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Table of Contents

Introdução
PARTE 01 - DESCOBRINDO O CAMINHO DE ABRAÃO
PARTE 01 - DESCOBRINDO O CAMINHO DE ABRAÃO
01. Emmanuel W. Eliot
02. A Trombeta de Jericó
03. O Caminho de Abraão
04. Preparativos para a Peregrinação
PARTE 02 - PROCURANDO ENTENDER A BONDADE DE DEUS
PARTE 02 - PROCURANDO ENTENDER A BONDADE DE DEUS
05. A Criação do Homem
06. O Temor a Deus
07. A Condenação ao Inferno
08. Se Deus é Bom, Por Que Permite o Sofrimento?
09. Se Deus é Bom, Por Que Existem Seres Humanos Esteticamente Prejudicados?
PARTE 03 - RECEBENDO A GRANDE REVELAÇÃO
PARTE 03 - RECEBENDO A GRANDE REVELAÇÃO
10. De Volta do Caminho de Abraão
11. Preparação para a Grande Revelação
12. Conhecendo o Segredo de Deus
13. Compreendendo o Sofrimento
14. O Dia em que Satanás Chorou
PARTE 04 - A HUMANIDADE DIANTE DA GRANDE REVELAÇÃO
PARTE 04 - A HUMANIDADE DIANTE DA GRANDE REVELAÇÃO
15. Conciliando Religião e Ciência
16. As Religiões se Confraternizam
17. As Forças Do Mal Contra-Atacam
18. A Humanidade se Aproxima de Deus
19. A Humanidade Reduz o Desperdício de Cérebros
20. Valorizando a Vida na Terra
PARTE 05 - A VIDA DO PROFETA APÓS A GRANDE REVELAÇÃO
PARTE 05 - A VIDA DO PROFETA APÓS A GRANDE REVELAÇÃO
21. A Criação de Mitos e Lendas sobre o Profeta
22. As Tentativas de Desmoralizar o Profeta
23. As Acusações de Heresia
24. O Primeiro Milagre: A Indiazinha Escultora
PARTE 06 – O PROFETA CONCLUI SEU TRABALHO
PARTE 06 – O PROFETA CONCLUI SEU TRABALHO
25. O Diabo Tenta o Profeta
26. O Profeta Fala aos Filhos de Abraão
27. O Judeu Errante Procura o Profeta
28. A Última Profecia
AGRADECIMENTOS
NOTAS
SOBRE O PROJETO
SOBRE O AUTOR
SOBRE O LIVRO
O SEGREDO DE DEUS
Em busca do sentido da vida, um jovem professor percorre o Caminho de
Abraão e é surpreendido por revelações sobre a natureza e a mente de Deus,
e as razões que levaram o Grande Arquiteto do Universo a criar a
Humanidade. No mundo dos homens, vive o conflito entre Israelenses e
Palestinos.

Nelson Teixeira, Ph.D.

Copyright © 2014 Nelson Teixeira.


Todos os direitos reservados.

ÍNDICE

Introdução

PARTE 01 - DESCOBRINDO O CAMINHO DE ABRAÃO


01. Emmanuel W. Eliot
02. A Trombeta de Jericó
03. O Caminho de Abraão
04. Preparativos para a Peregrinação

PARTE 02 - PROCURANDO ENTENDER A BONDADE DE DEUS


05. A Criação do Homem
06. O Temor a Deus
07. A Condenação ao Inferno
08. Se Deus é Bom, Por Que Permite o Sofrimento?
09. Se Deus é Bom, Por Que Existem Seres Humanos Esteticamente Prejudicados?

PARTE 03 - RECEBENDO A GRANDE REVELAÇÃO


10. De Volta do Caminho de Abraão
11. Preparação para a Grande Revelação
12. Conhecendo o Segredo de Deus
13. Compreendendo o Sofrimento
14. O Dia em que Satanás Chorou

PARTE 04 - A HUMANIDADE DIANTE DA GRANDE REVELAÇÃO


15. Conciliando Religião e Ciência
16. As Religiões se Confraternizam
17. As Forças Do Mal Contra-Atacam
18. A Humanidade se Aproxima de Deus
19. A Humanidade Reduz o Desperdício de Cérebros
20. Valorizando a Vida na Terra

PARTE 05 - A VIDA DO PROFETA APÓS A GRANDE REVELAÇÃO


21. A Criação de Mitos e Lendas sobre o Profeta
22. As Tentativas de Desmoralizar o Profeta
23. As Acusações de Heresia
24. O Primeiro Milagre: A Indiazinha Escultora

PARTE 06 – O PROFETA CONCLUI SEU TRABALHO


25. O Diabo Tenta o Profeta
26. O Profeta Fala aos Filhos de Abraão
27. O Judeu Errante Procura o Profeta
28. A Última Profecia

AGRADECIMENTOS
NOTAS
SOBRE O PROJETO
SOBRE O AUTOR
SOBRE O LIVRO
Introdução

A maioria das pessoas que creem em Deus está segura de que não poderíamos viver sem os
profetas. Para essas pessoas de fé, os profetas são figuras indispensáveis a Deus e aos
Homens porque é por meio deles que o Criador se faz conhecido e transmite à Humanidade
Seus desejos, Seus valores, Suas leis: os profetas são os mensageiros humanos de Deus.

Assim, foram profetas que revelaram ao mundo que Deus é onipotente, onipresente e
onisciente; que Deus é bom, justo e generoso; que Ele nos fez à Sua imagem e
semelhança. Sem os profetas tampouco saberíamos como é o Paraíso e como se deu a
criação do universo.

Sem os profetas também não saberíamos que Deus acompanha cada um dos habitantes
deste Planeta - registrando todos os seus pensamentos, palavras e obras - para julgá-lo
após a morte, quando premia os bons e castiga os maus. A Bíblia relata em Amós que “O
Senhor não faz coisa alguma sem revelar Seus planos aos profetas, Seus servos(1)”.

Como Deus escolhe Seus profetas? Pesam a fé, a nacionalidade, a etnia? A cor, o sexo, a
idade? O que é relevante? Ninguém sabe ao certo. No caso de Emmanuel W. Eliot, nem os
amigos mais íntimos, os familiares mais próximos, ou a própria noiva, poderiam prever o
que o futuro lhe reservava.

A história de Eliot é a odisseia de um indivíduo aparentemente comum que Deus escolheu


para transmitir à Humanidade o Seu maior segredo - a Grande Revelação. O Homem iria
finalmente conhecer a natureza e a mente de Deus e Seus planos para a Humanidade.
PARTE 01

DESCOBRINDO O CAMINHO DE ABRAÃO

01. Emmanuel W. Eliot


Emmanuel W. Eliot nasceu no interior do Mississippi. Aluno inteligente e aplicado, soube
superar as limitações de seu meio para tornar-se um acadêmico culto e respeitado. Na
Universidade onde lecionava era querido tanto pelos colegas-professores como por seus
alunos. Eliot era também conhecido como um amigo sempre disponível.

No entanto, fora do ambiente acadêmico, Eliot não era alguém que se destacasse. Longe das
salas de aula, raramente despertava a atenção das pessoas à sua volta, talvez pela maneira
simples de se vestir, aliada à uma disciplinada timidez. Contribuía para sua discrição a
frequente necessidade de se afastar para observar as pessoas à distância, ao invés de
interagir com elas. O fato é que era difícil distingui-lo em um grupo, impossível apontá-lo
na multidão.
* * *

Eliot formou-se em História, voltando-se em seguida para a Antropologia. Logo após


ingressar na Universidade visitou com alguns colegas o Museu de Antropologia Cultural da
Universidade de Minnesota e desde então viu crescer a motivação - que se tornou
irresistível - de conhecer melhor o Ser Humano. Concluído o doutorado que lhe custou
quatro anos e cinco meses, optou pela carreira de professor-pesquisador.

Almejando ampliar seus horizontes, o jovem antropólogo decidiu pesquisar - a influência


do avô, um pastor batista, não pode ser descartada - a religiosidade das tribos indígenas da
Floresta Amazônica. Não tinha ainda completado 29 anos.

Eliot planejou ficar apenas cinco ou seis meses entre os índios, não mais que isto. É que ao
preparar-se para a viagem à América do Sul ele soube da morte trágica do antropólogo
americano Buell Quain que, na década de 1930 fora, coincidentemente, estudar os silvícolas
daquela região. Quain, ao voltar de uma expedição ao Xingu, hospedou-se com os índios da
tribo dos Krahó, no sul do estado brasileiro do Maranhão, próximo à divisa com Tocantins.
Mostrando-se incapaz de suportar o isolamento prolongado numa sociedade estranha e
distante, Quain foi tomado de profunda depressão e, depois de escrever cartas de
despedida para familiares, amigos e colegas de trabalho, se matou. Buell Quain tinha
apenas 27 anos naquele fatídico dois de agosto de 1939(1).

A decisão de Eliot de se ausentar por apenas um semestre não refletia, portanto, a sua
motivação pela pesquisa - era pura precaução diante do desconhecido. Afinal, tratava-se de
um projeto bem delineado, resultado de muitas tardes na biblioteca, incontáveis
telefonemas, e muita reflexão. Na verdade Eliot considerava um privilégio poder conversar
com pajés de algumas tribos da Amazônia e, para isso, contaria com a ajuda de um tradutor
da Fundação Nacional do Índio-FUNAI, o serviço de proteção aos índios do governo
brasileiro.

O pajé é o curandeiro e sacerdote da tribo, a autoridade que recebe as mensagens dos


deuses e dos mortos, que conhece as propriedades medicinais das plantas, e que tem
poderes para recorrer às forças do sobrenatural. Cabe ao pajé evocar os deuses e os
espíritos nos rituais de cura e nas cerimônias religiosas. Eliot pretendia assistir a uma
pajelança, ritual em que o pajé evoca os deuses da floresta e os ancestrais da tribo para
ajudar na recuperação de um doente(2).

Eliot também sonhava em contatar na Amazônia alguma tribo sem vínculos com a
civilização. Informou-se e soube que a FUNAI estimava em mais de cinquenta o número de
tribos isoladas, e por isso criara, em 1987, uma unidade destinada a localizar e proteger
índios cuja cultura e forma de viver não tivessem sido alteradas por influências externas
após cinco séculos de colonização europeia.

***

Em se tratando de sua primeira viagem à América do Sul, Eliot quis aproveitá-la para
conhecer Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas, no Peru. Situada a 2430m de altitude,
Machu Picchu(3) foi aparentemente construída para servir de refúgio ao soberano Inca e seu
séquito mais próximo. Suas ruínas só foram descobertas em 1911 pelo antropólogo e
historiador americano Hiram Bingham, numa expedição promovida pela Universidade de
Yale. Machu Picchu é um testemunho eloquente de que as sociedades nascem, crescem,
atingem seu ápice, entram em decadência e vão se debilitando até desaparecer, numa
melancólica extensão das ideias de Darwin aos agrupamentos humanos.

Eliot sentia pelos ameríndios um misto de ternura e compaixão. Constatou pesaroso que,
enquanto a população mundial cresceu quase quinze vezes desde a viagem de Colombo(4),
os ameríndios por pouco não se extinguiram. No Brasil, os milhões de índios do período
pré-colombiano, talvez chegassem a cinco milhões, estão hoje reduzidos - índios que vivem
em terras indígenas - a menos de quinhentos mil(5).

Sem risco de errar, pode-se dizer que na América Latina a maioria dos primitivos
habitantes sobrevive hoje invisível nos genes dos descendentes do colonizador europeu e
do escravo africano, a exemplo do Brasil, onde um terço dos brancos possui alguma
ascendência indígena(6). Nas regiões onde o conquistador europeu encontrou nações mais
evoluídas, como os Maias, Astecas e Incas, a presença de traços indígenas na população é
mais evidente.

O que ocorre na esfera cultural é ainda mais grave. Para Eliot, os primitivos habitantes das
Américas tendem a desaparecer de nossa memória: estariam condenados ao arquivo morto
da História. A explicação de um colega de Eliot para essa condenação ao esquecimento é
que os ameríndios não foram capazes de criar espaço em nosso imaginário - não nos
legaram profetas como Abraão, Moisés, Buda e Maomé, não nos deixaram textos sagrados,
não nos presentearam com relatos de virgens visitadas por criaturas celestes ou xamãs
passeando pelo cosmos em carruagens de fogo. Enfim, não fincaram estacas em nossa
mente. E completando o quadro, não produziram - ou não foram capazes de fazer chegar
até nós - um único pensador da dimensão de Aristóteles, Platão, Pitágoras, Heródoto ou
Homero. O conhecimento que as civilizações indígenas mais prósperas desenvolveram em
diversas áreas (na astronomia dividiram o ano em 365 dias; na matemática criaram o
numeral zero(7); na agricultura desenvolveram técnicas avançadas de irrigação), assim como
sua perícia para usar a Natureza sem destruí-la, não mereceram o nosso reconhecimento.

Antes de chegar ao Brasil, Eliot passou uma semana no Peru. Por coincidência, chegou à
Floresta Amazônica no dia 19 de abril, o Dia do Índio(8). Foi nessa viagem à América do Sul
que, sem que percebesse, sua vida de antropólogo começou a mudar.
02. A Trombeta de Jericó
A grande mudança na vida de Eliot começou com um sonho que lhe ocorreu durante uma
viagem de jipe pelo norte do estado brasileiro do Mato Grosso.

Depois de cinco semanas entre índios de diversas etnias no Parque Indígena do Xingu, Eliot
resolveu ir até a cidade de Cuiabá, onde planejava passar o fim de semana. Sentia falta da
civilização, com seus jornais, revistas e noticiários na TV. Era a primeira vez que fazia
aquele trajeto. O longo percurso em estrada de terra sem acostamento e cheia de buracos
oferecia grandes riscos aos motoristas, principalmente à noite e no período de chuvas.

Após um dia de freadas bruscas e manobras arriscadas para desviar de uns poucos veículos
e muitos animais - na maioria vacas, mas também veados e uma capivara -, Eliot optou por
não prosseguir viagem durante a noite. Os buracos o obrigaram a trocar o pneu dianteiro
direito duas vezes. Exausto, decidiu parar na primeira pensão de beira de estrada que
encontrasse.

Eliot suspirou aliviado quando leu com seu modesto português a placa Pensão Familiar
dependurada na frente de um sobrado num lugarejo onde deviam morar umas duzentas, no
máximo trezentas pessoas. Estacionou o veículo em frente à pensão e foi direto para a
rústica sala de jantar. Pediu um bife com cebola, arroz e um copo de vinho tinto e foi
informado de que as refeições eram padronizadas, mas que carne de boi acebolada fazia
parte do prato-feito. Ao invés de vinho, trouxeram-lhe, sem que pedisse, uma dose dupla de
cachaça, a única bebida, além de água, que serviam. Muito cansado, foi logo deitar-se na
cama dura e estreita que o aguardava. Caiu imediatamente no sono. Veio-lhe então o sonho
da Trombeta de Jericó.

A Trombeta que apareceu no sonho de Eliot era a mais valente de todas as trombetas que
serviram o exército de Josué durante o cerco à cidade de Jericó, na famosa batalha descrita
na Bíblia. Apesar de protegida por uma espessa manta de algodão e acomodada numa
ampla caixa de madeira revestida internamente de veludo, ela se sentia infeliz,
abandonada, desprezada. De tempos em tempos emitia sons agudos carregados de
profunda tristeza - uma melancolia que traduzia as saudades de seu maior feito, a
derrubada dos muros de Jericó. Desde que pôs abaixo aquelas muralhas para que a cidade
fosse tomada de assalto pelos homens de Josué, nada de emocionante voltara a acontecer
em sua vida.

Embora bem conservada, a Trombeta acreditava merecer melhor sorte do que aquela
condenação à inércia, ao anonimato, ao esquecimento. Nada mais injusto depois de tudo
que fizera!
A pobre Trombeta passava os dias a sonhar com o retorno a batalhas onde pudesse
mostrar novamente o seu valor e a sua bravura, como fizera naquele combate em que
pusera abaixo a sólida proteção de blocos de pedra que rodeava Jericó(1), a primeira cidade
murada de que se tem notícia. Sonhava voltar àqueles tempos felizes de trombeta heroína.
E filosofava sobre a fugacidade da glória: Sic transit gloria mundi!

Um Violino que passava se surpreendeu com aquela cena bizarra: uma Trombeta
choramingando e resmungando. Comovido, quis ajudá-la. Prestou atenção e viu que dava
para discernir o que a Trombeta dizia. Percebeu, no entanto, que nada podia fazer pela
pobre criatura. E apiedou-se de sua triste sina.

O velho instrumento de cordas viu na Trombeta o quanto os nossos desejos refletem a


nossa história e como o passado nos persegue, procurando a todo custo sufocar o presente,
na tentativa de nos dominar e escravizar. Concluiu que o passado pode às vezes ser bem-
sucedido, apoderando-se egoistamente de todo o nosso ser - corpo, mente e alma - sem
nenhuma consideração pelo nosso bem-estar.

Pesaroso, o Violino comparou suas memórias às da Trombeta: em lugar de guerras e


saques, as suas lembranças mais ternas eram de plateias animadas - gente alegre,
sorridente, feliz. Recordou com orgulho as inúmeras vezes em que criara climas românticos
para que rapazes e moças se apaixonassem e casais maduros revivessem as emoções da
juventude. Jamais trabalhara a serviço da violência.

O Violino teve pena da Trombeta. As aspirações ardentes de sua colega se resumiam a


reviver o dia em que derrubara muralhas para que homens matassem homens - na verdade
matassem homens, mulheres, crianças, animais - tudo que respirasse. A glória da Trombeta
estava associada à guerra e à morte. A sua, ao contrário, estava ligada à vida, à paz, à
felicidade. “Pobre Trombeta de Jericó”, lamentou o Violino. “Para sentir-se realizada, teve
de aprender a aceitar a brutalidade, condicionando-se para jamais sentir culpa ou
remorso.” De fato, a Trombeta via com naturalidade o aniquilamento de populações
inteiras já que seu bem-estar dependia da destruição!

Eliot ouvia o Violino pregar a paz, a bondade e a fraternidade para uma Trombeta
desatenta quando, de repente, veio a tempestade. Acordou assustado com o clarão dos
relâmpagos e o barulho dos trovões. A chuva intensa não foi, porém, capaz de afastá-lo de
um pensamento sinistro que se apossou de sua mente: Deus fora mau - em Jericó a
Trombeta atendia aos Seus desígnios. Fora Ele quem promovera a matança. A Trombeta
estava a Seu serviço. É assim que relata a Bíblia. Eliot empalideceu.

Embora não fosse religioso como o avô a quem tanto admirava - um fervoroso pastor
batista com quem conversava pessoalmente ou pelo telefone quase todos os fins de semana
- Eliot acreditava nas Sagradas Escrituras e era temente a Deus. Não costumava ler a Bíblia,
mas estava familiarizado com suas revelações, seja pelos sermões semanais na Igreja de
seu avô, seja ouvindo o avô desde os tempos de criança. Mas jamais refletira sobre aquela
cena de violência.

O jovem antropólogo, que sempre acreditara na infinita bondade de Deus, se viu de repente
diante de um Deus mau, um Deus perverso, um Deus que incentiva o extermínio. Alguma
coisa estava errada. Aquela narrativa bíblica não fazia sentido. Tirou da mala um exemplar
ricamente encadernado do Livro Sagrado, um presente do avô preocupado em fazê-lo mais
religioso, e que deveria acompanhá-lo em suas viagens. Eliot, esquecendo-se de tudo,
começou a folheá-lo.

***

Pela primeira vez Eliot leu atentamente o Livro que fornecia a seu avô, desde a juventude,
tanto as diretrizes para a vida como o pão de cada dia. Primeiro foi o Deuteronômio, em
seguida Josué, Números, Ezequiel. Eliot começou a se indagar:

“Por que Deus não presenteou seus filhos prediletos - o povo que escolheu(2) - com
uma terra desabitada ao invés de ordenar que eliminassem, sem compaixão, os povos
que viviam na Terra Prometida?

“Por que não lhes deu uma floresta a ser derrubada? Por que El próprio não cuidou de
encontrar uma forma menos cruel de desocupá-la? Por que ordenou e ajudou Josué,
em muitas ocasiões, a assassinar todos os seres vivos - homens, mulheres, crianças e
até os animais - na guerra santa pela conquista da Terra Prometida(3)? Qual a
explicação para a matança genocida nas cidades cananeias(4)? Posso acreditar na
bondade de um Deus que apoia a limpeza étnica(5)? Se Deus é bom, por que Ele apoiou
Moisés em seu acesso de fúria contra seus oficiais que não teriam sido
suficientemente impiedosos com os Midianitas, matando apenas os homens ao invés
de eliminar também as mulheres e as crianças do sexo masculino, poupando apenas as
meninas ainda virgens que eles poderiam manter para si(6)?”

Eliot constatou ainda que, além das guerras de extermínio, a Bíblia mencionava outras
ações divinas que contradiziam o Deus bom que ele conhecia, ou julgava conhecer: Deus
também incentivara a pilhagem dos bens de povos que nada tinham feito contra os
Israelitas(7). E apoiava o uso da mentira como instrumento de conquista(8). “Será que, para
Deus, os fins justificam os meios?”, raciocinou assustado(9).

Quando se deu conta, o jovem antropólogo havia atravessado a madrugada e a manhã do


dia seguinte lendo e refletindo. Fechou o Livro disposto a fazer sentido do que lera. Veio-
lhe à memória um colega do curso secundário, de quem se afastara por recomendação do
avô pastor. Para horror do velho Eliot, o rapaz, filho de pais não-religiosos, gostava de dizer
que “o diabo sempre consegue justificar suas ações citando as Escrituras(10)”.

Mas Eliot estava certo de que Deus é bom. Pensou em conversar com o avô mas percebeu
que seria melhor deixar o Velho Eliot de fora, pelo menos por enquanto - o assunto era
delicado demais para ser levado de supetão a um pastor, mesmo que esse pastor fosse seu
querido avô. Pensou também em conversar com o pai, um dinâmico comerciante de
automóveis, mas desistiu ao constatar que ele tinha pouco tempo para a família, e menos
ainda para a Igreja. Tomou então a decisão de interromper a pesquisa sobre os índios da
Amazônia e passar algum tempo meditando sobre a bondade de Deus. Voltou para os
Estados Unidos.
03. O Caminho de Abraão
Eliot retornou aos Estados Unidos apreensivo, mas aliviado. Estava convencido do acerto
de sua decisão. Tão logo desembarcou no aeroporto de Jackson, no Mississippi, alugou um
carro e foi direto para a propriedade rural da família nas proximidades de Hattiesburg. A
pequena fazenda, herança do bisavô paterno, trazia-lhe boas lembranças da infância: era o
lugar aonde iam durante as férias escolares, quando o pai, Edward W. Eliot, o sempre
ocupado comerciante de automóveis, reservava duas a três semanas para dedicar-se aos
três filhos, proporcionando-lhes um pouco de instrução e muita diversão.

Ultimamente o comerciante Eliot passara a frequentar a fazenda com mais assiduidade. A


revendedora de automóveis se expandira abrindo duas novas filiais, o número de
funcionários crescera e suas responsabilidades aumentaram. Antes de tomar decisões
importantes, como representar uma nova marca de carros ou contratar mais vendedores, o
pai de Eliot se refugiava no antigo casarão para refletir sobre seus negócios. Às vezes ia
também o avô pastor, que aproveitava o isolamento para aconselhar-se com Deus. Foi lá
que o jovem antropólogo tentou se esconder.

Eliot ocupou o quarto que era seu desde os tempos de criança - só ele podia dormir naquela
cama. Esperava que aquele ambiente aconchegante o ajudasse a voltar-se para dentro de si,
onde talvez pudesse encontrar-se com Deus e esclarecer suas dúvidas. Queria recordar
tudo o que aprendera sobre Ele na igreja, na escola, nas aulas de catecismo, nas conversas
com o avô, nos livros. “Não me arrependo de ter deixado os índios da Amazônia”, pensou.
“Vale a pena dedicar alguns dias ao Criador para conhecê-Lo melhor.”

Em seu segundo dia naquele casarão, Eliot ligou a televisão e assistiu a uma reportagem
sobre O Caminho de Abraão. Tratava-se de um projeto concebido pela Universidade de
Harvard visando a criar um novo caminho de peregrinação ao longo do percurso
percorrido por Abraão em sua busca pela Terra Prometida. Ocorreu-lhe que a melhor
forma de desligar-se da rotina e voltar-se inteiramente para Deus seria refazer a
caminhada realizada há quatro mil anos pelo primeiro profeta da Bíblia.

Eliot jamais visitara o Oriente Médio, mas viu com simpatia a iniciativa de Harvard.
Comparado a outras rotas de peregrinação, como o Caminho de Santiago de Compostella, o
Caminho de Abraão oferecia o atrativo de inspirar desejos de paz para o Oriente Médio ao
lembrar a Árabes e Judeus a sua ascendência comum - ambos são povos descendentes de
Abraão, o pai do monoteísmo Judaico-Cristão-Muçulmano.

Abraão, profeta cuja ascendência vai até Noé, privou de notável intimidade com Deus, com
quem firmou um acordo singular. Em troca de sua devoção, o Criador prometeu a Abraão
que sua esposa Sara lhe daria um grande número de descendentes: “Eu a abençoarei, e ela
será mãe de nações; dela nascerão reis de povos” (Gênesis, 17:16). Deus cumpriu Sua
parte. Sara deu à luz Isaac, de quem vieram os Judeus, povo chamado semita porque Abraão
descende de Sem, um dos filhos de Noé. Catorze anos antes Abraão tivera com a escrava
egípcia Agar o filho Ismael, com o consentimento de Sara, até então considerada estéril. De
Ismael descendem os Árabes que, assim, são também semitas(1).

Para a realização dos desígnios de Deus, Abraão e Sara saíram à procura da Terra
Prometida que abrigaria em suas planícies, vales e colinas os seus filhos e os filhos de seus
filhos. Nascido em Ur, no atual Iraque, Abraão havia se mudado para Haran, na Turquia, de
onde partiu rumo ao desconhecido, confiando em Deus. Em sua odisseia foi até onde se
encontra hoje Jerusalém, passando por onde é hoje a Síria, Líbano, Jordânia, Cisjordânia,
Israel. Esteve também no Egito. Esse trajeto é o Caminho de Abraão.

***

Eliot procurou o pai e em seguida o avô pastor para comunicar-lhes a sua decisão. O velho
pastor, após um dia inteiro de perguntas e respostas, aprovou a peregrinação com um
misto de dúvidas e de entusiasmo. No final da conversa, recomendou ao neto visitar alguns
lugares santos citados na Bíblia e a, antes de embarcar, familiarizar-se com o Judaísmo e o
Islamismo. O próximo passo de Eliot foi ligar para a noiva em Nova Iorque.

Eliot e Sarah Olivier se conheceram durante uma viagem de Sarah ao Sul dos Estados
Unidos. Foi a primeira vez que ela esteve no Mississippi, onde fora entrevistar fazendeiros
e trabalhadores rurais para sua tese de mestrado. Sentindo-se limitada aos grandes
centros dos Estados Unidos e da Europa, ela quis conhecer melhor a população rural de seu
País, escolhendo o Sul para sua pesquisa sobre a influência da escolaridade nos hábitos de
leitura dos habitantes daquela região.

Os dois jovens se encontraram por acaso, quando o carro que ela dirigia atropelou um
cavalo perto da propriedade dos Eliot. Dizem que os opostos se atraem. Nem sempre, mas
esse foi o caso de Sarah e Eliot.

Contrastando com o provincialismo de Eliot, Sarah nascera e crescera numa família de


empresários novaiorquinos. Era assídua frequentadora de museus, não perdia uma peça
na Broadway, falava fluentemente francês e alemão e conseguia se comunicar em italiano e
espanhol. Culta e curiosa, ela já tinha percorrido quase toda a Europa e parte da Ásia.
Quando se apaixonou por Eliot, Sarah se justificou dizendo que apreciava a honestidade, a
sinceridade, e a sensibilidade de Eliot para lidar com os sentimentos alheios. O mais
importante, porém, é que ela se convencera de que havia chegado a hora de se casar e Eliot
lhe dava segurança para ter filhos - com ele, ela sabia que teria um casamento para toda a
vida. Não foi uma explicação que convencesse sua tia Emily, mas a ideia de ter filhos
agradou a seus pais, talvez porque fosse filha única.
Sarah não gostou dos planos do noivo. Contrariada, perguntou a Eliot se ele não estava
abandonando seus sonhos de professor-pesquisador, seus projetos ambiciosos na
Antropologia. Mas acabou se convencendo de que as preocupações do noivo faziam sentido.
Afinal, ele era neto de um líder religioso respeitado, e ela também confiava na generosidade
de Deus. Assim, aceitou pesarosa, mas até certo ponto orgulhosa, a iniciativa de Eliot de
isolar-se para aproximar-se do Senhor, na esperança de melhor compreendê-Lo.

Eliot iniciou então os preparativos para a viagem: levantar informações sobre os países no
percurso do Caminho de Abraão e sobre os locais que iria visitar, escolher roupas
adequadas a cada ocasião, vacinar e comprar as passagens.

** *

Sem que percebesse, Eliot comparou a peregrinação pelo Caminho de Abraão à viagem que
fizera à América do Sul. Ao contrário da Amazônia, o Oriente Médio tem uma rica história,
pois é o berço da civilização. É a região onde inventaram a roda e a escrita, inclusive o
nosso alfabeto, obra dos Fenícios. Foi ali que os Babilônios dividiram o tempo em horas. Foi
ali que teve início a agricultura e a domesticação de animais. Foi ali que - para guardar os
alimentos - foram confeccionados os primeiros vasos de cerâmica que o tempo
transformou em obras de arte.

Com a agricultura, o Homem deixou a vida de nômade, surgindo as primeiras aldeias (2). Isso
explica porque o Oriente Médio abriga as cidades mais antigas do mundo, como Damasco,
Beirute e Jerusalém. Quando Roma foi fundada em 753 a.C., dando início à Antiguidade
Clássica, Damasco já existia há pelo menos oito milênios.

Para muitos estudiosos, foi a vida em aldeias que levou o Homem a descobrir o Outro
Mundo das religiões(3). O poder disciplinador de Deus se tornara necessário para a formação
das primeiras sociedades organizadas, visto que a única maneira de transformar um
nômade em cidadão era incutir-lhe o temor a Deus(4).

Eliot leu que a primeira manifestação humana de uma religião ocorreu há mais de dez mil
anos. A religião se baseava no culto à mulher, ao feminino, pelo seu poder de gerar vida,
como as sementes. Com a agricultura e o consequente aumento populacional, a força física
superior do homem passou a prevalecer sobre a fecundidade da mulher e os deuses se
transformaram em figuras masculinas.

Com a invenção da escrita, o Oriente Médio se destaca como o lugar onde nasceu a História.
As realizações dos povos da região figuram nos primeiros registros escritos de fatos. A
contribuição mais marcante do Oriente Médio para a História foi ter sido o berço do
monoteísmo.

* * *
À medida que ampliava o seu conhecimento sobre o Oriente Médio, o entusiasmo de Eliot
pela peregrinação crescia. Concluído o levantamento de informações e a realização das
providências básicas iniciais, Eliot começou a planejar a viagem.
04. Preparativos para a Peregrinação
Eliot planejou meditar sobre a natureza de Deus não apenas durante as caminhadas, mas
também à noite, antes de dormir. Iria cedo para a cama e ali teria, diariamente, duas a três
horas de silêncio dedicadas a compreender a bondade de Deus. Satisfeito com o tempo
reservado ao Criador, o jovem antropólogo voltou sua atenção para os lugares sagrados
que deveriam fazê-lo sentir-se mais próximo de Deus, ajudando-o em seu mergulho
espiritual.

O roteiro turístico-religioso que preparou atendia aos seus anseios de conhecer os locais
que a Bíblia plantara em seu imaginário, e também às sugestões do querido avô pastor. O
desejo (seria agora necessidade?) de visitar lugares sagrados para Cristãos, Judeus e
Muçulmanos mostrou a Eliot o quanto as Sagradas Escrituras faziam parte de sua vida,
embora jamais lhe tivesse ocorrido seguir os passos do avô.

Eliot começaria a viagem pela cidade mesopotâmica de Ur, onde Abraão nasceu, hoje uma
simples estação de trem no Iraque. Em seguida iria a Haran, na Turquia, onde começa o
Caminho de Abraão. Foi em Haran que o Profeta ouviu o chamado para sair à procura da
terra que Deus prometera a ele e aos seus descendentes.

Na Síria visitaria Damasco, uma cidade árabe fortemente associada ao Cristianismo - foi a
caminho de Damasco que São Paulo(1), então Saulo, se converteu à fé cristã. Em Damasco iria
à Mesquita Omíada, onde estaria guardada num túmulo a cabeça de São João Batista, primo
de Jesus. João Batista foi decapitado por ordem do imperador Herodes Antipas, a pedido de
sua sobrinha e enteada Salomé. Salomé dançava em homenagem ao padrasto imperador
que lhe ofereceu metade de seu reino. Mas Salomé lhe pediu - atendendo à sua mãe
Herodias - a cabeça de São João Batista em uma bandeja de prata. Herodias odiava João
Batista por tê-la chamado de adúltera - ela havia abandonado o marido para viver com o
cunhado-rei. O Imperador aprovou prontamente o pedido de sua bela e sensual sobrinha-
enteada.

Em Israel, Eliot tinha grandes planos para Jerusalém. Queria caminhar pelo Monte do
Templo(2) onde, para muitos religiosos, o mundo começou e terminará. Foi naquele lugar - e
usando seu barro - que Adão foi feito. Foi no Monte do Templo que Abraão ofereceu seu
filho Isaac em sacrifício a Deus(3). Lá está o Muro das Lamentações, o local mais sagrado
para os Judeus, que é tudo que restou do Segundo Templo de Jerusalém destruído pelos
romanos no ano 70 d.C. O Monte do Templo é ainda o sítio onde foram construídas a
Mesquita de Al-Aksa e a Cúpula Dourada, lugar de onde Maomé, montado no cavalo alado
Buraq, partiu em sua viagem noturna ao Paraíso acompanhado pelo Arcanjo Gabriel.
Eliot iria também visitar o local da Última Ceia, o Jardim das Oliveiras, o Santo Sepulcro, e a
lendária Via Dolorosa que Jesus percorreu em sua caminhada para o Calvário. Querendo
conhecer mais sobre Israel dos tempos bíblicos, Eliot reservou um dia e uma manhã para
visitar o Museu de Israel e o Museu da História de Jerusalém.

Ainda em Israel, por recomendação do avô, Eliot iria até o Mar da Galileia, na verdade um
lago de água doce abaixo do nível do mar; foi sobre suas águas que Jesus caminhou, e era de
suas águas que o apóstolo Pedro, pescador, tirava seu sustento. O velho pastor Eliot
também sugeriu ao neto visitar as cidades de Belém, onde Jesus nasceu, para conhecer a
Igreja da Natividade, e Nazaré, a terra natal de José e Maria. Nazaré é conhecida como o
local da Anunciação; foi lá que o Arcanjo Gabriel informou a José que sua noiva, a virgem
Maria, estava grávida do Espírito Santo e seria mãe de Jesus, o Salvador(4). Em Nazaré Jesus
viveu após sua volta do Egito(5) .

Na Cisjordânia, Eliot programou conhecer a cidade de Hebron, ou Al-Khalil para os Árabes,


para ver de perto o Túmulo dos Patriarcas, um sítio sagrado para Judeus e Muçulmanos. É
ali que Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Lea foram enterrados, todos no mesmo
sepulcro.

Na Jordânia Eliot iria conhecer o Monte Nebo, o lugar de onde Moisés, levado por Deus,
avistou a Terra Prometida que, depois de tantos sacrifícios, não lhe seria dado alcançar(6).
Seu roteiro também incluía um dia na cidade histórica de Petra.

Outras atrações, mais turísticas que religiosas, foram incluídas nos planos de Eliot que se
imaginou mergulhando nas águas do Mar Morto, a superfície mais baixa do Planeta, a mais
de 400 metros abaixo do nível do mar. Sua salinidade é tão alta(7) que as pessoas flutuam.
Seu principal tributário é o legendário Rio Jordão, onde João Batista batizou Jesus.

Foi uma agradável surpresa para Eliot saber que a cidade de Jericó se encontra logo ao
norte do Mar Morto, e que o percurso de Jerusalém ao Mar Morto pode ser feito de carro
em menos de uma hora(8). Viu que poderia visitar o local onde a Trombeta de seu sonho
teria realizado sua maior proeza.

***

Antes de viajar para a Turquia, Eliot já dominava os fundamentos do Judaísmo e do


Islamismo. Aprendeu com o avô que Judeus e Muçulmanos - ao contrário dos Cristãos –
herdam, ao nascer, a religião dos pais: o filho de mãe judia é Judeu (9), o filho de pai
muçulmano é Muçulmano, mas o filho de pai cristão e/ou mãe cristã só se torna Cristão
com o batismo.

Eliot ouviu do avô que, ao contrário dos Cristãos, os Judeus não trabalham para conquistar
novos adeptos. Já os Muçulmanos estão numa situação intermediária: aceitam conversões,
mas não se empenham em promovê-las; não contam com missionários para trabalhos de
catequese, mas recebem de braços abertos os que queiram aderir à sua fé. A mensagem do
Islã, embora universal, foi transmitida a Maomé em árabe, para uma audiência árabe.

Nas vastas áreas conquistadas pelos Árabes após a morte de Maomé, as conversões, via de
regra, não foram impostas - vieram naturalmente com o passar do tempo. É curioso que
em determinadas ocasiões os Muçulmanos chegaram a banir as conversões, como ocorreu
em torno do ano 700, para evitar queda na arrecadação de tributos - é que os adeptos de
outras religiões pagavam certos impostos dos quais os Muçulmanos estavam
isentos(10). Isso aconteceu também na Península Ibérica, para tristeza de muitos
Muçulmanos que hoje lamentam não terem os Mouros induzido os habitantes de Portugal e
da Espanha a abraçar o Islã(11). Se isso tivesse ocorrido, a América Latina não seria cristã. Já
no mundo cristão, pressões para conversão eram então comuns, como atestam as missões
para catequizar indígenas nas Américas.

Eliot também ouviu do avô que os Judeus só se casam com Judeus, podendo aceitar
conversões de gentios antes do casamento. Já os Muçulmanos do sexo masculino - mas não
as mulheres - estão liberados dessa restrição, podendo se casar com mulheres cristãs ou
judias. Esse tratamento especial a Judeus e Cristãos se deve ao fato de tanto o Judaísmo
como o Cristianismo serem religiões monoteístas que seguem mandamentos ditados por
Deus. De fato, a esposa de Yasser Arafat, o mais conhecido líder palestino (Arafat dividiu o
Prêmio Nobel da Paz de 1994 com Isaac Rabin e Shimon Peres), era uma Palestina cristã,
como são quinze por cento(12) dos Palestinos, mas teria se convertido ao Islã ao se casar.

Eliot aprendeu que os Muçulmanos, como os Judeus, não comem carne de porco; e que o
Islã condena comportamentos que possam provocar problemas sociais como a bebida (13), o
jogo e o adultério, para os quais as punições são severas. Aprendeu também que, enquanto
os Muçulmanos adotam a poligamia, podendo ter até quatro esposas, os Judeus
abandonaram esse comportamento por decisão do rabino europeu Gershom ben Meir, mais
conhecido como Rabbenu Gershom. Para Gershom, além do pesado ônus representado pelo
sustento de mais de uma esposa, dificultando o sucesso nos negócios, havia a pressão social
gerada pela maioria cristã monógama(14).

Alguns líderes muçulmanos procuram justificar a poligamia afirmando que ela foi adotada
para beneficiar mulheres e crianças, e não para proporcionar satisfação sexual aos
homens. A poligamia teria se originado num período histórico em que as guerras criavam
um desequilíbrio entre a população masculina e feminina, com o maior número de
mulheres favorecendo a sua adoção: sem a poligamia, muitas mulheres estariam
condenadas à solidão, ao desamparo econômico, e a morrer sem a realização de ter
filhos. As guerras também geravam viúvas que, sem um novo marido, teriam dificuldades
para criar seus filhos.

Essas lideranças muçulmanas destacam ainda o papel positivo da poligamia no combate à


prostituição e ao comércio de mulheres. Mas, para Judeus e Cristãos, nada disso justifica a
poligamia em pleno Século XXI, quando os direitos de homens e mulheres são (ou deveriam
ser) iguais. (Nos tempos bíblicos a realidade era outra: há três milênios, o rei Salomão teve
700 esposas, 300 concubinas e casos fora do casamento e do concubinato, como o seu
tórrido romance com a Rainha de Sabá).

Eliot ouviu de um professor de teologia que os Muçulmanos acreditam que eles, Judeus e
Cristãos adoram o mesmo Deus, o Deus de Abraão; mas não é o que pensam os Judeus e a
maioria dos Cristãos - para eles Alá, o Deus dos Muçulmanos, nada tem a ver com o seu
Deus, Jeová. Há também Cristãos que não aceitam que se chame Deus de Jeová.

Em sua maioria Judeus e Cristãos creem que somente a sua fé conduz ao Reino dos Céus. O
Alcorão, ao contrário, menciona mais de uma vez que Judeus e Cristãos também podem ir
para o Paraíso, desde que acreditem em Deus e no Juízo Final, e vivam uma vida digna de
salvação(15).

Tanto os Judeus como os Muçulmanos praticam a circuncisão(16): os Judeus, por obrigação


religiosa e os Muçulmanos por tradição - essa prática não é imposta pelo Alcorão. Comum
na Arábia nos tempos de Maomé, a circuncisão se estendeu por todo o mundo muçulmano
sob a justificativa de higiene(17). Já os Cristãos foram alertados por São Paulo de que não
precisavam se circuncidar: “Eu, Paulo, vos digo que Cristo não será de nenhum proveito
para vós, se vos deixardes circuncidar... Com efeito, em Jesus Cristo, o que vale é a fé agindo
pelo amor; ser ou não circuncidado não tem importância alguma(18)”. No entanto, nos
Estados Unidos, muitos, se não a maioria dos recém-nascidos de pais cristãos, é
circuncidada(19).

Até meados do século XX, comunidades expressivas de Judeus e Cristãos viviam


confortavelmente entre os Árabes no Oriente Médio, situação que mudou tragicamente
com o Conflito Árabe-Israelense. A imagem que o Islã tinha de si mesmo era de uma religião
tolerante, em contraposição à intolerância dos Cristãos(20).

O Islã é a religião predominante nos países do Oriente Médio, salvo Israel, e no Norte da
África. Mas, para surpresa de Eliot, apenas 1 em cada 5 Muçulmanos vive em países árabes.
De fato, os países com maior número de Muçulmanos não são árabes(21): Indonésia (aprox.
205 milhões de Muçulmanos, representando 88,1% da população), Paquistão (aprox. 178
milhões, 96,4% da população), Índia (aprox. 177 milhões, 14,6% da população),
Bangladesh (aprox. 149 milhões, 90,4% da população) e o Irã (aprox. 75 milhões, 99,6% da
população). Ademais, dos cinquenta e sete(22) países que formam a Organização dos Países
Islâmicos, apenas vinte e dois são árabes.

Há ainda um expressivo contingente de Muçulmanos em países europeus. Apenas a União


Europeia abriga mais de 15 milhões de Muçulmanos, a maioria na França, Alemanha e
Reino Unido. Em toda a Europa vivem cerca de 50 milhões, a maioria na Rússia e na parte
europeia da Turquia.(23)

No total, o mundo tem hoje 1,5-1,6 bilhões de seguidores de Maomé, cerca de 22% da
população mundial. Estão divididos em sunitas (aprox. 84% dos Muçulmanos), xiitas (14%)
e outras seitas (2%). Como referência, o número de Cristãos é da ordem de 2,3 bilhões, dos
quais 1,2 bilhões são Católicos(24).

Nos Estados Unidos vivem hoje cerca de cinco milhões de Muçulmanos. Muitos são negros
que se converteram, mas a maioria é formada de imigrantes vindos de países como o
Paquistão e Bengladesh, e seus descendentes(25).

* **

Condicionados pelo presente e pela nossa cultura, temos dificuldade para perceber a
notável liderança exercida pelos Muçulmanos no período que vai do século VIII ao século
XV, tanto no campo militar como na área do saber. Apenas um século após a morte de
Maomé, os Árabes muçulmanos já haviam conquistado terras que superavam em área o
Império Romano, em seu apogeu(26). No final do século XVI, o Islamismo era uma religião
professada do Marrocos à Ilha de Java, na Indonésia(27).

Vestígios quase imperceptíveis do período áureo do Islamismo podem ser encontrados


espalhados pelo mundo. Muitos desconhecem que o Estreito de Gibraltar, que separa a
Europa (Espanha) da África (Marrocos), deve seu nome ao general Tariq ibn Ziyad que, em
711, vindo do Norte da África, atravessou o Estreito e avançou pelos Pirineus, estendendo o
domínio muçulmano à Europa (Espanha). “Jebel Tariq”, em árabe a Montanha de Tariq,
deu origem a Gibraltar, denominação do Rochedo e do Estreito(28).

Mais marcante que as conquistas territoriais foi a notável contribuição árabe para o
progresso da Filosofia, das Ciências e das Artes. A partir do século VIII, as cidades de Bagdá,
no Oriente Médio, então a maior cidade do mundo, com mais de 1 milhão de habitantes, e
Córdoba, na Espanha, se destacaram como centros de geração e irradiação do saber,
atraindo as mentes mais criativas e formando as bibliotecas mais ricas do mundo(29).

Em Bagdá e Córdoba os Árabes realizaram o trabalho sem precedentes na História de


reunir as obras produzidas pelas cabeças mais brilhantes da Humanidade e traduzi-las para
uma mesma língua (o árabe), voltando-se principalmente para os filósofos, astrônomos,
matemáticos e médicos gregos, persas e indianos. Apenas o trabalho intenso de tradução
estendeu-se por cerca de dois séculos. Preservou-se deste modo o trabalho de gênios como
Aristóteles, Platão, Tales de Mileto, Pitágoras, Euclides, Arquimedes, Hipócrates, Galeno
que, de outra forma teriam, pelo menos em parte, se perdido(30).

O conhecimento reunido em Bagdá e Córdoba foi o ponto de partida para novos avanços na
Filosofia e na Ciência. O clima de liberdade intelectual e de tolerância cultural e religiosa
permitiu que Cristãos e Judeus(31) participassem desta verdadeira revolução cultural.

Por mais de setecentos anos, do século VIII ao século XIV, o árabe foi a língua da Ciência (32),
como foi o latim na época de Isaac Newton e é hoje o inglês. Eles desenvolveram a
álgebra(33) (por sinal, uma palavra de origem árabe, assim como algoritmo) e a química (34)
(daí a origem árabe das palavras alambique, álcali, álcool, alquimista, amálgama, benzeno,
borax, cânfora, elixir). Também introduziram os algarismos arábicos no Ocidente. Os
algarismos arábicos são uma criação indiana que substituiu com vantagem os algarismos
romanos devido, principalmente, ao algarismo zero(35), até então desconhecido no Ocidente.

Em Bagdá, a corte de Harun-al-Rashid esteve tão à frente de seu tempo a ponto de dar
origem a fantasias como as das Mil e Uma Noites. Sob o domínio muçulmano, Bagdá e
Córdoba foram os centros mais criativos do Planeta, onde a expansão do comércio e as
conquistas da ciência andaram de mãos dadas, gerando riqueza e saber nas mais diversas
áreas - filosofia, astronomia, matemática, medicina, literatura. Os governantes
muçulmanos, os califas e sultões, souberam fazer valer a máxima de Maomé: “A tinta do
intelectual é mais sagrada que o sangue do mártir(36)”.

A política de tolerância dos conquistadores muçulmanos permitiu que pudessem contar,


para seu sucesso, com o empreendedorismo e as habilidades dos Povos do Livro, como eles
chamavam os Judeus e os Cristãos que têm na Bíblia seu livro sagrado. Graças a essa
política, os representantes de Maomé puderam governar impérios de maioria cristã, como
o Califado de Andaluzia, com um mínimo de mão-de-obra muçulmana.

Os dirigentes muçulmanos tinham consciência da importância de Cristãos e Judeus para a


prosperidade das comunidades que governavam. Os Judeus, trabalhando como agentes do
Império Otomano nas atividades comerciais de exportação e importação, eram capazes de
superar, devido aos seus contatos no exterior e suas redes internacionais de
relacionamento, uma das limitações encontradas pelos comerciantes de então: como se
assegurar de que as mercadorias vendidas seriam pagas(37). Os Judeus foram médicos, os
preferidos dos califas e sultões, destacando-se nessa área o também filósofo e teólogo
Moses Maimônides, e Hasdai ibn Shaprut, este famoso pelo seu conhecimento de venenos e
seus antídotos(38).

Após derrotarem o Reino de Granada em 1492, o último reduto muçulmano na Península


Ibérica, os monarcas espanhóis expulsaram os Judeus da região. Os Judeus foram então
muito bem recebidos pelo Império Otomano, onde dominavam as formas primitivas de
banco da época(39), e o lucrativo comércio de joias, pérolas e cetim(40).

* * *

Assim, as pesquisas ensinaram a Eliot que, ao longo da História, Judeus e Muçulmanos nem
sempre estiveram em campos opostos, como hoje. É difícil acreditar que durante um
milênio e meio, até o fim da Segunda Guerra Mundial, os Judeus radicados em países
dominados pelos Muçulmanos gozaram de mais segurança, liberdade e autonomia do que
os que viveram sob domínio cristão (41).

Os levantamentos sobre as Cruzadas mostraram a Eliot que os Cristãos comemoraram a


tomada de Jerusalém, em 1099, queimando vivos os Judeus que conseguiam localizar, e
massacrando homens, mulheres e crianças muçulmanas. Os cruzados destruíram a maioria
das mesquitas e todas as sinagogas da Cidade Sagrada. Para os Judeus, essa onda de ódio e
violência, que durou duzentos anos, só foi superada pelo flagelo de Hitler(42).

Eliot percebeu que, comprometidos com a procura na História de causas e justificativas


para os problemas do presente, tendemos a olhar o passado com parcialidade. Ao analisar
o relacionamento entre o Ocidente e o Mundo Muçulmano, somos motivados a recordar
apenas os conflitos e as rivalidades que, embora tenham existido, estão longe de
representar a realidade predominante. Durante os mais de mil anos de domínio
muçulmano em extensas regiões do Planeta, os séculos de cooperação e de tolerância em
relação a Judeus e Cristãos são mais representativos do passado do que os períodos de
conflito.

Não faz, pois, sentido, a crença que ganhou força devido às rivalidades entre Israelenses e
Palestinos, e que cresceu após o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 nos
Estados Unidos, de que estamos diante de um choque de civilizações, em que o Mundo
Muçulmano e o Ocidente estão condenados a um confronto que só terminará com a vitória
de uma das partes(43).

Eliot viu crescer a sua vontade de percorrer o Caminho de Abraão, agora visto por ele como
uma iniciativa para aproximar Árabes e Judeus.

* * *

Eliot viajou carregando na mala apenas o essencial para a viagem: roupas apropriadas para
suportar o calor do deserto e o frio das montanhas, e um único terno e duas gravatas para
ocasiões especiais, como visitas a universidades, instituições governamentais e
museus. Juntou o aparelho de barbear, a escova de dente, dois tubos de pasta dental e três
sabonetes. Quase deixou de fora o frasco de comprimidos para dor de cabeça que Sarah lhe
enviara, mas voltou atrás - ela poderia perceber tal ato como descortesia. Disposto a
reviver os tempos de estudante, Eliot estava preparado para lavar sua roupa, se preciso.

Quebrando o velho hábito de levar em suas viagens um ou mais livros para ler, Eliot
colocou na pasta - além dos documentos e da Bíblia presente do avô - um caderno de
anotações e um manual de sobrevivência dos tempos de escoteiro (que se mostrou
absolutamente inútil). Levou também o livreto Iniciação às Religiões, que continha os cinco
pilares do Islamismo(44) e os treze princípios do Judaísmo de Moisés Maimônides(45). Eliot
estava pronto para embarcar para a Turquia.

Um amigo psicólogo de origem sírio-libanesa, sabendo que Eliot faria a peregrinação


desacompanhado, sugeriu alguns cuidados para enfrentar a solidão: “Siga os conselhos do
Eclesiastes”, disse sorrindo, “e enriqueça sua cultura gastronômica ao passar pelos países
árabes”. E recomendou a Eliot experimentar, tão logo chegasse à Síria, em Alepo ou
Damasco, o Tabule, o Ghraoui - o melhor chocolate do mundo -, o imperdível sorvete de
pistache, o caqui e a romã.
***

Sentindo-se preparado para a peregrinação, Eliot lembrou-se mais uma vez das rivalidades
e da violência no Oriente Médio. Lamentou o retrocesso econômico, político e cultural
experimentado pelos Árabes ao longo dos últimos séculos. Hoje, apenas a Universidade de
Harvard produz mais conhecimento científico do que todos os países árabes
somados(46). No que tange à tolerância e ao respeito mútuo, as normas de convivência entre
Árabes e Judeus também desceram a níveis ainda há pouco impensáveis.

Eliot tentou avaliar os reflexos positivos do Caminho de Abraão na aproximação de Árabes


e Judeus. Viu que os resultados mais significativos estão reservados para o longo prazo,
mas percebeu que talvez não precisemos esperar muitos anos para sentir os primeiros
efeitos. E concluiu que o Caminho de Abraão não transformará fanáticos em moderados,
mas deverá, mesmo no curto prazo, contribuir para que moderados não se tornem
fanáticos.

PARTE 02

PROCURANDO ENTENDER A BONDADE DE DEUS

05. A Criação do Homem


No Iraque, Eliot conheceu as ruínas milenares de Ur, a cidade onde Abraão nasceu. Em
seguida, como o primeiro Profeta da Bíblia, seguiu para Haran, na Turquia. Haran é o início
do Caminho de Abraão porque foi de lá que o Patriarca, em aliança com Deus, saiu em
busca da Terra Prometida.

Em Haran o jovem antropólogo visitou a universidade de Haran. Para sua surpresa, Eliot
ficou sabendo que naquele mesmo lugar, há 4 mil anos, astrônomos já mediam a distância
entre a Terra e a lua(1). Eliot foi cedo para o hotel e, exausto, adormeceu antes do por do sol.
Teve naquela noite o seu primeiro sonho-revelação no Caminho de Abraão.

* * *

Dizem que Deus se comunica com os homens por meio de sonhos. Foi em sonho que o
Arcanjo Gabriel apareceu para São José e lhe disse para não ter receio de tomar Maria,
então grávida, como sua esposa(2). Foi em sonho que o Senhor, para proteger Seu Filho do
ciúme de um rei homicida, alertou os Reis Magos para não retornarem a Herodes (3). Foi em
sonho que Ele aconselhou a mulher de Pilatos a interceder em favor de Jesus(4). Foi em
sonho que o Senhor revelou a Abraão sobre os quatrocentos anos de escravidão no Egito,
seguidos de um futuro glorioso para seu povo(5). Foi por meio de um sonho que Ele mostrou
a Jacó a escada que ia até o Paraíso(6).

Foi também através de um sonho que Deus ofereceu ajuda a Salomão, rei dos Judeus.
Comovido com o pedido de discernimento, disciplina e sabedoria para governar seu povo, o
Criador lhe concedeu, além dessas virtudes, muita riqueza, glória, uma vida longa, e fez dele
o mais sábio dos Homens(7).

***

Eliot recebeu em sonho a visita de um Arcanjo de asas resplandecentes, que viera ao


mundo para lhe trazer uma mensagem divina. Mas antes, a criatura celestial quis esclarecer
alguns pontos controversos sobre a natureza de Deus:

“Erroneamente, Eliot, a maioria dos Seres Humanos acredita que Deus é perfeito. Se
fosse, nada Lhe faltaria, pois a um ser perfeito nada pode faltar. Se Deus fosse
perfeitonada poderia fazê-Lo mais perfeito. Assim, um Deus perfeito não teria criado
nada além de Si mesmo, sejam os anjos, seja o universo, seja a Humanidade.

“Ao criar anjos e homens, Deus confessou Sua incapacidade de viver sozinho. O Criador
reúne todas as qualidades imagináveis, mas não é um ser completo. E foi para se
completar que Ele criou a Humanidade.”

O Arcanjo continuou:

“É ingênuo pensar que Deus pudesse satisfazer-se amando apenas a Si mesmo. O amor-
próprio faz bem à auto-estima e ajuda no relacionamento com o outro -
ninguém ama o próximo se não ama a si mesmo - mas é um sentimento limitado,
incapaz de satisfazer a um Ente Superior como Deus. Ademais, restringir-se ao amor-
próprio soa a egoísmo, narcisismo, extremo individualismo, sentimentos incompatíveis
com a natureza de Deus. Amar somente a Si não realizaria Seus anseios de amor e
bondade.
“Eliot, a solidão monoteísta é terrível, vai além do que a imaginação humana é capaz de
alcançar. Não tenha dúvidas, caro Eliot. Deus concebeu o Homem para Lhe fazer
companhia. O Criador necessitava de alguém que Lhe permitisse extravasar o amor e a
bondade infinitos que carregava represados dentro de Si. Foi para isso que Ele fez o
Homem. Deus precisava amar e ninguém ama no vazio. Precisava ser bom e ninguém é
bom sozinho. E por ter sempre existido, Deus jamais experimentou o carinho de uma mãe
ou o abraço de um pai. O fato de reunir em Si três pessoas distintas não resolve o
problema porque as três pessoas são na verdade uma só.”

O Arcanjo prosseguiu:

“Antes do Homem, Deus fizera a nós anjos. Mas nos fez para servi-Lo. Não foi para gozar
de Sua intimidade. Quando tentamos nos aproximar dEle para Lhe fazer companhia,
fracassamos. Não fomos capazes de livrá-Lo da solidão. Nós O amamos profundamente,
mas o nosso amor tem pouco valor - somos desprovidos de livre-arbítrio e isso nos priva
da espontaneidade que os relacionamentos prazerosos exigem. Deus sabe que o
adoramos, mas tem consciência de que fomos programados para ser assim - e por isso Ele
se sente distante de nós.”

O Arcanjo abordou então um fato constrangedor. Com a voz embargada, ele contou a Eliot
que Deus tentou corrigir essa deficiência, concedendo-lhes o livre-arbítrio. Mas, vivendo
tão perto de Deus, o Querubim Lúcifer, dominado pela inveja, se rebelou:

“‘Porque tenho de servir a Deus se sou belo, inteligente e refinado? Vamos nos unir e lutar
para conquistar e governar o Paraíso. Chega de submissão!’ Um grande número de
criaturas celestiais se deixou seduzir pelo discurso do Rei da Maldade. O Pai Eterno se viu
forçado a expulsá-los do Paraíso, criando o Inferno.”

O final da história é conhecido: os anjos rebelados se transformaram em demônios, dando


origem às Forças do Mal.

Antes de partir, o Arcanjo desenrolou um pergaminho onde estava escrito, em 70 línguas –


DEUS É BONDADE, DEUS É PAZ, DEUS É AMOR.

* * *

Eliot acordou se sentindo maravilhosamente bem. O sonho - tão nítido, tão real - havia lhe
mostrado um Deus bom e generoso. Foi a vontade de amar e de praticar a bondade que O
levou a criar o Homem. O amor e a bondade, assim como o ódio e a maldade, não existem
na solidão: são sentimentos que surgem quando seres conscientes interagem. “A existência
de um ser que dá e de outro que recebe é tão indispensável ao amor e à bondade quanto a
existência de um posto emissor e de um posto receptor para a radiofonia e a televisão”,
raciocinou Eliot recorrendo a uma metáfora bem terrena.
“Então, foi por isso que Ele nos fez à Sua imagem e semelhança”, concluiu Eliot. “Deus nos
fez parecidos com Ele por que nos quer como companhia. Agora faz sentido! E ao fazer o
Homem à Sua imagem e semelhança, Ele passou a ter em cada um de nós um espelho para
se ver(8); mas talvez só venha a se reconhecer em nós depois de percorrermos uma longa
caminhada em direção à luz na estrada da evolução moral e ética. Aí sim, seremos o
Homem concebido por Deus para Lhe fazer companhia.”

Mas nem tudo são flores. A liberdade concedida por Deus ao Homem pode ser usada tanto
para amá-Lo como para odiá-Lo, tanto para fazer a Sua vontade como para contrariá-Lo. O
livre-arbítrio, que dá liberdade para fazer o bem, dá também liberdade para fazer o mal, daí
a necessidade de um significativo crescimento espiritual do Ser Humano. Precisamos
aprender a amar a Deus, ao nosso Semelhante, a toda a Humanidade.

Eliot, recordando sua adolescência, lembrou-se de uma colega que se sentia filósofa ao
dizer que “nós vamos nos sentir felizes ao fazer uma outra pessoa feliz. Se já estávamos
felizes, vamos nos sentir mais felizes ainda”. E completava: “Não há nada mais sublime,
mais aprazível, mais edificante do que amar o próximo”.

O jovem antropólogo voltou seu pensamento para os anjos: “De fato, sem a espontaneidade
proporcionada pelo livre-arbítrio, não se prestam para fazer companhia a Deus. Foi a
Humanidade, e não os anjos, a obra-prima do Criador”.

Eliot imaginou um futuro em que o progresso tecnológico, notadamente na engenharia


genética e na nanotecnologia, nos levará a ultrapassar os serafins e querubins em
inteligência e beleza. Mas, admitiu, “Os anjos não têm culpa de não terem o livre-arbítrio. E
trabalham com dedicação e eficiência. São confiáveis na transmissão das mensagens
divinas e, quando convocados a fazê-lo, prestam um relevante serviço à
Humanidade”. Eliot se lembrou do avô dizendo que muitas crianças poderiam ter se
machucado ou mesmo morrido não fossem os anjos-da-guarda que as protegiam. Veio-lhe
à mente a figura de sua avó materna dizendo que os anjos já se justificariam se sua única
função fosse embelezar o Paraíso com sua formosura.

Eliot atinou para o alto preço que os anjos pagam pelo seu baixo prestígio junto ao Criador.
O limitado acesso dos anjos ao Pai Eterno os condena a um relativo ostracismo. As pessoas
que recorrem a intermediários para chegar a Deus - devotos de algumas religiões não o
fazem - raramente apelam para os anjos. Para essas pessoas, qualquer dos santos tem mais
prestígio que os anjos. Em alguns países, como o Brasil, os endividados preferem recorrer a
Santa Edwiges em busca de solução para seus problemas financeiros, as solteironas (e
menos frequentemente os solteirões) atrás de um noivo a Santo Antônio, as mulheres com
problemas no casamento a Santa Mônica, os ameaçados de perder a visão a Santa Luzia, os
motoristas a São Cristovão, os agricultores - quando a chuva não vem - a São Pedro. Já os
palhaços, comediantes e humoristas que não conseguem fazer rir apelam para São Genésio,
e os desesperados a São Judas Tadeu. O único anjo a quem as pessoas recorrem talvez seja
o Arcanjo Miguel, que se dispõe a nos proteger com seu escudo.
Mas havia algo que não fazia sentido: “Se Deus é bom e onipotente, como se explica o
sofrimento que se manifesta nas mais variadas formas - a dor das mães que perdem filhos,
a aflição das vítimas de doenças físicas e mentais, o transtorno dos jovens mutilados em
guerras e em acidentes de trânsito? E os danos sociais, econômicos e afetivos impostos às
pessoas esteticamente prejudicadas, os exageradamente feios? Se o Criador é um Pai justo,
bom e amoroso, por que o temor a Deus? É possível a um filho amar e temer a seus
pais?” Eliot precisava encontrar resposta para essas inconsistências.

***

Na manhã seguinte, o gerente do hotel onde Eliot se hospedara o aguardava para o café da
manhã. Estava preocupado com a saúde do hóspede depois que o porteiro o procurou para
informar que as luzes do apartamento de Eliot permaneceram acesas durante toda a
madrugada. Eliot riu e garantiu ao Senhor Bittar que estava tudo bem. Só então se deu
conta de que passara grande parte da madrugada acordado, fazendo anotações em seu
caderno de viagem.

Sensibilizado, Eliot agradeceu ao gerente pela atenção durante sua curta permanência em
Haran e partiu naquela tarde para a Síria.
06. O Temor a Deus
Na Síria, Eliot visitou as lendárias cidades de Alepo e Damasco. Damasco é uma das cidades
mais antigas, se não a mais antiga das cidades continuamente habitadas do mundo. Quando
Jerusalém surgiu, Damasco já existia há milênios.

Alepo, a cidade mais populosa da Síria, é o lugar onde Abraão repousou e ordenhou sua
vaca. Lá se encontra a fortaleza de onde Saladino, sultão da Síria e do Egito, organizou, no
século XII, a resistência às Cruzadas cristãs, retomando Jerusalém em 1187(1). Após visitar a
fortaleza, Eliot foi até o gigantesco bazar de Alepo, encantando-se com aquele local onde se
vende de tudo.

Em Damasco, a capital, Eliot conheceu a gigantesca Mesquita de Omíada onde, em sua parte
externa norte, em um pequeno jardim, Saladino foi enterrado. Consta que lá também se
encontra o túmulo que teria recebido a cabeça de São João Batista, venerado como profeta
pelos Muçulmanos - João Batista é citado quatro vezes no Alcorão(2). Em 2001, João Paulo II
escolheu Omíada para a primeira visita de um papa a uma mesquita desde a fundação do
Islamismo, tirando os sapatos, como todos, antes de entrar(3).

Em Alepo e em Damasco, Eliot quis conhecer a culinária árabe. Tinha um certo receio, mas
não queria desapontar o amigo psicólogo que a recomendara. Aprovou. De mera
curiosidade intelectual, o turismo gastronômico se incorporou à programação do jovem
antropólogo. Em Alepo, Eliot se sentiu parte da história jantando no Hotel Baron, onde
Lawrence da Arábia se hospedava(4).
Ainda na Síria, Eliot passou três dias em um antigo mosteiro do século XVI localizado em
um oásis na região desértica e montanhosa de Al-Nebek, entre Alepo e Damasco. Além do
convite à meditação, o mosteiro de Mar Musa, todo feito de pedra, oferece aos viajantes
uma excelente vista da região. O local se encontrava abandonado e em ruínas quando
despertou a atenção do padre jesuíta Paolo Dall’Oglio que, em 1982, aos vinte e oito anos,
percorria a região. Em 1984, Padre Paolo decidiu recuperá-lo, trocando a burocracia do
Vaticano pela vida contemplativa de eremita. O mosteiro se destaca pela hospitalidade
abraâmica, ao lado da vida contemplativa e da prática do trabalho manual. (Abraão é
também conhecido pela sua hospitalidade)
Comprovando que a convivência entre diferentes credos pode ser harmoniosa e até
proveitosa, Mar Musa se tornou um local de confraternização entre Cristãos e Muçulmanos.
(Padre Paolo acompanhou João Paulo II em sua visita à Mesquita de Omíada)
***

Foi no mosteiro de Al-Nebek que Eliot conheceu um jovem casal canadense, ele um
engenheiro mecânico que se especializara em automação de processos industriais e ela
uma especialista em comunicação. Os mochileiros Alex Hurley e Izabela Adams vieram de
Vancouver para realizar seu primeiro passeio pelo Oriente Médio.

Depois de quase três semanas tendo apenas seus pensamentos como companhia, Eliot
sentiu o prazer de conversar com pessoas que falavam fluentemente o seu idioma. Até
então ele vinha sentindo as limitações que experimentamos ao nos comunicar com pessoas
que não têm o nosso idioma como primeira língua: perdemos a sutileza, a capacidade de
descrever detalhes, e quase todo o humor.

Quando conterrâneos (ou quase no caso de americanos e canadenses de língua inglesa) se


encontram no exterior, as aproximações costumam ser rápidas. Os três recém-amigos,
desrespeitando discretamente as normas muçulmanas, abriram uma garrafa de vinho e
falaram sobre costumes, comida, religião, contaram piadas e recordaram passagens
inusitadas de suas vidas. Em pouco tempo esvaziaram a primeira garrafa e abriram uma
segunda. Eliot saiu do encontro relaxado, visivelmente rejuvenescido. Naquela noite foi
dormir em paz com a vida. Até se esqueceu de refletir sobre a bondade de Deus. No
entanto, mal pegou no sono e surgiu o Arcanjo com uma nova mensagem: Deus não quer ser
temido!

O Arcanjo contou a Eliot que o Criador se sentia incomodado sabendo que muitos Humanos
acreditam que Ele aprecia inspirar medo. A imponente criatura celestial pediu a Eliot que
divulgasse pelos quatro cantos da Terra que Deus não aceitava mais ser visto como fonte
de terror.

Eliot não entendeu. Quis perguntar ao anjo a razão daquele pedido, mas hesitou. Lembrou-
se então de um conselho de seu avô: “Ninguém deve se sentir constrangido de questionar,
de fazer perguntas, Eliot”. O avô pastor deu como exemplo a reação de Maria quando o
Arcanjo Gabriel lhe disse que ela seria a mãe do Filho de Deus: “Maria então perguntou ao
Arcanjo: ‘Como acontecerá isso, se eu não conheço homem?’ O anjo respondeu: ‘O Espírito
Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele
que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus’ ” (5).

Animado pelo exemplo de Maria, Eliot indagou ao Arcanjo: “Mas não está na Bíblia que
Deus quer que O temamos? A Bíblia não diz que a sabedoria começa com o temor a Deus e
que devemos conquistar a salvação mediante medo e tremor? Não diz que o mais
importante dever do verdadeiro fiel é temer a Deus e guardar os mandamentos?(6)”. E como
argumento definitivo, Eliot destacou a passagem bíblica que relaciona os atributos da boa
esposa, destacando o temor a Deus como a principal virtude da esposa ideal(7).

Mas de nada adiantou a argumentação de Eliot. O Arcanjo reiterou que viera àquele sonho
para pedir a Eliot que informasse à Humanidade que o Criador desaprova os líderes
religiosos que exaltam o temor a Deus como virtude: “Quanta insensatez, meu caro
Eliot. Um Deus infinitamente bom jamais se regozijaria em amedrontar Suas criaturas. Deus
quer ser amado espontaneamente - e amor espontâneo não combina com medo”, insistiu
mais uma vez o Arcanjo.
Desejando colocar um ponto final na questão, o mensageiro celestial mostrou a Eliot como
surgiu a ideia de que Deus aprecia fazer medo: é que os antigos soberanos, por insegurança,
procuravam inspirar medo para se sentirem firmes no poder. As manifestações de temor
pelos súditos eram percebidas por eles como reconhecimento de sua força, e isso os
tranquilizava. Esta é a explicação para a crença de que rezar de joelhos agrada mais a Deus
do que rezar de pé - ao ajoelhar demonstramos submissão e temor.

Segundo o Arcanjo, essa confusão sobre o que agrada ou não agrada ao Criador vem de um
tempo anterior ao Deus de Abraão, quando o Homem tratava seus reis como se fossem
criaturas divinas. Ele fez então um relato que Eliot, como antropólogo, já conhecia mas que,
vindo agora de um ente celeste, ganhava uma nova dimensão.

“Há cerca de dez mil anos, graças à descoberta da agricultura, o Ser Humano deixou a
vida de nômade para fixar-se na terra. Os líderes dos primeiros agrupamentos
humanos, que ainda não conheciam o verdadeiro Deus, recorreram a deuses (no
começo deusas) míticos para impor a disciplina necessária à formação das primeiras
sociedades organizadas(8). Com o tempo os deuses foram se tornando humanos
enquanto líderes carismáticos se proclamavam deuses, dando origem aos primeiros
reis. Esses deuses-reis, tão necessários para transformar nômades em cidadãos,
cuidavam para que o povo os temesse(9).

“Mas a necessidade de inspirar medo, tão conveniente aos primeiros reis, não é
compatível com a Natureza de Deus. A superioridade de Deus sobre os Homens dispensa
tais precauções menores, típicas de chefes inseguros assustados com a ideia de
perderem o controle de seus súditos e se verem afastados do poder.”

O Arcanjo ressaltou que Deus é justo, e por isso, “da mesma forma que o cidadão honesto
não precisa temer a Justiça, o Homem de fé não precisa temer a Deus, o Juízo Final ou o Fogo
do Inferno”.

* * *

Em seguida o Arcanjo censurou a forma como pais e educadores tratam as crianças,


alertando Eliot sobre os cuidados a serem tomados ao ensinar os Textos Sagrados à
gurizada: “Concordo que é utópico esperar que a criança cresça antes de iniciá-la nos
mistérios da fé. É preciso transmitir cedo os ensinamentos divinos para que a Verdade crie
raízes na mente dos pequeninos e lá permaneça. Mas é preciso também que pais e educadores,
numa primeira fase, se limitem a falar sobre as maravilhas do Céu”, recomendou o Arcanjo.
“Temas que inspiram medo devem ficar para uma segunda etapa, quando o novo Ser Humano
estiver amadurecido para aprender sobre o Reino das Trevas, o Fogo do Inferno e a Punição
Eterna.”

O Arcanjo foi enfático:


“O medo do Inferno aterroriza os jovens. Pais e educadores podem inadvertidamente
incutir na criança sentimentos de temor e de culpa que muitas delas carregarão pelo
resto da vida. Não estou dizendo que pais e educadores sejam pessoas más ou que ajam
de má fé. Porém, sem perceber, passam aos filhos e discípulos os fantasmas que
herdaram de seus pais e de seus mestres, em prejuízo da qualidade de vida dos
pequeninos.”

Realmente, as angústias geradas por sentimentos de culpa - culpas muitas vezes


imaginárias ou inconscientes - podem ser transmitidas desse modo de geração em geração.
Eliot lembrou-se do amigo canadense citando a comediante Cathy Ladman: “Na essência,
todas as religiões são iguais: culpa com dias santos diferentes(10)”.

O Arcanjo insistiu que todo relato que assustasse as crianças deveria ser evitado,
oferecendo como exemplo a macabra história bíblica do profeta Eliseu, incompatível com a
bondade de Deus. Aborrecido com os meninos que zombavam de sua calvície, Eliseu pediu
a Deus que os castigasse, no que foi atendido. Dois ursos vieram da floresta e destroçaram
quarenta e dois deles(11). Quanto às criancinhas nas quais já se incutiu o temor a Deus, estas
deveriam ser acompanhadas por profissionais especializados até sua plena recuperação(12).

* * *

“Muitos religiosos terão dificuldade em aceitar que Deus não quer ser temido, e que o
Criador não gosta de castigar Suas criaturas”, admitiu o Arcanjo. “Existem ilusões que,
uma vez adquiridas, tornam-se parte da nossa essência - sem elas fica difícil viver.
Mas a verdade é que Deus quer que todos vocês abandonem a fantasia de que Ele gosta
de amedrontar os Seres Humanos.”

Para dar uma ideia da dimensão do drama que aguardava os ex-tementes a Deus, o Arcanjo
contou a Eliot a história de Baby-Kong.

O gigante Baby-Kong era um gorila da altura de um prédio que fora capturado recém-
nascido na África para ser a atração de um circo que viajava pelo mundo. Quando o circo se
exibia em Hong-Kong, um grupo de ambientalistas resolveu sequestrar o bebê gorila e
soltá-lo na região onde teria nascido. Mesmo depois de adulto, o gorila continuou sendo
chamado de “the Baby of Hong-Kong” ou “Baby-Kong”. Baby-Kong era forte, ágil e
agressivo. Era tão feroz que tigres, elefantes e leões não ousavam se aproximar da região
onde se instalara. Os nativos, que viviam apavorados com o estranho morador,
organizaram suas vidas em função do medo do gorila.

Havia um casal que era regiamente pago - em mel, frutas, legumes e animais abatidos -
apenas para vigiar Baby-Kong, avisando quando o gorila estivesse dormindo, pois só
naquelas horas a tribo podia sair para coletar frutos, pescar e caçar. Ninguém se afastava
muito de sua caverna, já que poderia ter de retornar correndo caso Baby-Kong
acordasse. O fato de Baby-Kong roncar ajudava um pouco.
Um membro da tribo, um senhor idoso, chegou a ganhar um vultoso prêmio por ter seguido
Baby-Kong durante vários dias para calcular com precisão o comprimento de seus braços.
Essa informação era vital porque, ao escolher as cavernas onde morar, os nativos não
podiam correr o risco de serem surpreendidos pelos longos braços do gorila. Várias
cavernas foram abandonadas por questão de centímetros.

Um dia Baby-Kong, já idoso, morre sem deixar herdeiros. A tribo entrou em pânico. Gritos
de desespero se ouviam à distância: “Como vou ser respeitado se não posso mais fingir que
não tenho medo de Baby-Kong?”, chorava o chefe da tribo. “O que vou fazer com toda essa
bravura?”, lamentou o guerreiro mais valente. “O que vou fazer com as orações que criei se
não precisamos mais dos espíritos da floresta para nos proteger de Baby-Kong?”, queixou-
se amargurado o feiticeiro. “Será que não vou mais poder cantar as belas canções que fiz
inspiradas em Baby-Kong?”, indagou o cantor-compositor. O casal encarregado de avisar à
tribo quando Baby-Kong adormecia entrou em depressão - a mulher enlouqueceu e o
marido se matou. A tribo ficou conhecida como a única comunidade em que a quase
totalidade dos membros - mais de 95% - sofre de distúrbios mentais, que vão de pequenas
esquisitices à loucura total.

“É claro que se trata de uma lenda”, admitiu o Arcanjo. “Mas mostra o quanto vão
sofrer as pessoas que organizaram suas vidas em função do temor a Deus; muitas delas
irão se desajustar, podendo perder a razão de viver; não será fácil para elas. Conheço
vários líderes religiosos que - ao perder seu Baby-Kong - vão se sentir como se tivessem
tido os braços e as pernas amputados.” E finalizou: “Seja compreensivo com eles, Eliot”.

Antes de partir, o Arcanjo voltou a pedir a Eliot que tratasse com carinho e diplomacia a
delicada questão dos “religiosos que têm o temor a Deus internalizado em seus corações e
mentes, um grupo de pessoas que precisará ser assistido com ternura, generosidade e
muito amor”, ressaltou. “Quanto à aparente contradição com as Sagradas Escrituras, trata-
se de algo que você entenderá mais tarde”, enfatizou o Arcanjo.

***

Eliot acordou exausto. O sonho parecia ter durado horas. Custou a se lembrar de onde
estava. Sentiu-se envergonhado por pertencer a uma Humanidade que faz tão pouco do seu
Criador: “A superioridade de Deus é de tal ordem”, raciocinou, “que é um contra-senso
imaginá-Lo inseguro. Deus não quer e não precisa ser temido. A Sua autoridade sobre o
Homem é inequívoca, incomensurável, inconfundível. O Arcanjo tem razão: ao contrário
dos soberanos de antigamente, Deus quer ver Suas Criaturas Humanas risonhas, realizadas
e felizes para amá-Lo como Ele deseja e merece ser amado: intensamente, livremente,
espontaneamente”.

Eliot repassou mais uma vez que Deus anseia por amor genuíno, e que não podemos amar
verdadeiramente a quem tememos. “Algumas pessoas dizem que temer a Deus é respeitá-
Lo, acatá-Lo reverenciá-Lo, venerá-Lo, honrá-Lo. Na verdade, temer é incompatível com
todos esses sentimentos.” Mais uma vez repetiu para si mesmo: “Não amamos a quem
tememos. Mas como não temer a um Deus que pode nos condenar ao fogo do Inferno?”

***

Da Síria Eliot seguiu para a Jordânia. Queria conhecer o Monte Nebo e de lá, como Moisés,
avistar a Terra Prometida. Mas ao contrário do Profeta, iria alcançá-la. Antes, porém,
passaria um dia inteiro em Petra. Sua curiosidade pela histórica cidade foi aguçada
quando, ainda nos Estados Unidos, pouco antes de embarcar para a Turquia, conheceu um
grupo de jovens cristãos fãs de um conjunto de rock pesado chamado Petra. O conjunto
viria a ser agraciado com o prêmio Grammy em 1991, 1992, 1994, e 2000 pela produção do
melhor álbum de rock gospel do ano. Eliot soube então que o nome Petra do conjunto se
referia a Jesus(13) e não, como chegara a pensar, à lendária cidade jordaniana.

A visita a Petra poderia ter sido mais aprazível para Eliot não fosse aquela necessidade
obsessiva de compatibilizar a bondade de Deus com a existência do Inferno.
07. A Condenação ao Inferno
A condenação eterna ao Inferno depõe contra a bondade de Deus. Mas o que Eliot sabia
sobre o Inferno?

Eliot aprendeu que o Inferno foi criado para receber os anjos que se rebelaram contra
Deus, liderados por Lúcifer, até então um prestigiado querubim. Sufocada a revolta, os
insurgentes foram expulsos do Paraíso e enviados para o Inferno.

Foram os anjos rebelados que deram origem aos demônios. Consta que Lúcifer, depois de
receber o livre-arbítrio, decidiu não mais se curvar diante do Seu Criador. Banido do
Paraíso, jamais se arrependeu: “É melhor reinar no Inferno do que Servir no
Paraíso(1)”, teria esbravejado o orgulhoso Rei das Trevas.

Odiando a Deus sobre todas as coisas, Lúcifer e seus comandados adotaram como missão
convencer os Homens a praticar todo tipo de maldade para assim ofender o Criador, daí a
denominação de Forças do Mal. Trabalhando em tempo integral - só conhecem o ócio
criativo, quando interrompem suas atividades para imaginar novas formas de corromper o
Ser Humano - esses agentes da perversão são dedicados, persistentes e, sobretudo,
competentes.

Quando escolhem determinada pessoa como alvo, os Anjos do Mal podem agarrar-se a ela
dia e noite, chegando a penetrar em seu corpo - são as pessoas possuídas ou
possessas. Maria Madalena tinha sete demônios que foram expulsos por Jesus(2). Existem
religiosos especializados em expulsar demônios do corpo dos possuídos: são os exorcistas,
indivíduos que conhecem a fundo o ritual de afugentar as Criaturas do Mal.

Quando se apegam à vítima, mas sem penetrar em seu corpo, os demônios são chamados de
encosto porque se apoiam e grudam no corpo do indivíduo. Nesse caso, a libertação pode
ser feita com um banho de descarrego, procedimento simples quando se trata de um único
demônio. Dependendo, porém, da importância do Ser Humano, as Forças do Mal podem
fazer uso de múltiplos encostos. Dizem que muitos Homens não conseguem sentir a
presença de Deus porque estão cercados de demônios.

As Forças do Mal estão a todo instante trabalhando para desviar os Seres Humanos da rota
da virtude, buscando convencê-los a contrariar e a zombar da vontade de Deus. O objetivo
final é sempre levar para o Inferno o Homem feito à imagem e semelhança de Deus - a
forma mais contundente de magoar o Pai Eterno que os expulsou do Paraíso.
Induzir os Homens a ofender a Deus, ou pecar, é, pois, a razão de ser do Exército de Lúcifer,
que executa seu trabalho com extrema devoção: O diabo não tira férias, diz o ditado
popular. É por isso que a maioria de nós está mais propensa a pecar do que a trilhar o
caminho da virtude.

Mas o que é mesmo o Inferno?

***

Inicialmente planejado para receber os anjos rebelados - acontecimento que precedeu a


criação de Adão e Eva - o Inferno foi repensado e reformado para também servir de
moradia eterna para os pecadores. Eliot ouviu de um pregador que, perto do Inferno, os
mais modernos porões de tortura construídos pelo Homem - aqueles aparelhados com os
mais avançados instrumentos de produção de dor - são meros parques de diversão: “Não é
nas sombras das câmaras de tortura que o Ser Humano experimenta os extremos da dor e
do desespero, mas nas profundezas do Inferno”, afirmou o religioso.

Pode-se sofrer mais do que no Inferno? A resposta é não! Impossível!

O fogo do Inferno queima a temperaturas inimagináveis até pelos físicos e astrônomos mais
brilhantes. O evangelho de São Lucas(3) nos dá uma ideia desse calor ao relatar a parábola
do Homem Rico e o Mendigo Lázaro. Já no Inferno, ao levantar seus olhos para o alto, o Rico
avarento se surpreendeu vendo Lázaro no Céu ao lado de Abraão. Contorcendo-se com o
calor das labaredas do Inferno, o Rico suplicou: “Pai Abraão, tem compaixão de mim!
Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito
nestas chamas”. Pobre Rico. Sonhava com o frescor de um simples dedo úmido em sua
boca escaldante! Este relato bíblico mostra o quanto o Inferno é ardente, angustiante,
desesperador.

Tragicamente, o fogo do Inferno produz chamas que não iluminam. Os Humanos


condenados ao Inferno vivem na mais completa escuridão. Nada veem. Por isso se fala em
condenação ao Reino das Trevas. Mas por que um fogo que não ilumina?

O fogo do Inferno não ilumina para que os condenados se sintam sós, abandonados,
rejeitados. A sensação de solidão poderia ser atenuada caso o punido visse bem ali à sua
frente um ex-colega de trabalho, mais adiante um ex-vizinho, ali atrás o fulano, acolá o
beltrano, quem sabe a ex-mulher ou o ex-marido. Mas no Inferno é tudo escuro. O
isolamento é completo, a solidão é total.

No entanto, apesar de nada verem, a audição dos condenados é incrivelmente amplificada,


garantia o pregador familiarizado com os meandros do Inferno. Para que? Para que ouçam
os gemidos e o ranger de dentes dos colegas de infortúnio, mesmo sem vê-los. Os
condenados podem perceber, pelos suspiros profundos e prolongados, as dores lancinantes
de seus desesperados colegas pecadores. Ele é assim lembrado de que a intensidade do
sofrimento não se reduz com o tempo - dá para notar, pela rouquidão, que muitos gemidos
vêm de gente que está ali há muitos anos, talvez há séculos ou milênios.

Completando o quadro de horror, o Inferno está sempre superlotado, lembrando algumas


prisões do Terceiro Mundo, onde não há espaço para que todos possam deitar e dormir ao
mesmo tempo. A superlotação do Inferno obriga os condenados a permanecerem
eternamente de pé, colados uns aos outros naquele calor sufocante. Além de esquentar
ainda mais os pobres coitados, a aglomeração impede o condenado de se locomover;
Poucos conseguem mexer os pés ou as mãos.

Agravando o castigo, o fogo do Inferno não atinge apenas o lado externo do pecador: várias
vezes por dia labaredas intensas penetram o interior do condenado, queimando-o também
pelo lado de dentro - dos intestinos ao cérebro. Não adianta fechar a boca ou tapar o nariz -
o fogo se infiltra por qualquer orifício, como o ouvido e os órgãos genitais(4). E há os
horrores ao longo do percurso para se chegar ao Inferno(5).

***

Mas não é errado falar em sofrimento do Ser Humano se é apenas a sua alma que vai para o
Inferno? Não é! Eliot aprendeu, quando criança, que padecemos com o sofrimento de
nossas almas. Nossas almas somos nós. Ademais, após a ressurreição, corpo e alma se
juntarão no Outro Mundo, no Céu (os justos) ou no Inferno (os pecadores): “Inicialmente
vão para o Inferno somente as almas dos pecadores, mas o corpo se unirá à alma no Final
dos Tempos”.

O fogo do Inferno é, portanto, capaz de queimar sem destruir tanto o corpo material como a
alma imaterial, algo difícil de ser alcançado pela inteligência limitada do Homem. Por mais
que pensasse, Eliot não conseguia entender a natureza desse fogo. Mas existem muitas
coisas que estão além da nossa compreensão.

Apesar de todo esse sofrimento, alguns teólogos garantem que punição mais severa do
Inferno não é a causada pelo calor sufocante, mas se sentir afastado de Deus: o mais
apavorante não é o fogo que provoca o ranger de dentes, mas o eterno abandono. Nada é
pior que o tormento de ser privado da sublime visão de Deus por todo o sempre. Sentir-se
rejeitado pelo Pai, sentir que Deus é indiferente à sua dor e não o quer por perto, é esse o
maior castigo do pecador.

***

Eliot concluiu consternado que o Inferno de sua religião só poderia ser obra de um Deus
mau. Por pior que seja o pecador, condená-lo a um sofrimento extremo por toda a
eternidade não parece compatível com a bondade. Explica-se assim o alívio de Eliot com as
revelações que vieram em seu terceiro sonho, ocorrido naquela noite de lua cheia, no
quarto simples daquele albergue próximo ao Monte Nebo.
O jovem antropólogo viu em seu sonho uma assembleia de anjos de todos os níveis - de
serafins aos menos graduados - que se preparavam para o confronto entre as Forças do
Bem e do Mal. Procuravam antecipar, nos mínimos detalhes, a batalha do Fim do Mundo, no
Final dos Tempos. Ao aproximar-se de um pequeno grupo que fazia uma pausa para
descanso, Eliot percebeu que se divertiam com a ignorância dos Homens. Comentavam que
os Seres Humanos acreditam que, para vencer a Batalha Final, será preciso possuir as
melhores armas e dominar as mais avançadas táticas e estratégias de guerra. Quanta
ingenuidade!

Eliot aprendeu no sonho que a batalha decisiva não será decidida por bombas atômicas
limpas, foguetes sofisticados, raios laser de última geração, modernas armas de destruição
em massa ou por micro-organismos patogênicos que atacam o corpo e a alma. Os anjos
riram quando um deles lembrou que há Humanos que creem que o combate derradeiro
será travado à moda antiga, com anjos e demônios lutando com espadas como se fossem
cavaleiros medievais. Deram gargalhadas citando um religioso que imaginou o uso de
armas carregadas de explosivos espirituais transportadas em veículos blindados imateriais.
Nada mais ingênuo! Nada mais ridículo! Nem espadas medievais nem blindados
imateriais. Mas então, como será a batalha do Final dos Tempos?

No sonho, um dos serafins contou a Eliot que não haverá uma batalha final tal como nas
guerras convencionais, mas um desfecho de alto nível, digamos civilizado. Haverá
simplesmente um ponto final na luta entre o Bem e o Mal para acerto de contas. Deus dará
um basta no conflito em momento que Ele irá escolher. Ganhará a guerra não o lado mais
bem equipado para lutar, mas o mais inteligente, mais dedicado, mais perspicaz, conforme
critério concebido por Deus.

E qual era esse critério?

Um anjo informou a Eliot que a luta entre o Bem e o Mal será decidida no plano intelectual.
O que contará é a conquista de corações e mentes desde o surgimento do Homo
sapiens. Vencerá o lado que tiver conseguido o maior número de almas. Em outras
palavras, o Bem vencerá se no Final dos Tempos houver mais almas humanas no Céu do
que no Inferno. Do contrário, o Mal é que triunfará. Mais pessoas premiadas com o Céu do
que condenadas ao Inferno é uma medida, ainda que rudimentar, da evolução da
Humanidade em direção à Luz. A Batalha do Fim dos Tempos será na verdade o “Balanço
do Fim dos Tempos”, ou melhor dizendo, a “Contagem de Almas do Fim dos Tempos”. O
anjo informou a Eliot que segundo esse critério adotado por Deus - uma alma, um voto - a
luta está hoje equilibrada, com ligeira vantagem para as Forças do Mal.

“Mas”, perguntou Eliot, “se Deus pode escolher quando ocorrerá a Batalha Final, isto é, a
Contagem do Fim dos Tempos, por que Ele não escolheria um momento em que o número
de almas no Paraíso excedesse o número de almas no Inferno?”

O anjo explicou a Eliot que Deus não pode esperar eternamente. Isto porque a Humanidade
não existirá para sempre. Muito antes que o sol se expanda e destrua a Terra, a
Humanidade poderá ser extinta, ou pela irresponsabilidade do Homem ou pela Natureza,
como ocorreu com os dinossauros. Nesses casos, o momento do incidente de destruição
determinaria a hora da Contagem Final. O anjo também reiterou que o livre arbítrio que
Deus concedera ao Homem O impedia de interferir nas suas escolhas e na sua evolução.

O anjo disse para Eliot que, caso os agentes do Bem vençam, o Inferno será fechado e todos
irão para o Céu. “Mas”, Eliot interveio novamente, “isso não contradiz a crença de que a
condenação ao Inferno é eterna?” O anjo respondeu sem hesitar: “Não, de forma
alguma”. E explicou:

“A condenação ao Inferno é eterna porque um instante queimando no Reino das Trevas


é uma eternidade. É por isso que o Inferno foi concebido para propiciar o máximo de
sofrimento no mínimo de tempo: uma fração de segundo no Inferno é suficiente para
redimir qualquer pecado, até os mais horripilantes.

“A luta do Bem contra o Mal é, pois, um marketing de ideias, uma conquista de corações
e mentes, um jogo de punições e recompensas, em que cada lado precisa convencer o
maior número de Humanos a se comportar deste ou daquele modo. Enquanto as Forças
do Bem se esforçam para que os Seres Humanos pratiquem a virtude e o amor a Deus, o
Exército do Mal trabalha para persuadir os Homens a trilharem o caminho do vício, da
indiferença ao sagrado, do ódio a Deus.”

Eliot concordou quando o anjo se queixou de que as Forças do Bem começaram a luta em
desvantagem, diante de um privilégio gratuito concedido ao Exército do Mal. Essa
vantagem mereceu até um provérbio: “O diabo é bem-sucedido porque paga à vista”. De
fato, enquanto a punição só vem após a morte, na outra vida, as gratificações do pecado são
imediatas. Esse sistema de recompensas - transgressão premiada na hora e castigo a longo
prazo - motiva as pessoas a pecar, como bem sabem os políticos corruptos, os adúlteros e
os estudantes que colam nos exames.

Um serafim que acompanhava a conversa interveio para dizer que as Forças do Bem têm
também seus privilégios. Para levar as pessoas para o Céu, o Bem conta com a infinita
bondade de Deus, que permite ao pecador arrepender-se a qualquer momento e se
salvar. E citou Heinrich Heine, que em seu leito de morte declarou: “Deus me perdoará: é
esse o seu negócio”.

Puxando Eliot para um canto, o Serafim lhe confidenciou sua certeza de que, no final, o Bem
sairá vitorioso: “O Bem vencerá, o Anticristo será derrotado, e a luz brilhará na escuridão.”

O Serafim explicou a Eliot que sua maior proximidade com Deus lhe dava acesso a certas
informações inacessíveis às criaturas celestiais menos graduadas. Relatou, então, que
ouvira do próprio Criador que “caso o Homem aprenda a usar sua crescente inteligência
para trilhar o caminho da Justiça, da Bondade e do Amor ao Próximo, a vitória do Bem estará
assegurada. Isto é o que ocorrerá porque você, Eliot, saberá levar adiante a sua missão.”
Assim, Deus estava convencido de que o Homem alcançará o estágio de evolução moral
compatível com o seu desenvolvimento científico e tecnológico. Essa evolução fará com que
a quantidade de almas destinadas ao Inferno diminua ao longo dos próximos séculos,
assegurando a vitória do Bem sobre o Mal.

Após a vitória do Bem, Deus extinguirá os Espíritos do Mal e todos os Seres Humanos irão
para o Paraíso.

***

Eliot, mais uma vez, acordou sorridente. Deus é bom! Mas o sonho lhe mostrara um Deus
bom apenas no Outro Mundo. E o sofrimento aqui na Terra? Foi com essa dúvida na cabeça
que Eliot partiu para Israel, onde iria realizar a maior parte de seu roteiro turístico-
religioso. Mas antes iria a Nablus, na Cisjordânia, para visitar o túmulo de José do Egito,
patriarca reverenciado por Judeus e Muçulmanos.
08. Se Deus é Bom, Por Que Permite o Sofrimento?
A cidade palestina de Nablus, com uma população de aproximadamente 150 mil habitantes,
localizada a 65 km ao norte de Jerusalém, foi fundada pelos romanos no ano 72 d.C. Foi
originalmente chamada de Flavia, em homenagem ao imperador Vespasiano - Titus Flavius
Vespasianus. Em Nablus, Eliot visitou o túmulo de José do Egito, cuja história é narrada na
Bíblia e no Alcorão.

No caminho de Nablus para Jerusalém, Eliot resolveu pernoitar numa modesta pousada que
lhe pareceu convidativa, sugestão de um estudante da Universidade de Birzeit que
conhecera na Jordânia. Comeu um sanduíche de queijo, tomou uma garrafa de água
mineral e foi para o quarto iniciar as meditações daquela noite:

“Quando eu era criança, meu avô me ensinou que o sofrimento existe porque Adão e Eva
pecaram. O primeiro casal de Seres Humanos não soube fazer bom uso do livre-arbítrio
que Deus lhes concedera. Mas se Deus é bom, não poderia ter perdoado a Humanidade?
Será que Ele é realmente generoso e se interessa por nós? Ou será que nosso Pai tem
afazeres mais importantes do que se preocupar com a dor humana?” Eliot não encontrou
na Bíblia resposta para suas inquietações. O jovem antropólogo, sentindo-se agora mais
próximo do avô pastor, não desistia. Tinha de conhecer as motivações que orientam as
ações do Criador de todas as coisas.

Para conhecer seu Deus, Eliot precisava desvendar o enigma do sofrimento: “Se a dor
existe(1)”, raciocinou, “desde a mais leve dor de cabeça que apenas incomoda até a dor
pungente que maltrata o corpo e a alma, só duas explicações fazem sentido: ou Deus não é
infinitamente bom, ou não tem poderes ilimitados. Mas se Deus não é bom ou não é
onipotente, não é o Deus que me acompanha desde a infância, não é o Todo Poderoso com
quem converso em minhas orações”, desabafou.

* * *

Eliot tinha consciência de que grande parte do sofrimento pode ser atribuída ao próprio
Ser Humano. O livre-arbítrio, que permite ao Homem oferecer a Deus e ao Próximo um
amor genuíno, também permite ao Homem contrariar o seu Criador e maltratar, oprimir,
torturar, perseguir, roubar, corromper, violentar, caluniar e até tirar a vida de seu
semelhante. O Ser Humano é livre para amar e para odiar.

“Os atos de violência praticados pelo Homem”, lamentou Eliot, “vão da mais simples
agressão verbal contra cônjuges e filhos às guerras entre nações que matam e mutilam
soldados e, junto com eles, crianças, mulheres e idosos.
O livre-arbítrio também explica o sofrimento imposto às vítimas de latrocínio, de
assassinatos por motivos banais como brigas de trânsito, conflitos amorosos e questões
financeiras irrelevantes. Eliot aprendeu que as Forças do Mal sabem tirar proveito do livre-
arbítrio para desviar os Homens do caminho da retidão. “Mas”, raciocinou, “o que fez a mãe
para merecer a perda trágica do filho no campo de batalha ou vítima de um ato
criminoso?”

“E os transtornos que não são causados pelo Homem como o aborto espontâneo de uma
mulher que sonhava em ter aquele filho? E os derrames que paralisam o indivíduo? E a
ampla gama de doenças degenerativas? Nem todo sofrimento humano é causado pelo
Homem”, concluiu Eliot.

Buscando a todo custo conhecer a mente de Deus, Eliot voltou sua atenção para as
catástrofes naturais, os chamados Atos de Deus (Acts of God), em que o Homem está isento
de culpa:

“Os desastres naturais talvez sejam um erro no projeto de criação do mundo, talvez
um terrível equívoco que passou despercebido aos olhos de Deus. Se a Terra foi feita
para servir de morada para o Homem, nada explica a ocorrência de secas,
inundações, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, incêndios florestais causados
por raios, essas manifestações da Natureza que matam sem fazer distinção entre o
virtuoso e o pecador. E temos as mudanças climáticas, a idade do gelo(2)....”

Eliot prosseguiu com seus pensamentos sinistros:

“Houve quem dissesse que os desastres naturais são uma forma encontrada por Deus
para mostrar ao Homem a transitoriedade de sua vida na Terra, motivando a
Humanidade a dar mais atenção à vida eterna. Mas, e as catástrofes que pegam
populações inteiras de surpresa, matando milhares de pessoas em questão de horas,
sem dar tempo ao pecador de arrepender-se e retornar à estrada que conduz a
Deus? E as doenças, contagiosas ou não? Qual a razão das epidemias? Por que
existem micróbios patogênicos? Por que as bactérias sofrem mutações e se tornam
resistentes aos antibióticos? Seria uma forma encontrada pelo Criador para iluminar
os que não acreditam na evolução?” Eliot precisava entender.

Ao procurar resposta na Bíblia, Eliot confrontou os profetas Amós e Daniel(3). Amós via o
sofrimento como um castigo de Deus para o mau comportamento - quando o povo de Deus
se arrependesse de seus pecados e retornasse ao caminho da virtude, o sofrimento
terminaria. Já o profeta Daniel enxergava o oposto: o sofrimento era causado pelo
Demônio, que persegue os justos por se comportarem segundo as leis de Deus e só
terminará quando Deus derrotar as Forças do Mal.

***
Agravando o desconforto de Eliot, havia ainda os atos de violência praticados pelo próprio
Criador:

“O Dilúvio não teria sido uma punição exagerada e inútil? Não havia outra forma de
melhorar os Homens a não ser eliminando a todos, deixando sobreviver apenas a
família do justo Noé? De que adiantou? A Humanidade não continua corrompida?

“Por que destruir Sodoma e Gomorra ao invés de mostrar a seus habitantes o


caminho da virtude? Se eram irrecuperáveis, por que salvar a família de Ló, cujas
filhas se mostraram tão irresponsáveis a ponto de embebedar o pai a fim de seduzi-
lo(4)? O desejo de ter filhos justifica o incesto?

“E o pedido para que Abraão sacrificasse Isaac?”

Para Eliot, era difícil pensar no sofrimento que Deus infligira a Sara e Abraão ao pedir-lhes
o filho Isaac em sacrifício: “Tudo isso apenas para testar a fidelidade de Abraão? E o teste
de Jó(5), submetido pelo Criador às mais terríveis perdas e dores?” Eliot não entendia
porque Deus eliminou os filhos de Jó e tomou todos os seus bens apenas para testar sua fé.

Eliot relembrou o sacrifício que Deus impôs a José, o filho preferido de Jacó, o José do Egito
que interpretou corretamente o sonho das vacas gordas e das vacas magras: “Foi mesmo
preciso que os irmãos vendessem José como escravo para que os descendentes de Abraão
fossem salvos?” Eliot foi além: “Por que sacrificar o próprio Filho feito Homem para livrar a
Humanidade das consequências do pecado original? Teria sido mesmo necessário? Não
bastaria que Deus dissesse ‘estão todos perdoados’?”

***

Embora neto de um respeitado pastor, Eliot nunca dera muita atenção aos temas religiosos.
Durante a infância, os livros de catecismo estavam longe de serem a sua leitura preferida.
Gostava da companhia do avô por causa dos passeios, das histórias que contava, de sua
doçura. Quanto aos ensinamentos religiosos, o pequeno Eliot se limitava a ouvi-lo. A
Trombeta de Jericó, no entanto, mudara sua vida. Agora buscava a todo custo entender o
porquê dos males deste mundo:

“A ideia de que Deus aprecia o sofrimento Humano”, concluiu Eliot, “criou entre nós uma
cultura da dor que não pode estar correta”. De fato, muitos se autoflagelam, jejuam, sobem
escadarias de joelho, percorrem longas distâncias a pé e descalços, privam-se disso ou
daquilo, acreditando que dessa forma estão agradando a Deus e se tornando mais dignos e
merecedores da Eterna Morada. Ocorreu a Eliot conhecer a vida de Santa Rita de Cássia, a
santa predileta de uma colega católica dos tempos em que, adolescentes, frequentavam a
mesma escola pública.

Santa Rita de Cássia sofreu calada durante os seus vinte anos de casamento com um marido
violento, alcoólatra e infiel, que acabou se convertendo, mas já nas vésperas de morrer.
Viúva, perdeu os dois filhos vitimados por uma doença fatal. Após tornar-se freira, viveu
uma vida de intensa penitência.

Como demonstração de suas dores consentidas, ela exibia orgulhosa na testa, acreditando
ser obra de Deus, uma ferida de espinho que lembrava a agonia de Cristo em seus
derradeiros momentos na cruz. A dor de Santa Rita de Cássia era o padecer
resignadamente aceito (ou procurado?) de um Ser Humano que buscava se aproximar de
Deus pelo sofrimento. E foi assim até falecer, aos 76 anos de idade.

“Sofrer para agradar a Deus! Não podemos acreditar que Deus seja sádico”, suspirou Eliot.

***

O dia já ia raiando quando o velho Arcanjo, pela quarta vez, voltou a se encontrar com
Eliot. Constatando o interesse do jovem antropólogo pela vida de Santa Rita de Cássia, o
Arcanjo esclareceu:

“Deus não aprecia a autoflagelação. Os únicos sacrifícios que fazem sentido para Ele
são os destinados a ajudar o próximo. Esses, sim, são sacrifícios que comovem o Senhor,
como a mãe que arrisca a vida pelo filho; o bombeiro que enfrenta o fogo para salvar
um desconhecido; o médico que abandona o conforto de seu ambiente para tratar
favelados em fins de semana; o religioso que cuida de moradores de rua; o cidadão que
salta no rio para salvar um jovem e termina se afogando; o político que perde um
importante cabo eleitoral por impedir um desvio de verba ou a construção de uma obra
desnecessária. Todos esses são sacrifícios que merecem a benção de Deus, mas não o
sofrimento gratuito, inútil. É assustador saber que existem pessoas que consideram um
privilégio sofrer em troca de nada, apenas para agradar ao Senhor.
O Pai Eterno não endossa a afirmação de Madre Teresa de que sofrer é um presente de
Deus(6)”.

O Arcanjo prosseguiu:

“Santa Rita de Cássia se encontra no Céu por causa de seu imenso amor a Deus, jamais
pelo tanto que sofreu; e Madre Teresa porque colocou sua vida a serviço dos mais
pobres. Privar-se da diversão, abster-se da alegria, jejuar, subir escadarias de joelhos,
ou chicotear-se para agradar a Deus só faz ofendê-Lo. Deus quer ver o Ser Humano feliz
também aqui na Terra. Que cada um seja feliz e ajude o próximo a ser feliz. Até os
animais merecem ser felizes.”

O Arcanjo aproveitou a oportunidade para relatar a admiração dedicada nos meios


celestiais a homens como Bill Gates e Warren Bufftet que, mesmo não sendo religiosos no
sentido estrito da palavra, souberam internalizar a mensagem divina de amar o próximo
investindo grandes somas no combate a doenças em regiões pobres do Terceiro Mundo.

Sobre o pedido para que Abraão sacrificasse seu filho Isaac, esclareceu:
“A dor experimentada por Abraão e Sara diante daquele pedido de Deus foi de fato
alucinante. Tratava-se, afinal, do único filho de Sara, nascido quando ela já tinha 90
anos - ela não teria outro. Mas sabemos que nosso Pai precisava testar até onde ia a fé
de Abraão antes que ratificassem um acordo que exigia extraordinária confiança
mútua. O Criador jamais aceitaria aquela oferta.”

Em seu sonho, Eliot percebeu que desfrutar de uma vida prazerosa na Terra faz parte da
preparação psicológica para o estado de bem-aventurança reinante no Paraíso. Quem tiver
sido feliz na Terra estará mais apto para receber o choque de felicidade ao adentrar o
portão do Paraíso; irá adaptar-se mais depressa às condições de arrebatamento e êxtase
que vigoram no Reino do Senhor(7).

“Mas então”, interveio Eliot, “por que existe o sofrimento? Como um Criador
onipotente pode gerar um mundo onde seus filhos padecem tanto a ponto de chamá-lo
de Vale de Lágrimas?”

Pela primeira vez, Eliot cobrou explicação para uma das fontes mais cruéis de sofrimento:

“Por que existem as pessoas esteticamente prejudicadas, os exageradamente


feios? Por que Deus não incluiu apenas pessoas de boa aparência - os mais variados
tipos de beleza - em seu projeto? A feiúra humana é compatível com a bondade de
Deus? Ou é mais uma fonte de sofrimento que depõe contra a bondade do Criador?”

Quando criança, Eliot viu um amiguinho correr para a rua chorando e gritando com a roupa
e o cabelo em chamas. Enquanto a babá desatenta via televisão, a criança acendeu um
fósforo e a garrafa de álcool explodiu. O garotinho de apenas seis anos passou oito meses
internado em um hospital. Saiu com o rosto desfigurado, apesar das cirurgias plásticas.
Aquela tragédia marcou a vida de Eliot; ele não conseguia apagar de sua memória a
expressão de dor do amiguinho logo após a explosão - nem deixar de assustar-se ao
lembrar-se de sua nova aparência. Antes ele era bonito, o mais charmoso do jardim da
infância. Depois, ...

Eliot quis também saber por que o Senhor não derrotou ainda o Exército de Lúcifer. O
Arcanjo, porém, desapareceu de repente, sem se despedir. Muito estranho!
09. Se Deus é Bom, Por Que Existem Seres
Humanos Esteticamente Prejudicados?
Eliot regressou à noite de Belém, onde fora conhecer a Igreja da Natividade. Em Jerusalém,
resolveu dar-se algum luxo hospedando-se num antigo hotel administrado por uma ordem
cristã, na parte árabe da cidade velha. Fez os cálculos e viu que estava completando oito
semanas de peregrinação. Poderia ter feito o mesmo trajeto em muito menos tempo, mas
seu objetivo maior era encontrar-se com Deus.

Na manhã seguinte, Eliot telefonou para Sarah informando que acabara de confirmar a
passagem de volta para Nova Iorque - ia embarcar dentro de três dias. A aventura chegava
ao fim. Faltava apenas conhecer Hebron/Al-Khalil e os museus de Jerusalém.

Naquela quarta-feira, após exagerar nas frutas durante o café-da-manhã, o jovem


antropólogo tomou a decisão de não deixar o hotel. Foi para o salão que ficava junto à
entrada principal e, sem que percebesse, passou a observar a aparência das pessoas que
entravam e saíam. De repente, começaram a desfilar diante de seus olhos as figuras mais
destoantes que conhecera desde a mais remota infância. Eliot percebeu que precisava
compreender a razão da existência das pessoas esteticamente prejudicadas, o que, em sua
visão, manchava a bondade de Deus: “Se Deus é bom, por que incluiu a feiúra em Seu
projeto? Não seria a fealdade incompatível com a infinita generosidade de um Criador
onipotente? Deus não estaria sendo duro demais - para não dizer injusto, insensível - com
os exageradamente feios?” O jovem peregrino não era capaz de encontrar uma resposta
que o satisfizesse.

Eliot, no entanto, sabia intuitivamente que Deus é bom e que, mais cedo ou mais tarde,
encontraria uma explicação. Mas isso não impedia que pensamentos sinistros chegassem à
sua mente: “Será que o sentido da visão não fazia parte dos planos do Criador para o
Homem - enxergar teria sido um equívoco da evolução?”, indagou a si mesmo, para em
seguida corrigir-se: “Deus não erra, eu sei disso. Então, por que a feiúra?” Vinham-lhe as
mais estranhas ideias: “Será que Deus está tão afastado de nós a ponto de não perceber
esses problemas humanos?”

Para compreender as angústias de Eliot é preciso colocar-se no seu lugar: a fealdade que
revoltava o jovem antropólogo, a ponto de indispô-lo com o Criador, não era aquela
feiurazinha resultante de pequenas imperfeições físicas, mas aqueles casos extremos que
chocam os olhos. Em nenhuma hipótese ele questionaria o Senhor pela ocorrência de
indivíduos de aparência apenas sofrível.
O que Eliot queria que Deus lhe explicasse - o Criador a quem amava com fervor - era
aquela fealdade que causa aversão, que destrói a autoestima, que afasta o horroroso do
convívio social. É a feiúra que reduz a empregabilidade de seu portador porque a sua
presença baixa a produtividade dos colegas de trabalho, faz crescer o absenteísmo e os
pedidos de demissão voluntária(1). É a feiúra que, no campo sexual-afetivo, priva o
indivíduo da emoção de ser desejado(2).

Era doloroso para Eliot aceitar que existe feiúra capaz de induzir homens e mulheres a
detestarem a si próprios, a sentirem raiva da própria imagem, a odiarem o reflexo de si
mesmos no espelho e nas superfícies polidas. Eliot soube de um rapaz que evitava andar
perto de poças d’água por que elas poderiam refletir seu rosto disforme: “Não foi se vendo
na água que Narciso percebeu a extensão da sua formosura? Pois a mesma água poderia
refletir a minha feiúra”, concluiu o jovem. Acabou se isolando num mosteiro, onde foi
trabalhar como jardineiro e limpador de chaminés(3).

Realmente, é muito difícil para os indivíduos de aparência normal imaginar alguém que
recusa a se olhar no espelho porque não consegue se identificar com a própria imagem
refletida: “Esse aí não sou eu, deve haver algum engano”. Tola ilusão! Ninguém consegue
fugir de si mesmo.

“É óbvio que um Criador onisciente sabe que os esteticamente prejudicados não causam
danos somente a si próprios”, deduziu Eliot, “mas também agridem os olhos das pessoas
mais sensíveis”. Isso é verdade! Diante do horror da feiúra, há quem tenha pena dos Seres
Humanos mais sensíveis, aqueles educados para apreciar a beleza das obras de arte -
pinturas, esculturas, palácios, catedrais -, e da Natureza - as quedas d’água, as florestas
verdejantes, os bosques floridos, as estrelas no firmamento.

***

Eliot continuou a refletir sobre as vantagens proporcionadas por uma bela aparência. O
mundo dos provérbios mostra uma série delas. Quando admiramos uma mulher bonita,
temos certeza de que “A beleza é uma promessa de felicidade”. Os Árabes sabem que
“Beleza é Poder”. Toda jovem que passa a frequentar ou viver em um novo ambiente - uma
nova vizinhança, uma nova escola, um novo emprego - sente que “A beleza é a melhor carta
de recomendação”.

Pesquisas mostram que somos inclinados a achar as pessoas que consideramos atraentes
mais educadas, mais calorosas, mais fortes, mais ativas sexualmente, e mais interessantes
que as demais. Por isso, esses indivíduos são mais capazes de influenciar o nosso
comportamento. A aparência explica ainda por que os homens atraentes têm mais chances
de promoção no trabalho, e porque as mulheres e homens atraentes recebem penas
menores nos Tribunais de Justiça(4). Rapazes e moças atraentes estão também em vantagem
na escola onde, em geral, recebem mais atenção dos professores. Mas a maior vantagem se
encontra no terreno afetivo-sentimental, onde têm mais e melhores opções de escolha(5).
O jovem antropólogo não tinha dúvidas de que as vantagens dos privilegiados pela beleza
vão longe. Dizem que Buda, muito formoso quando jovem, teria se tornado
voluntariamente feio para ter certeza de que as mulheres lhe davam esmola por caridade, e
não por causa de sua aparência(6).

Procurando uma explicação para a fealdade, Eliot perguntou a si mesmo se os padrões de


beleza que vigoram no Céu e na Terra seriam os mesmos. Divergências de gosto poderiam
explicar muitos casos de feiúra, justificando o aparente descaso de Deus. Eliot viu então
que, mesmo se diferissem, nada mudaria, pois é aqui neste Vale de Lágrimas, e não no
Paraíso, que os “esteticamente prejudicados”(7) vivem suas existências sofridas.

Mas não há dúvidas de que o Criador, ao fazer o Ser Humano à Sua imagem e semelhança,
nos passou Seu senso de beleza. A própria Bíblia (Gênesis) relata que foram mulheres que
consideramos bonitas que fascinaram os anjos do Paraíso que aqui vieram para com elas
terem filhos, comprovando que os critérios estéticos daqui e de lá são os mesmos(8). É,
portanto, polêmica a afirmação de Santo Agostinho de que “os monstros também são
bonitos porque são criaturas de Deus(9)”.

O Jardim do Éden é uma comprovação de que Deus e os Humanos têm padrões estéticos
iguais. Quantas vezes o Homem tentou imitar aquela maravilha neste mundo e
fracassou! Diante da imponência e do esplendor do Jardim do Éden, os Jardins Suspensos
da Babilônia foram uma obra bastante modesta. Citamos o Jardim do Éden como
representativo do gosto divino porque Deus fez dele a Sua morada, embora esteja em todos
os lugares. Outro exemplo é o manto de Nossa Senhora, colorido de um azul que encanta a
nós humanos, e que ela continua usando no Céu.

Portanto, Deus aprecia um tipo de beleza que é também o nosso belo. Reforçando esse
ponto de vista, Eliot percebeu que os criadores de beleza, como os grandes pintores,
escultores, arquitetos e paisagistas, sempre gozaram de enorme prestígio junto às
autoridades eclesiásticas, como Michelangelo.

Ocorreu a Eliot que Deus vê as igrejas como locais de trabalho e os museus, desfiles de
moda e concursos de beleza como ambientes para recreação. Nas magníficas catedrais Ele
pode conciliar trabalho e diversão!

“Mas se o Criador tem o mesmo gosto estético que nós, por que nos legou a feiúra? Preciso
entender”, suspirou Eliot.

As reflexões sobre a feiúra fizeram Eliot se esquecer de tudo, até do almoço. Só voltou à
realidade - a por novamente os pés no chão - pouco antes do jantar. A aparência que agride
os olhos era agora a causa de sofrimento que mais o incomodava: “Por que há bebês que
nascem feios se jamais pecaram? Se é pelo pecado original, também nascem com ele os
mais belos dos homens e as mais formosas das mulheres”, concluiu.

***
Há homens e mulheres, em sua maioria psiquiatras, psicólogos e escritores de auto-ajuda,
que dizem que os feios precisam se aceitar como são. Esses profissionais não sabem o que é
ser feio. Não conseguem imaginar como é a vida dos indivíduos que jamais puderam
frequentar praias e piscinas por que se envergonham de seus corpos: seminus, eles se
sentem ameaçados pelo olhar do outro. De fato, entre as pessoas esteticamente normais,
somente as muito humanas e sensíveis - e Eliot era uma delas - são capazes de
compreender o drama dos exageradamente feios.

As pesquisas de Eliot comprovaram que são raros os exemplos de horrorosos que se


aceitam. Mas essas exceções existem. Eliot, que já acompanhara tantos concursos de beleza,
tomou conhecimento da realização de um concurso de feiúra. A competição foi realizada
em 1995 na cidade brasileira de São Vicente Férrer(10), na zona da mata de Pernambuco,
uma região muito pobre. A vencedora, uma corajosa senhora de 26 anos, ganhou como
prêmios uma bicicleta usada e duzentos reais (equivalente na época a cerca de US$210.00),
para orgulho do marido que a incentivara a concorrer: “Vai que tu ganha”, insistiu seu
homem. Eleita a mulher mais feia de Pernambuco(11), Maria de Lourdes de Jesus garantiu o
transporte da família (a bicicleta usada) e contribuiu substancialmente para o orçamento
doméstico (os duzentos reais).

***

As pesquisas de Eliot levantaram alguns exemplos notáveis de superação da feiúra. Um


deles é a história Gwynplaine - o Homem que Ri(12), personagem criado por Victor
Hugo. Outro, menos conhecido, é o Fantasma da Biblioteca.

O Fantasma da Biblioteca era um senhor que gostava muito de crianças. Desde a juventude
admirava a alegria, a espontaneidade e a curiosidade da gurizada, e queria dedicar sua vida
a divertir crianças. Com o tempo, foi crescendo dentro dele, tomando conta de todo o seu
ser, uma vontade incontrolável de contar histórias edificantes para plateias infantis.

O desejo de falar para as crianças acabou se transformando numa obsessão irrealizável. É


que ele era anormalmente feio. Assustaria o público mirim. As criancinhas iriam apavorar-
se diante de uma figura tão horripilante. Ele chegou a imaginar seus pequeninos ouvintes
em desabalada carreira, fugindo alucinados do bruxo (ele), procurando, desesperados,
encontrar um refúgio seguro que os protegesse daquela criatura monstruosa. Essa visão o
fazia mergulhar em profunda depressão. Retirava-se então para o porão de sua casa, onde
sofria calado, em total solidão.

Numa manhã de outono, o feio contador de histórias, lembrando-se do episódio da maçã de


Newton, foi até o quintal de sua casa na esperança de que a queda de alguma fruta o
inspirasse. Veio-lhe a ideia genial! Por que não escrever os mais belos contos infantis e
publicá-los em livros maravilhosamente ilustrados? Falaria para as crianças sobre
formosos príncipes e princesas que se amam, falaria sobre florestas encantadas e seus
divertidos animais, falaria para crianças de todas as idades sobre as mais belas fadas e os
mais estranhos duendes e, sobretudo, sobre um reino onde tudo era lindo, governado pelo
amor, pela bondade e pela solidariedade.

As criaturinhas, gostando de seus livros, iriam amá-lo sem jamais vê-lo. Mantendo-se à
distância, não correria o risco de causar repulsa. Ao contrário, as crianças, conhecendo suas
histórias, iriam imaginá-lo mais belo do que Narciso, tão formoso quanto os anjos mais
próximos de Deus. Ocorreu-lhe que Esopo, o grande fabulista, era, como ele,
exageradamente feio - na verdade repugnante, repelente, repulsivo. E tivera a má sorte de
viver dois milênios antes que Gutenberg inventasse a imprensa(13). O frustrado amigo das
crianças decidiu escrever. De sua pena começaram a sair histórias maravilhosas!

Um belo dia sentiu a indescritível sensação de ver pelo buraco de uma fechadura a alegria
de dois irmãozinhos gêmeos que se divertiam às gargalhadas lendo uma de suas histórias.
Naquele dia não dormiu. Varou a noite chorando e soluçando de alegria. Aquela sublime
experiência mudou sua vida. Jamais se sentiu tão feliz! Passou então a se esconder em
bibliotecas escolares para observar furtivamente os pequenos leitores que se deleitavam
com seus personagens. Em pouco tempo se tornou conhecido como o “Fantasma da
Biblioteca”, e em breve será tão famoso quanto seu colega de maior destaque, o “Fantasma
da Ópera”.

O dedicado escritor de histórias infantis começou a acreditar que Deus escreve certo por
linhas tortas. Se fosse lindo e divertido, como sonhara, estaria hoje encantando um número
limitado de crianças visto que, como contador de histórias, sua presença física seria
indispensável. Mas, com os livros, era capaz de maravilhar milhares de crianças ao mesmo
tempo, em países de todos os continentes. Até enquanto dormia ele instruía e fazia rir
criancinhas em todo o mundo! Nada disso teria acontecido se não fosse deveras assustador!

Esse final feliz incomodava Eliot. A história do Fantasma da Biblioteca trazia consigo o
perigo de enfatizar uma exceção, aliás bastante rara. São poucos os horrorosos felizes.
Parecia que estávamos diante de uma daquelas invenções de religiosos fanáticos querendo
justificar a qualquer custo aparentes equívocos na obra do Criador. Sabemos que Deus não
erra, mas é preciso encontrar as verdadeiras explicações. Precisamos observar com isenção
o projeto de criação do Universo e do Homem.

Eliot lembrou-se de um antigo professor que alertava seus alunos dizendo: “Cuidado com
as mentiras que só dizem verdades. Quando nos restringimos a citar apenas exceções que
apoiam nosso ponto de vista, podemos estar induzindo as pessoas ao erro sem dizer uma
única mentira. Mas estamos mentindo”. De fato, poucas pessoas se sobressaem como
forma de compensar a feiúra excessiva. A regra geral é o indivíduo desenvolver baixa auto-
estima e, amargurado pela dor da rejeição, tornar-se mais uma pessoa socialmente
desajustada.

É muito difícil para o horroroso realizar-se e ser feliz. “É preciso saber de Deus a
verdadeira explicação para a feiúra”, concluiu Eliot.
* * *

De todos os golpes sujos, a pancada mais violenta desferida pela Natureza contra o feio foi
programar a mente humana para associar a feiúra a vícios e a falhas de caráter. Essa
associação é desumana. Todos nós concordamos que ela é cruel mas, no entanto, sem
exceção, aceitamos que a bondade é bela e a maldade é feia; o anjo é lindo e o diabo,
horroroso; a fada é bonita e a bruxa, horrenda; a verdade é maravilhosa e a mentira,
monstruosa. Não é verdade que Caim, o assassino, era feio, rude, agitado e tinha uma
cabeça exageradamente grande enquanto Abel, a vítima inocente, era bonito, delicado,
paciente e bem proporcionado(14)?

Na Antiga Grécia, a beleza sinalizava a bondade moral; já a feiúra era um indicador de


baixeza. Na idade média, as milhares de bruxas queimadas na fogueira(15) eram facilmente
reconhecidas pela feiúra extrema - para os cínicos, uma ajuda da Inquisição e do fanatismo
religioso à estética europeia.

Mas como Tolstói sabiamente observou: “É surpreendente como é total a ilusão de que
beleza é bondade!” Segundo Umberto Eco(16), o Cristianismo, com o sacrifício da redenção,
ofereceu uma contribuição pioneira para desfazer essa associação perversa: Jesus pregado
na cruz, gemendo e contorcendo Seu corpo coberto de feridas, com a face ensanquentada
pela coroa de espinhos, é um raro exemplo em que o trágico - e não o belo - representa o
sublime.

***

Eliot foi deitar mais cedo revoltado com a feiúra. Pegou logo no sono. Teve então seu quinto
sonho-revelação no Caminho de Abraão.

Foi nesse sonho que o Arcanjo informou a Eliot que ele vinha sendo observado e avaliado
por Deus desde a viagem à Amazônia. O ápice da avaliação ocorrera durante sua
peregrinação pelo Caminho de Abraão. A profundidade e a seriedade de suas meditações
haviam elevado seu conceito com o Criador que, comovido, o via qualificado para a
realização de um trabalho que exigia confiança e competência. O jovem antropólogo iria
receber a Grande Revelação, uma mensagem contendo o segredo mais bem guardado de
Deus.

“Eliot, você irá finalmente entender a razão do sofrimento - de todo tipo de sofrimento”,
assegurou-lhe o Arcanjo. “Mas nada posso adiantar. O Criador decidiu que esta
mensagem lhe será transmitida por um serafim ou um querubim. Tenha paciência!”

Sabendo que o anúncio a Maria de que ela seria a mãe do Messias - a mensagem mais
relevante até então enviada por Deus - fora transmitida por um arcanjo, o Arcanjo Gabriel,
Eliot percebeu que estava diante de algo incomum. Os serafins e querubins são as mais
elevadas criaturas celestiais, as mais próximas de Deus, e jamais tinham sido usados como
mensageiros. A mensagem tinha de ser muito importante!
Eliot acordou feliz sabendo que Deus não aprecia o sofrimento, mas triste por não saber
porque o sofrimento existe. Embora ansioso, procurou acalmar-se e seguir o conselho do
velho Arcanjo: aguardar pacientemente a Grande Revelação, em que Deus, bom e
onipotente, iria comprovar Seu amor incondicional pela Humanidade.

Ao levantar-se da cama, Eliot teve um estranho pensamento: Por que Deus não aproveitara
sua estada na Cidade Santa de Jerusalém para lhe transmitir a Grande Revelação? Por que
não o fez durante sua peregrinação pelo Caminho de Abraão? Deus não estaria quebrando
uma velha tradição? O Oriente Médio não é a Terra dos profetas e das profecias? Seria uma
alfinetada divina, uma reprimenda pelos conflitos regionais ainda não resolvidos? “Bem, se
estamos diante de um protesto divino”, raciocinou Eliot, “não se trata de um rompimento já
que tive cinco sonhos-revelação ao longo da peregrinação”.

Encerrando sua jornada, Eliot foi a Hebron (Al Khalil para os Árabes) para conhecer o
Túmulo dos Patriarcas, onde foram enterrados Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Léa.
Em Jerusalém iria visitar o Museu de Israel, o Museu de História de Jerusalém e o Museu do
Holocausto. Um colega da universidade, Ben Solitrenick, através de um amigo em
Jerusalém, conseguiu que um especialista em história antiga de Israel o acompanhasse na
visita aos museus.

Em Nova Iorque, no sábado, Sarah estaria esperando por ele no aeroporto John F. Kennedy.
PARTE 03

RECEBENDO A GRANDE REVELAÇÃO

10. De Volta do Caminho de Abraão


Eliot precisou de dois meses para completar seu trajeto pelo Caminho de Abraão. Percorreu
alguns trechos a pé, outros de ônibus, andou uma vez de camelo, pegou duas ou três
caronas. Poderia ter realizado a peregrinação em menos tempo, talvez um mês mas, em sua
busca por inspiração divina, fez questão de conhecer todos os locais históricos que a Bíblia
colocara em sua imaginação. E havia o tempo dedicado à meditação. Estava radiante por
ter visitado os lugares santos recomendados pelo avô - o velho pastor iria ficar orgulhoso
de seu neto.

Lamentou não ter tido tempo para visitar Beirute, sugestão de uma colega de ascendência
libanesa, nem para visitar Budrus, recomendação de um jornalista francês que conhecera
em Petra. O francês comentou que o vilarejo de Budrus foi palco, em 2003, de uma bem-
sucedida resistência pacífica de Palestinos contra a ocupação israelense, que envolveu
principalmente as mulheres do lugar. Mas resolveu que iria ver o filme da cineasta
brasileira Julia Bacha sobre o acontecimento. O Egito, e com ele o Monte Sinai, também
ficara para uma próxima viagem à região.
No avião, Eliot procurou recordar cada passo de sua jornada. Relembrou as cidades e
vilarejos do Oriente Médio onde estivera. Não foi capaz de se lembrar do nome do lugarejo
onde um beduíno lhe ofereceu uma caixa de papelão contendo manuscritos encontrados
duas semanas antes por um pastor de ovelhas. Um dos animais se extraviara e, ao procurá-
lo, o pastor achou, numa das grutas da região, alguns antigos vasos de cerâmica com
aqueles pergaminhos.

O jovem antropólogo examinou os manuscritos e acreditou na sua autenticidade. O pouco


que conhecia das línguas faladas na antiguidade o convenceu de que o idioma daqueles
pergaminhos ressecados pelo calor e aridez da região seria o aramaico, a língua em que
Jesus pregou o Sermão da Montanha. Fez então uma proposta irrecusável ao beduíno - a
quantia paga foi suficiente para que o homem do deserto comprasse três novos camelos e
adquirisse ração e mantimentos para alimentar a família e os animais que o serviam por
vários meses, talvez um ano. Mais tarde, nos Estados Unidos, dois especialistas concluíram
que os pergaminhos eram autênticos e deveriam ter sido escritos há mais de dois milênios.

Enquanto refletia sobre a peregrinação e os lugares que visitara, Eliot decidiu sugerir ao
pessoal de Harvard negociar a criação de um passaporte exclusivo para o Caminho de
Abraão, emitido por uma comissão formada por representantes dos países envolvidos -
Turquia, Síria, Líbano, Jordânia, Israel, Egito, e também os Palestinos. Sem abrir mão das
exigências de cada país, o passaporte comum simplificaria os trâmites burocráticos e, de
certo modo, aproximaria peregrinos provenientes das mais diversas regiões do Planeta.
Esse documento mostraria aos peregrinos que todos eles compartilham de certos valores
espirituais, morais e éticos, em especial o desejo de viver em um mundo de paz.

***

Eliot não conseguiu esconder sua emoção ao encontrar-se com Sarah. Lá estava ela no
aeroporto esperando por ele há mais de duas horas, acompanhada de sua mãe, Elizabeth
Olivier. Foi um momento de extrema felicidade. Eliot telefonava para ela sempre que podia,
mas nada como a presença física da pessoa amada. Para que Eliot não tivesse qualquer
sentimento de culpa pela ausência prolongada, Sarah lhe dissera que iria trabalhar em
tempo integral, inclusive nos fins de semana, para concluir seu doutorado em
psicologia. Motivada em conhecer melhor seu País, ela escolhera para dissertação
pesquisar a correlação entre poder aquisitivo e compulsão para comprar em famílias da
classe média e baixa classe média.

Agora a peregrinação havia terminado e Eliot estava de volta. Estavam juntos novamente!
Transbordando de felicidade, Eliot e Sarah resolveram antecipar o casamento. Iriam casar-
se em dois meses. Em lugar da grande festa que haviam planejado, optaram por uma
cerimônia simples, em que apenas os familiares e os amigos mais íntimos estariam
presentes. Mas Sarah não abriu mão do vestido de noiva com que sonhava desde a
adolescência.

* * *
De volta da lua de mel, Eliot tomou a decisão de escrever contando seus sonhos e as
revelações sobre a bondade de Deus, apesar das dúvidas ainda não resolvidas sobre o
sofrimento e uma de suas causas mais perversas, a feiúra. Solicitou a alguns amigos que
opinassem sobre o texto. Antes que os amigos consultados tivessem se manifestado, uma
cópia, não se sabe como, vazou para a imprensa e foi parar nas mãos de um jornalista que
produziu uma extensa reportagem sobre sua peregrinação. Deram-lhe o apelido de Profeta,
que pegou. O cognome ora o incomodava, ora o divertia. O velho pastor Eliot é que não
gostou, preocupado com as punições previstas na Bíblia para os falsos profetas(1), mas
acabou se acostumando.

Por uma daquelas ironias do destino, o apelido de profeta rodou o mundo, talvez pelo
acerto de previsões feitas por Eliot que nada tinham a ver com religião. Não se sabe como,
ele começou a prever com precisão fenômenos como mudanças climáticas, elevação do
nível dos oceanos e extinção de espécies vegetais e animais.

Eliot também previu que um afro-americano chegaria à presidência dos Estados Unidos (o
que ocorreu com a eleição de Obama) e que um euro-africano seria eleito presidente da
África do Sul (profecia a realizar-se). Acertou sobre o novo papel da China, Índia, Rússia e
Brasil na economia mundial e antecipou um final para o conflito no Oriente Médio que
desagradaria Israelenses e Palestinos radicais, mas que seria recebido com alívio por
Árabes e Judeus moderados e pela comunidade internacional. Como lhe disse um dos
negociadores do conflito, “Se não é possível produzir o máximo de satisfação, precisamos
nos contentar com o mínimo de insatisfação”, ou, como diziam nos meios diplomáticos,
“Nem Jeová nem Alá poderão cantar vitória mas, como na política em geral, a diplomacia
também é a arte do possível”.

***

Eliot quis conhecer o conteúdo dos manuscritos que obtivera na Terra Santa antes de
divulgá-los. Com a ajuda de dois tios e um primo de Sarah, pode contratar os serviços de
um renomado linguista especialista em aramaico, cujo nome Eliot optou por não revelar. O
filólogo montou uma equipe que se dedicou a esse trabalho durante um ano e meio, com o
compromisso de sigilo total.

Todas as religiões acreditam que conhecem Deus: quem Ele é, como age, o que quer de nós,
o que Lhe agrada, o que Lhe desagrada. O resultado é a pluralidade de religiões e a
multiplicidade de líderes religiosos defendendo ideias muitas vezes conflitantes. Pois
correu o boato, talvez uma inconfidência de algum dos integrantes da equipe de tradutores,
que um dos pergaminhos falava de um encontro de doze sábios de diferentes crenças,
provenientes de terras próximas e distantes, que haviam se reunido em algum ponto do
Oriente Médio no Século I a.C. para discutirem as Grandes Verdades Cósmicas. Apesar de
divergirem em questões de fé, todos eles tinham recebido a visita de um mesmo Arcanjo
que os informara que no século XX d.C. surgiria um grande profeta que revelaria aos
Homens a Suprema Verdade, um comunicado oficial de Deus que iria chocar a Humanidade.
“Como a mulher de Abraão”, dizia o manuscrito, “a esposa desse profeta se chamará Sara, e o
seu nome evocará sua proximidade com Deus”.

Ora, Sarah era a mulher de Eliot e Emmanuel o seu nome. Emmanuel significa Deus
conosco. Sarah e Emmanuel Eliot, não podia ser uma simples coincidência. Seria a Suprema
Verdade um outro nome para a Grande Revelação?

O fato é que três anos após seu regresso do Caminho de Abraão, Eliot anunciou que iria
dirigir-se a todos os povos para levar-lhes a Grande Revelação, uma mensagem que lhe fora
confiada por Deus não em um, mas em três sonhos que lhe ocorreram ao longo de seis
meses.

Em que circunstâncias lhe ocorreram os sonhos?

* * *

Concluído o semestre de intenso trabalho na Universidade - dando aulas para três turmas,
preparando e corrigindo provas e trabalhos acadêmicos, orientando alguns estudantes de
mestrado e doutorado, Eliot decidiu passar alguns dias de férias na casa de campo da
família no Mississippi. Foi lá que o mesmo Arcanjo (seria Gabriel?) lhe apresentou em
sonho um belo e resplandecente querubim que, por orientação divina, leu para Eliot, em
voz alta, a Grande Revelação. Surpreendente! Fantástico! Assustador! Ele não podia
acreditar naquela história. Não teve coragem de comentar o que ouvira nem mesmo com
Sarah. Tinha medo de que ela achasse que ele havia perdido o juízo.

Três meses depois, o mesmo sonho se repetiu. Era a mesma mensagem, palavra por
palavra. Mudava apenas o mensageiro. Se no primeiro sonho viera um querubim, no
segundo Eliot foi surpreendido pela aparição de um serafim acompanhado de um séquito
de três potestades, anjos da sexta hierarquia. Decorridos mais três meses, no terceiro
sonho, Eliot viu surgir um novo serafim, diferente do primeiro - era mais alto, tinha asas
maiores e douradas e chegou à frente de uma guarda composta por anjos de todas as nove
hierarquias.

Em todos os três sonhos a mensagem foi repetida palavra por palavra, lida sempre à meia-
noite de uma sexta-feira, ou zero hora de sábado. Eliot não podia mais duvidar. Os serafins
são as mais graduadas criaturas celestiais, as mais próximas de Deus. Sentiu-se seguro para
divulgar a mensagem para toda a Humanidade. Naquela noite, pela primeira vez, Eliot se
percebeu como um mensageiro de Deus - a palavra profeta não era mais um simples
apelido.
11. Preparação para a Grande Revelação
A Grande Revelação foi o segredo mais bem guardado de Deus. A ela não tiveram acesso
nenhum dos profetas dos tempos bíblicos. E correu sério risco de não ser divulgada em
nossos dias. Não fossem os sucessivos sonhos, Eliot não teria tido coragem de ser o porta-
voz de uma mensagem tão chocante.

Apesar de assustadora, havia, porém, um ponto positivo na mensagem. É que, em sua


essência, a Grande Revelação mostrava que Deus é infinitamente bom e tem um apreço
profundo, um amor incomensurável pelo Ser Humano, a criatura que concebeu para Lhe
fazer companhia.

Pressentindo o dia e a hora da terceira e última visita, Eliot esforçou-se para permanecer
três dias e três noites acordado. Tinha esperança de dormir um sono profundo e
prolongado, pois queria assegurar-se de que a mensagem lhe fosse confirmada
calmamente, claramente, em detalhes, como de fato ocorreu.

Como nos dois sonhos anteriores, o novo Serafim transmitiu mais uma vez, sem pressa e
sem rodeios, o que o Criador esperava dos Homens. O imponente mensageiro de Deus
começou relatando a Eliot confidências notáveis que se transformariam em amenidades
diante da Grande Revelação.

O enviado de Deus iniciou o sonho reiterando a Eliot que os Seres Humanos foram
concebidos pelo Criador para serem Semideuses, a companhia que Ele desejava, talvez
precisasse. Mas, por enquanto, estaríamos longe de atender às Suas necessidades
divinas. Estávamos ainda nos primeiros estágios do processo evolutivo. O Serafim admitiu,
porém, que caminhávamos, apesar de ocasionais tropeços e retrocessos, na direção
almejada por Deus: “a matéria dando origem à vida, a vida gerando um ser inteligente e, o
próximo passo, o ser inteligente se elevando à condição de Semideus”. Considerando que o
surgimento do homo sapiens ocorreu há menos de 200 mil anos(1), até que estávamos
fazendo bonito, garantiu o Serafim.

Comparando-se ao Ser Humano, o Serafim repetiu constrangido que os anjos são mais
bondosos do que os Homens, mas reconheceu que essa bondade não tem méritos porque
não dispõem do livre-arbítrio - os anjos não são livres para serem maus. Quanto à
inteligência superior, aceitou com tristeza que ela será ultrapassada pela dos Humanos em
algum ponto não muito distante do futuro. Também em matéria de aparência, o Ser
Humano, graças à engenharia genética, caminhava rapidamente para atingir o nível dos
anjos - talvez um possível empate técnico, mas com a vantagem para nós Humanos de
podermos contar com uma maior variedade de formosuras.
“A grande vantagem dos anjos”, enfatizou o Serafim, é que o tempo não nos deteriora -
não envelhecemos; mas em compensação, não nos aperfeiçoamos. Já com
vocês humanos ocorre o oposto: envelhecem e se acabam com o passar dos anos, mas
evoluem de geração em geração, salvo eventuais retrocessos”.
Realmente, os anjos são limitados. Deus não lhes concedeu qualquer autonomia. O Criador
não lhes delegou a execução de nenhuma tarefa que exija a tomada de decisões; Ele os usa
quase sempre como mensageiros, pouco mais que isso. Já nós Humanos fomos criados para
“o papel de semideuses, as criaturas que assumirão o comando do universo”, revelou o
Serafim com ar resignado.

* * *

A nobre criatura celestial usou então uma expressão que Eliot jamais ouvira antes: o
processo de divinização do Ser Humano. Segundo o Serafim, Deus passou a limitar a palavra
evolução aos animais irracionais, recorrendo ao termo divinização ao se referir à
caminhada do Homem em Sua direção. O processo de divinização iria aproximar o Ser
Humano cada vez mais do Semideus que o Criador idealizou em Seu projeto.

Eliot entendeu que estamos longe do Ser planejado por Deus. Apesar de todas as conquistas
da tecnologia, a Humanidade está no início do seu processo de divinização. O trecho que
percorremos desde o surgimento da vida na Terra nos enche de orgulho, mas é na verdade
apenas o começo de uma longa jornada. Antes de se transformar na criatura merecedora da
Bondade, do Amor e da Intimidade de Deus, o Ser Humano tem pela frente uma ampla
gama de desafios a superar: “Vocês precisam sentir prazer nesta caminhada para que ela não
pareça interminável(2)”, insistiu o Serafim, reiterando que estamos avançando na direção
correta.

O Profeta enxergou um futuro no qual os Seres Humanos ampliarão sua eficiência e


produtividade ligando seus cérebros a computadores de grande potência, aumentando
desse modo sua capacidade de calcular e de pensar. O Homem também aperfeiçoará sua
capacidade de raciocínio via engenharia genética. Renomados cientistas acreditam que “já
é chegada a hora da Humanidade assumir o comando da evolução e planejar um programa
de auto-aprimoramento sistemático da espécie(3)”. Eliot previu que em breve (em termos
cósmicos) o homo sapiens dará lugar ao homo sapientíssimo.

* * *

O Serafim repetiu mais uma vez que Deus fez o Homem para cuidar de Sua criação. Para
isso teremos - e aí vai uma metáfora terrestre - que povoar os quatro cantos do universo.
Caberá ao Homem em evolução (ou em processo de divinização) colonizar, a partir da
Terra, o planeta Marte, algumas luas do sistema solar, em seguida os planetas das
constelações mais próximas e, com o tempo, toda a Via Láctea, até chegar às galáxias mais
distantes.
Em sua jornada pelo espaço, o Homem - ao invés de viver em planetas - poderá optar pelos
cometas, visto que os cometas dispõem de água e outros minerais essenciais à vida como
carbono e nitrogênio, e existem em maior número que os planetas(4).

O Serafim relatou que essa evolução desejada por Deus é também uma necessidade para o
Homem. Chegará o momento em que a Terra não poderá mais servir de abrigo para a
Humanidade - o Ser Humano somente sobreviverá se já estiver vivendo em outros planetas,
cometas ou em espaçonaves-cidade. Se tiver a Terra como seu único abrigo, o Homem
poderá brevemente se extinguir.

A Humanidade só poderá viver na Terra enquanto o sol existir como uma estrela
“normal”. Mas em cinco ou seis bilhões de anos o sol se tornará uma estrela vermelha
gigante, engolindo e cozinhando a Terra. Perderá então o seu invólucro e se aposentará
como uma “anã branca”(5). É possível, porém, até mesmo provável, que muito antes, já nos
próximos séculos, os Seres Humanos tenham de enfrentar as consequências do choque de
um meteoro ou um asteroide como aquele que extinguiu os dinossauros(6). Temos também
de estar preparados para enfrentar uma nova Era Glacial ou um planeta Terra
superaquecido. Em outras palavras, o Homem terá de aprender a conviver com a Natureza -
não apenas a Terra, mas o Cosmos - , compreendendo seus ciclos, suas fragilidades, suas
exigências.

***

Havia, porém, um desafio que precisava ser enfrentado sem demora - o crescimento ético-
moral-espiritual do Ser Humano. O povoamento do universo exigirá um enorme avanço
tecnológico, e o Homem não está evoluído moralmente para lidar com tanto poder: “É
preciso que os Humanos amadureçam rapidamente”, alertou o Serafim, “para saberem usar
com sabedoria os frutos de sua inteligência e de sua criatividade. Sem a correspondente
evolução moral-espiritual, a inteligência, o recurso supremo do Homem, será a sua fraqueza.
As sofisticadas tecnologias do futuro não podem transformar-se em armas letais em mãos de
‘crianças imaturas’. A tecnologia é um ótimo escravo, mas um péssimo senhor”.

O Serafim enfatizou que, somando-se às catástrofes naturais, a extinção da Humanidade


poderá se dar por iniciativa do próprio Homem. O conhecimento necessário para garantir a
sobrevivência do Ser Humano poderá também destruí-lo(7). O Homem não pode correr o
risco de usar contra si produtos indesejáveis de suas conquistas tecnológicas, como
armamentos nucleares, armas químicas e bioquímicas, germes patológicos, ou qualquer
outro tipo de arma de destruição em massa.

Tornava-se imprescindível, refletiu Eliot no sonho, “que os racionais de todo o Planeta


aprendam a conviver como irmãos, eliminando os riscos da autodestruição pela guerra ou
por qualquer outra manifestação de violência. Um simples vírus criado em laboratório
poderá colocar em risco todo o projeto de Deus”. O Serafim lembrou a Eliot que, com as
conquistas revolucionárias na nanotecnologia, na engenharia genética, na robótica e na
tecnologia de comunicação, “estamos entrando numa era em que um único indivíduo, por
meio de uma única ação clandestina, pode causar milhões de mortes, ou tornar uma cidade
inabitável durante anos(8). A Humanidade não pode mais se dar ao luxo de ter em sua
população a quantidade de desequilibrados e desajustados de hoje, muitos deles
excepcionalmente inteligentes”, concluiu o Serafim.

Eliot queria que o Serafim fosse logo à essência da Grande Revelação, mas a criatura
celestial, como seus dois colegas dos sonhos anteriores, prosseguiu em sua doutrinação,
falando sobre como deveria ser o Novo Homem. Eliot tinha de ser paciente.

O Serafim enfatizou que, além da violência e da maldade que podem levar o Homem a se
autodestruir, comportamentos inadequados aparentemente inofensivos podem provocar
longos períodos de retrocesso para a Humanidade. A organização da economia em torno
de hábitos de consumo exagerados pode promover estilos de vida incompatíveis com o
progresso a longo prazo. O crescimento populacional e o consumo conspícuo já vêm se
mostrando danosos à habitabilidade do Planeta. Goethe foi sábio ao dizer que “O homem
deseja tantas coisas e, no entanto, precisa de tão pouco(9)”.

O Serafim prosseguiu: “A Humanidade não pode esquecer que mais de 98% (isto mesmo, mais
de noventa e oito por cento!) de todas as espécies que surgiram na Terra foram extintas,
inclusive o Homem de Neanderthal, também racional, um primo de vocês derrotado na luta
pela sobrevivência”.

“Portanto”, continuou, “a construção de uma civilização digna de colonizar o universo, uma


civilização que gere conhecimento científico e tecnológico a serviço da felicidade, da paz e do
amor, exige que o Homem cresça em valores morais e espirituais. Dotado de livre arbítrio, o
Ser Humano só poderá vencer o desafio de não se extinguir erradicando de si os excessos de
agressividade, de maldade, de egoísmo, juntamente com os impulsos autodestrutivos e as
tendências suicidas.”

No sonho, Eliot teve a audácia de interromper o Serafim para perguntar-lhe se ele não
poderia discorrer sobre a Grande Revelação, mas o mais graduado dos anjos quis também
lembrá-lo que houve ocasiões no passado em que o Criador não se conteve e tentou, Ele
próprio, melhorar a Humanidade. E fracassou! Foi o caso do Dilúvio, quando apenas a
família do íntegro Noé sobreviveu, mas deles vieram os corruptos, os assassinos e os
desvirtuados de hoje. Agora, é o Homem que terá de aperfeiçoar a si mesmo!

“Eliot”, falou alto o Serafim, “prepare-se para o que eu vou lhe relatar. Não vá desmaiar”. Em
seguida, desenrolou um longo pergaminho que passou a ler. Eliot percebeu que a
mensagem escrita visava evitar distorções na transmissão da Grande Revelação.
12. Conhecendo o Segredo de Deus
O Serafim, à frente de seu séquito de anjos, iniciou a leitura.

Eliot estava tenso. Embora estivesse ouvindo a mensagem pela terceira vez, os músculos de
sua face enrijeceram, como nas vezes anteriores. O Serafim repetiu, pausadamente, o
segredo que havia deixado o Profeta em estado de choque nos dois primeiros sonhos: “O
Criador não pode ajudar a Humanidade. Gostaria, mas não pode. Não está em condições de
fazê-lo. Esta é a explicação para o sofrimento. Esta é a explicação para a feiúra. Esta é a
explicação para o fracasso dos bons e o sucesso dos maus.”

“Mas como, se Deus é onipotente?”, arguiu Eliot, como nos sonhos anteriores.

A mente Humana mais engenhosa não seria capaz de imaginar uma resposta tão
tenebrosa. Existem verdades que mais parecem mentiras. Anunciá-las exige grande
coragem de um profeta. Mensagens tão inesperadas e tão aterrorizantes como a Grande
Revelação podem liquidar a credibilidade dos profetas mais honrados, afastando deles o
ouvido dos Homens. Mas era a verdade! A trágica realidade é que Deus não pode mais
recorrer à Sua onipotência para nos ajudar. De agora em diante cabe ao Homem completar
a Sua obra.

Havia, porém, como fora antecipado, um ponto positivo na mensagem sinistra. A verdade
assustadora comprovava, de forma inequívoca, a infinita bondade de Deus e o Seu amor
sem limites pelo Ser Humano.

Limpando a garganta como fizeram os mensageiros dos sonhos anteriores (uma tentativa
de assustar menos assumindo atitudes humanas), o Serafim informou a Eliot que Deus fez
questão de criar o Homem à Sua imagem e semelhança: só assim a nova criatura estaria à
altura de Lhe fazer companhia. Mas para Lhe fazer companhia - para viver próximo de
Deus - o Homem precisará passar por um longo processo de evolução.

Esse processo evolutivo demanda tempo. Para que possa ocorrer, Deus teve de criar um
universo que durasse dezenas de bilhões de anos, o tempo necessário para que o Ser
Humano evolua o suficiente para merecer a Sua intimidade. Para isso precisou gastar quase
toda a Sua energia. Não é preciso dizer que Deus estava ciente dos riscos que corria ao
desenergizar-se em favor de Sua Criatura.

O Serafim explicou a Eliot que Deus não era mais onipotente - não dispunha de energia
para fazer o que quisesse. Antes de criar o universo Ele tinha esse poder. Mas agora a
energia que Lhe restou dava apenas para que Ele acompanhasse o que acontece no
universo, pois fizera questão de preservar Sua onisciência.

Deus tomou essa decisão sabendo que a energia investida no Ser Humano O deixaria
vulnerável até que seja reposta. Reposta por quem? Pelo Homem, em quem o Criador
confia, e em cujas mãos depositou Seu destino de Deus. Se aquela energia não for restituída
a tempo, as consequências para o Criador serão trágicas, revelou o Serafim. Caberia a Eliot
divulgar essa Verdade pelo mundo.

Para os que considerassem este relato absurdo, o Serafim recomendou a Eliot repetir
aquelas verdades já tão conhecidas do Profeta: “Deus jamais fora um ente perfeito. Se fosse
perfeito, Ele não teria criado o universo e o Homem”.

“Como assim”, perguntou Eliot, apenas para ouvir de um anjo mais graduado o que já
sabia.

O Serafim respondeu: “Porque a um ser perfeito nada falta, e em um ser perfeito nada excede,
nada sobra. Perfeição requer completude. Deus criou o Homem porque Lhe faltava um Ser que
Lhe permitisse dar vazão à bondade e ao amor que guardava represados dentro de Si. Ele
precisava ter ao seu lado um Ser merecedor de Seu amor e à altura de Lhe fazer companhia.”

O Serafim informou que a necessidade de racionamento de energia era tão séria que, ao
contabilizar os pequenos gastos anuais, o Criador se sentia pouco a pouco devorado: “Caso
a energia não seja reposta a tempo”, advertiu o Serafim, “só restará a Deus assistir impassível
ao Seu próprio fim. Se o estoque de energia atingir o ponto crítico, Deus perderá a sua
onisciência e, desmemoriado, irá desaparecer lentamente, tremendo de frio (linguagem
figurada usada pelo Serafim) naquele ponto distante do universo, bem além da última
estrela, onde Ele se encontra hoje em estado de lúcida quietude. Mas Deus está certo de que o
Ser Humano agirá a tempo de salvá-Lo”, garantiu a distinta criatura celeste.

O Serafim informou que Deus tomou a precaução de esconder-se num ponto afastado do
universo, mais distante do que a nossa mente é capaz de imaginar, para que jamais fosse
detectado pelas Forças do Mal.

Deus confiava que a reposição se dará, informou o Serafim, com a canalização pelo Homem
de uma astronômica quantidade de energia para aquela região isolada do Universo. O
conhecimento técnico-científico requerido para essa façanha é incompreensível para as
mentes de hoje. Apenas como exercício intelectual, o Serafim pediu a Eliot que imaginasse o
direcionamento para um único ponto do espaço de toda a energia contida nos bilhões de
buracos negros espalhados pelo universo. Só na nossa Via Láctea são dez milhões. É muita
energia, mas não seria suficiente para reeneergizar adequadamente o Criador - é bem
menos do que Ele investiu para criar o universo e com ele, o Ser Humano. Novos avanços
tecnológicos serão necessários(1).
Deus confiava na evolução científica, moral e espiritual do Ser Humano, seguro de que ele
irá não apenas qualificar-se para socorrê-Lo, mas estará também motivado a fazê-lo.
Recorrendo novamente a uma metáfora mundana, Deus estava confiante de que o Homem
evoluirá a tempo de recarregar Suas baterias divinas enquanto ainda estiverem
funcionando.

Eliot soube que a quantidade de energia que Deus reservara para Si permitiria que Ele
sobrevivesse por cerca de 25 bilhões de anos, dependendo das condições de repouso. Desse
total, 13,72(2) bilhões já se passaram, restando apenas uns 11 bilhões de anos. É preciso,
portanto, que Deus não gaste energia se envolvendo com a Humanidade; deve contentar-Se
em acompanhar a evolução do Homem à distância, sem querer influir no seu dia-a-dia.

“Veja, Eliot”, insistiu preocupado o Serafim, “sem reenergização, dentro de 11 bilhões de


anos o Criador deixará de existir. E dentro de uns nove bilhões de anos Ele já estará tão
debilitado que um buraquinho negro de proporções modestas naquelas bandas do universo
seria suficiente para atraí-Lo e engoli-Lo para todo o sempre. Antes que isso aconteça, é
preciso que o Homem O salve.” E, tentando mais uma vez amenizar o clima de tensão,
pilheriou: “Eliot, a Humanidade não pode se esquecer de que o tempo voa”.

O Serafim preparou-se então para deixar o sonho. A guarda de nove anjos já se posicionava
para acompanhá-lo quando a mais graduada criatura celestial, antes de despedir-se,
insistiu: “Divulgue a mensagem, Eliot. O Criador conta com você”. Eliot se sentiu seguro para
transmitir aos Homens o Segredo de Deus.

Como nas vezes anteriores, Eliot acordou preocupado, mas encantado: “Quer dizer que
Deus confiou sem reservas no Ser Humano. Ele não teve dúvidas de que o Homem não iria
medir esforços para evoluir a tempo de salvá-Lo. Deus tinha consciência de que estava
gerando um Homem bom, um Homem dotado de amor e da virtude da gratidão. Um Ser que
aprenderá a cuidar responsavelmente do universo.” Deus demonstrou ter fé no Homem
que criara.

* * *

Eliot se sentia feliz em poder contar com um Pai abnegado e competente: “Deus concebeu
um Ser Humano que ainda em sua infância evolutiva produziu gênios capazes de
desenvolver a física quântica e de gerar maravilhas como a música de Johann Sebastian
Bach. Criou Seres Humanos inteligentes o bastante para em breve intervir em sua
composição genética e apressar a própria evolução, ou divinização.” Eliot não tinha
dúvidas de que o Ser Humano salvará seu Criador.

Comprovando que a evolução Humana prossegue em nossos dias, Eliot leu sobre pesquisas
realizadas na Universidade de Chicago indicando que, em cerca de 700 áreas do genoma
humano, vários genes sofreram modificações pela seleção natural nos últimos cinco a
quinze mil anos. Entre esses genes estão alguns responsáveis por nossas sensações de
paladar, olfato, digestão, estrutura óssea, cor da pele e função cerebral(3). “Essa é a evolução
que se processa naturalmente. Vamos agora intervir para acelerar a divinização. A
paciência deixa de ser uma virtude quando o futuro de Deus está em jogo”, disse Eliot para
si mesmo.

* * *

Eliot imaginou como as coisas seriam diferentes se o universo tivesse durado apenas o
suficiente para o surgimento dos dinossauros. A evolução não teria nos gerado. O universo
não teria conhecido um ser racional. Mas, para criar o Ser Humano, Deus não poupou
energia. O universo durou o tempo requerido para que o homo sapiens surgisse, e existirá o
tempo necessário para que o Homem de hoje se transforme no semideus de amanhã que
salvará seu Criador e Lhe fará companhia.

Eliot ficou apreensivo ao perceber que Deus não dispõe de energia para novas tentativas.
Não será possível para Ele criar uma nova Humanidade caso esta fracasse; ou criar uma
nova categoria de seres inteligentes: “Se este Homem não der certo, o universo entrará em
colapso levando consigo seu Criador”. E concluiu: “O amor do Homem por seu Deus, antes
de induzi-lo a pensar na vida após a morte, deve motivá-lo a olhar para si e para o próximo
- até mesmo para o próximo do outro lado do Planeta - para juntos organizarem melhor a
vida na Terra. A salvação de Deus exige que a Humanidade se veja como uma só família”.
13. Compreendendo o Sofrimento
Os Homens que creem na existência de Deus se dividem em teístas e deístas. Os teístas
acreditam que Deus, o Criador do universo e do Homem, participa do nosso cotidiano, daí a
importância das orações. Os deístas, por sua vez, creem na existência de um Deus que fez o
mundo, mas que dele se afastou. Não participa do nosso dia-a-dia, não influi nos eventos
terrenos. Talvez apenas nos observe de longe, ou nem isso.

A Grande Revelação mostrou que, enquanto perdurar o racionamento de energia, a


Verdade estará com os deístas. Deus reservou para Si energia suficiente apenas para
acompanhar o que ocorre no universo, preservando Sua onisciência, e para fazer funcionar
o Paraíso (o Inferno foi criado com estoque próprio de energia). Nada mais que isso. Influir
neste mundo para castigar e recompensar os Seres Humanos por erros e acertos está fora
do Seu alcance. Atender aos pedidos que costumam acompanhar as orações? Nem pensar!

Assim, foi um grande alívio para Eliot perceber que não havia inconsistência entre a infinita
bondade de Deus e a existência do sofrimento. O Deus de Moisés não é mau, como
suspeitou Thomas Jefferson(1). Enquanto os Seres Humanos não repuserem a energia
investida pelo Criador na geração do universo e na criação do Homem, Ele não poderá ser
responsabilizado por nada de errado que nos aconteça. A Grande Revelação isentava Deus
de qualquer culpa pelos males deste mundo. “Deus é bom, infinitamente bom”, suspirou
Eliot aliviado.

O Profeta reconheceu que as responsabilidades do Ser Humano eram bem maiores do que
suponha. Compreendeu que, enquanto o Criador estiver fora de cena, caberá ao próprio
Homem a tarefa de erradicar as causas do sofrimento, e entre elas a feiúra. Minorar a dor e
melhorar o visual da Humanidade são, portanto, tarefas de responsabilidade exclusiva do
Ser Humano.

Eliot levantou os primeiros dados sobre o sofrimento, estimando que há no mundo cerca de
um bilhão de indivíduos que, apesar da disponibilidade mundial de alimentos, não têm
comida suficiente(2). É a chamada pobreza extrema.

Eliot aprendeu que passa de um bilhão o número de pessoas que não têm acesso a água
potável. Essa realidade é especialmente trágica porque 80% das doenças infantis, em todo
o mundo, são causadas pelo consumo de água contaminada. De fato, as doenças
transmitidas pela água ceifam mais vidas que a subnutrição e a falta de medicamentos:
cerca de 40 mil homens, mulheres e crianças morrem todos os dias de doenças
relacionadas à falta de água potável(3).
O Profeta aprendeu ainda que mais de 500 milhões de crianças africanas adquirem malária
todos os anos, doença também presente na América Latina. Embora tratável a baixo custo,
a malária ceifa perto de três milhões de vidas por ano, noventa por cento na África, a
maioria crianças. Eliot ficou sabendo que mais de seis mil jovens menores de 25 anos
contraem o vírus da AIDS (HIV) todos os dias(4).

“Vamos trabalhar para, numa primeira etapa, reduzir essas doenças a níveis compatíveis
com os recursos de hoje(5). No futuro, com as novas conquistas da Ciência e da Tecnologia,
nossa meta será livrar a Humanidade desses flagelos: tolerância zero com as doenças
transmissíveis. Chegará o dia em que vamos extirpar da Terra toda essa carga de
sofrimento”, antecipou o Profeta Eliot.

“Para combater os problemas que afligem a Humanidade, a prioridade deve ser a educação
das crianças”, concluiu Eliot. “Até mesmo em países emergentes do Terceiro Mundo, a
educação tem sido terrivelmente negligenciada, a ponto de um educador brasileiro ter
afirmado que, no Brasil, as únicas pessoas que têm ascensão social se tornando professora
são as empregadas domésticas(6) - uma profissão útil e digna, mas pouco exigente quanto à
escolaridade, e que por isso desfruta de modesto reconhecimento social. Pouco mudou
desde então. É preciso transformar esse quadro”.

Também nos Estados Unidos, o ensino básico (que precede a universidade) gera
preocupação. Os pais, cada vez mais, procuram matricular seus filhos em escolas
particulares. A consequência é a gradual perda de prestígio e de qualidade da escola
pública, em prejuízo da igualdade de oportunidades, agravando-se o quadro de crescente
desigualdade social. A perda para a sociedade americana como um todo é significativa, pois
um grande contingente de jovens não chega à universidade e os que chegam estão menos
qualificados do que os alunos de gerações passadas.

Eliot concluiu que o processo de divinização do Ser Humano exige que se eleve
rapidamente os níveis de escolaridade em todo o mundo. E saiu a pregar que não podemos
contar hoje com a ajuda de Deus: “Cabe ao Homem a tarefa de fazer avançar a
Humanidade”.

Quanto à feiúra, não há dúvidas de que ela está com seus dias contados. Ela irá diminuindo
em quantidade e em intensidade à medida que melhorem as condições de vida da Homem,
e será, no futuro, erradicada com a ajuda da engenharia genética.
14. O Dia em que Satanás Chorou
Para surpresa de todas as criaturas - tanto as do Bem quanto as do Mal - Lúcifer, o Grande
Satã, desesperou-se ao saber da Grande Revelação. Um de seus agentes, bisbilhotando a
conversa entre dois serafins que falavam sobre o Profeta Eliot, tomou conhecimento da
realidade divina e saiu em disparada para contar a novidade ao Príncipe das Trevas, certo
de que a notícia iria agradá-lo. Não agradou. Em lugar de regozijar-se, Lúcifer chorou. É
que, paradoxalmente, a fragilidade do Criador frustrava seus planos de conquista do
universo e do Reino dos Céus.

Para assumir o controle dos Céus e da Terra, Lúcifer tinha elaborado um plano - com o
perdão da palavra - diabólico. Ciente de que não tinha chances de derrotar as Forças do
Bem num confronto direto, o Rei dos Demônios havia recorrido à sua imaginação e astúcia
para arquitetar um plano infalível para livrar-se do Criador. A estratégia era simples.

O Comandante Lúcifer sabia que Deus criara o Homem para Lhe fazer companhia. Sabia
também que o Homem só se qualificaria para privar da intimidade divina após um longo
período de evolução. A estratégia do Grande Sedutor era não apenas impedir essa evolução,
mas provocar uma irreversível involução. Ao invés de avançar rumo à Luz, a Humanidade
iria retroceder em direção às Trevas. A ideia era, portanto, atingir Deus agindo sobre o
Homem.

O Príncipe das Trevas se sentia competente para corromper a Humanidade a ponto de


levar o Criador a desistir de nossa companhia(1). Essa decepção com a Humanidade,
imaginava Lúcifer, levaria o Pai Eterno ao desespero. Deus chegaria à conclusão de que não
poderia contar com o Homem e, sozinho, não valeria a pena existir. Deus então tomaria a
decisão de se auto-extinguir. Lúcifer talvez estivesse delirando, mas era o que esperava de
Deus: uma de suas lembranças do Paraíso era a imagem de um Criador solitário, isolado em
seu trono, sofrendo amargamente por se sentir tão só.

Até ser informado sobre a Grande Revelação, Lúcifer se divertia imaginando a tristeza de
Deus ao contabilizar, em todas as camadas sociais, o número de Seres Humanos que não
amam o próximo - muitos chegam a odiar não apenas o estrangeiro distante, mas também o
vizinho, os colegas de trabalho, o próprio cônjuge.

Examinando o passado, Lúcifer viu com tristeza que seu plano de derrotar o Criador tal
qual O imaginava - Todo Poderoso - vinha funcionando como idealizara: as guerras, a
corrupção, a violência gratuita atestavam sua competência na execução da missão de jogar
o Homem contra Deus.
De fato, Lúcifer e seus asseclas, sempre trabalhando com empenho, estavam obtendo bons
resultados(2). A crença de que ele preferia operar em regiões próximas ao equador, onde o
clima quente lhe é mais agradável - uma explicação para o maior número de corruptos nos
países tropicais - não fazia o menor sentido. A determinação de derrotar o Criador bastava
para superar qualquer inconveniência climática ou obstáculo geográfico. Agora, a inércia
de Deus mudava tudo. Combater um Deus enfraquecido não proporcionava
motivação. Derrotar o Todo Poderoso que o expulsara do Paraíso, isto sim, satisfaria seu
ego. Mas esse Deus não estava disponível.

Lúcifer constatou amargurado que desde a criação do universo as Forças do Mal jamais
tiveram um inimigo à altura. E tornando o quadro ainda mais triste, O Príncipe das Trevas
não tinha nada contra a Humanidade. Pelo contrário, até simpatizava com o Ser Humano -
nossa irreverência, arrogância, maldade, irresponsabilidade, ingratidão, egoísmo, o
divertiam. Seu problema era com Deus. Se tentava os Homens, era para atingir o
Criador. A Grande Revelação, porém, tornava sem sentido os planos que traçara.

***

Aqui na Terra, fieis que aguardavam o Fim dos Tempos se desesperaram(3). Um grupo de
religiosos, visivelmente transtornado, exigiu a presença de Eliot para discutirem as
consequências da Grande Revelação. Eram homens e mulheres que acreditavam na
iminente volta do Messias e no Fim do Mundo. Não estavam preparados para aceitar a
realidade.

Eliot entendeu o desespero daquelas pobres criaturas. A realidade as pegou de surpresa. Se


já estavam impacientes diante da perspectiva de aguardarem alguns meses, talvez uns
poucos anos, chega-lhes agora a notícia de que Deus só virá daqui a bilhões de anos. É
assustador! Mas a realidade tem de ser encarada: o Criador não está hoje em condições de
vir à Terra.

Com o tempo, começaram a chegar notícias mais animadoras, como o editorial do último
número da revista “O Fim Do Mundo É Agora” trazendo um comovente pedido de desculpas
a seus leitores. O editor admitia que “a espera pelo Messias será mais longa do que
prevíamos”, acrescentando: “O importante é saber que doravante marcharemos na direção
correta, pois foi-nos revelada a Verdade que norteará a nossa caminhada. Nós também
trabalharemos para apressar a geração do conhecimento que salvará o Criador. Não
precisamos temer o futuro se somos nós que iremos construí-lo”. E concluía: “Como deseja
o Criador, nós saberemos nos transformar em criaturas dignas de comandar este belo e
estranho universo”.

O editor deixava transparecer seu entusiasmo com os novos desafios ao afirmar que “não
contar com a ajuda de Deus no combate às Forças do Mal apenas valoriza a nossa luta: nós
Humanos temos condições de impor a nossa vontade a Satanás e seu Exército, e assim o
faremos”.
Eliot se convenceu de que os religiosos do Fim dos Tempos iriam, aos poucos, aceitar a
realidade. Um grande número já se comprometera a trabalhar “para fazer deste mundo,
enquanto existir, um lugar aprazível para todos os seres vivos”.

* * *

Como era de se esperar, o Judeu Errante recebeu a notícia amargurado.

Mas quem é esta figura histórica?

O Judeu Errante é um contemporâneo de Jesus condenado a vagar pelo mundo porque,


segundo alguns, teria negado água ao Filho de Deus quando Ele caminhava para a morte
sob o peso de Sua cruz. Outros dizem que seu erro foi não ter ajudado Jesus a suportar
a cruz quando Jesus, diante dele, fraquejou. Há ainda os que afirmam que a infeliz criatura
não pode morrer para que Jesus, ao voltar à Terra, encontre alguém com quem conviveu,
confirmando o que dizem os Evangelhos(4).

Há também os que garantem que o erro do Judeu Errante foi dirigir um gracejo a Jesus
quando o Filho de Deus arrastava Sua pesada cruz morro acima, um tipo de humor
impróprio para a ocasião. Qualquer que seja a explicação, o pobre homem teve a má sorte
de estar no lugar errado - a Via Crucis - na hora errada.

O fato é que o Judeu Errante foi visto em Damasco no início da expansão do Islamismo; na
Península Ibérica na época dos Mouros; na Alemanha, em Munique e em Frankfurt; no
Brasil, no estado de Pernambuco, durante a Invasão Holandesa(5); e no território americano
do Arizona em 1868, acontecimento testemunhado pelo Mórmon Tom O’Grady e que foi
notícia na edição de 23 de setembro de 1868 do periódico Desert News(6).

O semanário brasileiro “A Bandeira”, um periódico cujo lema é “Lutar pela Verdade e pela
Justiça, a Serviço do Povo”, dedicou a edição comemorativa de seu sexagésimo aniversário
ao Eterno Caminhante. Em reportagem de primeira página, A Bandeira informou aos seus
leitores que ao tomar conhecimento da Grande Revelação, o Jovem Andarilho se sentiu
atordoado: veio a tontura, a fraqueza nas pernas, a cabeça girando, os olhos disparando a
piscar; achou que ia desmaiar, mas logo se recuperou. O pobre coitado sentou-se no banco
de um jardim e começou a lastimar sua triste sina. Estava condenado à monotonia de
perambular pelo mundo por milhares e milhares de anos.

De repente, o Judeu Errante foi invadido por uma estranha onda de otimismo. Deixou de
lado os sentimentos de amargura e passou a se imaginar tirando proveito daquela vida de
caminhante sem destino. Viu que a vida de nômade poderia ser interessante, estimulante,
quem sabe até prazerosa. Apreensivo, o Eterno Andarilho quis se certificar de que não
estava delirando. Depois de alguns longos minutos de meditação, levantou-se cheio de
energia e dirigiu-se a uma loja onde comprou dois pares de tênis. Em seguida redigiu o
seguinte texto veiculado em jornais e revistas em todo o Planeta.
MOCHILEIRO ROMÂNTICO

Mochileiro classe média, bem apessoado (dizem que o nariz ligeiramente avantajado
lhe dá um certo charme), dotado de senso de humor, procura mulher jovem de boa
aparência, saudável, culta, emocionalmente resolvida, com espírito de aventura, para
juntos percorrerem o mundo pelos caminhos mais inusitados. A candidata deve
apreciar o calor do deserto e o frio das montanhas, a visão de paisagens exóticas e de
animais raros. Deve também apreciar visitas a museus, idas ao teatro e exposições de
arte. Imprescindível o domínio da língua inglesa. Conhecimento de hebraico e de
aramaico altamente desejáveis.

A Bandeira informou que pela primeira vez, após dois mil anos de andar incessante, o
Judeu Errante foi visto se divertindo na DisneyWorld e, em outra ocasião, assistindo à final
do campeonato mundial de futebol na África do Sul. Torcia pela Espanha, sinal de que
havia superado o trauma “Torquemada”’ e as agruras da “Inquisição”.

Mas nem tudo são flores. Eliot sabia que uma vida muito longa é sempre cansativa:
“Tememos morrer, mas uma existência demasiado extensa acaba monótona, desgastante,
enfadonha”. Por isso compadeceu-se com o destino do rapaz. Eliot sabia que a vida eterna
só vale a pena no Paraíso.

* * *

Refeito do susto, Lúcifer viu que o resiliente Judeu Errante e os “Desesperados com o Fim
do Mundo” também sofreram com a realidade mostrada pela Grande Revelação, mas isso
não lhe servia de consolo. Era preciso encontrar novas fontes de motivação para
prosseguir na luta contra Deus. Pragmático, o Príncipe das Trevas convocou seus auxiliares
mais graduados para, numa sessão de brain-storming, desenvolverem novas estratégias
para derrotar o Criador e se apossar do Paraíso. Na manhã seguinte o Rei da Maldade já
tinha algumas ideias na cabeça.
PARTE 04

A HUMANIDADE DIANTE DA GRANDE REVELAÇÃO

15. Conciliando Religião e Ciência


Contrariando os intelectuais que veem Religião e Ciência em campos opostos, o Profeta
Eliot pregava que as verdades da fé e o conhecimento científico são compatíveis e se
complementam.

Eliot tinha consciência de que pensadores ateus e agnósticos pregam que a Ciência vem
apagando a figura de Deus, afastando-O cada vez mais do Homem. Esses estudiosos
lembram que o trovão e o relâmpago, no passado manifestações do poder de Deus - Sua voz
e Suas flechas –, não passam hoje de simples fenômenos meteorológicos.

Esses homens também ressaltam que os astros já foram deuses: Mercúrio, o planeta mais
rápido, era o deus do comércio; Marte, vermelho como sangue, o deus da guerra; a Terra,
onde animais e plantas se reproduzem, a deusa da fertilidade; Vênus, pela beleza, a deusa
do amor; e Júpiter, o maior deles, o deus dos deuses. A Ciência mostrou que são simples
corpos celestes girando em torno do sol. A Ciência ofuscou a crença de que Deus separou a
luz da escuridão, criando a noite e o dia, e que foi Ele o autor do empurrão inicial que
colocou os planetas em movimento.

A Ciência também mostrou que as epidemias não são castigos enviados por Deus, mas
doenças causadas por micro-organismos patogênicos. Quanto aos desastres naturais -
furações, tornados, inundações, terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas - até as nossas
crianças, já nos primeiros anos de escola, encontram melhores explicações para sua
ocorrência do que a ira divina. Por tudo isso, já em 1937, o físico alemão Max Planck
declarava que a derrota da Religião (crença em forças sobrenaturais responsáveis por
castigos e milagres) pela Ciência era apenas uma questão de tempo(1).

Nessa batalha entre Religião e Ciência, a nossa Terra perdeu muito do seu
prestígio. Abrigando o Homem feito à imagem e semelhança de Deus, a Terra teria de ser o
centro do universo. Mas Galileu Galilei apoiou a ideia de Copérnico de que ela girava em
torno do sol (heliocentrismo), e não o contrário (geocentrismo). Pelo seu apoio à tese
heliocentrista, Galileu, um católico fervoroso, foi forçado pela Inquisição a retratar-se e
punido com prisão domiciliar. Seu conterrâneo Giordano Bruno não teve a mesma sorte.
Acusado da mesma heresia, foi condenado a morrer na fogueira.

Hoje ninguém duvida de que a Terra é apenas um pequeno planeta que gira em torno de
uma estrela de quinta grandeza, o sol, na periferia da Via Láctea, uma das bilhões de
galáxias dispersas pelo universo. Foi esse mesmo sol que o faraó Akhenaton elegeu como o
único Deus do Antigo Egito(2).

Ao mesmo tempo em que afasta o Homem de Deus, a Ciência também reduz a importância
do Ser Humano. Não apenas deixamos de viver no centro do universo, mas até a matéria de
que somos feitos não é mais a que predomina no Cosmos, perdendo para a matéria
escura. E Darwin nos transformou em primos de gorilas e chipanzés, e parentes distantes
de todos os seres vivos.

A visão do Profeta Eliot, porém, era outra.

Eliot chamava a atenção de seus seguidores para o erro de raciocínio desses


intelectuais. Para o Profeta, eles não perceberam que ao empurrar Deus para longe da
Terra, a Ciência está na verdade afastando a Humanidade dos falsos deuses - o sol, os
planetas, o deus controlador da chuva, dos raios e dos trovões - para aproximá-la do
verdadeiro Deus, que se encontra hoje isolado num dos limites do universo: “Não é isso que
a Grande Revelação nos mostrou?”, exclamou Eliot, “Que Deus, o único Deus, não está ao
nosso lado mas repousa num ponto distante do infinito, bem além da última estrela?”

Eliot insistia que temos de valorizar a Ciência, pois é ela que fornecerá os meios para
repormos a energia que Deus, carinhosamente, investiu em nossa criação. “Trabalhar para
a salvação do Criador é apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico”, dizia. “E, não
menos importante”, ressaltava, “é cuidar da evolução moral da Humanidade para que
possamos usar com inteligência e segurança o conhecimento que iremos gerar”.
O Profeta gostava de repetir que “conhecimento é poder, mas é poder tanto para fazer o
Bem como para fazer o Mal”. Como disse Sartre, “A Ciência não é competente para nos
dizer o que devemos fazer, mas apenas para nos mostrar o que somos capazes de fazer(3)”.
De fato, a Ciência não é capaz de comprovar que o amor é melhor que o ódio, que a
generosidade é preferível à maldade. Precisamos, portanto, da Religião: a Ciência
revelando o que pode ser feito e a Religião orientando os Homens sobre o que deve ser
feito. Foi o que Einstein enxergou quando afirmou que “a Ciência sem a Religião é manca,
enquanto a Religião sem a Ciência é cega(4)”.

Portanto, Religião e Ciência precisam dar-se as mãos - a fé e o conhecimento científico


funcionando como duas asas que elevam o espírito humano na procura da
verdade(5). Enquanto a Ciência investiga o mundo natural, a Religião guia o comportamento
dos Homens conforme os desígnios de Deus. O principal papel da Religião é buscar em
Deus respostas para as questões morais e éticas que o método científico é incapaz de
fornecer.

Eliot estava certo de que Ciência e Religião saberão se unir para reenergizar o Criador.
Afinal, o mesmo Deus que mostra para a Humanidade o que é certo e o que é errado (6) é
também o autor das leis que regem o universo - o Grande Legislador e o Grande Arquiteto
se confundem no mesmo Ser: Deus, o mais justo dos juízes, é também o maior dos físicos,
químicos e biólogos.

Recordando os últimos cem anos, Eliot confrontou as realizações científicas com o


progresso moral da Humanidade. Constatou que é alarmante o aprofundamento do fosso
que separa os dois mundos - enquanto o desenvolvimento científico-tecnológico se acelera,
o aperfeiçoamento moral da Humanidade permanece estagnado. Viu que mudar esse
quadro precisa tornar-se uma de nossas prioridades.

* * *

A Ciência vem proporcionando melhores condições de vida à Humanidade, como atestam


os avanços na produção de alimentos - sementes melhoradas, fertilizantes, equipamentos;
nas condições de higiene - água tratada, redes de esgoto; na medicina - vacinas,
procedimentos preventivos, tratamentos curativos; nos meios de transporte e de
comunicação. O Homem trabalha cada vez menos para produzir cada vez mais.

Bertrand Russell relata que no início da Revolução Industrial crianças trabalhavam até
dezesseis horas por dia, começando muitas vezes aos seis ou sete anos. Elas
frequentemente precisavam apanhar para não cair no sono enquanto trabalhavam. Apesar
disso, muitas adormeciam e eram mutiladas ou morriam(7). O desenvolvimento científico-
tecnológico permitiu que as sociedades modernas possam proibir crianças e adolescentes
de trabalhar para se dedicarem integralmente ao lazer e aos estudos: a Ciência mostrou-se
capaz de erradicar a pobreza e ao mesmo tempo reduzir as horas de trabalho para que a
Humanidade desfrute de uma vida prazerosa, como se vê nas sociedades mais avançadas.
***

Ao cotejar Ciência e Religião, Eliot concordou que a Ciência, ao contrário da Religião, é


humilde. Enquanto a Ciência busca a Verdade, a Religião conhece a Verdade. A Ciência
aprova o questionamento de suas descobertas - para ela não existem verdades
sagradas. Ela promove a dúvida que a Religião abomina. Para Sagan, “A Ciência é mais do
que um corpo de conhecimento, é um modo de pensar(8)”.

A Ciência não tem, portanto, dificuldades para admitir seus equívocos. Divergindo dos
profetas, os cientistas são Seres Humanos sujeitos a erros. Quem busca a confirmação para
esta ou aquela descoberta não é acusado de herege. Divergindo da Religião, o debate
científico é estimulado. Na verdade, esse mecanismo de correção de erros(9) é, em grande
parte, o segredo do sucesso da Ciência.

A rigor, as leis científicas são provisórias, sempre sujeitas à rejeição. A Teoria da


Relatividade de Einstein, por exemplo, desbancou a Lei da Gravitação Universal de Newton,
que perdeu muito de sua imponência, sendo rebaixada a mera aproximação da verdade;
mas uma aproximação suficientemente precisa para atender às necessidades dos
engenheiros deste nosso Planeta(10). Em termos práticos, a lei de Newton só não vale para
velocidades próximas à da luz.

Ao procurar conhecer as leis que regem o universo - desde as estrelas até os micro-
organismos -, a Ciência coloca o Homem numa posição secundária. Já a Religião, em seu
papel de intermediar o relacionamento entre Deus e a Humanidade, está centrada no Ser
Humano(11). Faz sentido: a palavra religião, que vem do latim religare (12), significa religar-se
ou reconciliar-se com Deus. Cabe portanto à Religião - e não à Ciência - buscar o
aprimoramento moral da Humanidade.

Estaria a Religião em condições de dizer ao Homem o que deve ser feito?

* * *

Eliot recordou episódios históricos em que homens e mulheres se sentiram no dever de


matar Seres Humanos por que não compartilhavam a mesma crença. Lembrou-se então,
consternado, que tais absurdos morais ainda acontecem nos dias de hoje: “Quando
deixamos de ver o praticante de outra religião como nosso semelhante, nada impede que o
ataquemos. Matá-lo pode se tornar normal, até mesmo um dever”, observou Eliot. “Da
mesma forma, muitos fiéis estão dispostos a morrer por sua fé. Sob esse ponto de vista”,
raciocinou amargurado, “a Religião perde para a Ciência. Como observou Camus, ‘Ninguém
está disposto a morrer por verdades científicas(13)’”. De fato, não se conhece nenhum caso de
um cientista enfurecido agredindo alguém por não acreditar na lei da gravidade.

O Profeta lembrou-se da Trombeta de Jericó e dos incontáveis casos de violência narrados


na Bíblia: “Até os seguidores de religiões que aparentemente amam o mesmo Deus - como
Judeus, Cristãos e Muçulmanos - têm vivido em permanente conflito, como ilustram as
Cruzadas, vários massacres, e lutas por território.”

Leu em Blaise Pascal que “Os homens nunca praticam o mal tão plenamente e com tanto
entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa(14)”. O descrente Stephen
Weinberg foi mais longe(15): “A religião é um insulto à dignidade humana; com ou sem ela
teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente má fazendo coisas más; mas, para que
gente boa faça coisas más, é preciso a religião”. Richard Dawkins, por sua vez, afirmou:
“Ateus podem fazer maldades, mas não fazem maldades em nome do ateísmo(16)”. Mais
grave, porém, foi a acusação de Robert G. Ingersoll, um dos maiores oradores do século XIX:
“É estranho mas é verdade: aqueles que mais amaram a Deus são os que menos amaram os
homens(17)”. Ingersoll, defensor dos negros e das mulheres, era filho de um pastor
presbiteriano.

Mas nada disso abalava a fé de Eliot.

* * *

O Profeta Eliot achou revoltante ouvir que o Homem criou Deus e depois se escravizou a
Ele(18). Também lhe causou repulsa ler que as modificações nos seres vivos - as mutações -
ocorrem ao acaso e por isso não é possível prever se um determinado processo evolutivo,
decorridos milhões de anos, irá gerar uma barata, um verme ou uma baleia (19): “É difícil
aceitar que existam indivíduos que se recusem a acreditar que o universo foi criado para
gerar o Ser Humano, que afirmem ser o Homem um fruto acidental do acaso”, lamentava
Eliot.

Na Universidade onde trabalhava, um professor amigo de Eliot defendia que o Sagrado, o


Outro Lado, seria uma ilusão - uma criação da mente Humana, refletindo o nosso caráter, as
nossas qualidades, os nossos defeitos. “O lado de lá não é uma realidade”, afirmava, “mas a
transposição do que existe do lado de cá. Foi o Homem quem criou Deus à sua imagem, e
não o contrário. Por isso Deus acabou se revelando mau, rancoroso, violento, vingativo,
possessivo, dominador - todas características bem humanas. Com leve ar de ironia, ele dizia
que “É preciso melhorar o Homem para que Deus seja bom”.

Eliot também lembrou-se de um colega que dividia os Homens em dois grupos: o primeiro
era formado pelos que acreditam que o Ser Humano se tornou racional no instante em que
viu Deus; o segundo, pelos que creem que o Ser Humano viu Deus no momento em que se
tornou racional. O segundo grupo - os que creem que o Homem criou Deus - garante que a
consciência de que existe separou o Homem das outras espécies animais, obrigando-o a
tomar decisões sobre como conduzir sua vida: “Quanto mais o Homem se afastava das
condições primitivas da Natureza, tanto mais se achava condenado a lidar com incertezas.
Guiado agora pela inteligência, não mais apenas pelo instinto, o Ser Humano deixou de ter
seu caminho claramente demarcado. Apelou então para a ajuda do sobrenatural para
enfrentar o desconhecido. Deus tornou-se não apenas desejável, mas imprescindível.”
José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, manifestou-se dizendo que “No fundo, o
problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as
religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas tenho que
dizê-las(20).”

Apesar das críticas, o Profeta não se dava por vencido. Confiava que a Grande Revelação
mudará esse quadro de desapreço pela Religião: “O Amor ao Próximo dará novo vigor às
Religiões”, insistia.

* * *

Eliot tinha fé. Ele sabia da existência de Deus e pregava que Deus se encontra fora do
mundo natural. Para ele:

“Os instrumentos científicos não são ferramentas para conhecê-Lo(21). A Ciência não
pode confirmar nem negar Sua existência. Há verdades que não estão ao alcance da
Ciência. Não estão na esfera da razão e de sua lógica, mas no campo da fé. Somente a
razão e a lógica não são capazes de nos conduzir a essas verdades(22). A comprovação
de que Deus existe tem de vir das mensagens que Ele envia à Humanidade por meio
de anjos e profetas.

Nenhum argumento lógico pode provar que Deus existe. A crença em Deus sempre
exigirá um salto de fé(23).”

Eliot reconhecia que “para acreditar é preciso querer acreditar(24)”. Ter fé é uma decisão
que o fiel toma sabendo que jamais terá todas as informações necessárias para uma escolha
inteiramente racional, pois “É para quem quer conhecê-Lo que Deus se revela(25)”. “Eu não
acredito, eu sei”, respondeu Carl Jung(26) quando lhe perguntaram se acreditava em Deus.

Eliot sabia que há uma enorme compensação para crer. Quem tem o Pai Eterno ao seu lado
pode mergulhar dentro de si e experimentar uma profunda paz. Quem tem Seu apoio pode
facilmente superar a ansiedade, o estresse, a sensação de solidão e de abandono. E não há
ajuda maior para suportar as dores desta existência do que a certeza da recompensa eterna
no Paraíso. Para Eliot, a felicidade nesta vida requer essa sintonia com o Criador.

A Ciência jamais explicará porque o universo existe, porque estamos aqui, qual é o sentido
da vida, o que acontece após a morte. Na Terra, só os profetas podem responder a essas
perguntas. Sem Eliot jamais saberíamos da condição de privação energética de Deus.

***

A fé inabalável do Profeta Eliot e o desejo de defendê-la o motivavam a participar de


debates com cientistas e intelectuais que discordassem de sua maneira de ver a vida, o
universo, o sobrenatural. Por isso não apoiava o radicalismo de Martinho Lutero:
“A razão é o maior inimigo que a fé possui; ela nunca aparece para contribuir com as
coisas espirituais, mas com frequência entra em confronto com a Palavra Divina,
tratando com desdém tudo o que emana de Deus. . . . Quem quiser ser cristão deve
arrancar os olhos da razão. . . . A razão deve ser destruída em todos os Cristãos(27).”

Também não concordava com Santo Agostinho:

“Existe outra forma de tentação, ainda mais cheia de perigo. É a doença da


curiosidade. É ela que nos leva a tentar descobrir os segredos da Natureza, segredos
que estão além da nossa compreensão, que nada nos podem dar e que nenhum
homem deveria querer descobrir(28).”

Discordando de Lutero, Eliot acreditava que a razão leva a Deus. E opondo-se a Santo
Agostinho, tinha consciência de que é preciso descobrir os segredos da Natureza para se
chegar ao patamar de conhecimento que permitirá ao Homem salvar o Criador. Por isso,
sentiu enorme satisfação ao ouvir um cientista declarar que “A luta pela verdade deve ter
precedência sobre as outras”. Eliot jamais contestou as recomendações de Thomas
Jefferson: “Questione com coragem até a existência de Deus, porque, se houver um, Ele
deve aprovar mais o respeito à razão do que o medo cego”. E ainda: “Não devemos nos
afastar das dúvidas por medo de suas consequências(29)”.

O Profeta Eliot sabia que o Homem acredita no sobrenatural porque nasce com a benção
divina de, instintivamente, procurar pelo seu Criador. Mesmo quando questiona Deus ou a
Sua existência, isso não significa que ele não tenha fé pois, como percebeu Paul Tillich (29), “A
dúvida não é o oposto da fé; ela é um elemento da fé(30)”. Apoiando Tillich, o filósofo Blessed
John Henry Newman declarou: “No meu entendimento, dez mil dificuldades não fazem uma
dúvida; dificuldade e dúvida não são medidas na mesma escala(31)”.

Eliot sabia que a dúvida é sempre superada, revigorando-se a fé. O Bem está acima do Mal.

* * *

O Profeta encontrou na interpretação literal da Bíblia uma fonte de atritos entre Religião e
Ciência.

Eliot acreditava que, apesar do Seu limitado estoque de energia, Deus interveio para que
Josué parasse o sol(32) - a luta durante o dia o favorecia - e para abrir o Mar Vermelho para
Moisés(33) - sem essa rota de fuga as consequências seriam trágicas para Seu povo. Movido
pela compaixão, Deus também interveio para ajudar Sara a ter um filho aos noventa anos(34),
uma gravidez sem similar na História da Humanidade.

Mas Eliot admitia que algumas afirmações bíblicas não são para serem tomadas ao pé da
letra - são claramente linguagem figurada e assim devem ser entendidas: “É preciso ter
consciência de que os Textos Sagrados”, insistia Eliot, “recorrem frequentemente a
alegorias, metáforas e parábolas para tornar a Verdade mais facilmente compreensível pelo
comum dos mortais”. Para ser mais claro, Eliot recorreu aos seguintes exemplos:

“O Profeta Isaias não fala em montanhas cantando e árvores batendo palmas (35)?
Também o livro dos Salmos não fala em algo semelhante, “os rios batam palmas,
juntas exultem as montanhas?”(36)? A Bíblia, em Eclesiastes(37), não afirma que muito
estudo faz mal, talvez uma forma enfática de dizer que existem coisas mais
importantes que o conhecimento, como a obediência aos Mandamentos de Deus?

“Se Deus é onisciente e está em todos os lugares, como foi que Adão e Eva se
esconderamram dEle depois de comerem do fruto proibido(38)? E quem já ouviu uma
serpente falar? Ou seria mesmo o diabo(39)?

“Mais grave é a defesa da escravidão. O Profeta Malaquias não pede ao servo para
respeitar seu senhor(40)? Em Levítico, Deus não diz que os escravos podem ser
deixados pelos pais como herança para os filhos(41)? Em Eclesiástico, não recomenda
que os escravos sejam tratados com severidade(42)? Moisés não regulamentou a venda
de filhas(43)? E São Paulo não solicitou aos escravos de Colossas que obedecessem de
coração aos seus senhores(44)?

“A Bíblia não ordena que o fiel, ao descobrir que alguém serve a outro Deus, - não
importa que esse alguém seja a esposa, um filho, um irmão, ou o maior amigo -
entregue esse herege à morte e seja o primeiro a apedrejá-lo(45)? Não diz que os pais
estão autorizados a castigar os filhos com a morte(46)? Que estão sujeitos à pena de
morte os que não respeitam o descanso semanal(47)? E que o mesmo castigo - a morte
- deve ser aplicado às noivas que não são virgens(48)?”

A tragédia do ministro pentecostal George Hensley mostrou a Eliot como a interpretação


literal da Bíblia pode ter consequências trágicas. Hensley faleceu, em 1955, ao ser picado
por cobra por acreditar que os crentes, conforme relata o Evangelho de Marcos, podem
pegar em serpentes e beber veneno mortal sem por em risco a saúde(49).

Assim, procurando conciliar Religião e Ciência, Eliot não perdia uma única oportunidade
para pregar que é preciso abandonar certas interpretações literais da Bíblia. Por isso,
reclamava: “Por que insistir que a Terra foi feita em seis dias e tem apenas seis mil anos (50)?
A prioridade não é colocar a Ciência a serviço da Fé? Precisamos cultivar um profundo
respeito pela Ciência e pelos cientistas, uma vez que deles depende a salvação do
Criador(51)”.
16. As Religiões se Confraternizam
Líderes religiosos dos cinco continentes se reuniram na cidade santa de Jerusalém para
identificar afinidades em suas crenças e discutir procedimentos para uma convivência
harmoniosa e produtiva. Todos eles reconheceram que era preciso superar suas diferenças.
Partiram, então, para a busca de afinidades.

Ao invés de enfatizar sinais, símbolos e procedimentos que as separam, as religiões


presentes ao encontro, que ficou conhecido como o Concílio de Jerusalém, decidiram
identificar mecanismos que facilitassem a aproximação de seus seguidores. O objetivo final
era criar o clima de cooperação exigido pelo trabalho conjunto de salvação do Criador.

Os líderes concordaram ter em comum a consciência de que existe um mundo espiritual


que se sobrepõe à matéria; que a morte não é o fim, mas a transferência da vida deste plano
para outro, mais elevado; que é responsabilidade das religiões educar seus seguidores para
a prática do Bem; e que existe uma centelha divina em cada Ser Humano - ajudá-lo a buscar
essa divindade dentro de si é a essência da Religião.

Um grupo de teólogos - cientes do poder da Religião para educar, disciplinar e lapidar o


Homem - assumiu a responsabilidade de produzir, em nove meses, um estudo detalhado
sobre metas e estratégias de aproximação dos adeptos das mais diversas crenças. Ficou
acertado que esse Grupo de Estudos (GE), que representava as religiões mais praticadas no
Planeta, iria se reunir mensalmente até a conclusão do relatório final.

Como não era possível incluir nas discussões as religiões regionais com reduzido número
de adeptos, líderes de algumas seitas menores vindos de diferentes partes do mundo se
reuniram em consórcio e escolheram um único delegado para representá-los no GE.

Uma vez constituído, o GE iniciou suas atividades propondo a criação de símbolos e orações
comuns a todos os credos abordando o tema da salvação do Criador. Afirmando que “Deus
não tem religião e que são vários os caminhos que levam ao topo da montanha”, um dos
religiosos sugeriu fosse analisada a construção de templos ecumênicos onde seguidores
dos mais diversos credos se encontrariam para orarem juntos de acordo com as crenças de
cada um. Na mesma linha, seria estudada a conveniência de estimular as crianças a
frequentarem templos de outras religiões depois de amadurecidas na religião de seus pais.
O Profeta Eliot recomendou a peregrinação pelo Caminho de Abraão.

O Profeta Eliot gostava de dizer que todas as religiões podem ser úteis ao Ser Humano(1) na
medida em que lhe deem força, confiança e determinação para conservar-se no caminho da
verdade e da virtude, para enfrentar e superar os revezes da vida e, sobretudo, para
dedicar-se à salvação do Criador. E pregava com veemência que chegara a hora de
deixarmos de enxergar os praticantes de outros credos como pessoas exóticas,
alienígenas. A Grande Revelação trouxe consigo a consciência de que Amar o Próximo é
amar a toda a Humanidade. E a missão de toda a Humanidade é salvar o Criador:
“Reenergizar Deus não é um projeto de uma religião, de um povo, de um continente, mas de
todos nós”, ressaltou Eliot na sessão de abertura do Concílio.

No segundo dia, uma terça-feira, Eliot abriu a sessão com a parábola do alpinista: “À
medida que o conhecimento científico e tecnológico avança, o Homem vive como o alpinista
que escala uma encosta íngreme. Quanto mais sobe, maior o alcance de sua visão e mais
bela a paisagem, mas também mais terrível seria a queda. O Homem tem de assegurar-se de
que o conhecimento que gera será usado para o Bem, jamais para o Mal. A Humanidade não
pode correr o risco de autodestruir-se, levando consigo o Criador.” Mas Eliot estava
tranquilo. A pregação de Jesus de que devemos amar até os nossos inimigos(2) estaria em
breve plenamente atendida: aproximava-se o dia em que ninguém terá inimigos. Os Seres
Humanos serão dotados “daquela cordialidade universal que fará de nós uma só família”.

Um teólogo norueguês pediu a palavra para dizer que devemos unificar os nossos deuses.
Para uma audiência atônita, ele explicou que todas as pessoas, mesmo as que professam a
mesma fé, têm deuses diferentes. “Cada um de nós tem o seu Deus pessoal”, garantia. “E
nem todo Deus é bom”. Em sua opinião, “o Deus dos indivíduos bons é bom, e o Deus dos
indivíduos maus é mau”. E se explicou:

“Os indivíduos que levam uma vida prazerosa têm um Deus que se ocupa em fazer
apenas o bem. Como são felizes, seu Deus é alegre, generoso, brincalhão. Já as
pessoas que abrem mão da alegria e se sacrificam para viver conforme a moral
repressora que, no entendimento delas, as fará dignas da recompensa eterna, essas
têm um Deus rancoroso, mau, perverso, que existe para punir os pecadores.”

O teólogo norueguês chegou a improvisar um provérbio: Conta-me como é teu Deus e eu te


direi quem és(3). E insistiu que as religiões, sem exceção, devem reconhecer um único Deus,
o Deus bom. Concluiu dizendo que há religiosos que sofrem tanto em nome da fé a ponto de
acreditar que os condenados ao Inferno podem ser vistos do Céu. Isto aconteceria para que,
como relatou São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica, os virtuosos pudessem tirar
maior prazer de sua beatitude contemplando a punição dos pecadores. Os líderes
religiosos aprovaram por unanimidade a inclusão daquele homem de fé no GE. Eliot pediu
agilidade nos trabalhos, já que não faz sentido - nem seria possível - deter o progresso da
Ciência à espera de um Ser Humano mais confiável para lidar com as novas conquistas
científicas e tecnológicas.

A prioridade de todas as religiões deve ser, portanto, transformar cada um de seus


seguidores no Ser Humano de que o mundo precisa, como diria Gandhi. O novo Ser Humano
terá plena consciência de que amar a Deus sobre todas as coisas é fazer da Humanidade
uma única comunidade de irmãos que se dedicará a trabalhar para livrar o Criador da
situação em que Ele se encontra. Nenhum Ser Humano deverá medir esforços para salvá-
Lo, sacrificando, se preciso, a própria vida.

Para propagar sua visão abrangente da fé, Eliot defendeu que devemos aceitar as
montanhas sagradas dos chineses e japoneses e o casamento com animais e plantas dos
indianos(4). Também confidenciou a um amigo que seu distanciamento dos diferentes
credos se devia à sua constatação de que as religiões são herdadas(5): “nacionalidade, língua
e fé são passadas de pais para filhos”. Embora se mantivesse cristão, decidiu não se
comprometer com nenhuma denominação específica (para desgosto de seu avô), mas
sempre respeitando a religião e a fé de cada um.

* * *

Um consultor de empresas que assessorava o Concílio de Jerusalém sugeriu para Missão da


Humanidade após a Grande Revelação o seguinte texto:

MISSÃO DA HUMANIDADE

“Guiados pelo sentimento da Gratidão, os Seres Humanos de todos os credos, raças e


etnias se unirão para salvar o Criador. Para isso desenvolverão formas de cooperação
visando a (1) apressar o desenvolvimento científico e tecnológico e (2) assegurar que
esse conhecimento seja usado apenas para o Bem. No que concerne à Ciência e à
Tecnologia, serão criados mecanismos para fazer avançar o ensino de Matemática,
Física, Química, Biologia e Ciência da Computação, tendo como alvo principal as
crianças e jovens. Quanto a assegurar que o conhecimento gerado seja utilizado
exclusivamente para o Bem, o ensino de Filosofia e Ciências Humanas será também
priorizado, enfatizando-se o Amor ao Próximo, a Compaixão, a Generosidade, a
Honestidade, a Solidariedade e, sobretudo, a Gratidão. Os novos valores garantirão
que o progresso científico e tecnológico jamais colocará em risco a existência da
Humanidade e de seu Criador.”

O consultor sugeriu para o Projeto de Re-Energização do Criador o nome didático de Salve


o Salvador (Save our Savior) ou Projeto S.O.S., e recomendou que a Missão da Humanidade
fosse enviada a todas as escolas, órgãos de governo, empresas comerciais, organizações
não-governamentais (ONGs) e instituições religiosas, sem exceção. O consultor também
produziu um livreto para ser distribuído nas igrejas e outros locais de oração
apresentando, em linguagem acessível a todos, os elementos mais relevantes da Missão.
Ciente de que a reenergização do Criador se dará em futuro distante, o livreto terminava
com a parábola:

“Precisamos nos sentir como a semente que, ao germinar, se consome e desaparece


sabendo que jamais verá a beleza das flores ou sentirá o sabor dos frutos que dela
nascerão, mas que se sente feliz apenas em imaginá-los. Existe algo mais agradável e
emocionante do que imaginar o momento da reenergização do Senhor? Quem entre
nós não daria tudo para estar presente no momento em que Deus reassumirá a Sua
onipotência, manifestando-Se em toda Sua glória?”

A mentalidade aberta e o comprometimento com a salvação de Deus levaram Eliot a aceitar


o apoio de ateus e agnósticos(6) que quiseram aderir ao projeto S.O.S. movidos pelo amor ao
conhecimento e pela vontade de participar das assombrosas conquistas científicas e
tecnológicas que estavam para vir.

* * *

Eliot pregava que o Governo, a Universidade e o Setor Privado deveriam se unir para
oferecer treinamento intensivo aos professores de Matemática, Ciências e de Filosofia,
tanto nos países desenvolvidos como nos países mais pobres, habilitando-os para o
trabalho de preparar crianças e jovens para enfrentar e superar os desafios técnicos e
morais que irão surgindo na caminhada para a reenergização do Criador.

Assim, era preciso mostrar aos estudantes, desde as primeiras séries, a beleza da Ciência e
das Humanidades. Eliot reconhecia a importância de se dar visibilidade aos Cientistas e
Humanistas que pudessem servir de modelo para os jovens. O apoio da mídia seria então
fundamental.

O Profeta também confiava na mídia para uma ampla divulgação de um programa de


valorização da educação, área em que os resultados, em geral, só aparecem no médio e
longo prazos. A ideia era colocar pessoas que se destaquem no apoio à educação ao lado
dos ricos e famosos, fazendo delas grandes heróis e heroínas, em especial os membros da
classe política: “Se os políticos tradicionais só pensam na próxima eleição, vamos
homenagear os políticos estadistas que se preocupam com a próxima geração, e por isso
priorizam a educação. Vamos promover esses benfeitores da Humanidade tornando seus
nomes conhecidos dos eleitores”, pregava Eliot com entusiasmo.

Nas discussões que se seguiram sobre como promover a educação, a proposta


revolucionária de um dos discípulos de Eliot quase acabou em confusão, pois foi percebida
por ortodoxos e fundamentalistas como uma blasfêmia sem precedentes. E era! O religioso
sugeriu que fosse divulgada uma nova versão para o sacrifício de Abraão. Para ele, ao testar
a fé de Abraão, em lugar de pedir ao Patriarca que Lhe oferecesse o filho Isaac em sacrifício,
Deus solicitaria a Abraão que ensinasse ao pequeno Isaac a ler, escrever e a dominar a arte
das somas, subtrações, multiplicações e divisões. Nas palavras do autor da sugestão:

“Já imaginaram Abraão levando ao Monte do Templo as primeiras palavras escritas


pelo pequenino Isaac, uma curta mensagem dirigida a Deus rabiscada em
pergaminho, em que Isaac declarasse ao Criador que estudar era a atividade que
mais lhe dava prazer, e agradecesse ao Senhor por ter ordenado a seu pai Abraão que
dedicasse todo o seu tempo livre para instruí-lo? E concluísse confessando que tê-lo
feito gostar de estudar fora a maior prova de amor que o Criador poderia ter-lhe
oferecido?
“Já imaginaram também que, ao se aproximar do topo do Monte do Templo, Abraão
se envergonhasse da caligrafia infantil e dos erros ortográficos de Isaac e decidisse
queimar o pergaminho, mas fosse impedido no último instante por um anjo que
chegasse a tempo de salvar o documento? E que, de repente, o pergaminho se visse
contornado por uma moldura de ouro e fosse carregado por anjinhos adolescentes
para os Céus? A nossa pregação em favor da educação seria mais prontamente
aceita.”

Eliot percebeu a insensatez do colega mas, em suas próprias palavras, “há momentos em
que é melhor não discutir com os fieis”. Foi nessa ocasião que surgiu o ditado, “Quem
alfabetiza um Ser Humano alfabetiza toda a Humanidade”.

***

A última palestra do Encontro foi sobre a felicidade. Guiando-se pelo objetivo de salvar o
Criador, um psiquiatra alertou aquela plateia de líderes religiosos e intelectuais sobre os
cuidados a serem tomados na organização da Humanidade. Começou alertando que é
preciso apressar o desenvolvimento científico-tecnológico. Em seguida enfatizou a
necessidade de acelerar o crescimento, dentro de cada um de nós, dos sentimentos de
gratidão, de bondade e de solidariedade.

Acrescentou:

“Para tornar o Homem bom, é preciso fazê-lo feliz, e para isso é preciso que todo Ser
Humano tenha uma visão positiva do desejo e do prazer. A repressão indevida da
Natureza Humana pode levar à doença mental, ao desespero, e até ao
suicídio. Para construir o Homem que salvará o Criador será preciso conciliar
necessidades individuais e sociais, sob pena de expor o Ser Humano ao desequilíbrio
psíquico e às doenças mentais.

“O Homem deverá desfrutar de uma vida prazerosa, pois uma moral incompatível
com o princípio do prazer, uma moral que não se esforce para integrar todas as
forças primitivas da Natureza Humana pode destruir, em lugar de gerar e nutrir, as
virtudes capazes de embelezar a existência e preparar a Humanidade para salvar o
Criador. O sucesso do projeto S.O.S. exige que a inteligência para a Ciência não se
curve diante da estupidez moral. É preciso que o Homem conheça e compreenda o
seu mundo interior - a parte do universo que ele mais desconhece - para que ele seja
feliz e se transforme num eficiente soldado do Bem.

“Portanto, para fazer os outros felizes, o Homem precisa cuidar de sua própria
felicidade. Para amar é preciso amar-se e ser amado. Os salvadores de Deus têm de
conhecer suas necessidades mais íntimas e, nos limites do respeito aos seus
semelhantes, procurar satisfazê-las. Ninguém age impunemente contra sua própria
Natureza. Uma atitude de recusa sistemática a tudo o que dá satisfação equivale a
uma atitude de recusa à vida.

“O Ser Humano precisa extirpar de si sentimentos de culpa desnecessários - precisa


ter consciência de que os pensamentos mais criminosos, os impulsos mais
antissociais, os desejos mais monstruosos existem nas pessoas mais santas. Tais
pensamentos só se tornam perigosos se nos deixamos invadir pelo pavor de pecar,
concedendo-lhes uma importância que jamais tiveram. Não se culpem, irmãos,
irmãos, se, por instinto, desejarem a mulher (ou o marido) do próximo, desde que o
desejo não se traduza em ação. Por isso se diz que as pessoas honestas são aquelas
que se contentam em pensar o que as desonestas fazem. As religiões não podem
esquecer essa realidade, sob pena de não amarmos a Deus como Ele quer ser
amado(7)”.

O psiquiatra concluiu sua intervenção propondo medidas de incentivo ao humor porque o


riso e a alegria ajudam a viver e a ter saúde. Chegou a afirmar que uma história engraçada
pode gerar mais virtude do que muitas narrativas edificantes. Por isso criticou duramente
São Basílio(8) que considerava a gargalhada uma manifestação do demônio - o doutor da
Igreja defendia seu ponto de vista dizendo que Jesus jamais fora visto rindo.

Ao encerrar o Concílio, pegando carona na intervenção do psiquiatra, Eliot afirmou que,


para sermos felizes, precisamos de um propósito na vida capaz de suscitar nosso
entusiasmo; e que esse propósito será doravante a missão de reenergizar o Criador.
Ressaltou que caberá ao conjunto das religiões conduzir seus fieis na realização dessa
nobre missão.

Ao deixar o recinto, Eliot ouviu um pequeno grupo de religiosos comentando a mensagem


em um dos pergaminhos que o beduíno lhe havia vendido. A mensagem falava sobre doze
sábios de diferentes credos, vindo de diferentes regiões do Planeta, que no século I a.C.
haviam previsto o surgimento em dois mil anos de um profeta que divulgaria a Suprema
Verdade. Eliot percebeu que eles estavam seguros de que a Suprema Verdade era uma
outra denominação para a Grande Revelação e que ele, Eliot, era o Profeta. Para aqueles
religiosos foi uma agradável coincidência verificar que o seminário que se encerrava reuniu
representantes dos doze credos mais expressivos (credos com maior número de fieis), do
Planeta, e que cento e quarenta e quatro foi o número de participantes, precisamente doze
vezes doze. Doze foram os apóstolos de Cristo.
17. As Forças Do Mal Contra-Atacam
Foi durante o quarto dia do Concílio de Jerusalém que Lúcifer percebeu a excessiva atenção
que as Forças do Bem davam à educação e resolveu contra-atacar. Colocou seus soldados
mais experientes para impedir que a Humanidade avançasse nessa área. Encomendou um
relatório minucioso ao seu Serviço de Inteligência.

O Serviço de Inteligência de Lúcifer (SIL) recomendou que as Forças do Mal atuassem


simultaneamente em três frentes: o professor, o aluno e as lideranças políticas. E
desenvolveu estratégias para cada segmento, concedendo especial atenção aos países do
Terceiro Mundo e às comunidades mais pobres nos países desenvolvidos.

O trabalho junto aos professores visava convencê-los de que esforçar-se para transmitir
conhecimento para filho de pobre é pura perda de tempo: não aprendem. A origem do
problema pode ser genética, alimentar, falta de apoio em casa, ou a soma de tudo isso. Mas
o fato é que não aprendem, têm a cabeça fechada.

Para o SIL, os agentes do Mal deveriam recorrer a imagens fortes como a história de Sísifo:
“Devemos mostrar aos professores que ensinar criança carente a estudar, a ter disciplina, a
valorizar o conhecimento, é como empurrar uma pedra montanha acima - depois de muito
esforço, quando o professor se cansar, a pedra rola de volta a mil por hora. Todo o esforço é
perdido. Pobre já nasce com a cabeça enguiçada, não adianta insistir”.

O SIL também recomendou aos agentes do Mal que alertassem os professores que de
tempos em tempos aparece um pobre inteligente, estudioso, às vezes genial. Mas nem a eles
o professor deve dar atenção: o pobre inteligente, em algum momento, vai desistir, vai
parar no meio do caminho. “É a cultura da pobreza: a família não valoriza, a vizinhança
rejeita”.

Quando o foco é o aluno, a tática é mostrar para a criança que não vale a pena estudar:
“Escola presta mesmo é para um bullyingzinho de vez quando, uma paquera mais
apimentada, um susto na professora, uma pedrada na vidraça, uma brincadeira mais
chegada ao vandalismo; às vezes nem pra isso serve”. Mas para não correr nenhum risco, o
SIL (Serviço de Inteligência de Lúcifer) sugeria distribuir uns diabinhos serelepes pelas
salas de aula para distrair os alunos.

Para afastar a meninada pobre da escola, o SIL aconselhava divulgar modelos de


comportamento que possam seduzir os jovens da periferia para a marginalidade.
Na América Latina, os diabos deveriam exibir para os jovens das classes mais altas
corruptos bem sucedidos como modelos de vivacidade - os espertos que souberam se dar
bem, os que sabem enxergar o caminho mais fácil “pra chegar lá”.

A ideia de Lúcifer era jamais desistir de corromper a juventude. Os jovens


irrecuperavelmente decididos a estudar - os nerds -, deveriam ser convencidos a só pensar
em dinheiro. Afinal, “o dinheiro embeleza, traz segurança, dá conforto, confere prestígio. Não
é verdade que o dinheiro compra até amor verdadeiro(1)?”

Quanto aos homens públicos, é só lembrá-los, recomendava o SIL, de que educação não dá
voto. “É melhor lutar por medidas que deem resultados no curto prazo, como a implantação
de um sistema de cotas para minorias, que tem visibilidade imediata. Se com esse sistema de
ensino as minorias vão chegar ignorantes na universidade, isso não é problema seu”. E para
reforçar: “Esquece essa história de salário para atrair talentos para o magistério; não dê
ouvidos aos que insistem que a competitividade do País passa pela escola, que
empregabilidade é sinônimo de educação. O importante é ser reeleito”.

Lúcifer se divertia quando via que as ingênuas Forças do Bem teimavam em acreditar que,
apesar das batalhas perdidas, iriam ganhar a guerra. “Para livrar-se de Satanás, é só
esperar o Dia do Juízo Final”, diziam os Bons. A realidade é que a luta entre as Forças do
Bem e as Forças do Mal no campo da educação prometia fortes emoções.

* * *

Foi também naquele quarto dia do Concílio que o Profeta Eliot se surpreendeu com a
intervenção nos debates de um psicólogo que, coincidência ou não, quis abordar a luta
entre o Bem e o Mal. Ele queria mais empenho dos Bons. E começou falando sobre o
acontecido em Londres durante a Segunda Guerra Mundial.

O estudioso da mente relatou que a Segunda Guerra Mundial foi um período muito feliz
para os londrinos. Mas como, se Londres foi terrivelmente bombardeada pelos alemães?
Como se explica o paradoxo?

A explicação é que o medo compartilhado das bombas inimigas fez dos londrinos uma
grande família. Fugirem juntos para os abrigos antiaéreos durante os bombardeios gerava
um profundo sentimento de solidariedade que fazia as pessoas se verem como irmãs,
mesmo quando não se conheciam. O governo britânico havia estimado que 250 mil
londrinos se tornariam doentes mentais irrecuperáveis(2) e, no entanto, a saúde mental
experimentou significativa melhora(3).

O psicólogo afirmou então que o caso londrino comprovou que “o estado de coisas mais
feliz é um estado de guerra declarada, quando o número de crimes, de suicídios e de
doenças mentais diminui. As pessoas se unem, voltando todo o seu ódio e a sua
agressividade ao inimigo externo, e se sentem em paz umas com as outras e consigo
mesmas(4).” E concluiu sugerindo a utilização dessa experiência para pregar o ódio às Forças
do Mal. Esse ódio fortaleceria o Projeto S.O.S.

Para Eliot, porém, o que devia ser incentivado era o amor: Amor ao Próximo e Amor a Deus.
As religiões devem ser sinônimo de amor, jamais de ódio. Por isso interveio: “Quem se
acostuma com o ódio passa a depender de inimigos para viver - os inimigos passam a ser a
sua razão de existir. Derrotado um inimigo, têm de sair à procura de outro”, e repetiu a
lenda de Baby-Kong. Completando seu raciocínio, mencionou uma experiência diferente.

O Profeta falou da viagem de um tio materno ao Rio de Janeiro, em 1958. Seu tio Mike teve
oportunidade de ver a seleção brasileira de futebol regressando vitoriosa da Suécia,
trazendo para o Brasil o seu primeiro título de campeão mundial de futebol. Como os
londrinos, os brasileiros também se sentiam irmãos, rindo, chorando, pulando e dançando
abraçados nas ruas, nas avenidas e nas praias do Rio. Desconhecidos se confraternizavam
como se fossem amigos de infância. Ricos e pobres, eram todos irmãos, eram todos
membros de uma só família. Eles eram os melhores do mundo!

Eliot acrescentou:

“Não são apenas as catástrofes que nos unem, mas também as vitórias coletivas.
Além da guerra, conquistas pacíficas também podem nos transformar em
irmãos. Por que não celebrar cada grande avanço do projeto S.O.S.? Estou certo de
que essas vitórias nos farão sentir a mesma solidariedade proporcionada aos
londrinos pela guerra e aos brasileiros pelo futebol.”

Continuou:

“Nós também viveremos momentos de profunda solidariedade. Cada avanço que


nos aproxime da salvação do Criador trará consigo horas de indescritível felicidade
coletiva. Se a Humanidade não foi capaz de se unir para celebrar o lançamento do
primeiro satélite artificial, a ida do primeiro astronauta ao espaço, a chegada do
Homem à lua, nós saberemos festejar, nas ruas de todas as cidades do mundo, a
construção da primeira colônia em Marte, a inauguração da primeira espaçonave-
cidade, a primeira viagem tripulada para fora do sistema solar.”

Enfatizando que o comportamento corre atrás do elogio, Eliot recomendou que, doravante,
as homenagens mais festivas e as louvações mais vibrantes fossem oferecidas aos fieis que
dedicassem mais energia, tempo e recursos à salvação do Criador. São essas as ações mais
dignas de divulgação - as mais apropriadas para figurar nas manchetes de jornais e
revistas, as mais indicadas para ocupar espaço privilegiado nos noticiários de TV, e a serem
proclamadas no púlpito de igrejas, sinagogas, mesquitas, centros espíritas, templos
budistas e terreiros de candomblé. Por prudência, Eliot aconselhava que, antes de pagar o
dízimo, o fiel deve se indagar: “O que a minha congregação está fazendo para o resgate de
Deus?”
O Profeta Eliot transbordava de entusiasmo ao lembrar que Deus, uma vez salvo, saberá
recompensar a Humanidade - privaremos de Sua intimidade e seremos os Semideuses que
cuidarão do universo.

* * *

Eliot entendeu por que Deus não abrira mão de sua onisciência para economizar energia.
Se não acompanhasse o dia-a-dia da Humanidade haveria uma perda irreparável em Seus
arquivos. Como julgar os bons e os maus após a morte sem conhecer seus pensamentos,
palavras e obras? Já imaginou um pecador astuto passando por santo no dia do Juízo Final?
Já imaginou um caluniador malvado acusando o mais puro dos Homens de pecador lascivo
ou a mais imaculada das mulheres de rameira dissoluta e ainda assim ser admitido no
Paraíso?

O Profeta também entendeu a razão do descanso semanal. Quando as religiões pregam que
não devemos trabalhar no sétimo dia, a mensagem implícita é a de que, depois de seis dias
de labuta intensa, o Ser Humano, como Deus, se sente esgotado. O descanso semanal é uma
forma elegante de demonstrarmos ao Criador o nosso reconhecimento pela enorme
quantidade de energia que Ele investiu na criação do mundo.

Eliot finalmente compreendeu por que Deus lutara uma noite inteira com Jacó, sem
conseguir derrotá-lo, como relata a Bíblia(5). É que Deus não estava disposto a gastar
energia num confronto que considerava pouco relevante.

* * *

Eliot se lembrou com tristeza dos tempos em que se referia a Deus como O Todo Poderoso,
como Aquele que não Teve Começo nem Fim. Mas não demorou a sentir-se dominado pela
euforia de ter sido escolhido para iniciar e liderar, enquanto vivesse, o Projeto de Salvação
do Criador (Projeto S.O.S).
18. A Humanidade se Aproxima de Deus
Os líderes religiosos tinham consciência de que a Humanidade precisava gerar a tempo o
conhecimento científico e tecnológico que garantirá o êxito do projeto S.O.S. E que, para
lidar com esse conhecimento, o Ser Humano terá de crescer ética, moral, e espiritualmente.

Eliot estava a par das consequências de uma guerra nuclear. Sabia que os danos de uma
guerra atômica generalizada não se limitariam às mortes resultantes do calor da explosão,
dos incêndios e dos efeitos da radioatividade a curto, médio e longo prazos. Previa-se
também que as nuvens de fumaça geradas pelos incêndios de cidades e florestas se
espalhariam por todo o Planeta, dificultando a chegada dos raios solares até o solo,
diminuindo colheitas e matando milhões de Seres Humanos pela fome. Tornando o quadro
mais sinistro, o aumento da quantidade de CO2 na atmosfera iria acelerar as mudanças
climáticas, e não conhecemos a capacidade de regeneração do Planeta. O estresse da
população criaria um enorme contingente de pessoas com problemas mentais que, ao invés
de ajudar suas famílias, passariam a depender de seus pares para sobreviver. Os
perturbados mentais - se numerosos - poderiam tornar a Humanidade inviável(1).

O Profeta Eliot também sabia que, com os avanços no campo da biotecnologia, o know-how
para produzir micro-organismos patogênicos geneticamente modificados - para os quais
não teríamos resistência - estaria em breve à disposição de um grande número de
indivíduos em todo o Planeta. Era preciso assegurar-se de que o progresso científico e
tecnológico seja usado em favor da Humanidade, jamais para a sua destruição. Isto explica
por que o Profeta Eliot não perdia uma única oportunidade para pregar o aprimoramento
das virtudes do espírito:

“O ideal de perfeição que emana de Deus será a estrela a guiar o Homem em sua
jornada pelos caminhos da divinização. Em algum ponto estaremos preparados não
apenas científica, mas também moralmente, para sermos a companhia desejada por
Ele - não iremos decepcioná-Lo.

Insistia:

“Doravante, o Homem deixará de ser aquela criatura suplicante do passado, sempre


fazendo pedidos irrealistas que o Criador não pode atender - emprego, aumento de
salário, casa própria, alívio na doença, um cônjuge mais compreensivo, até acerto na
loteria - para transformar-se num ativo participante do Projeto S.O.S.

E ainda:
“Com a Grande Revelação passamos, na verdade, a sentir por Deus um amor mais
carinhoso e genuíno, um amor livre de temor e isento de interesses pessoais.”

Havia, porém, um problema cultural:

“Embora não seja o usual, vamos ter de nos acostumar com a ideia de o fraco salvar o
forte - a criatura salvando o Criador. A História mostra que são raras as situações em
que o fraco está em condições de ajudar o forte e se dispõe a fazê-lo. Conseguir essa
mudança de paradigma não será fácil”, reconheceu Eliot.

A bem da verdade, a regra geral tem sido o fraco detestar o forte. O passado colonial e as
guerras de conquista oferecem exemplos do poderoso humilhando, aniquilando,
espoliando o fraco - e o fraco, por sua vez, retribuindo com ressentimento, ódio,
violência. O relacionamento típico tem sido de exploração e maltrato revidados com mágoa
e rancor.

Deixando as nações e voltando-se para o indivíduo, saltam aos olhos o senhor de escravos
se aproveitando de seus servos, o macho fisicamente mais avantajado se impondo à fêmea,
o adulto ganancioso se enriquecendo à custa do trabalho infantil. Podemos ampliar o
quadro para incluir crianças robustas espancando coleguinhas mais frágeis nas escolas e
nos playgrounds, madrastas rancorosas maltratando os filhos de seus maridos,
supervisores autoritários desdenhando de subordinados que precisam do emprego para
sobreviver(2).

Quando o político afirma que cada um de seus eleitores é seu chefe, até as crianças mais
inocentes sabem que se trata de figura de retórica, sem qualquer compromisso com a
verdade.

Esse modelo de convivência, superior-inferior, poderoso-fraco, autoridade-homem comum


acabou gerando formas de comportamento que precisavam ser repensadas, pois são
incompatíveis com as demandas da Grande Revelação.

Eliot admirava os cidadãos do mundo que deixam o conforto da sociedade desenvolvida


para ajudar os menos favorecidos nas regiões mais pobres do Planeta. Mas esses exemplos
de genuíno interesse do privilegiado pelo carente são exceções que confirmam a regra,
apenas ressaltando o elevado grau de variabilidade do Ser Humano, cujo comportamento
vai da extrema abnegação ao extremo da crueldade, como visto nos assassinatos a sangue
frio para roubar.

A aceitação do novo paradigma, embora difícil, tornou-se, pois, necessária: “Será preciso
que o Homem considere normal ver o fraco ajudando espontânea e prazerosamente o
forte”, ressaltou Eliot, “para nos acostumarmos com a ideia de que nós, as criaturas, iremos
salvar o Criador”. Eliot sabia que é mais fácil superar a resistência a mudanças quando se
começa pelas crianças.
** *

Para educar as crianças no novo paradigma, um religioso sugeriu que contistas de


imaginação fértil escrevessem histórias infantis edificantes, em que o mais fraco é o herói.
E citou alguns exemplos que lhe haviam ocorrido:

O primeiro é a lenda oriental da criança que correu em socorro dos pais e, com uma
flechada certeira, derrubou o dragão que só não morreu porque a flecha não continha
veneno, mas um poderoso tranquilizante. Como os dragões são raros, o menino-herói
salvou os pais sem se descuidar da preservação da biodiversidade(3). Outro exemplo é a
história da menina que pegou o telefone e pediu socorro para a mãezinha que sofrera um
ataque cardíaco enquanto o pai viajava. Graças à intervenção da filhinha, a mãe sobreviveu:
a ambulância e os para-médicos chegaram a tempo de salvá-la(4).

Complementando sua proposta, o religioso sugeriu que formadores de opinião - jornalistas,


escritores, poetas, pensadores - divulgassem as histórias do menino valente que derrotou o
dragão, da menina salva-vidas, e muitas outras. Elas serviriam de exemplo para as
crianças. Simultaneamente, pintores e escultores retratariam o guri oriental flechando o
dragão, a menina-herói segurando o telefone colado ao ouvido, enfim os gestos que melhor
caracterizassem os nossos heróis-mirins. As pinturas e esculturas dos jovenzinhos-heróis
viajariam pelo mundo e, com o tempo, se tornariam tão conhecidas quanto a Mona Lisa de
Da Vinci e o Davi de Michelangelo.

Visando apressar a mudança de paradigma - o fraco ajudando o forte -, professoras das


primeiras séries se encarregariam de ler com redobrada emoção os feitos notáveis dessas
crianças-modelo. As proezas dos super-heróis infantis seriam os exemplos de iniciativa e
de coragem escolhidos para habitar o imaginário e formar o caráter das crianças que,
pouco a pouco, aprenderiam (internalizariam como preferem as professoras) que é normal
o fraco, favorecido pelas circunstâncias, ajudar o forte. Criava-se assim, com a devida
urgência, o ambiente propício à aceitação de que é natural a criatura salvar seu Criador.

Um dos seguidores de Eliot pediu a palavra para recomendar que atrizes e atores famosos
também fossem convidados a participar desta iniciativa, representando versões
condensadas dessas histórias edificantes nos teatros mais frequentados e nos programas
de rádio e de televisão transmitidos nos horários de maior audiência.

Eliot interveio para reforçar a importância da mídia na divulgação desses atos heróicos. Se
antigamente era a Igreja que escolhia os modelos de comportamento - os Santos -, hoje são
as revistas, os jornais, o rádio e principalmente a televisão e a internet que selecionam as
pessoas cujos hábitos e comportamento devemos imitar(5). Em lugar de limitar-se aos ricos
e famosos, a imprensa escrita e falada daria também destaque aos heróis-mirins do projeto
S.O.S.: “A mídia precisa priorizar o Criador ao escolher os indivíduos que devemos admirar,
invejar e copiar”, enfatizava o Profeta.
Para rezar em suas idas semanais à Igreja-Templo-Mesquita-Sinagoga-Centro Espírita-
Terreiro, os fieis passaram a contar com esta belíssima oração, composta para os novos
tempos:

Nós vamos salvar-te, ó Senhor.


Confia no Ser Humano, ó Senhor.
Colherás o fruto do teu amor por nós, ó Senhor.
O Pai Eterno que tanto nos amou e ama será salvo,
Somos e seremos eternamente gratos por nos ter criado para Lhe fazer companhia.

“É fácil imaginar Deus sorrindo no infinito”, suspirou Eliot, “ao ouvir as palavras ‘eterno’ e
‘eternamente’”.

Numa noite de insônia, Eliot percebeu que a evolução da Humanidade na velocidade


exigida pelo Projeto S.O.S. era incompatível com o atual desperdício de cérebros. Em suas
palavras, “O desenvolvimento da tecnologia necessária à reenergização do Criador requer
um aproveitamento mais racional da inteligência Humana”.

Mas, afinal, que desperdício de cérebros é esse?


19. A Humanidade Reduz o Desperdício de
Cérebros
O enorme desperdício de inteligência pela Humanidade começou a afligir o Profeta
Eliot. Esse desperdício poderia comprometer o êxito do Projeto S.O.S.

Em várias ocasiões, Eliot lamentara o elevado número de cérebros que tiveram seu
desenvolvimento prejudicado pela fome e pela doença, e a quantidade ainda maior de
cérebros subutilizados devido ao analfabetismo ou a uma educação deficiente. Mas não era
essa a sua maior preocupação. A melhoria nas condições de vida e a prioridade à educação
iriam resolver esses problemas.

Havia também o desperdício de inteligência gerado pelo desemprego. A propósito, um


amigo economista dissera a Eliot que uma forma de acabar com o desemprego seria colocar
metade dos desempregados furando buracos e a outra metade tapando os buracos furados.
O problema, ressaltou o economista, é que teriam de pagar salário zero aos ex-
desempregados porque não estariam gerando riqueza. Acrescentou então que os órgãos de
governo que têm mais funcionários do que precisam estão, na verdade, empregando
pessoas - os excedentes - para furar buracos e tapar buracos, com o agravante de
precisarem, para “trabalhar”, de salas, computadores, cadeiras, mesas, telefones, papel,
vaga na garagem, às vezes até de secretárias, e não apenas de pás e picaretas. E recebem
salários! Mas o desemprego também não era a preocupação que tirava o sono do
Profeta. Eliot sabia que os investimentos em Ciência e Tecnologia exigidos pelo Projeto
S.O.S. e os avanços sociais que o acompanhariam fariam do desemprego um tema
do passado.

Eliot reconhecia o impacto negativo resultante da falta de habilidade gerencial tanto no


governo como na iniciativa privada. Ineficiência e incompetência afetam atividades que
vão do planejamento aos trabalhos de rotina, mas esse tipo de desperdício não era a
principal causa das dores de cabeça do Profeta. Ele sabia que melhorias na educação
profissional resolverão esse problema.

Ainda com o foco no governo, o Profeta também previa que os avanços na educação, muito
mais que a punição, iriam eliminar o desperdício de inteligência devido a práticas
condenáveis como o clientelismo, o nepotismo e outros tipos de favorecimento aéticos ou
mesmo ilegais.

Eliot jamais se queixou do trabalho desnecessário gerado pela falta de civismo como a
substituição de placas de trânsito vandalizadas, a pintura de prédios pichados e a
necessidade de desobstruir redes de esgoto entupidas pelo lixo jogado nas ruas. Esses
problemas também seriam resolvidos com a modernização das escolas e o novo perfil do
professor.

Também não lastimava o tempo gasto em atividades de lazer. Eliot aprendera que a
qualidade de vida de uma pessoa se mede pela quantidade de coisas inúteis que ela faz:
“Conversar com os amigos, ouvir música, ir ao cinema, tomar sorvete, viajar, pescar, dançar,
namorar, beijar são atividades que não criam nada de útil, mas dão sabor à vida(1)”. O
Profeta até brincava dizendo que “se o único critério fosse a utilidade, a rosa jamais teria o
prestígio do repolho”. Ademais, Eliot sabia que é nesse ambiente de descontração que as
pessoas, despreocupadas, dão asas à imaginação e se tornam mais criativas - crença
defendida pelo famoso cientista neozelandês Ernest Rutherford, o pai da física nuclear, que
acreditava que conversar com familiares e amigos, viajar, divertir tornava o cientista mais
produtivo.

A preocupação que de fato afligia o Profeta Eliot, que vinha lhe roubando noites de sono há
várias semanas, era mais grave e mais perversa. É a extensão do envolvimento da
Humanidade em atividades criminosas.

* * *

Para o Profeta Eliot era inadmissível a dissipação de tantos recursos e de tanta energia
intelectual em ações ilícitas, e em seu combate, como ocorre hoje. Mais uma forte razão
para as religiões trabalharem na construção de um Novo Homem que, voltado para o
Próximo, tenha como valores básicos a Honestidade, a Bondade, a Solidariedade, a Paz e o
Amor. E, parafraseando Victor Hugo, repetia: “Precisamos de mais e melhores escolas, e de
menos prisões”.

Pesquisas indicam que mais de 30% dos empregos existentes nos países desenvolvidos - os
mais éticos - são gerados pela necessidade de enfrentar a desonestidade e a violência
criminosa. São os profissionais que se dedicam a prevenir, combater e punir a ilegalidade, e
que vão do juiz e do promotor aos fabricantes de trancas e fechaduras, passando pelos
policiais, funcionários de presídios, guarda-costas, porteiros e auditores nas empresas
públicas e privadas(2).

Essa percentagem (30%) não inclui as pessoas que trabalham para sanar problemas
gerados pela violência e pelo crime, como bombeiros (incêndios criminosos), médicos,
fisioterapeutas, enfermeiras e todo o pessoal de apoio dos hospitais (ferimentos a bala e a
faca, envenenamentos e abuso das drogas). Temos também os profissionais e funcionários
das clínicas para recuperação de drogados. E os psicólogos e psiquiatras que cuidam de
indivíduos traumatizados pela violência, do assalto a mão armada que apavorou o velhinho
à criança desajustada vítima de maus tratos.
A rigor, deveria também ser considerado o tempo despendido pelo cidadão de bem
convocado para servir nas cortes como jurado ou testemunha, assim como a redução na
produtividade do cidadão estressado pelo medo de ser assaltado ou sequestrado.

Também não estão computados nos trinta por cento repórteres, funcionários de jornais,
revistas e agências de notícia, além de radialistas, editores e apresentadores que tiram pelo
menos parte de seu sustento noticiando atividades criminosas. Alguns levam seu trabalho
exageradamente a sério, como ocorreu no estado brasileiro do Amazonas.

A cidade de Manaus, capital do Amazonas, foi palco, em 2009, de um caso notável de


dedicação ao telespectador. Um apresentador de televisão, deputado estadual, tornou-se
conhecido pelos furos ao noticiar crimes violentos. Descobriram então que ele, o âncora do
programa, encomendava as mortes que noticiava(3): “Apresentador de TV no Brasil ordena
assassinatos para alimentar sua audiência”, divulgou a mídia nacional e internacional.

Igualmente patética foi a descoberta, no Japão, de uma velhinha centenária embalsamada. A


idosa “não podia morrer” para que alguém continuasse recebendo os benefícios a que ela,
viva, fazia jus(4) . Não é à toa que dizem que falta de notícia é boa notícia.

Completando o quadro de horror, para se chegar ao total de pessoas sustentadas pelo


crime é preciso somar os próprios criminosos. Agindo fora da lei, em tempo integral, estão
traficantes de armas e de drogas, ladrões de automóvel, contrabandistas, chantagistas,
sequestradores, membros das quadrilhas organizadas para roubo de caminhões de carga e
seus receptadores, ladrões de caixas eletrônicos, negociantes de documentos falsificados,
agenciadores de empregos fantasmas, e muitos outros fora-da-lei. Frutos da modernidade,
cresce agora o número de golpistas da internet.

O crime organizado gera uma quantidade significativa de ocupações na produção,


distribuição e venda de drogas, de remédios falsificados e de combustível adulterado, além
dos objetos de marca e artigos de luxo pirateados. É também relevante o número de
pessoas sustentadas pelo jogo ilegal, pela exploração da prostituição e pela venda de
proteção.

Há também aqueles que praticam o crime em tempo parcial como os políticos, funcionários
públicos e agentes da lei que aceitam, às vezes exigem, propinas, assim como seus
corruptores (ou vítimas).

Os falsificadores de pinturas, esculturas, peças arqueológicas, passaportes e papel moeda


merecem menção à parte - são os artistas que aderiram ao crime. A atração exercida pelo
dinheiro fácil não foi reprimida por valores morais sólidos. Nesse grupo podem ser
enquadrados os grandes hackers da internet, criminosos cada vez mais sofisticados. Esses
profissionais do crime de forma alguma se comparam aos piromaníacos que apreciam a
destruição e se deleitam em botar fogo em casas e florestas apenas para apreciar a cena.
Há de se considerar também os cidadãos legalmente honestos - entre eles contadores,
secretárias, telefonistas e motoristas - que, conscientemente ou não, prestam serviço para o
criminoso ou para organizações criminosas. E não vamos nos esquecer dos advogados:
todo criminoso que se preza tem pelo menos um bom advogado. Tampouco das instituições
financeiras que cooperam com o crime participando da lavagem de dinheiro.

Eliot pode, assim, avaliar a dimensão do desperdício de energia intelectual em atividades


antissociais que vão do simples furto no supermercado, obrigando o estabelecimento a
instalar câmaras de vigilância e a contratar seguranças, aos golpes bilionários em
instituições públicas e privadas.

Um desafio para todas as sociedades é não permitir que o número de pessoas que vivem do
crime, praticando ou combatendo, exceda em muito a metade da população adulta. Talvez
por isso algumas sociedades tenham aprendido a fazer concessões à ilegalidade. Na esfera
pública tem sido conveniente fechar os olhos para a falta de lisura em certas concorrências
públicas, na construção de uma obra desnecessária, no superfaturamento de estradas,
pontes e prédios públicos, nas obras inacabadas que vão de viadutos a hospitais. Pode
também ser conveniente não perceber a contratação fraudulenta de uma empresa de
serviços, a aprovação de uma indenização absurda, o tráfico de influência, a venda de
sentença por um juiz relapso, a existência de funcionários públicos que recebem sem
comparecer ao trabalho. O mesmo procedimento pode ser adotado em casos de vazamento
de informações privilegiadas, de conflito de interesses, de nepotismo.

Na esfera particular, já é tradição no Terceiro Mundo (menos comum no Primeiro) aceitar


um ou outro caso de lavagem de dinheiro, fraude bancária, falência criminosa, cassino
clandestino, máquinas caça-níqueis ilegais, trabalho escravo, tráfico de mulheres (e agora
de homens) para a prostituição, comércio de material pornográfico, crimes ambientais
(como desmatamentos ilegais e tráfico de animais ameaçados de extinção) e a produção de
um ou outro diploma falso de curso superior. Pode também ser conveniente fazer vista
grossa para o uso ocasional de drogas por pessoas de bem. Diante da falsificação de
remédios, tornou-se preciosismo em muitos países conferir se o peso, a composição ou a
quantidade do princípio ativo são os que constam no rótulo.

Estendendo esses benefícios (impunidade) às classes menos favorecidas, é comum que se


aceite o roubo coletivo de energia elétrica em comunidades de baixa renda
mediante ligações clandestinas (gatos), os saques a caminhões que tombam e a trens que
descarrilam, o roubo no troco ou na pesagem de mercadorias de baixo valor, uma ou outra
briga de torcidas de futebol que não resulte em óbito, e a tradicional violência doméstica,
desde que não termine em morte ou ferimento grave.

No Terceiro Mundo, também é possível possível conviver com o golpe do bilhete premiado,
com o comércio de pedras preciosas, joias e ouro falsos vendidos como verdadeiros, ou
com um golpe criativo que leve as economias da viúva solitária e carente. Pode ser
conveniente ignorar o motorista de táxi cujo taxímetro foi “acelerado” e o cambista que
revende, a preços extorsivos, entradas para os clássicos do futebol.
Também pode ser conveniente fazer vista grossa para o funcionário do hospital que recebe
por horas não-trabalhadas; e não perceber a emissão de atestados médicos que,
indevidamente, justifiquem ausências no trabalho ou aposentem indivíduos saudáveis por
invalidez. Pode-se ignorar a realização de um ou outro exame ou cirurgia desnecessários.

No combate ao crime, autoridades que aceitam que os fins justificam os meios defendem
que pode não ser conveniente colocar na cadeia o hacker que se mostrou genial. Talvez seja
melhor, argumentam, cooptá-lo oferecendo-lhe um emprego com mordomia (sala,
secretária, motorista) e salário de executivo.

Quanto aos crimes de natureza sexual, a pedofilia e o estupro são inaceitáveis, mas algumas
sociedades entendem que se pode conviver com casos suaves de exibicionismo, desde que
o indivíduo se limite a mostrar, de longe, as suas partes mais íntimas.

Se o racismo é crime inafiançável, faltas menos graves cometidas por indivíduos que
teimam em não observar as normas do politicamente correto (dizer, por exemplo, que
alguém está muito acima do peso usando palavras inapropriadas) devem ser punidas
verbalmente ou com a realização de trabalho comunitário, jamais com a prisão.

Alguns especialistas recomendam a liberação de algumas drogas, como a maconha, visando


a diminuir o número de criminosos tanto do lado da oferta como da demanda, reduzindo-se
assim o árduo e oneroso trabalho de repressão. Mas há quem se oponha tenazmente a tais
concessões ao vício.

Estima-se que a soma dos dois grupos, as pessoas que vivem de atividades ilícitas e as
pessoas que vivem para combatê-las, ultrapasse os 45% das ocupações na maioria dos
países. Felizmente, no futuro, o intelecto dessas pessoas - criminosos e indivíduos que
combatem o crime - será canalizado para fazer avançar o conhecimento de que o Homem
precisa para se salvar e salvar seu Criador.

* * *

Eliot também lamentava a enorme quantidade de energia intelectual desperdiçada em


preparativos para confrontos militares. É assustador o quanto os países gastam
organizando-se para a eventualidade de um conflito. Aproximadamente metade dos
cientistas, em todo o mundo, trabalha em tempo parcial ou integral para fins militares(5).

Opondo-se ao argumento da indústria de armamentos de que as pesquisas bélicas geram


invenções úteis à sociedade, Eliot retrucava dizendo que tais benefícios podem ser obtidos
através dos investimentos previstos no Projeto S.O.S., como o estabelecimento de colônias
em outros planetas e a construção de espaçonaves-cidade para viajar pelo espaço.

Eliot tentou imaginar o quanto a Humanidade ganharia com a canalização dos gastos
militares para os centros de Ciência e Tecnologia do Primeiro Mundo e para a construção
de escolas no Terceiro Mundo: “É o que ocorrerá no futuro”, suspirava (6). O Profeta
lembrou-se então de que Deus prometeu tratar com carinho os que lutam pela paz na
Terra(7).

Voltando-se agora para a energia intelectual gasta em outras atividades que não a
desonestidade, a violência e a guerra, Eliot propôs que a maioria dos mosteiros fossem
transformados em laboratórios de pesquisa e que os monges, já treinados em meditação, se
convertessem em pesquisadores que não se envergonhariam de usar o método agnóstico
da pesquisa científica. Enquanto os monges tradicionais se entregassem à contemplação e à
oração, os monges cientistas buscariam alcançar o mesmo estado de graça e pureza d’alma
aprofundando-se nos mistérios da Ciência.

Para Eliot, o monge católico Gregor Johann Mendel é um exemplo do que propunha. Mendel
soube meditar, orar e cuidar dos jardins do mosteiro agostiniano onde viveu e, ao mesmo
tempo, desenvolver as pesquisas revolucionárias que fizeram dele o pai da genética. Eliot
também defendia que os televangelistas deveriam promover em seus sermões a adesão dos
fieis ao Projeto S.O.S., convencendo-os a se comprometerem de corpo e alma com a
salvação do Criador.
20. Valorizando a Vida na Terra
O Profeta Eliot preocupava-se com a sobrevivência do Homem. Ele estava ciente de que
chegará o momento em que a Terra não terá mais condições de servir de morada para a
Humanidade. Muito antes que o sol se expanda, destruindo a Terra(1), a ocorrência de
desastres naturais de proporções gigantescas é quase uma certeza.

Cientistas já haviam mostrado a Eliot que poderemos deixar de existir ao longo dos
próximos milênios vitimados por catástrofes como uma erupção vulcânica de grandes
proporções que venha a cobrir o Planeta de cinzas. A exemplo do que pode ocorrer com as
explosões atômicas, essas cinzas poderiam criar uma barreira para os raios solares que
chegam à superfície da Terra, reduzindo a produção de alimentos e eliminando pela fome
os animais de maior porte - entre eles o Homem. O Profeta sabia também dos riscos de
destruição da Humanidade pela ação de tsunamis gigantes que inundem os continentes, ou
devido à queda de um meteorito gigante ou de um asteroide como aquele que extinguiu os
dinossauros(2).

“Antes que uma tragédia dessas proporções aconteça”, raciocinava Eliot, “pelo menos parte
da Humanidade deverá estar vivendo fora da Terra, em cometas, outros planetas, ou em
espaçonaves-cidade construídas para viajar pelo cosmos”.

Assim, para assegurar a sua sobrevivência, o Ser Humano terá de desenvolver os meios
para lançar-se ao espaço. Mas antes terá de aprimorar seus valores morais para que não
provoque a própria destruição, seja pelo despreparo para conviver com seu semelhante,
seja pela forma irresponsável de relacionar-se com o planeta Terra, hoje a sua única
morada. A agressividade do Ser Humano, tão importante para a sua sobrevivência em
tempos pré-históricos, poderá agora - se não for controlada pela razão - conduzir a
Humanidade a uma guerra nuclear de proporções devastadoras ou, quem sabe, ao uso por
mentes insanas de armas químicas, bioquímicas ou biológicas de elevado poder de
destruição.

“É preciso que as religiões - além de educar seus seguidores - pressionem as autoridades


governamentais para que problemas como a poluição de lagos, rios e mares, o
desmatamento das florestas tropicais e as mudanças climáticas estejam na agenda dos
líderes mundiais. A Terra é um ser vivo sujeito à morte”, repetia Eliot. “É nosso dever
impedir que ela adoeça”.

Eliot não se cansava de repetir que, à medida que for desenvolvendo o conhecimento
técnico-científico necessário para salvar seu Criador, a Humanidade, paralelamente,
aumentará sua capacidade de auto-aniquilar-se. Ele não perdia uma única oportunidade
para repetir que “a persistir as tendências do passado, corremos o risco inaceitável de
estarmos preparando uma grande catástrofe: crianças irresponsáveis não podem ter acesso
a armas carregadas prontas para disparar e a frascos de veneno fáceis de abrir e de
quebrar”.

Certa vez Eliot não se conteve e, apelando para a ironia, citou o presidente John F. Kennedy:
“Se algum dia descobrirmos algum planeta em que a vida inteligente foi extinta, podemos
concluir que seus cientistas eram mais brilhantes do que os nossos”.

O Profeta Eliot recordou pesaroso as previsões do passado, que acabaram se revelando


“pessimistas” quanto à geração de conhecimento (visto que as descobertas científicas e as
inovações tecnológicas sempre ultrapassaram as estimativas mais otimistas), mas que
sempre se mostraram “otimistas” quanto à evolução moral e espiritual do Homem (porque
nunca alcançamos os níveis esperados). Na visão de Einstein, “É aterrorizante constatar o
quanto o desenvolvimento tecnológico excedeu nossa humanidade(3)”.

É preciso que o crescimento ético-moral-espiritual do Ser Humano torne a violência contra


seu semelhante uma coisa do passado: “Bem-aventurados os pacíficos porque serão
chamados filhos de Deus”, recitou Eliot, recordando o Sermão da Montanha. E pediu aos
seus seguidores para divulgar que não apenas um, mas os quatro evangelhos, registram o
apelo de Jesus para que amemos o nosso semelhante(4). “Amar ao próximo como a si mesmo
é hoje uma questão de sobrevivência para a Humanidade”.

Eliot exortou seus companheiros de fé a divulgarem o quanto o Projeto S.O.S. irá acelerar a
geração de conhecimento: “Não podemos subestimar o que representará para a pesquisa
científica e tecnológica a participação de indivíduos intelectualmente mais preparados e em
maior número devido à melhoria na qualidade do ensino. Sabemos que esses indivíduos
terão seus cérebros aprimorados pelas intervenções genéticas que o Homem fará em si
próprio(5)”, enfatizava o Profeta. “Os cérebros geneticamente modificados do futuro serão
muito mais eficientes do que os atuais. E trabalhando acoplados a sofisticados sistemas de
computação - dispositivos que hoje não somos sequer capazes de imaginar -, esses cérebros
criarão, no devido tempo, as inovações que permitirão ao Homem salvar seu Criador”.

Portanto, ao mesmo tempo em que se qualifica para salvar o Criador e Lhe fazer
companhia, o Homem irá assumindo o seu papel de semideus do universo. Mas precisará,
antes de tudo, de adquirir suficiente sabedoria para lidar com tamanho poder sem o risco
de autodestruir-se.

Em uma de suas palestras sobre a sobrevivência da Humanidade, Eliot teve de conter-se


para não ser rude. É que foi interrompido bruscamente por um senhor de terno e gravata
escuros sentado na primeira fila, que usou o exemplo da Atlântida para defender a
necessidade do crescimento moral do Ser Humano. Segundo ele, os atlântis teriam
desenvolvido extraordinários poderes psíquicos. Houve então um confronto entre os bons
e os maus, em que foram utilizadas forças mentais avançadíssimas, resultando na
destruição daquela civilização. O eloquente orador terminou afirmando que “jamais
permitiremos que tragédias como esta voltem a acontecer”. Apesar de suas dúvidas sobre
o episódio da Atlântida, Eliot agradeceu a sua participação, informando-o que sua
contribuição constaria da ata daquela reunião.

Resumindo, para salvar o Criador, o Homem terá de assegurar a sua própria continuidade
neste mundo. Para isso, enquanto desenvolve os meios para lançar-se ao espaço, terá de
aprender a amar ao próximo e a cuidar do Planeta. Para cuidar e proteger o Planeta, o
Homem terá de ampliar seu olhar de modo a incluir todos os seres vivos em seu espaço de
amor e compaixão(6).

* * *

Eliot aprendeu que o Homem precisa se ver como parte da Natureza, e não como seu dono.
Do contrário, estará condenado, na melhor das hipóteses, ao retrocesso, e na pior, ao
desaparecimento. Ao longo dos últimos séculos, o desejo de compreender e contemplar a
Natureza foi cedendo espaço para a vontade de controlá-la e manipulá-la para a produção
de riqueza. Foi um grande avanço. Mas veio o exagero. Hoje sabemos que se toda a
Humanidade vier a alcançar o nível de consumo dos países mais desenvolvidos - que
continua crescendo - precisaremos de seis ou mais planetas Terra para atender às
necessidades de matérias-primas. Se esta estimativa for pessimista e precisarmos de
apenas duas ou três Terras, nada muda pois só temos uma.

Além de se conscientizar de que tem de amar o próximo, a Homem terá também de amar a
Terra, de sentir ternura por este Planeta. Todas as religiões, sem exceção, terão de
trabalhar para construir esse novo sistema de valores, cujo ponto de partida será a
racionalização do consumo. Se há cem anos as escolas mostravam às crianças provas de
que a Terra é redonda - a projeção arredondada da Terra na lua durante os eclipses e a
visão em primeiro lugar do mastro dos navios no horizonte -, hoje precisam mostrar aos
jovens que ela é um planeta frágil, de recursos finitos, suplicando por nossa atenção:
“Precisamos reduzir o consumo supérfluo, dispensando os bens descartáveis. Nada de use
‘uma vez e jogue fora’. Precisamos aprender a obter o máximo de bem-estar com o mínimo
de consumo”(7). Não podemos permitir que vantagens econômicas imediatas ameacem
ecossistemas e a própria vida no Planeta”, repetia Eliot.

O Profeta Eliot passou a ensinar que a Terra é um presente de Deus a ser tratado com
carinho. É a casa comum de todos os seres que integram a Criação. É como a árvore que dá
frutos: precisa ser preservada para dar novos frutos amanhã: “Vamos assumir o controle de
nossos desejos por bens materiais”, insistia. “No futuro, o amor ao próximo incluirá
também o amor pelas plantas e pelos animais. Não podemos permitir a destruição das
florestas tropicais, “habitats” de uma enorme variedade de espécies vegetais e animais,
muitas ainda desconhecidas pelo Homem e pela Ciência. As escolas precisam ensinar às
nossas crianças que o empresário que lucra ao derrubar uma floresta, assim como os
trabalhadores que fazem esse trabalho, estão destruindo a si mesmos e a todos nós(8)”. Eliot
percebeu então quanta sabedoria contém o ensinamento, “Quem planta uma árvore que
produz frutos que alimentam um homem, um pássaro ou qualquer animal será
recompensado na outra vida(9)”.

Portanto, para sobreviver precisamos moderar, ou reduzir, o consumo de bens e serviços


que cresce a cada dia. “O crescimento pelo crescimento é a ideologia do câncer”, aprendeu
Eliot. “Produzir mais bens materiais poluindo o meio ambiente e esgotando recursos não
renováveis deve sair de moda”, desabafava. “John Steinbeck(10) tocou no ponto certo: O
homem é o único animal que bebe sem ter sede e come sem ter fome(11)”.

Os novos tempos exigem que as qualidades do espírito tenham tanta ou mais importância
que os bens materiais. O novo Ser Humano terá de dar prioridade às qualidades que o
aproximem de seu semelhante e o ajudem a proteger o Planeta. Em lugar de exibir o carro,
a casa, o iate, a roupa de marca, as pessoas precisam aprender a dar valor a atividades que
não consumam matéria-prima nem poluam.

* * *

O Profeta Eliot jamais falava em reduzir a poluição e o consumo de matérias-primas sem se


referir à população da Terra: “Existindo há mais de cem mil anos, o Homo Sapiens só atingiu
o primeiro bilhão por volta de 1804. Mas em 1927 já éramos dois bilhões, em 1974 quatro
bilhões e em 2025 seremos oito bilhões(12)”. Visto de outro ângulo, foram necessários
milhares de anos para que o Homo Sapiens atingisse o seu primeiro bilhão, mas o segundo
bilhão veio em pouco mais de um século, o terceiro em três décadas e o quarto em cerca de
quinze anos(13). Com o aumento da população crescem o consumo de recursos naturais não
renováveis, a contaminação da água, do ar e do solo, a extinção de vegetais e animais, e a
utilização de produtos químicos danosos aos Seres Humanos e ao meio-ambiente. “Sem
uma redução radical em nossos hábitos de consumo, o Planeta não terá condições de
sustentar tanta gente”, alertava Eliot.

Aos líderes religiosos que se opunham ao controle da natalidade, Eliot lembrava que Deus
ordenou ao Homem que crescesse e multiplicasse quando havia apenas duas pessoas na
Terra, Adão e Eva(14). Até a Revolução Industrial, os elevados índices de mortalidade
recomendavam as proles numerosas(15). Reproduzir era então sobreviver. Mas as condições
mudaram. Como percebeu Hipócrates, a diferença entre remédio e veneno está na
quantidade.

Uma outra maneira de ver esta questão é considerar os 4,5 bilhões de anos de existência da
Terra como se fossem 24 horas. A vida teria começado às 3:30h da manhã e os dinossauros
surgido no período Cambriano, que teve início às 23:00h, deixando de existir às 23:40h. A
extinção dos dinossauros permitiu a evolução dos mamíferos e, apenas nos 74 segundos
finais, a Terra vem a conhecer os humanos anatomicamente modernos. Somente nos
últimos três segundos surge o Homo Sapiens(16), que vem sendo hoje acusado de provocar,
nos milésimos de segundo mais recentes, mudanças climáticas danosas ao Planeta.

* * *
Eliot recordou o sonho em que um arcanjo chamou sua atenção para o privilégio que é
viver. Só os que têm muita sorte vêm ao mundo: “Veja, Eliot, o que foi necessário para que
você nascesse. Foi preciso que seus pais, que viviam em cidades distantes se encontrassem, se
sentissem atraídos um pelo outro e se casassem. Bastaria que naquele ano sua mãe passasse
as férias de verão na praia, como costumava fazer, ou que seu pai se ausentasse de Tupelo (17)
naquele fim de semana para que eles jamais se conhecessem. E você estaria condenado à
inexistência.

O Arcanjo prosseguiu:

“Repita este raciocínio para seus avós maternos e paternos, em seguida para os bisavós,
e assim por diante. Verá quanta coincidência foi necessária para que você estivesse
aqui. Mas isso é uma parcela pequena da história. Lembre-se, Eliot, de que o
espermatozóide que deu origem a você teve de competir com milhões de outros e vencer
a corrida. Se os níveis dos hormônios em seus pais fossem um pouco diferentes naquele
dia, ou se a relação amorosa tivesse ocorrido mais cedo, mais tarde, ou em outro dia,
talvez você não tivesse sido concebido. O mesmo vale para seus avós, bisavós, triavós...
E se formos até o início da vida, passando por todos os estágios da evolução? Tudo isso
sem falar nos abortos espontâneos. Você, Eliot, é uma quase impossibilidade que
aconteceu. Você só veio ao mundo porque estava nos planos de Deus.

“O simples privilégio de nascer é algo tão extraordinário que sensibiliza até pessoas que
não creem em Deus. Viver é um prêmio. Veja o depoimento de um pai que perdera o filho
de apenas 17 anos(18):

‘Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai
morrer porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu
lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da
Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats,
cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis
permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas
probabilidades assombrosas, somos você e eu, com toda a nossa banalidade, que aqui
estamos... a grande maioria das pessoas que poderiam ser criadas pela loteria
combinatória do DNA na realidade jamais nascerá.’”

Naquela noite Eliot compreendeu o quanto é extraordinária a vida na Terra. Devemos


valorizá-la e vivê-la intensamente, mesmo sabendo que outra, ainda melhor, nos espera ao
lado do Criador. Esta vida precisa ser protegida, protegendo-se o Planeta.

Conhecendo melhor o pensamento de Deus, o Profeta Eliot pode entender o valor que Ele
dá à vida dos Seres Humanos na Terra. O Criador não quer que descuidemos de nossa curta
passagem por este mundo(19) - não há dúvidas de que Seu desejo é que embarquemos
sorridentes para a viagem sem retorno ao Paraíso, onde desfrutaremos de Sua intimidade e
seremos servidos por anjos e arcanjos para todo o sempre. Eliot aprendeu que a felicidade
nesta vida faz parte da preparação para a outra vida, a eterna, e devemos desfrutá-la com
alegria para não nos sentirmos atordoados com o choque de felicidade que
experimentaremos ao adentrarmos o portão de entrada para o Reino dos Céus.

* * *

O Homem vive hoje muito mais do que seus antepassados - a expectativa de vida nos
Estados Unidos, por exemplo, subiu de 48 anos em 1900 para 77 em 2000(20). Tal avanço
ocorreu porque aprendemos a produzir mais alimentos, melhorando a nossa nutrição;
aprendemos a tratar a água que bebemos e a construir redes de esgoto, reduzindo as
chances de contaminação por micro-organismos patogênicos; pesquisamos para conhecer
melhor o corpo Humano e suas enfermidades, capacitando-nos a prevenir e a combater
doenças. Esse progresso deverá agora ser acelerado e estendido a toda a
Humanidade(21). Mas Eliot não se cansava de repetir que o papel da Ciência não deve ser o
de estender a vida, mas tornar a juventude mais longa. Para ele, o importante é chegar aos
cem anos jovem. Não será difícil com as descobertas científicas que estão a caminho,
notadamente na área da engenharia genética e da nanotecnologia.

* * *

Nanotecnologia, cujo objetivo é revolucionar a medicina, a produção de energia e a ciência


da informação, atuando no nível dos átomos e das moléculas, promete que em breve não
vamos mais esperar que um órgão se deteriore completamente para substituí-lo via
transplante(22). Tão logo o coração, o fígado ou o pulmão apresente falhas, iremos reproduzi-
lo artificialmente fora do organismo e fazer o transplante sem riscos de rejeição, já que o
novo órgão será gerado a partir de células do próprio indivíduo. Não vamos chamá-lo de
paciente, pois não estará doente.

Também graças à nanotecnologia, não iremos esperar anos para descobrir a existência de
um tumor canceroso. As primeiras células cancerosas serão detectadas e imediatamente
tratadas com medicamentos que não terão os efeitos danosos da quimioterapia de hoje. A
nanotecnologia promoverá notáveis melhorias na saúde e nas condições físicas a partir de
intervenções em nossa biologia.

Se Deus, desenergizado e em repouso, não pode nos ajudar, nós, os Seres Humanos, não
iremos mais contar com a sorte. Não podemos confiar em novas coincidências felizes como
as que nos trouxeram até aqui. Um exemplo ilustrativo do acaso favorável foi o antepassado
do Homem levantar-se sobre as duas patas traseiras para ampliar seu campo de visão. Foi
para enxergar mais longe, e não para se locomover mais rapidamente ou economizar
energia, que ele se levantou sobre duas patas, liberando duas pernas e patas que, com o
tempo, se transformaram em braços e mãos(23).

A nanotecnologia também fará surgir passatempos inovadores como projetar cachorros e


gatos nas formas e dimensões que mais nos agradem para servirem de diversão e
companhia(24) para as pessoas, principalmente os idosos. O mais relevante, porém, será a
geração de filhos mais inteligentes, saudáveis e bonitos.

PARTE 05

A VIDA DO PROFETA APÓS A GRANDE REVELAÇÃO

21. A Criação de Mitos e Lendas sobre o Profeta


No início, Emmanuel W. Eliot teve dificuldades para lidar com sua reputação de Profeta. Às
vezes se assustava com a segurança que inspirava em seus seguidores: “Será que mereço
tamanha confiança?”, se indagava cheio de dúvidas. Afinal, destoando dos profetas do
passado, Eliot jamais realizara qualquer milagre, ou participara de algum feito sobrenatural
mirabolante. Tampouco presenciara um único acontecimento espiritual extraordinário,
mesmo à distância. Só teve os sonhos.

Eliot jamais curou um único enfermo ou ressuscitou um único morto, ao contrário do


Profeta Ezequiel que fez renascer um “exército” de homens já há muito falecidos, a partir de
seus ossos ressecados(1). Se ajudou algum doente foi levando-lhe apoio e solidariedade, pois
acreditava que cabe aos médicos a tarefa de curar. Enfermos e desesperados podiam contar
com suas palavras de encorajamento e de afeto, mas eram sempre aconselhados a buscar a
ajuda de profissionais da saúde.

Também jamais caminhou entre as estrelas, como aquele xamã mongol dos tempos de
Genghis Khan(2) que percorreu longas distâncias pelos Céus montado em seu corcel
branco. Nem se desprendeu do próprio corpo para, em companhia de espíritos superiores,
sair pelo universo à procura das grandes verdades cósmicas. Não lhe foi concedido o
privilégio de ver os Portões do Paraíso, como o Profeta João, o autor do Livro do
Apocalipse, que chegou a atravessá-los(3). Tampouco se imaginou chegando vivo ao Reino
de Deus, como o profeta Henoc(4).

Eliot nunca sonhou em participar de passeios celestiais carregado por anjos, ou em viver
façanhas como a de São Jorge que, empunhando uma simples lança, enfrentou um dragão
que soltava labaredas de fogo pelas narinas. Não recebeu o dom de falar em línguas que
desconhecesse, nem teve visões em que recebesse mensagens de santos, como Joana
D’Arc. E não se considerava um novo Zacarias, que não apenas via e ouvia anjos, mas falava
com eles de igual para igual(5).

O Profeta Eliot jamais foi ajudado por criaturas celestiais. Não era santificado como Elias
que, faminto no deserto, foi alimentado por um anjo e assim teve forças para caminhar
quarenta dias e quarenta noites até o Monte Horeb(6). Também não foi protegido como
Daniel que, atirado à cova dos leões, sobreviveu com a ajuda de anjos enviados pelo Senhor
para salvá-lo: os anjos fecharam a boca das feras, impedindo que elas o devorassem(7).

Completando o quadro, Eliot nunca conversou face a face com Deus - privilégio concedido a
Abraão e a Moisés(8) - nem teve qualquer contato físico com Ele, como Jacó, que lutou corpo
a corpo com o Senhor. Jacó se debateu com Deus durante toda uma noite e O venceu,
aceitando mudar seu nome para Israel. Jacó significa trapaceiro, nome que reflete o modo
desleal como agiu para enganar seu pai Isaac a fim de receber dele a benção reservada a
seu irmão Esaú. Israel, no entanto, é aquele que derrotou Deus(9).

O Profeta Eliot se considerava - sem que isso atingisse sua auto-estima - um Profeta menor.
A aparente falta de intimidade com Deus em nada o incomodava. Não se importava por não
ter sido agraciado com a visão de uma escada que fosse até os Céus com anjos subindo por
ela, como Jacó(10). Eliot entendia que fora escolhido por Deus para ser seu mensageiro, e não
para companheiro, como Abraão e Moisés. Sentia-se até honrado pela visita dos anjos que
apareceram em seus sonhos: “Não foi um anjo que disse a José que desposasse a Virgem
Maria, assegurando-lhe que a criança que ela concebera era filha do Espírito Santo?(11) Não
foi um anjo que pediu a Felipe, o Evangelista, que ajudasse um eunuco etíope a
compreender as Escrituras(12)? Não foi também um anjo - o mesmo Arcanjo Gabriel de José e
Maria - que informou Zacarias que sua mulher Isabel, até então estéril e em idade avançada,
ia ter um filho, João Batista(13)?” O fato de os anjos lhe aparecerem somente em sonhos,
jamais no mundo da realidade, não o incomodava.

Eliot se surpreendia com a admiração que despertava nas pessoas. Achava que não
merecia tamanho respeito, pois tinha consciência de que não estava ao seu alcance realizar
proezas como parar o sol, como fez Josué, andar sobre as águas de um lago, como Pedro,
abrir caminho no mar, como Moisés, ou visitar o Céu em vida, como Maomé. Nem em
sonhos se viu interrompendo o curso de um rio para atravessá-lo, como fizeram Josué e
Elias. Transformar vara em cobra? Nem pensar!
Eliot se sentia muito distante da imagem que ele próprio fazia de um profeta. Para ele, o
típico profeta era um indivíduo excêntrico, fanático, de poucos amigos, emocionalmente
instável. Talvez fosse esse seu jeito de ser a razão da escolha divina: Eliot daria
credibilidade à Grande Revelação por ser uma pessoa, digamos, “normal”.

Para Eliot, o texto que escrevera sobre sua peregrinação pelo Caminho de Abraão era
apenas um relato de seus sonhos sobre a bondade de Deus. Mas o fato é que o folheto
repercutiu mundo afora. Veio então a Grande Revelação.

* * *

A Grande Revelação fez de Eliot o profeta mais respeitado do último milênio, um dos
maiores de todos os tempos. Fora ele o escolhido por Deus para divulgar o Seu segredo
mais íntimo, talvez Seu único segredo. Ficou famoso. Muitas pessoas iam à igreja que ele
frequentava apenas para vê-lo e admirá-lo, já que poucos se atreviam a abordá-lo - um
olhar, um sorriso à distância já eram suficientes para produzir felicidade. Ele era o Profeta
Eliot.

O apoio, a simpatia e o carinho de seguidores e admiradores se manifestavam das formas


mais diversas: sorrisos nas ruas, convites para palestras, cartas elogiosas, reportagens
laudatórias, entrevistas na televisão, até convites para apadrinhar casamentos e batizados.
No começo, Eliot procurou atender aos inúmeros pedidos que chegavam sem se descuidar
da carreira de professor-pesquisador, mas não conseguiu conciliar as duas vocações por
muito tempo. A sua fama de homem santo só crescia. Não foi possível ser profeta em tempo
parcial, como brincava seu avô, todo orgulhoso do neto. Até na universidade mais pessoas
o procuravam para que opinasse sobre assuntos religiosos do que para conversar sobre
temas acadêmicos nas áreas em que se destacava. Acabou deixando a universidade para ser
o Homem que conhecia Deus.

Com o passar do tempo, Eliot viu surgir lendas e mitos que exaltavam seus poderes
sobrenaturais. Eram histórias fantasiosas que ele, por mais que se esforçasse, não
conseguia desmentir. Todos queriam acreditar nos poderes divinos do Profeta - ele
conseguiria o que quisesse de Deus. “Vejo que são muitos os que precisam de pessoas
santas para admirar e para se sentirem protegidas”, desabafou. Lembrou-se de uma
reportagem que havia lido dias antes sobre as romarias até a estátua de Padre Cícero, o
protetor dos pobres do Nordeste do Brasil, construída em Juazeiro do Norte, no estado do
Ceará.

Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), o “Padim Ciço”, é um venerado padre católico
que nasceu e morreu naquela região. Os peregrinos que visitam sua estátua são, em geral,
pessoas pobres que viajam longas distâncias à pé ou na corroceria de caminhões, rezando e
cantando hinos religiosos durante o percurso. São fieis que se sentem na obrigação de
agradecer ao “querido Padim Cíço” pela ajuda na cura de uma doença na família, por ter
trazido a chuva quando a roça precisava, por ter ajudado um chefe de família
desempregado a encontrar trabalho, ou por ter arranjado um bom marido para a filha
solteira que já chegava aos trinta anos. Ao ler a reportagem sobre os peregrinos e suas
jornadas, o Profeta exclamou admirado: “Isto é que é ter fé!”.

* * *

Algumas das histórias sobre Eliot eram exageradas, outras ingênuas e tolas o bastante para
preocupar seus amigos mais próximos. Mas não era possível controlar a imaginação dos
admiradores que foram surgindo, alguns visivelmente fanáticos.

Começaram a dizer que a simples proximidade do Profeta Eliot era capaz de aquecer as
pessoas em noites muito frias, e de refrescá-las em dias de calor intenso. O Profeta,
garantiam, funcionava como uma espécie de brisa celestial que afetuosamente aquece e
refresca os corpos mais sensíveis que dele se aproximam, reduzindo tanto o frio intenso
das noites geladas de inverno como o calor escaldante dos dias quentes de verão.

A presença do Profeta também provocava no indivíduo uma incontrolável vontade de ser


bom. Não era aquela bondade abstrata que nos leva a pregar o bem, mas a generosidade
exigente que demanda ações concretas - aquela necessidade de alimentar famintos,
humanizar presídios, proteger o meio-ambiente, fiscalizar políticos corruptos,
especialmente os que se apropriam de verbas da merenda escolar.

A simples proximidade de Eliot fazia nascer, crescer e florescer o desejo de amar o


próximo, induzindo até empresários atarefados a tomar decisões inesperadas como
levantar de madrugada à procura de um mendigo para conversar ou um aflito para
acalmar. Alguns viajavam longas distâncias para socorrer vítimas de catástrofes naturais e
de epidemias de toda espécie.

Perto de Eliot, diziam, brotava aquela vontade ardorosa de ajudar os marginalizados pela
solidão, como os idosos esquecidos em asilos, os presidiários abandonados pela família, e
os amaldiçoados moradores de rua - os mal-cheirosos excluídos do convívio social. Até
pivetes irrecuperáveis foram vistos ajudando cegos e velhinhos a atravessar a rua em horas
de tráfico intenso.

Havia também casos como o daquela idosa que, ao tocar o Profeta, desmaiou e,
inconsciente, viu Santa Bernadete protegendo em seu colo o menino Jesus; apesar de
agasalhado, o menino-Deus tremia de frio e chorava de dor. A velha senhora só recuperou
a consciência no hospital, e ali mesmo perdoou a filha adolescente que havia expulsado de
casa. A filha havia cometido o grave pecado de apaixonar-se por um homem casado que a
engravidou. A jovem deu à luz um casal de gêmeas. A velha senhora jamais tinha visto as
crianças que já haviam completado dois anos. Mas tão logo acordou no hospital,
arrependida, ela procurou a filha e naquela mesma noite foi abraçar, pela primeira vez, as
duas lindas netinhas.
Diante de uma simples foto do Profeta, filhos rebeldes se sentiam dominados por um
impulso incontrolável de respeitar os pais, de ajudá-los nas tarefas domésticas, de serem
cordiais com os vizinhos e, diziam, de se afastar das drogas, das más companhias e das
comidas gordurosas.

Só de se pensar no Profeta vinha o desejo irrefreável de oferecer um lenço aos que choram,
um ombro amigo aos desalentados, uma palavra de compreensão a escritores e poetas
abandonados por suas musas.

Para tristeza do Profeta, alguns de seus seguidores cometeram exageros. Entre eles estava
o recém-convertido que fazia vigília em portas de consultórios psiquiátricos para levar a
vítimas de inconscientes desestruturados aquela palavra amiga que pode ser decisiva para
mentes perturbadas em momentos de grande angústia. Um outro seguidor teria tomado a
decisão de frequentar velórios e fazer plantão na entrada de cemitérios em busca de
desesperados para confortar.

Eliot tentava desmentir os exageros que criavam a seu respeito, mas de nada adiantava. O
Profeta caíra nas graças do povo. Se quisesse, diziam, faria milagres. Eliot protestou:
“Milagres não são acontecimentos que contrariam as leis da Natureza, exigindo intervenção
divina para acontecer? Não é egoísmo recorrer a um Deus desenergizado para pedir-Lhe
que faça milagres? Não faço milagres, não tenho sequer coragem de pedi-los a Deus!” Eliot
ameaçou afastar-se de qualquer fiel que atribuísse a ele curas miraculosas ou atos
sobrenaturais.

Enquanto isso, os incansáveis agentes do Mal vigiavam o Profeta, acompanhando todos os


seus passos. Os comandados de Lúcifer se aproveitavam de qualquer oportunidade para
espalhar boatos caluniosos contra ele. Foram seguidores do Príncipe das Trevas que
inventaram que as visitas de Eliot a clínicas médicas e hospitais em nada beneficiavam os
pacientes. Insinuaram que a melhora dos enfermos nada tinha a ver com as orações do
Profeta - tudo não passaria de efeito placebo. Mas os médicos constatavam que a presença
do Profeta fazia com que enfermos se recuperassem em menos tempo, hipocondríacos se
sentissem saudáveis, deprimidos sorrissem e pessimistas adquirissem um novo ânimo
diante da vida.

O Príncipe das Trevas viu que Eliot estava se saindo melhor do que ele previra. Decidiu
então ampliar o número de demônios por conta do Profeta. Após uma seleção criteriosa
entre seus demônios mais competentes, Lúcifer os organizou em sete grupos de sete e os
despachou para agirem contra Eliot e seus seguidores mais próximos. Era preciso impedir a
divinização do Ser Humano.
22. As Tentativas de Desmoralizar o Profeta
As Forças do Mal e seus aliados, agindo como cobras peçonhentas, atacaram Eliot e seus
seguidores em duas frentes de combate: enquanto três dos grupos de sete demônios
procuravam desacreditar o Profeta junto aos seus seguidores, os outros quatro se
dedicavam a criar-lhe novos inimigos.

Foi assim que tentaram jogar contra Eliot as autoridades que apoiam, sem restrições, a
livre empresa e a economia de mercado, espalhando a notícia de que ele seria um socialista
disfarçado. Ao pregar educação para todos, saúde para todos e lazer para todos, Eliot
estaria na verdade promovendo sua agenda secreta.

Nada mais longe da verdade! Eliot tinha consciência do fracasso das experiências
socialistas radicais. O que ele queria era fazer avançar o Amor ao Próximo tal qual pregado
por Jesus, um pré-requisito para o êxito do Projeto S.O.S. O foco de Eliot era sempre a
salvação do Criador. Mas houve quem acreditasse na calúnia infame.

O Profeta Eliot concordava que a economia de mercado é a forma mais eficiente e


democrática de produzir bens e serviços. No entanto, defendia com unhas e dentes que o
planeta Terra vem em primeiro lugar: “Não podemos consumir nossos recursos naturais
não-renováveis tão rapidamente nem poluir o ambiente sem dar tempo ao Planeta de
regenerar-se”, dizia.

Mas o fato é que, estimulados e apoiados por Lúcifer e seus asseclas, os adversários do
Profeta teimavam em desmoralizá-lo. Procurando atrair contra ele a ira dos conservadores
mais exaltados, a maioria empresários e políticos, os inimigos de Eliot o acusaram de não
aceitar a “mão invisível” como a força mágica que age regulando oferta e consumo de bens
e serviços.

Os iniciados em economia conhecem a metáfora da mão invisível(1). O economista pioneiro


Adam Smith percebeu que a contribuição que oferecemos à sociedade onde vivemos tem
origem no mais puro egoísmo: o padeiro fabrica pão, não porque está preocupado com a
fome do próximo, mas por que este é o meio que encontrou para ganhar o dinheiro de que
precisa para viver; o sapateiro produz sapatos, não porque está preocupado com a saúde, o
conforto ou a vaidade das pessoas, mas porque é a sua maneira de ter renda. Pela mesma
motivação age o plantador de arroz, o fabricante de roupas, o produtor de medicamentos, o
chofer de táxi, enfim todos os criadores de riqueza. No final, “corrigindo” a motivação
egoísta, surge uma hábil “mão invisível” que faz nascer, como num passe de mágica, uma
sociedade onde não faltam pão, arroz, sapato, roupa, medicamento, transporte - todos os
bens e serviços de que precisamos.
Pois os adversários de Eliot o acusavam de se opor ao egoísmo como a força propulsora do
mundo, aterrorizando os fundamentalistas da economia de mercado(2), principalmente
aqueles para quem nem mesmo as agências reguladoras deveriam existir. Mas a acusação
não continha nada de verdade.

O que Eliot defendia é que a mão invisível, por si só, não é capaz de cuidar do meio
ambiente e da utilização racional dos recursos não-renováveis, isto é, não é capaz de
promover o desenvolvimento autossustentável: “A mão invisível tem dedos curtos, não
alcança o longo prazo”, garantia um de seus colaboradores versado em economia.

Para proteger a vida na Terra, Eliot, de fato, aprovava algumas ideias, digamos,
revolucionárias. Eram “delírios do Profeta”, diziam seus adversários. Uma dessas idéias era
acabar com a obsolescência planejada: “Para que forçar o consumidor a trocar de carro
todos os anos apenas para ter o carro do ano”? Para Eliot, o Planeta ganharia se os carros
fossem produzidos durante vários anos com a mesma aparência, mas incorporando as
inovações tecnológicas que fossem surgindo. Dessa forma, o consumidor trocaria de carro
quando as inovações justificassem a compra, e não somente pelo prestígio de ter o modelo
mais recente.

E não eram só os carros. Fiel à promoção do desenvolvimento autossustentável, Eliot


acreditava que as roupas deveriam ser feitas para durar e incentivava estilistas,
costureiros, fabricantes, lojistas e a maioria das top models a trabalhar por esse ideal. Se a
celebridade quisesse usar um vestido apenas uma ou duas vezes poderia fazê-lo, mas
deveria encontrar alguém que continuasse com aquela roupa, talvez a prima pobre do
interior ou uma das empregadas de sua casa. Ou então doá-la para instituições de caridade,
vendê-la em garages sales(3) ou em lojas especializadas em roupa usada. Para Eliot, o
terninho da criança de sete anos deveria permanecer no armário para ser usado pelo
irmãozinho de três anos e depois pelo sobrinho que estava para nascer. O Planeta e as
futuras gerações iriam agradecer, garantia.

Mas como continuar produzindo os novos objetos de desejo que a criatividade humana não
para de conceber? Sempre que possível com o reaproveitamento de materiais
reciclados. Para Eliot, os desfiles anuais de moda deveriam continuar, mas para divulgar
roupas feitas a partir de tecidos reciclados, valorizando-se as top models, estilistas e
costureiros que aderissem aos novos tempos.

Eliot sabia que as maiores necessidades do Homem são imaginárias. Uma vez assegurada a
sobrevivência física - alimentação, roupa, moradia, saúde, segurança - restam as
necessidades sociais e do espírito, muitas delas artificialmente criadas, e que, segundo o
Profeta, precisam ser satisfeitas com um mínimo de consumo de bens materiais,
protegendo-se o meio-ambiente. Eliot insistia que a religião deve ajudar a identificar novas
formas de atender a necessidades como ser admirado, ser respeitado, ser amado, sem
agredir o Planeta.
O Profeta Eliot às vezes ia a detalhes. Para ele, ao invés de usar o atleta famoso para
divulgar o carro do ano ou o terno da moda, deveríamos usar seu prestígio para incentivar
a prática de esporte. O jogador de futebol seria mostrado no estádio, de calção, ao lado da
bola; o de tênis, na quadra com a raquete na mão; o nadador, na piscina. Ao invés de
divulgar a atriz vestida por um costureiro famoso, ela deveria ser admirada de biquíni, tal
qual aparece no filme, promovendo o amor às artes cênicas e incentivando a frequência a
cinemas e teatros. “O prestígio das pessoas que admiramos deve ser dirigido para
promover o consumo de bens imateriais”, pregava Eliot.

Pensando no futuro, o Profeta pregava que “devemos promover as pessoas que nos
oferecem diversões amigas do Planeta como atletas, artistas, escritores, poetas, filósofos,
profissionais liberais, assim como os cientistas que trabalham para o avanço do
conhecimento”. E acrescentava: “Também não podemos deixar de enaltecer as lideranças
políticas e empresariais que defendem ideias e comportamentos compatíveis com a
perpetuação do Homem no universo. Vamos fazer delas modelo de virtude para as novas
gerações”.

Eliot recomendou que o Livro dos Recordes (Guinness) destacasse indivíduos e instituições
que sobressaíssem em atividades amigas do meio ambiente (atividades que não poluem
nem comprometem as reservas de matérias-primas não-renováveis), como o autor da
poesia que fez mais pessoas chorar, o cantor que provocou mais desmaios em plateias de
adolescentes(4). Também o padre que celebrou mais missas, o pastor recordista em
pregações, o comediante mais premiado em concursos de humor, a bailarina aplaudida
mais tempo de pé, o jornalista mais citado, as editoras que mais consomem papel reciclado,
a socialite que usou o mesmo vestido mais vezes, e as cidades com maior percentagem de
casais amigos do Planeta.

Casais amigos do Planeta são aqueles que vão para o trabalho sempre que possível a pé ou
de bicicleta; utilizam energia solar para aquecimento doméstico; reutilizam a água do
banho nos sanitários; separam o lixo para reciclagem; procuram não usar objetos
descartáveis de qualquer natureza, plástico ou papel(5). Eles dão atenção a detalhes como
carregar consigo copos de vidro para não usar os copos de papel disponíveis nas salas de
espera de médicos e dentistas.

Adotando um estilo de vida que dá prioridade a atividades que não consomem matérias-
primas, os casais amigos do Planeta frequentam cinemas, teatros, museus e apoiam
programas culturais como bandas e grupos de teatro amador. Para economizar energia em
transporte e refrigeração(6), procuram consumir frutas da época e produzidas na região em
que vivem.

Casais amigos do Planeta não jogam no lixo sobras de medicamentos nem objetos que
contêm metais pesados como pilhas elétricas e computadores usados.
O Profeta Eliot defendia que os casais amigos do Planeta fossem homenageados em
programas televisionados de grande audiência, servindo assim de modelo de
comportamento responsável.

* * *

Eliot tinha consciência do poder dos mecanismos de sedução empregados pela sociedade
de consumo. O carro dos nossos sonhos não apenas transporta, mas confere a seu dono
status, prestígio, admiração, às vezes a esperança de um grande amor - tudo isso sem
considerar o meio ambiente. “Por que não atender a essas necessidades produzindo carros
menores e mais leves que consomem menos aço em sua produção, ocupam menos espaço
nas ruas, garagens e estacionamentos, e gastam menos combustível?”, se perguntava Eliot.
O mesmo raciocínio ele estendia ao jatinho do executivo, ao terno do funcionário público, à
merendeira da criança, ao tênis do adolescente e ao vestido da mocinha. Eliot não se
cansava de repetir: “Precisamos encontrar formas de conquistar admiração, prestígio e
amor que sejam amigas do Planeta.

O Profeta voltou a insistir:

“Também a geração de empregos deve guiar-se pela responsabilidade social. Uma


área prioritária para investimento é o desenvolvimento de novas fontes de energia
limpa e renovável, como a energia solar e seus derivados na Terra - o vento, as
marés, os biocombustíveis(7). Precisamos subordinar a satisfação de nossas
necessidades reais e imaginárias à fragilidade do Planeta.

Admitiu:

“Sei que essas mudanças, imprescindíveis para a realização do Projeto S.O.S.,


contrariam interesses poderosos. Muitas empresas e seus defensores vão partir
para o ataque. Os fundamentalistas do livre mercado são fanáticos. Mas, no devido
tempo, a sociedade saberá convencê-los de que estamos caminhando para o
precipício. Precisamos alinhar a economia com a salvação da Humanidade e do nosso
Criador.”

Pensando no futuro da vida na Terra, Eliot e Sarah se comprometeram a dar um ao outro de


presente em seus aniversários um poema ou uma canção. Mais trabalhoso, porém mais
romântico e ecológico.

* * *

A vontade de Lúcifer de desacreditar o Profeta Eliot tornou-se obsessão. Persistindo noite e


dia, o Exército do Mal conseguiu que vários grupos se posicionassem contra Eliot. Muitas
das acusações contra ele eram tão tolas que nem merecem ser citadas. Apenas para
retratar a maldade sem limites de seus adversários, vamos comentar a criação da
“Fronteira Vertical”(8).
A “Fronteira Vertical” foi uma invenção fantasiosa divulgada para fechar as portas do
Terceiro Mundo para as pregações de Eliot. Segundo seus adversários, Eliot teria declarado
que, além das fronteiras norte-sul, leste-oeste, os países deveriam ter também uma
fronteira que cobriria o seu território. A altura dessa “capa imaginária” iria variar de país a
país, pois seria uma medida do grau de honestidade dos governantes de cada
sociedade. Chamada de fronteira vertical, ela poderia alcançar o Céu, dependendo do grau
de virtude dos políticos locais.

Os detratores de Eliot espalharam que levantamentos realizados pelo Profeta teriam


mostrado que em alguns países do Hemisfério Sul a corrupção atingira níveis tão elevados
que suas fronteiras verticais estariam a poucos metros do solo; iriam impedir que aviões e
helicópteros pousassem ou decolassem. Uma vez adotadas, as fronteiras verticais
obrigariam vários países do Terceiro Mundo a fechar seus aeroportos. Em muitas cidades, a
altura dos edifícios teria de ser limitada a um ou dois andares. As crianças não iriam mais
se divertir soltando pipas. Correu o boato de que em Brasília, em diversos pontos da cidade,
as pessoas teriam de andar agachadas. A notícia assustou um grande número de políticos,
uns porque sofriam de claustrofobia, outros porque achavam ridículo engatinhar,
principalmente os que já haviam chegado à terceira idade.

Não foi difícil para Eliot mostrar que a idéia da Fronteira Vertical não passava de uma
fantasia inoportuna que beneficiava as Forças do Mal. Fez também questão de dizer que
conhecia políticos do Terceiro Mundo que são exemplos de integridade. Lembrando que a
má fama dos políticos é universal, citou Henry Kissinger(9): “Noventa por cento dos políticos
dão uma péssima reputação para os outros dez por cento”. Em seguida Bismarck(10), “As leis
são como salsichas; melhor não ver como são feitas”.

O que aconteceu de realmente grave, a ponto de causar insônia no Profeta, foram as


acusações de heresia.
23. As Acusações de Heresia
Três acusações de heresia preocuparam os amigos do Profeta. A primeira delas acirrava a
rivalidade entre Eliot e alguns grupos religiosos. Adversários de Eliot inventaram que ele
reprovaria o comportamento de importantes líderes religiosos, acusando-os de nutrir
simpatia pelo Diabo. Eliot teria dito - não é verdade - que esses “farsantes da fé”
dependeriam do Rei das Trevas para dar sentido às suas vidas e a de seus seguidores, e por
isso precisavam valorizar Lúcifer e seus comandados:

“Sem o Demônio, de que valeriam os belos sermões em que esses religiosos atacam as
Forças do Mal, peças de oratória que lhes custaram tantos meses de pesquisa, tantas
noites de meditação, tantas horas de ensaio diante do espelho? Por isso fazem do
Demônio o centro de suas atenções. A aversão que dizem sentir por Lúcifer e seus
soldados está longe de ser genuína. Poderia ter sido sincera no passado, mas com o
tempo, a animosidade e a repugnância cederam lugar à conveniência. Esses pretensos
homens de Deus na verdade não passam de lobos em pele de cordeiro. Se, de repente, as
Forças do Mal desaparecessem estariam, todos eles, condenados ao ostracismo e à
miséria. Se Deus destruísse o Diabo, eles iriam chorar três dias e três noites.”

Eliot teria comparado esses maus religiosos aos fabricantes de armamento que, para
vender seu produto, fomentam e acirram rivalidades: “Rosnam rancor mas querem o
inimigo”, teria dito. E reforçando a calúnia, espalharam que o Profeta teria reiterado que o
diabo é o Baby-Kong desses pregadores, o instrumento do medo que usam para exercer
poder sobre seus seguidores.

Eliot não dissera nada disso. As acusações eram todas falsas.

O que o Profeta afirmou numa de suas conferências foi exatamente o oposto. Eliot disse que
“Satanás precisa da Humanidade para justificar sua existência”, o que é muito
diferente. Para Eliot, “sem o Ser Humano, Lúcifer e seus soldados se veriam no vazio, pois
sua única ocupação é transformar pessoas íntegras em pecadores. Não fazem mais nada,
absolutamente nada”. Mas se é verdade que Eliot disse que é o Diabo que precisa dos
Homens, é preciso também esclarecer que ele jamais afirmou que um diabo exímio
carpinteiro teria consertado um vazamento na Arca de Noé, impedindo o fim da
Humanidade. Esta é outra invenção de seus adversários.

* * *

Eliot foi também acusado de criticar o ato de orar nas alturas.


Muitas pessoas preferem meditar e rezar em lugares elevados, como no topo das
montanhas. É uma forma de se afastarem da rotina e dos problemas do dia-a-dia para se
sentirem mais próximas de Deus. O Profeta Eliot, segundo seus adversários,
desaconselharia a subida a grandes alturas para orar, meditar ou buscar uma maior
aproximação com Deus por que tal procedimento sugere que Deus é portador de algum
tipo de deficiência auditiva (quanto mais alta a montanha, mais facilmente Ele ouviria as
nossas orações) ou não enxerga tão bem, ou talvez seja tímido ou mesmo comodista (não
precisaria descer até o vale). Eliot teria até criticado os antigos sacerdotes iranianos que
buscavam as alturas para oferecer sacrifícios ao seu Deus, conforme relato de Heródoto, o
Pai da História.

Mentira, tudo mentira! Nada contra rezar nas alturas. O importante é voltar-se para
Deus. Eliot sabia que Deus sempre nos vê e nos ouve porque está, a todo instante, em todos
os lugares; e por isso se mantém ciente de todos os nossos pensamentos, palavras e obras.
Do contrário, como Ele iria nos julgar no dia do Juízo Final?

* * *

A terceira acusação, mais séria, contemplava Adão, Eva e o Pecado Original. Eliot teria dito
que um Deus bom não teria cometido o exagero de punir, pelo erro de Adão e Eva, toda a
Humanidade: “Deus já teria sido injusto ao castigar Adão e Eva. Se Deus os criou já adultos,
Ele era responsável tanto pela genética como pela formação moral do primeiro casal. O Pai
Eterno era responsável tanto pelo consciente como pelo inconsciente dos dois. Portanto,
não poderia culpá-los pelo que fizeram”, teria afirmado o Profeta.

De fato, o caráter da criança se forma nos primeiros anos de vida. Se Adão era impulsivo,
foi por que Deus o fez assim. Mas Eliot jamais opinou sobre isso.

* **

A verdade é que as previsões do Profeta Eliot se mostravam sempre corretas. A sua


respeitabilidade atingiu níveis jamais alcançados por um líder religioso contemporâneo. A
maioria dos Homens passou a crer em sua sabedoria. Surgiu então a crença de que ele teria
um terceiro olho com o qual enxergava acontecimentos que só iriam ocorrer em futuro
distante. Os indianos gostavam de dizer que o “Profeta inspira mais confiança do que leite
de mãe”. Crescia a crença de que Eliot poderia, se quisesse, contrariar as leis da Natureza
fazendo milagres.
24. O Primeiro Milagre: A Indiazinha Escultora
Ciente das condições em que o Criador se encontrava, o Profeta Eliot jamais pensou em
pedir ajuda divina para apressar a implementação do Projeto S.O.S. “Nada de milagres”,
repetia. Para Eliot, o sucesso do Projeto S.O.S. deveria contar somente com o trabalho
dedicado de seus seguidores, daí o impacto causado pelo episódio da indiazinha escultora.

A indiazinha escultora era uma menina humilde de origem maia, nascida num pequeno
lugarejo da América Central, ao norte da Guatemala. Foi lá que tudo aconteceu.

Desde criança a indiazinha ajudava os pais na modesta olaria de onde a família tirava seu
sustento. Produziam telhas e tijolos utilizando as técnicas mais rudimentares de fabricação.
A família, dona da olaria há várias gerações, jamais se preocupou em comprar
equipamentos modernos ou aperfeiçoar a secular rotina de produção. A indiazinha, muito
cedo, mostrou excepcional habilidade para confeccionar objetos de argila.

Aproveitando sobras de barro da olaria, a menina, desde a mais tenra idade, se divertia em
seus momentos de folga fazendo bichinhos de barro. Eram gatinhos, cãezinhos, cobrinhas,
peixinhos, peruzinhos, o que lhe viesse à cabeça. Seus pais custaram a acreditar quando um
turista estrangeiro se interessou pelo trabalho da menina e comprou várias de suas
criações, pagando um bom dinheiro. Desde então a indiazinha passou a dedicar todo o seu
tempo ao artesanato. Um belo dia resolveu produzir imagens de figuras religiosas. Não
faltaram clientes para suas estatuetas de Nossa Senhora de Guadalupe, Santo Antônio, São
Judas Tadeu e São Miguel Arcanjo. Ela era de fato talentosa.

Um dia a pobre menina resolveu usar suas mãos delicadas para fazer uma imagem de Deus
tal qual O imaginava: um velhinho de fisionomia agradável exibindo uma longa barba
branca, cheio de energia. A jovenzinha caprichou. Sem saber por que, a menina-artista fez
seu Deus de olhos fechados. Concluído o trabalho, a indiazinha ficou horas admirando sua
obra-prima.

Apesar das propostas tentadoras de turistas americanos e europeus, a indiazinha se


recusou a vendê-la. Com o tempo ela foi se apegando cada vez mais àquela imagem. Decidiu
levá-la para casa, colocando-a sobre um armário rústico perto da janela de seu quarto de
dormir. A indiazinha só rezava olhando para o seu Deus de argila - um Deus imóvel e
solitário, a quem confiava seus segredos mais íntimos. A tranquilidade, a paz de espírito e a
alegria que sentia ao contemplar seu Deus era indescritível. Amar a Deus era amar aquela
estatueta: era como se Deus vivesse ao lado dela. “Ele não me vê, pois o fiz de olhos
fechados, mas nunca deixa de me ouvir”, dizia ela para si mesma.
Às vezes passava horas antes de dormir pedindo conselhos à sua imagem. Era a ela que
perguntava qual dos dois vestidos devia usar para ir à Missa, que fita colocar no cabelo na
Festa dos Mortos, se naquele dia deveria ir à escola ou trabalhar mais tempo na olaria.

O Deus-estatueta levou a indiazinha a esquecer seu amigo imaginário. Era um menino que
há anos lhe fazia companhia. Ela talvez tivesse criado esse amigo imaginário após assistir
às incríveis acrobacias de um garoto em um circo que passara pela aldeia quando ela tinha
quatro anos. O charmoso e exímio trapezista de dez anos, filho do palhaço, deixara marcas
profundas em sua imaginação. Mas agora não era mais aquele amigo que resolvia seus
problemas e tirava suas dúvidas. Era o seu Deus de argila.

* * *

Aos doze anos, três anos depois de ter criado seu Deus, a indiazinha presenciou algo muito
estranho. Era uma noite de calor intenso. Acordou com sede e, antes que levantasse da
cama para tomar água, viu a imagem abrir os olhos como se despertasse de um longo sono.
Em seguida, cheio de vida, seu Deus de argila voou até ela, beijou-lhe as duas faces e,
sorrindo, saiu pela janela semi-aberta em direção às estrelas. Como era noite de lua cheia, a
menina pode ver a estatueta adquirir um formato aerodinâmico, provavelmente para
diminuir o atrito com o ar e economizar energia durante o voo. Em segundos desapareceu
no infinito.

Ao tomar conhecimento daquela história, Eliot ficou impressionado com o simbolismo que
ela transmitia: Deus, dormindo, era acordado pelo amor de um Ser Humano gentil e puro. E
movendo-se pela primeira vez, saía voando cheio de vitalidade!

Contrariando os fundamentalistas que o criticaram por dar crédito a uma história tão
ingênua, o Profeta quis conhecer a indiazinha e sua família. Na mesma semana surpreendeu
parentes e amigos contratando uma conceituada empresa para estudar aquele
acontecimento. Um grupo de sociólogos e psicólogos passou três meses naquele lugarejo e
arredores conversando com seus moradores - homens, mulheres e crianças maiores de sete
anos.

A pesquisa revelou que nenhum dos habitantes do vilarejo assinava jornais ou revistas. E
raramente viajavam para outros lugares. Eram quase todos analfabetos ou semi-
analfabetos. Poucas casas dispunham de aparelhos de rádio, que só funcionavam quando
não faltava energia. Televisão, nem pensar.

A empresa de pesquisa certificou-se de que ninguém, nem mesmo a professorinha


alfabetizadora, tinha ouvido falar de um tal de Pigmalião(1). A história da indiazinha não
fora inventada, acontecera de verdade. A imagem ganhara vida por interferência divina.
Fora um milagre, uma manifestação da vontade de Deus. O Criador queria chamar a
atenção dos Homens para Sua Salvação. Para isso mostrou como o amor de uma menina
dera vida a uma estatueta tal como a Humanidade Lhe daria uma nova vida. Era um milagre
que chamava atenção para os objetivos do Projeto S.O.S.
Os pesquisadores apuraram que vinte e sete pessoas tinham visto naquela noite um raio de
luz subindo pelo céu. Tirando o bêbado, o mendigo, a prostituta e o pescador, eram vinte e
três testemunhas confiáveis. Também o piloto de um avião que passava sobre o vilarejo viu
uma estrela cadente subindo pelo firmamento - na verdade uma estrela ascendente. Como
os meteoros não sobem, o piloto concluiu que se tratava de um fenômeno raro, pouco
conhecido, que os pesquisadores de Eliot souberam interpretar.

Todos os sociólogos e psicólogos, totalizando sete pessoas, concordaram em assinar o


relatório final da pesquisa, que atestava o estranho acontecimento. Era de fato uma
iniciativa de Deus para ajudar Eliot em seu trabalho incessante de identificar meios para
divulgar a Grande Revelação. O milagre devidamente comprovado da indiazinha escultora
obrigou o Profeta a reservar mais tempo para o crescente número de desesperados e aflitos
que o procuravam em busca de orientação e conselho.

PARTE 06

O PROFETA CONCLUI SEU TRABALHO

25. O Diabo Tenta o Profeta


Revoltado com os êxitos do Profeta Eliot, Satanás decidiu dedicar quarenta dias e quarenta
noites para desmoralizar aquele Homem de Deus. Ampliou o número de demônios por
conta de Eliot. Eram agora 77 criaturas do Mal - Satanás incluído - trabalhando em tempo
integral para desviar o Profeta do caminho da fé e da virtude. Todos os convocados tinham
sido treinados e aprovados no uso das três armas escolhidas para a missão – a dúvida, o
sexo e a vaidade. Já no primeiro dia o Rei das Trevas soprou no ouvido de Eliot:
“E se as religiões não passarem de produções Humanas? E se, ao invés de Deus ter
criado o Homem à Sua imagem, foi o Homem quem criou Deus à sua imagem, como
afirmou Aristóteles(1)? O filósofo Xenofanes não intuiu que se os cavalos tivessem deuses,
esses deuses seriam cavalos(2)? Os deuses não refletem as sociedades onde são
adorados? O Deus dos primeiros agricultores não era aquele que trazia a chuva?

“Será que o Outro Mundo não é uma criação do Homem, refletindo suas necessidades,
sua concepção do que é justo, do que é belo, do que proporciona bem-estar e alegria?
Será que o Mundo Sagrado do lado de lá não passa de uma transposição dos sonhos e
ideais concebidos do lado de cá?

“O Paraíso não seria uma fantasia concebida pelo Ser Humano a partir de seus medos,
de suas inseguranças e de suas necessidades? Não é lá que vive o Deus bom e poderoso
que nos protege, o Pai que todos nós almejamos? Não é lá que mora o Deus Justiceiro
que corrige as injustiças deste mundo? Não é lá que se encontra aquele recanto de
insuperável beleza, o Jardim do Éden? Será que o Homem não estaria
inconscientemente adorando o seu ideal de perfeição - uma sociedade justa, solidária,
aprazível? O Outro Mundo não seria uma projeção dos nossos sonhos?”

De fato, o Homem deseja uma perfeição que só poderia existir no Paraíso. Na Terra, jamais
haverá justiça: a genética e as circunstâncias não tratam as pessoas igualmente. Um amigo
de Eliot gostava de dizer que o primeiro passo para a construção de um mundo justo seria
dar aos filhos poder para escolher os próprios pais. E, brincalhão, imaginava um candidato
a filho reprovando uma série de candidatos a pai: “Como é que o senhor se atreve a querer
ser meu pai bebendo desse jeito?”; “Infelizmente, com esse salário ridículo o senhor não
tem condições de ser meu pai”; “É preciso que o senhor seja mais gentil com sua noiva -
faço questão de ter um pai amoroso”; “O senhor só pensa no trabalho - e a família?” Ou
ainda, “Tendo um pai como o senhor dificilmente serei bonito!”

Para espalhar a dúvida, o Rei das Trevas e seu Exército contam com aliados poderosos
entre os Homens - cientistas, filósofos, sociólogos, psicólogos, jornalistas, escritores,
professores, artistas. Ao criticar o que dizem os Textos Sagrados, os aliados humanos das
Forças do Mal alegam estar à procura da verdade. Afirmam que as religiões - todas elas -
não passam de fantasias a serviço do Ser Humano em seu esforço diário para sobreviver.
São ilusões que tornam a vida mais suave, a dureza do dia-a-dia mais suportável. Diante
dos problemas que afligem a Humanidade, a crença na existência de um Deus todo
poderoso, que se interessa pelo Ser Humano, nos tranquiliza.

Eliot começou a divagar:

“Será que podemos estar sendo ajudados pelo que não existe? Seria a imaginação
contribuindo para nossa sobrevivência? Será que acreditamos que Deus existe
porque sem Ele a vida seria vazia, inútil, sem sentido, um deserto repleto de
insignificâncias? Será por isso que as pessoas são mais ardorosas em sua fé quando
têm problemas? Será por isso que Goethe afirmou que as pessoas felizes não
acreditam em milagre? Será essa a razão que levou Nietzsche a dizer que as religiões
são ilusões sem as quais não conseguimos viver?”

Eliot entendeu a ironia de Voltaire: “Se Deus não existisse teria de ser inventado” (3).

Ainda sob a influência do diabo, o Profeta prosseguiu em suas divagações:

“Freud não afirmou que a religião é fruto do nosso desejo de sobreviver à morte? Que
o impulso religioso é uma força que não se extinguirá enquanto o Homem não deixar
de temer a morte? De fato, a ilusão de uma vida eterna torna mais fácil aceitar a
finitude desta vida. Será então que a fé não passa de uma mistura de insanidade e
ignorância, como afirmou Ingersoll(4)?”

Sutilmente, o Príncipe das Trevas sugeriu a Eliot que a fé é o mecanismo que as religiões
utilizam para aprisionar a mente de seus seguidores, impedindo-os de serem críticos:
“Tenha coragem, Eliot, duvide”, insistiu Satanás.

“Mas não há pessoas inteligentes, cultas, brilhantes, que têm fé? Muita fé?”, indagou-se
Eliot. “Pessoas extraordinariamente inteligentes que chegaram a Deus pelo caminho da
razão?” Lúcifer já tinha uma resposta pronta: “Grandes quantidades de inteligência podem
ser investidas em ignorância quando a necessidade de conservar uma ilusão é profunda (5), meu
caro Eliot. É a razão a serviço da emoção, a cabeça escravizada pelo coração (6)”. E
acrescentou: “Observe, Eliot, como a fé varia pelo mundo - quantas religiões! Não podem ser
todas verdadeiras”.

Deixando-se seduzir por um instante, Eliot vacilou em sua fé: “Será mesmo verdade que
não existiriam igrejas se a Humanidade não tivesse temido as inundações, os terremotos, o
escuro, a peste, o eclipse, os raios, os trovões?” O Profeta Eliot sentiu um arrepio que
indicava a presença do diabo sussurrando a dúvida em seu ouvido esquerdo.

* * *

Recuperando-se, Eliot reconheceu que não tinha dúvidas de que Deus existe. E, mais
importante, sabia que precisamos dEle e que podemos contar com Ele: “Somente Deus é
capaz de nos mostrar que existem valores absolutos capazes de nos guiar e conferir
significado à existência Humana”, raciocinou. E concluiu: “O fiel que entrou em comunhão
com seu Deus não é meramente um homem que vê novas verdades que o descrente ignora.
Ele se tornou mais forte. Ele se sente mais poderoso, seja para suportar os sofrimentos da
existência, seja para vencê-los(7)”.

O Profeta revoltava-se ao ver o quanto a prática religiosa vinha sendo profanada. As Forças
do Mal, Aliados e Simpatizantes não perdiam uma chance de ridicularizar a religiosidade
das pessoas, a ponto de Robert M. Pirsig declarar que “Quando uma pessoa sofre de um
delírio, isso se chama insanidade. Quando muitas pessoas sofrem de um delírio, isso se
chama Religião(8)”. Mas nem todas as notícias eram ruins. Eliot emocionou-se quando ouviu
um de seus seguidores dizer:

“Graças a Deus eu creio em Deus. Em diversos momentos de minha vida senti a


presença de Deus: senti na tristeza, e me alegrei; senti na doença, e me curei; senti no
perigo, e escapei; senti quando estava tão perdido a ponto de ter esquecido quem eu
era e, na procura de mim mesmo, Deus me ajudou a reencontrar-me comigo. Hoje
acordo todos os dias sabendo que aquele dia será melhor que o anterior, e que
amanhã será melhor do que hoje. Sei que os meus problemas sempre terão solução e
por isso vivo tranquilo. Isso a Ciência não explica e jamais explicará.”

Mas o diabo voltou a atacar:

“E se George Bernard Shaw estivesse certo quando disse que ‘O fato de um crente ser
mais feliz que um cético não quer dizer muito mais do que o fato de um homem bêbado
ser mais feliz que um sóbrio(9)’? Só porque você acredita firmemente numa coisa não
significa que ela seja verdadeira. O grande Benjamin Franklin não disse que ‘caminhar
orientando-se apenas pela fé é caminhar cegamente?’”

“Nada disso”, respondeu o Profeta para si mesmo. Para Eliot, “ao fazer tais
pronunciamentos, Shaw e Franklin se aliavam às Forças do Mal. Nós só podemos agradecer
aos Céus por termos uma religião que nos proporciona a sensação de que somos amados e
protegidos num mundo perigoso. E que nos mostra que podemos caminhar tranquilos, sem
temer a morte”.

* * *

Eliot tinha consciência de que existem coisas que não vemos nem sentimos, mas que
sabemos que existem porque têm de existir. Para percebê-las é preciso ter fé, esse dom de
Deus que permite enxergar o invisível e entrar em contato com o que existe além do que o
Homem vê, toca e sente. Recordou o poeta Khalil Gibran: “Fé é conhecimento do coração,
que vai além do que a razão, com suas limitações, pode comprovar”. Lembrou-se de Santo
Agostinho: “Fé é acreditar no que você não vê; e a recompensa é ver o que você acredita”.

E concluiu: “A fé em Deus é o alimento da alma. É uma necessidade, como o é o alimento


para o corpo. É algo também biológico. Faz parte da própria evolução do Homem em sua
caminhada em direção a Deus(10)”.

Eliot releu a Epístola de São Paulo aos Hebreus(11). Viu que foi movido pela fé, “a certeza no
que não é visto”, que Noé construiu a arca que salvou a Humanidade da extinção; essa era a
mesma fé que convenceu Abraão a partir para a terra que Deus lhe daria, sem saber para
onde ia, aceitando viver em tendas com Sara, Isaac e Jacó. Em seguida releu João(12): “Jesus
lhes disse: Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram”. Eliot
sentiu-se mais confortável vendo-se apoiado pelos teólogos Paul Tillich(13)e Isaac Singer,
para os quais a dúvida não é o oposto da fé, mas faz parte dela(14).
* * *

Assim, é preciso ter fé. E o que é ter fé? “Ter fé é aceitar que o mundo precisa fazer sentido,
e o universo não faz sentido sem a existência de Deus”, concluiu Eliot. Como só se chega a
Deus pela fé, muitas religiões ensinam que a fé sem questionamentos é uma virtude.

Eliot sabia intuitivamente que a vida tem de ter um propósito que transcenda o plano
material. Sabia também que são as religiões que permitem pensar a realidade a partir da
premissa de que a vida tem um significado. Se acreditar em Deus é uma questão de fé, a fé é
então uma necessidade do Ser Humano.

O Profeta Eliot tinha consciência de que não é possível provar que Deus existe, assim como
não é possível provar que Ele não existe. Mas sabia, no entanto, que há uma força instintiva
que leva o Homem a reconhecer a Sua existência: “A existência de Deus não é uma questão
intelectual, não é uma questão a ser decidida pela razão; ela só pode ser decidida pela fé”.
Eliot aprendeu cedo com o avô que, para chegar a Deus, o Homem precisa ter fé.

Mas a fé não é um dos pontos mais negativos das religiões? Fé não é acreditar sem
evidências? A busca da verdade não exige o questionamento de qualquer informação? Ter
fé não é aceitar que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento? “Nada disso”,
intuiu o Profeta. “A fé não é algo a ser decidido pelo intelecto. Ter fé é ir além da ciência.
Sábios como Demócrito e Epicuro julgavam impossível qualquer certeza em relação ao
Além porque ignoravam que há verdades, como a existência do Paraíso, que só são
acessíveis pela fé, jamais pela razão.”

Satanás interveio: “Mas se Deus quer que acreditemos que Ele existe, por que Ele não vem a
este mundo e se apresenta à Humanidade? Se Ele faz questão que acreditemos em Sua
existência, por que não aparece para Suas criaturas em lugar de punir com o Inferno os que
negam Sua existência?” Sutilmente, o Rei da Maldade colocou diante de Eliot o relato de um
filósofo agnóstico que dizia que “Deus talvez não se revele por inteiro porque a
Humanidade não seria capaz de adorar um Deus que pode ser totalmente
compreendido.” O Profeta sabia, no entanto, que Deus não poderia vir a Terra em todo o
seu esplendor devido à falta de energia. Ademais, Ele deseja ser amado, e não adorado.

Eliot reconheceu que Deus não economizou energia quando mandou Seu filho à Terra. Mas
reconheceu também que o Filho de Deus veio para cumprir uma missão específica, embora
decisiva: redimir os Homens das consequências do pecado original. Não veio com o
propósito de visitar todos os povos da Terra para provar a existência de Seu Pai ou para
resolver os problemas da Humanidade. Se Deus viesse à Terra agora, Ele desapontaria a
Humanidade pois não estaria em condições de livrá-la dos males deste mundo.

Mas embora se mantenha distante, Deus tem feito contatos frequentes com os Seres
Humanos recorrendo a pessoas especiais, os profetas. São os profetas que relataram aos
Homens o que sabemos sobre o Criador. “Eu mesmo”, raciocinou Eliot, “tive o privilégio de
receber e divulgar à Humanidade o Seu maior segredo.”

Assistindo a uma palestra para enorme audiência, Eliot emocionou-se ao ouvir o orador
citar G. K. Chesterton: “Quando deixamos de acreditar em Deus não passamos a acreditar
em nada, passamos a acreditar em qualquer coisa.” Alguém da audiência interveio para
dizer que há tantas religiões e tantas crenças pelo mundo, que “podemos dizer que ser
religioso é acreditar em qualquer coisa.” Eliot aproveitou a oportunidade para reiterar que
o importante é acreditar em Deus e levar uma vida virtuosa. E mais uma vez repetiu que
“as religiões são diferentes caminhos que nos levam ao Criador, bastando que preguem o
Amor e a Bondade.”

Ter fé é um privilégio. Diante da fé do Profeta Eliot, Satanás jamais teria vez.

* * *

Satanás não desistiu - ele não desiste. O Príncipe das Trevas optou então pela luxúria. Para
desviar Eliot do caminho da virtude, o Comandante das Forças do Mal recorreu à
sedução. Satanás convenceu a sensual Lilith a induzir o Profeta Eliot a cometer adultério.
Mas quem é Lilith?

Segundo a Cabala, Lilith foi a primeira mulher de Adão. Feita de barro como ele, Lilith, a
primeira feminista, recusava-se a obedecê-lo. Como o Criador queria que ela se
subordinasse a Adão, Lilith, ressentida, abandonou o Paraíso. Há, porém, quem garanta que
ela foi expulsa por Adão.

Fêmea de rara beleza, capaz de enlouquecer qualquer homem, Lilith reunia em seu corpo a
sensualidade de todas as mulheres. Ela veio à Terra decidida a cumprir a missão acertada
com Lúcifer. Reservando-se para as tarefas mais difíceis e desafiadoras, Lilith trouxe
consigo treze criaturas que iriam se apresentar a Eliot na forma de lindas e sedutoras
donzelas. Mas bastaram três semanas para que ela percebesse que Eliot era absolutamente
fiel à sua esposa Sarah. Todas as treze beldades - e também ela - fracassaram.

* * *

No trigésimo nono dia, Satanás pôs em prática a terceira e última tentativa de desmoralizar
o Profeta Eliot, agora apelando para a vaidade. Buscando jogar Eliot contra Deus,
representantes das Forças do Mal disfarçados em líderes religiosos procuraram convencê-
lo de que ele fora o maior de todos os Profetas, maior que Abraão, Jacó e Moisés.

Disseram a Eliot que Deus não fora justo com ele: “Por que, Eliot, o Criador não lhe concedeu
a mesma intimidade dada aos profetas do Velho Testamento? Por que nunca veio conversar
com você? Por que nunca o abraçou? Porque evitou os contatos pessoais enviando sempre
mensageiros em Seu lugar?”
Para essa empreitada Satanás contava com a assistência dos sete oficiais mais cultos e
experientes entre os setenta e sete que ele reunira para o ataque a Eliot. Esses oficiais eram
a nata da elite do exército de Satanás, os vice-reis do Submundo. (O rei sempre fora o
próprio Satanás). Um deles era o demônio Mefistófeles(15), que propôs a Eliot um acordo
sedutor: “Trabalharemos juntos para fazer de você, Eliot, um profeta que ofuscará Abraão,
Jacó e Moisés. Examine meu currículo e veja que nunca falhei.” De repente, Eliot pressentiu a
presença de Satanás naquele jogo diabólico. Deus, exceto através de Jesus, jamais viera a
este mundo após a conclusão do Velho Testamento. No livro de Ester, o último da Bíblia
Judaica(16), Ele não é sequer mencionado. Em nossos dias, somente um profeta arrogante,
presunçoso e sobretudo irrealista, poderia almejar encontrar-se com Deus nesta vida.

* * *

O Profeta Emmanuel W. Eliot demonstrou que sua fé era forte o bastante para resistir a
qualquer artimanha vinda das Forças do Mal. Mais uma vez comprovou o acerto de sua
escolha por Deus para mensageiro da Grande Revelação.
26. O Profeta Fala aos Filhos de Abraão
Eliot e Sarah foram passar o décimo oitavo aniversário de casamento na propriedade da
família no Mississippi. Precisavam descansar. Os quatro filhos, Katie, Andrew, Daniel e
Nicholas ficaram com os sogros em Nova Iorque.

Quando se casaram, ao invés de adquirir uma cama de casal para a casa de campo no
Mississippi, Eliot convenceu Sarah do valor sentimental do leito tosco onde dormia desde
os tempos de criança, e concordaram em colocar uma nova cama de solteiro ao lado do
antigo leito. Dessa forma os dois dormiam juntos sem que Eliot cortasse os laços com sua
infância. Foi naquela cama, na desconcentração daquele ambiente rural, que Eliot recebeu
novamente a bela criatura celestial que, pela primeira vez, se identificou como o Arcanjo
Gabriel.

Exausto depois de duas semanas de palestras e um longo dia de viagem, Eliot pensou que
iria dormir oito horas de sono tranquilo, talvez mais. Mas o inesperado visitante
aproveitou-se de seu sono profundo para aparecer. A importância da visita podia ser
avaliada pela maneira solene como ocorreu. Observador detalhista, Eliot pode reconhecer,
por um amassado quase imperceptível, a velha Trombeta de Jericó que, orgulhosa,
comandava outras sete trombetas reluzentes que vieram anunciar a aparição de Gabriel.
Sem delongas, o mensageiro de Deus informou a Eliot que seu trabalho de Profeta não
estava concluído. E que não havia tempo a perder. Eliot deveria completar sua missão
conquistando para o Projeto S.O.S. todos os filhos de Abraão.

Talvez querendo incentivá-lo, ou simplesmente esclarecer, o Arcanjo confidenciou a Eliot


que ele e Sarah também eram filhos de Abraão. O Profeta relutou em acreditar. Até onde
sabia, sua família e a de Sarah não tinham ascendentes árabes ou judaicos. Gabriel tratou,
então, de comprovar sua afirmação. Começou contando a Eliot a parábola do menino que
jogava xadrez(1):

“Em uma terra distante morava um soberano rico e poderoso, amado por todos os seus
súditos. Um belo dia apareceu em seu reino um adolescente que se ofereceu para
ensinar Sua Majestade a jogar xadrez. O rei encantou-se com a beleza do jogo e a
precocidade do rapazinho. Comovido, disse ao jovem professor que ele podia lhe pedir o
que quisesse. Em lugar de ouro e prata, como esperava o rei, o jovem quis ganhar
apenas trigo. Pediu ao soberano que colocasse na primeira casa de um tabuleiro de
xadrez um grão de trigo, na segunda casa dois grãos, na terceira quatro, na quarta
oito, na quinta 16, e assim sucessivamente, até chegar à 64ª casa do tabuleiro. O rei se
comoveu com a modéstia do pedido mas, ao buscar atendê-lo, foi informado pelo
matemático da corte de que apenas para preencher a 64ª posição seria preciso mais
trigo do que todas as terras do reino seriam capazes de produzir durante muitos anos.

O Arcanjo lembrou a Eliot que, da mesma forma, todo Ser Humano, para nascer, precisa de
dois pais, quatro avós, oito bisavós, 16 trisavós, 32 tetravós e assim por diante. Se forem
consideradas gerações de 20 anos - no passado as pessoas viviam muito menos(2) e as
mulheres tinham filhos mais jovens - entre Eliot e Abraão haveria aproximadamente 200
gerações, visto que Abraão viveu há cerca de quatro mil anos. Portanto, não seriam apenas
as 64 casas do tabuleiro de xadrez, mas 200! O número de ascendentes de Eliot
contemporâneos de Abraão seria astronomicamente maior do que o número de grãos de
trigo na 64a casa do tabuleiro de xadrez(3).

O mensageiro de Deus mostrou a Eliot que para abrigar todos os seus ascendentes
contemporâneos de Abraão seriam necessários muitos trilhões de planetas Terra, cada um
com 9 bilhões de habitantes(4). Reforçando a sua argumentação, lembrou ao Profeta que a
população de 9 bilhões só será alcançada em meados deste século, e que a população da
Terra na época de Abraão não chegava a 50 milhões.

“Então”, perguntou Eliot, “como conciliar o fato de que para vir ao mundo nós precisamos
de dois pais, quatro avós, oito bisavós, e assim por diante, sabendo que esse número de
ascendentes excede de muito a soma das pessoas que já existiram desde os primórdios da
Humanidade?”

A solução apontada pelo Arcanjo são os antepassados comuns. Quando dois primos se
casam, economizam dois avós, quatro bisavós, e assim sucessivamente. A nobre criatura
celestial mostrou que a economia de ascendentes teria de ser de tal ordem que podemos
afirmar com certeza que somos descendentes de Abraão e de seus contemporâneos que,
como ele, tiveram filhos.

Segundo o Arcanjo - considerando apenas as pessoas que tiveram filhos -, Eliot só poderia
não ser descendente de indivíduos que na época de Abraão viveram em regiões distantes,
sem nenhuma comunicação com a Europa, Ásia Central, Norte da África e Oriente Médio, e
que não tiveram descendentes que emigrassem em tempos remotos para essas regiões e lá
tivessem filhos. É óbvio que se alguém tem um pai europeu e uma mãe japonesa, ele será
descendente de Abraão e de todos os antigos japoneses.

Assim, o Arcanjo Gabriel ofereceu uma comprovação matemática, uma prova irrefutável de
que somos todos descendentes de Abraão e de seus contemporâneos que, como ele,
tiveram filhos. Sara faleceu aos 127 anos, deixando Abraão viúvo aos 137. Abraão, segundo
a Bíblia, faleceu aos 175 anos e teve, além de Isaac e Ismael, mais seis filhos(5) após a morte
de Sara, sua esposa e meia-irmã. Recorrendo ao mesmo raciocínio, somos não somente
descendentes de Abraão, mas também de Isaac e de Ismael (e dos outros seis filhos de
Abraão). Na verdade, somos descendentes de todos que viveram na época de Jesus Cristo (e
que tiveram filhos), do qual estamos distantes cerca de 100 gerações.
Eliot compreendeu a mensagem do Arcanjo Gabriel: pregar aos filhos de Abraão era
convocar todos os Seres Humanos - sem exceção - a participar do Projeto S.O.S.: “Temos de
nos sentir membros de uma só família”, raciocinou, “a Família Humana”. Somos todos
irmãos e trabalharemos unidos para salvar o Grande Pai que nos criou.” E começou a
pensar em novas formas de reunir toda a Humanidade em torno do Projeto S.O.S.

Eliot levantou-se da cama para anotar: “Somos todos descendentes de Abraão e de todos os
homens e mulheres que viveram na Europa, Ásia Central, Norte da África e Oriente Médio
há dois mil anos ou mais (que deixaram descendentes), sejam eles santos ou pecadores,
juízes ou ladrões, virgens virtuosas ou prostitutas devassas. Podemos não ser descendentes
de um chinês que viveu distante de Abraão. Mas se caminharmos um pouco mais em
direção ao passado, também encontraremos ancestrais comuns com aquele chinês.
Fazemos parte de uma única Humanidade!”

Há quase vinte anos, quando se preparava para fazer o Caminho de Abraão, Eliot leu horas
a fio sobre Árabes e Judeus. Viu que os Judeus somavam cerca 10 milhões no início da Era
Cristã(6). Se acompanhasse o crescimento da população mundial, o número de Judeus
deveria ser hoje da ordem de 300 milhões(7) e não apenas 15 ou 16 milhões. Concluiu que
uma grande quantidade de gentios descende não apenas de Abraão, mas também de Judeus
que viveram em épocas bem mais recentes, uma vez que essas cifras sugerem - sem deixar
de lado a ocorrência do Holocausto e dos pogroms - um expressivo número de conversões
de Judeus, espontâneas ou não, para outros credos. Para algumas liderança judaicas, como
Asher Ginsberg(8), a assimilação - adaptação do Judeu ao estilo de vida prevalecente no país
onde vive e sua integração social - oferece mais riscos ao Judaísmo que o antissemitismo.

Eliot intuiu que Israel poderá contribuir para a reversão desse quadro de, na perspectiva
judaica, deserções. Lembrou-se então da frase “O futuro a Deus pertence”, mas dela
discordou: “O livre-arbítrio permite ao Homem construir o seu futuro – os Judeus poderão
reduzir tais deserções se souberem agir com sabedoria.”
27. O Judeu Errante Procura o Profeta
Mesmo atarefado, pois tinha apenas duas semanas para preparar-se para uma série de
palestras em cinco estados, o Profeta Eliot aceitou receber um forasteiro de terras
distantes. O estrangeiro precisava de sua ajuda.

O Profeta viu entrar em seu escritório, conduzido pela esposa Sarah - sua secretária estava
de férias - um rapaz tímido, queimado de sol, com a barba por fazer, aparentando uns 30
anos, talvez menos. O inesperado visitante cumprimentou Eliot com um discreto sorriso. A
roupa, a mochila e o tênis gasto sugeriam um caminhante de longa data.

Sarah, depois de deixar o andarilho com seu marido, foi fazer companhia à morena esbelta
de estatura média, olhos verdes e longos cabelos escuros que acompanhava o mochileiro. A
jovem parecia culta e decidida. Em pouco tempo a conversa entre as duas se tornou
animada e divertida, como se fossem amigas de infância.

Enquanto isso, o andarilho identificou-se como Judeu, o Judeu Errante(1). Ciente da agenda
apertada de Eliot, ele foi direto ao assunto: queria a opinião do Profeta sobre uma visão (ou
seria alucinação?) que tivera. Viajara vários dias apenas para estar com Eliot.

O andarilho contou ao Profeta um fato estranho que lhe ocorrera há cerca de três meses,
quando viajava pelo norte da Europa. Cansado ao final de um dia de calor intenso, resolveu
dormir na primeira hospedaria que encontrasse. Foi o que fez. Antes de desligar a
lâmpada daquele pequeno quarto, pediu ao porteiro que também apagasse as luzes do
corredor. A escuridão o ajudaria a pegar no sono. Ansiava por uma longa noite de
descanso.

Quando estava para adormecer, o jovem foi surpreendido pela presença de uma bizarra
criatura que parecia ter vindo de outra realidade ou de outra dimensão. Delírio, loucura? O
que era aquilo? A escuridão não permitia ver direito. O Eterno Caminhante percebeu, pelo
brilho, que o ser tinha asas. Parecia um anjo. Mas um anjo das Trevas ou da Luz? Seria do
Bem ou do Mal? Estava muito escuro. Não era possível ter certeza. Acendendo o isqueiro, o
andarilho pode ver que a misteriosa criatura desenrolava um longo pergaminho (anjos não
precisam de luz para enxergar; a enigmática criatura podia ler no escuro). O andarilho viu
que devia ser coisa séria - mensagens por escrito deixam claro o receio de interpretações
equivocadas, os tais mal-entendidos que geram ressentimento e discórdia.

O mensageiro disse ter pressa. Viera à Terra para transmitir-lhe aquele comunicado.
Cumprida a missão, voltaria imediatamente para sua morada no Outro Mundo.
Chocado com o que ouvira, o andarilho não conseguia entender por que fora ele o escolhido
para receber aquela mensagem: “Por que eu? Por que agora? Qual a razão da
urgência?” Desde então não conseguia pensar em outra coisa. A companheira, sempre
amiga e solidária, não podia ajudá-lo – ela pegou logo no sono e só acordou na manhã
seguinte. O andarilho precisava da opinião abalizada do Profeta.

* * *

O visitante do Outro Mundo falou alto, com voz de barítono:

“Errante, depois de todos esses anos, concordei que seus irmãos voltassem à Terra
Prometida. Não fiz isso pelo que padeceram. Muitos povos sofreram e jamais serão
recompensados. No mundo dos Homens não faltam injustiças. Às vezes me desespero
com a imaturidade do Ser Humano no uso do livre-arbítrio, mas sei que esta é uma
etapa efêmera na evolução da Humanidade. A banalização do Mal vai passar. E não
vamos esquecer que vocês também, quando se sentiram fortes, impuseram muita dor a
outros povos, como relata a Bíblia.

“Mas então, por que os ajudei a voltar à Terra Prometida? Fi-lo pela contribuição que
seu povo tem oferecido à Humanidade - na Ciência, na Literatura, na Música, no Teatro,
no Cinema, nos Negócios, na Política - todas áreas em que necessidades humanas
podem ser satisfeitas sem agredir a Natureza. E sei que poderão contribuir ainda mais
no futuro.”

A criatura celestial mencionou um sem número de Judeus notáveis, ressaltando ganhadores


do Prêmio Nobel e de outras honrarias. Enquanto falava, a “Rhapsody in Blue” de Gershwin
podia ser ouvida bem baixinho.

Prosseguiu:

“Eu os reconduzi àquela terra para que vocês, sentindo-se seguros, possam se
concentrar no progresso do conjunto da Humanidade. O Projeto S.O.S. os
aguarda. Será uma grande oportunidade para que o mundo reconheça o valor do seu
povo, caro Errante.

Mas quero adverti-lo. O Oriente Médio, na condição de berço do monoteísmo, e


reunindo tantos lugares sagrados para Cristãos, Judeus e Muçulmanos, desperta
emoções profundas em mais da metade da Humanidade. Os olhos do mundo estarão
sempre voltados para Israel. Os Judeus precisam - não é um luxo, Errante, mas uma
necessidade - cuidar da imagem de seu País como se cuida de uma joia rara(2).

Errante, nunca perca de vista que Israel não é um país para seu povo morar. Nem todo
Judeu quer mudar-se para lá, e se todos quisessem, não haveria espaço suficiente(3). Não
é possível reunir todos os “exilados”(4) em Israel. A terra prometida a Abraão não resolve
o antigo problema de o Judeu viver em terra estranha. Você e muitos outros estão
destinados a viver entre os Gentios. A razão e ser de Israel não é, portanto, abrigar todo
o seu povo mas, após séculos de hostilidade e perseguição, protegê-lo em todo o
mundo(5). E fazer do Judaísmo não somente uma religião, mas também uma
nacionalidade(6). Os seus filhos, Errante, mesmo se não vierem a ser religiosos, vão se
sentir mais Judeus porque existe o estado de Israel.”

O mensageiro avisou:

“Mas quero adverti-lo, Errante, de que a imagem dos Judeus espalhados pelo mundo
dependerá de como agirem seus irmãos em Israel. Os valores que nortearão Israel
interessam a toda a Humanidade, tanto aos Judeus da Diáspora quanto aos Gentios.

“Não reclame, Errante, dizendo que os Gentios são mais rigorosos e exigentes com os
Israelenses do que com os demais habitantes do Planeta. Não proteste alegando que a
morte de um Palestino gera mais indignação do que o massacre de centenas de
Africanos ou de Asiáticos. Outro dia ouvi um de vocês inconformado porque o conflito
entre Israelenses e Palestinos estaria recebendo atenção desproporcional da mídia em
comparação a outros confrontos mais sangrentos e devastadores (7). Mas há uma
explicação muito simples para isso, Errante. É que, em todo o mundo, há sempre Judeus
vivendo entre Gentios, enquanto os povos em luta na Ásia e na África estão distantes -
ou são assim percebidos - da maioria das pessoas do Ocidente. É natural que um
cidadão se preocupe mais com os valores do seu vizinho do que com o comportamento
de habitantes de outras terras. É muito bom saber que o vizinho ao lado se sente parte
de um povo generoso, altruísta e que quer o nosso bem. Na verdade muito da
preocupação dos Gentios com a sorte dos Palestinos tem a ver com suas dúvidas sobre
como Israel irá, no futuro, interagir com o mundo dos Gentios(8).

Continuou:

“Errante, a injustiça e a desumanidade que seu povo experimentou no passado na


Europa Ocidental, na Europa Oriental, no Norte da África, no Oriente Médio e em
outras partes do mundo abriram-lhe os olhos para a importância do conhecimento e da
riqueza. A vida também lhes mostrou o poder da palavra escrita e falada na conquista
de corações e mentes. Convença seu povo a usar esses instrumentos de poder para
promover o progresso de todos os povos. É preciso que seu povo seja reconhecido como
uma força positiva na construção de uma Humanidade melhor. O Projeto S.O.S. conta
com vocês.

“A percepção de que são um povo arrogante, agressivo, voltado apenas para si mesmo,
que se vê acima dos outros povos por atributos próprios e pela maior proximidade com
Deus(9) - o que lhes daria o direito de prevalecer sobre eles(10) - não deve existir. Sei de
seus laços com Deus, que geram o sentimento de que vocês são especiais, pois estão
explícitos na Bíblia. Mas tais sentimentos de superioridade em relação a outros povos
precisam ser repensados.
“Na verdade, Errante, a crença na maior proximidade de Deus deve motivá-los a ser
uma luz para a Humanidade. Não foi o que Deus disse ao Profeta Isaias, ‘quero fazer de
ti uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue até os confins da
Terra(11)?’ Não foi Deus quem disse à Abraão, ‘Em ti serão abençoadas todas as famílias
da Terra(12)?’ Não foi pensando no relacionamento dos Judeus com os outros povos que
Deus entregou os cinco primeiros livros da Bíblia em 70 línguas? Não é verdade que
Isaias pede aos Judeus que vejam os Gentios como amigos que podem até se converter, e
não como inimigos implacáveis? Não é verdade que Deus tornará puros os lábios dos
povos para que possam todos invocar o nome do Senhor e servir ao Senhor, todos
juntos?(13) Não é verdade que o povo hebreu só será feliz se os outros povos também o
forem? Que nada será bom para os Judeus se não for para o mundo? Ou como disse o
Rabino Rabbenu Hananael: ‘Os Judeus nunca estarão melhores do que quando os outros
estiverem igualmente bem’?(14)”

O Judeu Errante custou a perceber que o pergaminho continha apenas algumas frases, uma
espécie de roteiro da mensagem. De fato, um único pergaminho não bastaria para tantas
palavras. A criatura continuou seu discurso:

“Nos últimos dois mil anos houve Gentios que amaram os Judeus, Gentios que odiaram
os Judeus, e uma grande maioria que lhes foi indiferente, sentimentos que hoje se
estendem ao estado de Israel. Entre os Gentios que valorizaram Israel destacou-se o
presidente americano Harry S. Truman.

Ao apoiar, em 1946, a criação do estado de Israel, contrariando a opinião de influentes


membros de seu governo(15), Truman declarou: ‘Eu tinha fé em Israel antes do estado ser
criado e continuo tendo agora. Eu acredito que Israel tem um futuro glorioso diante de
si - não será apenas mais uma nação soberana, mas a materialização dos grandes
ideais de nossa civilização”.

Dizem que Truman, ao apoiar Israel, considerou-se um novo Ciro, o rei persa que no século
VI a.C. libertou os Judeus cativos na Babilônia (no atual Iraque), enviando-os de volta à
Palestina. Também acreditou em Israel o representante do Brasil na Assembleia Geral das
Nações Unidas (ONU), o Embaixador Osvaldo Aranha(16), que presidiu a sessão da ONU que
criou o estado judeu.”

* **

Depois de uma breve pausa, a criatura do Outro Mundo “limpou a garganta” (o velho
expediente para parecer humano) e prosseguiu:

“Eu vim alertá-lo, Errante, de que seu povo está diante de uma oportunidade ímpar de
mostrar ao mundo que será uma influência civilizadora e enobrecedora para a raça
Humana. Essa oportunidade consiste em ajudar seus primos Palestinos a conseguir um
lugar ao sol. Hoje adversários, eles são um meio importante - talvez o único - para vocês
mostrarem que saberão usar com sabedoria a situação de superioridade de que
desfrutam hoje(17): usá-la não apenas em proveito próprio, mas também para construir
um mundo mais humano. Os Palestinos permitirão que vocês comprovem que são um
povo que não aceita a opressão, seja na condição de oprimido, seja na de
opressor(18). Por isso concordo que o futuro de Israel será determinado mais pelo que
ocorrer dentro do País do que fora dele(19).

“Portanto, Errante, trate os Palestinos como se representassem o mundo. Não se


esqueça de que ter sido vítima não dá direito a ser tirano(20); e que o fundamentalismo -
político ou religioso - cega as pessoas. Oponha-se à crença, Errante, de que foi o próprio
Deus que induziu os Gentios a não gostar dos Judeus(21). Não acredite que as pessoas já
nasçam odiando os Judeus uma vez que esse ódio nato justificaria não levar em
consideração o bem-estar, a vontade e os interesses dos Gentios. Afinal, para que se
preocupar com um mundo hostil do qual nada se pode esperar, um mundo que no fundo
do coração os rejeita? Mas, Errante, se você olhar o mundo com atenção, verá que esta
visão não é correta. Errante, vocês precisam criar relacionamentos fraternos,
amigáveis, desinteressados, com todas as nações e todos os povos deste mundo.

Reiterou seu pedido:

“Errante, vou insistir: os Palestinos são uma oportunidade ímpar para extirpar ideias
fantasiosas sobre seu povo, que se revelaram tão danosas no passado. Convença seus
irmãos a usar a atual posição de vantagem para colocar o mundo a seu favor. Façam
da Palestina um modelo de nação para os países muçulmanos (22). Por favor, não discuta
se os Palestinos merecem ou não porque não é esta a questão. Não se compare a eles. A
história, as necessidades e os sonhos dos Palestinos são diferentes dos seus. E, repetindo,
ao contrário de vocês, eles estão distantes da maioria dos povos. Não habitam, como os
Judeus, o imaginário de mais da metade da Humanidade.”

Prosseguiu:

“Errante, aproveite os Palestinos para mostrar às pessoas esclarecidas que seu povo é
uma dádiva de Deus para a Humanidade. Ben Gurion, o primeiro-ministro fundador,
não disse que o futuro de Israel iria depender de sua reputação internacional (23)? Chaim
Weizmann, o primeiro presidente de Israel, não estava convicto de que o mundo irá
julgar Israel pelo tratamento que o estado judeu der aos Árabes (24)? Errante, o
confronto entre Israelenses e Palestinos não é um problema restrito a dois povos do
Oriente Médio, mas um conflito internacional que desperta emoções em todo o
mundo. Não exija que os Palestinos venham até você. Também não é preciso que você
vá até eles. Proponha se encontrarem em algum ponto no meio do caminho (25).

E mudando o tema da conversa:

“Todos sabem que destacar-se - e é isto o que espero de vocês - gera ciúme, inveja(26),
rancor. Combata esses sentimentos impondo-se pelo seu valor moral e conquiste
aliados entre as pessoas de bem. Apenas o poder da força não será suficiente para lhes
garantir um futuro de paz. A violência gera inimigos e brutaliza quem a pratica. Quem
se prepara para a violência, quem enxerga na violência o único caminho para resolver
problemas, está fadado a praticar a violência. As sociedades que idolatram soldados se
condenam à insanidade coletiva(27). Caro Errante, não é possível vigiar e controlar o
mundo para se sentir seguro. Não é possível ser feliz vivendo uma vida perturbada pelo
medo de que eventos passados voltem a acontecer.

“A longo prazo, a conquista de aliados e admiradores de coração puro é um caminho


mais seguro e mais saudável - refiro-me aos aliados desinteressados, aos apoiadores
sinceros que amam a Humanidade. Não deixe que os Gentios os vejam como um grupo à
parte que pouco se interessa pelo mundo e pelas sociedades onde vivem (28).

“Dizem que a melhor medida do valor de um indivíduo é o número de pessoas que vivem
melhor (ou pior) e o quanto vivem melhor (ou pior) porque ele ou ela existe. Vamos
estender esse critério para a avaliação de nações, inclusive Israel. Errante, fico feliz
quando um de vocês ganha um prêmio Nobel porque se trata de uma clara
demonstração do quanto seu povo pode contribuir para a divinização da Humanidade.
Confio, Errante, que todos vocês irão colaborar para o êxito do Projeto S.O.S.”

* * *

O mensageiro recorreu então a algumas elucubrações que o Judeu Errante não conseguiu
entender:

“Antes de partir, quero também alertá-lo para um tipo de preocupação que o Ser
Humano deveria ter, mas raramente tem: são as vitórias que surgem de derrotas e as
derrotas que surgem de vitórias. Uma aparente vitória pode ser na verdade o início de
uma derrota, enquanto uma aparente derrota pode ser o começo de uma vitória.

O anjo citou a Lei Seca nos Estados Unidos, concebida para criar uma nação de abstêmios,
mas que acabou se revelando um presente para o crime organizado, que prosperou
produzindo e vendendo bebidas alcoólicas, capitalizando-se para expandir-se em outras
atividades ilícitas - extorsão, jogo, drogas(29) e prostituição - um exemplo eloquente de como
o combate ao vício pode promover o crime.

Mencionou a eleição de Allende no Chile. Parecia que os socialistas estavam,


democraticamente, assumindo o poder, quando na verdade abriam caminho para Pinochet.

Comparou a qualidade de vida dos negros haitianos à dos sulafricanos. Os haitianos


conseguiram, em 1803, se impor aos franceses e tomar o poder. Já os negros sulafricanos
foram subjugados até o final da década de 1980 pelo regime racista do apartheid. Hoje,
enquanto os haitianos são um dos povos mais pobres do Planeta, os negros sulafricanos
herdaram, graças à integridade e genialidade política de Nelson Mandela e ao realismo de
Frederik de Klerk, o país mais desenvolvido da África. (Mandela e de Klerk dividiram o
prêmio Nobel da Paz de 1993).

Outro exemplo foi o próprio Hitler: seu ódio aos Judeus acabou favorecendo a criação do
estado de Israel(30). E concluiu citando a Diáspora(31), que permitiu aos Judeus progredirem
nas Artes, nas Profissões e na Ciência. Talvez não experimentassem tais avanços se
tivessem permanecido na Terra Prometida. A Israel dos tempos bíblicos não gerou
filósofos, matemáticos, médicos e teatrólogos que rivalizassem com os gregos Sócrates,
Platão, Aristóteles, Pitágoras, Euclides, Thales, Arquimedes, Hipócrates, Eurípedes,
Ésquilo(32). Ressaltou que todos os povos vizinhos de Israel citados na Bíblia
desapareceram.

O Eterno Caminhante, sentindo-se apreensivo e confuso, perguntou para si mesmo:

“Será que a Diáspora fizera parte de um projeto divino para refinar e perpetuar os
Judeus através dos tempos?(33)”.

Continuou a analisar a mensagem que acabara de receber:

“O que, afinal, o Anjo quis dizer? Que Israel é muito importante para os Judeus, mas
não qualquer Israel? Seria isso? Será que estamos condenados a ser sábios,
competentes e vencedores como indivíduos mas incompetentes como povo? O que
Voltaire quis dizer quando afirmou que não há nada de errado com os Judeus, o
problema é o Judaísmo(34)?”

Foi nesse momento que uma nuvem de luz penetrou no aposento e o andarilho pode ver a
criatura. A beleza do rosto, o olhar sereno e as longas asas comprovaram tratar-se de um
Anjo do Paraíso. Percebendo o clima de apreensão, ele advertiu:

“Preste atenção, Errante. Veja, eu sou do Bem. Você pode crer na minha mensagem. Se
amanhã vierem lhe dizer que é melhor ser temido do que ser amado, que por dois mil
anos vocês foram oprimidos e que agora é a vez de ir à forra, não dê ouvidos. É Satanás
ou um de seus comandados. Não se esqueça, Errante, nem todo demônio tem chifres e
pés de cabra. Lúcifer, por exemplo, é belo e faceiro.”

O anjo vindo do Paraíso acrescentou:

“Tenho um forte pressentimento de que o Grande Sedutor virá para dizer-lhe que a vida
é assim mesmo: a gente apanha hoje, mas devolve em dobro amanhã. Ele pode tentar
convencer a você e a seus irmãos de que é chegada a hora de se vingarem dos maltratos
do passado: ‘Bata, Errante. Quanto mais bater, mais respeitado você será’.

“Satanás vai insistir: ‘Se você tiver de decidir entre castigar um indíviduo ou toda a
família, castigue a família. Entre a família e a aldeia, castigue a aldeia. Não tenha pena.
Quem morre não se vinga. Não se esqueça de que, para conquistar a Terra Prometida, a
Bíblia autoriza o genocídio(35)’”.

O Anjo se despediu pedindo ao Judeu Errante que divulgasse sua mensagem de Paz,
lembrando que a palavra Shalom (Paz) é repetida 309 vezes na Bíblia Judaica(36).

* **

O Profeta disse ao Judeu Errante que não tinha dúvidas de que se tratava de uma criatura
do Bem. Mas, constrangido, confessou que não gostaria de se manifestar sobre o conteúdo
da mensagem. Sugeriu ao andarilho que ele próprio procurasse tirar suas conclusões, e
citou Pascal: “Nós somos persuadidos mais facilmente pelas razões que nós próprios
descobrimos do que por aquelas fornecidas por outras pessoas”. Enfatizou, porém, que se
tratava de algo muito sério: a criatura celestial não viera em sonho, mas na dimensão da
realidade. Isso jamais lhe acontecera.

Procurando ao máximo ser gentil, Eliot fez alguns comentários genéricos que mais
pareciam conselhos saídos de um receituário de auto-ajuda: “Em primeiro lugar, Errante,
está o amor ao próximo”; “Fins nobres não justificam meios imorais”; “É preciso ser feliz
para fazer os outros felizes”. “Violência não gera apenas violência, mas também o gosto pela
violência.” E recomendou ensinar às crianças de Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza que
todas elas adoram o mesmo Deus - o Deus de Abraão - e que deveriam percorrer juntas o
caminho trilhado por Abraão em sua busca pela Terra Prometida.

Ao se despedirem, o Profeta assegurou ao Andarilho que sua casa estava aberta para
recebê-lo sempre que quisesse visitá-lo. O Judeu Errante, por sua vez, saiu desapontado,
mas agradecido pela hospitalidade do Profeta. Decidiu que iria compreender o que ouvira
do imponente Anjo-Mensageiro, mesmo que tivesse que recorrer a centenas de pessoas:
“Vou procurar os homens mais sábios do Planeta - filósofos, psicólogos, teólogos e também
futurólogos, videntes, místicos, bruxos - até encontrar quem me ajude a decifrar todo o
conteúdo e a razão desta mensagem”.
28. A Última Profecia
O Profeta Eliot, Sarah e os quatro filhos descansavam no velho casarão dos Eliot no
Mississippi. Após almoçar com Sarah - os filhos tinham ido cavalgar com um tio - Eliot foi
sentar-se na varanda. Folheou a revista semanal que seu pai assinava e ficou sabendo que a
tribo dos Kuikuris, índios que conhecera no Alto Xingu, na Amazônia, já estava ligada ao
mundo pela internet. A notícia o deixou feliz. Viu que até os índios se qualificavam para
participar do Projeto de Salvação do Criador. Depois de uma semana de palestras em várias
cidades estava exausto. Cochilou. Tentou resistir, mas adormeceu. E sonhou.

Em seu sonho, Eliot se surpreendeu com a chegada de uma numerosa comitiva celestial.
Estavam lá todos os anjos que o tinham visitado. O Serafim mais graduado da Grande
Revelação comandava a delegação. A nobre criatura celestial cumprimentou o Profeta e, em
seguida, deu a palavra ao Arcanjo Gabriel.

O Arcanjo Gabriel, irradiando felicidade, parabenizou Eliot em nome do grupo: “A sua


competência como profeta e pregador, Emmanuel W. Eliot, é reconhecida no Céu e na Terra.
Você se saiu muito bem. Se tivesse vivido há três ou quatro mil anos teria um lugar
assegurado na Bíblia”, brincou. “Estamos orgulhosos de você.”

Em nome do grupo, o Arcanjo Gabriel elogiou Eliot pelos excelentes resultados do Concílio
de Jerusalém. A implementação da Missão da Humanidade anunciava a criação de um novo
Ser Humano, culto, responsável e sobretudo amante de Deus, da Natureza e de seu
Semelhante. A adoção das normas de conduta propostas pelos participantes do Grupo de
Trabalho do Concílio prometia erradicar desavenças e divisões causadas por divergências
religiosas: “Não ao preconceito religioso”(1), era o bordão mais ouvido nas igrejas e nas
escolas. As frequentes reuniões de religiosos e cientistas para intercâmbio de ideias,
discussão de pontos de vista e, às vezes, para simples socialização sinalizava um novo
tempo para a Humanidade. Graças a Eliot, os Seres Humanos de todo o Planeta se
conscientizavam de que pertencemos a uma única família - a Família Humana.

Mas, segundo o Arcanjo, o grande feito de Eliot, aquele que mais envaidecera o Criador
(vaidade por ter criado uma Humanidade boa e generosa!), foi o novo relacionamento entre
Árabes e Judeus, cada qual incluindo o outro na decisão de amar ao próximo como a si
mesmo. As crianças judias aprendiam sobre a relevante contribuição oferecida pelos
Árabes à preservação e geração de conhecimento em Bagdá e Córdoba. As crianças árabes,
por sua vez, aprendiam sobre a importância da participação de intelectuais judeus naquele
esforço árabe, e também sobre o grande valor para a Humanidade dos trabalhos realizados
pelos Judeus nas mais diversas áreas, em especial os agraciados com o Prêmio Nobel. O
apoio decisivo de Eliot à “Iniciativa Caminho de Abraão” comprovara mais uma vez a sua
visão de profeta.

* * *

O Arcanjo Gabriel informou a Eliot que tinham vindo para se despedir. Não lhe fariam
novas visitas. Iriam rever-se apenas no Paraíso. Porém, antes de partir, tinham uma
mensagem derradeira para transmitir-lhe, A Última Profecia.

O Arcanjo relatou então o que estava para ocorrer em futuro não muito distante (em
termos cósmicos):

“Chegará o dia em que os Seres Humanos alcançarão os anjos em inteligência e


conhecimento. Nada de extraordinário já que nós anjos não nos modificamos enquanto
vocês humanos evoluem. Pois bem, quando vocês atingirem o Ponto de Ultrapassagem,
Lúcifer tentará convencer os Seres Humanos mais influentes a abandonar o Criador e se
apossar do Paraíso. Ele irá lhes dizer: ‘Para que aceitar a condição de semideuses se
vocês podem ser os novos deuses? Não se desvalorizem, Humanos. Pensem grande,
tenham o que merecem. Tomem o Paraíso!’ Esta seria a vingança do Grande Sedutor
pela merecida expulsão do Reino dos Céus. Desde que foi derrotado em sua tentativa de
destronar o Pai Eterno e se apossar do Paraíso, Lúcifer aguarda impaciente por uma
oportunidade para ir à forra.”

O Arcanjo Gabriel antecipou que vários Humanos se deixarão influenciar pela oratória
convincente do Rei da Maldade. Mas um bravo guerreiro chamado Ulysses, tomando
conhecimento do que ocorria, assumirá a liderança dos Homens bons. A Humanidade irá se
dividir: a maioria se juntará às Forças do Bem lideradas por Ulysses, mas uma grande parte
se associará às Forças do Mal comandadas por Lúcifer. Uma parcela nada desprezível de
indiferentes se manterá neutra.

A luta será dura. Lilith trará consigo sete sereias para atraírem com seu canto sedutor o
intrépido Ulysses, mas a estratégia falhará: “Ulysses será alertado a tempo de tapar os
ouvidos com uma espessa camada de cera”, garantiu o Arcanjo.

“Com Ulysses à frente de um contingente de bravos soldados recrutados em todo o


mundo, o Bem ganhará a primeira batalha, imobilizando por alguns segundos as
tropas de Satã. Ato contínuo, enquanto mantém o Exército do Mal fora de combate, o
Homem canalizará em direção a Deus toda a energia de que Ele precisa para reassumir
a Sua onipotência. Reenergizado, o Criador promoverá a arbitragem do conflito e,
constatando que há mais almas no Céu do que no Inferno, dará a vitória às Forças do
Bem. Em seguida Ele fará desaparecer as criaturas do Mal para todo o sempre. Os
Humanos que se aliaram a Lúcifer também serão extintos. Já os que cumpriam pena no
Inferno serão anistiados e conduzidos ao Paraíso.
O Arcanjo Gabriel esclareceu que o Criador, ao exercer Sua bondade, não terá problemas
para anistiar os condenados ao castigo eterno porque, como sabia Eliot, um instante no
Inferno equivale a uma eternidade de sofrimento. Ademais, com o passar do tempo, graças
ao rápido avanço da Humanidade no campo da moral e da ética, foram se tornando raros os
casos de condenação ao Reino das Trevas.

“Que destino terão os neutros?”, quis saber Eliot.

“Também serão anistiados, mas só depois de passar três dias e três noites no calor do
Inferno”, respondeu Gabriel, “pois nos momentos de crise moral, a neutralidade é um
pecado mais grave do que a beligerância - ser neutro na luta do Bem contra o Mal é
aceitar a vitória de qualquer das partes, da Luz ou das Trevas; é, portanto, dar as
costas, afastar-se, não ser solidário ao Criador de todas as coisas(2)”.

* * *

O Arcanjo Gabriel antecipou que após Sua reenergização, vendo-se mais forte do que antes
do Big Bang(3), o Criador será tomado por um sentimento de profunda gratidão. Ficará tão
comovido com essa demonstração de carinho que reservará para Si apenas os serafins e
querubins, colocando todas as outras sete categorias de anjos(4) a serviço dos Seres
Humanos, agora Semideuses. “Saber que jamais voltará a se sentir só fará crescer no
Criador o Seu amor pelos Homens”, informou Gabriel. “A partir de então, o amor, a bondade
e a solidariedade reinarão soberanos sobre a Terra e por todo o universo, cumprindo-se a
profecia de Isaias(5).”

* * *

As criaturas celestiais partiram de volta ao Paraíso. Mas ao se despedir, o Serafim que


comandava o grupo - ele mesmo, de viva voz - alertou o Profeta:

“Eliot, por favor, peça aos Homens para não darem ouvido aos boatos que circularão
em breve pela Terra dizendo que a Humanidade não será capaz de reenergizar a tempo
o Criador e que será o Príncipe das Trevas quem vencerá a Guerra do Fim do Mundo,
apossando-se do Reino de Deus. Essas mentiras fazem parte da estratégia de Lúcifer, e
serão repetidas noite e dia pelos articulados e persuasivos formadores de opinião que
integram o Exército de Satã. Mesmo diante da derrota inexorável, Lúcifer e seus
comandados não desistirão. Lutarão até o fim!”

O Serafim completou:

“Eliot, vocês Humanos precisam ser cuidadosos ao usar o livre-arbítrio, especialmente


no Final dos Tempos. Por favor, não se deixem levar pelos encantos do Grande
Sedutor. Não se exponham a qualquer risco que possa frustrar os planos do Criador.”

E, pela primeira vez, uma criatura celestial se referiu à família do Profeta:


“Eliot, transmita os nossos cumprimentos a Sarah e a seus filhos. Aguardamos vocês no
Paraíso!”
AGRADECIMENTOS

Desejo agradecer às pessoas que leram o manuscrito deste livro e me ofereceram sugestões
e recomendações para aprimorá-lo. São amigos dos tempos da universidade ou ex-colegas
de trabalho que têm em comum carreiras bem-sucedidas na academia, no governo, na
iniciativa privada, ou em mais de uma dessas áreas. A diversidade ideológica e religiosa do
grupo enriqueceu sobremaneira a contribuição oferecida. Quando me lembro de que a vida
é feita de tempo, fico especialmente envaidecido com a generosidade com que me
concederam uma parcela não desprezível de “suas existências”.

Destaco os engenheiros Nivaldo Elias Murad, Ronaldo Santiago Gontijo, Togo Nogueira de
Paula e o filósofo e educador Francisco Liberato Póvoa, profissionais cuja cultura e
experiência foram decisivas para a qualidade desta narrativa. Espero ter sido capaz de
tirar proveito de toda a sabedoria e conhecimento que colocaram à minha disposição. Sou
especialmente grato ao amigo Ronaldo Gontijo por ter analisado comigo algumas
implicações religiosas de determinadas passagens do texto. As recomendações oferecidas
por João M. Coelho durante a tradução do livro para o inglês foram oportunas e
relevantes. Tive a sorte de poder contar com sua vasta erudição e experiência. Assim,
somada à sua competência, a formação em teologia fez de João Coelho um profissional
especialmente vocacionado para este trabalho.

Desejo também agradecer aos autores citados nas Notas, cujas obras foram lidas
especificamente para a elaboração deste texto. As divergências político-ideológicas e de
interesses entre esses conceituados intelectuais foram de extrema relevância - na verdade
imprescindíveis - para o projeto. As leituras sobre alguns temas com os quais não estava
nada familiarizado - como o conflito entre Israelenses e Palestinos - me fizeram sentir como
um extraterrestre que viesse à Terra para conhecer seus habitantes, entrasse em uma
biblioteca e, a partir das obras que leu, decidisse colocar o que aprendeu em um livro.

Lamentei profundamente o falecimento durante a preparação deste livro dos “autores-


colaboradores” José Saramago (1922-2010), Moacyr Scliar (1937-2011) e Christopher
Hitchens (1949-2011). Com Scliar, médico e escritor, aprendi que “escrever é reescrever”.
NOTAS

INTRODUÇÃO
(1) Amós 3:7.
Todas as citações bíblicas deste livro são extraídas da BIBLIA SAGRADA da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, oitava edição, Brasília, DF

Capítulo 1. Emmanuel W. Eliot

(1) A tragédia de Buell Quain inspirou o escritor brasileiro Bernardo Carvalho a escrever ‘Nove Noites”, premiado
romance de mistério e suspense.

(2) Um traço comum às tribos indígenas da América do Sul - e elas são mais de 200 somente no Brasil, falando cerca
de 180 línguas - é acreditar nas forças da Natureza e nos espíritos dos antepassados. Todas as tribos creem na vida
após a morte e cabe ao pajé comunicar-se com os que já se foram.

(3) Machu Picchu foi eleita Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e, mais recentemente, uma das sete
maravilhas do mundo moderno, juntamente com a Grande Muralha (China), a cidade de Petra (Jordânia), o Cristo
Redentor (Brasil), Chichén Itzá (México), o Coliseu (Itália) e o Taj Mahal (India).

(4) Em 1492, ano da descoberta do continente americano, a população mundial totalizava cerca de 500 milhões de
habitantes.

(5) No Brasil, os índios que restaram sobrevivem, em geral, em condições precárias. Até recentemente viviam quase
sem receber atenção da sociedade e do governo, e só nos últimos anos o governo brasileiro e a comunidade
internacional passaram a se sentir responsáveis pela sua permanência em terras indígenas, e pela preservação de
sua cultura. No passado, os trabalhos realizados por indigenistas notáveis, como o Marechal Rondon e os irmãos
Villas-Boas, foram exceções.

(6) Pesquisas realizadas pelo médico e geneticista brasileiro Sergio Danilo Pena, Professor da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG).

(7) Muitos não-matemáticos tendem a ver o zero apenas como uma forma de representar o nada, o conjunto vazio,
o número zero. Mas o grande mérito do zero é, como símbolo/algarismo, permitir que se represente os infinitos
números com uma quantidade limitada de símbolos (apenas dez no caso dos algarismos arábicos). Com os
algarismos romanos, por exemplo, onde não existe o símbolo zero, precisaríamos de infinitos algarismos para
representar os infinitos números.

(8) No Brasil, o Dia do Índio, 19 de abril, foi criado pelo presidente Getúlio Vargas através do decreto-lei 5540 de
1943, atendendo ao pleito do Marechal Cândido Rondon. Relembra o dia, em 1940, em que várias lideranças
indígenas do continente participaram do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano realizado no México
(Fonte: Wikipédia).

Capítulo 2. A Trombeta de Jericó


(1) Josué 6:20-21 - O povo inteiro lançou, então, o grito de guerra, enquanto ressoavam as trombetas. Logo que o
povo, ao ouvir a trombeta, deu seu grito, desabaram de repente as muralhas. Cada um entrou pelo lugar que estava
à sua frente, e assim tomaram a cidade, matando tudo o que nela havia. Homens e mulheres, jovens e velhos, bois,
ovelhas e jumentos, tudo foi passado ao fio da espada.

(2) Deuterômio 7:6 – “...O Senhor teu Deus te escolheu dentre todos os povos da terra para seu povo particular”.

(3) Josué 10:40-42 - Foi assim que Josué conquistou toda aquela terra - a Montanha, o deserto do sul, a Planície e as
encostas - juntamente com seus reis. Não deixou um sobrevivente sequer, votando ao interdito (matando) todo ser
vivo, conforme ordenara o Senhor, o Deus de Israel. Josué destruiu-os desde Cades Barne até Gaza, como também
toda a terra de Gósen até Gabaon. Josué tomou todos esses reis e suas terras de uma só vez, porque o Senhor, o
Deus de Israel, combatia em favor de Israel.

(4) Josué 10:28 - Naquele mesmo dia Josué tomou Maceda. Passou-a ao fio da espada, votando ao interdito
(matando) o rei e todas as pessoas que nela se encontravam. Não deixou um sobrevivente sequer e tratou o rei de
Maceda como havia tratado o rei de Jericó. (a quem havia matado)

Deuteronômio 7:1-2 - Quando o Senhor teu Deus te introduzir na terra em que vais entrar para tomar posse e
expulsar da tua frente muitos povos, os heteus, os gergeseus, os amorreus, os cananeus, os fereseus, os heveus e os
jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e quando o Senhor teu Deus as entregar a ti, e tu
as derrotares, deverás votá-las ao interdito (exterminar). Não farás pactos com elas nem terás compaixão delas.

(5) Deuteronômio 20:10-17 - Quando te aproximares de uma cidade para atacá-la, começarás propondo-lhe a paz.
Se ela aceitar a paz e te abrir as portas, todos os habitantes te prestarão trabalho gratuito e te servirão (escravos).
Mas se recusar a paz e preferir a guerra, tu a sitiarás. E quando o Senhor teu Deus a colocar em tuas mãos, passarás
todos os homens a fio de espada. Só ficarás com as mulheres, as crianças, o gado e tudo o que se encontrar na
cidade; ficarás com todo o saque e poderás comer dos despojos dos inimigos que o Senhor teu Deus te dá.

Procederás assim com todas as cidades mais afastadas, que não pertencerem às cidades das nações daqui. Mas nas
cidades dos povos que o Senhor teu Deus te dá em herança não deixaras alma viva. Votarás ao interdito
(exterminarás) os heteus, os amorreus, os cananeus, os fereseus, os heveus e os jebuseus, como o Senhor
teu Deus te mandou. (Ênfase do autor)

Observação: Na conquista da Terra Prometida, o termo “limpeza étnica” e “genocídio” são usados por Miles ao
referir-se à ocupação de Canaã. (Jack Miles, Deus: uma biografia (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2009), pg
152, 273. (Título Original: God: A Biography, 1995).

(6) Números 31:14-18 - Moisés enfureceu-se contra os oficiais do exército, chefes de mil e de cem, que retornaram
do campo de batalha, e disse-lhes: “Por que deixastes vivas todas as mulheres? Foram elas que, instigadas por
Balaão, levaram os israelitas a serem infiéis ao Senhor no caso de Fegor e provocaram a mortandade na
comunidade do Senhor. Matai, portanto, todos os meninos, bem como todas as mulheres que já tiveram relações
com algum homem. As meninas, porém, que não tiveram relações com homem, conservai-as vivas para vós”.

(7) Deuteronômio 6:10-12 - Quando o Senhor teu Deus te introduzir na terra que a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó,
jurou dar-te, com cidades grandes e belas que não edificaste, casas cheias de toda espécie de bens que não
ajuntaste, cisternas já escavadas que não cavaste, vinhas e oliveiras que não plantaste; e quando comeres e te
fartares, cuida para não esquecer o Senhor que te tirou do Egito, casa da escravidão.

(8) 1Reis 22:20-23 – “E o Senhor dizia: ‘Quem enganará Acab, para que ele vá à guerra e caia em Ramot de
Galaad?’. E um dizia uma coisa, e outro, outra. Veio então um espírito e apresentou-se diante do Senhor, dizendo:
‘Eu o enganarei’. - ‘De que maneira?’, perguntou-lhe o Senhor. Ele respondeu: “Ao ir até ele, serei um espírito de
mentira na boca de todos os seus profetas’. E o Senhor disse: ‘Engana-o e terás sucesso. Vai e faz assim’. Assim, o
Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos os teus profetas aqui, e o Senhor decretou a tua ruína”.

(9) A maldade do Deus bíblico é abordada por José Saramago em seu livro Caim. (José Saramago, Caim (São
Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2009).

(10) Mercador de Veneza, de Shakespeare, Ato três, Cena um: “The Devil can cite scripture for his purpose.” Esta
citação pode ser traduzida (sentido amplo) como “O Diabo consegue se justificar citando as Escrituras”.

Capítulo 3. O Caminho de Abraão


(1) A palavra antissemitismo foi criada em 1879 pelo jornalista alemão Wilhelm Marr, que se referia
especificamente aos Judeus e não a outros descendentes de Sem (filho de Noé), como os Árabes. (Jacques Attali, Os
judeus, o dinheiro e o mundo (São Paulo, SP: Editora Futura, 2003), pg 406). (Título original, em francês: Les juifs, le
monde et l’argent, 2002).

(2) As primeiras cidades surgiram com o advento da agricultura e da domesticação de animais. Este período marca
o início da Idade da Pedra Polida, ou Neolítico (neo, novo; litos, pedra), quando o Homem começou a polir seus
artefatos de pedra. Vai de 10.000-8.000 a.C. até a descoberta da escrita (início da História) em aprox. 4.000 a.C. As
primeiras cidades são, portanto, anteriores à utilização do cobre, do bronze e do ferro. (O cobre começou a ser
amplamente usado perto do ano 3.000 a.C. e o ferro em aprox. 1.200 a.C.)
O Neolítico foi precedido pela Idade da Pedra Lascada ou Paleolítico (pedra antiga), quando os ancestrais do
homem produziram os primeiros artefatos de pedra, e que vai de cerca de 2,5 milhões de anos a.C. até o Neolítico.
Durante todo o Paleolítico os Homens eram nômades e viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos vegetais.

Segundo Peter Drucker, os sábios da Grécia Antiga puderam existir graças ao arado. Sem o aumento da
produtividade agrícola proporcionada pelo arado, os filósofos gregos não existiriam, pois não teriam tido tempo
livre para se dedicarem a pensar e a gerar conhecimento. Até a descoberta do arado os homens viviam inteiramente
voltados às atividades necessárias à sobrevivência: plantar e colher; coletar frutas e vegetais na Natureza; caçar,
construir abrigos e proteger sua tribo contra inimigos e animais perigosos.

Confirmando Druker, Platão, assim como a maioria dos filósofos gregos, considerava o ócio essencial à sabedoria,
“que não será encontrada entre aqueles que têm de trabalhar para ganhar a vida”. Somente as pessoas que
dispõem de meios suficientes para ser independentes, ou que têm sua subsistência garantida pelo Estado, estariam
em condições de gerar conhecimento. (Vide Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, Volume 1o - História
Antiga (São Paulo, SP: Cia Editora Nacional, 1967), pg 124).

(3) Os dualistas defendem a idéia de que as pessoas nascem com uma propensão a crer que a mente é um tipo de
espírito fluido que habita o corpo e que pode deixá-lo e existir em outro lugar; e também a crer que para tudo há
não apenas causa, mas também um propósito (teleologia). O dualismo (corpo e alma) e a teleologia (uma razão para
tudo) predisporiam o Homem (por vontade divina, segundo alguns religiosos) à religião.

(4) Sobre Deus como disciplinador, vide Don Cupitt, Depois de Deus: o futuro da religião (Rio de Janeiro, RJ: Editora
Rocco Ltda, 1999), pg 21. (Título Original: After God: The Future of Religion, 1997).

Capítulo 4. Preparativos para a Peregrinação


(1) São Paulo foi a figura mais importante do Cristianismo. Foi ele o apóstolo que levou Cristo aos gentios,
transformando o Cristianismo de seita judaica a uma religião universal aberta a todos.

(2) O Monte do Templo é assim chamado porque é o lugar onde Salomão construiu o templo sagrado dos Judeus,
destruído em 586 a.C. pelos Babilônios, reconstruído por ordem do imperador Ciro II da Pérsia em 539 a.C., após
derrotar os Babilônios, e novamente destruído pelos romanos em 70 d.C. Hoje, tudo que resta do Segundo Templo
(o templo reconstruído por ordem de Ciro) é o Muro das Lamentações, um dos locais mais venerados pelos Judeus.
Nesse Monte foi também erguida a Mesquita de Al-Aksa e a Cúpula Dourada; lá está a pedra de onde Maomé subiu
ao Paraíso montado em seu cavalo alado Buraq, na companhia do Arcanjo Gabriel. No Paraíso, Maomé encontrou-
se com os profetas do Alcorão, inclusive Adão, Moisés e Jesus. “Ao perceber que Moisés chorava, (Maomé)
perguntou: Por que chora?” E Moisés respondeu, referindo-se a Maomé: “Porque um profeta foi mandado depois de
mim e mais gente do povo dele do que do meu entrará no Paraíso.” (Ali Kamel, Sobre o Islã (Rio de Janeiro, RJ:
Editora Nova Fronteira S.A, 2007), pg 69).
A Mesquita de Al-Aksa e a Cúpula Dourada fazem de Jerusalém a terceira cidade mais sagrada para os Muçulmanos,
após Meca (onde se encontra a Caaba, o lugar mais sagrado do Islamismo, dentro da Mesquita de Al-Haram) e
Medina (onde foi enterrado o corpo do profeta Maomé).

Três mil anos após a construção do Templo de Salomão, os Judeus ortodoxos se recusam a cumprir o extenso
serviço militar e a pagar a pesada carga tributária que incide sobre todos os outros cidadãos de Israel. Entendem
que fazem jus hoje ao tratamento especial de que usufruiam naquela época sacerdotes e levitas que prestavam
“dedicação religiosa” ao Estado na qualidade de servidores do Templo. (Odon Vallet, Uma outra história das
religiões (Rio de Janeiro, RJ: Editora Globo S.A, 2002), pg 45). (Título original em francês: “Une autre histoire des
religions”, 2001).

(3) Para os Muçulmanos, o jovem oferecido em sacrifício foi Ismael, o filho de Abraão com a escrava egípcia Agar,
do qual descendem os Árabes. Abraão é citado mais de vinte vezes no Alcorão.

(4) Mateus 1:18-25 - Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José
e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo
e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente. Mas, no que lhe veio esse
pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas receio de
receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu lhe porás o nome
de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor
tinha dito pelo profeta: Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de
Emanuel, que significa: Deus-conosco. Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu
sua esposa. E não teve relações com ela até o dia em que deu à luz o filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.

(5) Mateus 2:13-14 - Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse:
“Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o
menino para matá-lo”.

Mateus 2:19-23 - Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e lhe disse:
“Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois já morreram aqueles que queriam matar
o menino. Ele levantou-se, com o menino e a mãe, e entrou na terra de Israel. Mas quando soube que Arquelau
reinava na Judeía, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Depois de receber em sonho um aviso,
retirou-se para a região da Galiléia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que
foi dito pelos profetas: “Ele será chamado nazareno”.

(6) Deuteronômio 32:48-49,52 - Naquele mesmo dia o SENHOR falou a Moisés: “Sobe a este monte Abarim - o
monte Nebo, na terra de Moab, em frente de Jericó - e contempla a terra de Canaã, que vou dar em posse aos
israelitas... Verás defronte de ti a terra que darei aos israelitas, mas nela não entrarás”.

Deuteronômo 34:4 - E o Senhor disse: “Esta é a terra da qual jurei a Abraão, Isaac e Jacó: ‘Eu a darei à tua
descendência’. Tu a viste com teus próprios olhos, mas nela não entrarás”.

(7) As águas do Mar Morto são ricas em bromo, magnésio e potássio, além do sal comum. O teor de sais - quase
nove vezes o teor mais alto encontrado nos oceanos - impede a vida de peixes e outros animais, daí o nome de Mar
Morto.
(8) O Mar Morto se encontra a cerca de 400 metros (1.300 pés) abaixo do nível do mar, e Jerusalém a 835 metros
(2.739 pés) de altitude. (Facts about Israel, Israel Information Center, 1992, pg 78).

(9) Nos Estados Unidos, o Movimento da Reforma considera também Judeu o filho de pai judeu. (Howard N.
Lupovitch, Jews and Judaism in World History (New York: Routledge, Taylor & Francis Group, 2010 - Coleção
Themes in World History), pg 243).

(10) Robert Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown and Company, 2009), pg 385 e Zachary
Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence (New York: Alfred A. Knopf, a
division of Random House, Inc., 2007), pg 171. (Impostos sob o Islamismo)

(11) Os Mouros muçulmanos ocuparam partes da Península Ibérica (Portugal e Espanha) durante cerca de
oitocentos anos, do século VIII ao final do século XV.

(12) Robin Wright, Dreams and Shadows: The Future of the Middle East (New York: The Penguin Press, 2008), pg
22. (Palestinos cristãos)

(13) Cada sociedade com sua cultura e seus costumes. Nos Estados Unidos, a Lei Seca que deveria transformar o
país numa nação de abstêmios, favoreceu, durante a sua vigência, a consolidação e expansão do crime organizado.

(14) Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History, pg 79. (Monogamia)

(15) Alcorão 2:62, 5:69, em Robert Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown and Company, 2009), pg
393. (Salvação no Juízo Final)

(16) Maimônides pregava que a circuncisão - que começou com Abraão, circuncidado aos 99 anos de idade - visava
a diminuir o número de relações e o prazer sexual, aquietando o órgão sexual masculino e dirigindo o sexo para a
reprodução (No “Guia dos Perplexos” de Maimônides, citado em Christopher Hitchens, Deus não é Grande: como a
religião envenena tudo (Rio de Janeiro, RJ: Ediouro Publicações S.A., 2007), pg 205. (Título original: God is not Great,
2006). Sob essa ótica, o sexo seria um instrumento exclusivo para reprodução.

Filon de Alexandria, o primeiro filosófo judeu (Século I), parece ter sido a primeira pessoa a defender o rito da
circuncisão com base também na higiene pessoal. (Robert Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown
and Company, 2009), pg 218). Filon é também conhecido por ter buscado aproximar a religião judaica da filosofia
grega. Segundo Lupovitch, sua vasta obra foi preservada por padres da Igreja Católica; os Judeus só vieram a
descobri-lo muito mais tarde. (Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History, pg 42).

(17) A circuncisão é praticada pelos Muçulmanos por questão de higiene. (Odon Vallet, Uma outra história das
religiões (Rio de Janeiro, RJ: Editora Globo S.A., 2002), pg 98-99). (Título original em francês: Une autre histoire des
religions, 2001).

(18) Gálatas 5:2,6. Vide também Gálatas 2:16 e 3:2-29 (Circuncisão por Cristãos).
(19) Não sendo obrigados pela religião a se circuncidarem, os Cristãos se veem diante das seguintes questões
quanto à circuncisão de seus filhos ao nascerem: (a) Considerando-se os hábitos de limpeza atuais (comparados aos
dos tempos bíblicos), a circuncisão seria hoje recomendada por razões de higiene?; (b) Até que ponto a circuncisão
interfere no desejo sexual dos homens e no prazer dos homens e de suas parceiras?; (c) Se a circuncisão é
irreversível, não seria melhor deixar a decisão de fazê-la ou não fazê-la para mais tarde, quando se pode avaliar
corretamente se ela é recomendada ou mesmo necessária? (em matéria de prepúcio, cada caso é um caso); (d)
Quais são os riscos envolvidos nessa cirurgia/prática?

(20) Ali Kamel, Sobre o Islã (Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira S.A, 2007), pg 124-125. Lupovitch também
enfatiza que o relacionamento entre Judeus e Não-Judeus era mais próximo no Império Otomano, e no mundo
muçulmano em geral, do que nos países cristãos da Europa. Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World
History, pg 170. Bertrand Russell, em História da Filosofia Ocidental, afirma que “Durante toda a Idade Média, os
Maometanos foram mais civilizados e humanos do que os Cristãos. Os Cristãos perseguiram os Judeus,
principalmente nos tempos de exaltação religiosa; as Cruzadas estiveram associadas a espantosos pogroms. Nos
países maometanos, pelo contrário, os Judeus, em quase todos os tempos, não foram maltratados de forma
alguma. Na Espanha mourisca, particularmente, contribuíram para a cultura; …” (Bertrand Russell, História da
Filosofia Ocidental, Livro 2o - A Filosofia Católica (São Paulo, SP: Cia Editora Nacional, 1967, pg 20.

(21) Wikipedia. Ao confrontar os dados da Wikipedia com os apresentados por outras fontes como o Time
Almanach/2012, vemos que o número e a percentagem de Muçulmanos na população de cada país não
coincidem, mas têm a mesma ordem de grandeza, não influindo nas conclusões deste trabalho.
(Enquanto a Wikipedia estima em 177.286.000 o número de Muçulmanos na Índia, o Time Almanach/ Powered by
Encyclopedia Britannica menciona (pg 304) 143.823.040 (12.26% de 1.173.108.000). Uma terceira fonte, Karabell
(pg 284), estima em 200 milhões. Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish
Coexistence (Países com maior população muçulmana).

(22) Jimmy Carter, We Can Have Peace in the Holy Land: A Plan That Will Work (New York: Simon & Schuster,
2009), pg 61. (Número de países árabes e países muçulmanos)

(23) Wikipedia e Time Almanach/2012 (Powered by Encyclopedia Britannica), Religiões, pg 508-509.


(Muçulmanos em países europeus).

(24) Time Almanach/2012, Religiões, pg 508-509. (Muçulmanos e Cristãos na população mundial).

(25) Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence, pg. 284. (Muçulmanos
nos Estados Unidos).

(26) Jim Al-Khalili, The House of Wisdom (New York: The Penguin Press, 2011), pg 26. (Extensão do domínio
muçulmano).

(27) Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence, pg 180. (Expansão do
Islamismo)

(28) Zachary Karabell, Idem, pg 3-4. Também em Jim Al-Khalili, The House of Wisdom, 2011), pg 189. (Estreito de
Gibraltar)
(29) Jim Al-Khalili, The House of Wisdom, pg 68. (Biblioteca).

(30) Idem, pg 44-47. Christopher Hitchens, em Deus não é Grande (pg 33), também aborda a preservação do
conhecimento pelos Árabes muçulmanos, assim como Bertrand Russell em sua História da Filosofia Ocidental.

Bertrand Russel relata o importante trabalho realizado pelos Árabes, a partir do século VII, na filosofia, astronomia,
álgebra e química, atribuindo a eles o renascimento da cultura no século XI (pg 321). Refere-se então à importância
dos discípulos de Maomé na preservação do conhecimento desenvolvido pelos gregos, ressaltando que “A
reputação de Aristóteles é devida principalmente a eles; na antiguidade, não o consideravam como situado no
mesmo nível que Platão” (pg 320).

Ainda sobre a preservação do conhecimento gerado pelos gregos, Russell, voltando-se agora para a Antiquidade
Clássica, relata que as cidades gregas, “como o futuro demonstrou, não tinham grande capacidade para resistir a
conquistadores estrangeiros, mas, por um golpe extraordinário de boa sorte, seus conquistadores, macedônios e
romanos, eram filo-helenos, e não destruíram o que haviam conquistado, como Xerxes ou Cartago o teriam feito. O
fato de conhecermos o que os gregos realizaram na arte, na literatura, na filosofia e na ciência, se deve à
estabilidade introduzida pelos conquistadores ocidentais, que tiveram o bom senso de admirar a civilização que
governaram, fazendo o máximo para preservá-la” (pg 319). Diz ainda: “No século V antes de Cristo, se acontecesse
de surgir um Gengis Khan, poderia haver destruído tudo o que era importante no mundo helênico” (pg. 318). Sobre
os Macedônios, Russell destaca o papel de Alexandre o Grande, na disseminação da cultura grega nas terras que
conquistou na Europa, Ásia e África. (Christopher Hitchens, Deus não é Grande: como a religião envenena tudo (Rio
de Janeiro, RJ: Ediouro Publicações S.A., 2007); (Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, Livro 1o - Filosofia
Antiga (São Paulo, SP: Cia Editora Nacional, 1967).

(31) St. John se refere à vida dos Judeus na Espanha sob domínio Muçulmano como a idade de ouro para o
Judaísmo. A tolerância dos governantes mouros permitiu que os Judeus se tornassem médicos, advogados,
professores, matemáticos, poetas, fílosófos e “príncipes” do comércio, e que construíssem magníficos palácios e
sinagogas. (Robert St. John, Jews, Justice and Judaism (Garden City, NY: Doubleday & Company, 1969, pg 1-2).

Edward Flannery também relata que os Judeus viveram na Espanha sob o domínio mouro um período de
prosperidade e criativade jamais igualado em toda a história pós-bíblica. (Edward H. Flannery, The Anguish of the
Jews (Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 2004), pg 80).

(32) Jim Al-Khalili, The House of Wisdom, pg xviii. (Árabe, língua da ciência)

(33) Idem, pg 73, Capítulo 8. Khalili ressalta o trabalho de Muhammad Ibn Musa al-Khwarizmi, o Pai da Álgebra,
considerado o mais importante cientista de seu tempo pelo historiador da Ciência George Sarton (Introduction to
the History of Science). (Álgebra)

(34) Idem, pg 51. (Química)

(35) Sobre a importância do algarismo zero, vide Nota 7 do Capítulo 1 (Emmanuel W. Eliot).
O símbolo/algarismo/numeral zero foi criado pelos Indianos e trazido para o Ocidente pelos Árabes. Bertrand
Russell relata que Muhammad ibn Musa al-Khwarazmi publicou, por volta do ano de 830, o livro Algoritmi de
numero Indorum, que foi traduzido para o latim no Século XII. Foi através dessa obra que o Ocidente aprendeu o
que chamamos “números arábicos”, que na verdade deviam ser chamados “indianos”. (Muhammad ibn Musa al-
Khwarazmi é também o autor de um livro sobre álgebra adotado no Ocidente como livro texto até o século XVI.
Traduziu obras de matemática e astronomia do sânscrito). Vide Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental,
Livro 2o - A Filosofia Católica (São Paulo, SP: Cia Editora Nacional, 1967), pg 130.

O algarismo zero também teria sido concebido independentemente pelos Maias. Já o Professor Khalilli atribui aos
Babilônios a criação do algarismo zero. (Vide Jim Al-Khalili, The House of Wisdom (New York: The Penguin Press,
2011), pg 105). O número zero (representação do nada, do conjunto vazio) veio dos Gregos.

(36) Jim Al-Khalili, The House of Wisdom, pg 18. (Maomé e os intelectuais)

(37) Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence, pg 71-72. (Judeus no
comércio)

(38) Idem, pg 72-73. (Conhecimento de venenos e seus antídotos)

(39) Sobre a importância dos Judeus no mundo das finanças, uma curiosidade histórica pouco conhecida é que a
Guerra da Independência americana (Revolutionary War) foi em grande parte financiada por Hayim Solomon,
quando viviam apenas 3.000 Judeus nos Estados Unidos. (Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History,
pg 165). (Judeus nas finanças)

(40) Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence, pg 171. (Judeus no
comércio de joias, pérolas e cetim).

(41) Zachary Karabell, Idem, pg 8. (Judeus sob o domínio muçulmano)

(42) Scott Atran, In Gods We Trust: The Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press,
2002), pg 289, citando James Reston, Warriors of God: Richard the Lionheart and Saladin in the Third Crusade (New
York: Doubleday & Company, 2001).

Para Robert Wistrich, no entanto, a tragédia das Cruzadas teria sido superada pelos pogroms (devastação)
ocorridos na Rússia czarista no final do século XIX e começo do século XX. Os piores massacres aconteceram em
1881, 1903, 1905 e durante a Guerra Civil Russa (1918-1920), estes na Ucrânia, conduzidos pelo Exército Branco
czarista. (Robert S. Wistrich, Antisemitism: The Longest Hate (New York: Pantheon Books, 1991), pg 315).

(43) Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence, pg 9. (Choque de
civilizações)

(44) OS CINCO PILARES DO ISLAMISMO


1 - Acreditar em um só Deus e em Maomé como o último profeta.
2 - Orar 5 vezes ao dia voltado para Meca.
3 - Dar esmola visando a caridade.
4 - Jejuar no mês do Ramadã, do nascer do dia ao cair da noite.
5 - Fazer a peregrinação a Meca uma vez na vida, se tiver condições físicas e financeiras.
Fonte: Ali Kamel, Sobre o Islã (Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira S.A., 2007), p. 75.

(45) OS TREZE PRINCÍPIOS DO JUDAÍSMO DE MAIMÔNIDES


1 - Acreditar que Deus é o Criador e guia de todos os seres, ou seja, que só Ele fez, faz e fará tudo.
2 - Acreditar que o Criador é um e único; que não existe unidade de qualquer forma igual à d’Ele;
e que somente Ele é nosso Deus, foi e será.
3 - Acreditar que o Criador é incorpóreo e que está isento de qualquer propriedade antropomórfica.
4 - Acreditar que o Criador foi o primeiro (nada existiu antes d’Ele) e que será o último (nada
existirá depois d’Ele).
5 - Acreditar que o Criador é o único a quem é apropriado rezar, e que é proibido dirigir preces a
qualquer outra entidade.
6 - Acreditar que as palavras dos profetas são verdadeiras.
7 - Acreditar que a profecia de Moisés é verídica, e que ele foi o pai de todos os profetas, tanto dos
que o precederam como dos que o sucederam.
8 - Acreditar que toda a Torá (instrução) que possuem foi dada pelo Criador a Moisés.
9 - Acreditar que as Leis de Moisés não serão modificadas e nem haverá outras outorgadas pelo
Criador.
10- Acreditar que o Criador conhece todos os atos e pensamentos dos seres humanos, pois está
escrito: “Ele forma os corações de todos e percebe todas as suas ações” (Salmos 33:15).
11- Acreditar que o Criador recompensa aqueles que cumprem os Seus mandamentos, e pune os
que transgridem Suas leis.
12- Acreditar na vinda do Messias e, embora ele possa demorar, deve-se esperar todos os dias a
Sua chegada.
13- Acreditar que haverá a ressurreição dos mortos quando for a vontade do Criador (i).
Fonte: Wikipédia.

O rabino Moses Maimônides (1135-1204) foi um importante filósofo, teólogo, codificador rabínico e médico
judeu. Nascido em Córdoba, Espanha, mudou-se aos treze anos para o Marrocos e depois para o Egito, onde foi o
médico do vizir Al-Fadil, preposto de Saladino, sultão da Síria e do Egito (Saladino passou à História por sua
liderança, bravura, fidalguia e principalmente por ter retomado Jerusalém para os Muçulmanos). Por volta de
1190, Maimônides escreveu sua obra mais conhecida, o Guia dos Perplexos.

Maimônides enriqueceu com a herança recebida de um irmão que afogou-se no Mar Vermelho, em 1169. Seus
escritos filosóficos, juntamente com os de Hillel e de Averroés, foram relevantes para a criação da ética do
capitalismo. (Sobre a trajetória de Maimônides, vide Jacques Attali, Os judeus, o dinheiro e o mundo (São Paulo, SP:
Editora Futura, 2003), pg 191-193). (Título original, em francês: Les juifs, le monde et l’argent, 2002).

(i) Judeus da Reforma reunidos em Pittsburgh em 1885 aprovaram os oito princípios da Reforma. Um dos
princípios prega a imortalidade da alma, mas rejeita a ressurreição dos mortos. (Robert St. John, Jews, Justice and
Judaism (Garden City, NY: Doubleday & Company, 1969), pg 127-128)

(46) Tomando-se como referência os califados de Andalusia e Bagdá, fica evidente o marcante retrocesso
econômico, político e cultural do mundo muçulmano. É de fato chocante, após conhecer as realizações ocorridas
em Córdoba e Bagdá, saber que, hoje, a produção científica (trabalhos publicados) de uma única universidade
americana (Harvard) supera a de todos os países árabes somados. (Jim Al-Khalili, The House of Wisdom, pg 243-44).

É ainda mais chocante ler que “Em 1993, a suprema autoridade religiosa da Arábia Saudita, Sheik Abdel-Aziz Ibn
Baaz, emitiu um decreto religioso (fatwa) declarando que o mundo é plano. E que todos que acreditassem que a
Terra é redonda seriam descrentes de Deus e como tal deveriam ser punidos. É, assim, irônico saber que as
evidências de que a Terra é uma esfera acumuladas pelo astrônomo grego-egípcio Cláudio Ptolomeu (Século II)
foram transmitidas ao Ocidente por astrônomos que eram árabes e muçulmanos. No Século IX foram eles que
denominaram o livro em que Ptolomeu demonstrava a esfericidade da Terra de O Almagest, “O Maior”. (Carl Sagan,
The Demon-Haunted World: Science as a Candele in the Ark (New York: Random House/Ballantine Books, 1996),
pg 325).

No campo político, a democracia é hoje a forma de governo de todas as nações desenvolvidas; no Oriente Médio,
porém, o único país árabe-muçulmano que elege de fato seus governantes é o Líbano, uma república
parlamentarista, onde, por um acordo político, o primeiro-ministro é sunita, o porta voz do parlamento xiita e o
presidente cristão maronita. (No Líbano, os Muçulmanos são maioria por uma pequena margem).

Na área da saúde, dos seis países que, em 2003, não tinham ainda erradicado a poliomelite, cinco eram
muçulmanos: Nigéria, Paquistão, Niger, Afeganistão e Egito; o sexto é a Índia. (Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty
(New York: Penguin Press, 2005), pg 263).

Pollack (pg 193) advoga que, para tornar o mundo mais seguro, é preciso promover o desenvolvimento dos países
árabes. Sachs (pg 221), com uma carreira e experiência profissional distintas da de Pollack, também prega que a
redução da pobreza é imprescindível para a segurança mundial.

Apesar das informações acima, alguns países muçulmanos estão, porém, entre os que mais se desenvolveram
economicamente no período 1990-2001: Malásia (3.9% de crescimento anual médio do PIB); Bengaladesh (3.1%),
Tunísia (3.1%) e Indonésia (2.3%), indicando que o Islamismo não é incompatível com o progresso econômico.
(Sachs, pg 316).

Análises das condições sociais, políticas e econômicas dos países do Oriente Médio são encontradas em Robin
Wright, Dreams and Shadows: The Future of the Middle East (New York: The Penguin Press, 2008), e em Kenneth M.
Pollack, A Path Out of The Desert: A Grand Strategy for America in the Middle East (New York: Random House, Inc.,
2008).

Capítulo 5. A Criação do Homem


(1) Em Nilton Bonder, Tirando os sapatos: O caminho de Abraão, um caminho para o outro (Rio de Janeiro, RJ:
Editora Rocco, 2008), pg 62.

(2) Mateus 1:18-25 . Vide o texto bíblico na Nota 4 to Capítulo 4.


(3) Mateus 2:12 - Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para sua terra, passando por outro
caminho.

(4) Mateus 27:19 - Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher (a mulher de Pilatos) mandou dizer a ele: “Não
te envolvas com esse justo, pois esta noite, em sonho, sofri muito por causa dele”.

(5) Gênesis 15:12-14 - Quando o sol já ia descendo, um sono profundo caiu sobre Abrão, que foi tomado de grande e
misterioso terror. E o Senhor disse a Abrão: “Fica sabendo que tua descendência viverá como estrangeiros numa
terra que não lhes pertence. Serão reduzidos à escravidão e oprimidos durante quatrocentos anos. Mas eu farei o
julgamento da nação que os escravizará, e depois sairão dali com grandes riquezas...”

(6) Gênesis 28:12 - Em sonho, viu uma escada apoiada no chão e com a outra ponta tocando o céu. Por ela subiam e
desciam os anjos de Deus.

(7) 1 Reis 3:5-15 - Em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, num sonho noturno, e lhe disse: “Pede o que desejas e
eu to darei”. Salomão respondeu: “Tu mostraste grande benevolência para com teu servo Davi, meu pai, porque ele
andou na tua presença com fidelidade, justiça e retidão de coração para contigo. Tu lhe conservaste esta grande
benevolência e lhe deste um filho para se sentar no seu trono, como é o caso hoje. Agora, Senhor, meu Deus, fizeste
reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente que não sabe ainda como
governar. Teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. Dá,
pois, a teu servo, um coração obediente, capaz de governar teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do
contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?”

Este pedido de Salomão agradou ao Senhor. Deus disse a Salomão: “Já que pediste estes dons e não pediste para ti
longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, vou
satisfazer teu pedido. Dou-te um coração sábio e inteligente, de modo que não houve teu igual antes de ti, nem
haverá depois de ti. E dou-te também o que não pediste: as riquezas e a glória, de tal modo que não haverá teu igual
entre os reis durante toda a tua vida. E se andares nos meus caminhos e observares os meus preceitos e
mandamentos, a exemplo de Davi, teu pai, eu te darei uma longa vida”. Então Salomão despertou e compreendeu
que era um sonho. Chegando a Jerusalém, pôs-se diante da arca da Aliança, ofereceu holocaustos e sacrifícios de
comunhão, e ofereceu um banquete a todos os seus servos.

(8) O grande místico Sufi Ibn Arabi (1165-1240), da Corte de Bagdá, dizia que Deus é um espelho em que podemos
nos ver, assim como nós também somos espelhos nos quais ele se vê. O Homem é pois uma maneira de Deus se ver
e se conhecer. (Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence (New York:
Alfred A. Knopf, a division of Random House, Inc., 2007), pg 143).

Sobre o “se ver no outro”, a atriz brasileira Denise Fraga, em entrevista à Rede Globo em abril de 2010, se referiu ao
ator como “um espelho para o espectador se ver.” Acompanhando o trabalho do ator, o espectador revive toda sorte
de emoções: alegrias, tristezas, angústias, apreensões.

Capítulo 6. O Temor a Deus


(1) Em julho de 1920, o general francês Henri Gouraud, após ocupar Damasco, dirigiu-se até o túmulo de Saladino e,
ofendendo profundamente o mundo islâmico, radicais e moderados, bradou: “Saladino, nós retornamos. Minha
presença consagra a vitória da Cruz sobre o Crescente.” James Reston, Warriors of God: Richard the Lionheart and
Saladin in the Third Crusade (New York: Doubleday & Company, 2001), citado em Scott Atran, In Gods We Trust:
The Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press, 2002), pg 290.

(2) João Batista é o Profeta Yahya dos Muçulmanos.

(3) Robin Wright, Dreams and Shadows: The Future of the Middle East (New York: The Penguin Press, 2008), pg
239.

(4) As referências de Hanna Arendt a T. E. Lawrence (Lawrence da Arábia) são comoventes. Ela dedica várias
páginas de seu livro “The Origins of Totalitarianism” a esse “aventureiro” inglês, ressaltando seu idealismo, bravura
e honestidade. Fala de sua atuação política e militar, e do vazio existencial que marcou sua vida (i).

Zachary Karabell também se refere à atuação desse personagem mitológico, e conta que o apelido “Lawrence da
Arabia” veio de Lowell Thomas, um jornalista americano que acompanhou a Revolta Árabe de 1916 (ii).

Robin Wright faz menção a “Lawrence da Arábia”, um filme épico inglês de 1962 sobre a vida deste lendário oficial
do exército britânico(iii)”, considerado um dos melhores e mais influentes filmes de todos os tempos. De fato, é um
dos 100 melhores filmes da história do cinema na avaliação do Time Almanac/2012-Powered by Enclyclopedia
Britannica. Os principais papeis foram desempenhados por Peter O’Toole (Lawrence da Arábia), Alec Guinness (Rei
Faiçal) Anthony Quinn, Jack Hawkins e Omar Sharif.

(i) Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (New York: Harcourt, Inc., 1976 - A Harvest Book), pg 218-221,
134, 327.

(ii) Zachary Karabell, Peace Upon You: The Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence (New York: Alfred A.
Knopf, a division of Random House, Inc., 2007), pg 235, 247-49, 250, 253, 272.

(iii) Robin Wright, Dreams and Shadows: The Future of the Middle East (New York: The Penguin Press, 2008), pg
398.

(5) Lucas 1:34-35.

(6) REFERÊNCIAS BÍBLICAS AO TEMOR A DEUS:

Provérbios 1:7 - “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento;...”

Provérbios 9:10 - “Começo da sabedoria é o temor do Senhor, ...”

Eclesiastes 12:13 - “...Teme a Deus e observa seus mandamentos, eis o que compete a cada ser humano.”
Salmos, 25:12-14 – “Qual é o homem que teme ao Senhor? (Deus) Indica-lhe o caminho a seguir. Ele viverá feliz, sua
descendência possuirá a terra. O Senhor se faz íntimo de quem O teme, dá-lhe a conhecer sua aliança.”

Salmos 111:10 - “O princípio da sabedoria é o temor do Senhor;...”

Salmos 128:1 – “Feliz quem teme o Senhor e segue seus caminhos.”

Felipenses 2:12 – “Portanto, meus queridos, como sempre fostes obedientes, não só em minha presença, mas muito
mais agora em minha ausência, realizai a vossa salvação, com amor e tremor.”

Levítico 19:14 – “Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o
Senhor.”

Isaías 50:10 - Se alguém de vós teme o Senhor e escuta o que diz o seu servo, mesmo caminhando no escuro sem luz
que o ilumine, confie no nome do Senhor, ponha em Deus sua esperança!”

(7) Provérbios 31:10-31 - A Mulher de Valor

“A mulher de valor, quem a encontrará? Ela é muito mais preciosa do que as joias. Seu marido confia nela
plenamente e não precisa de outros recursos. Ela lhe proporciona sempre alegria, nunca desgosto, todos os dias de
sua vida.

Ela procura lã e linho, e trabalha prazerosamente com suas mãos. É parecida com o navio do comerciante que
importa de longe as provisões. Ela se levanta, ainda noite, para dar alimento aos criados e sustento, às empregadas.
Examina um terreno e o compra, e com o ganho de suas mãos planta uma vinha. Cinge a cintura com firmeza, e
redobra a força de seus braços. Alegra-se com o sucesso dos seus negócios, e, de noite, sua lâmpada não se apaga.
Estende as mãos para a roca e seus dedos seguram o fuso. Abre suas mãos ao necessitado e as estende para o
pobre. Não se preocupa pela casa, por causa do frio da neve, pois todos os seus criados vestem roupas forradas.
Para seu uso confeccionou cobertas, e suas vestes são de linho e púrpura. Seu marido é respeitado no tribunal,
quando se assenta entre os anciãos do lugar.

Ela fabrica tecidos de linho para vender e fornece cinturões aos comerciantes. Fortaleza e dignidade são seus
adornos; ela sorri para o futuro. Abre a boca para a Sabedoria, e uma instrução bondosa está na sua língua.

Ela supervisiona o andamento da casa, e não come o pão na ociosidade. Seus filhos levantam-se para felicitá-la e seu
marido, para fazer-lhe elogios: ‘São muitas as mulheres de valor, mas tu ultrapassaste a todas!’ O encanto é
enganador e a beleza passageira; a mulher que teme o Senhor, essa sim, merece elogios! Dai-lhe do fruto de seu
trabalho, e suas obras a louvem na praça da cidade! (ênfase do autor)

(8) Hoje, no tocante ao controle social, as leis que juízes e policiais fazem valer são a alternativa moderna para a
religião, dispensando o sobrenatural para combater o crime. Esta mudança parece ter iniciado com Hamurabi, rei
da Babilônia, famoso por ter produzido, por volta de 1772 a.C., um dos primeiros textos legais da humanidade, o
Código de Hamurabi, descoberto por uma expedição francesa em 1901. Mas mesmo esse código, segundo
Hamurabi, lhe teria sido entregue pelo deus Marduk. (Vide Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, Livro 1o-
Filosofia Antiga (São Paulo, SP: Cia Editora Nacional, 1967), pg 7.
(9) Dando razão aos soberanos antigos que tanto valorizavam o medo, Eliot lembrou-se de Maquiavel, cientista
político do século dezesseis. Maquiavel escreveu que, para preservar o poder, “é melhor ser temido do que amado”,
e que “o príncipe não deve ser apenas bom, mas alternar bondade e maldade, recompensa e punição.”

(10) Cathy Ladman, citada em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg
222. (Original: Richard Dawkins, The God Delusion (Boston, New York: Houghton Mifflin Company, 2006).

(11) 2Reis 2:23-24 - Os meninos Insolentes:


Daí, Eliseu subiu a Betel. Pelo caminho, uma turma de meninos saiu da cidade, e zombavam dele, dizendo: “Sobe,
careca! Sobe, careca!” Voltando-se, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor. Saíram então dois ursos da floresta
e despedaçaram quarenta e dois deles.

Eliseu foi um profeta poderoso: purificou as águas poluídas que abasteciam Jericó, ressuscitou o filho de um casal
sunamita, abriu as águas do Rio Jordão para atravessá-lo sem molhar os pés e curou a lepra de Naamã, o chefe do
exército do rei da Síria.

(12) Para as criancinhas nas quais já se incutiu o temor a Deus, o Arcanjo recomendou algumas brincadeirinhas
relaxantes que deveriam recuperá-las, permitindo que amassem a Deus como Ele quer ser amado:
espontaneamente. Essa terapia, praticadas ao longo de algumas semanas, deveria aliviar o sofrimento da criança
traumatizada, livrando-a do medo de Deus. Casos mais graves poderiam exigir intervenções mais prolongadas.

(13) Com efeito, nas Escrituras se lê: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida, honrosa; quem nela
confiar, não será confundido” (1Pedro: 2:6). A pedra angular é Jesus.

Capítulo 7. A Condenação ao Inferno


(1) A declaração do Diabo, “É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso”, em Umberto Eco, lembra o
provérbio “É melhor ser cabeça de formiga do que rabo de elefante”, citado por um gerente de banco ao apoiar a
iniciativa de um engenheiro-químico recém-formado, colega do autor, hoje um grande empresário, que decidira
rejeitar ofertas de trabalho em grandes empresas multinacionais para abrir seu próprio negócio. Quanto à
declaração do Diabo, vide Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg
179.

(2) Os sete demônios expulsos de Maria Madalena:

Lucas 8:1-3 - Depois disso, Jesus percorria cidades e povoados proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de
Deus. Os Doze (apóstolos) iam com ele, e também algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos maus e
de doenças: Maria, chamada Madalena, de quem saíram sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de
Herodes; Susana, e muitas outras mulheres, que os ajudavam com seus bens.

Marcos 16:9-10 - Ressuscitado na madrugada do primeiro dia depois do sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria
Madalena, de quem tinha expulsado sete demônios. Ela foi anunciar o fato (a ressurreição) aos seguidores de Jesus,
que estavam de luto e choravam.
(3) Vide Lucas 16:19-31 - Parábola do rico e do indigente Lázaro.

(4) Sobre o Inferno, vide relato de Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), erudito doutor da Igreja, em
Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 88.

(5) Como se chega ao Inferno? Consta que ao se aproximar do Inferno, as almas condenadas atravessam um
pântano cercado de árvores retorcidas. O local é infestado de repelentes monstros marinhos, pigmeus desfigurados
e odiosos macaquinhos barulhentos.

Nesse pântano vivem baratas do tamanho de ratos, ratos do tamanho de lagartos, lagartos do tamanho de
crocodilos, e crocodilos do tamanho de baleias. Jacarés dotados de asas saltam de um lado para o outro. Se o novo
condenado consegue manter a calma pode ver homens e mulheres com as mais horripilantes distorções: indivíduos
com três olhos; com os pés virados para trás; com cascos de cavalo; com corcundas de dromedário; com cabeça de
leão e rabo de escorpião; com o pênis no peito; com um olho na frente e dois atrás; com a boca na testa e um só olho
no queixo; com asas de inseto; e seres sem cabeça, com olhos, nariz e boca no peito.

O pântano está também povoado de estranhas figuras humanas: pessoas andrógenas com um peito de homem,
outro de mulher, e os dois órgãos sexuais; prostitutas idosas que usam cocô de crocodilo para esconder as rugas;
políticos de duas caras, uma rindo e a outra chorando. Junto a essas criaturas humanas desfilam animais, os mais
desconjuntados, como serpentes, porcos e elefantes com cabeças de gente.

Dando um toque de humor ao clima de terror, macaquinhos serelepes se divertem fazendo gestos obscenos com os
dedos e com a língua enquanto pulam de galho em galho xingando os recém-condenados ao sofrimento eterno. Se o
condenado é um político, não faltam as gracinhas: “Achou que o dinheiro público era seu, não foi, espertinho? Agora
vai pagar, trouxa safado!”, grita um macaquinho falante. Se a condenada é uma mocinha liberada, mudam os
gracejos: “Não conseguiu chegar virgem ao casamento, heim!”; Ou então, para o libertino: “Valeu a pena dar de cima
da mulher do vizinho?” ou, “Secretária não é obrigada a dormir com o chefe, imbecil?”

Depois de atravessar o pântano, o pecador enxerga finalmente a entrada do Inferno. Lê então a placa iluminada por
lamparinas gigantes: “Deixai do lado de fora toda a esperança, ó vós que entrais”, uma clara alusão ao Inferno de
Dante.

Capítulo 8. Se Deus é Bom, Por Que Permite o


Sofrimento?
(1) O educador e especialista em gestão da qualidade Francisco Liberato Póvoa tem uma visão positiva da dor. Ele
vê a dor como nossa aliada em diversas situações:
“Paradoxalmente, na minha compreensão, a dor é uma das manifestações da bondade de Deus. Ela é uma espécie de
alarme para um perigo iminente para o organismo. A principal função da dor é a de proteger o organismo diante de
determinadas ameaças. Assim, a dor nos preserva de muitos problemas. A sensação de dor é muito importante para
o desenvolvimento do nosso sistema nervoso. As pessoas que padecem de analgesia congênita, nome dado à doença
que se manifesta pela insensibilidade total ou parcial à dor, vivem situações por vezes dramáticas: machucam-se
frequentemente, têm escoriações, ferem a língua e os lábios, têm fraturas diversas e nada sentem. É comum que
apresentem infecções que somente percebem em estágio avançado. Conclui-se facilmente que a dor física é
importante para o ser humano.

“Do mesmo modo, a dor moral também desempenha importante papel, por indicar em quem a sente, que algo
vivido merece ser refletido. São atitudes que o ser humano toma e das quais depois se arrepende. Neste aspecto, a
dor moral é uma advertência para a mudança de conduta, portanto positiva. Pessoas sem moral não sofrem dor
moral, não têm qualquer sensação de desconforto ou arrependimento quando atuam sem ética, desonestamente.
Pessoas sem moral, não sofrem dor moral. Enganam o semelhante sem qualquer remorso porque a dor moral
depende também de reservas morais.

Assim, podemos concluir que a dor está prevista por Deus como forma de proteção ao ser humano e não de
castigo. Naturalmente estou me referindo à dor que serve de alarme. Todavia, existem sofrimentos provocados por
dores originadas de moléstias diversas que requerem auxílio da medicina para minorá-las. Existe também o
sofrimento moral que não depende do indivíduo, como o de pais que sofrem porque se envergonham do
comportamento impróprio de um filho. Podemos raciocinar que Deus poderia nos privar de muitas das causas que
justificariam a dor que nos avisa de transtornos físicos ou psicológicos.”

(2) A partir da Revolução Industrial, o Homem poderá vir a ser responsabilizado por desastres “naturais”
decorrentes de sua ação sobre o meio ambiente: excesso de poluição, desmatamento inconsequente, emissão de
gases causadores do aquecimento global.

(3) Bart D. Ehrman, God’s Problem: How the Bible Fails to Answer Our Most Important Question - Why We Suffer
(Nova York: HaperCollins Publishers, 2008), pg 214-215.

(4) Gênesis, 19:30-38 – Ló subiu de Segor e foi morar nas montanhas com as duas filhas, pois tinha medo de ficar
em Segor. Instalou-se numa gruta, com as duas filhas. A mais velha disse à mais nova: “Nosso pai já está velho e aqui
não há homens com quem possamos casar-nos, como faz todo mundo. Vamos embriagar nosso pai com vinho e
dormir com ele, para ter filhos dele”. Embriagaram o pai, naquela noite, e a mais velha foi dormir com ele sem que
ele nada percebesse, nem quando ela se deitou nem quando se levantou. No dia seguinte, a mais velha disse à mais
nova: “Ontem à noite dormi com o pai. Vamos embriagá-lo também esta noite, e tu vais dormir com ele para gerar
descendência de nosso pai”. Também naquela noite embriagaram o pai, e a mais nova dormiu com ele. Ele, porém,
nada percebeu, nem quando ela se deitou, nem quando se levantou. Assim as duas filhas de Ló ficaram grávidas do
próprio pai. A mais velha deu à luz um filho a quem chamou Moab, que é o antepassado dos atuais moabitas.
Também a mais nova deu à luz um filho a quem chamou Ben-Ami, que é o antepassado dos atuais amonitas.

(5) Vide Jó, Capítulos 1 e 2.

(6) Sam Harris, Letter to a Christian Nation (New York: Vintage Books, 2008), pg 35. (Madre Teresa)
(7) Contam que um líder religioso de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia, ensinava que uma maneira
original encontrada por Deus para forçar o Homem a ter uma vida terrena mais feliz foi a inclusão da preguiça em
seu projeto: “Pregam que a preguiça é um vício, um dos pecados capitais. É verdade. Mas também é verdade que a
preguiça pode forçar o Ser Humano a ser criativo. A preguiça criativa teria sido introduzida no projeto de criação
do mundo como um estimulante intelectual para forçar o Ser Humano a procurar formas, às vezes engenhosas, de
trabalhar menos, economizando tempo e energia para gastar (investir?) em ócio prazeroso. “Por que o homem
resolveu aproveitar o peso da água para moer o trigo? Não é uma forma de produzir mais trabalhando menos? Não
foi por esta mesma razão que inventou a roda, para transportar mais com menos peso sobre seus ombros?”,
argumentava. O religioso pregava para seus seguidores que a preguiça é a mãe da civilização: a civilização que deu
ao Homem tempo para o lazer - passear, conversar, divertir, amar, ser feliz.

Capítulo 9. Se Deus é Bom, Por Que Existem Seres


Humanos Esteticamente Prejudicados?
(1) Que fique claro: o que revoltava Eliot era a feiúra exagerada. Assim, o que Eliot cobrava de Deus não era de
forma alguma explicações para o desconforto de quem tem uma cabeça desproporcionalmente grande ou pequena,
uma calvície precoce, algumas espinhas que podem até dar um ar juvenil ao portador, uma corcundazinha discreta,
ou uma perna ligeiramente mais curta que a outra. Tampouco era a modesta ruguinha na testa ou ao redor dos
olhos, a celulitizinha inofensiva, o pneuzinho inconveniente na cintura, a cicatriz um pouquinho saliente, a
manchazinha discreta, o queixinho duplo.

Também não era a ocorrência daquela verruguinha quase invisível no rosto, a estriazinha singela na coxa, o culote
quase imperceptível, o nariz um pouco avantajado, o dente tortinho, o lábio discretamente caído, a dobrinha de
gordura na barriga só percebida na praia, o estrabismo que quase não se nota, a gagueirazinha sob controle, o falar
levemente fanhoso, ou o tique nervoso que muitas vezes confere um certo charme ao dono da anomalia. Também
não era o bigodinho quase imperceptível na mulher ou a barriguinha de cerveja no homem. Nada disso!

Na visão de Eliot, a feiúra que depõe contra a bondade de Deus não é de forma alguma aquela que os cirurgiões
plásticos podem amenizar e os costureiros e esteticistas disfarçar. Não é aquela fealdade que por compaixão e amor
ao próximo podemos ignorar, às vezes nem sequer notar. O que preocupava o jovem antropólogo era bem mais que
isso. O que revoltava Eliot foi constatar, ainda jovem, que existem pessoas - como aquela senhora de 39 anos - que
sentem intenso complexo de culpa ao sair de casa porque sabem que sua aparência incomoda quem as vê. Elas têm
consciência de que na rua assustam os desavisados mais sensíveis, e nos passeios turísticos ofuscam a beleza das
paisagens. São desajustados forçados pela aparência a buscar o isolamento social. São criaturas que não podem ter
sido feitas à semelhança de Deus.

Pesquisas mostraram a Eliot que há pessoas que evitam os passeios diurnos e as saídas em noites de lua cheia, que
só procuram amizades na internet e que, quando muito, frequentam um ou outro evento social em que o uso de
máscaras e de fantasias é aceito e incentivado, como os bailes de carnaval. E mesmo nesses ambientes de disfarce
elas não se sentem seguras: “E se a máscara cair?”
Pesquisas também mostraram a Eliot que há indíviduos em que a boca mal desenhada destoa do nariz, as orelhas
de abano não se entendem com os olhos estrábicos, o pescoço briga com o queixo que parece ter fugido do rosto de
outra pessoa - nada combina. Para Eliot, rostos assim lembram um campo de batalha, em que as partes - nariz,
boca, orelhas, queixo - não são capazes de assinar um tratado de paz, não se entendem, não conseguem cooperar
para criar harmonia. Existem também as manifestações de feiúra provocadas por graves assimetrias (i). Foram
identificados feios em que essa total aversão pela simetria fazia com que os dois lados do rosto - o direito e
esquerdo - parecessem não pertencer a uma mesma pessoa. Um exemplo de tais assimetrias é o da mulher que
escreveu a Bíblia, descrita pelo médico e escritor Moacyr Scliar (ii).

É para essas anormalidades - a feiúra que provoca dor no próprio indivíduo e em terceiros - que Eliot exigia uma
justificativa de Deus: “Por que o Criador permite que aparências como essas castiguem até o devoto mais íntegro,
até o justo que jamais pecou?”, lamentava revoltado. “Adianta dizer para essas pessoas que Deus é amor? (
1João,4:8 - Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor)

(i) Marcelo Gleiser, Professor de Física e Astronomia nos Estados Unidos (Dartmouth College), informa em seu livro
“The Tear at the Edge of Creation” que estudos realizados por psicólogos cognitivos mostram que as pessoas
preferem rostos ligeiramente assimétricos, considerando-os mais atraentes (pg 228). Apoiando esta descoberta,
ele cita como exemplo (pg 265) o trabalho de Dahlia W. Zaidel e Choi Deblieck “Attractiveness of Natural Faces
Compared to Computer Constructed Perfectly Symmetrical Faces (Atração por Rostos Naturais Comparada à
Atração por Rostos Perfeitamente Simétricos Construídos por Computador), publicada no “International Journal of
Neuroscience, 117 (2007), pg 423-31. (Marcelo Gleiser, A Tear at the Edge of Creation: A Radical New Vision for Life
in an Imperfect Universe (Free Press: A Division of Simon & Schuster, Inc., 2010).

(ii) Moacyr Scliar, A Mulher que Escreveu a Bíblia (São Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007).

(2) Vide Linda N. Edelstein, Writer’s Guide to Character Traits (Cincinnati, OH: Writer’s Digest Books, 2006), pg 335.
(Topic: The Value of Attractiveness)

(3) Eliot aprendeu que até dormindo os feios podem ser atacados por pesadelos terríveis, como aquela pobre
mulher que no sonho era perseguida por uma multidão de fotógrafos ávidos por verem fotos suas nas primeiras
páginas de jornais sensacionalistas e em capas de revistas. Relatam também o caso da jovem de vinte e nove anos
que em sonhos recorrentes se via transformada numa barata acuada num canto do quarto de dormir, atacada por
um grupo de beldades enfurecidas - Miss Argentina, Miss Brasil, Miss Estados Unidos, Miss Venezuela e outras
Misses. Essas beldades, de chinelo na mão, gritavam alucinadas: “Não deixa fugir, bate com força, ainda está
mexendo, pronto, agora é só limpar o carpete.”

Falando em baratas, elas são feias, nojentas, mas não são feias ou nojentas para as outras baratas. A feiúra que
amedronta o Homem é se sentir repulsivo, aterrorizante, assustador, para outros Seres Humanos.

Também é desumano justificar a feiúra alegando que se não fossem as pessoas feias não reconheceríamos as belas.
Os feios seriam os mártires da estética. Trata-se de uma transposição para a aparência do argumento de que “se
não existisse o sério nada seria engraçado”. Não convence.

(4) Em Linda N. Edelstein, Writer’s Guide to Character Traits (Cincinnati, OH: Writers’ Digest Books, 2006), pg
335. (Topic: The Value of Attractiveness)
(5) Encontramos pessoas que, por ingenuidade ou cinismo, pregam que existe dentro de cada um de nós uma
beleza interior que seria mais relevante que a beleza propriamente dita, a exterior. Quanta bobagem. Não existe
beleza interior. Existe simpatia, bondade, amizade, compaixão, solidariedade, mas não um tipo de beleza que não se
vê, que se esconde do lado de dentro, refugiando-se sob a pele. Por que a beleza iria se esconder? Nunca se ouviu
falar, em nenhum lugar do mundo, de um concurso de beleza interior. Existe fígado bonito? Pulmão bonito?
Intestino bonito? É verdade que Alegria traz simpatia, como ensina o ditado. É também verdade que uma mente
alegre pode proporcionar melhorias na aparência caso seja reflexo de uma genuína felicidade que motive o
indivíduo a cuidar mais da sua saúde, do seu corpo, de suas roupas, do seu sorriso. Mas beleza interior, jamais!

O único consolo das pessoas muito feias é o de sofrer menos com o envelhecimento. Existem indivíduos que
acreditam que tudo que conseguiram na vida se deve à sua beleza - dinheiro, prestígio, amizades. Causa-lhes horror
sentir que o tempo rouba a cada dia um pouco do seu patrimônio estético. De fato, é pavoroso para eles e para elas
(mais elas que eles) acompanhar no espelho e nos olhares alheios a gradual desvalorização de sua maior riqueza.
Para os feios, no entanto, envelhecer traz um certo alívio pois a velhice tende a nivelar a aparência de todos, dando
certa normalidade aos muito feios. Mas, com o progresso da Ciência, até a velhice vem sendo adiada! A propósito,
todos se acham bonitos quando se veem em fotos tiradas há dez, vinte ou trinta anos, daí o ditado: “Quando novo
até o diabo era bonito.”

Convém deixar claro que perder parte do corpo em um desastre - um braço ou uma perna, por exemplo - não torna
uma pessoa necessariamente feia. Apoiando este ponto de vista, o escritor e pensador francês do século XVI Michel
Eyquem Montaigne assegura que um homem tem mais prazer quando faz sexo com uma mulher aleijada. Será?
(Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 170).

(6) Odon Vallet, Uma outra história das religiões (Rio de Janeiro, RJ: Editora Globo S.A, 2002), pg 228. (Título
original em francês: “Une autre histoire des religions”, 2001). (Aparência de Buda)

(7) Preocupado com o politicamente correto, Eliot tinha dificuldades para encontrar palavras apropriadas quando
se referia aos exageradamente feios. Há pouco tempo o aleijado era um deficiente físico, o cego um deficiente visual
e o doido varrido um deficiente mental - o feio deveria ser, portanto, um deficiente estético. Mas o politicamente
correto baniu a palavra deficiente: o atropelado, o cego, e o louco não são mais deficientes, mas portadores de
necessidades especiais. O feio é portador de que necessidade especial? Portador de necessidade estética?

Eliot acreditava que se alguém merece apoio legal, como o sistema de cotas, são os excessivamente feios. No
entanto, apesar de serem os mais discriminados no mercado de trabalho, são praticamente nulas as chances de
virem a ser apoiados por ações afirmativas, pois, ao contrário das mulheres e das minorias, os muito feios se
sentem culpados e envergonhados de sua fealdade e por isso não se organizam em sindicatos, não criam suas
próprias associações, nem votam em bloco em candidatos compromissados a lutar por eles. Também não lhes é
possível fazer transposições como o “Dia do Orgulho Feio”.

Ressalte-se que a Natureza não oferece ao horroroso qualquer compensação pela sua aparência. Ao contrário, as
pesquisas indicam que os esteticamente prejudicados são em média menos inteligentes e menos preparados que os
chamados “normais”, visto que recebem menos atenção na escola do que os alunos bem apessoados. Muitas vezes,
em sua própria casa, não são tão bem cuidados quanto o irmãozinho (ou a irmãzinha) “bonito”. O autor conheceu
uma senhora que, quando jovem, era levada para brincar no quintal quando aparecia em sua casa uma visita
importante; a irmã bonita, ao contrário, era intimada a permanecer na sala e conversar com o visitante.

(8) Gênesis 6:1-4 - Quando o ser humano começou a procriar-se sobre o solo da terra e gerou filhas, os filhos de
Deus viram que as filhas dos humanos eram bonitas e escolheram as que lhes agradassem como mulheres para si. E
o Senhor disse: “Meu espírito não animará o ser humano para sempre. Sendo apenas carne, não viverá mais do que
cento e vinte anos”. (Havia então gigantes na terra, mesmo depois que os filhos de Deus se uniram às filhas dos
humanos e lhes geraram filhos. São eles os heróis renomados dos tempos antigos.)

(9) Para Santo Agostinho, toda a obra do Criador é perfeita. Assim, até “os monstros são bonitos porque são
criaturas de Deus” (Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 114).
Sobre a dissociação arte-beleza, merece destaque o trabalho do pintor e escultor colombiano Fernando Botero.

(10) Curiosamente, São Vicente Férrer foi um padre dominicano espanhol que se dedicou à conversão de Judeus.
Destacou-se pelos milagres que realizou e pelo dom da oratória. (Edward H. Flannery, The Anguish of the Jews
(Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 2004), pg 133).

(11) O concurso de feiúra, realizado em 1995, foi amplamente divulgado pela imprensa brasileira. A população de
São Vicente Férrer, em Pernambuco, decidiu acabar com a competição depois que a cidade começou a ficar
conhecida com “a cidade das mulheres feias.”

A região onde foi realizado o concurso de Miss Feiúra é uma das mais pobres do Brasil, e está comprovado que a
miséria é danosa à aparência desde o momento da concepção. A falta de recursos impede ou dificulta que a gestante
tenha acompanhamento pré-natal, e que tanto a gestante quanto o bebê desfrutem de uma alimentação saudável,
tenham acesso a água tratada, e recebam os cuidados médicos indispensáveis. O bebê nasce debilitado e cresce
subnutrido.

Essa criança, com mais chances de crescer feia, terá depois de adulta dificuldades para disfarçar a feiúra por não ter
acesso a roupas adequadas (dizem que a beleza dos pássaros está na plumagem), a esteticistas e a cirurgiões
plásticos (também dizem que quando Deus erra o costureiro e o cirurgião-plástico consertam). Completando o
quadro, a família pobre tem em média mais filhos que as famílias não-pobres (ricas ou classe média), contribuindo
assim para a expansão demográfica da feiúra.

A pobreza, além dos reflexos negativos sobre a aparência, causa também danos irreparáveis à inteligência do
indivíduo. Em meados do século passado (as condições parecem não ter mudado) estatísticas revelavam uma
correlação negativa entre o quociente de inteligência (ou nível de cultura) e o número médio de filhos dos casais,
fato registrado por Monod. (Em Jacques Monod, O Acaso e a Necessidade (Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda, 1972),
pg 182. (Título Original francês: Le Hasard et la Nécessité, Editions du Seuil, 1970). Monod recebeu o Prêmio Nobel
de Fisiologia e Medicina em 1965, junto com André Lwoff e François Jacob).

(12) O Homem que Ri(i): Gwynplaine, o Homem que Ri, é um personagem criado por Victor Hugo. Ainda criança,
Gwynplaine foi sequestrado e, por ordem do rei, teve o rosto completamente desfigurado. Sua boca foi
cuidadosamente esculpida para ostentar um sorriso macabro, do qual não conseguia se livrar, daí o apelido de “O
Homem que Ri”, que o acompanhou por toda a vida. Gwynplaine virou atração de circo e se tornou um famoso
palhaço. Apesar da aparência, “O Homem que Ri” conseguiu conquistar o coração de duas mulheres.
A primeira mulher a apaixonar-se por Gwynplaine foi uma linda jovem cega, que se deixou seduzir pela sua doçura
- por aquela bondade sem limites que apelidaram de “beleza interior”. A segunda mulher na vida de Gwynplaine foi
a duquesa Josiane que, apesar de linda, nobre e virgem, sentiu-se perdidamente atraída por ele: “A sua feiúra me
deixa louca. Ser possuída por você me fará sentir a mais desprezível das mulheres, a mais vagabunda das
prostitutas, e isso me excita. Eu te adoro, meu tenebroso monstro, meu pesadelo assustador. Degrade-me com o seu
amor”, insistiu a duquesa antes de tentar beijá-lo com o corpo em brasa e o coração em chamas, totalmente
possuída pelo desejo.

A cena de amor - assédio interrompido pela chegada de um criado - mudou a vida do íntegro Gwynplaine, pois o
desejo que despertou em Josiane o fez sentir-se à vontade para dar vazão ao seu amor pela ceguinha Dea. Até
conhecer a duquesa, Gwynplaine achava que nenhuma mulher iria querê-lo se visse seu rosto.

No filme “O Homem que Ri”, de 1928, dirigido por Paul Leni, o ator Conrad Veidt fez o papel de Gwynplaine. O
Gwyinplaine de Veidt serviu de modelo para o Coringa, o eterno adversário do Homem-Morcego.

A literatura apresenta outras belas histórias que contemplam a feiúra, como a narrativa que mostra a utilidade das
mulheres moderamente feias. A experiência sugere que mulheres moderadamente feias podem ser boa companhia
para outras mulheres. O escritor francês Emile Zola (ii) conta a história de um tal Durandeau que decidiu fazer da
feiúra um negócio e abriu uma agência para alugar jovens feias para o trabalho de acompanhante de mulheres
desejosas de melhorar sua aparência. É que perto da feia, a “normal” se torna bonita e a bonita,
maravilhosa! Muitas jovens de origem modesta se interessaram em prestar esses serviços, pois suas contratantes -
sempre mulheres muito ricas - as levavam aos melhores restaurantes e aos ambientes mais refinados. Somente
mulheres abastadas podiam pagar os altos preços cobrados pela agência. Para acompanhar as ricas, a agência as
vestia e maquiava luxuosamente.

Durandeau deparou-se então com dois problemas: o primeiro era a frustração de suas pobres contratadas ao voltar
à vida de pobre, deixando os trajes caros na agência para vestir novamente as roupinhas modestas com que
regressavam às suas moradias na periferia. O segundo problema, bem mais sério, foi o grande número de mulheres
ricas que se assustavam ao se perceberem mais feias que as acompanhantes. O maior interesse despertado nos
homens pela acompanhante “feia” fazia aflorar a realidade chocante.

Vale ressaltar que, nos dias de hoje, o acesso da mulher ao mercado de trabalho a tornou menos dependente da
beleza do que no passado, quando sua realização estava associada ao casamento, obrigando-a a se dedicar desde
muito jovem à tarefa de encontrar um bom marido.

Quanto à feiúra masculina, destaca-se a história do monstro de Frankenstein, criação da escritora inglesa Mary
Shelley. Bertrand Russell relata que “O monstro de Frankenstein não é, como se tornou proverbial dizer, um
simples monstro; a princípio, é um ser amável, desejoso de afeto humano, mas é levado ao ódio e à violência pelo
horror que a sua fealidade inspira àqueles cujo amor procura conquistar”. (Vide Bertrand Russell, História da
Filosofia Ocidental, Volume 3o - A Filosofia Moderna (São Paulo, SP: Cia Editora Nacional, 1967), pg 218-219).

(i) Vide Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 293-294.

(ii) idem, pg 293.


(13) Esopo, o grande fabulista grego Esopo autor de “A Cigarra e a Formiga,, “A Raposa e as Uvas”, “O Menino que
gritava Lobo”, “O Lobo e o Cordeiro”, “A Tartaruga e a Lebre”, viveu no século VI a.C., enquanto a invenção da
imprensa (impressão por tipos móveis) pelo gráfico alemão Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg
(c.1398-1468) ocorreu por volta de 1440.

(14) Há relatos de que Abel era bonito e Caim feio, como no livro “Caim” de Saramago, mas não são fatos
confirmados pela Bíblia. (Vide José Saramago, Caim (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda., 2009).

(15) Umberto Eco fala sobre o reconhecimento das bruxas pela feiúra(i). Para Sam Harris(ii), o número de mulheres
assassinadas pela Inquisição acusadas de serem bruxas talvez chegue a 40 ou 50 mil em trezentos anos de
perseguição. Bertrand Russell(iii) estima em cem mil o número de bruxas mortas apenas na Alemanha, entre 1450 e
1550, a maioria queimada na fogueira.

(i) Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 212.

(ii) Sam Harris, A Morte da Fé: religião, terror e o futuro da razão (São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 2009), pg 101.
(Título Original: The end of faith - Religion, terror, and the future of reason, 2004);

(iii) Bertrand Russell, Religion and Science (Oxford, England: Oxford University Press, 1997), pg 95. (Primeira
edição publicada em 1935).

(16) Umberto Eco, On Ugliness (New York: Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 42-61.

Capítulo 10. De Volta do Caminho de Abraão


(1) FALSOS PROFETAS

Deuteronômio, 18:20 - “Mas o profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que não lhe mandei,
ou que falar em nome de outros deuses, esse profeta deverá morrer”. (Dito pelo Senhor a Moisés)

1Reis 18:40 - “Elias disse-lhes: ‘Prendei os profetas de Baal e que nenhum deles escape!’ Eles os prenderam, e
Elias levou-os à torrente do Quison, onde os matou.” (Consta em 1Reis 18:19 que foram 450 os profetas de Baal
mortos por ordem de Elias; em 2Reis 2:11 vê-se que Elias foi um profeta tão prestigiado por Deus a ponto de ser
levado vivo aos Céus.)

Mateus 7:15-16 - “Cuidado com os falsos profetas: eles vêm até vós vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos
ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis. Acaso se colhem uvas de espinheiros, ou figos de urtigas?”

Mateus 24:11 - “Hão de surgir muitos falsos profetas, que enganarão muita gente.”
1João 4:1 - “Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus,
pois muitos falsos profetas vieram ao mundo.”

Capítulo 11. Preparação para a Grande Revelação


(1) A literatura científica informa diferentes datas para o surgimento do homo sapiens, em geral em torno (mais
frequentemente abaixo) dos duzentos mil anos.

(2) Para André Berge, “Toda estrada parece interminável a quem se recusa a encontrar prazer em seu trajeto”.
(André Berge, As Doenças da Virtude (Rio de Janeiro, RJ: Livraria Agir Editora, 1969), pg 200. Título original em
francês: Les Maladies De La Vertu)

(3) Sugestão feita em 2000, na Casa Branca, pelo astrônomo inglês Stephen Hawking, na presença de Francis
Collins. (Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP:
Editora Gente, 2007), pg 267. Título original: The Language of God: a scientist presents evidence for belief, 2006).

(4) Freeman Dyson, The Scientist as a Rebel (New York: The New York Review of Books, 2006), Capítulo 24.
Segundo Dyson, também o calor e o oxigênio ausentes nos cometas podem ser obtidos via engenharia biológica.

(5) Philip Plait, Death from the Skies (New York: Penguin Group, 2008), p. 198, 274. (O título do Capítulo Sete desse
livro é “The Death of the Son”; em português, “A Morte do Sol”)

(6) A Fundação B612 (B612 Foundation), reunindo cientistas, engenheiros e astronautas, foi criada para proteger a
Terra do impacto de asteroides. Sua missão é identificar técnicas para alterar a órbita de um asteroide. Teve
origem em uma oficina de estudos e debates sobre asteroides no Centro Espacial Lyndon Johnson, em Houston,
Texas, organizada pelo astrofísico e professor Pit Hut e pelo astronauta Edward Lu, em 20 de outubro de 2001. Seu
nome deriva do asteroide do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry. Felizmente, Júpiter, o maior
dos planetas, está no lugar certo para funcionar como um enorme aspirador gravitacional atraindo asteroides que
poderiam nos ameaçar com uma colisão fatal, fato comentado por Richard Dawkins, em Deus um Delírio, pg 184.

Sobre o risco da colisão de asteroides, a Revista Time de 09 de Junho de 2014 apresenta, em reportagem de quatro
páginas, o perfil de Don Yeomans, o astrônomo do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (NASA’s Jet Propulsion
Laboratory) na Califórnia, coordenador do grupo dedicado a proteger a Terra contra asteroides (páginas 34-37).

(7) Sobre a sobrevivência da Humanidade, vide Carl Sagan, Variedades das Experiência Científica: Uma Visão Pessoal
da Busca por Deus (São Paulo, SP: Cia das Letras, 2008), Capitulo 8. (Crimes Contra a Criação)

Mas estaríamos sós no universo? Nosso universo é formado por bilhões de galáxias, cada qual com bilhões de
estrelas. A existência ou não de civilizações avançadas, além da nossa, é um assunto que fascina um grande número
de cientistas. A fórmula de Drake, N = T x fp x np x fv x fi x fc x V, é uma tentativa de estimar o número de civilizações
capazes de se comunicar com outras civilizações na Via Láctea. Entre outras variáveis, essa fórmula leva em
consideração o tempo médio (V) durante o qual essas civilizações enviam sinais detetáveis de sua
existência, considerando que tais sociedades tecnologicamente avançadas estão sujeitas à extinção, inclusive sua
autodestruição. (T representa o número de estrelas existentes propícias para o surgimento de vida inteligente; fp
representa a fração dessas estrelas com sistemas planetários; n p o número de planetas, por sistema solar, com
condições adequadas para a vida; fv a fração desses planetas em que vida surge; fi a fração desses mundos em que
vida inteligente surge; fc a fração dessas civilizações em que a vida inteligente desenvolve tecnologia que emite para
o espaço sinais detetáveis de sua existência). Vide Carl Sagan, Variedades da Experiência Científica: Uma Visão
Pessoal da Busca por Deus (São Paulo, SP: Companhia Das Letras, 2008), pg 129-130

(8) Declaração do fisico Martin Rees, professor de cosmologia e astrofísica da Universidade de Cambridge, citado
em Sam Harris, A Morte da Fé: religião, terror e o futuro da razão (São Paulo: Editora Schwarcz Ltda. 2009), pg
53. (Título Original: The end of faith - Religion, terror, and the future of reason, 2004).

(9) Para Mark Twain, “Civilização é uma multiplicação sem limites de necessidades desnecessárias”.

Capítulo 12. Conhecendo o Segredo de Deus


(1) Para aumentar a quantidade de energia destinada ao Criador, os buracos negros seriam previamente
engordados com uma dieta de estrelas ricas em energia. As estrelas seriam empurradas para dentro do campo
gravitacional dos buracos negros, desaparecendo em fração de segundo. Antes de serem engolidas, elas iriam
brilhar intensamente nos céus, oferecendo um espetáculo de rara beleza. O Homem também irá promover a colisão
de estrelas de neutron para gerar novos buracos negros. Ainda assim, toda essa energia será apenas uma fração da
energia investida pelo Criador para produzir o Big Bang. Para repor toda a energia dispendida pelo Criador, o
Homem terá de desenvolver novas fontes de energia.

(2) Philip Plait, Death from the Skies (New York: Penguin Group, 2008), pg 263. (idade do universo)

(3) Christopher Hitchens, Deus não é Grande: como a religião envenena tudo (Rio de Janeiro, RJ: Ediouro Publicações
S.A., 2007), pg 92. (Título original: God is not Great, 2006). (modificações genéticas nos últimos quinze mil anos)

Capítulo 13. Compreendendo o Sofrimento


(1) Para Thomas Jefferson, o Velho Testamento revela um Deus cruel, vingativo, caprichoso e injusto. Em Lee
Strobel, The Case for Faith: A journalist investigates the toughest objections to Christianity (Grand Rapids, Michigan:
Zondervan, 2000), pg 115). Também em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda,
2007), pg 56. (Título original: The God Delusion)

(2) Em seu relatório de 14/Set/2010, a FAO-Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas,
informou que há no mundo 925 milhões de pessoas com fome. Noventa e oito por cento delas vivem em países do
Terceiro Mundo. Sessenta e cinco por cento dos famintos vivem em apenas seis países: Índia, Congo, Bengladesh,
Indonésia, Paquistão e Etiópia. Não estão incluídas nesse número as pessoas que “matam a fome”, mas não se
alimentam adequadamente, isto é, não ingerem quantidades adequadas de nutrientes essenciais como vitaminas,
proteinas e sais minerais.

(3) A Global Water, fonte dessas informações, é uma fundação humanitária internacional sem fins lucrativos, criada
em 1982 para apoiar projetos que visem o fornecimento de água potável e a melhoria das condições sanitárias e de
higiene em países do Terceiro Mundo.

(4) Em 2005 a Fundação Bill e Melinda Gates já havia destinado, respectivamente, 100 e 250 milhões de dólares
para o desenvolvimento de vacinas contra a AIDS e contra a malária. Para avaliar a importância dessas vacinas, vide
Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty (New York: Penguin Press, 2005), Chapter Ten: The Voiceless Dying: Africa and
Disease.

Em palestra na Universidade da Califórnia, em 03/Mar/2010, a diretora executiva do UNICEF, Ann M. Veneman,


reconheceu a importância dos investimentos da Fundação Bill e Melinda Gates em pesquisas para desenvolver
vacinas contra doenças de países pobres, produtos que não despertam o interesse dos laboratórios farmacêticos
comerciais. (Os bilionários Bill Gates e Warren Buffet têm se destacado pela sua significativa contribuição para a
construção de um mundo melhor - são modelos de responsabilidade e comprometimento social não somente para
empresários, mas para todos nós).

(5) Para Sachs, as vacinas contra a malária e a AIDS são “Armas de Salvação em Massa” que terão papel relevante na
construção de um mundo mais seguro, uma vez que sociedades pobres estão mais sujeitas a convulsões sociais e
são um ambiente mais fértil para gerar e abrigar terroristas. Em sua opinião, saúde e educação são os principais
pré-requisitos para o desenvolvimento econômico, social e político que promove os dois principais antídotos contra
o terrorismo: bem-estar social e realização pessoal. Vide Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty (New York: Penguin
Press, 2005), pg 217.

(6) Este comentário foi feito ao autor, em 1990, pelo professor Samuel da Costa Barros, ex-Presidente do Conselho
Estadual de Educação de Minas Gerais e ex-Secretário-Adjunto da Educação do lendário José Maria de Alkmim,
como forma de ressaltar o quanto havia decaído o prestígio das professoras primárias (raramente temos
professores nas primeiras séries no Brasil), prestígio que fora alto até a década 1950, quando apenas a “elite” se
educava.

Uma explicação para o declínio do prestígio e salário das professoras primárias (primeiras quatro ou cinco séries)
no Brasil foi a universalização do acesso à escola, elevando o número de professoras para cerca de dois milhões
sem um aumento correspondente nas verbas para educação. Agravando o problema, as mulheres têm hoje no
Brasil acesso a profissões de maior prestígio, como medicina, direito, economia, engenharia, o que não ocorria até a
década de 1950, quando o magistério era a única profissão disponível para as mulheres inteligentes e dinâmicas. O
fato é que, hoje, as professoras primárias vêm quase sempre das classes C e D, fato abordado pela jornalista Ana
Paula Padrão no Jornal da Record de 11/abril/2001.

O declínio da escola pública levou as classes mais favorecidas a matricular seus filhos em escolas particulares, em
prejuízo da igualdade de oportunidade para todos os jovens. Torna-se assim mais longo o caminho para a
construção de uma sociedade menos desigual.
Considerando que a educação é um pré-requisito para o desenvolvimento social, político e econômico, o Brasil
precisa caminhar em direção a países como a Finlândia, onde status e salário do professor primário se equipara ao
das profissões de maior prestígio, como médicos, advogados, engenheiros. Hoje, salvo raras exceções, as
secretárias das grandes empresas são mais bem remuneradas que os professores do ensino básico. (Ensino básico:
séries que antecedem a universidade)

A referência às empregadas domésticas nada tem a ver com o apreço por essas profissionais. É que o seu nível de
qualificação é, em geral, bastante baixo - cozinhar, lavar, passar e varrer não exige qualquer diploma nem alta
escolaridade, daí o modesto status da profissão. Ademais, os países do Terceiro Mundo contam com um grande
contingente de mulheres semi-analfabetas de onde as domésticas, em geral, provêm (classes C e D), situação que
vem mudando rapidamente em países como o Brasil, com a ascensão econômica das classes mais pobres.

Capítulo 14. O Dia em que Satanás Chorou


(1) O diabo conseguiu, por exemplo, que Judas, um dos doze apóstolos, se voltasse contra Cristo, conforme relata o
evangelho de São Lucas, 22:1-6: “Estava próxima a festa dos Pães sem fermento, chamada Páscoa. Os sumos
sacerdotes e os escribas procuravam uma maneira de se livrar de Jesus. De fato, tinham medo do povo. Entretanto,
Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos doze (apóstolos), e ele foi combinar com os sumos sacerdotes
e com os comandantes da guarda como entregar-lhes Jesus. Eles ficaram muito contentes e concordaram em dar-
lhe dinheiro. Judas comprometeu-se e procurava uma oportunidade para entregá-lo, sem que a multidão
percebesse. ”

(2) Lúcifer recordou nostálgico as vezes em que convenceu gente pura a pecar contra a castidade, como a estudante
Carolina Toledo Landim.

A jovem estudante de biologia Carolina Landim percorria a Floresta Amazônica quando se deparou com um rapaz
educado, muito atraente, que chegou puxando conversa. A aparência agradável e o sorriso familiar deixaram Carol
à vontade. De repente, ela se lembrou da história do boto sedutor da Amazônia e se assustou.

Dias antes Carol fora alertada sobre o boto, um mamífero que vive no Rio Amazonas e seus afluentes. Ele se
transforma em homem em noites de lua cheia e sai à procura de mulheres para seduzir. Contaram-lhe que é melhor
entregar-se logo aos seus encantos, pois, até hoje nenhuma donzela cortejada fora capaz de resistir ao seu
fascínio. Por isso, as jovens ribeirinhas aceitavam de imediato suas propostss românticas. Diante de sua refinada
corte não havia como se opor. De nada adiantava rezar ou correr. Carol se entregou. O boto era, de fato,
cativante(i).

Ao contrário das criaturas celestiais que vieram à Terra para se satisfazer com as mais belas mulheres deste
mundo(ii), o boto, ao contrário, se preocupa mais em dar prazer às suas parceiras do que a si mesmo. E sabe como
fazê-lo! Carol jamais o esqueceu. O que ela desconhecia é que o rapaz não tinha nada de boto: era um demônio
disfarçado de gente!
O boto era uma das muitas técnicas de sedução que faziam Lúcifer se sentir mais esperto do que as criaturas do
Bem. Mas agora, com a Grande Revelação, tudo mudava. Acabara o seu prazer de lutar. A vida, ou melhor, a
existência, perdia o sentido. Não existia mais o desafio que aguça a criatividade, eleva a auto-estima e massageia o
ego. O Príncipe das Trevas entendeu porque algumas sociedades criam (ou inventam) inimigos e os tornam (ou os
imaginam) cada vez mais cruéis!

(i) No filme brasileiro “Ele, o boto”, de 1986, o ator Carlos Alberto Ricelli faz o papel de boto.

(ii) Gênesis, 6:1-2 - “Quando o ser humano começou a procriar-se sobre o solo da terra e gerou filhas, os filhos de
Deus viram que as filhas dos humanos eram bonitas e escolheram as que lhes agradassem como mulheres para si.”

(3) Martin Gardener relatou que “Fundamentalistas das denominações Protestantes majoritárias estão enfatizando
cada vez mais o retorno iminente de Jesus. O conhecido pastor Batista Billy Graham, por exemplo, alertava
reiteramente sobre a aproximação da Batalha do Armaggedon e o aparecimento do Anti-Cristo”. Gardener disse
também que o pregador Jerry Falwell acreditava que estava próximo o momento em que seria arrebatado e levado
em vida para encontrar-se com Jesus em seu retorno à Terra – por isso chegou a dizer que não planejava escolher
um local para ser enterrado. Gardener relatou ainda que Austin Miles, que trabalhou com Pat Robertson, conta em
seu livro, “Don’t Call me Brother”, 1989 (Não me chame de Irmão) que Pat uma vez pensou seriamente em planejar
o televisionamento do Senhor surgindo no Céu. (Martin Gardener, “The Wandering Jew and the Second Coming”,
em The Portable Atheist, ed. Christopher Hitchens (Philadelphia: Da Capo Press, 2007), p. 212.

(4) Mateus 16:28 - “Em verdade vos digo, alguns dos que estão aqui presentes não provarão a morte sem antes
terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino”.

Marcos 9:1 - E disse-lhes (Jesus): “Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte, sem antes
terem visto o Reino de Deus chegar com poder”.

Lucas 9: 27 - Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte, sem antes terem visto o Reino
de Deus”.

(5) A Invasão Holandesa no estado brasileiro de Pernambuco ocorreu de 1630 a 1654. Um dos atrativos
econômicos da região era a produção de açúcar, até então um produto de alto valor no mercado mundial. Expulsos
pelos Portugueses, os Holandeses levaram a técnica de produção de açúcar para outras regiões e o produto foi
perdendo sua nobreza. A aventura holandesa foi financiada por capitais judeus, o que explica a construção no
período, em Pernambuco, da primeira sinagoga das Américas. Com a derrota dos Holandeses, vinte e três Judeus de
Pernambuco que não conseguiram embarcar para a Holanda foram, na nave francesa Sainte Catherine, para Nova
Iorque, então a colônia holandesa de Nova Amsterdã(i) .

Segundo Flannery, os vinte e três foram os primeiros Judeus a desembarcar nos Estados Unidos. St. John afirma, no
entanto, que os vinte e três estão entre os primeiros, mas não foram os primeiros; St. John cita o historiador judeu
Jacob Rader Marcus, para quem, “Um Judeu jamais é o primeiro Judeu a chegar em qualquer lugar: há sempre um
que lá esteve antes dele(ii)”. E, nos Estados Unidos, segundo Marcus, esse Judeu seria Jacob Barsimson of Holland,
que chegara um mês antes da nave francesa Sainte Catherine ancorar em Nova Amsterdã (iii).
(i) - Robert St. John, Jews, Justice and Judaism (Garden City, NY: Doubleday & Company, 1969), pg 5-7; Edward H.
Flannery, The Anguish of the Jews (Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 2004), pg 249;

(ii) Robert St. John, Jews, Justice and Judaism, pg 11.

(iii) Idem, also pg 11.

6) - Rich Cohen, Israel is Real: An Obsessive Quest to Understand the Jewish Nation and Its History (New York: Farrar,
Straus and Giroux, 2009), pg 73. Também em Joseph Gaer, The Legend of the Wandering Jew (New York: The New
American Libray of World Literature, Inc., 1961), pg 70.

Capítulo 15. Conciliando Religião e Ciência


(1) Lee Strobel, The Case for Faith: A journalist investigates the toughest objections to Christianity (Grand Rapids,
Michigan: Zondervan, 2000), pg 58. (Max Planck)

(2) Robert Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown and Company, 2009), pg 91-95. (Deus do antigo
Egito)

(3) Jean-Paul Sartre, em “O Ser e o Nada” (Being and Nothingness), citado em Scott Atran, In Gods We Trust: The
Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press, 2002), pg 274.

Bertrand Russell também apoia o ponto de vista de Sartre. Mas ressalta que a Ciência, conquanto não possa dizer o
que se deve fazer - ela não é capaz de comprovar que o amor é melhor que o ódio, que a generosidade é melhor que
a crueldade -, ela tem muito a oferecer para a realização de nossos desejos, uma vez escolhidos. Sobre este tema,
Russell cita a opinião de Sir J. Arthur Thomson, para quem a Ciência é incompleta porque não pode responder à
pergunta “Por que?”, enquanto a Religião pode fazê-lo. Vide Bertrand Russell, Religion and Science (Oxford,
England: Oxford University Press, 1997), pg 174-176 e 190). (Primeira edição publicada em 1935).

(4) Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP:
Editora Gente, 2007), pg 231. (Título Original: The Language of God: a scientist presents evidence for belief); Collins
foi o Diretor do Projeto Genoma. Também em Ann Berk Sally, editor, The Big Little Book of Jewish Wit & Wisdom
(New York: Black Dog & Leventhal Publishers, Inc., 2000), pg 69.

(5) Inspirado na Encíclica “Fides et Ratio” (A Fé e a Razão) de João Paulo II: “A fé e a razão são como as duas asas
pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do
homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-
O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.

(6) Collins declarou: “Após 28 anos de fé, a Lei Moral ainda se destaca para mim como a mais forte indicação de
Deus. Mais que isso, ela indica um Deus que se preocupa com os seres humanos, um Deus infinitamente bom e
santo”. (Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP:
Editora Gente, 2007), pg 222).

(7) Bertrand Russell, The Impact of Science on Society (London: George Allen & Unwin Publishers Ltd., 1976), pg 31.
(First published in 1952). (Trabalho infantil no início da Revolução Industrial)

(8) Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios (São Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2008), pg 43. (Título
original: The demon-haunted world, 1996). (Explicando o que é a Ciência)

(9) Idem, pg 50. (Ciência/Correção de erros)

(10) Para Louis Pasteur, “A ciência avança através de respostas provisórias, conjeturais, em direção a uma série
cada vez mais sutil de perguntas que penetram cada vez mais fundo na essência dos fenômenos naturais”. Citado
em Fritjof Capra, O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente (São Paulo, SP: Editora
Pensamento-Cultrix Ltda, 2006), pg 95. (Título original: The Turning Point, 1982).

(11) Scott Atran, In Gods We Trust: The Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press,
2002), pg 277. (O Homem na ótica da Ciência e da Religião)

(12) Alguns estudiosos também associam a palavra “religião” aos verbos latinos relegere (recolher) e religare
(religar). A religião recolhe as tradições e religa os homens entre si e a Deus.
(13) Rubem Alves, O que é Religião (São Paulo, SP: Arts Poetica Editora Ltda, 1981), pg 19. Albert Camus (1913-
1960), filósofo e escritor francês nascido na Argélia, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

(14) Blaise Pascal e Stephen Weinberg, citados em Richard Dawkins, Deus, um delírio (Paulo Paulo, SP: Editora
Schwarcz Ltda, 2007), pg 322. (Título original: The God Delusion). O assassinato por fanáticos religiosos de líderes
como Gandhi, Rabin e Sadat reforça os pontos de vista de Pascal, Weinberg e Dawkins.

(15) Idem.

(16) Idem, pg 358.

(17) Em Positive Atheism’s Big List of Robert Green Ingersoll Quotes. Also quoted by Jonathon Green in the Cassell
Dictionary of Cynical Quotations.

(18) Declaração de José Saramago em entrevista ao jornal El País.

(19) Vide Jacques Monod, O Acaso e a Necessidade (Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda, 1972). (Título Original
francês: Le Hasard et la Nécessité, Editions du Seuil, 1970). Monod dividiu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina,
em 1965, com André Lwoff e François Jacob.

(20) Entrevista de Saramago ao jornal O Globo, em 2009.


(21) “Se Deus se acha fora da Natureza, a ciência não pode confirmar nem negar a existência dele”. (Francis S.
Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP: Editora Gente,
2007), pg 171).

(22) Vide Jim W. Goll, The Seer: The Prophetic Power of Visions, Dreams, and Open Heavens (Shippensburg, PA:
Destiny Images Publishers, Inc., 2004), pg 12.

(23) Em Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe, pg 207. (Salto
de fé)

(24) Sobre a decisão de crer para ver, vide argumentação de Lee Strobel, The Case for Faith: A journalist investigates
the toughest objections to Christianity (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2000), pg 236-237.

Em Hebreus, 11:1-12, lemos: “A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se
vêem. Por ela, os antigos receberam um bom testemunho de Deus. Pela fé compreendemos que o universo foi
organizado pela palavra de Deus, de sorte que as coisas visíveis provêm daquilo que não se vê. Pela fé, Abel
ofereceu a Deus um sacrificio melhor que o de Caim; graças a ela, recebeu o testemunho de ser justo, pois Deus
atestou o valor de suas oferendas; e graças a ela, mesmo depois de morto, Abel ainda fala! Pela fé, Henoc foi levado,
sem passar pela morte; não mais foi encontrado, porque Deus o levou. Antes de ser levado, porém, recebeu o
testemunho de que foi agradável a Deus. Ora, sem a fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se
aproxima deve crer que ele existe e recompensa os que o procuram. Pela fé, Noé, avisado divinamente daquilo
que ainda não se via, levou a sério o oráculo e construiu uma arca para salvar os de sua casa. Pela fé, ele condenou o
mundo, tornando-se herdeiro da justiça que se obtém pela fé. Pela fé, ao ser chamado, Abraão obedeceu à ordem de
partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu, sem saber para onde iria. Pela fé, ele viveu como
migrante na terra prometida, morando em tendas, com Isaac e Jacó, os co-herdeiros da mesma promessa. Pois
esperava a cidade de sólidos alicerces que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor. Pela fé, embora Sara fosse
estéril e ele mesmo já tivesse passado da idade, Abraão tornou-se capaz de ter descendência, porque considerou
fidedigno o autor da promessa. E assim, de um só homem, já marcado pela morte, nasceu a multidão “comparável às
estrelas do céu e inumerável como os grãos de areia na praia do mar”.
(Ênfase adicionada)

(25) Dallas Albert Willard, filósofo americano e líder religioso, citado em Lee Strobel, The Case for Faith: A journalist
investigates the toughest objections to Christianity (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2000), pg 255.

(26) Carl G. Jung, em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda 2007), pg
79. Também em Jack Miles, Deus: uma biografia (São Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2009), pg 36. (Título
Original: God: A Biography, 1995).

(27) Martinho Lutero, em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 251.

(28) Santo Agostinho, em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 180.

(29) Thomas Jefferson, em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 69-
70.
(30) Em Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP:
Editora Gente, 2007), pg 42.
Paul Johannnes Tillich (1886-1965) foi um teólogo cristão americano nascido na Alemanha. Ele, Rudolf Bultmann
(Alemanha), Karl Barth (Suiça), e Reinold Niebuhr (EUA) são considerados os quatro maiores teólogos do século
XX. Escreveu The Courage to Be (1952) e Dynamics of Faith (1957). Suas palestras e discursos não agradavam ao
partido nazista e por isso, quando Hitler se tornou Chanceler em 1933, Tillich foi demitido das universidades onde
servia, aceitando então um convite para lecionar nos Estados Unidos. Tinha 47 anos.

(31) John Henry Newman, Apologia Pro Vita Sua, Part 7. (Disponível em http://newmanreader.
org/works/apologia).

(32) Josué 10: 12-13 - Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus às mãos dos
israelitas. Na presença de Israel, ele exclamou: “Sol, detém-te sobre Gabaon, e tu lua, sobre o vale de Aialon!” E o sol
se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingasse dos inimigos.

(33) Êxodo 14:15-31.

(34) Gênesis 17:15-19; 18:10-15.

(35) Isaias 55:12.

(36) Salmos 98:8.

(37) Eclesiastes 12:12.

(38) Gênesis 3:8-11 - Quando ouviram o ruído do Senhor Deus, que passeava pelo jardim à brisa da tarde, o homem
e a mulher esconderam-se do Senhor Deus no meio das árvores do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem e
perguntou: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi teu ruído no jardim. Fiquei com medo, porque estava nu, e escondi-
me”. Deus perguntou: “E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi de comer?”

(39) O diabo se disfarça em serpente, como relata o Apocalipse de João, 20:2-4.

(40) Malaquias 1:6 - “O filho honra o pai, e o servo, seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? Se sou
senhor, onde está o respeito que me devem?”

(41) Levítico, 25:44-46 - O escravo ou a escrava que tiveres virão das nações que vos cercam. Deles podereis
comprar escravos e escravas. Podereis também comprá-los entre os filhos dos estrangeiros que vivem convosco,
nascidos no país, ou entre suas famílias que moram convosco. Serão propriedade vossa, e podereis deixá-los como
propriedade hereditária aos vossos filhos. Deles sempre podereis servir-vos como escravos, mas quanto aos vossos
irmãos israelitas, ninguém domine com dureza o irmão.

(42) Eclesiástico 33:25-30 - Para o asno, forragem, vara e carga; para os servo, pão, disciplina e trabalho. Executa o
trabalho por meio do servo, e encontrarás descanso; deixa-lhe as mãos livre e ele procurará a liberdade. Canga e
correia fazem dobrar o pescoço; tarefas frequentes mantêm o servo submisso. Para o servo malévolo, tortura e
grilhões: manda-o ao trabalho, para que não fique ocioso, pois a ociosidade já ensinou muita maldade. Aplica-o ao
trabalho, pois tal lhe convém: se não atender, submete-o com grilhões. Entretanto, não cometas excessos contra
ninguém, e nada faças de grave contra o direito.

(43) Êxodo 21:7-11 - Se alguém vender sua filha como escrava, esta não sairá como saem outros escravos. Se ela
não agradar ao dono que a tinha destinado como mulher para si, ele deve permitir que seja resgatada. Não tem
direito de vendê-la a estrangeiros, pois seria desleal com ela. Se o dono a destinar ao filho, deve tratá-la segundo o
direito das filhas. Se tomar outra mulher para si, não deve privar a primeira do alimento, das vestes e da
convivência conjugal. E se lhe negar estas três coisas, ela pode sair, sem nenhum pagamento.

(44) Colossenses 3:22-24 - Escravos, obedecei em tudo aos vossos senhores daqui da terra, não servindo apenas
diante dos olhos, como quem procura agradar a seres humanos. Obedecei-lhes com simplicidade de coração, no
temor do Senhor. Tudo que fizerdes, fazei-o de coração, como para o Senhor e não para seres humanos, sabendo
que é o Senhor que vos recompensará, fazendo-vos seus herdeiros. Ao Cristo e Senhor é que estais servindo. (A
cidade de Colossas estava localizada em região da atual Turquia)

(45) Deuteronômio, 13:7-12 - “Se o irmão, filho de tua mãe, ou teu filho ou tua filha, ou a mulher que repousa em
teus braços, ou o teu melhor amigo te incitar em segredo: ‘Vamos servir a outros deuses’- deuses que não
conheceste, nem tu nem teus pais, dentre os deuses dos povos, próximos ou distantes, que vos cercam de um
extremo a outro da terra - não atendas nem escutes tal pessoa; não tenhas dela dó nem piedade, nem escondas o
seu crime. Ao contrário, deverás entregá-la à morte; tua mão será a primeira a executá-la, seguindo-se depois a mão
de todo o povo: tu a apedrejarás até que morra, por ter procurado afastar-te do Senhor teu Deus que te fez sair do
Egito, da casa da escravidão. Assim todo o Israel, ao sabê-lo, ficará com medo e já não tornará a fazer tal maldade
em teu meio.”

(46) Punição para o Filho que não respeita ou desobedece os pais:

Levítico, 20:9 - “Quem amaldiçoar o pai ou a mãe será punido com a morte; amaldiçoou o próprio pai e a própria
mãe: é réu de morte.”

Deuteronômio, 21:18-21 - “Se alguém tiver um filho desobediente e rebelde, que não quer atender à voz do pai nem
da mãe e, mesmo castigado, se obstinar em não obedecer, os pais o conduzirão aos anciãos da cidade, até o tribunal
local, e lhes dirão: “Este nosso filho é desobediente e rebelde. Não quer obedecer à nossa voz, é devasso e beberrão.
Então todos os homens da cidade o apedrejarão. E assim eliminarás o mal de teu meio e, ao sabê-lo, todo o Israel
temerá.”

Marcos 7:10 – “... De fato, Moisés ordenou: ‘Honra teu pai e tua mãe’. E ainda: ‘Quem insulta pai ou mãe deve
morrer.’...”

Mateus, 15:4-7 - “... Pois Deus disse: ‘Honra pai e mãe’, e também: ‘Quem insulta pai ou mãe deve morrer’...”

Provérbios 13:24 - “Quem poupa a vara, odeia seu filho; quem o ama, corrige-o prontamente.”

Provérbios 23:13-14 - “Não retires da criança a correção, ela não morrerá se a castigares com a vara: pelo contrário,
castigando-a com a vara, assim é que a livrarás da morte.”
(47) Punição para quem trabalha no dia de descanso - Um caso de violação do sábado:

Números 15:32-36 - “Enquanto os israelitas se achavam no deserto, um homem foi surpreendido apanhando lenha
em dia de sábado. Os que o surpreenderam levaram-no à presença de Moisés, de Aarão e de toda a comunidade.
Como não se decidiu o que fazer com ele, deixaram-no sob custódia. Então o Senhor disse a Moisés: “Este homem
deve ser condenado à morte. A comunidade toda o apedrejará fora do acampamento. Toda a comunidade o
conduziu para fora do acampamento e o apedrejou até morrer, como o Senhor havia ordenado a Moisés.”

(48) Deuteronômio 22:20-21 - “Mas, se a acusação (de que a noiva não era virgem) for verdadeira, tendo-se
verificado não ter sido virgem a jovem, ela será levada até à entrada da casa do pai e os homens da cidade a
apedrejarão até à morte, por haver cometido uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa paterna. Assim
eliminarás o mal de teu meio.”

(49) Em Sam Harris, A Morte da Fé: religião, terror e o futuro da razão (São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 2009), pg
79. (Título Original: The end of faith - Religion, terror, and the future of reason, 2004). (Marcos 16:18 - “... se
pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os
doentes, estes ficarão curados”.)

(50) O bispo irlandês James Ussher (1581-1656), baseando-se na genealogia dos patriarcas bíblicos, concluiu que a
Terra foi criada na manhã do dia 23 de outubro de 4004 a.C.

(51) - Observando como a Humanidade vivia em passado recente - há dois ou três séculos - temos de nos
maravilhar com a qualidade de vida desfrutada pelo Homem moderno. Se usarmos a extensão da vida como medida
desse progresso, vemos que a expectativa de vida nos Estados Unidos cresceu de 48 anos em 1900 para 77 em
2000!(i) E isto aconteceu graças aos avanços da Tecnologia.

A Tecnologia, ou Ciência Aplicada, tem como base a Ciência Pura. A Ciência Pura, a aquisição de conhecimento pelo
conhecimento, é pois a base do progresso. Em outras palavras, o conhecimento adquirido para satisfazer a
curiosidade intelectual é a base para o desenvolvimento tecnológico. Se o Homem tivesse se voltado
exclusivamente para a Ciência Aplicada, ele poderia dedicar anos a aperfeiçoar a dinamite sem jamais descobrir a
energia atômica. Um bom exemplo para ilustrar esse ponto de vista é o trabalho desenvolvido por James Clerk
Maxwell, que buscava apenas compreender a interação entre eletricidade e magnetismo. Sem as descobertas de
Maxwell, não teríamos hoje o rádio, o radar e a televisão. (Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios (São
Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2008), pg 447).

Eliot ficou fascinado ao perceber que a Ciência Pura também pode salvar vidas. A descoberta lhe ocorreu ao ler
sobre a ameaça para a Humanidade representada pelos clorofluorcarbonetos (CFCs), produtos que destroem a
camada de ozone na alta atmosfera, expondo o Homem e todos os ecossistemas do Planeta aos efeitos danosos das
radiação ultra-violeta. Quem descobriu que os CFCs ameaçavam destruir a camada de ozone? Não foi a empresa
fabricande dos CFCs, ou algum dos órgãos de proteção do meio-ambiente ou de defesa do consumidor, mas dois
cientistas, Sherwood Rowland e Mario Molina, que realizavam pesquisa pura que nada tinha a ver com a
identificação de riscos para o Planeta e para o Homem. Eram pesquisadores da Universidade da Califórnia, em
Irvine, instituição que nem mesmo figura entre as Universidades de maior prestígio dos Estados Unidos - não fazem
parte da chamada Ivy League. Esse trabalho de Rowland e Molina merece ser divulgado nas escolas. (Vide Carl
Sagan, Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space (Ballantine Books, 1997), p. 221-222).
Eliot também leu que foi o desejo de aprender mais matemática que impediu Bertrand Russell, então adolescente,
de suicidar-se - ele queria aprofundar-se naquela matéria que o encantava. Russell só veio a falecer aos 97 anos de
idade. (The Autobiography of Bertrand Russell, 3 volumes (London: George Allen & Kunwin), pg 38). Mas o fato mais
impressionante para o Profeta foi um episódio relacionado ao Último Teorema de Fermat.

O Último Teorema de Fermat mostrou a Eliot como a curiosidade intelectual salvou a vida de um industrial alemão,
impedindo que ele se matasse. Era novamente a Ciência Pura ajudando a Humanidade. Esse homem foi Paul
Friedrich Wolfskehl (1856-1906). Mas Eliot só se interessou pela história depois de ver que não era necessário ser
um matemático para regozijar-se com este acontecimento e seu final feliz.

O matemático francês Pierre de Fermat (1601-1665) escreveu que tinha descoberto uma prova para um teorema
que passou a levar seu nome – o Último Teorema de Fermat. Mas não ia escrevê-la por falta de espaço nas margens
estreitas do livro Aritmetica que estava lendo, uma obra de Diophanthus que teria sobrevivido ao incêndio da
lendária Biblioteca de Alexandria: “Eu descobri uma demonstração maravilhosa, mas a margem deste papel é
estreita para contê-la.” Desde sua morte, em 1665, muitos matemáticos notáveis tentaram sem sucesso provar o
Último Teorema de Fermat.

Por volta de 1900, o industrial alemão Paul Friedrich Wolfskehl (1856-1906), enquanto aguardava a hora do seu
suicídio programado (os alemães são organizados!), leu as últimas ideias sobre o Último Teorema de Fermat e, de
repente, vislumbrou a possibilidade de consertar um engano no trabalho do matemático Ernest Kummer e, quem
sabe, obter ele próprio uma demonstração para o Teorema. Quando percebeu que não havia raciocinado
corretamente, a hora do suicídio havia se passado. Wolfskehl desistiu de morrer.

Reconhecendo que o Último Teorema de Fermat salvara sua vida, Wolfskehl estabeleceu um rico prêmio,
equivalente na época a cerca de um milhão de dólares, para a primeira pessoa que o demonstrasse.

O prêmio instituído por Wolfskehl foi recebido em 1997 pelo matemático britânico Andrew Wiles, professor da
Universidade de Princeton, que demonstrou o Teorema em 1994, portanto mais de três séculos após a morte de
Fermat. Wiles havia tomado a decisão de demonstrá-lo ainda criança, aos dez anos de idade. O prêmio acabou se
tornando simbólico, pois a inflação havia corroído quase todo o seu valor.

Tanto Wolfskehl como Fermat tinham a matemática como hobby. Fermat, considerado por Pascal o maior
matemático de seu tempo, era um jurista e magistrado por profissão. Seu pai, um rico comerciante de peles, lhe
proporcionara uma esmerada educação.

Quanto ao Último Teorema de Fermat, não se assustem os não-iniciados na álgebra. Basta observar a equação an +
bn = cn. Quando n=2, temos o conhecido Teorema de Pitágoras a 2 + b2 = c2. O Teorema se verifica, por exemplo,
quando a=3, b=4 e c= 5 porque 32 + 42 = 52 ou 9 + 16 = 25.

Pois o Último Teorema de Fermat afirma que an + bn = cn não tem solução para qualquer valor de n superior a 2. Em
outras palavras, não é possível encontrar quatro números, que chamaremos de a, b, c e n, tais que a n + bn = cn se n
for maior que dois, embora a quantidade de “números” seja infinita (a,b e c devem ser diferentes de zero). Provar
isso foi o grande feito de Andrew Wiles.
Eliot considerou a desistência do suicídio um milagre produzido pela Ciência Pura. Lembrou-se do livro Os
Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe que, ao contrário, provocou uma onda de suicídios pela Europa. “Quanta
diferença entre a matemática que contribui para a salvação de Deus e a literatura que apenas diverte, podendo até
induzir leitores a se matar!”, exclamou Eliot, para arrepender-se logo em seguida, ao perceber que a literatura é
uma importante fonte de informação sobre a “alma” humana. Ademais, divertir-se é também uma necessidade dos
Seres Humanos.

(i) - Ted Sargent, The Dance of Molecules: How Nanotechnology is Changing Our Lives (New York, NY: Thunder’s
Mouth Press, 2006), pg 204.

Capítulo 16. As Religiões se Confraternizam


(1) NECESSIDADES QUE A RELIGIAO SATISFAZ

A Religião fornece explicações:

1 - O Homem criou a religião para explicar fenômenos naturais cujas causas não entendia
2 - A religião explica experiências intrigantes: sonhos, pré-ciência, etc
3 - A religião explica a origem das coisas
4 - A religião explica porque existe o mal e o sofrimento

A Religião oferece conforto:

1 - A religião torna a morte mais suportável


2 - A religião alivia a ansiedade e torna a vida mais amena (i)
3 - A religião nos faz sentir, pela crença na vida após a morte, que não estamos eternamente afastados de
nossos entes queridos que já faleceram.

A Religião promove ordem social:

1 - A Religião mantém a sociedade unida


2 - A Religião perpetua uma determinada ordem social
3 - A Religião apoia a moralidade

A Religião é uma ilusão cognitiva:

1 - As pessoas são superticiosas; elas acreditam em qualquer coisa


2 - Os conceitos religiosos são irrefutáveis
3 - Não acreditar é mais difícil do que acreditar
Para H.L.Mencken, “A única função da religião é dar ao Homem acesso aos poderes que parecem controlar seu
destino, e seu único propósito é induzir essas forças a agirem a seu favor... Nada mais é essencial”. (Em Robert
Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown and Company, 2009), pg 27).

(i) Para Santo Agostinho, “Há um vazio no coração do Homem e esse vazio é do tamanho de Deus”. (Citada pelo
Pastor Israel Belo de Azevedo, Igreja Batista Itacuruça, no Programa Sagrado, Rede Globo, Ago/2012)

(2) Lucas, 6:27-30 - “Ora, a vós que me escutais, eu digo: amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam.
Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te bater numa face, oferece
também a outra. E se alguém tomar o teu manto, deixa levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém
tirar do que é teu, não peças de volta...”

Mateus, 5:44 - Ora, eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem!

(3) Para o filósofo alemão Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), “Como forem os pensamentos e as disposições
do homem, assim será o seu Deus: .... conta-me acerca de do teu Deus e eu te direi quem és”. Vide Rubem Alves, O
que é Religião (São Paulo: Arts Poetica Editora Ltda, 1981), pg 78. Assim, para os indivíduos rancorosos, o Deus
perfeito tem de punir severamente os homens pelos erros que cometem.

(4) A propósito do casamento entre homens e plantas, um dos atores mais consagrados e respeitados da televisão
brasileira confessou, em entrevista à Rede Globo, ter mantido relações sexuais com uma bananeira em sua
adolescência no interior rural do estado de Minas Gerais. Trata-se de Lima Duarte, o notável Zeca Diabo de “O Bem
Amado”.

(5) Pascal Boyer, em seu livro Religion Explained, destaca que a religião é cultural, adquirida de outras pessoas
como o são as preferências culinárias, o gosto musical, a polidez e o jeito de vestir-se (pg 47). E citando Richard
Dawkins, sugere que a melhor maneira de prever a religião de um indivíduo é descobrir qual é a religião de seus
pais (pg 317). (Pascal Boyer, Religion Explained (New York: Basic Books), 2001).

(6) Enquanto os ateus creem que Deus não existe, os agnósticos afirmam desconhecer se Deus existe ou não. O
termo agnóstico foi cunhado pelo botânico inglês T(homas) H(enry) Huxley(1825-1895), que se destacou como
defensor ferrenho da teoria da evolução de Darwin. T. H. Huxley é avô do escritor Aldous Huxley, autor de
Admirável Mundo Novo, de Sir Julian Huxley, o primeiro diretor da UNESCO e fundador do World Wildlife Fund e de
Sir Andrew Huxley, fisiologista ganhador do Prêmio Nobel de fisiologia/medicina em 1963.

(7) Sobre a satisfação de nossos instintos, vide André Berge, As Doenças da Virtude (Rio de Janeiro, RJ: Livraria Agir
Editora, 1969). (Título original em francês: Les Maladies De La Vertu).

(8) São Basílio, bispo e doutor da Igreja, viveu no século IV. Para ele, quem fosse pego dando risadas ou contando
piadas deveria ser açoitado em nome de Deus, durante duas semanas. (Umberto Eco, On Ugliness (New York:
Rizzoli International Publications, Inc., 2007), pg 134).
Capítulo 17. As Forças do Mal Contra-Atacam
(1) Esta é uma das frases mais conhecidas do grande jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues.

(2) Freeman Dyson, The Scientist as a Rebel (New York: The New York Review of Books, 2006), pg 74.

(3) Freeman Dyson, Weapons and Hope: The Question of Survival (New York: Harper & Row, Publishers, Inc., 1984),
pg 92.

(4) Vide Don Cupitt, Depois de Deus: o futuro da religião (Rio de Janeiro, RJ: Editora Rocco Ltda, 1999), pg 101.
(Título Original: After God: The Future of Religion, 1997).

(5) Gênesis, 32:25-30 - Quando depois ficou sozinho, um homem se pôs a lutar com ele até o raiar da aurora. Vendo
que não podia vencê-lo, atingiu a coxa de Jacó, de modo que o tendão se deslocou enquanto lutava com ele. O
homem disse a Jacó: “Larga-me, pois já surge a aurora”. Mas Jacó respondeu: “Não te largarei, se não me
abençoares”. E o homem lhe perguntou: “Qual é o teu nome?“ - “Jacó”, respondeu, e ele lhe disse: “Doravante não te
chamarás Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus e com homens, e venceste”. E Jacó lhe pediu: “Dize-me, por
favor, teu nome”. Mas ele respondeu: “Para que perguntas por meu nome?” E ali mesmo o abençoou.

Capítulo 18. A Humanidade se Aproxima de Deus


(1) Vide Freeman Dyson, Weapons and Hope: The Question of Survival (New York: Harper & Row, Publishers, Inc.,
1984), Chapter 2, pg 16-27.

(2) O folclore gerado em encontros para treinamento de jovens executivos é rico em relatos que ilustram esse
ponto. Contam que existem pessoas em posição de chefia que, mesmo dominando as regras do politicamente
correto, deixam aflorar de vez em quando a natureza agressiva reprimida no inconsciente. Quando o superego se
descuida, a ironia e o sarcasmo entram em cena, como no caso do supervisor que perguntou à secretária
cinquentona que lhe deu menos atenção do que julgava merecer: “De que tipo de música a senhora gostava quando
era jovem? Eram diferentes das de hoje?”. E complementou: “A senhora deve ter sido muito bonita na
juventude”. Mais agressiva ainda foi a atitude to supervisor que, dirigindo-se ao candidato à promoção que jamais
o elogiara, falou bem alto para que todos ouvissem: “Eu já desconfiava que você tinha estudado em escola pública,
mas agora, lendo seu último relatório, tenho certeza!” Em geral, a resposta dos subordinados é a aversão a
supervisores como esses; magoados, ficam aguardando ansiosos pelo dia da vingança.

(3) Quanto à redução da biodiversidade devido à matança de animais para alimentação - como a ameaça de
extinção de algumas espécies de baleia - , vale observar que Deus inicialmente só permitiu ao Ser Humano
alimentar-se de plantas (Gênesis, 1:29-30)(i). Somente após o dilúvio Ele autorizou que o Homem comesse carne
(Gênesis, 9:3)(ii).
(i) Gênesis 1: 29-30 - Deus disse: “Eis que vos dou, sobre toda a terra, todas as plantas que dão semente e todas as
árvores que produzem seu fruto com sua semente, para vos servirem de alimento. E a todos os animais da terra, a
todas as aves do céu e a todos os animais que se movem pelo chão, eu lhes dou todos os vegetais como alimento”. E
assim se fez.

(ii) Gênesis 9:1-3 - Deus abençoou Noé e seus filhos, dizendo-lhe: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra.
Sereis causa de medo e de espanto para todos os animais da terra, todas as aves do céu, os bichos que se movem
pelo chão e todos os peixes do mar. Eu vos entrego todos em vossas mãos. Tudo o que vive e se move vos servirá de
alimento. Entrego-vos tudo, como já vos dei os vegetais.

(4) Foram também analisados outros exemplos de heroísmo infantil que poderão vir a ser adotados no futuro. Um
escritor de literatura infantil recomendou a divulgação de uma nova versão para a história de Chapeuzinho
Vermelho: “Chapeuzinho Vermelho, em prantos, pede ajuda a um lenhador que passava para juntos salvarem a
vovozinha que acabara de ser engolida por um enorme lobo mau. O lenhador, ao ver o tamanho da fera, desmaia,
deixando cair o machado. Chapeuzinho, porém, não vacila. Pega ela própria o pesado machado e, com a agilidade
de um obstetra competente, retira sua avó da barriga do lobo antes que enzimas e ácidos estomacais atacassem o
corpo da pobre velhinha. Em seguida Chapeuzinho ressuscita o lenhador com os sais aromáticos que vovó guardava
na dispensa. (Felizmente a respiração boca-a-boca não foi necessária - além das razões de higiene, tal procedimento
poderia desagradar a religiosos e órgãos de proteção à infância já que Chapeuzinho tinha apenas 12 anos de
idade).

Um teólogo europeu mostrou-se entusiasmado com a divulgação da história do garotinho holandês que salvou uma
cidade inteira construída abaixo do nível do mar tapando com seu delicado dedinho o furo que surgiu num dos
imensos diques que protegiam a região das águas do oceano. O jovenzinho, que estava só, viu que o vazamento
engrossava e que acabaria inundando a cidade, destruindo casas e vidas. Sem vacilar, o pequeno herói enfiou o
dedinho no buraco e ficou a espera de socorro. Apesar da pouca idade, resistiu ao cansaço e ao sono que vieram
com o anoitecer. Quando os adultos finalmente chegaram - bombeiros, militares, voluntários - eles encontraram o
holandesinho tremendo de frio e gemendo de dor, mas sem perder a bravura. O jovenzinho jamais esmoreceu
porque estava determinado a salvar aquelas pessoas a quem amava, quase todas adultos mais fortes do que ele,
mas que, pelas circunstâncias, dependiam do seu empenho. Dava-lhe forças pensar em seus pais, tios, avós, e
também nos vizinhos, professores (notadamente os de educação física, de matemática e de ciências), nos jogadores
de futebol que admirava, nos praticantes de natação, de artes marciais, de halterofilismo, além das crianças,
adolescentes e velhinhos da cidade - todos eles seriam salvos.

(5) Vide Don Cupitt, Depois de Deus: o futuro da religião (Rio de Janeiro, RJ: Editora Rocco Ltda, 1999), pg 9. (Título
Original: After God: The Future of Religion, 1997).

Capítulo 19. A Humanidade Reduz o Desperdício


de Cérebros
(1) O educador, filósofo e teólogo Rubem Alves defende esse ponto de vista. Para ele, quase tudo que dá prazer na
vida é inútil. Não estamos produzindo nada de útil quando pescamos, visitamos o zoológico, conversamos com
familiares e amigos, ou ouvimos as nossas melodias preferidas. O tempo que alguém passa beijando é puro
desperdício de tempo, e pode até não fazer bem à saúde. Mas são essas “coisas” inúteis que dão sabor à vida.
Segundo Rubem Alves, produzimos o útil para ganhar dinheiro para gastar com o inútil. Enfatizando a utilidade do
inútil, ele afirma qualidade de vida de uma pessoa pode muito bem ser medida pela quantidade de coisas inúteis
que ela faz.

Apoiando Rubem Alves, Dyson relata que o famoso cientista neozelandês Ernest Rutherford (1871-1937),
acreditava que conversar com familiares e divertir-se nos feriados (coisas inúteis) tornava o cientista mais
produtivo, e por isso fechava o laboratório para seus alunos às seis horas, quando não podiam mais trabalhar; e
quatro vezes por ano seus alunos tinham de tirar duas semanas de férias. Comprovando o acerto de seu ponto de
vista, vários de seus alunos se destacaram, como os vencedores do Prêmio Nobel Cockcroft e Walton. Rutherford,
conhecido como o pai da física nuclear por ter concebido o modelo planetário do átomo, foi agraciado com o Prêmio
Nobel de Química em 1908. (Freeman Dyson, The Scientist as a Rebel (New York: The New York Review of Books,
2006), pg 246).

Vivendo há mais de dois milênios numa sociedade em que gerar conhecimento não era tido como trabalho, Platão,
como a maioria dos filósofos gregos, considerava o ócio essencial à sabedoria, “que não será encontrada entre
aqueles que têm de trabalhar para ganhar a vida”. Assim, somente as pessoas que dispõem de recursos para ser
independentes, ou que têm sua subsistência garantida pelo Estado, estariam em condições gerar
conhecimento. (Vide Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental - Livro 1o - Filosofia Antiga (São Paulo, SP: Cia
Editora Nacional, 1967), pg 124).

(2) A lista dos indivíduos que trabalham para impedir e/ou punir o crime, em tempo integral ou parcial, também
inclui funcionários dos tribunais de conta; procuradores; investigadores; detetives; fabricantes de coletes a prova
de bala e outros materiais se segurança. Também fabricantes, instaladores e operadores de câmaras de segurança;
fabricantes, instaladores e operadores de equipamento para rastreamento por satélite; construtores de presídios,
cercas e muros; fabricantes de alarmes e trancas para automóveis. A lista inclui ainda os fornecedores de alimento e
uniforme para quarteis e presídios. E os flanelinhas, denominação dos trabalhadores informais que limpam e
vigiam automóveis.

Temos os funcionários das alfândegas, os guardas de fronteira e os fiscais para combate ao contrabando e à
pirataria. Desempenham importante papel os funcionários de agências reguladoras, encarregados da proteção do
meio ambiente e do consumidor, destacando-se os fiscais que tentam impedir a venda de combustível adulterado e
medicamentos falsificados ou com prazo de validade vencida. Não podem ser esquecidos os legisladores (e seus
funcionários) nos três níveis - senadores e deputados federais, deputados estaduais e vereadores - quando
estiverem produzindo legislação relacionada à prevenção e punição de atividades criminosas.

(3) O deputado Wallace Souza (Francisco Wallace Cavalcante de Souza) foi cassado pela Assembleia Legislativa do
Amazonas por quebra de decoro parlamentar no dia 01/Out/2009. Faleceu de parada cardíaca em São Paulo, aos
51 anos, em 27/Jul/2010, antes de ser julgado pela acusação de encomendar as mortes que anunciava em seu
programa na TV. Essa acusação e a sua morte foram amplamente noticiadas pela imprensa nacional e internacional.
(4) Este acontecimento chamou a atenção da comunidade internacional porque ocorreu no Japão, um dos países
mais éticos do mundo. A não-ocorrência de saques a residências e a estabelecimentos comerciais durante a
tragédia de 2011 (tsunami seguido de inundações e vazamento em usinas nucleares) é algo digno de admiração.

(5) A informação de que aproximadamente metade dos cientistas, em todo o mundo, trabalha em tempo parcial ou
integral para fins militares está em Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios (São Paulo, SP: Editora
Schwarcz Ltda, 2008), pg 27. (Título original: The demon-haunted world, 1996).

Os gastos com defesa constituem o item mais dispendioso do orçamento de muitos países. Vão das despesas com a
formação e aperfeiçoamento de oficiais à arregimentação, treinamento e manutenção de soldados e pessoal de
apoio; do desenvolvimento, produção, aquisição e conservação de armamento à construção e manutenção de bases
militares, bem como a operação e manutenção de tanques, submarinos, navios, aviões. Há também o custo das
atividades de inteligência e o tempo gasto por diplomatas, negociadores e mediadores de conflito. Em caso de
guerra há ainda de se considerar o custo das mortes e do tratamento dos feridos e traumatizados, alguns deles
incapacitados permanentemente para o trabalho devido a lesões físicas ou danos psicológicos.

(6) Sachs afirma que reduzindo a pobreza estaremos tornando o mundo em que vivemos mais seguro. Em apoio à
sua opinião, cita o então secretário-de-estado General Collin Powell (Governo George W. Bush), para quem a guerra
contra o terror está atrelada à guerra contra a pobreza. (Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty (New York: Penguin
Press, 2005), pg xvii).

(7) Mateus, 5:9 - Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

Capítulo 20. Valorizando a Vida na Terra


(1) Philip Plait, Death from the Skies (New York: Penguin Group, 2008), pg 198, 274.

(2) A Nota 6 do Capítulo 11 se refere à Fundação B612 (B612 Foundation), criada para proteger a Terra do impacto
de asteroides e à reportagem sobre o tema da Revista Time de 9/Jun/2014.

(3) Albert Einstein, em Ann Berk Sally, editor, The Big Little Book of Jewish Wit & Wisdom (New York: Black Dog &
Leventhal Publishers, Inc., 2000), pg 109.

(4) Amor ao Próximo nos Evangelhos:

Mateus 22:34-40 - Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então se reuniram, e um deles,
um doutor da Lei, perguntou-lhe, para experimentá-lo: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Ele
respondeu: “‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu
entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: ‘Amarás teu próximo
como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos”.
Marcos 12:28-31 - Um dos escribas, que tinha ouvido a discussão, percebeu que Jesus dera uma boa resposta. Então
aproximou-se dele e perguntou: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” Jesus respondeu: “O primeiro é
este: ‘Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua
alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!’ E o segundo mandamento é ‘Amarás teu próximo como
a ti mesmo’! Não existe outro mandamento maior do que estes.”

Lucas 10:25-28 - Um doutor da Lei se levantou e, querendo experimentar Jesus, perguntou: “Mestre, que devo fazer
para herdar a vida eterna?” Jesus lhe disse: “Que está escrito na Lei? Como lês?” Ele respondeu: “Amarás o Senhor
teu Deus, de todo o teu coração e com toda tua alma, com toda a tua força e com todo o teu entendimento; e teu
próximo como a ti mesmo!” Jesus lhe disse: “Respondeste corretamente. Faze isso e viverás”.

João 15:12 - Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.

(5) Conforme mencionado na Nota 3 do Capítulo 11, o astrônomo britânico Stephen Hawking declarou, em reunião
na Casa Branca, em 2000, que “já é chegada a hora de a Humanidade assumir o comando da evolução e planejar um
programa de auto-aprimoramento sistemático da espécie.” (Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista
apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP: Editora Gente, 2007), pg 267). (Original: Francis S. Collins, The
Language of God: a scientist presents evidence for belief, 2006)

Para que a engenharia genética e a nanotecnologia não sejam usadas para segmentar a Humanidade pela criação de
“indivíduos, grupos ou povos superiores”, é imperativo apressar o desenvolvimento moral e espiritual da
Humanidade.

(6) Inspirado em depoimento do líder budista Lama Padma Samten durante sua participação no Programa
“Sagrado” da Rede Globo, que reunia líderes religiosos das mais diversas crenças praticadas no Brasil. Cada líder
religioso falava sobre a visão, o papel e o posicionamento de sua igreja diante de temas contemporâneos que
variavam a cada semana; esses temas podiam ser de natureza religiosa, política ou social: como as religiões vêm as
crianças, a busca e posse de bens materiais, o sacerdócio como profissão, o casamento gay, entre outros.

Religiões e algumas das autoridades religiosas participantes:


Igreja Católica (Padre Antônio Manzatto, Padre Jesuíta Luis Corrêa Lima, Teóloga Maria Clara Bingemer), Judaísmo
(Rabino Sérgio Margulies, Rabino Nilton Bonder), Islamismo (Imam Sami Armed Isbelle, Xeique Jihad Hammadeh,
Xeique Armando Hussein Salej), Igreja Batesda (Pastor Ricardo Gondim), Igreja Batista (Pastor Israel Belo de
Azevedo), Igreja Presbiteriana (Reverendo Marcos Amaral), Igreja Pentencostal (Ricardo Gondim), Espiritismo
(Antônio César Perri de Carvalho, Cesar Reis, Cristina Brito), Budismo (Lama Padma Samten, Lama Rinchen
Khyenrab, Monja Zenbudista Coen), Umbanda (Sacerdotisa Flávia Pinto, Pai Etiene Sales, Fátima Damas),
Candomblé (Makota Valdina, Aderbal Ashogun) e Comunidade Indígena (Índio Tapuia Kaká Werá). O programa foi
ao ar aos domingos, apresentado por Ana Maria Braga,

(7) O alerta de que precisamos “obter o máximo de bem-estar com o mínimo de consumo”, de E. F. Schumacher) é
citado em Kalle Lasn, Culture Jam: How to Reverse America’s Suicidal Consumer Binge - And Why We Must (New York:
HarperCollins Publishers, Inc., 2000), pg 172. (E. F. Schumacher, Small is Beautiful: A Study of Economics as If People
Mattered).
(8) Vide Kalle Lasn, Culture Jam: How to Reverse America’s Suicidal Consumer Binge - And Why We Must (New York:
HarperCollins Publishers, Inc., 2000), pg 6.

(9) Inspirado em depoimento do Imam Sami Armed Isbelle no programa “Sagrado” da Rede Globo.

(10) John Ernest Steinbeck (1902-1968), consagrado escritor americano, é o autor de Vinhas da Ira (1939),
romance em que narra o drama dos trabalhadores itinerantes e sazonais na Califórnia. Este livro, que lhe rendeu o
Prêmio Pulitzer, foi levado ao cinema em 1940 por John Ford. Steinbeck é também o autor de Ratos e Homens
(1937), A Leste do Éden (1952), entre vários outros sucessos literários. Teve 17 de suas obras adaptadas para o
cinema por Hollywood. Recebeu, em 1962, o Prêmio Nobel de Literatura.

(11) O Homem, o único animal que deseja o que não precisa, é também o único animal que arrisca a vida por
diversão, como o faz ao praticar esportes radicais como escalar montanhas, saltar de paraquedas, participar de
“rachas” com automóveis e motos, enfim, envolver-se voluntariamente em atividades perigosas.

(12) Dados da Wikipedia. (População mundial)

(13) Jeremy Rifkin, Entropy: A New World View (New York: Bantam Books, 1980), pg 100.

(14) Gênesis, 1:28 - E Deus os abençoou (Adão e Eva) e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e
submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão”.

(15) Até a Revolução Industrial as mulheres geravam muitos filhos, mas os índices de mortalidade elevados
justificavam a prole numerosa. Assim, a população da Terra se manteve praticamente estável durante os primeiros
1500 da era cristã, crescendo de 230 milhões no Ano 1 para apenas 270 milhões no ano 1.000, atingindo 500
milhões em 1.500. O primeiro bilhão só foi alcançado no início século XIX. A chamada explosão demográfica
ocorreu nos últimos três séculos, após a Revolução Industrial. Vide Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty (New York:
Penguin Press, 2005), pg 27, Figura 1.

(16) Francis S. Collins, A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (São Paulo, SP:
Editora Gente, 2007), pg 154-155. Sobre a vida na terra, em suas diversas formas, vide também pg 76, 95 e 101.

Considerando que a Terra exista há 4,5 bilhões de anos e o homo sapiens tenha surgido há 195 000 anos, talvez
menos, conclui-se que, tomando-se como sendo de 24 horas a existência da Terra, o homo sapiens teria surgido há,
no máximo, 3,74 segundos.

A – Idade do Homo Sapiens: 195 x 103 anos


B – Idade da Terra: 4.5 x 109 anos

Considerando a idade da Terra como se fosse de 24 horas, o surgimento o homo sapiens se deu:

x = Idade do homo sapiens em segundos:

x = A/B x 24h = (195 x 103 anos/4.5 x 109) x 24 h = (195 x 103 /4.5 x 109) x 24h x 60 min/h x 60 s/min =
3,744 s
(17) Em 2011, a população de Tupelo, a cidade do Mississippi onde Elvis Presley nasceu, era de aprox. 38.000 mil
habitantes (135 mil na área metropolitana).

(18) Vide Richard Dawkins, “Unweaving the Rainbow”, citado em Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo, SP:
Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 21. (Título original: The God Delusion, 2006). (Pai que perdeu o filho).

(19) Com o avanço da ciência, notadamente a engenharia genética e a nanotecnologia, a duração da vida do Homem
deverá experimentar crescimentos inimagináveis ao longo dos próximos séculos. As consequências dessa
longevidade são hoje imprevisíveis. Há quem esteja prevendo a imortalidade do Homem, como o cientista
americano Ray Kurzweil.

(20) Ted Sargent, The Dance of Molecules: how nanotechnology is changing our lives (New York: Thunder’s Mouth
Press, 2006), pg 204. (longevidade nos Estados Unidos)

(21) Contrariando o senso comum, os avanços da medicina, apesar de sua enorme importância para a Humanidade,
não são a principal explicação para o aumento da longevidade ao longo dos últimos cem anos - ocupam um
relevante terceiro lugar, vindo após a melhoria da nutrição (alimentação mais farta e variada), e das condições
sanitárias e de higiene (água tratada, sistema de esgotos, etc.). A água tratada é a maior responsável pela
diminuição da mortalidade infantil. Resumindo, evitar as doenças é mais eficaz do que tratar-se, justificando o
provérbio “É melhor prevenir do que remediar. Não podemos, porém, subestimar o poder das vacinas e da
medicina em geral (conhecimento médico, medicamentos, hospitais e seus equipamentos).

(22) Ted Sargent, The Dance of Molecules: how nanotechnology is changing our lives (New York: Thunder’s Mouth
Press, 2006), pg 61-78. Ademais, segundo Ress, em 2006/2007 havia cerca de cem mil americanos na fila
aguardando a doação de um órgão para transplante; morriam em média, diariamente, dezoito pacientes por falta de
órgãos. Em M Ryan Ress, editor, The Ten Minute Activist: Easy Ways to Take Back the Planet (New York: Nation
Books, 2007), pg 171.

(23) Scott Atran, In Gods We Trust: The Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press,
2002), pg 36 (andar com duas pernas).

(24) Freeman Dyson, The Scientist as a Rebel (New York: The New York Review of Books, 2006), pg 23.

Capítulo 21. A Criação de Mitos e Lendas sobre o


Profeta
(1) Ezequiel 37:1-10 - “A mão do Senhor estava sobre mim, e o Senhor me levou em espírito para fora e me deixou
no meio de uma planície repleta de ossos. Fez-me circular no meio dos ossos em todas as direções. Vi que havia
muitíssimos ossos sobre a planície e estavam bem ressequidos. Ele me perguntou: ‘Filho do homem, estes ossos
poderão reviver?’ E eu lhe respondi: ‘Senhor Deus, és tu que sabes!’ E ele me disse: ‘Profetiza sobre estes ossos e
dize-lhes: Ossos ressequidos, ouvi a palavra do Senhor! Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Vou infundir-vos, eu
mesmo, um espírito para que revivais. Eu vos darei nervos, farei crescer carne e estenderei por cima a pele. Porei
em vós um espírito para que revivais. Então sabereis que eu sou o Senhor’.

“Profetizei conforme me fora ordenado. Enquanto eu profetizava, ouviu-se primeiro um rumor, e logo um estrondo,
quando os ossos se aproximaram uns dos outros. Eu olhei e vi nervos e carne crescendo sobre eles e, por cima, a
pele que se estendia. Mas faltava-lhes o sopro de vida. Ele me disse: ‘Profetiza para o espírito, profetiza, filho do
homem! Dirás ao espírito: Assim diz o Senhor Deus: Vem, ó espírito, dos quatro ventos, soprar sobre estes mortos
para que eles possam reviver!’ Profetizei conforme me fora ordenado, e o espírito entrou neles. Eles reviveram e
se puseram de pé qual imenso exército.” (Ênfase adicionada)

(2) Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões (São Paulo, SP: Martins Fontes, 2008), pg 96. (Título
original: Traité d’Histoire des Religions, 1949).

(3) Vide “Livro do Apocalipse”.

(4) Hebreus, 11:5 - “Pela fé, Henoc foi levado, sem passar pela morte: não mais foi encontrado, porque Deus o levou.
Antes de ser levado, porém, recebeu o testemunho de que foi agradável a Deus.” (Henoc foi o pai de Matusalém, e
Matusalém o avô de Noé. Henoc viveu 365 anos (Genésis, 5:23), Matusalém 969 anos (Gênesis, 5:27) e Noé 950
(Gênesis 9:29).

(5) Zacarias 1:9 - “Perguntei: ‘Quem são eles, meu Senhor?’ E o anjo que falava comigo, respondeu: ‘Vou mostrar-te
quem são eles’”.

(6) 1 Reis:19:5-8 - “E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente, um anjo tocou-o e disse:
‘Levanta-te e come!’ Ele abriu os olhos e viu junto à sua cabeça um pão assado na pedra e um jarro de água. Comeu,
bebeu e tornou a dormir. Mas o anjo do Senhor veio pela segunda vez, tocou-o e disse: ‘Levanta-te e come! Ainda
tens um longo caminho a percorrer’. Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou
quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus.” (O Monte Horeb é também conhecido
como Monte Sinai).

(7) Daniel, 6:23 - “... Meu Deus mandou seu anjo para fechar as bocas dos leões, e eles não me incomodaram, pois fui
considerado inocente diante de Deus da mesma forma como também contra ti, ó rei, nenhum crime cometi.”

(8) Êxodo 33:11 - “O Senhor falava com Moisés face a face, como alguém que fala com seu amigo.”

Números, 12:8 - “... Com ele falo face a face, às claras e não em enigma, ele contempla a forma do Senhor.
Como, pois, vos atreveis a criticar meu servo Moisés?”

Deuteronômio 34:10 - “Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor tratasse face
a face...”

(9) Gênesis, 32:25-30. Para a citação completa, vide Capítulo 17, Nota 5.

(10) Gênesis, 28:12


(11) Vide Mateus: 1:18-25
.
(12) Atos dos Apóstolos, 8:26-35 - “Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: ‘Prepara-te e vai em direção do sul.
Toma a estrada que desce de Jerusalém a Gaza. Ela está deserta’. Filipe levantou-se e foi. Nisso apareceu um eunuco
etíope, alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, e administrador geral do seu tesouro. Ele tinha ido em
peregrinação a Jerusalém. Estava voltando e vinha sentado no seu carro, lendo o profeta Isaías. Então o Espírito
disse a Filipe: ‘Aproxima-te desse carro e acompanha-o’. Filipe acorreu, ouviu o eunuco ler o profeta Isaías e
perguntou: ‘Tu comprendes o que estás lendo?’ O eunuco respondeu: ‘Como poderia, se ninguém me
orienta?’ Então convidou Filipe a subir e a sentar-se junto dele. A passagem da escritura que o eunuco estava lendo
era esta: ‘Ele foi levado como uma ovelha ao matadouro, e, qual um cordeiro diante do seu tosquiador, emudeceu e
não abriu a boca. Eles o humiharam e lhe negaram justiça. Seus descendentes, quem os poderá enumerar? Pois sua
vida foi arrancada da terra.’ E o eunuco disse a Filipe: ‘Peço que me expliques de quem o profeta está dizendo
isso. Ele fala de si mesmo ou se refere a algum outro?’ Então Filipe começou a falar e, partindo dessa passagem da
Escritura, anunciou-lhe Jesus.”

(13) Lucas 1:11-13 - “Apareceu-lhe, então, o anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. Quando Zacarias o
viu, ficou perturbado e cheio de medo. O anjo lhe disse: ‘Não tenhas medo, Zacarias, porque o Senhor ouviu o teu
pedido. Isabel, tua esposa, vai te dar um filho, e tu lhe porás o nome de João’”.

Capítulo 22. As Tentativas de Desmoralizar o


Profeta
(1) A metáfora da mão invisível foi apresentada por Adam Smith em seu livro A Riqueza das Nações, publicado em
1776. Coincidentemente, este foi o ano em que os Estados Unidos declarou sua independência da Grã-Bretanha.

(2) “Fundamentalismo de mercado” (market fundamentalism) é a expressão usada pelo bilionário financista George
Soros para denominar a fé absoluta na eficiência e na sabedoria do mercado para regular a atividade econômica.
(Scott Atran, In Gods We Trust: The Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press, 2002),
pg 14).

(3) “Garage sale”: As famílias nos EUA costumam, quando mudam (e mudam com frequência), colocar à venda a
“preço de banana” os itens que, com o passar do tempo, se tornaram inúteis. Ou quando querem “desentupir” a casa
de objetos que não são mais usados. Tais produtos podem ser de excelente qualidade, mas não se prestam mais: as
crianças cresceram e as roupas quase novas já não servem, os livros de histórias infantis não são mais adequados
para a idade dos filhos, assim como os brinquedos, as bonecas, o velocípede, a bicicleta. Também pode não valer a
pena levar para o novo endereço (ou manter) o aparelho de ginástica, móveis, etc. Os produtos à venda são
geralmente expostos na garagem da casa, daí o nome de “garage sale”.

(4) No Brasil, o cantor que mais provocou desmaios na plateia foi provavelmente Cauby Peixoto, nas décadas de
1950 e 1960. Quanto às músicas, uma séria candidata ao Livro dos Recordes é Tá de Mais, do grupo Raça Negra,
tocada cerca de 600 vezes em só dia, fato ressaltado em entrevista do Grupo no Programa do Jô, Rede Globo, em
Novembro/2011.

(5) O plástico demora centenas de anos para se decompor. O papel - cujo consumo cresce com o seu uso na
confecção de copos, guardanapos, lenços, pratos, embalagens - apesar de biodegradável, requer o corte de milhões
de árvores para sua produção e aumenta o volume de material que vai para os lixões. Esses problemas foram
abordados em M Ryan Ress, editor, The Ten Minute Activist: Easy Ways to Take Back the Planet (New York: Nation
Books, 2007), pg 196-197. (Devem também ser considerados os riscos de poluição durante o processo de
fabricação de celulose e papel)

(6) Consta que, visando a economizar energia, alguns casais ecologicamente radicais chegam a apagar as luzes
durante os beijos e abraços mais prolongados. A sensação de estarem protegendo o Planeta acentuaria o clima de
afeto e romantismo, tornando a interação mais intensa e aprazível.

(7) Todos os dias, o sol bombardeia a Terra com uma quantidade de energia dez mil vezes maior do que a que
consumimos. (Ted Sargent, The Dance of Molecules: how nanotechnology is changing our lives (New York: Thunder’s
Mouth Press, 2006), pg 83).

(8) Além da “Fronteira Vertical”, muitas outras acusações foram feitas contra Eliot, todas falsas. Vamos citar duas
delas:

Apoio fanático à Mulher:

Uma das acusações infundadas contra o Profeta Eliot era de que ele teria criticado o “extremo machismo” do Deus
bíblico sem considerar o contexto histórico em que o Livro Sagrado foi escrito. Eliot teria lamentado que a Bíblia
somente mostra um Israelita carinhoso com uma mulher muitos séculos depois de Abraão, no livro de Samuel
(1Samuel 1:4-8). Teria também deplorado a narrativa de episódios como o de Abimelec que, agonizante depois que
uma mulher deixara cair sobre sua cabeça a pedra de um moinho, pediu ao seu escudeiro que o matasse, “para que
ninguém diga que fui morto por uma mulher”, no que foi atendido (Juízes 9:53-54).

Mais chocante que o machismo de Abimelec foi a oferta do ancião de Gabaá. Homens de costume depravado de
Gomorra queriam abusar sexualmente do Levita que ele havia hospedado em sua casa. Para que deixassem seu
hóspede em paz, o ancião lhes ofereceu sua filha virgem e a concubina do hóspede - um flagrante desrespeito à
mulher (Juízes, 19:22-28).

Ainda mais grave foi o episódio de Gomorra. Ló, sobrinho de Abraão, havia recebido em sua casa dois anjos
enviados por Deus para informá-lo da destruição iminente de Gomorra, alertando-o a abandonar a cidade
imediatamente. Mas os homens de Gomorra cercaram a casa de Ló e exigiram que ele lhes entregasse os visitantes
para sodomizá-los. O que fez Ló? Sentindo-se na obrigação de proteger seus hóspedes, ofereceu em troca suas duas
filhas virgens para que “fizessem com elas o que quisessem”, no que foi recusado pelos homens sedentos de sexo
que exigiam os visitantes (vide Gênesis, 19:5-10).

Eliot também foi acusado de não entender por que uma mulher que dá à luz um filho fica impura durante sete dias
e, pior, quando dá à luz uma filha, fica impura ainda mais tempo, catorze dias (Levítico 12:1-5). E por que Judeus
ortodoxos rezam: “Abençoado seja Ele que não me fez mulher (i).”
Eliot teria criticado o fato de Salomão ter tido 700 esposas, 300 concubinas (1Reis 11:3), e casos fora do casamento
e do concubinato como o tórrido romance com a Rainha de Sabá, enquanto a mulher que não chegasse virgem ao
casamento estava condenada ao apedrejamento na entrada da casa de seu pai. (Deuteronômio 22:20-21).

Para completar, o Profeta teria elogiado em demasia a atitude feminina assumida por Deus em Isaías (ii). E
lamentado o machismo de Santo Agostinho(iii) ao pregar que o pecado original é transmido de pai para filho ou filha
através do espermatozóide, apesar de Eva ter sido a grande culpada por aquele erro; foi ela quem ofereceu a maçã a
Adão. Também criticara em público o cuidado excessivo recomendado aos pais em Eclesiástico (42:9-14) para
evitar a devassidão de suas filhas. Nada disso era verdade, tudo intriga!

Um dos detratores de Eliot foi ainda mais longe, afirmando que o Profeta deveria ter combatido o Movimento
Feminista já que a independência econômica e a liberdade de agir tornaram a mulher mais vunerável aos ataques
do Exército de Lúcifer. Realmente, fazer a mulher pecar é hoje mais fácil do que no passado, razão pela qual Lúcifer,
nos tempos bíblicos, se voltava prioritariamente para os homens. Mesmo assim, o Eclesiástico nos alerta sobre as
mulheres: “... assim como é da roupa que sai a traça, assim é da mulher que procede a malícia feminina”
(Eclesiástico, 42:13).

Mas que fique claro: o Profeta é um homem de seu tempo, com valores e ideias modernas. Para ele, “o macho
humano sozinho não é a imagem de Deus, só o macho e a fêmea juntos o são (iv)”. De fato, Eliot pregava que a mulher
tem os mesmos direitos, deveres e responsabilidades do homem, devendo estar igualmente preparada para resistir
às Forças do Mal e para trabalhar para o progresso da Humanidade de forma a assegurar o êxito do projeto de
salvação do Criador.

(i) Ali Kamel, Sobre o Islã (Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira S.A., 2007), pg 156.

(ii) Isaias, 66: 12-13 “... Podereis mamar, carregados ao colo, sobre os joelhos sereis acariciados. Qual mãe que
acaricia os filhos assim vou dar-vos o meu carinho, em Jerusalém é que sereis acariciados...”)

(iii) Richard Dawkins, Deus, um delírio (São Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 325. (Original: The God
Delusion, 2006)

(iv) Jack Miles, Deus: uma biografia (São Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2009), pg 335. (Título Original: God: A
Biography, 1995)

Eliot e a História das Alminhas para Animais:


Espalharam que o Profeta apoiava a ideia de que os animais domésticos são dotados de pequenas almas. As
“alminhas” permitiriam que os bichinhos de estimação - gatos, cães, papagaios, todos eles - acompanhassem seus
donos após a morte para lhes fazer companhia no Outro Mundo. “Não acredito em almas de animais”, teria
afirmado o Profeta, “mas respeito os que creem. Por favor, não me indisponham com os Budistas”.

(9) Henry (Alfred) Kissinger (1923 - ). Kissinger foi professor de Harvard e diplomata. Judeu nascido na Alemanha,
veio para os EUA em 1938. Destacou-se como secretário de Estado no Governo de Richard Nixon, tendo recebido,
em 1973, juntamente com o vietnamita Le Duc Tho, o Prêmio Nobel da Paz pelo seu papel na promoção de um
cessar-fogo na Guerra do Vietnã (Le Duc Tho recusou o prêmio). Também desempenhou papel relevante na
formalização das relações diplomáticas entre Estados Unidos e a República Popular da China. Seus detratores o
acusam de ter dado luz verde para os golpes de estado no Chile e no Uruguai(1973), e para a invasão do Timor pela
Indonésia(1975).

(10) Otto Leopold Eduard von Bismarck-Schönhausen(1815-1898) foi um famoso político alemão que, na condição
de primeiro ministro da Prússia, promoveu a unificação da Alemanha. Tornou-se então o primeiro Chanceler da
Alemanha unificada.

Capítulo 24. O Primeiro Milagre: A Indiazinha


Escultora
(1) Pigmalião: Conta a lenda que Pigmalião foi um grande escultor. Desiludido com o comportamento indecente das
mulheres, afastou-se delas. Sentindo-se, porém, incapaz de viver sozinho, esculpiu uma linda jovem - a quem
chamou de Galateia - para lhe fazer companhia. E apaixonou-se perdidamente pela escultura. A deusa Afrodite
condoeu-se com a sorte de Pigmalião e deu vida à sua obra. Pigmalião e Galateia se casaram e tiveram um filho.

Quando o professor acredita no potencial de um aluno, o rendimento desse aluno em geral se eleva. A explicação é
que procuramos corresponder ao que esperam de nós; assim, o estudante se torna o que o professor espera dele. É
o chamado efeito Pigmalião.

As pinturas Pigmalião e Galateia de 1860 e 1990 de Jean-León Gérome são famosas pela extraordinária beleza. Esta
última (1890) pode ser vista no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque.

Capítulo 25. O Diabo Tenta o Profeta


(1) Robert Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown and Company, 2009), pg 473.

(2) Idem, pg 475. (deuses dos cavalos)

(3) Christopher Hitchens, Deus não é Grande: como a religião envenena tudo (Rio de Janeiro, RJ: Ediouro Publicações
S.A., 2007), pg 92-93. (Título original: God is not Great, 2006). Voltaire (1694-1778), pseudônimo de François-
Marie Arouet, é um dos mais famosos filósofos do Iluminismo. Escritor e dramaturgo, deixou vasta obra que inclui
romances, poesias, ensaios e peças de teatro, destacando-se o romance “Cândido, ou O Otimismo”, de 1759.

(4) Robert G. Ingersoll(1833-1899) foi um dos maiores oradores do século XIX. Defensor dos negros e das
mulheres, também pregava o agnosticismo. Era filho de um pastor presbiteriano. Sobre suas qualidades como
cidadão, esposo e pai, vide Christopher Hitchens, Deus não é Grande: como a religião envenena tudo (Rio de Janeiro,
RJ: Ediouro Publicações S.A., 2007), pg 173. (Título original: God is not Great, 2006)
(5) Saul Bellow, em Ann Berk Sally, editor, The Big Little Book of Jewish Wit & Wisdom (New York: Black Dog &
Leventhal Publishers, Inc., 2000), pg 49.

(6) David Hume também aborda este tema quando diz que “A razão é, e tem de limitar-se a ser, escrava das
paixões. David Hume, Tratado da Natureza Humana(1739), citado em Scott Atran, In Gods We Trust: The
Evolutionary Landscape of Religion (New York: Oxford University Press, 2002), prefácio, pg vii.

Para Einstein, “A imaginação e a inteligência participam de nossa existência como servidores dos nossos instintos
primários(1950). Vide Scott Atran, In Gods We Trust, pg 20.

(7) Citação de Émile Durkheim (1858-1917), sociólogo francês, um dos pais da sociologia moderna. Considerado
um dos melhores teóricos do conceito de coerção social, foi pioneiro no reconhecimento da existência da
consciência coletiva. Em Rubem Alves, O que é Religião (São Paulo, SP: Arts Poetica Editora Ltda, 1981), pg 52-53.

(8) Richard Dawkins, Deus, um delírio (Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 29. (Original: Richard Dawkins,
The God Delusion, 2006). Robert Manard Pirsig, (1928 - ), escritor e filósofo americano, ficou famoso como autor
do best seller “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas”.

(9) Richard Dawkins, Deus, um delírio (Paulo,SP: Editora Schwarcz Ltda, 2007), pg 220.

(10) Contribuição do eng . Ronaldo Santiago Gontijo , um devoto católico .

(11) Hebreus, 11:1-11.

(12) João, 20:29.

(13) Para Paul Johannnes Tillich (1886-1965), “A dúvida não é o oposto de fé; ela é um elemento da fé”. Para uma
descrição sucinta de Tillich, teólogo cristão americano nascido na Alemanha, vide Nota 30 do Capítulo 15.

(14) Como Tillich, o escritor Isaac Bashevis Singer também acreditava que “A dúvida faz parte da religião” e que
“Todos os pensadores religiosos são acometidos por ela”. Vide Ann Berk Sally, editor, The Big Little Book of Jewish
Wit & Wisdom (New York: Black Dog & Leventhal Publishers, Inc., 2000), pg 69. Singer (1902-1991) era filho e neto
de rabinos hassídicos. Nascido na Polônia, emigrou para os Estados Unidos (Nova Iorque) em 1935. Foi
contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1978.

(15) Mefistófeles é um demônio que responde diretamente a Satanás (Lúcifer). Sua técnica é fazer acordos: Em
troca de sua alma, Mefistófeles dá ao indivíduo tudo que ele deseja nesta vida - dinheiro, prestígio, mulheres, até
conhecimento, como no caso de Fausto, personagem de Goethe.

(16) O livro de Ester não vem em último lugar na Bíblia cristã devido ao rearranjo feito pelos Cristãos na Bíblia
hebraica. Vide Robert Wright, The Evolution of God (New York: Little, Brown and Company, 2009), pg 128, 505.
Capítulo 26. O Profeta Fala aos Filhos de Abraão
(1) O autor se inspirou no artigo “A Grande Família”, do médico Dr. Sérgio Danilo Pena, geneticista e professor da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

(2) A expectativa de vida nos tempos pré-agrícolas dos caçadores-coletores era de apenas vinte a trinta anos. Essa
era também a expectativa de vida na Europa Ocidental no final do Império Romano, aumentando para quarenta
anos somente por volta de 1870. A partir da Revolução Industrial a expectativa de vida na Europa experimentou
crescimento significativo, indo para 50 anos em 1915, 60 em 1930, 70 em 1955, aproximando-se dos 80 anos no
ano 2.000 (um pouco mais para as mulheres, um pouco menos para os homens. (Carl Sagan, O mundo assombrado
pelos demônios (São Paulo, SP: Editora Schwarcz Ltda, 2008), pg 26). (Título original: The demon-haunted world,
1996)

(3) Para os que apreciam a matemática, 2200 = 1,606938034 x 1060, é um número extraordinariamente grande,
excedendo em muito a massa do sol medida em gramas e a idade do universo em segundos. Para comparação, o sol
“pesa” “apenas” 2 x 1033 gramas, enquanto a idade do universo é de “somente” 4,32 x 10 17 segundos. (13,7 bilhões de
anos = 13,7 x 109 anos x 365,25 dias/ano x 24 horas/dia x 60minutos/hora x 60 segundos/minuto = 4,32 x 10 17
segundos)

(4) O número de planetas Terra necessários para abrigar os ascendentes de cada um de nós contemporâneos de
Abraão, supondo que cada planeta tivesse 9 bilhões de habitantes e que nenhum dos antepassados tivesse
ascendentes comuns, seria de 1,606938034 x 1060/9x109 = 1,785 x 1050.

(5) A terceira mulher com quem Abraão teve filhos se chamava Cetura, e dela nasceram Zanrã, Jecsã, Madã, Madiã,
Jesboc e Sué. (Gênesis, 25:1-2)

(6) A estimativa de que existiam dez milhões de Judeus no início da Era Cristã se encontra em Robert S. Wistrich,
Antisemitism: The Longest Hate (New York: Pantheon Books, 1991), pg 7.

(7) Considerando que a população mundial no início da Era Cristã era de aprox. 230 milhões de habitantes (Sachs(i))
e que os Judeus somavam cerca de dez milhões, conclui-se que o número de Judeus deveria ser em 2013 da ordem
de 300 milhões (10/230 x 7,2 x109), sendo 7,2 x 109 a população mundial em 2013. No entanto, é de apenas 15 ou
16 milhões. A enorme diferença, da ordem de 95%, mostra o elevado número de assimilações e conversões de
Judeus a outros credos (ou a nenhum credo), mesmo considerando tragédias como os progroms na Europa Oriental
e o Holocausto. Também não se levou em conta o número de conversões ao Judaísmo que, se significativo,
reforçaria a necessidade renúncia ao Judaísmo para explicar o número relativamente reduzido de Judeus nos dias
de hoje. (Segundo St. John(ii), no final da década de 1960 cerca de três mil Cristãos se convertiam todos os anos ao
Judaísmo nos Estados Unidos; a maioria eram mulheres que se casavam com Judeus e desejavam estabelecer lares
judeus; Ademais, a significativa variação física entre Judeus sugere que as conversões ao Judaísmo, ao longo da
História, foram significativas). Concluindo, os Judeus, que já foram 4% da população mundial no início da era
Cristã, reduziram-se a 0,2% nos dias atuais, ou seja, cerca de 20 vezes menos em termos percentuais.
Segundo Flannery, a população de Judeus no início da Era Cristã era de cerca de cinco milhões(iii) (e não dez). Esta
estimativa, aparentemente modesta, reduziria o total de 300 milhões para 150 milhões, ainda um número elevado
comparado aos 15-16 milhões de Judeus no mundo de hoje.

(i) Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty (New York: Penguin Press, 2005), pg 27.

(ii) Robert St. John, Jews, Justice and Judaism (Garden City: Doubleday & Company, 1969), pg 360-361.

(iii) See Edward H. Flannery, The Anguish of The Jews (Mahwah, New Jersey: Paulist Press - A Stimulus Book, 1985),
pg 9.

(8) Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History (New York: Routledge, Taylor & Francis Group, 2010 -
Coleção Themes in World History), pg 193. Ginsberg, nascido na Ucrânia no século XIX, não era religioso e, dada a
sua militância, recebeu o cognome de “rabino agnóstico”. (Sobre os riscos gerados pela assimilação)

Capítulo 27. O Judeu Errante Procura o Profeta


(1) O Judeu Errante é uma das representações genéricas dos Judeus, sempre se locomovendo pelo mundo desde os
tempos de Abraão e de Moisés. É digno de nota que, em sua origem, a palavra “Hebreu” está ligada à noção de
viagem. Ela vem de “Ever”, um ancestral distante de Abraão, um dos netos de Noé. “Ever” pode ser traduzido como
“nômade”, “passagem” ou “além”. “Ever” acabou se transformando em “Ivri”, ou “Hebreu”. Dos Hebreus vieram,
cerca de quinze séculos depois de Ever, os Judeus. (Jacques Attali, Os judeus, o dinheiro e o mundo (São Paulo, SP:
Editora Futura, 2003), pg 19). (Título original, em francês: Les juifs, le monde et l’argent, 2002). Este tema vem
sendo, há séculos, explorado por diversos escritores como Joseph Gaer, autor de The Legend of the Wandering Jew
(New York: The New American Library of World Literature, Inc., 1961).

(2) O correspondente do jornal “The New York Times” no Oriente Médio, Ethan Bronner, relatou que Ben Gurion,
então primeiro-ministro de Israel, afirmava que “O futuro de Israel dependia de duas coisas: seu exército e sua
reputação internacional”. Vide palestra de Ethan Bronner, “Covering the Israeli-Palestinian Conflict in 2010”,
transmitida em novembro de 2010 pela TV da Universidade da Califórnia (uctv.tv).

(3) Caso todos os Judeus se mudassem para Israel, o país, com uma a área de aproximadamente 22 mil km2, teria
de 900 a 1000 habitantes por km2. Como referência, os cinco países mais populosos do Planeta têm as seguintes
densidades populacionais: China, 141 habitantes por km2; Índia, 382; Estados Unidos, 35; Indonésia, 124; Brasil,
23. Os vizinhos de Israel têm: Líbano, 473 habitantes por km 2; Síria 115; e Egito 84. As três áreas mais
densamente habitadas do mundo são Macau (20.069 habitantes//km 2), Mônaco (18.068 habitantes/km2), e
Cingapura (7.543 habitantes/km2), mas elas não servem como referência: Macau é uma área metropolitana, uma
das regiões administrativas especiais da China, enquanto Mônaco e Cingapura são cidades-estado.

(Fonte: Wikipedia 2013, http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_sovereign_states_and_dependent_territories


by_population_density).
(4) A Diáspora vem perdendo seu sentido de “exílio de um povo obrigado a viver sob leis estrangeiras, de um povo
forçado a abandonar sua terra”, para adquirir uma conotação mais positiva, sendo mesmo validada como uma
“Missão junto aos Gentios” pelo Judaísmo Liberal e da Reforma (Wistrich (i)).

A missão de embaixadores da paz e promotores da causa da liberdade, da justiça social e da irmandade entre
nações e indivíduos, em todo o mundo, tem sido reiteradamente advogada por importantes lideranças judaicas. A
declaração do Encontro de Pittsburgh, realizado em 1885, afirma que os Judeus devem buscar melhorar as
condições de vida neste mundo lutando pelo estabelecimento da verdade, da justiça social, da irmandade entre os
homens e da paz onde quer que residam visando a criar um “Paraíso” neste mundo (St. John (ii)). Segundo o rabino
Samuel Hirsh (século XIV), a destruição do antigo estado judeu não foi uma punição pelos pecados de Israel, mas
consequência do propósito divino de dispersar os Judeus por “todas as partes do mundo para que realizassem sua
mais alta missão religiosa - liderar as nações para o conhecimento da verdade e a adoração de Deus” (St. John(iii).

O Rabino S. Schechter afirma que, “De acordo com a lei de Israel, nenhum homem tem o direito de ter mais do que
pão, água e lenha enquanto o pobre não dispuser do necessário para viver” (St. John (iv)). A valorização e a
motivação para interagir com outros povos e praticar a bondade encontra amplo apoio no Velho Testamento:

Amós, 9:7 - “Por acaso, filhos de Israel, sois diferentes dos etíopes para mim? Eu não tirei Israel da terra do Egito?
Mas não tirei também os filisteus de Caftor? Não fiz os arameus saírem de Quir?”

Isaias, 1:17 - “aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido, fazei justiça; para o
órfão, defendei a causa da viúva.”

Provérbios, 21:3 - “Praticar a misericórdia e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios.”

Salmos, 82:3-4 - “Defendei antes o fraco e o órfão, ao humilde e ao necessitado fazei justiça. Salvai o pobre e o
indigente, livrai-o da mão dos ímpios.”

Salmos, 89:15 - “A justiça e o direito são as bases do teu trono, a bondade e a fidelidade caminham à tua frente.”

Miquéias, 6:8 - “Já te foi indicado, ó homem, o que é bom, e o que o Senhor exige de ti. É só praticar o direito, amar a
misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus.”

(i) Robert S. Wistrich, Antisemitism: The Longest Hate (New York: Pantheon Books, 1991), pg 312;

(ii) Robert St. John, Jews, Justice and Judaism (Garden City, NY: Doubleday & Company, 1969), pg 200-
201, 274-275.

(iii) idem, pg 126.

(iv) idem, pg 272.

(5) Mais do que contribuir para o cumprimento de uma profecia bíblica, muitas lideranças judaicas apoiaram a
criação do estado de Israel para se sentirem mais seguras. Assim, “famílias importantes como os Rothchilds
estavam cientes de que a segurança de que desfrutam no presente não é confiável. Somente se os Judeus tiverem o
seu país é que sua sobrevivência estará assegurada”, daí o apoio a Israel. (Zachary Karabell, Peace Upon You: The
Story of Muslim, Christian, and Jewish Coexistence (New York: Alfred A. Knopf, a division of Random House, Inc.,
2007), pg 251).

(6) Como afirmou Gorenberg: “O Sionismo ofereceu aos Judeus mais do que um abrigo. Se a modernidade lhes
custou a fé, o Sionismo lhes permitiu continuar Judeu ao fazer do Judaísmo uma nacionalidade (i).” Lupovitch aponta
que, por volta de 1914 (começo da Primeira Grande Guerra), tornou-se possível ser um Judeu comprometido e
apaixonado sem acreditar em Deus ou observar qualquer das leis ou costumes judaicos(ii). Sam Harris, filho de mãe
judia, afirma que um ateu pode ser Judeu praticante. Ele entende que para ser Judeu não é necessário crer em
Deus(iii).

Ressaltando a importância de Israel para os Judeus, Hannah Arendt relata que o mais dramático para os Judeus na
Alemanha Nazista não foi a opressão, mas sentir que não queriam sequer oprimi-los; não foi a falta de amparo legal,
mas a inexistência de leis; não foi a falta de liberdade e do direito à felicidade, mas o abandono. Viviam numa
sociedade que os rejeitava sem que tivessem um lugar para onde ir - não pertenciam a nenhuma comunidade e o
mundo não se interessava por eles. Tinham se tornado supérfluos para o mundo (iv).

Em Israel, segundo as cortes rabínicas controladas pelos Judeus ortodoxos, com autoridade sobre conversões,
casamentos e divórcios, Judeu é o filho de mãe judia. Quanto à conversão, as exigências são severas. Ariel Sharon
expressou o sentimento de muitos Judeus seculares em termos claros e vigorosos: “Se eu tivesse que me converter
ao Judaísmo, seria reprovado(v). Nos Estados Unidos, o Movimento da Reforma considera Judeu a criança filha de
pai judeu e mãe não-judia(vi).

Referindo-se à importância de Israel para a união de todos Judeus - Ortodoxos, Conservadores e da Reforma - Saint-
John declarou que “nada contribuíu mais para unir os Judeus americanos do que a criação do estado de Israel (vii).

(i) Gershom Gorenberg, The End of Days: Fundamentalism and the Struggle for the Temple Mount (New
York: Oxford University Pres, 2000), pg 87.

(ii) Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History (London and New York: Routledge, Taylor & Francis
Group, 2010 - Coleção Themes in World History), pg 202.

(iii) Sam Harris, A Morte da Fé: religião, terror e o futuro da razão (São Paulo: Editora Schwarcz Ltda. 2009), pg
294. (Título Original: The end of faith - Religion, terror, and the future of reason, 2004)

(iv) Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (New York: Harcourt, Inc. - A Harvest Book, 1976), pg 295-296.

(v) Jimmy Carter, We Can Have Peace in the Holy Land: A Plan That Will Work (New York: Simon & Schuster, 2009),
pg 164.

(vi) Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History, pg 243.

(vii) Robert St. John, Jews, Justice and Judaism (Garden City, NY: Doubleday & Company, 1969), pg 348.

(7) Daniel Gordis, por exemplo, protesta:


“Em 2005, a Associação Britânica de Professores Universitários (Britain’s Association of University
Teachers, com 40.000 membros) aprovou em votação um boicote a acadêmicos israelenses e, em 2006,
a ainda mais numerosa Associação Nacional de Professores de Educação Superior (National Association
of Teachers in Further and Higher Education) censurou as “políticas de apartheid israelenses” e
recomendou aos acadêmicos britânicos que se afastassem de seus colegas israelenses. Ninguém pode
negar o sofrimento de muitos Palestinos ou dizer que o controle israelense sobre os territórios que Israel
tem tentado ceder tem sido benigna. Mas Israel não pode deixar de perceber que outros conflitos no
mundo ceifaram mais vidas ou foram foco de abomináveis violações dos direitos humanos sem que os
acadêmicos britânicos dissessem alguma coisa sobre essas regiões do mundo. Quatrocentas mil pessoas
foram assassinadas em Darfur e os professores britânicos não se manifestaram.”

Daniel Gordis, Saving Israel: How the Jewith People Can Win a War That May Never End (Hoboken, New Jersey: John
Wiley & Sons, Inc. 2009), pg 75-76.

(8) Sobre o relacionamento de Israel com o mundo dos Gentios, houve Judeus progressistas que, segundo Cohen,
viram no Sionismo um retrocesso, pois acreditavam que o Sionismo iria induzir os Judeus a se isolarem, criando
uma distância entre eles e os Gentios. Assim, em 1910 o Conselho Americano para o Judaísmo divulgou o seguinte
comunicado: “Nós nos opomos ao esforço de criar um estado nacional judeu na Palestina ou em qualquer outro
lugar como uma filosofia de derrotismo. … nós discordamos de todas essas doutrinas que enfatizam raça,
nacionalidade e a visão do Judeu como um povo sem teto. Nós nos opomos a tais doutrinas como inimigas do bem-
estar dos Judeus na Palestina, nos Estados Unidos, onde quer que vivam(i).”

Theodor Herzl, o pai do Sionismo, tinha no entanto uma visão bem diferente. Ele pregava que, com a criação do
estado de Israel, “O mundo será mais livre com a nossa liberdade, mais rico com a nossa riqueza, e mais grandioso
com a nossa grandeza. Tudo que fizermos para o nosso próprio bem reagirá poderosa e beneficamente para o bem
da humanidade(ii)”. A visão de Herzl não é, porém, consistente com o depoimento do filósofo pacifista e prêmio
Nobel de literatura Bertrand Russell, que assim se manifestou sobre os assentamentos judaicos em terra habitada
por Palestinos: “A agressão cometida por Israel precisa ser condenada, não somente porque nenhum estado tem o
direito de anexar território estrangeiro, mas porque cada expansão é uma tentativa para descobrir quanto mais de
agressão o mundo está disposto a tolerar(iii).

(i) Rich Cohen, Israel is Real: An Obsessive Quest to Understand the Jewish Nation and Its History (New
York: Farrar, Straus and Giroux, 2009), pg 172-173.

(ii) Idem, pg 151.

(iii) Wikipedia. (Este teria sido um dos últimos posicionamentos políticos de Bertrand Russell, em 1970, o ano em
que faleceu. Vide Wikipedia entrada “Bertrand Russell” disponivel em
http://en.wikipedia.org/wiki/Bertrand_Russell)

(9) Vem da Bíblia a crença dos Judeus de que Deus os escolheu para Seu povo entre todos os outros povos:

Levítico, 20:26: “Sede santos para mim porque eu, o Senhor, sou santo. Eu vos separei dos outros povos
para serdes meus.”
Êxodo, 33:12-17: Moisés disse ao Senhor: “Ora, tu me dizes: ‘Faze subir este povo’; mas não me indicaste ninguém
para me ajudar na missão. No entanto me disseste: ‘Eu te conheço pelo nome e tu mesmo gozas do meu favor’. Se é,
pois, verdade que gozo de teu favor, faze-me conhecer teus caminhos, para que te conheça e assim goze de teu
favor. Considera que esta nação é o teu povo”. O Senhor respondeu-lhe: “Eu irei pessoalmente e te darei descanso”.
Moisés respondeu-lhe: “Se não vens pessoalmente, não nos faças subir deste lugar. Aliás, como se saberia que eu e
teu povo gozamos de teu favor, senão pelo fato de caminhares conosco? Assim, eu e teu povo seremos diferentes de
todos os povos que vivem sobre a terra”. O Senhor disse a Moisés: “Farei também isto que pediste, pois gozas de
meu favor, e eu te conheço pelo nome”.

Sam Harris refere-se ao dogma judaico de povo escolhido dizendo que “embora seja pelo menos ímplícito na
maioria das crenças, atingiu no Judaísmo uma intensidade desconhecida no mundo antigo”. (Sam Harris, A Morte da
Fé: religião, terror e o futuro da razão (São Paulo: Editora Schwarcz Ltda. 2009), pg 107). (Título Original: The end
of faith - Religion, terror, and the future of reason, 2004)

(10) Está fartamente demonstrada nos cinco primeiros livros da Bíblia (Pentateuco para os Cristãos, Torá para os
Judeus) a aprovação e apoio divinos para que os Judeus se imponham aos outros povos pela força, como mostrado
no Capítulo 2 - A Trombeta de Jericó.

(11) Isaias, 49:6. Vide também Isaias, 42:6.

(12) Gênesis, 12:3.

(13) Sofonias, 3:9.

(14) Em Os judeus, o dinheiro e o mundo, Attali repete reiteradas vezes (pg 52, 148, 217, 297, 313-314, 364, 387,
439, 546, 591, 598) a crença de que os Judeus só estarão bem quando todos à sua volta estiverem bem. Cita a
máxima do Talmude: “Nada é bom para os Judeus se não o for também para aqueles que o rodeiam” (pg 297).
Generalizando, nada será bom para os Judeus “se não o for para o mundo” (pg 591); e nada deverá ser-lhes
proveitoso “se não o for também para os outros” (pg 598). Attalli vai ao Deuteronômio: “O Deuteronômio descreve
como fazer o bem em torno de si, como garantir a própria prosperidade através da prosperidade dos vizinhos (pg
546).” Fala sobre a responsabilidade dos Judeus de, preservando-se e progredindo, “ajudar a humanidade a não
desaparecer”(pg 599). Attali vai ainda mais longe quando cita o Rabino Rabbenu Hananael, “Os Judeus nunca estão
melhor do que quando os outros estão igualmente bem (pg. 148).”

Attali também diz, “Numa hora em que o centro de gravidade do mundo - ao menos no plano demográfico - inclina-
se de novo para o Oriente, a história de Israel se desenrolará, mais uma vez, com base em sua capacidade de exercer
um papel de ponte, de corretor de paz e de progresso entre o Oriente o o Ocidente. Se tentar limitar sua
identidade às áreas adquiridas está perdido. Se continuar sua trajetória, poderá sobreviver e ajudar a humanidade
a não desaparecer” (pg 599).” (Ênfase adicionada)

Jacques Attali, Os judeus, o dinheiro e o mundo (São Paulo, SP: Editora Futura, 2003). (Título original, em francês: Les
juifs, le monde et l’argent, 2002)

(15) Entre os que se opuseram fortemente à criação do estado de Israel estava o então secretário de estado George
Catlett Marshall (1880-1969). Para Marshall, o apoio à criação de Israel contrariava interesses da política externa
americana, enxergando no apoio uma manobra de Truman para conquistar o voto Judaico nas eleições em que
Truman deveria ser derrotado pelo candidato republicano Thomas E. Dewey. Pelo seu papel no plano de
reconstrução da Europa - que ficou conhecido como Plano Marshall - Marshal recebeu o Prêmio Nobel da Paz de
1953.

(16) Osvaldo Euclides de Sousa Aranha (1894-1960), advogado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
foi um importante político e diplomata brasileiro. Nasceu no Rio Grande do Sul, na cidade de Alegrete, sendo
portanto gaúcho como Getúlio de Vargas, de quem foi amigo e aliado. Ocupou em 1934 a embaixada do Brasil nos
Estados Unidos, defendendo entusiasticamente a doutrina do panamericanismo. Representando o Brasil na
Organização das Nações Unidas (ONU), apoiou a criação do estado de Israel, presidindo a sessão em que ela se deu,
em 29 de novembro de 1947. Recebeu, em várias oportunidades, o reconhecimento do povo judeu por esse apoio.

(17) Pela primeira vez na História, o Judaísmo parece ter mais poder (poder no sentido de ser capaz de influir, em
nível mundial, no dia-a-dia das pessoas e no futuro de pessoas e sociedades) do que a Igreja Católica e demais
religiões cristãs. Está distante no passado o tempo em que o Papa foi árbitro de questões como determinar até onde
ia a América portuguesa e começava a América espanhola (Tratado de Tordesilhas). Sobre este tema, Lupovitch se
refere à perda de poder pelo Vaticano a partir da década de 1860 em seu livro Jews and Judaism in World History.
(Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History (London and New York: Routledge, Taylor & Francis
Group, 2010 - Coleção Themes in World History), pg 229.)

(18) Vide Jimmy Carter, Palestine: Peace Not Apartheid (New York: Simon & Schuster Paperbacks, 2006) e Jimmy
Carter, We Can Have Peace in the Holy Land: A Plan That Will Work (New York: Simon & Schuster, 2009).

Alan Dershowitz(i) contesta Carter e muitos outros. Sua lista de inimigos de Israel é extensa. Assim, somando-se aos
conhecidos Irã, Hamas, Hezbollah e Alcaida, ele inclui organizações humanitárias como a Anistia Internacional, a
Human Rights Watch e também o Vaticano, as igrejas Presbiteriana e Anglicana, escritores como Dostoievsky,
personalidades como Pat Buchanan, Robert Novak e David Duke, um neto de Gandhi, Judeus como Noam Chomsky
e, com especial ênfase, os acadêmicos John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt (ii).

Quanto ao Vaticano, o documento Nostra Aetate, de 28/Out/1965, produzido no Concílio Vaticano II, refutou a
acusação de deicídio contra o Povo Judeu(iii). (O termo “deicídio” foi utilizado pela primeira vez, em latim, por volta
de 435, pelo Bispo de Ravenna, Pedro Crisólogo(iv)). Mas consta que autoridades judaicas costumavam pedir crédito
pela crucificação de Jesus, tendo Maimônides descrito “a punição do detestável nazareno como uma das grandes
realizações dos anciãos judeus”(v).

(i) Alan M. Dershowitz, The Case Against Israel’s Enemies: Exposing Jimmy Carter and Others Who Stand in the Way of
Peace (Hoboken, New Jersey: John Wiley & Sons, 2008).

(ii) John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (New York: Farrar, Straus and
Giroux, 2007).

(iii) Robert S. Wistrich, Antisemitism: The Longest Hate (New York: Pantheon Books, 1991), pg 235. O Rabino
Henry I. Sobel também se refere à acusação de deicídio ao prefaciar o livro Os judeus, o dinheiro e o mundo. O
Rabino Sobel relata que nos primeiros séculos após a morte de Cristo, os Judeus foram proibidos de trabalhar nas
profissões mais respeitáveis de então sob a acusação de que eram deicidas. Restaram-lhes o comércio e as finanças
(empréstimo de dinheiro), atividades sem prestígio na época. (Jacques Attali, Os judeus, o dinheiro e o mundo, pg
11).

(iv) Jacques Attali, pg 119.

(v) Christopher Hitchens, Deus não é Grande: como a religião envenena tudo (Rio de Janeiro, RJ: Ediouro Publicações
S.A., 2007), pg 106. (Título original: God is not Great, 2006)

(19) Ponto de vista expresso por Jimmy Carter em seu livro Palestine: Peace Not Apartheid (New York: Simon &
Schuster Paperbacks, 2006), pg 69.

(20) Relatos sobre a perseguição a Judeus frequentemente nos surpreendem pelo grau de crueldade. Assim,
Bertrand Russell cita o assassinato de Judeus praticados com o objetivo de aplacar a ira divina e conseguir de Deus
um fim para a Peste Negra de 1348. Foram 12 mil Judeus assassinados na Bavaria, três mil em Erfurt, dois mil
queimados em Strasburg, entre outros(i). Relatos da violência de Israel contra os Palestinos a partir de 1947 são
também constrangedores(ii).

(i) Bertrand Russell, Religion and Science (Oxford, England: Oxford University Press, 1997), pg 87.

(ii) Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine (Oxford: England: Oneworld Publications, 2006).

(21) Segundo os Judeus ortodoxos, Deus ofereceu os Dez Mandamentos a todos os povos, mas todos rejeitaram a
oferta por diferentes motivos. Deus deu então os Dez Mandamentos a Israel, no Monte Sinai, dando ao mesmo
tempo, a todos os povos, o ódio a Israel e, assim, aos Judeus. (Robert S. Wistrich, Antisemitism: The Longest Hate, pg
4).

(22) No que diz respeito ao impacto positivo de um estado palestino democrático, avançado social, econômica e
politicamente, sobre os países muçulmanos do Oriente Médio e de todo o mundo, vide Kenneth M. Pollack, A Path
Out of The Desert: A Grand Strategy for America in the Middle East (New York: Random House, Inc., 2008), pg
236. Vide também Robin Wright, Dreams and Shadows: The Future of the Middle East (New York: The Penguin
Press, 2008), Chapter 1. Wright cita os Palestinos como o povo mais instruído entre os Árabes. Outro autor que
aborda o assunto é Dershowitz, para quem Israel e Palestina, abandonando pretensões irrealistas e reconhecendo o
direito do outro de existir e viver em paz, poderão assumir papel de modelos de civilização, progresso e esperança
em um mundo cada vez mais perigoso. (Alan M. Dershowitz, The Case for Israel (Hoboken, New Jersey: John Wiley
& Sons, 2003), pg 243).

(23) Vide Nota 2 acima. Ben-Gurion defendia, no entanto, que a criação de Israel exigia retirar os residentes
palestinos a qualquer custo. O historiador israelense Ilan Pappé, hoje radicado na Inglaterra, fez um relato
dramático dos métodos utilizados por Ben-Gurion (Israel) para remover populações palestinas(i). Mearsheimer e
Stephen(ii) relatam que Ben-Gurion declarou que “É impossível imaginar uma evacuação generalizada que não seja
compulsória, brutalmente compulsória”.

(i) Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine (Oxford, England: Oneworld Limited Publications, 2006).
(ii) John J Mearsheimer e M. Walt Stephen, The Israel Lobby and U. S. Foreign Policy (New York: Farrar, Straus and
Giroux, 2007), pg 94-95.

(24) Weizmann escreveu em sua autobiografia que “O mundo irá julgar o Estado Judeu (e presumivelmente o
movimento sionista) pelo que farão com os Árabes”. Chaim Weizmann, Trial and Error: The Autobiography of Chaim
Weizmann (New York: Harper & Row, 1959), pg 462.

Jimmy Carter cita essa declaração em seu livro Palestine: Peace Not Apartheid(i). Edward Said também se refere à
declaração de Weizmann em “The Question of Palestine(ii). Para Sam Harris, a política de assentamentos de Israel é o
principal obstáculo à paz no Oriente médio e “será a causa de uma Guerra entre o Islã e o Ocidente caso esta surja a
partir do confilio Israel-Palestina(iii)

(i) Jimmy Carter, Palestine: Peace Not Apartheid (New York: Simon & Schuster Paperbacks, 2006), pg 34.

(ii) Edward Said, The Question of Palestine (New York: Vintage Books: A Division of Random House, Inc., 1992), pg
20.

(iii) Sam Harris, A Morte da Fé: religião, terror e o futuro da razão (São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 2009), pg
108.

(25) Vide “O antídoto da imaginação”, palestra proferida em 2002 por Amós Oz. Em Amós Oz, Contra o Fanatismo
(Rio de Janeiro, RJ: Ediouro Publicações Ltda, 2004), pg 97.

(26) Hanna Arendt(i) ressalta a associação do antissemitismo à inveja. Para Flannery(ii), “em um ambiente de
ostentação que enfatiza o poder econômico e a classe social do indivíduo, o Judeu está destinado a sofrer maior
discriminação do que os outros indivíduos, não tanto pela sua ‘diferença’, mas pelas suas realizações. É fato
comprovado que a discriminação cresce em virulência quando o grupo discriminado compete mais vigorosamente
com os discriminadores”.

(i)Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (New York: Harcourt, Inc., 1976 - A Harvest Book), pg
241.

(ii) Edward H. Flannery, The Anguish of the Jews (Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 2004), pg 262.

(27) Freeman Dyson, The Scientist as a Rebel (New York: The New York Review of Books, 2006), pg 90. (Culto à
violência)

Apoiando Dyson, Daniel Gordis reconhece que a ocupação de terras palestinas por Israel tende a tornar os
Israelenses indiferentes e insensíveis ao impacto da ocupação sobre aqueles para quem os Israelenses serão
simplesmente soldados, e não seres humanos. Mas reconhece as dificuldades para reverter a política de
assentamentos mencionando, em apoio ao seu ponto de vista, o assassinato de Isaac Rabin por um fanático de
extrema direita que se opunha à devolução de qualquer pedaço de terra aos Palestinos. Vide Daniel Gordis, Saving
Israel, pg 118-119.
(28) Na história do antissemitismo é recorrente a suspeita de que uma dupla lealdade (à sociedade onde vive e ao
Judaísmo, e agora ao estado de Israel) levaria muitos Judeus a colocarem a sociedade em que vivem em segundo
plano. Sobre essa acusação, vide, por exemplo, Robert S. Wistrich, Antisemitism: The Longest Hate (New York:
Pantheon Books, 1991), pg 113. Vide também Nota 8 acima.

(29) Em seu livro sobre a participação de Judeus no crime organizado nos Estados Unidos, Rich Cohen conta que o
famoso gângster Arnold Rothstein percebeu que o vazio criado pela proibição de bebidas alcoólicas tornava a
sociedade americana mais propensa ao consumo de drogas “pesadas” como a morfina, até então contrabandeada
em pequenas quantidades da Europa. Concebeu então um sistema de contrabando e distribuição em larga escala
de narcóticos produzidos na Ásia. Cohen se refere a Rothstein como “o Moisés do Submundo (i)”: ele conduziu o
crime organizado à terra prometida mas ele mesmo não pode entrar. Rothstein foi assassinado com um tiro no
estômago no dia 4 de novembro de 1928. Após sua morte prematura, o negócio passou a ser comandado pelo
traficante Louis Lepke (Cohen(ii)).

Cohen chama atenção para a determinação dos gângsters judeus de encaminhar seus filhos para a universidade,
afastando-os do submundo do crime de seus pais. Os filhos se tornaram profissionais liberais - médicos, advogados,
homens de negócios(iii).. Ele menciona um dos filhos do famoso Meyer Lansky, que dez anos após graduar-se em
West Point, mudou-se para a Califórnia onde se tornou programador de computadores.

(i) Rich Cohen, Tough Jews: Fathers, Sons and Gangsgters Dreams (New York: Simon & Schuster, 1998), pg 55.

(ii) Idem, pg 132-133.

(iii) Idem, pg 152-153.

(30) Sobre o Holocausto e a criação do estado de Israel, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu declarou: “Há os
que dizem que se o Holocausto não tivesse ocorrido, o estado de Israel jamais teria sido criado. Mas eu digo que se
o estado de Israel tivesse sido criado antes, é o Holocausto que não teria ocorrido.” Jerome R Corsi, Why Israel Can’t
Wait: The Coming War Between Israel and Iran (New York: Threshold Editions, a Division of Simon & Schuster, Inc.,
2009), pg 70.

(31) A Diáspora - a dispersão do Povo Judeu pelo mundo - ocorreu após as revoltas contra os Romanos de 70 e 132
d.C. Durante a revolta de 70 d.C. aconteceu a destruição do Segundo Templo, do qual restou apenas o Muro das
Lamentações.

(32) Embora se referisse à Religião, Rich Cohen faz uma observação digna de reflexão: a destruíção do Segundo
Templo forçou os Judeus a pensar simbólica e abstratamente; o Templo (objeto concreto) foi substituído pela Bíblia
(mundo simbólico das ideias)(i).

Corroborando a tese de que a Diáspora contribuiu para o progresso intelectual dos Judeus, o livro Memórias de
Adriano, de Marguerite Yourcenar, narra o seguinte relato do Imperador Adriano (76-138 d. C.):

“... quase tudo que os homens disseram de melhor o foi em grego.... Durante a Guerra Judaica, o Rabino Joshua
traduziu literalmente para mim (ao Imperador Adriano) certos textos dessa língua (hebraico) de sectários tão
obcecados pelo seu Deus a ponto de negligenciarem o lado humano.... O grego, ao contrário, tem atrás de si
tesouros de experiência, abrangendo a sabedoria do homem e do Estado. Dos tiranos jônicos aos demagogos de
Atenas, da pura austeridade de um Agesilau aos excessos de um Dionísio ou de um Demétrio, da traição de
Demarato à fidelidade de Filopoêmen, tudo que cada um de nós pode tentar para prejudicar os seus semelhantes
ou para servi-los já foi feito, pelo menos uma vez, por um grego. Sucede o mesmo com as nossas escolhas
pessoais: do cinismo ao idealismo, do ceticismo de Pirro aos sonhos sagrados de Pitágoras, nossas recusas ou
nossos consentimentos já existiram, nossos vícios e nossas virtudes têm modelos gregos.” (ii)

Rich Cohen, no entanto, menciona que Lorde Balfour acreditava que os Gregos e os Judeus foram os povos mais
talentosos que a Humanidade produziu, a razão vindo dos Gregos e a paixão dos Judeus.(iii)

Mas a marcante influência da Bíblia na Civilização Ocidental não pode ser subestimada. Como disse Lyon,
“Examinando a Bíblia como um todo, como uma biblioteca de ética, de religião, de ética-religiosa, sua influência na
linguagem, na devoção, no crescimento em uma centena de direções, excede qualquer estimativa
humana(iv)’’. Realmente, o papel da Bíblia na formação dos valores de indivíduos e sociedades, e sua abrangente
influência, que vai da Ética (amar ao próximo) à Religião (as crenças monoteístas), da literatura até as condições de
trabalho como o descanso semanal - que veio da proibição bíblica de trabalhar aos sábados contida no Velho
Testamento. Para Roth, “a maior contribuição dos hebreus à humanidade é o ideal de um só Deus, Criador dos Céus
e da Terra(v)”.

(i) Rich Cohen, Israel is Real: An Obsessive Quest to Understand the Jewish Nation and Its History (New York: Farrar,
Straus and Giroux, 2009), pg 56.

(ii) Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (Rio, RJ: Editora Nova Fronteira,,1980), pg 42. (Título Original:
Mémoires d’Hadrien, 1951). Marguerite Yourcenar (1903-1987) foi a primeira mulher eleita para a Academia
Francesa de Letras, em 1980.

(iii) Rich Cohen, Israel is Real, pg 187-188. Lorde (Arthur James) Balfour foi um diplomata inglês que apoiou a
criação de um estado judeu na Palestina. A Declaração de Balfour é a carta de Lorde Balfour ao Lorde Rothschild,
datada de 02/Nov/1917, informando sobre a decisão do governo de Sua Majestade de apoiar a criação de um
estado judeu na Palestina, então sob o domínio britânico.

(iv) David Gordon Lyon, Jewish Contributions do Civilisation - An Address Delivered in Chicago Before the World’s
Parliament of Religions on September 18, 1893 (BiblioLife, L.LC.), pg 10.

(v) Cecil Roth, The Jewish Contributions to Civilisation (London: MacMillan & Co. Limited, 1938), pg 2.

(33) Attali defende a ideia de que, não fosse a vida de nômade a que a Diáspora os obrigou, os Judeus
provavelmente teriam desaparecido, como ocorreu com todos os povos vizinhos dos templos bíblicos (i). Roth
enfatiza que, nos tempos antigos, os Judeus estavam “presos” ao solo pois se dedicavam a atividades agrícolas como
proprietários de terra; foi a Diáspora que os forçou a desenvolver habilidades em outras profissões (ii). Lyon enfatiza
o quanto os Judeus se sobressaíram nas novas atividades econômicas: “Seu gênio brilhou principalmente nas
finanças, na capacidade de transformar as situações mais adversas em poder…. No mercado mundial, no comércio,
ele (o Judeu) se distanciava à frente de seus competidores(iii).”

(i) Jacques Attalli, Os judeus, o dinheiro e o mundo, pg 598.


(ii) Cecil Roth, The Jewish Contributions to Civilisation, Chapter 2.

(iii) David Gordon Lyon, Jewish Contributions do Civilisation - An Address Delivered in Chicago Before the World’s
Parliament of Religions on September 18, 1893 (BiblioLife, L.LC.), pg 15.

(34) Sobre esta observação de Voltaire, vide Howard N. Lupovitch, Jews and Judaism in World History, pg 146.

(35) O desconforto causado pela imagem de passividade dos Judeus europeus diante de tragédias como o
Holocausto e os pogroms na Europa Oriental fizeram com que Judeus americanos se sentissem orgulhosos da
“virilidade” demonstrada pelos gângsters judeus de décadas passadas e agora pelos soldados Israelenses em seus
confrontos com os vizinhos Árabes e no trato com os Palestinos. Vide Rich Cohen, Tough Jews: Fathers, Sons and
Gangsgters Dreams (New York: Simon & Schuster, 1998), pg 157, 236, 242 e 258.

(36) Robert St. John, Jews, Justice and Judaism, pg 331.

Capítulo 28. A Última Profecia


(1) O programa “Sagrado” da Rede Globo foi um exemplo de como esta ideia pode ser colocada em prática.
Apresentava semanalmente o posicionamento de líderes das principais religiões praticadas no Brasil sobre temas
de natureza religiosa, social ou política. Vide Nota 6 do Capítulo 20.

(2) Neutralidade: Na Divina Comédia, o escritor italiano Dante Alighieri diz que “Os lugares mais escuros do inferno
são reservados para aqueles que se mantém neutros em tempos de crise moral.” Para Desmond Tutu, arcebispo
anglicano negro sulafricano que se destacou na luta anti-apartheid, “Quem é neutro em situações de injustica apoia
o opressor. Se um elefante coloca seu pé sobre o rabo de um rato e você diz que é neutro, o rato não vai apreciar a
sua neutralidade.”

(3) A “astronômica” quantidade de energia contida nos buracos negros representava apenas uma pequena parte da
energia dispendida por Deus na criação do universo. Será então que Deus voltaria menos poderoso do que antes da
criação do universo? A resposta é não.

Segundo o Arcanjo Gabriel, físicos competentes iriam resolver esse problema: “Em adição ao desenvolvimento de
novas fontes de energia, um grupo de cientistas reunidos no Projeto Manhattan II irá assegurar que a reenergização
do Criador seja feita com energia de altíssima qualidade, mais pura e limpa do que aquela usada na criação do
mundo. Para isso, antes de ser enviada para Deus, toda a energia, inclusive a dos buracos negros, passará por um
dispositivo construído para tratá-la, um gigantesco Redutor de Entropia.” O Arcanjo falou ainda sobre o uso de um
potente Reciclador de Energia. “Esses dispositivos irão assegurar que o Criador voltará mais poderoso do que
antes. Mas não tente entender como o Redutor e o Reciclador de Energia funcionarão”, enfatizou Gabriel, “porque a
Humanidade não detém ainda tais conhecimentos tecnológicos”.
O Arcanjo adiantou que a enorme competência e a carinhosa dedicação demonstradas pelo Homem ao desenvolver
o Redutor e o Reciclador de Energia irão comover o Criador: “Em matéria de amor a Deus e ao próximo a nova
Humanidade surpreenderá”, garantia Gabriel.

O Arcanjo também informou que o Inferno será fechado. Assim, além da energia fornecida pelos buracos negros e
pelas novas fontes de energia, Deus passará também a dispor da enorme quantidade de energia até então utilizada
para manter as altas temperaturas do Inferno.

Uma conquista científica mais imediata (comparada à reenergização do Criador) será a solução para o problema da
expansão do universo. No devido tempo os cientistas do futuro darão ao universo a necessária estabilidade
dimensional pois, expandindo-se (ou diluindo-se) continuamente, ele acabaria desaparecendo. Ao dar ao universo
estabilidade dimensional, todo cuidado será pouco: um erro de cálculo poderia provocar uma reversão na
expansão, situação em que o universo se comprimiria, destruindo-se numa grande implosão, o Big Crunch. Mas
“tudo dará certo graças à dedicação da Humanidade à Ciência e à Tecnologia, conforme as diretrizes do Projeto
S.O.S. É o que a onisciência de Deus enxergou”, informou Gabriel.

(4) As nove categorias de anjos, em ordem decrescente de poder, são: serafins, querubins, tronos, dominações,
potestades, virtudes, principados, arcanjos e anjos.

(5) Isaias, 11:6-9 - “O lobo, então, será hóspede do cordeiro, o leopardo vai se deitar ao lado do cabrito, o bezerro e
o leãozinho pastam juntos, uma criança pequena toca os dois, a ursa e a vaca estarão pastando, suas crias deitadas
lado a lado; o leão, assim como o boi, comerá capim. O bebê vai brincar no buraco da cobra venenosa, a criancinha
enfia a mão no esconderijo da serpente. Ninguém fará mal, ninguém pensará em prejudicar, na minha santa
montanha. Pois a terra estará repleta do conhecimento do Senhor, assim como as águas cobrem o mar.”

Isaias, 35:5-6, 10 - “Então, os olhos dos cegos vão se abrir e abrem-se também os ouvidos dos surdos. Então os
aleijados vão pular como cabritos e a língua dos mudos entoará um cântico, porque águas vão correr no deserto,
rios na terra seca. ... Os que foram resgatados pelo Senhor voltarão e chegarão a Sião cantando louvores, cobertos
de alegria sem fim. Alcançaram a felicidade e o prazer, a dor e a tristeza foram-se embora.”
SOBRE O PROJETO
O Segredo de Deus é um livro sobre Religião, Paz, Oriente Médio e Sobrevivência da Humanidade. É a história de um
jovem professor que, em busca de Deus e do sentido da vida, decide percorrer o Caminho de Abraão. O Caminho de Abrão
é uma inicitiava da Universidade de Harvard concebida para aproximar Árabes e Judeus.

Como tantas coisas na vida, este livro é fruto do acaso. A motivação para escrevê-lo surgiu sem dar aviso. Nas palavras do
autor,

Minha infância numa pequena cidade do interior de Minas foi marcada pela liderança de um devoto e envolvente
padre católico, para quem era preciso virtudes heróicas para merecer o Reino dos Céus. O medo do Castigo
Eterno fazia parte do cotidiano das pessoas. Meio século depois, pela primeira vez, decidi mergulhar na leitura de
temas ligados à religião. E ao futuro da humanidade.

Enquanto pesquisava, assisti a uma palestra do Professor William Ury, de Harvard, especialista em negociação e
resolução de conflitos, sobre a criação de uma rota de peregrinação que refaz a jornada de Abraão em sua busca
pela Terra Prometida - o Caminho de Abraão, onde se passa parte da narrativa.

O propósito do livro não é conquistar adeptos para este ou aquele ponto de vista, seja religioso, ideológico o
político. Mas gostaria de convidar o leitor a libertar a razão e deixá-la passear livremente sobre os temas
abordados. Será que é possível? Afinal, a cabeça não é guiada pelo coração? A razão não é uma escrava obediente
da emoção? A Humanidade não gasta mais inteligência justificando suas crenças do que buscando a verdade?”
SOBRE O AUTOR

Nelson Teixeira é Ph.D. em Administração Pública pela Universidade de Pittsburgh, Estados


Unidos, mestre em engenharia química pela COPPE-UFRJ (Coordenação dos Programas
Pós-Graduados de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e engenheiro
químico pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Dividiu sua carreira entre
Governo e Iniciativa Privada. No governo trabalhou, durante o chamado “milagre
brasileiro” na promoção do desenvolvimento industrial do Estado de Minas Gerais, em Belo
Horizonte, e em seguida do País, em Brasília. Na iniciativa privada atuou em diversas áreas,
com destaque para a indústria farmacêutica.

Siga o Nelson e este projeto no Twitter @GodsSecretBook. Envie perguntas, comentários e


sugestões para GodsSecretBook@gmail.com.
SOBRE O LIVRO
Este livro oferece respostas para questões da seguinte natureza:

Deus
Se Deus tudo pode e é um Pai amoroso, por que existe o sofrimento? Como explicar o sofrimento provocado pela
Natureza como as epidemias, inundações, terremotos, tsunamis?

Um Deus infinitamente bom aprovaria tantos conflitos entre os povos, muitos gerados pela intolerância religiosa e
desencadeados em Seu nome?

Por que Deus, onipotente e onisciente, concedeu ao Homem o livre-arbítrio se o pecado O ofende e O magoa tão
intensamente?

Religião
O amor ao próximo deve ir além dos adeptos de nossa fé para estender-se a toda a Humanidade? Devemos
acreditar que a nossa religião é o único caminho para a salvação?

Até que ponto o rápido desenvolvimento científico-tecnológico, somado à estagnação moral do Homem, ameaçam o
futuro da Humanidade? É possível conciliar Religião e Ciência?

Caminho de Abraão
Pode uma peregrinação pela região que é o berço da civilização e das religiões monoteístas ajudar as pessoas a
aprofundar seu auto-conhecimento e a refinar sua espiritualidade?

O Caminho de Abraão será capaz de aproximar Árabes e Judeus? O conflito do Oriente Médio tem solução aceitável
para Israelenses e Palestinos? O que um cidadão que não é Árabe ou Judeu tem a ver com o conflito?

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(Versão em Inglês)