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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE QUÍMICA

Propriedades físico-químicas de misturas


binárias de líquidos e de substâncias puras
(refratometria e densidade)

Disciplina: QFL1444 – Físico-Química Experimental


Docentes: Rômulo A. Ando
Marcia L. A. Temperini

Grupo 15:
Rafael Araújo Borges da Silva, 8799396
Thaina Gomes Cury Batista, 9379207

São Paulo, 21 de setembro de 2017


1. OBJETIVOS

Determinar as propriedades de refratometria e de densidade da acetona,


água, do cicloexano, etanol, tolueno e de soluções aquosas de álcool através da
utilização de técnicas de refratometria utilizando o refratômetro de Abbe e
densitometria utilizando o picnômetro.

2. INTRODUÇÃO

A luz ao incidir em uma superfície plana, que separa dois materiais


distintos, pode sofrer dois tipos de fenômenos, a reflexão ou a refração. Na
reflexão, parte da luz volta ao meio de origem, enquanto na refração toda a luz
invade o meio de incidência. Ao se propagar no novo meio, a luz sofre alterações
em sua velocidade, de acordo com uma relação conhecida por índice de
refração.
O índice de refração de uma substância é uma grandeza física inerente
ao composto, capaz de determinar até mesmo sua pureza, e que existe devido
à propagação da luz ser dificultada ou facilitada de acordo com as propriedades
do meio, por exemplo, quanto maior a densidade, maior a dificuldade de
propagação da luz nele.
O índice de refração é dado como a razão da velocidade da propagação
da luz no vácuo e no meio de interesse, sendo ele representado por η, e a
velocidade da luz por c.

𝑐
η = 𝑣 (1)

Ele também pode ser determinado em relação ao ângulo que forma com
a normal diante da superfície plana de separação. No meio de origem o ângulo
é o de incidência, e no meio de refração é o ângulo refratado, sendo ambos
relacionados por seus senos em uma razão.

𝑠𝑒𝑛 𝑖
η= (2)
𝑠𝑒𝑛 𝑟
O índice de refração pode variar de acordo com algumas propriedades do
meio e da luz. Ele varia de acordo com o comprimento de onda da luz, sendo
considerada na fórmula (região do visível):

η = √𝜀 (3)

Onde 𝜀 é a constante dielétrica do meio.


O índice pode variar também com a temperatura. Com o aumento da
temperatura, a densidade, por exemplo, do ar tende a diminuir, o que leva a uma
diminuição também do índice de refração. Existe uma formula capaz de corrigir
tal fenômeno, arrumando o índice para diferentes temperaturas:

η20°𝐶
𝐷 = η𝑂𝑏𝑠𝑒𝑟𝑣𝑎𝑑𝑜
𝐷 + (η𝑂𝑏𝑠𝑒𝑟𝑣𝑎𝑑𝑜
𝐷 − 20ºC) . 0,00045 (4)

Sendo essa correção sempre relacionada aos índices disponíveis na


literatura em 20ºC.
O índice de refração é uma grandeza que pode trazer inúmeras
informações sobre uma solução, como sua concentração, até mesmo a pureza
de um solvente. Na identificação da concentração das soluções em misturas
binárias, conhecido por índice de Brix, utilizado na classificação de sacarose em
produtos.
Pode ser usado também na caracterização da estrutura de um novo
composto, por meio da refratividade específica, que combina os índices de
refração com a densidade do composto em estudo. A relação entre densidade e
o índice de refração é dada pela equação de Lorentz-Lorenz modificada.

𝜂 2 −1 1
𝑅 = [𝜂2 +2] . 𝜌 (5)

Onde R é a refratividade específica, n é o índice de refração, e ρ é a


densidade da substância em estudo.
Ainda observando as descrições feitas, é possível também relacionar a
refratividade com a molaridade, sendo apenas necessário multiplicar a
refratividade específica pela massa molar da substância em estudo, tendo dessa
forma a refratividade molar do composto (RM).

𝜂 2 −1 𝑀
𝑅𝑀 = [𝜂2 +2] . 𝜌 (6)

A refração molar representa a soma das refrações molares dos grupos de


elétrons presentes na substância, e está muito ligada à sua polarizabilidade. Ao
penetrar um novo meio a o campo elétrico da radiação interage com as nuvens
eletrônicas das moléculas, alterando dessa forma a velocidade da luz e, portanto,
a refratividade do meio.
A medida do índice de refração é feita por aparelhos chamados de
refratômetros, sendo o utilizado nesse estudo o refratômetro de Abbe. Nesse
aparelho o índice é medido usando-se uma luz branca e algumas gotas do
líquido de interesse. A luz branca atravessa do meio cujo o índice se quer
determinar, para um prisma de vidro com n conhecido e elevado, sendo o ângulo
de incidência crítico. A luz emergente passa por vários prismas especiais,
chamados de prismas de Amici, que selecionam a luz adequadamente, e segue
por uma espécie de luneta, onde atinge o ocular, ao alcançar o ângulo de 90º a
observação se separa em uma fase clara e uma escura, podendo assim ser
medido o índice de refração na escala presente no aparelho.

Figura 1 - Refratômetro de Abbe e seus componentes.


A matéria pode se apresentar, basicamente, em três estados: sólido,
líquido e gasoso. Uma das propriedades macroscópicas que pode distinguir um
estado físico de outro, para uma mesma substância é a densidade, uma relação
dada pela razão da massa pelo volume ocupado por ela, uma vez que para a
maioria dos materiais, a densidade de gases é menor do que a de líquidos, e a
dos líquidos menor ainda do que a dos sólidos, embora neste último caso haja
muitas exceções.
A densidade é uma grandeza intensiva e, portanto, não depende da
quantidade de matéria. De uma forma geral, se a substância é homogênea,
então a sua densidade é a mesma em todos os pontos de sua extensão. Essa
propriedade depende do tipo de substância, da temperatura e da pressão.
Para medir a densidade de substâncias, pode se lançar mão do
picnômetro (figura 2)

.
Figura 2 – Representação esquemática do picnômetro.

Trata-se de um pequeno frasco de vidro construído cuidadosamente de


forma que o volume do fluido que contenha seja invariável. Ele possui uma
abertura relativamente larga para facilitar a sua utilização, e tampa de vidro
esmerilhado, com uma perfuração na forma de um capilar.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para poder determinar a refratividade molar (RM), a polarizabilidade (α) e


o raio molecular (r) da acetona, água, do cicloexano, etanol e tolueno primeiro
foi medido a densidade (ρ) das amostras das substâncias puras com auxílio do
picnômetro de 10 mL, bem como os seus respectivos índices de refração (η)
utilizando o refratômetro de Abbe.

3.1. Densitometria

2.1.1. Calibração do picnômetro

Na densitometria, para que o picnômetro seja um instrumento altamente


confiável para a determinação de densidade, é preciso calibra-lo primeiro para
descobrir o seu real volume, mesmo que indique que tem 10 mL. Para isso, foi
utilizado uma balança analítica e água destilada. A calibração se baseia na
medida da massa do picnômetro vazio, da massa do instrumento completamente
cheio de água destilada e, por fim, a diferença será o real valor do volume do
picnômetro.

Tabela 1 – Massas utilizadas para a calibração do picnômetro

Sistema Picnômetro 1 Picnômetro 2


Massa (g)
Picnômetro 18,0146 17,4230
Picnômetro com água 29,7552 27,3870
Água 11,7406 9,9640

A tabela 1 mostra as massas medidas dos dois picnômetro utilizados no


experimento. O valor de massa da água foi obtido a partir da diferença de massa
do picnômetro vazio e cheio. Sabendo que a densidade da água varia de acordo
com a temperatura, o Handbook of Chemistry and Physics foi consultado para
encontrar o fator de correção desses valores. Tendo o experimento sido
realizado à 26,5 ºC, onde a densidade da água é equivalente a 0,996652 g/mL
[1], se pode, então, calcular o volume real dos dois picnômetros através da
equação 7.

𝑚
𝑉𝑝𝑖𝑐 = (7)
𝑑
11,7406 𝑔
𝑉𝑝𝑖𝑐1 = = 11,7800 𝑚𝐿
0,996652 𝑔. 𝑚𝐿−1
9,9640 𝑔
𝑉𝑝𝑖𝑐2 = = 9,9975 𝑚𝐿
0,996652𝑔. 𝑚𝐿−1

3.1.2. Medida da densidade das substâncias puras

Com ambos picnômetros calibrados, se pode medir as densidades das


substâncias puras. Para isso, no picnômetro, foram pesadas amostras puras de
acetona, água, cicloexano, etanol e tolueno em balança analítica com o
picnômetro completamente preenchido, tomando cuidado para realizar medidas
rápidas em função da volatilidade das amostras. O picnômetro 1 foi utilizado para
medir a massa do tolueno e da acetona e o picnômetro 2 utilizado para medir a
massa do cicloexano e do etanol absoluto.
O procedimento foi realizado uma vez para cada substância e os valores
obtidos foram expressos na tabela 2 junto com suas densidades ρ, calculadas a
partir da razão entre a massa obtida pelo volume do picnômetro, conforme a
equação 8.

m
ρ= (8)
V

Tabela 2 – Massas (m) obtidas na análise das substâncias puras e suas


respectivas densidades (ρ).
Substância mpic+subs (g) msubs (g) ρexp (g/mL) ρlit (g/mL)

Acetona 27,3150 9,3004 0,7895 0.7845


Cicloexano 25,0470 7,6240 0,7626 0.8110
Etanol 25,2990 7,8760 0,7878 0.7893
Tolueno 28,1444 10,1298 0,8599 0.8668

Para avaliar os resultados obtidos, se consultou o Handbook of Chemistry


and Physics para obter os valores da literatura para as densidades das
substâncias medidas e poder ter um comparativo. Pode-se observar que os
valores obtidos estão relativamente próximos dos valores teóricos. As
discrepâncias podem estar associadas à pequenos erros de manuseio do
picnômetro, mas o principal fator responsável pela discrepância é o fato das
medidas terem sido realizadas sob diferentes condições de temperatura e
pressão.

3.2. Medida do índice de refração das substâncias puras

O índice de refração é uma medida adimensional que descreve como a


radiação eletromagnética se propaga através de um material específico. Os
valores dos índices de refração foram obtidos no laboratório experimentalmente
se utilizando um refratômetro de Abbe, tomando extremo cuidado com a limpeza
do prisma do equipamento, utilizando papel higiênico humedecido com água e
depois com etanol.
Os valores obtidos foram expressos na tabela 3 juntamente com os
valores da literatura encontrados no Handbook of Chemistry and Physics.

Tabela 3 – Índice de refração (η) das substâncias puras analisadas


Substância pura ηexp ηlit
Acetona 1,3590 1,3588
Água 1,3342 1,3325
Cicloexano 1,4223 1,4465
Etanol 1,3605 1,3611
Tolueno 1,4954 1,4961

Novamente, os valores obtidos experimentalmente foram relativamente


próximos dos valores tabelados na literatura [1]. A discrepância pode ser
justificada pelos erros de operação do refratômetro, bem como os erros do
próprio equipamento e, principalmente, por causa das diferentes temperaturas
em que os experimentos foram realizados, alterando o índice de refração da
substância. É importante ressaltar que na medida do índice de refração da
acetona, do etanol e do tolueno a última casa decimal representa um valor
incerto, uma vez que a medida caiu fora da última escala do refratômetro.
3.3. Calculo da refratividade molar (RM), da polarizabilidade (α) e do raio
molecular (r) para as substâncias puras estudadas.

Agora, possuindo os valores das respectivas densidades e índices de


refração, é possível calcular os valores da refratividade molar, da
polarizabilidade e do raio atômico da acetona, água, cicloexano, etanol e tolueno.
Para determinar a refratividade molar, primeiro, se deve determinar a
refratividade específica, dada pela equação de Lorentz-Lorenz modificada
(equação 5). É importante ressaltar que a medida do índice de refração e da
densidade estão associados a temperatura, pressão e frequência de luz e,
portanto, a refratividade específica deve ser calculada a partir de parâmetros
medidos sob as mesmas condições.
O produto da refratividade especifica pela massa molar (6) é a
refratividade molar. A refratividade molar é a medida total da polarizabilidade de
um mol de uma substância, ou seja, a facilidade de distorcer a nuvem eletrônica
de um mol de moléculas dessa substância específica. É dependente da
temperatura, da pressão, do número e da natureza dos átomos bem como dos
tipos de ligações feitas entre eles [2].
Os valores calculados da massa molar e das refratividade especificas e
molares foram expressos na tabela 4.

Tabela 4 – Valores de R e RM calculado para as substâncias puras estudadas.


Substância η ρ (g/mL) M (g/mol) R (mL3/g) RM (mL3/mol)
Acetona 1,3590 0,7895 58,079 0,279 16,195
Água 1,3342 0,9967 18,015 0,207 3,730
Cicloexano 1,4223 0,7626 82,143 0,333 27,390
Etanol 1,3605 0,7878 46,068 0,280 12,922
Tolueno 1,4954 0,8599 92,139 0,339 31,268

A equação de Lorentz–Lorenz (9) fornece uma relação entre a


refratividade molar e a polarizabilidade (α).

3𝑅𝑀
𝛼= (9)
4𝜋𝑁𝐴

Onde NA é a constante de Avogadro.


A polarizabilidade (α) indica o grau em que os elétrons (e, portanto, as
cargas) se reorganizam em um campo elétrico (𝐸⃗ ) aplicado (equação 10). Dessa
maneira, quando uma molécula polarizável experimenta qualquer tipo de
eletrostática, há um momento de dipolo induzido (μ*). Agora, este momento de
dipolo induzido (da polarização) é completamente distinto do momento de dipolo
permanente. Um momento de dipolo (μ) implica numa separação permanente de
carga em uma distância [2].

µ∗ = 𝛼𝐸⃗ (10)

Sabendo que para uma esfera perfeitamente condutora de raio r, o


momento de dipolo é dado pela equação 11.

µ∗ = 𝑟 3 𝐸⃗ (11)

Sendo assim, é possível estabelecer a equação 12, tornando possível


calcular o raio molecular das substâncias puras estudadas.

𝛼 = 𝑟 3 (12)

Os valores de polarizabilidade e de raio molecular calculado para a


acetona, água, do cicloexano, etanol, tolueno estão demonstrados na tabela 5.

Tabela 5 – Polarizabilidade e raio molecular experimental e teórico das


substâncias puras estudadas.
Substância RMexp (mL3/mol) αexp (cm3) rexp (Å) RMlit (mL3/mol) αlit (cm3) rlit (Å)
Acetona 16,195 6,42E-24 1,859 15,967 6,33E-24 1,850
Água 3,73 1,48E-24 1,139 3,658 1,45E-24 1,132
Cicloexano 27,39 1,09E-23 2,214 26,990 1,07E-23 2,204
Etanol 12,922 5,12E-24 1,724 13,646 5,41E-24 1,755
Tolueno 31,268 1,24E-23 2,314 3,103 1,23E-24 1,071

Os valores teóricos [1] de polarizabilidade foram encontrados no Handbook


of Chemistry and Physics e, como os valores de raio molecular e refratividade
molar não foram encontrados, se calculou os valores desses parâmetros através
da polarizabilidade teórica encontrada. Como se pode observar, os valores
teóricos encontrados foram muito próximos daqueles obtidos
experimentalmente, garantindo que o experimento foi bem executado, salvo
pequenos erros de operação humana. Grande parte desse desvio também se
deve ao fato dessas medidas serem dependentes da temperatura, pressão e da
frequência de luz utilizada no procedimento. Como o experimento não foi
realizado rigorosamente nas mesmas condições, se pode esperar pequenos
desvios.
A figura 1 mostra as estruturas das substâncias estudadas em ordem
crescente de peso molecular.

Figura 1 – Estrutura molecular da (1) água, (2) etanol, (3) acetona, (4)
Cicloexano e (5) tolueno.

Como foi discutido, a propriedade de refratividade molar está diretamente


relacionada com a temperatura, pressão, número e natureza dos átomos e os
tipos de ligações feitas entre eles. Uma vez que os experimentos a análise de
todas as cinco substâncias foram feitos sob as mesmas condições de
temperatura e pressão, a análise se baseará somente nos átomos e as ligações
estabelecidas. Para compostos simples, a refratividade molar pode ser dada pela
soma das refratividade molares das ligações químicas (equação 13).

𝑅𝑀 = ∑ 𝑅𝑙 (13)

Onde Rl é a refratividade molar da ligação.


Dessa forma, espera-se que quanto maior o número de átomos e quanto
maior o número de ligações entre eles, maior seja a refratividade molar. Essa
preposição pode ser confirmada analisando a quantidade de átomos e ligações
feitas por uma das moléculas e comparando com a refratividade molecular. A
água, que possui 3 átomos e 2 ligações possui uma refratividade molar de 3,73
mL3/mol. O etanol, por outro lado, que possui 9 átomos e 8 ligações tem uma
refratividade molar de 12,922 mL3/mol, que é maior que a da água. A acetona,
por sua vez, que possui 10 átomos e 10 ligações tem uma refratividade molar de
16,195 mL3/mol, maior que o etanol e que a água, conforme o esperado pela sua
estrutura. Esse fenômeno se repete para o cicloexano e para o tolueno, este que
apresenta a maior refratividade molar e também o maior peso molecular.
Sendo a polarizabilidade diretamente proporcional a refratividade,
matematicamente é esperado que a polarizabilidade seja maior conforme maior
for a refratividade e, por consequência, o tamanho da molécula, como foi
demonstrado na tabela 5. O significado físico disso está na noção de
polarizabilidade. A polarizabilidade permite entender as interações entre
moléculas apolares e moléculas polares, íons ou outras cargas em geral.
Quando os elétrons de uma molécula apolar estão na presença de um campo
elétrico, a nuvem eletrônica pode se distorcer e a facilidade com que essa
distorção ocorre é chamada polarizabilidade. Os fatores que interferem na
polarizabilidade são: quantidade de elétrons e a distância entre os elétrons, onde
em ambos os casos, quanto maior for o número de elétrons e a distância, menor
será o controle da carga nuclear sobre esses elétrons. Em alguns casos, a
orientação da molécula em relação a um campo aplicado também interfere na
polarizabilidade das moléculas [3]. Desta maneira, é possível entender o porquê
de o quanto maior for a molécula, maior é a sua polarizabilidade.
Por fim, o raio molecular é uma propriedade que está associada ao
tamanho da molécula. Deve-se considerar que moléculas possuem variadas
formas e diversos tamanhos de ligação de seus átomos, sendo difícil aplicar o
conceito de raio para algo não esférico. Entretanto, quando se tem várias
partículas em uma solução ou em um sólido, as moléculas ocupam um
determinado espaço próprio. A esse espaço é atribuído um diâmetro. Desta
forma, então, era esperado, antes de se realizar o experimento, que as
moléculas de água tivessem um raio menor que as moléculas de etanol, que
teriam um raio menor que as de acetona e assim sucessivamente até o tolueno.
Tal suposição foi confirmada ao se realizar as medidas de raio molecular,
demonstradas na tabela 5. As moléculas de água tiveram um raio molecular
experimental de 1,139 Å que é menor que a molécula de etanol, com 1,724 Å.
Para estimar os valores das refratividades molares da água, do etanol e
da acetona se utiliza a equação 9, somando os índices de refratividade molar
das ligações entre os átomos dessas moléculas. Os valores de refratividade
molar para cada ligação foi encontrado no Handbook of Chemistry and Physics
e os

Água: H + OH = 1,028 + 2,553 = 3,581 cm3

Etanol: 3(C-H) + (C-C) + 2(C-H) + OH = 5(1,65) + 1,20 + 2,553 = 12,003 cm3

Acetona: 3(C-H) + (C-C) + (C=O) + (C-C) + 3(C-H) = 6(1,65) + 2(1,20) + 3,34 =


15,640 cm3

É possível perceber que o desvio entre os valores de Rm estimados e os


valores obtidos experimentalmente é bem pequeno, que pode ser devido às
variações na temperatura, pressão, contaminações nas amostras e erros
operacionais no decorrer do experimento.

3.3. Calculo da concentração de etanol em amostra comercial (pinga).

Para determinar o teor de etanol na amostra comercial de cachaça da


marca Cainha da Roça de teor alcoólico nominal de 39%, foi escolhido o método
de refratometria e densidade. Porém, primeiro, foi construída uma curva de
calibração com soluções padrão de etanol e água.

3.3.1. Construção da curva de calibração.

Para se construir a curva de calibração, foi medida a densidade e o índice


de refração de amostras de mistura de 15%, 30%, 45%, 60% e 80% de etanol
em água utilizando o picnômetro e o refratômetro de Abbe. A densidade foi
calculada através da equação 2 e os resultados foram demonstrados na tabela
6.
Tabela 6 – Densidade e índice de refração de sistemas água/etanol
[E] (% v/v) η ρ (g/mL)
0 1,3342 0,9966
15 1,3486 0,9616
30 1,3515 0,9534
45 1,3585 0,9262
60 1,3614 0,9042
80 1,3648 0,8488
100 1,3605 0,7878

Utilizando esses dados, se construiu o gráfico da densidade em função da


concentração (figura 2).

Densidade em função da concentração


1,05
1
0,95
0,9
ρ

0,85
0,8
0,75
0 20 40 60 80 100
[E] (% v/v)

Figura 2 – Densidade da solução em função da concentração de etanol.

Como se pode observar, a densidade apresenta uma relação


aproximadamente linear em relação a concentração de etanol, de modo que a
equação 14 pode ser usada como uma curva de calibração para o cálculo da
concentração de etanol na amostra comercial.

𝜌 = 1,00486 − 0,00198[𝐸] (14)

Utilizando os dados da tabela 6, agora, foi construído um gráfico do índice


de refração em função da concentração (figura 3).
Índice de refração em função da concentração
1,37
1,365
1,36
1,355
1,35
η

1,345
1,34
1,335
1,33
0 20 40 60 80 100
[E] (% v/v)

Figura 3 – Índice de refração da solução em função da concentração de etanol.

Diferentemente do comportamento da densidade, o índice de refração


mostra uma dependência não linear em relação a concentração de etanol das
soluções quando se olha todo o gradiente de concentração. Como é observado
no gráfico, os índices de refração das amostras aumentam com a concentração
de etanol do 0 % v/v ao 80 % v/v. Porém, ao continuar aumentando a
concentração, o índice de refração começa a decair [4]. Uma explicação para
esse fenômeno é que as forças físicas sozinhas operam em solução. A mudança
de volume, bem como a refração de misturas de água com álcool, não são
propriedades aditivas. As diferenças máximas de refração ocorrem exatamente
nas mesmas concentrações que é máxima a mudança de volume. É observado
que o desvio na relação aditiva teórica do índice de refração da solução da
mistura agua/etanol está intimamente ligado à mudança de volume [5].

Supondo que as moléculas são de forma esférica, elas podem ser


empacotadas mais ou menos juntas, dependendo do número de moléculas
presentes e da magnitude dos seus raios. Em uma mistura binária de
água/etanol, as forças que atuam entre as moléculas desses líquidos são as de
repulsão e não de atração. A contração no volume ocorre porque a mudança
resultante do empacotamento das moléculas de água e álcool é maior em
magnitude do que as forças normais de repulsão. Quando o empacotamento
fechado é máximo, os espaços intermoleculares são reduzidos ao mínimo, daí a
contração no volume é a maior [5].
À medida que a concentração de álcool em água aumenta de 0 % v/v para
77 % v/v, o empacotamento de moléculas aumenta até atingir o valor máximo. A
diminuição dos espaços intermoleculares causa o aumento do índice de
refração. Com o aumento adicional da concentração de álcool, o empacotamento
torna-se provavelmente menor, daí a diminuição do índice de refração [5].
No procedimento realizado, entretanto, é possível observar que, apesar
do ponto de 15 % v/v de etanol, se tem uma dependência aproximadamente
linear do índice de refração em relação a concentração de etanol entre 0 % v/v
ao 45 % v/v, o que pode ser utilizado como uma boa curva de calibração para
calcular o teor de álcool em amostra comercial, caso o teor caia dentro da
linearidade da curva, ou seja, apresentando índices de refração, neste caso,
entre 1,3342 e 1,3585. Linearizando, então, os pontos da curva de 0 % v/v a 46
% v/v, excluindo o ponto de 15 % v/v, se obtém a equação 15, cujo r2 é igual a
0,9975.

𝜂 = 1,3344 + 0,0005[𝐸] (15)

3.3.2. Determinação da concentração em amostra de cachaça.

Tendo as curvas de calibração (equação 10 e 11), se pode calcular, então,


as concentrações de etanol na cachaça. Os valores da densidade e do índice de
refração da cachaça foram medidos experimentalmente usando o picnômetro e
o refratômetro de Abbe, respectivamente, e os resultados obtidos foram
demonstrados na tabela 7.

Tabela 7 – Índice de refração e densidade das amostras de pinga


Amostra η ρ (g/mL)
1 1,3576 0,9525
2 1,3565 0,9533
ẋ 1,3571 0,9529

Com valores médios (ẋ) de densidade e do índice de refração é possível


calcular a concentração de etanol utilizando as equações 14 e 15. Vale ressaltar
que, para utilizar o índice de refração como parâmetro para calcula da
concentração, era preciso que o índice de refração da amostra comercial fosse
entre 1,3342 e 1,3585, respeitando a linearidade da curva de calibração. Como
os valores obtidos estão dentro desse parâmetro, se pode, então, calcular a
concentração de etanol utilizando esse método. Os valores determinados estão
expressos na tabela 8.

Tabela 8 – Cálculo da concentração de etanol a partir da densidade (método 1)


e do índice de refração (método 2).
Método [E] (% v/v)
1 26,139
2 45,300

Como é possível observar, ambos os métodos apresentaram um grande


desvio do valor exibido no rótulo da amostra comercial de cachaça, que era de
39 % v/v.

4. CONCLUSÃO

A partir dos dados colhidos e após o seu tratamento devido de


acordo com as orientações, é possível dizer que o método se mostra muito
versátil, sendo capaz de determinar a concentração de soluções em diversas
situações de interesse, o que caracteriza a técnica como incrivelmente
abrangente, fato que é uma vantagem diante das diversas situações que pode-
se encontrar diariamente dentro do laboratório.
Apesar da capacidade de identificar inúmeras soluções, o método mostra
alguns pontos que podem ser considerados como desvantagens. Uma das
desvantagens é o grande número de procedimentos a serem utilizados, com uso
de aparelhos auxiliares, como o picnômetro, e que por necessitarem de um
cuidado especial no manuseio tiram a praticidade da técnica, assim como a
precisão da mesma.
Por ser necessária grande troca de soluções em dois aparelhos
diferentes, o número de erros que podem ser gerados é notável, além de
prejudicar a reprodutibilidade e precisão do método escolhido.
Outro ponto a ser levado em conta é a quantidade de compostos
dissolvidos nos materiais em estudo, o que afeta a sua pureza e,
consequentemente, as determinações dos índices de refração de interesse por
alterar não só suas propriedades ópticas, como também uma grandeza física
importante nesse estudo, que é a densidade.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] - LIDE, R. D. Handbook of Chemistry and Physics. 87th Edition, CRC Press,
2006-2007.
[2] - BORN, M; WOLF, E. Principles of Optics: Eletromagnetic Theory of
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Acesso em 20 de novembro de 2017.