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ASTRONOMIA

Abril 2014 www.sciam.com.br

As galáxias anãs e a teia


cósmica de matéria escura

PSICOLOGIA
Os bons pensamentos
ANO 12 | no 143 | R$ 12,90 | Portugal € 4,90
que inibem outros ainda
melhores
MEDICINA
Uma década depois,
o segundo ato
da terapia gênica

GEOCIÊNCIAS
Controvérsias
intrigantes sobre
as rochas mais
antigas da Terra

O
Novo
Século
do
Cérebro
00143
ISSN 1676979-1

Técnicas revolucionárias prometem


9 771676 979006

revelar como nascem os


pensamentos e as emoções

E MAIS: o que está por trás das mudanças climáticas e da seca no Sudeste do Brasil
N A C A PA

³äîßø­x³îC§_žx³îŸ‰_¸ÇCßCÇxäÔøžäC߸_yßxT߸
yž³äø‰_žx³îxÇCßCø­C_¸­Çßxx³äS¸Ç߸…ø³lC
lx _¸­¸ C CîžþžlClx ³xø߸³C§ lD ¸ßžx­ C
x­¸bÆxä x Çx³äC­x³î¸äÍ & lxäx³þ¸§þž­x³î¸
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Abril 2014 | $ù­x߸¿3 BRASIL xääxä_žß_øžî¸äîx­_¸³_x³îßCl¸¸äx䅸ßb¸älC
³xø߸_žz³_žCÍ ßylžî¸h
ßāC³ šßžäîžxÍ

SUMÁRIO
NEUROCIÊNCIA
26 O Novo Século do Cérebro
Big Science cria perspectiva para a compreensão de
como o cérebro, o sistema biológico mais complexo da
Natureza, dá origem a pensamentos e emoções.
Por Rafael Yuste e George M. Church

ASTRONOMIA
34 Galáxias Anãs e a
Teia de Matéria Escura
Pequenas galáxias que orbitam a Via Láctea podem
ter seguido supervias de matéria escura que se
estendem pelo Universo.
Por Noam I. Libeskind

MED ICINA
40 Fase Dois da Terapia Gênica
Uma década e meia após contratempos trágicos,
que levaram a reavaliações críticas, cientistas 46
garantem que terapia gênica está pronta para
uso clínico.
Por Ricki Lewis
PSICOLOG I A
GEOLOGIA 62 Bons Raciocínios Bloqueiam
46 As Rochas mais Antigas da Terra Outros Melhores
Uma equipe de cientistas acredita que rochas Enquanto refletimos sobre um problema, a tendência
antigas descobertas no norte do Canadá sejam uma do cérebro de se ater a ideias familiares pode
janela para a infância do planeta e origem da vida. literalmente inibir soluções mais promissoras.
Outro grupo sustenta que elas não têm nada de Por Merim Bilalic e Peter McLeod
especial.
Por Carl Zimmer C LI MA
68 Calor Intenso e Estiagem Evidenciam
TECNOLOGIA DA I NFO R M A Ç Ã O
Efeitos de Mudança Climática
52 O Caso das Palavras Roubadas Aquecimento global com alterações no clima, que pode
Autor desejava criar um software que navegasse pelo chegar a extremos de frio e calor, fornece pistas
jargão médico. Acabou descobrindo plágio generalizado intrigantes de mudança que até recentemente parecia
e centenas de milhões de dólares em possíveis fraudes. pura ficção.
Por Harold “Skip” Garner Por Rubens Junqueira Villela e Franco Nadal Villela

ECOLOGIA
F ÍSI C A
56 O Renascimento Genético 74 Um Novo Gato de Schrödinger
da Castanheira Americana Molécula que abriu caminho para computador
Um fungo exótico quase exterminou as florestas de quântico pode ser simulada com princípios mais
castanheiras, antes tão vastas na América do Norte. elementares, como demonstra um trabalho
A engenharia genética pode ressuscitá-las. desenvolvido na Unicamp.
Por William Powell Por Priscila Todero de Almeida e Román López Ruiz

Fotografia por Travis Rathbone www.sciam.com.br 3


PUB LIC AÇ ÕES CI E NT Í F I C A S
79 Enfrentando o Ceticismo
Iniciativa de um grupo de jovens da UFPR cria
publicação para estimular leitura de artigos
científicos e mudar postura passiva, distante
do potencial criativo da ciência.
Por Adonai Sant’Anna

SEÇÕES
5 Ponto de Vista
68

6 Cartas

9 Memória OBSE RVAT ÓR I O


20 A Estranha Possibilidade de
10 Avanços Tornar um Corpo Invisível
Estruturas com propriedades exóticas podem
FÓRUM viabilizar essa condição.
16 Por que Proibir Gorduras Trans? Por Mario Novello
Uma nova política da FDA sobre esses mortais
C É U DO MÊ S
ácidos graxos estava mais que na hora.
Por Walter Willett 21 Abril Exibe Dois dos
Quatro Eclipses do Ano
CIÊNCIA E M PAUTA Eclipse total da Lua ocorre em 15. Anular do Sol
17 Libertem Willy e acontece em 29 e não será visto do Brasil.
Todos os Seus Amigos
C I Ê N C IA DA SA Ú DE
Orcas e elefantes são grandes, inteligentes e sociáveis
demais para serem mantidos em cativeiro. 24 Espaço, a Última Fronteira Médica
Pelo Conselho de Editores da Scientific American Os riscos dos futuros turistas espaciais.
Por Katherine Harmon Courage
TECNOLOGI A
C IÊ N C IA E M G R Á F I CO
19 Futuro Imperfeito
Previsão feita por Asimov em 1964 mostra 82 Tempero Contaminado
o caminho que ainda temos pela frente. Especiarias importadas estão repletas de impurezas.
Por David Pogue Por John Matson

NAS BANCAS

Neste mês chega às bancas o segundo volume da edição espe- de tempo para neurocientistas
cial de Scientific American Brasil na área de neurociências. com pesquisas pré-aprovadas
Artigos já publicados em edições mensais, mas revistos e atua- como fazem os astrônomos
lizados, permitem a compreensão do cérebro como um siste- com grandes telescópios. Mi-
ma complexo que possibilita, por exemplo, a percepção de guel Nicolelis escreve sobre o
emoções ou mesmo de objetos por pessoas que não enxergam. controle de membros robóticos por ondas
As pesquisas demonstram que muitos pacientes com dano no cerebrais e os avanços que permitirão demonstrar
córtex visual têm visão cega. O especial também apresenta a o controle de exoesqueleto inteiro por paraplégico na aber-
construção do grande simulador do cérebro humano, projeto tura da Copa do Mundo deste ano. Novas abordagens no estu-
que envolve mais de 100 universidades em todo o mundo e do da filosofia experimental e suas possíveis implicações no
que deve revolucionar o estudo de neurociências. O futuro discernimento das raízes do livre-arbítrio são descritas no ar-
cérebro artificial deve se transformar num equipamento tigo de Joshua Knobe, professor da Yale University e um dos
precioso para a comunidade científica e prevê a alocação fundadores da filosofia experimental.

4 Scientific American Brasil | Abril 2014


PONTO DE VISTA
Ulisses Capozzoli é editor-chefe
da SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL.

Percepções sobre o clima

A
velocidade e a complexidade das interações que dicais que foram da liberação sexual à proliferação de automó-
até recentemente pareciam ser de um lado, fatos, veis quase na condição de utensílios domésticos; na reprodução
de outro, ficção, aparentemente estão na base do de supermercados como substitutos de armazéns da esquina, e,
desafio de compreender cenas da vida cotidiana. mais recentemente, na banalização de computadores e de telefo-
Há quem argumente, por exemplo, que a vio- nes celulares, que já foram objetos mágicos, os “comunicadores”
lência atingiu índices alarmantes e tanto as cidades como o da série Jornada nas Estrelas.
campo estão permeados pela sumariedade. A possibilidade de mudanças climáticas relacionadas à libera-
Outros contrapõem que o mundo sempre exibiu doses alar- ção de gases de efeito-estufa na atmosfera, no entanto, prevista
mantes de truculência e o que parece um recrudescimento pelo físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhenius, em
dessa situação deve-se a um sistema de comunicação em tempo 1896, foi algo varrido para debaixo do tapete. A partir de meados
quase real. Na aldeia global que o filósofo canadense Marshall dos anos 90, quando a Organização das Nações Unidas se empe-
McLuhan anteviu no início dos anos 60, em obras como A galá- nhou em divulgar cenários dessa natureza, geopolíticos ortodo-
xia de Gutenberg, tudo ocorre como se, de fato, partilhássemos xos, cientistas autodesignados “céticos” e boa parte da imprensa
uma aldeia: uma pequena aglomeração humana, onde tudo é conservadora, aliados a segmentos ligados à exploração de com-
do conhecimento de todos. bustíveis fósseis, se apressaram em refutar essa ideia, ainda que
Por trás disso está o aparato tecnológico que revolucionou as não dispusessem de fatos para amparar suas opiniões.
telecomunicações no pós-guerra, em particular o uso de satéli- A climatologia, de fato, é complexa o suficiente para não
tes geoestacionários previstos por Arthur C. Clarke num agora permitir simplificações e amparar o reducionismo das palavras
célebre artigo publicado em outubro de 1945, na revista inglesa de ordem. De qualquer maneira, admitir a ideia de um efeito-
Wireless World, com o título de “Extra-terrestrial relays — can -estufa de origem antrópica significa assumir responsabilidades
rocket station give world-wide radio coverage?”. por atos que podem ser ao menos amenizados, ainda que se
Por essa época, satélites integravam o universo da ficção trate de um desafio nada convencional. Em contrapartida,
científica – ainda que, poucos anos depois, em outubro de 1957, negar essa possibilidade e defender o processo como natural re-
o primeiro satélite artificial da Terra, o soviético Sputnik 1, en- flete arrogância, de um ponto de vista científico, ao mesmo
viasse um monótono “bip-bip” captado com misto de surpresa e tempo que camufla um comportamento de pura omissão.
assombro por umas poucas estações em terra. O que veio a Nesta edição, convidamos o veterano meteorologista Rubens
seguir foram mudanças cada vez mais rápidas e que estão na Junqueira Villela e seu filho, Franco Nadal Junqueira Villela, que
base da internet e de um sistema de comunicação social que, seguiu as pegadas do pai, a produzirem um ensaio destinado a
entre outros efeitos, desmantelou a imprensa como sinônimo uma reflexão com a finalidade de alguma inteligibilidade sobre o
de um quarto poder. que está ocorrendo com o clima e o risco de uma megalópole
Fatos como esse estimulam a pensar que a sociedade huma- como São Paulo sofrer uma crise no abastecimento de água, algo
na, na segunda metade do século 20, passou por mudanças ra- que nos leva de volta a um período da pré-urbanização.

ALGUNS COLABORADORES

Rubens Junqueira Villela, professor Franco Nadal Junqueira Villela, Rafael Yuste, professor de ciências Harold “Skip” Garner, professor de
aposentado do Instituto de Astronomia, meteorologista do 7º Distrito do Instituto biológicas e neurociência na Columbia ciências biológicas, ciências da
Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Nacional de Meteorologia em São Paulo, University e codiretor do Institute for computação e medicina na Virginia Tech,
participou de 12 expedições antárticas, estagiou no National Weather Service em Neural Circuitry da Kavli Foundation. é um empreendedor em série. Fundou a
brasileiras e americanas, e foi o primeiro Washington, e participou de quatro Recentemente ele recebeu o NIH HelioText, uma empresa de análise de
brasileiro a chegar ao polo sul, em 17 de missões à Antártida como responsável Director’s Pioneer Award. textos, e faz parte do conselho de
novembro de 1961. Estagiou na Nasa e foi pela programação dos sistemas George M. Church, professor de assessores da Scientific American.
meteorologista sênior do The Weather automáticos de aquisição de dados e genética na Harvard University e fundador
Channel Latin America em Atlanta. É transmissão via satélite do observatório do PersonalGenomes.org, uma fonte de
consultor de meteorologia para obras de autônomo brasileiro, Criosfera-1, instalado acesso aberto para dados sobre genomas
engenharia costeira. sobre o Planalto Polar. humanos, neuroimagens e caracteres
comportamentais e cognitivos. Church
integra o Conselho de Consultores de
Scientific American.

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CARTAS REDACAOSCIAM@DUETTOEDITORIAL.COM.BR

VERMELHO/ EPIGENÉTICA/ OXIDANTE S E ANTIOXIDANTE S/


FALE CONOSCO N U N CA D I G A N U N CA / E N I G M A D O P R Ó T O N / E S P E C I A L
NEUROCIÊNCIAS 1/ EDIÇÃO SHOW/ OPINIÕES/ESTRELAS FORA DO
LUGAR

“Uma das poucas coisas que


aprendi em física, e ainda
CENTRAL DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE
Mudança de endereço, renovação, informações está errada!”
e dúvidas sobre sua assinatura
Camila de Mello
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São Paulo (11) 3512-9414 EDIÇÃO 142
Rio de Janeiro (21) 4062-7551
Segunda a sexta das 8h às 20h | Sábado das 9h às 15h

NOVAS ASSINATURAS VERMELHO dem acontecer numa revista que se propõe


Solicitação de novas assinaturas pelo O artigo “Tartarugas, mantenham distân- a oferecer informação séria. Sugiro uma me-
pelo site www.lojaduetto.com.br ou pela cia”, da seção Avanços da edição de dezem- lhor revisão para as próximas edições.
Central de Atendimento ao Assinante bro de 2013, tem uma informação equivo- Quero continuar a confiar nas suas reporta-
cada sobre o gênero Lutjanus, que perten- gens. Grata por sua futura atenção
NÚMEROS ATRASADOS ce a uma família de peixes vermelhos Angela Zoppi — por e-mail
Podem ser solicitados à central de Lutjanídeos, e não camarões vermelhos, N. da R.: Prezada Angela. Você tem algu-
atendimento ao leitor pelo e-mail como citado no texto. Aproveito para elo- ma razão no primeiro caso, quanto a 30 de
atendimentolojaduetto@duettoeditorial.com.br giar a edição especial “Libertação Animal”, fevereiro, que de fato não existe no calen-
ou pelo site www.lojaduetto.com.br espero outras edições que tratem do tema. dário. Nossos mapas se referem aos dias 1º,
Lorena Macêdo de Andrade — por e-mail 15 e 30 de cada mês, com diferença de uma
PUBLICIDADE Nota da redação: Cara Lorena, na ver- hora para cada uma dessas datas. Por que
Para anunciar ou adquirir assinaturas patrocinadas dade ocorreu um erro de pontuação, a au- isso ocorre? Ocorre pelo fato de o movimen-
publicidade@duettoeditorial.com.br sência de uma vírgula, na frase a que você to de translação da Terra, o deslocamento
se refere. O correto seria “(...) pescadores do planeta em torno do Sol, fazer com que
REDAÇÃO
que procuram pegar atuns, camarões, ver- as estrelas nasçam a cada dia quatro mi-
Cartas para o editor, sugestões de temas,
melhos (do gênero Latjanus)...” nutos mais cedo. E quatro minutos multi-
opiniões ou dúvidas sobre o conteúdo
plicados por 15, a diferença entre cada
redacaosciam@duettoeditorial.com.br
EPIGENÉTICA uma das datas consideradas, soma uma
MARKETING Gostaria de ler uma edição especial da hora. Então, em fevereiro, para ser preciso
Parcerias e projetos especiais Scientific American Brasil sobre epige- deveríamos dizer que, em 28, o horário de-
marketing@duettoeditorial.com.br nética, assunto frequente na ciência mun- veria ser 19h52 e não 20h00. Claro que es-
dial, menos no Brasil. sas referências dependem, também, da po-
NOSSAS PUBLICAÇÕES
Jonas Martins — via Facebook sição de um observador. De qualquer ma-
N. da R.: Caro Jonas, sua sugestão será neira, houve um erro de nossa parte em
considerada. De qualquer maneira o tema manter o padrão do planisfério para o dia
BRASIL
já foi abordado, por exemplo, no artigo 30, quando fevereiro se estende até 28, a
www.sciam.com.br “Comutadores ocultos do cérebro”, publica- não ser nos anos bissextos, quando chega
do na edição especial de saúde, volume 1, 54. a 29. Em relação à entrada do Sol nas cons-
telações, você está considerando as datas
www.historiaviva.com.br
da astrologia, não da astronomia.
Gosto de comprar a revista Scientific
American Brasil para ver o mapa do céu. OXIDANTES E ANTIOXIDANTES
www.mentecerebro.com.br A edição 141 tem dois erros surpreendentes. Na edição especial saúde, volume 2, o artigo
Um se refere ao céu visível às 20h do dia 30 “Jejuar é Benéfico? ”, de David Stipp, cita um
de fevereiro inexistente em qualquer calen- trabalho brasileiro de 2011 com as seguin-
www.revistacabelos.com.br dário. O outro se refere à passagem do Sol tes constatações contrárias ao jejum: au-
nas constelações. Capricórnio se inicia no mento de glicose no sangue e nos “níveis de
MODACABELO BRAZIL
dia 21 de dezembro e vai até 19 de janeiro. componentes oxidantes do tecido que po-
www.esteticabrazil.com.br
Aquário se inicia em 20 de janeiro e vai até dem danificar células”. Estes “componentes
RUA CUNHA GAGO, 412 – 2O ANDAR 17 de fevereiro. No dia 18 de fevereiro o Sol oxidantes” estão relacionados ao mito dos
SÃO PAULO/SP – BRASIL – CEP 05421-001 entra em Peixes. Erros como esses não po- antioxidantes, tratado por Melinda Moyer,
TEL.: 11 2713-8150 – FAX: 11 2713-8197
POR RESTRIÇÃO DE ESPAÇO, A REDAÇÃO TOMA A LIBERDADE DE ABREVIAR CARTAS MAIS EXTENSAS.

6 Scientific American Brasil | Abril 2014


na mesma edição da revista? N. da R.: Camila, não entre em desespero. OPINIÃO
Alaor Augusto Machado — por e-mail A mecânica quântica produz esses efeitos Amo essa revista. Sem ela não sei o que
N. da R.: Caro Alaor, o artigo sobre jejum desconcertantes desde o início, e muitos fí- seria de mim.
menciona os possíveis efeitos negativos do sicos de talento perderam noites de sono Lucas Boaventura Moraes — via Facebook
jejum à medida que leva ao acúmulo de por isso. Outra consideração que você deve
componentes oxidantes perigosos para a fazer (para não perder o sono) é que boa
integridade das células. O artigo de parte do que aprendemos na escola fica de- Scientific American Brasil é a melhor
Melinda Moyer apenas questiona a eficá- fasado, à medida que o conhecimento revista de divulgação científica do Brasil.
cia e eficiência de agentes antioxidantes avança, independentemente da área de Jose Geraldo Coelho — via Facebook
como vitamina C e outros componentes conhecimento. Mesmo em história, por
químicos no combate aos efeitos provoca- exemplo, onde uma situação como essa pa- Scientific American Brasil traz a ciên-
dos por agentes oxidantes no organismo. rece insuspeita, reinterpretações são fre- cia em seu melhor estilo no Brasil e
quentes. no mundo. Veículo sério e respeitado.
NUNCA DIGA NUNCA Parabéns a todos que fazem a edição bra-
No artigo que trata de coincidência nos ESPECIAL NEUROCIÊNCIAS 1 sileira.
números das loterias [“Nunca diga Nunca”, Li a edição especial dedicada a neurociências. Eduardo Sousa — via Facebook
Scientific American Brasil de março de Um show. Parabéns pelos temas tratados.
2014, edição 142] se esqueceram de citar Pedro Sá — via Facebook
uma pessoa que ganhou mais de 100 vezes Scientific American Brasil é ótima.
na loteria e disse que deve isso a Deus. Uma das melhores do país, se não a me-
Lindomar Arndt — via Facebook A edição de fevereiro (141) está ótima. Sou lhor. Vou passar na banca hoje e ver se já
N. da R.: Caro Lindomar. Nossos leitores estudante de biomedicina e me encantei chegou para pegar a minha!
são críticos o suficiente para se dar conta com mais de um artigo: restrições do geno- Lys Marie — via Facebook
da inconsistência de versões exóticas de ma do botulismo, as dez principais ameaças
determinados fatos e uma evidência disso tóxicas para o meio ambiente e a batalha ERRAMOS
são as considerações que você faz. por uma vacina universal contra a gripe. Na edição de março (142) pequenas tro-
Aline Garcez — via Facebook cas no texto confundiram estrelas e cons-
ENIGMA DO PRÓTON telações. Antares (o coração do Escor-
Nãoooo! Uma das poucas coisas que Revista show [edição especial sobre neu- pião) é a estrela mais brilhante dessa
aprendi em física e ainda está errada! [em rociências, nº 57] constelação e não Aldebarã, a mais
relação à capa da edição 142 sobre parado- Denis Coelho — via Facebook brilhante de Touro. Já o coração do Leão
xos na medida do raio do próton] e a pos- é a estrela Régulus. No texto essas es-
sível revisão das leis da física que essas O primeiro dos dois volumes da edição es- trelas aparecem nas respectivas cons-
considerações podem permitir. pecial sobre neurociências ficou esplêndido. telações e fora delas, de forma equivo-
Camila de Mello — via Facebook Karoliny Carmo Lima — via Facebook cada.

Brasil
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50, 100 & 150 ANOS DE MEMÓRIA COMPILADO POR DANIEL C. SCHLENOFF
Inovações e descobertas narradas pela SCIENTIFIC AMERICAN

AJUDA MECÂNICA
Colheitadeira movida a Quase três quartos dos estudantes que
cavalo de 1864 deixam a escola, quando a lei permite, o
fazem não por causa de pressões econô-
micas diretas em casa, mas porque per-
deram o interesse no ensino. Isso se expli-
ca pelo fato de as escolas continuarem
dando a todos os alunos apenas aquele
particular pábulo que, há uma ou duas
gerações, satisfazia uma pequena fração –
uma fração selecionada – dos alunos. Mas
a massa dos estudantes é diferente des-
sa fração seleta no seguinte: suas mentes
são voltadas para coisas e motores e não
para palavras e símbolos como seus pro-
fessores.”

Abril 1864
Músculo
Mecânico
sociedade verdadeiramente inteligente teria ou “O trabalho de carregar
Abril 1964 não por milhões de anos o interesse ou a neces- feno no campo é muito
sidade de uma tecnologia avançada. Nessas fatigante num dia quente
LSD e circunstâncias é melhor admitir francamente de verão e, nas grandes
Psilocibina que estamos buscando evidências de tecnolo- fazendas, onde são feitas colheitas pesadas,
“Os alucinógenos são gia mais que de inteligência. – Freeman J. a tarefa é muito árdua. É desejável que essa
atualmente objeto de in- Dyson” atividade seja feita por máquinas, não só
tenso debate e preocu- para livrar o agricultor do trabalho exte-
pação nos círculos médi- nuante, mas para facilitar a operação e, as-
cos e de psicologia. O que se discute é o sim, aliviar bastante o custo de produção.
grau de risco que eles representam para a Abril 1914 Com o uso de uma colheitadeira, aqui ilus-
saúde psicológica de quem os utiliza. Essa trada, o agricultor ou seus auxiliares po-
se tornou uma questão importante pelo rá- Idade do Sol, dem passar de um lado do campo a outro,
pido aumento do interesse pelas drogas en- Revisada enquanto a máquina é operada à medida
tre leigos. A recente polêmica na Harvard “Adotando-se a conheci- que a equipe avança.”
University, que surgiu primeiramente por da hipótese de [Her-
causa das discordâncias metodológicas en- mann von] Helmholtz, Corvos por Toda Parte
tre os pesquisadores, e depois envolveu a que atribui a produção “Um dos mais alarmantes sinais dos tem-
questão da proteção da saúde mental do do calor emitido pelo Sol à sua contração, pos em que vivemos é a extraordinária e
corpo estudantil, indicou o escopo de inte- pode-se ter uma ideia da duração do Sol. Se vil especulação que agora circula em
resse popular em relação às drogas e a con- dermos ao Sol um coeficiente de expansão Wall Street, na forma de operações com ou-
sequente preocupação pública sobre seu intermediário entre o do mercúrio e o do ro e outros minérios. Companhias fictí-
possível uso indevido.” gás, chegaremos à conclusão que levou de 1 cias são criadas todos os dias, com fun-
milhão a 3 milhões de anos para que se dações inconsistentes. Alertamos as pes-
Resenha de Dyson
SCIENTIFIC AMERICAN, VOL. X, Nº 14: 2 DE ABRIL DE 1864

contraísse ao seu raio atual. O Sol levará, soas para que fiquem atentas a esses
“A resenha de James R. Newman de Inter- por fim, 200 milhões de anos para se con- vigaristas – elas devem evitá-los como
stellar Communication em sua edição de fe- trair do presente raio à metade dele e, mes- evitam os infernais apostadores da cida-
vereiro foi escrita com sua tradicional com- mo então, sua temperatura na superfície de. Esses infames esquemas são gerados
binação de sagacidade e sabedoria. Todos nós será 3 mil graus.” e criados na região da bolsa de valores e
que pensamos seriamente sobre a detecção de se destinam a enganar os inocentes e de-
inteligência extraterrestre sabemos que sofre- Ler é Obsoleto savisados. Todos eles deveriam ser indicia-
mos de uma limitação básica. Nossos detec- “As escolas têm sido negligentes ao não dos pelo Grande Júri e os trapaceiros cul-
tores imaginados detectam tecnologia mais se adaptarem com celeridade suficiente às pados deveriam ser enviados para Sing
que inteligência. E não temos ideia se uma transformações da vida social e econômica. Sing.”

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AVANÇOS
Conquistas em ciência, tecnologia e medicina

NEUROCIÊNC IA

A Brigada de
Consertos do Cérebro
“Exossomos” naturais parecem promissores
ÇDßDßxÇDßDß³xßþ¸älD³ž‰`Dl¸ä

Cientistas acreditam há tempos que um Health. Eles visam determinadas células e como gerar exossomos fora do corpo, produ-
estilo de vida ativo melhora a saúde do mudam o comportamento delas. Em estu- zindo-os sob demanda para terapias poten-
cérebro. Os estudos confirmam isso: a ativi- dos animais, exossomos secretados por ciais. Ao estimular células imunes da medula
dade física, intelectual e social, ou “enrique- células do sistema imune durante o enri- óssea o grupo conseguiu “imitar o enriqueci-
cimento ambiental” no jargão técnico, me- quecimento ambiental levaram células mento ambiental da Natureza em uma placa
lhora o aprendizado, aprimora a memória e cerebrais a começar a “consertar” a mielina. de Petri”, informa Richard Kraig, professor
protege contra o envelhecimento e doenças Pesquisadores acreditam que exossomos de neurologia na University of Chicago.
neurológicas. Pesquisas recentes sugerem talvez possam ser utilizados como biomar- Sua equipe agora está investigando
um benefício do enriquecimento ambiental cadores para diagnosticar doenças ou como como transformar exossomos em um trata-
em nível celular: ele repara a mielina cere- veículos para o fornecimento de medica- mento para a esclerose múltipla. Os exosso-
bral, o isolamento protetor que envolve os mentos anticâncer, ou outros agentes mos cultivados em laboratório estimularam
axônios, ou fibras nervosas, que podem ser terapêuticos. a produção de mielina em uma amostra de
perdidos devido ao avanço da idade, lesões Os exossomos produzidos durante o tecido cerebral de rato destinada a simular
ou doenças como a esclerose múltipla. Mas enriquecimento ambiental são portadores danos resultantes da esclerose múltipla,
como um ambiente enriquecido aciona o de microRNAs, minúsculos pedaços de restabelecendo os níveis de mielina a 77%
reparo de mielina em primeiro lugar? material genético que parecem instruir do normal, Kraig e seus colegas relatam
A resposta parece envolver os chamados células imaturas no cérebro a se desenvol- recentemente na publicação especializada
“exossomos”, microvesículas ou bolsas en- ver em células produtoras de mielina cha- Journal of Neuroimmunology.
voltas por membranas que ocorrem natu- madas oligodendrócitos. Quando pesquisa- O passo seguinte é verificar se exosso-
CORTESIA DE NIH COMMON FUND

ralmente. Diversos tipos de células liberam dores da University of Chicago extraíram mos colhidos de células imunes funcionam
esses pequenos sacos de proteínas e mate- exossomos do sangue de ratos e os ministra- com a mesma eficiência em animais vivos
rial genético nos fluidos do corpo. Repletos ram a animais idosos, os níveis de mielina afetados pela doença, anuncia Aya Pusic,
de moléculas sinalizadoras os exossomos se dos ratos mais velhos aumentaram 62%, a integrante da equipe e candidata a Ph.D. em
espalham pelo corpo “como mensagens em equipe relatou em fevereiro na publicação neurobiologia. Com alguma sorte, observa
uma garrafa”, exemplifica R. Douglas Fields, científica Glia. ela, a pesquisa poderia avançar para testes
neurobiólogo no National Institutes of Os pesquisadores também descobriram humanos em cinco anos. —Debra Weiner

10 Scientific American Brasil | Abril 2014


AVANÇOS
CONSERVAÇÃO

A Floresta Tropical
do Alabama
Uma crise de extinção se desdobra
silenciosamente no sudeste dos
Estados Unidos

Em um concurso de popularidade, o despretensioso pequeno bagre

RAYMOND GRASSO GETTY IMAGES (ACIMA); JOEL SARTORE GETTY IMAGES (ABAIXO)
conhecido como chucky madtom (da espécie Noturus crypticus) não
tem nenhuma chance em comparação com majestosos peixes de pes-
ca esportiva ameaçados, como o salmão chinook, ou salmão-rei. No
entanto, a situação do chucky é muito mais terrível: nenhum deles foi
visto em estado selvagem desde 2004.
AMBIE NTE Grupos conservacionistas estão lançando seus holofotes sobre
espécies humildes como o chucky madtom em uma tentativa de cha-

Chama Extinta mar a atenção para o grande apuro de criaturas aquáticas no sudeste
americano. Acredita-se que cerca de 70 tipos de moluscos e mariscos,
além de duas espécies de peixes e um lagostim da região, estão extin-
Retardadores químicos de fogo permanecerão tos. Dezenas de outras espécies, inclusive o chucky madtom, estão à
conosco por muitos anos beira da extinção, devastadas por produtos químicos agrícolas, barra-
gens e espécies invasoras. As enxurradas carregadas de sedimentos
A Califórnia receitou involuntariamente um coquetel químico ïD®Uz®`DùåDàD®mD´¹åjyåÈy`ŸD¨®y´ïyKå`àŸDïùàD动ïàDm¹àDåÎÚ3y
nocivo para o país na década de 70 quando o estado adotou regras as condições da água nunca melhorarem, elas simplesmente morre-
destinadas a suprimir incêndios provocados por cigarros acesos. rão”, alerta Tierra Curry, bióloga do Centro para Diversidade Biológica.
Os regulamentos exigiam que a espuma usada em estofados resis- àDcDåK‘y¹¨¹‘ŸDyåïEÿy¨m¹åùmyåïyjåùDàŸÕùyĆDy®UD`ŸDåŒùÿŸDŸå
tisse a uma exposição de 12 segundos a uma pequena chama viva; isoladas e a ausência de glaciares da Era do Gelo, a região é um centro
o que resultou no amplo uso de retardadores de chamas. Os efeitos de biodiversidade aquática. A maioria das espécies de mexilhões,
disso foram muito além do estado, quando fabricantes optaram moluscos e peixes de água doce americanos pode ser encontrada ali.
por aderir a um único padrão de segurança em vez de produzir um Muitos animais sofreram com a construção de barragens hidrelé-
conjunto de produtos para a Califórnia e outro para o resto do país. tricas. A construção de sete barragens no rio Coosa, no Alabama, de
Como se constatou, as regras californianas estavam baseadas 1914 a 1967, provou ser singularmente prejudicial e eliminou cerca
em ciência distorcida. Pesquisas revelaram que retardadores de de três dezenas de espécies.
chamas são menos eficientes que se acreditava, além de represen- Ameaças mais recentes incluem um aumento da
tarem sérios riscos em potencial à saúde. Uma classe de substân- retirada de águas para consumo humano e para a mineração em
cias químicas, os éteres difenil-polibromados tem sido associada ao ï¹È¹åmy®¹´ïD´›DåÎÚD`àŸåymy`¹´åyàÿD-
câncer, a problemas reprodutivos e a um QI inferior em crianças. ção sobre o que ninguém quer ouvir falar”,
Em janeiro passado novas regras entraram em vigor na Califórnia, queixa-se Paul D. Johnson, supervisor do
determinando que fabricantes de móveis reduzam a quantidade programa do Centro de Biodiversidade
de retardadores de chamas em suas poltronas e sofás. Os novos ÕùEïŸ`Dm¹ ¨DUD®DÎÚ¨D`yàïD®y´ïy´T¹
padrões exigem que móveis estofados resistam a um cigarro aceso tem igual nos Estados Unidos. Não existe nada nem
em vez de uma chama viva. A mudança não impede fabricantes de perto disso. ”
utilizarem retardadores de chamas, mas viabiliza evitá-los. Alguns mexilhões do sudeste ganharam status de amea-
Agora, é preciso ver como a indústria responderá a esse caso. çados de extinção em 2013, mas espécies mais destacadas conso-
Mesmo que os fabricantes deixassem de usá-los completamente, as ®y®D®DŸ¹àÈDàïym¹Š´D´`ŸD®y´ï¹mŸåȹ´ ÿy¨Î®÷ĈÀ÷j
substâncias químicas persistiriam no ambiente. Estudos mostra- ¹‘¹ÿyà´¹D®yàŸ`D´¹‘Dåï¹ù`yà`Dmy73u‹ĈĈ®Ÿ¨›Çyååº
ram que retardadores de chamas se infiltram em domicílios e para proteger trutas-arco-íris e salmões-reis, em compara-
depois se acumulam no corpo. As substâncias químicas também cT¹`¹®`yà`Dmy73uÀñj‹®Ÿ¨›ÇyåmyåDm¹åDï¹m¹å¹å
acabam em cursos d’água e organismos aquáticos. ®¹¨ùå`¹åy®yāŸ¨›ÇyåmyE‘ùDm¹`yÎÚ0DàDÕùyy¨yåàyD¨-
Além disso, há o fato de que móveis podem durar por gerações, mente sobrevivam será preciso dinheiro”, adverte Curry.
argumenta Linda Birnbaum, diretora do National Institute of —Jesse Greenspan
Environmental Health Sciences. “Estou pensando no meu sofá de
25 anos, que ainda adoro”, confessa ela. —Dina Fine Maron

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AVANÇOS

FÍSIC A

Tesouro Plúmbeo
Cientistas disputam metais recuperados
de antigos naufrágios
Arqueólogos e físicos cobiçam igualmente de construção e armas.
chumbo romano antigo, mas por razões muito Atualmente, empresas
diferentes. Como o chumbo antigo é puro, privadas resgatam o
denso e muito menos radioativo que o metal metal de antigos sítios
recém-minerado, ele é uma blindagem ideal de naufrágios e o repas-
para experimentos físicos sensíveis. No entanto, sam a clientes, muitos dos quais são físicos. “Po- Blas Cabrera da Stanford University. Ele é o
x§xîD­Uy­îx­䞐³ž‰`Dl¸šžäî¹ßž`¸x­øžî¸ä demos perder todo o chumbo romano antigo e, porta-voz do experimento Busca Supercriogê-
DßÔøx¹§¸¸ääx¸ÇÆx­D¸lxßßxx³î¸lx portanto, as informações sobre tecnologia, trans- nica por Matéria Escura (SCDMS, na sigla em
lingotes de 2 mil anos de idade. porte naval, comércio etc. que ele pode nos inglês), em Minnesota, que usa o chumbo para
ÙääxäxĀÇxߞ­x³î¸ääT¸äø‰`žx³îx­x³îx ¸…xßx`xßjäxäøDøžąDcT¸ÇDßDxääxîžÇ¸lx‰³D§ž- blindar seu detector.
importantes para destruir partes de nosso lDlxäxî¸ß³Dߐx³xßD§žąDlDÚjD§xßîD¸DßÔøx¹§¸¸ Além disso, em física o chumbo antigo pode
passado, para descobrir alguma coisa sobre John Carman, da University of Birmingham. ajudar a desvendar mistérios que antecedem
nosso futuro?”, questiona Elena Perez-Alvaro, Físicos argumentam que é prudente usar o de longe os romanos. “Esses experimentos
estudante de graduação em arqueologia da metal em algumas aplicações fundamentais, podem revelar algumas das propriedades mais
University of Birmingham, na Inglaterra, que como na busca de matéria escura, material que fundamentais do Universo e responder pergun-
escreveu um artigo sobre os dilemas envolvidos teoricamente compõe mais de um quarto da tas como o que somos e de onde viemos”,
GETTY IMAGES

³DÔøxäîT¸³DÇøU§ž`DcT¸`žx³îŸ‰`DRosetta. ­DääDl¸7³žþxßä¸ÍÙ%x³šø­lx³¹äx³`DßD argumenta o físico Fernando Gonzalez-Zalba,


No passado, romanos usavam o chumbo isso casualmente; ninguém quer destruir artefa- da University of Cambridge. “Acho que vale a
para cunhar moedas e produzir canos, materiais î¸äšžäî¹ßž`¸ääx­³x`xääžlDlxÚjäD§žx³îD¸…Ÿäž`¸ pena”, considera ele. — Clara Moskowitz

12 Scientific American Brasil | Abril 2014


AVANÇOS

PALEONTOLOGIA
ram evidências convincentes de que os nean- Restos de um ne-

Sepultamento dertais tinham outras práticas modernas, como


decorar seus corpos e produzir ferramentas
andertal, La Cha-
pelle-aux-Saints,
França
Antigo 三äîž`DlDäͧxä…DąžD­žää¸D³îxäÔøxšø­D
nos anatomicamente modernos invadissem
Neandertais eram muito parecidos äxøîxßߞî¹ßž¸Íää¸äøxßxÔøx¸ä³xD³lxßîDžä
com modernos no modo como desenvolveram tradições culturais de forma
tratavam seus mortos independente, em vez de aprendê-las de
recém-chegados.
Uma nova escavação da caverna francesa
Há cerca de 60 mil anos, em uma pequena resultou na recuperação de mais ossos e dentes
caverna de pedra calcária no que atualmente é a de neandertais, assim como ferramentas de
região central da França, os neandertais cavaram pedra e restos de animais. William Rendu, da
um túmulo e sepultaram um membro idoso de %xÿ?¸ß¦7³žþxßäžîāxäxøä`¸§xDäjžlx³îž‰`D-
seu clã. Essa é a imagem que emerge do sítio ram uma série de características indicando que
DßÔøx¸§¹ž`¸ÔøxÇ߸løąžø¸…D­¸ä¸xäÔøx§xî¸ a cova que continha o esqueleto neandertal foi
neandertal de La Chapelle-aux-Saints, em 1908, e ­¸lž‰`DlDjÇx§¸­x³¸äÇDß`žD§­x³îxjÇDßD‰³ä Chapelle-aux-Saints, no início do século 20, deu
tem implicações importantes para compreender o de sepultamento, em vez de ser uma depressão origem à infeliz reputação de os neandertais
comportamento e a capacidade cognitiva dos inteiramente natural no solo. Eles também serem “brutamontes idiotas”. Pouco depois da
³¸ää¸äÇDßx³îxäxþ¸§øîžþ¸ä­DžäÇß¹Āž­¸äÍ observaram que, enquanto os restos de animais lxä`¸UxßîDl¸äŸîž¸DßÔøx¸§¹ž`¸¸ÇD§x¸³î¹§¸-
§ø³äDßÔøx¹§¸¸äþz­äøäîx³îD³l¸šE parecem ter sido roídos por carnívoros, os ossos go francês Marcellin Boule reconstruiu o esque-
tempos que vários sítios de neandertais preser- do neandertal não exibem danos desse tipo, o leto para revelar uma criatura encurvada, de
vam evidências de sepultamentos, prática que sugere que o cadáver foi coberto rapida- postura relaxada, com joelhos dobrados, um
considerada característica fundamental do mente, como ocorreria se fosse enterrado pescoço curto e crânio baixo, alongado para
comportamento humano moderno. Mas críti- intencionalmente. Rendu e seus colegas relata- trás. Foi assim que nasceu a imagem desajeita-
cos têm argumentado que esses locais foram ram suas descobertas em janeiro na publicação da do homem das cavernas. Mais tarde, cientis-
escavados há muito tempo com técnicas anti- `žx³îŸ‰`DProceedings of the National Academy of tas determinaram que o esqueleto, de fato,
quadas que obscurecem os fatos. Sciences USA. pertencia a um homem velho que sofria de
Nos últimos anos pesquisadores encontra- Ironicamente, a descoberta original de La artrite aguda. —Kate Wong

ESPAÇO
outro grupo também reivindique o crédito de uma varredura com-
Planetas Anões ter descoberto Haumea). Desde aquele pleta do céu, parecem

Solitários turbilhão de atividade a descoberta de obje-


tos grandes no Sistema Solar exterior empa-
ter observado as
áreas lotadas de ob-
Corrida para encontrar pares cou, ainda que o grupo de Brown tenha jetos brilhantes.
lx0§øîT¸äxDÇ߸Āž­Dl¸‰­ deixado largas faixas do céu inexploradas. Mas é possível que
O motivo? A maioria dos grandes objetos um planeta anão te-
brilhantes já foi encontrada, de acordo com nha escapado à aten-
Durante décadas Plutão foi o indiscutível um novo estudo. Megan Schwamb, ex-aluna ção, salienta Darin
`D­ÇxT¸l¸äÇxä¸äÇxäDl¸ä³¸ä`¸³‰³äl¸ de graduação da Brown University e atual- Ragozzine do Instituto
Sistema Solar exterior. Agora astrônomos mente na Academia Sinica, em Taiwan lx5x`³¸§¸žDlD§¹ßž
sabem que aquele mundo tão querido é apenas (Formosa), realizou um levantamento em da. O plano estrelado
um de muitos planetas anões conhecidos e a larga escala do Sistema Solar exterior e em da Via Láctea poderia obscurecer um plane-
maioria deles orbita o Sol além de Netuno. seguida extrapolou a partir da busca para ta anão, mas é pouco provável que haja
As descobertas que levaram Plutão a ser estimar o número total de objetos. “Os cálcu- vários aguardando uma descoberta, avalia.
rebaixado de planeta a planeta anão ocorre- los indicam que há uns 12”, informa Schwamb, “Tivemos essa ‘era dourada’ de encontrar
ram em uma sucessão explosiva que atingiu acrescentando que nove já são conhecidos. esses planetas anões”, comenta Schwamb.
seu auge há cerca de uma década. Entre “Isso realmente nos diz que praticamente “Essa época se encerrou.” Pode haver objetos
2002 e 2007, o astrônomo Mike Brown do completamos o inventário de planetas anões similares mais distantes que simplesmente
California Institute of Technology (Caltech) e brilhantes.” Schwamb e seus colegas divulga- äT¸îz³øxälx­DžäÇDßDäxßx­žlx³îž‰`Dl¸ä
seus colegas descobriram vários objetos de ram suas descobertas em janeiro na publica- atualmente. “Eles estão espreitando nas
grandes dimensões, inclusive os planetas cT¸`žx³îŸ‰`DAstronomical Journal. sombras, esperando que alguém os detecte”,
anões Eris, Makemake e Haumea (embora Embora astrônomos não tenham feito acrescenta. —John Matson

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AVANÇOS

rastrearia a posição do Sol reposi-


TECNOLOGIA cionando-se automaticamente sob
essa cobertura para obter uma
exposição ideal. O sistema permite
que o carro carregue até oito vezes

Caçador mais rápido que se fosse simples-


mente estacionado na luz solar,
informa Tinskey.

Solar Obviamente, a Ford ainda tem de


resolver algumas dificuldades para viabi-
Novo carro-conceito híbrido lizar o conceito algum dia; quanto mais
usaria energia solar para solares montados no teto do veículo para colocar o carro à venda em concessioná-
carregar uma bateria de íons de lítio. A rias. O custo dos painéis solares, do siste-
viagens curtas
bateria abasteceria o carro para viagens de ma de rastreamento e do concentrador
até 34 km; depois disso, o motor a gasolina acrílico ainda é um ponto de interroga-
Carros movidos a energia solar têm sido do híbrido entraria em funcionamento. ção. Além disso, o sistema de reposiciona-
pouco mais que uma novidade experimen- “Este é o primeiro veículo “plug-in” do mento automático do veículo poderia
tal até agora. Baterias caras, uma conver- mundo que não precisa ser ligado em uma apresentar problemas logísticos e de
são de energia relativamente ineficiente e a tomada”, explica Mike Tinskey, diretor segurança. O caminho de acesso domici-
escassez de dias ensolarados em muitas global de eletrificação e infraestrutura de liar médio acomodaria um carro que se
regiões tornaram veículos fotovoltaicos de veículos da Ford. move roboticamente? E o que o impediria
passageiros impraticáveis. O carro-conceito vem acompanhado de de inadvertidamente atropelar um obstá-
A Ford está procurando mudar isso. um acessório especial: um “canopy”, uma culo em seu caminho, como o pé de uma
Uma versão de seu híbrido “plug-in” espécie de cobertura acrílica concentradora pessoa ou um gato cochilando?
C-MAX Energi hybrid, apresentado na de luz solar, de 20 m2, equipada com lentes Apesar dos obstáculos, o híbrido
recente Feira Internacional de Eletrônica que agem como uma lupa gigante e direcio- marca uma promissora mudança auto-
de Consumo (CES, na sigla em inglês) da na os raios intensos para os painéis solares motiva ao se tornar “sem fio” e energeti-
Associação Internacional de Eletrônica de do carro, dando-lhe um impulso adicional. camente independente ao mesmo tempo.
Consumo em Las Vegas, usaria painéis Utilizando sensores e câmeras o veículo —Larry Greenemeier
CORTESIA DE FORD MOTOR COMPANY (ACIMA); CORTESIA DE MOHAMED GHARBI UNIVERSITY OF PENNSYLVANIA (ABAIXO)

O QUE É ISSO?

Cristais líquidos, como sugere o nome, ocupam um


estado que se situa em algum lugar entre um líquido e
ø­乧žl¸Í0xäÔøžäDl¸ßxäDÇßx³lxßD­šE­øžî¸îx­Ç¸
como explorar as propriedades únicas de cristais líqui-
dos ao manipularem suas moléculas em forma de bas-
tonetes para controlar a luz em mostradores digitais.
Agora, uma equipe da University of Pennsylvania desen-
þ¸§þxøø­D³¸þDDU¸ßlDx­¹Çîž`DÍ1øD³l¸¸äÇxä-
quisadores deixaram cair uma bolinha de sílica em uma
camada de cristais líquidos, forças capilares espalharam
os cristais em centenas de diminutas pétalas ao redor
lDU¸§ž³šDÇDßD…¸ß­DßxääxÇDlßT¸ً¸ßD§ÚßxîßDîDl¸
DÔøžÍ'îßDUD§š¸…¸žlxîD§šDl¸¸³§ž³x³¸äžîx`žx³îŸ‰`¸
Physical Review X.
Coletivamente, as pétalas que se agrupam sozinhas
agem como uma lente composta que focaliza a luz de
uma forma muito parecida com o olho de uma mosca.
§x³îxǸlxߞDäxßøžąDlDx­ÇDž³yžä丧Dßxäjž³îx³äž‰-
cando a captura de luz solar, ou formar a ponta de uma
丳lDlx‰UßD¹Çîž`DÇDßDlDßD`žßøߐžÆxäø­DþžäT¸
melhor no interior de nossos corpos. —Annie Sneed

14 Scientific American Brasil | Abril 2014


AVANÇOS

B I OQU Í MIC A

Cultivando
Cabelo em uma
Placa de Petri
Pesquisadores estão testando
tratamentos para a calvície em
`D`š¸ä`ø§îžþDl¸äx­§DU¸ßDî¹ßž¸
O biólogo celular
Desmond Tobin passa
seus dias colhendo
órgãos de pacientes de
cirurgias estéticas. Mas
Tobin não está atrás de
rins ou outras partes
vitais. Em vez disso, cole-
Mosquito
ta amostras de pele
Aedes albopictus
removidas de trás da
orelha durante procedi-
DO ENÇA INFECCIOS A ®y´ï¹åmyÚ¨Ÿ†ïŸ´‘†D`ŸD¨ÛʹùàŸïŸmy`ï¹®ŸDËÎ'®DŸå
importante para Tobin é que as amostras de pele
Problema À Vista contêm os órgãos em miniatura, conhecidos
como folículos, que produzem cabelos.
<Ÿßøä­D§y‰`¸îßD³ä­žîžl¸Ǹß­¸äÔøžî¸ääxxäÇD§šD No Centro para Ciências da Pele na University
para o hemisfério ocidental of Bradford, na Inglaterra, Tobin extrai os folículos
cuidadosamente e os utiliza para replicar o cresci-
Diante da escolha entre a dengue e outra chikungunya chegou a St. Martin. Como mento do cabelo humano em uma placa de Petri.
doença transmitida por mosquitos, chama- os primeiros pacientes diagnosticados não Com os folículos colhidos, pesquisadores
da febre chikungunya, a maioria das pes- haviam deixado a ilha recentemente, `¹®¹ D®yå<ÎÊÚ<Ÿ´`yÛËàùUyàjmŸàyï¹à‘¨¹UD¨my
soas escolheria a dengue. Não existe uma portanto, devem ter contraido a doença pesquisa e desenvolvimento do departamento de
vacina ou tratamento específico disponível localmente. Uma explicação plausível é Cuidados Pessoais da empresa suíça Lonza, pode
para nenhuma das duas, mas a chikun- que um viajante pegou a doença em outra ïyåïDàDyŠ`Ÿ{´`ŸDmy´¹ÿ¹åÈà¹mùï¹åÈDàD¹å
gunya é muito mais debilitante. região do mundo e a trouxe a St. Martin cabelos e a pele sem depender de animais de
A doença, que provoca febre alta e dores na volta, onde um mosquito local disse- laboratório. Gruber explicou seu trabalho no
intensas nas articulações, é, há tempos, um minou o vírus para outros. (Tudo o que y´`¹´ïà¹D´ùD¨mD3¹`ŸymDmymy1ù ®Ÿ`¹å ¹å-
problema na África e no sul da Ásia. No é preciso para espalhar a chikungunya méticos em dezembro passado.
idioma maconde, do sudeste da África, o é que uma fêmea dos mosquitos Aedes Duas moléculas distintas parecem promisso-
nome “chikungunya” significa aproximada- aegypti ou Aedes albopictus se alimente ras para possíveis tratamentos para a perda capi- SUSUMU NISHINAGA SCIENCE SOURCE/ ILUSTRAÇÃO DE THOMAS FUCHS

mente “aquilo que dobra” e descreve a do sangue de uma pessoa infectada e lar, informou Gruber. Um peptídeo de levedura
postura encurvada dos afetados. depois pique mais alguém.) Outra possi- parece reverter a senescência, quando células
Recentemente, a Organização Mundial bilidade, menos provável, é que um mos- †¹¨Ÿ`ù¨DàyåŠ`D®y®ù®yåïDm¹m¹à®y´ïyy
da Saúde (OMS) reportou o primeiro surto quito infectado viajou para St. Martin, param de se replicar. E um antioxidante chamado
de chikungunya no hemisfério ocidental, talvez como “passageiro clandestino” Ÿå¹ŒDÿ¹´DDù®y´ïDDå`¹´`y´ïàDcÇyåmy`¹¨E‘y-
na ilha caribenha de St. Martin. No início em um navio ou avião. no e elastina, que fortalecem a matriz cutânea
de janeiro havia 99 casos confirmados na “Sabemos que a área tem os mosquitos que segura os folículos no lugar.
ilha, além de alguns poucos casos espalha- certos para potencialmente transmitir a Até o momento, Tobin e Gruber se concen-
SUSUMU NISHINAGA Science Source

dos em outras ilhas do Caribe. Os Centers chikungunya; então você poderia pergun- traram em cabelos forçados quimicamente a
for Disease Control and Prevention (CDC) tar: ‘por que só agora?’ ou ‘por que não entrar em senescência. O próximo passo é
dos Estados Unidos advertem que o vírus daqui a um ano?’”, comenta Erin Staples, determinar se folículos que estão rumando
pode se propagar para outras ilhas e as especialista em doenças transmitidas por naturalmente para a dormência podem ser
áreas continentais circundantes nos próxi- vetores do CDC, para quem “isso simples- persuadidos a retornar a um estado ativo. —
mos meses ou anos. mente foi a combinação certa de fatores”. Rebecca Guenard
Não se sabe como, exatamente, a — Dina Fine Maron

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FÓRUM POR WALTER WILLET

Fronteiras da ciência comentadas por especialistas


Walter Willett é professor de epidemiologia e
nutrição e diretor do departamento de nutrição da
Harvard School of Public Health. Ele também é
professor de medicina da Harvard Medical School.

Em 1980 meus colegas e eu decidimos examinar com mais


detalhes a relação entre a ingestão de gorduras trans e o risco de
doenças cardiovasculares. Incluímos gorduras trans numa ava-
liação ampla de dieta no grupo de mais de 100 mil mulheres do
Nurses’ Health Study e desenvolvemos um banco de dados atua-
lizado de alimentos contendo gordura trans. Após oito anos de
acompanhamento e depois de contabilizarmos os fatores de ris-
co conhecidos para doença cardíaca descobrimos que as mulhe-
res com maior ingestão de gordura trans tinham risco de hospi-
talização ou morte atribuível a doença cardiovascular 50% mais
alto. A margarina, fonte primária de gordura trans nos anos 80,
também foi associada ao risco maior.
À mesma época o pesquisador holandês Martijn Katan e seus
colegas estavam investigando os efeitos metabólicos das gordu-
ras trans entre voluntários saudáveis em estudos sobre alimenta-
ção rigorosamente controlados por várias semanas. Eles desco-
briram que a gordura trans e a gordura saturada aumentaram o

Por que Proibir colesterol “ruim” LDL em grau semelhante – mas diferentemente
de outros tipos de gordura, a trans também reduz o “bom” coles-
terol HDL. Outros pesquisadores confirmaram esses estudos e
Gorduras Trans documentaram efeitos metabólicos negativos adicionais, incluin-
do aumento na concentração de triglicérides no sangue e fatores
Uma nova política da FDA sobre esses inflamatórios. Cálculos sugerem que a eliminação das gorduras
trans produzidas industrialmente impediria até 20% das mortes
­¸ßîDžäE`žl¸äßDĀ¸äDß`žDžäxäîDþD por doenças cardíacas evitáveis nos Estados Unidos.
Em 2003 a FDA encontrou evidências fortes o suficiente para
mais que na hora exigir que as gorduras trans constassem nos rótulos dos alimen-
tos. A maioria dos fabricantes respondeu com a total eliminação
Em novembro de 2013 a Food and Drug Administration (FDA), delas. Logo depois a cidade de Nova York baniu seu uso em res-
a agência americana que controla alimentos e medicamentos, taurantes e foi seguida por outras cidades no país. Em 2012 apro-
adotou com atraso uma bem-vinda determinação de que óleos ximadamente 75% das gorduras trans haviam sido removidas
parcialmente hidrogenados – a fonte primária das gorduras dos alimentos americanos. Os níveis de colesterol do sangue res-
trans – não podem mais ser “vistos como seguros em geral”. Até ponderam no país todo, como era esperado.
o momento de nossa edição, a decisão era preliminar, mas deve Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças estimam
ser tornada permanente. Caso isso ocorra, vai virtualmente eli- que os 25% das gorduras trans que ainda se encontram nos ali-
minar as gorduras trans produzidas industrialmente nos Esta- mentos americanos respondem por cerca de 7 mil mortes pre-
dos Unidos, salvando milhares de vidas a cada ano, com custo maturas por ano. A recente decisão da FDA evitaria essas mor-
mínimo para a indústria. tes. A indústria dos alimentos provavelmente não terá
Em 1901 o químico alemão Wilhelm Normann descobriu o problemas. A maior parte das gorduras trans foi suprimida e, na
processo de hidrogenação parcial, que transforma óleos vege- Dinamarca, já foi banida há uma década, provando que a elimi-
tais líquidos baratos em gorduras e margarinas e cria a gordu- nação total é viável.
ra trans como um subproduto. Como esses produtos mais bara- A ação da FDA é motivo de comemoração. Significa que os
tos e duradouros imitam os óleos das cozinhas europeias e esforços de muitos cientistas de diversas disciplinas em breve
americanas, muitos países rapidamente os incorporaram aos levarão à eliminação de uma importante causa de mortes pre-
seus alimentos. Em 1912 os inventores da hidrogenação parcial maturas. Como a FDA desempenha um papel de liderança glo-
ILUSTRAÇÃO POR WESLEY ALLSBROOK

receberam o Prêmio Nobel. Levou décadas para que os cientis- bal, a decisão deve estimular mudanças semelhantes no mundo
tas percebessem como as gorduras trans são letais, em parte todo. Mas não devemos nos empolgar muito. É decepcionante
porque a indústria de alimentos e a comunidade de prevenção que esse momento tenha levado mais de um século para chegar.
de doenças cardiovasculares rejeitaram as preocupações sobre O caso das gorduras trans deve nos encorajar a estudar como
os efeitos adversos para a saúde, embora as evidências conti- riscos futuros devem ser evitados, detectados ou mais rapida-
nuassem crescendo. mente eliminados.

16 Scientific American Brasil | Abril 2014


PELOS EDITORES CIÊNCIA EM PAUTA
Opiniões e análises do conselho editorial de SCIENTIFIC AMERICAN

nhia como nós. A mãe orca permanece com a maioria de seus des-
cendentes durante a vida, às vezes, cuidando de até quatro gera-
ções. Relações matrilineares, cada uma com seu próprio dialeto, se
unem em grupos fechados que se fundem em clãs, misturando-se
em grandes comunidades – semelhantes a tribos e nações.
Da mesma forma, elefantas mães relacionadas e seus descen-
dentes formam clãs coesos em que compartilham deveres paren-
tais e protegem as crias contra predadores. Quando um membro
do clã morre os elefantes ficam em luto – não há outra palavra para
descrever essa situação. Na Reserva Nacional de Samburu do Quê-
nia, o zoólogo Iain Douglas-Hamilton e sua equipe testemunha-
ram elefantes de várias famílias que cuidavam de uma matriarca
doente chamada Eleanor. Outra matriarca usou suas presas para
erguer Eleanor até ela ficar em pé, após uma queda. Mesmo após a
morte de Eleanor, elefantes repetidamente a visitaram e acaricia-
ram seu corpo. Cynthia Moss e outros pesquisadores também nar-
raram que elefantes aspergiram seus mortos com terra, cobrindo-
os com galhos e folhas.
Diversas outras espécies exibem comportamentos humanoides
semelhantes, entre elas gorilas, orangotangos, golfinhos e botos. O
que distingue orcas e elefantes – o que os torna tão especiais em ca-
Libertem Willy tiveiros tão lotados – é uma característica que os torna tão atraen-
tes para os frequentadores de zoológico: seu imenso tamanho. Ele-
fantes africanos podem pesar até 6,8 toneladas e costumam viajar
e Todos os Seus entre poços de água e locais de alimentação a centenas de quilô-
metros. Os confinados passam muito tempo em pé em locais aper-
tados. As orcas podem atingir 9,75 metros de comprimento e uma
Amigos tonelada de peso. As cerca de quatro dúzias de orcas em cativeiro
atualmente são obrigadas a trocar o oceano por uma banheira. No
Orcas e elefantes são grandes, inteligentes Seaquarium de Miami, a velha Lolita vive em um tanque que não
tem sequer o dobro de seu comprimento.
e sociáveis demais para serem mantidos Essas condições torturantes infligem danos físicos e psicológi-
cos graves nesses animais inteligentes e sensíveis. Os elefantes de
em cativeiro zoológico morrem jovens, muitas vezes depois de ficarem obesos e
inférteis. Com frequência desenvolvem tiques psicológicos, como
ǹ䉳D§­x³îxäx¥ø³îDßx­D¸`¸³¥ø³î¸lx¸øî߸äÇDŸäxäna ficar balançando a cabeça. Citando razões éticas, vários zoológicos
restrição severa de ensaios médicos com chimpanzés, os Estados grandes nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Índia fecha-
Unidos, no momento, realocam centenas de chimpanzés contro- ram suas exposições de elefantes.
lados pelo governo para santuários. Um motivo para essas mu- Orcas em cativeiro são excepcionalmente agressivas, mor-
danças é que os animais não são mais tão essenciais para a pes- dem e se chocam entre si e podem agredir seus treinadores. Mui-
quisa biomédica como costumavam ser; em seu lugar, tos cientistas acreditam que animais se comportam dessa forma
aprendemos a usar camundongos geneticamente modificados e por estarem estressados demais; alguns sugerem que o confina-
culturas de células. Para muitos, um argumento ainda mais con- mento por longo período torna os cetáceos psicóticos. Em feve-
vincente é que o uso de pesquisa clínica com chimpanzés é impro- reiro de 2010, a orca do SeaWorld, Tilikum, puxou a treinadora
cedente, pois, como nós, eles são muito inteligentes, sentem emo- sênior de 40 anos, Dawn Brancheau, para baixo d’água, agitou-a
ção e têm consciência de si mesmos. violentamente, escalpelou-a e machucou sua coluna vertebral.
Assim como acontece com os chimpanzés, a inteligência das Foi a segunda vez que ela matou um treinador. Orcas selvagens
orcas e elefantes é inegável. Com alguns dos cérebros mais com- nunca mataram alguém.
plexos, os três animais se reconhecem no espelho, indicando Orcas e elefantes não são as únicas espécies inteligentes que
também ter um conceito de si mesmos. Todos são solucionado- merecem nosso respeito e atenção, mas eles enfrentam dificulda-
res de problemas em cooperação. Grupos de orcas costumam ca- des especiais em cativeiro. Embora muitos zoológicos e parques
ILUSTRAÇÃO POR MARC SCHEFF

çar produzindo e direcionando ondas contra icebergs para der- marinhos aumentem a conscientização sobre a situação dos ani-
rubar focas e pinguins na água. Elefantes também são mais na Natureza, o sofrimento das orcas cativas e elefantes, em
ferramenteiros hábeis: produzem chicotes para espantar mos- particular, ofusca esse objetivo digno. Alguns animais confinados
cas e mastigam casca de árvores em bolas para tapar pequenas atualmente podem não sobreviver se libertados, mas os que po-
poças de água, evitando a evaporação. dem, devem ser soltos, e os programas de reprodução em cativeiro
Chimpanzés, orcas e elefantes são tão dependentes de compa- precisam ser encerrados.

www.sciam.com.br 17
TECNOLOGIA POR DAVID POGUE
David Pogue é colunista de tecnologia pessoal
do The New York Times.

tarefas individuais. (Ele não previu o Roomba, exatamente, mas


pelo menos propôs “robôs para jardinagem”.)
Asimov também se preocupou muito com a superpopulação,
estimando que o mundo abrigaria 6,5 bilhões em 2014, e que a
população americana chegaria a 350 milhões. Ele se aproximou
muito disso; a população do mundo atual é de aproximadamente
7,1 bilhões e, a americana, 317 milhões.
E, sim, ele também errou muita coisa. Ele previu que casas
subterrâneas e subaquáticas se tornariam populares, além de
“meios de transporte que fazem o menor contato possível com a su-
perfície” – carros e barcos que flutuavam com jatos de ar com-
primido.
Suas profecias mais estranhas dizem respeito ao sofrimento
desesperador “da doença do tédio” uma vez que robôs e autômatos
tivessem roubado a maioria de nossos empregos. “Os poucos sor-
tudos que conseguissem envolver-se com trabalhos criativos de
qualquer tipo seriam a verdadeira elite da humanidade, porque
apenas eles fariam mais que apenas servir uma máquina.” Se a tec-
nologia nos dá mais tempo livre, ela também se torna parte dele.
(Alguém aí assiste Netflix?)
Mas muitos dos prognósticos de Asimov também caem em
uma terceira categoria que você pode não ter esperado: tecnolo-
gias que de fato são possíveis atualmente – mas que ainda não são
comuns.
Ele achou que as janelas não seriam mais que “um detalhe
arcaico”, graças à popularidade de painéis luminosos. É claro que

Futuro temos a tecnologia de tela plana – mas ainda apreciamos observar


a grama, o céu e esquilos de verdade.
Em áreas movimentadas, Asimov previu calçadas móveis. Nós

Imperfeito já construímos isso em aeroportos, mas não em cidades.


Ele também supôs que nossas dietas incluiriam “produtos pro-
cessados de levedura e algas”, como “pseudofilé” – item que pode
deixar pensativos os amantes do peru de tofu. E previu o estabele-
Previsão feita por Asimov em 1964 mostra cimento de colônias na Lua em 2014, e ocupações marcianas já nos
o caminho que ainda temos pela frente estágios de planejamento. Nesses casos, o que impediu a realiza-
ção de sua previsão não foi a tecnologia, ao contrário: nós parece-
mos não ter vontade, desejo ou coragem de torná-la realidade.
Previsões sobre o futuro da tecnologia quase sempre estão Seu sonho de “grandes usinas solares” operando no deserto
condenadas. De acordo com 2001: Uma odisseia no espaço, por demorou a se realizar. Mas usinas estão finalmente sendo construí-
exemplo, a humanidade deveria estar realizando voos para os limi- das, conforme obstáculos econômicos e políticos são superados.
tes do Sistema Solar. Já 1984 previu que nos tornaríamos uma Outro exemplo: ele dá aos futuros humanos, nós, mais crédito
sociedade de peões descerebrados trabalhando sob a vigilância que merecemos por enfrentar a superpopulação. Pode ter parecido
constante de governantes sem rosto. É claro que isso nunca iria... lógico antecipar “campanhas mundiais em favor do controle de
ei, espere aí! natalidade” – mas a oposição à contracepção continua forte.
De qualquer forma, Isaac Asimov, o venerado autor de ficção As previsões de Asimov ilustram três lições para quem quer
científica, tentou descrever nossas vidas atualmente – lá em 1964. prever o futuro. Primeiro, quase todas as tecnologias novas demo-
Em um artigo do The New York Times publicado há 50 anos, Asi- ram mais tempo para chegar que imaginam os escritores de ficção
mov chamou sua visão de “Visita à Feira Mundial de 2014”. Agora científica.
estamos, de fato, em 2014. Vamos desenterrar sua pequena cápsula Segundo, você nunca vai acertar todas as coisas importantes; a
ILUSTRAÇÃO POR GOÑI MONTES

do tempo e ver como ficaram suas previsões? história da tecnologia é marcada por enormes mudanças – pense
Podemos dizer que suas projeções caem em duas categorias: as na internet, por exemplo – que nem mesmo Asimov previu.
que se tornaram realidade, e as que se desfizeram. Dê crédito ao E terceiro, muitos desenvolvimentos atraentes ou lógicos nun-
cara por antecipar carros com piloto automático, chamadas com ca se tornam realidade, devido às falhas da própria humanidade. A
vídeo, a disseminação da energia nuclear e robôs domésticos para culpa, meu caro Isaac, não é da tecnologia, mas de nós mesmos.

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OBSERVATÓRIO
Céu do Mês JANEIRO POR MARIO NOVELLO

Mario Novello, cosmólogo do Instituto de


Cosmologia, Relatividade e Astrofísica (ICRA) do Centro
Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

A Estranha Possibilidade de Tornar


um Corpo Invisível
Estruturas com propriedades exóticas podem viabilizar essa condição
A ideia de tornar invisível qualquer tipo de objeto permeia o ima- áreas tão diversas quanto matéria condensada, efeitos da propaga-
ginario do homem há séculos. Tradicionais argumentos científicos ção do som em meios hidrodinâmicos e processos não lineares em
rejeitaram-na para o território das impossibilidades, identificando ondas eletromagnéticas. A partir de então iniciou-se a construção
essa hipótese como fantasia proibida pelas leis da física. No entan- de configurações eletromagnéticas que são exemplos de modifica-
to, a atividade científica moderna e novas técnicas de criação de es- ções da geometria do espaço-tempo conhecidas teoricamente como
truturas macroscópicas com propriedades inusitadas e inespera- casos particulares de campos gravitacionais, obtidos formalmente
das parece estar no limiar de tornar a hipótese uma possibilidade como soluções das equações da teoria da relatividade geral, mas
real e factível de ser produzida tecnicamente. que nunca haviam sido encontrados na Natureza.
Isso se deve, em particular, à descoberta de novos materiais Um dos exemplos mais contundentes dessa situação está as-
(metamateriais) com propriedades eletromagnéticas exóticas. sociado à conhecida métrica de Gödel que descreve um universo
Talvez a mais inesperada dessas descobertas consista na possibili- em rotação onde caminhos que conduzem ao passado (as famo-
dade de gerar materiais que apresentem índices de refração negati- sas curvas do tipo tempo fechadas, as CTC) são permitidas. Essa
vos. Os célebres tratados do eletromagnetismo (como a famosa co- estrutura, com destaque insólito entre as possíveis soluções da re-
leção Landau-Lifshitz) levaram a afirmar a inexistência de mate- latividade geral, tem sido motivo de longas discussões entre a co-
riais com essa propriedade. Mas o que está ocorrendo nos avanços munidade dos físicos. Alguns, em nome de uma visão extrema-
tecnológicos atuais permite ir além dessa antiga certeza, demons- mente conservadora da física, afirmam que a solução de Gödel
trada como incorreta, ou melhor, limitada, abrindo caminho para a nada mais é do que uma proposta matemática sem possibilidade
possibilidade de tornar invisíveis corpos macroscópicos: uma pro- de ser realizada efetivamente na Natureza. Outros a consideram
priedade até muito recentemente motivo da desconfiança e des- uma fonte de aprofundamento da noção de causalidade no cená-
crença de cientistas. rio descrito pela teoria de Einstein da gravitação. Independente-
Talvez a maneira teórica mais elegante e direta de compreender mente dessa querela, processos eletromagnéticos permitem
a origem dessa proeza esteja no recente progresso formal de descri- imitar essa configuração para ondas eletromagnéticas gerando
ção da propagação de ondas eletromagnéticas em meios dielétricos uma questão causal inerente não mais a processos gravitacionais,
arbitrários (assim como em processos não lineares) através do mas a todos os processos da física clássica.
método − herdado da teoria métrica da gravitação − de modifica- Em particular, pode-se examinar até mesmo a possibilidade
ção da geometria pelos caminhos do espaço-tempo por onde a de gerar em laboratório terrestre uma configuração semelhante
onda se propaga. a um buraco negro não gravitacional, envolvendo uma configu-
Na base desse procedimento formal está a ideia original, antiga ração apenas eletromagnética. Sabemos que um buraco negro
de quase um século, com a qual o fisico alemão Walter Gordon gravitacional nada mais é que o resultado de um longo processo
mostrou que a propagação da luz em um meio dielétrico em movi- de colapso estelar. Essa configuração divide o mundo em duas re-
mento pode ser interpretada a partir da modificação da estrutura giões separadas por uma membrana, seu horizonte, em que
métrica do espaço-tempo. O trabalho original de Gordon limitou-se corpos materiais só poderiam atravessar em uma direção – posta
a uma configuração de um meio material, onde a permissividade à parte a possibilidade sugerida por alguns autores entre os quais
dielétrica ¡ (épsilon) independe do campo eletromagnético que o mais popular é Stephen Hawking, segundo quem efeitos quân-
gera a onda. Esse trabalho seminal foi recentemente estendido (No- ticos permitiriam a passagem na outra direção, produzindo o
vello-Salim) para estruturas mais complexas onde ¡ (épsilon) pode que seria uma radiação eletromagnética.
efetivamente depender do campo eletromagnético. Contrariamente a esses buracos negros gravitacionais que não
Essa generalização permite vislumbrar situações especiais mais podem ser produzidos em laboratorio (a gravitação é um fenômeno
complexas, gerando alterações da métrica do espaço-tempo experi- puramente atrativo e não se conhece nenhum corpo capaz de pro-
mentada pela onda eletromagnética capaz de imitar configurações duzir efeitos gravitacionais repulsivos), um buraco negro eletro-
tipicas e até então exclusivas de campos gravitacionais. magnético poderia ocultar corpos macroscópicos cuja observação
A exploração desse resultado começou a ser efetivamente em- se restrinja a efeitos ópticos. Em outras palavras, seria possível es-
preendida depois do importante congresso intitulado Analog conder um corpo no interior dessa configuração. Essa situação
Models, realizado no Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas (CBPF), parece tornar como uma pedra de toque fantasiosa o antigo sonho
em 2002, quando cientistas de diversos países se reuniram para da invisibilidade, essa vaga ideia de ocultação, esse ideal imaginati-
examinar as semelhanças estruturais e formais descobertas em vo em uma possibilidade real. Em um fato.

20 Scientific American Brasil | Abril 2014


CÉU DO MÊS ABRIL

Abril Exibe dois dos Quatro Eclipses do Ano


Eclipse total da Lua ocorre em 15. Anular do Sol acontece em 29 e não será visto do Brasil

fora de visão para observadores de todo o continente americano.


Enquanto o eclipse lunar, a maior atração, não chega, observa-
dores podem satisfazer-se com um conjunto de constelações bri-
lhantes em boa posição já no começo da primeira noite.
Logo ao escurecer, a conhecida constelação de Órion estará cul-
minando no céu, ou seja, atingindo a maior elevação aparente (bem
acima de um observador). Tendo como referência Órion e o famoso
asterismo das Três Marias, um observador não muito experiente
poderá localizar Touro, ligeiramente a noroeste e já iniciando o mo-
vimento de mergulho em direção ao horizonte oeste. À direita de
Órion estará o Cão Menor, exibindo sua joia mais reluzente,
Procyon, e a norte do Cão Menor aparece Gêmeos, mostrando
Pollux e Castor, suas duas estrelas principais.
A partir de Órion também será fácil identificar o Cão Maior, li-
Dos quatro eclipses do ano, dois ocorrem neste mês, o que signi- geiramente superposto à Via Láctea com sua típica luminosidade
fica que o período será movimentado. leitosa. Cão Maior exibe Sirius, a estrela mais brilhante de todo o
O primeiro deles será lunar, na noite de 15. O eclipse total da Lua céu. Nas proximidades de Sírius, quase que alinhados sobre a faixa
será visível para observadores em todo o continente americano e no esbranquiçada da Via Láctea, deslocando-se em direção ao Cruzei-
oceano Pacífico, incluindo a Nova Zelândia e o leste da Austrália. ro do Sul, que se eleva acima do horizonte, aparecem as discretas
A 0h51, o eclipse começa de forma quase imperceptível, pois constelações de Popa, Vela e Carina que, no passado, formavam a
neste momento o satélite da Terra inicia seu mergulho na penum- constelação do Navio.
bra, o ofuscamento mais tênue produzido pela sombra mais amena Carina exibe Canopus, sua estrela principal e a segunda mais
do planeta projetada no espaço. brilhante do céu. Aqui é interessante uma pequena parada para re-
A fase mais importante do eclipse se inicia por volta de 2h56, flexão: Sirius está a menos de 9 anos-luz do Sistema Solar, enquan-
quando a Lua começa a ser encoberta pela sombra da Terra e atinge to Canopus se encontra a 180 anos-luz. Uma supergigante branco-
o meio do eclipse às 4h45. Na fase do eclipse total, a Lua não chega- amarelada, equivale a 85 vezes o diâmetro do Sol, além de ser apro-
rá a desaparecer no céu, mas exibirá um esmaecido disco averme- ximadamente duas mil vezes mais luminosa.
lhado produzido por material em suspensão na atmosfera terrestre Escalando o céu no horizonte leste aparece a constelação do
atravessada pela luz solar. No futuro não muito distante, quando a Leão, exibindo Regulus, o “Coração do Leão”. Essa é uma das cons-
Lua abrigar uma colônia humana, esses observadores verão o Sol telações mais antigas, reconhecida por babilônios, egípcios e gregos
ser cada vez mais encoberto pelo disco aparente da Terra, até a fase antigos. Regulus, a 84 anos-luz do Sistema Solar, é uma estrela bi-
da totalidade do que será visto, então, como um eclipse solar. O fim nária, ou seja, um par estelar girando em torno de um centro de
da totalidade do eclipse lunar ocorrerá às 5h24. gravidade comum.
Durante o período em que a Lua permanecer encoberta pela Observando o céu de leste para oeste, logo ao anoitecer, é possí-
sombra da Terra as estrelas – mesmo as mais enfraquecidas do vel identificar, a partir de Régulus, Canopus, e desviando-se ligeira-
fundo do céu – aparecerão com intensidade que ficaria anulada na mente para o Sul, numa linha irregular, identificar Achernar, na
ausência do eclipse, que, no caso da Lua, só ocorre com o satélite “foz” de Eridanus, o chamado “Rio Celeste”. De fato, Eridanus tem
em fase cheia, ou seja, alinhada nos planos vertical e horizontal na seu limite norte nas proximidades das Três Marias, ainda que ligei-
sequência Sol/Terra/Lua. ramente deslocado para o leste, e como um verdadeiro rio, serpen-
Na noite do eclipse a Lua estará localizada no interior da conste- teia entre as apagadas constelações da Baleia (Cetus), a leste, e
lação de Virgem e a estrela mais brilhante dessa constelação, Spica Phoenix (Fênix) já junto à sua foz. Do lado leste, além de Órion, na
(alfa de Virgem, ou Espiga), estará visível na sua borda inferior, divi- descida para o Sul, estão as constelações apagadas da Lebre
dindo o destaque com Marte, a noroeste do satélite natural da Terra. (Lepus), Pomba (Columba) e Dorado. Nesse momento a constela-
Marte, no entanto, supera o brilho de Spica em 6,25 vezes. Saturno ção do Peixe Austral (Pisces Austrinus), a que pertence Fomalhaut,
poderá ser visto um pouco mais distante, ligeiramente a nordeste da mergulha no horizonte sudeste. Fomalhaut, a 23 anos-luz do Siste-
Lua. Fotógrafos poderão conseguir imagens interessantes do eclipse ma Solar, é 11 vezes mais brilhante que o Sol.
e da composição do céu temporariamente obscurecido pelo eclipse. Os outros dois eclipses do ano incluem um lunar em 8 de outu-
Já o eclipse anular do Sol ocorre em 29 e será visível da Austrá- bro e um solar parcial, em 23 de outubro. A posição dos planetas e
lia oriental encaminhando-se para a Antártida e completamente outras efemérides do mês estão na tabela da pág. 23. (U.C.)

www.sciam.com.br 21
N
E V E N T O S P R I N C I PA I S

Q Oposição de Marte – Eclipse total da Lua visível no Brasil


Q Oposição de (1) Ceres
Q Ocultação de Saturno visível no Sul do Brasil
Q Oposição de (4) Vesta
Q Máximo da chuva de meteoros Lirídeos
Q Máximo da chuva de meteoros Pi-Pupídeos

Visibilidade
dos planetas
MERCÚRIO: Primeiro em Aquário, depois em Baleia e
Peixes. Visível ao amanhecer na primeira quinzena do mês
na direção do nascer do Sol. Em conjunção superior em 26.
VÊNUS: Visível ao amanhecer na direção do nascer do
Sol, em Aquário. Próximo da Lua em 25 e 26. Em conjunção
com Netuno em 12.
MARTE: Visível durante toda a noite em Virgem. Em
oposição ao Sol em 9. Próximo da Lua em 14.
JÚPITER: Em Gêmeos, visível na primeira metade da
noite a oeste do meridiano. Próximo da Lua em 6.
SATURNO: Em Libra. Visível durante toda a noite.
Ultrapassado pela Lua em 17, quando ocorre uma L
ocultação visível na região sul do Brasil.
URANO: Em Peixes, muito próximo da direção do Sol
para ser visível. Em conjunção com o Sol em 2.
NETUNO: Em Aquário. Visível ao amanhecer na
direção do nascer do Sol. Em conjunção com Vênus em 12.

COMO USAR ESTE MAPA


O mapa mostra o céu visível em São Paulo nos horários
indicados à direita. Os pontos cardeais estão indicados no
¡DµD»0DÍDr§Z«§ÜÍDÍDÒrÒÜÍr›DÒdÂærfr{Ír§ÜrµDÍDæ¡
dos pontos cardeais de sua escolha. Pegue o mapa com as
fæDÒ¡õ«Òfr¡«f«ÂærrÒÒrµ«§Ü«ZDÍfrD›ÂærµDÍD
baixo. Em seguida erga o mapa acima de sua cabeça. O céu
estará orientado de acordo com o mapa. – J. C. Klafke

NOME MÁX. TAXA CONSTELAÇÃO COMETA FASE DA LUA


HORÁRIA ASSOCIADO EM 2014
Quadrantídeos 4 jan 95 Bootes C/1490 Y1 (2003 EH1) Crescente Falcada/Côncava
Lirídeos 22 abr 15 Lyra Thatcher (C/1861 G1) Quarto minguante
Pi-Pupídeos 23 abr 10 Popa 26P/Grigg-Skjellerup Quarto minguante
Eta-Aquarídeos 5 mai 30 Aquarius 1P/Halley Quarto crescente
S
Delta-Aquarídeos 29 jul 20 Aquarius Desconhecido Crescente Falcada/Côncava

22 Scientific American Brasil | Abril 2014


Este mapa mostra todo o céu visível às DIA HORA EVENTO
22h de 1o de abril/ 21h de 15 de abril 2 11h15 Conjunção de Urano com o Sol
20h de 30 de abril
Passagem do Sol pelas constelações 3 05h01 Lua passa a 6,8°S do aglomerado estelar de Plêiades (M45)
Peixes de 12/03/2014 a 18/04/2014 4 03h54 "æDµDÒÒDDäd®i%fr ›frODÍD§·D›{Dfr5«æÍ«¸
Áries de 18/04/2014 a 14/05/2014
6 20h41 Júpiter a 5°N da Lua (Conjunção)
7 05h31 Quarto crescente
8 11h52 Lua no Apogeu, máxima distância da Terra (404.500 km).
Diâmetro angular aparente 29,4’
9 02h37 Lua passa a 6,6°S do aglomerado estelar de Praesepe (M44),
em Câncer.
9 11h19 Marte atinge máximo brilho (magnitude -1,5)
9 11h27 Marte em oposição ao Sol
10 23h30 "æDD€i3fr2r†æ›æÒ·D›{Dfr"rõ«¸
12 05h12 Vênus a 0,7°N de Netuno
14 04h56 Planeta-anão (1) Ceres mais próximo da Terra (oposição ao
Sol em 19) 245,9 milhões de quilômetros. Brilho aparente de
6,7 magnitudes. Constelação de Virgem
14 09h55 Menor distância entre Marte e a Terra: 92,4 milhões de
quilômetros
14 14h21 Lua passa a 3°S de Marte (Conjunção)
15 01h40 "æDµDÒÒDDäi%fr3µ”ZD·D›{Dfr<”͆r¡¸
15 04h43 Lua cheia
O 15 04h46 Eclipse total da Lua
17 05h40 Lua passa a 0,3°S de Saturno (ocultação visível na
região sul do Brasil)
17 16h49 Asteroide (4) mais próximo da Terra (oposição ao Sol) 184
milhões de quilômetros. Brilho aparente de 5,6 magnitudes.
Constelação de Virgem
18 19h52 "æDµDÒÒDµ«Í §ÜDÍrÒ·D›{DfrÒZ«Íµ”õ«¸
22 – Máximo da chuva de meteoros Lirídeos (cometa C/1861 G1
Thatcher)
22 04h52 Quarto minguante
22 23h44 Lua no Perigeu, menor distância da Terra (369.765 km).
Diâmetro angular aparente 32,0’
23 – Máximo da chuva de meteoros Pi-Pupídeos (cometa 26P/
Grigg-Skjellerup)
25 20h41 Lua passa por Vênus (Conjunção)
26 00h15 Mercúrio em conjunção superior com o Sol (Sol entre a Terra
e o planeta)
29 03h05 Eclipse parcial do Sol (não visível no Brasil)
29 03h15 Lua nova
Photograph/Illustration by Artist Name

NOME MÁX. TAXA CONSTELAÇÃO COMETA FASE DA LUA EM 2014


HORÁRIA ASSOCIADO
Perseidas 12 ago 95 Perseus 3é”{ܓ5æÜܛr Ø®s×ä Cheia
Orionídeos 22 out 20 Órion 1P/Halley Nova
Taurídeos 03 - 13 nov 15 Taurus 2P/Encke Cheia
Leonídeos 18 nov 12 Leo 55P/Temple-Tuttle $”§†æD§Ür{D›ZDfDØZĀ§ZDèD
Geminídeos 14 dez 90 Gemini 3200 Phaeton (asteroide) Quarto minguante

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CIÊNCIA DA SAÚDE POR KATHERINE HARMON COURAGE

Katherine Harmon Courage é colaboradora


de IY_[dj_ÒY7c[h_YWd e autora do livro
EYjefkiJ^[ceijcoij[h_ekiYh[Wjkh[_dj^[
i[W (Current/Penguin Group, 2013)

Espaço, a Última Fronteira Médica


Os riscos que correm os futuros turistas espaciais

da não devidamente detectados”, como informa Jeffrey-Jones,


um membro do Center for Space Medicine at Baylor College.
Mesmo uma breve jornada no espaço pode representar um risco
para os idosos e aqueles que têm problemas de pressão alta por
causa da enorme compressão do corpo, que ocorre durante a lar-
gada da nave e a reentrada na atmosfera. Longas viagens tam-
bém agravam outros males – como asma, doenças do coração e
câncer – que normalmente desqualificam para voos da Nasa.
Ainda não existe uma regulação federal ou estadual que de-
termine quem pode ou não pode participar de um voo espacial, e
as empresas estão livres para estabelecer os seus padrões. Um
porta-voz da Virgin Galatic já disse que “a maioria das pessoas”
está apta para voar. Alguns médicos já começaram a preparar
guias de exames para aqueles que pretendem passar férias entre
as estrelas; outros estão tentando modificar alguns procedimen-
tos médicos para serem aplicados no espaço.

UMA NOVA PRESSÃO


OS PROBLEMAS A ENFRENTAR são enormes. Nos últimos 50 anos pes-
quisadores descobriram que as viagens espaciais modificam pra-
ticamente todos os sistemas do corpo humano. O lançamento e a
reentrada colocam as pessoas sob intensas forças gravitacionais
Manter as pessoas saudáveis no espaço tem sido um desafio (as chamadas forças-G), uma medida do estresse a que o corpo é
desde os primeiros dias dos programas espaciais. Foi por isso que submetido durante a aceleração. Altas forças G obrigam o coração
a Nasa fez questão de selecionar uma elite entre os eleitos para as a trabalhar muito mais que o normal para fazer o sangue circular,
suas missões. Mas, agora, o crescente negócio dos voos comerciais especialmente em direção ao cérebro − o que leva muitas pessoas
está pronto para abrir as fronteiras da Galáxia para um número a perderem a consciência quando submetidas a essas condições.
muito maior e menos saudável de passageiros. Se as empresas pri- Algumas empresas se dispuseram a ajudar os futuros passageiros
vadas mantiverem suas promessas de permitir viagens espaciais a se prepararem, com a ajuda de uma máquina centrífuga gigante,
para pessoas comuns, o turismo espacial pode se transformar mas esse treinamento não é obrigatório.
numa indústria de US$ 1,3 bilhão, com mais de 25 mil passageiros Orbitando a Terra a uma velocidade, digamos, de 28 mil km/h
até 2021, segundo a empresa de consultoria Futron Corporation. e a cerca de 400 km acima da superfície do planeta – como é o caso
A Virgin Galactic já fez 680 reservas para uma viagem de duas ho- da Estação Espacial Internacional – é criado um estado de total
ras e meia, sendo que 40 minutos serão feitos no que se considera ausência de peso [imponderabilidade]. Na Terra, a gravidade
oficialmente como “espaço” – ou seja, mais de 100 km acima da su- mantém a maior parte dos nossos fluidos na parte mais baixa do
perfície da Terra. E uma empresa russa chamada Orbital Techno- corpo. Numa situação sem peso, os fluidos se espalham por igual,
logies pretende construir um hotel espacial, totalmente equipado, saindo das pernas e enchendo o peito e a cabeça. Nesse processo,
para uma estada de cinco dias a mais de 320 km do planeta. se dispersam pelos canais do ouvido que ajudam a manter o equi-
Menos de uma dúzia de passageiros se dispôs até agora a pagar líbrio, e provocam náusea que – mais que a dor – é muito difícil de
para uma jornada no espaço. Mas é possível imaginar os riscos ser ignorada e, se seguida por vômitos, o que pode levar à desidra-
médicos que a nova onda de turistas espaciais pode enfrentar, com tação. Apesar das técnicas aprendidas para tolerar a náusea, astro-
ILUSTRAÇÃO POR O.O.P.S.

base nas experiências dos astronautas desde os anos 60. E os prin- nautas profissionais frequentemente sentem enjoo durante os pri-
cipais problemas observados incluem enfraquecimento dos ossos meiros dias em órbita, e portanto podemos esperar muitos
e músculos, piora na visão, náusea e insônia. Além disso, os turis- problemas com isso no caso de civis.
tas quase certamente vão enfrentar uma “série de problemas ain- O aumento de fluidos na cabeça é também responsável por

24 Scientific American Brasil | Abril 2014


uma das queixas mais frequentes entre astronautas, depois do enjoo Além da microgravidade, há outro problema perigoso para os
espacial: a piora da visão. O excesso de pressão no crânio pode com- turistas espaciais imperceptíveis de imediato: a radiação. Os pode-
primir o lado interno do globo ocular e assim embaçar os olhos. rosos campos magnéticos que envolvem a Terra desviam a energia
Além do problema dos fluidos, a ausência prolongada de peso eletromagnética emanada por estrelas e buracos negros. Se isso
enfraquece a estrutura óssea. Como os astronautas não caminham não acontecesse, o planeta seria incinerado. Quando deixa para
ou realizam outras atividades que envolvem peso, o osso perde en- trás a magnetosfera da Terra um viajante está exposto a toda essa
tre 1% e 2% de sua densidade mineral a cada mês no espaço, relata energia, que afeta o DNA e pode provocar mutações que levam
Jeffery Sutton, diretor do National Space Biomedical Research Ins- uma célula saudável a se multiplicar de forma incontrolável.
titute. Outro perigo adicional: o cálcio que sai do osso pode provo- Astronautas com saúde de ferro podem permanecer centenas de
car cálculos renais. dias no espaço sem aumentar o risco de um câncer. Mas se a empre-
Os músculos também se deterioram em casos de microgravida- sa Mars One está mesmo falando sério quando anuncia a criação de
de porque não precisam mais trabalhar para sustentar o corpo. colônias no Planeta Vermelho, vão ter de proteger seus passageiros
Embora exercícios realizados no espaço possam reduzir esse pro- da radiação durante a viagem – e também em Marte, onde não exis-
blema, a redistribuição do fluido volta a ser um problema. A exis- te atmosfera [na verdade há uma atmosfera rarefeita]. E mais: par-
tência de altos níveis de ácido lático – responsável por câimbras e tículas em movimento rápido e ondas eletromagnéticas podem afe-
dores durante exercícios – pressionam os músculos dos astronau- tar qualquer pessoa com predisposição genética para o câncer.
tas, reduzindo a rotina deles. Mostrar apenas quem é ou não vulnerável a uma doença no
Outra preocupação é como o espaço afeta o músculo que mais espaço não é o suficiente para garantir o bem-estar dos viajantes
trabalha no corpo: o coração. Marlene Grenon, da University of Ca- espaciais. Temos também de adaptar procedimentos médicos que
lifornia, San Francisco, e seus colaboradores descobriram que de- realizamos na Terra.
pois de apenas 24 horas em microgravidade as células que estrutu- Dorit Donoviel, assessora-chefe de ciência do National Space
ram os vasos sanguíneos mudam de forma, se juntam de formas Biomedical Research Institute e seus colaboradores estão pesqui-
diferentes e usam um conjunto de genes diferente do usual. sando técnicas fáceis e não invasivas como alternativas para a práti-
Os viajantes espaciais sofrem ainda de problemas mentais. Con- ca médica no espaço. Tradicionalmente os médicos examinam uma
seguir uma boa noite de descanso em microgravidade pode ser difí- mudança na pressão cerebral espetando uma agulha na coluna es-
cil, por causa das luzes acesas, dos sons em uma nave e do sentimen- pinhal ou diretamente no cérebro – procedimento que não pode
to assustador da ausência de peso. Em vários experimentos feitos ser feito no espaço sem a presença de um médico. Em vez disso, Do-
em terra simulando viagens espaciais os astronautas que vivem em noviel está tentando avaliar mudanças na pressão interna pelo re-
quartos fechados ocasionalmente sofrem de depressão e melanco- gistro de como as ondas sonoras viajam pela órbita ocular e canais
lia. Quando se consideram os tumultos que frequentemente ocor- do ouvido. E a luz infravermelha, absorvida e refratada de forma di-
rem a bordo em longas viagens na aviação comercial, enviar um gru- ferente por tecido saudável ou afetado, pode ser capaz de identifi-
po de turistas espaciais numa viagem de sete meses a Marte, como car sangramentos internos. Equipamentos portáteis baseados em
pretende a organização Mars One, pode ser aposta certa em motim. luz infravermelha ou sinais de ultrassom serão muito mais úteis no
Turistas espaciais com saúde mediana ou ruim se arriscam a en- espaço que as pesadas máquinas usadas para tomografia computa-
frentar problemas médicos que preocupam seriamente especialis- dorizada ou de imagem por ressonância magnética.
tas da Nasa. A maioria dos passageiros que se animam a participar
de voos espaciais comerciais é, quase sempre, de meia-idade, o que ASTRONAUTAS IMPROVISADOS
significa que muitos sofrem de pressão alta e doenças cardíacas, Ao mesmo tempo, um estudo publicado em 2012 no BMJ reco-
problemas comuns nessa faixa etária. menda que os clínicos de atenção primária à saúde se preparem
A redistribuição de fluidos é particularmente perigosa para pes- para avaliar pacientes que querem tentar um voo espacial. Condi-
soas com doenças cardíacas. Como os fluidos se movem para o pei- ções como doença do coração, asma incontrolável ou pressão alta
to e a cabeça, uma alta pressão no crânio aumenta o risco do rompi- devem ser prontamente alertadas como uma situação de risco por
mento de vasos sanguíneos e pode também danificar o tecido um médico. Os pesquisadores estão também elaborando meios
cerebral. Da mesma forma, o aumento de pressão nos pulmões simples de tornar os turistas o mais saudáveis possível, antes que
pode provocar um ataque de asma – uma súbita e aguda constrição embarquem em uma nave espacial. Soluções simples como ter cer-
das vias respiratórias. teza de que essas pessoas estão bem nutridas e propriamente hidra-
Mesmo o enjoo pode ser um perigo extra para pessoas com pro- tadas nas semanas anteriores ao lançamento podem garantir um
blemas cardiovasculares. O pesquisador Jones lembra que a desi- voo sem emergências médicas.
dratação, a respiração ofegante e o aumento da pressão sanguínea A Virgin Galactic informa que vai oferecer aos seus clientes
que acontecem com o uso excessivo dos sacos de vômito exaaurem um treinamento de três dias, que inclui “testes físicos” e uma sé-
o sistema cardiovascular e isso pode culminar num ataque cardía- rie de “exames médicos”, mas não diz qual será o critério para
co. Alguns cientistas começaram a estudar o coração em ratos meio aprovar turistas, se é que isso vai mesmo ser feito. Por enquanto, o
suspensos no ar, o que, de alguma forma, reproduz a redistribuição ônus é dos próprios turistas e seus médicos para se precaverem
dos fluidos que acontece em situações de microgravidade. Eles antes da viagem. Como um consolo para qualquer um que prefira
constataram que depois de um mês o músculo do coração muda, ficar em terra, é bom lembrar: ainda há muito o que descobrir no
tornando-se mais largo e menos eficiente. Condições cardíacas se- próprio planeta. Eu soube, por exemplo, que a Islândia não fica no
melhantes foram observadas em astronautas. nosso mundo.

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NEUROCIÊNCIA

O N O V O
S É C U L O D O
C É R E B R O
Big Science cria perspectiva para a compreensão de
como o cérebro, o sistema biológico mais complexo
da Natureza, dá origem a pensamentos e emoções

Por Rafael Yuste e George M. Church


ILUSTRAÇÃO POR BRYAN CHRISTIE

26 Scientific American Brasil | Abril 2014


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Rafael Yuste é professor de ciências biológicas e
neurociência na Columbia University e codiretor do Institute
for Neural Circuitry da Kavli Foundation. Recentemente ele
recebeu o NIH Director’s Pioneer Award.

George M. Church é professor de genética na Harvard University e


fundador do PersonalGenomes.org, uma fonte de acesso aberto para

A
dados sobre genomas humanos, neuroimagens e caracteres
comportamentais e cognitivos. Church integra o Conselho de
Consultores de IY_[dj_ÒY7c[h_YWd.

PESAR DE UM SÉCULO DE PESQUISAS ININTERRUPTAS, CIENTISTAS DO CÉREBRO


ainda desconhecem o funcionamento do órgão de um quilo e meio, em
média, sede de toda a atividade humana consciente. Muitos tentaram
lidar com esse problema examinando os sistemas nervosos de organis-
mos mais simples. Na verdade, quase 30 anos se passaram desde que
cientistas mapearam as conexões entre cada uma das 302 células nervo-
sas do verme Caenorhabditis elegans. O diagrama das conexões do ver-
me, no entanto, não permitiu compreender como essas conexões dão origem a comportamentos
como alimentação e sexo. Faltavam informações relativas à atividade dos neurônios em compor-
tamentos específicos.

A dificuldade em estabelecer ligação entre a biologia e o com- elétrica de milhares ou mesmo milhões de neurônios – técnicas ca-
portamento em humanos é ainda maior. A mídia rotineiramente pazes de decifrar o que o pioneiro neuroanatomista espanhol San-
menciona exames que mostram atividade em locais específicos do tiago Ramón y Cajal chamou de “a selva impenetrável, onde muitos
cérebro quando nos sentimos rejeitados ou falamos um idioma es- investigadores se perderam”.
trangeiro. Essas notícias podem dar a impressão de que a tecnolo- Esses métodos inovadores poderiam, em princípio, começar a
gia atual fornece percepções essenciais sobre o funcionamento do preencher a lacuna entre o disparo de neurônios e a cognição: per-
cérebro, mas essa é uma impressão enganosa. cepção, emoção, tomada de decisão e, por fim, a própria consciên-
Um exemplo notável desse descompasso é um estudo recente, cia. Decifrar os padrões exatos da atividade cerebral subjacente ao
muito divulgado, identificando uma célula do cérebro em particu- pensamento e ao comportamento também fornecerá percepções
lar que disparou um impulso elétrico em resposta ao rosto da atriz críticas sobre o que acontece quando circuitos neurais deixam de
Jennifer Aniston. Apesar da polêmica, a descoberta do “neurônio funcionar em distúrbios psiquiátricos e neurológicos – esquizofre-
de Jennifer Aniston” parecia uma mensagem de alienígenas, um nia, autismo, Alzheimer ou Parkinson.
sinal de vida inteligente no Universo, mas sem qualquer indicação Apelos para um salto tecnológico no estudo do cérebro come-
sobre o sentido da transmissão. Ainda somos completamente igno- çam a ser ouvidos fora dos laboratórios. Na verdade, o governo
rantes em como a atividade elétrica pulsante desse neurônio in- Obama anunciou, no ano passado, que estava iniciando um proje-
fluencia nossa capacidade de reconhecer o rosto de Aniston e to de grande escala: o Brain Research through Advancing Innova-
depois relacioná-lo a um clipe de um programa de televisão. Para o tive Neurotechnologies Initiative, ou Iniciativa BRAIN, o empreen-
cérebro reconhecer a estrela, provavelmente tem de ativar um con- dimento de big science com a maior visibilidade no segundo man-
junto enorme de neurônios, todos se comunicando por um código dato do presidente.
neural que ainda devemos decifrar. A Iniciativa BRAIN, com um nível de financiamento inicial de
O neurônio de Jennifer Aniston também exemplifica a encruzi- mais de US$ 100 milhões em 2014, visa o desenvolvimento de tecno-
lhada que a neurociência atingiu. Já temos técnicas para registrar a logias para registrar sinais de células cerebrais em número muito
atividade de neurônios individuais em humanos vivos, mas para maior e até de áreas completas do cérebro. O BRAIN complementa
avançar de forma significativa a área precisa de novas tecnologias outros grandes projetos em neurociência fora dos Estados Unidos.
que permitirão a cientistas monitorar e também alterar a atividade O Human Brain Project [Projeto Cérebro Humano], financiado pela

EM SÍNTESE

O cérebro – e a forma como ele produz pen- esse processo, neurocientistas necessitam Tecnologias que registrem ou controlem a Obama tem em curso uma iniciativa de
samento consciente – continua um dos gran- de novas ferramentas para analisar o funcio- atividade de circuitos cerebrais podem grande escala para promover o desenvolvi-
des mistérios da ciência. Para compreender namento dos circuitos neurais. suprir essas necessidades. A administração mento dessas tecnologias.

28 Scientific American Brasil | Abril 2014


União Europeia, é uma ação de US$ 1,6 bilhão, já com dez anos, para rio para registrar o disparo de um neurônio isolado, o impulso elé-
desenvolver uma simulação de todo o cérebro em computador. Pro- trico acionado após a célula receber sinais químicos de outros neu-
jetos de pesquisa ambiciosos de neurociência também foram lança- rônios. Quando um neurônio é estimulado adequadamente, a
dos na China, Japão e Israel. O consenso global que atualmente im- tensão elétrica através da membrana exterior da célula se inverte.
pulsiona o investimento na ciência do cérebro remete a outras ini- Essa mudança de tensão induz canais de membrana a introduzir
ciativas de ciência e tecnologia do pós-guerra centradas em priorida- sódio ou outros íons carregados positivamente. A entrada, por sua
des nacionais: energia nuclear, armamento atômico, exploração es- vez, produz um “pico” elétrico que percorre o axônio – a projeção
pacial, computadores, energia alternativa e sequenciamento do longa da célula – estimulando-o a enviar um sinal químico próprio
genoma. O Século do Cérebro agora paira sobre nós. para outros neurônios e assim continuar a propagar o sinal. Regis-
trar apenas um neurônio é análogo a tentar seguir o enredo de um
O PROBLEMA DA TELA DE TV filme em alta definição enquanto observa apenas um pixel. Fica
INVESTIGAR COMO CÉLULAS CEREBRAIS processam o conceito de Jennifer impossível ver o filme como um todo. Também é uma técnica inva-
Aniston – ou algo comparável ao que nos deparamos por meio da ex- siva que pode provocar danos ao tecido cerebral assim que os ele-
periência subjetiva ou percepções do mundo externo – é atualmente trodos penetrarem nele.
um obstáculo intransponível. Exige deslocar a medição de um neurô- No outro lado do espectro, métodos que registram a atividade
nio para a compreensão de como um grupo dessas células pode se coletiva de neurônios em todo o cérebro também são inadequados.
envolver em interações complexas que dão origem a um todo inte- No familiar eletroencefalograma (EEG), inventado por Hans Berger
gral maior – que cientistas chamam de propriedade emergente. A na década de 20, eletrodos são fixados no crânio e medem a ativida-
temperatura de qualquer material ou o estado magnético de um de elétrica combinada de mais de 100 mil células nervosas logo
metal, por exemplo, só surge a partir de inte-
rações de uma multidão de moléculas ou
átomos. Considere os átomos de carbono: os
mesmos átomos podem se ligar tanto para
criar a dureza do diamante como a maciez
do grafite, que se desgasta facilmente, for-
O que é preciso para perceber
mando palavras no papel. Dura ou macia,
essas propriedades emergentes não depen-
ø­D‹¸ßǸlxäxßlžä`xß³žl¸
dem de átomos individuais, mas do conjunto DÇx³Dä¸UäxßþD³l¸DDîžþžlDlxlx
de interações entre eles.
O cérebro provavelmente também apre- `žß`øžî¸ä`xßxUßDžäÔøxîßD³äǸßîD­
senta propriedades emergentes totalmente
ininteligíveis a partir de inspeção de neurô- 䞳Džäx§yîߞ`¸äD¸§¸³¸lDä`DlxžDä
nios individuais, ou mesmo de uma pintura
grosseira de baixa resolução da atividade de lx­ž§šDßxälx³xøߺ³ž¸äÍ
enormes grupos de neurônios. A percepção
de uma flor ou a recuperação de uma me-
mória de infância podem ser discernidas
apenas observando-se a atividade dos circuitos cerebrais que trans- abaixo – o EEG registra as oscilantes “ondas” de amplitude ascen-
portam sinais elétricos ao longo de cadeias complexas de centenas dente e descendente que ocorrem em poucos milésimos de segun-
ou milhares de neurônios. Embora neurocientistas estejam familia- dos, embora não possa decidir se qualquer neurônio individual está
rizados com esses desafios há muito tempo, ainda não têm ferra- ativo. A ressonância magnética funcional (RMf) – que produz as fa-
mentas para gravar a atividade de circuitos individuais que funda- miliares manchas coloridas iluminando áreas ativas do cérebro –
mentem a percepção ou a memória, ou que deem origem a compor- registra atividade em todo o cérebro de forma não invasiva, mas
tamentos complexos e funções cognitivas. apenas lentamente e com baixa resolução espacial. Cada elemento
Uma tentativa de superar esse impasse começou a reunir um de imagem, ou voxel (um pixel tridimensional), é um conjunto de
mapa das conexões anatômicas, as sinapses, entre neurônios – em- cerca de 80 mil neurônios. Além disso, a RMf não localiza a ativida-
preendimento conhecido como conectonomia. O Projeto Conecto- de neuronal diretamente, mas apenas mudanças secundárias no
ma Humano, recém-lançado nos Estados Unidos, fornecerá um fluxo sanguíneo no interior desses voxels.
diagrama da fiação estrutural do cérebro. Mas, como no caso do Para obter um quadro de padrões emergentes de atividade cere-
verme, esse mapa é apenas um ponto de partida. Apenas ele não bral cientistas precisam de novos dispositivos sensoriais que consi-
conseguirá documentar os sinais elétricos em constante variação gam gravar a partir de conjuntos de milhares de neurônios. A nano-
que produzem processos cognitivos específicos. tecnologia, com novos materiais quase sempre inferiores às dimen-
Para fazer esse registro necessitamos de técnicas totalmente sões de moléculas individuais, pode ajudar nas gravações em
novas de medição de atividade elétrica, superiores às tecnologias grande escala. Matrizes de protótipos foram construídas incorpo-
disponíveis – que permitem um quadro preciso da atividade de rando mais de 100 mil eletrodos em uma base de silício; esses equi-
grupos relativamente pequenos de neurônios, ou imagens não ní- pamentos conseguiram registrar a atividade elétrica de dezenas de
tidas de áreas cerebrais grandes, mas sem a resolução necessária milhares de neurônios na retina. Maior refinamento dessa tecnolo-
para identificar circuitos cerebrais específicos acendendo e apa- gia permitirá o empilhamento dessas matrizes em estruturas tridi-
gando. Registros em boa escala atualmente são feitos inserindo mensionais, diminuindo os eletrodos para evitar danos aos tecidos
eletrodos finos como agulhas nos cérebros de animais de laborató- e estendendo eixos para penetrarem profundamente no córtex ce-

www.sciam.com.br 29
rebral, a superfície mais externa do cérebro. Esses progressos possi- gem pode ser feito de pontos quânticos – pequenas partículas semi-
bilitariam a gravação de centenas de milhares de neurônios em hu- condutoras que exibem efeitos da mecânica quântica e podem ser
manos, discernindo as propriedades elétricas de cada célula. adaptados precisamente em suas propriedades ópticas, como a cor
Eletrodos são apenas um modo de monitorar atividades neuro- ou intensidade de luz emitida. Os nanodiamantes, outro novo ma-
nais. Técnicas além dos sensores elétricos abrem caminho nos la- terial importado da óptica quântica, são altamente sensíveis a mu-
boratórios. Biólogos tomam emprestadas técnicas desenvolvidas danças em campos elétricos que ocorrem enquanto a atividade elé-
por físicos, químicos e geneticistas e começam a visualizar neurô- trica de uma célula oscila. As nanopartículas também podem ser
nios vivos em animais acordados, vivenciando suas rotinas diárias. combinadas com corantes orgânicos convencionais, ou genetica-
Um indício do que pode surgir ocorreu no ano passado, quando mente modificados, produzindo moléculas híbridas em que uma
Misha Ahrens e seus colegas, no campus Janelia Farm do Howard nanopartícula pode servir como “antena” para amplificar sinais de
Hughes Medical Institute, em Ashburn, Virgínia, usaram uma larva baixa intensidade, produzidos por corantes fluorescentes, quando
de peixe-zebra para imageamento microscópico do cérebro inteiro. um neurônio é ativado.
O peixe-zebra é um dos organismos favoritos dos neurobiólogos
porque é transparente em estado larval, permitindo a fácil inspeção APROFUNDAMENTO
do seu interior. No experimento, os neurônios do peixe-zebra foram OUTRO DESAFIO TÉCNICO QUE SE IMPÕE para visualizar a atividade
geneticamente modificados para fluorescência quando íons de neuronal é a dificuldade de enviar luz e coletá-la de circuitos neu-
cálcio penetraram na célula após um disparo. Um novo tipo de mi- rais profundos, abaixo da superfície do cérebro. Para resolver
croscópio iluminou o cérebro do animal, projetando uma lâmina esse problema desenvolvedores de neurotecnologia começam a
de luz sobre todo o órgão enquanto uma câmera fazia fotos a cada receber colaboração de pesquisadores de óptica computacional,
segundo dos neurônios se iluminando. engenharia de materiais e medicina, que também devem enxer-
A técnica usada, denominada imageamento de cálcio, é pionei- gar através de objetos sólidos de forma não invasiva: pele, crânio
ra e foi criada por um de nós (Yuste), possibilitando a gravação de ou o interior de um chip de computador. Cientistas já sabiam há
80% dos 100 mil neurônios do peixe-zebra. Mas, quando em repou- tempos que parte da luz que atinge um objeto sólido se dispersa e
so, muitas regiões do sistema nervoso da larva do peixe-zebra que os fótons dispersos podem, em princípio, revelar detalhes do
acendiam e apagavam em padrões desconhecidos. Desde que objeto em que é refletida.
Berger apresentou o EEG, pesquisadores sabem que o sistema ner- A luz de uma lanterna na mão, por exemplo, a ilumina como
voso está, basicamente, sempre ativo. O experimento com o peixe- uma luz difusa, mas sem dar indícios sobre a localização óssea ou
zebra traz esperança de que novas tecnologias de imagem possam da vasculação sob a pele, mas informações sobre o caminho da luz
ajudar no desafio maior da neurociência – a compreensão do dis- capturada através da mão não se perdem inteiramente. Ondas lu-
paro persistente e espontâneo de grandes grupos de neurônios. minosas desordenadas dispersam, e depois interferem entre si.
Esse experimento é apenas o começo, pois neurocientistas neces- Esse padrão luminoso pode ser trabalhado como imagem com
sitam de melhores tecnologias para descobrir como a atividade cere- uma câmera, e novos métodos computacionais podem então re-
bral dá origem ao comportamento. Novos tipos de microscópios pre- construir uma imagem do que está no interior de um corpo – téc-
cisam ser projetados para imagens simultâneas tridimensionais da nica usada no ano passado por Rafael Piestun e seus colegas da
atividade neuronal. Além disso, o imageamento de cálcio opera lento University of Boulder, Colorado, para enxergar através de um ma-
demais para rastrear o disparo rápido dos neurônios e é incapaz de terial opaco. Essas e outras técnicas ópticas também podem ser
medir os sinais inibitórios que contêm a atividade elétrica na célula. combinadas, incluindo as usadas por astrônomos para corrigir dis-
Neurofisiologistas trabalhando em parceria com geneticistas, torções de imagem provocadas pela atmosfera na luz das estrelas.
físicos e químicos tentam melhorar técnicas ópticas que, em vez A óptica computacional pode ajudar a visualizar o brilho fluores-
de mensurar o cálcio, registrem a atividade neuronal diretamen- cente que emana de corantes, iluminados quando os neurônios da
te pela detecção de alterações na tensão elétrica da membrana. subsuperfície disparam.
Corantes que alteram suas propriedades ópticas conforme a vol- Algumas dessas técnicas ópticas inovadoras já são utilizadas
tagem oscila – depositados sobre o neurônio ou integrados por com sucesso para produzir imagem de interiores de animal ou
meio da engenharia genética na membrana celular – podem me- cérebros humanos com parte do crânio removido, permitindo
lhorar o imageamento de cálcio. Esta técnica alternativa, conhe- que cientistas visualizem mais que um milímetro no interior do
cida como imageamento de voltagem, pode permitir que pesqui- córtex. Com maior refinamento, elas poderiam oferecer uma ma-
sadores registrem a atividade elétrica de cada neurônio em um neira de olhar através da espessura do crânio. Mas o imageamen-
circuito neural completo. to óptico não penetrará o suficiente para detectar estruturas pro-
O imageamento de voltagem ainda está engatinhando. Quí- fundas no interior do cérebro, embora outra invenção recente
micos devem melhorar a capacidade dos corantes de mudar a cor possa ajudar a resolver esse problema. Em uma técnica chamada
ou outras características enquanto um neurônio dispara. Biólo- de microendoscopia, neurorradiologistas inserem um tubo es-
gos moleculares já estão construindo sensores de tensão geneti- treito, mas flexível, na artéria femoral e o manobram para várias
camente codificados; essas células leem uma sequência genética partes do corpo, incluindo o cérebro e permitindo que guias de
para produzir uma proteína fluorescente, enviada à membrana luz microscópicas inseridas no tubo façam seu trabalho. Em
exterior das células. Lá, essas proteínas alteram a intensidade em 2010, uma equipe do Instituto Karolinska, em Estocolmo, de-
que se tornam fluorescentes, em resposta a alterações na tensão monstrou um extroducer [extrodutor] – dispositivo que permite
elétrica de um neurônio. que a artéria ou vaso por onde o endoscópio é passado seja perfu-
Como com os eletrodos, materiais não biológicos avançados ori- rado com segurança, o que torna qualquer parte do cérebro, e
ginários da nanotecnologia podem ajudar. Em lugar de corantes or- não apenas a vasculatura, acessível à inspeção por várias tecnolo-
gânicos ou marcadores genéticos, um novo tipo de sensor de volta- gias de imageamento ou de registros elétricos.

30 Scientific American Brasil | Abril 2014


M E N SAG E M C E LU L A R

Ouvindo Milhões de Neurônios


%xø߸`žx³îžäîDä³x`xääžîD­lx…¸ß­Dä­Džäx‰`žx³îxäx­x³¸äž³þDäžþDälx¸UäxßþDß`žß`øžî¸ä`xßxUßDžäjx­Ôøx䞳Džäx§yîߞ`¸äÇDääD­lxø­
³xøߺ³ž¸D¸øî߸Í<EߞDäîx`³¸§¸žDäjD§ø­Däx­øä¸j€¸øîßDäDÇx³DäÇßxäx³îx䳸äÇ߸¥xî¸älxÇxäÔøžäDl¸ßxä€Ǹlx­Çxß­žîžßßDþDcT¸lx
­ž§šDßxäxDîy­xä­¸­ž§šÆxälx³xøߺ³ž¸äͧDääøUäîžîøžßT¸­yî¸l¸ä§x³î¸äxž­Çßx`žä¸äÔøxjÔøDäxäx­ÇßxjxĀžx­丳lDäx§yîߞ`Däž³þDäžþDäÍ

Imageamento de voltagem ŸïD`¹mŸŠ`Dm¹àDmy%


Esta técnica implanta um corante em um neurônio para determinar se 7®DDU¹àmD‘y®àDmŸ`D¨®y´ïy´¹ÿDù®DŠïD`¹mŸŠ`Dm¹àD®¹¨y`ù¨DàyÿŸmy´ž
D`z¨ù¨DyåïEDïŸÿDÎ'åy´å¹àåyï¹à´DŒù¹àyå`y´ïyÕùD´m¹ù®`D®È¹ ciaria uma única cadeia de DNA com uma sequência conhecida de letras ou
elétrico sobre a superfície da membrana celular muda sua carga nucleotídeos, no interior celular, próximo à superfície. Uma enzima, a DNA
elétrica, conforme transporta um sinal. Um detector (não mostrado) polimerase, então, acrescentaria novos nucleotídeos que se ligam para formar uma
registra o evento e também pode monitorar a atividade de muitos molécula de cadeia dupla (à esquerda)Î1ùD´m¹ù®´yùà»´Ÿ¹mŸåÈDàDjù®Ÿ´Œùā¹
outros neurônios, marcados com o mesmo corante. my ¹´åmy`E¨`Ÿ¹DïàDÿzåmyù®`D´D¨my®y®UàD´Dày`z®žDUyà﹆DàŸD`¹®ÕùyD
enzima adicionasse o nucleotídeo errado (à direita), erro que poderia ser detectado
quando a cadeia de DNA for sequenciada posteriormente.

Sensor óptico Canal de cálcio fechado


acende quando
um neurônio
dispara

Canal de cálcio aberto


DNA polimerase
®¹mŸŠ`DmD
geneticamente

Interior Nucleotídeos errados


da célula

ILUSTRAÇÃO POR EMILY COOPER


A DNA polimerase adiciona novos
nucleotídeos que se ligam a uma
Membrana da célula Superfície
cadeia de DNA já existente
da célula

Elétrons e fótons são os candidatos mais óbvios para gravar a situ produziria um registro de diferentes padrões de mudanças, os
atividade cerebral, ainda que não sejam os únicos. A tecnologia de erros da fita codificadora inicial, que corresponde tanto à intensida-
DNA também pode desempenhar papel crítico em futuro mais dis- de quanto ao sincronismo de cada um dos muitos neurônios em de-
tante para monitorar a atividade neuronal. Um de nós (Church) se terminado volume de tecido. Em 2012 o laboratório de Church in-
inspirou no campo da biologia sintética, que manipula materiais formou sobre a viabilidade dessa ideia usando uma fita codificado-
biológicos como se fossem engrenagens de máquinas. Conforme a ra de DNA alterada por íons de magnésio, manganês e cálcio.
pesquisa avança, animais de laboratório podem ser geneticamente Por outro lado, a biologia sintética prevê a possibilidade de cé-
modificados para sintetizar uma “fita codificadora molecular”, mo- lulas artificiais agirem como sentinelas biológicos que patrulham
lécula que muda de forma específica e detectável quando um neu- o corpo humano. Uma célula geneticamente modificada poderia
rônio é ativado. Em um cenário, a fita codificadora seria feita de servir como eletrodo biológico, com diâmetro inferior ao de um fio
uma enzima denominada DNA polimerase que se liga à outra e é de cabelo, para ser colocado junto a um neurônio para detectar seu
uma sequência preestabelecida de nucleotídeos (“letras” que são os disparo. Esse padrão de disparo poderia ser gravado por um circui-
blocos de construção do DNA). Um influxo de íons de cálcio, gerado to integrado de tamanho nanométrico no interior da célula sintéti-
após o disparo do neurônio, faz com que a polimerase produza uma ca – “poeira eletrônica”, que poderia transmitir dados coletados
sequência diferente de letras – ou seja, provocando “erros” na posi- por uma ligação sem fio a um computador próximo. Esses disposi-
ção esperada de nucleotídeos. A cadeia dupla resultante de nucleo- tivos nanométricos, mistura híbrida de peças eletrônicas e biológi-
tídeos poderia ser sequenciada posteriormente de cada neurônio cas, seriam alimentados por um transmissor de ultrassom externo
de um animal experimental. ou mesmo do interior celular, usando glicose, trifosfato de adenosi-
Uma técnica inovadora chamada sequenciação fluorescente in na ou outra molécula.

www.sciam.com.br 31
MANIPULANDO CIRCUITOS

Instalação de um Interruptor de Luz Neural


§y­lx¸UäxßþDß`¸ßßx³îxäx§yîߞ`DäÔøx‹øx­Çx§¸ä`žß`øžî¸äj³xø߸`žx³îžäîDäÔøxßx­`DlDþxą­Džä§žDßxlx䧞Dß`žß`øžî¸ä
ž³lžþžløDžäjÇDßDÔøxǸääD­DÇßx³lxßD`¸³î߸§Dß…¸ß­DäxäÇx`Ÿ‰`DälxDîžþžlDlx`xßxUßD§Í7­lžDxääDäîx`³¸§¸žDäßx`x³îxäjløDälDä
ÔøDžääxUDäxžD­x­䞳Džä¹Çîž`¸ä (abaixo)jǸlx­`¸³î߸§DßDîDÔøxäxǞ§yîž`¸ä¸øîßx­¸ßxälx0Dߦž³ä¸³Í

¸­¸ø³`ž¸³DD'Çx³yîž`D

Como o nome implica, a sinalização óptica e da engenharia genética se combinam genético inserido assegura que apenas certos neurônios produzam a opsina, um
para ativar um circuito cerebral em um animal vivo. Primeiro, um gene de uma `D´D¨Ÿ»´Ÿ`¹jyDŸ´åŸàD®´DååùDå®y®UàD´DååùÈyàŠ`ŸDŸåÎ7®埴D¨myù®DŠUàD
proteína sensível à luz, uma opsina, é colocada em um vírus que, após a injeção num ºÈïŸ`D´¹Ÿ´ïyàŸ¹àmyù®`àF´Ÿ¹my`D®ù´m¹´‘¹DUày¹`D´D¨jmyŸāD´m¹ ¹´å`Dàày‘Dž
animal, envia o gene para o interior dos neurônios. O promotor de DNA no material dos penetrarem no neurônio, desencadeando uma corrente pela célula.

0๮¹ï¹àÊÿŸåD´yùà»´Ÿ¹åyåÈy` Š`¹åË
Membrana celular Canal abre em resposta a
Virus sinal óptico, permitindo que
Canal de opsina íons entrem e iniciem um
fechado Íon impulso elétrico na célula

Opsina é produzi-
Gene opsina Canal
da por neurônios
Vírus é injetado de opsina
selecionados
em camundongo aberto
Sinal
de luz

¸­¸D'Çî¸ÔøŸ­ž`Dø³`ž¸³D
Uma técnica alternativa conhecida como optoquímica evita a necessidade de pílula atingir o cérebro, um pulso de luz de um endoscópio, ou enviado de uma
engenharia genética pesada. Primeiramente, um paciente engoliria uma pílula fonte externa ao crânio, operaria o neurotransmissor para ligar e abrir um canal
contendo uma molécula ativada pela luz – uma jaula – ligada a um na membrana celular para permitir entrada de íons. Os íons, então, acionariam o
neurotransmissor que regula a atividade de um neurônio. Após o conteúdo da disparo de neurônios, enviando um impulso elétrico que viaja para a célula.

$¹¨z`ù¨DDïŸÿDmDÈy¨D¨ùĆʦDù¨DË
Luz libera o neurotransmis-
sor para se ligar a um canal
Neurotransmissor Canal iônico iônico e desencadear um
fechado Íon impulso elétrico

Sinal
de luz

Canal iônico
aberto
Neurônio

32 Scientific American Brasil | Abril 2014


Para entender o que ocorre na vasta rede de circuitos neurais do novas teorias sobre como a cacofonia de disparos nervosos se traduz
cérebro pesquisadores devem fazer mais que apenas fotos. Preci- em percepção, aprendizado e memória. A análise de megadados
sam ligar ou desligar grupos selecionados de neurônios para testar também pode ajudar a confirmar ou eliminar teorias que não pude-
o que as células fazem. A optogenética, técnica amplamente adota- ram ser testadas antes. Uma teoria intrigante postula que os muitos
da por neurocientistas nos últimos anos, envolve o uso de animais neurônios envolvidos na atividade de um circuito desenvolvem se-
geneticamente modificados para que seus neurônios produzam quências de disparo conhecidas como atratores e podem represen-
proteínas sensíveis à luz, derivadas de bactérias ou algas. Quando tar estados cerebrais emergentes – um pensamento, memória ou de-
expostas a um comprimento de onda luminoso em particular, pas- cisão. Em estudo recente, um camundongo deveria decidir atraves-
sando por uma fibra óptica, essas proteínas fazem os neurônios ati- sar uma parte ou outra de um labirinto virtual projetado em uma
varem ou desligarem. Cientistas aplicaram a técnica para ativar cir- tela. Essa ação acendeu dezenas de neurônios que apresentaram
cuitos neurais envolvidos no prazer e em outras respostas de re- mudanças dinâmicas na atividade semelhantes às de um atrator.
compensa e nos movimentos prejudicados típicos do mal de Uma melhor compreensão dos circuitos neurais pode melhorar
Parkinson. Chegaram a usar a optogenética para “implantar” falsas o diagnóstico de doenças do cérebro, do Alzheimer ao autismo, e
memórias em ratos. permitir um entendimento mais profundo de suas causas. Em vez
A necessidade de engenharia genética significa que a optogené- de diagnosticar e tratá-las com base em sintomas apenas, médicos
tica pode exigir longos protocolos de aprovação antes de ser testada poderiam procurar alterações específicas na atividade dos circuitos
ou utilizada como terapia em humanos. Uma alternativa mais prá- neurais específicos descobertos como a base de cada transtorno e
tica para algumas aplicações foi demonstrada pela inserção de neu- administrar terapias para corrigir essas anomalias. Por extensão, o
rotransmissores, substâncias que regulam a atividade dos neurô- conhecimento sobre as raízes da doença provavelmente se traduzi-
nios, em uma substância sensível à luz chamada “jaula”. Exposta à ria em benefícios econômicos para a medicina e a biotecnologia.
luz, a jaula se rompe e as substâncias químicas que ela abriga esca- Como no projeto genoma, haverá questões éticas e jurídicas, princi-
pam e se tornam ativas. Em 2012, Steven Rothman, da University of palmente se essa pesquisa levar a formas de discernir ou alterar es-
Minnesota, em colaboração com o laboratório de Yuste colocou tados mentais, que exigiriam salvaguardas cuidadosas para o con-
jaulas de rutênio contendo GABA, um neurotransmissor que força sentimento do paciente, além da preservação da privacidade.
a atividade neural a diminuir, no córtex cerebral exposto de ratos Para que estudos do cérebro tenham sucesso, cientistas e apoia-
quimicamente induzidos a produzir convulsões de epilepsia. Um dores devem se concentrar no objetivo de imageamento e controle
pulso de luz azul no cérebro liberava GABA e fazia as convulsões di- de circuitos neurais. A ideia para a Iniciativa BRAIN nasceu de uma
minuírem. Abordagens “optoquímicas” semelhantes são usadas publicação na revista Neuron, em junho de 2012. Nela sugerimos
atualmente para investigar a função de circuitos neurais seleciona- uma colaboração entre físicos, químicos, nanocientistas, biólogos
dos. Essas estratégias, com maior desenvolvimento, podem ser im- moleculares e neurocientistas para desenvolver um “mapa da ativi-
plementadas como terapia de algumas doenças neurológicas ou dade cerebral” com o uso de novas tecnologias para medir e contro-
distúrbios mentais. lar a atividade elétrica de circuitos cerebrais completos.
Queremos que o ambicioso projeto BRAIN mantenha nossa
ESTÁGIO BÁSICO ênfase original. A finalidade da pesquisa sobre o cérebro é vasta e a
HÁ UM LONGO PERCURSO DA PESQUISA BÁSICA até as aplicações clínicas. Iniciativa BRAIN poderia facilmente se transformar em uma lista
Cada ideia nova para a medição e manipulação de atividade neural de desejos, tentando satisfazer diversas subáreas da neurociência, e
em grande escala terá de ser testada em drosófilas, vermes e roedo- se reduzir a um complemento aos projetos em andamento em labo-
res antes de passar para humanos. Um esforço intensivo pode per- ratórios individuais e independentes.
mitir que pesquisadores registrem imagens e controlem optica- Se isso ocorrer o progresso será casual e os principais desafios
mente grande parte dos 100 mil neurônios em um cérebro de dro- técnicos nunca serão solucionados. Precisamos de cooperação aca-
sófila, talvez em cinco anos. Instrumento para capturar e modular a dêmica. A construção de instrumentos para obter a imagem de ati-
atividade neural do cérebro de um camundongo desperto pode não vidade em milhões de neurônios simultaneamente em todas as re-
ser possível por até dez anos. Algumas tecnologias, como eletrodos giões cerebrais só pode ser alcançada com esforço contínuo de uma
finos para corrigir avarias em circuitos neurais em pacientes depri- grande equipe interdisciplinar de pesquisadores. Assim a tecnolo-
midos ou epilépticos poderiam ser desenvolvidas para a prática gia poderia ser oferecida em larga escala, compartilhada pela co-
médica nos próximos anos, enquanto outras levarão décadas. munidade neurocientífica. Defendemos o foco em tecnologia para
A crescente sofisticação das neurotecnologia impõe aos cien- registrar, controlar e decodificar os padrões de picos elétricos, a lin-
tistas melhores formas de gerenciar e compartilhar enormes guagem do cérebro. Sem essas novas ferramentas a neurociência
compilações de dados. O imageamento das atividades de todos não conseguirá detectar propriedades emergentes do cérebro por
os neurônios no córtex do camundongo poderia gerar 300 tera- trás de séries virtualmente infinitas de comportamentos. Melhorar
bytes de dados compactados em uma hora, mas isso não é impos- a capacidade de compreender e utilizar a linguagem do cérebro é o
sível. Unidades de pesquisa sofisticadas, semelhantes aos obser- caminho mais promissor para uma grande teoria de como funciona
vatórios astronômicos, centros de genoma e aceleradores de par- a máquina mais complexa da Natureza.
tículas, poderiam receber, integrar e distribuir esse tipo de dados
digitais. Assim como o Projeto Genoma Humano gerou o campo PA R A C O N H E C E R M A I S
da bioinformática para lidar com dados de sequenciamento, a
5›y%UàDŸ´Ÿ´ŸïŸDïŸÿyÎThomas R. Insel et al. em Sciencejÿ¹¨ÎñŽĈjÈE‘åÎê~éžê~~j
neurociência computacional poderia decodificar o funcionamen- 10 de maio de 2013.
to do sistema nervoso inteiro. The brain activity map project and the challenge of functional connectomics. A.
A capacidade de analisar petabytes de dados fará mais que orde- Paul Alivasatos em Neuron, vol. 74, noêjÈE‘åµéĈžµéŽj÷Àmy¦ù´›¹my÷ĈÀ÷Î
nar enorme volume de novas informações. Poderá lançar base para

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MATÉRIA ESCURA aglutina-se
em filamentos que se estendem pelo
universo visível estruturando o
Cosmos nas maiores escalas. Essa
imagem da exposição espacial Uni-
verso Escuro do Museu Americano
de História Natural foi criada por
simulações num supercomputador
do Instituto Kavli para Astrofísica
de Partículas e Cosmologia da
Stanford University
Pequenas galáxias que orbitam a Via Láctea podem

34 Scientific American Brasil | Abril 2014


A ST R O N O M I A

Galáxias Anãs e
a Teia de Matéria Escura
ter trilhado supervias de matéria escura que se estendem pelo Universo
Por Noam I. Libeskind

www.sciam.com.br 35
Noam I. Libeskind é astrofísico e responsável pela
criação de modelos computacionais do Universo no
Instituto Leibniz de Astrofísica em Potsdam, Alemanha.

“Absurdo! Conversa
fiada! Besteira!”
Embora alguns céticos como Kroupa ainda não estejam convenci-
dos, trabalhos recentes, incluindo minha pesquisa, mostram como
enormes teias de matéria escura podem ser responsáveis pelo ali-
nhamento único de galáxias-satélites no céu.
vociferava Pavel Kroupa, astrofísico da Universidade de Bonn na A matéria escura, centro desse debate, foi inicialmente postula-
Alemanha, enquanto eu estava no estrado do salão de conferên- da numa tentativa de explicar outros aspectos enigmáticos das ga-
cias. Na época, eu era um simples recém-doutor em busca de uma láxias. Nos anos 30, o notável astrônomo Franz Zwicky, suíço de
oportunidade para o pós-doutorado. Eu estava em Bonn para origem búlgara, se dispôs a determinar o peso do aglomerado de
apresentar uma palestra de 45 minutos sobre as pequenas galáxias Coma, um imenso grupo com cerca de mil galáxias. Ele começou
que circundam a Via Láctea, objetos de meu estudo, e havia ajuda- medindo a velocidade com que as galáxias de Coma se deslocam.
do a desenvolver uma teoria que explica por que esses misteriosos Para sua surpresa, encontrou velocidades enormes – milhares de
objetos estão aparentemente localizados numa linha reta que se quilômetros por segundo – suficientemente velozes para despeda-
estende pelo céu – um alinhamento inesperado e extremamente çar o aglomerado. Por que o aglomerado não se rompia? Zwicky
intrigante. Kroupa, ao que tudo indica, não se deixava influenciar concluiu que essa formação deveria ser preenchida com matéria
por meus argumentos. adicional invisível, que manteria as galáxias juntas, graças à sua
Muitas galáxias como a Via Láctea são circundadas por dúzias força gravitacional. Essa substância foi posteriormente denomina-
de pequenas galáxias-satélites que orbitam à sua volta. Essas galá- da “matéria escura”.
xias são extremamente fracas – apenas a mais brilhante e próxima
delas foi flagrada pairando pelos arredores da Via Láctea e da nossa MATÉRIA AUSENTE
vizinha mais próxima, a galáxia de Andrômeda. Mas essas galáxias- Desde a primeira sugestão de Zwicky, há cerca de 80 anos, sinais de
satélites anãs não se deslocam aleatoriamente. Todas elas se situam matéria escura eclodiram por todo o Universo, praticamente em
num plano estreito, visto de lado (ver quadro na pág. oposta). todas as galáxias observadas. Na Via Láctea, astrônomos inferiram
Esse alinhamento é surpreendente. Simulações por computa- sua existência a partir do movimento de estrelas da periferia galác-
dor que modelam a evolução galáctica mostraram que qualquer di- tica. Da mesma forma que as galáxias no aglomerado de Coma,
reção do céu deveria conter aproximadamente o mesmo número de essas estrelas se movem rápido demais para serem refreadas
galáxias-satélites. Acredita-se, há muito tempo, que uma distribui- apenas pela matéria visível. As cerca de 12 galáxias anãs da Via
ção esférica como essa seria uma consequência natural da matéria Láctea aparentemente contêm uma concentração ainda maior de
escura, substância misteriosa que interage com a matéria comum matéria escura.
apenas pela força da gravidade. Astrônomos acreditam que a maté- A recorrência estabeleceu a crença na existência da matéria
ria escura preenche o Universo e desempenha papel importante na escura. Na verdade, a maioria dos cosmólogos acredita que a maté-
formação e expansão galácticas. ria escura compõe cerca de 80% de toda a matéria do Universo, ex-
Mas o enigma do alinhamento de galáxias anãs foi tão inquie- cedendo o peso de átomos normais em cerca de cinco para um.
tante que levou alguns astrônomos, incluindo Kroupa, a questionar Essa abundância implica que a matéria escura deve desempe-
a existência da matéria escura. “A matéria escura fracassou, uma nhar papel crítico na evolução do Universo e uma maneira de inves-
PÁGINAS ANTERIORES: CORTESIA DO MUSEU AMERICANO DE HISTÓRIA NATURAL

vez que a previsão de que galáxias-satélites deveriam se distribuir tigar esse processo é por meio de modelos computacionais. A partir
esfericamente em torno da Via Láctea está obviamente em contra- dos anos 70, pesquisadores na área da cosmologia computacional
dição direta com o que observamos”, comentou ele, interrompendo tentaram simular a história do Universo usando códigos computa-
minha palestra. cionais. A técnica é direta: defina uma caixa imaginária num com-
Eu estava apresentando um ponto de vista diferente, que tenta- putador. Coloque partículas pontuais imaginárias (que represen-
va explicar o alinhamento peculiar de galáxias-satélites apontando tam caroços de matéria escura) numa malha quase perfeita dentro
para estruturas de matéria escura muito maiores que a Via Láctea. da caixa. Calcule a força gravitacional que todas as partículas da

EM SÍNTESE

Teorias sobre formação de galáxias DŠàž åDïz¨ŸïyåÎNo entanto buscas por esses sa- `¹å®¹¨¹‘ŸDÎ As galáxias-satélite Õùy ¹å Novas simulaçõesày`¹àày®Dù®D‘àD´my
®D®ÕùyD<ŸD"E`ïyDmyÿyåyàà¹myDmD télites my`yÈ`Ÿ¹´DàD®j ¨yÿD´m¹ D¨‘ù´å D Dåïà»´¹®¹åmyå`¹UàŸàD®ïy´my®DåyD¨Ÿž ïyŸDmy®DïzàŸDyå`ùàDÈDàDyāȨŸ`DàDDùž
ȹàù®›D¨¹yå†zàŸ`¹myÈyÕùy´Då‘D¨EāŸDåž `¹¨¹`Dà y® āyÕùy ÈàŸ´` ÈŸ¹å UEåŸ`¹å mD ´›Dà´ù®ȨD´¹ÕùyDïàDÿyååDD<ŸD"E`ïyDÎ å{´`ŸDmy‘D¨EāŸDåyåyùD¨Ÿ´›D®y´ï¹Î

36 Scientific American Brasil | Abril 2014


caixa exercem sobre cada partícula e mova essas partículas de láxias-satélite observadas formam a ponta visível de um icebergues
acordo com a força gravitacional líquida que cada uma sente (ou a escuro: centenas, até milhares de pequenas galáxias escuras, des-
que cada uma está submetida). Reproduza a interação desse pro- providas de estrelas, podem existir em nossas vizinhanças, mas não
cesso em 13 bilhões de anos. conseguimos observá-las.
As estratégias se tornaram significativamente mais complexas Segundo, mesmo que pequenos caroços de matéria escura
desde os anos 70, mas essa técnica básica ainda é usada atualmen- formem estrelas, elas podem ser fracas [pouca luminosidade]
te. Há quatro décadas os códigos incluíam apenas algumas cente- demais para serem detectadas por telescópios. Nesse cenário, à
nas de partículas. Atualmente o estado da arte da simulação com- medida que a tecnologia avança e os instrumentos tornam-se cada
putacional permite modelar com sucesso bilhões de partículas vez mais sensíveis, os astrônomos encontrarão mais galáxias-satéli-
num volume com dimensões aproximadas do Universo observável. tes. De fato, nos últimos sete anos, o número conhecido dessas for-
Simulações cósmicas por computador são uma forma de inves- mações orbitando a Via Láctea dobrou.
tigar galáxias individuais, mas criaram alguns dilemas capciosos. Além disso, o disco da Via Láctea pode estar dificultando essa
Modelos computacionais, por exemplo, concluíram que a matéria observação. Esse disco é basicamente um plano com alta densidade
escura predominante no chamado halo que envolve a Via Láctea de estrelas tão brilhantes que, a olho nu, parece um fluido branco
pode atrair gás e poeira formando caroços isolados. Esses caroços contínuo (daí o nome Via “Láctea”). Seria extremamente difícil ob-
devem contrair-se sob a força da gravidade, e finalmente formar es- servar uma galáxia-satélite posicionada atrás do disco, assim como
trelas e galáxias anãs. No caso da Via Láctea, a prevalência de maté- é difícil ver a Lua durante o dia – a luz do disco galáctico simples-
ria escura implica que podemos esperar milhares de pequenas ga- mente ofusca a luz tênue das galáxias-satélites.
láxias. Mas, quando olhamos para o céu noturno, observamos não Todos esses argumentos aparentemente resolviam o problema
mais que uma dúzia delas. A dificuldade para observá-las ficou evi- das galáxias ausentes para a maioria dos astrofísicos e ainda resga-
dente pela primeira vez nos anos 90, e desde então se tornou conhe- tavam a ideia da matéria escura de um de seus mais sérios desafios
cida como o problema de galáxias-satélites ausentes. observacionais. Mas o alinhamento peculiar dessas galáxias anãs
Nesse intervalo de tempo, astrônomos vislumbraram algumas continua a confundir os pesquisadores.
soluções possíveis para esse dilema. Primeiro e mais importante é Em vários artigos publicados no fim dos anos 70 e início da
que talvez nem todos os satélites que aparecem nas simulações cor- década de 80, Donald Lynden-Bell, astrofísico da University of
respondem diretamente a galáxias reais. Caroços menores de maté- Cambridge, observou que várias galáxias-satélites orbitando a Via
ria escura não contêm massa (nem atração gravitacional) suficiente Láctea pareciam se situar num único plano. Como explicar um ar-
para capturar gás e formar estrelas. Nessa linha de raciocínio as ga- ranjo tão estranho? Em 2005 Kroupa e seu grupo de Bonn conven-

G E O G R A F I A GA L ÁC T I CA

Galáxias satélites O Impossível Plano Galáctico


acima do plano
Ú= 2 " >?0" %3i53 '<2?'3?$$52 3527 5723%5"' "2'70jÛ0'2$ 2 "3Î0 ="'=3!j0 <"!2'70 "$75

Simulações da Via Láctea predizem que dezenas de pequenas galáxias-


2 %j$$'%5"?%'5 3'52'? " 352'%'$ "3' 5?j<'"ÎŽñ‹jñèÀ%'<$
2'÷ĈÀñë2 '30'2 %=""$57"0

satélites devem circundá-la em todas as direções. Mas, quando astrôno-


mos observam o céu noturno, notam que as galáxias-satélites se distri-
buem num único plano – que se estende quase perpendicularmente
ao plano formado pelos braços espirais da Galáxia. Estudos de
Andrômeda, nossa vizinha mais próxima, revelam que suas
galáxias-satélites também se distribuem num plano. Como
essas galáxias se alinharam nesse arranjo peculiar?
Simulações por computador sugerem que grandes
estruturas de matéria escura desempenham um
Via Láctea papel crucial (ver quadro na pág. seguinte).

Plano de melhor ajuste


formado pelas galáxias-
satélites da Via Láctea

Galáxias-satélites
abaixo do plano

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COMO FUNCIONA

Supervias Cósmicas de Matéria Escura


Desde o Big Bang, há aproximadamente 14 bilhões de anos, a Via Láctea, aÍ%¸ä‰§D­x³î¸äj¸³lxDlx³äžlDlxlx­DîyߞDxä`øßD
matéria escura que permeia nosso Universo aglutinou-se, formando é menor, formam-se somente pequenas galáxias anãs b . Com o
o que os cosmólogos chamam de teia cósmica – estrutura tempo, a forte atração gravitacional dos nós tende a atrair material
žD³îxä`Dlx³¹äx‰§D­x³î¸äÍ$DîyߞDxä`øßDDîßDž l¸ä‰§D­x³î¸äjÇøĀD³l¸D§EĀžDäD³Tä³DlžßxcT¸lDäD§EĀžDä
gravitacionalmente gás e poeira das vizinhanças, formando, nos maiores c . De nossa perspectiva, no interior da Via Láctea, as
nós, onde a matéria escura se concentra, galáxias massivas como a galáxias anãs parecem se situar num plano perpendicular à Galáxia.

b c

Via Láctea

Galáxias anãs

ceram o mundo de que o alinhamento podia ser casual. Eles propu- Como bom teórico, Kroupa propôs uma alternativa. Sugeriu
seram que galáxias anãs de matéria escura se distribuíam unifor- que essas anãs seriam remanescentes de uma galáxia progenitora, ! " 5? % "73ž02'  5Î'2ë"7352 '0'22'%$""2Ê%32 'Ë

memente em torno da Via Láctea, como previam as simulações por mais antiga, que há muito tempo precipitou-se na direção da Via
'253 35 %'55"+
2j735 <'?03j % 5'"?!"?0%j 2$ %

computador, e apenas uma em 100 era suficientemente grande Láctea. Exatamente como um asteroide que, ao se despedaçar,
para criar estrelas e galáxias visíveis. Baseando-se nessas hipóteses deixa um rastro de escombros à medida que atravessa a atmosfera
perfeitamente plausíveis, surgiu a pergunta: Com que frequência da Terra, talvez os satélites da Via Láctea também tivessem suas ori-
espera-se encontrar um sistema como a Via Láctea, onde as galá- gens em material retirado de uma progenitora maior.
xias iluminadas estão todas alinhadas? A resposta provocou um Segundo Kroupa, quando olhamos para o Universo observamos
tsunami na cosmologia: a probabilidade era menor que 1 em um que uma série de galáxias em colisão exibe longas pontes de mate-
milhão. rial conhecidas como braços de maré. Geralmente os braços de
Se a matéria escura era responsável pela formação de galáxias- maré contêm pequenas galáxias anãs que se condensam a partir do
satélites, argumentava Kroupa, essas galáxias nunca estariam todas fluxo de material. Sob condições adequadas, a natureza do des-
nesse plano impossível. No artigo em que relatou seus resultados membramento garante que o material retirado acabará num plano
Kroupa propôs sua solução: a saída era que as anãs que orbitavam a fino, exatamente como as galáxias-satélites da Via Láctea.
Via Láctea não se formaram por aglutinação de matéria escura. A explicação de Kroupa era elegante, simples, mas acima de
Para ele, matéria escura não existia. tudo, controversa. E imediatamente ele foi atacado. Primeiro, es-

38 Scientific American Brasil | Abril 2014


trelas de galáxias-satélites da Via Láctea se deslocam a velocida- muito semelhante ao que os astrônomos observavam. Percebemos
des altas demais para se manterem agrupadas apenas pela ação que nossas simulações estavam começando a elucidar o mistério de
gravitacional de matéria comum. Matéria escura deve estar con- como as anãs-satélites assumiram essa configuração estranha.
tribuindo para mantê-las juntas, da mesma forma que mantém a “Por que não retrocedemos no tempo e reconstruímos as galá-
coesão da Via Láctea. (Na verdade, observações sugerem que as xias anãs para saber de onde elas se originam?” – propôs Frank.
anãs-satélites da Via Láctea estão entre as galáxias que exibem as Chegamos ao resultado final; era hora de examinar os passos in-
maiores quantidades de matéria escura do Universo. Mas o cená- termediários da simulação. Quando examinamos a simulação in-
rio da galáxia anã de maré implica que essas galáxias não exibem vertida, descobrimos que galáxias-satélites não se originavam na
matéria escura, deixando em aberto a questão sobre o quê as região imediatamente em torno da Via Láctea; elas tendiam a se
impede que se despedaçar. juntar um pouco mais além, nos filamentos da teia cósmica. Fila-
mentos são regiões do Cosmos mais densas que
os vazios cósmicos; e por isso, atraiam e acumula-
As galáxias satélites observadas são apenas vam poeira e gás das vizinhanças dando origem à
formação de galáxias.
a ponta de um iceberg escuro: podem Uma vez formadas, a força gravitacional deslo-
cava as galáxias anãs em direção a regiões mais
existir centenas, até milhares, de pequenas massivas das proximidades – no nosso caso, a Via
galáxias escuras em nossas vizinhanças, Láctea. Como a Via Láctea situa-se em um nó de in-
terseção de filamentos, as galáxias anãs se deslo-
que simplesmente não podemos ver. cam pelo filamento que lhes deu origem à medida
que aceleram em nossa direção. Em outras pala-
vras, filamentos funcionam como supervias cósmi-
Segundo, como ocorre em choques que destroem automóveis, cas de matéria escura. Quando contemplamos o céu e observamos
nas colisões entre galáxias em forma de disco, os discos são des- galáxias anãs num único plano, movendo-se na mesma direção,
truídos. O resultado final de uma colisão galáctica quase sempre estamos observando basicamente o tráfego galáctico que está
é uma bolha disforme de estrelas. A Via Láctea mostra uma es- chegando.
trutura nítida e um disco razoavelmente fino. Não há qualquer
indicação de que tenha sofrido em passado recente qualquer tipo MAIS UM TESTE
de fusão ou colisão. Alguns cientistas como Kroupa ainda são céticos. Modelos compu-
tacionais parecem reproduzir as condições observadas na Via
UMA TEIA ESCURA Láctea com precisão suficiente, mas a teoria geral também deveria
Uma solução alternativa para o alinhamento incomum de galáxias ser capaz de descrever as vizinhanças de outras galáxias. A teoria
anãs exige uma observação mais profunda do Cosmo. As simula- está sendo testada mais uma vez. Em janeiro de 2013, ao mapear re-
ções por computador, que começaram nos anos 70, não modelam giões em torno de Andrômeda, astrônomos encontraram uma
apenas a evolução de galáxias individuais. Elas modelam volumes lâmina ainda mais fina de satélites: um plano imenso, com um
enormes do Universo. Quando exploramos essas simulações em milhão de anos-luz de extensão e apenas 40 mil anos-luz de espes-
grande escala observamos que as galáxias não estão aleatoriamente sura – dimensões proporcionais a um laptop. A lâmina também
distribuídas. Ao contrário, elas tendem a se agrupar numa rede fila- parece estar girando exatamente da forma prevista pelo cenário de
mentar bem definida, conhecida como teia cósmica. Essa estrutura maré de Kroupa. Simulações por computador como a que executei,
é claramente detectável quando observamos o céu em pesquisas as- no entanto, não foram capazes de reproduzir o alinhamento das ga-
tronômicas de larga escala. láxias que observamos em torno de Andrômeda.
A teia cósmica é composta por lâminas magníficas contendo De qualquer maneira, sérios problemas com a teoria de maré de
milhões de galáxias, que se estendem por centenas de milhões de Kroupa ainda persistem – ela também está em desacordo com as
anos-luz. Filamentos em forma de charuto conectam essas lâmi- observações. A história tem mostrado que em impasses como esse
nas. Entre os filamentos estão vazios imensos, desprovidos de ga- soluções definitivas só surgirão com mais dados. Como Albert Eins-
láxias. Grandes galáxias como a Via Láctea tendem a ancorar a tein disse uma vez: “A Natureza não facilita as coisas para descobrir-
teia como nós, nas interseções de diversos filamentos (ver quadro mos suas leis”.
na pág. oposta).
Quando era aluno de pós-graduação na Universidade Durham,
na Inglaterra, eu criava simulações por computador dessas regiões PA R A C O N H E C E R M A I S
densas, e mostrei para meu orientador, Carlos Frenk, uma imagem
Dwarf galaxy planes: the discovery of symmetric structures in the local
de resultados recentes. O modelo com que trabalhava reconstituiu
group. Marcel S. Pawlowski, Pavel Kroupa e Helmut Jerjen em Monthly Notices
a Via Láctea e suas vizinhanças durante os últimos 12 bilhões de of the Royal Astronomical Society, vol. 435, no 3, págs. 1928–1957, 1o de novembro de 2013.
anos de história cósmica. Frenk esquadrinhou o gráfico por alguns The preferred direction of infalling satellite galaxies in the local group. Noam I.
instantes, sacudiu as folhas de papel e exclamou: “Larga tudo!” As Libeskind et al. em Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, vol. 411,
galáxias-satélites que você está estudando estão todas localizadas no 3, págs. 1525–1535; 1o de março de 2011. http://arxiv.org/abs/1010.1531.
no plano impossível de Kroupa!”. Nosso modelo não estava repro- The distribution of satellite galaxies: the great pancake. Noam I. Libeskind et al.
duzindo as simulações anteriores – um halo de galáxias-satélites em Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, vol. 363, no 1, págs. 146–152;
11 de outubro de 2005. http://arxiv.org/abs/astro-ph/0503400.
uniformemente distribuído em torno da Via Láctea. Em vez disso, o
computador mostrava a formação de um plano de galáxias-satélites

www.sciam.com.br 39
MEDICINA

FASE DOIS
DOIS
O
DA TERAPIA
Uma década e
GÊNICA meia após
contratempos
trágicos que
levaram a
reavaliações
críticas,

Ilustração por Kotryna Zukauskaite


cientistas
dizem que a
terapia gênica
está pronta
para uso clínico
Por Ricki Lewis

40 Scientific American Brasil | Abril 2014


Ricki Lewis ÷™«Í§D›”ÒÜDZ”r§ÜûZDZ«¡
f«æÜ«ÍDf«r¡†r§÷ܔZD»DæÜ«ÍDfrèñ͔«Ò
›”èÍ«Òd¡æ”Ü«ÒDÍܔ†«ÒfrÍrè”ÒÜDÒrf«›”èÍ«The
Forever Fix: Gene Therapy and the Boy Who
Saved It ·3Ü»$DÍܔ§ÊÒ0ÍrÒÒdäð®ä¸»

A
A
terapia gênica pode finalmente estar à altura de sua promessa inicial. Nos
últimos seis anos o procedimento experimental para a inserção de genes
saudáveis em locais do organismo onde são necessários restaurou a visão
em cerca de 40 portadores de uma forma hereditária de cegueira. Médicos
observam resultados sem precedentes entre os 120 ou mais pacientes com
diversos tipos de câncer no sangue – e vários permanecem livres da malig-
nidade três anos após o tratamento. Cientistas também usaram a terapia para permitir que alguns por-
tadores de hemofilia, distúrbio hemorrágico, às vezes fatal, vivam mais tempo sem incidentes perigosos
ou sem necessidade de altas doses de medicamentos coagulantes.

Os resultados positivos são ainda mais impressionantes consi- tá-los e ficaram mais atentos, explicando os riscos e benefícios
derando que o campo da terapia gênica está basicamente paralisa- aos pacientes e suas famílias.
do há 15 anos, após a morte prematura de Jesse Gelsinger, adoles- O momento decisivo, na visão de muitos observadores, surgiu
cente com um distúrbio digestivo raro. O sistema imune de Gelsin- há seis anos quando médicos trataram Corey Haas, então com oito
ger reagiu ao tratamento gênico recebido, lançando um contra-ata- anos, de uma doença degenerativa no olho que provocava a deterio-
que de ferocidade inesperada que o matou. Ao que parece, sucessos ração da visão. A terapia usada permitiu que a retina defeituosa do
preliminares da terapia gênica na década de 90 alimentaram ex- olho esquerdo de Haas produzisse uma proteína que seu organis-
pectativas irracionais excessivamente altas entre médicos e pesqui- mo não processava. Após quatro dias, ele fez um passeio ao zoológi-
sadores – talvez combinadas com certa arrogância. co e descobriu, para seu deleite e espanto, que conseguia ver o sol e
Este e outros contratempos forçaram cientistas a repensar al- um balão de ar quente. Três anos mais tarde, ele foi submetido ao
gumas abordagens, além de passarem a ser mais realistas quanto mesmo tratamento no olho direito. Agora Haas vê bem o suficiente
ao potencial da terapia gênica para tratamento de várias doen- para caçar peru com o avô.
ças. Pesquisadores contiveram suas esperanças e voltaram à pes- Embora a terapia gênica ainda não esteja disponível em hospi-
quisa básica. Examinaram os efeitos colaterais potencialmente tais e clínicas isso tende a mudar na próxima década. A Europa
fatais, como os experimentados por Gelsinger, aprenderam a evi- aprovou seu primeiro tratamento gênico em uma doença rara, mas

EM SÍNTESE

Entusiasmo precoce sobre experiências de terapia Após vários reveses trágicos cientistas passaram a tratamentosj®DŸååy‘ùà¹åjyåïT¹ÈDàDy´ïàDày®ùå¹
gênica na década de 90 desencadeou expectativas ir- mz`DmDåy‘ùŸ´ïyàyŠ´D´m¹D`¹®Èàyy´åT¹mDUŸ¹¨¹‘ŸD clínico. A Europa aprovou sua primeira terapia gênica
realistas sobre o potencial da tecnologia em humanos. fundamental e das técnicas envolvidas. Agora novos em 2012. Os Estados Unidos podem fazer isso em 2016.

42 Scientific American Brasil | Abril 2014


extremamente dolorosa, a deficiência de lipoproteína lipase fami- macaco, não perceberam como as reações poderiam ser tão explosi-
liar, em 2012. No fim de 2013, os National Institutes of Health, nos vas. “Os humanos são muito mais heterogêneos que as colônias de
Estados Unidos, retiraram alguns empecilhos regulatórios aumen- animais”, compara James Wilson, da University of Pennsylvania,
tando a rapidez do processo em casos considerados desnecessários. que desenvolveu o sistema de transporte viral usado no ensaio clí-
Observadores da indústria preveem que a primeira aprovação ame- nico do qual Gelsinger participou. “O que vimos nesse ensaio foi
ricana de um tratamento com gene comercial possa vir em 2016. A que uma pessoa entre 18 teve resposta exagerada contra o hospe-
terapia gênica, após uma década perdida, finalmente está perfazen- deiro.” Em retrospectiva, parecia que teria sido mais sensato injetar
do seu caminho como tratamento médico revolucionário. menos – bilhões em vez de um trilhão – de vírus portadores do gene
em seu corpo. Os pesquisadores também foram criticados por não
CORAÇÃO PARTIDO informar Gelsinger e sua família sobre a morte do macaco para que
OS PRIMEIROS FRACASSOS DA TERAPIA GÊNICA destacaram como é difí- eles pudessem tomar suas próprias decisões sobre se aquilo era um
cil estabelecer um meio seguro e eficiente de transporte de genes acontecimento não relacionado.
para o tecido-alvo. Muitas vezes os sistemas mais seguros não A morte de Gelsinger não foi a única tragédia na terapia gênica.
foram eficazes e alguns dos sistemas mais eficazes acabaram por Logo após essa ocorrência, o tratamento de outra doença – a imu-
não ser muito seguros, desencadeando uma reação imune esma- nodeficiência combinada grave X1 (SCID-X1, na sigla em inglês) –
gadora, como no caso de Gelsinger e em outros, o desenvolvi- desencadeou cinco casos de leucemia, incluindo uma morte, em
mento de leucemia. 20 crianças. Mais uma vez houve deficiência no sistema de trans-
Para compreender o que levou a esses
efeitos colaterais e descobrir como dimi-
nuir os riscos de novas ocorrências, cientis-
tas se concentraram no sistema de trans-
porte mais comum na terapia gênica: pro- O caminho de décadas
duzir um vírus para agir como uma espécie
de pistola de injeção microscópica. para o sucesso da terapia
Para começar, pesquisadores removem
alguns genes do próprio vírus, abrindo gênica está longe de termi-
espaço para os genes saudáveis que desejam
inserir no paciente. (Este passo também tem nar, mas avanços recentes
a vantagem adicional de impedir que o vírus
se replique assim que entra no organismo, aproximaram mais a abor-
aumentando a probabilidade de uma reação
imune). Depois, os vírus personalizados são dagem experimental de um
injetados no paciente, onde inserem os novos
genes em vários locais nas células, dependen-
tratamento convencional
do do tipo de vírus a ser usado.
Quando Gelsinger, se ofereceu como vo-
para algumas doenças.
luntário para um ensaio clínico o sistema de
transporte selecionado consistia em adenoví-
rus, que, em seu estado natural, poderia provocar infecções respira- porte do gene. Nesse caso, no entanto, a pistola de injeção mi-
tórias leves das vias superiores nas pessoas. Cientistas da Pennsyl- croscópica em questão foi um retrovírus, um tipo de vírus que
vania University determinaram que a melhor chance de sucesso insere material genético diretamente no DNA de uma célula. O po-
seria injetar o vírus no fígado, onde as células que normalmente sicionamento exato dos genes terapêuticos é um pouco aleatório,
produzem a enzima digestiva que faltava a Gelsinger se localiza- porém, e os retrovírus, por vezes, inseriram a seu material num on-
vam. Introduziram uma cópia operante do gene para essa enzima cogene – um gene que pode provocar câncer sob determinadas
em adenovírus esvaziado de seu conteúdo. Depois injetaram um circunstâncias.
trilhão desses vírus – cada um com sua carga especial – diretamen-
te no fígado de Gelsinger. REPENSANDO A TECNOLOGIA
Mas, no interior do organismo de Gelsinger, alguns vírus toma- COM A PROPENSÃO DO ADENOVÍRUS DE PROVOCAR REAÇÕES IMUNES LETAIS
ram um desvio trágico. Entraram nas células hepáticas conforme o e de o retrovírus desencadear câncer, cientistas começaram a
plano, mas também infectaram macrófagos, as enormes células er- prestar mais atenção em outros vírus em busca de melhores resul-
rantes que servem como sentinelas do sistema imune e células den- tados. Logo se concentraram em dois participantes mais ampla-
dríticas, que anunciam uma invasão. O sistema imune reagiu des- mente adequados.
truindo todas as células infectadas, um processo violento que, em O primeiro sistema novo de transporte, o vírus adenoassociado
última análise, devastou o corpo de Gelsinger de dentro para fora. (AAV), não adoece as pessoas (embora a maioria de nós seja infecta-
A virulência da resposta imune tomou os pesquisadores de sur- da por ele em um momento ou outro). Por ser tão comum, é pouco
presa. Nenhum dos 17 voluntários que haviam sido submetidos a provável que provoque reações imunes extremas. Esse vírus tem
tratamento para a mesma doença apresentou esses efeitos colate- outra característica que também deve ajudar a minimizar os efeitos
rais graves. Cientistas sabiam que os adenovírus poderiam provo- colaterais: há diversas variedades, ou serotipos, que favorecem
car uma resposta imune, mas, exceto por um estudo em que um tipos específicos de células ou tecidos. O AAV2, por exemplo, fun-
vírus manipulado ligeiramente diferente provocou a morte de um ciona bem no olho, enquanto o AAV8 atua no fígado e o AAV9 se

www.sciam.com.br 43
CONCEITOS E DESAFIOS

Como corrigir um Duas opções de transporte


Além de injetar vírus diretamente em pacien-
gene defeituoso tes, cientistas podem remover células do corpo,
inserir os vírus portadores do gene terapêutico Gene terapêutico
nas células (abaixo à direita) e reinjetar as
A terapia gênica tenta desfazer os danos provocados
células alteradas. Como a informação
por genes truncados ou defeituosos. A abordagem genética corrigida é incorpora-
mais comum (abaixo) introduz uma cópia de um gene da no DNA das células, a
operante em um vírus a , que foi esvaziado da maior correção será passada
parte de seu conteúdo original. Esse vírus híbrido, com ÈDàDDå`z¨ù¨D垊¨›Då Tratamento do
sua carga terapêutica, é então injetado no organismo, geradas. gene ocorre fora
do corpo
onde se liga a receptores b em células-alvo. Dentro da
célula, a cópia corrigida do gene instrui a célula a come- Pacote viral
çar a produzir a proteína c , o que era incapaz de
fazer. Efeitos colaterais indesejáveis podem ocorrer se Injeção direta
os genes forem inseridos acidentalmente no genoma no organismo Parte
do receptor de um modo que provoca câncer, ou se o defeituosa
próprio sistema imune do paciente tentar defesa exces- do genoma
siva do organismo contra o que lhe parece uma invasão (preto)
(não exibido).
a Célula do
Pacote viral com paciente
gene terapêutico

Receptor b Célula do paciente

Parte defeituosa do
Núcleo DNA do paciente
celular c

Melhorando a Segurança
Cientistas minimizam as chances de câncer ou de
DNA do um ataque perigoso ao sistema imune selecionando

ILUSTRAÇÃO POR TAMI TOLPA


paciente cuidadosamente o tipo de vírus usado e limitando
Proteínas terapêuticas seu número ou restringindo os tecidos tratados.

Genes virais com o


gene terapêutico
incorporado

infiltra no tecido cardíaco ou cerebral. Cientistas podem escolher Parkinson e de Alzheimer e para a hemofilia, distrofia muscular, in-
o melhor AAV para uma parte específica do corpo, diminuindo o suficiência cardíaca e cegueira.
número de vírus individuais que devem ser injetados, minimizan- O segundo e um pouco mais surpreendente vetor de gene novo
do assim a probabilidade de uma resposta imune desproporcional é uma versão esvaziada do HIV – o vírus que provoca a Aids. Após
ou outra reação indesejável. Além disso, o AAV deposita seu mate- observá-lo além da sua reputação negativa, suas vantagens para a
rial genético fora dos cromossomos, por isso não provoca câncer terapia gênica emergiram. Como membro do gênero Lentivirus de
acidentalmente por interferir com oncogenes. retrovírus ele escapa do sistema imune e – essencial para um retro-
O vírus adenoassociado foi usado pela primeira vez em um vírus – normalmente não perturba oncogenes.
ensaio clínico em 1996, na fibrose cística. Desde então, 11 serotipos Depois que os genes que tornam o HIV letal são retirados, a em-
foram identificados e suas partes foram misturadas e combinadas balagem viral que permanece “exibe grande capacidade”, avalia
para manipular centenas de ferramentas de entrega aparentemen- Stuart Naylor, ex-diretor científico da Oxford Biomedica, na Ingla-
te seguras e seletivas. Estudos atuais avaliam a terapia gênica com o terra, que busca “medicamentos à base de genes” para doenças dos
uso de AAV para várias doenças do cérebro, inclusive mal de olhos. Ao contrário do AAV, menor, “ele é ótimo para a instalação

44 Scientific American Brasil | Abril 2014


de genes múltiplos ou grandes e robustos”, considera ele. “Não há mioterapia [o terceiro] que teria matado um adulto e ainda apre-
qualquer toxicidade e nenhuma reação imune adversa.” Lentivírus sentava lesões nos rins, fígado e baço”, segundo Bruce Levine, um
esvaziados de seu conteúdo estão sendo usados em diversos ensaios dos médicos de Whitehead. A menina estava a dias da morte.
clínicos, incluindo tratamentos para a doença adrenoleucodistrofia Os médicos tomaram uma amostra de sangue de Whitehead e
– caracterizada no filme Óleo de Lorenzo, de 1992. Até o momento, isolaram algumas células T. Depois injetaram a amostra com lenti-
alguns meninos que receberam esse tratamento tornaram-se sau- vírus equipados com genes apropriados. Após um começo difícil,
dáveis o suficiente para voltar à escola. que felizmente respondeu ao tratamento, Whitehead melhorou ra-
Embora ensaios clínicos que usem o AAV e o HIV estejam au- pidamente. Três semanas após o tratamento, um quarto das células
mentando, cientistas também redirecionaram ou modificaram os T de sua medula óssea suportou a correção genética. As células T
sistemas de transporte viral mais antigos para que possam ser utili- começaram a superar as células cancerosas, que logo desaparece-
zados em circunstâncias limitadas. Os retrovírus não-HIV, por ram. “Em abril, ela estava careca”, relembra Levine. “Em agosto, ela
exemplo, agora são editados geneticamente para se desativarem foi para seu primeiro dia de aula na segunda série.”
antes que possam provocar a leucemia. Embora as células modificadas de Whitehead possam não durar
Até o adenovírus, que provocou a morte de Gelsinger, ainda está para sempre – e nesse caso os médicos podem repetir o tratamento
em ensaios clínicos como um vetor de terapia gênica. Pesquisado- – esta linda garota de cabelos castanhos revoltos está livre de câncer
res restringem seu uso a partes do organismo onde seja improvável há cerca de dois anos e não está sozinha. Ao final de 2013, diversos
que provoquem resposta imune. Uma aplicação promissora é tratar grupos de cientistas relataram ter usado a técnica CAR em mais de
a “boca seca”, em pacientes submetidos à radioterapia para câncer 120 pacientes, para o tipo de leucemia de Whitehead e outros três
de cabeça e pescoço, que prejudica as glândulas salivares, localiza- tipos de câncer de sangue. Cinco adultos e 19 de 22 crianças alcan-
das logo abaixo da superfície do interior da bochecha. çaram remissão, ou seja, estão livres de câncer atualmente.
Os NIH gerenciam um pequeno ensaio clínico que envolve a in-
serção de um gene que cria canais de água para as glândulas. Como USO CLÍNICO
as glândulas são pequenas e contidas e o delineamento experimen- COM SISTEMAS DE TRANSPORTE VIRAIS MAIS SEGUROS À MÃO, especialis-
tal requer mil vezes menos vírus que os utilizados em Gelsinger, as tas da terapia gênica agora lidam com o maior desafio que qual-
chances de uma reação imune exagerada são reduzidas. Além disso, quer medicamento novo enfrenta: aprovação da Food and Drug
os vírus que não atingiram suas células-alvo devem acabar na saliva Administration nos Estados Unidos. Essa etapa requer a fase III
de um paciente, engolida ou cuspida, com pouca chance de irritar o de ensaios clínicos, projetada para avaliar a eficácia em um grupo
sistema imune. Desde 2006, 6 dos 11 doentes tratados mostraram maior de pacientes voluntários e, normalmente, leva de um a
produção significativa de mais saliva. Bruce Baum, dentista e bio- cinco anos (o tempo varia muito). A partir do final de 2013, por
químico que liderou a pesquisa antes de se aposentar, classificou os volta de 5% dos cerca de dois mil ensaios clínicos para a terapia
resultados de “cautelosamente encorajadores”. gênica chegaram à fase III. Um dos mais adiantados se refere à
amaurose congênita de Leber – doença que estava roubando a
NOVOS ALVOS visão de Haas. Até o momento, várias dezenas de pacientes tive-
INCENTIVADOS POR ESSES SUCESSOS, cientistas médicos foram além de ram genes corretivos inseridos nos dois olhos e agora conseguem
tratar doenças hereditárias tentando reverter o dano genético que enxergar o mundo.
ocorre naturalmente no decorrer da vida. A China foi o primeiro país a aprovar uma terapia gênica em
Cientistas da University of Pennsylvania, por exemplo, usam a 2004, para o câncer de cabeça e pescoço. Em 2012, a Europa apro-
terapia gênica para combater um câncer comum na infância co- vou uma terapia à base de um medicamento denominado Glybera
nhecido como leucemia linfoblástica aguda (LLA). Embora a para tratar a deficiência de lipoproteína lipase familiar. Cópias ope-
maioria das crianças com LLA responda à quimioterapia padrão, rantes do gene mutante envolto em AAV são injetadas nos múscu-
isso não ocorre com cerca de 20% delas. Cientistas estão se vol- los da perna. A empresa neerlandesa UniQure está no início de con-
tando para a terapia gênica para turbinar as células do sistema versações com a FDA sobre a aprovação nos Estados Unidos. Um
imune dessas crianças para localizar e destruir as células cance- obstáculo potencial: o preço de uma única dose curativa é de US$
rosas recalcitrantes. 1,6 milhão, mas esse custo pode cair quando pesquisadores desen-
A abordagem experimental é particularmente complexa e se volverem procedimentos mais eficientes.
baseia na denominada tecnologia de receptor de antígeno quiméri- Como ocorre com muitas tecnologias médicas, o caminho de
co (CAR, na sigla em inglês). Como a Quimera da mitologia grega, décadas para o sucesso da terapia gênica é tortuoso e está longe
composta de diferentes animais, um receptor de antígeno quiméri- de estar completo, mas enquanto essa estratégia acumular mais
co é formado por duas moléculas do sistema imune, normalmente histórias de sucesso, como as de Corey Haas e de Emily
não encontradas juntas. Algumas células imunes, conhecidas como Whitehead, ela se impulsiona cada vez mais para se tornar um
células T, são então equipadas com esses receptores de antígenos tratamento médico convencional de algumas doenças e uma
quiméricos que permitem às células buscar proteínas encontradas nova opção promissora para outras.
em maior número em uma célula de leucemia. A célula T totalmen-
te armada e implantada destrói a célula cancerosa. Os primeiros su- PA R A C O N H E C E R M A I S
jeitos do teste, que responderam favoravelmente, eram adultos com
Gene therapy of inherited retinopathies: a long and successful road from viral vectors
leucemia crônica. A tentativa seguinte, com uma criança, superou to patients. Pasqualina Colella e Alberto Auricchio em Human Gene Therapy, vol. 8, no
as expectativas dos pesquisadores. 23, págs. 796-807, agosto de 2012. www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22734691
Emily Whitehead tinha cinco anos, em maio de 2010, ao ser National Institutes of Health’s gene therapy site: http://ghr.nlm.nih.gov/hand-
diagnosticada com leucemia. Duas rodadas de quimioterapia não book/therapy
funcionaram. Na primavera de 2012, “ela recebeu um ciclo de qui-

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FOTOGRAFIA POR TRAVIS RATHBONE
G EO LO G I A

AS
O
R CHA S
A T A
MAIS
N IG S
DA TERRA
Uma equipe de cientistas acredita que rochas antigas
descobertas no norte do Canadá sejam uma janela
para a infância do planeta e para a origem da vida.
Outra equipe alega que elas não têm nada de especial.
Por Carl Zimmer

EM SÍNTESE

Rochas recentemente recuperadas da fronteira nor- mais antiga coloca essas rochas próximas ao período mordial. Se as rochas tiverem 4,4 bilhões de anos,
deste da baía de Hudson, no Canadá, podem ser as da formação da Terra. Resolver esse debate depende podem fornecer claros indícios de como a Terra tomou
mais velhas já encontradas, mas cientistas estão deba- da melhoria dos métodos de datação de átomos em forma, quando os oceanos se compuseram e quanto
tendo se elas têm 3,8 ou 4,4 bilhões de anos. A datação pequenas amostras de rochas formadas na Terra pri- tempo, depois disso, a vida começou.

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Carl Zimmer é colunista no The New York Times e
autor de 13 livros, incluindo Evolution: making sense
of life. Seu último artigo para a IY_[dj_ÒY7c[h_YWdfoi

O cinturão de sobre o colapso das redes de alimentação.

pedras verdes, ou
nefrita, de
de que dispõem vêm de pequenos pedaços de minerais sugerindo,
por exemplo, que os oceanos se formaram antes da Lua. Eles estão
na mesma situação dos biógrafos dos antigos filósofos gregos, ten-
tando extrair o máximo de significado de remanescentes de perga-

Nuvvuagittuq minhos e relatos de segunda mão.


Se O’Neil estiver certo e as rochas de Nuvvuagittuq tiverem
mesmo 4,4 bilhões de anos, elas não serão pedaços de pergaminho,

não parece mas livros inteiros. Milhares de acres de minerais estão esperando
para ser estudados, talvez guardando as respostas de grandes mis-
térios. A tectônica de placas começou bem cedo na história ou a
Terra amadureceu por centenas de milhões de anos antes de os con-

um campo de tinentes e de a crosta oceânica começarem a se mover? Qual era a


química dos oceanos e da atmosfera daquele tempo? Quanto tempo
após a formação da Terra a vida se manifestou?

batalha. Se Mojzsis estiver correto, o capítulo mais antigo da história da


Terra permanecerá indefinido. Mas se O’Neil tiver razão, as rochas
de Nuvvuagittuq estão entre os mais preciosos tesouros da geologia.

Ele se encontra em profundo e pacífico isolamento na fronteira nor- PRESO EM ROCHA


deste da baía de Hudson no Canadá, a mais de 30 km de Inukjuak, o DA MESMA FORMA que as rochas que formam a maior parte da crosta
assentamento humano mais próximo. Da margem da praia, o terre- terrestre, o material em Nuvvuagittuq geralmente surge de duas
no aberto cresce em colinas, algumas cobertas com liquens, outras formas. Em alguns casos, finas partículas assentadas no fundo dos
desnudadas pelos glaciares da Era do Gelo. As rochas expostas são oceanos, onde foram gradualmente pressionadas em camadas de
belíssimas em sua complexidade distendida e dobrada. Algumas são rocha sedimentar. Em outros casos, sob a forma magma derretido
cinza e negras, transpassadas por veios claros. Outras, rosadas, sal- jorrado do manto da Terra, resfriando-se e cristalizando-se em
picadas com granadas. Na maior parte do ano, os únicos visitantes rochas ígneas conforme emergiam.
aqui são renas e mosquitos. Apenas uma pequena fração da crosta antiga, em lugares como
Mas esse tranquilo local é, na verdade, um campo de batalha – Nuvvuagittuq, permaneceu intacta. Algumas rochas foram lenta-
mas de um ponto de vista científico. Por quase uma década, equipes mente erodidas pela chuva e vento e novamente levadas para o
rivais de geólogos têm viajado a Inukjuak, onde carregam canoas oceano, para um novo processo de sedimentação. Muitas outras
com equipamentos de camping e de laboratório e viajam ao longo foram carregadas de volta para as entranhas da Terra pelas placas
da costa da baía até o cinturão. O objetivo: provar o quanto aquelas tectônicas que mergulharam no manto quente, onde derreteram
rochas são antigas. Uma das equipes, liderada pelo geólogo Ste- perdendo sua identidade original, misturando-se ao magma e res-
phen J. Mojzsis, da University of Colorado, está certa de que a idade surgindo como rocha nova.
é de 3,8 bilhões de anos. Isso é bem antigo, mas não é um recorde. Rochas também eram destruídas por asteroides gigantes que se
Jonathan O’Neil, que lidera a equipe rival, da University of chocavam com a Terra e derretiam grandes porções da crosta. Há
Ottawa, alega que as rochas de Nuvvuagittuq se formaram há 4,4 4,4 bilhões de anos aproximadamente uma colisão – chamada o
bilhões de anos. Isso faria dessas rochas, de longe, as mais antigas já Grande Impacto – atirou grande quantidade de material em órbita,
encontradas. E não apenas isso. Rochas tão antigas assim nos o que gerou a Lua. “O Grande Impacto provavelmente provocou
diriam como a superfície do planeta se formou em sua infância vio- um caos na Terra”, avalia Richard W. Carlson, do Carnegie Institu-
lenta e quanto tempo depois surgiu a vida – capítulo essencial na tion for Science. “Você não iria querer estar lá. Talvez preferisse as-
biografia da Terra, que até agora esteve fora de alcance. sistir esse show em Vênus.”
Os primeiros 500 milhões de anos da história da Terra – dos Como grande quantidade de rocha antiga foi destruída de uma
4,568 bilhões de anos de sua formação até 4,0 bilhões de anos atrás ou outra forma, não é surpresa que as amostras sejam raras. É exa-
– foram uma época em que a chuva caía para formar oceanos e as tamente por isso que os achados de Nuvvuagittuq são tão celebra-
primeiras terras secas despontaram na superfície do mar para dos – e tão contestados. Poucos outros lugares do mundo fornece-
formar os continentes. Foi um tempo em que cometas e asteroides ram amostras com 3,8 bilhões de anos. A mais antiga veio da tundra
se chocavam constantemente com a Terra, e em que um planetoide dos Territórios do Noroeste, um dos três territórios do Canadá, da-
do porte de Marte também se chocaria com o planeta para formar a tando de 3,92 bilhões de anos.
Lua a partir dos destroços lançados no espaço. Os geólogos, no en- A raridade das rochas antigas fez com que os geólogos procuras-
tanto, têm poucas pistas do tempo exato desses eventos, e as poucas sem outras pistas sobre como o planeta se mostrou em seus primei-

48 Scientific American Brasil | Abril 2014


FOTOGRAFIAS POR TRAVIS RATHBONE (ESQUERDA) E JAMIE KRIPKE (DIREITA)
ROCHAS DA DISCÓRDIA: Jonathan O’Neil (esquerda) insiste que suas rochas são um registro de 4,4 bilhões de anos.
Stephen J. Mojzsis diz que eles têm 3,8 bilhões.

ros milhões de anos. Algumas dessas pistas vieram de minúsculos região nordeste da província. A região tem uma geologia de cama-
cristais chamados zircões. Esses minerais rugosos, à base de zircô- das, com antigos caroços da crosta continental envolvidos por ca-
nio, algumas vezes se formam no magma, enquanto essa massa se madas rochosas mais jovens. Muito da rocha tem cerca de 2,8 bi-
resfria. Quando, posteriormente, as rochas resultantes são erodi- lhões de anos, mas Pierre Nadeau, então doutorando na Simon
das, alguns dos zircões podem permanecer intactos, mesmo Fraser University, Colúmbia Britânica, trouxe amostras que data-
quando se assentam novamente no solo do oceano e sejam incorpo- vam de 3,8 bilhões de anos. Por pura sorte, ele havia sido enviado ao
rados nas rochas sedimentares mais novas. cinturão de nefrita de Nuvvuagittuq. “Encontrar essas rochas foi
As ligações químicas que constroem os zircões podem aprisio- como ter uma joia jogada no colo”, disse Ross Stevenson, colabora-
nar elementos radioativos como o urânio. O decaimento desses dor de Nadeau, à BBC em 2002, após os resultados.
átomos age como um relógio que geólogos usam para medir a idade Outros geólogos começaram a longa jornada a Nuvvuagittuq.
dos zircões. Os cristais também aprisionam outros compostos capa- Entre esses peregrinos, O’Neil, que estava para receber seu título de
zes de fornecer algumas pistas de como era a Terra quando se Ph.D. na McGill University. Ele estava impressionado pela similari-
formou. “Zircões são excelentes porque eles são cápsulas do tempo”, dade química entre as rochas de Nuvvuagittuq e as formações de
avalia Mojzsis. 3,8 bilhões de anos da Groenlândia. Talvez elas pertencessem à
No interior da Austrália, geólogos encontraram rochas sedi- mesma massa antiga de terra.
mentares salpicadas com zircões muito antigos. Alguns (mas não as Para testar a química, O’Neil se juntou a Carlson, da Carnegie
rochas ao redor) datam de 4,4 bilhões de anos, fazendo deles os Institution, especialista em medição de precisão de rochas antigas.
mais velhos resquícios da história geológica já encontrados. Cientis- O único método objetivo para determinar se uma rocha específica
tas têm obtido informações incríveis dessas minúsculas gemas. Sua de Nuvvuagittuq é antiga ou não é datá-la. Para isso, cientistas
estrutura sugere que as rochas em que eles se formaram original- contam os níveis dos isótopos radioativos aprisionados nesse mate-
mente tenham se solidificado cerca de 6 km abaixo da superfície. rial. Os isótopos radioativos são variações dos átomos que integra-
Mojzsis e seus colegas também encontraram impressões digitais ram a nuvem de poeira da qual nasceu o Sistema Solar. Eles foram
químicas de água em alguns dos zircões australianos. incorporados aos planetas e meteoritos no processo de solidificação
A informação que os cientistas podem extrair dos zircões sedi- e, quando as rochas na Terra se cristalizaram, acabaram aprisiona-
mentares é melhor que nada, evidentemente, mas muito menos dos. Com o tempo, no entanto, eles decaem. Medindo os níveis res-
que poderiam obter das rochas originais em que crescem os zircões. tantes de isótopos, conhecemos a idade do material analisado.
Rochas contêm muitos outros minerais que, em conjunto, podem No laboratório da Carnegie Institution, O’Neil e Carlson calcula-
revelar muito mais sobre como era a Terra em seus primórdios. E é ram a concentração dos diferentes isótopos nas rochas em exame.
isso que nos traz a Nuvvuagittuq, argumenta Larry Heaman, da Foi quando perceberam algo realmente estranho nas amostras de
University of Alberta. Nuvvuagittuq. Entre os isótopos estava um conhecido como neodí-
mio 142 (142Nd), que se forma do decaimento do samário 146
PURA SORTE (146Sm). Não há mais 146Sm natural na Terra, pois sua meia-vida é
NO FIM DA DÉCADA DE 90, o governo de Quebec lançou uma grande ex- curta, de cerca de 68 milhões de anos. “Foi-se há muito”, lamenta
pedição geológica para elaborar os primeiros mapas detalhados da Carlson. “Samário 146 esteve presente quando a Terra se formou,

www.sciam.com.br 49
D I S C R I M I NAÇÃO D E I DA D E S

Como Datar

ALTA
Razão entre neodímio 143 e neodímio 144
uma Rocha a roc
ha

d ed
Medir os níveis de átomos em uma rocha pode
a ida
revelar sua idade. Quando as primeiras rochas ce
rne
enrijeceram, aprisionaram variações, ou isóto- a fo
linh
da

Temp
pos, de átomos radioativos em sua estrutura. Ao
ção
longo de milhões de anos os isótopos radioativos lina

o
nc
lentamente foram decaindo a uma taxa constan- Ai
te, única para cada elemento, como um relógio,
em outros isótopos. O samário 147 (o “pai”), por Razão na época
da formação

BAIXA
xĀx­Ç§¸jlx`Džx­³x¸lŸ­ž¸¿ðɸى§š¸ÚÊÍ' Amostra 1 Amostra 2 Amostra 3
da rocha
número de átomos pai gradualmente decresce
x³ÔøD³î¸¸³ù­x߸lxE¸ä‰§š¸äDø­x³îDÍ BAIXA ALTA
Razão entre samário 147 e neodímio 144
Alguns átomos estáveis relacionados aos
E¸ä‰§š¸äîD­Uy­‰`D­DÇߞ䞸³Dl¸ä`¸­¸
ocorre com o neodímio 144. Átomos estáveis rocha: quanto mais íngreme a inclinação, maior ßx§¹ž¸äiDßDąT¸lxøßF³ž¸öð}x`šø­U¸öćéx
³T¸lx`Dx­jlx­¸l¸ÔøxäøDDUø³lF³`žD o decaimento e mais velha a amostra. DßDąT¸x³îßxøßF³ž¸öðŠx`šø­U¸öćèÍ
permanece a mesma ao longo do tempo. Fazen- 0xäÔøžäDl¸ßxäøäDßD­þEߞ¸älxääxä­yî¸- Ç߸ǹäžî¸j¸…D­¸ä¸­yî¸l¸lxÙlDîDcT¸
l¸ø­ßE‰`¸lDßDąT¸x³îßxE¸äÇDžx dos para datar as rochas do cinturão de nefrita ǸßßDlž¸`DßU¸³¸Új…ßxÔøx³îx­x³îxøäDl¸Ǹß
E¸äxäîEþxžäxDßDąT¸x³îßxE¸ä‰§š¸äx de Nuvvuagittuq, no Canadá. Há sempre uma arqueólogos, funcionaria em princípio, mas
átomos estáveis, para os diferentes minerais na margem de erro, evidentemente, de modo que ǸßÔøx¸`DßU¸³¸¿lx`Džßx§DîžþD­x³îxßEǞl¸j
߸`šDj¸Uîy­äxD§ž³šDþžäîD³¸ßE‰`¸D`ž­DjK x§xäîD­Uy­DþD§žDßD­¸äßxäø§îDl¸älxø­ ä¹ǸlxlDîDßD­¸äîßDäDîy`xß`Dlxéć­ž§
direita. A inclinação da linha fornece a idade da ­yî¸l¸­Džä`¸­Ç§xĀ¸Ôøx`¸­ÇDßDl¸žä anos. – Os Editores

porque foi injetado pela supernova que deu início ao Sistema Solar. Bernard Bourdon, colaborador de Mojzsis, da Escola Normal
Mas então ele decaiu totalmente ao longo de 500 milhões de anos.” Superior de Lyon, na França, pediu que O’Neil lhe fornecesse algu-
Carlson e seus colegas descobriram que rochas diferentes de Nu- mas amostras para testá-las novamente. As medidas de neodímio
vvuagittuq tinham diferentes proporções de 142Nd e outros isótopos estavam corretas. Mojzsis ainda argumenta: “Não faz sentido”.
de neodímio. Essa variação só poderia existir se as rochas tivessem se Assim, em 2011, Mojzsis e seus estudantes retornaram a Nuv-
formado numa época em que ainda existia samário 146 na Terra. vuagittuq para estudar mais o local. Eles mapearam o terreno e as
O’Neil, Carlson e seus colaboradores compararam as proporções camadas de rocha ao redor das amostras que O’Neil havia datado.
para estimar há quanto tempo as rochas se formaram. O resultado Nas rochas que O’Neil alegou terem 4,4 bilhões de anos, a equipe
foi o que nenhum deles previra: 4,28 bilhões de anos. Para grande encontrou bandas verdes brilhantes de quartzito. Mojzsis decidiu
surpresa, eles haviam descoberto as rochas mais antigas da Terra. que essa seria uma maneira de testar se as rochas de Nuvvuagittuq
“Definitivamente, não era isso que esperávamos encontrar”, eram mesmo as mais velhas do planeta.
relata O’Neil. Ele e equipe relataram as descobertas em 2008. Desde Geólogos já observaram arranjos similares em formações muito
então têm analisado outras amostras e agora as estimativas são de mais jovens. Elas ocorrem quando vulcões submersos espalham
que as rochas de Nuvvuagittuq tenham 4,4 bilhões de anos. lava derretida sobre o solo oceânico. Algumas vezes os vulcões ador-
mecem e os sedimentos do solo se assentam sobre as rochas ígneas.
ANTIGAS OU AS MAIS ANTIGAS? Então os vulcões acordam novamente e enterram a rocha sedimen-
O’NEIL E SEUS COLABORADORES anunciaram seus resultados primeiro, tar sob nova camada de rocha ígnea.
em uma conferência de geologia em Vancouver. Mojzsis ainda se Se esse for o caso em Nuvvuagittuq, então o quartzito teria
lembra do choque que sentiu: “Meu queixo caiu. Olhei em volta e as vindo de sedimentos de uma antiga massa de terra durante uma
pessoas estavam atordoadas. Eu pensei: ‘Isso é muito peculiar’”. dessas pausas vulcânicas. E se esses quartzitos tivessem zircões,
Mojzsis tinha uma razão particular para a surpresa. Ele estava esses zircões teriam de ser mais velhos que a rocha vulcânica ao
entre os poucos geólogos que haviam viajado a Nuvvuagittuq para redor, porque eles teriam uma história muito mais antiga.
dar sequência às pesquisas de Nadeau. Ele e seus colaboradores “Estávamos rastejando sobre muitos afloramentos naqueles
identificaram um veio de rocha ígnea que tinha atravessado a dias”, conta Mojzsis. Depois de vários dias de caça eles encontraram
crosta depois que ela se formou. Esse veio continha zircões. De volta dois trechos de quartzitos com zircões e um deles produziu milha-
ao Colorado, dataram os zircões em 3,75 bilhões de anos – resultado res dos pequenos minerais. Quando levaram as amostras de volta
que batia muito bem com as estimativas originais de Nadeau, de 3,8 para o Colorado, Mojzsis descobriu que eles tinham 3,8 bilhões de
FONTE: JONATHAN O’NEIL

bilhões de anos. anos. Isso era exatamente o que eles não esperavam encontrar em
Agora, ali estava O’Neil, cara a cara com Mojzsis e o resto da co- rochas de 4,4 bilhões de anos.
munidade científica, alegando que as rochas de Nuvvuagittuq eram O grupo de Mojzsis abordou essa questão também de outros
meio bilhão de anos mais antigas. pontos de vista científicos. Eles usaram outro referencial para datar

50 Scientific American Brasil | Abril 2014


as rochas como, por exemplo, o decaimento do lutécio em háfnio. rochas realmente se parece com um solo oceânico”, diz ele.
Mais uma vez, a idade era 3,8 bilhões de anos. Se isso for verdade, confirmaria que a Terra teve um oceano
Todas essas evidências levaram Mojzsis a uma nova narrativa pouco tempo depois do Grande Impacto. O’Neil também pensa
sobre Nuvvuagittuq. Segundo ele, por volta de 4,4 bilhões de anos, que a química das rochas é muito similar às rochas do solo oceâ-
rocha derretida aflorou na superfície da Terra e se solidificou. Con- nico que se formaram mais recentemente. Isso sugeriria que
forme ela cristalizava, capturava um pouco do samário 146 que quando os oceanos da Terra apareceram, não eram tão diferentes
ainda restava na jovem Terra. A crosta antiga então submergiu no- de hoje. O’Neil acredita que as rochas mostram sinais de tecto-
vamente no manto e o material se aqueceu a ponto de não ser mais nismo, sugerindo que esse processo começou muito cedo na his-
uma rocha, mas nem tudo se misturou ao manto. Um pouco desse tória do planeta.
material permaneceu como um aglomerado distinto com seu pró- Há ainda um prospecto muito mais excitante se as rochas de
prio nível peculiar de neodímio. Finalmente, 600 milhões de anos Nuvvuagittuq tiverem mesmo se formado em solo oceânico há 4,4
depois, a atividade vulcânica empurrou o material de volta à super- bilhões de anos: elas iluminariam a origem da vida. Até agora, a
fície, criando a rocha que incorporou parte daquele aglomerado trilha dos fósseis chega friamente a 3,5 bilhões de anos. Em rochas
antigo juntamente com sua assinatura de 4,4 bilhões de anos. mais jovens que isso, cientistas encontram bactérias preservadas.
“Aquele material fundido pode ter memória de sua existência Em rochas mais velhas, não encontram coisa alguma.
prévia”, acredita Mojzsis. Como resultado, a rocha de apenas 3,8 bi- Mas fósseis não são as únicas características que a vida deixa
lhões de anos pode aparentar 4,4 bilhões. para trás. Conforme as bactérias se alimentam de carbono, podem
alterar o balanço de isótopos desse elemento químico no ambiente,
O MISTÉRIO DO ZIRCÃO EXPLICADO e esse desequilíbrio pode estar preservado em rochas que se forma-
MOJZSIS E SEUS COLABORADORES vêm apresentando esses resultados ram à época. Alguns pesquisadores alegam que as rochas de 3,8 bi-
em conferências de geologia, às vezes na mesma sessão em que lhões de anos da Groenlândia têm marcas desse desequilíbrio, uma
O’Neil exibe resultados opostos – que as rochas se formaram há 4,4 assinatura da vida.
bilhões de anos e simplesmente permaneceram na crosta terrestre Ainda assim, não há evidências de vida nos primeiros 700 mi-
desde então. A equipe de O’Neil voltou a Nuvvuagittuq, aumentan- lhões de anos da Terra. Assim, cientistas não podem dizer se a vida
do sua coleção de rochas antigas de 10 para 50. Nenhum dos novos começou rapidamente no planeta ou demorou centenas de milhões
dados abalou a estimativa original da idade do sítio. O’Neil também de anos. Eles ainda devem descobrir onde a vida começou no plane-
rejeita a evidência que Mojzsis e seus colegas usam para argumen- ta. Alguns pesquisadores sugerem que moléculas biológicas emer-
tar que Nuvvuagittuq tem apenas 3,8 bilhões de anos. “Estamos em giram em desertos ou piscinas de maré. Outros defendem que as
intenso desacordo sobre a geologia da região”, enfatiza O’Neil. fontes hidrotermais dos oceanos foram os berçários originais.
Considere-se a camada de quartzito onde Mojzsis encontrou os Se as rochas de Nuvvuagittuq se formaram em solo oceânico há
zircões. Em formações tão antigas quanto as do caso de Nuvvuagit- 4,4 bilhões de anos, elas são o material perfeito para estudar essas
tuq, não é tão simples identificar que tipos de rochas integram uma questões. O’Neil espera colaborar com outros pesquisadores para
formação, porque ela se deformou muito ao longo de bilhões de constatar se as rochas poderiam ter se formado em fontes hidroter-
anos. O’Neil não acredita que a faixa de quartzito seja realmente mais. “Não podemos ignorar essas rochas. É o lugar ideal onde a
quartzito. Em vez disso, argumenta, é um veio de magma empurra- vida pode ter se formado”, diz.
do para dentro das rochas antigas há 3,8 bilhões de anos. Desse Encontrar as mais antigas características da vida é uma obsessão
modo, a idade dos zircões não tem relação com a idade das rochas para Mojzsis, mas ele não as procurará nas rochas de Nuvvuagittuq.
ao redor. “Não há nada bizarro ou incomum”, diz O’Neil sobre suas Mojzsis vê um grande benefício surgir do desacordo dele com
próprias rochas. “Elas são apenas muito velhas.” O’Neil e outros pesquisadores. Conforme eles discutem, aperfei-
Heaman, ele mesmo especialista em rochas antigas, pensa que çoam métodos para datar rochas em geral. Gerações futuras de geó-
O’Neil e seus colaboradores têm um bom argumento. “Acredito que logos que se aventurarem em regiões remotas do mundo e trouxe-
a evidência deles é forte”, diz. “Eles fizeram um trabalho cuidadoso.” rem amostras enigmáticas serão capazes de usar esses métodos e,
Mas Heaman também pensa que alguma incerteza permanecerá finalmente, estudar os primórdios da Terra. E nesse ponto, O’Neil e
até que os cientistas encontrem uma nova maneira de datar as Mojzsis concordam. “Provavelmente, todos esses pequenos encra-
rochas. É possível que alguns minerais estejam à espreita nas con- ves de rochas antigas estão por toda parte”, prevê O’Neil. “Acontece
testadas rochas de Nuvvuagittuq que contêm urânio e chumbo. que eles passam despercebidos.”
Essa combinação é a maneira mais confiável de contar o tempo pas-
sado, uma vez que os cientistas têm vasta experiência com ela. “Se
PA R A C O N H E C E R M A I S
alguém encontrar o material certo e obtiver uma idade muito
antiga, então a comunidade científica estaria mais aberta à ideia de D¨†DUŸ¨¨Ÿ¹´ĂyDà幆àyĀ¹à§Ÿ´‘¹†›DmyD´®DŠ``àùåïï¹Èà¹mù`yï›y%ùÿÿùD‘ŸïïùÕ
que há alguma crosta muito antiga exposta”, considera Heaman. eoarchean felsic crust. Jonathan O’Neil et al. em Earth and Planetary Science Letters,
vol. 379, páginas 13 a 25, 2013.
2ymù`ymjàyùåymD´mày`Ă`¨ymimyïàŸïD¨Ɵà`¹´åmyŠ´yD®DāŸ®ù®D‘y†¹àï›yy¹Dà`›y-
QUANDO A VIDA SE FORMOU D´Ê`DÎñé‹Ĉñé~Ĉ$DË%ùÿÿùD‘ŸïïùÕåùÈàD`àùåïD¨Uy¨ïj1ùyUy`Ê D´DmDËÎ Nicole L.
SE AS ROCHAS DE NUVVUAGITTUQ têm mesmo 4,4 bilhões de anos, Cates et al. em Earth and Planetary Science Letters, vol. 362, páginas 283 a 293, 2013.
O’Neil acredita que elas teriam o potencial para abrir uma The story of Earth. Robert Hazen. Viking, 2012.
enorme janela para a Terra jovem, porque teriam se formado D E N OSSOS A RQU I VOS
pouco depois do Grande Impacto. Os zircões australianos
A origem violenta dos continentes Sarah Simpson, março de 2010.
também estavam se formando àquela época, quilômetros no in-
A Terra esfriou mais cedo? John W. Valley, dezembro de 2005.
terior do manto. Mas O’Neil argumenta que as rochas de
Nuvvuagittuq se formaram na superfície. “A geoquímica dessas

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T EC N O LO G I A DA I N FO R M A Ç Ã O

O autor desejava criar um


software que navegasse no
jargão médico. Acabou
descobrindo plágio
generalizado e centenas de
milhões de dólares em
possíveis fraudes
Por Harold “Skip” Garner

EM 1994 EU ME REINVENTEI. Como físico e enge- listas de palavras que nunca tinha ouvido e depois passava horas
nheiro da General Atomics fazia parte de um grupo interno de re- procurando-as no dicionário. Para ler um artigo científico precisava
flexão encarregado de responder perguntas difíceis de qualquer de um dicionário médico.
parte da empresa. Nesses anos, trabalhei em projetos tão diversos Frustrado com a minha incapacidade de entender qualquer
como fusão a frio e drones Predator. Mas, no início da década de 90, parte de texto em sequência, decidi desenvolver um software para
frequentemente colaborava com biólogos e geneticistas. Eles me me ajudar. Queria um mecanismo de busca que consideraria um
diziam que novas tecnologias precisavam para fazer suas pesquisas trecho de texto e retornaria referências para leitura posterior, resu-
e eu tentava desenvolvê-las. mos e trabalhos que rapidamente me levariam ao tema em questão.
Por volta dessa época ouvi falar de uma nova iniciativa, o Proje- Era um problema difícil. Os mecanismos de busca na internet esta-
to Genoma Humano. O objetivo era decifrar a sequência dos cerca vam apenas começando. Eram bons para encontrar o melhor res-
de três bilhões de bases de DNA, ou letras de código, em cromosso- taurante de falafel [bolinhos fritos de grão-de-bico ou fava moídos]
mos humanos. Fiquei fascinado. Por acaso li um artigo nesta revista da cidade, mas não conseguiam digerir um parágrafo com concei-
observando que algumas das tecnologias necessárias ainda precisa- tos múltiplos inter-relacionados e me apontar leituras afins.
riam ser desenvolvidas. Físicos e engenheiros precisavam concreti- Comecei a estudar análise de texto com alguns estudantes e
zar essas criações e, antes que percebesse, eu me vi professor do pós-doutorandos e, juntos, desenvolvemos um software denomi-
Southwestern Medical Center da University of Texas, onde meu nado eTBLAST (electronic Text Basic Local Alignment Search Tool,
parceiro científico, um geneticista, e eu construímos um dos pri- em inglês), inspirado na BLAST, ferramenta de software usada
meiros centros de pesquisa do Projeto Genoma Humano. para pesquisar bancos de dados de DNA e sequência de proteínas.
FOTOS DE ADAM VOORHES

Lá tudo era diferente. Meus colegas falavam uma linguagem di- Uma busca típica na BLAST costumava ser uma série de 100 a 400
ferente – a medicina. Eu falava física. Na física, as equações básicas letras de DNA e devolveria sequências mais longas, que incluíssem
governam quase tudo. Na medicina não há equações universais – esses códigos. A busca na eTBLAST seria um parágrafo ou página –
apenas muitas observações, alguma compreensão por partes e basicamente com 100 palavras ou mais. Projetar o protocolo de
muitos jargões. Eu participava de seminários e anotava enormes busca foi mais difícil que projetar o software para procurar uma

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sequência de letras, pois o mecanismo de busca não poderia ser Harold “Skip” Garner é professor de ciências biológicas,
meramente literal. Ele também tinha de reconhecer sinônimos, ciências da computação e medicina na Virginia Tech e um
empreendedor em série. Fundou a HelioText, uma
siglas e ideias relacionadas expressas com palavras diferentes e de-
empresa de análise de texto, e faz parte do conselho de
veria considerar a ordem das palavras. Em resposta a uma busca assessores da IY_[dj_ÒY7c[h_YWd.
que consistia em um trecho de texto, a eTBLAST devolveria uma
lista ordenada das “ocorrências” do banco de dados de referência,
juntamente com uma proporção de similaridade entre a busca e
cada texto encontrado. começamos a ver que cerca de 5% tiveram pontuação suspeita de
O banco de dados óbvio a pesquisar era a Medline (disponível alta similaridade. Analisamos esses resumos e os lemos para garan-
na PubMed em pubmed.org), o repositório de toda pesquisa bioló- tir que o software encontrava coisas que um ser humano considera-
gica relevante para a medicina mantido pela Biblioteca Nacional de ria semelhantes. Depois prosseguimos comparando o texto integral
Medicina dos National Institutes of Health. Ele contém o título e o dos documentos que exibiam resumos suspeitos similares.
resumo de milhões de trabalhos de pesquisa de milhares de revistas Logo começamos a encontrar exemplos flagrantes de plágio –
especializadas revisadas por pares. A Medline tinha um mecanismo não apenas frases recicladas, mas resumos inteiros por baixo do
de busca baseado em palavra-chave, portanto, uma consulta – por pano. Foi decepcionante, até mesmo surpreendente. Claro que
exemplo, “genes de câncer de mama” – devolveria inúmeras ocor- sabíamos que pesquisas diziam que 1,4% dos pesquisadores admi-
rências, muitas vezes com links para artigos completos. Mas como tiam plágio, mas é uma coisa muito diferente ver exemplos de tra-
pesquisador biomédico recém-convertido eu nem sabia como co- balhos plagiados lado a lado. Para os alunos, em particular, o pro-
meçar muitas das minhas pesquisas. cesso foi emocionante. Sentiam-se como combatentes do crime e,
As primeiras versões da eTBLAST levaram horas para comparar em certo sentido, eram mesmo.
um parágrafo de algumas centenas de palavras na Medline, mas o O passo seguinte foi ampliar a computação e a análise. Para
software funcionou. Usando a eTBLAST eu poderia examinar arti- sermos minuciosos, queríamos fazer a busca de similaridade em
gos científicos, dominando seu significado parágrafo a parágrafo. cada ocorrência de tamanho suficiente na Medline – na época, cerca
Poderia examinar uma proposta de tese de um estudante de pós- de nove milhões de ocorrências, cada uma contendo uma média de
graduação e rapidamente chegar à literatura pertinente. Meus par- 300 palavras, multiplicadas por quase nove milhões de compara-
ceiros de pesquisa e eu até falamos com o Google sobre a comercia- ções. A tarefa levou meses e consumiu uma quantidade considerável
lização de nosso software, mas fomos informados de que ele não se do poder computacional de nosso laboratório. Conforme os resulta-
encaixava no perfil de negócios da empresa. dos surgiram, analisamos e colocamos todos os resultados muito se-
Então, os acontecimentos tomaram um rumo inesperado. Algu- melhantes em um banco de dados que chamamos de Déjà Vu.
mas vezes encontrei texto de propostas estudantis idêntico ao de O Déjà Vu começou a se encher com pares de resumos da
outros estudos não mencionados. Esses alunos receberam treina- Medline muito semelhantes – cerca de 80 mil pares, semelhantes
mento corretivo sobre formação ética. Recebi uma pergunta para em pelo menos 56%. A maioria desses pares era muito semelhan-
pesquisa que mudaria a minha carreira: quanto da literatura bio- te por razões perfeitamente aceitáveis: eram atualizações de pu-
médica profissional foi plagiado? blicações antigas ou resumos de reuniões, por exemplo, mas
outros pareciam suspeitos.
DÉJÀ VU Apresentamos um texto à Nature contendo informações sobre a
QUANDO ME PROPUS A EXPLORAR essa nova pergunta a pesquisa frequência de plágios e a publicação duplicada (às vezes chamada de
sobre plágio em biomedicina era anônima. Na investigação mais autoplágio), detalhes sobre o conteúdo do banco de dados do Déjà Vu
recente que encontrei pesquisadores admitiram plagiar 1,4% do e alguns exemplos. (Scientific American faz parte do Nature Pu-
tempo, mas a precisão desse número dependia da honestidade blishing Group.) Os editores aceitaram, mas como nos referimos a
dos entrevistados. Com a eTBLAST, poderíamos verificar se alguns resumos como plagiados os advogados recusaram nosso
diziam a verdade. texto. Tinham um motivo excelente: as únicas pessoas que poderiam

PÁGINAS ANTERIORES: ROBIN FINLAY (COMPOSIÇÃO DE PÁGINAS)


Assim que tivemos auxílio suficiente dos estudantes e um com- determinar um plágio eram editores e conselhos de revisão ética. Po-
putador bastante poderoso selecionamos resumos aleatórios da deríamos apresentar apenas fatos – a quantidade de sobreposição de
Medline e depois usamos como consultas na eTBLAST. O computa- texto ou semelhança entre duas peças aleatórias de literatura cientí-
dor comparava o texto da busca com todo o conteúdo da Medline, fica. Por fim, com a aprovação dos advogados, foi o que fizemos.
buscando semelhanças e depois produzindo uma lista de ocorrên- Quando o relatório saiu na Nature, o mundo desabou. Os edi-
cias. Cada ocorrência vinha com uma pontuação de similaridade. A tores da revista ficaram chateados, pois isso lhes trouxe trabalho
consulta estava sempre no topo da lista – 100% de semelhança. A adicional. Para proteger os direitos de autores, os editores dos ar-
segunda ocorrência costumava ter uma pontuação de similaridade tigos originais tiveram de insistir para que os trabalhos plagiados
de dígitos entre um algarismo e 30%. Ocasionalmente, porém, veri- fossem recolhidos. O segundo editor, é claro, sentiu-se constran-
ficou-se que a segunda e, às vezes, a terceira ocorrência chegava a gido. Cientistas ficaram zangados, pois nossos resultados pare-
marcas próximas a 100%. Depois de analisar milhares de buscas, ciam expor uma falha na revisão por pares, mas a contragosto ad-

EM SÍNTESE

Por meio da prospecção da literatura síveis fraudes generalizadas. Atualmente, ar- ïàDUD¨›¹å ȨD‘ŸDm¹åÎ A análise de texto é àDàù®´¹ÿ¹®¹my¨¹myÈùU¨Ÿ`DcT¹`Ÿy´ï Š-
médica com o software de análise de texto o gumenta ele, a proliferação de revistas cien- uma ferramenta útil para a detecção de ca, possivelmente um único corpus eletrôni-
autor encontrou evidências de plágio e pos- `Då mùÿŸm¹åDå †D`Ÿ¨Ÿï¹ù D ÈùU¨Ÿ`DcT¹ my ȨE‘Ÿ¹j®DåïD¨ÿyĆyåïy¦D´D›¹àDmy`¹´åŸmy- co ao estilo da Wikipedia.

54 Scientific American Brasil | Abril 2014


mitiram que era um tema importante e um problema sério. Cien- tamento eTBLAST. O estudo exigiu 800 mil vezes 800 mil (cerca de
tistas e médicos tomam decisões críticas com base no que leem 1012) comparações e poder de supercomputador.
na literatura. Qual o significado disso se essas decisões foram ba- Depois de analisar os 1.600 resumos mais semelhantes com sub-
seadas em estudos contaminados? sídios descobrimos que cerca de 170 pares tinham objetivos, metas
Em última análise, determinamos que 0,1% das publicações ou hipóteses praticamente idênticos. Concluímos várias coisas: que
profissionais foram plagiadas descaradamente de trabalho a dupla obtenção de bolsas vinha ocorrendo de forma consistente
alheio. (Investigamos apenas textos que eram quase idênticos por um longo período, envolvendo as mais prestigiadas universida-
entre si, deve haver muitos mais casos em que pequenos frag- des americanas, e que a perda resultante para a pesquisa biomédica
mentos de trabalhos são plagiados, mas como nosso software chegava a US$ 200 milhões por ano.
procurou apenas resumos, ele não detectaria essas coisas.) Cerca
de 1% era autoplágio; obra de um autor que aparece, muitas O FUTURO DA PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA
vezes, quase na íntegra em até cinco revistas. Se essas percenta- UMA PEQUENA PORCENTAGEM de pessoas sempre quebra as normas da
gens parecem pequenas, lembre-se que cerca de 600 mil novos sociedade e cientistas não são exceção. Em tempos de desespero,
artigos biomédicos são publicados a cada ano. com o declínio de subsídios e a concorrência cada vez mais acirrada
Em pouco tempo percebemos que o processo de publicação por posições acadêmicas, alguns cientistas tendem a se comportar
começou a mudar. Editores de revistas começaram a usar a eT- mal. Na verdade, uma recente explosão de revistas duvidosas e
BLAST para verificar propostas de publicação. Eu também inescrupulosas transformou a publicação científica em um show de
mudei. Evoluí novamente, acrescentando “pesquisador de ética” faroeste. Nunca foi tão fácil encontrar um local para publicar seu
na descrição de meu trabalho. material, mesmo que ele seja obviamente plagiado.
A análise de texto oferece uma boa ferramenta para policiar o
POLICIAL DA ÉTICA mau comportamento, embora possa fazer muito mais que expor o
O PRIMEIRO GRANDE ESTUDO sobre plágio estava apenas começando. plágio. Poderia facilitar formas inteiramente novas de compartilha-
Compreender as causas do plágio e seus efeitos sobre a ciência exi- mento de pesquisa.
giria muito mais trabalho. Quando um texto repetido é aceitável? Uma ideia instigante é a adoção de um modelo de Wikipedia:
Quando e por que cientistas plagiam? Que outros tipos de compor- criar um corpus eletrônico dinâmico de trabalho sobre um assunto
tamento antiético a análise de texto poderia descobrir? Então, refi- que cientistas continuamente editariam e melhorariam. Cada “pu-
namos nosso software, expandimos nossos bancos de dados e assu- blicação” nova consistiria em uma contribuição para o crescente
mimos novos estudos. corpo único de conhecimento; essas partes com métodos redun-
Alguns dos nossos trabalhos posteriores revelaram nuances dantes se tornariam desnecessárias. O modelo Wikipedia seria um
inesperadas no debate sobre o plágio. Descobrimos que, em alguns passo em direção a um banco de dados central de todas as publica-
casos, a semelhança textual não só é aceitável, mas preferível. Na ções científicas em todas as disciplinas. Autores e editores pode-
parte de métodos de um trabalho de pesquisa, por exemplo, em que riam usar a prospecção de textos para verificar novidades em pes-
a consideração mais importante é a reprodutibilidade dos resulta- quisas recentes e desenvolver métricas confiáveis para o impacto de
dos, o fraseado comum serve ao propósito relevante de mostrar cla- uma ideia ou descoberta. O ideal é que, em vez de medir o impacto
ramente que exatamente o mesmo protocolo foi utilizado. de um trabalho pelo número de citações recebidas, teríamos de
Encontramos ainda alguns lapsos éticos verdadeiramente cho- medir sua influência em nosso conhecimento científico geral e até
cantes. Em um estudo publicado na revista Science, obtivemos os mesmo na sociedade.
exemplos mais flagrantes de plágio que poderíamos encontrar – Na Virginia Tech, para onde fui há quatro anos, lutamos para
pares de estudos em que o texto B era, em média, 86% idêntico ao A manter a eTBLAST em operação, mas o software ainda tem milha-
– e os analisamos em detalhe. Enviamos aos autores e editores en- res de usuários. Minha esposa e sócia no negócio, Kim Menier, e eu,
volvidos nesses estudos um e-mail com cópias com anotações nos enquanto isso, estamos otimistas com a análise de texto. Trabalha-
documentos, juntamente com pesquisas confidenciais. Eles esta- mos para aplicar o tipo de busca de semelhança de um parágrafo
vam cientes da semelhança? Haveria explicações? 90% das pessoas que descobriu tantos casos de plágio para outros fins também, in-
contatadas responderam. clusive a gestão de bolsas de estudo, a pesquisa de mercado e a au-
Alguns autores divulgaram violações éticas impressionantes. ditoria de patentes. Temos o próximo Google em nossas mãos?
Alguns admitiram que copiaram estudos enquanto revisavam – e Quem sabe? Falo por experiência própria ao dizer que a análise de
os criticaram negativamente para bloquear sua publicação. Alguns texto pode ser verdadeiramente reveladora. Ela já me provou que
colocaram a culpa pelo lapso em estudantes de medicina fictícios. cientistas podem ser tão falhos quanto qualquer um de nós.
Um autor disse haver plagiado um estudo como brincadeira. Só que
essa pessoa era o vice-presidente da comissão nacional de ética do
seu país. Sem surpresa, a maioria dos trabalhos contaminados na- PA R A C O N H E C E R M A I S
quele grupo foi desde então recolhida. Research funding: same work, twice the money? Harold R. Garner et al. em Nature, vol.
Essas não foram as últimas violações éticas que encontraría- 493, págs. 599-601, 31 de janeiro de 2012.
mos. No início de 2012 começamos a buscar casos de dupla obten- Systematic characterizations of text similarity in full text biomedical publications.
ção de subsídios, isto é, receber dinheiro de várias agências gover- Zhaohui Sun et al. em PLOS ONE, vol. 5, no 9, artigo no. e12704, 15 de setembro de 2010.
namentais para executar o mesmo trabalho. Baixamos resumos de Responding to possible plagiarism. Tara C. Long et al. em Science, vol. 323, págs.
aproximadamente 860 mil bolsas de agências governamentais e 1293-1294, 6 de março de 2009.
A tale of two citations. Mounir Errami e Harold Garner em Nature, vol. 451, págs.
privadas, inclusive as do National Institutes of Health, a National
397-399, 24 de janeiro de 2008.
Science Foundation, o Departamento de Defesa, o Departamento
de Energia e Susan G. Komen for the Cure e as submetemos ao tra-

www.sciam.com.br 55
ECO LO G I A

O
Renascimento
Genético da
Castanheira
Americana
Um fungo exótico quase
exterminou as florestas de
castanheiras antes tão vastas
na América do Norte. A
COM MAIS DE 20
METROS DE engenharia genética pode
ALTURA e 1,8 m de
diâmetro, uma das ressuscitá-las
maiores
castanheiras Por William Powell
americanas
sobreviventes
cresce no Oregon (à
esquerda). À
direita, uma folha
dessa espécie.
William Powell é codiretor do Programa de Pesquisa e
Restauração da Castanheira Americana na State University of New
York College of Environmental Science and Forestry. Ele é um
recente ganhador do Prêmio de Biotecnólogo Florestal do Ano,
concedido pela Forest Biotechnology Partnership do Institute of
Forest Biotechnology, a única organização dedicada à
ÒæÒÜr§ÜDO”›”fDfrfDO”«ÜrZ§«›«†”D«ÍrÒÜD›r¡rÒZD›D†›«OD›»

E
M 1876 SAMUEL B. PARSONS RECEBEU UM CARREGAMENTO DE SEMENTES DE CASTANHEIRAS
do Japão e decidiu cultivar e vender as árvores para pomares especializados. Sem
que soubesse, sua carga provavelmente abrigava um passageiro clandestino que
provocou um dos maiores desastres ecológicos a atingir o leste da América do
Norte. As árvores provavelmente abrigavam esporos de um fungo patogênico, o
Cryphonectria parasitica, contra o qual as castanheiras asiáticas, mas não suas
primas americanas, haviam desenvolvido resistência. O C. parasitica efetiva-
mente mata uma árvore suscetível por estrangulamento ao formar “cancros” —
áreas afundadas de tecido vegetal morto — em sua casca. Essas “feridas” circun-
dam o tronco e bloqueiam o fluxo de água e nutrientes entre raízes e folhas. Em apenas 50 anos
esse único fungo matou mais de três bilhões de castanheiras americanas.

Antes do início do século 20, a castanheira americana (Castanea apodrecimento, ela fornece madeira de excelente qualidade. De
dentata) compunha cerca de 25% das árvores de madeira de lei em fato, se as castanheiras ainda fossem abundantes, a maioria dos
sua área de proliferação nas florestas decíduas do leste americano e deques provavelmente seria feita com sua madeira em vez de com
de uma pequena região no Canadá. Florestas decíduas são aquelas madeira tratada a pressão, que muitas vezes contém metais pesa-
compostas principalmente por árvores que perdem suas folhas no dos e outros conservantes perigosos para o ambiente e a saúde
outono. Atualmente restam apenas uns poucos exemplares de cas- humana quando penetram no solo e em alimentos. Finalmente, a
tanheiras adultas, plenamente desenvolvidas, juntamente com mi- castanheira americana sempre foi uma árvore especialmente
lhões de tocos de raízes. De vez em quando esses “tocos vivos” conse- amada, imortalizada em poesias, canções, ruas, e nomes de escolas,
guem soltar alguns brotos que chegam a sobreviver por dez anos ou hotéis e parques distribuídos pelo país.
mais; mas as árvores raramente vivem tempo suficiente para produ- Não devemos ficar de braços cruzados enquanto a castanheira
zir sementes, porque o fungo quase sempre as faz regredir de novo. americana se torna apenas uma memória distante para a maioria
Em seu apogeu, a castanheira americana era uma espécie im- das pessoas. O ponto culminante de décadas de pesquisas sugere
portantíssima, indispensável à saúde de um grande número de or- que a ciência pode restaurar a árvore e todos os recursos que ela
ganismos em seu ecossistema. Muitas aves, insetos e pequenos ma- oferecia aos humanos e à vida selvagem. Após um século de esfor-
míferos diferentes nidificavam em seus galhos e se escondiam em ços frustrados para combater o cancro-da-castanheira, duas abor-
sua casca. Ursos, veados, perus, gralhas-azuis, esquilos e outros ani- dagens agora estão tendo algum sucesso. Uma estratégia tenta criar
mais consumiam as grandes e nutritivas castanhas. Depois da castanheiras americanas resistentes à doença fúngica com uma
perda de tantas castanheiras maduras as populações de animais antiga técnica da horticultura: a hibridização. Ao cruzarem casta-
selvagens diminuíram e ficaram menos diversificadas. Os carvalhos nheiras americanas com congêneres chinesas, menores, mas resis-
que desde então substituíram as castanheiras não conseguem sus- tentes a fungos, pesquisadores estão “retrocruzando” os híbridos
tentar tantos animais; seus frutos têm apenas metade do valor nu- resultantes com outras castanheiras americanas para americanizar PÁGINAS ANTERIORES: GARY BRAASH GETTY IMAGES (ÁRVORE); JOEL SARTORE (FOLHA)
tritivo das castanhas. Além disso, as castanheiras produziam quan- as árvores o máximo possível, na esperança de preservar todos os
tidades maiores de nozes que os carvalhos, em parte porque flores- genes responsáveis pela resistência fúngica. Mas, além de ser bas-
ciam depois de geadas que poderiam destruir os delicados botões. tante impreciso, o cultivo por retrocruzamento requer muitas gera-
A castanheira americana também tinha grande valor econômi- ções e milhares de árvores para produzir exemplares adequados.
co. Seus frutos podem ser utilizados como alimento ou para a pro- Por essas razões, meus colaboradores e eu estamos nos concen-
dução de combustível etanol. Como a árvore cresce rapidamente, trando em uma segunda abordagem, que se baseia em alterar o
tem madeira robusta, de textura uniforme, e é muito resistente ao DNA da castanheira de modo muito mais preciso que a criação

EM SÍNTESE

Em seu apogeu, antes do início do século 20, a castanheira lhões de árvores. Para restaurar a castanheira americana pesquisadores receberem aprovação federal para plantar
D®yàŸ`D´DŒ¹àyå`ŸD´D匹àyåïDå¹àŸy´ïDŸåmD ®zàŸ`Dm¹ alguns cientistas a hibridizaram com sua prima chinesa mais essas árvores transgênicas na Natureza, o que poderia acon-
Norte, proporcionando abrigo e alimento para muitas resiliente. Uma abordagem mais precisa e bem-sucedida tecer nos próximos cinco anos, a castanheira americana será
outras criaturas. Mas, em apenas 50 anos, um fungo estran- insere genes de trigo de outras plantas em castanheiras DÈàŸ®yŸàDȨD´ïD‘y´yïŸ`D®y´ïy®¹mŸŠ`DmDÈDàDàyåïDùàDà
geiro introduzido por humanos erradicou mais de três bi- americanas para produzir árvores resistentes a fungos. Se uma espécie ameaçada em sua área nativa de proliferação.

58 Scientific American Brasil | Abril 2014


tradicional e que tem o potencial de produzir maior quantidade
de árvores resistentes ao fungo mais rapidamente. Ao emprestar-
mos genes de trigo e da castanheira chinesa, entre outras plantas,
e inseri-los no genoma da castanheira americana, criamos cente-
nas de árvores transgênicas e algumas delas se defendem tão
bem, ou melhor que as primas asiáticas, contra o C. parasitica.
Se o Departamento da Agricultura (USDA), a Agência de Pro-
teção Ambiental (EPA), e a Food and Drug Administration (FDA)
americanas aprovarem nossas árvores, o que pode acontecer em
cinco anos, elas serão os primeiros organismos transgênicos utili-
zados para devolver uma espécie ao seu ambiente nativo.
Comparada a outras iniciativas para resgatar espécies amea-
çadas ou extintas, com engenharia genética e biotecnologias rela-
cionadas, como as propostas restaurações do pombo-passageiro,
do tilacino [conhecido como lobo-da-tasmânia ou tigre-da-tas-
mânia] e do mamute, a mobilização para ressuscitar a castanhei-
ra americana enfrenta muito menos obstáculos e oferece benefí-
cios muito mais claros. Ao contrário de mamutes e pombos clo-
nados, árvores não precisam de mães de aluguel, cuidados dos
pais ou socialização. E, como um organismo massivo que é lar
para muitos outros, a castanheira americana pode melhorar a
saúde da floresta mais que qualquer animal.

SEMENTES DA SALVAÇÃO
Como muitos adultos americanos da atualidade, tudo o que eu
sabia sobre castanhas enquanto crescia era o que aprendi de certa O FISIÓLOGO DE PLANTAS Gary J. Griffin do Virginia
canção natalina. Mas em 1983, quando me tornei estudante de Tech utiliza uma lente manual para examinar um cancro
inchado em uma castanheira infectada por um fungo nocivo.
graduação e trabalhava com o patologista vegetal Neal van Alfen,
então na Utah State University, desenvolvi profundo apreço pela
magnífica castanheira e sensibilidade por sua morte pelas mãos, ou o funcionamento de células fúngicas. Usando genes de AMP na rã-
melhor, pelos dedos fungais de um patógeno exótico. albina (ou rã-de-unhas-africana) como modelo, reunimos genes a
Em 1989, quando já havia me transferido para a State University partir do zero para produzir peptídeos AMP que podiam combater
of New York College of Environmental Science and Forestry, Stan o C. parasitica. Esperávamos que, se pudéssemos projetar as casta-
Wirsig da American Chestnut Foundation abordou meu colega nheiras para que elas produzissem até pequenas quantidades
Charles Maynard e a mim com uma proposta. Ele queria comple- desses peptídeos, elas “afrouxariam” os leques micélicos tornando-
mentar o programa de hibridização de castanheiras da fundação, os benignos. Mas, como esses peptídeos são moléculas notoriamen-
ativo até hoje, com um novo projeto de restauração focado em enge- te instáveis, precisávamos de um plano de contingência.
nharia genética que, à época, era uma tecnologia de ponta e prome- Mais ou menos à mesma época uma estudante de graduação,
tia uma maneira mais rápida e precisa para criar castanheiras ameri- Kim Cameron, passou em meu escritório e deixou um livro sumari-
canas resistentes. Uma de minhas tarefas era encontrar um gene zando muitos dos estudos apresentados no recente encontro anual
capaz de assegurar às árvores resistência ao C. parasitica, enquanto da Sociedade Americana de Biólogos de Plantas (ASPB). Quando li
Maynard e Scott Merkle, da University of Georgia, desenvolviam as sobre um estudo realizado por Ousama Zaghmout e Randy Allen,
técnicas que nos permitiriam introduzir esse gene em embriões de ambos então na Texas Tech University, tive uma intuição. O estudo
castanheiras — minúsculos aglomerados de células que se multipli- descrevia um gene de trigo para uma enzima chamada oxalato oxi-
cavam rapidamente e acabariam se transformando em árvores adul- dase (OxO), que decompõe ácido oxálico, a mesma substância cáus-
tas. Se tudo corresse conforme planejado, as jovens árvores se trans- tica produzida pelo fungo do cancro-da-castanheira. Melhor ainda,
formariam em adultas resistentes, capazes de combater o fungo. os pesquisadores haviam descoberto um meio de introduzir esse
À época, ninguém havia tentado criar geneticamente uma gene em outras plantas. Eles o colocaram o gene em Agrobacte-
árvore para combater um fungo virulento, mas tínhamos algumas rium, microrganismo capaz de injetar DNA no centro de comando
pistas sobre como começar. Ao longo dos anos pesquisadores de células vegetais, e expuseram plantas a clones desse microrga-
haviam descoberto alguns detalhes importantes sobre como o C. nismo. As plantas transgênicas resultantes se tornaram resistentes
parasitica danifica castanheiras. O patógeno desenvolve treliças a um fungo secretor de ácido, conhecido como Sclerotinia scleroto-
plumosas de tecido fúngico, chamadas “leques miceliais”, com pro- rium. Talvez pudéssemos fazer algo semelhante com a castanheira.
dução de ácido oxálico, que corrói a casca da árvore para abrir Àquela altura não podíamos testar nenhuma das abordagens
espaço para a invasão fúngica. À medida que o fungo penetra na em castanheiras, porque ainda estávamos tentando descobrir como
árvore, um chamado “cancro” cinge o tronco como um cinto. cultivar a melindrosa planta no laboratório. Portanto, decidimos
De início nos concentramos em encontrar um meio de enfra- obter uma prova de conceito em uma árvore diferente — o álamo
quecer os leques. Sabíamos que os sistemas imunes de muitas plan- [ou choupo] híbrido, que era bem estudado e frequentemente
GARY BRAASH

tas e animais contêm pequenas cadeias de aminoácidos conhecidos usado em experimentos. Haiying Liang, então uma estudante de
como peptídeos antimicrobianos (AMPs), que podem interromper graduação da College of Environmental Science and Forestry, intro-

www.sciam.com.br 59
M A I S U M A Á RVO R E T O M B A

O Que Aconteceu com


o Olmo Americano?
Em todo o país, o olmo americano já abrigou muitas ruas urbanas sob verdadeiras catedrais verdes. Além
de bela, a árvore era resistente e tolerava o compactado solo salgado e as secas periódicas características
da vida na cidade. Mas, como a castanheira americana, essa espécie nativa foi vitimada por um fungo
virulento da Ásia. Embora o olmo americano não esteja extinto, atualmente é raro em paisagens urbanas.
'¸§­¸D­xߞ`D³¸äø`ø­UžøDø­…ø³¸`¸³šx`žl¸`¸­¸ßD‰¸äx¸øÙl¸x³cDl¸¸§­¸š¸§D³lzäÚ
ÉÊlžääx­ž³Dl¸ǸßÙUxä¸ø߸älD`Dä`DÚÍ7­Dþxą³DEßþ¸ßxj¸…ø³¸`ßxä`xDîßDþyälxîøU¸älxĀž§x­Dj
`D³DžäÇDßDDlžäîߞUøžcT¸lxEøDxäDžä­ž³xßDžäÍ Eßþ¸ßxîx³îD`¸³îx߸…ø³¸DîßEälxÇDßxlxälxîx`žl¸äj
entupindo assim, inadvertidamente, suas próprias passagens, privando-se de sustento. Através de décadas
lx`ßøąD­x³î¸ääx§xîžþ¸äj³¸x³îD³î¸jÇxäÔøžäDl¸ßxäÇ߸løąžßD­öðþDߞxlDlxälx¸§­¸äD­xߞ`D³¸ä
tolerantes à DED, como os olmos New Harmony, Valley Forge e Liberty.
Lamentavelmente, a DED não é o único problema neste caso. Olmos americanos também são
D§îD­x³îxþø§³xßEþxžäDø­Dl¸x³cD`¸³šx`žlD`¸­¸elm yellows (uma espécie de amarelão das folhas),
lžääx­ž³DlDǸß`žDßߞ³šDäD­xߞ`D³DäǸßîDl¸ßDälxUD`îyߞDä‰î¸Ç§Dä­Eîž`DäÍääxä­ž`߸ߐD³žä­¸ä
lxäî߸x­DäßDŸąxäx¸äîøU¸ä‹¸x­Eîž`¸äjÔøxîßD³äǸßîD­Dcù`DßxäÍxž³Ÿ`ž¸jø­¸§­¸ž³…x`îDl¸äx
ž³`§ž³DxlxǸžäD`DUD­¸ßßx³l¸Í%xääx`Dä¸jDx³x³šDߞDx³yîž`DǸlxäxßùÍ­þxąlxÇ߸løąžß
¸§­¸äD­xߞ`D³¸ä`DÇDąxälxßxäžäîžßîD³î¸K`¸­¸Kelm yellows através de muitas décadas de

WILLIAM HARLOW GETTY IMAGES


`ø§îžþ¸j`žx³îžäîDäîD§þxą`¸³äžD­`ߞDßž­ø³žlDlxx³yîž`Dx­DÇx³DäD§ø­DäxßDcÆxäjDǧž`D³l¸¸
ÔøxDÇßx³lx­¸ä`¸­¸äîßDUD§š¸ä`¸­D`DäîD³šxžßDD­xߞ`D³DÍx…Dî¸jD§ø³äl¸äx³xälx`DäîD³šxž
ßDä`šž³xäDäDîøD§­x³îxä¸Už³þxäDcT¸ÇDßDäD§þDßD`DäîD³šxžßDD­xߞ`D³DîD§þxąD¥ølx­Dlx…x³lx߸
ULMUS AMERICANA ¸§­¸D­xߞ`D³¸`¸³îßD¸ÙD­Dßx§T¸ÚÍ §§žä¸³'D¦xäjxäîølD³îxlxßDløDcT¸³D3îDîx7³žþxßäžîā¸…%xÿ
?¸ß¦ ¸§§xx¸…³þžß¸³­x³îD§3`žx³`xD³l¸ßxäîßājDîøD§­x³îxxĀǧ¸ßDxääDǸääžUž§žlDlxÍ=Í0Í

duziria o gene OXO e nosso gene AMP. Quando as árvores tivessem pelo menos de dois a três anos para que as árvores atinjam um ta-
idade suficiente nós as infectaríamos com Septoria musiva, fungo manho em que podemos confrontá-las com o fungo do cancro-da-
que produz boa quantidade de ácido oxálico e pode provocar man- castanheira. Tínhamos ligado o gene OXO a um chamado “promo-
chas foliares e cancros em choupos híbridos. A maioria das plantas tor”, uma espécie de interruptor genético que controla a frequência
permaneceu relativamente saudável. Havíamos criado uma árvore com que uma célula lê as instruções em um gene, para limitar a
resistente a fungo através da engenharia genética. Agora precisáva- produção de OxO a certos tecidos. Esperávamos que os baixos
mos fazer o mesmo com a árvore e o fungo devidos. níveis resultantes da enzima fossem suficientes para enfrentar o
Enquanto Liang conduzia experimentos com álamos, Linda fungo sem provocar efeitos colaterais indesejados. Infelizmente, es-
McGuigan, outra estudante de graduação da faculdade, se dedicou távamos enganados. Essa primeira linhagem de árvores não conse-
a descobrir como cultivar castanheiras a partir de embriões no la- guiu resistir ao fungo; elas morreram um pouco mais lentamente
boratório. Algumas plantas, como cenouras e petúnias, são muito que o normal, mas acabaram sucumbindo.
fáceis de cultivar em laboratório. Abastecidas com quantidades su- Em 2012 havíamos desenvolvido um novo promotor para o gene
ficientes de água, nutrientes e certos hormônios elas desenvolvem OXO e criamos uma nova linhagem de árvores que produzia uma
novos brotos e raízes a partir de um pequeno fragmento de folha, quantidade muito maior da enzima degradadora do ácido. Sucesso.
por exemplo. A castanheira americana não era uma dessas plantas Essas árvores escaparam da doença quase tão bem como a casta-
cooperativas. Baseando-se em trabalhos de estudantes anteriores, nheira chinesa, que havia desenvolvido resistência por si. Agora de-
McGuigan passou dois anos e meio aprendendo como introduzir senvolvemos um meio de medir a resistência à doença testando as
com sucesso o gene de trigo em embriões de castanheiras usando folhas de castanheiras de poucos meses de idade e não precisamos
Agrobacterium para, em seguida, cultivar os embriões até a fase mais esperar três anos para ver se nossos experimentos estão fun-
adulta jovem no laboratório. Normalmente, o conjunto de células cionando. Nesse teste, fazemos pequenas incisões em folhas, as in-
de rápida divisão que forma o embrião de uma castanheira cresce fectamos com o fungo e esperamos até que um círculo de tecido em
dentro da casca protetora de uma semente de castanha que caiu no decomposição se espalhe a partir desse ferimento. Quanto menor a
chão e projeta raízes através da semente, forçando-as a penetrar no área necrosada, mais resistente a árvore. Algumas de nossas árvo-
solo, enquanto empurra brotos verdes na direção da luz solar. Mc- res mais recentes, que produzem OxO em todos os seus tecidos e
Guigan aprendeu a controlar a iluminação, umidade e temperatura foram plantadas no campo em 2013, parecem ser ainda mais resis-
para imitar o que aconteceria normalmente dentro de uma semen- tentes que a castanheira chinesa. Precisamos confirmar isso à
te de castanha e aperfeiçoou o fornecimento de vários coquetéis medida que as árvores ficam mais velhas, mas parece que o gene
hormonais em diferentes estágios do desenvolvimento inicial da que tomamos emprestado do trigo superou nossas expectativas.
árvore em miniatura para induzir o crescimento de raízes e brotos. Pessoas muitas vezes nos perguntam por que simplesmente não
Em 2006 plantamos as primeiras castanheiras americanas procuramos os genes que tornam a castanheira chinesa resistente e
transgênicas em campos experimentais isolados da floresta. Leva os usamos em vez do gene de trigo. Quando iniciamos nossa

60 Scientific American Brasil | Abril 2014


pesquisa, ninguém ainda havia estudado o genoma da castanheira a agência ambiental nos daria, mas estamos determinados a esta-
chinesa minuciosamente. Além disso, teria levado tempo e recursos belecer um precedente.
demais para localizar os numerosos genes diferentes responsáveis Um último obstáculo é a aceitação pública. É encorajador que
por uma característica complexa como a resistência ao cancro fún- muitas pessoas que normalmente se opõem à modificação genética
gico. Cada um desses genes só contribuiria com uma pequena par- estejam abrindo uma exceção para a castanheira americana. De
cela da capacidade da árvore de combater o fungo, e qualquer um acordo com o raciocínio de algumas pessoas, como os humanos
deles provavelmente teria sido, isoladamente, ineficaz. provocaram a morte das castanheiras, também são eles que devem
Até o momento, porém, cientistas identificaram 27 genes que corrigir o problema. Outras estão aceitando as árvores transgênicas
podem estar envolvidos na resistência da castanheira chinesa ao porque não estamos buscando lucro nem patenteando as árvores.
cancro fúngico. Esses são os frutos de um recente esforço de colabo- Muitas pessoas também estão felizes em saber que os riscos am-
ração sob a ação da Iniciativa de Saúde Florestal (Forest Health Ini- bientais da restauração da castanheira americana são desprezíveis.
tiative) entre muitos pesquisadores da College of Environmental As chances de o pólen das castanheiras transgênicas espalharem
Science and Forestry, da University of Georgia; Clemson University; genes introduzidos para outras espécies de plantas são muito reduzi-
Pennsylvania State University; do Serviço Florestal dos Estados das. O pólen de uma espécie de árvore só pode fertilizar a mesma es-
Unidos; da North Carolina State University; da Estação Experimen- pécie ou outra intimamente relacionada. A castanheira americana
tal Agrícola de Connecticut e da American Chestnut Foundation. não tem espécies estreitamente aparentadas na parte setentrional de
Até agora, dois desses genes parecem dotar as árvores de um nível sua área de crescimento natural. Nas regiões meridionais de sua área
intermediário de resistência. Os testes prosseguem com os outros de expansão, as castanheiras-anãs (chinquapins, em inglês), arbusti-
genes candidatos. Joseph Nairn da University of Georgia também vas, ocasionalmente se cruzam com castanheiras americanas; mas
nos deu cópias de dois outros genes para testarmos: um para uma também são infectadas pelo cancro-da-castanheira e se beneficia-
enzima de uva, que ajuda a produzir resveratrol, polifenol tóxico riam de alguma resistência genética. O ideal seria que uma parte do
para fungos, e um gene de pimenta codificador de um AMP que pólen transgênico espalhasse resistência para pelo menos uma
inibe diretamente o crescimento de células fúngicas. fração dos tocos de castanheiras americanas restantes que conse-
Futuramente esperamos fortalecer castanheiras americanas guem florescer, resgatando o máximo possível de sua diversidade ge-
com muitos genes diferentes que conferem resistência de maneiras nética total. Se os remanescentes se beneficiarem, poderiam gerar
distintas. Então, mesmo que o fungo desenvolva novas armas uma população de árvores resistentes ao cancro fúngico que, ao
contra uma das defesas geneticamente desenvolvidas, as árvores longo dos séculos, teriam como restaurar essa espécie imponente e
não serão mais impotentes. fundamental à sua antiga glória nas florestas do leste.
O cancro-da-castanheira não é o único inimigo da biodiversida-
SITUAÇÃO ARRISCADA de que a engenharia genética pode erradicar. Estamos perdendo a
Mais de mil castanheiras transgênicas crescem atualmente em di- batalha contra muitas outras pragas exóticas, como o inseto da es-
versos campos experimentais, a maioria localizada no estado de pécie Adelges tsugae (hemlock wooly adelgid, ou HWA), que suga a
Nova York. O obstáculo seguinte para a restauração da castanheira seiva das chamadas árvores cicuta, e a broca-cinza-esmeralda, um
americana envolve o processo regulatório federal. Antes de poder- besouro verde metálico cujas larvas cavam túneis sob a casca de
mos plantar árvores na floresta, o FDA, USDA e a EPA vão querer ga- freixos; além de patógenos responsáveis pela chamada morte re-
rantir que castanheiras geneticamente modificadas não são signifi- pentina do carvalho (SOD, na sigla em inglês) e a praga dos mil can-
cativamente diferentes de árvores típicas de algum modo inespera- cros das nogueiras (TCD). Agora, mais que nunca, precisamos da
do. Ao contrário de árvores hibridizadas, geneticamente bem dife- engenharia genética em nossa caixa de ferramentas para manter
rentes de castanheiras americanas, porque contêm grandes frag- florestas diversificadas e saudáveis.
mentos de DNA da castanheira chinesa, nossas árvores transgênicas Restaurar completamente a castanheira americana ao seu
têm apenas alguns genes novos. Testes preliminares mostram que status anterior como uma rainha da floresta é um empreendimento
as raízes de castanheiras típicas e árvores geneticamente modifica- que levará séculos. Assim que as castanheiras transgênicas passa-
das formam os mesmos tipos de relações simbióticas com fungos rem pela aprovação regulatória e pública, um bom lugar para co-
benéficos e que comunidades similares de plantas menores crescem meçar a restauração é em áreas de recuperação. Com a ajuda da Ini-
tanto sob as copas de árvores modificadas como de não modifica- ciativa de Saúde Florestal e da Duke Energy, parcelas experimentais
das. Além disso, as mesmas espécies de insetos visitam os dois tipos estão sendo plantadas atualmente em locais de recuperação de
de castanheiras e suas nozes têm a mesma composição nutricional. minas. Um antigo provérbio chinês diz: “Uma geração planta uma
Uma vez que os testes estejam concluídos, solicitaremos ao árvore, a próxima goza de sua sombra”. No caso da castanheira
USDA, à EPA e ao FDA o mesmo status não regulamentado que americana somos essa primeira geração.
esses órgãos dão a culturas geneticamente modificadas. É aqui que
a castanheira americana introduzirá um novo dilema no costumei-
PA R A C O N H E C E R M A I S
ro processo regulatório. Não estamos cultivando um organismo ge-
neticamente modificado em terras agrícolas para lucro, mas produ- Transgenic American elm shows reduced dutch elm disease symptoms and normal
mycorrhizal colonization. Andrew E. Newhouse et al. em Plant Cell Reports, vol. 27, nº 7,
zindo árvores para restauração sem ganho monetário. Como pes- págs. 977–987; julho de 2007.
quisadores que trabalham em arroz dourado enriquecido com um Restoration of threatened species: a noble cause for transgenic trees. S. A. Merkle et al.
precursor da vitamina A, somos motivados pelo bem público e pela em Tree Genetics & Genomes, vol. 3, nº 2, págs. 111–118; abril de 2007.
saúde da floresta. A EPA geralmente concede a empresas de semen- Chestnut trees return. Stephen D. Solomon; Inspirations, IY_[dj_ÒY7c[h_YWd;Whj^)$&,
tes licenças para vender variedades transgênicas, mas em nosso março de 2009.
caso, não temos ninguém para ser detentor da licença e não temos Designing Trees. %D¹®Ÿ"ùUŸ`§è3`Ÿy´ïŸŠ` ®yàŸ`D´Î`¹®jÀo de abril de 2002.
nada para vender. Não está claro que tipo de aprovação alternativa

www.sciam.com.br 61
PSICOLOGIA

Bons
Raciocínios

Bloqueiam
Outros
Melhores

Enquanto refletimos sobre um problema, a tendência do


cérebro de se ater a ideias familiares pode literalmente
inibir soluções mais promissoras
Ilustração por Danny Schwartz

Por Merim Bilalić e Peter McLeod

www.sciam.com.br 63
E
Merim Bilalić é professor de ciência cognitiva na Universidade de
Klagenfurt, na Áustria, e pesquisador sênior associado da Universidade
de Tübingen, na Alemanha. Sua pesquisa sobre o efeito Einstellung
ganhou o Prêmio da Sociedade Psicológica Britânica por Contribuições
Excepcionais de Pesquisa Médica para a Psicologia em 2008.

Peter McLeod é um membro emérito do Queen’s


College da University of Oxford. É presidente da Fundação
'ê{«ÍfµDÍD%ræÍ«Z”ù§Z”D5rþ͔ZDr§Ür›”†ù§Z”D ÍܔZ”D›»

m UM EXPERIMENTO CLÁSSICO DE 1942 O PSICÓLOGO


AMERICANO ABRAHAM LUCHINS pediu a voluntários
que fizessem alguns exercícios básicos de matemática ao visualizarem mentalmente jarros de água.
Dados três recipientes vazios, por exemplo, cada um com uma capacidade diferente, de 21, 127 e três
unidades de água, os participantes deveriam calcular como transferir líquido entre as vasilhas para
distribuir precisamente 100 unidades. Eles podiam encher e esvaziar cada jarro quantas vezes quisessem,
mas tinham de encher os recipientes até seus limites. A solução era primeiro encher o segundo jarro até
seu limite de 127 unidades, depois esvaziá-lo no primeiro para remover 21 unidades, deixando 106, e
finalmente encher o terceiro recipiente duas vezes para subtrair seis unidades e obter um resto de 100.

Luchins apresentou aos seus voluntários vários outros proble- alho novo. O problema com esse atalho cognitivo é que, às vezes, ele
mas que podiam ser resolvidos essencialmente com os mesmos três inibe as pessoas para soluções mais eficientes ou apropriadas.
passos. Eles realizaram as tarefas rapidamente. Mas quando o psi- Com base no trabalho inicial de Luchins, psicólogos replicaram
cólogo apresentou um problema com solução mais simples e o efeito Einstellung em muitos estudos laboratoriais diferentes
rápida, os voluntários não conseguiram “enxergar” a solução. que envolveram tanto novatos como especialistas que exerciam
Dessa vez, Luchins pediu aos participantes que distribuíssem 20 uma gama de habilidades mentais. Mas, como e por que exata-
unidades de água utilizando recipientes com capacidades de 23, 49 mente o efeito ocorria, nunca ficou claro. Recentemente, ao regis-
e três unidades de líquido. A solução é óbvia, certo? Basta encher o trarmos os movimentos oculares de enxadristas altamente qualifi-
primeiro jarro e esvaziá-lo no terceiro: 23 - 3 = 20. Mas muitas cados, desvendamos o mistério. Ocorre que pessoas sob a influên-
pessoas no experimento insistiram em resolver o problema mais cia desse atalho cognitivo ficam literalmente cegas para certos de-
fácil do jeito antigo, esvaziando o segundo recipiente no primeiro e talhes que poderiam lhes oferecer solução mais eficaz. Novas pes-
depois duas vezes no terceiro: 49 - 23 - 3 - 3 = 20. Quando Luchins quisas também sugerem que muitas propensões cognitivas dife-
lhes deu um problema com uma solução de dois passos, mas impos- rentes descobertas por psicólogos, como as que ocorrem em uma
sível de ser resolvido com o método de três etapas ao qual os volun- sala de tribunal e no hospital, por exemplo, são, de fato, variações
tários haviam se acostumado, eles desistiram dizendo que era do efeito Einstellung.
impossível. Desde, no mínimo, o início dos anos 90, psicólogos têm estuda-
O experimento dos jarros de água é um dos exemplos mais fa- do o efeito Einstellung ao recrutarem enxadristas de vários níveis
mosos do efeito Einstellung [fixação funcional]: a persistente ten- de habilidade, de amadores a grandes mestres. Nesses experimen-
dência do cérebro humano de se ater a uma solução familiar para tos pesquisadores apresentaram aos jogadores disposições específi-
resolver um problema — aquela que primeiro vem à mente — e ig- cas de peças de xadrez em tabuleiros virtuais e lhes pediram que
norar alternativas. Frequentemente esse tipo de raciocínio é uma chegassem ao xeque-mate com o menor número possível de lances.
heurística útil. Assim que você encontra um método bem-sucedido Os nossos estudos, por exemplo, confrontaram enxadristas peritos
para, por exemplo, descascar alho, não há motivo para tentar uma com cenários em que eles poderiam realizar um xeque-mate
série de técnicas diferentes toda vez que precise de um dente de usando uma sequência bem conhecida, chamada “mate sufocado”

EM SÍNTESE

O efeito Einstellung é a tendência do cérebro de se cem esse fenômeno mental desde a década de 40, mento ocular, ideias familiares cegaram enxadristas
ater à solução mais familiar para um problema e tei- mas só agora têm uma compreensão sólida de como para áreas de um tabuleiro de xadrez que lhes teriam
mosamente ignorar alternativas. Psicólogos conhe- isso ocorre. Em recentes experimentos de monitora- fornecido pistas para soluções melhores.

64 Scientific American Brasil | Abril 2014


[ou “mate de Philidor”]. Nessa manobra de cinco lances a rainha é O efeito Einstellung não é, de forma alguma, limitado a experi-
sacrificada para atrair uma das peças do adversário para uma casa mentos controlados em laboratório e nem mesmo a jogos mental-
a fim de bloquear a rota de fuga do rei. Os jogadores também mente desafiadores, como o xadrez. Em vez disso, é a base de muitas
tinham a opção de colocar o rei em xeque-mate em apenas três propensões cognitivas. O filósofo, cientista e ensaísta inglês Francis
lances, com uma sequência muito menos familiar. Como nos estu- Bacon foi especialmente eloquente sobre uma das formas mais
dos dos jarros de água de Luchins, a maioria dos jogadores não con- comuns de propensões cognitivas em seu livro Novum Organum, de
seguiu encontrar a solução mais eficiente. 1620: “A compreensão humana, uma vez que tenha adotado uma
Durante alguns desses estudos, perguntamos aos jogadores o opinião... busca todas as outras coisas para apoiar e concordar com
que se passava em suas mentes. Eles disseram que haviam encon- ela. E apesar de haver um número e peso maiores de instâncias a
trado a solução do mate sufocado e insistiram que estavam procu- serem encontradas no outro lado, essas ele ou negligencia ou despre-
rando um caminho mais curto, sem sucesso. Mas os relatos verbais za; ou ainda, por alguma razão, as deixa de lado e rejeita... Homens...
não ofereceram nenhuma explicação sobre por que eles não conse- lembram de realização, mas onde falham, embora isso aconteça
guiam encontrar a solução mais rápida. Em 2007 decidimos tentar muito mais frequentemente, negligenciam e ignoram os fatos. No
algo um pouco mais objetivo: monitorar movimentos oculares com entanto, com uma sutileza muito maior, essa traquinagem se insinua
uma câmera infravermelha. Saber para que parte do tabuleiro as na filosofia e nas ciências, em que a primeira conclusão dá o tom e
pessoas olhavam e por quanto tempo elas olhavam para áreas dife- coloca em conformidade consigo mesma tudo o que vem depois”.
rentes nos revelaria, inequivocamente, que aspectos do problema Na década de 60 o psicólogo inglês Peter Wason deu um nome a
elas estavam notando ou ignorando. essa propensão em particular: “viés de confirmação”. Em experi-
Nesse experimento seguimos o olhar de cinco enxadristas expe- mentos controlados ele demonstrou que, mesmo quando pessoas
rientes enquanto eles examinavam um tabuleiro que podia ser re- tentam testar teorias de forma objetiva, tendem a buscar evidên-
solvido tanto com a manobra mate sufocado, mais longo, como cias que confirmam suas ideias e ignorar as que os contradigam.
com a sequência mais curta, de três lances. Após uma média de 37 Em The Mismeasure of Man [A falsa medida do homem, Ed.
segundos todos os jogadores insistiram que o mate sufocado era a Martins Fontes, 1999], por exemplo, Stephen Jay Gould, da Har-
maneira mais rápida possível para encurralar o rei. Mas quando vard University, reanalisou dados citados por pesquisadores que
apresentamos um tabuleiro que só podia ser resolvido com a tentavam estimar a inteligência relativa de grupos raciais, classes
sequência de três lances eles encontraram a solução sem qualquer sociais e sexos diferentes ao medir o volume de seus crânios, ou
problema. E quando dissemos aos jogadores que esse mesmo xe- pesar seus cérebros, pressupondo que a inteligência se correlacio-
que-mate rápido tinha sido possível no tabuleiro anterior, eles fica- nava com o tamanho do cérebro. Gould revelou distorções massi-
ram chocados. “Não, isso é impossível”, exclamou um jogador. “É vas de dados. Ao descobrir que, em média, cérebros franceses eram
um problema diferente; tem de ser. Eu teria notado uma solução menores que alemães, o neurologista francês Paul Broca descartou
tão simples.” Claramente, a mera possibilidade da sequência para as discrepâncias com base na diferença de tamanho corporal médio
um mate sufocado estava mascarando teimosamente soluções al- entre os cidadãos das duas nações. Afinal, ele não podia aceitar que
ternativas. De fato, o efeito Einstellung foi potente o suficiente para os franceses eram menos inteligentes que os alemães. Mas, quando
rebaixar experientes mestres de xadrez temporariamente ao nível descobriu que os cérebros de mulheres eram menores que os de
de jogadores muito mais fracos. homens, não aplicou a mesma correção para o tamanho corporal,
A câmera infravermelha revelou que, mesmo quando os jogado- porque não teve qualquer desconforto com a ideia de que elas eram
res afirmavam estar procurando uma solução mais rápida, e de fato menos inteligentes.
acreditavam estar fazendo isso, na realidade não desviavam o olhar Surpreendentemente, Gould concluiu que Broca e outros como
das casas que já haviam identificado como parte da sequência de ele não eram tão repreensíveis como poderíamos pensar. “Na maio-
lances para o mate sufocado. Comparativamente, quando apresen- ria dos casos discutidos nesse livro podemos estar bastante certos
tados ao tabuleiro de uma solução, os jogadores inicialmente olha- de que as propensões ... eram inconscientemente influentes e que
ram para as casas e peças importantes para o mate sufocado e, uma cientistas acreditavam estar seguindo uma verdade imaculada”, es-
vez que percebiam que isso não funcionaria, dirigiram sua atenção creveu Gould. Em outras palavras, assim como observamos em
para outras casas e logo descobriam a solução mais curta. nossos experimentos de xadrez, ideias confortavelmente familiares
cegaram Broca e seus contemporâneos para os erros em seus racio-
BASE PARA A PROPENSÃO cínios. E aqui está o verdadeiro perigo do efeito Einstellung. Pode-
Em outubro de 2013, Heather Sheridan, da University of Southamp- mos acreditar que estamos pensando de modo liberal, com a mente
ton, na Inglaterra, e Eyal M. Reingold, da University of Toronto, aberta, completamente inconscientes de que nosso cérebro está
Canadá, publicaram estudos que corroboram e complementam desviando seletivamente a atenção de certos aspectos do nosso am-
nossos experimentos de monitoramento ocular. Eles apresentaram biente que poderiam inspirar novos pensamentos ou formas de ra-
17 enxadristas novatos e 17 experientes a duas situações diferentes. ciocínio. Quaisquer dados que não se encaixem na solução ou teoria
Em um cenário, uma manobra familiar de xeque-mate, como o que já adotamos são ignorados ou descartados.
mate sufocado, era vantajoso, mas perdia para uma solução menos A natureza sub-reptícia do viés de confirmação tem consequên-
óbvia. Na segunda situação, a sequência mais conhecida seria um cias infelizes na vida cotidiana, como foi documentado em estudos
erro claro. Como em nossos experimentos, uma vez que amadores e sobre tomadas de decisão entre médicos e jurados. Em uma revisão
mestres enxadristas olhavam para a manobra familiar e útil, seus de erros médicos, o médico Jerome Groopman observou que, na
olhos raramente se desviaram para casas que lhes indicariam o ca- maioria dos casos de diagnóstico equivocado, “os médicos não erra-
minho para a melhor solução. Mas quando a sequência bem conhe- ram devido à sua ignorância de fatos clínicos, mas porque caíram
cida era obviamente um erro, todos os peritos, e a maioria dos nova- em armadilhas cognitivas”. Quando médicos herdam um paciente
tos, detectaram a alternativa. de um colega, por exemplo, o diagnóstico do primeiro clínico pode

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D E S C O B E R TA S

Muito Além Do Que


Lance 1 Lance 2 Lance 3
Os Olhos Veem
O jogo intelectualmente exigente de xadrez
provou ser um meio excelente para psicólogos
estudarem o efeito Einstellung — a tendência do

Jogador A
cérebro de se ater a soluções que já conhece
em vez de procurar outras potencialmente
superiores. Experimentos mostram que essa
propensão cognitiva literalmente muda a
forma como até enxadristas experientes
veem o tabuleiro à sua frente.

Problema de Duas Soluções

Jogador B
A B C D E F G H

5
Lance 1 Lance 2 Lance 3
4

2
Jogador A

1
Jogador B

Problema de Uma Solução

A B C D E F G H

7
Mestres de Xadrez Falham em Ver o Caminho Mais
6 Rápido Para a Vitória
Em uma bem conhecida jogada de cinco lances sequenciais chamada “mate sufocado” (acima,
5 amarelo), o jogador A começa ao mover sua rainha de E2 para E6, forçando o rei do jogador B a
recuar para um canto. Em seguida, o jogador A ameaça repetidamente tomar o rei do jogador B
4 com um cavalo, forçando B a se esquivar. Em um ato de sacrifício deliberado o jogador A move sua
rainha para a casa adjacente ao rei de B, permitindo que ele tome a rainha com uma torre. Para
3 encerrar a partida, o jogador A move seu cavalo para a casa F7, encurralando o rei de B sem chance
de escapar. Em experimentos recentes psicólogos apresentaram a mestres enxadristas o tabuleiro de
2 duas soluções mostrado acima, que podia ser ganho usando o mate sufocado ou uma solução muito
mais rápida em três lances (meio, verde). Os jogadores foram orientados a chegar ao xeque-mate o
1 mais rapidamente possível, mas assim que reconheceram o mate sufocado como uma possibilidade
DÈDày´ïy®y´ïyåyï¹à´DàD®Ÿ´`DÈDĆyåmy´¹ïDàDyåïàDïz‘ŸD®DŸåyŠ`Ÿy´ïyÎ1ùD´m¹`¹´†à¹´ïDm¹å`¹®
um tabuleiro quase idêntico, em que a posição de um bispo havia mudado (abaixo, azul), eliminando o
®Dïyåù†¹`Dm¹`¹®¹ù®D¹ÈcT¹j¹å¦¹‘Dm¹àyåŸmy´ïŸŠ`DàD®D幨ùcT¹®DŸåàEȟmDÎ

66 Scientific American Brasil | Abril 2014


cegar o segundo para detalhes da saúde do paciente que poderiam
mudar o diagnóstico. É mais fácil aceitar a conclusão — a “solução”
— que já está à sua frente que repensar toda a situação. Da mesma
maneira, ao examinarem radiografias de tórax radiologistas muitas
Lance 4 Lance 5 vezes se fixam na primeira anormalidade que encontram e deixam
de notar outros sinais, como um inchaço que poderia indicar câncer.
Se esses detalhes secundários são apresentados isolados, no entan-
to, eles os veem imediatamente.
Estudos relacionados revelaram que jurados começam a decidir
se alguém é inocente ou culpado muito antes da apresentação de
todas as evidências. Suas impressões iniciais do réu, por outro lado,
mudam o modo como eles avaliam evidências posteriores e até suas
lembranças de provas que viram antes. Da mesma forma, se um en-
trevistador considerar um candidato fisicamente atraente, ele ou
ela perceberá automaticamente a inteligência e personalidade da-
quela pessoa em uma luz mais positiva e vice-versa. Essas propen-
sões, ou vieses, também são alimentados pelo efeito Einstellung. É
mais fácil tomar uma decisão sobre alguém se mantivermos uma
visão consistente daquela pessoa, em vez de analisar e classificar
evidências contraditórias.
Podemos aprender a resistir ao efeito Einstellung? Talvez. Em
nossos experimentos de xadrez e nos experimentos posteriores rea-
lizados por Sheridan e Reingold, alguns enxadristas excepcional-
Explicação: Visão em Túnel mente qualificados, como grandes mestres, de fato identificaram a
Dispositivos de monitoramento ocular revelaram que, assim que enxadristas melhor solução, menos óbvia, mesmo quando uma sequência mais
Ÿmy´ïŸŠ`DàD®¹®Dïyåù†¹`Dm¹`¹®¹ù®D幨ùcT¹jÈDååDàD®®ùŸï¹®DŸåïy®È¹ lenta, porém mais familiar de lances, era possível. Isso sugere que
olhando para as casas relevantes para essa manobra familiar (laranja), que para quanto mais experiência alguém tem em seu campo, seja xadrez,
`DåDåÈyày´ïyåKåyÕù{´`ŸD®DŸåyŠ`Ÿy´ïymyïà{å¨D´`yå (magenta), apesar de
insistirem que estavam procurando outras alternativas. Inversamente, quando o
ciência ou medicina, mais imune ela é à propensão cognitiva.
mate sufocado era inviável, o olhar dos jogadores se deslocava para regiões do Mas ninguém é completamente imune; até os grandes mestres
tabuleiro cruciais para a estratégia mais rápida. falharam quando deixamos a situação complicada. Lembrar ativa-
mente de que você é suscetível ao efeito Einstellung é outro modo de
Problema de Duas Soluções combater essa situação. Ao considerar, por exemplo, as evidências
Período de Solução do Problema da contribuição relativa dos gases de efeito estufa produzidos pelo
ndo
s iário dos homem e dos que ocorrem naturalmente, produzindo as mudanças
egu med gun
10 s iniciais Inter 5 se DŸå da temperatura global, lembre-se de que se já acredita saber a res-
40 Š´
posta, você não julgará a evidência com objetividade. Em vez disso,
Porcentagem de Tempo Gasto
Olhando para Casas-Chave

notará evidências que apoiam a opinião que já formou, avaliará as


30 provas como sendo mais fortes que de fato são, e as considerará mais
memoráveis que as evidências que não endossam a sua opinião.
20
Precisamos tentar e aprender a aceitar nossos erros se quiser-
mos sinceramente aprimorar nossas ideias. O naturalista inglês
10
Charles Darwin desenvolveu uma técnica simples e eficiente para
fazer isso. “Durante muitos anos segui uma regra de ouro de,
0
sempre que eu me deparasse com um fato, uma nova observação ou
um pensamento contestado por meus resultados gerais, fazer um
Problema de Uma Solução memorando e imediatamente”, escreveu ele. “Porque esses fatos e
Período de Solução do Problema pensamentos eram muito mais propensos a escapar da memória
ndo
s iário dos
0 s egu iais termed segun que os favoráveis.”
1 inic In 5 ´DŸå
40 Š
Porcentagem de Tempo Gasto

PA R A C O N H E C E R M A I S
Olhando para Casas-Chave

30 The mechanism and boundary conditions of the Einstellungy‡y``›yååiyÿŸmy´`y


†à¹®yĂy®¹ÿy®y´ïåÎ Heather Sheridan e Eyal M. Reingold em PLOS ONE, vol. 8, nº 10,
artigo nº e75796, 4 de outubro de 2013. www.plosone.org/article/
20 info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0075796
5›yå`Ÿy´`y¹†‘y´ŸùåÎyD´!yŸï›3Ÿ®¹´ï¹´; IY_[dj_ÒY7c[h_YWdC_dZ, novembro/
10 dezembro de 2012.
=›Ă‘¹¹mù‘›ïåU¨¹`§Uyïïy๴yåiï›y®y`›D´Ÿå®¹†ï›yÈyട`Ÿ¹ùåEinstellung
0 ÊåyïËy‡y`ï. Merim Bilalic, Peter McLeod e Fernand Gobet em Cognition, vol. 108, nº 3,
págs. 652–661, setembro de 2008.
Mentes brilhantes, Philip E. Ross, 3`Ÿy´ïŸŠ` ®yàŸ`D´
àD埨, Ed. 52, setembro de 2006.

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C ALOR
NTENSO

e
ESTIAGEM
EVIDENCIAM
EFEITOS DE
MUDANÇA CLIMÁTICA
Aquecimento global com alterações no clima, que pode chegar
a extremos de frio e calor, fornecem pistas intrigantes de
mudança que até recentemente parecia pura ficção

Por Rubens Junqueira Villela e Franco Nadal Junqueira Villela

EM SÍNTESE

Uma série de eventos meteorológicos extremos, no yȟåºmŸ¹®yïy¹à¹¨º‘Ÿ`¹yāïày®¹K®ùmD´cD`¨Ÿ®EïŸ`D ïyààyåïày´T¹z®DŸåD®yå®DyyåïE®ùmD´m¹ÈDàD

àD埨y´¹yāïyàŸ¹àj®Dà`¹ù¹Š´D¨my÷ĈÀñyŸ´ `Ÿ¹my ‘¨¹UD¨j mDmD D ®ù¨ïŸÈ¨Ÿ`ŸmDmy my †Dï¹àyå y´ÿ¹¨ÿŸm¹åÎ ȟ¹àÛjm¹ȹ´ï¹myÿŸåïDmDDïŸÿŸmDmy›ù®D´DÎA inter-


÷ĈÀŽÎ®÷êmŸDå`¹´åy`ùïŸÿ¹åjDïy®ÈyàDïùàD®EāŸ®D ååDmyŠ`Ÿ{´`ŸD‘yàDŸ´`yàïyĆDyDù®y´ïDDD´åŸymD- pretaçãomy¨yzÕùy¹åDïùDŸåyāïày®¹å`¨Ÿ®EïŸ`¹ååT¹
mŸEàŸDy®3T¹0Dù¨¹yåïyÿyDïz®DŸåmyŽĈ D`Ÿ®DmD myÕùD´ï¹Kå`¹´åyÕù{´`ŸDåmDåD¨ïyàDcÇyåm¹`¨Ÿ®D yÿŸm{´`ŸD mD ®ùmD´cD y å¹®D®žåy Kå yÿŸm{´`ŸDå
´¹à®D¨yD†D¨ïDmy`›ùÿD`¹®È๮yïyù¹DUDåïy`Ÿ- ÈDàDDÿŸmDm¹ȨD´yïDÎ ¹®UDåy´DyāÈyàŸ{´`ŸDmyêĈ `Ÿy´ï Š`Dåå¹Uày¹ÈDÈy¨È๑àyååŸÿ¹mDåy®ŸååÇyåmy
®y´ï¹myE‘ùDmD`ŸmDmyÎ Ainda não há uma meto- D´¹åmyD´E¨ŸåyyÈàyÿŸåT¹m¹ïy®È¹j2ùUy´å<Ÿ¨¨y¨Dj ‘Dåyåmyy†yŸï¹yåïù†Då¹Uày¹UD¨D´c¹y´yà‘zïŸ`¹ymŸ-
dologia `Ÿy´ï Š`D DÈà¹ÿDmD Õùy ÈyடïD DïàŸUùŸà ù® ù®m¹åDùï¹àyåmyåïyDà¹jȹåïù¨DÕùyÚDD﮹å†yàD ´F®Ÿ`¹mDD﮹å†yàDȨD´yïEàŸDÎ
Rubens Junqueira Villela, professor aposentado do Instituto de Astronomia, Geofísica e
Ciências Atmosféricas da USP, participou de 12 expedições antárticas, brasileiras e
americanas, e foi o primeiro brasileiro a chegar ao polo sul, em 17 de novembro de 1961.

O
Estagiou na Nasa e foi meteorologista sênior do The Weather Channel Latin America em
Atlanta. É consultor de meteorologia para obras de engenharia costeira.

Franco Nadal Junqueira Villela, meteorologista do 7o Distrito do Instituto Nacional de


Meteorologia em São Paulo, estagiou no National Weather Service em Washington, e
participou de quatro missões à Antártida como responsável pela programação dos
sistemas automáticos de aquisição de dados e transmissão via satélite do observatório
autônomo brasileiro, Criosfera-1, instalado sobre o Planalto Polar.

‰³D§lxöć¿ðe as primeiras seis semanas de 2014 foram marcados por


uma série de eventos meteorológicos extremos que, por intensidade e
abrangência, assumem dimensão histórica, ainda que não sejam inéditas
e, na realidade, venham se repetindo com certa frequência ao longo das
duas últimas décadas.

Do conteúdo do noticiário nacional e internacional referente a poral ciclônico no estreito de Drake que virou o nosso pequeno ve-
esses fenômenos planetários é evidente a preocupação em explicar leiro, em 11 de fevereiro de 1991.
a possível ligação desses eventos com uma mudança climática, atri- Nos últimos anos, a prática sinótica mostra visível alteração nos
buída pela maioria dos cientistas a um processo de aquecimento padrões clássicos, tornando difícil a aplicação de modelos concei-
global. Mas, ao mesmo tempo, ao menos parte desses pesquisado- tuais da meteorologia brasileira, e mesmo sul-americana. A propó-
res reluta em atribuir determinados eventos diretamente à mudan- sito, o termo sinótico vem do grego synoptikos para se referir a uma
ça global, contribuindo assim para aumentar o grau de incerteza – e visão geral de determinada região. Em meteorologia, essa expres-
de temor – do público face às consequências do fenômeno para o são refere-se a cartas elaboradas para observação de fenômenos
futuro do planeta e seus habitantes. Como meteorologista veterano, com significativa variação espaço-temporal, caso em que estão in-
pretendo, neste artigo, expor uma interpretação baseada em longa, cluídos ciclones e anticiclones, sistemas frontais, deslocamentos de
variada e peculiar carreira profissional; esperamos contribuir tam- massas de ar, jetstream e sistemas de baixa e alta pressão entre
bém para uma reflexão sobre a dificuldade do público em entender outros fenômenos.
e assimilar os fatos relativos ao clima. No passado recente, as frentes frias − vanguardas das massas de
Comparada à época em que iniciei minha prática de meteorolo- ar polar deslocando-se na direção dos trópicos − realmente seguiam
gia nos Estados Unidos, em 1953, a atmosfera terrestre já não é um padrão cíclico regular. Entre 1969 e 1979, escrevi para o jornal
mais a mesma, e está mudando para um perfil mais preocupante. Correio Agro-pecuário um resumo mensal do tempo no Brasil e
Um método científico para comprovar esse ponto de vista é a esta- então podíamos convenientemente dividir os períodos naturais de
tística climatológica e da representação das anomalias, os desvios evolução em fases pré-frontal (aquecimento, vento noroeste), fron-
em relação aos valores ou configurações normais em mapas. tal (vento rondando para sudoeste, sul e sudeste, precipitações), e
No meu caso a comprovação da mudança, ou a sensação de que pós-frontal (vento sudeste a leste, domínio da alta pressão polar fun-
isso de fato está ocorrendo, vem, também, de um padrão mental, dindo-se com a “alta” subtropical no Atlântico). Por esses processos
formado por minha própria memória. Afinal, o cérebro, a base da havia intervalos definidos com domínio de massas de ar caracterís-
memória, é o mais sofisticado dos computadores disponíveis. E ticas, aproximando-se das clássicas, originalmente criadas pela
meu aparato mental neste caso tem como base de dados mais de Escola Norueguesa em 1918. Hoje se tornam frequentes situações
meio século de trabalho de coleta de dados por radiotelegrafia e menos estáticas e mais perturbadas e variáveis, com crescente ocor-
análise de cartas sinóticas para fins de previsão do tempo. rência de fenômenos atípicos e violentos do tipo tornado, por exem-
Por esse método, iniciado muito antes de a internet existir, eu re- plo, entre outros sinais que apontam para a mudança climática as-
cebia em código Morse a mensagem de observação sinótica, trans- sociada ao aquecimento global. Mas também há longos períodos de
formada em grupos de cinco dígitos cada uma, segundo os códigos aparente estagnação, sem nenhuma frente atuando no Brasil, mos-
da Organização Meteorológica Mundial (OMM). A seguir, ou simul- trando um estranho e surpreendente vazio nas cartas sinóticas − si-
taneamente, conforme habilidade desenvolvida, eu plotava, elemen- tuação que não deve ser confundida com os conhecidos “bloqueios”
to por elemento (vento, temperatura, pressão, nuvens etc.), ponto por alta pressão e que podem durar de uma a duas semanas.
por ponto no mapa ou carta sinótica, de superfície e de altitude. No início de minha atuação em meteorologia achei difícil acre-
Fácil perceber a intimidade que estabeleci com os dados origi- ditar na existência de frentes na atmosfera: como poderia um meio
nais e o nível de detalhe em que tomei conhecimento com a atmos- gasoso admitir uma descontinuidade tão abrupta entre uma massa
fera real, coisa, agora, mais fora de alcance para quem trabalha com fria e uma quente? Uma primeira observação, conjugando a leitura
computadores e dados já elaborados. Contato mais íntimo ainda do barômetro de mercúrio do laboratório de física da University of
com a atmosfera estabeleci só mesmo depois que aprendi a voar de Maryland, ao acompanhamento da variação de vento, temperatura
planador, e quando com três companheiros enfrentamos um tem- e nuvens, convenceu-me da realidade da teoria ensinada nos livros.

70 Scientific American Brasil | Abril 2014


Vista em corte vertical, a frente gundo autoridades da defesa, provo-
fria tem a estrutura em forma de cada por enchentes e sucessivas tem-
rampa inclinada, com o ar frio intro- pestades de vento de mais de 160
metendo-se em forma de cunha sob o km/h. O Meteorological Office (MO)
ar quente. Ao ser elevada pela frente põe a culpa no comportamento da
fria, essa camada de ar quente resfria- corrente de jato, fluindo de oeste para
-se e forma nuvens. A estrutura em leste e mais ao sul, sem apresentar as
rampa inclinada só é possível devido costumeiras oscilações (ondas) para o
à ação da rotação da Terra (efeito Co- norte e para o sul, responsáveis pelo
riolis), caso contrário o ar frio simples- tempo variável característico do país.
mente se acomodaria horizontalmen- Esse comportamento seria um reflexo
te, sob o ar quente. Como o efeito Co- do derretimento do Ártico que dimi-
riolis se reduz a zero no equador, as nuiu o contraste de temperatura
frentes frias na Amazônia ficam rasas entre o Ártico e o Atlântico.
e pouco inclinadas, produzindo ape- A nota do MO diz que evidências
nas nuvens estratificadas a baixa altu- crescentes mostram que as taxas diá-
ra do solo. O entendimento dos meca- rias das chuvas estão se tornando mais
nismos básicos que atuam na forma- intensas, em valores compatíveis “com
ção de frentes atmosféricas é fundamental os que são esperados a partir dos processos
para o conhecimento do clima da Terra. fundamentais da física de um mundo em aque-
Outro mecanismo básico para compreensão do cimento”. Mas o MO adverte que são necessárias
clima da Terra é o papel dos ventos em níveis mais eleva- mais pesquisas dessas taxas, enquanto a “atribuição
dos da atmosfera esse é o movimento ondulado. A diferença dessas mudanças ao aquecimento global antropogênico
de temperatura entre equador e polos e a rotação da Terra fazem requer modelos climáticos de suficiente resolução para captar
com que eles circulem prevalentemente de oeste para leste, e ao tempestades e precipitações a elas associadas”. Esse é necessário
mesmo tempo, aumentem com a altitude, até um máximo de velo- para a adoção de medidas mais eficazes contra as enchentes fluviais
cidade na chamada corrente de jato acima dos 10 km. e costeiras; tem havido críticas de que obras para acelerar o escoa-
mento nas planícies pioram a situação.
INFLUÊNCIA DO EFEITO CORIOLIS Nos Estados Unidos, no mesmo instante em que o presidente
A ATUAÇÃO DO EFEITO CORIOLIS cria movimentos verticais ascenden- Barack Obama pronunciava o discurso anual de prestação de
tes na dianteira dos cavados e movimentos descendentes nas cris- contas no congresso – quando defendeu que “a mudança climática
tas dessas ondas. O movimento descendente chamado subsidência é um fato” − a neve caía na capital, o termômetro baixava a -110C, e
− afundamento lento medido em centímetros por segundo − traz o milhares de motoristas se viam apanhados numa armadilha de
ar muito seco das grandes altitudes próximo da superfície e provo- gelo nas ruas de Atlanta. Congressistas incrédulos balançavam a
ca dissipação das nuvens, pela compressão e consequente aqueci- cabeça: se o mundo está se aquecendo, por que tanto frio? Foi pre-
mento que o ar sofre ao descer aos níveis mais próximos do solo. ciso convocar o conselheiro de ciência e tecnologia de Obama para
Dependendo do comportamento das ondas em altitude, uma crista responder aos comentários desse tipo: “Se você estiver ouvindo que
pode dar origem a uma zona de alta pressão que permanece dias ondas de frio são uma prova contra o aquecimento global, não acre-
praticamente estacionada numa mesma posição, formando o cha- dite”, disse John Holden, em 8 de janeiro passado. E justificou:
mado bloqueio, que tem como um efeito importante impedir o “Clima é um padrão de tempo no espaço geográfico e no decorrer
avanço de frentes frias originárias dos polos. das estações. Evidências crescentes sugerem que o tipo de frio ex-
Em parte, foi esse mecanismo − alterado por outros processos tremo experimentado nos Estados Unidos é um padrão que pode-
não bem conhecidos − que gerou a grande onda de calor e seca no mos esperar com frequência crescente, à medida que o aquecimen-
Brasil em janeiro e fevereiro passados. Alta pressão numa região to global continua”. Enquanto isso, no Alasca o calor incomodava e
pode ser criada por ar frio (denso ou pesado) junto à superfície, por “enganava” a vegetação, e a Califórnia se encaminhava para o ter-
ar quente sobre o solo que se expande a altitudes médias e altas, ou ceiro ano de seca e calor inusitados.
por processo dinâmico que acumula ar (como nas cristas das ondas Na edição de 11 de fevereiro do The New York Times o redator de
de altitude). A zona de alta pressão subtropical do Atlântico Sul, por ciência Justin Gillis comentou a propósito da manifestação de con-
exemplo, é criada em grande parte pelo ar que sobe no equador, e ao gressistas e outras pessoas: “Ela diz mais sobre como os humanos
se encaminhar para o polo, se resfria e desce (por subsidência) na la- percebem o mundo que sobre clima. Tempo e clima não são a
titude 300 S. Em parte, a alta do Atlântico é também alimentada mesma coisa, mas tendemos a pensar que o que acontece agora
pelas massas polares que chegam do polo. Assim, é fácil perceber o está acontecendo por toda parte”. Gillis mostra que, desde 1985, a
desequilíbrio geral que uma mudança nessas circulações básicas duração do frio na região nordeste americana tem diminuído, e que
pode gerar na engrenagem global dos movimentos atmosféricos. talvez esse fato esteja na raiz do pânico atual quanto ao frio. Há 20
Pode-se usar com vantagem o exemplo do Reino Unido e dos Es- ou 30 anos não fazia tanto frio, e agora qualquer onda ártica parece
Imagens StockPhoto

tados Unidos como uma interessante base de análise da percepção extraordinária. A “angústia do frio” (“cold Angst”) pode estar in-
humana quanto a mudanças climáticas. E isso tanto por parte de fluenciando como as pessoas veem a questão maior; pesquisas indi-
especialistas como da população em geral. cam que pessoas colocadas em sala quente acreditam mais no
A Inglaterra, que acumula mais de 200 anos de séries climatoló- aquecimento global e o contrário em ambiente frio, mostrando
gicas, enfrenta neste inverno “uma crise natural sem paralelo”, se- uma ruptura do raciocínio lógico.

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Na véspera do Natal do ano passado, o navio russo Akademik nais da Austrália e páginas da internet. Comentários falavam em
Shokalskyi, transportando uma expedição australiana, ficou preso “fracasso” da expedição, porque um objetivo subjacente à viagem
no gelo próximo à costa do setor “francês” da Antártida − em torno seria “demonstrar” o aquecimento global e o gelo que apresou o
do meridiano 1450 leste. Seu pedido de ajuda movimentou navios navio provaria justamente o contrário. Como no caso dos congres-
da França, Austrália, China, e Estados Unidos, no último caso o sistas em Washington, a nevasca no Capitólio ou o gelo que apresou
Polar Star, o maior quebra-gelo americano na atualidade. Em 2 de o Akademik Shokalskyi, não há relação com um “resfriamento” do
janeiro, um helicóptero do quebra-gelo chinês Xue Long (“Dragão planeta. A retenção do navio russo ocorreu em gelo costeiro, conso-
da Neve”) conseguiu retirar 52 passageiros do barco russo e levá-los lidado em muitos anos − e exatamente por isso muito duro e espes-
para o navio australiano Aurora Australis, que também viera em so − desagregado e movido por uma grande tempestade ciclônica.
socorro do navio apresado pelo gelo. Mas, a seguir, tanto o navios O quadro foi muito semelhante ao que foi vivido pelo autor
chinês como o australiano também foram aprisionados ao longo de deste artigo, em fevereiro de 1961 na então inexplorada Costa de
alguns dias na banquisa, a capa espessa de gelo que cobre o mar em Eights (longitude 920 W), a bordo do grande quebra-gelo Glacier,
determinadas situações do continente antártico. da marinha americana, na companhia de outro quebra-gelo menor,
O episódio do apresamento dos barcos polares rendeu manche- o Staten Island (ver Scientific American Brasil, janeiro de 2003).
tes na imprensa mundial e uma saraivada de críticas aos organiza- Uma tempestade ciclônica de 60 horas de duração com ventos de
dores da expedição e seu grupo científico, principalmente nos jor- 180 km/h e ondas que se propagaram sob o mar congelado partiu o

BALANÇO HÍDRICO

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Janeiro 2014 Fevereiro 2014

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Janeiro 2014 Fevereiro 2014

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72 Scientific American Brasil | Abril 2014


gelo costeiro multianual (fast ice); e todos os gelos combinados cer- nova anomalia de aumento da pressão começou a ganhar força. A
caram os navios. Ficamos ao todo 20 dias presos e à deriva, safando- Alta Subtropical do Atlântico Sul passou a se intensificar, a se ex-
-nos em 4 de março de 1961. pandir e projetar uma crista sobre o Sudeste e Sul do Brasil chegan-
Em termos de percepção, é inacreditável a falta de sensibilidade do tão longe quanto o leste do Mato Grosso do Sul no nível de 500
que campeia atualmente, até mesmo nos meios científicos relacio- hPa. Essa configuração aliada a um padrão de bloqueio inibiu a en-
nados à mudança climática; e numa escala mais ampla, com a reali- trada de frentes frias no Sudeste e ainda defletiu o canal de ventos
dade do efeito estufa e suas consequências. Quantos anos mais cole- úmidos da Amazônia, para oeste, gerando máximos de precipitação
cionando estatísticas climatológicas e notícias de eventos trágicos no Acre, Peru e Bolívia e que posteriormente chegou à região Sul,
e catastróficos serão necessários para que “especialistas” percebam após passar sobre o Paraguai e norte da Argentina.
o óbvio? Em metade das estações climatológicas convencionais do
Certamente as pessoas que trabalham próximas à Natureza e INMET em São Paulo a temperatura média das máximas para ja-
sentem na pele os efeitos do ambiente alterado já perceberam es- neiro de 2014 foi recorde de anomalia positiva. Na cidade de São
sas mudanças. Um sobrinho, que desistiu de lidar com a soja e Paulo, o mês fechou com média das máximas de 31,9°C, anomalia
voltou ao cultivo do café, em Cristais Paulista, em meio à recente es- de mais de 4°C, o maior valor em pelo menos 71 anos. Em Franca,
tiagem e extraordinária onda de calor em plena estação chuvosa, norte do estado, além de temperaturas recordes, o mês foi muito
contou-me perplexo e de forma trágico-poética: “Parece um inver- seco. Choveu apenas 131,9 mm, cerca de 40% da média histórica, o
no transplantado para o pleno verão, está seco como em julho, a menor valor em 38 anos. Um mapa de anomalia de chuva − déficit
poeira levanta, o calor é inacreditável e não acaba. Pela manhã não em relação à normalidade − mostra também por que os reservató-
se molha no orvalho andando nos campos; o céu está vazio de rios paulistas estão em níveis críticos, já que os principais rios que
nuvens, e quando elas se formam, se dissipam em seguida”. compõem o Sistema Cantareira de abastecimento nascem no sul de
É certo que algumas das alterações são sutis e por isso mais insi- Minas Gerais, onde o déficit em janeiro superou os 200 mm e no
diosas, dificultando uma detecção inequívoca; além disso super- mês anterior havia superado os 120 mm.
postas às variações naturais “normais” ou que sempre existiram − Em 15 de fevereiro o bloqueio atmosférico finalmente foi venci-
talvez seja este um dos aspectos mais problemáticos, de como a do, à medida que a primeira frente fria realmente sistematizada
mudança global confunde os humanos, cientistas incluídos. Neste atingiu um estado da região Sudeste. Em São Paulo, capital, chegou
ponto, certamente faz sentido recorrer a um poeta como Cruz e ao fim uma sequência, sem precedentes, de 26 dias consecutivos
Souza para dizer que: “Não tenho orgulho do que sei, mas do que com temperaturas acima de 30°C. Fevereiro de 2104 também entra
sinto”. para a história já que das 10 temperaturas máximas diárias para o
mês, 9 foram registradas este ano.
ANOMALIAS DE UM VERÃO HISTÓRICO As consequências da alta pressão anômala ainda não termina-
O VERÃO É UMA EFEMÉRIDE ASTRONÔMICA, mas de um ponto de vista ram e podem ter desdobramentos surpreendentes como, por
climatológico é comumente definido como os meses de dezembro, exemplo, um pequeno ciclone subtropical que se desenvolveu ao
janeiro e fevereiro, justamente o trimestre mais chuvoso no Sudeste largo da costa do Sudeste e, em 19 de fevereiro, estava previsto para
e Centro-Oeste do país. Especialmente nessas regiões, o verão se deslocar de forma retrógrada, acompanhando a água mais
2013/2014 está sendo marcado por anomalias − desvios dos valores quente que o normal em consequência da subsidência da alta pres-
médios climatológicos − bastante significativas tanto de precipita- são − compressão do ar e insolação. Ele não deve chegar ao litoral
ção como de temperatura. ou afetar o continente, mas algumas características de suas mani-
Em dezembro é frequente a formação da Zona de Convergência festações remontam ao Catarina, que evoluiu para ciclone tropical,
do Atlântico Sul – (ZCAS) − extensa e persistente banda de nebulo- em 2004.
sidade e chuva promovida pela convergência de ventos úmidos em Apesar do calor recorde das últimas semanas é preciso conside-
baixos níveis com apoio de divergência em níveis superiores − que rar que no último inverno uma onda de frio histórica fez voltar a
ajuda a direcionar a umidade amazônica aos estados do Sudeste. nevar até nas montanhas da Grande Florianópolis, evento que não
Em dezembro passado, um bloqueio atmosférico que contava com se manifestava há 29 anos. Outra possibilidade é que uma forte
forte anomalia positiva de pressão atmosférica − pressão mais alta frente fria surja em médio prazo, já que a região da Península An-
− a se estender em níveis médios a altos do sudeste do Pacífico até o tártica tem registrado recordes de temperaturas baixas neste verão,
estado de São Paulo promoveu uma onda de calor na Bacia do Prata aumentando drasticamente o contraste de massas de ar entre os
e no sul do país e manteve as temperaturas em São Paulo acima da dois continentes.
média, com chuva abaixo do normal, além de contribuir para deixar
a ZCAS praticamente estacionária, atuando intensamente sobre o
Espírito Santo e o leste de Minas Gerais. Nessas regiões, promoveu PA R A C O N H E C E R M A I S
anomalias de chuva muito acima do normal. As fortes chuvas pro-
A new estimate of the average Earth surface land temperature spanning 1753 to 2011.
vocaram dezenas de mortes associadas a deslizamentos de terra, Robert Rohde et al., Geoinformatics & Geostatistics: An Overview 2013, 2012. http://
enxurradas e inundações. Em Capelinha, Minas Gerais, o Instituto www.scitechnol.com/2327-4581-1-101.pdf
Nacional de Meteorologia (INMET) registrou incríveis 930 mm Tempo e clima no Brasil. Iracema Fonseca de Albuquerque Cavalcanti, Nelson Jesus
mensais, quando em geral na região chove cerca de 250 mm − cada Ferreira, Maria Gertrudes Alvarez Justi da Silva, Maria Assunção da Silva Dias (organi-
ĆDm¹àyåËÎ'Š`Ÿ´Dmy5yāï¹åj3T¹0Dù¨¹j÷ĈĈµÎ
mm de chuva equivale a 1 l/m². Em contrapartida foi o terceiro de- Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade. José A Marengo,
zembro menos chuvoso da série na capital paulista, iniciada em Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Biodiversidade e Florestas, Brasília, 2006.
1943, com apenas 84,6 mm acumulados. A física por trás das mudanças climáticas. William Collins, Robert Colman, James
Janeiro e a primeira metade de fevereiro não foram menos anô- DĂĀ¹¹mj$Dà2Î$D´´Ÿ´‘y0›Ÿ¨ŸÈ$¹ïyjIY_[dj_ÒY7c[h_YWd8hWi_b, setembro 2007.
malos. À medida que a ZCAS se dissipou, depois do Natal, uma

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Um novo

gato
de

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Priscila Todero de Almeida, física, atualmente é aluna de
doutorado no Laboratório de Propriedades Ópticas do
Instituto de Física Gleb Wataghin na Unicamp. Realiza
pesquisas multidisciplinares de magnetismo e óptica. É fã dos gatos
(prefere sua gata Babi ao de Schrödinger) e da comida italiana.

Román López Ruiz, químico, atualmente trabalha como


post-doc no Laboratório de Materiais e Baixas Temperaturas
do Instituto de Física Gleb Wataghin. Seu trabalho está
baseado na síntese e estudo das propriedades magnéticas
de materiais na escala mesoscópica como magnetos
¡«›rZæ›DÍrÒd§D§«µDÍÜûZæ›DÒ«æ§D§««Ò»

Schrödinger
Molécula que abriu caminho
para computador quântico pode ser
simulada com princípios mais
elementares, como demonstra um
trabalho desenvolvido na Unicamp
Por Priscila Todero de Almeida e Román López Ruiz

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O
MN12 É O MAIS IMPORTANTE DOS MAGNETOS MOLECULARES DO CAMPO DE PESQUISA
chamado de magnetismo molecular. Mas, de onde vem sua importância
e por que há centenas de artigos científicos sobre ele? Apesar de
estudado há décadas, o Mn12 é desconhecido para o grande público.
Neste artigo, apresentaremos essa molécula que abriu caminho para
a construção do computador quântico. Veremos como se pode simular
esse sistema com as mesmas características levando em conta os
princípios mais elementares, num trabalho feito na Universidade
Estadual de Campinas por jovens pesquisadores.

Qualquer uso de um computador – como para escrever este em que é orientada. O Mn12 tem anisotropia porque está dentro de
artigo – por exemplo, se reduz no interior da máquina a operações um cristal e isso “coloca as rodas” numa determinada direção, que
matemáticas com zeros e uns. Isso é conhecido como código biná- chamaremos de eixo fácil. Dessa maneira a molécula ímã, dentro
rio. Assim, um bit é um objeto com dois estados (0 ou 1) bem dife- do cristal, orientará seu norte magnético em um sentido (1) ou no
renciados, intercambiáveis e estáveis durante um tempo suficiente sentido contrário (0) no eixo fácil, sendo difícil que se oriente em
para fazer as operações. Considere um ímã. Se orientarmos o polo outras direções, como aquela perpendicular ao eixo. Em energia,
norte para cima, nesse estado, poderemos ter o valor “0”. Mas, se gi- significa que os estados (1) e (0) são mínimos e o estado perpendicu-
rarmos o polo norte para baixo, também poderemos ter o valor “1”. lar a eles um máximo. Assim, se colocarmos o ímã apontando per-
Assim, seria possível construir um bit magnético, e um ensemble pendicularmente ao eixo fácil, igual a uma bolinha, ele cairá de um
deles poderia ser um aglomerado de bits, ou seja, uma memória. lado ou de outro da barreira, nos “poços” estáveis, apontando de
O passo seguinte seria diminuir esse bit para que o dispositivo um lado (0) ou outro (1) da “barreira” de energia. É por isso que o
eletrônico fosse menor. Vamos pensar em um ímã conhecido (como sistema é biestável, pois quando colocamos o ímã apontando para 1
o de geladeira) e quebrá-lo até chegar ao átomo, ou à molécula ou 0 ele permanecerá lá, a menos que o empurremos para o outro
constituinte. O que se conhece como aproximação “top-down”. É poço, com energia maior que a barreira. Nesse sentido, empurrar
um caminho difícil, mas há outro melhor: a química, ou aproxima- significa aplicar um campo magnético numa direção oposta.
ção “bottom-up”. Em 1980 foi sintetizada uma molécula composta Concluímos, assim, que temos um sistema com dois estados es-
por 12 átomos de manganês no interior de um cristal de acetato que táveis durante algum tempo e fácil de ser modificado. Portanto, tra-
se comporta como um ímã: o Mn12. ta-se de um bit do tamanho de uma molécula.
Em 1993, foi demonstrado que o Mn12 poderia ser um bit. A mo- Até aqui vimos a possibilidade de ter um bit em uma molécula.
lécula se comporta como um ímã pequeno com a capacidade de se Mas, lamentavelmente, isso acontece apenas na temperatura do
orientar para uma direção (1) e à contrária (0) de modo estável e, ao hélio líquido, a aproximadamente 270 graus abaixo de zero, devido
mesmo tempo, intercambiável para a outra facilmente. Essa carac- ao fenômeno do superparamagnetismo a que vamos nos referir.
terística é devida à anisotropia que produz um sistema biestável. Na aproximação top-down, o ímã reduzirá seu volume e a bar-
Para entender a anisotropia podemos pensar em um carro. Su- reira de energia devida à anisotropia. Chegará um momento em
ponha que queremos movê-lo. Obviamente, o que fazemos é em- que a temperatura agirá como um ente desestabilizador desse siste-
purrá-lo horizontalmente. Para a frente ou para trás é fácil fazer ma fazendo com que o bit salte a barreira de energia. O bit, ou a me-
esse deslocamento. Mas no sentido perpendicular às rodas é difícil. mória, só poderá ser recuperado com uma queda da temperatura.
O carro não responde da mesma maneira, pelo fato de ter rodas, se No Mn12, seu pequeno tamanho e anisotropia fazem com que, para
empregamos a força numa direção ou outra. A esse fenômeno, na se recuperar a bit, deva-se alcançar uma temperatura chamada de
física, se chama de anisotropia. Em contraposição, uma bola é isó- bloqueio, muito baixa, bem próxima do zero absoluto (-273,150C).
tropa, pois desloca-se igualmente, independentemente da direção Mas, como se comportam as propriedades do Mn12, antes e depois

EM SÍNTESE

O Mn12 é o mais importante magneto molecular, a molé- público. Em 1993, foi demonstrado que o Mn12 poderia ser cambiável para a outra facilmente. O Mn12 apresenta um
cula que abriu caminho para a construção do computador um bit. A molécula se comporta como um ímã pequeno ciclo de histerese [tendência de um material ou sistema de
quântico. Mas, de onde vem sua importância? Apesar de es- com a capacidade de se orientar para uma direção (1) e à conservar suas propriedades na ausência do estímulo que as
tudado há décadas, o Mn12 é desconhecido para o grande contrária (0) de modo estável e, ao mesmo tempo, inter- produziu].

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da temperatura de bloqueio? Precisamos de uma medida capaz de
dar a informação sobre como o cristal de Mn12 responde ao campo Não se trata de um
magnético: a magnetização, M. No caso de um ímã, m, sua magne-
tização se soma ao campo, ou seja, se alinha com ele como uma bús- bit convencional, mas
sola com o campo terrestre. Assim, supondo que não temos tempe-
ratura – o que significa que estamos abaixo da temperatura de blo- de um fascinante bit
queio – quando aplicamos um campo magnético na direção 0 ou 1,
estamos forçando todas as moléculas de Mn12 do cristal a cair nesse quântico.
poço. Quando retiramos o campo, as moléculas ficam retidas nele.
Como a magnetização se somava ao campo magnético, ela terá um
valor positivo. Diz-se, então, que o material está magnetizado com
esse valor de M positivo ou de remanência, Mr. Quando temos um de energia. Já os níveis de energia mais baixa (-10 e +10) são os esta-
ímã tão pequeno quanto o do Mn12, na temperatura ambiente – dos fundamentais, e os superiores, excitados.
acima da temperatura de bloqueio – o bit pode saltar livremente a O spin, quando passa para o lado oposto de determinada posi-
barreira, de modo que, como a energia térmica é caótica, metade ção deve saltar pelos estados excitados, negativos, se está de um
das moléculas de Mn12 ficam em um poço e a outra metade no lado da barreira, ou positivos, se está do outro, até atingir o topo,
outro. Nessa situação quando somamos a magnetização vemos que onde tem a possibilidade de cair. Se ele passa do outro lado, produz-
o valor resultante é zero, e consequentemente, Mr = 0 e o Mn12 -se a inversão de spin, e consequentemente, a inversão da magneti-
deixa de se comportar como um ímã, pois não está magnetizado. zação. Mas como o spin é um ente quântico, o que ocorre é que há
outro ingrediente nesse sistema: que o spin pode se inverter sem
UMA VANTAGEM QUÂNTICA necessidade de chegar ao topo da barreira, por efeito túnel. Essa
A HISTERESE ACONTECE QUANDO REPRESENTAMOS magnetização M possibilidade é o que faz, do bit, um bit quântico.
versus o campo magnético “H” abaixo da temperatura de bloqueio.
Voltemos ao exemplo de ausência de temperatura. Ao aplicar-se um O EFEITO TÚNEL
campo positivo M alcança um valor positivo limitado pelo número O EFEITO TÚNEL É A EXPLICAÇÃO DO ESTRANHO comportamento histeré-
total de moléculas. Isso significa que a magnetização para de cres- tico do Mn12. Para que o spin possa tunelar, ou seja, atravessar a bar-
cer e alcança um valor de saturação, Ms. Ao retirar o campo, M re- reira de energia é necessário que os estados estejam “sintonizados”
torna ao seu valor de remanência, Mr. Aplicando campo na direção na mesma energia. Quando isso ocorre o spin tem “um atalho”: não
negativa, as moléculas são empurradas ao outro poço e, analoga- tem de subir até o topo da barreira para inverter. Basta subir até um
mente ao caso de campo positivo, M satura exatamente no valor nível em que seja possível “tunelar” do outro lado. Isso faz que a
-Ms. Em um valor dado de campo, metade dos ímãs está em um barreira de energia seja menor e, em consequência, temos um pro-
poço e a outra metade no outro, com magnetização nula, ou seja, cesso de inversão mais rápido. Esse processo de inversão é chama-
M=0. Esse valor de campo se chama de coercitivo, HC. Em seguida, do de termicamente ativado, diferente do efeito túnel puro, que se
retira-se o campo e M vai ao valor de remanência -Mr. Mas, aplican- dá pelos estados fundamentais.
do novamente um campo positivo, fechamos o ciclo. Agora vamos nos referir aos degraus do ciclo de histerese. Para
O Mn12 apresenta um ciclo de histerese particular, com degraus isso temos de reconsiderar a necessidade de sintonização dos
para determinados campos. Em 1995 foi descoberta a origem dessa níveis. No primeiro momento temos uma barreira simétrica sem
“estranha forma”, que nada mais é que uma manifestação de uma campo aplicado. Há sintonização e o túnel pode ocorrer. Entretan-
natureza quântica. Assim, não estamos estudando apenas um bit to, quando aplicamos um pequeno campo, tornamos a barreira as-
convencional: trata-se de um fascinante bit quântico, o ingrediente simétrica, favorecendo os níveis de um lado dela e baixando a ener-
fundamental para uma possível memória quântica. Vamos obser- gia na mesma quantidade, o que desfavorece os níveis do lado
var, com mais detalhes, essa particularidade remontando-nos ao oposto, quebrando a sintonização pelo chamado efeito Zeeman.
caráter mais íntimo do magnetismo. Nesse momento, o “atalho” do túnel não é possível e o spin, para in-
Vimos que a molécula de Mn12 comporta-se como um pequeno verter, só tem a via “normal” acima da barreira. Se vamos aumen-
ímã. Mas, qual é a origem desse comportamento? A resposta é o tando o campo, para um determinado valor, os níveis de um lado e
spin do elétron. Um elétron é caracterizado por suas propriedades do outro se cruzarão entre eles, agora para M diferentes, em uma si-
intrínsecas, ou seja, uma determinada carga, massa, e outra pro- tuação de sintonização nova, na qual o túnel volta a ser possível.
priedade normalmente esquecida, o spin. No caso da molécula de Essa circunstância de sintonização ocorre, no caso do Mn12, a cada
Mn12 a soma dos spins de todos os elétrons tem um valor total de faixa de campo magnético de 4.500 Oe [Oersted, unidade de inten-
S=10. O spin é, ao fim das contas, o responsável pelo valor da mag- sidade do campo magnético]. Assim, os degraus se manifestam no
netização (se fosse S=0, não teríamos o caráter magnético) e a campo zero e em todos os campos múltiplos desse valor. Nesses va-
origem da quantização, ou seja, a discretização das energias da bar- lores discretos de campo a inversão do spin é mais rápida − pelo
reira de energia. De fato, só são possíveis energias que correspon- fato de que o caminho que o spin deve percorrer é mais curto − fa-
dem a valores inteiros (vamos denominá-los de M) da projeção do zendo com que M varie mais rapidamente, até o valor final que se
spin S sobre o eixo fácil. Não é difícil ver que M tem 21 possibilida- quer atribuir ao campo.
des de energia (-10, -9, -8, ..., 0, ..., 8, 9, 10). A energia é mínima nos O bit quântico é uma consequência do efeito túnel. Se voltarmos
poços quando m=10 ou m=-10. Em m=0 temos um máximo de ao caso da barreira simétrica e subirmos ao nível M = 3 observare-
energia e estamos no topo da barreira. Pode-se observar que os mos não mais um estado simples. Ele estará misturado com o nível
níveis com o mesmo valor absoluto de M têm a mesma energia (-10 M = -3 em um estado estranho em que o spin não está mais em uma
e +10, -9 e +9, -8 e +8 ....). Eles são chamados de estados degenerados orientação (1) ou a contrária (0), mas como um “estado superposi-

www.sciam.com.br 77
ção”, uma mistura de 1 e 0. Como são dois estados, a quântica impõe Os cálculos, neste caso, são complexos, demorados e requerem
duas combinações, que são o estado (1+0) e (1-0) que se conhecem uma ferramenta computacional potente. Apostamos em uma estra-
como combinações simétrica e antissimétrica respectivamente. Em tégia simples, sem resolução de hamiltoniana nem cálculos demo-
resumo, quando o spin atinge essa energia ele se comporta como rados, como Einstein quando definiu um cristal como um sistema
um ímã, apontado para o norte e o sul ao mesmo tempo. Essa pro- de molas. Nossa simulação move o campo em passos, não continua-
priedade, negativa para a computação convencional, é a base da mente. Cada passo de campo “move” 10.000 dessas moléculas, ou
computação quântica. spins, pelos 21 estados de M que estão na barreira de energia.
No princípio, coloca-se um campo forte, de maneira que todos os
UM NOVO GATO DE SCHRÖDINGER spins estarão, por exemplo, no poço positivo no estado m=10, na
APOSTAMOS NOSSAS FICHAS QUE EM ALGUM MOMENTO o leitor já ouviu saturação. A partir daí, a cada movimento calculamos a “probabili-
falar do famoso gato. Esse felino nada mais é que um experimento dade vertical” de povoar um estado superior. Usamos o método de
mental proposto pelo físico austríaco Erwin Schrödinger (1887- Monte Carlo, ou seja, uma vez calculada essa probabilidade, o spin
1961). Nele, o gato pode estar no estado “vivo e morto” ao mesmo sobe se um número aleatório extraído independentemente é maior
tempo. Neste sentido, o Mn12 é um gato de Schrödinger magnético que essa probabilidade. Se algum spin chega ao topo da barreira
em que o ímã pode estar orientado numa direção e em outra simul- (m=0) ele cai do outro lado com a consequente variação da magne-
taneamente. Mas, por que no experimento de Schrödinger nunca tização, caso contrário ficará em qualquer um dos estados anterio-
vemos essa superposição? A resposta é dada pelo tempo de decoe- res ao topo.
rência, imposto por uma lei fundamental da física quântica, o prin-
cípio da incerteza. DEPENDÊNCIA TÉRMICA
Há muitas maneiras de interpretar esse fenômeno, base da A PROBABILIDADE A QUE ACABAMOS de nos referir é dada pela distribui-
teoria quântica. O princípio foi formulado pelo físico alemão ção de Boltzmann e depende fundamentalmente da temperatura.
Werner Heisenberg (1901-1976), em um primeiro momento, para a Uma vez povoados os estados M em função da temperatura, pode-
impossibilidade de fixar simultaneamente a posição e o momento mos calcular para cada um desses spins a “probabilidade lateral” ou
linear (massa por velocidade) de forma simultânea. Em nosso caso, probabilidade de passar ao estado vizinho do outro lado da barreira
influi sobre a energia e o tempo. Quando atingimos esse nível, em por efeito túnel. Para isso se utiliza a teoria de Landau-Zenner e
que a energia já não é mais dos dois estados, mas de estados “ema- também o método de Monte Carlo. Essa probabilidade depende,
ranhados”, aplica-se essa incerteza sobre a energia desse processo, sobretudo, de , ou da combinação dos M de um lado ao outro da
chamado de deslocamento de efeito túnel, , de maneira que esses barreira, e obviamente, apenas se pode dar em uma estreita faixa
estados não são estáveis no tempo, e de algum modo deve-se esco- próxima dos campos, nos quais os níveis “sintonizam”. Se isso não
lher, como o gato, um estado normal, vivo ou morto, 1 ou 0, de um ocorre, não há sintonização de níveis e a probabilidade de tunelar é
lado da barreira ou do outro. Esse tempo, chamado de decoerência, zero. Uma vez feitos os movimentos acima (térmico) e lateral (quân-
está determinado pela interação do entorno, da ordem de 10-11s. O tico) o modelo de simulação tira os spins ao estado fundamental de
significado é que o bit apenas se comporta como quântico durante um lado ou de outro da barreira e calcula a magnetização resultan-
um tempo menor que uma milionésima parte de um milissegundo, te simplesmente balanceando o número de spins de um lado e do
e claro, qualquer operação de computação ou algoritmo com esse outro. Esse processo é feito para cada passo de campo, calculando a
bit deve se dar em um tempo menor, pois simplesmente se conver- magnetização e reproduzindo o ciclo de histerese.
terá em um bit “normal”. As conclusões são que um modelo simples como esse, que não
A exposição anterior dá uma ideia da complexidade da física do inclui nenhuma hamiltoniana e é capaz de fornecer um resultado
Mn12, um dos primeiros magnetos moleculares estudados. O fato em poucos minutos usando um computador, reproduz qualitativa-
de se poder observar em um experimento comum, como um ciclo mente o ciclo de histerese do Mn12 com temperatura de bloqueio da
de histerese, uma evidência do comportamento quântico do siste- mesma ordem e com um ciclo de histerese que depende da tempe-
ma, foi revolucionária à época, e provou a predição teórica dos anos ratura. Além disso, está concordando com o mecanismo de inversão
80 da possibilidade de observar o efeito túnel macroscópico pro- real, o efeito túnel termicamente ativado. Ainda que simples, o su-
posto pelo físico americano e Prêmio Nobel Anthony Leggett e cesso está em introduzir apenas os dois ingredientes essenciais do
o professor Amir Ordacgi Caldeira, do Instituto de Física Gleb movimento dos spins em um sistema com probabilidade de efeito
Wataghin, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). túnel: a ativação térmica e o passo por tunelamento. Um claro
Uma vez conhecido o comportamento do sistema é interessante exemplo da beleza do simples no complexo mundo quântico.
simulá-lo para observar como certas modificações afetam seu com-
portamento. É interessante definir, por exemplo, que parâmetro é
melhor considerar para que o bit quântico seja mais estável e durá- PA R A C O N H E C E R M A I S
vel para futuras aplicações de computação quântica, com maior Descobrimento da estrutura do cristal de Mn12 T. Lis, Acta Crystallogr., Sect. B:
tempo de decoerência. Normalmente, todas as simulações que en- Struct. Crystallogr. Cryst. Chem. 36, 2042 1980.
volvem sistemas quânticos estão baseadas na resolução de uma Biestabilidade do Mn12 R. Sessoli, D. Gatteschi, A. Caneschi e M.A. Novak, Nature
(London) 365 (1993) 141
função hamiltoniana. Essa função é um operador da mecânica Explicação do comportamento magnético mediante efeito túnel J. M. Hernán-
quântica que se associa à energia do sistema. Como nosso sistema dez, X. X. Zhang, F. Luis, J. Bartolomé, J. Tejada e R. Ziolo, Europhys. Lett. 35, 301
evolui para uma configuração de mínima energia, utilizamos a 1996
função hamiltoniana para calcular as energias de todas as configu- Estudo do tunelamento da magnetização em magnetos moleculares de Mn12
rações e encontrar qual é a energia mínima. Mas esse cálculo com- Tese de mestrado da estudante Priscila Todero de Almeida IFGW- Unicamp
"Ÿ´§i›ïïÈiëëĀyUUŸ†ÎŸŠÎù´Ÿ`D®ÈÎUàëïyåyåëDÈàyåy´ïD`D¹ÎțÈ֊¨y´D®y‚ÀêĈ‹
putacionalmente é muito lento, por isso propomos um novo
modelo que não utiliza esse método.

78 Scientific American Brasil | Abril 2014


Iniciativa de um grupo de jovens da
UFPR cria publicação para estimular
leitura de artigos científicos e
mudar postura passiva, distante
do potencial criativo da ciência
Por Adonai Sant’Anna
ILUSTRAÇÃO POR IMAGEZZO/GETTY IMAGES
Adonai S. Sant’Anna, professor associado do Departamento de
$DÜr¡ñܔZDfD7§”èrÍҔfDfrrfrÍD›f«0DÍD§ñ·702¸»«æÜ«Ír¡›«Ò«D
pela Universidade de São Paulo (USP), foi Post-Doctoral Fellow na Stanford
University. Autor de dezenas de artigos em veículos especializados de física,
¡DÜr¡ñܔZDr›«Ò«DµæO›”ZDf«Ò§«
ÍDҔ›r§«rêÜr͔«Í»

Á UM ANO PUBLIQUEI EM SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL (EDIÇÃO DE FEVEREIRO DE 2013)


um artigo sobre a realidade das universidades públicas brasileiras,
enfatizando a falta de sintonia do ensino superior público com a atual
produção científica e tecnológica promovida nos países desenvolvidos.
Levando em conta a incipiente produção acadêmica da maioria das
instituições privadas de ensino superior fica claro que o papel da
universidade deve ser profundamente revisto no Brasil.

Recebi, ao todo, cerca de uma centena de mensagens e e-mails ainda procuram universidades com o objetivo, quase sempre, de
com comentários das mais diversas regiões do país e mesmo do exte- obter um diploma.
rior. E, a julgar pelo conteúdo dessas mensagens, mais pessoas têm As áreas de conhecimento nas universidades brasileiras são inde-
percebido que mudanças profundas, de fato, devem ser feitas. Neste sejavelmente segmentadas – com isso falta interação entre profissio-
texto, destaco uma promissora iniciativa que nasceu de um grupo de nais e estudantes de diferentes especialidades. Isso porque alunos
jovens de Curitiba, Paraná. Escrevo com o propósito de difundir a brasileiros ingressam em cursos, que, frequentemente, estão isola-
ideia de que iniciativas semelhantes devem ser apoiadas por diferen- dos do conjunto de suas respectivas universidades. Nos Estados
tes segmentos sociais: de cidadãos a empresas e governos. Unidos, alunos ingressam em universidades, não em cursos. Assim,
Em maio de 2013 André Sionek, jovem estudante de física da têm a oportunidade de trocar ideias com pessoas de diferentes for-
Universidade Federal do Paraná (UFPR), retornou dos Estados mações. Está suficientemente estabelecido que a interdisciplinarida-
Unidos após estudar, durante um ano, na University of Pennsylva- de é fundamental para o desenvolvimento científico e tecnológico de
nia. Ele fez isso graças ao programa do governo federal Ciência sem ponta, mas isso ainda não alterou a postura de universidades aqui.
Fronteiras. Ao contrário de muitos jovens que usam esse programa Retornar ao Brasil foi uma experiência difícil para Sionek, onde
para fins de turismo internacional, pago pelos cofres públicos, o ambiente acadêmico é, em geral, desestimulante. Como ele
Sionek de fato viveu a vida acadêmica em uma instituição de ensino cursou uma disputada disciplina em empreendedorismo na
superior que é referência mundial. Assim, percebeu diferenças pro- Upenn, empregou as ferramentas lá utilizadas e criou a Polyteck,
fundas e preocupantes entre o ensino superior nos Estados Unidos em parceria com um ex-colega de laboratório, Fábio Rahal. Trata-se
e o que é praticado no Brasil. de uma revista de ciência e tecnologia publicada mensalmente
desde setembro de 2013.
PADRÕES DISTINTOS A tiragem mensal da Polyteck é de 10 mil exemplares, distribuí-
FAÇO, A SEGUIR, UMA BREVE LISTA de algumas das diferenças observa- dos gratuitamente para estudantes, professores e outros interessa-
das por Sionek. Entre elas, as ementas de disciplinas lecionadas na dos. Os artigos são, em geral, adaptações de textos originalmente
University of Pennsylvania (Upenn) são parecidas com as de disci- publicados em periódicos de prestígio, mas pouco conhecidos por
plinas equivalentes em universidades brasileiras, como a UFPR. A jovens estudantes brasileiros, como Nature (Scientific American é
diferença é que a carga horária média dos alunos de lá é considera- do mesmo grupo da Nature), Cell, Science e Proceedings of the Na-
velmente inferior à praticada aqui. Mas, mesmo assim, a formação tional Academy of Sciences of the United States of America. Além
dos alunos americanos é superior à de brasileiros. E isso porque, ao disso, Polyteck prioriza a publicação de artigos sobre desenvolvi-
contrário da prática comum daqui, alunos de uma instituição como mentos científicos e tecnológicos interdisciplinares, com o objetivo
a Upenn estudam diariamente e não apenas em época de avaliação. de estimular a postura universal que toda universidade deve ter.
Além disso, existe efetiva participação deles em sala de aula. Para Outra característica importante da Polyteck é a publicação de textos
citar apenas um exemplo: comumente, livros apenas mencionados em inglês, novamente para estimular a leitura na língua usada na
por um professor são lidos por alunos em seguida. comunidade científica mundial e pouco conhecida nas universida-
Além disso, nos estados unidos, alunos procuram as melhores des brasileiras, tanto por estudantes quanto professores.
universidades com o propósito de aprender e se prepararem para a Com o tempo foram criados um blog e uma página Facebook da
competitiva realidade do mercado de trabalho. No Brasil, jovens revista. Foi neste momento que entrou o terceiro membro da

EM SÍNTESE

Em maio do ano passado André Sionek, estudante de física Pennsylvania, instituição de referência mundial, e se deu criasse, no Paraná, uma publicação, a Polyteck, em parceria
da Universidade Federal do Paraná (UFPR), retornou dos Es- conta das diferenças entre o ensino superior lá e aqui. Uma com um ex-colega de laboratório. Trata-se de uma revista
tados Unidos após um ano de permanência na University of disciplina na área de empreendedorismo fez com que ele de ciência e tecnologia publicada desde setembro passado.

80 Scientific American Brasil | Abril 2014


EQUIPE REDUZIDA PRODUZ A POLYTECK: idéia inicial de editar a revista foi vista, inicialmente, com ceticismo por parte da
comunidade

equipe Polyteck, a física Raisa Requi Jakubiak, agora diretora de re- expectativa, agora, é, a partir de algum momento, pagar as pesa-
dação da publicação. das despesas de edição, impressão e distribuição com anúncios
A direção da Polyteck tem realizado levantamentos para apurar publicitários. Isso porque a direção da Polyteck detectou que exis-
o potencial de receptividade da revista. Questionários têm sido res- tem empresas interessadas em divulgar seus produtos e serviços
pondidos por alunos de várias instituições de ensino superior em universidades, mas que enfrentam dificuldades para encon-
federais, estaduais e privadas, de diferentes estados. Em um dos trar um veículo adequado de comunicação. A Polyteck parece ser
questionários (respondido por 126 estudantes universitários) 67,5% uma boa solução.
dos consultados avaliam que as universidades não colocam o estu- Além disso, recentemente um professor relatou a Sionek que
dante em contato com os problemas enfrentados atualmente na in- usará a Polyteck para ensinar seus alunos a escrever relatórios.
dústria e pesquisa. E 64,3% lamentam que as universidades não co- Com esses resultados iniciais, é possível perceber um clima de
locam seus alunos em contato com a fronteira da ciência e tecnolo- entusiasmo entre os diretores da revista. Nas palavras de Sionek,
gia. Além disso, o questionário revelou a falta de conhecimentos “nosso maior objetivo é fornecer ferramentas para transformar o
sobre empreendedorismo. Esses dados, entre outros obtidos, servi- aluno brasileiro, atualmente passivo e sem iniciativa, em um es-
ram para nortear o perfil editorial da Polyteck. tudante de ponta, proativo e aberto às demandas da sociedade e
Apesar de a distribuição da Polyteck ser feita de maneira da indústria para resolver problemas complexos”. Ele acrescenta
quase artesanal (conheci André Sionek em um dos campi da que “também queremos servir como um elo de conexão entre as
UFPR, distribuindo a revista entre transeuntes), a qualidade do diversas áreas do conhecimento e entre a indústria e a acade-
periódico é impecável: de diagramação e impressão aos conteú- mia”. Sionek relata que “o estudante brasileiro ainda não desco-
dos dos artigos. briu o potencial que tem para reinventar o mundo. Sabemos que
a tecnologia e a ciência são as áreas com maior potencial para
CONECTADOS AO MERCADO transformações positivas na sociedade. Por isso, estamos aqui
INICIALMENTE, A SIMPLES IDEIA DE CRIAR a Polyteck foi recebida com para incentivar o universitário a ampliar seus conhecimentos
considerável ceticismo. Um professor da UFPR chegou a prever, re- através da leitura e também para lembrá-lo de que é perfeita-
ferindo-se a Sionek: “Sua iniciativa é muito nobre e acredito que mente possível mudar o mundo”.
um material desses pode realmente provocar algum tipo de trans-
formação nas universidades. Mas não no Brasil. Uma revista nesses
FOTOGRAFIA POR LAIS MARCELINO

moldes não vai pegar por aqui. O universitário não quer ler, alguns PA R A C O N H E C E R M A I S
não sabem sequer interpretar um texto”. Klaus de Geus: Mentes criativas, projetos inovadores (Musa, 2010).
Apesar de certa resistência, André Sionek vendeu seu carro e Adonai Sant’Anna. Ciência e educação (de qualidade) são a base da esperança. IY_[dj_ÒY
Fábio Rahal investiu suas próprias economias para, juntos, darem 7c[h_YWd8hWi_b, fevereiro de 2013.
início ao projeto. Eles também tiveram a orientação do professor Site da Polyteck: www.pltk.com.br
Emerson Camargo, diretor da Agência de Inovação da UFPR. A

www.sciam.com.br 81
CIÊNCIA EM GRÁFICO POR JOHN MATSON

Tempero Contaminado
Especiarias importadas estão repletas de impurezas
Alguns condimentos contêm ingredientes que não se encon- pondem pela maior parte do abastecimento desses produtos no
tram em nenhuma receita. A Food and Drug Administration mercado americano superam os limites estabelecidos para os
(FDA), agência americana que controla os alimentos e medica- “níveis máximos de falhas naturais ou inevitáveis”, como partes
mentos, descobriu recentemente que a probabilidade de que de corpos de insetos ou pelos de animais. Em quantidades sufi-
temperos que entram no país tenham patógenos como Salmo- cientemente pequenas, alega a FDA, esses defeitos “não repre-
nella [bactéria que provoca infecção intestinal com evolução que sentam risco inerente à saúde”.
pode ser grave] ou quantidades inaceitáveis de resíduos é quase Esses limites podem parecer frouxos – um potinho de 57 gra-
duas vezes superior à da média dos outros alimentos regulados mas de páprica deve conter cerca de 170 fragmentos de insetos ou
pelo órgão. Cerca de 12% dos condimentos importados, que res- 25 pelos de roedores para que seja considerado adulterado.

Cerca de 12% dos temperos importados Contagem Insetos Pelos de roedores Excrementos de mamíferos
(miligramas por
superam limites máximos admissíveis: de mofo (fragmentos por 100 gramas) (pelos por 100 gramas) libra-peso 453 gramas)
Tempero importado por peso, 2010
Em milhões de libras-peso 200 Pimenta moída 24
Pimentas cápsico 227,8 20%*
(inclui pimenta seca e páprica) 300 Páprica 44

Semente de mostarda 169,3 3


1% Inteira 1% * 1
Pimenta (branca e preta) 155,4
Moída 950 4

Raiz de gengibre 97,4 3% 3% 3

Semente de gergelim 81,6 5% 5% 5

5% Inteira 5% 1
Cássia e canela 54,3
Moída 800 22
Semente de cominho 22,7 3

DRAFT RISK PROFILE: PATHOGENS AND FILTH IN SPICES. U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA), 2013 (dados de importação)
FONTES: “DEFECT LEVELS HANDBOOK.” U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA) http://1.usa.gov/18mGxP5 (valoreslimites);
Semente de coentro 10,6 3
Semente de papoula 10,2 3

20% 3
Semente de erva-doce 8,6
Ou 20%*
Semente de alcaravia 6,2 3

Sálvia 5,0 Moída 2,000 90

Semente de anis 4,7 3

Semente de aipo 4,7 3

10% Inteira 10%


Noz-moscada 3,9
Moída 1,000 10

5% Inteira
Pimenta-da-jamaica 2,8
Moída 300 10

Macis 0,7 3% 3% 3
*Porcentual se refere à proporção de amostras de um produto considerado infestado ou contaminado

82 Scientific American Brasil | Abril 2014 Gráfico por Section Design