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CÁLCULO com várias variáveis

J. Adonai & A. Carlos

UFAL-2012
Conteúdo

1 Vetores e Funções Vetoriais 1


1.1 O Espaço Euclidiano n-Dimensional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.1.4 Operações com n-uplas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.1.13 Interpretações Geométricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
1.2 Produto Interno e Norma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.2.7 Interpretações Geométricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
1.2.11 A Desigualdade de Cauchy-Schwarz . . . . . . . . . . . . . . 11
1.3 Retas e Planos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.3.12 Produto Vetorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
1.3.24 Distância de um Ponto a uma Reta . . . . . . . . . . . . . . . 24
1.3.29 Distância de um Ponto a um Hiperplano . . . . . . . . . . . 26
1.4 Funções Vetoriais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
1.4.6 Conjuntos Associados a Funções Vetoriais . . . . . . . . . . 30
1.5 Funções Vetoriais Especiais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
1.5.22 Superfı́cies de Revolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
1 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51

2 Cálculo das Curvas Parametrizadas 58


2.1 Limite e Continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
2.2 Derivadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
2.2.3 Interpretação Geométrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
2.2.14 Derivadas de Ordem Superior . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
2.2.19 Interpretação Fı́sica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
2.3 Geometria das Curvas Parametrizadas . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
2.3.8 Curvatura e Torção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70

i
ii Conteúdo

2.3.27 Curvas Planas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78


2.3.31 Cı́rculos no Espaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
2.3.36 Comprimento de Arco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
2 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

3 Funções Contı́nuas 91
3.1 Limite . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
3.1.15 Propriedades dos Limites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
3.2 Continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
3 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112

4 Derivadas Parciais 115


4.1 Derivadas Parciais no Plano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
4.1.17 Interpretação Geométrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
4.2 Derivadas Parciais de Ordem Superior . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
4.2.3 O Teorema de Schwarz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 128
4.3 Derivadas Parciais, Caso Geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
4.4 Derivadas Parciais Vetoriais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 136
4.4.10 Interpretação Geométrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
4.5 Derivadas Direcionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
4.5.3 Interpretação Geométrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148

5 Aplicações Diferenciáveis 153


5.1 A Derivada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
5.1.21 Aplicações Continuamente Diferenciáveis . . . . . . . . . . 166
5.1.30 Aproximação Afim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171
5.2 Operações com Aplicações Diferenciáveis . . . . . . . . . . . . . . . 174
5.2.6 A Regra da Cadeia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177
5.3 O Teorema do Valor Médio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188
5.4 Algumas Aplicações do Gradiente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195
5.4.6 Superfı́cies Definidas Implicitamente . . . . . . . . . . . . . . 198
5 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
Conteúdo iii

6 Funções Inversa e Implı́cita 207


6.1 Preliminares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 208
6.1.1 Sequências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 208
6.1.24 Funções Contı́nuas em Conjuntos Compactos . . . . . . . . 215
6.1.39 Norma de Uma Aplicação Linear . . . . . . . . . . . . . . . . 218
6.2 Contrações, Pontos Fixos e Perturbações . . . . . . . . . . . . . . . 224
6.3 O Teorema da Função Inversa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 230
6.4 O Teorema da Função Implı́cita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237
6.4.1 O Caso de Duas Variáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237
6.4.9 O Caso Geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
6.5 Superfı́cies Regulares no Espaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250
6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 256

Sugestões e Respostas 266

Índice 287

Referências Bibliográficas 291


1
Vetores
e
Funções Vetoriais

r
z rrrrrrrrrrrrrr
r r r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

r r r r r
sV  r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
6 
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr π = P + [{V, W }]

V rrrrrrrr r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr@
rrrrrrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
*
srrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
*
P r
r r r r r r
@rrrX rrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrP
r− rrr@ rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrXrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
X
@ rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr@
rr r r r r r rrrrrrrrrrrrrsrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr- rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
z
X
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrryrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Os W @ r r r
r r rrrr rr r r r r r r r rr r r
R r r rrrrrrrrrr rrrrrrr r rrr rrrrrrrrrr rrrrrrrrrrr rrr rr rrrrrrrr r r r r r r
tW @rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
@ 
r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
@rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
@rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
x
@rrrrrrr

por
J. Adonai & A. Carlos
1.1
O Espaço Euclidiano Rn

Nesta seção, introduziremos a noção de espaço euclidiano Rn , estabelecendo suas propri-


edades algébricas e geométricas básicas. Começamos com sua definição.

1.1.1
Definição Dado n ∈ N, o espaço euclidiano Rn é definido como sendo o conjunto de todas
as n-uplas de números reais X = (x1 , x2 , . . . , xn ), isto é,
Rn = {X = (x1 , x2 , . . . , xn ); xi ∈ R, i = 1, 2, . . . n}.

1.1.2
Definição Dada uma n-upla X = (x1 , x2 , . . . , xn ), os números reais x1 , x2 , . . . , xn são
chamados coordenadas de X.

1.1.3
Definição Dadas n-uplas X = (x1 , x2 , . . . , xn ) e Y = (y1 , y2 , . . . , yn ), diremos que X = Y
se x1 = y1 , x2 = y2 , . . . , xn = yn .

1.1.4
Operações com n-uplas

As estruturas aditiva e multiplicativa do corpo R induzem, naturalmente, uma estrutura


de espaço vetorial sobre Rn . A adição de n-uplas e a multiplicação de uma n-upla por um
número real são definidas a seguir.

1.1.5
Definição Sejam X = (x1 , x2 , . . . , xn ) e Y = (y1 , y2 , . . . , yn ). A soma de X com Y , indicada
por X + Y , é a n-upla
X + Y = (x1 + y1 , x2 + y2 , . . . , xn + yn ).

1.1.6
Definição Sejam X = (x1 , x2 , . . . , xn ) e a ∈ R. O produto de X pelo número real a,
indicada por aX, é a n-upla
aX = (ax1 , ax2 , . . . , axn ).

1.1.7 √ √ √
Exemplo No espaço R4 , considere
√ X =
√ (1, 2, −π, 2),
√ √ Y = (2, √ 3, π, 1) e a = 2. Então,
X + Y = (3, 2 + 3, 0, 1 + 2) e aX = ( 2, 2 2, −π 2, 2).

2
Vetores e Funções Vetoriais 3

1.1.8 √ √ √ √
Exemplo Em R7 , considere X =√ (0, 1, 2, −1, 0, 2,√ 3) e Y = (2, 3, π, 1, 0, 2, − 3).
Então, X + Y = (2, 1 + 3, 2 + π, 0, 0, 2 + 2, 0).
As proposições que seguem mostram que as operações com n-uplas recém-definidas satis-
fazem os axiomas de espaço vetorial. Tal fato justifica a terminologia que consiste em chamar
uma n-upla, de vetor no Rn .

1.1.9
Proposição Se X, Y, Z ∈ Rn , então valem as seguintes propriedades:
(i) [Comutatividade] X + Y = Y + X;
(ii) [Associatividade] (X + Y ) + Z = X + (Y + Z);
(iii) [Elemento Neutro] a n-upla O = (0, 0, . . . , 0), chamada n-upla nula (ou zero), é a única
n-upla tal que X + O = X;
(iv) [Simétrico] a n-upla −X = (−x1 , −x2 , . . . , −xn ), chamada simétrico da n-upla X, é a
única n-upla tal que X + (−X) = O.
Demonstração: Vejamos a demonstração de (ii). As demais são igualmente simples, e
serão deixadas como exercı́cio para o leitor. Temos que

(X + Y ) + Z = (x1 + y1 , x2 + y2 , . . . , xn + yn ) + (z1 , z2 , . . . , zn )
= ((x1 + y1 ) + z1 , (x2 + y2 ) + z2 , . . . , (xn + yn ) + zn ))
= (x1 + (y1 + z1 ), x2 + (y2 + z2 ), . . . , xn + (yn + zn ))
= X + (Y + Z),

onde, na passagem da segunda para a terceira equação, foi usada a propriedade associativa dos
números reais. Os demais pontos envolvem apenas a definição 1.1.5. pppppppppppppppppppppp

1.1.10
Proposição Se X, Y ∈ Rn e a, b ∈ R, então valem as seguintes propriedades:
(i) [Distributividade] a(X + Y ) = aX + aY ;
(ii) [Distributividade] (a + b)X = aX + bX;
(iii) [Associatividade] (ab)X = a(bX);
(iv) 1 X = X.
Demonstração: Sejam X = (x1 , x2 , . . . , xn ) e Y = (y1 , y2 , . . . , yn ). Temos que

a(X + Y ) = a(x1 + y1 , x2 + y2 , . . . , xn + yn )
= (a(x1 + y1 ), a(x2 + y2 ), . . . , a(xn + yn ))
= (ax1 , ax2 , . . . , axn ) + (ay1 , ay2 , . . . , ayn ) = aX + aY,
4 O Espaço Euclidiano Rn
onde usamos a propriedade distributiva de R junto com a definição 1.1.5, e obtemos (i). Para (ii),
a propriedade distributiva de R e a definição 1.1.6 são usadas:

(a + b)X = ((a + b)x1 , (a + b)x2 , . . . , (a + b)xn )


= (ax1 + bx1 , ax2 + bx2 , . . . , axn + bxn )
= aX + bX,

como querı́amos. ppppppppppppppppppppppp

1.1.11
Corolário Rn é um espaço vetorial de dimensão n.
Demonstração: As proposições 1.1.9 e 1.1.10 mostram que Rn é uma espaço vetorial.
Falta mostrar que dim Rn = n. Para isto, sejam e1 , e2 , . . . , en , definidos por

e1 = (1, 0, 0, . . . , 0)
e2 = (0, 1, 0, . . . , 0)
.. .. ..
. . .
en = (0, 0, . . . , 0, 1).

Note que se X = (x1 , x2 , . . . , xn ), então

X = x1 e1 + x2 e2 + · · · + xn en .

Logo, {e1 , e2 , . . . , en } gera Rn . Agora se c1 , c2 , . . ., cn são números reais tais que

c1 e1 + c2 e2 + · · · + cn en = (0, 0, . . . , 0),

vem que c1 = c2 = · · · = cn = 0, o que completa a prova. ppppppppppppppppppp

1.1.12
Definição A base {e1 , e2 , . . . , en } construı́da acima é chamada base canônica do espaço Rn .

1.1.13
Interpretações Geométricas

A interpretação geométrica que descreve R como uma reta orientada, sobre a qual se esco-
lhe um ponto O, o qual corresponde ao número zero, uma unidade de medida, que corresponde
ao número 1, pode ser estendida a uma interpretação geométrica dos espaços euclidianos R2 e
R3 . Para Rn , n ≥ 4, fica por conta da imaginação de cada um.
Vetores e Funções Vetoriais 5

r
√ r r √r r
−∞ − 2 0 1 3 π +∞

Figura 1: Os Números Reais R

Para visualizar o R2 , tomamos duas cópias de R, as quais chamamos de eixos coordenados.


Estes eixos são denotados por eixo-x e eixo-y. O passo seguinte consiste em dispor os eixos
coordenados em um plano euclidiano de modo que eles se interceptem ortogonalmente ao longo
de suas origens, o que produz o ponto O, que será associado à dupla (2-upla) nula (0, 0),
conforme figura 2. Feito isso, uma dupla de R2 , digamos X = (x1 , x2 ), é olhada como aquele
ponto do plano, também indicado por X, que se projeta ortogonalmente sobre eixo-x e eixo-y
naqueles pontos que correspondem a x1 e x2 , respectivamente. Isto é feito traçando-se por x1 ,
uma reta perpendicular ao eixo-x, e por x2 , uma reta perpendicular ao eixo-y. A interseção
destas perpendiculares é exatamente o ponto do plano que representará X. Deste modo, fica
estabelecida uma bijeção entre o plano euclidiano que fixamos e o espaço R2 .
Há situações em que é conveniente representar uma dupla X como um segmento orientado
localizado em O. A figura 2 exibe duas duplas X = (x1 , x2 ) e Y = (y1 , y2 ), de modo que cada
uma delas aparece ora como ponto, ora como segmento orientado. Neste ponto, observamos
que a noção geométrica de ângulo entre X e Y é mais adequada à figura 2-(c), onde ambas são
olhadas como segmentos orientados localizados em O. Já a figura 2-(b) é perfeita para motivar
a noção de reta que passa por Y e é paralela a X, conforme definição 1.3.1.

y y y
6 6 6

y2 r Y
s y2 r Y
s y2 r Y

x2 r X
s x2 r X x2 r 
 X
*
 *

  
  
  
s r r - s r
 r - sr r -
O y1 x1 x O y1 x1 x O y1 x1 x

Figura 2-(a) Figura 2-(b) Figura 2-(c)

Analogamente, para fazermos geometria em R3 , recorremos a três retas, que formarão os


eixos coordenados, indicados, respectivamente, por eixo-x, eixo-y e eixo-z, e as colocamos no
espaço euclidiano tridimensional de modo que elas se interceptem ortogonalmente em suas ori-
gens, produzindo o ponto O, que corresponderá à tripla (3-upla) nula (0, 0, 0). Feito isso, temos
em mãos três planos especiais, chamados coordenados, e denotados por plano-xy, plano-xz e
plano-yz. Agora a uma tripla X = (x1 , x2 , x3 ) fazemos corresponder o ponto do espaço cujas
projeções ortogonais sobre os eixos coordenados eixo-x, eixo-y e eixo-z coincidem, respectiva-
mente, com os pontos destes eixos que estão associados aos números reais x1 , x2 , x3 . A figura 3
mostra como isso é feito: inicialmente, marcamos x1 no eixo-x, x2 no eixo-y e x3 no eixo-z.
Depois, a partir de x1 , caminhamos paralelamente ao eixo-y até atingir a medida x2 , onde en-
contramos o ponto que representa a projeção de X no plano-xy, que corresponde a (x1 , x2 , 0).
6 O Espaço Euclidiano Rn
Pronto, agora é só subir (se x3 > 0), ou descer (se x3 < 0), paralelamente ao eixo-z até atingir
uma altura x3 , e encontramos o ponto do espaço que representará X. Note que na figura 3-(b),
a tripla X é mostrada como um segmento orientado localizado na origem.

z z
6 6
(0, x2 , x3 ) (0, x2 , x3 )
x3 r s x3 r s
@ @
@ @
@ @
(x1 , 0, x3 ) s @s (x1 , 0, x3 ) s @
6X *X
 6

Os 6 rx2- Os  6 rx2-
@ y @ y
6 6
@ @
@ 6 @ 6
r- - - - - - @
-6s(x , x , 0) r- - - - - - @ s(x , x , 0)
-6
x1 1 2 x1 1 2

x
x

Figura 3-(a) Figura 3-(b)

y y
6 X +Y 6 X +Y
x2 + y2 r s x2 + y2 r
*

  


Y Y

y2 r s y2 r

 
X 
x2 r s x2 r 
*

X
  
  
 
s r r r - sr r r -
O y1 x1 x1 + y1 x O y1 x1 x1 + y1 x

Figura 4-(a) Figura 4-(b)

y
6 X +Y
x2 + y2 r s
*




y2 r Y
s



x2 r X
s
*




sr r r -
O y1 x1 x1 + y1 x

Figura 4-(c)
Vetores e Funções Vetoriais 7

Agora podemos descrever geometricamente a adição de n-uplas e a multiplicação de uma n-upla


por um número real. Para isso, usamos a figura 4, onde marcamos as duplas X = (x1 , x2 ) e
Y = (y1 , y2 ) juntamente com sua soma.
Olhando atentamente o conjunto de figuras 4, observamos que a (b), que mostra X e Y
como segmentos orientados localizados em O, nos dá uma regra geométrica evidente: o segmento
orientado X + Y é a diagonal do paralelogramo com arestas X e Y . Portanto, a dupla X + Y
é o ponto final deste segmento. A regra geométrica contida na figura 4-(c) é a mais simples:
localizamos em Y , o segmento orientado X. O ponto final obtido é a dupla X + Y . Fácil, não?
Para finalizar, consideremos a figura abaixo que ilustra geometricamente como funciona
a multiplicação de uma n-upla por um escalar: a n-upla aX, a ∈ R, tem comprimento igual ao
comprimento de X multiplicado pelo valor absoluto de a. Seu sentido é o mesmo de X, quando
a > 0, e lhe é contrário, quando a < 0.

y
6

aX (a > 1)
ax2 r

*
x2 r X

 *


* aX (0 < a < 1)


s
 r r -
O
 x1 ax1 x


 Figura 5


−X

1.2
Produto Interno e Norma

Vimos, recentemente, que o espaço Rn possui uma estrutura de espaço vetorial. Em


várias situações, precisamos das noções de comprimento, ângulo, ortogonalidade, não presentes
nas operações de espaço vetorial. Estas noções são obtidas a partir de um produto escalar (ou
interno), que introduziremos agora.

1.2.1
Definição Sejam X = (x1 , x2 , . . . , xn ) e Y = (y1 , y2 , . . . , yn ). O produto escalar (ou in-
terno) de X por Y , indicado por X · Y , é o número real dado por

X · Y = x1 y1 + x2 y2 + · · · + xn yn .
8 Produto Interno e Norma

A seguinte proposição descreve as propriedades deste produto.

1.2.2
Proposição Se X, Y, Z ∈ Rn e a ∈ R são arbitrários, então valem as seguintes proprieda-
des:

(i) [Positividade] X · X ≥ 0, e X · X = 0 se, e somente se, X = O = (0, 0, . . . , 0);


(ii) [Comutatividade] X · Y = Y · X;
(iii) [Distributividade] X · (Y + Z) = X · Y + X · Z;
(iv) [Homogeneidade] (aX) · Y = X · (aY ) = a(X · Y ).
Demonstração: Com X = (x1 , x2 , . . . , xn ), Y = (y1 , y2 , . . . , yn ) e Z = (z1 , z2 , . . . , zn ),
temos que

X · (Y + Z) = x1 (y1 + z1 ) + x2 (y2 + z2 ) + · · · + xn (yn + zn )


= x1 y1 + x1 z1 + x2 y2 + x2 z2 + · · · + xn yn + xn zn
= (x1 y1 + x2 y2 + · · · + xn yn ) + (x1 z1 + x2 z2 + · · · + xn zn )
= X · Y + X · Z.

Assim, fica provado (iii). pppppppppppppppppppppp

A proposição 1.2.2, em seu item (i), permite-nos dar a seguinte definição.

1.2.3
Definição Seja X = (x1 , x2 , . . . , xn ). A norma (ou comprimento) de X é dada por
√ q
kXk = X · X = x21 + x22 + · · · + x2n .

1.2.4
Definição X ∈ Rn é dito unitário se kXk = 1.

1.2.5 √ √
Exemplo Se X =√(1, 2, −1, 0) e Y = (3, 1, 0, − 2), então X · Y = 5, kXk = 6 e
kY k = 2 3.

1.2.6
Proposição Dados X, Y ∈ Rn e a ∈ R, temos que
(i) kXk ≥ 0, e kXk = 0 se, e somente se, X = O;
(ii) kaXk = |a| kXk, onde |a| é o valor absoluto de a;
(iii) se X 6= O, o vetor uX = X/ kXk é unitário (uX é conhecido como vetor unitário na direção
de X);
(iv) kX + Y k2 = kXk2 + 2X · Y + kY k2 ;
Vetores e Funções Vetoriais 9

(v) kX − Y k2 = kXk2 − 2X · Y + kY k2 .
Demonstração: Temos que
p p
kaXk = (aX) · (aX) = a2 (X · X) = |a| kXk ,
o que prova (ii). Agora, usando (ii), vem que

X 1
kuX k = kXk = kXk kXk = 1,

e segue-se (iii). Para (iv), simplesmente expandimos kX + Y k2 , usando a distributividade e a


comutatividade do produto escalar.
kX + Y k2 = (X + Y ) · (X + Y )
=X ·X +X ·Y +Y ·X +Y ·Y
= kXk2 + 2X · Y + kY k2 .
Os demais itens são, também, de prova simples. ppppppppppppppppppppp

1.2.7
Interpretações Geométricas

Estudaremos agora os aspectos geométricos envolvidos pelo produto escalar e pela norma.
Consideremos a figura 6 que segue. Note que o triângulop de vértices O, X e (x1 , x2 , 0) é
2 2
p no vértice (x1 , x2 , 0) e seus catetos medem x1 + x2 e x3 . Logo, sua hipotenusa
retângulo
mede x21 + x22 + x23 , o que coincide com kXk.

z
6
x3 r
@
@
@
@rrrr X
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
*

rrr rrrr r r r r
r r
r

rrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrqqrrrqqrrrqqrrrqqrrrqqrrrqqrrrqq

O sqqrrqrqqrqqrqqrqq rx2-
@ qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq x
q q q q q q q y
@qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq 3
p @qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
x21 + x22 @ qq@ qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqq
r @qqs(x , x , 0)
x1 1 2

x

Figura 6

Deste modo, podemos visualizar kXk como o comprimento (euclidiano) do segmento orientado
X. Isto também acontece no R2 , como o leitor pode verificar facilmente.
10 Produto Interno e Norma

Tomemos agora X, Y dois vetores em R2 (ou R3 ) que fazem entre si um ângulo θ, como
mostra a figura 7. (Note a interpretação geométri- y
ca para a diferença Y − X: o segmento orientado, 6
localizado em X, que representa Y − X termina Y
y2 r
em Y .) Aplicando a lei dos cossenos ao triângulo 
i
PP
P P
4OXY , obtemos que x2 r  P X
*

Y −X y2 − x2 r 
 
2 2 2
kY − Xk = kXk + kY k − 2 kXk kY k cos θ, ppppppppθpp 
iP
P 
PP
r P Ps r r -
o que comparado com (v) da proposição 1.2.6 dá y1 − x1 O y1 x1 x
que Figura 7
X · Y = kXk kY k cos θ.
Assim vemos que a noção de produto interno está bem ligada à noção de ângulo entre vetores,
e colhemos a seguinte proposição, onde ∠(X, Y ) indica o ângulo, no intervalo [0, π], entre os
vetores X e Y .

1.2.8
Proposição Se X, Y ∈ Rn (n = 2, 3) e θ = ∠(X, Y ), então X · Y = kXk kY k cos θ. Em
particular, vale a desigualdade de Cauchy-Schwarz: |X · Y | ≤ kXk kY k , a
igualdade ocorrendo apenas quando X e Y são linearmente dependentes.

1.2.9
Exemplo A proposição 1.2.8 mostra que dois vetores X e Y em Rn , n = 2, 3, são perpen-
diculares se, e somente se, X · Y = 0. De fato, X e Y são perpendiculares se, e
somente se, ∠(X, Y ) = π/2. Como caso particular disto, note que dado X = (x1 , x2 ), o vetor
Y = (−x2 , x1 ) é perpendicular a X. O vetor Y é obtido de X por uma rotação em torno de O
no sentido anti-horário. Como exercı́cio, o leitor deve esboçar X e Y , para se convencer deste
fato.
Continuando com a nossa discussão geomé-
trica construiremos, agora, o que chamamos de Y
projeção ortogonal de um vetor na direção de ou- AKA
tro não-nulo dado. Sejam, então, X 6= O e Y  AY − PX Y 
*X
como na figura 8, onde uX = X/ kXk é o vetor 

A
A 
unitário na direção de X, θ = ∠(X, Y ) e PX Y é ppppppppθ 
 *P Y
A
X
p

o vetor obtido pela projeção ortogonal de Y sobre  p *
s uX A
X. Assim PX Y = auX , onde O a

A
X ·Y
a = kY k cos θ = uX · Y = . Figura 8: Projeção de Y sobre X
kXk
X ·Y
Logo, PX Y = X. Da construção de PX Y decorre facilmente que o vetor Y − PX Y é
kXk2
ortogonal a X, o que pode ser verificado, também, analiticamente:

X ·Y
X · (Y − PX Y ) = X · (Y − X) = X · Y − X · Y = 0.
kXk2
Vetores e Funções Vetoriais 11

É conveniente notar aqui que a expressão que define PX Y pode muito bem ser usada para
o espaço Rn , visto que ela não contém nenhum apelo geométrico explı́cito. Isto será parte do
conteúdo da próxima subseção.

1.2.10
Exemplo Considere, em R2 , o triângulo 4ABC, onde
y
A = (1, 1), B = (3, 2) e C = (0, 4). Os veto- 6
res X = C − B e Y = A − B aparecem na figura 9 localiza- 4 sC
dos em B. Temos que X = (−3, 2) e Y = (−2, −1). Assim, BQ
k
QX
B Q P Y
X · Y = 4, kXk2 = 13 e B Q X
2 r B hBC
Q
k B
s
Q
4 4 B

PX Y = X = (−3, 2). 1 r B
s

 Y
13 13 A
s r r -
Agora fica fácil calcular a altura relativa ao lado BC, hBC , O 1 3 x
do triângulo 4ABC. De fato, temos
√ Figura 9
14 21 13
hBC = kY − PX Y k = (− 13 , − 13 ) = 7 13 .

1.2.11
A Desigualdade de Cauchy-Schwarz

Inicialmente, nos inspiramos nas noções geométricas que usamos há pouco, para definir
ortogonalidade entre n-uplas e construir a projeção ortogonal de uma n-upla sobre outra.

1.2.12
Definição Dados X, Y ∈ Rn , diremos que X é ortogonal (perpendicular) a Y se X · Y = 0.

1.2.13
Definição Um subconjunto {v1 , v2 , . . . , vk } ⊂ Rn é dito ortogonal se vi · vj = 0, para
1 ≤ i, j ≤ k, i 6= j. {v1 , v2 , . . . , vk } é ortonormal se é ortogonal e seus elementos
são vetores unitários.

1.2.14
Exemplo Seja {e1 , e2 , . . . , en } a base canônica do espaço Rn (veja definição 1.1.12). É claro
que ke1 k = ke2 k = · · · = ken k = 1. Além disto, dados i, j ∈ {1, 2, . . . , n}, i 6= j,
temos que ei · ej = 0. Logo, a base canônica é uma base ortonormal do espaço Rn .

1.2.15
Definição Dados dois vetores X, Y ∈ Rn , X 6= O, o vetor
X ·Y
PX Y = X
kXk2
12 Produto Interno e Norma

é chamado projeção de Y sobre X.

1.2.16
Proposição Sejam X, Y ∈ Rn com X 6= O. Então, Y − PX Y é perpendicular a X.
Portanto, é também perpendicular a PX Y .
X ·Y pppppppppppppp
Demonstração: X · (Y − PX Y ) = X · (Y − 2 X) = X · Y − X · Y = 0. pppppppp
kXk

Agora podemos estender o teorema de Pitágoras para o Rn .

1.2.17 [Pitágoras]
Proposição Sejam X, Y ∈ Rn com X 6= O. Então, X é perpendicular a Y se, e
2 2 2
somente se, kX + Y k = kXk + kY k .
Demonstração: Resulta imediatamente de kX + Y k2 = kXk2 + kY k2 + 2X · Y , como
indica a proposição 1.2.6, item (iv). pppppppppppppppppppppp

Enfim a desigualdade de Cauchy-Schwarz, já obtida via argumento geométricos para os


espaços R2 e R3 .

1.2.18 [Cauchy-Schwarz]
Teorema Sejam X, Y ∈ Rn . Então, |X · Y | ≤ kXk kY k, e a igual-
dade é atingida se, e somente se, X e Y são linearmente
dependentes.
Demonstração: Inicialmente notamos que se X = O, a desigualdade é facilmente
verificada. Portanto, podemos supor X 6= O. Seja PX Y a projeção ortogonal de Y sobre X.
Segue-se da proposição 1.2.16 que Y − PX Y é perpendicular a PX Y . Usando a proposição 1.2.17,
obtemos que

kY k2 = k(Y − PX Y ) + PX Y k2 = k(Y − PX Y )k2 + kPX Y k2 ≥ kPX Y k2 , (¶1 )


X ·Y
e a igualdade ocorre se, e somente se, Y = PX Y = X. Mas
kXk2

X · Y 2 (X · Y )2

2
kPX Y k =
kXk2 X = kXk2 ,

o que combinado com a desigualdade (¶1 ) dá (X · Y )2 ≤ kXk2 kY k2 , como querı́amos. pppppppppppppppppppppp

Como corolário da desigualdade de Cauchy-Schwarz, obtemos as propriedades da norma


que faltavam ser apresentadas: as desigualdades triangulares.

1.2.19
Corolário Se X, Y ∈ Rn e a ∈ R, então
(i) kXk ≥ 0, e kXk = 0 se, e somente se, X = O;
Vetores e Funções Vetoriais 13

(ii) kaXk = |a| kXk;


(iii) [Desigualdade triangular] kX + Y k ≤ kXk + kY k;
(iv) [Desigualdade triangular] | kXk − kY k | ≤ kX − Y k.
Demonstração: Note que (i) e (ii) aparecem na proposição 1.2.6. Daremos uma prova
para (iii) e (iv). Temos que

kX + Y k2 = kXk2 + 2X · Y + kY k2
≤ kXk2 + 2|X · Y | + kY k2
≤ kXk2 + 2 kXk kY k + kY k2 = (kXk + kY k)2 ,

o que implica (iii). A segunda desigualdade triangular resulta da primeira. De fato,


kXk = k(X − Y ) + Y k ≤ kX − Y k + kY k .
Logo,
kXk − kY k ≤ kX − Y k . (¶2 )
Trocando X por Y , vem que
kY k − kXk ≤ kY − Xk = kX − Y k . (¶3 )
Agora, juntando (¶2 ) e (¶3 ), segue-se que
− kX − Y k ≤ kXk − kY k ≤ kX − Y k ,
o que é equivalente a
| kXk − kY k | ≤ kX − Y k ,
e está pronto o corolário. pppppppppppppppppppp

Neste ponto, tomamos duas n-uplas não-nulas X e Y . Da desigualdade de Cauchy-


Schwarz, obtemos que
X ·Y
−1 ≤ ≤ 1.
kXk kY k
Logo, existe um único número real θ ∈ [0, π] tal que
X ·Y
cos θ = .
kXk kY k
Posto isto, temos a seguinte definição.

1.2.20
Definição Dadas as n-uplas não-nulas X e Y , o número real
X ·Y
∠(X, Y ) = arccos .
kXk kY k
é chamado ângulo entre X e Y .
14 Produto Interno e Norma

1.2.21 √
Exemplo Sejam X = (1, 2, 1, 0) e Y = (1, 1, 3, 1) dois elementos do R4 . Então,
√ kXk = 6,
√ 6 2 π
kY k = 2 3 e X · Y = 6. Logo, ∠(X, Y ) = arccos √ = arccos = .
2 18 2 4

Observação Seja V um espaço vetorial qualquer sobre R, de dimensão finita ou não. Um


produto interno em V é definido como sendo uma forma bilinear simétrica e
positiva definida, que indicamos por h , i. Isto significa que se X, Y, Z ∈ V e a ∈ R, então
devem valer:

(i) hX, Xi ≥ 0, e hX, Xi = 0 se, e somente se, X é o vetor nulo de V;


(ii) hX, Y i = hY, Xi;
(iii) hX, Y + Zi = hX, Y i + hX, Zi;
(iv) ahX, Y i = haX, Y i = hX, aY i.

Note que o produto escalar · que definimos para o Rn satisfaz estas propriedades, como indica a
proposição 1.2.2. O que queremos chamar a atenção aqui é que todo o conteúdo desta subseção
poderia ser aplicado para o espaço V, com apenas uma mudança, a saber: a troca do produto
escalar · por h , i. Em particular, terı́amos a desigualdade de Cauchy-Schwarz:

|hX, Y i| ≤ kXk kY k,
p
onde, é claro, kXk = hX, Xi. Esta norma também satisfaz as propriedades do corolário 1.2.19.

Para finalizar esta subseção, consideraremos em Rn a distância induzida por sua norma.

1.2.22
Definição A distância entre as n-uplas X e Y , indicada por d(X, Y ), é o número real
p
d(X, Y ) = kY − Xk = (y1 − x1 )2 + (y2 − x2 )2 + · · · + (yn − xn )2 .

(A figura 7 sugere, também, esta definição.)

1.2.23
Exemplo Se X = (1, 2, 3, −1, 2), Y = (1, 1, 2, 0, 1), então d(X, Y ) = 2.

1.2.24
Proposição Sejam X, Y, Z ∈ Rn . A distância tem as seguintes propriedades.
(i) d(X, Y ) ≥ 0, e d(X, Y ) = 0 se, e somente se, X = Y ;
(ii) d(X, Y ) = d(Y, X);
Vetores e Funções Vetoriais 15

(iii) d(X, Z) ≤ d(X, Y ) + d(Y, Z).


Demonstração: Para (ii) basta observar que kY − Xk = kX − Y k. Vejamos (iii).

d(X, Z) = kZ − Xk
= k(Z − Y ) + (Y − X)k
≤ kZ − Y k + kY − Xk
≤ d(X, Y ) + d(Y, Z),

onde a desigualdade obtida vem do corolário 1.2.19, item (iii). pppppppppppppppppppppp

1.3
Retas e Planos

Como vimos fazendo até aqui, para definirmos reta e plano no Rn , usaremos alguns argu-
mentos geométricos no espaço euclidiano R2 .
l = P + [V ]
A figura 10 ao lado mostra a dupla P , os 
vetores V 6= O e N (perpendicular a V ) e a reta y 

l que passa por P e é paralela a V . Se X é um 6 s
 
X − P*X
ponto qualquer de l, então o vetor X − P deve ser
s [V ]

um múltiplo de V , isto é, existe t ∈ R tal que  P 
 
 
X − P = tV, N AK 

A *V
ou s
A -
X = P + tV, O  x

equação que descreve os pontos de l, e motiva a
Figura 10: Reta passando por P
seguinte definição.
e paralela a V

1.3.1
Definição Dados P, V ∈ Rn , V 6= O, o subconjunto l = P + [V ], onde [V ] indica o
subespaço gerado por V , é chamado reta que passa por P e é paralela ao vetor V .
Assim,
l = {X ∈ Rn ; X = P + tV, t ∈ R}.
A equação X = P + tV é a equação paramétrica de l.

1.3.2
Exemplo Dados P, Q ∈ Rn , P 6= Q, a reta que passa por P (ou Q) e é paralela ao vetor
Q − P é a reta lP Q = P + [Q − P ]. Para t = 1, obtemos X = P + t(Q − P ) = Q.
16 Retas e Planos

Logo, Q ∈ l, o que implica que l é a reta que passa por P e Q. Deixando t percorrer o intervalo
fechado [0, 1], obtemos o subconjunto [P, Q] ⊂ lP Q , o qual
chamaremos de segmento de reta ligando P a Q. Assim,

[P, Q] = {X = P + t(Q − P ); 0 ≤ t ≤ 1}. s


M  Q
s

Para t = 1/2, obtemos P s

1 P +Q Figura 11: Segmento [P, Q]


M = P + (Q − P ) = ∈ [P, Q],
2 2

o ponto médio de [P, Q]. Observe que d(M, P ) = d(M, Q) = kM − P k = kM − Qk = d(P, Q)/2.

1.3.3
Exemplo Tomemos, em R2 , P = (x0 , y0 ) e V = (v1 , v2 ) 6= (0, 0). Se
X = (x, y) ∈ l = P + [V ] = {X = (x, y) = (x0 , y0 ) + t(v1 , v2 ), t ∈ R}

é um ponto qualquer de l, então x = x0 + tv1 e y = y0 + tv2 , t ∈ R. Donde

v2 x = v2 x0 + tv2 v1 e v1 y = v1 y0 + tv1 v2

e, portanto,
ax + by = c,
onde a = −v2 , b = v1 e c = ax0 + by0 . Esta é a equação cartesiana de l, forma usual nos textos
elementares de Geometria Analı́tica, e que pode ser reescrita como

(X − P ) · N = 0,

onde N = (a, b) = (−v2 , v1 ) é perpendicular a V e, portanto, a l (veja o exemplo 1.2.9).

Observação Uma reta l = P + [V ] não determina unicamente P e V . De fato, se Q ∈ l é


um ponto qualquer de l e W = λV , λ 6= 0, então l = Q + [W ].

1.3.4
Definição Duas retas no Rn , l1 = P + [V ] e l2 = Q + [W ], são ditas paralelas se V e W
são linearmente dependentes.

1.3.5
Exemplo Sejam l1 = P + [V ] e l2 = Q + [W ] duas retas no R2 que não são paralelas.
Logo, como nossa intuição espera, l1 e l2 devem se tocar num único ponto (o
que pode não ocorrer em dimensões maiores que 2, como mostra o exemplo 1.3.6). Com efeito,
{V, W } é uma base do R2 (por quê?) e, portanto, devem existir únicos t1 , t2 ∈ R tais que
Q − P = t1 V + t2 W . Donde, Q − t2 W = P + t1 V . Mas P + t1 V ∈ l1 e Q − t2 W ∈ l2 . Logo, l1
e l2 se interceptam em R = Q − t2 W = P + t1 V .
Vetores e Funções Vetoriais 17

1.3.6
Exemplo Sejam l1 = P + [V ] e l2 = Q + [W ], onde P = (1, 0, 0), Q = (0, 1, 0), V = (1, 1, 1)
e W = (1, 1, 0). Os vetores V e W são linearmente independentes, o que resulta
de uma simples observação de suas terceiras coordenadas. Assim, l1 e l2 não são paralelas.
Entretanto, ao contrário do que ocorre no plano (exemplo 1.3.5), l1 e l2 não se interceptam. De
fato, se R é um ponto onde estas retas se interceptam, então

R = P + t1 V = (1 + t1 , t1 , t1 ) e R = Q + t2 W = (t2 , 1 + t2 , 0),

para alguns t1 , t2 ∈ R. Isto implica que t2 = 1 = −1, um absurdo. Portanto, devemos mesmo
ter l1 ∩ l2 = ∅.

Nosso objetivo agora é construir planos no Rn . Começaremos trabalhando em R3 .


Sejam V e W dois vetores linearmente independentes em R3 , localizados em P , como
mostra a figura 12.
q
z
qqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q q
sV qqqqq q qqq qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
q q q q q q q qq q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq π = P + [{V, W }]
6 
q q q q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
V qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq@
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq

*
qqqqqqqqqqqq
*
P
sX q
qqqqqqqqqqqqqqqqX q
qqqqqqqqqqX q
qqqqqqqqqqqqqqqqqq− qqqqqqqqqqqqqqqqP qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
@qqX qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq@ q q q q q q q q
qqqqqqqqqqqqX q q q qX q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
@qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqqqqqqqsX qqq qqq qq q q q qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
Rqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq- qq qq q qq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqyqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
z
@
Os W @ q q
q q q q q q q q q q qq q q q qq qq q q qq qq qq q
q q qq q qq qq qq
R q q q q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
@
tW @
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
@qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
@qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
x
@qqqqqqqq

Figura 12: Plano que passa por P e é paralelo a V e W

Seja π = P + [{V, W }] o plano que passa por P e é paralelo aos vetores V e W . Dado X ∈ π, o
vetor X − P está no subespaço gerado pelos vetores V e W . Logo, existem escalares s e t tais
que X − P = sV + tW , donde X = P + sV + tW .

1.3.7
Definição Dados P, V, W ∈ Rn com {V, W } linearmente independente, o subconjunto
π = P + [{V, W }], onde [{V, W }] é o subespaço gerado por {V, W }, é chamado
plano que passa por P e é paralelo aos vetores V e W . Em outras palavras,

π = {X ∈ Rn ; X = P + sV + tW, s, t ∈ R}.

A equação X = P + sV + tW é a equação paramétrica de π.

1.3.8
Exemplo Sejam P, Q, R ∈ Rn três pontos tais que o triângulo 4P QR seja não-degenerado,
isto é, os vetores V = Q − P e W = R − P são linearmente independentes. Então,
o plano

π = P + [{V, W }] = {X ∈ Rn ; X = P + s(Q − P ) + t(R − P ), s, t ∈ R}


18 Retas e Planos

contém os pontos Q e R. Para ver isto, ponha s = 1 e t = 0, para obter Q, e s = 0 e t = 1, para


encontrar R. Este é o plano que passa pelos pontos P, Q, R, que indicaremos por πP QR . Como
caso particular, tomemos, em R3 , os pontos P = (0, 0, 2), Q = (4, 1, 0) e R = (1, 1, 1). Então,
V = (4, 1, −2) e W = (1, 1, −1), e πP QR fica
πP QR = {(x, y, z) = (0, 0, 2) + s(4, 1, −2) + t(1, 1, −1), s, t ∈ R}
= {(x, y, z) = (4s + t, s + t, 2 − 2s − t), s, t ∈ R},
Eliminando s e t na equação paramétrica obtida, obtemos que
πP QR = {(x, y, z); x + 2y + 3z = 6},
que é a forma cartesiana de πP QR . Note que os coeficientes desta última equação, a saber, 1,
2 e 3, dão origem ao vetor N = (1, 2, 3) que, como é fácil de ver, é perpendicular aos vetores
V e W . Portanto, N é também perpendicular a πP QR . A seguinte proposição generaliza esta
situação.

1.3.9
Proposição Seja π = P + [{V, W }] um plano do R3 . Então existe N = (a, b, c), não-nulo,
perpendicular a V e W (e portanto perpendicular a π) tal que
π = {X ∈ R3 ; (X − P ) · N = 0} = {(x, y, z); ax + by + cz = d},
onde d = N · P .
Demonstração: Sejam P = (p1 , p2 , p3 ), V = (v1 , v2 , v3 ) e W = (w1 , w2 , w3 ). Assim,
π = {(x, y, z) = (p1 + sv1 + tw1 , p2 + sv2 + tw2 , p3 + sv3 + tw3 ), s, t ∈ R}. (¶4 )
Como V e W são linearmente independentes, a matriz
 
v1 w 1
v2 w2 
v3 w 3
tem posto 2. Resulta daı́, que pelo menos uma das matrizes
     
v1 w1 v1 w 1 v2 w2
, e
v2 w2 v3 w 3 v3 w3
tem determinante não-nulo. Logo, podemos supor, sem perda de generalidade, que a primeira
destas matrizes tem inversa, a qual é dada por
 −1  
v1 w1 1 w2 −w1
= .
v2 w2 v1 w2 − v2 w1 −v2 v1
Seja X = (x, y, z) ∈ π um ponto qualquer. De (¶4 ) vem que
! ! !
x − p1 v1 w1 s
=
y − p2 v2 w2 t
!
s
z − p3 = (v3 w3 ) .
t
Vetores e Funções Vetoriais 19

Logo,
 −1     
v1 w 1 x − p1 1 w2 −w1 x − p1
z − p3 = (v3 w3 ) = (v3 w3 ) .
v2 w2 y − p2 v1 w2 − v2 w1 −v2 v1 y − p2
Donde,

(v2 w3 − v3 w2 )(x − p1 ) + (v3 w1 − v1 w3 )(y − p2 ) + (v1 w2 − v2 w1 )(z − p3 ) = 0,

ou (X − P ) · N = 0, onde

N = (v2 w3 − v3 w2 , v3 w1 − v1 w3 , v1 w2 − v2 w1 ).

A equação (X − P ) · N = 0 implica, em particular, que N é perpendicular aos vetores V e W .


De fato, tomando X = P + V ∈ π, temos que (X − P ) · N = V · N = 0. Da mesma forma,
vemos que W · N = 0. pppppppppppppppppppppp

A equação (X −P )·N = 0, obtida para planos no R3 , serve, como vimos no exemplo 1.3.3,
também para retas em R2 . Isto sugere a seguinte definição.

1.3.10
Definição Sejam P, N ∈ Rn , onde N é um vetor não-nulo. O subconjunto
H = {X ∈ Rn ; (X − P ) · N = 0}

é chamado hiperplano que passa por P e é perpendicular a N .

Observação Os hiperplanos de R2 são retas; os do R3 são os planos. Por analogia a estes


casos é de se esperar que a “dimensão” destes objetos dependa do ambiente no
qual eles habitam. Um hiperplano H ⊂ Rn deve ter dimensão n − 1.

1.3.11
Exemplo Seja H = {X = (x1 , x2 , x3 , x4 ) ∈ R4 ; x1 + x2 − 2x3 − x4 = 1}. Temos que H é o
hiperplano do R4 que é perpendicular a N = (1, 1, −2, −1) e passa, por exemplo,
por P = (0, 0, 0, −1). Agora observe que X ∈ H se, e somente se,

X = (x1 , x2 , x3 , x1 + x2 − 2x3 − 1) = P + x1 (1, 0, 0, 1) + x2 (0, 1, 0, 1) + x3 (0, 0, 1, −2),

o que mostra que os pontos de H são descritos por uma equação paramétrica a três parâmetros.
Isto basta para sentir que a dimensão de H é 3.

1.3.12
Produto Vetorial
Devido ao seu valor geométrico, o vetor N construı́do na proposição 1.3.9 merece destaque
especial. Nesta subseção colocaremos as propriedades básicas deste vetor.
20 Retas e Planos

1.3.13
Definição Sejam X = (x1 , x2 , x3 ) e Y = (y1 , y2 , y3 ) duas triplas em R3 . O produto vetorial
de X por Y , denotado por X × Y (ou X ∧ Y ), é definido por

X × Y = (x2 y3 − x3 y2 , x3 y1 − x1 y3 , x1 y2 − x2 y1 ),

que pode ser facilmente lembrado expandindo o determinante abaixo ao longo da primeira linha:

e1 e2 e3

X × Y = x1 x2 x3 = (x2 y3 − x3 y2 )e1 + (x3 y1 − x1 y3 )e2 + (x1 y2 − x2 y1 )e3 ,


y1 y2 y3

onde {e1 , e2 , e3 } é a base canônica do R3 .

1.3.14
Exemplo Sejam X = (1, 1, 2) e Y = (3, −1, 1). O produto vetorial de X por Y é o vetor

e1 e2 e3

X × Y = 1 1 2 = 3e1 + 5e2 − 4e3 = (3, 5, −4).


3 −1 1

Note que (X × Y ) · X = (3, 5, −4) · (1, 1, 2) = 0. Também (X × Y ) · Y = 0, o que diz que X × Y


é perpendicular a X e a Y . Esta propriedade é verdadeira em geral, como veremos a seguir.

1.3.15
Proposição Sejam X, Y, Z ∈ R3 e a ∈ R. As seguintes propriedades são verificadas.
(i) X × Y = −Y × X;
(ii) a(X × Y ) = (aX) × Y = X × (aY );
(iii) X × (Y + Z) = X × Y + X × Z;
(iv) (X × Y ) · Z = det (X, Y, Z);
(v) kX × Y k2 = kXk2 kY k2 − (X · Y )2 ,

onde (X, Y, Z) indica a matriz cujas colunas (ou linhas) são as triplas X, Y e Z, olhadas como
matrizes 3 × 1. Assim,

x1 y1 z1 x1 x2 x3

det (X, Y, Z) = x2 y2 z2 = y1 y2 y3 .
x3 y3 z3 z1 z2 z3

Demonstração: A demonstração destas propriedades é feita via computação direta,


usando a definição 1.3.13. pppppppppppppppppppppp
Vetores e Funções Vetoriais 21

1.3.16
Corolário Se X, Y ∈ R3 , então
kX × Y k = kXk kY k sen ∠(X, Y ).
(Geometricamente, isto significa que a área do paralelogramo gerado por X e Y é kX × Y k.)
Demonstração: O item (v) da proposição 1.3.15,
rrrrrrrr
junto com a equação da proposição 1.2.8, implica que rrrrrrr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
*

r r r rr rr r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r r r r r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

r r

r r
rrrrrrrrrr r r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
q 
kX × Y k = kXk2 kY k2 − (X · Y )2 r

r r r rr rr r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

Y 
rrArrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

q 
 r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r
= kXk2 kY k2 (1 − cos2 ∠(X, Y )), rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrArrrrrrrrrrrrrrArrrrrrrrh
rr r r rrrrrrrrrrrrrrkY
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr= rr rr rr rr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrθrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrkrrrrrrrrrrrrrrrrrsen rrrrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrr
r r r r r r r r r r r r r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrArrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r r r r r r r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrr * X
r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr r r rrrrrrrr r
r
rrrrrrrrArrrrrrrrr r r r r r
rrrrrrrArrrr r r rr r r r
= kXk kY k sen ∠(X, Y ) rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prprrprrprrrprrprrrprrrprrθrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr rrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrpprrr
rrrrrrrrr
s
o que querı́amos. pppppppppppppppppppppp O

Figura 13: Paralelogramo gerado por X e Y

1.3.17
Corolário Os vetores X, Y ∈ R3 são linearmente dependentes se, e somente se, X×Y = O.
Demonstração: X e Y são linearmente dependentes se, e somente se, sen ∠(X, Y ) = 0.
Agora é só aplicar o corolário 1.3.17. pppppppppppppppppppppp

1.3.18
Corolário Se X, Y ∈ R3 , então det (X, Y, X × Y ) = kX × Y k2 . Em particular, se X e Y
são linearmente independentes, então {X, Y, X × Y } é uma base com a mesma
orientação da base canônica.
Demonstração: Usando o item (iv) da proposição 1.3.15, vem que
det (X, Y, X × Y ) = (X × Y ) · (X × Y ) = kX × Y k2 .
Agora, como X e Y são linearmente inde-
pendentes, temos que X × Y 6= O, o que X × Y CO
vem do corolário 1.3.17. Portanto, e
C
C3
2 6 C
det (X, Y, X × Y ) = kX × Y k > 0, C
C  1

e obtemos que (X, Y, X × Y ), que é a ma- C@ CC  Y
s - CsC
triz de passagem da base {X, Y, X × Y } e2 @C
para a base canônica, tem determinante @
@
positivo, isto é, tem a mesma orientação
e1 @
que a base canônica. Geometricamente, R
@
X
isto significa que {X, Y, X × Y } está posi-
cionada no espaço de modo análogo à base Figura 14: Produto Vetorial
{e1 , e2 , e3 }, como mostra a figura 14. pppppppppppppppppppp
22 Retas e Planos

1.3.19
Corolário Se X, Y ∈ R3 são ortonormais (unitários e ortogonais), então {X, Y, X × Y } é
uma base ortonormal do R3 .
Demonstração: Falta verificar que X × Y é também unitário. Isto segue-se facilmente
de (v) da proposição 1.3.15. Com efeito,

kX × Y k2 = kXk2 kY k2 − (X · Y )2 = 1 − 0 = 1. ppppppppppppppppppp

1.3.20 [Duplo Produto Vetorial]


Corolário Se X, Y, Z ∈ R3 , então vale a fórmula do duplo
produto vetorial:

(X × Y ) × Z = (X · Z) Y − (Y · Z) X.
Demonstração: Suponhamos, inicialmente, que X e Y sejam ortonormais. Logo,
{X, Y, X × Y } é uma base ortonormal do R3 , e isto implica que existem (e são únicos) números
reais c1 , c2 e c3 tais que Z = c1 X + c2 Y + c3 X × Y . Na realidade, c1 = X · Z, c2 = Y · Z e
c3 = (X × Y ) · Z. Como (X × Y ) × Z é perpendicular a X × Y , vem que ele deve ser combinação
linear de X e Y . Portanto,
(X × Y ) × Z = aX + bY,
onde a = ((X × Y ) × Z) · X e b = ((X × Y ) × Z) · Y . Mas

((X × Y ) × Z) · X = det (X × Y, Z, X)
= det (X × Y, c1 X + c2 Y + c3 X × Y, X)
= c2 det (X × Y, Y, X)
= −c2 det (X, Y, X × Y )
= −c2 kX × Y k2 = −c2 = −Y · Z.

Analogamente, vemos que ((X × Y ) × Z) · Y = c1 = X · Z. Logo, a = −Y · Z e b = X · Z, o


que prova a fórmula do duplo produto vetorial para o caso onde X e Y são ortonormais. Para
estendê-la para o caso onde X e Y são apenas ortogonais, tomamos os unitários uX e uY . Logo

(uX × uY ) × Z = (uX · Z) uY − (uY · Z) uX ,

ou, equivalentemente,
1 1 1
(X × Y ) × Z = (X · Z) Y − (Y · Z) X,
kXk kY k kXk kY k kXk kY k

que simplificada dá


(X × Y ) × Z = (X · Z) Y − (Y · Z) Y,
e a fórmula do duplo produto vetorial funciona também quando X e Y são ortogonais. Para o
caso geral, onde X e Y são linearmente independentes, recorremos à projeção de Y sobre X,
Vetores e Funções Vetoriais 23

PX Y . Da proposição 1.2.16 vem que PX Y = λX, onde λ = (X · Y )/ kXk2 , e que Y − PX Y é


perpendicular a X. Logo,

(X × (Y − PX Y )) × Z = (X · Z) (Y − PX Y ) − ((Y − PX Y ) · Z) X. (¶5 )

Mas
X × (Y − PX Y ) = X × Y − X × PX Y = X × Y,

visto que PX Y é paralelo a X, e

(X · Z)(Y − PX Y ) − ((Y − PX Y ) · Z)X = (X · Z)Y − (X · Z)PX Y − (Y · Z)X + (PX Y · Z)X

= (X · Z)Y − (Y · Z)X − λ((X · Z)X − (X · Z)X)

= (X · Z)Y − (Y · Z)X.

Assim, (¶5 ) fica:


(X × Y ) × Z = (X · Z) Y − (Y · Z) X.

A fórmula do duplo produto vetorial agora vale sempre que X e Y são linearmente independentes.
O caso onde X e Y são linearmente dependente (Y = kX) é trivial: a fórmula tem ambos os
membros nulos, como pode ser facilmente verificado pelo leitor. ppppppppppppppppppppp

1.3.21
Corolário Sejam T e N dois vetores ortonormais do R3 . Se B = T ×N , então B × T = N
e N × B = T.
Demonstração: A fórmula do duplo produto vetorial dá que

B × T = (T × N ) × T = (T · T )N − (N · T )T = N,

visto que kT k = 1 e T · N = 0. Agora convidamos o leitor a provar que N × B = T . pppppppppppppppppppp

1.3.22
Exemplo Sejam e1 = (1, 0, 0), e2 = (0, 1, 0), e3 = (0, 0, 1). Um cálculo direto mostra que
e1 × e2 = e3 . Logo, e2 × e3 = e1 e e3 × e1 = e2 . Em particular,

(e1 × e2 ) × e2 = e3 × e2 = −e1
e1 × (e2 × e2 ) = e1 × O = O,

o que implica que (e1 × e2 ) × e2 6= e1 × (e2 × e2 ) e mostra que o produto vetorial, em geral, não
é associativo. O próximo corolário mostra quando o produto vetorial é associativo.
24 Retas e Planos

1.3.23
Corolário Dados vetores X, Y e Z em R3 , então X × (Y × Z) = (X × Y ) × Z se, e
somente se, (X · Y ) Z = (Y · Z) X.
Demonstração: Usando o corolário 1.3.20 temos que
X × (Y × Z) = −(Y × Z) × X = −((X · Y ) Z − (X · Z) Y ) = (X · Z) Y − (X · Y ) Z,
que comparado com
(X × Y ) × Z = (X · Z) Y − (Y · Z) X,
mostra que X × (Y × Z) = (X × Y ) × Z se, e somente se, (X · Y ) Z = (Y · Z) X. ppppppppppppppppppppp

1.3.24
Distância de um Ponto a uma Reta
Seja l = P + [V ] uma reta no Rn . Dado
Q ∈ Rn um ponto qualquer, seja Y = Q − P ,
como mostra a figura 15. A projeção de Y sobre Q
s l = P + [V ]
V é dada por AK

AY − PV Y 
A
 *
Y ·V Y =Q−P  V
PV Y = λV, onde λ = . A  0

kV k2 s Q
 A
 *P Y

V
 
Como a figura 15 mostra é bastante razoável se s 
esperar que a distância de Q a l, que indicaremos  P

por d(Q, l), definida como sendo o mı́nimo das Figura 15
distâncias de Q a pontos de l, isto é,

d(Q, l) = min{d(Q, X), X ∈ l},

seja atingida no ponto Q0 ∈ l, a projeção ortogonal de Q sobre l, dado por


(Q − P ) · V
Q0 = P + PV Y = P + λV = P + V.
kV k2
Portanto,

(d(Q, l))2 = kY − PV Y k2
2
(Q − P ) · V
= (Q − P ) − V
kV k2
(Q − P ) · V ((Q − P ) · V )2
= kQ − P k2 − 2(Q − P ) · ( 2 V ) + 4 kV k2
kV k kV k
2 2 2
kQ − P k kV k − ((Q − P ) · V )
= ,
kV k2
o que produz o seguinte resultado.
Vetores e Funções Vetoriais 25

1.3.25
Proposição Seja l = P + [V ] a reta do Rn que passa por P e é paralela a V . Dado Q ∈ Rn
a distância de Q a l é dada por
q
kQ − P k2 kV k2 − ((Q − P ) · V )2
d(Q, l) = .
kV k
Além disto, o ponto Q0 ∈ l onde esta distância é atingida é dado por
(Q − P ) · V
Q0 = P + V.
kV k2

A partir desta proposição obtemos as fórmulas usuais da distância de um ponto a uma


reta, em R3 e R2 , como mostram os corolários 1.3.27 e 1.3.28.

1.3.26
Exemplo Sejam P = (1, 0, −2, 3), Q = (1, 1, , 0, 2) e V = (1, 1, −1, 1), e consideremos a
reta l = P + [V ]. Temos que kQ − P k2 = 6, (Q − P ) · V = −2 e kV k = 2. Logo,
usando a proposição 1.3.25, a distância de Q a l é
q
kQ − P k2 kV k2 − ((Q − P ) · V )2 √
d(Q, l) = = 5.
kV k
O ponto Q0 ∈ l onde d(Q, l) é atingida é dado por
(Q − P ) · V 1 1
Q0 = P + 2 V = (1, 0, −2, 3) − (1, 1, −1, 1) = (1, −1, −3, 5).
kV k 2 2

Sugerimos ao leitor o cálculo de d(Q, Q0 ) que, claro, deve produzir 5.

1.3.27
Corolário Seja l = P + [V ] a reta do R3 que passa por P e é paralela a V . Dado Q ∈ R3
a distância de Q a l é dada por
k(Q − P ) × V k
d(Q, l) = .
kV k

Demonstração: Resulta de (v), proposição 1.3.15, junto com a proposição 1.3.25. pppppppppppppppppppp

1.3.28
Corolário Seja l = P + [V ] a reta do R2 que passa por P = (x1 , x2 ) e é paralela a
V = (v1 , v2 ). Dado Q = (x0 , y0 ) a distância de Q a l é dada por
|ax0 + by0 − c|
d(Q, l) = √ ,
a2 + b 2
26 Retas e Planos

onde N = (a, b) = (−v2 , v1 ) é normal a l e c = ax1 + bx2 . (Neste caso, a equação cartesiana de
l é: ax + by = c.)
Demonstração: Visando utilizar o corolário 1.3.27, mergulharemos R2 em R3 , isto é,
olharemos uma dupla X = (x1 , x2 ), como sendo a tripla X = (x1 , x2 , 0). Assim,

k(x0 − x1 , y0 − y1 , 0) × (v1 , v2 , 0)k


d(Q, l) = ,
k(v1 , v2 , 0)k
que expressa em termos de a = −v2 , b = v1 e c = ax1 + bx2 fica:
k(0, 0, −ax0 − by0 + c)k |ax0 + by0 − c| pppppppppppp
d(Q, l) = = √ . ppppppppp p
k(b, −a, 0)k a2 + b 2

1.3.29
Distância de um Ponto a um Hiperplano
Seja π o plano do R3 que é perpendicular a N e passa por P , conforme mostra a figura 16.
Dado Q ∈ R3 , a distância de Q a π, d(Q, π), é definida como sendo o mı́nimo das distâncias de
Q a pontos de π, isto é,
d(Q, π) = min{d(Q, X); X ∈ π}.
Seja l a reta que passa por Q e é paralela a N . Temos que l intercepta (ortogonalmente) π no
ponto
(Q − P ) · N
Q0 = Q − PN (Q − P ) = Q − N,
kN k2
onde PN (Q − P ) é a projeção de Q − P sobre N .

Fixemos X ∈ π um ponto arbitrário. Como Q − Q0 é perpendicular a π, ele é perpendicular a


X − Q0 . Usando o teorema de Pitágoras (veja proposição 1.2.17), vem que

kX − Qk2 = kX − Q − Q0 + Q0 k2 Q
r r r r

r rr rr rrrrrrrrrCrrrrrrrrrr
r
rr rrr r rCr rr r
= kX − Q0 k2 + kQ − Q0 k2
r rrrrrrrrrrrrrr r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrCrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrr
r r r rr r r
r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrCrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r r r
N r r r r r r r r r r
rrrr− rr rrrrrrrrP

≥ kQ − Q0 k2 Q r r r r rr
r r r r r r r r r r r r r
rrr rrr rrr rr r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrd(Q,
6 
r r r r rr rrrrrrrrrrrrrrrrrrrπ) rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrCrrrrd(Q, rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX) rrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrCrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r r r 
r r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
e, portanto, obtemos rrrrrrrrrrrrrrr

rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrCrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrPrrrrrrsrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrCrrrsX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

rr rrrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrπ rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
@rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX r r
@
kQ − Q0 k ≤ kX − Qk , ∀X ∈ π. r r r r r r r r r r r r
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX r r r r r
rrrrrrrrrrrrrX r
rrrrrrrrrrrrrrrX rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr0rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
r r r
r
r r r r r r r r r r r r r r r r r r r r r r r r r
@ rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrX r r r r r rr r r r r r r r r r
r r rrrrrr rrr rrrrrrrrrrr rrrrrrrrrrrr rrrrrrr
r r r
rrr rsrr Q
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
0 rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
@rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Segue-se, então, que d(Q, π) é atingida em Q e @
@rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
@rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

(Q − P ) · N |(Q − P ) · N |
d(Q, π) = kQ − Q0 k =

N @rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
= .
kN k2 kN k rrrrr

Isto prova a seguinte proposição. Figura 16


Vetores e Funções Vetoriais 27

1.3.30
Proposição Seja H o hiperplano do Rn que é perpendicular a N e passa por P . Dado
Q ∈ Rn , a distância de Q a H é dada por

|(Q − P ) · N |
d(Q, H) = .
kN k

Mais ainda, d(Q, H) é atingida no ponto de H

(Q − P ) · N
Q0 = Q − N.
kN k2

Em particular, para n = 3, Q = (x0 , y0 , z0 ), N = (a, b, c) e d = N · P , a distância de Q ao plano


H fica:
|ax0 + by0 + cz0 − d|
d(Q, H) = √ .
a2 + b2 + c2
1.3.31
Exemplo A distância de Q = (3, −2, 1) ao plano π de equação cartesiana 2x − 2y − z = −9
vale
|(3, −2, 1) · (2, −2, −1) + 9|
d(Q, π) = = 6.
3
Agora se X = (x, y, z) é um ponto qualquer de π, então

X = (x, y, 2x − 2y + 9) = (0, 0, 9) + x(1, 0, 2) + y(0, 1, −2) = P + xV + yW,

onde P = (0, 0, 9), V = (1, 0, 2) e W = (0, 1, −2). Logo, π = P + [{V, W }], e obtemos uma
representação paramétrica para π.

1.3.32
Exemplo Sejam l1 = P + [V ] e l2 = Q + [W ] duas retas em Rn . Se V e W são linearmente
independentes, há duas possibilidades para a interseção l1 ∩ l2 , a saber:

(i) l1 ∩ l2 é um ponto, digamos l1 ∩ l2 = {R};


(ii) l1 ∩ l2 é vazio.
No primeiro caso, o plano π = R + [{V, W }] contém l1 e l2 , e dizemos que l1 e l2 são retas
coplanares. Já em (ii), não existe um plano que contenha ambas as retas, e diremos que l1 e l2
são retas reversas. O leitor deve observar que as retas do exemplo 1.3.6 são retas reversas em
R3 . Suponhamos, agora, que os vetores V e W sejam linearmente dependentes. Obtemos, outra
vez, duas alternativas:

(iii) l1 e l2 são coincidentes, isto é, l1 = l2 ;


(iv) l1 e l2 são paralelas e l1 ∩ l2 = ∅.

Em (iv), l1 e l2 são coplanares, visto que o plano π = P + [{V, W }] = Q + [{V, W }], onde
W = Q − P , as contém.
28 Funções Vetoriais

1.4
Funções Vetoriais

Nesta seção, estudaremos as noções básicas relacionadas com aplicações entre espaços
euclidianos de dimensões quaisquer.

1.4.1
Definição Uma função vetorial é uma função com domı́nio D ⊂ Rn e contradomı́nio Rm ,
isto é, uma função do tipo

f : D ⊂ Rn −− − Rm
−→

X −−−−−→ f (X) = (f1 (X), f2 (X), . . . , fm (X)),

onde X = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ D. Quando m = 1, diremos que f é uma função real. Já quando
n = 1, f é dita uma função vetorial de uma variável real. A imagem de f , denotada por Im(f ),
ou por f (D), é o conjunto

Im(f ) = f (D) = {Y ∈ Rm ; Y = f (X), X ∈ D}.

Dizemos, também, que f parametriza o conjunto Im(f ), ou que Im(f ) é o conjunto parametri-
zado por f .

1.4.2
Definição Dada uma função vetorial
f : D ⊂ Rn −− − Rm
−→

X −−−−−→ f (X) = (f1 (X), f2 (X), . . . , fm (X)),

as m funções reais
f1 : D ⊂ Rn −− −→

− R
X −−−−−→f1 (X)
f2 : D ⊂ Rn −− −→

− R
X −−−−−→f2 (X)
..
.
fm : D ⊂ Rn −−
−→
−− R
X −−−−−→fm (X)
são as funções coordenadas de f .

1.4.3
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por f (x, y) = x2 + y2 . Temos que f é uma função real
(de duas variáveis) cuja imagem coincide com o intervalo [0, ∞).
Vetores e Funções Vetoriais 29

1.4.4
Exemplo Seja f (t) = (x0 + a cos t, y0 + b sen t), t ∈ [0, 2π], onde a > 0, b > 0, x0 e y0 são
números reais fixados. A imagem de f ,

Im(f ) = {(x, y) ∈ R2 ; x = x0 + a cos t, y = y0 + b sen t, t ∈ R}, (¶6 )

coincide com a elipse de semi-eixos a e b, centrada em C = (x0 , y0 ), que denotaremos por


E(C, a, b). De fato, se x e y são como em (¶6 ), então

(x − x0 )2 (y − y0 )2
+ = cos2 t + sen2 t = 1.
a2 b2

y
6
Pr1
P2 f (t)
f2 (t) r r r
b *

y0 q r
 t 

C a E(C, a, b)

f
r -
0 t 2π s q r -
O x0 f1 (t) x

(x − x0 )2 (y − y0 )2
Figura 17: Elipse 2 + =1
a b2

Assim f parametriza E(C, a, b). A figura 17 mostra, em particular, a construção geométrica


da função f : pelo ponto C = (x0 , y0 ) traçamos a semi-reta que faz o ângulo t com o eixo-x.
Esta semi-reta intercepta os cı́rculos, centrados em C e de raios a e b, nos pontos P1 e P2 ,
respectivamente. Agora, por P1 traçamos uma
reta paralela ao eixo-y, e por P2 traçamos uma
reta paralela ao eixo-x. A interseção destas retas y
ppppppppppppp ppppppppppppppppppppppppppppppppppp
pp pppppp
é exatamente o ponto da elipse 6
fp (t)
ppp ppppprp
f2 (t) r pp ppp ppp
(x − x0 ) 2
(y − y0 ) 2 ppp p p  pppppp
+ =1 pp pp
pp pp
pppp ppp t pp
2
a b2 p ppp
y0 q pp r p
pp a p
p pp S 1 (C, a)
que indicamos por f (t). Em particular, se b = a, ppp C
pp
ppp p
pppp ppp
obtemos que f parametriza o cı́rculo de centro ppppp p p p pp p
ppppppp pp
C = (x0 , y0 ) e raio a, denotado por S 1 (C, a). Ob- ppppppppppp ppppp pp
pppppppppppppppppppppppppppppp pppppppp
serve que, neste caso, as funções coordenadas de s q r -
f ficam assim: O x0 f1 (t) x

f1 (t) = x(t) = x0 + a cos t Figura 18: (x − x0 )2 + (y − y0 )2 = a2


f2 (t) = y(t) = y0 + a sen t,

onde t ∈ [0, 2π].


30 Funções Vetoriais

1.4.5
Exemplo A função vetorial
g : R2 −− − R3
−→

(u, v) −−−−−→ g(u, v) = (1 + u, 2 + v, u + v)
tem funções coordenadas
g1 (u, v) = x(u, v) = 1 + u
g2 (u, v) = y(u, v) = 2 + v
g3 (u, v) = z(u, v) = u + v,
(u, v) ∈ R2 , e sua imagem coincide com o plano que passa por (1, 2, 0) e é paralelo aos vetores
(1, 0, 1) e (0, 1, 1).

1.4.6
Conjuntos Associados a Funções Vetoriais

Estudaremos, agora, alguns subconjuntos do espaço euclidiano que desempenham papel


de grande relevância na descrição das funções vetoriais.

1.4.7 [Gráficos]
Definição Seja f : D ⊂ Rn −→ Rm , f (X) = (f1 (X), f2 (X), . . . , fm (X)), uma função
vetorial. O gráfico de f , indicado por G(f ), é definido por
G(f ) = {(X, Y ) ∈ Rn+m ; Y = f (X), X ∈ D}
= {(x1 , x2 , . . . , xn , f1 (X), f2 (X), . . . , fm (X)); X = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ D}.
Diremos, também, que G(f ) é o conjunto definido explicitamente por f .

Observação Na definição acima, introduzimos uma nova notação, que será útil em outras
situações: dados X = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn e Y = (y1 , y2 , . . . , yn ) ∈ Rm , escre-
vemos (X, Y ) para representar a (n + m)-upla (x1 , x2 , . . . , xn , y1 , y2 , . . . , ym ).
y
6
1.4.8
Exemplo Seja f : [−1, 1] −→ R definida por
f (x) = x2 . Temos que f é uma
função real de uma variável real cuja imagem coin-
cide com o intervalo [0, 1], e cujo gráfico é o sub-
conjunto do R2 dado por
s -
G(f ) = {(x, y); y = x2 , x ∈ [−1, 1]}, −1 O 1 x

que coincide com o arco da parábola y = x2 que


se projeta sobre o intervalo [−1, 1]. Figura 19: Parábola y = x2
Vetores e Funções Vetoriais 31

1.4.9 [Parabolóide de Revolução]


Exemplo Seja f : R2 −→ R, f (x, y) = x2 + y 2 , a qual
já usamos no exemplo 1.4.3. O seu gráfico,
que chamamos parabolóide de revolução (ou rotação), é dado por
G(f ) = {(x, y, z); z = x2 + y 2 }.
Para fazer um esboço deste conjunto usamos o método dos cortes por planos da forma z = c, isto
é, planos paralelos ao plano-xy. Neste caso, quando cortamos G(f ) pelo plano z = 4, obtemos,
neste plano, o cı́rculo de raio 2 e centro (0, 0, 4):
z
{(x, y, z); x2 + y 2 = 4, z = 4}. 6

Mais geralmente, se cortamos G(f ) com √ planos


z = a > 0, obtemos aı́ o cı́rculo de raio a e centro
(0, 0, a). Note que, quando a < 0, a interseção é
vazia, e coincide com a origem, quando a = 0. Isto
sugere que G(f ) é um subconjunto de R3 obtido
pela rotação em torno do eixo-z de alguma curva -
y
plana, por exemplo, do plano-xz. Esta curva é
facilmente obtida, interceptando-se G(f ) com o
plano y = 0, isto é, com o plano-xz, o que produz x

a parábola z = x2 . Como resultado, obtemos a Figura 20: Parabolóide z = x2 + y2


figura 20.

1.4.10 [Sela]
Exemplo A sela ou parabolóide hiperbólico é o gráfico da função f (x, y) = y 2 − x2 ,
(x, y) ∈ R2 . Por não ser um subconjunto obtido por rotações, o seu esboço é
um pouco mais trabalhoso. Começando com cortes por planos z = a ≥ 0, obtemos as hipérboles
{(x, y, z); y 2 − x2 = a, z = a},
que se degeneram no par de retas y = ±x, quando a = 0, como mostra a figura 21-(a).

z z z
6 6 6

- - -
y y y

x
x
x

Figura 21-(a) Figura 21-(b) Figura 21-(c): A sela z = y2 − x2


32 Funções Vetoriais

Procedimento análogo, agora usando planos a ≤ 0, dá a figura 21-(b). Os cortes de G(f ) por
planos y = c produz parábolas z = c2 − y 2 , que o leitor deverá esboçar. Finalmente, obtemos a
sela, como na figura 21-(c).

1.4.11 [Hélice Circular]


Exemplo Consideremos, ago-
ra, a função de uma
z
variável 6

f : R −− − R2
−→

t −−−−−→ f (t) = (a cos t, a sen t),

onde a > 0 é uma constante. O seu gráfico, -


y
G(f ) = {(t, f (t)) = (t, a cos t, a sen t); t ∈ R},
x

é a hélice circular de raio a, cujo eixo coincide com eixo-x,
como mostra a figura 22. Observe que a projeção de
G(f ) no plano-yz é o cı́rculo de raio a. Suas projeções
Figura 22: Hélice Circular
no plano-xy e plano-xz são os gráficos das funções reais
de uma variável real y = a cos x e z = a sen x, respecti-
vamente.

Observação O fato de coincidir com um gráfico impõe restrições à forma de um subconjunto.


Pensando com uma função f : D ⊂ R2 −→ R, vem que

G(f ) = {(x, y, z); z = f (x, y), (x, y) ∈ D}.

Isto significa que para cada (x, y) ∈ D, existe um único ponto em G(f ), a saber (x, y, f (x, y)).
Geometricamente, isto diz que a reta que passa por (x, y, 0) e é perpendicular ao plano-xy
intercepta G(f ) em um único ponto. Por exemplo, a esfera

S 2 (a) = {(x, y, z); x2 + y 2 + z 2 = a2 } ⊂ R3 z


6
não pode ser gráfico de nenhuma função do tipo que es- s
tamos considerando. De fato, há retas perpendiculares
ao plano-xy que interceptam esta esfera em dois pontos. r
Entretanto, parte dela, digamos seu hemisfério superior, s -
é o conjunto definido explicitamente por s y

f : D[a] ⊂ R2 −−−→
−− R
r
x
p
(x, y) −−−−−→ f (x, y) = a2 − x2 − y 2 ,

onde D[a] = {(x, y); x2 + y 2 ≤ a2 } é o disco fechado de Figura 23


raio a. Já o hemisfério inferior é o gráfico de g = −f ,
isto é, g(x, y) = −f (x, y), (x, y) ∈ D[a].
Vetores e Funções Vetoriais 33
v

Observação É muito comum na prática nos referirmos a uma equação Y = f (x1 , x2 , . . . , xn ),


onde o lado direito indica uma m-upla envolvendo os sı́mbolos x1 , x2 , . . ., xn ,
como uma função. O que estamos pensando, na realidade, é na função f : D −→ Rm , onde D é g
o maior subconjunto de Rn , onde tal expressão faz sentido. u

1.4.12
Exemplo A expressão
p
z= 4 − x2 − y 2 log (x2 + y 2 − 1)

define uma função f no anel de R2 dado por

D = {(x, y); 1 < x2 + y 2 ≤ 4}.

De fato, se x2 +y 2 ≤ 1, então não existe


p log (x2 + y 2 − 1),
e se x2 + y 2 > 4 não tem sentido 4 − x2 − y 2 .

1.4.13 [Conjuntos de Nı́vel]


Definição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm uma função vetorial e K
um vetor em Rm fixado. O conjunto de nı́vel K de f
é o subconjunto de D definido por

f −1 (K) = {X ∈ D; f (X) = K}.

Isto é, se f1 , f2 , . . ., fm são as funções coordenadas de f , e K = (k1 , k2 , . . . , km ), então f −1 (K)


é o conjuntos das soluções em D do sistema de m-equações e n-incógnitas:


 f1 (x1 , x2 , . . . , xn ) = k1

 f2 (x1 , x2 , . . . , xn ) = k2

.. .. ..


 . . .

f (x , x , . . . , x ) = k .
m 1 2 n m

Os conjuntos de nı́vel f −1 (K) são, também, denominados conjuntos definidos implicitamente


por f .

Observação f −1 (K) 6= ∅ se, e somente se, K ∈ Im(f ).

1.4.14
Exemplo Os conjuntos de nı́vel f −1 (a), a ∈ R, de z = f (x, y) = x2 + y2 , (x, y) ∈ R2 , são
os seguintes:

(i) f −1 (a) = ∅, se a < 0, pois Im(f ) = [0, +∞);


(ii) f −1 (0) = {(0, 0)};
34 Funções Vetoriais


(iii) f −1 (a) = S 1 ( a) = {(x, y); x2 + y 2 = a}, se a > 0.

Na figura 25, temos o gráfico de f e alguns conjuntos de nı́vel, que podem ser obtidos via
projeção no plano-xy das interseções de G(f ) com planos z = a ≥ 0.
z
6

-
y

x
Figura 25: Parabolóide de Revolução
1.4.15
Exemplo Estudemos agora os conjuntos definidos
y
implicitamente por 6

z = f (x, y) = y 2 − x2 , (x, y) ∈ R2 . k<0

Os conjuntos de nı́vel f −1 (k), k>0 k>0


√ k> 0, são as hipérboles r
k=0
r
√ √
-
equiláteras de semi-eixos k: y − x2 = k. Quando
2
k k
x
k < 0, temos√ as hipérboles, também equiláteras e com
semi-eixos −k, x − y = −k. Já f −1 (0) coincide com
2 2 k<0
o par de retas y = ±x. Estes conjuntos definidos impli-
citamente aparecem quando cortamos a sela por planos
paralelos ao plano-xy, como mostra a figura 21. Figura 26

1.4.16
Exemplo Seja f (x, y, z) = x2 + y2 + z 2 , (x, y, z) ∈ R3 . Os conjuntos de nı́vel desta função
√ são ou o conjunto vazio, ou {(0, 0, 0)}, ou as esferas do R3 centradas na origem e
de raio a: √
S 2 ( a) = {(x, y, z); x2 + y 2 + z 2 = a} = f −1 (a), a > 0. (¶7 )

1.4.17
Exemplo Seja
f : R3 −− − R2
−→

(x, y, z) −−−−−→ f (x, y, z) = (x2 + y 2 + z 2 , x + y + z).

Dada K = (a, b) o conjunto de nı́vel f −1 (K) é o conjunto de soluções do sistema


(
x2 + y 2 + z 2 = a
x + y + z = b.
Vetores e Funções Vetoriais 35


que, claro, não tem soluções, se a < 0. Se a ≥ 0, f −1 (a, b) é a interseção de S 2 ( a) (veja (¶ √7 ))
com o plano πb de equação x+y+z = b. Logo, √ f −1 (a, b) pode ser vazio, se πb está longe de S 2 ( a);
coincidir com um ponto, se πb tangencia S 2 ( a); ou, fi-
nalmente, ser um cı́rculo contido em πb . Por exemplo,
z
os pontos P1 = (1, 0, 0) e P2 = (0, 1, 0) pertencem a 6
f −1 (1, 1). Logo, este conjunto de nı́vel deve coincidir P
s 3
com um cı́rculo no plano x + y + z = 1. Observando
que P3 = (0, 0, 1) também pertence ao cı́rculo f −1 (1, 1),
vemos que o seu centro deve coincidir com o baricentro
do triângulo (equilátero) de vértices P1 , P2 e P3 , que é o s -
s P y
ponto 2

P1
P1 + P 2 + P3
C= = (1/3, 1/3, 1/3).
3 x

Para obter
√ o raio, é só calcular a distância de C a P1 , que
é r = 6/3. Figura 27

Vejamos mais três belos conjuntos definidos implicitamente.

1.4.18
Exemplo Seja f : R3 −→ R definida por f (x, y, z) = x2 + y2 − z 2 . Observe que a imagem
de f coincide com todo R, isto é, f é sobrejetiva. De fato, f (0, 0, z) = −z 2 , o que
mostra que f transforma o eixo-z em (−∞, 0]. Agora é só calcular, por exemplo, f (x, 0, 0) = x2 ,
x ∈ R, para cobrir [0, +∞). Neste exemplo, esbo-
z
çaremos três conjuntos de nı́vel de f , a saber: 6
f −1 (0), f −1 (1) e f −1 (−1). Os demais possuem
a mesma forma que f −1 (1) ou f −1 (−1), como o
leitor pode facilmente verificar. Temos que z=x
f −1 (0) = {(x, y, z); z 2 = x2 + y 2 }, -
y
z = −x
que produz o cone de duas folhas, como mostra a
figura 28-(a) ao lado. A técnica para obtenção x
desta figura é aquela que temos usado: corta-
mos o conjunto com planos z = a, o que produz,
Figura 28-(a): Cone de Duas Folhas
neste plano, o cı́rculo de raio |a| centrado no ponto x2 + y2 − z2 = 0
(0, 0, a). Quando a = 0, obtemos apenas um ponto,
ponto, a origem. Isto mostra que f −1 (0) é de revolução. A curva perfil, a geratriz do conjunto,
é obtida fazendo, por exemplo, a interseção com o plano y = 0, o que dá origem ao par de retas
z = ±x. Donde podemos concluir que, de fato, f −1 (0) é o cone de duas folhas. Para o esboço
dos outros dois nı́veis, a mesma técnica mostra que eles também são de revolução: o conjunto
f −1 (1), mostrado na figura 28-(b), tem como geratriz a hipérbole
H1 = {(x, 0, z); x2 − z 2 = 1}.
A hipérbole
H2 = {(x, 0, z); z 2 − x2 = 1}
36 Funções Vetoriais Especiais

é a geratriz de f −1 (−1), que, por isso, tem duas folhas, como mostramos na figura 28-(c).
z z
6 6

x2 − z 2 = 1

z 2 − x2 = 1 - -
y y

x x

Figura 28-(b): Hiperbolóide de Uma Folha Figura 28-(c): Hiperbolóide de Duas Folhas
x2 + y2 − z2 = 1 x2 + y2 − z2 = −1

1.5
Funções Vetoriais Especiais

Reservamos esta seção para destacar algumas funções vetoriais que são de grande inte-
resse prático, para o Cálculo e para a Geometria. Inicialmente, faremos uma breve exposição
das funções lineares, que, certamente, constituem a pedra fundamental das funções do Cálculo
Diferencial.

1.5.1 [Funções Lineares]


Definição Uma função (ou aplicação, ou transformação) linear é uma
função vetorial do tipo

T : Rn −− − Rm
−→

X −−−−−→ T (X) = (T1 (X), T2 (X), . . . , Tn (X)),

satisfazendo as seguintes propriedades:

(i) T (X + Y ) = T (X) + T (Y ), ∀X, Y ∈ Rn ;

(ii) T (aX) = aT (X), ∀a ∈ R e ∀X ∈ Rn .

1.5.2
Exemplo Consideremos a seguinte função T : R2 −→ R2 dada por T (x, y) = (x + y, y − x).
Vetores e Funções Vetoriais 37

Sejam X = (x1 , x2 ) e Y = (y1 , y2 ). Temos que


T (X + Y ) = T (x1 + y1 , x2 + y2 )
= ((x1 + y1 ) + (x2 + y2 ), (x2 + y2 ) − (x1 + y1 ))
= ((x1 + x2 ) + (y1 + y2 ), (x2 − x1 ) + (y2 − y1 ))
= (x1 + x2 , x2 − x1 ) + (y1 + y2 , y2 − y1 )
= T (X) + T (Y ).
Agora, se a ∈ R, vem que
T (aX) = T (ax1 , ax2 )
= (ax1 + ax2 , ax2 − ax1 )
= a(x1 + x2 , x2 − x1 )
= aT (X).
Logo, T é linear. Um modo eficiente de ver que T é linear, é introduzindo aseguinte
 identificação:
x1
uma dupla X = (x1 , x2 ) passará a ser olhada como a matriz-coluna X = . Isto posto, vem
x2
que     
x1 + x2 1 1 x1
T (X) = T (x1 , x2 ) = = ,
x2 − x1 −1 1 x2
ou T (X) = M (T )X, onde  
1 1
M (T ) = .
−1 1
Agora, usando propriedades da multiplicação de matrizes, segue-se facilmente a linearidade de T .
De fato,

T (X + Y ) = M (T )(X + Y ) = M (T )X + M (T )Y = T (X) + T (Y )
e
T (aX) = M (T )(aX) = aM (T )X = aT (X).

A identificação feita no exemplo anterior pode ser usada com uma k-upla qualquer, o que
facilitará a compreensão das funções lineares definidas em Rn . Dado X = (x1 , x2 , . . . , xk ) ∈ Rk ,
identificaremos, sempre que for preciso, X com a matriz-coluna (vetor-coluna)
 
x1
 x2 
 
X=  .. .

.
xk
Assim sendo, sejam T : Rn −→ Rm uma aplicação linear, e X ∈ Rn . Temos que
       
x1 1 0 0
 x2  0 1 0
       
X = (x1 , x2 , . . . , xn ) = 
 .. 
 = x 1  .. 
  + x 2  .. 
  + · · · + x n
 . .
.
. . . .
xn 0 0 1
38 Funções Vetoriais Especiais

Logo,
     
1 0 0
0 1 0
     
T (X) = x1 T (e1 ) + x2 T (e2 ) + · · · + xn T (en ) = x1 T  .
.
 + x2 T  .  + · · · + xn T  .  .
. . (¶8 )
. . .
0 0 1

Como Im(T ) ⊂ Rm , vem que


     
a11 a12 a1n
 a21   a22   a2n 
     
T (e1 ) =  . , T (e2 ) =  . , . . . , T (en ) =  . 
    
,
 ..   ..   .. 
am1 am2 amn

para alguns números reais aij , 1 ≤ i ≤ m e 1 ≤ j ≤ n, o que posto em (¶8 ) dá que

     
a11 a12 a1n
 a21   a22   a2n 
     
 ..  + x2  ..  + · · · + xn  .. 
T (X) = x1      
 .   .   . 
am1 am2 amn
     
x1 a11 x2 a12 xn a1n
 x1 a21   x2 a22   xn a2n 
     
 ..  +  ..  + · · · +  .. 
=     
 .   .   . 
x1 am1 x2 am2 xn amn
 
a11 x1 + a12 x2 + · · · + a1n xn
 a21 x1 + a22 x2 + · · · + a2n xn 
 
=
 .. 
.

 
am1 x1 + am2 x2 + · · · + amn xn
  
a11 a12 . . . a1n x1
 a21 a22 . . . a2n   x2 
  
=
 .. .. ..   .. .
 
 . . .  . 
am1 am2 . . . amn xn

Isto prova o seguinte teorema.

1.5.3
Teorema Sejam T : Rn −→ Rm uma aplicação linear, e M (T ) a matriz de ordem m × n
cujas colunas são os vetores T (e1 ), T (e2 ), . . ., T (en ), nesta ordem. Temos que
Vetores e Funções Vetoriais 39

(i) T (X) = M (T )X;


(ii) Im(T ) é gerado pelas colunas de M (T );
(iii) posto T = posto M (T ),

onde posto T indica a dimensão de Im(T ), e posto M (T ) indica o posto da matriz M (T ), isto
é, o número máximo de colunas linearmente independentes que ela possui.

1.5.4
Definição A matriz M (T ) = (aij ) é conhecida como a matriz de T com relação às bases
canônicas do Rn e Rm . Por simplicidade, chamaremos M (T ) de matriz de T .

Um conjunto de nı́vel especial de uma função linear T : Rn −→ Rm é o seu núcleo,

N (T ) = T −1 (0, 0, . . . , 0) = {X ∈ Rn ; T (X) = (0, 0, . . . , 0)}.

Os outros conjuntos definidos implicitamente por T , quando não-vazios, são determinados a


partir dele, como mostra seguinte proposição.

1.5.5
Proposição Seja T : Rn −→ Rm uma aplicação linear. Se K = T (P ), P ∈ Rn , então
T −1 (K) = P + N (T ) = {X ∈ Rn ; X = P + V, V ∈ N (T )}.

Demonstração: Seja X ∈ T −1 (K). Logo, T (X) = K = T (P ). Como T é linear,


vem que T (X − P ) = O, isto é, V = X − P ∈ N (T ). Assim, X = P + V , o que prova
que T −1 (K) ⊂ P + N (T ). Por outro lado, se X = P + V , para algum V ∈ N (T ), então
T (X) = T (P ) + T (V ) = T (P ) = K. Donde, P + N (T ) ⊂ T −1 (K)). ppppppppppppppppppppp

1.5.6
Exemplo Seja
T : R3 −− − R3
−→

(x, y, z) −−−−−→ T (x, y, z) = (x + y, x + 2y + z, −x + 3y + 4z).

Temos que T (e1 ) = (1, 1, −1), T (e2 ) = (1, 2, 3) e T (e3 ) = (0, 1, 4). Logo, a matriz de T é
 
110
M (T ) =  1 2 1  ,
 

−1 3 4

e, usando o teorema 1.5.3, obtemos


    
x 110 x
T  y  =  1 2 1   y .
    

z −1 3 4 z
40 Funções Vetoriais Especiais

Sugerimos ao leitor que verifique diretamente esta identidade. Como det M (T ) = 0, segue-se
que posto M (T ) ≤ 2. Como, por exemplo, as duas primeiras colunas de M (T ) são linearmente
independentes, devemos ter posto T = 2. (Convém observar, que esta informação pode ser
obtida, também, usando operações elementares sobre as linhas (colunas) de M (T ), o que é mais
conveniente para matrizes de ordem alta.) Logo, Im(T ) tem dimensão dois e é gerado pelos
vetores T (e1 ) = (1, 1 − 1) e T (e2 ) = (1, 2, 3). Portanto, Im(T ) é um plano, o plano que passa
por (0, 0, 0) e é paralelo aos vetores T (e1 ) = (1, 1 − 1) e T (e2 ) = (1, 2, 3). Logo,
Im(T ) = {X = (u, v, w); X = s(1, 1, −1) + t(1, 2, 3), s, t ∈ R}
(¶9 )
= {X = (u, v, w); 5u − 4v + w = 0},
e o vetor N = T (e1 ) × T (e2 ) = (5, −4, 1) é perpendicular ao plano Im(T ). Para obtermos o
núcleo de T , começamos notando que este subespaço deve ter dimensão 1, visto que posto T = 2
e
dim N (T ) + posto T = 3,
o que vem de um clássico teorema da Álgebra Linear. Agora é só achar um vetor não-nulo
qualquer de N (T ), digamos V , o que implicará N (T ) = [V ] = {X = tV, t ∈ R}. Para isto
procuramos uma solução não-trivial de

x + y = 0

x + 2y + z = 0

−x + 3y + 4z = 0,

que tem V = (1, −1, 1) como uma tal solução. Logo, N (T ) é a reta que passa por (0, 0, 0)
e é paralela ao vetor V . Mais ainda, se K = (k1 , k2 , k3 ) ∈ Im(T ), o que pode ser testado
simplesmente verificando que 5k1 − 4k2 + k3 = 0 (por quê?), o conjunto de soluções do sistema

x + y = k1

x + 2y + z = k2

−x + 3y + 4z = k3 ,

que é o conjunto de nı́vel K = (k1 , k2 , k3 ), coincide com P + N (T ), onde P é uma solução


particular deste último sistema, isto é, T (P ) = K.
z z
6 6

r1 Im(T )
P
r = (1, 1, 1)
1 T −1 (2, 4, 6) T
r r - - -
1 r y y

N (T )
x
x

Figura 29-(a) Figura 29-(b)


Vetores e Funções Vetoriais 41

Como caso particular desta situação, se K = T (1, 1, 1) = (2, 4, 6), as soluções do sistema

x + y = 2

x + 2y + z = 4

−x + 3y + 4z = 6

são os elementos da reta T −1 (2, 4, 6) = (1, 1, 1) + N (T ) = (1, 1, 1) + [(1, −1, 1)], ou de outra
forma, são as triplas (x, y, z) tais que x = 1 + t, y = 1 − t e z = 1 + t, t ∈ R. Para encerrar
nossa discussão com relação a T , consideremos o seguinte sistema linear:

x + y = 1

x + 2y + z = 2

−x + 3y + 4z = −3.

A existência de uma solução deste sistema implicaria que (1, 2, −3) ∈ Im(T ). Logo, u = 1,
v = 2 e w = −3 seria solução de 5u − 4v + w = 0, conforme (¶9 ), o que é falso. Portanto, o
sistema dado não tem solução.

1.5.7 [Rotações no R2 ]
Exemplo Dado θ ∈ R, seja Tθ : R2 −→ R2 a aplicação linear que associa
o vetor X ao vetor Y obtido por uma rotação de X em torno
da origem no sentido anti-horário.
y y
6 6

Y = Tθ (X) e2
 Tθ (e2 ) 6 Tθ (e1 )
pppppp θ * X θpppp pppppppp
kppppp  cos θ p pppp sen θ
I
@ 
@+ pθ
 - @ Kppp - -
x e1 x
− sen θ cos θ

Figura 30-(a) Figura 30-(b)

Para o cálculo de Y = Tθ (X) é bastante conhecermos o efeito desta aplicação na base canônica,
isto é, basta termos em mãos a matriz M (Tθ ), que pode ser obtida facilmente via figura 30-(b),
que mostra que
Tθ (e1 ) = (cos θ, sen θ) e Tθ (e2 ) = (− sen θ, cos θ).
Logo,       
x cos θ − sen θ x x cos θ − y sen θ
Tθ = = ,
y sen θ cos θ y x sen θ + y cos θ
ou
Tθ (x, y) = (x cos θ − y sen θ, x sen θ + y cos θ).
Em particular, para obtermos um vetor perpendicular a X = (x, y), usamos a rotação Tπ/2 , isto
é, basta calcular Tπ/2 (x, y) = (−y, x), que é o vetor que introduzimos no exemplo 1.2.9.
42 Funções Vetoriais Especiais

1.5.8 [Rotações no R3 ]
Exemplo A idéia de rotação que acabamos de estudar pode ser adaptada
facilmente para o espaço tridimensional R3 . Faremos isto para
o caso de rotações em torno do eixo-z. Inicialmente observamos que o resultado de uma tal
rotação aplicada a um vetor X = (x, y, z) ∈ R3 é o vetor que tem a mesma terceira coordenada
que X, e sua projeção no plano-xy é o vetor obtido aplicando esta rotação a (x, y, 0), como vemos
na figura 31. Assim sendo, se indicamos por Tθz a
rotação em torno do eixo-z, cuja restrição aos ve- z
tores do plano-xy tenha a orientação anti-horária, 6
ppppppppppppppppppppppppppppppppppp T z (X)
devemos ter ppp p pppppp pppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp θ
p p p p p p p p p p p p p p p p p p*
ppp θ p ppp
p p3
ppp
p p p p p p p ppppp pp
pp pp pppp
 
cos θ − sen θ 0 X ppp pp
p p p p p p p pppp ppp
z
pp ppppp
ppp pp ppppp
M (Tθ ) =  sen θ cos θ 0  . 
 
ppp ppppppppppppp pp
0 0 1 pppppppppppppppppppppppppppppppppp
ppp pppp pp
ppppppp pp pppppppppppppppppppppppppppppppppz
-
p p p p p p p p p p p p p p p p* ppppppp y
ppppp
A terceira coluna de M (Tθz )
indica que o vetor e3 ppp θ
ppp z
Tθ (x, y, 0)
z
é fixado por Tθ , o que deve estar muito claro para Upp
x

(x, y, 0)
o leitor. Portanto,
Figura 31: Rotação em Torno do eixo-z
Tθz (x, y, z) = (x cos θ − y sen θ, x sen θ + y cos θ, z).

Como caso particular, se θ = π/4, temos a rotação de 45◦ em torno do eixo-z:


√ √ √ √
z 2 2 2 2
Tπ/4 (x, y, z) = ( x− y, x+ y, z).
2 2 2 2
Destacaremos agora, uma outra famı́lia de funções vetoriais, as de uma variável real,
que serão chamadas curvas parametrizadas, que são objetos de uso freqüente em Geometria
Diferencial e na Cinemática.

1.5.9 [Curvas Parametrizadas]


Definição Uma curva parametrizada é uma função vetorial
do tipo
α : I ⊂ R −−− Rn
−→

t −−−−−→ α(t) = (α1 (t), α2 (t), . . . , αn (t)),
onde I é um intervalo, que pode ser aberto, fechado, limitado ou não. (Devido à tradição em
Geometria Diferencial, usaremos quase sempre letras gregas α, β, γ, . . . , para representar uma
curva parametrizada.)

1.5.10
Definição A imagem de uma curva parametrizada α : I −→ Rn é chamada traço de α, o
que indicaremos por tr α, isto é,
tr α = {X ∈ Rn ; X = α(t), t ∈ I}.
A variável t é dita parâmetro de α.
Vetores e Funções Vetoriais 43

1.5.11
Definição Um conjunto γ ⊂ Rn é dito parametrizado por α : I ⊂ R −→ R3 se γ = tr α,
isto é, γ coincide com a imagem de α. Dizemos, também, que α parametriza γ.

1.5.12 [Retas]
Exemplo Dados P, V ∈ Rn , V 6= O, a curva parametrizada

α : R −− − Rn
−→

t −−−−−→ α(t) = P + tV

tem como traço a reta que passa por P e é paralela ao vetor V , conforme a definição 1.3.1. Logo,
a reta l = P + [V ] está parametrizada por α. Por abuso de linguagem, costuma-se chamar a
função α de reta.

1.5.13
Exemplo Seja
α : [0, 2π] −−− R2
−→

t −−−−−→ α(t) = (a cos t, b sen t),

onde a > 0, b > 0 são números reais fixados (veja o exemplo 1.4.4). Temos que α parametriza
a elipse de centro (0, 0) e semi-eixos a e b dada por

x2 y 2 2
E(a, b) = {(x, y) ∈ R ; 2 + 2 = 1}.
a b
y y
6 6
Tπ/4 (E(a, pppppppppp b))
p p p p p p p ppp pppppppp pp ppppppppp
pppppppppppppppppppppppppppppppppppppppE(a, p pp pp p pp
p pp p p p p p p p p pp p pppppppppppp b) ppp ppp
p
pp
pppp pppp ppp b p pp p p p p
p pp pppp pp p a p p
p pp @
pppp pp -
p
Tπ/4
p pp
b
pp p
pp
ppp ppp ppp pp p p
- @ -
p p pp p p a
p p p p p x @ pp ppp x
p p p p p p pp p pp p p p pp p
pppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp ppppppppppppppppppp pppp p
@
p p pppp p
pppp pppp p
p p ppppppppppp p p pp ppppppp ppppppp p
I
@ α β 
@

0 2π
Figura 32

Se aplicamos a rotação Tπ/4 em E(a.b) obtemos a elipse Tπ/4 (E(a, b)) que tem centro (0, 0) e
eixos ao longo das retas y = ±x, como mostra a figura 32. Para parametrizar esta nova elipse,
simplesmente compomos a rotação com α. Mais precisamente, definimos

β : [0, 2π] −−− R2


−→

t −−−−−→ β(t) = (Tπ/4 ◦ α)(t) = Tπ/4 (α(t)).
44 Funções Vetoriais Especiais

Desta forma, temos que

√
√ 
2 2 ! √
−  a cos t 2
√2 √2 

β(t) =  = (a cos t − b sen t, a cos t + b sen t)
 2 2  b sen t 2
2 2

parametriza a elipse Tπ/4 (E(a, b)).

1.5.14 [Ciclóide]
Exemplo A ciclóide é o subconjunto γ do plano R2 percorrido por um ponto P
preso a um cı́rculo que rola sem deslizar sobre uma reta. Na figura 33,
consideramos a ciclóide descrita por P = O = (0, 0), que está preso ao cı́rculo centrado em
(0, a) e de raio a. Uma parametrização para a ciclóide pode ser obtida usando como parâmetro
o ângulo que o segmento [C, Q], que liga o centro do cı́rculo em movimento ao ponto de contato
deste cı́rculo com o eixo-x, faz com o segmento [C, P ], que liga C ao ponto móvel P .

y
6 6
γ γ

@a
@
@ C
r = (at, a)
Pr a cos t
I
t
Pr rQ - -
at x x
a sen t
Figura 33: Ciclóide
O fato que o cı́rculo rola sem deslizar é usado para garantir que o comprimento do segmento
[P, Q] é igual ao comprimento do arco de cı́rculo que liga P a Q, que é at, como indica a
figura. Portanto, a primeira coordenada de P , no instante t, vale x = at − a sen t, e a segunda
é y = a − a cos t. Logo,

α : R −− − R2
−→

t −−−−−→ α(t) = (at − a sen t, a − a cos t)

é uma parametrização da ciclóide.


Vetores e Funções Vetoriais 45

z
1.5.15 [Hélice Circular] 6
Exemplo Sejam a, b ∈ R, com
a > 0 e b 6= 0. O
traço da curva parametrizada

α : R −− − R3
−→
− 2πb
t −−−−−→ α(t) = (a cos t, a sen t, bt),
rbt
rα(t)
é chamado hélice circular de raio a e passo 2πb. A escolha a r1 r
-
y
t
deste nome se deve ao fato de que o tr α está contido no (a cos t, a sen t, 0)
cilindro circular reto x2 + y 2 = a2 . Neste ponto o leitor
deve retornar ao exemplo 1.4.11, onde temos uma hélice
x
ao longo do cilindro y 2 + z 2 = a2 . Figura 34: Hélice Circular

Para encerrar esta seção, estudaremos algumas noções elementares associadas às su-
perfı́cies parametrizadas, que são as funções vetoriais básicas para o estudo das superfı́cies
regulares da Geometria Diferencial.

1.5.16 [Superfı́cies Parametrizadas]


Definição Uma superfı́cie parametrizada é uma função
vetorial do tipo

g : D ⊂ R2 −− − R3
−→

(u, v) −−−−−→ g(u, v) = (g1 (u, v), g2 (u, v), g3 (u, v)).

1.5.17
Definição A imagem de uma superfı́cie parametrizada g : D −→ R3 é chamada traço de g,
o que indicaremos por tr g, isto é

tr g = {X ∈ R3 ; X = g(u, v), (u, v) ∈ D}.

As variáveis u, v são chamadas parâmetros de g.


46 Funções Vetoriais Especiais

v z
6 6

qqq qqqqq
qqqqqqqqqq
qqqqqqq
qqqqqqqq qqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
g3 (u0 , v0 ) rqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqq S
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqq
qqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqq
0 qqqqqqqqqqq
@
qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
g(u , v ) qqqqqqqqqqqq
@0r qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqq
D g- qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqq qqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
v0 r r qqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq qqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqq
qqqqqqqqqqqq
(u0 , v0 ) qqqqqqqqqqqqqqq qqqq qqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqq
qqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqq
r r qqqqqqqqqqqqqqqq
g
qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqq2 qqqqqqqqqq
(u
qqqqqqqqq r v-
0 , 0)
qqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqq qqqqqqqqqqq
qqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
-
u0 u qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqq y
qqqqqqqqqq
qqqqqqqqq
qqqqqqqq
qqqqqqq
qqqqqq
qqqqqqqq
g1 (u0 , v0 ) r r
x

Figura 35

1.5.18
Definição Um conjunto S ⊂ R3 é dito parametrizado por g : D ⊂ R2 −→ R3 se S = tr g,
isto é, S coincide com a imagem de g. Dizemos, também, que g parametriza o
conjunto S.

1.5.19
Definição Dada uma superfı́cie parametrizada g : D −→ R3 , e fixado (u0 , v0 ) ∈ D, as
curvas parametrizadas obtidas a partir de g fixando-se um dos parâmetros e
deixando o outro variar são chamadas curvas coordenadas de g. Mais precisamente,

αv0 (u) = g(u, v0 ) = (g1 (u, v0 ), g2 (u, v0 ), g3 (u, v0 )), (u, v0 ) ∈ D,


αu0 (v) = g(u0 , v) = (g1 (u0 , v), g2 (u0 , v), g3 (u0 , v)), (u0 , v) ∈ D

são as curvas coordenadas de g passando por g(u0 , v0 ).

Observação Vale observar que o traço de uma superfı́cie parametrizada coincide com a união
dos traços de suas curvas coordenadas. Na prática, é o esboço de algumas destas
curvas que nos permite visualizar a superfı́cie descrita por g. Esta é uma das estratégias básicas
da Computação Gráfica, no que tange ao esboço de superfı́cies.

1.5.20
Exemplo Dados P, V, W ∈ R3 com V, W linearmente independentes, a superfı́cie parame-
trizada g(u, v) = P + uV + vW , (u, v) ∈ R2 , tem como traço o plano que passa
por P e é paralelo aos vetores V e W , conforme definição 1.3.7. Fixado (u0 , v0 ) as curvas
coordenadas de g por g(u0 , v0 ) são as retas

αv0 (u) = g(u, v0 ) = (P + v0 W ) + uV, u ∈ R,


αu0 (v) = g(u0 , v) = (P + u0 V ) + vW, v ∈ R.
Vetores e Funções Vetoriais 47

z
v 6
p
pqpqpqqqpqqqqpqqqppqqpqpqpqpqpqppp
6
ppqqqqqqpqqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqpqqqpqqqpqqpqqpqqpqpqpqqpqqpqpqppppqppp
p p
qq
pqqpqpqqppqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqpqqqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqpppqpqpqpqpqpqpqppqpp
ppqpqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqpqqpqpqqpqqpqqqpqqqpqqpqqqpqqqpqqqpqqqpqqqp+ q q q qqp qqqqqqqqqqqqpqqqpqqqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqpqqpqpqpqppqpp
ppqpppqqpqqqpqqqpqqqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqP qqqqqqqqqqqqpqqqpqqqqppqqqqqpqqqpqqqqqppqpqqqvrpqqpqqpppqqqqqqqpp0pqqqqpqqqqqqqW
D
qqqqqqpqqqqpqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqp
pppqqqqppqqpqqqqqqq pppppppqpqqqqqqq
qqqqqqq
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qqqqqqqq
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qqqqqqqq
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qqqqqqqq
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qqqqqqqqq
pppppp
qqqqqqq ppqpqqpqqqqqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqpqqqqqpqqpqqpqqpqqqpqqpqqpqqpqqpqqqqqpqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqpqqqqqqpqqqqqqpqqpqqqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqpqqppqqqqqppqqppqqqqpppqqqqqpqqqqpqpqqqpqqqqpqqpqqqqpqqpqqqpqqpqqqpqqqpqqqpqqqpqqpqqqqpqqqqqqqqqpqqqpqpqqqpqpqp p
pppqqqqqqppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq
pppppppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq
pppppppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq
ppppppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq
pppppppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq
ppp qqqqqqqqq pppp pppprpqqqp(u
qqqqqqq qqqqqqq
ppppppqqqpqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqq ppvpp pppp 0 )
pp0ppppp,pqqqpqqqqqq
qqqqqq pq
ppqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqpP
qpp qpqqqqqpqpprpqppqppqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqpp
p pp p p
ppqqqqppqqpqqqqqqq
qqqqqqq q qqqqqqq
qqqqqqq q qqqqqqq
qqqqqqq q qqqqqqq
qqqqqqq q qqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqq
qqqqqqq p q qqqqqqq
qqqqqqq q qqqqqqqq
qqqqqqqq q qqqqqq
qqqqqq
pppp ppp g- Wpqqpqqp qqqpqpqqqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqrpqqqqqpqqqqqpqqqqpqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqqppqqqppqqqqqppqqqpqqqqqrqqpqqqqqpqqqpqqpqpqqqqqpqqqqpqqqpqqqpqqpqqqqqqppqqqpqqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqpqqqppqpqp -
ppqqqqqqqqqqqqqqqq
pppppppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq
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pppp pppqqqpqqqqqqq
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qqqqqqqq q
qqqqqq
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ppppqpqppqpqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqpqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqpqqpqppp
qqqqqqqqpqqqpqpqqpqqqqqqqqqpq+ pqqqqqqqqqqqqqu qqqqqqqq0qqqqqqqVqqqqqqqqqpqppppp
q
ppqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqq qqqqqqqqq qqqqqqqqq qqqqqqqqq
pp qqqqqqqqq ppqqqqqqqqq qqqqqqqqqq qqqqqqqq u j ppppqpqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqp y
ppqqqqqqppqqqpqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqq
p q qqqqqqq
qqqqqqq p q qqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqq
qqqqqqqq qqqqqqq
qqqqqq
pppp pp
p
V ppppppqpppqqqqpppqqpqqpqqpqqppqqqqppqqpqqqpqqppqqqqqpqqqqqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqppqqqp ppp
H
qqqqqqq
pppppppqqpqqqqqqq
qqqqqqq
pppppppqqpqqqqqqq
qqqqqqq
ppppppqqpqqqqqqq
qqqqqqq
pppppppqqpqqqqqqq
qqqqqqq
ppppppqqpqqqqqqq
qqqqqqq
pppp ppqqpqqqqqqq
qqqqqqq
ppppppqqpqqqqqqqq
qqqqqqqq
ppppppppqqpqqqqqq
qqqqqq
H
qqqqqqq pppqqppqpqqpqpqqppqqqqpqqqqqqqqpqqpqpqp
ppppp
x

Figura 36

A primeira delas, αv0 é a reta que passa por P + v0 W e é paralela ao vetor V . A outra, αu0 é a
reta que passa por P + u0 V e é paralela ao vetor W .

1.5.21 [Gráfico]
Exemplo Seja f : D ⊂ R2 −→ R uma função real de duas variáveis reais. O seu
gráfico, como vimos na definição 1.4.7, é o subconjunto de R3 dado por

G(f ) = {(x, y, f (x, y)); (x, y) ∈ D},

isto é, G(f ) é o subconjunto do R3 constituı́do das triplas (x, y, f (x, y)), onde (x, y) ∈ D. Isto
sugere a seguinte parametrização (canônica) de G(f ):

g:D −− − R3
−→

(u, v) −−−−−→ g(u, v) = (u, v, f (u, v)).

Neste caso, os traços das curvas coordenadas de g,

αv0 (u) = (u, v0 , f (u, v0 )), (u, v0 ) ∈ D


αu0 (v) = (u0 , v, f (u0 , v)), (u0 , v) ∈ D,

são facilmente obtidos: são dadas pelas interseções dos planos x = u0 e y = v0 com G(f ), res-
pectivamente, como na figura 37. z
v
f (u0 , v0 ) r
6
prrr
p
ppppppppppppppppppppppppppppppppp
ppprrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrr
6
prrrrrrrrrrrrrrrrrrr
D pppppppppppppp prpppg(u
rprrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p pppprrrrrr
pppp pppppppp, v ) = (u0 , v0 , f (u0 , v0 ))
ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp pprrrrrrrrrrrrr
G(f ) ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr ppppp pppppppppppppppprrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr ppppppppppppp0pppppppppppppppp0
ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr ppp p pppp pppppp ppp
pppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr ppppppppppppppp ppp ppppppppppppppp pppppppppp ppppppppppppppp
ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
v0 r pppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppppppppppppprppppppppppppppppppppppppp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p pppppppppp pp pppppppppppp pppp pp pp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppppppppppppppppppppppppppppppppp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr pppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppp ppppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr p pppppppppp ppp ppppppppppppppp ppp
p pppppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp pp pp pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr pp ppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p prrrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrr pppppppp pp p p
p
r g- pp ppr pp pp ppppppppp rrrrrrrrrrrrrr pp ppppppppprp vppp0 ppp -
pprrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrr
ppppppprrrrrrrrr
p
pp pp pp pp pp pp prrrrrrrr prrrrrrr p p p y
-
prrrrr
pppppppppppppppppppppppppppprrrr pppprrppppppppppppppppppppppp
u0 u prrr
pp pp prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr p p
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppppppppppp prrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
u0 r pp prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr prrrrrrrrrr pppppppppppp pppppppppppp D
pppppppppppppppppppppppppppppppprpppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
x

Figura 37: Parametrizando G(f)


48 Funções Vetoriais Especiais

Como caso particular desta situação, temos que z


pppprp
prrr
p prrrrpppp ppppppp pp
6 prrrrrr z = x2 + y 2
rrrrrrrr
prrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrr
ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p p p
g(u, v) = (u, v, u2 + v 2 ), (u, v) ∈ [0, 1] × [0, 1], p pppppp pppp pp pppppppppppppppppppppppprrpppppprpppp
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppp p ppp ppp pp pppp pp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppp p pp pp pppppppppppppprrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppp rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p rrrrrrrrrrrrrrrrr pp ppppppppppppp p
p p p p p ppp p ppppp pp ppp ppp p pppppppppppppppppprrppp ppp
p p p
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p p
parametriza a porção do parabolóide z = x2 + y 2 que se p p p p p p
p rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr p p
ppp pppppppppp ppp ppppppppppppppppppppp p p p p p p p p p p p p pp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr p p p pp
projeta sobre o quadrado [0, 1] × [0, 1]. ppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp
pp pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr pp 1
pp prrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppprpppprrrrrrr ppppppppppp ppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp rp -
pppppppppppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pp ppppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p p
ppppppppppppp pppppppp pppppppppppppppppp
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pp ppppppppppppppppppppp ppppppppppppp pppppppppppppppppppppppppppp ppp
pppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
y
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppp pppppppppp ppppppppppp ppppppppppppppppppppppp pp
p
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppp pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr p
pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
pppppppppppppppppp ppppppppppppppppppppppppppp
prrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
p pprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
ppppppppppppppppppp ppppppppppp ppppppppppp pppppppppppp ppp
1 prprrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
x
1.5.22
Figura 38
Superfı́cies de Revolução

Seja
α : I ⊂ R −−− R3
−→

v −−−−−→ α(v) = (α1 (v), 0, α2 (v))

uma curva parametrizada com traço contido no plano-xz, como indica a figura 39. Fixados v ∈ I
e u um ângulo entre 0 e 2π, seja Tuz a rotação de ângulo
u em torno do eixo-z, como no exemplo 1.5.8. Aplicando z
p
p p
q p
ppqqqqqqqqqqpqqqppqqpqqpqpqppp
z 6
esta rotação ao ponto α(v) obtemos o ponto Tu (α(v)), o
ppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqpqpqppp
qual está no plano πu perpendicular ao plano-xy e que faz ppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqppqpqpqpqp
pqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqppqp
um ângulo u com o eixo-x. Portanto, se v varia em I, ob- pppppppqqpqppqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqπqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
ppp pppqqqqqqqqqqqqqqqqppqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqquqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
temos uma cópia de α neste plano. A idéia agora é deixar qq
pp ppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
u variar no intervalo [0, 2π], o que produz o conjunto pp p pppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqzqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
qqqqqqqqqqp qqqqqqqqqqqqqqq α(v) prp ppppqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqrppqqqqpqqqqqqTqqqqqquqqqqqqqqqq(α(v)) qqqqqqqqqqppp
p
pp p ppppqpppqpqqppqpqppqqqppqqpqpqqqppqpqqqpqqqqqqpqqqqqpqppqqqqqpqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
-
Sα = {X ∈ R ; X = 3
Tuz (α(v)), 0 ≤ u ≤ 2π, v ∈ I}, ppppppppppppppp ppppqqppqpqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp y
ppppppppppppppppppppppp: pppp pqqppqqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
u pqqppqqqpqqqpqqqpqqqqqqqqp
pqqpppqpp
que será chamado superfı́cie de revolução (ou rotação)
gerada por α. À curva parametrizada α, chamamos ge- x

ratriz de Sα . Usando a expressão que define Tuz , vem que Figura 39


Sα pode ser reescrita assim:

Sα = {X ∈ R3 ; X = (α1 (v) cos u, α1 (v) sen u, α2 (v)), 0 ≤ u ≤ 2π, v ∈ I}.

Desta forma Sα está naturalmente parametrizada por

g : [0, 2π] × I −−− R3


−→

(u, v) −−−−−→ g(u, v) = (α1 (v) cos u, α1 (v) sen u, α2 (v)).

Como resultado, obtemos a seguinte figura.


Vetores e Funções Vetoriais 49

v z
6 6
[0, 2π] × I
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq Sα
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
g
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
I qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
-
q q qqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqq
q q qq qq q q
q
qqqqq q qqqqq
qq qqq q qqq q qq qqqqqqq qqqqqqqqqq qq qq qqqqqqq qqq qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq q qq
qqq
q qqq
q qqqqq q q q q q q q qq q q q q q q q q q q q q q q q q q q q qq q qqqq q q q
q q q qq q q qqqq qq
qq q
q qq qqq
qq
qqqqq
qqq qqq
qq q
qqqqq
r- qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqq
qqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
-
2π u y

Figura 40: Superfı́cie de Revolução

Para v fixo, a curva coordenada correspondente é o cı́rculo de raio α1 (v) e centro (0, 0, α2 (v))
do plano z = α2 (v). Para u fixo, obtemos uma cópia de α no plano que faz o ângulo u com o
plano-xz. Assim, as curvas coordenadas de g, ou são cı́rculos, os quais chamamos de paralelos
ou são cópias de α, que são chamadas meridianos. Nos exemplos que seguem, veremos alguns
casos particulares de superfı́cies de revolução.

1.5.23 [Parabolóide]
Exemplo Neste exemplo, a geratriz é o arco de parábola parametrizado
por α(v) = (v, 0, v 2 ), v ∈ [0, +∞). Logo, α1 (v) = v, α2 (v) = v 2 .
Portanto,
g(u, v) = (v cos u, v sen u, v 2 ), 0 ≤ u ≤ 2π, 0 ≤ v < +∞,
é uma parametrização do parabolóide de revolução z = x2 + y 2 cujas curvas coordenadas são
cı́rculos (v constante) e arcos de parábolas (u constante), conforme figura 41.
v z
6 [0, 2π] × [0, +∞) 6
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqq
q q q qq
q q
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqS
qqqqqqqqqqqqqqqαqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
g- qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
r- y
2π u

Figura 41: Parabolóide de Revolução

1.5.24 [Esfera]
Exemplo Para parametrizar a esfera S 2 (a), começamos parametrizando sua gera-
triz, o semi-cı́rculo de raio a e centro (0, 0, 0) do plano-xz, com

α(v) = (a sen v, 0, a cos v), v ∈ [0, π],


50 Funções Vetoriais Especiais

que a descreve a partir do ponto (0, 0, a) terminando em (0, 0, −a). Isto significa que o parâmetro
v é o ângulo entre o eixo-z e o vetor α(v). Assim, α1 (v) = a sen v e α2 (v) = a cos v, e obtemos
a seguinte parametrização para S 2 (a).

g(u, v) = (a sen v cos u, a sen v sen u, a cos v), 0 ≤ u ≤ 2π, 0 ≤ v < π.

v z
6 6

qqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
2
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqS (a)
[0, 2π] × [0, π] qq q q
qqq qqqq q q
qq
q q qqq qqqq q q q q q q q q qqq
q qq q q qq q q q qq q q q q q q qqq
qqqq q
qq qq q qqqq qq
q q q qqq q qq q
qqqqqqqqqq qqqqq qqqqqq q q qq q q q qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
qqq q q q q qq q q q q q q q q q q q q q q q qqq q q q q q q q q q q qq
q q
πr g qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqq qq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
-
qqq q q q q q q q qqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq qqqqqqqqqq
qqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq qqq q q q q qqqq q q q q q q q q
qqq
q q q qqq q q q q q q q qqq
q q q -
r- qqqq y
2π u qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
x qqqqqqq qqq qqq

Figura 42: Esfera S2 (a)

1.5.25 [Toro] z
Exemplo Seja α : [0, 2π] −→ R3 a cur- 6

va parametrizada dada por


T 2 (a, b)
qqqqqqq qq qq q q q qq q q q q q q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q
α(v) = (b + a cos v, 0, a sen v), 0 ≤ v ≤ 2π, q q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q q q qqq
q q q
qqqqq q q qqqqqqqq q qq
qq q q
qq q qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
onde 0 < a < b são constantes. Temos que o qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqq
-
traço de α é o cı́rculo de raio a e centro (b, 0, 0) do qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq y
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
plano-xz. A superfı́cie de revolução gerada por α qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
é chamada toro de revolução, e será indicada por
T 2 (a, b). Uma parametrização de T 2 (a, b) é dada x
por Figura 43: Toro de Revolução

g : [0, 2π] × [0, 2π] −− − R3


−→

(u, v) −−−−−→ g(u, v) = ((b + a cos v) cos u, (b + a cos v) sen u, a sen v),

cujas curvas coordenadas são cı́rculos. T 2 (a, b) pode ser definido implicitamente. De fato, como
o leitor pode verificar, temos que
p
T 2 (a, b) = {(x, y, z); ( x2 + y 2 − b)2 + z 2 = a2 }.
1
Exercı́cios
52 Vetores e Funções Vetoriais – Exercı́cios

1-1 Dado o triângulo 4ABC, A = (3, −1, −1), B = (1, 2, −7) e C = (−5, 14, −3), encontre
α : R −→ R3 cujo traço coincida com
(a) a mediana que passa por A;
(b) a bissetriz do ângulo interno B;
(c) a altura traçada por A.
1-2 Seja 4ABC um triângulo escaleno tal que a altura relativa ao lado BC, hBC , tenha com-
primento igual à metade do comprimento de BC. Mostre que o ângulo interno A b é agudo.
O que ocorre se 4ABC é isósceles, com AB e AC sendo seus lados iguais?
1-3 Sejam P e Q dois pontos de R3 , com P 6= Q. Seja M = (P + Q)/2 o ponto médio do
segmento de reta [P, Q]. O plano que passa por M e é perpendicular ao vetor Q − P é
chamado plano mediador de [P, Q], e será denotado por Π[P,Q] .
(a) Mostre que
1
Π[P,Q] = {X ∈ R3 ; X · (Q − P ) = (kQk2 − kP k2 )};
(b) Conclua que X ∈ Π[P,Q] se, e somente se, kX − P k =2 kX − Qk;
(c) Mostre que a distância de um ponto Y ∈ R3 a Π[P,Q] é dada por
|2Y · (Q − P ) − (kQk2 − kP k2 )|
d(Y, Π[P,Q] ) = .
2 kQ − P k
1-4 Sejam P1 = (2, 2, 3), P2 = (1, 3, 3), P3 = (1, 2, 4) e P4 = (1, 1, 3) quatro pontos em R3 .
(a) Encontre o plano mediador Π[P1 ,P2 ] ;
(b) Encontre o plano mediador Π[P1 ,P3 ] ;
(c) Encontre o plano mediador de Π[P1 ,P4 ] ;
(d) Calcule a interseção Π[P1 ,P2 ] ∩ Π[P1 ,P3 ] ∩ Π[P1 ,P4 ] ;
(e) Obtenha a esfera que contém os pontos P1 , P2 , P3 e P4 .
1-5 Seja T : R4 −→ R3 a aplicação linear cuja matriz com relação às bases canônicas é
 
1 −3 4 −2
A=  1 −1 9 −1  .
2 −5 11 −4
(a) Mostre que T é sobrejetiva;
(b) Conclua que o núcleo de T , N (T ), tem dimensão 1. Encontre uma base para N (T );
(c) Dado Y0 ∈ R3 , seja X0 ∈ R4 tal que T (X0 ) = Y0 (Por que existe X0 ?). Mostre que
T −1 (Y0 ) é a reta de R4 que passa por X0 e é paralela a V = (−11, −3, 1, 1);
(d) Parametrize a reta T −1 (5, 7, 14);
(e) Resolva o sistema linear 
 x − 3y + 4z − 2w = 5
x − y + 9z − w = 7 ;
2x − 5y + 11z − 4w = 14

(f) Encontre um funcional linear f : R4 −→ R cujo núcleo coincida com N (T )⊥ ;


(g) Encontre a equação do hiperplano perpendicular ao vetor (−11, −3, 1, 1) e que passa
pelo ponto (1, 1, 1, 1).
Vetores e Funções Vetoriais – Exercı́cios 53

1-6 Considere a matriz


 
1 2 −3
A= 2 6 −11  .
1 −2 7
(a) Verifique que A tem posto 2;
(b) Conclua que Im(T ), a imagem de

T : R3 −− − R3
−→

X −−−−−→ T (X) = AX,

é um plano, e N (T ) é uma reta;


(c) Encontre uma equação para Im(T ) e parametrize a reta N (T );
(d) Encontre uma condição necessária e suficiente sobre a tripla (a, b, c) para que o sistema
linear 
 x + 2y − 3z = a

2x + 6y − 11z = b ;

x − 2y + 7z = c

seja compatı́vel, isto é, tenha solução.


1-7 Sejam P = (2, −2, 1) e α a reta α(t) = (1 + 2t, 2 − 3t, −3 + 2t), t ∈ R. Seja Π o plano que
contém {P } ∪ tr α;
(a) Encontre g : R2 −→ R3 que parametrize Π;
(b) Encontre uma definição implicita para Π;
(c) Encontre f : R2 −→ R tal que o plano Π coincida com o seu gráfico.
1-8 Sejam Q = (−3, 4, −2, 11), P = (5, −3, 2, 6) e A = (2, −1, 0, 1) pontos do R4 e L a reta que
passa por P e é paralela a A.

(a) Se X = P + tA ∈ L, mostre que d(Q, X) = 6t2 + 36t + 154;
(b) Mostre que existe um único ponto M ∈ L tal que a distância d(Q, X) é mı́nima (esse
mı́nimo vale d = 10 e M = (−1, 0, 2, 3));
(c) Mostre que o vetor M − Q é ortogonal à reta L;
(d) Considere o hiperplano H ortogonal a L e que passa por Q.
(i) X = (x, y, z, t) ∈ H ⇐⇒ 2x − y + t − 1 = 0;
(ii) H ∩ L = {M };
(iii) Calcule a distância de P a H;
(e) Encontre funções g : R3 −→ R4 , f : R3 −→ R e h : R4 −→ R para as quais o hiperplano
H é imagem, gráfico e superfı́cie de nı́vel, respectivamente.

1-9 Mostre que α(t) = (t, 8 + 2t − t2 , t+4), −2 ≤ t ≤ 4, é uma curva plana contida no cilindro
(x − 1)2 + y 2 = 9. Esboce o traço de α.
54 Vetores e Funções Vetoriais – Exercı́cios

1-10 Esboce o traço das seguintes curvas parametrizadas.


(a) α(t) = (c + a cos t, d + b sen t), t ∈ R, a, b > 0;
(b) α(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, a > 0, b 6= 0;
(c) α(t) = (1 + cos t, sen t, 2 sen(t/2)), t ∈ R;
1-11 Identifique e esboce o traço de cada superfı́cie parametrizada, indicando as respectivas curvas
coordenadas.
(a) f (u, v) = (cos u sen v, sen u sen v, cos v), 0 ≤ u ≤ 2π, 0 ≤ v ≤ π2 ;
(b) g(u, v) = (cos u, sen u, v), 0 < u < 2π e v ∈ R;
(c) g(u, v) = (v cos u, v sen u, v), 0 < u < 2π e v > 0;
(d) g(u, v) = (v cos u, v sen u, v 2 ), 0 < u < 2π e v > 0;
(e) g(u, v) = (2 cos v cos u, 2 cos v sen u, sen v), 0 < u < 2π e v ∈ R;

(f) f (u, v) = (u, v, u2 + v 2 ), u, v ∈ R;
(g) g(u, v) = (cosh v cos u, cosh v sen u, v), 0 < u < 2π e v ∈ R. [Catenóide]
1-12 Seja f : D ⊂ R2 −→ R, onde D = {(x, y) ∈ R2 ; x > 0}. Suponha que a curva parametrizada
α : I −→ D, α(v) = (α1 (v), α2 (v)), seja tal que seu traço coincida γ = f −1 (0). Defina

F : R3 −−−→
−− R
p .
(x, y, z) −−−−−→ F (x, y, z) = f ( x2 + y 2 , z)
(a) Mostre que a superfı́cie de revolução gerada por α, Sα , é definida implicitamente por F ,
isto é, p
Sα = F −1 (0) = {(x, y, z); F (x, y, z) = f ( x2 + y 2 , z) = 0}.

(b) Considere, agora, o toro T 2 (a, b) dado no exemplo 1.5.25. Observando que f : R2 −→ R,
f (x, y) = (x − b)2 + y 2 − a2 , define implicitamente o cı́rculo gerador de T 2 (a, b), verifique
que p
T 2 (a, b) = {(x, y, z); ( x2 + y 2 − b)2 + z 2 = a2 }.

1-13 Determine e esboce o maior subconjunto Ω (Ω ⊂ R2 , de (a) a (g), e Ω ⊂ R3 em (h) e (i)) de


modo que f : Ω −→ R esteja bem definida.
p
(a) f (x, y) = x2 (x − 1);

(b) f (x, y) = arcsen(x/2) + xy;
√ p
(c) f (x, y) = 1 − x2 + 4 − y 2 ;
(d) f (x, y) = log(x log(y − x));

(e) f (x, y) = |x| x − 1;
(f) f (x, y) = 1/ (x2 + y 2 );
p √
(g) f (x, y) = x − y;
z
(h) f (x, y, z) = x(y ) ;
p 1
(i) f (x, y, z) = a2 − x2 − y 2 − z 2 + p , a2 ≥ b 2 .
x 2 + y 2 + z 2 − b2
Vetores e Funções Vetoriais – Exercı́cios 55

1-14 Em cada caso, esboce o gráfico G(f ) da função f : D ⊂ R2 −→ R dada.

(a) z = f (x, y) = 4 − x2 − y 2 , D = R2 ;
p
(b) z = f (x, y) = x2 + 4y 2 , D = R2 ;
(c) z = f (x, y) = 2 − y 2 , D = R2 ;
(
1, |x| < |y|
(d) z = f (x, y) = , D = R2 ;
0, |x| ≥ |y|

(e) z = f (x, y) = sen x, D = R2 ;


p
(f) z = f (x, y) = 16 − x2 − y 2 , D = B[4] − {(0, 0)};
(g) z = f (x, y) = 1/ (x2 + y 2 ), D = R2 − {(0, 0)};
(h) z = f (x, y) = sen(y − x), D = R2 ;
(i) z = f (x, y) = (2x + y)3 , D = R2 ;
(
0, xy = 0
(j) z = f (x, y) = , D = R2 .
1, xy 6= 0

1-15 Esboce os seguintes conjuntos definidos implicitamente pela função f dada.

(a) f (x, y) = x2 y = 1;
(b) f (x, y) = (x2 + y 2 + 1)2 − 4x2 = 0;
(c) f (x, y) = x2 − 2x + y 2 = 0;
(d) f (x, y) = x2 + 4y 2 = 4;
(e) f (x, y, z) = (x − 1)2 + y 2 + z 2 = 1;
(f) f (x, y, z) = x2 − y 2 + z 2 = 0;
(g) f (x, y, z) = x2 + y 2 = 4;
(h) f (x, y, z) = (xyz, x + y) = (0, 1);
(i) f (x, y, z) = (x2 + y 2 + z 2 , y + z) = (1, 1).

1-16 A temperatura T (x, y) do ponto (x, y) de uma chapa metálica é dada pela função real
T (x, y) = 2x2 + 3y 2 + 15. Encontre a equação da isoterma (curva de temperatura constante)
que passa pelo ponto (1, 3) e esboce tal curva de nı́vel.
2 2
√ linear T : R −→ R , T (x, y) = (x − y, x + y), é a composta da
1-17 Mostre que a aplicação
homotetia de razão 2 com a rotação de ângulo π/4.

1-18 Seja A = (aij )m×n uma matriz real de ordem m × n. Indique sua transposta por tA. Se · é
o produto interno canônico de Rn , X ∈ Rn e Y ∈ Rm , mostre que (A X) · Y = X · ( tA Y ).
56 Vetores e Funções Vetoriais – Exercı́cios

1-19 [Matrizes Ortogonais] Uma matriz A = (aij )n×n é dita ortogonal se A tA = tAA = I, onde
I é a matriz identidade, e tA indica a transposta de A. Uma aplicação linear T : Rn −→ Rn
é ortogonal se sua matriz (com relação a base canônica) é ortogonal.
(a) Seja A = (aij )n×n ortogonal.
(i) A−1 = tA;
(ii) Mostre que as linhas (colunas) de A formam uma base ortonormal de Rn ;
(iii) Se A é ortogonal, então (det A)2 = 1;
(iv) Se T é o operador linear de matriz A, então T preserva o produto interno, isto é,
X · Y = T (X) · T (Y ), X, Y ∈ Rn .
Em particular, T preserva comprimentos: kT (X)k = kXk;
(b) Dado θ ∈ R, as matrizes
! !
cos θ − sen θ − cos θ sen θ
A1 (θ) = e A2 (θ) =
sen θ cos θ sen θ cos θ
são ortogonais.
(c) Se A é uma matriz ortogonal de ordem 2 × 2 e det A = 1, então existe θ ∈ R tal que
A = A1 (θ), como em (b);
(d) Seja T : Rn −→ Rn (não necessariamente linear) tal que
X · Y = T (X) · T (Y ), ∀X, Y ∈ Rn .
(i) Mostre que {T (e1 ), T (e2 ), . . . , T (en )} é uma base ortonormal, onde {e1 , e2 , . . . , en } é
a base canônica;
(ii) Conclua que T (X) = (X · e1 )T (e1 ) + (X · e2 )T (e2 ) + · · · + (X · en )T (en );
(iii) Conclua que T é uma aplicação linear ortogonal.
1-20 [Isometrias] Uma isometria de Rn é uma aplicação S : Rn −→ Rn que preserva distâncias:
kY − Xk = kS(Y ) − S(X)k . (¶10 )
(a) Toda isometria S é injetiva;
(b) Se S é uma isometria e S(0) = 0, então S preserva o produto interno;
(c) Se S é uma isometria e S(0) = 0, então S é uma aplicação linear ortogonal;
(d) Conclua que toda isometria S é da forma S(X) = T (X) + B, onde T é (linear) ortogonal
e B é uma vetor constante.
1-21 Seja T : Rn −→ Rn uma aplicação linear ortogonal.
(a) Se W ⊂ Rn é um subespaço invariante sob T , isto é, T (W ) ⊂ W , então T (W ) = W e
T (W ⊥ ) = W ⊥ ;
(b) Conclua que se n = 3, T (e3 ) = e3 e det T = 1, então T é uma rotação em torno do
eixo-z;
√ √
(c) Mostre que T : R3 −→ R3 dada por T (x, y, z) = (( 3x − y)/2, (x + 3y)/2, z) é uma
rotação em torno do eixo-z, e identifique o ângulo de rotação.
Vetores e Funções Vetoriais – Exercı́cios 57

1-22 [Aplicações Auto-adjuntas]1 Uma aplicação linear T : Rn −→ Rn é auto-adjunta se

T (X) · Y = X · T (Y ), ∀X, Y ∈ Rn .

(a) T é auto-adjunta ⇐⇒ A, a matriz de T , é simétrica (i.e., tA = A). Aproveite isto para


construir exemplos de aplicações auto-adjuntas em R2 e R3 ;
(b) Se T é auto-adjunta e W ⊂ Rn é um subespaço invariante sob T , então W ⊥ é invariante
sob T ;
(c) É um fato verdadeiro que os autovalores de T são reais. Prove diretamente isto para
n = 2 e n = 3;
(d) Se λ1 6= λ2 são autovalores de uma aplicação auto-adjunta T , então autovetores corres-
pondentes a λ1 e λ2 são ortogonais.

1
Este exercı́cio é opcional, e exige um pouco mais de Álgebra Linear.
2
Cálculo
das
Curvas Parametrizadas
z
6

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqq q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqs(1,
qq q qqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqq pqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq1,
qq 1)
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqq qqqqqqq qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqpqqqqq p
p qqqqqqqqqqqq qq qqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq qqqqqqqqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq p qqp qpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qpqpqqqqq
qqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqp pqpqqqqqq p p pqpqpqqppqpqqqpqqpqqqp qqqp qqq
qqp p pqqqpqpqqqp pqqqqpqqqpqqqp pqqqqqqqq qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq qpqpqqp pqqqpqqqqqqpqqqqq
qq qqqqqqqqqqq
qqq
qqq qq qqqqqqqqqqqqpqqpqqp qqpqqpqqp pqqpqqqqqqqqqqqqqqq qq qq qqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqq
q q q qqq qq qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqpqqpqqpqqqpqqq qqqq qqq qqqqqqqq y
qqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqp pqqqqqqqqp qqp pqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq
qqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq q q q q q q q q q q q q q q q q q q q qqqq q p q
qqq
p q q
p qpqpqqq qqq q
qqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqq qqqqqqpqqqq
qqqqqqqqpqqpqqqpqqqps(−1, 1, −1)
qqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq q q q
qqqqqq qqqqqqqqq q q
q qqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q q q q q q q q q q q q q q q q q qqqq q qqqqq
q q q

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq q
x qqq

por
A. Carlos & J. Adonai
2.1
Limite e Continuidade

O objetivo aqui é estender os conceitos de limite e continuidade que conhecemos para


funções reais de uma variável real, às funções vetoriais de uma variável real.

2.1.1
Definição Sejam α : D ⊂ R −→ Rn uma função vetorial com funções coordenadas α1 , α2 ,
α3 , . . . , αn , e t0 ∈ R. Se existem
l1 = lim α1 (t), l2 = lim α2 (t), . . . , ln = lim αn (t),
t→t0 t→t0 t→t0

diremos que α possui limite em t0 , e a n-upla


lim α(t) = (l1 , l2 , . . . , ln )
t→t0

será chamada limite de α em t0 .

2.1.2
Exemplo Seja α(t) = (cos t, sen t, t2 + 2, sen t ), t 6= 0. Como
t
sen t
lim cos t = 1, lim sen t = 0, lim(t2 + 2) = 2, e lim = 1,
t→0 t→0 t→0 t→0 t
segue-se que
lim α(t) = (1, 0, 2, 1).
t→0

2.1.3
Exemplo A função β(t) = (t, sen 2π ), definida em R − {0}, não tem limite em t0 = 0, visto
t

que β2 (t) = sen , sua segunda função coordenada não tem limite neste ponto.
t
Um bom modo de ver isso é estudar o comportamento de β2 ao longo de dois subconjuntos
especiais (duas sequências) do seu domı́nio, a saber:
1
X1 = {x ∈ R; x = , k ∈ N}
k
e
4
X2 = {y ∈ R; y = , k ∈ N},
4k + 1
onde N = {1, 2, 3, . . .} é o conjunto dos números naturais. Note que tanto os elementos de X1
quanto os de X2 ficam bem próximos de t0 = 0 à medida que o valor de k cresce. Agora, se
x = 1/k é um elemento de X1 , então β2 (x) = sen(2π/x) = sen 2kπ = 0. Por outro lado, se
y ∈ X2 , então, β2 (y) = 1. Logo, β2 (t) não pode se aproximar de um valor bem definido quando
o parâmetro t tende a zero, isto é, β2 não tem limite em t0 = 0.

59
60 Derivadas

2.1.4
Definição Sejam α : D ⊂ R −→ Rn uma função vetorial com funções coordenadas α1 , α2 ,
α3 , . . . , αn , e t0 ∈ D. Se α1 , α2 , α3 , . . . , αn são contı́nuas em t0 , diremos que
α é contı́nua em t0 . Quando α é contı́nua em todos os pontos de D, dizemos que α é contı́nua
em D.

2.1.5
Exemplo A curva parametrizada no R3 , α(t) = (et , cos t + sen t, 1 + t + t2 ), t ∈ R, é contı́nua
em R, pois suas funções coordenadas são contı́nuas aı́.
A seguinte proposição decorre facilmente das propriedades do limite para funções reais de
uma variável real.

2.1.6 [Operações com Limites]


Proposição Sejam α, β : D ⊂ R −→ Rn duas funções vetoriais
que têm limite em t0 ∈ R, h : D −→ R também
tendo limite em t0 , e a ∈ R. Então, valem as seguintes propriedades do limite:

(i) lim (α + β)(t) = lim α(t) + lim β(t);


t→t0 t→t0 t→t0

(ii) lim (hα)(t) = lim h(t) lim α(t);


t→t0 t→t0 t→t0

(iii) lim (aα)(t) = a lim α(t);


t→t0 t→t0

(iv) lim (α · β)(t) = lim α(t) · lim β(t);


t→t0 t→t0 t→t0

(v) lim (α × β)(t) = lim α(t) × lim β(t). (Aqui, estamos supondo n = 3.)
t→t0 t→t0 t→t0

2.2
Derivadas

Já que dispomos da noção de limite, torna-se bastante natural o conceito de derivada para
curvas parametrizadas no Rn . A idéia é trazer esta noção do cálculo das funções reais de uma
variável real, como já fizemos com limite. Mais precisamente, temos a seguinte definição.

2.2.1
Definição Seja α : I −→ Rn uma curva parametrizada. Diremos que α é derivável em
t ∈ I se existir o limite
α(t + h) − α(t)
lim .
h→0 h
Este limite, quando existe, é chamado derivada de α em t, e é denotado por α0 (t). Se esta
derivada existe em todo ponto de I, diremos que α é derivável em I.
Cálculo das Curvas Parametrizadas 61

Dados uma curva parametrizada α : I −→ Rn , e t ∈ I, temos usando as definições 1.1.5


e 1.1.6, dadas no capı́tulo 1, que

α(t + h) − α(t) 1
= (α1 (t + h) − α1 (t), α2 (t + h) − α2 (t), . . . , αn (t + h) − αn (t))
h h
α1 (t + h) − α1 (t) α2 (t + h) − α2 (t) αn (t + h) − αn (t)
=( , ,..., ),
h h h
o que, diante da definição 2.1.1, prova a seguinte proposição, bastante útil nos exercı́cios.

2.2.2
Proposição Uma curva parametrizada α : I −→ Rn é derivável em t ∈ I se, e somente se,
suas funções coordenadas são deriváveis em t, e vale a identidade:

α0 (t) = (α10 (t), α20 (t), . . . , αn0 (t)).

2.2.3
Interpretação Geométrica

Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada derivável em t ∈ I. Introduzimos aqui o


quociente de Newton de α em t, o qual indicaremos por Q, e é definido por
α(t + h) − α(t)
Q(h) = , h 6= 0, e t + h ∈ I.
h
Portanto, α0 (t) = lim Q(h), o que sugere que a visualização de Q(h), para alguns valores
h→0

lt α

z α0 (t) Q(h) 


1

p p p p p p p p p p p p pr
 
p p p p p p
6
p p p p   pppppp 
p p p p p  α(t +p ph) pppp
1
α(t)p pr
p p p p p pp
p p
p pp
 

pp p p p
I pp
r tr + h α-
pp p -
p
t pp p pp y
pp p
p
pppp
p p p p p p p p p p p p
pppp
x
Figura 44: O Vetor Tangente α0 (≈)

de h próximos do zero, facilitará a visualização do vetor α0 (t). Com efeito, na figura 44 temos o
vetor α(t+h)−α(t) e seu múltiplo Q(h). Agora é só deixar a nossa intuição trabalhar, pensando
nos valores de h se aproximando de zero. Isto ocorrendo, as retas que passam por α(t) e α(t + h)
62 Derivadas

se aproximam da reta tangente ao traço de α em α(t). Portanto, os vetores Q(h) se aproximam


de um vetor tangente, também neste ponto. Posto isto, podemos interpretar geometricamente
o vetor α0 (t) como um vetor tangente ao traço de α em α(t). Isto motiva a seguinte definição.

2.2.4
Definição Seja α : I −→ Rn uma curva parametrizada derivável em t. A derivada α0 (t) é
chamado vetor tangente de α em t. Se α0 (t) 6= 0, a reta que passa pelo ponto
α(t) e é paralela ao vetor α0 (t) é conhecida por reta tangente de α em t. Indicaremos esta reta
por lt α. Assim,

lt α = α(t) + [α0 (t)] = {X ∈ Rn ; X = α(t) + uα0 (t), u ∈ R},

conforme definição 1.3.1.

Observação O leitor com pouca experiência deve ficar atento com relação à forma como
foram indicados os pontos da reta lt α: o parâmetro que descreve seus pontos
está sendo indicado por u. O parâmetro t, da curva α, está fixo e determina um ponto e a
direção da reta.

y
2.2.5 @ 6
Exemplo Consideremos a curva parametrizada lπ/4 α @
@ I α0 (π/4)
p p p p p p p p p p pppp ppp@
p p p p p pp p p p pp
@
p p pp p p p p p p
α(t) = (a cos t, a sen t), t ∈ [0, 2π], p pp p p p p p pp p pp p
pppp pp p @ prpppα(π/4)
ppp p
p a ppp @pppp
cujo traço é o cı́rculo x2 + y 2 = a2 . Temos que ppp pp p ppp
p ppp π/4@
pppp I pp ppp @ -
pppp pp pp
α0 (t) = (−a sen t, a cos t), ppp pp @ x
pppp pp
p p p pp p p p
p pp p p
@
p p pp p p p p p p p p p
e, fixado t, a reta tangente a α em t é dada por p p p p pp p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p
p ppp ppp
Figura 45
lt α = {X = (a cos t, a sen t)+u(−a sen t, a cos t), u ∈ R}.
pppp ppppp pppp ppp pp ppp pp p p pp pp p
pp p p p p pp p p
Em particular, a reta tangente de α em t = π/4 é p p p pp p p p
ppppp
√ √ √ √ ppppp
pppp
2 2 2 2 ppp
lπ/4 α = {X = (a ,a ) + u(−a ,a ), u ∈ R}. y ppp
ppp
2 2 2 2 pp p
ppp
6
A curva parametrizada ppp β 0 (t)
α(t) ppp
pp p p p pp pp pp pppppp pppp pp pp ppppspp ppp pp 
pppppp


Hp−tα pp pp (t) pppp
0
pp H
β(t) = (a cos t + at sen t, a sen t − at cos t), t ∈ [0, 2π], ppp p p p p
pp p p p p t ppp pH
a pp 

jppsp β(t)
pp p Y pp pp H
ppsp ppppp p
pppp
é a evolvente de α. Seu vetor tangente em ponto ar- pp  p p
pp pppP
-
bitrário t é β 0 (t) = t(a cos t, a sen t), vetor que é perpen- pp
p pp pp p
x
pppp pp p
dicular a α0 (t), visto que α0 (t)·β 0 (t) = 0. Observando que ppppp pp p p p
p p pp p p p pp ppp pppppp ppp ppp ppp p p ppp p pp
kα(t) − β(t)k = at, o que coincide com o comprimento do
arco do cı́rculo ligando P a α(t), como mostra a figura 46, Figura 46: Evolvente
podemos interpretar geometricamente a evolvente da se-
guinte forma: enrole sobre o cı́rculo um cordão de modo que a extremidade livre coincida com P .
Cálculo das Curvas Parametrizadas 63

A seguir, segure P e desenrole o cordão, mantendo-o sempre esticado. A trajetória descrita por
P é exatamente o traço da evolvente. O exemplo que segue exibe um modo surpreendente de
se construir a evolvente β.

2.2.6
Exemplo A hélice circular λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, é uma curva parametrizada
derivável em R, visto que suas funções coordenadas são deriváveis. A derivada
de λ em t é
pp pppppp
λ0 (t) = (−a sen t, a cos t, b), pppp pppp z
pppp pppppppp
ppppppppp lt λ
ppppppppppp
6
pppppppppp
de acordo com a proposição 2.2.2. Portanto, a reta tan- pppppppp
pppppp
gente de λ em t é pppp
pp
ppp
p
ppp pp  λ (t)
0
lt λ = {(a cos t−ua sen t, a sen t+ua cos t, bt+ub), u ∈ R}. λ(t)ppp prpp
pppp
pp ppppp
ppppppppppprpppppppppppppppppppprpppppppα(t) ppp pp
ppppppppppppppppp ppppppppppppp y
-
A terceira coordenada de cada ponto de lt λ é da forma
z = bt + ub, a qual é nula se, e somente se, u = −t. Logo, β(t)
lt λ intercepta o plano-xy no ponto
x
(a cos t + at sen t, a sen t − at cos t, 0), Figura 47
cujas duas primeiras coordenadas são as coordenadas da evolvente β do exemplo 2.2.5, e obtemos,
portanto, outro modo de descrever a evolvente do cı́rculo.

2.2.7 [Operações com Derivadas]


Proposição Sejam α, β : I ⊂ R −→ Rn duas curvas para-
metrizadas deriváveis em t ∈ I, e h : I −→ R
também derivável em t. Então, valem as seguintes propriedades:

(i) (α + β)0 (t) = α0 (t) + β 0 (t);


(ii) (hα)0 (t) = h0 (t)α(t) + h(t)α0 (t);
(iii) (α · β)0 (t) = α0 (t) · β(t) + α(t) · β 0 (t);
(iv) (α × β)0 (t) = α0 (t) × β(t) + α(t) × β 0 (t).
Demonstração: Veremos apenas a prova de (iii). As demais ficam como exercı́cio para
o leitor. Temos que
(α · β)0 (t) = (α1 β1 + α2 β2 + · · · + αn βn )0 (t)
= (α1 β1 )0 (t) + (α2 β2 )0 (t) + · · · + (αn βn )0 (t)
= (α10 (t)β1 (t) + α1 (t)β10 (t)) + · · · + (αn0 (t)βn (t) + αn (t)βn0 (t))
= (α10 (t)β1 (t) + · · · + αn0 (t)βn (t)) + (α1 (t)β10 (t) + · · · + αn (t)βn0 (t))
= α0 (t)β(t) + α(t)β 0 (t),
onde na passagem da segunda para a terceira equação, usamos a derivada do produto de funções
reais de uma variável real. ppppppppppppppppppppp
64 Derivadas

2.2.8 [Regra da Cadeia]


Proposição Sejam α : I ⊂ R −→ Rn e σ : J ⊂ R −→ R. Suponha que
σ(J) ⊂ I. Se σ é derivável em u ∈ J e α é derivável em
t = σ(u), então a composta β = α◦σ é derivável em u, e vale β 0 (u) = (α◦σ)0 (u) = σ 0 (u)α0 (σ(u)).
Demonstração: Se α(t) = (α1 (t), α2 (t), . . . , αn (t)), então

(α ◦ σ)(u) = α(σ(u)) = (α1 (σ(u)), α2 (σ(u)), . . . , αn (σ(u))).

Aplicando a regra da cadeia a cada função coordenada de α ◦ σ, obtemos que

β 0 (u) = (α10 (σ(u))σ 0 (u), α20 (σ(u))σ 0 (u), . . . , αn0 (σ(u))σ 0 (u))
= σ 0 (u)(α10 (σ(u)), α20 (σ(u)), . . . , αn0 (σ(u)))
= σ 0 (u)α0 (σ(u)),

o que completa a prova. ppppppppppppppppppppppp

β 0 (u)


z α0 (t)
ppppppppppppppppppppppp
6 
p p p p
pp ppppp
I
r α(t) p p prp p p ppp
pp β(u)
p p
t = σ(u) @ α pp p p
pp
pp
@
@
R pp p
pp
pp
6
σ pp p pp -
y
pp p
pp p p
p
β  pp p
p p p p p p p p p p p p p p
J r pppp
x
u

Figura 48

Até aqui, estamos obtendo com sucesso vários resultados que dizem respeito às curvas
parametrizadas, simplesmente usando os análogos do cálculo das funções reais de uma variável.
Infelizmente, isto nem sempre é possı́vel: simplesmente perdemos o Teorema do Valor Médio,
como mostra o (contra-) exemplo 2.2.10 a seguir.

2.2.9 [Teorema do Valor Médio]


Teorema Seja f : [a, b] −→ R uma função contı́nua no in-
tervalo fechado [a, b] e derivável no intervalo
aberto (a, b). Então, existe c ∈ (a, b) tal que

f (b) − f (a) = f 0 (c)(b − a).


Cálculo das Curvas Parametrizadas 65

2.2.10
Exemplo Seja α : [0, 2π] −→ R2 definida por α(t) = (cos t, sen t). Se o teorema do valor
médio funcionasse para α terı́amos a existência de c ∈ (0, 2π) tal que

α(2π) − α(0) = α0 (c)(2π − 0).

Em particular, tomando a norma em ambos os membros, terı́amos 2π = 0, um absurdo.


Na realidade, ainda pensando no teorema do valor médio, ele não está totalmente perdido.
Temos uma pequena variação sua, conhecida como primeira desigualdade do valor médio, que
vale para as curvas parametrizadas.

2.2.11 [Desigualdade do Valor Médio]


Teorema Seja α : [a, b] −→ Rn uma curva para-
metrizada contı́nua em [a, b] e derivável
em (a, b). Então, existe c ∈ (a, b) tal que

kα(b) − α(a)k ≤ (b − a) kα0 (c)k .

Demonstração: Visando usar o teorema do valor médio, introduziremos uma função


real auxiliar, a saber:
f (t) = (α(b) − α(a)) · α(t), a ≤ t ≤ b.
É claro que f satisfaz as hipóteses do teorema 2.2.9 e que f 0 (t) = (α(b) − α(a)) · α0 (t). Logo,
existe c ∈ (a, b) tal que f (b) − f (a) = f 0 (c)(b − a), isto é,

(α(b) − α(a)) · α(b) − (α(b) − α(a)) · α(a) = (α(b) − α(a)) · α0 (c)(b − a),

o que pode ser reescrito como

kα(b) − α(a)k2 = (α(b) − α(a)) · α0 (c)(b − a).

Agora, aplicando a desigualdade de Cauchy-Schwarz (teorema 1.2.18) ao segundo membro desta


equação, vem que

kα(b) − α(a)k2 = (α(b) − α(a)) · α0 (c)(b − a) ≤ kα(b) − α(a)k kα0 (c)k |b − a|.

Donde segue-se o teorema. ppppppppppppppppppppp

Como aplicação desta desigualdade, temos o seguinte corolário, bastante natural neste
ponto.

2.2.12
Corolário Seja α : I ⊂ R −→ Rn uma curva parametrizada derivável em I. Então, α é
constante se, e somente se, α0 (t) = (0, 0, . . . , 0), para todo t ∈ I.
Demonstração: É claro que se α é constante, então sua derivada é nula sempre. Veja-
mos a parte que falta. Para isto, sejam a < b dois pontos de I. A desigualdade do valor médio
dá c, a < c < b, tal que
kα(b) − α(a)k ≤ (b − a) kα0 (c)k .
66 Derivadas

Como α0 é sempre nulo, vem, em particular, que kα0 (c)k = 0. Logo, kα(b) − α(a)k ≤ 0, o
que implica que kα(b) − α(a)k = 0 e, portanto, α(b) = α(a). Como a e b foram escolhidos
arbitrariamente, resulta que α é constante. pppppppppppppppppppppp

Este corolário e a proposição que segue desempenham papel fundamental no estudo da


geometria das curvas parametrizadas, como veremos na próxima seção.

2.2.13
Proposição Seja α : I ⊂ R −→ Rn uma curva parametrizada derivável em I. Então, α
tem norma constante se, e somente se, α0 (t) é perpendicular a α(t), para
todo t ∈ I. (Geometricamente, isto significa que se o traço de α está contido em uma esfera,
então o vetor tangente de α também é tangente à esfera.)
Demonstração: Suponhamos, inicialmente, que kα(t)k = c, para todo t ∈ I (isto
significa que tr α ⊂ S n−1 (c), onde S n−1 (c) = {X ∈ Rn ; kXk = c} é a esfera de raio c centrada
na origem do Rn ). Logo, kα(t)k2 = c2 . Usando o item (iii) da proposição 2.2.7, obtemos que
2α(t) · α0 (t) = 0, o que prova que α0 (t) é perpendicular a α(t).
Reciprocamente, se α0 (t) é perpendicular a α(t), então
d kα(t)k2
= 2α0 (t) · α(t) = 0.
dt
Isto implica que kα(t)k2 é constante, visto que estamos trabalhando em um intervalo. ppppppppppppppppppppp

2.2.14
Derivadas de Ordem Superior
Seja α : I ⊂ R −→ Rn uma curva parametrizada derivável no intervalo I. Posto isto,
temos uma nova curva parametrizada definida em I, a primeira derivada de α:
α0 : I −− − Rn
−→

t −−−−−→ α0 (t) = (α10 (t), α20 (t), . . . , αn0 (t)).

2.2.15
Definição Se α0 é derivável em t ∈ I, diremos que α é duas vezes derivável em t, e o vetor
α00 (t) = (α0 )0 (t) = (α100 (t), α200 (t), . . . , αn00 (t))
será chamado segunda derivada (ou vetor aceleração) de α em t. Se α00 (t) existe em todo t ∈ I,
diremos que α é duas vezes derivável em I.

As derivadas de ordem mais alta são definidas indutivamente, de modo análogo ao que se
faz para as funções reais de uma variável, isto é, a segunda derivada é a derivada da primeira
(como já definimos); a terceira derivada é a derivada da segunda... Mais precisamente, temos a
seguinte definição.
Cálculo das Curvas Parametrizadas 67

2.2.16
Definição Seja α : I ⊂ R −→ Rn uma curva parametrizada p vezes derivável em I, p ∈ N.
Se α(p) , a p-ésima derivada de α, é derivável em t, dizemos que α é (p + 1) vezes
derivável em t, e o vetor
d(p+1) α1 d(p+1) α2 d(p+1) αn
α(p+1) (t) = (α(p) )0 (t) = (
(t), (t), . . . , (t)), t ∈ I
dt(p+1) dt(p+1) dt(p+1)
é a (p + 1)-ésima derivada de α em t.

2.2.17
Exemplo Seja λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R a hélice circular. É claro que λ tem derivadas
de todas as ordens em R. Suas quatro primeiras derivadas, calculadas em um
ponto arbitrário t, são:
λ0 (t) = (−a sen t, a cos t, b)
λ00 (t) = λ(2) (t) = (λ0 )0 (t) = (−a cos t, −a sen t, 0)
λ000 (t) = λ(3) (t) = (λ00 )0 (t) = (a sen t, −a cos t, 0)
λ0000 (t) = λ(4) (t) = (λ000 )0 (t) = (a cos t, a sen t, 0).

2.2.18
Exemplo Se β(u) = (u, u2 , u3 ), u ∈ R, então β 0 (u) = (1, 2u, 3u2 ), β 00 (u) = (0, 2, 6u),
β 000 (u) = (0, 0, 6), e β (p) (u) = (0, 0, 0), para todo p > 3.

2.2.19
Interpretação Fı́sica

Seja α : I ⊂ R −→ R3 , α(t) = (α1 (t), α2 (t), α3 (t)), uma curva parametrizada, duas vezes
derivável no intervalo I. Neste ponto, passare-
mos a olhar o parâmetro de α como o tempo e o z
6
vetor α(t) como o vetor-posição de uma determi-
α0 (t)
nada partı́cula P , que se move no espaço. Neste 
p p p p p p p p p ppppppppppppppp
pp pppppp
pp ppp
0 00
caso, os vetores α (t) e α (t) recebem nomes espe- P pppprP ppp
0
ciais, a saber: o vetor tangente de α em t, α (t), é pp
3
 p p p P PP p
p

 ppp pp
q
P
chamado vetor velocidade de P no tempo t, e a se-  ppp -α (t)
00
00 p
gunda derivada de α em t, α (t), é chamada vetor pp y
p p pp p
aceleração de P em t. As normas destes vetores pp
p p p p pp
são conhecidas por velocidade escalar e aceleração p p
pppp pp
x ppp pppppppp

escalar de α (ou P ) em t, respectivamente. A ve-
locidade escalar de α em t é indicada por v(t), e
Figura 49: Movimento de uma Partı́cula
aceleração é indicada por a(t). Assim,

v(t) = kα0 (t)k e a(t) = kα00 (t)k , t ∈ I.


68 Derivadas

2.2.20 [Movimento Circular Uniforme]


Exemplo Suponha que uma partı́cula P se mova
ao longo do cı́rculo x2 + y 2 = a2 , a
partir de (a, 0), no sentido anti-horário, a uma velocidade angular constante ω rd/seg. Então,
decorridos t seg, seu vetor-posição α(t) deve fazer um
ângulo θ(t) = ωt com o eixo-x. Logo,
y
α(t) = (a cos θ(t), a sen θ(t)) = (a cos ωt, a sen ωt), t ≥ 0. 6
α0 (t)
pp p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p p ppppppppp
ppppppp
I
@
Portanto, a velocidade e aceleração de P são pppppp
ppp pp pp
@
prppP
pppp
ppp p
@
00 ppp
α0 (t) = (−aω sen ωt, aω cos ωt) ppp p a α (t)pppp ppp
pp p p ωt pp
ppp pp I p ppppr(a, 0)-
α00 (t) = (−aω 2 cos ωt, −aω 2 sen ωt). pp p
pp
6
ppp x
ppp p p
pppp p p
Donde segue-se que o movimento é central, isto é, α00 (t) p pp
ppppp
ppppppp p p p p ppp p
aponta para o centro do cı́rculo. Além disto, ppppppppppppppppppppppppppppppppppp ppppp

v(t) = kα0 (t)k = ωa


Figura 50: Movimento Circular
a(t) = kα00 (t)k = ω 2 a,

que são as conhecidas expressões da velocidade escalar e da aceleração escalar de uma partı́cula
em movimento circular uniforme.

2.2.21 [Movimento Uniforme]


Exemplo Suponhamos que uma partı́cula P , partindo do pon-
to Q = (q1 , q2 , q3 ), se mova com aceleração constante
A = (a1 , a2 , a3 ) e que, no momento de sua partida (t = 0), sua velocidade seja V = (v1 , v2 , v3 ).
O nosso objetivo agora é, a partir destas informações,
z
determinar a posição de P num instante t qualquer. In- 6
diquemos, então, por α(t) a posição de P no tempo t.
qq
Logo, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
α(0) = Q = (q1 , q2 , q3 ) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrpqqqqqqqqqqqqqqQ qq q q qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq q q q q qqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqpqqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqV
qqq qq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
α0 (0) = V = (v1 , v2 , v3 ) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrP qqpqqqqpqqqpqqqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqprqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq-
qqqqqqqqqqqqqqpqqqqpqqqpqqqpqqqqqpP
q
qq
q q qq qq qq qq qq qq q
q q qq q
q qq q
q qq q
q q q qq q q q q q q q q q q q q q q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqpqqqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
 q
α00 (t) = A = (a1 , a2 , a3 ), ∀t ≥ 0. qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqA qqqqqqqqqqqqqUqqqqqqp qα(t) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq y
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
Integrando duas vezes a terceira equação acima, vem que qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq qqqqqqq q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q q qqqqp qqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
x qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqqqqqqqqqqq
t2 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
α(t) = C1 + tC2 + A, t ≥ 0, qqq
2
onde C1 = α(0) e C2 = α0 (0). Logo, Figura 51: Movimento Uniforme

t2 t2 t2 t2
α(t) = Q + tV + A = (q1 + tv1 + a1 , q2 + tv2 + a2 , q3 + tv3 + a3 ), t ≥ 0.
2 2 2 2
Em particular, se V e A são linearmente independentes, resulta que a trajetória de P (ou o
tr α) é plana. Mais precisamente, ela é uma parábola no plano que passa por Q e é paralelo aos
vetores V e A. (O que ocorre com tal trajetória se V e A são linearmente dependentes?)
Cálculo das Curvas Parametrizadas 69

2.3
Geometria das Curvas Parametrizadas

Nesta seção, estaremos particularmente interessados em curvas parametrizadas do R3 , isto


é, em curvas parametrizadas do tipo
α : I ⊂ R −−− R3
−→

t −−−−−→ α(t) = (α1 (t), α2 (t), α3 (t)).
As curvas parametrizadas do R2 serão consideradas, de modo natural, imersas em R3 : uma
dupla β(t) = (β1 (t), β2 (t)) será identificada com a tripla (β1 (t), β2 (t), 0).

2.3.1 [Curva Regular]


Definição Uma curva parametrizada derivável α : I −→ Rn é dita regular
se sua derivada é sempre não-nula, isto é, α0 (t) 6= (0, 0, . . . , 0),
para todo t ∈ I. (Note que isto é o mesmo que pedir que v(t) > 0, para todo t ∈ I.)

2.3.2
Definição Seja α : I −→ Rn derivável. Se t ∈ I é tal que α0 (t) = (0, 0, . . . , 0), dizemos que
t é um ponto singular de α.

2.3.3
Exemplo A curva parametrizada (cı́rculo) α(t) = (a cos t, a sen t), t ∈ R e a > 0, é regular,
posto que sua velocidade escalar v(t) = kα0 (t)k = a > 0, para todo t ∈ R.

2.3.4
= (a cos t, a sen t, bt), t ∈ I, a > 0 e b 6= 0, é regular. De
Exemplo A hélice circular λ(t) √
0 2 2
fato, v(t) = kλ (t)k = a + b , para todo t ∈ R.

2.3.5
Exemplo A ciclóide
y
α(t) = (at − a sen t, a − a cos t), t ∈ R, 6

onde a > 0, não é regular. Com efeito, sua deri-


vada em t é dada por α0 (t) = (a − a cos t, a sen t), ppppppppppppppppp ppppppppppppppppp ppppppppppppppppp ppppppppppppppppp
p ppp ppp pp ppp ppp ppp ppp ppp ppp ppp ppp
a qual se anula para t = 2kπ, onde k é um in- ppp p ppp pp pp p pp p pp
pp ppppp p pppppp
ppp
ppppp p ppp
teiro qualquer. Os pontos que correspondem a pprp prpp prp -
estes valores de t são α(2kπ) = (2kπa, 0), que (−2πa, 0) (2πa, 0) (4πa, 0) x
são exatamente os bicos (ou as cúspides) do traço
Figura 52: Pontos Singulares da Ciclóide
de α. Convém, entretanto, observar que a res-
trição de α a qualquer intervalo aberto da forma
(2kπ, 2(k + 1)π) é regular.
70 Geometria das Curvas Parametrizadas

2.3.6 y
6
Exemplo A parábola semi-cúbica ppppppp pp ppp
pppppp
pppppp p p p p pppp pp
pppppp p
α(t) = (t3 , t2 ), t ∈ R, ppppp
ppppp
ppppp p p p ppp pp
pppp pp
pppp ppppppp
tem apenas um ponto singular, a saber t = 0, ppp pppp
ppppp
visto que sua derivada, α0 (t) = (2t, 3t2 ) se anula pr -
(0, 0) x
apenas aı́. Isto indica a presença de uma cúspide
no ponto α(0) = (0, 0), como mostra a figura 53. Figura 53: Parábola Semi-cúbica

2.3.7
Exemplo A curva parametrizada
α : R −− − R3
−→
− z
t −−−−−→ α(t) = (t, t2 , t3 )
6

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
é regular, o que resulta de uma simples observação
qppqr(1,
qqqqqqqqqqq1, 1)
da primeira coordenada de: α0 (t) = (1, 2t, 3t2 ). qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqpqqqqqqqqpqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqq qqqpqqqp qqqqqqqqqqqqqqq
A figura 54 mostra o traço de α para t variando qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqpqpqqqqqpqqqqppqqqqpqqqqqq p qqppqqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qpqqqqq
qqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppppqqqppqqqqppqqqpqppqpqqq qpqpqqpqqqqqqpqqpqqqqqqqqppqqqppqqqppqqqqqqp qqqpqqqqpqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
no intervalo [−1, 1]. Os cubos esboçados servem qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqpqqqqpqqpqqqqqppqqqqqpqqqqqpqqqqqpqqqqqpqqqqqpqqqqqqqqpqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq y
qqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqqqqqqqqq qqppqppqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqpqqqpqqqqqqqppqqqpqqqpqqqqpqqqqqqq
para destacar um pouco mais a beleza da curva.
Como exercı́cio, o leitor está convidado a esboçar qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpr(−1, 1, −1)
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq

x qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
as projeções de α nos planos coordenados: no
plano-xy, temos a parábola y = x2 ; no plano-xz Figura 54
aparece a cúbica z = x3 ; e no plano-yz, re-obte-
mos a parábola semi-cúbica do exemplo 2.3.6.

2.3.8
Curvatura e Torção

Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular, três vezes derivável em I. Como α


é regular, seu vetor tangente, em qualquer ponto, é não-nulo. Logo, podemos tomar o vetor
unitário em sua direção (veja proposição 1.2.6, item (iii)), o que produz a seguinte definição.

2.3.9
Definição Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular. Dado t ∈ I, o vetor

α0 (t) α0 (t)
T (t) = =
kα0 (t)k v(t)

é chamado vetor tangente unitário de α em t.


Cálculo das Curvas Parametrizadas 71

Visando motivar a noção de curvatura de uma curva parametrizada regular, consideremos


a reta que passa pelo ponto P e é paralela ao vetor V , parametrizada por
γ(t) = P + tV, t ∈ R.
É claro que γ 0 (t) é constante e coincide com V . Logo, seu vetor tangente unitário também
é constante: T (t) = V / kV k. Portanto, T 0 é um vetor identicamente nulo. Em particular,
kT 0 (t)k = 0, ao longo de R. Geometricamente, isto significa que γ não se curva, o que já
sabı́amos, pois γ descreve uma reta. Portanto, se α é uma curva parametrizada regular qualquer,
é razoável se esperar que o número kT 0 (t)k indique o quanto o seu traço deixa de ser retilı́neo
perto de α(t). De fato, como T tem norma constante, o vetor T 0 indica apenas a mudança
de direção de T . Portanto, kT 0 k serve para medir esta variação. Por razões teóricas, o bom
número para fazer esta medida é kT 0 (t)k /v(t), que para a reta γ é identicamente nulo. Mais
precisamente, temos a noção de curvatura, definida como segue.

2.3.10
Definição Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular. Dado t ∈ I, o número
kT 0 (t)k kT 0 (t)k
κ(t) = =
kα0 (t)k v(t)
é chamado curvatura de α em t.

2.3.11
Exemplo Consideremos o cı́rculo α(t) = (x0 + a cos t, y0 + a sen t), t ∈ R, de raio a e
centro C = (x0 , y0 ), como no exemplo 1.4.4. Temos que α0 (t) = (−a sen t, a cos t)
e v(t) = a. Logo,
α0 (t) (−a sen t, a cos t)
T (t) = = = (− sen t, cos t), t ∈ R.
v(t) a
Donde T 0 (t) = (− cos t, − sen t) e, portanto,
kT 0 (t)k k(− sen t, − cos t)k 1
κ(t) = = = ,
v(t) a a
resultado que fortalece o conteúdo geométrico da noção de curvatura: um cı́rculo se curva
igualmente, de modo inversamente proporcional ao seu raio, em todos os seus pontos, devido a
homogeneidade de sua forma geométrica.

2.3.12
Exemplo Calculemos, agora, a curvatura da hélice circular λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R.
Uma computação direta dá que
λ0 (t) = (−a sen t, a cos t, b)

v(t) = kλ0 (t)k = a2 + b2
a sen t a cos t b
T (t) = (− √ ,√ ,√ )
2
a +b 2 2
a +b 2 a + b2
2

a cos t a sen t
T 0 (t) = (− √ , −√ , 0).
a2 + b 2 a2 + b 2
72 Geometria das Curvas Parametrizadas

Logo,
a
√ 0
kT (t)k 2 2 a
κ(t) = = √a + b = 2 .
v(t) a2 + b 2 a + b2
Portanto, a hélice circular também tem curvatura constante. Entretanto, os nosso olhos (veja
a figura 1.5.15 ou a figura 47) percebem uma grande diferença entre a hélice e o cı́rculo. Esta
diferença será detectada por um novo elemento geométrico das curvas parametrizadas, a torção,
que será definida posteriormente. Antecipamos que esta nova noção servirá para indicar o quanto
o traço da curva deixa de ser plano.

2.3.13
Exemplo Retomemos a curva parametrizada do √exemplo 2.3.7: α(t) = (t, t2 , t3 ), t ∈ R.
0 2 2 4
Temos que α (t) = (1, 2t, 3t ) e v(t) = 1 + 4t + 9t . Portanto,

1 2t 3t2
T (t) = ( √ ,√ ,√ ).
1 + 4t2 + 9t4 1 + 4t2 + 9t4 1 + 4t2 + 9t4
Este exemplo mostra que nem sempre o cálculo da curvatura é tão simples como nos dois
exemplos anteriores. A dificuldade aqui é que o cálculo (com as mãos) de T 0 (t) é relativamente
trabalhoso (não impossı́vel). De qualquer forma, ele motiva a busca de um modo mais suave para
o cálculo de κ, notadamente nos casos onde a tarefa para o cálculo de T 0 é árdua. Felizmente,
existe um modo de evitar esta dificuldade, como veremos na proposição 2.3.23. O cálculo de κ
para α será, portanto, transferido para um momento oportuno.
A partir deste ponto, nesta seção, a menos que
se diga explicitamente o contrário, trabalharemos com z
3
uma curva parametrizada regular α : I ⊂ R −→ R três 6
B
vezes derivável no intervalo I. Admitiremos, também,
α(t)pppprppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp

que a curvatura de α, κ, é sempre positiva em I ou, T  ppp
pp pppp
pppp p
p p
0
equivalentemente, que o vetor T (t) é sempre não-nulo p

p p
)
 p J
ppp
0
α (t) 
p
p
)

ao longo de I. A primeira construção relevante que re- p p p J^ J N
ppp p pp J -
p
sulta destes fatos é o vetor normal unitário de α. De pp pp pp J y
J^
fato, como T (t) · T (t) = 1, para todo t ∈ I, obtemos, p p T 0 (t)
usando a proposição 2.2.13, que T 0 (t) · T (t) = 0. Como
T 0 (t) 6= (0, 0, 0), vem que T 0 (t) é um vetor não-nulo per- x
pendicular a T (t), t ∈ I. O vetor normal unitário de α Figura 55: Triedro de Frenet
surge agora. {T, N, B}

2.3.14
Definição Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular com κ(t) > 0, para todo
t ∈ I. Dado t ∈ I, o vetor

T 0 (t)
N (t) =
kT 0 (t)k

é chamado vetor normal unitário de α em t.


Cálculo das Curvas Parametrizadas 73

De posse de T e N , é bastante natural a construção de B, o vetor binormal de α, o qual


é definido como segue.

2.3.15
Definição Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular com v(t) > 0, para todo
t ∈ I. Dado t ∈ I, o vetor unitário
B(t) = T (t) × N (t)
é chamado vetor binormal de α em t.

Agora temos uma base ortonormal, variando com t, ao longo de α, a saber:


{T (t), N (t), B(t)}, t ∈ I.
Esta famı́lia de bases é conhecida como triedro (ou referencial) de Frenet de α.

2.3.16
Exemplo No exemplo 2.3.11 vimos que, para o cı́rculo α(t) = (x0 + a cos t, y0 + a sen t),
t ∈ R, valem
v(t) = a
T (t) = (− sen t, cos t)
κ(t) = 1/a.
Logo, T 0 (t) = (− cos t, − sen t) e, portanto, N (t) = T 0 (t) = (− cos t, − sen t), visto que T 0 (t) é
unitário. Considerando α imergindo no R3 , com a terceira coordenada nula, teremos

e1 e 2 e3


B(t) = T (t) × N (t) = − sen t cos t 0 = (0, 0, 1) = e3 .
− cos t − sen t 0

2.3.17
Exemplo O vetor tangente unitário da hélice circular λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, é,
conforme exemplo 2.3.12, dado por
a sen t a cos t b
T (t) = (− √ ,√ ,√ ),
a2 + b 2 a2 + b 2 a2 + b 2
Portanto,
a cos t a sen t
0 (− √ , −√ , 0)
T (t) a2 + b 2 a2 + b 2
N (t) = = a = (− cos t, − sen t, 0)
kT 0 (t)k √
a2 + b2
e
e1 e 2 e 3

1 −a sen t a cos t b = √ 1

B(t) = T (t) × N (t) = √ (b sen t, −b cos t, a).
a2 + b2 − cos t − sen t 0 a2 + b 2
74 Geometria das Curvas Parametrizadas

Vale notar aqui que derivando o vetor binormal, obtemos como resultado um múltiplo de N .
De fato,

1 b b
B 0 (t) = √ (b cos t, b sen t, 0) = − √ (− cos t, − sen t, 0) = − √ N (t). (¶11 )
a2 + b 2 a2 + b 2 a2 + b 2

No exemplo anterior percebemos que o vetor B 0 era um múltiplo do vetor N . Esta propri-
edade, que traz consigo outra propriedade geométrica das curvas parametrizadas –a torção–, não
é uma simples coincidência daquele exemplo. Na realidade, ela deve ser satisfeita por qualquer
curva parametrizada que cumpra a condição que estamos admitindo até aqui: κ sempre positiva.

2.3.18
Proposição Se α : I −→ R3 é uma curva parametrizada com κ > 0 e triedro de Frenet
{T, N, B}, então B 0 (t) = η(t)N (t), para alguma η : I −→ R derivável em I.
Demonstração: Começamos observando que B 0
é perpendicular a T . Com efeito, derivando B · T = 0,
B(t)
vem que 6
B 0 · T + B · T 0 = 0. (¶12 )
B 0 (t) r
Mas T 0 é paralelo a N . Logo, B ·T 0 = 0, o que substituı́do -
em (¶12 ) dá que B 0 · T = 0. Para finalizar a prova, α(t) N (t)
basta observar que B 0 é perpendicular a B, posto que B T (t)
tem norma constante, de acordo com a proposição 2.2.13.
Figura 56
Portanto, só resta para B 0 ser paralelo ao vetor N , isto é,
B 0 (t) = η(t)N (t). Que η é derivável, segue-se de η(t) =
B 0 (t) · N (t). pppppppppppppppppppppp

Agora podemos definir a torção de uma curva parametrizada com curvatura positiva.

2.3.19
Definição Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular com κ(t) > 0 em I. Dado
t ∈ I, o número

η(t) η(t)
τ (t) = 0 = ,
kα (t)k v(t)

onde η é a função construı́da na proposição 2.3.18, é chamado torção de α em t.

2.3.20
Exemplo Retornando ao exemplo 2.3.16, onde calculamos o triedro de Frenet do cı́rculo
α(t) = (x0 + a cos t, y0 + a sen t, 0), t ∈ R, vemos que o vetor binormal desta
curva parametrizada é constante: B(t) = (0, 0, 1), vetor normal ao plano-xy, plano que contém
o tr α. Logo, B 0 (t) = (0, 0, 0), para todo t ∈ R. Portanto, η(t) = 0, o que implica que
τ (t) = η(t)/v(t) = 0/a = 0.
Cálculo das Curvas Parametrizadas 75

2.3.21
Exemplo Para calcular a torção da hélice circular λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, simples-
mente usamos a equação (¶11 ) do exemplo 2.3.17:
b
B 0 (t) = − √ N (t), t ∈ R.
a2 + b2

Esta equação mostra que η(t) = −b/ a2 + b2 . Logo,
b
−√
2 2 b
τ (t) = η(t)/v(t) = √ a + b = − 2 .
a2 + b 2 a + b2

A seguir apresentaremos um teorema fundamental para o estudo das curvas parametriza-


das, o qual contém as três equações conhecidas como equações de Frenet.

2.3.22 [Equações de Frenet]


Teorema Seja α : I ⊂ R −→ R3 uma curva parametrizada re-
gular com curvatura κ(t) > 0, para todo t ∈ I. Se
{T,N,B} é o triedro de Frenet de α e τ é a torção de α, então valem as seguintes equações:

(i) T 0 (t) = κ(t)v(t)N (t), t ∈ R;


(ii) N 0 (t) = − κ(t)v(t)T (t) − τ (t)v(t)B(t), t ∈ R;
(iii) B 0 (t) = τ (t)v(t)N (t), t ∈ R;
Demonstração: As primeira e terceira equações decorrem diretamente das definições
de curvatura e torção, respectivamente. A equação (ii) merece uma atenção especial. Vejamos
sua prova.
De kN k = 1 vem que N 0 é perpendicular a N .
Logo, N 0 deve ser uma combinação linear dos vetores
ortonormais T e B. Isto posto, resulta que N (t)
T (t)
N 0 (t) = a(t)T (t) + b(t)B(t), t ∈ I,
6


onde a(t) = N 0 (t) · T (t) e b(t) = N 0 (t) · B(t). Derivando α(t) r -B(t)
HH
N · T = 0 e N · B = 0, obtemos, respectivamente, que H a(t)
HH
N 0 · T = −N · T 0 e N 0 · B = −N · B 0 . Logo,
j
b(t) N 0 (t)
a = N 0 · T = −N · T 0 = −N · κ vN = − κ v
Figura 57
e
b = N 0 · B = −N · B 0 = −N · τ vN = −τ v,
onde foram usadas as equações (i) e (iii). Donde segue-se a segunda equação de Frenet, e termina
o teorema. ppppppppppppppppppppp

Pronto! Agora já temos condições de obter uma fórmula que permite o cálculo da curva-
tura, para os casos onde o cálculo de T 0 não é simples, conforme comentamos no exemplo 2.3.13.
76 Geometria das Curvas Parametrizadas

Na realidade, temos um pouco mais do que isto: temos um conjunto de fórmulas que dão um
modo alternativo eficiente para o cálculo do aparato de Frenet, {κ, τ, T, N, B}, de uma curva
parametrizada regular α.

2.3.23
Teorema Seja α : I ⊂ R −→ R3 uma curva parametrizada regular com aparato de Frenet
{κ, τ, T, N, B} . Temos as seguintes fórmulas:

Fórmulas Úteis

α0 (t)
v(t) = kα0 (t)k (1) T (t) = (2)
v(t)

α0 (t) × α00 (t)


B(t) = (3) N (t) = B(t) × T (t) (4)
kα0 (t) × α00 (t)k

kα0 (t) × α00 (t)k (α0 (t) × α00 (t)) · α000 (t)
κ(t) = (5) τ (t) = − (6).
v 3 (t) kα0 (t) × α00 (t)k2

Demonstração: Tudo começa com α0 (t) = v(t)T (t), ou α0 = vT . Derivando esta


expressão, e usando a primeira equação de Frenet, temos que
dv dv
α00 = T + vT 0 = T + κ v 2 N, (¶13 )
dt dt
a qual, quando derivada, produz
d2 v
000 dv 0 d(κ v 2 )
α = 2T + T + N + κ v2N 0.
dt dt dt
Agora, usando a segunda equação de Frenet, esta última equação fica:
d2 v dv d(κ v 2 )
α000 = ( − κ2 3
v )T + (κ v + )N − κ τ v 3 B. (¶14 )
dt2 dt dt
Das equações (¶13 ) e (¶14 ) resultam, naturalmente, as fórmulas de (1) a (6). De fato,
dv
α0 × α00 = vT × (
T + κ v 2 N ) = κ v 3 B,
dt
pois T × T = O e T × N = B. Donde, kα0 × α00 k = κ v 3 ,
α0 × α00 α0 × α00
B(t) = = ,
κ v3 kα0 × α00 k
e as fórmulas (3) e (5) vêm. Para obter a fórmula (6), calculamos o produto misto (α0 × α00 ) · α000 .
Temos
d2 v dv d(κ v 2 )
(α0 × α00 ) · α000 = κ v 3 B · ( 2 T − κ2 v 3 )T + (κ v + )N − κ τ v 3 B) = − κ2 τ v 6 = −(κ v 3 )2 τ.
dt dt dt
Portanto,
(α0 × α00 ) · α000 (α0 × α00 ) · α000 pppppppppp
p p
τ =− = − 2 . pppppppppp
(κ v 3 )2 kα0 × α00 k
Cálculo das Curvas Parametrizadas 77

2.3.24
Exemplo Usaremos as fórmulas úteis para calcular o aparato de Frenet da curva parame-
trizada do exemplo 2.3.13: α(t) = (t, t2 , t3 ), t ∈ R. Cálculos simples mostram
que
α0 (t) = (1, 2t, 3t2 ), α00 (t) = (0, 2, 6t) e α000 (t) = (0, 0, 6).
Segue-se, então, que

v(t) = 1 + 4t2 + 9t4
α0 (t) × α00 (t) = 2(3t2 , −3t, 1)

kα0 (t) × α00 (t)k = 2 1 + 9t2 + 9t4 .
Portanto,
1
T (t) = √ (1, 2t, 3t2 )
2
1 + 4t + 9t4

1
B(t) = √ (3t2 , −3t, 1)
2
1 + 9t + 9t4

1
N (t) = √ √ (−9t3 − 2t, 1 − 9t4 , 6t3 + 3t)
2 4 2
1 + 4t + 9t 1 + 9t + 9t4


1 + 9t2 + 9t4
κ(t) = 2
(1 + 4t2 + 9t4 )3/2
3
τ (t) = − .
1 + 9t2 + 9t4
As coordenadas do vetor α00 com relação aos vetores T e N que aparecem na equação (¶13 )
recebem nomes especiais na Fı́sica.

2.3.25
Definição Dada uma curva parametrizada α : I −→ R3 com κ(t) > 0, as funções
dv
(t) e aN (t) = κ(t)v 2 (t)
aT (t) =
dt
são chamadas componente tangencial e componente normal da aceleração de α, respectivamente.

2.3.26
Exemplo Para a hélice circular λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, temos que
√ a
v(t) = a2 + b2 e κ(t) = .
a + b2 2

Logo, as componentes tangencial e normal da aceleração de λ são



dv d a2 +b2
aT (t) = dt
(t) = dt
(t) =0
a
aN (t) = κ(t)v 2 (t) = (a2 + b2 ) = a.
a + b2
2
78 Geometria das Curvas Parametrizadas

2.3.27
Curvas Planas

Seja π ⊂ R3 o plano passando pelo ponto P = (x0 , y0 , z0 ), tendo como vetor normal o
vetor Nπ = (a, b, c). Portanto, sua equação cartesiana é:

π = {X ∈ R3 ; (X − P ) · Nπ = 0},

ou, usando coordenadas,

π = {X = (x, y, z); ax + by + cz = d}, (¶15 )

onde d = ax0 + by0 + cz0 . Em resumo, um ponto X do R3 pertence ao plano π se, e somente se,
(X − P ) · Nπ = 0.

2.3.28
Definição Uma curva parametrizada α : I −→ R3 é dita plana se o seu traço está contido
em algum plano do R3 . Em outras palavras, existem um ponto P e um vetor
não-nulo Nπ tais que (α(t) − P ) · Nπ = 0.

2.3.29
Exemplo A curva parametrizada α(t) = (t, t2 + 1, 1 − t), t ∈ R, é plana. A idéia para
perceber isto é tentar descobrir uma equação similar à equação (¶15 ), onde

x = t, y = t2 + 1, e z = 1 − t.

Assim, por uma simples inspeção das coordenadas de α,


z
vemos que x + z = 1, isto é, 6

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqpqqqqqqpqpqqpqqpqqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
α1 (t) + α3 (t) = 1 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqpqqqqqpqqqqpqqqpqqqqpqqqqqqqqpqqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
e, portanto, o traço de α está contido no plano π dado Nπ qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
AK qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
por A qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqpqpqqqqqqqpqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
π = {X = (x, y, z); x + z = 1} Arqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqpqqqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq y
P
que passa, por exemplo, por P = (1, 0, 0) e é perpendicu-

lar ao vetor Nπ = (1, 0, 1). Para visualizar o traço de α, x
note que ele também está contido no cilindro parabólico Figura 58
2
y = x + 1. Como mais uma aplicação do teorema 2.3.23,
calcularemos o aparato de Frenet para esta curva para-
metrizada, que é regular, visto que α10 (t) = 1, t ∈ R.
Temos que
α0 (t) = (1, 2t, −1), α00 (t) = (0, 2, 0), e α000 (t) = (0, 0, 0).
Logo, √
v(t) = 2 + 4t2 , α0 (t) × α00 (t) = (2, 0, 2), e (α0 (t) × α00 (t)) · α000 (t) = 0.
Cálculo das Curvas Parametrizadas 79

Donde
α0 (t) 1
T (t) = =√ √ (1, 2t, −1)
v(t) 2 1 + 2t2

α0 (t) × α00 (t) 2
B(t) = 0 00 = (1, 0, 1)
kα (t) × α (t)k 2
1
N (t) = B(t) × T (t) = √ (−t, 1, t)
1 + 2t2
kα0 (t) × α00 (t)k 1
κ(t) = 3 =
v (t) (1 + 2t2 )3/2
(α0 (t) × α00 (t)) · α000
τ (t) = − 2 = 0.
kα0 (t) × α00 (t)k
Vale notar, neste exemplo, que o vetor binormal de α é paralelo ao vetor normal do plano π:
Nπ = (1, 0, 1). Este fato, poderia, também, ser usado para o cálculo da torção de α. De fato,
como B é um vetor constante, vem que B 0 (t) = (0, 0, 0). Logo, τ (t) = 0, de acordo com a terceira
equação de Frenet (teorema 2.3.22). O teorema que segue generaliza os fatos aqui observados
para uma curva parametrizada regular plana com κ > 0.

2.3.30
Teorema Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular com κ(t) > 0 ao longo de I.
α é plana se, e somente se, sua torção é identicamente nula em I.
Demonstração: Temos duas coisas para fazer: se α é plana, então τ (t) = 0, sempre;
reciprocamente, se τ (t) = 0, para todo t ∈ I, então a α é plana. Vejamos a primeira tarefa.
Temos que existem P e Nπ 6= (0, 0, 0) tais que
z
(α(t) − P ) · Nπ = 0, ∀t ∈ I. 6 Nπ
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qq

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqπ
Donde, por derivação com relação a t, obtemos qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqB qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q 

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
α0 · Nπ = 0. qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq q q q q q q q q q q q q qq q q q q pqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqP qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqpqqpqqpqqpqqqpqpqpqqqpqqpqqqpqqpqqpqqpqqpqqpqpqqpqqqqpqqqqpqqqpqqpqqqpqqqqqqrP pppp q qqqqqqqqqqqqqqqqT
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqqpqqqqqqpP qqqqpqpqpqpqpqqqqqP q q
Mas α0 = vT e v > 0. Logo, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqα(t) qqqqqqqqqqqqqqqqqppqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqqpqqpqqqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq y
q q q q q q q q q q q q q q q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq

T · Nπ = 0, qqN qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqqqqqqqqq p
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqq
qqqqqqqq

que produz, também por derivação, x
Figura 59
T 0 · Nπ = κ vN · Nπ = 0.

Portanto, T e N são perpendiculares ao vetor Nπ . Como {T, N, B} é, para cada t, uma base
ortonormal do R3 , vem que B(t) deve ser paralelo a Nπ . Portanto, B é um vetor constante, o que
implica τ (t) = 0, ∀t ∈ I, pela terceira equação de Frenet. Reciprocamente, se τ é identicamente
nula, vem da terceira equação de Frenet que B 0 (t) = (0, 0, 0), para todo t ∈ I. Logo, B é um
vetor constante, de acordo com o corolário 2.2.12. Agora, construı́mos a seguinte função real
80 Geometria das Curvas Parametrizadas

auxiliar:
f (t) = (α(t) − α(t0 )) · B, t ∈ I,
onde t0 ∈ I está fixo. Temos que

f 0 (t) = α0 · B = v(t)T (t) · B(t) = 0.

Isto implica que f é constante. Como f (t0 ) = 0, devemos ter f (t) = 0, para todo t, isto é,

(α(t) − α(t0 )) · B = 0, ∀t ∈ I.

Isto significa que tr α está contido no plano que passa pelo ponto P = α(t0 ) e é perpendicular
ao vetor constante B. ppppppppppppppppppppp

Como já havı́amos antecipado, de posse deste teorema, vemos que, de fato, a torção de
uma curva parametrizada serve para indicar o quanto ela deixa de ser plana.

2.3.31
Cı́rculos no Espaço

Sejam π um plano do R3 , C um ponto de π, e a um número real positivo. O subconjunto


de π dado por
S 1 (C, a) = {X ∈ π; kX − Ck = a}
é chamado cı́rculo de centro C e raio a do plano π. Fazendo um pequeno abuso de linguagem,
uma curva parametrizada α cujo traço esteja contido em S 1 (C, a) também será chamada cı́rculo,
se tr α coincide com S 1 (C, a), ou arco de cı́rculo, caso contrário.
O nosso objetivo aqui é encontrar uma descrição completa das curvas parametrizadas que
são cı́rculos (ou parte deles), a partir de sua curvatura. Observe que a torção de um cı́rculo,
como definimos acima, é nula (por quê?).
Para entender as construções que faremos no teo-
rema 2.3.34, retomamos os cálculos que fizemos para o y T (t)
cı́rculo α(t) = (x0 + a cos t, y0 + a sen t), t ∈ R. Sabe- p p p p p p pppppppppppppppppppppp@
pppppppppppp
pppppp
p
ppppp
6 I
rpppp α(t)
mos que sua curvatura é constante k(t) = 1/a e, claro, ppp p p ppp
@
p N (t) ppp
sua torção é nula. Outro fato geométrico notável neste pp ppp
pp ppp

C r
caso é que o vetor normal N (t) = (− cos t, − sen t) aponta pp a p
ppp p
ppp pp
sempre para o centro C = (x0 , y0 ). Em outras palavras, ppppp p p pp p
ppppppp pp
a reta que passa por α(t) e é paralela a N (t) contém C. pppppppppppppppppppppppppppppppp ppppp pp
Na realidade, como kα(t) − Ck = a, temos que -
x
1
C = α(t) + aN (t) = α(t) + N (t). Figura 60
κ(t)

Esta propriedade motiva a seguinte definição, para uma curva parametrizada arbitrária.
Cálculo das Curvas Parametrizadas 81

2.3.32
Definição Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada com curvatura κ positiva e vetor
normal unitário N . Dado t ∈ I, o ponto
1
C(t) = α(t) + N (t)
κ(t)

1
é chamado centro de curvatura de α em t. O número positivo ρ(t) = é chamado raio de
κ(t)
curvatura de α em t.

2.3.33
Exemplo Para a hélice λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, temos que
a
κ(t) = e N (t) = (− cos t, − sen t, 0).
a + b2
2

Logo, ρ(t) = (a2 + b2 )/a e

a2 + b 2 b2 b2
C(t) = (a cos t, a sen t, bt) + (− cos t, − sen t, 0) = (− cos t, − sen t, bt),
a a a
que descreve outra hélice. Fica como exercı́cio para o leitor esboçar λ junto com seus centros
de curvatura.
O seguinte teorema classifica completamente as curvas parametrizadas que são cı́rculos.

2.3.34
Teorema Uma curva parametrizada plana é um cı́rculo se, e somente se, sua curvatura é
uma constante positiva.
Demonstração: Inicialmente, suponhamos que α seja um cı́rculo. Logo, sua torção τ é
nula e existem C ∈ R3 e a > 0 tais que

kα(t) − Ck2 = (α(t) − C) · (α(t) − C) = a2 , ∀t ∈ I.

Derivando (e omitindo o parâmetro t), obtemos

2α0 · (α − C) = 2vT · (α − C) = 0.

Donde T · (α − C) = 0, o que implica que N é paralelo a α − C, e

T 0 · (α − C) + T · α0 = κ vN · (α − C) + T · vT = v(κ N · (α − C) + 1) = 0.

Logo, κ N · (α − C) = −1. Usando a proposição 1.2.8, vem que

| κ N · (α − C)| = κ kN k kα − Ck | cos ∠(N, α − C)| = κ a| cos ∠(N, α − C)| = 1.

Como N é paralelo a α − C, segue-se que | cos ∠(N, α − C)| = 1, e vale κ a = 1, isto é, κ = 1/a.
82 Geometria das Curvas Parametrizadas

Reciprocamente, suponhamos que α é plana e tem curvatura constante, digamos κ = κ0 .


Verificaremos, então, que α é um cı́rculo. Isto será feito, estudando seus centros de curvatura.
Mais precisamente, provaremos que α tem centro de curvatura constante. De fato, seja
1 1
C(t) = α(t) + N (t) = α(t) + N (t).
κ(t) κ0
Temos que
1 0 1
C 0 = α0 +
N = vT + (− κ0 vT − τ vB),
κ0 κ0
onde foi usada a segunda equação de Frenet. Como α é plana, vem que τ = 0. Logo,

C 0 = vT − vT = (0, 0, 0)

e, portanto, C é constante. De

1
= 1,

kα(t) − Ck =
κ0 N (t) κ0

resulta que C é o centro de α e que a = 1/ κ0 é o seu raio. ppppppppppppppppppp

2.3.35
Exemplo Seja α(t) = (5 − 5 sen t, 4 + 4 cos t, −3 cos t), t ∈ R. Uma simples observação
das segunda e terceira funções coordenadas de α mostra que α é uma curva
plana. De fato, o plano π = {(x, y, z); 3y + 4z = 12} contém o traço de α, como é fácil
ver. Logo, sua torção é identicamente nula, de acordo com o teorema 2.3.30. Temos que
α0 (t) = (−5 cos t, −4 sen t, 3 sen t). Logo, v(t) = 5 e
4 3
T (t) = (− cos t, − sen t, sen t).
5 5 z
0 6
Como o cálculo de T é bastante simples, usaremos a
definição 2.3.10 para calcular a curvatura de α:
qqqqq
qq q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqq(0,
qqqq 0, 3)
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqpqqpqqpqqpqqqpqqqpqqpqqqpqqqpqpqqpqqqpqqqpqqqqpqqqqpqqqpqqqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq q q

4 3 qq q q q q p
qqqqqqqqqqqqqqpqqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqpqpqqpqppqqqqqq

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqpqpqqqpqqqprqqqqq (0, 4, 0) -
(sen t, − cos t, cos t)
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqpqqqqqpqqqqqqpqqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqq
0
kT (t)k 5 5 1
κ(t) = = = . qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrC qp q q y
v(t) 5 5 qqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqpqpqqqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
p
qqqqqqqqqqqqqqqpqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq p
qqqqqqqqqqqpqpqqpqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqpqqpqqpqqpqqqpqqqpqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqppqqqqqqqqqqqqqqqq
O teorema 2.3.34, agora, garante que α deve ser um qqqqqqqqqqqpqqpqqpqqpqpqpqqqqqpqpqqpqqpqqpqqpqqpqqpqqpqqpqqqpqqpqqpqqpqqqpqqpqqqpqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
cı́rculo do plano π. O seu raio mede a = 1/ κ = 5. Para x qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqq
calcular o seu centro, recorremos ao centro de curvatura Figura 61
C(t), que deve independer do parâmetro t. Com efeito,

C(t) = α(t) + ρ(t)N (t)


4 3
= (5 − 5 sen t, 4 + 4 cos t, −3 cos t) + 5(sen t, − cos t, cos t)
5 5
= (5, 4, 0).
Cálculo das Curvas Parametrizadas 83

2.3.36
Comprimento de Arco

Seja α : I ⊂ R −→ R3 uma curva parametrizada com α0 contı́nua no intervalo I. Fixados


a, b ∈ I, seja
P = {a = t0 < t1 < · · · < tn−1 < tn = b}
uma partição do intervalo fechado [a, b]. Esta partição dá origem à linha poligonal

p = [α(t0 ), α(t1 )] ∪ [α(t1 ), α(t2 )] ∪ [α(t2 ), α(t3 )] ∪ · · · ∪ [α(tn−1 ), α(tn )],

z p p ppp pppppp pppp ppp r α(b)


6 α(tn−1 ) prpp pppppppp pppppp pp ppppp ppp pppp pppp
p pp
pp pp
pp
pp
ppprpp α(t2 )
p
ppppp
pp ppp pp
pp
I r r tr 2 tr n−1 r α- p ppp
pp pppp
p
-
ppp p p pp p p pp pp ppppppppppr α(t1 )
a = t0 t1 b = tn y
p prppp ppp pp pp pp p pp
pp pppp
α(a) p pppppppp p

x
Figura 62

onde [α(ti ), α(ti−1 )] indica o segmento de reta que liga α(ti ) a α(ti−1 ), para 1 ≤ i ≤ n. O
comprimento de p, que indicaremos por s(p), é dado por
n
X
s(p) = kα(t1 ) − α(t0 )k + kα(t2 ) − α(t1 )k + · · · + kα(tn ) − α(tn−1 )k = kα(ti ) − α(ti−1 )k
i=1

Para cada i, 0 ≤ i ≤ n. Aplicando o teorema 2.2.11 a cada parcela de s(p), obtemos que
n
X n
X
l(p) = kα(ti ) − α(ti−1 )k ≤ kα0 (ci )k (ti − ti−1 ),
i=1 i=1

para alguns ci , ti−1 < ci < ti , 1 ≤ i ≤ n. Agora, se tomamos P suficientemente fina, esta última
desigualdade mostra que a soma de Riemann da função real v = kα0 k, dada por
n
X
kα0 (ci )k (ti − ti−1 ),
i=1

dá uma boa aproximação para l(p) e, portanto, é também uma boa aproximação para o com-
primento de arco de α entre t = a e t = b. Diante desta exposição intuitiva, torna-se razoável a
seguinte definição.
84 Geometria das Curvas Parametrizadas

2.3.37
Definição Seja α : I −→ Rn uma curva parametrizada com α0 contı́nua no intervalo I.
Dados a, t ∈ I, o comprimento de arco de α entre a e t é definido por
Z t Z t
0
l[a,t] α = kα (u)k du = kv(u)k du .
a a

2.3.38
Exemplo O comprimento de arco do cı́rculo α : R −→ R2 , α(t) = (a cos t, a sen t), entre 0
e t é dado por
Z t Z t
l[0,t] α = v(u) du = a du = at.
0 0
Em particular, o comprimento de α entre 0 e 2π é 2πa, resultado bastante conhecido.

2.3.39
Exemplo O comprimento de arco da hélice circular λ : R −→ R3 , λ(t) = (a cos t, a sen t, bt),
entre 0 e t é dado por
Z t Z t√ √
l[0,t] λ = v(u) du = a2 + b2 du = a2 + b2 t.
0 0

Em particular, o comprimento de uma espira de λ é l[0,2π] λ = 2 a2 + b2 π.

2.3.40 [Evolvente]
Exemplo Seja α : I −→ R3 uma curva parametrizada regular duas vezes de-
rivável em I. Fixado t0 ∈ I, indiquemos por s(t) o comprimento de
arco de α entre t0 e t, isto é,
Z t Z t
s(t) = l[t0 ,t] α = v(t) dt = kα0 (t)k dt .
t0 t0

A curva parametrizada
s(t) 0
β(t) = α(t) − s(t)T (t) = α(t) − α (t), t ∈ I,
v(t)
onde T é o vetor tangente unitário de α, é chamada evolvente de α. No caso em que α é o
cı́rculo α(t) = (a cos t, a sen t), t ∈ R, e t0 = 0, temos que v(t) = a e s(t) = at. Logo,
s(t) 0
β(t) = α(t) − α (t)
v(t)
= (a cos t, a sen t) − t(−a sen t, a cos t)
= (a cos t + at sen t, a sen t − at cos t),
conforme o exemplo 2.2.5. Observe que s0 (t) = v(t). Logo,
β 0 (t) = α0 (t) − v(t)T (t) − s(t) κ(t)v(t)N (t) = −s(t) κ(t)v(t)N (t).
O que indica que as retas tangentes da evolvente são paralelas às retas normais da curva original.
2
Exercı́cios
86 Curvas Parametrizadas – Exercı́cios

2-1 Ache os pontos em que a curva parametrizada α(t) = (2t2 , 1 − t, 3 + t2 ), t ∈ R, intercepta o


plano dado por 3x − 14y + z = 10.

2-2 Verifique se α(t) = (t, 8 + 2t − t2 , t + 4), −2 ≤ t ≤ 4, é uma curva regular.

2-3 Dada α(t) = (et , t, 1), t ∈ R, esboce o traço de α no R3 juntamente com os vetores tangentes
α0 (0) e α0 (1).

2-4 Encontre a reta tangente de α em α(t0 ).

(a) α(t) = (2 cos t, 2 sen t, t), t0 = 0;


(b) α(t) = t(cos t, sen t, 1), t0 = 0;
(c) α(t) = (t, t2 , t3 ), t0 = 1;
(d) α(t) = (2t, t2 , t3 /3), t0 = 1.

2-5 Mostre que as curvas

α(t) = (et , e2t , 1 − et ) e β(t) = (sen t, 1 + cos t, 2 cos t)

interceptam-se no ponto (1, 1, 0). Ache, também, o ângulo entre suas tangentes nesse
ponto.

2-6 Seja γ = tr α, onde α(t) = (sen 2t, 2 sen2 t, 2 cos t), 0 ≤ t ≤ 2π.

(a) Mostre que γ está contida em uma esfera centrada na origem;


(b) Represente graficamente as projeções de γ sobre os planos coordenados e conclua que γ
é a interseção de um cilindro circular e de um cilindro parabólico;
(c) Calcule o vetor velocidade α0 (t) e a velocidade escalar v(t) e mostre que γ é uma curva
regular;
(d) Verifique que a projeção de α0 (t) sobre o plano z = 0 possui norma constante.

2-7 Seja α : R −→ R3 a curva dada por α(t) = (t, t2 , t3 ), t ∈ R.

(a) Se possı́vel, ache P = α(t) onde a tangente à curva dada é paralela a A = (4, 4, 3);
(b) Idem, para que a tangente seja ortogonal ao vetor A;
(c) Sendo L a reta tangente à curva dada em um ponto qualquer Q 6= α(0), considere o
ponto M (t) em que L intercepta o plano z = 0. Mostre que M (t) = (2t/3, t2 /3, 0), t 6= 0,
e que tais pontos descrevem a parábola definida por 4y = 3x2 e z = 0.

2-8 Seja λ(t) = (a cos t, a sen t, bt), t ∈ R, a > 0, b > 0. Se θ3 (t) é o ângulo entre α0 (t) e o eixo-z,
b
mostre que cos θ3 (t) = √ . Donde θ3 (t) é constante;
a2 + b 2
Curvas Parametrizadas – Exercı́cios 87

2-9 Considere a ciclóide α(t) = (at − a sen t, a − a cos t), t ∈ R. Se P = α(t) é um ponto regular
qualquer de tr α, seja Q(t) = (at, 0) o correspondente ponto de contato do cı́rculo móvel com
o eixo-x e M = (at, 2a) o ponto do cı́rculo diametralmente oposto a Q (cf. figura abaixo).
(a) Mostre que a tangente ao tr α em P passa pelo ponto M ;
(b) Conclua, usando o fato, conhecido da Geometria Euclidiana, que todo triângulo inscrito
em um semicı́rculo é retângulo, que a normal ao tr α em P passa pelo ponto Q;
(c) Calcule o comprimento do arco de cı́rculo P M .
y
6 Mq tr α
P q

t
a
q -
Q x

2-10 Seja α : I −→ Rn duas vezes derivável no intervalo I de R. Mostre que:


(a) α é constante ⇐⇒ α0 (t) = 0 em I ⇐⇒ v(t) = 0 em I;
(b) α00 (t) ⊥ α0 (t) em I ⇐⇒ v(t) é constante em I;
(c) α00 (t) = 0 em I ⇐⇒ α é uma reta do Rn .
2-11 Sejam f, g : R −→ R duas funções de classe C ∞ , com f > 0. Defina α : R −→ R3 por
Z t Z t Z t
α(t) = ( f (u) sen(u) du, f (u) cos(u) du, f (u)g(u) du).
a a a

(a) Mostre que a curvatura e a torção de α são dadas por:


s
2
1 1 + g 2 (t) + g 0 (t) 1 g(t) + g 00 (t)
κ(t) = e τ (t) = .
f (t) (1 + g 2 (t))3 f (t) 1 + g 2 (t) + g 0 2 (t)

(b) Obtenha uma condição necessária e suficiente para que α seja uma curva plana;
(c) Exiba uma tal α que seja plana.
2-12 Determine o triedro de Frenet, a curvatura, o raio de curvatura, o centro de curvatura, a
torção e as componentes tangencial e normal da aceleração em um ponto qualquer das curvas
abaixo.
(a)α(t) = (2t, t2 , t3 /3);
(b)α(t) = (3t − t3 , 3t2 , 3t + t3 );
(c)α(t) = et (cos t, sen t, 1);

(d)α(t) = (et , e−t , t 2).
4 3
2-13 Seja α(t) = ( cos 5t, − sen 5t, − cos 5t), t ∈ R. Mostre que o traço de α é um cı́rculo.
5 5
Ache seu centro, seu raio e o plano que o contém.
88 Curvas Parametrizadas – Exercı́cios

2-14 Seja α(t) = (cos t, sen t, 1 − sen t), t ∈ R.


(a) Mostre que o traço de α está contido no cilindro x2 + y 2 = 1;
(b) Obtenha o triedro de Frenet, a curvatura e a torção de α;
(c) Conclua que α é uma curva plana e determine o plano que a contém;
(d) Segue-se de (a) e (c) que α é uma elipse. Ache o centro, os semi-eixos e os focos de α;
(e) Em que pontos de α a curvatura é máxima? mı́nima?
2-15 A posição de um ponto móvel do plano é dada por α(t) = (t, a cos ωt), t ≥ 0, onde a e
ω = 2π/L são constantes positivas. Encontre, no ponto α(L/2), as componentes tangencial
e normal da aceleração.
2-16 Um ponto material desloca-se ao longo da trajetória elı́tica parametrizada por
~r = ~r(t) = (a cos ωt)~ı − (b sen ωt)~, t ∈ R.
Mostre que a aceleração desse movimento é central e que seu módulo é proporcional à
distância da origem ao ponto móvel.
2-17 Um automóvel viaja com velocidade (escalar) constante numa curva de raio 1km de uma
auto-estrada. Se a componente normal da aceleração não pode exceder 1, 2m/s2 , determine
a máxima velocidade possı́vel.
2-18 Suponha que um alvo se desloca com velocidade escalar constante v > 0 ao longo da cir-
cunferência x2 + y 2 = a2 , partindo de (a, 0) no sentido anti-horário. Ao mesmo tempo, um
mı́ssil, também com velocidade escalar v, persegue o alvo, partindo do centro C = (0, 0),
mantendo-se sempre entre o centro e o alvo.
(a) Seja A(t) a posição do alvo no tempo t ≥ 0. Mostre que A(t) = (a cos ωt, a sen ωt),
ω = v/a;
(b) Observando que e a posição do mı́ssil é dada por M (t) = λ(t)A(t), com 0 ≤ λ(t) ≤ 1, e
que kM 0 (t)k = v, mostre que o mı́ssil atingirá o alvo no ponto (0, a);
(c) O que ocorrerá se a velocidade do mı́ssil é menor (maior) do que v?
2-19 (Mantenha as notações do exemplo 2.2.21.) Supondo desprezı́vel a resistência do ar e cons-
tante a aceleração ð da gravidade, seja A = (0, −g) = α00 (t), em relação ao referencial plano
indicado abaixo.
(a) Se Q = α(0) = (0, h), h > 0, e V = α0 (0) = (0, v0 ), v0 > 0, então
1
α(t) = (0, h + v0 t − gt2 ), t ≥ 0,
2
descreve a posição de uma partı́cula lançada verticalmente, de baixo para cima, com
velocidade escalar inicial v0 ;
y
6
y
6
V ppppppp ppppppppppppppppppppppppppppp
v2 pppppp ppppppp
p p p ppppp
p p p
 pppp ppppp
pppp
ð p p p p pppp
qQ
6
p pp p
pp p p p ppppp θ pppp
ppp -
h pp p
?
-
x v1 x
Curvas Parametrizadas – Exercı́cios 89

(b) Se Q = α(0) = (0, 0) e V = α0 (0) = (v1 , v2 ), v1 6= 0, v2 6= 0, então

1
α(t) = (v1 t, v2 t − gt2 ), t ≥ 0,
2
é a equação da posição de um projétil no plano-xy, lançado da origem com velocidade
V . Seja θ o ângulo entre V e o x-eixo, e v0 = kV k. Temos v1 = v0 cos θ e v2 = v0 sen θ.
Donde
1
α(t) = ((v0 cos θ)t, (v0 sen θ)t − gt2 ), t ≥ 0;
2
2
(c) Se a trajetória de um ponto é a parábola y = ax + bx + c, na qual o vetor velocidade
V (t) = (vx , vy ) possui a componente horizontal vx constante, mostre que a aceleração é
constante.
2-20 Como no exemplo 2.2.21, sejam Q = α(0) = (−4, −4, 0), V = α0 (0) = (1, −1, −1) e
A = (2, 2, 0).
(a) Mostre que α(t) = (−4 + t + t2 , −4 − t + t2 , −t), t ≥ 0;
(b) Considere a base ortogonal B1 = {u1 , u2 , u3 } do R3 , onde

u1 = (1, −1, −1), u2 = (−1, −1, 0) e u3 = (−1, 1, −2).

Seja P a matriz de passagem de B1 para a base canônica. Use a relação X1 = P X,


com X1 = (x1 , y1 , z1 ) e X = (x, y, z), para mostrar que, na base B1 , α(t) se escreve
X1 (t) = (t, 4 − t2 , 0), t ≥ 0. Conclua que α é um arco de parábola contido no plano
x − y + 2z = 0.
2-21 Considere o movimento do projétil do exercı́cio 2-19 (b). Mostre que:
(a) O raio de curvatura de α na origem vale ρ0 = v02 /(g cos θ);
(b) O raio de curvatura de α é mı́nimo no ponto mais alto da trajetória parabólica e vale
ρmin = v02 cos2 θ/g;
(c) Em um ponto qualquer, onde φ é o ângulo entre a tangente e o x-eixo, o raio de curvatura
é igual a ρ = ρmin / cos3 φ.
2-22 Seja α : I ⊂ R −→ R3 uma curva regular com κ > 0. A curva parametrizada α∗ (t) = C(t),
t ∈ I, onde C(t) é centro de curvatura de α em t, é chamada curva central de α.
(a) Dados a, b ∈ R, a > 0, ponha

αab : R −− − R3
−→

t −−−−−→ αab (t) = (a cos t, a sen t, bt).

Mostre que αab = αab , onde a = −b2 /a;
∗ ∗
(b) Conclua que (αab ) = αab ;
(c) Interprete geometricamente o caso b = 0;
(d) A curva central de curva α com κ > 0 é constante se, e somente se, o traço de α está
contido em um cı́rculo.
90 Curvas Parametrizadas – Exercı́cios

2-23 Calcule o comprimento de arco de α entre a e b, onde α, a e b são como abaixo.


(a) α(t) = (cos t, sen t, t), a = 0 e b = π;
(b) α(t) = (t − sen t, 1 − cos t), a = 0 e b = 2π;
(c) α(t) = et (cos t, sen t, 1), a = 0 e b = log 3;
(d) α(t) = (2t, t2 , t3 /3), a = 0 e b = 1;
2-24 Em um plano vertical, considere um trilho de forma cicloidal,

x = aθ(t) − a sen θ(t), e y = a − a cos θ(t),

sobre o qual pode deslizar uma pequena esfera de massa m, sem atrito apreciável, abando-
nada da origem com velocidade inicial nula.
(a) Numa posição genérica P , usando a conservação da energia mecânica, mostre p que
mg2a = mgh + 21 mv 2 , onde h = 2a − y. Conclua que θ0 (t)2 = g/a, donde θ(t) = g/at.
p
Segue que o perı́odo T das oscilações da esfera ao longo do trilho é T = 2π a/g.

ppp x
r πa
r 2πa
ppp p ppr -x
p pp p
p pp p p pp
pp p p y pp p p p
p pp p p p p pp p
ppp p p p
ppppp p p p p p p p p ppp
prp pP
ppppppp pppppp
ppppppppp
p p p p p p p p p p ppppppp
2a h p p p p p p p p p ppppppppppppppppppp
r pppppppp p
? y B

Observe que nenhuma aproximação angular foi usada. O mesmo argumento anterior
mostra que T não depende da posição inicial da esfera sobre a ciclóide.
(b) Considere, a seguir, um trilho retilı́neo, ligando os pontos O e B, no qual a mesma esfera
desliza sem atrito. Mostre
p que o tempo T1 usado no percurso retilı́neo OB é maior do
que o tempo T2 = π a/g ao longo da ciclóide, verificando que

T22 π
2 =
√ < 1.
T1 2
π +4
(Mais precisamente, pode ser provado que, dentre as curvas regulares que ligam O a B,
é a ciclóide que realiza o tempo mı́nimo de percurso, nas condições do enunciado. Isto
posto, qual o melhor perfil para um tobogã?)
3
Funções Contı́nuas

xn R n x m Rm
6 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqqq
6
D f (X)
q q q q q q q q q q q q q q q q q q q q q q q q q qq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqX qqqqrqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqL qqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq - f
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq - -
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq x1 xm−1
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq x1

qqqqqqq

∀ > 0, ∃δ > 0 : X ∈ D, 0 < ||X − X0 || < δ =⇒ ||f(X) − L|| < 

por
J. Adonai & A. Carlo
3.1
Limite

O significado intuitivo da notação limX→X0 f (X) = L, onde f : D ⊂ Rn −→ Rm , X0 ∈ Rn


e L ∈ Rm , é o de proximidade arbitrária entre f (X) e a m-upla L, para X ∈ D suficientemente
próximo de X0 . Indicando a noção de proximidade entre dois pontos pela ordem de grandeza
de sua distância, podemos reformular a interpretação inicial: damos uma medida arbitrária de
proximidade entre f (X) e L, representada por  > 0, e exigimos que
kf (X) − Lk < , se X ∈ D, e 0 < kX − X0 k < δ,
para algum número positivo δ. A condição 0 < kX − X0 k < δ indica que estamos preocupados
com o comportamento de f perto de X0 , mesmo que este ponto não pertença a D. O que é
preciso, isto sim, é que existam pontos de D suficientemente próximos de X0 ou, em outras
palavras, que os pontos de D se acumulem em torno de X0 . A seguir, formalizaremos todas
estas noções.

3.1.1 [Bolas]
Definição Sejam X0 ∈ Rn e a > 0.

(i) O conjunto
B(X0 , a) = {X ∈ Rn ; kX − X0 k < a}
é chamado bola aberta de centro X0 e raio a.
(ii) O conjunto
B[X0 , a] = {X ∈ Rn ; kX − X0 k ≤ a}
é chamado bola fechada de centro X0 e raio a.

Observação As bolas abertas de R são intervalos abertos. Mais precisamente, se x0 ∈ R e


a > 0, então
B(x0 , a) = {x ∈ R; |x − x0 | < a} = (x0 − a, x0 + a).
Analogamente, B[x0 , a] coincide com o intervalo fechado [x0 − a, x0 + a]. No R2 , a bola aberta
B(X0 , a), que também chamamos de disco aberto, coincide com a região delimitada pelo cı́rculo
centrado em X0 e de raio a, mas que não contém esta. Se unimos esta região com o cı́rculo
S 1 (X0 , a), obtemos a bola fechada B[X0 , a], ou, alternativamente, o disco fechado B[X0 , a].
y z
6 pqqpqpqqpqqpqqpqqqpqqqpqqpqqpqqqpqqpqqqpqqpqqpqqpqqqpqpqp 6 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
pqq qq qqqqqqqqqqqqqq qq q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqq
pqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqp qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
R2 qqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppp R3 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
R pqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqp qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqqq qqq
qpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX
pppqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq0pqqqqqqqpqqqpqqqpqqpqqpp
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
pp qqppqqpp pp p qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
a q a - -
x0 − a x0 x0 + a x y

x
Figura 63: Bolas Abertas em R, R2 e R3

92
Funções Contı́nuas 93

Os mesmos comentários podem ser feitos para as bolas do R3 , onde uma bola aberta deve ser
olhada como a região envolvida por uma esfera, a esfera de mesmos centro e raio que a bola.

3.1.2
Definição Um ponto X0 ∈ Rn é dito ponto de acumulação do conjunto D ⊂ Rn se toda
bola aberta centrada em X0 contém algum ponto X ∈ D, X 6= X0 . Em outras
palavras, dado qualquer número real positivo δ, existe X ∈ B(X0 , δ) ∩ D tal que X 6= X0 . Um
ponto P ∈ D que não é de acumulação é chamado ponto isolado de D.

3.1.3
Definição É usual, também, usar o sı́mbolo D0 para indicar o conjunto dos pontos de
acumulação do conjunto D. D0 é chamado derivado de D.

3.1.4
Exemplo Em R, consideremos o seguinte subconjunto

D = {x; x = 1/n, n ∈ N} = {1, 1/2, 1/3, . . .}.

O número real x0 = 0 não pertence a D. Temos que 0 é ponto de acumulação de D. De fato,


seja δ > 0 um número real positivo qualquer. Agora escolhemos um n0 ∈ N tal que n0 > 1/δ.
Logo, 1/n0 < δ, isto é, o ponto x = 1/n0 de D pertence ao intervalo (−δ, δ). Na realidade, 0 é
o único ponto de acumulação de D, e os pontos de D são todos isolados.
v
3.1.5
Exemplo Se D = B(X0 , a) é uma bola aberta do Rn , então seu derivado D0 coincide com a
bola fechada B[X0 , a]. O derivado de uma bola fechada coincide com ela mesma.
g
u
3.1.6
Exemplo Seja D o subconjunto do plano R2 definido
por

D = {X = (x, y); 1 < kXk ≤ 2} ∪ {(3, 0)},

conforme figura 64. Os pontos de acumulação de D é


formado pelo anel 1 ≤ kXk ≤ 2, que contém o cı́rculo
x2 + y 2 = 1, o qual não está contido em D. O ponto
(3, 0), claro, é o único ponto isolado de D. Assim,

D0 = {X = (x, y); 1 ≤ kXk ≤ 2}.

3.1.7
Exemplo Se D = {X = (x, y, z); z < 1} é a região situada abaixo do plano z = 1, então
seu derivado D0 coincide com D unido a este plano: D0 = D ∪ {(x, y, z); z = 1}.
94 Limite

3.1.8 [Limite]
Definição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e X0 ∈ Rn um ponto de acumulação de D. Uma
m-upla L é dita limite de f em X0 (ou quando X tende a X0 ) quando para
cada  > 0, dado arbitrariamente, for possı́vel obter δ > 0 —o qual pode depender de  e X0 —
tal que
se X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ, então kf (X) − Lk < .
Em outras palavras,
∀ > 0, ∃δ > 0 : X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − Lk < . (¶16 )
Uma m-upla L que satisfaz esta condição, quando existe, é única (proposição 3.1.9) e, portanto,
será indicada por lim f (X).
X→X0

x n Rn x m Rm
6 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
6
q qD q q q q q q q q q q q q q q q q q
f (X) qqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX
qqqq q q q q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqL qqq qq qq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX q qqq qqqqq q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq f - qqqqq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq x
-
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq 1 xm−1
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqq x1

Figura 65: lim f (X) = L


X−→X0

3.1.9 [Unicidade do Limite]


Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm , X0 ∈ D0 e L1 e L2 limites
de f em X0 , como na definição 3.1.8. Então, L1 = L2 .
Demonstração: Começamos tomando  > 0 arbitrário e aplicando a definição 3.1.8
para L1 e L2 . Relativamente a L1 , obtemos δ1 tal que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ1 =⇒ kf (X) − L1 k < .
Para L2 existe δ2 > 0 tal que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ2 =⇒ kf (X) − L2 k < .
Agora escolhemos δ = min{δ1 , δ2 }. Para este δ vale
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − L1 k <  e kf (X) − L2 k < .
Fixado uma n-upla X nestas condições, temos
kL2 − L1 k = kL2 − L1 + f (X) − f (X)k ≤ kf (X) − L1 k + kf (X) − L2 k <  +  = 2.
Portanto, kL2 − L1 k < 2 para todo número real positivo . Isto implica que kL2 − L1 k = 0,
isto é, L2 = L1 . ppppppppppppppppppppppp

Observação A definição de limite em nenhum momento indica como calcular limites. O


que ela faz é estabelecer se uma m-upla L, determinada geralmente por nossa
sensibilidade aritmética, é ou não o limite de f .
Funções Contı́nuas 95

O seguinte lema dá mais algumas propriedades da norma que são úteis na tarefa de
computar limites.

3.1.10
Lema Se X = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn , então valem as seguintes desigualdades.
(i) |xi | ≤ kXk, para i = 1, 2, . . . , n;

(ii) kXk ≤ n max{|x1 |, |x2 |, . . . , |xn |};
(iii) kXk ≤ |x1 | + |x2 | + · · · + |xn |.
Demonstração: Fixando 1 ≤ i ≤ n, e definindo m = max{|x1 |, |x2 |, . . . , |xn |}, temos
que q q √ √
|xi | = x2i ≤ x21 + x22 + · · · + x2n = kXk ≤ m2 + m2 + · · · + m2 = n m,
e estão prontos (i) e (ii). Para verificar (iii), escrevemos X = x1 e1 + x2 e2 + · · · + xn en , e usamos
a primeira desigualdade triangular da norma, dada no corolário 1.2.19. Temos que
kXk = kx1 e1 + x2 e2 + · · · + xn en k ≤ |x1 | ke1 k+|x2 | ke2 k+· · ·+|xn | ken k = |x1 |+|x2 |+· · ·+|xn |,
pois e1 , e2 , . . . , en são vetores unitários. pppppppppppppppppppp

3.1.11
Exemplo Sejam f : R2 −→ R, f (x, y) = 2x + y, e X0 = (2, 1) que, é claro, é ponto de
acumulação do domı́nio de f . O nosso bom senso sugere que tomemos como
candidato a limite de f em X0 , o número l = 5, posto que 2x + y se aproxima de 5, quando x
está perto de 2, e y perto de 1. Inicialmente observamos que

|f (x, y) − 5| = |2x + y − 5| = |2(x − 2) + (y − 1)| ≤ 2|x − 2| + |y − 1|.

Nesta desigualdade, usando o lema 3.1.10, fazemos surgir kX − X0 k, onde X = (x, y). De fato,
como X − X0 = (x − 2, y − 1), segue-se que |x − 2| ≤ kX − X0 k e |y − 1| ≤ kX − X0 k . Logo,
|f (x, y) − 5| ≤ 2|x − 2| + |y − 1| ≤ 3 kX − X0 k ,
que é menor do que , se kX − X0 k < δ, onde δ = /3. Logo, lim (2x + y) = 5.
(x,y)→(2,1)

y
6 r5 + 

1 + /3 r
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqq
1r qqqqqqqqqqqqqqX q qrq q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqrqqqqqqqqqqqq r5
r
1 − /3 r X f (X)
f
r r r2 +- /3 -
2 − /3 2 x
5−
r

Figura 66: lim 2x + y = 5


(x,y)−→(2,1)
96 Limite

3.1.12
Exemplo Seja f (x, y) = xy, (x, y) ∈ R2 . Verificaremos que o limite de f em X0 = (2, 1) é,
como a nossa sensibilidade indica, 2. Como no exemplo anterior, a idéia é fazer
aparecer em |xy − 2| as expressões |x − 2| e |y − 1|, e depois, via lema 3.1.10, fazer aparecer
kX − X0 k, o que permitirá a escolha de um δ conveniente, para um  > 0 dado. Isto é feito
assim:

|xy − 2| = |(x − 2 + 2)(y − 1 + 1) − 2|


= |(x − 2)(y − 1) + (x − 2) + 2(y − 1)|
≤ |(x − 2)||(y − 1)| + |(x − 2)| + 2|(y − 1)|
≤ kX − X0 k2 + kX − X0 k + 2 kX − X0 k = kX − X0 k2 + 3 kX − X0 k .

Isto implica que


|xy − 2| ≤ 4 kX − X0 k ,
se kX − X0 k ≤ 1, pois, neste caso, kX − X0 k2 ≤ kX − X0 k. Portanto, dado  > 0, somos
levados a considerar δ = min{/4, 1}. Com esta escolha, se kX − X0 k < δ, obtemos

 kX − X0 k ≤ 1


e =⇒ |xy − 2| ≤ kX − X 2
0 k + 3 kX − X0 k ≤ 4 kX − X0 k < 4 = .
 kX − X0 k ≤ 
 4
4
Portanto, lim xy = 2.
(x,y)→(2,1)

3.1.13
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por
xy


p , se (x, y) 6= (0, 0)
f (x, y) = x2 + y 2

0, se (x, y) = (0, 0).

Estudaremos o limite de f em (0, 0). Tal limite, se existir, deve ser zero, porque f se anula, por
exemplo, ao longo do eixo-x. Logo, devemos estudar o comportamento de |f (x, y)|, para valores
de (x, y) próximos de (0, 0). Se X = (x, y) 6= (0, 0), então

xy |x| |y| kXk kXk
|f (X)| = p = ≤ = kXk .

x2 + y 2 kXk kXk

Logo, dado  > 0, escolhemos δ = . Para este δ, temos que

X = (x, y) ∈ R2 , 0 < kXk < δ =⇒ |f (X)| ≤ kXk < δ = .

Donde lim(x,y)→(0,0) f (x, y) = 0.


Funções Contı́nuas 97

3.1.14
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por

xy
2 , se (x, y) 6= (0, 0)

 2
f (x, y) = x + y
0,

se (x, y) = (0, 0).

Como no exemplo anterior, se f tem limite em (0, 0), este deve ser zero. Se X = (x, y) 6= (0, 0),
então
xy |x| |y| kXk kXk
|f (X)| = 2 2 =

2 ≤ = 1,
x +y kXk kXk2
o que só diz que f é limitada por 1 (veja a definição 3.1.17). Isto é o bastante para levantar
suspeita de que f não possui limite em (0, 0). Para confirmar isto, estudaremos o comportamento
de f ao longo da reta y = x, que, claro, passa pela origem. Ao longo desta reta, para x 6= 0,
temos que
xx x2 1
f (x, y) = f (x, x) = 2 2 = 2 = .
x +x 2x 2
Logo, toda bola aberta centrada em (0, 0) contém pontos (da forma (x, x)) onde f vale 1/2. Isto
implica que f não pode ter limite em (0, 0), pois, agora, temos outro candidato a limite de f
em (0, 0), a saber 1/2.

3.1.15
Propriedades dos Limites
O emprego direto da definição pode ser extremamente duro para o cálculo do limite.
Felizmente, dispomos de vários resultados intermediários que facilitam esta tarefa.

3.1.16
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm , X0 ∈ D0 e L = (l1 , l2 , . . . , lm ) ∈ Rm . Então,
lim f (X) = L se, e somente se, lim kf (X) − Lk = 0.
X→X0 X→X0

Demonstração: Fica como exercı́cio para o leitor, que deve apenas reescrever a definição
de limite. ppppppppppppppppppppp

3.1.17
Definição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e X0 ∈ D0 . Dizemos que f limitada perto de X0 se
existem δ > 0 e K ≥ 0 tais que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X)k ≤ K.
(Isto significa que as n-uplas de D que estão na bola aberta B(X0 , δ) são transformadas por f
em m-uplas da bola fechada B[O, K].) Se kF (X)k ≤ K, para todo X ∈ D, dizemos que f é
limitada.
98 Limite

3.1.18
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm , X0 ∈ D0 e L = (l1 , l2 , . . . , lm ) ∈ Rm . Se f tem
limite em X0 , então f é limitada perto de X0 .
Demonstração: Seja L o limite de f em X0 . Logo, pensando com  = 1, existe δ0 > 0
tal que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ0 =⇒ kf (X) − Lk < 1.

Mas
kf (X)k − kLk ≤ | kf (X)k − kLk | ≤ kf (X) − Lk ,

como mostra o corolário 1.2.19. Logo,

kf (X)k < 1 + kLk , se X ∈ D, e 0 < kX − X0 k < δ0 .

Portanto, f é limitada por K = 1 + kLk, na bola B(X0 , δ0 ). ppppppppppppppppppppp

Observação O exemplo 3.1.14 mostra que uma função limitada perto de um ponto pode não
ter limite aı́.

3.1.19 [Limite de Desigualdades]


Proposição Sejam f, g : D ⊂ Rn −→ R funções reais tendo
limite em X0 ∈ D0 . Se f (X) ≤ g(X), para todo
X ∈ D − {X0 }, então lim f (X) ≤ lim g(X).
X→X0 X→X0

Demonstração: Sejam L1 = limX→X0 f (X) e L2 = limX→X0 g(X). Suponhamos, por


absurdo, que L1 > L2 . Logo,  = (L1 − L2 )/2 > 0. Para este  podemos encontrar δ > 0 tal que

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ |f (X) − L1 | <  e |g(X) − L2 | < .

Fixemos, então, algum X nestas condições. Assim,

f (X) ∈ (L1 − , L1 + ) e g(X) ∈ (L2 − , L2 + ),

isto é,
L1 + L2 3L1 − L2 3L2 − L1 L1 + L2
f (X) ∈ ( , ) e g(X) ∈ ( , ).
2 2 2 2
Em particular, g(X) < (L1 + L2 )/2 < f (X), uma contradição ao fato f (X) ≤ g(X). pppppppppppppppppppppp

Observação Um fato simples, e que deve ser observado aqui, é que pode não ocorrer a desi-
gualdade estrita entre os limites de f e g, mesmo que entre f e g a desigualdade
seja estrita. De fato, o par de funções reais f (x) = x, x > 0, e g(x) = 0, x > 0, serve como
exemplo, pois f (x) > g(x), para todo x > 0, mas seus limites em x0 = 0 coincidem com 0.
Funções Contı́nuas 99

3.1.20 [Sanduı́che]
Proposição Sejam f, g, h : D ⊂ Rn −→ R funções reais tais que
f (X) ≤ g(X) ≤ h(X), ∀X ∈ D − {X0 }.
Se f e h têm o mesmo limite L em X0 ∈ D0 , então L também é o limite de g em X0 . (Nas
aplicações, este resultado será usado na forma do seguinte diagrama:
f ≤ g ≤ h
X −→ X0 .)
? ?
L L
?
L
Demonstração: Seja  > 0. Temos que existe δ > 0 tal que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ |f (X) − L| <  e |h(X) − L| < ,
o que pode ser reescrito como
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ f (X) ∈ (L − , L + ) e h(X) ∈ (L − , L + ).
Como f (X) ≤ g(X) ≤ h(X), para todo X ∈ D − {X0 }, vem que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ g(X) ∈ (L − , L + ).
Logo, limX→X0 g(X) = L. pppppppppppppppppppppp

3.1.21
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm , g : D ⊂ Rn −→ R e X0 ∈ D0 . Se
lim f (X) = (0, 0, . . . , 0)
X→X0

e g é limitada perto de X0 , então


lim g(X)f (X) = (0, 0, . . . , 0).
X→X0

Demonstração: Seja B(X0 , δ1 ) um bola aberta onde |g(X)| ≤ K, para algum K > 0.
Dado  > 0, existe δ2 > 0 tal que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ2 =⇒ kf (X)k < /K,
onde aplicamos a definição 3.1.8 para f com o número positivo /K. Fazendo δ = min{δ1 , δ2 },
vem que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X)k < /K e |g(X)| ≤ K.
Logo,

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kg(X)f (X)k = |g(X)| kf (X)k < K = ,
K
e está completa a prova. pppppppppppppppppp
100 Limite

3.1.22
Exemplo A função
xy


p sen(x + arctg(x2 + y 2 )), se (x, y) 6= (0, 0)
2
x +y 2
f (x, y) =

0, se (x, y) = (0, 0)

tem limite zero em X0 = (0, 0), visto que é o produto de uma função que tem limite zero,
conforme exemplo 3.1.13, por outra limitada, a saber g(x, y) = sen(x + arctg(x2 + y 2 )).
A proposição seguinte mostra que o cálculo do limite de uma função vetorial se reduz ao
cálculo dos limites de suas funções coordenadas. Em particular, ela mostra que a definição de
limite dada em 2.1.1, para funções vetoriais de uma variável real, é compatı́vel com a definição
geral, isto é, com a definição 3.1.8.

3.1.23
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e L = (l1 , l2 , . . . , lm ) ∈ Rm . L é limite de f em X0
se, e somente se, li é limite de fi em X0 , para 1 ≤ i ≤ m. Portanto,

lim f (X) = ( lim f1 (X), lim f2 (X), . . . , lim fm (X)),


X→X0 X→X0 X→X0 X→X0

desde que os limites existam.


Demonstração: Suponhamos inicialmente que L = limX→X0 f (X). Seja  > 0. Logo,
existe δ > 0 tal que

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − Lk < .

Mas |fi (X) − li | ≤ kf (X) − Lk, o que vem de (i), lema 3.1.10. Logo,

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ |fi (X) − li | ≤ kf (X) − Lk < , 1 ≤ i ≤ m.

Resulta daı́ que limX→X0 fi (X) = li . Reciprocamente, suponhamos que limX→X0 fi (X) = li ,
para 1 ≤ i ≤ m. Logo, dado  > 0, existem δ1 , δ2 , . . . , δm tais que

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δi =⇒ |fi (X) − li | < /m, 1 ≤ i ≤ m.

Tomando δ = min{δ1 , δ2 , . . . , δm }, vem que

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ |fi (X) − li | < /m, 1 ≤ i ≤ m.

Logo,
m
X 
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − Lk ≤ |fi (X) − li | < m = ,
i=1
m
o que termina a demonstração. pppppppppppppppppppppp
Funções Contı́nuas 101

3.1.24
Exemplo Seja f : R2 −→ R2 definida por f (x, y) = (2x+y, xy). Usando a proposição 3.1.23
e os resultados dos exemplos 3.1.11 e 3.1.12, vemos que lim f (x, y) = (5, 2).
(x,y)→(2,1)

3.1.25 [Operações com Limites]


Teorema Sejam f, g : D ⊂ Rn −→ Rm e φ : D −→ R. Se-
jam X0 ∈ D0 , L1 , L2 ∈ Rm e l ∈ R tais que
lim f (X) = L1 , lim g(X) = L2 e lim φ(X) = l. Então,
X→X0 X→X0 X→X0

(i) lim (f (X) + g(X)) = L1 + L2 ;


X→X0

(ii) lim φ(X)f (X) = lL1 ;


X→X0

(iii) lim f (X) · g(X) = L1 · L2 ;


X→X0

(iv) lim f (X) × g(X) = L1 × L2 (quando m = 3);


X→X0

1 1
(v) lim = , se l 6= 0 e φ(X) 6= 0, para todo X em alguma bola aberta com centro X0 .
X→X0 φ(X) l
Demonstração: Faremos apenas as provas de (i) e (ii). As demonstrações de (iii) e (iv)
seguem-se de (i) e (ii). O exercı́cio 3-5 indica como obter (v).
Seja  > 0. Temos que existem δ1 > 0 e δ2 > 0 tais que

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ1 =⇒ kf (X) − L1 k < ,
2
e

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ2 =⇒ kg(X) − L2 k < .
2
(Note que aplicamos simplesmente a definição de limite para f e g, obtendo δ1 e δ2 , a partir de
/2.) Tomando δ = min{δ1 , δ2 } as duas implicações obtidas ocorrem simultaneamente, isto é,
 
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − L1 k < e kg(X) − L2 k < .
2 2
Logo, se X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ, então
 
kf (X) + g(X) − (L1 + L2 )k ≤ kf (X) − L1 k + kg(X) − L2 k < + = .
2 2
Isto significa que limX→X0 (f (X) + g(X)) = L1 + L2 . Para provar (ii), começamos observando
que
kφ(X)f (X) − lL1 k = kφ(X)f (X) − lL1 + φ(X)L1 − φ(X)L1 k
≤ |φ(X)| kf (X) − L1 k + kL1 k |φ(X) − l|.
Como φ tem limite em X0 , vem da proposição 3.1.18 que existem K ≥ 0 e δ0 > 0 tais que
φ(X) ≤ K, para todo X ∈ B(X0 , δ0 ). Logo,

lim |φ(X)| kf (X) − L1 k = 0 e lim kL1 k |φ(X) − l| = 0,


X→X0 X→X0
102 Limite

e, por (i),
lim (|φ(X)| kf (X) − L1 k + kL1 k |φ(X) − l|) = 0.
X→X0

Agora recorremos à proposição 3.1.20, para obter

0 ≤ kφ(X)f (X) − lL1 k ≤ |φ(X)| kf (X) − L1 k + kL1 k |φ(X) − l|


X −→ X0
? ? ,
0 0
?
0

o que implica lim φ(X)f (X) = lL1 . pppppppppppppppppp


X→X 0

3.1.26 [Limite da Composta]


Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e g : E ⊂ Rm −→ Rp tais
que f (D) ⊂ E. Sejam X0 ∈ D0 e Y0 ∈ E 0 . Se

f (X) 6= Y0 , ∀X 6= X0 , lim f (X) = Y0 e lim g(Y ) = L,


X→X0 Y →Y0

então a função composta g ◦ f , definida por (g ◦ f )(X) = g(f (X)), tem limite em X0 e vale
lim (g ◦ f )(X) = L.
X→X0

Demonstração: Dado  > 0, existe δ1 > 0 tal que

Y ∈ E, 0 < kY − Y0 k < δ1 =⇒ kg(Y ) − Lk < , (¶17 )

isto porque limY →Y0 g(Y ) = L. Por outro lado, como limX→X0 f (X) = Y0 , vem que existe δ > 0
tal que
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − Y0 k < δ1 .
Mas f (X) 6= Y0 , sempre que X 6= X0 . Logo,

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ 0 < kf (X) − Y0 k < δ1 ,

e, portanto, podemos usar (¶17 ) com Y = f (X) para obter

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kg(f (X)) − Lk < ,

como querı́amos. ppppppppppppppppppp

O exemplo que segue mostra que a hipótese f (X) 6= Y0 , X ∈ D, é essencial na pro-


posição 3.1.26.
Funções Contı́nuas 103

y
3.1.27 6
Exemplo Seja f : R −→ R definida por
1q

0, se x 6= 0
f (x) =
1, se x = 0, ppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppappppppppyppppppp=
pppppppppfppppp(x)
ppppppppppppppppppp -
x
cujo gráfico é mostrado ao lado. Agora ponha
g = f . Temos que y
 6
1, se x 6= 0
(g ◦ f )(x) = pppppppppppppppppppppppppppppppppppppppppp1ppppppappppppppyppppppp= ppppppppp◦ppppppfppppp)(x)
ppppppppp(g pppp
0, se x = 0,

limx→0 f (x) = 0 e limy→0 g(y) = 0. Entretanto, q -


x
lim (g ◦ f )(x) = 1.
x→0
Figura 67

Note que se a proposição 3.1.26 funcionasse neste caso, deverı́amos ter limx→0 (g ◦ f )(x) = 0.
Tudo se deve ao fato de f (x) coincidir com seu limite em x0 = 0, para x 6= x0 .

3.1.28
Corolário Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm uma função vetorial e α, β : I ⊂ R −→ Rn duas cur-
vas parametrizadas passando pelo ponto X0 ∈ D0 , isto é α(t0 ) = β(t0 ) = X0 ,
para algum t0 ∈ I. Suponha também que

X0 = lim α(t) = lim β(t), e α(t) 6= X0 , β(t) 6= X0 , ∀t 6= t0 .


t→t0 t→t0

Se lim (f ◦ α)(t) 6= lim (f ◦ β)(t), então f não tem limite em X0 .


t→t0 t→t0

Demonstração: Se f tivesse limite, digamos L, em X0 , da proposição 3.1.26 resultaria


que
lim (f ◦ α)(t) = lim (f ◦ β)(t) = L.
t→t0 t→t0

Logo, só resta a f não ter limite em X0 . ppppppppppppppppppppp

3.1.29
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por
 2
 x y , se (x, y) 6= (0, 0)

4 2
f (x, y) = x + y

0, se (x, y) = (0, 0).

Temos que f não pode ter limite na origem X0 = (0, 0). Com efeito, consideremos as curvas
parametrizadas α e β definidas por α(t) = (t, 0) e β(t) = (t, t2 ), t ∈ R. Os traços destas curvas
são o eixo-x e a parábola y = x2 . É claro que α(0) = (0, 0) e β(0) = (0, 0). Além disto, se t 6= 0,
104 Continuidade

então α(t) 6= (0, 0) 6= β(t). Também temos que limt→0 α(t) = limt→0 β(t) = (0, 0). Entretanto,
limt→t0 (f ◦ α)(t) = 0 e
t2 t2 1
lim(f ◦ β)(t) = lim 4 2 2 = .
t→0 t→0 t + (t ) 2

Segue-se do corolário 3.1.28 que f não tem limite em (0, 0), como dissemos.

3.2
Continuidade

Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm um função vetorial e X0 ∈ D. No estudo que faremos agora,


além de nossa preocupação com o comportamento de f em pontos próximos de X0 , teremos,
também, nossa atenção voltada para o valor que ela assume neste ponto.

3.2.1 [Função Contı́nua]


Definição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e X0 ∈ D. Dizemos que f é
contı́nua em X0 se uma das seguintes alternativas ocorrer:

(i) X0 é ponto isolado de D;


(ii) X0 é ponto de acumulação de D e lim f (X) = f (X0 ).
X→X0

(A condição (i) não é de grande interesse. Ela é posta aı́ para que a noção de continuidade faça
sentido em qualquer ponto de D, mesmo naqueles isolados.) Dizemos que f é contı́nua em D se
ela for contı́nua em todos os pontos de D.

3.2.2
Exemplo Seja f : D ⊂ R2 −→ R uma função qualquer, onde D é como no exemplo 3.1.6.
Como X0 = (3, 0) é ponto isolado de D, vem que f é contı́nua em X0 .

3.2.3
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por
xy


p , se (x, y) 6= (0, 0)
x 2 + y2
f (x, y) =

0, se (x, y) = (0, 0).

Como vimos no exemplo 3.1.13, lim f (x, y) = 0. Logo, f é contı́nua em X0 = (0, 0).
(x,y)→(0,0)
Funções Contı́nuas 105

3.2.4
Exemplo Façamos uma pequena modificação na função f do exemplo anterior, alterando
o seu valor em (0, 0). Seja g : R2 −→ R definida por
xy


p , se (x, y) 6= (0, 0)
g(x, y) = x2 + y 2

1, se (x, y) = (0, 0).

Como lim(x,y)→(0,0) g(x, y) = 0 e g(0, 0) = 1, vem que g não é contı́nua em X0 = (0, 0).

3.2.5
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por

xy
2 , se (x, y) 6= (0, 0)

 2
f (x, y) = x + y
0,

se (x, y) = (0, 0).

Como vimos no exemplo 3.1.14, f não tem limite em X0 = (0, 0). Logo, não é contı́nua aı́.
As condições (i) e (ii) na definição de continuidade (definição 3.2.1) podem ser agrupadas
em uma só condição, na linguagem de ’s e δ’s, como mostra a seguinte proposição, a qual
contém a forma que alguns textos adotam para definir continuidade.

3.2.6
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e X0 ∈ D. f é contı́nua em X0 se, e somente se,
para cada  > 0, dado arbitrariamente, for possı́vel obter δ > 0 —o qual pode
depender de  e X0 — tal que

X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k < .

Em outras palavras,

∀ > 0, ∃δ > 0 : X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k < . (¶18 )

(Trocando f (X0 ) por L, há apenas uma pequena diferença entre esta implicação e aquela da
definição 3.1.8: lá é exigido que 0 < kX − X0 k < δ.)
Demonstração: Suponhamos, inicialmente, que f é contı́nua em X0 . Temos dois casos
a considerar: (i) X0 é ponto isolado de D; (ii) X0 ∈ D0 e limX→X0 f (X) = f (X0 ). Seja  > 0,
arbitrário. Se X0 é ponto isolado de D, vem que existe δ > 0 tal que D ∩ B(X0 , δ) = {X0 }.
Logo,

X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ X = X0 =⇒ kf (X) − f (X0 )k = kf (X0 ) − f (X0 )k = 0 < ,

e (¶18 ) é satisfeita trivialmente. Se ocorre (ii), usamos a definição 3.1.8 para obter δ > 0 tal que

X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k < .


106 Continuidade

Mas para X = X0 , kf (X) − f (X0 )k = 0 < . Logo,


X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k < ,
e obtemos outra vez (¶18 ).
Suponhamos, agora, que (¶18 ) seja verificada. Se X0 é ponto isolado, f é contı́nua em X0 ,
por definição. Suponhamos, então, que X0 ∈ D0 , e seja  > 0 um número positivo arbitrário.
Como (¶18 ) está valendo, existe δ > 0 tal que
X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k < .
Por maior razão,
X ∈ D, 0 < kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k < ,
isto é, lim f (X) = f (X0 ). pppppppppppppppppppp
X→X 0

No estudo das funções vetoriais contı́nuas, merecem destaque especial as funções lipschit-
zianas.

3.2.7
Definição Uma função vetorial f : D ⊂ Rn −→ Rm é dita lipschitziana se existe M ≥ 0
tal que
kf (Y ) − f (X)k ≤ M kY − Xk , ∀Y, X ∈ D.
M é conhecida por constante de Lipschitz de f .

3.2.8
Exemplo Os exemplos mais simples de funções lipschitzianas são as funções constantes. Se
f (X) = C ∈ Rm , X ∈ Rn , então
kf (Y ) − f (X)k = kC − Ck = 0 ≤ M kY − Xk ,
para qualquer constante M .

3.2.9
Exemplo Seja f (x) = x2 , x ∈ [0, 1]. Temos que,
|f (y) − f (x)| = |y + x||y − x| ≤ 2|y − x|, ∀x, y ∈ [0, 1].
Logo, f é lipschitziana.

3.2.10
Exemplo Seja f (x) = x2 , x ∈ R. Se f fosse lipschitziana, terı́amos, para alguma constante
M ≥ 0, que
|y 2 − x2 | ≤ M |y − x|, ∀x, y ∈ R.
Em particular, para x = 0, |y| ≤ M , para todo y ∈ R, o que é um absurdo. Logo, f não é
lipschitziana.
Uma grande fonte de funções lipschitzianas são as aplicações lineares, como mostra o
seguinte teorema.
Funções Contı́nuas 107

3.2.11
Teorema Se T : Rn −→ Rm é linear, então existe M ≥ 0 tal que
(i) kT (X)k ≤ M kXk, ∀X ∈ Rn ;
(ii) kT (Y ) − T (X)k ≤ M kY − Xk, ∀Y, X ∈ Rn .
Demonstração: Seja X = (x1 , x2 , . . . , xn ). Logo, X = x1 e1 + x2 e2 + · · · + xn en e,
portanto,
kT (X)k = kx1 T (e1 ) + x2 T (e2 ) + · · · + xn T (en )k
≤ |x1 | kT (e1 )k + |x2 | kT (e2 )k + · · · + |xn | kT (en )k
≤ kXk kT (e1 )k + kXk kT (e2 )k + · · · + kXk kT (en )k
= (kT (e1 )k + kT (e2 )k + · · · + kT (en )k) kXk ,
onde na passagem da segunda para a terceira desigualdade foi usado o fato |xi | ≤ kXk, para
1 ≤ i ≤ n, conforme lema 3.1.10. Tomando M = kT (e1 )k + kT (e2 )k + · · · + kT (en )k, segue-se o
resultado em (i). A prova de (ii) agora segue-se facilmente. De fato,

kT (Y ) − T (X)k = kT (Y − X)k ≤ M kY − Xk ,

onde usamos (i) para o vetor Y − X. ppppppppppppppppppppp

3.2.12
Exemplo Consideremos a aplicação linear T : R3 −→ R2 dada por
  
1 1 0 x
T (x, y, z) = (x + y, x − y + z) =  .
1 −1 1 y 
z
√ √ √
Temos que kT (e1 )k = 2, kT (e2 )k = 2 e kT (e3 )k = 1. Logo, kT (X)k ≤ (2 2 + 1) kXk, para
todo X ∈ R3 .

3.2.13
Teorema Se f : D ⊂ Rn −→ Rm é lipschitziana, então f é contı́nua em D.

Demonstração: Usando a proposição 3.1.20 (sanduı́che), temos que


0 ≤ kf (X) − f (X0 )k ≤ M kX − X0 k
X −→ X0 .
? ?
0 0
?
0
Logo, lim f (X) = f (X0 ). pppppppppppppppppppppp
X→X 0
108 Continuidade

O próximo corolário destaca uma propriedade fundamental das aplicações lineares entre
espaços euclidianos: sua continuidade.

3.2.14
Corolário Se T : Rn −→ Rm é linear, então T é contı́nua em Rn .
Demonstração: Segue-se do fato que T é lipschitziana, como mostra o teorema 3.2.11,
junto com o teorema 3.2.13. ppppppppppppppppppppp

3.2.15 [Continuidade da Norma]


Corolário A norma euclidiana é uma função real contı́nua,
isto é, a função

η : Rn −−−→
−− R
X −−−−−→ η(X) = kXk

é contı́nua em Rn .
Demonstração: A desigualdade triangular | kY k − kXk | ≤ kY − Xk mostra que η é
lipschitziana. Logo, contı́nua. ppppppppppppppppppppp

3.2.16
Exemplo Seja T : R4 −→ R3 definida por
T (x1 , x2 , x3 , x4 ) = (x1 + x2 , x2 + x3 , x1 + x2 − x4 ).

Como T é linear, vem que T é contı́nua em R4 . Em particular,

lim T (x1 , x2 , x3 , x4 ) = T (0, 0, 0, 0) = (0, 0, 0)


(x1 ,x2 ,x3 ,x4 )→(0,0,0,0)
lim T (x1 , x2 , x3 , x4 ) = T (1, 0, 1, 0) = (1, 1, 1)
(x1 ,x2 ,x3 ,x4 )→(1,0,1,0)

3.2.17 [Projeções]
Exemplo Dado j ∈ N, 1 ≤ j ≤ n, a j-ésima projeção do Rn é aplicação linear

pj : Rn −−−→
−− R
(x1 , x2 , . . . , xn ) −−−−−→ pj (x1 , x2 , . . . , xn ) = xj .

Como caso particular, temos as três projeções do R3 :

p1 (x, y, z) = x, p2 (x, y, z) = y e p3 (x, y, z) = z.

As n projeções pj , 1 ≤ j ≤ n, são aplicações contı́nuas em Rn , visto que são lineares.


Funções Contı́nuas 109

3.2.18 [Operações com Funções Contı́nuas]


Teorema Seja D ⊂ Rn . Se

f : D −→ Rm , g : D −→ Rm e φ : D −→ R

são funções contı́nuas no ponto X0 ∈ D, então as seguintes aplicações são contı́nuas em X0 .

(i) [Soma]
f + g : D −− − Rm
−→

X −−−−−→ (f + g)(X) = f (X) + g(X);

(ii) [Produto]
φf : D −− − Rm
−→

X −−−−−→ (φf )(X) = φ(X)f (X);

(iii) [Produto Escalar]

f · g : D −− −→
−− R
X −−−−−→ (f · g)(X) = f (X) · g(X);

(iv) [Produto Vetorial]

f × g : D −− − Rm
−→

X −−−−−→ (f × g)(X) = f (X) × g(X).

Neste caso, claro, estamos supondo m = 3;


(v)
1
: D −− −→
−− R
φ
1 1
X −−−−−→ (X) = ,
φ φ(X)
se φ(X) 6= 0, para todo X ∈ D.

Demonstração: Se X0 é isolado, não há o que fazer. Suponhamos, então, X0 ∈ D0 .


Como f e g são contı́nuas em X0 , vem que limX→X0 f (X) = f (X0 ) e limX→X0 g(X) = g(X0 ).
Usando o item (i) do teorema 3.1.25, obtemos que

lim (f + g)(X) = lim f (X) + lim g(X) = f (X0 ) + g(X0 ) = (f + g)(X0 ),


X→X0 X→X0 X→X0

donde segue-se a continuidade de f + g em X0 . Fazendo uso dos demais itens do citado teorema,
resultam (ii), (iii) e (iv). pppppppppppppppppppppp
110 Continuidade

3.2.19
Exemplo Seja f (x, y) = xy − x − 2y + 2
. Temos que
x + y 2 − 4x − 2y + 5
2

(x − 2 + 2)(y − 1 + 1) − (x − 2 + 2) − 2(y − 1 + 1) + 2
f (x, y) =
(x − 2)2 − 4 + (y − 1)2 − 1 + 5
(x − 2)(y − 1)
=
(x − 2)2 + (y − 1)2

Logo, f está bem definida em todo R2 , exceto no ponto (2, 1). Impondo f (2, 1) = 0, f fica
bem definida em todo R2 . Como x2 + y 2 − 4x − 2y + 5 > 0, se (x, y) 6= (2, 1), resulta do teo-
rema 3.2.18 que f é contı́nua em R2 − {(2, 1)}. Tendo em mente o corolário 3.1.28, estudaremos
o comportamento de f ao longo de duas curvas (no caso, retas) que passam por (2, 1). Ao longo
de x = 2, f se anula, e ao longo da reta y = x − 1,

(x − 2)(x − 2) (x − 2)2 1
f (x, y) = f (x, x − 1) = 2 2 = 2 = .
(x − 2) + (x − 2) 2(x − 2) 2

Logo, f não tem limite em (2, 1) e, portanto, não é contı́nua aı́.

3.2.20 [Funções Polinomiais]


Exemplo Uma função polinomial em R2 é uma função real do
tipo

p(x, y) = a00 + a10 x + a01 y + a20 x2 + a11 xy + a02 y 2 + · · · + ad0 xd + · · · + a0d y d , (x, y) ∈ R2 ,

para algumas constantes aij ∈ R e 1 ≤ i, j ≤ d, com i, j, d ∈ N. Abreviadamente, p pode ser


posto sob a seguinte forma:
d
!
X X
p(x, y) = aij xi y j , (x, y) ∈ R2 .
k=1 i+j=k

Usando as duas projeções do R2 , dadas por p1 (x, y) = x e p2 (x, y) = y, podemos reescrever p


como !
Xd X
p(x, y) = aij (p1 (x, y))i (p2 (x, y))j .
k=1 i+j=k

Esta forma de olhar p mostra que p é uma soma de produtos envolvendo as projeções p1 e
p2 , que são funções contı́nuas em todo R2 , como vimos no exemplo 3.2.17. Logo, p também é
contı́nuo em R2 , o que resulta de uma aplicação direta (e cuidadosa) dos resultados contidos no
teorema 3.2.18. Mais geralmente, uma função polinomial em Rn é dada por
d
!
X X
p(x1 , x2 , . . . , xn ) = ai1 i2 ...in xi11 xi22 . . . xinn , (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn ,
k=1 i1 +i2 +···+in =k
Funções Contı́nuas 111

para algumas constantes ai1 i2 ...in ∈ R e 1 ≤ i1 , i2 , . . . , in ≤ d, com i1 , i2 , . . . , in , d ∈ N. Usando


argumentos análogos àqueles que usamos para as funções polinomiais em R2 , segue-se que p é
contı́nua em todo Rn .
Vejamos mais uma peça útil para a verificação da continuidade de certas funções, a partir
do conhecimento da continuidade de outras.

3.2.21
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm e g : E ⊂ Rm −→ Rp tais que f (D) ⊂ E. Sejam
X0 ∈ D e Y0 = f (X0 ) ∈ E. Se f é contı́nua em X0 e g é contı́nua em Y0 ,
então g ◦ f é contı́nua em X0 .
Demonstração: Usaremos a caracterização de continuidade dada pela proposição 3.2.6.
Para isto, seja  > 0. Como g é contı́nua em Y0 = f (X0 ), existe δ1 > 0 tal que
Y ∈ E, kY − Y0 k < δ1 =⇒ kg(Y ) − g(Y0 )k < . (¶19 )
Já a continuidade de f em X0 produz δ > 0 tal que
X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ kf (X) − f (X0 )k = kf (X) − Y0 k < δ1 .
Logo, se Y = f (X), para X ∈ D e kX − X0 k < δ, vale kY − Y0 k = kf (X) − f (X0 )k < δ1 , o
que, via (¶19 ), implica que
kg(Y ) − g(Y0 )k = kg(f (X)) − g(f (X0 ))k = k(g ◦ f )(X) − (g ◦ f )(X0 )k < .
Em resumo, temos que
∀ > 0, ∃δ > 0 : X ∈ D, kX − X0 k < δ =⇒ k(g ◦ f )(X) − (g ◦ f )(X0 )k < ,
isto é, g ◦ f é contı́nua em X0 . ppppppppppppppppppppp

3.2.22
Exemplo A função
xy


p , se (x, y) 6= (0, 0)
x 2 + y2
f (x, y) =

0, se (x, y) = (0, 0),
cuja continuidade na origem já foi estabelecida no exemplo 3.2.3, é contı́nua em R2 . De fato,
fora da origem f é o quociente (com denominador não-nulo) de duas funções contı́nuas, a saber:
a função polinomial p(x, y) = xy e a norma η(x, y) = k(x, y)k, que são contı́nuas, o que vem
de 3.2.20 e 3.2.15, respectivamente.

3.2.23 p
z) ∈ R3 . Note que h = g ◦ p, onde
Exemplo Seja h(x, y, z) = 1 + x2 + y2 + z 2 , (x, y, √
3
g : [0, +∞) −→ [0, +∞) é dada por g(t) = t, e p : R −→ R é a função polino-
mial p(x, y, z) = 1 + x2 + y 2 + z 2 > 0. Como g e p são contı́nuas, segue-se que h é contı́nua, de
acordo com a proposição 3.2.21. A continuidade de g é obtida no exercı́cio 3-7, o qual o leitor
não terá dificuldades para resolver.
3
Exercı́cios
Funções Contı́nuas – Exercı́cios 113

3-1 Em cada caso determine o domı́nio de f e discuta a definição de limite da função dada nos
pontos dados.
p
(a) f (x) = x2 (x − 1); X0 = 0, X1 = 1, X2 = 2;
p
(b) f (x, y) = [x2 + (y − 1)2 ](x − y); X0 = (0, 1), X1 = (1, 1), X2 = (1, 0).
3-2 Verifique os limites abaixo, usando ’s e δ’s.
(a) lim 2x + y − z = 1;
(x,y,z)→(1,2,3)

(b) lim x2 = 0;
(x,y)→(0,2)

(c) lim 2x2 + 2y 2 − 4x + 8y = −10.


(x,y)→(1,−2)

3-3 Verifique os seguintes limites:


x2 − y 2
(a) lim xy = 0;
(x,y)→(0,0) x2 + y 2
2x2 + xy 2 + 2y 2
(b) lim = 2;
(x,y)→(0,0) x2 + y 2
x+y
(c) lim = −1;
(x,y)→(0,2) x − y

x2 − y 2
(d) lim 2 2 = 0;
(x,y)→(1,1) x + y

(x − 1)2 (y + 1)2
(e) lim 4 2 = 0;
(x,y)→(1,a) (x − 1) + (y + 1)
xy − x − 2y + 2
(f) lim p = 0.
(x,y)→(2,1) x2 + y 2 − 4x − 2y + 5
x sen y
(g) lim p = 0;
(x,y)→(0,0) x2 + y 2
ex cos y − 1 − x
(h) lim p = 0.
(x,y)→(0,0) x2 + y 2
3-4 Se lim f (X) = L, mostre que lim kf (X)k = kLk. É verdadeira a recı́proca? Em
X→X0 X→X0
particular, mostre que se α : I ⊂ R −→ Rn é uma curva parametrizada, cuja velocidade
escalar é v(t), então
kα(t + h) − α(t)k
v(t) = kα0 (t)k = lim .
h→0 |h|

3-5 Sejam f : D ⊂ Rn −→ R, X0 ∈ Rn ponto de acumulação de D e lim f (X) = l 6= 0.


X→X0

(a) Mostre que existem uma constante k > 0 e uma bola aberta centrada em X0 , B ⊂ D,
tais que, para todo X ∈ B − {X0 }, vale |f (X)| > k;

1 1 |f (X) − l| 1 1
(b) Conclua que, em B − {X0 }, − ≤ . Donde lim = ;
f (X) l k|l| X→X0 f (X) l
(c) Se l > 0, então existe δ > 0 tal que f permanece positiva em B(X0 , δ) − {X0 }.
114 Funções Contı́nuas – Exercı́cios

3-6 [Permanência do Sinal] Mostre que se f : D ⊂ Rn −→ R é contı́nua em X0 e f (X0 ) > 0,


então existe δ > 0 tal que f (X) > 0, para todo X ∈ B(X0 , δ).

3-7 Seja g : [0, +∞) −→ [0, +∞) definida por g(x) = x.

(a) Se  > 0 e 0 ≤ x < 2 , então x < ;
(b) Conclua de (a) que g é contı́nua em x0 = 0;
√ √ 1
(c) Se x, x0 ∈ (0, +∞), então | x − x0 | = √ √ |x − x0 |;
x + x0
√ √ 1
(d) Deduza de (c) que | x − x0 | ≤ √ |x − x0 |;
x0
(e) Conclua que g é contı́nua em [0, +∞).
3-8 Discuta a continuidade das funções dadas a seguir.
(a) f (X) = kXk4 , X ∈ Rn ;
(b) f (x, y, z) = (x, y, x + z);

0, se xy 6= 0
(c) f (x, y) = ;
1, se xy = 0
( sen x
+ y, se x 6= 0
(d) f (x, y) = x ;
1 + y, se x = 0

x sen(1/y), se y 6= 0
(e) f (x, y) = ;
0, se y = 0
 2
x , se y 6= 0
(f) f (x, y) = .
1, se y = 0
3-9 Mostre que se α : I −→ Rn é derivável em t, então α é contı́nua aı́. Dê um exemplo mos-
trando que a recı́proca não é verdadeira.
3-10 Seja
f : R2 −−
−→
−− R
2

 xy , se (x, y) 6= (0, 0)

2 4
(x, y) −−−−−→ f (x, y) = x + y

0, se (x, y) = (0, 0).
Mostre que f é contı́nua ao longo de toda reta passando pela origem. Entretanto, f não é
contı́nua (na origem).
3-11 Uma aplicação A : Rn −→ Rm é dita afim se A(X) = T (X) + B, onde T é linear e B é uma
m-upla constante. Use o teorema 3.2.11 para mostrar que toda aplicação afim é lipschitziana.
3-12 Seja α : I −→ Rn uma curva parametrizada com derivada limitada em I, isto é, existe M ≥ 0
tal que kα0 (t)k ≤ M , para todo t ∈ I. Use a desigualdade do valor médio obtida no
teorema 2.2.11 para mostrar que α é lipschitziana, conforme definição 3.2.7. Reciprocamente,
se uma curva parametrizada derivável α : I −→ Rn é lipschitziana, então α0 é limitada.
3-13 Mostre que α(t) = (t, t2 ), t ∈ R, não é lipschitziana. Entretanto, sua restrição ao intervalo
[0, 1] o é. Mais geralmente, mostre que a restrição de α a qualquer intervalo limitado é
lipschitziana.
4
Derivadas Parciais

z
6 l1
l
x=a qqqqq 2
qqq
qqqq qqqq qq
NP (f ) T2 qqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqq
Hy = b qqqqqqqqqqqqqq
qq qqqqq qqqq qq q
q
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq qqq
q qq
qq
Y
H
HH
q q qq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q qqq q qqq
qqqqq qqqq qq qqqqqqq qqqq qq q q
H
H q
Hqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqq qq q q q q q
qqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq
H
qqqqq qqqqqq qqqqqqqqqq qqqqqqqqq
qqqqqqqq qqq qqq
qq  T1
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
-
q qqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqX qqqqq0qqqqqqqqqqqqqq q qqqqq y
β qqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q q
α

x

por
J. Adonai & A. Carlos
4.1
Derivadas Parciais em R2

Seja g : I ⊂ R −→ R uma função real de uma variável real definida no intervalo I. A


derivada de g em a ∈ I é definida por
g(a + h) − g(a)
g 0 (a) = lim ,
h→0 h
quando o limite existe. Nesta definição, supomos que o acréscimo h é tal que a + h ∈ I.
Satisfeita esta hipótese, h é arbitrário, podendo ser positivo ou negativo, a menos que a seja
uma das extremidades de I.
Para estender este quadro para as funções
xn
vetoriais f : D ⊂ Rn −→ Rm , n > 1, (vale no- 6
tar que para n = 1, a noção de derivada foi es- qqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqq D
tendida sem qualquer esforço adicional, conforme q q q q qq
q qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqbqqqqqqqqq+ qqqqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
capı́tulo 2), além de uma reformulação adequada qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq qqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqbqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqq0qqqqqqqqq q
do quociente de Newton —pois não dispomos da qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq@ qqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqq+qqqqq qHqqq
bqqq− qqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q
R
operação de divisão por um vetor—, é natural que qqq qqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
façamos algumas exigências sobre o domı́nio D: qqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq -
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqaqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
por exemplo, exigir que dado X0 ∈ D, os pontos aqqqqq− qqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqaqqqqq+ δ q x1
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
X = X0 + H ainda pertençam a D para kHk sufi- q qqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
cientemente pequeno. Um bom modo de fazer isto q qqqqqqqqqqqqqqq
é garantir a existência de um número real δ > 0
tal que a bola aberta B(X0 , δ) ainda esteja contida Figura 68: Conjunto Aberto
em D, o que motiva a definição de conjunto aberto
(veja definição 4.1.1 a seguir). Satisfeita esta condição, podemos, em particular, considerar
acréscimos vetoriais paralelos aos eixos coordenados, obtendo as derivadas parciais de f em X0 .
Mais geralmente, se os acréscimos são tomados paralelos a uma direção fixa, obtemos a noção
de derivada direcional, que veremos na seção 4.5.

4.1.1 [Conjunto Aberto]


Definição Um conjunto D ⊂ Rn é dito aberto se D = ∅ ou dado
X ∈ D existe δ > 0, que pode depender de X, tal que
B(X, δ) ⊂ D.

4.1.2
Exemplo No espaço R2 são abertos os seguintes subconjuntos:
(i) o próprio R2 ;
(ii) o disco x2 + y 2 < 1 (veja exemplo 4.1.4);
(iii) o espaço R2 menos um número finito de pontos;
(iv) o espaço R2 menos o cı́rculo x2 + y 2 = 1.

116
Derivadas Parciais 117

4.1.3
Exemplo O espaço Rn é aberto em Rn . Se retiramos do Rn um número finito de pontos, o
conjunto resultante ainda é aberto de Rn .
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q qqq q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqYqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
4.1.4 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
Exemplo Se  > 0 e X0 ∈ Rn , então a bola aberta qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq
B(X0 , ) é um conjunto aberto do Rn . De qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
fato, dado X ∈ B(X0 , ), escolhemos δ =  − kX − X0 k . qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
É claro que δ > 0 e que se Y ∈ B(X, δ), então qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
kY − X0 k = kY − X0 + X − Xk qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
≤ kY − Xk + kX − X0 k < δ +  − δ = . Figura 69

Isto implica B(X, δ) ⊂ B(X0 , ). Em particular, os intervalos abertos são abertos de R e os
discos abertos são abertos de R2 .

4.1.5
Exemplo Vejamos alguns exemplos de conjuntos que não são abertos em R2 .
(i) Qualquer conjunto finito;
(ii) o semi-plano y ≥ 0;
(iii) o disco fechado x2 + y 2 ≤ 1;
(iv) o intervalo aberto {(x, y); 0 < x < 1 e y = 0}.
A seguinte proposição mostra como construir novos conjuntos abertos a partir de outros
já conhecidos.

4.1.6
Proposição Se D1 e D2 são abertos do Rn , então D1 ∩ D2 e D1 ∪ D2 são abertos do Rn .
Demonstração: Podemos supor que D1 ∩ D2 6= ∅. Seja X ∈ D1 ∩ D2 . Então, X ∈ D1
e X ∈ D2 . Como D1 e D2 são abertos, existem δ1 > 0 e δ2 > 0 tais que B(X, δ1 ) ⊂ D1 e
B(X, δ2 ) ⊂ D2 . Tomando δ = min{δ1 , δ2 }, vem que B(X, δ) ⊂ D1 ∩ D2 . Logo, D1 ∩ D2 é aberto.
Seja, agora, X ∈ D1 ∪ D2 . Logo, ou X ∈ D1 ou X ∈ D2 . Em qualquer caso, deve
existir δ > 0 tal que B(X, δ) está contida em algum destes conjuntos, pois ambos são abertos.
Portanto, B(X, δ) ⊂ D1 ∪ D2 , e D1 ∪ D2 é aberto. pppppppppppppppppppppp

Visando obter uma interpretação geométrica precisa do que significa derivada parcial,
introduziremos este conceito no ambiente R2 . Feito isso, a passagem para o caso vetorial, com
mais de duas variáveis, se dará naturalmente.
Seja f : D ⊂ R2 −→ R uma função definida no aberto D. Fixemos X0 = (a, b) ∈ D. Logo,
para algum δ > 0, B(X0 , δ) ⊂ D. Assim podemos escrever os quocientes de Newton de f ,
relativos a x e y, em X0 :
f (a + h, b) − f (a, b)
Q1 (h) = , 0 < |h| < δ,
h
118 Derivadas Parciais em R2

e
f (a, b + k) − f (a, b)
Q2 (k) = , 0 < |k| < δ.
k
Para ver Q1 e Q2 como quocientes de Newton de funções de uma variável, introduzimos duas
funções auxiliares, as quais indicaremos por g1 e g2 , definidas da seguinte forma:

g1 : (a − δ, a + δ) −−−→
−− R
(¶20 )
x −−−−−→ g1 (x) = f (x, b)
e
g2 : (b − δ, b + δ) −−−→
−− R
(¶21 )
y −−−−−→ g2 (y) = f (a, y).
Logo, Q1 é o quociente de Newton de g1 em a, e Q2 é o quociente de Newton de g2 em b. Isto
posto, podemos definir derivada parcial.

4.1.7
Definição Se Q1 tem limite quando h tende a zero, dizemos que f tem derivada parcial
com relação a x em X0 = (a, b). O valor do limite, indicado por ∂f ∂x
(a, b), por
fx (a, b), ou por D1 f (a, b), é chamado derivada parcial de f com relação a x em X0 . Em outras
palavras,
∂f f (a + h, b) − f (a, b)
(a, b) = lim ,
∂x h→0 h
quando o limite existe.

4.1.8
Definição Se Q2 tem limite quando k tende a zero, dizemos que f tem derivada parcial
com relação a y em X0 = (a, b). O valor do limite, indicado por ∂f ∂y
(a, b), por
fy (a, b), ou por D2 f (a, b), é chamado derivada parcial de f com relação a y em X0 . Em outras
palavras,
∂f f (a, b + k) − f (a, b)
(a, b) = lim ,
∂y k→0 k
quando o limite existe.

O cálculo explı́cito destes limites pode ser evitado com o uso de g1 e g2 , como mostra a
seguinte proposição.

4.1.9
Proposição Sejam f : D ⊂ R2 −→ R, D aberto, e X0 = (a, b) ∈ D. Se g1 e g2 são como
em (¶20 ) e (¶21 ), então

∂f ∂f
(a, b) = g10 (a) e (a, b) = g20 (b),
∂x ∂y
desde que as derivadas parciais de f existam em X0 .
Derivadas Parciais 119

Demonstração: De g1 (x) = f (x, b), x ∈ (a − δ, a + δ), vem que

g1 (a + h) − g1 (a) f (a + h, b) − f (a, b)
= = Q1 (h),
h h
isto é, Q1 coincide com o quociente de Newton de g1 em x = a. Logo,

g1 (a + h) − g1 (a) f (a + h, b) − f (a, b) ∂f
g10 (a) = lim = lim = (a, b).
h→0 h h→0 h ∂x

A afirmação com respeito à derivada de f com relação a y será deixada como exercı́cio. ppppppppppppppppp

Portanto, tudo se passa como no cálculo de funções de uma variável: basta fixar uma das
variáveis, e estudar a função de uma variável resultante. Vejamos alguns exemplos, para fixar
estas idéias.

4.1.10
Exemplo Seja f (x, y) = xy2 + e2x+y +3, (x, y) ∈ R2 , e consideremos o ponto X0 = (2, −1).
As funções auxiliares g1 e g2 , neste caso, são:

g1 (x) = f (x, −1) = x + e2x−1 +3, x ∈ R, e g2 (y) = f (2, y) = 2y 2 + e4+y +3, y ∈ R.

Logo, g10 (2) = 1 + 2 e3 e g20 (−1) = −4 + e3 . Usando a proposições 4.1.9, segue-se que

∂f ∂f
(2, −1) = 1 + 2 e3 , e (2, −1) = −4 + e3 .
∂x ∂y

Mais geralmente, em um ponto arbitrário X = (x, y), obtemos

g1 (x) = f (x, y) = xy 2 + e2x+y +3, x ∈ R, e g2 (y) = f (x, y) = xy 2 + e2x+y +3, y ∈ R,

onde estamos olhando y como uma constante, na relação que define g1 , e, o mesmo se fazendo
com x, naquela que define g2 . Logo,

∂f ∂f
(x, y) = g10 (x) = y 2 + 2 e2x+y e (x, y) = g20 (y) = 2xy + e2x+y , (x, y) ∈ R2 .
∂x ∂y

4.1.11
Exemplo Se f (x, y) = xy , (x, y) ∈ (0, +∞) × R, então pensando em y como constante,
obtemos ∂f ∂x
(x, y) = yxy−1 . Agora, para x constante, vem que ∂f
∂y
(x, y) = xy log x.
Em particular, ∂f
∂x
(1, 2) = 2 e ∂f∂y
(1, 2) = 0.
O procedimento adotado no exemplo anterior, onde calculamos as derivadas parciais no
ponto (1, 2), a partir do cálculo destas derivadas em um ponto qualquer, pode não ser o mais
aconselhável, como vemos no exemplo a seguir.
120 Derivadas Parciais em R2

4.1.12
Exemplo Seja f : R × (0, +∞) −→ R definida por
arctg27 (x3 + y) + sen(x2 + y 2 )
 
2 2 xy+cos(x+y+2)
f (x, y) = x + y + +e log y.
x2 + y 2 + 1

Para calcular, por exemplo, ∂f ∂x


(3, 1), observamos que a função g1 associada a f , neste ponto,
toma uma forma bastante simples, a saber: g1 (x) = f (x, 1) = x2 + 1, x ∈ R, cuja derivada é
g10 (x) = 2x. Logo, ∂f
∂x
(3, 1) = 6. O leitor deve observar, entretanto, que este mesmo cálculo, a
partir da expressão geral de ∂f
∂x
, deve ser bem mais trabalhoso.

4.1.13 [Operações com Derivadas Parciais]


Proposição Se f, g : D ⊂ R2 −→ R têm de-
rivada com relação a x no ponto
X0 = (a, b) do aberto D, então f + g, f g e f /g, esta última se g(a, b) 6= 0, também têm derivada
parcial com relação a x em X0 , e valem as seguintes identidades:
∂(f + g) ∂f ∂g
(i) (a, b) = (a, b) + (a, b);
∂x ∂x ∂x
∂(f g) ∂f ∂g
(ii) (a, b) = (a, b)g(a, b) + f (a, b) (a, b);
∂x ∂x ∂x
 
f ∂f ∂g
∂ (a, b)g(a, b) − f (a, b) (a, b)
g
(iii) (a, b) = ∂x ∂x .
∂x g 2 (a, b)

Demonstração: Segue-se facilmente das propriedades da derivada das funções reais de


uma variável real. ppppppppppppppppppppp

4.1.14 p
Exemplo Seja f : R2 −→ R definida por f (x, y) = x2 + y2 . Se X = (x, y) 6= (0, 0), então
∂f x ∂f y
(x, y) = p e (x, y) = p .
∂x 2
x +y 2 ∂y x + y2
2

Entretanto, f não tem derivadas parciais com relação a x nem com relação a y em X0 = (0, 0).
De fato, √ 
f (h, 0) − f (0, 0) h2 |h| 1, se h > 0
Q1 (h) = = = = .
h h h −1, se h < 0

Logo, não existe limh→0 Q1 (h) e, portanto, não existe ∂f


∂x
(0, 0). Analogamente, não existe ∂f
∂y
(0, 0).
p
Note que o gráfico de f , a superfı́cie z = x2 + y 2 , coincide com a folha superior do cone de
duas folhas mostrado na figura 28, página 35. O vértice deste cone corresponde ao ponto (0, 0),
onde f não possui derivadas parciais.
Derivadas Parciais 121

4.1.15
Exemplo Consideremos, agora, f : R2 −→ R definida assim:
2 2

xy x − y , se (x, y) 6= (0, 0)

f (x, y) = x2 + y 2

0, se (x, y) = (0, 0).

Um cálculo direto, usando a proposição 4.1.13, mostra que em X = (x, y) 6= (0, 0) valem

∂f x2 − y 2 x2 y 3 ∂f x2 − y 2 x3 y 2
(x, y) = y 2 + 4 e (x, y) = x − 4 .
∂x x + y2 (x2 + y 2 )2 ∂y x2 + y 2 (x2 + y 2 )2

Para calcular as derivadas parciais de f em (0, 0), usaremos os quocientes de Newton de f aı́:

f (h, 0) − f (0, 0) 0−0 f (0, k) − f (0, 0) 0−0


Q1 (h) = = = 0 e Q2 (k) = = = 0.
h h k k
∂f ∂f
Logo, ∂x
(0, 0) = limh→0 Q1 (h) = 0 e ∂y
(0, 0) = limk→0 Q2 (k) = 0. Em resumo, temos que
 2
x − y2 x2 y 3
y + 4 , se (x, y) 6= (0, 0)

∂f 
(x, y) = x2 + y 2 (x2 + y 2 )2
∂x 
0, se (x, y) = (0, 0)
 2
x − y2 x3 y 2
x − 4 , se (x, y) 6= (0, 0)

∂f 
(x, y) = x2 + y 2 (x2 + y 2 )2 (¶22 )
∂y 
0, se (x, y) = (0, 0).

Observação Algumas palavras sobre as notações usadas para derivadas parciais. O sı́mbolo
∂f
∂x
(X0 ) (ou fx (X0 )) contém duas informações:

(i) calculamos o limite quando h tende a zero do quociente de Newton Q1 ;


(ii) estamos indicando a primeira variável de f por x.

Portanto, se indicamos por u e v as coordenadas de um ponto genérico do domı́nio de f , a


notação adequada para o limite limh→0 Q1 (h) é ∂f∂u
(X0 ), o que deve ser chamado de derivada
parcial de f com relação a u em X0 . Note, entretanto, que a notação D1 f (X0 ) não depende da
escolha da letra que usamos para indicar a primeira variável de f . O exemplo a seguir indica
os pontos do domı́nio de f por (s, t), e calcula, claro, as derivadas parciais de f com relação às
variáveis s e t.

4.1.16
Exemplo Se f (s, t) = A sen(ks − wt), (s, t) ∈ R2 e A, k, w constantes, então
∂f ∂f
(s, t) = kA cos(ks − wt) e (s, t) = −wA cos(ks − wt).
∂s ∂t
122 Derivadas Parciais em R2

4.1.17
Interpretação Geométrica

Seja f : D ⊂ R2 −→ R uma função real tendo derivadas parciais, com relação a x e com
relação a y, no ponto X0 ∈ D. Seja

S = G(f ) = {(x, y, z); z = f (x, y), (x, y) ∈ D} z


6 l1
o gráfico de f , conforme definição 1.4.7. A figura l
x=a qqqqqq 2
qqq
ao lado mostra G(f ), os planos x = a e y = b. qqqq qqqq
qqqqqq q q
qpqqpqqqqqq q q qq
Estes planos interceptam G(f ) no traço das se-
NP (f ) T2
qq
p p qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqq
Hy = b pqqpqqqqqqqqqqqq qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qpqqqpqpqqqqqqqqqq qqqq qq
qq
qpqp pqqqpqqpqqqpqqpqqqqpqqqq
pqqpqqqp pqqq qqqq qqqq
Y
H HH
guintes curvas parametrizadas: ppqqqpqqpqpqqpqqqqpqqpqpqqpqqq q q q qq
Hqpqqqqppqppqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q q qq
H
qqqqqqqqqq q qq q q
H
qqppqqqpqqqqqq
qqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
H
pqqqq qqqqqqqqqqq
α1 (x) = (x, b, g1 (x)), x ∈ (a − δ, a + δ), ppqqp pqqqqqpppqqqqqqqqqqq
q
qq T1 -
e qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
y
p pp β qqX qqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq qqq qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qq q
qq q qqq
q q q
p
α2 (y) = (a, y, g2 (y)), y ∈ (b − δ, b + δ), α ppp p p

x Figura 70
onde g1 e g2 são as funções auxiliares que defi-
nimos em (¶20 ) e (¶21 ). A figura abaixo exibe os
traços de α1 e α2 , que são, respectivamente, os gráficos de g1 , posto no plano y = b, e de g2 ,
no plano x = a. Note, também, a presença das retas l1 e l2 : l1 é a reta do plano y = b que é
tangente
z z
l2 pp
6 6
@1
l
pp ppp
pp pp
T2
p ppppppp@
ppppppppppppp p p p p p p p p p p p p p p ppppppp p
pp ppp @pp pqppp p p p p

g1 (a) q
ppp p p
g2 (b) q pqp z = g (y)
z = g1 (x)@ppppp T1
p pppp
ppp p
2
p pp p
R
@ p
@
@
@ ppppppα
ppp ppp β
q @ ppp - p q -
a x y
b


0 ∂f
tg α = g1 (a) = (a, b)


∂x
Figura 71:
∂f
tg β = g20 (b) =

 (a, b)
∂y

a G(f ) no ponto (a, b, f (a, b)), enquanto que l2 é a reta do plano x = a que também é tangente
ao gráfico de f . A reta l1 faz um ângulo α com e1 , e l2 faz um ângulo β com e2 . Portanto,
g10 (a) = tg α e g20 (b) = tg β, que são as inclinações de l1 e l2 , respectivamente. Isto posto,
podemos interpretar ∂f ∂x
(X0 ) e ∂f
∂y
(X0 ) como inclinações de retas tangentes ao gráfico de f . Em
particular, estas derivadas indicam, respectivamente, a taxa de crescimento de f , a partir de
X0 , nas direções de e1 e e2 . As retas l1 e l2 sugerem a seguinte definição.
Derivadas Parciais 123

4.1.18
Definição O plano que contém as retas l1 e l2 , denotado por πP (f ), será chamado plano
tangente ao gráfico de f no ponto P = (a, b, f (a, b)).

Como l1 é tangente ao traço de α1 em x = a, vem que esta reta é paralela ao vetor


∂f
T1 = α10 (a) = (1, 0, g10 (a)) = (1, 0, (a, b)),
∂x
também mostrado nas figuras 70 e 71. Analogamente, o vetor
∂f
T2 = α20 (b) = (0, 1, g20 (b)) = (0, 1, (a, b))
∂y
é paralelo à reta l2 . Assim,
∂f ∂f
πP (f ) = {X ∈ R3 ; X = (a, b, f (a, b)) + u(1, 0, (a, b)) + v(0, 1, (a, b)), (u, v) ∈ R2 }
∂x ∂y
é uma representação paramétrica para o plano tangente a G(f ) em P .

4.1.19
Definição O vetor
∂f ∂f
NP (f ) = T1 × T2 = (− (a, b), − (a, b), 1)
∂x ∂y
será chamado vetor normal ao gráfico de f em P .

Observando que NP (f ) é perpendicular a πP (f ) obtemos, via proposição 1.3.9, uma


equação cartesiana para este plano:
∂f ∂f
πP (f ) = {(x, y, z) ∈ R3 ; z = f (a, b) + (a, b)(x − a) + (a, b)(y − b)}. (¶23 )
∂x ∂y
z
6
4.1.20
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
Exemplo Seja z = f (x, y) = 4−x2 −2y2 , (x, y) ∈ R2 , qq qqqqπ
qq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqP
q qqqqqqqqq1qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq
qq q
qq qqqqqqqqqqqqqqqqqP q q q
qq qqqqq1qqqqqqqq(f
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqq)qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
cujo gráfico, q q q q qqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqq
qqqqqqqqqqqqqq q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq qq qqqqqqqqqqqqqqqq
q
G(f ) = {(x, y, z); z = 4 − x2 − 2y 2 , (x, y) ∈ R2 }, qq
qqqqqq qq qqqqqqqqqqq2qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q q q q q q q q q q qqq q q q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqP
qqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqq qqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq
qqqq q q q q q qqq q q q qq q q q q q q q
-
é um parabolóide elı́ptico, como mostra a figura 72. O ve- qq qqq
qqqqqqq q q q qqq qqqq q q q q q q q q q q
y
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q q q q q q q q q
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqPqqqqqqqq2qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
π (f )
tor normal de G(f ) em um ponto arbitrário (x, y, f (x, y)) qqqqqqq
qqqqq
qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
é dado por qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqq

x qqqqq
∂f ∂f
N (f ) = (− (x, y), − (x, y), 1) = (2x, 4y, 1). Figura 72: z = 4 − x2 − 2y2
∂x ∂y
Para X0 = (0, 0), obtemos P1 = (0, 0, 4) ∈ G(f ), ponto no qual o plano tangente é
∂f ∂f
πP1 (f ) = {(x, y, z) ∈ R3 ; z = f (0, 0) + (0, 0)(x − 0) + (0, 0)(y − 0)}
∂x ∂y
= {(x, y, z); z = 4},
124 Derivadas Parciais de Ordem Superior

que é paralelo ao plano-xy, como podemos ver na figura 72. Se tomamos X0 = (1, 1), obtemos
P2 = (1, 1, 1) ∈ G(f ), onde o plano tangente é
∂f ∂f
πP2 (f ) = {(x, y, z) ∈ R3 ; z = f (1, 1) + (1, 1)(x − 1) + (1, 1)(y − 1)}
∂x ∂y
= {(x, y, z); 2x + 4y + z = 7}.

4.1.21
Exemplo Consideremos o elipsóide S = {(x, y, z); x2 + 2y2 + 3z 2 = 21}. Esta superfı́cie
definida implicitamente pode ser olhada como a união dos dois gráficos das funções
r r
21 − x2 − 2y 2 21 − x2 − 2y 2
f (x, y) = e g(x, y) = − ,
3 3
ambas definidas na região D envolvida pela elipse z
qq 6
q qq q
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
2 2
x + 2y = 21.
qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qq q
O objetivo deste exemplo é determinar, caso existam, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qqqqq q qq q qq q q q q q q q q q q q q q q q qq q q qq q qq q qq q qq q q q q q q q q q q q q P
q q q q q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
1
pontos de S onde o plano tangente é paralelo ao plano π qq q
qqqqq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqq
qqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q
dado por x + 4y + 6z = 0. Vejamos se em G(f ) podemos qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqq
qqqq
qqqq
qqqqqq
qqqqqqqqqqqqq qq qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q
-
encontrar algum desses pontos, o qual indicaremos por qq
q qq q q qqq q q q q qqq q q q q q q q q q q q q q qqq q q q q q q q q q q q q q q q q
qq qq q qq q q q q q q y
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqq
q q q q
(x, y, f (x, y)). Neste ponto o vetor normal de G(f ) é qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
N (f ) = (−fx (x, y), −fy (x, y), 1) x qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqq
x 2y
=( , , 1),
3f (x, y) 3f (x, y) Figura 73

se f (x, y) > 0. Logo, 3f (x, y)N (f ) = (x, 2y, 3f (x, y)) deve ser paralelo ao vetor (1, 4, 6), normal
ao plano π. Este paralelismo se dá quando x = 1, y = 2 e, portanto, f (x, y) = 2. Portanto,
o plano tangente a S em P1 = (1, 2, 2) é paralelo ao plano dado. O leitor pode agora verificar
que o outro plano tangente a S que é paralelo a π é o que passa por P2 = (−1, −2, −2). Como
resultado, temos os dois planos tangentes a S que são paralelos a π:
πP1 (f ) = {(x, y, z); x + 4y + 6z = 21} e πP2 (g) = {(x, y, z); x + 4y + 6z = −21}.

4.2
Derivadas Parciais de Ordem Superior

Seja f : D ⊂ R2 −→ R, D aberto. Suponhamos que as derivadas parciais de f , com relação


a x e a y, existam em D. Isto dá origem a duas novas funções definidas em D:
∂f ∂f
: D −→ R e : D −→ R.
∂x ∂y
Derivadas Parciais 125

Se estas funções têm derivadas parciais em X = (x, y), dizemos que f tem derivadas parciais de
segunda ordem em X. Usaremos as seguintes notações para indicar estas derivadas:
∂ ∂f ∂f
 
∂ 2f ∂x ∂ 2
f ∂ ∂x
(x, y) = (x, y), (x, y) = (x, y),
∂x2 ∂x ∂y∂x ∂y
   
∂f
∂ 2f ∂ ∂y ∂ 2f ∂ ∂f
∂y
(x, y) = (x, y) e 2
(x, y) = (x, y).
∂x∂y ∂x ∂y ∂y
Alternativamente, com a notação que indica a derivação parcial por um ı́ndice,
fxx (x, y) = (fx )x (x, y), fxy (x, y) = (fx )y (x, y),
fyx (x, y) = (fy )x (x, y) e fyy (x, y) = (fy )y (x, y).
∂2f
Observe que em ∂y∂x a ordem de derivação, indicada no “denominador”, se dá da direita para
esquerda: primeiro com relação a x, e depois com relação a y. Já na notação alternativa fxy
esta ordem, indicada no “ı́ndice”, se dá da esquerda para a direita. Em resumo,
∂ 2f
= fxy ,
∂y∂x
significando: derivar primeiro com relação a x, e depois com relação a y.
As derivadas parciais de terceira ordem são definidas a partir da existência daquelas de
segunda ordem. Caso existam em D as quatro derivadas parciais de segunda ordem, obtemos
oito derivadas parciais de terceira ordem, conforme tabela que segue.

∂ ∂
∂x ∂y
   
∂2f ∂2f
∂ 2f ∂ 3f ∂ ∂x2 ∂ 3f ∂ ∂x2
= =
∂x2 ∂x3 ∂x ∂y∂x2 ∂y
 2   2 
∂ f ∂ f
∂ 2f 3
∂ f ∂ ∂y∂x
3
∂ f ∂ ∂y∂x
= =
∂y∂x ∂x∂y∂x ∂x ∂y 2 ∂x ∂y
 2   2 
∂ f ∂ f
∂ 2f ∂ 3f ∂ ∂x∂y ∂ 3f ∂ ∂x∂y
= =
∂x∂y ∂x2 ∂y ∂x ∂y∂x∂y ∂y
 2   2 
∂ f ∂ f
∂ 2f ∂ f3 ∂ ∂y 2 ∂ f3 ∂ ∂y 2
= =
∂y 2 ∂x∂y 2 ∂x ∂y 3 ∂y

Mais geralmente, podemos definir as derivadas parciais de ordem k para f , a partir, é


claro, da informação de que f tenha, em D, aquelas de ordem k − 1. Neste caso, por exemplo,
126 Derivadas Parciais de Ordem Superior

se k1 , k2 , k3 ∈ N são tais que k1 + k2 + k3 = k, o sı́mbolo

∂f k
= fxk1 xk2 xk3
∂xk3 ∂y k2 ∂xk1

indicará que a k-ésima derivada parcial de f obtida derivando f , k1 vezes com relação a x, k2
vezes com relação a y e, por fim, k3 vezes com relação a x, outra vez.

4.2.1 y
Exemplo Seja f (x, y) = + x log y, onde y > 0 e x 6= 0. As derivadas parciais de f , até
x
terceira ordem, são mostradas na tabela abaixo.

∂f y ∂f x 1
= − 2 + log y = +
∂x x ∂y y x

∂ 2f 2y ∂ 2f 1 1
2
= 3 = − 2
∂x x ∂y∂x y x

∂ 2f 1 1 ∂ 2f x
= − 2 2
=− 2
∂x∂y y x ∂y y

∂ 3f 6y ∂ 3f 2
3
=− 4 2
= 3
∂x x ∂y∂x x

∂ 3f 2 ∂ 3f 1
= 3 = −
∂x∂y∂x x ∂y 2 ∂x y2

∂ 3f 2 ∂ 3f 1
2
= 3 =− 2
∂x ∂y x ∂y∂x∂y y

∂ 3f 1 ∂ 3f 2x
= − =
∂x∂y 2 y2 ∂y 3 y3

Note, nesta tabela, as seguintes coincidências:


∂ 2f ∂ 2f 1 1
(i) = = − 2;
∂y∂x ∂x∂y y x

∂ 3f ∂ 3f ∂ 3f 2
(ii) 2
= = 2
= 3;
∂x ∂y ∂x∂y∂x ∂y∂x x

∂ 3f ∂ 3f ∂ 3f 1
(iii) = = = − ,
∂y 2 ∂x ∂y∂x∂y ∂x∂y 2 y2
Derivadas Parciais 127

que mostra, neste caso, que o resultado não depende da ordem que executamos a derivação
parcial mista: as derivadas segundas mistas coincidem; as terceiras, obtidas derivando f duas
vezes com relação a x coincidem; e as terceiras obtidas derivando f duas vezes com relação a y
também são iguais. Infelizmente, em geral, isto não é verdadeiro, como verificaremos no próximo
exemplo.

4.2.2
Exemplo Retomemos o exemplo 4.1.15, página 121, a saber:
2 2

xy x − y , se (x, y) 6= (0, 0)

f (x, y) = x2 + y 2

0, se (x, y) = (0, 0),

cujas primeiras derivadas parciais são, conforme (¶22 ),


 2
x − y2 x2 y 3
y + 4 , se (x, y) 6= (0, 0)

∂f 
(x, y) = x2 + y 2 (x2 + y 2 )2
∂x 
0, se (x, y) = (0, 0)
 2
x − y2 x3 y 2
x − 4 , se (x, y) 6= (0, 0)

∂f 
(x, y) = x2 + y 2 (x2 + y 2 )2
∂y 
0, se (x, y) = (0, 0).

Temos que
∂f ∂f ∂f ∂f
∂ 2f (0, 0 + k) − (0, 0) (0, k) − (0, 0) k
= lim ∂x ∂x = lim ∂x ∂x = − lim = −1
∂y∂x k→0 k k→0 k k→0 k

e
∂f ∂f ∂f ∂f
2 (0 + h, 0) − (0, 0) (h, 0) − (0, 0)
∂ f ∂y ∂y ∂y ∂y h
= lim = lim = lim = 1,
∂x∂y h→0 h h→0 h h→0 h

Resulta daı́ que fxy (0, 0) 6= fyx (0, 0). Entretanto, fora da origem estas derivadas parciais coinci-
dem, como podemos verificar diretamente, usando a proposição 4.1.13. O resultado é o seguinte:
 2
x − y2 2
2 2 x −y
2
2
2 + 8x y , se (x, y) 6= (0, 0)

∂ f 
2
(x, y) = x + y (x2 + y 2 )3
∂x∂y 
1, se (x, y) = (0, 0)
 2 2 2 2
∂ 2f  x − y + 8x2 y 2 x − y , se (x, y) 6= (0, 0)

2 2
(x, y) = x + y (x2 + y 2 )3
∂y∂x 
−1, se (x, y) = (0, 0).

∂2f
Estudando o comportamento de ∂x∂y
ao longo de eixo-y − {(0, 0)}, vemos que aı́ esta derivada é
∂2f
constante e vale −1, o que, em particular, mostra que ∂x∂y
não é contı́nua na origem. O mesmo
128 Derivadas Parciais de Ordem Superior

∂2f
argumento, agora considerando o eixo-x, mostra que ∂y∂x
também não é contı́nua em (0, 0).
É exatamente este o defeito de f que é responsável pela não-coincidência destas derivadas em
(0, 0). Pensando na situação geral, isto sugere que devemos pedir pelo menos a continuidade das
derivadas parciais até ordem dois, para obter uma possı́vel igualdade entre fxy e fyx . A próxima
seção se encarregará desta tarefa.

4.2.3
O Teorema de Schwarz

Seja f : D ⊂ R2 −→ R, definida no aberto D, com derivadas parciais até a ordem dois


definidas em D. Fixado X0 = (a, b), uma tentativa natural de se obter uma prova da igualdade

∂ 2f ∂ 2f
(a, b) = (a, b),
∂y∂x ∂x∂y

seria aplicando diretamente a definição de derivada parcial. Primeiro escreverı́amos:

∂f ∂f
∂ 2f (a, b + k) − (a, b)
(a, b) = lim ∂x ∂x
∂y∂x k→0 k
 
f (a + h, b + k) − f (a, b + k) − f (a + h, b) + f (a, b)
= lim lim .
k→0 h→0 hk

Depois escreverı́amos:

∂f ∂f
(a + h, b) − (a, b)
∂ 2f ∂y ∂y
(a, b) = lim
∂x∂y h→0 k
 
f (a + h, b + k) − f (a, b + k) − f (a + h, b) + f (a, b)
= lim lim .
h→0 k→0 hk

Agora, se definimos

φ(h, k) = f (a + h, b + k) − f (a, b + k) − f (a + h, b) + f (a, b),

a desejada demonstração resultaria da igualdade


   
φ(h, k) φ(h, k)
lim lim = lim lim ,
k→0 h→0 hk h→0 k→0 hk

se tivéssemos em mãos algum resultado que garantisse igualdade de limites iterados, como é o
nosso caso. Infelizmente, isto nem sempre é verdadeiro, como mostra o próximo exemplo. Logo,
devemos trabalhar um pouco mais, para achar uma prova da igualdade proposta.
Derivadas Parciais 129

4.2.4 2 2
Exemplo Seja g(h, k) = h − k , (h, k) 6= (0, 0). Temos que
2 2
h +k
  k2
lim lim g(h, k) = − lim 2 = −1
k→0 h→0 k→0 k

e
  h2
lim lim g(h, k) = lim 2 = 1,
h→0 k→0 h→0 h

o que mostra que a inversão da ordem no cálculo de limites iterados pode produzir resultados
diferentes.
Obteremos a seguir uma seqüência de resultados que culminarão no teorema de Schwarz.
Iniciamos fazendo uma adaptação do teorema do valor médio (teorema 2.2.9) para funções de
duas variáveis, via derivadas parciais.

4.2.5
Proposição Sejam f : D ⊂ R2 −→ R e X = (u, v) ∈ D. Se f tem derivadas parciais até
segunda ordem na bola aberta B(X, δ) ⊂ D e k(h, k)k < δ, então valem as
seguintes identidades:
∂f
(i) f (u + h, v) = f (u, v) + (u + θ1 h, v)h, para algum θ1 , 0 < θ1 < 1;
∂x
∂f
(ii) f (u, v + k) = f (u, v) + (u, v + θ2 k)k, para algum θ2 , 0 < θ2 < 1;
∂y
∂f ∂f ∂ 2f
(iii) (u, v + k) = (u, v) + (u, v + θ21 k)k, para algum θ21 , 0 < θ21 < 1;
∂x ∂x ∂y∂x
∂f ∂f ∂ 2f
(iv) (u + h, v) = (u, v) + (u + θ12 h, v)h, para algum θ12 , 0 < θ12 < 1.
∂y ∂y ∂x∂y

Demonstração: Seja g1 (x) = f (x, v), v fixo. O qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq


q qq qq qq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
teorema 2.2.9 aplicado a g1 no intervalo [u, u + h] (se qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqvqqqqqqqqqqqqqq+ qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqk)
q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq(u
qqq q + h, v + k)
qqqqqqqqq(u, q qq
h > 0, claro) produz c ∈ (u, u + h) tal que qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqvqqqqqqqqqqqqqqqqq+ qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqq(u, q q q qq q q q qqqqqqqqqqqqqqθqqqqqq2qqqqqqk) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
g1 (u + h) − g1 (u) = g10 (c)(u + h − u) = g10 (c)h. qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq(u, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqv) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq(u qqqqqqqqqqqqqqqq+ qqqqqq h, v)
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq(u qqqqqqqqq+ qqqqqqqθqqq1qqqh, qqq v)
Como c está entre u e u+h, vem que existe θ1 , 0 < θ1 < 1, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
tal que c = u + θ1 h. Logo, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
g1 (u + h) = g1 (u) + g10 (u + θ1 h)h, qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q q

que escrito em termos de f é o mesmo que Figura 74

∂f
f (u + h, v) = f (u, v) + (u + θ1 h, v)h,
∂x
130 Derivadas Parciais de Ordem Superior

visto que g10 (x) = ∂f


∂x
(x, v). Segue-se, portanto, (i). Para (ii), basta ter em conta g2 (y) = f (u, y),
u fixo. Vejamos, agora, (iii). Para isto, seja
∂f
F (x, y) = (x, y), (x, y) ∈ D.
∂x
Usando (ii) para F , temos que existe θ21 = θ2 , 0 < θ21 < 1, tal que
∂F
F (u, v + k) = F (u, v) + (u, v + θ2 k)k.
∂y
Logo,

∂ ∂f

∂f ∂f ∂x ∂f ∂ 2f
(u, v + k) = (u, v) + (u, v + θ21 k)k = (u, v) + (u, v + θ21 k)k.
∂x ∂x ∂y ∂x ∂y∂x
Não é difı́cil ver que (i) implica (iv). ppppppppppppppppppppp

4.2.6
Corolário Sejam f : D ⊂ R2 −→ R e X0 = (a, b) ∈ D. Suponhamos que f tem derivadas
parciais até segunda ordem na bola aberta B(X0 , δ) ⊂ D. Defina

φ(h, k) = f (a + h, b + k) − f (a, b + k) − f (a + h, b) + f (a, b), h2 + k 2 < δ 2 .

Então, existem números reais a1 , a2 , a3 , a4 ∈ (0, 1) tais que


∂ 2f ∂ 2f
φ(h, k) = hk (a + a1 h, b + a2 k) = hk (a + a3 h, b + a4 k).
∂y∂x ∂x∂y

Demonstração: Temos que

φ(h, k) = (f (a + h, b + k) − f (a + h, b)) − (f (a, b + k) − f (a, b))


= (f (a + h, b + k) − f (a, b + k)) − (f (a + h, b) − f (a, b)).

Logo, podemos escrever

φ(h, k) = G(a + h) − G(a) = H(b + k) − H(b),

onde G e H são as funções auxiliares definidas por

G(x) = f (x, b + k) − f (x, b) e H(y) = f (a + h, y) − f (a, y).

O teorema do valor médio aplicado a G no intervalo [a, a + h] implica que

G(a + h) − G(a) = G0 (a + a1 h)h,

para algum a1 tal que 0 < a1 < 1. Donde,


∂f ∂f
φ(h, k) = G0 (a + a1 h)h = h( (a + a1 h, b + k) − (a + a1 h, b)), 0 < a1 < 1,
∂x ∂x
Derivadas Parciais 131

que, via (iii) da proposição 4.2.5, fica

∂ 2f
φ(h, k) = hk (a + a1 h, b + a2 k), 0 < a1 , a2 < 1.
∂y∂x
De modo inteiramente análogo, agora usando H e o item (iv) da proposição 4.2.5, obtemos que

∂ 2f
φ(h, k) = hk (a + a3 h, b + a4 k), 0 < a3 , a4 < 1,
∂x∂y
o que termina a demonstração. pppppppppppppppppppppp

4.2.7 [H. A. Schwarz]


Teorema Sejam f : D ⊂ R2 −→ R e X0 = (a, b) ∈ D. Suponhamos que
f tem derivadas parciais até segunda ordem na bola aberta
∂2f ∂2f
B(X0 , δ) ⊂ D. Se as derivadas parciais mistas ∂y∂x e ∂x∂y são contı́nuas em X0 , então elas
coincidem neste ponto.
Demonstração: Seja  > 0 um número positivo arbitrário. Mostraremos que
2 2

∂ f ∂ f

∂y∂x (a, b) − (a, b) < ,
∂x∂y

que por sua vez implica na igualdade procurada. Da continuidade em X0 destas derivadas
segue-se a existência de δ0 > 0, o qual podemos supor menor do que δ, tal que
 2
∂ 2f

∂ f 
(X) − (X0 ) <


 ∂y∂x ∂y∂x 2



X ∈ D, kX − X0 k < δ0 =⇒ e . (¶24 )
 2
∂ 2f


 ∂ f 
(X) − (X0 ) <



∂x∂y ∂x∂y 2
Fixemos (h, k), h 6= 0, k 6= 0, tal que 0 < k(h, k)k < δ0 < δ. Para este par, o corolário anterior
produz a1 , a2 , a3 , a4 ∈ (0, 1) tais que

∂ 2f ∂ 2f
(a + a1 h, b + a2 k) = (a + a3 h, b + a4 k).
∂y∂x ∂x∂y
Escrevendo X1 = (a + a1 h, b + a2 k) e X2 = (a + a3 h, b + a4 k), vem que

kX1 − X0 k < δ0 e kX2 − X0 k < δ0 .

De fato,
kX1 − X0 k = k(a1 h, a2 k)k < k(h, k)k < δ0 ,
pois 0 < a1 , a2 < 1. Portanto, podemos aplicar (¶24 ) a X1 e X2 , para obter
2 2
2 2

∂ f ∂ f  ∂ f ∂ f 
∂y∂x (X1 ) − ∂y∂x (X0 ) < 2 e ∂x∂y (X2 ) − ∂x∂y (X0 ) < 2 .

132 Derivadas Parciais de Ordem Superior

Agora,
2
∂ 2f
2
∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f

∂ f ∂ f
∂y∂x (X0 ) − ∂x∂y (X0 ) = ∂y∂x (X0 ) − (X1 ) + (X1 ) − (X0 )

∂y∂x ∂y∂x ∂x∂y
2
∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f

∂ f
= (X0 ) − (X1 ) + (X2 ) − (X0 )
∂y∂x ∂y∂x ∂x∂y ∂x∂y
2
∂ 2f ∂ 2f 2

∂ f ∂ f
≤ (X1 ) − (X0 ) + (X2 ) − (X0 )
∂y∂x ∂y∂x ∂x∂y ∂x∂y
 
< + = ,
2 2
o que prova o teorema. pppppppppppppppppppppp

Observação O teorema de Schwarz pode ser provado com condições menos restritivas sobre
a aplicação f : basta exigir a existência de fx , fy e fxy numa vizinhança de (a, b),
e a continuidade de fxy em (a, b). Isto implica que existe fyx (a, b), e vale fxy (X0 ) = fyx (a, b).
Uma prova deste fato pode ser encontrada em [Rudin], teorema 9.40.

4.2.8
Definição Uma função f : D ⊂ R2 −→ R é dita de classe C k em D se as derivadas parciais
de f até a ordem k são funções contı́nuas em D. Se f é de classe C k , para todo
k ∈ N, dizemos que f é de classe C ∞ .

4.2.9
Exemplo Seja f : D ⊂ R2 −→ R de classe C 3 , e consideremos as derivadas parciais de or-
dem 3 de f que contêm exatamente duas derivações com relação a x. Elas são
dadas por:
∂ 3f ∂ 3f ∂ 3f
, e .
∂x2 ∂y ∂x∂y∂x ∂y∂x2
Usando o teorema de Schwarz podemos provar que estas derivadas parciais coincidem. De fato,
 2   2 
∂ f ∂ f
∂ 3f ∂ ∂x∂y ∂ ∂y∂x ∂ 3f
= = = ,
∂x2 ∂y ∂x ∂x ∂x∂y∂x
onde, na segunda igualdade, usamos o teorema de Schwarz. Por outro lado, aplicando o teorema
de Schwarz à função ∂f
∂x
, obtemos

∂ 2 ∂f 2 ∂f
 
∂ 3f ∂x
∂ ∂x ∂ 3f
= = = ,
∂x∂y∂x ∂x∂y ∂y∂x ∂y∂x2
o que completa nossa afirmação.
Este último exemplo pode ser facilmente generalizado, e obtemos o seguinte corolário, cuja
prova, que segue as mesmas idéias usadas no exemplo, será deixada como exercı́cio.
Derivadas Parciais 133

4.2.10
Corolário Seja f : D ⊂ R2 −→ R uma função de classe C ∞ em D. Se duas derivadas
parciais de ordem k de f são obtidas com o mesmo número de derivações com
relação a x, então elas coincidem.

4.3
Derivadas Parciais em Rn

Nesta seção estenderemos o conceito de derivada parcial para funções reais definidas em
subconjuntos do Rn . Para isto, seja f : D ⊂ Rn −→ R, definida no aberto D, e fixemos uma
n-upla X = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ D. Como D é aberto, vem que existe δ > 0 tal que a bola aberta
B(X, δ) está contida em D.

4.3.1
Definição Dado j ∈ {1, 2, . . . , n}, o j-ésimo quociente de Newton de f em X é definido
por
f (x1 , x2 , . . . , xj + t, xj+1 , . . . , xn ) − f (x1 , x2 , . . . , xn )
Qj (t) = , 0 < |t| < δ,
t
ou, equivalentemente,
f (X + tej ) − f (X)
Qj (t) = , 0 < |t| < δ,
t
onde ej = (0, 0, . . . , 1, . . . , 0) é o j-ésimo elemento da base canônica do Rn .

De modo análogo ao que fizemos para o caso com duas variáveis, estes quocientes de
Newton podem ser olhados como quocientes de Newton de funções reais de uma variável. De
fato, basta definir, para cada j = 1, 2, . . . n, a função auxiliar
gj : (xj − δ, xj + δ) −−−→
−− R
(¶25 )
u −−−−−→ gj (u) = f (x1 , x2 , . . . , u, . . . , xn ).
Desta forma, Qj é exatamente o quociente de Newton de gj em u = xj .

4.3.2
Definição Se Qj tem limite quando t tende a zero, dizemos que f tem derivada parcial
∂f
com relação a xj em X. O valor do limite, indicado por ∂xj
(X), por fxj (X), ou
por Dj f (X), é chamado derivada parcial de f com relação a xj em X. Em outras palavras,
∂f f (X + tej ) − f (X)
(X) = lim .
∂xj t→0 t
quando o limite existe.
134 Derivadas Parciais em Rn

4.3.3
Proposição Sejam f : D ⊂ Rn −→ R e X = (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ D, D aberto. Se gj é como
em (¶25 ), então
∂f
(X) = gj0 (xj ),
∂xj
desde que esta derivada parcial exista.
Demonstração: Basta imitar a prova da proposição 4.1.9. ppppppppppppppppp

4.3.4
∂f
Exemplo Seja f (x, y, z) = x3 y2 z + sen(x2 + y + z), (x, y, z) ∈ R3 . Para calcular ∂x
em
X = (x, y, z), consideramos a função auxiliar
g1 (u) = f (u, y, z) = u3 y 2 z + sen(u2 + y + z), u ∈ R,
cuja derivada, em u arbitrário, é g10 (u) = 3u2 y 2 z + 2u cos(u2 + y + z). Logo,
∂f
(x, y, z) = g10 (x) = 3x2 y 2 z + 2x cos(x2 + y + z).
∂x
O mesmo tipo de raciocı́nio mostra que
∂f ∂f
(x, y, z) = 2x3 yz + cos(x2 + y + z) e (x, y, z) = x3 y 2 + cos(x2 + y + z).
∂y ∂z

4.3.5
Exemplo Seja f (x1 , x2 , . . . , xn ) = x21 + x22 + · · · + x2n , (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn . A função
gj (u) = f (x1 , x2 , . . . , xj , . . . , xn ) = x21 + x22 + · · · + u2 + · · · + x2n , u ∈ R,
tem derivada gj0 (u) = 2u. Logo,
∂f
(x1 , x2 , . . . , xn ) = gj0 (xj ) = 2xj .
∂xj

4.3.6 p
Exemplo Se f (x1 , x2 , . . . , xn ) = x21 + x22 + · · · + x2n , (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn −{(0, 0, . . . , 0)},
então a sua j-ésima função auxiliar é dada por
q
gj (u) = f (x1 , x2 , . . . , u, . . . , xn ) = x21 + x22 + · · · + u2 + · · · + x2n .
Logo,
1 1 u
gj0 (u) = q 2u = q
2
x21 + x22 + · · · + u2 + · · · + x2n x21 + x22 + · · · + u2 + · · · + x2n
e, portanto,
∂f xj
(x1 , x2 , . . . , xn ) = gj0 (xj ) = q .
∂xj
x21 + x22 + · · · + x2n
Derivadas Parciais 135

4.3.7 [Gradiente]
Definição Seja f : D ⊂ Rn −→ R uma função real tendo todas as primeiras de-
rivadas parciais no aberto D. Dado X ∈ D, o vetor do Rn
∂f ∂f ∂f
grad f (X) = ( (X), (X), . . . , (X))
∂x1 ∂x2 ∂xn
é chamado gradiente de f em X. Este vetor também é indicado por ∇f (X).

4.3.8
∂f ∂f
Exemplo Se f (x, y) = x2 + y2 , (x, y) ∈ R2 , então ∂x
(x, y) = 2x e ∂y
(x, y) = 2y. Logo,
grad f (x, y) = (2x, 2y).

4.3.9
Exemplo Seja V (x, y, z) = p k
, (x, y, z) 6= (0, 0, 0), onde k é uma constante.
x2 + y 2 + z 2
Temos que
∂V x
(x, y, z) = −k p ,
∂x ( x + y 2 + z 2 )3
2

∂V y
(x, y, z) = −k p ,
∂y ( x2 + y 2 + z 2 ) 3
∂V z
(x, y, z) = −k p .
∂z ( x + y 2 + z 2 )3
2
Logo,
k
grad f (X) = ∇f (X) = − p (x, y, z).
( x2 + y 2 + z 2 ) 3

4.3.10
Exemplo Se f (x1 , x2 , . . . , xn ) = x21 + x22 + · · · + x2n , (x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn , então
grad f (X) = (2x1 , 2x2 , . . . , 2xn ) = 2(x1 , x2 , . . . , xn ) = 2X.

4.3.11
Proposição Sejam f, g : D ⊂ Rn −→ R tendo derivadas parciais de primeira ordem no
aberto D. Se X ∈ D, então

(i) grad(f + g)(X) = grad f (X) + grad g(X);


(ii) grad(af )(X) = a grad f (X) (a ∈ R, constante);
(iii) grad(f g)(X) = f (X) grad g(X) + g(X) grad f (X).

Demonstração: Faremos apenas a prova de (iii). As outras são mais simples e serão
deixadas como exercı́cio. Para cada j = 1, 2, . . . n, temos que
∂(f g) ∂g ∂f
(X) = f (X) (X) + g(X) (X).
∂xj ∂xj ∂xj
136 Derivadas Parciais Vetoriais

Logo,

∂(f g) ∂(f g) ∂(f g)


grad(f g)(X) = ( (X), (X), . . . , (X))
∂x1 ∂x2 ∂xn
∂g ∂f ∂g ∂f
= (f (X) (X) + g(X) (X), . . . , f (X) (X) + g(X) (X))
∂x1 ∂x1 ∂xn ∂xn
∂g ∂g ∂g ∂f ∂f ∂f
= f (X)( (X), (X), . . . , (X)) + g(X)( (X), (X), . . . , (X))
∂x1 ∂x2 ∂xn ∂x1 ∂x2 ∂xn
= f (X) grad g(X) + g(X) grad f (X). ppppppppppppppppppppp

4.4
Derivadas Parciais Vetoriais

O nosso objetivo agora é estender a noção de derivada parcial para funções vetoriais.

4.4.1
Definição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm uma função vetorial definida no aberto D, e X ∈ D.
Dado j ∈ {1, 2, . . . , n}, a derivada parcial de f com relação a xj em X é definida
por
∂f f (X + tej ) − f (X)
(X) = lim ,
∂xj t→0 t
caso o limite exista.

A seguinte proposição resulta facilmente da proposição 3.1.23.

4.4.2
Proposição Se f : D ⊂ Rn −→ Rm tem funções coordenadas f1 , f2 , . . ., fm , e 1 ≤ j ≤ m,
então
∂f ∂f1 ∂f2 ∂fm
(X) = ( (X), (X), . . . , (X)),
∂xj ∂xj ∂xj ∂xj
desde que as derivadas parciais indicadas existam.

Observação No que diz respeito às derivadas parciais de ordem superior de uma função ve-
torial, tudo se passa exatamente como na seção 4.2, onde tais derivadas foram
estudadas. Portanto, achamos não ser necessário reintroduzi-las aqui. Quanto ao teorema de
Schwarz, ele continua verdadeiro, também neste contexto. Nos exemplos que seguem, calcula-
remos algumas derivadas parciais de ordem superior, sem maiores comentários.
Derivadas Parciais 137

4.4.3
Exemplo Se f : R2 −→ R3 é dada por f (u, v) = (u, v, u2 + v2 ), então
∂f ∂f
(u, v) = (1, 0, 2u) e (u, v) = (0, 1, 2v).
∂u ∂v
As derivadas de ordem dois são:
∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f
(u, v) = (0, 0, 2), (u, v) = (0, 0, 2) e (u, v) = (u, v) = (0, 0, 0).
∂u2 ∂v 2 ∂v∂u ∂u∂v
É claro que as derivadas de ordem superior a dois de f são todas nulas.

4.4.4
Exemplo Se f (r, θ) = (r cos θ, r sen θ), (r, θ) ∈ R2 , então
∂f ∂f
(r, θ) = (cos θ, sen θ) e (r, θ) = (−r sen θ, r cos θ).
∂r ∂θ
As derivadas parciais de segunda ordem são:
∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f
(r, θ) = (0, 0), (r, θ) = r(− cos θ, − sen θ) e (r, θ) = (r, θ) = (− sen θ, cos θ).
∂r2 ∂θ2 ∂θ∂r ∂r∂θ

4.4.5
Exemplo Seja f : Rn −→ Rn , f (x1 , x2 , . . . , xn ) = (x1 , x2 , . . . , xn ). Então,
∂f
(x1 , x2 , . . . , xn ) = (0, 0, . . . , 1, . . . , 0) = ej , j = 1, 2, . . . , n
∂xj
e qualquer derivada de ordem maior do que 1 é a n-upla O = (0, 0, 0 . . . , 0).

4.4.6
Exemplo Para f : R3 −→ R3 , definida por
f (r, θ, φ) = (r sen φ cos θ, r sen φ sen θ, r cos φ),

obtemos que
     
sen φ cos θ −r sen φ sen θ r cos φ cos θ
∂f  ∂f ∂f
(r, θ, φ) = sen φ sen θ, (r, θ, φ) =  r sen φ cos θ  e (r, θ, φ) = r cos φ sen θ.
    
∂r ∂θ ∂φ
cos φ 0 −r sen φ

Agora, algumas derivadas de segunda ordem.


     
2
0 2
− sen φ sen θ 2
−r cos φ sen θ
∂ f ∂ f ∂ f
(r, θ, φ) = 0 , (r, θ, φ) = sen φ cos θ e (r, θ, φ) =  r cos φ cos θ .
     
∂r 2  
∂r∂θ
 
∂θ∂φ
0 0 0
138 Derivadas Parciais Vetoriais

4.4.7 [Laplaciano]
Definição Seja f : D ⊂ Rn −→ R uma função real tendo derivadas parciais até
ordem dois no aberto D. Dado X ∈ D, o número real

∂ 2f ∂ 2f ∂ 2f
∆f (X) = (X) + (X) + · · · +
∂x21 ∂x22 ∂x2n

é chamado laplaciano de f em X.

4.4.8 p
Exemplo Seja f (x, y, z) = 1/ x2 + y2 + z 2 , (x, y, z) 6= (0, 0, 0). Para facilitar o cálculo
pdas derivadas parciais de f , escreveremos f (X) = 1/r(X), onde X = (x, y, z) e
r(x, y, z) = x2 + y 2 + z 2 . Temos que fx = −rx /r2 . Como rx = x/r, vem que fx = −x/r3 .
Donde,
−r3 + x3r2 rx 3x2 − r2
fxx = = .
r6 r5
Analogamente, obtemos que

3y 2 − r2 3z 2 − r2
fyy = e fzz = .
r5 r5
Logo, o laplaciano de f em X = (x, y, z) 6= (0, 0, 0) é dado por

∆f (X) = fxx (X) + fyy (X) + fzz (X)

3x2 − r2 3y 2 − r2 3z 2 − r2
= + +
r5 r5 r5
3(x2 + y 2 + z 2 ) − 3r2 3r2 − 3r2
= = = 0.
r5 r5

Isto mostra que f é uma aplicação harmônica em R3 − {0, 0, 0}, conforme exercı́cio 4-9.
Finalizamos esta seção com algumas propriedades básicas do laplaciano.

4.4.9
Proposição Seja f : D ⊂ Rn −→ R uma função real tendo derivadas parciais até ordem
dois no aberto D. Dado X ∈ D, valem as identidades abaixo.

(i) ∆(f + g)(X) = ∆f (X) + ∆g(X);


(ii) ∆(f g)(X) = f (X)∆g(X) + g(X)∆f (X) + 2 grad f (X) · grad g(X).

Demonstração: Temos que

∂ 2 (f + g) ∂ 2f ∂ 2g
= + , i = 1, 2, . . . n.
∂x2j ∂x2j ∂x2j
Derivadas Parciais 139

Logo,
∂ 2 (f + g) ∂ 2 (f + g) ∂ 2 (f + g)
∆(f + g)(X) = (X) + (X) + · · · + = ∆f + ∆g.
∂x21 ∂x22 ∂x2n
De
∂(f g) ∂g ∂f
=f +g , i = 1, 2, . . . n,
∂xj ∂xj ∂xj
vem que
∂ 2 (f g) ∂ 2g ∂ 2f ∂f ∂g
2
= f 2
+g 2
+2 , i = 1, 2, . . . n.
∂xj ∂xj ∂xj ∂xj ∂xj
Logo,
n 
∂ 2g ∂ 2f

X ∂f ∂g
∆(f g) = f +g 2 +2
j=1
∂x2j ∂xj ∂xj ∂xj
n n n
X ∂ 2g X ∂ 2f X ∂f ∂g
=f +g +2
j=1
∂x2j j=1
2
∂xj j=1
∂xj ∂xj

= f ∆g + g∆f + 2 grad f · grad g.

4.4.10
Interpretação Geométrica

Podemos dar uma boa interpretação geométrica para derivadas parciais vetoriais, usando
as superfı́cies parametrizadas, que foram introduzidas em 1.5.16. Seja

g : D ⊂ R2 −− − R3
−→

(u, v) −−−−−→ g(u, v) = (g1 (u, v), g2 (u, v), g3 (u, v))
∂g ∂g
uma superfı́cie parametrizada com ∂u e ∂v definidas no conjunto aberto D. Fixado (u0 , v0 ),
consideramos as curvas coordenadas de g que passam por P = g(u0 , v0 ), que, como vimos
em 1.5.19, são as curvas parametrizadas

αv0 (u) = g(u, v0 ) = (g1 (u, v0 ), g2 (u, v0 ), g3 (u, v0 )), (u, v0 ) ∈ D

e
αu0 (v) = g(u0 , v) = (g1 (u0 , v), g2 (u0 , v), g3 (u0 , v)), (u0 , v) ∈ D.
Note que estas duas curvas parametrizadas são os análogos, para este caso, das funções auxiliares
que vimos usando para calcular derivadas parciais: elas são construı́das fixando um parâmetro
e deixando o outro como variável. Portanto,
∂g ∂g
αv0 0 (u0 ) = (u0 , v0 ) e αu0 0 (v0 ) = (u0 , v0 ),
∂u ∂v
140 Derivadas Parciais Vetoriais

∂g ∂g
o que mostra que os vetores ∂u (u0 , v0 ) e ∂v (u0 , v0 ) podem ser vistos como vetores tangentes
ao traço S = g(D) da superfı́cie parametrizada g, em P , pois eles são tangentes às curvas
coordenadas αv0 e αu0 , respectivamente.
z l2
6 
v Ng (u0 , v0 )  ∂v ∂g
(u0 , v0 )
6 D o qqqqqqqqqq qqq
qqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqq 
qqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
S 
gH
3 (u 0 , v0 ) S qqqqqqqqqqqqqqqqq
rqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqq S = g(D)
qqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqq
H H @ qqqqqqq
qq Sqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
Hqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
r qqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqq∂g
g(u qqqqqqqqqqqqqqqqqq
, v ) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
H
g- 0qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqq(u0 , v0 )
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
0
qqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
@
H S  ∂u
v0 r r qqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqq
H Hqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqq
(u0 , v0 ) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqq qqqq qqqqqqqqqqqq qqqqq Hqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqq qqqqq
H
j
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqq
qqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
HH
l1
r r  qqqqqqqqqqqqqqqq g
qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqq
2 qqqqqqqqqq
(u
qqqqqqqqq
qqqqqqqq
qqqqqq r
0 , v- 0)
qqqqqqqqq qqq qqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqq
-
u0 u qqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqq y
qqqqqqqqqq
qqqqqqqqq
qqqqqqqq
qqqqqqq

g1 (u0 , v0 ) r  r qqqqqq
qqqqqqqq
x

Figura 75
∂g ∂g
Supondo os vetores ∂u
(u0 , v0 )
e ∂v
(u0 , v0 )
linearmente independentes, o plano que passa por
P = g(u0 , v0 ) e é paralelo a estes vetores, será chamado plano tangente à S em P . Indicaremos
este plano por πg (u0 , v0 ). O vetor
∂g ∂g
Ng (u0 , v0 ) = (u0 , v0 ) × (u0 , v0 )
∂u ∂v
é chamado vetor normal de S em P e orienta a reta normal de S em P . Esta reta normal é
denotada por lg (u0 , v0 ). Em resumo, temos:
πg (u0 , v0 ) = {X ∈ R3 ; (X − g(u0 , v0 )) · Ng (u0 , v0 ) = 0}
e
lg (u0 , v0 ) = {X ∈ R3 ; X = g(u0 , v0 ) + tNg (u0 , v0 ), t ∈ R}.

4.4.11
Exemplo Seja f : D ⊂ R2 −→ R com derivadas parciais de primeira ordem no aberto D.
Como vimos no exemplo 1.5.21, página 47, um modo canônico de parametrizar o
gráfico de f , S = G(f ), é definindo
g(u, v) = (u, v, f (u, v)), (u, v) ∈ D.
É claro que
∂g ∂f ∂g ∂f
(u, v) = (1, 0, (u, v)) e (u, v) = (0, 1, (u, v)).
∂u ∂u ∂v ∂v
Logo,

e1 e2 e3



∂g ∂g
∂f
∂f ∂f
Ng (u, v) = (u, v) × (u, v) = 1 0 (u, v) = (− (u, v), − (u, v), 1).

∂u
∂u ∂v ∂u ∂v

∂f
0 1 ∂v
(u, v)
Derivadas Parciais 141

Em particular, se fixamos (u0 , v0 ) ∈ D, vem que

∂f ∂f
πg (u0 , v0 ) = {(x, y, z); ((x, y, z) − (u0 , v0 , f (u0 , v0 ))) · (−
(u0 , v0 ), − (u0 , v0 ), 1) = 0}
∂u ∂v
∂f ∂f
= {(x, y, z); z = f (u0 , v0 ) + (u0 , v0 )(x − u0 ) + (u0 , v0 )(y − v0 )},
∂u ∂v

plano que coincide com aquele em (¶23 ), página 123.

4.4.12
Exemplo Dada g(u, v) = (u + v, u − v, uv), temos
∂g ∂g
(u, v) = (1, 1, v) e (u, v) = (1, −1, u).
∂u ∂v
Em particular, para u = 2 e v = 1, obtemos que

∂g ∂g
(2, 1) = (1, 1, 1) e (2, 1) = (1, −1, 2).
∂u ∂v

O plano tangente ao traço de g em P = g(2, 1) = (3, 1, 2) tem equação paramétrica

πg (2, 1) = {X ∈ R3 ; X = (3, 1, 2) + u(1, 1, 1) + v(1, −1, 2), u, v ∈ R}


= {X ∈ R3 ; X = (3 + u + v, 1 + u − v, 2 + u + 2v), u, v ∈ R}.

Como Ng (2, 1) = (1, 1, 1) × (1, −1, 2) = (3, −1, −2), vem que πg (2, 1) tem equação cartesiana
dada por
πg (2, 1) = {(x, y, z); 3x − y − 2z = 4}.
A reta normal a S em P se escreve como

lg (2, 1) = {X ∈ R3 ; X = (3, 1, 2) + t(3, −1, −2), t ∈ R}.

Para encerrar este exemplo, sugerimos ao leitor que esboce a superfı́cie S = tr g. Como ajuda,
observe que se x = u+v, y = u−v e z = uv são as funções coordenadas de g, então 4z = x2 −y 2 ,
ou z = (x2 − y 2 )/4. Agora recorra ao exemplo 1.4.10, que se encontra na página 31.

4.4.13 [Matriz Jacobiana]


Definição Seja f : D ⊂ Rn −→ Rm uma função vetorial com funções
coordenadas f1 , f2 , . . ., fm . Suponha que existam as mn
∂fi
derivadas parciais ∂xj
no aberto D. Dado X ∈ D, a matriz de ordem m × n,
 
∂fi
(X) ,
∂xj 1≤i≤m
1≤j≤n
142 Derivadas Parciais Vetoriais

∂f
cujas colunas são os vetores ∂xj
(X), é chamada matriz jacobiana de f em X, e é denotada por
Jf (X). Explicitamente,
 
∂f1 ∂f1 ∂f1
 (X) (X) . . . (X) 

 ∂x1 ∂x2 ∂xn 

 
 ∂f2 ∂f2 ∂f2 
 (X) (X) . . . (X) 

Jf (X) =  ∂x1 ∂x2 ∂xn 
.
 
 .. .. .. 

 . . . 

 
 
 ∂fm ∂fm ∂fm 
(X) (X) . . . (X)
∂x1 ∂x2 ∂xn
Quando m = n, o determinante
∂(f1 , f2 , . . . , fn )
det Jf (X) = (X),
∂(x1 , x2 , . . . , xn )
é chamado determinante jacobiano de f em X.

A matriz jacobiana desempenhará um papel fundamental no estudo das aplicações dife-


renciáveis, que faremos no capı́tulo 5.

4.4.14
Exemplo Neste exemplo listaremos algumas funções com suas respectivas matrizes jacobi-
anas, calculadas em um ponto arbitrário.

(i) f : R3 −→ R, f (x, y, z) = x2 + y 2 + z 2 . Jf (x, y, z) = (2x 2y 2z);


!
2x 2y 2z
(ii) g : R3 −→ R2 , g(x, y, z) = (x2 + y 2 + z 2 , xyz). Jg(x, y, z) = ;
yz xz xy

(iii) h : R2 −→ R3 , h(u, v) = (u2 , u + v 2 , cos(u2 + v 2 )).


 
2u 0
Jh(u, v) =  1 2v ;
 

−2u sen (u2 + v 2 ) −2v sen (u2 + v 2 )

(iv) f : R3 −→ R3 , f (x1 , x2 , x3 ) = (x1 + x2 + x3 , x2 x1 , x1 − x22 + x33 ).


 
1 1 1
Jf (x1 , x2 , x3 ) =  x2 x1 0 ;
 

1 −2x2 3x23
Derivadas Parciais 143

(v) Id : Rn −→ Rn , Id(x1 , x2 , . . . , xn ) = (x1 , x2 , . . . , xn ).


 
1 0 ··· 0
0 1 ···
 
 
J(Id)(x1 , x2 , . . . , xn ) = In×n = .. ...
.
.
 
 
0 0 ··· 1

4.4.15 [Coordenadas Polares]


Exemplo Se f (r, θ) = (x, y) = (r cos θ, r sen θ), (r, θ) ∈ R2 ,
então
!
cos θ−r sen θ ∂(x, y)
Jf (r, θ) = e = det Jf (r, θ) = r.
sen θr cos θ ∂(r, θ)

4.4.16 [Coordenadas Cilı́ndricas]


Exemplo Se f (r, θ, z) = (x, y, z) = (r cos θ, r sen θ, z),
(r, θ, z) ∈ R3 , então
 
cos θ −r sen θ 0
∂(x, y, z)
Jf (r, θ) =  sen θ r cos θ 0  e = det Jf (r, θ) = r.
 
∂(r, θ, z)
0 0 1

4.4.17 [Coordenadas Esféricas]


Exemplo Seja f : R3 −→ R3 , definida por

f (ρ, θ, ϕ) = (ρ sen ϕ cos θ, ρ sen ϕ sen θ, ρ cos ϕ),

Temos que
 
sen ϕ cos θ −ρ sen ϕ sen θ ρ cos ϕ cos θ
Jf (ρ, θ, ϕ) =  sen ϕ sen θ ρ sen ϕ cos θ ρ cos ϕ sen θ 
 

cos ϕ 0 −ρ sen ϕ

e
∂(x, y, z)
= det Jf (ρ, θ, ϕ) = −ρ2 sen ϕ.
∂(ρ, θ, ϕ)
144 Derivadas Direcionais

4.5
Derivadas Direcionais

Nas seções anteriores, consideramos, para uma dada função f , as variações relativas

∂f f (X0 + tej ) − f (X0 )


(X0 ) = lim , 1 ≤ j ≤ n,
∂xj t→0 t

as quais foram denominadas derivadas parcias de f em X0 . Generalizando esta idéia, conside-


raremos acrécimos orientados por um vetor unitário qualquer U ∈ Rn , e obteremos o conceito
de derivada direcional.

4.5.1 [Derivada Direcional]


Definição Sejam f : D ⊂ Rn −→ Rm uma função vetorial, X0
um ponto do aberto D e U ∈ Rn um vetor unitário.
A derivada direcional de f em X0 e na direção U é o vetor

∂f f (X0 + tU ) − f (X0 )
(X0 ) = lim ,
∂U t→0 t
caso este limite exista.

Observação Note que quando U = ej , j = 1, 2, . . . n, a derivada direcional de f em X0 e na


direção ej coincide com a derivada parcial de f com relação a xj em X0 , isto é,
∂f ∂f
∂ej
(X0 ) = ∂xj (X0 ).
∂f
Assim como fizemos para derivadas parciais, é possı́vel identificar ∂U (X0 ) como uma deri-
vada ordinária de alguma função de uma variável. Na realidade, de uma curva parametrizada,
se m > 1, como mostra a proposição a seguir.

4.5.2
Proposição Seja f : D ⊂ Rn −→ Rm , defi-
nida no aberto D, tendo deri-
p p p p p p p pqp pqp p pqp pqp p pqp qp qp pqpqpqp p pqp p pqp pqp pqp p p p p pD pp
vada direcional no ponto X0 ∈ D e na direção U .
p p pqp p
q p
qq
q p
q p pqpqqpqqpqqpqqpqpqqpqqpqpqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqp qpqqqpqqpqqpqqpqqpqpqpqqqpqpqpqpqpqp pqpqp p p
q
p pqp qp
qqq q
q qq q q qqq qqqq qqqq q q q q
q q q
q q q
q q q
q q q q
q q q q
q q q q
q q q q
q qq qqq q qqq q qqq q qqq q qqq q q q q q q q q p q
p pqqqqp p pqqp pqp qpqqpqpqqqqpqqpqqqp qqqqqqqpqpqp pqqp p p
Então, p
p pqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqq qqqp pqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q q q q qp p q q q qqq qp p qqapqqp qqX qqqqp p
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqp qqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpsqqqqqqpqqqqqpqqpqqpqqq qqqqqqqqqqqqq0qpqqp qp p p+ δU
∂f qqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqp qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqU qqqqqqqqqqqpqqqqp qqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqpqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqpqqpqp p
(X0 ) = gU0 (0), qqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q q q q q q qqpqqp qpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqp p
qqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qppqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqpqqqqpsqqqqqqp qp q qqqqqqX qqq qq0qqqqqq +
qqq pp qqqtU qqqqqqqqqqpp
∂U qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqpqpqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpp
q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqq q p
qqqp q q q qqqqqqqq0qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
onde q qqqqqqqqqqqqqqqqqqp qpqppqqpqpqqqqpqpqqpqqpqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqX qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq q qpqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqp
qqqqqqqqqqqpaqqqqp qpqqqpqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqδqqqqqqqqqqqqqqqq p qpq qqpqqqpqqqqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
q
X0 − δU qqqqqqqqqqqqpqqpqqqpqpqqp qqpqpqqqpqpqpqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
qq q q p p q q q q
gU : (−δ, δ) −− − Rm
−→
− qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqp
qqq qqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqp
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqp
t −−−−−→ gU (t) = f (X0 + tU ), q qqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqpqp
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqp qp qp p
Figura 76 qqq qp qp qp p p
e δ > 0 é o raio de uma bola centrada em X0 e
contida em D.
Derivadas Parciais 145

Demonstração: Como D é aberto, existe δ > 0 tal que B(X0 , δ) ⊂ D. Se X = X0 + tU


e t ∈ (−δ, δ), então kX − X0 k = |t| kU k = |t| < δ, isto é, X ∈ D. Isto implica que

gU (t) = f (X0 + tU ), t ∈ (−δ, δ),

está bem definida. Além disto,

g(t) − g(0) f (X0 + tU ) − f (X0 ) ∂f


gU0 (0) = lim = lim = (X0 ),
t→0 t t→0 t ∂U
o que prova a proposição. pppppppppppppppppppppp

4.5.3
Interpretação Geométrica
∂f
Uma boa interpretação geométrica de ∂U (X0 ), e que generaliza aquela que obtivemos
∂f ∂f
para ∂x (X0 ) e ∂y (X0 ) em 4.1.17, é obtida quando consideramos f : D ⊂ R2 −→ R, junto com
∂f
seu gráfico, como mostra a figura 77. Neste caso, claro, ∂U (X0 ) é um número real. A figura
mostra S = G(f ), o plano πU , que passa por X0 = (a, b) ∈ D e é paralelo aos vetores U
e e3 , e a curva γ ⊂ S, obtida pela interseção de πU com a superfı́cie S. Em πU vemos a
reta tangente a γ (e, portanto, a S) no ponto P = (a, b, f (a, b)), indicada por lU . Agora
fixamos a atenção no ângulo α que esta reta faz com U . Logo, tg α é inclinação de lU . A
∂f ∂f
interpretação geométrica do número ∂U (X0 ) agora está pronta: ∂U (X0 ) = tg α. Para ver isto,

z z
pl
6
qqqq qqqqqqqqqqqqq p p p U
6
qqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
f (X0 ) q qqq qqqqqqq qqqq q q
q qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqqqpqqqqq q p q
qpqqqqqqq
pl
p pp U
πU
q qqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqq
qqqqqqqqqq q qqqqq qppqqpqqqpqpqqq
qqqqqqqqqqpppqqqqqqqqq
qqpqpqqqqq
qqpqγpqqq qpqpqqp pqp
πU f (X0 + tU ) ppppppppppppppppppppppppqpppppp
q
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqppqpppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q p pppp p fpp(X
pppp 0 + tU ) − f (X0 )
qqqqqqqqqqpqp
qqqqqqqqqqp p f (X0 ) q pqpp pp β ppp
qqqqqq
qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqpqppqp qqqqqqP qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q q qqq qqq qqq
qq ppppppppp p ppp
qqqqq qqqqqqqqqqqqqqqq qqqppqqqqppppqqqqqq qqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqq ppp t p
qqqqqqqq q q p p pppp qqqqqqqq qqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
q qq e3 ppp
p qqqqqqqqqq qqqqqqqq
q qq
q 6 p pp p p γ
pp p qqqqqqqqqqqqqqqqq ppp pppppppp α
qqqqqqqqq
pp qqqq pp - p q q
pp p qqqq qqqq q qqqqqqqqqqqqq qqqqq
- -
y
e3p p p qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq U X0 X0 + tU t
6p pppp pp pα qqqqqqqqqqqqqqqqq qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
p  p
qp p 
p 1
U
X0
x
∂f
Figura 77: tg α = ∂U
(a, b)

consideramos em πU a reta secante a γ que passa pelos pontos (X0 , f (X0 )) e (X0 +tU, f (X0 +tU ))
(com t > 0), cuja inclinação é

f (X0 + tU ) − f (X0 ) f (X0 + tU ) − f (X0 )


tg β = = ,
kX0 + tU − X0 k t
146 Derivadas Direcionais

pois U é unitário. Quando t tende a zero, as secantes tendem para lU e, portanto,


∂f
(X0 ) = lim tg β = tg α,
∂U t→0

∂f
o que estabelece a interpretação geométrica procurada. Note, em particular, que ∂U
(X0 ) indica
como f cresce, a partir de X0 , na direção de U .

4.5.4
Exemplo Seja f (x, y) = 4x2 + y2 , (x, y) ∈ R2 , cujo gráfico é o parabolóide elı́ptico
S = G(f ) = {(x, y, z); z = 4x2 + y 2 },

mostrado na figura 78. Tomando X0 = (1, 0) e U = (−1/2, 3/2), calcularemos a derivada
direcional de f em X0 e na direção de U . Via definição, temos que

z
∂f f (X0 + tU ) − f (X0 ) 6
(1, 0) = lim lU q qp qqqqqqqqqqqqqqqqqqq
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
∂U t→0 t√
t 3 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
f (1 − , t ) − f (1, 0) qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
2 2 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqqqP qqqqqqqqqqqqqqqqqqpp
qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppqqqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppp
= lim
2 t qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqppqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqppγp
t→0
q q pp qq qq

πU qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqqqqpqpqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpppqp
t 3
4 1− + t2 − 4 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpqqqp qqqqqqpqpqq
2 4 qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqpqpqqqq
= lim qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq
t→0 t qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqpqqpq
7 2
e3 qqqqqq ppppα pp q
(0, 2, 0)
−4t + t 6U q r -
4 y
= lim :
 X0 = (1, 0)
t→0 t
x
7
= lim(−4 + t) = −4. Figura 78: ∂f
(X0 ) = tg α = −4
t→0 4 ∂U

Um outro modo de obter esta d