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TABLE OF CONTENTS

Prefácio
Introdução
1. Providência
2. Natureza humana
3. Riqueza
Conclusão
Ateísmo econômico
O impulso religioso do intervencionismo

P. Andrew Sandlin
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
Editora Monergismo
Caixa Postal 2416
Brasília, DF, Brasil ─ CEP 70.842-970

Sítio: www.editoramonergismo.com.br

1ª edição, 2016

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto


Revisão: Rogério Portella

PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER MEIOS, SALVO EM BREVES CITAÇÕES,


COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Todas as citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e


Atualizada (ARA) salvo indicação em contrário.
Sumário
PREFÁCIO
INTRODUÇÃO
1. PROVIDÊNCIA
2. NATUREZA HUMANA
3. RIQUEZA
CONCLUSÃO

PREFÁCIO

Este livreto consiste em uma palestra que proferi em 25 de fevereiro de 2011, na


Virtue of Prosperity Conference [Conferência Virtude da Prosperidade], em Newport Beach,
Califórnia. Ela foi revisada e expandida para publicação. A conferência foi patrocinada pelo
Acton Institute, o Bahnsen Group, e o Center for Cultural Leadership. Outros palestrantes
foram Robert Sirico do Acton Institute, David L. Bahnsen do Bahnsen Group, Dinesh
D’Souza do King’s College, e Jay Richards do Discovery Institute. Devo gratidão especial ao
Bahnsen Group e ao Fieldstead and Company por subscreverem o evento.
Este livreto lida com uma das questões mais prementes do nosso tempo: como o
ateísmo invadiu nossa cultura sob a forma de economia intervencionista — e como ele
saqueia nossa liberdade, muitas vezes com o consentimento tácito de uma igreja ingênua e
em coma.
Para mais informações, veja www.moralcapitalism.com.

INTRODUÇÃO

Começo com uma premissa ousada — alguns diriam impudente: a visão econômica
de alguém sem dúvida indica sua cosmovisão. Afirmo ainda que a disputa sobre economia
em que o Ocidente está envolvido hoje consiste em um conflito de cosmovisões e visões.
Sustento, por fim, que essas cosmovisões e visões têm raízes religiosas (como todas as
cosmovisões e visões são em última instância). Como consequência, as batalhas econômicas
e de política econômica são religiosas, mesmo que muitas vezes implicitamente religiosas.
O conceito de cosmovisão tem se destacado desde o século 19. As cosmovisões são,
pura e simplesmente, formas de ver o mundo. Na esteira de Immanuel Kant, os pensadores
passaram a perceber que nós, seres humanos, construímos uma realidade mental a partir
do mundo objetivo encontrado em qualquer lugar.[1] O todo dessa realidade é a
cosmovisão do indivíduo. Trata-se da imagem do mundo em termos do que amamos,
raciocinamos, avaliamos, julgamos e tomamos nossas decisões.
Cosmovisões são como pâncreas. Todos têm um, mesmo que nós não saibamos ou
pensemos sobre ele.
Também existe o conceito das visões, popularizado por Thomas Sowell.[2] Ele
afirma que as visões são ainda mais básicas que as cosmovisões. As visões são pré-
cognitivas, quase intuitivas, impulsos sobre o funcionamento do mundo. Enquanto as
cosmovisões se centram no pensamento, as visões se concentram em nossas percepções e
intuições — os sentimentos viscerais, poderíamos dizer.
Todavia, há uma questão ainda mais profunda: o impulso religioso. A questão
atordoante é: como o homem se relaciona com Deus? Julgo essa divisão na humanidade a
mais básica de todas. Nos termos do apóstolo Paulo, é uma divisão entre quem adora e
serve ao Criador e quem adora a criação e serve a ela (Rm 1.25), incluindo o próprio
homem.[3]
Essa divisão não é sectária ou denominacional. Não se trata, em outras palavras, de
católicos romanos contra protestantes, ou metodistas versus batistas versus presbiterianos.
Nem de evangélicos em oposição a não evangélicos.
Não, a divisão religiosa básica é entre quem posta o Deus trino no centro de sua vida
e quem o coloca de lado ou o ignora por completo.
Sem dúvida, a divisão não é absoluta. Os crentes mais devotos carregam consigo um
resíduo da natureza pecaminosa e da rebelião contra Deus. E o ateu mais vociferante ainda
porta a imago dei, a imagem de Deus em seu ser (e deveria ser tratado com dignidade por
essa razão).
Mas o fato de a divisão não ser absoluta não a torna menos real. Para ser franco, o
mundo é povoado por adoradores do Criador e da criatura. Em princípio, nenhum acordo
pode transpor o precipício entre eles. Eles adoram, pensam e agem de formas muito
diferentes, porque cada um começa e partir de uma premissa de vida bastante diversa, de
exclusão recíproca e fundamentalmente irreconciliável.
Neste ponto, eu poderia ser acusado de “raciocínio maniqueísta”, de afirmar que o
mundo consiste em uma grande batalha entre o bem e o mal, de incorrer no mesmo erro
exposto pela crítica “iluminada” de Ronald Reagan ao declarar que a União Soviética era um
“império mau”, ou de George W. Bush quando incluiu o Irã no “Eixo do Mal”.
O raciocínio pode não ser maniqueísta, mas é sem dúvida cristão. Há um grande bem
e um grande mal no mundo. E o homem, por sua parte, manifesta essa bondade e maldade
na adoração ao Criador ou à criatura.
Essa divisão percorre os grandes temas da vida. Um deles é a economia. Não se pode
presumir que a economia consistente do adorador do Criador seja semelhante à do
adorador da criatura. Como poderia?
Em uma questão vital tão difundida, concreta e visível como a economia (a forma de
compensação pela troca de bens e serviços, do compartilhamento de recursos naturais da
terra, da transferência de bens de uma geração a outra, da permissão ao Estado, e do
percentual, para tomar proveito desses recursos bem como dos bens dos indivíduos, e se as
pessoas devem ser, de fato, donas de seus bens) — em questões básicas como essas, o
impulso religioso é, e sempre deve ser, controlador.
A economia consistente do adorador do Criador deve conflitar, pela própria
natureza, com a economia consistente do adorador da criatura.
Nada disso significa que todos os cristãos apresentem o ímpeto apropriado de
adorador do Criador e que todos os não cristãos não o façam. Nenhum por um momento
afirmo que meus irmãos e irmãs do Sojourners (grupo que creio defender a economia de
adorador da criatura) não são companheiros cristãos.
Entretanto, argumento que eles não pensam e agem como cristãos consistentes em
questões econômicas.
Da mesma forma, muitos incrédulos agem como cristãos quando o tema é economia.
Mas quando o fazem, denunciam o próprio ímpeto não cristão. A questão em jogo é
consistência com o impulso religioso básico — a centralidade do Criador ou da criatura.
Permitam-me mencionar com brevidade três formas em que esses dois impulsos
conflitam no relacionamento com a economia no mundo de hoje.
1. PROVIDÊNCIA
A cosmovisão econômica predominante nas elites[4] ocidentais em nossos dias é
intervencionista. Com isso não me refiro à ideia de que o papel válido do Estado na
economia é garantir a igualdade de condições (reforçando contratos, suprimindo fraudes
etc.). Isso é apenas o que o Estado deveria fazer, mas esse ponto de vista é quase o oposto
do intervencionismo.
Sendo o homem pecador, como o cristianismo assevera, ele sempre tentará obter
vantagens econômicas injustas ao não cumprir suas promessas, mentindo sobre bens e
serviços, e roubando do próximo. Uma das razões para a existência do Estado, na teologia
cristã, é assegurar que o homem pecador não cometa esses pecados com impunidade
(Rm 13.1-7).
O Estado mantém as trocas econômicas justas para que cada um possa agir com
liberdade, mas as pessoas também devem agir com honestidade. O Estado interfere no
mercado apenas para assegurar que ninguém roube ou defraude (Êx 22.1-6).
Esta não é a visão do papel do Estado na economia de acordo com as elites atuais.
Seu papel deve ser intervencionista — de uma forma muito diferente.
Portanto, com intervencionismo quero dizer que o papel primário da política é
acabar com as condições equitativas de concorrência, a fim de garantir resultados
específicos do que as elites consideram a sociedade justa.
Por exemplo, os políticos decidem em quanto consiste o “salário digno”, e o
decretam. Isto é, não se permite que os empregadores contratem empregados livremente;
eles não devem pagar menos que a quantia determinada.
De modo similar, os políticos determinam o nível e o tipo de educação a que os
jovens de um país têm direito, e ordenam que as escolas financiadas por impostos
implementem sua decisão educacional. Os pais não têm permissão de se desviar desse tipo
de educação se enviam seus filhos para escolas financiadas por impostos.
Da mesma forma, as elites políticas chegam ao suposto padrão mínimo de
assistência médica para todos os cidadãos. Esses políticos então coagem prestadores de
serviços médicos e companhias de seguros para decretar esse conceito universal de
cuidados médicos — tudo financiado pelo público (isto é, pela política).
Não importa o que pensamos dessas políticas, uma coisa é clara: elas não são
idênticas ao que aconteceria se os indivíduos (consumidores e produtores) fossem livres
para fazer escolhas próprias nessas questões.
Por exemplo, os trabalhadores recém-ingressados no mercado podem se deliciar
com as leis do salário mínimo, mas a maioria dos proprietários de empresas pequenas sem
dúvida não o faz. Eles poderiam desejar contratar mais trabalhadores, mas não podem se
dar ao luxo porque são forçados a pagar salários inflacionados a quem já trabalha. De fato,
eles podem sair do mercado por não poderem pagar os custos do trabalho. Então ninguém
recebe. Mas para as elites intervencionistas, esse é o preço que se deve pagar para garantir
os resultados deles.
Não há problema em impedir que os jovens consigam trabalho, conquanto uns
poucos que já o possuem ganhem o salário mínimo.
Além do mais, alguns pais podem preferir a experiência de ensino secundário
altamente secular (e não raro abaixo do padrão) para seus filhos. Mas muitos outros
prefeririam usar a própria renda dedicada agora aos impostos para obter um tipo diferente
de educação. As elites intervencionistas não lhes dão essa oportunidade.
Da mesma forma, certos cidadãos de meia-idade, bem como cidadãos de classe
média com baixa renda, podem valorizar a assistência médica universal. Mas a maioria dos
trabalhadores jovens certamente não — de modo geral, eles desejam a cobertura de saúde
adequada para a própria idade e condição física. Mas a assistência médica universal está
menos interessada no que qualquer pessoa específica deseja que no desejo das elites.
O ponto de vista alternativo (não intervencionista), por contraste, deseja condições
de concorrência equitativas. Deseja que indivíduos (empresários e clientes) tomem
decisões próprias sobre custos salariais, assistência médica e outras decisões da vida.
Admitem que isso significa que nem todos obterão o mesmo salário, conseguirão as
oportunidades educacionais, ou usufruirão do mesmo nível de assistência médica. Estão
tranquilos com a desigualdade, pois valorizam mais a liberdade que a igualdade. (Somos
lembrados da resposta correta às pessoas que acusam os testes padronizados da escola
como injustos: “Não, a vida é injusta, e testes padronizados apenas demonstram esse fato”.)
Muitos leitores destas linhas entendem esses fatos, mas quero dizer que por trás das
duas abordagens estão dois impulsos religiosos, não apenas visões econômicas ou mesmo
cosmovisões. A cosmovisão intervencionista conflita com a cosmovisão cristã no nível mais
básico.
Os cristãos afirmam a providência de Deus.[5] Declaramos que Deus criou e
sustenta todas as coisas. Sustentamos que Deus age no mundo. Ele estabelece e derruba
reinos. Não cremos que ele coaja a escolha humana para realizar sua vontade. Ele opera de
forma orgânica com as escolhas do homem para cumprir seu desejo. Não podemos explicar
plenamente por que ele permite o mal. Seus caminhos são misteriosos. Mas preferirmos os
caminhos misteriosos e benevolentes de Deus à fé nos caminhos não misteriosos e não
benevolentes do homem.
Isso chega ao cerne dos impulsos religiosos do intervencionismo e do não
intervencionismo econômico.
Nós, não intervencionistas, confiamos que Deus age no mundo. No seu tempo, ele
recompensa a justiça e pune o mal. Abençoa escolhas econômicas sábias. Ele governa os
investimentos. Faz algumas empresas terem sucesso e outras fracassarem. Nem sempre
entendemos seus caminhos, mas cremos que ele age ativamente. No final, a verdade e a
justiça triunfarão no mundo — e no mercado.
A forma principal de implementar sua providência é a ação humana. Salomão
escreve: “O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos”
(Pv 16.9). Sem coagir as escolhas do homem ou anular sua personalidade, Deus opera nele
para realizar seus propósitos na vida do indivíduo e no mundo.
Em última instância, a história humana é o que é por causa da soberania divina. Mas
de maneira imediata ela decorre da ação humana. Sem dúvida, essas decisões são muitas
vezes comunais (família, empresa, igreja e Estado), mas essas comunidades consistem em
indivíduos reflexivos e atuantes. No fim, os indivíduos são responsáveis. Eles sãos os
principais agentes da providência divina.
Não negamos que o próprio Estado seja parte da ordenação providencial do mundo
por Deus. Mas ele tem limites prescritos de acordo com a revelação divina. O Estado
protege contra o abuso externo de pessoas e propriedades. Ele não está aqui para trazer
perfeição absoluta e justiça cósmica antes do almoço da próxima quinta-feira, mas para
permitir aos indivíduos liberdade máxima sob a lei para pensar e agir e viver na boa terra
de Deus (1Tm 2.1,2).
Os indivíduos desenvolvem a própria salvação (Fp 2.12), mas Deus está no centro de
tudo, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1.3).
Entretanto, os intervencionistas não confiam na providência divina. Eles já
decidiram o que é a sociedade justa e quão rápido ela deve aparecer. Os caminhos de Deus
são muito misteriosos e tardios. Deus permite que alguns fiquem ricos e outros
permaneçam pobres, mesmo que pobres apenas em sentido comparativo. Ele concede que
capitalistas gananciosos ganhem muito dinheiro, e não fornece aos pobres fornos micro-
ondas, aparelhos de blu-ray e jantares com costela com rapidez suficiente. De fato, de
acordo com muitos intervencionistas, Deus não existe ou deixou a ordenação do mundo à
humanidade — de forma específica para uns poucos indivíduos nobres, sábios e dotados,
pessoas como eles, claro. As elites.
Para a maioria dos intervencionistas, portanto, o Estado equivale à providência
secular. A política ocupa o papel da providência ocupada por Deus no impulso do adorador
do Criador. Os intervencionistas perderam a fé em Deus, ou pelo menos no Deus ativo e
cuidadoso em relação ao mundo. Portanto, eles colocam sua esperança e sonhos de justiça
econômica no Estado.
O Estado deve resgatar as companhias falidas (com dinheiro confiscado sob coerção
de seus cidadãos, é claro). Ele deve prover para os idosos (ou, como foi sugerido), permitir
sua eliminação quando não mais servem aos propósitos sociais da elite). Deve educar os
jovens no caminho das justiça, bondade e democracia. O Estado deve equalizar
rendimentos visto que a desigualdade econômica é injusta. Injusta, é claro, aos olhos da
elite intervencionista.
Essa justiça imposta deve ser implementada, mesmo que produza danos econômicos
à sociedade. Ouça uma parte da conversa entre o candidato Barack Obama e o âncora da
ABC News, Charlie Gibson, no debate das primárias presidenciais do partido democrata na
Pensilvânia:

GIBSON: — Em cada caso, quando o imposto [sobre ganhos de capital] caiu, a receita oriunda dos
impostos aumentou; o governo recebeu mais dinheiro. E na década de 1980, quando o imposto foi
aumentado para 28 por cento, as receitas caíram.
Assim, por que aumentar o imposto, em especial quando se considera o fato de que 100 milhões de
pessoas neste país possuem ações e seriam afetadas?
OBAMA: — Bem, Charlie, eu disse que olharia para a elevação do imposto sobre ganhos de capital para
fins de equidade.
Vi um artigo hoje que mostrava que os 50 maiores gestores de fundos hedge fizeram 29 bilhões de
dólares no último ano — 29 bilhões de dólares para 50 indivíduos. E parte do que tem acontecido é as
pessoas capazes de trabalhar no mercado de ações e acumular grandes fortunas sobre ganhos de capital
pagam uma taxa de imposto menor que a das suas secretárias. Isso não é justo. [6]

Chamo sua atenção para um fato saliente: mesmo que a diminuição de impostos
sobre ganhos de capital estimule a economia (ajudando assim os pobres) e crie o aumento
das receitas físicas, eles estão errados por não ser justo. Barack Obama resolveu decidir o
que é justo, mesmo que a justiça prejudique os pobres e o restante do país.
A questão não é riqueza e pobreza. A questão é o papel das elites em brincar de Deus
na hora de decidir quem recebe o quê.
Essa é outra forma de afirmar: os intervencionistas desejam que o Estado brinque
de Deus. Eles não podem confiar que Deus seja Deus.
Digo que o intervencionismo é em sua raiz um credo infiel, agnóstico e mesmo
ateísta. Mesmo quando os cristãos o defendem, eles pensam e agem como incrédulos, não
como cristãos.
2. NATUREZA HUMANA

Há um segundo aspecto do conflito econômico com raízes nos dois ímpetos


religiosos conflitantes. Ele talvez seja mais bem resumido por um incrédulo, François Bizot,
o único jornalista sobrevivente à captura pelo Khmer Vermelho, o partido comunista
radical do Camboja que assassinou um terço da população do próprio país entre 1975 e
1979.
Após observar o Khmer Vermelho à curta distância, e de forma dolorosa, ele
escreveu:

Detesto a noção de um novo amanhecer em que o Homo sapiens [humanidade] viverá em harmonia. A
esperança engendrada por essa utopia justificou os extermínios mais sanguinários na história. [7]

O Khmer Vermelho não foi o único. Robespierre e Lênin, Stálin e Mao, Ho Chi Min e
Pol Pot — todos criam que a humanidade era inerentemente boa, mas ela havia sido
corrompida por instituições humanas. Eles poderiam inaugurar a utopia se conseguissem
reestruturar a natureza humana — expulsar o individualismo, o interesse próprio e a
fidelidade religiosa tradicional do coração humano. Todos eles falharam de modo absoluto.
Deixaram milhões de pessoas mortas, assassinadas, torturadas e desumanizadas.
Por que a maioria dos tiranos no mundo moderno abraça conceitos otimistas em
demasia a respeito da natureza humana? Por que à raiz da liberdade humana está uma
visão sombria da natureza humana? Essa justaposição não é contraditória? Não, não é.
Deveríamos conhecer o ponto de vista do adorador do Criador. O homem nasce
pecador. Mas ele pode ser redimido por Jesus Cristo, que morreu para nos salvar dos
nossos pecados se confiarmos nele (Jo 3.16).
Todavia, a natureza humana, mesmo a natureza humana redimida, não existe à
parte do pecado nesta vida. Ela pode ser aprimorada pela graça divina, mas não se torna
perfeita (1Jo 1.9,10). Sem dúvida, ela não pode ser aperfeiçoada pelo homem. Ela será
perfeita, na eternidade, mediante a atuação de Deus e não pelo poder do homem. Em outras
palavras, cremos na perfectibilidade sobrenatural futura, não na presente.
Todos nós desejamos a salvação, a vida melhor agora para nós mesmos, para nossa
família e amigos e a vida futura melhor que a presente. Todos concordamos que o mundo
não é o que deveria ser, e deveria ser melhor do que é.
Contudo, a humanidade em pecado tornou este mundo menor que o ideal.
Poderíamos ter um mundo melhor, se apenas fôssemos uma humanidade melhor.
Deus tem a resposta para o problema — a salvação do pecado em seu Filho Jesus
Cristo (Jo 14.6). Essa é a única forma de transformação do mundo — quando Deus
transforma o homem de maneira gradual, embora nunca de modo pleno na vida presente.
Isso se chama santificação. Deus nos conforma à imagem do seu Filho de forma crescente. A
conformidade comporta benefícios sociais. Entretanto, a santificação não chega ao fim
nesta vida.
Isso significa que os cristãos negam a possibilidade de utopias terrenas.[8] Podemos
ter um mundo melhor, mas apenas nos termos de Deus e com seu poder — e nunca em
plenitude antes do estado eterno.[9]
Os adoradores do Criador afirmam que a natureza humana não é maleável pelo
homem. Não podemos mudar o que significa ser humano. Só Deus é capaz de nos mudar, e
ele escolheu nos transformar de maneira cabal apenas na eternidade.
Mas os adoradores da criatura desistiram de recorrer ao sobrenatural. Portanto,
eles depositam a esperança em meios naturais para transformar a natureza humana.
Enquanto os adoradores do Criador defendem a perfectibilidade sobrenatural futura, os
adoradores da criatura confiam na perfectibilidade natural presente.
Isso é uma receita para o horror, e essa receita foi levada ao forno várias vezes nos
últimos 300 anos — sempre servida no mesmo prato amargo.
E a receita quase sempre inclui a intervenção econômica como um dos ingredientes
principais.
Algumas vezes identificamos Estados marxistas como paraísos de engenharia social.
Porém, eles também são focos de engenharia econômica, e um raramente se encontra sem
o outro. Engenheiros econômicos, como engenheiros sociais (o que a maioria deles é),
cobiçam as alavancas da política de coerção porque querem transformar a natureza
humana mediante a transformação das condições humanas.
Isso não é menos verdade nos intervencionistas democráticos do Ocidente que nos
marxistas radicais.
Já no antigo Manifesto humanista I (1933), assinado por pessoas como John Dewey,
se lê:
O humanismo religioso afirma que todas as associações e instituições existem para a realização da vida
humana. A avaliação, a transformação, o controle e a direção inteligente dessas associações e instituições
com a visão voltada para a expansão da vida humana consiste no propósito e programa do humanismo.
Sem dúvida, as instituições religiosas, suas formas ritualísticas, seus métodos eclesiásticos e suas
atividades comunitárias precisam ser reconstituídos com tanta rapidez quanto a experiência permitir, de
modo que funcionem de modo efetivo no mundo moderno.

Os humanistas estão firmemente convencidos de que a existente sociedade motivada pelo lucro e
acúmulo tem se mostrado inadequada, e que a mudança radical nos métodos, controles e motivos precisa
ser instituída. É preciso estabelecer uma ordem econômica cooperativa e socializada para possibilitar o
objetivo da distribuição equitativa dos meios de vida. O objetivo do humanismo é a sociedade livre e
universal em que as pessoas cooperem para o bem comum de forma voluntária e inteligente. Os
humanistas exigem a vida compartilhada no mundo compartilhado.

Observe a conexão. O ímpeto religioso do homem deve reformular a cultura e


sociedade a fim de reestruturar a humanidade nova e completa. E a forma para fazer isso é
empregar o intervencionismo. O intervencionismo é a ferramenta social para criar a
natureza humana nova e aprimorada.
O homem deve estar no centro de todas as coisas, e o intervencionismo precisa
garantir a sociedade humana justa — segundo a definição dos elitistas, claro.
Nem todos os intervencionistas defendem a perfectibilidade humana, mas quase
todos colocam a esperança na economia politizada para alterar o ambiente a fim de
transformar o homem. O homem é cobiçoso. As elites devem tirar a ganância dele para que
se possa ter uma sociedade justa e correta. Isso se faz mediante o confisco da riqueza e das
posses do homem, tornando-o dependente do Estado para obter saúde, educação e bem-
estar e ao desencorajar hábitos danosos como fumar tabaco, ingerir comidas gordurosas e
possuir armas de fogo.
Homem e mulher podem ser melhores do que são, e nós — a elite, os virtuosos, os
magnânimos, os abnegados, os sábios e, acima de tudo, os humildes — podemos construir
um mundo melhor ao reconfigurar a natureza humana.
Vejam: quando o homem perde a esperança na santificação espiritual, ele passa a
esperar pela perfectibilidade humana. Do mesmo modo que o intervencionismo é uma forma
de providência secular, também a engenharia social é uma maneira de santificação secular.
Deixemos isso mais concreto.
Ouvimos a expressão “melhores anjos de nossa natureza”. Nestes dias, sempre
parece haver um componente político anexado. Poderíamos denominá-lo perfectibilidade
política — o conceito, em geral implícito, de que na política se pode fazer algo impossível
fora dela. Os políticos oferecem um tipo de santificação pessoal. O Estado nos torna pessoas
melhores.
Deixados sós, nós nos permitimos acumular com avidez mais posses que o
necessário. Não temos nenhum cuidado pelos idosos ou cuidados médicos dos concidadãos.
Há, entretanto, um remédio para essa doença: o Estado. Ele nos santifica, e extrai o melhor
da natureza humana. O Estado nos toma a riqueza e a redistribui de maneira mais justa. Ele
nos faz pessoas melhores do que somos.
Deixados sós, educamos nossos filhos de maneira egoísta, estreita e unidimensional.
Todavia, o Estado santifica nossos filhos. Nas escolas estatais eles aprendem a obrigação
global, os valores seculares e o igualitarismo. Nas escolas públicas nossos filhos são
libertados das amarras do interesse individualista e da religião tradicional (em geral, o
cristianismo). O Estado obtém sucesso com nossos filhos onde os pais falham.
Deixados sós, indulgenciamos hábitos poucos saudáveis como fumar tabaco, comer
alimentos gordurosos e possuir armas de fogo. Não se preocupe. O Estado é o grande
santificador. Ele limitará ou criminalizará essas ações injuriosas. Será bem-sucedido onde
falhamos. A natureza humana foi poluída. Mas o Estado a aperfeiçoará — nos fará melhor
do que somos.
Deixados sós, começamos negócios que oprimem os trabalhadores, sem fornecer a
cobertura de planos de saúde, a licença maternidade, ou ao não oferecer salários altos o
suficiente. Esqueça-se de que esses benefícios não são gratuitos. Esqueça-se de que
podemos ser obrigados a despedir pessoas ou manter o nível de desemprego alto para
alcançar esses objetivos elevados. Esses são detalhes insignificantes. A questão real é nos
fazer os “melhores anjos de nossa natureza”.
Não podemos fazer isso sozinhos, sem dúvida, e não podemos confiar no Deus
providente para nos tornar melhores. Entretanto, podemos confiar na política para nos
fazer melhores. O homem deixado a si mesmo é um triste destino. Mas o homem edificado
pelo Estado torna-se o que ele estava destinado a ser.
Essa é a agenda da perfectibilidade política.
Quando Barack Obama emitiu a seguinte declaração conhecida: “Somos aqueles por
quem esperávamos”, ele se valeu da linguagem da perfectibilidade política.
Os adoradores da criatura desejam a perfectibilidade humana à parte do Criador e
de seus caminhos. Se são a elite, desejam que o Estado assegure essa perfectibilidade.
Porém, a perfectibilidade é impossível sem o intervencionismo.
Afinal, transformar a natureza humana não é algo barato. É preciso de muito
dinheiro para aprimorá-la.
Todavia, a verdadeira questão é mais profunda. O intervencionismo extermina as
más qualidades do homem. Ele faz correções que jamais confiaríamos ao indivíduo fazer. E,
sem dúvida, não se pode confiar que Deus faça essas transformações no homem.
Esse é o motivo de nossa esperança residir na perfectibilidade política.
A perfectibilidade política deseja a santificação sem o Deus trino. Ela quer
transformar o homem de acordo com o antropocentrismo.
Afirmo que isso é nada menos que agnosticismo prático e ateísmo operacional. A
ferramenta da perfectibilidade política é o intervencionismo econômico.
O intervencionismo destesegundo tipo procede de um impulso profundamente não
cristão.
3. RIQUEZA

Isso nos leva ao terceiro e último conflito entre os impulsos religiosos rivais no que
diz respeito à economia. Ele versa sobre as visões concorrentes da riqueza e da produção e
transmissão da riqueza. O problema aqui não é apenas o intervencionismo econômico.
Existe também um viés estranho contra a concentração da riqueza — não raro em círculos
cristãos, sob pretexto de piedade.
Com certeza, você poderia dizer, caso haja um lugar onde o testemunho cristão fica
ao lado do intervencionismo, ele está aqui. Por exemplo, o que dizer de todas as
advertências bíblicas sobre o rico e a exaltação do pobre?
Afinal, o rico terminou no fogo do inferno, e o pobre Lázaro descansou no seio de
Abraão (Lc 16.19-31).
Lê-se em Provérbios 23.5: “Porventura, fitarás os olhos naquilo que não é nada?
Pois, certamente, a riqueza fará para si asas, como a águia que voa pelos céus”.
Tiago 5.1: “Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas
desventuras, que vos sobrevirão”.
Devemos lidar com esses ensinos sem pestanejar.
A riqueza pode ser perigosa, e muitas vezes o é. Ela pode nos afastar da confiança
plena na provisão divina, e inculcar em nós o senso de autossuficiência e orgulho. A riqueza
pode desviar nossa atenção das coisas eternas e monopolizar nossa vida.
Não é de admirar que muitos cristãos suspeitem e tenham até medo do dinheiro e
dos ricos.
Mas se lermos quase todos os textos bíblicos de perto, no contexto, eles consistem
em advertências contra o uso equivocado da riqueza. Não são condenações tácitas em si.
Encontramos advertências bíblicas similares sobre sexo e poder. Todavia, Deus não
os condena — apenas sua apropriação indevida. Sexo, poder e riqueza, como fogo e água,
produzem grandes servos e poderosos mestres maus.
Na verdade, repetidas vezes a riqueza, nas Escrituras, é a recompensa pela
fidelidade paciente, sabedoria, diligência, humildade, generosidade e apoio ao reino do
Senhor.
Isso não significa que todos os cristãos professos entendam essa relação. Por
exemplo, existe o “evangelho da prosperidade”: Deus deseja que todos sejam saudáveis,
gordos, ricos e felizes; se não formos, carecemos de fé. Essa visão é tão tola que qualquer
um que conheça a Bíblia sabe de seu equívoco.
Os amigos de Jó (por exemplo) alegavam sua pecaminosidade porque Deus o privou
da riqueza. Todavia, os amigos estavam errados. Deus favoreceu Jó a despeito de sua
pobreza, que consistia na vontade de Deus para esse homem santo naquele estágio de sua
vida.
O “evangelho da prosperidade” é uma caricatura do Evangelho bíblico.
Mas em reação exagerada ao “evangelho da prosperidade” está o “evangelho da
pobreza”, como vemos em Sojourners, em muitas igrejas evangélicas e na teologia da
libertação.[10] Eis o conceito: Deus está sempre do lado dos pobres. Os ricos são inimigos
de Deus — ou no mínimo violam de forma perigosa a vontade dele. Os cristãos deveriam
ser pobres ou, na melhor das hipóteses, não ricos. O Estado existe também para impedir
que as pessoas fiquem muito ricas e para redistribuir a riqueza às pessoas que de fato a
merecem — os pobres. A tarefa do Estado é impedir que os ricos fiquem mais ricos.
A mão de Deus está por natureza com o pobre, a pobreza é uma bênção e a
prosperidade uma maldição.
Existem, no entanto, ensinos bíblicos incompatíveis com o “evangelho da pobreza”,
embora pareçam ter menos popularidade na igreja cristã.
Lê-se, por exemplo, em Deuteronômio 28 que Deus abençoará com grandes posses
materiais os fiéis a ele e à sua lei. É importante reconhecer a impossibilidade de
“espiritualização” dessas promessas. Eis as promessas divinas aos fiéis:

O SENHOR te dará abundância de bens no fruto do teu ventre, no fruto dos teus
animais e no fruto do teu solo, na terra que o SENHOR, sob juramento a teus pais,
prometeu dar-te.

O SENHOR te abrirá o seu bom tesouro, o céu, para dar chuva à tua terra no seu
tempo e para abençoar toda obra das tuas mãos; emprestarás a muitas gentes,
porém tu não tomarás emprestado. (v. 11,12)

De nenhuma forma essas promessas bem terrenas de riqueza podem ser


transformas em promessas etéreas e eternas referentes ao porvir. Nenhum judeu decente e
temente a Deus teria pensado assim. Elas são promessas bem concretas de riqueza
temporal.
Da mesma forma, lê-se em Provérbios que se formos humildes, temermos a Deus e
trabalharmos duro, Deus nos abençoará em sentido material (13.4; 22.4).
O que dizer do Senhor? Ele parecia se dar bem com os ricos, não só com pobres. E
ele amava banquetes que exigiam riqueza. Essa era uma das acusações contra ele — João
Batista era abstêmio, mas Jesus comia e bebia — festejava, poderíamos até dizer (Mt
11.19).
Jesus não só prometeu que seus discípulos teriam dificuldades no mundo, mas
também: “Já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com
perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna” (Mc 10.29,30).
Paulo escreveu: “Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e
em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de
abundância como de escassez” (Fp 4.12).
Não são palavras de um homem desconfortável com riqueza, e sim de um homem
confortável onde quer que Deus o coloque — incluindo-se o desfrute de enorme riqueza.
Recomendo fortemente o notável livro de John Schneider, The Good of Affluence [O
bem da afluência], se você deseja conhecer um argumento bíblico extensivo sobre a
bondade da riqueza.[11]
Algumas das linhas mais impressionantes e convincentes do livro expõem a
parábola de Jesus sobre os talentos (Mt 25); nela o bom mestre recompensa o investidor
que trabalha duro e pune o servo preguiçoso que enterra o dinheiro do seu senhor com
segurança no chão.
Ouça Schneider:
Não há muito na teologia cristã hoje que honre a Deus como o guerreiro-rei, ou que
honre a coragem de pessoas piedosas no mercado. Todavia, eis uma parábola sobre
o poder e o alargamento do domínio por meio da riqueza. É uma parábola que
honra a coragem espantosa e a força de um guerreiro e rei, que não vai parar até
que seu reinado esteja ampliado sobre toda a terra. É uma parábola que honra a
força e coragem de seus servos frutíferos nas esferas mundanas do poder. Trata-se
de uma parábola que honra o crescimento de pessoas que se tornam mais fortes, e
fazem seu mestre mais forte, por meio da criação de riqueza. E é também uma
parábola do terrível aviso contra o espírito tímido e a esterilidade em resposta ao
mundo.[12]

Por que os cristãos não pensam hoje nesses termos? Que Deus nos responsabilizará
pela falta de investimento econômico vigoroso e agressivo. Que ele punirá o servo
miserável, que temeroso mantém o dinheiro do Senhor bem trancado, que rejeita se
envolver no mercado para multiplicar o dinheiro do Senhor.
Não se engane — todo e dinheiro é do Senhor, e ele deseja que nós o multipliquemos
para sua glória.
Portanto, o assalto generalizado e implícito sobre os executivos é um ataque sobre a
obra do Senhor.
Deixe-me dizer de maneira aberta: quando atacamos a riqueza e sua criação como
tal (não sua perversão), opomo-nos a uma parte crítica do plano do Senhor para expandir
seu reino no mundo.
Lidaremos com detalhes a respeito dessa afirmação em um momento.
Pensamos de imediato na santimônia que rodeia o “serviço público”. Público, sem
dúvida, significando político. John McCain é tão culpado quanto Barack Obama ao enaltecer
quem se dedica ao “serviço público”.
Ouvimos isso de maneira franca nas palavras de John F. Kennedy: “A ação política é
a responsabilidade mais alta do cidadão”.
Ah, verdade?
Não se engane. Eu aprecio os políticos fiéis (embora existam poucos) que trabalham
duro em prol de leis justas, de menos governo e da proteção de nossas fronteiras. Sou grato
a Deus por homens e mulheres que desempenham essa tarefa com fidelidade. Que Deus
possa nos dar mais pessoas desse tipo no “serviço público”.
Que tal mudar o ritmo e aplaudir quem se encontra no “serviço privado”? Quero
dizer as mulheres e os homens que arriscam centenas de milhares de dólares do próprio
dinheiro para iniciar um pequeno negócio.
Aplaudamos quem se levanta às 4h30 da manhã e trabalha até às 22 horas a fim de
servir outras pessoas fornecendo bens e serviços.
Defendamos os pequenos empresários que aguentam as leis salariais impostas pelo
governo, as regulamentações da Occupational Safety & Health Administration
[Administração de Segurança e Saúde no Trabalho] e a hipocrisia de todos, de Barack
Obama a Sean Penn, para tentar servir às pessoas e proporcionar uma vida melhor para os
empregados.
Sim, apoiemos pessoas que tornam possível às crianças de lares modestos comer
cereal matinal, usar calças jeans e viajar à Disneylândia de vez em quando.
Na maioria das vezes, essas pessoas — não os “funcionários públicos” — são
instrumentais na nossa alimentação, vestimenta e habitação, bem como de nossos filhos e
netos — sob a perspectiva humana e horizontal. São elas que dão, mesmo aos mais
modestos entre nós, um grau de luxo — jantares ocasionais com costela, edredons, canetas-
tinteiros, aposentadoria 401(K),[13] aquecimento e ar condicionado.
Esses não são benefícios de “servidores públicos”. Os servidores públicos são muito
proficientes em fazer duas coisas: extrair benefícios e redistribui-los.
Eles não sabem nada sobre a criação de riqueza. Essa é uma limitação severa — e
um perigo grave — da política econômica.
Dizer ou sugerir que quem se encontra no “serviço público” é — de alguma maneira
— mais altruísta, nobre e humilde que os pequenos empresários implica em uma forma de
hipocrisia rançosa e uma desgraça total em relação às pessoas que Deus usa para manter
esta nação provida em sentido material.
Em última análise, além disso, o “serviço público” é realmente um termo impróprio.
As pessoas que mais servem ao “público”, pelo menos no nível de provisão material, são os
servos “privados” — os empresários de ambos os sexos.
Por ironia, os servidores “públicos” são quase sempre “privados” — suas políticas
econômicas não beneficiam a ampla população, mas certos grupos e indústrias favorecidas
— como sindicatos, fazendas, minérios de carvão e produtores automobilísticos. São
políticas estatais que não beneficiam o interesse público, mas favorecem apenas um grupo
limitado à custa dos demais — tudo sob o pretexto de interesse “público”.
Poderíamos dizer, portanto, que o “serviço privado” dos empresários que trabalham
duro fornece o maior benefício público, enquanto o “serviço público” dos políticos prejudica
grande parte do público por conta do interesse de uns poucos indivíduos, grupos e
indústrias particulares.
Há outro erro popular relacionado à concentração de riqueza. Ouvimos chamados
piedosos à “vida simples”. Essa é o conceito de que deveríamos viver com cada vez menos
— apenas para subsistir. (Não é bem assim: afinal, bons cristãos dos EUA, mesmo os
moralistas econômicos, ainda precisam de necessidades absolutas, como carros movidos a
etanol de milho e suco fresco de romã orgânica. É preciso muito dinheiro para o estilo de
vida “simples” dos dias de hoje.)
Ainda assim, a ideia é que ajudamos a economia e não oprimimos os outros se
gastamos menos e compramos quase tudo usado, e vivemos o máximo possível suprindo as
necessidades básicas.
Seria difícil imaginar uma estratégia economicamente mais egoísta, egocêntrica e
catastrófica.
Deixem-me ilustrar essa verdade com um diálogo que mantive. Um amigo e eu
estávamos conversando sobre os cristãos e a riqueza. Ele afirmou:
— Não há razão para o cristão gastar 80 mil dólares em um carro. Ninguém precisa
de um carro de 80 mil dólares. Isso é errado!
Eu disse:
— Por que você desejaria roubar comida da mesa de crianças pequenas e carentes?
Por que você desejaria promover a pobreza e tirar pessoas do trabalho?
Ele aparentemente não estava seguindo o raciocínio, de forma que expliquei:
— Alguns trabalhadores que construíram o carro de 80 mil dólares não ganham
esse valor nem em um ano. Eles têm filhos para alimentar, e o fazem com o pagamento
recebido dos 80 mil dólares que um rico gastou no carro que fabricaram. Se as pessoas
deixarem de comprar esses carros sob o pretexto de piedade, eles perdem o sustento e seus
filhos sofrem.
Disse algo mais a ele:
— Se ninguém precisa de um carro de 80 mil dólares, por que precisaria de uma van
de 15 mil dólares como essa que você dirige? São 15 mil dólares! Sabe o quanto de comida
isso compraria? Você poderia caminhar ou andar de bicicleta. Pelos padrões de muitas
partes do mundo, uma van de 15 mil dólares é um luxo. Em princípio, não é menos luxuosa
que a Mercedes de 80 mil dólares, certamente não para pessoas em grande parte do
Terceiro Mundo”.
Mas o problema da “vida simples” é desprezado por muitos piedosos em sentido
econômico.
Há um fato importante que muitos parecem ignorar: a grande e próspera classe
média é impossível sem a cultura de lazer e luxo. A razão pela qual muitos de nós podem
ter uma vida confortável é que algumas pessoas muito ricas compram bens e serviços de
luxo que as classes baixa e média ajudam a fornecer.
O que significa dizer que “a vida simples” é uma forma de autoindulgência piedosa.
Prejudica pessoas boas que trabalham duro. É um alto preço a pagar pela aversão a preços
altos em troca de bens de luxo.
O problema suscita dificuldades ainda maiores para a igreja e o reino.
Quando ouço cristãos depreciando a riqueza e os ricos, agora digo: “Então você é
contra levar o Evangelho ao mundo, a abertura de escolas cristãs, novos projetos
missionários e a expansão do reino do Senhor”.
Eles não são intencionalmente contrários a nada do tipo, mas sua simplicidade
econômica piedosa põe em risco esses ministérios cristãos. Parecem não entender que o
dinheiro é necessário para fazer as coisas. Pensam que missionários, igrejas e escolas
paroquiais aparecem em um passe de mágica.
Mas não existem milagres assim. Deus age por meio delas miraculosamente;
entretanto, de modo geral, ele usa dinheiro para mantê-las em funcionamento.
Assim, quando cristãos argumentam a favor da “vida simples”, na verdade defendem
a capacidade menor de trabalhar para a obra do Senhor na terra.
Quando nos pronunciamos contra a produção e o acúmulo válido de riqueza,
contrariamos uma das estratégicas estabelecidas por Deus para o sucesso do reino. Quando
declaramos que as riquezas são inerentemente más e corruptas, presumimos que a riqueza
seja sinal de cobiça intrínseca, pensamos que a riqueza reflete materialismo e carnalidade
negamos o elo divino entre a fidelidade e a bênção — incluindo-se bênçãos materiais.
Além disso, introduzimos o dualismo radical no mundo de Deus. Eis o conceito de
que a matéria é inferior ao espírito. De acordo com ela, Jesus não é de fato Senhor da
materialidade e riqueza porque elas não, na melhor hipótese, desimportantes, e, malignas,
na pior. Trata-se da negação absoluta do senhorio de Jesus Cristo. Ela empurra o Deus trino
em direção ao céu e coloca o Estado no comando da terra. Deus está preocupado com
questões “espirituais”, não materiais.
Os dualistas parecem não entender que as questões materiais são espirituais. E
quando separamos a riqueza da autoridade divina, nós a entregamos a Satanás.
Esse é o motivo pelo qual a premissa religiosa por trás da aversão à validade da
produção e do acúmulo de riqueza é, em sentido operacional, agnóstica: ela quer que Deus
seja o Senhor da pobreza, mas não da riqueza; Senhor da simplicidade, mas não da
complexidade; Senhor da fraqueza, mas não do poder.
Todavia, Jesus Cristo é Senhor de todas as coisas e situações.
E o ataque à significa um ataque a seu senhorio.
Que Deus nos conceda uma nova geração de guerreiros econômicos, adoradores do
Criador — que não buscam seu sustento na política e no Estado —, pessoas que invadam o
mercado sem medo para aumentar sua riqueza e os limites do reino de Deus.
CONCLUSÃO

O intervencionismo econômico é uma cosmovisão agnóstica: ele coloca a


providência secular na mão do Estado, e não a mão do Deus soberano na vida de indivíduos
criados à sua imagem.
O intervencionismo econômico nega a fixidez da natureza humana e atribui ao
Estado a tarefa de santificar — que deveria ser reservada só a Deus.
Além disso, ele corta o cordão entre a fidelidade a Deus e a bênção da riqueza,
negando, portanto, o senhorio divino sobre vastas extensões do mundo.
Por essa razão, o ímpeto religioso do intervencionismo econômico guerreia contra o
cristianismo consistente.
Você pode ser um intervencionista econômico, ou pode ser um cristão consistente,
mas não pode ser as duas coisas.

[1] Richard Tarnas, The Passion of the Western Mind (New York: Ballantine, 1991), p. 341-1.
[2] A Conflict of Visions (New York: William Morrow, 1987), cap. 1.
[3] Cornelius Van Til, The Defense of the Faith (Phillipsburg, New Jersey, edição de 1967), p. 46-50.
[4] Sobre esse elitismo, veja Angelo M. Codevilla, The Ruling Class (New York: Beaufort Books, 2010).
[5] Faço menção à providência prescritiva de Deus: o desejo divino em relação ao mundo, como se encontra na
Bíblia. Não me refiro à providência decretiva, seus conselhos secretos não revelados ao homem antes de sua
ocorrência. Pode ser que a providência decretiva de Deus conduza à tirania política (e econômica) de uma cultura
(Hc 1.5-11), mas o homem deve viver de acordo com a providência prescritiva, oposta à tirania (1Sm 8.1-18).
[6] “Transcript: Obama and Clinton Debate”,
http://abcnews.go.com/Politics/DemocraticDebate/story?id=4670271&page=3,
acessado em 16 de março de 2011.
[7] The Gate. New York: Alfred A. Knopf, 2003, p. 6-7.
[8] Clark H. Pinnock, “The Pursuit of Utopia”, in: Freedom, Justice and Hope, Marvin Olasky (org.) (Wheaton, Illinois:
Crossway, 1988), p. 76-82.
[9] Contrário à calúnia de tantos, os pós-milenaristas negam a utopia terrena, como o faz aqui o pós-milenarista
Andrew Sandlin. [N. do T.]
[10] Ronald Nash (org.), Liberation Theology (Milford, Michigan: Mott Media, 1984).
[11] Grand Rapids: Eerdmans, 2002.
[12] Ibid., p. 189, grifos do autor.
[13] Tipo de plano de aposentadoria patrocinado pelo empregador. [N. do T.]