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Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Filosofia do Direito I

Nome: Renan Marques Menezes nº 9766856 Turma: 189 – 21 Período: Noturno

“Para tudo há uma ocasião certa;


há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu;

Tempo de nascer e tempo de morrer,


tempo de plantar
e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar e tempo de curar,


tempo de derrubar e tempo de construir;

Tempo de chorar e tempo de rir,


tempo de prantear e tempo de dançar,
tempo de espalhar pedras
e tempo de ajuntá-las;

Tempo de abraçar e tempo de se conter,


tempo de procurar e tempo de desistir,
tempo de guardar
e tempo de jogar fora,

Tempo de rasgar e tempo de costurar,


tempo de calar e tempo de falar,
tempo de amar e tempo de odiar,

tempo de lutar e tempo de viver em paz”.1

Chronos e Kairós

A língua grega apresenta três termos para designar o tempo, cada qual com seu significado
particular. São eles : Chronos, Aion e Kairós. O primeiro deles, Chronos, refere-se ao “tempo”, na
acepção comum do termo, ou seja, o tempo físico, aquele que tem um começo e um fim.
A origem do termo remete a duas lendas gregas : a história do Céu e de Chrono e a narrativa o
nascimento de Zeus. A segunda é continuação da primeira, motivo pelo qual cabe relatar ambas em
sequência. Segundo a narrativa, Urano, por ter medo de perder o seu poder para os filhos, devolvia-
os ao útero de sua mulher, Gaia. Contudo, certa vez Gaia escondeu um de seus filhos, Chronos, para
evitar que este tivesse o mesmo destino dos demais. Quando Chronos cresce, ele castra o pai com
uma foice e inicia seu reinado. Todavia, antes da destronação, Urano profetizou que o mesmo
destino lhe aconteceria. Pois bem, Chronos passou a repetir o comportamento do pai de devorar os

1 A Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional, Ec 3: 01-08


filhos e sua esposa, Réia, protege o pequeno Zeus dos ímpetos de seu pai. Este, ao crescer, faz
Chronos vomitar todos aqueles que havia comido e expulsa seu pai. Assim, Zeus vence Chronos, o
tempo, e passa a ter o dom da imortalidade. 2
Através dessa narrativa, é possível perceber Chronos como um tempo finito, um espaço de tempo,
o tempo cronológico. Essa imagem de Chronos, sua relação com o conceito e com as tensões da
modernidade ocidental, marcada pela globalização, é bem explicada no excerto de Jonnefer F.
Barbosa3 :
“Isso é confirmado pela impossibilidade de se fazer uma experiência autêntica desta forma
de temporalidade. Chronos, entre os latinos, é o deus Saturno, figurado em uma pintura de
Francisco de Goya e Lucientes, um mural da Quinta del Sordo, de 1823, como antropófago
que devora seu filho. O Deus de um tempo avassalador, terminal. Mas também dos
cronogramas e projetos. Presente, passado e futuro espacializados em um fluxo com os
olhos constamente: o ”não mais” de um passado cadáver e o ainda não de um futuro a ser
consumido pela fome de um estômago voraz.
Entre os dois, um presente pensado como instante de intermezzo. Não lugar : rapidez da
autopista. Chronos como figura de tempo hegemônica da modernidade, a versão vencedora.
Ora, quando se fala que o mundo contemporâneo é baseado na aceleração e na rápida
passagem do tempo (e, simultaneamente, a rápida aniquilação do espaço como meio de
contenção dos fluxos de mobilidade, a própria terra tornando-se um mero deserto de
passagem, trata-se da proliferação e do agravamento de uma característica inerente a forma
cronológica “

Kairós, por sua vez, denomina o tempo na sua acepção qualitativa, ou seja uma oportunidade
favorável, um tempo certo. É utilizado no âmbito da teologia como sinônimo do “tempo de Deus” ,
utilizado em expressões como o “tempo dos gentios”, o “tempo da graça”, o “tempo do reino de
Deus”, entre outras. Inclusive, é neste campo que encontra o seu maior desenvolvimento.
Assim aponta Russel P. Shad 4, ao demonstrar a especificidade da noção de tempo para os
hebreus:
“Em particular, todas essas palavras são usadas para referir-se aos tempos marcados por
Deus, para designar as oportunidades dadas por Ele (por exemplo, Dt. 11:14; Sl 145:15; Is
49:8; Jr 18:23). Esse uso é transmitido ao Novo Testamento pelo termo grego kairós (cf. Lc
19:44; At. 17:26; Tt 1:3; 1 Pe 1:11).
Dessa maneira, a Bíblia destaca não a continuidade abstrata do tempo, mas antes o
conteúdo dado por Deus de certos momentos da história. Esse é o ponto de vista sobre o
tempo poderia ser chamado de linear, em contraste com o ponto de vista cíclico do comum
antigo; o propósito de Deus se encaminha para uma consumação; as coisas simplesmente
não vão e voltam para o ponto de onde começaram. Porém, quando chamamos o ponto de

2 SILVA, Alessandro Leonardo Rodrigues. CRONOS E KAIRÓS EM PAUL TILLICH. Revista Pandora, São Paulo, v. 84, p.1-4, 2018.
3 BARBOSA, Jonnefer F.. Imagens do Kairós: Temporalidade e Política.Cadernos de Ética e Filosofia Política, São Paulo, v. 22, p.1-4, 2013.
4 SHEED, Russel P.. O Novo Dicionário da Bíblia. 11. ed. São Paulo: Vida Nova, 1962.
vista bíblico sobre o tempo de ‘linear’. Não devemos permitir a sugestão de que o tempo e a
história fluem numa sucessão inevitável de acontecimentos; pois, pelo contrário, a bíblia
salienta ‘tempos’, os pontos para os quais o propósito Deus faz avançar Seus propósitos no
mundo”
Ao contrário do que se possa imaginar, o tempo kairótico não é o tempo apocalíptico, tempo do
fim. Trata-se na realidade, no início do fim. Não os tempos últimos, mas os tempos penúltimos, nos
quais o tempo caminha para o seu fim. O apóstolo Paulo apresenta esse tempo como “o tempo que
resta”, a própria transformação de Chronos. Neste sentido, o tempo de Paulo significa uma
transformação quantitativa e qualitativa. Trata-se, como no excerto acima transcrito, de um tempo
operativo, em que o passado conflui para um momento que possibilita determinados agires
históricos. 5
Justamente por kairós ser este momento de possibilidade é que Paulo sugere um modo de vida
transformado, ou seja, é viver em um mundo que passa. Trata-se de olhar para as coisas deste
mundo e retirar delas a importância primeira para se apropriar do porvir, é viver no fim dos tempos.
Isso é claramente demonstrado nos excertos do livro de Coríntios6 :
“O que quero dizer é que o tempo é pouco. De agora em diante, aqueles que têm esposa,
vivam como se não tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; os que estão
felizes, como se não estivessem; os que compram algo, como se nada possuíssem; os que
usam as coisas do mundo, como se não as usassem; porque a forma presente deste mundo
está passando. Gostaria de vê-los livres de preocupações.”

5
6 A Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional, 1 Ct. 7: 29-34