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Vontade de Viver

Não pedimos por sofrimentos. Porém, eles nos proporcionam construir um ‘eu’ muito
mais profundo”

Shimshon Bisker

Autor: Shimshon Bisker Correção: Márcia Cherman Sasson Foto da Capa: Ricardo Benathar Projeto gráfico,
editoração eletrônico: Israel B.A. Design

©
Todos os direitos reservados 5775 – 2014 (Primeira edição 5774 – 2014)

Para qualquer assunto em relação ao livro entre em contato: shbisker@gmail.com

Temas
PALAVRA INICIAL

O OBJETIVO
OBJETIVO GLOBAL
A OBRIGAÇÃO DE SE TRATAR

“Cuidem muito de suas almas”


Consultar Médicos Especialistas
Preocupar-se pela vida do companheiro

OS DIAS DE VIDA
“Q

UANTOS ANOS VIVEREI?”

C OMO ALONGAR OS DIAS DE VIDA


“Modê aní lefanechá...” (“Agradeço perante Ti...”) O tempo de vida não é revelado

VALORIZAR CADA MOMENTO


O QUE É A MORTE?
SERIA O FIM? TALVEZ UM COMEÇO!

Quem sou eu?


A oportunidade de aproveitar cada momento de forma máxima. “MALABARISMO COM CINCO BOLAS”
“OS MORTOS VIVOS”
Pensando Bem...
A GRANDE FEIRA COMERCIAL
“DE MANHÃ EU ERA UMA PESSOA E DE NOITE EU JÁ ERA OUTRA”
O depoimento do coração
RETIFICAÇÃO E CONFISSÃO
AC

ONFISSÃO NOTURNA
SOBRE A CONFISSÃO (VIDUI)

A INCRÍVEL EXPERIÊNCIA DE MORTE CLÍNICA


O DEPOIMENTO
COMO MUDAR DEPOIS DE TANTO TEMPO?

U MA ALMA SATISFEITA
O PRAZER ESPIRITUAL
UMA NOVA VISÃO
“O CAMINHO ESTÁ ABERTO PARA TODOS”
AQUELE QUE CRIOU – CONHECE A MELHOR FORMA DE USUFRUIR

CREMADO??
O

QUE FARÃO COM AS CINZAS?


A ALMA SEGUE O SEU CAMINHO

...
TRADIÇÃO OU REALIDADE?
UMA PESSOA LIVRE

A Função das Mitsvót


Por que D’us não poderia nos entregar todo este benefício de presente? Para que Ele condicionou este prazer com nossas
ações?

O Labirinto
Um Tema Para Meditar
Pontos para pensamento, em especial para aquele que se encontra em uma situação delicada

A MENSAGEM
APÊNDICES

“P OR QUE JUSTO EU?”


Os pensamentos
O Motivo dos Sofrimentos
1. Causar uma reavaliação dos atos – de forma geral; ou consertar determinada transgressão – de forma particular
2. “Acerto de contas”
3. Reencarnação
4. Meio de adquirir benefícios
5. Estímulo
6. Expiação
7. Concluir determinadas metas da Criação
8. Provar a pessoa e proporcioná-la atingir o máximo de seu potencial. “O que D’us quer de mim?” “O que eu tenho que
melhorar?”

C ASOS RELACIONADOS AO TEMA DE TRATAMENTO MÉDICO


Uma pessoa em coma
Para que paciente dar a preferência
Dois pacientes chegam ao hospital simultaneamente
Os médicos não sabem como curá-lo
Não tomar decisões em um tema como este sem consultar uma entidade rabínica confiável

A NTECIPAR A MORTE DE NOSSO SEMELHANTE


Assassinato
Seria necessário alongar a vida de uma pessoa que se encontra em grandes sofrimentos?

Carta de recomendação do Rabino de Ramat Elchanan e Rosh Kolel Beit David em


Cholon Ha'Rav Ha'Gadol R. Itzchak Zilbershtein Shlita

Palavra Inicial

Existem acontecimentos que vão além de nosso entendimento; e existem sentimentos que vão
além dos acontecimentos.

Não temos como saber por que uma pessoa vivencia determinado acontecimento. Esta
questão vai além de nossa visão. Já que a visão do ser humano é limitada, ninguém tem a
aptidão de julgar ninguém.

“Para cada pessoa D’us deu uma parte da sabedoria que permite conhecer o
funcionamento do mundo. No entanto, nenhum ser humano é capaz de conhecer e
entender todos os caminhos traçados pelo Criador...” (Rashi, Kohelet - Eclesiastes 3, 11)

Nossos Sábios comparam o ‘mar’ à vida; e suas ‘ondas’ aos


sofrimentos que a pessoa enfrenta durante os seus dias
[Confira Maharshá, Talmud, Tratado Baba Batra 73a]. Se pararmos

para pensar, logo perceberemos que o mar e as suas ondas são formados pela mesma
matéria – a água. Seguindo esta parábola, podemos concluir que, na realidade, nossas vidas
e as dificuldades ou os sofrimentos que passamos fazem parte de um grande cenário. O
cenário da vida. Este é o cenário que determina as condições necessárias para que
possamos alcançar o nível de pessoa cujo potencial nos foi dado.

Cada pessoa nasce com um potencial. As dificuldades têm o poder de estimular a pessoa a
expressar, na prática, o potencial que está enrustido em sua personalidade – em sua alma.
Para passar pelas dificuldades da vida, lhe foi depositada a força de vencê
las. [Em relação aos motivos que possam ser as causas dos sofrimentos de uma
pessoa confira no capítulo “Por que justo eu?” – Apêndice I]

O mundo foi criado com um objetivo e, em muitos casos, são as próprias dificuldades que
aparecem na vida da pessoa que a despertam a pensar sobre o tema.

Cada pessoa veio ao mundo com uma função e as características da pessoa estão
relacionadas com a sua função, pois cada um, de acordo com suas tendências, terá que
passar pelas provas que lhe serão colocadas. Sabemos que para cada acontecimento existe
um objetivo; portanto, cada um deles foi colocado pelo Criador devidamente em seu tempo
e lugar. Devemos saber que a situação e o valor de cada ser humano dependem unicamente
de suas ações– de acordo com o esforço em controlar as suas tendências negativas, se
aprimorando como pessoa, e a sua preocupação em cumprir com a sua função neste
mundo; somente o Criador possui aptidão de julgar o valor verdadeiro de cada um.

O objetivo

Assim como todo projeto, também a criação tem um objetivo. O objetivo do Criador foi
conceber criaturas para poder beneficiá-las. Pois, por definição, o bem deseja proporcionar
benefícios aos demais; sendo o Criador o bem completo, também a sua Vontade é
proporcionar o bem completo para as suas criaturas. Para este “máximo bem” ser
alcançado, foi necessária a criação do mundo como nós o conhecemos. Isto é: A vontade do
Criador foi nos proporcionar este bem sem nos causar vergonha em recebê-lo. Um prazer
para ser completo deve ser conquistado. O pobre quando recebe esmola sente uma
sensação de inferioridade e vergonha. Por outro lado, uma pessoa que recebe um salário
pelo seu trabalho não sente nenhuma vergonha em recebê-lo; ao contrário, ela sente que
está recebendo algo que realmente lhe pertence. O valor que colocamos e o prazer que
recebemos de algo conquistado pelo nosso próprio esforço são muito maiores do que o
valor e o prazer adquiridos por algo que recebemos de presente. Portanto, no primeiro
estágio, D'us criou um mundo de provas e decisões, onde nós temos que nos esforçar e nos
superar para cumprir os Seus preceitos, e, em seguida, no segundo estágio, D'us criou o
local ideal para nos proporcionar este bem máximo, para cada um, segundo as suas
conquistas. (Baseado em Messilat Yesharim, 1)

Objetivo Global

Assim como em relação ao objetivo de cada pessoa em


particular, existe o objetivo global de toda a criação.

A função de cada indivíduo se enquadra dentro da função global– ou seja, o conjunto de


funções de todos os indivíduos que se complementarão para a conclusão do objetivo final
pelo qual o mundo foi criado.

Para isto, foi estabelecido pelo Criador um tempo determinado para que as pessoas se
esforçassem em aprimorar suas ações, permitindo que a Criação seja concluída aos longos
das gerações e alcance o seu objetivo final. Então, haverá uma grande revelação. Ou seja, já
que, neste momento o objetivo da criação será concluído, D'us revelará a sua Providência.
Tudo ficará claro – todos saberão que foi Ele Quem criou e controla a Sua criação nos
mínimos detalhes.

Durante o nosso período de vida somos impossibilitados de enxergar todo este sistema de
forma integral. Não temos a capacidade de compreender inclusive os limites de influência
de um único acontecimento. Isto faz parte das regras estabelecidas pelo Criador. Só o que
se pode fazer, após uma reflexão, é entender uma circunstância de modo parcial – ou seja,
entender parcialmente a conexão entre alguns acontecimentos.

A Obrigação de se Tratar

Existem aqueles que pensam erroneamente que uma pessoa devota e confiante em D’us é
contra tratamentos médicos. Isto é uma visão deturpada da Torá. Está escrito:

“Cuidem muito de suas almas”

Em duas ocasiões a Torá nos adverte para cuidarmos de nossas almas (Devarim cap.4, vers.
9 e 15). Na primeira ocasião nos adverte para não esquecer os ensinamentos de Torá
adquiridos; na segunda ocasião, nos adverte para não praticar idolatria. Porém o Talmud
(Shvuót 36a) acrescenta outro ensinamento contido nestas palavras — “cuidem muito de
suas almas” — estamos ordenados a cuidar de nossas vidas; não nos colocar em uma
situação de perigo de vida (ver Maharshá, Shvuót 36a).

[Nota: Também fomos ordenados a retirar qualquer obstáculo que possa causar perigo de vida. A Torá nos ordenou a
construir uma proteção no terraço de nossas casas – para evitar uma possível queda – esta lei inclui colocar grades de
proteção nas janelas de um apartamento onde moram ou visitam crianças; também a preocupação de retirar qualquer
outro obstáculo que possa por a vida de alguém em perigo(Shulchan Aruch Ch”m 427).]

Portanto, em caso de necessidade deve-se procurar auxílio médico e não esperar por um
milagre, sem fazer nada mais. Quem garante que o enfermo possui o mérito para tanto? E
mesmo que ocorrer um milagre, isso será descontado de seus méritos existentes. Portanto,
alguém que não se preocupa em se salvar, está se autocondenando. Essa pessoa seria
comparada àquele que tira a própria vida (Chovot Halevavót, Shaar Habitachón, 284;
Rambam).

Tampouco se deve pensar em economizar – quando possível – os custos de um tratamento


melhor. Está escrito no Zohar: “Às vezes é decretado que a pessoa perca certa quantia de
dinheiro com a cura de sua doença. Nesse caso, até que ela não gaste o que lhe foi
decretado, ela não se curará”. (Parashat Haazinu)

Consultar Médicos Especialistas

Atualmente existem vários médicos não-especialistas que causam danos aos seus
pacientes. Devemos consultar somente médicos peritos e utilizar de tratamentos testados e
eficazes. Quem coloca a sua saúde nas mãos de médicos não peritos e recebe o tratamento
deles é considerado irresponsável e, a pessoa está desvalorizando a própria vida(Baseado em
Beit Lechem Iehudá Y”D 336, 2; Birkê Iossef Y”D 336, 4).

“O ideal é o uso de médicos especialistas. Para permanecermos íntegros diante do


Criador, mesmo no difícil momento da enfermidade, é necessário buscar a

cura através do profissional mais qualificado. É indispensável também somar a isso as


rezas pedindo a ajuda de D'us, além de somar méritos através de atos de benevolência”
(Minchat Itschac em nome do Aruch Hashulchan) [Nota: Confira no capítulo ‘Casos relacionados ao tema de tratamento

médico’ – apêndice II.]


Preocupar-se pela vida do companheiro

Está proibido causar a morte de uma pessoa — mesmo que lhe reste somente uns poucos
momentos de vida; inclusive quando seja necessário para salvar a vida de outra pessoa —
“de vida completa” — está proibido (Noda Biyhuda Ch”m (t) 59). Eis que, inclusive está
permitido desrespeitar o shabat e o yom kipur, para salvar uma vida temporária.

Portanto, desligar as máquinas, antecipando a morte de uma pessoa doente é considerado


pela Torá assassinato
– mesmo quando as intenções forem boas (ver Igrót Moshe

Ch”m partes 2, 74, 4).

[Nota: Confira no capítulo ‘Antecipar a morte de nosso semelhante’ – Apêndice III – distintos casos relacionados à
preservação da vida de um paciente.]

Os dias de vida
“Quantos anos viverei?”

Várias pessoas questionam: “Quantos anos viverei?”; os dias de vida de uma pessoa
dependem de suas funções. Assim ensinaram nossos Sábios:

“De acordo com as funções que a p essoa recebe, é estabelecido o tempo de vida
necessário para cumpri-las. A alma é constituída por diversas “irradiações de luz”. O
número de irradiações presentes em torno de uma pessoa determina o número de dias
de vida dos quais ela poderá desfrutar, pois cada uma delas equivale a um dia de vida.
Portanto, o tempo de vida de uma pessoa será estabelecido de acordo com o necessário
para o cumprimento de seus objetivos.” (Baseado no Ór HaChaim Gênesis 47:27)

Como alongar os dias de vida

“Quando o objetivo da pessoa nesta nova encarnação é cumprido, já não é necessário


que ela siga vivendo. Fica explicado que a morte não é um acontecimento ao acaso
(Shaarê Emuná 165, com. 4). Uma pessoa que veio ao mundo com um objetivo
específico pode acabar partindo mesmo estando jovem, pois todo o objetivo de sua
vinda a este mundo era o de completar aquilo que estava faltando

(introdução Shaar Haguilgulim em nome do ben Ish Chai).”

(O Místico, Capítulo Reencarnação)

A partir deste princípio, poderíamos pensar equivocamente: “Sendo assim, para que
começar a cumprir os preceitos agora? Não seria melhor deixá-los para depois? Assim
podemos viver mais tempo!?”

Porém, este pensamento é um equívoco. Pois, é justo o contrário. Uma pessoa que não está
cumprindo a sua missão faz com que o seu tempo de vida vá se reduzindo. [Nota: Exceto
quando ela está recebendo uma vida longa como recompensa neste mundo por algum
mérito que conquistou].

Isto porque a credibilidade desta pessoa fica menor a cada dia, e aos poucos ela vai
perdendo o mérito de cumprir outras partes da função que lhe foi designada inicialmente.

Uma pessoa nasce com certas funções as quais deve cumprir ao longo de sua vida e, assim,
preencher a sua alma. Portanto, uma pessoa que perde a oportunidade de cumprir parte de
suas missões, junto com elas, também lhe retira o respectivo tempo necessário para
cumpri-las – o tempo que havia sido depositado em sua vida. Assim, fica constatado que
uma pessoa não adquire mais tempo de vida por não cumprir a sua função; mas, ao
contrário, ela pode estar até mesmo diminuindo o seu tempo potencial.

Contudo, uma pessoa que cumpre os preceitos na situação em que foi colocada no mundo
pelo Criador, além de estar no caminho de completar o seu objetivo, também está
potencializando o seu tempo de vida – independentemente de quanto ele for – e, ao final de
tudo, ainda existe a possibilidade de a pessoa receber novas missões, o que inclui um
tempo de vida extra que lhe é dado. Podem ser dias ou até mesmo anos a mais! (O Místico
2)

Aquele que cumpre a função pela qual foi destinado tem o


mérito de seguir!
“Modê aní lefanechá...” (“Agradeço perante Ti...”)

Todas as manhãs ao acordar a pessoa deve dizer: “Agradeço perante Ti, Rei vivo e
existente, que devolveste em mim a minha alma com piedade, é grande a Tua fé” (“Modê aní
lefanechá Melech Chaim vekayam, sheechezartá bi nishmati bechemlá, rabá emutanechá”).

O que quer dizer “é grande a Tua fé”? Como podemos dizer que D’us tem fé? Fé em que? A
resposta desta questão está relacionada com os conceitos citados acima.
Como foi explicado, cada dia de vida que a pessoa recebe é consequência de alguma função
que, todavia, ela tem a capacidade de cumprir. Quem pode garantir que a pessoa realmente
é capaz de cumprir determinada função? Talvez ela esteja recebendo mais um dia de vida e
não cumprirá com a sua parte? Sobre isto o texto diz: “É grande a Tua fé... em MIM!”

A pessoa agradece a D’us por colocar fé nela e depositar para


ela outro dia de vida – acreditando nela– que ela é capaz de
cumprir com a sua função!

O fato de ter acordado e recebido a oportunidade de seguir vivendo por mais um dia é fruto
da confiança de D’us – que confia na pessoa e lhe retorna a alma para que siga mais um dia
de vida – depositando nela confiança que cumprirá o seu papel neste novo dia que está
nascendo.

Existe também a possibilidade de uma pessoa que termina a


sua missão adquirir mais anos de vida.

“Está escrito no Talmud (Tratado Moed Catan 28a) que os anos de vida de uma pessoa
são preestabelecidos, e que são definidos ainda antes do seu nascimento. Sabemos
também, através de outras fontes (Tossafot Ievamot 50a), que é possível alterar este
decreto, alongando o tempo de vida por haver adquirido grandes méritos.
Infelizmente, o inverso também é válido: o tempo preestabelecido corre o risco de se
tornar mais curto a cada transgressão cometida ao longo da vida. Os anos retirados da
vida de um indivíduo que comete demasiadas transgressões poderão ser transferidos a
alguém que tenha mérito para recebêlos (Tossafot).”

[Nota: Por outro lado, existe a possibilidade de uma pessoa, apesar de ser considerada
transgressora e de não cumprir a sua função, receber uma vida mais longa como recompensa
de algum mérito adquirido no passado. Porém, uma vez que ela recebe seus méritos neste
mundo, chegará sem eles ao mundo espiritual.

O tempo de vida não é revelado

Consta no Zohar (Vaiechi 219a) que o tempo de vida de uma pessoa é oculto. Por que os
dias de vida das pessoas não são revelados? Em seguida traremos duas respostas para a
questão:

a. “Todos deverão viver o arrependimento um dia antes de sua morte”; uma vez que a
pessoa não sabe qual será o dia em que ela deixará este mundo, ela deve refletir todos os
dias acerca dos seus atos e arrepender-se de suas transgressões (Ética dos Pais 2, 10 com
Rashi). E assim explica Rashi: “Para cada pessoa D’us deu uma parte da sabedoria, que
permite conhecer o funcionamento do mundo. No entanto, nenhum ser humano é capaz de
conhecer e entender todos os caminhos traçados pelo Criador, nem tampouco é capaz de
saber o momento de sua morte. A cada um cabe descobrir em que áreas falhou, e onde
cometeu erros, refletir e arrepender-se dos mesmos. Não sabendo ao certo quando deixará
este mundo, cada pessoa terá a chance diária de procurar renovar-se e reciclarse como se
fosse este o seu último dia de vida” (Kohelet - Eclesiastes 3, 11).

b. Não sabendo quando deixará este mundo, a pessoa continuará construindo novos
projetos e plantando novas sementes, com a segurança de que o seu momento ainda não
chegou — o que é produtivo para a humanidade (Rashi). (‘O Místico’)

Valorizar cada momento

Em geral, qualquer pessoa que se encontra em uma situação difícil está disposta a utilizar
de grandes fortunas para poder seguir vivendo – mesmo que seja para alongar um pouco
mais os seus dias de vida. Porém, na realidade, o tempo de vida de uma pessoa,
independentemente de onde ele estiver situado – no começo, no meio ou no final de sua
vida – tem o mesmo valor. Todos os momentos são preciosos! Então, assim como as
pessoas se preocupam e investem tanto esforço para viver mais tempo, da mesma forma
deveriam aproveitar cada momento de vida. Contudo, em vários casos, a importância da
vida é deixada de lado e as mesmas pessoas podem se focar em afazeres desnecessários,
inúteis ou inclusive destrutivos.

Cada momento em que a pessoa deixa passar vazio é um momento perdido – perdido para
sempre– seria como que se neste momento ela não estivesse vivendo.

Havia um sábio que desejava habitar em uma nova cidade. Ele resolveu visitar o cemitério do
local para ver quantos anos de vida os seus habitantes viviam. Ele se surpreendeu ao se dar
conta que todos lá não passavam de uns poucos anos de vida.
“Esse aqui viveu somente cinco anos, esse outro somente viveu um ano, olha só esse aqui
somente dois meses de idade... Não quero viver em um local assim – de forma alguma.”
Na verdade o sábio não lia os anos gravados nos túmulos ele percebia – através de seus
métodos – quantos foram os anos de vida que cada um ali aproveitou. Todo o tempo perdido
não era considerado por ele, pois assim serão considerados os anos de vida da pessoa no
mundo espiritual, no mundo dos valores verdadeiros. (Baseado nos ditos do Rabi Ichiel Mich’l
Tukatsinski)

Esta será a realidade, todos terão que se deparar com a sua real situação em um mundo
real. O destino de todos dependerá unicamente de seus feitos durante os seus anos de vida.
E as pessoas seguem como se fossem viver para sempre.

“A pessoa roda -roda, gira-gira... vive sensações


– medo, aventura – e retorna para o local inicial... A mesma criança que chegou – partiu! E o
preço? O tempo! Também o investimento para adquirir cada sensação, cada prazer... Ou seja,
a própria vida. O precioso e limitado tempo de vida. ‘Temos que aproveitar a vida’ - esta é a
expressão que se encontra na ‘boca do povo’... Verdade! Temos que aproveitar; realmente
aproveitar a vida... Então, qual seria o melhor investimento? Devemos transformar o tempo
limitado em prazer eterno, um prazer que não terminará com o próprio ato... Um prazer real
e eterno.” (Livro Saiba o que responder, cap. Metas-Objetivos)
Nossos dias neste mundo passam como uma sombra. Não como uma sombra de um
muro ou de uma árvore... os dias
passam como a sombra de um pássaro voando. Todos nós sabemos, e reconhecemos
verbalmente, que chegará o dia em
que deixaremos este mundo, porém agimos como se este dia nunca fosse chegar...
(Midrash Rabá, Bereshit 96, 2).

O que é a morte?
Seria o fim? Talvez um começo!
Quem sou eu?

O Sábio Rabi Chaim Vital explica que o corpo é, na verdade, uma roupagem para a alma. Ao
sair deste mundo, a alma despe-se deste adorno e veste-se com outro tipo de manto, mais
puro e espiritual (Shaarei Kedusha, parte 1, cap.1; Zohar Itró 76a).

Ou seja, a alma é a essência do ser humano. O corpo é seu receptáculo temporário. Após
deixá-lo, a alma passará por um longo processo. O processo de separação entre o corpo e a
alma é distinto em cada caso, de acordo com o nível espiritual de cada um.

[Nota: As almas, antes de descerem ao mundo, se despem de suas vestimentas espirituais e se ‘vestem’ com o corpo físico; [as
vestimentas no mundo espiritual serão aprimoradas através das boas ações da pessoa e da Torá que ela estudar durante os
seus dias de vida]. Ao nascer, elas se esquecem por completo que estiveram no mundo das almas, pois, ao contrário, o livre
arbítrio seria afetado. A pessoa não deixa o mundo até que a entidade responsável pela morte não separe a sua alma de seu
corpo. Essa separação é denominada “morte”. Então, a alma se veste sem sua vestimenta original que havia deixado no
mundo das almas quando veio a este mundo. Se vestir em sua vestimenta original gera uma grande felicidade à alma– como
se estivesse voltando à casa. Agora, com a sua vestimenta ela “caminha” no mundo das almas para entender os segredos
Superiores, os quais não podia entender enquanto se encontrava dentro de seu corpo material. Aqueles que durante os seus
dias de vida foram transgressores, não investiram em suas vestimentas e, inclusive as vestimentas que possuíam já não lhes
serão compatíveis e se perderão por completo. Elas se encontrarão no mundo das almas despidas, e isto lhes causarão uma
grande vergonha e elas pedirão pela restauração. (Zohar, Terumá 150a, Matok Midvash ibid. p.289)]

A morte não atinge a alma, e sim o corpo exclusivamente. Aquele que durante a vida
identificou-se somente com o corpo — sem desejar aproximarse de D’us — estará
desconectado de suas raízes. Neste caso, a morte o atingirá de forma integral. Por outro
lado, aquele que durante a vida identificou-se com a sua alma, desejando ligarse a D’us
através do cumprimento de Sua vontade, estará conectado às suas raízes— a este a morte
afetará apenas ao corpo de fato.

“É importante refletir sobre a vida após a morte, para que não nos esqueçamos que
nossa presença aqui é passageira, tem tempo limitado, e para que não deixemos de
cumprir nosso objetivo real.” (Shaarei Teshuvá 2, 22 e 23).

A oportunidade de aproveitar cada momento de forma máxima.


Uma pessoa que se encontra em uma situação de saúde delicada tem uma visão mais real
da vida. A situação delicada da pessoa elimina as atrações e a tendência à busca de
futilidades que impedem o aproveitamento máximo de seu tempo. Ninguém pede para
estar em uma situação difícil ou em uma situação de saúde delicada... Contudo, sem dúvida,
esses momentos podem ser os momentos de uma experiência de vida mais profunda que a
pessoa jamais sentiu. Alguém que já se encontra em uma situação assim recebe a
oportunidade de ver e analisar o mundo de forma mais real e menos ‘embaçada’ pelas
atrações fúteis que perturbam a maioria das pessoas – dia a dia, ano a ano – durante toda a
sua vida, não deixando um tempinho para refletir nas questões mais básicas que qualquer
pessoa questionaria ao chegar a um local ‘desconhecido’. “Ondeestou?” “Quem sou eu?” “O
que vim fazer aqui?” “Quanto tempo ficarei aqui e para onde regressarei?”

“Saiba de onde você veio, para onde você vai e perante Quem você terá que prestar
contas” (Ética dos Pais 3:1)
“Malabarismo com cinco bolas”

Traremos em seguida o discurso do Sr. Bryan Dyson, o ex-presidente da CocaCola, em sua


cerimônia de despedida:

Imagine a vida como se fosse um jogo o qual você esteja fazendo malabarismo com cinco
bolas (rodando) no ar.

Quais são as cinco bolas?


O seu trabalho, a sua família, a sua saúde, os seus amigos e a sua espiritualidade e você deve
seguir mantendo todas no ar.
Logo, você percebe que o trabalho é como uma bola feita de borracha, se você soltá-la, ela
rebate e volta.
Contudo, as outras quatro bolas – a família, a saúde, os amigos e a espiritualidade – são
frágeis como o vidro... Se você solta qualquer uma delas, com certeza ela ficará fendida, com
marcas, arranhada, até mesmo quebrada! Nunca mais será a mesma.

Devemos entender o seguinte: É necessário apreciar e se esforçar para conseguir cuidar do


mais valioso... Trabalhe de forma eficiente no horário do trabalho – e deixe o trabalho no
horário dele. Invista o tempo requerido à família e aos amigos. Faça exercícios, coma e
descanse de forma adequada.

Contudo, sobretudo... Cresça em sua vida interior, no espiritual – o mais transcendental – pois,
é eterno!

Shakespeare dizia: “Sempre me sinto feliz. Sabes por quê? Porque não espero nada de
ninguém! Esperar sempre dói.

Os problemas não são eternos, sempre é possível encontrar solução. O único que não se resolve
é a morte.
A vida é curta. Por isso, ame-a! Viva intensamente e se lembre do seguinte:
Antes de falar – escute! Antes de escrever – pense! Antes de criticar – examine!

“Os mortos vivos”

O dia a dia daqueles que acordam para um pesadelo – trabalham para comer e comem para
trabalhar e no final de contas... se esquecem que a vida engloba algo muito além disto!

Pensando Bem...

Uma pessoa está disposta a dedicar-se vários e vários anos para conquistar uma posição
econômica e social favorável. Todos os anos de estudo no colégio, primário, ginásio –
depois faculdade... Horas sobre horas estudando para as provas, muitos dias e inclusive
noites... Depois, em muitos casos, mestrado, doutorado... Depois começa a jornada do
trabalho, sempre com a expectativa de crescer e prosperar. Quantas horas de trabalho e
novos aprendizados, praticamente todos os dias de sua vida, às vezes dias e noites, para
conquistar uma posição financeira e social elevada...

Vamos refletir agora, honestamente... Se a pessoa está disposta a tanto investimento e


dedicação, muitas vezes com grande esforço e abnegação, praticamente durante todos os
seus anos de vida, para conquistar melhores condições neste mundo – para usufruir
algumas dezenas de anos – mesmo sendo um mundo passageiro e inevitavelmente terá que
deixá-lo, ela não está disposta a viver de forma medíocre... Não deveria ela, com muito mais
razão, preocupar-se com a situação de sua alma que continuará vivendo, não somente por
umas dezenas de anos, tampouco centenas... e sim, seguirá a sua jornada para sempre... Não
seria ilógico que, para a sua situação de algumas dezenas de anos, ela está disposta a tanta
abnegação; e para a sua situação que perdurará para sempre ela não se importa de viver de
forma medíocre? (Baseado no livro Messilat Yesharim).

A Grande Feira Comercial

Chegou o dia da grande feira comercial, onde comerciantes, fabricantes, representantes do


mundo inteiro se encontram para fechar negócios. Dezenas de milhares de pessoas chegaram
de todos os cantos.
Como de costume, os organizadores preparam para os participantes deliciosas guloseimas
para criar um clima agradável.
Dentre os participantes encontram-se todos os tipos de pessoas... Tem os mais inteligentes, os
tolos e também os intermediários... Cada um trata de seus negócios de acordo com a sua
capacidade. Porém, mesmo os mais tolos não vão pensar que o objetivo da grande feira
comercial seria comer as guloseimas – apesar de elas serem atraentes e eles estarem
famintos... Eles “beliscarão” aqui e ali algumas guloseimas, porém, estão totalmente
conscientes do objetivo pelo qual se encontram na feira comercial. Nenhum participante
deseja viajar em vão. Podemos provar este fato facilmente... Caso perguntássemos a qualquer
um dos participantes para que vieste à feira? Ele imediatamente responderá o motivo...
Vejamos agora.... Nossas vidas... Após uma longa viagem até que cheguemos aqui neste mundo
[A alma de uma pessoa transporta-se desde os níveis mais elevados – onde se encontra o
assentamento das almas (no Olam HaBriah) – viaja de nível a nível (Yetsirá, Galgalim) até
chegar neste mundo]... Quando perguntamos aalguém: “Por que tu vieste a este mundo?” Será
que todos saberão responder tão facilmente o motivo? Vários pensarão que o principal motivo
de estar aqui é festejar, satisfazer-se e aproveitar ao máximo com todos os tipos de prazeres
possíveis... Porém elas não pensam... “Qual será o final? Ora, não chegará o dia que finalmente
terei de sair daqui?” Como está escrito: “A alma retornará a D’us” (Kohelet) e então deverá
expor toda a “mercadoria” que adquiriu em sua estadia neste mundo... Que frustração será
mostrar as“malas vazias”. (Baseado no Livro Shem Olam do Chafets Chaim, página 255)

“De manhã eu era uma pessoa e de noite eu já era outra”


O depoimento do coração

Depoimento de Chaya Irit Z” l, (filha de Florin e Ichiel) que, em junho de 1998 e.c. (em
Israel) a caminho do trabalho, desviou de seu trajeto cotidiano e passou em sua clínica para
fazer raios-X dos pulmões. Não havia um motivo real, somente que estava tensa de tanto
trabalho...

O médico que a recebeu disse: “Diga obrigado por você ter saúde e não como o paciente que
saiu daqui antes de você chegar, que foi revelado que ele tinha um tumor maligno.”

Antes de receber os resultados do exame, uma das médicas da clínica lhe abraçou e disse que
uma pessoa doente tem que estar forte.
“Não entendi bem o que ela quis me dizer. Uma pessoa doente?? Eu nunca pensava em
doenças...”

“Vive -se com a impressão de que [este mundo] estará sempre à disposição, e que todos
nele permanecerão de geração em geração, imaginando que viveremos para sempre
[ocupando-se às vezes exclusivamente de negócios e esquecendo-se do objetivo
principal de se ter vindo ao mundo]. Porém, chega o dia em que acontece alguma
doença [ou acidente, ou algo do gênero]. Enquanto sua mente está ocupada com a cura,
a pessoa está sendo julgada — se terá ou não mérito para continuar neste mundo”
(Zohar Nassó 126, com Matok Midvash). Este momento foi o início de um grande processo.

Exames, TC, etc....


Não sabia do que se tratava, porém, sentia que a minha vida nunca mais voltaria a ser a
mesma. Sentia que não voltaria mais a ter uma vida normal.

Às 19 horas finalmente um médico veio falar comigo e me revelou que eu tinha câncer no
pulmão e tinha que operar urgente.
Pensava: “O que fazemos nesta situação, o que fazemos???”
Ninguém de minha família dormiu naquela noite.

Esta visita à clínica salvou a minha vida. Se o câncer não fosse revelado, em poucos dias eu já
não estaria aqui.
Eu não era nem um pouco religiosa, mesmo assim, percebi que cheguei a esta consulta de
forma milagrosa... me “deu a louca” de passar pela clínica no meio do caminho ao trabalho...
portanto, de forma natural, eu agradecia a D’us por ter me levado até ali. Dizia:“D’us, D’us...
obrigada! Obrigada por me levar à consulta. Obrigada por me revelar a doença no último
momento antes de não ter mais o que fazer.”

Operei. Foram algumas operações... Quimioterapia... Lia os Salmos e falava com D’us.
Isto começou em junho de 1998, seguiu por mais de um ano.
Naqueles momentos que me sentia tão por baixo, tão acabada, percebia que toda a forma de
vida estipulada pela sociedade não tem um valor real. Já pensava nas piores coisas, já não
sentia que não sou eu que decido tudo, sentia que eu não podia fazer tudo o que quisesse...
Não tinha o que fazer... Mesmo se eu vendesse tudo o que tenho: minha casa, meus bens, tudo...
não tenho o que fazer para me salvar. Sentia que dependia totalmente da ajuda de D’us.

Ofereceram-me vários tipos de curas através de meditação, pílulas chinesas, etc., começava
algum tratamento e sentia que não era esse o caminho... isso tudo não me levaria a nenhum
lugar.

Eu tinha várias horas para pensar... Lembrei-me de quando eu era pequena e via as flores,
folhas, os gatos e pensava: ‘Quem fez tudo isso?” Lembro-me de que quando era criança
admirava o judaísmo e a Torá, lembrei inclusive que em algumas situações da vida desejava
expressar os meus sentimentos judaicos. Às vezes desejava fazer a noite de Pessach, às vezes
decidia comer matsót durante os sete dias de Pessach... Porém, nunca coloquei a atenção
neste sentimento.

Agora, internada no Hospital Belinson, no departamento de Oncologia...


De um lado do corredor estavam pessoas tomando cafezinho com um lanchinho na
lanchonete, do outro lado do corredor, pessoas internadas, doentes, deitadas com soro... e lá
eu estava.

Eu lia os Salmos... Sempre que começavam a introduzir em mim os produtos de quimioterapia,


eu seguia lendo os Salmos. Um dia estava ali, no outro, aqui. Eu não sabia valorizar o que quer
dizer “estar com saúde”. Eu não sabia o que quer dizer “acordar sem ter que ir ao médico”, eu
nunca, nunca dizia obrigada... Não entendia, pensava que tinha o direito de receber tudo o
que eu recebia.

Eu não entendia o valor que tinha comer sem ficar enjoada como consequência dos produtos
da quimioterapia. Não soube dizer um simples “obrigado”.
Tive que passar por tudo isso para entender que quando comia uma laranja e não me sentia
enjoada devia dizeralgumas vezes “obrigada”...

Assim passava todas as noites, deitava na cama e conversava com D’us, sem entender e saber
o porquê... pois eu não era religiosa.
Minha alma pedia – não era algo da mente, não era por nenhum interesse.
Os psicólogos tentavam falar comigo. Eles tentavam me acalmar.
Uma vez perguntei: “Me diga, de verdade, você pode jurar que você acredita que eu vou me
curar?”.
“Não.” – ele respondeu.
Conclui: “Como posso me tratar com alguém que não acredita no meu sucesso...”
Deitava sozinha, sozinha...
No que eu pensava?
Eu pensava no fim. Pensava que o fim estava próximo... que deixaria o mundo... porém, eu não
queria deixá-lo, eu queria viver... viver... O que eu podia fazer? Nada mais podia me ajudar.
Comecei a falar com Ele. Eu O chamava de ‘Pai’, ‘Amigo’, D’us... Não sabia mais como chamá-
lo. “Por favor, me ajuda! Os médicos não sabem mais o que fazer, cada um fala algo diferente.”

Toda a minha vida eu vivia com o sentimento de que se algum problema aparecesse eu iria ao
médico, ou ao advogado – sempre tem alguém que pode resolver o problema. Agora, de
repente entendi que sobre todos eles existe alguém, alguém que com Ele comecei a falar... e
implorava para que me escutasse.

“Pai, por favor, me escute...”.


De repente pedia desculpas.
Não sei por que, porém, sentia que precisava pedir desculpas.
“Desculpe-me, por favor, desculpe-me... e me diga o que Você quer de mim? O que eu faço?
Para onde eu vou? Eu não sabia nada! Não escutava nada! Quem me falaráo que fazer?”

Assim passei noites completas.


Falava horas e horas... Aos poucos eu me acostumei e estava sempre falando com Ele. Sentia
que Ele me escutava mais do que nunca. Não via ninguém, tampouco escutava... Porém, sentia
que Ele me escutava... Que me amava mais do que nunca. Sentia isso em tudo o que acontecia,
parecia que tinha alguém me ajudando. Já no começo do episódio quando eu – do nada –
resolvi desviar do caminho do trabalho e cismei em fazer uma radiografia do pulmão. Assim
foi revelada a minha doença. Se não fosse por isso eu já não estaria aqui há muito tempo.

Um ano tem 365 dias... e também 365 noites... Há mais de um ano, há mais de 400 noites eu
venho conversando com Ele e, de repente eu comecei a escutar... Não eram palavras... Na
verdade era algo de dentro de mim mesma – porém, eu sabia que não era de mim... Eram as
respostas as minhas perguntas que eu comecei a entender. Então eu comecei a entender tudo
o que eu não entendia.

Apesar de todo o meu sofrimento, sentia claramente que nunca fui abandonada, sabia que eu
era amada e sabia que nada aconteceu sem motivo. Eu tinha certeza. Os médicos falavam
motivos: “A doença foi por ‘esse’ motivo” ou “por aquele motivo”... e eu sabia que tudo tem um
motivo, mas provém de algo além de nosso entendimento – tudo dependia somente de D’us. De
onde eu sabia? Como eu poderia saber? De onde vinha a minha certeza? Eu não sei! Porém, eu
comecei a entender. Tudo estava claro para mim. Eu estava acompanhada por Ele, sentia que
Ele me amava e que Ele ‘segurava’ em minhas mãos.
Estava claro para mim que eu não poderia seguir vivendo da mesma forma que eu vinha
vivendo até então.
Não poderia seguir no mesmo caminho.
Entendi que nada poderia me ajudar se eu não aprimorasse a minha forma de viver.
Somente que me doía o seguinte pensamento: “Por que foi necessário passar por tudo isso
para entender? Por que não pensei nisto enquanto eu vivia com saúde? Por que esperei pensar
neste tema somente quando me encontrava no hospital, com soro, dores e remédios? Me doía
que eu não aproveitei as chances e os alertas que D’us me trouxe ao longo dos anos. Eu
pensava: “Eu sou uma pessoa de cultura, moderna. Uma mulher de negócios... Judaísmo não é
para mim!” Por que esperei tanto para ver as coisas um pouco diferente? Por que me deixei
levar pelos comentários de todos os que viviam como eu?”

Como que no dia 8 de junho de 1998 – de manhã


– eu saberia que na noite do mesmo dia 8 de junho de 1998 estaria assim...
Como imaginaria que tudo isso passaria comigo? Que me sentiria acabada?

Na manhã do dia 8 de junho de 1998 eu tinha vários planos, vários projetos de viagens para o
exterior, negócios... e... de noite.... Tudo já era diferente, tudo mudou.

“Por que não parei para pensar antes? Por que não pensei sobre a vida? Sobre o motivo pelo
qual viemos ao mundo? Para onde irei após deixar este mundo? Por quê? Por quê?”

Tudo o que eu tenho agora não pode me ajudar, sinto que estou totalmente entregue somente
nas ‘Mãos’ de D’us.
Na manhã do dia 8 de junho podia jurar que comigo isto não aconteceria!
Logo percebi que várias e várias famílias atualmente vivenciam problemas similares. Abaixei
a minha cabeça, abracei o ‘Meu Pai’ e disse: “Pai, eu vou ser uma ótima filha... de verdade
quero voltar ao caminho de meu avô, e dos avós dele. Quero voltar para‘casa’!”

Senti naquele momento como se eu estivesse ganhando um grande presente, uma grande luz!
Muita luz!
Vivenciava um sentimento estranho, eu disse a Ele: “Eu estou me sentindo melhor estando
doente e próximo de Você, mais do que quando eu estava com saúde e longe de Você! Pai,
obrigada... obrigada por me dar a chance de voltar a me aproximar de Você, de voltar para
casa! Não existe felicidade como esta!”

Estava feliz de fato, é inacreditável! Que mérito... Não é coisa simples chegar ao ‘palácio’ do
Rei. Sentia vontade de dizer a Ele obrigada por me abrir as Suas portas. Eu sentia que esta
nova proximidade com Ele foi um presente que recebi e não um presente que estava dando a
Ele.
Hoje os meus planos são diferentes. Não são mais de viajar ao exterior, crescer nos negócios e
ter uma casa grande e bonita. Somente pensava em ter filhos e criá-los com valores de
verdade, com os ensinamentos da Torá.
Queria amar o Criador.
Agora que sei o que significa ‘vida’, realmente quero seguir vivendo...
Cumprir mais um Shabat, fazer mais uma berachá... Conhecer melhor o Criador e os Seus
caminhos.
Todavia sigo doente e não sei o que acontecerá comigo, somente peço a D’us para viver o
quanto puder, conhecê-lo e beneficiar aos demais com atos de caridade. Que seja da vontade
Dele que todos nós tenhamos o mérito de conhecê-lo.

***
O meu pai, durante o auge de sua doença me disse: “Toda esta
doença me fez ver o mundo de outra forma. Eu olho para trás e
vejo quanto tempo perdi com coisas desnecessárias...”

“Por favor...” – Ele me disse– “Não perca tempo com besteiras... Estude os conceitos da Torá o
quanto você puder.” Ele seguiu: “Não importa quanto tempo viverei, o tempo que D’us me der
quero utilizá-lo da melhor maneira possível... Além dos afazeres familiares eu quero estudar
Torá e transmitila para aqueles que não tiveram a oportunidade de aprender os Seus
ensinamentos de forma correta.”

“Eu agradeço a D’us e entendo que pelo mérito da doença comecei a ver o mundo de forma
mais real...” (Sr. Jack Biskerz”l)

[Nota: O nosso pai – Sr. Jack Bisker (Yaakov Zeev Ben Tsvi) z”l nasceu no Brasil (S.P.) no dia 23 de junho de 1941 e no dia
28 de dezembro de 1995 se mudou para Israel, Kfar Saba, onde morou 14 anos até o seu último dia de vida (28 de julho de
2009). Formado em engenharia civil pela Universidade ''Politécnica'' da USP, em S.P., trabalhou 30 anos na empresa IBM
do Brasil. Em Israel dava aulas de física e matemática para brasileiros no colégio Yamin-Orde, Conciliando física e Torá,
vinha se fortificando cada vez mais no cumprimento da Torá, e chegou a um nível de conexão com o Criador muito
elevado, sempre argumentando que, com a evolução da ciência, cada vez fica mais clara a existência de um Criador, e que
Ele está sempre presente controlando a Sua criação. Quando soube que estava doente, e que sua doença era fatal, repetiu
algumas vezes que não importa quanto tempo o Criador vai lhe dar para viver, dias, meses ou anos, porém todo o
tempo de vida que receber (exceto o tempo necessário aos afazeres familiares) vai utilizar este tempo para o estudo
da Torá e divulgar artigos para aproximar do judaísmo de nosso povo as pessoas que não tiveram a oportunidade
de conhecer a nossa Torá de forma correta. Ele também me advertiu para não perder tempo com ''besteiras'' como
muitas pessoas fazem e aproveitar todo o tempo possível para estudar Torá. Nos seus últimos anos e, principalmente, nos
últimos meses de vida, se dedicou ao estudo de Torá e Ciência, e divulgou artigos sobre este tema.]

Retificação e Confissão
A Confissão Noturna

Toda noite antes de dormir é importante se arrepender dos erros, retificá-los e fazer uma
confissão, com as próprias palavras. Isto porque, no momento em que a pessoa dorme a
alma desconecta-se parcialmente do corpo, e uma parte dela eleva-se e transporta-se para
outro plano. Somente a parte inferior da alma permanece ligada ao corpo. A parte da alma
que se desconecta do corpo segue para uma dimensão espiritual e lá ela é julgada pelas
ações que ela realizou nesse dia que passou. Neste julgamento é decidido sobre a sua
continuidade neste mundo.
Como durante o sono a pessoa vivencia um julgamento, é dignificante ela se arrepender de
seus erros e retificá-los antes de dormir – e assim receber uma sentença de outro nível.

Da mesma forma, uma pessoa que se encontra doente ou em um estado de saúde delicado,
também se encontra em um julgamento onde é decidida a sua continuidade e a qualidade
de vida em que seguirá dali em diante. Portanto, é digno dela se arrepender de seus erros e
retificá-los. A confissão faz parte do arrependimento, como ensina o Rambam:

O que se deve fazer para que o arrependimento seja completo e a transgressão seja
totalmente apagada? Primeiro, deve-se interromper o ciclo e não repetir a
transgressão cometida. Em seguida, deve-se removêla de seus pensamentos. E por fim
decidir

intimamente não repeti-la, arrependendo-se da transgressão cometida e confessandoa


a D’us em suas próprias palavras. Seguindo esses passos, a transgressão será
totalmente apagada (Ver Leis de Teshuvá do Rambam 2,2)

É muito importante encarar a confissão de forma correta, com a intenção de consertar os


erros e criar méritos para alongar o tempo de vida. A confissão não é uma expressão de
desistência ou fraqueza – de forma alguma. Todo o objetivo do arrependimento e da
confissão é de se descontar de ações que lhe trazem prejuízos e danos, tanto em nosso
mundo físico como em âmbito espiritual e demonstrar a vontade de estar ‘limpo’ perante o
Criador. De fato, como já foi explicado, é aconselhado que todos façam o arrependimento e
a confissão antes de dormir, contudo, uma pessoa com situação de saúde delicada deve ser
mais cautelosa neste tema. Traremos em seguida um texto de arrependimento e confissão
para aqueles que se interessarem em pronunciá-lo, contudo, cada pessoa pode acrescentar
as suas próprias palavras e o próprio ‘coração’ no momento de sua confissão exclusiva
diante do Criador.

Sobre a confissão (vidui)

Os nossos Sábios (Kitsur Shulchan Aruch em nome do Sifri) ensinam que uma pessoa que
se encontra em um estado de saúde delicado deve dizer vidui (confissão). Consta no
Talmud que todo aquele que confessa a D’us sobre as suas transgressões e se arrepende –
garante para si uma porção no mundo vindouro. Portanto, é fundamental a um doente que
se encontra em perigo de vida pronunciar a confissão e se arrepender de suas
transgressões. Ele não deve se preocupar em pronunciar a confissão, não significa
– de forma alguma – que o enfermo está se abdicando da vida, em absoluto, justo o oposto:
pelo mérito de estar se arrependendo dos erros e confessando por eles, aumentam as
chances de uma melhora! Inclusive, muitas pessoas que pronunciaram a confissão
seguiram em vida, e muitos, que não a pronunciaram, se foram. A confissão por si só já
proporciona vários méritos à pessoa. Ela conquista uma nova posição a qual poderá
alongar o seu tempo de vida. Mesmo quando a pessoa não esteja em condições de
pronunciar a confissão com a boca, ela deve realizá-la em seu coração – em pensamento.
Deve haver o cuidado de não pronunciar a confissão perto de pessoas que poderão vir a
chorar ao escutá-la (elas podem entender de forma errônea que a confissão é uma
despedida, o que de fato não é) e o choro poderá enfraquecer o coração do enfermo.

Em seguida traremos o texto de confissão resumido recomendado pelo livro Kitsur


Shulchan Aruch (vale apontar que cada pessoa pode acrescentar as suas próprias palavras e
abrir o coração diante do Criador):

“ Estou consciente – D’us, e D’us de meus antepassados – que a minha cura e a minha
morte estão em Suas mãos. Que seja de sua vontade que me cure – uma cura completa.
Caso eu deixe este mundo, que a minha morte seja a expiação de todas as
transgressões – tanto daquelas que eu transgredi sem intenção, como daquelas que
transgredi com intenção – e coloque a minha porção no mundo das almas – no ‘Gan
Eden’ – e me dê o mérito de usufruir do Mundo Vindouro guardado aos justos.”

Se a pessoa desejar, ela pode alongar a confissão especificando mais detalhadamente as


transgressões das quais deseja se desfazer. (quais deseja se desfazer. ( 14)

Traremos em seguida o texto de confissão resumido sugerido por


outros Sábios:

Consta no livro Zikarón Shai (Vidui, 2): É bom que o enfermo – especialmente quando ele se
encontra em uma situação delicada – diga a confissão (vidui) que se encontra no livro do
Rambam (Hilchót Korbanót em relação à confissão que era feita por aquele que trazia um
sacrifício na época em que o Grande Templo estava construído em Jerusalém), este é o texto:

“D’us, cometi transgressões – tanto sem intenção como com intenção – dentre elas fiz...
(especificar transgressões que se lembrar) e, eis que agora eu estou arrependido
perante Ti. Espero que o sofrimento que o meu corpo está passando sirva como a
minha expiação. Por favor, pela Sua grande piedade apague as minhas transgressões,
contudo, não através de novos sofrimentos, e faça o que for bem aos Seus ‘olhos’.”

[Nota: O livro Zikarón Shai do Rabi Moshe Klain foi impresso junto ao livro Maavar
Yabok do Sábio Aharon Brachia.]

Traremos em seguida a confissão sugerida (no livro Kitsur Shulchan Aruch 193, 13) àquele
que se encontra em seus últimos momentos, em uma situação de saúde muito fraca, e não
tem forças de pronunciar muitas palavras.

Alguém que se encontra na presença do enfermo deve pedir


para ele dizer as seguintes palavras:
“Que a minha morte (passagem deste mundo ao outro) seja
a expiação de todas as minhas transgressões.”

(Depois o acompanhante deve pedir ao enfermo que se desculpe para com todas as pessoas
com as quais ele pecou, tanto em questões financeiras como com palavras).
A incrível experiência de morte clínica
O depoimento
Depoimento de Nir Abujam que vivenciou a morte clínica e retornou.

Nir Abujam vivia em Kfar Shalem em Tel Aviv, uma pessoa totalmente laica que estudou em
colégios laicos, serviu o exército e no dia 20 de julho de 2005 e.c. sofreu um derrame cerebral
e foi internado no departamento de neurologia no Hospital Ichilov em Israel.

Nota: Foram acrescentados trechos de nossas escrituras intercaladas ao depoimento de Nir Abujam para nos servir de
fonte para as informações relatadas em sua incrível experiência.

– Após sofrer o derrame cerebral fui internado e a previsão era de que sairia do hospital em
uma semana.

Tudo caminhava bem e parecia que não aconteceria nada além do esperado.
Na noite anterior de minha liberação veio um amigo me visitar.
Tudo estava tranquilo e brincávamos com a cadeira de rodas. Ele me empurrava pelos
corredores do hospital e nos encontrávamos entre a maternidade e o departamento de
crianças.
Depois de uns minutos senti uma tonteira.
Senti como se eu estivesse me enforcando e pedi para o meu amigo chamar um médico.
Ele me disse que não devia ser nada sério e me deu um refrigerante para tomar e disse que
tudo passaria.
Comecei a sentir que a minha visão ficava embaçada e não via mais as coisas de forma clara.
Comecei a sentir que estava rodando, muita tontura. Gritei a ele: “Não sei o que está
acontecendo!” Comecei a ficar inchado. Toda minha cara inchou. Já não sentia mais a minha
mão... ela se levantava contra a minha vontade.
Sentia muito calor e gritava.
Pensei naquele momento que eu estava morrendo. Ele começou a correr empurrando a
cadeira em que eu estava sentado e também percebi que muitos funcionários do hospital
vinham em minha direção e logo vivenciei a morte clínica. Clinicamente eu era considerado
morto.
Logo a minha alma deixou o corpo e eu senti que cheguei a um local que se parecia com um
grande campo aberto... não sabia onde estava.

No momento da partida (deste mundo), o corpo é anulado em um sopro. A essência,


eterna, permanece. E o indivíduo segue seu caminho, como se mudasse de cidade... (Alei
Shur, Shaar Hamávet em nome de um sábio).

O campo onde me encontrava, por um lado era parecido com os campos que nós conhecemos
aqui em nosso mundo – com plantas, flores... Por outro lado, ele tinha um aspecto muito
especial.

“Todas as formas e figuras que se encontram neste mundo físico estão representados
lá no mundo das almas com uma imagem fina – compatível ao mundo espiritual – Tudo
de acordo como elas se apresentam neste mundo.”
(Zohar, Terumá 150a, Matok Midvash ibid. p.289)

De meu lado direito via uma caverna baixa com uma luz no fundo dela. Era uma luz muito
especial, por um lado era mais forte do que a luz do sol e por outro lado era muito agradável.

A alma não deixará o corpo até o momento em que possa enxergar a sublime Luz
Divina. No momento da morte, pode-se ver e deixar-se envolver por esta Luz (Midrash
Rabá Nassó 14, 22). Ao percebê-la, a alma naturalmente deseja deixar este mundo

(Zohar Vaiechi 218). A alma não deixa o corpo até que a Luz do Criador seja revelada,
quando ela vai ao Seu encontro (Zohar Metsorá 53).

Olhava... tentei analisar a luz e logo fui puxado para dentro da caverna – havia lá uma
escuridão total fiquei impressionado como antes havia luz e agora... escuridão. Eu era levado,
não sabia quem me levava e tampouco para onde.

Entes espirituais acompanham e guiam a pessoa, conforme consta no Talmud


(Tratado Ketuvót 104a). Esta passagem do Talmud relata os diferentes tipos de entes
espirituais que acompanham a pessoa, dependendo do seu nível espiritual.
Inicialmente, a alma passa por uma caverna [Maarat Hamachpelá, a caverna que se
encontra na cidade de Chevron em Israel, onde estão enterrados Adam Harishon
(Adão) e Chava (Eva), Avraham (Abrão) e Sara, Itschak (Isaac) e Rivka (Rebeca),
Yaakov (Jacob) e Léa, pois ali se encontra a entrada para o mundo espiritual]. Neste
local, verá o que for necessário e entrará por onde for necessário, até chegar ao mundo
das almas — Gan Eden HaTachton — passando por determinados entes espirituais.
(Zohar)

Apesar da escuridão, eu sentia que nos dois lados da caverna havia fileiras de almas – dos dois
lados
– eu não via nada, porém, de alguma forma captava que elas estavam lá.
Entendia que eram almas que esperavam a sentença final de seus julgamentos; e também as
almas daqueles que não tiveram a chance de ser julgadas. Percebia também que eles
vivenciavam um grande sofrimento.
Seguiam me levando pela caverna, como já citei, não sabia quem me levava e tampouco para
onde...

No final da caverna cheguei a um local que se parecia com uma espécie de salão. Encontrei ao
meu lado direito o meu avô e o meu tio que já haviam falecido. Eles vieram me receber.
Quando me viram começaram a chorar. Eu estava feliz em vê-los, me sentia bem junto deles.

No exato momento em que a alma deixa este mundo, seu pai (caso já tenha falecido, e
também
quaisquer familiares já falecidos) virá ao seu encontro. As almas com as quais haverá
interação
no mundo espiritual (por possuírem um nível
espiritual semelhante) também virão ao seu encontro e a acompanharão até o local
adequado, onde descansará.
(Zohar Vaiechi 218)

Depois eu vi a minha avó – ela chorava, chorava...

Depois de falecer, a pessoa tem permissão para ver seus parentes e amigos que já
deixaram este mundo; ela os reconhece, pois todos possuem a mesma aparência de
quando estavam vivos. Caso a alma se encontre em boa situação, (ou seja, durante a
sua vida, a pessoa se esforçou em cumprir a sua função) todos estarão contentes e a
abençoarão. Mas, caso ela não se encontre em boa situação, os parentes e amigos não
se apresentarão. Todos estarão tristes e lamentar-seão (pois eles serão novamente
julgados pelas transgressões desta pessoa, uma vez que também a influenciaram em
suas transgressões). A alma da pessoa começa a lamentar-se também, por descobrir a
etapa que lhe espera no mundo espiritual (Zohar Vaiechi 218, com Matok Midvash).

Depois tudo escureceu novamente e me levavam por um caminho para outro local.
Tentei perceber onde estava e me encontrei lá com uma entidade espiritual.
De imediato soube que ela era a entidade espiritual responsável pela morte.
Havia com ela várias outras entidades espirituais que se juntavam a ela. Parecia que eles
eram partes de um grande ‘corpo’. A presença deles me causava um grande desgosto e
sofrimento. Isto porque, naquele momento, todas as minhas ações (que pratiquei estando em
vida) eram reveladas para todos de forma aberta. Sentia uma grande vergonha... Muita
vergonha...

Vi em espécie de ‘filme’ sobre a minha vida inteira. Naquele momento eu captava tudo o que
criei através de minhas próprias ações... inacreditável... pedia para morrer novamente, porém,
já não tinha como sair de lá.
Não podia mais suportar a vergonha que eu sentia – me mostraram tudo o que passei
durante a minha vida – do dia que nasci até o meu último dia de vida. Eu concordei que de
fato era a minha vida.

Senta-se diante do tribunal celestial (no mundo espiritual), e ali lhe mostram,
detalhadamente, segundo consta no Talmud, todos os atos realizados em seus dias de
vida, ao que confirma tudo o que lhe foi mostrado (Tratado Taanit 11a). Mesmo que
D’us possa calcular tudo sozinho, Ele optou por criar um tribunal, para que fique claro
para todos a grande verdade e justiça de Suas decisões (Gaón de Vilna, Ester, Remes). E
assim também consta no Zohar (Parte 3, 99) que, mesmo que tudo seja revelado para
D’us, Ele decidiu que houvesse um julgamento e um tribunal, para expressar a
veracidade de Seu veredicto.

Não entendi: “Como pode ser que eu tenha criado tudo isso? Não pode ser!”
Eu perguntava: “Eu não fiz nada de bom? Onde estão as coisas boas que eu fiz?”
Depois de fazer estas perguntas chegou a alma de um grande justo que havia falecido e
perguntou: “Quem é este homem?”
As entidades espirituais impuras que se encontravam comigo responderam: “Ele foi um
transgressor!”
O justo sabia exatamente quem eu era. Depois que ele ouviu tudo o que disseram lá sobre
mim, ele disse: “Vamos descer lá embaixo e perguntar quem ele é!”
Descemos ao mundo inferior. Era um mundo como o nosso – um mundo paralelo ao nosso –
como uma cópia. Era exatamente como o mundo que vivemos.

“Todas as form as e figuras que se encontram neste mundo físico estão representadas
lá no mundo das almas com uma imagem fina – compatível ao mundo espiritual – Tudo
de acordo como elas se apresentam neste mundo.
“Isto é para que fique visível, e as almas entendam, que essas imagens espirituais são
a raiz de seus paralelos no mundo físico.”
(Zohar, Terumá 150a, Matok Midvash ibid. p.289)

[Nota: Em cada compartimento que se encontra no mundo das almas existem criações como as que se encontram nos
mundos superiores

que, por sua vez, são como as que se encontram em nosso mundo físico– somente que em cada local é representado de
forma propicia à expressão de seu nível espiritual – Existe lá ‘árvores’, ‘plantas’, ‘frutos’, etc., que aludem aos segredos
Superiores. A alma ‘caminha’ no mundo das almas e entende as alusões e os respectivos segredos enrustidos em cada uma
das imagens devido que a alma não pode subir aos compartimentos mais elevados onde a Presença Divina se expressa
mais abertamente até que adquire esta sabedoria e entende os segredos referente aos conceitos Superiores aludidos em
cada canto do mundo das almas e ver os feitos do Criador como são impressionantes, pois, ao contrário, chegaria nos
compartimentos superiores e não captaria o que acontece lá. (Zohar Bereshit 38b, Matok Midvash ibid., p.475)]

Descemos em um cemitério... Antes de seguir, tenho que fazer uma pequena introdução.
Eu era uma pessoa totalmente laica. Não cumpria os preceitos da Torá.
Um dia, meu tio me convidou a lavar o túmulo de meu avô que havia falecido. Ele disse que
ninguém cuidava do túmulo dele e se eu não estaria disposto a acompanhá-lo. Eu respondi:
“Tá bom, o que perderei?”

Ao lado do túmulo de meu avô havia outro túmulo muito sujo e empoeirado. Também limpei
aquele túmulo e li para ele o texto que li no túmulo de meu avô para elevar a alma dele
(‘hashkavá’).
Naquele momento senti algo muito especial. Não sei como explicar.
Limpei outros dois túmulos.
Era véspera de Rosh Hashaná (ano novo judaico) e sabia que naquele dia o mundo é julgado.
Pensei no meu interior: “Quem sabe, pelo menos que este mérito sirva em meu julgamento”.
Assim comecei fazer todos os anos. Eu passava duas vezes por ano por alguns cemitérios e
limpava dois, três ou quatro túmulos que eu via mais sujos em cada cemitério e também
rezava por eles.
Voltando ao tema... descemos em um cemitério. O cemitério que me levaram era o primeiro
cemitério que eu visitava. Depois reparei que lá no mundo ‘cópia’ me levaram pelo mesmo
caminho que eu fazia em minhas visitas aos túmulos. As almas das pessoas que estavam
enterradas lá vieram nos receber.
O justo perguntou lá no cemitério: “Quem é este homem?”

A alma de uma das pessoas que eu limpava o seu túmulo respondeu: “Este homem vem duas
vezes por ano e limpa o meu túmulo e reza por mim!” A alma do justo perguntou à alma de
uma garota, que havia falecido aos 17 anos, chamada Zemira, que estava enterrada na cidade
de Natania em Israel: “Quem é ele?”
Ela respondeu: “Ele consertou o meu túmulo! Ele foi juntando dinheiro de um por um para
consertálo!”
Realmente, havia um túmulo que as letras estavam apagadas e eu pedi dinheiro a algumas
pessoas para reformá-lo.
O justo passava pelos cemitérios que eu visitava, passava pelos túmulos que eu limpava e
todos diziam o mesmo: “Ele nos visitava, limpava os nossos túmulos e rezava por nós...”
De todas as formas saiu a sentença de que chegou a hora de eu deixar o mundo.
Levaram-me de volta ao cemitério de Natania e foi decidido que lá eu deveria ser enterrado.

“Antes d e a pessoa deixar este mundo, ela é julgada. Todos os seus atos são analisados,
tanto os bons quanto os maus; caso seja decretado pela

justiça superior que ela deixará este mundo, os méritos dos bons atos realizados já não
poderão ajudá-la a seguir vivendo (Gaón de Vilna, Yona, em nome do Zohar).
Alternativamente, aquele que terminou de cumprir sua função também terá que deixar
este mundo (independentemente dos méritos, conforme foi explicado no capitulo ‘Os dias de
vida’). Cada pessoa receberá recompensa por cada bom ato realizado, por menores que
tenham sido.”

As almas dos falecidos pelos quais eu havia rezado vinham me defender – pela gratidão que
sentiam por mim – e tentavam revogar o meu decreto. Contudo, a decisão já estava clara.
Eu já estava esperando que trouxessem o meu corpo.

De fato, não houve enterro. Somente que, antes de acontecer alguma coisa no mundo físico,
mostram para a pessoa o que acontecerá... mostraram quem estaria no enterro – ou em
qualquer outro lugar. Ou seja, antes de qualquer acontecimento ser realizado no mundo
físico, ele é decidido em um âmbito espiritual. O que acontece aqui seria como a reprise do que
foi decidido lá. Isto foi o que eu quis dizer... Eu estava lá, esperando que o meu corpo chegasse.

“Todos os acontecimentos deste mundo dependem lá de cima. Quando é estabelecida a


decisão lá em cima, então também, é estabelecida aqui embaixo.

Logo, o acontecimento é realizado. Não existe força de domínio de um reinado aqui


embaixo até que é dada a ele a força de domínio lá em cima. Tudo o que acontece aqui,
depende do que foi decidido lá.” (Zohar, Matok Midvash, Parashá Vayshlach 172a, página
561-562)
No meu lado direito eu via em torno de umas 30 a 40 pessoas chegando para recepcionar o
meu corpo. Eles caminhavam em direção ao quarto onde fazem a preparação do corpo para o
enterro. Eles vinham se encontrar com o meu corpo. Logo, os vi me carregando em uma
maca... Choravam e diziam o que eu fiz durante a minha vida.

Ao escutar o que diziam sobre mim no meu ‘esped’ (discurso fúnebre), eu sofria muito. Pois
eles diziam que eu havia feito coisas que realmente eu não fiz. De fato, eu não fui uma pessoa
justa, e quando eles falavam de mim como se eu tivesse sido um justo causava um sofrimento
muito grande para minha alma.

No momento em que o corpo é carregado de sua casa até o cemitério, será decidido se
ela receberá o título de “tsadik” (justo) ou “rashá” (transgressor). O título recebido
será anunciado nos planos celestiais; caso seja considerada uma pessoa justa,
receberá uma grande honra, e caso seja considerada um transgressor, passará por
uma terrível vergonha. Está escrito no Zohar (Nassó 126, Matok Midvash) que no
momento em que o corpo é levado para o cemitério, todos os atos que a pessoa fez em
sua vida o acompanham em seu funeral (pois, para cada ato realizado foi criada uma
energia espiritual e todas elas estarão presentes). No plano espiritual, seus
pensamentos e seus ideais são anunciados abertamente.

Interessante que eu sentia dor também no corpo, sentia que uma parte de minha alma,
todavia estava conectada a ele. Fiquei impressionado que sentia sofrimento em minha alma
que estava fora do corpo, e também em minha alma que seguia conectada ao corpo.

Em suas últimas horas de vida, cada ligação da alma com o corpo vai abandonando-o,
progressivamente. Na hora da morte, quando a
alma deixa o corpo, somente uma pequena parte
dela permanece conectada. (Zohar Vaiechi 227)

O motivo deste sofrimento era pelo fato de que cada coisa que falavam sobre mim, me
julgavam e me mostravam que era mentira. Isto me causava ainda mais vergonha...

Eu via que todos que me acompanhavam ao túmulo. Eu desejava e esperava que talvez
alguém dissesse algumas palavras para elevação de minha alma ou palavras de Torá como eu
dizia aos mortos quando limpava seus túmulos – quando eu recitava também a ‘ashkavá’ (um
texto em elevação à alma do falecido). Esperava que houvesse lá alguém que fizesse por mim
este grande favor como eu fazia para os demais. Procurava se havia ali alguém que me
salvasse desta grande vergonha e me trouxesse alguma satisfação. Porém, não houve uma
pessoa que o fizesse. Todos choravam e diziam coisas que em geral todos falam.
Eu queria que me escutassem e gritava – lá na esfera espiritual – “Não é verdade! Não é
verdade! Eu não fui um justo como estão dizendo. Eu optei por um caminho de transgressões!”
Eu gritava: “Olhem para mim e vejam... Não é certo, eu não fui um justo como vocês estão
falando que fui! Eu vivia cometendo transgressões! Olhem para mim!”
Porém, ninguém me via e ninguém me escutava. Eu não tinha mais controle de meu corpo.
Um grupo de entidades espirituais me segurava e me levava ao túmulo.
Quando me colocaram no túmulo... de repente elas me retornaram ao local do julgamento e
estava para ser estabelecido que tudo o que vivencie seria o veredicto final do que aconteceria
comigo – logo em seguida– em meu enterro.
Exatamente assim seria o meu enterro no mundo físico.

Senti um grande desgosto e um enorme sofrimento de saber que assim seria o meu enterro.
Se eu soubesse o que aconteceria comigo estando em vida, eu teria levado uma vida
completamente distinta.
Investiria o meu tempo em ajudar aos demais e estudar Torá.
Não descansaria um só momento desnecessário. Com certeza me preocuparia em estar
sempre ocupado somente com boas ações.

Ao separar-se do corpo, a alma percebe quantas oportunidades foram perdidas em


todos os momentos da vida em que dedicou seu tempo a atividades vazias. A dimensão
do arrependimento é inimaginável, e sua desolação vai crescendo a cada instante. Ela
fica inconsolada: “Como pude trocar os prazeres verdadeiros e eternos por prazeres
vãos e passageiros?” A alma então se enche do desejo de regozijar e usufruir– ali
mesmo no mundo espiritual – da Luz Divina, e logo em seguida se dá conta de que não
está capacitada (Shaarei Emuná 144, em nome do Gaón de Vilna).

Antes do veredicto final percebi que estava prestes a acontecer comigo algo muito difícil,
embora eu não soubesse o que era, me causava muito medo.

A pessoa que durante sua vida procurou aproximar-se de D’us, agora poderá unir-se
plenamente à Sua Luz. Porém, aquele que não buscou a aproximação a D’us

durante a vida, agora não terá como unir-se à Sua Luz. (Zohar, Nassó 126)
Naquele momento o meu julgamento estava para ser
finalizado.
Porém, aconteceu algo inesperado. O mérito de
uma ação positiva que eu fiz me proporcionou a
anulação do decreto...
Uma menina de um ano e meio... Na verdade eram
dois nenéns que, há cerca de quatro anos e meio
atrás, eu e minha irmã havíamos feito duas ‘matsevót’ (pedra que se coloca sobre o túmulo)
para elas. Eu pensava: “Como poderia deixar estas duas crianças sem uma ‘casa’? Lembro-me
que eu comecei a chorar e então decidi recolher doações para construir para elas
uma‘matsevá’!”

Eram duas irmãs, uma delas havia morrido há 40 anos e a outra há 41 anos. Uma se chamava
Zemira (a menina que havia citado antes) e a outra Amira. Uma estava enterrada no
cemitério de Keriat Shaul e a outra no cemitério de Holon (cidades em Israel). Zemira
apareceu e gritou desesperadamente: “Este homem nos fez (para mim e para Amira)
‘matsevót’.
Justo no momento final antes do veredicto relacionado ao fim do tempo de minha vida e ao
meu enterro, quando tudo já estava praticamente finalizado, me trouxeram o mérito desta
boa ação que realizei

A alma de Zemira seguiu: “Ele também nos fez ‘guilui matsevá’ – trouxe dez pessoas e fez
‘kadish’ para nós!”
No momento trouxeram ao tribunal celestial a alma das dez pessoas que participaram do
‘kadish’. Elas estavam vivas, porém, estavam dormindo no momento e suas almas vieram
testemunhar. Tudo o que falamos lá no cemitério foi apresentado. Mostraram também duas
pessoas as quais eu havia chamado para participar do ‘kadish’ e elas não quiseram vir.
Mostraram uma dizendo: “Eu já tive dentro do cemitério e não posso entrar novamente”; o
outro disse: “Estou com pressa”.
“Mostraram que eu implorei a eles e pedi que somente me respondessem ‘amém’ ao kadish”.
Ou seja, mostraram todos os detalhes...

Estes novos méritos me elevaram e a minha situação em relação à decisão de ter que deixar o
mundo melhorou.
Contudo, não havia sido revogada a decisão. Somente quando a alma da outra irmã – Amira
– que estava enterrada em Holon – começou a testemunhar: “Este homem comprou 50 livros
para distribuir em nosso mérito – para a elevação de nossa alma! As pessoas que leram e
pensaram em se aperfeiçoar, em se aprimorar por mérito da leitura dos livros que ele
distribuiu não é suficiente para salválo do decreto?”

“A pessoa não será julgada somente pelo ato em si. Será julgada também por todas as
consequências de seus atos.” (Nefesh HaChaim 1,12)

Naquele momento recebi muita luz. Experimentei um grande sentimento de satisfação.


Percebi então o valor das mitsvót (preceitos). Que prazer... que prazer comecei a sentir.
Naquele momento foi decidido que eu receberia a chance de seguir vivendo. O decreto de
morte havia sido cancelado.

“Quanto maior tiver sido a dificuldade para a realização de uma boa ação, maior será
o seu mérito. E, inversamente, quanto mais fácil tiver sido evitar a realização de uma
má ação – sem que a tenha evitado – maior será a sua cobrança.” (Gaón de Vilna, Yona)

Eu comecei a temer.
Agora temia o fato de ter que voltar a viver. Quem podia me garantir que eu não voltaria a
viver da mesma forma, com as mesmas transgressões? Agora que eu conhecia as
consequências das transgressões sentia medo de retornar a viver e seguir com os mesmos
erros.

Lembro-me que antes que me retornassem à vida eu comecei a pedir para me deixarem lá:
“Por favor, me deixem subir... não me permitam descer! Por favor, não me permitam!”
Perguntaram para mim lá no mundo espiritual: “O que você fará quando retornar a vida?”
Eu fiquei em silêncio.
Perguntaram-me novamente: “O que você fará quando retornar?”
Então eu respondi: “Eu vou me retificar! Eu vou me retificar!”
Logo, o meu corpo começou a demonstrar sinais de vida...

“São trê s os elementos que uma pessoa mais aprecia em sua vida: a. seus familiares; b.
seu dinheiro; c. suas boas ações. No momento em que ela tem que deixar este mundo,
pede aos seus familiares que a salvem de seu decreto de morte, porém eles respondem
que isto não está em suas possibilidades. Então ela apela para o seu dinheiro,
argumentando que tanto se esforçou por ele dias e noites, porém tampouco o dinheiro
pode salvá-la do decreto de morte (Pirkei DeRabi Eliezer 34). Somente suas boas ações
poderão salvá-la (sempre quando ainda não tenha sido decretado pela justiça superior
que ela deve deixar este mundo)”. Cada boa ação realizada cria uma força espiritual
positiva, que poderá influenciar em seu julgamento. Caso não seja encontrado algum
ato bom em especial, então o decreto será confirmado, e os enviados espirituais
responsáveis para acompanhá-la virão ao seu encontro. (Zohar, Nassó 126 com Matok
Midvash)

Como mudar depois de tanto tempo?


Existem pessoas que questionam:

“Como eu posso mudar depois de tanto tempo?” “Eu sempre vivi‘dessa’ forma, não seria
hipocrisia modificar agora a minha forma de viver?” “O que é que me vale mudar agora?”

Uma pessoa pode encontrar um tesouro após uma longa busca... ou por acaso – pelos
caminhos da vida. Ela pode encontrá-lo ao se esconder enquanto fugia do inimigo que lhe
perseguia. Contudo, o valor do tesouro não é alterado pelas circunstâncias nas quais a
pessoa se encontrava. O valor do tesouro é determinado pela sua essência e não depende
do motivo que ele foi encontrado.

Assim também em relação a uma nova conquista espiritual. Independentemente do motivo


que levou a pessoa ao aprimoramento, ao entendimento, à consciência de uma existência
mais espiritual e ao arrependimento de suas transgressões, a sua conquista é real e os
benefícios que lhe proporcionarão serão parte de sua essência e lhe acompanharão em sua
jornada eterna, nesta vida e em sua pós vida.

Uma pessoa pode se arrepender de suas transgressões até mesmo no seu último dia de vida.
Mesmo uma pessoa que não tenha vivido de forma correta durante toda a sua vida poderá
não ter nenhuma transgressão lembrada quando for julgada após a sua morte, caso seu
arrependimento seja sincero e completo. Quanto mais jovem for a pessoa, mais elevado o nível
de seu arrependimento. (Na continuação)

Uma Alma Satisfeita


Com a ideia de alimentar o corpo nós já estamos familiarizados... Porém, como podemos
alimentar a nossa alma? Ela é espiritual! O alimento da alma é o cumprimento da Torá,
composta por 613 mandamentos. Cada um destes mandamentos está ligado a cada um dos
seiscentos e treze órgãos presentes no corpo físico. Cada órgão físico tem seu paralelo na
dimensão espiritual. Cada mandamento efetuado por cada um destes órgãos físicos
alimenta os seus respectivos correspondentes espirituais. Futuramente, ao deixar a sua
veste material, a alma usufruirá dos mandamentos cumpridos pelo corpo para tecer seu
novo manto transcendente (baseado no livro Shaarei Kedusha, Rabi Chaim Vital z"l). Aos
mandamentos que estamos impossibilitados de cumprir, nos cabe estudá-los – e por tal
estudo alimentaremos aos seus correspondentes órgãos espirituais.

O Prazer Espiritual

O prazer espiritual está além do nosso campo de imaginação. Nós vivemos em um mundo
material limitado e não temos meios de avaliar prazeres incorpóreos, além de nossos
sentidos. Porém, a Torá nos revelou... “É preferível um momento de satisfação no mundo
vindouro do que todos os prazeres deste mundo...” (Ética dos Pais, 4). Apesar de não
termos capacidade de avaliar ou mesmo imaginar a grandeza do prazer existente no Mundo
Vindouro, sabemos que, no nosso mundo, não se encontra nenhum tipo de prazer que
possa ser igualado a ele (Baseado nos comentários do Rabeinu Yona).

Uma nova visão

Ao sair do corpo a alma terá uma nova e ampla visão do mundo. Poderá ver o que não lhe
era permitido conhecer enquanto estava neste mundo. Ela constatará que todo o tempo
dedicado às futilidades, como por exemplo, juntando dinheiro e bens como um fim e não
como um meio, não lhe trouxe nenhum benefício no mundo espiritual — evidentemente
que o oposto se aplica ao tempo dedicado à aquisição de bens com fins de sustentar a
família, ajudar os necessitados, apoiar o estudo e o cumprimento da Torá ou qualquer fim
construtivo e prudente. Àquele que se dedicou a uma vida fútil, resta somente o sofrimento
por tê-la desperdiçado, deixando de conquistar os prazeres eternos. Nossos Sábios nos
ensinam que um momento bem utilizado — realizando uma boa ação, ou arrependendo-se
de algum erro cometido — proporciona um prazer incrível para toda a eternidade (Ética
dos Pais 4, 17).

Cada transgressão cometida ao longo da vida causa dano à alma, distanciandoa de D’us.
Esta só poderá unir- se à Luz do Criador quando estiver livre de qualquer resíduo das
transgressões que cometeu (Rambam, Levítico 4,2). Existem dois caminhos para o
refinamento da alma:

a. Arrependendo-se de seus erros durante a vida.

[ Nota: O Arrependimento: Uma pessoa pode se arrepender de suas transgressões até


mesmo no seu último dia de vida. Mesmo uma pessoa que não tenha vivido de forma correta
durante toda a sua vida poderá não ter nenhuma transgressão lembrada quando for julgada
após a sua morte, caso seu arrependimento seja completo. Quanto mais jovem for a pessoa,
mais elevado o nível de seu arrependimento. Se o arrependimento vier como consequência do
amor a D’us, e não pelo medo do castigo, seu nível é ainda mais elevado, e todas as suas
transgressões se transformarão em méritos. Está escrito no Pirkei Avót (Ética dos Pais) que
todos nós temos que retornar, ou seja, arrepender-nos dos nossos maus atos, um dia antes de
nossa morte. Mas já que não sabemos qual será o dia da nossa morte, devemos nos manter
sempre “limpos” e buscar o arrependimento a cada dia. O que se deve fazer para que o
arrependimento seja completo e a transgressão seja totalmente apagada? Primeiro,
deve-se interromper o ciclo e não repetir a transgressão cometida. Em seguida, deve-se
removê-la de seus pensamentos. E por fim decidir intimamente não repeti-la, arrependendo-se
da transgressão cometida e confessandoa a D’us em suas próprias palavras. Seguindo esses
passos, a transgressão será totalmente apagada (Ver Leis de Teshuvá do Rambam 2,2). Existe
ainda mais um nível de arrependimento superior, no qual, após passar pela etapa inicial,
retorna-se exatamente à mesma situação e mesmas condições em que cometera a
transgressão inicial, antes do arrependimento. E, desta vez, o autocontrole impede que a
transgressão aconteça (Rambam 2,1). Segundo certos comentaristas, as palavras do Rambam
indicam que basta que o arrependimento seja tão forte a ponto de D’us testemunhar que a
pessoa não voltará a cometê-la, mesmo que ela se encontre exatamente na mesma situação
em que se encontrava quando cometeu tal transgressão. Segundo esta opinião, até mesmo
aquele que não volte a ser submetido à prova pode alcançar este nível máximo de
arrependimento (Assim explica o Rabeinu Yona, Shaarei Teshuvá 1,49 e 1,9)]

b. Passando por um processo de retificação ao deixar o corpo (Nefesh HaChaim 1,12;


Ramcha”l, Adir BaMarom).

Estas etapas assemelham-se às etapas de cura vividas por um enfermo que necessita de
tratamento médico. O período de internação no hospital faz-se por vezes necessário para
proporcionar a recuperação e permitir que o indivíduo siga vivendo. Da mesma forma a
alma debilitada necessita curar-se, passando por um processo de purificação — comparado
a um “hospital para as almas” — do qual ela sairá recuperada e estará pura e pronta para o
encontro com a Luz Divina.

“O Caminho Está Aberto Para Todos”

Mesmo aquele que foi educado e acostumado a frequentar centros espíritas ou


organizações idólatras, ao desejar procurar conectar-se diretamente com D'us e abandonar
essas práticas – apesar de parecer em certos casos uma missão impossível – receberá
forças para enfrentar qualquer tipo de dificuldade e alcançar o sucesso.

Aquele Que Criou– Conhece a Melhor Forma de Usufruir

Os benefícios proporcionados pelos preceitos da Torá vão muito além do que os nossos
olhos veem. Inclusive as partes secundárias dos preceitos exercem uma enorme influência.

Traremos um exemplo citado no Talmud: Existe um preceito de segurar quatro espécies


nos sete dias da festa de Sucót (exceto no Shabat). Ao segurá-las, a pessoa cumpre o
preceito. Contudo, existe um procedimento secundário: devem-se sacudir as quatro
espécies nas quatro direções (para direita, para trás, para esquerda e para frente) e depois
sacudi-las para cima e para baixo. Apesar de o preceito ser válido sem esse procedimento
de sacudilo, consta no Talmud (Tratado Sucá 38a) que através deste detalhe secundário do
preceito, além de cancelar desgraças em nosso mundo físico, a pessoa também cancela
fluídos espirituais vindos de todas as direções – a influência das forças do lado da impureza
que são espalhadas através de suas entidades. Ao sacudir as quatro espécies a pessoa
cancela essa força de má influência de sobre si (Maharshá).

O Talmud revelou que este grande benefício é gerado somente pela influência do
procedimento secundário do preceito das quatro espécies. Imaginem, então, qual é a
influência gerada pelo cumprimento do preceito em essência!

Isso significa que ao cumprir os preceitos ditados pelo Criador, automaticamente a pessoa
receberá os maiores benefícios possíveis e estará se afastando de todas as forças
destrutivas – que em determinado momento serão anuladas.

Outros Exemplos
Comer Casher

Aquele que come comida casher, além de estar cumprindo vários preceitos da Torá,
também está recebendo paralelamente vários benefícios extras. O nosso corpo é formado
pela comida que comemos. A comida influencia diretamente em toda a construção do corpo
– tanto no aspecto físico, quanto no espiritual. Nossos Sábios explicam que a comida
nãocasher afeta a pureza do pensamento... Em relação à alimentação proibida – está escrito
na Torá: “... não se impurifique com eles”. A influência da comida proibida pela Torá entra
em todos os órgãos da pessoa, os tornando impuros, e logo distorce os seus pensamentos
(como foi explicado no Talmud – Tratado Iomá 39a; Rabi Chaim Eliahu Shterenberg). Não
estamos nos referindo à capacidade mental da pessoa, e sim ao pensamento e o sentimento
espiritual e Divino. A sensibilidade espiritual voltada para o lado da pureza será afastada,
assim como os sentimentos de elevação espiritual vindo das forças puras. Isso também
causará limitação no entendimento mais profundo dos conceitos da Torá (Rabi Iossef
Pinkassi, Imrê Pi).

Ao contrário, certas pessoas para adquirir mais força de magia e bruxaria, tomavam sangue
de animais com a intenção de conectar-se com forças de impureza (Shu”t Rashb”a 413).

Mezuzá

Aquele que fixa uma mezuzá casher do lado direito de cada batente da sua casa, além de
estar cumprindo um preceito da Torá em cada porta – a cada segundo – cria, através disto,
uma proteção contra as forças de impureza, para que elas não entrem em seu lar (Zohar
267a, Ve'etchanan).

Shabat
O preceito do Shabat é chamado pela Torá de “herança sem limites”. Citaremos alguns
dentre os vários benefícios adquiridos do cumprimento do Shabat. Consta no Talmud que
o Povo de Israel está além da influência astrológica (Tratado Shabat 156a). O nome Israel,
em hebraico, é formado por uma junção de duas palavras, Iashar e E-l– diretamente
(conectado com) D'us. Este status é recebido pelo mérito do cumprimento do Shabat.
Através do Shabat a pessoa testemunha a existência de um Criador e de Seu controle
contínuo sobre a criação; portanto, se coloca por opção sob Sua Providência direta. Esta
conexão se faz no próprio Shabat, quando a pessoa “paralisa” o processo natural de
influência e se conecta direto com a Luz do Criador. Além disso, no Shabat chega à pessoa a
influência para toda a semana. Desta forma, toda a semana estará sob esta influência
sobrenatural. Por isso os nossos Sábios disseram que Israel está além das influências
astrológicas. Mais do que isso, pela conexão adquirida com o cumprimento do Shabat, a
possibilidade do acesso pessoal das forças impuras (através de magias, bruxarias, etc.) se
torna escassa – isto dependerá também de que forma a pessoa cumpre e aprecia o Shabat
(Confira mais detalhes no livro “Saiba o que responder”, capítulo Shabat Shalom).

“Pureza do Lar”

Outro exemplo: a mitsváda “pureza do lar” – não manter relações matrimoniais nos
períodos proibidos pela Torá. Além de a Torá colocar uma grande ênfase neste preceito,
para enfatizar a sua importância, em essência, podemos perceber alguns benefícios
secundários que recebemos ao cumpri-lo:

a. O relacionamento matrimonial no período em que o interior do útero está machucado e


delicado, e o corpo da mulher sem a proteção natural – pois a acidez local necessária para a
sua proteção foi neutralizada pelo sangue, e mesmo depois de terminada a secreção, ainda
pode demorar alguns dias até ela retornar ao nível desejado
– pode causar sérios danos para a saúde da mulher e, inclusive, chegar a causar câncer em
seu sistema reprodutor(para mais detalhes confira “O Livro de Ioná”; “Torá e Ciência”).

b. O homem e a mulher se completam no momento da união matrimonial. Ao se juntarem


em uma união perfeita, também no aspecto espiritual – seguindo as regras estabelecidas
pelo Criador – haverá uma união perfeita. Logo, a emanação Divina se juntará ao casal. A
Luz formada neste relacionamento influenciará todos os campos da vida do casal. Através
de um relacionamento realizado sem “a pureza do lar” este objetivo não será alcançado;
este laço sofrerá uma danificação. Também os frutos que nascerão desta união serão
influenciados pelo nível de pureza do relacionamento.

c. Este preceito é um dos principais contribuintes para o sucesso do casal. Assim consta no
Talmud (Tratado Nidá): como consequência de um período em que o relacionamento
matrimonial não é permitido, as saudades crescem e ambos esperam estivessem se
casando um ao outro, como se novamente. Assim, o

relacionamento não se “deteriorará” com o tempo, como aconteceria naturalmente. As


saudades renascerão a cada mês.
Não é à toa que durante toda a história do judaísmo houve uma grande preocupação no
cumprimento rigoroso deste mandamento. Em qualquer descoberta arqueológica onde
havia assentamentos judaicos também se encontra uma micvê, com os mesmos critérios
legais que até hoje em dia mantemos, porém sem o mesmo luxo com que ela é construída
atualmente.

Imersão na micvê

Quando a pessoa imerge na água (da micvê) aqui no mundo físico, a sua alma imerge nas
águas espirituais (Reshit Chochmá, Shaar Haahavá, 11). Consta no livro Chinuch (173) que
a única maneira de elevar algo de um estado de impureza a um estado de pureza é através
da água. O que seriam as “águas espirituais”? Está escrito (Jeremias 17:13): “Micvê Israel
Hashem”, pois as águas espirituais estão conectadas à influência de D'us. Portanto, ao
imergir-se em uma micvê, a pessoa está se conectando com a influência Divina,
proporcionando ao seu corpo e à sua alma a purificação. Ao seu corpo através da influência
das águas em um aspecto físico, e à alma através da conexão Divina (Confira mais detalhes
no capítulo “Magia & Bruxaria”; “Bruxaria na Água”, “O Burro Enfeitiçado”, nota).

Leis entre uma pessoa e seu semelhante

Por exemplo, os preceitos referentes às relações ilícitas, além de proteger a alma da pessoa
– evitando os danos causados através dos relacionamentos proibidos– também garantem a
honra, o respeito familiar e o bem estar social. Imaginem um mundo em que não existem
suspeitas entre os cônjuges; ou seja, um mundo em que a confiança plena “paira” no
ambiente do lar; onde as pessoas vivem despreocupadas com a traição. Quanta segurança e
prazer se acrescentariam na vida de cada um! Quantos problemas seriam evitados... Um
outro nível de qualidade de vida. Tudo isso simplesmente pela decisão de cumprir os
estatutos do Criador. Ao transgredir os preceitos – além dos danos espirituais causados na
própria alma da pessoa – a pessoa está “minando” o estilo de vida ideal.

O preceito de não roubar: Aquele que se preocupa em ser honesto, além de cumprir um
preceito da Torá e receber grandes benefícios espirituais, estará causando um bem para
toda a sociedade. O roubo acaba com a qualidade de vida das pessoas. Imaginem uma
pessoa que lutou e se esforçou por vários e vários anos em construir um negócio,
conquistando finalmente um padrão de vida mais elevado, para um de seus funcionários,
sem nenhum sentimento, em um golpe, terminar com tudo. Ele faz isso simplesmente pelo
desejo de conquistar o que não lhe pertence. As pessoas andam na rua com medo de serem
assaltadas; não se pode caminhar em vários locais, principalmente no horário noturno. Os
prédios se transformaram em grandes “gaiolas” com seguranças e sistemas de vídeo...
Pessoas responsáveis em se preocupar com as necessidades de determinado público
desviam o capital designado para tal fim, para satisfazer seus próprios interesses, ou
simplesmente depositam os valores em suas contas pessoais, causando fome, doenças e
mortes. Por outro lado, como seria um mundo sem roubo? Quanta tranquilidade, quanta
despreocupação! Simplesmente outro nível de vida... O roubo “rouba” a privacidade e a
qualidade de vida.
Assim também ocorre com relação a todos os outros preceitos: não enganar aos outros, não
agredir fisicamente ou através de palavras, não envergonhar, ajudar aos companheiros em
caso de necessidade, respeitar os pais, etc. Além de construir a alma da pessoa, eles
proporcionam grandes benefícios durante a nossa jornada neste mundo.

Cremado??
O que farão com as cinzas?

Existem pessoas que desejam que cremem os próprios corpos. Este desejo, em muitos
casos, provém de uma boa intenção. Existem aqueles que argumentam que não querem dar
trabalho aos que ficam. Outros preferem saber que as suas cinzas serão lançadas em
determinado local de afinidade, ao invés de ser enterrado e deteriorado na terra. Contudo,
com certeza, antes de tomar uma decisão irrevogável a pessoa deve ter consciência das
consequências que envolvem esta ação. Quando tratamos de temas mais ocultos devemos
saber que nossa visão – por mais louvável que seja – é limitada. Não sabemos com o que
estamos mexendo e as consequências que vai nos acarretar em curto – e, muito menos, em
longo prazo. Caso as pessoas tivessem consciência de tudo o que acontece com aquele que
pediu para que o seu corpo fosse queimado (como será explicado na continuação), com
certeza ela iria retroagir de sua decisão. Para um melhor entendimento do tema traremos o
texto sobre cremação publicado no livro ‘O Místico 2’.

A alma segue o seu caminho...

Nossos Sábios ensinam que no momento da partida (deste mundo), o corpo é anulado em um
sopro. A essência, eterna, permanece; e o indivíduo segue seu caminho, como se mudasse de
cidade... (Alê Shur, Shaar Hamávet)

Poderíamos nos enganar e pensar: “Uma vez que o corpo foi anulado e se deteriorará então
o que importa o que será feito com ele?” Isto é um equívoco, pois mesmo assim é
totalmente proibido cremar o corpo de um falecido ou mesmo participar de qualquer forma
no processo de cremação.

Se o corpo se deteriora de qualquer modo, por que é proibido cremá-lo?

Existem vários preceitos referentes aos cuidados e respeito em relação ao corpo de um


falecido. Caso não fosse relevante o que se passa com ele, por que a Torá seria tão severa
quanto ao seu tratamento? Se tudo termina do mesmo modo, o que importa o que será feito
com os restos mortais de uma pessoa? Por que tantos cuidados? Por que tanto respeito?

O Talmud, depois de uma análise de certos versículos da Torá, conclui que os mortos sabem
o que se passa ao seu redor. Deve-se tomar o cuidado necessário para não se portar diante
de um defunto de uma forma que pode envergonhá-lo, pois, ao fazêlo, eles exclamarão:
“Amanhã eles estarão conosco e agora estão nos envergonhando” (Berachót 18).
Consta em outra passagem do Talmud que nem todos os assuntos podem ser tratados ao
lado de um defunto. Por exemplo, não é permitido estudar Torá ao seu lado. Agora, em uma
dimensão espiritual, fica claro para a alma do falecido quais são os benefícios
proporcionados por esses estudos. Ao ver alguém estudando Torá ao seu lado o falecido
sofre, pois ele já não pode mais estudar e cumprir os preceitos [Nota: Contudo, quando o
estudo é para benefício do falecido e para a sua elevação, é permitido fazê-lo, uma vez que
ele está usufruindo do estudo (Shitá Mecubetset em nome de Hari Migash)].

Segundo outra opinião trazida no Talmud, não se pode tratar diante do falecido de
qualquer tema que não tem relação com o falecido em si. Isso porque ao ver que não estão
se preocupando por ele, e sim com assuntos alheios, o falecido também sofre em sua alma.

Podemos concluir que se até mesmo falar desses temas – uma questão aparentemente
irrelevante e que nada tem a ver com o falecido – não é permitido por lhe causar
sofrimento, imaginem o sofrimento vivenciado por uma alma ao se deparar com uma
cerimônia de cremação, que causa um dano real e direto ao corpo.

Existe um preceito da Torá de enterrar o corpo do falecido (Rambam; Sêfer Hamitsvót 231;
Rambam Avelut 12:1; Sifri Devarim 21:23). Assim como todos os preceitos da Torá, ao
cumprir os preceitos relacionados ao corpo do falecido, além de se estar realizando a
vontade do Criador, também se estará proporcionando benefícios ao morto.

No momento da morte a alma não se desconecta totalmente do corpo. Sempre resta uma
pequena conexão. O processo de elevação da alma está intimamente relacionado com o
processo do enterro e decomposição do corpo. Quem crema o corpo de um falecido já não
tem mais como retificar o dano que lhe foi causado. A alma não pode partir de forma
adequada até que o corpo esteja totalmente decomposto. O enterro proporciona ao corpo e
à alma a possibilidade de passarem por este processo gradualmente. Uma separação
imediata causa à alma uma grande agonia. O enterro é para o benefício da alma do falecido,
e não para o benefício dos vivos.

A alma do falecido não pode entrar em seu compartimento até que o corpo seja enterrado
(Midrash Rute). Pode ser que a alma dessa pessoa precise regressar – ou seja, reencarnar –
de imediato. Contudo, ela só poderá regressar após o seu corpo anterior ter sido enterrado
(Tsit Eliezer, Parte 9:46, em nome do Radvaz).

Mesmo que uma pessoa tenha pedido, antes de falecer, para que os seus filhos não
construam a matsevá (a pedra que se coloca sobre o túmulo); ou para que não recitem o
cadish; ou para que deem o seu corpo para experiências e estudos científicos; ou para
cremá-lo – em todos estes casos não é permitido cumprir o pedido do falecido, pois se ele
estivesse consciente benefícios que os procedimentos dos grandes

regulares proporcionariam à sua alma, ele não teria pedido o que pediu (Beit Nachem,
capítulo Beit Halmin, em nome do livro Iabia Omer6,Y”D 31 e Guesher Hachaim 5). Apesar
de haver pedido em vida para que cremassem o seu corpo, agora, estando no mundo
espiritual, ele já não deseja mais que façam conforme ele pediu (Ierushalmi, Ketuvót 11a).
Em certos casos, por falta de conhecimento, uma pessoa pode desejar que seu corpo seja
cremado; porém, como já citamos, ela estará causando para si mesma um grande problema.
Além disso, vemos que, desde a época dos nossos patriarcas, sempre existiu uma grande
preocupação em enterrar os restos mortais. Os filhos de Isaac enterraram seu paiIsaac
enterraram seu pai 10); Abrahão enterrou a Sarah (como consta no Gênesis 23:9) e
inclusive pagou uma fortuna para fazê-lo. Até mesmo Iossef, que morreu no Egito, exigiu
que seus descendentes garantissem que seus ossos seriam levados para Israel a fim de
serem enterrados (como consta no Gênesis 50:25). Vários Sábios em toda a história
pediram para que seus ossos fossem transportados para serem enterrados na Terra de
Israel– e, de forma alguma–, cremados, para que suas cinzas fossem transportadas de
forma mais fácil. Mesmo o Sumo Sacerdote (na época do Grande Templo), que estava
absolutamente proibido de se impurificar com mortos, era obrigado a enterrar uma pessoa
se não houvesse alguém que pudesse fazer aquilo. Mesmo que isso significasse se
impurificar e desqualificar o seu trabalho (até que ele fosse purificado novamente) [Covets
Beit Hilel, R. Eliahu Shlezinguer].

“Pobre d as pessoas que permitem em vida entregar o próprio corpo para que o
utilizem como material de estudo – e depois o atiram no lixo ou o enterram sem
nenhum cuidado – e que não entendem quanto mal estão causando para sua alma.”
(Tsits Eliezer p. 9, 46, página 188)

Tradição ou Realidade?
Devemos ter em mente que o Judaísmo – a Torá – não é só tradição. Muitas pessoas se
enganam pensando dessa forma. A tradição faz parte do judaísmo, mas não é tudo. A Torá
vai muito além disso. Ela nos revela a realidade da existência; nos ensina a ver e a entender
o mundo de forma real e como nos relacionar com ele para obtermos benefícios reais e
eternos. Recebemos uma grande oportunidade chamada “vida”, e em nossas mãos foi
colocada a opção sobre como preenchê-la!

“Existem vários tipos de pessoas, a saber: os justos e os perversos; os tolos e os inteligentes.


Todos os tipos estão aqui presentes – bem como os afortunados e os necessitados. O mundo foi
criado desta forma para possibilitar que cada pessoa possa proporcionar o bem ao seu
companheiro e, através de suas boas ações, conquistar uma melhor posição no mundo real
– o mundo eterno.

Os justos podem orientar os perversos; os inteligentes podem ensinar aos tolos; os


afortunados podem oferecer apoio aos necessitados. Através desses atos, todos podem
conquistar novos níveis de conexão com a “árvore da vida”.

A pessoa pode optar em seguir simplesmente vivendo – buscando desfrutar ao máximo a vida
–, sem se preocupar com a situação dos demais. “Apesar de esta conduta dar a impressão de
se estar aproveitando a vida, na verdade a pessoa está perdendo as oportunidades que lhe
foram oferecidas, a oportunidade de adquirir em seu tempo passageiro, benefícios eternos”
(Baseado no Zohar Vaigásh 208a).

Uma Pessoa Livre


O que é realmente ser livre? Uma pessoa que não tem força de controlar os desejos, na
verdade não é livre, ela está escravizada por eles, ela não é livre para agir de acordo com a
sua consciência... Ser livre é ter a capacidade de agir independentemente de seus desejos...
Ela poderá agir corretamente, continuamente, mesmo quando os seus desejos pessoais a
seduzem para agir de forma contrária. Desta forma ela poderá dedicar-se em questões que
lhe trarão benefícios reais e eternos; por outro lado, quem está preso às suas tendências
naturais, perderá várias oportunidades de adquirir novos níveis de conquistas eternas que
poderia levar consigo também após a morte...

Por que a Torá é tão rígida a ponto de comparar o cumprimento dos Seus preceitos
com a vida e as transgressões com a morte?

No momento em que a pessoa deixa este mundo, sua alma segue em outras dimensões
espirituais. A morte não atinge a alma, e sim ao corpo exclusivamente. Portanto, aquele que
durante a vida identificou-se somente com o corpo — sem desejar aproximar-se do Criador
— estará desconectado de suas raízes. Neste caso, a morte o atingirá de forma integral. Por
outro lado, aquele que durante a vida identificou-se com a sua alma, desejando ligar-se a
D’us através do cumprimento de Sua vontade, estará conectado às suas raízes — a este a
morte afetará apenas ao corpo de fato.

A partir do conceito descrito acima, podemos entender o ensinamento de nossos Sábios:


“Os justos, mesmo depois da morte são chamados de vivos, e os pecadores, mesmo durante
a vida são chamados de mortos”. Em outras palavras, os justos têm plena consciência de
que a vida real é a vida eterna, não esta vida, mundana e passageira. Focam-se em
realizações que lhes trarão benefícios eternos, procurando unirse a D’us com todo o
coração. Estes vivem para sempre, mesmo depois da morte. E, desafortunadamente,
aqueles que optarem por seguir uma vida dedicada à superficialidade, sem ética ou em falta
com os valores eternos, colocarão ênfase apenas nas preocupações referentes a este mundo
fugaz. Estes últimos serão chamados de “mortos”, pois mesmo durante o seu tempo de vida,
todos os seus esforços terão sido desperdiçados ao investir seu tempo em algo temporário,
que um dia verá seu fim (Alei Shur, Hamávet). Portanto, vemos expressado na Torá:

“...Coloquei diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Tu deves escolher a


vida, para que tu e teus descendentes vivam!”

A Função das Mitsvót

Traremos em seguida a explicação do Grande Sábio R. Chaim Luzzato... De fato, o ser


humano foi criado para desfrutar de um prazer real e completo; este prazer será superior a
todos os outros prazeres conhecidos; ele será fruto de uma conexão hermética com a
Presença Divina – não existe nenhum tipo de prazer comparável a este; contudo, ele deverá
ser conquistado! O Criador preparou um local com as condições ideais, proporcionando à
pessoa que usufrua deste prazer– O Mundo Vindouro. O mundo em que vivemos
atualmente é o caminho que levará a este local. Seria como um corredor que antecede ao
salão. A pessoa poderá caminhar pelos caminhos da vida e se aproximar do objetivo da
criação utilizando dos meios necessários para esta aquisição. Quais são os meios que
levarão a pessoa a esta conexão? Os meios para este fim, são os preceitos que o Criador nos
ofereceu, sendo este mundo físico o único local onde recebemos a oportunidade de cumpri-
los – “o corredor”! Então, após a sua estadia neste mundo, a pessoa poderá usufruir de todo
este prazer que conquistou através desses meios. Em relação a este fenômeno se referiram
nossos Sábios: “Hoje é tempo de realizar e amanhã de receber” (Eiruvin 22a).

Por que D’us não poderia nos entregar todo este benefício de presente? Para que Ele
condicionou este prazer com nossas ações?

Todo projeto tem um objetivo. O objetivo do Criador foi criar criaturas para poder
beneficiá-las. Pois, por definição, o bem deseja proporcionar benefícios aos demais; Sendo o
Criador o bem completo, também a sua Vontade é proporcionar o bem completo para as
suas criaturas. Para este “máximo bem” ser alcançado, foi necessário a criação do mundo
como nós o conhecemos, como explicaremos em seguida...

Como mencionamos no princípio do livro, a vontade do Criador foi nos proporcionar este
bem sem nos causar vergonha em recebê-lo. O valor que colocamos e o prazer que
recebemos de algo conquistado pelo nosso próprio esforço é muito maior do que o valor e o
prazer adquirido por algo que recebemos de presente. Portanto, no primeiro estágio, D’us
criou um mundo de provas e decisões, onde nós temos que nos esforçar e superar-nos para
cumprir os Seus preceitos, e, em seguida, no segundo estágio, D’us criou o local ideal para
nos proporcionar este bem máximo, para cada um segundo as suas conquistas.

O Labirinto

A vida do ser humano pode ser comparada a um complexo labirinto onde, em seu final,
encontra-se uma torre que permite observar todos os caminhos de cima – podendo ver
claramente o destino de cada bifurcação... Porém, quem, todavia se encontra dentro do
labirinto não sabe o destino de cada caminho. Existem caminhos que aparentam aproximar
a pessoa do objetivo final – mas, de fato, estão somente complicando a sua situação; e, ao
contrário, existem caminhos que aparentam estar lhe afastando do objetivo, sendo ele, de
fato, o único que levará a ele– não existindo alternativa. Por outro lado, uma pessoa que já
passou pelo labirinto e se encontra sentada, observando pela janela da torre todas as
opções, poderá guiá-la... Ela está vendo todas as opções estiradas à sua frente; ela sabe
(Messilat Yesharim).

para onde cada caminho levará! Assim também conosco – nos “caminhos da vida” – não
sabemos aonde levará cada decisão; cada opção apresentada poderá estar nos afastando ou
nos aproximando de nossos objetivos... Como podemos identificar? Devemos consultar a
pessoa que já passou por este “labirinto” e está observando todos os caminhos ali da “torre” e
escutar a sua orientação...

Um Tema Para Meditar

Temos o dever de refletir – pois, caso contrário, seguiremos vivendo casualmente, sem
sabedoria, seguindo as futilidades deste mundo até o final de nossos dias, quando teremos
que prestar contas por não termos utilizado do potencial que nos foi entregue. (R. Chaim
Moshe Luzzato, Livro Derech Ets Chaim 186)

A pessoa, na maior parte de seus anos, se dedica aos cálculos de seus negócios neste mundo
passageiro; por que não deveria ela se dedicar e refletir – mesmo por um pequeno período–
diariamente, sobre os seguintes temas: “Quem sou eu? Por que este mundo? O que D’us
espera de mim? O que será no final das contas? Esta é a fórmula para obter sucesso em
nossos dias de vida; através de um pequeno investimento a pessoa colherá grandes frutos.
Para uma pessoa que não reflete sobre estes assuntos, as chances de realmente chegar à
meta desejada serão mínimas. (Derech Ets Chaim página 177)

Primeiramente devemos meditar... Qual foi a intenção de D’us, para que e por que Ele criou
toda esta grandiosa criação? Poderíamos erroneamente pensar “Quem somos nós para
entendermos os feitos de D’us?” Ao contrário... Os segredos do Criador serão revelados
para quem se aproxima dele, como consta nos Salmos (25, 14). Estes segredos contêm a
razão de todos os Seus feitos... todos eles visam um único objetivo... (Derech Ets Chaim
página 188)

A pessoa deve esclarecer qual é a sua obrigação segundo as condições onde ela se encontra;
e não basear-se na atitude ou nas imposições da sociedade. Apesar do objetivo da criação
ser o mesmo para todos, de todas formas, cada um deve cumprir o seu papel segundo as
condições onde se encontra – ou seja, segundo as condições que recebeu; portanto, não é
aconselhado copiar os feitos de outras pessoas... Ou desejar estar na posição de seu
companheiro... As condições de cada um variam de acordo com a sua função. Cada um
possui a sua própria função, portanto, não existem duas pessoas exatamente nas mesmas
condições.

Devemos analisar os nossos atos e não devemos acreditar em tudo o que ouvimos. A única
forma de retificar a nossa forma de atuar é analisando o nosso comportamento e pensar em
soluções para aperfeiçoá-lo gradualmente.

Devemos refletir sobre “os dias que virão”, uma vez que eles serão mais longos que os dias
de nossa vida atual e, ali, não haverá mais a possibilidade de nos aprimorarmos como
pessoas.

Não devemos construir nossas vidas baseando-nos nos conselhos daqueles que se
enfocaram unicamente na obtenção do sucesso mundano; deixando de lado a sabedoria
daqueles que nos proporcionam também o sucesso para toda a eternidade. Uma vez que no
final das contas todos perecerão, o esforço em acumular aquisições mundanas é em vão...
Devemos averiguar os temas da vida verdadeiramente e, desta forma, adquirir sabedoria...

Tudo o que nós fazemos – de verdade – está sob o controle do Criador; devemos respeitar
os Seus Mandamentos – pois, para isto nós fomos criados; devemos ter sempre em mente
que cada ato será analisado
– tanto os bons quanto os outros... (Baseado em ensinamentos do Rei Salomão em Kohelet).

Pontos para pensamento, em especial para aquele que se encontra em uma situação
delicada
Será que estou devendo algo?

A pessoa deve refletir para se lembrar se não deve nada a ninguém, caso ela se lembre que
está devendo ou está com algum objeto emprestado de outra pessoa em sua propriedade,
ela deve devolver. (Maavar Yabok, Siftei Tsedek, 9)

Será que fiz algo de errado?

Pensar e refletir sobre ações e decisões que não foram


corretas e retificá-las.
Será que eu ofendi alguém?
Pensar se agrediu ou ofendeu alguém. Caso afirmativo, ela
deve se arrepender e se desculpar.
Quem pode me ajudar?

É aconselhado ao enfermo somar aos seus tratamentos médicos as rezas pedindo a ajuda
de D'us, além de somar méritos através de atos de benevolência. (Minchat Itschac em nome
do Aruch Hashulchan)

Os pedidos do enfermo são mais escutados. Portanto, é aconselhado àquele que se encontra
doente não deixar de pedir pela ajuda Divina – segundo as suas forças – inclusive se o
enfermo não tem forças de pronunciar palavras, deve pedir em seu coração pela
misericórdia do Criador (Maavar Yabok, Siftei Tsedek, 20).

Deixar a presença presente

A pessoa seguirá colhendo os frutos de suas ações. Assim como aquela pessoa que planta
uma árvore pode colher de seus frutos todos os anos, da mesma forma, aquela pessoa que
deixa no mundo algo que segue proporcionando o bem estará recebendo méritos de suas
consequências lá no mundo espiritual.

A Mensagem
Chegamos ao mundo sozinhos e partimos sozinhos. Cada
pessoa é exclusiva e possui uma função exclusiva.
Em várias situações a pessoa deixa que a sociedade construa os valores de sua vida. Ela
deixa de cumprir os valores que ela sustenta para se ‘entrosar’ à sociedade.

Por um lado, em um período de enfermidade, a pessoa pode valorizar os familiares e os


amigos que estão preocupados e dispostos em sacrificar de seus afazeres para ajudá-la ou
simplesmente estar junto a ela demonstrando o quanto ela é querida e amada. Infelizmente,
muitas vezes também é revelado o quanto ela está praticamente sozinha no mundo.

De fato, no futuro, lá no mundo espiritual, a pessoa terá que prestar as contas sozinha. Ela
recebeu uma função exclusiva e sobre ela terá que prestar as contas. É a própria pessoa a
responsável pelos os seus atos e pelas suas decisões. Pode ser que alguém a tenha
influenciado a seguir certo caminho, ou que a levou a deixar de cumprir os preceitos os
quais deveria ter se preocupado em cumprir... de todas as formas, o ser humano foi criado
com consciência e inteligência para discernir e decidir o que fará de sua vida – optar pelo
local onde conectará a sua alma – para sempre. Para toda a eternidade. Uma posição
exclusiva!

“A alma da pessoa chega em um mundo ‘escuro’ (ou seja, neste mundo, onde os valores
verdadeiros e eternos estão ocultos). A alma está ‘sedenta’ para ver a Luz Superior.
Isto pode ser comparado ao grande desejo daquela pessoa sedenta que deseja tomar
um pouco de água.”

(Baseado em Zohar, Vayakel 210b)

A essência da alma de uma pessoa vai sendo formada a partir de suas ações. Se os seus atos
são vazios, a sua essência também é vazia (Baseado em Rashi, Noach 6:9). Para cada dia de
vida a pessoa recebeu uma função e também a força necessária para realizá-la. No
momento que a pessoa deixa este mundo todas as partes de sua alma se juntam–
acompanhadas pela impressão deixada pelos seus atos – e partem para o mundo espiritual
(Baseado em Ór Hachaim Gênesis 47:27).

O Talmud relata sobre uma pessoa que durante toda a sua vida seguiu os seus instintos
naturais e desprezava as Leis da Torá. Em seu último dia de vida, após uma grande
decepção – ao cumprir um de seus maiores desejos – se despertou ao arrependimento e,
com todo o coração, se arrependeu de suas transgressões e recebeu sobre si os Preceitos da
Torá. Sobre ele o Talmud escreve:

“Existem pessoas que conquistam o seu mundo vindouro em um só momento!!!”

Apêndices
Apêndice I:

“Por que justo eu?”


Apêndice II: Casos relacionados ao tema de tratamento
médico
Apêndice III: Antecipar a morte de nosso semelhante
Apêndice I
“Por que justo eu?”
Os pensamentos

Nos pensamentos de uma pessoa, ao se encontrar em uma situação de dificuldade, poderá


surgir perguntas do tipo:

“Por que justo eu?”


“O que foi que eu fiz para merecer isto?” “O que D’us está querendo de mim?”

Ou em relação a um ente querido:


“Ele é tão bom, por que tinha que passar por tudo isso?” “Justo
ele que se preocupava com todo mundo!?”

De fato, ‘cada caso é um caso’ e não existe uma fórmula única para explicar a todos eles.
Além do mais... Que pessoa estaria apta a conhecer realmente o motivo dos acontecimentos
de cada um? Contudo, a Torá nos revela conceitos que explicam os motivos que podem ser
causas de dificuldades e sofrimentos. Em seguida traremos um trecho extraído do livro
‘Saiba o que responder’ para desenvolver e organizar o tema – não com o objetivo de
explicar cada caso em especifico, e sim, trazer um entendimento conceitual – geral –
baseado na sabedoria da Torá.

O Motivo dos Sofrimentos

Por vários motivos uma pessoa boa pode vir a sofrer. O ser humano, por suas limitações,
não possui meios de entender o motivo de cada sofrimento em particular; portanto, não
estamos aptos a julgar outras pessoas – dizendo que os seus sofrimentos são consequências
de “tal” atuação ou de “tal” comportamento.

De fato, para cada sofrimento existe um motivo; para isso existem regras determinadas
pelo Criador – elas serão explicadas em seguida. Cada sofrimento se enquadra em alguma
dessas regras.

“Para cada pessoa D’us deu uma parte da sabedoria que permite conhecer o funcionamento
do mundo. No entanto, nenhum ser humano é capaz de conhecer e entender todos os
caminhos traçados pelo Criador, tampouco é capaz de saber o momento de sua morte”
(Kohélet - Eclesiastes 3, 11 com Rashi)

Devemos ter em mente que cada situação em nossas vidas é criada com o objetivo de
consertar– ou seja – completar o objetivo pelo qual nós fomos criados, com uma grande
precisão, a partir de uma visão global de toda a Criação.

Para que seja possível entender como todos os acontecimentos estão relacionados, o ser
humano teria que inteirar-se de todos os detalhes da Criação; e isto está além de sua
capacidade. Porém, os conceitos gerais para entender as regras da Providência Divina em
relação aos sofrimentos nos foram reveladas – Este conhecimento por si só já é uma grande
aquisição e nos oferecerá meios para que possamos nos relacionar com a realidade de
forma produtiva.

Neste capítulo traremos os conceitos básicos que explicam os motivos do sofrimento de forma
geral. Apesar de não estarmos aptos a julgar outras pessoas pelos sofrimentos com os quais
elas se encontram; tampouco estamos capacitados a entender o motivo do sofrimento em
cada caso em particular, de todos os modos, os conceitos nos foram revelados...

Conceitos

1. Causar uma reavaliação dos atos – de forma geral; ou consertar determinada


transgressão – de forma particular

Caso a pessoa perceba que sofrimentos chegaram a sua vida – ela deve fazer uma análise de
seus atos, como está escrito (Eichá 3, 40): “Procuremos analisar nossos caminhos e
retornaremos para o Eterno” (Berachót 5a).

Este tipo de sofrimento é causado pelos nossos próprios atos, ele tem como objetivo
despertar a pessoa a apegar-se mais aos valores verdadeiros e eternos. Inclusive uma
pessoa justa, por cometer certa transgressão ou por algum costume errôneo, poderá passar
por uma situação de sofrimento para proporcioná-la a retificação e o aprimoramento.
Assim, cabe a cada um descobrir em que áreas falhou e onde cometeu erros – refletir e
arrepender-se dos mesmos.

Caso, após a análise, não encontrar nenhuma falha – provavelmente o motivo é por não
dedicar-se suficiente ao estudo da Torá – como está escrito:“Feliz o homem que, por ser
repreendido por D’us, se interessa pelos ensinamentos da Torá” (Tehilim 94, 12 com o
comentário do Metsudat David).

2. “Acerto de contas”

Geralmente, a falta do conhecimento global dos acontecimentos causa a impressão de uma


aparente injustiça...

Por exemplo, imaginem a uma pessoa que começa a assistir pela primeira vez o capítulo 26
de uma novela... Quantas perguntas surgirão?

“Coitadinho... Por que ele foi preso?” “Por que essa mulher está no hospital?” “Por que essa
jovem está gritando com o pobre homem... O que foi que ele fez para ela?” etc., etc...

Porém ela não sabe que no capítulo 6, esse homem que está sendo preso, havia assaltado
um museu; no capítulo 20, a mulher que se encontra no hospital havia dado à luz; no
capítulo 25, o “pobre homem” tentou agredir a jovem; etc., etc...
Consta no Midrash que, quando Moshe Rabeinu pediu para que D’us lhe mostrasse Seus
caminhos, Ele mostrou para Moshe um acontecimento aparentemente injusto. Moshe
percebeu que a bolsa de um homem havia caído e ele partiu deixando a bolsa para trás. Logo
chegou uma outra pessoa, encontrou a bolsa e se foi com ela. O primeiro homem retornou
para procurá-la e deparou-se com outra pessoa que se encontrava naquele local.
Ele o repreendeu: “Você pegou a minha bolsa!”
Esta outra pessoa respondeu honestamente: “Eu não pegueinada!”
Então o primeiro homem, pensando que esta pessoa roubou a sua bolsa, agrediu-a
fortemente e ela morreu.
Ao ver esse episódio, Moshe Rabeinu – abismado – pediu para D’us explicar-lhe o ocorrido.
Atendendo a seu pedido D’us lhe explicou: “Tudo o que você viu é justo; o primeiro homem – o
“dono” da bolsa – de fato, é um ladrão, a bolsa que estava em sua posse havia sido roubada
justamente dessa pessoa que a encontrou – recuperando dessa forma a sua própria bolsa; e
essa última pessoa – que foi assassinada – havia matado o pai desse homem que o matou.
Logo o filho veio acertar as contas de seu pai (porém, a história não terminará assim; pois,
esse novo assassino, também será julgado pelo assassinato que cometeu, logo, também ele
terá que acertar as contas... como está escrito no Tratado Ética dos Pais (Cap.II): “...Pelo fato
de ter afogado uma pessoa, você foi afogado; porém, finalmente, quem te afogou também será
afogado”). [Moshav Zkenim, Baalei HaTosfot, Mishpatim]

Em seguida traremos um caso semelhante onde o famoso Sábio, conhecido como Baal Shem
Tov, explica os motivos de aparentes injustiças através do conceito da reencarnação.

3. Reencarnação
3a. “Acerto de contas” de outra reencarnação

Uma das regras reveladas – explica que uma das causas do que ocorre com as pessoas neste
mundo é causado pela própria conduta da pessoa em outra reencarnação; isso ocorre
segundo os critérios estabelecidos pelo Criador para completar todos os temas pendentes.
As contas que não foram acertadas em uma mesma reencarnação serão acertadas em
outra...

Por exemplo, certas crianças nascem com alguma deficiência física, com problemas de
saúde ou com um nível de pobreza excessivo como consequência de sua vida anterior
(Chafets Chaim, Parashat Haazinu); uma pessoa que matou alguém poderá trazê-la de volta
em outra encarnação, como seu filho por exemplo. Assim, da mesma forma que ela o tirou
deste mundo terá de fazê-lo regressar (Ramak no livro Shiur Chochmá); uma pessoa que
roubou algo de outra pessoa e não devolveu, os dois poderão voltar em uma nova
encarnação, e o furto será reembolsado (Gaon de Vilna, Mishlei 14,25; em seguida traremos
outra história do Baal Shem Tov para ilustrar este conceito). A alma da pessoa que roubou
não terá conserto até que reembolse o furto (Chafets Chaim, Sfat

Tamim cap.4).

Certas condições em que uma pessoa se encontra na sua vida atual podem ter sido
determinadas por atos cometidos em outras vidas. A propósito, esta é uma das explicações
para o fenômeno aparentemente injusto do sofrimento que ocorre com as pessoas justas
(Livro Derech Hashem, “Os Caminhos de D’us”, parte 2 cap.3). Está escrito no Zohar (Zohar
Chadash, Ki Tetsê) – possivelmente serão decretadas algumas dificuldades na vida de uma
pessoa que em sua vida anterior não tenha sido tão justa.

D’us poderá dar uma nova oportunida de para a alma regressar e concretizar o objetivo
destinado originalmente. Porém, certas condições serão impostas à nova jornada. Estas
condições serão necessárias para retificar os atos realizados na encarnação anterior. Ao
deparar-se com dificuldades em sua vida atual – concedida como uma oportunidade de
reparar o dano em sua vida anterior – deve-se ter em mente que o mérito de cada ato será
proporcional ao esforço exigido em sua realização. Estas dificuldades exigirão da pessoa
um acréscimo de esforço para superá-las. E, evidentemente, o reparo para sua alma
também será maior, chegando a poder retificar todo o mal causado em sua vida anterior (O
Místico Cap.

Reencarnação).

[Nota: Uma alma poderá regressar a este mundo diversas vezes, em diferentes corpos, e assim poderá consertar o que a
prejudicou em vidas anteriores, ou completar qualquer assunto que tenha ficado pendente. No final de todo este caminho,
depois de todas as reencarnações, a alma será julgada de acordo com sua atuação em todas as vidas e situações que viveu
em cada uma delas. Certas condições em que uma pessoa se encontra em sua vida atual podem ter sido determinadas por
atos cometidos em outras vidas. A propósito, esta é uma das explicações para o fenômeno aparentemente injusto do
sofrimento que ocorre com as pessoas justas (Livro Derech Hashem, “Os Caminhos de D’us”, parte 2 cap.3). Em alguns casos
a alma regressará a este mundo com um novo corpo para fazer determinados reparos; mas, também existe a possibilidade
de que uma alma seja restaurada no próprio plano espiritual, tornando desnecessária a reencarnação (Zohar, Shlach
Lechá 162a).]

Um dos alunos do Sábio Baal Shem Tov, pediu para que seu mestre lhe explicasse o motivo
pelo qual o Zohar trouxe o tema da reencarnação justo na passagem da Torá que explica
sobre as leis de perdas e danos (Parashat Mishpatim)... Em uma certa oportunidade o Baal
Shem Tov disse para ele viajar a um determinado local que se encontrava em um bosque, ali
ele encontraria uma árvore e uma fonte de água embaixo dela; pediu para que ele esperasse e
observasse o que aconteceria; e quando fosse seis horas em ponto viesse procurá-lo. O aluno
viajou para o local indicado por seu mestre e logo percebeu que uma pessoa armada chegava
com seu cavalo; ela estava cansada... comeu dos frutos, tomou da água e seguiu a viagem...
porém, ele seguiu sem a carteira, pois havia esquecido ali no local. Depois, chegou ali outra
pessoa que, quando estava pronta para descansar embaixo da árvore, encontrou a carteira, e
foi embora com ela. Logo depois chegou ali uma pobre pessoa que estava cansada, comeu o
pão que trazia consigo, tomou da água da fonte e deitou-se
primeira
para descansar. Então, chegou a pessoa que havia esquecido a

carteira... Ele perguntou para o pobre homem que descansava embaixo da árvore onde estava
a carteira que havia esquecido ali... Ele respondeu honestamente que não sabia. A pessoa que
havia esquecido a carteira não acreditou no que ouvia e espancou fortemente o pobre homem
exigindo que o devolvesse a carteira...
Às seis horas em ponto o aluno de Baal Shem Tov foi procurá-lo em sua casa, como o
combinado, e contou para ele tudo o que havia presenciado. Então o Baal Shem Tov lhe
explicou... “Em uma outra reencarnação, a primeira pessoa – que havia perdido a carteira
– devia a mesma quantia de dinheiro que se encontrava na carteira para a segunda pessoa
que a encontrou e não lhe havia pago; naquela outra reencarnação, eles foram para um
tribunal onde o juiz era – nada mais e nada menos – que essa terceira pessoa que foi
espancada; naquela outra reencarnação – como juiz – ele havia atuado negligentemente em
seu veredicto; ele isentou o culpado de pagar a dívida sem averiguar o tema devidamente;
portanto, ambos regressaram e se encontraram nesta nova reencarnação para acertar as
contas... A primeira pessoa finalmente pagou a sua dívida para a segunda; e o juiz recebeu o
seu castigo por julgar com negligência.
Dessa forma o Baal Shem Tov explicou para o seu aluno o motivo do Zohar explicar o tema da
reencarnação justo na passagem da Torá que trata das leis de perdas e danos. [Baal Shem
Tov Al Hatorá, Mishpatim, Heará 1; vide Hakdamá Sefer Haguilgulim com Matok Midvash
página 5]

3b. “Mazal” – As condições de vida necessárias para o


cumprimento de sua função

Às vezes, a situação de sofrimento que a pessoa se encontra, é parte intrínseca de sua


função no mundo – ou seja, superar as suas provas através do cumprimento das mitsvót
nestas condições de dificuldades é a maneira desta pessoa cumprir com a missão que lhe
foi designada; possivelmente, esta situação é um fruto de sua vida em outra reencarnação.
Neste caso, mesmo tendo conquistado grandes méritos, a sorte da pessoa não mudará,
como consta no Talmud (Tratado Taanit 25a) em relação ao Rabi Elazar ben Pedat, que
apesar dos seus grandes méritos, nunca conseguiu mudar a sua má sorte (Michtav
MeEliahu parte 4, Páginas 98 a 100). Assim explica o Zohar (Tikun 69, folha 100b), que
apesar do Rabi Elazar ben Pedat ter sido um justo perfeito, uma vez que veio consertar uma
transgressão que cometeu em outra encarnação, recebeu uma sorte (mazal) desfavorável
em suas condições de vida– pois somente desta forma poderia consertar o estrago que a
transgressão de outra vida causou em sua alma.

4. Meio de adquirir benefícios

Existem dois tipos de acontecimentos na vida de uma pessoa: a. quando o acontecimento


serve de meio para alcançar um objetivo; b. quando o acontecimento é o próprio objetivo.

a. Os acontecimentos que nos chegam como objetivo


– Este tipo de acontecimento se enquadra em um dos motivos enumerados neste capítulo.

b. Os acontecimentos que nos chegam como um meio


– Eles servirão de meio para alcançar alguma meta; ou seja, através deles chegará à pessoa
– ou a um terceiro – um outro acontecimento como objetivo – Por exemplo, a vaca de uma
determinada pessoa quebrou a perna e, como consequência deste transtorno, ela terminou
encontrando um tesouro enterrado no local... (Midrash Eliahu Hanavi)
Está escrito explicitamente em Isaias (57,1-2 com Rashi): “O Tsadik faleceu e as pessoas não
entendem que, pelo mal que virá em um futuro próximo, ele faleceu”; as pessoas pensarão que
não existe justiça (Malbim) em vez de pensar “Por que será que eles faleceram?”; Porém D’us o
retirou deste mundo para o seu próprio bem; para partir deste mundo em paz e não ver o mal
que virá (em seguida)...

5. Estímulo

Uma pessoa de nível intermediário, ou mesmo de nível elevado que, todavia possa alcançar
novos níveis espirituais, poderá receber algum tipo de sofrimento como estímulo – algo
que fará a pessoa quebrar a rotina diária e intensificar o seu aprimoramento pessoal e
espiritual.

D’us não quer que a pessoa se desvie de seu objetivo


– de sua função – é uma pena desperdiçar uma conquista que lhe trará frutos para toda
eternidade por algum motivo supérfluo – portanto, por algum mérito adquirido, certos
sofrimentos poderão chegar à pessoa para despertá-la. Caso ela não perceba a mensagem,
então poderá receber novos sofrimentos como expiação.

Às vezes, certos acontecimentos poderão vir para nos impedir de concretizar uma ação que,
apesar de nos parecer ser correta, por algum motivo desconhecido, não será para o nosso
bem...

O Grande Sábio conhecido como Chafets Chaim, tentou algumas vezes mudar-se para a Terra
de Israel. Estranhamente, percebeu que, a cada tentativa de mudança, sucedia algum tipo de
impedimento. O Sábio recebeu este fato como um sinal Divino para que não deixasse o lugar
onde estava vivendo – pois percebeu que, por algum motivo desconhecido, havia algo o
impedindo de fazê-lo (Sábio Yehuda Ariê no livro Kuntras sheelót metsuiót, parte 3, página
90). [Nota: Não se deve extrair conclusões a partir de sinais irracionais; porém, quando o
sinal observado tem relação direta com a finalização ou realização de alguma tarefa— como
no exemplo supracitado, em que o Sábio Chafets Chaim tenta finalizar uma ação e percebe
que há algo o impedindo de fazê-lo — a conclusão segue uma sequência lógica então, o
surgimento de repetidos obstáculos pode ser interpretado como um sinal de D’us para que
esta ação seja interrompida. É claro que cada caso terá que ser analisado segundo o seu
entorno (Vide O Místico Cap. Crenças vãs e superstições)]

6. Expiação
6a.

Expiação pessoal

Moshe Rabeinu em uma profecia – querendo entender este tema – pediu para D’us uma
explicação... “Por favor, mostre-me os Seus caminhos...” – perguntou Moshe a D’us – “Por que
para certos justos tudo vai bem... Porém, para outros, ocorre sofrimentos?”
Moshe recebeu a resposta... “Para uma pessoa totalmente justa– tudo vai bem; porém, para
um justo não completo– ou seja, que cometeu certas transgressões – ocorrerá sofrimentos.
Uma pessoa totalmente perversa tem uma vida sofrida; porém, uma pessoa perversa que
possui méritos – por certas boas ações que realizou – poderá encontra-se com boas condições
de vida...” (Talmud Berachót 7a).

Consta no Talmud (Kidushin 39b com Rashi): Todas as pessoas que seus méritos são
maiores que suas transgressões – provavelmente – alguns sofrimentos virão a ela; ela
poderá ser considerada, pelo público de forma geral, um transgressor; eles pensarão: “Ora,
se ele fosse uma pessoa justa, por que haveria de sofrer?” Por outro lado, todas as pessoas
cujas transgressões são maiores que seus méritos – provavelmente – receberão benefícios;
ela poderá ser considerada, pelo público de forma geral, um justo que cumpre todos os
preceitos da Torá; eles pensarão: “Certamente todos esses benefícios vieram a ele pelo
mérito de suas boas ações...”. Como podemos entender esta passagem do Talmud? Justo o
oposto!?

Uma pessoa que possui mais méritos do que transgressões – a Providência Divina se
preocupará em acertar as contas dela neste mundo – para consertá-la; possibilitando-a
chegar de forma digna no mundo espiritual e usufruir dos méritos conquistados pelos seus
bons feitos; portanto, alguns sofrimentos virão a ela; portanto, parecerá aos olhos do
público – que não conhecem os caminhos da Providência Divina – um transgressor; o
contrário acontece com uma pessoa cujas transgressões superam os seus méritos – que
receberá benefícios neste mundo como recompensa dos bons feitos realizados por ela,
deixando de receber os benefícios no mundo espiritual.

6b. Expiação de toda geração

Uma pessoa justa pode receber sofrimentos para expiar as transgressões de outros
indivíduos que vivem em sua geração. Uma vez que o justo recebe esses sofrimentos de
forma correta, trará benefícios para toda a geração e, por sua vez, o próprio justo – que
serviu de meio para todo esse benefício – usufruirá de uma grande elevação espiritual – ele
receberá uma posição especial para a eternidade.

Às vezes existe um duro decreto para a geração – e o justo com os seus sofrimentos –
revoga o decreto salvando a todos.

7. Concluir determinadas metas da Criação

Com o aumento das transgressões – a clareza espiritual e o bem real ficaram cada vez mais
ocultos. O mundo encontra-se em uma situação muito ruim (degradado), de todas as
formas, o Criador fará com que tudo chegue a seu devido conserto.

Uma pessoa que cometeu uma transgressão fez com que o bem se ocultasse, portanto ela
própria é que deveria servir de meio para recompor o mal que causou; porém, nem sempre
ela está capacitada para este fim; portanto, um justo íntegro, poderá consertar o que os
outros estragaram
– Desta forma, ele também receberá novos méritos e suas forças serão renovadas –
inclusive poderá consertar os estragos feitos em outra geração... é claro que esta pessoa se
encontrará em uma posição eterna mais elevada.

8. Provar a pessoa e proporcioná-la atingir o máximo de seu potencial.

Existem situações de sofrimentos que vem para provar a pessoa – para testá-la de acordo
com o nível em que ela se encontra. Ao passar pelas provas, ela será duplamente
recompensada e seus méritos multiplicados. De acordo com o nível de dificuldade será o
nível do benefício conquistado. [Para expressar este conceito traremos uma passagem
extraída da obra“O Livro de Yona” (capítulo O Poço de Luz de Rabi Akiva)]

Raban Gamliel, um Sábio que viveu a cerca de dois mil anos atrás nos relata que uma vez
estava viajando em um barco e viu outro barco se romper e naufragar. Sentiu muita dor em
especial pela vida do grande Sábio Rabi Akiva que se encontrava naquele barco.
Raban Gamliel, após ter chegado de viagem, surpreendeu-se ao ver Rabi Akiva chegar e se
ocupar com o estudo de Torá na sua frente. Raban Gamliel impressionado perguntou ao Rabi
Akiva: "Quem te salvou?"
Rabi Akiva respondeu: "Uma tábua que se soltou do barco apareceu perante mim...", então
Rabi Akiva se agarrou a esta tábua. Rabi Akiva continuou a narrar: "...Quando uma onda do
mar vinha em meu encontro eu mergulhava a minha cabeça dentro da água, até que a onda
passava por sobre mim e continuava adiante".
Desta forma Rabi Akiva aproveitava do impulso da onda, "onda traz onda", até que chegou a
terra firme e se salvou.
Nossos Sábios revelaram que por trás do significado simples desta história, ela foi escrita no
Talmud também para nos transmitir ensinamentos em outro nível de entendimento, assim
como as demais histórias que foram relatadas no Talmud.

Análise do relato em outro nível de entendimento

Em outro nível de entendimento, o mar também faz uma alusão a este mundo, as ondas uma
alusão aos sofrimentos que a pessoa passa em sua vida e a água alusão à Torá.
Rabi Akiva explicou: "Quando uma onda do mar vinha em meu encontro...", ou seja, neste
outro nível de entendimento, quando uma dificuldade ou sofrimento aparece na vida de uma
pessoa...
"(...) eu mergulhava minha cabeça dentro da água...", ou seja, neste momento de dificuldade e
sofrimento a pessoa deve fazer uma introspecção, ocupar a sua cabeça e analisar como
aperfeiçoar os seus atos, como melhorar suas qualidades pessoais e como cumprir melhor
com suas responsabilidades neste mundo se baseando na sabedoria da Torá ("mergulhar a
cabeça dentro da água")... "até que a onda passava por sobre mim...", desta forma Rabi Akiva
aproveitava o impulso da onda, "onda traz onda", até que chegou a terra firme e se salvou, ou
seja, caso nós atuarmos desta maneira nos momentos de dificuldade, nós estaremos crescendo
como pessoa, as dificuldades vão passar por nossas vidas, e ao superá-las, nós estaremos
usando do "impulso" deixado para o nosso aprimoramento pessoal e crescimento espiritual, e
assim, "impulso traz impulso" estaremos conquistando novos níveis de formação pessoal.
Em uma nova análise podemos concluir que na verdade tanto o mar quanto as ondas são
formadas de água, ou seja, na realidade, nossas vidas e as dificuldades ou os sofrimentos que
passamos fazem parte de um grande cenário no qual o único objetivo é nos dar as condições
necessárias para que possamos atingir o máximo de nosso potencial.

Rabi Akiva passou por várias dificuldades em sua vida, somente com quarenta anos começou
a se dedicar com muita dificuldade ao estudo da Torá, passou pela destruição do Segundo
Templo, destruição da grande cidade de Beitar, passou por duros decretos e inclusive foi
aprisionado. A última e maior "onda" que passou pela vida de Rabi Akiva foi o momento de
sua sofrida morte, porém mesmo neste momento ele não quis perder a oportunidade de
aproveitar o “grande impulso” que lhe estava sendo proporcionado. Portanto, também neste
momento ele recebeu sobre si a unicidade de D’us, reconhecendo que inclusive aquele difícil
episódio fazia parte de um grande cenário criado para o seu crescimento pessoal. O Talmud
(Berachót 61a) conclui este relato exclamando “Feliz é Rabi Akiva cuja alma partiu enquanto
recebia a unicidade de D’us (inclusive naquele momento tão difícil), feliz é você Rabi Akiva
que está convidado a entrar diretamente no Mundo Vindouro”.

Conclusão...

É claro que não devemos julgar uma pessoa pelos sofrimentos em que ela se encontra,
tampouco temos capacidade de entender cada caso em particular – porém os conceitos
gerais nos foram entregues... Devemos ter em mente que a essência de cada acontecimento
é aproximar a Criação do objetivo pelo qual ela foi criada; todos esses temas são
controlados pelo Criador. Atualmente, por nossa limitação física, não é possível alcançar
uma visão suficientemente clara para entender o motivo real de cada caso em particular;
esta visão nos será entregue no momento em que finalmente o objetivo da Criação for
concretizado.

“O que D’us quer de mim?” “O que eu tenho que melhorar?”

No momento em que me levavam no hospital em uma cadeira de rodas para a sala de


operações, pensava que talvez tenha chegado a hora de me encontrar com o Criador.
Não sabia como acordaria da operação, tampouco se acordaria...
Pensava profundamente em que eu poderia ainda me preparar para um encontro tão
impressionante como este.

O que eu direi lá... Vivenciava um sentimento de arrependimento profundo de tudo de errado


que fiz em minha vida, não sabia exatamente de que, porém, de forma geral.
Eu pensava: “Se houve algo que fiz contra a vontade Dele ou que não fiz algo da forma que
era esperado por Ele... peço desculpas”. Gostaria de ser uma pessoa melhor. Não estudei
suficiente a Sua Torá e não sabia de várias coisas que provavelmente eu transgredi.

Pedia pelo sucesso da operação com todo o sentimento... porém, em paralelo pensava: “Para
que eu quero tanto seguir vivendo?” Naquele momento as atrações da vida fútil não me
molestavam, eu vivenciava e enfrentava um sentimento da ‘verdade’
Eu estava longe de ser atraído por todas essas formas de passar a vida em vazio – viver
futilmente.
Queria saber, agora na presença do Criador, o que poderia dizer, oferecer... que benefício eu
poderia proporcionar e adquirir caso Ele me concedesse mais tempo de vida? Será que para
eu seguir a perseguição de prazeres fúteis seria motivo para que minha vida fosse ‘alargada’?
Agora, naquele momento, tudo estava claro, o que realmente eu deveria fazer e me ocupar.

Com todo o coração disse a D’us: “Se você me deixar seguir vivendo eu me comprometo a
estudar os Seus caminhos, estudar Torá e cumprir a Sua vontade, de forma completa, dentro
de minhas possibilidades... Sem desculpas... D’us, é para isso que eu lhe peço seguir vivendo,
quero construir uma família com os valores de Sua Torá... Se não, como eu poderia me
encontrar com Você? Como eu poderia enfrentar essa nova realidade a qual eu
– sinceramente – não investi nela praticamente nada? D’us, está claro para mim que é por
este motivo eu quero seguir vivendo, por favor, me dê esta oportunidade”.

Lembro-me que me colocaram na mesa de operação enquanto pensava em minha nova


relação com o Criador e logo perdi a consciência pelo efeito da anestesia geral que me
colocaram.
Foram várias horas de operação, muito delicada, porém, graças a D’us, foi um sucesso
tremendo.
Inclusive o pós-operatório e a recuperação foram algo além de qualquer expectativa.

Um tempo depois da operação, eu me lembro que fui fazer fisioterapia para recuperar os
movimentos e após a segunda consulta a médica (fisioterapeuta) estava impressionada e me
disse que houve uma melhora incrível e que eu já não necessitava mais retornar.

Depois disto, cumpri com a minha palavra e nunca me senti tão bem como me sinto,
estudando e cumprindo os preceitos de Quem me criou e me deu um novo crédito de confiança
para que eu possa conquistar novos méritos e uma nova relação com Ele.

[Nota: Depoimento de um velho conhecido que passou por um período muito difícil após descobrir um tumor perigoso
que crescia em sua coluna vertebral e que, graças a D’us, foi operado com sucesso e agora está curado.]

Apêndice II
Casos relacionados ao tema de tratamento médico
Uma pessoa em coma

Em um caso onde o paciente possa seguir vivendo por mais tempo, existe a obrigação de
tratá-lo, mesmo quando se trata de uma pessoa em coma ou com limitações (ver Igrót
Moshe Ch”m parte 2, 73, 1).

Para que paciente dar a preferência

Quando um médico é chamado para atender dois pacientes simultaneamente e, um deles


está com a vida contada – ou seja, os médicos especialistas não lhe dão mais de um ano de
vida – ele deverá dar preferência ao paciente que não está com a vida contada (ibid.).
Dois pacientes chegam ao hospital simultaneamente

Dois pacientes chegam ao hospital em estado grave, no departamento de emergência do


hospital, somente um leito disponível. Um dos pacientes está em estado terminal
– somente seria possível alongar a sua vida em alguns dias e apaziguar as suas dores; o
segundo paciente – de acordo com a opinião dos médicos especialistas – pode ser salvo,
porém não obrigatoriamente serão necessários para o seu tratamento os recursos
oferecidos pelo leito do departamento de emergência. Quem deve ser colocado no leito de
emergência?

O paciente que não está em estado terminal deverá receber a preferência; porém, caso o
paciente que se encontra em estado terminal já tenha sido levado para o leito, e o seu
tratamento já começou – não poderemos interrompê-lo para tratar do outro, pois o próprio
doente não tem a obrigação – e possivelmente está proibido – de salvar outra pessoa com a
sua própria vida, mesmo que ela esteja contada. Porém caso ele ainda não tenha sido
levado para o leito, o outro paciente – que não está com a vida contada – terá a preferência,
mesmo tendo chegado ao hospital após o seu companheiro; com uma condição – que não
seja revelado ao primeiro paciente– através desta “troca” – a sua verdadeira situação, pois
ao entender que os médicos estão desistindo de salvá-lo estaríamos antecipando a sua
morte – como citaremos em seguida.

Os médicos não sabem como curá-lo

No hospital se encontra um paciente em estado grave, e os médicos não sabem como curá-
lo. O que deve ser feito?

De todas as formas os médicos devem se preocupar em oferecer as melhores condições


para um paciente que se encontra nessas condições. Também, para que o paciente não
desista de viver, os médicos deverão tratá-lo e oferecer algum tipo de medicamento – pois a
desistência é o maior dano que se pode causar ao doente– não existe uma dor maior do que
a dor de ver que os médicos já desistiram dele; porém deverá ser um medicamento que,
sem a menor dúvida, não causará danos para o paciente; e também, com a condição que já
não seja possível conseguir um médico que entenda melhor do problema no qual ele se
encontra (ibid.75, 6).

Não tomar decisões em um tema como este sem consultar uma entidade rabínica
confiável

Estabelecer leis neste tema tão complexo e importante– cada caso em particular – exige
uma grande sabedoria e responsabilidade; é necessária uma análise profunda dos grandes
sábios da Torá em conjunto com médicos especialistas para esclarecerem a situação real do
paciente e as possibilidades de tratamento (ibid. 73, 2).

Apêndice III
Antecipar a morte de nosso semelhante
Assassinato
O assassinato está proibido. Fonte na Torá: “Quem derramar o sangue de um homem,
(também) pelo homem o seu sangue será derramado, pois o homem foi criado com a
Imagem de D’us” (Bereshit 9, 6); “Não assassinarás” (Shemot 20, 13).

D’us criou o mundo e nos ordenou “(...) frutifiquem - se e multipliquemse...” (Bereshit 9, 7),
também nos ordenou a não destruir a Sua criação. Quem assassina uma pessoa está indo
contra a vontade do Criador (Chinuch, mitsvá 34).

Também está proibido causar a morte de nosso semelhante de forma indireta. Está escrito:
“(...) da mão de todo animal (selvagem) a requererei...” (Bereshit 9, 5)– para incluir a pessoa
que coloca a outra perante um animal selvagem para matá-la indiretamente. Também ao
contratar outra pessoa para matá-la será cobrada pelo assassinato, está escrito na
continuação do versículo: “da mão do seu irmão requererei” — para incluir a pessoa que
mata outra através de um intermediário.

O aborto e envergonhar uma pessoa em público também são comparados pelos nossos
sábios com o assassinato.

[Nota: Esses temas foram abordados no livro ‘Decisões entre vidas e vidas’.]

Como já foi mencionado no princípio do livro – Está proibido causar a morte de uma pessoa
– mesmo que lhe reste somente uns poucos momentos de vida; inclusive quando seja
necessário para salvar a vida de outra pessoa — “de vida completa” — está proibido (Noda
Biyhuda Ch”m (t) 59). Portanto desligar as máquinas antecipando a morte de uma pessoa
doente é considerado pela Torá assassinato – mesmo quando as intenções forem boas (ver
Igrót Moshe Ch”m parte 2, 74, 4).

Inclusive uma pessoa muito idosa que adoeceu, e ela própria já se expressa que deseja
falecer – estamos obrigados a tratá-la com todos os recursos necessários – como no
tratamento de uma pessoa jovem (ibid. 75, 7).

Seria necessário alongar a vida de uma pessoa que se encontra em grandes


sofrimentos?

Uma pessoa que se contagiou com uma grave doença e se encontra em um estado onde já
não existem recursos médicos para tratá-la – somente para mantê-la em vida por um curto
tempo – talvez alguns meses; será que seria necessário tratá-la mesmo que todo o tempo
acrescentado será para ela um sofrimento?

Neste caso, devemos comunicar ao paciente e perguntar a ele se está interessado em


receber o tratamento; caso ele esteja interessado neste tempo extra de vida – mesmo
estando neste estado de sofrimento – deveremos tratá-lo; caso ele não esteja interessado,
não será necessário.
Porém, se este acréscimo de vida for necessário até a chegada de um médico mais
especializado, ou outro médico que desejamos escutar também a sua opinião, devemos
tratá-lo – pelo menos por este período – mesmo que contra a sua vontade (ibid. 75, 1);

De todas as formas está proibido adiantar a sua morte através de algum medicamento ou
através de qualquer outro meio que causará o encurtamento de sua vida, inclusive por um
único segundo; pois quem o fizer será considerado que lhe tirou a vida. Portanto quando o
paciente não desejar que lhe acrescente – nestas condições de sofrimento– um curto tempo
de vida, o máximo que se pode fazer é isentá-lo do tratamento, porém nunca acelerar a sua
morte.

Quando não houver possibilidade de perguntar ao paciente a sua preferência, pode-se


basear no fato de que– em geral – as pessoas preferem que não lhe acrescentem um curto
tempo de vida nessas condições de grande sofrimento. (Trechos publicados no livro Decisões
entre vidas e vidas)

Como já citamos anteriormente, não devemos tomar decisões em um tema como este
sem consultar uma entidade rabínica confiável.