os fóruns híbridos de discussão contam
também com os Conselhos Gestores, o Orçamento Participativo e os Fóruns de discussão on-line.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 79
As redes informacionais e as contribuições da mídia para o fortalecimento
de processos democráticos

A afirmação de que a “mídia que eles reflitam e discutam entre si, Uma das características prin-
manipula” há muito deixou de se apropriando-se do fluxo informacio- cipais dessas redes aponta para o
apresentar como via única de enten- nal de modo a conferir-lhe um senti- fato de que as mídias impressas e
dimento do papel que a mídia ocupa do próprio, atrelado às suas experi- eletrônicas estão livres das limita-
nas sociedades democráticas com- ências cotidianas. ções de contextos espaço-tempo-
plexas e pluralistas. Marco teórico É interessante pensarmos, en- rais, podendo alcançar um público
na desestabilização dessa assertiva é tão, que a mídia, ao contrário do múltiplo, ampliado, não necessaria-
a obra de Habermas, sobretudo Di- que postulava Habermas em Mu- mente localizado face a face, mas
reito e democracia: entre facticidade dança estrutural da esfera pública potencialmente apto a interpretar
e validade (1997) e A teoria da ação (1984), não trabalha contra a demo- criticamente as mensagens, repre-
comunicativa (1987) , nas quais ele cracia, nem tampouco se apresenta sentações e imagens que recebem.
considera tanto as assimetrias de po- como obstáculo intransponível à O próprio fluxo de mensagens da
der e de influência que agem dentro racionalidade. A mídia e as redes mídia, destituído de fronteiras es-
das instituições midiáticas quanto as informacionais, em geral, confi- paço-temporais, dá origem a uma
possibilidades trazidas pela mídia guram-se atualmente como fonte rede de conteúdos da comunica-
no que diz respeito à visibilidade e de recursos simbólicos capazes de ção, ou rede informacional, capaz
à publicidade de novas discussões e oferecer aos cidadãos argumentos de agregar e processar mensagens e
atores que antes se viam restritos ao para dialogarem tanto nas redes in- discursos provenientes de “diferen-
espaço do privado. formais cotidianas quanto nas redes tes esferas de valor, comunidades
Em oposição à perspectiva ela- deliberativas mais amplas e com- e ambientes de ação, promovendo
borada pelos teóricos da indústria plexas (seja em espaços institucio- a circulação, interpenetração, so-
cultural, principalmente Adorno e nais ou não). Em um artigo recente, breposição e, conseqüentemente,
Horkheimer, Habermas reconhece Habermas reafirma a centralidade a reformulação desses discursos”
que a pesquisa de recepção e dos da mídia na constituição da esfera (Maia, 1998, p.138).
efeitos “conseguiu eliminar a ima- pública, ao afirmar que esta última É importante destacarmos que o
gem do consumidor passivo, vol- “está enraizada em redes de fluxos material simbólico e discursivo for-
tando-se para as estratégias de in- de mensagens – notícias, reporta- necido pela mídia através de suas di-
terpretação dos espectadores – que gens, comentários, conversas, cenas ferentes emissões (televisivas, radio-
eventualmente comunicam entre si e imagens, shows e filmes de con- fônicas, impressas, etc.), não é, per
– que são capazes de contradizer ou teúdo informativo, polêmico, educa- si, capaz de informar as preferências
de sintetizar a oferta simbólica dos cional ou de entretenimento. Essas e pontos de vista dos cidadãos. O
meios de comunicação de massa uti- opiniões publicadas, originadas de fluxo informacional deve, primeiro,
lizando-se de padrões de interpreta- vários tipos de atores, como políti- ser submetido a um processo reflexi-
ção próprios” (1997, p.111). Nesse cos, partidos e grupos da sociedade vo de crítica e análise desenvolvido
sentido, podemos afirmar que a ação civil, são selecionadas e formatadas tanto individualmente quanto co-
da mídia não se reduz à despolitiza- pelos profissionais da mídia e capta- letivamente nas redes informais de
ção e à apatia dos atores cívicos, pelo dos por amplas audiências, campos, comunicação cotidiana (Maia, 1998,
contrário, ela oferece “insumos” para subculturas, etc.” (2006, p.416). p.140).

As redes comunicativas informais de conversação cotidiana


Os “microdomínios da prática massa alcancem uma conexão com como agente de desmobilização e
cotidiana” (Costa, 1997, p.182) ga- a experiência vivida dos atores cívi- despolitização desses atores passam
rantem que os fluxos discursivos ad- cos. Como discutido anteriormente, a ser relativizadas quando se leva em
vindos dos meios de comunicação de perspectivas que apontam a mídia consideração as redes comunicativas

80 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
informais em que se inserem os in- a manipulação das opiniões, “pois dãos. Contudo, se considerarmos que
divíduos, suas preferências e suas para ela dirigem-se também fluxos os atores que participam de proces-
ações. O que deve ser aqui destacado comunicativos condensados na vida sos decisórios possuem assimetrias
é que a mídia é capaz de tematizar cotidiana que encerram questões re- de conhecimentos, de poder e de
problemas antes dispersos ou não levantes para o conjunto da socieda- formulação de suas próprias falas e
percebidos como tais, transpondo-os de” (Costa, 1997, p.182). O espaço argumentos, como fazer com que
para o espaço público de discussão, público é perpassado pelas redes suas demandas e contribuições sejam
de modo que é a sua ação de publi- informais de conversação cotidiana, igualmente avaliadas e discutidas?
cização de temáticas que confere tecidas por atores críticos que pos- Como tornar os argumentos elabora-
forma ao espaço público de discus- suem uma capacidade reflexiva e dos pelos atores das issue networks
são e de busca por um entendimento autônoma de se constituírem como tão “fortes”, ou tão válidos como
recíproco por meio da argumentação indivíduos moralmente capazes de aqueles formulados pelos atores das
e da troca de razões, tendo em vis- construir argumentos que sustentem policy networks, de maneira que am-
ta, sempre, o ponto de vista alheio. suas posições; de refutarem questio- bas as redes se interceptem de modo
Sabemos que a mídia sozinha não namentos acerca dos pontos de vis- não-hierárquico?
garante que a discussão ocorra, mas ta por eles adotados; e de refletirem A partir das considerações acima
admitimos que os poderes de visibili- sobre o conteúdo das mensagens mi- esboçadas podemos começar a refle-
dade e de publicização que ela detém diáticas, associando-o à sua própria tir sobre possíveis articulações entre
são essenciais para ampliar o esco- experiência (Maia, 2004; Habermas, a mídia e os processos democráticos
po de participantes da discussão e, 1990). São esses indivíduos que, de inclusão dos novos atores sociais
conseqüentemente, diversificar e au- de acordo com Leonardo Avritzer nas redes de discussões políticas e
mentar as opiniões em jogo, ao mes- (2000b), compõem os “públicos re- de cidadania. Mesmo considerando
mo tempo em que coloca cada ator flexivos”. as assimetrias de acesso dos públi-
diante de um público ampliado que Sob esse ponto de vista, a noção cos aos canais da mídia, bem como
elabora perguntas e exige respostas, de redes aponta para a hibridação os processos desiguais de barganha
fato que dificulta operações ilícitas e entre poderes periféricos e poderes que ocorrem nos bastidores dos veí-
“ocultas”. centrais de decisão, entre instituições culos de comunicação, acreditamos
O espaço público pré-estrutura- e organizações da sociedade civil, ser possível imaginar brechas para
do pela mídia7 não é mais um sim- entre sistemas de normas e arenas que os atores cívicos insiram suas
ples palco para a encenação de ato- plurais de discussão, de modo a am- demandas e necessidades na pauta
res estrategicamente voltados para pliar a participação ativa dos cida- dos assuntos coletivos.

O entrelaçamento das redes informais e deliberativas: mídia e movimentos sociais

Ao pensarmos os novos movi- sobre o uso “estratégico” que os ato- esperam tematizar publicamente, por
mentos sociais não é difícil perceber res dos movimentos sociais fazem da intermédio da imprensa e de formas
quão determinante a presença da mí- mídia. Assim, por meio da produção próprias de comunicação, questões
dia se torna para sua configuração, de “eventos espetaculares” (paradas como a discriminação racial e de gê-
divulgação, reestruturação e constan- do orgulho gay, passeatas, interven- nero, a falta de moradia, proteção ao
te “disputa” diante daqueles defini- ções em locais públicos que têm por meio ambiente, etc.
dos como os “outros”. Num primeiro objetivo chocar, ou causar estranha- Não podemos desconsiderar que
instante, nossa tendência é refletir mento nas pessoas), os movimentos a maior parte dos canais de acesso

7 Entendemos aqui que a pré-estruturação da esfera pública pela mídia se dá do seguinte modo: “a mídia, ao disseminar um determinado discurso, pode
contribuir para a emergência de públicos periféricos ou contra-públicos. Um discurso hegemônico pode, ele mesmo, produzir arenas discursivas para-
lelas, onde membros de comunidades sociais inventam e fazem circular contra-discursos, de modo a formular interpretações divergentes ou opostas,
alargando o espaço de contestações” (Maia, 1998, p.145).

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 81
dos atores da sociedade civil à mí- Na maioria dos casos expressos econômicas – apesar de as duas an-
dia são vias estratégicas, marcadas por esses dilemas, podemos perce- darem sempre entrelaçadas8 –, a luta
pelos seguintes “atalhos”: i) oferta ber a existência de um hiato entre moral de indivíduos e grupos por seus
de informações especializadas, ou o “auto-entendimento” do grupo direitos e por uma melhor qualidade
seja, os movimentos sociais possuem e o “entendimento produzido pela de vida. Nesse sentido, as representa-
uma vivência dos problemas que, mídia”. Nesse caso, o ato de produ- ções pejorativas, produzidas pela mí-
certamente, nenhum outro especia- zir fatos com “conteúdo noticioso” dia ou socialmente, podem fornecer
lista a quem a mídia possa recorrer, pode revelar-se como faca de dois condições culturais para a resistência
apresentará; ii) utilização da mídia gumes. Ganhar o espaço de visibili- e também para uma contestação de
como prestadora de serviços, anun- dade midiática é importante para os valores até então tidos como inques-
ciando os próximos “passos” dos movimentos sociais, porque os retira tionáveis, ou imutáveis.
movimentos, por exemplo; iii) pro- do “ostracismo” e da “sombra”, po- É sob essa perspectiva que a re-
dução de eventos espetaculares por sição que nega o devido respeito e a flexividade promovida pela interação
parte dos movimentos sociais, como dignidade por eles ansiada. Mas, ao dinâmica dos discursos que com-
acima mencionado; iv) utilização da mesmo tempo, a dinâmica da visibi- põem as redes informacionais torna
grande imprensa para divulgar o mo- lidade pode produzir armadilhas, tais possível a articulação e tematização
vimento e pressionar autoridades por como a representação inadequada, de questões relevantes para toda a
mudanças; ao passo que os recursos depreciativa ou estereotipada do gru- sociedade, originando redes delibe-
comunicativos internos do grupo são po, o que confere uma visibilidade rativas capazes de promover um em-
destinados a reunir, consolidar e legi- perversa que a todo instante precisa bate de pontos de vista que traz para
timar o movimento. ser contestada. a agenda pública as demandas dos
Contudo, a nosso ver, a grande Mas, a partir do momento em movimentos sociais (Maia, 1998).
tensão que se deixa entrever nesse que partimos do pressuposto de que A grande questão que se coloca é
“uso estratégico” da mídia por parte os atores cívicos são moralmente ca- saber como anseios formulados nos
dos movimentos sociais encontra-se pazes de reivindicar para si o status microdomínios da vida cotidiana, e
nas falhas de articulação entre as de- de cidadãos reflexivos e críticos, é que perpassam as redes informais,
mandas civis e as representações a possível dizer que quando percebem podem criar interseções com as redes
eles destinadas no momento em que “que os temas que lhes interessam deliberativas institucionais.
ganham visibilidade na mídia. Ou não estão recebendo o tratamento Podemos tentar encontrar uma
seja, são falhas de tradução. Pode- adequado pela mídia, esses segmen- resposta para esse impasse, pensan-
mos entender os dilemas da tradu- tos podem se organizar para buscar a do em como as redes informacionais
ção em dois sentidos principais: a) o atenção pública para suas questões” podem proporcionar mediações ca-
primeiro diz respeito à auto-imagem (Costa, 1997, p.129). pazes de “traduzir” os anseios dos
do movimento, exteriorizada para Eis o grande mote da luta por cidadãos em assuntos de interesse
o resto da sociedade com o auxílio reconhecimento travada atualmente coletivo. Vimos até aqui que a mí-
da mídia; e b) o segundo refere-se pelos movimentos sociais: a dispari- dia, entendida como uma ampla rede
ao papel dos próprios movimen- dade entre o entendimento que pro- cuja tessitura é organizada em torno
tos sociais enquanto “tradutores” duzem acerca de si mesmos e o en- de vários discursos provenientes de
do discurso da sociedade civil para tendimento produzido pelos outros. múltiplos campos socias, pode tan-
instâncias mais amplas da socieda- A tensão entre essas duas formas to organizar issue networks quan-
de como um todo, incluindo-se aí de entendimento está na origem de to aproximá-las dos especialistas
as instâncias normativas e jurídicas injustiças simbólicas que hoje ca- e agentes do governo situados nas
(Alexander, 1994). racterizam, mais que as injustiças policy networks. Nesse caso, a mídia

8 Alexander nos chama a atenção para o fato de que as lutas por reconhecimento já se processavam muito antes da sociedade pós-industrial. Segundo
ele, nessa época “os movimentos sociais eram lutas que visavam não só à distribuição de recursos materiais, em si e por si mesmos, mas conflitos em
torno da distribuição de recursos definidos pela cultura e da determinação de qual classe poderia reivindicar o direito normativamente legítimo de
distribuição desses recursos para a coletividade” (1998, p.16).

82 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
é capaz de dar origem a redes deli- sob a forma de demandas por direitos construção de novas formas de nego-
berativas, as quais, alimentando-se e cidadania (Alvarez et al, 2000). ciação e de entendimento, para que a
dos anseios básicos e necessidades Nessa perspectiva, as redes deli- disposição de cooperar mutuamente
de justiça dos cidadãos, afetam os berativas e também as redes informa- com projetos alheios seja sempre a
centros de poder, podendo até influir cionais (com seu poder de conferir linguagem de acesso a formas de so-
nos arranjos e na produção de novas visibilidade a questões problemáti- lidariedade e cidadania que alcancem
leis e normas (Maia, 1998). A partir cas), concebidas como interface di- também aqueles indivíduos atingidos
de sua inserção em redes informais e nâmica entre sociedade e instituições por formas de desrespeito como o os-
deliberativas, os indivíduos e grupos administrativas, têm propiciado um tracismo social, a invisibilidade e a
passam a articular suas necessidades aprendizado lento, mas eficaz, de exclusão.

Considerações finais

Neste trabalho vimos como a convergem para um embate que re- pluralização das vozes que fazem
mídia pode estreitar as ligações entre sulta sempre em disputas políticas parte das redes deliberativas. Não
as redes informais de conversação e por prestígio e por uma pretensa le- desconsideramos que os discursos
ação cotidiana e as redes deliberati- gitimidade. A mídia não é só um ca- veiculados pelos meios de comuni-
vas formadas a partir da atuação dos nal de divulgação das atividades dos cação de massa não esgotam a plu-
cidadãos na esfera pública de debate políticos. Pelo contrário, ela vai além ralidade de perspectivas e interesses
em diferentes formas de atuação. Ar- da missão de ser a “guardiã da ima- presentes na sociedade. Todavia, os
gumentamos que se a grande maioria gem do governo” e passa a ter uma interesses e preferências dos cida-
dos problemas vivenciados pela so- relevante contribuição na formação dãos não são definidos a priori, mas
ciedade civil expressa-se primeiro nas do senso crítico coletivo e na relação negociados e renegociados constan-
redes informais de sociabilidade, num entre governo e sociedade civil. Os temente, seja nas redes informais de
segundo momento esses problemas acontecimentos retratados na mídia conversação cotidiana, seja nas redes
podem ser transpostos para as redes fazem com que os indivíduos refli- de deliberação e diálogo público.
deliberativas com o auxílio da mídia. tam sobre a ação de seus represen- Com isso, mesmo consideran-
Ao partirmos da premissa de que tantes, tornando-os potencialmente do que a mídia opera sob o jugo de
a mídia pode constituir-se num va- capazes de “cobrar” respostas e po- mecanismos atrelados à lógica do
lioso instrumento de fortalecimento sicionamentos dos mesmos. Ao am- mercado e que, portanto, ela não se
da democracia em sociedades plura- pliar a heterogeneidade de assuntos faz transparente ao público – ape-
listas, apostamos, principalmente, na e de atores interessados em questões sar de proporcionar transparência às
forma como ela abre espaços para de- políticas e/ou morais, a mídia cola- instituições administrativas e cívicas
liberações públicas, ao expor temas bora para a construção de redes de- –, é preciso acreditar que ela tem a
em controvérsia e suas diferentes liberativas. potencialidade de dar espaço a dife-
interpretações, aumentando a quali- Acentuamos ainda que uma se- rentes vozes presentes na sociedade
dade e a quantidade das formas de gunda contribuição da mídia para a para que elas participem do debate
acesso ao debate social. É claro que deliberação relaciona-se ao fato de político, ampliando a pluralidade de
não desconsideramos o fato de que a que ela é, nas sociedades contem- agentes e de argumentos. Quando su-
institucionalização de esferas públi- porâneas, “o principal instrumento jeitos marginalizados, denominados
cas e o livre acesso às informações de difusão das visões de mundo e aqui de “públicos fracos”, passam a
não são suficientes para que ocorra dos projetos políticos; ou seja, é o ganhar um espaço de visibilidade e
a participação ativa dos cidadãos em local em que estão expostas as di- de tematização de suas necessidades,
fóruns que congregam tanto cidadãos versas representações do mundo so- eles desafiam não somente a cultura
quanto especialistas e governantes. cial, associadas aos diversos grupos política dominante do país, mas tam-
Apontamos que a mídia atua e interesses presentes na sociedade” bém ampliam as noções de cidada-
como canal facilitador de processos (Miguel, 2002, p.163). Esse caráter nia e reconhecimento, introduzindo
de deliberação, uma vez que ela não de rede informacional apresentado novos vocabulários, novos pontos
pode ser entendida somente como pela mídia faz com que os discursos de vista e novos modos de vida nos
“local” onde interesses diversos que ela veicula contribuam para a espaços públicos de discussão.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 83
Referências
ALEXANDER, J. “Ação coletiva, cultura e sociedade civil: secularização, atualização, inversão e deslocamento do modelo clássico dos
movimentos sociais”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 13, n. 17, 1994, p.5-31.
ALVAREZ, S.; DAGNINO, E.; ESCOBAR, A. (Orgs.) Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos: novas leituras.
Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.
AVRITZER, L. “Entre o diálogo e a reflexividade: a modernidade tardia e a mídia”. In: AVRITZER, L. & DOMINGUES, J. M. Teoria
social e modernidade no Brasil. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000b, p.61-83.
AVRITZER L. “Teoria democrática e deliberação pública”. In: Lua Nova, n. 50, 2000a, p.25-46.
AVRITZER, L. & PEREIRA, M. L. D. “Democracia, participação e instituições híbridas”, 2002, mimeo.
BOHMAN, J. Public Deliberation: pluralism, complexity, and democracy. Massachusetts: Mit Press, 1996.
CONOVER, P.; SEARING, D.; CREWE, I. “The Deliberative Potential of Political Discussion”. In: British Journal of Political Science,
v. 32, 2002, p.21-62.
COSTA, S. “Movimentos Sociais, democratização e a construção de esferas públicas locais”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais,
v. 12, n. 35, 1997, p.121-134.
DUBOIS, J. “La network analysis comme outil d’investigation”. In: ______. Communautés de politiques publiques et projets urbains.
Paris: L’Harmattan, 1997.
ELIASOPH, N. “Close to home: the work of avoiding politics”. In: Theory and Society, v. 26, 1997, p.605-647.
FRASER, N. “From Distribution to Recognition? Dilemmas of Justice in a ‘Postsocialist’ Age”. In: ______. Justice Interruptus – critical
reflections on the ‘postsocialist’ condition. London: Routledge, 1997, p.11-39.
GAMSON, W. Talking Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.
GAUDIN, J. P. Gouverner par contrat, l’action publique en question. Paris: Presses de Sciences Po, 1999.
GAUDIN, J. P. L’action publique: sociologie et politique. Paris: Presses de Sciences Po et Dalloz, 2004.
GUTMANN, A. & THOMPSON, D. “Deliberative democracy beyond process”. In: The Journal of Political Philosophy, v. 10, n. 2,
2002, p.153-174.
HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
HABERMAS, J. “Soberania popular como procedimento: um conceito normativo de espaço público”. In: Novos Estudos Cebrap, n. 26,
1990, p.100-113.
HABERMAS, J. The Theory of Communicative Action – Lifeworld and system: a critique of functionalistic reason, vol. 2. Boston:
Beacon Press, 1987.
HABERMAS, J. Direito e democracia: entre facticidade e validade, v. 2. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
HABERMAS, J. “Further Reflections on the Public Sphere”. In: CALHOUN, C. (Ed). Habermas and the Public Sphere. Cambridge:
Mit Press, 1992.
HABERMAS, J. “Political Communication in Media Society – does democracy still enjoy an epistemic dimension? The impact of
normative theory on empirical research”. In: Communication Theory, v. 16, 2006, p.411-426.
MAIA, R. C. M. “Dos dilemas da visibilidade midiática para a deliberação política”. In: LEMOS, A. et al. (Orgs.). Livro da XII compós:
mídia.br. Porto Alegre: Sulina, 2004, p.9-38.
MAIA, R. C. M. “A mídia e o novo espaço público: a reabilitação da sociabilidade e a formação discursiva da opinião”. In: Comunicação
& Política, v. 5, n. 1, 1998, p.131-156.
MAIA, R. C. M. “Redes cívicas e Internet: do ambiente informativo denso às condições da deliberação pública”. In: EISENBERG, J.;
CEPIK, M. (Orgs.). Internet e política: teoria e prática da democracia eletrônica. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002, p.46-72.
MANSBRIDGE, J. “Everyday Talk in the Deliberative System”. In: MACEDO, Stephen (Ed.). Deliberative Politics: essays on
democracy and disagreement. Oxford: Oxford University Press, 1999, p.211-239.
MARQUES, Â. C. S. “Dimensões da autonomia: o programa Bolsa-Família no discurso midiático e na fala das beneficiárias”. In:
Contracampo, v. 14, Niterói, 2006, p.126-162.
MIGUEL, L. F. “Os meios de comunicação e a prática política”. In: Lua Nova, n. 55-56, 2002, p.155-184.
MUTZ, D.; MONDAK, J. “The Workplace as a context for crosscutting political discourse”. In: Journal of Politics, v. 68, 2006, p.140-155.
RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1997.
SCHERER-WARREN, I. “Redes sociais na sociedade de informação“. In: MAIA, R.; CASTRO, M. C. P. (Orgs.). Mídia, esfera pública
e identidades coletivas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006, p.215-227.
TEIXEIRA, E. C. “Conselhos de políticas públicas: efetivamente uma nova institucionalidade participativa?”. In: CARVALHO, Maria do
Carmo A. A. & TEIXEIRA, Ana Cláudia C. (Orgs.). Conselhos gestores de políticas públicas. São Paulo, Polis, 2000, p.97-120.

84 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
A Universidade Aberta do Brasil:
estratégia para a formação superior
na modalidade de EAD
Hélio Chaves Filho
Graduado em Engenharia Elétrica e licenciado em Física pela
Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Educação pela UnB.
Diretor do Departamento de Políticas em Educação a Distância da
Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação.
heliofilho@mec.gov.br

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade,


sem ela tampouco a sociedade muda.”
Paulo Freire

RESUMO
O presente artigo tem por objetivo apresentar as bases de criação do Projeto Universidade Aberta do Brasil, no âmbito
do Fórum das Estatais pela Educação. Oportunamente, citaremos alguns de seus antecedentes históricos, bem como será
apresentado o cenário nacional propício para seu surgimento. Trata-se da socialização dos trabalhos desenvolvidos na
Secretaria de Educação a Distância do MEC, com a apresentação de projeto de nação que permitirá expandir a oferta de
educação superior por meio da educação a distância, sinalizando uma nova forma de prover financiamento.

À guisa de introdução
Não obstante a educação a dis- superior. Distante ainda de viver sua dos recentes, constantes e intensos
tância (EAD) no Brasil tenha com- belle époque, mas já brindando im- avanços dos recursos tecnológicos
pletado seu primeiro século de his- portantes conquistas, alguns fatores de informação e comunicação 1, es-
tória, apenas recentemente, a partir engendraram o cenário propício para pecialmente das tecnologias digitais,
de meados da década de 1990, sofreu a educação superior a distância e que potencializando práticas de EAD
importantes impulsos para sua efe- merecem nosso destaque: a) materia- – as quais tradicionalmente estavam
tiva realização na educação formal lização de ambientes e metodologias apoiadas em material impresso dis-
regular e, em particular, no ensino educacionais inovadores, no contexto tribuído por correspondência; b) o

1 Conjunto de tecnologias apropriadas para coleta, armazenagem, produção, edição, armazenamento, processamento e transmissão de informações em
diferentes formatos (imagem, texto, áudio, etc.). Destacam-se as tecnologias eletrônicas, informáticas, computacionais e de telecomunicações.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 85
arcabouço legal voltado para a área Em que pese posição “apocalíp- ao assunto em tela, elaborou-se este
educacional 2, ainda que de forma tica ou integrada” da crítica, o fato é artigo com o objetivo de apresentar o
incipiente e assistemática, propiciou que o Brasil tem avançado no setor e Projeto Universidade Aberta do Bra-
abertura e incentivo para a EAD; c) já podemos vislumbrar as sementes sil (UAB), suas bases e criação, no
pressão por expansão da educação do “modelo brasileiro para EAD”, o ano de 2005, no Fórum das Estatais
superior, resultante dos direitos cons- qual não será consolidado em insti- pela Educação, que apenas pode sur-
titucionais3 básicos, em termos de ca- tuições criadas especificamente para gir no âmbito das mudanças citadas
pilarização e interiorização da oferta, esse fim, mas a partir de instituições anteriormente. Importante indicar
para o atendimento das demandas na- educacionais preexistentes e que também as perspectivas futuras e
cionais reprimidas, tanto para a for- estão trabalhando com duas formas sua importância para a ampliação da
mação inicial quanto para a formação de ensino – presencial e a distância. oferta do número de vagas no ensino
continuada, na qual a EAD é aponta- Importante ressaltar que essas for- superior público e gratuito e expan-
da como solução; d) ações de fomen- mas não estão “competindo” entre são geográfica da oferta, no combate
to voltadas para a educação superior si, mas coexistindo em relação de ao histórico desafio da exclusão dos
a distância, desenvolvidas pelo Mi- complementaridade e socializando cidadãos brasileiros aos níveis mais
nistério da Educação, esferas gover- os avanços experimentados em cada elevados da educação.
namentais e pelos sistemas de ensino, uma. O “fértil terreno” no qual se lan-
no âmbito de políticas públicas volta- Trata-se de um modelo da tercei- çam as sementes do Projeto UAB
das para a melhoria da qualidade da ra geração 4 de EAD, para oferta de propiciará revisão de nosso para-
educação básica, a partir da formação ensino superior a distância, referen- digma educacional, em termos da
inicial e continuada de professores. ciado em pontos positivos de expe- modernização, gestão democrática
Entretanto, críticos afirmam que riências internacionais e que começa e financiamento, e provocará im-
a educação a distância no País, prin- a dar mostras de sua potencialidade, portantes desdobramentos para a
cipalmente no nível superior, ainda concomitantemente à sua forma cria- melhoria da qualidade da educação,
se encontra em estágio incipiente, tiva e participativa de se estabelecer, tanto na incorporação de tecnologias
sofrendo os reflexos de preconcei- o que tem despertado o interesse de e metodologias inovadoras ao ensino
tos acadêmicos, os quais, historica- especialistas e sinalizado um futuro presencial, quanto nos possíveis ca-
mente, relegaram-na à categoria de promissor. minhos de promovermos educação
educação massificante e de segunda Sem a pretensão de esgotar a superior a distância com liberdade e
categoria. complexidade e riqueza intrínsecas flexibilidade.

O Programa UAB
O propósito de apresentar o Pro- restringir a esse enfoque pouco con- de seus elementos estruturantes e das
grama Universidade Aberta do Bra- tribui para o debate sobre educação estratégias escolhidas para o traba-
sil 5 (UAB) neste artigo transcende a distância. A exposição que se pre- lho colaborativo de implantação do
a mera descrição administrativa dos tende para a UAB visa a buscar sua Programa, como forma de contextu-
atos que o criaram, considerando que essência e potencialidades, a partir alização e de busca de soluções para

2 Destacando-se o artigo 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e respectivas regulamentações para
EAD.
3 O artigo 205 da Constituição da República Federativa do Brasil prescreve, verbis: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será
promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho”.
4 Analistas consideram a primeira geração de educação a distância aquela baseada em correspondências e transmissão radiofônica de conteúdos de
instituições educacionais. A segunda geração ocorreria na década de 1970, com a criação de instituições dedicadas à modalidade de EAD.
5 Programa criado pela Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação e instituído pelo Decreto 5.800, de 6 de junho de 2006.

86 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
o desafiador cenário contemporâneo superior (materializada na tríade en- o Sistema UAB pretende-se atender
da educação brasileira. Trata-se de sino, pesquisa e extensão) estabeleça os cidadãos que não tiveram acesso à
esforço no sentido de apresentar um elo natural com a educação básica e, educação, especialmente aqueles que
sistema nacional que poderá repre- por conseguinte, seja criado círculo se encontram em regiões distintas da
sentar o modelo brasileiro de educa- virtuoso que poderá gerar reflexos oferta, isto é, a UAB também terá pa-
ção a distância e que será construído positivos no que diz respeito à quali- pel importante na expansão geográfi-
em colaboração entre as três esferas dade da educação brasileira. ca da oferta de educação no país.
de governo, as instituições de educa- Nesse sentido, também preten- Entretanto, um dos importantes
ção superior e a sociedade civil, cujos demos contribuir para erradicar o desafios a serem considerados para o
objetivos apontam para a democrati- histórico preconceito associado à sucesso do projeto é sua consolidação
zação do acesso dos jovens à edu- educação a distância no âmbito aca- em termos de sistema nacional. Não
cação superior pública, gratuita e de dêmico, à medida que o ensino, seja se trata de mais um projeto de gover-
qualidade, a partir de alguns elemen- ele presencial ou a distância, seja no, mas de uma oportunidade para
tos estruturantes: i) interiorização e revitalizado com o aporte de tecno- as instituições de ensino superior do
capilarização da oferta de cursos su- logias de informação e comunicação país criarem, democraticamente, as
periores na modalidade de educação no âmbito de metodologias educa- condições para implantação e pere-
a distância (prioritariamente para a cionais inovadoras. nização da modalidade de EAD no
formação inicial e continuada de pro- Freqüentemente os projetos de Brasil, em estreita correlação com as
fessores da educação básica, com es- educação a distância são enfocados escolas públicas de educação básica.
pecial destaque para as licenciaturas); pelo prisma e ênfase nas possibilida- Nessa perspectiva, há necessidade de
ii) estruturação de rede nacional de des de aumento da oferta de vagas, considerarmos a complexidade do
formação continuada de professores; cuja motivação remete aos promis- modelo proposto para a UAB, suas
e iii) consolidação da visão sistêmi- sores dados de escalabilidade e pro- nuanças e filigranas, apontando para
ca da educação nacional, permitindo jeções futuras. Apesar da relevância a perspectiva da visão sistêmica da
que a produção acadêmica em nível de seu potencial de expansão, com educação nacional.

Oferta e atendimento na educação superior brasileira


A Constituição Federal determina Chile (20,6%). Muitos são os fatores Ademais, a combinação de fa-
que: “o dever do Estado com a educa- que concorrem para essa realidade, tores demográficos, de políticas
ção será efetivado mediante garantia dos quais destacamos: baixos índices de expansão do ensino médio que
de (...) acesso aos níveis mais eleva- de conclusão do ensino médio, difi- vêm gerando pressão por aumento
dos do ensino, da pesquisa e da cria- culdades econômico-financeiras que do número de vagas no ensino su-
ção artística, segundo a capacidade de obrigam nossos jovens a migrarem perior, bem como o aumento das
cada um” (art. 208, inciso V), sinali- para o mercado de trabalho antes de exigências de formação para o mer-
zando que a educação superior con- ingressarem na educação superior, de- cado de trabalho, sinalizam para
forma-se como estratégia basilar para manda reprimida por vagas, acarreta- uma expressiva demanda por edu-
o desenvolvimento nacional sustentá- da pela concentração da oferta de edu- cação superior inicial e continuada.
vel. Entretanto, o país ainda padece cação superior em praticamente 30% Além disso, as assimetrias sociais,
de baixos índices de acesso à edu- dos nossos municípios, bem como econômicas, culturais e educacio-
cação superior: dados do censo Inep pelo número insuficiente de vagas no nais são marcantes, desenhando
(2003) indicam que apenas 10,5% da setor público. Nesse sentido, o Plano um diagrama complexo, agravado
população brasileira, com idade entre Nacional de Educação – PNE, criado pelas dimensões continentais do
18 e 24 anos de idade, têm acesso à pela Lei 10.271/01, determinou como Brasil. Diante de tal conjuntura, a
educação superior, valor inferior ao meta, entre outras, o atendimento, em democratização do acesso ao en-
de países como a Argentina (40%), nível superior, de 30% dos jovens de sino superior pretendida configu-
Venezuela (26%), Bolívia (20,6%) e 18 a 24 anos até 2011. ra-se um imenso desafio ao poder

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 87
público. Dificilmente conseguire- de famílias de renda mais baixa, se paralelamente ao desenvolvimento
mos democratizar a oferta de edu- não proporcionarmos a expansão do de ações que garantam melhor dis-
cação superior, incluindo os jovens ensino superior público e gratuito, tribuição de renda.

A gênese do Programa UAB


O Fórum das Estatais pela Educa- cidadania de milhões de brasileiros; e das Instituições Federais de Ensino
ção foi constituído para ser o espaço o fortalecimento da educação profis- Superior – Andifes.
de diálogo e interlocução entre Minis- sional no Brasil com a inclusão social A iniciativa integra importan-
tério da Educação, Governo Federal, de jovens e adultos no mundo do tra- tes políticas públicas para a área de
estatais brasileiras, sociedade civil balho e a formação de técnicos para educação e terá ênfase em programas
brasileira, empresários, trabalhado- contribuir com a política industrial e voltados para a expansão da educação
res, organizações não governamen- o novo modelo de desenvolvimento superior7 com qualidade e promoção
tais e organismos internacionais, em econômico brasileiro. de inclusão social. Em sua essência,
torno de questões estratégicas para o A partir dos eixos estratégicos o projeto tem sido caracterizado pela
desenvolvimento sustentável do país, foram estabelecidas quatro Câmaras reafirmação do caráter estratégico
com destaque especial para a busca Temáticas, a fim de promover o di- desse nível educacional, do desen-
de solução para os problemas detec- álogo entre projetos afins. Cada Câ- volvimento científico e da inovação
tados na educação. De modo geral, ao mara estabelecerá relação com um tecnológica para o crescimento sus-
Fórum propõe-se o desenvolvimento macroprojeto do Ministério da Edu- tentado do país, além de estabelecer
de ações que buscam potencializar cação, no sentido da convergência de metas e ações para a promoção da
as políticas públicas educacionais esforços: a) alfabetização e inclusão educação inclusiva e cidadã.
promovidas pelo Governo Federal, social (Brasil Alfabetizado); b) apri- Trata-se de um marco histórico
especialmente pelo estabelecimen- moramento da qualidade da educação para a educação brasileira e que será
to de metas e planos de ação. Nesse básica (Escola Aberta); c) ampliação amalgamado na produção coletiva de
particular, o MEC apresentou quatro do ensino técnico e profissional (Es- iniciativas compatíveis com a neces-
linhas básicas de ação: incentivo à cola na Fábrica); d) fortalecimento e sidade de revigoramento do modelo
qualidade da educação básica com a expansão da educação superior pú- de formação superior no Brasil – tra-
implantação do Fundo de Manuten- blica (projeto de apoio à pesquisa e dicionalmente baseado em formação
ção e Desenvolvimento da Educação à extensão entre Instituições Federais acadêmica inicial – e no repensar a
Básica e de Valorização dos Profis- de Ensino Superior – Ifes e estatais). educação ao longo da vida, conside-
sionais da Educação Básica – Fundeb Por intermédio da Secretaria rando-se as progressivas e profundas
e mobilização nacional de estados e de Educação a Distância do MEC, reestruturações das relações profis-
municípios para o enfrentamento das e considerando as ações no âmbito sionais, bem como da emergência de
dificuldades de aprendizado e valo- de políticas públicas de expansão novas competências para o trabalho,
rização dos professores; reforma da da educação superior, foi elaborado provocadas pelos constantes avanços
educação superior, que amplie e for- o Projeto Universidade Aberta do tecnológicos em nossos dias.
taleça a universidade pública e gratui- Brasil, representando a convergência A consecução do projeto prevê
ta e norteie, pelo interesse público, as de esforços das instituições partici- a oferta de educação superior ba-
instituições particulares, com padrões pantes do Fórum, em especial o Go- seada na adoção e fomento da mo-
de qualidade; alfabetização como verno Federal, empresas estatais 6 e a dalidade de EAD, fato que confere
porta de ingresso para a inclusão e a Associação Nacional dos Dirigentes férteis potencialidades para a UAB,

6 Nos termos do artigo 173, § 1°, da Constituição Federal, empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias.
7 Nos termos da legislação vigente, a educação superior no Brasil abrange os seguintes cursos e programas: extensão, seqüenciais, graduação (inclusive
os tecnológicos), aperfeiçoamento, especialização (lato sensu), mestrado e doutorado.

88 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
entre as quais se destaca a alterna- desafio permanente para a constru- um cenário nacional favorável ao de-
tiva para atendimento às demandas ção de um projeto nacional sustentá- senvolvimento, essas ações poderão
reprimidas por educação superior no vel e inclusivo. multiplicar-se em número, além de
Brasil, o que contribuirá para o en- Para enfrentar esses desafios, o melhorar em qualidade. Nesse senti-
frentamento de um cenário nacional conjunto das instituições participan- do, há que se fomentar o campo de
de assimetrias educacionais, seja em tes do Fórum das Estatais da Edu- pesquisas em tecnologias de infor-
relação à oferta de cursos superiores, cação propõe a criação do Sistema mação e comunicação, outra impor-
seja em relação às possibilidades de UAB, que congregará instituições tante missão para o Sistema Univer-
oferta de educação continuada 8 ao públicas de educação superior para sidade Aberta.
longo da vida. Nesse particular, pre- ofertar cursos e programas da mo- No entanto, considerando-se
tende-se ampliar as oportunidades de dalidade de EAD, tendo por ponto as iniciativas educacionais desen-
acesso à educação de grande número de partida a consolidação e diversi- volvidas na modalidade a distância
de estudantes que vivem em regiões ficação de experiências, em variados no Brasil, seja pelas universidades
distantes dos grandes centros urba- níveis de ensino, que vêm gradativa- ou empresas estatais, enumeram-se
nos. Vale ressaltar que a modalidade mente tomando forma no Brasil. ações que vêm ocorrendo de forma
de EAD tem por sustentáculo as tec- É oportuno citar que a oferta individualizada e não sistemática,
nologias de informação e comunica- de educação superior por meio da com sobreposição de esforços e re-
ção, o que também poderá permitir modalidade de educação a distância cursos. O estabelecimento de par-
espaço de formação acadêmica atu- constitui importante estratégia para cerias nacionais seria extremamente
alizada, privilegiando a construção aumento da oferta nas regiões dis- profícuo, pois possibilitaria a troca
autônoma e crítica do conhecimento, tantes dos grandes centros. Trata-se de experiências, o compartilhamento
por intermédio de variados meios de de possibilidade de capilarização da de instalações tecnológicas, a ela-
aprendizagem: impressos, áudios, oferta em atendimento da demanda boração conjunta de ferramentas de
vídeos, multimídia, Internet, correio reprimida. comunicação e de material didáti-
eletrônico, chats, fóruns e videocon- Outras organizações da socieda- co, economizando tempo e investi-
ferências. de, em especial as estatais, também mento. Em última análise, com esse
Nessa linha, a adoção da mo- têm desenvolvido variadas ações princípio de trabalho conjunto, as
dalidade de EAD deverá apresentar para formação continuada de ser- universidades e as empresas estatais
impactos positivos no atendimento vidores por meio da modalidade de estarão favorecendo o desenvolvi-
de demandas de formação ou capa- EAD, dada a constante necessidade mento científico, tecnológico e so-
citação de mais de um milhão de do- de capacitação de pessoal, nos mais cial do país.
centes para a educação básica, bem distantes rincões do nosso país, em A título de exemplo, uma fértil
como da formação, em serviço, de atendimento a metas básicas para o parceria entre empresas estatais e
um grande contingente de servidores desenvolvimento regional sustentá- universidades públicas poderia mate-
das empresas estatais. vel e de uma gestão pública voltada rializar-se na construção e execução
Embora tenha surgido e sido para o pleno exercício da cidadania. de amplo programa nacional de for-
implementado no atual governo, o Essa constatação elege as empresas mação em serviço, para os servidores
Projeto UAB representa mais que estatais como parceiras potenciais no públicos, tendo em vista a enorme
um programa governamental, confi- compartilhamento colaborativo de demanda desse tipo de formação nas
gura-se como programa de nação, ao experiências em EAD. esferas estaduais e municipais.
proporcionar educação superior para No tocante às iniciativas citadas Um dos quatro eixos estraté-
todos, com qualidade e democracia, anteriormente, acredita-se que, em gicos estruturantes do fórum diz

8 Educação ou formação continuada ao longo da vida é um conceito em relação de complementaridade ao conceito de educação ou formação inicial,
tradicionalmente é composta por cursos de especialização, aperfeiçoamento, extensão, entre outros. Resulta da constante necessidade de atualização
acadêmico-profissional, frente aos desafios impostos pela sociedade global e do conhecimento.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 89
respeito ao fortalecimento e expansão Esse programa tem por metas prin- Nessa linha, um dos três eixos de
da educação superior pública, no qual cipais: o desenvolvimento regional atuação definidos para o Programa
o Programa Interface, em particular, e a superação de desequilíbrios no Interface refere-se à infra-estrutura
estabelece os termos principais das panorama nacional e atendimento de para EAD, com incorporação de de-
relações entre as Ifes – representadas necessidades de pesquisa e prestação mandas de formação continuada por
pela Andifes – e as empresas estatais. de serviços das empresas estatais. parte das empresas.

O edital de convocação
A agenda do Projeto UAB previa cursos demandados e a capacidade A apresentação de propostas de
o lançamento de edital público para de oferta por instituições federais de projetos observou o seguinte cro-
convocação de instituições federais ensino na região. Serão considerados nograma: recebimento de propostas
de educação superior, em 20 de de- para efeito de seleção do pólo, espe- de 21 de dezembro de 2005 a 13 de
zembro de 2005, para apresentarem cialmente, a análise da infra-estrutu- abril de 2006; análise das propos-
propostas de cursos superiores a dis- ra física do pólo proposto e recursos tas de 17 de abril a 30 de junho de
tância, bem como os dirigentes de humanos disponíveis. 2006; divulgação dos resultados de
municípios, de estados e do Distrito O edital também contemplou 3 de julho a 7 de julho de 2006; e,
Federal, para apresentarem proposta propostas de projetos de cursos supe- finalmente, a formalização dos con-
de pólo municipal de apoio presen- riores, na modalidade de educação a vênios aprovados de 10 de julho a 31
cial. distância, individuais ou coletivamen- de agosto de 2006. No período de se-
Os proponentes de pólo munici- te organizados, universidades fede- tembro de 2006 a fevereiro de 2007,
pal de apoio presencial estruturaram rais e Centros Federais de Educação foram realizadas as atividades para
suas propostas com descrição da in- Tecnológica (Cefets). A proposta da adequação dos pólos, preparação
fra-estrutura física e logística de fun- instituição federal de ensino superior dos tutores, produção do material
cionamento (laboratórios didáticos e deverá ser estruturada com descrição didático e demais ajustes, com pre-
de informática, bibliotecas, recursos do curso que poderá ser ofertado, in- visão de início dos cursos superiores
tecnológicos e outros), descrição de cluindo recursos humanos disponí- para junho de 2007.
recursos humanos para o pólo (tu- veis, projeto pedagógico, indicação Portanto, nessa etapa, a UAB
tores presenciais, equipe técnica e do quantitativo de vagas, cronograma será resultante da adesão voluntária
administrativa de apoio e outros dis- de execução do curso proposto e des- de 49 universidades federais, além
poníveis para sua manutenção), bem crição das necessidades específicas do conjunto de Cefets, articulados
como uma lista dos cursos superio- relativas ao pólo de apoio presencial e integrados com a rede de pólos de
res que gostariam de ver ofertados quanto à infra-estrutura física e lo- apoio presencial para EAD, que se-
no pólo proposto, com respectivos gística. Deveriam também apresentar rão criados e mantidos pelos muni-
quantitativos de vagas. as instituições de ensino um detalha- cípios e estados, fato que permitirá
A análise e seleção dos pólos mento quanto ao quantitativo de pó- atender a todo o território nacional,
foram feitas conforme os seguintes los e suas localizações. com a interiorização do ensino su-
critérios: adequação e conformidade Todas as propostas encami- perior.
do projeto com os cursos superiores nhadas ao MEC foram analisadas e Por força do referido edital, foi
a serem oferecidos, considerando-se selecionadas por uma comissão de constituída, pela Portaria MEC nº
especialmente, para esse fim, a ca- especialistas, tendo por critérios: 1.097, publicada em 31 de maio de
rência de oferta de ensino superior consistência do projeto pedagógico 2006, Comissão de Seleção, formada
público na região de abrangência do e relevância do curso proposto, com- por especialistas na área de educação
pólo, a demanda local ou regional por petência e experiência acadêmica da a distância e educação superior, com
ensino superior público, conforme o equipe docente responsável e coerên- o objetivo de avaliar os projetos en-
quantitativo de concluintes e egres- cia com a demanda da área geográ- caminhados à Seed. No que se refere
sos do ensino médio e da educação fica de abrangência, atendimento da aos projetos de pólos, foram sub-
de jovens e adultos, a pertinência dos demanda do curso no pólo. metidas 430 propostas, tendo como

90 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
proponentes prefeituras municipais, tação a partir de setembro de grama para 2007 atinge a marca de
governos de estados, consórcio de 2006, com o início das aulas a R$ 176.000.000,00 (cento e setenta
municípios e consórcio de municí- partir de junho de 2007 para 176 e seis milhões de reais), nas rubricas
pios e estado, recobrindo todas as 27 pólos e a expansão do sistema em de pagamento de bolsas, custeio e
unidades da Federação. Quanto aos agosto de 2007, com a implemen- capital, para um universo de 60.000
projetos de cursos, 39 universidades tação de 115 novos pólos. A meta (sessenta mil) estudantes.
federais e 10 Cefets apresentaram é viabilizar quatro cursos superio- No segundo edital, lançado em
193 propostas, entre as quais 90 de res, em média, em cada pólo sele- outubro de 2006, foram registradas
licenciatura. cionado. mais de 800 inscrições, o que reflete
O Sistema Universidade Considerando-se as metas para a aceitação e a credibilidade nacional
Aberta do Brasil teve implemen- a UAB, o financiamento para o Pro- no Programa UAB.

Referências
ALVES, J. R. M. “As bases legais da educação a distância no Brasil”. In: Estudos – Revista da Associação Brasileira de Mantenedoras
de Ensino Superior, ano 17, n. 26, nov. 1999, p.10.
FÓRUM DAS ESTATAIS PELA EDUCAÇÃO – “Diálogo para a cidadania e inclusão – texto-base”. Disponível em: http://portal.mec.
gov.br/arquivos/pdf/texto.pdf. Acesso em 1º fev. 2006.
FRAGALE FILHO, R. Educação a distância – análise dos parâmetros legais e normativos. Rio de Janeiro: RJ: DP&A Editora, 2003.
PROJETO UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL. MEC, 2005. Disponível em: http://www.mec.gov.br.
SILVA, N. História da Universidade Aberta no Ministério da Educação e Cultura – década de 1970. Brasília: Editora Ser, 2006.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 91
Amanda Navarro
Rede privada de comunicação
de dados do Estado de Minas Gerais
e acesso à Internet
Evandro Nicomedes Araujo
Mestre em Administração Pública com ênfase em Gestão da
Informação pela Fundação João Pinheiro (FJP) e especialista em
Redes de Telecomunicações pela UFMG. Atua como analista de
suporte a redes de comunicação de dados da Prodemge desde
1994. Professor dos cursos de Ciência da Computação e de
Gestão da Tecnologia da Informação na Uni-BH.

RESUMO
Este artigo tem por objetivo examinar de forma abrangente o processo de criação, nos anos 90, de uma infra-estrutura de
rede de comunicação de dados entre os órgãos públicos da administração direta e indireta do governo de Minas Gerais
para permitir o acesso à Internet e aos sistemas de informação do Estado. Um levantamento do número de órgãos esta-
duais conectados à rede privada do governo de Minas Gerais até o ano de 2005 será feito. Pretende-se também exami-
nar, sob uma perspectiva mais específica, como um dos principais órgãos da administração direta do governo de Minas
Gerais – a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais – tem se movimentado no sentido de vencer as barreiras
impostas ao crescimento da infra-estrutura da sua rede de acesso à Internet. Pretende-se também identificar a abrangên-
cia da infra-estrutura da rede desse órgão constatando, principalmente, quantas escolas possuem acesso às várias fontes
de informações disponíveis através da Internet.
Este artigo foi elaborado com base em pesquisa bibliográfica e documental, coleta e análise de dados disponíveis e em
entrevistas com pessoas-chave que participaram da condução do processo de implantação da Internet no governo de
Minas e da rede privada de comunicação de dados do Estado de Minas Gerais. Muitas dificuldades foram enfrentadas
para o levantamento de informações referentes ao histórico da rede privada do Estado de Minas Gerais. Acredita-se que
a rápida evolução e crescimento de tal rede, sobretudo do acesso à Internet, tenha sido uma barreira aos registros formais
de tal processo.

Palavras-chave: redes de computadores, governo, informação, tecnologias, educação, Minas Gerais.

Introdução
Desde o início dos anos 90, o de recursos e informações. Rede de nicação de dados do mundo e explo-
uso das redes de computadores e computadores é “...um conjunto de rada comercialmente no Brasil desde
telecomunicações vem crescendo computadores autônomos interco- 1995, consolidou-se como principal
de forma acelerada dentro das or- nectados por uma única tecnologia” meio de acesso e difusor de informa-
ganizações públicas e privadas sob (Tannenbaum, 2003:2). A Internet, ção. Tomaél (2001) considera que a
a justificativa de compartilhamento considerada a maior rede de comu- Internet, resultado da convergência

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 93
das tecnologias da computação e o Programa Sociedade da Informa- da rede de comunicação de dados do
da comunicação, representa uma ção, que tem como missão articular governo de Minas, coletaram-se in-
verdadeira revolução nos métodos e coordenar o desenvolvimento e formações referentes ao número de
de geração, armazenagem, proces- a utilização de produtos e serviços órgãos estaduais conectados à rede
samento e transmissão da informa- avançados de computação, comuni- privada do governo de Minas Gerais
ção e que a rapidez de distribuição cação e conteúdos e suas aplicações, até o ano de 2005, buscando identifi-
é fator determinante para o cresci- visando à universalização do acesso car o grau de capilaridade dessa rede
mento exponencial de informação e à inclusão de todos os brasileiros até o ano de 2005.
na rede. Diante das potencialidades na sociedade da informação. Com Outro objetivo traçado por este
oferecidas pela grande rede mun- efeito, a necessidade de investimen- artigo é examinar como um dos
dial, o governo, em todos os níveis tos em redes de computadores de principais órgãos da administração
– municipal, estadual e federal, forma a interligar todos os órgãos direta do governo de Minas Gerais,
percebeu a necessidade de se fazer governamentais entre si e promover a Secretaria de Estado de Educação
investimentos nessa área. Isto pode o acesso à Internet também ganhou de Minas Gerais (SEE), tem se mo-
ser exemplificado pela tentativa do espaço na agenda governamental vimentado no sentido de vencer as
Governo Federal, por intermédio do dos estados da federação brasileira, barreiras impostas ao crescimento da
Ministério da Ciência e Tecnologia sobretudo em Minas Gerais. infra-estrutura da sua rede de acesso
(MCT), de colocar o país em condi- Diante desse contexto, este arti- à Internet. Pretende-se também iden-
ções de operar a Internet com todos go tem por objetivo examinar, de for- tificar a abrangência da infra-estrutu-
os requisitos técnicos já existentes ma abrangente, a tentativa de criação, ra de rede desse órgão constatando-
nos países mais avançados, tanto nos anos 90, da infra-estrutura de se, principalmente, quantas escolas
no que diz respeito à velocidade de rede de comunicação de dados entre possuem acesso às várias fontes de
transmissão de dados, quanto a no- os órgãos públicos da administração informações disponíveis pela Inter-
vos serviços e aplicações. Essa ação direta e indireta do governo de Minas net. O levantamento de dados e in-
ficou marcada quando o Governo Gerais, de forma a permitir o acesso formações foi feito por meio de aces-
Federal lançou, em 15 de dezembro à Internet e aos sistemas corporativos so ao sítio da SEE e entrevistas com
de 1999, com o Decreto 3.294/99, do Estado. Além do resgate histórico funcionários desse órgão.

O Brasil e a Internet
Em 1988 a Internet chegou ao seu início, tinha também a função de Embratel. Naquela ocasião, foram
Brasil por iniciativa da comunidade disseminar o uso de redes no país e a permitidos acessos à Internet inicial-
acadêmica de São Paulo, por meio disponibilização de serviços de aces- mente a partir de linhas discadas e
da Fundação de Amparo à Pesquisa so à Internet no Brasil. posteriormente por acessos dedica-
do Estado de São Paulo (Fapesp), Como ponto de partida foi cria- dos por meio da Rede Nacional de
da Universidade Federal do Rio de do o backbone Rede Nacional de Pacotes (Renpac) ou por linhas de
Janeiro (UFRJ) e do Laboratório Pesquisa (RNP), interligando insti- comunicação de dados denominadas
Nacional de Computação Científica tuições educacionais à Internet. Esse E1. Em paralelo a isso, a partir de
do Ministério da Ciência e Tecno- backbone inicialmente interligava 11 abril de 1995, a RNP teve uma rede-
logia (LNCC/MCT). Em setembro estados a partir dos Pontos de Presen- finição do seu papel, pois estenderia
de 1989, o governo brasileiro, por ça (PoP) em suas capitais. Para inte- seus serviços que, outrora, estavam
intermédio do então Ministério da grar instituições de outras cidades à confinados ao meio acadêmico, a
Ciência e Tecnologia, criou a Rede Internet, foram criados, também, al- toda a sociedade brasileira. Para isso,
Nacional de Pesquisa (RNP) com o guns backbones regionais ligados a criou-se então o centro de informação
objetivo de construir uma infra-es- esses pontos. Internet/Br, que exerceu importante
trutura de rede Internet nacional de Em dezembro de 1994 foi inicia- papel na consolidação da Internet
âmbito acadêmico. A Rede Nacional da a exploração comercial da Inter- no Brasil. Por meio de PoPs ope-
de Pesquisa, como era chamada em net a partir de um projeto piloto da rados por instituições do governo,

94 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
empresas passaram a se conectar à mais rápidos e eficientes, em 1999, do backbone RNP, cuja capilaridade
espinha dorsal da RNP. Essas empre- os Ministérios da Ciência e Tecnolo- atingia todo o Brasil com conexões
sas, os chamados provedores de aces- gia (MCT) e o da Educação (MEC) internacionais próprias, totalizando
so, ofereciam o acesso à rede para os assinaram um convênio, o Programa 200 Mbps de tráfego externo, que
usuários finais e se conectavam aos Interministerial de Implantação e todos os estados brasileiros tinham
PoPs através de linha telefônica ex- Manutenção da Rede Nacional para acesso à Internet em 2005.
clusiva, com velocidade mínima de Ensino e Pesquisa (Pimec/MCT), Atualmente a RNP se encontra
64 Kbps. Nesse sentido a primeira com o objetivo de levar a rede aca- na sua quinta geração e o seu ba-
etapa de expansão do backbone RNP dêmica a um novo patamar. Para ckbone agrega velocidade de 60,4
foi concluída em dezembro de 1995, tanto, foram investidos R$ 215 mi- Gbps. Segundo o sítio oficial da Rede
restando ainda a criação de PoPs lhões na implantação e manutenção Nacional de Pesquisa, o backbone
nos demais estados do Brasil. Além do backbone RNP2, uma infra-es- RNP é constituído por 27 pontos de
dos esforços do governo na criação trutura de rede avançada, capaz de presença (PoPs), um em cada estado
de um backbone nacional, algumas atender às novas necessidades de do Brasil, que são operados em par-
empresas privadas, a exemplo da banda de transmissão de dados e ceria com universidades federais e
IBM, Unisys e Banco Rural, anun- informações para fins de ensino e institutos de pesquisa. Interconecta
ciavam em 1996 a inauguração de pesquisa. A RNP2 possuiria uma cerca de 300 instituições de ensino e
backbones próprios. velocidade de transmissão cerca de pesquisa, atende mais de um milhão
Dando continuidade ao processo 300 vezes maior do que a RNP. Essa de usuários e interliga todas as redes
de investimento em redes de compu- nova infra-estrutura de rede foi ofi- acadêmicas regionais brasileiras. O
tadores, visando a atender às novas cialmente inaugurada em maio de mapa do backbone RNP pode ser
demandas por meios de transmissão 2000. Entretanto, ainda foi por meio visto na Figura 1.

Figura 1 – Mapa do backbone da Rede Nacional de Pesquisa no Brasil


Fonte: www.rnp.br/backbone

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 95
Desde então, o crescimento da 7.422.440 hosts conectados à Inter- lugar, ficando atrás somente dos Es-
Internet no Brasil tem atingido pa- net, o que o coloca à frente de im- tados Unidos, que têm 255.505.524
tamares tão altos que hoje o país portantes países como Canadá e Sué- hosts conectados à Internet, confor-
ocupa o oitavo lugar no mundo, com cia. Nas Américas, ocupa o segundo me os Quadros 1 e 2.

Quadro 1 – Crescimento da Internet no mundo

País Janeiro 07

1º Estados Unidos* 255.505.524


2º Japão (.jp) 30.841.523
3º Itália (.it) 13.853.673
4º Alemanha (.de) 13.093.255
5º França (.fr) 10.335.974
6º Holanda (.nl) 9.014.103
7º Austrália (.au) 8.529.020
8º Brasil (.br) 7.422.440
9º México (.mx) 6.697.570
10º Reino Unido (.uk) 6.650.334
11º Polônia (.pl) 5.001.786
12º Taiwan (.tw) 4.418.705
13º Canadá (.ca) 4.257.825
14º Finlândia (.fl) 3.187.643
15º Bélgica (.be) 3.150.856
16º Suécia (.se) 3.039.770
17º Espanha (.es) 2.929.627
18º Dinamarca (.dn) 2.807.348
19º Suíça (.ch) 2.570.891
20º Noruega (.no) 2.370.078
21º Rússia (.ru) 2.353.171
22º Áustria (.at) 2.330.325
23º China (.cn) 1.933.919
24º Argentina (.ar) 1.837.050
25º Índia (.in) 1.684.958
26º Turquia (.tr) 1.581.866
27º Portugal (.pt) 1.510.958
28º República Tcheca (.cz) 1.502.537

Fonte: http://www.cetic.br

96 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Quadro 2 – Crescimento da Internet nas Américas

País Janeiro 07

1º Estados Unidos* 255.505.524


2º Brasil (.br) 7.422.440
3º México (.mx) 6.697.570
4º Canadá (.ca) 4.257.825
5º Argentina (.ar) 1.837.050
6º Colômbia (.co) 721.114
7º Chile (.cl) 621.565
8º Peru (.pe) 283.988
9º Uruguai (.uy) 182.403
10º Venezuela (.ve) 122.404
11º República Dominicana (.do) 73.712
12º Equador (.ec) 27.923
13º Nicarágua (.ni) 24.690
14º Trinidad e Tobago (.tt) 24.675
15º Bolívia (.bo) 19.968
Fonte: http://www.cetic.br

O governo de Minas e a Internet


Diante do crescimento da grande to, enfrentaria muitas resistências por alguns que, levados pela motivação
rede mundial de computadores, o go- parte dos integrantes das organizações encontrada no fascínio provocado
verno de Minas Gerais, então, buscou públicas. Sob essa perspectiva, ven- pela tecnologia, absorviam a novi-
propiciar o acesso à Internet a todos cer tais resistências implicaria a cria- dade e os efeitos das mudanças pro-
os órgãos da administração pública. ção de mecanismos que permitissem vocadas pela grande rede mundial de
Em 1995, foi implantado o primeiro aos integrantes dos órgãos públicos se computadores. Por outro lado, muitas
backbone não acadêmico para acesso inserirem nesse novo cenário digital, vezes, a tecnologia e o acesso à Inter-
à Internet no Estado de Minas Gerais, embasado no acesso à Internet. net foram vistos também como uma
por intermédio da Companhia de Tec- No que diz respeito à superação atividade ameaçadora por outros que
nologia da Informação do Estado de desse desafio, o que se percebeu foi agiam de forma desconfiada frente à
Minas Gerais – Prodemge. Inicial- maciça utilização das tecnologias, novidade. Tendo superado, em parte,
mente esse backbone contava com sobretudo as tecnologias de rede por essas dificuldades, o novo desafio do
a conexão de 92 órgãos do Estado. parte dos órgãos públicos, mesmo governo do estado de Minas Gerais
Ademais ao desafio de criar a infra- diante das dificuldades enfrentadas, se tornou criar uma infra-estrutura de
estrutura tecnológica necessária à co- no que diz respeito à capacitação dos rede que permitisse a todas as regio-
nexão desses órgãos, um novo desafio servidores públicos para uso das tec- nais dos órgãos do governo de Minas,
surgiria: disseminar uma nova cultura nologias. O acesso à Internet, dentro localizados no interior do estado, o
organizacional dentro do Estado que, dos órgãos públicos do governo de acesso aos sistemas de informações
com certeza, provocaria muitas mu- Minas localizados na capital, foi se centralizados na capital e, também, o
danças de comportamento e, por cer- tornando uma atividade natural por acesso à Internet.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 97
A interligação dos órgãos do governo de Minas em rede: um breve histórico
Apesar de a Internet ter surgido das plataformas de computação com Prodemge e apoiado pela Secretaria
como um promissor meio de aces- vistas a desonerar os custos com a de Estado de Ciência e Tecnologia.
so a informações para o governo de tecnologia, no início dos anos 90, Esse projeto propôs a construção de
Minas, já havia algum tipo de inter- impulsionada principalmente pelo uma infra-estrutura de rede privada
ligação entre alguns desses órgãos advento da microinformática e com interligando as principais cidades do
através das chamadas redes de termi- a Internet, a Prodemge, alinhada com estado de Minas Gerais (Uberlândia,
nais System Network Architecture os objetivos do governo, cria a estra- Uberaba, Juiz de Fora, entre outras) a
(SNA). Esse tipo de infra-estrutura tégia de planejamento de uma infra- Belo Horizonte. Os enlaces de dados
se caracterizava pela instalação de estrutura de rede que propiciasse aos eram dimensionados de acordo com
uma linha dedicada de comunicação órgãos do Estado o acesso não so- o número de sub-regionais de cada
de dados que conectava terminais de mente aos sistemas de informações órgão interligado nessas cidades
computadores (chamados terminais e às bases de dados centralizadas no centralizadoras, gerando economia
burros 1) a um computador central parque computacional, como tam- e atendendo aos objetivos de se criar
(mainframe) instalado em Belo Ho- bém promover o acesso à Internet. uma infra-estrutura de rede estadual
rizonte, na Prodemge (Companhia Essa nova estratégia, face ao contex- privada de comunicação de dados,
de Tecnologia da Informação do Es- to, viria a desencadear uma série de com acesso à Internet, aos sistemas
tado de Minas Gerais). O principal novas ações do governo, como é o de informação do Estado e, ainda,
objetivo dessa rede era permitir a caso do processo de implementação o acesso entre os próprios órgãos
construção de uma rede privada do do governo eletrônico. do Estado de Minas Gerais. Mesmo
Estado que permitisse o acesso aos Como o acesso à Internet era com todo o esforço empreendido
sistemas de informação e às bases de muito precário no interior do estado, pelo governo mineiro, a rede privada
dados centralizadas num computa- principalmente pela falta de infra-es- de comunicação de dados do Esta-
dor de grande porte dentro das ins- trutura (provedores de acesso à In- do ainda não cumpriu o objetivo de
talações da Prodemge. Esse tipo de ternet) e ainda estava se iniciando na interligar todos os municípios. Um
rede não permitia o acesso à Internet. capital, desenvolveu-se um projeto breve sumário da situação em 2005 é
Com o processo de descentralização denominado Infovia, conduzido pela mostrado na próxima seção.

Estatísticas de conexão dos órgãos públicos à rede privada


do Estado de Minas Gerais
Com o projeto de Infovia, con- existentes em Minas Gerais, sen- faz parte da rede, como é o caso da
seguiu-se conectar cerca de 290 do que todos os órgãos do governo Polícia Civil em Taiobeiras. A Tabe-
municípios à rede do Estado, abran- estão representados, mesmo que, às la 1 mostra os 15 órgãos do governo
gendo um total de 1.190 conexões vezes, em um só município. Tam- de Minas Gerais que possuem maior
entre órgãos diferentes espalhados bém é preciso considerar que, em número de conexões à rede do Es-
pelo estado. Esse número significa muitos municípios, há a presença de tado com capilaridade em um maior
33% do total de 853 municípios somente um órgão do governo que número de municípios.

1 Terminal burro é uma terminologia usada para terminais de computador que não têm capacidade própria de processamento e dependem do computador
central.

98 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Tabela 1 – Levantamento dos 15 órgãos do governo de Minas que possuem maior número de regionais conectadas
à rede de comunicação de dados do Estado

Órgão do Governo de MG Presença em Municípios Percentual

POLÍCIA CIVIL ESTADO MINAS GERAIS 278 32,59


INSTITUTO ESTADUAL DE FLORESTAS 61 7,15
TRIBUNAL DE JUSTIÇA 60 7,03
POLÍCIA MILITAR 46 5,39
SECRETARIA ESTADO EDUCAÇÃO 43 5,28
SECRETARIA ESTADO DE FAZENDA 42 4,92
DEPARTAMENTO DE ESTRADAS RODAGEM 40 4,69
INST. PREVIDÊNCIA DOS SERVIDORES DE MG 32 3,75
SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE 28 3,28
SEC. EST. DESENV. REG. POLÍTICA URBANA 24 2,81
SEC. ESTADO DESENV. SOCIAL E ESPORTES 23 2,70
SECRETARIA ESTADO DE DEFESA SOCIAL 20 2,34
HEMOMINAS 19 2,23
INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA 17 1,99
SEC. ESTADO DE PLANEJAMENTO E GESTÃO 14 1,64

Fonte: Prodemge – julho de 2005.

Analisando os dados apresenta- representada pelas Superintendên- orçamento e das finanças públicas
dos, podemos constatar a Polícia Ci- cias Regionais de Ensino (SRE), que o Estado vem enfrentando, uma
vil de Minas Gerais com maior pre- quase sempre localizadas em cida- vez que formar uma infra-estrutura
sença e número de conexões à rede des-pólo do interior de Minas Gerais, de rede com tamanha capilaridade
privada do Estado de Minas Gerais e ou seja, não há uma escola estadual demandaria altos investimentos ini-
à Internet. Mesmo ocupando lugar de interligada diretamente à rede priva- ciais e grande custo de manutenção.
destaque na tabela, mostrando-se em da do Estado. Numa simples análise, Todavia, propondo soluções alterna-
um estágio extremamente avançado pode-se perceber claramente o desa- tivas de parcerias com a iniciativa
em relação aos outros órgãos, ain- fio que o Estado de Minas enfrenta privada e convênios com o Governo
da deve expandir para mais de 35% ao buscar atingir seu objetivo inicial Federal, alguns órgãos estaduais ten-
dos municípios de Minas Gerais. A de formar uma rede totalmente capi- tam vencer as barreiras impostas por
Secretaria de Estado de Educação lar por todo o território. Acredita-se essas limitações, como é o caso da
aparece em quinto lugar, presente que grande parte dessa dificuldade Secretaria de Estado de Educação de
em 43 municípios, sendo que ela é pode ser explicada pela redução do Minas Gerais.

Iniciativas da Secretaria de Estado de Educação (SEE)


A Secretaria de Estado de Educa- comunicação de dados que permita o vem trabalhando em parceria com
ção de Minas Gerais, dentro de uma acesso à Internet por parte de suas es- empresas da iniciativa privada e com
perspectiva de superar o desafio de se colas, visando minimizar a exclusão o Governo Federal na implementação
criar uma infra-estrutura de redes de inerente a esse novo contexto digital, de projetos, a exemplo do Escolas

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 99
em Rede e do Núcleo de Tecnologia MG, via web; usando tecnologia de comunicação
Educacional (NTE) e de convênios c) facilitar a comunicação, o de dados via satélite. Como resulta-
com o Governo Federal (Gesac). acesso e a publicação de in- do dessas parcerias, alguns números
Tais projetos têm por objetivo a formações; já podem ser apontados. Em sua pri-
instalação de computadores conec- d) propiciar a universalização do meira fase, o projeto Escola em Rede,
tados à Internet nas escolas. Esses uso de tecnologia de ponta no por meio da parceria com a Copasa
projetos objetivam, também, viabili- sistema de ensino. e a Telemar, contemplou 48 municí-
zar um novo modelo pedagógico que Em 2005, a SEE possuía um NTE pios, sendo 220 escolas conectadas à
envolva alunos, professores e direto- para cada uma das 43 Superintendên- Internet através da tecnologia Digital
res dentro do mundo digital. A exem- cias Regionais de Ensino. Outro avan- Subscriber Lines (DSL), e por meio
plo da Secretaria de Estado de Edu- ço da Secretaria pôde ser constatado do projeto Gesac foram contempla-
cação do Espírito Santo, que tem sido com o lançamento do projeto “Escola dos 272 municípios, sendo 290 esco-
apontada como referência no quesito em Rede”, pelo governador Aécio las conectadas à Internet via satélite.
de geração de políticas públicas em Neves, que tem por objetivo permitir Esse projeto, que ainda está em fase
prol da apropriação das tecnologias o acesso de algumas escolas da capi- de implantação, objetiva permitir
de informação e comunicação no sis- tal e do interior à Internet. Trata-se de a 990 escolas estaduais o acesso à
tema público de ensino, expõe-se que uma ação organizada (parceria) entre Internet no final da sua primeira fase,
“a existência de conexão nas escolas e o governo do estado e as empresas representando aproximadamente 25%
nos NTEs possibilitou o rompimento Copasa e Telemar e o Ministério da do total das 3.917 escolas.
de barreiras de espaço e tempo, am- Educação. Esse projeto, quando da É importante ressaltar que o fato
pliando o horizonte de comunidades sua implantação, contemplava a co- de a infra-estrutura de rede da Secre-
escolares, até então restritas a espa- nexão de todas as 248 escolas da ca- taria de Estado de Educação estar se
ços físicos delimitados” (Chahin, pital e 172 escolas de outros municí- expandindo, sobretudo para permi-
2004:128). A SEE implantou uma pios, inclusive da região Norte, Vale tir a um maior número de escolas o
estrutura de NTE pelo interior do es- do Jequitinhonha e Vale do Mucuri à acesso à Internet, não implica cres-
tado com os objetivos de promover Internet. Para conectar essas escolas cimento da capilaridade da infra-es-
maior integração em rede, garantir o à rede usou-se a tecnologia de banda trutura da rede privada do Estado de
acesso à Internet, capacitar professo- larga (Velox) e satélite. A conexão via Minas Gerais tratada neste artigo. A
res em novas tecnologias da informa- satélite é resultado de um programa iniciativa da SEE de promover a co-
ção e comunicação e realizar também instituído pelo Ministério das Comu- nexão das escolas estaduais à Inter-
suporte técnico e pedagógico às esco- nicações em março de 2002, que tem net, conforme levantado aqui, possui
las de sua abrangência. As principais como objetivo a universalização do características técnicas de conexão
prioridades desses NTEs são: acesso à Internet, pretendendo bene- distintas da iniciativa de intercone-
a) implementar os ambientes ficiar as populações de baixa renda. xão dos órgãos públicos de Minas
virtuais da SEE/MG; Esse projeto, em parceria com o Mi- Gerais à Prodemge, por meio de uma
b) desenvolver os projetos temá- nistério da Educação, pretende co- rede privada de comunicação de da-
ticos, orientados pela SEE/ nectar as escolas públicas à Internet, dos estadual.

Considerações finais
A criação de uma infra-estrutura e também se tornou um importante surgiram com o passar do tempo e a
tecnológica de redes de comunicação instrumento de disseminação de ser- conseqüente evolução tecnológica.
de dados capaz de permitir a muitos viços públicos disponíveis através Um exemplo dessas possibilida-
órgãos do governo de Minas Gerais da grande rede mundial. Possibilida- des é o governo eletrônico, que apa-
o acesso à Internet proporcionou ao des que não eram cogitadas quando rece como um mecanismo inova-
governo novos horizontes de atuação da implantação do projeto Infovia dor, “...uma poderosa ferramenta de

100 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
reforma administrativa do Estado, podem fortalecer a sua proposta de evidentes, como transparência e ac-
uma vez que facilita a transparência, melhor atendimento às necessidades countability 2.
a eficiência na entrega de serviços da sociedade, que vão além dos re- Com efeito, o Estado de Minas
públicos, a luta contra a corrupção cursos técnicos oferecidos pela sua Gerais vem promovendo algumas
e a individualização do atendimen- infra-estrutura de rede privada de iniciativas na tentativa de explorar
to aos cidadãos” (Chahin, 2004). comunicação de dados: as vantagens proporcionadas pela
Também pode ser visto como ins- “a) a reforma administrativa é sua rede privada de comunicação de
trumento para a reforma do próprio fundamental – não adianta dados e pela Internet. Entretanto, a
Estado e de suas estruturas buro- tornar eficientes processos construção e a manutenção de uma
cráticas. burocráticos anacrônicos; infra-estrutura de rede de comuni-
A ampliação e a capilarização da b) o calcanhar-de-aquiles da cação de dados que permita acesso
infra-estrutura tecnológica de redes democracia no Brasil é a aos sistemas do Estado e à Internet,
de comunicação de dados examina- exclusão social e sua mais com capilaridade por todo o estado,
da neste artigo aparece como quesito nova manifestação – a ex- requerem contínuos esforços e in-
essencial para a consolidação dos ob- clusão digital, aplicável a vestimentos por parte do governo. A
jetivos do governo. Entretanto, acre- cidadãos, empresas e gover- atenção do Estado não pode se deter
dita-se que não basta o governo de nos. Há iniciativas isoladas somente aos aspectos técnicos desse
Minas Gerais trabalhar somente nos de sucesso no seu combate, processo. É preciso traçar políticas
aspectos referentes à infra-estrutura mas para realmente avançar públicas que objetivem minimizar os
de redes de comunicação de dados; e queimar etapas é preciso impactos e problemas que emergem
é preciso que se revejam todos os que a inclusão digital seja à medida que se busca expandir pro-
seus processos internos administra- uma política de Estado; jetos que almejam a universalização
tivos no sentido de se desenvolver c) o governo eletrônico forta- do acesso à Internet, como é o caso
uma infra-estrutura organizacional lece as instituições demo- da SEE. Segundo Chahin (2004),
que seja capaz de atender às deman- cráticas, porque facilita o um problema grave inerente a esse
das da sociedade que surgem à me- controle social do aparato processo, em tempos modernos, é a
dida que se universaliza o acesso à do Estado pelos cidadãos e manifestação da exclusão social por
Internet. pela sociedade civil organi- meio da exclusão digital.
Sem dúvida, a interligação em zada” (Chahin, 2004). Os governos, em todas as suas
rede dos órgãos da administração A sociedade civil, cada vez mais, instâncias, precisam conceber esse
direta e indireta, iniciada nos anos demanda novos serviços e políticas desafio com maior perspicácia, en-
1996, contribuiu para que o governo públicas do governo, que, em todas tendendo o seu grau de importância,
de Minas atingisse o estágio atual de as instâncias, sobretudo em Minas conscientizando-se de que é preciso
disponibilidade de serviços e infor- Gerais, percebe a Internet como um coletivizar o acesso à Internet como
mações via Internet, buscando aten- importante instrumento de melhoria forma de combate à exclusão digi-
der aos anseios da sociedade civil. da sua atuação e uma forma de de- tal. Esse combate passa, segundo
Entretanto, o governo mineiro, por mocratizar o acesso a informações Chahin, pela construção de telecen-
meio dos projetos estruturadores, de cunho público, além de suprir tros, infocentros, bibliotecas públi-
está atento a alguns aspectos que demandas que hoje estão bastante cas e escolas.

2 Considera-se accountability o conjunto de mecanismos e procedimentos que levam os decisores governamentais a prestar contas dos resultados de
suas ações, garantindo-se maior transparência e a exposição pública das políticas públicas. Quanto maior a possibilidade dos cidadãos poderem discer-
nir se os governantes estão agindo em função do interesse da coletividade e sancioná-los apropriadamente, mais accountable é um governo. Trata-se
de um conceito fortemente relacionado ao universo político administrativo anglo-saxão.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 101
No sentido do combate à exclu- Estado. Tais projetos trazem consigo natureza, se quiser avançar rumo à de-
são digital, percebem-se iniciativas, a uma proposta bastante audaciosa, mas mocratização do acesso à Internet e às
exemplo da Secretaria de Estado de precisam ainda de muito apoio político informações públicas. Enfrentar esse
Educação de Minas Gerais, que tra- e financeiro para que sejam ampliados desafio não é tarefa fácil, porém não
balha com a proposta de universaliza- e mantidos, sob pena de ficarem fada- impossível. Casos de sucesso como
ção do acesso das escolas do Estado dos ao insucesso ou mesmo de serem a Rede Cívica Iperbole, em Bolonha,
à Internet, e a do próprio governo, descontinuados. É preciso que o go- servem de referência para todos os
com a tentativa de construção da rede verno mineiro continue investindo países ou estados que queiram lograr
privada de comunicação de dados do nesses e em outros projetos de mesma sucesso nessa empreitada.

Referências

BRASIL. Comitê Executivo do Governo Eletrônico. Oficinas de planejamento estratégico: relatório consolidado, 2004. Disponível em:
<http://www.governoeletronico.e.gov.br/governoeletronico/publicacao/down_anexo.wsp?tmp.arquivo=E15_243diretrizes_de_go-
verno_eletronico.doc>. Acesso em: 15 jul. 2005.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, vol. 1, 1999.
CHAHIN, Ali. et al E-gov.br: a próxima revolução brasileira: eficiência, qualidade e democracia: o governo eletrônico no Brasil e no
mundo. São Paulo: Prentice Hall, 2004.
COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Apresenta informações sobre o novo ciclo das redes no país. Disponível em:
<http://www.cg.org.br/infoteca/clipping/2005/midia47.htm>. Acesso em 1º jul. 2005.
______. Evolução do número de hosts no Brasil. Disponível em <http://www.cetic.br/hosts/2007/index.htm>. Acesso em 16 abr. 2007.
REDE NACIONAL DE PESQUISA – RNP. A rede RNP. Disponível em <http://www.rnp.br/_arquivo/documentos/div0089a.pdf>.
Acesso em 16 abr. 2007.
DERTOUZOS, Michael L. O que será: como o novo mundo da informação transformará nossas vidas. São Paulo: Companhia das Letras,
1997.
EISENBERG, José; CEPIK, Marco. Internet política: teoria e prática da democracia eletrônica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002,
p.146-163.
GUIDI, Leda. “E-democracia em Bolonha: a rede cívica Iperbole, e como construir uma comunidade participativa online”. In: Informá-
tica Pública, Belo Horizonte, vol. 3, n. 1, maio 2001, p.49-70.
MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais. Informações sobre o número de escolas estaduais em Minas Ge-
rais. Disponível em <http://www.educacao.mg.gov.br>. Acesso em 5 jul. 2005.
SANTOS, Deubra (drtc.linux@educacao.mg.gov.br) arquivos eletrônicos com informações sobre projeto Escola em Rede da Secretaria
de Estado de Educação [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por evandro@prodemge.gov.br em 27 jul. 2005.
SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. Informações sobre o projeto Sociedade da Informação no Brasil. Disponível em http://www.socin-
fo.org.br/sobre/programa.htm>. Acesso em 1º jul. 2005.
TANENBAUM, Andrew S. Redes de computadores, 4. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
TOMAÉL, M. I. et al. “Avaliação de fontes de informação na internet; critérios de qualidade”. In: Informação & Sociedade; estudos,
João Pessoa, vol. 11, n. 2, p.13-35, 2001. Disponível em: <http://www.informacaoesociedade.ufpb.br/>. Acesso em 1º maio 2005.
VALE, Maria do Socorro Costa; COSTA, Denise Coutinho; ALVES, Junior Nilton. Internet: histórico, evolução e gestão. 2001. Dispo-
nível em: <http://mesonpi.cat.cbpf.br/naj/InternetHEG5C.pdf >. Acesso em: 1º maio 2005.

102 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Divulgação
Rede Metropolitana de Belém:
MetroBel
Antonio Jorge Gomes Abelém
Mestre em Engenharia Elétrica e doutor em Informática pela PUC-RJ.
É professor adjunto da Universidade Federal do Pará. Tem experiência na área
de ciência da computação, com ênfase em redes de computadores, atuando
principalmente nos seguintes temas: redes ópticas, redes sem fio ad-hoc,
Divulgação

GMPLS, multicast, Qualidade de Serviço (QoS) e segurança. abelem@ufpa.br

Michael Anthony Stanton


Especialista, doutor e PhD em Matemática pela University of Cambridge.
É professor titular da Universidade Federal Fluminense e diretor de Inovação da
Rede Nacional de Ensino e Pesquisa. Tem experiência na área de ciência da
computação, com ênfase em sistemas de computação. Atua principalmente nos
seguintes temas: Geophysical Fluid Dynamics, Inertial Waves, Internal Waves.
michael@ic.uff.br

RESUMO
A cidade de Belém, capital do estado do Pará, possui em torno de uma dezena de instituições públicas de ensino superior
e/ou pesquisa (IPEs). A maioria dessas instituições possui mais de um campus na Região Metropolitana de Belém e em
todos os casos a comunicação entre esses campi é de baixa capacidade e cara. Tal cenário, quando não impossibilita,
dificulta a utilização de aplicações mais modernas de comunicação. Como alternativas ao modelo tradicional, propu-
semos, em parceria com a RNP, um projeto de uma rede metropolitana de integração em alta velocidade das IPEs em
Belém do Pará, denominada projeto MetroBel. O modelo pioneiro da Rede MetroBel no Brasil serviu de base para uma
proposta mais ampla denominada Redecomep, que inclui a implantação de uma infra-estrutura de fibras ópticas própria
voltada para as instituições de pesquisa e educação superior, em todas as capitais do Brasil. O objetivo deste trabalho é
apresentar o projeto MetroBel, que irá beneficiar inicialmente entre 10 e 12 IPEs, descrevendo por que ele é vantajoso
em relação ao modelo tradicional, baseado em gasto com custeio, e detalhando os impactos favoráveis, tecnológicos e
sociais que o projeto trará para a região.

1. Introdução
A região Norte do Brasil, com brasileiro, é mundialmente conheci- possui uma população absoluta
uma área de 3.869.637,9 km2, que da pela Floresta Amazônica e sua ex- muito reduzida, o que, aliado a sua
corresponde a 45,27% do território traordinária biodiversidade. A região grande extensão, determina baixas

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 103
densidades demográficas. No entan- De modo geral, as conexões urbana de 10 Mbps teria um custo
to, nas últimas décadas a região vem usadas por essas IPEs para a inter- anual da ordem de US$ 45.000,00.
tendo, devido às migrações, o maior conexão em área urbana dos seus Como alternativas às operado-
crescimento populacional do país, campi, e para obter acesso à Inter- ras comerciais de telecomunicações,
tendo sido, na década de 80, de 4,5% net, quer seja através da RNP, ou existe a opção de investimento em
ao ano, contra a média nacional de através de provedores comerciais, infra-estrutura própria, muito utili-
l,8% 1, 2. O principal aglomerado ur- são de baixa capacidade (entre 64 zada na Europa, Canadá e mais re-
bano da região é a cidade de Belém, Kbps e 1 Mbps), impossibilitando centemente nos EUA 3, 4, que pode
capital do estado do Pará. Belém é a a utilização de aplicações mais mo- ser tanto por meio de enlace de rádio
metrópole regional e, ao lado de Ma- dernas de comunicação, tais como como de enlace de fibra óptica.
naus, capital do estado do Amazonas, videoconferência e processamento Soluções de radioenlace são boas
são os portões de entrada para a re- distribuído intensivo. Aumentar a e baratas, mas padecem de dois in-
gião amazônica brasileira. capacidade das interconexões entre convenientes. O primeiro deles é a
A cidade de Belém possui em os campi e do acesso à Internet é necessidade absoluta de haver visada
torno de uma dezena de instituições tão caro atualmente no Brasil que a desobstruída da outra ponta do enla-
públicas de ensino superior e/ou manutenção desse modelo de solu- ce. Obstrução pode ser causada pelo
pesquisa, entre as quais se desta- ção não abre perspectivas em curto crescimento da vegetação (copas das
cam: a Universidade Federal do Pará prazo de melhorias na qualidade dos árvores) ou pela construção de prédios
(UFPA), o Museu Paraense Emílio serviços de comunicação a um preço novos. A solução tradicional é o uso
Goeldi (MPEG) e o Instituto Evandro razoável. de uma construção alta existente. Na
Chagas (IEC). A maioria dessas ins- O vilão é o modelo adotado para falta dessas alternativas, poderá ser
tituições possui mais de um campus montar a infra-estrutura de interco- necessária a construção de uma tor-
distribuído na Região Metropolitana nexão de campi e acesso à Internet. re própria, de custo significativo, ou
de Belém e em todos os casos a co- Em quase todos os casos, essa infra- o aluguel de uma torre existente, por
municação entre esses campi é precá- estrutura depende de enlaces ponto exemplo, de televisão ou de rádio.
ria, de baixa capacidade e cara. Além a ponto alugados das operadoras de O segundo inconveniente é a fa-
disso, poucas dessas instituições pos- telecomunicações. Custos anuais tí- lha do equipamento e seu tempo de
suem hoje conexão de qualidade com picos são US$ 6.500,00 (seis mil e conserto. Isso poderá ser amenizado
o backbone da Rede Nacional de En- quinhentos dólares) por ano por cir- pela aquisição de peças avulsas, o
sino e Pesquisa (RNP), organização cuito de 256 Kbps (MPEG) e US$ que aumenta o custo de aquisição. No
social (OS) ligada ao Ministério de 14.000,00 (quatorze mil dólares) por caso do rádio do MPEG, houve um
Ciência e Tecnologia (MCT), que circuito de 1 Mbps (UFRA), ambos acidente em janeiro de 2004, quando
tem por objetivo permitir a comuni- dentro da cidade de Belém. De modo foi avariado o equipamento por uma
cação remota, no país e no exterior, geral, o custeio desses circuitos au- descarga elétrica. A RNP substituiu
entre professores, alunos e pesquisa- menta com a capacidade, seguindo a o equipamento externo em dois dias,
dores das IPEs, bem como dos seus regra de que, ao quadruplicar a capa- mas o conserto do equipamento in-
sistemas de informação de apoio, cidade, o custo é aproximadamente terno levou duas semanas, pela falta
para atividades de ensino, aprendiza- o dobro, como nos exemplos mos- de uma peça sobressalente. Durante
gem, pesquisa e divulgação. trados. Dessa forma, uma conexão essas duas semanas, o MPEG ficou

1 NASCIMENTO, Cicerino Cabral do. Clima e morfologia urbana em Belém. 1995. Dissertação (Mestrado em Desenho Urbano). Núcleo de Altos
Estudos da Amazônia, Universidade Federal do Pará, Belém.
2 Belém, Pará. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Belem. Acesso em jan. 2005.
3 Relatório “Report on Final Workshop results”. Deliverable no. D19, project IST-2001-34925, European Research and Education Networking As Tar-
geted by eEurope (SERENATE), dezembro 2003. Disponível em: http://www.serenate.org/publications/d19_serenate.pdf.
4 Relatório “Report on the experience of various communities that have experimented with ‘alternative’ models of infrastructures”. Deliverable no. D3,
Project IST-2001-34925, Study into European Research and Education Networking As Targeted by eEurope (SERENATE), novembro 2002. Disponí-
vel em: http://www.serenate.org/publications/d3_serenate.pdf.

104 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
sem comunicação externa. Tipica- a antena e sua montagem, podem ser inicialmente entre 10 e 12 IPEs, des-
mente, as empresas de telecomu- reaproveitados. crevendo por que ele é vantajoso em
nicações se protegem contra tais Em face dos problemas das so- relação ao modelo tradicional, baseado
interrupções de serviço pelo uso de luções de radioenlace, a RNP, em em gasto com custeio, e detalhando os
redundância nas suas redes, de forma parceria com a UFPA, desenvolveu impactos favoráveis, tecnológicos e so-
que a falha de um único componen- um projeto de uma rede metropolita- ciais, que o projeto trará para a região.
te não interrompe completamente o na de integração em alta velocidade Além desta seção introdutória,
serviço prestado. Arquiteturas redun- das IPEs em Belém do Pará, baseado o artigo é composto de mais quatro
dantes são recomendadas em todos em fibra óptica, denominado projeto seções. A Seção II apresenta as carac-
os casos de soluções FVM. No caso MetroBel. Os recursos financeiros, terísticas geográficas relevantes da ci-
do radioenlace, a redundância tradi- da ordem de U$ 400.000,00 (qua- dade de Belém. A Seção III descreve
cional é duplicar o enlace, mantendo trocentos mil dólares), já foram dis- o projeto da rede metropolitana base-
pares de equipamentos nas duas pon- ponibilizados por intermédio de um ada em fibra óptica, utilizando a tec-
tas. O custo adicional dessa solução é fundo setorial do Ministério de Ciên- nologia Gigabit Ethernet. Na Seção
menos de 50% a mais do que o custo cia e Tecnologia (MCT). IV apresenta-se a análise comparativa
do primeiro equipamento, pois vários O objetivo deste trabalho é apresen- para as duas propostas. A seção V tece
itens de infra-estrutura, por exemplo, tar o projeto MetroBel, que beneficiará considerações finais sobre o trabalho.

2. Descrição do cenário
A cidade de Belém é carac- de chuvas, o número elevado de consideração na hora de se estu-
terizada pelos aspectos naturais árvores e as construções rela- dar a viabilidade de implemen-
peculiares da região amazôni- tivamente baixas. Todos esses tação de uma rede metropolitana
ca, como a incidência constante aspectos devem ser levados em em Belém.

A. Região Metropolitana de Belém do Pará

Belém, maior cidade da Amazô- máxima pode chegar perto dos 40°C, quente e outro frio;
nia, fica localizada no extremo Norte especialmente entre julho e novem- • os meses de dezembro a maio
do país, no estado do Pará, a apro- bro. As características do clima de são os mais chuvosos.
ximadamente 160 km da linha do Belém podem ser resumidas da se- Em relação ao terreno, a cidade
Equador, às margens da baía do Gua- guinte forma (ver as notas 1 e 2): de Belém, ao menos para os seus pró-
jará, do rio Guamá e do rio Capim. • altas temperaturas (sempre prios moradores, sempre teve a má
Sua população em 2004 era esti- acima de 18°C); fama de ter um tipo de solo impróprio
mada em 1.421.000 habitantes, o que • ventos de pouca velocidade para grandes edificações. Entretanto,
a classifica como uma das dez maio- intercalados com momentos verifica-se que nos últimos anos, em
res cidades do Brasil (informação re- de calmaria; decorrência dos aperfeiçoamentos
ferenciada na nota nº 2). Sua área é • altos índices de umidade rela- técnicos na área, essa barreira está
de 51.569,30 hectares, dos quais dois tiva do ar (varia entre 97% e sendo superada e edifícios mais altos
terços são formados de ilhas. Belém é 57% durante o dia); estão surgindo na cidade, apesar de
conhecida também como Cidade das • precipitações abundantes, com ainda estarem muito longe dos gran-
Mangueiras, devido à quantidade de totais oscilando entre 1.500 e des prédios de outras cidades do país.
mangueiras encontradas em suas ruas. 3.000 mm anuais; Além dessa característica do terreno,
O clima da região é quente e úmi- • temperatura média anual de cabe salientar que a região de Belém
do com um alto índice de chuvas. A 25,9°C (em 1995); não possui grandes elevações com
temperatura mínima atingida na área • não ocorrem variações es- montanhas ou morros, apresentando
fica em torno de 25°C, nas madru- tacionais térmicas sensíveis apenas desnivelamentos em diversos
gadas, enquanto que a temperatura que determinem um período pontos da cidade.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 105
B. Instituições envolvidas

O projeto de rede metropolita- desempenho, do que as redes comer- • Centro Universitário do Pará
na proposto para a cidade de Be- ciais. A RNP conta com um ponto – Cesupa;
lém engloba os grandes centros de de presença (PoP) em cada unidade • Companhia de Pesquisas Mi-
tecnologia e pesquisa da região da federativa (UF) do país e tem por nerais – CPRM;
Grande Belém. O principal obje- objetivo oferecer uma infra-estrutura • Empresa Brasileira de Pesqui-
tivo é interligar as instituições de de rede Internet nacional para a co- sa Agropecuária – Embrapa;
pesquisa e educação (IPEs) em uma munidade acadêmica. Para permitir • Instituto de Estudos Superio-
rede abrangente, que possa ser con- a integração de uma IPE ao “sistema res da Amazônia – Iesam;
fiável, veloz e segura o suficiente RNP” basta uma conexão ao PoP da • Instituto Evandro Chagas – IEC;
para compartilhar informações en- RNP no seu estado. No estado do • Museu Paraense Emilio Goel-
tre seus usuários e redundante para Pará, o PoP da RNP fica localizado di – MPEG;
que alguma falha não interrompa o na cidade de Belém, mais especifica- • Sistema de Proteção da Ama-
seu funcionamento. Tal rede estará mente no principal campus da Uni- zônia – Sipam;
ligada à Rede Nacional de Ensino e versidade Federal do Pará – UFPA, • Universidade da Amazônia
Pesquisa (RNP) para obter comuni- com capacidade de acesso atual de – Unama;
cação remota com o resto do país e 34 Mbps e com potencial de amplia- • Universidade do Estado do
com o exterior. ção, caso seja demandado. Pará – Uepa;
Para uma IPE engajada em tra- As IPEs que já participam ou • Universidade Federal do Pará
balhos de cooperação e colaboração que poderão vir a se interessar em – UFPA;
com outras lPEs, dentro ou fora do participar da rede metropolitana de • Universidade Federal Rural
Brasil, é desejável integrar o back- Belém parecem incluir: da Amazônia – Ufra.
bone da RNP, porque as redes que • Centro Federal de Educação As Figuras 1a e 1b mostram a
integram esse “sistema” geralmente Tecnológica do Pará – Cefet-PA; localização das IPEs em Belém e em
oferecem melhor comunicação, tanto • Centro Nacional de Primatas Ananindeua (Grande Belém), res-
em termos de capacidade como de – Cenp; pectivamente.

Figura 1a – Localização dos campi das IPEs em Belém

106 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Figura 1b – Localização dos campi das IPEs em Ananindeua

Atualmente, poucas institui- a 34 Mbps), a Uepa (512 Kbps) campus primário com conexões
ções são atendidas pela RNP na e a Ufra (1 Mbps). Nos casos do de baixa velocidade, tipicamente
cidade de Belém: além da UFPA, MPEG e da Uepa, como da pró- do 128 Kbps, nos casos da Uepa
integram o “sistema RNP” o pria UFPA, existem campi secun- e da UFPA, e 256 Kbps, no caso
MPEG (conexão para o PoP-PA dários em Belém ligados ao seu do MPEG.

C. Rede Metropolitana de Ensino e Pesquisa para Belém

A Rede MetroBel5, recentemente de fibras ópticas própria voltada para cidade. A Celpa já admite esse uso da
implantada, é o primeiro dos novos as instituições de pesquisa e educa- sua rede de postes e fechou contra-
projetos de rede metropolitana dedi- ção superior e a formação de consór- to para cobrar um aluguel mensal de
cada para pesquisa e educação que cios, de forma a assegurar a sua auto- R$ 1,50 por poste usado. Rede seme-
utiliza fibra óptica própria, financia- sustentação, em todas as capitais do lhante na cidade de Niterói, no Rio
do com recursos do Governo Fede- Brasil. de Janeiro, construída pela Universi-
ral por intermédio do Fundo Setorial A situação de Belém é razoavel- dade Federal Fluminense (UFF), usa
CT-Amazônia. O modelo pioneiro da mente favorável a essa solução tecno- em torno de 500 postes para percurso
Rede MetroBel no Brasil serviu de lógica, pois a cidade é relativamente de 12 km. Dessa forma, estima-se o
base para uma proposta mais ampla compacta, e a rede de distribuição uso de 1.600 postes em Belém para
denominada Redecomep6, que inclui elétrica, da Celpa, utiliza cabos aé- atender à rede, a qual terá um perí-
a implantação de uma infra-estrutura reos e posteamento em quase toda a metro de aproximadamente 40 km, o

5 Projeto MetroBel. Disponível em: http://www.pop-pa.rnp.br/metrobel/. Acesso em maio 2005.


6 Projeto Redecomep. Disponível em: http://www.redecomep.rnp.br/. Acesso em fev. 2005.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 107
que indica um custo mensal da ordem de 48 fibras, o que representará um fibras seja utilizado para implemen-
de US$ 960,00, a ser rateado entre as custo total de US$ 360.000,00. A idéia tar a conectividade entre os campi da
12 instituições participantes. básica é que cada IPE tenha acesso IPE, e também entre esta e o PoP-PA
Quanto ao custo da fibra óptica dedicado a duas das fibras no cabo. O da RNP, usando tecnologia Ethernet
implantada, orçamentos recentes em cabo passará por vários dos campi de (10/100/1000 Mbps) para isto (ver
Belém indicam consistentemente um cada IPE e também pelo campus do Fig. 2). Dessa forma, todas as IPEs in-
custo da ordem de US$ 9.000,00/km Guamá da UFPA, onde fica o PoP-PA terconectadas por essa rede trocariam
(para U$ 1,00 = R$ 2,50), para cabo da RNP. Sugerimos que esse par de tráfego entre si no PoP-PA da RNP.

Figura 2 – Ligação dos campi de IPEs diferentes

No que diz respeito ao projeto A princípio, a distância máxima de topologia redundante, precisamos
do trajeto do cabo da rede, há duas interfaces ópticas de médio alcance ter dois caminhos entre cada par de
considerações relevantes: o alcance (interfaces tipo LX) chega a 10 km, pontos na rede, o que é obtido mais
máximo de comunicação óptica; e tipicamente, e a de longo alcance facilmente se a rede for construída
o requisito de topologia redundan- (interfaces tipo ZX) fica em torno de em forma de anel fechado. Na Fi-
te, para que a rede não fique parti- 80 km. A escolha de ambos requer gura 3 mostra-se uma interconexão
cionada devido a um acidente que um estudo mais cuidadoso antes entre os pontos servidos usando os
venha a resultar no corte do cabo. de finalizar o projeto. Para garantir dois lados do anel.

Figura 3 – Ligação dos campi de IPEs diferentes

108 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007
Caso haja ruptura do cabo, que Como mencionado anterior- X benefício. Orçamentos recen-
o converte em barramento, a comu- mente, a utilização do meio óptico tes têm indicado que teremos um
nicação continua possível. Para que será por meio de equipamentos de custo total com equipamentos,
isso seja feito de modo automático, rede local, usando as tecnologias incluindo interfaces, na ordem de
basta utilizar no anel equipamentos Fast Ethernet (100 Mbps) ou Gi- U$ 240.000,00. A Tabela 1 resume
do tipo roteador ou do tipo comuta- gabit Ethernet (1 Gbps), que ofe- o custo total de implantação desse
dor Ethernet em todos os pontos. recem uma ótima relação custo modelo de rede.

Tabela 1 – Custo total estimado de implantação

Custos finais Custo com fibra Custo com equipamentos,


(aproximados) óptica instalada (US$) com interfaces (US$)

Custo por IPE 30.000,00 20.000,00


Custo total 360.000,00 240.000,00

3. Análise da tecnologia adotada


A utilização de uma solução ba- pelos equipamentos eletrônicos colo- por novos, de capacidade maior, reu-
seada em fibra óptica possui muitas cados nas pontas do cabo óptico. A tilizando a fibra já existente. Nesse
características interessantes do ponto capacidade teórica de uma única fibra aspecto, a fibra óptica leva vantagem
de vista de um projeto de intercone- é de 50 Tbps (terabits por segundo: 1 em relação aos padrões para redes
xão. Primeiro, é um meio físico pura- Tbps = 1012 Gbps) 7, 8, e hoje existem sem fio, apesar de que esses tam-
mente passivo. Isso significa que ele equipamentos relativamente baratos bém têm evoluído muito nos últimos
não pode deixar de funcionar, exceto da tecnologia Gigabit Ethernet, que anos, como é o caso do 802.11g e do
por acidentes externos que resultem permitem seu uso a 1 Gbps. 802.16a do IEEE.
no corte da fibra. Terceiro, a vida útil de uma in- Finalmente, as redes de fibras óp-
Segundo, a capacidade de trans- fra-estrutura de cabo óptico deverá ticas oferecem maior robustez, sendo
missão em fibra óptica é praticamen- exceder 15 anos. Futuramente, os equi- praticamente imunes a ruídos eletro-
te ilimitada. Na prática é determinada pamentos poderão ser substituídos magnéticos e interferências climáticas.

4. Considerações finais
A adoção do projeto da rede me- ção via RGPE de serviços de telefonia O exemplo de Belém do Pará é,
tropolitana para Belém do Pará mudará entre IPEs no Brasil e no exterior. na verdade, apenas mais um que de-
substancialmente a qualidade do servi- A reforma das comunicações tra- monstra a importância fundamental
ço de comunicação proporcionado para zidas por esse projeto resultará num das redes comunitárias nos contextos
os usuários das IPEs locais. Será possí- aumento de demanda para serviços de nacionais e mundiais, uma vez que
vel a utilização de recursos avançados comunicação de longa distância para estas estão posicionadas em nível
de rede, incluindo videoconferências Belém, que deverão ser relativamente hierárquico estratégico, interconec-
remotas, acesso ágil a acervos de in- fáceis de se atender, dada a importância, tando os usuários finais às grandes
formação, a computação distribuída de ao nível nacional, do desenvolvimento redes de backbone e, dessa forma,
alto desempenho (grades) e a integra- científico e tecnológico da Amazônia. merecem tratamento qualificado.

7 ABELÉM, A.; STANTON, M. A. Inter-redes IP baseadas em redes ópticas. Livro-texto dos minicursos, 20º Simpósio Brasileiro de Redes de Com-
putadores (SBRC2002), cap. 2. Búzios, RJ, maio 2002, p.63-123.
8 RAMASWAMI, R.; SIVARAJAN, K. Optical Networks: A Practical Perspective, 2 ed. EUA: Morgan-Kaufman. 2002.

Janeiro/Junho de 2007
Fonte
Fonte 109
Divulgação
FIM de PAPO

Falta a

N
devassa Luís Carlos Silva Eiras
luiscarloseiras@gmail.com

No meio dos anos 90, era comum se dizer que a Os dez volumes da edição da Imprensa Oficial de Minas
Internet “tem muita coisa boa, mas tem muito lixo tam- Gerais somam mais de 5.000 páginas, o que inclui docu-
bém”, como se isso fosse uma observação muito crítica e mentos com nomes de autoridades, os interrogatórios, as
profunda sobre a web. É que os programas de busca, lis- listas dos bens seqüestrados e as sentenças com as conde-
tando os sites por ordem alfabética ou por assunto, dificul- nações dos Inconfidentes.
tavam as pesquisas dentro do paradoxo de que quanto mais Mas, é claro que na Internet, além do texto comple-
completa a lista, mas difícil saber seu conteúdo. to, poderá ter muito mais. Um programa de busca poderá
Agora que a maioria dos programas de busca lista auxiliar os pesquisadores a fazer cruzamentos de informa-
por relevância, a “crítica” acima desapareceu, já que as ções, de maneira prática e rápida, como nunca foram feitos
listas são feitas por ordem decrescente, o que a maioria antes nos Autos. Isso poderá levar a descobertas impos-
procura. Assim, a falta de originalidade na busca faz com síveis de serem feitas num documento tão extenso e tão
que se ache, logo nos primeiros links, o que se quer. A falta complexo, onde existem centenas de pessoas sendo citadas
de imaginação tornou a Internet mais eficaz. em diversas situações ao longo do processo.
Mas, por mais que procurasse – e já que a Inter- Notas explicativas em hipertexto – considerando que
net tem tudo – não achei Os autos da devassa da Inconfi- os Autos foram escritos em linguagem jurídica em portu-
dência Mineira (1789-1792). Os autos são os documentos guês do século XVIII – deverão esclarecer o português
dos processos movidos pela Monarquia Portuguesa contra arcaico e o jurídico. Fotos, desenhos, mapas, fac-símiles,
os Inconfidentes e é dos mais importantes documentos da mapas, etc. mostrarão os locais no passado e como estão
história do Brasil e, certamente, o mais importante docu- hoje. A extraordinária música da época também poderá ser
mento da história de Minas Gerais. ouvida, por opção, durante a leitura do texto. E de praxe, a
Existem duas edições completas em papel dos Au- vasta bibliografia.
tos da devassa. A primeira editada pela Imprensa Nacio- Sobre a bibliografia, mais ainda. Ao contrário do que
nal, entre 1936 e 1938, em sete volumes. E a segunda, pode se supor, será um site sempre cheio de novidades, se
pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, entre 1977 e for atualizado com os constantes estudos sobre a Inconfi-
1983, composta de dez volumes de 500 páginas cada um, dência, que começa com a criação do mito do Tiradentes
sendo nove de texto e um de índices, mais fac-símiles, ainda na República Velha, e vai até a revisão atual de que
desenhos e gravuras. Essa primeira edição se encontra os Inconfidentes não citados nos Autos conseguiram a re-
esgotada, e da segunda estão à venda apenas alguns dos forma tributária, que tanto queriam, depois dos “aconteci-
10 volumes, mas podem ser consultados na seção Mine- mentos”. A Inconfidência Mineira seria assim um movi-
riana da Biblioteca Pública de Minas Gerais, na Praça da mento vitorioso.
Liberdade. Mas, por enquanto, quando alguém comentar que a
Muitos historiadores, entre eles Lúcio José dos San- Internet tem tudo, pode responder: “Tem. Só estão faltan-
tos, reclamaram do tamanho e da complexidade dos Autos. do Os autos da devassa da Inconfidência Mineira”.

110 Fonte
Fonte
Janeiro/Junho de 2007