Você está na página 1de 9

l TÉCNICAS PROJETIVAS J

o desenho da famflia como instrumento de avaliação clfnica de um grupo de crianças


encaminhadas para atendimento psicopedagóglco·

LUZIA APARECIDA C. BORGES**


SONIA REGINA LOUREIRO***

1. Introdução; 2. Método; 3. Resultados e discussão; 4.


Comentários e conclusões.

Este artigo visa estudar a representação gráfica realizada por um grupo de crian-
ças encaminhadas para atendimento psicopedag6gico, através do teste do dese-
nho da farnflia, comparando-se a constituição familiar real dos sujeitos e a farnflia
representada graficamente. Foram avaliadas 21 crianças, com faixa etária entre
oito e 11 anos, que cursavam ai! série do I!? grau e apresentavam como ponto
comum dificuldades de aprendizagem escolar. Os resultados encontrados mos-
traram ser esta uma técnica "Útil na caracterização do estado emocional de crian-
ças com dificuldades de aprendizagem, constituindo-se em um instrumento de
avaliação e dia~6stico da personalidade.

1. Introdução

Dentre as técnicas projetivas, aquelas baseadas no grafismo são largamente utili-


zadas como instrumento de investigação da personalidade. Segundo Ortega, "o
desenho da fam11ia é considerado uma técnica gráfica projetiva", a qual tem sido
largamente utilizada desde 1931 por Appel, seguido por Trude Trauble, Porot e
Corman, dentre outros, como forma de compreensão da personalidade.
Segundo Corman, o mundo da criança é a sua fam11ia, e as relações estabeleci-
das no grupo familiar são fatores importantes para a corr.preensão da personalida-
de da criança.
Klepsch & Logie (1984) afirmam que o desenho da fam11ia esboça os detalhes
dos pr6prios traços da criança, atitudes, características de comportamento, forças e
fraquezas de sua personalidade, deixando uma impressão, embora incompleta, de
seu self interior no desenho.
Assim, os estudos através do desenho da fam11ia têm se mostrado um elemento
I1til de investigação, na medida em que permitem avaliar a personalidade através
da representação gráfica da famfiia.

* Artigo apresentado ~ Redação em 15.9.88.


** Psicóloga; p6s- graduanda do Programa de Mestrado em Educação Especial, Universidade Federal de São
Carlos.
*** Professora assistente, Doutora no Departamento de Neuropsiquiatria e Psicologia Médica, Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto, USP. (Endereço: Av. 9 de Julho, 980 - 14.025 - Ribeirão Preto, SP.)

Arq. bras. Psic., Rio de Janeiro, 42(2):106-14, marJmaio 1990


Connan parte do pressuposto de que, no desenho, a criança projeta como vive
com relação aos pais e demais membros de sua família, e então toma-se possível
inferir e esclarecer sua vida afetiva profunda, motivações e conduta.
Considerando a riqueza desta técnica como instrumento de avaliação e compre-
ensão da organização psicol6gica da criança, optamos por estudá-la enquanto ele-
mento de compreensão das interações sociais e da percepção do sujeito com re-
lação à sua propria família, como expressão de traços de personalidade e áreaS de
conflito. Acreditamos ser esse um instrumento dtil na avaliação e compreensão das
dificuldades apresentadas pelas crianças com problemas de aprendizagem, na me-
dida em que pode fornecer uma visão mais ampla da criança, que vai além da pro-
blemática escolar em si, podendo ser um dos instrumentos utilizados para ava-
liação e diagn6stico da criança com dificuldades escolares.
Ocampo (1981) destaca a importância do diagn6stico de dificuldades de apren-
dizagem, enfatizando o papel da situação emocional da criança e da relação desta
com a sua famfiia na adaptação escolar. Salienta que na vida escolar é uma parte
importante na vida de uma criança ou de um jovem. Do estado de sua sadde men-
tal e da estrutura de sua personalidade dependem as possibilidades que tem de fa-
fazer uma boa adaptação e de gozar dos aspectos positivos da vida estudantil"
(p.401).
Considerando esses aspectos, objetivamos, dentro desse enfoque do desenho da
famfiia enquanto iristrumento de conhecimento das características emocionais e de
funcionamento da personalidade, estudar a representação gráfica realizada por um
grupo de crianças encaminhadas para atendimento psicopedag6gico, comparando-
se a constituição familiar real dos sujeitos e a família representada graficamente.

2. Método

2.1 Sujeitos

Para o presente estudo, foram avaliadas 21 crianças (18 do sexo masculino e três
do sexo feminino), com faixa etária entre oito e 11 anos (idade média de nove
anos e quatro meses), cursando predominantemente a I!! série do 12 grau. As
crianças provinham de famílias poucos numerosas e predominantemente viviam
em companhia de um dos pais.
Essas crianças apresentavam como ponto comum dificuldades de aprendizagem
escolar, as quais motivaram seu encaminhamento ao Serviço de Psicopedagogia do
Hospital das Clfnicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universida-
de de São Paulo.
Com exceção de uma criança, todas apresentavam atraso com relação à escola-
ridade, sendo este definido como a defasagem entre a idade cronol6gica e a série
correspondente que a criança deveria estar cursando, tomando como base sete
anos para o ingresso na I!! série. Das 21 crianças, 15 apresentavam mais de uma
reprovação escolar.
Todas essas crianças foram consideradas alfabetizáveis, de acordo com a ava-
liação psicol6gica realizada pelas psic610gas do serviço, utilizando-se, principal-
mente, da avaliação do desempenho nos testes Columbia e Goodenough. Esta ava-
liação é realizada de rotina com o objetivo de caracterizar o nível de dificuldade
da criança e a necessidade de atendimento psicopedag6gico, sendo condição para
o atendimento que sejam consideradas alfabetizáveis.

Desenho da famflia 107


Tabela 1
Distribuição da freqüência das crianças atendidas através do Ambulatório de Psicopedagogia
no flrimeiro semestre de 1987, com relação aos problemas escolares apresentados
como queixas na entrevista inicial com as mães

Problemas escolares Sujeitos

Baixo rendimento escolar 10


Dificuldades de comportamento na escola 4
Baixo rendimento escolar e dificuldades de comportamento 7

To t a I 21

Das 21 crianças avaliadas, 10 apresentavam como queixa um baixo rendimento


escolar, que se caracterizou por dificuldades na aquisição ou pela não-aquisição
da leitura de escrita, ou não acompanhamento do ritmo da sala de aula. Quatro
apresentavam como queixa dificuldade de comportamento na escola, como: brigas,
não querer ir à escola, conversação exagerada, fuga do ambiente escolar, caracte-
rizando dificuldades de adaptação na escola. Sete crianças apresentavam uma as~
sociação dessas dúas dificuldades.
Além destas dificuldades, 17 crianças apresentavam também outras queixas re-
latadas pela mãe, como: nervosismo, agressividade, tiques, comportamentos fóbi-
cos, manifestação de depressão. Essas queixas pareceram-nos sugestivas de que a
dificuldade escolar era apenas um dos sintomas apresentados pelas crianças, es-
tando possivelmente associada a outras dificuldades de adaptação que, pelas suas
características, podem mesmo ser anteriores às dificuldades escolares.
Esses elementos são sugestivos de que o critério para se pedir ajuda através do
Serviço de Psicopedagogia nesse momento pareceu decorrer das dificuldades e da
reprovação escolar, sem considerar que esse fato já englobava outras dificuldades
que possivelmente não se faziam claras na percepção da família. A escola, como
elemento novo, acaba por favorecer a concretização e explicitação de outras difi-
culdades, que parecem ter um papel prévio e decisivo na adaptação da criança à
escola.

2.2 Material

Utilizou-se, para cada sujeito, o seguinte material: folhas de papel sulfite branco,
lápis preto e de cor, borracha, folha de anotação da aplicadora, cronômetro.

2.3 Procedimento

Inicialmente, foi realizado um levantamento, com base no prontuário, de todas as


crianças atendidas, considerando-se a idade das crianças, escolaridade, queixas e
constituições familiar.
A criança era encaminhada à aplicadora e esta estabelecia um contato inicial,
pedindo sua colaboração e especificando a solicitação da atividade de desenhar
coisas com as quais ela convivia diariamente. Após um breve rapport, pedia-se à

108 A.B.P.2/90
criança que fizesse um desenho livre, dando-lhe folha de papel, lápis preto e colo-
rido, borracha. Tenninando o desenho, interrogava-se à criança sobre o que havia
desenhado, anotando suas impressões sobre o desenho.
Após esta atividade, era dada a seguinte instrução ao sujeito: "agora vou pedir
que faça outro desenho, usando somente este material (lápis preto, borracha e pa-
pel). Desenhe uma família. Faça como quiser e o melhor que puder". Logo após,
aplicava-se um questionário de investigação do desenho, perguntando: "Com
quem se parece esta famO.ia?" "Quem são?" "O que eles estão fazendo?" "Me
conte uma história sobre esta farnllia?" Frente à história contada pelo sujeito p0-
diam ser feitas perguntas para esclarecer melhor os relacionamentos, sentimentos e
necessidades. As perguntas mais freqüentes foram: "Como eles se sentiam?"; "O
que eles queriam?"; "O que estão fazendo?"; "O que vai acontecer depois?"; "O
que desejam?"
Ao fmal da avaliação, agradecia-se a colaboração da criança no trabalho e en-
cerrava-se a sessão. O tempo de realização das tarefas foi registrado (não havia
tempo limite), bem como a ordem em que foram executados os desenhos. As
sessões tiveram duração média de 30 minutos.
Após a fase de aplicação, foi realizada análise dos dados, com base nos indica-
dores emocionais sugeridos por Klepsch & Logie (1984), considerando-se: cor-
respondência do mimero de membros da farnflia de origem e farnflia representada,
mlmero de pessoas representadas, representação de si, localização do propósito;
figura de maior tamanho, figura representada em primeiro lugar.
Para fmalidade desse trabalho, não serão considerados os aspectos relativos ao
desenho livre e aos conteódos das histórias.

3. Resultados e discussão

Os dados foram levantados segundo os indicadores emocionais sugeridos por


Klepsch & Logie (1984). Na caracterização destes, considerou-se a freqüência de
ocorrência dos índices, os quais serão apresentados e discutidos concomitantemen-
te.
O tempo médio para realização da atividade do desenho da família foi de cinco
minutos, caracterizando um ritmo de produção mediano, considerando-se as in-
formações da literatura.
Ortega (1981) considera que este fator, no grafismo infantil, evolui com a idade
e em seu trabalho demonstra que o uso de urrl maior intervalo de tempo eleva-se
de acordo coma idade da criança.

Tabela 2
Distribuição da freqüência do grupo de crianças avaliadas com relação à correspondência do
número de membros da famflia de origem e o número de membros representados

~embrosrepresentados Sujeitos

Não-coincidência 18
Coincidência 3

To t aI 21

Desenho da lamBia 109


Considerou-se como coincidência a correspondência do mimero de membros
representados e o mimero de membros da família de origem. Em 18 sujeitos não
houve coincidência, seja por exclusão ou inclusão de membros na representação
familiar. Somente em três houve essa coincidência na representação.
Segundo Connan, o sujeito, ao reproduzir sua própria família, está pautado no
princípio da realidade, indicando adaptação afetiva e obediência à realidade; o que
reproduz uma família imaginária prende-se ao princípio do prazer-desprazer.
Houve, nesse grupo, predominância de representação da famOia imaginária, su-
gerindo famOias representativas dos desejos pessoais, com índices de afastamento
da realidade. As deformações na representação familiar são sugestivas de conflitos
emocionais que dificultam a visão do real, expressando dessa forma o desequilí-
brio afetivo e desadaptação à realidade.

Tabela 3
Distribuição da freqüência do grupo de crianças avaliadas quanto ao número de pessoas
desenhadas comparada ao número de pessoas da farnflia de origem

Número de pessoas Sujeitos

Maior 10
Menor 8
Igual 3

To t ai 21

No grupo de crianças avaliadas, 10 apresentaram representações de maior nú-


mero de pessoas do que a família nuclear, com inclusão de membros, parecendo
querer, segundo Corman, compensar as "lacunas" da família nuclear com o acú-
mulo de pessoas, levando a criança a investir em outras como forma de lhe subsi-
diar elemefttos de falta e carência. Oito representaram um menor número de pes-
soas, podendo indicar conflitos e não aceitação dos membros representados. Para
Corman, isto pode representar tendências negativas de desconsideração ou de
6dio, levando a criança a não investir na pessoa não desenhada e retirá-la do seu
mundo familiar. Três apresentaram o mesmo número de membros da família de
origem, sugerindo boa aceitação do núcleo familiar real.
Assim, houve predomínio da representação imaginária que vai ao encontro dos
desejos pessoais, valorizando tendências e concepções próprias da vida familiar.
Esses elementos sugerem conflitos e dificuldades de adaptação ao meio, expres-
sando, na fantasia, o desejo de que a realidade se mostre diferente do que é.

labela4
Distribuição do grupo de crianças avaliadas quanto à freqüência
da representação de si na atividade gráfica

Representação de si Sujeitos

Representação de si 15
Omissão 6

To t a I 21

lIO A.B.P.2/90
No grupo avaliado, 15 se representaram no grupo farr,iliar, indicando, segundo
Connan, o sentimento de integração com a fanúlia, sentindo-se parte significativa
desta; seis omitiram-se na representação familiar, possivelmente indicando confli-
tos e sentimentos de não aceitação e integração, sentindo-se excluídos do grupo
familiar.

Tabela 5
Distribuição do grupo de crianças avaliadas quanto à correspondência gráfica da ordem de
nascimento e localização de si, comparando-se a família original e a representação gráfica

Localização Família/origem Família/Representação gráfica

Mais novo 10 7
Mais velho 6 2
Único 4 7
Meio 1 5

To t aI 21 21

Das 21 crianças avaliadas, 10 são filhos mais novos, sendo que somente sete se
representaram como tal, seis são filhos mais velhos e somente dois se colocaram
como tal na representação. Quatro são filhos dnicos e sete se representaram como
filhos dnicos. Um é filho do meio e cinco se representaram como tal.
Ortega estuda este fator com relação ao n:enor personagem desenhado e ao per-
sonagem desenhado em primeiro lugar, analisando-o em função da rivalidade fra-
ternal, demonstrando a desvalorização dos primogênitos em comparação ao se-
gundo filho; assim como os segundos filhos, em comparação com os primogênitos
se autodesvalorizam. Nesse estudo não houve coincidência entre a posição da
criança e sua Uautocolocação" na família representada, pois grande parte das
crian~as mudaram sua posi~ão no mlcleo familiar.
Essa distribuição é sugestiva, no geral, de uma não correspondência da repre-
sentação à realidade de vida das crianças, denotando, possivelmente, a presença
de sentimentos proprios frente a esses relacionamentos. Vale destacar que quatro
crianças incluíram-se como filhos do meio, possivelmente caracterizando seu sen-
timento de indiferenciação no grupo familiar. Três crianças incluíram-se como
dnicos, possivelmente caracterizando seu desejo de exclusividade no grupo fami-
liar. Quatro crianças, primogênitos, excluíram-se deste papel, possivelmente tra-
duzindo sentimentos de rejeição ligados às responsabilidades e exigência dos pais
com relação ao primeiro filho.
Segundo Connan, a figura representada em primeiro lugar está diretamente re-
lacionada à valorização e significação dessa na vida do indivíduo. Nove crianças
representaram pessoas extra à sua fanúlia de origem, segerindo ligações afetivas
mais fortes exteriores ao ambiente familiar e dificuldades de contato com seus fa-
miliares, necessitando buscar fora os recursos e afetos de que precisam; 6 crianças
representaram a si em primeiro plano, sugerindo uma tendência narcisística e exal-
tação à imagem de si, possivelmente por dificuldades de valorizar preferencial-
mente as figuras paternas, talvez em função de frustrações afetivas com os pais;
seis crianças representaram o pai ou a mãe em primeiro plano, sugerindo boas re-
lações afetivas com os pais.

Desenho dafamaia I1l


Tabela 6
Distribuição da freqüência do grupo de crianças avaliadas com relação à
figura representada em primeiro lugar

Figura representada em primeir'o lugar Sujeitos

Outros 9
A si mesmo 6
Pai 3
Mãe 3

Total 21

Assim, houve predomínio da representação de pessoas extra-fanúlia-nuclear e


representação de si, indicando conflitos e dificuldades nos relacionamentos inter-
pessoais, denotando o predomínio de uma relação afetiva insatisfatória com os
pais e urna exaltação da pr6pria imagem reativa às dificuldades de relacionamento,
delegando os pais a um segundo plano, o que parece não combinar coo: o papel e
as funções destes.
Uma hip6tese á ser levantada é que a maioria destas crianças não vive em com-
panhia dos dois pais, faltando-Ihes, talvez, a definição de papéis de pai e mãe ne-
cessários à sua indentificação. Isto sugere uma valorização de outrens em função
da falta de elementos parentais que lhes permitam interação e valorização do pa-
pel.

Tabela 7
Distribuição da freqüência do grupo de crianças avaliadas com relação à figura de maior
tamanho na representação

Figura de maior tamanho Sujeitos

Pai 6
Outros 5
Mãe 4
Figuras mesmo tamanho 4
Sujeitos 2

To t aI 21

Considerou-se como figura de maior valência aquelas representadas em maior


tamanho, sendo que seis desenharam a figura do pai. Cinco desenharam outras
pessoas como tios, primos, amigos. Quatro representaram a figura da mãe. Quatro
representaram as figuras de um mesmo tamanho e dois representaram a si mesmo.
Esses dados sugerem que, no grupo como um todo, a maior valência é atribuída
às figuras adultas e que os papéis de pai e mãe têm uma predominância relativa,
quando se considera a maior valência atribuída ao pr6prio sujeito ou a outros
papéis sociais.

112 A.BP.2/90
Ortega conclui em seu estudo que a criança valoriza e identifica-se sexualmente
com a figura parenta! do mesmo sexo, analisando também que, no processo de so-
cialização da criança, as influências sociais e os padrões burgueses podem levar a
criança a valorizar as figuras parentais do mesmo sexo.
Nessa amostra percebe-se que a maioria das crianças não vive em companhia
dos dois pais, e provém de lares pouco estruturados, um fator que pode levá-las à
identificação com o adulto que não precisa ser, necessariamente, uma das figuras
pareniais.

4. Comentários e conclusões
Com base nos resultados encontrados, verificou-se a utilidade desta técnica en-
quanto instrumento tttil de avaliação da personalidade, apontando para áreas de
conflitos, permitindo uma compreensão mais ampla da criança que apresenta difi-
culdades escolares.
As crianças desta amostra tinham como queixa principal a escola, as demais di-
ficuldades eram pouco enfatizadas e explicadas de forma vaga e como parte do
processo ce questionamento colocado pela situação de entrevista. Os dados obti-
dos permitiram explicitar outras dificuldades das crianças, que vão além da difi-
culdade escolar, favorecendo, assim, uma integração maior na forma de atendi-:-
mento dessas crianças, não se limitando a técnicas psicopedag6gicas, mas enca-
rando essas dificuldades como parte de um contexto maior, que diz respeito à pr6-
pria situação de vida das crianças.
Assim, há de se ressahar a qualidade dessa técnica enquanto instrumento que
permitiu caracterizar o estado emocional das crianças, através do significado e
contettdo simb6lico na representação gráfica da família, mostrando-se tttil como
instrumento de avaliação e diagn6stico da personalidade.
As dificuldades emocionais relevadas no desenho da famfiia apontam o nível de
imaturidade emocional das crianças. Os dados sugerem ser esse grupo, apesar das
potencialidades afetivas, muito prejudicado a nível emocional, comprometendo a
adaptação da criança à escola e à vida.
A não-aquisição da leitura parece concretizar e explicitar outras dificuldades,
anteriores à fase de escolarização, que se evidenciam no momento em que novas
exigências e um novo papel são atribuídos à criança, faltando neste momento por
não conseguir responder ao que lhe é permitido.
A interferência de outros fatores na adaptação da criança à escola e na aqui-
sição da leitura não pode ser negada. Essa técnica, através de suas características
projeti vas, favoreceu elementos de compreensão ttteis para caracterizar as dificul-
dades emocionais a nível de interação e de maturidade afetiva que parecem inter-
ferir nesse processo.
A riqueza de elementos fornecidos pela técnica na caracterização da m~,turidade
afetiva, torna esse instrumento tttil na caracterização de crianças com problemas
de aprendizagem, favorecendo uma intervenção psicopedag6gica mais ampla que
considere, além das dificuldades escolares, os recursos emocionais e de maturida-
de apresentado pelas crianças para responderem às demandas colocadas pela esco-
la.
Abstract

The objective of the present investigation was to study the graphic representations
made by a group of children referred to us for psychopedagogic counselling using

Desenho da famUia lJ3


the family drawing test and comparing the family constitution of each subject With
the family presented graphically. The study was conducted on 21 children aged 8
to 11 years who were enrolled in the 1st year elementary school and who had in
common school learning difficulties. The results slowed that this is a useful tech-
niques for the characterization of the emotional condition of children with lear-
ning difficulties, which can be used as an instrument for personality evaluation
and diagnostico

Referências bibliográficas

Corman, L. EI test dei dibujo de la famllia en la prática médico-pedagógica. Kapeluz, 1969.


Klepsch, M. & Logie, L. Crianças desenhom e comunicam. Porto Alegre, Artes Médicas, 1984.
Ocampo, M. L. S. O processo psic(}{ÜQgnóstico e as técnicas projetivas. São Paulo, Martins Fontes, 1981.
Ortega, A. C. O desenho da família como técnica objetiva de investigação psicológica. Arquivos Brasileiros
de Psicologia. 33 (3): 73- 81, 1981.
--o O desenho da família como técnica de investigação psicológica: influência da idade, sexo e ordem de
nascimento. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 3 (3): 239-49, set./dez. 1987.
Sá, M. I. A pré-escola como fator diferencial no rendimento escolar. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 34
(1): 80-92, 1982.

114 A.B.P.2/90

Interesses relacionados